Introdução à Filosofia de Nietzsche
Amauri Ferreira

Escritos www.amauriferreira.blogspot.com

Edição 2010

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SUMÁRIO

Prólogo Vontade de Potência
Negação e afirmação O homem reativo O homem ativo

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7 9 12

Ressentimento e Má Consciência
Sacerdote judaico, sofrimento e acusação Sacerdote cristão, interiorização e dívida

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20 23

O Sentido da Cultura
Cultura e pré-história Estado e domesticação

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Niilismo e Eterno Retorno
A morte de Deus A ausência de valores A destruição ativa O eterno retorno como seleção dos fortes O amor ao eterno retorno da diferença

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37 40 42 44 47

Nietzsche e o mundo contemporâneo Bibliografia Notas

50 53 55

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a nossa época precisa de indivíduos assim. de ensinar aos outros a amar cada momento vivido. Como estão impossibilitados de caminhar com as suas próprias pernas. que desejam lutar pelo seu próprio destino. começa a brilhar neles alguma “loucura” que os faz distinguirem-se dos indivíduos “normais” e domesticados. de gestos. Quem se liga a eles. mesmo sendo contrário à natureza deles. Amauri Ferreira. de ser inventado. Sua covardia torna-se evidente quando sentem que o “bem” moral a que se submetem. certamente. exprime a força da vida que. pois. Mais do que nunca. passam a ser estranhos. faz os seus disfarces se multiplicarem cada vez mais. mas pela sociedade em que vivem. tornou-se madura. não pára de escapar. desperdiçam o tempo que seria fundamental para se libertarem do ritmo doentio que é imposto pela organização tirânica da vida humana. Abril de 2010 4 . ao se alimentar do fluxo do real. no meio de tanto ódio ao seu redor. chegar aos objetivos já dados de fora: tudo para se sentirem orgulhosos de ser apenas peças de uma máquina destruidora deles mesmos. na verdade. tornam-se cada vez menos familiares. de mudar. eles deixam de pertencer à imagem habitual que se faz dos homens. Nesse processo de evolução. O indivíduo autônomo escapa das garras do poder porque é produtor de si próprio.Prólogo Testemunhamos uma concorrência insana entre os indivíduos que foram educados para seguir rigorosamente as obrigações que são consideradas “boas” – não por eles. fogem de quem pode ensinar-lhes a conquistar a vida autônoma. de vozes. finalmente. percebe. Mas existem indivíduos que desejam encontrar os seus mestres. esse ator encarnado. deve ser conservado por meio de uma luta diária contra os seus instintos. Cada um deseja passar por cima dos seus concorrentes. com o passar do tempo. capaz de dar frutos. Sua multiplicidade de estilos. feliz. maravilhosamente estranhos. que existe a impossibilidade de tentar definir o que. fazer trapaças. Enquanto estão incapacitados de inventar para si próprios o seu bem. mesmo que os que servem aos interesses das instituições continuem a se esforçar para que eles não existam. que desejam inventar o seu próprio bem.

o modo como agimos e reagimos nas relações com os outros corpos. nenhum cansaço –: este meu mundo dionisíaco do criar eternamente a si mesmo. sem começo.. só se transforma. o modo como nos alimentamos dos sentidos em um mundo onde não há origem nem conclusão. sem fim. afirma a vida” (2). se não há boa vontade no anel que torna a si mesmo – vós quereis um nome para este mundo?. contemplativo. mas relações entre forças. abençoando a si mesmo como aquilo que há de voltar eternamente.. misturas. brônzea grandeza de força. Portanto. dos sentimentos. sem fim. que não se torna maior. o nosso pensamento é uma potência para conhecer e para amar toda mudança. das mudanças ininterruptas. não ignora o modo como sentimos o nosso próprio corpo. nenhum fastio. Ao contrário da metafísica tradicional. onde o nosso corpo é modificado por fluxos da vida que nos trazem sempre o novo e onde. metamorfoses. transcendente à vida e 5 . este mundo misterioso da dupla volúpia. É neste mundo que podemos experimentar aquilo que nos diz Deleuze: “a vida ativa o pensamento e o pensamento. imutável. na filosofia nietzschiana não existe concessão a um mundo que seria fechado em si mesmo. Nietzsche afirma que o único mundo que existe é somente este – o mundo imanente das sensações. do destruir eternamente a si mesmo. não se consome. por seu lado.“Sabeis vós também o que é para mim ‘o mundo’? Devo mostrá-lo em meu espelho? Este mundo: uma imensidão de força. também. não se torna menor. se não há um fim na felicidade do círculo. sem vontade. uma firme. como um devir que não conhece nenhum tornar-se satisfeito. Este mundo é a vontade de poder [potência] – e nada além disso! E também vós mesmos sois essa vontade de poder [potência] – e nada além disso!” (1) Vontade de Potência A filosofia nietzschiana não dissocia o pensamento da vida. passagens. este meu ‘além de bem e mal’...

afirma Nietzsche. o filósofo genealogista sempre interpreta o sentido das forças. egoísmo” (4). subjugação. De fato. é a potência que quer crescer e expandir-se. é sempre reinterpretado para novos fins. há também em nós uma potência de produção desconhecida (aspecto ativo. essencialmente. inconsciente). O mundo é constituído por forças que estão em relação com outras forças.que. “que de algum modo chegou a se realizar. uma aspiração à maior quantidade de potência: aspirar não é outra coisa senão aspirar à potência: o que existe de mais subjacente e de mais interior é essa vontade” (3).. o ‘desenvolvimento’ de uma coisa. a realidade gera angústias e aflições. de assenhoramento. e todo subjugar e assenhorear-se é uma nova interpretação. tudo que é produzido no mundo não é o resultado de uma adaptação a um suposto modelo. de conflitos entre potências. que ignora um modelo de perfeição para ser alcançado. requisitado de maneira nova.. Logo. por isso.. onde nunca há igualdade ou equilíbrio entre elas. de que todo acontecimento do mundo orgânico é um subjugar e assenhorear-se. sintoma do desequilíbrio das forças. já que necessariamente existem forças que dominam e forças que são dominadas. mas. “aspira a um sentimento máximo de potência: ela é. resistências. mas é efeito de relações entre forças. 6 . pelo contrário. Portanto.. mas. tudo que existe é. por um poder [potência] que lhe é superior. o sentido é mais ainda. ambição de domínio. necessariamente. E como as relações entre as forças nunca se repetem do mesmo modo. pelo contrário.” (5). consciente). “A vida”. no qual o ‘sentido’ e a ‘finalidade’ anteriores são necessariamente obscurecidos ou obliterados. o crescimento da potência expande os limites. imposição de sentidos. mas também é fonte de diferenciação afirmativa e alegre por parte do homem-artista trágico. diz Nietzsche. “algo existente”. Se a forma é ‘fluida’. pois em toda relação entre forças existe vontade: o mundo como vontade de potência. uma multiplicidade de forças em conflito contínuo. A existência das coisas não obedece uma finalidade. Como o devir escapa às tentativas humanas de “equilibrar” ou de “pacificar” a natureza (inclusive o homem). um ajuste. O mundo é eternamente “volúpia. seria “verdadeiro”. um uso. um órgão. Mas não se trata de uma vontade que quer a potência que supostamente lhe faltaria (pois ainda é uma imagem da vontade “não preenchida”). transformado e redirecionado para uma nova utilidade. Por isso que não há “paz” na natureza. sem querer encontrar um objetivo que as movesse. é tudo menos o seu progressus em direção a uma meta. metamorfoses. Como somos produtos da nossa relação com o mundo (aspecto reativo. ou seja.

são sintomas de uma vontade de negar a vida. como. considerada imperfeita – e os valores estabelecidos por aqueles que sofrem atendem à necessidade de corrigir e de controlar a realidade. que é a dos impotentes. Mas quando o homem está impotente para efetuar o crescimento da sua potência. antes. referências morais. inclusive uma célula do corpo humano tem vontade. como sendo inferior. tornam-se referências transcendentes que devem ser desejadas por todos os homens. seja verdadeiro”. por isso. para quem sofre. ou seja. há uma tendência para ele negar a realidade. constituídas por noções universais. das coisas que insistem em aprisioná-la. ser negada para que haja uma afirmação do ideal ascético que serve para julgá-la. da vontade de afirmar ou de negar a vida. sob esse ponto de vista. das mudanças. Afinal. “mundo transcendente”. Tais valores constituem o que Nietzsche chama de ideal ascético. Ao negar a vida. “progresso” são alguns artigos de fé que fazem o homem impotente ter alguma esperança numa vida melhor. o “verdadeiro”.Negação e afirmação Como o mundo é vontade de potência. é evidente que tudo que existe tem vontade. o bem e o mal para todos. O homem tem vontade. ela é. Se a realidade é julgada como a causa do sofrimento dos homens. porque a afirmação dos valores morais refere-se aos subterfúgios que dão uma finalidade ou um sentido à vida – a vida necessita. o “belo”. das falsidades. Em razão disso. por exemplo. uma única moral. É necessário que seja feita a distinção das coisas que permitem que a vida humana tornese mais intensa. diz Nietzsche. “Salvação da alma”. uma vontade do nada. mas. ela é sempre secundária. em um tempo que virá. uma vontade de abandonar a realidade – em suma. a sua vontade passa a afirmar os valores que atendem a sua necessidade de “explicações” para uma realidade que lhe oprime. do ponto de vista da negação da realidade. no fundo. é essencial que o filósofo avalie os valores vigentes sempre da perspectiva da saúde ou da doença. assim dizem os homens que negam a realidade. Existe. que precisam julgar o mundo das aparências. Dessa forma. portanto. “É preciso acreditar num mundo onde nada mude e que. Essa vontade de negação precisa de referências transcendentes. “razão”. o “bem”. Dessa forma. o “justo”. A moral de Platão e a moral judaico-cristã (“o cristianismo como um platonismo para as massas”) são. uma espécie de afirmação. isto é. é melhor um sentido qualquer do que um nada de sentido. é possível compreendermos que os valores engendrados não estão dissociados de uma maneira de 7 .

a vontade de negação e a vontade de afirmação não são. Isso significa que os produtos da vontade de negação são negados. a negação serve apenas como uma função da afirmação. “A isso pertence conceber não só como necessários os lados da existência até agora negados. oposições. Esta afirmação não se trata mais de um querer pela metade (como o das ações morais “desinteressadas” (7)). essencialmente. aos que precisam ser iguais na fraqueza. Em razão disso. mas sim por eles mesmos como sendo os mais poderosos. os subterfúgios (como as mesquinhas satisfações) são desprezados por uma vontade maior – a realidade. Embora seja nascida do ressentimento. a vontade de negação pode ser transmutada numa vontade de afirmação. “Do mesmo modo. 8 . mas também como tendo valor bastante para serem desejados: e não só como tendo valor bastante para serem desejados em relação aos lados afirmados até então (por exemplo. Em suma. a vontade de negação pode servir a algo muito mais nobre do que a sua pretensão de “corrigir” a vida. então.. o instinto do rebanho. Para Nietzsche. e aquele terceiro. mas de um querer inteiro. considerados inocentes ao serem desejados e amados por aquele que realizou a grande negação – negar em si mesmo o que o fazia negar a vida. os mais verdadeiros lados da existência. de modo algum. ou seja. mas. por outro lado. como seus complementos ou condições prévias). passa a ser afirmada.. o instinto da maioria em contradição com as exceções –)” (6). pertence a isso apreciar os lados da existência unicamente afirmados até agora. conceber de onde provém essa avaliação e quão pouco é compromissiva para uma medida de valor dionisíaca da existência: eu extraí e compreendi o que aqui propriamente diz sim (o instinto do sofredor. enfim. o homem que é escravo do ressentimento nega a vida e afirma os valores morais. os mais férteis. este mesmo homem. aos que não conseguem expandir a sua potência. Dessa forma. não se trata. Os lados da existência que os valores morais não cessam de culpar passam a ser. pode. enfim. se livrar do ressentimento e desprezar a sua vontade de negar a vida. nos quais a sua vontade se exprime o mais claramente” (8). É possível perceber que a vontade de negar – e a conseqüente geração de valores que lhe interessa – remete aos que sofrem da realidade. de classificar uma vontade como “má” e a outra como “boa”. quando ela passa a preceder a afirmação destinada a dominar.viver.

Mas como foi possível esse triunfo reativo no homem. portanto. Nietzsche diz que a criação é sempre anterior à adaptação: “. que remete às forças ativas. O domínio da vida saudável passa a ser impedido pelos que estão enfermos que. é impedida pelas forças reativas. Para Nietzsche. o homem passa a viver de modo reativo. Portanto. como se a vida. há uma hierarquia entre as qualidades das forças. expansivas. o triunfo dos valores de vingança contra a vida não se estabelece sem uma contínua repressão das forças ativas – o homem passa a imaginar como sendo primordial impedir que as suas próprias forças ativas sejam dominantes. com isto não se percebe a primazia fundamental das forças espontâneas. É inevitável. há uma hierarquia entre as forças? “A rebelião escrava na moral”. ou seja. Em vez da adaptação ser apenas um meio para novas criações. Mas com isto se desconhece a essência da vida. vêem vantagens em serem enfermos. inclusive.. afirma Nietzsche. e que apenas por uma vingança imaginária obtêm reparação” (10). através da moral judaicocristã. o homem reativo estabelece a adaptação como fim. a força ativa remete à força que domina e expande a sua potência. porque a adaptação às condições dadas torna-se primordial para ele. a dos atos. Assim como tudo na natureza. A verdadeira reação. uma atividade de segunda ordem. Nesse sentido. a sua vontade de poder [potência].O homem reativo No mundo como vontade de potência. remete à força que está limitada a se conservar. dominada pela mais forte. que a força reativa seja secundária. como diz Nietzsche. cada vez mais apropriada. constituído por relações desiguais entre as forças.. agressivas. Impedido de ir 9 . uma reatividade. a circunstâncias externas. inclusive. Esse devir reativo do homem é o triunfo. Contra o darwinismo. apenas no seu aspecto reativo. já que ela apenas conserva o que foi criado. forças cuja ação necessariamente precede a ‘adaptação’” (9). A força reativa. fosse o suficiente. podemos compreender que esse desequilíbrio remete às qualidades das forças que se exprimem nas relações. “começa quando o próprio ressentimento se torna criador e gera valores: o ressentimento dos seres aos quais é negada a verdadeira reação. o homem é constituído por uma multiplicidade de forças – e enquanto vive submetido aos valores que negam a realidade. das forças reativas sobre as forças ativas – é o triunfo da reação sobre a ação.colocou-se em primeiro plano a ‘adaptação’. já que. interpretações e direções. criadoras de novas formas. chegou-se mesmo a definir a vida como uma adaptação interna. A força ativa é primária porque expande a sua potência ao criar novas formas e direções.

a moral do povo discrimina entre a força e as expressões da força. Com suas forças ativas reprimidas. o homem impotente continua a ser movido por uma vontade que anseia pelo crescimento da potência. que são 10 . à noção do senso comum de que o homem não seria determinado exteriormente pelas ações que efetua e que. Mas mesmo submetido ao aspecto reativo da vida. É inevitável que a obediência do homem reativo esteja relacionada à função de carregar valores estabelecidos. isto é. É importante notarmos que Nietzsche faz um ataque explícito ao livre-arbítrio. o sujeito é uma ficção: “. Mas o “sujeito” do livre-arbítrio. o planejamento atingiria o seu happy end. como sua vontade é de negar a realidade. segundo o senso comum.. tudo que existe provoca e sofre modificações. em razão disso. o homem reativo tem contínua necessidade de julgar as ações humanas a partir de referências universais. a sua vontade teria a plena satisfação no “outro mundo” ou. relações entre forças e. teria total consciência das ações “boas” ou “más”. Dessa forma. ou seja. os enfermos necessitam.além de si mesmo. o “justo” e o “injusto”. O triunfo das forças reativas fez as noções de “obediência”. por isso. Em busca do que lhe falta. então. através da famigerada noção de que a vontade seria originária de um “eu” ou de um “substrato” que buscaria alcançar o seu objetivo para ter plena satisfação – nesse sentido.. portanto. tudo que existe no mundo envolve. “justas” ou “injustas”. “escravo” e “senhor” adquirirem formas medonhas. o homem reativo faz uma imagem da sua própria vontade (uma vontade psicológica): o prazer – ou o que seria a potência para ele – é algo que sempre lhe falta e. experimenta a incômoda sensação de que sua vontade nunca é definitivamente saciada.. necessariamente. seria uma realidade anterior às ações efetuadas. através da moral. “comando”. Porém. Sua esperança em “satisfazer os seus desejos” limita-se apenas às condições dadas que supostamente o levariam a isso. esse crescimento da potência apenas seria possível por meio dos valores morais. Ora. constituindo-se como um “agente” que estaria separado da realidade. Tal absurdo leva Nietzsche simplesmente a dizer que não existe o agente da ação. Mas não existe um tal substrato: não existe ‘ser’ por trás do fazer. do devir. do atuar. impedir que as forças ativas promovam a destruição da sua organização gregária. neste mundo. como se por trás do forte houvesse um substrato indiferente que fosse livre para expressar ou não a força.. o ‘agente’ é uma ficção acrescentada à ação – a ação é tudo” (11). sempre no âmbito da moral. como o “bem” e o “mal”. Mas como algo poderia existir e ter uma vontade sem experimentar. sem afetar e ser afetado? É o mesmo que dizer que o “ser” está separado do devir.

luta-se contra o relógio e. 11 . mas somente na medida em que te vendesses inteiramente: tu te colocarias como penhor e te perderias” (14). Trabalha-se demais. os homens passam a se vender: “Certamente. “útil” e “inútil”. ser autorizadas pelo poder – e justamente por isso. por exemplo. resta ao homem reativo desejar cada vez mais o poder. antes. como representantes de uma espécie. É evidente que. “ascensão social”. ao caminho das riquezas e das distrações que servem como passatempo: “A cega diligência. reconhecimento. de sua suprema periculosidade” (12). neste aspecto são indolentes. ao prestígio e ao bem-estar que se pretende alcançar. “verdadeiro” e “falso”. Por experimentar uma repressão da sua vontade (uma repressão desejada). mas não como seres individuais e únicos. Não se pode perguntar ao banqueiro acumulador de dinheiro. para o homem reativo. – A infelicidade dos homens ativos é que sua atividade é quase sempre um pouco irracional. existem as veredas e as pontes e os semideuses inumeráveis que se oferecerão para te levar para o outro lado do rio. “Eles são ativos”. basicamente. isto é. pelo objetivo de sua atividade incessante: ela é irracional. conforme a estupidez da mecânica” (13). à medida que os homens precisam se submeter às suas leis. eruditos. riquezas. submetendo-se às leis instituídas – sejam divinas ou humanas –. O engodo de qualquer poder é exatamente a oferta de proteção e de prazer: isto o poder promete. não se sabe muito bem o que fazer com ele – e como o estado de “não fazer nada” parece ser insuportável. é apresentada como a via para as riquezas e as honras e a mais saudável droga para o tédio e as paixões: mas silencia-se a respeito de seu perigo. Ser “ativo”. afirma Nietzsche. a princípio. se confunde com a busca por premiações.úteis à conservação da organização gregária. o homem reativo corre atrás das ocupações mais medíocres para sentir-se “ativo”. Mas todo aquele que diz “sim” aos produtos da negação vive endividado com quem lhe “protege”. quando se tem tempo livre. limitando-se na “livre” escolha entre “bem” e “mal”. “Ter o poder para ter maior prazer e. comerciantes. passe a exigir satisfações que apenas são obtidas conforme a sua obediência aos poderes estabelecidos. Ser diligente leva. essa típica virtude de um instrumento. “justo” e “injusto”. Ele carrega os valores porque encontra certas vantagens que são. Este homem apenas conhece a obediência no seu sentido reativo. Os homens ativos rolam tal como pedra. Mas suas “ações” precisam. são falsas atividades. duas: proteção do acaso e doses de prazer. Muitas de suas “ações” estão relacionadas ao acúmulo de dinheiro. “como funcionários. Para usufruir pequenas coisas. enquanto o homem se mantém distante da sua natureza.

para mantê-los sob o seu poder. levando-o a ter uma vontade insaciável de acumular dinheiro e glória: é o escravo que quer tornar-se senhor. Não cessa de vingar-se – eis um sintoma de degeneração do homem. exprime. O homem. o homem reativo imagina que fez as pazes com a vida. assim imagina esse indivíduo enfermo. O comando desse indivíduo angustiado é uma simulação de comando – é disso que se trata. A afirmação “Você deve ser grato a mim porque eu pago o seu salário!”. antes de estabelecer o impulso de autoconservação como o impulso cardinal de um ser orgânico. como sujeito de “bem”. “honesto”.finalmente. dirigido contra todos aqueles que ele imagina serem a causa das suas desgraças. pois este “senhor” é extremamente dependente da submissão dos outros para explorá-los. Comandar. O poder como algo que lhe falta. inclusive. mesmo quando ele é considerado pelo povo como sendo senhor de alguma coisa. O homem ativo A transmutação desse devir reativo do homem ocorre quando as forças ativas passam a dominar as forças reativas. a simulação de “homem dadivoso”. Toda criatura viva quer antes de tudo dar vazão a sua força – a própria vida é vontade de 12 . “trabalhador”. Sua violência contra si e contra o mundo é efeito do domínio das suas forças reativas. diz ele. “cidadão”. É importante que isto seja dito: é impossível que o homem reativo seja dadivoso.. “justo”.. pois basta fornecer-lhe o chicote para que ele sinta-se bem melhor! Momentaneamente. agora chegou o grande momento de ser senhor!”. a adaptação passa a ser apenas conseqüência do domínio das forças ativas: “Os fisiólogos deveriam refletir.. existe um ódio derivado da sua impotência de viver. Isto quer dizer: quem não cria e quer apenas se conservar. que efetivamente se complementam: os que procuram pequenas vantagens sob as asas do poder e. conquistar a felicidade!”. para ele. também. Desse modo. enquanto é reativo.. inevitavelmente. Mas o seu aumento de potência segue refém da representação da potência: a transformação de escravo para senhor não passa de uma grande ilusão. pois o seu modo de vida é. degenera. E como é fácil dar-lhe um sinal de que a vida pode ser muito mais interessante. “Chega de ser escravo. jamais pode ser senhor. parasitário. os que alcançam o poder na esperança de vantagens ainda maiores. Eis a moral dos escravos. se confunde com um pequeno poder. Por trás de máscaras sociais. Nietzsche dizia que o seu saber vinha das narinas: ele farejava a decomposição.

uma vez que me haviam sido dispostas pelo acaso – era melhor do que mudá-las. aprende a selecionar as coisas que o alimentam.” (16). são apenas funções de forças dominadoras e agressivas. que é a criação. das distrações. refere-se a uma capacidade de estar aberto ao novo. que promovem o crescimento de si mesmo. com a obediência do homem reativo. Trata-se de um amor por si mesmo. toda a casuística do egoísmo – são inconcebivelmente mais importantes do que tudo o que até agora tomou-se como importante.. A obediência do homem ativo não se confunde. as forças reativas não são desprezíveis. O homem ativo aprende a fazer a distinção fundamental entre a 13 . não se submete à moral. portanto. não dependeram dele para acontecer – o ressentimento não o domina: “Aquele ‘fatalismo russo’ de que falei mostrou-se em mim no fato de que durante anos apeguei-me tenazmente a situações. de maneira que estão a serviço de algo maior. é retomada uma ordem hierárquica das forças no homem.essas pequenas coisas – alimentação. depende dos valores estabelecidos e aquele. de sobrevivência. mais freqüentes conseqüências disso” (15). de dispor o corpo para outras maneiras de ser afetado.. de modo algum. lugar. mas necessárias. pois a evolução da vida. cumprem sua função utilitária de conservação. Somos produzidos pelas relações que experimentamos a todo instante – relações que não obedecem a ordem de um poder divino ou de um sujeito que organizaria a realidade arbitrariamente. Como podemos perceber. moradas. do conhecimento de um tempo que está ligado às coisas mais comuns que são feitas no cotidiano – e é necessário que essa mudança de foco seja reaprendida por nós: “.. A partir daí. paragens. Suas forças reativas. pois este. como se os corpos exteriores estivessem desprovidos de vontade e de realidade.poder [potência] – : a autoconservação é apenas uma das indiretas. sente a necessidade do cultivo da distância. Nisto exatamente é preciso começar a reaprender” (17). Há excelentes passagens no Ecce homo sobre o cuidado que Nietzsche tinha com a escolha da alimentação. companhias quase insuportáveis. o homem ativo. como vimos. que é sempre um experimentador e receptivo ao inédito. pois exprimem uma potência da vida e. Dessa forma. do que senti-las como mutáveis – do que revoltar-se contra elas. de não deixar de afirmar os encontros que. distração. dos livros. na maioria das vezes. de ser capaz de experimentar outras sensações. adestradas pelas ativas.. no homem ativo. em geral. que o levam à sua própria superação. A obediência do homem ativo. Ele tem o cuidado de si. clima. não está separada do comando dos impulsos ou das forças ativas. do clima. por ser capaz de gerar novos valores.

como continuum desejante. Pois somente assim o espírito livre pode comandar e distribuir riquezas. Ao contrário do homem reativo. que está relacionado à péssima alimentação do seu espírito que.obediência aos valores estabelecidos e a obediência à vida como fluxo. ali. 14 . extrai os alimentos para as suas próprias criações. ao afirmar os fluxos da vida. “Ele se proclama um livro para espíritos livres: quase cada frase. os lugares mais acolhedores. Esse espírito livre sabe encontrar as idéias mais ousadas. Daqui a algum tempo. a respeito da obra que expressa a sua liberdade.. a religião. o espírito é um estômago!” (19). seletivo nas suas relações. a “escravidão” do homem ativo. Portanto. sua voz estará mais forte. Ora. é inevitável que o veremos escrever e falar de modo diferente. Torna-se. O tom. que está relacionada às suas determinações exteriores. a ciência. Em nenhum outro sentido a expressão ‘espírito livre’ quer ser entendida: um espírito tornado livre. estão banhados de valores adaptativos e de subjugação dos homens fortes. sendo. Se a escravidão do homem reativo refere-se à sua necessidade de conservarse através dos valores estabelecidos. seu olhar expressará maior confiança em si. pois saber selecionar os alimentos é um sintoma de saúde. de obedecer a ordem da natureza. o homem ativo aprende que. é seu espírito: esse lhes aconselha a morte! Porque na verdade. isto é. inclusive. Todo “tu deves” é um mandamento de natureza negativa e reativa. etc. com efeito. é inteiramente distinta da escravidão reativa porque. é condição da manutenção da organização moral. o timbre da voz mudou inteiramente. através da boca de Zaratustra: “De que aprenderam mal e não o que havia de melhor e tudo cedo demais e demasiado depressa: de que comeram mal. o espírito livre pode admirar e amar tudo aquilo que é grande. sempre que pode. daí lhes proveio aquele estômago estragado. Por isso tem a necessidade de acumular riquezas.. meus irmãos. Um estômago estragado. expõe Nietzsche. enfim. de repressão das forças ativas. “Humano. que de si mesmo de novo tomou posse. no mundo atual. expressa uma vitória – com ele me libertei do que não pertencia à minha natureza. demasiado humano é o monumento de uma crise”. Zaratustra já dizia que o espírito é um estômago. Por isso ele deseja conectar-se às coisas e às idéias que mais lhe interessam – e isto é tudo o que a ordem moral tenta impedir. A arte do encontro é a sua especialidade. Sobre o cansaço de viver do homem reativo. portanto. sendo. a política. sua postura será outra. que é facilmente dominado pela inveja e pelo ódio.” (18).. Ele sabe escolher os fortes e por isso ama-os. Isso é insuportável para ele. diz Nietzsche. o amor ao conhecimento não se opõe ao amor à obediência.

mas sim por uma capacidade de tomar posse da sua própria potência e. como é evidente. Os homens ativos. Para esses senhores. já que elas vão muito além da sua carne e do seu sangue. aspira vossa alma a tesouros e jóias. E qual é a saída que ele precisou inventar para afastar toda perspectiva suicida? Uma estranha noção de felicidade como refúgio das inquietações diárias (21). O “Eu quero” do espírito livre permite que ele se conecte novamente ao eterno. sossego. não se trata de um assenhoramento garantido pela representação. ser ativo é parte necessária da felicidade” (23).senhor – e. Para Nietzsche. entorpecimento. pois são aspectos essenciais de uma vida livre. O homem reativo contemporâneo sobrevive de modo mesquinho. distensão do ânimo e relaxamento dos membros. na vossa alma. ou. ao contrário. Não há estoques. todas as riquezas. Suas obras passam a viver por elas mesmas. Obrigais todas as coisas a ir a vós e a estar em vós. numa palavra. “sendo homens plenos. A noção de felicidade reativa. com a conservação da vida. nenhum arquivo erudito: tudo é alegremente distribuído. Eles libertam a existência humana do tédio e da degeneração ao abrir novos horizontes existenciais. por isso. repletos de força e portanto necessariamente ativos. Vemos que a obediência e o comando não se opõem. de persuadir-se dela”. leva a sua existência de modo fúnebre. ao derrubar regras que foram estabelecidas há muito tempo. da efetuação de natureza. na qual as forças reativas são conduzidas pelas forças ativas. Comunismo cosmológico: a vida que ama a si mesma se produz dadivosamente. passivamente” (22). para que voltem a fluir do vosso manancial como dádivas do vosso amor” (20). “aparece essencialmente como narcose. a felicidade é sempre uma superação (24). é essa a vossa sede. torna-se capaz de estabelecer novos valores. Essa felicidade imaginada confunde-se com a sua passividade de viver. “Tornar-vos vós mesmos oferendas e dádivas. porque insaciável é a vossa virtude em querer dar presentes. tendes sede de acumular. segundo Nietzsche. 15 . e. Insaciável. da expansão da potência. por isso. da coragem. vivem felizes porque sabem que a felicidade faz parte da ação. não cansa de pensar na morte – e esse é o perigo para o espírito livre: o homem reativo é um reprodutor de infelicidade. pois. Virtude dadivosa: o espírito livre sente que é eterno no seu movimento de doar algo à vida. paz. os homens ativos de tempos antigos “não tinham de construir artificialmente a sua felicidade. não sabiam separar a felicidade da ação – para eles. ‘sabbat’. com uma sensação de não ser incomodado pelos “problemas” da existência. alimentando os espíritos daqueles que sabem recebê-las.

que Nietzsche distinguiu tão bem: o ressentimento e a má consciência. não serem governadas mas tiranizadas. a suscetibilidade doentia. não de um Hércules nem 16 . mulheres ou crianças. pensarmos nas relações de poder. que tem apenas o poderio que eles lhe dão. tantas cidades.. o revolver venenos em todo sentido – para os exaustos é esta certamente a forma mais nociva de reação: produz um rápido consumo de energia nervosa. os deboches. tantas nações suportam às vezes um tirano só. as crueldades. a sede de vingança. não de um exército.. nem parentes. não tendo nem bens. La Boétie já se questionava a respeito disso: por que as multidões vêem vantagens em se submeter ao poder? No seu Discurso da Servidão Voluntária. que vício infeliz ver um número infinito de pessoas não obedecer mas servir... é importante. antes. Como diremos que isso se chama? Que infortúnio é esse? Que vício. por exemplo. ele diz: “Por hora gostaria apenas de entender como pode ser que tantos homens. tantos burgos. aturando os roubos. Para compreendermos melhor a distinção entre elas. de bílis no estômago. o desejo. ou antes. nem sua própria vida que lhes pertença. a impotência de vingança. O ressentimento é o proibido em si para o doente – seu mal: infelizmente também sua mais natural inclinação” (25) Ressentimento e Má Consciência O devir reativo do homem constitui-se por duas “plantas” (26) essenciais. mas de um só.“E nenhuma chama nos devora tão rapidamente quanto os afetos do ressentimento. O aborrecimento. um aumento doentio de secreções prejudiciais.

ou seja. passa a desejar a reprodução dos valores vigentes.de um Sansão. sentimos e queremos sempre de modo contínuo.. passamos a ter consciência de um sentimento.. Embora tenha feito questões importantes a respeito da servidão humana. Mas. como toda criatura viva. caminhando. não é preciso combater esse único tirano. quer obedecer ao poder e almeja. que tornou-se consciente: “Pois. se o que temos consciência é apenas um fragmento do real. ou seja. na realidade. ou melhor. a mais superficial. já que. 17 . ter o poder? Vimos no capítulo anterior que o homem reativo. agimos. imagina que poderá experimentar um contentamento maior. agora. Como a consciência humana está diretamente relacionada à necessidade de comunicação. No entanto. digamos: – pois apenas esse pensar consciente ocorre em palavras. se fazem dominar” (27). isto é. tenha que se submeter ao poder. também. La Boétie não realizou uma crítica radical que nos levaria a compreender melhor esse estranho fenômeno de um povo que deseja a sua própria servidão. então. ou melhor. Em razão disso. em signos de comunicação. contanto que o país não consinta a sua servidão. A hipótese de Nietzsche é que a consciência humana surgiu pela necessidade de comunicação. de um pensamento. apenas uma rede de ligação entre as pessoas – apenas como tal ela teve que se desenvolver: um ser solitário e predatório não precisaria dela” (28). dizendoo mais uma vez: o ser humano. os signos de comunicação apenas expressam o pensamento. Mas encontramos essa crítica radical em Spinoza e Nietzsche. mesmo que. por estar separado da capacidade de viver conforme a sua potência. esse mesmo homem que se submete ao poder também deseja ter o poder. assim. é necessário aprofundarmo-nos melhor nesse estranho fenômeno. não é preciso anulá-lo. é cúmplice do poder? Quem. lado a lado com a linguagem: “Consciência é. Assim. mas de um só homenzinho. As imagens das quais temos consciência nos indicam apenas um fragmento da produção de realidade. de uma sensação. Em Nietzsche. então pensamos. esse problema pode ser apresentado da seguinte forma: quem. Conforme vivemos sofremos modificações que resultam dos conflitos entre as forças. Ora. ele se anula por si mesmo.. para isso. a pior. pensa continuamente. e sim nada lhe dar. um fragmento deste. mas não o sabe. temos consciência das impressões que são importantes para a nossa vida. Portanto são os próprios povos que se deixam. em nós. o pensar que se torna consciente é apenas a parte menor. não se deve tirar-lhe coisa alguma. em nós. sempre de modo inconsciente. certas impressões que são produzidas em nós passam a ser investidas pela nossa consciência. com o que se revela a origem da própria consciência..

No homem ativo o ressentimento não chega a envenená-lo. no fundo. as coisas que existem fora de nós tornam-se fixas. cresceu na medida em que aumentou a necessidade de transmiti-las a outros por meio de signos. e não um devir. mas também o olhar. pois o seu aparelho inibidor (o esquecimento) não está danificado: a imagem desloca-se da superfície 18 . A realidade mesma é percebida com um olhar desconfiado e amargurado. o que faz os homens acreditarem que todo passado ou todo “foi assim” é definitivamente imutável. o gesto. o tomar-consciência das impressões de nossos sentidos em nós. O homem inventor de signos é. de nada dar conta – tudo fere. a consciência pode nos levar a acreditar que as imagens estariam fixadas para sempre. É estabelecido um devir doente do homem: “Não se sabe nada rechaçar. que eles disponham o corpo para experimentar outras relações. Pela sua natureza reativa. o homem cada vez mais consciente de si. há injustiças na vida. Estar doente é em si uma forma de ressentimento” (30). porque certas coisas não poderiam ou. ele o faz cada vez mais” (29). não deveriam ter ocorrido com eles.. O seu passado torna-se um peso cada vez mais difícil de suportar. apenas como animal social o homem aprendeu a tomar consciência de si – ele o faz ainda. É inevitável que a imagem resentida por sua consciência impeça. de fato.. Assim. Nesse sentido. para que sejam produzidas outras impressões. o mundo estaria desprovido de devires. a lembrança é uma ferida supurante. Pior ainda: a partir das impressões que foram produzidas. sensações e sentimentos. constituído por “seres” que existiriam em si mesmos. Com efeito. eles passam a imaginar que. fixa-se na consciência. as coisas semelhantes tornam-se “iguais” quando as reunimos num grupo que as distingue das outras coisas (tal como um rebanho de ovelhas que se assemelham). Enquanto vivem dominados pela ruminação das imagens fixadas na consciência. o toque. passamos a reduzir a realidade às imagens produzidas em nós mesmos: deste modo. de nada se desvencilhar. o próprio homem seria um “ser”. os homens desejam encontrar a causa exterior para tudo que ocorre com eles.Acrescente-se que não só a linguagem serve de ponte entre um ser humano e outro. a capacidade de fixá-las e como que situá-las fora de nós. em vez de ficar no estado latente – ou de “digestão” inconsciente –. Podemos dizer que existe uma tendência para que as nossas forças reativas se fixem nas impressões recebidas. carregada de imperfeições. A imagem. para que haja. então. outros devires. ao mesmo tempo. separadas do seu continuum. dotado de livre-arbítrio e de boas ou más intenções. de fato.

se consome e se exaure numa reação imediata.. propiciadora do esquecimento” (33). sentir-se injustiçado. diz Nietzsche. podemos dizer que temos a inclinação de negar a vida – um niilismo emergente – quando as impressões passam a ser re-sentidas pela nossa consciência. sem o esquecimento” (32). Sempre que pode. num grande mar de injustiças. por nós acolhido. Atolar-se na lama da ruminação das marcas é altamente nocivo..(“consciência é superfície”) para a profundidade. a vida mesma. O esquecimento é “uma força inibidora ativa. ativo. “para que novamente haja lugar para o novo. a consciência torna-se regenerada. de zelador da ordem psíquica. tal como ela é. em razão do domínio das suas forças ativas que proporcionam o esquecimento. eis o esquecimento. com um sofrimento interminável. que é o aspecto formal. o homem ativo passa pelo ressentimento rapidamente. por isso não envenena: por outro lado. da paz. é incansavelmente submetida ao “foi assim” de um passado que não cessa de atormentá19 . “Fechar temporariamente as portas e janelas da consciência”. que é a dos atos: as forças ativas adestram as forças reativas para que estas estejam aptas a receber as excitações novas e não para ruminar as imagens de maneira doentia. Eis o que Nietzsche chama de uma verdadeira reação. orgulho. Através disso. não penetra mais em nossa consciência. “quando nele aparece. A reação ao que nos acontece pode se expressar através de duas formas: “cozinhar o acaso na panela” para transformá-lo. por isso. da etiqueta: com o que logo se vê que não poderia haver felicidade. espécie de guardião da porta. presente. Dessa maneira.. em que há um excesso de força plástica. nem sequer aparece. Portanto. o mundo torna-se cinzento. em inúmeros casos em que é inevitável nos impotentes e fracos. “Mesmo o ressentimento do homem nobre”. no nosso alimento (34) (a reação ativa) ou então. deseja encontrar o culpado pelo seu sofrimento (a reação reativa). Não conseguir levar a sério por muito tempo seus inimigos. Isso está relacionado ao primeiro aspecto do ressentimento (35). vivenciado.” (31). jovialidade. com sua incessante novidade e diferença. para o ressentido.. esperança. modeladora. positiva no mais rigoroso sentido. E a partir daí a reação pode se tornar reativa quando é estabelecido o triunfo das forças reativas. suas desventuras. o que é mais comum no homem dominado pelo ressentimento. afirma Nietzsche. quando estiver bem cozido. como disse. como uma vítima do destino e que. pois está aberta ao novo – ao contrário da consciência do homem reativo que não consegue livrar-se da impressão recebida. o que constitui o ressentimento no seu segundo aspecto. graças à qual o que é por nós experimentado. seus malfeitos inclusive – eis o indício de naturezas fortes e plenas. regeneradora.

não o sofrer.” (38). qualquer sentido é melhor que nenhum. sua espécie de felicidade” (36). utilizandoas como matéria-prima para o estabelecimento do seu poder. as mesmas coisas. Em condições propícias para que o ideal ascético seja desejado.lo. Podemos perceber que não há poder que seja constituído sem a impotência das pessoas. o sacerdote cumpre aquilo que faltava para o seu triunfo: dar forma ao ressentimento. são motivos para que ele reclame. segundo Nietzsche. através do poder. para ela o dirige o seu instinto. diz Nietzsche. o sofrimento dos ressentidos passou a ser. a porta se fechava para todo niilismo suicida” (37). que as pessoas estejam fracas. o pastor formador de rebanhos é. num primeiro momento. a monstruosa lacuna parecia preenchida. a respeito do sacerdote. os mesmos problemas. Para Nietzsche. nela encontra ele sua arte mais própria. sofrimento e acusação Dominado pelo ressentimento. Isso quer dizer o seguinte: a fundação do poder sacerdotal judaico surge através da tristeza das massas que estão atoladas na lama do ressentimento. Para o poder ser desejado é necessário. de explicações para os seus infortúnios. por medo de que se repita o que. A mesma vida. pastor e defensor predestinado do rebanho doente”. entristecidas. uma maneira de direcionar o desejo dos seus sofredores ao dar um sentido à vida deles: “A falta de sentido do sofrer. que é também um ressentido (pois ele se assemelha aos doentes). “A ele devemos considerar o salvador. com sede de vingança. Fixado numa imagem que faz do passado. sua mestria. era a maldição que até então se estendia sobre a humanidade – e o ideal ascético lhe ofereceu um sentido! Foi até agora o único sentido. anteriormente.. Sacerdote judaico. deu errado – em razão disso. Através do ideal ascético estabelecido pelo sacerdote.. o homem ressentido não se abre mais às experimentações inocentes da vida por medo de aumentar o seu sofrimento. Torna-se evidente que os valores estabelecidos através do 20 . antes. encontra. “A dominação sobre os que sofrem é o seu reino. essa ovelha doente vai precisar de um pastor – e o pastor vai precisar das ovelhas para formar o seu rebanho. para que continue a reclamar da existência. ele encontra justificativas obscuras para a sua resignação e sua necessidade de acreditar nos valores estabelecidos. O sacerdote. que reforçam a sua passividade. é evidente que esse enfermo precisa de um alívio para o seu cansaço. Portanto. o sacerdote ascético judaico. “interpretado.

uma “vítima” de alguém que poderia ter “escolhido” o mesmo caminho que ele – o caminho da fraqueza que respeita o direito de conservação do rebanho. envenenados”. em algum momento. para poder agir em absoluto – sua ação é no fundo reação” (40). em vez de voltar-se para si – é algo próprio do ressentimento: a moral escrava sempre requer. Eis os homens homogeneizados. para o “bom e mau” de reinterpretação plebéia. um ‘não-eu’ – e este Não é seu ato criador. as vítimas) e “maus” (eles. A acusação do homem do ressentimento dirige-se sempre a uma ação que causou-lhe algum prejuízo pessoal. antes de tudo. aquele que se distingue do rebanho torna-se o seu oposto. para nascer. a partir do qual também elabora. isto é. atrofiados. toda ovelha que segue o seu pastor imagina que o indivíduo que difere do rebanho.. o seu oposto. através dessa inversão de valores. o destruidor. subitamente. “Enquanto toda moral nobre nasce de um triunfante Sim a si mesma”. o criminoso. Esta inversão do olhar que estabelece valores – este necessário dirigir-se para fora.. o fraco). amargurados. que é diferente na sua maneira de viver. o forte) e “ruim” (o que carrega.imaginemos ‘o inimigo’ tal como o concebe o homem do ressentimento – e precisamente nisso está seu feito. mas que afirma a vida ao destruir os valores que o rebanho deseja conservar: “Olhai-os. sua criação: ele concebeu ‘o inimigo mau’. o sacerdote judaico estabeleceu a oposição entre “bons” (nós. e isto como conceito básico. que soube escolher o caminho do “bem”. Portanto. como imagem equivalente. o homem ativo. um mundo oposto e exterior. os culpados). sem ressentimento. a moral dos enfermos expande-se cada vez mais através da acusação aos homens ativos. por obedecer ao sacerdote que lhe “protege” do indivíduo “mau”. um ‘outro. tornou-se. Portanto. que se assemelham 21 . um ‘bom’ – ele mesmo!. e por isso é a causa do sofrimento dos fracos. Ao contrário da distinção que os homens ativos estabeleceram entre “bom” (o criador. “Tudo que é diferente de nós deve ser a causa das nossas desgraças!”. de natureza “má” – e que é objeto de seu ódio. Fruto do ressentimento. – mas esse é o criador” (39). que se considera uma pessoa tão “boa”. o sofredor.” (41). assim diz o pastor para as suas ovelhas. ‘o mau’. sem lamentações. distingue Nietzsche. Ele imagina que a realidade. Ocorre a inversão do “bom e ruim” de interpretação nobre. “já de início a moral escrava diz Não a um ‘fora’. E quem é o oposto? O destruidor. “.. o homem ressentido se considera “bom” porque.. os crentes de todas as fés! A quem odeiam mais que todos? Àquele que parte suas tábuas de valores. o direito dos seus semelhantes. isto é. é “mau” na sua essência. voltou-se contra ele – justo ele.sacerdote judaico interessam somente à vida dos “malogrados.

da sua potência. como se sua fraqueza fosse resultado de uma livre escolha. como se eles fossem as causas dos seus infortúnios. sem submeter-se a critérios morais de avaliação: “O homem ativo. que se considera “vítima” do acaso. a tal ponto que os sadios tornaram-se cada vez mais escassos no meio de tanta gente enferma. os fracos que vivem em rebanho são maioria e encontram nos homens fortes a causa de alguma tristeza sofrida. um querer-vencer. de modo violento. os enfermos tentam. de fato. Mas. que não seja um quererdominar. como tem que fazer o homem reativo” (44). impedir uma força de se expressar é um grande absurdo. como produtos da organização parasitária do poder sacerdotal. violento. Ora. Sim. seu ser. sua atividade. o homem ressentido. E como não se trata do forte ou do fraco “em si”. renuncia. escolhido. fazer o homem envergonhar-se da sua natureza: “São para mim desagradáveis as pessoas nas quais todo 22 . como faz. existe sempre o perigo do homem forte deixar de ser forte. mas sim de um devir ativo ou reativo. ele pode se envergonhar das suas ações. pelo domínio das forças reativas. uma sede de inimigos. pois ele não necessita em absoluto avaliar seu objeto de modo falso e parcial. de modo que é inevitável que os indivíduos “maus” continuem a “ferir” a frágil vida dos enfermos: “Exigir da força que não se expresse como força. é tão absurdo quanto exigir da fraqueza que se expresse como força” (42). espera. O homem ativo não precisa transformar os outros em monstros. Acusado principalmente por pessoas tão próximas. porque ele mesmo avalia suas ações como boas e necessárias. um feito. diz Nietzsche. Como o que está em jogo são sempre sintomas de relações entre forças. um mérito” (43). está sempre bem mais próximo da justiça que o homem reativo. algo desejado. Nota-se o enorme risco de quem é forte ser contaminado pelo perigoso veneno do ressentimento. não pode. que querem apenas o seu “bem”. Somente desse modo a multiplicação do rebanho. transformando-se também num moribundo. excessivo. agir. existe o sério risco de quem é sadio se tornar também um doente. como se a fraqueza mesma dos fracos – isto é. foi possível. porque através da acusação realizada continuamente pelos homens fracos. e se sentir culpado pelas suas próprias forças ativas (45). já que vive dominado pelas forças reativas – mas fez exatamente disso uma virtude. Não foi por acaso que Nietzsche alertou que “os doentes são o maior perigo para os sãos” (46).pela fraqueza. resistências. um querer-subjugar. triunfos. com seus valores reativos. toda a sua inevitável. irremovível realidade – fosse um empreendimento voluntário. O homem do ressentimento “tomou a roupagem pomposa da virtude que cala.

apenas isto. voltando-se para dentro do homem: “Todos os instintos que não se descarregam para fora voltam-se para dentro – isto é o que chamo de interiorização do homem. de serem egoístas. foi em seus começos a má consciência” (49). ela não existiria se. um enorme quantum de liberdade não tivesse sido eliminado do mundo. essa planta hedionda. Nietzsche diz que esse movimento crescente de interiorização das forças ativas somente tornou-se possível a partir do surgimento do Estado. na destruição – tudo isso se voltando contra os possuidores de tais instintos: esta é a origem da má consciência” (48). por fim capaz de desafogar-se somente em si mesmo: isto.pendor natural se transforma em doença.. O que os enfermos não conseguem entender é que os saudáveis não têm vergonha de rir. 23 . as forças ativas no homem enfermo não são eliminadas. de estarem felizes no meio de tantos sofredores. encarcerado no íntimo. por medo dessa imaginária ‘má essência’ da natureza!” (47). Esse instinto de liberdade tornado latente à força – já compreendemos –. por isso. no assalto. em algo deformante e ignominioso – elas nos induziram a crer que os pendores e impulsos do ser humano são maus. Portanto. a crueldade. injetando doses do terrível veneno da culpa. recuado. isto é mais do que claro – mas sem eles ela não teria nascido. Querem ser cada vez mais mimados. Sacerdote cristão. as forças ativas são constantemente impedidas de vazarem para o exterior e. A hostilidade. da sua violência de artistas. Os fracos não suportam a felicidade dos fortes. na mudança. mas surgiu como conseqüência do que eles fundaram: “Neles [os fundadores do Estado] não nasceu a má consciência. elas são a causa de nossa grande injustiça para com a nossa natureza. esse instinto de liberdade reprimido. o prazer na perseguição. Através da organização moral da vida humana. interiorização e dívida Apesar do domínio das forças reativas. e tornado como que latente. tomam uma outra direção. sob o peso dos seus golpes de martelo. eles acusam quem quer que seja de não amá-los mais. Por não saberem o que é o amor. para com toda natureza! Há pessoas bastantes que podem se entregar a seus impulsos com graça e despreocupação: mas não o fazem. a má consciência não existia nos fundadores do Estado. nunca se dão por satisfeitos e esse é o maior perigo para os sãos: quando os agrados cessam.. o que os enfermos mais desejam é o amor de alguém – até de Deus. ou ao menos do campo da visão.

As forças ativas. no seu segundo aspecto. o próprio homem reativo (“sofro porque eu mesmo sou o culpado”). No ressentimento. algo vivo. permanecer vivo. Percebemos que esse primeiro aspecto da má consciência. de entorpecimento. o homem reativo continua. A culpa que.. enquanto estão bloqueadas no seu movimento para o exterior. através da interpretação do sacerdote judaico. ele sente que a dívida para com o poder cresce ainda mais. Apesar da punição imposta ao suposto causador do seu tormento. um agente culpado suscetível de sofrimento – em suma. e também sofre por estar impedido de agir. Domesticado pelo Estado. passa a ter como objeto. segundo Nietzsche. Diante disso. no qual possa sob algum pretexto descarregar os seus afetos. ainda continua a ser um grande fardo. o indivíduo considerado culpado é identificado e punido. ou seja. o homem tornou-se. como uma dívida para com Deus. Ora. através da interpretação do sacerdote cristão. o sacerdote ascético cristão vai interpretar a dor interna. para ele. o homem do ressentimento é aquele que é incapaz de afirmar as suas forças ativas e por isso o seu sofrimento parece ser interminável: ele sofre pelas coisas que não deveriam ser do jeito que aconteceram. Antes que o ódio do 24 . Por mais que os culpados sejam punidos. desaparecerão. gradualmente.. as suas dores. um animal cruel consigo mesmo. de viver conforme àquilo que o levaria à expansão da sua vontade de potência. com suas forças ativas interiorizadas. Mas a aliança entre o ressentimento e a má consciência vai além disso. Nietzsche nos dá uma imagem contundente desse homem que está ferido pela sua domesticação: “esse animal que querem amansar. já que. finalmente. O sofrimento do homem reativo é. inevitavelmente. sofrendo. que serve como explicação sacerdotal para o sofrimento do indivíduo ressentido. Algo de errado continua a acontecer com a vida dessa ovelha – e ela precisa cada vez mais de ajuda. mais precisamente. era do homem ativo (“sofro. multiplicam as dores internas no homem reativo. seu involuntariamente ansiado narcótico para tormentos de qualquer espécie” (51). de fazer vazar as suas forças ativas. um agente. Ruminando. duplo: ruminação das marcas e interiorização das forças ativas. portanto alguém deve ser culpado”). é inseparável do ressentimento. após a consumação da vingança. pois a descarga de afeto é para o sofredor a maior tentativa de alívio. ainda mais especificamente. o da interiorização das forças ativas. “todo sofredor busca instintivamente uma causa para seu sofrimento. então. Com sua vontade de potência entravada. as forças reativas passam a ser dominantes. Surge a assombrosa noção de pecado como fruto da transgressão às leis divinas. cada vez mais. A esperança do sofredor é que. que se fere nas barras da própria jaula” (50). as impressões recebidas. a má consciência.

. diz Nietzsche sobre o homem doente. tornou os enfermos cada vez mais submetidos ao poder sacerdotal. atear ‘fogo’ no mundo. a anarquia e a autodissolução que a todo momento ameaçam o rebanho.. esse estranho pastor – ele o defende também de si mesmo. O que ele intuiu foi como se podia. o cristianismo deu continuidade à moral dos fracos estabelecida pelo sacerdote judaico ao universalizar-se... o ódio chandala a Roma. não através do ódio. Ele serve-se disso para fundar o seu reino: a fórmula “Jesus morreu pelos nossos pecados!” foi convincente o suficiente para transformar o ódio judaico no amor cristão: “Perdoai-os Pai. “este pensamento tornou-se para ele um instrumento de suplício. Por meio de Paulo de Tarso (54). e suprema utilidade. ele reinterpreta esses instintos como culpa em relação a Deus” (53). ele defende muito bem o seu rebanho enfermo. mas através da compaixão. Ao inventar um novo sentido para a dor através da noção de pecado... o judeu. Descarregar este explosivo.. feito gênio. “Uma dívida para com Deus”.. Mas é evidente que essa transformação é 25 . que o conceito de ‘inferno’ ainda se tornaria senhor de Roma – que com o ‘além’ se mata a vida. no qual aquele mais perigoso dos explosivos. pois eles não sabem o que fazem!”. com ajuda do pequeno movimento sectário cristão à margem do judaísmo. o que caracteriza o segundo aspecto da má consciência. A interpretação da dor como efeito de um pecado e como meio para alcançar a salvação da alma. duro e secreto. ou seja. A estranha noção de que há vantagens no sofrimento. Somente serão salvos os humildes.. é continuamente acumulado. Ele apreende em ‘Deus’ as últimas antíteses que chega a encontrar para seus autênticos insuprimíveis instintos animais. pois somente os que sofrem é que serão salvos. ao judaísmo. querendo-se resumir numa breve fórmula o valor da existência sacerdotal. sofredores. de modo que não faça saltar pelos ares o rebanho e o pastor. o sacerdote cristão inverte a direção da acusação: “De fato. E qual é a “cura” que ele oferece? A expiação da dor. ele compreendeu que necessitava da fé na imortalidade para tirar o ‘valor’ do mundo. o ressentimento. o judeu eterno par excellence.ressentimento se dirija até mesmo contra o poder sacerdotal. feito carne.” (55).. ao ‘mundo’. o sacerdote cristão precisa ferir (através da noção de pecado) para depois ser “médico” (56). os que praticam o “bem”. o cristianismo não se opõe. é a sua peculiar habilidade. Para a manutenção do seu poder sobre os que sofrem. pode-se dizer simplesmente: o sacerdote é aquele que muda a direção do ressentimento” (52)... de modo sagaz. foi suficientemente contagiosa para a expansão da moral judaico-cristã: “Paulo. o sacerdote cristão estabelece para o enfermo uma dívida impagável para com Deus. de fato. ele combate.

para com o empregador. é dura demais para ser afirmada). o penitente abaixa a cabeça diante do sacerdote para pedir-lhe clemência. Não foi por acaso que Nietzsche disse que o homem é.. para com o Estado? São armadilhas do poder que mantêm as forças ativas do homem aprisionadas. como mudança contínua. Quando isso não acontece (o que é inevitável – e isso as igrejas sabem muito bem). senão um símbolo do pecado que está espalhado por todos os lados para que o devedor nunca se esqueça da sua dívida?. para com as leis. afinal de contas.. o 26 . agora. segundo Nietzsche.apenas imaginária..o próprio Deus se sacrificando pela culpa dos homens. O que é a dívida para com a família. O sacerdote diz: “Livrai-vos das tentações da carne!”. bloqueio das novas experimentações).” (57). O que é o crucifixo.. por amor (é de se dar crédito?). Afinal... não existe manutenção do poder sem o arrependimento dos seus servos.. má consciência (interiorização das forças ativas). Podemos. A opção que lhe resta é correr em direção ao sacerdote para confessar os seus pecados na esperança de redimir-se. devedor!). não há poder. causa-lhe certamente um grande tormento. a homossexualidade e outras proibições que precisaram ser inventadas pela igreja para que o devedor sinta-se cada vez mais. pois. o doente vê a sua dívida aumentar. para com a sociedade. a imagem do risco de viver a dor que ele sente nesta vida se prolongar numa outra vida. porque o cristianismo continua carregado de ódio contra a vida. por exemplo.. por amor a seu devedor!. Deus como o único que pode redimir o homem daquilo que para o próprio homem se tornou irredimível – o credor se sacrificando por seu devedor.. “considerado relativamente. a esperança de alcançar uma vida feliz). o sacerdote ascético (o médico das almas doentes e guia indispensável para os infelizes). E foi por meio desse “amor” que o cristianismo... Eis a grande estratégia da manutenção do poder sacerdotal (ou de qualquer outro poder): rolar a dívida. Assim. tornando-a impagável para manter o devedor sempre sob o seu jugo – e o uso da sexualidade. ressentimento e má consciência como aspectos formais (a culpa é do outro. eternamente no inferno. sem a invenção da dívida impagável. está a serviço desse nefasto sistema de reprodução da má consciência (o adultério. a culpa é minha) e o ideal ascético (a salvação da alma. triunfo das forças reativas (conservação dos modos de vida estabelecidos). o próprio Deus pagando a si mesmo.. deu o seu golpe de gênio: “. Portanto. distinguir melhor os elementos que constituem o insano investimento no poder: ressentimento (marcas fixadas na consciência. vontade de negação (a realidade.

27 . que mais perigosamente se desviou de seus instintos – e com tudo isso. o mais doentio.animal mais malogrado. é verdade. também o mais interessante!” (58).

reduzi-lo a um animal manso e civilizado. algum dia. à produção de um tipo humano forte. o homem contemporâneo vive submetido ao aspecto reativo da existência. com cujo 28 . Em vez da cultura se referir à força. os que são prisioneiros da má consciência: tudo isso em detrimento do “animal de rapina” que habita em cada homem “civilizado”. se os preconceitos enraizados pela educação quanto à finalidade da sociedade não oferecessem uma pertinaz resistência!” (59) O Sentido da Cultura Como resultado da violenta repressão dos seus impulsos ativos.“Como gostaríamos de aplicar à sociedade e a seus fins um ensinamento que pudesse ser extraído da consideração de todas as espécies do reino animal e vegetal – para elas. associada à civilização e à humanização. a sua noção reativa relaciona-se à fraqueza. o mais poderoso. que prazer não haveria aí. somente importa o exemplar individual superior. o mais complexo. os que não agem. difere radicalmente do sentido da cultura. o mais fecundo –. o mais incomum. provoca Nietzsche. “Supondo que fosse verdadeiro o que agora se crê como ‘verdade’”. aos afetos do ressentimento. à nobreza. doméstico. segundo a lógica moral. sempre no sentido de privilegiar os fracos. realizada durante séculos. à passividade. A cultura aparece. um estado de “paz”. segundo Nietzsche. “ou seja. exprimindo algo que. deve ser objeto de uma contínua repressão para que a humanidade alcance. então. que o sentido de toda cultura é amestrar o animal de rapina ‘homem’. que. então deveríamos sem dúvida tomar aqueles instintos de reação e ressentimento. os que querem se conservar.

no entanto. “que os homens estão destinados a serem infelizes” e outras palavras de lamentação. Cultura e pré-história Esse olhar do ressentimento que precisa julgar e reprimir os instintos do homem. o homem do ressentimento faça apenas uma imagem das forças ativas. não se estaria dizendo que os seus portadores representem eles mesmos a cultura. malogrado. finalmente. o homem gregário. forte. Não há dúvida que. aquele que estabelece novos valores. o ativo. O que Nietzsche denomina de 29 . nem sempre constituiu a vida humana em sociedade. ao guardar temor e se manter em guarda contra a besta loura que há no fundo de toda raça nobre: mas quem não preferiria mil vez temer. obediente. dócil. com o que. Nietzsche nos diz que durante o mais longo período da existência humana (a pré-história). o trabalho do homem em si próprio consistia na tarefa de torná-lo confiável. “bem-estar social”. capaz de prometer o futuro. de toda população pré-ariana especialmente – eles representam o retrocesso da humanidade!” (60). podendo ao mesmo tempo admirar. à custa de uma repressão cada vez maior dos seus instintos. a partir da sua concepção reativa. atrofiados. de uma vez por todas. que o “mal-estar é inerente à condição humana”. ela nos apresenta. o efeito do olhar invertido do homem do ressentimento. responsável por suas próprias forças reativas e. o “mal” que habita o homem. o nobre. o homem moderno: “Pode-se ter completa razão. fácil de ser enganado.auxílio foram finalmente liquidadas e vencidas as estirpes nobres e os seus ideais. está diretamente ligada às suas esperanças de “paz”. É inevitável que a sua ânsia incontrolável de arrebatar. “felicidade”. mas não mais poder se livrar da visão asquerosa dos malogrados. A partir disso. por isso. o senhor. os descendentes de toda escravatura européia e não européia. envenenados?” (61). a não temer. na verdade. por estar dominado pelas forças reativas. O contrário é que seria não apenas provável – não! atualmente é palpável! Os portadores dos instintos depressores e sedentos de desforra. amargurados. para. como se elas exprimissem uma “má” essência da natureza humana. podemos compreender que o sentido da cultura que é propagado no mundo contemporâneo é. isto é. É um retrocesso porque a cultura. torná-lo civilizado. como os autênticos instrumentos da cultura. em vez de ter como seu produto o indivíduo soberano. Na Genealogia da moral. esse mesmo homem que diz que “viver é sofrer”. em suma.

por tornar-se confiável e constante. É possível constatarmos que o homem pré-histórico. distingue-se totalmente do homem civilizado. de estabelecer novas leis. mas sim pela produção de uma memória que é distinta da memória das marcas. o gênio que. Esse antiqüíssimo problema. ali onde a árvore finalmente sazona seus frutos. é volúvel. podese imaginar. igual apenas em si mesmo. Nas sociedades pré-históricas.. com a moral que domestica o homem.. novamente liberado da moral do costume. como o fruto mais maduro da sua árvore. como fruto tardio da cultura. Porém. o homem da vontade própria. Portanto. a geração do indivíduo soberano. a obediência aos costumes. que dispõe do futuro. de abrir novos horizontes existenciais para que uma sociedade possa superar a si mesma: “Mas coloquemo-nos no fim do imenso processo. às leis primitivas. liberado da moralidade do costume. diz Deleuze. a produção dessa memória voltada para o futuro é inseparável dos rituais de crueldade: “‘Como fazer do bicho-homem uma memória? Como gravar algo indelével nessa inteligência voltada para o instante. no seu comentário sobre Nietzsche. o homem responsável. Somente a partir disso torna-se possível. Enquanto o homem civilizado é produto da obediência às leis que favorecem as suas forças reativas e suas ações pessoais. nessa encarnação do esquecimento?’. esse adestramento das forças reativas não se estabelece por meio de um pacto ou de um acordo formal. como produto das sociedades históricas.. de modo algum. isto é. dá-lhes hábitos e impõe-lhes modelos. “Adestrar o homem”. não foi resolvido exatamente com meios e respostas suaves. é resultado do adestramento das suas próprias forças reativas. para as tornar aptas a ser agidas” (62). constante. não se confunde. por isso mesmo. então. que é “um prosseguir-querendo-o-já-querido” (64). o indivíduo soberano. que servem para excluir a individualidade da ação que ameaçaria a saúde da comunidade. “significa formá-lo de tal maneira que ele possa agir as suas forças reativas. meio leviana. que Nietzsche denomina de memória da vontade. isto é. talvez nada exista de mais terrível e inquietante na pré-história do homem do que sua 30 . de modo que a tarefa primordial não deixa de ser esquecida. o homem pré-histórico obedece às leis que adestram as suas forças reativas. A atividade da cultura exerce-se em princípio sobre as forças reativas. torna-se capaz de criar novos valores. onde a sociedade e sua moralidade do costume finalmente trazem à luz aquilo para o qual eram apenas o meio: encontramos.. meio obtusa. pois este é facilmente levado pelas suas forças reativas. duradoura e independente” (63). inconstante e.“moralidade do costume”. às tradições. é incapaz de prometer o futuro.

movido por sentimentos de prejuízo pessoal e de vingança. E este. como um terrível evento natural. Mas sim um causador de danos.” (67). Com grandes ressonâncias com o pensamento nietzschiano. e este. por um extraordinário contraprazer: causar o sofrer – uma verdadeira festa.mnemotécnica” (65). Portanto. da sua inconstância. diferem as técnicas. O castigo como meio para adestrar as forças reativas. a mais sinistra e mais interessante planta da nossa vegetação terrestre”. da sua negação do futuro. já esquecido todo o sofrimento. paga o seu dano causado à sociedade: “Pergunta-se mais uma vez: em que medida pode o sofrimento ser compensação para a ‘dívida’? Na medida em que fazer sofrer era altamente gratificante. a sociedade imprime a sua marca no corpo 31 . mas a meta é sempre a mesma: provocar o sofrimento” (68). E por que isso não ocorre. nos seus estudos etnológicos. por muitíssimo tempo os que julgavam e puniam não revelaram consciência de estar lidando com um ‘culpado’. é um meio para equivaler a dor ao dano causado (dano que resulta da sua palavra quebrada. “não cresceu nesse terreno – de fato. inclusive. como meio para a produção de uma memória no próprio corpo do indivíduo. Pierre Clastres. da sua individualidade). próprios do ressentimento? Nos rituais de crueldade não é um Estado ou uma “vítima” que exerce o poder de castigar. sobre o qual. em seu momento de tortura é marcar o corpo: no ritual iniciático. O objetivo da iniciação. um saldo irrevogável. de uma a outra região. diz Nietzsche. os objetivos explicitamente afirmados da crueldade. os meios. já que o nosso mundo civilizado apenas conhece a justiça e o castigo no seu sentido reativo. Um homem iniciado é um homem marcado. o que os rituais de crueldade não produzem no indivíduo castigado é o sentimento de culpa e de revolta. extrai alegria da dor do indivíduo castigado (alegria que se expressa por meio das festas).. na medida que o prejudicado trocava o dano. depois da iniciação. E ao dizer isso.. ou seja. também parte do destino. os sulcos deixados no corpo pela operação executada pela faca ou a pedra. “A ‘má consciência’. por meio disso. com um irresponsável fragmento do destino. se abatia o castigo. as cicatrizes das feridas recebidas. e o desprazer pelo dano. não experimentava outra ‘aflição interior’ que não a trazida pelo surgimento súbito de algo imprevisto. O castigo é o meio para que o indivíduo que causou um dano à sociedade possa pagar a sua dívida. já testemunhava: “De uma tribo a outra. mas é a própria sociedade que castiga e que. a queda de um bloco de granito contra o qual não há luta” (66). Nietzsche está longe de associar a justiça com o ressentimento e o castigo com a produção do sentimento de culpa no indivíduo castigado. ainda subsiste algo. “Entretanto.

Por meio dessa crença. os fracos são selecionados: eis uma triste imagem da cultura. apenas escravos que exercem o poder sobre outros escravos. a memória desse saber de que doravante são depositários os jovens iniciados. diz Nietzsche. Estado e domesticação do homem Se a justiça e o castigo das sociedades pré-históricas estão desprovidos de ressentimento e de má consciência. Já não há mais senhores.. então. de vigilantes paranóicos que também não deixam de ser vigiados e castigados quando demonstram incompetência nas tarefas que servem para a “manutenção da ordem”. disciplinar os homens.. “Utilizam-se processos de adestramento”. apenas “descobrem no castigo uma ‘finalidade’ qualquer. nas sociedades históricas. Tudo se passa. para que os “bons” não se tornem “maus”. As instituições que exercem o poder do Estado tentam. por exemplo. Pois o problema é não perder a memória do segredo confiado pela tribo. por exemplo a vingança.. colocam despreocupadamente essa finalidade no começo. também. diz Deleuze. Terrível união das instituições com os que as servem. através de métodos muito variados. Que sabem agora o jovem caçador guayaki. os genealogistas da moral modernos. “mas para fazer do homem o animal gregário. As forças ativas são adestradas. entre as forças reativas. submetidos às leis morais. ao serem castigados. para que os “maus”. o jovem guerreiro mandan? A marca proclama com segurança o seu pertencimento ao grupo: ‘És um dos nossos e não te esquecerás disso’” (69). ou a intimidação.dos jovens. é a proliferação de juízes da vida. o próprio corpo traz impressos em si os sulcos da lembrança – o corpo é uma memória. tornem-se finalmente “bons”. Presos a esse senso comum. para 32 . um sulco. como causa fiendi [causa da origem] do castigo. sociedades com Estado. para que os seus instintos continuem a ser reprimidos e. eles aparecem indissociáveis desses sentimentos reativos. por toda parte. Ora. A marca é um obstáculo ao esquecimento. que o castigo teria a finalidade de produzir no indivíduo o sentimento de culpa. ou seja. Acredita-se. corrigi-los.. uma cicatriz. O que se vê. conservação e propagação dos homens fracos através da violência exercida pelos poderes a serviço do Estado. Utilizam-se processos de seleção para destruir os fortes. Desejo crescente por escravidão. e – é tudo” (70). tornando-os domesticados. uma marca são sempre indeléveis. imagina-se que o medo do castigo serve para garantir a ordem social. a criatura dócil e domesticada.

por ter a consciência da sua importância para a conservação do “bem-estar social”. neste caso. avaliado. ou melhor. de propagar a vida reativa” (71). ele obriga aqueles que escolhe a permanecer num lugar determinado. A filosofia. mas também se esforça para melhorá-la. Certamente ele reclama da instituição. o homem reativo faz as coisas que ele até poderia se arrepender. A seleção e a hierarquia são postos do avesso. atrair para si o maior número de filósofos que puder. reforçam os valores vigentes e.. entre homens determinados. vigiado. para torná-la perene. para dizer a verdade. mesmo que ele continue a se sentir esmagado por praticá-las. quando está submetida ao Estado. que vive angustiado. mas não inspiram nenhum medo. Como resultado desse processo contínuo de reprodução da má consciência.. Os filósofos do Estado estão. pois uma ovelha que adoece é sempre uma ameaça ao rebanho: “O que será que deu errado para que isso pudesse acontecer?”. ele buscará. E os entorpecentes. pergunta o rebanho. de organizar. é claro. o funcionário do Estado passa a exercer o papel de carrasco dos indivíduos saudáveis – e 33 . Controlado. de fato. A seleção torna-se o contrário daquilo que era sob o ponto de vista da atividade. perde sua força subversiva. não é mais do que um meio de conservar. impedidos de pensar. seja o filósofo. os escolhe na medida em que tem necessidade deles para as suas instituições. os historiadores da filosofia. todos os jovens acadêmicos que manifestem desejo de instrução” (72). ou um especialista qualquer. todos os dias. Em segundo lugar. porque estão entupidos de obrigações e tarefas que servem para a manutenção do poder estatal. em horários fixos.selecionar os fracos. o Estado escolhe para si seus servidores filósofos e. Os filósofos submetidos ao Estado. Como as instituições favorecem a sua conservação. os sofredores ou os escravos. chega a expor as imperfeições dela. o que gera um sentimento de alívio por executar o seu trabalho com competência. inclusive. por isso.. são inofensivos à sociedade reativa. a aí exercerem uma atividade determinada. surge o homem privatizado. Como ele não conhece outro sentido da vida que não seja o da obediência moral. Em primeiro lugar. não deixam de ser oferecidos a essa ovelha cansada. o erudito. cada vez mais.. caso não fossem aprovadas pelo poder. porque imagina que sem ela não seria possível sobreviver. o que lhe confere a ilusão de ter a filosofia ao seu lado – e assim ele tem a seu lado estes homens que se valem dela. Diz Nietzsche: “Ocorre de fato que em geral o Estado tem medo da filosofia. que se esforça para ser cada vez mais diligente. eles têm de instruir. se esforça para entregar-se com maior ânimo às ações consideradas “boas”. então.

34 . a moral judaico-cristã permanece.conta com a suprema autorização do poder para afastar qualquer responsabilidade por seus atos insanos. Portanto. mas agora de uma maneira ainda mais violenta.

Mas a vontade do nada nos aparece sob invólucros diversos. aqueles que não só reconhecem um boa parte de acaso. uma vontade do nada. aos valores humanos e à ausência de valores: “O niilismo como estado psicológico terá de se declarar primeiro quando 35 . ou ‘Deus’. aqueles que não têm necessidade de princípios de crença extremos. mas também pode fazê-lo um fugitivo da vida.“Quais mostrar-se-ão os mais fortes? Os mais moderados. afirma Nietzsche. no sem sentido da existência. que é sempre. Esta inocente retórica do âmbito da idiossincrasia moral-religiosa parece muito menos inocente quando se nota qual a tendência que aí veste o manto das palavras sublimes: a tendência hostil à vida” (74). o ideal ascético serve como invólucro muito atraente para a sua vontade do nada. Nietzsche distingue três estados psicológicos do niilismo (75). na verdade. mas antes a amam.. ou nirvana. “Mas não se diz ‘nada’”. Como um tal homem pensaria o eterno retorno?” (73) Niilismo e Eterno Retorno O niilismo é inseparável da vontade de negar a realidade. que estão à altura da maioria das infelicidades e por isso não se assustam tanto diante das infelicidades – homens que estão seguros de seu poder [potência] e que representam com orgulho consciente a força alcançada pelo homem. “diz-se ‘além’. de absurdo. bem-aventurança. que estão diretamente relacionados aos valores divinos. sem por isso se apequenarem e se debilitarem: os mais ricos em saúde. E antes mesmo que esse fugitivo se afogue no imenso mar do nada. isto é. ou ‘a verdadeira vida’. Sabemos que a abertura da vida – o seu ineditismo – pode fazer do homem um ousado artesão. salvação.. aqueles que podem pensar o homem com uma significativa moderação do seu valor.

anseio – tudo isto significa. o corpo. a partir de então não era mais uma folha ao vento. O ideal ascético desse primeiro estado psicológico do niilismo refere-se aos valores divinos. a qual seria “explicada” por meio de uma arbitrária organização dos signos. Portanto. quem procura perde finalmente o ânimo. dos humanos. por isso. dos animais e... e que. A realidade. a ordenação moral-divina do mundo oferece um sentido para a vida dos enfermos: “Mas apesar de tudo – o homem estava salvo. as doenças. Por meio do ideal ascético. mas é e continua sendo uma vontade!. etc. servindo para interpretar os acontecimentos e justificar a formação de rebanhos. Ora. que estabelece finalidades a partir de uma suposta vontade divina. mais ainda ao que é matéria. para o além... uma revolta contra os mais fundamentais pressupostos da vida. ele podia querer algo – não importando no momento para que direção. Desse modo. imaginariamente. um brinquedo do absurdo. à razão mesma. uma vontade de nada. a ordenação moral do mundo. ou a aproximação de um estado de felicidade universal” (76). mais ainda ao que é animal. esse horror aos sentidos. ele possuía um sentido. de um criador que castiga e recompensa os homens. Assim. o desejo. o medo da felicidade e da beleza. a existência somente continua a apresentar algum sentido enquanto o seu olhar se dirige para longe. da sua natureza caótica. valores da moral judaico-cristã. as sensações. valores estabelecidos pelo poder sacerdotal. morte. com que meio ele queria: a vontade mesma estava salva. o anseio de afastar-se do que seja aparência. ou o incremento do amor e da harmonia na interação dos entes. que apareceria com total ausência de sentido. passam a ser efeitos da “vontade de Deus”. a mudança. como é evidente. ousemos compreendê-lo. desejo. da Terra. finalmente. para a “felicidade universal” que será alcançada no “outro mundo”. A invenção da ordem divina do mundo atende. o nascimento. para o alto.” (77). uma aversão à vida. para aquele que nega a vida. a morte. precisam ser desprezados para que uma outra realidade seja afirmada. todo acontecimento submete-se. torna-se finalmente compreensível a partir da lógica sacerdotal. surgem como resultados do poder absoluto de 36 . Não se pode em absoluto esconder o que expressa realmente todo esse querer que do ideal ascético recebe sua orientação: esse ódio ao que é humano. do semsentido.. com que fim. os terremotos. aos interesses dos que governam a vida dos que sofrem. a uma ordenação moral. As “origens” do universo. passam a ser demonstrações da imperfeição do mundo. devir. mudança. Aquele sentido poderia ter existido: a ‘completeza’ de um supremo cânon moral em cada acontecer.procurarmos em todo acontecimento um ‘sentido’ que não há aí: assim. as paixões.

Essa distinção é importante.Deus. esses gregos se utilizaram dos seus deuses precisamente para manter afastada a ‘má consciência’. em segundo lugar. uma sistematização. A vontade do “reino universal”. por exemplo. impossível de ser demonstrado e experimentado: “As razões que fizeram ‘este’ mundo ser designado como aparente justificam. portanto. Sem dúvida. isto sim. nos quais o animal no homem se sentia divinizado e não se dilacerava. segundo Nietzsche. a todo olhar lançado aos deuses gregos. esses reflexos de homens nobres e senhores de si. como Deus todo-poderoso. quando se postulou uma totalidade. onisciente e vingativo. adquire novo invólucro. para poder continuar gozando a liberdade da alma: uso contrário. que não seja para essa violação e autocrucifixição do homem. permitiu a sua continuação de maneira dissociada da teologia. é loucura: os oprimidos iniciam a sua jornada rumo ao absurdo. Podemos dizer que isto. não se enraivecia consigo mesmo! Por muito e muito tempo.. 37 .. o Deus judaico-cristão. ao que o cristianismo fez do seu Deus” (78). são explicações “plausíveis” e “duráveis” porque ainda oferecem esperanças. julgando-as como apenas “efeitos de um mundo falso”. como ideal que alimentaria as esperanças dos enfermos por salvação. A morte de Deus Mas os valores divinos também caducam e. diminuiu a vida humana. os deuses gregos. uma organização em todo acontecimento e sob todo acontecimento: de modo que a alma sequiosa de admiração e de veneração sacie-se na representação de conjunto de uma suprema forma de governo e de domínio” (80). pois. porém. pelo contrário. de fato. para acreditarem na existência de um mundo “verdadeiro”. A reação dos homens do ressentimento ao Deus cristão não eliminou a organização moral do mundo. são substituídos por outros valores. a sua realidade – uma outra espécie de realidade é absolutamente indemonstrável” (79). na qual os últimos milênios europeus demonstraram sua mestria – isto se pode felizmente concluir. tornando-se humana. partindo da realidade das sensações corpóreas que experimentam a todo instante. como. Ao contrário dos deuses antigos. então. “existem maneiras mais nobres de se utilizar a invenção de deuses. Mas quem é que aplaude? Quem é que precisa acreditar nessas ficções? Os moribundos. O segundo estado psicológico do niilismo ocorre por meio de uma reação aos valores divinos: “O niilismo como estado psicológico declara-se.

É fundamental compreendermos que esse processo é apenas um prolongamento do niilismo. na luta pela “paz”. por causa desse ato. O mesmo homem do ressentimento que inventou Deus percebe que não precisa mais dele para se “realizar”. Eis o grito de alegria dos escravos. ou seja. Mesmo desprezando os valores divinos. reunidos. nos direitos universais do homem. A organização moral-humana do mundo. diz para as pessoas que ele mesmo “veio cedo demais”. desemboca na Revolução Francesa. Portanto. as sombras de Deus ainda permanecem. no progresso. está longe de ser vencido.. a morte de Deus. a uma história mais elevada que toda a história até então!” (82). ainda não foi compreendido pelos homens modernos.): “Que fizemos nós. A crença na suposta “neutralidade” da razão 38 . na democracia. assassinos entre os assassinos? O mais forte e mais sagrado do que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais – quem nos limpará este sangue?. O niilismo. já que a morte de Deus ainda não chegou aos ouvidos delas. O mesmo “homem louco”.. Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! E como nos consolar. portanto.. mas agora está ocupado pelo homem reativo. nem entusiasmo mais estridente!” (81).demasiado humana. a moral judaico-cristã. Mas o sentido desse ato grandioso. que se vêem com suas esperanças renovadas de alcançar a felicidade. expressam uma única crença: a felicidade universal como possibilidade de ser alcançada neste mundo através da razão. ao entrar no mercado. no patriotismo. “conquistou com a Revolução Francesa mais uma vitória sobre o ideal clássico: a última nobreza política que havia na Europa. promovida pela contínua vontade de igualdade do homem reativo. o lugar do juízo que era ocupado por Deus foi conservado (o ideal ascético permanece). a nós. diz Nietzsche. São valores modernos que. segundo Nietzsche. mesmo num mundo que se orgulha por não precisar mais das explicações divinas. pois a vontade do nada aparece agora sob o invólucro da razão.. E por que esse grande acontecimento ainda não foi compreendido? Porque é o mesmo homem reativo que continua a reproduzir os valores que expressam a sua vontade de negar a realidade. diz procurar por Deus. na ascensão social. por ser conduzida pela razão.. pereceu sob os instintos populares do ressentimento – nunca se ouviu na terra júbilo maior. através da boca do “homem louco” (que. ao perceber que o seu discurso no mercado foi incompreendido.. a da França dos séculos XVII e XVIII. Diante dos homens que se orgulham do seu ateísmo. Nunca houve um ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá. ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós?.

humana torna a moral dos fracos, segundo Nietzsche, ainda mais imperativa (a soberania do instinto de rebanho): “Depois que se desaprendeu de acreditar nesta [a autoridade divina], procura-se, segundo o velho hábito, uma outra autoridade que saiba falar incondicionalmente, que possa ordenar fins e tarefas. A autoridade da consciência aparece agora em primeira linha (quanto mais emancipada da teologia, tanto mais imperativa se torna a moral) como uma compensação pelo dano sofrido por uma autoridade pessoal. Ou a autoridade da razão. Ou o instinto social (o rebanho)” (83). Como o velho hábito persiste, a crença na razão como tentativa de controlar a natureza, de impedir que as forças caóticas possam perturbar a vida dos ressentidos, torna-se mais um artigo de fé. O homem reativo, submetido à sua consciência, faz cálculos, medidas, previsões, que são tentativas para impedir que o resultado do lance de dados lhe seja desfavorável. A psicologia, a sociologia, a antropologia, a biologia, a física, entre outras ciências, passam a ter funções de controle e de poder sobre a vida (o biopoder). A ciência passa a servir as necessidades de conservação do homem reativo, a servir os interesses de repressão das forças ativas dos indivíduos. Conduzida pelos investigadores das “entranhas do impercrustável”, a ciência continua longe de libertar-se de noções imaginárias como causa e efeito, início e conclusão – noções que denunciam a necessidade do homem reativo de ignorar a realidade das coisas como fluxo contínuo e por isso esse tipo de ciência se limita apenas a descrever as coisas, sem poder, de fato, explicá-las: “Operamos somente com coisas que não existem, com linhas, superfícies, corpos, átomos, tempos divisíveis, espaços divisíveis – como pode ser possível a explicação, se primeiro tornamos tudo imagem, nossa imagem! Causa e efeito: essa dualidade não existiu provavelmente jamais – na verdade, temos diante de nós um continuum, do qual isolamos algumas partes; assim como percebemos um movimento apenas como pontos isolados, isto é, não o vemos propriamente, mas o inferimos... Um intelecto que visse causa e efeito como continuum, e não, à nossa maneira, como arbitrário esfacelamento e divisão, que enxergasse o fluxo do acontecer – rejeitaria a noção de causa e efeito e negaria qualquer condicionalidade” (84). Surgem o sujeito do conhecimento, isolado das relações com o mundo, e o objeto inerte, desprovido de vida, de desejo, de qualidade, também isolado pelo olhar do cientista e submetido à autoridade da razão humana. E, desse modo, continua a ser ignorado o que, de fato, existe na relação entre o cientista e o seu objeto: aquilo que é amaldiçoado, que faz as pernas dos enfermos tremerem por ser impossível de prever: o devir... A velha vontade de verdade, que continua a animar a ciência reativa, precisa expulsar do acontecimento 39

o devir – por isso essa ciência está destinada apenas a descrever a natureza. Ora, tudo isso é sintoma de que o mesmo elemento pérfido que criou Deus (o homem do ressentimento), continua a ser dominante nos nossos dias, mas agora sob o traje da “autoridade científica”, pois, afinal, tudo que é científico transforma-se em “verdades” inquestionáveis. A ciência moderna e o ideal ascético, portanto, caminham juntos, lado a lado. “Também do ponto de vista fisiológico a ciência pisa no mesmo chão que o ideal ascético”, denuncia Nietzsche, “um certo empobrecimento da vida é o pressuposto, em um caso como no outro – as emoções tornadas frias, o ritmo tornado lento, a dialética no lugar do instinto, seriedade impressa nos rostos e gestos... Esta ‘ciência moderna’ – abram os olhos! é no momento a melhor aliada do ideal ascético, precisamente por ser a mais involuntária, inconsciente, secreta, subterrânea!” (85).

A ausência de valores

O “último homem” é o que tem vida mais longa, já dizia Nietzsche. Este mesmo homem, o inventor da felicidade, passa a sentir um cansaço cada vez maior. Os velhos valores humanos pesam cada vez mais para ele. O seus deveres, as suas finalidades, as razões do seu trabalho perdem, gradualmente, o sentido que tinham. A crise dos valores vigentes já não pode mais ser escondida, disfarçada, adiada. Afinal, desejar para quê? Viver para quê? – assim começa a se questionar o homem moderno. Se os valores divinos caducam, os valores humanos também terão um fim. Um espectro ronda a civilização – o espectro da depressão. Decomposição dos modos de vida reativos. Eis o terceiro estado psicológico do niilismo: “O niilismo como estado psicológico tem ainda uma terceira e última forma... No fundo, o que aconteceu? O sentimento de desvaloração foi alcançado quando se compreendeu que o caráter total da existência não pode ser interpretado nem com o conceito de “fim”, nem com o de “unidade”, nem com o de verdade. Com isso não se chega a nada e não se obtém coisa alguma: falta a unidade que tudo abarca na multiplicidade do acontecer: o caráter da existência não é “verdadeiro”, é falso... não se tem, pura e simplesmente, nenhuma razão mais para iludir-se com um mundo verdadeiro... Em resumo: extirpamos de nós as categorias “fim”, “unidade”, “ser”, com as quais incutimos um valor no mundo – e então o mundo aparece como sem valor...” (86).

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A realidade torna-se cada vez mais insuportável para o niilista. A vida mesma passa a se confundir com o sentimento de um grande “em vão” assustador. Nesse sentido, Schopenhauer é um filósofo interessante para compreendermos melhor esse pessimismo total que constitui o niilismo passivo. Ele, ao imaginar que a destruição da vontade é a única saída que resta para o sofrimento humano, ainda preservou um “fim” ou uma “conclusão” para a vontade, mesmo que esse fim seja o “nada”. “Daqui para frente, resta diante de nós apenas o nada”, conclui Schopenhauer; “Mas desviemos o nosso olhar da nossa própria indigência e do horizonte fechado que nos encerra; consideremos aqueles que se elevaram acima do mundo e em quem a vontade, chegada à mais alta consciência de si mesma, se reconheceu em tudo que existe, para se negar, em seguida, a si mesma livremente: agora já só esperam uma coisa, ver a última marca dessa vontade aniquilar-se com o próprio corpo que ela anima; então, em vez da impulsão e da evolução sem fim, em vez da passagem eterna do desejo ao receio, da alegria à dor, em vez da esperança nunca farta, nunca extinta... nós percebemos essa paz mais preciosa que todos os bens da razão, esse oceano de quietude, esse repouso profundo da alma... Já só existe o conhecimento, a vontade dissipou-se. Sentimos uma profunda e dolorosa melancolia quando comparamos este estado ao nosso, visto que esta comparação evidencia o que existe de miserável e desesperado na nossa condição. No entanto, esta contemplação é a única coisa que nos pode consolar de uma maneira durável, uma vez que reconhecemos que o fenômeno da Vontade, o universo, é apenas dor irremediável em miséria infinita, e que, por outro lado, vemos o mundo dissipar-se com a vontade, só o nada subsistir diante de nós” (87). É evidente que nessas tristes palavras ainda existe um querer, mas é um querer destruir aquilo que quer, que é a solução encontrada por Schopenhauer para alcançar um nada de vontade. É possível percebermos que não há nenhum esforço de Schopenhauer para “salvar” a vontade. Mas a solução apresentada por ele mostra-nos o que move, essencialmente, a vontade do nada: a sua autodestruição. Sabemos que a vontade do nada tem os seus disfarces (valores divinos e valores humanos). Pois bem, Schopenhauer ousou despir a vontade do nada. E se ele nos mostrou o caminho da destruição, é importante compreendermos que ainda se trata de uma autodestruição passiva, em que a destruição aparece como finalidade e não como meio para que a vontade de potência possa crescer e expandir-se (88). Schopenhauer manteve-se fiel ao seu niilismo, desejou seguir adiante no seu caminho para o nada. Não escondeu a amargura que sentia pela vida, filosofou com a 41

isto é. portanto. passa a ter um desejo crescente de que sua destruição venha do exterior. incapaz de poder desprezar a si mesmo. restando ao homem afundar-se no mar do nada: “Sintomas dessa autodestruição dos malsucedidos: a autovivissecção. sua autodestruição continua a ser passiva porque. Com efeito.honestidade de um pessimista. algo semelhante ao mito de Sísifo: um trabalho interminável e doloroso. Sua vontade do nada torna-se explícita com a destruição cada vez maior que ele causa no mundo em que vive. se é uma destruição passiva ou ativa. Não conseguiu se livrar de uma imagem da vontade. pois a cada objetivo alcançado. o romantismo e. antes de tudo. então. poder criar outros valores.. maior perigo do que este para o futuro do homem. para Nietzsche não existe criação sem a efetuação de uma destruição ativa.. portanto. Ora. em suma (89). Mas essa imagem da vontade não é a vontade de potência afirmativa que nos diz Nietzsche. segundo Nietzsche. resta ao homem autodestruir-se passivamente. por meio de uma transmutação da vontade de negar para a vontade que afirma a vida. ou seja. onde tudo é uma grande ilusão. Mas esse “sem sentido” da existência é justamente a abertura que o homem ativo encontra para efetuar a sua força de derrubar valores e. dura demais para que essa humanidade possa suportar. do instinto de autodestruição. a vontade de destruição como vontade de um instinto ainda mais profundo. Incapaz de ir além de si mesmo. a intoxicação. O problema ético. A destruição ativa caracteriza-se por uma negação ativa que precede a afirmação da vida. apenas pode ser ultrapassado por meio de uma outra posição extrema. não existe. grita o niilista. isto é. Era um budista. de um mundo destruído por ele. O niilismo extremo. no seu estado psicológico passivo. ser criado. Como os niilistas. onde a existência não passa de um imenso vazio. da vontade de nada” (90). surge novamente um longo percurso de sofrimento e de falta. A destruição ativa A vida não tem sentido: tal afirmação é verdadeira demais. “Se o mundo está destruído. é negado 42 . Isso quer dizer o seguinte: se o sentido não está dado. A destruição passiva é efetuada pela dissolução dos valores humanos que faz a humanidade desembocar num mundo sem valores. deve ser colocado da seguinte forma: como a destruição é realizada. que pereça o homem!”. enfim. a coação instintiva para ações com as quais se transformam em mortais os poderosos inimigos (– assim como se punisse o seu próprio carrasco). ele pode. a embriaguez. “destroem para serem destruídos”.

antes. diz Nietzsche. O camelo carrega os valores morais. Por isso Nietzsche diz que “cada aquisição do conhecimento é conseqüência da coragem. “Deus. suporta as cargas mais pesadas. da necessidade de passar por metamorfoses. da dureza contra si. por meio do qual o super-homem passa. A dureza imposta às forças reativas é efetuada quando o niilista ativo compreende que não existe nenhuma necessidade de ser piedoso consigo mesmo. O combate é travado. que constituem os dois primeiros estados psicológicos do niilismo.. da afirmação do corpo. do estabelecimento de novos valores. da limpeza em relação a si mesmo. “eram remédios para níveis terrivelmente profundos de miséria: o niilismo ativo aparece em circunstâncias muito mais favoravelmente conformadas” (91). conservava a negação da vida.. da terra. então.” (92). O niilismo ativo surge como transmutação da vontade do nada que tornou-se impossível de ser disfarçada. então. tal como a vivo. em um não. O estado supremo que um filósofo pode alcançar: permanecer dionisíaco em relação à existência –: minha fórmula para tanto é amor fati. Uma filosofia experimental assim. Há. atravessar até o inverso – até um dizer sim dionisíaco ao mundo tal como ele é. a inversão da negação que constitui o niilismo nos seus três estados anteriores para a negação ativa que opera a segunda metamorfose do espírito. moral. sem subtrações. a supressão do niilismo por ele mesmo. da redenção de todo o passado. Trata-se de uma autodestruição ativa porque o que o niilista ativo destrói em si mesmo é o domínio da sua vontade do nada e das forças reativas. em uma vontade de não. Nele. O niilismo ativo é.. dedicação”. com uma constatação de que é inútil continuar carregando valores. antes.tudo aquilo que. portanto. No discurso “Das três metamorfoses” (93). através da retomada do devir. Amante do conhecimento. Mas o camelo prossegue no caminho para o seu próprio deserto: podemos dizer que esse momento constitui o niilismo passivo. desse modo. ele não separa o conhecimento da vida. divinos e humanos. A realidade aparece como um imenso e terrível deserto – o mais ermo dos desertos. toma de antemão como ensaio mesmo as possibilidades do niilismo fundamental: sem que com isso fosse dito que ela estacionasse em uma negação. Trata-se da transmutação do último homem para o homem que 43 . o camelo metamorfoseia-se em leão. pois mesmo no deserto ainda existe uma vontade: derradeiro momento da longa história de um erro. contra as suas próprias forças de conservação. a mesma lógica e não-lógica dos nós. a exprimir a superação da forma homem. Ela quer. ao caminhar pelo deserto. exceções e seleções – ela quer o eterno circuito – as mesmas coisas.. Nietzsche nos diz sobre o espírito que se metamorfoseia em camelo e que.

Ele faz da aparência do mundo a fonte para as suas criações: “Pois a ‘aparência’ significa. para o jogo da criação é preciso dizer um sagrado ‘sim’: o espírito. meus irmãos.. tal como a negação dos valores divinos que são substituídos pelos valores humanos. mas numa seleção. Mas os valores que substituem os antigos continuam a ter o mesmo elemento gerador de valores. de brandura. do cinema.quer morrer. consiste na negação dos valores estabelecidos. revolucionário.. poder dizer “sim” aos valores estabelecidos. Isso significa que a superação do homem ocorre a partir do próprio homem niilista – e não de outra coisa exterior a ele. em Assim falou Zaratustra. agora. surge a criança e o seu sagrado dizer “Sim”. tal como o “I-A” do burro. o artista trágico é. Através da produção da sua obra. O artista trágico não é um pessimista – ele diz justamente Sim a tudo questionável e mesmo terrível. Não há mais culpados. mas criar para si a liberdade de novas criações – isso a pujança do leão pode fazer. O eterno retorno como seleção dos fortes Através do “Não” de um animal rapinante. Sim. do teatro é algo absolutamente estranho.. aquele que está perdido para o mundo conquista o seu mundo” (95). reforço. Ora. consiste na negação da vida. É o momento do “Não” destruidor do leão. O que torna real essa transmutação é a força que o “Não” do leão possui para negar o “não” nascido do ressentimento.. o homem reativo parte do “não” ao devir para. porque simplesmente não se trata de uma transvaloração de todos os valores. de fato. de resignação. Para ele. da pintura..” (94). ligando-se (e não desligando-se) ao eterno. É inevitável que a revolução realizada através do homem reativo seja. desse modo. malograda. pois ele não crê em finalidades ou no ideal ascético. novamente a realidade. Nesse sentido. que apenas torna-se possível por meio do “Sim” à realidade.. ele é dionisíaco. E o que este homem quer que morra nele? A sua negação da vida. “sim” à homogeneização. Por isso são necessárias duas negações para existir uma “revolução” movida pelo homem reativo: a primeira. “sim” ao ser. a segunda. o “sem sentido” da existência é ainda um estado de sofrimento. que é a vontade de negar que constitui a vida dos enfermos e moribundos. quer a sua vontade. Para o niilista passivo. Ela simboliza o elemento afirmativo que cria novos valores: “Criar novos valores – isso também o leão ainda não pode fazer. o artista trágico experimenta uma intensificação da vontade de potência. ele apenas diz 44 . a finalidade da música. sempre. correção. nesse caso.

inevitavelmente. que são os que podem dominar. Atingidos por um pensamento que é. a ponto de esmagá-los. a vida tem um sentido eterno!”.. eterna confirmação e chancela?” (98). Pois bem: tratamos de ser honestos com ela! Mãos à obra!”. segundo Nietzsche. então. isto é. enquanto é vivido como o “maior dos pesos”. eternamente. diz Nietzsche. para não desejar nada além dessa última. quando compreendemos que o único sentido que é eterno é o do “sem sentido” (se há um “mesmo” que retorna. “a mais elevada forma de afirmação que se pode em absoluto alcançar” (97). como o pensamento seletivo. finalmente. por meio do “sem sentido”. ‘Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?’. E também podemos dizer que “sim. “A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente – e você com ela. mas é recebido como um presente e é motivo de orgulho para o espírito destruidor e criador: “Ou o quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida. O eterno retorno aparece. é importante pensarmos sobre a abertura que o “sem sentido” da existência nos oferece: “Pensemos esse pensamento em sua forma mais terrível: a existência. sem fim nem objetivo. não haveria nada para se criar no mundo. mais que tudo. O sentido da morte de Deus é. sem um finale no nada: “o eterno retorno”. mas como criação contínua de maneiras de viver que a intensificam. partícula de poeira!”. Mas quando ele experimenta. além de si mesma. retornando sem finalidade alguma. A vida é experimentada por nós como vontade de potência que retorna. compreendido por nós: a vida tal como é. é sempre o do “sem sentido”). pode ser terrível para os moribundos. É evidente que não 45 . opera a transmutação do niilismo. que retorna eternamente. tal como é. Este pensamento torna-o parte ativa da produção do real. sucumbirem diante dele. Este momento de niilismo.. Por isso que.. “Se esse pensamento tomasse conta de você. sem dúvida. expulsando desse indivíduo qualquer tentativa de atribuir alguma finalidade à vida. tal como você é. Estar vivo. diferente de si mesma. a emoção necessária que o leva a criar novos valores (o seu “Eu quero!”). mas inevitavelmente retornando. podemos dizer para nós mesmos: “Que presente maravilhoso que a vida nos deu: ela não tem sentido! Pois se ela tivesse um. aí sim. É por isso que é possível afirmar que o eterno retorno seleciona os verdadeiros senhores.. Essa é a forma mais extrema do niilismo: o nada (o “sem sentido”) eterno!” (96).“sofro”. pesaria sobre os seus atos como o maior dos pesos!” – esse pensamento. a questão em tudo e em cada coisa. que somente retorna para quem compreende que o eterno retorno do “sem sentido” é a abertura para a criação de sentido. seria um terrível fardo. ele o transformaria e o esmagaria talvez. faz os fracos.

dando assim o primeiro impulso a uma reordenação das forças do ponto de vista da saúde: reconhecendo comandantes como comandantes. força a concentração de elementos aparentados e faz com que se arruínem mutuamente. Klossowski diz: “De certa forma. mas sim pela ordem hierárquica das forças. os que amam a vida. Não é mais o mesmo homem ressentido. Sobre a natureza seletiva do eterno retorno. a “casta superior”. a “aristocracia”. são os corajosos. Por isso o eterno retorno purifica. não recuará mais diante de nenhuma ação. A noção de política estará então completamente dissolvida em uma guerra dos espíritos. respectivamente.. os “senhores”. o signo do Círculo Vicioso – do Eterno Retorno – continua sendo o limite e a mola dos projetos ditos de adestramento e seleção” (100).. por isso ela os elege como os verdadeiros comandantes. Portanto. os mais débeis. um espasmo de terremotos. subordinados como subordinados. não se trata de um Senhor que exerceria sua condição como se fosse uma função – assim também como não se trata de criar 'novos' escravos para este senhor. “A mais insalubre espécie de homem na Europa”. mas sim os saudáveis.se trata de um domínio pela representação. E essa prova continua sendo a adesão ao signo do Círculo Vicioso. por ser baseada na negação da vida. também entre eles. Não há dúvida de que o eterno retorno envolve uma dimensão política que é radicalmente diferente da que sustenta a soberania reativa. os “nobres”. Naturalmente. será inevitavelmente destruída. os que desprezam o ideal ascético. Somente a partir de mim haverá grande política na Terra” (101). “Pois quando a verdade sair em luta contra a mentira de milênios”. os guerreiros. culpado e malogrado que retorna. a soberania reativa. um deslocamento de montes e vales como jamais foi sonhado. prevê Nietzsche. o fato de que atribua tarefas comuns a homens que têm modos de pensar opostos – trazendo à luz. Através do eterno retorno. E a vida também ama os guerreiros. os sadios. fora de todas as ordenações sociais existentes” (99). 46 . que é uma ordem absolutamente distinta da ordem moral. O valor de uma tal crise é o fato de que ela purifica. “sentirá a crença no eterno retorno como uma maldição e. todas as formações de poder da velha sociedade terão explodido pelos ares – todas se baseiam inteiramente na mentira: haverá guerras como ainda não houve sobre a Terra. Em Nietzsche. “teremos comoções. O Senhor e o escravo são estados que resultam. uma vez que seja atingida por ela. os ativos. os mais inseguros. ou a sua rejeição. afirma Nietzsche. de uma prova.

que se 47 . Como somos um grau de potência. podemos passar quase despercebidos num mundo dominado por subjetivação e por significação. Portanto. que jaz no fundamento de cada acontecer. de avaliar. não precisamos de qualquer tipo de reconhecimento e. como meios fomentadores da tarefa. pelo contrário.. Esse seu bem. ao afirmarmos a nossa própria diferença. é sempre algo que não se confunde com o “bem” comum da moral. Aprendemos que todas as outras tarefas são secundárias diante da tarefa. não há comparação possível a ser feita entre graus de potência. o sentido e o valor criados por uma vida singular permitem que ela se conecte ao absoluto. “Meu ensinamento diz: viver de tal modo que tenhas de desejar viver outra vez. perece inevitavelmente – não há outro caminho. mas. por expressar a sua singularidade de sentir. A vida singular que se supera demonstra que a multiplicidade de forças que coexistem nela se expressa de muitas maneiras. valioso. O “Eu quero” da vida singular combate. – fruto de uma outra maneira de desejar que nos faz experimentar a eternidade. é o que amo. então. que se exprime em cada acontecer. que podem ser apenas auxiliares da tarefa. teria de levar esse indivíduo a abençoar. Isso dependeria justamente de sentir-se esse traço de caráter fundamental como bom. E qual é “a” tarefa? Tornar-se o que se é. sua virtude é ética e não moral: “Este é o meu bem. pois não teria o que criar. “identidade” ou “eu”: “Cada traço de caráter fundamental. ao eterno retorno da vontade de potência. É importante pensarmos sobre isso: o eterno retorno do “sem sentido” da existência coage a vida singular a criar sentido e valor. somente assim eu quero o bem” (103). é assim que gosto dele. Contra qualquer censura moral.O amor ao eterno retorno da diferença Como o mundo é vontade de potência. se ele fosse sentido por um indivíduo como seu traço de caráter fundamental. é a tarefa – pois assim será em todo caso! Quem encontra no esforço o mais alto sentimento. o “Tu deves”. a vida singular continua adiante naquilo que deseja para elevar o que já quer ao máximo que pode. já somos: potência singular de diferenciar-se de nós mesmos. triunfante. Ou ela cria ou. essencialmente. sem origem e finalidade. tornamo-nos o que somos em devir. sua existência seria inútil. experimentamos o que. É impossível conhecermos o que somos. de viver. de conhecer. em razão disso. rompendo com as noções de “ser”.. de modo permanente. Para sermos férteis. Passamos a dar o crédito para nós mesmos porque nos alegramos com a nossa singularidade. cada momento da existência universal. Portanto. pois não há um “eu” escondido. Se o artista vivesse num mundo acabado. com prazer” (102).

. Mas. É evidente que Nietzsche se opõe à concepção de que o devir seria o resultado do “ser” ou. que faz qualquer coisa existente não ter nenhuma semelhança com modelos de perfeição transcendentes. Mas que tome consciência do que é que lhe dá o mais alto sentimento. terá uma conclusão no “ser”. por sua vez. ou seja. diz Nietzsche. e o mundo como devir seria uma realidade de “injustiças” (107). ao fim do ‘espírito’. a origem imaginada anteriormente não seria mais “a” origem?. em todo o seu devir. seguir. nenhum estado final e é incapaz de ser” (108). então este haveria de já ter sido. essa hipótese nos obriga a pensar no que originou a origem! Então. É possível percebermos que a imaginação tenta explicar o que não existe: início e conclusão no 48 . obedecer. também ao fim do pensar. há muito tempo. Nietzsche quer nos dizer que na natureza somente existem os simulacros.. de um tornar-se petrificado. “Se o mundo tivesse um fim”.esforce. Mas como podemos pensar o mundo – e nós mesmos – em devir? A dificuldade que podemos encontrar para pensarmos sobre isso surge. afirma Nietzsche. que obedeça. ao fim do devir. então ele teria chegado. e não receie nenhum meio! Isso vale a eternidade!” (104).. alcançado. Ora. a natureza é uma potência do falso (106). o devir seria conseqüência do “ser”. então. do mesmo modo. “de em todo acontecimento pensar em fins e de. de um ‘ser’. o mais alto sentimento. o do ser eterno e o do devir. algo existente sempre remeteria a alguma outra coisa que lhe faltaria ou que lhe seria superior. O que poderia ser a conclusão do devir? O Nada? – é possível imaginá-lo?. Contra as cópias do platonismo. em geral. custa esforço não pensar para si próprio a falta de finalidade do mundo. Se ele fosse capaz. Desse modo. como eterno escoamento e diferenciação. para o mundo. O fato do ‘espírito’ como um devir prova que o mundo não tem nenhum fim. quem encontra em subordinar-se. somente por um momento. então. tivesse ele. em algum momento. por meio do hábito moral que impõe a todo acontecimento uma explicação exterior a ele. Mas podemos também criar o hábito inverso: pensar o devir tal como ele é. pensar em um Deus condutor e criador é tão poderoso que. para ele. de que o devir. o da unidade eterna e o da multiplicidade. essa capacidade do ‘ser’. mais uma vez. Se houvesse para ele um estado final não intencional. “O antigo hábito”. necessariamente deveria ter uma origem. Anaximandro dizia que havia a dualidade de dois mundos totalmente antagônicos. sem origem e finalidade. que repouse. muitas vezes. se o devir tendesse a uma conclusão. ao pensador. como uma intenção” (105). Portanto.. quem encontra no repouso o mais alto sentimento. de um persistir. “ele haveria de já ter sido alcançado.

devir. tua muda beleza – como? ela não foge de meus olhares? – Emblema da necessidade! Tábua de eternas esculturas! – mas tu bem o sabes! o que todos odeiam. ou seja. a vontade de potência. nenhum fastio. mas da diferença. eternamente sou teu Sim: pois te amo. Segundo Nietzsche. E o que existe? O que está no meio. ele levantou a cortina desse espetáculo sublime (110). “Supremo astro do ser! Tábua de eternas esculturas! Tu vens a mim? – O que ninguém enxergou. ó Eternidade! – – ” (111) 49 . Não é o ser do Mesmo. como um devir que não conhece nenhum tornar-se satisfeito. Emblema da necessidade! Supremo astro do ser! – que nenhum desejo alcança. O amor ao ser da diferença é o amor ao eterno retorno da diferença. Mas a contemplação do ser é atingida quando ele é considerado efeito do devir – e não o contrário. o que somente eu amo. o que não lhe falta nada. Contemplar o devir: esta postura afirmativa Nietzsche encontrou em Heráclito. que és eterna! que és necessária! Meu amor inflama-se eternamente apenas com a necessidade. eterno Sim do ser. “aquilo que há de voltar eternamente. – que nenhum Não macula. nenhum cansaço” (109).

com o seu “padrão de vida” que.“Minha filosofia traz o pensamento vitorioso. na época em que foi professor na Basiléia. é algo produzido pela sociedade. muito pelo contrário. da autodestruição passiva do homem. certamente. sem dúvida. É o grande pensamento cultivador: as raças que não o suportam são condenadas. O modus operandi do capitalismo é. por meio do desejo dos indivíduos. não quer impedir que o seu cotidiano utilitário continue a ser dominante. Nietzsche nos diz que. era incomodado por um sentimento de “falta de 50 . ele não é. resultado de uma “conspiração” burguesa. as que o sentem como um grande benefício são selecionadas para o domínio” (112) Nietzsche e o mundo contemporâneo Como resultado da organização parasitária das instituições. Em Ecce homo (113). por conseqüência. finalmente. os sentidos do homem gregário tornaram-se embotados. sucumbe todo outro modo de pensar. E se o capital permanece vorazmente. Então. por isso mesmo. com o qual. estaria o homem condenado a reproduzi-lo cada vez mais? É a infelicidade com a sua “profissão”. já que ele nem mais sabe o que é experimentar e. o grande sintoma da inversão do sentido da cultura. faz o homem pós-moderno procurar por entorpecentes que servem para mantê-lo submetido à ordem moral.

tornou-se ainda mais madura para ele. qualificações cada vez mais absurdas. meu instinto decidiu-se inflexível pelo fim daquele ceder. confundir-se com outros. que provém da nossa potência de ir além de nós mesmos. na qual havia caído por ignorância.. inclusive. O indivíduo dedicado a uma tarefa irracional chega ao nível do insuportável. O risco de viver de outra maneira. na verdade. seguir. no fundo. A ação criativa. 51 . e na qual havia depois permanecido por letargia. tarefas executadas no menor tempo possível. contrárias à sua natureza. desperdiçando um tempo valioso. pobreza – tudo me pareceu preferível àquela indigna ‘falta de si’.si”. E quando. exige-se competência. pelo chamado ‘sentimento do dever’”. realizar tarefas que são contrárias à natureza de alguém. que são as fugas artificiais que continuam a preservá-lo como simples peça reprodutora da máquina capitalista. parecia-lhe muito mais digno do que permanecer como funcionário do Estado: “Naquela época. que é o que menos professamos – e aquela necessidade de entorpecimento da sensação de vazio e de fome através de uma arte narcótica – por exemplo. O salário é. Uma contranatureza (114). por juventude. pois experimenta efêmeras doses de aumento da sua potência nas relações que também são. isto é. gera no indivíduo uma outra contranatureza. Como não são experiências autênticas. Percebemos que a vida singular no mundo contemporâneo está “podada” – e ela vê vantagens em ser assim. não obedece horários. as condições mais desfavoráveis. o meio para que o indivíduo enfermo possa ter acesso aos narcóticos. uma assim chamada ‘profissão’. compromissos inadiáveis. levando-o a desejar entorpecer-se através da arte de Wagner: “Foi então que atinei também pela primeira vez a relação entre uma atividade escolhida contra o próprio instinto. doença. até sob condições desfavoráveis. pois são organizadas pelo poder. O pensamento não precisa ter autorização para vir à tona. acompanhada de sentimentos de tristeza e da sensação de abatimento fisiológico. até chega a ter um certo grau de regeneração devido às suas próprias forças (o que é perigoso para os moralistas). que inevitavelmente surgia em razão de um trabalho erudito extremamente desgastante (a filologia). em raros momentos. a vida singular permanece dissociada do que pode. ela é novamente podada. através da arte de Wagner”. A idéia de estar. para a reprodução do capital. Por outro lado. Qualquer espécie de vida.. Uma atividade contra o próprio instinto diminui a sua potência de existir. não se confunde com as exigências que uma profissão qualquer obriga. embora ainda deseje agarrar-se à vida que ele percebe escapar-lhe cada vez mais. prazos e normas para poder surgir.

por exemplo) pode ser um signo de crescente força e perfeição. Manter-se em devir ativo é o lema nietzschiano. “A doença libertou-me lentamente”.. ela permitiu.Durante o nosso percurso existencial.. somente a partir daí. o seu processo de ruptura – e de cura espiritual – tornou-se gradual. A nossa vontade de potência se expande para além daquilo que anteriormente tinha alguma função. a maior de todas as tarefas.). “tornar-se o que se é”. 52 . “Olhando em torno com maior cuidado. não pode oferecer mais nada. A magnitude de um ‘avanço’.. em razão da educação para a obediência a qual foram submetidos desde os seus primeiros anos de vida. o que antes era considerado extremamente indispensável por nós perde o seu encanto. é invertida pela moral através do “tornar-se o que os outros querem” – isto significa tornar-se uma ovelha obediente. a dinamite que causou uma explosão cujos efeitos vão ainda durar por muito tempo (117). a sua diminuição em número (pela destruição dos componentes intermediários. E isso demonstra para nós a importância de operar a ruptura de modo prudente. Nesse processo de crescimento espiritual.. ela me ordenou esquecer. ao ócio. se mede pela massa daquilo que teve de lhe ser sacrificado” (118). a não ser o caminho construído por eles mesmos. por isso. Por meio da doença. no interior de um organismo: “Mesmo no interior de cada organismo não é diferente: a cada crescimento essencial do todo muda também o ‘sentido’ dos órgãos individuais – em certas circunstâncias a sua ruína parcial. estão distantes de compreender que não existe caminho a seguir. diz ele. ela me presenteou com a obrigação à quietude. “poupou-me qualquer ruptura. foi possível nascer o grande Nietzsche. ao esperar e ser paciente... qualquer passo violento e chocante.. Mas isto significa pensar!” (116)... É necessário compreendermos o valor que Nietzsche atribuiu à sua doença.. por exemplo. Portanto. que abandona a si mesma para honrar os seus compromissos que colaboram para a preservação do rebanho. saber desprezar é um ato de amor. A doença deu-me igualmente o direito a uma completa inversão de meus hábitos. tal como ocorre. Podemos afirmar que. inclusive. descobri que existe o mesmo infortúnio para um grande número de jovens” (115) – são jovens que. Insistir em manter alguma coisa que já está seca e que. é um evidente sintoma de definhamento do conjunto de um indivíduo (uma sociedade assim corrompe-se.

PUC-Rio. Humano. 2001. Escritos sobre educação (Terceira Consideração Intempestiva: Schopenhauer Educador). 1999. ________. A sociedade contra o Estado. 2001. LA BOÉTIE. 2002. 2001. Tradução: Maria Inês Vieira de Andrade. Tradução: Luiz Roberto Salinas Fortes. Friedrich. 1998. A vontade de poder. Pierre. _________.BIBLIOGRAFIA CLASTRES. _________. Assim falou Zaratustra. São Paulo: Companhia das Letras. _________. 2000. São Paulo: Perspectiva. 2006. Tradução: Hortencia S. ________. 2003. _________. São Paulo: Cosac & Naify. 2008. Tradução: Alberto Campos. São Paulo: Loyola. demasiado humano. Rio de Janeiro: Ed. Crepúsculo dos ídolos. NIETZSCHE. D. Pierre. A filosofia na idade trágica dos gregos. DELEUZE. Magalhães. ________. KLOSSOWSKI. Lógica do sentido (Platão e o simulacro). Tradução: António M. Nietzsche e a filosofia. Além do bem e do mal. 53 . São Paulo: Companhia das Letras. Tradução: Laymert Garcia dos Santos. Nietzsche. Tradução: Paulo César de Souza. Lencastre. São Paulo: Companhia das Letras. Genealogia da moral. Tradução: Paulo César de Souza. Tradução: Marcos S. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. ________. Rio de Janeiro: Pazulin. 2003. Lisboa: Edições 70. Fernandes e Francisco J. São Paulo: Companhia das Letras. 2003. Tradução: Paulo César de Souza. Ecce homo. Tradução: Paulo César de Souza. Rio de Janeiro: Contraponto. de Moraes. A gaia ciência. Lisboa: Edições 70. 1995. Tradução: Theo Santiago. 2000. Porto: RésEditora. Tradução: Mário da Silva. _________. Nietzsche e o círculo vicioso. ________. Tradução: Noéli Correia de Melo Sobrinho. São Paulo: Companhia das Letras. 2003. Tradução: Paulo César de Souza. 1992. Tradução: Paulo César de Souza. _________. São Paulo: Brasiliense. P. São Paulo: Companhia das Letras. Discurso da servidão voluntária. Etienne de. Gilles.

________. Tradução: Rubens Rodrigues de Torres Filho.________. Rio de Janeiro: Contraponto. Arthur. 2001. 1999. Obras incompletas (Coleção “Os Pensadores”). São Paulo: Companhia das Letras. Tradução: Paulo César de Souza. O anticristo / Ditirambos de Dionísio. F. SCHOPENHAUER. Tradução: M. O mundo como vontade e representação. 2007. Sá Correia. 54 . São Paulo: Nova Cultural.

21. GM. Portanto. 4.NOTAS O esboço deste livro foi escrito em 2006. 1067. VP. 8. Primeira dissertação. Segunda dissertação. 10. esta publicação é uma nova versão com alterações que foram realizadas em 2010. 2. 7. Dos três males. de Pierre Klossowski. Nietzsche. Gilles Deleuze. 134. VP. VP. p. 18. GM. 12. AFZ. GC. 55 . 3. GM. sendo distribuído gratuitamente pela internet. 9. 1041. 10. 6. Abreviações das obras de Nietzsche citadas no livro: A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (FITG) A Gaia Ciência (GC) A Vontade de Poder (VP) Além do Bem e do Mal (ABM) Assim Falou Zaratustra (AFZ) Crepúsculo dos Ídolos (CI) Ditirambos de Dionísio (DD) Ecce Homo (EH) Fragmentos Póstumos (FP) Genealogia da Moral (GM) Humano. 12. Segunda dissertação. Trecho de um fragmento póstumo de Nietzsche extraído do livro Nietzsche e o círculo vicioso. p. Demasiado Humano (HDH) O Anticristo (AC) Terceira Consideração Intempestiva: Schopenhauer Educador (SE) 1. 1041. 5.

1. 13 e 14. o ressentimento e a má consciência”. GC. Primeira dissertação. Primeira dissertação. 23. 2: “O que é felicidade? – O sentimento de que o poder [potência] cresce. 354. EH. contentam-se em viver como nasceram. 12. Segunda dissertação. GM. – Contra isso o doente tem apenas um grande remédio – eu o chamo de fatalismo russo. sem olhar mais longe. ABM. O prólogo de Zaratustra. mais tarde educados e criados na servidão. p. 18. 25. GM. de que uma resistência é superada”. EH. AC. Gilles Deleuze. AFZ. 1. AFZ. p. 1. 1. Etienne de La Boétie. 21. Segunda dissertação. 33. Primeira dissertação. EH. 14. 12. 13. Por que sou tão sábio. GM. aquele fatalismo sem revolta. GM. GM. GM. 291: “Honra a Nietzsche por ter sabido isolar essas duas plantas. 6. e como não pensam ter outro bem nem outro direito que o que encontraram. 283. HDM. 17.11. Discurso da servidão voluntária. 1. sobre “Humano. consideram natural a condição de seu nascimento”. De velhas e novas tábuas. SE. 32. 31. 20. Em outro trecho importante. 6: “Estar doente é em si uma forma de ressentimento. na p. demasiado humano”. EH. 21. GC. piscando o olho”. 30. Por que sou tão sábio. Primeira dissertação. 10. 56 . 29. 27. La Boétie diz: “Desse modo os homens nascidos sob o jugo. 15. 10. 354. 16. 5: “‘Inventamos a felicidade’ – dizem os últimos homens. 13. EH. Nietzsche e a Filosofia. Conclusão. GC. 20. Da virtude dadivosa. 6. 10. 28. 24. 19. 26. 10. com o qual o soldado russo para quem a campanha tornase muito dura finalmente deita-se na neve”. 16. Por que sou tão sábio. 22. AFZ. 13. Por que sou tão inteligente.

somente um amigo vem ter assim com um amigo!’”. o ímpio. “o ressentimento. Zaratustra. GM. AFZ. 9. Terceira dissertação. Assim como a má consciência. 16.34. justos”. segundo Deleuze. 36. e somente quando está bem cozido. GM. mas. que a ninguém fere. 50. expressei-lhe a minha vontade – e já lá estava ele de joelhos. GM. 17. os pacientes. Primeira dissertação. O prólogo de Zaratustra. 187. GM. Terceira dissertação. 273: “A quem você chama de ruim? – Àquele que quer sempre envergonhar”. 48. mais de um acaso veio a mim com modos imperiosos. 16. 14. 44. 41. A segunda tipologia exprime a maneira pela qual o ressentimento toma forma: a memória das marcas torna-se um caráter típico. 37. constitui o ressentimento como matéria bruta: exprime a maneira pela qual as forças reativas se furtam à ação das forças ativas (deslocamento das forças reativas. Primeira dissertação. Capítulo IV. 28. 15. 39. Terceira dissertação. 294. GM. 51. que se mantém na sombra como nós. com modos ainda mais imperiosos. 28. AFZ. na verdade. 43. Terceira dissertação. GC. questão de psicologia animal. GM. 11. 13. Primeira dissertação. sejamos bons! E bom é todo aquele que não ultraja. E. Da virtude amesquinhadora. GM. 3: “Eu sou Zaratustra. 42. GM. que não acerta contas. conforme Nietzsche e a Filosofia. 45. 38. invasão da consciência pela memória das marcas). 15. que remete a Deus a vingança. GM. 13. GM. 35. topológico. 10. porque encarna o espírito de vingança e conduz um empreendimento de acusação perpétua”. Segunda dissertação. GM. implorando – implorando que lhe desse pousada e benévola acolhida e acrescentando. p. 47. GM. dou-lhes as boasvindas como meu alimento. que não ataca. Segunda dissertação. 49. 10 e 13: o rebanho diz “sejamos outra coisa que não os maus. GM. Segunda dissertação. possui dois aspectos ou dois momentos. Primeira dissertação. Segunda dissertação. ele também. Terceira dissertação. em tom bajulador: ‘Vê. 40. 57 . GC. Cozinho na minha panela todo e qualquer acaso. 46. Um. humildes.

265). Primeira dissertação. 201. p. 208. AC. GM.. Gilles Deleuze. Pierre Clastres. GM. sem dúvida: mas necessita primeiro ferir. a doutrina do 'Juízo'”. 1. A sociedade contra o Estado.com Paulo. eu teria tido mais dificuldade de escrever algo como “Da tortura nas sociedades primitivas”. para a formação de rebanho: a fé na imortalidade – ou seja. Nietzsche e a Filosofia. 64. 12. seu meio para a tirania sacerdotal. 65. Pierre Clastres. GM. Terceira dissertação.” (p. GM. 63. p. AC.. Terceira dissertação. Segunda dissertação. o sacerdote quis novamente chegar ao poder – ele tinha utilidade apenas para conceitos. GM. GM. SE. 200.. p. Clastres diz: “Posso reconhecer e afirmar claramente a influência de Nietzsche. Segunda dissertação. A sociedade contra o Estado. Segunda dissertação. 2. Isso é certo. 15. 60. 58 . 56. 58. GM. GM. p.. símbolos com que são tiranizadas as massas. 58. AC. 71. e quando acalma a dor que a ferida produz. Segunda dissertação. Segunda dissertação. Segunda dissertação. da marca. 62. 199. 6. GM.. 66. SE. são formados os rebanhos. doutrinas. Nietzsche e a Filosofia. 21.52. para ser médico. 11. Segunda dissertação. Gilles Deleuze. 42: “. via com clareza infinitamente maior que todos em sua época a questão da memória. 14. Primeira dissertação. 54. 59. GM. Capítulo IV. Porque. sobretudo da Genealogia da moral. Capítulo IV. que provavelmente desconhecia e era indiferente (com razão) à etnologia de sua época. GM. 6. 53.. 70. 15: “Ele traz ungüento e bálsamo. GM. 14. 69. 61. Segunda dissertação. 57. A gente percebe que alguém como Nietzsche. 3. se não tivesse refletido um pouco sobre a Genealogia da moral. envenena no mesmo ato a ferida”. 72. 67. 8. 68. 22. Qual a única coisa que Maomé tomaria depois ao cristianismo? A invenção de Paulo. 55. 11.

Terceira dissertação. VP. CI. 92. 430.73. 85. VP. GM. 55. 112. 59 .. 28. 20: “Com minha condenação do cristianismo não quero ser injusto com uma religião a ela aparentada. VP. 88. GC. 6. 20. embora também seja uma religião niilista. as duas se diferenciam de modo bastante notável”. GM. que nem sequer saberá mais desprezar-se a si mesmo”. GM. essa autodestruição passiva está diretamente relacionada ao “último homem”. Segunda dissertação. 12. 5: “Ai de nós!”. GM. Terceira dissertação. 76. Por que sou tão sábio. o budismo “é mil vezes mais realista do que o cristianismo”. VP. 79. conforme AC. O mundo como vontade e representação. por exemplo. 93. Gilles Deleuze. 87. Segundo Nietzsche. fazem do budismo uma espécie de “higiene”. 81. 80. niilismo reativo e niilismo passivo. 86. 1041. VP. A razão na filosofia. em Nietzsche e a Filosofia. 16. 23. p. diz Zaratustra. 77. 55. Primeira dissertação. Livrar-se dos afetos nocivos de ódio e de vingança e respeitar as outras doutrinas religiosas. O prólogo de Zaratustra. Ai de nós! Aproxima-se o tempo do mais desprezível dos homens. Arthur Schopenhauer.. Das três metamorfoses. As duas são próximas por serem religiões do niilismo – religiões de décadence –. 25. 78. 83. VP. “Aproxima-se o tempo em que o homem não mais arremessará a flecha do seu anseio para além do homem e que a corda do seu arco terá desaprendido a vibrar!. 7. no capítulo V. 75. conforme AFZ. 12. Para Nietzsche. 91. 74. AC. VP. 12. AFZ. que pelo número de seguidores até o supera: o budismo. GC. denomina esses estados psicológicos como niilismo negativo. 84. 89. 82. VP. 55. 125. conforme EC. 6. 90.

96. 55. 103. CI. 148. Anaximandro ficou por aqui: quer dizer. IV: “Primeiro [Anaximandro]. FITG. Das três metamorfoses. as condições que levam o ser a cair num devir em injustiça são sempre as mesmas. 55. VP. Pierre Klossowski. 1. 107. AFZ. 41 (Coleção “Os Pensadores”. 101. 104. A “razão” na filosofia. “já não distingue um mundo físico e um mundo metafísico. 1062. Das alegrias e das paixões. AFZ. 1. Heráclito. 1062. 6. 102. 108. VP. Heráclito exclamou mais alto do que Anaximandro: ‘Só vejo o devir. VP. ficou nas sombras profundas que cobriam como fantasmas gigantescos o cume de uma tal contemplação do mundo”. 99. pergunta a si mesmo: ‘Se há. o simulacro. como é que a multiplicidade é possível?’ E recebe a resposta do caráter contraditório desta multiplicidade que a si se devora e se nega. Nietzsche e o círculo vicioso. EC.94. também já não pôde coibir-se de uma maior audácia da negação: negou o ser em geral. VP. uma vez que já se passou uma eternidade de tempo? De onde provém a torrente sempre renovada do devir?’ Ele só sabe livrar-se desta questão mediante novas hipóteses místicas: o devir eterno só pode ter a sua origem no ser eterno. FP. uma imagem sem semelhança”. 110. mas expia-se incessantemente pelo declínio. não se justifica. um domínio de qualidades definidas e um domínio da indeterminação indefinível. 442).. Mas então ocorre-lhe a questão: ‘Porque é que tudo o que entrou no devir não pereceu já há muito. V. FITG. Platão e o simulacro: “A cópia é uma imagem dotada de semelhança. 109. p.. a constelação das coisas é feita de maneira a não se poder prever termo algum para esta agressão do ser individual do seio do ‘indefinido’. em geral uma unidade eterna. 95. Não vos deixeis enganar! É à vossa vista curta e não à 60 . GC. 106. 55. 100. EC. diz Nietzsche. sobre “Assim falou Zaratustra”. A existência desta multiplicidade torna-se para ele um fenômeno moral. Por que sou um destino. 97. 1067. VP. 105. 341. Gilles Deleuze. p. 98. VP. Após este primeiro passo.

114. No mundo contemporâneo. EC. artificializado e. demasiado humano”. 3. e que por causa dessas coisas perdeu a capacidade de reflexão sobre si mesmo: ele obtém esta sabedoria a partir do ócio a que sua doença o obriga” (em HDH. É evidente que não nos opomos à divulgação do pensamento nietzschiano. DD. por não suportar a agressividade do autêntico pensamento nietzschiano. 118. por isso. muitas vezes. 289). Usais os nomes das coisas como se tivessem uma duração fixa.essência das coisas que deve o fato de julgardes encontrar terra firme no mar do devir e da evanescência.. “Valor da doença – O homem que jaz doente na cama talvez perceba que em geral está doente de seu ofício. 115... 111. demasiado humano”. Ler e falar sobre Nietzsche é uma coisa. que não é nem sombra do grande Nietzsche. 3 e 4. Luiz Fuganti e amigos da Escola Nômade e do Coletivo Usina 61 . 1053. 4. sobre “Humano.. hoje. tentam amansálo. VP. 12. no qual entrais pela segunda vez. sobre “Humano. Segunda dissertação. Agradecimentos Valter A. Nietzsche na mídia chega a ser. GM. EC. O resultado disso é um Nietzsche insosso. 4. 112. de seus negócios ou de sua sociedade. aí é outra coisa muito diferente. observamos o pensamento nietzschiano ser cada vez mais adaptado a interesses antagônicos da sua obra. Rodrigues. sem sua agressividade destruidora de todos os valores vigentes – os mesmos valores que. O homem reativo. mas até o próprio rio. demasiado humano”. mas o critério que invocamos é o seguinte: quem fala sobre Nietzsche? Qual o uso que fazem das suas idéias? Muitos dos seus comentadores contentam-se em esmiuçar detalhes menos importantes no contexto do pensamento nietzschiano. já não é o mesmo que era da primeira vez’”. tenta transformá-lo num objeto consumível. demasiado humano”. útil ao mercado. sem vigor. 113. usar os escritos de Nietzsche como experiência que maquina a potência subversiva do inconsciente. EC. EC. uma coisa medonha. 3. sobre “Humano. sobre “Humano. Fama e eternidade. deixando de lado as idéias que mais lhes incomodam. 116. 117.

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