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Aplicadores António Barreto 24Maio09

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Público • Domingo 24 Maio 2009 • 37

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Bartoon

Ai que era verdade

Miguel Esteves Cardoso Ainda ontem

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meu pai bem me disse, mas eu só me lembrei quando já era tarde. Os conselhos são atalhos. Servem para evitar as más experiências pelas quais é preciso passar para se chegar aonde se quer, caso se esteja sozinho no mundo e não haja ninguém para nos aconselhar. Mas por que magia sádica é que os bons conselhos desaparecem das nossas cabecinhas sem deixar rastro e só nos revisitam depois de termos feito a merda que se destinavam a impedir? Só nos lembramos dos conselhos errados e ridículos. São inúteis, mas são pegajosos. Já os bons são feitos de um material ultramoderno, usado apenas pela NASA: são aéreos até ao momento da asneira e só então solidificam e se pegam para sempre, como argamassa dental, ao interior dos nossos crânios. Será que nos esquecemos para depois dar razão, numa versão em câmara lenta da desconfiança de S. Tomás? Acharemos inconscientemente que vale a pena sofrer para provar que o Não-sei-quantos não mentiu? Seremos assim tão tortuosos? Perdidos na cidade desaconselhada de Alexandria, com o desaconselhado automóvel avariado à beira de uma retrete a céu aberto, na torreira cheirosa do mês desaconselhado, é que nos lembramos daquela noite há 20 anos em que um amigo nosso nos disse para irmos aonde quiséssemos, quando quiséssemos, no carro que quiséssemos, excepto a Alexandria, em Agosto, num Alfa Romeo em segunda mão. Olá. Bem-vindo a mais um clarão procrastinado.

Todos sentem que o ano foi em grande parte perdido. Pior: todos sabem que a escola está, hoje, pior do que há um ano

Aplicadores

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publicação, pelo Ministério da Educação, do Manual de Aplicadores não passou despercebida. Vários comentadores se referiram já a essa tão insigne peça de gestão escolar e de fino sentido pedagógico. Trata-se de um compêndio de regras que os professores devem aplicar nas salas onde se desenrolam as provas de aferição de Português e Matemática. Mais precisos e pormenorizados do que o manual de instruções de uma máquina de lavar a roupa. Mais rígidos do que o regimento de disciplina militar, estes manuais não são novidade. Podem consultar-se os dos últimos quatro anos. São essencialmente iguais e revelam a mesma paranóia controladora: a pretensão de regulamentar minuciosamente o que se diz e faz na sala durante as provas. lguns exemplos denotam a qualidade deste manual: “Não procure decorar as instruções ou interpretá-las, mas antes lê-las exactamente como lhe são apresentadas ao longo deste manual.” “Continue a leitura em voz alta: Passo agora a ler os cuidados a terem ao longo da prova. (...) Estou a ser claro(a)? Querem fazer alguma pergunta?” “Leia em voz alta: Agora vou distribuir as provas. Deixem as provas com as capas para baixo, até que eu diga que as voltem.” “Leia em voz alta: A primeira parte da prova termina quando encontrarem uma página a dizer PÁRA AQUI! Quando chegarem a esta página, não podem voltar a folha; durante a segunda parte, não podem responder a perguntas a que não responderam na primeira parte. Querem perguntar alguma coisa? Fui claro(a)?” Além destas preciosas recomendações, há dezenas de observações repetidas sobre os apara-lápis, as canetas, o papel de rascunho, as janelas e as portas da sala. Tal como um GPS (“Saia na saída”), o manual do aplicador não se esquece de recomendar ao professor que leia em voz alta: “Escrevam o vosso nome no espaço dedicado ao nome.” Finalmente: “Mande sair os alunos, lendo em voz alta: Podem sair. Obrigado(a) pela vossa colaboração”! A leitura destes manuais não deixa espaço para muitas conclusões. Talvez só duas. A primeira: os professores são atrasados mentais e incompetentes. Por isso deve o escla-

recido ministério prever todos os passos, escrever o guião do que se diz, reduzir a zero quaisquer iniciativas dos professores, normalizar os procedimentos e evitar que profissionais tão incapazes tenham ideias. A segunda: a linha geral do ministério, a sua política e a sua estratégia estão inteiras e explícitas nestes manuais. Trata os professores como se fossem imaturos e aldrabões. Pretende reduzi-los a agentes automáticos. Não admite a autonomia. Abomina a iniciativa e a responsabilidade. Cria um clima de suspeição. Obriga os professores a comportarem-se como robôs. A ser verdadeira a primeira hipótese, não se percebe por que razão aquelas pessoas são professores. Deveriam exercer outras profissões. Mesmo com cinco, dez ou 20 anos de experiência, estes professores são pessoas de baixa moral, de reduzidas capacidades intelectuais e de nula aptidão profissional. O ministério, que os contratou, é responsável por uma selecção desastrada. Não tem desculpa. Se a segunda for verdade, o ministério revela a sua real natureza. Tem uma concepção centralizadora e dirigista da educação e da sociedade. Entende sem hesitação gerir directamente milhares de escolas. Considera os professores imbecis e simulados. Pretende que os professores sejam funcionários obedientes e destituídos de personalidade. Está disposto a tudo para estabelecer uma norma burocrática, mais ou menos “taylorista”, mais ou menos militarizada, que dite os comportamentos dos docentes.

não interessa saber quem tem razão. Todos têm uma parte e todos têm falta de alguma. A situação criada é a de um desastre ecológico. Serão precisos anos ou décadas para reparar os estragos. Só uma nova geração poderá sentir-se em paz consigo, com os outros e com as escolas. lhemos para as imagens na televisão e nos jornais. Visitemos algumas escolas. Ouçamos os professores. Conversemos com os pais. Falemos com os estudantes. Toda a gente está cansada. A ministra e os dirigentes do ministério também. Os responsáveis governamentais já só têm uma ideia em mente: persistir, mesmo que seja no erro, e esperar sofridamente pelas eleições. Os professores procuram soluções para a desmoralização. Uns pedem a reforma ou tentam mudar de profissão. Outros solicitam transferência para novas escolas, na esperança de que uma mudança qualquer engane a angústia. Há muitos professores para quem o início de um dia de aulas é um momento de pura ansiedade. Foram milhares de horas perdidas em reuniões. Quilómetros de caminho para as manifestações. Dias passados a preencher formulários absurdos. Foram semanas ocupadas a ler directivas e despachos redigidos por déspotas loucos. Pais inquietos, mas sem meios de intervenção, lêem todos os O ministério trata os dias notícias sobre as escolas transformaprofessores como se fossem das em terrenos de batalha. Há alunos que ameaçam ou agridem os professores. E há imaturos e aldrabões. docentes que batem em alunos. Como exisNão admite a autonomia. tem estudantes que gravam ou fotografam as aulas para poderem denunciar o que lá Abomina a iniciativa se passa. O ministério fez tudo o que podia para virar a opinião pública contra os proe a responsabilidade. fessores. Os administradores regionais de Cria um clima Educação não distinguem as suas funções das dos informadores. As autarquias deide suspeição. xaram de se preocupar com as escolas dos seus munícipes porque são impotentes: não Obriga os professores sabem e não têm meios. Todos estão exausa comportarem-se tos. Todos sentem que o ano foi em grande parte perdido. Pior: todos sabem que a como robôs escola está, hoje, pior do que há um ano.

António Barreto Retrato da semana

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ano lectivo chega ao fim. Ouvem-se gritos e suspiros. Do lado, do ministério, festeja-se a “vitória”. Parece que, segundo Walter Lemos, 75 por cento dos professores cumpriram as directivas sobre a avaliação. Outras fontes oficiais dizem que foram 57. Ainda pelas bandas da 5 de Outubro, comemora-se o grande “êxito”: as notas em Matemática e Português nunca foram tão boas. Do lado dos professores, celebra-se também a “vitória”. Nunca se viram manifestações tão grandes. Nunca a mobilização dos professores foi tão impressionante como este ano. Cá fora, na vida e na sociedade, perguntamo-nos: “vitória” de quem? Sobre quê? Contra quem? Esta ideia de que a educação está em guerra e há lugar para vitórias entristece e desmoraliza. Chegou-se a um ponto em que já quase

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