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O Que é Justiça - Trabalhos de Pesquisa - Camilassouza
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O Que é Justiça
O que é Justiça

Enviado por camilassouza, junho 2012 | 207 Páginas (51698 Palavras) | 8 Consultas|

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A JUSTIÇA, O DIREITO E A POLÍTICA NO ESPELHO A CIÊNCIA

HANS KELSEN

Resumo elaborado em Junho/2010 I. O QUE É JUSTIÇA? 2 II. A IDÉIA DE JUSTIÇA NAS SAGRADAS ESCRITURAS 11 III. A JUSTIÇA PLATÔNICA 20 IV. A DOUTRINA DA JUSTIÇA DE ARISTÓTELES 26 V. A DOUTRINA DO DIREITO NATURAL PERANTE O TRIBUNAL DA CIÊNCIA 30 VI. UMA TEORIA “DINÂMICA” DO DIREITO NATURAL 36 VII. JUÍZOS DE VALOR NA CIÊNCIA DO DIREITO 43 VIII. O DIREITO COMO TÉCNICA SOCIAL ESPECÍFICA 47 IX. POR QUE A LEI DEVE SER OBEDECIDA? 51 X. A TEORIA PURA DO DIREITO E A JURISPRUDÊNCIA ANALÍTICA 54 XI. DIREITO, ESTADO E JUSTIÇA NA TEORIA PURA DO DIREITO 59 XII. CAUSALIDADE E RETRIBUIÇÃO 62 XIII. CAUSALIDADE E IMPUTAÇÃO 65 XIV. CIÊNCIA E POLÍTICA 68 O QUE É JUSTIÇA? A JUSTIÇA, O DIREITO E A POLÍTICA NO ESPELHO A
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CIÊNCIA Hans Kelsen I. O QUE É JUSTIÇA? O autor introduz o ensaio com Jesus de Nazaré, durante o seu julgamento, que perante um pretor romano admite ser rei e diz “vim ao mundo para dar testemunho da verdade”; Ao que Pilatos perguntou: “O Que é verdade?” Jesus não responde, pois dar testemunho da verdade não era a sua missão de rei messiânico, pois nascera para dar testemunho de justiça, justiça aquela que Ele desejava concretizar no reino de Deus, e por ela morrer na cruz. Assim, do questionamento de Pilatos emergia uma outra questão – O que é justiça? Essa questão, de Platão a Kant, foi discutida com a paixão que nenhuma outra suscitou, muito embora continue até hoje sem resposta. Assim, o resignado sabe que o homem nunca encontrará uma resposta definitiva, apenas deverá saber perguntar melhor o que ela signifique. A JUSTIÇA COMO UM PROBLEMA DE RESOLUÇÃO DE CONFLITOS DE INTERESSES OU DE VALORES 1. A justiça é, inicialmente, uma característica possível, mas não necessária à ordem social. É virtude do homem e encontra-se em segundo plano. O homem é justo quando seu comportamento corresponde a uma ordem dada como justa. Mas o que é uma ordem justa? É a ordem que regula o comportamento dos homens e contenta a todos, de modo a encontrarem a felicidade. O eterno anseio por justiça é o eterno anseio do homem por felicidade. Justiça é a felicidade social. Platão identifica justiça e felicidade: o justo é feliz e o injusto, infeliz. Se a justiça é felicidade, o que é felicidade? 2. Ao se entender felicidade como o sentimento subjetivo que cada um compreende para si mesmo, é impossível se falar em ordem social justa, pois jamais se proporcionará felicidade a todos, sendo inevitável que a felicidade de um pode entrar em conflito com a felicidade do outro. Exemplos: 2 (dois) homens amam uma mesma mulher e ambos acreditam que o seu amor é a sua fonte de felicidade. Como ela somente pode pertencer a um deles, a felicidade de um culminará na infelicidade do outro. Sob esse prisma, jamais haverá ordem social que possa solucionar um problema de forma justa, ou seja, da maneira que todos os homens possam ser igualmente felizes. A sentença salomônica, do sábio rei Salomão, que mandou dividir uma criança ao meio para entregar cada metade à uma das mães que a reivindicava, para realmente entregá-la à mãe que abdicasse do seu direito (comprovando, assim, verdadeiramente amá-la, segundo o rei) é justa somente se uma das mulheres amar a criança. Se ambas as mulheres a amarem, e por isso abdicarem do seu direito, o litígio permanecerá pendente, e ainda que a criança seja adjudicada por uma das partes, a decisão não será justa, pois uma das partes sairá infeliz. Da mesma forma, a escolha de um dentre dois homens de igual capacidade para comandar um exército, tendo sido escolhido o mais
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capacidade para comandar um exército, tendo sido escolhido o mais adequado o de boa aparência e que demonstra uma personalidade forte, demonstra que não há ordem social que possa compensar totalmente as injustiças da natureza.

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3. Se justiça é felicidade, a ordem social é impossível, enquanto justiça significar felicidade individual. A ordem social justa é impossível ainda que procure proporcionar, ao menos, a maior felicidade do maior número de pessoas possível. (definição de justiça de Jeremy Bentham). Essa formulação não se aplica se o conceito de felicidade for subjetivo, um valor subjetivo, com as diferentes concepções de cada indivíduo. A felicidade capaz de ser garantida pela ordem social é a de sentido objetivo-coletivo, jamais no sentido subjetivo-individual. Dessa forma, por felicidade, somente poderemos entender a satisfação de certas necessidades reconhecidas como tais pela autoridade social – o legislador – como a necessidade de alimentação, vestuário, moradia e equivalentes. Tem-se, pois, que a satisfação das necessidades socialmente reconhecidas é algo diverso do sentido original da palavra felicidade, que tem natureza altamente subjetiva. 4. O conceito de felicidade deverá sofrer, assim, uma radical transformação de sentido para tornar-se uma categoria social: a felicidade da justiça. Tal qual o conceito de liberdade, para se tornar um princípio social; o conceito de liberdade é freqüentemente identificado com o de justiça, na medida em que uma ordem social é considerada justa se garantir a liberdade individual. A verdadeira liberdade (de qualquer jugo, de qualquer tipo de governo) é incompatível com todo o ordenamento social, sendo que o seu conceito não pode conservar o significado negativo da existência livre de governo; deve, pois, aceitar uma forma especial de governo: liberdade deve significar governo pela maioria, se necessário contra a minoria. Da mesma forma, o conceito de justiça transforma-se de princípio que garante a felicidade individual de todos em ordem social que protege determinados interesses, reconhecidos como dignos dessa proteção pela maioria dos subordinados a essa ordem. 5. Mas quais os interesses humanos que têm esse valor e qual é a hierarquia desses valores? É essa a questão que coloca quando surgem conflitos de interesses. Somente onde há tais conflitos é que a justiça se torna um problema, pois onde não há conflitos de interesses não há necessidade de justiça. Um conflito de interesses somente se apresenta quando um interesse só pode ser satisfeito a custa de outro, ou seja, quando dois valores se contrapõem e não é possível a concretização de ambos. Assim, deve-se decidir qual dos interesses é o maior, o mais elevado. O problema de valores é, antes de tudo, o problema dos conflitos de valores. Tal problema não é solucionado com meios do conhecimento racional, mas é determinado por fatores emocionais e possui, portanto, caráter subjetivo. Significa dizer que o juízo de valor só é válido para o sujeito que julga, sendo portanto relativo. HIERARQUIA DE VALORES

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mesmo que tal afirmação não www. mas igualmente ética. 9. Tal concepção ética é contrária .com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. “A vida mais justa é mais bem-aventurada” – disse Platão. De acordo com determinada convicção ética. que. é o sentimento e a vontade (não a razão). que se fundam em concepções contraditórias. é pura e simplesmente impossível decidir de modo racional-científico entre os dois juízos.Camilassouza 6. ou inválido. é impossível de se saber com base em considerações racionais-científicas. 10. Contudo. sendo dela somente possível extrair uma resposta subjetiva. que pode ser verificado através da experimentação. e o injusto é infeliz. onde se garanta segurança econômica para todos na mesma proporção. feliz. Discorre-se de outro conflito de juízo de valores: é preferível que um povo adote uma chamada economia de planejamento. 7. o suicídio poderia ser eticamente válido. Igual conflito também é sopesado quando se trata dos valores liberdade e vida: o suicídio de um escravo ou prisioneiro capturado é eticamente admissível? A depender de qual concepção ética a ser adotada.19/07/13 HIERARQUIA DE VALORES O Que é Justiça . mais uma vez. 8. Mas qual desses valores é maior: a liberdade individual ou a segurança? Trata-se novamente de juízo de valor. a vida humana é o valor maior. os metais se expandem no calor – são juízos de realidade). válida somente para o sujeito que julga (é juízo de valor). Assim. Contudo. que são elementos emocionais da atividade consciente que solucionam o conflito. É a questão da hierarquia dos valores vida e liberdade. e injusto aquele que se comporta contrariamente à lei. ou é preferível a liberdade individual? Aos que tenham muita autoconfiança. é absolutamente proibido matar um ser humano. Em última análise. Somente o justo é feliz. como um juízo de realidade (ex: o fogo queima. é absolutamente necessário que os cidadãos subordinados ao ordenamento legal acreditem na verdade da afirmação de que somente o justo é feliz. o dever ético de sacrificar a sua própria vida e de matar o inimigo da nação. Platão defende a idéia de que é justo aquele que se comporta de acordo com a lei. Não é uma constatação válida para todos.html seja verdadeira. por essa concepção.Trabalhos de Pesquisa . todo 4/105 . em um ou outro caso. do contrário. continua o filósofo. Há ainda o conflito de valor do médico que constata ser o paciente portador de doença incurável que em pouco tempo o levará à morte: deverá ele contar ao paciente ( valor do apego à verdade) ou mentir para poupá-lo de sofrimento maior já que está no final de sua vida (valor da compaixão)? Trata-se novamente de decidir de qual desses valores é hierarquicamente superior para se saber se a decisão tomada é ou não ética. tendo o indivíduo. ninguém obedecerá às leis. à daqueles cuja convicção de que o interesse e a honra da nação são um valor maior. e aos que sofram de complexo de inferioridade. em troca da supressão da liberdade individual. Dessa forma. é preferível a liberdade individual. Em decorrência dessa concepção. não juízo de realidade. Platão admite a hipótese de que.trabalhosfeitos. melhor será a segurança econômica. o homem justo possa ser infeliz e o injusto.

com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. liberdade e igualdade. todo governo tem o direito de propagar a idéia de que o homem justo é feliz e o injusto. a depender da pessoa que se pergunta. O fato de tais valores serem aceitos por todos os membros de uma sociedade é perfeitamente compatível com o caráter subjetivo e relativo dos juízos que mantém esses valores. é um fenômeno social e. distinto. Como exemplo. profissão) e sob condições econômicas específicas. É o que talvez uma das características que o diferencie do animal. porém de aceitação igualmente geral. O comportamento exterior do homem não se diferencia muito do comportamento dos www. ou seja. opostos àqueles em maior ou menor escala. Todo sistema de valores. infeliz. indivíduo e nação. Assim. na sociedade primitiva considerava-se justa a responsabilização coletiva (ou responsabilidade hereditária – pecado original) enquanto na sociedade moderna. é o princípio oposto (responsabilidade individual). o fato de a maioria dos homens ter acreditado na idade media que o sol girava em torno da terra não é ou foi prova de que essa crença se baseia na verdade. A unanimidade sobre um juízo de valor existente entre muitos indivíduos não é absolutamente prova de que esse juízo seja correto. à verificar qual é o juízo de valor que adota.trabalhosfeitos. Por exemplo. isto é. que Platão coloca o valor justiça (considerada como legalidade) como superior ao valor verdade. clã. Concluise. pois garante a obediência às leis. 11. mas resultado de uma influência exercida por indivíduos uns sobre os outros num determinado grupo (tribo. especialmente uma ordem moral com sua idéia central de justiça. liberdade e segurança. em razão da sua consciência. relativo. pois. ninguém obedecerá às leis. 13. Um sistema de valores positivo não é uma criação arbitrária de um indivíduo isolado. O critério justiça.Camilassouza seja verdadeira. A JUSTIÇA COMO UM PROBLEMA DE JUSTIFICAÇÃO DO COMPORTAMENTO HUMANO 12. conforme a natureza da sociedade na qual teve origem. não significa que cada indivíduo tenha seu próprio sistema de valores. juízos de valor de aceitação geral foram freqüentemente suplantados por outros. portanto. A resposta terá sempre o caráter de um juízo de valor subjetivo e. Dessa forma. apego à verdade e compaixão. casta. do contrário. de uma norma de valor absoluto. Na história humana. O fato de juízos de valor legítimos serem subjetivos (o que possibilita a existência de juízos de valor bem diversos). A resposta à pergunta sobre a hierarquia de valores – como vida e liberdade.19/07/13 O Que é Justiça .html 5/105 . conseqüentemente. a resposta de uma indagação de qual juízo de valor é o mais adequado constitui a afirmação de um valor objetivo. assim como o de verdade. Embora não se possa responder racionalmente qual seja o valor maior. objetivamente válido. A justificação ou racionalização é uma singularidade do homem. verdade e justiça. será necessariamente diversa. mesmo que isso seja uma mentira. a mentira é extremamente útil. família.Trabalhos de Pesquisa . não é de modo algum a freqüência com que surgem os juízos de realidade ou de valor.

A relação entre meio e fim coincide com a de causa e efeito e pode. 14.Camilassouza animais: os peixes grandes devoram os pequenos. procura justificar sua conduta perante si próprio e a sociedade para aplacar a idéia de que o seu comportamento para com o semelhante é bom. deverá ser aceita como justa. pois . E é exatamente a justificação do fim. somente podendo se relacionar com um determinado fim a ser atingido. o que atualmente é desconhecido. Contudo. Trata-se de se supor se um fim ultimo. impossível. então uma outra forma de regime. o “peixe humano”. A democracia é uma forma de regime justa. por vezes.Trabalhos de Pesquisa . Dessa forma. a democracia somente é justificável como forma de regime relativa e não absolutamente boa. um fim maior. quando os meios para realizar determinado fim sejam de natureza social.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308.html 6/105 . Se o comportamento é justificável somente como meio adequado para um fim pressuposto. Tal questão é vista quando o legislador enfrenta o dilema de decidir se deve ameaçar o cometimento de tal crime com pena de morte ou com prisão. também não é meio para alcançá-lo. procura justificar seu comportamento racionalmente. Isso pode ser. ser comprovada com base na experimentação e. daquele fim que não é mais meio para um fim mais alto.19/07/13 O Que é Justiça . que assim age igualmente por instinto. A justificação assim condicionada. o fim último ou maior. Sendo o homem racional. não mais a democracia. de modo científico-racional. pois o estado atual da ciência ainda não permite uma compreensão clara do nexo de causalidade entre os fenômenos sociais . que se constitui a justificação definitiva de nosso comportamento. e comprovada que ela não pode ser alcançada em um regime democrático. tal justificação racional é restrita. pois assegura a liberdade individual. que é o problema efetivo da moral geral e da justiça em particular. deve-se perguntar também se o fim é igualmente justificável. pois por meios altamente adequados podem ser atingidos fins altamente duvidosos. Se ao invés da liberdade individual for a segurança econômica o fim maior. portanto. não exclui a possibilidade do seu oposto. através da função razão. Os fins justificam (ou santificam) os meios. conseqüentemente. Quando um comportamento humano é justificável para determinado fim. 15. Outros fins exigem outros meios. não sendo justificável o fim último. para a sua repressão: deveria conhecer o efeito causado pela ameaça das diversas penas sobre os homens com tendências a cometer os crimes dos quais se procura reprimir. sua justificação também estará condicionada ao fato de o fim pressuposto ser também justificável. contudo. Isso significa que a democracia somente é justa sob a premissa de a preservação da liberdade individual ser o fim maior. bem como não há experiência suficiente que habilite o homem a afirmar de modo preciso quais os meios mais apropriados para a realização de determinados fins sociais. portanto relativa nesse sentido. Assim. mas os meios não justificam os fins. mas impelido pelo seu desejo ou pelo temor.trabalhosfeitos. E é por isso que nem sempre o problema da justiça nem sempre é solucionável de forma racional. www. não se consegue fornecer uma justificação total para a nossa consciência.

Inclui justiça. Nossa consciência pode não se contentar com uma justificação assim condicionada. que procura responder “o que é justiça?” com a pergunta “o que é bom ou o que é o Bem?”. por isso o homem busca na religião ou na metafísica essa justificação (justificação absoluta). que a nossa conduta corresponda a um valor absoluto.iludindo-se. inacessíveis á cognição humana. que denomina serem as idéias substâncias transcendentais. O absoluto em geral e valores absolutos em particular encontram-se além da razão humana. 17. Ela exigirá que justifiquemos nosso comportamento como fim último. Esta desempenha na filosofia de Platão um papel idêntico ao de Deus na teologia de qualquer religião. a idéia de valores absolutos. A idéia do Bem absoluto é a idéia fundamental a qual se subordinam todas as demais e da qual elas obtêm sua validade. Os que não conseguem aceitar tal solução metafísica sustentam.Trabalhos de Pesquisa . pois.19/07/13 forma de regime relativa e não absolutamente boa. o que dá no mesmo. Contudo. transcendental. Platão procura responder essa questão www. Assim teremos a consciência tranqüila se justificarmos nosso comportamento apenas como meio adequado para um fim. Se nossa consciência postula valores absolutos. O homem deve acreditar na existência de Deus. na existência de uma justiça absoluta. revelam-se. uma divindade. sendo a justiça o problema central de toda sua filosofia. A definição de valores absolutos e definição de justiça em particular. Ela pode exigir uma justificação incondicionada. na verdade. mas de nenhum deles ocorre um resultado definitivo. mas incapaz de compreendê-la. todavia. Desenvolve a famosa doutrina das idéias.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. Platão é o representante clássico do tipo metafísico. fórmulas vazias. através das quais toda e qualquer ordem social pode ser legitimada. alusiva a quase todos os diálogos de Platão. numa esfera inteligível. Representam valores absolutos que. pois toda justificação é. uma justificação como meio adequado. com a possibilidade de encontrar valores absolutos que são. de defini-la abstratamente. ou. PLATÃO E JESUS 18. para a qual só é possível uma solução condicionada e portanto relativa do problema da justiça como um problema de justificação do comportamento humano.Camilassouza 16. embora devessem ser concretizados no mundo dos sentidos. cuja justificação pareça duvidosa. segundo o autor. aferíveis de modo racionalcientífico. um fim último não é mais um meio para outro fim. então a nossa razão não tem condições de suprir tais exigências.trabalhosfeitos. absoluta. Isso é impossível por meios racionais. a necessidade de justificação absoluta parece ser mais forte que qualquer reflexão racional. Isso significa. nunca o são totalmente. inacessível ao homem perturbado pela sensorialidade. constituídos por elementos emocionais. cujas características e funções são.html de forma racional. 7/105 .por sua natureza. Em quase todos os seus diálogos. por sua natureza. que a justiça desse mundo é deslocada para um outro mundo. existentes em outro mundo. O Que é Justiça . Sua concretização se torna a função essencial de uma autoridade sobre-humana. para o problema.

AS FÓRMULAS VAZIAS DA JUSTIÇA 20. sendo o amor representado por essa justiça algo diverso do amor humano. apesar de ter sido aceita por muito pensadores importantes. É apreendido por meio de uma vivência mística. que é um método específico de pensamento abstrato. Assim. Platão reconhece que ele se encontra além de todo conhecimento racional e além de todo ato de pensar. Dessa forma.Camilassouza de forma racional. sobretudo filósofos de direito. Corrobora isso o ensinamento de Paulo. devendo-se amar o malfeitor e até mesmo o inimigo).19/07/13 O Que é Justiça . inconcebível ao homem. ensinando que a filosofia. o que não seria possível. está representado tanto na sabedoria popular de muitas nações como em consagrados sistemas filosóficos. Segundo uma das sete sabedorias gregas. seja capitalista www. o conhecimento lógico-racional. anunciando como sendo a nova e verdadeira justiça o princípio do amor (retribuição do mal com o bem. Assim. Sobre a idéia do Bem absoluto. pois é contrário à natureza humana. é facilmente demonstrável ser vazia. O tipo racionalista. Essa fórmula. sendo esse um mistério dentre muitos outros mistérios da fé. Platão conclui que não pode haver resposta à questão da justiça. a definição de justiça é “conceder a cada um aquilo que é seu”. sempre concluindo ser necessário proceder mais análises. que procura definir o conceito de justiça.Trabalhos de Pesquisa . sendo essa justiça somente revelada através da fé. O método a qual freqüentemente Platão menciona em seus diálogos é a dialética. Essa contradição Jesus não procurou explicar. contida na sabedoria oculta de Deus. 19. mas de nenhum deles ocorre um resultado definitivo.trabalhosfeitos. nesse aspecto. sobre a nova justiça. sendo também o temor divino mais profundo que o humano. cujo fundamento maior também era a justiça. Essa justiça encontra-se além de qualquer ordenação possível dentro de uma realidade social. Contudo. essa fórmula “conceder a cada um aquilo que é seu” pode justificar qualquer ordem social. não é o caminho para a sabedoria divina. ele próprio não se utilizava desse método em seus diálogos. livre de toda representação sensorial e que capacita quem o domina à apreensão das idéias. pois é uma contradição apenas para a limitada razão humana.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. tal princípio somente pode ser aplicado sob a premissa de se ter decidido previamente essa questão. Jesus refutou o princípio da retaliação contido no velho testamento. primeiro teólogo da religião cristã. que confia a sua resposta – se é que o faz – a poucos escolhidos. Também admite Paulo que o amor pregado pro Jesus. O amor pregado por Jesus não é o amor dos homens. A filosofia de Platão assemelha-se. que impreterivelmente não conseguirão transmitir esse conceito aos outros. se encontra além do conhecimento racional. não para a razão absoluta de Deus. já que se trata de um mistério de Deus. conhecida a poucos e somente por graça divina. pois a questão decisiva – o que realmente cada um pode considerar como sendo “seu” – permanece sem resposta. à pregação de Jesus.html 8/105 . ou seja. É o amor de Deus. Mas o mais estranho desse amor é compatibilizá-lo com o castigo cruel e eterno afligido aos pecadores no dia do Juízo Final.

trabalhosfeitos. . O mesmo se aplica ao princípio “o bem paga-se com o bem. as diferenças a serem consideradas para tratar igualmente os homens? A essa questão o princípio da igualdade não oferece resposta.html 9/105 . se o fato contra o qual o Direito reage como algo injusto. é justa. ao aplicar o princípio da retaliação. o mal com o mal” (princípio da retaliação). 22. loucos como sãos. somente é possível aferir que o ordenamento social não deve levar em consideração determinadas diferenças na concessão de direitos e imposição de deveres. essa formulação necessita prévia elucidação da questão decisiva: o que é o bem e o que é o mal? Apesar de aparentemente fácil essa definição. uma vez que opiniões sobre o que é o bem e o que é o mal divergem muito entre os povos distintos e em épocas diferentes. Do mesmo modo. Mas esse princípio é o qual se baseiam todas as normas jurídicas positivas. possibilitando qualquer ordem social ser dada como justa. contudo. democrática ou autocrática. Enquanto numa sociedade concede-se direitos políticos apenas aos homens (e não às mulheres). a sua resposta não é. A questão da justiça é. ela possibilita apreciar como justo valores apenas relativos a uma determinada ordem social. outra obrigam somente aos homens alistar-se no serviço militar. É essa a questão específica. toda ordem jurídica pode ser justificada como concretização do princípio da retaliação. é realmente um mal para a sociedade. e. Apenas algumas diferenças. moral ou jurídica positiva.19/07/13 O Que é Justiça . O princípio da retaliação expressa somente a técnica específica do |Direito positivo. não existindo realmente duas pessoas iguais.Camilassouza ou socialista. Tal afirmação é errônea. Mas o que é justo? Aquele que é indiferente perante a religião tenderá á considerar as diferenças religiosas insignificantes. Conclui-se que essa fórmula não define justiça de modo absoluto. pois além de não ter qualquer valor como definição de justiça (sendo necessário previamente determinar-se um valor absoluto: definir o que é de cada um). mas o que tem fé considerará fundamental a diferença dentre aqueles que compartilhem da sua fé e todos os demais (infiéis) e entenderá como justo conceder àqueles www.Trabalhos de Pesquisa . por isso. pois seria absurdo tratar crianças como adultos. Quais seriam e não seriam. devendo todos eles serem tratados com igualdade.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. ou seja. nunca todas elas. porém. Dessa exigência. divergindo igualmente as ordens jurídicas positivas a esse respeito. absolutamente óbvia. idosos como jovens. e se o mal que o Direito estabelece como conseqüência do injusto pode ser considerado como tal. eis que os homens são bem diferentes. ela é uma das múltiplas variedades nas quais aparece o princípio da igualdade. opondo-lhe portanto o mal da conseqüência do injusto. muito embora não ignorem tais diferenças para a concessão de direitos e imposição de deveres. então. Tal princípio parte da premissa de que todos os homens (tudo aquilo que tem fisionomia humana) são iguais por natureza. para a qual o princípio da retaliação não constitui uma resposta. considerado a essência da justiça. 21. aferir se uma ordem jurídica. Sendo que retaliação significa retribuir igual com igual. que associa o mal do injusto ao mal da conseqüência do injusto.

não aparente – conclui Marx – somente poderá ser concretizada numa economia comunista. O Que é Justiça . Marx diz que se trata de um direito desigual. sem que. é injusto ser considerado igual o mesmo volume de trabalho realizado por um homem forte e habilidoso ou por um homem fraco e desajeitado. de acordo com a sua própria avaliação. 23. Essa é a ordem na qual se fundamenta a ordem social capitalista. segundo suas tendências naturais? É evidente que essas questões não podem ser decididas por cada indivíduo. Por isso afirma ser um direito injusto.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. não significando que os órgãos jurídicos devam fazer distinções que a própria legislação a ser aplicada não o faça (ex: direitos políticos somente aos homens. É o princípio da legalidade ou juridicidade. portanto. . como todo o direito. justiça verdadeira. Quais as necessidades podem ser satisfeitas? Por certo.html central. sendo tal igualdade apenas aparente. não às mulheres. O chamado princípio da igualdade perante a lei significa apenas que a legislação deve ser aplicada de acordo com o seu sentido. não importando se essa ordem é justa ou injusta. Se esse princípio fosse aplicado a uma economia de produção planejada (é a estabelecida por uma autoridade central). 24. receberão igual por desigual. essa ordem jurídica entre em contradição com o princípio da igualdade sendo. onde vale o axioma: cada um conforme suas capacidades. por isso. Igualdade verdadeira e. A aplicação do princípio da igualdade em relação à produtividade e renda conduz à exigência: conceder a mesma produtividade igual participação na renda. o pretenso direito igual desse sistema econômico (Karl Marx). pois se ambos obtiverem a mesma remuneração. colocam-se as seguintes questões: Quais as aptidões de cada um? Para que tipo de trabalho cada um é capacitado? Qual o volume de trabalho que se pode exigir de cada pessoa. somente à cidadãos. e de acordo com as normas gerais estabelecidas pela autoridade social. portanto. com isso. imanente por natureza a toda ordem jurídica. onde a mão 10/105 . esse princípio por demais vazio para determinar o conteúdo de uma ordem jurídica. somente aquelas para cuja satisfação funcione o processo de produção planejado.19/07/13 todos os demais (infiéis) e entenderá como justo conceder àqueles direitos que serão negados estes. Portanto. a base de um tratamento diferenciado. somente a membros de uma determinada raça ou religião. E nem mesmo na sociedade comunista do futuro. deve ser interpretado no sentido de que somente os iguais deverão ser tratados de forma igual.trabalhosfeitos. significando a sua questão decisiva: o que é igual? Essa questão não é respondida pelo denominado princípio da igualdade. pois não leva em consideração a diversidade existente entre os homens no tocante à sua capacidade de trabalho. não à estrangeiros. pois não leva em consideração a diversidade existente entre os homens no tocante a sua capacidade de trabalho. conduzido por uma autoridade www.Camilassouza O princípio da igualdade.Trabalhos de Pesquisa . mas pelo órgão da comunidade constituído para tal fim. cada um conforme suas necessidades. toda e qualquer diferença poderá ser considerada essencial no tratamento dos subordinados à lei por uma ordem jurídica positiva e ser. não aos das outras).

resumida à norma cada um conforme suas capacidades. deve continuar nas mãos da autoridade central. Como se comportar contra o violador dessa regra? É essa a questão da justiça: se ninguém causasse dor a outrem. 25. contudo. Em conclusão.Trabalhos de Pesquisa . da mesma forma que a proposição “a cada um aquilo que é seu” que a resposta às questões decisivas para a sua aplicação seja dada por uma ordem social positiva. ninguém pode prever como uma tal ordem. e como serão por ela solucionadas as questões decisivas para a aplicação do princípio comunista de justiça. No modo positivo: “o que queres que te façam. tendo como conseqüência a inexistência de conflitos de interesses. E nem mesmo na sociedade comunista do futuro. KANT 26. ninguém deseja que o outro lhe cause dor. comporte-se conforme uma regra objetiva. reconhecidas pela ordem social comunista. pelo fato de que é ordem da moral positiva e do direito positivo que está sendo pressuposta. Embora se trate de uma ordem social determinada. e nesse caso o horizonte muito mais amplo da justiça deverá ter sido ultrapassado. de forma a existir na sociedade comunista harmonia entre todos os interesses coletivo e individuais.Camilassouza central. determinada por essa ordem visa garantir a satisfação das necessidades do indivíduo . certamente. sendo isso pura utopia que. Dessa forma.19/07/13 O Que é Justiça . o sistema comunista de justiça pressupõe. a regra seria a seguinte: comporte-se de acordo com as normas gerais da ordem social. Essa interpretação culminaria à obrigatória conclusão à supressão da moral e do direito que. chegaremos à conseqüência absurda de que não devemos castigar os criminosos. pois não gostaríamos de ser castigados. por meio de interpretação. a extensão de sua satisfação poderá ser entregue a cada um. O axioma denominado regra de ouro “não faças aos outros o que não queres que te façam” também decorre do princípio da igualdade. se realizará.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. a cada um conforme suas necessidades. Conclui-se que essa forma proposta por Marx. onde a mão de obra produtiva cresça e todas as fontes de riqueza jorrem com abundância (Marx). E a resposta a ela não é dada através da regra de ouro. Se o critério subjetivo contido no teor da regra de ouro for substituído por um critério objetivo. a regra de ouro deverá ser entendida no sentido de estabelecer um critério objetivo. Essa fórmula tautológica de interpretação da regra de ouro levou Immanuel Kant à formulação do famoso imperativo www. haveria liberdade individual ilimitada.html 11/105 . faze-o tu também aos outros”.trabalhosfeitos. Contudo. Mas como devemos nos comportar? Essa é a questão de justiça. será um violador da regra de ouro. não é a sua intenção. significando: comporte-se perante os outros conforme os outros devem se comportar perante você. se um homem sentir prazer em causar dor ao outro. mas sim que um deseja que o outro lhe cause prazer. aplicarmos a regra de ouro em caso de sua violação. Se. somente prazer. ou seja. por se realizar num futuro distante. será vivenciada no futuro. Assim. segundo Marx. Portanto. não haveria problema algum de justiça. mas por ela pressuposta.

visa a um sistema de virtudes. Aristóteles afirma ter encontrado um método científico (matemáticogeométrico) para determinar as virtudes. por exemplo. Portanto. dois vícios.html 12/105 . ou seja. Mas quais seriam essas normas? É essa a questão decisiva da justiça e o modelo do imperativo categórico. constata-se que a sua aplicação refere-se aos regulamentos d amoral tradicional e do direito positivo de sua época. porém. sendo (segundo Aristóteles) o comportamento justo o meio-termo entre praticar o injusto e sofrer o www. 29. Ex: a virtude da coragem. portanto. à ordem social estabelecida. 27. se a tendência à mentira é vício. ao agir. Assim. O caráter tautológico da fórmula de mesótes torna-se evidente quando se aplica à virtude da justiça. ainda hoje são aceitas como respostas satisfatórias à questão da justiça. ARISTÓTELES 28. o comportamento humano é bom ou justo se for determinado por normas que o homem.Camilassouza categórico que é o resultado essencial de sua filosofia da moral e sua solução para a questão da justiça. então o apego à verdade é virtude.Trabalhos de Pesquisa . ou seja. conforme os demais. A existência de vícios. é o meio termo entre o vício da covardia (escassez de valentia) e o vício da temeridade (excesso de valentia). que a ética aristotélica confia à moral positiva e ao Direito positivo. sendo bom aquilo que está de acordo com a ordem social vigente. que se encontra a meio caminho entre ambos. ou seja. não dá resposta.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. Ao se examinar o modelo do imperativo categórico proposto por Kant. a virtude plena. Essa possibilidade explica porque essas fórmulas. A virtude é o oposto do vício. Essa formulação diz: aja de acordo com a máxima que você espera transformar-se em lei geral. e provavelmente ainda o serão no futuro.19/07/13 O Que é Justiça . Conclui-se. a real função da fórmula tautológica de mesótes é pressuposta pela ordem social estabelecida. Persistem os questionamentos “do que é bom?” e “do que é mau?” . Aristóteles a pressupõe como indiscutível. e por vícios entende aqueles que a moral tradicional de sua época estigmatizava como tais. para responder à questão do que seria eticamente bom. pode ou deve esperar que sejam obrigatórias a todos. um por escassez e o outro por excesso. Trata-se de uma ética de virtude. entre as quais a justiça é a virtude máxima. é a ordem social e não a fórmula de mesótes que determina o que é demais e o que é de menos e com isso também a virtude. a teoria do imperativo categórico poderá servir de justificação para toda e qualquer ordem social em geral e para todo e qualquer regulamento em particular. Apesar de ser uma fórmula vazia e compatível com as demais formulações de justiça (princípio da regra de ouro ou “dar a cada um o que é seu”. ou seja. Esse é o famoso ensinamento da mesótes.trabalhosfeitos. pois a virtude é o meio-termo entre dois extremos. que a ética da doutrina de mesótes só aparentemente resolve a questão. Um outro exemplo bastante significativo de infrutífera tentativa de se definir o conceito de justiça absoluta através de um método racionalcientífico é a Ética de Aristóteles. apesar da sua total falta de conteúdo.

simplesmente. politicamente significativa. o método racionalista é sabidamente insustentável. A afirmação de que o homem deve se comportar de determinado modo só pode ser feita pela razão humana. somente sendo essa vontade humana se excluída da especulação metafísica. justa.trabalhosfeitos. Encontrar normas para o comportamento humano não www.19/07/13 comportamento justo o meio-termo entre praticar o injusto e sofrer o injusto. como uma espécie de legislador. baseando-se em sofisma a tentativa de a doutrina racionalista tenta deduzir normas do Direito natural como base para o comportamento humano. o oposto desse O Que é Justiça . Conclui-se. Se se supõe que a natureza é criação divina. unidos entre si pelo princípio da causalidade. quase totalmente abandonada no século XIX. não prescrever. estabelecida com base na moral positiva e no direito positivo. A Natureza é apresentada como uma autoridade normativa. eis que normas que prescrevem comportamentos humanos só podem partir de uma vontade.html razão é tão ilusório quanto extrair tais normas da natureza. Aplica-se o mesmo à tentativa de deduzir tais normas da razão humana. considerada pela definição da moral positiva e pelo direito positivo.pois. Essa escola afirma existir uma regulamentação absolutamente justa das relações humanas que parte da natureza em geral ou da natureza do homem como ser dotado de razão. Assim. pois o injusto que se pratica e o injusto que se sofre não são dois vícios ou males: são um único e mesmo injusto. não é dotada de vontade e não pode. não se pode deduzir aquilo que deve ser ou acontecer. estabeleceu-se norma que prescreve tal comportamento. conclui-se que o ensinamento de mesótes não visa determinar a essência da justiça. mas reforçar a validade da ordem social. A doutrina do Direito apresentaria. a fórmula – a virtude é o meio termo entre dois vícios – não faz sentido nem mesmo como metáfora. E a justiça é. que prescrevem a conduta humana correta. por isso. Entretanto.Trabalhos de Pesquisa . prescrever qualquer comportamento humano definido. que a questão decisiva – o que é injusto – não é respondida através da fórmula de mesótes . então as normas a ela imanentes – o Direito Natural – são expressão da vontade de Deus. que evidenciaria a sua falta de valor científico. O DIREITO NATURAL 30. Se todavia o direito natural deve ser deduzido da natureza do homem enquanto ser dotado de razão (o princípio da justiça pode ser encontrado na razão humana) então aquela doutrina se reveste de um caráter racionalista. A partir dos fatos. A razão humana pode compreender e descrever. portanto. podemos encontrar as normas a ela imanentes. protege a ética aristotélica de uma análise crítica. sendo a resposta pressuposta. O tipo metafísico e o tipo racionalista da filosofia do Direito estão representados na Escola do Direito Natural (Séculos XVII e XVIII.Camilassouza injusto. DO ponto de vista da ciência racional do Direito. 13/105 .com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. Pelo exposto. do que realmente acontece. um caráter metafísico. tendo como premissa um fato de que. o método religioso-científico da doutrina do Direito natural não entra absolutamente em cogitação. Essa realização. ou seja. por ato da vontade humana. A natureza como um sistema de fatos. mas tornada novamente influente nos dias atuais). Por meio de uma análise da natureza.

O Que é Justiça . e apenas ela. A solução sempre será ou o sacrifício de um deles para a satisfação do outro. e. eram contra a natureza e a razão e. injustas. a propriedade coletiva ou a comunhão de bens . pois. somente à tolerância no âmbito de um ordenamento jurídico positivo. que os métodos da doutrina do Direito natural. justa. por meio do qual algo é declarado justo. ou seja. a partir da natureza divina. há somente interesses humanos. numa visão de mundo relativista não resulta o direito à tolerância absoluta.Trabalhos de Pesquisa . a solução de compromisso pode ser vista como justa.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. que se baseiam em um sofisma . Isso significa que o juízo. O princípio da Moral que fundamenta (ou do qual se pode deduzir) uma doutrina relativista é o princípio da tolerância: é a exigência de compreender com benevolência a visão religiosa ou política de outros.Já John Locke comprova. porém não lhes www. nada. Qual é a moral da filosofia de justiça relativista? Será que há alguma? Será que o relativismo não é amoral. ou os tenham encontrado na natureza humana. Conclui-se . Justiça absoluta é um ideal irracional. ou seja. A experiência espiritual do passado demonstra que a razão humana somente consegue compreender valores relativos. eis que as únicas formas de governo natural (e por isso justa). uma norma absolutamente válida de comportamento justo. Vários adeptos da doutrina do Direito natural deduziram princípios de justiça extremamente diversos uns dos outros. somente a democracia pode valer como tal. portanto. através do mesmo método. uma norma que exclua a possibilidade de também considerar o comportamento contrário do justo. Robert Film (dessa escola) entendeu serem justas a autocracia e a monarquia absoluta. não a outra solução. como pensam alguns? Não é essa a opinião de Kelsen. ABSOLUTISMO E RELATIVISMO 32. 33. Os mais altos ideais 14/105 . não absoluta.assim. inalienável – que a natureza ou razão haviam conferido ao homem.Camilassouza 31.html restringindo a manifestação pacífica de opiniões. Obviamente.19/07/13 razão é tão ilusório quanto extrair tais normas da natureza. ou promover um compromisso entre ambos. e portanto conflito de interesses. A maioria dos jusnaturalistas afirmava que a propriedade individual (com base na ordem social feudal e capitalista) era um direito natural – portanto sagrado. ou até imoral. que garanta a paz entre os submetidos a essa justiça. pois não será possível comprovar que somente uma. pode-se comprovar tudo e. mesmo que não a compartilhemos. que a monarquia absoluta jamais pode ser considerada como uma forma de governo. São Vãos os esforços para encontrar. portanto. não impedir a sua manifestação pacífica. seja a justa. Mas também a justiça da paz é uma justiça relativa. o comunismo. exatamente porque não a compartilhamos. nunca poderá ser emitido com a reivindicação de excluir a possibilidade de um juízo de valor contrário.trabalhosfeitos. Do ponto de vista racional. por meios racionais. proibindo-lhes qualquer uso da violência. Por conseguinte. Se a paz social é pressuposta como valor maior. pois apenas ela corresponde à natureza.

De fato.Pierre Bayle. tentativas de derrubá-lo com o uso da violência. a justiça absoluta. portanto. em defesa da religião cristã não foram somente queimados os corpos dos hereges. ou seja. pelos meios adequados. Mas é direito de qualquer governo . fazia objeção àqueles que acreditam poder melhor defender uma ordem religiosa ou política vigente por meio da intolerância aos heterodoxos: “Toda desordem surge da intolerância. e só pode declarar o que significa justiça para si próprio: uma vez que a ciência é a sua profissão e. a coisa mais importante em sua vida.imperador da Áustria.html 15/105 . agora. será tolerante? Sim.” E se a democracia precisar se defender das intrigas antidemocráticas. 34. ao final. nas páginas gloriosas da carta de Tolerância. Os mais altos ideais morais foram comprometidos pela intolerância daqueles que os defenderam. e liberdade tolerância. e liberdade significa tolerância.Trabalhos de Pesquisa . esse belo sonho da humanidade. trata-se (a justiça) daquela justiça sob cuja proteção a ciência pode prosperar e. mas também quando o for interiormente. mas também sacrificados um dos ensinamentos mais notáveis de Cristo: Não julgueis. mesmo democrático.trabalhosfeitos. Kelsen iniciou este ensaio com a questão: O que é Justiça? Conclui que. II. um dos grandes libertadores do espírito humano.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. Por exemplo. o fato de estar em ótima companhia (faz implícita menção aos leitores. está absolutamente ciente de não tê-la respondido. É exatamente nessa tolerância que reside a diferença entre democracia e autocracia. é difícil traçar um limite claro entre a propagação de certas idéias e a preparação de uma insurreição revolucionária. como desculpa. nem com o princípio da tolerância. da democracia e da tolerância .Camilassouza restringindo a manifestação pacífica de opiniões. ela será livre não somente quando o for externamente. na medida em que não reprimir demonstrações pacíficas de opiniões antidemocráticas. uma vez que seria mais do que presunção fazê-los acreditar que conseguiria aquilo que fracassaram os maiores pensadores). a verdade e sinceridade.19/07/13 O Que é Justiça . Conclui que deve satisfazer-se com a justiça relativa. Nenhuma doutrina pode ser reprimida em nome da ciência. Mas a possibilidade de manter a democracia depende da possibilidade de encontrar tal limite. Contudo. quando houver total liberdade no jogo do argumento e do contra-argumento. não da tolerância” . para não seres julgado. José II. nenhuma outra forma de governo é mais favorável à ciência que a democracia. Kelsen assume que não sabe se pode dizer o que é justiça. reprimir com violência e evitar. Significando a democracia liberdade. A ciência só pode prosperar se for livre. escreveu “Se a democracia é uma forma de governo justa. pois a alma da ciência é a tolerância. A IDÉIA DE JUSTIÇA NAS SAGRADAS ESCRITURAS www. quando estiver independente de influências políticas. Aduz a seu favor. na inquisição espanhola. É a justiça da liberdade. da paz. O exercício desse direito não entra em contradição nem com o princípio da democracia. ela só pode significar liberdade. ao lado dela.

vemos ao mesmo tempo. para uma posição menos rígida – a suposição de que a vontade de Deus. diretamente aprovada ou ao menos não reprovadas por Deus ou pelos homens. Mas muitas instituições apresentadas nas escrituras. a justiça absoluta de Deus deve estar necessariamente em conflito com outra qualidade que é a onipotência. uma luta impiedosa em que o mais forte destrói o mais fraco. embora seja incapaz de compreender sua natureza. a teologia deve tentar partir de seu ponto inicial que é a incompreensibilidade da justiça absoluta. Se Deus é onipotente. Como Deus existe. por ele inspirados como é o caso da poligamia.Camilassouza O CARÁTER TRANSCENDENTAL DA JUSTIÇA DIVINA Um dos elementos mais importantes da religião cristã é a idéia de que a justiça é uma qualidade essencial de Deus.19/07/13 O Que é Justiça . declararam que “o que é permitido na lei mosaica no que concerne ao casamento não é proibido no Novo Testamento”. a justiça absoluta existe. como Deus é absoluto. o homem deve acreditar na existência da justiça absoluta. nada do que efetivamente acontece pode ser contra ou sem o seu desejo. é possível encontrar a resposta para a questão do que é justo e injusto na natureza. A JUSTIÇA NA REVELAÇÃO DIVINA E NA MORALIDADE CRISTÃ MODERNA Para a teologia Deus se revela de duas maneiras: nos seus atos e nas suas palavras. sua Justiça deve ser justiça absoluta. A outra revelação – a palavra de Deus nas Escrituras – parece ser uma manifestação muito mais clara de sua justiça. no famoso parecer que justifica pelo direito divino a bigamia de Filipe de Hesse. toda criação é sua manifestação de vontade. a partir do que é . A doutrina do direito natural fundamenta-se em um pressuposto . assim como na história. A justiça é um mistério – um dos muitos mistérios da fé. Apenas uma religião cuja divindade é tida como justa. e nossa razão nos diz que não é possível concluir. Nem na análise mais cuidadosa da natureza e da história pode fornecer um critério para distinguir o bem e o mal. embora não possa saber o que ela realmente significa. da escravidão a vingança do sangue – estão em franca oposição ao sentimento de justiça dos cristãos modernos . Se Deus criou o universo pode-se concluir que. Não apenas no antigo testamento como no novo testamento a www. ser compreendida pelo homem de uma ou de outra maneira. Se a justiça divina deve servir como um padrão da justiça que os homens estão procurando para a regulamentação de suas relações mútuas.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308.html 16/105 . Em assim sendo. retornar ao ponto de partida. A idéia de justiça divina absoluta deve ser aplicável à vida social dos homens. Como por exemplo.Trabalhos de Pesquisa . e. embora incompreensível pela própria natureza. a filosofia hegeliana da história do outro. como deve acreditar na existência de Deus. Tanto na natureza como na história. assim. e o auxílio mútuo. A incoerência da posição torna inevitável que este torneio de pensamento deva.trabalhosfeitos. isto significa eterna e imutável. por fim. pode não obstante. o que deve ser. pode desempenhar um papel na vida social Do ponto de vista da cognição racional.

CONTRATIDÓRIA ENTRE SI. que se apresenta como um ato de legislação divina. A revelação das escrituras não apenas está em algumas partes em oposição direta à moralidade do cristianismo moderno. Segundo estes. pelo menos como não incompatível com a lei que transmitiu no Monte Sinai por meio de Moisés. assim atenuar a situação do escravo. Mas se erraste enquanto casada com o seu marido e te maculaste com outros homens além do seu marido. o próprio Jesus acreditava na existência desses demônios e usava seu poder divino para exorcizá-los. então Javé faça de ti execração e maldição entre o teu povo. fica imune a esta água amarga que traz a maldição. embora também existam prescrições com o objetivo de restringir o direito do proprietário e. pode despedi la de sua casa. Mas quando os fariseus perguntaram a Jesus se era legítimo um homem divorciar se de sua esposa . porém. porque encontrou nela alguma indecência. Se ela for inocente a água não lhe fará mal nenhum. então esta mulher deve dizer: “Assim seja.19/07/13 Não apenas no antigo testamento como no novo testamento a O Que é Justiça . Por exemplo. não menos contraditória que a revelação na criação. contém uma regra: quando um homem tomar uma mulher e casar -se com ela. Embora a lei de Javé exiba uma tendência para restringir a vingança de sangue. No Levítico 25. a água terá o efeito indicado na maldição. É justamente o elemento mágico do rito que é tão repulsivo ao sentimento religioso. E quando ela deixar a sua casa. poderá escrever-lhe um ato de divórcio e. mas um.trabalhosfeitos. como também é contraditória em si. se acontecer que ela não agrade. poderá casar-se com outro. a escravidão é apresentada como ordenada por Javé ou. assim seja”. Jesus respondeu que marido e mulher www. se for culpada. O que 17/105 . mencionados nos evangelhos. A REVELAÇÃO DAS ESCRITURAS.6. que tem como objetivo determinar se uma mulher suspeita cometeu ou não adultério.html tornar-se-ão um.Camilassouza escravidão é reconhecida como uma instituição legal e justa.Trabalhos de Pesquisa . assim como à idéia de devido processo de Direito que prevalece entre os cristãos modernos. o código Deuterômio. esse costume surge firmemente estabelecido entre os judeus e reconhecido por Deus. Há um procedimento diretamente ordenado por Javé. Depois o sacerdote deve escrever as maldições em um pedaço de pergaminho e depois lavá -las nas águas e a mulher deve beber a água com a tinta em que as maldições foram escritas. colocando-o em sua mão. fazendo-te ter um ventre facilmente fertilizado e ao mesmo tempo abortar”. O sacerdote que executa o rito põe nessa água um pó que esteja no chão do tabernáculo então deve fazer a mulher prestar o seguinte juramento “ Se nenhum homem deitou contigo e se não te voltaste para os atos indecentes enquanto casada com o teu marido.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. Nesse rito. de modo que não mais sejam dois. O mesmo é verdadeiro no que diz respeito à crença em demônios ou “espíritos imundos” que penetram nos corpos dos homens e causam doenças mentais. mulher suspeita é obrigada a tomar uma “água amarga que causa maldição” que desempenha o papel decisivo. quanto ao divórcio.

insiste acertadamente no cumprimento das cláusulas do contrato pela outra parte. consideram a natureza como parte da sociedade e. entre a regra: paga o mal com o mal e o bem com o bem e a regra: ama o teu inimigo e paga o mal com o bem. mas um. Mas uma interpretação histórica é inaplicável caso as escrituras devam ser tomadas como a revelação da justiça absoluta e.Trabalhos de Pesquisa . Nessa metáfora é expressa uma das idéias básicas da teologia judaica que a relação entre Deus e o homem é constituída por um contrato. segundo o princípio da retribuição. Segundo uma. constituem a base da lei divina como o caso do casamento poligâmico e anulável revelado por Moisés e a lei divina que institui o casamento monogâmico e inviolável revelado por Jesus. o social da natureza pode fundamentar no animismo. Essa interpretação personalista e. na crença de que todas as coisas são animadas. Essa é a justiça de Javé. A JUSTIÇA DE JAVÉ : A RETRIBUIÇÃO Antes do ensinamento de Jesus era evidente para o povo judeu que justiça significava retribuição. portanto.html 18/105 . em primeiro lugar. por sua própria natureza é irracional – relação entre Deus e os homens. imutável de Deus. Javé assume a obrigação de proteger seu povo e Israel a de ser fiel a Javé e obedecer à sua lei. A justiça é a qualidade mais essencial e o princípio dessa justiça é a retribuição. Pode-se concluir não haver muita dúvida que tratam de duas idéias totalmente diferentes e incompatíveis entre si. e especificamente a hereditária Todas essas contradições podem ser facilmente explicadas a partir de um ponto de vista histórico como diferentes etapas de uma evolução jurídica. dotadas de alma que nelas www. Como todos os povos primitivos. Por meio desse contrato. Há outra contradição no antigo testamento quanto à questão de ser justa ou não a responsabilidade individual ou coletiva.Camilassouza tornar-se-ão um. REDISTRIBUIÇÃO E AMOR – DIREITO E JUSTIÇA O antagonismo entre o princípio da redistribuição e o princípio do amor. por ser um deus zeloso. como recompensa de uma autoridade sobre-humana. isto é. de modo que não mais sejam dois.19/07/13 O Que é Justiça . isto é. Mas a violação pelo seu povo autoriza Javé a punir o infrator da aliança.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. tem íntima ligação com esse antagonismo de visões totalmente diferentes da relação existente entre a justiça e o direito positivo. Javé. O que Deus uniu então o homem não separe. os hebreus. explicavam os fenômenos em termos de vida social. qualquer evento que deseja. ACI O N AME N T O Qualquer evento que o homem primitivo teme é interpretado como punição. está obrigado por ele é muito característica da tendência para racionalizar o que. segundo a outra.trabalhosfeitos. Tal cumprimento da obrigação contratual de Javé. portanto. nas primeiras etapas de sua evolução. portanto. a aliança que Javé firmou com o seu povo. A idéia de que Deus firmou um contrato com os homens e que assim como a outra parte desse contrato. eles podem entrar em conflito. a justiça e o Direito são idênticos.

Tratam apenas de princípios políticos que não tem nenhuma relação com a regra de JUSTIÇA. conforme passo a explanar.Trabalhos de Pesquisa . mas é perfeitamente compatível com o jus talionis. que vos dou vosso Deus. www. O princípio de retribuição como essência da Justiça de Javé é expresso por Moises nesta breve fórmula “ vede.Camilassouza residem. recompensa em último. e a idéia de justiça sempre reflete mais ou menos a realidade social tal como manifestada no Direito positivo. Mas essas manifestações esporádicas de uma moralidade do perdão não são características do Antigo Testamento. A REJEIÇÃO DO PRINCÍPIO DA RETRIBUIÇÃO POR JESUS: A NOVA JUSTIÇA DO AMOR Kelsen neste subtópico trata da opisição da “doutrina”pregada por Jesus em face ao Direito positivado. nesse sistema de justiça.) Como em quase todas as religiões. mas também pode ser a conseqüência do verdadeiro Tw eetar monoteísmo. Para tanto. como Deus é justo. e se vos desviardes do caminho que vos estou apontando hoje. Essa sentença é precedida pelo mandamento “não deves vingar-te nem guardar rancor dos membros de tua raça” A proibição geral vingança certamente está em contradição com a instituição da vingança de sangue reconhecida em outras partes da Escritura. como punição por sua má conduta. A punição está em primeiro plano. como recompensa por sua boa conduta. o que pensava Jesus em relação a família. dividiu o tema em tópicos comentando sobre o princípio d amor. e correrdes atrás de deuses estranhos que não conheceis” ( Deuteronômio11.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. se for um bem. Que a justiça como retribuição signifique em primeiro lugar punição é a conseqüência do fato de ser a ameaça de punição por conduta indesejável – não promessa de recompensa pela conduta contrária – a técnica específica do direito positivo. a punição e a recompensa não têm a mesma importância. mas por homens. na forma de sanções socialmente organizadas. de uma maneira transcendental.26 ss.se for um mal. O ato divino da criação. relacionando ao tema.html 19/105 . aos impostos. que é dominado pela justiça do igual por igual.19/07/13 O Que é Justiça . ao direito de propriedade. e.trabalhosfeitos. não diretamente por Deus. é um comando de Deus. vosso Deus. tal como descrito no Gênesis. a manifestação de sua justa vontade. VINGA-TE MAS AMA AO PRÓXIMO “Deves amar ao próximo como a um de vós” É um mandamento de solidariedade nacional e perfeitamente compatível com o princípio da retribuição. especialmente se tiver de ser aplicada. diversas passagens bíblicas. hoje estou colocando diante de vós uma benção e uma maldição: uma benção se obedecerdes aos mandamentos de Javé. o direito do homem julgar o próprio homem. portanto. qualquer evento dessa espécie deve ser interpretado como merecido pelo homem. segundo o qual a natureza é a criação de um deus onipotente e.

devemos aplicar o amor. não praticamos mérito algum.html disse a ele. Trouxe ainda outros ditos de Jesus que equivalem a um não reconhecimento familiar “Se alguém vier a mm sem odiar o pai e a mãe e a esposa e filhos e irmãos e irmãs. João 5. substituindo o indivíduo prejudicado pelo mal causado.3). 9.” (Mateus 19.5. inclusive pelo emprego da força. alguns porque os homens assim os fizeram e. a nova justiça: o amor de Deus. não pode estar em conformidade com a justiça divina. pois rejeita o princípio de se pagar o mal praticado com outro mal praticado ao causador do mal. A contrário. Mas ele disse ‘Deixa-me primeiro enterrar meu pai’. em vez da Justiça da Retribuição (o mal pelo mal praticado). Declarou ainda o divórcio (que era permitido pela Lei) um crime equivalente ao adultério. dizendo que a doutrina de Jesus não é a solução do problema da Justiça na condição de técnica social para a regulamentação das relações humanas.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. pois implica a solicitação de abandonar o desejo de justiça tal como concebido pelo homem.Camilassouza O PRINCÍPIO DO AMOR EM OPOSIÇÃO AO DIREITO POSITIVO Jesus no Sermão da Montanha diz: “Ouvistes o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’. Menciona que a essência do direito positivo está em resistir o prejuízo. se te baterem na face direita. acima da idéia racional do homem. não poderá ser meu discípulo.Trabalhos de Pesquisa .3ss 20). oferece a outra face e se alguém quiser demanda contigo por tua túnica. ao jejum (Marcos 2.20).19/07/13 O Que é Justiça . pois se amamos apenas quem nos ama. Jesus recusa-se ao direito positivo. e a sua própria vida.10. pois se pratica o mal a alguém que tenha realizado o mal. de aplicar o “mal pelo mal” e portanto a sanção tem a mesma natureza do delito.14). E se alguém te forçar a andar uma milha. sendo o Estado a organização dessa força. Mas eu voz digo: não resistais à Injúria.10.26) e não reconhecia uma das mais sagradas obrigações de um filho. Mas Jesus ao contrário ensina não julgar para não ser julgado. 14. ‘Que os mortos enterrem seus mortos. mas pregava que era melhor não casar fundamentando em diversas razões tais como: “alguns são incapazes de casar-se porque assim nasceram. (Mateus 5. mas.” (Lucas 14. outros que assim se fizeram pelo Reino de Deus. enterrar o pai morto “Ele disse a outro ‘Segue-me’.trabalhosfeitos. alerta que o amor de Deus é justiça num sentido transcendental. ao sábado (Mateus 12. Lucas 6. Faz uma crítica do ponto de vista da razão humana. a limpeza (Mateus 15. anda duas milhas com ele”.38s). exemplos. Kelsen reconhece tratar-se de uma doutrina revolucionária. perdoe para que seja perdoado. Jesus www.23. prega que devemos amar nossos inimigos e perseguidores.18). Portanto. tu deves partir e 20/105 . a punição do malfeitor provida pelo Direito e pelo Juiz. Para ele. Marcos 2. entre o que é bom e o que é mal. Que aceite quem puder. A DOUTRINA DE JESUS SOBRE A FAMÍLIA Kelsen e as passagens bíblicas deixam evidentes que Jesus não respeitou certas prescrições virtuais. que não faz nenhuma distinção entre o malfeitor e o que cumpre a lei.1. alimentação (Marcos 7. dá-lhe também o manto. porque incompatível com o direito e talvez além da natureza humana.

vosso pai celestial” (Mateus 23. E olhando para as pessoas a sua volta respondeu: ‘Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Seus seguidores não podiam nem ao menos chamar pai ao progenitor “Não deveis chamar ninguém da terra vossa de pai. Na verdade Jesus não disse que era certo pagar o tributo ao imperador. E Jesus disse “Pagai ao imperador o que pertence ao imperador e pagai a Deus o que pertence a Deus.14).34). leciona que os ensinamentos de Jesus eram ao menos contrário a Lei existente. como os irmãos pescadores Pedro e André onde Jesus disse-lhes: “Vinde e segue-me e www. e a nora contra sua sogra. Aliás a acusação a qual foi levado a Pilatos era: “Eis um homem que encontramos desviando nossa nação e proibindo o pagamento de impostos ao Imperador. Não vim para trazer a paz ma uma espada. acreditava que o Reino de Deus havia chegado. mas isso não tem nada a ver com a obrigação de se pagar tributo.”. que era incompatível com o reino davídico. (Marcos 3.19/07/13 O Que é Justiça .9).com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. pois tendes apenas um pai. Mateus 12. A bíblia relata vários casos de seguidores que abandonaram tudo o que tinham para segui-lo. e os inimigos do homem estarão em sua própria casa. Ensina Kelsen “Nem a propriedade nem qualquer tipo de consideração tem lugar nessa doutrina. a propriedade é incompatível com seguir Cristo. “Não pensais que vim trazer paz à terra. Reconhecia que seus ensinamentos poderia sim ter o efeito de dissolver a família (Mateus 10.31.19). O ENSINAMENTO DE JESUS SOBRE OS IMPOSTOS Kelsen no tocante aos impostos que deveriam ser pagos. Quem quer que faça a vontade de Deus é meu irmão e minha mãe’”. ‘Quem são minha mãe e meus irmãos?’. Marcos e Lucas relatam que Jesus ignorava qualquer relação com a mãe e os irmãos. Mateus.Trabalhos de Pesquisa . a moeda pertencia ao imperador.” (Marcos 12. Lhe disseram “Tua mãe e teu irmão chamam por ti lá fora. tu deves partir e espalhar a notícia do Reino de Deus.59). Até reconhecia a marca da propriedade do Imperador.Camilassouza disse a ele.” (Mateus 10. eles lhe disseram “são do imperador”. Ninguém que ama o pai e a mãe do que a mim é digno de mim. Então como poderia acreditar que era certo pagar impostos ao Imperador? O ENSINAMENTO DE JESUS SOBRE A PROPRIEDADE É altamente significativo.html 21/105 . Ele respondeu. Assim como a família. Não lamentava esse efeito (dissolução da família) e até mesmo o declarava como seu propósito. Kelsen comenta que tal acusação talvez não fosse infundada.”.20). Certa vez indagado sobre pagar o tributo ao imperador Jesus ao solicitar um denário aos seus seguidores teria-os indagado sobre a efégie e otítulo ali representados no que tange sua titularidade e. não reconhecendo a autoridade do Estado romano.” (Lucas 9.48 e Lucas 8. Pois vim para voltar o homem contra seu pai. e a filha contra sua mãe. vez que Jesus acreditava e se considerava Rei Messiânico de Israel e. Proibiu os seguidores de carregar dinheiro consigo. ‘Que os mortos enterrem seus mortos.trabalhosfeitos.

pois evidentemente é incompatível com a função de Jesus como Messias e juiz no juízo final.19/07/13 O Que é Justiça . que atire a primeira pedra. o antagonismo entre o amor de Deus e o julgamento é. Tal paraíso no livro de Enoque é chamado de Jardim da Justiça (Enoque 32. E ele disse: “Quem me fez juízo ou arbitro de vossos negócios?” (Lucas 12. E seus discípulos certamente acreditavam nele como o Messias.18).”. atenuado. em sua opinião. onde lhe disseram “Na lei Moisés ordena que apedrejemos. A bíblia relata que alguém na multidão lhe disse: “Mestre diga a meu irmão que me dê a minha parte de nossa herança”. para este relatou a certeza da felicidade no Reino do Céu. E se não há mais retribuição então o direito positivo não é mais aplicado. mais sim o amor. pelo menos originariamente era imaginado como uma comunidade estabelecida nesta terra.”. Jesus menciona ainda que ninguém pode servir a Deus e ao dinheiro ao mesmo tempo. ou seja. o Messias e Juiz do mundo constitui uma contradição insuperável na doutrina da justiça. mas sim a qualquer tipo de economia. enquanto para aquele (o rico) relatou em um de seus ensinamentos “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um homem rico entrar no Reino de Deus. era iminente. nenhum trabalho é necessário já que Deus alimentará.trabalhosfeitos.3. O Reino de Deus.13). 77. neste mesmo mundo tendo a Palestina como Terra Santa e compreendendo todo o mundo.3). A IDÉIA MESSIÂNICA Kelsen alerta que considerarmos Jesus o pregador da nova justiça do amor.Trabalhos de Pesquisa . onde a paz e a prosperidade reinarão. Jesus não é contrário apenas ao dinheiro.”. Então distinguiu o rico do pobre. O REINO DE DEUS COMO REINO DE JUSTIÇA NESTE MUNDO A idéia do Reino de Deus era o centro do ensinamento de Jesus. Pressionado Jesus responde: “Quem não tiver pecado dentre vós. o de não mais julgar outras pessoas’.Camilassouza farei de vós pescadores de homens. Tais respostas estão em conformidade com o novo princípio de justiça proclamado – não retribuição. vestirá e abrigará diretamente seu povo.html 22/105 . o dinheiro é para ele – mammon – o próprio diabo. no Reino de Deus. O ENSINAMENTO DE JESUS SOBRE O DIREITO DO HOMEM DE JULGAR O HOMEM Trata-se do conflito mais evidente entre o ensinamento de Jesus e a Lei judaica. Pois. de certo modo. A crença de um segundo paraíso. Existe ainda o famoso caso da mulher surpreendida em adultério. a morte não mais ameaçará a humanidade.”. punindo os pecadores e recompensando os justos. o solo será fútil.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. Importante ressaltar que não obstante o tudo dito. Prevalecia entre os judeus a vinda de um mundo de perfeita justiça e felicidade. Há passagens bíblicas que descrevem com riqueza de detalhes como será tal paraíso (Isaías 29. Uma organização política do povo www. Essa postura antieconômica de Jesus é o resultado de sua idéia do Reino de Deus. na sentença seguinte. o qual.

refere-se ao homem vivo.33).Trabalhos de Pesquisa . há um único destino para todos. de modo geral pensava-se no Messias como ser humano. havia. No antigo testamento prevalecia a idéia de que os mortos existem no Xeol (Números 16. A justiça de Deus não é dada a conhecer no Xeol (Salmos 88. recompensando os justos com a vida eterna e feliz e os injustos com a dor eterna no Hades. O Xeol é a generalização do túmulo. o próprio Javé seria juiz. pelo juízo final que inaugura o reino messiânico. de tal modo que uma alma vivendo sem seu corpo era-lhes estranhas. uma crença na justiça de Deus a ser realizada após a morte. nesta terra de esquecimentos não há diferenças entre o justo e o injusto. Primeiramente a idéia era de que somente os justos ressuscitariam do Xeol. consequentemente o Reino de Deus era concebido como uma restauração do reino darídico – um reino sobre essa terra. mas sim na ressurreição dos mortos a ser realizada neste mundo.trabalhosfeitos. o Messias exercerá este ofício. Nas escrituras não existe nenhuma relação entre Deus e a terra dos mortos. um lugar de escuridão e pó onde ficam “dormindo”. NENHUMA CRENÇA NA IMORTALIDADE DA ALMA A missão do Messias era realizar a Justiça neste mundo.19/07/13 comunidade estabelecida nesta terra.C. Segundo uma versão. Entre os judeus da Palestina prevalecia a idéia de que corpo e alma estão inseparavelmente ligados. mas sim um julgamento individual de todos os vivos e dos mortos ressuscitados. apenas a ressurreição do corpo podia ajustar-se a esse esquema.. O JUÍZO FINAL Considerava-se que esse julgamento era dirigido não apenas contra os pagãos e os inimigos e supressores de Israel. segundo outra. Uma organização política do povo Judeu e mesmo na metade do século I a. vindo do céu. porém havia também a concepção do Messias como ser-sobre-humano. posteriormente passou a acreditar que todos se ergueriam para que fossem julgados pelo Juízo final. www. A CRENÇA NA RESSURREIÇÃO DOS MORTOS Embora não houvesse nenhuma idéia de justiça no Xeol. A crença de que a alma pode existir sem seu corpo não fora ensinada O Que é Justiça . A crença não estava na imortalidade da alma.Camilassouza em nenhuma parte do antigo testamento. Todos serão julgados exatamente de acordo com os feitos que cometeram em vida. Tem o verdadeiro caráter de um processo judicial. o Xeol não tem nada haver com a justiça. Essa justiça não era concebida como retribuição exercida em outro mundo sobre as almas imateriais e imortais dos homens após a morte. A espiritualização da crença na ressurreição e no Reino de Deus é uma transformação posterior.12).com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308.html 23/105 . não obstante. Um julgamento universal de toda a humanidade. Como a esperança pela libertação nacional desempenhava um papel decisivo na crença da vinda do Messias e. Antes quando se fala na alma.

Este princípio da inversão é inteiramente oposto ao mandamento “ama os teus inimigos e ora pelos que te perseguem”. 6. A IDÉIA QUE JESUS TEM DO REINO DE DEUS Não é possível separar no ensino de Jesus a esfera messiânica e a esfera escatológica (parte da teologia que trata do fim dos tempos). surgiram outras idéias que levaram a uma separação das duas. pois tivestes vosso conforto!” (Lucas. Pressupunha a crença na imortalidade da alma influenciada pela filosofia grega.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. é uma aplicação da lei da retribuição. para alguns o Xeol era dividido em compartimentos. pois o reino de Deus é vosso (. esperado após o período messiânico. A idéia de retribuição no ensinamento de Jesus. os judeus para quem Jesus pregou ainda acreditavam na ressurreição dos mortos e no paraíso messiânico como etapa final. 10). Jesus nem sempre se emancipa desta.Trabalhos de Pesquisa . “serpentes”. coincide com a crença escatológica como crença em um mundo futuro. O princípio da inversão se verifica nas afirmações de que “muitos que hoje são os primeiros serão os últimos. É o próprio princípio da retribuição que Jesus aplica ao dizer “todo aquele que me reconhecer perante os www. a crença na ressurreição e no Reino Messiânico inaugurados pelo juízo final. por exemplo. Ou em “bem-aventurados sois vós. Por derradeiro. Jesus havia chamado os fariseus de “hipócritas”. Posteriormente. 31). A retribuição exercida imediatamente após a morte podia ter apenas um caráter provisório enquanto existisse a crença no juízo final e na ressurreição. e os últimos serão os primeiros” (Marcos 10. 32). O mundo futuro de justiça coincide com o reino messiânico. É uma justiça do ressentimento. O desejo de justiça necessitava que a crença em uma retribuição fosse estabelecida imediatamente após a morte. Para tanto. Contudo. os justos vão imediatamente após a morte para o céu.. Jesus 24/105 . não a justiça do amor de Deus. Para outros. 32). de tormento para os injustos e conforto para os justos. Os Evangelhos atribuem a Jesus alguns feitos e ditos que não estão inteiramente em conformidade com seu mandamento de não resistir ao mal e amar o inimigo. Segundo Mateus.19/07/13 O Que é Justiça .) mas ai de vós. O amor de Deus não deve esperar nenhuma recompensa (Lucas. Mesmo quando prega a nova justiça do amor em oposição à antiga justiça da retribuição. 6. No tempo entre a morte e a ressurreição supunha-se que o destino dos justos e dos injustos não fosse o mesmo (felicidade aos primeiros e estado de dor aos segundos). mas Jesus também diz “se amardes apenas aqueles que vos amam. que sois ricos.html homens eu reconhecerei perante meu Pai no céu (Mateus 10. Jesus apresenta a visão de que a era presente é de injustiça e de que a nova era (do Reino de Deus) trará justiça pela inversão completa das presentes relações sociais. existia uma tendência crescente de que este paraíso messiânico era apenas uma etapa provisória para se alcançar a felicidade definitiva.Camilassouza A SEPARAÇÃO DA CRENÇA ESCATOLÓGICA E DA IDÉIA MESSIÂNICA Originariamente. Tal estado transcendental de bem-aventurança. que sois pobres. não poderia referir-se a vida física do paraíso messiânico..trabalhosfeitos. que recompensa podeis esperar? “.

“E quem fala contra o Filho do Homem será perdoado. rei de Israel. com o qual tem início esse reino. na sua opinião. Jesus ensinou “deveis sempre tratar os outros como gostaríeis que eles vos tratassem. 32). o profetizado governante do rei davídico restaurado. 45). porque o juízo final. Eles o provam pela ascendência de seu pai José. o Reino de Deus já chegou. Quando os fariseus lhe perguntaram quando viria o reino de Deus. assim como a Pilatos. conforme o autor do Evangelho segundo São João. os Evangelhos tentam provar sua descendência.trabalhosfeitos.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. 24 ss. de que seus arautos já podem ser vistos. Mas essa declaração não significa – como às vezes se interpreta – que seu reino está além do seu mundo. em conformidade com a tradição judaica. embora. mas acima de tudo. A afirmação de Jesus de que o “Reino de Deus alcançou-vos” implica que. 36). Verifica-se a retributividade especialmente no julgamento no fim da era injusta e no início da era justa que é anunciado por João Batista. Jesus disse a Pilatos “meu reino não é deste mundo” (João 18. Qualquer tentativa de interpretar o Reino de Deus no ensinamento de Jesus como um domínio meramente espiritual é incompatível com o fato de que um elemento essencial desse ensinamento era a crença na ressurreição. Maria. É o princípio da retribuição: igual por igual. A ressurreição é um elemento essencial no ensinamento de Jesus sobre o Reino de Deus não apenas porque esse reino é uma comunidade de seres vivos vivendo nesse mundo. Ele finalmente admitiu ao sumo sacerdote. assim como pelo próprio Jesus. Não pode haver dúvida de que o reino de Deus. Jesus fala repetidamente em comer e beber no Reino de Deus. tal como descrito nos Evangelhos Sinópticos. que era o Messias e o rei de Israel. O Reino de Deus como realização de Justiça na terra. Significa apenas que seu reino origina-se no céu e que será estabelecido neste mundo por uma intervenção direta e miraculosa de Deus. era imaginado. é conseqüência inevitável da crença de que ele é o Messias. 21). marido de sua mãe. ele respondeu “O Reino de Deus está no meio de nós (Lucas.html 25/105 . é um julgamento www.Trabalhos de Pesquisa . Este é um dia marcado pela retribuição e pelo castigo cruel.) O Reino de Deus está no meio de vós. ao mesmo tempo afirmem que Maria o concebeu pela influência do Espírito Santo. cuja missão é estabelecer esse reino de justiça na terra. neste mundo ou no mundo por vir” (Mateus 12. E foi com base nessa afirmação que foi condenado à morte. Como o rei legítimo deve descender de Davi.19/07/13 O Que é Justiça . O entendimento de que o Reino de Deus imaginado por Jesus ou por seus seguidores era uma organização política terrena. como uma comunidade terrena de homens vivendo fisicamente. mas quem fala contra o Espírito Santo não pode ser perdoado. O ensinamento de Jesus sobre o juízo final. resulta do fato de que acreditavam nele como o rei messiânico de Israel. que não tem nada a ver com o domínio deste mundo real.Camilassouza homens eu reconhecerei perante meu Pai no céu (Mateus 10. está presente. 17. Por outro lado. Essa opinião de que o reino de Deus está iminente. Jesus também. é verdade. apesar do próprio Jesus declarar que o Messias não tem que ser o filho de Davi (Mateus 22. ou melhor. não rejeitou a crença dos discípulos de que ele era o Messias.

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“dos vivos e dos mortos” (Atos 10, 42). Como nessa era má muitos morreram sem a punição ou a recompensa que mereciam, eles devem ser erguer-se dos mortos para serem trazidos à justiça no dia do juízo final. Para levar a cabo o julgamento, o Messias, o Filho do Homem, descerá do céu sobre as nuvens. É significativo que o Reino de Deus venha do céu para a terra e não que os homens vão – após a morte – para o reino do céu. Essa é a idéia expressa na oração, “venha nós ao vosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu” (Mateus 6, 10) Como haverá o céu sobre a terra, o antagonismo deste mundo imperfeito e de um outro mundo, perfeito, acabará. O Reino de Deus, tal como estabelecido após o juízo final, é um mundo perfeito e isso significa, em primeiro lugar, um mundo absolutamente justo e, neste aspecto, um mundo sobre-humano sobre esta terra. É muito característico do Reino de Deus que o dualismo de uma esfera humana empírica e uma esfera divina transcendental seja abolido. Os que vivem no reino verão Deus; e isso significa: experimentarão a justiça absoluta. A justiça do juízo final: a retribuição. Contudo, a justiça a ser realizada pelo juízo final nada mais é que a retribuição: o castigo impiedoso dos maus, a recompensa generosa para os bons; e a punição está em primeiro plano. Jesus anuncia o juízo final como “os dias de vingança” (Lucas, 21, 22). O julgamento é a execução da justiça da retribuição. O “castigo eterno” dessa retribuição divina é inteiramente coerente com o Deus de vingança do Antigo Testamento, mas incompatível com a nova justiça, o amor de Deus no Sermão da Montanha. Foram muitas as tentativas de eliminar as contradições do ensinamento de Jesus por meio de interpretações mais ou menos artificiais. O método mais bem-sucedido é diferenciar os ditos autênticos e nãoautênticos de Jesus com base em uma análise histórico-crítica das fontes. Assim, por exemplo, a passagem decisiva em Mateus 25, 31, em que Jesus é apresentado como Juiz do juízo final, sentenciando os malfeitores ao fogo eterno, foi declarada como uma elaboração de Mateus. Tal método histórico-crítico, porém, não é compatível com o conceito do Novo Testamento como revelação divina. Por esse método pode-se reconstruir um sistema de moralidade mais ou menos coerente no ensinamento de Jesus, mas não se pode eliminar o fato de que o Novo Testamento contém idéias de justiça contraditórias. Isso é especialmente verdadeiro no que diz respeito à relação existente entre os Evangelhos Sinópticos e as Epístolas de Paulo. O ENSINAMENTO DE JESUS COMPARADO COM O ENSINAMENTO DE PAULO A rejeição de Paulo da lei judaica. Foi muitas vezes enfatizado que há uma diferença entre o ensinamento de Jesus e o de Paulo. Essa diferença é evidente no que diz respeito à idéia de justiça e de sua relação com o direito positivo. Quanto à Lei Judaica, Paulo vai muito mais adiante que Jesus, que tentou sustentar a aparência – pelo menos em princípio – de que não era contra a Lei. Mas Paulo declarou abertamente “agora a Lei não se aplica mais a nós” (Romanos 7, 6). “que
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abertamente “agora a Lei não se aplica mais a nós” (Romanos 7, 6). “que ninguém é aceito por Deus como justo por obedecer à Lei é evidente, pois o justo terá vida por causa de sua fé, e a Lei não tem nada a ver com a fé” (Gálatas 3, 10 ss). Contudo, a “Lei” contra a qual Paulo erguia sua voz eram antes as disposições rituais do código judaico. Pois ele reconhecia e confirmava,

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de acordo com a vontade de Deus, as principais instituições jurídicas do Direito positivo de seu tempo: a família baseada no casamento, a propriedade baseada no trabalho e o governo firmemente estabelecido no Estado. O ensinamento de Paulo quanto ao casamento e à propriedade. A visão de Paulo sobre o casamento traz uma contradição, pois em certas passagens o afirma como o menor de dois males (seria bom para o homem ser solteiro, porém haveria tanta imoralidade que a união com uma esposa seria algo necessário); contudo o declara como instituição tão sagrada quanto a relação entre Cristo e a Igreja. A contraposição entre Jesus e Paulo se acentua em certos temas. O primeiro ensinou: “renuncia a tua profissão, não trabalheis para satisfazer às necessidades de teu corpo, pois Deus cuidará de ti”. Como depois da morte de Jesus, os novos cristãos acreditassem que o Reino de Deus estava próximo, havia certo perigo de que os crentes considerassem o trabalho supérfluo, o que poderia causar sérias dificuldades políticas. Assim, Paulo ensinou “Se alguém se recusar a trabalhar não lhe dês comida”. O próprio Paulo ganhava o sustento fazendo tendas, ao passo que Jesus, quando se tornou pregador, parece ter deixado de exercer a profissão de carpinteiro. Jesus ordenou que seus discípulos não carregassem dinheiro em seus bolsos; mas Paulo fez coletas organizadas de dinheiro para o “Povo de Deus”, isto é, para a comunidade dos primeiros cristãos em Jerusalém. Jesus ensinou que um homem rico não poderia entrar no Reino de Deus, mas Paulo apenas pedia que os ricos desse mundo fossem também ricos em generosidade, acumulando um valioso tesouro para o seu futuro. Paulo até mesmo reconheceu a escravidão como instituição jurídica não incompatível com a nova justiça do amor. O ensinamento de Paulo sobre a autoridade estabelecida. Jesus não pregava que se pagassem impostos e não reconhecia nenhuma autoridade terrena, mas Paulo ordenou expressamente aos cristãos que “pagassem impostos aos homens autorizados a recebê-lo”. As autoridades existentes do Império Romano – que para Jesus eram o reino de Satanás – são agentes de Deus. Assim: “o homem que faz o certo não tem que temer os magistrados, como tem o malfeitor. Se não queres temer as autoridades, faz o certo e eles te recomendarão por fazê-lo pois são agentes de Deus para fazer-te bem. Paulo traz uma aplicação do princípio: a cada um o seu, segundo a lei existente. A doutrina de Paulo não implica apenas um reconhecimento sem reservas do Direito positivo do Império Romano e da autoridade estabelecida desse Estado; é a justificação mais elevada possível de qualquer Direito positivo e de qualquer autoridade de Estado estabelecida, e, portanto, do princípio da retribuição como uma
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manifestação da vontade de Deus.

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manifestação da vontade de Deus. A IDÉIA MÍSTICA DE JUSTIÇA DE PAULO A interpretação de Paulo da justiça do amor. Após insistir na obediência incondicional à lei do Estado e de, assim, reconhecer a retribuição como o princípio da justiça, Paulo afirma: “não devas nada a ninguém – exceto o deve do amor mútuo, pois quem quer que ame seus semelhantes, satisfaz plenamente à Lei.” Paulo questiona se esse amor é compatível com a Lei baseada no princípio da retribuição: “É errado em Deus – estou usando termos humanos comuns – infligir castigo?” E responde: “de maneira nenhuma! Pois como ele poderia julgar o mundo?“ (Romanos 3, 5). Nas cartas de Paulo, a vingança, a raiva e a ira de Deus não são mencionadas menos vezes que o amor de Deus. Paulo repete o ensinamento de Jesus: “não pagueis o mal com o mal”, “não te vingues”; mas acrescenta, “deixa espaço para a ira de Deus, pois a Escritura diz, ‘A vingança a mim, eu me vingarei, diz o Senhor’” (Romanos 12, 17 ss). E, imediatamente após proclamar a justiça do amor, ele apresenta sua doutrina de que as autoridades estabelecidas do Estado são instituídas por Deus e, assim, deve ser considerada a vontade de Deus que os malfeitores sejam punidos por essas autoridades. A espiritualização do Reino de Deus no ensinamento de Paulo. Ao contrário de Jesus, Paulo, ao reconhecer a autoridade legal do Império Romano, não podia sustentar a crença no Reino de Deus como restauração do Estado judeu estabelecido neste mundo. O Reino de Deus tinha de ser transformado em uma ideologia puramente religiosa e apolítica por meio de sua transferência desse mundo para um mundo transcendental, de modo que parecesse inofensivo para a polícia romana. Essa espiritualização do reino de Deus e, especialmente, do elemento mais essencial, a ressurreição dos mortos, é a contribuição mais importante de Paulo à crença cristã. Paulo ao explicar a ressurreição diz que existe um corpo físico, mas também um espiritual; mas que não é o espírito que vem primeiro, mas o físico, e então o espiritual. Não é um corpo físico, mas um corpo espiritual que é erguido dos mortos, então a destruição da morte significa a imortalidade da alma e então “o reino de Deus não é uma questão do que comemos ou bebemos, mas da justiça, da paz e da felicidade por meio da posse do Espírito Santo” (Romanos 14, 17). Justiça: o segredo da fé. A tentativa de Paulo espiritualizar o Reino de Deus certamente não é causada apenas pela intenção de evitar um conflito direto com as autoridades romanas. Está intimamente ligada a uma tendência geral dos sentimentos religiosos de Paulo, sua inclinação para o irracionalismo e o misticismo. Ele estava inteiramente consciente da contradição entre o princípio da retribuição e o princípio do amor. Mas tal contradição existe apenas do ponto de vista da compreensão humana; é relevante apenas dentro da sabedoria deste mundo, não dentro da sabedoria misteriosa de Deus. A sabedoria de Deus – o que implica a sua justiça – é um mistério e a fé, nada a mais além da fé, permite-nos apreender essa justiça. Paulo
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É por isso que a concepção original do dualismo platônico sustenta que apenas o mundo da IDÉIA. é possível. III. O resultado final do ensinamento de Paulo. divina.19/07/13 O Que é Justiça .com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. participa da existência real. com os olhos da alma. Esse dualismo protéico. uma espécie de existência ou ser real.uma doutrina do bem como geralmente é apresentada. do DEVIR. é inconcebível separado do mal. o ético mantém uma posição de importância inequivocamente primordial. mas uma especulação sobre o bem e o mal. do ser sereno. Esse pensamento é. ao passo que o MUNDO DAS COISAS. um ser para Platão. e quando a este domínio transcendente ele opõe a esfera espaçotemporal da percepção sensória – uma esfera de DEVIR EM MOVIMENTO. Se o bem deve ser o objeto da cognição.de nenhuma maneira. sem espaço nem tempo. Não é um. então a cognição deve também reconhecer o mal. O bem. e isso é verdade na filosofia platônica. originalmente desqualificado na condição de não-ser. contudo. a justiça do amor permanece um segredo. na medida em que está em oposição ao mundo do bem). Apenas em um período tardio de sua criatividade o mal se tornou uma realidade. da primeira à última de suas obras. não existe nessa teologia nenhuma resposta à questão do que é justiça. Por esse motivo. multiforme é. a oposição entre o bem e o mal. voltado para o ideal ético.Trabalhos de Pesquisa . libertado de toda experiência sensorial. na análise final e no seu sentido mais primitivo. A idéia do bem na representação platônica destaca-se mais claramente que a concepção do mal. perceptível. contempla um domínio transcendente. uma questão da razão humana que se refere a um ideal que não é necessariamente idêntico a todo Direito positivo e que pode ser realizado neste mundo.Camilassouza afirma que apenas a fé ensina pelo amor e que esse está além da compreensão humana.html 29/105 . um domínio em que a realidade é um não-ser. que é a base da teologia Cristã da justiça. que não é . o representante do mal no dualismo ontológico. É apenas na esfera da ética que o pensamento puro. A JUSTIÇA PLATÔNICA PARTE I A marca da filosofia platônica é um dualismo radical.trabalhosfeitos. Na filosofia platônica. o mundo temporal dos eventos concretos. que ele considera ser apenas um domínio da semelhança ilusória. O objetivo que Platão se esforça em alcançar a partir dos pontos de vista mais diversos e com a maior energia. da IDÉIA. da coisa-em-si. que é o MUNDO DO BEM. Portanto. mas são dois os mundos que Platão enxerga. as reflexões concernentes ao bem são desenvolvidas com mais força e clareza que aquelas que têm o mal como seu objeto. e isso só depois de forçado a atribuir ao DEVIR. pela sua própria natureza. é o bem absoluto. que é idêntica ao Direito positivo. www. pode ser formulado da seguinte maneira: existe uma justiça humana. é o mundo do mal. que é o segredo da fé. e uma justiça absoluta. relativa. quando. deve ser considerado como não-ser (esse mundo empírico da realidade sensória. da realidade absoluta. verdadeira.

há indícios na doutrina platônica de uma tendência para tornar relativos esses opostos. Platão pressupõe uma oposição implacável. 30/105 . que nega esse mundo e a possibilidade de conhecê-lo. encontra-se claramente presente uma inclinação para tornar absoluto esse dualismo fundamental de bem e mal. na medida em que está em oposição ao mundo do bem). vê-se na sua obra um dualismo empedernido. não há nada com o qual seus pensamentos mais se preocupem do que com a educação e o Estado. a ética deve ter precedência sobre a ciência natural. consequentemente. PARTE II A atividade intelectual dos grandes moralistas está enraizada na sua vida pessoal num grau muito maior do que nos outros pensadores. uma vontade indômita de poder. Assim. do Eros platônico. um espírito humano em que vive. é radicalmente invertida pela visão ética.Camilassouza O pensamento que se volta para o verdadeiro ser deve ser colocado acima da percepção sensorial dessa aparência de ser. ele está obviamente tentando preencher de alguma maneira o abismo entre os dois mundos por meio da introdução de um meio-termo – um mediador para a oposição implacável desses produtos da especulação dualista.trabalhosfeitos. a realidade empírica é percebida não apenas como mal.19/07/13 mal. possa ser afirmado como realmente sendo. para afirmar aquele outro mundo em ser e saber. www.html A paixão pedagógica e política de Platão têm sua origem em seu Eros. contemplativa de um erudito que se contenta em olhar o mundo meramente como um objeto de conhecimento. Antes.Trabalhos de Pesquisa . e um profundo pessimismo. Assim. voltada para a realidade da experiência sensória. o que deve ser. mas também o mal é concebido como ser. isto é. A visão estabelecida pela cognição científica. A imagem da vida de Platão que se pode ver a partir dos documentos deixados por ele não retrata a natureza fria. O ponto decisivo nesse processo é esse: não apenas o bem. para uma explicação do mundo. Em geral. surge um espírito sacudido pelas mais violentas paixões. Seu objetivo era formar homens e reformar sua comunidade. como realidade. Por outro lado. O Que é Justiça . É extremo porque nega a possibilidade da ciência empírica e proclama como único objeto de cognição verdadeira o que se encontra além da experiência. Entre os dois mundos em que se divide todo o universo. O curso da vida de Platão é determinado essencialmente pela paixão do amor. de poder sobre homens. Na concepção platônica original da estrutura do mundo. Ao mesmo tempo. mas também como bem. para que o bem.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. como uma mistura de bem e mal. voltada para o valor e a justificação do mundo. em íntima e inextricável união com seu Eros. o processo de tornar relativa essa oposição fundamental de bem e mal é uma das pontes por sobre as quais o pensamento humano passa da ética para a ciência natural. porque toda especulação sobre o bem e o mal origina-se de uma experiência moral profunda. que não tolera pontes por sobre as quais a cognição possa passar de um mundo para o outro.

O casamento. confessando-o ele próprio. portanto. especialmente em Atenas. como a fonte de inúmeros males tanto para os indivíduos como para Estados inteiros. Á questão de Sócrtates quanto à real natureza de Eros. que passou a vida em um círculo de homens. a filosofia platônica volta sua atenção para este mundo e almeja um mundo unificado que abranja a natureza. Platão explica a visão do amor por meninos como o primeiro passo no caminho do conhecimento do bem. Como jovem e como homem. Com isso. como Sócrates.. O Que é Justiça . A natureza que ele compreende não www. permaneceram estranhos a Platão. que era envolto por um halo de santidade pela religião grega. É em “O banquete” que o filósofo justifica seu Eros. nele tudo é unido”. Sentia-se incapaz de cumprir o mais importante dever patriótico: o dever de prover o Estado de novos cidadãos. Fora do domínio da cultura dórica. Mas esse Eros foi caracterizado pelo velho Platão.. Do mesmo modo. como perigoso para o Estado. Em “O Banquete e Fedro”. como todos os espíritos. A natureza de Platão exclui a vida sexual normal.trabalhosfeitos. e a família. Ele despe seu Eros da sensualidade que é a sua própria natureza. Mesmo o direito penal ateniense exibe uma nítida tendência de oposição à pederastia. para espiritualizar esse Eros. Platão defende o seu Eros que ama meninos contra a visão oficial. o amor pelos jovens. Esse Eros.Camilassouza Esse Eros é a fonte dinâmica da filosofia platônica e é a natureza do Eros que determina a relação pessoal de Platão com a sociedade em geral e com a sociedade democrática de Atenas em particular. Via de regra. é intermediário entre o divino e o mortal (. pois não surge nele como expansão e enriquecimento da vida sexual normal. gerando filhos legítimos. mas nenhuma mulher desempenhou qualquer papel na vida de Platão. os que amavam belos jovens tinham também uma esposa e um filho em casa. Isso foi escrito indubitavelmente em uma época em que Platão se libertara da tirania desse Eros.19/07/13 A paixão pedagógica e política de Platão têm sua origem em seu Eros. e isso deve ter sido tanto mais doloroso porque sua postura intelectual voltava-se contra o declínio moral da época e tinha como objetivo o restabelecimento da moralidade ancestral.Trabalhos de Pesquisa .com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. Platão faz com que a profetisa Diotima responda: “Ele é um grande espírito e. o dualismo platônico assume um viés otimista. é a explicação de sua fuga do próprio mundo que ele deseja dominar. O que originalmente dividiu o mundo platônico agora une-o novamente. em sua última obra. a pederastia era vista com desprezo. com energia inigualável e grande força moral. sublimando-o completamente sob a pressão das visões sociais e de suas próprias convicções morais. coloca Platão em oposição à sociedade. assim justificando-se ao mesmo tempo justificando o próprio mundo. embora apenas na sua forma espiritualizada. Eros é responsável pela reunião. para melhor modela-lo segundo o seu desejo. que era um elemento fundamental do Estado grego. ele evitou o conflito aberto apenas por meio do esforço que fez logo desde o início.html 31/105 . Aristóteles estigmatizou-a na sua “Ética a Nicômaco” como um vício antinatural. Eros produziu a separação.) o medidor que cobre o abismo que os divide e. Com a tendência de tornar relativa a oposição entre bem e mal.

entre suas paixões eróticas e pedagógicas. o centro da atividade política. mas será concebida como algo que É. A postura da Academia Platônica correspondia à posição intelectual fundamental de Platão. sabe-se que Platão era por temperamento mais um político que um teórico. Platão recorre mais e mais a mitos quando deseja explicar o que considera essencial. Ele descobre www. suas obras dão a impressão não tanto de um sistema erudito de ciência moral. os filhos que seu Eros desejava: as melhores leis. e.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. e que esperou toda a sua vida pelo momento oportuno para agir. foi a política. no seu caráter como preparação para a vocação estadista.Camilassouza será considerada meramente a partir de um ponto de vista ético. das leis e das obras da justiça. As tendências decidiamente antidemocráticas e aristocráticas da Academia fizeram dela um baluarte do pensamento reacionário: mas ela não era apenas o centro de educação de polícos conservadores – era.Trabalhos de Pesquisa . como NÃO-SER. como algo que DEVE SER ou NÃO DEVE SER. na única que conduz ao conhecimento da justiça e torna legítima a pretensão de domínio: a filosofia platônica. pois. para quem a educação era a compensação para a política e a escola a virtual célula do Estado ideal. mas como participante – em diferentes graus – do ser real. Assim. é uma forma procriadora. que se reconhece o seu objeto primário. consequentemente. Consistia em uma comunidade fundada na religião platônica e no Eros platônico. Para ele. isto é. foi a escola corretamente denominada “seita metafísica”. Revela-se aqui de maneira mais clara a conexão íntima que existia entre o Eros platônico e sua vontade de poder sobre homens. Hoje. Esses são. Na sua obra “Epístola VII”. mas de uma profecia do Estado ideal. se é espiritualizado. Platão afirma repetidamente que o Eros que ama meninos. A Academia que Platão fundou logo após seu retorno da primeira viagem que fez para a Sicília (Academia Platônica) foi especialmente incentivada pelos círculos aristocráticos. da juventude em diante. Nenhum homem de ciência faria isso. Essa nova direção o reconduz à sociedade e ao Estado. mas também as artes da ordem social. É particularmente na função política da Academia.trabalhosfeitos. Por intermédio da profetisa ele faz saber que os mais belos filhos propagados pelo seu Eros espiritual incluem não apenas a poesia e as obras de escultura. porque não é mais concebida como absolutamente má e. expressa em uma ideologia religiosa declarada. PARTE III O estudo recente de Platão abalou a crença de que ele era um filósofo teórico que tinha como objetivo o estabelecimento de uma ciência rigorosa. Platão confessa que seu real desejo. o poder deve residir na única filosofia verdadeira. Considerando que a sua vontade política ética era inteiramente fundada na metafísica. portanto. a educação correta da juventude. O seu desejo mais ardente é o domínio do Estado.html 32/105 . a ordem justa do Estado. igualmente.19/07/13 O Que é Justiça . Voltava-se nem tanto para a ciência exata como para a especulação ética e mística. das constituições.

Assim. Essa lei aplica-se especialmente às ciências sociais. Há um significado profundo no fato peculiar de Platão nunca surgir como o representante das opiniões desenvidas nas obras que levam o seu nome. para Platão. além de a si mesmo. para Platão.Camilassouza Conhecer o mundo. “Os fins justificam os meios” destaca-se claramente como um princípio da teoria política platônica. seja como sociedade. Nenhum homem de ciência faria isso. Platão é.19/07/13 considera essencial. pois quando essas ciências são colocadas a serviço da política elas não mais servem o ideal de verdade objetiva. é um fim inteiramente diverso daquele de determinar o mundo pela vontade. está acima de tudo em importância – até mesmo acima da própria verdade. Sem dúvida essa forma literária atraía sua natureza dividida. de educá-lo ou dominá-lo. é apenas um meio para um fim. do que como um cientista do mundo. O Que é Justiça . fala mais com palavras proféticas obscuras. Devem acreditar que o destino (por meio de sorteio) designou-os uma para o outro.html essa máxima é uma consequência direta da primazia assumida pela 33/105 . e apenas permitindo que falasse podia livrar-se desse conflito interior. mas devem tornar-se uma ideologia de poder. o Estranho Ateniense. assim como para os pitagóricos. ao tentar dar-lhe expressão. mas de natureza religiosa e moral. depois por meio de outro.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. descobriu nesse tipo de apresentação uma escapatória possível da necessidade de identificar-se com qualquer teoria. se suas declarações são mais ou menos verdadeiras é questão de pouca importância para ele. como um vidente do mundo além. Esse é o verdadeiro motivo da escolha dos diálogos. de formá-lo ou reformá-lo. PARTE IV Platão diz que no Estado ideal (que é o Estado governado pela filosofia platônica). Aquilo a que Platão dá suprema importância é o efeito produzido por essas falar. um poeta no sentido de que se preocupa pouco com o que dizem seus personagens. O interesse do Estado. exceto pelo fato de o efeito por ele desejado não ser estético. dilacerada como era por um conflito trágico.trabalhosfeitos. É uma lei vital de todo conhecimento puro que ele seja desenvolvido por si só. Quão grande era a tendência da filosofia platônica nessa direção é indicado pela concepção de verdade de Platão.Trabalhos de Pesquisa . quem poderia sentir mais agudamente que Platão a necessidade de dar ao adversário. Ele é realmente um dramaturgo. o governo deve usar algumas fraudes e engodos para o “bem-estar dos governados”. seja como natureza. pode ser tomada como elemento essencial do pensamento platônico. uma oportunidade de falar? Ele tinha esse adversário no próprio peito. Ora. tão característica que. Ele descobre algo mais elevado e mais importante que a teoria exata junto ao seu coração e. pois. e www. juntamente com o amor platônico. ele apresenta essas visões por meio da pessoa de Sócrates. Exemplo (regulamentação estatal do controle de natalidade): os casais selecionados sob orientação estatal para o propósito de propagação devem ser enganados para que não se considerem meramente instrumentos nas mãos do governo. a verdade platônica. A ciência.

portanto. ela ocupa uma posição de primazia diante da verdade racional. nos quais trata direta ou indiretamente do problema da justiça. a poesia e a religião. era inteiramente incompatível com esse monoteísmo? A inclinação é.trabalhosfeitos. da justiça. outro para jovens e um para velhos. A única justificatica desse procedimento é que isso contribui para os melhores interesses do homem e apenas desse modo a justiça pode realizar-se. constitui igualmente a verdade. em tautologias vazias. a verdade político-religiosa mais importante e.Camilassouza surpreendentes.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. Para engendrar e garantir uma postura adequada por parte dos cidadãos.Trabalhos de Pesquisa . pois com o avançar dos anos é natural que sintam relutância para cantar e dançar. Platão faz outras propostas que visam obrigar a ciência. afirmar a religião oficial do povo. que é o representante da divindade. De que outra maneira podemos explicar o fato de desenvolver. ao mesmo tempo. na sua função de produtoras de ideologia. sobre a verdade. por um lado. a crença na verdade desse ensinamento é propagada. assim eles podem ser manejados facilmente como crianças. porém. www. No diálogo “As Leis”. PARTE V Os diálogos escritos por Platão na juventude. Será exigido desses coros que cantem as canções prescritas pelo governo.19/07/13 essa máxima é uma consequência direta da primazia assumida pela vontade sobre o conhecimento. De modo similar.html Característico desse período inicial de Platão é o “Trasímaco”. constitui a justiça. análogos aos diferentes graus do Eros. que. Assim. Não se pode. É concebível que haverá oposição a esse programa da parte dos velhos. será necessário providenciar para que os membros do terceiro coro sejam induzidos à embriaguez. do operador divino do espetáculo de fantoches. sua teoria das idéias com uma pronunciada tendência monoteísta e. sob a direção de um funcionário do governo. enquanto ainda estava sob a influência de Sócrates. em sua capacidade de epistemologista e psicólogo. que elas representavam para ele graus diferentes de verdade. Assim. embora não diga diretamente. antes. Platão formula o famoso símile dos homens como fantoches nas mãos da divindade. portanto. Talvez não seja surpreendente descobrir que Platão como político ou teórico da política adote uma posição similar à do pragmatismo. escapar à impressão ocasional de que Platão. devem proclamar o ensinamento de que a justiça conduz à felicidade e a injustiça à infelicidade. pode manipular os fios enquanto se mantém tão invisível quanto pode. a servir o Estado. com sua multiplicidade de deuses. que declara que o que é útil para o Estado e. que devem incorporar ensinamentos úteis ao Estado – acima de tudo. o governo. admitir que Platão estava bem consciente dessas contradições em sua doutrina. Ele considerava. está fazendo a ressalva de uma possível dualidade da verdade. propõe dividi-los em três coros: um para meninos. perdem-se em uma análise estéril de conceitos. obra 34/105 . Platão faz um grande número de propostas O Que é Justiça . assim.

Trabalhos de Pesquisa . obra provalmente iniciada antes da primeira viagem de Platão à Siracusa. mas igualmente nas modificações pelas quais passa a doutrina da alma. o conceito de retribuição é tão vazio quanto o de igualdade.Camilassouza Característico desse período inicial de Platão é o “Trasímaco”. Não foi inteiramente completada. indica uma doutrina de justiça cuja essência é a retribuição.html 35/105 .trabalhosfeitos. Ele acreditada ter encontrado no Pitagorismo a resposta para a questão mais premente: o mistério da justiça. especialmente na sua obra principal sobre a doutrina da alma. Ela reflete apenas a estrutura externa da ordem social existente. A ligação íntima entre as doutrinas platônicas da alma e da justiça é óbvia. E aí se encontra o germe da doutrina das idéias. Essa seção finalmente se encerra com a declaração de Sócrates de que. Platão teria dado resposta à natureza da justiça. O que a alma viu na sua preexistência são idéias e. às vésperas de uma viagem à Itália meridional. para ele. Entretanto.19/07/13 O Que é Justiça . a idéia de justiça. Na medida em que não se sabe o que é justo. “Fédon”. essa resposta é apenas uma resposta aparente. ou da metempsicose. não apenas no fato de ele sempre apresentar uma em conjunção com a outra. acima de tudo. pois a questão real e decisiva quanto à essência da justiça não foi discutida.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. ela não oferece nenhuma informação real quanto à natureza da justiça. A essência da doutrina pitagórica é a crença de que após a morte a alma do homem será punida pelo mal e recompensada pelo bem. onde se familiarizou com a metafísica política e religiosa da escola pitagórica. um guia ao qual permaneceu fiel durante todo o resto da vida. Esse pitagorismo tornou-se um novo guia. A crença na concretização da justiça no outro mundo compele à concepção de uma existência futura da alma. Essa é a doutrina apresentada por Platão no diálogo “Górgias”. antes de seu nascimento nesse mundo. à teoria do conhecimento como reminiscência do que foi visto pela alma no outro mundo. Poderia parecer que. que é uma ordem coercitiva. que meramente vincula o mal do delito ao mal da sanção como sua consequência. Essa ordem é justificada pela representação do mecanismo de culpa e punição como um caso especial de um princípio geral que – como vontade da divindade – é a lei da retribuição. encontrava-se no momento decisivo da sua vida. a necessidade de uma cognição da natureza da justiça conduz à concepção de uma preexistência da alma. Fundamentalmente ela revela apenas a função concreta do direito positivo. dominou a obra de Platão desse ponto até a sua morte. não se pode decidir se o justo é ou não uma virtude ou se o homem justo é ou não feliz. e que é melhor submeter-se à punição jurídica que escapar dela. mas incorporou-se posteriormente ao primeiro livro de “A República”. Quando Platão deixou incompleto o se “Trasímaco”. o resultado de toda a discussão é meramente a informação de que ele não sabe nada. Essa crença profética. As principais teses morais dessa obra são que é melhor sofrer a injustiça que cometê-la. de que a justiça é a retribução no outro mundo. que é geralmente considerada a característica da www. Considerado por si mesmo. Essa metafísica de um mundo futuro de almas. com a fórmula da retribuição.

Na verdade. Na vida da sociedade. uma comparação da justiça com o bem-estar da alma. portanto. a construção do Estado ideal que Platão delineia em "A República" não é uma solução dos problemas materiais referentes à natureza da justiça. ele exibe apenas as condições de organização sob as quais a vida presumivelmente irá se moldar para os fins da justiça. Então. que.Camilassouza justiça. e. que é composto de filósofos. a substância da justiça. Mas o que é o bem. Portanto. ser considerada uma resposta à questão da natureza da justiça. Isso demonstra a peculiaridade de seu método. O bem é. O seu ponto central está na explicação do problema do bem. parece que a obra chamada "A República" tem como objetivo fornecer uma resposta para a questão da substância da justiça. não se descobre nesse diálogo. Segue-se. Não se encontra nenhuma norma geral para regulamentação da vida do povo. o semelhante para os semelhantes. querem o bem.html 36/105 . O próprio Platão diz que a descrição da divisão tripartite do organismo social como constituição do verdadeiro Estado não deverá. por causa de sua educação. nem indica a multiplicidade das normas que regulam as relações humanas e que constituem elas próprias a essência da justiça. o que é exatamente a natureza desse bem do qual o mal deve ser a negação? A questão quanto à natureza da justiça resume-se à questão quanto à natureza do bem. que se submete às duas classes reinantes (filósofos e guerreiros). a retribuição é ela própria uma fórmula de igualdade. que se restringe à afirmação de que o bem existe. o que nada mais exprime além da constituição correta da alma. na medida em que se refere a assuntos terrenos. Assim. que funciona como o aparelho coercitivo da retribução. portanto. a maior das quais parece ser a idéia do bem. É o Estado que deve garantir o triunfo do bem sobre o mal neste mundo.19/07/13 O Que é Justiça . porém. Depois de estabelecido o paralelo e encontradas as três partes da alma que correspondem às três partes do Estado. É realmente esse o caso. embora não particularmente significativa. poder-se-ia crer que a resposta à questão da justiça é óbvia. conhecem e. e é por esse motivo que a culminância dessa obra sobre o Estado é a teoria das idéias. de nenhuma maneira.Trabalhos de Pesquisa . pelo menos não completamente. Essa resposta seria que as três partes da alma (racional. Mas em que consiste esse bem que deve realizar-se no governo? Qual é a substância dos atos de governar? Apenas da resposta a essas perguntas pode-se apreender a natureza da justiça. já que não faz nada mais além de que o bem será para os bons. a justiça. assim. não www. Platão tem consciência desde o início de que a tentativa de alcançar a natureza da justiça por meio de uma analogia entre Estado e indivíduo não será bem-sucedida. o adiamento contínuo da solução de problemas. espiritual e aquela onde residem os apetites) cada uma delas exercerá a sua própria função e nenhuma outra. O que é realmente o bem. assim.trabalhosfeitos. Tudo é deixado às decisões individuais do governo. é o Estado. e por esse motivo Platão identifica-os frequentemente.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. o mal para os maus. mas não explica essa vida justamente regulada. É um equívoco supor que o relato platônico do Estado verdadeiro ofereça o plano acabado de uma ordem estatal.

O bem é e é o mais elevado entre todos. é esta: trata-se de um mistério divino.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. é necessário um caminho mais longo e detalhado para que se compreenda a natureza da justiça. e não o produto da consideração racional. nem haverá. pois isso não admite expressão verbal como outros estudos.Trabalhos de Pesquisa . para que a questão quanto à sua natureza essencial possa ser evitada.é uma experiência que não é comunicável. é isolado dos muitos que não contemplaram nem poderão jamais contemplar essa visão.Camilassouza esclarece a analogia entre as constituições da alma e do Estado. qual é a sua natureza decisiva para a teoria e a prática social . e. nem mesmo nas leis do melhor dos legisladores. O que é. especialmente. A conclusão final da sabedoria platônica. Mal uma resposta para a questão parece ter sido encontrada. mas em todos os outros diálogos. a resposta oferecida à questão formulada vezes e vezes ao longo dos diálogos. ou seja. como pode ser reconhecido nas atividades humanas ou na ordem social. Esse método tem como propósito a elevação do objeto da discussão. torna-se evidente que Platão não pode oferecer nenhuma resposta à questão do bem absoluto. mas para a eternidade. Ele nunca responde à questão. na "Epístola VII". e. Assim.essas questões permanecem sem resposta. Tal pessoa é elevada acima dos outros homens porque sua experiência particular o aproxima da divindade. na verdade. a posição atingida é abandonada. portanto. Considerando o que Platão disse em "O banquete". não O Que é Justiça . 37/105 .html solução objetiva. o conhecimento que foi até então alcançado quanto à natureza da justiça é novamente negado. em uma etapa de certo modo avançada do diálogo (presente no livro "A República"). e o fim é novamente adiado.19/07/13 exprime além da constituição correta da alma. Essa experiência religiosa derivada de um sentido interior tão raro não pode ser expressa racionalmente em conceitos como pode a experiência dos outros sentidos.trabalhosfeitos. deve-se representar a visão da idéia suprema do bem como um ato intuitivo de súbita iluminação que ocorre em um momento de êxtase. Aqui. a justiça. em "Fedro" e. portanto. Os outros devem se contentar em adorar e obedecer. e não apenas em "A República". podemos compreender a afirmação paradoxal de Platão na "Epístola VII" de que não há escritos seus sobre essas questões. o ensinamento de Platão é um misticismo genuíno em seu ponto mais decisivo. O segredo da justiça não pode ser revelado. Justamente no ponto da filosofia de Platão em que se espera uma www. e do que é composto. a questão da natureza da justiça. Sócrates retorna a sua observação de que. a um grau de divindade. tampouco pode ser comunicada a outros. O filósofo que governa no Estado ideal conhece o bem. Platão deixou a natureza do bem em si nesse estado insatisfatório não apenas para o presente. Na verdade. Quem viu o bem. o resultado obtido é rejeitado como inexato ou errôneo. surge uma mera fórmula para a salvação pessoal. Assim. qual é o seu critério. O conhecimento interior é possível apenas para uma pequena elite. pois a visão do ser supremo é inexprimível . o objeto da graça. Após se desviar um tanto longamente do tema devido. talvez apenas para uma única pessoa escolhida por Deus. o escolhido.

que apresenta uma filosofia geral em suas determinações mais gerais do ser. compreende um bem absoluto. A teologia como metafísica coloca-se acima de todas as ciências.Camilassouza solução objetiva. este último como um bem geral. a Ética a www. abandona este dualismo e estuda a finalidade das ações. e imóvel (teologia ou como o conhecimento de Deus).com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. este bem absoluto é a causa e o fim de todas as ações que se concretiza em Deus.trabalhosfeitos. Aristóteles refletia da seguinte maneira: um motor ou uma força inicial com uma força em si mesmo. E. A vida. faz a ressalva de que a ciência dos princípios e das causas iniciais do que é coincide com o que deve ser. não tem outra escolha. Preocupa-se com a realidade das propriedades e relações do ser como tal. é a justificação da sua doutrina política anti-democrática. seja o bem em particular. O misticismo platônico.html 38/105 . A filosofia da natureza fundamental do ser é estudada por Aristóteles como o objetivo de definir o bem absoluto que todas as ações devem estar voltadas. A massa do povo. Partindo de uma filosofia fundamental da realidade e do ser. tem a vida. senão acreditar na sabadoria e na graça do governante. e por isso pensaria somente Nele mesmo o tempo todo. na Ética. a felicidade e a atividade e possui esses elementos sempre. Porém. o que equivale a uma tautologia (redundância) vazia. e. que Deus pensaria somente em coisas divinas que são boas.19/07/13 O Que é Justiça .. Como filósofo governante tem um conhecimento do bem divino e é o possuidor exclusivo desse segredo. ocupa-se daquilo que é e não daquilo que deve ser. e como já dito.. surge uma mera fórmula para a salvação pessoal. Toda ação deve ter como objetivo o bem. Assim é Deus em relação aos seres. A DOUTRINA DA JUSTIÇA DE ARISTÓTELES I Aristóteles tenta desenvolver. enquanto possuímos esses elementos por alguns momentos. “A metafísica aristotélica exibe uma clara tendência de personificar seu primeiro princípio. Há três versões da ética para Aristóteles: Ética a Nicômaco. apresentado como motor imóvel e o bem absoluto. Deus é um conceito a ser estudado que se divide no antagonismo de móvel (o domínio da natureza). ele é inteiramente diferente dos outros homens. que não tem nenhum direito político. a força inicial que compreende o bem absoluto que gerará os demais movimentos e transformará as demais coisas. IV. Após. é a ideologia de todas as autocracias. a mais completa expressão do irracional. desenvolve um estudo sobre a ética ligada ao bem. sua filosofia moral. que ganham força somente a partir da força inicial. ou o Bem supremo. Essa crença é o fundamento da obediência incondicional dos sujeitos sobre a qual a autoridade do Estado platônico repousa.” O autor se refere ao pensamento que Aristóteles passou a desenvolver para explicar o bem absoluto (o bem imóvel). a felicidade e a atividade são atribuídas a ele. movimenta os demais motores ou forças. que é definido pela ciência dos princípios e das causas iniciais. Ainda afirma.Trabalhos de Pesquisa .

com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. II “Assim. Se a virtude for do homem mau a felicidade será apenas aparente. é humanizado. Consequentemente. E ainda. enganadora e falsa. pois ela virtualmente identificou a felicidade com uma forma de boa vida ou bem fazer. ou alguma virtude particular” e faz a seguinte declaração: “nenhum homem supremamente feliz pode tornar-se infeliz. Desenvolvendo o pensamento sobre o bem Supremo afirma que este Bem é a felicidade que parecerá uma verdade incontestável.Camilassouza Eudemo e a Grande Ética. Já Aristóteles rejeita a idéia de Platão para a ética e afirma ”o bem não é um termo geral que corresponde a uma única idéia”. o bem. desde que seja uma virtude voltada para o bem. Seu ponto de partida é o desejo humano. A felicidade buscada pelo homem é o estado inalcançável de satisfação completa de todos os desejos da mente. Aristóteles inicia a sua ética afirmando “o bem é aquilo a que todas as coisas visam”. já que sustentamos que um homem verdadeiramente bom e sábio suportará todos os tipos de destino com decoro e sempre atuará da maneira mais nobre que as circunstâncias permitirem. o bem em cada caso particular e. o que é quase idêntica a tese principal da Metafísica “o fim para o qual se faz cada ação é o bem. porém a metafísica defende que bem: “é o bem para o homem”.19/07/13 O Que é Justiça . Essa felicidade é atingida como uma recompensa pela virtude.e o autor reescreve um www. que será buscado instintivamente e dificilmente será retirado dele. o bem supremo em toda a natureza”. e nesse sentido não se pode afirmar que o homem virtuoso sofra menores ou maiores infelicidades e infortúnios. Conclui afirmando que é evidente que a felicidade é concebida como consequência ou recompensa da virtude e não como sinônimo ou formas de sentimentos idênticos. em geral.html 39/105 . E. o valor moral. Se você é virtuoso e se conduz como se deve conduzir então será feliz. é apresentado como a virtude do homem. a ‘virtude perfeita’” A Ética não pode ser afirmada com exatidão. Pois ele nunca cometerá ações odiosas ou vis.” Por fim Aristóteles retoma a primeira definição de felicidade como: “certa atividade da alma em conformidade com a virtude perfeita”. Aristóteles afirma que se o bem é algo que existe e é separadamente absoluto então nunca será alcançado pelo homem. E o autor afirma que a felicidade pode ser identificada como uma virtude. da qual só se pode confirmar com um relato explicito. Platão defende a idéia de que há um bem absoluto em outro mundo.” E a partir desta definição Aristóteles concorda “com os que pronunciam ser a felicidade virtude. “Nossa definição concorda com a descrição do homem feliz como aquele que ‘vive bem’ ou ‘faz bem’.Trabalhos de Pesquisa . a Ética de Aristóteles almeja um sistema de virtudes humanas. porém este bem que se busca agora está ao alcance do homem. por fim coloca que a verdadeira felicidade nada mais é do que a própria virtude.trabalhosfeitos. entre as quais a justiça é a ‘principal das virtudes’. pois até dormindo se pode ter virtude. Ele rejeita a idéia de que a virtude é o objetivo da vida. e afirma.

.)” Aristóteles tem a famosa Doutrina do Meio (mesótes) em que ele tenta aplicar uma analogia matemática-geométrica para solucionar o problema da ética. de todas as coisas que são contínuas e divisíveis.” Porém ele afirma um pouco depois que é muito difícil descobrir o ponto médio de qualquer coisa.html certo e errado. ‘no tocante à excelência e à correção. deficiência. virtuosa ou viciosa. sendo a parte igual a um meio entre o excesso e a deficiência. “Ele é compelido a modificar sua teoria do meio dizendo que a virtude é ‘a observância do meio’ apenas ‘no que diz respeito à sua essência e à definição que formula o seu ser original’..Camilassouza pensamento de Aristóteles: “devemos ficar satisfeitos se. é possível tomar a maior parte ou a menor parte. ‘pouco’. que são vícios. conseguirmos apresentar um tosco esboço da verdade (. se diz que ele obedece a norma. não um meio para um fim. ‘médio’. o esquema tripartite de ‘muito’. ‘A virtude é um estado médio no sentido de que almeja atingir o meio (. 40/105 .19/07/13 A Ética não pode ser afirmada com exatidão.” E as vezes não se tem a conduta como equivalente a qualquer das extremidades. E faz considerações importantes sobre a virtude: “A virtude é um estado médio entre dois extremos. que não se refere a qualidade do valor moral. a essas partes podem ser maiores. mas. E afirma: “a quantificação do valor moral.trabalhosfeitos.Trabalhos de Pesquisa . No domínio dos valores morais não há quantidades mensuráveis como no domínio da realidade enquanto objeto da ciência natural. menores e iguais de acordo com a própria coisa ou relativamente a nós. Porém afirma que há três graus ou “quantidades” de desconformidade: excesso. o outro o da deficiência. meio.e só assim para se ter uma obra perfeita. É uma maneira de expressar a idéia de que algo é um fim. pressupõe a assunção de que algo deve ser feito. justa ou injusta. e a observância do meio uma marca de virtude’.. com o seguinte raciocínio: “A afirmação de que uma conduta humana definida é boa ou má.” E este juízo de valor que dará ensejo a norma.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. A afirmação de que algo deve ser feito é uma norma. mas sim a uma realidade psíquica. ou a conduta está em conformidade ou não está em conformidade. E explica a aplicabilidade deste sistema quanto ao valor moral: “Ora. a pressuposição essencial de um método matemático-geométrico para determinar o bem é uma falácia. lidando com sujeitos e partindo de premissas assim incertas (como os conceitos de bem e justiça).. um o do excesso.” Parte deste ponto para chegar a conclusão de como deve ser a norma e os atos em conformidade com ela. ao passo que a observação do meio a preserva. portanto.. definindo o que é virtude.” E depois ele explica que o excesso e a deficiência destroem a perfeição. E ainda ressalta que uma conduta não pode ser muito ou pouco conforme a norma.e o autor reescreve um O Que é Justiça . conformidade e não conformidade. www. é um extremo’.) o excesso e a deficiência são marca do vício. A conduta do homem que está de acordo com a norma. ou uma parte igual. E para utilizar um calculo matemático-geométrico transforma a qualidade em quantidade e parte de um ponto comum. É um julgamento de valor. certa ou errada. E.. abandona a doutrina do meio (tripartite: dois extremos e um ponto médio da conduta) e inicia a teoria bipartite (bem e mau.

A justiça distributiva é aquela aplicada para distribuição de riqueza. Por conseguinte a indivíduos em iguais situações devem ser concedidos direitos idênticos. conformidade e não conformidade. e as diversas decisões da legislação chamamos regras de justiça. A mesótes pretende estabelecer de modo peremptório o valor moral. mas em conflito com outra norma. É claro. de tal modo que. para ter a conformidade com a norma observa-se a aplicação do princípio da proporcionalidade.19/07/13 certo e errado. sendo esta regra justa em qualquer situação. ou a cada um o que lhe é devido. porém não leva em conta que no sistema há várias normas e que muitas vezes a conduta está inteiramente de acordo com uma norma. Visa a justiça social. honra e bens divisíveis (justiça social). em que sentido a justiça é a observância de um meio e quais são os extremos entre os quais o que é justo é um meio. a cada um o seu. Nossa indagação pode seguir o mesmo procedimento que as nossas investigações precedentes”. tem o objetivo de implementar a isonomia com a aplicação do princípio da proporcionalidade. mas deixa este ônus para a autoridade da moralidade positiva e do direito positivo (ordem estabelecida) definir o valor da moral.html 41/105 .com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. finaliza com o princípio suum cuique. E coloca dois conceitos de justiça: a legitimidade e a igualdade. E. em um dos seus sentidos o termo justo é aplicado em qualquer coisa que produz e preserva a felicidade. A justiça da igualdade é dividida em dois tipos a distributiva e a corretiva. se concede a tutela social de igual modo aos indivíduos que se encontrem socialmente iguais.trabalhosfeitos. ou de outra maneira semelhante. Coloca a legitimidade como um conceito mais amplo (genérico) e a igualdade como um conceito mais restrito (especifico). Já a justiça corretiva é exercida pelo juiz ao solucionar lides. pois o que é legítimo é decidido pela legislação. E desse modo fazendo uma analogia pode-se afirmar que a virtude é a disposição dos homens que em conformidade com a ordem moral. É a www. sendo irrelevante as características do indivíduo. E completa a idéia com o seguinte raciocínio “Vimos que o violador da lei é injusto e o homem respeitador da lei é justo. “No que diz respeito à justiça e à injustiça (dikaiosýne e adikía) temos de investigar de que espécie de ações elas precisamente se ocupam. portanto. Esse é o verdadeiro significado da afirmação de que a virtude é a observância do meio relativo ao homem. III Este terceiro tópico discorre sobre a justiça e segundo ele a principal das virtudes.” E por fim o autor coloca: o que equivale a um glorificação incondicional do direito positivo. ou as partes componentes da felicidade.Camilassouza A doutrina do meio deixa a impressão de que a conduta ou está de acordo com a norma ou não está de acordo. O Que é Justiça .Trabalhos de Pesquisa .” E completa: “Ora todos os pronunciamentos do Direito visam ou ao interesse de uma classe dominante determinada pela excelência. que todas as coisas legítimas são justas em um sentido da palavra. da comunidade política.

Para aplicação da teoria do meio ele faz as seguintes ponderações: “A justiça é um modo de observar o meio.” E o autor explica: “Dizer que a justiça é um meio entre cometer e sofrer injustiça é uma expressão figurada do julgamento de que a justiça não é injustiça. nem a injustiça que é cometida nem a injustiça que é sofrida. não são e não podem ser iguais. Todos os pensamentos sobre justiça tentam buscar uma www. O que é justiça.Trabalhos de Pesquisa . e utiliza o princípio novamente “cada um o seu”.” A igualdade se restaura observando-se que o igual é uma média pela proporção aritmética entre o maior e o menor.Camilassouza retribuição pelo ato. segundo a qual a ‘igualdade’ é estabelecida pela justiça corretiva. assim como o crime e a punição não podem ser iguais nesse sentido. o juiz esforçase para igualar (a desigualdade) (. subtraindo o ganho.. A justiça será aplicada pelo Estado. e fará determinações gerais de quem e o que é igual. “Esse é o princípio da justiça no sentido de legitimidade ou no sentido de igualdade. o que deve ser aplicado também para a justiça corretiva.trabalhosfeitos. visa recompor a igualdade de direitos. já que. A mesma igualdade prevalecerá entre crime e punição. De forma que a paz tem a sua identificação de justiça com Direito. de modo que o valor moral de justiça seja substituído pelo valor lógico de nãocontradição. que será aplicada a casos particulares. Deve-se racionalizar a idéia de justiça como valor objetivo. “Serviço e serviço de retribuição têm de ser igualados. fica sem resposta. É por isso que Aristóteles é finalmente obrigado a renunciar a sua fórmula matemática. A retribuição vem dos instintos mais primitivos do homem o desejo de vingança. A igualdade deve prevalecer entre a retribuição ou punição. embora não da mesma maneira que as outras virtudes. Pois o Direito é a ordem política. a justiça personificada”. E coloca “o juiz ideal. e o Direito determina o que é justo”. de modo que deve haver a reciprocidade da justiça na base da proporção e não na base da igualdade. Porém se pergunta qual a retribuição (para o contra serviço) ou qual a punição (para o crime) adequada? Ele tenta responder com uma formula matemática-geométrica: “O injusto sendo aqui o desigual. De forma que a punição será igual ao crime e a recompensa igual ao mérito. através dos princípios da reciprocidade e da proporcionalidade. em si.html 42/105 . que estabelecerá uma ordem jurídica.” Partindo deste raciocínio Aristóteles tenta buscar uma idéia mais substancial de paz. as quais porém são ambas a mesma e única injustiça. é por assim dizer. no sentido de que duas metades de uma linha o são.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. E divide as transações em voluntárias (civil) e involuntárias (criminal).. essa é a igualdade perante o direito” essa igualdade é mantida por normas gerais. A justiça corretiva exige que o serviço e o contra serviço que constituem a permuta sejam iguais. portanto.19/07/13 O Que é Justiça . pois onde a paz prevalece não há necessidade de justiça. e prefere que os legisladores busquem a paz e não a justiça. A justiça: “é uma função do Estado.” E defende que a existência do Estado depende da aplicação da reciprocidade proporcional.) o juiz esforça-se para torná-las (as duas partes da linha) iguais por meio da pena ou perda que impõe.

Porém essa fórmula não deve ser levada por absoluta. pois nega a existência de um Estado que organizou a maior parte da humanidade civilizada. e nega um direito que é a matriz de todo o direito moderno.19/07/13 contradição.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. respectivamente. ao passo que a lei propriamente dita é a palavra do que. pois decorrente de Deus.monoteísmo. que a lei da natureza.animismo. Pois o que é feito pelo direito é feito justamente. da consideração de que a natureza é o legislador supremo. pode ser corretamente atribuída a Deus. Personifica a natureza e subordina o homem à autoridade desta.1ª fase .Camilassouza A ordem social é que deve justificar a validade do Direito positivo. A doutrina do Direito natural pode ter um caráter mais ou menos religioso em fases evolutivas: . Todos os pensamentos sobre justiça tentam buscar uma definição do que é justo. tais como expressos na palavra de Deus. Grotius – define a lei da natureza como um ditame da própria natureza racional por meio do qual certos atos são proibidos ou prescritos “pelo autor da natureza. Paralelamente. porque Ele desejou que tais traços existissem em nós” Hobbes – declara que a lei da natureza é um ditame da razão. Grotius. V. e por conseqüência de seu raciocínio no Império Romano nunca houve direito. se considerarmos os mesmos teoremas. que procede das “características essenciais implantadas no homem. A adoração se direciona à natureza. da sociedade e das coisas). por direito. onde os seres naturais são considerados animados. por direito. para isso.html adequadamente denominados leis”. Parte. Ainda afirma Agustinho “A justiça é a virtude que dá a cada um o que lhe é devido”. que viveu na época do Império Romano numa época que o cristianismo não exercia o domínio. um bispo. natural ou antinatural. conforme o que seria. O Que é Justiça .Trabalhos de Pesquisa . comanda todas as coisas. Mas.”. Pois as invenções injustas dos homens não devem ser consideradas nem chamadas de leis. Afirma.trabalhosfeitos. tem domínio sobre os outros. Deus”. . ainda.2ª fase . A DOUTRINA DO DIREITO NATURAL PERANTE O TRIBUNAL DA CIÊNCIA I O Direito natural tenta solucionar o conflito entre o certo e o errado das condutas humanas (natureza do homem. faz as seguintes afirmações: “Onde não há justiça verdadeira não pode haver direito. podendo prejudicar ou proteger o homem. então serão www. 43/105 . Hobbes e Puffendorf elaboram raciocínio para justificar as características do Direito natural como inato e imutável. a natureza. e o que é feito injustamente não pode ser feito pelo direito. que. é manifestação de sua vontade justa e toda-poderosa. mas os ditames da razão são “conclusões ou teoremas quanto ao que conduz à conservação e à defesa de si mesmos. criada por Deus. Como Aurélio Agostinho. o Direito posto pelo homem é apenas temporário e mutável.

os fenômenos se relacionam por causa e efeito: o calor dilata o corpo metálico. liberdade social ou segurança social – tornando os valores relativos. conforme a ordem jurídica ou moral local. Esse Direito será simultaneamente o positivo www. pois admitem o homem como mau e entendem o Direito positivo fixado pelo Estado.Trabalhos de Pesquisa . Tratando-se de pessoa única – o monarca-. absoluta e transcendental: Deus. a doutrina do Direito natural não tem nenhuma chance. então. 44/105 . o Direito natural toma as regras deduzidas da natureza como regras do Direito. deve ser punido. Se em conformidade a esta. ou mesmo da interpretação por este. do contrário será negativa. No entanto. concebendo a natureza como parte da sociedade. É a natureza ideal do homem que é deduzida do Direito natural. a conduta será positiva. que “perante o tribunal da ciência. tem-se que “se A existe. diz que se os ditames da razão – os princípios do Direito natural – devem ter a força do Direito.Camilassouza Puffendorf – acompanhando Hobbes. Mas. A admissão entre os autores da possibilidade ou não de conflito entre esses direitos revela uma inferioridade do primeiro em relação ao segundo. Kelsen critica a diferença essencial entre as “leis da ciência” e a “moral e o Direito”. o sistema de direito natural é único.“ II O dualismo Direito natural e Direito positivo traz outro conflito em si. ela deve ser fundamentalmente boa. III A validade do Direito positivo ocorre na medida de sua correspondência com o Direito natural. B deve existir”: se um homem está necessitado. Hobbes sustenta impossível a contrariedade do Direito positivo com a lei da natureza: isto porque o conteúdo do Direito positivo é fixado pelo representante da nação. que é de sua natureza. pois a autoridade que emite as normas/valores é única. Na ciência. a obrigação do Direito natural provém de Deus. por outro lado.” A diversidade existente entre os sistemas morais/jurídicos varia conforme a vontade de seu autor – priorizando bem estar individual ou coletivo.html e o natural. se um homem comete assassinato. É a diferença entre a causalidade – leis da ciência – e a normatividade – na moral e no Direito.(Identificação do Direito positivo com o Direito natural). Conclui. Mas pode negar a competência desse tribunal recorrendo ao seu caráter religioso. a necessidade do Direito positivo funda-se exatamente na maldade do homem. cujos valores são absolutos. seus semelhantes devem assisti-lo.19/07/13 adequadamente denominados leis”. dificilmente haverá contradição entre as leis. Hobbes e Pufendorf não caem nesse conflito. “Não existe nenhuma inferência lógica a partir do “é” para o “deve ser” da realidade natural para o valor moral ou jurídico. como autorização formalista dada pelo Direito natural.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. Se a natureza humana é a fonte do Direito natural. O juízo de valor é exercido a partir da norma pressuposta. má ou errônea.trabalhosfeitos. O Que é Justiça . Já na ética e no Direito e na moral. Diversamente. boa ou correta.

Embora Pufendorf critique Hobbes. Puffendorf “ diz que : “a presunção de justiça coloca-se sempre ao lado do príncipe”. mas tentam provar que ocorrerá apenas excepcionalmente. como a justificação do primeiro pelo segundo. O conflito é teoricamente possível. Mas esta lei contrária ao Direito natural dificilmente seria aprovada.html 45/105 . a não ser que o fim fosse a destruição do Estado. A definição de Pufendorf de justiça sob o Direito natural é a “vontade perpétua de dar a cada homem o que lhe é devido”. a justiça definida com o sentido de Direito natural é possível apenas sob o Direito positivo. a presunção que sempre existe é de que o Direito positivo é o Direito natural. no interesse dos concidadãos e de todo o Estado. mas sim daquela ideia que foi adotada pelo poder soberano e incorporada ao Direito civil. que admite que se a ordem for contrária à lei da natureza ou mandamentos de Deus não deverá ser cumprida. Ao discutir se um tirano pode ou não ser chamado à ordem pelo povo. Ou seja.Camilassouza e o natural. em consideração à nobreza da posição do príncipe e seus outros benefícios. ao contrário de Hobbes.Trabalhos de Pesquisa .(Identificação do Direito positivo com o Direito natural).trabalhosfeitos. se um indivíduo considera que uma regra do Direito positivo é contrária ao Direito natural. Acrescenta que algo só é devido a alguém com base em um direito perfeito se houver a possibilidade de mover uma ação num tribunal humano. Para Grotius. conseqüentemente. não é a opinião do indivíduo particular. verifica-se a necessidade de “uma medida comum do que deve ser chamado certo e errado”. Outro princípio do Direito natural é a restrição ao direito de resistência. É o que afirma Hobbes: o Direito não decorre da autoridade dos autores de filosofia moral. entende que o soberano pode causar dano ao cidadão. Para Hobbes isso pressupõe a existência de um Direito positivo definindo o que é de cada um e. Para Hobbes essa restrição se dá em decorrência do poder do soberano ter sido conferido pelos próprios homens (lei da natureza). onde não há comunidade nada é injusto. que. Outra forma de alcançar a identificação entre o Direito positivo e o natural é a definição de justiça aceita pela maioria dos seguidores do Direito natural: a cada um o seu. ambos entendem a relação essencial entre o Direito positivo e natural. quando se admite o conflito entre o Direito natural e o positivo. afirma que. por exemplo. “Isto significa que. Seria a correta razão. Pufendorf rejeita a impossibilidade das leis civis oporem-se às naturais. mas a opinião da autoridade competente do Estado que prevalece. Para Pufendorf os princípios gerais do Direito natural estão incorporados ao Direito positivo. afirma que à ordem injusta do soberano deve-se antes lhe suportar que lhe resistir pela força. o que deve ser entendido como a razão de alguns homens que detém o poder soberano. deve preferir a sua fuga ou www.19/07/13 O Que é Justiça .com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. A maioria dos autores que defende o Direito natural não nega a possibilidade do conflito entre o Direito natural e positivo. mas praticamente excluído. Ou seja. Com as divergências entre os autores acerca da “lei da natureza”. Pufendorf.

por tê-lo nomeado. é maior e a reparação é muito difícil. Hobbes – “o poder do governo estabelecido em conformidade com o Direito natural é. mas não a permissão aos demais cidadãos de abandonar a obediência. mas sim fortalecê-lo.19/07/13 O Que é Justiça . provê o bem. com autoridade para determinar todas as controvérsias e reparar os danos que possam acontecer a qualquer membro da comunidade.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308.Trabalhos de Pesquisa . apresenta dois pareceres: “Portanto. por que seria de outro modo nos de maior importância. Para tanto. Surge a questão da competência para decidir essa questão quando os homens estão ordenados em uma comunidade. Locke aprofunda a questão da desobediência/resistência: admite o direito de resistência quando o uso da força pelo governo for injusta e ilegítima (contrária ao Direito natural e ao Direito positivo). se não evitado.] E isso tira os homens de um estado de natureza para um estado de nação estabelecendo um juiz sobre a terra.[. Admite a defesa pela força. sempre que algum número de homens estiver unido em sociedade. Locke – o poder supremo em toda a nação não pode ser arbitrário. pela sua própria natureza. esse juiz é o legislativo ou o magistrado por ele nomeado. pois o Direito natural e também o positivo. www. homens mal-intencionados e facciosos podem propagar entre o povo quando o príncipe apenas faz uso de sua devida prerrogativa. doutrinadores como Benedito Winkler eram contrários à inovações no campo do Direito. a resistência de parte do povo ao poder legislativo supremo do Estado não é legítima em nenhum caso. Isto porque a função do Direito natural não era enfraquecer a autoridade do Direito positivo.” Contrariamente.trabalhosfeitos. de tal maneira que todos tenham renunciado a seu poder executivo da lei da natureza e os cedido ao público. Para Kelsen. a prerrogativa de interpretação do Direito natural pelas autoridades estabelecidas pelo Direito positivo e a ausência do direito de resistência desnatura o Direito natural.” “Quem julgará se o príncipe ou o legislativo agem contrariamente ao seu encargo? Isso.. mas sim do resultado de ato da autoridade legisladora. cara e perigosa?” Para Kant. e em que também o mal. isto é. especialmente se o poder estiver corporificado em um monarca individual. talvez. Assim.Camilassouza abrigamento em outro Estado. ali e só ali haverá uma sociedade política ou civil. A adaptação do Direito positivo à tendência reformadora do direito no campo internacional decorre não do Direito natural de forma automática. O caráter da doutrina do Direito natural é conservador.html 46/105 . ilimitado. Pois quem julgará se o seu encarregado ou o deputado age bem e em conformidade com o encargo que nele repousa. A isso respondo: o povo julgará. senão aquele que o nomeia e deve . jubet bona. pois. absoluto. IV Cada doutrina de Direito natural estabelece princípios. muitas vezes contraditórios entre si. deter ainda um poder de livrar-se dele quando não cumprir seu encargo? Se isso é razoável em casos particulares de homens particulares.. em que o bem-estar de milhões está envolvido.

pois. Posteriormente. resultando do poder cedido pelas pessoas em seu estado de natureza. aquilo que inicia e efetivamente constitui alguma sociedade política nada mais é que o consentimento de certo número de homens livres. Seria colocarem-se em estado pior que o de natureza. “Assim.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. na medida em que isto é necessário para promover o bem público. Tentando deduzir o direito da propriedade privada a partir da natureza. Grotius considera que isso somente ocorreu num primeiro momento quando o homem vivia de modo simples e inocente. 47/105 . tampouco o princípio da maioria é capaz de sujeitar toda a multidão. injusta. RICHARD CUMBERLAND escreve que não se pode sujeitar as coisas às vontades contrárias de vários homens ao mesmo tempo. iguais e independentes por natureza. Com base no direito de propriedade estabelece o primeiro limitador do poder do Estado: o general tem poder de vida e morte sobre o soldado.Camilassouza democracia é contrária à lei da natureza. e especialmente em se tratando dos homens responsáveis por promover o bem comum. qualquer tentativa de mudá-la e substituí-la por outro sistema econômico é contrária à lei natural e. capazes de maioria para unirem-se e incorporarem-se em tal sociedade”. Conseqüentemente. Posiciona o direito de propriedade além do poder do Estado – daí a limitação deste. “Deus sempre governou seu povo apenas pela monarquia”. todos os homens são livres. Assim. Opõe-se a isso o fato de a Igreja considerar que Deus deu todas as coisas para todos os homens em comum. A monarquia absoluta é contrária à natureza. não podendo ser tirado desse estado sem o seu consentimento. Problema atual é o princípio da propriedade privada e a justiça do sistema jurídico e econômico fundamentado nesse princípio. opõe-se a ele: prova que a O Que é Justiça .Trabalhos de Pesquisa . portanto. ela assegura a maior felicidade possível. deve-se lhes outorgar a propriedade das coisas e dos trabalhos das pessoas com exclusão das outras. A distribuição de bens estabelecida em conformidade com o Direito natural pela lei positiva da propriedade é justa. mas não pode apoderar-se dos seus bens www. pelo menos por algum tempo. tal renúncia é incompatível com a natureza do homem – incabível a autoridade absoluta e a obediência ilimitada.html (propriedade mais valiosa que a vida). o homem se degenerou e a propriedade primitiva comum também foi abandonada. Filmer – usando o raciocínio de Hobbes. Rosseau – a renúncia á liberdade equivale à renúncia a ser homem.trabalhosfeitos.19/07/13 Locke – o poder supremo em toda a nação não pode ser arbitrário. Esse direito de propriedade individual também vem acompanhado do direito de sua inviolabilidade. Só se tem conseguido defender o sistema capitalista pelo Direito natural (de Grotius a Kant). Locke argumenta que um dos propósitos essenciais do Estado (Direito positivo) é proteger o direito de propriedade. estabelecido pelo Direito natural. não pode ser transferido em maior grau do que estes possuíam. pois impossível a concessão de autoridade suprema para todo o povo.

Seus aspectos lembram em muito os aspectos da República de Platão.19/07/13 O Que é Justiça .Morelly – 1755 – Paris – o comunismo é o único sistema ditado pela natureza). a lei da sociabilidade significa que a natureza distribuiu as faculdades humanas entre os indivíduos. Comte supõe como lei fundamental a prioridade do mais simples sobre o mais especial e complexo. A autoridade do governo político – governo temporal .e Herbert Spencer – Principles of Sociology. Suas obras são “caracterizadas por confundirem a descrição e a explicação da vida social concreta com a proclamação de postulados normativos. principalmente por partir do dualismo fundamental de vida especulativa – atividades filosóficas ou científicas e estéticas ou poéticas – e a vida prática – atividade industrial. V A influência da doutrina do Direito natural apesar de todas as suas contradições decorre da necessidade de justificação. Mas um valor não pode ser imanente à realidade.Camilassouza (propriedade mais valiosa que a vida). também utilizam a inferência do “é” para o “deve ser”. A divisão da propriedade. Importa apenas o terceiro estágio. o metafísico e o positivo. Todavia. A sociologia e a filosofia. tal qual se deduz a lei correta da natureza no Direito natural.se preocupará predominantemente com a vida ativa. dos produtos da natureza é uma monstruosidade do legislador. outros doutrinadores do Direito natural também indicam que a propriedade privada é contrária às leis da natureza e fonte de todos os males sociais (Código da Natureza . presente e previsão do futuro). O resultado atingido por Comte é diferente do atingido por Spencer como efeito necessário da evolução. Para Morelly.trabalhosfeitos. mas a propriedade permaneceu indivisa. A suposição que a evolução social é progressiva implica que um valor social é imanente à realidade social (pressuposto característico do Direito natural). resultado necessário da evolução social e Estado ideal da sociedade. pois é altamente subjetivo e não objetivamente averiguável como a realidade.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. de enunciados sobre a realidade social e de juízos políticos de valor”. Chegam à teoria fundamental da evolução que indicaria o progresso permanente da humanidade (permitindo explicação do passado. Ambos os autores partem da suposição de que a vida social dos homens é determinada por leis causais e sob a influência da teoria da evolução orgânica (Lamarck e Darwin). dedução esta que parte da lei fundamental da evolução progressiva. prevendo que no futuro haverá uma prevalência da vida especulativa sobre a vida ativa.html 48/105 . Os destaques da sociologia no século XIX são Auguste Comte – Cours de philosophie positive . Em ambos o estágio mais elevado coincide com o ideal político. embora no raciocínio de Locke se veja uma sólida argumentação no combate ao comunismo. Considera a lei da natureza com caráter inteiramente religioso. assim ninguém é proprietário exclusivo. embora se oponham à doutrina do Direito natural. Para Comte três são os “estádios” sucessivos da evolução: o teológico.Trabalhos de Pesquisa . enquanto a autoridade espiritual se incumbirá predominantemente da educação www.

com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. Industriais: na sua forma desenvolvida é organizada sob o princípio da cooperação voluntária.19/07/13 O Que é Justiça . cujos elementos estão todos preparados e apenas à espera de sua coordenação para formar um novo sistema social. “A sociedade futura não se fundamentará – como afirmam os seguidores da doutrina do Direito natural. chegarse-á a compreender que a relação de subordinação do trabalhador ao capitalista não é por abuso da força ou riqueza e sim decorrente da divergência entre a natureza das funções. a vontade dos cidadãos é suprema. Há tendência a desobediência pelas minorias de legislação quando interfere de certas maneiras. ela é apta a conseguir a preservação da vida – é a evolução tendendo para a autopreservação. os membros existem para o benefício do todo. caracterizada por um poder central democrático ou representativo e pela limitação do controle político sobre a conduta pessoal. “A humanidade encontra-se agora no limiar da vida plenamente positiva. Assim. Elabora três etapas da evolução: autopreservação. Compreende assim que a diferença entre a função do capitalista e do trabalhador se deve ao fato de a primeira ser mais abstrata e geral. tão arbitrária quanto mutável.” Os direitos de um resultarão dos deveres dos outros para com ele. Daí que. o agente governante existe apenas para executar sua vontade. É esta a ética evolucionista de Spencer. compostas.html 49/105 . duplamente compostas e triplamente compostas. mas no princípio do dever. Espera também a paz mundial e o estabelecimento de uma república européia ou ocidental como decorrência da evolução social determinada pela lei fundamental da evolução. Resistir ao governo irresponsável e aos excessos do governo responsável é DEVER. O poder regulador além de subordinado tem alcance restrito. Classifica as sociedades em simples.Trabalhos de Pesquisa .trabalhosfeitos. da autocracia para a democracia. Não haverá distinção entre função pública e privada” Comte é vago quanto ao sistema econômico na sociedade futura. se a ação humana é boa. a sujeição absoluta à autoridade é a virtude suprema e a resistência a ela é um crime. caracterizado pelo poder central despótico e pelo controle político ilimitado da conduta pessoal. mas admite os capitalistas como depositários da riqueza da sociedade. mais homogêneo e mais estável do que a humanidade até hoje experimentou. devido a seu valor superior e de imparcialidade. enquanto a segunda é mais concreta. A transição do tipo militante para o tipo industrial representa a da escravidão para a liberdade. A autoridade especulativa terá a função de árbitro nos conflitos. Ele parece considerar que a vida humana é o fim último. Também podem ser agrupadas como militantes ou industriais. A subordinação é.Camilassouza moral e intelectual.na ideia de direitos. do estatismo para o liberalismo político e econômico. portanto.” Spencer também parte da lei da evolução progressiva. bem como a desobediência às leis iníquas pode causar sua abolição. preservação da prole www. Militantes: na sua forma desenvolvida é organizada sobre o princípio da cooperação compulsória.

e como sua vontade é boa a realidade deve ser considerada perfeita. ou seja. especialmente. considerando que Deus é imanente ao mundo e. “O caráter de Direito natural desse tipo de sociologia é evidente. Hegel diz que a razão governa o mundo e esta razão implica a moralidade. tudo é necessariamente bom. um programa político radicalmente individualista. contanto que não infrinja a igual liberdade de algum outro homem. Mas para a teologia na sua condição ética importa distinguir o bem do www. O julgamento de uma fase da história ou de um evento como melhor ou pior que outro. uma teologia da história.Camilassouza portanto. Hegel e Karl Marx. preservação da prole e preservação dos semelhantes. ”cujas leis são o Racional Essencial”. perde seu valor. É.) Do direito igual de liberdade Spencer deduz direitos concretos. E para a filosofia da história a diferenciação das fases históricas é 50/105 . quando a vida estiver em conformidade com a “lei da liberdade igual”. A idéia de Hegel de que a razão dirige o mundo é uma idéia de aplicação da “verdade religiosa”. Sua tese de que o que acontece e aconteceu é essencialmente obra de Deus é resumida em “o Real é racional e o racional é Real”.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. que. da realidade natural e social.” Para ele a função do Estado e do seu Direito positivo é apenas manter os direitos estabelecidos pela natureza. como o homem não é livre porque como parte da natureza está vinculado à lei da causalidade. o direito ao livre movimento e.trabalhosfeitos.” VI Principais representantes da filosofia da história no século XIX: G. e a Spencer. coloca a liberdade individual. E a “conduta boa” surge daquela que cumpre todas as três classes de fins ao mesmo tempo. tais como o direito à integridade física. Deus é imanente e transcende ao mundo. Real é racional: tudo o que existe é o racional. e as ações do Estado e dos indivíduos são os instrumentos e os meios daquele para alcançar seu objeto.19/07/13 Elabora três etapas da evolução: autopreservação. portanto. Esta lei se resume em: “todo homem é livre para fazer o que quiser. Junto com o pressuposto da vida humana como valor supremo da sua filosofia moral. o direito à propriedade individual. seu significado. “A evolução foi um erro?” – frase característica da ética sociológica evolucionista. A história do mundo é o “curso necessário racional do Espírito do Mundo”. normas moral-políticas. pois é a consideração de que o plano racional absoluto do mundo é controlado pela “Divina Providência”.W.Trabalhos de Pesquisa .” E. como Spencer expressamente declara. O Que é Justiça . Spencer responde que não foi um erro. a vida humana correta deve ser preservada. Essa sociologia permite a Comte justificar um programa político altamente coletivista. a “liberdade igual” de Spencer pode se restringir apenas à liberdade moral-política (deduz como o Direito natural. a história é a realização da vontade do Espírito do Mundo. o “Espírito do Mundo” é a personificação da razão. A lei da natureza é ou implica uma norma social. Ou seja.html mal. implica que o comunismo é uma “violação da justiça.F. Desse modo. Assim.

Para reconciliar sua teologia da história com a ciência racionalista. Segundo a visão religiosa do mundo a natureza é uma manifestação (inconsciente) de Deus. ou a contradição não pode ser excluída. exibe quatro “estádios” ou épocas sucessivas. Hegel incide na mesma falácia do Direito natural que conclui o “dever ser” a partir do “ser”. Dá-se o nome de princípio nórdico a reconciliação e a evolução de todas as contradições que se dará neste www. que chamamos de Estado. a Justificação de Deus na História. E para a filosofia da história a diferenciação das fases históricas é essencial. como a teologia utiliza o diabo como um contra-deus na O Que é Justiça . que a história do mundo como revelação da autoconsciência do Espírito do Mundo ou como a realização progressiva da razão. E. Esse progresso que é o trajeto do Espírito do Mundo. para Hegel o Estado é a manifestação consciente de Deus. é um progresso necessário.Camilassouza interpretação ética do mundo. sua existência real e sua condição ética apenas sendo membro do Estado. dos fatos). Hegel entende o Estado como algo mais que a realidade objetiva. Portanto.trabalhosfeitos. Tenta fazer crer que a presença da contradição não é um defeito do pensamento. e este existe apenas por meio do Estado. tem direito supremo sobre o indivíduo. é o poder absoluto sobre a terra”. Este último (germânico?) será a unidade do divino e do humano. que ela é parte do pensamento especulativo. Assim. elimina a lei da contradição – que impossibilitaria duas proposições contrárias de serem verdadeiras. O racionalismo entende que o Estado existe apenas na mente dos indivíduos que adaptam sua conduta à ordem social. Hegel inventa a lógica sintética da dialética. depois o romano. depois o grego.” O conflito na Teodicéia ocorre entre a ideia de que a vontade de Deus é absolutamente boa e onipotente. ao mesmo tempo. ainda.19/07/13 mal. e que em cada época uma nação definida é dominante: império oriental. a filosofia da história de Hegel consegue o mesmo resultado pela suposição da realidade que não é perfeita (manifestada na história). Daí chamar sua tese de “teodicéia” – justificação dos caminhos de Deus. O indivíduo tem sua verdade. a verdade objetiva reconciliada com a liberdade. pois é a realização do espírito absoluto no domínio da consciência. Define. pois a Razão como “Soberana” do mundo é dotada de “poder infinito”. mas que está a caminho da perfeição. Se a lógica for considerada.Trabalhos de Pesquisa . O Estado é a idéia ética ou espírito ético realizado. seguido pelo germânico.” Hegel demonstra que sua filosofia da história é uma teologia da história ao tentar solucionar o problema central desta: como o criador onipotente e absolutamente bom do mundo pode ordenar ou permitir o mal na natureza e na sociedade.html 51/105 . De sua filosofia: tudo o que existe é racional e o Estado é absolutamente racional. Do mesmo modo que as forças opostas da natureza ou da sociedade determinam um terceiro movimento. “A história do mundo é a realização progressiva da Razão. uma das duas proposições não é verdadeira.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. “A nação como Estado é o espírito (divino) substantivamente realizado e diretamente real. Conclui então que “a história do mundo é a realização do Espírito do Mundo” e que “esta é a verdadeira Teodicéia. a contradição também é que move o pensamento (lei do pensamento e.

embora não ocorra sem revolução. Do ponto de vista da ciência. As leis. Esta condição ideal da humanidade. Marx priva-se da única possibilidade de justificar . tal método é inteiramente destituído de valor. opera com um método logicamente errado. Marx um materialista. isto é. Assim.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. Com estabelecimento do socialismo – abolição da propriedade privada e a socialização dos meios de produção – o sistema capitalista e o Estado como instituição social desaparecerá. cuja função é manter o domínio de um grupo – grupo que em a posse dos meios de produção domina o outro que não tem a posse dos bens de capital. juntamente com Friedrich Engels. Todavia. do ponto de vista de uma busca da verdade. Que a doutrina do Direito natural. Mas. justificados. a doutrina do Direito natural pode ser considerada útil. mas não identifica pensar e ser.html 52/105 . é “inevitável porque é o resultado necessário da lei da evolução histórica. Mentiras são permissíveis se forem úteis ao governo: assim. www. Hegel entende o processo de pensamento como um sujeito independente. Ele crê que a sociedade comunista do futuro será uma sociedade sem Estado. Hegel é um idealista.tanto quanto isso é possível – sua identificação falaciosa da relação de forças opostas na natureza e na sociedade com a contradição lógica”. Kelsen diz da futilidade do método dialético. Em seu diálogo. quer apresente seus resultados como deduções a partir de uma lei da natureza em termos da jurisprudência. do processo dialético da história”.Camilassouza último período (germânico) Decorre da filosofia da história de Hegel o materialismo histórico de Marx. do ponto de vista da política. Quanto ao valor. pois será do interesse de todos. por meio do qual os juízos de valor mais contraditórios podem ser. critica o Estado por considera-lo um maquinismo coercitivo. Mas. pois para ele a dialética apenas “reflete” os processos dialéticos na realidade. em que o mundo real é apenas sua forma externa. esta inerente á realidade social. a ordem social será mantida sem a força. como pretende. também Marx entende este como inerente à realidade. se é uma mentira. e efetivamente foram. pois possibilita a Hegel louvar o Estado e a Marx amaldiçoá-lo. é uma mentira útil: ela assegura a obediência à lei: “Nenhum legislador digno de seu sal poderia encontrar mentira mais útil que esta ou mais eficaz no persuadir todos os homens a agir com justiça”. “As explicações precedentes demonstram que a doutrina do Direito natural. Platão distingue mentiras que são permissíveis e mentiras que não o são. mesmo que isso seja uma mentira.Trabalhos de Pesquisa . como um instrumento intelectual na luta pela realização de interesses. conforme Marx. Essa contradição é fundamental em Marx. ao governo é permitido fazer o povo crer que apenas o homem justo pode ser feliz. Pois.19/07/13 O Que é Justiça .trabalhosfeitos. Esse método “deve ser usado para conhecer a dialética da sociedade. O Estado é uma organização coercitiva com o propósito de manter a repressão de uma classe por outra. Ambos compreendem a dialética como evolução a partir da contradição. Este utiliza a lógica dialética de Hegel como instrumento. ao rejeitar a identificação hegeliana de pensar e ser. Marx. quer como deduções a partir de uma lei da evolução em termos da sociologia ou da história. Já Marx entende a idéia como é o mundo material refletido pela mente humana.

Contudo. mas que o valor é imanente à realidade. A visão de que a realidade ou a existência está “em fluxo” não pode ser rejeitada e. é caracterizada no campo da filosofia social por um renascimento da doutrina do Direito Natural. Que a doutrina do Direito natural. como pretende. dirigida contra o positivismo relativista que prevaleceu durante a segunda parte do século XIX e a primeira década do século XX. pode implicar uma visão teleológica ou normativa. exigido pela própria natureza humana para a sua plenitude”. em última análise. “um padrão universal de ação. porque não são uma descrição de fatos. verificáveis por meio da experiência. Em estudo intitulado “Plato’s Modern Enemies and the Theory of Natural Law”. Essa doutrina sustenta “que as entidades naturais estão em um estado incompleto ou de potência e que tendem sempre para alguma coisa de que carecem”. os juízos de valor – juízos que se referem a esses valores imanentes – são tão objetivos. é “uma tradição realista da filosofia. resultante das experiências abaladoras das duas guerras mundiais. não é rejeitada por uma filosofia positivista. que afirma deduzir princípios de justiça da natureza em geral e da natureza do homem em particular. UMA TEORIA “DINÂMICA” DO DIREITO NATURAL I A situação intelectual de nosso tempo.html apenas a causa provável de mudanças futuras em fenômenos 53/105 . Interpretar a mudança de um estado para outro como a realização de uma “tendência” é muito problemático.Camilassouza mentira.trabalhosfeitos. o “ser” e o “dever ser”). de fato. Ela sustenta que a realidade e o valor não são – como presume o positivismo dualista – duas esferas separadas. quanto os julgamentos sobre a realidade. por outro lado. é uma O Que é Justiça . A doutrina do Direito Natural perdura e sucumbe com a suposição de que o valor é imanente à realidade. O elemento essencial da doutrina.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. mas quem considera útil pode usá-la como uma mentira útil”. a afirmação de que a realidade está em fluxo nada mais pode significar a não ser que a realidade encontra-se em um estado de mudança permanente. o qual considera a existência “como composta exclusivamente de unidades plenamente determinadas e atuais”. supõe que os juízos de valor são subjetivos e. em conformidade com a doutrina tradicional. portanto. aplicável a todos os homens em todas as partes. é a sua visão monista da relação entre realidade e valor (fatos e normas. seja capaz de determinar de modo objetivo o que é justo. O positivismo. Para a doutrina do Direito Natural. John Wild entende como “Direito Natural”. Em tal ciência. mas. inteiramente incompatível com uma ciência cuja função é a descrição e a explicação objetiva de fatos. isto é. do ponto de vista de uma ciência objetiva da natureza. a expressão de desejos e medos. Pode significar algo como “intenção” ou “propósito”. isto é.Trabalhos de Pesquisa .19/07/13 a agir com justiça”. “tendência” pode significar www. apenas relativos. Pois “tendência” é um termo ambíguo. Ela se fundamenta em uma “visão dinâmica da existência” que se opõe ao atomismo lógico. VI. radicalmente empírica em sua metodologia”. A teoria do Direito Natural. segundo Wild.

serão o efeito necessário de certas causas. caso se refiram ao estado ou à conduta do homem. não “exige” nada. uma mudança previsível de um fenômeno observado. Identificar o curso normal de uma mudança com a bondade apóia-se na falácia de confundir dois significados inteiramente diferentes do termo “normal”: conformidade com uma regra que descreve a conduta efetiva de entidades. e a sua não-realização como má. estes. “exige” sua realização ou sua plenitude equivale à visão de que uma causa exige o seu efeito. impossível em uma descrição e explicação da realidade.Trabalhos de Pesquisa . Caso aceita a visão de que existem na natureza tendências imanentes que exigem sua própria realização. para o botânico.Camilassouza Uma tendência. Isto é. Do ponto de vista de uma ciência objetiva da natureza.trabalhosfeitos. Ela deve www. portanto. Todos esses fenômenos são apenas mudanças regulares e.19/07/13 apenas a causa provável de mudanças futuras em fenômenos observados. tampouco o desenvolvimento de um fruto é exigido pela flor ou o desenvolvimento de um ser humano pelo embrião. são apresentadas como normas.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. que tem em vista normas que regulam a conduta humana. ou qualificar a realização de certas tendências como boa. então se a mudança esperada pelo observador não se produziu. Que a mudança esperada seja boa e a anormal seja má são juízos de valor que não podem ser obtidos em uma ciência que descreve e explica a realidade. que nada mais é do que uma mudança provável de um fenômeno observado. O Que é Justiça . Se as flores de uma macieira não se desenvolverem como espera o jardineiro. II A diferenciação entre o bem e o mal. e conformidade com uma regra que prescreve uma conduta definida de entidades. portanto. É justamente isto que a 54/105 . esse estado também deve ser considerado a “realização” de uma tendência. e. em conformidade com uma regra que descreve a conduta atual de entidades existentes. uma interpretação teleológica ou normativa da natureza. e que. ela deve diferenciar tendências boas e más. que descreve e explica o que é (sem pressupor uma norma que prescreva o que deve ser). não há motivo para avaliar uma realização como boa e a outra como má. mas criadas por homens. é essencial a uma doutrina do Direito natural. se a entidade em questão toma um estado diferente do esperado. exatamente como a mais doce maçã. Trata-se de confusão característica de todas as doutrinas do Direito natural – a confusão entre a lei da natureza e a lei moral. uma norma. isto é. O fato de que uma mudança esperada é o curso normal de mudança significa apenas que é regular. Esses juízos expressam a relação de uma coisa com as exigências que não são imanentes a essa coisa. previsíveis. mas tornarem-se produtos não comestíveis.html projetar na realidade o valor que pressupõe. a realização de uma tendência que é tão “natural” ou “existencial” como a que tem como realização a fruta comestível. isto é – do ponto de vista de uma ciência objetiva da natureza -. apesar da afirmação de Wild no sentido contrário. A visão de que uma tendência. isto é. Se tentar encontrar essas normas em fatos e – como a doutrina dinâmica do Direito natural – em “tendências” imanentes à realidade. A expansão previsível de um corpo metálico aquecido não é exigida pelo corpo aquecido. isto é.

mas isto significa apenas que ocorreu um fato. Não significa que o fato seja o valor ou a norma. em uma interpretação teológica do mundo. Uma norma constitui um valor. ou seja. e que não existe uma. consciente ou inconscientemente. Esse ato existe como fato e pode ser descrito por um enunciado de “ser”. O segundo argumento é a afirmação de que.Camilassouza projetar na realidade o valor que pressupõe. é bom.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. significa o mesmo que ser um “fato” -. Os principais argumentos que Wild apresenta a favor de sua tese. Da afirmação de que uma norma “existe” não decorre que ela exista como um fato e. esteja encerrada na realidade. Portanto. que o dualismo relativista de existência e valor torna a “ética” e a “justificação moral” impossíveis. mas relativos. se as normas não são feitas por um ser humano. A afirmação significa apenas que uma norma é válida.19/07/13 O Que é Justiça . se for “completado”. A visão de que os valores são imanentes à realidade ou de que as normas não feitas por homens estão encerradas na existência fundamenta-se. que lutamos para a sua “realização”. então teriam sido feitas por Deus. os valores têm de existir da mesma maneira que os fatos. portanto. estão estreitamente “interligados”. Wild introduz o conceito de “plenitude”.html 55/105 . e isso significa que a norma é o significado específico de um ato humano. ou seja: se os valores não são fatos. de que os valores são fatos. na opinião do observador. se não for www. mas apenas que os valores em que os homens realmente crêem não são valores absolutos. segundo a teoria dinâmica do Direito natural. e. mas que existem muitas ordens morais diferentes. embora distintos. Só pode ser descrito por um enunciado de “dever ser”. mas seu significado de que algo deve ocorrer não é um fato. sob cuja validade efetiva os homens de fato vivem e sempre viveram. Wild diz: “Se os valores não existem de alguma maneira. O positivismo relativista e dualista não afirma que não existam valores. Este argumento seria insustentável mesmo se fosse verdade que não pode haver valores morais ou uma ordem moral. É justamente isto que a teoria dinâmica do Direito natural está fazendo. em primeiro lugar. isto conduz ao “niilismo moral”. A “tese mais fundamental” envolvida nessa teoria é que valor e existência. ou que não exista uma ordem moral. que. existir. se os valores não forem fatos. A informação de que algo. portanto. a reflexão ética é muito barulho por nada. a reflexão ética é muito barulho por nada”. ou que o valor ou a norma sejam um fato de qualquer tipo. que foi criada por um ato humano.Trabalhos de Pesquisa .trabalhosfeitos. o mesmo que fez a realidade. está em conformidade com um valor ou uma norma prescrita por ele como válida. III Então surge o problema de como distinguir bem e mal como fatos existentes. isto é. se os valores não “existem” de alguma maneira. nenhuma ordem moral é possível. Há uma ligação essencial entre o conceito de “valor” de o de “norma”. são. não há valores em geral e valores morais em particular. A teoria dualista não nega que os valores podem ser realizados. e. Para solucionar esse problema.

todas as entidades são sempre incompletas ou “privadas” de algo. isto é. e um homem é incompleto porque ainda não é velho. assim como em todas as entidades finitas. ou que é incompleta. todas as entidades são completas tal como são. Uma criança é incompleta porque ainda não é um homem. no conceito de “plenitude”. a saber. isto é. na natureza humana. que a vida deve ser preservada e promovida. Então é impossível distinguir na existência o bem e o mal. é mau. e. privada de algo. o valor do bem e. O juízo de que uma entidade viva encontra-se em um estado correto ou saudável pode. a tese fundamental de sua visão dinâmica de mundo. O estado correto de uma cobra venenosa é bom para a cobra. se pressupomos que ela quer viver. o fato de que as funções vitais dessa entidade não estão impedidas. Do ponto de vista da mera da mera descrição e explicação da realidade. no de privação. todas as coisas existentes são boas ou todas são más. tendências para a plenitude. Então é impossível fundar em tendências imanentes à existência a norma fundamental que. que não é como deve ser. a qual projeta na realidade as normas que pressupõe. e tal juízo de valor só é possível se o sujeito que julga pressupõe uma norma exigindo que esse estado correto deva ser.trabalhosfeitos. é tautológica pois. que é o que deve ser. porque tanto um como outro coincidem com a existência. a realização de uma tendência para a morte é tão boa quanto a realização de uma tendência para a vida. como veremos mais tarde. já estão implícitos. Os homens www.19/07/13 O Que é Justiça . essas tendências são normas ou leis morais”. com base em nada mais além da asserção infundada de que existem “tendência aperfeiçoadoras” na natureza humana. Segundo a teoria dinâmica do Direito natural. experimentado e. o valor do mal. o preenchimento ou a perfeição. isto é. Até agora a teoria dinâmica do Direito natural não produziu nada além da asserção de que existem. Se o valor (ou desvalor) é imanente à existência. Então existe não apenas uma tendência para a vida. o juízo de que uma entidade encontra-se em estado saudável ou doentio é um enunciado sobre um fato observável. Se esse juízo implica a idéia de que o estado correto ou saudável é bom. a teoria dinâmica do Direito natural pressupõe. Tal distinção é possível apenas se for pressuposta uma norma que prescreva o que deve ser. e se – como a teoria dinâmica do Direito natural supõe – a realização de uma tendência é boa. realmente. mas também uma tendência para a morte. referir-se a um mero fato. para os homens que destroem a vida desses seres para salvar a sua própria. chega à conclusão: “Quando assim compreendidas e expressas em proposições universais. se o estado concreto no qual uma entidade no curso de sua mudança existe é interpretado como um estado de não plenitude ou privação. ao mesmo tempo. e um velho é incompleto porque ainda não está morto. A teoria dinâmica do Direito natural não consegue superar essa dificuldade.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. Esta projeção torna-se evidente pelo fato de que Wild. Apenas então é possível julgar que uma entidade é completa. se for privado de algo. ele é mau.Trabalhos de Pesquisa . um juízo de valor.Camilassouza completado. mas. ele assume o caráter de um juízo de valor.html 56/105 .

preserva sua vida. Uma identificação correta com bondade é especialmente impossível se bondade significar valor moral. Mas a resposta à questão de ser boa ou má essa conduta correta depende das normas que pressupomos. O Que é Justiça . Isso não é coerente pois. O mal é o resultado do fato de que uma tendência é “deformada” ou “distorcida” e. IV Para sustentar o parecer de que a distinção entre um estado sadio e um estado doentio prova que os valores do bem e do mal são imanentes à realidade é introduzida a distinção entre tendências essenciais e tendências não essenciais ou acidentais. como tais. Ele diz que existem duas características distintivas de uma tendência natural ou essencial: “primeiro.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. não pode ser descoberta pela observação e análise da conduta. boas). sua 57/105 . é a conformidade ou não conformidade com uma norma pressuposta pelo observador.Trabalhos de Pesquisa . a distinção entre tendências “essenciais” ou “naturais” e. experimentado. apesar da afirmação de Wild em sentido contrário. permanece em estado privativo ou incompleto.Camilassouza O caráter bom ou mau de um estado não é. como sua saúde ou sua enfermidade. embora essas tendências possam ser impedidas de atingir o seu objetivo por serem deformadas ou distorcidas. consequentemente. mas acidentais. a teoria dinâmica do Direito natural conhece apenas um tipo de tendência: a tendência para a plenitude. por meio de sua conduta. que se conformam à natureza do homem. Os valores morais aplicam-se apenas à conduta humana. segundo a teoria dinâmica do Direito natural. Apenas aquelas constituem. Wild posteriormente caracteriza as tendências essenciais. A correção de sua conduta é um fato observável. em uma de suas versões. Essa distinção não é compatível com a visão de que “o que existe sempre contém em germe tendências para o correto”. e tendências que não são essenciais ou naturais. como tais. na medida em que essa doutrina não responde à questão de como distinguir. Contudo. isto é. maus) de tendências não distorcidas (e. por meio de uma observação imparcial. um fato observável. são chamadas “direitos”.html compartilhada por todos os membros da espécie. e trata-se de um valor moral almejado pela doutrina do Direito natural. “o que é comumente designado lei moral”. e.trabalhosfeitos. se um homem. de tal maneira que elas podem ser consideradas inerentes apenas aos seres humanos. não existem tendências para o “incorreto”. sua conduta é correta. Segundo a teoria dinâmica do Direito natural. podemos talvez dizer que. segundo. Esse padrão é fornecida pela distinção mencionada acima. Os homens pressupõem a norma de que a vida humana deva ser preservada. A identificação do fato do caráter sadio com o valor moral da bondade. naturais. portanto. Se aplicados a ações humanas. fatos distorcidos (e. ela não fornece esse “padrão estável e universal”. e os termos “correto” e “incorreto” referem-se – na linguagem usual – antes a estados biológicos que a ações humanas. é a projeção de um valor subjetivo na realidade objetiva. ele é mau.19/07/13 vida desses seres para salvar a sua própria. ela é www. que desempenha um papel decisivo na teoria dinâmica do Direito natural. é o efeito dessa conduta.

as tendências constitutivas da natureza humana que são desejos evidentemente são diferentes das tendências imanentes à natureza de outras entidades que não os seres humanos. compartilhado por todos os seres humanos. em contraposição ao desejo de torturar outros homens. sua realização. segundo nosso conhecimento. as tendências que um físico pode prever a partir do conhecimento da estrutura dessas entidades. pelo menos até certo grau. V A norma pressuposta pela teoria dinâmica do Direito natural é a norma de que a vida humana deve ser vivida. então. as tendências que existem na natureza humana manifestam-se em desejos. as tendências. isto é. não é possível estabelecer um sistema de normas naturais regulamentando a vida social dos homens. sem que o homem sinta um desejo dela. embora uma tendência que não é compartilhada por todos os homens. Se esse não for o caso. que a teoria dinâmica do Direito natural supõe existir na parte da natureza que não é humana. Então. O desejo de torturar outros homens não pode ser concebido como uma tendência para o correto deformada ou distorcida. mais precisamente formulado. É claro que pode existir uma “necessidade” de alguma coisa. em “desejos naturais”. “O padrão de ação universalmente exigido para o viver da vida humana é essencial. Isto está em conflito aberto com a visão de que existem tendências para o correto e que o mal consiste no fato de que uma tendência – voltada para o correto – é deformada ou distorcida.html 58/105 .com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. sua implicação teleológica não pode ser negada. A necessidade de educação certamente não se baseia em um desejo efetivamente sentido por todos os homens e certamente não é necessária para preservar a vida do homem.trabalhosfeitos. que alguma coisa possa ser. Mas isso é diferente de um impulso efetivamente sentido. segundo. desejos compartilhados por todos os seres humanos. que não é uma tendência natural porque – segundo a teoria dinâmica do Direito natural – não é compartilhada por todos os membros da espécie humana. é exigida para o viver da vida humana. Na verdade. segundo a teoria dinâmica do Direito natural. Além disso. o desejo de torturar outros homens não é”. Assim.Camilassouza compartilhada por todos os membros da espécie. Se as normas do Direito natural têm de ser fundamentadas em desejos naturais. devem ser também desejos ou algo similar a desejos. o termo “tendência” é usado com dois significados totalmente diversos. É o padrão do Direito natural”. ou.Trabalhos de Pesquisa . A necessidade de alimento é uma tendência essencial ou natural porque é um desejo natural. Se o desejo de alimento é uma “tendência”. e. Pois não há outro desejo natural compartilhado por todos os homens que não o alimento.19/07/13 O Que é Justiça . então o desejo de torturar outros homens também é uma tendência. necessária à preservação da vida humana. isto é. que a vida humana deve ser preservada e promovida. Isso www. que essa teoria distingue de “apetites acidentais”. a necessidade de alimento é uma tendência natural.

a vida de todo ser humano. mas ele continua a ser um ser humano. não é a coisa definida. O termo “necessitar” é usado com dois significados diferentes. A afirmação de que uma norma ou obrigação é “compulsória” para o indivíduo significa que ele deve conduzir-se como a norma prescreve. isto é.Camilassouza implica que a vida humana. mas apenas que. Se. se ela não tem os traços envolvidos na definição.html 59/105 . de que essa idéia tem certa influência motivadora sobre ele e. O primeiro significado expressa uma relação normativa.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. assim como o efeito motivador que a idéia de norma tem na mente de um indivíduo. Todas as tentativas de fundamentar a obrigação no fato baseiam-se na www. ele não é um ser humano. então. o segundo uma relação causal. como uma “necessidade”. A mesma ambigüidade prevalece no termo “compulsório”. A conduta humana pode estar em conflito com a tendência essencial. VI “Obrigação” é um conceito fundamental de qualquer teoria jurídica ou moral. É costumeiro caracterizar o caráter obrigatório de uma obrigação. é o valor supremo. não existem traços implicados na existência de uma coisa concreta que sejam necessariamente implicados. leva a uma conduta em conformidade com a norma. mas também que a idéia da obrigação tem um efeito motivador sobre ele. Que uma obrigação seja compulsória pra um indivíduo pode significar não apenas que o indivíduo deve conduzir-se em conformidade com a obrigação. finalmente. então o termo “essencial” tem outro significado que não o de um traço necessariamente implicado na existência de uma coisa. do ponto de vista de uma descrição e explicação imparcial das coisas. um homem cometer suicídio ou assassinato. É importante distinguir tão claramente quanto possível entre obrigação no sentido normativo do termo e o fato de que um indivíduo tem a idéia de uma norma ou obrigação.Trabalhos de Pesquisa . Se “essencial” significa necessariamente implicado na existência de uma coisa. isto é. porém. Contudo.19/07/13 O Que é Justiça . um ser carece dos traços implicados na definição de “ser humano”. na medida em que se conforma à norma pressuposta de que a vida humana deve ser preservada e promovida. o homem pode violar a norma de que a vida humana deve ser preservada e promovida se. O significado de uma definição não é – como o de uma norma – que uma coisa deve ter alguns traços. e não porque está necessariamente implicada na existência de um ser humano. por exemplo. Conseqüentemente. uma tendência que constitui a existência humana é essencial ou natural apenas porque a sua realização está em conformidade com a norma pressuposta de que a vida humana deve ser preservada e promovida.trabalhosfeitos. se uma tendência constitutiva da existência humana é essencial na medida em que sua realização é exigida caso a vida humana tenha de ser vivida. Wild afirma que a distinção entre o que é essencial e o que é acidental consiste em “separar os traços que estão necessariamente envolvidos na existência da coisa ou da relação daqueles que são meramente extrínsecos e acidentais”.

Essa falácia poderia ser evitada se a teoria dinâmica afirmasse a seguinte norma fundamental do Direito natural: os homens devem conduzir-se de certa maneira se sentirem uma necessidade urgente que sabem ser compartilhada por todos os homens e que sua satisfação é necessária para a preservação e a promoção da vida humana. não podem livrá-lo da obrigação moral em questão. assim. não é compartilhada por todos os homens nem necessária à preservação da vida humana. Trata-se de uma conclusão a partir do que é para o que deve ser feito.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. decorre – segundo a teoria dinâmica do Direito natural – que ele está moralmente obrigado. especialmente para cumprirmos a obrigação de que temos uma idéia e. Ele tem consciência do significado normativo específico do termo. a obrigação moral é o resultado da “transformação do apetite bruto”. Segundo essa teoria. além disso. factual. É evidente que somos “fisicamente impelidos ou obrigados” apenas pela idéia apenas pela idéia que temos em nossa mente de uma obrigação. não sabe ou não se importa se a necessidade que sente é compartilhada por todos os homens. e. um “sentimento” que pode “impelir-nos” em certa direção. isto é. “a obrigação parece ser um tipo de necessidade que obriga e compele”. Aplicada à necessidade de alimento – ou à “tendência de fome”.Camilassouza tendência. que essa conduta constitui a satisfação dessa necessidade. realizarmos um valor. Para Wild. ou o fato de que ele está errado quanto ao valor que satisfará adequadamente a essa necessidade.trabalhosfeitos. e o “caráter de dever” não é um enunciado sobre um fato existente. um motivo mais ou menos eficaz e. Do fato de que um homem sente uma necessidade urgente que ele sabe ser compartilhada por todos os homens e necessária à preservação e promoção da vida humana e de que. a outra necessidade apontada por essa teoria. O fato de que um homem. ele caracteriza a obrigação como um “sentimento humano” e afirma que a “obrigação” “é claramente um impulso. como tal.html conduz ao resultado absurdo de uma obrigação moral de comer e 60/105 . que pode ser um “impulso”. reconhece que esse conceito expressa o “caráter de dever”. pois isso pode ser apenas o efeito de um fato existente. cujos dois passos são “o reconhecimento racional das necessidades naturais” e do “”valor universal que satisfará a necessidade”. Ainda mais importante: a necessidade de alimento é a única que satisfaz às exigências da teoria dinâmica. É evidente que nenhuma ordem moral pode ser fundamentada em tal norma. A necessidade de educação. por causa de sua ignorância. conhece o valor que satisfará a necessidade. além disso. isto é. a teoria dinâmica www. que nos liga existencialmente ou nos impele a certos valores”. Contudo. se sabem. A teoria da obrigação de Wild é um exemplo típico dessa confusão. Mas certamente não é o “caráter de dever” que nos impele ou obriga fisicamente. que o “dever ser” não é idêntico ao “ser” e que um não pode ser inferido do outro. um fato psicológico. deve realizar esse valor. Isso significa que ele reduz o “dever ser” ao “ser”.Trabalhos de Pesquisa .19/07/13 Todas as tentativas de fundamentar a obrigação no fato baseiam-se na confusão de obrigação no seu sentido normativo com a idéia que um indivíduo tem de uma obrigação e o efeito motivador dessa idéia. ou O Que é Justiça .

e a realização. que exige que a vida humana deva ser preservada e promovida. Se uma doutrina do Direito natural afirma que preservar ou promover a própria vida à custa da preservação e promoção da vida de outros seres humanos é contra a natureza do homem.Trabalhos de Pesquisa . mesmo que tal conduta não seja necessária para preservar ou promover a própria vida. ele não se refere à natureza humana tal como ela realmente é. É o instinto de autopreservação. há situações em que a vida de um ser humano só pode ser preservada com sacrifício da vida de outro ser humano. isto é. Isto.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. Essas obrigações. Pois comer e beber são o valor universal que satisfará a essa necessidade. A necessidade de alimento. trata-se de uma tendência para a preservação e a promoção da própria vida. não decorrem do fato de que a necessidade de alimento é comum a todos os homens. No que diz respeito à vida humana. sociais. mas à natureza humana tal como deveria ser em conformidade com uma norma pressuposta. a suposição de uma tendência cósmica à destruição da vida não está excluída. porém. O ponto decisivo é que essa tendência está voltada para a preservação e a promoção da própria vida. reconhecida pela teoria dinâmica do Direito natural como tendência essencial ou natural.19/07/13 conduz ao resultado absurdo de uma obrigação moral de comer e O Que é Justiça . é a expressão do egoísmo. dita a destruição da vida de plantas e animais. O direito de um indivíduo de conduzir-se de certa maneira é condicionado pela obrigação de outro ou de todos de não impedir o primeiro ou de capacitá-lo a exercer o seu direito. Assim. É perfeitamente possível que o desenvolvimento cósmico conduza a uma total destruição da vida.Camilassouza beber. Além disso. VII Essa norma não pode ser fundada sobre fatos experimentados e observáveis. especialmente da vida humana. especialmente uma ordem moral www. Uma teoria moral pode afirmar a obrigação de não privar o homem do meio de satisfazer sua necessidade de alimento ou – como afirma a doutrina socialista – a obrigação de garantir a todos uma satisfação perfeita dessa necessidade. só pode significar: a partir de uma norma pressuposta pela teoria moral que afirma essas obrigações. Contudo. plenitude ou conclusão dessa tendência só é possível à custa da preservação e da promoção da vida de outros seres. mas não uma obrigação.trabalhosfeitos. mas infere uma natureza ideal a partir de uma norma pressuposta. Comer e beber podem ser um direito natural. mas decorre exclusivamente do pressuposto de que a satisfação dessa necessidade é “exigida para o viver da vida humana”. Ela não infere uma norma a partir da natureza real. Não se pode provar que uma tendência – no sentido de mudança ou desejo previsível – para a preservação e a promoção da vida em geral ou da vida humana em particular seja imanente à natureza em geral ou à natureza humana em particular.html 61/105 . ao passo que todas as ordens morais. tal como assinalado. há realmente um fato que pode ser interpretado como uma tendência para a preservação e a promoção da vida humana.

como afirma a teoria dinâmica do Direito natural. estão voltadas contra o egoísmo do homem. JUÍZOS DE VALOR NA CIÊNCIA DO DIREITO Na teoria do Direito encontramos dois tipos de juízos que são considerados juízos de valor. moralmente indiferente. e. nesse contexto. e a realidade social é o Direito positivo. é o valor supremo. essas normas devem ter encontrado expressão em ordens morais ou jurídicas positivas.trabalhosfeitos. certamente não está em condições de negar que a realidade social é uma manifestação da natureza humana. como má. ou.Trabalhos de Pesquisa . portanto. O que conta é apenas como essa necessidade ou desejo de um indivíduo é satisfeito em relação com a mesma necessidade ou desejo dos outros indivíduos. ordens sociais que efetivamente existem ou existiram. como poderiam ser consideradas contra a natureza humana. O outro se refere ao próprio Direito ou à atividade do legislador que cria o Direito. que considera a vida. Se todas essas ordens sociais são ou foram realmente eficazes. isto é. e apenas a existência transcendental em outro mundo como boa.html 62/105 . VII. se a natureza for tomada efetivamente como é e como se manifesta na vida social dos homens? Uma filosofia “realista” e “empírica”. Se as normas naturais estão “encerradas” na existência. que a vida humana deve ser vivida. Mas a norma fundamental pressuposta pela teoria dinâmica do Direito natural. portanto. a vida de todo ser humano. geralmente aplicadas e obedecidas por homens vivendo sob essas ordens. e aos sistemas morais que estão na base das ordens jurídicas positivas de nosso tempo que reconhecem a guerra como ação legítima e. A necessidade de alimento – o principal exemplo de uma tendência natural sobre a qual a teoria dinâmica do Direito natural afirma fundamentar as normas desse Direito – é. válida sempre e em toda parte. essa tendência “natural” não é uma base possível para normas naturais. não pressupõem que a vida de seres humanos pertencentes ao inimigo deva ser preservada e promovida.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. sua tendência para satisfazer aos próprios interesses à custa dos interesses dos outros.Camilassouza que afirma ser lei natural e. justificada por filósofos como uma instituição natural e justa. como a teoria dinâmica do Direito natural afirma ser. Certamente não é essa a idéia de moralidade cristã. Elas tentam restringir essa tendência: estão fundamentadas no princípio do altruísmo. a saber. o que dá no mesmo. que a vida de todo ser humano deve ser preservada e promovida. Os sistemas morais ou jurídicos efetivamente estabelecidos entre vários povos não consideram e não consideraram a vida de todos os seres humanos como igualmente valiosa. a vida do homem neste mundo. no sentido de que suas normas são ou foram eficazes. A atividade do juiz também pode ser considerada www. como tal. isto é. isto é. Um refere-se à conduta dos sujeitos do Direito e qualifica essa conduta como lícita ou ilícita (VALORES DE DIREITO).19/07/13 O Que é Justiça . O mesmo se aplica à escravidão. sendo o seu produto justo ou injusto (VALORES DE JUSTIÇA). A norma implica a idéia de que a vida humana. não um Direito natural imaginário. nunca foi reconhecida por nenhum sistema moral ou jurídico positivo.

Na medida em que apenas aplica o direito. todo valor é função de um interesse. advogados. III A aplicação da teoria do interesse aos valores de Direito é o resultado de uma identificação falaciosa (enganosa) da norma jurídica com o ato por meio do qual é criada. “dever ser”. significa que alguém está afirmativa ou negativamente interessado no objeto.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. assim. mas o “ser”. A decisão do parlamento é um evento natural. porém. A teoria do interesse. seria aplicável também aos juízos jurídicos de valor e aos valores de direito. O juízo de valor afirma que alguém valora um objeto.Trabalhos de Pesquisa .html entidades que devem ser mantidas separadas. exatamente como a conduta dos que estão sujeitos ao Direito.Camilassouza objeto valorado e uma norma. juízes. partes e juristas – querem realmente dizer quando emitem tais juízos. a significação do juízo de que uma pessoa se conduz lícita ou ilicitamente é que ela se conduz ou não segundo a norma. podem ser verdadeiros ou falsos. cuja existência é pressuposta pela pessoa que emite o valor. se essa interpretação psicológica é correta ou não. o valor e a realidade (existência) não são opostos.trabalhosfeitos. se o juízo de valor afirma uma relação entre o O Que é Justiça . “Norma” é uma regra que determina ou proíbe certa conduta é o “dever ser”. Esses dois tipos de juízos implicam que certo objeto tem valor afirmativo ou negativo. a mesma conduta pode ser lícita relativamente a tal ordem jurídica e ilícita relativamente à outra. que enuncia que certos indivíduos querem tal decisão. que é “valorável”. Nessa teoria normativa. o valor desaparece ou se modifica. Descobriremos. A norma e o ato que cria a norma são duas www. que tal interpretação dos valores de direito não pode ser cogitada. Nessa teoria. O interesse pode ser da pessoa que faz o juízo ou de alguma outra. A atividade do juiz também pode ser considerada justa ou injusta. mas apenas na medida em que ele atua na condição de criador de Direito. Como o direito se manifesta na forma de uma ordem jurídica positiva. O juízo não é o “dever ser”. É uma vontade coletiva voltada para um mesmo fim. São opostos. Apenas se concebemos o valor como uma relação entre objeto e uma norma faz sentido traçar uma distinção entre juízos de valor e juízos de fato. Qual o significado desses juízos? O que eles afirmam? A questão só pode ser respondida analisando-se o que os envolvidos com o Direito – legisladores. Não é necessário decidir.19/07/13 (VALORES DE JUSTIÇA). porém. se esse deixar de existir. um fato da realidade natural que ocorre em certo tempo e em certo lugar do mundo. Um valor existe quando um fato psíquico existe. II Segundo uma teoria amplamente aceita. somente que é evento natural. para obter uma 63/105 . Quanto aos juízos que atribuem à qualidade de “lícita” ou “ilícita” a certa conduta humana. O valor é um “dever ser”. sua conduta é qualificável como lícita ou ilícita. por enquanto.

A decisão parlamentar por meio da qual. assim como o fato de que o parlamento aprova um projeto de lei é diferente da norma correspondente à qual dá origem.trabalhosfeitos.19/07/13 entidades que devem ser mantidas separadas. Aqui o fato não é idêntico à norma. mas sim de condutas costumeiramente tomadas por um grupo social. Entre o ato criador da norma e o seu significado (isto é. A regra de “ser”. para obter uma descrição satisfatória do fenômeno do Direito. de maneira nenhuma.Trabalhos de Pesquisa . A afirmação de licitude ou ilicitude de uma conduta. é uma óbvia ficção. sendo necessária apenas a maioria simples. contudo. o que demonstra que a minoria não tinha vontade que aquela determinada lei fosse promulgada. que tem o conteúdo da norma como seu objeto. mas o conteúdo da norma que eles criaram. Ainda. ele existe independente da vontade.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. A objeção de que uma norma é sempre criada por ato de vontade. sendo descoberto por meio do exame da natureza. isso não é o que acontece. O Que é Justiça . a norma criada por esse ato) prevalece um tipo de paralelismo similar ao que existe entre os pensamentos e sentimentos. não pode ser interpretada como significando que a conduta é ou não é efetivamente desejada por certas pessoas. Mas talvez possa ser interpretada como significando que a conduta correspondeu ou não a uma norma que foi criada por um ato de vontade que tem conteúdo da norma como objeto. ao passo que o Direito “natural” não é criado por ninguém. mas os dois são entidades diferentes. deve sempre existir um fato que “cria” a norma.html pessoas efetivamente se conduzem de certa maneira. Ela seria apenas se uma lei não pudesse ser constitucionalmente promulgada sem que a vontade se desse por maioria absoluta. que afirma que as www. uma “vontade coletiva”. IV Supondo que o ato criador de norma é um ato de quem tem o conteúdo da norma como objeto. segundo a constituição. pode sofrer diferentes interpretações diversas daquela desejada pelo legislador. V Que o fato criador de norma não é necessariamente um ato de vontade que tem o conteúdo da norma como seu objeto é evidente no caso em que a criação de uma norma se de por um costume. para que possamos afirmar a “existência” de uma norma. Mas. O ato criador é a conditio sine qua non da norma. uma Lei é expressa em palavras. uma lei é promulgada não é. A norma não é possível sem o ato do criador. não é a mesma 64/105 . Uma norma de direito consuetudinário nasce não da vontade do parlamento. que em sua interpretação. isso não importa.Camilassouza A expressão direito “positivo” significa que o Direito é um complexo de normas “firmadas” ou criadas por certos atos. mas não é a sua conditio per quam. O criador da norma pode não existir mais e a norma continua a existir. Os atos que dão origem a uma norma jurídica não tem o conteúdo dessa norma como objeto. Muitas vezes aqueles que conhecem o conteúdo da Lei e querem não estão entre aqueles cuja vontade é decisiva segundo a constituição. Um jurista desejoso de encontrar esse momento não investiga o estado de espírito dos que criaram a norma. a teoria de valor do interesse parece encontrar pelo menos uma aplicação indireta aos valores do Direito.

porque o motivo para a validade de uma norma é também o fundamento de sua existência. A norma legal criada pelo legislador pressupõe as normas da constituição e. um sistema hierárquico de normas legais. se positivada por pessoas consideradas autoridades. VII Os juízos de valor ao domínio do Direito em que as normas devem sua existência a atos legislativos têm a mesma conclusão de quando elas são criadas pelo costume.Trabalhos de Pesquisa . que por sua vez dependem da constituição escrita ou não escrita. uma norma fundamental. não é um fato. Então. que é fonte de validade de todas as normas pertencentes a certa ordem jurídica. especialmente os tribunais. Essa pode ser uma constituição prévia. independente de sua natureza. assim como a constituição dá poder legislativo ao parlamento.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. se do parlamento ou dos costumes. o juízo de valor de que uma conduta é lícita ou ilícita – porque se conforma ou não a um estatuto – pressupões um juízo de valor estabelecendo ser a função do legislador uma função legal. nunca é conseqüência de um mero “ser”. O nível mais baixo é composto de normas individuais criadas pelos órgãos aplicadores de Direito. a não ser de outra norma. mas uma norma o motivo pelo qual todas as normas do sistema existem. A série de motivos para a validade de uma norma não é infinita como a série de causas de um efeito. onde somente pode ser base de um juízo de valor uma norma jurídica. VI O motivo para a validade de uma norma oferece a resposta à questão: por que uma pessoa deve conduzir-se como a norma prescreve? Porque a “validade” de uma norma é o seu modo específico de existência. não é a mesma norma de “dever ser”. que são normas gerais criadas pelo legislador. sendo essa o nível mais elevado de uma ordem jurídica nacional. Essas normas individuais são dependentes dos estatutos. não importa. que estipula que devem conduzi-se dessa maneira. ou ainda caso seja a primeira das primeiras. A norma pressuposta transforma o costume em um fato criador da norma. assim.Camilassouza pessoas efetivamente se conduzem de certa maneira. as normas da constituição. que formam o nível superior seguinte da ordem jurídica.19/07/13 O Que é Justiça . e das regras do Direito consuetudinário. Deve existir uma razão final. ela pode ser chamada de uma norma hipotética. Um “dever ser” deriva de outro “dever ser”. Essa norma fundamental é à base de todos os juízos jurídicos de valor possíveis na estrutura jurídica de um Estado dado. É o que faz a diferença entre os membros de um corpo legislativo e os membros de uma quadrilha.html 65/105 . VIII A ordem de um Estado é.trabalhosfeitos. uma norma não pode receber sua validade de mais nada. não recebem sua validade de alguma norma www. Isso demonstra que uma norma não é idêntica a seu fato condicionador. que ainda não é uma norma de direito positivo. do mesmo modo. O ato que cria uma constituição de onde todas as outras normas vão derivar deve igualmente ser qualificado por uma norma. Embora a existência de toda norma jurídica seja condicionada por certo fato.

XII O valor de Direito. Na medida em que tal verificação dos juízos jurídicos de valor é possível. a norma fundamental hipotética.foi criada pelo ato de uma vontade sobre-humana. o valore de Direito é um valor objetivo. (2) a presença de um fato que cria a norma.Trabalhos de Pesquisa . a sua validade. é precisamente o fato de que ela perdeu sua eficácia. não à norma jurídica isolada. a existência de uma norma jurídica positiva pressupõe: (1) a eficácia da ordem jurídica total à qual pertence à norma. Na visão dos juristas o que priva a antiga constituição de sua validade. já que – segundo a crença religiosa . sendo esse comando uma norma transcendental já que escapa ao âmbito da experiência humana. se é norma é criada “para todos” .trabalhosfeitos.19/07/13 O Que é Justiça . A revolução consiste no fato de que uma constituição é substituída por outra. Segundo essa teoria. é objetivo também em outro sentido. IX O juízo de valor de que a criação da primeira constituição é legal significa que os indivíduos que a criaram foram autorizados a tanto por certa norma. isto é.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. www. O governo que é levado ao poder pela revolução e que promulga a nova constituição é uma autoridade legitima apenas quando é capaz de tornar eficaz a nova ordem. Já segundo a teoria do interesse. de sua existência legal. de um modo geral. XI O princípio da eficácia refere-se essencialmente à ordem jurídica como um todo.Camilassouza jurídica positiva. mas de uma norma pressuposta pelo pensamento jurídico. ou se assim nos recusarmos a aceitar.html 66/105 . que deseja ou quer ou não quer esse objeto. (3) a ausência de alguma norma que a “anule”. É uma norma pressuposta no pensamento jurídico para sustentar a “existência” de quaisquer outras normas. X Uma análise do pensamento jurídico demonstra que os juristas consideram válida uma constituição apenas quando a ordem jurídica nela fundamenta é eficaz. é diferente da existência de um fato. que deixou de corresponder à norma fundamental geral que estabelece o princípio da eficácia. Ser “eficaz” significa que os órgãos e sujeitos dessa ordem. caso seja a primeira constituição histórica do Estado em questão a presunção é de que a constituição é legal. mas “positiva”. Assim. remontada à vontade de Deus. A existência de uma norma. tal como concebido pela teoria normativa. A validade de uma constituição só é admitida se essa for emenda. conduzem-se de acordo com as normas da ordem. A explicação para a criação originária da constituição pode ser metafísica. mas pela força. um objeto valorável é valorável para todos. Assim. não em conformidade com suas próprias cláusulas. A eficácia é um fato objetivamente verificável. somos forçados a deter-nos na norma que foi apresentada aqui como a norma fundamenta hipotética. um objeto é valorável apenas para uma pessoa interessada nele.

como “poder” opõe-se a norma.trabalhosfeitos. Ela é. É impossível determinar a norma de justiça de modo exclusivo. O valor Também pode consistir em uma relação com uma norma. um Direito positivo.19/07/13 ou não quer esse objeto. ao passo que o valor da justiça é subjetivo.html “ser”. (2) O conceito de uma norma (um “dever ser”) é indispensável à descrição de certos fenômenos.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. Seu conteúdo pode ser averiguado sem ambigüidade por um método objetivo. Assim. pode ser denominada uma realidade social. Essa realidade consiste na eficácia do sistema como um todo e nos fatos que constituem a criação ou a anulação de normas particulares. mas não às normas de justiça. Existe. porém. conflitante. uma expressão do interesse do indivíduo que pronuncia uma instituição social como justa ou injusta. E isso se aplica mesmo que às vezes em grande número de pessoas tenha o mesmo ideal de justiça. Nesse sentido. XIV O valor de justiça não é da mesma natureza que o valor do Direito. As normas que são efetivamente usadas como padrões de justiça variam de individuo para individuo e muitas vezes são irreconciliáveis. um “dever ser”. é meramente ideológica. a designação “social” pressupõe que esta realidade é interpretada à luz de uma ideologia normativa. (1) O valor não é necessariamente uma relação com o interesse. Um conceito ideológico é um conceito que cumpre outra função além da de descrever e explicar a realidade. Se o sistema de normas jurídicas é uma ideologia. Nesse sentido o Direito pode ser considerado como ideologia específica de dado poder histórico. Esse poder geralmente é identificado com o Estado. enquanto o liberal considera a liberdade como ideal de justiça. Por exemplo. Não há um padrão exclusivo de justiça: o que encontramos efetivamente é muito ideal diferente e muitas vezes. As normas de Direito positivo corresponde certa realidade social. o “dever ser”) de uma norma jurídica. Não tem nenhuma implicação metafísica. depende da pressuposição da norma fundamental. Esse dualismo é muitas vezes uma realidade social e de uma ideologia condicionada e determinada por essa realidade. Diz-se que o Estado é o poder “por trás” do Direito. (3) O significado de uma norma é um “dever ser” em contraposição a um www. e esta por sua vez. é uma ideologia paralela a uma realidade definida. a validade. em última análise. 67/105 . O Que é Justiça . Pressupondo a norma fundamental. podem submeter a uma prova objetiva os juízos jurídicos de valor baseados na norma fundamental pressuposta. XIII Esse é o motivo por que é possível sustentar que a ideia de uma norma. Mas não há nenhuma necessidade de pressupor a norma fundamental.Trabalhos de Pesquisa . se é norma é criada “para todos” .Camilassouza Essa objetividade de valores de Direito é limitada apenas na medida em que sua existência implica a existência (isto é. Esta investigação dos juízos de valor que surgem na ciência do Direito parece estabelecer os seguintes resultados. Essa realidade social muitas vezes opõe-se ao Direito. o valor do Direito é objetivo. o socialista vê o ideal na igualdade.

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“ser”. (4) Um valor é subjetivo se seu objetivo é valorável apenas para os que estão interessados nesse objeto. Um valor é objetivo se o seu valor objeto for valorável para todos. VIII. O DIREITO COMO TÉCNICA SOCIAL ESPECÍFICA A essência da técnica jurídica (p. 225) A técnica social da motivação direta e indireta A sociedade é o ordenamento da convivência de indivíduos. Essa convivência constitui – em si – um fenômeno biológico, mas se torna um fenômeno social pelo fato de ser regulamentada. A ordem social, constituída pelo complexo de normas, determina como o indivíduo deve conduzir-se em relação aos outros (conduta recíproca dos indivíduos). Podem-se distinguir vários tipos ideais de ordens, conforme a maneira como a conduta socialmente desejada é ocasionada, a depender de sua motivação, que pode ser indireta ou direta. Um dos motivos para a conduta está na motivação indireta por meio de normas com sanção, com a aplicação do princípio da retribuição (princípio de recompensa ou punição), consistente em associar a conduta em conformidade com a ordem com a promessa de vantagem; e a conduta contrária à ordem com a ameaça de uma desvantagem. Outro motivo, raramente encontrado em forma pura, advém da motivação direta por meio de normas sem sanção, cuja atração direta dos indivíduos pela conduta, simplesmente por estar decretada pela norma, acarreta a conduta em conformidade com a norma, por obediência voluntária. Esclarece-se que nenhuma norma gera essa suficiente atração aos indivíduos e que toda conduta social vem acompanhada de um juízo de valor, que implica uma sanção de ordem (reação do grupo referente à aprovação ou à reprovação da conduta pelos seus semelhantes). Logo, a diferença é que certas ordens sociais prevêem sanções definidas, outras, por outro lado, têm sanções derivadas da reação automática da comunidade, não expressamente provida pela ordem. As sanções providas pela ordem social podem ter caráter transcendental (religioso) ou social-imanente (social-organizada). As de caráter transcendental são aplicadas por autoridade sobre-humana, desta forma, a retribuição emana da divindade, que mantém a ordem social primitiva por sanções religiosas. Nos primórdios do desenvolvimento religioso, o homem primitivo associa os seus deuses com as almas dos mortos. Sem o dualismo Aqui e Além, a retribuição é realizada no Aqui (morte, doença, má sorte na caça). As sanções socialmente imanentes (ou socialmente organizadas) devem ser cumpridas pelos indivíduos segundo dispositivos da ordem social. A vingança de sangue, entre grupos, é a mais primitiva delas, em que se reage contra o prejuízo considerado injustificado por um membro de um grupo estranho. A alma do assassinado compele os parentes a se vingarem. Por medo de uma sanção imposta pelas almas dos mortos, a sanção socialmente organizada é garantida por uma sanção transcendental. Posteriormente, o desenvolvimento religioso passa-se a considerar a
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divindade em outro plano (Além), e a retribuição divina é adiada para o Além (céu ou inferno). A ordem social perde seu caráter puramente religioso, servindo este como suplemento e apoio da ordem social. Nas duas sanções típicas (punição e recompensa), ganha primazia o medo do castigo, que se sobrepõe à expectativa de recompensa, cuja significação é secundária. A técnica da recompensa se desenvolve nas relações privadas entre indivíduos. A técnica da punição é o método de ocasionar a conduta socialmente desejada, pela ameaça e a aplicação de um mal pela conduta contrária. Nesta ordem coercitiva, cuja eficácia repousa nas medidas de coerção, o mal, quando constitui sanção socialmente organizada, é aplicado pela privação de posses contra a vontade do possuidor (não obrigatoriamente com força física, somente quando há resistência). Esta ordem coercitiva contrasta com a ordem que prevê sanções recompensa e a ordem que não executa nenhuma sanção (pela técnica da motivação direta). Para essas duas últimas ordens, a eficácia repousa na obediência voluntária. Note-se que a obediência voluntária é, ela própria, uma forma de motivação, de coerção, e, portanto, não é liberdade, mas coerção no sentido psicológico (e não no sentido de privação involuntária de posses). O Direito como ordem coercitiva que monopoliza o uso da força (p. 230) Há um elemento comum entre as diversas ordens jurídicas (diferentes em seu teor e vigentes em diferentes épocas e povos), que justifica o uso da palavra “Direito” como conceito provido de importante significado social. Refere-se à técnica social específica de uma ordem coercitiva , que, apesar das enormes diferenças entre comunidades, é essencialmente a mesma para todos. Ordens sociais que perseguem o mesmo objetivo, mas por meios diversos: Quadro comparativo Ordens sociais Medida à conduta contrária Previsão e Caráter Aplicador 1) Direito Medida de coerção prevista na ordem jurídica Provida pela ordem jurídica e socialmente organizada. ATO da comunidade jurídica Outro homem, designado pela ordem jurídica (agente da comunidade social) 2) Moral Reprovação moral Não provida pela ordem moral e não socialmente organizada Seus semelhantes 3) Religião Castigo (= doença ou morte do pecador) Provida pela ordem religiosa, não socialmente organizadas, de caráter transcendental. ATO da autoridade sobre-humana Autoridade sobre-humana (mais eficaz) O Direito não exclui o uso da força, mas o proíbe nas relações entre indivíduos. Como o ordenamento promove a paz e pacifica a sociedade, o Direito autoriza o emprego da força apenas por certos indivíduos e apenas sob certas circunstâncias, a contrario sensu, para todas as demais circunstâncias não autorizadas, ele é proibido. Por esse motivo, o Direito é uma organização da força e faz de seu uso um monopólio da comunidade, porque apenas o indivíduo, autorizado pela ordem
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comunidade, porque apenas o indivíduo, autorizado pela ordem

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jurídica, pode aplicar a medida coercitiva, atuando como órgão dessa ordem ou da comunidade por ela constituída. Assim, o Direito provê uma paz relativa, porque admite o emprego da força mesmo que reservadamente; não provendo uma paz absoluta, cuja condição é a ausência absoluta de força (estado de anarquia). Não há um estado de Direito, o qual é essencialmente um estado de paz. A intervenção da força (medida de coerção) é permitida como sanção, como reação da comunidade à proibida intervenção forçosa de um indivíduo nas esferas de interesse alheias, quando a conduta de abster-se havia sido induzida pelo Direito, por sua técnica social. Desta forma, protegem-se as esferas de interesses do indivíduo pela ordem social. A ideia de uma comunidade sem força A pergunta central desse tópico é: O Direito é inevitável ou não? Suposições: a coercibilidade talvez derive do conteúdo peculiar de certa ordem jurídica, ou talvez não houvesse a necessidade de prever medidas coercitivas porque os indivíduos não teriam motivos para a conduta contrária e houvesse motivação direta, por obediência voluntária. Faz-se um paralelo com a necessidade do Estado, que também é uma ordem coercitiva. A história confirmou o brocardo: ubi societas ubi jus, porque não houve comunidade que não fosse legal, constituída pelo direito como ordem coercitiva. A doutrina do anarquismo teórico, pensada e desejada por otimistas e sonhadores políticos, prevê uma “sociedade livre” de qualquer coerção, na qual não há nenhuma lei (Direito positivo) e nenhum Estado. A ordem natural é JUSTA (faz todos os homens felizes), visto que conta com a obediência voluntária de todos os sujeitos – porque corresponderia à natureza do homem, e suas relações recíprocas exigiram apenas o que eles desejassem, não havendo necessidade de compelir as pessoas à sua própria felicidade. Essa realidade é vista como ilusão, porque, se possível, já teria sido realizada. Partindo do conhecimento da natureza humana (provida de impulso de agressão inato ao homem) e da impossibilidade da felicidade de todos os homens (diante de incompatibilidades de vontades), considera-se muito improvável uma ordem natural e justa, reconhecida de imediato por todos e de pronta obediência, que possa escapar do risco de ser violada, mesmo que ela assegurasse todas as vantagens desejadas pelos homens. Supor a satisfação geral é partir de um pressuposto utópico: de que o homem é bom por natureza. A doutrina do socialismo marxista representou essa ideia politicamente com mais sucesso, ao considerar supérfluo o mecanismo de coerção (Estado e Direito), se fosse abolida a propriedade privada e socializados os meios de produção, levando à cessação dos conflitos de classes. Os anarquistas previam a extinção imediata do Estado, já os marxistas admitiam a extinção do Estado capitalista, substituído pelo Estado proletário, caminhando para desaparecimento gradual do Estado. A economia planejada socialista – para o grau mais elevado de
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produtividade – exige um caráter autoritário, gerido por um gigantesco

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Na perspectiva do Direito em seu movimento específico e no processo da criação do Direito. Há dois métodos de criar Direito: 1.html 71/105 . mas por outras necessidades (desejo de prestígio. o Direito positivo não tem apenas de ser criado. observa-se que Direito regulamenta a sua própria criação. Com o desenvolvimento dos tribunais. A dinâmica típica do Direito está na progressão entre a criação e sua aplicaçã. A evolução da técnica jurídica Diferenciação da relação dinâmica entre a criação e a aplicação do direito O Que é Justiça . Este Estado deve contar com perturbações da parte de seus cidadãos. para induzir a conduta oposta. a dinâmica era dividida em apenas duas etapas (i) e (iii).19/07/13 produtividade – exige um caráter autoritário. que pode ser dividida em etapas: (i) a criação de uma norma geral abstrata. sentimentos religiosos). sob a técnica da iniciativa individual. sem uma norma individual decretada por um órgão. há necessidade do Direito.Trabalhos de Pesquisa . O processo de criação das normas gerais também tende desenvolverse. já que próprio sujeito levava a cabo a sanção. havendo hierarquia de normas gerais e individuais (etapas: constituição → estatutos com base na constituição → decretos com base nos estatutos → regulamentos com base nos decretos →→→→→ grau mais baixo: execução da medida concreta). Diferenciação da relação estática entre delito e sanção Diferenciação da sanção: Direito Criminal e Direito civil. mas deve ser aplicado. No sistema primitivo. gerido por um gigantesco corpo administrativo hierarquicamente organizado. Não se pode esperar que medidas preventivas possam ser tão eficazes a ponto de tornar as medidas repressivas inteiramente supérfluas. 2. a norma individual decretada (ii) se insere entre a norma geral (i) e a execução da sanção (iii). denominada delito. Legislação (ato consciente de um órgão especial estabelecido para o propósito de criar Direito). Costume (conduta similar e repetida do sujeito). Mesmo no socialismo. que não invocará sanção. porque a norma geral era aplicada diretamente ao caso concreto. libido. apenas reconhecido por ele como Direito emanado da natureza. estipulada por norma da própria ordem. que ela passe a existir de uma certa maneira. limitando a liberdade do indivíduo mais severamente. com tendências totalitárias.trabalhosfeitos. (iii) execução da norma individual (aplicação da sanção). (ii) a criação da norma individual decretando a sanção pelo tribunal (no caso concreto). O Direto Natural não precisa ser criado pelo ato do homem. para que a norma pertença à ordem jurídica. mesmo que não seja por necessidades econômicas. exigindo. em que a ordem jurídica vincula uma sanção a uma conduta. Por outro lado.Camilassouza A relação fundamental da estática do Direito (em estado de repouso) é a estabelecida pela norma jurídica entre delito e sanção. www. pelo uso de suas medidas de coerção quando não houver obediência voluntária de seus sujeitos em todos os sentidos.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308.

responsabilidade das pessoas jurídicas).Camilassouza Originalmente havia apenas a sanção penal. sem levar em conta se ele agiu com intenção ou negligência. o caso da culpabilidade é desconhecido. pois existem importantes exceções nas ordens jurídicas modernas (ex.19/07/13 O Que é Justiça . o indivíduo é identificado como elemento integral de seu grupo. qual seja a reação contra o delito na forma de um ato de coerção como sanção. porquanto todas as funções de www. Diferenciação do delito: responsabilidade absoluta e culpabilidade Responsabilidade absoluta responsabiliza por um resultado socialmente prejudicial ocasionado pela conduta do indivíduo.trabalhosfeitos. A responsabilidade coletiva é um elemento típico do estado de justiça que ainda subsiste o princípio da iniciativa individual. * A distinção é relativa. No direito primitivo. Princípio da propriedade privada Penal Retribuição ou prevenção* Cabe à comunidade jurídica Iniciado ex officio (exigência do órgão da comunidade) Disputa entre um órgão da comunidade e o infrator. Quadro comparativo de distinções Sanções Propósito Uso da propriedade tomada à força Processo judicial Forma Civil Reparação do dano causado Devolvida ao sujeito ilegalmente prejudicado Iniciado por exigência de um sujeito específico. O princípio da responsabilidade individual consiste na técnica jurídica mais refinada em que apenas aquele que comete o delito deve ser responsável pelo delito. sendo que a vingança de sangue é dirigida contra a pessoa que cometeu o feito e toda sua família. ele não é auto-suficiente. o princípio da responsabilidade coletiva dirige a sanção ao próprio indivíduo que comete o delito e a todos os membros do grupo social a qual ele pertence. deve-se existir também uma ligação mental específica (intenção. culpa).com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. como regra geral. O desenvolvimento técnico do direito progride da responsabilidade coletiva para a individual. Depois surgiu a execução civil. Os méritos e deméritos individuais são dirigidos a todo o grupo. Como semelhança: ambas as sanções garantem a conduta desejada pela mesma técnica social. Nas ordens jurídicas primitivas. mesmo que secundariamente. Por outro lado. Processo contencioso Disputa entre duas partes. contra quem a sanção será dirigida. A centralização O direito primitivo é descentralizado. pela privação coercitiva da propriedade para compensar o dano ilicitamente causado. Diferenciação da sanção: responsabilidade coletiva e responsabilidade individual. porque a civil tem uma função preventiva. entendida como punição. No caso de culpabilidade. O desenvolvimento técnico do Direito evolui da responsabilidade absoluta para a culpabilidade. negligência.html 72/105 .Trabalhos de Pesquisa .

Posteriormente. por meio da ameaça de uma sanção. associando sua estrutura com as características do direito primitivo. A existência do fato está condicionada à opinião autêntica (opinião da autoridade instituída pela ordem jurídica) e só assim. com o crescente número de leis administrativas. o primeiro órgão central foi o chefe. Os tribunais atuavam como tribunais de arbitragem (tentar um acordo. há centralização da execução. porque radicalmente descentralizado.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. órgãos especiais diferentes e independentes das partes em conflito). o que dependia de uma administração poderosa. transforma uma comunidade primitiva em Estado. Recentemente vê-se o Estado judicial transformado em Estado administrativo. à medida que a obrigação e a autorização direta dos indivíduos e a centralização aumentam. No início do desenvolvimento. A administração indireta (técnica do Estado liberal-capitalista) utiliza a mesma técnica do judiciário. tal como determinado pela ordem jurídica. Direito. ao induzir. mas com a peculiaridade de ter pessoas jurídicas como sujeitos – os Estados. porque possibilitou a aplicação do Direito a todos os casos. as funções judiciais e legislativas ficam em primeiro plano. por um órgão da comunidade jurídica.html 73/105 . reconhece-se que não existem. aproximando-se à idéia de Estado mundial. IX. a ordem jurídica vincula certa punição a um fato. Diante deste panorama. O capítulo finaliza com uma análise do Direito internacional.trabalhosfeitos. que é voltada para os órgãos públicos e se distingue da atividade judicial. no domínio do Direito.Trabalhos de Pesquisa . iniciativa individual da parte dos sujeitos. POR QUE A LEI DEVE SER OBEDECIDA? www. A centralização da função judicial e da administração. é irrelevante do ponto de vista jurídico. a conduta do cidadão considerada desejável pela administração. a centralização da função de aplicação da sanção precede a centralização da função de criação do O Que é Justiça . mesmo sem um órgão legislativo. pelo processo prescrito. Diferencia-se da administração direta (técnica do Estado socialista). Qualquer opinião quanto à existência de um fato (opinião subjetiva). ainda não havia órgãos legislativos especiais (as normas gerais eram criadas pela colaboração de todos os indivíduos sujeitos à ordem jurídica: método descentralizado de criar Direito). fatos absolutos (“fatos em si”). autorizar a parte a executar a sanção).Camilassouza criação e de aplicação do direito são executadas por todos os sujeitos.19/07/13 O direito primitivo é descentralizado. responsabilidade coletiva e responsabilidade absoluta. mas a aplicação do Direito era centralizada pela função exclusiva dos órgãos especiais (juízes. a fronteira entre Direito nacional e Direito internacional tende a desaparecer. porquanto todas as funções de Com o desenvolvimento do Direito. que posteriormente surge como juiz e não legislador. ausência de órgão especial para aplicação das normas. com criação das normas pelos costumes. Nas relações intertribais. Está progredindo o desenvolvimento técnico do Direito internacional e. que é uma ordem jurídica centralizada. Para o desenvolvimento técnico do Direito. nenhum outro passo foi tão importante quanto o estabelecimento de tribunais. decidir se houve delito. No Direito consuetudinário.

Para esta questão adicional a doutrina do Direito natural não tem nenhuma resposta. os conceitos de justiça ou de Direito natural tornam-se sem sentido.Trabalhos de Pesquisa . Contudo. Por “validade” entenda-se a força obrigatória da lei – a idéia de que ela deve ser obedecida pelas pessoas cuja conduta regulamenta. À questão de como esses princípios morais devem ser determinados. A doutrina do Direito natural de que o Direito positivo é válido porque se conforma à justiça conduz a um ou outro dos seguintes resultados – ambos inaceitáveis para uma teoria do Direito positivo: (a) Se todo Direito positivo for considerado válido. Mesmo se aceito que as normas que regulamentam a conduta humana podem ser deduzidas da natureza. que concebe a natureza como uma autoridade legisladora. a sua norma fundamental.html Direito natural proclamaram. imanentes à natureza.trabalhosfeitos. em nome da justiça ou do Direito natural.Camilassouza Qual é o motivo para a validade do Direito? Para avaliar as diversas respostas a esta pergunta certos termos devem ser esclarecidos. e. e Direito positivo. POR QUE A LEI DEVE SER OBEDECIDA? I O Que é Justiça . Na verdade. todo o Direito positivo – segunda a doutrina do Direito natural – deve ser considerado justo. surge a questão de por que os homens devem obedecer a essas normas. Os pontos de vistas precedentes constituem a doutrina do Direito natural. de outro. então Direito e justiça são idênticos. representantes destacados da doutrina do www. a lei deve ser obedecida porque a lei deve ser obedecida. o motivo para a validade do Direito é a sua justiça. então. em conformidade com o Direito natural. Eles têm sentido apenas se existir um antagonismo possível entre justiça e Direito natural.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. Por “Direito” entenda-se Direito positivo – nacional ou internacional. Se. A doutrina simplesmente pressupõe – talvez como evidente – que os homens devem obedecer aos comandos da natureza. de um alado. por assim dizer. essa hipótese fundamental não pode ser aceita por uma teoria do Direito positivo porque é impossível deduzir a partir da natureza normas que regulamentem a conduta humana. todo o Direito feito pelo homem pode ser justificado se for dotado de autoridade sobre-humana. Esta é a hipótese fundamental dessa doutrina. e a natureza não tem nenhuma vontade. dizer que o Direito é válido porque é justo equivale a dizer: o motivo para a validade da lei é a lei. porém. segundo este ponto de vista. seu motivo para a validade do direito. A questão é por que essas pessoas devem obedecer à lei. a resposta típica é que eles são. As normas são a expressão de uma vontade. Os princípios morais que se referem às atividades humanas criadoras e aplicadoras de Direito constituem o ideal de justiça. Há outro motivo.19/07/13 IX. II Uma resposta freqüentemente aceita é que os homens devem obedecer ao Direito positivo porque e na medida em que ele se conforma aos princípios da moral. Desse modo. (b) Se o Direito é identificado como justiça e o Direito positivo com o Direito natural. então. todo o Direito for justo. 74/105 .

Conseqüentemente. mas sim à questão. sua hipótese metafísica. Que os homens devem obedecer aos mandamentos de Deus é uma norma que não pode ser apresentada como emitida por Deus. então a ordem jurídica de um Estado comunista não é válida e não passa de uma organização de bandidos. Deus não pode autorizar uma norma autorizando Deus a emitir ordens. Por exemplo. III Há outra doutrina – a teologia cristã – que oferece uma resposta para nossa questão. A resposta que a teologia cristã dá a nossa questão. porque Deus é ordem suprema. se a propriedade jurídica for contrária à natureza. conseqüentemente. e. Os homens devem obedecer a qualquer Direito positivo porque sua obediência é ordenada por Deus. a obediência do homem é devida a Deus e não ao Direito positivo como tal. Contudo. Em última análise. cujos representantes são as autoridades legislativas. totalmente diferente. Portanto. pode ser apenas uma norma pressuposta pela teologia. mas que estão em oposição direta a muitas ordens jurídicas positivas. esse Direito deve ser considerado não meramente como um Direito feito por homens mas como um Direito que tem origem na vontade de Deus. mesmo se for tido como certo o fato de que Deus emite esse mandamento.trabalhosfeitos. a norma de que os homens devem obedecer aos mandamentos de Deus não pode ser uma norma emitida por uma autoridade. A doutrina do Direito natural não responde à questão de por que o Direito positivo é válido.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. uma autoridade que emite tal norma teria de ser considerada superior a ambos. Dizer. Mas. que ordenou a obediência ao Direito positivo. Pois. Os homens devem obedecer ao Direito positivo porque os homens devem obedecer aos mandamentos de Deus. É – segundo essa doutrina teológica – o motivo para a validade do Direito.html 75/105 . princípios que não apenas se contradizem mutuamente. a que seus cidadãos devam obedecer. como declaram alguns autores. essa norma implica autorizar o outro indivíduo a emitir a ordem. a afirmação de que os homens devem obedecer ao Direito positivo porque Deus assim ordena não é uma resposta final à questão de por que o Direito positivo é válido. e o indivíduo autorizado por essa norma está sujeito a ela exatamente como o indivíduo obrigado a obedecer. È a norma pressuposta de que os homens devem obedecer aos comandos da natureza. assim como a www. É a sua norma fundamental. se a autoridade emite uma norma prescrevendo que um indivíduo deve obedecer à ordem de outro indivíduo. de por que o Direito natural é válido. se a propriedade individual é um Direito natural. em nome da justiça ou do Direito natural.Trabalhos de Pesquisa . sua norma fundamental. a ordem jurídica de um Estado capitalista não tem nenhuma chance de ser reconhecida como um Direito válido. Elas são autorizadas por Deus a produzir Direito. Todos esses princípios representam os juízos de valor altamente subjetivos de seus diversos autores sobre o que consideram justo ou natural.19/07/13 O Que é Justiça . portanto. surge a questão de por que os homens devem obedecer aos mandamentos de Deus. como afirmam alguns autores. que o Direito positivo é válido porque é justo não é uma resposta para nossa pergunta.Camilassouza Direito natural proclamaram. Pois.

não como meras relações de poder. a partir desse prisma. obrigatória para esses indivíduos. for considerada uma ordem válida. e se for possível distinguir o que é legalmente certo e legalmente errado. porque. não é uma norma positiva criada em conformidade com a constituição. que suas hipóteses não são aceitáveis por uma ciência do Direito positivo.Trabalhos de Pesquisa . não há nenhuma diferença www. isto é. porque devemos obedecer à constituição. que os pais da constituição foram autorizados a estabelecê-la pela natureza ou Deus. é impossível supor que a natureza ou Deus ordenem a obediência à primeira constituição histórica. como princípio normativo. estabelecida com fundamento nela e efetivamente obedecida e aplicada por aqueles cuja conduta regulamenta. em última análise. neste aspecto. encontra o motivo para a validade do Direito em uma ordem superior. reportando-se a uma hipótese que pode ou não ser aceita – em outras palavras. uma ciência do Direito só pode responder: a norma de que devemos obedecer às estipulações da primeira constituição histórica só deve ser pressuposta como hipótese como hipótese se a ordem coercitiva. vista do prisma de uma ciência do Direito positivo. Essa ordem é caracterizada por uma estrutura hierárquica. Segundo. Seu fundamento á a constituição escrita ou não-escrita. A norma fundamental de que devemos obedecer às disposições da primeira constituição histórica não é criada pela autoridade jurídica. que foi substituída de maneira constitucional pela constituição existente. Contudo. justificando a obediência à lei apenas condicionalmente. podemos ser remetidos a uma constituição mais antiga. Essa é a norma fundamental de uma ordem jurídica positiva.Camilassouza resposta à doutrina do Direito natural. desempenha um importante papel no domínio do Direito. o Direito positivo em si não tem nenhuma validade. chegamos à primeira constituição histórica.html 76/105 . é uma norma que – como nos diz a ciência do Direito positivo – pressupomos como hipótese quando consideramos a ordem coercitiva que regulamenta efetivamente a conduta humana no território de um Estado como uma ordem normativa obrigatória para seus habitantes. Segundo ambas as doutrinas. em especial o uso legítimo e ilegítimo da força. soberana. deve-se supor que o Direito positivo é uma ordem suprema. À questão de por que devemos obedecer às suas cláusulas. É a razão conclusiva para a validade do Direito positivo.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. direitos e responsabilidades legais. Devemos obedecer às decisões de um juiz ou administrador. sobre a qual repousam os estatutos decretados pelos legisladores. colocada acima do Direito positivo – em uma ordem divina ou natural. Se perguntarmos por que devemos obedecer às normas da constituição existente. que. Assim o positivismo jurídico responde à questão por que o Direito é válido. É a aplicação do princípio geral da eficácia. dessa maneira.trabalhosfeitos. IV Esta análise das duas doutrinas demonstra.19/07/13 O Que é Justiça . se as relações entre esses indivíduos forem interpretadas como deveres. Esse pressuposto não é um produto da livre imaginação. primeiro. a razão final para a sua validade.

não do que deve ser. ao passo que a validade para a qual a norma fundamental da doutrina do Direito natural ou da teologia cristã fornece o motivo é a validade de uma ordem natural ou divina. Portanto. Essa hipótese. ser 77/105 . é uma norma fundamental hipotética. O motivo para a validade do Direito. Conseqüentemente. deve. A TEORIA PURA DO DIREITO E A JURISPRUDÊNCIA ANALÍTICA A Teoria do Direito e a Filosofia da Justiça A Teoria Pura do Direito é uma teoria do Direito positivo – uma teoria geral do Direito. A norma que autoriza o costume do Estado a criar Direito obrigatório para os Estados só pode ser uma norma pressuposta pelos que interpretam as relações mútuas dos Estados. É uma hipótese – a condição – sob a qual tal interpretação é possível. o motivo para a validade do Direito internacional. também o motivo da validade das ordens jurídicas nacionais. como relações regulamentadas por uma ordem jurídica válida. Deve-se responder à questão do que é o Direito. isto é. Contudo. Enquanto esta questão é política. mas pressupostas como hipóteses por essas doutrinas. a teoria pura do Direito é ciência.19/07/13 condicionalmente. independentemente do conteúdo variável que apresenta em diferentes épocas e entre diferentes povos. não como meras relações de poder. é. que consideram os atos dos Estados como legais ou ilegais. com esta teoria. O Direito internacional é composto de normas do Direito consuetudinário e do Direito convencional – sendo este último o Direito criado por tratados com base no Direito consuetudinário. na condição de obrigações. por outro. direitos e responsabilidades. ciência específica do Direito. Assim como a norma fundamental do positivismo jurídico não é emitida pela autoridade jurídica. Esta teoria é chamada “pura” por procurar excluir da cognição do Direito positivo todos os elementos estranhos a este. X. Procura-se. as normas fundamentais da doutrina do Direito natural e da teologia cristã não são emitidas pela natureza ou por Deus. mas como relações jurídicas. A única diferença é que a validade para a qual a norma fundamental do positivismo jurídico fornece o motivo é a validade imanente do Direito positivo. é uma norma que institui o costume como fato criador do Direito – a norma de que os Estados devem conduzir-se como os Estados costumeiramente se conduzem nas suas relações mútuas. segundo os três. mas pressuposta no pensamento jurídico.Trabalhos de Pesquisa . por aqueles. segundo Kelsen. novamente. a norma fundamental do Direito internacional. e a doutrina do Direito natural ou da teologia. neste aspecto. descobrir a natureza do próprio Direito. em última análise.html A jurisprudência.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. V A questão quanto ao motivo da validade do Direito foi restringida nas considerações anteriores ao Direito nacional. e determinar sua estrutura e suas formas típicas.trabalhosfeitos. por um lado.Camilassouza entre o positivismo jurídico. essas doutrinas também podem justificar a obediência à lei apenas condicionalmente. www. não há nenhuma diferença O Que é Justiça . a sua norma fundamental. não se tratando de uma apresentação de uma ordem jurídica especial.

A jurisprudência apresenta. A jurisprudência vê o Direito como um sistema de normas gerais e individuais. a sociológica. É possível. Tais questões não podem ser respondidas cientificamente. logo não são objetos da presente teoria. Jurisprudência normativa e sociológica O objeto da Teoria Pura do Direito é o Direito positivo. emitidas pela autoridade jurídica. isto é. se uma ordem jurídica perdesse sua eficácia. que uma ordem jurídica seja eficaz como um todo. a conduta futura a ser caracterizada como lei. apresentada pela jurisprudência. um julgamento hipotético que vincula uma conseqüência específica a uma condição específica. sendo considerada válida. a jurisprudência descreve seu objeto – o Direito – em enunciados de dever ser.Camilassouza A jurisprudência. Desse modo. enquanto a ciência natural descreve seu objeto – a natureza – em proposições de ser. Tampouco se considera competente para responder o que constitui a própria justiça. diverge de outra. embora válida. A Teoria Pura do Direito não busca responder à questão de se dado Direito justo ou não. em contraposição às normas jurídicas. segundo Kelsen. que pode ser considerada uma jurisprudência normativa do Direito. A jurisprudência considera uma norma jurídica válida apenas se ela pertencer a uma ordem jurídica que. é eficaz. por ter uma visão especificamente jurídica do mesmo. deve. com base em normas jurídicas válidas. No entanto. mas que uma norma particular. A diferença entre a validade e a eficácia consiste no “dever ser” presente no conceito da primeira. não seja eficaz em um caso concreto por não ter sido obedecida ou aplicada. de modo geral. mas em proposições que dizem como eles efetivamente se conduzem. ou seja. a libertação do conceito de Direito da idéia de justiça é difícil porque eles são constantemente confundidos no pensamento político e na linguagem comum. Estes enunciados são chamados de Regras de Direito. Assim.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. contudo. embora devesse sê-lo. é assim como a lei da natureza. ser distinguida tanto da filosofia da justiça quanto da sociologia (cognição da realidade social). proposições que têm um sentido puramente descritivo. ciência específica do Direito. de modo geral. enquanto a jurisprudência normativa determina como os tribunais deveriam decidir em conformidade com as normas jurídicas www. A regra de Direito. Essas proposições são enunciados que descrevem o “dever ser” da norma jurídica. Entretanto.19/07/13 O Que é Justiça . sendo seu objeto justamente essas normas e jamais a conduta efetiva dos indivíduos. como deveriam conduzir-se segundo a ordem jurídica. Esta descreve os fenômenos do direito não em proposições que afirmam como os homens devem conduzir-se. suas normas seriam inválidas. Essas regras da vertente sociológica jurisprudencial proporcionam o meio de prever os acontecimentos futuros na comunidade jurídica. se os indivíduos cuja conduta é regulamentada pela ordem jurídica efetivamente se conduzirem. Esta jurisprudência.html 78/105 .Trabalhos de Pesquisa .trabalhosfeitos. é uma ordem por meio da qual a conduta humana é regulamentada de uma maneira específica por normas que dispõem como os homens devem conduzir-se.

e obedecem-lhe. Kelsen afirma. A jurisprudência analítica não emprega esse conceito e ignora a distinção entre ser e dever ser. mas não afirma que tal conduta é a vontade efetiva de alguém). mas também deve explicá-la causalmente. divergem em alguns pontos. uma ‘vontade’ do legislador só pode ser tomado como uma expressão figurado. Observa-se que contanto que a ordem jurídica seja eficaz como um todo. mas a nega como única ciência do Direito. um comando como sinônimo de norma quando o mesmo tem força obrigatória. Nisto reside a importância do conceito de dever ser. existe a maior probabilidade de que os tribunais efetivamente decidam como deveriam decidir. provida ou prescrita por uma regra de Direito sem nenhum ato psíquico de vontade. a norma.19/07/13 O Que é Justiça . Isso porque a conduta humana é decretada. O homem deve conduzir-se conforme a lei. especialmente no que diz respeito ao conceito central da jurisprudência. descrita na obra anglo-americana de Johhn Austin. Isso porque elas são válidas e obrigam indivíduos mesmo quando a vontade pelas quais foram criadas há muito deixaram de existir .com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. Admite-se que ambas as jurisprudências andam lado a lado. aplicamna. sendo uma das tarefas mais importantes da sociologia do Direito. deve investigar as ideologias pelas quais os homens são influenciados em suas atividades criadoras e aplicadoras de lei. Para ela.Trabalhos de Pesquisa . de comando. então. que dizer que uma lei particular é um comando. lei é sinônimo de regra. A Teoria Pura do Direito não nega a validade de tal jurisprudência sociológica. que é o fundamento do conceito da norma. um comando “despsicologizado”. portanto. Acontece que as regras jurídicas que constituem o Direito não são efetivamente comandos. se possível. A sociologia do Direito não apenas tem a função de descrever e prever. e revela a necessidade do conceito de norma (regra que afirma que um indivíduo deve conduzir-se de certa maneira. Assim. um comando consiste no desejo dirigido à conduta de outra pessoa e na sua expressão de uma ou de outra maneira (querer + sua expressão). Ressalta-se que a possibilidade de previsão do funcionamento jurídico pela jurisprudência sociológica é diretamente proporcional ao grau em que esse funcionamento foi descrito pela jurisprudência normativa. Pode-se reconhecer. O elemento da coerção www. Entre essas ideologias a idéia de justiça desempenha um papel decisivo. sendo este a expressão da vontade de um indivíduo dirigida à conduta de outro indivíduo. a sociológica determina como eles decidem e como provavelmente decidirão. Para tal. a sociológica trata de sua eficácia. tratando cada uma de problemas diferentes. no entanto. O conceito de norma Considerando que a Teoria Pura do Direito limita-se à cognição do Direito positivo.html 79/105 . A lei seria.Camilassouza em vigor. as condutas efetivas dos indivíduos que criam a lei. Enquanto a normativa trata da validade do Direito. sua orientação é em boa parte a mesma da jurisprudência analítica. Contudo.trabalhosfeitos.

por exemplo. de responsabilidade 80/105 . É pelo estabelecimento dessa relação que a norma jurídica impõe deveres e confere direitos aos indivíduos sujeitos ao Direito. A função da norma é vincular a sanção como conseqüência a certas condições. contra cujo delito é dirigida a medida coercitiva da sanção.html família. entre as quais o delito desempenha um papel decisivo. como formula John Austin (jurisprudência analítica). a característica essencial do Direito. contra indivíduos definidos. A norma jurídica refere-se à conduta de duas entidade: o cidadão. em que condição e conseqüência estão ligadas na norma jurídica é o de “dever ser”. convergem a Teoria Pura do Direito e a jurisprudência analítica ao considerarem a coerção como elemento essencial do Direito. Os indivíduos podem ser impelidos a respeitar a norma por outros motivos. O dever jurídico Inicialmente. O sentido. se está diante de um problema da jurisprudência sociológica e não da analítica ou normativa.trabalhosfeitos.19/07/13 O elemento da coerção O Que é Justiça . Esta pode apenas afirmar que o Direito estabelece medidas coercitivas como sanções. Entretanto. apenas a ligação entre delito e sanção.Camilassouza Nesse aspecto. Há casos. conforme a jurisprudência analítica. uma regra executada por uma autoridade específica. seria uma regra “forçosamente aplicada” por uma autoridade dada.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. portanto. tribo ou Estado. Assim. Se alguém rouba. pela qual ele se distingue de todos os outros mecanismos sociais. mas contra outros indivíduos: os que se encontram em uma relação específica com o delinqüente – mesma www. esta formulação não é correta. explica Kelsen. e o órgão que deve aplicar a medida coercitiva do delito. estando a questão quanto aos motivos da conduta legítima fora do objetivo da cognição voltada apenas para o conteúdo da ordem jurídica. morais ou religiosos. Assim. A jurisprudência analítica leva em consideração apenas o conteúdo da ordem jurídica e. mas as sanções externas que ele prevê que constituem a essência do Direito. é o fato de que ele procura ocasionar a conduta socialmente desejada atuando contra a socialmente indesejada – o delito – por meio de uma sanção. Obedecer-se-ia pelo temor da sanção. sob condições definidas. O Direito não é.Trabalhos de Pesquisa . a coerção psíquica não é um elemento específico do Direito. mas antes uma norma que estipula uma medida de coerção específica como sanção. de um ponto de vista de um método estritamente analítico. segundo a Teoria Pura do Direito. não é a coerção psíquica decorrente da idéia que os homens têm do Direito. salienta Kelsen que a sanção pode ser dirigida não apenas contra o delinquente. deve ser punido. portanto. Observada a partir de um ponto de vista sociológico. que são dirigidas. Neste caso. Dessa maneira. Essa coerção seria psíquica. e o meio pelo qual o Direito “força” a obediência de indivíduos consiste na aplicação de sanções em caso de desobediência. podendo ser estes ainda mais importantes que o medo da sanção do Direito. A lei. emitida pela autoridade jurídica estabelece entre delito e sanção. a ciência do Direito descreve as relações que a norma jurídica.

Mas há a exceção da responsabilidade coletiva. O decreto da sanção não surge na norma que obriga o indivíduo. portanto. Segundo Austin. do Direito primitivo. Direito. de responsabilidade O Que é Justiça . Importante distinguir responsabilidade de dever. nesse aspecto. mesmo hoje. O direito jurídico Direito pode significar que alguém tem o direito de conduzir-se de certa maneira. tribo ou Estado. Normalmente. não percebendo a diferença existente entre “ser obrigado a manter certa conduta” e “ser responsável por certa conduta”. regra no Direito Internacional. sem considerar o processo de sua criação.trabalhosfeitos. que não for simples liberdade negativa em relação a um dever. é que se pode distinguir o caso em que a sanção é dirigida contra o indivíduo que age contrariamente ao “comando” da lei. contra cidadãos do Estado cujo órgão violou a lei. Portanto. os sujeitos do dever e da responsabilidade são a mesma pessoa. A teoria estática e a teoria dinâmica do direito: a hierarquia das normas A jurisprudência analítica. é acertada a jurisprudência analítica. enquanto o último recai sobre o delinqüente potencial que pode.html 81/105 . É uma teoria estática do Direito. Todo direito verdadeiro.19/07/13 família. Mas também direito pode ter um significado positivo de que alguém é obrigado a conduzir-se de maneira correspondente. neste sentido é um dever “relativo”. cujas sanções (retaliação e guerra) são dirigidas contra o Estado como entidade – ou seja.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. Um exemplo desta última é a vingança de sangue. Contudo. aplicando a sanção estipulada para a violação. Tal é o procedimento. ou vendetta. afirma Kelsen. Neste aspecto. por meio de sua conduta. Na teoria de Austin da jurisprudência analítica essa separação entre responsabilidade e dever não é feita. ela não contém nenhum conceito de direito diferente do de dever. significando que ele não tem o dever de conduzir-se de outra maneira. ele é livre. A primeira recai sobre o indivíduo contra o qual a sanção é dirigida. no Direito moderno. a Teoria Pura do Direito restringe o conceito de direito a essa situação. cometer o delito. É apenas nesse caso que o direito de A à conduta de B deixa de coincidir com o dever de B para com A. Apenas se a norma jurídica for caracterizada.Camilassouza individual e coletiva. Tal direito existe quando a ordem jurídica confere a uma pessoa a oportunidade de tornar eficaz o dever de outrem iniciando uma ação judicial e. tal como apresentada por Austin. eu ter o direito de usar um objeto em meu poder implica o dever de outra pessoa não me pertubar nesse uso. no Direito Internacional. www. como uma normal pela qual é decretada uma sanção para a conduta ilegal. considera o Direito um sistema de regras completo e pronto para aplicação. como faz a Teoria Pura. Ele parte da suposição de que a sanção é sempre dirigida contra o indivíduo que comete o delito.Trabalhos de Pesquisa . Há casos. Apenas nesse caso existe separadamente um direito no sentido estrito do termo. é composto de um dever para com outro ou vários outros. do caso em que a sanção é dirigida contra alguém que se torna responsável pelo delito cometido por outrem. Por exemplo. assim. uma norma jurídica é um comando de conduta legal.

entre uma constituição e um estatuo decretado em conformidade com ela. não significa uma sociedade política. o conteúdo das normas jurídicas gerais.19/07/13 O Que é Justiça . este não está sujeito a mesma. Direito e Estado são geralmente considerados duas entidades distintas. A diferença entre normas que determinam o modo de criação de outras normas e aquelas que determinam seu conteúdo é expressa meio de uma distinção entre Direito “adjetivo” e Direito “substantivo”. Esse conceito de soberano é sociológico ou político. Mas se for reconhecido que o Estado é. com normas de diferentes hierarquias. Como a lei emana do soberano. em maior ou menor grau. Ele diz que “todo Direito criado por juiz é criação do soberano ou do Estado”. As normas jurídicas que governam a criação de outras são “superiores” a estas. e essa união é função da ordem que regulamenta sua conduta recíproca.Camilassouza A Teoria Positiva do Direito. portanto.Trabalhos de Pesquisa . nesse caso. é elemento essencial da jurisprudência de Austin. mas o detentor da soberania na sociedade. Percebe-se. Por exemplo. “constituição” designa as normas que determinam a criação e ocasionalmente. por exemplo. Este é o princípio de validade peculiar ao Direito positivo. Já a Teoria Pura do Direito afirma que o Estado não é seus indivíduos. do seu processo de criação. ou deve ser determinada apenas de certa maneira. devendo a ordem jurídica ser analisada de um ponto de vista dinâmico. outras normas geralmente determinam não apenas o processo de criação. governam normas individuais como as decisões judiciais. Esta norma fundamenta é a responsável pela unidade da ordem jurídica. e que a característica essencial www. a seu turno. estar ausente na teoria de Austin um conceito jurídico de Estado. O que geralmente é chamado de “ordem jurídica do Estado” é o próprio Estado. mas Estado. um ordenamento da conduta humana. mas também. a liberdade de expressão não deve ser determinada por estatuto. que deriva seus conceitos apenas de uma analise do Direito Positivo. o conteúdo da norma a ser criada. Neste sentido funcional. significa também que na norma superior encontra-se o motivo para a validade da norma inferior. Contrastante com o método teórico da jurisprudência analítica. uma norma jurídica é válida porque passou a existir da maneira prescrita por outra norma. A relação entre uma norma de nível superior e uma norma de nível inferior. É uma comunidade política porque e na medida em que o meio específico pelo qual essa ordem reguladora busca atingir seu fim é a decretação de medidas de coerção. reconhece que um estudo da estática do Direito deve ser complementado por um estudo de sua dinâmica. o processo pelo qual se cria uma norma jurídica é regulamentado por outra norma jurídica.html 82/105 . A ordem jurídica é ordem coercitiva. Na verdade. por usa vez. é a união específica de indivíduos. mas não jurídico – não obstante.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. por sua própria natureza. que. até porque. até certo ponto. O direito e o estado Austin refere-se a uma sociedade composta por um soberano e súditos.trabalhosfeitos. O fundamento de validade da constituição é a norma fundamental da ordem jurídica.

Camilassouza dessa ordem. segundo essa teoria. na verdade.19/07/13 ordenamento da conduta humana. visto que estipula sanções (retaliações e guerra) contra a conduta contrária.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. derivada da idéia de Estado soberano. à unidade da ordem jurídica . é ao mesmo tempo o elemento essencial do Os homens criam o Direito com base nas próprias normas definidas por este. Sendo isto verdadeiro. Os indivíduos que criam o Direito são órgãos da ordem jurídica ou. os chamados elementos do Estado – território e população – surgem como as referencias territoriais e pessoais da validade da ordem jurídica nacional. para cada uma das muitas ordens jurídicas nacionais. que diferencia totalmente Direito nacional e Direito internacional. já que contém todos os elementos essenciais de uma ordem jurídica. Ser a soberania uma característica da ordem jurídica nacional significa que não se presume nenhuma ordem superior a esta. O Que é Justiça .trabalhosfeitos. Direito internacional e direito nacional A teoria do direito internacional. Alguns afirmam que o Direito internacional é parte do nacional. O que Austin designa como “soberano” surge como órgão supremo da ordem. Não existe. então. A Teoria Pura do Direito defende a primazia do Direito internacional. e a soberania é. Eles são órgãos porque e na medida em que preenchem suas funções de acordo com as estipulações da ordem jurídica que constitui a comunidade jurídica. um Direito internacional como tal. Caso se resolva o dualismo de Direito e Estado e se reconheça o Estado como uma ordem jurídica. É a teoria da primazia do Direito nacional. Um indivíduo como órgão do Estado significa que certas ações executadas por ele são atribuídas ao Estado. conferindo-lhes posição www.html igual e obrigando-as todas a uma ordem jurídica universal. mas uma característica do próprio Estado. incorpora-as à sua própria ordem jurídica. mas apenas o Direito nacional. com isso. como uma unidade. não existe no domínio da jurisprudência analítica que admite a validade do Direito internacional apenas como “moralidade internacional positiva”. o que equivale à mesma coisa. As opiniões diferem no que diz respeito a como esse todo é construído. A teoria monista considera o Direito nacional e o internacional como um sistema de normas. As regras que se admite serem Direito internacional podem obrigar um Estado apenas quando este as recebe e. das normas do direito nacional que regulamentam a relação do Estado com outros Estados. Já a Teoria Pura do Direito demonstra que é perfeitamente possível considerar o Direito internacional como um Direito real. O Direito internacional positivo pode ser considerado – caso se renuncie à suposição da soberania de cada Estado – um sistema de normas colocado acima das ordens jurídicas nacionais.Trabalhos de Pesquisa . não uma característica do indivíduo ou do grupo de indivíduos que perfazem esse órgão. mas tantas quantas forem as ordens jurídicas nacionais. a coerção. como teoria do Estado. Trata-se de uma ordem coercitiva no mesmo sentido que o Direito nacional: obriga os Estados a uma conduta mútua definida. não há. órgãos do Estado. um Direito internacional. e que a característica essencial Direito. 83/105 . não mais pode prevalecer esse dualismo. Aqui se tem a teoria monista. Essa é uma teoria dualista.

Na esfera das relações internacionais. Deve se aqui buscar uma caracteristica comum atravês de uma palavra que consiga designar um objeto. segundo a qual a comunidade é superior ao indivíduo. E que ordem é um conjunto de normas que prescreve certa a conduta humana. Um princípio geralmente reconhecido do Direito internacional diz que se for estabelecido um poder que possa assegurar a obediência permanente à sua ordem coercitiva entre os indivíduos cuja conduta essa ordem regulamenta. A análise do Direito internacional positivo feita pela Teoria Pura do Direito demonstra que suas normas são incompletas e necessitam de suplementação pelas normas das ordens jurídicas nacionais.19/07/13 igual e obrigando-as todas a uma ordem jurídica universal. baseada na individualidade do Estado. A Teoria Geral do Direito supõe que coerção é um elemento essencial do Direito. Dizer que o Direito internacional obriga um Estado a certa conduta significa que o Direito internacional obriga um indivíduo a tal conduta na condição de órgão desse Estado. que consigo constituir uma caracteristica suficientemente significativa. é tarefa da jurisprudência compreender toda lei humana em um sistema de regras de Direito. Um exemplo tipico da duplicação animista do conhecimento é o dualismo Direito e Estado. Não se pode negar que o Direito é uma ordem social. O dogma da soberania não é o resultado da análise científica do fenômeno do Estado.Camilassouza Hoje. o parecer de que o Estado é essencialmente soberano é uma filosofia individualista. deixando à ordem jurídica nacional a determinação do indivíduo cuja conduta constitui o conteúdo da obrigação internacional. DIREITO. A esfera me que essa ordem é perfeitamente eficaz é o território do Estado. o que é ignorado pela jurisprudência analítica de Austin.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308.html ainda que descreve atos coercitivos como sanção. ou seja. As ordens sociais ao longo da história estão ligados a idéia de Direito como ordem coercitiva e www. A ciência do Direito deve definir seu objeto com a seguinte pergunta: o que é o direito na condição de objeto de uma ciência particular. afirma Kelsen. mas que o Direito internacional determina diretamente apenas a conduta. Kelsen conclui o ensaio dizendo que assim como é tarefa da ciência natural descrever seu objeto – a realidade – em um sistema de leis da natureza. os indivíduos que vivem no território são o povo do Estado no sentido do Direito positivo internacional. ESTADO E JUSTIÇA NA TEORIA PURA DO DIREITO I A Teoria Pura do direito considera uma das principais tarefas libertar a ciência do direito as relíquias do animismo. mas a suposição de uma filosofia de valores. XI. não pode ser contestada cientificamente. O Que é Justiça . Mas o Direito é a própria ordem.Trabalhos de Pesquisa . Assim Direito 84/105 . a tendência é antes para uma filosofia de valores universalistas. então a comunidade constituída por essa ordem coercitiva é um Estado no sentido do Direito internacional.trabalhosfeitos.ordem que regulamenta a conduta dos seres humanos. Assim dizer que o proposito do Direito é estabelecer a ordem cria a ilusão de que são duas coisas – Direito e Ordem. Consequentemente.

eliminar. E Estado aqui é pessoa atuante. Não se pode negar porém que é preciso eficácia para validade do Direito. é uma mentira útil. que exigem metodos diferentes. A afirmação de que a sociedade chamada “Estado” baseia-se no interesse comum dos seus sujeitos equivale a doutrina que essa comunidade esta baseada no consentimento de todos os seus membros. o homem injusto é infeliz.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. II Na relação Direito e estado. onde o interesse seria preponderante a comunidade. é Estado.em vão. Comunidade seria as relações humanas determinadas por uma ordem regulamentadoras das condutas recíprocas dos envolvidos. Sustentar esse conceito seria sustentar o interesse ideologico. Interesses em comum podem ser motivos para se estabelecer uma comunidade. Mas o que seria comunidade? Comunidade é uma comunidade de interesses. Alguns pontos são ocupados pela sociologia e história. Ele é uma ordem juridica que constitui a comunidade. o poder por trás do Direito. diz-se que o Estado é uma comunidade política que cria ou executa a ordem social chamada Direito.19/07/13 O Que é Justiça . Essa ordem social constitui comunidade. Ou seja conformidade da conduta humana ao Direito. Porem afirmar que o Estado como ordem social é idêntico ao Direito não é correto.trabalhosfeitos. Porem. Ser um membro dessa comunidade nada mais é do que estar sujeito a essa ordem. por ser tautologicamente vazia. nem mesmo a que chamamos “moralidade” ou “justiça” é considerada válida se não for até certo ponto eficaz. A ordem juridica relativamente centralizada sim. é uma comunidade juridica.” E Platão ainda afirma que se for uma mentira. A diferença metodologica entre uma analise estrutural do www. É o mesmo caso da afirmação de Platão (“As leis”): “apenas o homem justo é feliz. a eficacia como condição de validade do Direito não pode ser confundida com a coerção como elemento essencial do conceito de Direito. E isso é uma das piores invenções juridicas inventada pelos juristas romanos. Assim Direito assumiu esse significado ao longo da história. nada melhor do que afirmar que a ordem social é a comunidade e não que ela constitui a comunidade. Isto é o animismo que a Teoria Pura do Direito tenta. Portanto os estudos da origem do Direito ultrapassam a esfera da teoria. Nem toda ordem juridica é Estado. Nenhuma ordem social.Trabalhos de Pesquisa . literalmente falando. Se o Estado é uma comunidade. como a autoridade. porém nem todos os individuos que tem interesse em comum formam sociedade.html 85/105 . O conceito de Direito como ordem coercitiva refere-se ao conteudo das normas de Direito. individuos que tem interesses em comum formam uma sociedade. Para evitar dualismo. Como um contrato social .Camilassouza ainda que descreve atos coercitivos como sanção. baseando-se em um estudo comparativo das ordens sociais existentes e também das que existiram historicamente. III A Teoria Pura do Direito limita-se a uma análise da estrutura do Direito positivo.

Juntamente com a sociologia e historia do Direito a analisa estrutural do Direito se faz necessário para compreender o fenomeno complexo do Direito. e assim sobre justiça baseia-se em seus sentimentos e assim as idéias de justiça são muito diferentes. mas é veridicada por fatos objetivamente verificáveis ao passo que responder o ser justo do Direito. A Teoria Pura do Direito nunca pretendeu ser a única ciência. O objeto da teologia é Deus. tido como existente.Trabalhos de Pesquisa . O enunciado sobre fatos baseia-se nos sentidos controlados pela razão. Mas Direito e justiça deveriam ser considerados dois conceitos diferentes. outros preferem a segurança. A questao sobre o Direito positivo não depende dos sentimentos dos sujeitos. Juizos de valor definitivo são atos de preferência. Devemos sustentar a diferença evidente entre juizo de valor e enunciados sobre a realidade. O efeito real da identificação terminologica de Direito e justiça é uma justificação ilicita de qualquer Direito positivo. o objeto da sociologia e historia da religão é a crença dos homens. é a escolha de dois valores conflitantes. e ainda conformar ou não sua conduta as idéias. Assim seus juízos de valores. no tempo e espaço. pela sua própria natureza são de critério subjetivo.Camilassouza Direito e a sociologia e história equipara-se a diferença entre teologia e sociologia ou história da religião. como usar o termo Direito no sentido de Direito justo. A questão de determinar se a ordem juridica é justa ou injunsta não pode ser respondida pelos metodos e analise estrutural do Direito positivo. Dizer que esse Direito não é o Direito verdadeiro é quase impossível. Se e idéia de justiça tiver função é a de ser um modelo para a feitura de um bom Direito. adequado ao seu problema espefico. baseados em elementos emocionais da mente. Não existe um critério objetivo de justiça porque essa afirmação de ser justo ou injusto é um juízo de valor que se refere a um fim absoluto e esses juízos de valor. e assim consideram justo um sistema social que garanta segurança economica. A jurisprudência tradicional tende a identificar Direito e justiça. Já a sociologia e história do Direito tenta descrever e explicar o fato de o homem ter idéias diferentes do Direito em épocas e lugares diferentes. Alguns se sentem felizes quando livres. Direito positivo é a lei criada por atos dos seres humanos. A Teoria Pura do Direito trata o Direito como sistema de normas válidas criadas por atos dos seres humanos. A pureza da Teoria do Direito propoe uma analise estrutural.html 86/105 . e ainda dizer que um Direito positivo não é real se não for justo. Isso não implica de que a questão do que é justiça não possa ser respondida de maneira objetiva.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. o melhor ao invês do bom. Eliminar esses problemas de metodos diferentes não é negar sua existencia. embora relativa é consideravel o suficiente para justificar a diferenciação do juízo sobre o que é justo e o enunciado sobre o que é Direito. uma vez não há critério objetivo para o termo justiça. www. E essa diferença. eliminando problemas que exijam metodos diferentes. É como escolhar entre liberdade e segurança por exemplo. sobre liberdade e segurança. em contraposição a lei natural. e ainda um criterio para determinar um bom e um mau Direito. depende da função emocional da mente do sujeito.trabalhosfeitos. Essa pureza é a exigencia indispensável de evitar esse sincretismo de metodos. Diferentes são os enunciados sobre a realidade.19/07/13 O Que é Justiça .

A questão decisiva é: o Direito positivo para ser obrigatorio deve conformar-se ao Direito objetivo que é criado pela solidariedade social e assim essa doutrina deverá decidir em uma caso concreto se o Direito positivo esta ou não em conformidade com o Direito objetivo. Outra forma de Direito dual esta na escola histórica alemã.trabalhosfeitos. apenas constatam e aplicam um Direito preexistente. defendida por Leon Duguit. Nessa doutrina o legislativo e judiciario não criam o Direito. Pode-se fracassar nessa descoberta da lei. Uma doutrina similar é a doutrina da solidariedade social. Podem conseguir ou não. e ainda assim ser aplicada a todos. pode não expressar a vontade geral. Mas o que é Direito objetivo.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. é apenas testemunho de um Direito preexistente. Direito verdadeiro.Camilassouza A identificação do termo Direito e justiça é um dos elementos caracteristics da doutrina do Direito natural que apresenta a justiça como lei natural. pela razão humana. ao fazerem a lei. tem de estar em conformidade com a vontade geral. Rousseau em sua distinção entre vontade geral e vontade de todos.alegadamente oposta ao Direito natural. O Direito positivo também é lei. mesmo que a vontade da maioria ou unanime. que sustenta que o povo respeita muito mais “o que não tem origem visivel e tangivel” do que “o que foi feito diante dos nossos olhos por homens do nosso tipo”. ou o espírito do povo. Os orgãos reproduzem a lei da natureza. e é lei verdadeira. mas os orgãos das comunidade. A escola alemã sustenta que o Direito tem origem no espirito do povo. O defensor dessa escola do Direito consuetudinário é Savigny. bastante conservadores. o Direito justo e verdadeiro. assim o Direito consuetudinario é um Direito verdadeiro e ainda preferivel ao Direito estatuario.19/07/13 Direito. responsaveis por essa descoberta tem a suposição de que de modo geral conseguem faze-lo com sucesso. Não as criam. E enquanto não for provado desacordo com a lei natural. consideram que existe presunção favoravel a conformidade do Direito positivo ao Direito natural. de Deus. Os atos dos seres humanos pelo qual a lei é criada. mas pelo Direito natural considerados como meramente declaratorios. E os doutrinadores. surge em varios disfarces. Como saber se a maioria. O Que é Justiça .html deveria obedecer o Direito positivo. A autoridade chamada solidariedade social nada mais é do que a vontade geral de Rousseau. se o legislador positivo constata como Direito objetivo regras que conforme os sentimentos e idéias de alguém que www. a vontade de todos esta em conformidade ou não com a vontade geral? Não há resposta na obra de Rousseau. caso contrario não haveria lei nenhuma realizada. não são Direito objetivo? É 87/105 . depende da função emocional da mente do sujeito. que tem origem na solidariedade social. da escola alemã. A doutrina de um Direito dual ou seja. O costume não é fato criador. criado por autoridades misteriosas e o Direito positivo que é a reprodução daquele Direito). Os orgaos da comunidade. se o sentimento de um homem ou a concepção desse Direito diferem dos de outros. A vontade geral é justa por estar voltada ao interesse comum dos membros da comunidade. tem carater constitutivo. Essa presunção é sustentada pelo dualismo entre Direito positivo e Direito natural. Mas o costume é considerado um testemunho absolutamente confiavel.Trabalhos de Pesquisa .

Desse modo. O Direito positivo em si não é imperativo por que são os homens que os emite.Trabalhos de Pesquisa . houve um período em que a forma de interpretar o mundo não era causalmente. Esses exemplos visam explicar porque a teoria pura do Direito insiste em separar o conceito de Direito do conceito de justiça e porque essa teoria renuncia a qualquer justificação do Direito positivo como espécie de supra-Direito. Quem é competente para decidir de um Direito positivo está ou não em conformidade com o Direito objetivo? Duas respostas são possíveis. A outra possibilidade é de que qualquer individuo é competente para decidir. CAUSALIDADE E RETRIBUIÇÃO Introdução A física moderna. ou seja. é o que nos mostra a filosofia natural dos antigos gregos. ninguém tem o Direito de comandar outros. A causalidade não é uma forma de pensamento que nasce com a consciência humana (o que Kant chamou de “noção inata”).trabalhosfeitos. o homem retribui o bem com o bem. a partir do seu ponto de vista individualista considera ser o Direito é o Direito objetivo por excelência. que interpretavam a natureza por pensamentos sociais. o mal com o mal. é o pensamento que domina por completo o homem primitivo.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308.html 88/105 . plantas. Mas qual é a fonte. Duguit ignora esse problema porque da como certo aquilo que ele. que é a mais exata de todas as ciências. é possível que o pensamento científico causal tenha se desenvolvido a partir do pensamento retributivo. deixando essa tarefa a religião ou à metafísica social. o verdadeiro Direito é. antes. sendo todos os seres governados pelas mesmas leis. que se baseiam na idéia de retribuição. sendo retribuído (punido ou recompensado) segundo atitudes suas ou do grupo ao qual pertence. O pensamento causal é estranho ao homem primitivo. não são Direito objetivo? É impossivel que um individualista e um socialista concordem quanto ao que a solidariedade social exige ou ao quanto o Direito objetivo. demonstra que a antiga noção de que a lei da casualidade determina absolutamente todos os eventos foi modificada essencialmente. XII. ou por individuos. www. É da competencia exclusiva do criador da lei. O dualismo Direito positivo e Direito objetivo o efeito e propósito de justificar um pelo outro. a origem que pretende serem todos os eventos determinados por uma lei absoluta? Vamos mostrar como a crença na causalidade surgiu na evolução do pensamento humano. O que difere a opinião de o individuo governante do indivíduo governado é que o primeiro tem o poder de impor sua opinião e tem autoridade maior do que a opinião dos indivíduos governados. que teve sua origem nas concepções míticas e religiosas. legislador e juiz decidir essa questão se houver disputa. segundo o princípio da retribuição.19/07/13 O Que é Justiça . os objetos e com sua religião/mitos. O Direito positivo será sempre declarado de acordo com o Direito bjetivo. tinha pensamento animista (personalista). e são iguais perante si. Isso é verificado pelas relações históricas desse homem com os animais.Camilassouza deveria obedecer o Direito positivo. A opinião de ser ou não o Direito positivo em conformidade com o Direito objetivo tem o mesmo peso se conferido por legislador e juiz.

fogo/ar) gera justiça. vez que foram tomados como ponto de partida para a explicação causal da realidade. a ideia de retribuição deu origem à explicação causal. no sentido de ordem jurídica natural. descobri-lo-ão”. Heráclito chega na ideia de logos (que é a razão eterna. todavia. isso em razão de no início o mal (que era a causa) preceder cronologicamente a punição (que era o efeito). Essa ideia é a primeira noção de que uma lei imanente governa todo o universo é compreendida. Com a progressividade da especulação. Ainda hoje acreditamos nessa explicação causal (a causa atrai o efeito. Heráclito vê a natureza como uma sucessão de opostos. é essencialmente a lei da retribuição. inicialmente. as crias de Dike [Justiça. seu desequilíbrio gera injustiça.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. O equilíbrio entre os contrários (seco/molhado. que é formulada aqui. Assim.html 89/105 . a razão primeira dos acontecimentos e do movimento). a punição). assim. maior a recompensa). “bem” com “recompensa”. mas ele utiliza da figura da guerra para explicar as relações causais (A guerra é pai de tudo e rei de tudo). sendo o Estado o padrão para a compreensão do universo nessa nascente ciência natural. pois atrai/movimenta o ferro (uma explicação causal com origem social). É antes o pecado que cria o pecado.19/07/13 O Que é Justiça . partindo dessa visão. partindo da visão de governo monárquica (o “ar” é alma do mundo. A Justiça contém a ideia de retribuição. universal que governa todas as coisas). É a ideia de Direito natural. numa equiparação qualitativa e quantitativa (quanto mais mal maior a punição. mas. Tales de Mileto. igualdade e equilíbrio. expressa o pensamento de que é errônea a crença tradicional de que muita sorte tráz má sorte. com base na balança. projetada no cosmos.Camilassouza Parte I A filosofia natural grega. equiparando. Esse trecho é interpretado como sendo a inviolabilidade da lei da causalidade. foi explicada pela analogia à sociedade. razão pela qual diziam que o imã tinha alma. percebe-se um distanciamento entre a lei do Estado (norma) e a lei da natural (causalidade). Com o tempo percebe-se que deve existir uma igualdade de natureza entre a causa e o efeito. “mal” com “punição”. por consequência. Anaximandro e Anaxímenes buscam um princípio fundamental que explique a unidade do universo. tornandose princípios totalmente distintos. quanto maior o bem. é inviolável porque é considerada como vontade absoluta de uma divindade. primeira grande tentativa de concepção científica da realidade foi afetada pelos valores sociais.trabalhosfeitos. É uma primeira tentativa de entender a causalidade. Essa regra jurídica. A ciência moderna até hoje vê a relação de causa e efeito de maneira cronológica. deusa da retribuição]. A natureza. uma www. assim como o homem ao errar atrai o mal e. terra/água. assim como pais originam filhos iguais a si. Anaximandro expressa a ideia jurídica de retribuição da seguinte forma: ”O sol não ultrapassará suas medidas. Em seus escritos Heráclito reforçava a ideia de uma lei universal (“A lei divina prevalece tanto quanto quer. se o fizer. é suficiente para todas as coisas e é mais forte do que todas as outras coisas”). as Fúrias (demônios da vingança grega).Trabalhos de Pesquisa . calor/frio. Na peça Agamemnôn Ésquilo.

Parte II Na Idade Média.html quântica) ela passou a ser questionada e até mesmo negada. a causa é responsável pelo efeito. ou seja. em razão da visão teleológica de mundo que prevaleceu neste período. Assim.trabalhosfeitos. como regra jurídica. que liga uma ação a sua reação específica. a ideia da existência de um princípio da causalidade absolutamente válido corria o risco de perder-se. quando isso ocorrer. razão pela qual todos estão sujeitos a uma mesma lei. e a lei da retribuição torna-se. o mérito à recompensa. eliminando todos os elementos teológicos da interpretação da natureza e rejeitando causas que são . é libertada do mito da retribuição. O sofista Protágoras.19/07/13 é interpretado como sendo a inviolabilidade da lei da causalidade. impedir aquela pessoa particular. Mas Bacon. Demócrito usa a palavra “causa” que originalmente significa “culpa”. com a ideia de transmigração das almas e metempsicose. A norma fundamental de toda essa teogonia (explicação do mudo pelos mitos/deuses) é a proibição de matar. tão contestada na ciência moderna. Empédocles ensinava que uma mesma e única ordem jurídica existe para todas as coisas vivas e proclamava solenemente que as punições inexpiáveis ameaçam os que as ferem.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. como lei da natureza. num esquema de ação e reação (golpes e contragolpes de átomos). vontade inabalável de uma divindade.Trabalhos de Pesquisa . uma lei natural. pois a lei universal. como tal. A ideia de retribuição. fins. uma necessidade causal. A noção moderna de causalidade está estabelecida nos escritos dos atomistas (Leucipo e Demócrito) que realizaram a quase completa separação da lei da causalidade do princípio da retribuição. uma normativa. O sol poderá até ultrapassar sua medidas. Assim. todavia. mas essa ideia é análoga ao princípio da retribuição. A primeira ciência natural (física) desenvolve sua lei natural a partir desse princípio de retribuição. o mal à punição. animais ou plantas. que garante a todos o mesmo direito de viver). Galileu e Kleper retomaram tal ideal. a lei do Estado. 90/105 . o ensinou que a punição do Estado. e ele continuou a ser o princípio predominante. de fazer mal novamente. assim. a saber. assim.Camilassouza obrigação imposta à natureza por uma regra jurídica. professor de Demócrito. origina-se da inviolabilidade que o mito e a filosofia natural. A lei universal deixou de ser uma norma (baseada na retribuição divina) e passou a ser uma necessidade da natureza (objetiva e impessoal). a natureza torna-se evidentemente uma parte da sociedade. Essa norma é uma lei de retribuição e. a inviolabilidade da lei O Que é Justiça . e outros que o vêem punido. podendo a alma incorporar-se em outros seres. até que em certas esferas da física moderna (física www. pela norma. na verdade. nas leis que regem o cosmo. foi observado em outros filósofos (poeta Esquilo em a personagem Prometeu. será punido. Empédocles que teve sua filosofia influenciada por elementos órficos e pitagóricos. Demócrito busca nos átomos o fundamento para explicar a natureza. tem um propósito claro: contempla o futuro. Plínio (analisando os atomistas em sua obra História Natural) afirma que Demócrito reconhecia apenas duas divindades: punição e recompensa. ao mesmo tempo. tal raciocínio tem um elemento normativo que até os dias atuais acompanha a ciência natural. estabelece sanções.

A física moderna também discorda de outra tese causalista. renunciando somente à ideia bipartite (ligação entre dois fatos = causa e efeito). deve ter sido originada da ideia de retribuição oriunda da antiga filosofia grega. assim. de que o efeito deve ser igual à causa. A causalidade também pretendeu abandonar o esquema cronológico dos elementos causa e feito. por mais exata que seja essa observação (quero observar a velocidade. embora por costume possa se dizer que um elemento é causa do outro. ou seja. implica em não saber qual sua velocidade exata. em síntese. Philipp Frank. para afastar a noção que se originou da ideia de retribuição. mas o costume não constitui regras sem exceções. que são dois fatos simultâneos.19/07/13 quântica) ela passou a ser questionada e até mesmo negada. onde a causa pode virar efeito e o efeito a causa a depender da dinâmica e observação dos fenômenos.Camilassouza Hume foi o primeiro a criticar a ideia de causalidade. mas saber sua posição exata. em razão do princípio da incerteza de Heisenberg. modifico a posição. A retribuição realmente é firmada nessa ideia bipartite. de que toda causa está ligada a determinado efeito. pois que segundo o postulado retributivo “ninguém deve ser punido duas vezes pelo mesmo fato” (ne bis in idem). continua o filósofo. conforme alguns postulados modernos. Isso torna impossível o www. Critica-se tal substituição. Nenhum evento é dependente apenas uma causa. Contudo. após analisar as teses de cientistas causalistas (Robert Mayer e Driesch) diz que é impossível “simplesmente considerar a energia em geral como a medida da causalidade”.html 91/105 . não existe vinculação cronológica de precedência e sucessão entre causa e efeito.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. conforme falamos. A noção de “causalismo” substituída pela de “condicionalismo”. vez que a noção de causa não é completamente abandonada. Segundo Hume. nossa mente não é levada pelo costume a crer que uma exceção está absolutamente excluída. o que em realidade existe é uma dependência funcional entre os elementos e não cronológica. Isso significa que o objeto de observação é modificado pelo próprio ato de observar. o que existe é uma vinculação funcional. se quero observar a posição eu interfiro na velocidade do elétron). mas apenas modificada. saber a velocidade exata do elétron implica em não saber sua posição. Razão pela qual alguns filósofos abandonaram completamente a noção de causa e substituíram-na pela de “condições” ou “componentes” de um evento e a noção de “efeito” foi substituída pela de “resultantes”. O Que é Justiça . que podem ser simultâneos.trabalhosfeitos. Mas o principal golpe conta a lei da causalidade foi desferido pela mecânica quântica (a mecânica das partículas subatômicas). afirma que “a medição da velocidade de um elétron é tanto mais inexata quanto mais exata é a medição de sua posição no espaço e vice-versa”. A lei de Boyle estabelece uma ligação entre pressão e volume de um gás.Trabalhos de Pesquisa . razão pela qual a ligação de causa e efeito. nossa mente é levada pelo costume a esperar que certo fenômeno será sempre acompanhado no futuro pelo mesmo fenômeno que o acompanhou regularmente no passado. Hume é influenciado pela ideia de Direito consuetudinário que prevalecia na Inglaterra em seu tempo (dizia ele “o costume é o grande guia da vida humana”).

que são comandadas por Deus. interferiu no objeto de estudo. www. Hume não justifica direitamente em Deus suas conclusões. como supunha a física clássica. governada por leis (determinista). Reichenbach interpreta a crise da física moderna não como uma questão de substituição da causalidade por leis estatísticas. visando medir só causa e efeito. procura desvincular a divindade de suas especulações. assim como o fato de que uma norma jurídica pode ser violada por uma exceção (e por tal não deixa de ser válida). quando a ciência natural descreve a realidade em conformidade com o postulado epistemológico da causalidade.. admitindo que existem exceções a ele. Em decorrência disso. não pode ser validado como oriundo de uma autoridade metafísica (Deus). Essa transformação da noção de causalidade é o último passo no processo de sua emancipação do princípio de retribuição. pela ciência. Razão pela qual muitos físicos (Heisenberg e Bohr). que entendia que sendo impossível para a mente humana considerar todas as forças de um dado momento futuro. A “probabilidade” causal (ligação provável) seria a substituta da antiga “necessidade” (ligação necessária). A teologia sempre pregou que somente Deus pode prever o futuro.html 92/105 . portanto.Camilassouza discernimento do fenômeno causal. basta ver as obras de Laplace. quando usava-se a lei da causalidade para eventos futuros. recorrem à estatística (probabilidade) não se aplicando a lei universal de causalidade. pois só pode ser violada porque é válida. ao contrário. apenas uma regra que descreve uma conduta real pode ter uma exceção. Mesmo antes do princípio da incerteza.Trabalhos de Pesquisa . pois que ambas justificam na experiência a conexão entre causa e efeito que percebemos.19/07/13 O Que é Justiça . podem muito bem ter exceções e ser meras leis de estatísticas de probabilidade. este poderia ser previsto apenas como probabilidade. muitos filósofos chegam a afirmar que a natureza não é. O que podemos ver no futuro. A norma determina o que deve acontecer no futuro. Afirmar que a lei da causalidade pode prever o futuro é no fundo justificar a origem normativa da causalidade. mas como uma modificação da noção de causalidade. Portanto. assim. antes. Nesse ponto Malebranche e Hume se aproximam. como causa e efeito.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. é mera suposição de que o passado se repetirá. percebe-se que por trás dela está nada mais que a noção imemorial de que a lei que governa o mundo é a vontade de Deus. que caminha da certeza absoluta (da física clássica) para a probabilidade (da física moderna). pois que o observador. a lei natural. na ciência moderna. o que justifica ainda mais sua validade. diante da incerteza nas observações causais. todavia. apenas para ordenar uma ligação simples entre os fenômenos observáveis na realidade. Transferindo essa ideia emocional para o racional. o que observamos são sucessões regulares. as chamadas leis da natureza. uma norma. utilizava-se da probabilidade. O princípio da causalidade. mas pode ser compreendido como um postulado epistemológico dirigido à cognição (compreensão) humana. Malebranche desenvolveu uma teoria na qual diz que com base na experiência não percebemos nenhuma ligação necessária entre os fenômenos e nenhuma força causal. busca no passado a causa para o evento presente.trabalhosfeitos.

A sociedade é uma ordem da conduta humana. somente quando o direito for uma ordem normativa da conduta dos homens entre si. de processos reais. delimita-se o direito em face da natureza e a ciência jurídica. ela deve descrever seu objeto diferentemente do princípio de causalidade. Nesse sentido. a partir da prova de que está presente no pensamento humano e é aplicado por ciências que têm por objeto a conduta dos homens entre si enquanto determinada por normas. e limitando a ciência jurídica ao conhecimento e descrição dessas normas jurídicas e às relações por estas constituídas. a ciência jurídica. não apenas a partir dele. verificase uma conexão dos atos de conduta humana entre si e com outros fatos. informado pela lei da causalidade. eis que é feita a indagação Kelseniana na investigação sobre ciência jurídica: Natureza e sociedade são realmente dois objetos distintos? Considerando o direito como norma.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. e assim. CAUSALIDADE E IMPUTAÇÃO Diante da usual distinção entre ciências naturais e sociais como ciências que tratam de dois objetos diferentes: natureza e sociedade. a natureza é uma ordem particular de coisas ou um sistema de elementos que estão ligados uns com os outros como causa e efeito.Trabalhos de Pesquisa . ou melhor. é 93/105 . é que se poderá fundamentar a diferença da sociedade como uma ordem ou um sistema diferente da natureza e as ciências que se ocupam da sociedade como diferentes das ciências naturais. como ciência normativa.Camilassouza XIII. em face de todas as outras ciências que visam o conhecimento. apenas com a compreensão e aplicação de tal princípio. o princípio ordenador da ordem normativa da conduta www. dilata. ser separada da ciência da natureza.19/07/13 de sua emancipação do princípio de retribuição. e do mesmo modo também é que a ciência social pode ser contraposta à ciência natural. e um exemplo clássico Kelseniano dessa causalidade é a afirmação de um corpo metálico (ferro) que quando aquecido. ou seja. expande-se. a proposta de Kelsen é de que somente quando a sociedade passa a ser entendida como uma ordem normativa da conduta dos homens entre si é que ela pode ser concebida como um objeto diferente da ordem causal da natureza. Para desenvolver essa proposta que possibilita o sentido do princípio imputação. mas também com outro princípio que é totalmente diferente do princípio da causalidade. diferente do princípio da causalidade. Dentre as varias definições.html dos homens entre si. O Que é Justiça . Se há uma ciência social que é diferente da ciência natural. Kelsen inicia-se a presente discussão. com essa afirmação da sociedade enquanto ordem normativa se tem claro que na abordagem em que Kelsen se refere à conduta humana. somente por essa via se alcança um critério seguro de distinção unívoca de sociedade e natureza e de ciência social e natural. Segundo Kelsen. e sendo assim.. pode ele como fenômeno social ser distinguido da natureza. Kelsen anuncia uma relação não apenas formada de acordo com o princípio da causalidade. enquanto ciência social. Enfim. Logo. como sistema de normas. sendo a ligação entre calor e expansão exemplo de causa e efeito. Nesse sentido.trabalhosfeitos. Segundo Kelsen.

portanto. B existe (ou existirá). a ligação da proposição jurídica vem de sua produção por uma norma estabelecida pela autoridade jurídica. A noção de imputação a que Kelsen se refere é a mesma que se opera com o sentido jurídico de imputabilidade. Nos dizeres do autor “a diferença entre causalidade e imputação é que a relação entre a condição. ressaltando. não pode ser por ela responsabilizado. mas a ligação de uma determinada conduta. Assim pode-se dizer que a diferença que existe é de que a ligação que se exprime na proposição jurídica é totalmente diferente da lei natural expressa pelo princípio da causalidade. Nesse sentido. Por isso Kelsen afirma que a conseqüência do ilícito é imputada ao ilícito. mas não é produzida pelo ilícito. Kelsen diferencia a imputação da causalidade. enquanto que a ligação de causa e efeito apresentada pela lei natural é totalmente independente de qualquer intervenção nesse sentido. B deve existir. no entanto. mas sim o princípio da imputação.Camilassouza A ligação entre delito e sanção é estabelecida por uma prescrição ou por uma permissão (uma norma). e em suas proposições jurídicas que descrevem estes fenômenos ela não aplica o princípio da causalidade. a sanção é imputada ao delito. aquele que pode ser responsabilizado por ela. que é aqui apresentada como efeito. ou seja. O Que é Justiça . a outra coisa como conseqüência. Na sua efetiva aplicação no direito. ao passo que a www. Para Kelsen. com uma conseqüência do ilícito. Inimputável. 94/105 . A imputação que se apresenta no conceito de imputabilidade não é a ligação de uma determinada conduta com a pessoa que assim se conduz.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. juridicamente responsável por sua conduta. diferente do princípio da causalidade. Por certo. como sua causa. A analogia entre os princípios da imputação e da causalidade reside na circunstância de que o primeiro tem nas proposições jurídicas uma função completamente análoga à do princípio da causalidade nas leis naturais. da mesma maneira que uma lei natural. o princípio da imputação. de um ilícito. denominando-se essa ligação de imputação. ou não. que a ciência jurídica não busca uma explicação causal dos fenômenos jurídicos. uma proposição jurídica liga entre si dois elementos. a ciência do Direito descreve seu objeto por meio de proposições em que o delito está ligado à sanção pela “cópula” deve. que embora análogo ao da causalidade distingue-se deste de maneira essencial. a idéia de imputação como ligação específica do delito à sanção está implícita no juízo jurídico de que um indivíduo é. assim. enquanto o princípio da imputação afirma que se A existe.html relação entre condição e conseqüência afirmada por uma lei moral.19/07/13 dos homens entre si. A diferença é que o princípio da causalidade afirma que se A existe. é aquele que por ser menor ou doente mental não pode ser punido pela mesma conduta. que as duas partem da mesma proposição: um julgamento hipotético que liga alguma coisa como condição. por uma vontade. e a conseqüência.Trabalhos de Pesquisa .trabalhosfeitos. e não causada pelo delito. que na lei da natureza é apresentada como causa. a de que imputável é aquele que pode ser punido por sua conduta. é denominado como princípio da imputação. de modo contrário. é independente de um ato humano ou sobre-humano.

à conduta certa. ocorrendo um evento de tal tipo. toda retribuição é imputação.Trabalhos de Pesquisa . como resultado de uma transformação do princípio da imputação. que determina as relações dos homens.trabalhosfeitos. conforme normas sociais. assim. Para Kelsen. O mais importante da imputação. apresentam as normas e sanções mais antigas da humanidade. denominando-a de interpretação socionormativa da natureza. a conduta não-reta é ligada à pena e a conduta reta é ligada ao prêmio. as normas mais antigas da humanidade provavelmente são aquelas que visam a limitar os impulsos sexuais e agressivos. Existe na mente do homem primitivo uma necessidade de explicação de um evento. E na base dessa sanção está o princípio mais primitivo que determina a vida social. como são a perda da paz e a vingança de sangue. Nesse sentido. religiosa ou jurídica é estabelecida por atos de seres humanos ou sobre-humanos. Esse princípio da imputação está na base da interpretação da natureza pelo homem primitivo que interpreta os fatos que apreende através dos seus sentidos segundo os mesmos princípios que determinam as relações com os seus semelhantes. O incesto e o homicídio são. Ao passo que ambos se apresentam como juízos hipotéticos nos quais um determinado pressuposto é ligado com uma determinada conseqüência. no sentido lato da palavra. pois é fato que na consciência dos homens que vivem em sociedade. condição e conseqüência estão ligadas não segundo o principio da causalidade. se considerado prejudicial é interpretado como punição reta. os crimes mais antigos. aquilo que a ciência moderna denomina como natureza é uma parte de sua sociedade como ordem normativa.19/07/13 O Que é Justiça . é a ligação da conduta humana com o pressuposto sob o qual essa conduta é prescrita numa norma. a pergunta do homem primitivo não será: qual a causa dele.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. mas nem toda imputação é retribuição. Logo. é grande a probabilidade de que a lei da causalidade tenha surgido da norma de retribuição. na norma de retribuição. e. em virtude do qual. eventos vantajosos. revela-se www.html 95/105 . as mais antigas sanções socialmente organizadas.Camilassouza relação entre condição e conseqüência afirmada por uma lei moral. cujos elementos estão ligados entre si segundo o princípio fundamental da imputação. a norma da retribuição. como a norma da retribuição. Dando continuidade à investigação Kelseniana sobre ciência jurídica. agora de maneira mais evidente. por assim ser. é um principio social especifico. É justamente este significado específico da ligação entre condição e conseqüência que é expresso pelo termo ‘dever ser’”. Trata-se de uma interpretação normativa da natureza. absolutamente. as quais possuem em sua base originária a regra da retribuição Para o homem primitivo. que compreende a punição como recompensa. cabe aqui evidenciar algumas diferenças entre o princípio da causalidade e o princípio da imputação. mas: quem é responsável por ele. mas segundo o principio de imputação. Desse modo. existe a representação de normas que regulam a conduta e vinculam os indivíduos e que. Em outros termos: eventos prejudiciais são imputados à conduta errada.

Esse ponto terminal da imputação é inconciliável com a idéia de causalidade. e todo efeito concreto deve ser considerado como causa de um outro efeito. que são os interesses envolvidos no estabelecimento e na manutenção de uma ordem social definida ou de uma instituição particular.html 96/105 . o efeito não é a descrição do estabelecido por ato de vontade dos titulares de competência jurídica. porém. têm caráter subjetivo porque são baseados. Na relação causal (causalidade). Já o princípio da imputação afirma que quando A é B deve-ser.19/07/13 O Que é Justiça . quando A é. em última análise. na personalidade do sujeito que julga. A terceira diferença é a de que há um ponto terminal na imputação diferentemente do que ocorre na série causal. Já no princípio da imputação a situação se dá de maneira diferente: o pressuposto a que é imputada a conseqüência. Enunciados científicos são juízos sobre a realidade. a erupção de um vulcão. por definição. basicamente os dois princípios são diferenciados pela natureza da conseqüência. São verdadeiros ou falsos. B é ou será. O princípio da causalidade afirma que. são objetivos e independentes de desejos e temores de sujeito que julga porque são verificáveis por meio da experiência. e no elemento emocional de sua consciência.a verdadehá um juízo de valor que um cientista pode pronunciar legitimamente: o www. e a conseqüência também não tem necessariamente de ser outro pressuposto a que se deva atribuir nova conseqüência. CIÊNCIA E POLÍTICA Realidade e valor É comum afirmar que a ciência deve ser independente da política. não é necessariamente uma conseqüência que tenha de ser atribuída a outro pressuposto. Conclui-se assim que não se pode aplicar a mesma norma para a natureza e para a proposição jurídica.trabalhosfeitos. que o cientista não deve pressupor nenhum valor. como por exemplo. quer-se dizer que a busca da verdade.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. XIV. como prática de regulamentar a conduta social dos homens é uma atividade que necessariamente pressupõe a assunção consciente ou inconsciente de valores. como pode se verificar nas sanções na relação normativa.Camilassouza sua primeira diferença justamente no sentido da ligação de cada um. O princípio da causalidade parte da natureza independente da vontade dos homens. Com isto. seja numa lei jurídica. já a imputação aparece como responsabilização de um ato cometido através de uma norma jurídica um dever-ser. A independência da ciência diante da política significa. Existe um valor que a ciência deve pressupor. de tal forma que a cadeia de causa e efeito é interminável nos dois sentidos. não deve ser influenciada por interesses políticos. em particular. Outra diferença profundamente importante consiste em que toda a causa concreta pressupõe como efeito uma outra causa. em geral. e tem como conseqüência a punição. A política como arte de governar. O princípio de excluir juízos de valor do campo da ciência parece ter uma exceção. função essencial da ciência. seja numa lei moral. Enfim. Juízos de valor.Trabalhos de Pesquisa .

O enunciado de que algo é um fim.19/07/13 há um juízo de valor que um cientista pode pronunciar legitimamente: o juízo de que algo é verdadeiro ou falso. o enunciado de que a segurança econômica para todos é o fim da vida social. Nesse sentido.Camilassouza verificação da existência ou não-existência de um fato. e se enunciado de que uma organização comunista é má significa apenas que ela não tem este resultado. A ciência pode determinar os meios.isto é. O segundo é um enunciado sobre um fato sobre o estado de espírito efetivo dos seres humanos. a verdade não é um valor do mesmo sentido que os valores na base da atividade política como.trabalhosfeitos. especialmente o sujeito que julga. O enunciado de que uma organização comunista é boa significa que é meio adequado de ocasionar segurança econômica para todos. Nesse sentido.Trabalhos de Pesquisa . na verdade. o conceito 97/105 . por meio de enunciados de que em dada condição. mas apenas um tipo especial de tais juízos. a realidade da natureza. O enunciado refere-se à relação entre causa e efeito e. Juízos sobre valores não contradizem juízos sobre a realidade. é justamente essa relação entre fatos que constitui uma realidade específica. Pode-se demonstrar pela experiência que o enunciado “O ferro é mais pesado que a água” é verdadeiro e que o enunciado “A água é mais pesada que o ferro” é falso. tais juízos de valor não são diferentes de juízos sobre a realidade. a realidade e valor são sempre duas esferas diferentes. ou provavelmente ocorrerá.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. por um motivo ou outro deseja o contrário. Tal é o caso quando e enunciado de que algo é meio adequado para certo fim é considerado juízo de valor.html mesmo que não seja efetivamente buscado. apenas se seu significado é tal que não podem contradizer ou afirmar juízos sobre a realidade é que são juízos no sentido específico do termo. o enunciado de que algo é um fim. www. por exemplo. a liberdade individual ou a segurança econômica. o enunciado de que certa organização. Verdade significa conformidade com a realidade. é boa não é enunciado sobre um fato. e. não conformidade com um valor pressuposto. esse termo significa a intenção do indivíduo. que garante a liberdade individual. por exemplo. no sentido específico. e tal juízo tem um caráter objetivo na medida em que é independente do desejo ou do temor do sujeito que julga e verificável pela experiência dos sentidos. A ciência natural descreve seu objeto como real aplicando o princípio da causalidade. controlados pela razão. uma consequencia específica certamente. mas não segurança econômica. Esses enunciados são chamados de leis da natureza. Se por ‘fim’ designa-se aquilo que um indivíduo efetivamente deseja. não devem ser excluídos da esfera da ciência. Mas. expressa a ideia de que algo –deve ser buscado como um fim. Por outro lado. o propósito a que ele está efetivamente visando. portanto. Contudo. ou vários indivíduos o desejam. e. se são classificados como juízos de valor. O enunciado de que algo é um meio adequado para um fim é verdadeiro ou falso. e um deles é verdadeiro e outro falso mesmo se o sujeito que julga. O juízo de algo é verdadeiro ou falso é a O Que é Justiça . Ambos são juízos sobre a realidade. não deve ser verificado por experimento e não é verdade nem falso. Os termos ‘valor’ e ‘juízo de valor’ são frequentemente usados em outro sentido. deve ser verificável pela experiência. mas não pode determinar os fins. para ser verdadeiro. não é idêntico ao enunciado de que um indivíduo.

uma norma constitui valor. em particular.sedo verificáveis pela experiência e completamente independentes da personalidade do sujeito que julga. que significa abstenção de juízos de valor em uma ciência cujo objeto.19/07/13 O Que é Justiça .a atividade dirigida para o estabelecimento e a manutenção de uma ordem social. mas não o fim último. que pode ser considerado um meio para outro fim. eles diferem de juízos sobre a realidade. Devemos distinguir um fim. por causa. é que o enunciado de que algo é um fim é um juízo de valor no sentido específico do termo. Se isso acontece. então é meio adequado. Portanto este enunciado (fim correto) equivale à afirmação de que esse algo é prescrito por uma norma. O objeto da ciência política é a política. A separação de ciência e política. em juízos de valor subjetivo. Essa objetividade é uma característica essencial da ciência. ela não é uma ciência. apesar de sua pretensão a uma validade objetivam altamente subjetivos. assim como à ciência natural e.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. apenas como enunciado sobre o que deve ser feito. particularmente de seus desejos e temores.html 98/105 .Trabalhos de Pesquisa . de sua objetividade.trabalhosfeitos. está impregnado de juízos de valor. isto é um valor supremo. Obedecer aos mandamentos de Deus é um fim último. e. um valor constituído por uma norma fundamental.Camilassouza mesmo que não seja efetivamente buscado. o que dá no mesmo. porque a política é uma atividade baseada. A ciência da política e a ciência ‘política’ O princípio da objetividade aplica-se à ciência social. de um fim último. à chamada ciência política. Em outras palavras. equivale ao enunciado de que a ciência não deve pressupor a validade uma norma fundamental. ele não deve aprovar nem desaprovar o objeto de sua análise. ou. por assim dizer. o conteúdo de uma norma fundamental. Não há www. O enunciado de que a ciência pode determinar o meio.são. pela própria natureza objetivos. uma ciência política. para que seu trabalho não se torne. é necessário admitir apenas que verificar o fato de que os homens são. especialmente o Estado. na condição de enunciado sobre o que é efetivamente é feito ou provavelmente será feito. o conceito de ‘fim’ é idêntico ao de ‘fim correto’. Nesse sentido.um valor supremo. Nesse sentido. determinados em suas atividades políticas por juízos definidos é bem diferente de apoiar esses juízos de valor. Mas ao fazê-lo não deve considerar a norma que constitui o valor como válida. mas uma ideologia política. ‘fim’ significa ‘valor’ e. a ciência opõe-se à política e deve ser separada dela. em conformidade com uma norma pressuposta como válida. consciente ou inconscientemente. que. o cientista político deve levar em consideração os valores que os homens pressupõem em suas atividades políticas. no sentido de um instrumento da política. em contraposição a um juízo sobre a realidade. Enunciados científicos sobre os meios adequados podem ser formulados apenas como proposições condicionais: se for pressuposta como válida a norma fundamental que constitui um fim último. em última análise. não é tão paradoxal como parece. nesse sentido. Assim. Ao descrever os fenômenos que estuda. em vez de uma ciência da política. Juízos sobre fins últimos ou supremos são.

que afirma estabelecer um socialismo científico. recusa-se a ser substituo da religião e não pode senão destruir a ilusão de que juízos de valor podem ser derivados da cognição de realidade. como foi assinalado. mas valores.por motivos políticosprocuram uma justificação absoluta do sistema político que tentam estabelecer ou sustentar.um dos princípios mais característicos da filosofia marxista.pelos menos em parte. mas são apenas pressupostas na mente dos indivíduos que atuam e julgam. Existem. por exemplo. assim. A visão de que valor é imanente. consequentemente. (como. de que os valores são imanentes à realidade. o dogma de que a ciência não pode ser separada da política porque é apenas parte da ‘superestrutura’ de uma realidade econômica (o que significa. baseiam-se em juízos de valor subjetivos parece muito difícil para aqueles que. Ciências normativas O postulado da separação entre ciência e política pressupõe que o objeto da ciência é a realidade. atos administrativos ou transações jurídicas. se sustentada por uma teoria da sociedade anti-religiosa. mas. As normas do Direito positivo podem ser estabelecidas pelo costume. à realidade. Também essa tendência é característica da filosofia marxista. ciências. Esse dogma nega a possibilidade de uma ciência independente. Os atos pelos quais são criadas as normas de um sistema normativo positivo são sempre fatos manifestados no mundo exterior.html 99/105 .com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. perceptíveis aos sentidos. pela filosofia de Comte ou pela interpretação econômica da história Marx). jurisprudenciais. e. antimetafísica.19/07/13 O Que é Justiça . ou disciplinas geralmente consideradas ciências. não tem nenhum fundamento. tentam obtê-la na ciência. admitir que esses fins. ela não pode determinar os fins últimos da política. Dizer que uma norma é criada por um fato é uma figura de linguagem. que é o objeto do estudo científico. Os que negam a legitimidade desse postulado no que diz respeito à ciência política aceitam. Se não estão dispostos a encontrar tal justificação na religião. porém. uma realidade política) e.Camilassouza motivos para diferenciar ciências naturais e sociais no que diz respeito ao postulado de separar ciência e política. A norma é o significado específico do fato. e esse significado. Contudo. cujo objeto parece não ser a realidade. nunca é realmente mais do que um instrumento político. Interpretar o significado de um fato como norma é possível apenas sob condição de pressupormos outra norma que confira a esse fato a www. a política não necessita ser separada da ciência. Elas descrevem normas que constituem valores. existem dois tipos diferentes de juízos de valor: existem normas positivas. Para considerá-los ciências. nesse sentido. é claro.trabalhosfeitos. A ciência em geral e a ciência política em particular podem fornecer os meios adequados. como a ética e a jurisprudência. Embora a ciência deva ser separada da política. é resultado de uma interpretação. A verdadeira ciência. imperceptível aos nossos sentidos.Trabalhos de Pesquisa . por atos legislativos. devemos levar em consideração o fato de que existem dois tipos de normas. podem ser chamas de ciências ‘normativas’. criadas por atos de indivíduos e normas que não são criadas nessa maneira. segundo essa filosofia.

baseado na constituição) ou Direito internacional (criado pelos costumes). e o princípio do positivismo jurídico pode ser sustentado apenas se restringindo por esse fato. não abole a oposição entre positivismo jurídico e a doutrina do Direito natural.de uma norma positiva é condicionada pela existência de fatos. a doutrina do Direito natural não é uma ciência. Apenas o Direito positivo pode ser objeto de uma ciência do Direito. considerar a natureza como legisladora. A primeira constituição histórica só tem caráter de norma obrigatória se pressupomos uma norma segundo a qual devemos conduzir-nos tal como os que estabeleceram a constituição ordenaram que nos conduzíssemos. A norma fundamental de uma ordem jurídica positiva. for de modo geral. Não foi estabelecida.e isso significa a validade. Serve como fundamento para qualquer ordem jurídica positiva. Se não supomos que os pais da constituição receberam sua autoridade de Deus.Trabalhos de Pesquisa .19/07/13 condição de pressupormos outra norma que confira a esse fato a última análise. Essa restrição. A jurisprudência como ciência do Direito tem normas positivas por objeto.em contraposição às normas substantivas do Direito natural que prescrevem uma conduta humana definida como em conformidade com a natureza ( e isso significa justa) e proíbem uma conduta humana definida com contrária à natureza ( e isso significa injusta) . eficaz. não pode ser uma norma positiva. Mas a norma em que a validade de um Direito positivo se fundamenta é. A afirmação de que certa conduta humana (ou certo ato do Estado) é legal ou ilegal www. É princípio da eficácia implícito na norma fundamental. Esses fatos são os atos pelos quais a norma jurídica é criada. pressupomos que devemos conduzir-nos como os que estabeleceram a constituição ordenaram que nos conduzíssemos. O Direito positivo pode ser Direito nacional (Direito de um Estado. é a manifestação de vontade. que pretende apresentar normas jurídicas não criadas por atos de seres humanos. Deduzir normas a partir da natureza. independentemente de sua conformidade ou não-conformidade com o Direito natural e. pressupõe a ideia de que a natureza é criada por Deus e. juntamente com a eficácia da ordem jurídica total à qual pertence a norma. porém não é arbitrário.Camilassouza qualidade de um fato criador de norma.html pode ser verdadeira ou falsa. um caráter meramente hipotético. na verdade. como um costume. que é absolutamente boa.tem caráter meramente formal. um ato legislativo. mas deduzidas a partir da natureza. tem na ciência do Direito. uma norma não-positiva. uma particularmente claro no campo do Direito. A diferença entre uma norma positiva e norma não positiva é O Que é Justiça . Esse pressuposto. se a ordem jurídica estabelecida com base nessa constituição. isto é. judicial ou administrativo. ela é apenas pressuposta pelos que querem interpretar certas relações humanas como relações jurídicas ou como relações determinadas por normas jurídicas. 100/105 . como foi a própria constituição pelos atos de seres humanos. essa norma é uma norma fundamental. uma transação legal. mas uma metafísica do Direito. mas essa outra norma. em oposição à doutrina do Direito natural. Normas jurídicas positivas podem ser objeto de uma ciência jurídica.trabalhosfeitos. Na verdade. assim. sendo verificável pela experiência.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. É o princípio do positivismo jurídico. porém. porque a existência. Portanto.

estabelecida por uma norma jurídica (uma prescrição ou permissão).contato que seja pressuposta a validade da norma fundamental não-positiva. Designa. isto é. consistem em fatos que têm. Ao descrever o Direito por meio de regras de Direito. A ciência natural descreve seu objeto como real enunciado que em certas condições (causas). mas que. A única norma não-positiva que a ciência do Direito pode levar em www. e quando se afirma que. que são leis da causalidade. quando o princípio da imputação é aplicado. eficaz. determinada consequência ocorre efetivamente. ocorrem.trabalhosfeitos. Tal norma existe apenas se for criada em conformidade com a O Que é Justiça . outra conduta humana deve ocorrer como conseqüência. A ciência do direito e a política Se as proposições por meio das quais a ciência do Direito descreve seu objeto forem chamadas ‘regras de Direito’. a afirmação de que normas são o objeto da ciência do Direito não significa que o objeto dessa ciência não seja a realidade. outro homem deve punir o ladrão’ a punição não é descrita como efeito nem o roubo como a causa.um significado específico: o significado de normas positivas. Seu significado não é o de que. o termo ‘deve’ não tem seu significado moral costumeiro. de modo geral. Embora se possa considerar que as normas jurídicas emitidas pela autoridade jurídica constituem valor específico a saber. devem ser distinguidas das normas jurídicas descritas por essa ciência. necessária ou provavelmente. a ciência do Direito não exerce a função de autoridade social. as regras de Direito não são juízos de valor em nenhum sentido possível do termo. em certa condição. Mas o objeto da ciência jurídica pode ser caracterizado como realidade jurídica.19/07/13 pode ser verdadeira ou falsa. essa constituição é válida apenas se a ordem jurídica sobre ela estabelecida for. sendo verificável pela experiência. é claro que. Os enunciados pelos quais a ciência do Direito descreve seu objeto não são uma aplicação do princípio da causalidade. tal como descrita pela ciência jurídica. As primeiras são instrumentos da ciência jurídica. sob condição de certa conduta humana.Camilassouza constituição que está na base daquele Direito e. sob a condição de certa conduta. como a causalidade. necessária ou provavelmente certas conseqüências (seus efeitos). embora tenham a mesma forma gramatical. Portanto. as segundas são funções da autoridade jurídica.html 101/105 . Esses enunciados são regras de Direito.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. O termo ‘dever’ expressa o significado específico da ligação entre condição e consequência. o valor jurídico. eles não têm significado das leis da natureza. outra conduta deve ocorrer. mas função da cognição. Pode ser designada como ‘imputação’. Significa apenas que esse objeto não é uma realidade natural tal como descrita pela ciência natural. uma categoria no sentido da lógica transcendental de Kant. É necessário lembrar. Essas proposições. São fatos que podem ser verificados pela ciência da natureza. são as chamadas leis da natureza. assim como as leis da natureza por meio das quais a ciência natural descreve seu objeto não são juízos de valor. como diferente da ligação entre causa e efeito. como foi assinalado. que uma função da vontade. Na regra de Direito de que ‘se um homem comete roubo.Trabalhos de Pesquisa . mas significado puramente lógico.

que constitui valor jurídico. como foi assinalado. O que é legal segundo uma ordem jurídica pode ser ilegal segundo outra. embora a ciência do Direito possa e deva ser separada da política.Trabalhos de Pesquisa . constituído por uma norma não-positiva que se afirma válida em todas as partes em todos os tempos. a norma não-positiva de que os homens deve ser livres. uma norma substantiva como um conteúdo imutável.é norma fundamental da ordem jurídica que é seu objeto. a norma fundamental de uma ordem jurídica positiva. e efetivamente é. É uma peculiaridade do Direito de reger sua própria criação. para distingui-las do Direito. Mas. ele estará excluído do campo da ciência do Direito. como foi assinalado. que é função da autoridade jurídica. estatutos e regras de Direito consuetudinário regem a criação de normas específicas pelos tribunais nas jurisprudências. válida para certo espaço e em certo tempo. a autoridade jurídica pode ser. mas Tb por normas de outro sistema normativo que.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. Nesse sentido. a autoridade jurídica aplica uma norma superior que determina a criação e o conteúdo da norma inferior.trabalhosfeitos. O juízo de que algo é legal ou ilegal. a possibilidade de ser justo ou injusto é uma conseqüência essencial do fato de ser positivo. que é a única condição sob a qual a ciência do Direito pode descrever seu objeto como um conjunto de normas válidas que constituem o valor jurídico específico. que é valor específico segundo o qual o Direito positivo chama ‘valores políticos’. determinada por outras normas que não as normas jurídicas. são chamadas. Mas a ideia de justiça. ao passo que é uma função www. Na medida em que sua função criadora de normas é deixada ao seu arbítrio. o processo legislativo. o valor constituído por normas jurídicas positivas é sempre um valor relativo. especialmente o valor da justiça. para serem distinguidos do valor jurídico. Pois a validade de tal norma positiva depende de uma norma fundamental do Direito positivo.Camilassouza consideração. ela não constitui um valor substantivo como. A função específica da norma fundamental de uma ordem jurídica positiva. em seu sentido especifico. embora o cientista jurídico deva abster-se de juízos de valor político. e a constituição é aquela norma jurídica positiva ( ou conjunto de normas) que regulamenta a criação de outras normas da ordem jurídica. não pode ser separado da política.não como seu objeto. Mesmo se o enunciado de que alguma coisa é justa ou injusta significar que ela está ou não em conformidade com uma norma de uma ordem moral positiva. Ao criar uma norma. isto é. como razão da validade da constituição de uma ordem jurídica. Portanto. por exemplo.e nessa medida sua função tem um caráter político. designa um valor absoluto. isto é. Um Direito positivo pode ser justo ou injusto. é servir como fonte última do Direito. Outros valores.19/07/13 O Que é Justiça . Pois essa função é determinada não apenas pelas normas jurídicas. refere-se necessariamente a uma ordem jurídica definida. estabelecida pelo costume ou pelos comandos de um fundador religioso.html 102/105 . como foi assinalado de ‘políticas’. ou de que os homens devem viver em segurança. tem um caráter meramente formal.que constituem o valor chamado ‘justiça’. Assim como a constituição rege a criação dos estatutos ou institui o costume como fato criador do Direito.

com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. a verificação objetiva de um fato. Na medida. e efetivamente é. mais de um significado pode ser encontrado em uma norma jurídica. Portanto. 103/105 . o legislador pode ser.Trabalhos de Pesquisa . especialmente pela sua ideia de justiça. a necessidade de melhorar a redação. assim. mas pela autoridade jurídica a quem o Direito confere esse poder. implica uma interpretação do Direito. quando a constituição proíbe certo conteúdo a restrição da liberdade religiosa. Ao aplicar uma norma. Ele pode apenas examinar se as normas criadas pelo órgão legislativo estão ou não em conformidade com as normas positivas da constituição. Na medida em que essa escolha não é determinada por uma norma superior. A escolha de um dos vários significados de uma norma jurídica por uma autoridade jurídica em sua função aplicadora do Direito é um ato criador do Direito. Ele pode preferir um conceito a outro no mesmo campo. Interpretar uma norma jurídica é encontrar seu significado.19/07/13 medida sua função tem um caráter político. é uma função política. com base no seu juízo sobre o que é justo ou injusto. Por vezes. pois a questão de se o estatuto é ou não constitucional não pode ser decidida pela ciência do Direito.Camilassouza certo conteúdo para essas normas. Mas. Por outro lado. do que esta autoridade julga mais adequado. O cientista jurídico não tem escolha de aceitar ou rejeitar o Direito.trabalhosfeitos. atribui força de Direito. em que a função legislativa é. em ultima análise. ele pode fornecer significados diferentes e contraditórios. não um juízo subjetivo de valor. assim como a descrição do Direito pelo cientista político. para que seu significado seja inquestionável. e o resultado desse exame é. www. É esse caso quando a constituição proíbe ou prescreve O Que é Justiça . de que um estatuto é ou não constitucional. Existem diferentes métodos de interpretação: segundo a intenção do legislador. não tem nenhuma importância jurídica. Mesmo que um método de interpretação seja obrigatório. a autoridade jurídica escolhe em desses significados e. a tarefa de um cientista jurídico que interpreta um instrumento jurídico é demonstrar seus possíveis significados e deixar à autoridade jurídica competente a escolha. mesmo o enunciado do cientista jurídico. ao passo que é uma função jurídica na medida em que é determinada por normas jurídicas. interpretação histórica ou lógica e a interpretação restritiva ou extensiva. segundo princípios políticos. Normalmente o órgão legislativo é juridicamente obrigado pela constituição.html serve à função criadora de Direito de maneira científica. por exemplo. pq considera um justo e o outro injusto. o cientista jurídico serve cientificamente à função aplicadora de direito. A aplicação do Direito por uma autoridade jurídica. não a interpretação implícita na aplicação da norma. ao revelar a ambiguidade e assim. É uma exigência da técnica jurídica que a norma jurídica seja formulada tão claramente quanto possível. Isso pode ser chamado uma interpretação autêntica. a interpretação automática do Direito por uma autoridade jurídica pode ser caracterizada como interpretação política. determinado por princípios políticos. determinada pela constituição. tal como estabelecido pelo legislador. embora na linguagem tradicional esse termo seja usado apenas para designar uma norma jurídica cujo propósito expresso é interpretar uma norma anterior. Ao mostrar as possibilidades que a lei a ser aplicada abre à autoridade jurídica.

se ele apresenta essa interpretação como a única correta. esta atuando como um político disfarçada de cientista. sobretudo porque uma interpretação jurídica inclui – como foi assinalado – todas as interpretações possíveis de uma norma jurídica. uma comunidade é um Estado apenas quando reconhecida pelos outros Estados. não é um instrumento jurídico mas um instrumento político.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308. é sempre um meio e não um fim.trabalhosfeitos. Um exemplo típico é o reconhecimento de uma comunidade ou de um Estado. visto a partir de um ponto de vista teleológico. o propósito político ou econômico de uma norma jurídica não pode excluir uma interpretação jurídica.Camilassouza Se o cientista jurídico recomenda à autoridade jurídica um dos diferentes significados de uma norma jurídica. o que significa que tem conseqüências jurídicas essenciais. é de muitas vezes de considerável importância. Portanto. o instrumento em caráter jurídico. em absoluto. que. Segundo alguns autores o reconhecimento tem apenas caráter declaratório. o reconhecimento é um ato constitutivo e declaratório. ao mesmo tempo instrumentos políticos. É frequente a afirmação de que a constituição de um Estado. ou a constituição de uma comunidade internacional. O propósito político não priva. Não existe nenhum instrumento jurídico que não tenha um propósito extrajurídico. Ao preferir uma das diversas interpretações possíveis. Mas. que é declaratória. que é a interpretação do Direto por um cientista jurídico pode ser caracterizada como uma interpretação jurídica – em contraposição à interpretação aplicada a uma autoridade jurídica. ele tenta influenciar um processo criador de Direito e exerce uma função política e não cientifica. www. que é constitutiva. e uma função política. ou política. o reconhecimento tem um caráter constitutivo. isto é. Se a resposta é afirmativa certamente não se fundamenta no conteúdo dos instrumentos.html A doutrina de que existem disputas jurídicas. Não pode haver a menor dúvida que a constituição de um Estado ou tratado constituinte de uma comunidade internacional são instrumentos jurídicos. O “jurídico” e o “político” A distinção entre uma função jurídica e uma função política como distinção como uma função determinada por normas jurídicas e uma função determinada não por normas jurídicas. mas politicamente. o ato chamado reconhecimento compreende duas funções: uma função jurídica. não passíveis 104/105 . mas por normas políticas. Portanto. Portanto a interpretação cientifica do Direito. à exclusão de outras. independentemente de ser ou não comunidade reconhecida pelos outros Estados. a segunda pode ser caracterizada como uma interpretação política. legal. O Que é Justiça . é Direito e nada mais que Direito. conseqüentemente deve ser interpretado não juridicamente. O instrumento em questão pode ser chamado político apenas no que diz respeito ao propósito do Direito que contém. Segundo outros autores. por sua própria natureza. que. Assim. não tem conseqüências jurídicas. A única questão é se são.Trabalhos de Pesquisa . porque o Direito. ou de um corpo de indivíduos como governo de um Estado. uma comunidade é um Estado se cada um cumprir as exigências do Direito internacional.19/07/13 serve à função criadora de Direito de maneira científica. na verdade.

html Comentar.com/ensaios/o-Que-%C3%A9Justi%C3%A7a/266308.19/07/13 O Que é Justiça .jurídico.com. empregados para confundir a ciência do Direito com a política. em contradição com seu significado cientificamente verificável.. 2012. ou política. classificando-o como impossibilidade jurídica. essa doutrina não é uma teoria cientifica.. mas justificar a tentativa de excluir a aplicação do Direito existente. não passíveis de decisão judicial em virtude de inaplicabilidade do Direito internacional existente interpreta erroneamente aquilo que é uma inadequação do ponto de vista não. TrabalhosFeitos.trabalhosfeitos..Camilassouza A doutrina de que existem disputas jurídicas. embora não único. Retirado 06. Evitar a fusão destas duas esferas heterogêneas é tão essencial para preservação do caráter científico da jurisprudência quanto é vital a separação de ciência e política para a existência de toda e qualquer ciência independente. Assim.trabalhosfeitos. O Que é Justiça.Trabalhos de Pesquisa . Seu propósito não é interpretar o Direito de maneira objetiva. de http://www. mas um instrumento de política.com/ensaios/o-Que-é-Justiça/266308.com Legal Mapa do Site Divulgar www. P lug-in social do F acebook Compartilhe Sua Experiência Nossos Produtos Trabalhos e Monografias Gerador de Citação Sobre Nós Sobre Trabalhos Feitos Ajuda Contate-nos Siga-nos Facebook Twitter Google+ RSS Envie Seus Trabalhos ©2013 TrabalhosFeitos. Comentário usando. O uso equivocado da distinção jurídico e político é um dos meios mais eficazes.html 105/105 . 06). Visualizar como multi-páginas Citar Este Trabalho APA MLA MLA 7 CHICAGO (2012..