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E O ROMANCE CONSTRÓI O GÊNERO: UMA ANÁLISE DA REVISTA O IDÍLIO1

GENDER BUILDING ROMANCE: AN ANALYSIS OF O IDÍLIO

Adelaine LaGuardia* Renan Reis Fonseca**

Resumo

Este artigo tem como objetivo geral recuperar a memória cultural brasileira ligada à construção do gênero por meio da análise da revista O Idílio, “uma revista em quadrinhos com histórias de amor romanceadas”, dedicada a moças e rapazes, que circulou no Brasil a partir de setembro de 1948 até meados de 1977. Partindo dos conceitos de “gênero”, propostos por Joan Scott (1992, 1994), e de “representação”, presente na leitura da obra de Louis Althusser feita por Stuart Hall (2003), a pesquisa, voltada para as fontes primárias, visa a compreender também como o elemento romântico é articulado na construção de um imaginário popular sobre o gênero na revista.

Palavras-chave: Revista O Idílio, Gênero, Romance, Histórias em Quadrinhos.

Abstract

The aim of this paper is to recover the Brazilian cultural memory related to gender construction in a magazine entitled O Idílio, “a comic book with romantic love stories”, dedicated to young women and men, which was published in Brazil from September 1948 to 1977. Based on the concepts of “gender”, as proposed by Joan Scott (1992, 1994), and “representation”, as discussed by Stuart Hall (2003) in his readings of Louis Althusser, this study also endeavors to comprehend how the romantic element is articulated in the construction of a popular imaginary related to gender in the magazine.

Key words: O Idílio, Gender, Romance, Comics.

1 Introdução

Durante muitos anos, principalmente nos Estados Unidos, onde tiveram grande divulgação e importância, as chamadas pulp magazines2 tinham como alvo principal o público masculino. Enxurradas de revistas de ficção científica, horror, suspense etc. eram distribuídas em todo o país semanalmente. No entanto, após a Segunda Guerra Mundial, tanto as pulp magazines quanto as revistas que publicavam somente histórias em quadrinhos, voltaram seu interesse especialmente para o público feminino. É a partir desse período que o gênero romântico ganha força e começa a abarcar considerável parcela do mercado consumidor sob a forma de revistas em quadrinhos, fotonovelas, revistas de contos etc.

Tomando como objeto a revista O Idílio, publicada no Brasil a partir de 1948, e entendendo o texto não apenas como representação da “vida real”, mas como um conjunto de narrativas imaginativas construídas sobre a vida cotidiana das mulheres e dos homens no contexto do pós-guerra no Brasil, a presente análise busca compreender como se dão ali as representações de gênero. Para tanto, valemo-nos das abordagens feministas sobre “gênero”, buscando situar essa questão no contexto do mercado editorial dos quadrinhos no Brasil. O corpus da pesquisa compõe-se dos cinco primeiros exemplares da primeira série publicada, edições que abrangem os meses de setembro de 1948 até fevereiro de 1949.

Por se tratar de uma pesquisa em fontes primárias, o presente trabalho busca recuperar a memória cultural brasileira ligada à construção de gênero no imaginário popular. Essa recuperação contribui para as mais diversificadas frentes: estudos de gênero, estudos sobre histórias em quadrinhos (as quais vêm sendo resgatadas e estudadas com maior intensidade nos últimos anos) e um maior conhecimento sobre a constituição do mercado editorial brasileiro dos quadrinhos e suas publicações. Para melhor respondermos a esse desafio, propomos alguns desdobramentos. Na perspectiva dos estudos em fontes primárias, os objetivos específicos buscam responder a indagações relacionadas ao aspecto da produção da revista, tais como: que condições permitiram a emergência de revistas como O Idílio no Brasil? Como se compõe materialmente a revista? Já na perspectiva dos estudos feministas, busca-se compreender como se dão as representações e

práticas cotidianas e rituais específicos. nas práticas e rituais cotidianos. compreendida como “práticas significativas que envolvem o uso de signos. segundo a autora. Tais sistemas seriam compostos por conceitos. O saber é um modo de ordenar o mundo e. Embora todas as práticas estejam inscritas na linguagem e. Em outras palavras. como o namoro ou casamento. está intimamente ligado à distribuição do poder entre homens e mulheres ou à organização social dos sexos. o saber de gênero que acumulamos revela nada menos que o funcionamento ideológico e. o gênero traduz um saber acerca das diferenças sexuais e diz respeito à compreensão cultural que se tem sobre as relações humanas na sociedade. homossexuais. Hall (2003) reconhece o seu caráter eminentemente discursivo e semiótico. 179) por meio de práticas envolvidas na produção de significado.as relações de gênero na revista. sejam ideológicas. ou é gerado dentro daquilo que Louis Althousser denominou “aparelhos ideológicos de Estado”. Assim. ideias. uma história autônoma (ou quase). e se expressem como tais. esse saber ou essas ideias não surgem espontaneamente das mentes dos indivíduos. mas da linguagem. está impresso no senso comum. Ao designar as ideologias como “sistemas de representação”. a escola e a igreja. p. Hall (2003) chama atenção ainda para a definição de ideologia enquanto “sistemas de representação” feita pelo filósofo francês em sua obra intitulada A favor de Marx. mulheres. O saber a que Scott se refere é construído. o domínio do significado e da representação” (Hall. como tal. portanto. bem como. reproduzido e reforçado pelos/nos discursos do senso comum e também nas práticas cotidianas de instituições como a família. 12-13). Segundo Stuart Hall (2003). heterossexuais etc. elas próprias. Em sua leitura de Althusser. intimamente ligado ao funcionamento ideológico. Segundo Joan Scott (1994). 2003. são “sistemas de significado pelos quais nós representamos o mundo para nós mesmos e os outros” (p. no domínio semiótico. como tal. 173). esse saber. algumas delas estão mais intimamente ligadas à produção de . já que todos constituem relações sociais. envolvendo rituais e práticas de convivência entre os sexos. Esse saber. mitos ou imagens nos quais os homens e as mulheres viveriam suas relações imaginárias com as suas reais condições de existência. não antecede a organização social. mais especificamente as relações entre homens e mulheres. Além disso. Seus usos e significados nascem de uma disputa política e são os meios pelos quais as relações de poder – de dominação e de subordinação – são construídas. Essas práticas significativas é que permitirão que os sujeitos se reconheçam na ideologia enquanto homens. O saber não se refere apenas a ideias. é sempre relativo: Ele é produzido de maneira complexa no interior de epistemes que têm. mas é inseparável dela (p. mas a instituições e estruturas.

Roberto Marinho publicou O Gibi – também em 1939. o Brasil produz caricaturas. imagens. conceitos. animado pelo sucesso do Suplemento Infantil. em 1934. o jornalista Adolfo Aizen (1907-1991) tomou conhecimento das tiras publicadas diariamente nos jornais americanos que faziam grande sucesso junto ao público. ou de “sistemas de representação”. que. foi somente no início da década de 1930 que o Brasil viu as modernas histórias em quadrinhos se popularizarem. Ainda em 1934. seguindo o modelo estadunidense. irão (re)produzir as hierarquias entre os sexos e (re)inscrever ou perpetuar (ou não) relações assimétricas entre eles. esclarecerá como se dá o funcionamento ideológico ou a distribuição do poder entre os sexos.representações ideológicas. Ainda durante a década de 1930. Aizen criou. lançou O Globo Juvenil. 2 Os Quadrinhos e o Mercado Editorial Brasileiro do Pós-guerra Desde o século XIX. estereótipos capazes de expressar “valores”. Para fazer frente à revista Mirim. o Suplemento Infantil – que se apresentava como parte integrante do jornal A Nação –. Assim. por sua vez. Ao retornar ao Brasil. Durante viagem aos Estados Unidos. Aizen se desvinculou do Jornal A Nação e criou o Grande Consórcio de Suplementos Nacionais. o conceito de representação. Foi a partir desse momento que o mercado editorial de histórias em quadrinhos no Brasil começou a ganhar forma. e especialmente para o nosso fim. nos auxilia na compreensão de como se (re)produzirá o “gênero” na medida em que se expressarão na revista ideias. observar como se dá a produção de significados. essas últimas sendo conhecidas em grande parte devido ao trabalho de Ângelo Agostini3 (1843-1910). sendo esse o objetivo último que orienta a presente análise. os quais. . Portanto. como é o caso da mídia. como aponta Gonçalo Silva Júnior (2004). que passou a editar e publicar o Suplemento Infantil sob novo nome: Suplemento Juvenil. Aizen lançou duas novas revistas: Mirim e O Lobinho. No entanto. outro personagem importante entrou na disputa: Roberto Marinho (1904 – 2003). aqueles produtos midiáticos que produzem e refletem “saberes”. Em 1939. ideias e práticas ligadas à organização dos sexos. Daí. visivelmente inspirado nos moldes do Suplemento de Aizen. em 1937. como é o caso da revista O Idílio. por meio dos enredos das histórias em quadrinhos que compõem a revista O Idílio e das imagens ali retratadas. cartuns e charges. no qual passou a publicar as comic strips4. a importância de se analisarem os produtos midiáticos.

Nesse contexto conturbado. o de gênero – e formar opiniões. p. têm o intuito de legitimar discursos – por exemplo. 33). Segundo Magaldi (2007).. em seus dois primeiros anos. econômica e social capitalista. marcado.Em 1944. passando por dificuldades financeiras. desde as várias expressões da chamada literatura de civilidade que circulou na Corte ao longo do século XIX. o Brasil passou por um período de industrialização crescente. até as atuais modalidades de literatura de aconselhamento e de autoajuda. Aizen se viu obrigado a vender o Grande Consórcio para o governo. surgem os manuais de conduta que visam a orientar a população e a controlar seus excessos. esses manuais . uma vez que estas foram frequentemente utilizadas com propósitos ideológicos. Durante períodos como esse.. A hipótese que orienta este trabalho reside na ideia de que revistas como O Idílio funcionaram como fonte de instrução e controle da conduta moral e de iniciação aos ritos amorosos para aqueles que as liam. 2006. 3 Manuais de Conduta Durante o pós-guerra. tivemos uma empresa de quadrinhos nos moldes do mercado norte-americano que perdurou até o início da década de 1990 e introduziu no Brasil os comic books. [s]e inscrevem em uma linhagem de textos que abarca. no qual se assistiu a um boom das revistas em quadrinhos (Patati e Braga. entre as quais se incluem as revistas e seções de jornais dedicadas à mulher e à família (p. Foi com a nova editora de Adolfo Aizen. O período de maior importância para a presente pesquisa é aquele do pós Segunda Guerra Mundial. que o país testemunhou um crescimento efetivo no mercado das histórias em quadrinhos. 108). representadas por uma enorme variedade de publicações. funcionou principalmente como editora de livros e só em 1947 lançou sua primeira revista em quadrinhos: O Herói. O pós-guerra foi um período de reconstrução e reestruturação social. Editora Brasil-América (EBAL). buscando uma adequação aos novos modos de vida e à estrutura política. principalmente pelos Estados Unidos. Assim. assim como toda a sociedade. Selma Oliveira (2007) argumenta que os quadrinhos. a família brasileira. A EBAL. ou . Esse período foi marcante para as histórias em quadrinhos. sendo um produto de massa. também. pelo fim do Estado Novo e de uma aproximação cada vez mais forte com a política norteamericana. se encontrava em processo de reestruturação.

O Idílio. Não demorou para que surgissem dezenas de quadrinhos românticos (p. Mesmo assim. servir como manuais de conduta social e moral. provavelmente. Essa profusão de títulos nos leva a suspeitar que houvesse um mercado rentável de revistas românticas voltadas para ambos os sexos.5 De acordo com Ezequiel de Azevedo (2007). 1998. ainda. o público feminino. 4 A Revista O Idílio e Sua Composição Material Segundo Ezequiel de Azevedo (2007). 295). Rosalinda. por decorrência da guerra. em 1959 a EBAL publicava os seguintes títulos que exploravam a temática romântica: “Cinemin. Segundo Gonçalo Silva Júnior (2004). uma vez que a Revista Feminina. que trabalhou por um longo período na EBAL. a escassez de papel. o conselheiro amoroso da seção de cartas. atribuindo-se a Joe Simon e Jack Kirby o seu surgimento. 22). Esta possui três séries que foram lançadas em formato americano (aproximadamente 18. Possivelmente. p. liberdade e solidão que o amor do pós-guerra e o casamento acarretavam. um dos quais é de sua autoria. A temática romântica nos quadrinhos tornou-se um gênero bastante popular nos Estados Unidos do pós-guerra. Essa tiragem impressiona. o que limitava o número de publicações. editada por Cláudio Hasslocher. A revista era.seja. chegando a picos de 150 mil exemplares mensais. Star Álbum.2 cm). Cowboy Romântico. no qual as histórias em quadrinhos sofriam forte repressão de setores conservadores da nossa sociedade. O Idílio foi a quarta revista lançada pela EBAL. Gerard Jones (2006) comenta que: As adolescentes e as jovens estavam carentes de histórias que mergulhassem de forma implacável e consistente nas contradições entre desejo. havendo. por exemplo. Hasslocher também é o “Tio Germano”. Seu nome aparece na tradução dos contos. que circulou entre 1914 e 1936. dever. “alcançou uma tiragem de até 25 mil exemplares por mês” (Maluf e Mott. a revista O Idílio ingressou de forma positiva no mercado brasileiro. 639-640)6.5 x 26. principalmente. Seleções de Idílio. Bonita” (p. o que era considerado um número expressivo. mas que tinham pretensões de abarcar. o lançamento da revista O Idílio se deu em um momento conturbado da história do mercado editorial brasileiro. As histórias em quadrinhos publicadas n’O Idílio originavam-se do mercado estadunidense. Sobre essas revistas. assim .

Invariavelmente. traições. Além das histórias em quadrinhos. 5 Representações de Gênero 5. a revista levanta alguns temas pouco discutidos. Isso se devia ao fato de os syndicates7 terem alcançado grande popularidade e revenderem por preços módicos a produção feita por artistas contratados. No entanto. Algumas capas foram desenhadas por Monteiro Filho. triângulos amorosos. enquetes e uma seção intitulada “Com bons olhos te vejo”. na qual fotos dos olhos dos interessados em trocar informações com outros leitores eram publicadas. os velhos clichês românticos. contos em alguns números. as temáticas giram em torno de namoros.8 Analisando a composição material da revista. como a emancipação feminina. o trabalho feminino e os problemas nas antigas formas de organização social e familiar. ou seja. já as contracapas apresentam fotos de astros de Hollywood. exceto o primeiro volume. ciúmes. outras por Antônio Euzébio. é possível perceber que.como grande parte das demais revistas e histórias em quadrinhos publicadas no Brasil à época. todos os exemplares contêm quatro histórias em quadrinhos que geralmente apresentam como protagonista uma mulher. A dificuldade em determinar a origem das histórias da revista O Idílio é consequência de esta não apresentar qualquer referência ao seu desenhista ou roteirista. para sua época e por se tratar de um produto de massa.1 O Idílio e a Imprensa Conselheira . a revista apresenta ainda seção de cartas.

Jornal das Moças ou sessões femininas n´O Cruzeiro tinham um tremendo impacto como formadores de opinião” (Del Priore. “As revistas femininas tinham então um papel modelar no que dizia respeito à vida amorosa. Enquanto os homens lutavam bravamente na guerra contra o terror nazista. contrariamente ao senso comum. nos volumes estudados. uma vez que é a partir desses dados que se compreende como se davam as relações de gênero.9 Os homens pareciam pouco confiantes e não compreendiam as novas formas de relacionamento que se instituíam no período.”(Revista O Idílio. Compreender como os homens entendiam e vivenciavam o amor é relevante. como demonstra a pergunta de um jovem de Curitiba: “Que devo fazer para conquistar a moça a quem amo? Ela é muito bonita. a mulher contribuía à sua maneira. o que comprova a necessidade de “direcionamento” das condutas e comportamentos da população. podendo servir ao marido. mas eu não sou correspondido. Revistas como Querida. v. Você. mãe e esposa carinhosa. em especial a bélica. sendo que 46 cartas são de mulheres e 34 de homens. no pós-guerra. 284). que estudou as revistas e as relações entre homens e mulheres dessa época – continuava-se a acreditar que ser mãe e dona-de-casa era o destino natural das mulheres. Segundo Del Priore (2006): Em meados do século XX – segundo a historiadora Carla Bassanezi. A imprensa conselheira fez muito sucesso à época. A partir dos meios da cultura de massa essa moral foi disseminada. herói de guerra e defensor da família. e agora lhe estava sendo dada a “recompensa” de viver novamente em paz. p. Esse mercado era orientado principalmente às mulheres: tanto às senhoras casadas quanto às moças. O que se pode inferir de tais números é que os homens. A revista se apresenta como espaço de aprendizado e de iniciação amorosa para esses jovens e como tal abre caminho para investigações em torno da temática do gênero. a dúvida acerca do amor da parceira e as atitudes pretensamente apropriadas ao sexo masculino. À mulher restava assumir novamente seu posto de dona-de-casa. 1948. . a força e o espírito de aventura definiriam a masculinidade (p. 283).. enquanto a iniciativa. 80 “problemas”. Há que se ter em mente ainda que. o discurso da política norte-americana estimulava as mulheres a retornarem ao lar após terem contribuído com a guerra pelo trabalho nas indústrias das mais variadas. “no aconchego do lar”. também tinham preocupações amorosas com as quais não sabiam lidar. 3.. p. 2006. a participação no mercado de trabalho.Vida Doméstica.A seção de conselhos amorosos do Tio Germano apresenta. Entre os problemas mais citados pelo suposto “sexo forte” estão a timidez. 43).

Afinal. a violência simbólica se institui por intermédio da adesão que o dominado não pode deixar de conceder ao dominante (e. p. A outra para “usar e jogar fora” (p. como vimos. 1999. já que existe uma obsessão pela reafirmação constante da virilidade. clubes de fãs e coleções de fotos. à dominação) quando ele não dispõe. identificada com o casamento e com a felicidade. Se as mulheres foram e continuam sendo vítimas desse sistema pela submissão. 277). foram de grande relevância para a vida e organização social no período do pósguerra: o cinema e seus subprodutos na forma de revistas. sendo que esta depende da aprovação/validação dos outros homens. como a revista O Idílio. há nos problemas colocados pelos homens nas cartas direcionadas ao conselheiro amoroso uma necessidade de que este validasse/apoiasse suas atitudes. os meios que reproduziam personagens do cinema. 47). De acordo com Mary Del Priore (2006). de certa forma os homens também o são.Tais características – atribuídas mediante o que Pierre Bourdieu denomina “violência simbólica” – eram desejadas pelos homens e também ambicionadas por muitas mulheres. não sendo mais que a forma incorporada da relação de dominação. ajudavam a reforçar uma ideia de que existiam dois tipos de mulher: a boa e a má. fazem esta relação ser vista como natural (Bourdieu. . A primeira. para pensar sua relação com ele. mais que de instrumentos de conhecimento que ambos têm em comum e que. portanto. para pensá-la e para se pensar. Por isso. As histórias de O Idílio reforçam claramente essa dicotomia. ou melhor.

o homem demonstra hesitação ao questionar o que deve fazer. (v. fica evidente que a mulher deve satisfazer. minha namorada aceitou. E mais. Raramente. Vejamos um exemplo de um problema levantado por um leitor: Por mais que eu me opusesse. Não há outra. na seção de cartas. Experimente e verá.. p. Algumas histórias mostram mulheres trabalhadoras. p. por sua vez. Embora não veja como legítimo o direito da mulher ao trabalho. ela pode ser substituída por outra. ao homem. e eu a amá-la. um emprêgo (sic) que lhe foi oferecido. Cumprindo a ameaça que lhe fizera. 3. O conselheiro. ocupam posições de liderança. tal qual um objeto. já teria abandonado o emprego. mais merecedora de sua constância em toda a cidade? Não será muito difícil esquecer a primeira quando encontrar uma “substituta” à altura. embora a divisão sexual do trabalho seja bastante clara: a elas cabem os empregos nos escritórios ou no comércio. se a mulher não acata a vontade masculina. Nesse discurso claramente misógino. aquele que afinal decide se ela deve ou não buscar autonomia pelo trabalho.Um tema recorrente representado pela revista é o do trabalho feminino. pois é evidente que essa moça não tem o menor amor por você. Conhece aquele ditado: “quem não me quer. não me merece”? Trate de namorar alguém que o possa fazer feliz. Santo. o conselheiro amoroso condena aquelas que trabalham contra a vontade dos pretendentes. Tio Germano? (v. namorados ou maridos. 2).. 2). Assim. realizadas e relativamente bem-sucedidas em suas profissões. rompi com ela. a temática do trabalho feminino revela os limites dentro dos quais a mulher podia atuar na vida pública. Como prova disso. há um ano. Desde então ela continua a trabalhar.. responde da seguinte maneira: Procure outra! Se ela gostasse mesmo de você. . Que me aconselha. primeiramente. deixando claras as incertezas que regem as relações. 3..

o espaço alcançado por estas no ambiente de trabalho deixara reflexos irreversíveis naquela cultura. belas. na qual as mulheres ainda começavam a se inserir no mercado de trabalho. adquirir má fama caso se entregasse irrestritamente aos relacionamentos amorosos ou à prática sexual livre. Esses primeiros passos causavam desconforto e insegurança à estrutura social brasileira. a culpa recai invariavelmente sobre a mulher. há o arrependimento das mulheres por terem sido ingênuas ou o perdão ao erro do homem. na maioria das vezes. O conselheiro. como um manual de conduta. cabendo a estas serem sensatas e saberem manter-se “puras”. os Estados Unidos. como sendo aquele que possui atributos morais e materiais. Já a segunda imagem de homem bom está associada ao que o senso comum compreende como correto. Os enredos das histórias em quadrinhos. Apesar de em algumas delas o homem errar e assumir sua culpa. visto pela ótica feminina. Apesar de no período referido a política americana ter estimulado o retorno das mulheres ao lar. E em segundo lugar. Isso se deve ao seu caráter discreto e impoluto. o mesmo padrão valendo em geral para os homens. onde grande parte da população feminina trabalhou fora de casa durante a guerra. As histórias apresentam o “bom partido”. O bem é sinalizado pela boa conduta. Caso isso não ocorra. Além disso. magras e elegantes. Entre eles. assim. que o leva a sacrificar-se pela mulher. segue a lógica cultural e econômica brasileira. Esse aspecto diria respeito à ameaça de “se perder”. As histórias apresentam um padrão ideal de beleza feminina e masculina. tanto sua força moral quanto física. a submissão feminina irrestrita. o que não ocorreu na mesma proporção entre nós no Brasil. ou seja. demonstrando.O contraste percebido entre as mensagens de cunho emancipatório nas histórias em quadrinhos e os conselhos um tanto conservadores do Tio Germano brasileiro na referida seção poderia ser explicado pela própria origem da revista. Trata-se daquele que a princípio pode parecer arrogante. o que afastaria um bom casamento. assim. esse tipo masculino ideal é bonito. a história deve “servir de lição”. tem caráter heroico e “provedor” e comumente age de forma agressiva. ou seja. via de regra. fugir do caminho do “mal” e da “perdição” – a perda da tão cultuada pureza e inocência. de maneira geral. As histórias em quadrinhos eram provenientes de outra cultura. onde o patriarcalismo se fazia sentir com maior força. por sua vez. afirmando. jovens. procuram frisar certos aspectos recorrentes nas relações de gênero. mesmo que esta seja uma “perdida”. como o carro (instrumento de poder e afirmação da virilidade). as histórias tratam os homens como sendo “naturalmente” aproveitadores em relação às mulheres. Isso . a mulher deve prezar pela decência. mas que afinal revela não sê-lo. As moças são. mais frequentemente. aliado ao final feliz. a crença generalizada de que a mulher não deve “ceder à tentação”. Contudo. que tinham como meta a preservação da virgindade.

52: grifos no original). que se torna estigmatizada. as mensagens são carregadas de ambiguidade. O primeiro constantemente impõe e reafirma o valor da moral feminina. dadas por vezes como pretexto para “culpar a vítima”. a protagonista Edith vive o papel da feminista que no final sucumbe ao amor. é apenas um objeto de diversão. as separadas. enquanto que a representação visual privilegia a sensualidade e a sedução: as personagens femininas exibem corpos esculturais. e principalmente aquelas que não são virgens. trajam roupas sensuais. parte da revista ora analisada. a mulher se desvirtua de seu caminho e abre espaço para que os homens possam abusar de sua tão enfatizada “inocência”. Já os encontros amorosos/sexuais são mostrados na revista como fato natural na vida dos homens. pois a mulher ideal retratada é. A capa da história apresenta suas ideias: Homem algum. 5. Assim. A mulher. recatada e sensual.2 A Mulher Emancipada “A Inimiga dos Homens”. são resultantes das estruturas objetivas. beijam ardentemente etc. haveria de me transformar naquele dócil animal doméstico. Ao investir na sexualidade. é algo aceitável e compreensível entre eles – a promiscuidade. destinada a satisfazer os instintos naturais do homem. estão aqueles relacionados ao comportamento de mulheres que se enquadram nas seguintes categorias: frequentadoras da noite. é uma história emblemática quando se trata das representações de gênero. nesses casos. jamais. a . como também que essas estruturas só devem sua eficácia aos mecanismos que elas desencadeiam e que contribuem para sua reprodução (p.reafirma o que Bourdieu (1999) salienta: é preciso assinalar não só que as tendências à “submissão”. Sair com diferentes mulheres. o que no final prejudica tão somente a ela. a perdição e a vulgaridade nunca são associadas ao homem. mesmo tendo algum compromisso/ relacionamento. ao mesmo tempo. que passeiam de carro. enquanto o homem apenas exerce sua natural virilidade. Entre os desvios de conduta sublinhados na revista. Há uma contradição evidente entre o discurso das histórias em quadrinhos e as representações visuais. Nela.

Apesar de a revista abrir espaço para a representação da mulher que ambiciona maior liberdade. vence a mulher em uma competição. Quando Nelson pergunta para Edith o porquê de não assumir que é tão feminina quanto qualquer outra mulher. bem ao gosto de um “feminismo radical”.. O homem. Nesses discursos.. 36).. A possibilidade de se apaixonar e ao mesmo tempo manter os sonhos profissionais é algo impossível para Edith. 35). contudo. p. ao ser desafiado. e quando Edith.. e não a razão. ou seja..” (v. Isso. A conquista amorosa entre Edith e seu pretendente Nelson se dá como uma guerra entre os sexos.. deve retornar ao padrão comportamental da “esposa carinhosa” ditado pela doxa. visto que a revista é de 1948.. Outro ponto importante é a posição assumida pela protagonista diante dos estudos e da carreira profissional. inimiga dos homens (v.. até o dia em que travei relações com o Nelson. 3. se apaixona de verdade. e “.esposa carinhosa! Não. Isso era o que eu pensava. a mulher fala a partir de seus próprios interesses e desejos. A moral da história de Edith é explicitamente colocada: as mulheres que almejam a emancipação e desejam superar os homens ou apenas se igualar a eles estão equivocadas.. 3.. eu me recuso a ser domesticada! Vou formar-me e aposto ser tão bem sucedida como qualquer marmanjo” (v.. 36). podemos citar: “Não há razões para que os homens sejam considerados superiores às mulheres” (v. 3.. 38). a mulher emancipada. p. esta deve reconhecer que ser livre é um equívoco. É o amor que dita o modo de pensar das mulheres... época em que a inserção da mulher brasileira no mercado de trabalho ainda era tímida. p. 36). A protagonista apresenta uma lógica que se enquadra dentro de um pensamento feminista. o que não está em conformidade com o senso comum. 3. p. “É intolerável ouvir as idiotices que jorram sem cessar dos lábios dos que dizem pertencer ao ‘sexo forte’. podemos evidenciar o desejo feminino pela igualdade entre os sexos. Dentre algumas passagens. 3. ela responde: Sou feminina sim! Mas quero a minha liberdade! Não desejo transformar-me em . só então reconheci a loucura de ser. parece não abalar a convicção de Edith de que ela não precisa do apoio masculino para ser feliz: “Não sou dessas que precisam se apoiar no peito forte do primeiro homem que aparece” (v. eu conhecia de sobra o sexo masculino e saberia derrotar todos os pretendentes que me abordassem com pieguices. p. pois amar representa resignar-se ao lugar passivo e inútil da esposa.

. A culpa é minha! Oh Nelson. Nelson sofre um acidente.. A feminilidade na história muitas vezes se opõe drasticamente à liberdade. expressão dos anseios da mulher em relação à própria vida. ao ser colocada em questão. 3. a protagonista reafirma a ideia de que o certo para a mulher é amar. o que a torna novamente um ser delicado e amável. sujeitar-se ao homem e ambicionar o casamento. p. assim. fui eu quem fiz você cair. sim. a redenção da mulher significa a renúncia da brutalidade associada ao desejo de autoemancipação. portanto. Percebe-se. portanto. mas também ocupar o lugar masculino. Edith acredita que somente humilhando Nelson deixará de amá-lo e. não coexistir. ou seja.. 3. Essa oposição reforça o ideário de que a mulher tem que escolher entre ser esposa (submissa) e amar ou ser livre (sozinha) e ter uma profissão. O feminismo de Edith é. que é uma “teimosia” as mulheres lutarem por igualdade. já que ser feminina. a temática feminista. o que faz com que ela se sinta culpada. O feminismo de Edith é representado como algo desagregador. é destituída de feminilidade. é necessário que o homem venha a ser o seu amparo. precisa ser “contido”. implica em sujeitar-se. Edith se apaixona pelo único homem capaz de superá-la. Ao assumir que tem “sido uma boba”. Após assumir que está apaixonada. A mulher feminista. mesmo submetendo-se. dominar... e. e. p. Assim. por isso. Edith decide declarar seu amor: “Foi por minha causa. mantenha sua dignidade e justifique sua escolha.. No entanto.. o seu “peito forte”.. 41). para Edith. Este se expressa simplesmente como “competição” em relação ao homem (e como tal fadado desde sempre ao fracasso) e resulta da simples repulsa ao sexo masculino. nesse discurso. representado na revista de forma caricatural. indica sua pertinência no debate social da época. que pretende desestabilizar a ordem e o discurso vigentes. minha teimosia quase matou o único homem a quem eu poderia amar! Tenho sido uma boba. propõe-lhe um desafio. e. A ideia subjacente é de que a mulher emancipada é rebelde e incapaz de amar. Pontos que temos salientado são reforçados: mais uma vez a mulher é ingênua e demonstra uma fraqueza de julgamento inerente à sua condição. Nessa história.” (v. não sendo. 39). esta seria uma das condições para que a mulher. deseja não apenas se opor aos homens. como aponta Bourdieu (1999). prenunciando os desdobramentos que se dariam nos anos .capacho de qualquer sujeitinho que se julgue superior! Quero competir com os homens e derrotá-los em tudo que for considerado tipicamente masculino (v. nessa versão.

típicas do ideário patriarcal. tal como se dá com Eva na narrativa bíblica. Dentro destas. pelo qual. foi possível perceber um padrão de construção tanto do masculino quanto do feminino. os problemas de relacionamento se davam devido a uma variedade de questões (econômicas. O casamento libertava a mulher do jugo patriarcal da família. só pode ser encontrada no homem. em grande parte das vezes. conquistador por natureza. automóveis. elas circulam em todos os lugares. um futuro.). 83). precisa agir como salvador da moral feminina ou o seu pilar. com isso. porque elas têm nele particular interesse: além do fato de prometer-lhes liberá-las da dominação masculina. raciais etc. contribuindo para inseri-la ou legitimar seu lugar na vida em sociedade ou no âmbito público. é representado como viril. por exemplo. a liberdade feminina. casa). ele lhes oferece. em sua forma ideal. a ambição pelo casamento – sendo que este delinearia toda a sua vida futura e seus sonhos – e a necessidade de serem “domadas” pelo macho para compreender a vida e não se desvirtuarem. encontrar algum tipo de representação homossexual. belo. No entanto. e que. tanto em sua forma mais comum. a ganância (só pensam em dinheiro. 6 Conclusões A análise das histórias revela que as representações de gênero na revista O Idílio são muito bem delineadas e seguem a dicotomia Homem vs Mulher. apesar de um aparente ganho. Seguindo essa lógica. uma via. é sem dúvida. como em suas formas extraordinárias. a dominação . Outros “atributos” femininos recorrentes na revista seriam a ingenuidade. O fim último para a mulher é o casamento. nas sociedades masculinas. às vezes a única de ascensão social (p. como o casamento. de acordo com a revista analisada. dando-lhe. uma vez que esta fugiria à divisão tradicional dos sexos que rege as construções de gênero expostas nas histórias analisadas. o âmbito privado. que o homem lhe proporciona.1960 e 1970. dotado de um comportamento do tipo caçador. O primeiro. Bourdieu (1999) ressalta a importância do romance e do casamento para as mulheres quando aponta que se as mulheres se mostram particularmente inclinadas ao amor romântico ou romanesco. por um lado. Seria impensável. Como ressaltam diversos comentários feitos na revista. Às mulheres resta uma ideia historicamente construída de fragilidade e fraqueza moral.

a inveja e a . ao propor modelos de conduta principalmente para a mulher. mas que é capaz de invadir também o privado. O ciúme. as provenientes de classes sociais desprivilegiadas e até mesmo aquelas já inseridas na instituição matrimonial. no qual são apresentadas as condutas e os comportamentos que deveriam ser adotados pelos jovens no que concerne ao amor e aos relacionamentos. e por explorar uma temática romântica. Como a mulher é geralmente retratada em sua fraqueza moral (inocência. como forma de regular especialmente a expressão da heterossexualidade. como se o enlace entre os amantes não fosse um começo ou processo. impetuosa. mas um fim a ser buscado. Nesse esquema romântico. o que se denomina heteronormatividade. Sendo a revista O Idílio não apenas um produto cultural que se insere na esfera pública. A revista O Idílio. para a troca de cartas. o “dispositivo da sexualidade” se faz sentir no discurso da revista e nas suas representações visuais que. Nela. apesar de ter a proposta de inserir a mulher e seus interesses no ambiente público. Tal como propõe Michel Foucault (2007). ficam de fora as mulheres de cor. abrindo espaço. uma vez que contrasta com o intuito moralizante da revista. não se enfoca a mulher mãe. que ambicionam ser boas esposas e donas-de-casa – vigora. A revista não apenas parte do pressuposto de que o casamento é o melhor prêmio de vida a ser obtido por uma mulher. A ênfase simultânea na beleza feminina e na sensualidade nos parece paradoxal. A imagem prevalente da mulher é aquela que está disponível para o jogo amoroso (solteira). por exemplo. o coloca em discussão por meio dos vários enredos e a visualidade construída. caminha contra a singularidade de cada mulher. mas também reforça essa ideia com desfechos de cunho romântico. portanto. pelo que se pode perceber dos desfechos das histórias. ela apresenta a linguagem da conquista amorosa e elementos de iniciação sexual. em História da sexualidade . Assim.do homem se fazia agora presente na figura do marido e das novas responsabilidades no lar. inexperiência). supõe-se que sua sexualidade é potencialmente desordenada. a revista claramente tem pretensões de servir como um manual da moral. muito mais do que reprimir o sexo. o que temos são modelos de garotas bem comportadas. seu envolvimento e responsabilidade com os filhos e a família estão ausentes. daí a preocupação presente na revista em fazer desta o principal objeto de sua atenção e controle. encontros. tampouco há conflitos conjugais. as velhas. tem comportamento heterossexual e não sofre outros processos de marginalização que não aqueles relacionados ao sexo. No entanto.

1-5. portanto. 4 Segmento de uma história em quadrinhos. .. set. p. apresentando contos. que é constituída de forma variada. onde as pulp fiction magazines eram extremamente populares desde a década de 1920.. Agostini. 1953). mas principalmente para percebermos que muitas dessas representações e discursos delas provenientes se encontram enraizados em nossa sociedade e podem explicar certos arranjos que. 51). sob o manto romântico. p. E especialmente se percebe no discurso da revista o temor diante da mulher emancipada.. nas suas ilustrações e charges. Rio de Janeiro: Editora Brasil-América. acaba reforçando. grossas e baratas. impressam [sic] em tom marrom escuro. Muitos quadrinhos publicados no Brasil durante as décadas de 1950/1960 se assemelham às pulps. seção destinada à troca de cartas entre os leitores etc. as pulps eram revistas “. usualmente constituído de uma única faixa horizontal contendo três ou mais quadros (Ferreira. 1948-1949.. A mulher emancipada é. foi o criador da primeira manifestação do que se poderia chamar “quadrinhos brasileiros”. Notas [1] REVISTA O IDÍLIO.competitividade entre as mulheres surgem como “coisas de mulher” que a revista. Os enredos eram cheios de brutamontes. O termo pulp é pouco conhecido no Brasil. orientais sinistros e namoradas seminuas de gângsteres. 3 Artista italiano radicado no Brasil desde 1861. n. pintadas para inspirar terror. Deve-se destacar que Agostini foi renomado mundialmente por sua atuação na nona arte. um ser ainda mais fraco e “infeliz” ao negar o modelo de dependência emocional e submissão proposto pelas representações das diversas heroínas das histórias. excitação. As capas eram coloridas. 1990. cartas de leitores em busca de conselhos – na maioria das vezes amorosos –. 2004. objeto desta pesquisa. ao reproduzir. 18-19). 2 De acordo com Gerard Jones (2006). constroem ainda hoje com violência o gênero feminino. A definição poderia ser aplicada ao caso da revista O Idílio. vista como ser despido de sua natural “feminilidade” e uma possível ameaça à ordem social heteronormativa. na época do Império e nos primeiros anos da República (Goidanich. A importância do resgate e análise dessas representações contribui não somente para a compreensão do período em que foram produzidas. foi muito popular nos Estados Unidos. a fev. com centenas de páginas de ficção em cada número. desejo e curiosidade. no entanto. histórias em quadrinhos.” (p. Apesar de estrangeiro. soube capturar com perfeição o espírito e a brasilidade tropical do nosso país.

1999. consultar os sites: http://kirbymuseum. parte do livro de Fernando Novais História da vida privada no Brasil. Michel. 7). foi possível realizar a comparação da história publicada nos Estados Unidos e a publicada no Brasil. FERREIRA. O maior syndicate americano foi o King Features Syndicate. Carla. matérias e notícias para jornais e revistas. 2009. Ebal: fábrica de quadrinhos: guia do colecionador. Curitiba: Positivo. 2004. as referências à revista O Idílio conterão apenas o número do volume e a página. Foi possível identificar que quase todo o conteúdo da revista O Idílio é derivado da revista de Simon e Kirby. Para uma visualização das capas digitalizadas. BOURDIEU. mas a parte citada no texto figura nas páginas 639-640. No entanto. 2006. 6 Um esclarecimento sobre a indicação de página dessa citação: ela se encontra em uma nota de fim no texto de Maluf e Mott (1998). onde se encontra a nota de fim em questão. História da sexualidade . Dessa forma. 7 Os sindicatos. 3. Virando as páginas. A dominação masculina. Referências AZEVEDO. . ed. publicado entre as páginas 367 e 422. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. História do amor no Brasil. 3 v. Por isso. São Paulo: Contexto. as notas dos capítulos desse livro estão divididas por artigo e reunidas no final da obra. 2007. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.marvelmasterworks. ou KFS” (p. 9 Doravante. Pierre. revendo as mulheres: revistas femininas e relações homemmulher 1945-1964.5 A revista em questão é intitulada Young Romance e foi publicada em 1947. Aurélio Buarque de Holanda. Acesso em: 19 nov. 1996. 2007. na referência ao artigo consta a indicação de página inicial 367 e página final 422. de acordo com Ezequiel de Azevedo (2007). São Paulo: Via Lettera. FOUCAULT. São Paulo: Graal. 8 As histórias que pudemos identificar tiveram suas capas digitalizadas e disponibilizadas na internet por colecionadores ou sites oficiais dos artistas em questão. percebendo que estas são traduções literais das primeiras.com/resources/kirby_chronology.html. BASSANEZI. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. DEL PRIORE.org/blogs/simonandkirby/archives/category/comic-checklists/young-romance e http://www. Mary. são “órgãos de distribuição de quadrinhos. Ezequiel de.

3. OLIVEIRA. São Paulo: Ed. Mulher ao quadrado: as representações femininas nos quadrinhos norte-americanos: permanências e ressonâncias (1895-1990). 2004. p. n. REVISTA O IDÍLIO. p. In: BURKE. Prefácio a Gender and politics of history. Marina. Florianópolis: CFH/CCE/UFSC. Stuart. a fev. p. Estudos Feministas. p. 2003. Campinas: UNICAMP. Interpretando o gênero. 2.). 9-41. Almanaque dos quadrinhos: 100 anos de uma mídia popular. 1127. Homens do amanhã. BRAGA. A guerra dos gibis: a formação do mercado editorial brasileiro e a censura aos quadrinhos. Carlos. PISCITELLI. 1994. Rio de Janeiro: Brasil-América. 176-198. ______. Tradução Magda Lopes. Maria Lúcia. set. SILVA JUNIOR. São Paulo: Companhia das Letras. Org. ______. 1998. da UnB/ Finatec. v. Linda. 63-95. 1990. Adriana. 3. p. São Paulo: Conrad Editora do Brasil. 2007. São Paulo: Companhia das Letras. 1-5. História da vida privada no Brasil. História das mulheres. Florianópolis: Mulheres. 1948-1949. HALL. Rio de Janeiro: Ediouro. Belo Horizonte: Argumentun. 1933-64. Liv Sovik. Da Diáspora: identidades e mediações culturais. Fernando (Dir. Peter (Org. MOTT. PATATI. 1992. da UNESP. SCOTT. Joan. p. Recônditos do mundo feminino. Hiron Cardoso. MAGALDI. MALUF. In: NOVAIS. Enciclopédia dos quadrinhos.). Selma Regina Nunes. Dados dos autores: *Adelaine LaGuardia . Reflexões em torno do gênero e feminismo.GOIDANICH. 2006. n. 2000. Gerard. 2007. Brasília: Ed. 2006. JONES. n. A escrita da história: novas perspectivas. Ana Maria Bandeira de Mello. da UFMG. 2004. Cadernos Pagu. 367-422. 43-66. Porto Alegre: L&PM. Gonçalo. v. Flávio. Lições de casa: discursos pedagógicos destinados à família no Brasil. Poéticas e políticas feministas . NICHOLSON. Belo Horizonte: Ed. 8.

Artes e Cultura Campus Dom Bosco Praça Dom Helvécio.edu. Professora Adjunta – DELAC/UFSJ – e Professora do Mestrado em Letras: Teoria Literária e Crítica da Cultura – PROMEL/UFSJ. Endereço para contato: Universidade Federal de São João del-Rei Departamento de Letras.com Data de recebimento: 29 maio 2010 Data de aprovação: 30 julho 2010 . Endereço para contato: Universidade Federal de São João del-Rei Programa de Mestrado em Letras: Teoria Literária e Crítica da Cultura Campus Dom Bosco Praça Dom Helvécio. Mestrando em Letras e Bolsista de Iniciação Científica – CNPq/UFSJ. nº 74 36301-160 São João del-Rei/MG – Brasil Endereço eletrônico: adelaine@ufsj.br **Renan Reis Fonseca Graduado em História.Doutora em Literatura Comparada. nº 74 36301-160 São João del-Rei/MG – Brasil Endereço eletrônico: renanfonseca87@gmail.

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