Por Nathália Ronfini de Almeida Lima

Resenha sobre o filme “Hiroshima, meu amor”
“Hirosima, meu amor” é um filme a Nouvelle vague, vindo de uma adaptação do roteiro de Marguerite Duras pelo diretor Alain Resnais, lançado em 1959, no festival de Cannes. Como título sugere, essa é uma história de amor que se passa em Hiroshima. Seus amantes são uma atriz francesa (Emmanuelle Riva) e um arquiteto japonês (Eiji Okada), que vivem um intenso envolvimento amoroso durante dois dias, fundindo o público com o privado, usando este breve, porém intenso, caso de amor como partida (e de chagada) para memórias da catástrofe da bomba atômica em Hirosima e da dominação nazista na Segunda Guerra Mundial à Nevers. A película começa com um casal abraçado, com corpos tão fundidos que é quase impossível entender os limites entre um e outro. Algo que parece cinzas (talvez um simbolismo sobre as mortes provocadas pela bomba) reluz sob à pela desse unidade que formam. O homem abre o diálogo, em francês. Ele diz que a mulher não viu nada em Hiroshima. Ela diz que viu tudo, o hospital, quatro vezes o museu (memorial da tragédia da bomba atômica), as fotos, as peles humanas, o ferro retorcido como carne, as pedras queimadas, as cabeleiras caídas e sentiu o calor de 10 mil graus, o calor do sol, na Praça da Paz, acompanhou os noticiários e todo o sofrimento do povo de Hiroshima. Mesmo assim, ele responde, docemente, que ela nada viu. Enquanto ocorre o diálogo, imagens verídicas são mescladas com imagens fictícias, numa linguagem (aparentemente) documental. Esse bloco de cenas mostra o descolamento da dinâmica “imagemmovimento” para a dinâmica “imagem-tempo”, em que passado e presente se alternam e se entrelaçam, sem que haja uma relação clara de qual é subordinado de qual. “Hiroshima, meu amor” é uma dos marcos da mudança desse paradigma, no cinema. Em muitos momentos, as personagens parecem não saber exatamente o que fazer e para onde ir, e os vazios aparecem e parecem trazer significado. O expectador, por sua vez, não sabe o que esperar e

o olhar, antes habituado perseguir o desenrolar convidado a um estado de um não saber o que

a seguir as consequências de imagem ação, a de uma trama que se resolve no final, é de estranhamento, de paralisia momentânea, fazer ou o que seguir, e é nesse espaço que

2 Disponível em: http://www.ufba. E nesse momento em que o povo aparece.com/Hiroshima. Acesso em: 01/03/2013. Por ser japonês.br/com112_2001_2/nouvellevague/hiroshima. apenas como figurante da película fictícia que estava sendo gravada em “Hiroshima. cidade natal dela. 3 Disponível em: http://www. “Eiji Okada não fala nada mais do que um analista poderia dizer. Acesso em: 01/03/2013. mas não a vemos atuando. com se ela estivesse numa sessão de análise.html. e deixa a mulher falar e soluçar em prantos. . 2005. (FERNANDES DINIS. a lógica do “imagem-tempo” continua se espraiando e fica novamente marcante quando a mulher relembra o seu primeiro amor.br/ojs2/index. Junto com o jogo de ausências e presenças.htm. neste caso. meu amor”. conclui: `e com você. aparece o passado afetando o presente. O movimento se dá pelas ausências e presenças da mulher. o homem ouve mais do que fala. p. o papel de enfermeira. diz a voz feminina de Hiroshima. na realidade. e o homem que vai atrás de sua amante e que deseja prolongar essa história. Dentro da gravação dessas cenas do filme dentro do filme. está presente a figura metalinguística: um filme sobre a paz que.c3sl. então. que vaga por Hiroshima. como leite fervendo que trasborda da panela. Mas. E depois de um vazio. Nela. é rodo em Hiroshima.ufpr. na ficção.facom. mas aparecem deslocadas e diluídas naquela cena dentro de uma cena. Ele pergunta questões-chave. Acesso em: 01/03/2013. eu lutei para manter uma memória inconsolável´. Outra dualidade que se faz presente no filme e na obra de Resnais é a memória versus o esquecimento.php/educar/article/viewArticle/4729. a dor do amor perdido e a tristeza pela lembrança da família que a esconde por vergonha desse envolvimento da filha com um inimigo de guerra voltam a ser perenes. através do tempo. Nesse ponto da história (principalmente). Diferentes dos filmes de cinema 1 Disponível em: http://ojs.escrevercinema. 2002) 2 . para diluir tanta intensidade. São pessoas que podem ter sofrido com a bomba. meu amor. vivido com um soldado nazista em Nevers. A mulher faz. ele é apenas uma espécie de caixa de ressonância.74)1 Ao longo do filme. eu esquecerei´”3. talvez para. A personagem feminina diz: “`com você. ele deve representar a consciência do mundo” (CRUZ & MAIA. são desfilados os estandartes do horror e das chagas abertas pela bomba atômica na população da cidade. Dentro do filme.irrompe um novo espaço-tempo para o pensamento e um novo exercício de subjetivação. como uma espécie de psicanalista.

Ao final do filme (e quem não gosta de spoilers. cada uma a seu modo e intensidade. que pare de ler por aqui). como quem se apresenta: ele. Hiroshima. Disponível em: http://ojs. na Segunda Guerra Mundial e nos pós guerra. Se essa é uma trama sobre um tema público ou privado.facom. Educação.político clássico. Leonardo. Uma questão que pode ser levantada sobre o filme e se essa é uma história de amor tendo como pano de fundo predominantemente Hiroshima. 01/03/2013. Acesso em: 01/03/2013.br/com112_2001_2/nouvellevague/hiroshima.php/educar/article/viewArticle/4729.html.escrevercinema.htm. esse povo não é apresentado como a possível fonte de mudança por meio da revolução. Crítica. . Acesso em: 01/03/2013. Curitiba: Sociedade Brasileira de Zootecnia / Educar em Revista.ufba. 26. O primeiro Resnais.c3sl.ufpr. Talvez e encanto do filme seja conseguir tratar dos dois aspectos. cinema e alteridade. fazendo com que o público se sirva do privado e a história particular seja afetada por questões globais. Acesso em CRUZ. e secundariamente Nevers. ou se o enredo vivido pelos amantes é apenas um pretexto para falar dos horrores da guerra. pela guerra. Qualquer mulher e qualquer homem dessas cidades poderiam ter sido eles. Paula e MAIA. finalmente homem e mulher dizem seus nomes. pp. 2005. ela Nevers. 67-79.br/ojs2/index. num. Talvez todos os homens e mulheres tenham sido. Nilson. ESCREVER CINAMA. Disponível em: http://www. Duas cidades separadas por milhares de quilômetros e afetadas. no pós bomba atômica.com/Hiroshima. Referências Bibliográficas FERNANDES DINIS. Disponível em: http://www.

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