Introdução ao LIVRO DE JÓ - Parte I

"O homem é confortado, sobretudo, por paradoxos" G.K. Chesterton O livro de Jó é, dentre os livros do Antigo Testamento, tanto um enigma filosófico quanto um enigma histórico. É o enigma filosófico que nos interessa numa introdução como esta; assim, dispensemos umas poucas palavras numa explicação geral ou num alerta a respeito do aspecto histórico. Há muito sobrevivem controvérsias sobre que partes desse épico pertencem ao esquema original e quais partes são interpolações de datas muito posteriores. Os doutores discordam, como é do ofício dos doutores; mas, no geral, a tendência da investigação tem sido sempre na direção de sustentar que as partes interpoladas, caso o sejam, são o prólogo e o epílogo, que estão em prosa, e possivelmente o discurso do jovem que faz uma apologia ao final. Não sou competente para decidir tais questões. Qualquer que seja a decisão a que o leitor chegue a respeito delas, há uma verdade geral a ser lembrada concernente a isso. Quando você lida com uma criação artística antiga, não suponha que haja algo negativo no fato de que ela tenha crescido gradualmente. O livro de Jó pode ter crescido gradualmente exatamente como a Abadia de Westminster cresceu gradualmente. As pessoas que escreviam antigas poesias populares, como as pessoas que construíram a Abadia de Westminster, não davam tanta importância à data real ou ao real autor de sua criação, importância esta que é uma criação do quase insano individualismo dos tempos modernos. Podemos colocar de lado o caso de Jó, como um caso cheio de complicações religiosas, e analisar um outro, digamos o caso da Ilíada. Muitos têm afirmado a fórmula característica do moderno ceticismo, que Homero não foi escrito por Homero, mas por outra pessoa com o mesmo nome. Da mesma forma, tem sido afirmado que Moisés não foi Moisés, mas outra pessoa chamada Moisés. Mas a coisa a ser realmente lembrada na questão da Ilíada é que se outras pessoas, de fato, interpolaram passagens da obra, a coisa não criou o mesmo sentimento de choque que teria criado tal procedimento nestes tempos individualistas. A criação de um épico tribal era, de certo modo, considerado um trabalho tribal, como a construção de um templo tribal. Acredite, se lhe apetecer, que o prólogo e o epílogo de Jó e o discurso de Eliú são coisas inseridas depois da composição do trabalho original. Mas não suponha que tais inserções tenham o caráter espúrio e óbvio que teriam quaisquer inserções num livro moderno e individualista. Não considere as inserções como consideraria um capítulo de George Meredith1 que você mais tarde descobriu não ser escrito por George Mederith, ou meia cena de Ibsen que você descobriu ser astuciosamente inserida por William Archer 2. Lembre-se que este velho mundo que produziu estes velhos poemas como Ilíada e Jó sempre mantiveram a tradição do que estavam fazendo. Um homem sempre pode deixar um poema para seu filho para ser terminado, como se ele mesmo fosse terminá-lo, como se um homem deixasse um campo para seu filho, para ser colhido como ele o colheria. O que é chamado de unidade homérica pode ser fato ou não. A Ilíada poderia ser escrita por um homem só. Mas deixe-nos lembrar que havia mais unidade naqueles tempos em cem homens do que há unidade agora em um homem. Bem como uma cidade era como um homem. Agora um homem é como uma cidade em guerra civil. Sem entrar nas questões de unidade, como entendidas pelos acadêmicos, podemos falar do enigma acadêmico de que o livro tenha unidade, no sentido de que todas as grandes criações tradicionais tenham unidade; no sentido de que a Catedral de Canterbury tenha unidade. E o mesmo é amplamente verdadeiro a respeito do que chamei de enigma
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Foi um escritor e poeta, nascido em Portsmouth em 1828, faleceu em Box Hill em 1909. Seus escritos eram em grande parte comédias. Crítico literário escocês, nascido em 1856, faleceu em 1924. Traduziu várias obras de Ibsen para o inglês e contribuiu para sua divulgação.

como os gênios. Ele usa a força de um herói como usa a de um Mamute – com nenhum respeito particular ao Mamute. Mas a ideia do Antigo Testamento era muito mais o que se poderia chamar ideia do senso comum. No entanto. Ele diria somente: “Quanto tempo o herói de Shakespeare levou para matar seu inimigo”. nessas escrituras inumeráveis exemplos de um tipo de humor áspero. que ele não tem consistência e objetivo. Estão equivocados os que sustentam que o Antigo Testamento é uma simples coleção de livros. que na longa corrida faz e refaz impérios e o mundo. não somente Deus é mais secreto que o homem. Tentar entender o Antigo Testamento sem compreender esta mesma ideia seria tão absurdo quanto estudar uma peça de Shakespeare sem dar-se conta de que o autor delas não tinha objeto filosófico de modo algum. “Ele é o que está . Deus não é somente o principal personagem do Antigo Testamento. Isso é uma mais profunda. e poderosa individualidade. que é a ideia de todo homem ser. Quer o resultado seja alcançado por uma verdade espiritual sobrenatural. mas que Ele significa mais. eles não entendem esta mesma ideia. 40:14). Como um leitor não imaginaria de modo algum que a procrastinação de Hamlet foi da parte da intenção do poeta. eles imaginam que Jacó estava sendo elevado como um tipo de santo. mais ousada. todos os filhos da carne são sombras. pois o Senhor é um homem de guerra. felizmente. Os heróis do Antigo Testamento não são os filhos de Deus. os livros do Antigo Testamento têm uma muito perceptível unidade. homens bons. e nenhum homem entre os povos estava comigo” (Is. Para Ele. 63:3). agudas emoções. Esta é a chave principal e característica das escrituras hebraicas como um todo. mas os escravos de Deus. Eles estão voltando a ler nas escrituras pré-cristãs uma pura ideia cristã . Supõe-se que os santos da cristandade são como Deus. Isto é como se um homem fosse ler a história de Hamlet. temos somente incerteza. Continuamente a nota é tocada. e mais interessante ideia do que a de um velho judeu. os instrumentos de um poder maior. Eu não posso compreender como é que tantos céticos simplistas leram estas histórias. que mundialmente sucesso é mundialmente sucesso. e supuseram que o homem que escreveu isso (seja quem for) não sabia que Jacó era um vagabundo tão bom quanto nós somos. Ele usa Josué como um machado ou Moisés como uma régua. que comparado a Ele. como se fossem pequenas estatuetas Dele. gigantescos e terríveis escravos. a ideia de que os instrumentos de comando de Deus são. O senso de humor primordial do homem não muda tanto assim. comparados com Sua realidade. “Eu pisei sozinho no lagar. Esta não é a atmosfera de todo o Antigo Testamento. infelizmente. como aquelas dos animais. como a fraude de Jacó. A idéia central de grande parte do Antigo Testamento pode ser chamada de idéia da solidão de Deus. Sansão é somente uma espada e Isaias uma trombeta. e neste caso eu não penso que estejam um pouco surpresos. Príncipe da Dinamarca. todas as outras vontades são pesadas e automáticas. Há. pensando todo o tempo que ele estava lendo o que realmente pretendeu ser a história de um velho príncipe pirata dinamarquês. veneradores de Bíblia. Então diga que os arrasadores de Bíblia sempre são. como a maioria dos céticos modernos. Há um sentido real em relação ao qual o livro de Jó se diferencia da maioria dos livros incluídos no cânon do Antigo Testamento. no fundo. e que Jeová usa estas coisas para Seu último propósito. que Ele sabe mais o que Ele está fazendo. Esta é a ideia de que a inocência tem sobre isso algo de terrível. por exemplo. “Com quem tomou Ele conselho” (Is.filosófico. a principal característica permanece: o sentimento de que não somente Deus é mais forte que o homem. que são escravos de Aladdim. ou meramente por uma engenhosa seleção posterior. Eles não entendem o tom especial e a intenção do Antigo Testamento. Deus é propriamente o único personagem do Antigo Testamento. Aqueles. que reclamam de atrocidades e armadilhas dos juízes e profetas de Israel realmente tiveram a noção em suas cabeças de que nada se podia fazer sobre o assunto. muito particularmente. O herói do Antigo Testamento é comparável a Deus assim como um martelo é comparável ao carpinteiro. de fato. irracionalidade e a vadiagem das bestas que perecem. que força é força. Comparado com sua clareza de propósitos. Mas. quer por uma tradição nacional estável. como Ele usa forças naturais ou elementos físicos. Cristãos. que não são desejáveis nas grandes obras primitivas em prosa ou em poesia. estarão equivocados aqueles que insistem na falta completa de unidade. que astúcia é astúcia. Mas estes céticos simplistas são. aqui novamente. Todos os patriarcas e profetas são meramente seus instrumentos ou armas. Eles também são cristãos. Eles imaginam que os patriarcas deveriam ser significados como paternais.a ideia de santos.

deixemo-Lo quebrar Seus instrumentos. Se desejar ser feliz e estar bem preparado para sê-lo for ser otimista. seus “amigos” sendo. Se os modernos estivessem escrevendo o livro. e não meramente o que parece ser. Da mesma forma. Na verdade. a filosofia ou é eterna ou não é filosofia. podemos falar de otimistas oficiais. Um homem pode tanto possuir uma religião privada quanto pode possuir um sol ou uma lua privados. mas porque realmente deseja que ele se justifique. Podemos quase dizer que ele é o mais importante dos livros modernos. o Antigo Testamento positivamente regozija-se na obliteração do homem em comparação com o propósito divino. nenhuma das duas frases cobre a matéria. Numa refinada e famosa blasfêmia ele diz. uma filosofia cósmica é construída para satisfazer o cosmos. o homem não tem tenacidade suficiente para assegurar sua continuidade. Ele deseja que o universo se justifique a si mesmo. qual é o propósito de Deus? Ele vale mesmo o sacrifício de nossa miserável humanidade? É claro que é fácil anular nossa própria e desprezível vontade por uma vontade que seja mais forte e mais gentil. Mas o que Ele está fazendo e para que estamos sendo quebrados?” É por causa desta questão que temos de atacar.1] Nunca ocorreu realmente a ele que pudesse ser um livro ruim. encontraríamos provavelmente Jó e seus “amigos” dando-se muito bem por meio da simples operação de considerar suas diferenças apenas como questões de temperamento. o enigma do livro de Jó. “otimistas” e Jó sendo. e os habitantes dela são como gafanhotos” (Is. é para fazê-los falar. mas não é para silenciá-los. ele pensa que Deus poderia convencê-lo. Pois se a palavra “pessimista” significa alguma coisa. que seu inimigo possui algo que ele não entende. em nenhum sentido. Quase podemos afirmar o seguinte. Uma filosofia cósmica não é construída para satisfazer um homem. Se digo que posso estar enganado. De novo. Mas é ela maior e mais gentil? Deixemos Deus usar Seus instrumentos. por natureza. ao mesmo tempo. mas ele nunca duvida. A primeira das belezas intelectuais do livro de Jó é que ele se preocupa totalmente com esse desejo de conhecer a realidade. A importância atual do livro de Jó não pode ser expressa adequadamente mesmo se se disser que ele é o mais interessante dentre os livros antigos. que meu adversário escreva um livro!” (31:35). E eles estariam muito confortáveis.sentado sobre a redondeza da terra. se a . os “amigos” de Jó. não porque ele deseja flagrá-lo. Ele protesta com seu Criador porque ele tem orgulho de seu Criador. Em todos os outros lugares. inutilmente se desvela a sentinela” (Sl. Ele fala do Onipotente até mesmo como inimigo. como acontece freqüentemente. o desejo de conhecer o que é. Ele o faz com o mesmo espírito com que uma esposa exige uma explicação do seu marido a quem ela realmente respeita. de forma depressiva. Seu caso é suficiente para se refutar a absurdidade moderna se considerar tudo uma questão de temperamento físico. “pessimista”. “Ó. isto é. como um enigma filosófico. O livro de Jó permanece solitário porque o livro de Jó pergunta definitivamente: “Mas. então. Se o Senhor não guardar a cidade. por algum tempo pelo menos. Jó é um otimista. esta coisa é incerta e vazia. 127:1). Jó não vê a vida. ele é um otimista exasperado. O livro insiste tanto na personalidade de Deus que ele quase insiste na impessoalidade do homem. em vão trabalham os que a edificam. Ele exige uma explicação de Deus. digo que isso não é minha opinião. 40:22). esta é minha filosofia e estou satisfeito com ela” – o hábito de dizer isso é meramente uma fraqueza mental. mas posso estar enganado” é inteiramente irracional. concordando com o que é obviamente uma inverdade. com o mesmo espírito em que [John] Hampden demandaria uma explicação de Carlos I. Ele está ansioso para ser convencido. A menos que esse gigantesco cérebro cósmico tenha concebido alguma coisa. “Se o Senhor não edificar a casa. por natureza. Jó é um otimista. antigas e modernas. no íntimo do coração. pois a religião humana fundamental e a irreligião humana fundamental são ambas. O hábito moderno de dizer “Todo homem tem uma filosofia diferente. então enfaticamente Jó não é pessimista. O hábito moderno de dizer “Isso é minha opinião. podemos dizer novamente que se a palavra otimista significa algo (o que duvido). ele é um ultrajado e insultado otimista. Ele é um otimista perplexo. Em resumo. mas ele não faz isso. Ele abala os pilares do mundo e ataca insanamente os céus. em absoluto. ele chicoteia as estrela.

é o primeiro fato sobre o discurso. a duvidar um pouco mais. fez Deus aceitar um tipo de igualdade na controvérsia com seus acusadores. o que Sócrates fez. ao final do poema. Nesse drama de ceticismo. uma nota repentina e esplêndida é tocada. Ele está disposto a ser processado. O poeta. por alguma estranha iluminação. Jesus Cristo utilizou-o quando ele lembrou aos saduceus. Sócrates. Num toque verdadeiramente inspirado. usado algumas vezes por mentes brilhantes e algumas vezes por mentes medíocres. Ele faz o que todas as grandes vozes defensoras da religião sempre fizeram. O correto é sugeri-lo que continue a duvidar. o próprio Deus toma o papel de cético. E Ele vai ainda mais longe na comparação com o processo legal. Esse método é a razão e a raiz do fato de que homens que têm fé têm também dúvida filosófica. ele pode formular questões que lançarão ao chão e achatarão qualquer questionador humano. Ele demanda que Lhe seja permitido interrogar a testemunha de acusação. desde então. até que finalmente. como se houvesse alguma coisa confortadora num número de coisas sórdidas se adequando umas às outras. a duvidar todo dia de coisas novas e mais amplas no universo. digo. “Cinge teus lombos como um homem. quando ele alertou que argumentos racionalistas poderiam ser usados tanto contra religiões vagas quanto contra religiões doutrinárias. a refinada inspiração por meio da qual Deus se apresenta no final. mesmo assim. mas para propô-los. . Eles continuarão a dizer que tudo no universo se adequa a tudo o mais. Um poeta mais trivial teria feito Deus participar. Seria um exagero chamá-los de evolucionistas. O outro grande fato que. Ele representa todos os céticos tomados do mais alto ceticismo. O Ser Eterno adota uma enorme e sarcástica humildade. Literalmente. Todos os seres humanos na estória. No desmoronamento da Teologia Cristã no século XVIII. fizeram perguntas a Deus. por exemplo. utilizava-o quando ele mostrava que se você o permitisse usar sofismas suficientes. para responder Ele próprio um número de questões. mas que Deus é tão forte que nos é mais recomendável chamá-Lo de bom. Ele vira o racionalismo contra si mesmo. leva um pouco de tempo para pensar e chega à conclusão de que ele não sabe. sendo um homem sincero. O que eles realmente acreditam não é que Deus é bom. de uma forma ou de outra. que não conseguiam imaginar a natureza do casamento no paraíso. Deus entra (abruptamente). a arma lógica de todo verdadeiro místico. torna todo o livro religioso e não apenas filosófico é essa outra grande surpresa que faz Jó repentinamente satisfeito com a mera apresentação de algo impenetrável. [Joseph] Butler utilizou-o. no grande clímax do poema. Ele pergunta a Jó quem Ele é. Ele parece dizer que se for para fazer perguntas. Quando. dizer a ele para parar de duvidar não é o melhor método. que tem sido. em si. que faz a coisa tão grande quanto ela é. interrogarte-ei e responde-me” (38:3). não para responder enigmas. Essencialmente. Ele faz. Os enigmas de Deus são mais satisfatórios que as soluções do homem. o livro de Jó é a primeira grande catarata que cria o rio. Esses são os pequenos cursos d’água do delta. tanto contra a ética racionalista quanto contra a ética cristã. que é a culminação do inquérito. e Jó especialmente. Esse é o método. Ele apenas demanda o direito que todo processado tem. é para perguntar Ele próprio um número maior de questões. Veremos mais tarde como Deus. Ao lidar com o arrogante defensor da dúvida. ele comece a duvidar de si mesmo. por uma soberba intuição. ele poderia destruir todos os sofistas. A ele não foi dito nada. Esse. E Jó. Esse é o primeiro grande fato a se notar sobre o discurso de Deus. A recusa de Deus em explicar seu projeto é. quando Deus entra. como eu disse. uma flamejante alusão ao Seu projeto. os enigmas de Jeová parecem mais obscuros e desolados que os enigmas de Jó. Ele está disposto a considerá-la como se fosse um duelo intelectual justo. Jó estava desconsolado antes do discurso de Jeová e mais confortado depois dele. os “amigos” de Jó podem ser chamados de pessimistas e não otimistas. mas ele sente a terrível e assustadora atmosfera de algo que é excessivamente bom para ser verbalizado. que se fosse assim eles não conseguiriam imaginar a natureza do casamento em absoluto. mas eles possuem algo do erro vital do otimismo evolucionário. vira esse argumento de ponta cabeça. tomado em conjunto com este. a primeira questão que Ele faz a Jó é a que qualquer acusado por Jó teria o direito de fazer.palavra pessimista significa algo (o que duvido).

num deserto. A Ilíada consegue expressar a idéia de que Heitor e Sarpédone têm um certo tom ou toque de resignação triste e cavalheiresca. com o mesmo martelo. a exatidão instintiva e a facilidade com que insinuações mais otimistas foram deixadas em outras partes. Mas ninguém que conheça bem os grandes exemplos da poesia semi-bárbara. o crocodilo. Deus se torna. pela rachadura de uma porta fechada. de fato. e então (como se apenas fixando uma data) menciona o tempo quando os filhos de Deus “estavam transportados de júbilo” (38:4-7). Ou novamente. Esta é uma questão. Ele insiste sobre a inexplicabilidade de tudo. se assim posso dizer. que eles devem ter tido algo para justificar o júbilo. Deus diz. o terceiro ponto. como um raio de luz visto. Deus responde com uma nota de exclamação. Mas. ser vencido. num sentido puramente poético. o poeta atingiu nesse discurso. Ao invés de provar a Jó que é um mundo explicável. o asno selvagem. ele conseguiu. Sem relaxar uma vez sequer a rígida impenetrabilidade de Jeová em Sua deliberada declaração. uma coisa muito mais delicada. há aquela famosa passagem onde Jeová. E é em relação aos arrogantes e perfunctórios “amigos” de Jó que ocorre uma inversão ainda mais profunda e refinada de que falei. em resposta. é explícito a ponto de ser violento. Deus fará o homem ver as coisas. onde não mora mortal?”(38:26). sugestões repentinas e esplêndidas de que o segredo de Deus é brilhante e não triste – sugestões quase acidentais. Não se pode deixar de sentir. Ninguém que conheça o que é a poesia primitiva pode deixar de perceber que enquanto sua forma consciente é simples. quando Deus fala sobre a neve e o granizo num simples catálogo do cosmos físico. a avestruz.. Aqueles que olham superficialmente para as origens bárbaras do épico podem considerar que seja extraordinário ler tanta significação artística em suas frases metafóricas e acidentais. é que ele não pode ser explicado. Ele descreve cada um deles como se fossem monstros caminhando sob o sol. Esse é. Jó emite uma nota de interrogação. o cavalo. como se o próprio Onipotente estivesse consciente de que Ele as estava espalhando. por um instante. A Canção de Rolando consegue expressar a idéia de que o cristianismo impôs sobre seus heróis um paradoxo. ele consegue dizê-lo em frases simples. Nada poderia ser melhor. cometerá esse engano. pode-se quase dizer que Deus se torna. e insiste na irracionalidade positiva e palpável das coisas. por um instante. no que toca ao homem. Deus fará Jó ver o surpreendente universo se Ele puder pelo menos fazê-lo ver um universo idiota. ateu. Ele fala deles como um tesouro que Ele lançou no dia da batalha – uma alusão a algum enorme Armagedon em que o mal deverá. o corvo. com um sarcasmo devastador. podemos dizer. “[Quem marcou o curso à tempestade impetuosa] para fazer chover sobre uma terra sem habitantes. o pavão. nem tanto amarga para ser chamada de pessimismo e nem tanto jovial para ser chamada de otimismo. do que esse otimismo que rompe o agnosticismo qual ouro flamejante nas bordas de uma nuvem negra. por um instante.” (38:28) “De que seio saiu a geada? …” (38:29). a águia. em imagens distorcidas.Em terceiro lugar está uma das esplêndidas tiradas em que Deus rebate tanto o homem que o acusa quanto os homens que O defendem. mesmo a partir de parcas informações. nem que seja contra o fundo negro do nada. “Quem é o pai da chuva?. sobre a qual Deus. Ele insiste que é um mundo muito mais estranho do que Jó jamais imaginou ser. com a precisão inconsciente encontrada em tantos épicos mais simples. Ele descortina para Jó um amplo panorama das coisas criadas. um paradoxo de uma grande . alguns de seus refinados efeitos são sutis.. que se há uma coisa boa a respeito do mundo. pergunta a Jó onde ele estava quando as fundações do mundo foram lançadas. em que Ele leva a nocaute tanto pessimistas como otimistas. um blasfemador. de alguma forma. finalmente. Finalmente. aqui e ali. Essas tentativas apontam que a coisa boa a respeito do mundo é que ele pode ser explicado totalmente. Ele vai ainda mais longe. como A Canção de Rolando ou as antigas baladas. O criador de todas as coisas está impressionado com as coisas que Ele próprio criou. Homero nunca poderia ter dito isso em frases elaboradas. Seria difícil louvar excessivamente. Por exemplo. deixar antever nas metáforas. artisticamente falando. As tentativas mecânicas otimistas de justificar o universo irrestritamente sob o fundamento de que ele tem um padrão racional e conseqüente. Para surpreender o homem. O que se vê é um tipo de salmo ou rapsódia do sentimento de espanto.

e que escrevesse o processo aquele mesmo que julga. O livro de Jó é principalmente importante. Matos Soares (Bíblia Sagrada. pois que ela está mais de acordo com o contexto estabelecido pelo autor. Neste livro a questão que é realmente formulada é se Deus invariavelmente pune o vício com castigos terrenos e recompensa a virtude com prosperidade terrena. “Quem me dera um que me ouvisse. sobre o desenvolvimento posterior do pensamento judeu. Mas se ele teve qualquer efeito. Os homens abandonarão a difícil tarefa de fazer dos homens bons. há uma figura no Antigo Testamento que é verdadeiramente um modelo. Eles adotarão a tarefa mais fácil de estabelecer que são bons os homens de sucesso. Não sei.” Preferi traduzir a partir da citação de Chesterton. talvez. e duvido que qualquer estudioso saiba. para este versículo. 37ª edição. como tenho insistido. do T. do melhor homem com a pior sorte. e ele é. E dentre esses. Mas no prólogo. Essa é a lição de todo o livro. num sentido mais livre e filosófico. ao livro de Jó deve ser creditado muitos efeitos sutis que estavam na alma do autor sem que estivessem. ou mesmo algum efeito. o livro de Jó os teria salvado. combinada a uma grande ferocidade em relação a suas idéias. Lê-se nesta edição. eles poderiam ter perdido toda a sua influência na história humana. (N. na mente do autor. homens de sucesso. Se prosperidade é considerada como recompensa da virtude. Não preciso sugerir que elevada e estranha história estava reservada a esse paradoxo. Pois uma vez que as pessoas comecem a acreditar que a prosperidade é a recompensa da virtude. Não preciso dizer que. o mais encorajador. a sua próxima calamidade é óbvia. Não é afirmado a Jó que suas misérias tenham sido devidas a seus pecados ou uma parte de algum plano para seu aprimoramento. é a Nêmesis última do mau otimismo dos amigos de Jó. É claro que A Canção de Rolando não poderia dizer isso. Aqui está o mais obscuro e estranho dos paradoxos. não porque ele fosse o pior dos homens. deve ter sido o de salvá-los de um enorme colapso e decadência. Edições Paulinas.) [ Publicado originalmente pela The American Chesterton Society . ela será considerada sintoma da virtude. Se os judeus precisassem ser salvos disso. mas porque ele era o melhor. se o livro de Jó teve um grande efeito. nem tampouco preciso dizer o que está prefigurado nas feridas de Jó. Isso. por todos os testemunhos humanos. vemos Jó atormentado. Eles poderiam ter afundado ainda mais que a instruída sociedade moderna. e que o Onipotente escutasse meus desejos. mas ela transmite isso. 1] Em todas as outras passagens bíblicas.humildade em relação aos seus pecados. pelo fato de que ele não termina da maneira que possa ser considerada satisfatória. Se os judeus tivessem respondido erradamente a essa pergunta. de longe o mais importante ainda está por ser apresentado. Da mesma forma. 1980). que tem acontecido atualmente no comércio e no jornalismo. que o homem é mais bem confortado por paradoxos. uso a tradução do Pe.

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