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Considerações de McLuhan para a internet

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ALINE BARONI

CONSIDERAÇÕES DE MCLUHAN NA ERA DA INTERNET

Trabalho apresentado à disciplina de Teoria da Comunicação II, Curso de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, Universidade Federal do Paraná. Professor(a) orientador(a): Juliane Bazzo

CURITIBA 2006

“Mas, veja! Que luz é aquela, que passa pela janela? Ela fala – e não diz nada.” Romeu e Julieta, de Shakespeare

A evolução na comunicação Desde a invenção da linguagem, a comunicação já passou por várias evoluções e revoluções. A simples transmissão dos conhecimentos adquiridos transformou-se na escrita, que se baseava na decodificação do que se pretendia comunicar em símbolos e, mais tarde, em alfabetos. A escrita permitiu que o conhecimento ultrapassasse a barreira do tempo e que a mensagem pudesse existir independentemente de um emissor, podendo ser recebida a qualquer momento por alguém que soubesse decifrar o código, colaborando, assim, para a transmissão e desenvolvimento da cultura dos povos. Quando Gutenberg criou a prensa de tipos móveis, no século XV, a escrita tornou-se não apenas um meio de transmissão de conteúdo, mas também tornou possível a difusão de mensagens em grande escala. O telégrafo e o telefone, apesar de não serem considerados veículos de comunicação de massa, foram elementos importantes para a acumulação de tecnologia. A invenção do rádio e da televisão, nas décadas de 20 e 40, e suas saturações, nos anos 50 e 60, respectivamente, representou mudanças tecnológicas nunca antes vistas. Cada um desses veículos aumentou as oportunidade do uso da linguagem por parte dos cidadãos das classes não-abastadas. O marco, então, é a conquista do controle da luz pelo homem:
“A luz elétrica é informação pura. É algo assim como um meio sem mensagem (...). Não percebemos a luz elétrica como meio de comunicação simplesmente porque ela não possui conteúdo” (McLUHAN, 1964) “A tecnologia elétrica tem conseqüências para nossas percepções e hábitos de ação mais comuns e que tais conseqüências estão recriando rapidamente em nós os processos mentais dos homens mais primitivos. Elas não afetam propriamente nossos pensamentos e ações, matéria em que estamos treinados para ser críticos, mas afetam nosso mais comum senso de vida, o qual cria vértices e as matrizes de pensamento e ação” (McLUHAN, 1977)

De acordo com McLuhan (1911), o que ocorreu foi a passagem de uma civilização familiarizada com a comunicação através da palavra impressa para a sociedade contemporânea, em que predomina a base eletrônica1.

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Seguindo as análises de McLuhan, Gabriel Cohn (1987) acrescenta: “De uma comunicação fragmentada, linear, de propagação lenta e de caráter individualizante, (à qual corresponde, no plano sócio-político, o Estado nacional moderno e, no plano econômico, a Revolução Industrial) passa-se para outra, integrada, não-linear e de propagação instantânea (mítica) e de caráter comunitário (todos participam da vida de todos, e o envolvimento social é global: é a fase da sociedade mundial no plano sócio-político e da automação do plano econômico). O mundo transforma-se num grande ‘vilarejo’; há uma ‘tribalização’ em escala ecumênica”.

Todas essas evoluções foram decisivas no sentido de acumulação tecnológica para o que hoje tem-se como a talvez mais inovadora forma de comunicação: a internet.
“A história da humanidade se divide em três eras: a comunicação natural, oral e gestual, que mobiliza todos os sentidos, era do pensamento mágico e do ritualismo; a era da tirania da visão, aberta pela escrita alfabética e pela imprensa, era do racionalismo abstrato e do nacionalismo; a era da transmissão eletrônica que consagra o retorno de toda a gama sensorial, era de um novo tribalismo, agora planetário” (MATELLART, 2001, p. 75)

Características da evolução Para Logan (1999), todo o desenvolvimento da humanidade deu-se sobre as tentativas de organização da complexidade e do caos da realidade que circundava os primeiros seres humanos. Assim, como tentativas de organizar todo seu raciocínio e a sua compreensão do mundo surgiram a fala, a escrita, a matemática, a ciência, a informática e, por fim, a internet. Cada linguagem surgia quando a anterior não era mais suficiente. As mudanças trouxeram conseqüências para toda a configuração da sociedade. O espaço e as distâncias foram reduzidas pelo fato de que se tem uma maior rapidez e eficiência na transmissão da mensagem. A nova comunicação derruba barreiras, já que representa novas extensões de capacidades naturais dos seres humanos e modificou profundamente a sua estrutura de percepção do mundo – e também da própria comunicação. Estudos antigos examinavam o fenômeno da comunicação por sua capacidade de reduzir ou derrubar as barreiras do tempo e do espaço na aproximação das pessoas (RÜDIGER, 1998). Hoje as telecomunicações provocaram formas de interação tão intensas que o indivíduo já não consegue viver normalmente, em sociedade, se não estiver conectado com o ambiente midiático. Segundo Oldenburg (1997), a vida cada vez mais atribulada das pessoas, o surgimento das metrópoles e o aumento da violência estariam contribuindo para o desaparecimento dos lugares mais fundamentais para sociedades humanas: os terceiros lugares, os lugares lúdicos, de prazer e lazer. Com o desaparecimento desses lugares, estaria havendo uma queda no sentimento de comunidade, levando a uma exacerbação do individualismo e o fim do social. A rede, através de uma nova forma de estabelecer laços sociais, propiciou o renascimento dos terceiros lugares.

Internet A internet possibilitou a reorganização dos hábitos de socialização. Não há interação física, nem proximidade geográfica. As comunidades estruturam-se fundamentalmente sob um único aspecto: o interesse comum de seus membros. Para Reinghold (1997), o sentimento comunitário permeia todos os participantes dos fóruns e essas relações, a princípio virtuais, foram estendidas para o mundo real. Ou seja: através das comunidades virtuais, a internet estaria atuando como meio de encontro e formação de grupos sociais. A internet é o primeiro meio a conjugar duas características dos meios anteriores: massividade e interatividade. É possível não somente ler o que é produzido para a massa, mas também produzir todo tipo de documento e compartilhá-lo com qualquer pessoa do mundo, desde que conectada, em questão de instantes. Como usuários da rede, cada indivíduo é um emissor e receptor massivo em potencial. Por propiciar uma comunicação entre muitos e para muitos, pode representar um futuro democrático para a sociedade. Segundo Barbrook (1999), a participação democrática se daria de forma pessoal e não mais representativa, ou seja, a cidadania poderia ser exercida livremente e destituída de intermediários, como acontece em países democráticos contemporâneos. O mundo, de acordo com McLuhan, estava tornando-se rapidamente uma aldeia global, como resultado da difusão da rede inconsútil2 – unificação das experiências adquiridas pelos homens através dos seus sentidos – da televisão por toda a terra. O mesmo, até mesmo com mais intensidade, pode-se pensar sobre a internet nos dias atuais. Tal uso de vários sentidos mutuamente é o que se tem como convergência de mídias, conceito já esboçado por McLuhan em sua análise da televisão. Os meios de comunicação contribuíram para a redução do espaço, ou seja, para a rapidez e eficiência da comunicação entre as pessoas em localidades diferentes. Para McLuhan, atuam como extensões das capacidades naturais dos seres humanos. A internet, no entanto, proporcionou a extensão de várias capacidades naturais. Portanto, as tecnologias modernas desenvolveram-se ao ponto de superar as barreiras de espaço e tempo. Noções de desterritorialização das pessoas e de desenraizamento das

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A rede inconsútil é citada por Tom Wolfe em seu artigo “Os desdobramentos da aldeia global”, entre diversos de outros autores, não é um conceito criado ou sequer abordado por McLuhan.

experiências estão presentes no espaço globalizado da mídia que transmite em tempo real, intercomunicando realidades dos lugares mais distantes e díspares. Aldeia global E é então que o mais conhecido conceito criado por McLuhan – o conceito de aldeia global – pode ser aplicado.
“O nosso é o mundo novo do tudo-agora. O ‘tempo’ cessou, o ‘espaço’ desapareceu. Vivemos hoje numa aldeia global... num acontecer simultâneo (...). Começamos de novo a estruturar o sentimento primordial, as emoções tribais de que alguns séculos de literacidade nos divorciaram” (McLUHAN, 1969).

A causa dessa retribalização, segundo ele, eram as inovações tecnológicas no campo da comunicação, ou seja, o uso crescente dos meios elétricos. O conceito de aldeia global, criado na década de 60, começa agora a ser redefinido com as novas tecnologias da comunicação. Os pressupostos são os mesmos de antes, assim como os efeitos. O diálogo e a tomada de consciência se dão a nível global3; a instantaneidade e a continuidade4 são instrínsicas à comunicação; há uma mudança no modelo de percepção5 e o choque entre as grandes tecnologias6. McLuhan advertia, no entanto, que a aldeia global não era uma utopia. Na verdade, ela poderia, com a mesma facilidade, tornar-se um banho de sangue, já que é nas aldeias onde são
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“Hoje em dia na medida em que a eletricidade cria condições de extrema interdependência em escala global, movimentamo-nos de novo celeremente para um mundo auditivo de eventos simultâneos e de tomada global de consciência.” (McLUHAN, 1977, p.54). “Os sistemas de circuitos elétricos derrubaram o regime de ‘tempo’ e ‘espaço’ e despejam sobre todos nós instantaneamente e continuamente as preocupações de todos os outros seres humanos. Eles reconstituíram o diálogo em escala global” (McLUHAN, 1969, p. 44)
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“A cultura letrada terá uma ênfase visual baseada na continuidade, na uniformidade e no nexo seqüencial, visualidade que, durante a modernidade, procurará ser reproduzida pelos meios de comunicação incentivando a continuidade e a linearidade, mesmo que mediante a repetição” (McLUHAN, 1998 in: Revista FAMECOS, 12/2003). “As informações despencam sobre nós, instantaneamente e continuamente. Tão pronto se adquire um novo conhecimento, este é rapidamente substituído por informação ainda mais recente. Nosso mundo, eletricamente configurado, forçou-nos a abandonar o hábito de dados classificados para usar o sistema de identificação de padrões” (McLUHAN, 1969, p. 91)
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“Os efeitos da tecnologia não ocorrem aos níveis das opiniões e dos conceitos: eles se manifestam nas relações entre os sentidos e nas estruturas da percepção, num passo firme e sem qualquer resistência” (McLUHAN, 1964, p.34)
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“Nossa cultura oficial se esforça para obrigar os novos meios a fazerem o trabalho dos antigos. Atravessamos tempos difíceis, pois somos testemunhas de um choque de proporções cataclísmicas entre duas grandes tecnologias. Abordamos o novo com o condicionamento psicológico e as reações sensoriais antigos. Esse choque sempre se produz em períodos de transição” (McLUHAN, 1969, p. 120)

encontrados os mais completos carniceiros. A aldeia global poderia reunir toda a humanidade para a violência tão facilmente como para qualquer outra coisa. Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século XX foi de brilhantes avanços tecnológicos, mas também foi o mais bárbaro da história humana. Outro problema da comunicação na época de aldeia global – ou da aldeia global na época da comunicação de massa – é que os avanços tecnológicos vieram suprir a carência de informação, mas a inserção dessas máquinas tem condicionado os homens. Já não se trata mais de sede, mas sim de dependência de informação. Segundo Rüdiger (1998), a mídia eletrônica, fundada na instantaneidade, torna-se instrumental, sem margem a reflexão, ao aprofundamento, outro tipo de condicionamento.

Referências bibliográficas COHN, Gabriel. O meio é a mensagem: análise de McLuhan. In: _________ (org.). Comunicação e indústria cultural. São Paulo: Nacional, 1975. p. 363-371. GASTAL, Susana. McLuhan: desdobramentos polêmicos de uma teoria (ainda) polêmica. Revista Famecos, Porto Alegre, número 22, Dez. 2003. p. 46-54. LARANGEIRA, Álvaro. A polêmica é conteúdo. Revista Famecos, Porto Alegre, número 7, Nov. 1997. p. 83-88. MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação de massa como extensões do homem. (understanding media). 3 ed. São Paulo: Cultrix, 1964. p. 21-50. MCLUHAN, Marshall. A galáxia de Gutenberg. 2 ed. São Paulo: Nacional, 1977. p. 54-60 e p. 340-342. MCLUHAN, Marshall e FIORE, Quentim. O meio são as massa-gens. Rio de Janeiro: Record, 1969. MATTELART, Armand e Michèle. História das teorias da comunicação. 7 ed. São Paulo: Loyola, 1995. MATTELART, Armand. História da sociedade da informação. ed. São Paulo: Loyola, 2001. CÁDIMA, Rui. Modelos e profecias da aldeia global: Marshall McLuhan. <http://irrealtv.blogspot.com/2004_07_25_irrealtv_archive.html> (18/04/2006) CAMPOS, Pedro Celso. O jornalismo, a indústria cultural e a "civilização bárbara". <http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos/da0711200198.htm> (18/04/2006) GRECCO, Sheila. TV e (midi)ação. <http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos/pb050699.htm> (18/04/2006)

MACHADO, Irene. Ah, se não fosse McLuhan!.... <http://arthurvarela.ubbihp.com.br/irenemachado.htm> (18/04/2006) RECUERO, Raquel da Cunha. A internet e a nova revolução na comunicação mundial. <www.pontomidia.com.br/raquel/revolucao.htm> (18/04/2006) WOLFE, Tom. Os desdobramentos da aldeia global. <http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=360AZL004> (18/04/2006)

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