OTTO MARIA CARPEAUX A Cinza do Purgatório

(1942) AOS MEUS AMIGOS BRASILEIROS

PREFÁCIO AS VOZES PROFÉTICAS do passado ensinam-nos a interpretar a nossa situação; interpretação que equivale a um julgamento do mundo e de nós mesmos, a um exame de consciência. É só a luz interior que pode iluminar o caminho pelas trevas, para conferir um sentido moral ao purgatório dos nossos dias, para acender, na cinza do que foi, a vacilante luz duma nova esperança. Era o meu caminho também: ainda sinto na boca o travo amargo da cinza do purgatório; já devo agradecer a aurora duma vida nova. Quindi uscimmo a riveder le stelle. Devo agradecer ao sr. Paulo Bettencourt a generosidade com que me abriu a porta para atividades literárias no Brasil, concedendo-me a mais ampla liberdade e independência. Devo agradecer aos queridos amigos Álvaro Lins e Augusto Frederico Schmidt a regeneração da perdida fé nos homens, o sentimento duma nova vida e duma nova pátria. Devo agradecer: à magnânima ajuda de Aurélio Buarque de Holanda, sem cujo trabalho infatigável e generoso este livro não teria nunca visto a luz; ao impulso irresistível de José Lins do Rego; à compreensão de

Carlos Drummond de Andrade, José de Queiroz Lima e San Tiago Dantas; e a cada palavra de Manuel Bandeira. Devo agradecer compreensões, simpatias e apoios, que me comoveram e encorajaram, aos srs. Aldemar Bahia, Astrojildo Pereira, Brito Broca, Edmundo da Luz Pinto, Eugênio Gomes, Francisco de Assis Barbosa, Francisco Campos, Gilberto Freyre, Graciliano Ramos, Jorge de Lima, José César Borba, Murilo Mendes, Octavio Tarquínio de Sousa, Osório Borba, Sérgio Buarque de Holanda, Vinicius de Moraes; e aos meus jovens amigos estudantes, portadores de esperanças brasileiras que constituem hoje a nossa esperança comum. Os meus amigos brasileiros. Devo-lhes muito, devo-lhes também que o esforço deste livro não se tenha perdido: fui eu que escrevi, mas foram eles que operaram. Hoje lhes restituo, com gratidão comovida, o que já lhes pertenceu. OTTO MARIA CARPEAUX. Rio de Janeiro, julho de 1942.

OS ENSAIOS reunidos neste volume foram publicados, durante os anos de 1941 e 1942, no Correio da Manhã, Rio de Janeiro, exceto "Literatura belga", publicado na Revista do Brasil (dezembro de 1941). Todos foram aumentados e revistos, com a ajuda de Aurélio Buarque de Holanda.

PRIMEIRA PARTE: PROFECIAS ___________________________________________ JACOB BURCKHARDT: PROFETA DA NOSSA ÉPOCA A GLÓRIA, já se disse, é o conjunto dos mal-entendidos que se criam em torno de um nome. Muitas vezes esses mal-entendidos formam um denso nevoeiro, donde surge um busto de gesso, o ídolo das Obras Completas, cobertas de poeira: é o caso dos "clássicos". Às vezes esses nevoeiros desaparecem, de súbito, para permitir uma ressurreição surpreendente: é o caso dos "poetas malditos". É muito raro que o véu se levante pouco a pouco, oferecendo o espetáculo de uma renovação incessante, toda a história de uma glória: é o caso de Jacob Burckhardt. Os seus contemporâneos conheciam-no pouco. A posteridade imediata reconheceu o grande historiador da civilização, para depois enganar-se profundamente sobre as suas teorias. Para nós, no momento que atravessamos, tornou-se o conselheiro íntimo da nossa angústia. Amanhã será um profeta, o último dos profetas talvez, já que o tempo não terá mais futuro. Eis quatro etapas da história de uma glória. O caminho para a compreensão está traçado. A sua biografia é muito simples. Filho de uma velha família patrícia de Basiléia, nascido em 1818, consagra-se aos estudos mais diversos. Uma incursão no jornalismo político fracassa. De 1844 a 1893, ensina história das belas-artes na velha Universidade da sua cidade natal, pouco conhecido do público, mas muito estimado dos seus colegas. Burckhardt ama a sua cidade, as estreitas ruas medievais, os telhados e torres, observatório do grande mundo batalhador fuori le mura, a cidade íntima, pátria; só a abandona para viagens à Itália, país da sua nostalgia, nunca atenuada. Recusa cargos honrosos nas grandes universidades alemãs, traço de profunda significação que compreenderemos depois. Enfim, velho e

fatigado, retira-se da atividade para morrer docemente num dia de agosto de 1897. Uma vida fora vivida. Como explicar essa mistura dum patrício reservado e dum pequeno-burguês afável, dum professor pedante e dum poeta fracassado? Essa decifração revelará algumas surpresas. Os seus alunos também se surpreenderam, quando da primeira visita protocolar de um estudante: o sábio inabordável falava na intimidade o dialeto rude, quase humorístico, dos suíços, regalava o seu convidado com bons vinhos, explicava as suas coleções artísticas, tocava ao piano o seu querido Mozart, para enfim queixarse dos seus criados. Oh! que velho epicurista, esse professor de história, esse historiador de segunda ordem! Até faz rir: ele teria, no seu auditório, chorado lágrimas de crocodilo, ao recordar as obras perdidas da Antiguidade, destruídas pelos bárbaros; não será isso um anacronismo, no nosso século iluminado? Um dia o bom velho foi encontrado morto, bem morto. Mas atentai: ele voltará. Alguns anos depois da sua morte voltava, por uma segunda edição surpreendente, o grande historiador da Civilização da Renascença na Itália. O livro, quase despercebido quando seu autor estava vivo, esse livro imenso, reconstrução integral de um século, de uma civilização desaparecida, esse livro é uma primeira revelação e cria o primeiro desses mal-entendidos que fazem uma glória. O livro provoca uma moda européia, o culto do Renascimento, a adoração dos grandes animais ferozes de gênio artístico. O burguês de dinheiro, ansioso por uma árvore genealógica, acredita reconhecer-se nesses homens geniais que devem tudo a si mesmos. Hoje, nos palácios e nas casas burguesas da Europa os móveis à Renascença, tipo 1890, são obstáculos à circulação, colecionadores de poeira. Mas os filhos desses burgueses ainda não se despiram do costume renascentista dos seus pais: misturando o fraco poema de Gobineau e as visões de Spengler, esses "señoritos", para empregar a expressão de Ortega y Gasset, fazem-se confirmar pelo professor de seus pais, confirmam os seus próprios princípios maquiavélicos e desumanos, para se tornar, cada um deles, o seu próprio condottiere.

Seria necessário fechar este livro, grande e perigoso, e escrever na sua capa: É proibido citá-lo! Não se queria do Burckhardt morto senão Renascimento. Mas alguns discípulos fiéis não paravam de pesquisar nos seus manuscritos. Apareceu enfim a História da civilização grega. Mais uma vez, uma revelação. Está definitivamente destruído o idílio dos anacreônticos, o mundo ideal da alegria olímpica; e acha-se descoberto o bas-fond da alma helênica, o pessimismo de um Sófocles, o desespero de um Tucídides, a angústia de um Platão. A arte grega não é senão um grito de dor transfigurado em mármore. É certo que esse mundo helênico, visto através de um temperamento schopenhaueriano, está impregnado da consciência cívica de Burckhardt, cidadão-patrício de uma pequena república medieval, agora radicalmente democratizada. O mistério do pessimismo antigo, de acordo com Burckhardt, é o martírio da polis, da cidade, desaristocratizada, despida dos seus fundamentos religiosos, apóstata, vítima da tirania demagógica. Se bem que não chegando à compreensão dum Fustel de Coulanges, Burckhardt fornece o primeiro exemplo de sociologia religiosa, logo mal compreendido como programa de renovação política e cultural, sobre as bases de uma nova religião. O autor deste mal-entendido não é outro senão Nietzsche, jovem colega de Burckhardt na Universidade de Basiléia. Durante toda a sua vida Nietzsche tentou basear as suas doutrinas nas idéias de Burckhardt: durante toda a sua vida Nietzsche tentou conseguir a amizade do velho professor. Tudo em vão. A última carta do filósofo, já louco, é dirigida a Burckhardt: "Agora, você é, tu és o mestre!" Esse "tu" nunca foi retribuído. Mas a falsa interpretação ficou. Por fim a herança de manuscritos inéditos devolve o tesouro mais precioso: as Considerações sobre a História Universal. É o manuscrito de um curso universitário feito sob a impressão da guerra de 1870, sob a impressão da queda da civilização francesa e do advento do império militar dos alemães. Contam que, ouvindo durante a aula o falso boato de que o Louvre havia sido incendiado com todos os seus tesouros artísticos, Burckhardt chorou diante dos

. Sente-se Marco Aurélio nestas palavras.seus alunos indolentes. incapazes de conceber e de construir o que será. ao mesmo tempo desfaz beneficamente as nossas ilusões de progresso. Muitas vezes. segue-se-lhe o despotismo. e já é muito se Roma concorre para celebrar a glória de Numância e se o vencedor se ressente da grandeza do vencido" (p. não se prevê como grandes povos. recomeçariam as suas vidas. Burckhardt não queria profetizar. Fixados os traços. sobre a felicidade e sobre a desgraça na história. petrificados nas suas civilizações. à qual se subordinarão todas as teorias posteriores. a defesa mais justa torna-se inútil. uma ressurreição. A guerra é o auge dessas convulsões que sacodem periodicamente a humanidade: as crises. Acha a guerra inevitável. algumas passagens quase proféticas fizeram deste livro o último apoio espiritual de milhares de intelectuais da Europa Central. mas "o que não é certo é que a uma guerra ou a qualquer invasão suceda necessariamente uma renovação. Sobretudo. O nosso planeta é talvez bem velho. A crise é a passagem das massas por um período de soberania. Quando nos consola dizendo que os males da história são sempre maiores que os nossos.. A crise é uma fase intermediária entre a democracia nascente e a democracia abolida. não chegou a ver. Burckhardt é sobretudo o criador da noção moderna de crise. Procurou somente as reações invariáveis dos homens diante dos seus destinos históricos. Não seriam coisas impossíveis na nossa época ilustrada? Esperem! Daqui a alguns anos aparecerá um livro sobre a guerra. para sua felicidade. única época da democracia realizada. cemitério daquilo . sobre as grandes crises. a ordem dos cemitérios. sobre a verdadeira e a falsa grandeza humana. acontece que reaparecerão num mundo que Burckhardt. assim povos desapareceram e outros desaparecerão. que restabelece a ordem. um livro que será o breviário e o consolo de uma geração sem esperança: a nossa geração. 164). massas incapazes de compreender e de conservar o que foi.

Soa a hora. a ultima ratio da história. os únicos inacessíveis" (pp. 177). numa semana.diz o provérbio. séculos a se realizarem. mas notar-se-á nas suas palavras sobre os mortos. esses são grandes. inacessíveis aos terrores do futuro. "Ninguém é insubstituível" . ali uma nova teoria do mundo. Evitando os psicologismos fáceis. o exemplo. em outro caso. absolutamente." Burckhardt não cai no hero-worship de um Carlyle.. até então. quando a crise explode: "Subitamente o processo subterrâneo evolve com terrível rapidez. 168-171). indissoluvelmente ligadas a tudo o que era. "Existe ainda uma oposição conservadora: todas as instituições estabelecidas tornadas direitos. de um lado e de outro. em lugar dos mortos. a mudança até das armas e das atitudes. Daí é que vem a indiferença pelos meios. ele não é. incompreensíveis no "século estúpido" do "progresso irresistível". pois. como fantasmas. Foi Burckhardt quem primeiro descreveu a hora decisiva. e depois todos os indivíduos que as representam. o modelo: é a exceção. o terrível caráter das crises. a elas ligados pelos deveres e pelas vantagens. . Daí é que vem a gravidade dessas lutas. de modo que o reacionário faz o papel de democrata e o demagogo representa o ditador" (p. que não se conhecem umas às outras. e a infecção se espalha num instante. tornadas o próprio direito. como também a sua superior erudição histórica evita as teorias cíclicas de um Sorel. O que se eleva sobre essas terríveis baixezas é a meditação acerca do grande homem. sauve qui peut!"91 . Aos protestos acumulados contra o passado juntam-se terrores imaginários. Burckhardt conhece. Burckhardt não se presta às generalizações de um Le Bon..que não voltará nunca. Cada partido defende o seu 'mais sagrado'."Mas aqueles que ninguém pode substituir. o desprendimento do pathos. aqui um dever e uma religião. moral e civilização. cumprem-se num mês. Burckhardt nem louva nem censura: comprova. um suspiro de alívio. e à vontade de tudo mudar se junta a vontade de vingar-se dos vivos. Poderia subscrever a frase de Luís XVIII: "Quand le grand homme apparaît."Pois raríssima é a . evoluções que levariam. sobre centenas de milhas e sobre as populações mais diversas.

É por esta razão que o poder não melhora os homens.) Cedo ele desanima: "Nada espero do futuro. O comentário indispensável é a sua correspondência." Surge a velha desconfiança do calvinista contra o poder temporal: não existe poder temporal de direito divino. muito impregnada do fatalismo dos estóicos. et pour cause. e por muito tempo. "De há muito sei que o mundo está sendo levado para a alternativa entre a democracia perfeita e o . Nas suas Considerações sobre a História Universal. surgir aqueles de quem eram cúmplices" (26 de janeiro de 1846. é verdade. "Todo poder é mau. como mal. "Uma ilusão de óptica nos engana sobre a felicidade em certas épocas. participaram do jogo da oposição. Mas essas épocas eram também. muito impregnada de Schopenhauer e do seu pessimismo anti-histórico. sob a luz de uma falsa transfiguração. Burckhardt não disse tudo. horrorizados. Mas o estado florescente da arte. para outros. afinal. em vista dos grandes inconvenientes reais. É possível que alguns lustros passavelmente suportáveis nos estejam ainda reservados. épocas de destruição e de escravatura. em relação a certos povos. não passa de uma razão atenuante." Aqui está o centro da doutrina burckhardtiana. Aqui o aristocrata reservado. boa para fazer reaparecer os tempos longínquos. porque não se leva em conta." Sobretudo "todo poder é mau"." A felicidade não é senão uma ilusão de óptica dos historiadores.grandeza d'alma pronta a renunciar às vaidades criminosas. sob a ordem dos déspotas. eles verão. Adverte e adverte: "Um terrível despertar está reservado aos homens de bem que. As obras da civilização necessitam de ordem. herança. dos antepassados. abre-se em confidências aos seus raros amigos e lhes comunica os seus receios apocalípticos. à maneira dos imperadores adotivos de Roma: porém nada mais" (14 de setembro de 1849). e a doutrina verdadeiramente cristã chama Lúcifer de príncipe deste mundo. calvinistas e cidadãos livres da república medieval de Basiléia. mais depressa92 será de direito satânico. tais épocas são consideradas felizes. "O mal. à grande tentação dos poderosos: o poder pelo poder. e da sua desconfiança dos poderes temporais. a euforia dos vencedores. o sábio tímido. domina freqüentemente sobre a terra.

mas por destacamentos militares soi-disant republicanos" (13 de abril de 1882). essa verdade pessoal quase a sorrir. nas cidades e nas usinas. iniciado e encerrado cada dia com o rufar dos tambores: é o que deverá advir de acordo com a lógica" (26 de abril de 1872). o intelectual que fez "parte per se stesso". responde: "Os povos transformaram-se em um velho muro. as massas. Julga-se ter sido Burckhardt o profeta da Decadência do Ocidente. Antes de tudo. mas nenhuma revolução anulará a minha sinceridade. Como eles. no agradável século XX. foi confundido com Spengler. hoje considerado louco. opõe-se: "Espero crises terríveis. será preciso ser .despotismo perfeito. é conservador e humanista ao mesmo tempo. inédita durante muito tempo. mas este não mais será exercido pelas dinastias. E se nos quiséssemos opor a esta lógica cruel? Uma anotação. É esta a razão por que. um certo grau de miséria. porém. diz-me: o Estado militar será um grande industrial. com Le Bon. pois não fica seguro. onde não se pode mais fixar um prego. que desesperam do mundo e de si próprios. Jan Huizinga e Benedetto Croce. depois de ter sido confundido com Gobineau. fazem-no confessor dos intelectuais desesperados. Burckhardt era um protótipo do intelectual. vemo-lo hoje à luz dos seus "irmãos no espírito". a Autoridade reerguerá a cabeça. mas queria ao menos fazer a minha escolha. com Nietzsche. É privilégio dos profetas serem mal compreendidos. Burckhardt. e será uma cabeça terrível. Diz. "Um pressentimento. Não desespera. fixado e controlado pela autoridade. Burckhardt é formado na civilização da velha Europa luxemburgo-borgonhesa entre a Itália e a Bélgica. os países de sua predileção. a minha verdade interior." Terminou a profecia. Mas a verdade é outra. não serão mais deixadas na miséria e livres nos seus desejos. escolher a coisa pela qual perecerei: a civilização da velha Europa" (5 de março de 1846). é patrício e burguês ao mesmo tempo. a doutrina é muito mais profunda. demasiado fracas. e ele o sabia: "Pereceremos todos.

mesmo sendo um humanista não deixou de ser um cristão. Impavidum ferient ruinae. ele permanecia o que seus pais basileenses haviam sido: um humanista. em meio à luta encarniçada dos imperialismos e das classes.sincero. mundo da adoração da civilização e da arte. no seu auditório."93 Eis por que todas as suas simpatias eram para os vencidos: "Victrix causa Diis placuit. em torno da política. Por isso. falava. no sentido de cidadão das pequenas repúblicas livres da Idade Média. pela França de Luís XIV. desde Nietzsche. formado pela Itália da Renascença. herdeiro altivo da liberdade feudal. Amando ao mesmo tempo o seu Olimpo. burguês. não de economia. Ele era um homem. imaginavam outra coisa atrás da modesta casaca: talvez os instintos selvagens das "bestas geniais" da Renascença. não de política. Mas Burckhardt era bem burguês. mas sim do homem. que. O que significa: formarase. Burckhardt era burguês como os burgueses de Antuérpia. inteiramente. no mundo do cristianismo secularizado. Burckhardt é o último dos humanistas. porém. que gira. O velho professor fez uma estranha figura no traje burguês do século XIX. pela Inglaterra das universidades aristocráticas e pela Alemanha de Weimar. sempre sincero" (13 de junho de 1842). a fragilidade do homem num mundo sem Deus. pela última vez. Esse estoicismo sofreu a ação de vinte séculos de cristianismo. Sobre o fundo trêmulo de um mundo revolvido. Burckhardt. mundo acima da política. reconhecendo embora a pequenez do homem. reconheceu. muitos. Era um homem. "Si fractus illabatur orbis. sed victa Catoni. Esse caráter apolítico da sua cultura o preservava da "trahison des clercs". apoliticamente. com um olho inexorável. neste mundo material e materialista. e é o fundamento de toda a sua obra. Sendo um intelectual não deixou de ser um patrício. não era . de Florença e de Basiléia. o colocava no centro do Universo. O resultado foi essa atitude."94 É a frase-epígrafe invisível de toda a sua obra. no sentido dos estóicos. a fragilidade do seu mundo ilusório. da cultura intelectual e artística.

as grandes potências deste mundo se debatiam no campo de batalha. mas cada um tinha as suas simpatias. e todo pessimista tem em si a matéria de um profeta. em nada burguesa. conservava a sua liberdade patrícia. conservador. é o inspirador de toda "crítica de ação". como Maquiavel. inflexível. Tremia-se. A sua substância. Ali ainda se podia estar bem. Conservador. tornava-o capaz de desvendar o enigma da Cidade Antiga. que defendeu o livre-arbítrio católico. que não queria interpretar o mundo. em todos os tempos e em todos os povos. Isso o tornava pessimista. Burckhardt era. Era este observatório que Burckhardt não queria abandonar jamais. cidade do Concílio que se revoltou contra o papa. A sua substância. tornava-o capaz de revelar o mundo da Renascença florentina. a besta . Karl Marx. em nada burguesa. "fuori le mura". "Eu tinha a coragem de ser conservador e de não ceder" . Humanista. na constância da substância humana. se bem que as agitações demagógicas lhe tivessem feito perder o gosto da vida. acreditava na superioridade do espírito em relação a todas as agitações da matéria. acreditava. que gravou na sua madeira a dança macabra da Idade Média e de todos os tempos.disse orgulhosamente. pois. cidade de Erasmo.burguês como os burgueses da burguesia. Filho e cidadão de Basiléia. observando as grandes batalhas. contra Lutero. contra imperadores e tribunos. de Milão. Nessas agitações reconheceu os furores da Cidade Antiga que perdera o seu deus. tocou no problema talvez mais grave dos nossos tempos: a natureza dos deveres do espírito. Ele próprio era um "cidadão". Era-se fraco demais para se tomar partido nisso. sobre os telhados e sobre as torres.95 No paraíso das suas ilusões os intelectuais reencontraram. contra bispos e heresiarcas. Isto o fazia incorruptível. cidade de Holbein. Hinc nostrae lacrimae. Era um homem. enfim. modelo supremo do intelectual. enquanto fora. e sim transformá-lo. com viva emoção. nas estradas de Paris. de repente. tanto da esquerda como da direita. Intelectual. de Antuérpia e de Colônia. velha cidade humanista. último reduto do humanismo. Essa cidade.

" E assim foi: "Minha vida foi um outono. de crítica. É o supremo modelo da existência espiritual nestes tempos. de tragédias. entusiasmo. Ninguém poderia dizê-lo melhor do que Burckhardt nas últimas palavras das suas Considerações: "Seria um espetáculo maravilhoso seguir o espírito da humanidade. ao lado de penosas imitações classicistas. nesse apaixonado que representa o papel de deus olímpico? Onde está a coerência nessa multidão de obras. su virtud y su limitación". Os mais belos poemas da língua alemã. "su esplendor y su miseria. as Elegias romanas. de contos." PRESENÇA DE GOETHE "DESEJAIS" .uma luz muito nobre. ligado a todos esses fenômenos exteriores e portanto a eles infinitamente superior. Quarenta e cinco volumes. para viver somente cheio do desejo desse conhecimento."fugir da baixa atualidade e ficar sempre atual? Refugiai-vos naquilo que jamais teve atualidade!" Refugio-me em Goethe. a sabedoria . e alguma coisa ainda mais. nesse artista que dedicou metade de sua vida à óptica e aos minerais. Os intelectuais não têm a obrigação de transformar o mundo. coerência. É o maior poeta e o mais universal dos tempos modernos. onde estão nesse revolucionário que acabou ministro de Estado. Decepção que os fez compreender. Realmente? Essa estátua impassível seria a expressão de uma vida exemplar? Fogo. única poesia moderna digna da Antiguidade. o que é que ficou? Hesito em responder. e fico surpreendido com a sua presença. cheios de poemas. esqueceria toda felicidade e desgraça.apocalíptica. no dizer de Ortega y Gasset. ao lado de mil futilidades em versos inábeis. dois terços das quais são completamente falhos? Dessa obra que louvam sempre sem conhecê-la. de romances. de ciências naturais. Mas o outono também tem o seu encanto . o seu dever é transfigurá-lo pela criação. quando ele se constrói um novo edifício. de filosofia. a criação artística. Quem disso tivesse uma idéia. de tudo aquilo quanto existe entre o céu e a terra. fosse ela como uma sombra.dizia Benedetto Croce .

O Werther. à arte e a si mesmo. Não são unicamente os liberais de outrora que o dizem. traiu a humanidade. colocou-se ao lado das forças feudais. ao lado de fracas peças históricas. O amador de fósseis torna-se fóssil. em que Goethe misturou os mistérios mais sublimes a futilidades inexplicáveis. os romances de Wilhelm Meister. no entanto. Todas as manifestações de um enfadonho classicismo pesam ao lado da sabedoria enternecedora de um velho homem.sonora do Tasso e da Ifigênia. Traiu à humanidade. Vida admirável. cujos sofrimentos absolutamente não o preocupavam. espírito apolítico. onde um grande espírito se dispersa em mil cintilações luminosas. embora intimamente as desprezasse. e. do qual proviera. realmente: a plenitude dos seus 82 anos. Ainda em vida. Contra ela. . de um tédio torturante. Onde está a unidade de tal obra? Foram buscar esta unidade na sua vida. esta ascensão de um modesto filho de burguês. O inverso desse individualismo magnífico é uma impassibilidade desumana. Três pontos de acusação que já não permitem subterfúgios. Mas pagou caro. primeira obra-prima do romance psicológico. em face de comédias ridículas pela incapacidade de provocar risos. pelo qual Goethe se transformava em olímpico impassível. Goethe fez de si próprio um monumento. egoísta. traiu o povo. desfigurado por um sentimentalismo insuportável. o segundo Fausto. acima do formigueiro dos homens desprezados. Enfim. São os cristãos que retomam a censura a um humanismo puramente estético. aos cumes da humanidade. a tempestade juvenil do primeiro Fausto. a grande paixão. Desigualdade surpreendente. desumano. Assim. Goethe respirava ainda. a Revolução Francesa. quase ilegíveis por sua técnica de romance antiquada. como nessas Conversações com Eckermann. somente pelas armas do espírito. esta purificação de todas as paixões até à soberania de uma individualidade universal. fogo de artifício. A renúncia à vida mata o espírito. É o cúmulo da inatualidade. Goethe. já estava morto. não compreendeu o maior acontecimento do seu tempo. As Afinidades eletivas. espécie de suma da civilização humanística.

enfim. fazendo coro com a política.Goethe. Não chegou nunca a um sistema. nessas três fraquezas. o artista. e que constituem a presença de Goethe. por essas palavras. inimigo de todas as violências. são esses três fatos que o tornam exemplar. em 1792. na verdade. cuidadoso de "não perturbar o sono do mundo". para abraçar as ciências naturais e enriquecê-las com as suas descobertas duvidosas e as suas fantasias arbitrárias. em vão. a um programa: falta preciosa numa época em que os sistemas da ciência servem a programas criminosos. Depois de ter experimentado. A fragilidade do sistema fê-lo profetizar. que reside a sua verdadeira grandeza. ele trai a arte. a arte e a sua própria dignidade humana. que não trai. Todas três ao mesmo tempo. traidor da arte. o romantismo. para não desencadear as forças desordenadas. Goethe. Inimigo da humanidade. adulador do déspota! Já é alguma coisa. cativar os seus contemporâneos com a fórmula classicista. uma nova época da história começa. Mas creio que é aí. diante da fúria revolucionária em Mainz. porém. para ele. de qualquer conformismo. depois da insignificante primeira retirada dos aliados. mas. e nisso ele continua exemplar. diante do exército republicano: "Por aí. ao ajoelhar-se diante de Napoleão. Desde muito cedo. porque ele não conhecia bem o seu papel. Goethe aconselhou. Goethe sabia insustentável o absolutismo do século XVIII. não compreendeu o maior acontecimento literário do seu tempo. em Valmy. não saudava a revolução vitoriosa." Goethe. acima do político. Goethe nunca fazia coro. tanto como os nossos conservadores de hoje reconhecem insustentável o atual estado de coisas. O seu conservantismo. é a atitude de um verdadeiro sábio. precisamente aí.disse em 1793. especialmente para nós. traiu a humanidade. No fundo dessa independência existe um pessimismo que . não punir os crimes dos revoltosos: o humano continuou. "J'aime mieux une injustice qu'un désordre"96 . e a frase foi muitas vezes comentada no sentido duma terrível indiferença moral. ao beijar as mãos daquele que se deveria tornar o modelo de todos os déspotas. Esta falta preciosa o preservava de todo espírito de partido.

uma sabedoria política. e em 1832.escreve ele em 1825. O individualismo da Renascença atinge. a personalidade bem formada cede lugar à massa impessoal. Goethe não lastima a queda do Império. O capitalismo quebrará as formas orgânicas da sociedade. Somos os últimos de uma época que não voltará nunca. meu caro" . com efeito. Um século mais tarde. as massas derrubarão a burguesia que as criou. sucumbir-se-ia certamente. nele. Goethe. uma filosofia da história que se aproxima da dialética do seu amigo Hegel: os transtornos históricos são apenas passagens inevitáveis. depois do desmembramento da Alemanha por Napoleão. nesse momento de humilhação. Isto explica uma certa indiferença em face das catástrofes exteriores. a sinceridade. É. enquanto uma nova era começa. o seu apogeu. a única arma do espírito contra essa política que Napoleão dizia ser o destino da época moderna. Tal atitude é sempre uma atitude contra a época. o mundo somente admira a riqueza e a velocidade. pela revolução de julho. surpreendidos com a pergunta que a história nos dirige. Esta sabedoria não é. do comércio e do jornalismo. Hegel morreu. ao seu amigo Zelter . para dar lugar às multidões proletarizadas. E Goethe é um homem contra a sua época. . porém saúda o novo reino do espírito alemão. Em lugar da sabedoria apolítica. porém Goethe deseja conservar a sua." Em 1831. decerto. o Império universal de Goethe e de Hegel começa. Goethe o previu: "Tudo. que defende a independência. em 1830. para salvar a liberdade do espírito. no terreno político. Aceitando a luta no terreno inimigo. porém. mas o inimigo não destruirá jamais a catedral invisível do espírito.deriva igualmente do pensamento cristão e do pensamento "filosófico": a história é "le tableau des crimes et des malheurs de l'humanité". Assistimos ao último ato da tragédia comovidos com a catástrofe que ameaça devorar-nos."tudo se tornou radical. começara a época do liberalismo. dir-se-ia melhor sabedoria suprapolítica. Goethe aprova o caos exterior. a liberdade da criatura humana. contra a política total. subterraneamente.97 Diante da tormenta ele se mostra cético: o mundo perdeu a cabeça. e. Há nisso.

era incapaz de transfigurá-la em arte: supremo testemunho de sua sinceridade. o poeta. A natureza é o seu asilo misericordioso. e une todos os membros do organismo Natureza: a lei da analogia. dominou-a. como a nossa. da história. Na linha da analogia. à morte. e tudo desabará. minha mãe sublime" .no Fausto. nas hesitações duma época de transição. Em 1795. continua o embaixador de uma burguesia ainda idealista. Não a tem porque isso não é da competência do artista: as soluções são sempre fáceis e valem o que valem. Goethe. ela vos devorará. É que a sua existência privada. no Universo. Negai a revolução. Quanto mais o homem se purifica das suas paixões banais. mas fracassa diante dos fenômenos da natureza inanimada. junto aos poderes feudais. aos quais está ligado pelo respeito das tradições. muito acima do formigueiro humano e das suas convulsões. em vão. tornada desumana. é escrita enquanto Napoleão conquista a Itália. se baseava. e sim da velha burguesia medieval. o filósofo. paira muito alto. Hegel. não da nova burguesia capitalista. Goethe é filho da burguesia. o filho da cidade livre de Frankfurt e das suas liberdades medievais. é a imagem do Macrocosmo. ele. o Macrocosmo. tanto mais autorizado se acha ele a participar da tranqüilidade do Universo. refugia-se na história natural. sem importância. Deixa a história humana. os seres evolucionam em metamorfoses perpétuas: metamorfoses gerais das espécies. ela se impõe. A . metamorfoses individuais que vão do nascimento. Quebrai as tradições. Uma grande lei impera. que prepara uma nova metamorfose da vida. ele experimenta. Esta concepção da natureza envolve admiravelmente a vida. através das polaridades de toda existência viva. não menos comovida que a nossa. sempre renovada. Esta participação é possível porque a criatura. A Natureza.Para esta pergunta Goethe não tem resposta. com maiúscula. que são. A grande invocação "Natureza. É um beco sem saída? Não. transformar em poesia a catástrofe. o microcosmo. Ele não pode arvorar-se em paladino de uma revolução que o supera. quanto mais se eleva acima dessas perturbações. Naquela época. Essas obras falidas marcam o fim da sua existência literária. é a dialética.

"metamorfose das plantas" e a formação do crânio pela metamorfose das vértebras superiores, duas descobertas de Goethe, ficaram como base da botânica e da anatomia comparada. Mas na óptica, Goethe não sabe distinguir o lado físico do lado fisiológico do fenômeno "cor"; perde-se em polêmicas estéreis contra a ciência matemática de Newton, e cria uma ciência das cores que ele acredita ser a obra principal da sua vida e que a posteridade unanimemente rejeitou: o futuro era da matemática. A mesma posteridade fez, da metamorfose goetheana, a evolução darwiniana, da qual chamaram a Goethe o precursor. Mas Goethe não era precursor. Ele era refratário. No limiar da época das ciências naturais, ao serviço da técnica, Goethe é o último paladino de uma outra ciência da natureza, orgânica e desinteressada. Macrocosmo e microcosmo, analogia, metamorfose: são os princípios da ciência natural da Renascença e da Antiguidade, de Bruno e de Plotino. Como Giordano Bruno e Leonardo, Goethe é naturalista e artista ao mesmo tempo; ele não separa as ciências naturais e as artes. De todas as lições goetheanas, esta é, talvez, a maior. O abismo entre a arte e a vida existe sempre; o falso idealismo abjeto e o falso naturalismo tendencioso são igualmente enganadores; ambos, subterfúgios de um esteticismo que trai a vida e a arte ao mesmo tempo. É a mentira. Mas onde colocar a arte, que está além desse mundo e lhe fica sempre ligada, demasiado ligada? Unicamente num mundo que é bem nosso, e no entanto superior: a Natureza. Goethe reconcilia a arte com a vida, reduzindo-as à Natureza, que jamais mente. Esta imersão na Natureza é verdadeiramente romântica. Com efeito, Plotino e Bruno são os mestres do romantismo; Novalis e Schelling respiram na filosofia do Macrocosmo e do microcosmo, nos conceitos da analogia e da polaridade. O romantismo, que Goethe desejava afastar da poesia, este romantismo volta vitoriosamente na filosofia goetheana da Natureza; e é aí que ele está bem no seu lugar. Um romantismo puramente literário torna-se superficial e será amanhã um classicismo renovado. Outro romantismo, verdadeira redenção das forças humanas, prepara nossa

redenção das cadeias da ciência natural a serviço da técnica, devolvendo-nos à Mãe, à Natureza. Para Goethe o fim das ciências naturais não é servir ao homem pela técnica; o estudo da Natureza, segundo Goethe, deve fazer do homem um ser consciente de si mesmo, dar-lhe um coração puro, em harmonia com o Universo. Esta ciência da Natureza é quase uma religião. Para Goethe, o humanista, a Natureza tornou-se um templo, o templo que o Apóstolo encontrara em Atenas, dedicado "Ao Deus desconhecido". Houve, no templo científico, naturalista, de Goethe, a inscrição bem humanística, as palavras de Heráclito que Aristóteles nos transmitiu: "Introite, nam et hic dii sunt."98 E Goethe assemelha-se a esses sacerdotes da Antiguidade primitiva, que eram ao mesmo tempo, servidores do templo e conhecedores dos mistérios da Natureza. O que une, para Goethe, a arte à Natureza, é a sua inutilidade sublime. A criatura, obra da Natureza, é perfeita em si mesma, como a obra de arte; a arte alcança sempre a finalidade que não tem. Esta inutilidade sublime, este desinteresse completo do espírito, esta "religião da cultura espiritual", é o núcleo da "cultura goetheana", ideal da mais alta inatualidade. Foi o que tornou a Goethe solitário durante a sua vida; foi o que fez o século abandoná-lo; é o que o torna exemplar para os nossos dias. "Cultura goetheana" é uma concepção bem sem atualidade, mas que continua sempre presente. É uma religião da qual era Goethe o sumo pontífice. Nunca um grande homem foi tão consciente do seu papel: ser príncipe no reino do espírito. Realmente ele assemelhou a sua vida à de um olímpico. Mas os contemporâneos, como a própria posteridade, acreditavamno um déspota. Tinham esquecido o que este déspota havia realizado: uma obra de libertação. Ele se fez chefe da revolução pré-romântica, e depois de ter afastado os falsos deuses do racionalismo petrificado, dominou as forças desencadeadas, para instituir o Cosmos de uma nova harmonia entre o homem e a Natureza, sob a regência da arte. Essa vida tem apenas um rival: a vida do homem que se constituiu chefe da revolução, e que, depois de ter expulsado as

forças do passado, instituiu a harmonia de uma nova época; época que só foi vitoriosa depois que deixaram de julgar déspota o seu autor. É a vida de Napoleão. Bonaparte teve a intuição deste parentesco; encontrando Goethe, dirigiu-lhe a maior das suas palavras: "Eis um homem!" Goethe também possuía a consciência clara desse parentesco: ele teve mais do que admiração a Napoleão, ele o amou. É admirável, porém, como soube subtrair-se ao imperador deste mundo. Goethe é o clérigo que não trai, não serve. Goethe vê em Napoleão o lado noturno, demoníaco da sua própria existência olímpica. Napoleão era, aos olhos de Goethe, a encarnação de um demônio. Mas a expressão "demônio" tem, na linguagem de Goethe, uma significação especial, a mesma que para Sócrates. O demônio de Goethe é o lado perigoso do espírito, mas sempre necessário no movimento dialético da história. Era preciso que Goethe atingisse a idade do salmista para saber exprimir esta suprema sabedoria, a sabedoria do seu poema Cinco palavras órficas. Uma sabedoria que nos está bem presente: As cinco forças primordiais deste mundo são: Demônio, a força interior do homem; Natureza, a força do Universo; Tyche, a força das contingências que nos cercam e movimentam; Ananke, a força da necessidade que nos rege; e Elpis. A Tyche se opõe a Natureza: a criação perde a inocência do primeiro dia e torna-se o motivo da nossa dor. O homem se opõe a Tyche; o demônio, em nós, é mais forte do que as contingências, e transforma o mundo; o homem domina a Natureza e transforma Tyche em ordem humana, Ananke. Ananke domina ao Demônio: é necessário que o homem se curve. Desde então, somos os prisioneiros da necessidade que criamos. Mas existe ainda, em nós, um resto do Demônio, resto do paraíso perdido e promessa de liberdade: é nossa última deusa, Elpis, a Esperança. A LIÇÃO DE UMA SANTA HÁ ALGUNS anos um dos meus amigos entrou numa livraria católica e pediu um livro sobre Santa Teresa. A jovem que o atendeu trouxe um monte de livros sobre Santa Teresinha do Menino Jesus.

"Mas não, eu queria alguma coisa sobre a grande Santa Teresa de Ávila!" A jovem levantou os ombros e respondeu: "Sinto muito, mas a grande Santa Teresa já não é moderna." Sem dúvida, a "grande" Santa Teresa teria rido desta anedota; a visionária tinha, como verdadeira castelhana, o humor superior da sua raça e a inteligência prática. A invasão do "moderno" nas regiões da eternidade, sintoma tão grave aos nossos olhos, teria sido para a santa um novo impulso de atividade. São os santos que transformam o mundo. Nada mais interessante que observar as coisas que são tomadas a sério pelos nossos contemporâneos, se eles são ainda capazes de levar alguma coisa verdadeiramente a sério. Achar-se-á que os idealistas e os espiritualistas mais sublimes se apavoram em face das crises econômicas, das revoluções sociais e das batalhas militares, como se isso tivesse alguma importância. Ah! como o materialismo venceu até os seus inimigos mais rebeldes! Quanto a mim, estou convencido que os santos são o verdadeiro sinal dos tempos, muito mais importantes que a distribuição das forças diplomáticas e econômicas ou as novíssimas invenções da técnica militar. Todos esses que hoje se agitam tumultuosamente estarão mortos em breve, e nós juntamente com eles. É a morte que dá a esses episódios a sua verdadeira medida. A morte carnal, a decomposição, à qual maravilhosas lendas da Antiguidade cristã! - a carne dos santos resiste. Somente, é preciso saber o que é um santo. Os santos não são acessórios de crenças passadas nem figuras de gesso inexpressivas. O santo é um homem que possui a graça de levar o mundo mais a sério do que ele o merece; tão a sério que o seu caminho para o céu passa precisamente por este mundo. Levar o mundo a sério é a lição dos santos. Os santos não são infalíveis; mas são resolutos. Não vacilam entre um puerilismo ingênuo e a adoração do poder. Não são modernos; representam o eterno. Sabem que a espada do espírito é mais cortante que a espada de aço. Quem não acreditar estará perdido. Quem acreditar será salvo. É a lição da grande Santa Teresa.

Teresa de Cepeda y Ahumada é filha de um grande da Espanha, filha da cidade castelhana de Ávila, cujas muralhas ciclópicas pareciam construídas para a eternidade; Unamuno celebrou-as como símbolo da imortalidade. Alimentada tanto pelo espírito aventureiro dos romances de cavalaria - chegando mesmo a escrever um deles como pelo espírito exaltado da Flos Sanctorum, das lendas dos santos, e também desejosa de tornar-se santa, Teresa escolhe o caminho da aventura religiosa. Prepara-se para as cruzadas e para os martírios, abandonando o século e entrando para o convento do Carmo. Mas o que ela encontra no convento é o século. Estamos antes da reforma do Concílio de Trento. Parece que aí, no convento, se levava a sério o mundo. As religiosas nos seus parlatórios gozavam de uma liberdade que a severidade castelhana proibia às mulheres do século. A vida nos conventos é uma verdadeira "comedia de capa y espada", com as suas serenatas e seus duelos. O barulho das armas na Itália e em Flandres ecoava no parlatório, bem como o tilintar do ouro das Índias. "A súbita mudança de alimentação e de hábitos me fez cair doente" - escrevia a religiosa a seu pai. Ela estava mais doente do que imaginava. Caiu em letargias que duraram dias e dias. Uma vez as irmãs chegaram a preparar-lhe a sepultura. Mas a morte passa. Teresa volta ao mundo. A leitura das Confissões de Santo Agostinho ensina-lhe o valor único da alma humana. O destino do mundo não depende das guerras de religiões nem das guerras de conquistas. É na alma humana que os destinos do mundo se decidem. Iluminada por essa sabedoria, Teresa apavora-se com as palavras evangélicas que ouviu durante a missa: "Vigilate itaque, quia nescitis diem neque horam" - "Velai, pois que não sabeis nem o dia nem a hora". É o fim da parábola das virgens sábias e das virgens loucas, das virgens sábias que prepararam as lâmpadas para as núpcias, e das virgens loucas que esqueceram o óleo, e as lâmpadas apagaram-se, e caiu a noite, e o noivo celeste não as reconheceu; é o evangelho que se reza hoje em dia durante a missa em honra a Santa Teresa. Teresa está resolvida a não pertencer mais ao número das virgens loucas. Quer reformar a Ordem. Prontamente a virgem sábia foi considerada louca. Teresa cai em

A histeria pode perfeitamente ser acompanhada do gênio. Para o .para fundar os trinta e dois conventos das Carmelitas descalças. coloca-nos diante de um problema sério. que não é precipitada. Porque a histeria não é uma loucura. em 1582. e cita o livro do sábio bolandista P. Bernini o esculpiu. sobre Santa Teresa. Um católico profundamente crente como o barão Huegel declara: "Nunca houve um santo visionário que tivesse uma saúde nervosa normal" (carta de 19 de novembro de 1898). e compreende-se imediatamente a intenção genial do artista: Teresa era histérica. Mas o gênio religioso? A histeria é uma doença do caráter. e mais ainda: o humor superior e o gênio literário do criador dessas personagens imortais. vê-se a santa com os olhos fechados em êxtase. porém. Hahn S. cheias de conselhos práticos. pois que ela não afeta a inteligência. o anjo do Senhor fere-lhe o coração com a flecha do amor. ao núncio apostólico e aos bispos. Essa comprovação. Ao morrer. prenderam-na. aos superiores. conseguira fazer o que o rei e o Grande Inquisidor não conseguiram: a Igreja na Espanha estava salva. que a torturam cruelmente. um sorriso encantador nos lábios. Com a coragem do cavaleiro andante ela percorre toda a Espanha . o anjo que lhe fere o coração com uma flecha de amor parece um Eros. Reclusa em Toledo. cartas cheias de coragem indomável. Santa Teresa tem o seu monumento.que viagens pitorescas e picarescas! . É precisamente pelo caráter que se distingue o histérico egocentrista e orgulhoso do santo teocentrista e humilde. escreveu as obras místicas que a consagraram a primeira prosadora da literatura espanhola. em Roma. não se deixa domar. Sobre um altar da igreja de Santa Maria della Vittoria. Essa visionária extática reúne em si a imaginação de Dom Quixote e a inteligência prática de Sancho Pança. cheias de um humor surpreendente e de uma sabedoria superior. J.êxtases: vê o céu aberto. mais sério que a pretensa vizinhança entre o gênio e a loucura. Resiste ao rei Felipe II e a seus inquisidores. É uma obra-prima da arte barroca. Processaram-na. Ela. escreveu inúmeras cartas aos grandes do mundo e às religiosas dos seus conventos.

Por aí o santo é capaz de agir. os seus . que os outros não compreendem. e toma o mundo a sério. de Manuel Bartolomé Cossio. fechado dentro do seu eu. Mais ainda: a sua santidade e a sua atividade são a mesma coisa e transformam o mundo. nos histéricos e esquizofrênicos. O mundo é um conjunto de material para a ação. assunto da psicanálise. com aquilo que Sócrates e Goethe designavam como "Demônio". Três atributos que pertencem ao passado. e o homem superior. a dissociação mental do homem superior provém da irrupção dum "supraconsciente". é uma grande figura da literatura espanhola. o mundo é um joguete em volta do seu eu. Que temos a ver com isso? Que interesse tem isso para nós? A história literária de Santa Teresa ainda não está escrita. é uma das almas mais seráficas que a terra já viu. o grande Leibniz escreveu: "Tendes razão em estimar as obras de Santa Teresa. e é uma força de ação. A doença mental paralisa a consciência. Numa carta a Morell. de 16 de dezembro de 1696. a dissociação da consciência provém duma irrupção do subconsciente na consciência. O histérico. o suksma do ioga hindu. o santo sacrificou o seu eu a Deus. de Max Wieser. mas esse mundo é superior ao nosso mundo. estudos que já permitem a afirmação de que Santa Teresa é uma figura central da história do espírito europeu." A obra de Santa Teresa! Ela é a maior figura da história eclesiástica barroca. o mundo do histérico e o mundo do santo parecem igualmente quiméricos. de Henri Bremond. Um interessante estudo de Georg Sebastian Faber distingue entre o histérico." "Porque as suas obras os seguem. É preciso procurar os seus traços nos estudos esparsos de Carl Neumann. O santo é histérico em todas as aparências do seu mundo à parte.histérico. para os pequenos-burgueses de espírito. "Pelas suas obras vós os reconhecereis. é incapaz de agir num mundo que ele mesmo criou e que não existe na realidade. A pedra de toque de distinção é a ação. Para os "normais". o supraconsciente enche o espírito com uma nova força superior. assunto duma metapsicologia: ambos sofrem duma dissociação da consciência. A aparição de um santo é a invasão de nosso mundo pela eternidade.

Teresa ocupa precisamente o mesmo lugar que o Agostinho das Confissões na psicologia antiga. Max Wieser provou que Santa Teresa criou toda a terminologia psicológica empregada pelo sentimentalismo do século XVIII e em seguida pelo romantismo. Se Teresa foi chamada a criadora de um humanismo cristão. O seu Camino de perfección é tão realista e tão eterno quanto as estradas de Castela. Por outro lado." Todo conhecedor da posição central de Leibniz na história da filosofia moderna ficará impressionado. a língua espanhola era então a língua universal. Santa Teresa é uma grande psicóloga. Na história da psicologia moderna. Dois fatos que justificam algumas explicações mais especializadas. Teresa teve na Espanha um público escolhido: foi lida pelo rei Felipe II e por Dom João d'Áustria. por Fray Luis de León e Cervantes. Sola con El Solo" . ela só. A Antiguidade não conheceu o valor da alma individual. O seu Castillo interior tem as muralhas tão duráveis como as da fortaleza de Ávila que Unamuno cantou. E isto sobreviveu àquilo.essa expressão salva toda a beleza das coisas deste mundo para os espaços infinitos do Castillo interior e dá um novo centro e nova direção a todas as atividades. foi porque acharam nas suas obras uma terminologia cujos efeitos eram incalculáveis sobre o espírito europeu: "Alma y Dios. Agostinho encontra a sua alma sozinha com o Criador: a alma humana é realmente o que há de maior valor sobre a terra.pensamentos fornecem reflexões filosóficas que já apliquei. resiste perante Deus. que. depois do desmoronamento do mundo antigo. Ora. Teresa foi despertada por Agostinho: ela viveu na época em que a Antiguidade ressuscitada pelo humanismo tinha feito esquecer o valor da alma humana. "Alma hermosa" . Cossio demonstrou que as influências de Santa Teresa operaram a transformação do pintor grego Theotokopouli em El Greco de Toledo. No tempo em que os Conquistadores espanhóis descobriram os tesouros da Índia. em Flandres e entre os . Teresa descobriu os tesouros da alma. Teresa foi lida em Nápoles.estas palavras significam exatamente o valor incomparável da alma humana.

onde o grande poeta barroco Richard Crashaw lhe dedicou o seu Hymn to the Name and the Honour of the Admirable Saint Teresa. Daí é que surgiram o abade de Saint-Cyran e Pascal. o bispo Pierre Camus. fundador da Congregação do Oratório. a alma isolada. Sobretudo. Sabe-se que toda a literatura francesa até os nossos dias está impregnada de polêmicas jansenistas e antijansenistas. de François Maynard. e o seu discípulo Olier. I-III). é o germe do idealismo alemão. O mais belo poema religioso da língua francesa. fundador do seminário de St. bem como o terceiro volume de Bremond. por igual. e o carmelita Pe Philippe Thibaut. cuja filosofia "ocasionalista" é a fórmula filosófica do "Sola con El Solo". É ainda Bremond que persegue a linha "quietista" do Pe Lallemant e da religiosa Marie de l'Incarnation ("C'est vraiment notre Thérèse"). e tudo quanto tem valor na mística de Port-Royal: "A alma só perante Deus".pois o espírito inglês deu mostras duma estranha afinidade com o espírito da santa - . e Carl Schmitt achará o ocasionalismo em toda a filosofia do romantismo. não tínhamos ainda conhecido a grande "primavera espiritual" francesa do barroco. Sulpice. que se inspira no "humanismo devoto" de Francisco de Sales. nos apresentam o cardeal Berulle.prisioneiros de guerra em Argélia. Depois. do abade Henri Bremond. cuja "mônada". Malebranche transmitirá este pensamento a Leibniz. Mas Unamuno achou a "mônada" no "só cristão" de Kierkegaard. fixa uma atitude teresiana de alma nestas palavras: "Dans le désert sous l'ombre de la Croix. e até mesmo no Peru. que se inspiram. Aí ele encontrará o ramo inglês do pensamento teresiano .100 até Fénelon e os místicos da Renânia. Foi lida pelos últimos católicos da Inglaterra. En attendant la mort."99 Mas aqui o que mais nos preocupa é o grande oratoriano Nicolas Malebranche. Até à admirável História literária do sentimento religioso em França (especialmente vols. entre os quais Pierre Poiret é o "pai do pietismo literário" (Max Wieser). o criador da expressão alemã "Schoene Seele" ("alma hermosa"): expressão que dominará o sentimentalismo do século XVIII e reaparecerá em Goethe. em Novalis e no romantismo. em Santa Teresa. Teresa inspirou a devoção do santo bispo Francisco de Sales.

O que há neste mundo. a imbecilidade dos bispos. Santa Teresa conquistou um mundo. movimento que vence com Shaftesbury. Sem dúvida o pensamento teresiano era o "Castillo interior" da alma humana contra todos os ataques da violência barroca. É precisamente dessa Espanha desumana que a voz mais humana proclama o valor incomparável de toda alma. até Quental. se inspirou. aos ventos do inverno de Castela e ao sol escaldante da Andaluzia. o pai espiritual do classicismo de Weimar101 e do neoclassicismo inglês do século XIX. que leu o seu Agostinho pelos olhos de Santa Teresa. porém. Paulo102 Tillich pôde prosseguir este pensamento até às polêmicas idealistas. que nós conhecemos em Dom Quixote. poeta do Unknown Eros. O mundo de Santa Teresa é a Espanha barroca: um mundo rude. Amiel. do racionalismo do século XVIII e do materialismo do século XIX. Em toda parte do mundo os espanhóis batemse como heróis e destroem como selvagens. . Deixemos Unamuno prosseguir esta linha de Sénancour. em que o último platônico inglês. Chateaubriand. a única figura luminosa é o Grande Inquisidor Quiroga. Em plena Inglaterra vitoriana. onde reaparece a substância cristã do pensamento teresiano. Leopardi. a grosseria dos generais e a covardia dos burgueses. entre fidalgos que têm ar de ladrões e ladrões que têm ar de fidalgos. o oratoriano Cardeal Newman transmite a psicologia teresiana a Coventry Patmore. A própria Teresa o descreveu no seu Libro de fundaciones: a frieza impassível do rei. Vigny. as noites nos albergues.ramo que provém dos anglocatólicos e dos platônicos de Cambridge. do jovem Marx. de verdadeiro "personalismo". O sentimentalismo e o romantismo têm a sua fonte comum nas Confissões de Rousseau. como o nosso tempo. presentemente. é devido a esta notável e estranha oposição do humanismo cristão. humanitárias. É um tempo de ferro e de sangue. e cujo ensaio sobre Singleness of Mind representa a voz da última resistência. ainda. conquistou-o. contra o mundo. o grande romancista Charles Morgan. a astúcia dos ministros. que El Greco pintou inesquecivelmente. Teresa descreveu as suas viagens sobre mulas miseráveis.

104 Aos demônios da violência opõe o seu firme "Todo nada". Ela finalmente é a mais forte. reais. a história não é o teatro dos generais e dos diplomatas. no centro da alma humana. como Richard Crashaw a cantou. Teresa fez história. Esta mulher.Esta voz venceu o barulho insensato de uma época. altivos e livres nos seus castelos: os estranhos avós do mais sublime fenômeno dos nossos dias. econômicos. "todo nada". A verdadeira história passa despercebida. Teresa. Charles Morgan. a sua alma é o castelo duma liberdade superior. O pensamento de Santa Teresa é a sublimação religiosa da liberdade espanhola. A história não se faz com armas e tesouros. segue. A alma está com Ele. eclesiásticos e burgueses da sua época. Deus não é o "Deus dos mais fortes exércitos". a fé que acha uma ordem superior e um sentido no mundo e na sua história. "the sacred flames of thousand souls". o céu castelhano do "Dios solo". O último "teresiano". como as muralhas de Ávila não o são. Hoje o castelo dos reis de Espanha não é mais que uma lembrança. "Dios solo" . mesmo o devoto. e o palácio vazio fica encoberto pelos arcos do Castillo interior. e a definição dessa fé consiste essencialmente em estabelecer fronteiras. é preciso defini-la? O pensamento de Santa Teresa operou os seus efeitos fora da Igreja. mas sim uma esperança. A lição da santa é que as muralhas do Castillo interior são eternas. do liberalismo espanhol moderno. Os tesouros das duas Índias amontoam-se sobre o cais de Sevilha. onde todo o poder do mundo está reunido para levar os seus idólatras sobre os caminhos do diabo. solitária na sua cela de Toledo.dizia ela. e ela será mais forte. Essa fé. olhando os alicerces gigantescos do Escorial. "Sola con El Solo". corajosa contra todos os poderes temporais e espirituais do mundo. "with white steps the way of light". não é uma consolação. bem compreendido. é bem a filha de gerações de senhores feudais espanhóis. não resistirá. O que. o que soa muito bem na boca dos incrédulos. e o puerilismo contemporâneo. tranqüilamente. Mas a fé de Santa Teresa é bem capaz disso. militares. É a nossa fé. Superior aos poderes políticos. porque é incapaz de levar a sério o mundo. exprimiu-o no .103 Amontoa os tesouros da alma.

indomável e inflexível como o zelo dos santos." VICO VIVO A ESTÁTUA do filósofo Giambattista Vico ergue-se na Villa Nazionale. os árabes. paisagem que sonha com o passado. da mãe. da ciência e da fé. onde os gregos. os alemães. a figura de pedra. também aquela estátua. os franceses. Perto do mar. da ilha de Capri. a elas também. do Vesúvio. e que o preserva ainda. parece insensível aos sofrimentos e sonhos humanos. Vico está bem vivo entre nós. olha o panorama do Posilippo. historiógrafo miseravelmente pago do rei Carlos III. contempla com o olhar frio de pedra as crianças inocentes que brincam ao pé do monumento. os longobardos. exceto a fuga ou a destruição. do camponês. de 1668 até 1744. os espanhóis deixaram os seus traços.Essay on Singleness of Mind com o qual prefaciou o seu drama O rio faiscante: "Muitos homens se deixam convencer pelo desespero de não haver remédio contra a violência do mundo presente. Mas é no caos da política que através deles chegamos à ventura e ao milagre: . os implacáveis destinos futuros. e que é o gênio do amor. dos jovens e dos velhos. Essa concentração espiritual a que Jesus chamou a pureza do coração. Viveu em Nápoles. ao pé do qual a cidade submergida de Pompéia dorme: paisagem essencialmente histórica. onde tentou melhorar os . preceptor em casas de famílias nobres. Mas há outro remédio que está ao alcance de qualquer. os romanos. do marinheiro. e realmente eles não permitem que ninguém os desvie dos seus objetivos. o parque municipal de Nápoles. que o pensamento humano conservou através de tantas tiranias. e por um problema premente que permanece conosco. que não sabem quem foi aquele que lhes traçou. do sábio. Chamam aos santos de fanáticos. O remédio é esta concentração do espírito ativo. obscuro professor de retórica. Como a história. Assemelha-se a um rio faiscante. Pela doutrina. na penumbra das árvores velhíssimas.de ser um homem. corroída pelo tempo. e com um futuro incerto.

a época em que as ciências naturais e matemáticas começavam a marcha triunfal que hoje termina com as vitórias terríveis da técnica. Era o século XVIII. cidade dos inquisidores espanhóis e da erudição sufocadora dos antiquários. . aquele livro. a doutrina de Vico tornou-se uma base evidente e quase natural da nossa estrutura espiritual. O problema . Foi ele quem primeiro empreendeu estabelecer leis históricas.parece um problema histórico. com exceção dum único problema que parece puramente histórico. Vico passou despercebido. Todos os problemas viquianos estão resolvidos no livro estupendo que Croce lhe dedicou. Influiu poderosamente na filosofia da história romana de Montesquieu. onde Benedetto Croce o redescobriu. e escreveu.como pôde a Scienza Nuova nascer em meio ao choque desses dois mundos. e o criador dessa doutrina caiu num olvido glorioso. entre outros. no espírito coletivista e "populista" de Herder. que feriram o professor: na maior miséria. na verdade. Os pequenos resultados acessórios desse trabalho foram a ciência histórica do direito. criou. o livro Principii di una Scienza Nuova intorno alla natura delle nazioni. e que é o problema dos nossos dias presentes: como foi possível que alguém escrevesse em 1725 a Scienza Nuova. Mas é. a compreensão dos contemporâneos napolitanos limitava-se a dúvidas e discussões acerca da sua ortodoxia católica. na Nápoles estreita de então. Escreveu muito. Mas foi compreendido só pelos descrentes. de Marx. Enfim. a sociologia comparada. que permitem compreender o sentido do passado e pressentir os destinos do futuro. Com esse livro. nunca perdeu a fé. uma "Ciência Nova": a filosofia da história. Foi escrito.vencimentos magros escrevendo poemas de ocasião para aniversários natalícios e núpcias. dos românticos. de Sorel e de Max Weber. anti-histórico. o nosso problema presente. de Michelet. não nascido ainda . jurisconsultos e gramáticos. a filologia e estética históricas e psicológicas. e até na vulgarização de Spengler. para nós outros que estamos vivendo a queda apocalíptica do nosso mundo e buscando o nosso caminho nas trevas. progressista e intimamente a-histórico. para pertencer a um terceiro mundo. nas concepções de Comte. otimista.

as águas do dilúvio desapareceram. Vestia o traje do seu tempo. Essa elite de guerreiros liberta-se da tutela dos sacerdotes. bestiais. às vezes divertida e não raramente doida. sobre os ciclopes e os heróis. privilegiados pela Revelação. tem Homero como poeta: é a "época dos heróis". de Políbio até Spengler. duma "cultura teológica". Pertence às especulações barrocas sobre a origem das nações e de suas línguas após o dilúvio. A ciência de Vico está vestida do mesmo traje contemporâneo. especulações sobre Adão e Noé. escrevem em caracteres alfabéticos. um pouco civilizados. Todas as teorias cíclicas da história. como uma elite. peruca de professor.expõe Vico . numa volta. estúpidos. gravíssima. escreve em caracteres figurativos e fala em língua metafórica. esses bárbaros. faz guerras. Espantados pelo trovão. que não conhece mais que . Enfim. restabelecem por um "direito natural" a democracia. deixaram os homens sobreviventes em profundíssima barbaria. ditaduras lutam com anarquias. recomeça o ciclo das épocas dos deuses. Mas a democracia corrompe-se. Os outros erravam "na grande floresta da terra".Giambattista Vico era um homem magro. criam a historiografia e as ciências: é a "época dos homens". opõem-se ao espírito do cristianismo. com exceção dos hebreus. Assim. batina semiclerical. concebem os elementos duma religião. sempre doente. os povos recaem na barbaridade das origens. um pessimismo agudo junta-se à fé inabalável na providência celeste. Quando . A Scienza Nuova é um grande poema barroco. representada por sacerdotes que falam por mitos aos leigos e que escrevem em hieróglifos: é a "época dos deuses". Portanto. o poema histórico de Vico não pode denegar a sua descendência da teoria cíclica da história do pagão Políbio. tossindo na poeira dos inúmeros livros devorados. num "ricorso". Como em toda a poesia barroca. funda cidades. ciência em que as histórias da Bíblia e da Antiguidade se misturam numa erudição extensíssima. e. curvado pelas noites intermináveis à mesa dos estudos. os subjugados vencem aos senhores. brutos e brutais. dos heróis e dos homens. conseguem subjugar outros bárbaros inferiores e os governam.

que se desenvolveu até SainteBeuve e Taine. Mas a ortodoxia sincera que Vico sempre professou parece residir em sua fé na providência divina: ela vence o seu pessimismo e fá-lo achar um sentido na história. a parte da poesia popular. a significação histórica das lutas . cria a ciência histórica do direito. só admite uma evolução retilínea. em Vico. até Vico. Vico reconhece em Homero o poeta épico da idade heróica. por isso. Vico discute. Com isso. que passou. e em Virgílio o poeta épico dum estado mais velho e mais refinado da civilização. Na aparência. anônima. está limitado pela lei histórica dos ciclos que se repetem. política. em Vico. na elaboração das epopéias homéricas. O poder da história. Põe termo à identificação ingênua do direito romano com o direito natural.uma única revelação e uma única encarnação de Deus e. Mas como o poder dum monarca constitucional está limitado pelas leis. as bases sociais do direito. hoje renovadas entre Croce e Chiocchetti. a Igreja. Criou o relativismo histórico. da criação até o juízo final. religião. Vico vê a história como uma força que rege. Reconhece o papel do "espírito do povo" nacional e do "espírito dominante do tempo" na evolução das instituições humanas. É que Vico reconhece a interdependência de todas as regiões da atividade humana . criou Vico a estética histórica e analítica. É independente dessas possibilidades interpretatórias a primeira conseqüência que Vico tirou do conceito da interdependência: Homero é o poeta da aurora da humanidade. assim o poder da história. Todos os séculos precedentes tomavam Homero e Virgílio ingenuamente como pares. mesmo no direito. um século antes de Wolf. reconhece a relatividade de toda ordem jurídica. Eis a razão por que Vico não sabe como situar no ciclo histórico a história única do povo hebraico e da sua sucessora. Originaram-se daqui as discussões contemporâneas sobre a ortodoxia de Vico. É estranho como frisa a mudança da escrita com os diferentes estádios da civilização jurídica e material. por invariável. os destinos dos homens.direito. com poder absoluto. é só relativo. civilização material e espiritual: é possível interpretá-lo no sentido da dialética idealista de Hegel e da dialética materialista de Marx.

para nós outros. de reencontrar a possibilidade da atitude viquiana em face do fim de um ciclo histórico. ou. O livro fundamental de Hazard traz o subtítulo De 1680 a 1715 e marca. e permanece. depois a rua. uma crise terrível das consciências que cria uma nova época. Trata-se de vencer a perplexidade pela visão superior. Criou esta atitude científica que hoje perece. basta colocá-lo no seu tempo e no seu espaço. agora. que. com uma nítida preferência pelos modernos. Num certo nível. serão sempre discutíveis. exatamente o tempo em que o espírito de Vico se formou. a relatividade de qualquer ordem política e social. de início. como decisiva. a relatividade de toda a nossa civilização. depois a casa e. e a sua perplexidade é a nossa confusão. resolvido. Há. O pobre professor napolitano do tempo barroco previu o nosso problema. conforme o relativismo do mestre. Estava perplexo diante do espetáculo da história. Vico predisse-o: percorremos as épocas dos deuses. nisso. dos heróis e dos homens. o quarto. onde o drama se passa. a significação revolucionária da monarquia absoluta na luta da burguesia contra o feudalismo. E é estupendo. É. O grande teatro do mundo viquiano é aquilo a que Paul Hazard chamou La crise de la conscience européenne. se está bem colocado. Não se trata da justeza e exatidão das soluções viquianas. A grande discussão literária desse tempo é a comparação apaixonada entre os poetas e escritores da Antiguidade e os contemporâneos: a "Querelle des Anciens et des Modernes". no ano de 1725. e estamos voltando. Novum Organon e Instauratio Magna chamam-se os livros de . o nosso "problema Vico". a atitude espiritual. com isso.sociais. depois a cidade. Um problema está. O problema de Vico é o nosso problema. Trata-se. todas as soluções se tornam indiferentes. Para resolver o problema Vico. isto. o processo de Balzac de fazer-nos ver primeiro o país. É o próprio método histórico de Vico. à barbaria. Vico é o criador do historicismo. uma maravilha. Toda época é uma "querelle des anciens et des modernes". enfim. se o preferem. diante de um novo dogmatismo.

Está regida." Reconhece a nova época das ciências naturais. contestam os milagres. sucumbe à crítica cética. práticas. "knowledge is power". de Pierre Bayle. do século XVIII. tão caro aos antiquários namorados da Antiguidade. o braço jurídico de Grotius arma o absolutismo totalitário de Hobbes e. inventor do pára-raios e da República americana. matemáticas. Os demolidores das crenças religiosas não param. sobre o qual assentam todos os poderes. Gassendi acha na Antiguidade o que nenhum antiquário ousara achar: o atomismo materialístico de Epicuro e Lucrécio. Todo o restante saber humano. esta máquina mundial. naturalmente. implacável. Está à margem do mundo . que Vico leu e releu com um misto de curiosidade e medo. a Revelação e a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. do mesmo modo. ocupa no palco desse grande teatro mundial o último lugar. diante das crenças políticas: o "direito natural" serve-lhes para dissolver o direito positivo. A cidade de Nápoles. como as "máquinas animadas" da psicologia de Descartes. técnicas. jurisconsultos e filólogos da velha estirpe. e para Bacon. que excitou a oposição vivíssima de Vico. incisiva. Ficam sendo essas leis matemáticas a última coisa certa e indubitável no mundo. Seguir-se-ão. A própria Bíblia é irreverentemente criticada pelo atrevido oratoriano Richard Simon.diz Vico . nesse caminho. as irreverências de Voltaire e Diderot. o liberalismo de Spinoza. o que é inconcebível aos velhos professores e eclesiásticos. as proclamações teoréticas de Rousseau e práticas de Franklin. Para Galilei. pelas leis matemáticas de Newton. e Boyle transformá-lo-á em ciência nova da química. e os deístas ingleses tiram conclusões inauditas. "A Antiguidade teve tudo" . sufocados na miséria. aquele Franklin que "eripuit coelo fulmen sceptrumque tyrannis". "saber é poder". "la filosofia è scritta nel libro grandissimo della natura in lingua matematica"105. que dissolve em lendas e fraudes todas essas histórias amadas. e o último ato chamar-se-á Napoleão. O mundo transformase em máquina gigantesca.106 Seguir-se-á a Revolução.Bacon."só não teve um Bacon. incompreensível aos antiquários. É o fim da velha Europa. às quais Vico opõe as suas leis históricas.

O pobre professor. Olha o espetáculo histórico da humanidade. fica perplexo: sente a queda do mundo que era.108 E o último lugar naquela cidade erudita e sonolenta é o pobre gabinete de estudos do miserável professor de retórica e autor de poemas de ocasião. Lê Platão. Lê as histórias do reino decadente dos homens e do reino imperecível das idéias. tiradas da história. como. um após outro apostata e se submete servilmente aos novos senhores. uns aos outros. o mar eterno e o Vesúvio. ao pé do qual a cidade submergida dorme. que escreveu. As obras mais admiradas das academias eruditas chamam-se Antiquitates e Thesauri. Subsiste a erudição barroca. noturnamente e clandestinamente. que aquilo que aconteceu não aconteceu e não acontecerá nunca. Está desesperado. que lê. com anátemas e exorcismos. Descartes e Spinoza. e observam. os livros proibidos de Bacon. filólogos e jurisconsultos se tornou um hospital de doidos. no ar espesso e pouco respirável da decadência italiana.107 e é assim chamado pelo seu admirador humilde Giambattista Vico. o seu mundo também. Resistem. como. Giambattista Vico não amaldiçoa. sob a pressão atenuada. não treme e não se submete. Está buscando o sentido superior atrás do absurdo da catástrofe. afinal. e com doidíssimas profecias. a sua estátua olha a paisagem milenária. é chamado "uomo di una immensa erudizione greca. um livro com o título precioso De antiquissima Italorum sapientia. envelhecido antes do tempo. com eruditíssimas analogias. e entretanto implacável. impotentes. Um deles. "eruditissimo". antiquária. tremendo. em torno deles. do governo espanhol e da Inquisição espanhola. lê Políbio e Tácito. tiradas da superstição. Chamam-se os homens. Provam eles. latina e toscana in tutte le spezie del sapere umano e divino". escolástica. vestidos de couro de porco e por isso impenetráveis às influências do tempo lá fora. por seu lado. Como salvar os bens mais sagrados? Como reage o seu mundo contra o ataque bárbaro? Parece-lhe que esse mundo de teólogos.civilizado. na miséria. Lá não há crises de consciência nem novos mundos. um abade napolitano. "dottissimo". Está sonolenta. hoje. . "latinissimo". doente. em inumeráveis volumes.

plus c'est la même chose". Mas não tem medo. Ele sabe que alguma coisa do velho deve. pois o seu pessimismo crente sabe da caducidade de tudo o que é. Hoje. E "plus ça change. Uns e outros. nas revoluções. sujeita-os ele ao moinho infernal e inevitável dos seus "ricorsi". de modo nenhum. Tira das histórias humanas de Políbio e Tácito a história real platônica. no próprio domínio da erudição "dottissima" e "latinissima". consciente da responsabilidade. há também regressos terríveis. os "ricorsi" da doutrina viquiana. uma "storia ideal eterna". voltam. Chega à conclusão de que a sujeição e a resistência são igualmente duvidosas. As suas profecias compreendem o passado. Traçar a fronteira. para provar o improvável. que valha para todos os povos e épocas. nem dos velhos nem dos novos. Resta saber onde está a fronteira. busca um modelo de história. qualquer coisa nasce. com . está buscando "leis". Como os naturalistas. e morrem ainda uma vez.109 Se os contemporâneos houvessem compreendido Vico. as suas analogias iluminam o futuro. e que alguma coisa do novo. Vico é o primeiro para quem a decadência não é um assunto de sermão moralizante. irremediavelmente. nenhum dos partidos em luta teria ficado satisfeito. Qualquer coisa morre. Não há sempre progressos. mas um problema da história. deve ficar. os contemporâneos enganam-se em profecias doidíssimas e em analogias históricas sutilíssimas. eis o dever do intelectual. Acha a lei da história. A mão do velho professor treme. como nós outros ficamos perplexos diante da catástrofe do nosso tempo.Vico não pode acreditar no progressismo ingênuo e alegre do seu tempo. tiram as conclusões do anátema furioso ou da sujeição servil. empresa bem escolástica -. Por trás da história agonizante dos últimos romanos. perecer. Não tem medo dos poderes. usa da erudição antiquária do velho mundo e do método científico do novo. É sempre assim. e o que passa e o que fica dos novos mundos. Todos eles morrem. Mas a atitude de Vico foi superior. também. Vico ficou perplexo diante do espetáculo histórico do seu tempo."distinguo". mas felizmente bem pouco. Vico poderia dizer. Resta saber o que morrerá e o que continuará do velho mundo. Para distinguir .

pois compreende mais profundamente do que os outros o presente. Não teria temido o campo de concentração."110 Num tempo em que a gente é interrogado. Uma criada deixa cair a criança. em cada esquina. porque esperava auroras que ainda não resplandeceram. e tão desastradamente. classifica o Livro de aforismos de Lichtenberg entre os cinco melhores livros alemães. Por isso mesmo. demasiado humano. eu levaria este pequeno breviário de sadio bom senso. duas viagens pela Inglaterra foram os únicos acontecimentos dessa vida professoral. Nessa época. sobre a que partido pertence. parece insensível como uma pedra. o Hanover era a província continental do rei da Inglaterra. Vico teria tido a coragem de passar sem ouvir a pergunta. AS VERDADES DE LICHTENBERG NÃO SE CONHECE muito o nome. como a pedra corroída do seu monumento que olha a paisagem histórica. . pois já estava dentro dele. a elas também. e alguma coisa a mais. também. "which is food and drink and the light of the mind". ao lado das Conversações com Goethe. os implacáveis destinos do futuro. ao lado de Marco Aurélio e dos Pensées de Pascal. perto de Darmestádio. um anão corcunda.Valéry: "Je ne suis ni de droite ni de gauche." É isto. no dizer de Samuel Butler. Mas valerá a pena conhecer o homem. Submerge-se num passado que se foi.111 Exilado numa ilha deserta.112 filho de um pastor protestante. Na sua profissão. nem o ostracismo. em 1769. por toda a vida. rodeado de crianças inocentes que brincam e não sabem quem era aquele que lhes traçou. Passaria por um pessimista excessivo. é um companheiro eterno. existe um problema para resolver. em Hanover. e num futuro que está por vir. Estuda ciências matemáticas. O seu pensamento é uma recreação. E o próprio Goethe diz: "Onde Lichtenberg faz um bon mot. de Eckermann. Lichtenberg vos fará rir e refletir. já que o espírito superior o merece. Nasceu em 1742. sem ofender os meus santos. Lichtenberg. é professor de física da Universidade de Goettingen. no aforismo 109 de Humano. Nietzsche. que ele ficou. "a golden fluid".

diz Hamlet. mas existem também nos nossos manuais de escola muitas coisas que não existem entre o céu e a terra. e a leitura assídua da Bíblia transforma-se em consulta a um oráculo. Lichtenberg é um filho do século "filosófico". Lichtenberg é extremamente supersticioso. vê desmaiar a fé: "Um dia. meio misantropos. muito humano." Sua curiosidade ultrapassa os apologistas: "Sacrificarei a . Eles apareceram em 1799. depois de ter expirado esta pobre vida. precisamente onde esses buracos são necessários para os olhos. cheio de ilimitadas esperanças na bondade humana. Mas é também filho de gerações de pastores de uma devoção íntima e de um zelo lúgubre. Isto é surpreendente num professor de física. O súbito apagar de uma vela modifica as minhas resoluções mais importantes. mas humano. e confessa: "O que há de mais surpreendente no meu caráter é a superstição que me faz ver oráculos em mil coisas ridículas. sem dar por isso: "A nobre simplicidade das obras da Natureza baseia-se na nobre miopia dos observadores.Lichtenberg não era uma celebridade. continua a recitar mecanicamente os salmos luteranos. Lichtenberg não chegaria nunca a se desprender do ar mofado desses quartos. encerrando-os depois na escrivaninha. Contemporâneo tanto de Voltaire como de Cagliostro. Mas o melhor do seu espírito se refugiava nos aforismos com que ele enchia os seus cadernos." Mas convém saber que ele tem medo dos cemitérios noturnos." Os homens tendem sempre a saber o que os homens não podem saber: "Existem mais coisas entre o céu e a terra do que os nossos manuais de escola sabem. A fé. será tão ridículo crer em Deus como hoje acreditar em fantasmas. em segredo. progressista. os estudantes apreciavam as suas conferências. da mesma forma que os colegas temiam as sátiras mordazes que ele publicava esparsamente. que vêem nas obras úteis da Natureza o dedo de Deus: "É admirável que os gatos tenham dois buracos no pêlo. mas lêem. Voltaire. diz ele. otimista. não sendo ateu." Na Natureza o homem se reflete. Na paróquia de aldeia do século XVIII. fazem preces apaixonadas. com a condição de se excluírem dela os antropomorfismos grosseiros. Na sala das experiências físicas." Lichtenberg. Ele troça dos teólogos. é indispensável.

'" E num raro momento. profundamente emocionado. meu Deus. e a terra e o mundo. e. meu Deus. dizia eu. Tu tinhas sido. e espero que o meu Criador exigirá docemente uma vida. de toda a eternidade. o corpo se põe de joelhos. as religiosas também.metade da minha vida para conhecer a altura média do barômetro no Paraíso. ele encontra também as palavras surpreendentes para o seu século: "Existe alguma coisa de muito razoável nas guerras de religião. e leio muitas vezes. ajudai a minha incredulidade. "Que sabemos nós dos outros? Possivelmente todo pronome 'outro' é um antropomorfismo. o salmo: 'Antes que as montanhas fossem criadas." Todavia." É que ele desconfia igualmente da religião irreligiosa dos "filósofos": "A incredulidade em uma coisa baseia-se quase sempre na cega credulidade em outra coisa. e não gostem de viver de acordo com os preceitos dela?" Contudo. enquanto o dizia. e os instintos da sua raça teológica o levam." Este ceticismo admite todas as possibilidades. a Deus: "Penso muitas vezes na morte. de retorno." Antítese que explica a incredulidade hesitante de Lichtenberg. observei que já tinha acreditado pela segunda vez. ele não se queixa: "A . da qual eu era um proprietário pouco econômico. e cumpre confessar que todas as objeções contra a fé se transformam em futilidades diante desta terrível e perspicaz exposição da essência histórica da nossa religião. não compreendo por que ele não começa desde este momento"." São mais do que simples brincadeiras. o homem retribui-lhe bem e o cria à sua. mas não infame. "Se existe" ." São contradições.diz ele . este espírito seco encontra as palavras admiráveis: "Quando o meu espírito se levanta. a sua desconfiança da religião é desconfiança dos homens que a professam: "Não é extraordinário que os homens gostem de se bater pela sua religião. Lichtenberg é um caçador de antropomorfismos. Todos os dias faço as minhas orações da manhã e da tarde." Lichtenberg o sabe: "Não poderei acreditar nisso." Mas Deus é "o outro" da humanidade: "Deus criou o homem à sua imagem. como as contradições do bíblico: "Creio."um estado de beatitude eterna.

" E o seu conhecimento amargo deste mundo lhe arranca um suspiro: "Não compreendo por que as crianças não riem tão continuamente como choram." Mesmo as regras da tábua de multiplicação: "Se um anjo nos explicasse a sua filosofia. Mas nós homens não conhecemos a suprema regra. as crenças otimistas e progressistas do seu tempo o que ele visa. baseada num ceticismo bem pascaliano." São. a um: duas vezes dois são treze. ele que não crê na bondade humana. são vendidos por gente que não os compreende também. e sê-lo-ia em todos os tempos. Apenas. Um tradicionalista repetiria este aforismo: "As novas invenções na filosofia são quase sempre novos erros. "O progresso" . possivelmente todas as nossas regras são exceções. sobretudo. nada mais". os axiomas se assemelhariam." Para um Lichtenberg tudo será igualmente suspeito. igualmente aceitável: "O caminho mais seguro para a tranqüilidade da alma é não ter nenhuma opinião.diz ele ." Se tudo é possível. nem no melhor dos mundos possíveis de Pangloss."não anda direito: coxeia.dúvida deve ser apenas vigilante. o em que todo o mundo crê. é justamente o que é preciso mais rigorosamente examinar." Os lugares-comuns não têm maior valor quando autorizados pelos professores e os seus livros: "Não há mercadoria mais esquisita do que os livros. são lidos e criticados por gente que não os compreende melhor. "As opiniões de todo o mundo. "É pena que a gente se eleve para o estudo. existem apenas regras. ignoram sempre o melhor. ele gosta de exprimir as suas dúvidas e crenças por fórmulas matemáticas: "Diante de Deus." Como Pascal. há uma única regra sem exceção. talvez sejam escritos também por gente que não compreende nada. para um espírito obtuso. São impressos por gente que não os compreende. seria preciso reservar a ciência aos homens . e existe em Lichtenberg alguma coisa de religiosidade." Os especialistas. ou antes." É um inconformista contra o seu tempo. para nós. e fazemos regras que não existem. o "eu odioso" de Pascal modifica-se em um: "Aquele que é apaixonado por si próprio terá a vantagem de ter poucos rivais. e que admitem mil exceções. nem no progresso ilimitado. tudo seria. diz ele.

" Na literatura alemã ele é. entoa-se o Te Deum laudamus." Pouco alemão. está impregnado de civilização inglesa. mas. é admirador de Swift e Sterne. seria preciso entoar um Te Diabolum laudamus.que descem para os estudos." Lichtenberg nunca se deixa iludir." Desconfia do patriotismo oficial: "Eu gostaria de saber para quem foram feitas as façanhas. nestes últimos 500 anos." O que ele porém detesta mais profundamente são as assembléias desses homens de letras e de ciências. este semiinglês é um cidadão livre. em todo o país. e Lichtenberg lhes diz: "Quando se faz a paz." Lichtenberg é de uma rude independência: "Eu não podia ler todo Young quando ele estava em moda. . no século que funda academias sobre academias. ele não crê na felicidade garantida pelo poder: "Não se trata de saber que o sol não se deita nunca nos Estados de um príncipe. um cidadão do mundo. das quais se diz publicamente que foram feitas para a pátria. pois ela vale mais do que a reputação do cientista: há menos homens de ciência do que se pensa. Diante da pequena Alemanha servil de então." É que ele não acredita muito nos "benefícios do governo". quando rebenta a guerra." A menção do poeta inglês não é um acaso. trata-se somente de saber o que o sol enxerga durante o seu curso sobre esses Estados. ao contrário. seja qual for este: "Afirma-se que. até Nietzsche. Eles preferem a guerra. e a ciência ganharia muito. ele ousa escrever: "A mais curiosa aplicação da razão de que os homens cuidaram foi não usála. quando já ninguém o lê. É que os alemães não gostam da oposição à moda inglesa. ninguém morreu de alegria. mas acho-o ainda um grande poeta. Lichtenberg não é lido pelo classicismo sensato nem pelo romantismo nacionalista. as nossas academias é que são os melhores hospícios de alienados. em conseqüência. a última voz da oposição. Aos seus compatriotas servis ele fala: "Conheço um país onde não se sente mais a pressão do governo do que a pressão atmosférica. os hospícios de alienados seriam as melhores academias." E conclui profundamente melancólico: "Derramou-se muito sangue anônimo. um homem do outro lado. como outrora na Espanha. Lichtenberg. cidadão alemão do rei da Inglaterra.

Ele a despreza." Em suma: "Eu não sei se será bom quando isto mudar. porém. Fraternidade: é um décimo primeiro mandamento que elimina os dez outros." Mas o aleijão implica uma superioridade: "Os homens mais sadios. Escandaliza a pequena cidade universitária com a sua concubinagem com uma criada ternamente amada. e recomenda uma leitura política de grande força consoladora: os jornais do ano passado. talvez desse ele menos relevo a certas partes. Na verdade. Igualdade. Timidamente. tem opinião própria. ele observa calmamente: "Liberdade. o aleijado desliza pelas ruas. permanece à janela do seu minúsculo gabinete de trabalho. Na segunda edição celeste. leva ele uma vida modesta de pequeno-burguês. os mais bem feitos. unicamente para ser chamado Lichtenberg o Grande. e o professor se enfeita de solenes títulos acadêmicos. Conhece-os a todos. o aleijão. que o envergonha. Ele é um homem do outro lado. são todos aleijados. Desde a sua juventude. Aparentemente." Ele será inconformista. de onde fita com penetrante olhar os transeuntes. ele continua um original. pois é um aleijado. .Rodeado de estudantes entusiasmados pela Revolução." "Às vezes. os mais belos. não somente em face da Alemanha. Quando alguém tem um defeito corporal." Enfim. em casa. um boêmio. Moralmente. Lichtenberg vê a relatividade do seu tempo e de todos os tempos. eu proporia algumas modificações. onde descobre abismos desconhecidos e demoníacos. tenho desejado ser rei. mas sei que é preciso mudar para que seja melhor. afasta-o da sociedade humana. são os que se submetem a tudo. ousa dizer: "A conseqüência mais funesta da Revolução Francesa é que se tomarão por germes de sedição as reivindicações mais justificadas. nas convulsões do seu tempo. até o íntimo. a rara neutralidade do bom senso. e a sua própria mutilação não o assusta mais. como em face da humanidade. ele guarda." Cercado de professores timidamente conservadores. Despreza-a: "O meu corpo é constituído de tal forma que o desenhista mais incapaz o desenharia melhor. em sonho.

dilaceram-me o coração. nos sonhos. tossiram. É impiedoso para com os outros e para consigo mesmo. assobiaram." E esta lição: "Onde a moderação é um erro. empalidece-se de medo." Intrepidamente. a indiferença é um crime. mas o barulho de pés desconhecidos me arrepiava. Chega a confessar as crises homossexuais da sua juventude. e o prazer que sente. mas não se enrubesce de pudor. mas Deus me perdoará. fazem dele um moralista da melhor estirpe francesa e. Algumas vezes aproximase da psicologia de Proust: "No meu cérebro existem ainda as impressões de coisas mortas há muito tempo. bocejaram. conhecia o som de cada degrau da velha escada de madeira. Um extraordinário talento observador e algumas convicções irracionalistas.Assim como os cegos têm o ouvido mais sensível." Ele antecipa Nietzsche e Scheler. muito raras no seu tempo. O seu talento observador fá-lo descobrir os movimentos de expressão inconscientes e adivinhar as bases sociais das reações morais: "Na escuridão." Algumas vezes a sensibilidade eleva este espírito seco para a poesia: "Na casa onde eu morava. e que poderiam ser ressuscitadas por estas impressões. no seu íntimo a sensibilidade do infeliz o faz sofrer com estes outros: "Muitas coisas que toda a gente lastima. um precursor da psicologia moderna. roncaram." O seu irracionalismo o faz adivinhar as bases sentimentais das funções intelectuais: "Todos os nossos raciocínios são precedidos de sentimentos muito pessoais. com as suas troças. as possibilidades criminosas no abismo." São as suas palavras mais gideanas." Ele vê na sinceridade a suprema virtude: "Por causa da minha sinceridade os homens me condenam. e o ritmo com o qual cada um dos meus amigos a pisava. que o cérebro ratifica depois. e ainda fizeram dois ruídos para os quais a nossa língua não tem expressão. propõe explorá-lo pelo sonho: "Toda a nossa história não é senão a história do homem . precursor de Freud. Lichtenberg tem a sensibilidade mais sutil. ao mesmo tempo. em assassinar os inimigos. Já descobriu o subconsciente e. descobre as raízes sexuais do caráter. Ele ouve mais do que os outros: "Eles espirraram." Se a malícia do corcunda o faz menosprezar os outros.

enquanto a outra moral se baseia na força do corpo e do espírito?" É o ressentimento anticristão de Galiani e Lichtenberg. somente o abade Galiani tem semelhantes palavras. o filósofo astenoesquizóide do ressentimento.acordado. Para começar esta tarefa: "Os motivos dos homens não são tão desprovidos de razão. esquizóide. as paixões . sem intervenção das morais inculcadas. A ciência professoral pouco lhe interessa: "Todos os dias os astrônomos descobrem novas regiões da sua ignorância". As nossas razões justificam as nossas pretensões. ou oeste-oeste-norte. A demonstração da utilidade e da necessidade não chegou ainda nem ao meio. e. e o psicólogo falará de um motivo glória-glória-pão ou pão-pão-glória.diz ele. mas a boa natureza nos armou melhor. graças a Deus. É preciso ordená-los bem. Na razão se encontra o homem. o caráter de uma pessoa. Por isso mesmo são estas mais preciosas do que os grandes sistemas posteriores. o instinto já nos conquistou." Entre todos os contemporâneos. Talvez como as trinta e duas direções do vento sobre a bússola. ambos fracos anões astênicos. com arrepios. e Lichtenberg é o intermediário entre Galiani e Nietzsche." Lichtenberg reconhece a força dos instintos: "Pode-se ser cego pró ou contra uma tese. podese deduzir. A razão engana. nas paixões se encontra Deus. porque isentas dos exageros de todo espírito sistemático. O marinheiro fala de um vento nor-noroeste. e numa certa idade. Lichtenberg. o homem observado como um animal estranho no jardim zoológico: "É no hospício de alienados que se deve estudar a razão sadia" . no entanto. E como Galiani. quando teremos a história do homem que dorme e que sonha? Os sonhos são. as conseqüências: "Em certas constituições corporais. absolutamente. antecipando um famoso conto de Machado de Assis. o resultado da nossa existência espontânea. e somente o homem é que interessa a este professor de física. astênico mas não. e que glorificou esses seus dois precursores. viu. sem o sabermos." Só tem sugestões este precursor. por um certo número de sonhos. Lichtenberg chega a duvidar da moral cristã: "Será possível que a nossa moral cristã seja baseada numa certa fraqueza e covardia.

diz ele. orgulhosamente . para impedir o enfraquecimento das paixões patrióticas e civis. "A profecia é a mais irracional forma do erro" . prisioneiros de um século doente. e alguma coisa mais: ele viu os fundos demoníacos do mundo. no mito germânico. mas posso fazer soar a trombeta do despertar para ver se alguma coisa se move ainda entre os mortos no campo de batalha. DEFESA DOS PROFETAS É A NOSSA ANGÚSTIA que produz os profetas. e todos os homens de mais de quarenta e cinco anos?" Lichtenberg é um precursor de verdades próprias." De fato. em parte alguma."a matéria morta. sozinha. porém. sem dúvida. Lichtenberg não foi lido. É . Mas se um governo. e a razão não desdenha mesmo o braço forte da polícia.diz a severa positivista George Eliot. dizendo a verdade. Desconhecendo. palavra envergonhada para não chamar de profeta a esse espírito alegre e mordaz. ele não se assusta. mas se tem bastante predizendo. Lichtenberg é inteligente. mandasse matar todos os fracos. Há nele um Tersites sublime. corresponde a oferta. Mas eles têm má reputação. É o destino dos precursores passarem despercebidos: "O tipógrafo. teria havido profecias se não fosse uma procura urgente. Mas isto já é exigir demais. hoje em dia ainda. que cuidam do ouro das profundidades. o censor lerão o meu livro. os profetas não teriam de que rir. mas na qual a palavra pura de Lichtenberg profere as suas verdades alegres e proféticas. e a razão. esta inteligência sadia enjaulada num corpo doente fala para nós. muito inteligente. Olhando-os fixamente. em face de todos os tempos é um homem do outro lado. Mas são os anões." Isto o fez sobreviver ao seu século. e o amargo Lichtenberg diz: "Não se tem com que viver. quando se trata de exterminar a razão dos outros. à qual. conforme as leis da economia. queixamonos dos honorários que se pagam aos profetas e que se recusam aos filósofos. talvez o crítico também. e o seu riso faz ressuscitar os mortos: "Não posso vivificar" . estas leis. na cega anarquia em que a voz da razão se cala. o revisor. fala." Isto quer dizer: se os filósofos chegassem ao poder. Nunca.calam-se. Ele é solitário no seu tempo.

Sim. Existem boas profecias e más profecias. não se fica menos zangado." Mas os profetas tinham bastante razão.dizia Disraeli ." Mas esta polícia obedece apenas às cóleras do público. conhece-se e estuda-se o seu livro de quartetos que prediz os acontecimentos do futuro. Para resumir as acusações principais: primeiramente." Antes de tudo. segundo. que. de onde eles podem repetir as palavras do velho poeta russo Krilov: "Falando-vos aqui." E lembrem-se de certos homens de Estado. como os judeus tinham o hábito de fazer.verdade que já não se atiram os profetas às cisternas. começavam cada discurso por: "Eu recuso acreditar. sim. todos esquecem os profetas que tinham tido razão.. O mais famoso dos profetas modernos é Miguel de Nostradamus. e quando elas não se realizam. as más profecias se realizam sempre. os profetas têm razão. "Nós o sabemos. Como contentar a toda a gente? Lembrem-se ainda uma vez dos velhos judeus. dos quais Pascal diz que eram "grands amateurs des choses prédites et grands ennemis de l'accomplissement". médico e astrólogo de Carlos IX. é preciso dizer que a não-realização de uma profecia não é nunca uma objeção contra a profecia em geral. rei de França. a única circunstância que justifica a oposição a uma profecia é que ela se tenha realizado. morto em 1566. Comecemos pelo primeiro ponto da acusação. muito recentes. e isto se entende. e não será difícil defendê-los perante o tribunal de uma filosofia e de uma opinião morosas. nós o sabemos. Deseja-se unicamente ouvir as boas profecias. Os seus versos . Quando as más profecias se realizam.. Desde 1555. mas ninguém o crê."sim. numa época em que todo o mundo "o" sabia. sem acreditar nele. chega-se mesmo a encomendá-las.113 É que desejavam muito saber o futuro. baixinho: Profetizar é difícil nas garras de um gato. as boas profecias não se realizam nunca. nós todos" . Eis a palavra de ordem do dia. "As boas profecias não se realizam nunca. porém os colocam sob o controle da polícia.

a Revolução de Fevereiro e Napoleão III. deus dos . como verdadeiro profeta.são tão obscuros que vêm sendo interpretados há quatro séculos. Depois da morte de Nostradamus. O que existe de mais extraordinário nessas profecias não é. o tradutor de Jeremias: "Savez-vous. As profecias que não se realizam estão absolvidas. não sem acrescentar alguns pormenores bastante obscuros e que são a reserva dos intérpretes. mas não se pode também negar. ou até experimentado traduzi-los a outras línguas."114 Então. Compreende-se que Nostradamus haja morrido misantropo.O acaso. É assustador que os intérpretes tenham desejado aplicar os seus quartetos a outros países ainda. já são cinco. sem dúvida prevendo o epigrama de Voltaire contra Le Franc. Nostradamus. Dito isto. Mas outras profecias se realizaram. está provado que é preciso defender o profeta contra os seus intérpretes. então. e sobretudo as ruins. que uma profecia se realizasse era uma razão de desconfiança. Nostradamus prediz. a gente fica zangada115 e diz: . esta profecia se realizou nada menos de sete vezes: a Revolução da Liga e Henrique IV. a Revolução de Julho e Luís Felipe. e em palavras bastante claras. seguidamente. Com efeito. isto nada prova: ela poderá ainda realizar-se no futuro. a revolução da Fronda e Luís XIV. e Nostradamus com ela. absolutamente. por exemplo. Esperemos que esta profecia se realize ainda muitas vezes. uma grande revolução e o aparecimento de um grande monarca. que elas não se realizem nunca. o que não se pode provar. teria tido muito que fazer. ocupando-se das crises de gabinete da Terceira República. Mas que uma profecia não se realize. o zelo dos intérpretes não hesitou em acrescentar a Comuna e Monsieur Thiers.O acaso! . mas que se realizem sempre. que são os verdadeiros acusados. o golpe de Estado de maio de 1879 e Gambetta. pois a França é imortal. a Grande Revolução e Napoleão. pourquoi Jérémie A tant pleuré pendant sa vie? C'est qu'en prophète il prévoyait Qu'un jour Le Franc le traduirait.

são quase sempre desagradáveis .116 Não existe terceira via: "acaso" quer dizer que os acontecimentos. Passado. é preciso pensar nos acontecimentos sucessivos encadeados por uma ordem. não são organizados. . São as duas formas de compreender o Tempo: a Providência Divina ou o determinismo "scientiste". e que é vegetariano". por ordem do rei Manassés.. p. O tempo é uma categoria do pensar. Futuro são dimensões do Tempo. mas vale a pena. Admitir a Providência é admitir ao mesmo tempo que Deus permite. que tinha previsto. vol. obrigatoriamente. sim. Todos os acontecimentos nos aparecem em sucessão. das quais tenho medo de falar. quer imaginemos as sucessões organizadas por um espírito análogo. nas suas Três conversações (1900). quer imaginemos as sucessões organizadas unicamente pelo encadeamento de causa e efeito. e Isaías foi serrado. X. s. Os reis não gostam dos profetas.incrédulos. d. mas só gosta de si próprio e dos animais. pouco amadas. o aparecimento vitorioso dos japoneses. "que se proclama Chefe e Presidente dos Estados Unidos da Europa" (Vladimir Soloviev. mas que usurpa o nome do Cristo para suas campanhas e suas batalhas". Petersburgo. serrado. e parece que o Acaso é o grande subterfúgio daqueles que não desejam refletir sobre o Tempo. o que é uma contradição em si e o subterfúgio da preguiça de pensar. por isto.Deus bem sabe por quê . "que acredita na Providência. mas essa obrigação da nossa estrutura espiritual se estende mais ainda. predisse também o Imperador-Anticristo. organizados em sucessão.e. Jeremias teria sabido fazer disso uma longa lamentação. Estas profecias religiosas. traduzido em todas as línguas". o grande espírito religioso. "que burla todo o mundo por meio de um grosso livro. aos seus eleitos. um deus do qual se sabe bem o que fez no passado. porém superior ao nosso. A Providência é a base da profecia religiosa. Obras Completas. Soloviev. mas não se saberá jamais o que fará no futuro. algumas vezes. participar da previsão divina dos acontecimentos futuros. pela qual o nosso espírito ordena os acontecimentos em sucessão. e nesta altura é inevitável a introdução de qualquer antropomorfismo. "que não nega o cristianismo.

em 1632. não o executaram na Grande Praça. Henrique. de Tolosa. em alguns astros. o tempo difere também. Ninguém poderia ser mais feliz. com efeito. escreveu. em 1555: "Le lys Dauffin portera dans Nanci Jusques en Flandres electeur de l'Empire. Mas eu gostaria de saber por que os nossos polemistas católicos se servem muito pouco do texto admirável: "Haverá uma época em que eles não sustentarão a sã doutrina. O determinismo. Nostradamus. Porém é preciso também saber que a . o que exclui as aplicações unilaterais. velho de quarenta anos. os "mitos"."117 As duas primeiras linhas referem-se a acontecimentos que se produziram. graças à sua posição. As duas outras linhas dizem. que encheu o segundo volume dos Parerga e Paralipomena com as profecias e a sua possibilidade científica. é sempre possível um certo grau de previdência. IV. 3). se todos os acontecimentos se encadeiam de acordo com um causalismo rigoroso. e sim no pátio da prisão. para "fábulas". Com efeito. duque de Montmorency. Hors lieux prouvés delivré a clere peyne. Neufve obturée au grand Montmorency. possivelmente porque o texto grego diz. por outro lado. e o futuro. a execução pública de acordo com os preceitos da lei.81-221). entre 1633 e 1635. Paulo. aumentado ainda hoje pelas doutrinas da física relativista." (S. em 30 de outubro de 1632 ele foi executado. "Clere peyne" é a "clara pena". Sejame permitido acrescentar um exemplo surpreendente. e abandonarão a verdade para se voltarem para as fábulas. e o único resultado é que este livro. mas. em francês moderno: "Il y a une nouvelle prison pour le grand Montmorency que sera exécuté publiquement hors du lieu commun. ad Timotheum. favorece ainda os profetas. de posse deste raciocínio. mas procurarão um Mestre à sua vontade. II Epist. estava encarcerado na prisão. é contemporâneo do nosso passado. que não admite mais uma sincronia rigorosa: nos diversos espaços."118 Ora. foi mais tarde proibido na Alemanha. recentemente construída. do que Schopenhauer. o mais severo dos deterministas. no quarteto 18 do seu nono capítulo.

toutes épuisées. existem profecias mais surpreendentes ainda. em 1893: "Le XX.." No entanto. e eles o terão. dans les classes moyennes. mas por um soldado escolhido por sorte. leur pouvoir sur l'anarchie qui nous dévore. amigo íntimo do rei Leopoldo II dos belgas. O que não nos poupa ao aviso de Lessing: "Aquele que não perde a cabeça por causa de certas coisas não tem cabeça para perder.. É trabalho do futuro. ayant forfait leur droit d'aînesse par leur incapacité et leur égoïsme. Mas depois será necessário evitar a longa viagem em volta do Cabo Horn.. Le peuple ne les cherchera pas dans les dynasties régnantes.e siècle ne s'achèvera pas sans avoir ouvert une période de Césars. C'est d'en bas que viendront les maîtres futurs. esta jovem república terá povoado a Califórnia. quando não se perde a cabeça.. de uma inteligência encantadora: Emile Banning. Banning escreveu nas suas Réflexions morales et politiques. Desejava bastante vê-lo. Para os Estados Unidos este canal será indispensável. dizem os cronistas. Seria o acaso? Mas a probabilidade de predizer ao acaso estes pormenores é de 1 em 30. mas não viverei mais. Ils fonderont leur légitimité sur le témoignage de ce qui se passe sous nos yeux. Ce sont des justiciers redoutables. chamava-se Clerepeyne. e os Estados Unidos da América estão à margem do mundo . dans le aristocraties de race. A capacidade de um grande espírito de prever as relações complicadas e longínquas é quase ilimitada. Mas os resultados seriam incalculáveis. dirão. Mas escutai a voz de um homem muito mais simples e quase desconhecido. Ficarei surpreendido se os Estados Unidos não tomarem esta obra entre as mãos. se vale alguma coisa. Enfim. eu desejaria ver os ingleses na posse de um Canal de Suez. mas quando esta é conservada.000. A 21 de fevereiro de 1827 . Em trinta ou quarenta anos. ao qual ele aconselhava a colonização do Congo. e este soldado.não existem caminhos de ferro nem vapores transatlânticos.Goethe disse a Eckermann: "Haverá ainda o projeto de um canal do Panamá.execução não foi feita pelo carrasco." É de Goethe. avachies."119 .000.

e lembra as palavras do velho poeta inglês Michael Green: "Prophecy. car elle y a un puissant intérêt. Paris sera menacé. no qual o jornalista prevê um "Monck francês". mas pensai bem.) Sem dúvida. and knaves apply.120 (Exatamente o que Joffre. instruído pela ciência política da Action Française. escritas em 1882. existe uma ligação íntima entre a profecia e o pessimismo. elle invoquera d'impérieuses nécessités militaires."121 (Estas últimas palavras são exatamente as próprias palavras do chanceler Bethmann-Hollweg no Reichstag. e são os pessimistas que vencem melhor. não queria acreditar. notamment par la vallée de l'Oise. Nisso vejo a única razão de acusar aqueles que são bons profetas mas falsos profetas. Não esqueceremos o artigo do Figaro de 13 de setembro de 1901. Son armée se servira des deux rives de ce fleuve pour pénétrer en France. Socrate a raison."123 . no entanto. um general. em 4 de agosto de 1914.O mesmo Banning. which dreams a lie. mais il a tort d'avoir raison si publiquement. l'Angleterre devra prendre parti dans la mêlée pour sauver son empire de l'hégémonie germanique. em 1914. contradiz: "O papel de Cassandra é ingrato." Existe um caso único no qual o otimismo vence melhor ainda: quando ele prediz as coisas e as prepara ao mesmo tempo. são coisas desagradáveis essas profecias que se realizam. O artigo está assinado por Charles Maurras. previu uma guerra entre a França e a Alemanha. Cassandra tinha razão. com minúcias as mais precisas: "Faisant fi de sa parole. Qu'elle le veuille ou non. Ninguém lhes agradece isto. Como o prova o exemplo de Schopenhauer. Si tout prétexte fait défaut à l'Allemagne pour envahir la Belgique."122 O orgulhoso húngaro Kossuth. Voltaire já o lembrou: "Oui. nas suas Considérations politiques sur la défense de la Meuse. e que abalará a República enfraquecida. l'Allemagne se saisira de la Meuse.) L'armée allemande balayera tout ce qui subsiste des fortifications françaises sur la frontière du Nord. That fools believe. sinon pris.

por seu lado. com brilhante saúde. acabaria. apareceu triunfalmente na rua. e poderíamos subscrever integralmente as palavras de Ludovic Halévy: "Je m'aperçois que j'ai passé ma vie à annoncer des catastrophes. Em 1 de abril de 1709 Partridge. Partridge estava morto desde aquela hora. no qual se leu: "Em 31 de março de 1709 o sr. A opinião mata os falsos profetas.certo poder de profecia está ao alcance de todos. Muitos homens já estão mortos sem o saber. é uma triste glória ter tido razão. não é senão um cadáver mal informado. Mr. O grande Swift deu-nos um exemplo surpreendente revoltando-se contra as ridículas profecias de um fazedor de calendários. onde encontrou pregada uma proclamação de Swift: "Hoje. vereis o sr. É isto. que vereis. acrescentaria o meu mestre Alain. Partridge morrerá. Partridge na rua." E para a opinião pública o sr. Swift publicava. o pessimismo. que ne se sont jamais produites. Mas não vos deixeis enganar. "Eh! oui. E se cumpríssemos o nosso dever. et c'est parce que vous l'avez prévu que c'est arrivé. é preciso apenas a gente adaptarse às loucuras coletivas. Partridge. Vous étiez milliers à l'avoir bien prévu.e é este o ponto culminante da defesa . Ele está morto desde a véspera. até mesmo ele. aliás."125 SEGUNDA PARTE: INTERPRETAÇÕES ENSAIO DE ANÁLISE EM PROFUNDIDADE A LITERATURA universal chega ao cume na criação daquelas personagens típicas. um calendário. 1 de abril de 1709. Uma razão coletiva."124 Claro ." Toda Londres estava curiosa. Partridge.Algumas vezes. representantes simbólicas da humanidade: Dom . O sr.

Daí o semi-anonimato desses tipos. que atravessam todos os limites do tempo e do espaço. e só uma análise em profundidade resolverá o problema crucial da crítica. nestes últimos casos. de outro lado. o problema crucial da crítica literária. Édipo e Till Eulenspiegel. à maneira de Croce. são os próprios métodos que hão de justificar-se perante essas obras. Mas essa popularidade desafia. a crítica "pura". e poucos outros. assim definido. o estudante Raskolnikov. São poucos: esta vida eterna é um privilégio raro. e um crítico literário será inclinado a acrescentar a essa raridade o advérbio "felizmente". Sir John Falstaff. consciente ou inconsciente. graças a uma popularidade invencível. eles desafiam a crítica dogmática à maneira de Boileau. Ousamos ajuntar-lhes. o marujo Robinson Crusoé. Tão vivos estão. o desaparecimento do autor atrás da obra. fica ao alcance só de poucos. a nacionalidade e a época já limitam a universalidade do símbolo. por isso. apenas. foram desprezados nos tempos em que o dogmatismo estético dominava. Assim. muito velhos. adquirem uma vida humana mais do que qualquer homem de carne e sangue. Hamlet e Dom Quixote. Mas aqueles permanecem como criações de tanta validade universal. e sobreviveram a este. Ficam fora do alcance de toda crítica estética. enquanto aqueles tipos são propriedade comum do gênero humano. À custa da vida literária dos seus autores. com que medida crítica medi-las? Essas criações superliterárias parecem desafiar todos os métodos da crítica literária. o farmacêutico M. toda crítica de princípios puramente literários baseia-se num aristocratismo. e. na maioria. A universalidade desses tipos é bem diversa da universalidade do "bom gosto" classicista e acadêmico. . O século XIX foi intelectualista demais para criá-los. que superam em plenitude vital aos seus próprios criadores e fazem esquecê-los. porque o valor literário.João e Fausto. Os grandes tipos da literatura universal são. Homais. Pois essas criações típicas constituem o problema mais difícil. como num semi-anonimato. de tanta substância humana. pois. uma vida eterna. o que dificulta ou mesmo impede a análise psicológica à maneira de Sainte-Beuve.

A história maravilhosa de Pedro Schlemihl foi escrita em 1814. mas em língua alemã. O preço que Schlemihl há de pagar é a sua sombra. Agora. pelo poeta francês Adelbert de Chamisso. A única criação do século passado do legítimo tipo universal é Schlemihl. Schlemihl está mesmo incluído entre os livros preferidos do super-realismo. disfarçado em comerciante holandês. O nome do "herói" é uma expressão universalmente conhecida do jargão judeu. que o levam. Submerge-se na Natureza e na exploração dos seus mistérios.Homais e Raskolnikov são criações intelectuais. No entanto. ele mesmo evita o sol. para não trair o seu segredo. Quer percorrer. o diabo aparece-lhe ainda uma vez. Desde então. tanto mais dinheiro ela encerra. Schlemihl torna-se muito rico. obedecendo ao outro. e com o último dinheiro compra um par de botas. por todo o mundo. Enfim. mas por um preço bem alto: a alma. o comerciante enrola-a como um lenço e desaparece. fere-lhe o coração. Os outros homens escarnecem ou evitam o sinistro sem sombra. parte integral do seu eu. como as Viagens de Gulliver e tantos outros grandes livros da humanidade. está pronto a restituir-lha. o mundo. Pedro Schlemihl está independente dos homens. o livrinho é mais familiar às crianças do que aos adultos. e significa um malfadado. Prefere a infelicidade terrestre à reprovação eterna. não quer nada mais do diabo e deita fora a bolsa maravilhosa. num instante. O pequeno livro tornou-se verdadeiramente internacional: o prefácio duma recente edição regista "traduções em vinte e duas línguas estrangeiras". mas em vão. pois. Um dia aparece-lhe o diabo. mas não é feliz. pobre como antes. estendendo-lhe à vista a sombra. que contém dinheiro sem fim: quanto mais dinheiro se lhe tira. Schlemihl é o mais desgraçado dos homens: o espetáculo da sua sombra. E descobre que são "botas de sete léguas". ao ponto de descer a livro para a infância. Pedro Schlemihl é um rapaz pobre. Contudo. . teve o destino da demasiada popularidade. e vende-lhe uma "bolsa de Fortunato". e na paz da Natureza reencontra a paz da alma. não quer vender a alma imortal.

uma fábula? Há inúmeras interpretações da pequena obra que a degradam a alegoria e lhe tiram a vida poética. o Dom Quixote lutando contra os moinhos de vento. como o Fausto que faz um pacto com o diabo.Uma história muito simples e verdadeiramente maravilhosa. como todos esses eram. acreditamos ter perdido a sombra e ter sido infelizes com Schlemihl. na origem. com ele. de Luciano. A história do homem que perdeu ou vendeu a sua sombra descende de uma idéia primitiva da humanidade. perante o juiz Osíris. o mito se desvaneceu. e recuperamos. mas dele ficou um resíduo: a sombra é sempre olhada pela humanidade com invencível horror. pertence à espécie mais velha do conto. mais precisamente. e como Tyl Uylenspieghel126 é ainda o doloroso herói fantástico do povo flamengo.perguntará: . relaciona-se com isso . Chegam até a personificar a sombra num double. gênero que representa uma camada mais velha da literatura do que a novela ou o romance. no inferno. a paz da alma. representa uma idéia.Novela não é. a cena do Livro dos Mortos egipcíaco. enfim. na qual o homem se vê acusado pela sua alma-sombra. Eis por que esses motivos têm uma longa história e constituem objeto de preferência da crítica histórica. que o romantismo de evasão do assunto desaparece. Desde então. heróis populares de contos de fadas. é um conto de fadas. pelos crimes cometidos. o Hamlet com o fantasma e o Édipo com a Esfinge. No diálogo Nekuomanteia. que é o seu encanto até para as crianças. reproduz-se. A força de sugestão que emana desse modesto livrinho é um problema crucial da crítica literária. fantasma dum "outro eu". Será. da alma-sombra dos povos antigos. A história de Schlemihl é um conto. representação abreviada da vida real. é um conto de fadas? . Não é por acaso que os contos de fadas encantam a infância. a novela é um gênero moderno. Acreditamos haver conhecido pessoalmente o comerciante holandês. é uma fábula. Mas A história de Schlemihl não representa vida real. assim. o Dom João levado pelo mesmo diabo. vêm da infância da humanidade. pois.existe hoje ainda . a sombra do homem acusa-o.É uma novela. É narrada com tanto realismo. A crítica dogmática . explicada em ação.

A história de Pedro Schlemihl é uma obra autobiográfica. alemanizado em pouco tempo. frisou: não importa que um poeta escolha assunto alheio. na qual dominava então a evasão romântica. Era menino ainda quando os tormentos da Revolução obrigaram a família a emigrar e fixar-se na Prússia. e assim o leio realmente em todas as histórias da literatura. a cronologia é mais forte do que a erudição literária: o Schlemihl é de 1814. Hoffmann. e o "Schlemihl do nosso grande Chamisso" vem lá expressamente citado. T. As aventuras duma noite de ano-novo. infelizmente. precisa-se saber por que ele escolheu esse assunto. em que Chamisso é o ponto de partida e não tem precursores propriamente literários. Essas representações literárias do "outro eu" derivam. causaram-lhe. sobre Shakespeare. era amigo íntimo de Hoffmann. graves conflitos de consciência. Já o velho Wetz. no seu livro. da . duvida do valor da "história dos motivos". de 1890. É um pesadelo que se manifesta até nos sonhos delirantes de Heine. Com isso. A. ao poeta alemão de coração francês. Tudo parece esclarecido. todas. Mas a prioridade literária de Chamisso não prova nada. fugiu. o partidário da crítica histórica dará um grito de triunfo: de fato. E. As guerras da Prússia contra a França.o medo de ver-se à noite num espelho. entrou a servir no exército prussiano. teve uma segunda pátria. refugiou-se na poesia. filho duma família aristocrática. oferecendolhe uma pátria supra-real. mestre da literatura comparada. Maupassant e Dostoievski. Mas. o autor do Schlemihl. no país da "flor azul" de Novalis. Chamisso. Nesta altura. Entretanto. O próprio Van Tieghem. é de 1815. duma única fonte: do mestre do conto fantástico. como aquele. e muitos críticos acreditam que a vida de Chamisso oferece explicação satisfatória. tanto mais nesse caso. estamos no terreno da crítica psicológica. Mas a grosseria do serviço militar repugnou ao jovem oficial. e o primeiro conto de Hoffmann com um "outro eu". a realidade era mais forte do que o sonho. O jovem Chamisso. mas só folclóricos. Gogol. em 1806 e 1813. Profundamente influenciado por Goethe. Adelbert de Chamisso-Boncourt nasceu em 1781 na França.

mas. sustenta que os elementos biográficos não fornecem nunca uma explicação literária das obras. homem sem pátria. rever o conceito sainte-beuveano de crítica biográfico-psicológica. transformada em "forma". depois. . expedição que descreveu. A história de Pedro Schlemihl é autobiográfica. que se comunica ao leitor. Ensaiando sistematizar o pensamento do crítico inglês. Precisa-se. erudito e sábio. Da emoção vital fica só uma emoção poética. a obra é tanto mais perfeita. explicam as fraquezas. nessa qualidade. quanto mais a emoção original está dominada. O crítico inglês A. agora facilmente interpretável pela vida do autor. mas só a emoção. a este ponto. desatada por esse acontecimento. acompanhou. Tornou-se botânico. Calder-Marshall. contém os acontecimentos dolorosos da vida de Chamisso. sugerindo-lhe que a história do sem-pátria que perdeu a sombra e a felicidade diz respeito a nós outros. seria um "romance à chave"? Seria uma nova degradação a alegoria. Mas o poeta Chamisso transformou-os inteiramente. que não garantem a todos a paz da alma. a expedição científica de circunavegação mundial do capitão russo Otto Kotzebue. sim. de modo que a vida de Schlemihl é perfeitamente compreensível sem o mínimo conhecimento da vida de Chamisso. e muitas vezes a emoção vital chega a intrometer-se de novo e deformar a obra no sentido da solução puramente artística. altamente venerado como poeta. condicionadas pela deformação vital do conceito. "Qu'est-ce que cela prouve?"127 A história maravilhosa de Pedro Schlemihl. num ensaio sobre Lawrence Sterne. dos antecedentes biográficos deste. em livro formoso. Morreu em Berlim. O único elemento da obra que não produz essa impressão de validade universal é a volta de Schlemihl à Natureza e aos estudos científicos. as imperfeições literárias. puramente intelectual. ouso dizer: na origem da obra literária não está um acontecimento da vida do autor. onde o estilo simples e realista esconde perfeitamente as saudades do poeta romântico sem pátria.baixa realidade política para a realidade superior da Natureza e dos estudos científicos. mas esta perfeição é rara. umas edições de Schlemihl para uso da infância chegaram a alterar arbitrariamente esse fim.

em vez da pátria perdida. "filhos exilados de Eva. como Chamisso as interpretou. É um sonho infantil. Os contos de fadas são contos da infância da humanidade. Se há neles a origem de alguns grandes símbolos literários da humanidade. Na vida real. nos "pés". Homens adultos e modernos não ousariam exprimir essa idéia. que revalorizou . in hac lacrimarum valle". O que garante ao Schlemihl o efeito durável não é a vida real de Chamisso. Infelizmente. aos pés. pela magia da "bolsa de Fortunato" ou das "botas de sete léguas". A infância está mais perto das origens. ou por um pacto com o diabo. neste vale de lágrimas". a livros para a infância." Temos aqui. É o único pensamento que não cresceu na emoção pessoal de Chamisso. É um sonho infantil de onipotência.. o germe das "botas de sete léguas". todos os medos e o fado inexorável. mas um fim. A essa situação fundamental da humanidade corresponde um sonho fundamental da infância: um sonho de onipotência. Isto só foi possível em pleno romantismo. explica-se a razão por que os livros que contêm esses símbolos descem muitas vezes. não há "botas de sete léguas". outrossim. expresso nos versos da Geórgica de Virgílio: "Felix qui potuit rerum cognoscere causas. é o seu sonho. e calcar.. trata-se de mais que uma lembrança literária. representam a conquista da nova pátria mundial. da situação original da humanidade." "Feliz aquele que pôde conhecer as causas das coisas. um meio. é significativo. é um pensamento sublime. na de Chamisso e na de nós outros. refugiando-se nas ciências. Atque metus omnes et inexorabile fatum Subjecit pedibus.Decerto. Como o Salve Regina da Igreja o exprime: "exsules filii Hevae. submissos. A situação de Schlemihl no mundo é a situação fundamental da humanidade no mundo: a de um ser sem pátria. com o tempo. e apraz-me sublinhar a palavra "infantil". As "botas de sete léguas" não são. um conto de fadas. que o homem Chamisso também não haja encontrado no pensamento alheio a paz definitiva. mas resultou da sua imitação de Goethe.

com isso. A alegoria é compreensível ao raciocínio do leitor. Chamisso é dos poucos que chegaram a dominar o sonho pela arte. só pode afirmar: a mestria da obra. não ao nosso intelecto. o poeta e pensador do sonho e da onipotência mágica que supera a ânsia religiosa do homem exilado no mundo real. a que Croce chama o "lirismo" da obra. O que. mas a toda a nossa personalidade. Cervantes não é Dom Quixote. No romantismo. é sempre aristocrático: o verdadeiro valor estético acha-se ao alcance só de poucos. sem sugerir a emoção. O símbolo fala-nos. ele só consegue uma alegoria. Mas a obra-prima Schlemihl é um livro da humanidade.os contos de fadas e o sonho. Dom João e Fausto são criações anônimas. O símbolo exprime o que nós outros sentíamos também sem poder exprimir. Nasce uma obra de arte se o autor chega a transformar a emoção em símbolo. mas só a emoção. Mas surge. A expressão simbólica é o privilégio do poeta. e o Schlemihl figura entre os livros recomendados por Aragon e Breton. O sonho romântico do Schlemihl está dominado pela forma realística e muito simples: é o naturalismo primitivo da poesia popular. ainda uma vez. à crítica biográfico-psicológica: essa congruência seria impossível se as obras procedessem da situação individual do autor. até um livro da infância! O problema da contradição entre a arte como expressão individual do artista e a arte como propriedade coletiva da humanidade não está resolvido. Chamisso é um precursor do super-realismo. estética. Com isso. O princípio da crítica pura. essa emoção simbólica. e Chamisso não é Schlemihl. das elites. Mas não é assim. As obras raríssimas que se tornam propriedade comum de todos os homens baseiam-se na congruência perfeita entre o individual e o coletivo. uma grave contradição. se não. não é a situação real. nascida da situação. A forma desse lirismo é o símbolo. Para voltar. reencontramos a crítica literária: a crítica estética. Chamisso é muito ligado a Novalis. Há nisso o que a crítica não pode explicar. realizações artísticas perfeitas são raras. Shakespeare não é Hamlet. a maioria das obras ficou no estado do sonho caótico. entra na obra. Tanto mais durável é a sua obra quanto mais universal o . da parte do autor. Como Novalis.

Enfim. ainda. Schlemihl é o nome moderno da alma-sombra dos egípcios. pensou. Com cada fraude envelhece e endurece-se o coração. independente do mundo exterior. é a tarefa da análise em profundidade. da família. Quando Chamisso criou o símbolo da alma perdida. mas pelo sol que o elucida. de Ovídio até Valéry. o símbolo tem maior conteúdo do que supõe seu autor. só na sua pátria perdida. mas uma realidade sólida sem a qual o homem não pode viver: perdida essa sombra. na Natureza quis encontrar uma nova pátria. O que Schlemihl recupera. cristalizada no Schlemihl. do povo. E há mais.símbolo. Mas já não precisa da sombra. é aquele eu íntimo. uma nova vida interior. mais universal e imperecível. Não é uma ilusão. do "outro eu" de Hoffmann até Dostoievski. Como Novalis o disse: "O verdadeiro caminho vai para dentro. pois não está esclarecido pelo sol de lá fora. Acreditava ter adquirido uma nova realidade. e o desgraçado recai na solidão e na ânsia primitivas da humanidade. das relações pessoais. esse conteúdo profundo. Era esta a experiência pessoal de Chamisso. É o caso de Schlemihl. a sombra vendida será a alma perdida." . porque tem uma luz própria no coração. inútil porém. do seu corpo. recusando a segunda tentação do diabo. Explicá-lo. o velho mito desperta. Mas assim como a sombra do corpo não se produz pelo próprio corpo. essa sombra. do nome. decerto. não saiba que o seu herói triste encarna as ânsias mais velhas da humanidade. uma alma. da reputação. É muito provável que Chamisso não saiba nada da história maravilhosa do seu Schlemihl através dos séculos. da situação social. Mas essa pretendida realidade é só ilusão. Há símbolos que refletem a situação humana inteira. do homem-espelho Narciso. o homem se vê nu ao espelho. em geral. É uma experiência universalmente humana. Não projeta uma sombra. porque é sem alma. Mas o símbolo de Chamisso é maior do que ele mesmo. O homem está inclinado a olhar a sua sombra como uma parte. Schlemihl não perdeu a sombra. É significativo que. a sombra do homem é um produto de fora: da pátria. vendeua.

constitua o último conto autêntico. a nossa geração de exilados. O romance é filho das épocas modernas. e em todos os tempos. que se reconhece no espelho. através da ânsia solitária do exilado. Quanto mais um autêntico contista no meio da literatura mais moderna. está no exílio. grita como uma criança na escuridão. A colaboração autobiográfica na obra não provém do autor. O conto é o último resto dos tempos passados da literatura oral: conto é para ser narrado. que perdemos a nossa sombra terrestre. . Cada geração descobre uma nova maneira de interpretá-lo. É um caminho humano. chega a ter significação universal o que era uma experiência pessoal de Chamisso: o exílio. da norte-americana! Rodeado pelos pálidos classicistas da Nova-Inglaterra e pelos violentos naturalistas do Middle-West. O símbolo é bastante rico para falar a todos. Deste modo. reconhece o valor desses pobres bens terrestres. anacrônico. que nenhum amor de amigos poderia substituir. a última consolação. Hoje. para a luz interior que é o reflexo da luz eterna. Pois toda a humanidade. PONTE GRANDE REFLEXÕES SOBRE A ARTE DO CONTISTA THORNTON WILDER O CONTO pertence a uma camada mais velha da literatura do que o romance. até à independência interior. da tipografia: romance é para ser lido. "exsules filii Hevae in hac lacrimarum valle". Havendo perdido ou estando ameaçada de perder a sombra exterior. para nós outros e para todos. Ninguém o compreende melhor do que nós outros. Nesse destino. é a retirada para a alma que não precisa do sol de lá fora. e nossa geração acha-lhe um sentido muito novo e muito velho. a pátria. recaída na solidão ansiosa do homem primitivo. para dizer a verdade. para as crianças da humanidade.O caminho de Schlemihl é o caminho da dependência exterior e brilhante. mas do leitor. Talvez o conto de fadas. E todos os grandes contistas modernos têm certo ar esquisito. que a transfigura. conto da infância da humanidade. Schlemihl está vivo entre nós outros. toda a humanidade está no exílio. propriamente exilados.

numa interpretação cinematográfica. tradições do barroco católico.diz o jovem americano do seu romance Cabala . e que fracassam totalmente. "Eu sou americano e protestante" ."só tem duas saídas para o mistério: a estrada de ferro e a missa católica. Thornton Wilder. que queriam. esse estranho e comovente contista Thornton Wilder. mas consolador. que parecia o caminho do país dos mortos. muito nobres e muito ricas. acontecimento incompreensível. dos prelados e dos diplomatas. da aristocracia. Também não se assemelha aos grandes realistas que procuram desesperadamente nas realidades vivas o sentido da vida. ao Calibã setentrional. ressuscitar a velha Europa da monarquia. o seu primeiro romance. Cabala é uma sociedade secreta de cinco damas. Thornton Wilder é um bloco isolado na nova literatura americana.está escrito num romance de Sinclair Lewis . a grande ponte para o país da vida. Prefere Ariel. Um perfeito europeu. da fé. antigo aluno da Academia de Arqueologia de Roma. Tentemos então apresentá-lo antes de ousar interpretá-lo. descendente de antepassados remotos. Procura este sentido nas tradições que estavam esquecidas. publicou. do alto da Roma dos cardeais. amanhã se desmoronará para o . A ponte das tradições já não está firme. professor de literatura comparada em Chicago: não se assemelha em nada aos pálidos classicistas da Nova-Inglaterra. mas era a ponte." Thornton Wilder conhece uma saída. Fox a "dar-se a honra de apresentar Mr. Thornton Wilder". cujo obra é uma ponte da velha Europa à nova América. para citar Rodó. A ponte é o símbolo desse autor. "Nossa cidade" . depois de ter estreado com uma série de pequenas peças de teatro.parece um estrangeiro. cheio de beleza e de mistério. em 1921. que ele busca até no Peru dos tempos coloniais. Não é por mero acaso que a obra-prima de Thornton Wilder tem o nome de uma ponte. da nova América do Norte à velha América do Sul. tradições da Antiguidade. levou o próprio Mr. O bom êxito mundial do seu romance A ponte de San Luis Rey."e esta resposta me livrou de professar o monarquismo católico!" Mas sob a ironia desta réplica sente-se a secreta nostalgia de um outro mundo.

com ela. que quer responder à angustiada pergunta sobre a significação de tal desgraça. permanecem encobertos. A grande ponte que liga a vida à morte caiu para sempre. visão maravilhosa do Mediterrâneo da Antiguidade."Volta para tua cidade e enche-a de mistério!" Wilder escondeu esse mistério numa bufoneria profunda. No dia 20 de julho de 1714 a ponte de San Luis Rey caiu no abismo. cuja preciosa vida ainda não começara. que o reconduz ao Novo Continente. . Mais uma evocação do Velho Mundo.dizem as aventuras . ele queria justificar Deus. das suas paixões. Mas o poeta os encontrou novamente."Como conservar vosso patrimônio?" . Em seguida. Mas o frade expiará com a morte as suas dúvidas. A mulher de Andros. Não se pode agir normalmente neste mundo . e que por isso põe a desordem no seu mundo."Como fazer de Manhattan. descobrem nas Américas. cortando o fio de cinco vidas. . Wilder confia-se ao mar maior. cinco vidas das quais nenhuma se havia realizado plenamente: Estebán. na Praça de Lima. assim como ao seu livro. eis a razão por que a Inquisição o fez queimar. infeliz enamorado da grande artista Périchole. O mistério da Ponte de San Luis Rey reconduziu seu poeta à sua pátria americana.abismo. a jovem Pepita. o tio Pío que foi por ela arruinado. que queria moldar sua vida quotidiana segundo os princípios da moral puritana. uma grande cidade?" E a sombra do Romano responde: . dos seus desesperos e da sua morte. Devemos o conhecimento dessas cinco vidas às buscas infatigáveis do frade. e nunca mais se perderão. e que leva para a morte o filho da grande pecadora. Heaven's my Destination é a história do caixeiro-viajante George Brush. Por um cálculo com a morte. e. é uma Europa transformada: o Peru espanhol dos tempos barrocos. a grande cidade. depois que uma noite cruel lhe revelou que sua filha idolatrada a havia traído. É o cego e tirânico absurdo dessa perda que comove profundamente o franciscano frei Juniperus. voltados para o passado. e os segredos desses cinco corações. a marquesa de Montemayor.pergunta o jovem americano de Cabala à sombra de Virgílio. Porém o que seus olhares. que era ontem o mar de Ulisses e será amanhã o mar de São Paulo.

sem que surja a sua anomalia. noção que está quase apagada pelas mais modernas de "novela" e de short story. A narração é aquela arte. que desafiam qualquer experiência. Não se tem mais confiança na experiência. ele se contenta com 200. alguém. e a "rua principal" é a ponte que liga a "nossa cidade" ao país donde não se volta mais. Os outros escrevem grandes romances de mil páginas. Contar é comunicar a outro uma experiência que se fez na vida. no meio de um acampamento. Antigamente. ama os deuses e os poetas do Lácio. melhor ainda . ao serão das fiandeiras. as ilhas gregas e os seus costumes patriarcais. Ele ama a Europa barroca. Esta Europa. Ou. Não é romancista. Thornton Wilder é essencialmente um contista. até com 100. nada de coloridos. ainda havia experiências. ou. melhor.um narrador. muito "em casa" em Roma e em Londres. que se passa na rua principal de uma cidade americana. sob a tenda de pastores. Daí o fato de que a arte da narração está desaparecendo. Mas a viagem preferida deste viajante incansável é a viagem ao país do passado.desse Dom Quixote americano . Our Town. na véspera da catástrofe. Mas para compreender isto é preciso saber o que é uma "narração". que sabia o que os outros ignoravam. onde o régisseur que comenta a ação chama e manda embora os personagens à vontade. Essa qualidade de "narrador" é a chave da arte de Wilder. só há neste mundo um único ato normal: morrer. É um grande viajante. de contar uma coisa nova. Esse régisseur é a morte. nada de documentação social. e . narrador. Peça de uma técnica estranha. porém. não se quer mais executá-la. e sim contista. Os melhores narradores eram os camponeses que contavam as tradições dos seus antepassados e os marinheiros que narravam as descobertas das suas viagens. já lhe parece o passado. Thornton Wilder é essencialmente um narrador. em Paris e em Viena. contava as suas experiências. Nada de psicologia sutil. muito antiga. A morte do americano é o assunto da última peça teatral de Wilder. aí. O mundo sofreu mudanças.

Jamais ninguém realizou a sua vida durante a vida. ou não os entrega aos estudiosos. conselhos para as pequenas e as grandes perplexidades desta vida confusa. da destruição pela morte: a tarefa do frade Juniperus. Sabedoria é o conselho entretecido na vida vivida da narração. Mas Thornton Wilder não é um sonhador. Os narradores. como sonhos reveladores. A verdadeira narração permanece fora do tempo. é o germe do romance moderno. A arte transforma misteriosamente este pesadelo da vida e faz conhecer que acordaremos amanhã na morte. Nossa vida está sem conselhos. o caixeiro-viajante George Brush. sabe que acordará amanhã"."é mais interessante para os meus leitores do que um terremoto no Peru. É talvez a tarefa mais velha da narração. A vida já não tem mistérios. ao menos na do seu ridículo neto. É um narrador. o romance de Balzac e a imprensa de informação são contemporâneos. A vida saiu dos eixos do mistério. A narração pode resolver esse problema. Essa imprensa entende-se com o seu público: "Um incêndio no Quartier Latin" . conjunto dos velhos conselhos. Escutamo-los com prazer. cheia de psicologia preconcebida." A morte dá à vida o seu ."que sabem o que é a vida. acha todos os homens "muito gentis e inconscientemente enganadores". A informação." Mas para o narrador Thornton Wilder a catástrofe peruana tem mais importância. são homens práticos. porém cheia de sentido. e é mais razoável do que queremos torná-la. desapareceu.essas viagens só terminam no ponto onde a terra e o céu se tocam. a sabedoria já não tem lugar. a de salvar a experiência da vida. Na nossa vida. senão na cabeça de Dom Quixote. Certa vez Wilder definiu a arte como "a magia do sonho que. no mistério da alma e da morte. Ele não se interessa pela atualidade. A sabedoria se perde. porque a sabedoria. é substituída pela informação. A narração morre. cheia de colorido frágil. porque eles sabem dar conselhos. porque é a morte que dá sentido à vida. como aqueles camponeses e aqueles marinheiros. Não sabem contar nada ao frade investigador. sob pleno pesadelo ou encanto fantásticos. fazendo as suas buscas.disse Villemessant . O frade Juniperus. "São somente os mortos" está dito em Nossa cidade .

a morte natural transfigura-se em morte espiritual. dum mundo. para dar à vida o sentido que os vivos procuram em vão."que não deixe uma coisa: uma recordação. que vem.diz Wilder ."é a coincidência mágica do acaso e do sentido. O que resta é a recordação." Por essa coincidência. "Ninguém morre tão pobre" . e vêm em seguida todas as classes e profissões. Eis por que a recordação desempenha um papel importante na obra de todos os narradores. ao som do sino. O narrador Thornton Wilder narra sempre e sempre a morte. A história natural do homem torna-se a história sagrada da humanidade. Todos.sentido. É da morte que o narrador recebe a sua autoridade. Todas essas vidas se reúnem na maior forma da narração . a procissão das criaturas passa. onde um narrador imaginário.a crônica: crônica duma cidade. tendo à frente o rei. e pela qual o anjo da morte sobe e desce. É o de que o frade Juniperus duvidou: que é que Deus quer conosco? Por que dá e toma arbitrariamente a vida? O narrador Thornton Wilder sabe responder a isto. de Boccacio a Conrad. a ponte sobre o abismo da exterminação. e o último capítulo intitula-se: "Talvez uma intenção". em nome da morte. se lembra do que tem de contar.diz toda narração. e por fim a morte. Pela arte. . o narrador chama e manda embora os personagens. é a crônica "de omnibus rebus et quibusdam aliis"." A recordação é a única que os mortos de San Luis Rey deixaram ao seu cronista. Como o régisseur de Nossa cidade. "Assim vai o mundo" .128 é a escada de Jacó que leva da terra às nuvens.diz Pascal . que completará os papéis e a peça. nos relógios das torres da Idade Média. duma ilha. e todas as narrações juntas o dizem por imitação: "Assim vai o mundo". gostam de colocar as suas narrações num quadro. do sentido de uma vida perdida para sempre. Como. Essa grande crônica do mundo envolve todas as coisas entre o céu e a terra. como a morte de San Luis Rey. "O que eu queria mostrar nos meus livros" . sem ser chamada e vazia de sentido. porque é a morte que dirige secretamente a pena do verdadeiro narrador: "Talvez um acidente" chama-se o primeiro capítulo de A ponte de San Luis Rey. o jovem americano de Cabala ou o frade Juniperus. o tumulto da vida se alinha como uma procissão bem organizada.

na mitologia dos povos primitivos. Eis a arte da narração. pela cadeia das tradições. a narração da infância da humanidade. "Somos" . quando nós e nosso pequeno destino formos esquecidos. A recordação.diz . Thornton Wilder ama o conto de fadas como uma recordação do paraíso perdido.guardada para sempre. leva. até esse dia. em Roma.. il pense à un pont". O que nos conduz seguramente sobre o . As recordações fundam as tradições. vivem ainda. Mas o que dá a esse sentido o calor da vida vivida é o amor. é o mito reduzido a narração. dez séculos antes do nascimento de Cristo. o conto de fadas. guarda as chaves do reino celeste chamar-se-á."os deserdados da nossa fé de infância nas fadas. um construtor de ponte.129 Precisamos todos passar na ponte de San Luis Rey. a Morte diz ao artista agonizante: "É a própria morte que te manda escrever este réquiem.. desconhece a morte. consola as crianças pelo fim tradicional: ". através de mil perigos. que o sacerdote mágico desse povo. que. o conto de fadas. e aquele que. Dá uma palavra aos milhões que dormem. No conto de fadas. Thornton Wilder. Eis por que o gênero mais velho e mais perfeito da narração. Pontifex Maximus. ele também. como este velho símbolo.o artista. Comporás a sua Miserere nobis que se elevará até o trono de Deus. vela para que o sentido da nossa vida não se perca. pontifex maximus. Mas a recordação é mais do que o quadro da verdade vivida. os símbolos míticos sobrevivem. como o Leonardo da Vinci de Valéry. ao país dos mortos. a ponte. O narrador é. se chamava o "grande construtor da ponte". Daí ver Wilder na arte um reflexo do amor divino. alem de ti . que não têm ninguém para falar deles. E na mitologia dos latinos primitivos o símbolo da ponte é duma importância tão capital. na sua peça A morte de Mozart. um pontifex. Somente a grande arte e o grande amor acalmam o grito do desespero e restituem a vida aos mortos. Caiu a tarde das suas recordações." O conto de fadas é o último sobrevivente da mais velha tradição." A vida feliz da infância não tem ainda necessidade da morte para a plenitude. e quando ainda não estão mortos. "quand il voit un abîme." "Restituir a vida aos mortos".

poder-se-ia dizer: é uma época sem nuanças. no romance Os cadernos de Malte Laurids Brigge. a reza de Rilke: "Dá. Mas o amor basta-se a si mesmo. Desafiando a frase brilhante e venenosa de Renan . A recordação não é necessária ao amor. Precisa-se ter experimentado os caminhos de países desconhecidos. Foi o mesmo em que pensou ao escrever.a nossa época prefere as verdades simplificadas. no cinema? Estamos coletivamente felizes. somente eu me lembro. estaremos mortos. Morremos mesmo.abismo da morte é a nossa partilha imortal do divino. despedidas longamente pressentidas. de sua mãe. dos pintores. precisa-se ter visto muitas cidades. e a ponte entre eles é o amor: a única coisa que vale. isto é. a única coisa que fica. ó Senhor. e nós mesmos somos amados durante um piscar de olhos e depois esquecidos. E quem procuraria nuanças no pão quotidiano dos intelectuais e dos pobres. não as suporta e não as tolera. das quais a nuança seria uma heresia. e essa mulher."la vérité est une nuance entre mille erreurs"131 . Faltam as nuanças entre as cores locais. as frases inesquecíveis: "Para fazer um verso. todas essas correntes de amor voltam ao amor que as criou. em voz muito baixa. faltam as nuanças na língua homofônica dos músicos. todos. do amor. sem nuanças. Em pouco tempo. porém. coletivista. O espírito dominante. "verdades em bloco". duramente justapostas." Sei em que Rilke pensou escrevendo este verso. Périchole só se lembra do tio Pío e de seu filho. mas também sem nuanças. Neste mundo. ressoa. "l'amor che muove il sole e l'altre stelle". a reza do poeta." AS NUANÇAS DE JENS PETER JACOBSEN CONTRIBUINDO à definição da nossa época.130 E termina assim a narração da grande ponte mortuária e salutar: "Quase já ninguém se lembra de Estebán e de Pepita. mistérios da infância não esclarecidos. dogmáticas. a cada um a sua própria morte. profundamente infelizes. e a recordação desses cinco terá abandonado a terra. . Há um país da vida e há um país da morte. homens e coisas. duma só cor e ruidosamente unânime. a mesma morte.

e. quase. E tudo isso muito delicadamente. infiltrou-se no sentimento e na expressão de certos simbolistas alemãs e franceses. então. de tuberculose. Trabalhador infinitamente meticuloso e vagaroso. nasça a primeira palavra dum verso. pode-se afirmar que a sua própria vida foi uma nuança. teve discípulos na Holanda. "on revient toujours à ses premiers amours". sei por que Jacobsen está esquecido. para nós outros. Sei por que estou folheando esses pequenos volumes de papel amarelecido. senão um nome. Jens Peter Jacobsen era um poeta de nuanças. Pensou no poeta dinamarquês Jens Peter Jacobsen. precisa-se possuir a grande paciência de esperar até que elas voltem. senão uma lembrança agradecida da Dinamarca. Nasceu em 1847. Antes. ingratamente: esse poeta é para mim. uma nuança entre vida e morte. esquecera-o. Lembram porcelanas chinesas da época do poeta Li Tai Po.132 Relendo-o. nosso gesto. Não basta mesmo ter recordações: precisa-se saber esquecê-las. Pois as próprias recordações não o são ainda. as recordações devem entrar em nosso sangue. A sua influência literária foi imensa: remodelou não só a literatura mas a própria língua de todas as nações escandinavas. que era também um poeta de nuanças. uma preciosa lembrança da mocidade perdida. as recordações se tornam anônimas e não se distinguem do nosso próprio ser. Está esquecido. para confessar a verdade. como preciosidades frágeis duma civilização perfeitamente requintada. Hoje. .mares e noites de viagens. daqueles poetas que suportam o esquecimento sem morrer. quando fez do herói do seu romance um dinamarquês. na pequena cidade dinamarquesa de Thistedt. numa hora rara. uma grande saudade. quando. e morreu em 1885. ao ponto de essas influências e recordações se tornarem anônimas e deixarem esquecer o seu autor. Quem era Jens Peter Jacobsen? Sem querer espremer a expressão. durante muitos anos. discretamente. escreveu pouco. Eu mesmo. que morreu há séculos. uns versos de Rilke. Nada ficou. rivalizou na Inglaterra com a influência de Keats. na Rússia e entre os tchecos. e para muitos da minha geração." Pensou Rilke na mesma pessoa. então pode acontecer que. nosso olhar. não é. Enfim.

de longe. para sempre. Veio a guerra de 1864. o choque que lhe arruinou. mais tarde: "É um estudo extraordinariamente exato. as mais das vezes. transformada em jogos mágicos de claridades e sombras. com a nuança da saudade romântica nas almas. É uma paisagem discreta. mais delicados da velha Europa. as linhas da praia fria. o futuro poeta Herman Bang. O romantismo nacional. satisfeito e vaidoso. bela pelas nuanças. Skovgaard. desvaneceuse. A Dinamarca defendera-se heroicamente.diz um dos seus amigos . Tornaram-se realistas. Pastagens ondeantes." O rapaz magro. com o germe da doença mortal no corpo. os Koebke. que estava então em voga. mas parece que todo o país sofreu tal choque de nervos. dois romances."a gente podia tomar ao pé da letra as suas palavras. pouco vistosa. Eis tudo. florestas de faias. em 1873. Foi então que um menino de sete anos. Escreveu. essa pobre vida. Traduziu Darwin. Essa paisagem aguardava o seu poeta. E uma dessas nuanças. dirigida. gramíneas tenras. os pintores mais tranqüilos. que não podem ser aceitas literalmente. recebeu. entrincheirou-se atrás duma ironia cruel. que refratam a luz dum sol quase meridional. Kroeyer. é o ateísmo do estudante darwinista. "Nunca" . Para isso foi preciso uma grande mágoa. O grande crítico dinamarquês e europeu Georg . na noite do assalto imprevisto à casa paterna na fronteira. duros realistas. os nervos e a vida. No entanto. Uma paisagem monótona e delicada. Maria Grubbe e Niels Lyhne. A madrugada que seguiu àquela noite encontrou outros homens. O jovem Jacobsen estudou ciências naturais. a sua tese botânica Aperçu systématique et critique sur les desmidiacées du Danemark133 foi coroada pela Universidade de Copenhague. sentem-se. contra si mesmo. Depois caem névoas azuladas sobre a paisagem outonal. dos quais o mais belo se chama Senhora Foenss. foi bela e rica. ressoa um murmúrio longínquo do mar.Escreveu alguns versos. Ninguém o leu. e meia dúzia de contos. que encontrou os seus pintores. como a paisagem pouco vistosa da Dinamarca." Falei em nuanças. quando a Prússia se atirou brutalmente sobre o minúsculo país e lhe arrancou a metade do seu território. em monotonias delicadas.

E nós. Há. orgulhava-se desse ateísmo do seu pretendido discípulo. e que fez muito pela glória européia de Jacobsen. nascida de profundas agitações políticas. Quando. pensou na sua Senhora Foenss. até o último adeus. era dum erotismo profundo. chamavam-no "Vossa Excelência". que são os mais agudos observadores. festejada até num trecho célebre de Kierkegaard. na última hora. Foi aquela ânsia que influiu em Rilke. morrendo. A doença devorava-o lentamente e inexoravelmente. num pobre quarto. adeus.Brandes. ao escrever as seguintes palavras de diálogo: "Deus está ali? . na Dinamarca. tipo velho romantismo. e as crianças. Gostava da conversação alegre e superava a todos em mordacidade. transição do político ao humano. o seu olhar silencioso a fitou. Sabia a proximidade da morte. Não é por acaso que a música do mais aristocrático dos músicos. decadentes. e o guia misericordioso é. em Jacobsen. mas não podia dissimular um ar muito aristocrático. ainda uma vez. Mas o agnosticismo e realismo de Jacobsen significa bem outra coisa: a sua arte. também uma mãe desesperada que. liberal radicalíssimo e impenitente. Brandes não compreendeu que o ateísmo de Jacobsen era uma nuança entre mil verdades duma profunda ânsia religiosa que lembra a do seu patrício Kierkegaard. meus filhos. Sem conhecer muito as mulheres. a morte. simbólica. Lá e cá. mas compreensivo. é quase música nacional na Dinamarca. o qual pensava. Morreu em Copenhague." Pensou no cortejo fúnebre das . aquelas velhas famílias aristocráticas. muito jacobseniana. estamos aqui?" Jacobsen estava mais lá do que aqui. poder-se-ia designar a todas com um título de Herman Bang: "famílias sem esperança". a de Mozart. Jacobsen era também sem esperança. é a transição para uma arte simbolista. em Jacobsen como em Maeterlinck. cuidado pela mãe desesperada. Mas não se deve imaginar um pálido poeta tísico. o fundo do abalo político era uma angústia religiosa. é outro testemunho. Professava as opiniões religiosas e políticas mais radicais. Teve aquele ar aristocrático próprio do espírito dinamarquês. escrevera a mais bela carta de despedida: "Adeus. de que a literatura simbolista da Bélgica. não cínico nem euforicamente dionisíaco.

É um colorista.suas outras figuras: no fim impenitente de Niels Lyhne: "Depois morreu a morte. natureza duma poetisa fracassada e que legou ao filho a fraqueza e o fracasso. mas foi boa. em quadros consecutivos. preto e lilás. sobre seda e veludo. foi uma vida inteiramente rica." Niels. e de súbito desaparecem. e tornou-se o maior artista da prosa das línguas escandinavas. é sem sentido. as pessoas aparecem de súbito. um pintor sem duras cores locais. Mas não se fazem poetas. O olho agudo do botânico e a sensibilidade fabulosa do doente vêem coisas que ninguém viu antes. amarelo. e a vida de Maria Grubbe. brilhantes. "devia fazer-se poeta". Descreve o brilho dos archotes de pez sobre o ouro e prata das jóias. Quem o leu não esquecerá nunca as palavras. O romance Niels Lyhne é todo poesia." É também assim nas notícias policiais. "Ela vivia em versos. Há . de degrau em degrau." Pois a vida de Maria Grubbe. Vê tudo. se bem que só uma nuança. ainda uma vez. O romance é quase incoerente. É só uma vida em passividade. azul. Mas vê somente quadros. para sempre. sobre o aço das armaduras. Passou ao verso livre dos Arabescos. Maria Grubbe. na língua e no estilo da época. um pintor de nuanças. a difícil morte". ela sonhava em versos e acreditava nos versos mais do que em qualquer outra coisa. mas há uma diferença entre elas e a poesia. tão simples. como a do seu autor. Isto tem significação. irmão do rei. Mas não é assim na vida real também? "C'est la vie. Disciplinou a sua língua intencionalmente. dos Bliders. que era a mulher do cavalheiro Ulrik Gyldenloeve. e que caíra. que Arnold Schoenberg pôs em música moderníssima. O romance dissolvese em quadros. até acabar como mulher do sujo palafreneiro Soeren. escrito. no fim da Maria Grubbe: "Não deploro a vida. descrita. como toda vida. com artifício habilíssimo. Jacobsen começara com os versos românticos das Canções de Gurre. foi boa. descreve mil nuanças do modesto sol de setembro num quarto. do começo: "Ela tinha os olhos pretos. o seu filho." "Ela" é a mãe de Niels. isto é. Interiores do século XVII134 é um romance histórico. assim como foi. pelo artifício arcaizante de Maria Grubbe. versos livres que são uma nuança entre a poesia e a prosa. um jogo de vermelho.

procura nas mulheres a poesia que devia ser a sua arte. sem compreender o definitivo dessa primeira despedida de sua vida. à qual um cavalheiro galante se referira em Maria Grubbe. Niels é um Dom João. Logo no princípio. o médico pensou: se eu fosse Deus. Enfim. a difícil morte. Depois. e algumas cenas de morte. e que. O ateísta impenitente recusa o sacerdote. ." "Depois morreu a morte. só de passagem ouvimos que Niels se alistou como voluntário e recebeu no peito a ferida mortal. "veio aquele dia de novembro. mas um Dom João sempre fracassado. Niels. há em Niels Lyhne cenas de despedida. São comoventes e lembram a frase de George Eliot: "Em cada despedida há a imagem da morte. Estas palavras são a introdução à cena final do livro." Uma dessas cenas termina com as palavras: "Exit Niels Lyhne". Após as cenas de amor.E.no Niels Lyhne muitas cenas de amor. que o menino Niels amara quase inconscientemente e que vê morrer. disse Hjerrild. estava cortado o último laço que o ligara à vida. como nós outros que sentimos a poesia com o coração e com todos os sentidos. é uma boa morte. Isto também é poesia. O último visitante é um amigo pouco íntimo. delirando qualquer coisa duma armadura. e a expressão quase dramática parece preparar a última despedida de Niels. e por isso foi um poeta. "Adeus. e quis morrer de pé. na passividade aristocrática dinamarquesa. há as cenas de morte. há a morte da jovem tia Edele. em que o rei morreu. Mais tarde. É depois da derrota. afinal. o médico militar Hjerrild. morrer pelo nosso pobre país. os acontecimentos exteriores são rapidamente narrados. a difícil morte. saindo. Niels ficou no lazareto. e começou a ameaça da guerra". mas com uma nuança. morreu o filhinho de Niels. vai morrer. à toa". algumas cenas de despedida. invisível para ele. Niels já não reconhecia ninguém. perdoar-lhe-ia. Depois morreu a morte. Como sempre em Jacobsen. e a quem não foi dado o verso. Pertenceu àquela "sociedade secreta dos melancólicos". e Jacobsen era o ." A agonia leva horas. Estava deitado. só existia na sua vida. é bem uma nuança. "Passou a vida à toa. "Quando Hjerrild o viu pela última vez." O uso transitivo do verbo "morrer" é muito raro.

O perigo desse caminho era a dissecção psicológica. Dissolvem-se em quadros maravilhosos. onde Jacobsen antecipa o neogongorismo das últimas correntes poéticas. como Flaubert: nas 317 páginas de Niels Lyhne levou sete anos. Jacobsen escreveu poucos contos. promessas de realizações futuras. Afinal. Mas Jacobsen não era decadente. que a gente não sabia onde ficava". de Mogens. ainda muito romântico. A mocidade literária ficou espantada em face dessa "revelação dum belo país. aquela dissolução que se tornou. depois da morte de Jacobsen. não implica a arte. Poderia ter sido o estilo disciplinado. admito mesmo: todo o homem. uma pequena sinfonia de cores e sons. e que Bourget denunciou. conto erótico. mas muito lento. castamente abreviado. são obras episódicas. Era um trabalhador infatigável. e a sensibilidade hiperestésica vai-se encaminhando para dentro. mas a arte consumada do poeta conferiu-lhes alguma coisa de definitivo. que não se realizavam. saudável. Maria Grubbe quis ser o romance duma alma. Não se pode imaginar homem mais decadente do que . Mas o romance não é uma arte de nuanças. com a noção nova de "decadência". naqueles anos. e Niels Lyhne já o é. é possível que o seu corpo o fosse. os contos de Jacobsen são como experimentos. onde cada palavra era bem deliberada. Poderia ter sido o cume de requinte estilístico. mas no sentido de amostras do que a arte de Jacobsen "poderia ter sido e que não foi".poeta das nuanças. Não são "experimentos" no sentido de esboços inacabados. As descrições minuciosas constituem sempre exteriorizações simbólicas de estados de alma. ou o fantástico do Tiro na névoa. do conto histórico A peste em Bérgamo. como na pequena fantasia Aqui haveriam de ficar rosas. Trabalhava mais lentamente ainda nos contos. a moda do romance europeu. A primeira obra publicada de Jacobsen foi o conto Mogens. mas já cheio de impressões desconhecidas na literatura européia de então. nas significações boa e má da palavra. nem Maria Grubbe nem Niels Lyhne são romances. O futuro mais verossímil da arte jacobseniana era o conto psicológico. Isto. e sobrava-lhe tão pouco tempo! Deste modo. já se vê que Jacobsen é sobretudo um contista. Poderia ter sido a arte soalheira. porém.

Tage. eu também tive ligeira decepção. e se não é o último adeus. mas é uma volta perigosa. até o último adeus. Nos últimos dias da sua vida doente. Senhora Foenss. Nesses momentos escreve aos filhos a carta de despedida. Ellinor. quando reli. ainda jovem. muitas vezes. e haverá nele todo o meu amor e a saudade de tantos. morto aos 26 anos de idade. o quarto onde um jovem leu. Que o assunto dessa arte viva é a morte não é um milagre. as últimas linhas que Jacobsen escreveu: "Adeus. A Senhora Foenss tem dois filhos. Não era a vida que poderia ter sido. Para confessar a verdade. enaltece ainda o milagre de arte no último conto. Enfim. Jacobsen chegou a uma arte de nuanças psicológicas. A Senhora Foenss insiste. Mas os filhos se opõem: então ela não seria a mãe venerada. adeus. e mil agradecimentos. tão simples e tão saudável. e a muitos." Tudo isto é muito fino. só não o é porque fica ainda. definitivamente. que todas as objeções emudecem. tantos anos. quase adultos: o filho Tage e a filha Ellinor. e mil votos. em que a sombria compreensão da vida e o sereno sabor da morte confluem para as linhas finais. na tempestade destes dias. o . para difamar a arte das nuanças. são lembranças de dias que se despediram de nós. e a sua poesia é o cume da beleza vital na poesia inglesa. Adeus. Não era a felicidade. parecerá sem importância. mas não é aquele adeus que deverá ser o último adeus a vocês. Seguem-se muitos anos de separação entre mãe e filhos. casar. fino demais para nós outros. após tantos. tantos anos. a palavra "decadência" serve. e já ela sabe que toda a sua vida anterior foi um engano. esse livrinho amarelecido. digo-o agora. meus filhos. em alguma parte do mundo. cujo sol sadio Jacobsen conheceu nas suas tentativas frustradas de manter a vida fugidia. Na Provença. lá ela encontrou o esquecido amigo da mocidade. "On revient toujours à ses premiers amours". vai morrer. mas só a vida que não foi. anos de decepção também. em face do estado do autor. Em geral. casa-se. Quero-o dizer o mais tarde possível. mas uma mulher exposta a críticas sacrílegas. Ela é uma viúva. aos sãos e higienicamente imbecis. e a lembrança do tempo em que vocês eram pequenos. A Senhora Foenss cai doente. ainda uma vez. pela primeira vez. quer. Talvez.o tísico Keats. adeus.

Na Bélgica vivem dois povos: os valões. vital. no animal. que nos ensina a reza: "Dá. Tudo isto. achamo-nos em face de uma questão da qual dependem a existência e o futuro da civilização européia. É o que é igual em todos os homens. Mas não é toda a verdade. Uma vez armado o problema. literatura belga. cru.adeus da Senhora Foenss. aparece nesse existencialismo simplificado o perigo do nivelamento no cru. que falam holandês. Por isso. um coração de mãe. é a língua materna. e porque ainda bate. se provém das condições raciais e exteriores. provém também. É essa a verdade. "a difícil morte". é a língua materna da humanidade. É a língua do coração. Não existe. perecível. que falam francês." LITERATURA BELGA À MEMÓRIA DOS MEUS AMIGOS BELGAS É PRECISO audácia para escrever sobre um assunto que não existe. sem nuanças até a morte. E isto se explica: o reino da Bélgica é de criação artificial e recente. O dialeto valão e os diversos dialetos flamengos carecem de importância literária. Enfim. fica a poesia. Ainda no requinte mais artístico. fundado em 1830 por uma conferência diplomática das grandes potências. em alguma parte do mundo. portanto. é o que se chama o Existencial. com alguns toques de regionalismo. e os flamengos. O que se perde é a nuança. no que é humano e no que é menos que humano. em conjunto. impregnada como ela é . Somos homens. É a língua mais que humana. a língua da poesia. das disposições espirituais e suprafisiológicas de um povo. Inclui-se também tudo o que é brutal. somos todos mortais. apenas. ó Senhor. Não existe uma nação belga. Por isso. Inclui-se neste conceito de humano tudo o que é frágil. a cada um a sua própria morte. por outro lado. Entender ainda essa língua é a prova de que somos ainda homens. A língua é a um tempo um fenômeno psicológico e fisiológico. Não há literatura belga. caduco. Há pois na Bélgica uma literatura francesa e uma literatura holandesa. Fica uma vida sem nuanças.

e Albrecht Rodenbach é um elegíaco da melhor tradição francesa. com seu primo Albrecht Rodenbach. onde o trem para à espera do correspondente. a Europa nada é sem a sua história. Sem a diversidade na unidade. envoltos na fumaça do incenso místico. conforme o passado.de sua história e de sua civilização. aos Pol de Mont. os nomes bárbaros de Van Lerberghe. O primeiro encontro é uma decepção. Enfim. O acesso a esse mundo não é assim tão fácil. e que constitui assim uma como estação central da Europa. depois da vaga passageira do simbolismo. confunde-se facilmente o célebre Georges Rodenbach. a última das quais se forma no seio maternal da língua. de Maeterlinck. habituados a ler os escritores da França. Para a maioria. temendo repetirem-se as decepções causadas por livros holandeses de autores de nomes franceses. pouco menos célebre na literatura flamenga. a civilização européia não sobreviverá. . Ora. É nas expressões bilíngües da literatura belga que o coração da Europa marca sua vida ou sua morte. vista de fora. Mas a confusão chega ao cúmulo quando se sabe que Georges Rodenbach exprime a melancolia mística da alma flamenga. recaiu no seu sono de Bela Adormecida no bosque. não prestavam atenção aos Conscience. Eis toda a verdade. no restaurante. de Verhaeren. parece. aos De Clercq. as letras flamengas são impenetráveis. e a literatura belga de expressão francesa. Segundo a concepção da língua. para reuni-los depois na grande unidade histórica da Europa. independentemente dos seus antecedentes históricos. bem distinta e muito independente. A crítica francesa sempre desconfiou do vento do Norte que lhe levava. os leitores holandeses. de Bruges la Morte. Existe uma literatura belga. burgueses joviais tomam boa cerveja. onde se encontram as estradas de ferro da França. Não há dúvida que a literatura belga é um mundo à parte. A Bélgica. ao fundo avistam-se alamedas cuidadosamente plantadas. ponto de baldeação. da Alemanha e da Holanda e a linha de passagem para a Inglaterra. uma estação de pequena cidade acolhedora. conforme conceitos raciais. A língua fisiológica une os povos. Tudo isso traz complicações. a língua psicológica os separa. afirma-se ou nega-se a história.

onde ressoam todos os acentos da alma francesa. Essa palavra talvez encerre toda a glória e toda a miséria desse país. bem assentadas no chão.casas bonitas. é uma literatura política e uma literatura simbolista. Afirmando que a Bélgica é profundamente burguesa. Foi a poesia flamenga que deu à alma silenciosa dessa paisagem uma voz. foi escrito por Hendrik Conscience em francês. há Toute la Flandre: a boa terra belga. O primeiro esboço do romance O leão de Flandres. e inteiramente francesa. que nos confins do horizonte vão encontrar as torres das igrejas de Nossa Senhora. Conscience nunca foi bem servido por sua língua materna. vendo as suas casas sólidas. é. pelo qual começa. . Entre as Núpcias espirituais de Jan van Ruysbroeck e o Trésor des humbles de Maurice Maeterlinck. Mas é também uma literatura "em profundidade". Haverá talvez nisso a vingança secreta do idioma flamengo. Mas essa terra tão rica de imagens. obra predileta dos flamengos. a literatura flamenga moderna. Entre os dois grupos. no sentido do sentimento altivo de independência dos burgueses medievais. uma orquestra. nem quando escreveu a epopéia nacional dos flamengos. Assim. A felicidade belga é profundamente burguesa. aliás. literatura de nuanças delicadas. os seus campos que parecem jardins. as suas alamedas intermináveis. e no sentido duma civilização requintada. tão rica de quadros. O leão de Flandres. Mas não é. a inquietação belga viu o inferno. em 1838. A Valônia é terra clássica. o misticismo belga descobriu o céu. a epopéia da independência valônica e belga. Percorrendolhe as risonhas colinas. A literatura belga é burguesa. entre as Tentações de Jérôme Bosch e as Campagnes hallucinées de Emile Verhaeren. ou melhor. a única verdade belga. é pobre de cantos. diz-se uma verdade que por ser impopular não deixa de ser verdade. da qual é ele a miniatura. que o escritor empregou para celebrar a luta das comunas francesas revoltadas contra o sistema feudal. certamente. a torre da igreja: recanto tranqüilo onde a felicidade como que acena ao viajante. e da Europa. escrita por um poeta de ascendência francesa. crê-se estar na Beauce ou no Orleanês. na verdade. feita pelo criador da literatura flamenga.

rebrilhantes de sol. esse católico místico e não-conformista. e sempre revoltado contra a autoridade eclesiástica. mas sem perder os acentos latinos que tão bem se lhe ajustam. e que nos recordam que a terra clara da Valônia é também a terra dos mineiros. quase sempre tirados do breviário. não há lugar para Gezelle. entoou o cântico. tristes. pintados por Gustaaf Vermeersch com as cores mais sombrias e mais precisas do naturalismo francês. de todos os homens. da retórica pequeno-burguesa de um romantismo deturpado ao simbolismo admirável dos Perk e dos Kloos.esse nacionalismo. dos barulhos fantásticos de Music hall. negra de pó. revolta de "miseráveis" à maneira de Victor Hugo. A réplica desse pesadelo naturalista é o pesadelo expressionista de Paul Van Ostayen. de todas as criaturas. Precisemos: esse camponês amante da mãe Terra e da mãe Maria. Esse padre. feita por mãos veneráveis". tem o cunho do nacionalismo cavalheiresco e impetuoso dos franceses: é a voz de "arm Vlaanderen". o seu mundo é outro. esse inspirado franciscano do irmão Sol e da "mãe Terra. O intérprete de Toute la Flandre é Guido Gezelle. Sabem-no bem os conhecedores da literatura holandesa: na sua evolução. dos Sinais apocalípticos. meio galicano. nas paisagens campestres. da "pobre Flandres". tão franceses. quase meridionais. esse místico da pobreza e do sol tem alguma coisa de Villon e alguma coisa dos poetas da Plêiade. Toda a pobreza amarga e toda a doce riqueza da alma desse povo ressoam na voz do maior poeta flamengo. mas não de Toute la Flandre. de todos os animais. que o século clássico francês não pôde cantar. anunciam a piedade da Contra-Reforma. imbuído da mais devota piedade. ela desceu para a terra. de Stijn Streuvels. Depois. Precisemos: esse padre e professor de seminário. na alucinação suprarealista da Cidade assediada. nos operários taciturnos. esse cantor de pequenas canções populares onde o cosmos se prostra diante de Deus e cujos títulos. pobre como Job. nos pequenos e grandes burgueses céticos e espirituais. Essa voz do céu sobre uma terra muito francesa é o cimo da poesia flamenga. é um irmão de Péguy. Nada conheço de mais latino do que a . de Richard Minne e Maurice Roelants. Há esses mesmos tons.

"Vlaandren. e das "béguines qui frôlent à pas étouffés les maisons agonisantes". diante de seu irmão Thanatos. où un grand silence se met à genoux"136e. o outono. insistiu-se demais sobre o aspecto fúnebre de Flandres. abandona a paisagem mais rica e feliz do mundo. de quando em quando. au long d'un canal mort". Nossa Senhora. poeta latino em língua flamenga. August Van Cauwelaert.135 a casa paterna. há a música em surdina. cenas das peças maravilhosas de Maurice Maeterlinck. a chuva e a morte que o poeta ali via em toda a parte. que tinham o cheiro das flores de outono. o mundo sentiu-se fascinado pelos "tristes après-midis de dimanche. Depois de Bruges la Morte.poesia de Karel Van den Woestijne. Turris Davidica". inesquecível a ponto de se tornar insuportável. muito suave. "le carillon tinte sa musique pâle"137. seu aristocratismo mórbido. como o filho pródigo. Gezelle fala das "névoas que se elevam dos poços do passado": essas neblinas cobrem as planuras ingratas da Campina. Um momento. ou pelos "quais endormis et les vastes esplanades. au long d'un mur d'hospice. suas nostalgias elegíacas. as cidades cinzentas da Flandres morta. atendendo ao apelo do desconhecido. Depois dos sons de orgão dessa poesia. histórias. entoou-as em honra da padroeira da terra.138 onde se encontravam as faces pálidas das brancas primeiras-comungantes. onde uma tênue voz de criança cantava a "Rosa mystica. a verdadeira senhora . quartos que eram como gente velha. Fornecem à poesia francesa um tema inesgotável. o welig huis. waar we zijn als genooden aan rijke taaf'len". que sabiam segredos. Mas em terra flamenga respira-se atmosfera diferente.139 Nessas casas havia quartos estranhos.140 onde famílias inteiras pereciam diante do vulto da terrível intrusa. esbatem até a fumaça inflamada das chaminés de Gand e as bandeiras e a turba multicor do porto de Antuérpia. sua requintada sensibilidade. o poeta modesto da Luz atrás da colina. das Canções à Virgem. Valeria realmente a pena aprender o holandês para conhecer a poesia desse filho pródigo que. de forma clássica: um dos maiores poetas líricos da literatura universal. a que só voltou curvando-se. A Virgem recebe as mesmas litanias nas igrejas de Toute la Flandre.

e lembra-nos um fato sempre esquecido pela poesia flamenga em língua flamenga: os flamengos vivem à beira do oceano. Mas era uma pátria. Para essa pequena burguesia flamenga vira-se uma nova página.desse mundo fúnebre: a Morte. de Max Elskamp. Também Maeterlinck fala de uma "île dans les brouillards. Lá havia . a de certas páginas de Lemonnier e de Georges Eekhoud. como nos quadros dos "vieux maîtres qui sûrent jouer dans la paille avec l'enfant de Bethléem". desses armazéns sujos que se olham com suas órbitas cegas e simétricas.146 Não é uma poesia perfeita. d'un château dans l'île".141 e um dos poetas mais latinos da poesia francesa.que triste. mais sincera. talvez a mais preciosa. Mas essas câmaras funerárias tinham saídas. esse imperfeito verbo! .143 é desse mar cinzento que surgem as brumas e "le vague bleuâtre qui enveloppe les lointains". diante da pequena burgerij de olhos e boca muito abertos. poesia da grande cidade portuária dos flamengos. Folheando os simples poemas de Elskamp. nas suas "barques tragiques".144 e o sonho de um infinito em busca do qual se lançavam marinheiros e pescadores. recordo-me sobretudo desse humilde povo curvado. Havia o cheiro das gaufres145 de Bruxelas e as luzes das tavernas onde os marinheiros conversavam. mas é a própria poesia da vida dessa gente que. É desse mar cinzento. dessas gruas que estendem os braços melancólicos para o céu baço da tarde. seus "Vagues accords où se mêlent des battements d'ailes". Não a imagineis muito bela. a cidade que amei como a nenhuma outra. Há também a poesia menos grandiloqüente. onde a piedade e a jovialidade se encontram lado a lado. na Itália. a cidade feia que me foi uma pátria. poesia da velha Antuérpia. Há no fundo da alma germânica a nostalgia imperecível do Sul. Mas a poesia nem sempre paira tão longe.142 A poesia de Van Leberghe representa uma corrente da poesia flamenga de língua francesa. onde a imaginação hugoana de um Verhaeren vê "une fête écumeuse". encontrou. da literatura belga de expressão francesa. mais íntima. .pequenas lanternas iluminando as madonas das esquinas. ao sair das missas e das procissões. o flamengo Charles Van Lerberghe. Estamos no coração de Flandres.

148 "les gares de feu qui ceinturent le monde et accompagnent de leurs hurlements d'acier la prière unanime d'un monde en flammes". e teve-a: La légende d'Ulenspiegel.se atira às loucuras das quermesses endiabradas.zomba das explicações fáceis. Povo de campônios e burgueses. é a obra que dá início à moderna literatura belga de expressão francesa. que formam uma única literatura e uma nação . Cumpre recorrer a forças de poder histórico para se compreender o acordo . les espoirs de la rue". somente comparável às epopéias intermináveis de Tolstoi. a terra das revoluções indomáveis . a atração do regionalismo pitoresco de Flandres sobre os poetas valões. fouettée par les haines. epopéia da liberdade flamenga. não o esqueçamos. de duas línguas. escrita pelo flamengo Charles de Coster em língua francesa. Hoje.149 É. essa intercomunhão de duas literaturas. de dois povos. É que não se conhecia bem a Bélgica. mas a lembrança delas vive ainda nas grandes lojas repletas. censurando-lhe a grandiloqüência de um Hugo encarnado num burguês atormentado. Tudo isso é do passado. perfumadas pelo cheiro do trigo maduro e do pão fresco. não se sabia que a música triste e neutra do carrilhão se transforma por vezes em toque de reunir.o campo de batalha da Europa. mas verdadeiramente épico. o povo flamengo merece uma epopéia. A atração do centro Paris sobre os poetas flamengos. a "terra das experiências sociais". onde se levanta "le coeur myriadaire de la foule. Essa interpenetração. dos queijos e dos vinhos. A posteridade foi muitas vezes injusta para com Verhaeren. essas festas têm alguma coisa de mitológico. onde o mito de Flandres-a-morta é substituído pelas naturezas-mortas das viandas. um dos quais se exprime pelo grito de alegria e o outro pelo grito de revolta. Seu espírito "burguês" tem dois lados.147 "rue en rouge au fond du soir enflammé". isso quase nada explica. Verhaeren cantou a outra Bélgica. É a poesia francesa visitando a terra de Brueghel. da cerveja forte e das mulheres exuberantes. Mas o ímpeto vital dessa raça tenaz que Emile Verhaeren cantou é invencível. les appels. um dos maiores romances da literatura universal.

em seguida a Alsácia. Eram conservadores esses diplomatas que sancionavam uma revolução. absolutamente. e o flamengo Emile Verhaeren. a um tempo grandeza e miséria da Europa. en met tenaciteit. Toda a história da Europa medieval. É como se um coração se contraísse dolorosamente. de nacionalidade incerta: o germe da Europa. no fim. e com tenacidade. estendido do Mar do Norte aos Alpes italianos. het leven van mijn volk" ("Vivi sempre. até esse Herfstij der Nederlanden. a unidade européia substituída por um frágil "concerto das grandes potências". o outono dos Países Baixos. de que a Itália é a primeira a separar-se. haverá a Bélgica. que dizia. em língua flamenga: "Ik heb altijd geleevd.perfeito entre o valão Hendrik Conscience. porém. O advento do princípio das nacionalidades. a vida do meu povo"). só durante um único século precário. A explicação de tal paradoxo resolverá o último problema dessa literatura bilíngüe: por que ela só principia a falar no século que findou. consiste no lento desmembrar-se desse império intermediário. Quando os filhos de Carlos Magno partilharam entre si o mundo. não. entre a metade latina dos francos e a metade germânica dos alemães restava um império intermediário. e os Países Baixos por fim. no leito de morte. Neerlandeses. Luxemburgos. vindo depois a Borgonha. A Bélgica não data de 1830. Sendo.151 que Jan Huizinga descreveu de maneira inesquecível."150 Tenaz. opera-se nesta terra das nacionalidades intercaladas. É tão velha como a Europa. ela o era. Os diplomatas que em 1830 fundavam o mais belo dos pequenos reinos europeus não faziam mais do que consagrar um fato histórico. até à quebra da unidade ocidental pelo nacionalismo vitorioso. em língua francesa: "Je suis un fils de cette race Ténace. o império lotaríngio. Nessa terra intermediária floresciam quatro grandes monarquias da civilização ocidental: Carolíngios. Para levar ao cúmulo o paradoxo: a Bélgica é a Europa mesma. e Flandres será o coração doloroso da Europa. a existência da Bélgica . que cantava. Borguinhões.

como a literatura austríaca. Ela é o fruto do século burguês. ambas as literaturas proferem as suas verdades do passado na língua poética do futuro. o espírito citadino deixou a sua marca neste solo. a epopéia dos súditos muito leais e sempre revoltados contra os condes de Borgonha. europeu. A Bélgica é o único país da Europa que não é filho dos campos e dos castelos. outrora. Esse revoltado revolta-se por espírito burguês. lembrando-lhe as verdades mais gloriosas de sua história. europeu. pela literatura belga. dedos de imprecação estendidos para o céu. expressão das muitas línguas de um império supranacional. A Bélgica justificava a si mesma sua existência nacional pela expressão de seu espírito. Os momentos desse espírito dominam a paisagem belga: os Belforts. chegaram à madureza. O belga é o herdeiro legítimo das cidades livres de Flandres. A literatura belga tem uma função política. em símbolos significativos. de Maeterlinck e de Verhaeren. a literatura belga. foi o simbolismo. O belga. todas as horas da vida burguesa. nada revolucionário. E a analogia é fértil: como essa Bélgica era também. contra os Habsburgos. mas das cidades. parte do vasto império austríaco-espanhol-habsburgo. de que Conscience e De Coster traçaram a epopéia bilíngüe. fala à consciência da Europa. o casamento e a morte. mas eles sabem soar a hora da revolta. contra os Oranges. o simbolismo. expressão bilíngüe de um reino supranacional. de Hofmannsthal e de Beer-Hofmann. A forma em que ambas. para salvar suas liberdades de outrora.desde o . último fruto da civilização burguesa. as altivas torres dos Hôtels de Ville. e o grito de rebelião ainda ressoa nos gritos multiplicados dos vendedores de jornais pelas ruas belgas . contra os reis de França. Em todas as cidades desse país urbano reconhecem-se ainda os vestígios das comarcas romanas. Ainda hoje. e esse encontro feliz não é o primeiro. contra os espanhóis.devia estar sempre sob ameaça. Nessas torres os carrilhões tangem o nascimento. a literatura belga e a literatura austríaca. não se revolta para subverter a ordem. mas para salvá-la. o belga está sempre em oposição a alguém. do "outono dos Países Baixos".

é que dava voz às letras belgas. tão século XIX.a série das Approximations. da Gazet van Antwerpen ao Volksrecht . et à la fin l'esprit est toujours plus fort":152 foi Napoleão quem o disse. Esse futuro é assegurado pelo espírito da literatura belga. que as fazia festejar um passado glorioso. lastimar um presente acinzentado e predizer um futuro esplêndido. isto arruinou a sua vida e alguma coisa mais. mas que não o tenham compreendido nunca. A literatura belga calou-se? "Il n'y a que deux forces au monde.dominados todos pelo grito repentino e incontido: Indépendance Belge! Esse espírito. É por isso que Du Bos não compreendia a curva muito irregular da vida literária de Hofmannsthal. não foi nunca representada. No entanto. e o ensaio de Du Bos. os estudos de Hofmannsthal sobre a língua e a literatura alemãs. um grande caso da literatura universal. HOFMANNSTHAL E O SEU GRAN TEATRO DEL MUNDO O ESQUECIMENTO não resolve nada. Que ele seja esquecido. por notável que seja. ela é um testemunho do passado da Europa e será um arauto de sua ressurreição. O Gran teatro del mundo de Hofmannsthal reflete. não importa. em Salisburgo. Admiravam e aplaudiam o libretista das grandes óperas de Richard Strauss. poucos anos depois da sua morte. O mundo não sabia nada. A torre. a maior obra do poeta. e ele deveria saber o que dizia. hoje. um mundo internacional se acotovelava.Matin a Soir. a incompreensão estraga tudo. l'épée et l'esprit. embora Du Bos tenha tocado no ponto nevrálgico. não abrangia o problema. como um sonho divino. do Cavaleiro das rosas153 principalmente. Jedermann.154 quando Max Reinhardt levou à cena as tragédias de Hofmannsthal. O caminho para o fundo do problema assemelha-se à viagem de Fausto . ou do Gran teatro del mundo de Calderón. A estas glórias mundanas se acrescentava a consagração definitiva por um ensaio de Charles Du Bos na 4. o grande teatro do mundo. contribuição das mais interessantes à psicologia da criação artística. os seus arranjos do mistério medieval. É o caso de Hugo van Hofmannsthal. No fundo deste problema psicológico encontra-se um problema de ordem ontológica.

confere. de Laforgue. política e espiritualmente. a comédia de máscaras italiana. com o refinamento espiritual que o declínio das velhas civilizações. representou os Infantes apáticos e mórbidos da Coroa de Castela. a poesia dialetal de Viena. Existe nele um pouco de Maeterlinck. e ele somente. Mas este adolescente já fundou uma escola. alguns ensaios. A educação é católica." Demos o nosso testemunho. e enchia a atmosfera da cidade com a sua piedade barroca e o seu ceticismo desiludido e transcendente . e Hofmannsthal foi sempre um católico exemplar. E o auto espanhol. com o seu príncipe agonizante. de origem espanhola. no fundo. que é. da dinastia que governava. compreensiva. meio aristocrata. no fim. inaugurando a época simbolista. Ninguém quis ver A torre nem compreender o seu poeta. com longínquos antepassados judeus.esta sabedoria vienenseespanhola que sabe que a vida não passa de um sonho e que o sonho é a vida. O espírito precoce do poeta é cheio de imagens multicores: a tradição greco-latina e o classicismo francês. meio burguesa. A sua obra é rara: alguns poemas de encanto inesquecível. filho de uma família muito rica. A magia dos seus versos renova a poesia alemã. alguns pequenos dramas de um sabor precocemente maduro. depois a Alemanha de Goethe. a mãe descende de patrícios italianos. em Viena. onde Velásquez. o lied popular eslavo. . parecia ter descido dos quadros do Museu Imperial de Viena. O pai descende da pequena aristocracia tchecoalemã da Boêmia. algumas gotas de sangue húngaro e polaco. O jovem poeta. ele também. e Hofmannsthal podia dizer. se encontrará a mãe Europa em perdição. de Verlaine. o herói de A torre: "Dai testemunho: fui presente.às Mães. Hugo van Hofmannsthal nasceu em 1874. esse império. no sentido também de uma universalidade ecumênica. Ainda que ninguém me conhecesse. uma época especificamente austríaca. dentro da literatura de língua alemã. Pois sobre a graça vienense deste poeta de 17 anos paira ainda o céu dos imperadores Habsburgos. pintor dos reis. de Milão.

encontra-se em face das ruínas da Áustria e da Europa. A crítica e o público recusam. viver. escreve fragmentos sobre fragmentos. Hofmannsthal atravessou a fronteira difícil entre a morte da poesia e a poesia da vida. ensaios sobre ensaios. Viver. mal feitas. A música domina tudo. Desesperado. só postumamente aparecerão. Salisburgo é um sol de crepúsculo. em torno dele. e escreve as grandes alegorias barrocas musicais. tragédias gregas de um histerismo insuportável. Aí ele encontra Max Reinhardt. Algumas vezes uma nova vida parece desabrochar. O velho Império treme até os fundamentos. é a febre. Uma vertigem sacode os atormentados. A Viena de outrora já não existe. um espírito de puro esteta morreu. ocupa-se da reconstrução futura da Europa. Nesses anos. uma fronteira mortal. Tudo. Ele surpreende o mundo literário com estudos profundos sobre a literatura alemã. Hofmannsthal encontra em si uma consciência política. Hofmannsthal não assiste a estas festas. E quando desperta do seu sonho anacrônico. Escreve a comovente Carta de Lorde Chandos. Desaparece. na qual confessa a sua incapacidade e explica a sua resignação às letras. O poeta cede. ele se cala. a qualquer preço. É então que Hofmannsthal reencontra Ricardo Strauss. E a malícia acrescentou: "Que poeta teria sido ele se houvesse morrido com 17 anos!" O poeta não está morto. Dolorosamente. Para a Europa Central. nos quais abundam definições para precisar o caráter particular da . arranjos de velhas peças inglesas. e interna-se cada vez mais na mística católica do barroco. se desfaz. como o romance inacabado Andreas ou Os reunidos. em Salisburgo. a beleza e o sonho de séculos se condensam. Mas o seu mundo morre. o Jedermann e o Gran teatro del mundo. comédias sem força cômica. Hofmannsthal desespera. muitos dos quais. para o qual ele já tinha escrito o Cavaleiro das rosas. A inflação completa o desmoronamento.Depois. Em alguns momentos de plenitude. após os quais reaparece com algumas obras falidas. que leva à cena. As suas gavetas enchem-se de fragmentos múltiplos. É a grande guerra. Cala-se durante anos.

uma morte quase simbólica. Hofmannsthal caiu num esquecimento radical. aproximados e violentamente separados pelas mesmas forças históricas. que já não era obrigada a excluí-lo. por isso a . à beira do túmulo de seu filho. a literatura viva não toma conhecimento do fato. de uma nacionalidade tão incerta e tão mista como os seus povos. na cripta da família. não existem e não existirão nunca nítidas fronteiras nacionais. o mundo eslavo e o mundo latino se encontram. também os soberanos do império alemão. onde o mundo germânico. mas não era um poeta alemão. de Calderón: que anacronismos. Mas é fora de dúvida que ela vive para a literatura européia. Hofmannsthal foi enterrado vestido do hábito da Ordem Terceira de São Francisco. Aqui. Mas não se compreendem um ao outro o húngaro. ele morreu. do qual o poeta estava enfim consciente. o romeno. o italiano. em 1929. É verdade. Existe. Charles Du Bos bem o viu: ele explicou os estudos de Hofmannsthal sobre literatura alemã pelo desejo do poeta de reconciliar a sua posição austríaca. durante séculos. ocupa-se em refazer La vida es sueño. estes enfadonhos arranjos. é um caos de povos intercalados uns nos outros. a torre da civilização sobre o abismo. se suicidara.dizem os literatos. pela inflação. foram. Para a Alemanha a sua obra está definitivamente morta. pela revolução. A Europa centro-oriental. o tcheco. atrás dessas preocupações. um problema gravíssimo. Só uma vez na história o universalismo católico dos Habsburgos dominou o caos. o alemão. Poder-se-ia dizer: ele abandonou a literatura alemã. que. Uma velha família se extinguira. Ao mesmo tempo. para construir a Casa da Áustria. Os imperadores Habsburgos. De acordo com a sua disposição testamentária. atormentado pela guerra. seguindo a moda esnobista do barroquismo! . Eis a nossa tese: Hofmannsthal escrevia em língua alemã. Desde então. mas impõe-se uma aproximação mais precisa. nenhum teatro a representou. Quando A torre aparece. Alguns anos mais tarde.literatura austríaca. a sua posição alemã e a sua posição européia. o polaco. Uma morte à beira do túmulo do mundo.

" Mas o jovem esteta não os conhece ainda.língua alemã tornou-se a "língua geral". Hofmannsthal o exprimiu: "A Áustria tornou-se espírito na música. Na Alemanha. da aristocracia. Grillparzer. Essa grande Áustria teve. a língua dos Smetana e Dvorak. pela sua descendência germano-ítalo-judaicotcheca." A língua dos Haydn. "Impotência de criar" é a expressão da Carta de Lorde Chandos." Estas palavras se lêem num estudo sobre Amiel. Nós sonhamos com todas as possibilidades e desprezamos a realidade. foi um começo. a estes povos e estas estrelas."trai a fraqueza interior e a impotência de criar. e não posso afastar da alma amedrontada a queda muda de estrelas longínquas. aos quais Hofmannsthal pertenceu. não. onde as lembranças espanholas ainda fermentam. a língua da burocracia. compreende-se. "A multiplicidade dos esforços" . uma função européia. É por isso que a Áustria não se tornou espírito numa literatura. A poesia do adolescente Hofmannsthal reflete este mundo multiforme. mas não tinha uma língua. Na Áustria. no começo do século XIX. a língua alemã era . é a "língua geral" da humanidade e a língua nacional da Áustria. a língua geral de comunicação entre todos esses povos. dos Mozart. Quase ao mesmo tempo."o espaço espiritual da nação"."155 Hofmannsthal. os seus esplendores e as suas decadências. dos Liszt e Cimarosa. Mas ele representa uma última maturidade que vê a queda do Império. eu não posso arrancá-las das minhas pálpebras. mas não uma função alemã. é um espelho microcósmico do macrocosmo austríaco. É que a língua alemã era somente um elo exterior para coordenar os múltiplos esforços nacionais de todos esses povos. dos Schubert. pelo nascimento e pela educação. "Ripeness is all. a língua comum dos círculos bem austríacos. mas constituem uma confissão. A literatura chegou mais tarde.diz ele num estudo desta época . A Áustria tinha muitas línguas.Hofmannsthal criou o termo . Hofmannsthal já é o fim. do exército. Hofmannsthal escreve a . Ele o diz admiravelmente num poema: "As lassidões de povos esquecidos.

ele vive. É o espetáculo da decomposição fosforescente por trás da fachada esplêndida que o atrai. . Em todos esses fragmentos e esses ensaios. em que um jovem aristocrata austríaco devia encontrar. à porta do palácio real. os contemporâneos não viam senão a impotência. . por sua vez. a imagem da Áustria agonizante." Estas palavras sobre o herói da Áustria foram escritas quando a velha Áustria já agonizava. Estes eram modernos. de Casanova.Dê o seu testemunho de que nós estávamos presentes. aquela Veneza que era. Uma vez ele se aproxima do centro do seu ser e do seu mundo. para o espírito. Mas Hofmannsthal não era absolutamente um arqueólogo. envolvido como estava por imagens e fantasmas que pareciam gritar-lhe: . Para ele o passado era vivo. pois. Mas a "impotência de criar" continuou: a este mágico da palavra as palavras se recusam a atender. a verdade pessoal da sua vida. desconhecido entre os mendigos. um arcaizante. aonde sempre volta o barroco. a Veneza de Tiepolo. não existe passado. o príncipe Eugênio: "Aos olhos do espírito. em Veneza. era um "passadista". Sem o saber. Ele gosta principalmente de fazer passar em Veneza as suas obras e as suas cenas. Disse-o Hofmannsthal no seu ensaio sobre o grande herói do exército austríaco. ele se aprofundava cada vez mais no passado. este passado especialmente austríaco. um epígono.Ele. que todos vivemos com o passado e morremos com ele. e este poeta o é principalmente porque não conhece a sua verdadeira pátria. onde compara o poeta ao Santo Aleixo da lenda. Hofmannsthal tornou a encontrar a sua pátria quando ela morria. o poeta. e ninguém nos conheceu. na Veneza do século XVIII. tudo é presente. no romance fragmentário Andreas ou Os reunidos.sua conferência O poeta e o nosso tempo. de Longhi. ele busca esta pátria desconhecida. sabia que o passado nunca é inteiramente passado. O poeta é sempre um exilado do seu tempo. austríaca outrora. Dão testemunho disto fragmentos. Para a poesia. o príncipe herdeiro exilado que dorme. a vida de Andreas ficou fragmento.

Faz-se preciso distinguir. onde jaz o mundo do passado. é o sol do crepúsculo da Áustria.disse Hofmannsthal. A vida é um sonho. predileção do teatro popular vienense. a Áustria ressuscita na poesia de Hofmannsthal. Ali. a união da peça de sonho. da civilização do Império católico. porque estas formas eram a criação própria da civilização barroca. com a farsa italiana e a comédia espanhola de capa e espada. e Hofmannsthal escreve os seus estudos sobre a língua e a literatura alemãs. a literatura austríaca encontrou a sua essência austríaca: ela voltou para a música. La vida es sueño. precisamente então. Existe. a inteligência do intelectual e a sabedoria do povo.Então. Mas já é uma política anacrônica. uma mistura de estilos mozartiana. Embora em língua alemã. Descem-se os degraus desta . de Salisburgo. Esta torre misteriosa é construída nas profundezas. E dá testemunho nas grandes formas de teatro barroco. do Império da Casa d'Áustria. o titanismo e o equilíbrio. A torre. enfim. não é literatura alemã. Em Hofmannsthal. o espírito alemão não é senão um ingrediente entre os demais: o latino e o eslavo. A literatura austríaca é intensamente popular. transplantados para Viena. como um túmulo. O passado está presente nas grandes alegorias barrocas de Salisburgo. Lembrando-se a gente dessa sabedoria vienense-espanhola de que a vida é um sonho e o sonho é a vida. no Cavaleiro das rosas. compreende por que a literatura austríaca é essencialmente teatral. Hofmannsthal deu à peça um outro nome. cuja importância Du Bos compreendeu bem. As palavras não se recusam mais. É preciso distinguir. como na Flauta mágica. "O teatro é essencialmente sonho" . e outro sentido. O espírito alemão e o espírito austríaco se diferenciam como a filosofia e a música. espanholhabsburgo. que servem freqüentemente de fundo para os seus cenários. feita por filhos do campo. Nunca eles esquecem as montanhas natais. a sua alta função política. e aquilo que não se pode dizer torna-se música. do passado. O "grande teatro do mundo". Ele dá testemunho. É de Calderón. a literatura austríaca realiza. Enfim. mas interpretou mal.

O príncipe Segismundo de Hofmannsthal sucumbe aos terrores da revolução que o chamou. quase um selvagem. Hofmannsthal tinha sempre uma predileção pelas "peças de sonho". ajoelha-se perante o pai. Sé bien que la vida es sueño. e o caos volta a esta alma. deixai-o sonhar. chama-o para a corte. e eis-nos envolvidos num sonho. Existe um problema muito austríaco: o problema do sonho e da ação. Mas o príncipe de Calderón reinará sobre este mundo. Num gesto magnífico.cripta: uma luz incerta vacila. da ação e da não-ação. e o príncipe de Hofmannsthal morre. levam-no para a torre. de Calderón. e ele se arma contra o próprio pai. mas o rei..E se tudo isto fosse. um sonho? . em cura de um louco.. bem cedo os maus instintos despertam. torturado de remorsos. o príncipe cresce numa torre dentro da floresta. a este mundo tão frágil e sempre ameaçado de abismar-se. Mas a voz interior lhe sopra: . Pelo desfecho feliz. Como o teatro espanhol e o teatro popular vienense. "não toqueis no sono do mundo". e cujo curso já não é possível . uma cortina se levanta. É o segredo do conservantismo habsburgo. e esta consciência produziu a sabedoria do "quieta non movere". uma grave contradição: não se governa com esta sabedoria..Ele domina-se. Esta sabedoria encontrou uma expressão adequada no sentimento barroco de que a vida é sonho: a sabedoria do príncipe Segismundo. ainda uma vez. para salvar a ordem do mundo. porque ". uma revolução do povo liberta-o. entre a sabedoria do príncipe calderoniano e a sua vitória final. onde o passado ressuscita.desengañado ya."156 Esta sabedoria é comum a Calderón e a Hofmannsthal. o velho rei o faz prisioneiro. ele quer assassinar o rei. a tragédia de Calderón transforma-se em revolução de palácio. Lembremos: um mágico tinha predito ao príncipe herdeiro um futuro despótico. desencadeiam-se. Aqui e ali um mundo velho morre e um novo mundo se levanta. fazendo-o crer que tudo era apenas um sonho. Existe. O espírito austríaco foi sempre consciente da fragilidade da construção do seu mundo. que parecia lassidão e algumas vezes indolência. em La vida es sueño.

"para o espírito. e a sua pátria está esquecida. ele murmura as palavras lapidares que constituem o testamento de Hofmannsthal: "Dai testemunho: fui presente. Ninguém o conheceu. De qualquer forma. é a tarefa de criar uma outra Áustria que será a Europa. era. e. também. a ela. como Santo Aleixo. ela é somente a luz interior que ilumina as adegas misteriosas do edifício enigmático que é esta torre. uma tarefa da Europa." Hofmannsthal. Não sei se esta Áustria que acabou voltará um dia. morrendo. A sabedoria de sonho do príncipe não governará nunca. a Áustria continua. e corre atrás dos demagogos que o escravizarão. O poeta está esquecido. também. Não é a preocupação de renovar a Áustria. uma velha família se extinguiu. é a revolução dos povos que acreditam libertar-se. É um poeta austríaco. É assim que o príncipe morre. A família dos povos austríacos extinguiu-se. e que arruinam a casa paterna. E é justo: Hofmannsthal foi excluído da literatura alemã. Falta construir uma Europa cristã. o patrono dos poetas. Ainda que ninguém me conhecesse. porque não lhe pertencia. a Áustria continua como uma missão. um sonho insensato. este edifício do velho Império que a violência da guerra acordou para fazê-lo morrer. e pela violência este mundo se desmoronará. e nem o creio sequer. e ninguém o conhecerá mais. Com Hugo von Hofmannsthal. Não compreenderam isto. Mas. um príncipe exilado. Violentaram este príncipe para salvar a ordem do mundo: "tocaram no sono do mundo". o poeta. o Gran teatro del mundo austríaco. união acima das nações. O príncipe Segismundo de Hofmannsthal é um príncipe herdeiro desconhecido.deter. espiritualmente. Não é um poeta alemão. Sonho também. A torre desmoronou-se. O povo não o reconhece. a sua reunião pela força fracassará também. O velho império desapareceu. tudo está presente". A separação dos povos pela força fracassou. porque. porém. É uma torre de sonho. Mas o vácuo que ela deixou tornou-se o . Esta presença abrange um passado e um futuro. A torre é a tragédia da fatalidade do velho Império. Não o conhecem mais porque já não há Áustria.

não se tornou ainda proeza dos biógrafos profissionais. "Abyssus abyssum invocat. Tenho medo de falar da sua vida. numa atmosfera onde já não se pode respirar." Estes versos descrevem toda a região da poesia. Pois essa vida é uma série de aventuras."157 Resta apenas uma voz. cidade de fronteira. através da qual a Áustria continua presente e nos fala: "Dai testemunho: fui presente. Sinto-me capaz de amar o ambiente de incompreensão que me cerca. Entre uma e outro há uma fronteira. Não há acontecimento mais simbólico do que o nascimento de Rimbaud. a do poeta. 10 DE NOVEMBRO DE 1891 "A poesia é incomunicável. cortante como a navalha dos suicidas. e nasceu em Charleville." ASSIM fala o poeta brasileiro. Ainda que ninguém me conhecesse. e o outro poeta brasileiro responde: "Sei que fora de mim há um clima diferente Sei que há céu azul. mas que se prestaria facilmente a isso. ou como a crista sobre o abismo. Fique quieto aí no seu canto. supremas claridades. a tensão entre a personalidade fechada e o cosmos aberto. que. antes uma série de tentativas de fuga. Depois que o puritanismo pétreo da mãe-viúva o afugentou. como se o mundo tivesse sido morto antes dele." A FRONTEIRA PELO CINQÜENTENÁRIO DE ARTHUR RIMBAUD. filho póstumo.abismo onde toda a Europa se perde. Não ame. . uma série de evasões que levam sempre até à fronteira extrema. felizmente. lá onde a fronteira é sempre trágica. O homem desta fronteira é Arthur Rimbaud. fronteira belgo-francesa.

Apenas uma obra esparsa. e a "délicatesse" parece estranha na boca desse niilista brutal. Dizem que houve remorsos no hospital de Marselha. O que é que ele deixou? De modo nenhum os tesouros orientais de Mil e Uma Noites. . e dificilmente acessível. que por amor do estranho menino abandona mulher e filhos. a catástrofe de 1870. . comme un panier. Queima e destrói toda a sua poesia.quatro palavras mágicas que exprimem perfeitamente a nostalgia do Nada fantástico ao ar livre do vagabundo. a abundância verbal do Bâteau ivre converte-se em mutismo. fronteira entre duas épocas.achou-os? "Par délicatesse J'ai perdu ma vie"160 . o mercador fantástico dos mares e dos desertos.ele está em Paris.diz ele. na Abissínia. ressoa quase como remorsos. ô châteaux!"159 . essa vagabundagem nas fronteiras da sociedade. evasão dessa fugitiva glória literária a que ele chamou. Duas vezes a fuga fracassa. Na fronteira da velha poesia moribunda e de novas experiências poéticas. e a organização policial do mundo reconduz o náufrago a Charleville. onde atravessa a fronteira do país do qual não se volta. "une saison en enfer". mais tarde. fuga. Noites sob o céu.diz um dos seus últimos poemas. Foge da poesia. em companhia de Verlaine. prisão. "Je ne sais plus parler" . é o Oriente.Tiros. Então. que Rimbaud descreveu inesquecivelmente. até o crime. onde o fracassado sucumbe. Sucedem-se as evasões. onde Victor Hugo descobre o gênio nesse menino maligno de 17 anos. Vagabundagens."158 Será o abismo. et du reste descend en face du talus. "La douceur fleurie des étoiles et du ciel. sempre em busca do sonho: "Ô saisons. onde os achou . nas fronteiras do mundo civilizado . Rimbaud conhece o seu primeiro e último dia de glória.achouos? -. aos seus "saisons et châteaux". contre notre face et fait l'abîme fleurant et bleu là-dessous. Enfim. as chamas devoram Paris. na Arábia. numa afasia metafísica. Segue-se a segunda evasão. destrói tudo.

Há nisso um paradoxo. E isto constitui o julgamento da poesia pelo mundo. Dante é o padrão. por todas as espécies de mal-entendidos astutos. Dante que se recusou ao seu século e a todos os séculos." O poeta diz o que os outros não sabem dizer. caso único na literatura francesa. Aos não-poetas a poesia mantém-se essencialmente incompreensível. não sendo deste mundo. Neste sentido. Há muitas interpretações. o ato mais definitivo da sua vida. Queimou os seus poemas. e a canonização posterior.disse Wilhelm Dilthey "constituem os nossos órgãos de compreensão do mundo. a aparente compreensão não passando dum acaso ou dum mal-entendido. Hoje. Non plus ultra. A recusa cria a reação: Dante foi exilado. mas recusa comunicar-se numa língua que seja a nossa língua. uma vida incompreensível. Era um ato. mas num sentido diferente do que era habitual a Sainte-Beuve. se o mundo compreendesse a poesia. E é muito bom que assim seja: pois a poesia. como a sua obra permanece incompreensível ao burguês. "Os poetas" . que julgou toda a sua obra. estaria já julgado. Enfim. por dois enigmas contraditórios. precisa-se interrogar a sua vida. Mas Thibaudet contradiria. Só um poeta consentiu nesse julgamento: Rimbaud. . a posição do poeta. pois a vida de Rimbaud é também enigmática: essa vida de evasão. Representa. Por isto a sua vida é a fronteira da literatura e a sua obra é a fronteira da poesia. e onde Baudelaire representa o progenitor comum. exatamente como convém. é o julgamento do mundo. de Mallarmé até Valéry. Representa mais do que a erupção duma adolescência en détresse. não conseguiu revocá-lo do túmulo solitário de Ravena.A obra continua dificilmente acessível. por Marcel Raymond. É uma explicação por contradições. a mais social das literaturas. Mas esta é. vida antiliterária e anti-social. de Rimbaud até o super-realismo. e com razões suficientes. Para explicar a sua obra. e há uma explicação histórica. que traça a filiação. contrastandoa com a outra filiação. não há senão um verdadeiro crítico de Rimbaud: o próprio Rimbaud. queimando-a. para dizer a verdade. a vingança é mais incisiva: o poeta parece um vagabundo inadaptado ou um ridículo.

língua poética e língua "mundana'. Cada refinamento do instrumento poético torna o paradoxo mais agudo. a tornar-se cada vez mais convencional. a última sabedoria. Já não se compreendem. o meio de expressão da poesia e o instrumento da vida quotidiana: "meaning" e "semantic". Tal evolução indica sempre uma conquista: os poetas conseguiram deslocar a fronteira do dizível na direção mais perto do indizível. um do outro. acostumado a rir-se das palavras do clown. e por duas vezes o sábio permaneceu silencioso. fica fora do nosso mundo das coisas dizíveis. eliminar os restos irredutíveis da personalidade e do cosmos e substituí-los pelos lugares-comuns fixados. Louisiana State Univ. "paradoxo" no sentido de Kierkegaard. a última sabedoria. outro dia. A poesia quer explicar o indizível: por isso. uma língua convencional da poesia. Mas a língua do "mundo" segue a direção oposta: tende a afastar o mistério. ela choca-se com a língua. por sua vez. esta linha cortante como a crista sobre o abismo. e o diretor o fez comunicar ao público pelo clown. para aplicar uma terminologia nova (Kenneth Burke. ao mesmo tempo. o sábio abriu a boca: "Já vos comuniquei o mistério: o Grande Brama. O sábio permaneceu silencioso. A língua é. Para escapar aos equívocos da língua convencional. Os dois pólos da língua. Philosophy of Literary Form." O mistério do mundo é indizível. 1941). os poetas criam uma língua artificial. é o lugar da poesia. cava mais profundamente o abismo entre a poesia e o mundo. Mas como eles pediram ainda uma vez. cada vez mais. que continua silêncio.. mais perto do mistério. afastam-se. Por duas vezes os discípulos repetiram o pedido. mas o público. . então ela cede a novos artifícios. A poesia torna-se o "paradoxo" no mundo. é o silêncio. A fronteira entre o dizível e o indizível.Onde fica esta fronteira? Conta uma velha lenda hindu que os discípulos do sábio Sânkara pediram a este que lhes comunicasse o "Grande Brama". Studies in Symbolic Action. Kierkegaard conta que. irrompeu num circo um incêndio. que está sempre ameaçada de tornar-se. que constituem a face exterior das "novas sensibilidades" de todas as "poesias modernas".

o poeta mais moderno e o poeta mais antimoderno. Mas ninguém tomou jamais a poesia tanto a sério como Rimbaud. Isto é. Rimbaud. em línguas individuais. Pela sua poesia. Isto parece incompreensível aos burgueses incapazes de tomar a sério uma vagabundagem voluntária. ao mesmo tempo. a evolução do mundo moderno. afastadas das raízes tradicionais. ao mesmo tempo. afastando-a do mundo "civil". Que é que é moderno? O afastamento do universo é moderno. como se vê. a expressão mais individual da personalidade e o dicionário mais universal do cosmos. civil ou burguês. Esta tragédia tem uma outra face também. Nas suas origens. línguas verdadeiramente "modernas". como ele. por sua vez. De que é que ele foge? Foge da sua poesia. pelos convencionalismos. um escândalo para os poetas. percorreu os dois caminhos. Porque são incapazes de tomar a sério a poesia. é antimoderno. Rimbaud é "um escândalo para os gentios e uma estupidez para os judeus". que a queimou e destruiu. Abandonou a poesia ao perceber que ela é necessariamente . é o homem mais moderno. a vida. Os artifícios do instrumento poético tornam a língua da poesia cada vez mais pessoal. É. Precisa-se do artifício para se manter penosamente o sentimento pessoal do mundo. ao mesmo tempo. de individualista o mais radical. É o julgamento do mundo pela poesia. a comunicação entre a personalidade e o cosmos.riu-se. e do lado da vida contra a poesia. o enigmático. A vida de Arthur Rimbaud é uma série de evasões. mas afastando-a também do mundo "cósmico". Enfim. ficou e perdeu-se nas chamas. que já não conhece a "vida moderna" do mundo e que já não é compreendida por ela. O "dicionário do universo" transforma-se em língua privada. O afastamento do "mundo". queimou a sua poesia: a sua vida era mais forte do que a sua poesia. Pela sua vida. A língua é. ele é o poeta mais antimoderno. incapazes de tomar a sério. Essa revolução acompanha. Porém depois o mundo apoético se intercala e interrompe. a poesia é a voz pessoal do cosmos. Coloca-se do lado da poesia contra a vida. É a sua vida que mais importa na evolução da poesia. Deste modo.

apóia o mundo. perdeu a sua razão de ser. O seu ocultismo. um flirt com o Nada. e a vida está vingada. que desfaz todas as coerências da razão e todos os obstáculos da moralidade. Musset um rimailleur." Rimbaud vivia este conselho. todos parecem prosaicos. a língua. revoltado contra a família e contra a literatura.161 contra o criador a que a fé cristã chama. e a forma estritamente disciplinada. Lamartine parece um classicista enfadonho. Hugo um ancião mítico. mas um fim. o grito está justificado: a poesia morreu. Mas. contra a fé e contra o Estado. Só Baudelaire resiste. Sem dúvida. Rimbaud é um revoltado contra todos os artifícios. a sua submersão no sonho. o "Verbo"."162 A claridade escura de Rimbaud escurece todas as claridades. Rimbaud não é romântico nem baudelaireano. não se deve lesar a ninguém. À revolução contra o Verbo segue-se a revolução contra a Palavra. revolta-se contra Aquele "per quem omnia facta sunt". O sentido do mundo está atacado por essa rebelião luciférica. Verlaine um gago. após uma leitura de Rimbaud. de Baudelaire. nem sequer frustrar o mundo da sua vitória. desmente o seu satanismo e trai o sentido hierárquico do seu catolicismo secreto. Rimbaud lembra-me um aforismo diabólico de Franz Kafka: "Na luta entre ti e o mundo. Para falar com os teólogos: Rimbaud.um artifício. arquitetônica. É o fim da poesia. Lembra o verso de Corneille: "Cette obscure clarté qui tombe des étoiles. é conseqüente: se não há sentido no mundo. representam caminhos para conseguir o poder mágico de destruir o mundo. queimou a sua poesia. As suas cartas manifestam o niilista mais completo que jamais tenha existido. que não se realizou. Rimbaud não é um começo. A sua vida confere-lhe o direito de declarar "la séance close". mas era uma fraca coquetterie. Não há caminho para trás de . já não há poesia. A revolução contra a língua é a mais radical das revoluções. é verdade. Depois de Rimbaud. havia poetas incomparavelmente maiores do que ele. tão profundamente. Tomou o partido do mundo. contra a ciência e contra todo bonheur établi. então. então a expressão verbal deste sentido. revoltando-se contra a criação. O mundo volta ao silêncio. Os românticos conheciam isto também.

fechada e amarga. o desespero metafísico da criação caída. et angelorum. é a expressão mais larga do sentimento cósmico. A poesia baudelaireana. A poesia "epigramática". . pós-bandeiriana. poderia estabelecer-se a árvore genealógica da poesia epigramática e da poesia ódica. Eis por que a poesia de Baudelaire resiste: é a voz autorizada da humanidade presente e da sua condição eterna. Manuel Bandeira.Rimbaud. a poesia da suprema consciência humana. pós-baudelaireana. da sua origem comum. Estabelecida a árvore genealógica da "poesia do mundo caído". mas ele tem. o seu lugar na literatura universal. bandeiriana. mais tecnicamente: o epigrama e a ode. Correspondem a esse dois caminhos duas correntes da poesia contemporânea. prefiro designar essas correntes. abundante de coração. no Rimbaud das Illuminations e do "Bâteau ivre". Mas como a poesia nasce da comunhão entre a personalidade e o cosmos. aut cymbalum tinniens. há somente duas alternativas: a convenção eterna. ensaia dois caminhos diferentes . com ele. não se trata de "influências". o plágio convencional. Abstraindo das "mensagens poéticas". Baudelaire é o padrão desta poesia. de Baudelaire a Bandeira. é a expressão mais densa da personalidade. Abre-lhe o caminho que só foi possível depois de Rimbaud: o caminho às origens. ou a queixa do mundo sobre a poesia."163 A poesia "ódica". aberta e de simplicidade humana. Bem entendido. a poesia moderna. Eis por que esta poesia autorizada persiste em vozes autorizadas: Manuel Bandeira é a voz autorizada da poesia brasileira. factus sum velut aes sonans.na esperança de reencontrar o sentido: a Palavra e o Verbo. a qual conseguiu. Poder-se-iam inscrever-lhe as palavras do apóstolo: "Si linguis hominum loquar. carregada de sentido. Poder-se-iam inscrever-lhe as palavras de Santo Agostinho: "Noli foras ire. a queixa da poesia sobre o mundo."164 Há a verdade da Palavra naqueles epigramas. um dos poetas mais pessoais do mundo. aliás indefiníveis. não é um "Baudelaire brasileiro".o da poesia mais pessoal e o da poesia mais universal . charitatem autem non habeam. e há a caridade do Verbo nestas odes. salva a poesia. in interiore homine habitat veritas. Após ele.

"correntes sublunares" (em analogia com "subconsciente"). Franz Werfel. Giuseppe Ungaretti. não nos afastemos.. Hugh Auden. Mon âme éternelle Observe ton voeu Malgré la nuit seule .. Boris Pasternak. é o caminho de Une Saison en enfer até às Illuminations: o caminho que Rimbaud percorreu. a grande noite resinosa e infinita. O presente é tão grande. Marsman. Jules Supervielle. a função de Baudelaire na poesia francesa. agora. Há uma contradição. confessa também: "Estou preso à vida. na poesia brasileira. Stephen Spender.isto sim. professa o: "Seremos simples como a noite. Rafael Alberti. Lionello Fiumi. entre Rimbaud e os dois grandes poetas com que principiei: entre o Rimbaud epigramático da "verdade interior" e o Carlos Drummond de Andrade da "poesia incomunicável". Do mesmo modo. e de outra parte Pierre-Jean Jouve." O caminho desta dialética. que não pode ser pensada senão em poesia. não há influência visível. mas sim filiações invisíveis. decerto. É grande a tentação de estabelecer um panorama da poesia contemporânea sob o aspecto rimbaudiano." E o poeta que cantou o "desejo de sol e de um tempo novo". já não será misterioso: "Elle est retrouvée! Quoi? l'Eternité! C'est la mer mêlée Au soleil. e entre o Rimbaud "ódico" da caridade cósmica e o Augusto Frederico Schmidt do Sinto-me capaz de amar. Jan Slauerhoff. mas a identidade dialética também. Jorge Guillén. H. cujo "sentimento do mundo" chega ao dever de "anunciar o Fim do Mundo". O poeta. duma parte. Vladislav Chodassevitch. e ao fim do qual achou o mágico poema que. Gottfried Benn.

Mas é um espírito profundamente angustiado. Só um atravessou essa fronteira. da fronteira entre o dizível e o indizível. Franz Kafka não é um poeta religioso: não trata nunca de religião nas suas obras. a fronteira do país donde não se volta: Arthur Rimbaud." É a ameaça mortal que antecede a esperança vital. o Deus de Kafka faz estremecer os fundamentos do céu e da terra. Figuras de demônios. aqueles cuja fé irrompe das convulsões duma agonia: Agostinho. FRANZ KAFKA E O MUNDO INVISÍVEL O MUNDO do contista Franz Kafka é uma casa burguesa. O espírito da fronteira nela está. como o encontro com uma mitologia desconhecida. A religião de Kafka não é a religião fácil dos bem-pensantes. O sótão é uma loja de recordações. Entramos. Os fantasmas que apavoravam a criança. que aparecesse. Um canto guarda os brinquedos esquecidos. e o seu mundo é cheio de seres sobrenaturais. a quem o seu Deus garante todas as ordens deste mundo. de já ter visto tudo isso. Esta irrupção do sobrenatural no mundo não o salva: enche o homem de terrores desconhecidos. entre a vida e a morte. A escada range.Et le jour en feu. Os mortos surgem. "Minha fé é como uma guilhotina. recordações. Blaise Pascal. Um labirinto. Esta é a religião daqueles que a psicologia religiosa de William James chama os "twice-born". Delírio. Martinho Lutero. de quartos mal ventilados. Soeren Kierkegaard. e respiramos o ar das penúrias dolorosas. O numen de Kafka é um numen tremendum. Fuga. na nossa vida quotidiana. de repente. solidamente construída na aparência. Voltamo-nos para o outro lado: aparece a face de Deus. donde emana uma impressão inquietante. aqueles que nascem duas vezes. Recordações. assim leve e assim pesada. Apodera-se de nós o sentimento do déjà vu. com uma fachada um pouco descuidada. Nenhuma saída. ."165 Há nesta poesia um fim e um começo.

Nasceu em 1883 em Praga. de parábolas. pois "quem vir descoberta a face de Deus morrerá". Acontecimentos simples revestem-se de uma tensão febril. mas esses lugares banais são cheios de potenciais demoníacos. carregada de estranhas metáforas. que o executor. dormem. Desde a sua infância. seguem os caminhos escuros e estreitos. da mais alta concisão. dos cafés. filho de família pequenoburguesa. O seu herói chama-se K. A língua lúcida faz adivinhar um outro mundo. ao sul pelo medo A leste pelo apóstolo São Paulo. A sua obra se compõe: de aforismos. de contos. espreitado pela catástrofe. simplesmente K. Esse misto de clareza e de mistério revela a fragilidade do nosso mundo. que se alongam às vezes em parábolas. No testamento ordena a destruição dos seus manuscritos. Explicam-lhe que fora instaurado contra ele . dessa nacionalidade incerta.166 O primeiro romance publicado depois da morte do autor foi O processo. em 1924." (Murilo Mendes. A pessoa e a vida de Franz Kafka acham-se também cobertas por um véu. a oeste pela minha educação. característica dos meios intelectuais dessa cidade. e cujo assunto se poderia condensar em parábola ou aforismo. na rua. o humanismo alemão desses meios é flanqueado pelo cabalismo judaico e pelo misticismo eslavo.Esses terrores e esses esplendores.) A vida corre-lhe nos quadros da burocracia subalterna. Kafka descreve a vida quotidiana dos escritórios. Kafka os escondeu nos andrajos da vida quotidiana. germano-tcheco-judia. são os caminhos "per realia ad realiora". K. As personagens falam. Tísico. A língua é muito límpida. mas são os caminhos do inferno e do paraíso. fragmentários. que se estendem às vezes em contos. dos quais três se desenvolvem em romances. Max Brod. comem. das casas de família. contra os quais o homem luta desesperadamente. é subitamente preso. editará arbitrariamente. Um dia. "Estou Limitado ao norte pelos sentidos. morre num sanatório de Viena..

mas que procuram. sem o saber e sem o querer. e "Aquele que quiser salvar sua vida a perderá". Faz tudo o que se pode fazer: contrata um advogado e um médico. O delito desconhecido está vingado. um dia. A colônia penitenciária é uma como espécie . Sob o véu da alegoria." Em torno deste romance. a purificação em si mesmos.. aconselham-no a confessar e. tem de criar pelas suas atitudes as razões da sua absolvição ou condenação. Kafka instrui uma acusação contra a justiça do tribunal divino. alguns contos explicam a situação metafísica do homem. "É somente a noção que temos do tempo" . em seguida. O delito desconhecido é o pecado original." Mas o céu negro se iluminará. prevalecendose obstinadamente da sua inocência. K. todos são empregados do tribunal. Pelas suas atividades. os desígnios da Providência. corrompe o carcereiro e o escrivão. E cria o delito mortal. No seu diário Kafka copiou as palavras de Lutero: "Deus não é inimigo dos pecadores. mas somente dos descrentes que não reconhecem os próprios pecados nem procuram o apoio de Cristo.diz Kafka . A prisão é o signo da predestinação. De maneira misteriosa. A prisão não passava de uma provocação por parte daquele estranho tribunal: o próprio K. Mas as palavras evangélicas perdem-se neste mundo de provação e desespero. não faz mais que jogar o processo contra si mesmo. aconselham-no a confessar um crime que K. E o que K. soltam-no a fim de que possa prosseguir na sua defesa. O processo é um apólogo e uma apologia. sobre estas cenas de horror.um importante processo criminal. evita pelas suas falsas atividades é a graça. Pelas suas providências apressa a catástrofe que será a sua condenação e execução. temerariamente. onde a todo momento o tribunal está presente e a força armada. na verdade é uma corte marcial cuja audiência está aberta todos os nossos dias. mas todos estão convencidos da justiça e da onipotência do tribunal. ao mesmo tempo."que nos faz datar o juízo final. Há nesse romance uma lembrança incerta de certas palavras do Senhor: "Muitos serão os chamados. assim como nós outros executamos. Obstina-se. Nenhum destes compreende melhor o processo do que K. mas poucos os eleitos". não conhece e não quer conhecer.

atento aos ruídos funestos do mundo exterior. . decide alargar e fortificar o seu edifício subterrâneo. e a queda torna-se radical até se perder o direito de existir. numa estranha solidão. pois saber o nome do delito é a condição preliminar para saber justificar-se. Nesta colônia. por meio de agulhas incandescentes. submergido pela vida banal de todos os dias. que significa "apóstata". não se pode deter essa queda onde se desejaria." O que Kafka deseja excluir é a falsa direção das nossas atividades. Por causa da impaciência foram expulsos do paraíso. É objeto da inquietação do Pai misericordioso uma bobina. Em todas essas parábolas. palavra eslava. até que afinal esquece a única saída. o homem é a vítima passiva da perseguição celeste. Mas Kafka não condena a atividade: "Há dois pecados cardeais donde se poderiam deduzir todos os outros: a impaciência e a preguiça. A tortura pela qual a sua culpa lhes será revelada é a única esperança. A falsa direção das atividades humanas é o assunto da obraprima de Kafka: o romance inacabado O Castelo. os nomes dos delitos. lembrando Hound of Heaven. Cava buracos sobre buracos. Então o animal agacha-se no seu canto. e espera. de Francis Thompson. mas que não descansa nunca. O homem. indefinidamente. temendo a perseguição dos cães. o animal. corredores sobre corredores. por causa da preguiça lá não podem voltar. Em A transformação. A transformação tornou-se definitiva nesta pequena obra-prima chamada A preocupação do Pai Celeste. No conto A toca de texugo."Odradek". que são desconhecidos dos próprios condenados. sem nenhuma significação. ainda mais terrível. no sentido da segurança neste mundo. uma terrível máquina de precisão grava no corpo dos forçados. . como em O processo."Como te chamas?" . ou ao silêncio. de origem incerta. até o último dia. destituída de fios. que sobe e desce incessantemente a escada. em alguma etapa propícia.167 um jovem é subitamente transformado num horrível inseto que os seus próprios parentes querem matar. coisa absolutamente inútil. não é mais a imagem de Deus.de continuação de O processo. aprisionado e sem saída.

enfim. simplesmente K. "Uns negam a miséria evocando o sol. perde-se em mentiras e subterfúgios. K. o hospedeiro acolhe-o. mas não para trabalhar." Deste modo. Com efeito. Uma anotação explicanos o fim: "Quando K. executam as suas tarefas diárias." É o primeiro dom voluntário da graça: mas contém uma punição. K. quer somente achar um emprego de diarista. cai gravemente doente. mas o seu contrato foi um lamentável engano. como a nossa vida quotidiana sem a vocação interior. aqui não temos trabalho para um nivelador. K. o homem instaura processo contra o Céu. outros ." Em O Processo. encontra-se impossibilitado de verificar o contrato surrupiado. Quer o direito de permanecer. não tem nenhum direito de permanecer na aldeia. Em O Castelo. mas o Castelo. E o Castelo responde de maneira surpreendente ("K. tem permissão para ficar. há sempre possibilidades. O seu adversário não é. chega a decisão definitiva do Castelo: K. K. Sim. o lugar onde a graça está concentrada. K. não está contente. K. K. Tudo em vão. desesperadamente recorre à mentira: "O Castelo contratou-me como nivelador. ser-lhe-á permitido que aí permaneça até a morte. portanto. Sua vida será vazia. está à morte. Esgotado. Desejaria obrigar o Castelo a conceder-lhe o direito de permanência na aldeia. desta vez. é o nivelador contratado. o Céu instaura processo contra o homem. É preciso frisar: ele o quer. sem ter obtido a graça.. Ao pé desse Castelo há uma aldeia. onde os camponeses. permissão para ficar. É o cúmulo da temeridade titânica. é modesto. destituída de qualquer sentido. crentes humildemente submissos. contando com a piedade. Espera a morte. o direito. que não fará voltar o peregrino. ele o exige mesmo. justificar sua presença na aldeia. Pois o Castelo acrescenta: "K. Recorre a meios impuros. Numa fria tarde de inverno. K. chega. o tribunal. Não quer ser tolerado. Eis-nos nas últimas linhas do fragmento. Quer extorquir a graça. Nesse ínterim o filho do castelão aparece para expulsá-lo. também desejaria ser camponês nessa aldeia." Resolvem telefonar para o Castelo. mas considerando-se certas circunstâncias acessórias.Ainda aqui o herói chama-se K. Quer forçar esta comunhão dos fiéis. tem. estremeceu um pouco"): "Sim.

Não parece que esse Deus queira a redenção do homem. À propagação dessa obra opõem-se obstáculos do destino. A sua publicação póstuma não encontrou nem leitores nem críticos. perante o tribunal de Deus. Em toda parte." Na aparência dessas parábolas Deus não tem razão. mas não para nós homens. parece ser destinada mais a fazer tropeçar que a ser transposta.negam o sol evocando a miséria." Às vezes Kafka atinge uma inversão diabólica: "Leopardos forçavam o templo e esvaziavam os vasos sagrados. muita esperança. o seu dia chegará. Até que conseguiram calcular a hora em que chegavam e faziam do incidente uma parte do cerimonial. portanto. Há esperança. Dez anos depois da sua morte. um Charles Du Bos deploram a inacessibilidade das obras. em sua obra. a inexistência de traduções. Franz Kafka. Acusa Deus. Revolta-se. Uma casa editora de Praga promete a publicação das obras . No fim de O Castelo. segundo uma frase de Kierkegaard. se já não chegou. "O verdadeiro caminho desdobra-se sobre uma corda. há tribunais e forcas. esperança." O homem. A face de Deus. que restabelece a ordem dos valores. muita esperança. A despeito dele. lançada muito perto do chão. mas esta falta de razão significa somente uma incapacidade do homem em face do mandamento de Deus. "Todas essas parábolas dizem somente que o incompreensível é incompreensível. a graça aparece. no mundo desse Deus. em Kafka. "aspirava a uma imortalidade mais alta que a da glória". um André Gide. como Ivan Karamazov. Isto se repetia freqüentemente." Este "não para nós homens" equivale a uma grande confissão. não vê na sua miséria a conseqüência da sua condição humana. adquire traços blasfêmicos. Na aparência dessas parábolas." Tais blasfêmias lembram a zoolatria dos egípcios ou o Demiurgo mau dos gnósticos. Fato simbólico: Kafka não estava destinado a escrever esse fim. Há. Deus se cala. Kafka desejava que a sua obra morresse com ele para servir de testemunha em seu favor. mas isto significa somente que o mundo não o está escutando. Mas um outro aforismo diz: "O nosso mundo não é mais do que um mau humor de Deus.

O simbolismo de Kafka perturba o mundo. Existe uma herança que se deve conservar. o Kleist do ensaio Sobre o teatro de bonecas. A reflexão sobre o lugar de Kafka na literatura universal é o primeiro dever. como nos contos de um . Mas o tempo. Esta ausência do tempo humano destrói a estrutura normal do mundo e isola os homens em desertos de eternidade glacial. É antes um tempo religioso: o caminho da aldeia ao castelo. Eis o lema de Anton Tchecov. leva séculos. como nos romances fantásticos de Julien Green. tornando-os comparáveis às personagens plásticas de um Di Chirico. o seu dia chegará. T. A. no tempo do seu mundo. Todos esses obstáculos aprofundam mais a virtude desse pensamento. talvez nunca apareça. acontecimento que se repete todos os dias. A psicologia desses homens é uma psicologia de monstros revoltados. A sua vida quotidiana é destituída de sentido. há unicamente uma data: a da irrupção do divino no mundo. aos cantos "homófonos" de um Stravinsky. pela revelação de um mundo mais real atrás do mundo real dos bempensantes: "per realia ad realiora". "dois quilômetros mais ou menos". pela estranha transposição dos acentos. eônios. em Kafka. todas as horas. aos anjos de um Rilke. pela desvalorização dos fatos tradicionais.168 para ser percorrido. Mas um traço significativo distingue Kafka radicalmente deste grande contista pessimista do fin de siècle: a noção do tempo. A despeito de tudo. Os homens de Tchecov vivem no seu tempo. Não é o tempo psicológico de Proust. Feita a abstração de alguns pontos de contato com Heinrich von Kleist. A era dos deuses e a vida quotidiana dos nossos dias se confundem. e com E. O seu lugar está na literatura européia do após-guerra. Não existe tempo.completas. é um fato extramundano. Hoffmann. a Nouvelle Revue Française traduz alguns contos. A edição de Praga é interrompida pela derrota do Estado tcheco. A tradução integral. se já não chegou. a quem Kafka deve a técnica do conto. em vez de sufocá-lo. prometida na França. a presença de Kafka na literatura alemã é simplesmente ocasional. não se pode dizer a respeito de nenhuma obra de Kafka em que século decorre a ação dela.

No abismo entre o Deus soberano dos dialéticos e o homem falido de Pascal. O que é comum a todas essa correntes é o relativismo.Bontempelli. está a caminho de Damasco. este mundo acha a sua expressão final nos poemas apocalípticos dum Pierre-Jean Jouve que precedem a catástrofe. Todas essas comparações só têm como fim estabelecer mais solidamente as oposições. No artigo XV das Pensées enumera as quatro . como os "fragmentistas" italianos. É Pascal quem define a situação. exceto a daqueles. Entre dois mundos e entre duas épocas. coloca-se em caminho. Mas se reconhecerá o verdadeiro estado de coisas e um profundo desespero prevalecerá. A atitude de Franz Kafka é muito diferente. a "Teologia Dialética" de Karl Barth e de Emil Brunner. olhando-os primeiro como brinquedos de uma nova infância. ou se insurge contra essa decomposição pelas expressões de um pessimismo cínico. que mergulham na fé tradicional. O dia de Kafka chegou. Enfim. a outra na Alemanha. e faz ressuscitar a obra esquecida de Soeren Kierkegaard. que gira em torno do abismo dialético. Este desespero se conformará ou não se conformará: ele afirma e confirma a decomposição do mundo por meio de uma nova psicologia. Esta atitude o situa no meio de duas grandes correntes dos nossos tempos: uma na França. O mundo é um cadáver que se decompõe porque o espírito abandonou o corpo. não raros. que já não admite a integridade do mundo. São estas as posições do romance e da poesia modernos. Não se contenta com os destroços. Kafka procura o lugar da graça. e em seguida como pedras para a construção do futuro. os novos estudos pascalianos que giram em torno do problema da graça e inspiram até o André Gide de L'École des femmes. não se conforma nem decompõe. a incomensurabilidade entre Deus e o mundo. eram as etapas do primitivismo e do construtivismo. E a sua vida real se passa na atmosfera mágica dos romances de Marcel Jouhandeau. A corrente literária do após-guerra achase diante de um montão de ruínas. Não é nem tradicional nem relativista. A literatura e o pensamento modernos tentaram contentar-se somente com os destroços.

somos os prisioneiros das nossas próprias prisões. Mas o apóstolo Paulo poderia ter dito isso." E uma voz lhe responde. ou renegamo-Lo. para assistir. Em vão nos entrincheiramos nas linhas Maginot da nossa "toca de texugo". Mas é também a posição atual do mundo apóstata. A obra de Franz Kafka é um indicador na direção desse caminho. Quarto. É a posição do judaísmo perante o seu Messias encarnado. quem não procurar. mas não a graça. É a confissão de um homem no caminho de Damasco. Uma fé vem nascer no caos de uma alma em desespero. Primeiro. Todos os outros caminhos são subterfúgios inúteis. impotentes. à nossa derrota decisiva. Em vão "a angústia da lei" maltrata o rabino Saul antes de ter ele visto a luz do mundo. Só o caminho misterioso de Damasco é que liberta dos terrores exteriores. mas não conhece a Deus. para preparar "o segundo nascimento": é o caminho da apocalipse do mundo para a escatologia da alma. Sem a graça não se escapa deste mundo. o homem conhece a Deus. cheio de orgulho e de angústia. através de Pascal: "Consoletoi. ou procuramo-Lo."169 UM ENIGMA SHAKESPEAREANO . é o desespero ateístico.possibilidades do homem. que renuncia à graça e se declara pagão. sem a possibilidade de uma libertação. Nela se lê o seu aforismo. Segundo. Enfim. Não se é mais pagão depois de Jesus Cristo: a velha inocência desapareceu. cheio de aflição e de esperança: "Quem procurar não encontrará. é o caso do farisaísmo orgulhoso. será encontrado. Terceiro. tergiversações que nos abismam cada vez mais. o homem reconhece em Jesus Cristo seu Deus. o homem conhece a Deus e a sua própria miséria. E se o seu cumprimento não representar nada perante Deus?" É um aforismo de Kafka. o homem conhece a sua miséria. "Como cumprir a vontade de Deus? Teme-se que essa lei não seja mais do que uma tentação. A posição de Kafka é a terceira. O caminho de Damasco é a única saída desta prisão que é o nosso mundo envenenado. sua miséria e sua graça. mas não conhece a sua própria miséria. Todas as seguranças exteriores são vãs. tu ne me chercherais pas si tu ne m'avais trouvé. é a angústia.

Indignado com os excessos de imoralidade que davam à cidade uma atmosfera pesada. ao mesmo tempo. homem conceituado pela austeridade e inflexibilidade. e estando de posse de plenos . com ligeiras modificações. Eliot. de Medida por medida. O método do grande crítico e maior poeta inglês. para tirar conclusões gerais" (Edmund Wilson). sem consideração de relações históricas. Obras que fazem pressentir a presença escondida. o Duque dispôs-se a voltar clandestinamente a Viena. aplicado para resolver certos problemas de crítica. Eliot é inimitável. O Duque de Viena. banal ou esquisito segundo o ponto de vista. escondendo uma arrière-pensée metafísica. e que compara as obras de diversos povos em diversas épocas. explicável só pela comparação. com obras com as quais nunca foi comparada. as leis caíam em desuso e se aproximava a anarquia moral. como os contos de Franz Kafka. toda a literatura universal. Contudo. escapa a estas censuras: "Método maravilhoso que encara. Ângelo é um puritano. para explicar a profunda emoção que emana de certas obras. Porém. S. sem consideração de pretendidas relações históricas. pode-se imaginar um método análogo. frei Ludovico. para observar a conduta de Ângelo.EXERCÍCIO DE LITERATURA COMPARADA CENSURA-SE muitas vezes à jovem ciência da literatura comparada o valor puramente histórico e pouco interpretativo dos seus estudos. Quase nunca Shakespeare inventava os argumentos das suas peças. em conjunto. T. em aparência menos bem-sucedidas. enigmático. maravilhoso. resolve abandonar por algum tempo o país e confiar o governo ao seu conselheiro Ângelo. Devemos a este método a redescoberta das poesias barrocas espanhola e inglesa. sob o seu reino indulgente. Contentava-se em dramatizar contos ou então retocar velhas peças. Num conto medíocre do escritor George Whetstone achou assunto para transfigurá-lo no mundo completo. ou como aquela comédia Measure for Measure ("Medida por medida"). duma força misteriosa atrás da superfície. oculta. reconhecendo que. de Shakespeare: um enredo. disfarçado num simples monge.

e o irônico Lúcio.diz Frei Ludovico. Isabel é a mais admirável. Isabel vai ao palácio do governador. no Mercador de Veneza. "O perdão é um atributo de Deus".e sacrificará o irmão. não vos admireis demasiadamente de como tudo isto se .poderes. Mas Ângelo não deixará que ninguém se ria. cheia de devassos. de alcoviteiros. "Mas" . antes do casamento. a própria noiva. ao carcereiro . Mas o desespero do irmão a comoveu. um ar dostoievskiano. Sua alma é uma encarnação de pura poesia. lembra a Ângelo que o perdão é a justiça suprema. pois cumpre o prometido. porém. Pórcia. sem o perdão a lei do Estado abateria o homem e a sua fraqueza.e ante a sua beleza. Isabel guardará a sua pureza . renova uma velha lei que proibia. Tudo debalde. A vida alegre continua. Frei Ludovico oferece-lhe o consolo da religião. habituados como estavam às leis que não eram cumpridas. regenerado pela graça divina". Entre todas as deliciosas figuras femininas shakespeareanas. E a sua primeira vítima é um jovem fidalgo. Em pleno desespero. Um ar abafado de tempestade. embora lhe condenasse a depravação. Num só momento funesto toda a orgulhosa virtude do puritano se desmorona! Perdoará a Cláudio . que acompanha a ação com raciocínios maliciosos. e a futura religiosa arrisca mesmo a leve alusão teológica de que "o perdão é a virtude do homem. A cidade. fica a princípio aterrada."vede a estrela da manhã.se Isabel se render! Apesar de todas as conjurações desesperadas de Cláudio. todas as ligações ilegítimas. Cláudio. de casas de tolerância. O terror paralisa a cidade. sob pena de morte. Para Isabel. sendo condenado à morte pelas mãos do carrasco. como para sua irmã. cujo desespero não recua diante da infâmia. dizendo-lhe que a nossa vida é um sonho confuso e a morte uma libertação. em transes mortais. Cláudio treme. pesa sobre a cena na prisão noturna à espera da alvorada da execução. o Duque disfarçado. faz toda a cidade rir das determinações do casto Ângelo. Ângelo fica sensibilizado e confuso ante a eloqüência da jovem . que seduzira. Desde já evita o mundo. Mas logo depois todos se acalmaram. Eloqüentemente. Cláudio implora a sua irmã Isabel a clemência de Ângelo. Ela está resolvida a entrar num convento e dentro de pouco tempo deverá conquistar o céu.

Uma lei impossível! Verdadeiramente. lei que nunca houve e que nunca haverá. não estamos. todos são logo perdoados. mesmo no Estado de um déspota oriental. Ao lado do Duque ela reinará sobre Viena. levaram. Ângelo falta com a palavra: para apagar os traços do seu crime. em vez de indulgência e contemplação. o problema da responsabilidade que a força impõe aos governos. mas o Duque já tinha imaginado um plano engenhoso que afugentaria os fantasmas noturnos. é necessário atividade e clemência. E Isabel não entrará para o convento. Os sargentos agarramno e o difamador Lúcio arranca-lhe o capuz . que deverá expiar as suas insolências. a maior tentação dos poderosos. Assunto desta educação humana é o Estado. o choque inevitável entre a ordem jurídica do Estado e a ordem vital da sexualidade. Em lugar de Isabel. que ele já tinha abandonado. inaplicável.são as terríveis palavras que ele lança ao pérfido governador. Um simples monge. ordena a execução imediata de Cláudio. todas as dificuldades se tornam leves quando são reconhecidas. o Duque aprenderá que. Frei Ludovico. a sua própria noiva Mariana. ousa levantar-se contra as mais altas autoridades. Medida por medida é uma tragédia política: o problema é o abuso do poder. verdadeiras vítimas dos seus plenos poderes." O nó da tragédia parecia inextricável. Ângelo ajoelha-se e espera a morte. Mas chegou o dia do perdão.encadeia. Assistimos à educação de três homens para a verdadeira vida pública: Ângelo saberá quanto é profunda a fragilidade humana e a injustiça das leis inflexíveis. Este problema é representado na peça por um eterno conflito da vida pública. afim de satisfazer os desejo de Ângelo. No outro dia. À exceção do malicioso Lúcio. "Medida por medida" . daquela graça que Isabel proclamara como a única salvação do Estado corrompido. Medida por medida é uma tragédia política. Isabel saberá que a sua virtude se torna mais necessária no mundo que no convento. O símbolo dramático deste choque é uma lei impossível. alegando falsos escrúpulos morais. em Medida por medida.e todos reconhecem o Duque. velando como um verdadeiro anjo a cidade que já não se perderá. .

A maior parte dos críticos estão de acordo: uma obra-prima falhada. Talvez não tenhamos compreendido por que o poeta encerrou uma tragédia numa comédia. . a boa fada é o Duque disfarçado. mas as raras modificações indicam uma direção certa: Ângelo. feérica. Em toda a peça há uma atmosfera irreal. um espesso nevoeiro de sensualismo animal e sujo que faz suster a respiração aos espectadores. e por cuja presença nós sabemos a todo momento "como tudo isso se encadeia. onde o mesmo assunto aparece em pura tragédia ou em pura comédia. este fim é uma sátira gritante contra o título Medida por medida. governador da província. No conto de Whetstone. Devemos rir. Pouco modificou a ação de sua fonte. O fim da peça. o conto de Whetstone. instalado por tempo determinado. que inventou uma noiva de Ângelo. Este método comparativo nos abrirá talvez o pensamento secreto do mais incompreendido dos poetas. Isabel entrega-se realmente a Ângelo. e que nos propõe o enigma desta peça: Medida por medida é uma comédia! O hábito de Shakespeare de misturar as cenas trágicas com as cômicas aí é quase insuportável. Por isso. segundo Whetstone. e engenhosa demais para uma tragédia. impossível na realidade. e todas as dificuldades se tornam leves quando são reconhecidas". Mas Shakespeare assim o quis. e esta limitação temporária do seu poder nos faz levar a ação ainda menos a sério. comparando-os a obras do mesmo gênero. A intriga pela qual a pureza de Isabel é salva dá a impressão de uma farsa obscena. ela é salva por uma intriga engenhosa. Toda a peça está cheia de repugnantes cenas de bordel. Mas será Medida por medida uma tragédia? Eis a modificação mais profunda do argumento. somente o espectador ou o crítico podem fracassar. a peça é raramente representada. é transformado em lugar-tenente. Diante de uma peça de Shakespeare.num mundo de realidades. Experimentemos separar os elementos. no qual todos os vícios e crimes são perdoados e somente o inofensivo Lúcio é castigado. Essa atmosfera de irrealidade é um grave erro contra a veracidade dramática. devemos chorar? A impressão final é altamente desagradável. os espectadores. em Shakespeare. reconhecível somente por nós.

por isso. o verdadeiro revisor do tzar.A comédia é O revisor. deixando uma carta onde tudo fica explicado. e um belo dia desaparece.diz ele . O prefeito julga-se praticamente independente. O verdadeiro herói da peça é o Grande Eleitor Frederico Guilherme de Brandeburgo. Chlestakov torna-se mais insolente. o fundador do poder prussiano. de Heinrich von Kleist. jovens belas. Chega a estabelecer uma tarifa fixa. que. quando de repente. e tira partido das aflições dos burocratas culpados para satisfazer a sua fome. Um dia. com surpresa sua. Oferecem-lhe banquetes. para fazer a grande revisão e julgar severamente: medida por medida. "Que nos importa?" . conseguir refeições cuidadas e aventuras fáceis. o . não aparece. fazendo tinir o sabre. Na batalha decisiva contra os suecos. Chlestakov reconhece. segundo a classe dos funcionários. aparece o revisor. sempre dinheiro. chefe despótico de uma burocracia totalmente corrompida. com as maiores honras."a Europa ou a opinião pública? Da nossa cidade a Moscou a diligência leva quinze dias. mas o príncipe alcança-a com um ataque pelo flanco. e depois ainda estaremos muito longe da Europa!" Isto enquanto o "revisor". O príncipe de Homburgo é general do seu exército e noivo de sua sobrinha Natália. fugiu para a província e se vê acolhido. e numa pequena cidade do interior da Rússia. o revisor aparece. a situação. que pagam gemendo. Os burocratas da cidade formam em volta do prefeito um grupo estupefato. faz o que pode. Tudo está em ordem: o prefeito só tem a velar para que "nenhum funcionário roube acima dos seus direitos legítimos". a centenas de milhas da capital. é o jovem velhaco Chlestakov. e dinheiro. Na verdade. justamente o que havia sido formalmente proibido pelo Eleitor. de Nicolai Gogol. porém. Por isso. A tragédia é o Príncipe Frederico de Homburgo. chega até a arrancar ao prefeito um suspiro: "Ah! Se eu só soubessse exatamente os poderes de que ele está munido!" Logo saberá. no mesmo instante. crivado de dívidas. Chlestakov compreende quanto o seu posto é temporário. a vitória estava duvidosa. batalha que tornará a Prússia uma grande potência. em grande uniforme. o temível inspetor do tzar. A cena se passa sob o reino do tzar Nicolau I. Cada dia.

a representação dramática provém do interior das almas profundamente angustiadas dos seus autores. porque os autores queriam escrever obras inteiramente diferentes das que escreveram. então. Ele sabe que o príncipe está inocente. Sabe que a existência do Estado depende da inflexibilidade e da imparcialidade da lei. como o seu primo shakespeareano Cláudio. O coração do soberano está com os oficiais. toma novo rumo. de acordo com as leis marciais prussianas. O Príncipe Frederico de Homburgo é uma grande tragédia política. É preciso consciência clara. O problema dessas criações é de profunda existencialidade. porém muito feliz. a sentença da corte marcial. A lei é a lei. embora o perdão já esteja assinado. Enfim o soberano e o seu exército se encontram novamente e juntos gritam: "Abaixo os inimigos de Brandeburgo!". As aparências políticas das duas peças assentam em fundamentos religiosos. mesmo no sentido mais estrito da lei: Homburgo sofre de ataques de sonambulismo e em tal confusão não ouviu a proibição do ataque. sem o trágico. de perto. Suplica a sua noiva que procure enternecer o terrível soberano e dele obter o perdão: em vão. O revisor é a mais brilhante comédia social que existe. O Grande Eleitor é o primeiro servidor do seu Estado. Todavia o destino do Estado não deve depender de uma intuição. uma comédia desesperada. Mas conhecemos Gogol e Kleist. que desafia a morte em inúmeras batalhas. grito que acompanhará este exército numa série interminável de vitórias.príncipe é culpado de insubordinação e. Mas o perdão é o perdão. É preciso que fique de pé a justiça. Daí por diante a tragédia. O príncipe. Confirma. Do homem Shakespeare não sabemos quase nada. Em vão os oficiais do mais leal dos exércitos revoltam-se e ameaçam o Eleitor de uma revolução a fim de salvar o amado general. deverá morrer. por estudos de Simon . que se vinha desenrolando com uma grandiosidade romana. e para educar o príncipe no cumprimento consciente dos seus deveres o Eleitor deixa subsistirlhe até o último momento a angústia ante a sentença de morte. e deu a ordem fatal. se bem que as conseqüências tenham sido felizes. são duas grandes obras falhadas. começa a tremer lamentavelmente. Entretanto.

via na Rússia a realidade infernal. O herói da comédia O revisor é o príncipe do inferno. "Cidadãos" . ao mesmo tempo."nenhum acima dos seus direitos legítimos" ao pecado. de cristão. quadro simbólico da humanidade que acredita em Deus. O mundo oriental pensa por parábolas. que eram entendidos nisso. a tragédia demoníaca é sempre cômica. mas queria saber. Este mundo está bastante cego para não tomar o falso revisor pelo verdadeiro. o Anticristo pelo Cristo. é verdade. o problema da Medida por medida.Frank e de Friedrich Braig. É o ponto em que a religião e a política. Atrás da comédia social do russo e do drama político do prussiano há uma grande inquietação religiosa e duas tragédias humanas. porém. Gogol amou e odiou a Rússia. que quantidade de injustiças e de crimes é permitida a um mundo que se chama. no sentido mais alto da palavra. o Anticristo. e talvez fosse o próprio revisor do próprio tzar também um falso revisor. O seu O revisor. O revisor fracassou por esta dúvida: a tragédia da humanidade desapareceu atrás da comédia burocrática. concebido como tragédia. e Gogol é o maior demonólogo da literatura universal. Como Dostoievski. a si próprio. talvez."a quinze dias de diligência. Não sabiam qual o poder que o verdadeiro revisor havia concedido. Na verdade. enfim o ar em que o poeta vivia se apresentava tão cheio de pequenos demônios que ele não podia mais respirar. Gogol não sabia. de iludir-se.e se acha com o direito de classificar os vícios segundo as ordens burocráticas . Moscou" . Somente Gogol. O elemento trágico da comédia é representado pelo problema do abuso do poder. e O revisor é um apólogo. Incapaz. ao falso. porque o diabo lhe aparecia sempre como uma personagem cômica. Na aparência. Mas aos monges da Tebaida. em relação ao verdadeiro revisor celeste. é uma pura comédia.escrevia ele . como o seu prefeito. ele era um fanático da Igreja ortodoxa e do tzar autocrata. tão infinitamente longe . os demônios apareciam como nuvens de insetos. vêm a chocar-se. O seu romance humorístico Almas mortas é a epopéia dantesca da Rússia tzarista. Em O revisor trata-se de pequenos funcionários. não sabia "os poderes de que ele está munido".

humilhada. A intriga artificial do sonambulismo. do problema de Medida por medida.em 1846 . O revisor e o Príncipe de Homburgo. mas a estragava pela fraqueza tão humana do seu príncipe. na sua opinião. o julgamento da história não vos pede justificativa") e a intriga torturante da sua comédia A bilha quebrada. o espetáculo das marionnettes. É o ponto em que a religião e a política se chocam. Vacilava entre o grito de vingança sem escrúpulos da Batalha de Armínio ("Matai-os. e Kleist. frágeis. que nos devorarão. queria evocar na política. eis por que o espetáculo da mais perfeita inconsciência o perseguia. e representar na cena. presos às confusões dos seus subconscientes. que conhecia toda a fragilidade da natureza humana. eis por que o sonambulismo o interessava fortemente e a "purificação das consciências" o ocupava. auge do cômico. mas cuja luz poética é bastante forte para esclarecer o suicídio do seu autor. na qual um juiz culpado tem de julgar o seu próprio crime. comédias involuntárias."tenho medo! Desses insetos nascem monstros gigantescos. Para evitar a comédia. a falsa bondade do Eleitor já não salvam a peça. e no sentido mais alto da palavra: Kleist. espírito cristão sem o saber. o Príncipe de Homburgo são três tragédias políticas. Elevou os poderes do Grande Eleitor até torná-lo um semideus. heróis trágicos. cristão sem o saber. enquanto sabia os homens fracos. . humilhando-o até à comicidade. Medida por medida. Kleist estava possuído do problema dos "plenos poderes". a todo custo. ele queria criar a tragédia pura." O fim foi a loucura religiosa e a morte voluntária. Kleist via a única salvação do seu país num homem de Estado verdadeiramente cristão. era incapaz de criar um verdadeiro herói que fosse ao mesmo tempo um verdadeiro cristão. O Príncipe Frederico de Homburgo foi escrito quando a Prússia. que tremia em face da morte. Mas a salvação é impossível sem a violência. Eis por que ele criou um supercristão. "políticas" no sentido de Kierkegaard: a força supranatural irrompe para o mundo. Daí estar excluída a tragédia pura. homens independentes. e imaginou como tal o seu Grande Eleitor. se curvava perante Napoleão. comédia disfarçada em tragédia. livres. O revisor.

está maravilhosamente tranqüilizada pela presença animadora do Duque disfarçado. é Medida por medida. Dizem que a terrível fragilidade de todos os homens. como nos romances de Franz Kafka: a divindade escondida nos bastidores de um mundo sem Deus. da lei e do perdão do qual nossa vida material depende. Nossa vida não é mais do que um sonho cercado de um profundo sono. nesta obra imensa. O homem shakespeareano é um joguete dos deuses que nos matam como moscas para passar o tempo. quer dizer. Traço profundo. mesmo em Deus. Não sabemos quase nada do homem Shakespeare. A grandeza do trágico cristão aparece logo quando a face de Deus é coberta. discussões que atingem muitas vezes o ridículo. a maturidade pela morte. É a tragédia do homem cujo "poder" neste mundo é temporário como o poder de Ângelo. pelo qual Shakespeare modificou o assunto para elevá-lo do político ao humano. A única exceção. com a divindade anônima. e Shakespeare podia conceber Medida por medida como comédia. a única. entregue à sua vontade e à sua fatalidade. O trágico cristão só pode aparecer. Com este naturalismo intrépido. Não é somente a tragédia do Estado. Na obra de Shakespeare. O homem de Shakespeare está só no mundo. onde o happy end da Vida es sueño. a única saída. nas obras cristãs de poetas nãocristãos. sabe o rei Lear. porque Deus está ausente do seu teatro acristão. A consciência de uma Providência. se levanta como advertência. que. e eu não pretendo meter-me em discussões sobre a sua verdadeira religião e o seu pretenso catolicismo. A peça é dedicada a todos nós. Deus está ausente. sabemos impossível. em vestes altamente cômicas. O pessimista é um homem sem esperança. nesta comédia sombria. Deus está ausente.colocam-nos perante o problema da possibilidade de um teatro cristão. O que sabemos é o que o poeta do Rei Lear é o maior pessimista da literatura universal. parece excluir o trágico. que vela sobre os nossos destinos. na terra. porque concebidos no espírito dum teatro cristão. que é a prerrogativa do . de Calderón. desde Kierkegaard. O revisor e o Príncipe de Homburgo resultam em comédias involuntárias. "ripeness is all". E neste sentido Shakespeare é um poeta sem Deus.

O conflito dessas duas forças em Medida por medida é apresentado no costume desenfreado e turbulento da Renascença. verdadeira antítese do Estado. na verdade. no fim. Oculto. dos deuses que nos matam como moscas. e dizia-o no sentido depreciativo para caracterizar o artifício teatral das intrigas do Duque. A vida aí está tão integralmente representada que a plenitude do trágico e do cômico nos sufoca. Mas está. Assim Ângelo é. Um "poder divino" salva a justiça pelo perdão. da morte que já não é a única justiça. "atributo de Deus". Medida por medida nos desagrada porque ultrapassa a nossa medida. E nós. É preciso reconhecer que o Duque. nós fracassamos com eles. Mas "todas as dificuldades se tornam leves quando são reconhecidas". chamou-lhe "uma personagem verdadeiramente misteriosa de teatro". espectadores. Quem é o Duque? Hazlitt. nós mesmos. ultrapassa toda a veracidade humana. mais presente que o pretenso diabo da comédia de Gogol ou o pretenso deus da tragédia de Kleist." É o poder divino oculto que acompanha toda a nossa vida. nós outros homens. já que vivemos. . então é a graça que nos salva da justiça do "Medida por medida". que é inteiramente artifício humano. mas também é graças a ele que se salva a verdade humana da peça. em que todos os homens fracassaram. o maior intérprete shakespeareano. regenerado pela sinceridade da sua confissão: "Ó meu Senhor! eu seria mais culpado que a minha culpabilidade se eu pensasse poder ficar despercebido. esse drama. Deus parece ausente. Mas quando se constitui juiz e desvenda a sua face. É este artifício sobre-humano que salva os homens de Medida por medida do círculo de ferro em que Shakespeare os aprisionou. ele é a terrível divindade da justiça implacável. e nós não sabemos mais se devemos rir ou chorar.maior dos poetas. em todos os meus passos. com o artifício das suas intrigas. do sonho insensato da vida. os mais fracos e os mais falíveis: na sexualidade. que nos liga profundamente à natureza. "virtude do homem regenerado pela graça divina". A peça tem um único verdadeiro espectador: o Duque. porque vós me acompanhastes como um poder divino. Shakespeare fixou esta tragédia humana no ponto onde nos achamos.

porém. o caminho da compreensão. Quando. em 1870. e certa interpretação anarquista ressoa até no livro de André Gide. mas unicamente a paisagem urbana de São Petersburgo. se não o maior. nem sequer os mais contrários. apareceram as primeiras traduções do Raskolnikov. Dostoievski é. pois a sua obra constitui o marco entre dois séculos da literatura. sobretudo. Dostoievski será um assunto de predileção da psicanálise. E o espírito sensitivo do fin de siècle admira. os críticos literários não viam na obra senão um extraordinário romance policial. Depois. Que esta . ao menos. das quais conhecemos tão perfeitamente os mais íntimos movimentos da alma. num baluarte de interpretações erradas.ENSAIOS DE INTERPRETAÇÃO DOSTOIEVSKIANA EXISTEM poucos escritores cuja obra tenha sido tão tenazmente mal compreendida como a de Dostoievski. decerto o mais poderoso escritor do século XIX. tudo o que é prédostoievskiano é pré-histórico. instintivamente e obstinadamente. ou do século XX. que toda a Europa tentar resistir-lhe. os europeus entrincheiram-se. ninguém escapa à sua influência subjugadora. e deixa apenas admirar o "forte colorido russo". esta psicologia requintada. principalmente. e como esse bárbaro barbado. que ele não descreve nunca a paisagem russa. o fantasma de uma cidade visionária. Recordações da casa dos mortos alimentou neles o novo equívoco de se encontrarem diante de um naturalista à maneira de Zola. com a face sulcada de sofrimentos.e com que segurança! . por este "e" comparativo. percebe-se que Dostoievski não expõe nunca o exterior das suas personagens. O que ele fixa . e que este Petersburgo dostoievskiano é. a estúpida combinação de "Tolstoi e Dostoievski" fecha. Parece. Literariamente. Daí se origina a pretensão de reclamar Dostoievski em favor das rebeliões mais subversivas do espírito anárquico do après-guerre. parece irresistível. na qual acredita reconhecer a sua própria decadência.são as paisagens da alma.

e à sua concepção de uma humanidade cristã ele mistura um ódio violento à Europa e ao sonho de um Império Universal russo. distinguir entre os frutos da inspiração poética. vão poucos passos. É justamente isto. liberais. e que as suas convicções políticas nos surpreendem. e nós não aceitaríamos esse artifício unicamente para isentar o autor. é preciso admitir que daí para uma revolução total. o pesadelo do pan-eslavismo. de responsabilidades. Em virtude de tal distinção. produto exclusivo do subconsciente. Berdiaev revela o Dostoievski hagiocrata. Vjatcheslav Ivanov reconhece o individualismo cristão de Dostoievski. Ao contrário. sonho que constituiu antigamente. em pesadelo bolchevista. à nossa maneira. Depois de Merejkovski. não existe lugar para nós outros. resultado de uma partenogênese misteriosa. igualmente. mesmo espiritualista. cumpre admitir que na obra de Dostoievski a política ocupa um lugar maior do que a literatura. objeto somente da crítica psicológica e da história literária. a obra de arte se tornaria o fruto sublime dum solo impuro. Inútil. reacionário intratável: ajoelha-se. perto do cristianismo "incondicional" dos neocalvinistas. Enquanto quase todos os poetas russos do século são revolucionários. o pastor Thurneysen descobre nele o transcendentalista. para nós outros. . quase um Pai da Igreja. seja ele negro ou vermelho. que se perde em especulações gnósticas. como também ante o retrato do tzar. válidos também para nós. melhor. democratas e socialistas. e que se transformará. e as opiniões íntimas do autor. às quais ele não desejaria fugir. Dostoievski é conservador. Nesse mundo. não somente perante as imagens da Igreja russa. ou. Mas como aceitar um poeta cujo pensamento nos abala? Dostoievski não faz "arte pela arte". ele nos arrasta até às últimas conseqüências. Reconhecendo-se que certas acusações violentas à Europa são plenamente justificadas. amanhã. Inúteis quaisquer concessões. dos quais somente o primeiro custa. Mas a satisfação dessas descobertas é perturbada pelo conhecimento das estranhas convicções políticas do escritor.psicologia se baseia numa antropologia cristã foi a descoberta do após-guerra.

o dos "Ocidentais". E é diante do retrato do tzar Alexandre III que Dostoievski se ajoelha. glorificam o passado nacional. a ciência. A literatura torna-se uma tribuna. e isso é impossível. dois partidos opostos. ele afirma a decadência do Ocidente. é "ocidental". mesmo o asiático. voltar-se para o despotismo asiático. a própria teologia. .A literatura russa do século XIX é profundamente política. Primeira possibilidade de achar um terreno onde Dostoievski e nós poderemos encontrar-nos. Os outros. erguer o Império Eslavo. Faz-se mister destruir a Europa. a política. faz do eslavofilismo a doutrina oficial do pan-eslavismo. e o é apaixonadamente. É irritante. O tzar Alexandre II. é necessário esmagar as influências estrangeiras. exterminar. A literatura invade. Admitir. Seria necessário aceitar essas convicções políticas para poder aprovar integralmente o escritor. No Diário de um escritor. o emancipador dos camponeses. então. para isto é preciso primeiramente destruir as instituições estabelecidas. todas as nacionalidades e religiões estrangeiras que se acham sobre o território russo. Um. nem mesmo cátedras livres. e a literatura é a única voz do povo. Dostoievski também é revolucionário. Dostoievski é escritor político. como no parlamento inglês. o que lhes vale a acusação de obscurantistas. que glorificam a Europa e desejam a europeização integral da Rússia. comentário indispensável dos seus romances. e prega o domínio universal dos eslavos ortodoxos. O seu sucessor. mas que elas derivam de outra fonte que não desse pan-eslavismo louco? Quer dizer que o pan-eslavismo representa na obra de Dostoievski papel diferente do que o supôs o escritor. em plena evolução política e social. Todas as coisas. que muitas censuras de Dostoievski à Europa são justificadas. derrubar a Europa corrompida. a apostasia da Igreja romana. O país não tem imprensa nem tribuna. os "eslavófilos". pela força. Existem aí. por sua vez. "o cemitério das artes e o foco das revoluções". Mas o é contra nós. Admitir a coexistência de uma força artística e de um pensamento confuso seria arriscar muito. Alexandre III. estão impregnadas de política. o que lhes vale a acusação de niilismo.

a personificação começa. sucumbe.. O aspecto dos seus manuscritos.com grande simpatia. na ortodoxia oriental. anjos."E Deus?" Ele começa a balbuciar: . eu acreditarei também em Deus. Acaba ou pela negação desoladora do Idiota ou pelas vagas promessas de Raskolnikov e dos Karamazov. os verdadeiros russos. eu.um Raskolnikov. os Possessos. demônios." O futuro do verbo acreditar é traidor. mas não consegue jamais criar a sua visão redentora. ."Eu. o "idiota" ideal. ele professa a fé no tzar. um Kirillov. ao terminar Os irmãos Karamazov. mas os niilistas verdadeiramente idiotas. muitos dos quais foram editados em fac simile. via primeiramente os problemas e depois as personagens. representando catedrais. Dostoievski é mestre em denunciar o mundo inimigo. Dostoievski é de uma perfeita imparcialidade artística. às vezes. Ele sabe que o mundo não é governado pelos anjos. um Schatov..Quando Dostoievski escrevia um romance. escapam. Isto explica o mal-entendido. e os desenhos simbólicos se transformam em retratos imaginários. convertido no fim de Crime e castigo. conservam-se como sombras. Aljoscha. o seu direito de viver entre as figuras mais fortes dos inimigos. Raskolnikov. ou o é apenas pelo anjo vencido. serão os vencedores. O príncipe Myschkin. o texto corre mais ligeiro. no povo russo. representam a esperança do futuro. No começo ele emenda mais do que escreve. Quando se interroga o eslavófilo Schatov sobre as suas convicções. é muito curioso. Depois. possivelmente. de que o próprio Dostoievski era revolucionário e ateu. a comparação permite estabelecer as preferências do poeta. acima de tudo. e. e as margens são cheias de figuras. . um Ivan Karamazov . que simbolizam os seus problemas. muito tempo reinante. e que estes constituem.. As outras personagens. um Aljoscha. os intérpretes do escritor.. Dostoievski não crê nos seus próprios ideais. e esta comparação prova aquilo que a interpretação dos textos deixava prever: as preferências do poeta são para os seus inimigos ideológicos.. Parece que ele forma os seus "anticristos" . defendem.. Não lutam pelos seus ideais. mas Dostoievski nunca escreveu as prometidas continuações desses romances.

O negativismo do príncipe Myschkin em relação ao seu meio tem qualquer coisa de perigoso. O seu sonho de uma humanidade espiritualizada é o de uma humanidade emancipada das forças econômicas que. na qual reina o . tornariam inevitável a queda no abismo materialista. em troca. Dostoievski predisse claramente esta catástrofe.Seria ele verdadeiramente um revolucionário? Com efeito. Dostoievski sabe perfeitamente o que quer dizer. a burguesia e o socialismo igualmente materialistas. no apêndice ao Discurso sobre Puchkin. Dostoievski levanta. uma vez desencadeadas. mas não sabe sempre o que diz. A religião do Staretz. nos Karamazov. como o conservou a organização econômica de alguns grandes mosteiros russos. que criou. Raramente o romancista se esquece de indicar a "condição humana". Já compararam a luta de Dostoievski contra o hegelianismo revolucionário dos socialistas com a luta deste outro revolucionário cristão. Em Os possessos. Essas instituições primitivas têm um inimigo terrível: a nova burguesia dos "ocidentais". Dostoievski erige em utopia a velha Igreja de Jerusalém. Irrita-se contra a revolução política. qualquer leitor o sabe. Kierkegaard transforma em utopia o Sermão da Montanha. Ele desejava impedir a invasão do capitalismo na Rússia patriarcal. não se assemelha em nada à doutrina da Igreja oficial. onde os apóstolos viviam num pretenso comunismo cristão. Inútil acentuar o sentimento muitas vezes sádico de Dostoievski para explicar por ele todas as formas do sofrimento. mas desta vez ateísta. e o continua o mir. as causas sociais da miséria e da humilhação. a coletividade agrária dos camponeses russos. Soeren Kierkegaard. a sua ética de humildade não fornece a razão de Estado no regime tzarista. um proletariado desarraigado. Dostoievski contra os chefes esquerdistas que não cumprem suas promessas. Mas luta pela revolução social. Contra esses irmãos inimigos. a utopia da Igreja-Estado. de onde um novo comunismo nasce. contra o hegelianismo anticristão dos protestantes liberais? Ambos combatem a idéia que não se realiza: Kierkegaard contra os pastores filosóficos que não seguem o Evangelho.

com os ataques mais violentos ao socialismo e à revolução: não se deixam enganar pelas aparências. Essa ideologia é somente um véu sobre a condição social. mas de nenhuma significação real. o liberal Stefan Verkhovenski é o pai do socialista Piotr e o preceptor do . Tiremos a fraseologia teológica: fica um bolchevismo um tanto idealizado. na qual os social-democratas e os burgueses estavam ligados contra o tzar. Mas Dostoievski teria sido partidário da revolução de 1917. Ao contrário. Em Os possessos. ambos imbuídos de "fraternidade eslava". todos a mesma coisa". Dostoievski e Lenin. os véus ideológicos lhe cairiam dos olhos. Dostoievski é um pequenoburguês.comunismo da perfeita fraternidade cristã. Toda a sua vida este nacionalista falou do cristianismo verdadeiramente russo. Mas a revolução à qual os "ocidentais" o convidam é a revolução dos burgueses. os operários. Essa fraseologia dostoievskiana. que tivesse o ar de um Dostoievski? Como sempre. em 1917. Mas Dostoievski vê mais claro. odeiam o individualismo europeu. com todos os manuscritos. não é senão um reflexo ideológico. restos educacionais e supersticiosos. enfim. pelo menos para um socialista europeu? Mas houve alguma vez um pequeno-burguês europeu. mesmo genial. o burguês de Paris e o professor de Heidelberg. de contato. Essa "fraternidade" é russa e bolchevista ao mesmo tempo. em que somente eles. e utilizam as mesmas expressões de desprezo: "o operário de Londres. até então inéditos. Dostoievski alia-se às forças do passado para combater a invasão burguesa. não se escandalizaram nem mesmo com os seus artigos no jornal. Todos os ataques que ele dirige à revolução justificam-se em vista da revolução de 1905. Um ponto. este protagonista da autocracia tzarista e da Igreja ortodoxa. a argumentação marxista encontra acertadamente o lado negativo e falta-lhe completamente o lado positivo. dizem os bolchevistas. Eis a interpretação bolchevista. Então. ele aprova a revolução. É por isso que os bolchevistas nunca baniram este profeta cristão. Não existe ainda movimento operário. Publicaram-lhe até uma edição monumental das Obras Completas. e ele teria saudado a revolução verdadeiramente russa. Contra as forças feudais. derrotaram o tzar e a burguesia ao mesmo tempo.

é a religião do Anticristo.acusa a Igreja Romana de já não ser a Igreja de Deus. que alivia o homem das responsabilidades da sua existência metafísica? Quanto a um aspecto. Dostoievski é cristão. católicos ou não-católicos. Ao lado do operário de Londres. Que me conste. Dostoievski disse ele . permanece odioso. que esta Igreja não tem que temer as polêmicas. mas a "comunhão dos santos". O liberalismo começou a libertar a humanidade da sua base religiosa. Ao contrário. Eis aí o assunto de O Grande Inquisidor. herança do velho sectarismo eslavo de uma Igreja invisível. ela foi mil vezes destruída e volta sempre. Isto . Protestos contra toda a organização eclesiástica. um fetiche desprezível. Creio. e tem necessidade da conversão e da fraternidade cristã. Nós também. na sua superficialidade. Para o pai Verkhovenski a Madona Sistina é um ideal estético. ou não visou unicamente. é apenas a propagação do egoísmo burguês entre os proletários. A última aproximação fornece um tratado de antropologia cristã. estão de acordo: Dostoievski não visou.diz o . Vosso pretenso cristianismo . sem padres e sem sacramentos? Protestos. mas superando o pessimismo pela aleluia da ressurreição. porém. A primeira aproximação sugere quase um tratado de sociologia cristão. só um apologista católico. cujo fim não é a coletividade bolchevista. As interpretações formam legião.diz ele . para seu filho.niilista Stavrogin. quase todos os comentadores. a Igreja Romana. de acordo com Simon Frank. ele coloca o padre romano. O socialismo. o cônego Paul Simon. absolutamente. mas unicamente a Igreja dos homens. Mas o grande psicólogo desce até os mais profundos recantos da alma. de acordo com Berdiaev. O eu. A censura é arquivelha. contra toda idéia de uma elite dirigente. e deve mesmo sentir-se orgulhosa desta polêmica. cada vez mais violenta. Campo de encontro. enfim? Não. Pois Dostoievski nos recusa o direito de nos chamarmos cristãos. reconheceu o verdadeiro alcance da acusação. para Dostoievski. aproximando-se da teologia de Pascal e dos protestantes da "teologia dialética". onde o homem se torna consciente da sua dependência de Deus. do burguês de Paris e do professor de Heidelberg.

temporal ou espiritual. e permitiu esta confusão terrível: certas questões e interrogações muito cristãs foram deixadas para o bolchevismo. deve ser a rocha da nossa condição humana. alguma coisa de sobre-humano. mesmo demasiadamente. Mas lá. Mas continuou. A Igreja Romana não é espiritualista. até. nós nos encontraremos. Nós outros. esta Igreja é. Conseqüência gravíssima do fato de a Rússia não ter tido Renascença.cônego . daí vem a eterna "possibilidade" de "humanizar-se".se nisto não há verdade. A Rússia nunca foi humanista. ao mesmo tempo. cá e lá.ousemos o termo . petrificado na letra morta da filologia . da qual Dostoievski se faz apologista. deve haver uma eterna "possibilidade". precisamente lá. é a nossa razão de viver. profundamente humana. o humanismo descristianizado. É uma questão de vida ou morte. e é esse humanismo que a Rússia bárbara. justamente por isso. tendo perdido as humanidades. eleva-se para o alto e abandona os homens. e . A Igreja espiritualista.que Dostoievski censura a Igreja romana. "as cinco chagas do corpo humano de Cristo não cessam de sangrar sobre o corpo da sua Igreja". O abismo entre nós e ele está aberto.e eis a terrível justificação das censuras dostoievskianas . Mas. O humanismo não é a nossa religião. de ser cristã. meio oriental. É deste humanismo . porém. Porém. sim. chegará ao fim. todo o nosso mundo europeu. a nossa civilização cristã. mais profundamente do que nunca.a Europa deixou. Assim é.continua . As "Humanidades" constituem a base da nossa civilização. no dizer de Rosmini. nunca deixaremos de sentir. enquanto viver. a nossa civilização.deve ter uma causa profunda. nesse cristianismo espiritualista à margem do abismo. mais ainda. a advogada da humanidade perante o trono de Deus. nos censura violentamente. Ela é. razão por que. Mas. nunca ter conhecido a Antiguidade senão por intermédio da especulação gnóstica. continuará humanista. A Europa . até ao risco de deixar de ser humana. espiritualista ou bolchevista. é a Igreja de Deus e a Igreja dos homens. A morte. ela abandona o homem às misérias terrestres. nos espreita. cristã. Aqui. assim mesmo. há muito tempo.

e "tout le reste est littérature".ou endurecido no disfarce de um neocatolicismo neopagão. por um esforço de síntese. a luta dos poderes das trevas contra os poderes da luz recomeça. O que nos une é o Cristo. Em milhares de exemplares esse crime dum pintor famoso está divulgado no mundo. É exatamente o retrato de Milton que uma posteridade incompreensiva fez à sua própria imagem: é Milton. por um "humanismo cristão". que lance uma ponte sobre o abismo. O que nos separa é muito e muito. Esse cantor cego é Milton. o cristianismo desumanizado. Mas participa da luta cósmica nas profundezas da alma. Sempre é necessário saber aquilo que nos separa e aquilo que nos une. Exorciza o bramido das ondas do mar desconhecido com a magia das ondas verbais do seu canto noturno. Cumpre recristianizar o mundo e a fé. No gabinete de trabalho de meu pai achava-se o quadro horroroso de Munkacsy. vejo o firmamento noturno sobre o sombrio mar do Norte. disfarçado em costume histórico. retrato dum burguês de 1880. e esse homem é cego. sulcada pelos sofrimentos. intermináveis auroras de luz.171 "endless morn of light". Cumpre recomeçar. É o poeta da teogonia. Lá. . preciso afugentar uma lembrança feia. eles nos devoram. A sua coragem de rebelde indomável vence as trevas e torna-se "Saintly shout and solemn jubilee". o destino da humanidade está-se decidindo. o "clássico". A atitude imperiosa do rebelde restabelece o trono de Deus. Nuvens imensas conglobam-se em formações monstruosas: a luta da formação do mundo. Mas não sejamos intransigentes diante dessa face barbada. petrificado pelo dogma da Igreja sectária ou endurecido pela dissimulação do evangelho socialista.170 "victorious psalms". O representante dessa humanidade é um homem solitário à margem do abismo. Para poder dignamente apreciar o tamanho de Milton. O cego Milton ditando o "Paraíso Perdido" às suas filhas. Mais claramente: esses perigos já não nos espreitam. A CONSCIÊNCIA CRISTÃ DE MILTON PENSANDO em Milton.

Basta ler Milton "pela primeira vez" para saber-se que ele é. É inesquecível como. Maldição. para poderem vender livros que ninguém gosta de ler. o drama universal: Criação. cottages bem inglesas. e as buzinas de caça do Allegro ressoam pelas "fresh woods and pastures". Comece-se com o pequeno poema L'Allegro and Il Penseroso. Mas seria apenas um artista incomparável do verso se não tivesse aplicado o seu domínio da língua em evocar. Ninguém conhece os clássicos. Pecado. com a música mágica das suas palavras. doce Shakespeare. e um "clássico" insuportável volta a ser o grande poeta de outrora por uma leitura "pela primeira vez". ninfas bem inglesas brincam entre flores selvagens. sobre esse poema cai o doce poente do sol de Shakespeare. alusões. "most musical. à parte o gênio universal de Shakespeare. as leituras de Platão ao pé da lareira. é inesquecível a melancolia musical do Penseroso. mas também a alegria pensativa do poeta que o Allegro chama "sweetest Shakespeare. A grandeza dum poeta consiste em ver as coisas pela primeira vez. o maior poeta da maior das literaturas. a majestade divina e a grandeza demoníaca dos infernos. Milton seria imortal já com esses dois poemas: um artista autêntico. perturbando os pastores Corydon e Thyrsis em aldeias. a admirável elegia Lycidas. entre mil alusões mitológicas ao gosto renascentista. um clássico é um autor desconhecido. interpretações. o ar estão cheios de citações. o esplendor . Acredito ser o termo uma invenção dos livreiros.Que é um clássico? As definições imbecis abundam. Há frescura virgiliana nesse poema. o mais encantador da língua. talvez o mais belo poema da língua inglesa. a luta entre Deus e Satanás e a Redenção. como se ninguém as tivesse visto antes. da Merry Old England. e na hora da primeira leitura o clássico está já "conhecido" e incompreensível. Milton é a última voz da velha Inglaterra alegre. Em virtude dessa definição comercial. cantou-lhe o hino funeral. filho da Imaginação. a escola. A literatura. porque toda a gente os conhece.173 as suas noites sob o firmamento de Hécate. No Paraíso Perdido ressoam todas as vozes humanas e mais que humanas. conhecem-se os clássicos desde a infância. Realmente. most melancholy".172 matas frescas e prados. Fancy's child".

é mais rebelde ainda na sua prosa. Milton professou o velho dogma dos heréticos origenistas. a quem a vitória final está assegurada. e mais ainda contra o próprio . O fundo das suas violentas polêmicas é uma luta perpétua pela liberdade da consciência individual e contra qualquer poder que ouse sobrepor-se à consciência livre do homem. Voice and Verse". enfim. pelo mundo e pelos tempos. Não é esta a única heresia de que o puritano Milton se tornou culpado. Milton também sacudiu as colunas do templo. a felicidade voluptuosa dos primeiros homens no Paraíso. com o primeiro e o modelo de todos os rebelados. a mais viril da língua inglesa. o "undisturbed Song" das "sphere-born harmonious Sisters. Com efeito. nem sequer da grandeza sem igual do assunto. nem do profundo sentimento religioso do poeta. até os últimos instantes. música haendeliana antes de Haendel. no fim dos tempos. e há nele. um rebelado que está certo do perdão final de Deus. A sublimidade do Paradise Lost reside justamente nesse elemento que parece contradizer a dignidade do assunto divino: na audácia quase temerária do poeta religioso. Luta contra qualquer Igreja que se arrogue a orientação das consciências. Milton. Como o seu Samson Agonistes. o velho herói cego entre os filistinos de Gaza. a Apokatástasis. rebelado contra todas as leis humanas e contra algumas leis divinas. a música ruidosa. as ânsias da tentação e do arrependimento. Não é rebelado pelo apetite anarquista da destruição. Mas Milton sente com o anjo das trevas. para quem o drama teológico era um sofrimento pessoal. o perdão de Deus. de mãos dadas.dos anjos de alto e de baixo. Já têm sido notadas muitas vezes as simpatias secretas de Milton pelo seu Satanás. O poema não seria tão dramático e tão humano se Milton estivesse partidariamente ao lado do Todo-Poderoso. mas pela mais íntima ânsia da consciência. do papa ou do Estado. e o lento passo dos expulsos do Éden. segundo a qual o próprio Diabo receberá. contra toda Igreja estabelecida. secretário literário do terrível Cromwell. no caminhar solitário. Essa sublimidade não é o produto das magnificências da língua. O próprio Milton é um rebelado perpétuo e impenitente.174 O Paradise Lost é o mais sublime poema da literatura universal.

Como é isso possível? Milton não foi sempre um clássico. Milton não crê na divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Rejeita o batismo das crianças. um regicida e. o seu destino foi continuar entre os filistinos. mas da matéria. prisioneiro entre os filistinos de Gaza. para um ortodoxo. O maior. num panfleto em favor do divórcio: "Aquele que coloca o matrimônio ou qualquer outra instituição acima do homem ou da clara exigência da misericórdia. seja ele católico ou protestante. lêem Milton às tardes de domingo. era um excomungado. que é eterna. chega a recomendar a poligamia. dos poetas cristãos não seria um cristão! Pergunta imperiosa: como foi possível a esse poeta haver-se tornado um "clássico"? Bem entendido. e que não ousaram publicar antes de 1823. Na época alegre da Restauração. Ensina a doutrina da graça dos arminianos. ao lado das coleções de sermões da Igreja Anglicana. A pena de Milton defendeu a execução do rei Carlos I. depois de Dante. crente na luta eterna entre o Bem e o Mal. Milton revela-se quase um maniqueu. era solitário como o seu Samson. de 1662. e um rei que se arroga a soberania que cabe só a Deus. um clássico da família inglesa: fazem presente dos livros de Milton às crianças. E como o Paradise Lost já o fez suspeitar. pacificamente. Na vida. Como no poema. Cheio é esse tratado de conceitos heréticos e não-conformistas. os descendentes dos velhos puritanos. na Defensio pro populo Anglicano "nenhum homem tem mais um direito divino. aquele século dominado pela classe média dos Dissenters. Mas já não são os puritanos .Estado." E no mesmo tom.escreve ele. e defendeu-a com a mesma ânsia profunda no trêmulo da voz. Ensina ter sido criado o mundo. acredita ser Jesus Cristo uma criatura de Deus. como acusou a indissolubilidade do matrimônio. é culpado de morte. um deicida. nos aniversários. não é senão um fariseu. reprovada por todas as Igrejas. ele que defendeu nessa ocasião o seu próprio divórcio. deixam-no empoeirar-se nas estantes." No tratado De doctrina christiana. Só o século XVIII o colocou no trono da poesia inglesa. conforme o Velho Testamento. ariano. não do Nada. Milton é sociniano. "Após a encarnação de Deus em forma humana" .

Poeta indiscutido das classes médias bem-pensantes. só para minar a ortodoxa fé cristã. Um clássico. que não é senão um Deus sem poder. não compreendiam também essa religiosidade protestante. já no século XIV. era um conhecedor de física e astronomia. Desde os grandes estudos de Ernst . um pouco racionalista. em Blake. por vezes. onde um Occam e um William de Heytesbury ensinavam. surgem objeções de ordem literária e crítica contra essa falsa aparência. Antes de tudo. romântico. Os historiadores do século XIX. como as rebeliões políticas de Milton parecem preparar ideologicamente as revoluções européias e americanas. tranqüilizado. Milton é um pré-romântico. é visível na angústia religiosa de Cowper. Milton pertence à grande corrente européia da Aufklärung ou Enlightenment. como o romantismo alemão está relacionado com a voga do "segundo pietismo". Com efeito. Não se esqueça o forte sentimento religioso no romantismo inglês. que não compreendiam o "clássico" Milton. É um puritanismo razoável. Um estudo de Carl Haemmerle mostrou as relações de Milton com a velha escola nominalista de Oxford. mas os seus versos classicistas escondem um conteúdo sentimental e. igualmente distante da descrença atrevida dos aristocratas e da credulidade ingênua dos camponeses. do liberalismo religioso e político e da democracia. Coleridge. Em virtude desse destino literário póstumo. Milton. que vai de Bacon e Galilei até os Enciclopedistas e à Revolução Francesa. Milton tornou-se poeta dum cristianismo bem moderado. com efeito. A sua influência literária começa tarde. Wordsworth. Milton parece o primeiro grande poeta da meio descrente e muito liberal burguesia. Milton é poeta da Renascença. Para eles a Reforma era uma revolução contra a Idade Média. que o conhecem sem o ter lido. em todo o pré-romantismo e romantismo ingleses. amolecido. muito relacionado com o movimento metodista de Wesley. os conceitos da física de Galilei. Parece que Milton ressuscitou as velhas heresias gnósticas. no século XVIII. Esse puritanismo desinfetado chegou a desinfetar Milton.de Cromwell. e o protestantismo um precursor do deísmo. ele antecipa o conceito de "espaço" newtoniano.

Mas as especulações místicas do sábio sapateiro silesiano sobre o Urgrund. que o aproxima dos cristianismos heréticos dos eslavos. aproximando-o dos sectários fantásticos. e que observou com os olhos do espírito a luta cósmica. e que tinha no sangue a rebelião ingênua do camponês Petr Chelcicky e as . mas sim religiosa. que Milton também professou. na Inglaterra. que acompanham a grande revolução religiosa. pode-se definir: esses puritanos não destruíram a Igreja para abolir o cristianismo. e profundamente medieval. A grande luta entre Deus e Satanás está afastada do terreno da política eclesiástica. o cristianismo de Milton adquiriu um aspecto fantástico. de que ele fora combatente: na alma de Milton. o Zohar. Daí a sua suscetibilidade às influências estranhas. traduzira o livro fundamental da Cabala. Milton é o maior poeta dessa cosmologia mística. O seu gênio poético foi fantástico. e os boehmeanos ingleses Lee e Pordage tiraram do seu mestre o dogma da Apokastástasis. duma psicomaquia e duma teogonia. mas sob o signo da Cruz.Troeltsch o sabemos melhor: o velho protestantismo foi uma revolução não filosófica nem política. em 1641. que os estudos miltonianos de Denis Saurat esclarecem. para continuar no terreno da consciência religiosa. filósofo também da preferência de Newton. que se refugiou. mas para reconstrui-lo como Igreja invisível nas almas. Milton teve conhecimentos da Cabala judia que o erudito rabino Manasse ben Israel introduzira na Inglaterra. A alma cristã torna-se cena duma cosmogonia espiritual. Abstraindo das conseqüências não intencionais. Milton é o poeta desse protestantismo. Os mesmos platônicos de Cambridge estudavam assiduamente o filósofo místico alemão Jacob Boehme. como daquele grande tcheco Amos Comenius. um pouco oriental. Não sabemos se Milton leu Boehme. Não está sob o signo do progresso. era na época em que o filósofo Henry More. A sua luta pela liberdade da consciência é uma luta em prol da consciência cristã. platônico de Cambridge. influíram nas idéias de Milton a respeito do maniqueísmo e da criação do mundo. para quem o mundo exterior morrera. o "fundo profundo". Tingido com essas influências. E essa guerra espiritual encontrou a expressão máxima na alma do cego.

A mística cosmológica de Milton é o cume duma velhíssima tradição inglesa que. não se extinguiu até hoje. rebelde. no qual se abrem fontes esquecidas da alma inglesa. de Saurat e dos outros não esclarecem por que Milton sentiu a atração desses mistérios longínquos. em que Deus se acusa. Na aparência. de T. de Tolstoi. de Byron. e mais velhas do que o próprio cristianismo. no romance The Only Penitent. Ora. Powys. em que o assunto bíblico é tratado com o espírito bárbaro dos velhos germanos. contudo. enfim. começando nos tempos primitivos da ilha. . mais velhas do que o humanismo clássico. no Casamento do Céu e do Inferno e nos outros livros "proféticos" de William Blake. F. Esse espírito está vivo. em que desperta o mito primitivo da paisagem inglesa. o poema anglo-saxônico Queda dos anjos. Milton permanece. Está vivo em certas passagens do Rei Lear. A mística cosmológica acha-se já na literatura dos anglo-saxões. no Caim. assemelha-se ao cristianismo racionalista. mediante o seu erudito amigo Junius. Powys. É o aspecto mais curioso e menos conhecido da alma inglesa. Milton distinguiu-se dessas confusões de espíritos anárquicos pelo gosto artístico da Renascença e pelo sentido de ordem bem inglês. Milton é um inglês cristão e humanista. o cristianismo herético.175 até os nossos dias. um inglês classicamente educado. através de todos os séculos da literatura inglesa. Mas as suas afinidades com misticismos estranhos têm raízes muito profundas. em certas expressões de Thomas Hardy ("The President of the Immortals had ended his sport with Tess"). no poder mágico de personificar os elementos e as forças da Natureza. Mas a heresia de Milton é menos racionalista.velhas heresias maniquéias dos Bogomilos. Os estudos de Haemmerle. e. de todas as misérias do mundo. de Milton. a precursora da literatura inglesa. rebelde. Isto não foi nunca inteiramente esquecido. Parece mesmo que Milton conheceu. do seu irmão John C. no Glastonbury Romance. é inglesa. com o espírito de ingênuas especulações cosmológicas e com o espírito da rebeldia indomável contra Deus e o Diabo. mais mística. no confessionário. o homem de Cambridge.

Milton confirma as palavras do seu irmão no espírito. como o afamado egoísmo de Goethe. não me convenceu. Na obra e na vida. fantástico: fraquezas do grande poeta. 1936). É um erro que será vingado. o cantor cego da luta entre a noite e a luz. É verdade que Milton era voluptuoso. É verdade que Milton odiava mais a opressão do que amava os oprimidos: fraqueza do grande rebelde. sacudida pelas dúvidas e tormentos dum protestante nato. Após o livro fundamental do psicólogo católico Roland Dalbiez (La Méthode psychanalytique et la doctrine freudienne. como dos heróis da Antiguidade. grandeza de alma monumental. suspeito que a própria consciência já não é tida como realidade. Essas máculas são o fim definitivo do "clássico" indiscutido.176 como ele diz no Samson Agonistes. Desclée De Bouwer. O que o distingue de todos os seus precursores e pósteros é a sublimidade. reduzindo-a a meros "movimentos psicológicos"." Milton era duma grandeza demoníaca. A arte de Milton é uma união única de beleza clássica e de profundeza germânica. Passou a moda de desvalorizar a consciência. Samson Agonistes teve a "soul of an ancient stoic". um dia. nos quais revelou as fraquezas morais de Milton. e o melhor antídoto parece aquela mal afamada psicanálise. psicofisiológicas e psicopatológicas. Conheço bem os estudos do sueco Liljegren.Assim também Milton está nessa estranha tradição inglesa. Passou a moda de desvalorizar a consciência. violento. agitada pela violenta ânsia religiosa duma natureza pascaliana. William Blake: "Não há grandes obras sem a colaboração do Demônio. A luta cósmica que ele suportou é uma tragédia antiga. Atualmente. já não há subterfúgios para . O egoísmo de Milton. de "Strength and Wisdom". reduzindo-a a realidades inferiores. desenrolada na consciência cristã. A nenhum poeta da literatura universal cabe a palavra "sublime" como a Milton. mas a ressurreição vitoriosa do grande homem. Cumpre insistir na realidade cruel dessas tragédias da consciência. A mesma união aparece na personalidade moral de Milton. Pode-se definir essa sublimidade como a união da beleza estética e da beleza moral. a alma dum antigo estóico. é próprio duma personalidade superior.

Para muitos essa liberdade de consciência é o germe de todas as heresias. esses choques vitais e mortais identificamse. Esse descendente de valentões bárbaros e de orantes humildes não vê outra solução para a tragédia senão a resolução livre da consciência livre. mas o advogado intrépido da maior lição que o cristianismo nos ensinou: do valor único de cada alma humana. Contra esse pesadelo precisa-se defender o papel da heresia na "economia" superior do mundo cristão. por isso. futuristas. Ao espírito fantástico de Léon Bloy apareceu a Inglaterra. a ilha no mar sombrio. precisa-se desobedecer ao juiz e preferir a excomunhão". 38): "A Igreja julga conforme as aparências exteriores. como ontem. Por isso é o mais inglês de todos os poetas ingleses. como "via regia" para os abismos da alma. e o seu maior prosador também. A psicanálise extrai desses abismos a lição terrível e fértil de que as forças profundas da alma são realidades. precisa-se seguir a consciência. mas o castelo da liberdade da consciência. IV. recebendo daí a sublimidade que distingue o poeta Milton. e há-os ainda hoje. anacrônicas. 13 X. possuído e defendido por todos os diabos. tít. significa o horror supremo. mesmo contra a força da Igreja. 13): "O que se faz contra a consciência edifica para o inferno.afastar a psicanálise como sendo obra do Diabo. mas a consciência está obrigada à sentença de Deus. e de conclusões doidas.177 Eis por que a Inglaterra não é. díst. . liv. cujo choque com as realidades superiores da alma constitui a tragédia da consciência. com Deus." Sabemos que houve tais conflitos gravíssimos de consciência.. para nós outros. como o "château de l'hérésie". Eis por que se precisa de heresias: "oportet haereses esse". ela continua como método. a solidão desamparada do homem no universo. Milton já não é o rebelde herético e impenitente. e as palavras esclarecedoras de Santo Tomás de Aquino (Sent. Visto daí. que vê por dentro do coração. com os terrores do esquecido mito germânico e com as ânsias da alma cristã. Liberta de premissas cientificistas. numa superposição já não precisamente explicável. Para Milton. e a mais terrível delas. o poeta da liberdade inglesa. o castelo dos diabos. II. papel definido num cânone do papa Inocêncio III (c.

É uma lição que nos convém. não resiste ao prazer de expor as suas fraquezas amáveis e os seus conhecimentos de latim. Ainda as Confissões de Santo Agostinho são um plaidoyer perante Deus e os homens. homens que respondem sem nunca mentir. agir contra a consciência."quem toca neste livro toca num homem. ne pèsent pas une once devant un mouvement de la conscience propre. e as nuvens conglobam-se em monstros horrorosos. Portanto. espelhos de humanidade completa. pelos rasgões que o desespero fez na capa filosófica de Rousseau. se encontra com o católico muito independente Péguy: "Tout l'appareil des puissances. Que o Deus dos cristãos nos dê a impavidez estóica da consciência livre. intellectuelles. o mais ingênuo de todos. em que Milton. mas também um pouco mais: deixariam de ser livros eternos para se tornarem camaradas eternos. a vaidade exibicionista olha. Numa época de consciências adormecidas. não há consolação mais cristã do que a palavra de Milton: "Há só uma reprovação definitiva e um pecado imperdoável: o maior dos horrores. na confissão mais desenfreada entremete-se qualquer consideração ao leitor ou à posteridade.escreveu Walt Whitman. comprados. les autorités de tout ordre. já não seriam obras da grande literatura. . são três livros para toda a vida. como se os tivéssemos conhecido sempre: como amigos. na descrição mais objetiva." Como Milton." Livros tais são raros. o protestante herético. Escrevem-se livros para serem impressos. la raison d'État. les puissances temporelles. no grito mais espontâneo. mentales même. qualquer artifício literário. seriam um pouco menos. o próprio Montaigne. les puissances politiques. sobre seus poemas . estamos solitários em face do mar desconhecido dos nossos destinos."178 TRÊS LIVROS INGLESES "CAMARADA!" . homens que nos acompanham a vida inteira. lidos. Purificados de todos os resíduos de artifício literário.valor que se revela na dignidade indelével da consciência livre.

em Londres. sem forma. Conheço só três. George Herbert. e A vida do Dr. fastidioso. onde esperou. sem ter a mínima idéia da grandeza demoníaca e celeste do poeta. e desaprovou o orgulho dos sectários. demasiado humano". enciclopédicos. sem conclusões. e depois fazia excursões pelos campos. que é a expressão mais espontânea e mais completa da existência humana. na Fleet Street. John Donne. ridículo. pois Izaak Walton estava lealmente ao lado do Rei e da Igreja. o fim da tempestade. Aos domingos ouvia. grosseiro e sublime na natureza humana. bem diferenciada do humanismo. cheios de tudo o que é grande. o Diário. sem arte. livros alivrescos. indestrutível como esses três livros indestrutíveis. Não existem em nenhuma outra literatura livros desta espécie. São O perfeito pescador a linha. e nas horas de ócio da velhice escreveu as biografias de alguns deles: a biografia do Rev. de James Boswell. John Donne. A profunda humanidade. de quem Walton era paroquiano e a quem venerava como a um santo. livros humanos. Dr. sem pretensões literárias. As tormentas da revolução e da ditadura cromwelliana expulsaram-no por muito tempo para os campos. estupendo. nobre. Paul. de Izaak Walton. Nos dias úteis entregava-se inteiramente ao pequeno comércio. para pescar a linha. Clérigos da Igreja Anglicana eram os seus melhores amigos. A pesca a linha era a única paixão da sua existência burguesa.179 a quem a liturgia inglesa deve umas rezas muito suaves. cônego de Salisbúria. Foram escritos por homens fora da profissão literária.Livros tais são raros. como esses três livros completos. o sermão do decano Rev. Dr. bispo de Lichfield. Acredito sejam impossíveis tais livros fora da literatura inglesa. de Samuel Pepys. na catedral de St. Dr. com resignação humilde e serena. Izaak Walton era um modesto mercador de ferragens. a biografia do Rev. formas definitivas da maneira inglesa de ser um homem. Robert Sanderson. Dr. e todos os três são livros ingleses. que fazia os sermões mais pacíficos e conciliadores para todos os bons . do "Humano. a biografia do Most Rev. desprezível. nos bons velhos tempos dos reis Stuarts. é o segredo da grandeza do povo inglês. Samuel Johnson.

Izaak Walton tivera a boa sorte .por mais admiráveis que fossem . amigos paternais. passeando. para nós também. The compleat angler.diz: "a pescaria a linha assemelha-se à poesia. O seu manual do perfeito pescador a linha. perdão. e acima de tudo os ribeiros. que sabem estimar as vantagens duma boa biblioteca e duma boa cozinha. como num jardim bem plantado. pela paisagem inglesa. esses prelados pios e sossegados. é preciso ter nascido para isso. que eram a paixão calma da sua vida. se tornaram. rodeados de filhos e de netos. "God almighty first planted a garden.tudo na sua vida era boa sorte . Com efeito. como diria o velho Polonius. porque há neles os peixes. inclusive os mercadores de ferragens. não acha necessários nem santos nem heróis. Eis por que tais ministros de Deus. esse tratado de pescaria está misturado de lindos versos. que celebram os ofícios em poderosas catedrais medievais.burgueses. sui generis. esses tipos bem ingleses de bispos e cônegos devotos. nesses livros. Essas biografias não têm ambições literárias. para descer. e um pouco lírico. íntimo como uma conversação entre amigos. é um livro único. Jamais teria pensado em escrever biografias de homens . e não quis que exemplos tão frutíferos se perdessem com a morte deles. amigos." O próprio Deus Todo-Poderoso plantou primeiramente um jardim. depois. Neste jardim.de observar de perto a conduta edificante destes veneráveis homens de Deus e da Igreja." Izaak Walton tem um grande conceito de sua poesia. onde vivem em casamentos harmoniosos. Um tratado didático de especialista na matéria.que não houvesse conhecido pessoalmente. humorístico como velhas anedotas. men are to be born so" . com seus prados e ribeiros. mas . de sua arte de pescar. solene como um sermão anglicano. esse tratado "trágico-cômico-histórico-pastoral". pois esse pescador a linha nato é um poeta nato. à pequena cidade. Izaak Walton estava como em sua casa: amava os prados e os ribeiros. eruditos e serenamente gordos. Só escreveu as vidas destes homens superiores. nas tardes de domingo. que o julgaram digno de sua amizade. Acredita que a pescaria a linha ensina todas as virtudes dum gentleman inglês. e sabe que o é: "Angling is like poetry. e que glorificam os benefícios e os milagres de Deus na natureza.

Cada noite. certas páginas. o sublime e o ridículo. ficaram inéditas. e a peruca do Lorde do Almirantado encobre "certains accommodements avec le ciel". bons camaradas. despida dos atributos de sua dignidade. De noite.000 libras esterlinas. e foi sepultado na Abadia de Westminster. Quando estava a morrer. O rei Carlos II honrava-o com tal confiança. A sua poesia e a sua pescaria a linha era um salmo. A vida do right honorable Samuel Pepys é uma vida de pompa e dignidade. A sua sinceridade no escrever esse diário era tão desacanhada. porém. rotunda. porque o seu livro não pertence à literatura. que lhe tomou por empréstimo 10. onde a importante figura do secretário da Marinha.só homens honestos. um dia santo ao ar livre. mas no sentido de uma natureza humana completa. morreu com um sorriso nos lábios. o interessante e o fastidioso. diante da cama aberta. em 1825. sem as restituir jamais. o honesto e o menos honroso. o importante e o mesquinho. Ele só escreve para si mesmo. em idealizar a sua conduta. se espantaram. Na época alegre dos Stuarts restaurados foi secretário de Estado da Marinha Real e presidente da Royal Society. toda a sua vida fora uma lembrança feliz. esperando as alegrias celestes da pescaria a linha no outro mundo. não no sentido da consistência moral. um "abridgment of all that was pleasant and unpleasant . que fariam corar o próprio autor da Lady Chatterley. e debaixo vem logo o caráter. pois o presidente da Royal Society é um right honorable "ex officio". que os descobridores do Diary. como ele mesmo é um excelente camarada e o seu livro um camarada para a vida. até hoje. Samuel Pepys se despia da peruca e anotava no seu diário tudo o que o dia trouxera. Não pensa em abrandar a sua vida. a gente só veste a camisa de dormir. Samuel Pepys era um caráter. Eis por que Walton seria feliz se todos os homens se quisessem fazer bons pescadores a linha. espontânea. se deitará.180 Todas essas notas foram feitas à luz privada da lâmpada noturna. Samuel Pepys vestia uma grande peruca e era um grande senhor. então toda a vida seria o que era realmente para Izaak Walton: "a holiday in plein air". um hino a Deus. com suficiente temor de Deus e uma boa digestão. Pepys é o mais sincero confessor de todas as literaturas.

em libras esterlinas e em substância humana. medíocre e estimável. mestres de dança franceses e inválidos reformados: e no centro desse mundo está o right honorable Samuel Pepys com o seu diário. a nós outros. pródigo e cobiçoso. e não se esquece de anotar que terminou o dia comendo um melão moscatel. meretrizes das tavernas.900 libras esterlinas. Pepys sabe muito. um compêndio de tudo o que é agradável e desagradável no homem: era. e não sabia que nos legava. e de substância mais duradoura do que os reinos e os impérios é a vida cotidiana.in man". gosta da música. comuns e bispos. mas na última hora não legou deixas a ninguém. pregadores sectários. uma bíblia da . as leituras ("Prefiro as ciências a tudo") e as discórdias com a sua mulher ("Ela fica zangada quando volto tarde da noite"). ao mesmo tempo. preguiçoso e ambicioso." Pois Samuel Pepys gostava de dinheiro e disse: "É melhor viver como homem rico do que morrer como homem rico. Sem a mínima preocupação de ordem ou da hierarquia das coisas. No seu Diary vive a Londres dos lordes. esse livro inesgotável. para que o grande Deus. dos aventureiros. sobretudo quando está liquidando as contas: "Achei um saldo de 1. uma reunião do conselho dos ministros ("Esse burro do Lorde Presidente não sabe latim") e uma briga com os seus criados ("cabeças de ferro que resistem às pancadas"). ele anota uma representação de Otelo ("peça bem medíocre") e o primeiro chocolate vendido em Londres ("bebida excelente"). seja louvado. políticos dos cafés. capaz. Estava presente quando o rei Carlos II foi coroado. íntegro. a que Stevenson chamou "a bible of human being". curioso e ignorante. criador da Terra e dos Céus. Samuel Pepys não se perturba: a sua região mais própria. conhece até a emoção religiosa. quando Londres foi consumida pelo fogo e devastada pela peste. e tive muito prazer"). a sua verdadeira fortuna. dos comerciantes e operários do porto. piratas." Era um homem rico. Começa o dia escutando um sermão ("Dormi todo o tempo na igreja"). dos holandeses e judeus da Bolsa. e diz tudo e muito mais. prático. é um homem culto. Com tudo isso. um jantar com o rei ("Sua Majestade disse-me coisas muito amáveis") e uma tarde com Doll Lane na Belle Taverne ("Fiz com ela o que desejei. egoísta e bondoso.

após uma vida de pobreza. Com efeito. e estão esquecidos. Ditador nato. não era possível. harmonioso. o ator Garrick. e o cume da sua vida era o grande Dicionário da língua inglesa. Após ter fracassado na arte ligeira de versos satíricos e na arte severa da tragédia. Samuel Johnson. É a sua única herança. escritas no estilo clássico. o parlamentar Fox tinham-no por um gênio da conversação. Samuel Johnson era muito grosseiro. Enorme. o pintor Reynolds. assim. mais interessante. mais cheio de vida do que todos os romances realistas e naturalistas. Era o tipo de literato estéril. Samuel Johnson foi o papa literário do século XVIII. Ditou até à língua. Alvo da mofa dos inimigos.e havia entre eles homens como o historiador Gibbon. o poeta Goldsmith. de boêmia e de esperanças malogradas. As suas Vidas dos poetas ingleses. elogiava sempre o rei. a sua crítica literária. empreendeu ditar aos seus confrades as leis que deveriam seguir na arte de escrever. são ilegíveis. conseguiu vingar-se da posteridade. nunca se citam os seus ditos espirituosos e às vezes profundos sem respeitosamente se acrescentar ao nome o título de que ele se orgulhava: Doutor Samuel Johnson. com esse ditador. continuam a ser o horror dos colegiais. os seus ensaios. Filho dum livreiro. puro. Os seus sócios do tempo e do clube . Mas parece que essa apreciação proveio menos da admiração do que do medo. nasceu e viveu na miséria e na sujeira." Dr. e terror dos amigos. como era. Na realidade. e mais verdadeiro. que constitui a delícia dos professores.existência humana. de cujas crenças desconfiava. Porque a verdade é sempre mais estranha do que a ficção: "Truth is always strange. stranger than fiction. simpatizava com todas as autoridades estabelecidas. Os seus versos secos e abstratos não chegaram a realizar poeticamente a sincera emoção religiosa e as lástimas duma vida incompreendida e malograda. um dicionário. cresceu entre livros. uma conversação: não . e. a quem desdenhava intimamente. o livro dos livros. tendia a reforçar o peso das suas opiniões com o peso do seu corpo. e os bispos. Até hoje. útil na época. cheios de pedantismo moralizante. Autoridade literária. tornou-se logo obsoleta. os livros eram os seus amigos e inimigos íntimos.

mas a espontaneidade da sua escritura supriu-lhe a compreensão dum Gibbon. chistes sarcásticos e asneiras indignas. O dia em que conheceu pessoalmente o mestre foi decisivo para sua vida. como um sacerdote das oferendas. Estava tão convencido da sublimidade.tolerava perguntas nem respostas. "Questionar não é um modo de conversação entre gentlemen" ." "Ortodoxia é a minha própria doxia. não estou obrigado a achar para você uma compreensão. sabia-se que logo viria um dogma infalível. heterodoxy is another man's doxy. e porque gozava da prerrogativa de viver perto do ídolo e de nutrir-se dele espiritualmente. Um companheiro humilde.não era mesmo capaz disso. Com a fidelidade comovente dum idiota consumado colheu tudo quanto caiu dos lábios do oráculo: aforismos mordazes. ou "No. Sir. James Boswell não tinha personalidade própria. e de registrar a vida e os ditos do mestre com a precisão dum diário de experiências místicas ou dum guarda-livros. Cheio duma reverência idolátrica.e: "Achei uma argumentação para você. James Boswell não era dotado do mínimo talento literário. Sir". Em troca." E isto era irrefutável. a cordialidade dum Goldsmith. sentia a obrigação de fazer a posteridade participar de tamanha felicidade. Boswell votava a Johnson um respeito tão desmedido. "his master's voice". o talento imitativo dum Garrick. devoto. admirador. Não era e não queria ser senão a voz do seu mestre. a eloqüência dum Fox e as cores dum Reynolds. Vemos. "Orthodoxy. acreditava ser de primeira importância tudo o que se relacionava com Johnson. infatigável. em seu livro. Tal homem não podia ter um verdadeiro amigo. os pequenos vícios e as sujeiras do seu ídolo. Triunfou pela grosseria." Quando começava uma réplica com um dos seus famosos "Yes. e a sua exatidão torna-se diplomática. que não ousava acrescentar às do mestre nenhuma palavra própria . tinha um cão.disse . nobreza e imortalidade de tudo o que dizia respeito a Johnson. Sir". is my doxy. heterodoxia é a doxia de qualquer outro. Esse cão chama-se James Boswell e escreveu A vida do Doutor Samuel Johnson. que não cuidava de amenizar nada: com uma sinceridade quase sacrílega anotava as estupidezes. o grande homem com .

Samuel Johnson: três imortais. aos quais. Quando morreu. para. está garantida uma vida eterna. Ele fita-nos com o seu olhar irritado por cima dos óculos. nesses três segredos." Há. há muito tempo. No fundo. Cada um o seu próprio Boswell. Samuel Pepys. um gemido cheio de luto duma vida incompreendida e malograda. esmagar-nos. a peruca empoada. grasnar. sobretudo por nós outros. Sir". devorado pelos vermes. não são os homens que se tornaram imortais. solene. Acreditavamno definitivamente sepultado sob a sua pedra em Westminster e a montanha dos volumes do seu dicionário. o seu tremor nervoso de mãos e pés. Com a eloqüência ridícula de um mestre-escola irascível. percebeu-se que o velho Johnson está bem vivo. todos respiraram. Ninguém percebeu. no mais profundo "demasiado humano". com o seu "Yes. no meio das tempestades. Samuel Johnson . Izaak Walton. lança-nos as suas frases retóricas sobre as coisas mais insignificantes. são as suas atitudes humanas. porque nunca viveram. um segredo bem inglês: o segredo de guardar. perdeu-se esse segredo delicioso? A atitude de Samuel Pepys contém o segredo de guardar. A literatura e a glória de Samuel Johnson foram-se. soprar. Não pode morrer. mesquinha. A atitude de Izaak Walton contém o segredo de viver em felicidade. Transformou-se em personagem mítico. ridícula e imortal. uma palavra. Izaak Walton. Começamos a imitar. E o tempo implacável não poupou esses livros. é o nosso lema: "Everymen his own Boswell. a sua vida grosseira. já não precisamos dos Boswell. Ouvimo-lo roncar até meio-dia e disputar até meia-noite. homens de profissão literária. como Hamlet ou Dom Quixote.o casaco manchado. Samuel Pepys. involuntariamente. um relâmpago de gênio. porém. um equilíbrio perfeito. Mas ele continua a sua vida no livro de James Boswell. e às vezes cai do seu bafejar. o ventre enorme cheio de bifes e de muitos litros de chá que engoliu e embebeu até suar. Para precisar melhor. Sir" e "No. quase um dever de saúde mental? Mas a atitude de Samuel Johnson está integralmente conservada. o mais profundo humano. mas quando esse monumento literário tinha desaparecido. sabe-se de segredo mais precioso para estes tempos.

Então Joseph Conrad Korzeniowski. para. neles. Até nas ingenuidades. arrisca-se em pequenos veleiros no Pacífico. concedo. Será capitão diplomado da marinha mercante inglesa. e Samuel Johnson. obedeceu. aquele Boswell alemão. Eckermann. É um "professor de energia". Um polaco. Às vezes. estudante da Universidade de Cracóvia. enfim. e teria desaparecido para sempre. em modesta casa de campo nos midlands. O que vale é que eles têm a coragem de ser como a natureza os fez.e bons serviços ." O MISTÉRIO DE JOSEPH CONRAD É UM CASO único na literatura universal. perdida a saúde. disse a Goethe: "Não se pode afirmar que esses ingleses sejam mais inteligentes. ou que tenham mais coração do que outros homens. aristocrata polonês que esqueceu a língua materna. com a família. e o grande sábio respondeu: "Mas isso não tem importância. em 1924. Mas a que preço! A sua correspondência é cheia de lamentos. ele resolve tornar-se um marinheiro. de queixas e de censuras . um inglês. ao "appel de l'inconnu":181 aprende a navegação em navios de contrabando do Mediterrâneo. de sublime e grande: Izaak Walton. o equilíbrio. como o mais inglês dos ingleses.devem a imortalidade à arte estupenda e bem inglesa de guardar. um escritor.". filho das estepes ucranianas. viverá. Como eles são. doidos completos. Mas isso ainda pesa na balança da natureza. o individualismo da liberdade civil. aposentar-se. Eles têm a consciência da sua liberdade e da importância universal do nome inglês. e que venceu. Um aventureiro? Oh. a autoridade da literatura inglesa. que era o mais fascinante dos romancistas ingleses. eles representam o lado "demasiado humano" e o lado humano de tudo o que há. mais cultos. são sempre homens completos. não! Sucessivamente. e será tudo isso. se não tivesse deixado a obra de Joseph Conrad.sobre os sete mares. entre o humano e o desumano. o talento de bem instalar-se na terra. prestará serviços . Samuel Pepys. nos descuidos e nos ridículos. repentinamente. O nascimento aristocrático ou as riquezas também não dizem nada.

"Era incompreensível" . "Romances do mar"! Mas é esquisito o mar de Conrad. no fundo deles. Conrad julga-se. ele não consegue senão elogios medíocres. em direções desconhecidas. Marinheiro. escritor? É o nosso problema este mistério. O mar não existe. como em Sob os olhos do Oeste. a si próprio. na vida. sobre este mar implacável que . e os torna alucinantes. onde estamos em pleno mundo mágico de Conrad. O mar é apenas uma lembrança na Loucura de Almayer. a submeter-se a correções gramaticais humilhantes. Inglês. um neurastênico.ao destino. vagamente. história da decadência de um fraco sonhador sob o céu tropical. e quanto mais nos aproximamos do elemento. errantes sobre os mares do Sul.e este título The Outcast of the Islands . Romancista. em O pária das ilhas ." É este o mistério que invade os seus romances. senão no fundo. nem sequer dominar perfeitamente a sua língua adotiva. em Bornéu. O retrato feito por Frank Brangwyn mostra um esgotado. Por que desejava ele fazer-se marinheiro. que se revelará como problema humano. até o fim. para fins misteriosos. sonhou grandes navegações. que é forçado. mas não foi jamais além da direção de pequenos navios.diz ele sobre o herói do seu romance Typhoon "porque ele se evadira para confiar-se ao mar. o ar salgado. inglês." Existe um mistério em torno dessa derrota. mas existe sempre. O mar não está presente em todos os seus romances. por uma mulher malaia. não conseguira esquecer nunca certas nostalgias da pátria polonesa. um vencido. André Gide aprende inglês expressamente para ler os textos de Conrad. romance de um aventureiro que se perdeu.é uma divisa para toda a obra de Conrad. mais nos penetramos do mistério que era o seu e que parece ser o nosso também. aquilo que desejei. romance em que Conrad penetra implacavelmente o exotismo perigoso dos russos. um problema de crítica literária. por ter escrito os melhores romances marítimos para a juventude inglesa! Numa das suas últimas cartas confessa: "Nunca obtive. Joseph Conrad foi um vencido. carregados de fretes duvidosos. e convirá também ao famoso Lord Jim. misterioso. epopéia de uma fantasmagórica república da América Central. O mar está ausente em Nostromo.

casto. doenças. de André Gide. e que completa as suas lembranças. discreto como um autêntico inglês? Ele não se trai por uma única palavra. silencioso. Alguém relata os acontecimentos. Algumas vezes o encadeamento fica obscuro. não é senão o ouvinte do capitão Marlow. os quais. fundaram um lar sobre um navio maldito que cruza os mares sem destino certo. É preciso surpreendê-lo. que conhece apenas superficialmente o destino de Flora e do capitão Anthony. Conrad prefere a narração indireta. sulcados por navios fantasmas. dos quais ele conhece apenas uma parte. romance e história deste romance ao mesmo tempo. Mas como desvendar o mistério desse "poeta mudo". o modelo declarado dos Faux-Monnayeurs. depois de crimes desconhecidos. e que não se pode transpor senão ao preço de todas as ilusões de felicidade. do qual um dos ouvintes é informado por acaso. alternam-se dois narradores que não conhecem. falências. Conrad consegue admiravelmente fazer-nos sentir todos os infortúnios da humanidade: traições. The Chance é relatado em primeira pessoa. O mistério deste mar é o mistério do mundo e da humanidade. e não saberíamos o fim se não fosse uma carta que o autor recebeu. Tragédia do Typhoon. O cume desta técnica complicada é The Chance. que agita a pobre alma do capitão Mac Whirr. anos mais tarde. fracassos de toda ordem. sem comentários. É o horror. decepções. algumas vezes. A sua técnica do romance parece o caminho para o centro do seu mundo e da sua alma. ou.arruina um pária da civilização. depois. Não se poderia penetrar neste passado misterioso sem o socorro de . de um Deus que nos faz viver em tantos horrores. Tragédia da Linha de sombra que retém indefinidamente. o desfecho. mas este "eu". ao porto de salvação? Em toda parte existem mares desertos sob o sol tropical. Este mar não é lugar de aventuras. até ao desespero. linha terrível que torna insensata a vida. e quem sabe se se chegará. guerras. o navio na tranqüilidade enganadora do oceano das Índias. ele enche as suas páginas semeando o pavor de uma criação malograda. povoados de párias. Charles Powell. mas de tragédias. nem um nem outro.

desconhecidos. porque ele próprio está envolvido na vida de Flora. Mas nisso tudo há: atração. que domina. quase diria das suas vítimas. que sonda as almas. dos enredos simbolizam maravilhosamente a complexidade insensata da vida. e levam consigo os seus segredos para o túmulo do mar. Aos outros e a si mesmo ele desejaria lembrar com força esses acontecimentos. Eis o segredo da técnica de Conrad: todo esse enredamento. às vezes artificiais. e as complicações. representados por narradores intermediários. integrar. para unir os episódios dispersos das suas vidas insensatas. para sondar as profundezas da alma desses heróis que se abismam. na luz transfiguradora da saudade.alguns marinheiros que viram o casal em portos longínquos. as paixões dos homens não contam no mundo conradiano da fatalidade. Conrad é . como nos contos do alemão Theodor Storm. pela força da palavra. de diferentes pontos de vista. sentir. E Powell virá a saber o fim. para distinguir por trás deles a verdade. Isto. pelas narrativas que se recortam. deseja. medo. porque toda a arte de Conrad é. Mas ninguém conheceu pessoalmente o misterioso Anthony. Mas Conrad não tem preocupações de psicologia apurada: ele não deseja analisar as almas. um esforço desesperado de chamar as lembranças ameaçadas de se perderem e que não deviam perder-se. ele não se inspira na técnica de Prosper Merimée. Menos ainda ele desejaria mergulhar os acontecimentos. ao contrário.aquele admirável psicólogo Henry James. ao contrário. pela refração da narração indireta. que desapareceu para sempre nos mares do Sul. e a verdade também. Os mistérios em torno dos personagens de Conrad simbolizam a impenetrabilidade misteriosa da alma humana.diz ele . Conrad aprendeu esta técnica na escola do romancista americano Henry James. ver. sobre o qual escreveu um ensaio . consolação. Igualmente. nas ondas. essas complicações são tentativas para penetrar no eterno isolamento dos homens. e nada mais. as paixões violentas."é fazer ouvir. "A minha tarefa" ." Esta verdade não é de ordem filosófica. fazê-los viver ainda uma vez. essas embrulhadas. essas lembranças encerram o mistério dos seus heróis e o seu próprio mistério. reconstituir os fragmentos de vidas desconhecidas.

Conrad sabe descrever navios como só os velhos pintores holandeses.um autor sem filosofia. orgulho da raça inglesa. Há romances. o mar é a obscura "causa primária" que dirige os destinos. Conrad se opõe corajosamente ao elemento "inimigo": conta em primeira pessoa. sem dificuldade. e é nela que ele busca. o mar está ausente. e a isto corresponde uma luta desesperada com a forma. nos quais o próprio mar é o herói da ação. Em outros romances. nos quais ele escreve. mas vivida. armas de batalha do homem contra o destino desconhecido. de emprestar um sentido à vida. A sua verdade não é pensada. O poderoso símbolo deste caos é o mar. na memória de Conrad. nesses romances. sem psicologia mesmo. sem tendências. incoerentes. representados por esta sucessão de relações que se confundem e se recortam. O caminho para transformar essas experiências em arte é a sua técnica de romance. para pôr em ordem o caos. lutando contra o elemento destrutivo que determinou a vida de Conrad: a sua literatura é a tentativa desesperada de iluminar as trevas. mas. a luta com a forma é a luta desesperada contra um inimigo impessoal e imponderável. As suas cartas abundam de descrições desta luta. e na sua memória ela se dissolve em mil episódios vividos. ele é autor de "romances marítimos". os caminhos para chegar ao coração das almas e das coisas. enfim. e de lamentos: "Os episódios sucessivos do romance não conseguem desprender-se do caos das minhas lembranças!" Toda a sua literatura é apenas uma tentativa de pôr em ordem o caos. navios na tempestade. em todas as partes. navios no porto. aqui. enfim. Conrad chama-lhe . esses capitães silenciosos. como Nostromo. aqui. do elemento. em poder do inimigo terrível. todos esses navios. Sim. navios de velas desfraldadas. é digno de nota que. esses heróis do dever não passam de humildes servidores de certos seres fantásticos: os navios. estão paralisados. como nos quadros dos mestres. é de natureza caótica. magnânimos. e até os meninos se encantam com os seus heróis. de dominá-lo. leais. como A linha de sombra. pela misteriosa "linha de sombra". O mar. dentro da técnica tradicional. A vida. Existem outros romances. vistos mais de perto.

simplesmente: "o inimigo".tão simples. de outro aristocrata. sucumbem.na aparência . inteiramente devotada ao dever. todas as vitórias e todas as derrotas. porque escutou. Os fracos e os maus. a voz da sua consciência. "heróis do dever" de Conrad. precisa-se ir através. que a vida terrestre é amarga experiência. superiores. Não gasta palavras de um otimismo fácil e oficial. mas o pobre e medíocre Mac Whirr pode ser salvo. ao humano em nós. eis a nossa missão. simplistas. É a força rigorosamente disciplinada da alma. É a nossa tarefa esta atenção intrépida que se esquece de si mesma. É a oportunidade de dominar o nosso caos interior pela disciplina que este inimigo furioso nos impõe: é a oportunidade de tornar-se um homem. e não é por acaso que a obra-prima de Conrad traz este título: The Chance. ele sabe. também professeur d'énergie e castigado também pela vida: lembramos a sombra nobre de Vauvenargues. os Jim e os Anthony. a oportunidade dum jogo ou dum combate. "Uma oportunidade". mas não é vencido. O seu olhar sobre o mundo é incorruptível. É o monstro que encerra no seu seio todas as tentações e todas as desditas. compreensivos do destino humano. transformam-se em silenciosos pensadores. a que estamos ligados pela nossa consciência. os silenciosos e . no barulho do tufão. É a vida. O mar é o símbolo de uma ruim organização do mundo. "Cheguei a suspeitar que a criação não fosse absolutamente moral. a oportunidade que aparece nessas ondas é o apelo à consciência humana. muito cristãmente. É. Nos momentos extremos. Um pessimismo viril." São palavras esquisitas. na boca de um homem que se gabava sempre de "ser um aristocrata católico e polonês". Mas o inimigo nos dá uma oportunidade. católico e francês. à ordem superior da solidariedade humana. castigado. . pela qual o sombrio pessimismo de Conrad se salva. e cujo pensamento é não menos audacioso do que a sua coragem de marinheiro: se não há saída. muito humanamente. ressoam mais como aristocráticas do que como cristãs. Não a oportunidade do aventureiro ou do guerreiro. Mas este pessimismo viril se aproxima do estoicismo verdadeiramente cristão de outro capitão aposentado.

É preciso mergulhar no mar: por isso é que Conrad se fez marinheiro. Conrad foi sempre um sem-pátria. de um poeta. Cumpre mergulhar no elemento destruidor: o mar. em direções desconhecidas.Conrad enfrenta a vida. como a vida." A "filosofia" simples de Conrad. um "enchanted state". esses "desclassificados superiores". É a última esperança de toda uma humanidade que será bem cedo um "outcast of the islands". que é. Ele não tem nada de um aventureiro. A fuga é inútil. e que promete reincorporar os "outcasts" à humanidade. Se obedeceu ao "appel de l'inconnu". não tivesse conhecido a aventura e a glória. esses "outcasts of the islands". filosofia no sentido quase popular de sabedoria de homem muito experimentado. Por essa razão cumpre aventurar-se ao mar. foi porque a sua consciência o chamava. para a tripulação revoltada do navio maldito. humildade. com as virtudes heróicas da nobreza medieval: lealdade. Conrad era marinheiro. a sua "filosofia". Conrad desejava salvarse a si mesmo e aos outros: um marinheiro que salva os companheiros em perigo de naufrágio. como ele mesmo o era. A técnica de Conrad forneceu o segredo da sua arte. para fins misteriosos. o supremo perigo é a oportunidade de que resulta a solidariedade. honra e fé. não responde a isso. um "estado mágico". simples e corajosa. Narcissus. sem dúvida teria preferido a vida de um homem da middle class inglesa na sua cottage. mas não teria também escutado a voz da sua consciência nem salvo a sua alma. fornecerá o tríplice segredo da vida de um marinheiro. deserto. sulcado de navios fantasmas povoados de párias. a oportunidade da salvação para os seus heróis. Então. Talvez preferisse a vida patriarcal de um nobre polonês nos seus domínios. assim. sob o sol tropical. um expulso. e da última possibilidade também. Não importa que. cumpre tudo arriscar para salvar a sua alma. de um inglês. . Relembremos: "Era incompreensível por que ele se evadira para confiar-se ao mar. O apelo da consciência é a oportunidade que o mar oferece. cheio de mistério. Assim. O mar era a sua pátria. Pela sua arte e pela sua vida. É o mar longínquo. Mas não se trata do mar que banha agradavelmente as nossas costas.

Quando já não podia servir à Inglaterra no mar. à "perduta gente". ele vai ao mundo. Após ter conhecido as glórias da literatura inglesa. o único mundo. também. Ele vem do Oriente. deste mundo eslavo que ele odiou. nessa submissão voluntária à solidariedade voluntária que é o segredo e a grandeza da liberdade dos ingleses. de nacionalidade incerta. os europeus coloniais.como o seu Jim. o dever ao serviço desta grande epopéia que levou os ingleses até os confins do mundo. Ele cumpriu este "dever que a Inglaterra espera de cada um dos seus filhos". o oriental e o infernal: tornou-se marinheiro. Se o mundo de Conrad é um inferno. Os seus compatriotas eram Almayer. Existe um povo ao qual os horrores dos sete mares nunca fizeram medo. disciplinou-se literariamente. Existe um povo que se sente em sua casa em todos esses mares e em todas essas ilhas: o povo inglês. passou a servi-la naquilo "que ficará da Inglaterra quando nosso último navio de guerra repousar no fundo do mar que . "o dever a que estamos ligados pela consciência". para Conrad. o supremo valor humano. a que Charles Morgan celebrou no Essay on Singleness of Mind: a arte de ser um homem. Conrad desejava ser um simples marinheiro inglês. onde a liberdade e a disciplina estão em harmonia. tudo o que vale o gastar uma vida para tornar-se inglês. a comodidade da vida inglesa. Nesse sentido.182 Mas sobre este mundo maldito levantou-se uma estrela. mas não se tornou. ele pertence. como James. Conrad odiava os russos e a literatura russa. representantes do anárquico espírito oriental que ele viu Sob os olhos do Oeste. Conrad era inglês. membro da elite inglesa afrancesada. um marinheiro livre e leal de Sua Majestade Britânica. tornou-se membro desta outra elite inglesa que enfrenta sempre o caos. Conrad aprendeu a mais difícil arte inglesa. que oscila sempre entre o despotismo e a anarquia. como Henry James. um marinheiro que cumpre o seu dever. A liberdade apurada pela disciplina é. e como James chegou a naturalizar-se cidadão inglês. na escola dos franceses. Era a voz misteriosa da consciência que impelia Conrad a tornar-se inglês. os "outcasts of the islands". a consciência da liberdade inglesa.

epopéia da qual os seus romances constituem os fragmentos. não para fazer literatura. Agora. o romance de viagem tornou-se um gênero menor. em Bornéu. cada um dos quais é uma etapa no caminho da humanização da humanidade. e para classificá-las é necessário estabelecer uma distinção que escapou. como o raio da sorte cai das nuvens do tufão. Desde então o grande romance europeu passou a habitar "a cidade e a província". A esta composição por etapas corresponde o estilo conradiano. eles próprios. os romances dissolvem-se. Tom Jones viaja na Inglaterra. Vinte anos depois escreveu a Loucura de Almayer. embaraçado ainda pela língua estrangeira. a literatura. surpreendentemente. Dom Quixote percorre a Mancha e Gil Blas a Espanha. explica-se o mal-entendido . onde muitas vezes as palavras mais elementares de repente se revestem de uma tristeza metafísica ou de uma significação superior. desaparecido do mundo civilizado. romance de aventuras para uso da juventude. não pertencem à categoria do romance moderno. não são romances essas viagens sem fim nem termo. as mil e uma noites sobre o Pacífico. está sempre em viagem. seu Almayer. acumula febrilmente as mil anedotas dos portos malásios. O velho romance.terá devorado os nossos últimos rochedos cretáceos": a literatura inglesa. antes do século XIX. Fragmentos de epopéia duma humanidade em marcha. até agora. mas. o "romance préhistórico". e o romance do goetheano Wilhelm Meister chama-se Anos de viagem. A bem dizer. para compor a epopéia do Oceano. para salvar essas lembranças. Vinte anos antes encontrara. do mar inglês. reconhecível entre mil: narração seca e sóbria. O seu primeiro romance apareceu quando ele tinha quarenta anos. Os criadores do romance moderno. Em seguida. em episódios fragmentários. Conrad desprezou. pelo menos. domiciliaram-no. e o Lawrence Sterne da Viagem sentimental. Robinson percorre os mares e Gulliver os países da imaginação. para "procurar uma recordação de coisas longínquas e homens esquecidos". Stendhal e Balzac. à atenção da crítica. na França.

na vida. "Eu" . "outcast of the islands". na vida. ilusões. "este sentimento de solidariedade que une a solidão de inúmeros corações a esta outra solidão de sonhos. alegrias. aspirações. Com a derrota. a direção de Conrad não é o passado. expulsa da civilização. o ponto morto do desespero. nunca ter obtido aquilo que se desejava. decepções. como Marcel Proust o abriu para o tempo. aqueles que morreram àqueles que vivem. mas acrescenta: "O melhor. Ele dissolveu a forma. O romance de Conrad mostra-nos aquilo que nos espera: traições. embarcará. falências. e esta concentração transforma o seu passado." . temores e esperanças. Abriu o romance para o espaço. guerras. depois. malogros de toda ordem. é um expatriado. Aquele que desejar salvar sua vida a perderá. a terrível "linha da sombra". como ele mesmo era um vencido. Ainda uma vez. é. descobriram o que haviam perdido. como o seu autor. a reencontrará. sofrimentos. e aquele que perder sua vida pelo amor. e quem sabe se se voltará. Nas suas lembranças. para todos os mares. talvez."nunca obtive. aqueles que vivem àqueles que nascerão". e. doenças. que une todos os homens a todos os homens. pelo mar e pela vida. o que os tinha expulsado para os sete mares: a falta do sentimento de humanidade. aquilo que desejei". Somente. a chance está presente. a humanidade. Aprenderam na derrota aquela "concentração espiritual" que o "teresiano" Charles Morgan celebrou como a arte de tornar-se um homem. a linha que não se pode transpor senão ao preço de todas as ilusões de felicidade.quanto aos "romances marítimos" de Conrad: ele retomou uma antiga forma para revolucionar o gênero. O romance de Conrad. ao porto de salvação? Os vencedores de Conrad são sempre vencidos. Mas esses vencidos são os verdadeiros vencedores. a solidariedade da humanidade faz-se pressentir.tinha ele dito . restabelece-se a solidariedade dos corações. o seu romance "em marcha" prediz um futuro sombrio. toda a humanidade numa unidade superior. através deste caminho de horrores.

que ouviu. e sob a cúpula da ruidosa Aleluia de Haendel. esta filosofia de Joseph Conrad não é uma conclusão nem um fim. mas. I've heard the Revelly From Birr to Barelly. dissimulados em suboficiais. era a reunião mais gloriosa. no estrangeiro. que se comportam perfeitamente em sua casa. a soberania das Índias. Não suporto esta raça kiplinguiana de comerciantes violentos. all endin' in 'pore'. todas terminando em pore". da riqueza. com orgulho incrível: "God save the Queen". mais poderosa. mas a vida também não tem conclusões. à sombra dos túmulos dos grandes mortos da nação. mais rica do mundo. então Rudyard Kipling lhe lançava o desafio contrito do seu Recessional: "Lo. da força. que tagarelam nos Barrack Room Balads e zombam dos nomes incompreendidos das cidades subjugadas: "My name is O'Kelly.Sem dúvida. e a soberania do mundo. A Inglaterra de então estava na culminância da glória."183 Deus prometeu-lhes. por ocasião do jubileu da velha rainha Vitória. from Leeds to Lahore. o grito orgulhoso: "God save the King!" Uma só vez Rudyard Kipling exprimiu uma emoção profundamente humana: foi quando compôs. ALGUMAS PALAVRAS SOBRE A INGLATERRA DETESTO sinceramente Rudyard Kipling. e também não há fim no murmúrio longínquo do mar sombrio. com as suas "cinqüenta e cinco cidades. procedem como no jângal dos selvagens. e quando gritava. e a brutalidade simplista dos seus contos indianos representa o estado de espírito de certos gentlemen. à maneira das ladainhas de procissão da Igreja Anglicana. e a assembléia dos Lordes e dos Bispos e dos Comuns na Abadia de Westminster. espantado. Hongkong and Peshawur And fifty-five more. all our pomp of yesterday . o seu poema Recessional. a eles. Sua mandíbula de buldogue é a expressão fisionômica da educação tanto no jângal como para o jângal.

fantasma na bruma. catedrais enormes dominando pequenas cidades medievais. mas a Catão a vencida.quando um aparelho de rádio distante tocava o Marlborough s'en va-t-en guerre. em que a raça dos fellows e dos tutors guarda.foi ontem . os subúrbios. para não esquecermos. ao brutal mercenário Kipling. pensava na grandeza viril dos estóicos da Antiguidade.Que o Deus dos Exércitos nos assista.lest we forget!"184 Toda esta glória será de ontem.Is one with Nineveh and Tyre! Judge of the Nations. das cidades malditas: ó Juiz das Nações. visto pelas janelas da alma": a Inglaterra. com a sua loquacidade orgulhosa e suas "cinqüenta e cinco cidades." A causa vitoriosa agradou aos deuses. esta paisagem a que Katherine Mansfield chamou "um jardim longínquo. A sua figura anônima me ocorreu à lembrança . Lest we forget . o poeta se assusta do dia da catástrofe: . como um grande navio incendiado. para não esquecer! Eu o tinha esquecido. be with us yet. para não esquecermos! "Thy mercy on Thy people. Londres. o porto. todos terminando em shire. sed victa Catoni. Uma floresta de gruas e de mastros. todas terminando em pore". uma floresta de pequenas casas uniformes. e os sinos da Abadia de Westminster ressoavam uma Aleluia abafada e um muito longínquo God Save the King. e do mar visionário ante os meus olhos subiam os cem condados ingleses. como uma marcha fúnebre. e perecerá como a glória de Nínive e de Tiro. para não esquecermos! "Lord God of Hosts. uma floresta de pedras. lest we forget . . Lord! Amen."186 Para não esquecer. a luz amarela da tarde de inverno sobre as capelas e os colégios. para não esquecermos. no verso amado de Lucano: "Victrix causa diis placuit. poupanos. spare us yet.lest we forget!"185 Como um profeta. Pensava nesta imensa herança. Era a hora de uma cidade terminando em pore. E as cinqüenta e cinco cidades todas terminando em pore submergiamse nas águas tenebrosas do Oceano longínquo.

o riso bonhomme de Dickens. E quando este riso ameaça tornar-se em pequenez mesquinha da média. as visões infernais de Blake. é guardado aristocraticamente pelas sebes clássicas da poesia de Alexandre Pope. um riso inextinguível. um "jardim visto pelas janelas da alma". de Marlowe e de Chapman a Keats e Swinburne. Fantasma de um castelo irreal: a ilha no mar setentrional. Evidentemente. uma máquina barulhenta. em baixo. o riso mordaz de Ben Jonson. o riso alegre de Chaucer. nem sentidos para gozar da vida. e o William Shakespeare. a mais rica. vomitando fumaça negra. o riso maligno de Swift. a maior. a ilha que governa o mundo. Shakespeare representa aí o senhor feudal. "cuidado há trezentos anos". o conforto. o nome de William Shakespeare não figura lá senão como uma metáfora. homérico. ressoa através dos séculos da literatura inglesa. as ninfas. essa hipócrita e ébria Inglaterra. ao gosto de Versalhes. chaminés e chaminés. em vez de coração. o nosso último tesouro. o riso melancólico de Sterne. cujo prado. o riso ruidoso de Fielding. praias e praias. o vento horroroso sobre os Wuthering . Deus até ficou desolado quando criou o inglês e viu que não lhe dera voz para cantar." Assim é. o espírito inglês sempre lhe sabe opor o seu taedium. concedeu-lhes Deus um pouco de domínio mundial. mas um livro de contos. seu spleen: os terrores da noite de Thomson. Shakespeare. frias na bruma de uma chuva fina e incessante.como os monges da Idade Média. cuja vara mágica de Próspero evoca todos os espíritos do céu e do inferno. e. no alto. um "pars pro toto". o lorde do castelo. o riso espirituoso de Congreve. para merecê-lo. o riso irônico de Jane Austen. os sátiros e as mênades da Hélade não cessaram de vaguear orgiasticamente pelos seus prados. e para compensar essas borralheiras da criação. Um poeta chamou-a "o castelo do império e do tédio". os Milton para atear as revoluções. a mais profunda literatura do mundo. a literatura inglesa sempre teve profetas. e seu spleen acrescentava: "Uma ilha da danação. o mestre. Não o imagineis como um jardim muito regular. três coisas preciosas: a liberdade civil. e os Carlyle para exorcizar.187 um mot-clef para indicar a literatura inglesa.

O nome de William Shakespeare não é senão uma cifra: resume-os todos. marinheiros: uma literatura ao ar livre. tão feliz em suas fórmulas. é o incomparável nas obras da literatura inglesa. de Cowper e Wordsworth. Deus disse aos ingleses: "Make the best of it!". pura. haverá sempre um monumento imperecível da nossa nação: a literatura inglesa. É preciso ter bons nervos para senti-lo. pelos cantos piedosos de John Donne. Mas. livre. Lá fora. onde o espírito evoca os demônios. disse: "Quando nosso último navio de guerra descer ao fundo do mar. Estes sonhos diabólicos da vida. esportistas.Heights de Emily Brontë. está a igreja. é o mestre desta floresta encantada da literatura inglesa. caçadores. o doce luar sobre os jardins da Inglaterra faz cantar os rouxinóis de Shelley e dançar as fadas de Spenser. onde o dia. mas at home. Byron sustentou que o inverno inglês acaba em julho. os furacões devastam. que mais do que outra é apaixonada da Natureza. Robinson sobre a sua ilha deserta. em nome do "Lord Almighty". o marinheiro Joseph Conrad sobre os sete mares e o Oceano ardente do Sul? Não há recanto sobre a terra onde não cintile a lâmpada solitária dum marinheiro inglês. e à sua luz responde a lâmpada solitária dos humanistas Matthew Arnold ou Walter Pater em suas células monacais de Oxford ou de Cambridge. A atmosfera. que expulsa os demônios. de uma vez por todas. o marinheiro de Coleridge sobre o seu navio maldito. fresca. quando a tempestade quebrar o último rochedo cretáceo desta ilha. que são eles senão as alegorias dos terrores que o marinheiro inglês arrostou. é saudado. e muita gente nunca percebeu um verão inglês. e das inclemências do tempo fizeram eles o conforto." É uma literatura de fidalgotes. E perto da célula do colégio. . o "waits in unhope"188 de Thomas Hardy. de que o velho filistino Macaulay. e cujo monumento mais velho é uma canção de verão: "Summer is y-comen in! Sing cuckoo! Cuckoo!"189 Mas o verão inglês é uma coisa singular. para recomeçar em agosto.

à pescaria a linha e ao golf." Mas a maior glória da Inglaterra é o fair play. é ao mesmo tempo o grande manual do perfeito gentleman. os mesmos clubes ingleses. É difícil a gente entender-se entre os mil "casos de precedência". o seu lugar era sempre nos bancos da oposição.constitui naturalmente sua virtude tradicional. imperturbavelmente. e seus vassalos mui leais forçariam seu rei a aceitar esse pobre feixe de lenha.Não é em toda parte que se gosta dos ingleses. a tranqüilidade da alma. floresta que já não existe há muitos séculos. o fair play da competição. lest we forget. Era o terror dos ministros. O orçamento era a sua especialidade. de cabelos ruivos. extremamente antipático. A Inglaterra teve muita glória: "Lord God of Hosts. cujos efeitos incríveis. porque ele lhes garantiu o privilégio de isenção de certos outros impostos. o vizinho mais seguro. O inglês é o amigo mais frio. capacidade de dedicar-se. o Direito inglês não está codificado. no qual se aprende o sangue-frio dos nervos. Sob todos os ministérios. Cada dia de Ano-Novo. de executar os esportes e de fazer a guerra. ao tênis e ao cricket. a tenacidade de certos usos seculares já desprovidos de sentido. sem falar de dinheiro. lembrança do arrendamento de uma floresta que um rei da Idade Média concedia a seus vassalos mui leais. o livro de contas personificado. Mas escutai a história do cidadão Joseph Hume: Ao tempo de Canning e da reforma parlamentar. be with us yet. Não pagar . os mesmos lugares de esportes ingleses. em toda parte e sempre.dir-se-á . o inimigo mais generoso. Mas não há quem não se admire da virtude poderosa de instalar-se em todos os continentes. ao comércio e aos estudos gregos. têm divertido a muitos. A Constituição inglesa não está escrita. homem grosseiro. e que não podia dizer três palavras sem referir números. O grande manual da pesca a linha. de transplantar para sob todos os céus as mesmas casas inglesas. havia na Câmara dos Comuns o deputado escocês Joseph Hume. É sobretudo o espírito da liberdade civil. É um método de negociar. os deputados da City de Londres apresentam a Sua Majestade Britânica um pedaço de madeira. o Compleat Angler de Izaak Walton. Canning não ousava .

e fazem-se revoluções para restaurá-los. e nenhum gentleman se prestaria a tal violação da ordem legal. fazem-se revoluções para aboli-los. Joseph Hume ergueu-se e pediu a palavra. até as situações mais irregulares e ameaçantes. e este sistema simples e complicado substitui todos os códigos e todas as constituições escritas. . A ordem e a liberdade inglesas estão sempre em equilíbrio. e o privilégio real se dirigiria contra os revolucionários. e a arte do fair play político está em equilibrar honestamente. Eis por que a oposição é.nunca em sua presença pronunciar um número. para falar. Um passo a mais. porque "recusar os impostos é privilégio da Câmara dos Comuns e pagar os impostos é privilégio do cidadão inglês". propõe a moção de não pagar impostos. necessária à manutenção do equilíbrio chamado "sistema dos partidos". Ah. a significação da palavra privilégio em outros idiomas. que é conexa à liberdade inglesa. Esta palavra privilégio é o mot-clef da liberdade inglesa. nove anos depois. Na França os privilégios são abusos abominados e detestados. em relação à língua inglesa. Sai-se da legalidade somente para reparar a legalidade violada. sobre um assunto fora do orçamento. com surpresa de todos. uma instituição do Estado. o velho bolsista revolucionário! Mas. sem primeiro consultar o Tesoureiro: "How much?" Todo o mundo o temia e o detestava. porque o rei e os lordes não cumpriram a palavra empenhada na reforma do Parlamento. Um dia. e a sua voz de bolsista embotado se tornou estrepitosa como os sinos da Abadia de Westminster. Notai bem como difere. sem violência. e atestados e garantidos pelos "casos de precedência". na Inglaterra. porque a própria revolução é um privilégio. em francês por exemplo. porque o seu coração estava em sua bolsa. porém. nada além disso. e. e regulada pela lei do fair play. as forças opostas. o referido Joseph Hume ergueu-se e declarou querer pagar voluntariamente os impostos do ano seguinte. estando a guerra às portas e o tesouro esgotado. Na Inglaterra os privilégios são liberdades tradicionais e veneradas. Os privilégios são herdados por tradição.

estão enterrados os poetas. nem sequer uma lei.e o inglês mais individualista e mais obstinado logo pára. no meio dos rei e dos nobres lordes. na rua. É a força duma tradição multissecular e venerada. para o fair play.Isto não se escreveu em nenhuma Constituição. É só uma tradição. edifício que reúne ao aspecto gótico da tradição medieval todas as instalações do conforto inglês."lest we forget . que regem sem força exterior. saem da Casa do Parlamento. não é nem liberal. símbolo do poder real. somente pela convenção tácita do fair play. em vigor ainda mas já obsoletas. Assim. a famosa Magna Charta. Algumas leis. símbolo do fair play político. instituído para proteger as liberdades individuais e obstinadas de todos os ingleses. Nem um sistema político. a Declaration of Rights. O mais poderoso desses símbolos é o que reúne em si todos os aspectos da vida pública inglesa: é a famosa "procissão de Westminster". a tradição da liberdade. É o método . O cortejo é conduzido pelo primeiro ministro e pelo chefe da oposição. nem conservador.de uma honesta vida comum de pessoas honestas. O polícia. do equilíbrio entre a ordem legal e a liberdade civil. O fair play. o primeiro-ministro e o chefe da oposição. fruto duma educação de todo um povo.o último método . das coroações e dos enterros dos reis. Foi num desses momentos solenes que se escreveu a prece "lest we forget . símbolos jurídicos da política do fair play. um ao lado do outro. as duas Câmaras. a festa real e eclesiástica por ocasião da inauguração e do encerramento dos Parlamentos. os lordes e o povo entram na Abadia de Westminster. levanta o seu bastão muito inocente . Daí o motivo por que chamei ao fair play a maior glória inglesa .lest we forget!" Então.lest we forget!" A Constituição inglesa não se escreveu. não constituem mais do que símbolos. totalmente independente de parágrafos jurídicos e convicções de partido. E o símbolo supremo . pois que o bastão policial é também um símbolo. todas as glórias desta instituição nacional que é a literatura inglesa: a estátua de Shakespeare saúda o túmulo de Henrique VII. cujos túmulos e pedras formam uma revista shakespeareana da história inglesa. a dos Lordes e a dos Comuns. Toda a vida inglesa está cheia de tais símbolos.

que aí reside no meio de seus lordes e de seu comuns: é em sua honra que os sinos da Abadia de Westminster oferecem sua Aleluia.desta unidade de tradição. para as reconhecer. .lest we forget!" 190 Os sinos de Westminster dobram. por nós todos. É um sintoma muito grave. história duma conquista da liberdade. ele também um soldado anônimo da liberdade pela Inglaterra. que se prestaram a título de uma obra de nossos dias."191 "Por quem dobram os sinos? Dobram por vós. Só? Ocorrem-me as palavras do velho e grande poeta John Donne." Por vós. o rei. Pensei nisso quando os sons longínquos do Marlborough s'en va-t-en guerre e dos sinos fúnebres fendiam meu coração. O primeiro dever de Adão foi "o de chamar as coisas pelos nomes". Lest we forget . resumo terrível das nossas angústias: "For whom the bell tolls? He tolls for you. a nós. É por uma "cidade terminando em pore". de liberdade e de honestidade é o primeiro gentleman do país. Tive a visão desta grande história inglesa. com suas "cinqüenta e cinco cidades. TERCEIRA PARTE: JULGAMENTOS TRADIÇÃO E TRADICIONALISMO O S ASPECTOS do nosso tempo trazem a todos os lábios as expressões: "Isso nunca se viu". "Isso desafia toda a experiência". Cabe-nos. e estava enfim reconciliado com este soldado inglês. por nós todos: "Judge of the Nations. não esqueçamos nunca! God save the King. e todo o povo o seu God Save the King. Não esqueçamos. spare us yet. todas terminando em pore".

se as próprias coisas "desafiam toda a experiência?" A perda das tradições é o sinal do nosso tempo.antes de tudo. pois. E a "verdadeira civilização" é a visão da humanidade. um conjunto de tradições: as crenças. cuja soma está acumulada nas tradições da humanidade. de um grupo é. por nossa própria conta. aos de Bonald. que se achava em estado de graça natural. de uma região. que se lamentava "Cualquiera tiempo pasado Fue mejor"192 . ainda outro dia. Em certos homens . a casa. desde Adão. que "o verdadeiro amor apenas existiu pelos anos de 1890". aos Donoso Cortés. para responder.esse tradicionalismo de ressentimentos se condensa numa hostilidade violenta contra o seu próprio tempo: eles estão prontos a aderir a todas as revoluções contra seu tempo. aos Adam Müller. Sabemos ainda hoje o que é uma tradição? É o que me pergunto. .e há muitos deles . o pior dos caminhos seria recorrer aos De Maistre. sem ver que assim perecem os últimos restos das queridas tradições. Nossas perdas são bem nossas. Mas como consegui-lo. O que é uma tradição? Há várias respostas. das quais só nos damos conta quando se vão. a cozinha. primeiramente. É essa a mesma "faculdade crítica de distinguir" de que o místico tem necessidade a fim de verificar se as suas visões provêm de Deus ou do Demônio. Elas são o objeto de lamentações nostálgicas de todos os velhos e de todos os retardatários. a necessidade das experiências. o que está na base da verdadeira civilização". reconhecer as coisas. cuja atividade espiritual foi excitada pela perda das tradições da sua própria época.até ao velho que me assegurava. de acordo com as experiências que. a humanidade vem acumulando. Temos. A tradição de um povo. as canções. os costumes. O reverso é a florescência dos tradicionalismos de toda ordem. aos grandes tradicionalistas. Desde o velho poeta espanhol Jorge Manrique. para reconhecer as coisas e pôr em ordem o caos. todo esse conjunto de coisas. Mas. Talvez Matthew Arnold denominasse a isto "a faculdade crítica de distinguir. a família. desde Adão. É preciso suportá-las e meditá-las.

Isto determinou a sua história. o que se transmite oralmente. mas a tradição não escrita do povo. a escolha da tradição. Os Estados Unidos rejeitaram as tradições aristocráticas do Sul e adotaram as tradições puritanas do Norte. Tradição é escolha. Não há uma só tradição em nenhum lugar. A escolha de uma tradição é a reprovação das outras.O contrário desses partidários pequeno-burgueses. Lamentam e colecionam tudo. a França moderna despedaçou-se entre duas tradições: a galicana e a jacobina. a autoridade de distinguir o que é a verdadeira tradição e o que não é. Nisso consiste a grande política. da Itália fascista. de autenticidade duvidosa. ressentimentais193 das revoluções erostráticas. Elas precisam ser garantidas por uma autoridade. os "grandes tradicionalistas" do romantismo não procuram a tradição dos livros. O complemento indispensável do princípio de tradição na Igreja Romana é a autoridade do papa. nos folcloristas das velhas canções e costumes. Quase sempre essa escolha de tradições é muito consciente. Em toda parte há muitas tradições. Muitas vezes a escolha da tradição é impossível. é uma decisão suprema. Ali foi criada a . Às vezes não há tradições que escolher. Por isso as tradições encerram um elemento perigoso de incerteza. cujos museus mofados só raramente se transformam . até mesmo arbitrária: cada recanto da maravilhosa Roma medieval dos papas que desaparece para dar lugar às escavações de alguma ruína desinteressante da Roma imperial prova a política arqueológica. Por aí ganhamos um primeiro elemento de definição de uma verdadeira tradição: tradição é escolha. a tradição subconsciente das lembranças populares. entre as quais é preciso escolher.num quadro vivo do passado: unicamente quando esse passado se foi para sempre. como na Alemanha depois de Nietzsche. Primitivamente. O que une as duas espécies de tradicionalistas é que eles não são exigentes. Porque a escolha das tradições do passado determina o futuro.sob a mão de um grande artista. a tradição era "o que não está escrito". de um Gilberto Freyre . porque se perderam todas as tradições.194 encontra-se nos amadores entusiásticos das tradições moribundas.

" Lenin critica. No volume XVII das Obras de Lenin. Houve. e acrescenta: "O marxismo é o resultado de três produções da burguesia: a filosofia alemã. O que é bom o foi eternamente. Assim. em vez de Deus. revoluções de tradicionalistas. no futuro. a Inglaterra."não poderia sobreviver ao capitalismo." Vê-se que Lenin escolheu cuidadosamente sua tradição. a economia política dos ingleses. que esmaga todas as continuidades. Digo-o para poder melhor definir a "continuidade" e salvá-la do monopólio de um programa . os "radicalismos ridículos" dos artistas revolucionários. O verdadeiro inimigo da tradição é a anarquia espiritual. "A civilização" . para defender-se de inovações. a continuidade da civilização. e o país mais tradicionalista.diz ele . Lenin é tradicionalista. como eles. Contra essa blasfêmia revolucionária o grande romântico e conservador alemão Achim von Arnin lançou. no seu romance A condessa Dolores. e a tradição e a contra-revolução não são a mesma coisa. a sucessão apostólica dos seus bispos. Isso significaria colocar-se a si mesmo na origem das coisas. Não se "cria" uma tradição por si só." Continuidade é a primeira e a última palavra dos Bonald e dos Adam Müller. chamadas contra-revolucionárias." Com isso a tradição parece essencialmente contrarevolucionária. Ainda uma vez a Igreja Romana nos instrui: ela reúne a autenticidade das suas tradições a uma continuidade. porém. e o materialismo francês do século XVIII. conhece apenas revoluções tradicionalistas.tradição artificial dos velhos germanos. e o fez para guardar uma continuidade. lembro-me de ter lido: "A cultura proletária não deve ser outra coisa senão a evolução sistemática dos tesouros que a humanidade conquistou sob o jugo dos capitalistas. zombeteiramente. que não está ligada por nenhuma continuidade aos alemães modernos. a magnífica apóstrofe: "Maldito seja aquele que começa por si mesmo! Somente a infâmia começa por si mesma um novo mundo. Mas a continuidade é essencial à tradição: o segundo elemento da definição. muitas vezes. Não o digo por prazer do paradoxo. que a criou. sem uma revolução que destruísse e preservasse ao mesmo tempo: a revolução social é necessária para realizar.

aqueles revelam a durabilidade em todas as coisas movimentadas. Essa nova definição fornece um elemento positivo e um elemento negativo. . Tradicionalismo não é um programa político. O verdadeiro tradicionalista . aí. é coisa diversa da "evolução" dos liberais: estes revelam o movimento em todas as coisas duráveis. ele sublinha sempre o "tornar-se" orgânico. mecanizado. Há somente um mestre: a Ordem dos Jesuítas. porque é um cerimonial. Falo da pedagogia. O tradicionalismo dos Burke. Trata-se de um problema grave: como conservar a continuidade do mundo? Questão de tática. Visivelmente. e incuti-las por uma disciplina que é um cerimonial. Essa disciplina. a verdadeira grandeza dos jesuítas reside nos princípios da sua pedagogia.Lenin o é só pela metade . em movimentos precipitados. subtraídas a qualquer discussão. se a "durabilidade" e a continuidade histórica não reagissem. A liberdade civil inglesa é também uma tradição em continuidade.é seriamente preocupado com angústias religiosas. às gerações do futuro. Não se trata de revolução ou de contra-revolução. continuado. o que representa a pedagogia nas regiões do espírito. Naturalmente não falo da pedagogia escolar. por assim dizer. A tática representa. Sem dúvida. dos Savigny não é estático. As grandes contradições políticas e ideológicas desaparecem. que quisera ver a continuidade dos seus progressos materiais garantida pelas tradições que ele secretamente desdenha. assunto de extraordinária importância e por aí muito pouco estudado. pela continuidade. Ele treme pela existência do mundo. dos povos. o mundo destruir-se-ia por si mesmo. O elemento negativo ensina-nos que o tradicionalismo não é um programa político. Ao ver dos tradicionalistas. maior. Estamos sempre na iminência de cair no abismo. mais ou menos. Essa função de transmissão revela o caráter pedagógico da tradição.político. nas relações materiais dos homens. A tradição guarda as experiências do passado e transmite-as. que assim poderia ser resumida: apresentar aos alunos noções fixadas. muitas vezes inconsciente. O contrário do bem-pensante burguês.

Mas ele não tem razão. O cerimonial é a disciplina pedagógica da "continuidade" tradicionalista. Não importa. Há dias. Parece contrária ao que procuramos? Não devemos esquecer que procuramos "a faculdade crítica de distinguir. com a sua duração obscura. que adormecem nosso espírito. invariáveis. O cerimonial dá-nos a disciplina para suportar o olhar das "noções fixadas". subtraídas a toda crítica. o que não é uma distinção muito sutil. a civilização proletária à maneira de Lenin constituem conjuntos semelhantes de idéias de valor indiscutível. A tela. Esse ponto de vista não é. Eis o elemento positivo da definição que a noção de "continuidade" nos forneceu: todo tradicionalismo. o cerimonial religioso sobretudo. com os seus movimentos instáveis. Vivemos. Essa atitude anticrítica em relação ao passado é característica dos tradicionalismos. hoje vê-se em Roma uma outra casa onde pretendem que eu teria habitado. pragmatista. lia nas Conversações com Goethe. da durabilidade. não tem relações com o dinamismo . Cada um de nós tem necessidade de certas cerimônias muito pessoais para poder adormecer. mais alta e mais solene. de modo algum. a civilização medieval dos românticos cristãos. O cerimonial do adormecimento. encerra a vida cotidiana e banal pela vida. o que está na base da verdadeira civilização". dentro de cerimônias. é idealista. antes. a opereta.preocupou seriamente o espírito atormentado de Pascal. Essa comunidade de vistas idealista é independente de todos os programas políticos ou espirituais: a civilização antiga dos hu[C1]manistas. das "idéias". de noite. Mas aquela atitude é verdadeiramente anticrítica? Ela me parece. acrítica. ao contrário do progressismo. platônico. tradição eterna do mau gosto. a literatura fácil. Os jesuítas e os humanistas aliaram-se pela fé comum nas idéias duráveis. Todo o cerimonial. o rádio. dos dogmas. representa mais do que caprichos individuais: é a ligação entre o dia. do velho Eckermann: "Em Roma hospedei-me numa casa perto da Piazza del Popolo. todos nós. aplicam o cerimonial de seus estereótipos. Eis por que os jesuítas são humanistas convictos. porém. e a noite. é preciso deixar seguir as tradições" (8 de abril de 1829). Todo tradicionalismo crê em idéias invariáveis.

O caminho de volta. porque estão indestrutivelmente consagradas pelo tempo. pela durabilidade. pela continuidade. dizia alguém a Machado de Assis. Ele nos leva à veneração respeitosa do que é. do que se formou no seio da durabilidade. o grande arquiteto vienense. A profunda ignorância filosófica do seu tempo impediu-o de reconhecer a origem dessa catástrofe na falsa interpretação da evolução hegeliana em sentido darwinista e materialista. tudo o que é velho é belo. Eis uma profissão de fé bem tradicionalista. Dizia a verdade que os grandes mestres do positivismo alemão não viam: a civilização acha-se à beira do abismo niilista.dizia Loos . "Que casas feias!". Os antigos têm sempre razão. ninguém lamenta mais os malentendidos brutais que o transformam. Tudo quanto é moderno não vale nada. Nietzsche é um poeta-profeta. Muito ao contrário." Porque o tempo esquece o feio. porque o tempo as poupou. E isso vale também quanto ao verdadeiro. em profeta do pangermanismo ou apologista de um ateísmo especificamente alemão. Mas a "evolução" de Hegel não é outra coisa senão a "durabilidade" de Goethe. destruindo as falhadas."Feias! Mas são velhas!" Essas casas não podem ser feias. A tradição não tem necessidade de justificar-se perante nós. É quase . que respondeu: . de Nietzsche."dizem-nos mais que as novas mentiras. esquece o feio e só conserva o belo. O tempo. Todo platonismo é de ordem estética. que não põe mais em discussão as "idéias". que só deixa subsistir as coisas bem realizadas." Alain explicaria isso pela função exterminadora do tempo. seu mestre Schopenhauer barrou-lhe o caminho de volta a Hegel. O tradicionalismo é platônico. paradoxalmente anti-histórico por definição. é um verdadeiro caminho de salvação. a Goethe. mas a mentira é esquecida por si mesma. Permitam-me pequena digressão. Ninguém admira Nietzsche mais do que eu. na consciência dos semiletrados. "As velhas verdades" .artificial de Nietzsche. Meu amigo Adolf Loos. através de Hegel. Assim. nós é que temos necessidade de justificar-nos perante a tradição. gostava de dizer: "Tudo o que é moderno é feio. a pequena digressão conduziu-nos a um acriticismo consciente.

A tradição é.Sois dignos de nós. Longe de nós o academicismo insuportável.ridículo criticar uma tradição. É uma insolência crítica exigir que os antigos. que nos ensina a guardar a continuidade em relação às experiências do passado. passivista. mas para sublinhar o elemento ativo. Mas o que existe de . e a escolher as experiências que nos servem para reconhecer o durável dentro do instável em nosso curto momento de vida. fatalista. rancorosos. portanto. É muito mais razoável exigir que nós nos confirmemos perante elas. e que prevalece na função escolhedora.Assim fala o tradicionalista." Não cito isso para lembrar o elemento disciplinar. certamente sem ele o saber. nós nos abandonaríamos ao falso tradicionalismo dos "homens de ontem". os vossos antepassados? Sois dignos? . e "tudo quanto existe tem a sua razão de ser". Sem essa "escolha". as tradições se confirmem perante nós. Ouso dizer: reconhecem-se as falsas tradições pela sua essência determinista. Longe de mim fechar os olhos ante as verdades que existem em todo erro: há uma grande verdade histórica no marxismo. os velhos. uma tática pedagógica. Essa "escolha" é de suprema importância. A verdadeira tradição é sempre ativa. que é a essência do humanismo: . e esse exame do moderno em face do eterno revela a função pedagógica da tradição. Nesta exigência reside a razão de ser de todo humanismo. Ele nos examina. amadores do "que já foi antigamente e para onde é preciso voltar". que dirigem a todas as épocas e a todo homem consciente esta pergunta. A frase citada de Goethe é bem hegeliana. como se a morte fosse um convite para a vida. dirigido para a vida. retardatários. A esse "tradicionalismo arqueológico" nos contrapomos com a frase de Barrès: "Encontrei uma disciplina nos cemitérios. Mas foram as primeiras verdades e as primeiras belezas bem-sucedidas que uma tradição contínua nos transmitiu. pedagógico. e as suas belezas não eram insuperáveis. porque ela existe. As verdades da Antiguidade greco-romana não eram verdades eternas. e há mesmo uma verdade antropológica incontestável no racismo. e isto as erige em instâncias duráveis. há uma grande verdade humana na psicanálise. da tradição.

mas para os antiprogressistas o termo significa a luz longínqua de um passado melhor e que talvez esteja destinado a iluminar um melhor futuro. Os critérios se perdem. do bem ou do mal. os homens começam por si mesmos."a infâmia que começa por si mesma um novo mundo. E essa tentativa é característica das falsas tradições. A tradição só existe na consciência humana. cuja putrefação envenena ainda a saúde magnífica dos tempos modernos. do destino subconsciente.essencial nessas grandes heresias do nosso tempo é o passivismo fatalista que lhes é comum: a convicção da inevitabilidade do destino econômico. artificialmente cortada das experiências da verdadeira tradição. O falso tradicionalismo tenta sempre suplantar a consciência humana por uma escolha. para nos deixar viver dentro de uma cega fatalidade. Os seus feitos "desafiam toda a experiência". Então. Para todos os progressistas ele significa o fantasma das sobrevivências feudais e clericais. feita uma vez por todas. Somente a consciência humana possui a liberdade de escolher. degenera em opressão inquisitorial. com o espírito. A consciência humana." MEDIEVALISMO DEPOIS DA famosa disputa entre o ex-jesuíta "modernista" George Tyrrell e o cardeal Mercier. E. Não é por um acaso que essas "escolas" tendem a estabelecer Inquisições mais "ortodoxas" e mais intolerantes do que qualquer Inquisição que tenha tentado suplantar a consciência humana. sucumbe. do destino racial. "Maldita seja" . morre a faculdade crítica pela qual julgamos o caos e "chamamos as coisas pelos nomes" a fim de as reconhecer. o termo "medievalismo" tornouse conhecido. Não há mais compreensão do verdadeiro ou do falso. Não há muito tempo que Nicolai Berdiaev lançou a idéia de Uma . uma liberdade sem a qual todo tradicionalismo.diz Arnim . O que é bom o foi eternamente. romântico ou leninista. É a morte do espírito. o que é indispensável ao verdadeiro tradicionalismo. encerrada num "modernismo" individualista ou coletivista.

hoje. A concepção histórica trinária é de origem estética e surgiu depois que os artistas começaram a escrever para justificar. a grandeza decaída de Roma. É preciso restituir o verdadeiro sentido às palavras. porque as decisões incontestáveis do cristianismo excluíam uma terceira época histórica. já que os contornos de um novo feudalismo e o clericalismo de uma nova religião apareciam no horizonte rubro. sem possibilidade de retornar.nova Idade Média. A consciência histórica dos pensadores medievais conhece apenas duas eras: a era pagã e a era cristã. A idéia de uma era "média" está excluída. continua fiel a esta concepção histórica. um termo filosófico e político. A veracidade não presidiu à formação do termo "Idade Média". Mesmo um "oposicionista". os primeiros "humanistas" que se apoderam avidamente desta concepção para combater os monges "bárbaros" das velhas universidades. nos seus Commentari.os "tempos modernos" são a continuação legítima da Antiguidade e a Idade Média é um intervalo obscuro.. Nesta concepção trinária . A oposição humanística contra a escolástica é muito menos uma oposição filosófica do que uma . é um esquematismo dos retóricos. como teve ocasião de assinalar o P. que se queixa da barbaria da sua época. Tempos Modernos . Ontem. para os quais uma expressão lapidar valia mais do que a verdade. Idade Média. A noção de sucessivas "Renascenças" medievais precisa duma retificação. binária. Os protagonistas da concepção trinária são o escultor Lorenzo Ghiberti.Antiguidade. em elegias de uma perfeita latinidade. e Leone Battista Alberti. P. Mandonnet O. mas não lhe passa pelo espírito a idéia de que essa grande era passada possa voltar. uma esperança e uma ameaça. em virtude da força luminosa da Cruz. pela evocação da Antiguidade. A nitidez e a sinceridade das concepções constituem hoje o primeiro dever. a noite do paganismo passou. no qual a verdadeira arte estava perdida. maltratadas por paixões ou por falta de veracidade. como John of Salisbury. São os lettrés. uma arte totalmente nova. Um monge pré-humanista como Hildeberto de Lavardin lastima.

Burke é o mestre de todos os teóricos contra-revolucionários. A Revolução Francesa é a última conseqüência da concepção de uma "Idade Média obscura". já fraco. a idéia antimedieval tornou à sua origem: a retórica. O próprio Lutero. A "lei dos três estados" de Augusto Comte é o último eco. Os novos discípulos de Cícero revoltam-se contra os filhos de São Francisco e São Domingos. Em Hutten ou em Erasmo. os criadores da forma moderna do "direito natural". lançou vigorosamente este grito "modernista". e o que Hutten censura violentamente aos monges. Chateaubriand descobre o gênio do Cristianismo na catedral gótica. dessas concepções. inventor de um verdadeiro arsenal de injúrias furiosas contra os "séculos obscuros". procedente da seita deísta dos Collegiantes. a concepção trinária tem ainda uma base cristã: eles saúdam a renascença do cristianismo. cujos restos impedem ainda o advento da nova época burguesa. O Romantismo é contrarevolucionário e ao mesmo tempo medievalista. O livre-pensador Bolingbroke também contribui para este mesmo sentido. de Joseph de Maistre a Haller. "medievalista" por excelência. até mesmo na glorificação da Idade . Edmund Burke descobre a origem medieval da Constituição inglesa. Isto continua até às primeiras luzes do século XVII. A idéia de um progresso político paralelo a um progresso cultural firmou-se. começa por Giordano Bruno. "séculos obscuros". A secularização da concepção trinária. combatem a Idade Média como época de feudalismo. e o historiador William Robertson fala em "Dark Ages". sua transformação em instrumento anticristão. é o seu latim bárbaro. Assim. O professor holandês Horn. Ao mesmo tempo. porque a idéia antimedieval já havia encontrado uma expressão muito mais forte na retórica dos revolucionários de 1789 e dos Convencionais. que estava obscurecido pela mentalidade dos papas medievais. A revisão histórica deste erro e a reação política são a mesma coisa. aos viri obscuri. Sua expressão torna-se definitiva. fraco. Grotius e Pufendorf.oposição gramatical e estilística. Enfim. é o inventor da expressão "Idade Média" com sentido pejorativo. o termo recebe uma significação política.

Os séculos proclamam que este monge matou o humanismo."195 Lêem-se estas . idéia especificamente barroca. de Viena. cita-se a sua carta ao arcebispo Leandro de Sevilha. da verdade histórica sobretudo. Não ajudou a Cassiodoro. Mas Gregório. que se fechava com os tesouros de seus livros no mosteiro Vivarium. principalmente por esta grande figura a que Fedor Schneider chamou "o simplista sobre o trono papal": Gregório. divitiae omnes ac ordinis splendor constansque stabilitas. o Grande.Média feudal por Carlyle. Mas é preciso conhecer a literatura que o grande papa condena. Tornar-se-á possível a combinação de Joseph De Maistre com Augusto Comte: eis Charles Maurras. Este simplismo vingar-se-á. desviou a morte que ameaçava o espírito ocidental . porém. onde ele condena severamente os estudos de gramática e de literatura.a mesma a que sucumbiria o mundo bizantino pelas suas virtudes sóbrias e práticas de um último romano. Idade Média obscura. Para a destruição desses dois simplismos apostos. que escrevia um latim impecável. Como prova. Ele. o Grande. propagada entre os cristãos ocidentais. A ideologia contra-revolucionária sucumbe à retórica revolucionária e ao seu esquema trinário. Restauração luminosa". Gregório. comecemos pela destruição do pretendido simplismo medieval. O simplismo é o inimigo da verdade. instituiu fundamentos materiais sobre os quais a Ordem de São Bento pôde construir os seus castelos de espírito. Assim eles se contentam com substituir a concepção antimedievalista do barroco por uma concepção de sucessão. Tempos Modernos luminosos" eles opõem a trindade: "Idade Média luminosa. Tempos modernos corrompidos. em que proíbe ao clero os estudos literários. última degeneração da retórica pagã. e outra ao bispo Didier. "Ex scholis omnis nostra salus. Certamente. o Grande. enquanto o cristianismo oriental acabava de petrificar-se nos últimos formalismos gregos. Mas eles sucumbem logo a uma confusão funesta: Haller reivindica para a Idade Média a idéia de um "Estado paternal". De Maistre não distingue bastante o ancien régime de Luís IX do ancien régime de Luís XIV. À trindade "Antiguidade luminosa. não serviu a este pretenso humanismo. omnis felicitas.

o que fez um Gourmont confessar: "É necessário rever a nossa concepção sobre a Idade Média. ad. Acta Sanct. P.obrigou um papa desconcertado a calar-se (P. Histoire de la littérature chrétienne médiévale). N. La renaissance du XIIme. do latim.. citadas. natural num clero monacal. E a liberdade? Não se deve pôr em dúvida que a liberdade de pensar . cuja linguagem singular. a liberdade de falar . 152). Vita S.palavras beneditinas."foetor infernalium vitiorum in Romana curia"196 . violenta . e os tempos modernos mal têm conhecido a liberdade ilimitada do ensino e a comunhão internacional dos espíritos nacionais que distinguiram a Universidade medieval. Raimundus Capuanus O. 891. Otava. Thonnard: "Dois princípios dominavam a organização da Universidade medieval: a Liberdade e o Internacionalismo" (Histoire de la philosophie. p. Durante 800 anos. Mas o . 1934) ou o repertório dos estudos latinos de Vincent de Beauvais (em Alex.. lembro Santa Catarina de Siena. apoiado na autoridade do maior Pai da Igreja. d'Études Médiév. Para conhecer a universalidade dos seus interesses espirituais. Cath.. porque o Roman de la Rose foi o livro mais lido durante três séculos". Falemos na vitória dessa liberdade medieval: Santo Tomás de Aquino. Baumgarten S. com os seus ataques vigorosos ao clero e à aristocracia. 1937. La vie scolaire du Moyen-Age. Inst. 30 Apr. 306). num pólo oposto. Não se duvidará mais das palavras do P. A Universidade é uma criação da Idade Média. devem-se ler os recentes estudos sobre a escola de Chartre (Paré.. sobretudo.. o dogma da Igreja baseara-se no agostinismo neoplatônico. Isso possibilitou a extraordinária licenciosidade do Roman de la Rose. simples religiosa. Siècle. Sien. Strunz. Cumpre acrescentar o desinteresse científico. 1923). no estudo em que Franz Strunz descreveu as origens monásticas da Universidade (F.e. e. Na Idade Média não se tinha ainda que recear o espírito sectário. ao mesmo tempo que a ciência se nacionaliza pela perda da língua internacional. Brunet et Treblay.era muito mais ampla na Idade Média do que mais tarde. A concepção "Idade Média" em sentido pejorativo coincide como advento do espírito utilitário e dos dogmas barrocos contra a velha Universidade. J.

Aí o liberalismo e a Idade Média se juntam contra um inimigo comum: o barroco. Sua liberdade só foi destruída pelo mercantilismo barroco. 1920. O mercantilismo estabeleceu barreiras alfandegárias que também só foram destruídas pelo liberalismo. 1933) sabemos que era uma economia internacional e livre. Imaginai. Entretanto. estabilizado. p. é uma época de lutas de classes" . art. O cônego Wilhelm Schwer (Corporations et organisations corporatives du Moyen-Age. com os seus organismos corporativos de todas as profissões.). descuidamo-nos do seu dinamismo. Já insistimos demais sobre os elementos estáticos da organização medieval. Les anciennes démocraties des Pays-Bas. "Toda a segunda metade da Idade Média. 1934) demonstrou que as corporações medievais não tinham as suas . eram lutas entre operários e patrões (Inama-Sternegg. hoje. Na verdade. É com certa surpresa que vemos envolvidas na política corporações julgadas inteiramente econômicas. Ela nos foi descrita como um sistema fechado. 872). Na época dos sistemas fechados.disse o economista conservador Gustav Schmoller (Précis de l'économie politique. porém. descreveramnos o corporativismo medieval como instrumento eficaz para extinguir a luta de classes. p. gostaria de falar da economia medieval. essa luta não era para abolir esses privilégios. vol. um professor de seminário que abandonasse o tomismo para basear o dogma em Kant ou Hegel! E sabereis o que perdíamos. teológicos e filosóficos. Seduzidos pelas mesmas incompreensões. do barroco. supl. II. 197 ff. Dictionnaire des sciences politiques. Mas antes de tudo havia a luta de classe dos artífices e comerciantes contra a nobreza privilegiada. Como as modernas lutas de classes. Muito ao contrário: o corporativismo medieval era um instrumento para a luta de classes. "Corporation".monge Tomás ousa abandonar estes conceitos sagrados para basear o dogma da autoridade no filósofo pagão Aristóteles. Insistindo ainda neste ponto de liberdade. I. este mesmo Aristóteles que todas as instâncias da autoridade eclesiástica tinham recentemente condenado. e sim para obter privilégios iguais (Henri Pirenne. 447). isto seria impossível. Mas desde Fritz Roerig (Le Commerce international du Moyen-Age. p.

Ortega y Gasset chega mesmo a falar em "Direitos do homem" da Idade Média. o corporativismo moderno não tem nenhum modelo medieval. logo na primeira página da sua Storia di liberalismo nell'Europa (1925.origens em corporações profissionais. 1-7). Ainda uma vez o liberalismo e a Idade Média se encontram. e seria irrealizável sem essa condição. O corporativismo moderno tem necessidade de um Estado forte. Às corporações da nobreza e do clero ajuntam-se. verdadeira antítese do Estado medieval. e opõem-se mais tarde. tendo o barroco por inimigo comum. não nos será difícil descobrir o seu adepto mais fervoroso: a Igreja. Se nos foi permitido falar. Afinal. mas profundamente liberal. prolongamento do sistema feudal e conseqüência de um Estado muito fraco. mas os privilégios feudais e as instituições do liberalismo inglês tiveram as suas origens comuns no direito germânico. Sem dúvida. Não é por acaso que o liberalismo dos "Direitos do homem" se revolta contra o absolutismo barroco. a origem feudal da "Liberdade" e a sua prioridade cronológica em relação ao Estado absolutista do barroco. incapaz de pôr freio às usurpações dos privilegiados. da sociedade medieval: os senhores feudais colocam os seus direitos pessoais acima da lei do Estado. o corporativismo medieval é um fenômeno de degeneração do feudalismo. pp. o que torna muito limitados os poderes do Estado em relação aos direitos individuais. Mesmo sem querer subscrever todas as . os seus modelos são muito mais recentes. as corporações urbanas. Nos séculos XIV e XV os Estados se dissolviam por movimentos anárquicos das corporações. Esta diferença é particularmente visível nas relações entre as corporações e o Estado. com as necessárias reservas. t. V) Ortega y Gasset assinala o caráter antidemocrático. As corporações medievais reclamam com arrogância o direito de resistência contra o Estado. No seu admirável ensaio sobre os castelos de Castela197 (El Espectador. e sim em corporações políticas. pois o Estado medieval era muito fraco. Eis por que Guido De Ruggiero assinala. num "liberalismo medieval". seria excessivo falar num "liberalismo medieval".

não são bastante precisas. e desde então. nos seus estudos sobre Petrarca. Como era e é admissível este erro? Fez-se da Idade Média um pretexto para polêmicas apaixonadas. a definição de uma época histórica é difícil. um papel revolucionário. que a Renascença não começou com . a descoberta da América. 1492. considerada como o seu começo. a Igreja teve outros aliados. com argumentos convincentes. e. definitivamente. 1931). por fim. A Igreja foi muitas vezes vencida. Desde as estipulações de Worms. sim. A própria "invasão dos bárbaros". provou. e. Desde os estudos de Alphons Dopsch (A transição da Antiguidade para os tempos modernos. a queda de Constantinopla. A luta durou todos os séculos da Idade Média. cada derrota da Igreja é confirmada por um tratado chamado Concordata com o Estado vencedor. desempenhou. atributos da Idade Média. a Igreja como base espiritual da Ordem estabelecida. Depois. sabemos que não há interrupções definitivas entre as épocas. sim. não são. o Estado absolutista do barroco chegou a modificar essas relações. porque a Idade Média não tem fronteiras bem determinadas. Konrad Burdach. Cola di Rienzo e o anônimo Lavrador de Boêmia. 1517. 1921). surpreendentemente. em vez de defini-la sinceramente. mesmo para os compêndios escolares. em 1122.afirmações do historiador protestante Eugen Rosenstock (Les révolutions européennes. os sistemas filosóficos rigorosamente fechados. e a da Idade Média o é extraordinariamente. não tem uma cronologia definida. Concordata já não significa uma derrota. aliada às forças revolucionárias da pequena nobreza e das cidades. porém. pelo menos desde Gregório VII. o Estado paternal e forte. uma vitória! Apenas as derrotas eram menos duvidosas do que as vitórias. A conclusão já está tirada. Entretanto. O que se odeia ou admira na Idade Média. Sem dúvida.1453. a Reforma Luterana . As velhas datas que marcam o seu fim . Para refutar as censuras perversas e ridículas de "espírito dominador clerical" seria melhor admitir francamente esta oposição revolucionária da Igreja medieval aos poderes monárquicos.198 não se poderá negar que a Igreja. do barroco. e.

. de uma juventude cheia de promessas. Não há fronteiras da Idade Média. Idade Média é um destino. não será. As "Idades Médias" repetem-se sempre. 1932) encontra o espírito medieval e cristão em toda parte. Uma nova Idade Média seria obra de outros bárbaros. para se encontrar a sua verdadeira origem. que surgiam da escória de civilizações muito velhas: "monstrum horrendum. Mas. II) estabeleceu a lei histórica segundo a qual toda civilização passa por uma "Idade Média". um monstro sobre o qual. Deutsche Vierteljahrsschrift fuer Geistesgeschichte. nenhuma luz poderia brilhar. 124) persegue o espírito medieval até o começo do barroco. uma nova Idade Média pode ressurgir. e que. por definição. senão que ela não se parecerá. Realmente. em pleno movimento do Renascimento. p. por outro lado. pois que uma luz divina brilhava sobre o mundo. Quando uma era da história termina. com a velha. Atualmente uma era da história está chegando ao fim. para nós outros. cuja vitalidade abundante podia ser dominada. A "velha Idade Média" era obra de jovens bárbaros. t. Não há mais uma definição. Ernst Walser (Estudos sobre a história espiritual da Renascença. Bárbaros sem luz. nem admitir. Uma nova Idade Média justificaria talvez ainda as angústias progressistas. Mas não se parecerá com as Idades Médias que a antecederam. Não se pode subscrever. os "bárbaros verticais" de Rathenau. Mas desta "nova Idade Média" nada sabemos. absolutamente. XII. a Idade Média não é uma época histórica determinada. nem uma esperança nem uma ameaça. que os últimos servidores da luz estejam na obrigação de aliar-se a esta nova era. cumpre remontar até o século de São Francisco de Assis. mas não as esperanças tradicionalistas.os humanistas nem com Petrarca. Idade Média é uma certa disposição e atitude do espírito. Os admiráveis estudos de Jan Huizinga sobre o Outono da Idade Média na Borgonha quatrocentista marcam o fim definitivo da velha cronologia. Se uma nova Idade Média nos atingir. Eduard Meyer (Histoire de l'Antiquité. Elas não representam nem infernos nem paraísos. cui lumen ademptum". e Carl Neumann ("Fim da Idade Média".

" No meio do pátio. A decepção foi muito grande. A última vez que passei perto deste "templo das Musas". tendo nos lábios o sorriso enigmático da morte. Sabia muito bem o que isso significava para mim: um adeus para sempre.Se houver. E reconheci um fim definitivo. "uma" Idade Média. o edifício estava fechado. e no busto de um astrônomo: "O princípio que traz o seu nome ilumina-nos os espaços celestes. os estudantes haviam-se juntado a uma imensa manifestação popular. e que se chamavam "acadêmicos". e a deusa nua. O abismo entre o progresso material e a cultura . o jardim. exames fáceis e fraudulentos. senão moribundas. O fim das universidades seria um fim definitivo. brutalidades de bandos que gritavam os imbecis slogans políticos do dia. Não esquecerei nunca. Nesta partícula "uma" fica toda a incerteza do nosso futuro. e.via sob a luz branda do sol os pórticos. Os iniciados bem sabem que não é esta uma questão para os pedagogos especializados. Silêncio. no solene recinto da Universidade da minha cidade natal. Nas paredes viam-se os bustos dos professores que ali estudaram e ensinaram. erguia-se uma estátua de mulher nua. sim. sob o ameno sol de outono. uma nova Idade Média. Das universidades depende a vida espiritual das nações. Via a biblioteca coberta de poeira. estupidez e cinismo em cima e em baixo das cadeiras dos professores. as universidades são doentes. os auditórios barulhentos. com toda a ingenuidade dos meus dezoito anos. as velhas pedras. A IDÉIA DA UNIVERSIDADE E AS IDÉIAS DAS CLASSES MÉDIAS JAMAIS esquecerei o dia em que entrei pela primeira vez. num pequeno jardim. com olhos enigmáticos: a deusa da sabedoria. e isto é grande coisa. no busto de um helenista lia-se a inscrição: "Ele acendeu e transmitiu a flâmula sagrada". pois.estávamos na primavera . não será mais "a" Idade Média. Um pórtico silencioso. Olhando pelas frestas das portas monumentais . Por toda parte.

e as armas desse progresso nas mãos dos bárbaros é fato que clama aos céus." Aí está a questão da Universidade. e acusa-se o Estado por não se intrometer. Pode ser que todas essas instituições lamentem. Então. assim. de que a nação tem necessidade. e o ensino entregue à rotina. e acusam-se os professores por mergulharem na ciência pura sem saberem ensinar. Aqui. mas o edifício do espírito. Falham. os mesmos bacharéis.espiritual aumenta de dia para dia. Hoje em dia Herbert George Wells pode dizer: "We are entered in a race between education and catastrophe. esta catedral invisível. dos partidos e das empresas comerciais. um proletariado intelectual. Em tempos mais felizes a sueca Ellen Key dizia com sutileza: "Cultura é o que nos resta depois de termos esquecido tudo quanto aprendemos. e neles trabalha-se muito. os mesmos doutores que antes. "úteis" para os serviços do Estado. em breve. ali. está ameaçado de cair em ruínas. Os edifícios das universidades resistem ainda. é inadmissível simplificar uma discussão de tal envergadura. igualmente. Quem é o culpado? Evidentemente. acusar-se-á amargamente o utilitarismo das . mas dar ao estudante capacidade para escolher a sua convicção. o que agravaria o problema em vez de o resolver: a ciência seria. Acusam-se os professores por mergulharem nos ensinos profissionais e descuidarem-se da ciência desinteressada. demais. Porque não cabe à Universidade formar crentes nem sequer sugerir convicções." E. Abundam os remédios propostos. as tentativas mais bem pensadas de curar a doença infundindo uma nova crença ou uma velha fé: teremos os mesmos estudantes. afastada da vida. da Igreja. a abundância de homens convictos e a falta de homens livres. muito "práticos". Acusa-se o Estado por ter-se intrometido. queixam-se de que as universidades fornecem elites demais. às vezes. Já abundam os homens cegamente convictos. somos riquíssimos de saber e mendigos de cultura. deste modo." "Entramos numa corrida entre educação e catástrofe. e as suas boas crenças não resolverão a doença da Universidade. Desejam salvar as universidades pela separação entre as instituições puramente científicas e os institutos de ensino. queixam-se de as universidades não fornecerem elites.

Apelo desta sentença para a sabedoria de certos homens práticos. que disso entendem muito bem. Ora. Certos regimes. e que se juntaram mais tarde à Universidade. que as abraçam até sufocá-las. Mas as ciências totalmente inúteis. Sabemos que a Universidade. são as ciências úteis. são justamente as favoritas dos regimes totalitários. que a Idade Média conhecia pouco. é sempre Oxford e Cambridge. e que formam a verdadeira alma da Universidade. A França medieval é a Sorbonne. Está claro. a história. Foram justamente estas Litterae que formaram os caracteres das nações. Ora. e cujo prolongamento moderno é a École Normale Supérieure. ditos totalitários. que continuam bem tranqüilas. é uma criação da Idade Média. cujo enfraquecimento coincide com a fundação renascentista do Collège de France. É digno de nota. com as ciências "práticas". ao qual julgo que devemos algumas perspectivas novas. A Inglaterra. com surpresa? Estes regimes não se ocupam. a física e a química. Para a mentalidade média do nosso tempo a utilidade das ciências é determinada segundo as aplicações práticas: a física e a química. Eles sabem o que é uma universidade. são ciências "inúteis". e aquele que desejar transformar uma nação deverá transformá-las integralmente. que vemos nós. que nos forneceram a luz elétrica e os gases asfixiantes. que não nos fornecem nada. A história das universidades é a história espiritual das nações. a história e a filosofia. cujas conseqüências práticas poderiam abalar estes regimes. das Litterae. Universitas Litterarum. Por felicidade os poderosos deste mundo introduziram um novo ponto de vista. os estudos literários. os ditos regimes não se ocupam com as ciências naturais. Mas o que quer dizer "prático". Mas o que é ainda mais notável é uma certa coincidência. O utilitarismo é o inimigo mortal da Universidade. que na Idade Média já eram conhecidas. a filosofia. A Alemanha luterana .universidades modernas. acharam indispensável regular pela força o estudo das ciências. "útil"? A resposta não é tão simples. mais conservadora. absolutamente. Tratam somente das "velhas" ciências.

("Depois que Deus nos tinha seguramente conduzido a Nova-Inglaterra. a de Harvard: "After God had carried us safe to New England. convém que nossos vassalos. admirável. fundamos e constituímos na cidade de Lima dos reinos do Peru. mas foram. Córdova são fundações da Coroa de Espanha. uma das nossas primeiras ocupações foi estimular o ensino e perpetuá-lo para a posteridade. As velhas universidades da América Latina . nos tempos modernos. a primeira universidade da América inglesa. confiadas aos frades. de 21 de setembro de 1551. formam o tipo ideal da nação: o lettré. com receio de deixar às igrejas um clero iletrado quando os nossos clérigos atuais jazerem em pó.") . e ao bem público de nossos reinos. As velhas universidades são de utilidade muito reduzida. México. o clero das universidades medievais. when our present Ministers shall lie in the dust" (New England's First Fruits.Lima. e pelo muito amor e vontade que temos de honrar e favorecer aos de Nossas Índias. o espírito desinteressado da Universidade medieval: "Para servir a Deus. em 1636. Elas formam os homens que substituem. a Alemanha moderna é Bonn e Berlim. o Gebildeter. As universidades americanas têm a mesma origem." Nada mais eloqüente. Bogotá. one of the next things we looked after was to advance Learning and perpetuate it to Posterity. e que construímos as nossas casas e estabelecemos um governo civil. e já a primeira cédula de fundação. e desterrar deles as trevas da ignorância. o gentleman. Universidades e Estudos Gerais. súditos e naturais tenham Universidades e Estudos Gerais em que sejam instruídos e titulados em todas as ciências e faculdades. Nosso Senhor. desde o início. Elas formam os clercs. criamos. and we builded our houses and settled the Civil Government. dá claramente a entender o sentimento da responsabilidade perante o espírito. do que semelhantes termos haverem sido empregados quando os puritanos fundaram. 1643). dreading to leave an illiterate Ministery to the Churches. a ordem real do imperador Carlos V. Elas não fornecem homens práticos. e na cidade de México da Nova Espanha.é Wittenberg e Iena.

nem Gebildeter. o nível baixa sensivelmente. muito louvável. e é um romantismo utilitário que vem muni-las das asas do progresso. Ouso responder: os estudantes são os culpados. para subsistir materialmente. só há estudantes. os seus estudos não são de . há muitos deles: vivem embaraçados pela miséria. o que é. advogados. feitos por eles e seus pais para melhorar um futuro incerto e tornar a existência mais digna. por sua vez. porque o pai tem um. professores. Por toda parte onde há aqueles regimes os estudantes estão nas vanguardas da violência. O nível baixa. Seria cruel e estúpido censurá-los. devemos admirá-los. sublinhando que há pobres entre os "ricos" e ricos entre os "pobres". As universidades tornaram-se lugares de investigações científicas. Em todo caso. Os estudantes "pobres" são aqueles que estudam "para a manteiga e para o pão". importa não se dissimularem os graves inconvenientes. nem gentlemen. dizemos. aliás.O que resta destas Universitates Litterarum? O nome. formam médicos. e estas. mas que através dos estudos testemunham grande respeito às ciências. pelas ocupações acessórias para ganhar a vida. porque isto dá certa consideração na sociedade ou para adornar fortuna um pouco recente. em virtude dos sacrifícios. que não têm necessidade de estudar. até o nível dos estudantes "ricos". sobretudo têm pressa de terminar os estudos. Já não formam lettrés. são apenas duas expressões cômodas para abraçar uma generalização inevitável. Não há mais clercs. Entre os estudantes "ricos" existem os pobres que desejam manter penosamente o standard de uma família em decadência. Há duas espécies de estudantes: chamá-las-emos os "ricos" e os "pobres". Todavia. Antes. que os examinadores lhes devem como recompensa dos seus esforços. Em suma. estudam para se assegurarem um melhor sucesso na luta pela vida. muitas vezes imensos. plenamente justificável. precisam deles. Junte-se a isto a benevolência. Estudantes "pobres". São estes os que têm necessidade de um grau acadêmico. Existem outros verdadeiramente ricos. Quem é o culpado? Ainda uma vez apelo para aqueles que disso entendem. Não é um acaso.

bom advogado. Este nuevo bárbaro es principalmente el profesional más sabio que nunca. mesmo acadêmica. o cônego dr. da elite de outrora. Intelectuais são os médicos. arcaico y primitivo en comparación con la terrible actualidad de sus problemas. 72). José Ortega y Gasset caracterizou essa nova espécie de intelectuais. fellow do Ariel College. eles não estudam mais do que o necessário. el abogado.el ingeniero. É o regredir de uma elite à condição de massa ornada de títulos acadêmicos. Sejamos sinceros: podemos ser bom médico. 1289). Há vários séculos um sábio inglês. o resto dos clercs. Mas deve-se dizer que somente uma parte desses "intelectuais" pertence à Inteligência. o indispensável para passar nos exames. A inteligência que é precisa para estudar uma profissão. É preciso que se digam. The Idea of a University. determinam o nível geral. p. el médico. E são eles que. e sabemos que o grau acadêmico nem sequer é sempre a garantia de boas qualidades profissionais. Existe Inteligência e existem "intelectuais". mas sinceramente: "Nuevo bárbaro. pela sua situação social. pero más inculto también . retrasado con respecto a su época.necessidade absoluta. e para isto eles satisfazem. e ter o espírito preso aos limites da profissão. . não é tão grande como os leigos imaginam. mas em compensação fornecem verdadeiras massas. os funcionários superiores de toda espécie. Obras. em Oxford. os especialistas científicos de toda sorte. el científico" (Misión de la Universidad. Mas ele confere sempre uma autoridade social. aqui. que é. algumas verdades muito impopulares e muito desagradáveis. E esse nível é a morte da Universidade. Queixam-se de que as universidades já não fornecem elites. os homens que se encerram nas especializações têm a inteligência em regresso" (citado pelo cardeal Newman. os esforços ulteriores parecem-lhes ridículos. bom professor. p. por seu lado. Sim. os advogados. porque as ciências modernas e suas investigações têm menos necessidade de cérebros que de batalhões de estudantes. violentamente. Copleston. predizia: "Ainda que a ciência seja favorecida por essas concentrações de inteligência a seu serviço.

transformam-se em massas proletárias. apresenta a tese de que o fascismo é a última expressão do grande capitalismo.O fato central da nossa época é a violência generalizada a todos os setores da vida pública. considerando essas multidões de homens . seguindo a corrente da época. mesmo antes de serem proletarizadas.as classes médias. enfim. o bolchevismo criou uma classe média. participam dele todas as "massas". juntos. e a massa dos intelectuais também. Fato fundamental do nosso tempo: o fascismo propaga-se e vence através das classes médias. Dessas massas que os pensadores políticos muitas vezes confundem com o proletariado econômico. Sim. Chama-se "classes médias" o problema central da nossa época. não está exclusivamente ligado às massas obreiras. a liberdade de movimento. de Daniel Guérin. mais forte do que o mestre. nos outros países. não teve uma classe média. essas multidões de "pequenos intelectuais". A burocracia soviética. como fenômenos sociológicos. todos formados num regime de ensino secundário ou superior muito facilitado. Tese errônea. o espírito da reação violenta contra certas condições econômicas e sociais. das quais é a expressão triunfal. O fascismo foi impossível na Rússia. É também um fato fundamental que a Rússia não conheceu. pela ação deste inimigo de ambos . É o fato central da nossa época: as classes médias. Ora. a violência que pretende substituir o espírito no seu papel guiador das massas. Guérin esquece-se de concluir que o instrumento se mostrou. e que os operários e os capitalistas perderam. O livro mais bem documentado que conheço sobre o fascismo. os stakhanovistas e outras camadas privilegiadas do operariado não são outra coisa senão uma nova classe média. mas o espírito proletário. de funcionários públicos. essas massas de homens. de pequenos empresários. E esta proletarização interior é um fenômeno da educação. Provando irrefutavelmente que o grande capital se serviu do fascismo para bater o movimento trabalhista. todos mais ou menos educados. Fascisme et grand capital. que o século XIX ainda não conhecia. a ascensão de camadas igualmente novas. verdadeiros exércitos de empregados privados. Considerando. mesmo justamente para evitar a ameaça da proletarização.

violentamente revolucionária e antiintelectualista. pela qual ele responsabiliza violentamente a Inteligência. E a ideologia que permite explicar o espírito das novas classes médias é a ideologia pequeno-burguesa. Sorel parece sobretudo "moderno". porém. No pensador revolucionário Sorel não se viu o conservador. dos Mallarmé e Claudel. numa das épocas mais magníficas do espírito francês. O mal-entendido correspondente não viu nas novas classes médias as possibilidades revolucionárias. na França dos Taine e Bergson. acabou. Isto. preocupado com a decadência das "autoridades sociais". seja um homem profundamente pequeno-burguês. enfim. Durante um século. o século XIX. É a hostilidade ao espírito que liga Sorel diretamente às novas classes médias. o pai espiritual comum do fascismo e do bolchevismo. ao espírito ele prefere a vitalização pelos instintos bárbaros da massa. a portadora mesma das tradições humanísticas. representante típico das classes médias francesas. o ideólogo da violência. e ela o era enquanto os princípios consolidados da Revolução Francesa abrigavam a classe média contra as ameaças do grande capitalismo e do movimento socialista. Via-se na classe média a classe essencialmente conservadora. Mas é por isso mesmo. dos Rodin e Debussy. preocupado. dos Pasteur e Henri Poincaré. contemporâneo de nós outros. Sorel é violentamente antiintelectualista. deve-se precisar o pensamento: o fascismo e o bolchevismo têm o lado comum de serem expressões das novas classes médias. com a decadência vital da raça latina. o representante das classes médias. Chegou o dia de uma nova classe média. como na Rússia. Vê no espírito e suas obras o grande obstáculo da volta ao primitivo. pronta a vencer por uma nova revolução violenta ou. que Karl Marx não podia prever. que ele concebeu fielmente no espírito conservador de Le Play. Georges Sorel. por isso. Explica-se. Neste ponto. Fica-se a admirar que Sorel fale em decadência. dos Degas e Cézanne.novos. que Georges Sorel. dos Flaubert e Proust. esqueceu-se que a classe média fizera a Grande Revolução. nem capitalistas nem trabalhistas. triunfar contra um .

regime obsoleto. Foi Sorel quem emprestou às novas classes médias a ideologia revolucionária. Poder-se-ia acreditar que os grandes obstáculos dessa revolução fossem os capitalistas e os trabalhadores, ou, na Rússia, um regime milenário e eclesiasticamente consolidado. Engano. Vimos a fraqueza incrível do regime tzarista, a derrota fácil dos socialistas, o suicídio dos capitalistas. O verdadeiro obstáculo - e Sorel o previra bem - era a Inteligência. É ela que merece as diatribes mais cruéis dos chefes e dos caudilhos. Para a vitória final, precisa-se acabar com a Inteligência. Como? Não é a classe média o principal agente dos movimentos espirituais? Sim, é, ou melhor, foi. O século XIX, o século liberal, abre a todos todas as possibilidades. A educação superior é o caminho da ascensão. A preeminência da classe média no século XIX baseia-se na sua cultura universitária. Mas o século XX acaba com isso. O grande capitalismo precisa mais de exércitos de pequenos empregados do que de self-made men; as profissões liberais estão superlotadas; o movimento socialista repele os que resistem à proletarização e suas humilhações e privações. Privada dos privilégios da Inteligência, a classe média quebra furiosamente o instrumento, como uma criança quebra o brinquedo insubmisso. É uma criança essa nova classe média; mas uma criança perigosa, cheia dos ressentimentos dos déclassés, furiosa contra os livros que já não sabe ler e cujas lições já não garantem a ascensão social. Está madura para a violência. A violência é o fenômeno "espiritual" central das novas classes médias e da nossa época; significa a determinação de empregar todas as armas, todas as que o esforço do espírito criou, para conseguir um fim material: a salvação social da classe. Não se admitem outros fins. Ridiculizam ou anatematizam todos os esforços independentes, desinteressados, do espírito. Admiram a especialização útil do "intelectual de profissão", e banem o humanismo do "professor". A violência antiintelectualista das novas classes médias é, afinal, uma falta de educação, ou, antes, o fruto de uma falsa educação. Fruto da falsa idéia que as classes médias

formavam da Universidade: da nova Universidade, que fornece exércitos de médicos, advogados e técnicos, em vez de clercs, de uma elite. O problema capital do nosso tempo, o problema da elite, é, no fim das contas, um problema de pedagogia humanística. Existe mesmo, hoje, política que consiste na exterminação das elites pelas armas dos especialistas. E foi bem preparada: da diminuição das lições latinas existe apenas um passo para a destruição dos livros e dos museus. O resultado mais freqüente da moderna educação universitária é um decidido adeus aos livros. Mais tarde, combaterão as "línguas mortas" na escola. Enfim, declararão inútil todo o ensino secundário, com as suas idéias vagas e inúteis duma "cultura geral"; talvez toquem, com isso, no ponto nevrálgico da discussão. Todo o problema espiritual dos nossos dias é, pois, um problema de falta de educação humanística, um problema pedagógico; e todo o problema pedagógico dos nossos dias é um problema da escola específica das classes médias, da escola secundária. Segundo o regime escolar vigente em todos os países, sem exceção, a Universidade dedica-se ao ensino profissional superior, enquanto a "cultura geral" fica reservada ao ensino secundário, aos ginásios e aos liceus. Quer dizer: o ensino da cultura geral limita-se aos jovens de dez a dezoito anos. Depois, a "cultura" termina, e a medicina e a jurisprudência começam, sem nenhuma "cultura geral". Os conhecimentos do ensino secundário empalidecem, naturalmente, com o tempo; mas ainda há coisa pior: todo esse ensino de "cultura geral" é feito ao alcance de jovens de dez a dezoito anos: a história, a filosofia, a literatura, amoldadas ad usum Delphini, e forçosamente puerilizadas. E aí fica. Nunca mais o jovem médico ou engenheiro ouve falar em história, filosofia, literatura, exceto pela imprensa ou pelo rádio, que se colocam ao alcance do espírito das grandes massas, pueris por natureza. Resultado: um espírito artificialmente preservado no estado pueril com uma formação profissional superposta. Conheço bem as numerosas exceções que felizmente existem. Mas, em geral, estas massas graduadas se distinguem dos

iletrados somente por uma autoridade profissional que as torna menos úteis que perigosas. Ainda uma vez cito Ortega y Gasset: "La peculiarísima brutalidad y la agresiva estupidez con que se comporta un hombre, cuando sabe mucho de una cosa y ignora de raíz todas las demás" (O. C., p. 1291). Eles, porém, os iletrados, têm sempre razão, porque são muitos e ocupam um lugar de elite, esse "proletariado intelectual", sem dinheiro ou com ele, isso não importa. Julgam tudo, e tudo deles depende. Lêem os livros e decidem sobre os sucessos de livraria, criticam os quadros e as exposições, aplaudem e vaiam no teatro e nos concertos, dirigem as correntes das idéias políticas, e tudo isto com a autoridade que o grau acadêmico lhes confere. Em suma, desempenham o papel de elite. São os nouveaux maîtres, os señoritos arrogantes, graduados e violentos; e nós sofremos as conseqüências, amargamente, cruelmente. "We are entered in a race between education and catastrophe." Wells tem muita razão. Mas é de grande importância datar a desgraça. Esta catástrofe irrompeu sob o signo do progresso, e o progresso ilimitado, muito do gosto de um Wells, cavará mais profundamente o abismo. O verdadeiro caminho é a volta. Temos mais uma vez "a disputa do medievalismo". Uma coisa fica, porém: a Universidade é uma criação da Idade Média. Todas as universidades medievais são, por princípio, instituições "clericais": elas formam os clercs. O restabelecimento das universidades "clericais" é uma restauração de tradições. Quatro ou cinco faculdades reunidas não constituem ainda uma universidade. Elas não criam esta "convivence of sciences, which forms a philosophical habit of mind",199 de que fala o cardeal Newman. Não se trata destas ciências ou daquelas profissões. Tratase do espírito comum que as anima, do espírito filosófico, antiutilitário, desinteressado, que as nossas universidades perderam, e que é a própria Idéia de Universidade. Derrubemos, pois, este estado de coisas. É ao ensino secundário que cabe o preparo do ensino profissional, dispensado nos hospitais e na magistratura. Em

conclusão, é à Universidade que incumbe a formação do espírito da "clericatura". Voltemos aos estudantes: o seu utilitarismo, mais perigoso que o das ciências, perdurará enquanto a freqüência das universidades for a chave para as posições de mando na sociedade. Verdadeiramente, o oposto deste utilitarismo é o desinteresse, no qual Newman via o espírito e a idéia de universidade, o espírito do clero universitário medieval, que se sentia independente do mundo e somente responsável perante Deus. Sem tais padres o altar fica vazio e o culto abandonado. Poderia chegar o dia em que ninguém compreenderia mais as fórmulas nem os poemas, em que os quadros de Rembrandt seriam pedaços de tela e as partituras de Beethoven farrapos de papel; dia da barbaria, em que a história humana se transformaria, pela sucessão de desgraças, num formigueiro mal organizado. E este dia talvez já esteja mais próximo do que realmente pensamos. "Somos a última reserva, fiquemos conscientes disto" - dizia Hugo Ball. Fiquemos conscientes, "dreading to leave an illiterate Ministery to the Churches, when our present Ministers shall lie in the dust". LETRAS ITALIANAS Conhece-se pouco, no estrangeiro, a literatura italiana. E é pena. É uma das maiores e mais magníficas literaturas, a literatura deste povo que amei sempre; e as letras italianas encerram uma grande lição humana. A literatura italiana é uma literatura latina e a filha predileta da literatura romana. Como literatura latina, ela encanta pela harmonia de sons e cores, pela melodia verbal, pela superfície; como literatura romana, ela constitui uma escola de firmeza e de caráter. Eu sonho com uma história da literatura italiana onde se veria, através das letras, a incomparável estabilidade do caráter italiano sob a pressão dos mais terríveis sofrimentos e atribulações, que duraram séculos e séculos. Tal história seria uma consolação para nós outros, uma lição; e se acaso esta firmeza se partiu, nem por isso a lição será

menos importante. Será uma grave advertência para nós intelectuais, cuja substância se submete mais facilmente a corrupções do que a vitalidade deste povo muito antigo. É um povo tranqüilo, alegre, zombador, sombreado por algumas melancolias do mar e da montanha, orgulhoso de seus antepassados e das grandes obras que deixaram, mas, acima de tudo, cuidadoso da sua nutrição, da sua família, de um pouco de prazer e, enfim, de uma boa morte. É um popolo minuto, um "pequeno povo", que se exprime numa preciosa literatura dialetal. Nos gracejos espirituosos dos pequenos-burgueses florentinos e nas canções nostálgicas dos marinheiros napolitanos resplandece um último raio do sol jônico, do sol de Homero. Sobre este pequeno povo arqueia-se um Olimpo. É o céu, e algumas vezes o inferno, desses grandes poetas italianos, que foram, em todas as épocas, grandes profetas. Dante, o Juiz, é o mestre de toda a literatura italiana. Seguem-se-lhe Petrarca, não somente o amante de Laura, mas também o poeta colérico dos panfletos contra os papas corrompidos e contra os pequenos tiranos que dilaceram o povo, e aos quais ele grita: "Pace, pace, pace!"; Ariosto, cuja epopéia fantástica encerra orações dantescas contra a "Itália, cloaca de servidão"; Filicaja, o patriota desesperado; Alfieri, o homem de ferro, cuja poesia "é um ranger de dentes sobre a miséria da Itália"; Foscolo, o poeta do exílio; e enfim Leopardi. Manzoni e Carducci representam o fim das tradições que criaram a Itália moderna: Manzoni, o último católico liberal; Carducci, o último humanista toscano. Depois deles, é o vácuo. Os juízes do prêmio Nobel, quando desejam honrar a Itália, encontram apenas os fracos contos folclóricos de Grazia Deledda. O novo século vê uma geração pequena. Vede os romances de Antonio Fogazzaro, retrato da burguesia católica de província, muito bem feitos, mas sem medula; de um catolicismo que se adapta a todas as excursões de sensualidade amorosa e de acomodação modernista. Vede as poesias de Giovanni Pascoli, que lastimam os sofrimentos dos emigrantes italianos em todos os continentes, e cujo socialismo sentimental encerra já alguns

o cantor às vezes . poeta e novelista fascinante. é de uma curiosidade insaciável. contudo. mas essa destruição constitui um acontecimento bem italiano. entre esses grandes mestres de uma pequena arte. Giuseppe Prezzolini. nos contos de Renato Fucini. título da sua autobiografia precoce. talento incontestável. esgota-se na propagação das modas intelectuais de Paris. sem saber dominar seu caos interior. as mais das . as últimas novidades. da demagogia furiosa e do chauvinismo bárbaro. Ardengo Soffici. cada um à sua maneira. senão destroços. Mas. através da sua revista Voce. O que existe de mais notável é a falta de bom senso.poderoso. que era. é o Balzac da Sicília. D'Annunzio. tinham-no ainda. chama-se a si mesmo "Un uomo finito". O seu poderoso romance-ciclo apresenta-nos quadros empolgantes de um mundo que morre. polemista furioso. misturados com a extraordinária magia da palavra que serve para narcotizar os desesperos da alma vazia de Gabriel D'Annunzio. Manzoni e Carducci. nos quais o povo suburbano de Roma joga na loteria e zomba da polícia. eu vos suplico. para desarraigar todo um povo e não deixar.apetites imperialistas. deixai a síntese do falso misticismo e da sensualidade desenfreada. mas estéril. até nesse recanto idílico. Existe. em que os pequenosburgueses de Florença se divertem.raras vezes . o tipo do intelectual invertebrado. O bom senso tradicional dos italianos refugia-se na pequena literatura dialetal. Pascoli. nos sonetos de Cesare Pascarella. antes de se precipitar na agitação nacionalista. Giovanni Papini experimenta todas as aventuras espirituais. onde as banalidades turísticas de Nápoles se transfiguram em grande poesia. o patriarca e o vate. um verdadeiro mestre: Giovanni Verga. Mas a última novidade é Marinetti. são desequilibrados. de onde traz. a inteligência mais viva sem nenhuma faculdade de criar. Fogazzaro. nas canções de Salvatore Di Giacomo. A nova geração é desarraigada. no mundo burguês. cada ano. desequilibrada. o "diretor dos jovens". após si. do velho mundo feudal que se transforma. Ele não é somente o libretista da Cavalleria rusticana. É uma obra completamente regionalista.

sem poder realizar sua poesia e sua vida: Sergio Corazzini. aos jovens. Esta terrível montanha devorou todo um futuro. tomavam gosto à vida desregrada dos acampamentos. "americanizar". aos Fogazzaro. cantor delicado das velhas lembranças de família. desequilibrada e aventurosa. pronta para "modernizar". do mundo moderno. Marinetti. a perturbação interior dos intelectuais pequenoburgueses que. aos D'Annunzio. o adolescente desesperado. no qual os ventos salgados do Adriático atormentam uma mocidade inquieta. para enaltecer a beleza dos viadutos e dos arranhacéus. Croce os amou. Borghese descreveu. Guido Gozzano. depois. É o quadro perfeito da mudança radical do espírito burguês: à velha burguesia humanista e satisfeita substituiu-se uma nova classe média. vítima da tísica. e não podiam acostumar-se. Aqueles a quem ele deixou viver morreram demasiado cedo. a Itália do futuro deveria ser "uma sinfonia de cimento e de aço". esta hecatombe será um massacre. Entre os moluscos. que viveu o seu romance Il Carso.vezes absurdo. morre em 1915 no Monte Podgora. à vida regrada da paz. mas um grande crítico. Scipione Slataper. Ele penetrou-os e destruiu-os implacavelmente. A sua crítica é um campo de batalha. A língua clássica é tão imprópria aos seus absurdos. Pouco depois. Francesco Gaeta. Renato Serra. crítico incisivo e construtivo. que ele prefere escrever em francês. A guerra mundial destruiu uma geração. no romance Rubé. A. até a Marinetti. talvez a maior esperança intelectual da Itália. A guerra matou a velha Itália. partindo aborrecidos para a guerra. morto aos vinte anos. Eles eram sinceros. aos Pascoli. que se suicidou. porém. "armar" a "Italietta" dos . Caso único. cheio de mortos. morre em 1915 no Monte Podgora. esta geração tem uma pequena literatura. os frammentisti. G. e é em francês que exige imperiosamente a destruição de todas as igrejas e museus. jovens poetas infelizes que se esgotaram em fragmentos. imensa promessa. Croce é o único caráter. continuou com boa saúde. o último dos grandes profetas italianos que castigam e amaldiçoam por amor. "As obras-primas da impertinência": a palavra é de Benedetto Croce.

para definir sua atitude: já não há guerra. Alberto Moravia. nos seus romances. e a paz não quer voltar. Curzio Malaparte. professor de ginásio. mas não reconhece mais o seu mundo. exceções: Corrado Alvaro. O novo mundo é um mundo de ficções. este mundo baixo e vil. Mas são uns solitários. mas sua época produziu terríveis comédias. dos fascistas. humanista de velha escola. A mais significativa de todas é talvez este Enrico IV. nessa nova Itália dos bolcheviques. sem dúvida. reconheceo muito bem. o único verdadeiro romancista da Itália moderna. Criaram. Malaparte escreverá mesmo uma Técnica do golpe de Estado. ou. o amargo novelista da vida de província. mais tarde ele recupera a sanidade mental. A vítima é a velha geração. Existem. vivemos num intervalo incerto. Bem cedo ele se põe a dilacerar. a comédia do homem moderno. Mas é um velho. dos aproveitadores da inflação e dos dançarinos de foxtrot. ou melhor. e para suportá-lo é preciso criar um mundo fictício. ele o estará quando lhe permitirem continuar. A consciência desta confusão inconsciente é Luigi Pirandello.pais. sua profissão de voluntário de guerra. e resolve fingir-se louco para continuar imperador. Ele resolve continuar imperador num império de ficções. . Alfredo Panzini. jovem voluntário da guerra. e à luz artificial de seus holofotes tecnicamente perfeitos o espírito não se reconhece mais. de repente reconhece inútil toda a sua preciosa cultura. desequilibrado. e as suas vozes não conseguem atravessar a densa rede metálica que Marinetti e os seus teceram. diante do qual não se cansa de experimentar o sentimento de inferioridade de um velho pedante. que uma infelicidade atirou à loucura de ser o imperador medieval. está bem à sua vontade nessa época. Arrisca-se mesmo a dizer que a ficção se tornou a condição de vida indispensável ao intelectual que colaborou para criá-la. Pouco importa: Panzini é o maior talento humorístico da literatura italiana contemporânea. num mundo estável e fechado. na paz. ele seria um grande trágico. Em outros tempos. caracteristicamente fechados. que é a guerra na paz. antes.

O mal vem de longe. da vida. sem sucessão possível. este belicismo fictício são construídos sobre um prussianismo fictício. perguntamos se não seria responsável por isto aquela rede metálica que aperta os membros como uma camisa-de-força. aparentemente de aço. revelarão como se faz um romance. Literatura em terceiro grau. antigo mesmo. os clercs. este corporativismo fictício. Os protagonistas da literatura contemporânea são os Emilio Cecchi e Vincenzo Cardarelli. arrancou este pelas raízes. levam a descrição de um quadro. capazes de fazer a poesia da poesia de fazer uma poesia. Abundância de talento. os Riccardo Bacchelli e Bruno Barilli. São espíritos de escol. porque esta rede. este catolicismo fictício. com o furor de que só as almas desarraigadas são capazes. Mas deve-se responder pela negativa. definitivas. e principalmente o novelista Massimo Bontempelli. A Itália moderniza-se febrilmente: há 60 anos ou mais. empenha-se em . que. nem ao menos tem necessidade dela. Ainda uma vez: não falta espírito nem talento. era preciso apenas uma coisa: caráter. Observando certas deformações da coluna vertebral. conseguiu condensar o profundo desespero da sua poesia noturna em formas destinadas a se tornarem clássicas. Para retomar a terminologia de antes da guerra: o frammentismo conquistou a literatura italiana. um único sentimento de mistério. Para transformar esses fragmentos em grandes obras. este latinismo fictício. grande poeta mesmo. No começo era a acomodação. é certo. Aqueles que cederam à educação foram os intelectuais. nenhum verdadeiro romance. Mas não existem caracteres num mundo fictício. Mas substituíram-na por um pálido classicismo. críticos da crítica. de uma viagem. Antes uma auto-educação. confundindo o sentimentalismo e o humanismo. Com efeito. a frase dannunziana. mas nenhum grande poema. e não se pode sustentar que era uma educação sentimental. Giuseppe Ungaretti é um autêntico poeta.Expulsaram. Este povo é tão velho. que não atinge a alma do povo italiano. Esgotam um talento excepcional escrevendo pequenas peças autobiográficas. poetas sobre a poesia: fazendo um romance. ela própria é uma ficção. que não suporta mais reeducação.

imitar o modelo alemão, que parece o supremo modelo de "modernização" mais rápida. Mas este modernismo contradiz algumas tendências íntimas do espírito italiano, inclinado para um catolicismo muito amplo, um socialismo puramente humanitário, um patriotismo muito pacífico. Perto de 1900 a Itália parecia a terra de promissão da tolerância religiosa, da compaixão social, do pacifismo universalista. Agora já se vêem alguns sinais da transformação. A modernização econômica e técnica enxota o humanismo, pelo ridículo das academias provinciais. O patriotismo, o socialismo, a própria religião revestem-se de uma espécie de violência, transformam-se em nacionalismo, sindicalismo, integralismo. A dialética da história fez uma volta terrível: o pensamento do próprio Benedetto Croce, amigo íntimo de Georges Sorel, era a maior força da revolução espiritual que devia voltar-se enfim contra ele e sua obra. Todos os seus companheiros, filósofos e críticos, dirigem-se contra a superioridade quase frívola do humanitarismo, do socialismo, da religiosidade italiana. Contra o humanitarismo, ele apóia-se em Hegel; contra o socialismo marxista, apóia-se em Sorel; contra o modernismo católico, apóia-se na tradição autoritária. Croce tornou-se o coveiro do seu próprio liberalismo sublime. Após ele veio a era das novas classes médias, anti-humanitárias, sindicalistas, antitradicionalistas, fascistas. Antonio Fogazzaro é modernista; desejaria um catolicismo "modernizado"; não o conseguindo, acaba por acomodar o catolicismo à italianidade. Giovanni Pascoli passou por socialista; abraçou o socialismo humanitário, e suas últimas horas são perturbadas pelas primeiras explosões da violência sindicalista. Sobre o patrioteirismo de D'Annunzio é melhor não falar. São mortos? Mas "la mort n'est pas une excuse";200 e existem vivos cujos corpos deixam ver todos os estigmas da acomodação, como os condenados do Inferno de Dante mostram, nas deformações hediondas, a punição de seus pecados. A Prefeitura de Florença teve a engenhosa idéia de mandar gravar em mármore e colocar nas esquinas das ruas florentinas os versos de Dante que se referem a tal localidade. Parece que todas as ruas da literatura italiana

contemporânea estão marcadas com esses tercetos terríveis, "flamas cantantes que não largam as suas vítimas, prisioneiros por toda a eternidade". Giovanni Papini converteu-se. Mas não conseguiu dominar os instintos anárquicos da sua alma caótica. Os desafios violentos do seu Gog e Magog mostram-no "... nella chiesa Co' santi, ed in taverna coi ghiottoni"201 (Inf., XXII, 14). Seu catolicismo era capaz de acomodar-se à revolução social, e, mais tarde, a muitas outras coisas. Confundindo a universalidade religiosa com o imperialismo temporal, ele escreveu, na Nuova antologia (janeiro de 1939): "O povo italiano é mestre e chefe perpétuo do mundo, por essência e por vocação. Desde a época em que Augusto governava e Jesus nasceu, Roma e o povo italiano dominaram sempre o mundo." Roma, nessas palavras, é um equívoco, e o católico Papini esqueceu a palavra do Evangelho: "De que serve ao homem o mundo, se ele o ganha mas perde a sua alma imortal?" Esta conversão era antes uma demissão: onde existe a demissão, a submissão não está longe. É assim que Giuseppe Prezzolini, tipo do intelectual, se submete, na Gazzetta del Popolo (8 de fevereiro de 1939): "Eu também fui um intelectual, e sei falar, por experiência, do mal intelectualista. É necessário que os intelectuais italianos reconheçam que o seu dever consiste em se retirarem e deixarem dominar outras forças, mais importantes na vida dos indivíduos e da nação. O fascismo não desconfia dos intelectuais italianos; mas a sua desconfiança seria muito natural e muito oportuna." A isso Dante acrescentaria alguma coisa sobre as "... terre d'Italia tutte piene di tiranni..."202 (Purg., VI, 124) ou um desesperado "O voi, ch'avete l'intelletti sani..."203 (Inf., IX, 61).

Ardengo Soffici, ao menos, não seguiu o conselho de calar-se. Ele fala, e muito alto: ele, que glorificou a França e amaldiçoou a Alemanha, mudou depois os nomes: chama a Dostoievski um "gorila bolchevista", e condena a América em nome da "Europa cristã e católica". Há trinta anos ele zombava da Academia e declarava: "Desejam-me ditador? Eis-me ditador." Hoje, vestido de acadêmico, ele pode dizer: "Desejam-me acadêmico? Eis-me acadêmico." Sem dúvida, ele assemelha-se "... a quella inferma, Che non può trovar posa in sulle piume, Ma con dar volta suo dolore scherma"204 (Purg., VI, 149). Mas são teóricos. Não citarei de Curzio Malaparte senão os títulos das suas últimas obras: três volumes de contos, Fuga em prisão, Sangue e Viva a morte; e uma coleção de documentos e fotografias, Os italianos na Espanha. É um mundo dantesco. Relemos a descrição dos "Malebolge", dos círculos inferiores do inferno, onde os pecadores baixos espiam, "Tutto di pietra et di color ferrigno"205 (Inf., XVIII, 2), e nos lembramos do "mundo de cimento e de aço" de Marinetti. A literatura dos jovens reflete fielmente a pálida luz dessas paredes. Marcello Galliani, a quem o seu editor chama "o mais fascista dos escritores", fala de uma "atmosfera de sangue, de aborrecimento e de morte". Enrico Pea explica "sua neurastenia e seu caráter violento pelas injeções aplicadas, durante a guerra, contra o cólera, o tifo, a encefalite e outras doenças, como aconteceu com muitos outros combatentes, que são hoje em dia meio loucos" (Maremmana, p. 233). É um mundo meio louco, meio criminoso, uma casa de alienados perigosos, dotada das novíssimas invenções técnicas, ao ponto de transformar toda a vida em pesadelo mortífero dum paranóico, como Brancati a define: "A vida é uma máquina que vos raspa o crânio, vos arranca os dentes, vos transforma, enfim, num semblante de morte."

Máquina maravilhosa! Lia-se a definição no excelente hebdomadário Omnibus, onde colaboravam Moravia, Bachelli, Ungaretti, Missiroli, e Adriano Tilgher, que escreveu, num estudo sobre o Leviatã, o Estado todo-poderoso de Thomas Hobbes: "Os súditos guardam a liberdade: a liberdade de fazer aquilo que o soberano se esqueceu de proibir. Finalmente, o Leviatã é um enorme carabiniere, um policial de tamanho mitológico." Sem dúvida, Tilgher pensava repetir a cena do canto 22 do Inferno, onde os condenados logram os diabos. Mas, como em Dante, o diabo respondeu: "Tu non pensavi ch'io loico fossi!" (Inf., XXVII, 123), e Omnibus foi incluído entre as coisas que não se esqueceram de proibir. A resistência é inútil; mas a fuga também. Existe, entre os exilados, um grande escritor, Ignazio Silone, que experimentou "come sa di sale Lo pane altrui, e com'è duro calle Lo scendere e il salir per l'altrui scale"206 (Parad., XVII, 58). É por isso que o herói do seu romance O pão e o vinho volta à pátria, que ele não reconhece mais e onde não mais o reconhecem, até que se perde, para sempre, nas montanhas, cobertas de neve, onde os lobos o dilacerarão; uma jovem - somente ela - fará, sobre o perdido, o sinal da cruz. É uma grande obra de arte; como todas as grandes obras, faz pairar, atrás de si, um profundo silêncio. É o mesmo silêncio, nobre e obstinado, que guarda Benedetto Croce, "che vive in Italia peregrino"207 (Purg., XIII, 96). É o único que podia verdadeiramente retirar-se, porque outras épocas o esperam em que já não haverá "partido". Ele tem "fatta parte per se stesso"208 (Parad., XVII, 69). Se existe lirismo nesta citação, a Toscana é a responsável. Pensa-se em Pisa, a grande cidade, que reunira entre as suas muralhas todos os esplendores, e que se perdeu pela loucura de querer dominar. Só ficou, "fuori le mura", a catedral, que não se desmoronará, e o Campo Santo, o cemitério, verdadeiro coração da "cidade morta". Existe, neste cemitério, o túmulo de um nobre, cujo nome a história esqueceu, mas cuja memória fica, eternizada no

monumento funerário que lhe ergueram, a Inconsolabile, a Itália em luto, que vela o rosto. ORAÇÃO FÚNEBRE DE CHARLES MAURRAS "Non enim cogitationes meae cogitationes vestrae; neque viae vestrae viae meae, dicit Dominus" (Is., LV, 8).209 Queridos em Cristo, os povos, percorrendo, pelos séculos da história, os caminhos da terra, passam cabisbaixos, curvados por tribulações sem fim. De vez em quando, levantam os olhos para o céu, lamentando, implorando, suplicando. E Deus responde-lhes pela boca do seu profeta Isaías: "Non enim cogitationes meae cogitationes vestrae; neque viae vestrae viae meae, dicit Dominus." Não compete às nossas pobres meditações o decifrar as decisões da Providência divina; na desgraça e na salvação dos homens, como são incompreensíveis e maravilhosos os caminhos do Senhor, perante o qual nos convém curvar-nos com humildade! Assim, eu, o mais humilde dos servidores de Deus, recebi a vocação de pronunciar a oração fúnebre dum príncipe no reino do espírito. Ele mereceria a homenagem sob a cúpula da Academia Francesa, onde todos os acordes da língua se teriam harmonizado num réquiem solene; mereceria a pompa fúnebre na Notre Dame de Paris, matriz de todas as igrejas da França. Curvemo-nos, porém, com humildade: a cúpula que ouvirá as nossas palavras incultas, simples e sinceras, é o céu cinzento sobre frias montanhas, longe do Sena, e o lugar do nosso luto e da nossa meditação é a modesta matriz duma cidadezinha provinciana, lugar triste, onde os velhos, os doentes, os alquebrados procuram a saúde, lugar de últimas esperanças e de últimas consolações. Ao que parece, o Senhor quer falar-nos e dizer: "Non enim cogitationes meae cogitationes vestrae, neque viae vestrae viae meae." "Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos; nem os vossos caminhos são os meus caminhos, diz o Senhor."

a força do espírito. nutrido das tradições gregas. na Espanha. Charles Maurras era um príncipe no reino do espírito. Todo o mundo. e assim a sua vida foi para nós outros. uma grande consolação. e o seu espírito latino. na Itália. discípulos sem o querer ou sem o saber. a França do . que é a pátria da nossa civilização: a França. Distinguiu entre a França legal. Viu ameaçada pelas mesmas forças a sua pátria. com mãos trementes. na sua voz balouçaram as melodias do mar. Havia discípulos desse homem em todos os países e em todos os continentes. encantado. O seu espírito venceu até os inimigos vencedores.chama-se L'Avenir de l'Intelligence o seu livro mais decisivo . sempre superior à matéria bruta. Charles Maurras provou. a França das leis sacrílegas e das sujidades materialistas. O mundo. ouviu essa música.o futuro da Inteligência foi a preocupação de toda a sua vida. católicas.210 E resolveu indicar à França o caminho da salvação. e mirai o rosto exânime do homem que está deitado aqui neste ataúde: Charles Maurras. Charles Maurras era um representante autorizado da Inteligência. e . pela última vez. que hoje se curvam perante o poder das armas invisíveis deste príncipe espiritual. Quereis compreender algo desses mistérios? Quereis levantar uma ponta do mistério dos destinos mortais entregues às mãos de Deus vivo? Pois levantai. cuja profundidade só pode ser averiguada pela sapiência divina. do continente do Sul.Os caminhos da vida e da história humanas são como que cercados de abismos. resplandeceu em todas as luzes mediterrâneas. dos instintos anárquicos. que era o mar de Ulisses e do apóstolo Paulo. na França. que nunca será esquecida. romanas. e a França real. Viu como a França de São Luís. subjugadas à severa disciplina do civismo romano e do método cartesiano. Esse homem surdo fez ressoar todas as músicas da língua francesa. uma ponta desta mortalha. Charles Maurras viu esse futuro ameaçado pelo turbilhão dos romantismos revolucionários. até nas costas longínquas do novo continente latino. pobre servidores do Espírito. outrora ilustrados pelos "gesta Dei per Francos". de Joana d'Arc e de Bossuet abandonara os caminhos. e da sua Provença natal.

Na verdade . Houve quem duvidasse dessa lógica. Mas através do caminho da sua vida. Era o ponto de partida. os emblemas da morte. Não escreveu jamais uma palavra que não fosse polêmica. e edificou sobre essa polêmica o sistema das suas idéias estéticas. fiel aos caminhos da Providência. Os seus caminhos não eram os caminhos d'Ele. E hoje ele está deitado. até o abismo.era um polemista. com a conseqüência implacável do espírito latino. parecia a outros um sofista. trace du frémissement essentiel devant les énigmes humaines."211 Romaria estranha.. Escreveu. caindo no perigoso irracionalismo da frase: "Jamais depuis le monde est monde on n'attendit d'avoir une idée claire pour agir. Il ."212 O mesmo Maurras que se vangloriou de possuir a técnica política mais eficiente do mundo desdenhou qualquer preocupação com a questão social. Não eram os caminhos da vida. a liturgia da deusa que surgira das espumas do mar. E desse ponto de partida o seu caminho o levou. romaria pagã! O frêmito essencial do jovem Maurras calmou-se perante a sublime estabilidade da Beleza. Olhai em derredor: por toda parte vereis. em Anthinéa. políticas e religiosas. Num deslumbramento orgulhoso. O seu Deus não era o Nazareno martirizado. ele quis prescrever à Providência os caminhos da sua ciência política. caindo no ingênuo liberalismo da frase: "Un peu plus de justice?.e é a verdade que devemos aos mortos .. entre panos pretos e círios vacilantes. Charles Maurras sucumbiu à tentação da Inteligência: substituir a própria inteligência à Inteligência divina. Passou a vida inteira buscando as contradições dos seus inimigos. quis desempenhar o papel de providência da França. O seu ídolo era a deusa pagã da beleza. Mas o homem morto ao pé deste Crucifixo era um pagão. A esta cerimônia preside o supremo representante da morte cristã. o Crucifixo. e assim se manifestou sobre esse livro: "Point de départ de mon pèlerinage. perante nós. da morte cristã. O mesmo homem que a uns parecia um profeta. nesta câmara ardente. o Cristo morto.rei e da fé cristã. mas os caminhos da morte. O mesmo Maurras que com tanta força pregava a primazia da Inteligência desdenhou o papel da inteligência na ação. sistema cheio das contradições que surgiram na polêmica.

Mas no mar dessas contradições saiu. da Grécia. chegando até à fórmula que enfeitiçou os católicos: o Catolicismo é a Ordem."218 Eis o ponto de partida: como criar essa Ordem? Então. bem definidas pela luz mediterrânea."217 E lembrou-se da deusa da Beleza saindo vitoriosamente das vagas impuras do mar asiático do anarquismo. Ordem . Ásia . quando a autoridade eclesiástica se lhe opôs. mas a ordem científica do positivismo e a ordem estética do paganismo.invocou. As linhas bem definidas impõem limites à anarquia estética do romantismo e à anarquia política da democracia. Inteligência. Oui. les lois de la beauté nous faisaient aussi penser aux lois de la vie. da sua terra provençal.faut laisser la conjecture économique!"213 O mesmo Maurras que sabia magnificamente exaltar os benefícios da disciplina católica caiu. a dizer sobre toda a sua própria obra: "Il ne s'agit dans ces essais que de la raison.o vago. l'ordre de l'esthétique à celui de la politique. Grécia . por fim. nas mais baixas injúrias contra o papa."point de départ de mon pèlerinage".eis as nostalgias do jovem Maurras. o incerto. os cardeais e os bispos. Era um homem cheio de contradições. achou-as no templo vivo da Santa Madre Igreja. et de l'ordre. o jovem Maurras meditara: "Comment sauver l'ordre du monde?"214 E essa idéia não o abandonou nunca mais e levou-o. a beleza escultural dos corpos.216 A Ordem de Charles Maurras não era a ordem cristã do mundo. o meu primeiro chef d'accusation. até à fórmula que enfeitiçou os infiéis: a Ordem é o Catolicismo. Assim ele elogiou as linhas claras. a beleza geométrica das figuras. A Ordem! Era a primeira e a última palavra de Maurras. Renan e France se . Na introdução de Anthinéa . como diria Bossuet. a figura divina que iluminou o seu caminho: a Ordem. Perante as ruínas da Acrópole. os positivistas Comte e Taine e os pagãos Renan e Anatole France. Procurou-as no templo abandonado da Grécia. como mestres. Gosto. e ele acrescentou com o tom lapidar dos jurisconsultos romanos: "Certae fines! Leges! Définitions certaines et justes confins. o definido. resplandecente como Vênus das espumas do Mediterrâneo. eis o que constitui. de l'intelligence et du goût. da Itália.o claro."215 Razão. "Mon maître Anatole France l'avait vu.

empiricamente experimentada. ousou escrever. nem os segredos do Estado. honravam os espíritos mais altos e os patriotas mais devotados à pátria. a deusa da Razão. O Estado é uma máquina científica de leis e instituições. ficando salvo apenas pela força mágica de linhas bem definidas: as fronteiras. "comme on peut". cercado de inimigos. a deusa dos escultores e da razão científica. a L'Avenir de l'Intelligence segue-se Kiel et Tanger. o seu culto à Raison d'État. das suas máquinas.escrito após ter o coronel Henry confessado. et l'on refait la France comme on peut. pelo suicídio. e escreveu.retiraram para deixar falar a clara razão mediterrânea de Comte e Taine."219 "Comme on peut". a eficiência das suas construções é tudo: e isto constitui o meu segundo chef d'accusation. o de Maurras. e a suprema obra de arte da razão é o Estado. nem a honra nem a vida privada dos seus inimigos. a "technique nationale". O técnico ocupado em construir máquinas não conhece preocupações de ordem moral. Ousou escrever: o seu primeiro artigo de jornal. Le premier sang . a um tempo. O técnico só pensa na eficiência. pregava a violência sistemática. As palavras "imbécile" e "traître". A razão era sempre a faculté maîtresse de Maurras. É um Estado. e a alma dessa máquina é o nacionalismo. chegou a pregar o assassínio e a alta traição. a deusa da Beleza. manual da política nacionalista. e a esse empirismo amoral dos técnicos correspondeu o "par tous les moyens" do niilista agnóstico Maurras."220 Mais tarde ousará recomendar que matem o primeiro ministro com uma "faca de cozinha". Ao primado da Inteligência substitui-se o primado da diplomacia. J'ose écrire: tout est béni et tout est dû. "Pour l'établissement de la Monarchie tout est permis. Aplicava a calúnia sistemática. a falsificação dos documentos Dreyfus ousou defender o criminoso com as palavras: "Il ne faut pas considérer la question du point de vue de la morale individuelle. no seu jornal. Política é uma técnica. adorava a Palas. bárbaros exteriores e interiores. Palas é. não respeitando nada. Não desaprovará os seus . e mais do que a Afrodite. la morale de l'État a ses propes lois et ne connaît que l'intérêt national. On rentre comme on peut. as mais freqüentes na sua pena.

discípulos quando eles tiverem obedecido a tais conselhos. com as palavras: "C'est notre tâche de révéler Monck à lui-même. como duma perpétua tentação à anarquia. No famoso artigo "L'Éducation de Monck" lembrara a restauração da monarquia inglesa pelo general traidor.223 Toda a vida interior pareceulhe suspeita de anarquismo. Les chefs militaires ont besoin d'ordres pour marcher. pela disciplina da Igreja Romana."224 Contra os protestantes ele serviu-se da mesma apologética estranha: "Je ne quitterai pas le cortège savant des . il faut que le pouvoir spirituel les donne". "Le Catholicisme est le remède du Christianisme. nous lui enseignons les principes de l'organisation politique. sem consideração da moral individual. Entre duas forças vive a alma humana: graça e liberdade. Acaba com a alma humana. Eis por que esse homem opôs ao cristianismo. Nous. porém.221 e: "Nous sommes l'autorité scientifique par laquelle le sabre devient raisonnable et la baïonnette intelligente. ele. a luz da razão grega. e elogiou o espírito romano por ter domado. A "moral universal". Não os desaprovará. finalidade da redenção cristã. O maurrasianismo tem medo da liberdade. que não é uma máquina cartesiana: e eis o meu terceiro chef d'accusation. não é a moral cristã. convencido. uma moral como técnica científica não sabe respeitar a majestade da pessoa humana. que lhes preparara os caminhos. opôs ao nascimento do Cristo. La doctrine est maintenant en élaboration: on en sature le cerveau du Monck de demain. de que a "ciência universal" constitui a "moral universal". "la naissance de Pallas. os instintos anárquicos do cristianismo primitivo. e sufoca a alma sob o peso da sua arbitrária autoridade. Não há moral das máquinas políticas. e acaba com todo o cristianismo. Assim."222 E Monck veio. le plus grand événement de l'histoire du monde". centro da história universal. Lui il connaît l'art militaire. "nocturne et asiatique". como os mestres positivistas. o "poder espiritual" serviu-se da sua "autoridade científica" para transformar a Ordem em ordens militares.

pagando a "os outros". duma renovação da França medieval. Mas isto não é cristão. que saudou a Marselhesa. mesmo no cristianismo inconsciente dos revolucionários. "Un peu plus de justice?" Maurras quis deixar subsistir. "C'est en affaires politiques que nous considérons les affaires de religion. com as palavras baratas dum novo corporativismo. Elogiou o catolicismo dos outros. o ateu. contanto que lhe deixassem o seu próprio ateísmo. ."225 E o "catholique athée" chegou a dizer sobre Jesus Cristo: "Je connais peu ce personnage et je ne l'aime pas. do cardeal Pacelli. uma desordem: a desordem econômica.conciles. o mesmo destino? "Qu'importe que Dieu soit. Lembrando-me da figura."229 E eis o homem ao qual se atribuem tantas conversões! Charles Maurras. para a alegria dos bem-pensantes convertidos.227 como se Jesus Cristo tivesse morrido para salvar a sociedade. assegurou-se o seu próprio agnosticismo. o povo. A França sempre foi cristã. na doutrina maurrasiana. des papes et de tous les grands hommes de l'élite moderne pour me fier aux évangiles de quatre Juifs obscurs. do Estado científico e nacionalista. que é um grito cristão. como privilégio de elite. Considerou o catolicismo como a religião do Estado. não desaprovou as conversões. caricatura da França do Rei. Mas como pode o espírito queixar-se disso. ouso dizer neste recinto sagrado: havia cristianismo até na França dos jacobinos. Entendeu as palavras "inteligência" e "elite" como designações de um novo feudalismo. subordinando-a aos fins políticos. ordem dos jurisconsultos romanos."226 O cristianismo."228 Eis o famoso lema "politique d'abord" substituindo o lema cristão "vérité d'abord". Rindo-se da "superstição" dos outros. na França do eterno grito de justiça. Chamou ao catolicismo romano "arche du salut des sociétés". pourvu qu'il serve. não significava outra coisa senão ordem: ordem romana. dos Senhores e dos servos. já então venerável. para ele. ordem estabelecida da sociedade estabelecida. se Deus teve. E também não é francês. Essa Ordem não é a ordem da Justiça. arruinando o pretenso primado da inteligência.

desde a mocidade. no dia 5 de julho de 1939. revogada. porque de antemão anunciou. À pessoa divina do Cristo ele quis substituir um boneco de batina. E até hoje eles têm esse Maurras por um profeta. Nesses deslumbrados sobrevive obstinadamente o triste espírito de Maurras. o niilista. surdo. que altas e mais altas autoridades da Igreja manifestaram a mais paciente clemência em face desse advogado do diabo: condenado Maurras. e surdo à voz da França. Permaneceu surdo à palavra de Deus. a condenação foi. deste modo. esquecendo todas as infâmias. O mundo das letras sufocou-o sob homenagens. razões de política eclesiástica não deixaram publicar a condenação antes de 5 de setembro de 1926. . da qual um dos seus amigos chegou a dizer: "Jamais je n'ai vu une âme plus désolée que la sienne. como justificação.Charles Maurras não ouviu esse grito. como o aliado mais precioso dos conservadores.. contentando-se da submissão dobre de "ceux d'entre nous qui sont catholiques". e não entendereis. Este homem foi. E à curta memória dos homens passou despercebido que isto também profetizou alguma coisa: que naquele dia nefasto começou a catástrofe da França."231 Podem alegar. e. que confundiram o nacionalismo traidor e ateu de Maurras com o verdadeiro nacionalismo de Barrès e com o verdadeiro cristianismo de Péguy. a ele."230 Um mundo de deslumbrados deixou-se enganar pelo fogo de artifício desse espírito morto. as infâmias que ele mesmo preparara. publicamente. no dia 29 de janeiro de 1914. XIII. imagem da sua alma vazia. O mundo político recebeu-o alegremente. 14). as palavras do profeta que nosso Senhor citou: "Vós ouvireis com os ouvidos. lembrando.232 subterfúgio hipócrita do acatólico Maurras para continuar a sua obra funesta. e sobretudo dos conservadores católicos. conforme as suas palavras: "Avoir raison c'est une des manières comme l'homme s'éternise. chegando a recebê-lo na companhia mais conservadora de todas. À França dos séculos cristãos ele quis substituir um fantasma utópico. a Academia Francesa. e vereis com os olhos. e não vereis" (Mat.

Às vezes em orgia de sangue. Os vossos festins prepararam a desgraça.e sob este ataúde não vedes o corpo exânime de Charles Maurras. deteve-se no caminho dos pecadores. Mas em vez de cumprir deste modo o mandamento de Deus. "On refait la France comme on peut." Charles Maurras refez a França como pôde. e em fazer cama de saco e de cinza? Rompe as ligaduras da impiedade. que. 1). Os católicos que o seguiam cegamente esqueceram que toda religião da beleza acaba em orgia. vós carregais os feixinhos que deprimem. em vez de vos acusardes a vós mesmos. vós não ouvistes os tiros contra o muro. e que não se deteve no caminho dos pecadores. cambaleia para a . Ainda não entendestes as palavras do profeta: "Acaso o jejum. I. LVIII.. Diz o salmista: "Bem-aventurado o varão que não se deixou ir após o conselho dos ímpios. e assentou-se na cadeira da pestilência. Mas o vento frio daquelas madrugadas abre agora. deixa ir livres aqueles que estão quebrantados. e rompe toda a carga. empurrando-as. E seguiu-se-lhe uma terrível madrugada. levanta com força esta mortalha . sem admitir consolação pela falta deles" (Mat. e que não se assentou na cadeira da pestilência" (S.. Em vão é toda a vossa penitência. desata os feixinhos que deprimem. as portas deste templo. com a qual quereis acusar e responsabilizar e punir o vosso povo. fantasma de si mesmo. onde no frio da madrugada os reféns fuzilados estertoraram e expiraram. o choro e o grande lamento: Raquel chorando a seus filhos. 18). colaborando infamemente com o opressor estrangeiro. que eu escolhi. Surdos como era surdo o vosso falso profeta. e agora os vossos jejuns servem apenas para ocultar a vossa culpa e agrilhoar tanto mais as vítimas inocentes da vossa traição. vivo ainda. 5-6). O magnífico Symposion pagão ao qual Maurras presidiu era o bíblico "festim dos ímpios".Charles Maurras era o papa da religião pagã da beleza. E agora há choro e ranger de dentes. vós estreitais as ligaduras da impiedade. A França deixou-se ir após o conselho dos ímpios." (Is. consiste em afligir um homem a sua alma por um dia? Está porventura em retorcer a sua cabeça como um círculo. II.. vós agrilhoais aqueles que estão quebrantados. E as vossas declamações hipócritas não podem abafar "o clamor.

Ao sobrevir-lhes de repente a angústia. e no dobre dos sinos ecoam as vozes do hino fúnebre."233 Ouvi. já os sinos começam a repicar para o serviço dos mortos. ressurgirá. E farei vir os péssimos dentre as gentes. e os que estão na cidade serão devorados pela peste e pela fome. e dentro a peste e a fome: o que está no campo morrerá à espada.vedes sob este ataúde o cadáver da sua desgraçada pátria. e eles se apoderarão das suas casas. e eu desafogarei o meu furor contra ti. abafando as vossas objeções. Salva me. vous jugera au dernier jour. ouvi."237 E ele responderá pela boca do seu verdadeiro profeta. Cuncta stricte discussurus. vem o fim sobre as quatro plagas desta terra. O fim vem. dies illa Solvet sæclum in favilla."234 Era juiz da sua época? Estará como réu. "Quando judex est venturus. dont vous vous croyez peut-être les juges. talvez. está perto o dia da mortandade. da França. serdes autorizados para julgar o acusador e as suas palavras. fons pietatis. Ouviste os meus três pontos de acusação. E agora vós acreditais.cova: . ele. eles buscarão a paz. Qui salvandos salvas gratis."236 Então ele e vós com ele rezareis: "Rex tremendae majestatis. quando "Tuba mirum spargens sonum Per sepulcra regionum. Coget omnes ante thronum. o vivo. hipocrisias e orgulhos. lembrai-vos da frase de Bossuet: "Mon discours. Oh! não. e te julgarei conforme os teus caminhos. Agora é que vem o fim sobre ti. e não a . Fora a espada. e aqueles péssimos possuirão os santuários deles. "O fim vem. e te julgarei conforme os teus caminhos: e te porei diante dos olhos todas as tuas abominações. vem o fim."235 Com os mortos. Aquele homem que lamentais era porventura um profeta? Era testemunha e culpado do "Dies irae. É chegado o tempo. Teste David cum Sibylla.

e as mãos do povo da terra tremerão de medo. E ninguém poderia então suspeitar uma tremenda catástrofe humana por trás daquelas páginas secas: catástrofe de uma vida intelectual. E assim vos fala a voz do profeta (Ez. Consola-te. não morreu a mais cristã das virtudes: a esperança. destino do intelectual dos nossos . Eu os trarei conforme o seu caminho. Mas ninguém poderia supor que. Mas é o seu direito também trazer-vos a consolação. mas o seu espírito morreu. O trabalho era uma revelação. O teu corpo. A um susto sucederá outro susto. e vós sereis para mim o meu povo. que abalou o estreito círculo de especialistas em história econômica. e a um estrondo outro estrondo. com esse estudo. ó França. uma nova ciência se fundava. e todos são caminhos que vão à pátria. filha Sião. O corpo daquele está vivo ainda. e porei um novo espírito no meio de vós. pode ressuscitar até as pedras dos túmulos. VII. mas incompreensíveis são os caminhos do Senhor. Os teus caminhos não eram os Seus caminhos. É o dever do pregador: dizer-vos a verdade. Deus: pie Jesu Domine.. e os julgarei conforme eles julgaram os outros: e saberão que eu sou o Senhor" (Ez. O rei chorará. e o conselho na boca dos anciãos. os Arquivos de Ciência e Política Sociais. MAX WEBER E A CATÁSTROFE EM 1905. que não vê os corpos.haverá. e maravilhosos. E enquanto vive o espírito. um estudo sobre "A ética protestante e o espírito do capitalismo". Ele.. está deitado aqui como morto. XXXVI. 26-28): "Dar-vos-ei um coração novo. e a lei perecerá na boca do sacerdote. e eu serei para vós o vosso Deus. pois o Senhor te reconduzirá."238 E os cristãos não rezam em vão. 2-27). o jovem professor Max Weber publicou numa revista científica alemã. um novo continente se descobria. e o príncipe cobrir-se-á de tristeza. dona eis requiem." Amém. e buscarão alguma visão dalgum profeta. vós habitareis na terra que eu dei a vossos pais. mas o teu espírito vive. Mesmo aquele severo hino termina com as palavras de reza esperançosa: "Huic ergo parce. mas sim os corações.

em toda parte. uma distinção se impõe.tempos. na maioria. Preparemos o caso clínico. hostil ao ascetismo monástico. os adeptos das pequenas seitas protestantes distinguem-se pelo espírito de iniciativa e pelas suas riquezas. sua religião educará humildes artesãos. a vida em família. expulsos da França. Max Weber observa que. tinha a alma gravemente enferma. não constituem exceção. santifica o trabalho profissional. funcionários leais. Todavia. e Max Weber encontrou-a. A devoção protestante e a habilidade econômica coexistem sempre. Essa doença é a nossa doença. Max Weber. tanto na Renânia como nos Estados-Unidos. Seguir-se-á o diagnóstico. e uma doença que atinge a todos deixa de o ser. Na Inglaterra. . Deve haver uma relação subterrânea. um dos mais lúcidos espíritos de todos os tempos. são sobretudo os "não-conformistas". Calvino é de outra espécie. a lealdade para com o Estado. em mãos de protestantes. que. que era frade. O protestantismo. o grande capital está. nessas regiões católicas. Lutero. Façamos tudo para nos dominar. e que muitos dos grandes capitalistas descendem de famílias pietistas e muito devotas. homem profundamente medieval. a Holanda e a Suíça francesa. e. e os huguenotes. Um boletim médico deve ser sóbrio e preciso. disseminaram por toda a Europa as suas manufaturas. os dissidentes da Igreja Anglicana. ao contrário. O assunto é palpitante. Estudando as origens do capitalismo na Alemanha meridional. a Escócia. santifica e consagra a vida profana. Descrevamos primeiro os sintomas. Estranho fenômeno: todos esses novos capitalistas são calvinistas. O homem ideal da Idade Média era o frade que renunciava à vida e preferia a pobreza voluntária ao trabalho secular. O seu dogma da predestinação transformará o mundo. bons pais de família. em conseqüência. Estende os seus estudos a toda a Europa: os centros da mentalidade capitalística são a Inglaterra. símbolo da catástrofe geral que se seguiu inexoravelmente.

como era a da Reforma. O luterano. confirmarmo-nos perante nós mesmos e perante os outros. absolutamente só. para cada um. uns para a vida eterna . não conheceu o problema. Cumpre saber se estamos predestinados ou condenados. uma questão de vida ou morte. já que o homem não tem vontade livre e todos os seus atos dependem diretamente de Deus. Numa época de excitação religiosa. a dúvida sobre a sua condição de eleitos. Isto não permite um quietismo cômodo. sua alma está sempre atormentada pelas incertezas. faz-se preciso observar e dirigir todas essas atividades para se ficar seguro da predestinação ao céu e da nãocondenação ao inferno. Será que estou condenada. esse dogma significava. O Deus dos calvinistas é um "Deus escondido". Para os outros. Os seus sucessores no ministério repeliam.e outros para as trevas. dominada pela concupiscência.Segundo o dogma calvinista. . Tanto mais que já não existem. acalmava as suas angústias pela contemplação da tarde de domingo. todas as forças do bem. pelo pecado original. São frades secularizados: a esfera de confirmação é a vida do mundo. um forte. e a conclusão psicológica seria um desespero até à morte. Cada um está só. entrincheiravam-se num biblicismo fanático.. O sucesso na vida prática responderá. Para o calvinista. arbitrariamente. Deus predestinou. a vida econômica. Seguro? Estaremos jamais seguros? É preciso.. herdeiro de uma mística íntima. só restava procurar uma confirmação da sua qualidade de eleitos na vida do mundo. perante este Deus terrível que o elegeu ou o renegou por todas as eternidades. não existe descanso dominical. é incapaz de atingir a beatitude. ele estava certo da sua salvação. Os calvinistas vivem no mundo como os frades da Idade Média no convento. Como reconhecê-la? Porém. ou alcançarei perdão? pergunta ansiosamente a alma calvinista. é preciso uma vida metodicamente regrada. como a uma tentação ímpia. Calvino. sempre e sempre. sua vontade. nem padres nem sacramentos. fixada dentro de austeros princípios morais. não revela a sua vontade tirânica. nessas igrejas calvinistas. os homens do mundo. O dogma inexorável não responde. o homem perdeu.

e que explica o conservantismo dos camponeses. inspirados imediatamente por Deus. Essas tempestades. A religiosidade difere de muito nas cidades e no hinterland. Essa atividade não tem nem fim nem termo. Mas esse espírito revoltado. É que a religiosidade tradicionalista dos camponeses resiste às tempestades revolucionárias. Weber encontra-as também na história dos grandes profetas do judaísmo. Ficará o grande-burguês. sobretudo o inglês Richard Baxter: o trabalho é a finalidade da vida. mas sem gastar. Atravessará os muros da Igreja.Eis o que é fundamental. sobretudo a vida econômica. "camponês" . Conquistará todo o planeta. terá sempre de combater o espírito sectário. e que se revoltam contra o tradicionalismo dos padres. fenômeno muitas vezes de importância política. Max Weber fundou a sociologia religiosa. antiautoritário. uma Igreja. A distinção profunda entre o luteranismo pequeno-burguês e o calvinismo grande-burguês leva a estabelecer "tipos de religiosidade". burocracia eclesiástica sem o carisma da vocação profética. Por esse estudo cheio de agudeza. Fazem-se economias que fecundarão novos empreendimentos.a palavra tem suas relações com paganus. Max Weber lê os moralistas do tempo. A fé se perderá. Weber encontra novamente esse fenômeno nos últimos séculos da Antiguidade. de um Jeremias. fenômeno tão importante na história da Igreja. E as seitas. É uma vida rigorosamente uniforme. quando o cristianismo conquistou as cidades. Daí ser o catolicismo sempre hostil ao espírito de partido. não há outro meio de obedecer a Deus senão trabalhar incansavelmente. A racionalização metódica e a atividade incansável ocupam toda a vida. enquanto o paganismo . Em razão dessas diferenças. de um Isaías. por mais bem organizada que seja. das seitas é . Leis rigorosas proíbem à vida qualquer decoração. a quem pertencerá o mundo. ciência que não se contenta com estudar as relações entre a religiosidade e a mentalidade econômica.se mantinha forte no interior. Trabalhar-se-á sempre. não são de menor importância na história profana: a seita secularizada é o partido político. como o frade incansavelmente reza.

baseada numa ordem legitimista. cada vez mais. como fenômenos de "secularização". de um chefe. e o nosso tempo substituirá a teologia política de outrora por uma política teológica. as seitas e os partidos revolucionários encarnam o tipo da autoridade "carismática". que estuda os caminhos do puritanismo construindo o Império inglês. A crítica se concentra no problema das origens do capitalismo. no fundo. O que. toda a história alemã se explica pelo caráter apolítico. no século XVII. convertidos. "sectário". Todos os fenômenos da vida moderna se revelam. Weber consegue estabelecer três diferentes tipos de autoridade. onde Max Weber deu toda a sua medida: ele impôs o seu método até aos adversários.e com isso . mais alas adquire. Hoje. primeiramente no seu amigo Ernst Troeltsch. a Igreja católica e as monarquias estilo ancien régime constituem o tipo da autoridade tradicionalista. a própria unificação da Alemanha só foi possível por intermédio dos Hohenzollern. baseada numa revelação ou num ato de graça divinos. Com efeito. ao calvinismo. porém. Aí está. Afinal de contas. que nos ajuda a melhor compreender o mundo. toda profissão de fé política é. Para dizer a verdade: quanto mais o edifício cresce. A fertilidade incrível do método de Max Weber confirma-se nos seus sucessores. O fantasma de um capitalismo antigo. todavia. em SchulzeGaevernitz. atualizados na pessoa de um profeta. secularizada. esclarecendo as raízes religiosas do romantismo. era fácil de dissipar. baseada numa ordem legalista. mais fendas se lhe percebem na fachada. enfim. que o luteranismo imprimiu a esse povo. que renova a história social das Igrejas protestantes. explicando o papel revolucionário. dos quais Max Weber foi o mais feliz descobridor.também imortal. Aí está a obra grandiosa de Max Weber. Os historiadores da literatura comparada brilhavam. os Estados modernos representam o tipo da autoridade positiva. nascido da imaginação modernizante de um Mommsen e de um Ferrero. uma profissão de fé religiosa. dos protestantes nas letras francesas. a vida e a nós mesmos. porque representa outra forma de autoridade. que criou a disciplina prussiana. permanece irrefutável .

no fim. mas indispensáveis à evolução do capitalismo. organizações verdadeiramente capitalísticas. tradicionalista. Conhece-se a grande discussão. se revoltam. Mas. para laicizar precocemente a vida francesa. o grande amigo de Weber. verificou estranhas analogias entre a mentalidade burguesa de Benjamim Franklin e a sabedoria de vida do poeta Leone Battista Alberti. Werner Sombart. que lembram estranhamente os conselhos de Richard Baxter e de todos os pregadores puritanos. e mais ainda: nascida sem a sanção eclesiástica.é que os traços do capitalismo se manifestam na economia e na sociedade das cidades medievais de Flandres e da Itália. decepcionada. e a jovem burguesia. contra as quais o povo minuto. A teologia moral dos santos Antonino de Florença e Bernardino de Siena é cheia destas concessões ao capitalismo nascente. Mas os poderosos são os poderosos e é preciso fazer concessões. pela concepção de uma nova camada da sociedade. que desencadeia disputas. sob aparências medievais. e isto prova que já era necessária a acomodação à mentalidade capitalística numa sociedade católica. e August Knoll mostrou que essa discussão entre os dominicanos intransigentes e os jesuítas mais complacentes acompanha toda a história moderna da teologia católica: os jesuítas da Universidade de Ingolstadt inventaram o contractus trinus para burlar a interdição eclesiástica dos interesses. cidadão de Florença. dois partidos tentaram opor-se. reconquistar o terreno perdido. nenhum dos dois partidos podia vencer a resistência da ordem feudal. Diante desta ameaça. por uma ética ascética do trabalho. É sobretudo a discussão dos interesses do capital. essa mentalidade ameaçava tornar supérfluas todas as sanções eclesiásticas. e os jesuítas. abraçava o laicismo "filosófico" e a revolução. fazendo concessões: os jansenistas. proibidos pela lei canônica. a mentalidade burguesa na França nasceu independente de todas as doutrinas religiosas. pai de família econômico do século XV.concordou o próprio Weber . Segundo Bernhard Groethuysen. As corporações de Florença constituem. as classes médias. Na Inglaterra essa . aproximando-se do calvinismo. e seu clérigo. E Alberti não é uma exceção no seu tempo e na sua cidade.

mas não porque o puritanismo aí tenha vencido: ele foi batido depois de Cromwell.revolução era dispensável. Mas é a essa fraqueza que Weber deve a sua extraordinária capacidade de descobrir as formas racionalizadas do pensamento e da vida religiosa. unicamente uma ideologia conveniente. posteriormente adotada. O common sense dos ingleses Tawney e Robertson revoltou-se contra o estabelecimento dos "tipos de religiosidade". de valor inestimável. Daí a razão por que a atenção de Weber se concentra nas formas exteriores da organização eclesiástica e da vida moral. M. um ao outro. isto é. Poderia ser uma admissível "hipótese de trabalho". Não quero dizer que o método de Weber não haja sido contestado. Ao contrário. derrubou a teoria weberiana: o capitalismo inglês nasceu exclusivamente das revoluções sociais. Kraus S. que trai o racionalismo encarniçado de Weber. eles próprios se sucedem. B. Marx estabeleceu os princípios de uma história do capitalismo. que atinge a síntese. Marx e Weber procedem ambos da filosofia da história de Hegel. H. Gustav Gundlach S. Que é o que resta? Um método. É uma fraqueza. somente o século XVIII inglês é que vem conhecer os pequenos tratados de um Cristianismo. Robertson diz. como a tese e a antítese do movimento dialético. Enfim. J. para esses burgueses. para provar que a religião e todas as obras do espírito não são mais que reflexos ideológicos da . mas pobre em bens temporais". Tawney observou que os pregadores puritanos do século XVII resistiam com bastante vigor ao espírito capitalista. R. se não fosse esta palavra "racionalmente". os fenômenos da secularização. facilitado para o uso das pessoas do mundo. disso dão testemunho. que "a Escócia foi. durante dois séculos. observou que esse racionalismo torna o sábio incapaz de compreender a íntima essência supra-racional dos fenômenos religiosos. com razão. Os seus próprios adversários. J. restrições sérias se lhe têm feito. rica em terrores de predestinação. o sábio P. O P. porque esses tipos são idéias preconcebidas que Weber tira da história para coordenar "racionalmente" os fatos. J. E H. Nesse caminho Weber só tem um predecessor: Karl Marx. servindo-se dele. e o calvinismo foi.

ou o espírito. Weber é um homem do século XIX: nisto reside a sua força. por muralhas chinesas. Homem do século XIX. Sem dúvida. contra Weber. e a sua fraqueza. descobre o poder das forças irracionais. Kraus. É a matéria. estuda toda a história do capitalismo para provar que as organizações sociais e econômicas constituem meros reflexos materiais da vida religiosa. das cadeias da matéria. para quem o espírito era somente a luz da razão. O século XIX é. na história das ciências. racionalista encarniçado. Essas ironias da história têm sempre um sentido profundo. umas das outras. que matam todo dia o marxismo. Weber estabelece a antítese. Weber nada tem de comum com os antimarxistas vulgares. abriam-se novos horizontes: Weber. e nesse erro também. e aquela ironia histórica nos ensina que não se estabelece uma filosofia da história sobre um racionalismo estreito. acreditava na emancipação do homem. Na saída do túnel que ele cavou. pela luz da razão. no dia seguinte. um dos maiores especialistas. Weber. o século do especialismo."239 É porque eles desconhecem a fonte de verdade que há em cada erro. que restitui. Na verdade. elas aparecem quando o espírito humano ultrapassa os seus limites. A sua filosofia da história era. . o ponto de vista marxista. antimarxista. que determina a história da humanidade? Tudo depende da resposta. que haveria de comum entre a Faculdade de Teologia e a Faculdade de Ciências Econômicas? Max Weber. Max Weber é outra coisa. precisamente. onde havia triunfado. o P. para confessar.organização social. conscientemente. transpôs essa muralha. tentará "racionalizar" essas forças irracionais. Os sábios já não conseguem dominar as disciplinas e as subdisciplinas. Durante a sua vida lutou contra Marx. Mas Weber falhou. As faculdades separam-se. com as palavras de Corneille: "Les gens que vous tuez se portent assez bien. então os fatos nos "ironizam". E uma ironia da história quis que o terceiro movimento de idéia fosse reservado a um jesuíta.

essa filosofia espiritualista da história. de uma família burguesa da Westfalia. o maior poder econômico do Continente. vida vertiginosa de grande capital. de um professor alemão. e a vida de Max Weber aparece-nos como símbolo de uma catástrofe. demasiado rápida. a mais ampla rede ferroviária do mundo. Embora já docente na Universidade de Friburgo. e aí ficou. A Alemanha teve. era um país muito pobre. um ataque cardíaco extinguiu-lhe a vida. sem a compreender. mas essa obra. quase artificial. pela sua ciência e pela sua vida. de comunicações precárias. Em 1920. e a popularidade do professor aumentava ainda graças a uma rica atividade jornalística. na aparência. a serviço da oposição democrática ao imperador Guilherme II. método que exige o estudo das condições sociais em que se desenvolveu a vida de Max Weber. Em 1830. o país materialmente mais atrasado da Europa. Em 1919. os seus projetos. a evolução . bem cedo se distinguiu pelo talento extraordinário de jurisconsulto sagaz. de pequenos-burgueses. a inteligência isolada nas pequenas capitais de Estados minúsculos. a vida. país de camponeses. A vida de Max Weber é. pouco antes da morte de Goethe. Para interpretar essa vida utilizarei o método da sociologia do conhecimento de Max Scheler. É a obra da grande burguesia. destruiu. Eis tudo. país de minas. pobre de acontecimentos. no século XIX. Em 1880.E a tragédia da sua existência é que ele negou radicalmente. uma evolução rápida. de inúmeras chaminés. Nascido em 1864. não teve raízes no povo. que ele mesmo havia previvido. Mas uma grave crise nervosa. Durante vinte anos. dispunha-se a seguir a carreira de advogado ou de síndico de grandes empresas industriais. muitas vezes aborrecido. Weber figura entre os colaboradores da Constituição republicana de Weimar. da qual nunca mais se restabeleceu inteiramente. de artífices. A luta espiritualista contra o materialismo marxista criou outro materialismo. essa cátedra foi a tributa mais brilhante da ciência alemã. um país riquíssimo. pior. em 1897. que seguiu. No mesmo ano foi nomeado professor de economia política da Universidade de Heidelberg.

de rapidez não natural. Por isso, impossível ali o liberalismo parlamentar sobre o qual os burgueses ingleses e franceses construíram o seu poder. A burguesia alemã apoiou-se na burocracia e no exército prussianos. Foi Bismarck o criador dessa aliança feudo-burguesa: todo o poder econômico para os grandes-burgueses; e todo o poder político para o imperador, encarnação dos poderes burocráticos e feudais. Um dia, este imperador se chamará Guilherme II, e será, então, a catástrofe da Alemanha. Mas o sol do poder e da prosperidade raiava ainda tão brilhantemente que não foram percebidas três vítimas da aliança: o catolicismo, o operariado e a burguesia liberal. Como os católicos se curvaram, como os operários se condenaram a uma oposição estéril, isso é outra história. A burguesia liberal tinha, pelo menos, o direito de se queixar. E queixava-se, muitas vezes alto, pelos jornais, pelas cátedras universitárias. E um filho desta burguesia liberal foi Max Weber. Por isso, o lugar de Weber na vida da nação estava definido. Convém não esquecer, igualmente, o fator psicológico. Weber foi um dos homens mais apaixonados que a Alemanha já conheceu. Orador nato, de temperamento indômito, profundamente conhecedor dos grandes problemas da vida pública, seu verdadeiro lugar não era a cátedra, mas a tribuna, de onde se dirige a nação. Weber o sabia. "Somente a política me interessa" - diz ele numa carta - "tudo o mais não é senão um meio." E depois: "Todas as grandes questões, sem exceção, são de ordem política." É, visceralmente, um homem político. Na França ele seria presidente do Conselho; na Inglaterra, Chancellor of Exchequer. Na Alemanha, entre um povo apolítico, ele foi professor de universidade. A vida política, ali, estava paralisada, pelo predomínio da burocracia, do militarismo. Os oradores do Reichstag podiam gritar até enrouquecer; mas a vontade do imperador é a lei. Weber tem consciência desta situação desesperada; qualquer coisa, neste homem político, o impede, em cada oportunidade, de entrar na vida pública. Era ele ainda muito jovem, quando uma das maiores empresas industriais desejou nomeá-lo síndico. Foi o caminho que conduziu, mais tarde, um

Gustav Stresemann do escritório à chancelaria do Reich: Weber recusa. Após a primeira publicação científica, Miquel, o grande ministro das Finanças, quer nomeá-lo subsecretário de Estado: Weber recusa. Ainda em 1918, o Partido Democrático, que tinha Weber como um dos seus fundadores, propõe a sua candidatura para o Reichstag: Weber desiste, espontaneamente, em favor de uma figura de importância local. À luz desses fatos, a crise nervosa de 1897 não é um acidente; é uma fuga. Ele, que odeia a burocracia, que ama a luta dos partidos, é uma individualidade demasiado forte para submeter-se à hierarquia de um ministério, de um partido. É o último dos individualistas. Encontra o seu lugar onde não existe submissão, disciplina pessoal, nem limites: na ciência. Em 1903, a vida pública o esquecera. No mesmo ano, a sua produção científica principia a florescer. Na ciência também, Weber é um apaixonado. Ele criará uma síntese, a maior síntese, talvez, que a ciência dos nossos tempos viu. Mas a sua paixão é a especialização, sólida e profunda, dos velhos professores. "Quando a vida alemã" - disse uma vez - "perde, de todos os lados, a solidez, para depravar-se nas especulações mais ousadas, como salvar a velha solidez senão pelo trabalho racional dos especialistas sinceros?" Esse "racional" é significativo. Filho da burguesia e do século liberal, tem viva consciência da sua faculté maîtresse, e crê na força da razão que dominará tudo. Não é positivista: impedem-lho as lembranças da filosofia hegeliana; o "Benedetto Croce alemão" cria uma nova ciência, independente e compreensiva, sem preocupações ideológicas, uma ciência não racionalista, mas integralmente racional. E como a ciência pura de Croce, ela será invadida, depois, pelo irracionalismo de uma ciência sem consciência. Não existe ciência absolutamente independente, e a ciência dos próprios Weber e Croce, de grandes-burgueses, o prova. Em alguns momentos de lucidez, Weber o reconhece. A própria escolha de um assunto científico - a simples escolha de provas na imensidade do material virgem já obriga a suposições e vem, talvez, imbuída de preconceitos. Quanto à explicação, Weber compreende. "O que se

torna objeto de estudo" - diz ele - "mas, acima de tudo, o que faz a ligação causal entre o objeto e a realidade, é determinado pelos valores que dominam o sábio e seu tempo. Ele não é capaz de julgar um fato histórico sem trair, a cada linha, o mundo que gira em sua cabeça." Weber busca para encontrar. Estuda para comover, para agitar o seu meio. E vence. Amaram-no, odiaram-no, como nunca um sábio foi amado e odiado. Era isto o que animava de um sopro ardente as suas conferências acerca dos assuntos mais ásperos, ao ponto de encantar os estudantes, arrancando-lhes aplausos intermináveis. É justamente o que faz dos seus estudos mais profundos e mais sólidos um auto-retrato de artista. Max Weber é uma natureza de artista; prova viva da teoria de Croce - que não há fronteiras definidas entre os gêneros, entre a historiografia e o romance. Weber é artista, mas o é mau grado seu. Este westfaliano, de corpo pesado, grande comilão e beberrão, de voz retumbante, de humor grosseiro, despreza a arte como os grandes industriais e comerciantes, do qual descende, desprezam o luxo supérfluo e frívolo: herança longínqua do puritanismo de seus antepassados, que eram pietistas, possivelmente anabatistas holandeses. Entre seus antepassados, tanto do lado materno como do paterno, encontram-se mártires do protestantismo. É "long, long, ago". Entretanto, os pais de Weber construíram fábricas, usinas. Weber é desses puritanos de uma nova mentalidade econômica, que criaram o capitalismo. Algumas vezes existem, nesta burguesia, filhos perdidos que se gastam em artes frívolas; distinguem-se pela irritabilidade, por crises nervosas. Max Weber, filho perdido de burgueses puritanos, é uma natureza de artista. O que torna possível essa definição de sua classe, de sua família, escrita por ele mesmo: A ética protestante e o espírito do capitalismo. Weber não descreveu a evolução religiosa das seitas protestantes; era tarefa de seu amigo Ernst Troeltsch. Weber não escreveu a história do capitalismo moderno; era tarefa de seu amigo Werner Sombart. Weber faz a síntese entre as ciências de duas Faculdades. Descreve como os puritanos secularizaram a sua fé, como desligaram a ética do trabalho ilimitado de suas origens no

dogma da predestinação, como a igreja sóbria, sem ornamentos, dos calvinistas, se transforma na oficina sóbria, sem ornamentos, dos burgueses. O próprio Weber é um puritano secularizado: substitui o dogma pela razão, o sermão pelo discurso, a seita pelo partido, o fanatismo religioso pelo ardor político. Sendo o maior descobridor de fenômenos da secularização, é também um fenômeno da secularização. Essa identidade completa entre a sua pessoa e a sua obra é notável, enchendo-o de estranho entusiasmo. Entusiasmo de apóstata. Ele não se deu conta de haver perdido Deus; julga-se capaz de apoderar-se de Deus para os seus fins. É cego, não vê a grande catástrofe de sua vida e de seu pensamento. Weber, que se imaginava arauto do progresso, era o arauto do capitalismo, quando já este caminhava irresistivelmente ao encontro, em 1914, do começo de seu fim. Exatamente como o seu antípoda Benedetto Croce, Weber é um homem contra o seu tempo. Ele não o sabia; mas pressentiu-o. Já em 1908, o artigo sobre a política agrária na Antiguidade romana, com as alusões à política agrária dos morgados prussianos, é cheio de sombrias visões do futuro. Enquanto o sol do poder e da prosperidade brilha sobre a Alemanha, Weber levanta-se como profeta do desastre. Começa a estudar os profetas do Velho Testamento, e escreve: "A profunda impressão dos oráculos de Amos vem, possivelmente, da circunstância de serem esses oráculos vaticinados ao sol, e verificarem-se mais tarde." Weber acredita-se um Jeremias. A guerra mundial começa. E Weber começa a sua grande obra sobre os profetas do Velho Testamento. É um estudo de profunda solidez científica, de extraordinário saber e, ao mesmo tempo, de um caráter altamente pessoal. Os antepassados puritanos de Weber amavam essas profecias ameaçadoras, esses gritos roucos contra os reis e os padres. Weber é como eles. Ainda uma vez, um retrato do artista, pintado por ele mesmo. Confessa escrever sob o barulho dos canhões, em excitação escatológica. Como os profetas lutavam contra os reis de Israel que arruinavam a nação, Weber luta contra o imperador infeliz. Weber, o

maior descobridor dos fenômenos da secularização, é um profeta secularizado. Um profeta sem Deus, naturalmente, como cumpre a um homo religiosus de uma época ateísta. Chamaram a Weber um "religioso do ateísmo". Isto foi no tempo em que escrevia os seus famosos artigos de jornal. Weber considera os profetas hebreus os maiores panfletários da literatura universal; e durante os seus estudos sobre estes profetas, escreve, na Gazeta de Frankfurt, seus grandes panfletos contra o imperador, cheios de clarões, de furor, de cólera, de desespero. A própria obra científica é um panfleto disfarçado. Weber subiu à tribuna. É um filho da sua classe e da sua época. Membro típico da "classe discutidora", nacionalista feroz ao mesmo tempo. É preciso salvar a nação da dinastia. O Jeová dos profetas não é o Deus dos reis, mas de seu povo. Weber, porém, o ateu, é um profeta sem vocação divina; seu nacionalismo "satânico" prepara o soerguimento de um povo "eleito", mas não eleito por Deus. Weber odeia o imperador, como os puritanos ingleses chamavam aos reis da Casa de Stuart "padres de Baal". O imperador diz-se "pela graça de Deus", mas é ungido de um falso Senhor, de um Baal. E os sacerdotes deste Baal são os burocratas. Weber luta contra a burocracia, como os profetas hebreus contra os sacerdotes do Templo. Esta luta contra os burocratas, aliados do trono, tem uma significação profunda. Na aparência, é a luta de um liberal, de um chefe de partido democrático, contra aquilo que Renan denominava "le despotisme": a administração pública. É na verdade a guerra dum gigante contra poderes gigantescos, anônimos. No decorrer desta luta Weber inventou a teoria dos três tipos de autoridade. Contra a autoridade legítima do monarca, contra a autoridade legalista dos burocratas, Weber ergue a autoridade "carismática", de revelação direta e divina, do profeta, do chefe. O carisma santo contra o métier profissional. O chefe "carismático" contra o rei legítimo. Algumas vezes Weber parece identificar-se com esse chefe. Não é de Deus que o liberal ateu tem seu carisma. Seu profeta será ateu: seu chefe será um ditador.

pelos grandes nominalistas da Idade Média dirige-se contra o pensamento coletivo da Igreja. sem alma. do seu sucessor. em grande-burguês calvinista. O individualismo desencadeado por um Occam." Weber. O individualismo leva sempre a um novo coletivismo. o "ardil dialético" de Hegel. Como no poema de Heine. A ciência tornou-se vida. Nos grandes meetings. mais tarde. E Max Weber é o Croce e o Sorel da Alemanha. empreende matar o marxismo pelas armas de uma filosofia espiritualista. sob o qual reluz a espada do carrasco. para erguer. dissimulada em seu capote. bem cedo.diz ele no seu último . o modelo mais convincente desta transição. o que tornou possível. Ainda uma vez. o democrata calvinista Max Weber transforma-se. Contra esse inimigo inesperado. será "uma máquina obediente. na sua famosa conferência sobre La scienza e la vita. murmura: "Do teu pensamento eu sou a ação. como todo individualismo burguês. "Por uma forma rigorosamente democrática.diz Weber em 1916. Será um demagogo. não menos materialista. colaborando na Constituição de Weimar. uma personagem misteriosa. Protagonista dum coletivismo puramente materialista. A doutrina de Georges Sorel é. "rigorosamente democráticos". a eleição de Hindenburg e os plebiscitos. elas elegem-no chefe" . a ironia do movimento histórico. "A ciência". É um cesarismo plebiscitário. Weber participava dessa opinião. E já sabemos que esta contradição vingará: matará o marxismo.Weber descreve o tipo ideal do chefe "carismático". Weber encontra no seu caminho a oposição de outro coletivismo materialista: do marxismo. talvez. Francesco De Sanctis. do individualismo anárquico à ditadura coletiva. é suicida. filho favorito do liberal. numa pessoa. só para preparar os caminhos dum antimarxismo. nas mãos desse chefe". de repente. chama-lhe um sintoma de envelhecimento. a força coletiva do Estado. conseguiu a instituição da eleição plebiscitária do presidente. inflamará as massas com as suas arengas. O individualismo de Weber. por um Marsilio. se manifesta. O partido político. levanta-se contra a glorificação positivista da ciência.

Era a sua razão de ser. Weber. ela já não é uma filosofia acerca do sentido da vida. sobre a vocação da ciência e sobre o falso sacrifício do intelecto. . o começo de uma Contra-Reforma. o protagonista mesmo da secularização. o "carisma secularizado". A secularização da Igreja fundou este mundo capitalista e liberal. porém. A conclusão era muito lógica. Hoje em dia. das velhas igrejas. Mas ele terá de fazer o sacrifício do seu intelecto. de uma Contra-Secularização. responderá somente um profeta ou um redentor. nesse "retorno". condições apropriadas."a ciência é hoje em dia um ofício sóbrio e especializado. receava. Geralmente." Aqui. hoje sobretudo. A personalidade humana não sucumbe neste regresso? Por contradição. talvez Weber não haja reconhecido esta ligação. e ele sabia bem o que dizia. mas a dialética da história ironizou-o terrivelmente. trata-se de uma distinção bastante sutil.discurso. O protesto de Weber contra o falso sacrifício do intelecto é justificável. a secularização da seita. o salvará. e por isso o seu espírito viverá. Mas a arrière-pensée de Weber. ainda quando seu nome e sua obra estejam esquecidos. Há entre as duas partes desta citação. exigiu o sacrifício da inteligência e o sacrifício subseqüente da vida. era muito outra. ao serviço dos conhecimentos de especialistas. profundamente secularizado. a ciência não responde. e para a qual já não existem. Ele. talvez . cumpre conservar a lembrança desta possibilidade da existência humana que Weber realizou. Aquele que não se pode conformar com isso volte para os braços. Perguntareis: mas quem nos dirá o que devemos fazer? A que Deus devemos servir? Então. neste protesto. desejava salvar a soberania da personalidade. o puritano secularizado. Mas em nossa época não existem profetas. que precede a derrota do mundo.e é o mais provável . na época atual. O messianismo "carismático". o "retorno às velhas igrejas" não passa de uma fuga que prepara as submissões subseqüentes. senhores. É preciso explicar um pensamento pelo outro.ele a tenha escondido. A ciência como ofício . Foi a derrota do espírito. Weber desejava completar a secularização. misericordiosamente abertos. de um profeta. uma ligação íntima.

Estamos em face de um dilema gravíssimo. a visão histórica de Hegel. e o que importa não são as obras de alguns gênios. é o espírito que os criou. o céu olímpico de Goethe. na noite . que é sempre incômodo. e a lição espiritual de tantos outros. Por outro lado. a "luta das duas almas no peito" é coisa comum entre as nações e os homens. uma divina. a banalidade metafísica de uma tragédia que se repete todos os dias. a catedral invisível de Bach. ocupadas numa milenária luta interior. num Michelangelo. e empreende a cruzada em nome desse mesmo espírito alemão. extermínio mais radical do que o mundo. São soluções de propagandas banais. herança dolorosa da nossa natureza. haveria duas Alemanhas. A civilização. Enfim. ou os próprios valores da civilização alemã seriam os criadores espiritualmente responsáveis daquela força destruidora. o espírito alemão. Nenhuma dessas três soluções satisfará ao presumido homem sério. seria incompleta. Oferecem-se-nos três soluções: os valores da civilização alemã seriam a justificação espiritual bastante da obra material que aqueles empreendem. a nossa e a universal. enfim. Mas a força alemã pretende destruir a nossa civilização. num Pascal. num Friedrich Nietzsche. imagina. e a luta contra o "perigoso espírito alemão" degeneraria inevitavelmente em luta contra o espírito em geral.NIETZSCHE E AS CONSEQÜÊNCIAS A NENHUM homem sério poderia deixar de preocupar a grave discrepância entre os valores da civilização alemã e as forças destruidoras no seio do mesmo povo que os criou. indivisível. se lhe faltassem a austeridade de consciência de Lutero. o espírito é integral. O próprio Nietzsche soube-o vagamente: chamou-se a si mesmo "Dionísio crucificado". a que assistimos. outra do diabo. tem a tristeza banal. espectadores compassivos e vítimas passivas. A "justificação espiritual" do esforço alemão começou com o extermínio do próprio espírito alemão. e atinge força simbólica só nesses poucos heróis sofredores que lutam um combate representativo: num apóstolo Paulo. em geral.

como vencedor do pessimismo schopenhaeuriano. bem nietzscheano. com Max Scheler. de Moebius a Bumm. o mal-entendido de Nietzsche no estrangeiro é mais triste. Nietzsche é um "Siegfried". filósofo oficial do nacional-socialismo. e a eles se deve a recuperação de Nietzsche para a força vital alemã. Mas o seu sacrifício representativo foi em vão: há no mundo uma força mais poderosa do que o espírito. a validade do pensamento "de um professor louco". Os filhos descobrem um meio mais eficaz da revitalização alemã: a guerra. Para Alfred Bauemler. Os jornais judeus frisam o antibismarckianismo e o filossemitismo de Nietzsche. Os simbolistas que introduziram Nietzsche na França não tinham . fundador dum aristocratismo espiritual.da loucura que predissera a toda a humanidade. Friedrich Nietzsche acaba como. esqueciam os professores de boa saúde que a residência de Nietzsche na casa dos alienados é já o julgamento de um mundo onde o psiquiatra é o dono da casa. o sofrimento e a própria loucura: é o símbolo terrestre do infinito. admite judeus no seu "círculo George". Se esses mal-entendidos germânicos constituem assunto de uma comédia. como restaurador das forças vitais. no outono de 1914. Encarregaram-se disso os psiquiatras. Brandes proclama-o modelo do "bom europeu". O fato de ter renegado a Wagner. com Georg Simmel. Há neste círculo muitos estudantes universitários. A oposição da Alemanha imperial contra Nietzsche suscitou. o Nietzsche-Archiv de Weimar é já um centro nacionalista. fê-lo intolerável aos universitários e determinou a sua eliminação científica. de outra parte. ficam muito satisfeitos quando o grande poeta Stefan George. para os alemães. até pelos seus conterrâneos. a tolice humana. a oposição dos liberais. Reconhecem-no. um "alemão rebarbarizado". verdadeiro filósofo oficial do Reich guilhermino. morriam com versos de Nietzsche nos lábios. Os estudantes-voluntários da batalha de Langemarck. Pequenos círculos da burguesia já tinham mal entendido Nietzsche como precursor do nudismo ou de reformas alimentárias. começara: um professor secundário possuído de loucura furiosa. Nietzsche foi sempre mal entendido.de sua loucura . Na República de Weimar. negando. festejam-no.

um cristão pascaliano. como as canções. bastante clara para esconder sob a virtuosidade dos meios estilísticos as contradições internas. Nietzsche é um inimigo mordaz dos alemães . ébrias de luz. que na Alemanha oferecera o programa duma sinfonia de Richard Strauss.a expressão "bom europeu" é dele . como versículos mágicos das escrituras sagradas do Oriente. E todavia esse filho de gerações de pastores luteranos sofre intimamente de conflitos religiosos e é. Nietzsche é o último filho da "velha Alemanha" humanista. O esteticismo confundiu Nietzsche com Oscar Wilde e deduziu daquele um falso imoralismo.noção das diferenças entre Nietzsche e Wagner. Exprime com igual mestria o lirismo modesto e profundo dos alemães. tornou-se na França assunto duma grande ópera. mal-entendido de que o próprio Gide não pode ser absolvido. ao mesmo tempo. a sua língua soa como os aforismos densos dos filósofos pré-socráticos. e só mais tarde tiveram eco. a claridade irônica dos latinos. que se perderam no reino sóbrio de Bismarck. dos provençais. o grande pathos da Bíblia. filho espiritual de Goethe e Hölderlin. afinal. Até que os êxitos incontestáveis dessa revitalização alemã perturbaram os próprios cérebros franceses. proclama o individualismo germânico. Esquecem-se de que "toda religião de beleza degenera em orgia". e a nova geração dos Maulnier e dos Brasillach celebra em Nietzsche o rebarbarizador da Europa. Não faltam tiradas nietzscheanas nos romances de D'Annunzio e na boca dos jovens libertinos russos de Artsybachev. Os mesmos círculos wagnerianos fascinavam-se com o estilo de Nietzsche. às vezes. A sua prosa é a do grande poeta que era. e o Zaratustra. Karl Jaspers . e. o amoralismo bárbaro dos gigantes da Edda. e. Mas é sempre clara. profere fanfarronadas de uma ébria vontade de dominação. ao mesmo tempo. Os gritos dos jovens Siegfried nietzscheanos na batalha de Longemarck perturbaram desagradavelmente esses prazeres. e desde então passou Nietzsche pelo filósofo do pangermanismo bárbaro.240 Nietzsche foi o inimigo mais furioso que o cristianismo jamais teve.e. Donde esses mal-entendidos? Nietzsche não é um autor difícil. É o estilista mais latino e mais claro da língua alemã.

O poeta Nietzsche chega ao cume. que lembra a mais velha metafísica. As descobertas psicológicas de Nietzsche. Nasce então um profeta. as suas diagnoses da decadência e do niilismo da civilização moderna. e não menos autêntico. sobre o ressentimento dos fracos e vencidos como origem da moralidade. em que Karl Jaspers identificou a primeira filosofia existencialista. A única obra puramente poética de Nietzsche. agitada nas profundezas da existência humana. última metafísica niilista e desesperadamente otimista. o lanço apaixonado de toda a sua personalidade. Nietzsche é poeta e filósofo ao mesmo tempo. Lembra a verdade dos antigos . o diagnóstico "poeta" era a tentativa dos estetas para se subtraírem às verdades desagradáveis do pensador. . é a sua personalidade. mas a todo o nosso ser. o Zaratustra. Pois filósofo era também. o que faz da sua loucura a sua obra máxima. A verdadeira união desses elementos só é possível no fundo agitado da alma dum homo religiosus. que lembra as personagens de Dostoievski. Friedrich Nietzsche era um profeta. Nietzsche parece poeta porque a sua filosofia se dirige não só ao intelecto. União muito rara. A sua filosofia. Percebeu-se isto muito cedo. coloca-nos diante de perguntas ameaçadoras. o "elemento ator". O único laço que lhes dá coerência é a paixão intelectual de Nietzsche. até as suas tentativas de uma metafísica da transformação eterna. coberto de destroços contraditórios". é a sua obra mais fraca. em todo artista. O diagnóstico "poeta" não serve para nos subtrairmos aos problemas existenciais que o pensamento nietzscheano nos propõe. após o diagnóstico "loucura" dos psiquiatras. quando o espírito do poeta ainda anoitecia na casa dos alienados. Friedrich Nietzsche era poeta. sobre o elemento teatral.chama à obra de Nietzsche "um campo de ruínas.que os poetas são uns delirantes. e que não deve ser confundida com os balbucios pseudofilosóficos do poeta Hugo ou com os ócios poéticos do filósofo Santayana. a de Heráclito: não são poemas. onda a força da palavra poética contém uma inteligência existencial e profundamente verdadeira. Esse poeta autêntico é um autêntico pensador.

e a tantos contemporâneos. pretensa pedra fundamental duma nova civilização alemã. a dialética de Hegel. Nietzsche colheu os primeiros ensinamentos sobre a psicologia "mimética" do artista: reconhece em Wagner o ator. Era menos e mais. como Isaías antes do advento do Messias. Nietzsche espera a salvação na obra poética e musical do schopenhaueriano Wagner. o fim da "velha Alemanha" e o advento do Reich de Bismarck não podiam ser compreendidos pela dialética histórica. Nisto reside a sua qualidade profética. cheio de Goethe. o ódio da nova Alemanha o prende. Em Bayreuth. com que sonhava. encarada com desesperado pessimismo schopenhaueriano. e na sua arte profundamente insincera uma teologia do ilusionismo. Filólogos vivem no passado. veio. Tinha uma verdade existencial a proferir. como Jeremias antes da destruição do templo. que estava então sendo esquecido. já é tempo de situá-lo no seu tempo passado. e o messias "super-homem". encantado com os versos de Hölderlin. Nietzsche não foi mal entendido. que é o tempo presente. Portanto. mais e menos ampla ao mesmo tempo. Pela primeira vez. Não sabia mesmo da última fase desse humanismo: o pensamento anti-histórico de Schopenhauer escondeu-lhe. A vida independente de Nietzsche começa em 1868. Mas a profecia não pode ser entendida antes do seu cumprimento. foram sentidos como catástrofe espiritual. Para nós outros. O templo de Nietzsche foi destruído.Mas o que é um profeta? Um homem inspirado por Deus? Ou simplesmente o portador duma verdade que os homens não querem ouvir? Uma definição. que para eles é vivo. quando o precoce de 24 anos é feito professor de filologia clássica na Universidade de Basiléia. diria: um profeta anuncia a uma situação temporal uma verdade eterna. ele não podia ser entendido antes do tempo. . para melhor compreender o nosso tempo presente. Nietzsche não conheceu a morte do seu mundo humanístico. o seu mundo espiritual não conhece a morte. Nietzsche não era um inspirado de Deus nem um sábio que tem razão contra o seu tempo. A profissão é significativa: o jovem Nietzsche é um representante da "velha Alemanha" humanística.

Retira-se para a Suíça. Reformado por motivo de doenças um pouco misteriosas. nova espécie da "flor azul" de Novalis. Nietzsche só desempenha. Não pode ser bárbaro: está gravemente doente. germânica. No entanto. em Nice. O cristão Nietzsche queria ser um pagão mediterrâneo. existencial: a sua própria existência de professor reformado. mal disfarçada. alma "naturaliter christiana". e desesperadamente. relativamente luxuosa. Nunca podia tornar-se um pagão grego. mas resulta dum atavismo real do paganismo nórdico. é uma existência burguesa. Nietzsche. tinha uma alma cristã. (V. da música de Bizet. em Nice e na Itália. Descobre o mundo latino. uma verdade pessoal. bem germânica. sulino. de que Nietzsche pretendia ser o profeta. vive da sua pensão e de algumas rendas pessoais. e achou em si a barbaria nórdica.241 não tem nada com as máscaras de ópera pseudogermânicas de Wagner. que o romântico incurável Nietzsche sempre amou. Dessa contradição profunda provém o saber de Nietzsche a respeito das "máscaras". onde o suave pessimismo histórico do velho humanista Burckhardt o consola e lhe abre o mundo do humanismo europeu. que a desorientação neobárbara de Nietzsche. Veneza. nessa altura. que vive. Atrás da máscara cristã de Wagner reconhece o paganismo interior dos alemães. meio feudal e meio industrializado. porém. descobre. A barbaria. Andreas Heusler mostrou. mas a barbaria dos novos burgueses alemães. Não sabe que está possuído da "nostalgia do Sul". não é a barbaria dos velhos valentões germânicos. das suas rendas. No fundo. A doença moral do próprio Nietzsche advém da luta interna entre o cristianismo da alma e um atavismo pagão. da psicologia de Stendhal. Estamos no centro do problema. que sabia pouco da sociologia. que não é idêntico ao humanismo alemão. os estudos de Weigand sobre a situação financeira e as . É a última máscara. Nietzsche apenas imaginava ser um espírito latino. Gênova. é um fato real. e todas as suas descobertas psicológicas. num estudo profundo. mal cristianizados. no seu novo Reich militar e burguês. Monte Carlo. saudade insaciável duma pátria irreal. o papel do bárbaro. sente a fascinação do sol mediterrâneo.

o presente e o futuro.Nietzsche reconhece que a Alemanha precede. Di-lo o próprio Nietzsche: "Sou o profeta do niilismo europeu. mas está baseada na doença. o antialemão. desde o nudismo e as reformas .despesas de Nietzsche. fenômenos espirituais. não se sabia onde se estava. ao mesmo tempo. aos outros povos e a toda Europa. Sozinho. entre eles. que é o precursor do grito apocalíptico de Nietzsche e o fundador do partido que fornece as massas disciplinadas do socialismo. Mas . que a situação alemã se tornará a situação do mundo.e da generalização dela: a sua doença revela-lhe a base doente de toda a civilização burguesa. É a autodestruição niilista no espírito de Nietzsche que o torna apto a reconhecer o niilismo alemão. que o torna um rendeiro ocioso.) A existência ideal dos "senhores" nietzscheanos tem certas premissas econômicas. Nietzsche não recua nunca diante duma verdade ." O privilégio do profeta consiste em não ser entendido. A face exterior desse processo é a industrialização. o anticristo. nesse caminho. fala como alemão a alemães que já não o são. faziam-se retratos de Nietzsche à própria imagem. o seu mestre: Heráclito. e.o seu máximo feito profético . fala como cristão a cristãos que já não o são. o maior. Ataca incessantemente o representante simbólico desse racionalismo: Sócrates. É o profeta do niilismo. a Marx. o filósofo da transformação eterna. Apoderando-se das sugestões de Bourget. Nietzsche. A existência do próprio Nietzsche não é uma exceção. que conduzem ao niilismo. Nietzsche. denuncia o enfraquecimento dos instintos vitais pelo racionalismo burguês. o aburguesamento e a proletarização da Alemanha: fenômenos exteriores e. Na Alemanha. A situação é cheia de contradições dialéticas. ele está diante do nada. Redescobre os filósofos pré-socráticos. o caminho. enfim. A estrutura heraclítica do próprio intelecto de Nietzsche fá-lo descobrir a estrutura heraclítica do espírito alemão e o caminho da autodestruição desse espírito: o caminho de Goethe a Hegel. o fenômeno da decadência européia. igualmente. de Hegel ao "Estado de poder" prussiano e. do nacionalismo e do socialismo à fusão de ambos no nacional-socialismo.

primeiramente. à qual chama um "crime de lesa-majestade". a dos Maulnier e Brasillach. de Nietzsche encontram-se. Hegel está quase esquecido na Alemanha. a situação espiritual era. a defesa desses valores da civilização alemã. sem os quais não haveria civilização européia. Eis por que será impotente uma resistência que opõe às armas mecanizadas outras armas mecanizadas. alemão e ocidental. Os malentendidos. No tempo em que Nietzsche estréia. Na Europa ocidental. as anteriores oposições espirituais do "bom alemão" e do "bom europeu" desaparecem. A resistência contra essa solução é. de fato.alimentárias até à "vontade de poder" do pangermanismo. e sê-lo-á também no campo de batalha. mas protesta vivamente contra a identificação dos evolucionismos de Darwin e de Goethe. quando descobriram o Nietzsche nacionalista. Quem só toma a sério as armas já está perdido no espírito. reconhecendo a sua significação negativa. As profecias têm sempre uma significação negativa. Cumpre tomar a sério a profecia de Nietzsche. estavam na defesa. um espírito heraclítico. como Hegel. O heraclitismo de Nietzsche é um protesto inconsciente contra a falsa interpretação positivista de . que o positivismo alemão desfigurara em sentido darwinista. mas o próprio niilismo já tornou impossível a defesa eficaz contra o niilismo mais poderoso. outra: lá. saúda o niilismo de fora como a própria salvação. Precisa-se percorrer em direção inversa o caminho de Nietzsche. Maravilhosamente. aquele estado de espírito que tolera a eliminação do espírito pela força material. uma jovem geração européia. e isto faz ver que a situação alemã de então se tornara a situação européia de hoje: a profecia cumpriu-se. porém. e a sua inesperada congruência material ameaça o Continente com a destruição definitiva. O apelo só a essas armas trai aquele niilismo desesperado que Nietzsche denunciou. não conhece Hegel. As diatribes anti-históricas de Schopenhauer haviam desacreditado o pensamento histórico de Hegel. O desaparecimento da Europa seria a solução niilista da "questão alemã". Nietzsche é. era ainda possível o mal-entendido esteticista. enfim. o discípulo de Schopenhauer. Nietzsche.

A realidade material dessa congruência. que a minha admiração seja perigosa e deixe entrever. a sua situação "ahistórica". É impossível não admirar Thomas Mann. Todos o lêem. é objeto da admiração esperançosa do mundo. saudara em Napoleão o desmembrador da unidade alemã. muitas vezes. reconhecendo a caducidade do poder exterior. e todos o admiram. porque Goethe via na impotência material das unidades políticas a garantia do poder espiritual dos indivíduos nacionais. mas sim uma tragédia humana. seria a morte. enfim. enfim. O ADMIRÁVEL THOMAS MANN É IMPOSSÍVEL não admirar Thomas Mann. Em Goethe e Napoleão a congruência do "bom alemão" e do "bom europeu". que é o que o ligaria a Goethe. não um gênio vitorioso. o mensageiro do mundo ocidental. e um grande alemão. A dialética histórica do pensamento de Hegel é a congruência das contradições. . É irresistível. do crítico mais exigente até à girl mais engraçada. Com o primeiro romance. a coincidentia oppositorum. O "caminho para trás" é o caminho de Nietzsche a Hegel e de Hegel a Goethe. e que passou. e em tudo isto admirável. A única base possível era o niilismo político de Goethe. o prêmio Nobel selou a admiração universal ao escritor. O tempo de Goethe é a idade de Péricles na história do espírito alemão. o pensador e escritor em ação. com Goethe. É a vida. Perdera o sentido da dialética histórica. Recuperá-lo seria impossível sob a base do niilismo espiritual de Nietzsche. porém. lutando contra a tirania. que. conseguiu a admiração duradoura dos alemães. um escritor de primeira ordem. É um pensador profundo.Hegel. Os Buddenbrooks. Nietzsche lamentou. a coincidentia oppositorum242 objetiva. e eu também desejo unir-me a esse cortejo glorioso. de um ou de outro lado. de ter perdido a ligação histórica com o centro da civilização alemã. temo. torna-se realidade espiritual. Foi um momento feliz do espírito alemão. que se tornou realidade subjetiva em Goethe.

.e entre estes o de Thomas Mann . humano e admirável. Fócion. nenhum pensamento original. A experiência fundamental de Mann é a decadência. Justamente no caso das chamadas "glórias da literatura universal" faz-se preciso um ato de destruição deliberada.A admiração é a inimiga mortal da compreensão. Que é que a gente admira em Thomas Mann? O pensador. é o maior dos escritores de segunda ordem. De Schopenhauer. Mann tem a expressão filosófica da decadência. mas o amor infeliz dum bastante fraco herói de tragédia. papel sujo. e a encarnação de tudo o que é ou foi honesto e admirável no homem alemão. sem possível solução racional. costumava dizer: "Que erro cometi eu?" Sem conhecimento dos erros e das faltas não há admiração sincera. um escritor de primeira ordem. compreensiva. de Wagner e . o orador grego. Em outros casos . o escritor. Nos romances de Thomas Mann há muitas discussões e muitas reflexões. a diagnose e a explicação da decadência. Mann debate-se entre os pensamentos de Schopenhauer. Na verdade.de Goethe. escondido e inacessível às rotações do moinho de rezas descrentes que são aquelas discussões. o alemão. de Nietzsche. e a alemanidade não é a essência do seu ser. por isso. em particular. sufocado sob enormes massas de pensamentos. Thomas Mann é um pensador confuso. contra os uivos da publicidade organizada e da adulação impudente. uma saída. experiência vital e. Mas não há pensamento. o leitor desprevenido abre a boca. Dizem-no um pensador profundo.causas célebres da subliteratura universal . de Nietzsche. indiscutida. Em certos casos . Desde o princípio da sua vida literária até hoje. ouvindo os aplausos da multidão.a análise fará cair uma capa real. sem encontrar uma solução. mas ficará um homem humano. E todas as discussões intermináveis em torno desse problema irresolúvel seriam o caminho a Goethe? Goethe é o Deus absconditus da teologia vitalista de Mann.a análise destruidora não deixará mais que montões de papel de embrulho.este mais mencionado do que pensado . sobretudo a admiração unânime. em Wagner procura a superação da decadência pelas ilusões intencionais dum romantismo ébrio.

um caixão. desde então. o que é coisa horrorosa. de dia modestamente coberto. Esforços. Não sendo pensador original ou claro. o que é a primeira condição do ensaísta. Thomas Mann é um admirável ensaísta. e o seu Goethe é o herói de gesso sobre o armário de livros pouco ordenados. mas em que. a cama é um barco mágico. Expressões caracteristicamente banais. bem-estar e decência humana. Os seus contos magistrais são. em que exorta a Alemanha a "voltar ao sistema europeu de justiça. intitulados por ele. balouçamos para o mar do inconsciente e dos sonhos. Não é simplesmente um liberal. em que se cumprem os mistérios do nascimento e da morte. o conto de todas as noites? É no conto que Mann consegue condensar o seu lirismo em obras de arte. liberdade. o raio de poesia é bem fraco. Mann é um grande manejador de pensamentos. Mas a banalidade é rara em Thomas Mann. antes. é preciso saber que um ensaísta não é um causeur engraçado. e que não posso resistir à tentação de citar: "A cama é um móvel metafísico. como outrora no escuro do ventre materno. uma grandeza trágica. inconscientes e de joelhos encolhidos. Evita-a. recebendo as boas-vindas do resto do mundo". misteriosamente. em geral. esgota-se em cartas . não muito conhecida. é um liberal burguês. onde nos regeneramos. com razão. o que seria uma base de discussões possíveis. porém.Lembra as palavras de Donoso Cortés: "la burguesia es una clase discutidora". Apenas. de noite. porque as suas discussões não são cheias só de pensamentos. Nos penosos ensaios propriamente ditos de Mann. Acha-se esse fraquíssimo liberalismo até na admirável Carta aberta ao Deão da Faculdade de Filosofia da Universidade de Bona. de noite. um conto muito poético. todos eles. em Tristan. O literato Spinell. duma passagem." Não é um poema? Ou. mas um escritor sério. mas também de arrière-pensées. presos ao cordão umbilical da Natureza. ensaios poemáticos em torno do seu próprio problema vital: o artista decadente. Lembro-me. traindo que não foi por mérito de Mann que aquele liberalismo conseguiu. cujo pensamento torturado é transfigurado por um raio de poesia.

Acredita estar em sua casa. nem sequer do romantismo aburguesado e impotentemente melancólico de Brahms. a figura disfarçada e guiadora da Morte. perde a sua dignidade artificial na paixão criminosa por um menino. na música clássica e romântica alemã. atormenta com amores artificiais uma mulher doente. e encontra no caminho da perdição. e Thomas Mann. ofende loucamente o seu grosseiro marido. enfim. Esses raros contos. dormindo profundamente. eis a escassa bagagem literária de Thomas Mann para a eternidade. sem imaginação alguma. Os grandes romances são caducos. quão poucos sobrevivem! Mais do que os outros gêneros da literatura. Mas não é contemporâneo de Bach nem de Beethoven nem de Wagner. de imensos ensaios gorados de grande ensaísta das pequenas formas. e Thomas Mann é o contemporâneo da música artificialmente perfeita e artisticamente . com os seus amores desesperados à loura Inge Holm. Em compensação. Thomas Mann gosta muito da música. dum baby são e gritador. que não quer ser senão romancista. A grande maioria dos romances da nossa época não passam de ensaios. O romance é o gênero propriamente "moderno" da literatura. e foge. Os Buddenbrooks e A montanha mágica. não passam. de ensaios frustrados. fazendo mil variações engenhosas em torno de um tema monótono. As duas obras capitais de Mann. são dois imensos ensaios sobre a decadência da Alemanha e sobre a decadência da Europa. de mil pinceladas de observação paciente. observações e ensaios de criação. afinal. todos eles já estão deitados. e dos grandes romances do século XIX. na Morte em Veneza. como leitmotiv. compostos. pensamentos. o famoso escritor Aschenbach. burguês. Thomas Mann é muito pobre de imaginação. como os avós do último Buddenbrook. fala muito nela. Tonio Kroeger. vaso paciente de todos os nossos sentimentos. laboriosa e penosamente. sabe compor como um músico. inutiliza-se para a literatura. é um ensaísta frustrado.artificiais. O romance é um gênero relativamente novo e não bem definido. o romance é condicionado pelo tempo. poucos romances cumprem integralmente as leis da espécie.

como o leitmotiv. do vocabulário. A língua de Mann mofa de si mesma. de frases meticulosamente construídas como Thomas Mann. É a minha mais firme convicção literária a de que o estilo de um escritor é a chave da sua obra e da sua personalidade. sorrindo das suas personagens burguesas. Lembra aqueles cuja roupa e comportamento corretíssimos querem esconder uma mancha do passado. ele estiliza tudo e ao seu estilo também. sempre correto. e num autor de trabalho minucioso. estilizada à maneira do Goethe da velhice. de vocabulário artificialmente escolhido. Thomas Mann é um grande estilista. em toda a sua gravidade solene. com as virtudes estilísticas da época burguesa: irônico. Thomas Mann é o maior escritor duma época artificial e decadente. duma época de segunda ordem: é o maior escritor dos escritores de segunda ordem. Refoge às impotências da língua herdada e demasiadamente abusada. É a música da grande burguesia. "fria severidade em casa comodíssima": antecipações daquele eufemístico "bem-estar e decência". "Garder la tenue"243 é tudo. é neste sentido que todas as obras de Mann são ensaios que poderiam chamar-se Esforços. espirituoso. um humorista. correção laboriosa. porque não conhece . Um Nietzsche disfarçado em Flaubert. receosa de indiscrições. querendo esconder um segredo delicado. da construção das frases trai implacavelmente o segredo mais íntimo. Grande nunca. Mas não é satírico. E o grande ideal estilístico de Thomas Mann é grande-burguês: como ele define. penosamente disfarçada sob as máscaras da estilização. o estudo das minúcias gramaticais. Estilista de primeira ordem. na significação menos boa da palavra. Há em Thomas Mann um perpétuo pestanejo irônico. porém impotente. psicológico. um aristocrata. da qual o seu estilo recebe os truques mais sugestivos e mais artificiais. analítico. tudo trai a impotência para o verbo espontâneo. para a língua maior da música. Uma dignidade artificial. ao ponto de caracterizar personagens por tiques de fala humorísticos. Thomas Mann é. empregado até à fadiga. penosa. Não é por acaso que a vida literária de Mann começou no famoso hebdomadário humorístico Simplicissimus. sentimental.vazia de Richard Strauss.

" "Decomposição". Há em Mann um burguês e um aventureiro. que desdenha o dono por não saber caçar nem manejar um fuzil. Lembra os homens ricos. é patriota alemão antinazista em 1942. fim natural de discussões intermináveis. tipicamente alemão. Confessa. em que passeia na floresta com o seu cão. para "garder la tenue" até a morte.a indignação moral. um fato a-metafísico. para evitar o escândalo. o ponto final da decadência. A aventura de Thomas Mann é a arte. por falta de fé. para atirar-se à aventura. como no conto Dono e cão. chega a citar o diploma de doutor honorário de Harvard . Daí a ironia cruel contra si mesmo. e são rapidamente transportados para o necrotério. A morte na obra de Mann é um acontecimento biológico.não conheceu . caem de repente mortos. acaba na resignação cética. elegantes. Thomas Mann não conhece metafísica nenhuma. é um burguês domesticado. que mereceu as glórias internacionais. essa "falta de fé" que ele mesmo confessa na Carta ao Deão. até as discussões filosóficas de A montanha mágica evitam cuidadosamente as últimas questões."Mann sustenta a alta dignidade da cultura germânica" . internacional. outra palavra para exprimir "decadência".para provar a sua alemanidade. Não é poeta: é só artista. Acredita ser alemão. para designar o desespero por detrás da máscara da correção burguesa. acometidos de apoplexia num lugar público. mas sem acrescentar a frase de A montanha mágica: "Onde falta a coragem moral da decisão. a "angústia mental e espiritual" . foi patriota alemão republicano em 1922. um artista. mas sempre na tentação de abandonar subitamente esse mundo policiado. na Carta ao Deão. e como as aventuras de todas as suas personagens burguesas. Thomas Mann é um escritor internacional. na mesma Carta ao Deão. que. Afinal. começa o processo da decomposição. porque ele mesmo se sabe continuamente na tentação de sair do seu papel.. a arte de Thomas Mann é de tal maneira arte da altaroda. Por isso mesmo. quase mundana. Foi patriota alemão imperial em 1914. não é um aristocrata caçador. mas não quer saber disto.

Justifica-se. à pergunta: o que significa alemão? Há só muitas respostas. O espírito alemão está aberto a contradições. Mann não compreende bem a decadência da burguesia. Assim como as fronteiras da Alemanha estão largamente abertas. Mann não compreende a história: Os Buddenbrooks não são um romance histórico. o cortejo lúgubre das gerações decadentes dos Buddenbrooks. que terminou por ser cruelmente desmentido. em cada alemão. a sua evolução . a "angústia da alemanidade".da aristocracia de espírito de 1830 à aristocracia de dinheiro de 1900 evolução que é o assunto de Os Buddenbrooks. definitiva. Por falta de dialética. e a pergunta de Wagner . capaz de reconciliar essas contradições. Do velho burguesismo morto nada ficou senão o herdado busto de gesso de Goethe. e começou o romance As confissões do cavalheiro de indústria Felix Krull. e um liberalismo antiquado.é uma pergunta eterna. Não há resposta inequívoca. . o espírito alemão está aberto. meio alemã. porque a Alemanha não é definida. a dialética de Hegel. Ligo pouca importância ao fato racial de ser Mann de ascendência mista. e todo o trabalho do espírito alemão através dos séculos consiste na construção duma dialética. A "alemanidade" de Thomas Mann é uma coisa delicada e crítica. sente-se fascinado pelo último produto da evolução industrial: o cavalheiro de indústria. não compreende o sentido social dessa evolução. sem fronteiras. Vendo apenas destinos vitais. O pretendido historiador da burguesia alemã é um romântico retardatário. é a pergunta de Mann também. o burguês schopenhaueriano da época da burguesia decadente. vê só neste a última possibilidade burguesa da aventura.de ser um alemão. as personagens não passam de leitmotivs daquela história. para reconciliá-las. meio crioula. que Mann. não conhece.O que significa alemão? . Como o conceito da decadência não é um conceito histórico. tocando a dança fúnebre dum mundo morto. individuais. sem saber terminálo. representada por fatalidades familiares. e. contraditórias. base de discussões intermináveis. mas vitalista.

incompreensível para ele. felizes. afinal. A história dessa derrota pessoal de Mann está na sua obra chave: o conto Tonio Kroeger. aos claros. de repente. como Tonio Kroeger ama a loura Inge Holm. melancolicamente. seguindo com os olhos o navio que leva a loura Inge Holm e o seu noivo louro. A forma especial do romance alemão é o Entwicklungsroman. é um malogro.pertence "aos louros. Não reconhece mais a Alemanha e os alemães. é sempre excluído da vida e ama-a sem esperança. para os mares da felicidade. No fundo. banais". está na ponte de embarque. Thomas Mann escreve "romances de formação" em direção inversa. É toda a história de Thomas Mann. vivos. infeliz. acredita Mann. em realidade sangrenta. amáveis. romances do declínio até à morte.e do seu autor . mas que se transformara fatalmente. Mas Kroeger é escuro. Quis sabê-lo. O amor de Tonio Kroeger . que se sabe filho de gerações de patrícios arquialemães. doente. os ensaios Considerações . para os mares do exílio. a morte da burguesia alemã significa a morte da Alemanha. não reconhece a responsabilidade dos pais pelos filhos falhados. sem o navio que o levou. repete sempre Os Buddenbrooks. Tenta identificar-se com essa alemanidade. Não compreendendo a evolução fatal dessas gerações. esses ensaios que constituem os seus romances. isto é. reservado e esquisito. pela identificação espirituosa. É a história romântica dum jovem artista excluído da vida. ele não compreende o seu próprio malogro na tentativa de identificar-se com o espírito alemão. Thomas Mann não compreendeu por que a loura Inge Holm preferira os engenheiros e os oficiais de marinha. de olhos azuis. e fracassou nos ensaios de compreensão. romance da formação espiritual de um jovem até a sua madureza. um espírito que não morrera. O artista Kroeger sofre da "nostalgia da vida e das suas banalidades sedutoras". Esse conceito não passa de um jogo de espírito que se transformou. mas fictícia. do romantismo com o sentimento da morte.Para o burguês alemão Thomas Mann. sombrio. O espírito. 1914: e Mann escreve o seu livro mais estranho. de olhos azuis. sem o fim. Lamenta.

Desta vez. a palavra de Victor Hugo tem razão: "Le romantisme n'est que le libéralisme en littérature. Thomas Mann se enganou. Hans Castorp não sobreviverá ao fim dessas discussões. Emigrante. Uma Alemanha decadente é. louro. são os termos da definição. a alemanidade fracassada. Desde então. na trouxa o pensamento fracassado. filho da Itália fascista. A sua Alemanha já não existe. artista e doente. Luteranismo e romantismo. uma Alemanha com o rosto de Medusa.sem reconhecer o fruto amargo dos instintos mórbidos dos pais. Mann não acredita na cura.no conto Desordem e mágoa precoce . alguns meses. e um Naphta. a Alemanha moribunda ressuscitou. A capa de Flaubert cai dos ombros de Nietzsche. a literatura fracassada. fatalmente uma Europa decadente. Pela última vez. para orador do misticismo antidemocrático. entre as discussões estéreis do espírito europeu moribundo. A decadência é incurável. o alemão Thomas Mann está em caminho. aparece o pálido rosto de Tonio Kroeger. A resposta às Considerações dum apolítico é 1918.dum apolítico. para Thomas Mann. O seu pensamento já não tem nada que dizer senão frases de . ele observa no quarto de meninos da sua própria casa os instintos anárquicos . de olhos azuis e furioso. É a tentativa mais séria já empreendida de definir a alemanidade para lhe conservar o sentido ameaçado."244 Atrás da máscara romantizada do junker prussiano. pois elas não têm fim. Espantado. Epopéia da doença? Para epopéia falta-lhe a fé. e sublinha a ironia cruel. filho do gueto judeu. bem outra da que o historiador da decadência jamais sonhara. Coloca o tísico alemão Hans Castorp. acreditam que será por algumas semanas. Escreve A montanha mágica. "Começa o processo da decomposição": mas não para uma morte romanticamente estilizada. Milagrosamente. Mas a realidade oculta sob essas definições é o protesto do furor teutônico contra a civilização ocidental e o gosto de morrer no campo de batalha. escolhendo um Settembrini. protesto da consciência e amor da morte. para orador da democracia ocidental. de olhos azuis. Vêm doentes para o sanatório nas montanhas. escuro. louro. Mas o moribundo Hans Castorp não é a Alemanha. mas é para o resto da vida.

expropriado. Qu'enfin dans mon esprit je conserve un secret Qui remplirait d'effroi l'humaine nonchalance. libertou enfim o artista no burguês. uma figura simbólica. Já não é burguês. com toda a "falta de fé". também. "Deus valha ao nosso desgraçado país. do maior entre os escritores de segunda ordem. e que não teve resposta. e ele poderia ter dito. a suprema responsabilidade da Palavra pela e perante a humanidade. O que é simbólico. durante uma estação. está descoberto. dum alemão burguês e torturado. para ganhar "a responsabilidade de natureza simbólica e espiritual". tão cuidadosamente escondido atrás da correção burguesa. O segredo pessoal de Mann. Toda a sua literatura anterior passou. depois de haver atravessado todas as fronteiras. Thomas Mann é. desde já. para desaparecerem depois nas estantes. o exílio. E essa consciência lhe dá o direito supremo de. com cujo ressuscitamento por Lutero começou também a tragédia alemã. É o resumo da sua existência. nessa admirável Carta aberta ao Deão da Faculdade de Filosofia da Universidade de Bona.propaganda. A última aventura do artista. e a sua palavra perde o artifício do jogo artístico. com Jean Moréas: "Car je haïs avant tout le stupide indiscret. Hoje."245 Agora. proscrito". à categoria dos romances que "toda a gente precisa ter lido". Resta um emigrante trágico para os tempos da aurora da humanidade. atravessou esta fronteira . não passou de um pensador confuso. Car le seul juste point est un jeu de balance. nunca me poderia ter sido profetizado no berço. invocar o nome de Deus em face da Alemanha diabolicamente caída. durante muitos anos de vida laboriosa. ele pode falar abertamente. Confessa que "nunca poderia imaginar. para o mundo bíblico. que eu haveria de passar os últimos anos de minha existência como emigrado. ensinando-lhe a fazer as pazes com o mundo e consigo mesmo!" Carta enviada para o vazio. Durante toda a longa vida laboriosa. Fala à Alemanha. como o segredo está revelado. era a expressão duma época fracassada.

E não é uma sentença dirigida contra o passado este julgamento. É o resultado conseqüente de toda a nossa civilização. até encontrar. Estranha admiração. Durante muito tempo. . duma questão vital. Thomas Mann é admirável. um alemão triste: consciente. tornou-se grande e admirável. julgar o mundo. enfim. quase erostrática!246 Que permaneceria. sem ser verdadeiramente grande. Já não é um escritor triste. das glórias da literatura universal. acredito. precisamente na hora em que nasceram juntos o Estado moderno e a Ciência moderna. que exige a maior coerência possível do pensamento. tem o direito de falar. Thomas Mann foi eminente. O êxito não é um critério crítico. um burguês triste. Havemos de acusar. Precisa-se restituir o "grande" aos grandes. há coisas diante das quais a voz emudece. o Silêncio apresentou-se perante o Juiz. nome com que Thomas Hobbes designou a encarnação política totalitária. ficara silencioso. desvelou o rosto. De nada serve acusar. é a garantia única possível do futuro. e perante um tribunal supremo. Durante toda a sua vida literária. JACOB BURCKHARDT E O FUTURO DA INTELIGÊNCIA É DE PAUL VALÉRY. do seu fracasso. Mas há nisso uma contradição: "definir" é uma atividade racional. restabelecer a ordem dos valores. porém. para ganhar a alma imortal. e fez-se reconhecer como testemunha. Enfim. do seu destino. se tais processos analíticos fossem generalizados? Exatamente tanto quanto há nela de verdadeiramente grande. há três séculos. a Besta do Apocalipse. Leviatã não é um mero fato político nem produto de certas anomalias nacionais ou sociais. e é melhor perder um nome "consagrado". para definir a atividade dos intelectuais e a sua posição. na catástrofe. a frase: os intelectuais passeavam no paraíso das suas ilusões. passou da tristeza para a tragédia. tratase. esta. julgar a nós mesmos. enfim. Chama-se o monstro: Leviatã. cujas atividades intelectuais possibilitavam e criavam tal coisa. E como figura trágica. simplesmente questão da nossa vida. as lamentações são inúteis. Portanto. Já não tem o dever de falar.também.

era pessimista. De dia. confesso-as. a coerência lógica. ich bin kein gut geschrieben Buch. mas que não quer renunciar às ilusões. É difícil resolver se essa descoberta de Burckhardt criou o seu pessimismo. Em todo caso. Ich bin ein Mensch mit seinem Widerspruch. mas sou o último a não as reconhecer profundamente problemáticas. ou se o pessimismo de Burckhardt com respeito à sua própria época lhe fez descobrir o monstro. Ocorrem-me versos do poeta suíço Conrad Ferdinand Meyer: "Das macht." "Não sou um livro bem escrito.. como em todas as questões existenciais. Os advogados e jornalistas do século XIX acreditavam extinto o monstro antediluviano. duma decisão terrivelmente vital. O que exclui. receando a volta do monstro no período mais magnífico dos tempos modernos. a apoliteia é uma traição à vida. Ao contrário. e radicalmente. duvidemos. desiludido das suas realizações frustradas. e. impostas. onde está sofrendo as censuras alternantes de humanismo . e a raiz comum desse pessimismo e dessa apoliteia é um liberalismo antiquado.. amanhã?. O que fazer hoje. a apoliteia. O pessimismo e a apoliteia de Burckhardt parecem-me atitudes exemplares. fugindo ao Leviatã. um abandono da vida ao monstro. retratando-o na História da civilização grega. já não servem. previu a nossa situação. Burckhardt redescobriu-o no período mais magnífico da Antiguidade. envolvendo conseqüências não menores do que qualquer outra atividade.que defendemos a qualquer preço. com as suas contradições. a identificação do vagabundo histórico. para todos os casos. de noite. sou um homem. e radicalmente. Trata-se da decisão mais difícil. como convicções. a minha própria posição: o pessimismo leva inevitavelmente à derrota. e a conseqüência do pessimismo foi a sua atitude apolítica. como pesadelos." Eram versos da predileção de um outro suíço: Jacob Burckhardt. que. fugindo para a irresponsabilidade de sonhos históricos: lugar incômodo. facilitava. no meio da maior euforia européia. a própria decisão de não-agir seria uma decisão ativa. Soluções dogmáticas. Ponho em dúvida. Já não há subterfúgios. a retirada da política para a história. não me deixam dormir.

Por esta apoliteia Burckhardt pagou um preço bem caro. Burckhardt queixa-se. como jornalista político. Prevê "o agradável século XX. Burckhardt reescreveu a história da Antiguidade grega. Os gregos chamavam ao homem que não se ocupava da vida pública um idiotes. "Às vezes tenho o pressentimento de que o mundo vai caminhando para um falso endereço." Já é pessimista. Tornou-se redator da Basler Zeitung. E como bom cidadão de Basiléia. a história por excelência era. do "barulho enorme. substituindo à própria experiência. dos gregos. como um ser não-político. escolher a coisa pela qual perecerei: a civilização da velha Europa." O desterro de Burckhardt era a história. só pode responder. a história da Antiguidade. cartesianas. Após os primeiros ensaios científicos Burckhardt entrou na vida pública. para se tornarem brutos bestiais". em que a autoridade erguerá uma cabeça terrível de Medusa". faço-o como homem. Era um exilado na sua própria pátria. Já poucos meses depois. Desconfia das "massas. cidade de Erasmo e dos humanistas. a experiência de Burckhardt. de idiota. da publicidade que está invadindo os lugares mais privados". Para os cidadãos de Basiléia o velho professor Burckhardt não passava de um idiota. e se bem que essa expressão só significasse o homem privado. para ele. Burckhardt é antidemocrata. numa época e numa cidade que se estavam democratizando precipitadamente. A estas dúvidas radicais. que os filólogos continuam indignados com ele. como homem privado. numa carta. moderna. situação sem esperança. Se a História da civilização grega fosse mais . não duvido que ela já possuía a significação acessória." A apoliteia está pronta. mas queria pelo menos fazer a minha escolha. uma experiência. Mas teve a boa sorte de poder escolher o lugar de seu exílio: "Pereceremos todos. jornal conservador. e escreveu-a tão implacavelmente. um apolites. na melhor maneira cartesiana.petrificado ou de neo-romantismo fantástico. no dizer dos gregos. que podem cair amanhã nas mãos de qualquer tratante. mas. Já não quer nada da política. o que estou fazendo. Em outra carta: "A política morreu para mim. a do mestre. Talvez esse fim da evolução democrática seja inevitável.

a opinião comum sobre a Renascença da Antiguidade justificaria inteiramente os argumentos utilitários dos anti-humanistas. após um período de obscurantismo medieval. e as tentativas repetidas de ressuscitá-la . os filólogos redescobriram a filosofia e a literatura. A célebre Querelle des anciens et des modernes está resolvida em favor dos modernos. iluminando desde então o mundo. ao seu gosto. a literatura e a arte gregas. A opinião comum acredita que a civilização grega pereceu nas tormentas das migrações bárbaras e que. interromper esses consecutivos exames de consciência traria a morte às civilizações modernas. e cada tentativa de constituí-las em modelos eternos degenera em constrangimento classicista. há quatro séculos. o mundo antigo. não são as únicas. mas hoje já não serve de nada. Uma história das idéias que o mundo moderno teceu. incomparáveis em si. em transformações estranhas. Os deuses do Olimpo transformaram-se em demônios populares e alegorias astrológicas. mas é duvidoso se as soluções antigas poderiam convir a nós outros. a civilização grega não morreu inteiramente: sobreviveu através de todos os séculos. Na verdade. Aquela opinião geral é falsa. para idealizar.conhecida. Do mesmo modo. Mas os imbecis não podem. e as definições científicas em superstições folclóricas. definitivamente morto. essa raiva professoral seria decerto mais generalizada. o mundo grego estaria. se essa opinião geral fosse justa.não eram libertações nem progressos. Como todas as opiniões comuns. ter razão.as Renascenças . para nós outros. por definição. A civilização grega não pereceu nunca inteiramente. Como se vê. o conhecimento da ciência grega teve talvez bons efeitos libertadores. em petrificação acadêmica. Toda a Idade Média é cheia . Conheço poucos assuntos tão sedutores como uma história grega. as sutilezas acadêmicas em disputas escolásticas. também essa é inteiramente falsa e não deixa de produzir conseqüências funestas: pois. a arte e a ciência gregas: deuses ressuscitados que afugentaram os fantasmas da barbaria. os mais "escuros" também da Idade Média. pois esse livro destruiu um dos mais caros sonhos da humanidade. É verdade que a filosofia grega situou todos os problemas que nos ocupam até hoje. mas exames de consciência.

a Grécia esteticista e filosófica de Goethe. A democracia ideal dos atenienses transforma-se. foi ressuscitado não era a verdadeira Grécia. uma realidade bem desagradável. nas Proto-Renascenças de Carlos Magno. mas um exame de consciência. nos classicismos francês e inglês e no classicismo alemão de Weimar. que . a Grécia democrática do povo ateniense ideal. Humanista. e a história não criou código de valores. e sim perante uma imagem da Antiguidade. pois não há civilização sem um "código de valores". ele reconhece o caráter evasivo do humanismo. e Eurípides na Macedônia. e não sei quantas outras. mas . na Renascença propriamente dita dos séculos XV e XVI. perceberam que Simônides emigrara para a Sicília. Burckhardt redescobre a realidade grega. Essas Renascenças continuam. Burckhardt reconhece a relatividade de todas as medidas. em toda a significação da palavra. de Chartres e de Salisbury. a Grécia pastoral e anacreôntica do Rococó. mas acabou com os seus resíduos. em tirania monstruosa. Assim. a Grécia já não é uma ilha feliz no oceano do passado. Cada humanismo é uma tentativa de justificar-se. redescobre-a e tira as conclusões da sua própria experiência no mundo da democracia. exilado dum mundo "moderno". a não ser o grego. O que. mas uma imagem ideal dela. saudade de todos os tribunos e intelectuais de todos os tempos. Falando a respeito das imagens idealizadas que os historiadores se fizeram da democracia grega. Filho duma época relativista. A última dessas Grécias ideais é a de Burckhardt: ela parece. rejeita o caráter absoluto do modelo grego. vimos a Grécia escultural dos italianos. que Ésquilo morrera lá também.de recordações gregas. A famosa Renascença não ressuscitou a civilização grega. como medida e instância judicial das novas civilizações. e o fim definitivo dessas Renascenças seria o fim da nossa civilização. O humanismo não é uma petrificação.e nisso reside o caráter evasivo dos humanistas não perante uma realidade histórica. sob o olhar do antidemocrata implacável. Burckhardt prossegue: "Com o tempo. criada conforme a própria imagem. a Grécia cristianizada de Racine. Pela primeira vez. a última. mas uma advertência.

a apoliteia. até. Não importa. a polis exige o homem inteiro. para libertar o cidadão das cadeias do Estado. mas. da polis. No positivo e no negativo. ao contrário. que se ri da desgraça geral e da própria." A história das elites gregas é uma história de perseguições. o Laocoonte. O seu único pensamento é a fuga. . Desde que Burckhardt reconheceu a natureza da polis. Burckhardt descobre o grito de desespero. em 1792 e 1793. que Sócrates preferira à fuga a cicuta.. abraçado pelas serpentes do desespero. que Platão fugira. e as inúmeras revoluções e revisões das Constituições não servem. Os recursos democráticos da polis parecem inesgotáveis: após os oradores e denunciadores profissionais vêm os assassinos profissionais: passa-se a matanças gerais. Na literatura e na arte gregas. já não para extorquir o silêncio de oposições. de emigrações e de exílios. Não há vida privada. A única saída é a liberdade interior do homem apolítico.Heródoto vivera em Túrio. menos a liberdade. fugindo ao terror dos jacobinos. que exalta a morte prematura e dá por felicidade máxima "não ter nascido". dos oradores e jurados profissionais. Descobre o terror do "Demos". Nunca foi ultrapassado o pessimismo de Sófocles. a personalidade livre é impossível. dos denunciadores e dos ostracismos é a mais horrorosa tirania que a história viu. A "democracia" da Ágora e dos "agorizantes". No EstadoLaocoonte da polis. para apertar essas cadeias que reduzem o cidadão a um servo do Estado. a França. o filósofo representativo da Antiguidade é o cínico Diógenes. e não querem servir. e o símbolo final dessa civilização é o homem moribundo. do povo político. para Utopia. e a qualificação do homem privado como "idiota" é a preparação do ostracismo e do exílio. Os gregos conhecem tudo. Toda a vida grega está cheia de profundo pessimismo. Burckhardt lembra-se das filas de emigrantes que abandonavam. As brincadeiras anacreônticas e pastorais não representam a Hélade. mas o júbilo de todos. não teme o exílio.. As idealizações da democracia ateniense desvanecem-se. é impossível escapar-lhe. da cidade antiga.

les grands spectacles de la nature. e nisto se reconhece uma fonte do seu pessimismo. rebutés par l'âpreté de la vie. preparados para tudo. ainda uma vez. La race en subsiste encore. pôde esmagar. Já não há mosteiros nem ermidas. se réduisaient à la spéculation et à la culture d'eux-mêmes. Hippolyte Taine. O templo do Júpiter Capitolino caiu em ruínas. nem no orgulho dos bárbaros vitoriosos."247 E Burckhardt: "A fuga para a solidão do ermo faz parte integral daquelas épocas de crise em que justamente os mais fortes não se ocultam a amarga verdade: o mundo cai. Burckhardt não acha sublimidade no império. la science. para uma experiência histórica: o fim da Roma imperial. que se retiram para os mosteiros e as ermidas". mas só "na alta serenidade daqueles nobres. Os seus contemporâneos Fustel de Coulanges e Erwin Rohde explicam melhor o caráter totalitário da República grega pelos fundamentos religiosos desse Estado. Burckhardt não compreendeu bem o caráter religioso da tirania política da polis. Nem Taine nem Burckhardt compreenderam bem o caráter religioso dessa fuga do mundo. o Grande. que triunfa dos poderes Estado e Igreja. sem armas. o Estado antigo. Estudando a época de Constantino. Mas o Monte Cassino ficou. que caiu sem dignidade. À luz desse conhecimento compreende-se por que a religião cristã. solitária. porém. seulement ils n'ont plus d'asile.Fugindo ao Leviatã. . Voilà ce que le vieux monde féodal et religieux avait fait pour les âmes pensives et solitaires. em que o Estado e a Igreja são uma e a mesma coisa. Tácito já predisse: "In nemora et lucos. e só ela. Burckhardt apela. ao fim. id est in solitudinem secedendum est. pelo caráter totalitário da sua religião. les arts. Orbis ruit." A fuga de Burckhardt não chega. La science fera-t-elle un jour pour ses fidèles ce que la réligion a fait pour les siens? y aura-t-il jamais un Mont-Cassin laïque?"248 Não há. olhando o mosteiro beneditino de Monte Cassino. exclamou: "On a tout ici. pour les esprits qui. O totalitarismo da religião pagã caiu em face do individualismo da alma cristã. E não haverá nunca.

e não sou absolutamente partidário dogmático de Benda. numa página sobre Pérez Galdós. Não há dogmas numa mera questão de tática.Às vezes. as portas do convento permanecem abertas. como um Croce ou um Ortega y Gasset o professam. "Stat Crux. dum volvitur orbis. o intelectual. e hoje escrevem "Liberdade" com maiúscula imensa. precisamente. o sábio. e a delimitação da sua atitude contra a atitude liberal vale a pena. Era um conservador. Há poucas expressões tão altas do liberalismo cultural como o ensaio clássico Os limites da atividade do Estado. do ponto de vista histórico como do filosófico. É o vestíbulo de outra pátria. ao mesmo tempo. que. nem do liberalismo religioso." Precisa-se saber que nesse mundo em queda alguma coisa fica de pé: a Cruz. para demarcar e delimitar as relações etimológicas entre a liberdade e o liberalismo. a apoliteia de Burckhardt. Não basta dizer: "Orbis ruit. não falamos do liberalismo econômico. O que parece abandono é o caminho da liberdade. aliás. contudo." Ao humanista cristão não é preciso explicar que a condição da fuga é a vocação. Evidentemente. Não há raças definitivas de réguliers e de séculiers. o mosteiro é a única solução. Mas Burckhardt não era nem sequer um liberal. certas ilusões antiquadas e certas vantagens bem apreciáveis. Não é um abandono. que reúne. que não serve a ninguém. chamou "la aptitud para la comprensión amplia de todas las cosas en conjunto". de Wilhelm von . tem mais razão do que aqueles que ainda ontem se orgulhavam de pertencer às "elites dirigentes". A secularização dessa vocação cristã é. que é cômodo demais. nem mesmo à Liberdade. é o meio para conseguir a liberdade. que é um abuso. nem do liberalismo político. Para conseguir essa fuga feliz. Essa definição da apoliteia burckhardtiana serve. esse liberalismo a que Ramón Pérez de Ayala. nam et hic dii sunt. mas deveres diferentes nas épocas de segurança e nas épocas de crise. Falo daquele liberalismo superior. basta uma convicção firme: a fé."249 Assim. Este liberalismo é o único ar respirável para o artista. Mas nunca é um exílio. Ao humanista diremos: "Introite.

culturais. de la vie et de sa valeur est merveilleusement compatible avec l'action et l'optimisme qu'elle exige: et c'est bien européen. Mas é precisamente aí que a fuga aparente se revela como atividade superior. Burckhardt. por isso. já há muito tempo. ele se vê forçado a deixar o curso ao mundo.Humboldt. porém. que constitui a história. por definição."250 Na corrida do mundo para o abismo. Burckhardt desconfia do homem também. Humboldt quer substituir ao Estado o homem. e a história deveria ter chegado. uma expressão clássica do liberalismo. limita-se a cuidar das realizações passadas. para abrigar a liberdade criadora da personalidade. Burckhardt cede o lugar ao Estado bárbaro democrático. cheio de fé numa harmonia preestabelecida das coisas políticas. O papel do intelectual. um curso mal preestabelecido e. uma atividade essencialmente conservadora. Humboldt representa a burguesia mais culta que toma o lugar do Estado bárbaro prussiano. o destino é uma força real. impõe-se a manutenção da continuidade histórica. Ainda uma vez Paul Valéry: "Le jugement le plus pessimiste des hommes. naquela corrida. o homem Burckhardt está ganhando o que o cidadão Burckhardt está perdendo. não vê os progressos. é invencível a sua resistência obstinada. otimista. des choses. Atitude que reúne a convicção verdadeiramente idealista do weimariano com a possibilidade de todos os abusos futuros. . Pelo seu pessimismo. Mas segundo o credo progressista já não haveria o destino. as mais das vezes. e a única possível. e a mais poderosa. por isso preocupa-se pouco da história e crê no progresso. funesto. a atitude do intelectual parece só fuga. No seu conceito da história. mas as crises e as catástrofes. é. Humboldt é humanista. Nessa alternação terrível de períodos de segurança duvidosa e períodos de crise declarada. econômicas. espírito eminentemente histórico. o seu "indivíduo solitário" está mais perto do "homem isolado" de Kierkegaard. O liberalismo é. O amigo de Goethe deseja limites mais estreitos da atividade do Estado. é pessimista. Burckhardt é o crítico mais agudo do humanismo. ao fim feliz. é. para evitar a queda na barbaria definitiva.

É a atitude duma consciência européia. mes éloges."253 . no turbilhão duma época ilusionista. e. tem algo do serviço vestalino de guarda do lume sagrado. estar consigo mesmo. mais ainda. para. Tudo o que fez. É uma atitude altiva e humilde ao mesmo tempo. et tout ce que j'ai dit.251 "vitae lampada tradunt". "quasi cursores". estava determinado pela convicção de que os intelectuais não devem levianamente livrar-se. de si mesmo e de nós outros. sem ilusões e consciente. ou dos "mortales" de Lucrécio que. não é senão isto: no meio da crise que está sacudindo tudo. tudo o que deixou de fazer. de Barrès: "Il y a là mes blâmes.252 O que Burckhardt exige.A salvação da "civilização da velha Europa" era o único fim de Burckhardt. o papel dos intelectuais nas épocas de crise é essencialmente conventual. pelas vicissitudes dos séculos. guardar o ponto firme do espírito livre e da continuidade histórica. e que me lembra uma frase. cheia de desespero e de confiança.