Otto Maria Carpeaux - As cinzas do purgatório

OTTO MARIA CARPEAUX A Cinza do Purgatório

(1942) AOS MEUS AMIGOS BRASILEIROS

PREFÁCIO AS VOZES PROFÉTICAS do passado ensinam-nos a interpretar a nossa situação; interpretação que equivale a um julgamento do mundo e de nós mesmos, a um exame de consciência. É só a luz interior que pode iluminar o caminho pelas trevas, para conferir um sentido moral ao purgatório dos nossos dias, para acender, na cinza do que foi, a vacilante luz duma nova esperança. Era o meu caminho também: ainda sinto na boca o travo amargo da cinza do purgatório; já devo agradecer a aurora duma vida nova. Quindi uscimmo a riveder le stelle. Devo agradecer ao sr. Paulo Bettencourt a generosidade com que me abriu a porta para atividades literárias no Brasil, concedendo-me a mais ampla liberdade e independência. Devo agradecer aos queridos amigos Álvaro Lins e Augusto Frederico Schmidt a regeneração da perdida fé nos homens, o sentimento duma nova vida e duma nova pátria. Devo agradecer: à magnânima ajuda de Aurélio Buarque de Holanda, sem cujo trabalho infatigável e generoso este livro não teria nunca visto a luz; ao impulso irresistível de José Lins do Rego; à compreensão de

Carlos Drummond de Andrade, José de Queiroz Lima e San Tiago Dantas; e a cada palavra de Manuel Bandeira. Devo agradecer compreensões, simpatias e apoios, que me comoveram e encorajaram, aos srs. Aldemar Bahia, Astrojildo Pereira, Brito Broca, Edmundo da Luz Pinto, Eugênio Gomes, Francisco de Assis Barbosa, Francisco Campos, Gilberto Freyre, Graciliano Ramos, Jorge de Lima, José César Borba, Murilo Mendes, Octavio Tarquínio de Sousa, Osório Borba, Sérgio Buarque de Holanda, Vinicius de Moraes; e aos meus jovens amigos estudantes, portadores de esperanças brasileiras que constituem hoje a nossa esperança comum. Os meus amigos brasileiros. Devo-lhes muito, devo-lhes também que o esforço deste livro não se tenha perdido: fui eu que escrevi, mas foram eles que operaram. Hoje lhes restituo, com gratidão comovida, o que já lhes pertenceu. OTTO MARIA CARPEAUX. Rio de Janeiro, julho de 1942.

OS ENSAIOS reunidos neste volume foram publicados, durante os anos de 1941 e 1942, no Correio da Manhã, Rio de Janeiro, exceto "Literatura belga", publicado na Revista do Brasil (dezembro de 1941). Todos foram aumentados e revistos, com a ajuda de Aurélio Buarque de Holanda.

PRIMEIRA PARTE: PROFECIAS ___________________________________________ JACOB BURCKHARDT: PROFETA DA NOSSA ÉPOCA A GLÓRIA, já se disse, é o conjunto dos mal-entendidos que se criam em torno de um nome. Muitas vezes esses mal-entendidos formam um denso nevoeiro, donde surge um busto de gesso, o ídolo das Obras Completas, cobertas de poeira: é o caso dos "clássicos". Às vezes esses nevoeiros desaparecem, de súbito, para permitir uma ressurreição surpreendente: é o caso dos "poetas malditos". É muito raro que o véu se levante pouco a pouco, oferecendo o espetáculo de uma renovação incessante, toda a história de uma glória: é o caso de Jacob Burckhardt. Os seus contemporâneos conheciam-no pouco. A posteridade imediata reconheceu o grande historiador da civilização, para depois enganar-se profundamente sobre as suas teorias. Para nós, no momento que atravessamos, tornou-se o conselheiro íntimo da nossa angústia. Amanhã será um profeta, o último dos profetas talvez, já que o tempo não terá mais futuro. Eis quatro etapas da história de uma glória. O caminho para a compreensão está traçado. A sua biografia é muito simples. Filho de uma velha família patrícia de Basiléia, nascido em 1818, consagra-se aos estudos mais diversos. Uma incursão no jornalismo político fracassa. De 1844 a 1893, ensina história das belas-artes na velha Universidade da sua cidade natal, pouco conhecido do público, mas muito estimado dos seus colegas. Burckhardt ama a sua cidade, as estreitas ruas medievais, os telhados e torres, observatório do grande mundo batalhador fuori le mura, a cidade íntima, pátria; só a abandona para viagens à Itália, país da sua nostalgia, nunca atenuada. Recusa cargos honrosos nas grandes universidades alemãs, traço de profunda significação que compreenderemos depois. Enfim, velho e

fatigado, retira-se da atividade para morrer docemente num dia de agosto de 1897. Uma vida fora vivida. Como explicar essa mistura dum patrício reservado e dum pequeno-burguês afável, dum professor pedante e dum poeta fracassado? Essa decifração revelará algumas surpresas. Os seus alunos também se surpreenderam, quando da primeira visita protocolar de um estudante: o sábio inabordável falava na intimidade o dialeto rude, quase humorístico, dos suíços, regalava o seu convidado com bons vinhos, explicava as suas coleções artísticas, tocava ao piano o seu querido Mozart, para enfim queixarse dos seus criados. Oh! que velho epicurista, esse professor de história, esse historiador de segunda ordem! Até faz rir: ele teria, no seu auditório, chorado lágrimas de crocodilo, ao recordar as obras perdidas da Antiguidade, destruídas pelos bárbaros; não será isso um anacronismo, no nosso século iluminado? Um dia o bom velho foi encontrado morto, bem morto. Mas atentai: ele voltará. Alguns anos depois da sua morte voltava, por uma segunda edição surpreendente, o grande historiador da Civilização da Renascença na Itália. O livro, quase despercebido quando seu autor estava vivo, esse livro imenso, reconstrução integral de um século, de uma civilização desaparecida, esse livro é uma primeira revelação e cria o primeiro desses mal-entendidos que fazem uma glória. O livro provoca uma moda européia, o culto do Renascimento, a adoração dos grandes animais ferozes de gênio artístico. O burguês de dinheiro, ansioso por uma árvore genealógica, acredita reconhecer-se nesses homens geniais que devem tudo a si mesmos. Hoje, nos palácios e nas casas burguesas da Europa os móveis à Renascença, tipo 1890, são obstáculos à circulação, colecionadores de poeira. Mas os filhos desses burgueses ainda não se despiram do costume renascentista dos seus pais: misturando o fraco poema de Gobineau e as visões de Spengler, esses "señoritos", para empregar a expressão de Ortega y Gasset, fazem-se confirmar pelo professor de seus pais, confirmam os seus próprios princípios maquiavélicos e desumanos, para se tornar, cada um deles, o seu próprio condottiere.

Seria necessário fechar este livro, grande e perigoso, e escrever na sua capa: É proibido citá-lo! Não se queria do Burckhardt morto senão Renascimento. Mas alguns discípulos fiéis não paravam de pesquisar nos seus manuscritos. Apareceu enfim a História da civilização grega. Mais uma vez, uma revelação. Está definitivamente destruído o idílio dos anacreônticos, o mundo ideal da alegria olímpica; e acha-se descoberto o bas-fond da alma helênica, o pessimismo de um Sófocles, o desespero de um Tucídides, a angústia de um Platão. A arte grega não é senão um grito de dor transfigurado em mármore. É certo que esse mundo helênico, visto através de um temperamento schopenhaueriano, está impregnado da consciência cívica de Burckhardt, cidadão-patrício de uma pequena república medieval, agora radicalmente democratizada. O mistério do pessimismo antigo, de acordo com Burckhardt, é o martírio da polis, da cidade, desaristocratizada, despida dos seus fundamentos religiosos, apóstata, vítima da tirania demagógica. Se bem que não chegando à compreensão dum Fustel de Coulanges, Burckhardt fornece o primeiro exemplo de sociologia religiosa, logo mal compreendido como programa de renovação política e cultural, sobre as bases de uma nova religião. O autor deste mal-entendido não é outro senão Nietzsche, jovem colega de Burckhardt na Universidade de Basiléia. Durante toda a sua vida Nietzsche tentou basear as suas doutrinas nas idéias de Burckhardt: durante toda a sua vida Nietzsche tentou conseguir a amizade do velho professor. Tudo em vão. A última carta do filósofo, já louco, é dirigida a Burckhardt: "Agora, você é, tu és o mestre!" Esse "tu" nunca foi retribuído. Mas a falsa interpretação ficou. Por fim a herança de manuscritos inéditos devolve o tesouro mais precioso: as Considerações sobre a História Universal. É o manuscrito de um curso universitário feito sob a impressão da guerra de 1870, sob a impressão da queda da civilização francesa e do advento do império militar dos alemães. Contam que, ouvindo durante a aula o falso boato de que o Louvre havia sido incendiado com todos os seus tesouros artísticos, Burckhardt chorou diante dos

Sobretudo. Acha a guerra inevitável. petrificados nas suas civilizações. Não seriam coisas impossíveis na nossa época ilustrada? Esperem! Daqui a alguns anos aparecerá um livro sobre a guerra. Burckhardt não queria profetizar. única época da democracia realizada. Fixados os traços. O nosso planeta é talvez bem velho. a defesa mais justa torna-se inútil. a ordem dos cemitérios.. à qual se subordinarão todas as teorias posteriores. Procurou somente as reações invariáveis dos homens diante dos seus destinos históricos. Muitas vezes. mas "o que não é certo é que a uma guerra ou a qualquer invasão suceda necessariamente uma renovação. sobre a verdadeira e a falsa grandeza humana. Sente-se Marco Aurélio nestas palavras. sobre as grandes crises. para sua felicidade. 164). assim povos desapareceram e outros desaparecerão. não chegou a ver. A guerra é o auge dessas convulsões que sacodem periodicamente a humanidade: as crises.seus alunos indolentes. uma ressurreição. Quando nos consola dizendo que os males da história são sempre maiores que os nossos. massas incapazes de compreender e de conservar o que foi. algumas passagens quase proféticas fizeram deste livro o último apoio espiritual de milhares de intelectuais da Europa Central. um livro que será o breviário e o consolo de uma geração sem esperança: a nossa geração. A crise é uma fase intermediária entre a democracia nascente e a democracia abolida.. A crise é a passagem das massas por um período de soberania. acontece que reaparecerão num mundo que Burckhardt. que restabelece a ordem. recomeçariam as suas vidas. incapazes de conceber e de construir o que será. sobre a felicidade e sobre a desgraça na história. cemitério daquilo . não se prevê como grandes povos. ao mesmo tempo desfaz beneficamente as nossas ilusões de progresso. segue-se-lhe o despotismo. e já é muito se Roma concorre para celebrar a glória de Numância e se o vencedor se ressente da grandeza do vencido" (p. Burckhardt é sobretudo o criador da noção moderna de crise.

ele não é. que não se conhecem umas às outras. Aos protestos acumulados contra o passado juntam-se terrores imaginários. tornadas o próprio direito. de um lado e de outro. indissoluvelmente ligadas a tudo o que era.. Cada partido defende o seu 'mais sagrado'. Poderia subscrever a frase de Luís XVIII: "Quand le grand homme apparaît. sobre centenas de milhas e sobre as populações mais diversas. o exemplo." Burckhardt não cai no hero-worship de um Carlyle. os únicos inacessíveis" (pp. incompreensíveis no "século estúpido" do "progresso irresistível". quando a crise explode: "Subitamente o processo subterrâneo evolve com terrível rapidez. um suspiro de alívio.. cumprem-se num mês. moral e civilização. numa semana. Burckhardt conhece. "Existe ainda uma oposição conservadora: todas as instituições estabelecidas tornadas direitos. 177). como também a sua superior erudição histórica evita as teorias cíclicas de um Sorel. mas notar-se-á nas suas palavras sobre os mortos. inacessíveis aos terrores do futuro. sauve qui peut!"91 . 168-171).que não voltará nunca."Mas aqueles que ninguém pode substituir. esses são grandes. como fantasmas. pois. Burckhardt não se presta às generalizações de um Le Bon. "Ninguém é insubstituível" . Soa a hora. Foi Burckhardt quem primeiro descreveu a hora decisiva. absolutamente. O que se eleva sobre essas terríveis baixezas é a meditação acerca do grande homem. a ultima ratio da história. séculos a se realizarem. aqui um dever e uma religião.diz o provérbio. a mudança até das armas e das atitudes. de modo que o reacionário faz o papel de democrata e o demagogo representa o ditador" (p."Pois raríssima é a . a elas ligados pelos deveres e pelas vantagens. Daí é que vem a indiferença pelos meios. em lugar dos mortos. e depois todos os indivíduos que as representam. o desprendimento do pathos. . evoluções que levariam. e à vontade de tudo mudar se junta a vontade de vingar-se dos vivos. Daí é que vem a gravidade dessas lutas. o terrível caráter das crises. e a infecção se espalha num instante. até então. Evitando os psicologismos fáceis. Burckhardt nem louva nem censura: comprova. em outro caso. ali uma nova teoria do mundo. o modelo: é a exceção.

como mal. eles verão." Sobretudo "todo poder é mau". em relação a certos povos. O comentário indispensável é a sua correspondência. surgir aqueles de quem eram cúmplices" (26 de janeiro de 1846. épocas de destruição e de escravatura. e a doutrina verdadeiramente cristã chama Lúcifer de príncipe deste mundo. dos antepassados.grandeza d'alma pronta a renunciar às vaidades criminosas. à grande tentação dos poderosos: o poder pelo poder. abre-se em confidências aos seus raros amigos e lhes comunica os seus receios apocalípticos. sob a luz de uma falsa transfiguração. porque não se leva em conta. "De há muito sei que o mundo está sendo levado para a alternativa entre a democracia perfeita e o . As obras da civilização necessitam de ordem. Mas essas épocas eram também. muito impregnada do fatalismo dos estóicos. domina freqüentemente sobre a terra. Adverte e adverte: "Um terrível despertar está reservado aos homens de bem que. herança. participaram do jogo da oposição. e da sua desconfiança dos poderes temporais. "O mal. horrorizados. boa para fazer reaparecer os tempos longínquos. et pour cause. o sábio tímido. não passa de uma razão atenuante.) Cedo ele desanima: "Nada espero do futuro. sob a ordem dos déspotas. é verdade. à maneira dos imperadores adotivos de Roma: porém nada mais" (14 de setembro de 1849). Burckhardt não disse tudo. Nas suas Considerações sobre a História Universal." Aqui está o centro da doutrina burckhardtiana. Aqui o aristocrata reservado. em vista dos grandes inconvenientes reais. muito impregnada de Schopenhauer e do seu pessimismo anti-histórico. calvinistas e cidadãos livres da república medieval de Basiléia. tais épocas são consideradas felizes. "Uma ilusão de óptica nos engana sobre a felicidade em certas épocas. É por esta razão que o poder não melhora os homens. mais depressa92 será de direito satânico." A felicidade não é senão uma ilusão de óptica dos historiadores. e por muito tempo. afinal. "Todo poder é mau. para outros. a euforia dos vencedores. Mas o estado florescente da arte. É possível que alguns lustros passavelmente suportáveis nos estejam ainda reservados." Surge a velha desconfiança do calvinista contra o poder temporal: não existe poder temporal de direito divino.

com Le Bon. Jan Huizinga e Benedetto Croce. Julga-se ter sido Burckhardt o profeta da Decadência do Ocidente. a minha verdade interior. que desesperam do mundo e de si próprios. Burckhardt era um protótipo do intelectual. demasiado fracas. a Autoridade reerguerá a cabeça. com Nietzsche. depois de ter sido confundido com Gobineau. foi confundido com Spengler. Mas a verdade é outra. opõe-se: "Espero crises terríveis. Antes de tudo. É privilégio dos profetas serem mal compreendidos. essa verdade pessoal quase a sorrir. E se nos quiséssemos opor a esta lógica cruel? Uma anotação. será preciso ser . mas por destacamentos militares soi-disant republicanos" (13 de abril de 1882). nas cidades e nas usinas. e será uma cabeça terrível. Como eles. responde: "Os povos transformaram-se em um velho muro. não serão mais deixadas na miséria e livres nos seus desejos. onde não se pode mais fixar um prego. um certo grau de miséria. no agradável século XX. Burckhardt.despotismo perfeito. e ele o sabia: "Pereceremos todos." Terminou a profecia. o intelectual que fez "parte per se stesso". pois não fica seguro. inédita durante muito tempo. mas queria ao menos fazer a minha escolha. a doutrina é muito mais profunda. vemo-lo hoje à luz dos seus "irmãos no espírito". hoje considerado louco. as massas. "Um pressentimento. escolher a coisa pela qual perecerei: a civilização da velha Europa" (5 de março de 1846). fazem-no confessor dos intelectuais desesperados. Diz. os países de sua predileção. iniciado e encerrado cada dia com o rufar dos tambores: é o que deverá advir de acordo com a lógica" (26 de abril de 1872). É esta a razão por que. mas este não mais será exercido pelas dinastias. fixado e controlado pela autoridade. é conservador e humanista ao mesmo tempo. Não desespera. Burckhardt é formado na civilização da velha Europa luxemburgo-borgonhesa entre a Itália e a Bélgica. diz-me: o Estado militar será um grande industrial. é patrício e burguês ao mesmo tempo. mas nenhuma revolução anulará a minha sinceridade. porém.

herdeiro altivo da liberdade feudal. Burckhardt. mundo acima da política. inteiramente. porém. imaginavam outra coisa atrás da modesta casaca: talvez os instintos selvagens das "bestas geniais" da Renascença. O velho professor fez uma estranha figura no traje burguês do século XIX. em torno da política. desde Nietzsche. formado pela Itália da Renascença. não de economia. mesmo sendo um humanista não deixou de ser um cristão. mas sim do homem. da cultura intelectual e artística."94 É a frase-epígrafe invisível de toda a sua obra. pela França de Luís XIV. não de política. Amando ao mesmo tempo o seu Olimpo. O resultado foi essa atitude. no mundo do cristianismo secularizado. a fragilidade do homem num mundo sem Deus. mundo da adoração da civilização e da arte. sed victa Catoni. pela última vez. neste mundo material e materialista. Por isso. ele permanecia o que seus pais basileenses haviam sido: um humanista. reconheceu."93 Eis por que todas as suas simpatias eram para os vencidos: "Victrix causa Diis placuit. Sendo um intelectual não deixou de ser um patrício. Esse caráter apolítico da sua cultura o preservava da "trahison des clercs". a fragilidade do seu mundo ilusório. reconhecendo embora a pequenez do homem. no seu auditório. não era . no sentido de cidadão das pequenas repúblicas livres da Idade Média. pela Inglaterra das universidades aristocráticas e pela Alemanha de Weimar. Sobre o fundo trêmulo de um mundo revolvido.sincero. em meio à luta encarniçada dos imperialismos e das classes. Mas Burckhardt era bem burguês. burguês. Burckhardt é o último dos humanistas. O que significa: formarase. "Si fractus illabatur orbis. Ele era um homem. no sentido dos estóicos. Burckhardt era burguês como os burgueses de Antuérpia. Esse estoicismo sofreu a ação de vinte séculos de cristianismo. muitos. falava. de Florença e de Basiléia. que gira. apoliticamente. Era um homem. Impavidum ferient ruinae. o colocava no centro do Universo. que. sempre sincero" (13 de junho de 1842). e é o fundamento de toda a sua obra. com um olho inexorável.

conservador. em todos os tempos e em todos os povos. pois. na constância da substância humana. Nessas agitações reconheceu os furores da Cidade Antiga que perdera o seu deus. é o inspirador de toda "crítica de ação". e sim transformá-lo. contra bispos e heresiarcas. Tremia-se. cidade do Concílio que se revoltou contra o papa. em nada burguesa. Filho e cidadão de Basiléia. se bem que as agitações demagógicas lhe tivessem feito perder o gosto da vida. Isso o tornava pessimista. observando as grandes batalhas. Intelectual. A sua substância. com viva emoção. cidade de Holbein. acreditava na superioridade do espírito em relação a todas as agitações da matéria. Era um homem. a besta . cidade de Erasmo. mas cada um tinha as suas simpatias. de Milão. e todo pessimista tem em si a matéria de um profeta. último reduto do humanismo. nas estradas de Paris. tornava-o capaz de revelar o mundo da Renascença florentina. Burckhardt era. enfim. tanto da esquerda como da direita. de Antuérpia e de Colônia. contra imperadores e tribunos. sobre os telhados e sobre as torres. que gravou na sua madeira a dança macabra da Idade Média e de todos os tempos. velha cidade humanista. tornava-o capaz de desvendar o enigma da Cidade Antiga. em nada burguesa. como Maquiavel. Karl Marx. Ali ainda se podia estar bem. Isto o fazia incorruptível. que não queria interpretar o mundo. Conservador. Era este observatório que Burckhardt não queria abandonar jamais. "Eu tinha a coragem de ser conservador e de não ceder" . conservava a sua liberdade patrícia. modelo supremo do intelectual. acreditava. Ele próprio era um "cidadão". inflexível. tocou no problema talvez mais grave dos nossos tempos: a natureza dos deveres do espírito.burguês como os burgueses da burguesia.disse orgulhosamente. A sua substância. Hinc nostrae lacrimae.95 No paraíso das suas ilusões os intelectuais reencontraram. enquanto fora. de repente. Humanista. Essa cidade. as grandes potências deste mundo se debatiam no campo de batalha. "fuori le mura". contra Lutero. Era-se fraco demais para se tomar partido nisso. que defendeu o livre-arbítrio católico.

É o maior poeta e o mais universal dos tempos modernos. a criação artística.uma luz muito nobre. Ninguém poderia dizê-lo melhor do que Burckhardt nas últimas palavras das suas Considerações: "Seria um espetáculo maravilhoso seguir o espírito da humanidade. única poesia moderna digna da Antiguidade. de filosofia. É o supremo modelo da existência espiritual nestes tempos. Quarenta e cinco volumes. no dizer de Ortega y Gasset. de tudo aquilo quanto existe entre o céu e a terra. de ciências naturais.dizia Benedetto Croce . de tragédias. onde estão nesse revolucionário que acabou ministro de Estado. de contos. ligado a todos esses fenômenos exteriores e portanto a eles infinitamente superior. e fico surpreendido com a sua presença. Os mais belos poemas da língua alemã. e alguma coisa ainda mais. fosse ela como uma sombra. a sabedoria .apocalíptica. ao lado de mil futilidades em versos inábeis. cheios de poemas. nesse artista que dedicou metade de sua vida à óptica e aos minerais."fugir da baixa atualidade e ficar sempre atual? Refugiai-vos naquilo que jamais teve atualidade!" Refugio-me em Goethe. de romances. Os intelectuais não têm a obrigação de transformar o mundo. Quem disso tivesse uma idéia. su virtud y su limitación"." PRESENÇA DE GOETHE "DESEJAIS" . o seu dever é transfigurá-lo pela criação." E assim foi: "Minha vida foi um outono. esqueceria toda felicidade e desgraça. ao lado de penosas imitações classicistas. as Elegias romanas. para viver somente cheio do desejo desse conhecimento. o que é que ficou? Hesito em responder. coerência. entusiasmo. de crítica. Mas o outono também tem o seu encanto . dois terços das quais são completamente falhos? Dessa obra que louvam sempre sem conhecê-la. quando ele se constrói um novo edifício. Decepção que os fez compreender. nesse apaixonado que representa o papel de deus olímpico? Onde está a coerência nessa multidão de obras. Realmente? Essa estátua impassível seria a expressão de uma vida exemplar? Fogo. "su esplendor y su miseria.

os romances de Wilhelm Meister. colocou-se ao lado das forças feudais. espírito apolítico. ao lado de fracas peças históricas. a grande paixão. O amador de fósseis torna-se fóssil. Goethe fez de si próprio um monumento. a Revolução Francesa. acima do formigueiro dos homens desprezados.sonora do Tasso e da Ifigênia. não compreendeu o maior acontecimento do seu tempo. a tempestade juvenil do primeiro Fausto. espécie de suma da civilização humanística. já estava morto. em face de comédias ridículas pela incapacidade de provocar risos. egoísta. pelo qual Goethe se transformava em olímpico impassível. Desigualdade surpreendente. no entanto. Goethe. fogo de artifício. A renúncia à vida mata o espírito. somente pelas armas do espírito. esta ascensão de um modesto filho de burguês. Mas pagou caro. Não são unicamente os liberais de outrora que o dizem. São os cristãos que retomam a censura a um humanismo puramente estético. do qual proviera. à arte e a si mesmo. Ainda em vida. Contra ela. como nessas Conversações com Eckermann. Vida admirável. Goethe respirava ainda. . As Afinidades eletivas. e. Traiu à humanidade. realmente: a plenitude dos seus 82 anos. desfigurado por um sentimentalismo insuportável. traiu a humanidade. Três pontos de acusação que já não permitem subterfúgios. quase ilegíveis por sua técnica de romance antiquada. esta purificação de todas as paixões até à soberania de uma individualidade universal. cujos sofrimentos absolutamente não o preocupavam. O Werther. de um tédio torturante. primeira obra-prima do romance psicológico. Enfim. Todas as manifestações de um enfadonho classicismo pesam ao lado da sabedoria enternecedora de um velho homem. embora intimamente as desprezasse. aos cumes da humanidade. onde um grande espírito se dispersa em mil cintilações luminosas. o segundo Fausto. Onde está a unidade de tal obra? Foram buscar esta unidade na sua vida. desumano. traiu o povo. em que Goethe misturou os mistérios mais sublimes a futilidades inexplicáveis. Assim. É o cúmulo da inatualidade. O inverso desse individualismo magnífico é uma impassibilidade desumana.

na verdade. nessas três fraquezas. Mas creio que é aí. para abraçar as ciências naturais e enriquecê-las com as suas descobertas duvidosas e as suas fantasias arbitrárias. por essas palavras. O seu conservantismo. diante do exército republicano: "Por aí. acima do político. inimigo de todas as violências. traidor da arte. Goethe aconselhou. de qualquer conformismo. em vão. depois da insignificante primeira retirada dos aliados. Esta falta preciosa o preservava de todo espírito de partido. Não chegou nunca a um sistema. não compreendeu o maior acontecimento literário do seu tempo. Inimigo da humanidade. uma nova época da história começa. Goethe. especialmente para nós. que reside a sua verdadeira grandeza. porém. e nisso ele continua exemplar. traiu a humanidade.Goethe. No fundo dessa independência existe um pessimismo que . enfim. em Valmy. A fragilidade do sistema fê-lo profetizar. a um programa: falta preciosa numa época em que os sistemas da ciência servem a programas criminosos. ao beijar as mãos daquele que se deveria tornar o modelo de todos os déspotas. que não trai. cativar os seus contemporâneos com a fórmula classicista. ele trai a arte. o romantismo. Goethe sabia insustentável o absolutismo do século XVIII. e que constituem a presença de Goethe. fazendo coro com a política. "J'aime mieux une injustice qu'un désordre"96 . tanto como os nossos conservadores de hoje reconhecem insustentável o atual estado de coisas. cuidadoso de "não perturbar o sono do mundo". não saudava a revolução vitoriosa.disse em 1793. é a atitude de um verdadeiro sábio. diante da fúria revolucionária em Mainz. e a frase foi muitas vezes comentada no sentido duma terrível indiferença moral. Goethe nunca fazia coro. mas. adulador do déspota! Já é alguma coisa. para não desencadear as forças desordenadas. para ele. o artista. são esses três fatos que o tornam exemplar." Goethe. porque ele não conhecia bem o seu papel. a arte e a sua própria dignidade humana. em 1792. Todas três ao mesmo tempo. Desde muito cedo. Depois de ter experimentado. precisamente aí. ao ajoelhar-se diante de Napoleão. não punir os crimes dos revoltosos: o humano continuou.

nele. porém saúda o novo reino do espírito alemão. enquanto uma nova era começa.escreve ele em 1825. . que defende a independência. o Império universal de Goethe e de Hegel começa. Goethe o previu: "Tudo. e. O individualismo da Renascença atinge. Esta sabedoria não é. começara a época do liberalismo. Tal atitude é sempre uma atitude contra a época. surpreendidos com a pergunta que a história nos dirige. a única arma do espírito contra essa política que Napoleão dizia ser o destino da época moderna. Assistimos ao último ato da tragédia comovidos com a catástrofe que ameaça devorar-nos." Em 1831. para dar lugar às multidões proletarizadas. as massas derrubarão a burguesia que as criou. mas o inimigo não destruirá jamais a catedral invisível do espírito. porém Goethe deseja conservar a sua. Goethe não lastima a queda do Império.deriva igualmente do pensamento cristão e do pensamento "filosófico": a história é "le tableau des crimes et des malheurs de l'humanité". Hegel morreu. no terreno político.97 Diante da tormenta ele se mostra cético: o mundo perdeu a cabeça. com efeito. em 1830. E Goethe é um homem contra a sua época. O capitalismo quebrará as formas orgânicas da sociedade. nesse momento de humilhação. porém. e em 1832. do comércio e do jornalismo."tudo se tornou radical. a personalidade bem formada cede lugar à massa impessoal. Em lugar da sabedoria apolítica. ao seu amigo Zelter . Há nisso. meu caro" . Goethe. sucumbir-se-ia certamente. Aceitando a luta no terreno inimigo. o seu apogeu. uma filosofia da história que se aproxima da dialética do seu amigo Hegel: os transtornos históricos são apenas passagens inevitáveis. a sinceridade. pela revolução de julho. subterraneamente. contra a política total. Goethe aprova o caos exterior. Somos os últimos de uma época que não voltará nunca. É. Um século mais tarde. a liberdade da criatura humana. decerto. Isto explica uma certa indiferença em face das catástrofes exteriores. o mundo somente admira a riqueza e a velocidade. uma sabedoria política. depois do desmembramento da Alemanha por Napoleão. dir-se-ia melhor sabedoria suprapolítica. para salvar a liberdade do espírito.

É que a sua existência privada. o poeta. sempre renovada. aos quais está ligado pelo respeito das tradições. era incapaz de transfigurá-la em arte: supremo testemunho de sua sinceridade. Em 1795. transformar em poesia a catástrofe. Na linha da analogia. e tudo desabará. e une todos os membros do organismo Natureza: a lei da analogia. com maiúscula. A . e sim da velha burguesia medieval. Deixa a história humana. Hegel. à morte. refugia-se na história natural. através das polaridades de toda existência viva. A Natureza. Não a tem porque isso não é da competência do artista: as soluções são sempre fáceis e valem o que valem. que prepara uma nova metamorfose da vida. é a dialética. ela vos devorará. dominou-a.no Fausto. o microcosmo. junto aos poderes feudais. em vão. Naquela época. que são. continua o embaixador de uma burguesia ainda idealista. quanto mais se eleva acima dessas perturbações. É um beco sem saída? Não. não menos comovida que a nossa. os seres evolucionam em metamorfoses perpétuas: metamorfoses gerais das espécies. A grande invocação "Natureza.Para esta pergunta Goethe não tem resposta. nas hesitações duma época de transição. Essas obras falidas marcam o fim da sua existência literária. ele experimenta. o Macrocosmo. o filho da cidade livre de Frankfurt e das suas liberdades medievais. Ele não pode arvorar-se em paladino de uma revolução que o supera. Uma grande lei impera. ela se impõe. tanto mais autorizado se acha ele a participar da tranqüilidade do Universo. Quanto mais o homem se purifica das suas paixões banais. metamorfoses individuais que vão do nascimento. da história. o filósofo. no Universo. mas fracassa diante dos fenômenos da natureza inanimada. sem importância. se baseava. Quebrai as tradições. Esta concepção da natureza envolve admiravelmente a vida. Goethe é filho da burguesia. Negai a revolução. é escrita enquanto Napoleão conquista a Itália. muito acima do formigueiro humano e das suas convulsões. não da nova burguesia capitalista. minha mãe sublime" . como a nossa. Esta participação é possível porque a criatura. ele. tornada desumana. Goethe. paira muito alto. é a imagem do Macrocosmo. A natureza é o seu asilo misericordioso.

"metamorfose das plantas" e a formação do crânio pela metamorfose das vértebras superiores, duas descobertas de Goethe, ficaram como base da botânica e da anatomia comparada. Mas na óptica, Goethe não sabe distinguir o lado físico do lado fisiológico do fenômeno "cor"; perde-se em polêmicas estéreis contra a ciência matemática de Newton, e cria uma ciência das cores que ele acredita ser a obra principal da sua vida e que a posteridade unanimemente rejeitou: o futuro era da matemática. A mesma posteridade fez, da metamorfose goetheana, a evolução darwiniana, da qual chamaram a Goethe o precursor. Mas Goethe não era precursor. Ele era refratário. No limiar da época das ciências naturais, ao serviço da técnica, Goethe é o último paladino de uma outra ciência da natureza, orgânica e desinteressada. Macrocosmo e microcosmo, analogia, metamorfose: são os princípios da ciência natural da Renascença e da Antiguidade, de Bruno e de Plotino. Como Giordano Bruno e Leonardo, Goethe é naturalista e artista ao mesmo tempo; ele não separa as ciências naturais e as artes. De todas as lições goetheanas, esta é, talvez, a maior. O abismo entre a arte e a vida existe sempre; o falso idealismo abjeto e o falso naturalismo tendencioso são igualmente enganadores; ambos, subterfúgios de um esteticismo que trai a vida e a arte ao mesmo tempo. É a mentira. Mas onde colocar a arte, que está além desse mundo e lhe fica sempre ligada, demasiado ligada? Unicamente num mundo que é bem nosso, e no entanto superior: a Natureza. Goethe reconcilia a arte com a vida, reduzindo-as à Natureza, que jamais mente. Esta imersão na Natureza é verdadeiramente romântica. Com efeito, Plotino e Bruno são os mestres do romantismo; Novalis e Schelling respiram na filosofia do Macrocosmo e do microcosmo, nos conceitos da analogia e da polaridade. O romantismo, que Goethe desejava afastar da poesia, este romantismo volta vitoriosamente na filosofia goetheana da Natureza; e é aí que ele está bem no seu lugar. Um romantismo puramente literário torna-se superficial e será amanhã um classicismo renovado. Outro romantismo, verdadeira redenção das forças humanas, prepara nossa

redenção das cadeias da ciência natural a serviço da técnica, devolvendo-nos à Mãe, à Natureza. Para Goethe o fim das ciências naturais não é servir ao homem pela técnica; o estudo da Natureza, segundo Goethe, deve fazer do homem um ser consciente de si mesmo, dar-lhe um coração puro, em harmonia com o Universo. Esta ciência da Natureza é quase uma religião. Para Goethe, o humanista, a Natureza tornou-se um templo, o templo que o Apóstolo encontrara em Atenas, dedicado "Ao Deus desconhecido". Houve, no templo científico, naturalista, de Goethe, a inscrição bem humanística, as palavras de Heráclito que Aristóteles nos transmitiu: "Introite, nam et hic dii sunt."98 E Goethe assemelha-se a esses sacerdotes da Antiguidade primitiva, que eram ao mesmo tempo, servidores do templo e conhecedores dos mistérios da Natureza. O que une, para Goethe, a arte à Natureza, é a sua inutilidade sublime. A criatura, obra da Natureza, é perfeita em si mesma, como a obra de arte; a arte alcança sempre a finalidade que não tem. Esta inutilidade sublime, este desinteresse completo do espírito, esta "religião da cultura espiritual", é o núcleo da "cultura goetheana", ideal da mais alta inatualidade. Foi o que tornou a Goethe solitário durante a sua vida; foi o que fez o século abandoná-lo; é o que o torna exemplar para os nossos dias. "Cultura goetheana" é uma concepção bem sem atualidade, mas que continua sempre presente. É uma religião da qual era Goethe o sumo pontífice. Nunca um grande homem foi tão consciente do seu papel: ser príncipe no reino do espírito. Realmente ele assemelhou a sua vida à de um olímpico. Mas os contemporâneos, como a própria posteridade, acreditavamno um déspota. Tinham esquecido o que este déspota havia realizado: uma obra de libertação. Ele se fez chefe da revolução pré-romântica, e depois de ter afastado os falsos deuses do racionalismo petrificado, dominou as forças desencadeadas, para instituir o Cosmos de uma nova harmonia entre o homem e a Natureza, sob a regência da arte. Essa vida tem apenas um rival: a vida do homem que se constituiu chefe da revolução, e que, depois de ter expulsado as

forças do passado, instituiu a harmonia de uma nova época; época que só foi vitoriosa depois que deixaram de julgar déspota o seu autor. É a vida de Napoleão. Bonaparte teve a intuição deste parentesco; encontrando Goethe, dirigiu-lhe a maior das suas palavras: "Eis um homem!" Goethe também possuía a consciência clara desse parentesco: ele teve mais do que admiração a Napoleão, ele o amou. É admirável, porém, como soube subtrair-se ao imperador deste mundo. Goethe é o clérigo que não trai, não serve. Goethe vê em Napoleão o lado noturno, demoníaco da sua própria existência olímpica. Napoleão era, aos olhos de Goethe, a encarnação de um demônio. Mas a expressão "demônio" tem, na linguagem de Goethe, uma significação especial, a mesma que para Sócrates. O demônio de Goethe é o lado perigoso do espírito, mas sempre necessário no movimento dialético da história. Era preciso que Goethe atingisse a idade do salmista para saber exprimir esta suprema sabedoria, a sabedoria do seu poema Cinco palavras órficas. Uma sabedoria que nos está bem presente: As cinco forças primordiais deste mundo são: Demônio, a força interior do homem; Natureza, a força do Universo; Tyche, a força das contingências que nos cercam e movimentam; Ananke, a força da necessidade que nos rege; e Elpis. A Tyche se opõe a Natureza: a criação perde a inocência do primeiro dia e torna-se o motivo da nossa dor. O homem se opõe a Tyche; o demônio, em nós, é mais forte do que as contingências, e transforma o mundo; o homem domina a Natureza e transforma Tyche em ordem humana, Ananke. Ananke domina ao Demônio: é necessário que o homem se curve. Desde então, somos os prisioneiros da necessidade que criamos. Mas existe ainda, em nós, um resto do Demônio, resto do paraíso perdido e promessa de liberdade: é nossa última deusa, Elpis, a Esperança. A LIÇÃO DE UMA SANTA HÁ ALGUNS anos um dos meus amigos entrou numa livraria católica e pediu um livro sobre Santa Teresa. A jovem que o atendeu trouxe um monte de livros sobre Santa Teresinha do Menino Jesus.

"Mas não, eu queria alguma coisa sobre a grande Santa Teresa de Ávila!" A jovem levantou os ombros e respondeu: "Sinto muito, mas a grande Santa Teresa já não é moderna." Sem dúvida, a "grande" Santa Teresa teria rido desta anedota; a visionária tinha, como verdadeira castelhana, o humor superior da sua raça e a inteligência prática. A invasão do "moderno" nas regiões da eternidade, sintoma tão grave aos nossos olhos, teria sido para a santa um novo impulso de atividade. São os santos que transformam o mundo. Nada mais interessante que observar as coisas que são tomadas a sério pelos nossos contemporâneos, se eles são ainda capazes de levar alguma coisa verdadeiramente a sério. Achar-se-á que os idealistas e os espiritualistas mais sublimes se apavoram em face das crises econômicas, das revoluções sociais e das batalhas militares, como se isso tivesse alguma importância. Ah! como o materialismo venceu até os seus inimigos mais rebeldes! Quanto a mim, estou convencido que os santos são o verdadeiro sinal dos tempos, muito mais importantes que a distribuição das forças diplomáticas e econômicas ou as novíssimas invenções da técnica militar. Todos esses que hoje se agitam tumultuosamente estarão mortos em breve, e nós juntamente com eles. É a morte que dá a esses episódios a sua verdadeira medida. A morte carnal, a decomposição, à qual maravilhosas lendas da Antiguidade cristã! - a carne dos santos resiste. Somente, é preciso saber o que é um santo. Os santos não são acessórios de crenças passadas nem figuras de gesso inexpressivas. O santo é um homem que possui a graça de levar o mundo mais a sério do que ele o merece; tão a sério que o seu caminho para o céu passa precisamente por este mundo. Levar o mundo a sério é a lição dos santos. Os santos não são infalíveis; mas são resolutos. Não vacilam entre um puerilismo ingênuo e a adoração do poder. Não são modernos; representam o eterno. Sabem que a espada do espírito é mais cortante que a espada de aço. Quem não acreditar estará perdido. Quem acreditar será salvo. É a lição da grande Santa Teresa.

Teresa de Cepeda y Ahumada é filha de um grande da Espanha, filha da cidade castelhana de Ávila, cujas muralhas ciclópicas pareciam construídas para a eternidade; Unamuno celebrou-as como símbolo da imortalidade. Alimentada tanto pelo espírito aventureiro dos romances de cavalaria - chegando mesmo a escrever um deles como pelo espírito exaltado da Flos Sanctorum, das lendas dos santos, e também desejosa de tornar-se santa, Teresa escolhe o caminho da aventura religiosa. Prepara-se para as cruzadas e para os martírios, abandonando o século e entrando para o convento do Carmo. Mas o que ela encontra no convento é o século. Estamos antes da reforma do Concílio de Trento. Parece que aí, no convento, se levava a sério o mundo. As religiosas nos seus parlatórios gozavam de uma liberdade que a severidade castelhana proibia às mulheres do século. A vida nos conventos é uma verdadeira "comedia de capa y espada", com as suas serenatas e seus duelos. O barulho das armas na Itália e em Flandres ecoava no parlatório, bem como o tilintar do ouro das Índias. "A súbita mudança de alimentação e de hábitos me fez cair doente" - escrevia a religiosa a seu pai. Ela estava mais doente do que imaginava. Caiu em letargias que duraram dias e dias. Uma vez as irmãs chegaram a preparar-lhe a sepultura. Mas a morte passa. Teresa volta ao mundo. A leitura das Confissões de Santo Agostinho ensina-lhe o valor único da alma humana. O destino do mundo não depende das guerras de religiões nem das guerras de conquistas. É na alma humana que os destinos do mundo se decidem. Iluminada por essa sabedoria, Teresa apavora-se com as palavras evangélicas que ouviu durante a missa: "Vigilate itaque, quia nescitis diem neque horam" - "Velai, pois que não sabeis nem o dia nem a hora". É o fim da parábola das virgens sábias e das virgens loucas, das virgens sábias que prepararam as lâmpadas para as núpcias, e das virgens loucas que esqueceram o óleo, e as lâmpadas apagaram-se, e caiu a noite, e o noivo celeste não as reconheceu; é o evangelho que se reza hoje em dia durante a missa em honra a Santa Teresa. Teresa está resolvida a não pertencer mais ao número das virgens loucas. Quer reformar a Ordem. Prontamente a virgem sábia foi considerada louca. Teresa cai em

em Roma. Bernini o esculpiu. porém. A histeria pode perfeitamente ser acompanhada do gênio. e compreende-se imediatamente a intenção genial do artista: Teresa era histérica. escreveu as obras místicas que a consagraram a primeira prosadora da literatura espanhola. É precisamente pelo caráter que se distingue o histérico egocentrista e orgulhoso do santo teocentrista e humilde. Processaram-na. Ela. Ao morrer. o anjo do Senhor fere-lhe o coração com a flecha do amor. conseguira fazer o que o rei e o Grande Inquisidor não conseguiram: a Igreja na Espanha estava salva. Com a coragem do cavaleiro andante ela percorre toda a Espanha . Mas o gênio religioso? A histeria é uma doença do caráter. e cita o livro do sábio bolandista P.êxtases: vê o céu aberto. que não é precipitada. prenderam-na. cartas cheias de coragem indomável. J. Santa Teresa tem o seu monumento. Reclusa em Toledo. Resiste ao rei Felipe II e a seus inquisidores. não se deixa domar. um sorriso encantador nos lábios.que viagens pitorescas e picarescas! .para fundar os trinta e dois conventos das Carmelitas descalças. e mais ainda: o humor superior e o gênio literário do criador dessas personagens imortais. cheias de um humor surpreendente e de uma sabedoria superior. Sobre um altar da igreja de Santa Maria della Vittoria. Essa comprovação. Para o . cheias de conselhos práticos. que a torturam cruelmente. o anjo que lhe fere o coração com uma flecha de amor parece um Eros. ao núncio apostólico e aos bispos. Um católico profundamente crente como o barão Huegel declara: "Nunca houve um santo visionário que tivesse uma saúde nervosa normal" (carta de 19 de novembro de 1898). É uma obra-prima da arte barroca. Hahn S. mais sério que a pretensa vizinhança entre o gênio e a loucura. Essa visionária extática reúne em si a imaginação de Dom Quixote e a inteligência prática de Sancho Pança. pois que ela não afeta a inteligência. sobre Santa Teresa. Porque a histeria não é uma loucura. escreveu inúmeras cartas aos grandes do mundo e às religiosas dos seus conventos. em 1582. vê-se a santa com os olhos fechados em êxtase. coloca-nos diante de um problema sério. aos superiores.

" "Porque as suas obras os seguem. e toma o mundo a sério. A doença mental paralisa a consciência. assunto da psicanálise. a dissociação da consciência provém duma irrupção do subconsciente na consciência. nos histéricos e esquizofrênicos. para os pequenos-burgueses de espírito. o suksma do ioga hindu. Por aí o santo é capaz de agir." A obra de Santa Teresa! Ela é a maior figura da história eclesiástica barroca. é incapaz de agir num mundo que ele mesmo criou e que não existe na realidade. o supraconsciente enche o espírito com uma nova força superior. de Henri Bremond. de 16 de dezembro de 1696. Mais ainda: a sua santidade e a sua atividade são a mesma coisa e transformam o mundo. A pedra de toque de distinção é a ação. o grande Leibniz escreveu: "Tendes razão em estimar as obras de Santa Teresa. mas esse mundo é superior ao nosso mundo. fechado dentro do seu eu. que os outros não compreendem. os seus . assunto duma metapsicologia: ambos sofrem duma dissociação da consciência. com aquilo que Sócrates e Goethe designavam como "Demônio".histérico. a dissociação mental do homem superior provém da irrupção dum "supraconsciente". e é uma força de ação. Para os "normais". o mundo é um joguete em volta do seu eu. O histérico. Três atributos que pertencem ao passado. de Max Wieser. "Pelas suas obras vós os reconhecereis. é uma das almas mais seráficas que a terra já viu. Que temos a ver com isso? Que interesse tem isso para nós? A história literária de Santa Teresa ainda não está escrita. o santo sacrificou o seu eu a Deus. o mundo do histérico e o mundo do santo parecem igualmente quiméricos. O mundo é um conjunto de material para a ação. É preciso procurar os seus traços nos estudos esparsos de Carl Neumann. é uma grande figura da literatura espanhola. Um interessante estudo de Georg Sebastian Faber distingue entre o histérico. de Manuel Bartolomé Cossio. O santo é histérico em todas as aparências do seu mundo à parte. A aparição de um santo é a invasão de nosso mundo pela eternidade. estudos que já permitem a afirmação de que Santa Teresa é uma figura central da história do espírito europeu. Numa carta a Morell. e o homem superior.

foi porque acharam nas suas obras uma terminologia cujos efeitos eram incalculáveis sobre o espírito europeu: "Alma y Dios. O seu Castillo interior tem as muralhas tão duráveis como as da fortaleza de Ávila que Unamuno cantou. depois do desmoronamento do mundo antigo. Teresa descobriu os tesouros da alma. por Fray Luis de León e Cervantes. "Alma hermosa" . Teresa foi despertada por Agostinho: ela viveu na época em que a Antiguidade ressuscitada pelo humanismo tinha feito esquecer o valor da alma humana. Se Teresa foi chamada a criadora de um humanismo cristão. Agostinho encontra a sua alma sozinha com o Criador: a alma humana é realmente o que há de maior valor sobre a terra. Sola con El Solo" . Por outro lado.essa expressão salva toda a beleza das coisas deste mundo para os espaços infinitos do Castillo interior e dá um novo centro e nova direção a todas as atividades.estas palavras significam exatamente o valor incomparável da alma humana. O seu Camino de perfección é tão realista e tão eterno quanto as estradas de Castela. No tempo em que os Conquistadores espanhóis descobriram os tesouros da Índia. Dois fatos que justificam algumas explicações mais especializadas. que. Teresa teve na Espanha um público escolhido: foi lida pelo rei Felipe II e por Dom João d'Áustria. Cossio demonstrou que as influências de Santa Teresa operaram a transformação do pintor grego Theotokopouli em El Greco de Toledo. Teresa ocupa precisamente o mesmo lugar que o Agostinho das Confissões na psicologia antiga. Max Wieser provou que Santa Teresa criou toda a terminologia psicológica empregada pelo sentimentalismo do século XVIII e em seguida pelo romantismo. ela só." Todo conhecedor da posição central de Leibniz na história da filosofia moderna ficará impressionado. a língua espanhola era então a língua universal.pensamentos fornecem reflexões filosóficas que já apliquei. E isto sobreviveu àquilo. resiste perante Deus. A Antiguidade não conheceu o valor da alma individual. Teresa foi lida em Nápoles. Na história da psicologia moderna. em Flandres e entre os . Ora. Santa Teresa é uma grande psicóloga.

cuja filosofia "ocasionalista" é a fórmula filosófica do "Sola con El Solo".100 até Fénelon e os místicos da Renânia. O mais belo poema religioso da língua francesa. fundador do seminário de St. em Santa Teresa. Depois.pois o espírito inglês deu mostras duma estranha afinidade com o espírito da santa - . cuja "mônada". que se inspiram. de François Maynard. fundador da Congregação do Oratório."99 Mas aqui o que mais nos preocupa é o grande oratoriano Nicolas Malebranche. nos apresentam o cardeal Berulle. entre os quais Pierre Poiret é o "pai do pietismo literário" (Max Wieser). Foi lida pelos últimos católicos da Inglaterra.prisioneiros de guerra em Argélia. Sabe-se que toda a literatura francesa até os nossos dias está impregnada de polêmicas jansenistas e antijansenistas. e Carl Schmitt achará o ocasionalismo em toda a filosofia do romantismo. Sulpice. onde o grande poeta barroco Richard Crashaw lhe dedicou o seu Hymn to the Name and the Honour of the Admirable Saint Teresa. Mas Unamuno achou a "mônada" no "só cristão" de Kierkegaard. a alma isolada. é o germe do idealismo alemão. En attendant la mort. não tínhamos ainda conhecido a grande "primavera espiritual" francesa do barroco. o criador da expressão alemã "Schoene Seele" ("alma hermosa"): expressão que dominará o sentimentalismo do século XVIII e reaparecerá em Goethe. Malebranche transmitirá este pensamento a Leibniz. Daí é que surgiram o abade de Saint-Cyran e Pascal. por igual. bem como o terceiro volume de Bremond. e o carmelita Pe Philippe Thibaut. fixa uma atitude teresiana de alma nestas palavras: "Dans le désert sous l'ombre de la Croix. É ainda Bremond que persegue a linha "quietista" do Pe Lallemant e da religiosa Marie de l'Incarnation ("C'est vraiment notre Thérèse"). Teresa inspirou a devoção do santo bispo Francisco de Sales. I-III). Aí ele encontrará o ramo inglês do pensamento teresiano . e o seu discípulo Olier. Sobretudo. em Novalis e no romantismo. e tudo quanto tem valor na mística de Port-Royal: "A alma só perante Deus". o bispo Pierre Camus. e até mesmo no Peru. Até à admirável História literária do sentimento religioso em França (especialmente vols. do abade Henri Bremond. que se inspira no "humanismo devoto" de Francisco de Sales.

Em plena Inglaterra vitoriana. o oratoriano Cardeal Newman transmite a psicologia teresiana a Coventry Patmore. e cujo ensaio sobre Singleness of Mind representa a voz da última resistência. Teresa descreveu as suas viagens sobre mulas miseráveis. aos ventos do inverno de Castela e ao sol escaldante da Andaluzia. Deixemos Unamuno prosseguir esta linha de Sénancour. a única figura luminosa é o Grande Inquisidor Quiroga. É um tempo de ferro e de sangue. as noites nos albergues. O sentimentalismo e o romantismo têm a sua fonte comum nas Confissões de Rousseau. Santa Teresa conquistou um mundo. a imbecilidade dos bispos. . Amiel. A própria Teresa o descreveu no seu Libro de fundaciones: a frieza impassível do rei. o grande romancista Charles Morgan. se inspirou. como o nosso tempo. O mundo de Santa Teresa é a Espanha barroca: um mundo rude. que El Greco pintou inesquecivelmente. de verdadeiro "personalismo".ramo que provém dos anglocatólicos e dos platônicos de Cambridge. Paulo102 Tillich pôde prosseguir este pensamento até às polêmicas idealistas. Em toda parte do mundo os espanhóis batemse como heróis e destroem como selvagens. a astúcia dos ministros. movimento que vence com Shaftesbury. do jovem Marx. O que há neste mundo. Chateaubriand. contra o mundo. até Quental. Leopardi. que nós conhecemos em Dom Quixote. do racionalismo do século XVIII e do materialismo do século XIX. É precisamente dessa Espanha desumana que a voz mais humana proclama o valor incomparável de toda alma. entre fidalgos que têm ar de ladrões e ladrões que têm ar de fidalgos. a grosseria dos generais e a covardia dos burgueses. que leu o seu Agostinho pelos olhos de Santa Teresa. poeta do Unknown Eros. humanitárias. onde reaparece a substância cristã do pensamento teresiano. Sem dúvida o pensamento teresiano era o "Castillo interior" da alma humana contra todos os ataques da violência barroca. ainda. o pai espiritual do classicismo de Weimar101 e do neoclassicismo inglês do século XIX. conquistou-o. presentemente. porém. em que o último platônico inglês. Vigny. é devido a esta notável e estranha oposição do humanismo cristão.

segue. econômicos. não resistirá. e ela será mais forte. onde todo o poder do mundo está reunido para levar os seus idólatras sobre os caminhos do diabo. Deus não é o "Deus dos mais fortes exércitos". corajosa contra todos os poderes temporais e espirituais do mundo. "the sacred flames of thousand souls". Os tesouros das duas Índias amontoam-se sobre o cais de Sevilha. como as muralhas de Ávila não o são. O último "teresiano".Esta voz venceu o barulho insensato de uma época. a sua alma é o castelo duma liberdade superior. A verdadeira história passa despercebida. "Sola con El Solo". reais. eclesiásticos e burgueses da sua época.103 Amontoa os tesouros da alma. A alma está com Ele. O que. mas sim uma esperança. como Richard Crashaw a cantou. é preciso defini-la? O pensamento de Santa Teresa operou os seus efeitos fora da Igreja. Charles Morgan. A história não se faz com armas e tesouros. solitária na sua cela de Toledo.104 Aos demônios da violência opõe o seu firme "Todo nada". olhando os alicerces gigantescos do Escorial. do liberalismo espanhol moderno. porque é incapaz de levar a sério o mundo. O pensamento de Santa Teresa é a sublimação religiosa da liberdade espanhola. e a definição dessa fé consiste essencialmente em estabelecer fronteiras. "with white steps the way of light". exprimiu-o no . "todo nada". tranqüilamente. não é uma consolação. Superior aos poderes políticos. militares. e o palácio vazio fica encoberto pelos arcos do Castillo interior. Esta mulher. mesmo o devoto. É a nossa fé. a fé que acha uma ordem superior e um sentido no mundo e na sua história. o céu castelhano do "Dios solo". altivos e livres nos seus castelos: os estranhos avós do mais sublime fenômeno dos nossos dias. Ela finalmente é a mais forte. bem compreendido. A lição da santa é que as muralhas do Castillo interior são eternas. o que soa muito bem na boca dos incrédulos. "Dios solo" . Teresa fez história. Teresa. e o puerilismo contemporâneo.dizia ela. no centro da alma humana. Hoje o castelo dos reis de Espanha não é mais que uma lembrança. a história não é o teatro dos generais e dos diplomatas. Essa fé. é bem a filha de gerações de senhores feudais espanhóis. Mas a fé de Santa Teresa é bem capaz disso.

" VICO VIVO A ESTÁTUA do filósofo Giambattista Vico ergue-se na Villa Nazionale. os franceses. onde os gregos. da ilha de Capri. paisagem que sonha com o passado. e que é o gênio do amor. Mas há outro remédio que está ao alcance de qualquer. O remédio é esta concentração do espírito ativo. Vico está bem vivo entre nós. os implacáveis destinos futuros. do sábio. a elas também. os romanos. de 1668 até 1744. o parque municipal de Nápoles. onde tentou melhorar os . exceto a fuga ou a destruição. Mas é no caos da política que através deles chegamos à ventura e ao milagre: . ao pé do qual a cidade submergida de Pompéia dorme: paisagem essencialmente histórica. olha o panorama do Posilippo. Viveu em Nápoles. a figura de pedra. da mãe. Perto do mar. corroída pelo tempo. do Vesúvio. Pela doutrina. obscuro professor de retórica. preceptor em casas de famílias nobres. dos jovens e dos velhos. os árabes. que não sabem quem foi aquele que lhes traçou. do camponês. do marinheiro. da ciência e da fé. e que o preserva ainda. e realmente eles não permitem que ninguém os desvie dos seus objetivos. na penumbra das árvores velhíssimas. também aquela estátua. que o pensamento humano conservou através de tantas tiranias. indomável e inflexível como o zelo dos santos. os espanhóis deixaram os seus traços. Essa concentração espiritual a que Jesus chamou a pureza do coração. os longobardos.Essay on Singleness of Mind com o qual prefaciou o seu drama O rio faiscante: "Muitos homens se deixam convencer pelo desespero de não haver remédio contra a violência do mundo presente. historiógrafo miseravelmente pago do rei Carlos III. contempla com o olhar frio de pedra as crianças inocentes que brincam ao pé do monumento. Assemelha-se a um rio faiscante. e com um futuro incerto. parece insensível aos sofrimentos e sonhos humanos. Chamam aos santos de fanáticos. Como a história. e por um problema premente que permanece conosco.de ser um homem. os alemães.

nunca perdeu a fé. o nosso problema presente. que feriram o professor: na maior miséria. a doutrina de Vico tornou-se uma base evidente e quase natural da nossa estrutura espiritual. a sociologia comparada. . a época em que as ciências naturais e matemáticas começavam a marcha triunfal que hoje termina com as vitórias terríveis da técnica. de Michelet. não nascido ainda . e que é o problema dos nossos dias presentes: como foi possível que alguém escrevesse em 1725 a Scienza Nuova. Influiu poderosamente na filosofia da história romana de Montesquieu. aquele livro. e até na vulgarização de Spengler. de Sorel e de Max Weber. e escreveu. com exceção dum único problema que parece puramente histórico. O problema .como pôde a Scienza Nuova nascer em meio ao choque desses dois mundos. cidade dos inquisidores espanhóis e da erudição sufocadora dos antiquários. Foi ele quem primeiro empreendeu estabelecer leis históricas. de Marx.vencimentos magros escrevendo poemas de ocasião para aniversários natalícios e núpcias. na Nápoles estreita de então. Todos os problemas viquianos estão resolvidos no livro estupendo que Croce lhe dedicou. progressista e intimamente a-histórico. jurisconsultos e gramáticos. para pertencer a um terceiro mundo. otimista. onde Benedetto Croce o redescobriu. Foi escrito. Escreveu muito. no espírito coletivista e "populista" de Herder. dos românticos. Era o século XVIII. para nós outros que estamos vivendo a queda apocalíptica do nosso mundo e buscando o nosso caminho nas trevas. Mas é. Com esse livro. a compreensão dos contemporâneos napolitanos limitava-se a dúvidas e discussões acerca da sua ortodoxia católica. anti-histórico. Vico passou despercebido. uma "Ciência Nova": a filosofia da história. Mas foi compreendido só pelos descrentes. o livro Principii di una Scienza Nuova intorno alla natura delle nazioni.parece um problema histórico. entre outros. criou. a filologia e estética históricas e psicológicas. e o criador dessa doutrina caiu num olvido glorioso. Enfim. nas concepções de Comte. na verdade. que permitem compreender o sentido do passado e pressentir os destinos do futuro. Os pequenos resultados acessórios desse trabalho foram a ciência histórica do direito.

privilegiados pela Revelação. opõem-se ao espírito do cristianismo. gravíssima. um pessimismo agudo junta-se à fé inabalável na providência celeste. escrevem em caracteres alfabéticos. com exceção dos hebreus. Assim. A ciência de Vico está vestida do mesmo traje contemporâneo. num "ricorso".as águas do dilúvio desapareceram. duma "cultura teológica". Essa elite de guerreiros liberta-se da tutela dos sacerdotes. o poema histórico de Vico não pode denegar a sua descendência da teoria cíclica da história do pagão Políbio. Espantados pelo trovão. Quando . numa volta. tem Homero como poeta: é a "época dos heróis". sobre os ciclopes e os heróis. sempre doente. um pouco civilizados.expõe Vico . Mas a democracia corrompe-se. tossindo na poeira dos inúmeros livros devorados. Portanto. bestiais. deixaram os homens sobreviventes em profundíssima barbaria. Como em toda a poesia barroca. faz guerras. os povos recaem na barbaridade das origens. recomeça o ciclo das épocas dos deuses. ditaduras lutam com anarquias. Vestia o traje do seu tempo. brutos e brutais.Giambattista Vico era um homem magro. estúpidos. curvado pelas noites intermináveis à mesa dos estudos. conseguem subjugar outros bárbaros inferiores e os governam. às vezes divertida e não raramente doida. os subjugados vencem aos senhores. batina semiclerical. ciência em que as histórias da Bíblia e da Antiguidade se misturam numa erudição extensíssima. representada por sacerdotes que falam por mitos aos leigos e que escrevem em hieróglifos: é a "época dos deuses". restabelecem por um "direito natural" a democracia. A Scienza Nuova é um grande poema barroco. Os outros erravam "na grande floresta da terra". escreve em caracteres figurativos e fala em língua metafórica. Todas as teorias cíclicas da história. que não conhece mais que . Enfim. esses bárbaros. criam a historiografia e as ciências: é a "época dos homens". funda cidades. e. dos heróis e dos homens. Pertence às especulações barrocas sobre a origem das nações e de suas línguas após o dilúvio. de Políbio até Spengler. peruca de professor. concebem os elementos duma religião. como uma elite. especulações sobre Adão e Noé.

por isso. É que Vico reconhece a interdependência de todas as regiões da atividade humana . cria a ciência histórica do direito. a significação histórica das lutas . por invariável. Vico discute. mesmo no direito. Reconhece o papel do "espírito do povo" nacional e do "espírito dominante do tempo" na evolução das instituições humanas. assim o poder da história. Mas como o poder dum monarca constitucional está limitado pelas leis. em Vico. civilização material e espiritual: é possível interpretá-lo no sentido da dialética idealista de Hegel e da dialética materialista de Marx. hoje renovadas entre Croce e Chiocchetti. está limitado pela lei histórica dos ciclos que se repetem. É estranho como frisa a mudança da escrita com os diferentes estádios da civilização jurídica e material. Na aparência. O poder da história. Põe termo à identificação ingênua do direito romano com o direito natural. reconhece a relatividade de toda ordem jurídica. Todos os séculos precedentes tomavam Homero e Virgílio ingenuamente como pares. religião. criou Vico a estética histórica e analítica. Criou o relativismo histórico. Vico vê a história como uma força que rege. até Vico. Com isso. na elaboração das epopéias homéricas. com poder absoluto. em Vico. um século antes de Wolf. da criação até o juízo final. os destinos dos homens.uma única revelação e uma única encarnação de Deus e.direito. Originaram-se daqui as discussões contemporâneas sobre a ortodoxia de Vico. Eis a razão por que Vico não sabe como situar no ciclo histórico a história única do povo hebraico e da sua sucessora. a parte da poesia popular. Mas a ortodoxia sincera que Vico sempre professou parece residir em sua fé na providência divina: ela vence o seu pessimismo e fá-lo achar um sentido na história. a Igreja. as bases sociais do direito. e em Virgílio o poeta épico dum estado mais velho e mais refinado da civilização. que passou. é só relativo. política. É independente dessas possibilidades interpretatórias a primeira conseqüência que Vico tirou do conceito da interdependência: Homero é o poeta da aurora da humanidade. que se desenvolveu até SainteBeuve e Taine. anônima. Vico reconhece em Homero o poeta épico da idade heróica. só admite uma evolução retilínea.

depois a casa e. É. O pobre professor napolitano do tempo barroco previu o nosso problema. e estamos voltando. uma crise terrível das consciências que cria uma nova época. Num certo nível. Para resolver o problema Vico. a atitude espiritual. para nós outros. Um problema está. Trata-se. diante de um novo dogmatismo. e permanece. Toda época é uma "querelle des anciens et des modernes". de reencontrar a possibilidade da atitude viquiana em face do fim de um ciclo histórico. enfim. Vico predisse-o: percorremos as épocas dos deuses. de início. depois a rua. A grande discussão literária desse tempo é a comparação apaixonada entre os poetas e escritores da Antiguidade e os contemporâneos: a "Querelle des Anciens et des Modernes". se o preferem. O problema de Vico é o nosso problema. com uma nítida preferência pelos modernos. O grande teatro do mundo viquiano é aquilo a que Paul Hazard chamou La crise de la conscience européenne. depois a cidade. ou. E é estupendo. nisso. agora.sociais. se está bem colocado. o processo de Balzac de fazer-nos ver primeiro o país. Novum Organon e Instauratio Magna chamam-se os livros de . que. Não se trata da justeza e exatidão das soluções viquianas. todas as soluções se tornam indiferentes. resolvido. uma maravilha. Vico é o criador do historicismo. conforme o relativismo do mestre. e a sua perplexidade é a nossa confusão. a significação revolucionária da monarquia absoluta na luta da burguesia contra o feudalismo. a relatividade de qualquer ordem política e social. basta colocá-lo no seu tempo e no seu espaço. o quarto. serão sempre discutíveis. O livro fundamental de Hazard traz o subtítulo De 1680 a 1715 e marca. Estava perplexo diante do espetáculo da história. exatamente o tempo em que o espírito de Vico se formou. Há. à barbaria. o nosso "problema Vico". É o próprio método histórico de Vico. no ano de 1725. a relatividade de toda a nossa civilização. como decisiva. com isso. onde o drama se passa. Trata-se de vencer a perplexidade pela visão superior. Criou esta atitude científica que hoje perece. dos heróis e dos homens. isto.

contestam os milagres. aquele Franklin que "eripuit coelo fulmen sceptrumque tyrannis". de Pierre Bayle. jurisconsultos e filólogos da velha estirpe. às quais Vico opõe as suas leis históricas. do século XVIII. implacável."só não teve um Bacon. incisiva. a Revelação e a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. inventor do pára-raios e da República americana. ocupa no palco desse grande teatro mundial o último lugar. Os demolidores das crenças religiosas não param. nesse caminho. A própria Bíblia é irreverentemente criticada pelo atrevido oratoriano Richard Simon." Reconhece a nova época das ciências naturais. as irreverências de Voltaire e Diderot.diz Vico . É o fim da velha Europa. Está à margem do mundo . que Vico leu e releu com um misto de curiosidade e medo. incompreensível aos antiquários. o liberalismo de Spinoza. esta máquina mundial.Bacon. do mesmo modo. as proclamações teoréticas de Rousseau e práticas de Franklin. "A Antiguidade teve tudo" . práticas. "knowledge is power". Seguir-se-ão. Está regida. "la filosofia è scritta nel libro grandissimo della natura in lingua matematica"105. o braço jurídico de Grotius arma o absolutismo totalitário de Hobbes e. e o último ato chamar-se-á Napoleão. A cidade de Nápoles. naturalmente. tão caro aos antiquários namorados da Antiguidade. que dissolve em lendas e fraudes todas essas histórias amadas. diante das crenças políticas: o "direito natural" serve-lhes para dissolver o direito positivo. "saber é poder". sobre o qual assentam todos os poderes. e Boyle transformá-lo-á em ciência nova da química. o que é inconcebível aos velhos professores e eclesiásticos. sufocados na miséria. matemáticas. que excitou a oposição vivíssima de Vico. e para Bacon. Ficam sendo essas leis matemáticas a última coisa certa e indubitável no mundo. O mundo transformase em máquina gigantesca. pelas leis matemáticas de Newton. como as "máquinas animadas" da psicologia de Descartes. Todo o restante saber humano. Gassendi acha na Antiguidade o que nenhum antiquário ousara achar: o atomismo materialístico de Epicuro e Lucrécio. Para Galilei.106 Seguir-se-á a Revolução. e os deístas ingleses tiram conclusões inauditas. sucumbe à crítica cética. técnicas.

que aquilo que aconteceu não aconteceu e não acontecerá nunca.107 e é assim chamado pelo seu admirador humilde Giambattista Vico. Está sonolenta. no ar espesso e pouco respirável da decadência italiana. como. uns aos outros. "eruditissimo". Está buscando o sentido superior atrás do absurdo da catástrofe. Lá não há crises de consciência nem novos mundos. sob a pressão atenuada. escolástica. noturnamente e clandestinamente. Resistem. em inumeráveis volumes. o seu mundo também. As obras mais admiradas das academias eruditas chamam-se Antiquitates e Thesauri. e observam. Chamam-se os homens. Provam eles. por seu lado. antiquária. afinal. Subsiste a erudição barroca. o mar eterno e o Vesúvio. filólogos e jurisconsultos se tornou um hospital de doidos. não treme e não se submete. com eruditíssimas analogias. em torno deles. e entretanto implacável. do governo espanhol e da Inquisição espanhola. lê Políbio e Tácito. latina e toscana in tutte le spezie del sapere umano e divino". é chamado "uomo di una immensa erudizione greca. um livro com o título precioso De antiquissima Italorum sapientia. a sua estátua olha a paisagem milenária. Lê Platão. doente. tremendo. Descartes e Spinoza.108 E o último lugar naquela cidade erudita e sonolenta é o pobre gabinete de estudos do miserável professor de retórica e autor de poemas de ocasião. que lê. "dottissimo". um abade napolitano. Está desesperado. fica perplexo: sente a queda do mundo que era. que escreveu. hoje. um após outro apostata e se submete servilmente aos novos senhores. envelhecido antes do tempo. "latinissimo". Lê as histórias do reino decadente dos homens e do reino imperecível das idéias. os livros proibidos de Bacon. Olha o espetáculo histórico da humanidade. tiradas da história. Giambattista Vico não amaldiçoa. Como salvar os bens mais sagrados? Como reage o seu mundo contra o ataque bárbaro? Parece-lhe que esse mundo de teólogos. com anátemas e exorcismos. na miséria.civilizado. . e com doidíssimas profecias. O pobre professor. tiradas da superstição. Um deles. impotentes. como. vestidos de couro de porco e por isso impenetráveis às influências do tempo lá fora. ao pé do qual a cidade submergida dorme.

perecer. usa da erudição antiquária do velho mundo e do método científico do novo. Vico ficou perplexo diante do espetáculo histórico do seu tempo. também. Não tem medo dos poderes. deve ficar. nem dos velhos nem dos novos. empresa bem escolástica -. está buscando "leis". É sempre assim. Vico poderia dizer. para provar o improvável. Não há sempre progressos. e o que passa e o que fica dos novos mundos. sujeita-os ele ao moinho infernal e inevitável dos seus "ricorsi". Para distinguir . Por trás da história agonizante dos últimos romanos. os contemporâneos enganam-se em profecias doidíssimas e em analogias históricas sutilíssimas. Mas não tem medo. Traçar a fronteira. Ele sabe que alguma coisa do velho deve. mas felizmente bem pouco. qualquer coisa nasce. consciente da responsabilidade."distinguo". nas revoluções. Chega à conclusão de que a sujeição e a resistência são igualmente duvidosas. Todos eles morrem. Qualquer coisa morre. e que alguma coisa do novo. com . busca um modelo de história. Uns e outros. A mão do velho professor treme. plus c'est la même chose". e morrem ainda uma vez. Tira das histórias humanas de Políbio e Tácito a história real platônica. no próprio domínio da erudição "dottissima" e "latinissima". há também regressos terríveis. que valha para todos os povos e épocas. As suas profecias compreendem o passado. tiram as conclusões do anátema furioso ou da sujeição servil. voltam. irremediavelmente. as suas analogias iluminam o futuro. eis o dever do intelectual. de modo nenhum. Resta saber o que morrerá e o que continuará do velho mundo. os "ricorsi" da doutrina viquiana. Como os naturalistas.Vico não pode acreditar no progressismo ingênuo e alegre do seu tempo. Resta saber onde está a fronteira. E "plus ça change. Hoje. como nós outros ficamos perplexos diante da catástrofe do nosso tempo. Vico é o primeiro para quem a decadência não é um assunto de sermão moralizante. uma "storia ideal eterna".109 Se os contemporâneos houvessem compreendido Vico. Acha a lei da história. mas um problema da história. nenhum dos partidos em luta teria ficado satisfeito. pois o seu pessimismo crente sabe da caducidade de tudo o que é. Mas a atitude de Vico foi superior.

Submerge-se num passado que se foi. perto de Darmestádio. Mas valerá a pena conhecer o homem. Nietzsche.111 Exilado numa ilha deserta. Lichtenberg. e tão desastradamente. por toda a vida. e alguma coisa a mais. Vico teria tido a coragem de passar sem ouvir a pergunta. Nasceu em 1742. porque esperava auroras que ainda não resplandeceram. nem o ostracismo. ao lado de Marco Aurélio e dos Pensées de Pascal. E o próprio Goethe diz: "Onde Lichtenberg faz um bon mot. um anão corcunda. O seu pensamento é uma recreação. . eu levaria este pequeno breviário de sadio bom senso. Uma criada deixa cair a criança. é professor de física da Universidade de Goettingen. como a pedra corroída do seu monumento que olha a paisagem histórica. Passaria por um pessimista excessivo. os implacáveis destinos do futuro. "which is food and drink and the light of the mind"." É isto. sobre a que partido pertence. de Eckermann. demasiado humano. Nessa época. Estuda ciências matemáticas. parece insensível como uma pedra. Na sua profissão. rodeado de crianças inocentes que brincam e não sabem quem era aquele que lhes traçou. em cada esquina. Lichtenberg vos fará rir e refletir. Por isso mesmo. também. Não teria temido o campo de concentração. "a golden fluid".112 filho de um pastor protestante. que ele ficou. a elas também. ao lado das Conversações com Goethe. em 1769. no aforismo 109 de Humano. pois compreende mais profundamente do que os outros o presente. em Hanover. o Hanover era a província continental do rei da Inglaterra."110 Num tempo em que a gente é interrogado. AS VERDADES DE LICHTENBERG NÃO SE CONHECE muito o nome. já que o espírito superior o merece. sem ofender os meus santos. existe um problema para resolver. é um companheiro eterno. duas viagens pela Inglaterra foram os únicos acontecimentos dessa vida professoral. no dizer de Samuel Butler. pois já estava dentro dele. classifica o Livro de aforismos de Lichtenberg entre os cinco melhores livros alemães. e num futuro que está por vir.Valéry: "Je ne suis ni de droite ni de gauche.

que vêem nas obras úteis da Natureza o dedo de Deus: "É admirável que os gatos tenham dois buracos no pêlo.Lichtenberg não era uma celebridade. sem dar por isso: "A nobre simplicidade das obras da Natureza baseia-se na nobre miopia dos observadores. encerrando-os depois na escrivaninha. Isto é surpreendente num professor de física. Na paróquia de aldeia do século XVIII. vê desmaiar a fé: "Um dia. Voltaire. mas existem também nos nossos manuais de escola muitas coisas que não existem entre o céu e a terra. continua a recitar mecanicamente os salmos luteranos. Lichtenberg é extremamente supersticioso." Na Natureza o homem se reflete. diz Hamlet. precisamente onde esses buracos são necessários para os olhos. A fé." Os homens tendem sempre a saber o que os homens não podem saber: "Existem mais coisas entre o céu e a terra do que os nossos manuais de escola sabem. mas lêem. fazem preces apaixonadas. em segredo. Lichtenberg é um filho do século "filosófico". Contemporâneo tanto de Voltaire como de Cagliostro. muito humano." Lichtenberg. é indispensável. O súbito apagar de uma vela modifica as minhas resoluções mais importantes. Lichtenberg não chegaria nunca a se desprender do ar mofado desses quartos. depois de ter expirado esta pobre vida. será tão ridículo crer em Deus como hoje acreditar em fantasmas." Sua curiosidade ultrapassa os apologistas: "Sacrificarei a . Na sala das experiências físicas. otimista. da mesma forma que os colegas temiam as sátiras mordazes que ele publicava esparsamente. diz ele. progressista. os estudantes apreciavam as suas conferências. e a leitura assídua da Bíblia transforma-se em consulta a um oráculo. Mas é também filho de gerações de pastores de uma devoção íntima e de um zelo lúgubre. Eles apareceram em 1799. cheio de ilimitadas esperanças na bondade humana. mas humano." Mas convém saber que ele tem medo dos cemitérios noturnos. com a condição de se excluírem dela os antropomorfismos grosseiros. Ele troça dos teólogos. não sendo ateu. Mas o melhor do seu espírito se refugiava nos aforismos com que ele enchia os seus cadernos. meio misantropos. e confessa: "O que há de mais surpreendente no meu caráter é a superstição que me faz ver oráculos em mil coisas ridículas.

as religiosas também. este espírito seco encontra as palavras admiráveis: "Quando o meu espírito se levanta. "Se existe" ." Lichtenberg o sabe: "Não poderei acreditar nisso. ele encontra também as palavras surpreendentes para o seu século: "Existe alguma coisa de muito razoável nas guerras de religião." Mas Deus é "o outro" da humanidade: "Deus criou o homem à sua imagem." Este ceticismo admite todas as possibilidades. e a terra e o mundo. ele não se queixa: "A . não compreendo por que ele não começa desde este momento". de toda a eternidade." Antítese que explica a incredulidade hesitante de Lichtenberg. ajudai a minha incredulidade. Tu tinhas sido." São mais do que simples brincadeiras. a Deus: "Penso muitas vezes na morte. "Que sabemos nós dos outros? Possivelmente todo pronome 'outro' é um antropomorfismo. observei que já tinha acreditado pela segunda vez." Todavia. Lichtenberg é um caçador de antropomorfismos. mas não infame." São contradições. o corpo se põe de joelhos.metade da minha vida para conhecer a altura média do barômetro no Paraíso. da qual eu era um proprietário pouco econômico. o homem retribui-lhe bem e o cria à sua. meu Deus. e. e cumpre confessar que todas as objeções contra a fé se transformam em futilidades diante desta terrível e perspicaz exposição da essência histórica da nossa religião. dizia eu. o salmo: 'Antes que as montanhas fossem criadas. e os instintos da sua raça teológica o levam.diz ele ."um estado de beatitude eterna. e não gostem de viver de acordo com os preceitos dela?" Contudo. de retorno.'" E num raro momento. e leio muitas vezes. profundamente emocionado. a sua desconfiança da religião é desconfiança dos homens que a professam: "Não é extraordinário que os homens gostem de se bater pela sua religião. Todos os dias faço as minhas orações da manhã e da tarde." É que ele desconfia igualmente da religião irreligiosa dos "filósofos": "A incredulidade em uma coisa baseia-se quase sempre na cega credulidade em outra coisa. enquanto o dizia. como as contradições do bíblico: "Creio. meu Deus. e espero que o meu Criador exigirá docemente uma vida.

nem no progresso ilimitado. para nós. o "eu odioso" de Pascal modifica-se em um: "Aquele que é apaixonado por si próprio terá a vantagem de ter poucos rivais. nem no melhor dos mundos possíveis de Pangloss. e existe em Lichtenberg alguma coisa de religiosidade. há uma única regra sem exceção." Mesmo as regras da tábua de multiplicação: "Se um anjo nos explicasse a sua filosofia. tudo seria." Se tudo é possível. ele gosta de exprimir as suas dúvidas e crenças por fórmulas matemáticas: "Diante de Deus." Os especialistas. Apenas."não anda direito: coxeia.dúvida deve ser apenas vigilante. são vendidos por gente que não os compreende também. "As opiniões de todo o mundo. os axiomas se assemelhariam. e que admitem mil exceções. as crenças otimistas e progressistas do seu tempo o que ele visa. para um espírito obtuso. Um tradicionalista repetiria este aforismo: "As novas invenções na filosofia são quase sempre novos erros. e sê-lo-ia em todos os tempos. talvez sejam escritos também por gente que não compreende nada." Para um Lichtenberg tudo será igualmente suspeito. igualmente aceitável: "O caminho mais seguro para a tranqüilidade da alma é não ter nenhuma opinião. São impressos por gente que não os compreende. diz ele. ele que não crê na bondade humana." E o seu conhecimento amargo deste mundo lhe arranca um suspiro: "Não compreendo por que as crianças não riem tão continuamente como choram. seria preciso reservar a ciência aos homens .diz ele . existem apenas regras. e fazemos regras que não existem." Os lugares-comuns não têm maior valor quando autorizados pelos professores e os seus livros: "Não há mercadoria mais esquisita do que os livros. ignoram sempre o melhor. baseada num ceticismo bem pascaliano. é justamente o que é preciso mais rigorosamente examinar. o em que todo o mundo crê. a um: duas vezes dois são treze. nada mais"." É um inconformista contra o seu tempo. "É pena que a gente se eleve para o estudo." Como Pascal. ou antes. sobretudo. "O progresso" ." São. são lidos e criticados por gente que não os compreende melhor. possivelmente todas as nossas regras são exceções. Mas nós homens não conhecemos a suprema regra.

em conseqüência. É que os alemães não gostam da oposição à moda inglesa. ao contrário." Na literatura alemã ele é. Aos seus compatriotas servis ele fala: "Conheço um país onde não se sente mais a pressão do governo do que a pressão atmosférica." Lichtenberg nunca se deixa iludir. trata-se somente de saber o que o sol enxerga durante o seu curso sobre esses Estados. quando já ninguém o lê. um cidadão do mundo." A menção do poeta inglês não é um acaso." Pouco alemão. é admirador de Swift e Sterne. pois ela vale mais do que a reputação do cientista: há menos homens de ciência do que se pensa. . ele não crê na felicidade garantida pelo poder: "Não se trata de saber que o sol não se deita nunca nos Estados de um príncipe. os hospícios de alienados seriam as melhores academias. este semiinglês é um cidadão livre." O que ele porém detesta mais profundamente são as assembléias desses homens de letras e de ciências. Lichtenberg não é lido pelo classicismo sensato nem pelo romantismo nacionalista. em todo o país. entoa-se o Te Deum laudamus. ele ousa escrever: "A mais curiosa aplicação da razão de que os homens cuidaram foi não usála. as nossas academias é que são os melhores hospícios de alienados." É que ele não acredita muito nos "benefícios do governo". seja qual for este: "Afirma-se que. e Lichtenberg lhes diz: "Quando se faz a paz. a última voz da oposição. um homem do outro lado. mas acho-o ainda um grande poeta. Eles preferem a guerra. cidadão alemão do rei da Inglaterra. ninguém morreu de alegria.que descem para os estudos. e a ciência ganharia muito. Diante da pequena Alemanha servil de então." E conclui profundamente melancólico: "Derramou-se muito sangue anônimo. Lichtenberg. no século que funda academias sobre academias. está impregnado de civilização inglesa. quando rebenta a guerra." Desconfia do patriotismo oficial: "Eu gostaria de saber para quem foram feitas as façanhas. até Nietzsche. seria preciso entoar um Te Diabolum laudamus. nestes últimos 500 anos." Lichtenberg é de uma rude independência: "Eu não podia ler todo Young quando ele estava em moda. como outrora na Espanha. das quais se diz publicamente que foram feitas para a pátria. mas.

um boêmio. Na verdade. Conhece-os a todos. o aleijado desliza pelas ruas. onde descobre abismos desconhecidos e demoníacos. ele guarda. Na segunda edição celeste. permanece à janela do seu minúsculo gabinete de trabalho. que o envergonha. tem opinião própria. não somente em face da Alemanha. como em face da humanidade. são os que se submetem a tudo. ele observa calmamente: "Liberdade." "Às vezes. Aparentemente." Ele será inconformista. Escandaliza a pequena cidade universitária com a sua concubinagem com uma criada ternamente amada.Rodeado de estudantes entusiasmados pela Revolução. ele continua um original. em sonho. os mais bem feitos. Fraternidade: é um décimo primeiro mandamento que elimina os dez outros. e a sua própria mutilação não o assusta mais. Igualdade." Cercado de professores timidamente conservadores. pois é um aleijado. tenho desejado ser rei. Ele a despreza. Moralmente. Ele é um homem do outro lado. Timidamente." Mas o aleijão implica uma superioridade: "Os homens mais sadios. nas convulsões do seu tempo. e recomenda uma leitura política de grande força consoladora: os jornais do ano passado. . e o professor se enfeita de solenes títulos acadêmicos. afasta-o da sociedade humana. leva ele uma vida modesta de pequeno-burguês." Enfim. Despreza-a: "O meu corpo é constituído de tal forma que o desenhista mais incapaz o desenharia melhor. os mais belos." Em suma: "Eu não sei se será bom quando isto mudar. são todos aleijados. em casa. Quando alguém tem um defeito corporal. até o íntimo. de onde fita com penetrante olhar os transeuntes. Desde a sua juventude. mas sei que é preciso mudar para que seja melhor. eu proporia algumas modificações. a rara neutralidade do bom senso. talvez desse ele menos relevo a certas partes. o aleijão. porém. ousa dizer: "A conseqüência mais funesta da Revolução Francesa é que se tomarão por germes de sedição as reivindicações mais justificadas. unicamente para ser chamado Lichtenberg o Grande. Lichtenberg vê a relatividade do seu tempo e de todos os tempos.

" Intrepidamente. O seu talento observador fá-lo descobrir os movimentos de expressão inconscientes e adivinhar as bases sociais das reações morais: "Na escuridão. roncaram. e o ritmo com o qual cada um dos meus amigos a pisava. que o cérebro ratifica depois." Se a malícia do corcunda o faz menosprezar os outros. e que poderiam ser ressuscitadas por estas impressões. Lichtenberg tem a sensibilidade mais sutil." Algumas vezes a sensibilidade eleva este espírito seco para a poesia: "Na casa onde eu morava." Ele vê na sinceridade a suprema virtude: "Por causa da minha sinceridade os homens me condenam." E esta lição: "Onde a moderação é um erro. Chega a confessar as crises homossexuais da sua juventude." O seu irracionalismo o faz adivinhar as bases sentimentais das funções intelectuais: "Todos os nossos raciocínios são precedidos de sentimentos muito pessoais. precursor de Freud. em assassinar os inimigos. assobiaram. as possibilidades criminosas no abismo. Já descobriu o subconsciente e. tossiram. descobre as raízes sexuais do caráter. no seu íntimo a sensibilidade do infeliz o faz sofrer com estes outros: "Muitas coisas que toda a gente lastima.Assim como os cegos têm o ouvido mais sensível. e o prazer que sente. mas o barulho de pés desconhecidos me arrepiava. muito raras no seu tempo. É impiedoso para com os outros e para consigo mesmo. ao mesmo tempo. conhecia o som de cada degrau da velha escada de madeira." Ele antecipa Nietzsche e Scheler. bocejaram. propõe explorá-lo pelo sonho: "Toda a nossa história não é senão a história do homem . empalidece-se de medo. mas Deus me perdoará. Algumas vezes aproximase da psicologia de Proust: "No meu cérebro existem ainda as impressões de coisas mortas há muito tempo. a indiferença é um crime. nos sonhos. e ainda fizeram dois ruídos para os quais a nossa língua não tem expressão. Ele ouve mais do que os outros: "Eles espirraram. dilaceram-me o coração. com as suas troças. fazem dele um moralista da melhor estirpe francesa e. um precursor da psicologia moderna. Um extraordinário talento observador e algumas convicções irracionalistas. mas não se enrubesce de pudor." São as suas palavras mais gideanas.

Lichtenberg chega a duvidar da moral cristã: "Será possível que a nossa moral cristã seja baseada numa certa fraqueza e covardia. e numa certa idade. As nossas razões justificam as nossas pretensões. E como Galiani. enquanto a outra moral se baseia na força do corpo e do espírito?" É o ressentimento anticristão de Galiani e Lichtenberg. porque isentas dos exageros de todo espírito sistemático. o resultado da nossa existência espontânea. com arrepios." Lichtenberg reconhece a força dos instintos: "Pode-se ser cego pró ou contra uma tese. as paixões . podese deduzir. o homem observado como um animal estranho no jardim zoológico: "É no hospício de alienados que se deve estudar a razão sadia" . nas paixões se encontra Deus. Talvez como as trinta e duas direções do vento sobre a bússola. e.acordado. É preciso ordená-los bem. ambos fracos anões astênicos. A demonstração da utilidade e da necessidade não chegou ainda nem ao meio. o caráter de uma pessoa. sem intervenção das morais inculcadas. sem o sabermos." Entre todos os contemporâneos." Só tem sugestões este precursor. e Lichtenberg é o intermediário entre Galiani e Nietzsche. e somente o homem é que interessa a este professor de física. o filósofo astenoesquizóide do ressentimento. Para começar esta tarefa: "Os motivos dos homens não são tão desprovidos de razão. A ciência professoral pouco lhe interessa: "Todos os dias os astrônomos descobrem novas regiões da sua ignorância". A razão engana. no entanto. Na razão se encontra o homem. Lichtenberg. esquizóide. somente o abade Galiani tem semelhantes palavras. viu. Por isso mesmo são estas mais preciosas do que os grandes sistemas posteriores. por um certo número de sonhos. e o psicólogo falará de um motivo glória-glória-pão ou pão-pão-glória. mas a boa natureza nos armou melhor. absolutamente. o instinto já nos conquistou. astênico mas não. graças a Deus. O marinheiro fala de um vento nor-noroeste. ou oeste-oeste-norte. e que glorificou esses seus dois precursores. as conseqüências: "Em certas constituições corporais.diz ele. antecipando um famoso conto de Machado de Assis. quando teremos a história do homem que dorme e que sonha? Os sonhos são.

sozinha. Olhando-os fixamente." Isto quer dizer: se os filósofos chegassem ao poder. Desconhecendo. mandasse matar todos os fracos. queixamonos dos honorários que se pagam aos profetas e que se recusam aos filósofos. orgulhosamente . para impedir o enfraquecimento das paixões patrióticas e civis. e o amargo Lichtenberg diz: "Não se tem com que viver.calam-se. Mas eles têm má reputação. à qual. DEFESA DOS PROFETAS É A NOSSA ANGÚSTIA que produz os profetas. palavra envergonhada para não chamar de profeta a esse espírito alegre e mordaz. e alguma coisa mais: ele viu os fundos demoníacos do mundo. Lichtenberg é inteligente." Isto o fez sobreviver ao seu século. e a razão não desdenha mesmo o braço forte da polícia. e o seu riso faz ressuscitar os mortos: "Não posso vivificar" . ele não se assusta. Mas se um governo. mas se tem bastante predizendo. fala. o censor lerão o meu livro. Nunca.diz ele. É ." De fato. Lichtenberg não foi lido. "A profecia é a mais irracional forma do erro" . quando se trata de exterminar a razão dos outros. conforme as leis da economia. sem dúvida. talvez o crítico também. dizendo a verdade. em parte alguma. e todos os homens de mais de quarenta e cinco anos?" Lichtenberg é um precursor de verdades próprias."a matéria morta. no mito germânico. muito inteligente. em face de todos os tempos é um homem do outro lado. Mas isto já é exigir demais. estas leis. e a razão. Há nele um Tersites sublime. É o destino dos precursores passarem despercebidos: "O tipógrafo. porém. na cega anarquia em que a voz da razão se cala. Mas são os anões. mas na qual a palavra pura de Lichtenberg profere as suas verdades alegres e proféticas. esta inteligência sadia enjaulada num corpo doente fala para nós.diz a severa positivista George Eliot. hoje em dia ainda. corresponde a oferta. que cuidam do ouro das profundidades. os profetas não teriam de que rir. o revisor. teria havido profecias se não fosse uma procura urgente. mas posso fazer soar a trombeta do despertar para ver se alguma coisa se move ainda entre os mortos no campo de batalha. Ele é solitário no seu tempo. prisioneiros de um século doente.

Eis a palavra de ordem do dia. nós todos" . as boas profecias não se realizam nunca. Como contentar a toda a gente? Lembrem-se ainda uma vez dos velhos judeus. Os seus versos . Comecemos pelo primeiro ponto da acusação. não se fica menos zangado. Sim." Mas os profetas tinham bastante razão. "Nós o sabemos. os profetas têm razão. sim. mas ninguém o crê. Desde 1555." Mas esta polícia obedece apenas às cóleras do público. porém os colocam sob o controle da polícia. de onde eles podem repetir as palavras do velho poeta russo Krilov: "Falando-vos aqui. muito recentes." Antes de tudo. chega-se mesmo a encomendá-las. a única circunstância que justifica a oposição a uma profecia é que ela se tenha realizado. e isto se entende. e quando elas não se realizam. sem acreditar nele. segundo. morto em 1566. dos quais Pascal diz que eram "grands amateurs des choses prédites et grands ennemis de l'accomplissement". Deseja-se unicamente ouvir as boas profecias. médico e astrólogo de Carlos IX. as más profecias se realizam sempre. começavam cada discurso por: "Eu recuso acreditar. numa época em que todo o mundo "o" sabia. como os judeus tinham o hábito de fazer. baixinho: Profetizar é difícil nas garras de um gato. "As boas profecias não se realizam nunca. e não será difícil defendê-los perante o tribunal de uma filosofia e de uma opinião morosas.."sim.dizia Disraeli ." E lembrem-se de certos homens de Estado. que. Quando as más profecias se realizam. nós o sabemos.verdade que já não se atiram os profetas às cisternas. é preciso dizer que a não-realização de uma profecia não é nunca uma objeção contra a profecia em geral. Existem boas profecias e más profecias. conhece-se e estuda-se o seu livro de quartetos que prediz os acontecimentos do futuro.. rei de França. Para resumir as acusações principais: primeiramente. O mais famoso dos profetas modernos é Miguel de Nostradamus.113 É que desejavam muito saber o futuro. todos esquecem os profetas que tinham tido razão.

Com efeito. a revolução da Fronda e Luís XIV. e Nostradamus com ela. Nostradamus prediz. a Revolução de Fevereiro e Napoleão III. que são os verdadeiros acusados. seguidamente. sem dúvida prevendo o epigrama de Voltaire contra Le Franc. pourquoi Jérémie A tant pleuré pendant sa vie? C'est qu'en prophète il prévoyait Qu'un jour Le Franc le traduirait. teria tido muito que fazer. mas que se realizem sempre. mas não se pode também negar. pois a França é imortal. Mas outras profecias se realizaram. como verdadeiro profeta. a Revolução de Julho e Luís Felipe. por exemplo. É assustador que os intérpretes tenham desejado aplicar os seus quartetos a outros países ainda. Esperemos que esta profecia se realize ainda muitas vezes. e sobretudo as ruins. o tradutor de Jeremias: "Savez-vous. deus dos . está provado que é preciso defender o profeta contra os seus intérpretes. Depois da morte de Nostradamus.são tão obscuros que vêm sendo interpretados há quatro séculos. uma grande revolução e o aparecimento de um grande monarca. a Grande Revolução e Napoleão. a gente fica zangada115 e diz: . o golpe de Estado de maio de 1879 e Gambetta. Compreende-se que Nostradamus haja morrido misantropo. ocupando-se das crises de gabinete da Terceira República. absolutamente. As profecias que não se realizam estão absolvidas."114 Então. O que existe de mais extraordinário nessas profecias não é. o zelo dos intérpretes não hesitou em acrescentar a Comuna e Monsieur Thiers. Dito isto. o que não se pode provar. já são cinco. ou até experimentado traduzi-los a outras línguas. que elas não se realizem nunca. isto nada prova: ela poderá ainda realizar-se no futuro. Mas que uma profecia não se realize. não sem acrescentar alguns pormenores bastante obscuros e que são a reserva dos intérpretes. então. esta profecia se realizou nada menos de sete vezes: a Revolução da Liga e Henrique IV. e em palavras bastante claras.O acaso.O acaso! . Nostradamus. que uma profecia se realizasse era uma razão de desconfiança.

"que acredita na Providência. Jeremias teria sabido fazer disso uma longa lamentação. vol. das quais tenho medo de falar. traduzido em todas as línguas". nas suas Três conversações (1900). pouco amadas. obrigatoriamente. mas vale a pena. Estas profecias religiosas. Todos os acontecimentos nos aparecem em sucessão. X. e que é vegetariano". Futuro são dimensões do Tempo. organizados em sucessão..116 Não existe terceira via: "acaso" quer dizer que os acontecimentos. quer imaginemos as sucessões organizadas por um espírito análogo. d. e nesta altura é inevitável a introdução de qualquer antropomorfismo. predisse também o Imperador-Anticristo. que tinha previsto. um deus do qual se sabe bem o que fez no passado. Admitir a Providência é admitir ao mesmo tempo que Deus permite. aos seus eleitos. p. mas não se saberá jamais o que fará no futuro. pela qual o nosso espírito ordena os acontecimentos em sucessão. "que burla todo o mundo por meio de um grosso livro. mas essa obrigação da nossa estrutura espiritual se estende mais ainda. O tempo é uma categoria do pensar. A Providência é a base da profecia religiosa. São as duas formas de compreender o Tempo: a Providência Divina ou o determinismo "scientiste". mas que usurpa o nome do Cristo para suas campanhas e suas batalhas". . é preciso pensar nos acontecimentos sucessivos encadeados por uma ordem. quer imaginemos as sucessões organizadas unicamente pelo encadeamento de causa e efeito. "que não nega o cristianismo. mas só gosta de si próprio e dos animais. "que se proclama Chefe e Presidente dos Estados Unidos da Europa" (Vladimir Soloviev. participar da previsão divina dos acontecimentos futuros.incrédulos. porém superior ao nosso. não são organizados. Passado. são quase sempre desagradáveis .e. por ordem do rei Manassés. Soloviev. algumas vezes. Obras Completas.Deus bem sabe por quê . o aparecimento vitorioso dos japoneses. o grande espírito religioso. e Isaías foi serrado. o que é uma contradição em si e o subterfúgio da preguiça de pensar. Petersburgo. sim. s. e parece que o Acaso é o grande subterfúgio daqueles que não desejam refletir sobre o Tempo. por isto. Os reis não gostam dos profetas. serrado.

possivelmente porque o texto grego diz. é sempre possível um certo grau de previdência." (S. e sim no pátio da prisão."118 Ora. IV. é contemporâneo do nosso passado. favorece ainda os profetas. e o futuro. Sejame permitido acrescentar um exemplo surpreendente. duque de Montmorency. que encheu o segundo volume dos Parerga e Paralipomena com as profecias e a sua possibilidade científica. II Epist. Mas eu gostaria de saber por que os nossos polemistas católicos se servem muito pouco do texto admirável: "Haverá uma época em que eles não sustentarão a sã doutrina. mas. Ninguém poderia ser mais feliz. recentemente construída. o tempo difere também. do que Schopenhauer. aumentado ainda hoje pelas doutrinas da física relativista. que não admite mais uma sincronia rigorosa: nos diversos espaços. Neufve obturée au grand Montmorency. entre 1633 e 1635. em 1632. o mais severo dos deterministas. 3). de posse deste raciocínio."117 As duas primeiras linhas referem-se a acontecimentos que se produziram. por outro lado. mas procurarão um Mestre à sua vontade. "Clere peyne" é a "clara pena". para "fábulas". não o executaram na Grande Praça. em francês moderno: "Il y a une nouvelle prison pour le grand Montmorency que sera exécuté publiquement hors du lieu commun. Paulo. em 30 de outubro de 1632 ele foi executado. Porém é preciso também saber que a . a execução pública de acordo com os preceitos da lei. graças à sua posição. os "mitos". Henrique. ad Timotheum. em alguns astros. O determinismo. o que exclui as aplicações unilaterais. foi mais tarde proibido na Alemanha. velho de quarenta anos. As duas outras linhas dizem. escreveu. se todos os acontecimentos se encadeiam de acordo com um causalismo rigoroso.81-221). com efeito. Hors lieux prouvés delivré a clere peyne. e o único resultado é que este livro. em 1555: "Le lys Dauffin portera dans Nanci Jusques en Flandres electeur de l'Empire. de Tolosa. estava encarcerado na prisão. no quarteto 18 do seu nono capítulo. e abandonarão a verdade para se voltarem para as fábulas. Com efeito. Nostradamus.

chamava-se Clerepeyne."119 .000. e os Estados Unidos da América estão à margem do mundo . Mas depois será necessário evitar a longa viagem em volta do Cabo Horn. mas quando esta é conservada. Ficarei surpreendido se os Estados Unidos não tomarem esta obra entre as mãos.não existem caminhos de ferro nem vapores transatlânticos. Ils fonderont leur légitimité sur le témoignage de ce qui se passe sous nos yeux. C'est d'en bas que viendront les maîtres futurs. quando não se perde a cabeça. leur pouvoir sur l'anarchie qui nous dévore.execução não foi feita pelo carrasco. mas não viverei mais. É trabalho do futuro. avachies. Le peuple ne les cherchera pas dans les dynasties régnantes. dans les classes moyennes. Enfim. Desejava bastante vê-lo. Banning escreveu nas suas Réflexions morales et politiques. mas por um soldado escolhido por sorte. eu desejaria ver os ingleses na posse de um Canal de Suez." No entanto. existem profecias mais surpreendentes ainda.. ao qual ele aconselhava a colonização do Congo. O que não nos poupa ao aviso de Lessing: "Aquele que não perde a cabeça por causa de certas coisas não tem cabeça para perder. em 1893: "Le XX. Para os Estados Unidos este canal será indispensável. Seria o acaso? Mas a probabilidade de predizer ao acaso estes pormenores é de 1 em 30. A capacidade de um grande espírito de prever as relações complicadas e longínquas é quase ilimitada. dirão.e siècle ne s'achèvera pas sans avoir ouvert une période de Césars. amigo íntimo do rei Leopoldo II dos belgas. dans le aristocraties de race.. toutes épuisées. se vale alguma coisa." É de Goethe. Ce sont des justiciers redoutables.. e este soldado. Mas escutai a voz de um homem muito mais simples e quase desconhecido. Em trinta ou quarenta anos.000.Goethe disse a Eckermann: "Haverá ainda o projeto de um canal do Panamá. esta jovem república terá povoado a Califórnia. Mas os resultados seriam incalculáveis.. dizem os cronistas. de uma inteligência encantadora: Emile Banning. ayant forfait leur droit d'aînesse par leur incapacité et leur égoïsme. e eles o terão. A 21 de fevereiro de 1827 .

um general. which dreams a lie. Voltaire já o lembrou: "Oui. nas suas Considérations politiques sur la défense de la Meuse.) Sem dúvida. notamment par la vallée de l'Oise. são coisas desagradáveis essas profecias que se realizam. Nisso vejo a única razão de acusar aqueles que são bons profetas mas falsos profetas. e são os pessimistas que vencem melhor. Como o prova o exemplo de Schopenhauer. Não esqueceremos o artigo do Figaro de 13 de setembro de 1901. no entanto. elle invoquera d'impérieuses nécessités militaires. não queria acreditar. sinon pris. com minúcias as mais precisas: "Faisant fi de sa parole. Si tout prétexte fait défaut à l'Allemagne pour envahir la Belgique. O artigo está assinado por Charles Maurras. l'Allemagne se saisira de la Meuse. Cassandra tinha razão. no qual o jornalista prevê um "Monck francês". previu uma guerra entre a França e a Alemanha."121 (Estas últimas palavras são exatamente as próprias palavras do chanceler Bethmann-Hollweg no Reichstag. em 4 de agosto de 1914. escritas em 1882. em 1914." Existe um caso único no qual o otimismo vence melhor ainda: quando ele prediz as coisas e as prepara ao mesmo tempo. mais il a tort d'avoir raison si publiquement.) L'armée allemande balayera tout ce qui subsiste des fortifications françaises sur la frontière du Nord. existe uma ligação íntima entre a profecia e o pessimismo.120 (Exatamente o que Joffre."123 . mas pensai bem. That fools believe. Ninguém lhes agradece isto.O mesmo Banning. Paris sera menacé. e que abalará a República enfraquecida. contradiz: "O papel de Cassandra é ingrato. car elle y a un puissant intérêt. l'Angleterre devra prendre parti dans la mêlée pour sauver son empire de l'hégémonie germanique. instruído pela ciência política da Action Française. Son armée se servira des deux rives de ce fleuve pour pénétrer en France."122 O orgulhoso húngaro Kossuth. Socrate a raison. e lembra as palavras do velho poeta inglês Michael Green: "Prophecy. and knaves apply. Qu'elle le veuille ou non.

A opinião mata os falsos profetas. Partridge. Ele está morto desde a véspera. é preciso apenas a gente adaptarse às loucuras coletivas.Algumas vezes.certo poder de profecia está ao alcance de todos. que vereis. por seu lado. Partridge estava morto desde aquela hora. Partridge morrerá. vereis o sr. acrescentaria o meu mestre Alain. aliás. não é senão um cadáver mal informado. Mas não vos deixeis enganar. no qual se leu: "Em 31 de março de 1709 o sr. apareceu triunfalmente na rua. Vous étiez milliers à l'avoir bien prévu. representantes simbólicas da humanidade: Dom . É isto. et c'est parce que vous l'avez prévu que c'est arrivé. Partridge. Swift publicava.e é este o ponto culminante da defesa . com brilhante saúde. um calendário. é uma triste glória ter tido razão. E se cumpríssemos o nosso dever. até mesmo ele." Toda Londres estava curiosa. Muitos homens já estão mortos sem o saber. Uma razão coletiva. Partridge na rua. "Eh! oui. acabaria."125 SEGUNDA PARTE: INTERPRETAÇÕES ENSAIO DE ANÁLISE EM PROFUNDIDADE A LITERATURA universal chega ao cume na criação daquelas personagens típicas. o pessimismo. Mr. 1 de abril de 1709. Em 1 de abril de 1709 Partridge. O grande Swift deu-nos um exemplo surpreendente revoltando-se contra as ridículas profecias de um fazedor de calendários. e poderíamos subscrever integralmente as palavras de Ludovic Halévy: "Je m'aperçois que j'ai passé ma vie à annoncer des catastrophes. que ne se sont jamais produites. onde encontrou pregada uma proclamação de Swift: "Hoje." E para a opinião pública o sr. O sr."124 Claro .

toda crítica de princípios puramente literários baseia-se num aristocratismo. nestes últimos casos. o desaparecimento do autor atrás da obra. por isso. e sobreviveram a este. com que medida crítica medi-las? Essas criações superliterárias parecem desafiar todos os métodos da crítica literária. porque o valor literário.João e Fausto. . graças a uma popularidade invencível. que superam em plenitude vital aos seus próprios criadores e fazem esquecê-los. o problema crucial da crítica literária. o farmacêutico M. e um crítico literário será inclinado a acrescentar a essa raridade o advérbio "felizmente". e só uma análise em profundidade resolverá o problema crucial da crítica. Daí o semi-anonimato desses tipos. Mas essa popularidade desafia. que atravessam todos os limites do tempo e do espaço. A universalidade desses tipos é bem diversa da universalidade do "bom gosto" classicista e acadêmico. foram desprezados nos tempos em que o dogmatismo estético dominava. e poucos outros. fica ao alcance só de poucos. Sir John Falstaff. na maioria. adquirem uma vida humana mais do que qualquer homem de carne e sangue. Mas aqueles permanecem como criações de tanta validade universal. Ficam fora do alcance de toda crítica estética. uma vida eterna. apenas. muito velhos. o que dificulta ou mesmo impede a análise psicológica à maneira de Sainte-Beuve. Os grandes tipos da literatura universal são. O século XIX foi intelectualista demais para criá-los. o estudante Raskolnikov. Homais. Tão vivos estão. são os próprios métodos que hão de justificar-se perante essas obras. São poucos: esta vida eterna é um privilégio raro. como num semi-anonimato. assim definido. Hamlet e Dom Quixote. consciente ou inconsciente. de outro lado. enquanto aqueles tipos são propriedade comum do gênero humano. o marujo Robinson Crusoé. À custa da vida literária dos seus autores. Pois essas criações típicas constituem o problema mais difícil. a crítica "pura". Ousamos ajuntar-lhes. à maneira de Croce. e. pois. eles desafiam a crítica dogmática à maneira de Boileau. de tanta substância humana. Assim. Édipo e Till Eulenspiegel. a nacionalidade e a época já limitam a universalidade do símbolo.

Contudo. e significa um malfadado. Um dia aparece-lhe o diabo. E descobre que são "botas de sete léguas". Submerge-se na Natureza e na exploração dos seus mistérios. Os outros homens escarnecem ou evitam o sinistro sem sombra. para não trair o seu segredo. está pronto a restituir-lha. obedecendo ao outro. não quer nada mais do diabo e deita fora a bolsa maravilhosa. Agora. Schlemihl está mesmo incluído entre os livros preferidos do super-realismo. . o mundo. O preço que Schlemihl há de pagar é a sua sombra. A história maravilhosa de Pedro Schlemihl foi escrita em 1814. Schlemihl é o mais desgraçado dos homens: o espetáculo da sua sombra. O nome do "herói" é uma expressão universalmente conhecida do jargão judeu. o comerciante enrola-a como um lenço e desaparece. disfarçado em comerciante holandês. teve o destino da demasiada popularidade. Quer percorrer. e vende-lhe uma "bolsa de Fortunato". Pedro Schlemihl é um rapaz pobre. pois. mas não é feliz. como as Viagens de Gulliver e tantos outros grandes livros da humanidade. Enfim. A única criação do século passado do legítimo tipo universal é Schlemihl. Schlemihl torna-se muito rico. que o levam. não quer vender a alma imortal. estendendo-lhe à vista a sombra. Desde então. ao ponto de descer a livro para a infância. num instante. e com o último dinheiro compra um par de botas. Prefere a infelicidade terrestre à reprovação eterna. mas por um preço bem alto: a alma. o diabo aparece-lhe ainda uma vez.Homais e Raskolnikov são criações intelectuais. fere-lhe o coração. e na paz da Natureza reencontra a paz da alma. tanto mais dinheiro ela encerra. parte integral do seu eu. No entanto. pelo poeta francês Adelbert de Chamisso. mas em língua alemã. O pequeno livro tornou-se verdadeiramente internacional: o prefácio duma recente edição regista "traduções em vinte e duas línguas estrangeiras". o livrinho é mais familiar às crianças do que aos adultos. ele mesmo evita o sol. pobre como antes. mas em vão. que contém dinheiro sem fim: quanto mais dinheiro se lhe tira. Pedro Schlemihl está independente dos homens. por todo o mundo.

o mito se desvaneceu. Não é por acaso que os contos de fadas encantam a infância. acreditamos ter perdido a sombra e ter sido infelizes com Schlemihl. assim. é um conto de fadas? .Uma história muito simples e verdadeiramente maravilhosa. heróis populares de contos de fadas. no inferno. o Dom João levado pelo mesmo diabo. na qual o homem se vê acusado pela sua alma-sombra. Será.perguntará: . Desde então. mais precisamente. a paz da alma. mas dele ficou um resíduo: a sombra é sempre olhada pela humanidade com invencível horror. da alma-sombra dos povos antigos.existe hoje ainda . Eis por que esses motivos têm uma longa história e constituem objeto de preferência da crítica histórica. representação abreviada da vida real. Acreditamos haver conhecido pessoalmente o comerciante holandês. A crítica dogmática . Mas A história de Schlemihl não representa vida real. é uma fábula. na origem. representa uma idéia. pois. como o Fausto que faz um pacto com o diabo.É uma novela. enfim. Chegam até a personificar a sombra num double. É narrada com tanto realismo. uma fábula? Há inúmeras interpretações da pequena obra que a degradam a alegoria e lhe tiram a vida poética. de Luciano. a novela é um gênero moderno. a sombra do homem acusa-o. a cena do Livro dos Mortos egipcíaco. o Hamlet com o fantasma e o Édipo com a Esfinge. A história do homem que perdeu ou vendeu a sua sombra descende de uma idéia primitiva da humanidade. gênero que representa uma camada mais velha da literatura do que a novela ou o romance. como todos esses eram. o Dom Quixote lutando contra os moinhos de vento. pertence à espécie mais velha do conto. reproduz-se. é um conto de fadas. que é o seu encanto até para as crianças. A força de sugestão que emana desse modesto livrinho é um problema crucial da crítica literária. e recuperamos. e como Tyl Uylenspieghel126 é ainda o doloroso herói fantástico do povo flamengo. vêm da infância da humanidade.Novela não é. explicada em ação. fantasma dum "outro eu". A história de Schlemihl é um conto. perante o juiz Osíris. com ele. pelos crimes cometidos. No diálogo Nekuomanteia. relaciona-se com isso . que o romantismo de evasão do assunto desaparece.

mestre da literatura comparada. o partidário da crítica histórica dará um grito de triunfo: de fato. T. e muitos críticos acreditam que a vida de Chamisso oferece explicação satisfatória. tanto mais nesse caso. em 1806 e 1813. era amigo íntimo de Hoffmann. As aventuras duma noite de ano-novo. a cronologia é mais forte do que a erudição literária: o Schlemihl é de 1814. fugiu. Tudo parece esclarecido. e assim o leio realmente em todas as histórias da literatura. duvida do valor da "história dos motivos". oferecendolhe uma pátria supra-real. como aquele. e o primeiro conto de Hoffmann com um "outro eu". todas. Era menino ainda quando os tormentos da Revolução obrigaram a família a emigrar e fixar-se na Prússia. Essas representações literárias do "outro eu" derivam. O jovem Chamisso. Adelbert de Chamisso-Boncourt nasceu em 1781 na França. Entretanto. Nesta altura. Com isso. A história de Pedro Schlemihl é uma obra autobiográfica. entrou a servir no exército prussiano. O próprio Van Tieghem. ao poeta alemão de coração francês. no país da "flor azul" de Novalis. Mas a grosseria do serviço militar repugnou ao jovem oficial. infelizmente. E. A. Mas a prioridade literária de Chamisso não prova nada. precisa-se saber por que ele escolheu esse assunto. e o "Schlemihl do nosso grande Chamisso" vem lá expressamente citado. sobre Shakespeare. no seu livro. graves conflitos de consciência. duma única fonte: do mestre do conto fantástico. o autor do Schlemihl. alemanizado em pouco tempo. em que Chamisso é o ponto de partida e não tem precursores propriamente literários. As guerras da Prússia contra a França. na qual dominava então a evasão romântica. Hoffmann. filho duma família aristocrática. mas só folclóricos. teve uma segunda pátria. de 1890. Profundamente influenciado por Goethe. Gogol. da . Maupassant e Dostoievski. causaram-lhe. é de 1815.o medo de ver-se à noite num espelho. frisou: não importa que um poeta escolha assunto alheio. Mas. estamos no terreno da crítica psicológica. Já o velho Wetz. Chamisso. a realidade era mais forte do que o sonho. É um pesadelo que se manifesta até nos sonhos delirantes de Heine. refugiou-se na poesia.

expedição que descreveu. A história de Pedro Schlemihl é autobiográfica. a expedição científica de circunavegação mundial do capitão russo Otto Kotzebue. O único elemento da obra que não produz essa impressão de validade universal é a volta de Schlemihl à Natureza e aos estudos científicos. as imperfeições literárias. altamente venerado como poeta. Da emoção vital fica só uma emoção poética. . Precisa-se. acompanhou. mas só a emoção. homem sem pátria. ouso dizer: na origem da obra literária não está um acontecimento da vida do autor. explicam as fraquezas. dos antecedentes biográficos deste. transformada em "forma". "Qu'est-ce que cela prouve?"127 A história maravilhosa de Pedro Schlemihl. agora facilmente interpretável pela vida do autor. sim. desatada por esse acontecimento. e muitas vezes a emoção vital chega a intrometer-se de novo e deformar a obra no sentido da solução puramente artística. a obra é tanto mais perfeita. a este ponto. erudito e sábio. mas. rever o conceito sainte-beuveano de crítica biográfico-psicológica. seria um "romance à chave"? Seria uma nova degradação a alegoria. depois. umas edições de Schlemihl para uso da infância chegaram a alterar arbitrariamente esse fim. onde o estilo simples e realista esconde perfeitamente as saudades do poeta romântico sem pátria. Calder-Marshall. Mas o poeta Chamisso transformou-os inteiramente. contém os acontecimentos dolorosos da vida de Chamisso. quanto mais a emoção original está dominada. em livro formoso. condicionadas pela deformação vital do conceito. de modo que a vida de Schlemihl é perfeitamente compreensível sem o mínimo conhecimento da vida de Chamisso. que se comunica ao leitor. sustenta que os elementos biográficos não fornecem nunca uma explicação literária das obras. num ensaio sobre Lawrence Sterne. nessa qualidade. sugerindo-lhe que a história do sem-pátria que perdeu a sombra e a felicidade diz respeito a nós outros. Morreu em Berlim. que não garantem a todos a paz da alma. Ensaiando sistematizar o pensamento do crítico inglês.baixa realidade política para a realidade superior da Natureza e dos estudos científicos. Tornou-se botânico. O crítico inglês A. mas esta perfeição é rara. puramente intelectual.

" Temos aqui. que o homem Chamisso também não haja encontrado no pensamento alheio a paz definitiva. trata-se de mais que uma lembrança literária. ou por um pacto com o diabo. outrossim. que revalorizou . não há "botas de sete léguas". Atque metus omnes et inexorabile fatum Subjecit pedibus.Decerto. da situação original da humanidade. em vez da pátria perdida.. Na vida real. A situação de Schlemihl no mundo é a situação fundamental da humanidade no mundo: a de um ser sem pátria. um meio. in hac lacrimarum valle". Se há neles a origem de alguns grandes símbolos literários da humanidade. A infância está mais perto das origens. explica-se a razão por que os livros que contêm esses símbolos descem muitas vezes. e calcar. submissos. expresso nos versos da Geórgica de Virgílio: "Felix qui potuit rerum cognoscere causas. como Chamisso as interpretou. com o tempo. e apraz-me sublinhar a palavra "infantil". a livros para a infância. É um sonho infantil de onipotência.. É o único pensamento que não cresceu na emoção pessoal de Chamisso. As "botas de sete léguas" não são. "filhos exilados de Eva. mas um fim. representam a conquista da nova pátria mundial. é significativo. refugiando-se nas ciências. O que garante ao Schlemihl o efeito durável não é a vida real de Chamisso. é o seu sonho. É um sonho infantil. um conto de fadas. Homens adultos e modernos não ousariam exprimir essa idéia. Isto só foi possível em pleno romantismo. pela magia da "bolsa de Fortunato" ou das "botas de sete léguas". nos "pés". Infelizmente. aos pés." "Feliz aquele que pôde conhecer as causas das coisas. é um pensamento sublime. neste vale de lágrimas". na de Chamisso e na de nós outros. A essa situação fundamental da humanidade corresponde um sonho fundamental da infância: um sonho de onipotência. o germe das "botas de sete léguas". Os contos de fadas são contos da infância da humanidade. Como o Salve Regina da Igreja o exprime: "exsules filii Hevae. todos os medos e o fado inexorável. mas resultou da sua imitação de Goethe.

Chamisso é um precursor do super-realismo. das elites. a que Croce chama o "lirismo" da obra. é sempre aristocrático: o verdadeiro valor estético acha-se ao alcance só de poucos. realizações artísticas perfeitas são raras. ainda uma vez. O sonho romântico do Schlemihl está dominado pela forma realística e muito simples: é o naturalismo primitivo da poesia popular. Mas não é assim. se não. mas a toda a nossa personalidade. da parte do autor. nascida da situação. Chamisso é dos poucos que chegaram a dominar o sonho pela arte. à crítica biográfico-psicológica: essa congruência seria impossível se as obras procedessem da situação individual do autor. Chamisso é muito ligado a Novalis. A expressão simbólica é o privilégio do poeta. Dom João e Fausto são criações anônimas. O símbolo fala-nos. mas só a emoção. Com isso. o poeta e pensador do sonho e da onipotência mágica que supera a ânsia religiosa do homem exilado no mundo real. não ao nosso intelecto. só pode afirmar: a mestria da obra. uma grave contradição. e Chamisso não é Schlemihl. Nasce uma obra de arte se o autor chega a transformar a emoção em símbolo. com isso. não é a situação real. Há nisso o que a crítica não pode explicar. A forma desse lirismo é o símbolo. O símbolo exprime o que nós outros sentíamos também sem poder exprimir. A alegoria é compreensível ao raciocínio do leitor. a maioria das obras ficou no estado do sonho caótico. até um livro da infância! O problema da contradição entre a arte como expressão individual do artista e a arte como propriedade coletiva da humanidade não está resolvido. As obras raríssimas que se tornam propriedade comum de todos os homens baseiam-se na congruência perfeita entre o individual e o coletivo. Para voltar. O que. reencontramos a crítica literária: a crítica estética.os contos de fadas e o sonho. Tanto mais durável é a sua obra quanto mais universal o . Mas surge. Mas a obra-prima Schlemihl é um livro da humanidade. O princípio da crítica pura. Como Novalis. Cervantes não é Dom Quixote. ele só consegue uma alegoria. essa emoção simbólica. estética. sem sugerir a emoção. e o Schlemihl figura entre os livros recomendados por Aragon e Breton. No romantismo. Shakespeare não é Hamlet. entra na obra.

da reputação. decerto. da situação social. recusando a segunda tentação do diabo. mas pelo sol que o elucida. não saiba que o seu herói triste encarna as ânsias mais velhas da humanidade. o homem se vê nu ao espelho. Acreditava ter adquirido uma nova realidade. Explicá-lo. e o desgraçado recai na solidão e na ânsia primitivas da humanidade. Não projeta uma sombra. independente do mundo exterior. em geral. porque é sem alma. Mas essa pretendida realidade é só ilusão. O homem está inclinado a olhar a sua sombra como uma parte. cristalizada no Schlemihl. essa sombra. ainda. a sombra do homem é um produto de fora: da pátria. do nome. das relações pessoais. Enfim. a sombra vendida será a alma perdida. do povo. do seu corpo. Schlemihl é o nome moderno da alma-sombra dos egípcios. do "outro eu" de Hoffmann até Dostoievski. É o caso de Schlemihl. é aquele eu íntimo. Schlemihl não perdeu a sombra. mais universal e imperecível. só na sua pátria perdida. o símbolo tem maior conteúdo do que supõe seu autor. É significativo que. Mas assim como a sombra do corpo não se produz pelo próprio corpo. esse conteúdo profundo. Quando Chamisso criou o símbolo da alma perdida. O que Schlemihl recupera. pensou. do homem-espelho Narciso. uma nova vida interior. Era esta a experiência pessoal de Chamisso. Mas já não precisa da sombra. pois não está esclarecido pelo sol de lá fora. É muito provável que Chamisso não saiba nada da história maravilhosa do seu Schlemihl através dos séculos. E há mais. uma alma. Há símbolos que refletem a situação humana inteira. da família. porque tem uma luz própria no coração. Não é uma ilusão. inútil porém. Com cada fraude envelhece e endurece-se o coração. É uma experiência universalmente humana. o velho mito desperta." . na Natureza quis encontrar uma nova pátria. Como Novalis o disse: "O verdadeiro caminho vai para dentro. mas uma realidade sólida sem a qual o homem não pode viver: perdida essa sombra. é a tarefa da análise em profundidade. vendeua. Mas o símbolo de Chamisso é maior do que ele mesmo.símbolo. de Ovídio até Valéry.

Cada geração descobre uma nova maneira de interpretá-lo. a última consolação. Quanto mais um autêntico contista no meio da literatura mais moderna. está no exílio. da tipografia: romance é para ser lido. Deste modo. E todos os grandes contistas modernos têm certo ar esquisito. Talvez o conto de fadas. chega a ter significação universal o que era uma experiência pessoal de Chamisso: o exílio. propriamente exilados. toda a humanidade está no exílio. a pátria. . Pois toda a humanidade.O caminho de Schlemihl é o caminho da dependência exterior e brilhante. O romance é filho das épocas modernas. a nossa geração de exilados. recaída na solidão ansiosa do homem primitivo. que a transfigura. anacrônico. mas do leitor. para as crianças da humanidade. É um caminho humano. "exsules filii Hevae in hac lacrimarum valle". e nossa geração acha-lhe um sentido muito novo e muito velho. até à independência interior. para a luz interior que é o reflexo da luz eterna. Schlemihl está vivo entre nós outros. que se reconhece no espelho. Hoje. através da ânsia solitária do exilado. O conto é o último resto dos tempos passados da literatura oral: conto é para ser narrado. e em todos os tempos. A colaboração autobiográfica na obra não provém do autor. Ninguém o compreende melhor do que nós outros. reconhece o valor desses pobres bens terrestres. PONTE GRANDE REFLEXÕES SOBRE A ARTE DO CONTISTA THORNTON WILDER O CONTO pertence a uma camada mais velha da literatura do que o romance. O símbolo é bastante rico para falar a todos. conto da infância da humanidade. é a retirada para a alma que não precisa do sol de lá fora. para dizer a verdade. para nós outros e para todos. que nenhum amor de amigos poderia substituir. Nesse destino. constitua o último conto autêntico. Havendo perdido ou estando ameaçada de perder a sombra exterior. que perdemos a nossa sombra terrestre. da norte-americana! Rodeado pelos pálidos classicistas da Nova-Inglaterra e pelos violentos naturalistas do Middle-West. grita como uma criança na escuridão.

Tentemos então apresentá-lo antes de ousar interpretá-lo. tradições da Antiguidade. da fé. Também não se assemelha aos grandes realistas que procuram desesperadamente nas realidades vivas o sentido da vida. cheio de beleza e de mistério. A ponte é o símbolo desse autor. publicou. antigo aluno da Academia de Arqueologia de Roma.está escrito num romance de Sinclair Lewis . professor de literatura comparada em Chicago: não se assemelha em nada aos pálidos classicistas da Nova-Inglaterra. tradições do barroco católico. numa interpretação cinematográfica. Thornton Wilder". cujo obra é uma ponte da velha Europa à nova América. amanhã se desmoronará para o . muito nobres e muito ricas."só tem duas saídas para o mistério: a estrada de ferro e a missa católica. o seu primeiro romance. A ponte das tradições já não está firme. que parecia o caminho do país dos mortos. depois de ter estreado com uma série de pequenas peças de teatro. dos prelados e dos diplomatas. Um perfeito europeu. em 1921. Thornton Wilder. ressuscitar a velha Europa da monarquia. ao Calibã setentrional. e que fracassam totalmente. Procura este sentido nas tradições que estavam esquecidas. levou o próprio Mr. Não é por mero acaso que a obra-prima de Thornton Wilder tem o nome de uma ponte. a grande ponte para o país da vida. da aristocracia. para citar Rodó. Thornton Wilder é um bloco isolado na nova literatura americana. do alto da Roma dos cardeais.parece um estrangeiro. "Nossa cidade" . que ele busca até no Peru dos tempos coloniais." Thornton Wilder conhece uma saída. acontecimento incompreensível. mas consolador. Fox a "dar-se a honra de apresentar Mr."e esta resposta me livrou de professar o monarquismo católico!" Mas sob a ironia desta réplica sente-se a secreta nostalgia de um outro mundo. da nova América do Norte à velha América do Sul. que queriam. esse estranho e comovente contista Thornton Wilder. descendente de antepassados remotos. mas era a ponte. "Eu sou americano e protestante" .diz o jovem americano do seu romance Cabala . Prefere Ariel. O bom êxito mundial do seu romance A ponte de San Luis Rey. Cabala é uma sociedade secreta de cinco damas.

infeliz enamorado da grande artista Périchole. que o reconduz ao Novo Continente.pergunta o jovem americano de Cabala à sombra de Virgílio. Por um cálculo com a morte. Wilder confia-se ao mar maior. . Heaven's my Destination é a história do caixeiro-viajante George Brush. A grande ponte que liga a vida à morte caiu para sempre. assim como ao seu livro. O mistério da Ponte de San Luis Rey reconduziu seu poeta à sua pátria americana. . Devemos o conhecimento dessas cinco vidas às buscas infatigáveis do frade. e os segredos desses cinco corações. o tio Pío que foi por ela arruinado. e."Como fazer de Manhattan. e que leva para a morte o filho da grande pecadora. cinco vidas das quais nenhuma se havia realizado plenamente: Estebán. das suas paixões. que era ontem o mar de Ulisses e será amanhã o mar de São Paulo. cortando o fio de cinco vidas. e que por isso põe a desordem no seu mundo."Volta para tua cidade e enche-a de mistério!" Wilder escondeu esse mistério numa bufoneria profunda. Não se pode agir normalmente neste mundo . A mulher de Andros. a grande cidade. Mas o frade expiará com a morte as suas dúvidas. depois que uma noite cruel lhe revelou que sua filha idolatrada a havia traído. eis a razão por que a Inquisição o fez queimar. Mais uma evocação do Velho Mundo. com ela. na Praça de Lima. Porém o que seus olhares. visão maravilhosa do Mediterrâneo da Antiguidade.abismo. e nunca mais se perderão. cuja preciosa vida ainda não começara. dos seus desesperos e da sua morte. permanecem encobertos. Mas o poeta os encontrou novamente. a jovem Pepita. uma grande cidade?" E a sombra do Romano responde: . É o cego e tirânico absurdo dessa perda que comove profundamente o franciscano frei Juniperus. ele queria justificar Deus. é uma Europa transformada: o Peru espanhol dos tempos barrocos."Como conservar vosso patrimônio?" . No dia 20 de julho de 1714 a ponte de San Luis Rey caiu no abismo. que queria moldar sua vida quotidiana segundo os princípios da moral puritana. voltados para o passado. que quer responder à angustiada pergunta sobre a significação de tal desgraça. descobrem nas Américas. a marquesa de Montemayor.dizem as aventuras . Em seguida.

A narração é aquela arte. Não se tem mais confiança na experiência. no meio de um acampamento. até com 100.sem que surja a sua anomalia. sob a tenda de pastores. Essa qualidade de "narrador" é a chave da arte de Wilder. só há neste mundo um único ato normal: morrer. Antigamente. que sabia o que os outros ignoravam. alguém. Nada de psicologia sutil. onde o régisseur que comenta a ação chama e manda embora os personagens à vontade. muito antiga. Esse régisseur é a morte. Não é romancista. Peça de uma técnica estranha. melhor ainda . Os outros escrevem grandes romances de mil páginas.um narrador. que desafiam qualquer experiência. ainda havia experiências. e sim contista. de contar uma coisa nova. Contar é comunicar a outro uma experiência que se fez na vida. não se quer mais executá-la. já lhe parece o passado. ele se contenta com 200. Ele ama a Europa barroca. Mas a viagem preferida deste viajante incansável é a viagem ao país do passado. aí. narrador. Our Town. porém. O mundo sofreu mudanças. nada de documentação social. em Paris e em Viena. e . Thornton Wilder é essencialmente um contista. É um grande viajante. melhor. muito "em casa" em Roma e em Londres. ou. Daí o fato de que a arte da narração está desaparecendo. as ilhas gregas e os seus costumes patriarcais. Thornton Wilder é essencialmente um narrador. e a "rua principal" é a ponte que liga a "nossa cidade" ao país donde não se volta mais. A morte do americano é o assunto da última peça teatral de Wilder. nada de coloridos. Ou. Mas para compreender isto é preciso saber o que é uma "narração". ama os deuses e os poetas do Lácio. que se passa na rua principal de uma cidade americana.desse Dom Quixote americano . na véspera da catástrofe. noção que está quase apagada pelas mais modernas de "novela" e de short story. Os melhores narradores eram os camponeses que contavam as tradições dos seus antepassados e os marinheiros que narravam as descobertas das suas viagens. ao serão das fiandeiras. contava as suas experiências. Esta Europa.

essas viagens só terminam no ponto onde a terra e o céu se tocam. A vida já não tem mistérios. fazendo as suas buscas. é substituída pela informação. Na nossa vida." Mas para o narrador Thornton Wilder a catástrofe peruana tem mais importância. a de salvar a experiência da vida. ou não os entrega aos estudiosos. é o germe do romance moderno. É talvez a tarefa mais velha da narração. A verdadeira narração permanece fora do tempo.disse Villemessant . Nossa vida está sem conselhos. Escutamo-los com prazer. sob pleno pesadelo ou encanto fantásticos. como aqueles camponeses e aqueles marinheiros. desapareceu. A narração pode resolver esse problema. Essa imprensa entende-se com o seu público: "Um incêndio no Quartier Latin" . A narração morre. Certa vez Wilder definiu a arte como "a magia do sonho que. como sonhos reveladores. porque a sabedoria. senão na cabeça de Dom Quixote. Jamais ninguém realizou a sua vida durante a vida. Não sabem contar nada ao frade investigador. conjunto dos velhos conselhos. porque eles sabem dar conselhos. conselhos para as pequenas e as grandes perplexidades desta vida confusa. a sabedoria já não tem lugar. Ele não se interessa pela atualidade."que sabem o que é a vida. É um narrador. A vida saiu dos eixos do mistério. O frade Juniperus. A arte transforma misteriosamente este pesadelo da vida e faz conhecer que acordaremos amanhã na morte. A sabedoria se perde. o caixeiro-viajante George Brush. acha todos os homens "muito gentis e inconscientemente enganadores". porém cheia de sentido. porque é a morte que dá sentido à vida. e é mais razoável do que queremos torná-la. A informação. da destruição pela morte: a tarefa do frade Juniperus. Sabedoria é o conselho entretecido na vida vivida da narração. ao menos na do seu ridículo neto. cheia de colorido frágil. são homens práticos."é mais interessante para os meus leitores do que um terremoto no Peru. "São somente os mortos" está dito em Nossa cidade ." A morte dá à vida o seu . Os narradores. o romance de Balzac e a imprensa de informação são contemporâneos. sabe que acordará amanhã". no mistério da alma e da morte. Mas Thornton Wilder não é um sonhador. cheia de psicologia preconcebida.

o tumulto da vida se alinha como uma procissão bem organizada. "Assim vai o mundo" . que completará os papéis e a peça. em nome da morte. "Ninguém morre tão pobre" . e o último capítulo intitula-se: "Talvez uma intenção". gostam de colocar as suas narrações num quadro. e pela qual o anjo da morte sobe e desce. a morte natural transfigura-se em morte espiritual. nos relógios das torres da Idade Média. Pela arte. Como." A recordação é a única que os mortos de San Luis Rey deixaram ao seu cronista.diz Wilder . a ponte sobre o abismo da exterminação.a crônica: crônica duma cidade. dum mundo. O que resta é a recordação. . duma ilha." Por essa coincidência. É da morte que o narrador recebe a sua autoridade. Como o régisseur de Nossa cidade. como a morte de San Luis Rey. para dar à vida o sentido que os vivos procuram em vão. e todas as narrações juntas o dizem por imitação: "Assim vai o mundo". e vêm em seguida todas as classes e profissões. a procissão das criaturas passa.diz Pascal . "O que eu queria mostrar nos meus livros" ."que não deixe uma coisa: uma recordação. onde um narrador imaginário. tendo à frente o rei. de Boccacio a Conrad. É o de que o frade Juniperus duvidou: que é que Deus quer conosco? Por que dá e toma arbitrariamente a vida? O narrador Thornton Wilder sabe responder a isto. é a crônica "de omnibus rebus et quibusdam aliis". ao som do sino. O narrador Thornton Wilder narra sempre e sempre a morte.diz toda narração. o narrador chama e manda embora os personagens. Todos. A história natural do homem torna-se a história sagrada da humanidade. que vem. porque é a morte que dirige secretamente a pena do verdadeiro narrador: "Talvez um acidente" chama-se o primeiro capítulo de A ponte de San Luis Rey."é a coincidência mágica do acaso e do sentido. Essa grande crônica do mundo envolve todas as coisas entre o céu e a terra.sentido. e por fim a morte. Eis por que a recordação desempenha um papel importante na obra de todos os narradores. do sentido de uma vida perdida para sempre. sem ser chamada e vazia de sentido.128 é a escada de Jacó que leva da terra às nuvens. se lembra do que tem de contar. o jovem americano de Cabala ou o frade Juniperus. Todas essas vidas se reúnem na maior forma da narração .

se chamava o "grande construtor da ponte". em Roma. guarda as chaves do reino celeste chamar-se-á. O que nos conduz seguramente sobre o . "Somos" .. pela cadeia das tradições. um pontifex. um construtor de ponte. Somente a grande arte e o grande amor acalmam o grito do desespero e restituem a vida aos mortos. os símbolos míticos sobrevivem." "Restituir a vida aos mortos". Dá uma palavra aos milhões que dormem. il pense à un pont". dez séculos antes do nascimento de Cristo. através de mil perigos. Eis por que o gênero mais velho e mais perfeito da narração. Caiu a tarde das suas recordações. como este velho símbolo. o conto de fadas.diz . Pontifex Maximus. Comporás a sua Miserere nobis que se elevará até o trono de Deus. O narrador é. que. até esse dia. Eis a arte da narração.o artista. a Morte diz ao artista agonizante: "É a própria morte que te manda escrever este réquiem. Mas o que dá a esse sentido o calor da vida vivida é o amor. Thornton Wilder. Thornton Wilder ama o conto de fadas como uma recordação do paraíso perdido." O conto de fadas é o último sobrevivente da mais velha tradição. quando nós e nosso pequeno destino formos esquecidos. desconhece a morte. Daí ver Wilder na arte um reflexo do amor divino. é o mito reduzido a narração. pontifex maximus. As recordações fundam as tradições. alem de ti . na mitologia dos povos primitivos. leva. vela para que o sentido da nossa vida não se perca." A vida feliz da infância não tem ainda necessidade da morte para a plenitude. na sua peça A morte de Mozart."os deserdados da nossa fé de infância nas fadas.. que não têm ninguém para falar deles. e aquele que. Mas a recordação é mais do que o quadro da verdade vivida. que o sacerdote mágico desse povo. E na mitologia dos latinos primitivos o símbolo da ponte é duma importância tão capital. o conto de fadas. ao país dos mortos. vivem ainda. No conto de fadas. "quand il voit un abîme. ele também. como o Leonardo da Vinci de Valéry. a narração da infância da humanidade.129 Precisamos todos passar na ponte de San Luis Rey. A recordação. a ponte. consola as crianças pelo fim tradicional: ".guardada para sempre. e quando ainda não estão mortos.

mistérios da infância não esclarecidos. no cinema? Estamos coletivamente felizes. a única coisa que fica. a cada um a sua própria morte. Desafiando a frase brilhante e venenosa de Renan .a nossa época prefere as verdades simplificadas. a reza de Rilke: "Dá.abismo da morte é a nossa partilha imortal do divino. duramente justapostas. todos. dos pintores. "verdades em bloco". Périchole só se lembra do tio Pío e de seu filho. "l'amor che muove il sole e l'altre stelle". precisa-se ter visto muitas cidades. estaremos mortos. somente eu me lembro. a reza do poeta. Faltam as nuanças entre as cores locais. duma só cor e ruidosamente unânime. isto é. mas também sem nuanças. Neste mundo. Há um país da vida e há um país da morte. a mesma morte. . não as suporta e não as tolera. e nós mesmos somos amados durante um piscar de olhos e depois esquecidos. ó Senhor. O espírito dominante. E quem procuraria nuanças no pão quotidiano dos intelectuais e dos pobres. no romance Os cadernos de Malte Laurids Brigge. Foi o mesmo em que pensou ao escrever. em voz muito baixa. dogmáticas. Em pouco tempo. do amor. coletivista. de sua mãe."la vérité est une nuance entre mille erreurs"131 .130 E termina assim a narração da grande ponte mortuária e salutar: "Quase já ninguém se lembra de Estebán e de Pepita. faltam as nuanças na língua homofônica dos músicos. profundamente infelizes. sem nuanças. Morremos mesmo. Precisa-se ter experimentado os caminhos de países desconhecidos." AS NUANÇAS DE JENS PETER JACOBSEN CONTRIBUINDO à definição da nossa época. porém. Mas o amor basta-se a si mesmo. e a recordação desses cinco terá abandonado a terra. todas essas correntes de amor voltam ao amor que as criou. despedidas longamente pressentidas. as frases inesquecíveis: "Para fazer um verso. homens e coisas." Sei em que Rilke pensou escrevendo este verso. poder-se-ia dizer: é uma época sem nuanças. ressoa. e essa mulher. e a ponte entre eles é o amor: a única coisa que vale. das quais a nuança seria uma heresia. A recordação não é necessária ao amor.

durante muitos anos. escreveu pouco. não é. discretamente.mares e noites de viagens. e morreu em 1885. Lembram porcelanas chinesas da época do poeta Li Tai Po. teve discípulos na Holanda. A sua influência literária foi imensa: remodelou não só a literatura mas a própria língua de todas as nações escandinavas. quase. nosso olhar. sei por que Jacobsen está esquecido. numa hora rara. senão uma lembrança agradecida da Dinamarca. pode-se afirmar que a sua própria vida foi uma nuança. e para muitos da minha geração. uma preciosa lembrança da mocidade perdida. para nós outros. Sei por que estou folheando esses pequenos volumes de papel amarelecido. então pode acontecer que. Hoje. Quem era Jens Peter Jacobsen? Sem querer espremer a expressão. infiltrou-se no sentimento e na expressão de certos simbolistas alemãs e franceses. uma nuança entre vida e morte. Trabalhador infinitamente meticuloso e vagaroso. nasça a primeira palavra dum verso. precisa-se possuir a grande paciência de esperar até que elas voltem. que morreu há séculos. de tuberculose. ingratamente: esse poeta é para mim. Nasceu em 1847. e. que era também um poeta de nuanças. as recordações se tornam anônimas e não se distinguem do nosso próprio ser. senão um nome. Eu mesmo. Jens Peter Jacobsen era um poeta de nuanças. daqueles poetas que suportam o esquecimento sem morrer. na pequena cidade dinamarquesa de Thistedt. nosso gesto. para confessar a verdade. Pois as próprias recordações não o são ainda. ao ponto de essas influências e recordações se tornarem anônimas e deixarem esquecer o seu autor. então. "on revient toujours à ses premiers amours".132 Relendo-o. quando. rivalizou na Inglaterra com a influência de Keats. Não basta mesmo ter recordações: precisa-se saber esquecê-las. . Antes. Nada ficou. Está esquecido. na Rússia e entre os tchecos. as recordações devem entrar em nosso sangue." Pensou Rilke na mesma pessoa. esquecera-o. uns versos de Rilke. uma grande saudade. Enfim. E tudo isso muito delicadamente. como preciosidades frágeis duma civilização perfeitamente requintada. Pensou no poeta dinamarquês Jens Peter Jacobsen. quando fez do herói do seu romance um dinamarquês.

com a nuança da saudade romântica nas almas. dirigida. recebeu. Skovgaard. A madrugada que seguiu àquela noite encontrou outros homens. Essa paisagem aguardava o seu poeta. de longe. Tornaram-se realistas."a gente podia tomar ao pé da letra as suas palavras. que estava então em voga. gramíneas tenras." O rapaz magro. mas parece que todo o país sofreu tal choque de nervos. A Dinamarca defendera-se heroicamente." Falei em nuanças. Eis tudo. em 1873. sentem-se. Uma paisagem monótona e delicada. entrincheirou-se atrás duma ironia cruel. as linhas da praia fria. Depois caem névoas azuladas sobre a paisagem outonal. como a paisagem pouco vistosa da Dinamarca. os Koebke. No entanto. satisfeito e vaidoso. desvaneceuse. E uma dessas nuanças. para sempre. ressoa um murmúrio longínquo do mar. quando a Prússia se atirou brutalmente sobre o minúsculo país e lhe arrancou a metade do seu território. florestas de faias. Veio a guerra de 1864. duros realistas. É uma paisagem discreta. que não podem ser aceitas literalmente. que encontrou os seus pintores. que refratam a luz dum sol quase meridional. Escreveu. foi bela e rica. com o germe da doença mortal no corpo. Maria Grubbe e Niels Lyhne. pouco vistosa. Traduziu Darwin. dos quais o mais belo se chama Senhora Foenss. e meia dúzia de contos. Kroeyer. o futuro poeta Herman Bang. os pintores mais tranqüilos. "Nunca" . contra si mesmo. transformada em jogos mágicos de claridades e sombras. Ninguém o leu. a sua tese botânica Aperçu systématique et critique sur les desmidiacées du Danemark133 foi coroada pela Universidade de Copenhague. bela pelas nuanças. em monotonias delicadas. O grande crítico dinamarquês e europeu Georg . essa pobre vida. Pastagens ondeantes. Foi então que um menino de sete anos. o choque que lhe arruinou. O romantismo nacional. as mais das vezes.diz um dos seus amigos .Escreveu alguns versos. na noite do assalto imprevisto à casa paterna na fronteira. mais tarde: "É um estudo extraordinariamente exato. O jovem Jacobsen estudou ciências naturais. Para isso foi preciso uma grande mágoa. mais delicados da velha Europa. dois romances. é o ateísmo do estudante darwinista. os nervos e a vida.

era dum erotismo profundo. cuidado pela mãe desesperada. festejada até num trecho célebre de Kierkegaard. aquelas velhas famílias aristocráticas. escrevera a mais bela carta de despedida: "Adeus.E nós. meus filhos. o fundo do abalo político era uma angústia religiosa. Mas o agnosticismo e realismo de Jacobsen significa bem outra coisa: a sua arte. Lá e cá. também uma mãe desesperada que. ao escrever as seguintes palavras de diálogo: "Deus está ali? . Sabia a proximidade da morte. mas não podia dissimular um ar muito aristocrático. a de Mozart. muito jacobseniana. Gostava da conversação alegre e superava a todos em mordacidade." Pensou no cortejo fúnebre das . o qual pensava. morrendo. Morreu em Copenhague. Não é por acaso que a música do mais aristocrático dos músicos. Teve aquele ar aristocrático próprio do espírito dinamarquês. Professava as opiniões religiosas e políticas mais radicais. é outro testemunho. é a transição para uma arte simbolista. o seu olhar silencioso a fitou. Foi aquela ânsia que influiu em Rilke. estamos aqui?" Jacobsen estava mais lá do que aqui. poder-se-ia designar a todas com um título de Herman Bang: "famílias sem esperança". transição do político ao humano. e o guia misericordioso é. na Dinamarca. pensou na sua Senhora Foenss. até o último adeus.Brandes. e que fez muito pela glória européia de Jacobsen. orgulhava-se desse ateísmo do seu pretendido discípulo. nascida de profundas agitações políticas. decadentes. Quando. mas compreensivo. de que a literatura simbolista da Bélgica. adeus. em Jacobsen. Brandes não compreendeu que o ateísmo de Jacobsen era uma nuança entre mil verdades duma profunda ânsia religiosa que lembra a do seu patrício Kierkegaard. que são os mais agudos observadores. tipo velho romantismo. Sem conhecer muito as mulheres. liberal radicalíssimo e impenitente. ainda uma vez. em Jacobsen como em Maeterlinck. simbólica. num pobre quarto. Jacobsen era também sem esperança. Há. e as crianças. é quase música nacional na Dinamarca. não cínico nem euforicamente dionisíaco. chamavam-no "Vossa Excelência". a morte. na última hora. A doença devorava-o lentamente e inexoravelmente. Mas não se deve imaginar um pálido poeta tísico.

de degrau em degrau. brilhantes. e que caíra. amarelo. preto e lilás. é sem sentido. se bem que só uma nuança. e de súbito desaparecem. Mas não se fazem poetas. azul. isto é. "devia fazer-se poeta". a difícil morte". dos Bliders. do começo: "Ela tinha os olhos pretos. um pintor de nuanças." Pois a vida de Maria Grubbe. Vê tudo. Mas não é assim na vida real também? "C'est la vie. descrita. como a do seu autor. na língua e no estilo da época. que Arnold Schoenberg pôs em música moderníssima. É um colorista. mas há uma diferença entre elas e a poesia. ainda uma vez. Descreve o brilho dos archotes de pez sobre o ouro e prata das jóias. O romance Niels Lyhne é todo poesia. como toda vida. foi boa. irmão do rei. Maria Grubbe. tão simples. Isto tem significação. um jogo de vermelho. em quadros consecutivos. as pessoas aparecem de súbito. pelo artifício arcaizante de Maria Grubbe. para sempre. com artifício habilíssimo. Disciplinou a sua língua intencionalmente. versos livres que são uma nuança entre a poesia e a prosa. escrito. assim como foi. Interiores do século XVII134 é um romance histórico." Niels. foi uma vida inteiramente rica. um pintor sem duras cores locais. sobre o aço das armaduras. no fim da Maria Grubbe: "Não deploro a vida. O olho agudo do botânico e a sensibilidade fabulosa do doente vêem coisas que ninguém viu antes. O romance é quase incoerente. até acabar como mulher do sujo palafreneiro Soeren. e tornou-se o maior artista da prosa das línguas escandinavas. É só uma vida em passividade.suas outras figuras: no fim impenitente de Niels Lyhne: "Depois morreu a morte. Há . Passou ao verso livre dos Arabescos. natureza duma poetisa fracassada e que legou ao filho a fraqueza e o fracasso. que era a mulher do cavalheiro Ulrik Gyldenloeve. "Ela vivia em versos. ela sonhava em versos e acreditava nos versos mais do que em qualquer outra coisa. mas foi boa. Mas vê somente quadros. Quem o leu não esquecerá nunca as palavras." É também assim nas notícias policiais. sobre seda e veludo. Jacobsen começara com os versos românticos das Canções de Gurre." "Ela" é a mãe de Niels. o seu filho. descreve mil nuanças do modesto sol de setembro num quarto. e a vida de Maria Grubbe. O romance dissolvese em quadros.

disse Hjerrild. "veio aquele dia de novembro. o médico militar Hjerrild. e começou a ameaça da guerra". é bem uma nuança. . que o menino Niels amara quase inconscientemente e que vê morrer. Após as cenas de amor. só existia na sua vida. Pertenceu àquela "sociedade secreta dos melancólicos". Depois morreu a morte. Como sempre em Jacobsen. e por isso foi um poeta. algumas cenas de despedida. mas um Dom João sempre fracassado. delirando qualquer coisa duma armadura. há a morte da jovem tia Edele." "Depois morreu a morte. Niels é um Dom João. Niels já não reconhecia ninguém. na passividade aristocrática dinamarquesa. há em Niels Lyhne cenas de despedida. Logo no princípio." O uso transitivo do verbo "morrer" é muito raro. morrer pelo nosso pobre país. estava cortado o último laço que o ligara à vida. Niels. morreu o filhinho de Niels. Mais tarde. vai morrer. O último visitante é um amigo pouco íntimo. São comoventes e lembram a frase de George Eliot: "Em cada despedida há a imagem da morte.E. Niels ficou no lazareto. à toa". "Passou a vida à toa. Estava deitado. O ateísta impenitente recusa o sacerdote. e quis morrer de pé. mas com uma nuança. afinal. só de passagem ouvimos que Niels se alistou como voluntário e recebeu no peito a ferida mortal. há as cenas de morte. Depois. à qual um cavalheiro galante se referira em Maria Grubbe. e que. Estas palavras são a introdução à cena final do livro. a difícil morte." Uma dessas cenas termina com as palavras: "Exit Niels Lyhne". É depois da derrota. a difícil morte. procura nas mulheres a poesia que devia ser a sua arte. "Adeus. em que o rei morreu. Isto também é poesia. sem compreender o definitivo dessa primeira despedida de sua vida. perdoar-lhe-ia. e a quem não foi dado o verso. os acontecimentos exteriores são rapidamente narrados. "Quando Hjerrild o viu pela última vez. é uma boa morte. o médico pensou: se eu fosse Deus.no Niels Lyhne muitas cenas de amor. invisível para ele. e a expressão quase dramática parece preparar a última despedida de Niels. e Jacobsen era o . e algumas cenas de morte. Enfim. saindo. como nós outros que sentimos a poesia com o coração e com todos os sentidos." A agonia leva horas.

promessas de realizações futuras. admito mesmo: todo o homem. ou o fantástico do Tiro na névoa. e sobrava-lhe tão pouco tempo! Deste modo. mas a arte consumada do poeta conferiu-lhes alguma coisa de definitivo. é possível que o seu corpo o fosse. onde Jacobsen antecipa o neogongorismo das últimas correntes poéticas. que não se realizavam. de Mogens. não implica a arte. A mocidade literária ficou espantada em face dessa "revelação dum belo país. onde cada palavra era bem deliberada. aquela dissolução que se tornou. O perigo desse caminho era a dissecção psicológica. As descrições minuciosas constituem sempre exteriorizações simbólicas de estados de alma. castamente abreviado. Não se pode imaginar homem mais decadente do que . como na pequena fantasia Aqui haveriam de ficar rosas. já se vê que Jacobsen é sobretudo um contista. naqueles anos. Jacobsen escreveu poucos contos. são obras episódicas. os contos de Jacobsen são como experimentos. Mas o romance não é uma arte de nuanças. mas no sentido de amostras do que a arte de Jacobsen "poderia ter sido e que não foi". mas já cheio de impressões desconhecidas na literatura européia de então. e Niels Lyhne já o é. Mas Jacobsen não era decadente. O futuro mais verossímil da arte jacobseniana era o conto psicológico. Maria Grubbe quis ser o romance duma alma. Poderia ter sido o estilo disciplinado. uma pequena sinfonia de cores e sons. Era um trabalhador infatigável. Poderia ter sido o cume de requinte estilístico. Isto.poeta das nuanças. Não são "experimentos" no sentido de esboços inacabados. que a gente não sabia onde ficava". como Flaubert: nas 317 páginas de Niels Lyhne levou sete anos. saudável. depois da morte de Jacobsen. Dissolvem-se em quadros maravilhosos. ainda muito romântico. Poderia ter sido a arte soalheira. do conto histórico A peste em Bérgamo. e a sensibilidade hiperestésica vai-se encaminhando para dentro. mas muito lento. nas significações boa e má da palavra. com a noção nova de "decadência". Trabalhava mais lentamente ainda nos contos. A primeira obra publicada de Jacobsen foi o conto Mogens. porém. e que Bourget denunciou. a moda do romance europeu. nem Maria Grubbe nem Niels Lyhne são romances. conto erótico. Afinal.

em que a sombria compreensão da vida e o sereno sabor da morte confluem para as linhas finais. mas é uma volta perigosa. Enfim. aos sãos e higienicamente imbecis. enaltece ainda o milagre de arte no último conto. A Senhora Foenss cai doente. casar. ainda uma vez. e a muitos. Nos últimos dias da sua vida doente. Senhora Foenss. anos de decepção também. Em geral.o tísico Keats. casa-se. após tantos. Jacobsen chegou a uma arte de nuanças psicológicas. adeus. Para confessar a verdade. só não o é porque fica ainda. Talvez. Que o assunto dessa arte viva é a morte não é um milagre. para difamar a arte das nuanças. esse livrinho amarelecido. ainda jovem. muitas vezes. Adeus. fino demais para nós outros. e haverá nele todo o meu amor e a saudade de tantos. quase adultos: o filho Tage e a filha Ellinor. adeus. o quarto onde um jovem leu. tantos anos. Nesses momentos escreve aos filhos a carta de despedida. quer. Quero-o dizer o mais tarde possível. Ellinor. mas não é aquele adeus que deverá ser o último adeus a vocês. e a sua poesia é o cume da beleza vital na poesia inglesa. o . pela primeira vez. a palavra "decadência" serve. até o último adeus. na tempestade destes dias. lá ela encontrou o esquecido amigo da mocidade. Não era a vida que poderia ter sido. "On revient toujours à ses premiers amours". e mil agradecimentos. mas só a vida que não foi. Na Provença. e mil votos. que todas as objeções emudecem. Não era a felicidade. eu também tive ligeira decepção. tão simples e tão saudável. tantos anos. vai morrer. e a lembrança do tempo em que vocês eram pequenos. cujo sol sadio Jacobsen conheceu nas suas tentativas frustradas de manter a vida fugidia. em face do estado do autor. definitivamente. são lembranças de dias que se despediram de nós. A Senhora Foenss insiste. A Senhora Foenss tem dois filhos. quando reli. meus filhos. parecerá sem importância." Tudo isto é muito fino. e já ela sabe que toda a sua vida anterior foi um engano. morto aos 26 anos de idade. as últimas linhas que Jacobsen escreveu: "Adeus. mas uma mulher exposta a críticas sacrílegas. Tage. em alguma parte do mundo. Ela é uma viúva. Seguem-se muitos anos de separação entre mãe e filhos. Mas os filhos se opõem: então ela não seria a mãe venerada. digo-o agora. e se não é o último adeus.

é a língua materna da humanidade. caduco. a língua da poesia. É o que é igual em todos os homens." LITERATURA BELGA À MEMÓRIA DOS MEUS AMIGOS BELGAS É PRECISO audácia para escrever sobre um assunto que não existe. Inclui-se também tudo o que é brutal. sem nuanças até a morte. Uma vez armado o problema. "a difícil morte". somos todos mortais. que falam holandês. portanto. é a língua materna. em conjunto. Há pois na Bélgica uma literatura francesa e uma literatura holandesa. com alguns toques de regionalismo. que nos ensina a reza: "Dá. fica a poesia. se provém das condições raciais e exteriores. O dialeto valão e os diversos dialetos flamengos carecem de importância literária. literatura belga. no animal. Por isso. Enfim. é o que se chama o Existencial. apenas. Somos homens. cru. e porque ainda bate. Tudo isto. achamo-nos em face de uma questão da qual dependem a existência e o futuro da civilização européia. E isto se explica: o reino da Bélgica é de criação artificial e recente. Fica uma vida sem nuanças. das disposições espirituais e suprafisiológicas de um povo. vital. a cada um a sua própria morte. O que se perde é a nuança. impregnada como ela é . Não há literatura belga. É a língua do coração. A língua é a um tempo um fenômeno psicológico e fisiológico. e os flamengos. provém também. ó Senhor. Ainda no requinte mais artístico. É a língua mais que humana. Entender ainda essa língua é a prova de que somos ainda homens. por outro lado. um coração de mãe. Inclui-se neste conceito de humano tudo o que é frágil. Na Bélgica vivem dois povos: os valões. É essa a verdade. Não existe uma nação belga. perecível. no que é humano e no que é menos que humano. Não existe.adeus da Senhora Foenss. Mas não é toda a verdade. que falam francês. aparece nesse existencialismo simplificado o perigo do nivelamento no cru. Por isso. fundado em 1830 por uma conferência diplomática das grandes potências. em alguma parte do mundo.

os nomes bárbaros de Van Lerberghe. Sem a diversidade na unidade. ao fundo avistam-se alamedas cuidadosamente plantadas. conforme conceitos raciais. Tudo isso traz complicações. Não há dúvida que a literatura belga é um mundo à parte. O acesso a esse mundo não é assim tão fácil. habituados a ler os escritores da França. parece. e que constitui assim uma como estação central da Europa. Ora. independentemente dos seus antecedentes históricos. confunde-se facilmente o célebre Georges Rodenbach. a língua psicológica os separa. os leitores holandeses. com seu primo Albrecht Rodenbach. onde o trem para à espera do correspondente. e Albrecht Rodenbach é um elegíaco da melhor tradição francesa. temendo repetirem-se as decepções causadas por livros holandeses de autores de nomes franceses. de Verhaeren. da Alemanha e da Holanda e a linha de passagem para a Inglaterra. a Europa nada é sem a sua história. bem distinta e muito independente. Segundo a concepção da língua. É nas expressões bilíngües da literatura belga que o coração da Europa marca sua vida ou sua morte. a civilização européia não sobreviverá. Eis toda a verdade. A Bélgica. para reuni-los depois na grande unidade histórica da Europa. de Bruges la Morte. ponto de baldeação. O primeiro encontro é uma decepção. . depois da vaga passageira do simbolismo. a última das quais se forma no seio maternal da língua. recaiu no seu sono de Bela Adormecida no bosque. Existe uma literatura belga. A crítica francesa sempre desconfiou do vento do Norte que lhe levava. Mas a confusão chega ao cúmulo quando se sabe que Georges Rodenbach exprime a melancolia mística da alma flamenga. aos De Clercq. de Maeterlinck. afirma-se ou nega-se a história. conforme o passado. aos Pol de Mont. envoltos na fumaça do incenso místico. as letras flamengas são impenetráveis. Enfim. onde se encontram as estradas de ferro da França. burgueses joviais tomam boa cerveja. vista de fora. A língua fisiológica une os povos. e a literatura belga de expressão francesa. Para a maioria. não prestavam atenção aos Conscience. no restaurante.de sua história e de sua civilização. pouco menos célebre na literatura flamenga. uma estação de pequena cidade acolhedora.

Mas é também uma literatura "em profundidade". é uma literatura política e uma literatura simbolista. tão rica de quadros.casas bonitas. que o escritor empregou para celebrar a luta das comunas francesas revoltadas contra o sistema feudal. Afirmando que a Bélgica é profundamente burguesa. A felicidade belga é profundamente burguesa. no sentido do sentimento altivo de independência dos burgueses medievais. feita pelo criador da literatura flamenga. A Valônia é terra clássica. O primeiro esboço do romance O leão de Flandres. obra predileta dos flamengos. Entre os dois grupos. os seus campos que parecem jardins. literatura de nuanças delicadas. A literatura belga é burguesa. a inquietação belga viu o inferno. escrita por um poeta de ascendência francesa. as suas alamedas intermináveis. o misticismo belga descobriu o céu. e inteiramente francesa. aliás. é pobre de cantos. bem assentadas no chão. Foi a poesia flamenga que deu à alma silenciosa dessa paisagem uma voz. e da Europa. entre as Tentações de Jérôme Bosch e as Campagnes hallucinées de Emile Verhaeren. Essa palavra talvez encerre toda a glória e toda a miséria desse país. Mas não é. a torre da igreja: recanto tranqüilo onde a felicidade como que acena ao viajante. nem quando escreveu a epopéia nacional dos flamengos. em 1838. da qual é ele a miniatura. a epopéia da independência valônica e belga. diz-se uma verdade que por ser impopular não deixa de ser verdade. Conscience nunca foi bem servido por sua língua materna. ou melhor. O leão de Flandres. crê-se estar na Beauce ou no Orleanês. onde ressoam todos os acentos da alma francesa. . foi escrito por Hendrik Conscience em francês. é. certamente. há Toute la Flandre: a boa terra belga. e no sentido duma civilização requintada. na verdade. Assim. a literatura flamenga moderna. vendo as suas casas sólidas. pelo qual começa. a única verdade belga. Entre as Núpcias espirituais de Jan van Ruysbroeck e o Trésor des humbles de Maurice Maeterlinck. uma orquestra. Haverá talvez nisso a vingança secreta do idioma flamengo. Percorrendolhe as risonhas colinas. Mas essa terra tão rica de imagens. que nos confins do horizonte vão encontrar as torres das igrejas de Nossa Senhora.

é um irmão de Péguy. pintados por Gustaaf Vermeersch com as cores mais sombrias e mais precisas do naturalismo francês. feita por mãos veneráveis". Essa voz do céu sobre uma terra muito francesa é o cimo da poesia flamenga. na alucinação suprarealista da Cidade assediada. imbuído da mais devota piedade. rebrilhantes de sol. tem o cunho do nacionalismo cavalheiresco e impetuoso dos franceses: é a voz de "arm Vlaanderen". anunciam a piedade da Contra-Reforma. quase sempre tirados do breviário. dos barulhos fantásticos de Music hall. de Stijn Streuvels. tão franceses. pobre como Job.esse nacionalismo. Esse padre. mas sem perder os acentos latinos que tão bem se lhe ajustam. que o século clássico francês não pôde cantar. Há esses mesmos tons. não há lugar para Gezelle. Toda a pobreza amarga e toda a doce riqueza da alma desse povo ressoam na voz do maior poeta flamengo. esse católico místico e não-conformista. de Richard Minne e Maurice Roelants. nos pequenos e grandes burgueses céticos e espirituais. nas paisagens campestres. da retórica pequeno-burguesa de um romantismo deturpado ao simbolismo admirável dos Perk e dos Kloos. e que nos recordam que a terra clara da Valônia é também a terra dos mineiros. dos Sinais apocalípticos. revolta de "miseráveis" à maneira de Victor Hugo. A réplica desse pesadelo naturalista é o pesadelo expressionista de Paul Van Ostayen. o seu mundo é outro. Nada conheço de mais latino do que a . ela desceu para a terra. de todos os animais. Depois. mas não de Toute la Flandre. nos operários taciturnos. tristes. Precisemos: esse camponês amante da mãe Terra e da mãe Maria. entoou o cântico. Precisemos: esse padre e professor de seminário. quase meridionais. esse cantor de pequenas canções populares onde o cosmos se prostra diante de Deus e cujos títulos. e sempre revoltado contra a autoridade eclesiástica. da "pobre Flandres". de todos os homens. negra de pó. O intérprete de Toute la Flandre é Guido Gezelle. esse inspirado franciscano do irmão Sol e da "mãe Terra. esse místico da pobreza e do sol tem alguma coisa de Villon e alguma coisa dos poetas da Plêiade. meio galicano. de todas as criaturas. Sabem-no bem os conhecedores da literatura holandesa: na sua evolução.

"Vlaandren. Depois de Bruges la Morte. suas nostalgias elegíacas. Gezelle fala das "névoas que se elevam dos poços do passado": essas neblinas cobrem as planuras ingratas da Campina. Nossa Senhora. Valeria realmente a pena aprender o holandês para conhecer a poesia desse filho pródigo que. abandona a paisagem mais rica e feliz do mundo.139 Nessas casas havia quartos estranhos. Turris Davidica".138 onde se encontravam as faces pálidas das brancas primeiras-comungantes. cenas das peças maravilhosas de Maurice Maeterlinck. o mundo sentiu-se fascinado pelos "tristes après-midis de dimanche. de forma clássica: um dos maiores poetas líricos da literatura universal. poeta latino em língua flamenga. atendendo ao apelo do desconhecido. onde uma tênue voz de criança cantava a "Rosa mystica. as cidades cinzentas da Flandres morta. de quando em quando. entoou-as em honra da padroeira da terra.135 a casa paterna. au long d'un canal mort". histórias. seu aristocratismo mórbido. muito suave. esbatem até a fumaça inflamada das chaminés de Gand e as bandeiras e a turba multicor do porto de Antuérpia. o welig huis. quartos que eram como gente velha. waar we zijn als genooden aan rijke taaf'len". Um momento. Mas em terra flamenga respira-se atmosfera diferente. a verdadeira senhora . que sabiam segredos.poesia de Karel Van den Woestijne. como o filho pródigo. o poeta modesto da Luz atrás da colina. où un grand silence se met à genoux"136e. a chuva e a morte que o poeta ali via em toda a parte. o outono. Fornecem à poesia francesa um tema inesgotável. insistiu-se demais sobre o aspecto fúnebre de Flandres. Depois dos sons de orgão dessa poesia. August Van Cauwelaert. diante de seu irmão Thanatos. ou pelos "quais endormis et les vastes esplanades. "le carillon tinte sa musique pâle"137.140 onde famílias inteiras pereciam diante do vulto da terrível intrusa. das Canções à Virgem. au long d'un mur d'hospice. há a música em surdina. que tinham o cheiro das flores de outono. inesquecível a ponto de se tornar insuportável. a que só voltou curvando-se. e das "béguines qui frôlent à pas étouffés les maisons agonisantes". A Virgem recebe as mesmas litanias nas igrejas de Toute la Flandre. sua requintada sensibilidade.

pequenas lanternas iluminando as madonas das esquinas. onde a imaginação hugoana de um Verhaeren vê "une fête écumeuse". mas é a própria poesia da vida dessa gente que. como nos quadros dos "vieux maîtres qui sûrent jouer dans la paille avec l'enfant de Bethléem". Havia o cheiro das gaufres145 de Bruxelas e as luzes das tavernas onde os marinheiros conversavam. ao sair das missas e das procissões. Estamos no coração de Flandres.146 Não é uma poesia perfeita. a de certas páginas de Lemonnier e de Georges Eekhoud. Mas era uma pátria. encontrou. desses armazéns sujos que se olham com suas órbitas cegas e simétricas. a cidade feia que me foi uma pátria. Não a imagineis muito bela.144 e o sonho de um infinito em busca do qual se lançavam marinheiros e pescadores.141 e um dos poetas mais latinos da poesia francesa. mais íntima. Folheando os simples poemas de Elskamp. esse imperfeito verbo! . Há no fundo da alma germânica a nostalgia imperecível do Sul. onde a piedade e a jovialidade se encontram lado a lado. mais sincera.desse mundo fúnebre: a Morte. de Max Elskamp. Mas a poesia nem sempre paira tão longe. Lá havia . e lembra-nos um fato sempre esquecido pela poesia flamenga em língua flamenga: os flamengos vivem à beira do oceano. É desse mar cinzento. d'un château dans l'île". Mas essas câmaras funerárias tinham saídas. . o flamengo Charles Van Lerberghe. Há também a poesia menos grandiloqüente. Para essa pequena burguesia flamenga vira-se uma nova página. dessas gruas que estendem os braços melancólicos para o céu baço da tarde. a cidade que amei como a nenhuma outra.143 é desse mar cinzento que surgem as brumas e "le vague bleuâtre qui enveloppe les lointains". recordo-me sobretudo desse humilde povo curvado. poesia da velha Antuérpia. nas suas "barques tragiques".que triste. seus "Vagues accords où se mêlent des battements d'ailes". na Itália.142 A poesia de Van Leberghe representa uma corrente da poesia flamenga de língua francesa. da literatura belga de expressão francesa. poesia da grande cidade portuária dos flamengos. diante da pequena burgerij de olhos e boca muito abertos. Também Maeterlinck fala de uma "île dans les brouillards. talvez a mais preciosa.

Mas o ímpeto vital dessa raça tenaz que Emile Verhaeren cantou é invencível. não o esqueçamos. A posteridade foi muitas vezes injusta para com Verhaeren. A atração do centro Paris sobre os poetas flamengos. isso quase nada explica. É que não se conhecia bem a Bélgica.se atira às loucuras das quermesses endiabradas.147 "rue en rouge au fond du soir enflammé". a atração do regionalismo pitoresco de Flandres sobre os poetas valões. um dos quais se exprime pelo grito de alegria e o outro pelo grito de revolta. Essa interpenetração. Seu espírito "burguês" tem dois lados. mas a lembrança delas vive ainda nas grandes lojas repletas. fouettée par les haines. onde o mito de Flandres-a-morta é substituído pelas naturezas-mortas das viandas. de duas línguas. e teve-a: La légende d'Ulenspiegel. Hoje. essas festas têm alguma coisa de mitológico. não se sabia que a música triste e neutra do carrilhão se transforma por vezes em toque de reunir.149 É. a "terra das experiências sociais". les appels. Tudo isso é do passado.o campo de batalha da Europa. Povo de campônios e burgueses. Verhaeren cantou a outra Bélgica. onde se levanta "le coeur myriadaire de la foule. Cumpre recorrer a forças de poder histórico para se compreender o acordo . escrita pelo flamengo Charles de Coster em língua francesa. somente comparável às epopéias intermináveis de Tolstoi. um dos maiores romances da literatura universal. essa intercomunhão de duas literaturas. epopéia da liberdade flamenga. de dois povos.148 "les gares de feu qui ceinturent le monde et accompagnent de leurs hurlements d'acier la prière unanime d'un monde en flammes". É a poesia francesa visitando a terra de Brueghel. é a obra que dá início à moderna literatura belga de expressão francesa. les espoirs de la rue". mas verdadeiramente épico. dos queijos e dos vinhos. o povo flamengo merece uma epopéia. que formam uma única literatura e uma nação . censurando-lhe a grandiloqüência de um Hugo encarnado num burguês atormentado.zomba das explicações fáceis. a terra das revoluções indomáveis . da cerveja forte e das mulheres exuberantes. perfumadas pelo cheiro do trigo maduro e do pão fresco.

consiste no lento desmembrar-se desse império intermediário. de que a Itália é a primeira a separar-se. A explicação de tal paradoxo resolverá o último problema dessa literatura bilíngüe: por que ela só principia a falar no século que findou. O advento do princípio das nacionalidades. en met tenaciteit. o outono dos Países Baixos."150 Tenaz. no leito de morte. É como se um coração se contraísse dolorosamente. estendido do Mar do Norte aos Alpes italianos. absolutamente. a vida do meu povo"). opera-se nesta terra das nacionalidades intercaladas. e Flandres será o coração doloroso da Europa. e o flamengo Emile Verhaeren. ela o era. vindo depois a Borgonha. o império lotaríngio. de nacionalidade incerta: o germe da Europa. Para levar ao cúmulo o paradoxo: a Bélgica é a Europa mesma. até à quebra da unidade ocidental pelo nacionalismo vitorioso. a unidade européia substituída por um frágil "concerto das grandes potências". em seguida a Alsácia.151 que Jan Huizinga descreveu de maneira inesquecível. que dizia. no fim. a um tempo grandeza e miséria da Europa. a existência da Bélgica .perfeito entre o valão Hendrik Conscience. Luxemburgos. Os diplomatas que em 1830 fundavam o mais belo dos pequenos reinos europeus não faziam mais do que consagrar um fato histórico. Quando os filhos de Carlos Magno partilharam entre si o mundo. het leven van mijn volk" ("Vivi sempre. que cantava. Toda a história da Europa medieval. até esse Herfstij der Nederlanden. Nessa terra intermediária floresciam quatro grandes monarquias da civilização ocidental: Carolíngios. Eram conservadores esses diplomatas que sancionavam uma revolução. só durante um único século precário. e os Países Baixos por fim. haverá a Bélgica. Sendo. A Bélgica não data de 1830. porém. não. em língua flamenga: "Ik heb altijd geleevd. É tão velha como a Europa. Neerlandeses. Borguinhões. e com tenacidade. entre a metade latina dos francos e a metade germânica dos alemães restava um império intermediário. em língua francesa: "Je suis un fils de cette race Ténace.

contra os reis de França. e o grito de rebelião ainda ressoa nos gritos multiplicados dos vendedores de jornais pelas ruas belgas . E a analogia é fértil: como essa Bélgica era também. o espírito citadino deixou a sua marca neste solo. como a literatura austríaca. pela literatura belga. em símbolos significativos. contra os Habsburgos. expressão bilíngüe de um reino supranacional. O belga é o herdeiro legítimo das cidades livres de Flandres. Os momentos desse espírito dominam a paisagem belga: os Belforts. A Bélgica justificava a si mesma sua existência nacional pela expressão de seu espírito. foi o simbolismo. parte do vasto império austríaco-espanhol-habsburgo. A literatura belga tem uma função política.desde o . a literatura belga e a literatura austríaca. contra os Oranges. outrora. europeu. mas eles sabem soar a hora da revolta. Esse revoltado revolta-se por espírito burguês. mas para salvá-la. A forma em que ambas. O belga. fala à consciência da Europa. não se revolta para subverter a ordem. de que Conscience e De Coster traçaram a epopéia bilíngüe. chegaram à madureza. último fruto da civilização burguesa. de Hofmannsthal e de Beer-Hofmann. do "outono dos Países Baixos". o casamento e a morte. a literatura belga. o simbolismo. ambas as literaturas proferem as suas verdades do passado na língua poética do futuro. Em todas as cidades desse país urbano reconhecem-se ainda os vestígios das comarcas romanas. dedos de imprecação estendidos para o céu. a epopéia dos súditos muito leais e sempre revoltados contra os condes de Borgonha. Nessas torres os carrilhões tangem o nascimento. todas as horas da vida burguesa. europeu. nada revolucionário.devia estar sempre sob ameaça. e esse encontro feliz não é o primeiro. de Maeterlinck e de Verhaeren. expressão das muitas línguas de um império supranacional. lembrando-lhe as verdades mais gloriosas de sua história. Ela é o fruto do século burguês. A Bélgica é o único país da Europa que não é filho dos campos e dos castelos. para salvar suas liberdades de outrora. mas das cidades. Ainda hoje. o belga está sempre em oposição a alguém. contra os espanhóis. as altivas torres dos Hôtels de Ville.

dominados todos pelo grito repentino e incontido: Indépendance Belge! Esse espírito. O mundo não sabia nada. A estas glórias mundanas se acrescentava a consagração definitiva por um ensaio de Charles Du Bos na 4. os seus arranjos do mistério medieval. poucos anos depois da sua morte. Admiravam e aplaudiam o libretista das grandes óperas de Richard Strauss. contribuição das mais interessantes à psicologia da criação artística. mas que não o tenham compreendido nunca. Esse futuro é assegurado pelo espírito da literatura belga. não abrangia o problema. et à la fin l'esprit est toujours plus fort":152 foi Napoleão quem o disse. tão século XIX. Jedermann. a incompreensão estraga tudo. do Cavaleiro das rosas153 principalmente. É o caso de Hugo van Hofmannsthal. lastimar um presente acinzentado e predizer um futuro esplêndido.a série das Approximations. um mundo internacional se acotovelava. A torre. por notável que seja. em Salisburgo. da Gazet van Antwerpen ao Volksrecht . A literatura belga calou-se? "Il n'y a que deux forces au monde. e o ensaio de Du Bos. o grande teatro do mundo. hoje. isto arruinou a sua vida e alguma coisa mais. os estudos de Hofmannsthal sobre a língua e a literatura alemãs. é que dava voz às letras belgas. No fundo deste problema psicológico encontra-se um problema de ordem ontológica. a maior obra do poeta. como um sonho divino. um grande caso da literatura universal. l'épée et l'esprit. e ele deveria saber o que dizia. que as fazia festejar um passado glorioso. ou do Gran teatro del mundo de Calderón.154 quando Max Reinhardt levou à cena as tragédias de Hofmannsthal. ela é um testemunho do passado da Europa e será um arauto de sua ressurreição. No entanto. O caminho para o fundo do problema assemelha-se à viagem de Fausto .Matin a Soir. É por isso que Du Bos não compreendia a curva muito irregular da vida literária de Hofmannsthal. não importa. O Gran teatro del mundo de Hofmannsthal reflete. Que ele seja esquecido. HOFMANNSTHAL E O SEU GRAN TEATRO DEL MUNDO O ESQUECIMENTO não resolve nada. embora Du Bos tenha tocado no ponto nevrálgico. não foi nunca representada.

a poesia dialetal de Viena. algumas gotas de sangue húngaro e polaco. . se encontrará a mãe Europa em perdição. Ainda que ninguém me conhecesse. e ele somente. de Milão." Demos o nosso testemunho. confere. O espírito precoce do poeta é cheio de imagens multicores: a tradição greco-latina e o classicismo francês. O jovem poeta. com o seu príncipe agonizante. a comédia de máscaras italiana. o herói de A torre: "Dai testemunho: fui presente. Ninguém quis ver A torre nem compreender o seu poeta.às Mães. de origem espanhola. dentro da literatura de língua alemã.esta sabedoria vienenseespanhola que sabe que a vida não passa de um sonho e que o sonho é a vida. depois a Alemanha de Goethe. política e espiritualmente. com o refinamento espiritual que o declínio das velhas civilizações. pintor dos reis. A magia dos seus versos renova a poesia alemã. a mãe descende de patrícios italianos. alguns ensaios. compreensiva. parecia ter descido dos quadros do Museu Imperial de Viena. A educação é católica. em Viena. Hugo van Hofmannsthal nasceu em 1874. e Hofmannsthal foi sempre um católico exemplar. onde Velásquez. da dinastia que governava. filho de uma família muito rica. o lied popular eslavo. no sentido também de uma universalidade ecumênica. e Hofmannsthal podia dizer. que é. A sua obra é rara: alguns poemas de encanto inesquecível. Pois sobre a graça vienense deste poeta de 17 anos paira ainda o céu dos imperadores Habsburgos. e enchia a atmosfera da cidade com a sua piedade barroca e o seu ceticismo desiludido e transcendente . ele também. alguns pequenos dramas de um sabor precocemente maduro. esse império. com longínquos antepassados judeus. Mas este adolescente já fundou uma escola. O pai descende da pequena aristocracia tchecoalemã da Boêmia. de Laforgue. no fundo. meio burguesa. inaugurando a época simbolista. no fim. representou os Infantes apáticos e mórbidos da Coroa de Castela. uma época especificamente austríaca. E o auto espanhol. Existe nele um pouco de Maeterlinck. de Verlaine. meio aristocrata.

Algumas vezes uma nova vida parece desabrochar. a qualquer preço. o Jedermann e o Gran teatro del mundo. para o qual ele já tinha escrito o Cavaleiro das rosas. E a malícia acrescentou: "Que poeta teria sido ele se houvesse morrido com 17 anos!" O poeta não está morto. Hofmannsthal atravessou a fronteira difícil entre a morte da poesia e a poesia da vida. Nesses anos. em torno dele. ocupa-se da reconstrução futura da Europa. ensaios sobre ensaios. na qual confessa a sua incapacidade e explica a sua resignação às letras. como o romance inacabado Andreas ou Os reunidos. Cala-se durante anos. É a grande guerra. O poeta cede. tragédias gregas de um histerismo insuportável. comédias sem força cômica. e escreve as grandes alegorias barrocas musicais.Depois. A crítica e o público recusam. se desfaz. Salisburgo é um sol de crepúsculo. Ele surpreende o mundo literário com estudos profundos sobre a literatura alemã. que leva à cena. só postumamente aparecerão. arranjos de velhas peças inglesas. escreve fragmentos sobre fragmentos. mal feitas. Tudo. é a febre. Dolorosamente. muitos dos quais. e interna-se cada vez mais na mística católica do barroco. É então que Hofmannsthal reencontra Ricardo Strauss. encontra-se em face das ruínas da Áustria e da Europa. Hofmannsthal encontra em si uma consciência política. uma fronteira mortal. A música domina tudo. Aí ele encontra Max Reinhardt. Escreve a comovente Carta de Lorde Chandos. Uma vertigem sacode os atormentados. Em alguns momentos de plenitude. Viver. a beleza e o sonho de séculos se condensam. Hofmannsthal desespera. em Salisburgo. Hofmannsthal não assiste a estas festas. Desaparece. ele se cala. O velho Império treme até os fundamentos. Mas o seu mundo morre. A Viena de outrora já não existe. nos quais abundam definições para precisar o caráter particular da . Desesperado. após os quais reaparece com algumas obras falidas. As suas gavetas enchem-se de fragmentos múltiplos. Para a Europa Central. A inflação completa o desmoronamento. um espírito de puro esteta morreu. E quando desperta do seu sonho anacrônico. viver.

o polaco. mas impõe-se uma aproximação mais precisa. é um caos de povos intercalados uns nos outros. Desde então. atormentado pela guerra. Ao mesmo tempo. pela revolução. durante séculos. a torre da civilização sobre o abismo. Poder-se-ia dizer: ele abandonou a literatura alemã. Uma velha família se extinguira. mas não era um poeta alemão. aproximados e violentamente separados pelas mesmas forças históricas. seguindo a moda esnobista do barroquismo! . que. por isso a . a sua posição alemã e a sua posição européia. ocupa-se em refazer La vida es sueño. à beira do túmulo de seu filho. onde o mundo germânico. uma morte quase simbólica. Uma morte à beira do túmulo do mundo. estes enfadonhos arranjos. A Europa centro-oriental. atrás dessas preocupações. Aqui.dizem os literatos. se suicidara. Só uma vez na história o universalismo católico dos Habsburgos dominou o caos.literatura austríaca. Hofmannsthal foi enterrado vestido do hábito da Ordem Terceira de São Francisco. Mas não se compreendem um ao outro o húngaro. o italiano. também os soberanos do império alemão. Quando A torre aparece. Existe. a literatura viva não toma conhecimento do fato. o mundo eslavo e o mundo latino se encontram. em 1929. que já não era obrigada a excluí-lo. Para a Alemanha a sua obra está definitivamente morta. de uma nacionalidade tão incerta e tão mista como os seus povos. o alemão. na cripta da família. ele morreu. um problema gravíssimo. Mas é fora de dúvida que ela vive para a literatura européia. Hofmannsthal caiu num esquecimento radical. do qual o poeta estava enfim consciente. De acordo com a sua disposição testamentária. o tcheco. Os imperadores Habsburgos. pela inflação. para construir a Casa da Áustria. Eis a nossa tese: Hofmannsthal escrevia em língua alemã. de Calderón: que anacronismos. foram. É verdade. não existem e não existirão nunca nítidas fronteiras nacionais. o romeno. nenhum teatro a representou. Charles Du Bos bem o viu: ele explicou os estudos de Hofmannsthal sobre literatura alemã pelo desejo do poeta de reconciliar a sua posição austríaca. Alguns anos mais tarde.

não. a língua alemã era . Hofmannsthal já é o fim. Hofmannsthal o exprimiu: "A Áustria tornou-se espírito na música. onde as lembranças espanholas ainda fermentam. Na Alemanha. é a "língua geral" da humanidade e a língua nacional da Áustria. "Impotência de criar" é a expressão da Carta de Lorde Chandos. compreende-se. A literatura chegou mais tarde. dos Liszt e Cimarosa."trai a fraqueza interior e a impotência de criar." Mas o jovem esteta não os conhece ainda. mas não tinha uma língua. mas constituem uma confissão. a língua geral de comunicação entre todos esses povos. A poesia do adolescente Hofmannsthal reflete este mundo multiforme. eu não posso arrancá-las das minhas pálpebras. e não posso afastar da alma amedrontada a queda muda de estrelas longínquas. Ele o diz admiravelmente num poema: "As lassidões de povos esquecidos. Essa grande Áustria teve. Grillparzer. foi um começo. Quase ao mesmo tempo. Na Áustria. no começo do século XIX." A língua dos Haydn. pelo nascimento e pela educação. aos quais Hofmannsthal pertenceu. dos Schubert. Mas ele representa uma última maturidade que vê a queda do Império. do exército. a língua comum dos círculos bem austríacos."155 Hofmannsthal." Estas palavras se lêem num estudo sobre Amiel. É por isso que a Áustria não se tornou espírito numa literatura.Hofmannsthal criou o termo . a estes povos e estas estrelas. é um espelho microcósmico do macrocosmo austríaco. a língua dos Smetana e Dvorak. Hofmannsthal escreve a . da aristocracia. os seus esplendores e as suas decadências. "A multiplicidade dos esforços" . mas não uma função alemã. Nós sonhamos com todas as possibilidades e desprezamos a realidade. pela sua descendência germano-ítalo-judaicotcheca.diz ele num estudo desta época . A Áustria tinha muitas línguas. uma função européia.língua alemã tornou-se a "língua geral". "Ripeness is all."o espaço espiritual da nação". É que a língua alemã era somente um elo exterior para coordenar os múltiplos esforços nacionais de todos esses povos. dos Mozart. a língua da burocracia.

aonde sempre volta o barroco. em Veneza. Sem o saber. desconhecido entre os mendigos. sabia que o passado nunca é inteiramente passado. que todos vivemos com o passado e morremos com ele. Em todos esses fragmentos e esses ensaios. Para ele o passado era vivo. o príncipe herdeiro exilado que dorme. o poeta. tudo é presente. Disse-o Hofmannsthal no seu ensaio sobre o grande herói do exército austríaco. Dão testemunho disto fragmentos. por sua vez. a vida de Andreas ficou fragmento. a imagem da Áustria agonizante. o príncipe Eugênio: "Aos olhos do espírito. Hofmannsthal tornou a encontrar a sua pátria quando ela morria. Mas Hofmannsthal não era absolutamente um arqueólogo. os contemporâneos não viam senão a impotência. a verdade pessoal da sua vida. pois. ele se aprofundava cada vez mais no passado.Dê o seu testemunho de que nós estávamos presentes. não existe passado.Ele. e ninguém nos conheceu. na Veneza do século XVIII. onde compara o poeta ao Santo Aleixo da lenda. de Casanova. ele busca esta pátria desconhecida. Uma vez ele se aproxima do centro do seu ser e do seu mundo. à porta do palácio real. . um arcaizante. de Longhi. aquela Veneza que era. a Veneza de Tiepolo." Estas palavras sobre o herói da Áustria foram escritas quando a velha Áustria já agonizava. É o espetáculo da decomposição fosforescente por trás da fachada esplêndida que o atrai.sua conferência O poeta e o nosso tempo. O poeta é sempre um exilado do seu tempo. envolvido como estava por imagens e fantasmas que pareciam gritar-lhe: . Estes eram modernos. Mas a "impotência de criar" continuou: a este mágico da palavra as palavras se recusam a atender. este passado especialmente austríaco. ele vive. e este poeta o é principalmente porque não conhece a sua verdadeira pátria. para o espírito. austríaca outrora. um epígono. . Ele gosta principalmente de fazer passar em Veneza as suas obras e as suas cenas. Para a poesia. no romance fragmentário Andreas ou Os reunidos. era um "passadista". em que um jovem aristocrata austríaco devia encontrar.

a literatura austríaca realiza. E dá testemunho nas grandes formas de teatro barroco. compreende por que a literatura austríaca é essencialmente teatral. Em Hofmannsthal. da civilização do Império católico. o titanismo e o equilíbrio. cuja importância Du Bos compreendeu bem. espanholhabsburgo. enfim. Mas já é uma política anacrônica. a literatura austríaca encontrou a sua essência austríaca: ela voltou para a música. O "grande teatro do mundo". Nunca eles esquecem as montanhas natais. transplantados para Viena. Embora em língua alemã. e outro sentido. Lembrando-se a gente dessa sabedoria vienense-espanhola de que a vida é um sonho e o sonho é a vida. O espírito alemão e o espírito austríaco se diferenciam como a filosofia e a música. É preciso distinguir. Esta torre misteriosa é construída nas profundezas. feita por filhos do campo. O passado está presente nas grandes alegorias barrocas de Salisburgo. predileção do teatro popular vienense. a união da peça de sonho. Existe. do passado. onde jaz o mundo do passado. As palavras não se recusam mais. com a farsa italiana e a comédia espanhola de capa e espada. do Império da Casa d'Áustria. porque estas formas eram a criação própria da civilização barroca. Ele dá testemunho. Hofmannsthal deu à peça um outro nome. Enfim. não é literatura alemã. de Salisburgo. Descem-se os degraus desta . A torre. uma mistura de estilos mozartiana. e Hofmannsthal escreve os seus estudos sobre a língua e a literatura alemãs. La vida es sueño. Faz-se preciso distinguir. Ali. precisamente então. que servem freqüentemente de fundo para os seus cenários.disse Hofmannsthal. a inteligência do intelectual e a sabedoria do povo. como um túmulo. e aquilo que não se pode dizer torna-se música. é o sol do crepúsculo da Áustria. no Cavaleiro das rosas. a sua alta função política. "O teatro é essencialmente sonho" .Então. A literatura austríaca é intensamente popular. o espírito alemão não é senão um ingrediente entre os demais: o latino e o eslavo. como na Flauta mágica. mas interpretou mal. A vida é um sonho. a Áustria ressuscita na poesia de Hofmannsthal. É de Calderón.

porque ".. e eis-nos envolvidos num sonho. desencadeiam-se. Lembremos: um mágico tinha predito ao príncipe herdeiro um futuro despótico. o velho rei o faz prisioneiro.desengañado ya. e ele se arma contra o próprio pai. e cujo curso já não é possível . a tragédia de Calderón transforma-se em revolução de palácio.Ele domina-se. torturado de remorsos. Pelo desfecho feliz. Existe um problema muito austríaco: o problema do sonho e da ação. uma cortina se levanta. O príncipe Segismundo de Hofmannsthal sucumbe aos terrores da revolução que o chamou. uma revolução do povo liberta-o. ainda uma vez. de Calderón. Aqui e ali um mundo velho morre e um novo mundo se levanta. "não toqueis no sono do mundo". ajoelha-se perante o pai... bem cedo os maus instintos despertam. da ação e da não-ação. em cura de um louco. O espírito austríaco foi sempre consciente da fragilidade da construção do seu mundo. quase um selvagem. e o caos volta a esta alma.cripta: uma luz incerta vacila. Hofmannsthal tinha sempre uma predileção pelas "peças de sonho". Num gesto magnífico. deixai-o sonhar. uma grave contradição: não se governa com esta sabedoria. e esta consciência produziu a sabedoria do "quieta non movere". para salvar a ordem do mundo. Mas o príncipe de Calderón reinará sobre este mundo. chama-o para a corte. Sé bien que la vida es sueño. Como o teatro espanhol e o teatro popular vienense. um sonho? . onde o passado ressuscita. em La vida es sueño. ele quer assassinar o rei."156 Esta sabedoria é comum a Calderón e a Hofmannsthal. e o príncipe de Hofmannsthal morre. levam-no para a torre. fazendo-o crer que tudo era apenas um sonho. Mas a voz interior lhe sopra: . Esta sabedoria encontrou uma expressão adequada no sentimento barroco de que a vida é sonho: a sabedoria do príncipe Segismundo. o príncipe cresce numa torre dentro da floresta. Existe. que parecia lassidão e algumas vezes indolência. entre a sabedoria do príncipe calderoniano e a sua vitória final. mas o rei.E se tudo isto fosse. É o segredo do conservantismo habsburgo. a este mundo tão frágil e sempre ameaçado de abismar-se.

também. O príncipe Segismundo de Hofmannsthal é um príncipe herdeiro desconhecido. era. Não é a preocupação de renovar a Áustria. Não compreenderam isto. Mas o vácuo que ela deixou tornou-se o . a Áustria continua. e nem o creio sequer. o patrono dos poetas. e a sua pátria está esquecida. tudo está presente". e ninguém o conhecerá mais. é a tarefa de criar uma outra Áustria que será a Europa. um príncipe exilado. união acima das nações. ele murmura as palavras lapidares que constituem o testamento de Hofmannsthal: "Dai testemunho: fui presente. e que arruinam a casa paterna. uma velha família se extinguiu. também. Não é um poeta alemão. Falta construir uma Europa cristã. a Áustria continua como uma missão. É um poeta austríaco. um sonho insensato. É assim que o príncipe morre. Sonho também. Violentaram este príncipe para salvar a ordem do mundo: "tocaram no sono do mundo". morrendo. Não sei se esta Áustria que acabou voltará um dia. Mas. Ainda que ninguém me conhecesse. este edifício do velho Império que a violência da guerra acordou para fazê-lo morrer. Não o conhecem mais porque já não há Áustria. espiritualmente. porque. Esta presença abrange um passado e um futuro. o poeta. A torre desmoronou-se. Com Hugo von Hofmannsthal. O velho império desapareceu. O poeta está esquecido. como Santo Aleixo. De qualquer forma. o Gran teatro del mundo austríaco. porém. A torre é a tragédia da fatalidade do velho Império." Hofmannsthal. ela é somente a luz interior que ilumina as adegas misteriosas do edifício enigmático que é esta torre. a ela. e pela violência este mundo se desmoronará. A separação dos povos pela força fracassou. É uma torre de sonho.deter. E é justo: Hofmannsthal foi excluído da literatura alemã. e corre atrás dos demagogos que o escravizarão. "para o espírito. e. porque não lhe pertencia. a sua reunião pela força fracassará também. Ninguém o conheceu. O povo não o reconhece. uma tarefa da Europa. A família dos povos austríacos extinguiu-se. é a revolução dos povos que acreditam libertar-se. A sabedoria de sonho do príncipe não governará nunca.

10 DE NOVEMBRO DE 1891 "A poesia é incomunicável. Sinto-me capaz de amar o ambiente de incompreensão que me cerca. através da qual a Áustria continua presente e nos fala: "Dai testemunho: fui presente. não se tornou ainda proeza dos biógrafos profissionais. Entre uma e outro há uma fronteira. ou como a crista sobre o abismo." ASSIM fala o poeta brasileiro. Tenho medo de falar da sua vida.abismo onde toda a Europa se perde. lá onde a fronteira é sempre trágica. O homem desta fronteira é Arthur Rimbaud. cidade de fronteira. uma série de evasões que levam sempre até à fronteira extrema. Não ame. que. numa atmosfera onde já não se pode respirar. Não há acontecimento mais simbólico do que o nascimento de Rimbaud." A FRONTEIRA PELO CINQÜENTENÁRIO DE ARTHUR RIMBAUD. filho póstumo. Ainda que ninguém me conhecesse. Pois essa vida é uma série de aventuras. a tensão entre a personalidade fechada e o cosmos aberto."157 Resta apenas uma voz. mas que se prestaria facilmente a isso. e nasceu em Charleville. e o outro poeta brasileiro responde: "Sei que fora de mim há um clima diferente Sei que há céu azul. como se o mundo tivesse sido morto antes dele. antes uma série de tentativas de fuga. cortante como a navalha dos suicidas. Fique quieto aí no seu canto. a do poeta. felizmente." Estes versos descrevem toda a região da poesia. "Abyssus abyssum invocat. . fronteira belgo-francesa. supremas claridades. Depois que o puritanismo pétreo da mãe-viúva o afugentou.

Vagabundagens. fronteira entre duas épocas. na Arábia. que Rimbaud descreveu inesquecivelmente.Tiros.diz ele. que por amor do estranho menino abandona mulher e filhos. O que é que ele deixou? De modo nenhum os tesouros orientais de Mil e Uma Noites.quatro palavras mágicas que exprimem perfeitamente a nostalgia do Nada fantástico ao ar livre do vagabundo. na Abissínia. a abundância verbal do Bâteau ivre converte-se em mutismo. ressoa quase como remorsos. "Je ne sais plus parler" ."158 Será o abismo. "une saison en enfer". e a "délicatesse" parece estranha na boca desse niilista brutal. aos seus "saisons et châteaux". Queima e destrói toda a sua poesia. contre notre face et fait l'abîme fleurant et bleu là-dessous. Então. . Rimbaud conhece o seu primeiro e último dia de glória. onde atravessa a fronteira do país do qual não se volta. onde o fracassado sucumbe. Apenas uma obra esparsa. mais tarde. nas fronteiras do mundo civilizado . é o Oriente. Dizem que houve remorsos no hospital de Marselha. as chamas devoram Paris. até o crime. et du reste descend en face du talus. Noites sob o céu. Segue-se a segunda evasão. comme un panier. Enfim. e a organização policial do mundo reconduz o náufrago a Charleville.achouos? -. o mercador fantástico dos mares e dos desertos. evasão dessa fugitiva glória literária a que ele chamou. ô châteaux!"159 . . prisão. fuga. sempre em busca do sonho: "Ô saisons. a catástrofe de 1870. Foge da poesia. e dificilmente acessível. onde Victor Hugo descobre o gênio nesse menino maligno de 17 anos.ele está em Paris.diz um dos seus últimos poemas. Sucedem-se as evasões. onde os achou . Duas vezes a fuga fracassa. destrói tudo. em companhia de Verlaine. essa vagabundagem nas fronteiras da sociedade. Na fronteira da velha poesia moribunda e de novas experiências poéticas. numa afasia metafísica. "La douceur fleurie des étoiles et du ciel.achou-os? "Par délicatesse J'ai perdu ma vie"160 .

e há uma explicação histórica. Mas Thibaudet contradiria. exatamente como convém. "Os poetas" . A recusa cria a reação: Dante foi exilado.disse Wilhelm Dilthey "constituem os nossos órgãos de compreensão do mundo. Representa mais do que a erupção duma adolescência en détresse. E é muito bom que assim seja: pois a poesia. Dante é o padrão. para dizer a verdade. e onde Baudelaire representa o progenitor comum. por Marcel Raymond. a mais social das literaturas. o ato mais definitivo da sua vida. e a canonização posterior. Aos não-poetas a poesia mantém-se essencialmente incompreensível. não conseguiu revocá-lo do túmulo solitário de Ravena. . não há senão um verdadeiro crítico de Rimbaud: o próprio Rimbaud. Queimou os seus poemas. Era um ato. de Mallarmé até Valéry. e com razões suficientes. por dois enigmas contraditórios. Neste sentido. Há muitas interpretações. caso único na literatura francesa. como a sua obra permanece incompreensível ao burguês. a aparente compreensão não passando dum acaso ou dum mal-entendido. a posição do poeta. Só um poeta consentiu nesse julgamento: Rimbaud. que traça a filiação. É uma explicação por contradições." O poeta diz o que os outros não sabem dizer. Mas esta é. se o mundo compreendesse a poesia. Há nisso um paradoxo.A obra continua dificilmente acessível. contrastandoa com a outra filiação. uma vida incompreensível. Para explicar a sua obra. E isto constitui o julgamento da poesia pelo mundo. estaria já julgado. queimando-a. pois a vida de Rimbaud é também enigmática: essa vida de evasão. precisa-se interrogar a sua vida. por todas as espécies de mal-entendidos astutos. Dante que se recusou ao seu século e a todos os séculos. a vingança é mais incisiva: o poeta parece um vagabundo inadaptado ou um ridículo. que julgou toda a sua obra. é o julgamento do mundo. mas recusa comunicar-se numa língua que seja a nossa língua. Por isto a sua vida é a fronteira da literatura e a sua obra é a fronteira da poesia. Representa. Hoje. Non plus ultra. não sendo deste mundo. Enfim. de Rimbaud até o super-realismo. vida antiliterária e anti-social. mas num sentido diferente do que era habitual a Sainte-Beuve.

Mas como eles pediram ainda uma vez. é o lugar da poesia." O mistério do mundo é indizível. Por duas vezes os discípulos repetiram o pedido. 1941). A língua é. é o silêncio. e o diretor o fez comunicar ao público pelo clown. que constituem a face exterior das "novas sensibilidades" de todas as "poesias modernas". Kierkegaard conta que. Os dois pólos da língua. Já não se compreendem. outro dia. ela choca-se com a língua. a última sabedoria. os poetas criam uma língua artificial. afastam-se. a última sabedoria. Philosophy of Literary Form. eliminar os restos irredutíveis da personalidade e do cosmos e substituí-los pelos lugares-comuns fixados. Para escapar aos equívocos da língua convencional. Louisiana State Univ. acostumado a rir-se das palavras do clown. o meio de expressão da poesia e o instrumento da vida quotidiana: "meaning" e "semantic". e por duas vezes o sábio permaneceu silencioso. uma língua convencional da poesia. A poesia quer explicar o indizível: por isso. fica fora do nosso mundo das coisas dizíveis. que está sempre ameaçada de tornar-se. . mais perto do mistério. cada vez mais. Cada refinamento do instrumento poético torna o paradoxo mais agudo. Studies in Symbolic Action. Mas a língua do "mundo" segue a direção oposta: tende a afastar o mistério. cava mais profundamente o abismo entre a poesia e o mundo. Tal evolução indica sempre uma conquista: os poetas conseguiram deslocar a fronteira do dizível na direção mais perto do indizível. O sábio permaneceu silencioso. então ela cede a novos artifícios. irrompeu num circo um incêndio. que continua silêncio. um do outro. esta linha cortante como a crista sobre o abismo. "paradoxo" no sentido de Kierkegaard.Onde fica esta fronteira? Conta uma velha lenda hindu que os discípulos do sábio Sânkara pediram a este que lhes comunicasse o "Grande Brama". para aplicar uma terminologia nova (Kenneth Burke. por sua vez. mas o público. A fronteira entre o dizível e o indizível. A poesia torna-se o "paradoxo" no mundo. a tornar-se cada vez mais convencional. ao mesmo tempo. língua poética e língua "mundana'. o sábio abriu a boca: "Já vos comuniquei o mistério: o Grande Brama..

a vida. percorreu os dois caminhos. Essa revolução acompanha. É a sua vida que mais importa na evolução da poesia. ao mesmo tempo. Porém depois o mundo apoético se intercala e interrompe. o poeta mais moderno e o poeta mais antimoderno. Nas suas origens. que a queimou e destruiu. Mas ninguém tomou jamais a poesia tanto a sério como Rimbaud. Enfim. de individualista o mais radical. afastando-a do mundo "civil". que já não conhece a "vida moderna" do mundo e que já não é compreendida por ela. a comunicação entre a personalidade e o cosmos. o enigmático. Pela sua poesia. por sua vez. e do lado da vida contra a poesia.riu-se. ficou e perdeu-se nas chamas. em línguas individuais. Rimbaud. É o julgamento do mundo pela poesia. De que é que ele foge? Foge da sua poesia. Deste modo. O afastamento do "mundo". Precisa-se do artifício para se manter penosamente o sentimento pessoal do mundo. O "dicionário do universo" transforma-se em língua privada. Isto é. como se vê. A língua é. Os artifícios do instrumento poético tornam a língua da poesia cada vez mais pessoal. mas afastando-a também do mundo "cósmico". ele é o poeta mais antimoderno. Coloca-se do lado da poesia contra a vida. é o homem mais moderno. civil ou burguês. Isto parece incompreensível aos burgueses incapazes de tomar a sério uma vagabundagem voluntária. línguas verdadeiramente "modernas". a evolução do mundo moderno. A vida de Arthur Rimbaud é uma série de evasões. a expressão mais individual da personalidade e o dicionário mais universal do cosmos. queimou a sua poesia: a sua vida era mais forte do que a sua poesia. Porque são incapazes de tomar a sério a poesia. Rimbaud é "um escândalo para os gentios e uma estupidez para os judeus". incapazes de tomar a sério. a poesia é a voz pessoal do cosmos. Esta tragédia tem uma outra face também. Pela sua vida. pelos convencionalismos. afastadas das raízes tradicionais. Que é que é moderno? O afastamento do universo é moderno. ao mesmo tempo. É. como ele. é antimoderno. Abandonou a poesia ao perceber que ela é necessariamente . ao mesmo tempo. um escândalo para os poetas.

a língua. Os românticos conheciam isto também. As suas cartas manifestam o niilista mais completo que jamais tenha existido. arquitetônica. revoltando-se contra a criação. então a expressão verbal deste sentido. tão profundamente. Lembra o verso de Corneille: "Cette obscure clarté qui tombe des étoiles. que não se realizou. Rimbaud é um revoltado contra todos os artifícios. é conseqüente: se não há sentido no mundo. um flirt com o Nada. Mas. o "Verbo". Para falar com os teólogos: Rimbaud. Sem dúvida. O sentido do mundo está atacado por essa rebelião luciférica. e a forma estritamente disciplinada." Rimbaud vivia este conselho. O mundo volta ao silêncio. revolta-se contra Aquele "per quem omnia facta sunt". Lamartine parece um classicista enfadonho. Não há caminho para trás de . Musset um rimailleur. queimou a sua poesia. a sua submersão no sonho. Rimbaud lembra-me um aforismo diabólico de Franz Kafka: "Na luta entre ti e o mundo. A revolução contra a língua é a mais radical das revoluções. Rimbaud não é romântico nem baudelaireano. desmente o seu satanismo e trai o sentido hierárquico do seu catolicismo secreto. todos parecem prosaicos. O seu ocultismo. nem sequer frustrar o mundo da sua vitória. À revolução contra o Verbo segue-se a revolução contra a Palavra. revoltado contra a família e contra a literatura. contra a fé e contra o Estado. e a vida está vingada. Rimbaud não é um começo. havia poetas incomparavelmente maiores do que ele. Tomou o partido do mundo. Depois de Rimbaud. contra a ciência e contra todo bonheur établi. de Baudelaire. A sua vida confere-lhe o direito de declarar "la séance close". é verdade. É o fim da poesia. mas um fim."162 A claridade escura de Rimbaud escurece todas as claridades. Só Baudelaire resiste. Verlaine um gago. então. já não há poesia.um artifício.161 contra o criador a que a fé cristã chama. após uma leitura de Rimbaud. representam caminhos para conseguir o poder mágico de destruir o mundo. não se deve lesar a ninguém. Hugo um ancião mítico. perdeu a sua razão de ser. o grito está justificado: a poesia morreu. mas era uma fraca coquetterie. apóia o mundo. que desfaz todas as coerências da razão e todos os obstáculos da moralidade.

a poesia moderna. aliás indefiníveis. Abre-lhe o caminho que só foi possível depois de Rimbaud: o caminho às origens. Eis por que a poesia de Baudelaire resiste: é a voz autorizada da humanidade presente e da sua condição eterna. poderia estabelecer-se a árvore genealógica da poesia epigramática e da poesia ódica. factus sum velut aes sonans. Mas como a poesia nasce da comunhão entre a personalidade e o cosmos. carregada de sentido. salva a poesia. ensaia dois caminhos diferentes . da sua origem comum. pós-baudelaireana. prefiro designar essas correntes. Eis por que esta poesia autorizada persiste em vozes autorizadas: Manuel Bandeira é a voz autorizada da poesia brasileira. fechada e amarga. a qual conseguiu. não se trata de "influências". de Baudelaire a Bandeira. A poesia baudelaireana. abundante de coração.Rimbaud. o seu lugar na literatura universal. in interiore homine habitat veritas. Manuel Bandeira. é a expressão mais densa da personalidade. e há a caridade do Verbo nestas odes. et angelorum. Estabelecida a árvore genealógica da "poesia do mundo caído". Correspondem a esse dois caminhos duas correntes da poesia contemporânea. um dos poetas mais pessoais do mundo. aut cymbalum tinniens. Bem entendido. é a expressão mais larga do sentimento cósmico. com ele. charitatem autem non habeam. Poder-se-iam inscrever-lhe as palavras do apóstolo: "Si linguis hominum loquar."163 A poesia "ódica". Baudelaire é o padrão desta poesia. pós-bandeiriana. não é um "Baudelaire brasileiro". a queixa da poesia sobre o mundo. A poesia "epigramática". Abstraindo das "mensagens poéticas"."164 Há a verdade da Palavra naqueles epigramas. . no Rimbaud das Illuminations e do "Bâteau ivre". há somente duas alternativas: a convenção eterna. Poder-se-iam inscrever-lhe as palavras de Santo Agostinho: "Noli foras ire. mas ele tem. o desespero metafísico da criação caída. o plágio convencional. bandeiriana. a poesia da suprema consciência humana.o da poesia mais pessoal e o da poesia mais universal . Após ele. ou a queixa do mundo sobre a poesia. mais tecnicamente: o epigrama e a ode. aberta e de simplicidade humana.na esperança de reencontrar o sentido: a Palavra e o Verbo.

Do mesmo modo." O caminho desta dialética. É grande a tentação de estabelecer um panorama da poesia contemporânea sob o aspecto rimbaudiano. Mon âme éternelle Observe ton voeu Malgré la nuit seule . Vladislav Chodassevitch. Jan Slauerhoff. Marsman. Gottfried Benn. decerto.isto sim. e de outra parte Pierre-Jean Jouve. Rafael Alberti. a função de Baudelaire na poesia francesa. Jorge Guillén." E o poeta que cantou o "desejo de sol e de um tempo novo". a grande noite resinosa e infinita. é o caminho de Une Saison en enfer até às Illuminations: o caminho que Rimbaud percorreu. mas sim filiações invisíveis. Stephen Spender. mas a identidade dialética também. "correntes sublunares" (em analogia com "subconsciente"). Jules Supervielle. O presente é tão grande.. e entre o Rimbaud "ódico" da caridade cósmica e o Augusto Frederico Schmidt do Sinto-me capaz de amar. já não será misterioso: "Elle est retrouvée! Quoi? l'Eternité! C'est la mer mêlée Au soleil. Franz Werfel. que não pode ser pensada senão em poesia. não há influência visível. cujo "sentimento do mundo" chega ao dever de "anunciar o Fim do Mundo". não nos afastemos. entre Rimbaud e os dois grandes poetas com que principiei: entre o Rimbaud epigramático da "verdade interior" e o Carlos Drummond de Andrade da "poesia incomunicável". O poeta. confessa também: "Estou preso à vida. H. Giuseppe Ungaretti. Há uma contradição. Hugh Auden. Boris Pasternak. Lionello Fiumi. agora. professa o: "Seremos simples como a noite. na poesia brasileira. e ao fim do qual achou o mágico poema que. duma parte..

e respiramos o ar das penúrias dolorosas. donde emana uma impressão inquietante. Blaise Pascal. a quem o seu Deus garante todas as ordens deste mundo. Os fantasmas que apavoravam a criança. O espírito da fronteira nela está. assim leve e assim pesada. como o encontro com uma mitologia desconhecida. a fronteira do país donde não se volta: Arthur Rimbaud. Recordações. solidamente construída na aparência. . que aparecesse. Franz Kafka não é um poeta religioso: não trata nunca de religião nas suas obras. e o seu mundo é cheio de seres sobrenaturais."165 Há nesta poesia um fim e um começo. Martinho Lutero. O sótão é uma loja de recordações. de repente. A religião de Kafka não é a religião fácil dos bem-pensantes. Um canto guarda os brinquedos esquecidos. na nossa vida quotidiana. Apodera-se de nós o sentimento do déjà vu. de quartos mal ventilados. de já ter visto tudo isso. Esta é a religião daqueles que a psicologia religiosa de William James chama os "twice-born". Só um atravessou essa fronteira. aqueles que nascem duas vezes. da fronteira entre o dizível e o indizível. Nenhuma saída. Entramos. Voltamo-nos para o outro lado: aparece a face de Deus.Et le jour en feu. Fuga. aqueles cuja fé irrompe das convulsões duma agonia: Agostinho. FRANZ KAFKA E O MUNDO INVISÍVEL O MUNDO do contista Franz Kafka é uma casa burguesa. Um labirinto. "Minha fé é como uma guilhotina. Mas é um espírito profundamente angustiado. O numen de Kafka é um numen tremendum. o Deus de Kafka faz estremecer os fundamentos do céu e da terra. com uma fachada um pouco descuidada. entre a vida e a morte. Os mortos surgem. Esta irrupção do sobrenatural no mundo não o salva: enche o homem de terrores desconhecidos. Figuras de demônios. recordações. Soeren Kierkegaard. A escada range." É a ameaça mortal que antecede a esperança vital. Delírio.

mas esses lugares banais são cheios de potenciais demoníacos. e cujo assunto se poderia condensar em parábola ou aforismo. O seu herói chama-se K. que o executor. da mais alta concisão.166 O primeiro romance publicado depois da morte do autor foi O processo. contra os quais o homem luta desesperadamente. ao sul pelo medo A leste pelo apóstolo São Paulo. carregada de estranhas metáforas. K. é subitamente preso. germano-tcheco-judia." (Murilo Mendes. o humanismo alemão desses meios é flanqueado pelo cabalismo judaico e pelo misticismo eslavo. que se alongam às vezes em parábolas. Max Brod. das casas de família. que se estendem às vezes em contos. dessa nacionalidade incerta. seguem os caminhos escuros e estreitos. simplesmente K. A pessoa e a vida de Franz Kafka acham-se também cobertas por um véu. "Estou Limitado ao norte pelos sentidos. morre num sanatório de Viena. dos quais três se desenvolvem em romances. fragmentários. na rua. Um dia. No testamento ordena a destruição dos seus manuscritos.) A vida corre-lhe nos quadros da burocracia subalterna. dos cafés. pois "quem vir descoberta a face de Deus morrerá". são os caminhos "per realia ad realiora". dormem. filho de família pequenoburguesa.Esses terrores e esses esplendores. Explicam-lhe que fora instaurado contra ele . editará arbitrariamente. a oeste pela minha educação. A língua lúcida faz adivinhar um outro mundo. de contos. comem. espreitado pela catástrofe. de parábolas. Desde a sua infância. Acontecimentos simples revestem-se de uma tensão febril. Nasceu em 1883 em Praga. A língua é muito límpida. Tísico.. A sua obra se compõe: de aforismos. Kafka os escondeu nos andrajos da vida quotidiana. em 1924. Esse misto de clareza e de mistério revela a fragilidade do nosso mundo. As personagens falam. mas são os caminhos do inferno e do paraíso. Kafka descreve a vida quotidiana dos escritórios. característica dos meios intelectuais dessa cidade.

não faz mais que jogar o processo contra si mesmo. ao mesmo tempo. e "Aquele que quiser salvar sua vida a perderá". em seguida. aconselham-no a confessar um crime que K. A prisão não passava de uma provocação por parte daquele estranho tribunal: o próprio K. os desígnios da Providência. não conhece e não quer conhecer.. evita pelas suas falsas atividades é a graça. temerariamente."que nos faz datar o juízo final. E o que K. alguns contos explicam a situação metafísica do homem. E cria o delito mortal. Há nesse romance uma lembrança incerta de certas palavras do Senhor: "Muitos serão os chamados. soltam-no a fim de que possa prosseguir na sua defesa. mas poucos os eleitos". K. O delito desconhecido está vingado.diz Kafka . todos são empregados do tribunal. Kafka instrui uma acusação contra a justiça do tribunal divino. Sob o véu da alegoria. Mas as palavras evangélicas perdem-se neste mundo de provação e desespero. mas todos estão convencidos da justiça e da onipotência do tribunal. sem o saber e sem o querer. Pelas suas atividades." Mas o céu negro se iluminará. a purificação em si mesmos. No seu diário Kafka copiou as palavras de Lutero: "Deus não é inimigo dos pecadores." Em torno deste romance. Obstina-se. De maneira misteriosa. "É somente a noção que temos do tempo" . prevalecendose obstinadamente da sua inocência. A colônia penitenciária é uma como espécie . assim como nós outros executamos. O delito desconhecido é o pecado original. na verdade é uma corte marcial cuja audiência está aberta todos os nossos dias. A prisão é o signo da predestinação. sobre estas cenas de horror.um importante processo criminal. mas que procuram. um dia. onde a todo momento o tribunal está presente e a força armada. tem de criar pelas suas atitudes as razões da sua absolvição ou condenação. mas somente dos descrentes que não reconhecem os próprios pecados nem procuram o apoio de Cristo. corrompe o carcereiro e o escrivão. Nenhum destes compreende melhor o processo do que K. Pelas suas providências apressa a catástrofe que será a sua condenação e execução. Faz tudo o que se pode fazer: contrata um advogado e um médico. O processo é um apólogo e uma apologia. aconselham-no a confessar e.

de continuação de O processo. Em A transformação.167 um jovem é subitamente transformado num horrível inseto que os seus próprios parentes querem matar. em alguma etapa propícia. pois saber o nome do delito é a condição preliminar para saber justificar-se. A tortura pela qual a sua culpa lhes será revelada é a única esperança. É objeto da inquietação do Pai misericordioso uma bobina." O que Kafka deseja excluir é a falsa direção das nossas atividades. de Francis Thompson. . mas que não descansa nunca. Cava buracos sobre buracos. não se pode deter essa queda onde se desejaria. Nesta colônia. No conto A toca de texugo. de origem incerta. ainda mais terrível. não é mais a imagem de Deus."Como te chamas?" . numa estranha solidão. que são desconhecidos dos próprios condenados. lembrando Hound of Heaven. e espera."Odradek". como em O processo. que sobe e desce incessantemente a escada. uma terrível máquina de precisão grava no corpo dos forçados. temendo a perseguição dos cães. sem nenhuma significação. o homem é a vítima passiva da perseguição celeste. aprisionado e sem saída. até que afinal esquece a única saída. por meio de agulhas incandescentes. A transformação tornou-se definitiva nesta pequena obra-prima chamada A preocupação do Pai Celeste. O homem. atento aos ruídos funestos do mundo exterior. Mas Kafka não condena a atividade: "Há dois pecados cardeais donde se poderiam deduzir todos os outros: a impaciência e a preguiça. que significa "apóstata". A falsa direção das atividades humanas é o assunto da obraprima de Kafka: o romance inacabado O Castelo. palavra eslava. até o último dia. o animal. Por causa da impaciência foram expulsos do paraíso. no sentido da segurança neste mundo. e a queda torna-se radical até se perder o direito de existir. . Então o animal agacha-se no seu canto. corredores sobre corredores. Em todas essas parábolas. indefinidamente. coisa absolutamente inútil. os nomes dos delitos. submergido pela vida banal de todos os dias. por causa da preguiça lá não podem voltar. decide alargar e fortificar o seu edifício subterrâneo. ou ao silêncio. destituída de fios.

há sempre possibilidades. permissão para ficar. Em O Castelo. cai gravemente doente. E o Castelo responde de maneira surpreendente ("K. Quer forçar esta comunhão dos fiéis. não tem nenhum direito de permanecer na aldeia. ele o exige mesmo. crentes humildemente submissos. é o nivelador contratado. Quer extorquir a graça. Com efeito. K. o lugar onde a graça está concentrada. simplesmente K. Eis-nos nas últimas linhas do fragmento. Pois o Castelo acrescenta: "K. o hospedeiro acolhe-o. Nesse ínterim o filho do castelão aparece para expulsá-lo. chega a decisão definitiva do Castelo: K. K. K. perde-se em mentiras e subterfúgios. onde os camponeses. como a nossa vida quotidiana sem a vocação interior. mas o Castelo. K. ser-lhe-á permitido que aí permaneça até a morte. K. Recorre a meios impuros. Uma anotação explicanos o fim: "Quando K." Em O Processo. contando com a piedade. tem. enfim. destituída de qualquer sentido. desesperadamente recorre à mentira: "O Castelo contratou-me como nivelador. desta vez. chega. o tribunal. tem permissão para ficar. outros . estremeceu um pouco"): "Sim. portanto. o direito. K." Deste modo.Ainda aqui o herói chama-se K. Espera a morte. mas não para trabalhar. Sua vida será vazia. Não quer ser tolerado. "Uns negam a miséria evocando o sol. O seu adversário não é. está à morte. não está contente. Desejaria obrigar o Castelo a conceder-lhe o direito de permanência na aldeia. mas considerando-se certas circunstâncias acessórias. é modesto. É preciso frisar: ele o quer. sem ter obtido a graça. justificar sua presença na aldeia. É o cúmulo da temeridade titânica. Ao pé desse Castelo há uma aldeia. Numa fria tarde de inverno." É o primeiro dom voluntário da graça: mas contém uma punição." Resolvem telefonar para o Castelo. K. encontra-se impossibilitado de verificar o contrato surrupiado. quer somente achar um emprego de diarista. mas o seu contrato foi um lamentável engano. que não fará voltar o peregrino. aqui não temos trabalho para um nivelador. o Céu instaura processo contra o homem. também desejaria ser camponês nessa aldeia. Tudo em vão. Quer o direito de permanecer. K. o homem instaura processo contra o Céu.. executam as suas tarefas diárias. Sim. Esgotado.

portanto. Até que conseguiram calcular a hora em que chegavam e faziam do incidente uma parte do cerimonial. Em toda parte. no mundo desse Deus." Tais blasfêmias lembram a zoolatria dos egípcios ou o Demiurgo mau dos gnósticos. perante o tribunal de Deus. a inexistência de traduções. Não parece que esse Deus queira a redenção do homem. "O verdadeiro caminho desdobra-se sobre uma corda. um André Gide. Kafka desejava que a sua obra morresse com ele para servir de testemunha em seu favor. Franz Kafka. o seu dia chegará. há tribunais e forcas. não vê na sua miséria a conseqüência da sua condição humana. Isto se repetia freqüentemente. A despeito dele. em sua obra." Às vezes Kafka atinge uma inversão diabólica: "Leopardos forçavam o templo e esvaziavam os vasos sagrados. como Ivan Karamazov." O homem. se já não chegou. segundo uma frase de Kierkegaard. mas isto significa somente que o mundo não o está escutando. Há esperança. A face de Deus. mas esta falta de razão significa somente uma incapacidade do homem em face do mandamento de Deus. a graça aparece. Fato simbólico: Kafka não estava destinado a escrever esse fim. adquire traços blasfêmicos.negam o sol evocando a miséria. Deus se cala. muita esperança. Revolta-se. Dez anos depois da sua morte. A sua publicação póstuma não encontrou nem leitores nem críticos. lançada muito perto do chão." Este "não para nós homens" equivale a uma grande confissão. Na aparência dessas parábolas. parece ser destinada mais a fazer tropeçar que a ser transposta. Uma casa editora de Praga promete a publicação das obras . um Charles Du Bos deploram a inacessibilidade das obras. "Todas essas parábolas dizem somente que o incompreensível é incompreensível. À propagação dessa obra opõem-se obstáculos do destino. Acusa Deus. Mas um outro aforismo diz: "O nosso mundo não é mais do que um mau humor de Deus. mas não para nós homens. muita esperança. esperança. Há. No fim de O Castelo. que restabelece a ordem dos valores. em Kafka." Na aparência dessas parábolas Deus não tem razão. "aspirava a uma imortalidade mais alta que a da glória".

pela desvalorização dos fatos tradicionais. eônios. A despeito de tudo. não se pode dizer a respeito de nenhuma obra de Kafka em que século decorre a ação dela. Esta ausência do tempo humano destrói a estrutura normal do mundo e isola os homens em desertos de eternidade glacial. A. pela revelação de um mundo mais real atrás do mundo real dos bempensantes: "per realia ad realiora". como nos contos de um . A sua vida quotidiana é destituída de sentido. É antes um tempo religioso: o caminho da aldeia ao castelo. acontecimento que se repete todos os dias. a quem Kafka deve a técnica do conto. Não é o tempo psicológico de Proust. há unicamente uma data: a da irrupção do divino no mundo. "dois quilômetros mais ou menos". aos anjos de um Rilke. T. leva séculos. Mas um traço significativo distingue Kafka radicalmente deste grande contista pessimista do fin de siècle: a noção do tempo. Eis o lema de Anton Tchecov. em Kafka. A tradução integral. Todos esses obstáculos aprofundam mais a virtude desse pensamento. todas as horas. é um fato extramundano. e com E. aos cantos "homófonos" de um Stravinsky. Não existe tempo. A era dos deuses e a vida quotidiana dos nossos dias se confundem. Mas o tempo.168 para ser percorrido. Os homens de Tchecov vivem no seu tempo. o Kleist do ensaio Sobre o teatro de bonecas. A psicologia desses homens é uma psicologia de monstros revoltados. Hoffmann. A edição de Praga é interrompida pela derrota do Estado tcheco. a Nouvelle Revue Française traduz alguns contos. Existe uma herança que se deve conservar. O simbolismo de Kafka perturba o mundo. no tempo do seu mundo. A reflexão sobre o lugar de Kafka na literatura universal é o primeiro dever. prometida na França. em vez de sufocá-lo. tornando-os comparáveis às personagens plásticas de um Di Chirico. se já não chegou. O seu lugar está na literatura européia do após-guerra. Feita a abstração de alguns pontos de contato com Heinrich von Kleist. a presença de Kafka na literatura alemã é simplesmente ocasional. como nos romances fantásticos de Julien Green. o seu dia chegará. talvez nunca apareça. pela estranha transposição dos acentos.completas.

Kafka procura o lugar da graça. O que é comum a todas essa correntes é o relativismo. e faz ressuscitar a obra esquecida de Soeren Kierkegaard. não raros. ou se insurge contra essa decomposição pelas expressões de um pessimismo cínico. olhando-os primeiro como brinquedos de uma nova infância. O mundo é um cadáver que se decompõe porque o espírito abandonou o corpo. não se conforma nem decompõe. A atitude de Franz Kafka é muito diferente. que mergulham na fé tradicional. Entre dois mundos e entre duas épocas. exceto a daqueles. os novos estudos pascalianos que giram em torno do problema da graça e inspiram até o André Gide de L'École des femmes. coloca-se em caminho. Esta atitude o situa no meio de duas grandes correntes dos nossos tempos: uma na França. e em seguida como pedras para a construção do futuro. A corrente literária do após-guerra achase diante de um montão de ruínas. Não é nem tradicional nem relativista. Não se contenta com os destroços. O dia de Kafka chegou. a incomensurabilidade entre Deus e o mundo. este mundo acha a sua expressão final nos poemas apocalípticos dum Pierre-Jean Jouve que precedem a catástrofe. a "Teologia Dialética" de Karl Barth e de Emil Brunner. No abismo entre o Deus soberano dos dialéticos e o homem falido de Pascal. a outra na Alemanha. É Pascal quem define a situação. E a sua vida real se passa na atmosfera mágica dos romances de Marcel Jouhandeau. que já não admite a integridade do mundo. Todas essas comparações só têm como fim estabelecer mais solidamente as oposições. que gira em torno do abismo dialético. Enfim. eram as etapas do primitivismo e do construtivismo.Bontempelli. Mas se reconhecerá o verdadeiro estado de coisas e um profundo desespero prevalecerá. São estas as posições do romance e da poesia modernos. como os "fragmentistas" italianos. A literatura e o pensamento modernos tentaram contentar-se somente com os destroços. No artigo XV das Pensées enumera as quatro . Este desespero se conformará ou não se conformará: ele afirma e confirma a decomposição do mundo por meio de uma nova psicologia. está a caminho de Damasco.

É a confissão de um homem no caminho de Damasco. Mas é também a posição atual do mundo apóstata. quem não procurar. cheio de aflição e de esperança: "Quem procurar não encontrará."169 UM ENIGMA SHAKESPEAREANO . Quarto. Sem a graça não se escapa deste mundo. ou renegamo-Lo. Só o caminho misterioso de Damasco é que liberta dos terrores exteriores. é a angústia. Mas o apóstolo Paulo poderia ter dito isso. o homem reconhece em Jesus Cristo seu Deus. Em vão nos entrincheiramos nas linhas Maginot da nossa "toca de texugo". A obra de Franz Kafka é um indicador na direção desse caminho. para assistir. será encontrado. tergiversações que nos abismam cada vez mais. o homem conhece a Deus e a sua própria miséria. Todos os outros caminhos são subterfúgios inúteis. mas não a graça. Não se é mais pagão depois de Jesus Cristo: a velha inocência desapareceu. mas não conhece a Deus. É a posição do judaísmo perante o seu Messias encarnado. Todas as seguranças exteriores são vãs. impotentes. o homem conhece a Deus. sem a possibilidade de uma libertação. através de Pascal: "Consoletoi. que renuncia à graça e se declara pagão. Segundo. Primeiro. somos os prisioneiros das nossas próprias prisões. à nossa derrota decisiva. Uma fé vem nascer no caos de uma alma em desespero. é o desespero ateístico. cheio de orgulho e de angústia. mas não conhece a sua própria miséria. Em vão "a angústia da lei" maltrata o rabino Saul antes de ter ele visto a luz do mundo. o homem conhece a sua miséria. E se o seu cumprimento não representar nada perante Deus?" É um aforismo de Kafka. O caminho de Damasco é a única saída desta prisão que é o nosso mundo envenenado. sua miséria e sua graça. Enfim." E uma voz lhe responde. Nela se lê o seu aforismo. para preparar "o segundo nascimento": é o caminho da apocalipse do mundo para a escatologia da alma. tu ne me chercherais pas si tu ne m'avais trouvé. "Como cumprir a vontade de Deus? Teme-se que essa lei não seja mais do que uma tentação. é o caso do farisaísmo orgulhoso. A posição de Kafka é a terceira. ou procuramo-Lo.possibilidades do homem. Terceiro.

Contentava-se em dramatizar contos ou então retocar velhas peças. disfarçado num simples monge. como os contos de Franz Kafka. de Shakespeare: um enredo. toda a literatura universal. Indignado com os excessos de imoralidade que davam à cidade uma atmosfera pesada. enigmático. Contudo. banal ou esquisito segundo o ponto de vista. as leis caíam em desuso e se aproximava a anarquia moral. Num conto medíocre do escritor George Whetstone achou assunto para transfigurá-lo no mundo completo. Devemos a este método a redescoberta das poesias barrocas espanhola e inglesa. e estando de posse de plenos . Porém. escapa a estas censuras: "Método maravilhoso que encara. o Duque dispôs-se a voltar clandestinamente a Viena. T. em conjunto. em aparência menos bem-sucedidas. S. para observar a conduta de Ângelo. para tirar conclusões gerais" (Edmund Wilson). Obras que fazem pressentir a presença escondida. oculta. maravilhoso. O método do grande crítico e maior poeta inglês. para explicar a profunda emoção que emana de certas obras. ao mesmo tempo. duma força misteriosa atrás da superfície. sob o seu reino indulgente. Ângelo é um puritano. com obras com as quais nunca foi comparada. O Duque de Viena. homem conceituado pela austeridade e inflexibilidade.EXERCÍCIO DE LITERATURA COMPARADA CENSURA-SE muitas vezes à jovem ciência da literatura comparada o valor puramente histórico e pouco interpretativo dos seus estudos. escondendo uma arrière-pensée metafísica. explicável só pela comparação. pode-se imaginar um método análogo. com ligeiras modificações. Quase nunca Shakespeare inventava os argumentos das suas peças. aplicado para resolver certos problemas de crítica. ou como aquela comédia Measure for Measure ("Medida por medida"). resolve abandonar por algum tempo o país e confiar o governo ao seu conselheiro Ângelo. sem consideração de pretendidas relações históricas. Eliot é inimitável. de Medida por medida. e que compara as obras de diversos povos em diversas épocas. sem consideração de relações históricas. reconhecendo que. Eliot. frei Ludovico.

e o irônico Lúcio. dizendo-lhe que a nossa vida é um sonho confuso e a morte uma libertação. sendo condenado à morte pelas mãos do carrasco. Cláudio treme. renova uma velha lei que proibia. cujo desespero não recua diante da infâmia. Isabel guardará a sua pureza . "Mas" . o Duque disfarçado. Isabel vai ao palácio do governador. Mas logo depois todos se acalmaram. faz toda a cidade rir das determinações do casto Ângelo. no Mercador de Veneza. "O perdão é um atributo de Deus". que acompanha a ação com raciocínios maliciosos. Eloqüentemente. lembra a Ângelo que o perdão é a justiça suprema. Mas Ângelo não deixará que ninguém se ria. Mas o desespero do irmão a comoveu. antes do casamento. Ela está resolvida a entrar num convento e dentro de pouco tempo deverá conquistar o céu. regenerado pela graça divina". Desde já evita o mundo. Isabel é a mais admirável. não vos admireis demasiadamente de como tudo isto se . um ar dostoievskiano. O terror paralisa a cidade. Num só momento funesto toda a orgulhosa virtude do puritano se desmorona! Perdoará a Cláudio . que seduzira. Pórcia.se Isabel se render! Apesar de todas as conjurações desesperadas de Cláudio. embora lhe condenasse a depravação. todas as ligações ilegítimas. Sua alma é uma encarnação de pura poesia. como para sua irmã. habituados como estavam às leis que não eram cumpridas. sem o perdão a lei do Estado abateria o homem e a sua fraqueza.e ante a sua beleza. pesa sobre a cena na prisão noturna à espera da alvorada da execução.diz Frei Ludovico. Tudo debalde. de alcoviteiros.poderes. Cláudio implora a sua irmã Isabel a clemência de Ângelo. fica a princípio aterrada. porém. sob pena de morte. Frei Ludovico oferece-lhe o consolo da religião. cheia de devassos. ao carcereiro . Ângelo fica sensibilizado e confuso ante a eloqüência da jovem ."vede a estrela da manhã. a própria noiva. Em pleno desespero. Entre todas as deliciosas figuras femininas shakespeareanas. Cláudio. A vida alegre continua. de casas de tolerância.e sacrificará o irmão. Um ar abafado de tempestade. Para Isabel. E a sua primeira vítima é um jovem fidalgo. em transes mortais. pois cumpre o prometido. e a futura religiosa arrisca mesmo a leve alusão teológica de que "o perdão é a virtude do homem. A cidade.

o problema da responsabilidade que a força impõe aos governos. afim de satisfazer os desejo de Ângelo. lei que nunca houve e que nunca haverá. E Isabel não entrará para o convento. À exceção do malicioso Lúcio. No outro dia. todos são logo perdoados. ousa levantar-se contra as mais altas autoridades. que deverá expiar as suas insolências. Medida por medida é uma tragédia política: o problema é o abuso do poder. o choque inevitável entre a ordem jurídica do Estado e a ordem vital da sexualidade. Ao lado do Duque ela reinará sobre Viena. Um simples monge. "Medida por medida" ." O nó da tragédia parecia inextricável. Frei Ludovico. ordena a execução imediata de Cláudio. Em lugar de Isabel. em vez de indulgência e contemplação. . Assunto desta educação humana é o Estado.são as terríveis palavras que ele lança ao pérfido governador. mesmo no Estado de um déspota oriental.e todos reconhecem o Duque. alegando falsos escrúpulos morais. mas o Duque já tinha imaginado um plano engenhoso que afugentaria os fantasmas noturnos. a sua própria noiva Mariana. Os sargentos agarramno e o difamador Lúcio arranca-lhe o capuz . daquela graça que Isabel proclamara como a única salvação do Estado corrompido. inaplicável. levaram. Mas chegou o dia do perdão. a maior tentação dos poderosos. Assistimos à educação de três homens para a verdadeira vida pública: Ângelo saberá quanto é profunda a fragilidade humana e a injustiça das leis inflexíveis. velando como um verdadeiro anjo a cidade que já não se perderá. não estamos. verdadeiras vítimas dos seus plenos poderes. Ângelo ajoelha-se e espera a morte. é necessário atividade e clemência. que ele já tinha abandonado. Isabel saberá que a sua virtude se torna mais necessária no mundo que no convento. Ângelo falta com a palavra: para apagar os traços do seu crime. O símbolo dramático deste choque é uma lei impossível. Medida por medida é uma tragédia política.encadeia. Este problema é representado na peça por um eterno conflito da vida pública. todas as dificuldades se tornam leves quando são reconhecidas. em Medida por medida. Uma lei impossível! Verdadeiramente. o Duque aprenderá que.

feérica. somente o espectador ou o crítico podem fracassar. e por cuja presença nós sabemos a todo momento "como tudo isso se encadeia. comparando-os a obras do mesmo gênero. Toda a peça está cheia de repugnantes cenas de bordel. Mas será Medida por medida uma tragédia? Eis a modificação mais profunda do argumento.num mundo de realidades. governador da província. O fim da peça. em Shakespeare. Diante de uma peça de Shakespeare. e que nos propõe o enigma desta peça: Medida por medida é uma comédia! O hábito de Shakespeare de misturar as cenas trágicas com as cômicas aí é quase insuportável. a boa fada é o Duque disfarçado. Em toda a peça há uma atmosfera irreal. reconhecível somente por nós. e todas as dificuldades se tornam leves quando são reconhecidas". o conto de Whetstone. devemos chorar? A impressão final é altamente desagradável. . onde o mesmo assunto aparece em pura tragédia ou em pura comédia. Por isso. mas as raras modificações indicam uma direção certa: Ângelo. Este método comparativo nos abrirá talvez o pensamento secreto do mais incompreendido dos poetas. No conto de Whetstone. é transformado em lugar-tenente. instalado por tempo determinado. um espesso nevoeiro de sensualismo animal e sujo que faz suster a respiração aos espectadores. a peça é raramente representada. impossível na realidade. A intriga pela qual a pureza de Isabel é salva dá a impressão de uma farsa obscena. os espectadores. e esta limitação temporária do seu poder nos faz levar a ação ainda menos a sério. que inventou uma noiva de Ângelo. Mas Shakespeare assim o quis. Isabel entrega-se realmente a Ângelo. Talvez não tenhamos compreendido por que o poeta encerrou uma tragédia numa comédia. Experimentemos separar os elementos. este fim é uma sátira gritante contra o título Medida por medida. A maior parte dos críticos estão de acordo: uma obra-prima falhada. Pouco modificou a ação de sua fonte. segundo Whetstone. Essa atmosfera de irrealidade é um grave erro contra a veracidade dramática. ela é salva por uma intriga engenhosa. Devemos rir. no qual todos os vícios e crimes são perdoados e somente o inofensivo Lúcio é castigado. e engenhosa demais para uma tragédia.

de Nicolai Gogol. segundo a classe dos funcionários."a Europa ou a opinião pública? Da nossa cidade a Moscou a diligência leva quinze dias. de Heinrich von Kleist. porém. Chlestakov compreende quanto o seu posto é temporário. conseguir refeições cuidadas e aventuras fáceis. para fazer a grande revisão e julgar severamente: medida por medida. O prefeito julga-se praticamente independente. deixando uma carta onde tudo fica explicado. e numa pequena cidade do interior da Rússia. Chlestakov reconhece. a vitória estava duvidosa. e dinheiro. em grande uniforme. e tira partido das aflições dos burocratas culpados para satisfazer a sua fome. por isso. fugiu para a província e se vê acolhido. quando de repente. A tragédia é o Príncipe Frederico de Homburgo. O príncipe de Homburgo é general do seu exército e noivo de sua sobrinha Natália. O verdadeiro herói da peça é o Grande Eleitor Frederico Guilherme de Brandeburgo. e um belo dia desaparece. justamente o que havia sido formalmente proibido pelo Eleitor. chega até a arrancar ao prefeito um suspiro: "Ah! Se eu só soubessse exatamente os poderes de que ele está munido!" Logo saberá. com surpresa sua. Cada dia. fazendo tinir o sabre. crivado de dívidas. mas o príncipe alcança-a com um ataque pelo flanco.A comédia é O revisor. Por isso. A cena se passa sob o reino do tzar Nicolau I. o . Os burocratas da cidade formam em volta do prefeito um grupo estupefato. o revisor aparece. e depois ainda estaremos muito longe da Europa!" Isto enquanto o "revisor". o temível inspetor do tzar. Na verdade. com as maiores honras. Na batalha decisiva contra os suecos. Um dia. Tudo está em ordem: o prefeito só tem a velar para que "nenhum funcionário roube acima dos seus direitos legítimos". Oferecem-lhe banquetes.diz ele . faz o que pode. não aparece. no mesmo instante. é o jovem velhaco Chlestakov. Chlestakov torna-se mais insolente. a situação. o verdadeiro revisor do tzar. o fundador do poder prussiano. a centenas de milhas da capital. batalha que tornará a Prússia uma grande potência. chefe despótico de uma burocracia totalmente corrompida. jovens belas. aparece o revisor. sempre dinheiro. "Que nos importa?" . que. Chega a estabelecer uma tarifa fixa. que pagam gemendo.

Daí por diante a tragédia. por estudos de Simon . de acordo com as leis marciais prussianas. O Grande Eleitor é o primeiro servidor do seu Estado. que desafia a morte em inúmeras batalhas. O coração do soberano está com os oficiais. grito que acompanhará este exército numa série interminável de vitórias. Do homem Shakespeare não sabemos quase nada. porém muito feliz. O problema dessas criações é de profunda existencialidade. então. uma comédia desesperada. Em vão os oficiais do mais leal dos exércitos revoltam-se e ameaçam o Eleitor de uma revolução a fim de salvar o amado general.príncipe é culpado de insubordinação e. sem o trágico. Entretanto. como o seu primo shakespeareano Cláudio. toma novo rumo. que se vinha desenrolando com uma grandiosidade romana. deverá morrer. Confirma. de perto. são duas grandes obras falhadas. Mas conhecemos Gogol e Kleist. e deu a ordem fatal. e para educar o príncipe no cumprimento consciente dos seus deveres o Eleitor deixa subsistirlhe até o último momento a angústia ante a sentença de morte. mesmo no sentido mais estrito da lei: Homburgo sofre de ataques de sonambulismo e em tal confusão não ouviu a proibição do ataque. As aparências políticas das duas peças assentam em fundamentos religiosos. a sentença da corte marcial. É preciso consciência clara. se bem que as conseqüências tenham sido felizes. O Príncipe Frederico de Homburgo é uma grande tragédia política. a representação dramática provém do interior das almas profundamente angustiadas dos seus autores. embora o perdão já esteja assinado. Sabe que a existência do Estado depende da inflexibilidade e da imparcialidade da lei. É preciso que fique de pé a justiça. Enfim o soberano e o seu exército se encontram novamente e juntos gritam: "Abaixo os inimigos de Brandeburgo!". Suplica a sua noiva que procure enternecer o terrível soberano e dele obter o perdão: em vão. Ele sabe que o príncipe está inocente. porque os autores queriam escrever obras inteiramente diferentes das que escreveram. O príncipe. Mas o perdão é o perdão. A lei é a lei. O revisor é a mais brilhante comédia social que existe. Todavia o destino do Estado não deve depender de uma intuição. começa a tremer lamentavelmente.

Gogol amou e odiou a Rússia. porém. de cristão. É o ponto em que a religião e a política. que eram entendidos nisso. como o seu prefeito. em relação ao verdadeiro revisor celeste. Mas aos monges da Tebaida. Moscou" . enfim o ar em que o poeta vivia se apresentava tão cheio de pequenos demônios que ele não podia mais respirar. O seu romance humorístico Almas mortas é a epopéia dantesca da Rússia tzarista.e se acha com o direito de classificar os vícios segundo as ordens burocráticas . Não sabiam qual o poder que o verdadeiro revisor havia concedido. Gogol não sabia."a quinze dias de diligência. não sabia "os poderes de que ele está munido". Este mundo está bastante cego para não tomar o falso revisor pelo verdadeiro. Na verdade. e Gogol é o maior demonólogo da literatura universal. e talvez fosse o próprio revisor do próprio tzar também um falso revisor. O mundo oriental pensa por parábolas. talvez. porque o diabo lhe aparecia sempre como uma personagem cômica. Na aparência. o problema da Medida por medida. O herói da comédia O revisor é o príncipe do inferno. o Anticristo. Atrás da comédia social do russo e do drama político do prussiano há uma grande inquietação religiosa e duas tragédias humanas. ao mesmo tempo. mas queria saber.escrevia ele . é verdade. os demônios apareciam como nuvens de insetos. ele era um fanático da Igreja ortodoxa e do tzar autocrata.Frank e de Friedrich Braig. de iludir-se. é uma pura comédia. quadro simbólico da humanidade que acredita em Deus. o Anticristo pelo Cristo. Incapaz. Em O revisor trata-se de pequenos funcionários. O revisor fracassou por esta dúvida: a tragédia da humanidade desapareceu atrás da comédia burocrática. ao falso. no sentido mais alto da palavra. a si próprio. tão infinitamente longe . concebido como tragédia. a tragédia demoníaca é sempre cômica. O seu O revisor. Como Dostoievski."nenhum acima dos seus direitos legítimos" ao pecado. "Cidadãos" . vêm a chocar-se. que quantidade de injustiças e de crimes é permitida a um mundo que se chama. e O revisor é um apólogo. O elemento trágico da comédia é representado pelo problema do abuso do poder. Somente Gogol. via na Rússia a realidade infernal.

"tenho medo! Desses insetos nascem monstros gigantescos. livres. O Príncipe Frederico de Homburgo foi escrito quando a Prússia. Kleist estava possuído do problema dos "plenos poderes". humilhando-o até à comicidade. a todo custo. o julgamento da história não vos pede justificativa") e a intriga torturante da sua comédia A bilha quebrada. Mas a salvação é impossível sem a violência. comédias involuntárias. enquanto sabia os homens fracos. cristão sem o saber. e imaginou como tal o seu Grande Eleitor." O fim foi a loucura religiosa e a morte voluntária. e no sentido mais alto da palavra: Kleist. mas cuja luz poética é bastante forte para esclarecer o suicídio do seu autor. na qual um juiz culpado tem de julgar o seu próprio crime. A intriga artificial do sonambulismo. Kleist via a única salvação do seu país num homem de Estado verdadeiramente cristão. e representar na cena. Medida por medida. e Kleist. . O revisor. presos às confusões dos seus subconscientes. era incapaz de criar um verdadeiro herói que fosse ao mesmo tempo um verdadeiro cristão. a falsa bondade do Eleitor já não salvam a peça. que conhecia toda a fragilidade da natureza humana. Vacilava entre o grito de vingança sem escrúpulos da Batalha de Armínio ("Matai-os. "políticas" no sentido de Kierkegaard: a força supranatural irrompe para o mundo. do problema de Medida por medida. heróis trágicos. que nos devorarão. espírito cristão sem o saber. homens independentes. Eis por que ele criou um supercristão. É o ponto em que a religião e a política se chocam. se curvava perante Napoleão. mas a estragava pela fraqueza tão humana do seu príncipe. eis por que o espetáculo da mais perfeita inconsciência o perseguia. o espetáculo das marionnettes. Elevou os poderes do Grande Eleitor até torná-lo um semideus. ele queria criar a tragédia pura.em 1846 . o Príncipe de Homburgo são três tragédias políticas. queria evocar na política. na sua opinião. Para evitar a comédia. humilhada. eis por que o sonambulismo o interessava fortemente e a "purificação das consciências" o ocupava. O revisor e o Príncipe de Homburgo. comédia disfarçada em tragédia. Daí estar excluída a tragédia pura. que tremia em face da morte. auge do cômico. frágeis.

nesta comédia sombria. onde o happy end da Vida es sueño. porque concebidos no espírito dum teatro cristão. A grandeza do trágico cristão aparece logo quando a face de Deus é coberta. desde Kierkegaard. na terra. pelo qual Shakespeare modificou o assunto para elevá-lo do político ao humano. é Medida por medida. parece excluir o trágico. a única saída. em vestes altamente cômicas. a única. mesmo em Deus. O trágico cristão só pode aparecer. É a tragédia do homem cujo "poder" neste mundo é temporário como o poder de Ângelo. Dizem que a terrível fragilidade de todos os homens. A peça é dedicada a todos nós. que vela sobre os nossos destinos. Traço profundo. E neste sentido Shakespeare é um poeta sem Deus. nas obras cristãs de poetas nãocristãos. sabe o rei Lear. Não é somente a tragédia do Estado. discussões que atingem muitas vezes o ridículo. O pessimista é um homem sem esperança. e Shakespeare podia conceber Medida por medida como comédia. Deus está ausente. Nossa vida não é mais do que um sonho cercado de um profundo sono. a maturidade pela morte. entregue à sua vontade e à sua fatalidade. se levanta como advertência. que. quer dizer. nesta obra imensa. Deus está ausente. Na obra de Shakespeare. da lei e do perdão do qual nossa vida material depende. sabemos impossível. O homem de Shakespeare está só no mundo. Com este naturalismo intrépido. com a divindade anônima.colocam-nos perante o problema da possibilidade de um teatro cristão. A consciência de uma Providência. A única exceção. Não sabemos quase nada do homem Shakespeare. O que sabemos é o que o poeta do Rei Lear é o maior pessimista da literatura universal. está maravilhosamente tranqüilizada pela presença animadora do Duque disfarçado. O homem shakespeareano é um joguete dos deuses que nos matam como moscas para passar o tempo. "ripeness is all". e eu não pretendo meter-me em discussões sobre a sua verdadeira religião e o seu pretenso catolicismo. que é a prerrogativa do . O revisor e o Príncipe de Homburgo resultam em comédias involuntárias. porque Deus está ausente do seu teatro acristão. de Calderón. como nos romances de Franz Kafka: a divindade escondida nos bastidores de um mundo sem Deus.

. mas também é graças a ele que se salva a verdade humana da peça. Deus parece ausente. com o artifício das suas intrigas. esse drama.maior dos poetas. dos deuses que nos matam como moscas. Mas quando se constitui juiz e desvenda a sua face. A peça tem um único verdadeiro espectador: o Duque. nós outros homens. em que todos os homens fracassaram. É este artifício sobre-humano que salva os homens de Medida por medida do círculo de ferro em que Shakespeare os aprisionou. Oculto. ele é a terrível divindade da justiça implacável. em todos os meus passos. Assim Ângelo é. "atributo de Deus". É preciso reconhecer que o Duque. os mais fracos e os mais falíveis: na sexualidade. Um "poder divino" salva a justiça pelo perdão. Quem é o Duque? Hazlitt. já que vivemos. o maior intérprete shakespeareano. "virtude do homem regenerado pela graça divina". nós mesmos. então é a graça que nos salva da justiça do "Medida por medida". Mas "todas as dificuldades se tornam leves quando são reconhecidas". ultrapassa toda a veracidade humana. Mas está. mais presente que o pretenso diabo da comédia de Gogol ou o pretenso deus da tragédia de Kleist. verdadeira antítese do Estado. no fim. E nós. e nós não sabemos mais se devemos rir ou chorar. porque vós me acompanhastes como um poder divino. O conflito dessas duas forças em Medida por medida é apresentado no costume desenfreado e turbulento da Renascença. espectadores. e dizia-o no sentido depreciativo para caracterizar o artifício teatral das intrigas do Duque. da morte que já não é a única justiça. chamou-lhe "uma personagem verdadeiramente misteriosa de teatro". regenerado pela sinceridade da sua confissão: "Ó meu Senhor! eu seria mais culpado que a minha culpabilidade se eu pensasse poder ficar despercebido. do sonho insensato da vida. que é inteiramente artifício humano. nós fracassamos com eles. Medida por medida nos desagrada porque ultrapassa a nossa medida. Shakespeare fixou esta tragédia humana no ponto onde nos achamos. A vida aí está tão integralmente representada que a plenitude do trágico e do cômico nos sufoca. na verdade." É o poder divino oculto que acompanha toda a nossa vida. que nos liga profundamente à natureza.

parece irresistível. Dostoievski será um assunto de predileção da psicanálise. tudo o que é prédostoievskiano é pré-histórico. principalmente. Daí se origina a pretensão de reclamar Dostoievski em favor das rebeliões mais subversivas do espírito anárquico do après-guerre. na qual acredita reconhecer a sua própria decadência. instintivamente e obstinadamente. Parece. pois a sua obra constitui o marco entre dois séculos da literatura. que ele não descreve nunca a paisagem russa. se não o maior. os críticos literários não viam na obra senão um extraordinário romance policial.ENSAIOS DE INTERPRETAÇÃO DOSTOIEVSKIANA EXISTEM poucos escritores cuja obra tenha sido tão tenazmente mal compreendida como a de Dostoievski. o fantasma de uma cidade visionária. os europeus entrincheiram-se. o caminho da compreensão.e com que segurança! . em 1870. esta psicologia requintada. e certa interpretação anarquista ressoa até no livro de André Gide. sobretudo. Depois. a estúpida combinação de "Tolstoi e Dostoievski" fecha. Dostoievski é.são as paisagens da alma. nem sequer os mais contrários. ninguém escapa à sua influência subjugadora. O que ele fixa . num baluarte de interpretações erradas. das quais conhecemos tão perfeitamente os mais íntimos movimentos da alma. mas unicamente a paisagem urbana de São Petersburgo. apareceram as primeiras traduções do Raskolnikov. Que esta . percebe-se que Dostoievski não expõe nunca o exterior das suas personagens. Recordações da casa dos mortos alimentou neles o novo equívoco de se encontrarem diante de um naturalista à maneira de Zola. porém. por este "e" comparativo. e deixa apenas admirar o "forte colorido russo". ao menos. ou do século XX. decerto o mais poderoso escritor do século XIX. Literariamente. e como esse bárbaro barbado. que toda a Europa tentar resistir-lhe. E o espírito sensitivo do fin de siècle admira. e que este Petersburgo dostoievskiano é. com a face sulcada de sofrimentos. Quando.

Reconhecendo-se que certas acusações violentas à Europa são plenamente justificadas. quase um Pai da Igreja. igualmente. e nós não aceitaríamos esse artifício unicamente para isentar o autor. liberais. e as opiniões íntimas do autor. para nós outros. Mas a satisfação dessas descobertas é perturbada pelo conhecimento das estranhas convicções políticas do escritor. vão poucos passos. ele nos arrasta até às últimas conseqüências. sonho que constituiu antigamente. a obra de arte se tornaria o fruto sublime dum solo impuro. o pesadelo do pan-eslavismo.psicologia se baseia numa antropologia cristã foi a descoberta do após-guerra. Enquanto quase todos os poetas russos do século são revolucionários. como também ante o retrato do tzar. Vjatcheslav Ivanov reconhece o individualismo cristão de Dostoievski. às quais ele não desejaria fugir. o pastor Thurneysen descobre nele o transcendentalista. e que as suas convicções políticas nos surpreendem. de responsabilidades. Em virtude de tal distinção. à nossa maneira. Depois de Merejkovski. que se perde em especulações gnósticas. mesmo espiritualista. em pesadelo bolchevista. Ao contrário. perto do cristianismo "incondicional" dos neocalvinistas. melhor. É justamente isto. válidos também para nós. seja ele negro ou vermelho. ou. Mas como aceitar um poeta cujo pensamento nos abala? Dostoievski não faz "arte pela arte". cumpre admitir que na obra de Dostoievski a política ocupa um lugar maior do que a literatura. é preciso admitir que daí para uma revolução total. reacionário intratável: ajoelha-se. amanhã. Berdiaev revela o Dostoievski hagiocrata. e que se transformará. resultado de uma partenogênese misteriosa. Inúteis quaisquer concessões. distinguir entre os frutos da inspiração poética. Dostoievski é conservador. não somente perante as imagens da Igreja russa. . dos quais somente o primeiro custa. objeto somente da crítica psicológica e da história literária. Inútil. democratas e socialistas. e à sua concepção de uma humanidade cristã ele mistura um ódio violento à Europa e ao sonho de um Império Universal russo. produto exclusivo do subconsciente. não existe lugar para nós outros. Nesse mundo.

e a literatura é a única voz do povo. Alexandre III. a política. a apostasia da Igreja romana. glorificam o passado nacional. e o é apaixonadamente. em plena evolução política e social. Admitir a coexistência de uma força artística e de um pensamento confuso seria arriscar muito. como no parlamento inglês. estão impregnadas de política. que glorificam a Europa e desejam a europeização integral da Rússia. o que lhes vale a acusação de obscurantistas. exterminar. O tzar Alexandre II. erguer o Império Eslavo. . faz do eslavofilismo a doutrina oficial do pan-eslavismo. Um. Existem aí. comentário indispensável dos seus romances. nem mesmo cátedras livres. voltar-se para o despotismo asiático. O país não tem imprensa nem tribuna. ele afirma a decadência do Ocidente. e prega o domínio universal dos eslavos ortodoxos. Primeira possibilidade de achar um terreno onde Dostoievski e nós poderemos encontrar-nos. para isto é preciso primeiramente destruir as instituições estabelecidas. A literatura torna-se uma tribuna. que muitas censuras de Dostoievski à Europa são justificadas. O seu sucessor.A literatura russa do século XIX é profundamente política. Dostoievski também é revolucionário. dois partidos opostos. o que lhes vale a acusação de niilismo. Os outros. derrubar a Europa corrompida. Admitir. mesmo o asiático. pela força. por sua vez. a ciência. é "ocidental". No Diário de um escritor. mas que elas derivam de outra fonte que não desse pan-eslavismo louco? Quer dizer que o pan-eslavismo representa na obra de Dostoievski papel diferente do que o supôs o escritor. o emancipador dos camponeses. a própria teologia. Dostoievski é escritor político. "o cemitério das artes e o foco das revoluções". Seria necessário aceitar essas convicções políticas para poder aprovar integralmente o escritor. E é diante do retrato do tzar Alexandre III que Dostoievski se ajoelha. é necessário esmagar as influências estrangeiras. todas as nacionalidades e religiões estrangeiras que se acham sobre o território russo. os "eslavófilos". e isso é impossível. Todas as coisas. Mas o é contra nós. É irritante. Faz-se mister destruir a Europa. então. A literatura invade. o dos "Ocidentais".

os Possessos. e.. a personificação começa. representando catedrais. que simbolizam os seus problemas." O futuro do verbo acreditar é traidor. um Ivan Karamazov . mas não consegue jamais criar a sua visão redentora. é muito curioso. Não lutam pelos seus ideais. na ortodoxia oriental. Dostoievski é de uma perfeita imparcialidade artística. convertido no fim de Crime e castigo.Quando Dostoievski escrevia um romance. via primeiramente os problemas e depois as personagens. Quando se interroga o eslavófilo Schatov sobre as suas convicções. Acaba ou pela negação desoladora do Idiota ou pelas vagas promessas de Raskolnikov e dos Karamazov. o seu direito de viver entre as figuras mais fortes dos inimigos. os intérpretes do escritor."Eu. no povo russo. sucumbe. eu. muito tempo reinante. acima de tudo. mas os niilistas verdadeiramente idiotas. Parece que ele forma os seus "anticristos" . serão os vencedores. ele professa a fé no tzar. eu acreditarei também em Deus. Dostoievski não crê nos seus próprios ideais. .com grande simpatia. o texto corre mais ligeiro. defendem. às vezes. O aspecto dos seus manuscritos. a comparação permite estabelecer as preferências do poeta. Dostoievski é mestre em denunciar o mundo inimigo. Ele sabe que o mundo não é governado pelos anjos. Depois.. os verdadeiros russos. demônios. Aljoscha. escapam. e as margens são cheias de figuras.. conservam-se como sombras.. mas Dostoievski nunca escreveu as prometidas continuações desses romances.. ao terminar Os irmãos Karamazov. e os desenhos simbólicos se transformam em retratos imaginários. ou o é apenas pelo anjo vencido. e que estes constituem. e esta comparação prova aquilo que a interpretação dos textos deixava prever: as preferências do poeta são para os seus inimigos ideológicos. possivelmente. Isto explica o mal-entendido. um Aljoscha. anjos. um Kirillov."E Deus?" Ele começa a balbuciar: . muitos dos quais foram editados em fac simile. o "idiota" ideal. de que o próprio Dostoievski era revolucionário e ateu. representam a esperança do futuro. O príncipe Myschkin.. No começo ele emenda mais do que escreve. As outras personagens. . Raskolnikov. um Schatov.um Raskolnikov.

contra o hegelianismo anticristão dos protestantes liberais? Ambos combatem a idéia que não se realiza: Kierkegaard contra os pastores filosóficos que não seguem o Evangelho. em troca. Contra esses irmãos inimigos. mas não sabe sempre o que diz. A religião do Staretz. que criou. onde os apóstolos viviam num pretenso comunismo cristão. Irrita-se contra a revolução política. uma vez desencadeadas. Dostoievski contra os chefes esquerdistas que não cumprem suas promessas. Dostoievski levanta. a coletividade agrária dos camponeses russos. na qual reina o . a sua ética de humildade não fornece a razão de Estado no regime tzarista. qualquer leitor o sabe. a burguesia e o socialismo igualmente materialistas. Mas luta pela revolução social. Dostoievski sabe perfeitamente o que quer dizer. O negativismo do príncipe Myschkin em relação ao seu meio tem qualquer coisa de perigoso. tornariam inevitável a queda no abismo materialista. como o conservou a organização econômica de alguns grandes mosteiros russos. as causas sociais da miséria e da humilhação. no apêndice ao Discurso sobre Puchkin. e o continua o mir.Seria ele verdadeiramente um revolucionário? Com efeito. Ele desejava impedir a invasão do capitalismo na Rússia patriarcal. a utopia da Igreja-Estado. O seu sonho de uma humanidade espiritualizada é o de uma humanidade emancipada das forças econômicas que. de onde um novo comunismo nasce. um proletariado desarraigado. Raramente o romancista se esquece de indicar a "condição humana". Essas instituições primitivas têm um inimigo terrível: a nova burguesia dos "ocidentais". mas desta vez ateísta. não se assemelha em nada à doutrina da Igreja oficial. Kierkegaard transforma em utopia o Sermão da Montanha. Inútil acentuar o sentimento muitas vezes sádico de Dostoievski para explicar por ele todas as formas do sofrimento. Soeren Kierkegaard. Dostoievski predisse claramente esta catástrofe. Dostoievski erige em utopia a velha Igreja de Jerusalém. Já compararam a luta de Dostoievski contra o hegelianismo revolucionário dos socialistas com a luta deste outro revolucionário cristão. nos Karamazov. Em Os possessos.

Tiremos a fraseologia teológica: fica um bolchevismo um tanto idealizado. na qual os social-democratas e os burgueses estavam ligados contra o tzar. com todos os manuscritos. e utilizam as mesmas expressões de desprezo: "o operário de Londres. este protagonista da autocracia tzarista e da Igreja ortodoxa. dizem os bolchevistas. Essa "fraternidade" é russa e bolchevista ao mesmo tempo. Mas Dostoievski vê mais claro. e ele teria saudado a revolução verdadeiramente russa. de contato. mesmo genial. Mas Dostoievski teria sido partidário da revolução de 1917. todos a mesma coisa". até então inéditos. Não existe ainda movimento operário. Toda a sua vida este nacionalista falou do cristianismo verdadeiramente russo. Contra as forças feudais. mas de nenhuma significação real. não é senão um reflexo ideológico. que tivesse o ar de um Dostoievski? Como sempre. Eis a interpretação bolchevista. Essa ideologia é somente um véu sobre a condição social. a argumentação marxista encontra acertadamente o lado negativo e falta-lhe completamente o lado positivo. o liberal Stefan Verkhovenski é o pai do socialista Piotr e o preceptor do . restos educacionais e supersticiosos. Ao contrário. Dostoievski e Lenin. odeiam o individualismo europeu. Mas a revolução à qual os "ocidentais" o convidam é a revolução dos burgueses. os véus ideológicos lhe cairiam dos olhos. o burguês de Paris e o professor de Heidelberg. Então. Dostoievski é um pequenoburguês. Em Os possessos. com os ataques mais violentos ao socialismo e à revolução: não se deixam enganar pelas aparências. Essa fraseologia dostoievskiana. ambos imbuídos de "fraternidade eslava". É por isso que os bolchevistas nunca baniram este profeta cristão. Todos os ataques que ele dirige à revolução justificam-se em vista da revolução de 1905. os operários. em 1917. enfim. derrotaram o tzar e a burguesia ao mesmo tempo. não se escandalizaram nem mesmo com os seus artigos no jornal.comunismo da perfeita fraternidade cristã. em que somente eles. pelo menos para um socialista europeu? Mas houve alguma vez um pequeno-burguês europeu. ele aprova a revolução. Dostoievski alia-se às forças do passado para combater a invasão burguesa. Um ponto. Publicaram-lhe até uma edição monumental das Obras Completas.

Ao contrário. é apenas a propagação do egoísmo burguês entre os proletários. que alivia o homem das responsabilidades da sua existência metafísica? Quanto a um aspecto. mas superando o pessimismo pela aleluia da ressurreição. Creio. Vosso pretenso cristianismo . cujo fim não é a coletividade bolchevista. A censura é arquivelha. sem padres e sem sacramentos? Protestos.acusa a Igreja Romana de já não ser a Igreja de Deus. O liberalismo começou a libertar a humanidade da sua base religiosa. permanece odioso. mas unicamente a Igreja dos homens. um fetiche desprezível. ela foi mil vezes destruída e volta sempre. do burguês de Paris e do professor de Heidelberg. a Igreja Romana. de acordo com Berdiaev. mas a "comunhão dos santos". Nós também. ou não visou unicamente. na sua superficialidade. Mas o grande psicólogo desce até os mais profundos recantos da alma. absolutamente. Isto . e tem necessidade da conversão e da fraternidade cristã. As interpretações formam legião. porém.é a religião do Anticristo. Dostoievski é cristão. ele coloca o padre romano. Pois Dostoievski nos recusa o direito de nos chamarmos cristãos. herança do velho sectarismo eslavo de uma Igreja invisível. para seu filho. Que me conste. A primeira aproximação sugere quase um tratado de sociologia cristão. Campo de encontro. aproximando-se da teologia de Pascal e dos protestantes da "teologia dialética". de acordo com Simon Frank. e deve mesmo sentir-se orgulhosa desta polêmica. enfim? Não. onde o homem se torna consciente da sua dependência de Deus. só um apologista católico. Ao lado do operário de Londres. para Dostoievski. Para o pai Verkhovenski a Madona Sistina é um ideal estético.diz ele . Eis aí o assunto de O Grande Inquisidor. reconheceu o verdadeiro alcance da acusação. Dostoievski disse ele . Protestos contra toda a organização eclesiástica. A última aproximação fornece um tratado de antropologia cristã. católicos ou não-católicos.niilista Stavrogin. estão de acordo: Dostoievski não visou. O socialismo. contra toda idéia de uma elite dirigente.diz o . o cônego Paul Simon. quase todos os comentadores. que esta Igreja não tem que temer as polêmicas. O eu. cada vez mais violenta.

daí vem a eterna "possibilidade" de "humanizar-se". Mas lá. "as cinco chagas do corpo humano de Cristo não cessam de sangrar sobre o corpo da sua Igreja".continua . petrificado na letra morta da filologia .e eis a terrível justificação das censuras dostoievskianas . e é esse humanismo que a Rússia bárbara.que Dostoievski censura a Igreja romana. continuará humanista. e permitiu esta confusão terrível: certas questões e interrogações muito cristãs foram deixadas para o bolchevismo.se nisto não há verdade. alguma coisa de sobre-humano. Ela é. mesmo demasiadamente. profundamente humana. Porém. enquanto viver. eleva-se para o alto e abandona os homens. ela abandona o homem às misérias terrestres. razão por que. assim mesmo. É deste humanismo . e . A Europa . há muito tempo. cristã. até. Conseqüência gravíssima do fato de a Rússia não ter tido Renascença. Assim é. nunca ter conhecido a Antiguidade senão por intermédio da especulação gnóstica. é a Igreja de Deus e a Igreja dos homens. o humanismo descristianizado. é a nossa razão de viver. até ao risco de deixar de ser humana. temporal ou espiritual. nos espreita. cá e lá. A Igreja espiritualista. O abismo entre nós e ele está aberto. nos censura violentamente. tendo perdido as humanidades. a nossa civilização cristã. porém. nós nos encontraremos. Mas continuou. Mas. de ser cristã. deve haver uma eterna "possibilidade". Mas. todo o nosso mundo europeu. justamente por isso. A Rússia nunca foi humanista. esta Igreja é. A morte. Nós outros. mais ainda. precisamente lá. a nossa civilização. chegará ao fim. da qual Dostoievski se faz apologista. mais profundamente do que nunca. ao mesmo tempo. É uma questão de vida ou morte. no dizer de Rosmini. nesse cristianismo espiritualista à margem do abismo.cônego .ousemos o termo .a Europa deixou. O humanismo não é a nossa religião. Aqui. meio oriental. As "Humanidades" constituem a base da nossa civilização.deve ter uma causa profunda. a advogada da humanidade perante o trono de Deus. sim. A Igreja Romana não é espiritualista. espiritualista ou bolchevista. nunca deixaremos de sentir. deve ser a rocha da nossa condição humana.

A atitude imperiosa do rebelde restabelece o trono de Deus. e esse homem é cego. intermináveis auroras de luz. o destino da humanidade está-se decidindo. por um "humanismo cristão". o "clássico". O representante dessa humanidade é um homem solitário à margem do abismo. o cristianismo desumanizado. Mais claramente: esses perigos já não nos espreitam. por um esforço de síntese. Mas não sejamos intransigentes diante dessa face barbada. a luta dos poderes das trevas contra os poderes da luz recomeça. eles nos devoram. Em milhares de exemplares esse crime dum pintor famoso está divulgado no mundo. É exatamente o retrato de Milton que uma posteridade incompreensiva fez à sua própria imagem: é Milton. A CONSCIÊNCIA CRISTÃ DE MILTON PENSANDO em Milton. O que nos une é o Cristo. Cumpre recristianizar o mundo e a fé. Sempre é necessário saber aquilo que nos separa e aquilo que nos une. que lance uma ponte sobre o abismo. Cumpre recomeçar. disfarçado em costume histórico. Nuvens imensas conglobam-se em formações monstruosas: a luta da formação do mundo. No gabinete de trabalho de meu pai achava-se o quadro horroroso de Munkacsy. É o poeta da teogonia. retrato dum burguês de 1880. Para poder dignamente apreciar o tamanho de Milton. Lá. sulcada pelos sofrimentos. O cego Milton ditando o "Paraíso Perdido" às suas filhas. vejo o firmamento noturno sobre o sombrio mar do Norte. Esse cantor cego é Milton.171 "endless morn of light". .ou endurecido no disfarce de um neocatolicismo neopagão. Mas participa da luta cósmica nas profundezas da alma. A sua coragem de rebelde indomável vence as trevas e torna-se "Saintly shout and solemn jubilee". e "tout le reste est littérature". preciso afugentar uma lembrança feia.170 "victorious psalms". O que nos separa é muito e muito. Exorciza o bramido das ondas do mar desconhecido com a magia das ondas verbais do seu canto noturno. petrificado pelo dogma da Igreja sectária ou endurecido pela dissimulação do evangelho socialista.

Mas seria apenas um artista incomparável do verso se não tivesse aplicado o seu domínio da língua em evocar. as leituras de Platão ao pé da lareira. um clássico é um autor desconhecido.Que é um clássico? As definições imbecis abundam. é inesquecível a melancolia musical do Penseroso. mas também a alegria pensativa do poeta que o Allegro chama "sweetest Shakespeare. o drama universal: Criação. a escola. interpretações. Fancy's child". cottages bem inglesas. Milton seria imortal já com esses dois poemas: um artista autêntico. A grandeza dum poeta consiste em ver as coisas pela primeira vez. a admirável elegia Lycidas. ninfas bem inglesas brincam entre flores selvagens. a majestade divina e a grandeza demoníaca dos infernos. porque toda a gente os conhece. e um "clássico" insuportável volta a ser o grande poeta de outrora por uma leitura "pela primeira vez". Basta ler Milton "pela primeira vez" para saber-se que ele é. Em virtude dessa definição comercial. É inesquecível como. filho da Imaginação. sobre esse poema cai o doce poente do sol de Shakespeare. o mais encantador da língua. cantou-lhe o hino funeral. No Paraíso Perdido ressoam todas as vozes humanas e mais que humanas. e na hora da primeira leitura o clássico está já "conhecido" e incompreensível. o esplendor . da Merry Old England. Realmente. com a música mágica das suas palavras. conhecem-se os clássicos desde a infância. talvez o mais belo poema da língua inglesa. Maldição. Milton é a última voz da velha Inglaterra alegre. entre mil alusões mitológicas ao gosto renascentista. e as buzinas de caça do Allegro ressoam pelas "fresh woods and pastures". como se ninguém as tivesse visto antes. Comece-se com o pequeno poema L'Allegro and Il Penseroso.172 matas frescas e prados. Pecado. o ar estão cheios de citações. Acredito ser o termo uma invenção dos livreiros. para poderem vender livros que ninguém gosta de ler. a luta entre Deus e Satanás e a Redenção. o maior poeta da maior das literaturas. doce Shakespeare. Há frescura virgiliana nesse poema. A literatura. most melancholy".173 as suas noites sob o firmamento de Hécate. alusões. Ninguém conhece os clássicos. perturbando os pastores Corydon e Thyrsis em aldeias. "most musical. à parte o gênio universal de Shakespeare.

no fim dos tempos. a música ruidosa. e há nele.174 O Paradise Lost é o mais sublime poema da literatura universal. o perdão de Deus. para quem o drama teológico era um sofrimento pessoal. a mais viril da língua inglesa. Já têm sido notadas muitas vezes as simpatias secretas de Milton pelo seu Satanás. O poema não seria tão dramático e tão humano se Milton estivesse partidariamente ao lado do Todo-Poderoso. pelo mundo e pelos tempos. secretário literário do terrível Cromwell. a felicidade voluptuosa dos primeiros homens no Paraíso. rebelado contra todas as leis humanas e contra algumas leis divinas. até os últimos instantes. Voice and Verse". enfim. O próprio Milton é um rebelado perpétuo e impenitente. Não é esta a única heresia de que o puritano Milton se tornou culpado. mas pela mais íntima ânsia da consciência. o "undisturbed Song" das "sphere-born harmonious Sisters. Essa sublimidade não é o produto das magnificências da língua. A sublimidade do Paradise Lost reside justamente nesse elemento que parece contradizer a dignidade do assunto divino: na audácia quase temerária do poeta religioso. um rebelado que está certo do perdão final de Deus. Mas Milton sente com o anjo das trevas. e mais ainda contra o próprio . o velho herói cego entre os filistinos de Gaza. a quem a vitória final está assegurada.dos anjos de alto e de baixo. contra toda Igreja estabelecida. com o primeiro e o modelo de todos os rebelados. Milton professou o velho dogma dos heréticos origenistas. música haendeliana antes de Haendel. Como o seu Samson Agonistes. a Apokatástasis. nem do profundo sentimento religioso do poeta. Não é rebelado pelo apetite anarquista da destruição. Milton. Com efeito. segundo a qual o próprio Diabo receberá. Milton também sacudiu as colunas do templo. O fundo das suas violentas polêmicas é uma luta perpétua pela liberdade da consciência individual e contra qualquer poder que ouse sobrepor-se à consciência livre do homem. de mãos dadas. no caminhar solitário. Luta contra qualquer Igreja que se arrogue a orientação das consciências. e o lento passo dos expulsos do Éden. do papa ou do Estado. as ânsias da tentação e do arrependimento. nem sequer da grandeza sem igual do assunto. é mais rebelde ainda na sua prosa.

crente na luta eterna entre o Bem e o Mal. acredita ser Jesus Cristo uma criatura de Deus. era solitário como o seu Samson. aquele século dominado pela classe média dos Dissenters. nos aniversários. conforme o Velho Testamento. é culpado de morte. chega a recomendar a poligamia. o seu destino foi continuar entre os filistinos. lêem Milton às tardes de domingo. Na vida. A pena de Milton defendeu a execução do rei Carlos I." No tratado De doctrina christiana. e defendeu-a com a mesma ânsia profunda no trêmulo da voz. Como no poema. pacificamente. ao lado das coleções de sermões da Igreja Anglicana. Milton revela-se quase um maniqueu. que é eterna. depois de Dante. E como o Paradise Lost já o fez suspeitar. dos poetas cristãos não seria um cristão! Pergunta imperiosa: como foi possível a esse poeta haver-se tornado um "clássico"? Bem entendido. ele que defendeu nessa ocasião o seu próprio divórcio. "Após a encarnação de Deus em forma humana" . O maior. seja ele católico ou protestante. para um ortodoxo. e um rei que se arroga a soberania que cabe só a Deus. prisioneiro entre os filistinos de Gaza. um deicida. de 1662. Cheio é esse tratado de conceitos heréticos e não-conformistas. num panfleto em favor do divórcio: "Aquele que coloca o matrimônio ou qualquer outra instituição acima do homem ou da clara exigência da misericórdia. Mas já não são os puritanos . e que não ousaram publicar antes de 1823. como acusou a indissolubilidade do matrimônio. Rejeita o batismo das crianças. reprovada por todas as Igrejas.escreve ele. ariano. Como é isso possível? Milton não foi sempre um clássico. deixam-no empoeirar-se nas estantes. mas da matéria. um regicida e. era um excomungado. Ensina a doutrina da graça dos arminianos. Milton é sociniano. na Defensio pro populo Anglicano "nenhum homem tem mais um direito divino. Na época alegre da Restauração. os descendentes dos velhos puritanos.Estado. Só o século XVIII o colocou no trono da poesia inglesa. Milton não crê na divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. não é senão um fariseu. um clássico da família inglesa: fazem presente dos livros de Milton às crianças." E no mesmo tom. não do Nada. Ensina ter sido criado o mundo.

Milton é poeta da Renascença. Os historiadores do século XIX. muito relacionado com o movimento metodista de Wesley. surgem objeções de ordem literária e crítica contra essa falsa aparência. Parece que Milton ressuscitou as velhas heresias gnósticas. igualmente distante da descrença atrevida dos aristocratas e da credulidade ingênua dos camponeses. É um puritanismo razoável. e o protestantismo um precursor do deísmo. ele antecipa o conceito de "espaço" newtoniano. que não é senão um Deus sem poder. os conceitos da física de Galilei. A sua influência literária começa tarde. em todo o pré-romantismo e romantismo ingleses. Antes de tudo. amolecido. do liberalismo religioso e político e da democracia. Em virtude desse destino literário póstumo. Wordsworth. com efeito.de Cromwell. era um conhecedor de física e astronomia. só para minar a ortodoxa fé cristã. que o conhecem sem o ter lido. que vai de Bacon e Galilei até os Enciclopedistas e à Revolução Francesa. não compreendiam também essa religiosidade protestante. Milton pertence à grande corrente européia da Aufklärung ou Enlightenment. Poeta indiscutido das classes médias bem-pensantes. que não compreendiam o "clássico" Milton. Para eles a Reforma era uma revolução contra a Idade Média. Coleridge. como o romantismo alemão está relacionado com a voga do "segundo pietismo". mas os seus versos classicistas escondem um conteúdo sentimental e. onde um Occam e um William de Heytesbury ensinavam. Não se esqueça o forte sentimento religioso no romantismo inglês. em Blake. um pouco racionalista. tranqüilizado. Milton parece o primeiro grande poeta da meio descrente e muito liberal burguesia. já no século XIV. por vezes. Esse puritanismo desinfetado chegou a desinfetar Milton. Milton. romântico. Milton é um pré-romântico. Desde os grandes estudos de Ernst . Um estudo de Carl Haemmerle mostrou as relações de Milton com a velha escola nominalista de Oxford. é visível na angústia religiosa de Cowper. como as rebeliões políticas de Milton parecem preparar ideologicamente as revoluções européias e americanas. Com efeito. Um clássico. no século XVIII. Milton tornou-se poeta dum cristianismo bem moderado.

E essa guerra espiritual encontrou a expressão máxima na alma do cego. Abstraindo das conseqüências não intencionais. como daquele grande tcheco Amos Comenius. de que ele fora combatente: na alma de Milton. e profundamente medieval. A sua luta pela liberdade da consciência é uma luta em prol da consciência cristã. Milton é o poeta desse protestantismo. que acompanham a grande revolução religiosa. Milton teve conhecimentos da Cabala judia que o erudito rabino Manasse ben Israel introduzira na Inglaterra. influíram nas idéias de Milton a respeito do maniqueísmo e da criação do mundo. e que tinha no sangue a rebelião ingênua do camponês Petr Chelcicky e as . A alma cristã torna-se cena duma cosmogonia espiritual. mas para reconstrui-lo como Igreja invisível nas almas. pode-se definir: esses puritanos não destruíram a Igreja para abolir o cristianismo. Os mesmos platônicos de Cambridge estudavam assiduamente o filósofo místico alemão Jacob Boehme. O seu gênio poético foi fantástico. Não sabemos se Milton leu Boehme. para quem o mundo exterior morrera. platônico de Cambridge. o Zohar. e que observou com os olhos do espírito a luta cósmica. mas sim religiosa. era na época em que o filósofo Henry More. traduzira o livro fundamental da Cabala. um pouco oriental. que os estudos miltonianos de Denis Saurat esclarecem. o cristianismo de Milton adquiriu um aspecto fantástico. aproximando-o dos sectários fantásticos. Daí a sua suscetibilidade às influências estranhas. que se refugiou. o "fundo profundo". Não está sob o signo do progresso. mas sob o signo da Cruz. para continuar no terreno da consciência religiosa. que Milton também professou. e os boehmeanos ingleses Lee e Pordage tiraram do seu mestre o dogma da Apokastástasis. na Inglaterra. em 1641. Mas as especulações místicas do sábio sapateiro silesiano sobre o Urgrund. A grande luta entre Deus e Satanás está afastada do terreno da política eclesiástica. duma psicomaquia e duma teogonia. que o aproxima dos cristianismos heréticos dos eslavos.Troeltsch o sabemos melhor: o velho protestantismo foi uma revolução não filosófica nem política. Tingido com essas influências. filósofo também da preferência de Newton. Milton é o maior poeta dessa cosmologia mística.

Está vivo em certas passagens do Rei Lear. É o aspecto mais curioso e menos conhecido da alma inglesa. de todas as misérias do mundo. de Saurat e dos outros não esclarecem por que Milton sentiu a atração desses mistérios longínquos. A mística cosmológica acha-se já na literatura dos anglo-saxões. com o espírito de ingênuas especulações cosmológicas e com o espírito da rebeldia indomável contra Deus e o Diabo. no Casamento do Céu e do Inferno e nos outros livros "proféticos" de William Blake. de Tolstoi. Isto não foi nunca inteiramente esquecido. Powys. no Caim. Esse espírito está vivo. no poder mágico de personificar os elementos e as forças da Natureza. de Milton. Mas as suas afinidades com misticismos estranhos têm raízes muito profundas. no romance The Only Penitent. Powys. Na aparência. e mais velhas do que o próprio cristianismo. o poema anglo-saxônico Queda dos anjos. mediante o seu erudito amigo Junius. começando nos tempos primitivos da ilha. em que desperta o mito primitivo da paisagem inglesa. de T. do seu irmão John C. em que Deus se acusa. Parece mesmo que Milton conheceu. no qual se abrem fontes esquecidas da alma inglesa. . Ora. em que o assunto bíblico é tratado com o espírito bárbaro dos velhos germanos. enfim. F. e. rebelde. mais mística. contudo. o homem de Cambridge. de Byron. Os estudos de Haemmerle.velhas heresias maniquéias dos Bogomilos. não se extinguiu até hoje. no confessionário. um inglês classicamente educado. no Glastonbury Romance. assemelha-se ao cristianismo racionalista. a precursora da literatura inglesa. em certas expressões de Thomas Hardy ("The President of the Immortals had ended his sport with Tess"). A mística cosmológica de Milton é o cume duma velhíssima tradição inglesa que. Milton distinguiu-se dessas confusões de espíritos anárquicos pelo gosto artístico da Renascença e pelo sentido de ordem bem inglês. através de todos os séculos da literatura inglesa. Milton permanece.175 até os nossos dias. o cristianismo herético. mais velhas do que o humanismo clássico. Mas a heresia de Milton é menos racionalista. é inglesa. rebelde. Milton é um inglês cristão e humanista.

É verdade que Milton era voluptuoso. Milton confirma as palavras do seu irmão no espírito. A nenhum poeta da literatura universal cabe a palavra "sublime" como a Milton. É um erro que será vingado. Passou a moda de desvalorizar a consciência. não me convenceu. 1936).Assim também Milton está nessa estranha tradição inglesa. violento. Após o livro fundamental do psicólogo católico Roland Dalbiez (La Méthode psychanalytique et la doctrine freudienne. um dia. grandeza de alma monumental. Cumpre insistir na realidade cruel dessas tragédias da consciência. é próprio duma personalidade superior. e o melhor antídoto parece aquela mal afamada psicanálise. Atualmente. como o afamado egoísmo de Goethe." Milton era duma grandeza demoníaca. o cantor cego da luta entre a noite e a luz. Na obra e na vida. O que o distingue de todos os seus precursores e pósteros é a sublimidade. A arte de Milton é uma união única de beleza clássica e de profundeza germânica. como dos heróis da Antiguidade. psicofisiológicas e psicopatológicas. A luta cósmica que ele suportou é uma tragédia antiga. reduzindo-a a meros "movimentos psicológicos". de "Strength and Wisdom". já não há subterfúgios para . É verdade que Milton odiava mais a opressão do que amava os oprimidos: fraqueza do grande rebelde. William Blake: "Não há grandes obras sem a colaboração do Demônio. O egoísmo de Milton. desenrolada na consciência cristã. suspeito que a própria consciência já não é tida como realidade. nos quais revelou as fraquezas morais de Milton. reduzindo-a a realidades inferiores. Passou a moda de desvalorizar a consciência. agitada pela violenta ânsia religiosa duma natureza pascaliana. mas a ressurreição vitoriosa do grande homem. Pode-se definir essa sublimidade como a união da beleza estética e da beleza moral. sacudida pelas dúvidas e tormentos dum protestante nato. fantástico: fraquezas do grande poeta.176 como ele diz no Samson Agonistes. A mesma união aparece na personalidade moral de Milton. Conheço bem os estudos do sueco Liljegren. Essas máculas são o fim definitivo do "clássico" indiscutido. Desclée De Bouwer. a alma dum antigo estóico. Samson Agonistes teve a "soul of an ancient stoic".

mesmo contra a força da Igreja. possuído e defendido por todos os diabos. numa superposição já não precisamente explicável. a solidão desamparada do homem no universo. e há-os ainda hoje. por isso. Contra esse pesadelo precisa-se defender o papel da heresia na "economia" superior do mundo cristão. 13 X. e de conclusões doidas. II. que vê por dentro do coração. 38): "A Igreja julga conforme as aparências exteriores. tít. e as palavras esclarecedoras de Santo Tomás de Aquino (Sent. o castelo dos diabos. díst.afastar a psicanálise como sendo obra do Diabo. 13): "O que se faz contra a consciência edifica para o inferno. como "via regia" para os abismos da alma. A psicanálise extrai desses abismos a lição terrível e fértil de que as forças profundas da alma são realidades. liv. ela continua como método. recebendo daí a sublimidade que distingue o poeta Milton. Visto daí. Ao espírito fantástico de Léon Bloy apareceu a Inglaterra. com Deus. como o "château de l'hérésie". Milton já não é o rebelde herético e impenitente. Eis por que se precisa de heresias: "oportet haereses esse". precisa-se seguir a consciência. com os terrores do esquecido mito germânico e com as ânsias da alma cristã. Liberta de premissas cientificistas.. mas a consciência está obrigada à sentença de Deus. papel definido num cânone do papa Inocêncio III (c.177 Eis por que a Inglaterra não é." Sabemos que houve tais conflitos gravíssimos de consciência. mas o castelo da liberdade da consciência. a ilha no mar sombrio. significa o horror supremo. futuristas. como ontem. o poeta da liberdade inglesa. Esse descendente de valentões bárbaros e de orantes humildes não vê outra solução para a tragédia senão a resolução livre da consciência livre. anacrônicas. cujo choque com as realidades superiores da alma constitui a tragédia da consciência. e o seu maior prosador também. Para muitos essa liberdade de consciência é o germe de todas as heresias. precisa-se desobedecer ao juiz e preferir a excomunhão". . mas o advogado intrépido da maior lição que o cristianismo nos ensinou: do valor único de cada alma humana. IV. Para Milton. para nós outros. e a mais terrível delas. Por isso é o mais inglês de todos os poetas ingleses. esses choques vitais e mortais identificamse.

como se os tivéssemos conhecido sempre: como amigos. la raison d'État. se encontra com o católico muito independente Péguy: "Tout l'appareil des puissances. homens que nos acompanham a vida inteira. les puissances politiques. na confissão mais desenfreada entremete-se qualquer consideração ao leitor ou à posteridade. qualquer artifício literário."quem toca neste livro toca num homem. intellectuelles. o protestante herético. a vaidade exibicionista olha. ne pèsent pas une once devant un mouvement de la conscience propre. estamos solitários em face do mar desconhecido dos nossos destinos. o próprio Montaigne. agir contra a consciência. no grito mais espontâneo. É uma lição que nos convém. não há consolação mais cristã do que a palavra de Milton: "Há só uma reprovação definitiva e um pecado imperdoável: o maior dos horrores. em que Milton.valor que se revela na dignidade indelével da consciência livre. comprados. les autorités de tout ordre. já não seriam obras da grande literatura. sobre seus poemas ." Como Milton. Que o Deus dos cristãos nos dê a impavidez estóica da consciência livre."178 TRÊS LIVROS INGLESES "CAMARADA!" . Purificados de todos os resíduos de artifício literário. o mais ingênuo de todos. Portanto. les puissances temporelles. seriam um pouco menos. Escrevem-se livros para serem impressos. Ainda as Confissões de Santo Agostinho são um plaidoyer perante Deus e os homens. lidos.escreveu Walt Whitman. são três livros para toda a vida. não resiste ao prazer de expor as suas fraquezas amáveis e os seus conhecimentos de latim. mentales même. pelos rasgões que o desespero fez na capa filosófica de Rousseau. homens que respondem sem nunca mentir. ." Livros tais são raros. espelhos de humanidade completa. na descrição mais objetiva. e as nuvens conglobam-se em monstros horrorosos. mas também um pouco mais: deixariam de ser livros eternos para se tornarem camaradas eternos. Numa época de consciências adormecidas.

a biografia do Most Rev. cheios de tudo o que é grande. o fim da tempestade.179 a quem a liturgia inglesa deve umas rezas muito suaves. formas definitivas da maneira inglesa de ser um homem. estupendo. de James Boswell. demasiado humano". fastidioso. Aos domingos ouvia. indestrutível como esses três livros indestrutíveis. livros alivrescos. Nos dias úteis entregava-se inteiramente ao pequeno comércio. enciclopédicos. pois Izaak Walton estava lealmente ao lado do Rei e da Igreja. como esses três livros completos. Samuel Johnson. Clérigos da Igreja Anglicana eram os seus melhores amigos. nobre. As tormentas da revolução e da ditadura cromwelliana expulsaram-no por muito tempo para os campos. o Diário. com resignação humilde e serena. para pescar a linha. sem pretensões literárias. Dr. Paul. é o segredo da grandeza do povo inglês. sem arte. e nas horas de ócio da velhice escreveu as biografias de alguns deles: a biografia do Rev. Acredito sejam impossíveis tais livros fora da literatura inglesa.Livros tais são raros. e A vida do Dr. e depois fazia excursões pelos campos. de quem Walton era paroquiano e a quem venerava como a um santo. o sermão do decano Rev. e desaprovou o orgulho dos sectários. São O perfeito pescador a linha. Foram escritos por homens fora da profissão literária. cônego de Salisbúria. sem forma. de Izaak Walton. bem diferenciada do humanismo. de Samuel Pepys. George Herbert. na Fleet Street. bispo de Lichfield. sem ter a mínima idéia da grandeza demoníaca e celeste do poeta. Dr. a biografia do Rev. que fazia os sermões mais pacíficos e conciliadores para todos os bons . sem conclusões. Não existem em nenhuma outra literatura livros desta espécie. na catedral de St. Dr. Dr. desprezível. grosseiro e sublime na natureza humana. onde esperou. Robert Sanderson. do "Humano. Izaak Walton era um modesto mercador de ferragens. John Donne. ridículo. A profunda humanidade. que é a expressão mais espontânea e mais completa da existência humana. Conheço só três. em Londres. e todos os três são livros ingleses. livros humanos. nos bons velhos tempos dos reis Stuarts. A pesca a linha era a única paixão da sua existência burguesa. John Donne.

íntimo como uma conversação entre amigos.burgueses. e que glorificam os benefícios e os milagres de Deus na natureza. Izaak Walton tivera a boa sorte . e não quis que exemplos tão frutíferos se perdessem com a morte deles. inclusive os mercadores de ferragens. esse tratado "trágico-cômico-histórico-pastoral".diz: "a pescaria a linha assemelha-se à poesia. não acha necessários nem santos nem heróis. para descer." Izaak Walton tem um grande conceito de sua poesia. que o julgaram digno de sua amizade. Só escreveu as vidas destes homens superiores. eruditos e serenamente gordos. porque há neles os peixes. men are to be born so" . Com efeito. e sabe que o é: "Angling is like poetry. rodeados de filhos e de netos.tudo na sua vida era boa sorte . nesses livros. amigos. sui generis. The compleat angler. Acredita que a pescaria a linha ensina todas as virtudes dum gentleman inglês. Eis por que tais ministros de Deus.por mais admiráveis que fossem . onde vivem em casamentos harmoniosos. que sabem estimar as vantagens duma boa biblioteca e duma boa cozinha. Izaak Walton estava como em sua casa: amava os prados e os ribeiros. e um pouco lírico. que eram a paixão calma da sua vida. é um livro único. se tornaram. Jamais teria pensado em escrever biografias de homens . nas tardes de domingo. Essas biografias não têm ambições literárias. Um tratado didático de especialista na matéria.de observar de perto a conduta edificante destes veneráveis homens de Deus e da Igreja. pela paisagem inglesa. para nós também. com seus prados e ribeiros. esses tipos bem ingleses de bispos e cônegos devotos. à pequena cidade. que celebram os ofícios em poderosas catedrais medievais. como num jardim bem plantado. humorístico como velhas anedotas. amigos paternais. esses prelados pios e sossegados. depois. mas .que não houvesse conhecido pessoalmente. como diria o velho Polonius. é preciso ter nascido para isso. pois esse pescador a linha nato é um poeta nato. solene como um sermão anglicano. passeando. O seu manual do perfeito pescador a linha. Neste jardim. e acima de tudo os ribeiros. "God almighty first planted a garden. esse tratado de pescaria está misturado de lindos versos. de sua arte de pescar. perdão." O próprio Deus Todo-Poderoso plantou primeiramente um jardim.

ficaram inéditas.180 Todas essas notas foram feitas à luz privada da lâmpada noturna. em 1825. espontânea. um hino a Deus. e debaixo vem logo o caráter. até hoje. o honesto e o menos honroso. Cada noite. Ele só escreve para si mesmo. se deitará. porém. Quando estava a morrer. rotunda. Na época alegre dos Stuarts restaurados foi secretário de Estado da Marinha Real e presidente da Royal Society. A sua sinceridade no escrever esse diário era tão desacanhada. morreu com um sorriso nos lábios. porque o seu livro não pertence à literatura.só homens honestos. A vida do right honorable Samuel Pepys é uma vida de pompa e dignidade. toda a sua vida fora uma lembrança feliz. certas páginas. De noite. então toda a vida seria o que era realmente para Izaak Walton: "a holiday in plein air". bons camaradas. despida dos atributos de sua dignidade. e a peruca do Lorde do Almirantado encobre "certains accommodements avec le ciel". A sua poesia e a sua pescaria a linha era um salmo. que lhe tomou por empréstimo 10. não no sentido da consistência moral. um dia santo ao ar livre. esperando as alegrias celestes da pescaria a linha no outro mundo. sem as restituir jamais. Eis por que Walton seria feliz se todos os homens se quisessem fazer bons pescadores a linha. Samuel Pepys era um caráter. Samuel Pepys se despia da peruca e anotava no seu diário tudo o que o dia trouxera. onde a importante figura do secretário da Marinha. com suficiente temor de Deus e uma boa digestão. a gente só veste a camisa de dormir. como ele mesmo é um excelente camarada e o seu livro um camarada para a vida. mas no sentido de uma natureza humana completa. o sublime e o ridículo. o importante e o mesquinho. e foi sepultado na Abadia de Westminster. um "abridgment of all that was pleasant and unpleasant . Não pensa em abrandar a sua vida. diante da cama aberta. que os descobridores do Diary. em idealizar a sua conduta.000 libras esterlinas. Samuel Pepys vestia uma grande peruca e era um grande senhor. Pepys é o mais sincero confessor de todas as literaturas. pois o presidente da Royal Society é um right honorable "ex officio". O rei Carlos II honrava-o com tal confiança. se espantaram. o interessante e o fastidioso. que fariam corar o próprio autor da Lady Chatterley.

preguiçoso e ambicioso. Começa o dia escutando um sermão ("Dormi todo o tempo na igreja"). No seu Diary vive a Londres dos lordes. as leituras ("Prefiro as ciências a tudo") e as discórdias com a sua mulher ("Ela fica zangada quando volto tarde da noite"). em libras esterlinas e em substância humana. e não sabia que nos legava. pregadores sectários. ele anota uma representação de Otelo ("peça bem medíocre") e o primeiro chocolate vendido em Londres ("bebida excelente"). mas na última hora não legou deixas a ninguém. Com tudo isso. medíocre e estimável. curioso e ignorante. esse livro inesgotável. capaz. políticos dos cafés." Pois Samuel Pepys gostava de dinheiro e disse: "É melhor viver como homem rico do que morrer como homem rico. íntegro. seja louvado. a que Stevenson chamou "a bible of human being". criador da Terra e dos Céus. Estava presente quando o rei Carlos II foi coroado. Sem a mínima preocupação de ordem ou da hierarquia das coisas. egoísta e bondoso. meretrizes das tavernas. gosta da música. um jantar com o rei ("Sua Majestade disse-me coisas muito amáveis") e uma tarde com Doll Lane na Belle Taverne ("Fiz com ela o que desejei." Era um homem rico. quando Londres foi consumida pelo fogo e devastada pela peste. uma bíblia da . dos holandeses e judeus da Bolsa.900 libras esterlinas. piratas. é um homem culto. e tive muito prazer"). ao mesmo tempo. Pepys sabe muito. e não se esquece de anotar que terminou o dia comendo um melão moscatel. e diz tudo e muito mais. dos aventureiros. prático. conhece até a emoção religiosa. a sua verdadeira fortuna.in man". pródigo e cobiçoso. uma reunião do conselho dos ministros ("Esse burro do Lorde Presidente não sabe latim") e uma briga com os seus criados ("cabeças de ferro que resistem às pancadas"). dos comerciantes e operários do porto. a nós outros. Samuel Pepys não se perturba: a sua região mais própria. para que o grande Deus. sobretudo quando está liquidando as contas: "Achei um saldo de 1. comuns e bispos. mestres de dança franceses e inválidos reformados: e no centro desse mundo está o right honorable Samuel Pepys com o seu diário. um compêndio de tudo o que é agradável e desagradável no homem: era. e de substância mais duradoura do que os reinos e os impérios é a vida cotidiana.

após uma vida de pobreza. As suas Vidas dos poetas ingleses." Dr. a quem desdenhava intimamente. o ator Garrick. Enorme. Até hoje. puro. simpatizava com todas as autoridades estabelecidas. Mas parece que essa apreciação proveio menos da admiração do que do medo. e terror dos amigos. Samuel Johnson. o livro dos livros. Era o tipo de literato estéril. Ditador nato. cheios de pedantismo moralizante. os livros eram os seus amigos e inimigos íntimos. com esse ditador. Samuel Johnson era muito grosseiro. que constitui a delícia dos professores. mais interessante. e mais verdadeiro. Autoridade literária. Samuel Johnson foi o papa literário do século XVIII. o poeta Goldsmith. útil na época. Na realidade. tornou-se logo obsoleta. o parlamentar Fox tinham-no por um gênio da conversação. uma conversação: não . e o cume da sua vida era o grande Dicionário da língua inglesa. Alvo da mofa dos inimigos. stranger than fiction. Filho dum livreiro. assim. continuam a ser o horror dos colegiais. empreendeu ditar aos seus confrades as leis que deveriam seguir na arte de escrever.e havia entre eles homens como o historiador Gibbon. Os seus versos secos e abstratos não chegaram a realizar poeticamente a sincera emoção religiosa e as lástimas duma vida incompreendida e malograda. É a sua única herança. Os seus sócios do tempo e do clube . a sua crítica literária. Com efeito. são ilegíveis. mais cheio de vida do que todos os romances realistas e naturalistas. harmonioso.existência humana. e estão esquecidos. elogiava sempre o rei. de boêmia e de esperanças malogradas. não era possível. os seus ensaios. e. Ditou até à língua. Após ter fracassado na arte ligeira de versos satíricos e na arte severa da tragédia. nunca se citam os seus ditos espirituosos e às vezes profundos sem respeitosamente se acrescentar ao nome o título de que ele se orgulhava: Doutor Samuel Johnson. o pintor Reynolds. nasceu e viveu na miséria e na sujeira. um dicionário. escritas no estilo clássico. e os bispos. conseguiu vingar-se da posteridade. de cujas crenças desconfiava. tendia a reforçar o peso das suas opiniões com o peso do seu corpo. como era. Porque a verdade é sempre mais estranha do que a ficção: "Truth is always strange. cresceu entre livros.

James Boswell não tinha personalidade própria.tolerava perguntas nem respostas. tinha um cão. Esse cão chama-se James Boswell e escreveu A vida do Doutor Samuel Johnson.e: "Achei uma argumentação para você. Sir". James Boswell não era dotado do mínimo talento literário. Não era e não queria ser senão a voz do seu mestre. sentia a obrigação de fazer a posteridade participar de tamanha felicidade. "Orthodoxy. "Questionar não é um modo de conversação entre gentlemen" ." E isto era irrefutável. o grande homem com .disse . Tal homem não podia ter um verdadeiro amigo." Quando começava uma réplica com um dos seus famosos "Yes. como um sacerdote das oferendas. não estou obrigado a achar para você uma compreensão. is my doxy. Vemos. Sir. os pequenos vícios e as sujeiras do seu ídolo. que não cuidava de amenizar nada: com uma sinceridade quase sacrílega anotava as estupidezes. e porque gozava da prerrogativa de viver perto do ídolo e de nutrir-se dele espiritualmente. e de registrar a vida e os ditos do mestre com a precisão dum diário de experiências místicas ou dum guarda-livros. "his master's voice". Cheio duma reverência idolátrica. Em troca. o talento imitativo dum Garrick. Boswell votava a Johnson um respeito tão desmedido. Com a fidelidade comovente dum idiota consumado colheu tudo quanto caiu dos lábios do oráculo: aforismos mordazes. nobreza e imortalidade de tudo o que dizia respeito a Johnson. Um companheiro humilde. Sir". heterodoxia é a doxia de qualquer outro.não era mesmo capaz disso. que não ousava acrescentar às do mestre nenhuma palavra própria . ou "No. infatigável. a cordialidade dum Goldsmith. sabia-se que logo viria um dogma infalível. admirador. a eloqüência dum Fox e as cores dum Reynolds. acreditava ser de primeira importância tudo o que se relacionava com Johnson. mas a espontaneidade da sua escritura supriu-lhe a compreensão dum Gibbon. Triunfou pela grosseria. e a sua exatidão torna-se diplomática." "Ortodoxia é a minha própria doxia. Estava tão convencido da sublimidade. devoto. chistes sarcásticos e asneiras indignas. O dia em que conheceu pessoalmente o mestre foi decisivo para sua vida. heterodoxy is another man's doxy. em seu livro.

Começamos a imitar. ridícula e imortal. porém. Sir". Izaak Walton. sabe-se de segredo mais precioso para estes tempos. mesquinha. Samuel Pepys. E o tempo implacável não poupou esses livros. porque nunca viveram. são as suas atitudes humanas." Há. está garantida uma vida eterna. Com a eloqüência ridícula de um mestre-escola irascível. não são os homens que se tornaram imortais. a peruca empoada. o ventre enorme cheio de bifes e de muitos litros de chá que engoliu e embebeu até suar. involuntariamente. um segredo bem inglês: o segredo de guardar. Cada um o seu próprio Boswell. Sir" e "No. soprar. Ninguém percebeu. um gemido cheio de luto duma vida incompreendida e malograda. Ele fita-nos com o seu olhar irritado por cima dos óculos. é o nosso lema: "Everymen his own Boswell. um relâmpago de gênio. Transformou-se em personagem mítico. e às vezes cai do seu bafejar. perdeu-se esse segredo delicioso? A atitude de Samuel Pepys contém o segredo de guardar. há muito tempo. a sua vida grosseira. devorado pelos vermes. com o seu "Yes. aos quais. no meio das tempestades. Mas ele continua a sua vida no livro de James Boswell.o casaco manchado. lança-nos as suas frases retóricas sobre as coisas mais insignificantes. homens de profissão literária. Ouvimo-lo roncar até meio-dia e disputar até meia-noite. para. Izaak Walton. Não pode morrer. Samuel Johnson . solene. Quando morreu. um equilíbrio perfeito. nesses três segredos. todos respiraram. já não precisamos dos Boswell. mas quando esse monumento literário tinha desaparecido. Samuel Pepys. grasnar. percebeu-se que o velho Johnson está bem vivo. o mais profundo humano. o seu tremor nervoso de mãos e pés. uma palavra. Acreditavamno definitivamente sepultado sob a sua pedra em Westminster e a montanha dos volumes do seu dicionário. no mais profundo "demasiado humano". Samuel Johnson: três imortais. A literatura e a glória de Samuel Johnson foram-se. No fundo. quase um dever de saúde mental? Mas a atitude de Samuel Johnson está integralmente conservada. Para precisar melhor. como Hamlet ou Dom Quixote. sobretudo por nós outros. A atitude de Izaak Walton contém o segredo de viver em felicidade. esmagar-nos.

aristocrata polonês que esqueceu a língua materna. doidos completos. eles representam o lado "demasiado humano" e o lado humano de tudo o que há. aposentar-se. de queixas e de censuras . um inglês. se não tivesse deixado a obra de Joseph Conrad.". estudante da Universidade de Cracóvia. enfim. filho das estepes ucranianas. Às vezes. o individualismo da liberdade civil. para. o equilíbrio. disse a Goethe: "Não se pode afirmar que esses ingleses sejam mais inteligentes. com a família. Um aventureiro? Oh. e teria desaparecido para sempre. ao "appel de l'inconnu":181 aprende a navegação em navios de contrabando do Mediterrâneo. que era o mais fascinante dos romancistas ingleses. em modesta casa de campo nos midlands. ele resolve tornar-se um marinheiro. nos descuidos e nos ridículos. entre o humano e o desumano. Mas isso ainda pesa na balança da natureza. e será tudo isso.e bons serviços . Como eles são. e que venceu.sobre os sete mares. Será capitão diplomado da marinha mercante inglesa. Um polaco. O que vale é que eles têm a coragem de ser como a natureza os fez. e Samuel Johnson.devem a imortalidade à arte estupenda e bem inglesa de guardar. não! Sucessivamente. Samuel Pepys. repentinamente. ou que tenham mais coração do que outros homens. como o mais inglês dos ingleses. obedeceu. mais cultos. concedo. Mas a que preço! A sua correspondência é cheia de lamentos. e o grande sábio respondeu: "Mas isso não tem importância. a autoridade da literatura inglesa. o talento de bem instalar-se na terra. de sublime e grande: Izaak Walton. em 1924. É um "professor de energia". neles. perdida a saúde. Eles têm a consciência da sua liberdade e da importância universal do nome inglês. prestará serviços . Eckermann. Então Joseph Conrad Korzeniowski. arrisca-se em pequenos veleiros no Pacífico." O MISTÉRIO DE JOSEPH CONRAD É UM CASO único na literatura universal. um escritor. O nascimento aristocrático ou as riquezas também não dizem nada. aquele Boswell alemão. são sempre homens completos. viverá. Até nas ingenuidades.

mas não foi jamais além da direção de pequenos navios. inglês. e os torna alucinantes. por uma mulher malaia. Conrad julga-se. "Romances do mar"! Mas é esquisito o mar de Conrad. em direções desconhecidas. e convirá também ao famoso Lord Jim. em O pária das ilhas . Romancista. não conseguira esquecer nunca certas nostalgias da pátria polonesa. Marinheiro. romance em que Conrad penetra implacavelmente o exotismo perigoso dos russos. um problema de crítica literária. sobre este mar implacável que . O mar não existe. como em Sob os olhos do Oeste. epopéia de uma fantasmagórica república da América Central. aquilo que desejei. Por que desejava ele fazer-se marinheiro. O mar não está presente em todos os seus romances.diz ele sobre o herói do seu romance Typhoon "porque ele se evadira para confiar-se ao mar. escritor? É o nosso problema este mistério. em Bornéu. história da decadência de um fraco sonhador sob o céu tropical. mas existe sempre.é uma divisa para toda a obra de Conrad. "Era incompreensível" . ele não consegue senão elogios medíocres. o ar salgado. um neurastênico.e este título The Outcast of the Islands . um vencido. a submeter-se a correções gramaticais humilhantes. até o fim. Joseph Conrad foi um vencido. misterioso. romance de um aventureiro que se perdeu. para fins misteriosos. senão no fundo. André Gide aprende inglês expressamente para ler os textos de Conrad. vagamente. mais nos penetramos do mistério que era o seu e que parece ser o nosso também. que é forçado. onde estamos em pleno mundo mágico de Conrad. O mar está ausente em Nostromo. sonhou grandes navegações.ao destino. na vida. que se revelará como problema humano. O mar é apenas uma lembrança na Loucura de Almayer. Inglês. nem sequer dominar perfeitamente a sua língua adotiva. carregados de fretes duvidosos." Existe um mistério em torno dessa derrota. no fundo deles. errantes sobre os mares do Sul. O retrato feito por Frank Brangwyn mostra um esgotado. por ter escrito os melhores romances marítimos para a juventude inglesa! Numa das suas últimas cartas confessa: "Nunca obtive." É este o mistério que invade os seus romances. e quanto mais nos aproximamos do elemento. a si próprio.

Tragédia do Typhoon. o navio na tranqüilidade enganadora do oceano das Índias. O cume desta técnica complicada é The Chance. povoados de párias. falências. linha terrível que torna insensata a vida. os quais. guerras. depois. de um Deus que nos faz viver em tantos horrores. e não saberíamos o fim se não fosse uma carta que o autor recebeu. sulcados por navios fantasmas. que conhece apenas superficialmente o destino de Flora e do capitão Anthony. mas este "eu". o desfecho. Charles Powell. fundaram um lar sobre um navio maldito que cruza os mares sem destino certo. alternam-se dois narradores que não conhecem. É preciso surpreendê-lo. de André Gide. ele enche as suas páginas semeando o pavor de uma criação malograda. Algumas vezes o encadeamento fica obscuro. Mas como desvendar o mistério desse "poeta mudo". decepções. Não se poderia penetrar neste passado misterioso sem o socorro de . silencioso. até ao desespero. dos quais ele conhece apenas uma parte. casto. mas de tragédias. e que não se pode transpor senão ao preço de todas as ilusões de felicidade. doenças.arruina um pária da civilização. O mistério deste mar é o mistério do mundo e da humanidade. É o horror. o modelo declarado dos Faux-Monnayeurs. e que completa as suas lembranças. fracassos de toda ordem. e quem sabe se se chegará. Alguém relata os acontecimentos. depois de crimes desconhecidos. Conrad prefere a narração indireta. que agita a pobre alma do capitão Mac Whirr. anos mais tarde. ou. The Chance é relatado em primeira pessoa. romance e história deste romance ao mesmo tempo. sem comentários. Conrad consegue admiravelmente fazer-nos sentir todos os infortúnios da humanidade: traições. nem um nem outro. do qual um dos ouvintes é informado por acaso. algumas vezes. Tragédia da Linha de sombra que retém indefinidamente. não é senão o ouvinte do capitão Marlow. discreto como um autêntico inglês? Ele não se trai por uma única palavra. Este mar não é lugar de aventuras. ao porto de salvação? Em toda parte existem mares desertos sob o sol tropical. A sua técnica do romance parece o caminho para o centro do seu mundo e da sua alma.

ele não se inspira na técnica de Prosper Merimée. "A minha tarefa" . pela refração da narração indireta. quase diria das suas vítimas. as paixões dos homens não contam no mundo conradiano da fatalidade.alguns marinheiros que viram o casal em portos longínquos. representados por narradores intermediários. Menos ainda ele desejaria mergulhar os acontecimentos. essas embrulhadas.aquele admirável psicólogo Henry James."é fazer ouvir. para sondar as profundezas da alma desses heróis que se abismam. e nada mais. consolação. nas ondas.diz ele . Aos outros e a si mesmo ele desejaria lembrar com força esses acontecimentos. ao contrário. um esforço desesperado de chamar as lembranças ameaçadas de se perderem e que não deviam perder-se. e a verdade também. Igualmente. deseja. essas lembranças encerram o mistério dos seus heróis e o seu próprio mistério. que sonda as almas. que desapareceu para sempre nos mares do Sul. Mas Conrad não tem preocupações de psicologia apurada: ele não deseja analisar as almas. Eis o segredo da técnica de Conrad: todo esse enredamento. Mas ninguém conheceu pessoalmente o misterioso Anthony. porque ele próprio está envolvido na vida de Flora. para distinguir por trás deles a verdade. fazê-los viver ainda uma vez. sobre o qual escreveu um ensaio . e as complicações. Isto. Conrad é . e levam consigo os seus segredos para o túmulo do mar. que domina. Mas nisso tudo há: atração. reconstituir os fragmentos de vidas desconhecidas." Esta verdade não é de ordem filosófica. desconhecidos. pela força da palavra. essas complicações são tentativas para penetrar no eterno isolamento dos homens. pelas narrativas que se recortam. na luz transfiguradora da saudade. ao contrário. as paixões violentas. E Powell virá a saber o fim. integrar. porque toda a arte de Conrad é. como nos contos do alemão Theodor Storm. de diferentes pontos de vista. às vezes artificiais. medo. para unir os episódios dispersos das suas vidas insensatas. dos enredos simbolizam maravilhosamente a complexidade insensata da vida. Os mistérios em torno dos personagens de Conrad simbolizam a impenetrabilidade misteriosa da alma humana. ver. sentir. Conrad aprendeu esta técnica na escola do romancista americano Henry James.

na memória de Conrad. aqui. As suas cartas abundam de descrições desta luta. a luta com a forma é a luta desesperada contra um inimigo impessoal e imponderável. é digno de nota que. o mar está ausente. dentro da técnica tradicional. Conrad sabe descrever navios como só os velhos pintores holandeses. estão paralisados. orgulho da raça inglesa. navios no porto. mas. Conrad chama-lhe . o mar é a obscura "causa primária" que dirige os destinos. navios na tempestade. sem psicologia mesmo. e de lamentos: "Os episódios sucessivos do romance não conseguem desprender-se do caos das minhas lembranças!" Toda a sua literatura é apenas uma tentativa de pôr em ordem o caos. e a isto corresponde uma luta desesperada com a forma. A vida.um autor sem filosofia. aqui. O caminho para transformar essas experiências em arte é a sua técnica de romance. todos esses navios. ele é autor de "romances marítimos". Há romances. para pôr em ordem o caos. esses capitães silenciosos. os caminhos para chegar ao coração das almas e das coisas. leais. vistos mais de perto. nesses romances. O mar. do elemento. sem dificuldade. Existem outros romances. sem tendências. em poder do inimigo terrível. nos quais ele escreve. Em outros romances. de dominá-lo. como Nostromo. armas de batalha do homem contra o destino desconhecido. A sua verdade não é pensada. Sim. incoerentes. enfim. Conrad se opõe corajosamente ao elemento "inimigo": conta em primeira pessoa. O poderoso símbolo deste caos é o mar. de emprestar um sentido à vida. magnânimos. e até os meninos se encantam com os seus heróis. como nos quadros dos mestres. como A linha de sombra. e na sua memória ela se dissolve em mil episódios vividos. e é nela que ele busca. nos quais o próprio mar é o herói da ação. é de natureza caótica. lutando contra o elemento destrutivo que determinou a vida de Conrad: a sua literatura é a tentativa desesperada de iluminar as trevas. enfim. mas vivida. navios de velas desfraldadas. em todas as partes. esses heróis do dever não passam de humildes servidores de certos seres fantásticos: os navios. representados por esta sucessão de relações que se confundem e se recortam. pela misteriosa "linha de sombra".

a que estamos ligados pela nossa consciência. eis a nossa missão. É a nossa tarefa esta atenção intrépida que se esquece de si mesma. católico e francês.simplesmente: "o inimigo". na boca de um homem que se gabava sempre de "ser um aristocrata católico e polonês". Os fracos e os maus. castigado. ressoam mais como aristocráticas do que como cristãs. também professeur d'énergie e castigado também pela vida: lembramos a sombra nobre de Vauvenargues. mas o pobre e medíocre Mac Whirr pode ser salvo. compreensivos do destino humano. pela qual o sombrio pessimismo de Conrad se salva. à ordem superior da solidariedade humana. os silenciosos e . O mar é o símbolo de uma ruim organização do mundo. a oportunidade dum jogo ou dum combate. muito humanamente. O seu olhar sobre o mundo é incorruptível. Não a oportunidade do aventureiro ou do guerreiro. "Uma oportunidade". a voz da sua consciência. É a oportunidade de dominar o nosso caos interior pela disciplina que este inimigo furioso nos impõe: é a oportunidade de tornar-se um homem. precisa-se ir através. mas não é vencido. sucumbem. Mas o inimigo nos dá uma oportunidade." São palavras esquisitas. Não gasta palavras de um otimismo fácil e oficial.na aparência . "Cheguei a suspeitar que a criação não fosse absolutamente moral. no barulho do tufão. simplistas. Um pessimismo viril. a oportunidade que aparece nessas ondas é o apelo à consciência humana. É. superiores. porque escutou. de outro aristocrata. os Jim e os Anthony. . e cujo pensamento é não menos audacioso do que a sua coragem de marinheiro: se não há saída. muito cristãmente. ao humano em nós. ele sabe. Mas este pessimismo viril se aproxima do estoicismo verdadeiramente cristão de outro capitão aposentado.tão simples. inteiramente devotada ao dever. É o monstro que encerra no seu seio todas as tentações e todas as desditas. É a força rigorosamente disciplinada da alma. todas as vitórias e todas as derrotas. "heróis do dever" de Conrad. Nos momentos extremos. É a vida. transformam-se em silenciosos pensadores. que a vida terrestre é amarga experiência. e não é por acaso que a obra-prima de Conrad traz este título: The Chance.

simples e corajosa. um "estado mágico". Conrad era marinheiro. sem dúvida teria preferido a vida de um homem da middle class inglesa na sua cottage. Assim. É preciso mergulhar no mar: por isso é que Conrad se fez marinheiro. um "enchanted state". . esses "outcasts of the islands". Por essa razão cumpre aventurar-se ao mar.Conrad enfrenta a vida. sob o sol tropical. honra e fé. É o mar longínquo. Não importa que. sulcado de navios fantasmas povoados de párias. foi porque a sua consciência o chamava. Pela sua arte e pela sua vida. não tivesse conhecido a aventura e a glória. como ele mesmo o era. para fins misteriosos. Ele não tem nada de um aventureiro. de um poeta. a sua "filosofia". cumpre tudo arriscar para salvar a sua alma. A técnica de Conrad forneceu o segredo da sua arte. com as virtudes heróicas da nobreza medieval: lealdade. Narcissus. esses "desclassificados superiores". Então. e que promete reincorporar os "outcasts" à humanidade. A fuga é inútil. para a tripulação revoltada do navio maldito. que é. Se obedeceu ao "appel de l'inconnu". Cumpre mergulhar no elemento destruidor: o mar. humildade. de um inglês. filosofia no sentido quase popular de sabedoria de homem muito experimentado. Conrad desejava salvarse a si mesmo e aos outros: um marinheiro que salva os companheiros em perigo de naufrágio. não responde a isso." A "filosofia" simples de Conrad. um expulso. assim. em direções desconhecidas. a oportunidade da salvação para os seus heróis. e da última possibilidade também. O apelo da consciência é a oportunidade que o mar oferece. como a vida. Conrad foi sempre um sem-pátria. Mas não se trata do mar que banha agradavelmente as nossas costas. Talvez preferisse a vida patriarcal de um nobre polonês nos seus domínios. o supremo perigo é a oportunidade de que resulta a solidariedade. É a última esperança de toda uma humanidade que será bem cedo um "outcast of the islands". cheio de mistério. deserto. O mar era a sua pátria. mas não teria também escutado a voz da sua consciência nem salvo a sua alma. Relembremos: "Era incompreensível por que ele se evadira para confiar-se ao mar. fornecerá o tríplice segredo da vida de um marinheiro.

a que Charles Morgan celebrou no Essay on Singleness of Mind: a arte de ser um homem. os "outcasts of the islands". Conrad era inglês. de nacionalidade incerta. e como James chegou a naturalizar-se cidadão inglês. os europeus coloniais. um marinheiro que cumpre o seu dever. Era a voz misteriosa da consciência que impelia Conrad a tornar-se inglês. A liberdade apurada pela disciplina é. o oriental e o infernal: tornou-se marinheiro. como Henry James. Se o mundo de Conrad é um inferno. disciplinou-se literariamente. mas não se tornou. Ele vem do Oriente. membro da elite inglesa afrancesada. Conrad odiava os russos e a literatura russa. Existe um povo que se sente em sua casa em todos esses mares e em todas essas ilhas: o povo inglês. "o dever a que estamos ligados pela consciência". Ele cumpriu este "dever que a Inglaterra espera de cada um dos seus filhos". deste mundo eslavo que ele odiou. nessa submissão voluntária à solidariedade voluntária que é o segredo e a grandeza da liberdade dos ingleses. Conrad aprendeu a mais difícil arte inglesa. o dever ao serviço desta grande epopéia que levou os ingleses até os confins do mundo. o supremo valor humano.como o seu Jim. passou a servi-la naquilo "que ficará da Inglaterra quando nosso último navio de guerra repousar no fundo do mar que . como James. onde a liberdade e a disciplina estão em harmonia. também. Os seus compatriotas eram Almayer. Após ter conhecido as glórias da literatura inglesa. à "perduta gente". representantes do anárquico espírito oriental que ele viu Sob os olhos do Oeste. a comodidade da vida inglesa. Conrad desejava ser um simples marinheiro inglês. tudo o que vale o gastar uma vida para tornar-se inglês.182 Mas sobre este mundo maldito levantou-se uma estrela. na escola dos franceses. para Conrad. Quando já não podia servir à Inglaterra no mar. a consciência da liberdade inglesa. Nesse sentido. um marinheiro livre e leal de Sua Majestade Britânica. Existe um povo ao qual os horrores dos sete mares nunca fizeram medo. tornou-se membro desta outra elite inglesa que enfrenta sempre o caos. que oscila sempre entre o despotismo e a anarquia. ele pertence. ele vai ao mundo. o único mundo.

Em seguida.terá devorado os nossos últimos rochedos cretáceos": a literatura inglesa. desaparecido do mundo civilizado. onde muitas vezes as palavras mais elementares de repente se revestem de uma tristeza metafísica ou de uma significação superior. seu Almayer. A bem dizer. do mar inglês. Stendhal e Balzac. o romance de viagem tornou-se um gênero menor. para "procurar uma recordação de coisas longínquas e homens esquecidos". em episódios fragmentários. e o Lawrence Sterne da Viagem sentimental. domiciliaram-no. romance de aventuras para uso da juventude. explica-se o mal-entendido . eles próprios. Vinte anos depois escreveu a Loucura de Almayer. para salvar essas lembranças. Dom Quixote percorre a Mancha e Gil Blas a Espanha. embaraçado ainda pela língua estrangeira. O seu primeiro romance apareceu quando ele tinha quarenta anos. A esta composição por etapas corresponde o estilo conradiano. cada um dos quais é uma etapa no caminho da humanização da humanidade. não para fazer literatura. Os criadores do romance moderno. em Bornéu. na França. pelo menos. Vinte anos antes encontrara. até agora. epopéia da qual os seus romances constituem os fragmentos. não pertencem à categoria do romance moderno. Fragmentos de epopéia duma humanidade em marcha. e o romance do goetheano Wilhelm Meister chama-se Anos de viagem. reconhecível entre mil: narração seca e sóbria. para compor a epopéia do Oceano. e para classificá-las é necessário estabelecer uma distinção que escapou. mas. antes do século XIX. Tom Jones viaja na Inglaterra. os romances dissolvem-se. Robinson percorre os mares e Gulliver os países da imaginação. Conrad desprezou. a literatura. Agora. como o raio da sorte cai das nuvens do tufão. Desde então o grande romance europeu passou a habitar "a cidade e a província". as mil e uma noites sobre o Pacífico. à atenção da crítica. não são romances essas viagens sem fim nem termo. o "romance préhistórico". O velho romance. está sempre em viagem. acumula febrilmente as mil anedotas dos portos malásios. surpreendentemente.

temores e esperanças. Ainda uma vez." . como o seu autor. é. O romance de Conrad. O romance de Conrad mostra-nos aquilo que nos espera: traições. a chance está presente.quanto aos "romances marítimos" de Conrad: ele retomou uma antiga forma para revolucionar o gênero. a humanidade. alegrias. "Eu" . e. mas acrescenta: "O melhor. talvez. nunca ter obtido aquilo que se desejava. na vida. expulsa da civilização. descobriram o que haviam perdido. a reencontrará. aspirações. sofrimentos. na vida.tinha ele dito . o que os tinha expulsado para os sete mares: a falta do sentimento de humanidade."nunca obtive. decepções. embarcará. depois. malogros de toda ordem. aqueles que vivem àqueles que nascerão". a linha que não se pode transpor senão ao preço de todas as ilusões de felicidade. e quem sabe se se voltará. Somente. e aquele que perder sua vida pelo amor. Ele dissolveu a forma. Nas suas lembranças. a terrível "linha da sombra". é um expatriado. para todos os mares. o seu romance "em marcha" prediz um futuro sombrio. falências. "este sentimento de solidariedade que une a solidão de inúmeros corações a esta outra solidão de sonhos. ao porto de salvação? Os vencedores de Conrad são sempre vencidos. aqueles que morreram àqueles que vivem. que une todos os homens a todos os homens. através deste caminho de horrores. Mas esses vencidos são os verdadeiros vencedores. a direção de Conrad não é o passado. o ponto morto do desespero. guerras. ilusões. Aprenderam na derrota aquela "concentração espiritual" que o "teresiano" Charles Morgan celebrou como a arte de tornar-se um homem. doenças. Abriu o romance para o espaço. como ele mesmo era um vencido. como Marcel Proust o abriu para o tempo. Aquele que desejar salvar sua vida a perderá. aquilo que desejei". "outcast of the islands". Com a derrota. e esta concentração transforma o seu passado. a solidariedade da humanidade faz-se pressentir. pelo mar e pela vida. toda a humanidade numa unidade superior. restabelece-se a solidariedade dos corações.

dissimulados em suboficiais. mas. ALGUMAS PALAVRAS SOBRE A INGLATERRA DETESTO sinceramente Rudyard Kipling. a soberania das Índias. à sombra dos túmulos dos grandes mortos da nação. mais poderosa. procedem como no jângal dos selvagens. Sua mandíbula de buldogue é a expressão fisionômica da educação tanto no jângal como para o jângal. então Rudyard Kipling lhe lançava o desafio contrito do seu Recessional: "Lo. com orgulho incrível: "God save the Queen". Não suporto esta raça kiplinguiana de comerciantes violentos. e quando gritava. A Inglaterra de então estava na culminância da glória."183 Deus prometeu-lhes. todas terminando em pore". e a soberania do mundo. Hongkong and Peshawur And fifty-five more. mas a vida também não tem conclusões. esta filosofia de Joseph Conrad não é uma conclusão nem um fim. espantado. all our pomp of yesterday . I've heard the Revelly From Birr to Barelly. a eles. da força. all endin' in 'pore'. from Leeds to Lahore. o grito orgulhoso: "God save the King!" Uma só vez Rudyard Kipling exprimiu uma emoção profundamente humana: foi quando compôs. e sob a cúpula da ruidosa Aleluia de Haendel. e também não há fim no murmúrio longínquo do mar sombrio. e a assembléia dos Lordes e dos Bispos e dos Comuns na Abadia de Westminster. mais rica do mundo. que se comportam perfeitamente em sua casa. no estrangeiro. com as suas "cinqüenta e cinco cidades. o seu poema Recessional. à maneira das ladainhas de procissão da Igreja Anglicana. que ouviu. e a brutalidade simplista dos seus contos indianos representa o estado de espírito de certos gentlemen. por ocasião do jubileu da velha rainha Vitória. que tagarelam nos Barrack Room Balads e zombam dos nomes incompreendidos das cidades subjugadas: "My name is O'Kelly.Sem dúvida. era a reunião mais gloriosa. da riqueza.

a luz amarela da tarde de inverno sobre as capelas e os colégios. Londres. Era a hora de uma cidade terminando em pore. os subúrbios. o poeta se assusta do dia da catástrofe: . catedrais enormes dominando pequenas cidades medievais." A causa vitoriosa agradou aos deuses. . uma floresta de pedras. e os sinos da Abadia de Westminster ressoavam uma Aleluia abafada e um muito longínquo God Save the King.lest we forget!"185 Como um profeta. como um grande navio incendiado. Uma floresta de gruas e de mastros. pensava na grandeza viril dos estóicos da Antiguidade. para não esquecermos. todos terminando em shire. lest we forget . o porto. para não esquecermos. mas a Catão a vencida. para não esquecermos! "Lord God of Hosts. sed victa Catoni. Lest we forget .lest we forget!"184 Toda esta glória será de ontem. poupanos. Pensava nesta imensa herança."186 Para não esquecer. fantasma na bruma.quando um aparelho de rádio distante tocava o Marlborough s'en va-t-en guerre. spare us yet. todas terminando em pore". para não esquecermos! "Thy mercy on Thy people. e do mar visionário ante os meus olhos subiam os cem condados ingleses. para não esquecer! Eu o tinha esquecido.foi ontem . A sua figura anônima me ocorreu à lembrança .Que o Deus dos Exércitos nos assista. E as cinqüenta e cinco cidades todas terminando em pore submergiamse nas águas tenebrosas do Oceano longínquo. como uma marcha fúnebre. em que a raça dos fellows e dos tutors guarda. Lord! Amen. uma floresta de pequenas casas uniformes. ao brutal mercenário Kipling. esta paisagem a que Katherine Mansfield chamou "um jardim longínquo. visto pelas janelas da alma": a Inglaterra.Is one with Nineveh and Tyre! Judge of the Nations. das cidades malditas: ó Juiz das Nações. be with us yet. e perecerá como a glória de Nínive e de Tiro. no verso amado de Lucano: "Victrix causa diis placuit. com a sua loquacidade orgulhosa e suas "cinqüenta e cinco cidades.

o riso mordaz de Ben Jonson. é guardado aristocraticamente pelas sebes clássicas da poesia de Alexandre Pope. as ninfas. e. E quando este riso ameaça tornar-se em pequenez mesquinha da média. ao gosto de Versalhes. a mais profunda literatura do mundo. Evidentemente. o vento horroroso sobre os Wuthering . o mestre. ressoa através dos séculos da literatura inglesa. cuja vara mágica de Próspero evoca todos os espíritos do céu e do inferno. e seu spleen acrescentava: "Uma ilha da danação. e para compensar essas borralheiras da criação. um riso inextinguível. a maior. uma máquina barulhenta. e o William Shakespeare.como os monges da Idade Média. de Marlowe e de Chapman a Keats e Swinburne. a literatura inglesa sempre teve profetas. Não o imagineis como um jardim muito regular. o riso maligno de Swift. para merecê-lo. um "jardim visto pelas janelas da alma". Um poeta chamou-a "o castelo do império e do tédio". mas um livro de contos. os sátiros e as mênades da Hélade não cessaram de vaguear orgiasticamente pelos seus prados. o nome de William Shakespeare não figura lá senão como uma metáfora. o conforto. "cuidado há trezentos anos". nem sentidos para gozar da vida. o lorde do castelo. praias e praias. homérico. um "pars pro toto". o nosso último tesouro. o riso alegre de Chaucer. a ilha que governa o mundo. o riso bonhomme de Dickens. seu spleen: os terrores da noite de Thomson. os Milton para atear as revoluções. concedeu-lhes Deus um pouco de domínio mundial. em vez de coração. o riso ruidoso de Fielding. Shakespeare. as visões infernais de Blake. o riso irônico de Jane Austen. em baixo. e os Carlyle para exorcizar." Assim é. no alto. o espírito inglês sempre lhe sabe opor o seu taedium. o riso espirituoso de Congreve. Shakespeare representa aí o senhor feudal. três coisas preciosas: a liberdade civil. frias na bruma de uma chuva fina e incessante. essa hipócrita e ébria Inglaterra. chaminés e chaminés. vomitando fumaça negra. Deus até ficou desolado quando criou o inglês e viu que não lhe dera voz para cantar. a mais rica. o riso melancólico de Sterne. cujo prado.187 um mot-clef para indicar a literatura inglesa. Fantasma de um castelo irreal: a ilha no mar setentrional.

E perto da célula do colégio. disse: "Quando nosso último navio de guerra descer ao fundo do mar. A atmosfera. . e das inclemências do tempo fizeram eles o conforto. livre. Mas. É preciso ter bons nervos para senti-lo. Byron sustentou que o inverno inglês acaba em julho. é saudado. haverá sempre um monumento imperecível da nossa nação: a literatura inglesa. o marinheiro de Coleridge sobre o seu navio maldito. os furacões devastam. que são eles senão as alegorias dos terrores que o marinheiro inglês arrostou. fresca. está a igreja.Heights de Emily Brontë. é o incomparável nas obras da literatura inglesa. e muita gente nunca percebeu um verão inglês. Robinson sobre a sua ilha deserta. tão feliz em suas fórmulas. Estes sonhos diabólicos da vida. mas at home. onde o dia. de uma vez por todas. e cujo monumento mais velho é uma canção de verão: "Summer is y-comen in! Sing cuckoo! Cuckoo!"189 Mas o verão inglês é uma coisa singular." É uma literatura de fidalgotes. marinheiros: uma literatura ao ar livre. para recomeçar em agosto. o marinheiro Joseph Conrad sobre os sete mares e o Oceano ardente do Sul? Não há recanto sobre a terra onde não cintile a lâmpada solitária dum marinheiro inglês. de que o velho filistino Macaulay. que mais do que outra é apaixonada da Natureza. o doce luar sobre os jardins da Inglaterra faz cantar os rouxinóis de Shelley e dançar as fadas de Spenser. Lá fora. o "waits in unhope"188 de Thomas Hardy. e à sua luz responde a lâmpada solitária dos humanistas Matthew Arnold ou Walter Pater em suas células monacais de Oxford ou de Cambridge. caçadores. esportistas. pelos cantos piedosos de John Donne. é o mestre desta floresta encantada da literatura inglesa. que expulsa os demônios. em nome do "Lord Almighty". onde o espírito evoca os demônios. O nome de William Shakespeare não é senão uma cifra: resume-os todos. pura. de Cowper e Wordsworth. Deus disse aos ingleses: "Make the best of it!". quando a tempestade quebrar o último rochedo cretáceo desta ilha.

porque ele lhes garantiu o privilégio de isenção de certos outros impostos. os deputados da City de Londres apresentam a Sua Majestade Britânica um pedaço de madeira. os mesmos clubes ingleses. no qual se aprende o sangue-frio dos nervos. é ao mesmo tempo o grande manual do perfeito gentleman. ao comércio e aos estudos gregos. lembrança do arrendamento de uma floresta que um rei da Idade Média concedia a seus vassalos mui leais.dir-se-á . os mesmos lugares de esportes ingleses. o seu lugar era sempre nos bancos da oposição. o Compleat Angler de Izaak Walton. Sob todos os ministérios. É sobretudo o espírito da liberdade civil. sem falar de dinheiro. o vizinho mais seguro. floresta que já não existe há muitos séculos. Não pagar . extremamente antipático. be with us yet. ao tênis e ao cricket. o Direito inglês não está codificado. A Inglaterra teve muita glória: "Lord God of Hosts. imperturbavelmente. têm divertido a muitos. O grande manual da pesca a linha. de transplantar para sob todos os céus as mesmas casas inglesas. em toda parte e sempre. É difícil a gente entender-se entre os mil "casos de precedência". havia na Câmara dos Comuns o deputado escocês Joseph Hume. e seus vassalos mui leais forçariam seu rei a aceitar esse pobre feixe de lenha.constitui naturalmente sua virtude tradicional. o inimigo mais generoso.Não é em toda parte que se gosta dos ingleses. o livro de contas personificado. de executar os esportes e de fazer a guerra. A Constituição inglesa não está escrita. lest we forget. cujos efeitos incríveis. a tenacidade de certos usos seculares já desprovidos de sentido. de cabelos ruivos. o fair play da competição. Canning não ousava . à pescaria a linha e ao golf. e que não podia dizer três palavras sem referir números. Mas não há quem não se admire da virtude poderosa de instalar-se em todos os continentes. capacidade de dedicar-se. Mas escutai a história do cidadão Joseph Hume: Ao tempo de Canning e da reforma parlamentar. a tranqüilidade da alma. Era o terror dos ministros. O inglês é o amigo mais frio." Mas a maior glória da Inglaterra é o fair play. O orçamento era a sua especialidade. homem grosseiro. Cada dia de Ano-Novo. É um método de negociar.

estando a guerra às portas e o tesouro esgotado. as forças opostas. na Inglaterra. Notai bem como difere. o referido Joseph Hume ergueu-se e declarou querer pagar voluntariamente os impostos do ano seguinte. e a sua voz de bolsista embotado se tornou estrepitosa como os sinos da Abadia de Westminster. Um dia. sobre um assunto fora do orçamento. nove anos depois. propõe a moção de não pagar impostos. fazem-se revoluções para aboli-los. e regulada pela lei do fair play. o velho bolsista revolucionário! Mas.nunca em sua presença pronunciar um número. até as situações mais irregulares e ameaçantes. A ordem e a liberdade inglesas estão sempre em equilíbrio. e atestados e garantidos pelos "casos de precedência". em relação à língua inglesa. uma instituição do Estado. Na Inglaterra os privilégios são liberdades tradicionais e veneradas. porém. Ah. sem primeiro consultar o Tesoureiro: "How much?" Todo o mundo o temia e o detestava. porque o rei e os lordes não cumpriram a palavra empenhada na reforma do Parlamento. porque a própria revolução é um privilégio. porque o seu coração estava em sua bolsa. com surpresa de todos. em francês por exemplo. a significação da palavra privilégio em outros idiomas. sem violência. para falar. que é conexa à liberdade inglesa. . e. e este sistema simples e complicado substitui todos os códigos e todas as constituições escritas. Eis por que a oposição é. e o privilégio real se dirigiria contra os revolucionários. Joseph Hume ergueu-se e pediu a palavra. necessária à manutenção do equilíbrio chamado "sistema dos partidos". e nenhum gentleman se prestaria a tal violação da ordem legal. nada além disso. Esta palavra privilégio é o mot-clef da liberdade inglesa. porque "recusar os impostos é privilégio da Câmara dos Comuns e pagar os impostos é privilégio do cidadão inglês". Um passo a mais. e a arte do fair play político está em equilibrar honestamente. Sai-se da legalidade somente para reparar a legalidade violada. Os privilégios são herdados por tradição. e fazem-se revoluções para restaurá-los. Na França os privilégios são abusos abominados e detestados.

Algumas leis. O mais poderoso desses símbolos é o que reúne em si todos os aspectos da vida pública inglesa: é a famosa "procissão de Westminster".de uma honesta vida comum de pessoas honestas. pois que o bastão policial é também um símbolo. a famosa Magna Charta. saem da Casa do Parlamento.o último método . todas as glórias desta instituição nacional que é a literatura inglesa: a estátua de Shakespeare saúda o túmulo de Henrique VII. Foi num desses momentos solenes que se escreveu a prece "lest we forget . das coroações e dos enterros dos reis. fruto duma educação de todo um povo. cujos túmulos e pedras formam uma revista shakespeareana da história inglesa. um ao lado do outro. no meio dos rei e dos nobres lordes. a Declaration of Rights. É só uma tradição. para o fair play. o primeiro-ministro e o chefe da oposição.Isto não se escreveu em nenhuma Constituição. que regem sem força exterior. símbolos jurídicos da política do fair play. não é nem liberal. Toda a vida inglesa está cheia de tais símbolos. não constituem mais do que símbolos. símbolo do fair play político. totalmente independente de parágrafos jurídicos e convicções de partido. O cortejo é conduzido pelo primeiro ministro e pelo chefe da oposição. estão enterrados os poetas.lest we forget!" A Constituição inglesa não se escreveu. os lordes e o povo entram na Abadia de Westminster. O fair play."lest we forget . nem sequer uma lei. somente pela convenção tácita do fair play. É a força duma tradição multissecular e venerada. Daí o motivo por que chamei ao fair play a maior glória inglesa . levanta o seu bastão muito inocente . O polícia. Assim. as duas Câmaras. na rua. a tradição da liberdade. Nem um sistema político.e o inglês mais individualista e mais obstinado logo pára. símbolo do poder real. do equilíbrio entre a ordem legal e a liberdade civil. instituído para proteger as liberdades individuais e obstinadas de todos os ingleses. É o método . em vigor ainda mas já obsoletas. edifício que reúne ao aspecto gótico da tradição medieval todas as instalações do conforto inglês. E o símbolo supremo . a dos Lordes e a dos Comuns.lest we forget!" Então. nem conservador. a festa real e eclesiástica por ocasião da inauguração e do encerramento dos Parlamentos.

TERCEIRA PARTE: JULGAMENTOS TRADIÇÃO E TRADICIONALISMO O S ASPECTOS do nosso tempo trazem a todos os lábios as expressões: "Isso nunca se viu". É por uma "cidade terminando em pore". a nós. com suas "cinqüenta e cinco cidades. não esqueçamos nunca! God save the King. Tive a visão desta grande história inglesa." Por vós. . e todo o povo o seu God Save the King. de liberdade e de honestidade é o primeiro gentleman do país. É um sintoma muito grave. e estava enfim reconciliado com este soldado inglês. Lest we forget . resumo terrível das nossas angústias: "For whom the bell tolls? He tolls for you. que se prestaram a título de uma obra de nossos dias. por nós todos. Pensei nisso quando os sons longínquos do Marlborough s'en va-t-en guerre e dos sinos fúnebres fendiam meu coração."191 "Por quem dobram os sinos? Dobram por vós. "Isso desafia toda a experiência". história duma conquista da liberdade. ele também um soldado anônimo da liberdade pela Inglaterra. que aí reside no meio de seus lordes e de seu comuns: é em sua honra que os sinos da Abadia de Westminster oferecem sua Aleluia. o rei. spare us yet. Só? Ocorrem-me as palavras do velho e grande poeta John Donne. Cabe-nos. por nós todos: "Judge of the Nations. todas terminando em pore". para as reconhecer. Não esqueçamos. O primeiro dever de Adão foi "o de chamar as coisas pelos nomes".lest we forget!" 190 Os sinos de Westminster dobram.desta unidade de tradição.

pois. aos Donoso Cortés. O reverso é a florescência dos tradicionalismos de toda ordem. desde Adão. o pior dos caminhos seria recorrer aos De Maistre. o que está na base da verdadeira civilização". Sabemos ainda hoje o que é uma tradição? É o que me pergunto. Mas. cuja soma está acumulada nas tradições da humanidade. a família. A tradição de um povo. Temos. Desde o velho poeta espanhol Jorge Manrique. a casa. para responder.antes de tudo. Elas são o objeto de lamentações nostálgicas de todos os velhos e de todos os retardatários. primeiramente. um conjunto de tradições: as crenças. sem ver que assim perecem os últimos restos das queridas tradições. que se achava em estado de graça natural. a humanidade vem acumulando. de um grupo é.esse tradicionalismo de ressentimentos se condensa numa hostilidade violenta contra o seu próprio tempo: eles estão prontos a aderir a todas as revoluções contra seu tempo. por nossa própria conta. Nossas perdas são bem nossas. a cozinha. Em certos homens . cuja atividade espiritual foi excitada pela perda das tradições da sua própria época.e há muitos deles . os costumes. É essa a mesma "faculdade crítica de distinguir" de que o místico tem necessidade a fim de verificar se as suas visões provêm de Deus ou do Demônio. É preciso suportá-las e meditá-las. de acordo com as experiências que. O que é uma tradição? Há várias respostas. se as próprias coisas "desafiam toda a experiência?" A perda das tradições é o sinal do nosso tempo. Talvez Matthew Arnold denominasse a isto "a faculdade crítica de distinguir. Mas como consegui-lo. das quais só nos damos conta quando se vão. ainda outro dia. a necessidade das experiências. aos de Bonald. as canções.até ao velho que me assegurava. que "o verdadeiro amor apenas existiu pelos anos de 1890". de uma região. reconhecer as coisas. aos Adam Müller. todo esse conjunto de coisas. E a "verdadeira civilização" é a visão da humanidade. aos grandes tradicionalistas. desde Adão. que se lamentava "Cualquiera tiempo pasado Fue mejor"192 . . para reconhecer as coisas e pôr em ordem o caos.

ressentimentais193 das revoluções erostráticas. Por isso as tradições encerram um elemento perigoso de incerteza. Lamentam e colecionam tudo. de autenticidade duvidosa. cujos museus mofados só raramente se transformam . O complemento indispensável do princípio de tradição na Igreja Romana é a autoridade do papa. Por aí ganhamos um primeiro elemento de definição de uma verdadeira tradição: tradição é escolha. porque se perderam todas as tradições. a França moderna despedaçou-se entre duas tradições: a galicana e a jacobina. Em toda parte há muitas tradições. Muitas vezes a escolha da tradição é impossível. Quase sempre essa escolha de tradições é muito consciente. Não há uma só tradição em nenhum lugar. entre as quais é preciso escolher. Primitivamente. Nisso consiste a grande política. como na Alemanha depois de Nietzsche.194 encontra-se nos amadores entusiásticos das tradições moribundas. A escolha de uma tradição é a reprovação das outras. Elas precisam ser garantidas por uma autoridade. os "grandes tradicionalistas" do romantismo não procuram a tradição dos livros. é uma decisão suprema. a autoridade de distinguir o que é a verdadeira tradição e o que não é. O que une as duas espécies de tradicionalistas é que eles não são exigentes. mas a tradição não escrita do povo. a tradição era "o que não está escrito". Isto determinou a sua história.sob a mão de um grande artista. Os Estados Unidos rejeitaram as tradições aristocráticas do Sul e adotaram as tradições puritanas do Norte. Tradição é escolha. Porque a escolha das tradições do passado determina o futuro. a tradição subconsciente das lembranças populares. de um Gilberto Freyre . Ali foi criada a . a escolha da tradição. nos folcloristas das velhas canções e costumes.O contrário desses partidários pequeno-burgueses. da Itália fascista. até mesmo arbitrária: cada recanto da maravilhosa Roma medieval dos papas que desaparece para dar lugar às escavações de alguma ruína desinteressante da Roma imperial prova a política arqueológica. o que se transmite oralmente. Às vezes não há tradições que escolher.num quadro vivo do passado: unicamente quando esse passado se foi para sempre.

conhece apenas revoluções tradicionalistas. a Inglaterra. muitas vezes. Não o digo por prazer do paradoxo. zombeteiramente. porém. lembro-me de ter lido: "A cultura proletária não deve ser outra coisa senão a evolução sistemática dos tesouros que a humanidade conquistou sob o jugo dos capitalistas. sem uma revolução que destruísse e preservasse ao mesmo tempo: a revolução social é necessária para realizar. Houve. Lenin é tradicionalista. e o materialismo francês do século XVIII. a economia política dos ingleses. O verdadeiro inimigo da tradição é a anarquia espiritual. os "radicalismos ridículos" dos artistas revolucionários. a magnífica apóstrofe: "Maldito seja aquele que começa por si mesmo! Somente a infâmia começa por si mesma um novo mundo." Lenin critica. e o país mais tradicionalista. O que é bom o foi eternamente. No volume XVII das Obras de Lenin. que não está ligada por nenhuma continuidade aos alemães modernos. Ainda uma vez a Igreja Romana nos instrui: ela reúne a autenticidade das suas tradições a uma continuidade. para defender-se de inovações." Continuidade é a primeira e a última palavra dos Bonald e dos Adam Müller. no futuro. Digo-o para poder melhor definir a "continuidade" e salvá-la do monopólio de um programa . que esmaga todas as continuidades.diz ele . "A civilização" . no seu romance A condessa Dolores. a sucessão apostólica dos seus bispos. Não se "cria" uma tradição por si só. Assim." Vê-se que Lenin escolheu cuidadosamente sua tradição. que a criou. Isso significaria colocar-se a si mesmo na origem das coisas."não poderia sobreviver ao capitalismo. e acrescenta: "O marxismo é o resultado de três produções da burguesia: a filosofia alemã. revoluções de tradicionalistas. como eles." Com isso a tradição parece essencialmente contrarevolucionária. e a tradição e a contra-revolução não são a mesma coisa. a continuidade da civilização. chamadas contra-revolucionárias. Contra essa blasfêmia revolucionária o grande romântico e conservador alemão Achim von Arnin lançou. e o fez para guardar uma continuidade. em vez de Deus.tradição artificial dos velhos germanos. Mas a continuidade é essencial à tradição: o segundo elemento da definição.

é coisa diversa da "evolução" dos liberais: estes revelam o movimento em todas as coisas duráveis. A tradição guarda as experiências do passado e transmite-as. O tradicionalismo dos Burke. continuado. Trata-se de um problema grave: como conservar a continuidade do mundo? Questão de tática. Sem dúvida. dos Savigny não é estático. Visivelmente. mais ou menos. às gerações do futuro. muitas vezes inconsciente.é seriamente preocupado com angústias religiosas. que assim poderia ser resumida: apresentar aos alunos noções fixadas. Ao ver dos tradicionalistas.político. a verdadeira grandeza dos jesuítas reside nos princípios da sua pedagogia. assunto de extraordinária importância e por aí muito pouco estudado. em movimentos precipitados. se a "durabilidade" e a continuidade histórica não reagissem. Não se trata de revolução ou de contra-revolução. por assim dizer. Essa nova definição fornece um elemento positivo e um elemento negativo. o que representa a pedagogia nas regiões do espírito. A tática representa. A liberdade civil inglesa é também uma tradição em continuidade. que quisera ver a continuidade dos seus progressos materiais garantida pelas tradições que ele secretamente desdenha. ele sublinha sempre o "tornar-se" orgânico. Tradicionalismo não é um programa político. . aqueles revelam a durabilidade em todas as coisas movimentadas. As grandes contradições políticas e ideológicas desaparecem. maior. Essa disciplina. pela continuidade. Ele treme pela existência do mundo. O verdadeiro tradicionalista . Estamos sempre na iminência de cair no abismo. Essa função de transmissão revela o caráter pedagógico da tradição. O contrário do bem-pensante burguês. subtraídas a qualquer discussão. o mundo destruir-se-ia por si mesmo. dos povos. mecanizado. nas relações materiais dos homens. Falo da pedagogia.Lenin o é só pela metade . O elemento negativo ensina-nos que o tradicionalismo não é um programa político. porque é um cerimonial. aí. Naturalmente não falo da pedagogia escolar. e incuti-las por uma disciplina que é um cerimonial. Há somente um mestre: a Ordem dos Jesuítas.

subtraídas a toda crítica. não tem relações com o dinamismo . Há dias. tradição eterna do mau gosto. acrítica. a opereta. Mas ele não tem razão. Mas aquela atitude é verdadeiramente anticrítica? Ela me parece. Não importa. Vivemos.preocupou seriamente o espírito atormentado de Pascal. A tela. Todo o cerimonial. Essa comunidade de vistas idealista é independente de todos os programas políticos ou espirituais: a civilização antiga dos hu[C1]manistas. hoje vê-se em Roma uma outra casa onde pretendem que eu teria habitado. antes. ao contrário do progressismo. Todo tradicionalismo crê em idéias invariáveis. com a sua duração obscura. Cada um de nós tem necessidade de certas cerimônias muito pessoais para poder adormecer. Esse ponto de vista não é. mais alta e mais solene. dentro de cerimônias. o que não é uma distinção muito sutil. do velho Eckermann: "Em Roma hospedei-me numa casa perto da Piazza del Popolo. todos nós. é preciso deixar seguir as tradições" (8 de abril de 1829). O cerimonial do adormecimento. das "idéias". a literatura fácil. o cerimonial religioso sobretudo. Os jesuítas e os humanistas aliaram-se pela fé comum nas idéias duráveis. o que está na base da verdadeira civilização". O cerimonial é a disciplina pedagógica da "continuidade" tradicionalista. representa mais do que caprichos individuais: é a ligação entre o dia. porém. invariáveis. encerra a vida cotidiana e banal pela vida. a civilização medieval dos românticos cristãos. Eis o elemento positivo da definição que a noção de "continuidade" nos forneceu: todo tradicionalismo. O cerimonial dá-nos a disciplina para suportar o olhar das "noções fixadas". da durabilidade. pragmatista. lia nas Conversações com Goethe. dos dogmas. e a noite. Parece contrária ao que procuramos? Não devemos esquecer que procuramos "a faculdade crítica de distinguir. com os seus movimentos instáveis. a civilização proletária à maneira de Lenin constituem conjuntos semelhantes de idéias de valor indiscutível. de modo algum. Eis por que os jesuítas são humanistas convictos. platônico. aplicam o cerimonial de seus estereótipos. de noite. é idealista. o rádio. que adormecem nosso espírito. Essa atitude anticrítica em relação ao passado é característica dos tradicionalismos.

Ninguém admira Nietzsche mais do que eu. Nietzsche é um poeta-profeta. é um verdadeiro caminho de salvação. pela durabilidade. Muito ao contrário. que respondeu: . O tempo. porque estão indestrutivelmente consagradas pelo tempo. tudo o que é velho é belo. O tradicionalismo é platônico."dizem-nos mais que as novas mentiras.dizia Loos . E isso vale também quanto ao verdadeiro. na consciência dos semiletrados. pela continuidade. a Goethe. Os antigos têm sempre razão. Todo platonismo é de ordem estética. o grande arquiteto vienense. dizia alguém a Machado de Assis. A tradição não tem necessidade de justificar-se perante nós. Mas a "evolução" de Hegel não é outra coisa senão a "durabilidade" de Goethe. Dizia a verdade que os grandes mestres do positivismo alemão não viam: a civilização acha-se à beira do abismo niilista. O caminho de volta. Ele nos leva à veneração respeitosa do que é. de Nietzsche. que só deixa subsistir as coisas bem realizadas.artificial de Nietzsche. em profeta do pangermanismo ou apologista de um ateísmo especificamente alemão. que não põe mais em discussão as "idéias"." Alain explicaria isso pela função exterminadora do tempo. paradoxalmente anti-histórico por definição. É quase . Assim. porque o tempo as poupou. seu mestre Schopenhauer barrou-lhe o caminho de volta a Hegel. Permitam-me pequena digressão. a pequena digressão conduziu-nos a um acriticismo consciente. esquece o feio e só conserva o belo. Eis uma profissão de fé bem tradicionalista. Tudo quanto é moderno não vale nada. mas a mentira é esquecida por si mesma. através de Hegel." Porque o tempo esquece o feio. gostava de dizer: "Tudo o que é moderno é feio. "Que casas feias!". Meu amigo Adolf Loos. do que se formou no seio da durabilidade. "As velhas verdades" ."Feias! Mas são velhas!" Essas casas não podem ser feias. A profunda ignorância filosófica do seu tempo impediu-o de reconhecer a origem dessa catástrofe na falsa interpretação da evolução hegeliana em sentido darwinista e materialista. ninguém lamenta mais os malentendidos brutais que o transformam. destruindo as falhadas. nós é que temos necessidade de justificar-nos perante a tradição.

dirigido para a vida. A tradição é. nós nos abandonaríamos ao falso tradicionalismo dos "homens de ontem". e isto as erige em instâncias duráveis. da tradição. A verdadeira tradição é sempre ativa. Ele nos examina. Mas o que existe de . uma tática pedagógica. os velhos. A esse "tradicionalismo arqueológico" nos contrapomos com a frase de Barrès: "Encontrei uma disciplina nos cemitérios. e a escolher as experiências que nos servem para reconhecer o durável dentro do instável em nosso curto momento de vida. pedagógico. A frase citada de Goethe é bem hegeliana." Não cito isso para lembrar o elemento disciplinar. e que prevalece na função escolhedora. como se a morte fosse um convite para a vida. Sem essa "escolha".Sois dignos de nós. porque ela existe. mas para sublinhar o elemento ativo. que nos ensina a guardar a continuidade em relação às experiências do passado. certamente sem ele o saber. e as suas belezas não eram insuperáveis. os vossos antepassados? Sois dignos? .Assim fala o tradicionalista. Ouso dizer: reconhecem-se as falsas tradições pela sua essência determinista. que dirigem a todas as épocas e a todo homem consciente esta pergunta. e há mesmo uma verdade antropológica incontestável no racismo. portanto. As verdades da Antiguidade greco-romana não eram verdades eternas. e "tudo quanto existe tem a sua razão de ser". Essa "escolha" é de suprema importância. as tradições se confirmem perante nós. Longe de nós o academicismo insuportável. fatalista. É uma insolência crítica exigir que os antigos. É muito mais razoável exigir que nós nos confirmemos perante elas. Longe de mim fechar os olhos ante as verdades que existem em todo erro: há uma grande verdade histórica no marxismo. passivista.ridículo criticar uma tradição. que é a essência do humanismo: . Nesta exigência reside a razão de ser de todo humanismo. há uma grande verdade humana na psicanálise. retardatários. e esse exame do moderno em face do eterno revela a função pedagógica da tradição. amadores do "que já foi antigamente e para onde é preciso voltar". rancorosos. Mas foram as primeiras verdades e as primeiras belezas bem-sucedidas que uma tradição contínua nos transmitiu.

E essa tentativa é característica das falsas tradições. O que é bom o foi eternamente. Para todos os progressistas ele significa o fantasma das sobrevivências feudais e clericais. Não é por um acaso que essas "escolas" tendem a estabelecer Inquisições mais "ortodoxas" e mais intolerantes do que qualquer Inquisição que tenha tentado suplantar a consciência humana. os homens começam por si mesmos. uma liberdade sem a qual todo tradicionalismo. encerrada num "modernismo" individualista ou coletivista. Os seus feitos "desafiam toda a experiência". morre a faculdade crítica pela qual julgamos o caos e "chamamos as coisas pelos nomes" a fim de as reconhecer.diz Arnim . E. mas para os antiprogressistas o termo significa a luz longínqua de um passado melhor e que talvez esteja destinado a iluminar um melhor futuro. do destino racial. romântico ou leninista. Não há muito tempo que Nicolai Berdiaev lançou a idéia de Uma . do bem ou do mal. cuja putrefação envenena ainda a saúde magnífica dos tempos modernos. Somente a consciência humana possui a liberdade de escolher. o termo "medievalismo" tornouse conhecido. o que é indispensável ao verdadeiro tradicionalismo. Não há mais compreensão do verdadeiro ou do falso. A consciência humana. "Maldita seja" . É a morte do espírito."a infâmia que começa por si mesma um novo mundo. A tradição só existe na consciência humana. artificialmente cortada das experiências da verdadeira tradição." MEDIEVALISMO DEPOIS DA famosa disputa entre o ex-jesuíta "modernista" George Tyrrell e o cardeal Mercier. O falso tradicionalismo tenta sempre suplantar a consciência humana por uma escolha. feita uma vez por todas. Então. do destino subconsciente. com o espírito. Os critérios se perdem. sucumbe. para nos deixar viver dentro de uma cega fatalidade. degenera em opressão inquisitorial.essencial nessas grandes heresias do nosso tempo é o passivismo fatalista que lhes é comum: a convicção da inevitabilidade do destino econômico.

hoje. em elegias de uma perfeita latinidade. Ontem. os primeiros "humanistas" que se apoderam avidamente desta concepção para combater os monges "bárbaros" das velhas universidades. a noite do paganismo passou. sem possibilidade de retornar. A noção de sucessivas "Renascenças" medievais precisa duma retificação. A concepção histórica trinária é de origem estética e surgiu depois que os artistas começaram a escrever para justificar. que se queixa da barbaria da sua época. como John of Salisbury. Um monge pré-humanista como Hildeberto de Lavardin lastima. São os lettrés. maltratadas por paixões ou por falta de veracidade. Tempos Modernos . A idéia de uma era "média" está excluída. uma esperança e uma ameaça. A consciência histórica dos pensadores medievais conhece apenas duas eras: a era pagã e a era cristã. Nesta concepção trinária . e Leone Battista Alberti.os "tempos modernos" são a continuação legítima da Antiguidade e a Idade Média é um intervalo obscuro.Antiguidade. no qual a verdadeira arte estava perdida. A oposição humanística contra a escolástica é muito menos uma oposição filosófica do que uma . nos seus Commentari.nova Idade Média. A veracidade não presidiu à formação do termo "Idade Média".. continua fiel a esta concepção histórica. É preciso restituir o verdadeiro sentido às palavras. pela evocação da Antiguidade. Idade Média. em virtude da força luminosa da Cruz. uma arte totalmente nova. já que os contornos de um novo feudalismo e o clericalismo de uma nova religião apareciam no horizonte rubro. binária. A nitidez e a sinceridade das concepções constituem hoje o primeiro dever. porque as decisões incontestáveis do cristianismo excluíam uma terceira época histórica. é um esquematismo dos retóricos. mas não lhe passa pelo espírito a idéia de que essa grande era passada possa voltar. para os quais uma expressão lapidar valia mais do que a verdade. Mesmo um "oposicionista". como teve ocasião de assinalar o P. um termo filosófico e político. P. Os protagonistas da concepção trinária são o escultor Lorenzo Ghiberti. Mandonnet O. a grandeza decaída de Roma.

O Romantismo é contrarevolucionário e ao mesmo tempo medievalista. porque a idéia antimedieval já havia encontrado uma expressão muito mais forte na retórica dos revolucionários de 1789 e dos Convencionais. procedente da seita deísta dos Collegiantes. A revisão histórica deste erro e a reação política são a mesma coisa. aos viri obscuri. de Joseph de Maistre a Haller. A idéia de um progresso político paralelo a um progresso cultural firmou-se. sua transformação em instrumento anticristão. e o historiador William Robertson fala em "Dark Ages". é o inventor da expressão "Idade Média" com sentido pejorativo. dessas concepções. Em Hutten ou em Erasmo. Assim. lançou vigorosamente este grito "modernista". A "lei dos três estados" de Augusto Comte é o último eco. combatem a Idade Média como época de feudalismo. Enfim. "séculos obscuros". os criadores da forma moderna do "direito natural". O próprio Lutero. Grotius e Pufendorf. já fraco. O professor holandês Horn.oposição gramatical e estilística. Chateaubriand descobre o gênio do Cristianismo na catedral gótica. e o que Hutten censura violentamente aos monges. inventor de um verdadeiro arsenal de injúrias furiosas contra os "séculos obscuros". fraco. é o seu latim bárbaro. a idéia antimedieval tornou à sua origem: a retórica. a concepção trinária tem ainda uma base cristã: eles saúdam a renascença do cristianismo. "medievalista" por excelência. começa por Giordano Bruno. A secularização da concepção trinária. A Revolução Francesa é a última conseqüência da concepção de uma "Idade Média obscura". que estava obscurecido pela mentalidade dos papas medievais. Os novos discípulos de Cícero revoltam-se contra os filhos de São Francisco e São Domingos. Edmund Burke descobre a origem medieval da Constituição inglesa. O livre-pensador Bolingbroke também contribui para este mesmo sentido. o termo recebe uma significação política. Isto continua até às primeiras luzes do século XVII. até mesmo na glorificação da Idade . Ao mesmo tempo. cujos restos impedem ainda o advento da nova época burguesa. Burke é o mestre de todos os teóricos contra-revolucionários. Sua expressão torna-se definitiva.

Idade Média obscura.a mesma a que sucumbiria o mundo bizantino pelas suas virtudes sóbrias e práticas de um último romano. Gregório. Como prova. de Viena. enquanto o cristianismo oriental acabava de petrificar-se nos últimos formalismos gregos. em que proíbe ao clero os estudos literários. comecemos pela destruição do pretendido simplismo medieval. Ele. da verdade histórica sobretudo. Não ajudou a Cassiodoro. Tempos Modernos luminosos" eles opõem a trindade: "Idade Média luminosa. Mas Gregório. principalmente por esta grande figura a que Fedor Schneider chamou "o simplista sobre o trono papal": Gregório. porém. cita-se a sua carta ao arcebispo Leandro de Sevilha. Assim eles se contentam com substituir a concepção antimedievalista do barroco por uma concepção de sucessão. e outra ao bispo Didier. o Grande. O simplismo é o inimigo da verdade. De Maistre não distingue bastante o ancien régime de Luís IX do ancien régime de Luís XIV. "Ex scholis omnis nostra salus. que escrevia um latim impecável. Este simplismo vingar-se-á. o Grande. desviou a morte que ameaçava o espírito ocidental . que se fechava com os tesouros de seus livros no mosteiro Vivarium. Para a destruição desses dois simplismos apostos. propagada entre os cristãos ocidentais. Os séculos proclamam que este monge matou o humanismo. última degeneração da retórica pagã.Média feudal por Carlyle. À trindade "Antiguidade luminosa. não serviu a este pretenso humanismo. Mas é preciso conhecer a literatura que o grande papa condena. Mas eles sucumbem logo a uma confusão funesta: Haller reivindica para a Idade Média a idéia de um "Estado paternal"."195 Lêem-se estas . idéia especificamente barroca. Tempos modernos corrompidos. instituiu fundamentos materiais sobre os quais a Ordem de São Bento pôde construir os seus castelos de espírito. A ideologia contra-revolucionária sucumbe à retórica revolucionária e ao seu esquema trinário. Certamente. o Grande. Tornar-se-á possível a combinação de Joseph De Maistre com Augusto Comte: eis Charles Maurras. Restauração luminosa". onde ele condena severamente os estudos de gramática e de literatura. omnis felicitas. divitiae omnes ac ordinis splendor constansque stabilitas.

Baumgarten S. Cath.. Inst. Vita S. Isso possibilitou a extraordinária licenciosidade do Roman de la Rose. Brunet et Treblay.palavras beneditinas. cuja linguagem singular. e.e.era muito mais ampla na Idade Média do que mais tarde. Otava. Na Idade Média não se tinha ainda que recear o espírito sectário.."foetor infernalium vitiorum in Romana curia"196 . Mas o . Durante 800 anos.obrigou um papa desconcertado a calar-se (P. apoiado na autoridade do maior Pai da Igreja. Para conhecer a universalidade dos seus interesses espirituais. Siècle. o que fez um Gourmont confessar: "É necessário rever a nossa concepção sobre a Idade Média. 1934) ou o repertório dos estudos latinos de Vincent de Beauvais (em Alex. 1937. P. ad. Histoire de la littérature chrétienne médiévale). a liberdade de falar . com os seus ataques vigorosos ao clero e à aristocracia. devem-se ler os recentes estudos sobre a escola de Chartre (Paré. A concepção "Idade Média" em sentido pejorativo coincide como advento do espírito utilitário e dos dogmas barrocos contra a velha Universidade. 30 Apr. Strunz. porque o Roman de la Rose foi o livro mais lido durante três séculos". 306). 1923). Acta Sanct. N. p. citadas. natural num clero monacal. num pólo oposto. e os tempos modernos mal têm conhecido a liberdade ilimitada do ensino e a comunhão internacional dos espíritos nacionais que distinguiram a Universidade medieval. La vie scolaire du Moyen-Age. no estudo em que Franz Strunz descreveu as origens monásticas da Universidade (F. Raimundus Capuanus O. simples religiosa. sobretudo. 152). Thonnard: "Dois princípios dominavam a organização da Universidade medieval: a Liberdade e o Internacionalismo" (Histoire de la philosophie. ao mesmo tempo que a ciência se nacionaliza pela perda da língua internacional. A Universidade é uma criação da Idade Média. La renaissance du XIIme. lembro Santa Catarina de Siena.. violenta .. o dogma da Igreja baseara-se no agostinismo neoplatônico. J. E a liberdade? Não se deve pôr em dúvida que a liberdade de pensar . d'Études Médiév. Falemos na vitória dessa liberdade medieval: Santo Tomás de Aquino. Sien. Cumpre acrescentar o desinteresse científico. do latim.. 891. Não se duvidará mais das palavras do P.

eram lutas entre operários e patrões (Inama-Sternegg.). Mas desde Fritz Roerig (Le Commerce international du Moyen-Age. supl. Les anciennes démocraties des Pays-Bas. Como as modernas lutas de classes. Na época dos sistemas fechados.monge Tomás ousa abandonar estes conceitos sagrados para basear o dogma da autoridade no filósofo pagão Aristóteles. 872). p. gostaria de falar da economia medieval. Imaginai. Dictionnaire des sciences politiques. 1920. e sim para obter privilégios iguais (Henri Pirenne. 1933) sabemos que era uma economia internacional e livre. descuidamo-nos do seu dinamismo. II. O cônego Wilhelm Schwer (Corporations et organisations corporatives du Moyen-Age. Na verdade. Insistindo ainda neste ponto de liberdade. com os seus organismos corporativos de todas as profissões. p. Aí o liberalismo e a Idade Média se juntam contra um inimigo comum: o barroco. "Corporation". um professor de seminário que abandonasse o tomismo para basear o dogma em Kant ou Hegel! E sabereis o que perdíamos. Já insistimos demais sobre os elementos estáticos da organização medieval. hoje.disse o economista conservador Gustav Schmoller (Précis de l'économie politique. Mas antes de tudo havia a luta de classe dos artífices e comerciantes contra a nobreza privilegiada. Seduzidos pelas mesmas incompreensões. isto seria impossível. Ela nos foi descrita como um sistema fechado. essa luta não era para abolir esses privilégios. porém. Muito ao contrário: o corporativismo medieval era um instrumento para a luta de classes. Sua liberdade só foi destruída pelo mercantilismo barroco. I. Entretanto. O mercantilismo estabeleceu barreiras alfandegárias que também só foram destruídas pelo liberalismo. do barroco. descreveramnos o corporativismo medieval como instrumento eficaz para extinguir a luta de classes. 447). este mesmo Aristóteles que todas as instâncias da autoridade eclesiástica tinham recentemente condenado. 197 ff. é uma época de lutas de classes" . vol. teológicos e filosóficos. estabilizado. art. "Toda a segunda metade da Idade Média. É com certa surpresa que vemos envolvidas na política corporações julgadas inteiramente econômicas. p. 1934) demonstrou que as corporações medievais não tinham as suas .

mas profundamente liberal. com as necessárias reservas. as corporações urbanas. pois o Estado medieval era muito fraco. mas os privilégios feudais e as instituições do liberalismo inglês tiveram as suas origens comuns no direito germânico. Não é por acaso que o liberalismo dos "Direitos do homem" se revolta contra o absolutismo barroco. Eis por que Guido De Ruggiero assinala. tendo o barroco por inimigo comum. da sociedade medieval: os senhores feudais colocam os seus direitos pessoais acima da lei do Estado. Nos séculos XIV e XV os Estados se dissolviam por movimentos anárquicos das corporações. V) Ortega y Gasset assinala o caráter antidemocrático. logo na primeira página da sua Storia di liberalismo nell'Europa (1925. o corporativismo moderno não tem nenhum modelo medieval. Sem dúvida. não nos será difícil descobrir o seu adepto mais fervoroso: a Igreja. num "liberalismo medieval".origens em corporações profissionais. pp. Ainda uma vez o liberalismo e a Idade Média se encontram. e seria irrealizável sem essa condição. Se nos foi permitido falar. Às corporações da nobreza e do clero ajuntam-se. o corporativismo medieval é um fenômeno de degeneração do feudalismo. os seus modelos são muito mais recentes. verdadeira antítese do Estado medieval. Mesmo sem querer subscrever todas as . O corporativismo moderno tem necessidade de um Estado forte. Afinal. seria excessivo falar num "liberalismo medieval". t. incapaz de pôr freio às usurpações dos privilegiados. Ortega y Gasset chega mesmo a falar em "Direitos do homem" da Idade Média. prolongamento do sistema feudal e conseqüência de um Estado muito fraco. Esta diferença é particularmente visível nas relações entre as corporações e o Estado. 1-7). e sim em corporações políticas. e opõem-se mais tarde. a origem feudal da "Liberdade" e a sua prioridade cronológica em relação ao Estado absolutista do barroco. As corporações medievais reclamam com arrogância o direito de resistência contra o Estado. No seu admirável ensaio sobre os castelos de Castela197 (El Espectador. o que torna muito limitados os poderes do Estado em relação aos direitos individuais.

o Estado absolutista do barroco chegou a modificar essas relações.198 não se poderá negar que a Igreja. definitivamente. Desde as estipulações de Worms.1453. e. sim. em vez de defini-la sinceramente. e desde então. Depois. A luta durou todos os séculos da Idade Média. por fim. a Igreja como base espiritual da Ordem estabelecida. considerada como o seu começo. a Reforma Luterana . Entretanto. porque a Idade Média não tem fronteiras bem determinadas. um papel revolucionário. atributos da Idade Média. em 1122. O que se odeia ou admira na Idade Média. provou. surpreendentemente. 1517. os sistemas filosóficos rigorosamente fechados. o Estado paternal e forte. Como era e é admissível este erro? Fez-se da Idade Média um pretexto para polêmicas apaixonadas. mesmo para os compêndios escolares. a definição de uma época histórica é difícil. pelo menos desde Gregório VII. a queda de Constantinopla. e. a Igreja teve outros aliados. nos seus estudos sobre Petrarca. Desde os estudos de Alphons Dopsch (A transição da Antiguidade para os tempos modernos.afirmações do historiador protestante Eugen Rosenstock (Les révolutions européennes. não são. desempenhou. e. a descoberta da América. 1921). As velhas datas que marcam o seu fim . porém. 1931). Cola di Rienzo e o anônimo Lavrador de Boêmia. cada derrota da Igreja é confirmada por um tratado chamado Concordata com o Estado vencedor. não tem uma cronologia definida. A Igreja foi muitas vezes vencida. Konrad Burdach. que a Renascença não começou com . sim. 1492. uma vitória! Apenas as derrotas eram menos duvidosas do que as vitórias. do barroco.não são bastante precisas. Concordata já não significa uma derrota. Para refutar as censuras perversas e ridículas de "espírito dominador clerical" seria melhor admitir francamente esta oposição revolucionária da Igreja medieval aos poderes monárquicos. e a da Idade Média o é extraordinariamente. Sem dúvida. com argumentos convincentes. A conclusão já está tirada. aliada às forças revolucionárias da pequena nobreza e das cidades. A própria "invasão dos bárbaros". sabemos que não há interrupções definitivas entre as épocas.

em pleno movimento do Renascimento. Realmente. e que. que os últimos servidores da luz estejam na obrigação de aliar-se a esta nova era. Deutsche Vierteljahrsschrift fuer Geistesgeschichte. XII. Atualmente uma era da história está chegando ao fim. 1932) encontra o espírito medieval e cristão em toda parte. Não se pode subscrever. Não há fronteiras da Idade Média. Não há mais uma definição. Idade Média é um destino. cuja vitalidade abundante podia ser dominada. II) estabeleceu a lei histórica segundo a qual toda civilização passa por uma "Idade Média". por definição. Quando uma era da história termina. nem admitir. para nós outros. Uma nova Idade Média justificaria talvez ainda as angústias progressistas. absolutamente. nenhuma luz poderia brilhar. Uma nova Idade Média seria obra de outros bárbaros. mas não as esperanças tradicionalistas. não será. As "Idades Médias" repetem-se sempre. e Carl Neumann ("Fim da Idade Média". Eduard Meyer (Histoire de l'Antiquité. Elas não representam nem infernos nem paraísos. Ernst Walser (Estudos sobre a história espiritual da Renascença. cui lumen ademptum". para se encontrar a sua verdadeira origem. os "bárbaros verticais" de Rathenau. a Idade Média não é uma época histórica determinada. cumpre remontar até o século de São Francisco de Assis. Se uma nova Idade Média nos atingir. um monstro sobre o qual. de uma juventude cheia de promessas. senão que ela não se parecerá. por outro lado. t. uma nova Idade Média pode ressurgir. Os admiráveis estudos de Jan Huizinga sobre o Outono da Idade Média na Borgonha quatrocentista marcam o fim definitivo da velha cronologia. Idade Média é uma certa disposição e atitude do espírito. Mas desta "nova Idade Média" nada sabemos. Bárbaros sem luz. que surgiam da escória de civilizações muito velhas: "monstrum horrendum. Mas não se parecerá com as Idades Médias que a antecederam. Mas. 124) persegue o espírito medieval até o começo do barroco. com a velha. A "velha Idade Média" era obra de jovens bárbaros. pois que uma luz divina brilhava sobre o mundo. . p. nem uma esperança nem uma ameaça.os humanistas nem com Petrarca.

senão moribundas. uma nova Idade Média. Das universidades depende a vida espiritual das nações. Nesta partícula "uma" fica toda a incerteza do nosso futuro. Não esquecerei nunca. Olhando pelas frestas das portas monumentais . O abismo entre o progresso material e a cultura . estupidez e cinismo em cima e em baixo das cadeiras dos professores. pois. tendo nos lábios o sorriso enigmático da morte. com olhos enigmáticos: a deusa da sabedoria. o edifício estava fechado. A IDÉIA DA UNIVERSIDADE E AS IDÉIAS DAS CLASSES MÉDIAS JAMAIS esquecerei o dia em que entrei pela primeira vez. o jardim. A decepção foi muito grande. e no busto de um astrônomo: "O princípio que traz o seu nome ilumina-nos os espaços celestes.via sob a luz branda do sol os pórticos. os auditórios barulhentos. as velhas pedras. Os iniciados bem sabem que não é esta uma questão para os pedagogos especializados. e. Nas paredes viam-se os bustos dos professores que ali estudaram e ensinaram. num pequeno jardim. os estudantes haviam-se juntado a uma imensa manifestação popular.estávamos na primavera ." No meio do pátio. Um pórtico silencioso.Se houver. A última vez que passei perto deste "templo das Musas". e isto é grande coisa. no solene recinto da Universidade da minha cidade natal. e a deusa nua. Sabia muito bem o que isso significava para mim: um adeus para sempre. Por toda parte. O fim das universidades seria um fim definitivo. E reconheci um fim definitivo. exames fáceis e fraudulentos. "uma" Idade Média. no busto de um helenista lia-se a inscrição: "Ele acendeu e transmitiu a flâmula sagrada". não será mais "a" Idade Média. com toda a ingenuidade dos meus dezoito anos. Via a biblioteca coberta de poeira. e que se chamavam "acadêmicos". sim. as universidades são doentes. sob o ameno sol de outono. brutalidades de bandos que gritavam os imbecis slogans políticos do dia. Silêncio. erguia-se uma estátua de mulher nua.

" E. Desejam salvar as universidades pela separação entre as instituições puramente científicas e os institutos de ensino. a abundância de homens convictos e a falta de homens livres." Aí está a questão da Universidade. Quem é o culpado? Evidentemente. queixam-se de as universidades não fornecerem elites. Em tempos mais felizes a sueca Ellen Key dizia com sutileza: "Cultura é o que nos resta depois de termos esquecido tudo quanto aprendemos. o que agravaria o problema em vez de o resolver: a ciência seria. Então. "úteis" para os serviços do Estado. somos riquíssimos de saber e mendigos de cultura. as tentativas mais bem pensadas de curar a doença infundindo uma nova crença ou uma velha fé: teremos os mesmos estudantes. queixam-se de que as universidades fornecem elites demais. Acusa-se o Estado por ter-se intrometido. mas o edifício do espírito. Acusam-se os professores por mergulharem nos ensinos profissionais e descuidarem-se da ciência desinteressada. Porque não cabe à Universidade formar crentes nem sequer sugerir convicções. mas dar ao estudante capacidade para escolher a sua convicção. Já abundam os homens cegamente convictos. um proletariado intelectual. em breve. é inadmissível simplificar uma discussão de tal envergadura. Hoje em dia Herbert George Wells pode dizer: "We are entered in a race between education and catastrophe. e acusam-se os professores por mergulharem na ciência pura sem saberem ensinar. dos partidos e das empresas comerciais. e o ensino entregue à rotina. ali. Abundam os remédios propostos. Os edifícios das universidades resistem ainda. Falham. os mesmos bacharéis." "Entramos numa corrida entre educação e catástrofe. de que a nação tem necessidade. e as armas desse progresso nas mãos dos bárbaros é fato que clama aos céus. Aqui. demais. assim. esta catedral invisível. deste modo. e acusa-se o Estado por não se intrometer. Pode ser que todas essas instituições lamentem. às vezes. acusar-se-á amargamente o utilitarismo das . da Igreja. igualmente. os mesmos doutores que antes. afastada da vida.espiritual aumenta de dia para dia. e as suas boas crenças não resolverão a doença da Universidade. está ameaçado de cair em ruínas. e neles trabalha-se muito. muito "práticos".

é uma criação da Idade Média. com surpresa? Estes regimes não se ocupam. cujo enfraquecimento coincide com a fundação renascentista do Collège de France. Mas o que quer dizer "prático". Apelo desta sentença para a sabedoria de certos homens práticos. É digno de nota. A França medieval é a Sorbonne. ditos totalitários. que as abraçam até sufocá-las. absolutamente. a filosofia. e cujo prolongamento moderno é a École Normale Supérieure. cujas conseqüências práticas poderiam abalar estes regimes. Mas o que é ainda mais notável é uma certa coincidência. O utilitarismo é o inimigo mortal da Universidade. e que formam a verdadeira alma da Universidade.universidades modernas. ao qual julgo que devemos algumas perspectivas novas. Sabemos que a Universidade. a história. que continuam bem tranqüilas. mais conservadora. que não nos fornecem nada. Por felicidade os poderosos deste mundo introduziram um novo ponto de vista. são ciências "inúteis". das Litterae. são as ciências úteis. Mas as ciências totalmente inúteis. a história e a filosofia. os ditos regimes não se ocupam com as ciências naturais. a física e a química. Para a mentalidade média do nosso tempo a utilidade das ciências é determinada segundo as aplicações práticas: a física e a química. que disso entendem muito bem. Ora. Universitas Litterarum. que a Idade Média conhecia pouco. Tratam somente das "velhas" ciências. são justamente as favoritas dos regimes totalitários. Ora. A Inglaterra. que na Idade Média já eram conhecidas. Está claro. A história das universidades é a história espiritual das nações. Eles sabem o que é uma universidade. os estudos literários. "útil"? A resposta não é tão simples. Foram justamente estas Litterae que formaram os caracteres das nações. e aquele que desejar transformar uma nação deverá transformá-las integralmente. Certos regimes. acharam indispensável regular pela força o estudo das ciências. é sempre Oxford e Cambridge. com as ciências "práticas". A Alemanha luterana . e que se juntaram mais tarde à Universidade. que nos forneceram a luz elétrica e os gases asfixiantes. que vemos nós.

México. mas foram.é Wittenberg e Iena. e ao bem público de nossos reinos. a ordem real do imperador Carlos V. o gentleman. e pelo muito amor e vontade que temos de honrar e favorecer aos de Nossas Índias. convém que nossos vassalos. Córdova são fundações da Coroa de Espanha. e já a primeira cédula de fundação.Lima. Elas formam os clercs. criamos. Elas formam os homens que substituem. e que construímos as nossas casas e estabelecemos um governo civil. e desterrar deles as trevas da ignorância. Nosso Senhor. súditos e naturais tenham Universidades e Estudos Gerais em que sejam instruídos e titulados em todas as ciências e faculdades. dreading to leave an illiterate Ministery to the Churches. when our present Ministers shall lie in the dust" (New England's First Fruits. o espírito desinteressado da Universidade medieval: "Para servir a Deus. e na cidade de México da Nova Espanha. Universidades e Estudos Gerais. em 1636. confiadas aos frades. formam o tipo ideal da nação: o lettré. Elas não fornecem homens práticos. one of the next things we looked after was to advance Learning and perpetuate it to Posterity. desde o início. As velhas universidades da América Latina .") . a primeira universidade da América inglesa. do que semelhantes termos haverem sido empregados quando os puritanos fundaram. a de Harvard: "After God had carried us safe to New England. As velhas universidades são de utilidade muito reduzida. o Gebildeter. dá claramente a entender o sentimento da responsabilidade perante o espírito. Bogotá. ("Depois que Deus nos tinha seguramente conduzido a Nova-Inglaterra. fundamos e constituímos na cidade de Lima dos reinos do Peru. and we builded our houses and settled the Civil Government. o clero das universidades medievais. nos tempos modernos. admirável. uma das nossas primeiras ocupações foi estimular o ensino e perpetuá-lo para a posteridade. As universidades americanas têm a mesma origem. 1643). de 21 de setembro de 1551. a Alemanha moderna é Bonn e Berlim." Nada mais eloqüente. com receio de deixar às igrejas um clero iletrado quando os nossos clérigos atuais jazerem em pó.

para subsistir materialmente. São estes os que têm necessidade de um grau acadêmico. aliás. dizemos. devemos admirá-los. muito louvável. Por toda parte onde há aqueles regimes os estudantes estão nas vanguardas da violência. advogados. Existem outros verdadeiramente ricos. só há estudantes. e é um romantismo utilitário que vem muni-las das asas do progresso. Junte-se a isto a benevolência. por sua vez. feitos por eles e seus pais para melhorar um futuro incerto e tornar a existência mais digna. estudam para se assegurarem um melhor sucesso na luta pela vida. muitas vezes imensos. que não têm necessidade de estudar. nem gentlemen. o nível baixa sensivelmente. formam médicos. precisam deles. Há duas espécies de estudantes: chamá-las-emos os "ricos" e os "pobres". Não há mais clercs. As universidades tornaram-se lugares de investigações científicas. professores. o que é. Em todo caso. Seria cruel e estúpido censurá-los.O que resta destas Universitates Litterarum? O nome. Todavia. sobretudo têm pressa de terminar os estudos. Antes. Os estudantes "pobres" são aqueles que estudam "para a manteiga e para o pão". até o nível dos estudantes "ricos". Já não formam lettrés. Estudantes "pobres". são apenas duas expressões cômodas para abraçar uma generalização inevitável. Em suma. e estas. Entre os estudantes "ricos" existem os pobres que desejam manter penosamente o standard de uma família em decadência. plenamente justificável. os seus estudos não são de . Ouso responder: os estudantes são os culpados. em virtude dos sacrifícios. sublinhando que há pobres entre os "ricos" e ricos entre os "pobres". importa não se dissimularem os graves inconvenientes. há muitos deles: vivem embaraçados pela miséria. porque o pai tem um. mas que através dos estudos testemunham grande respeito às ciências. que os examinadores lhes devem como recompensa dos seus esforços. Não é um acaso. nem Gebildeter. O nível baixa. pelas ocupações acessórias para ganhar a vida. Quem é o culpado? Ainda uma vez apelo para aqueles que disso entendem. porque isto dá certa consideração na sociedade ou para adornar fortuna um pouco recente.

el abogado. pero más inculto también . . Mas deve-se dizer que somente uma parte desses "intelectuais" pertence à Inteligência. em Oxford. 72). porque as ciências modernas e suas investigações têm menos necessidade de cérebros que de batalhões de estudantes. algumas verdades muito impopulares e muito desagradáveis. A inteligência que é precisa para estudar uma profissão. bom professor. Sejamos sinceros: podemos ser bom médico. que é. aqui. violentamente. Obras. The Idea of a University. Existe Inteligência e existem "intelectuais". os esforços ulteriores parecem-lhes ridículos. Mas ele confere sempre uma autoridade social.el ingeniero. Há vários séculos um sábio inglês. E são eles que. el científico" (Misión de la Universidad. p. bom advogado. os homens que se encerram nas especializações têm a inteligência em regresso" (citado pelo cardeal Newman. 1289). Intelectuais são os médicos. e para isto eles satisfazem. por seu lado. É preciso que se digam. el médico.necessidade absoluta. o cônego dr. Queixam-se de que as universidades já não fornecem elites. os advogados. É o regredir de uma elite à condição de massa ornada de títulos acadêmicos. E esse nível é a morte da Universidade. e ter o espírito preso aos limites da profissão. arcaico y primitivo en comparación con la terrible actualidad de sus problemas. eles não estudam mais do que o necessário. Sim. determinam o nível geral. José Ortega y Gasset caracterizou essa nova espécie de intelectuais. mas em compensação fornecem verdadeiras massas. não é tão grande como os leigos imaginam. Este nuevo bárbaro es principalmente el profesional más sabio que nunca. pela sua situação social. mas sinceramente: "Nuevo bárbaro. da elite de outrora. os especialistas científicos de toda sorte. os funcionários superiores de toda espécie. retrasado con respecto a su época. p. fellow do Ariel College. o resto dos clercs. predizia: "Ainda que a ciência seja favorecida por essas concentrações de inteligência a seu serviço. e sabemos que o grau acadêmico nem sequer é sempre a garantia de boas qualidades profissionais. mesmo acadêmica. o indispensável para passar nos exames. Copleston.

como fenômenos sociológicos. e que os operários e os capitalistas perderam. mais forte do que o mestre. das quais é a expressão triunfal. Considerando. de Daniel Guérin. verdadeiros exércitos de empregados privados. não teve uma classe média. nos outros países. a liberdade de movimento. É o fato central da nossa época: as classes médias. o espírito da reação violenta contra certas condições econômicas e sociais. os stakhanovistas e outras camadas privilegiadas do operariado não são outra coisa senão uma nova classe média. essas multidões de "pequenos intelectuais". O fascismo foi impossível na Rússia.as classes médias. É também um fato fundamental que a Rússia não conheceu.O fato central da nossa época é a violência generalizada a todos os setores da vida pública. essas massas de homens. pela ação deste inimigo de ambos . mas o espírito proletário. juntos. mesmo justamente para evitar a ameaça da proletarização. mesmo antes de serem proletarizadas. participam dele todas as "massas". transformam-se em massas proletárias. O livro mais bem documentado que conheço sobre o fascismo. E esta proletarização interior é um fenômeno da educação. enfim. Tese errônea. Provando irrefutavelmente que o grande capital se serviu do fascismo para bater o movimento trabalhista. e a massa dos intelectuais também. a violência que pretende substituir o espírito no seu papel guiador das massas. Sim. Ora. a ascensão de camadas igualmente novas. Guérin esquece-se de concluir que o instrumento se mostrou. todos formados num regime de ensino secundário ou superior muito facilitado. não está exclusivamente ligado às massas obreiras. A burocracia soviética. de funcionários públicos. Dessas massas que os pensadores políticos muitas vezes confundem com o proletariado econômico. Chama-se "classes médias" o problema central da nossa época. o bolchevismo criou uma classe média. todos mais ou menos educados. Fascisme et grand capital. de pequenos empresários. apresenta a tese de que o fascismo é a última expressão do grande capitalismo. Fato fundamental do nosso tempo: o fascismo propaga-se e vence através das classes médias. seguindo a corrente da época. considerando essas multidões de homens . que o século XIX ainda não conhecia.

que Georges Sorel. representante típico das classes médias francesas. Sorel é violentamente antiintelectualista. Sorel parece sobretudo "moderno". acabou. o pai espiritual comum do fascismo e do bolchevismo. esqueceu-se que a classe média fizera a Grande Revolução. dos Rodin e Debussy.novos. porém. seja um homem profundamente pequeno-burguês. dos Degas e Cézanne. com a decadência vital da raça latina. Chegou o dia de uma nova classe média. Mas é por isso mesmo. Explica-se. na França dos Taine e Bergson. Isto. Fica-se a admirar que Sorel fale em decadência. que ele concebeu fielmente no espírito conservador de Le Play. dos Pasteur e Henri Poincaré. pronta a vencer por uma nova revolução violenta ou. Vê no espírito e suas obras o grande obstáculo da volta ao primitivo. Neste ponto. pela qual ele responsabiliza violentamente a Inteligência. a portadora mesma das tradições humanísticas. É a hostilidade ao espírito que liga Sorel diretamente às novas classes médias. dos Flaubert e Proust. deve-se precisar o pensamento: o fascismo e o bolchevismo têm o lado comum de serem expressões das novas classes médias. No pensador revolucionário Sorel não se viu o conservador. enfim. numa das épocas mais magníficas do espírito francês. o ideólogo da violência. Georges Sorel. violentamente revolucionária e antiintelectualista. o representante das classes médias. O mal-entendido correspondente não viu nas novas classes médias as possibilidades revolucionárias. contemporâneo de nós outros. preocupado. e ela o era enquanto os princípios consolidados da Revolução Francesa abrigavam a classe média contra as ameaças do grande capitalismo e do movimento socialista. nem capitalistas nem trabalhistas. como na Rússia. Via-se na classe média a classe essencialmente conservadora. triunfar contra um . ao espírito ele prefere a vitalização pelos instintos bárbaros da massa. E a ideologia que permite explicar o espírito das novas classes médias é a ideologia pequeno-burguesa. por isso. preocupado com a decadência das "autoridades sociais". o século XIX. que Karl Marx não podia prever. Durante um século. dos Mallarmé e Claudel.

regime obsoleto. Foi Sorel quem emprestou às novas classes médias a ideologia revolucionária. Poder-se-ia acreditar que os grandes obstáculos dessa revolução fossem os capitalistas e os trabalhadores, ou, na Rússia, um regime milenário e eclesiasticamente consolidado. Engano. Vimos a fraqueza incrível do regime tzarista, a derrota fácil dos socialistas, o suicídio dos capitalistas. O verdadeiro obstáculo - e Sorel o previra bem - era a Inteligência. É ela que merece as diatribes mais cruéis dos chefes e dos caudilhos. Para a vitória final, precisa-se acabar com a Inteligência. Como? Não é a classe média o principal agente dos movimentos espirituais? Sim, é, ou melhor, foi. O século XIX, o século liberal, abre a todos todas as possibilidades. A educação superior é o caminho da ascensão. A preeminência da classe média no século XIX baseia-se na sua cultura universitária. Mas o século XX acaba com isso. O grande capitalismo precisa mais de exércitos de pequenos empregados do que de self-made men; as profissões liberais estão superlotadas; o movimento socialista repele os que resistem à proletarização e suas humilhações e privações. Privada dos privilégios da Inteligência, a classe média quebra furiosamente o instrumento, como uma criança quebra o brinquedo insubmisso. É uma criança essa nova classe média; mas uma criança perigosa, cheia dos ressentimentos dos déclassés, furiosa contra os livros que já não sabe ler e cujas lições já não garantem a ascensão social. Está madura para a violência. A violência é o fenômeno "espiritual" central das novas classes médias e da nossa época; significa a determinação de empregar todas as armas, todas as que o esforço do espírito criou, para conseguir um fim material: a salvação social da classe. Não se admitem outros fins. Ridiculizam ou anatematizam todos os esforços independentes, desinteressados, do espírito. Admiram a especialização útil do "intelectual de profissão", e banem o humanismo do "professor". A violência antiintelectualista das novas classes médias é, afinal, uma falta de educação, ou, antes, o fruto de uma falsa educação. Fruto da falsa idéia que as classes médias

formavam da Universidade: da nova Universidade, que fornece exércitos de médicos, advogados e técnicos, em vez de clercs, de uma elite. O problema capital do nosso tempo, o problema da elite, é, no fim das contas, um problema de pedagogia humanística. Existe mesmo, hoje, política que consiste na exterminação das elites pelas armas dos especialistas. E foi bem preparada: da diminuição das lições latinas existe apenas um passo para a destruição dos livros e dos museus. O resultado mais freqüente da moderna educação universitária é um decidido adeus aos livros. Mais tarde, combaterão as "línguas mortas" na escola. Enfim, declararão inútil todo o ensino secundário, com as suas idéias vagas e inúteis duma "cultura geral"; talvez toquem, com isso, no ponto nevrálgico da discussão. Todo o problema espiritual dos nossos dias é, pois, um problema de falta de educação humanística, um problema pedagógico; e todo o problema pedagógico dos nossos dias é um problema da escola específica das classes médias, da escola secundária. Segundo o regime escolar vigente em todos os países, sem exceção, a Universidade dedica-se ao ensino profissional superior, enquanto a "cultura geral" fica reservada ao ensino secundário, aos ginásios e aos liceus. Quer dizer: o ensino da cultura geral limita-se aos jovens de dez a dezoito anos. Depois, a "cultura" termina, e a medicina e a jurisprudência começam, sem nenhuma "cultura geral". Os conhecimentos do ensino secundário empalidecem, naturalmente, com o tempo; mas ainda há coisa pior: todo esse ensino de "cultura geral" é feito ao alcance de jovens de dez a dezoito anos: a história, a filosofia, a literatura, amoldadas ad usum Delphini, e forçosamente puerilizadas. E aí fica. Nunca mais o jovem médico ou engenheiro ouve falar em história, filosofia, literatura, exceto pela imprensa ou pelo rádio, que se colocam ao alcance do espírito das grandes massas, pueris por natureza. Resultado: um espírito artificialmente preservado no estado pueril com uma formação profissional superposta. Conheço bem as numerosas exceções que felizmente existem. Mas, em geral, estas massas graduadas se distinguem dos

iletrados somente por uma autoridade profissional que as torna menos úteis que perigosas. Ainda uma vez cito Ortega y Gasset: "La peculiarísima brutalidad y la agresiva estupidez con que se comporta un hombre, cuando sabe mucho de una cosa y ignora de raíz todas las demás" (O. C., p. 1291). Eles, porém, os iletrados, têm sempre razão, porque são muitos e ocupam um lugar de elite, esse "proletariado intelectual", sem dinheiro ou com ele, isso não importa. Julgam tudo, e tudo deles depende. Lêem os livros e decidem sobre os sucessos de livraria, criticam os quadros e as exposições, aplaudem e vaiam no teatro e nos concertos, dirigem as correntes das idéias políticas, e tudo isto com a autoridade que o grau acadêmico lhes confere. Em suma, desempenham o papel de elite. São os nouveaux maîtres, os señoritos arrogantes, graduados e violentos; e nós sofremos as conseqüências, amargamente, cruelmente. "We are entered in a race between education and catastrophe." Wells tem muita razão. Mas é de grande importância datar a desgraça. Esta catástrofe irrompeu sob o signo do progresso, e o progresso ilimitado, muito do gosto de um Wells, cavará mais profundamente o abismo. O verdadeiro caminho é a volta. Temos mais uma vez "a disputa do medievalismo". Uma coisa fica, porém: a Universidade é uma criação da Idade Média. Todas as universidades medievais são, por princípio, instituições "clericais": elas formam os clercs. O restabelecimento das universidades "clericais" é uma restauração de tradições. Quatro ou cinco faculdades reunidas não constituem ainda uma universidade. Elas não criam esta "convivence of sciences, which forms a philosophical habit of mind",199 de que fala o cardeal Newman. Não se trata destas ciências ou daquelas profissões. Tratase do espírito comum que as anima, do espírito filosófico, antiutilitário, desinteressado, que as nossas universidades perderam, e que é a própria Idéia de Universidade. Derrubemos, pois, este estado de coisas. É ao ensino secundário que cabe o preparo do ensino profissional, dispensado nos hospitais e na magistratura. Em

conclusão, é à Universidade que incumbe a formação do espírito da "clericatura". Voltemos aos estudantes: o seu utilitarismo, mais perigoso que o das ciências, perdurará enquanto a freqüência das universidades for a chave para as posições de mando na sociedade. Verdadeiramente, o oposto deste utilitarismo é o desinteresse, no qual Newman via o espírito e a idéia de universidade, o espírito do clero universitário medieval, que se sentia independente do mundo e somente responsável perante Deus. Sem tais padres o altar fica vazio e o culto abandonado. Poderia chegar o dia em que ninguém compreenderia mais as fórmulas nem os poemas, em que os quadros de Rembrandt seriam pedaços de tela e as partituras de Beethoven farrapos de papel; dia da barbaria, em que a história humana se transformaria, pela sucessão de desgraças, num formigueiro mal organizado. E este dia talvez já esteja mais próximo do que realmente pensamos. "Somos a última reserva, fiquemos conscientes disto" - dizia Hugo Ball. Fiquemos conscientes, "dreading to leave an illiterate Ministery to the Churches, when our present Ministers shall lie in the dust". LETRAS ITALIANAS Conhece-se pouco, no estrangeiro, a literatura italiana. E é pena. É uma das maiores e mais magníficas literaturas, a literatura deste povo que amei sempre; e as letras italianas encerram uma grande lição humana. A literatura italiana é uma literatura latina e a filha predileta da literatura romana. Como literatura latina, ela encanta pela harmonia de sons e cores, pela melodia verbal, pela superfície; como literatura romana, ela constitui uma escola de firmeza e de caráter. Eu sonho com uma história da literatura italiana onde se veria, através das letras, a incomparável estabilidade do caráter italiano sob a pressão dos mais terríveis sofrimentos e atribulações, que duraram séculos e séculos. Tal história seria uma consolação para nós outros, uma lição; e se acaso esta firmeza se partiu, nem por isso a lição será

menos importante. Será uma grave advertência para nós intelectuais, cuja substância se submete mais facilmente a corrupções do que a vitalidade deste povo muito antigo. É um povo tranqüilo, alegre, zombador, sombreado por algumas melancolias do mar e da montanha, orgulhoso de seus antepassados e das grandes obras que deixaram, mas, acima de tudo, cuidadoso da sua nutrição, da sua família, de um pouco de prazer e, enfim, de uma boa morte. É um popolo minuto, um "pequeno povo", que se exprime numa preciosa literatura dialetal. Nos gracejos espirituosos dos pequenos-burgueses florentinos e nas canções nostálgicas dos marinheiros napolitanos resplandece um último raio do sol jônico, do sol de Homero. Sobre este pequeno povo arqueia-se um Olimpo. É o céu, e algumas vezes o inferno, desses grandes poetas italianos, que foram, em todas as épocas, grandes profetas. Dante, o Juiz, é o mestre de toda a literatura italiana. Seguem-se-lhe Petrarca, não somente o amante de Laura, mas também o poeta colérico dos panfletos contra os papas corrompidos e contra os pequenos tiranos que dilaceram o povo, e aos quais ele grita: "Pace, pace, pace!"; Ariosto, cuja epopéia fantástica encerra orações dantescas contra a "Itália, cloaca de servidão"; Filicaja, o patriota desesperado; Alfieri, o homem de ferro, cuja poesia "é um ranger de dentes sobre a miséria da Itália"; Foscolo, o poeta do exílio; e enfim Leopardi. Manzoni e Carducci representam o fim das tradições que criaram a Itália moderna: Manzoni, o último católico liberal; Carducci, o último humanista toscano. Depois deles, é o vácuo. Os juízes do prêmio Nobel, quando desejam honrar a Itália, encontram apenas os fracos contos folclóricos de Grazia Deledda. O novo século vê uma geração pequena. Vede os romances de Antonio Fogazzaro, retrato da burguesia católica de província, muito bem feitos, mas sem medula; de um catolicismo que se adapta a todas as excursões de sensualidade amorosa e de acomodação modernista. Vede as poesias de Giovanni Pascoli, que lastimam os sofrimentos dos emigrantes italianos em todos os continentes, e cujo socialismo sentimental encerra já alguns

Giovanni Papini experimenta todas as aventuras espirituais. É uma obra completamente regionalista. título da sua autobiografia precoce. chama-se a si mesmo "Un uomo finito". Manzoni e Carducci. as últimas novidades. O que existe de mais notável é a falta de bom senso. talento incontestável. Pascoli. mas estéril. é de uma curiosidade insaciável. deixai a síntese do falso misticismo e da sensualidade desenfreada. da demagogia furiosa e do chauvinismo bárbaro. Ele não é somente o libretista da Cavalleria rusticana. até nesse recanto idílico. no mundo burguês. cada um à sua maneira. através da sua revista Voce. cada ano. sem saber dominar seu caos interior. onde as banalidades turísticas de Nápoles se transfiguram em grande poesia. nos sonetos de Cesare Pascarella. antes de se precipitar na agitação nacionalista. são desequilibrados. o cantor às vezes . D'Annunzio. desequilibrada. em que os pequenosburgueses de Florença se divertem.apetites imperialistas. o "diretor dos jovens". O seu poderoso romance-ciclo apresenta-nos quadros empolgantes de um mundo que morre.raras vezes . A nova geração é desarraigada. Fogazzaro. o tipo do intelectual invertebrado. nos quais o povo suburbano de Roma joga na loteria e zomba da polícia. esgota-se na propagação das modas intelectuais de Paris. Existe. Ardengo Soffici. a inteligência mais viva sem nenhuma faculdade de criar. polemista furioso. do velho mundo feudal que se transforma. nos contos de Renato Fucini. Mas a última novidade é Marinetti. mas essa destruição constitui um acontecimento bem italiano. Giuseppe Prezzolini. contudo. que era. para desarraigar todo um povo e não deixar.poderoso. O bom senso tradicional dos italianos refugia-se na pequena literatura dialetal. é o Balzac da Sicília. após si. o patriarca e o vate. entre esses grandes mestres de uma pequena arte. nas canções de Salvatore Di Giacomo. de onde traz. misturados com a extraordinária magia da palavra que serve para narcotizar os desesperos da alma vazia de Gabriel D'Annunzio. Mas. poeta e novelista fascinante. um verdadeiro mestre: Giovanni Verga. tinham-no ainda. eu vos suplico. senão destroços. as mais das .

Guido Gozzano. imensa promessa. Renato Serra. desequilibrada e aventurosa.vezes absurdo. pronta para "modernizar". vítima da tísica. a perturbação interior dos intelectuais pequenoburgueses que. É o quadro perfeito da mudança radical do espírito burguês: à velha burguesia humanista e satisfeita substituiu-se uma nova classe média. Aqueles a quem ele deixou viver morreram demasiado cedo. aos D'Annunzio. Pouco depois. Esta terrível montanha devorou todo um futuro. cantor delicado das velhas lembranças de família. sem poder realizar sua poesia e sua vida: Sergio Corazzini. Croce os amou. para enaltecer a beleza dos viadutos e dos arranhacéus. o adolescente desesperado. no romance Rubé. que ele prefere escrever em francês. morre em 1915 no Monte Podgora. A guerra mundial destruiu uma geração. Francesco Gaeta. cheio de mortos. Scipione Slataper. morre em 1915 no Monte Podgora. esta geração tem uma pequena literatura. "As obras-primas da impertinência": a palavra é de Benedetto Croce. "armar" a "Italietta" dos . que viveu o seu romance Il Carso. aos Fogazzaro. Entre os moluscos. A. mas um grande crítico. Marinetti. Borghese descreveu. crítico incisivo e construtivo. Caso único. continuou com boa saúde. a Itália do futuro deveria ser "uma sinfonia de cimento e de aço". aos Pascoli. à vida regrada da paz. G. Ele penetrou-os e destruiu-os implacavelmente. "americanizar". depois. o último dos grandes profetas italianos que castigam e amaldiçoam por amor. os frammentisti. A sua crítica é um campo de batalha. jovens poetas infelizes que se esgotaram em fragmentos. A guerra matou a velha Itália. no qual os ventos salgados do Adriático atormentam uma mocidade inquieta. Eles eram sinceros. e é em francês que exige imperiosamente a destruição de todas as igrejas e museus. morto aos vinte anos. Croce é o único caráter. esta hecatombe será um massacre. do mundo moderno. partindo aborrecidos para a guerra. até a Marinetti. tomavam gosto à vida desregrada dos acampamentos. porém. aos jovens. que se suicidou. talvez a maior esperança intelectual da Itália. e não podiam acostumar-se. A língua clássica é tão imprópria aos seus absurdos.

A vítima é a velha geração. caracteristicamente fechados. Criaram. antes. reconheceo muito bem. este mundo baixo e vil. ele seria um grande trágico. e resolve fingir-se louco para continuar imperador. e para suportá-lo é preciso criar um mundo fictício. está bem à sua vontade nessa época. Mas são uns solitários. desequilibrado. O novo mundo é um mundo de ficções. num mundo estável e fechado. de repente reconhece inútil toda a sua preciosa cultura. humanista de velha escola. para definir sua atitude: já não há guerra. dos fascistas. o único verdadeiro romancista da Itália moderna.pais. . e as suas vozes não conseguem atravessar a densa rede metálica que Marinetti e os seus teceram. Arrisca-se mesmo a dizer que a ficção se tornou a condição de vida indispensável ao intelectual que colaborou para criá-la. A mais significativa de todas é talvez este Enrico IV. ele o estará quando lhe permitirem continuar. e à luz artificial de seus holofotes tecnicamente perfeitos o espírito não se reconhece mais. mais tarde ele recupera a sanidade mental. dos aproveitadores da inflação e dos dançarinos de foxtrot. Malaparte escreverá mesmo uma Técnica do golpe de Estado. Pouco importa: Panzini é o maior talento humorístico da literatura italiana contemporânea. na paz. Bem cedo ele se põe a dilacerar. sem dúvida. vivemos num intervalo incerto. Alfredo Panzini. ou melhor. exceções: Corrado Alvaro. ou. diante do qual não se cansa de experimentar o sentimento de inferioridade de um velho pedante. Existem. nessa nova Itália dos bolcheviques. que uma infelicidade atirou à loucura de ser o imperador medieval. o amargo novelista da vida de província. Em outros tempos. Mas é um velho. nos seus romances. professor de ginásio. Ele resolve continuar imperador num império de ficções. e a paz não quer voltar. que é a guerra na paz. Curzio Malaparte. A consciência desta confusão inconsciente é Luigi Pirandello. jovem voluntário da guerra. mas sua época produziu terríveis comédias. sua profissão de voluntário de guerra. a comédia do homem moderno. mas não reconhece mais o seu mundo. Alberto Moravia.

mas nenhum grande poema. São espíritos de escol. nenhum verdadeiro romance. de uma viagem. é certo. capazes de fazer a poesia da poesia de fazer uma poesia. que não suporta mais reeducação. Aqueles que cederam à educação foram os intelectuais. arrancou este pelas raízes. Observando certas deformações da coluna vertebral.Expulsaram. confundindo o sentimentalismo e o humanismo. conseguiu condensar o profundo desespero da sua poesia noturna em formas destinadas a se tornarem clássicas. Com efeito. levam a descrição de um quadro. e principalmente o novelista Massimo Bontempelli. era preciso apenas uma coisa: caráter. A Itália moderniza-se febrilmente: há 60 anos ou mais. Mas deve-se responder pela negativa. e não se pode sustentar que era uma educação sentimental. os Riccardo Bacchelli e Bruno Barilli. com o furor de que só as almas desarraigadas são capazes. este latinismo fictício. os clercs. aparentemente de aço. Os protagonistas da literatura contemporânea são os Emilio Cecchi e Vincenzo Cardarelli. um único sentimento de mistério. porque esta rede. este catolicismo fictício. Mas substituíram-na por um pálido classicismo. Antes uma auto-educação. Mas não existem caracteres num mundo fictício. definitivas. revelarão como se faz um romance. empenha-se em . que não atinge a alma do povo italiano. poetas sobre a poesia: fazendo um romance. ela própria é uma ficção. Para retomar a terminologia de antes da guerra: o frammentismo conquistou a literatura italiana. perguntamos se não seria responsável por isto aquela rede metálica que aperta os membros como uma camisa-de-força. Ainda uma vez: não falta espírito nem talento. grande poeta mesmo. Literatura em terceiro grau. da vida. Este povo é tão velho. O mal vem de longe. a frase dannunziana. que. sem sucessão possível. antigo mesmo. Para transformar esses fragmentos em grandes obras. críticos da crítica. No começo era a acomodação. Esgotam um talento excepcional escrevendo pequenas peças autobiográficas. este corporativismo fictício. nem ao menos tem necessidade dela. Abundância de talento. este belicismo fictício são construídos sobre um prussianismo fictício. Giuseppe Ungaretti é um autêntico poeta.

imitar o modelo alemão, que parece o supremo modelo de "modernização" mais rápida. Mas este modernismo contradiz algumas tendências íntimas do espírito italiano, inclinado para um catolicismo muito amplo, um socialismo puramente humanitário, um patriotismo muito pacífico. Perto de 1900 a Itália parecia a terra de promissão da tolerância religiosa, da compaixão social, do pacifismo universalista. Agora já se vêem alguns sinais da transformação. A modernização econômica e técnica enxota o humanismo, pelo ridículo das academias provinciais. O patriotismo, o socialismo, a própria religião revestem-se de uma espécie de violência, transformam-se em nacionalismo, sindicalismo, integralismo. A dialética da história fez uma volta terrível: o pensamento do próprio Benedetto Croce, amigo íntimo de Georges Sorel, era a maior força da revolução espiritual que devia voltar-se enfim contra ele e sua obra. Todos os seus companheiros, filósofos e críticos, dirigem-se contra a superioridade quase frívola do humanitarismo, do socialismo, da religiosidade italiana. Contra o humanitarismo, ele apóia-se em Hegel; contra o socialismo marxista, apóia-se em Sorel; contra o modernismo católico, apóia-se na tradição autoritária. Croce tornou-se o coveiro do seu próprio liberalismo sublime. Após ele veio a era das novas classes médias, anti-humanitárias, sindicalistas, antitradicionalistas, fascistas. Antonio Fogazzaro é modernista; desejaria um catolicismo "modernizado"; não o conseguindo, acaba por acomodar o catolicismo à italianidade. Giovanni Pascoli passou por socialista; abraçou o socialismo humanitário, e suas últimas horas são perturbadas pelas primeiras explosões da violência sindicalista. Sobre o patrioteirismo de D'Annunzio é melhor não falar. São mortos? Mas "la mort n'est pas une excuse";200 e existem vivos cujos corpos deixam ver todos os estigmas da acomodação, como os condenados do Inferno de Dante mostram, nas deformações hediondas, a punição de seus pecados. A Prefeitura de Florença teve a engenhosa idéia de mandar gravar em mármore e colocar nas esquinas das ruas florentinas os versos de Dante que se referem a tal localidade. Parece que todas as ruas da literatura italiana

contemporânea estão marcadas com esses tercetos terríveis, "flamas cantantes que não largam as suas vítimas, prisioneiros por toda a eternidade". Giovanni Papini converteu-se. Mas não conseguiu dominar os instintos anárquicos da sua alma caótica. Os desafios violentos do seu Gog e Magog mostram-no "... nella chiesa Co' santi, ed in taverna coi ghiottoni"201 (Inf., XXII, 14). Seu catolicismo era capaz de acomodar-se à revolução social, e, mais tarde, a muitas outras coisas. Confundindo a universalidade religiosa com o imperialismo temporal, ele escreveu, na Nuova antologia (janeiro de 1939): "O povo italiano é mestre e chefe perpétuo do mundo, por essência e por vocação. Desde a época em que Augusto governava e Jesus nasceu, Roma e o povo italiano dominaram sempre o mundo." Roma, nessas palavras, é um equívoco, e o católico Papini esqueceu a palavra do Evangelho: "De que serve ao homem o mundo, se ele o ganha mas perde a sua alma imortal?" Esta conversão era antes uma demissão: onde existe a demissão, a submissão não está longe. É assim que Giuseppe Prezzolini, tipo do intelectual, se submete, na Gazzetta del Popolo (8 de fevereiro de 1939): "Eu também fui um intelectual, e sei falar, por experiência, do mal intelectualista. É necessário que os intelectuais italianos reconheçam que o seu dever consiste em se retirarem e deixarem dominar outras forças, mais importantes na vida dos indivíduos e da nação. O fascismo não desconfia dos intelectuais italianos; mas a sua desconfiança seria muito natural e muito oportuna." A isso Dante acrescentaria alguma coisa sobre as "... terre d'Italia tutte piene di tiranni..."202 (Purg., VI, 124) ou um desesperado "O voi, ch'avete l'intelletti sani..."203 (Inf., IX, 61).

Ardengo Soffici, ao menos, não seguiu o conselho de calar-se. Ele fala, e muito alto: ele, que glorificou a França e amaldiçoou a Alemanha, mudou depois os nomes: chama a Dostoievski um "gorila bolchevista", e condena a América em nome da "Europa cristã e católica". Há trinta anos ele zombava da Academia e declarava: "Desejam-me ditador? Eis-me ditador." Hoje, vestido de acadêmico, ele pode dizer: "Desejam-me acadêmico? Eis-me acadêmico." Sem dúvida, ele assemelha-se "... a quella inferma, Che non può trovar posa in sulle piume, Ma con dar volta suo dolore scherma"204 (Purg., VI, 149). Mas são teóricos. Não citarei de Curzio Malaparte senão os títulos das suas últimas obras: três volumes de contos, Fuga em prisão, Sangue e Viva a morte; e uma coleção de documentos e fotografias, Os italianos na Espanha. É um mundo dantesco. Relemos a descrição dos "Malebolge", dos círculos inferiores do inferno, onde os pecadores baixos espiam, "Tutto di pietra et di color ferrigno"205 (Inf., XVIII, 2), e nos lembramos do "mundo de cimento e de aço" de Marinetti. A literatura dos jovens reflete fielmente a pálida luz dessas paredes. Marcello Galliani, a quem o seu editor chama "o mais fascista dos escritores", fala de uma "atmosfera de sangue, de aborrecimento e de morte". Enrico Pea explica "sua neurastenia e seu caráter violento pelas injeções aplicadas, durante a guerra, contra o cólera, o tifo, a encefalite e outras doenças, como aconteceu com muitos outros combatentes, que são hoje em dia meio loucos" (Maremmana, p. 233). É um mundo meio louco, meio criminoso, uma casa de alienados perigosos, dotada das novíssimas invenções técnicas, ao ponto de transformar toda a vida em pesadelo mortífero dum paranóico, como Brancati a define: "A vida é uma máquina que vos raspa o crânio, vos arranca os dentes, vos transforma, enfim, num semblante de morte."

Máquina maravilhosa! Lia-se a definição no excelente hebdomadário Omnibus, onde colaboravam Moravia, Bachelli, Ungaretti, Missiroli, e Adriano Tilgher, que escreveu, num estudo sobre o Leviatã, o Estado todo-poderoso de Thomas Hobbes: "Os súditos guardam a liberdade: a liberdade de fazer aquilo que o soberano se esqueceu de proibir. Finalmente, o Leviatã é um enorme carabiniere, um policial de tamanho mitológico." Sem dúvida, Tilgher pensava repetir a cena do canto 22 do Inferno, onde os condenados logram os diabos. Mas, como em Dante, o diabo respondeu: "Tu non pensavi ch'io loico fossi!" (Inf., XXVII, 123), e Omnibus foi incluído entre as coisas que não se esqueceram de proibir. A resistência é inútil; mas a fuga também. Existe, entre os exilados, um grande escritor, Ignazio Silone, que experimentou "come sa di sale Lo pane altrui, e com'è duro calle Lo scendere e il salir per l'altrui scale"206 (Parad., XVII, 58). É por isso que o herói do seu romance O pão e o vinho volta à pátria, que ele não reconhece mais e onde não mais o reconhecem, até que se perde, para sempre, nas montanhas, cobertas de neve, onde os lobos o dilacerarão; uma jovem - somente ela - fará, sobre o perdido, o sinal da cruz. É uma grande obra de arte; como todas as grandes obras, faz pairar, atrás de si, um profundo silêncio. É o mesmo silêncio, nobre e obstinado, que guarda Benedetto Croce, "che vive in Italia peregrino"207 (Purg., XIII, 96). É o único que podia verdadeiramente retirar-se, porque outras épocas o esperam em que já não haverá "partido". Ele tem "fatta parte per se stesso"208 (Parad., XVII, 69). Se existe lirismo nesta citação, a Toscana é a responsável. Pensa-se em Pisa, a grande cidade, que reunira entre as suas muralhas todos os esplendores, e que se perdeu pela loucura de querer dominar. Só ficou, "fuori le mura", a catedral, que não se desmoronará, e o Campo Santo, o cemitério, verdadeiro coração da "cidade morta". Existe, neste cemitério, o túmulo de um nobre, cujo nome a história esqueceu, mas cuja memória fica, eternizada no

monumento funerário que lhe ergueram, a Inconsolabile, a Itália em luto, que vela o rosto. ORAÇÃO FÚNEBRE DE CHARLES MAURRAS "Non enim cogitationes meae cogitationes vestrae; neque viae vestrae viae meae, dicit Dominus" (Is., LV, 8).209 Queridos em Cristo, os povos, percorrendo, pelos séculos da história, os caminhos da terra, passam cabisbaixos, curvados por tribulações sem fim. De vez em quando, levantam os olhos para o céu, lamentando, implorando, suplicando. E Deus responde-lhes pela boca do seu profeta Isaías: "Non enim cogitationes meae cogitationes vestrae; neque viae vestrae viae meae, dicit Dominus." Não compete às nossas pobres meditações o decifrar as decisões da Providência divina; na desgraça e na salvação dos homens, como são incompreensíveis e maravilhosos os caminhos do Senhor, perante o qual nos convém curvar-nos com humildade! Assim, eu, o mais humilde dos servidores de Deus, recebi a vocação de pronunciar a oração fúnebre dum príncipe no reino do espírito. Ele mereceria a homenagem sob a cúpula da Academia Francesa, onde todos os acordes da língua se teriam harmonizado num réquiem solene; mereceria a pompa fúnebre na Notre Dame de Paris, matriz de todas as igrejas da França. Curvemo-nos, porém, com humildade: a cúpula que ouvirá as nossas palavras incultas, simples e sinceras, é o céu cinzento sobre frias montanhas, longe do Sena, e o lugar do nosso luto e da nossa meditação é a modesta matriz duma cidadezinha provinciana, lugar triste, onde os velhos, os doentes, os alquebrados procuram a saúde, lugar de últimas esperanças e de últimas consolações. Ao que parece, o Senhor quer falar-nos e dizer: "Non enim cogitationes meae cogitationes vestrae, neque viae vestrae viae meae." "Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos; nem os vossos caminhos são os meus caminhos, diz o Senhor."

Charles Maurras viu esse futuro ameaçado pelo turbilhão dos romantismos revolucionários. uma ponta desta mortalha. sempre superior à matéria bruta. outrora ilustrados pelos "gesta Dei per Francos". na Espanha. Viu ameaçada pelas mesmas forças a sua pátria. pobre servidores do Espírito. que é a pátria da nossa civilização: a França. dos instintos anárquicos. Charles Maurras era um representante autorizado da Inteligência. O seu espírito venceu até os inimigos vencedores. na Itália. nutrido das tradições gregas. Charles Maurras era um príncipe no reino do espírito. resplandeceu em todas as luzes mediterrâneas. Viu como a França de São Luís. a força do espírito. Havia discípulos desse homem em todos os países e em todos os continentes. que nunca será esquecida. católicas. e assim a sua vida foi para nós outros. na sua voz balouçaram as melodias do mar. pela última vez.210 E resolveu indicar à França o caminho da salvação. discípulos sem o querer ou sem o saber. com mãos trementes. do continente do Sul. romanas. Distinguiu entre a França legal. Esse homem surdo fez ressoar todas as músicas da língua francesa. Quereis compreender algo desses mistérios? Quereis levantar uma ponta do mistério dos destinos mortais entregues às mãos de Deus vivo? Pois levantai.o futuro da Inteligência foi a preocupação de toda a sua vida. na França. que era o mar de Ulisses e do apóstolo Paulo. subjugadas à severa disciplina do civismo romano e do método cartesiano. Todo o mundo. e mirai o rosto exânime do homem que está deitado aqui neste ataúde: Charles Maurras. de Joana d'Arc e de Bossuet abandonara os caminhos. Charles Maurras provou.Os caminhos da vida e da história humanas são como que cercados de abismos. encantado. e .chama-se L'Avenir de l'Intelligence o seu livro mais decisivo . e da sua Provença natal. a França das leis sacrílegas e das sujidades materialistas. cuja profundidade só pode ser averiguada pela sapiência divina. uma grande consolação. ouviu essa música. que hoje se curvam perante o poder das armas invisíveis deste príncipe espiritual. a França do . até nas costas longínquas do novo continente latino. e o seu espírito latino. e a França real. O mundo.

caindo no perigoso irracionalismo da frase: "Jamais depuis le monde est monde on n'attendit d'avoir une idée claire pour agir. até o abismo.e é a verdade que devemos aos mortos . o Crucifixo. Os seus caminhos não eram os caminhos d'Ele. O seu Deus não era o Nazareno martirizado. caindo no ingênuo liberalismo da frase: "Un peu plus de justice?.rei e da fé cristã.. os emblemas da morte. E hoje ele está deitado."212 O mesmo Maurras que se vangloriou de possuir a técnica política mais eficiente do mundo desdenhou qualquer preocupação com a questão social.era um polemista. Charles Maurras sucumbiu à tentação da Inteligência: substituir a própria inteligência à Inteligência divina. Il . E desse ponto de partida o seu caminho o levou. com a conseqüência implacável do espírito latino. sistema cheio das contradições que surgiram na polêmica. O mesmo Maurras que com tanta força pregava a primazia da Inteligência desdenhou o papel da inteligência na ação. e edificou sobre essa polêmica o sistema das suas idéias estéticas. trace du frémissement essentiel devant les énigmes humaines. Era o ponto de partida. Escreveu. perante nós. fiel aos caminhos da Providência. mas os caminhos da morte. Passou a vida inteira buscando as contradições dos seus inimigos. O mesmo homem que a uns parecia um profeta. Houve quem duvidasse dessa lógica. A esta cerimônia preside o supremo representante da morte cristã. romaria pagã! O frêmito essencial do jovem Maurras calmou-se perante a sublime estabilidade da Beleza. Na verdade . Mas o homem morto ao pé deste Crucifixo era um pagão. nesta câmara ardente. o Cristo morto. Num deslumbramento orgulhoso. Mas através do caminho da sua vida. O seu ídolo era a deusa pagã da beleza."211 Romaria estranha. políticas e religiosas. Não escreveu jamais uma palavra que não fosse polêmica. em Anthinéa. quis desempenhar o papel de providência da França.. da morte cristã. parecia a outros um sofista. entre panos pretos e círios vacilantes. a liturgia da deusa que surgira das espumas do mar. Olhai em derredor: por toda parte vereis. Não eram os caminhos da vida. ele quis prescrever à Providência os caminhos da sua ciência política. e assim se manifestou sobre esse livro: "Point de départ de mon pèlerinage.

les lois de la beauté nous faisaient aussi penser aux lois de la vie. nas mais baixas injúrias contra o papa. por fim. Mas no mar dessas contradições saiu. da Grécia. et de l'ordre. Gosto. mas a ordem científica do positivismo e a ordem estética do paganismo. a beleza escultural dos corpos. Renan e France se . Procurou-as no templo abandonado da Grécia. Assim ele elogiou as linhas claras. As linhas bem definidas impõem limites à anarquia estética do romantismo e à anarquia política da democracia. os cardeais e os bispos. os positivistas Comte e Taine e os pagãos Renan e Anatole France. como mestres. chegando até à fórmula que enfeitiçou os católicos: o Catolicismo é a Ordem. "Mon maître Anatole France l'avait vu. até à fórmula que enfeitiçou os infiéis: a Ordem é o Catolicismo. como diria Bossuet. achou-as no templo vivo da Santa Madre Igreja. a figura divina que iluminou o seu caminho: a Ordem. a dizer sobre toda a sua própria obra: "Il ne s'agit dans ces essais que de la raison. quando a autoridade eclesiástica se lhe opôs. da Itália. bem definidas pela luz mediterrânea. Ordem . resplandecente como Vênus das espumas do Mediterrâneo. e ele acrescentou com o tom lapidar dos jurisconsultos romanos: "Certae fines! Leges! Définitions certaines et justes confins. a beleza geométrica das figuras."point de départ de mon pèlerinage". o meu primeiro chef d'accusation.eis as nostalgias do jovem Maurras. o jovem Maurras meditara: "Comment sauver l'ordre du monde?"214 E essa idéia não o abandonou nunca mais e levou-o.o claro. Na introdução de Anthinéa . da sua terra provençal. o definido. l'ordre de l'esthétique à celui de la politique. eis o que constitui.216 A Ordem de Charles Maurras não era a ordem cristã do mundo. Inteligência. de l'intelligence et du goût."215 Razão. Grécia . o incerto. Perante as ruínas da Acrópole. Oui. Ásia .o vago. A Ordem! Era a primeira e a última palavra de Maurras."217 E lembrou-se da deusa da Beleza saindo vitoriosamente das vagas impuras do mar asiático do anarquismo.faut laisser la conjecture économique!"213 O mesmo Maurras que sabia magnificamente exaltar os benefícios da disciplina católica caiu."218 Eis o ponto de partida: como criar essa Ordem? Então.invocou. Era um homem cheio de contradições.

nem os segredos do Estado. cercado de inimigos. empiricamente experimentada. a deusa da Razão. nem a honra nem a vida privada dos seus inimigos. a "technique nationale". chegou a pregar o assassínio e a alta traição. A razão era sempre a faculté maîtresse de Maurras. a L'Avenir de l'Intelligence segue-se Kiel et Tanger. o de Maurras. Palas é. honravam os espíritos mais altos e os patriotas mais devotados à pátria. e mais do que a Afrodite. a deusa dos escultores e da razão científica. e escreveu.retiraram para deixar falar a clara razão mediterrânea de Comte e Taine. adorava a Palas. o seu culto à Raison d'État. bárbaros exteriores e interiores. Aplicava a calúnia sistemática. la morale de l'État a ses propes lois et ne connaît que l'intérêt national. Não desaprovará os seus . as mais freqüentes na sua pena. Ao primado da Inteligência substitui-se o primado da diplomacia. O técnico ocupado em construir máquinas não conhece preocupações de ordem moral. et l'on refait la France comme on peut. e a suprema obra de arte da razão é o Estado. manual da política nacionalista. As palavras "imbécile" e "traître". Ousou escrever: o seu primeiro artigo de jornal. O Estado é uma máquina científica de leis e instituições. ficando salvo apenas pela força mágica de linhas bem definidas: as fronteiras. Política é uma técnica. e a alma dessa máquina é o nacionalismo. no seu jornal. a falsificação dos documentos Dreyfus ousou defender o criminoso com as palavras: "Il ne faut pas considérer la question du point de vue de la morale individuelle. das suas máquinas. J'ose écrire: tout est béni et tout est dû. Le premier sang . "comme on peut". On rentre comme on peut."220 Mais tarde ousará recomendar que matem o primeiro ministro com uma "faca de cozinha". O técnico só pensa na eficiência. pelo suicídio. "Pour l'établissement de la Monarchie tout est permis."219 "Comme on peut". ousou escrever.escrito após ter o coronel Henry confessado. não respeitando nada. e a esse empirismo amoral dos técnicos correspondeu o "par tous les moyens" do niilista agnóstico Maurras. a um tempo. a eficiência das suas construções é tudo: e isto constitui o meu segundo chef d'accusation. É um Estado. a deusa da Beleza. pregava a violência sistemática.

com as palavras: "C'est notre tâche de révéler Monck à lui-même. centro da história universal. opôs ao nascimento do Cristo. o "poder espiritual" serviu-se da sua "autoridade científica" para transformar a Ordem em ordens militares. Não há moral das máquinas políticas. Nous. Assim. La doctrine est maintenant en élaboration: on en sature le cerveau du Monck de demain. No famoso artigo "L'Éducation de Monck" lembrara a restauração da monarquia inglesa pelo general traidor.223 Toda a vida interior pareceulhe suspeita de anarquismo. que lhes preparara os caminhos. il faut que le pouvoir spirituel les donne". A "moral universal". porém. Acaba com a alma humana. Les chefs militaires ont besoin d'ordres pour marcher. Não os desaprovará. a luz da razão grega."222 E Monck veio. e acaba com todo o cristianismo. não é a moral cristã. nous lui enseignons les principes de l'organisation politique. pela disciplina da Igreja Romana. O maurrasianismo tem medo da liberdade.221 e: "Nous sommes l'autorité scientifique par laquelle le sabre devient raisonnable et la baïonnette intelligente. como os mestres positivistas. que não é uma máquina cartesiana: e eis o meu terceiro chef d'accusation. "la naissance de Pallas. de que a "ciência universal" constitui a "moral universal". e elogiou o espírito romano por ter domado. Eis por que esse homem opôs ao cristianismo. Lui il connaît l'art militaire. e sufoca a alma sob o peso da sua arbitrária autoridade. sem consideração da moral individual. ele. Entre duas forças vive a alma humana: graça e liberdade. uma moral como técnica científica não sabe respeitar a majestade da pessoa humana. como duma perpétua tentação à anarquia."224 Contra os protestantes ele serviu-se da mesma apologética estranha: "Je ne quitterai pas le cortège savant des . finalidade da redenção cristã. "nocturne et asiatique". os instintos anárquicos do cristianismo primitivo. le plus grand événement de l'histoire du monde". convencido.discípulos quando eles tiverem obedecido a tais conselhos. "Le Catholicisme est le remède du Christianisme.

para a alegria dos bem-pensantes convertidos. pagando a "os outros". Chamou ao catolicismo romano "arche du salut des sociétés". o ateu. que saudou a Marselhesa. des papes et de tous les grands hommes de l'élite moderne pour me fier aux évangiles de quatre Juifs obscurs. duma renovação da França medieval. Considerou o catolicismo como a religião do Estado. mesmo no cristianismo inconsciente dos revolucionários."229 E eis o homem ao qual se atribuem tantas conversões! Charles Maurras. Lembrando-me da figura."226 O cristianismo. não significava outra coisa senão ordem: ordem romana. Rindo-se da "superstição" dos outros. na França do eterno grito de justiça. "Un peu plus de justice?" Maurras quis deixar subsistir. já então venerável. "C'est en affaires politiques que nous considérons les affaires de religion. arruinando o pretenso primado da inteligência. Mas como pode o espírito queixar-se disso. com as palavras baratas dum novo corporativismo. Elogiou o catolicismo dos outros. ouso dizer neste recinto sagrado: havia cristianismo até na França dos jacobinos. subordinando-a aos fins políticos. para ele. Entendeu as palavras "inteligência" e "elite" como designações de um novo feudalismo. assegurou-se o seu próprio agnosticismo. como privilégio de elite.227 como se Jesus Cristo tivesse morrido para salvar a sociedade. Mas isto não é cristão. não desaprovou as conversões. . se Deus teve. ordem estabelecida da sociedade estabelecida. pourvu qu'il serve. o povo. E também não é francês. o mesmo destino? "Qu'importe que Dieu soit. na doutrina maurrasiana. que é um grito cristão. do Estado científico e nacionalista."228 Eis o famoso lema "politique d'abord" substituindo o lema cristão "vérité d'abord". Essa Ordem não é a ordem da Justiça. do cardeal Pacelli. caricatura da França do Rei. contanto que lhe deixassem o seu próprio ateísmo.conciles. A França sempre foi cristã. dos Senhores e dos servos."225 E o "catholique athée" chegou a dizer sobre Jesus Cristo: "Je connais peu ce personnage et je ne l'aime pas. ordem dos jurisconsultos romanos. uma desordem: a desordem econômica.

que confundiram o nacionalismo traidor e ateu de Maurras com o verdadeiro nacionalismo de Barrès e com o verdadeiro cristianismo de Péguy. ."231 Podem alegar. E até hoje eles têm esse Maurras por um profeta. À pessoa divina do Cristo ele quis substituir um boneco de batina. deste modo. Este homem foi. e. e não entendereis. no dia 29 de janeiro de 1914. da qual um dos seus amigos chegou a dizer: "Jamais je n'ai vu une âme plus désolée que la sienne. 14). O mundo político recebeu-o alegremente. desde a mocidade."230 Um mundo de deslumbrados deixou-se enganar pelo fogo de artifício desse espírito morto. esquecendo todas as infâmias. e vereis com os olhos. a condenação foi. o niilista. a Academia Francesa. imagem da sua alma vazia. À França dos séculos cristãos ele quis substituir um fantasma utópico. e não vereis" (Mat. conforme as suas palavras: "Avoir raison c'est une des manières comme l'homme s'éternise. como o aliado mais precioso dos conservadores. publicamente. surdo. E à curta memória dos homens passou despercebido que isto também profetizou alguma coisa: que naquele dia nefasto começou a catástrofe da França. Nesses deslumbrados sobrevive obstinadamente o triste espírito de Maurras.232 subterfúgio hipócrita do acatólico Maurras para continuar a sua obra funesta. e sobretudo dos conservadores católicos. e surdo à voz da França. chegando a recebê-lo na companhia mais conservadora de todas. porque de antemão anunciou..Charles Maurras não ouviu esse grito. no dia 5 de julho de 1939. O mundo das letras sufocou-o sob homenagens. as infâmias que ele mesmo preparara. lembrando. Permaneceu surdo à palavra de Deus. contentando-se da submissão dobre de "ceux d'entre nous qui sont catholiques". razões de política eclesiástica não deixaram publicar a condenação antes de 5 de setembro de 1926. a ele. revogada. as palavras do profeta que nosso Senhor citou: "Vós ouvireis com os ouvidos. XIII. como justificação. que altas e mais altas autoridades da Igreja manifestaram a mais paciente clemência em face desse advogado do diabo: condenado Maurras.

LVIII. onde no frio da madrugada os reféns fuzilados estertoraram e expiraram. Em vão é toda a vossa penitência. 1). o choro e o grande lamento: Raquel chorando a seus filhos.e sob este ataúde não vedes o corpo exânime de Charles Maurras. levanta com força esta mortalha . Mas em vez de cumprir deste modo o mandamento de Deus. Diz o salmista: "Bem-aventurado o varão que não se deixou ir após o conselho dos ímpios. Os vossos festins prepararam a desgraça. e assentou-se na cadeira da pestilência. que eu escolhi. e em fazer cama de saco e de cinza? Rompe as ligaduras da impiedade. vós agrilhoais aqueles que estão quebrantados. vivo ainda. fantasma de si mesmo. com a qual quereis acusar e responsabilizar e punir o vosso povo. vós carregais os feixinhos que deprimem. e que não se assentou na cadeira da pestilência" (S. Mas o vento frio daquelas madrugadas abre agora. E agora há choro e ranger de dentes." Charles Maurras refez a França como pôde. Ainda não entendestes as palavras do profeta: "Acaso o jejum. e agora os vossos jejuns servem apenas para ocultar a vossa culpa e agrilhoar tanto mais as vítimas inocentes da vossa traição.. deixa ir livres aqueles que estão quebrantados.Charles Maurras era o papa da religião pagã da beleza. as portas deste templo. empurrando-as. sem admitir consolação pela falta deles" (Mat. desata os feixinhos que deprimem. 18). Às vezes em orgia de sangue. O magnífico Symposion pagão ao qual Maurras presidiu era o bíblico "festim dos ímpios". A França deixou-se ir após o conselho dos ímpios. consiste em afligir um homem a sua alma por um dia? Está porventura em retorcer a sua cabeça como um círculo." (Is. I. vós não ouvistes os tiros contra o muro. 5-6).. colaborando infamemente com o opressor estrangeiro. II.. Os católicos que o seguiam cegamente esqueceram que toda religião da beleza acaba em orgia. Surdos como era surdo o vosso falso profeta. em vez de vos acusardes a vós mesmos. e rompe toda a carga. e que não se deteve no caminho dos pecadores. E seguiu-se-lhe uma terrível madrugada. vós estreitais as ligaduras da impiedade. "On refait la France comme on peut. deteve-se no caminho dos pecadores. que. E as vossas declamações hipócritas não podem abafar "o clamor. cambaleia para a .

Fora a espada. Salva me. abafando as vossas objeções. e te julgarei conforme os teus caminhos. Ouviste os meus três pontos de acusação. e no dobre dos sinos ecoam as vozes do hino fúnebre. E agora vós acreditais. ele."234 Era juiz da sua época? Estará como réu. e te julgarei conforme os teus caminhos: e te porei diante dos olhos todas as tuas abominações. da França. e os que estão na cidade serão devorados pela peste e pela fome. já os sinos começam a repicar para o serviço dos mortos. e aqueles péssimos possuirão os santuários deles. Ao sobrevir-lhes de repente a angústia. Aquele homem que lamentais era porventura um profeta? Era testemunha e culpado do "Dies irae. Qui salvandos salvas gratis. fons pietatis. e dentro a peste e a fome: o que está no campo morrerá à espada. eles buscarão a paz. quando "Tuba mirum spargens sonum Per sepulcra regionum. vem o fim sobre as quatro plagas desta terra. Oh! não. Coget omnes ante thronum. serdes autorizados para julgar o acusador e as suas palavras. O fim vem. ouvi. e eu desafogarei o meu furor contra ti. E farei vir os péssimos dentre as gentes. Teste David cum Sibylla."233 Ouvi. Cuncta stricte discussurus. e não a . e eles se apoderarão das suas casas. o vivo."236 Então ele e vós com ele rezareis: "Rex tremendae majestatis. lembrai-vos da frase de Bossuet: "Mon discours. É chegado o tempo.vedes sob este ataúde o cadáver da sua desgraçada pátria. hipocrisias e orgulhos. talvez. vous jugera au dernier jour. "Quando judex est venturus. dont vous vous croyez peut-être les juges."235 Com os mortos. está perto o dia da mortandade. Agora é que vem o fim sobre ti. vem o fim. ressurgirá. dies illa Solvet sæclum in favilla.cova: ."237 E ele responderá pela boca do seu verdadeiro profeta. "O fim vem.

ó França. e a lei perecerá na boca do sacerdote. o jovem professor Max Weber publicou numa revista científica alemã. destino do intelectual dos nossos . e o conselho na boca dos anciãos. mas o teu espírito vive. E enquanto vive o espírito. XXXVI. com esse estudo. Mas ninguém poderia supor que. O rei chorará. pois o Senhor te reconduzirá. um estudo sobre "A ética protestante e o espírito do capitalismo". Consola-te. O trabalho era uma revelação. O teu corpo. uma nova ciência se fundava. os Arquivos de Ciência e Política Sociais. E assim vos fala a voz do profeta (Ez. Deus: pie Jesu Domine. e o príncipe cobrir-se-á de tristeza.haverá. filha Sião. Mesmo aquele severo hino termina com as palavras de reza esperançosa: "Huic ergo parce. que não vê os corpos. e eu serei para vós o vosso Deus. Os teus caminhos não eram os Seus caminhos. 2-27). e os julgarei conforme eles julgaram os outros: e saberão que eu sou o Senhor" (Ez. não morreu a mais cristã das virtudes: a esperança. e maravilhosos. dona eis requiem.. vós habitareis na terra que eu dei a vossos pais. e as mãos do povo da terra tremerão de medo. pode ressuscitar até as pedras dos túmulos. Mas é o seu direito também trazer-vos a consolação. VII. e todos são caminhos que vão à pátria. E ninguém poderia então suspeitar uma tremenda catástrofe humana por trás daquelas páginas secas: catástrofe de uma vida intelectual. O corpo daquele está vivo ainda."238 E os cristãos não rezam em vão. e a um estrondo outro estrondo. mas incompreensíveis são os caminhos do Senhor. está deitado aqui como morto. Eu os trarei conforme o seu caminho. É o dever do pregador: dizer-vos a verdade. A um susto sucederá outro susto." Amém. MAX WEBER E A CATÁSTROFE EM 1905. mas o seu espírito morreu. e buscarão alguma visão dalgum profeta.. 26-28): "Dar-vos-ei um coração novo. que abalou o estreito círculo de especialistas em história econômica. Ele. e porei um novo espírito no meio de vós. um novo continente se descobria. mas sim os corações. e vós sereis para mim o meu povo.

Seguir-se-á o diagnóstico. o grande capital está. em mãos de protestantes. símbolo da catástrofe geral que se seguiu inexoravelmente. . Calvino é de outra espécie. ao contrário. Max Weber. a Escócia. Preparemos o caso clínico.tempos. os dissidentes da Igreja Anglicana. Um boletim médico deve ser sóbrio e preciso. e Max Weber encontrou-a. homem profundamente medieval. funcionários leais. nessas regiões católicas. Essa doença é a nossa doença. santifica e consagra a vida profana. e os huguenotes. disseminaram por toda a Europa as suas manufaturas. na maioria. Descrevamos primeiro os sintomas. que era frade. santifica o trabalho profissional. Estudando as origens do capitalismo na Alemanha meridional. hostil ao ascetismo monástico. O assunto é palpitante. e. O seu dogma da predestinação transformará o mundo. em toda parte. sua religião educará humildes artesãos. tinha a alma gravemente enferma. que. O homem ideal da Idade Média era o frade que renunciava à vida e preferia a pobreza voluntária ao trabalho secular. Façamos tudo para nos dominar. os adeptos das pequenas seitas protestantes distinguem-se pelo espírito de iniciativa e pelas suas riquezas. Lutero. Deve haver uma relação subterrânea. em conseqüência. Estranho fenômeno: todos esses novos capitalistas são calvinistas. expulsos da França. A devoção protestante e a habilidade econômica coexistem sempre. são sobretudo os "não-conformistas". a Holanda e a Suíça francesa. e que muitos dos grandes capitalistas descendem de famílias pietistas e muito devotas. Na Inglaterra. O protestantismo. não constituem exceção. a lealdade para com o Estado. Estende os seus estudos a toda a Europa: os centros da mentalidade capitalística são a Inglaterra. a vida em família. e uma doença que atinge a todos deixa de o ser. Todavia. uma distinção se impõe. bons pais de família. um dos mais lúcidos espíritos de todos os tempos. tanto na Renânia como nos Estados-Unidos. Max Weber observa que.

Como reconhecê-la? Porém. Isto não permite um quietismo cômodo. entrincheiravam-se num biblicismo fanático. pelo pecado original. Para os outros. uns para a vida eterna . esse dogma significava. para cada um. ou alcançarei perdão? pergunta ansiosamente a alma calvinista. perante este Deus terrível que o elegeu ou o renegou por todas as eternidades. Os seus sucessores no ministério repeliam. Deus predestinou. O dogma inexorável não responde. . arbitrariamente. a dúvida sobre a sua condição de eleitos. herdeiro de uma mística íntima. Para o calvinista.. absolutamente só. não conheceu o problema. é incapaz de atingir a beatitude. o homem perdeu. os homens do mundo. Cumpre saber se estamos predestinados ou condenados. O Deus dos calvinistas é um "Deus escondido". Calvino. Será que estou condenada.Segundo o dogma calvinista. sua vontade. faz-se preciso observar e dirigir todas essas atividades para se ficar seguro da predestinação ao céu e da nãocondenação ao inferno. todas as forças do bem. O luterano. a vida econômica. O sucesso na vida prática responderá. um forte.e outros para as trevas. não existe descanso dominical. nem padres nem sacramentos. acalmava as suas angústias pela contemplação da tarde de domingo. dominada pela concupiscência. Os calvinistas vivem no mundo como os frades da Idade Média no convento. ele estava certo da sua salvação. Numa época de excitação religiosa. Cada um está só. Tanto mais que já não existem. só restava procurar uma confirmação da sua qualidade de eleitos na vida do mundo. nessas igrejas calvinistas. fixada dentro de austeros princípios morais. São frades secularizados: a esfera de confirmação é a vida do mundo. já que o homem não tem vontade livre e todos os seus atos dependem diretamente de Deus. e a conclusão psicológica seria um desespero até à morte. como a uma tentação ímpia. sua alma está sempre atormentada pelas incertezas. confirmarmo-nos perante nós mesmos e perante os outros. como era a da Reforma.. uma questão de vida ou morte. sempre e sempre. Seguro? Estaremos jamais seguros? É preciso. é preciso uma vida metodicamente regrada. não revela a sua vontade tirânica.

Weber encontra novamente esse fenômeno nos últimos séculos da Antiguidade. É que a religiosidade tradicionalista dos camponeses resiste às tempestades revolucionárias. e que se revoltam contra o tradicionalismo dos padres.se mantinha forte no interior. a quem pertencerá o mundo. fenômeno tão importante na história da Igreja. das seitas é . A racionalização metódica e a atividade incansável ocupam toda a vida. A fé se perderá. Fazem-se economias que fecundarão novos empreendimentos. ciência que não se contenta com estudar as relações entre a religiosidade e a mentalidade econômica. não são de menor importância na história profana: a seita secularizada é o partido político. uma Igreja. sobretudo o inglês Richard Baxter: o trabalho é a finalidade da vida. Max Weber fundou a sociologia religiosa. É uma vida rigorosamente uniforme. sobretudo a vida econômica. mas sem gastar. não há outro meio de obedecer a Deus senão trabalhar incansavelmente.Eis o que é fundamental. Max Weber lê os moralistas do tempo. Mas esse espírito revoltado. de um Jeremias. e que explica o conservantismo dos camponeses. Ficará o grande-burguês. Essas tempestades. por mais bem organizada que seja. A distinção profunda entre o luteranismo pequeno-burguês e o calvinismo grande-burguês leva a estabelecer "tipos de religiosidade". antiautoritário. A religiosidade difere de muito nas cidades e no hinterland. Leis rigorosas proíbem à vida qualquer decoração. burocracia eclesiástica sem o carisma da vocação profética. Weber encontra-as também na história dos grandes profetas do judaísmo. inspirados imediatamente por Deus. Conquistará todo o planeta. Trabalhar-se-á sempre. Por esse estudo cheio de agudeza. "camponês" . E as seitas.a palavra tem suas relações com paganus. como o frade incansavelmente reza. Em razão dessas diferenças. quando o cristianismo conquistou as cidades. enquanto o paganismo . Atravessará os muros da Igreja. fenômeno muitas vezes de importância política. terá sempre de combater o espírito sectário. Daí ser o catolicismo sempre hostil ao espírito de partido. Essa atividade não tem nem fim nem termo. de um Isaías.

convertidos. baseada numa revelação ou num ato de graça divinos. dos protestantes nas letras francesas. uma profissão de fé religiosa. no século XVII. secularizada. no fundo. a própria unificação da Alemanha só foi possível por intermédio dos Hohenzollern. a Igreja católica e as monarquias estilo ancien régime constituem o tipo da autoridade tradicionalista. A crítica se concentra no problema das origens do capitalismo. permanece irrefutável .e com isso . os Estados modernos representam o tipo da autoridade positiva. "sectário". toda profissão de fé política é. baseada numa ordem legalista. Weber consegue estabelecer três diferentes tipos de autoridade. que renova a história social das Igrejas protestantes. porque representa outra forma de autoridade. atualizados na pessoa de um profeta. em SchulzeGaevernitz. toda a história alemã se explica pelo caráter apolítico. esclarecendo as raízes religiosas do romantismo. a vida e a nós mesmos. explicando o papel revolucionário. O fantasma de um capitalismo antigo. dos quais Max Weber foi o mais feliz descobridor. as seitas e os partidos revolucionários encarnam o tipo da autoridade "carismática". que o luteranismo imprimiu a esse povo. Aí está a obra grandiosa de Max Weber. porém. baseada numa ordem legitimista. que estuda os caminhos do puritanismo construindo o Império inglês. ao calvinismo. mais alas adquire. cada vez mais. como fenômenos de "secularização". onde Max Weber deu toda a sua medida: ele impôs o seu método até aos adversários. mais fendas se lhe percebem na fachada.também imortal. Os historiadores da literatura comparada brilhavam. A fertilidade incrível do método de Max Weber confirma-se nos seus sucessores. Para dizer a verdade: quanto mais o edifício cresce. Hoje. e o nosso tempo substituirá a teologia política de outrora por uma política teológica. nascido da imaginação modernizante de um Mommsen e de um Ferrero. que nos ajuda a melhor compreender o mundo. de um chefe. Afinal de contas. que criou a disciplina prussiana. Aí está. era fácil de dissipar. enfim. todavia. primeiramente no seu amigo Ernst Troeltsch. Com efeito. Todos os fenômenos da vida moderna se revelam. O que.

e mais ainda: nascida sem a sanção eclesiástica. e August Knoll mostrou que essa discussão entre os dominicanos intransigentes e os jesuítas mais complacentes acompanha toda a história moderna da teologia católica: os jesuítas da Universidade de Ingolstadt inventaram o contractus trinus para burlar a interdição eclesiástica dos interesses. para laicizar precocemente a vida francesa. aproximando-se do calvinismo. mas indispensáveis à evolução do capitalismo. se revoltam. Segundo Bernhard Groethuysen. nenhum dos dois partidos podia vencer a resistência da ordem feudal. A teologia moral dos santos Antonino de Florença e Bernardino de Siena é cheia destas concessões ao capitalismo nascente. tradicionalista. Mas os poderosos são os poderosos e é preciso fazer concessões. e a jovem burguesia. essa mentalidade ameaçava tornar supérfluas todas as sanções eclesiásticas. reconquistar o terreno perdido.é que os traços do capitalismo se manifestam na economia e na sociedade das cidades medievais de Flandres e da Itália. Conhece-se a grande discussão. pela concepção de uma nova camada da sociedade. As corporações de Florença constituem. verificou estranhas analogias entre a mentalidade burguesa de Benjamim Franklin e a sabedoria de vida do poeta Leone Battista Alberti. É sobretudo a discussão dos interesses do capital. pai de família econômico do século XV. Werner Sombart. Mas. que desencadeia disputas. cidadão de Florença. a mentalidade burguesa na França nasceu independente de todas as doutrinas religiosas. Diante desta ameaça. as classes médias. abraçava o laicismo "filosófico" e a revolução. e seu clérigo. dois partidos tentaram opor-se. que lembram estranhamente os conselhos de Richard Baxter e de todos os pregadores puritanos. decepcionada.concordou o próprio Weber . contra as quais o povo minuto. e isto prova que já era necessária a acomodação à mentalidade capitalística numa sociedade católica. E Alberti não é uma exceção no seu tempo e na sua cidade. sob aparências medievais. fazendo concessões: os jansenistas. no fim. por uma ética ascética do trabalho. o grande amigo de Weber. proibidos pela lei canônica. Na Inglaterra essa . e os jesuítas. organizações verdadeiramente capitalísticas.

E H. J. J. restrições sérias se lhe têm feito. disso dão testemunho. É uma fraqueza. Kraus S. se não fosse esta palavra "racionalmente". M. Gustav Gundlach S. O P. Que é o que resta? Um método. O common sense dos ingleses Tawney e Robertson revoltou-se contra o estabelecimento dos "tipos de religiosidade". que trai o racionalismo encarniçado de Weber. que atinge a síntese. para provar que a religião e todas as obras do espírito não são mais que reflexos ideológicos da . isto é. B. R. de valor inestimável. e o calvinismo foi. com razão. para esses burgueses. derrubou a teoria weberiana: o capitalismo inglês nasceu exclusivamente das revoluções sociais. os fenômenos da secularização.revolução era dispensável. Daí a razão por que a atenção de Weber se concentra nas formas exteriores da organização eclesiástica e da vida moral. eles próprios se sucedem. Marx estabeleceu os princípios de uma história do capitalismo. Enfim. Tawney observou que os pregadores puritanos do século XVII resistiam com bastante vigor ao espírito capitalista. porque esses tipos são idéias preconcebidas que Weber tira da história para coordenar "racionalmente" os fatos. Não quero dizer que o método de Weber não haja sido contestado. posteriormente adotada. Ao contrário. rica em terrores de predestinação. H. servindo-se dele. J. mas pobre em bens temporais". que "a Escócia foi. somente o século XVIII inglês é que vem conhecer os pequenos tratados de um Cristianismo. Robertson diz. Mas é a essa fraqueza que Weber deve a sua extraordinária capacidade de descobrir as formas racionalizadas do pensamento e da vida religiosa. Poderia ser uma admissível "hipótese de trabalho". Marx e Weber procedem ambos da filosofia da história de Hegel. Nesse caminho Weber só tem um predecessor: Karl Marx. um ao outro. como a tese e a antítese do movimento dialético. unicamente uma ideologia conveniente. Os seus próprios adversários. mas não porque o puritanismo aí tenha vencido: ele foi batido depois de Cromwell. o sábio P. facilitado para o uso das pessoas do mundo. durante dois séculos. observou que esse racionalismo torna o sábio incapaz de compreender a íntima essência supra-racional dos fenômenos religiosos.

Sem dúvida. antimarxista. Max Weber é outra coisa. . e nesse erro também. pela luz da razão. ou o espírito. Weber. no dia seguinte. que restitui. que haveria de comum entre a Faculdade de Teologia e a Faculdade de Ciências Econômicas? Max Weber. por muralhas chinesas. e aquela ironia histórica nos ensina que não se estabelece uma filosofia da história sobre um racionalismo estreito. e a sua fraqueza. o ponto de vista marxista. Durante a sua vida lutou contra Marx. contra Weber. Weber nada tem de comum com os antimarxistas vulgares. com as palavras de Corneille: "Les gens que vous tuez se portent assez bien. transpôs essa muralha. E uma ironia da história quis que o terceiro movimento de idéia fosse reservado a um jesuíta. na história das ciências. tentará "racionalizar" essas forças irracionais. Os sábios já não conseguem dominar as disciplinas e as subdisciplinas. acreditava na emancipação do homem. das cadeias da matéria. Homem do século XIX. A sua filosofia da história era. umas das outras. O século XIX é. racionalista encarniçado. É a matéria. onde havia triunfado. para confessar. Na saída do túnel que ele cavou. então os fatos nos "ironizam". descobre o poder das forças irracionais. estuda toda a história do capitalismo para provar que as organizações sociais e econômicas constituem meros reflexos materiais da vida religiosa. o P. Weber é um homem do século XIX: nisto reside a sua força. conscientemente. o século do especialismo."239 É porque eles desconhecem a fonte de verdade que há em cada erro. Mas Weber falhou. para quem o espírito era somente a luz da razão. que determina a história da humanidade? Tudo depende da resposta. um dos maiores especialistas. abriam-se novos horizontes: Weber.organização social. precisamente. As faculdades separam-se. elas aparecem quando o espírito humano ultrapassa os seus limites. Weber estabelece a antítese. que matam todo dia o marxismo. Kraus. Essas ironias da história têm sempre um sentido profundo. Na verdade.

A vida de Max Weber é. e aí ficou. Mas uma grave crise nervosa. e a popularidade do professor aumentava ainda graças a uma rica atividade jornalística. da qual nunca mais se restabeleceu inteiramente. A luta espiritualista contra o materialismo marxista criou outro materialismo. pouco antes da morte de Goethe. dispunha-se a seguir a carreira de advogado ou de síndico de grandes empresas industriais. demasiado rápida. de uma família burguesa da Westfalia. Em 1830. bem cedo se distinguiu pelo talento extraordinário de jurisconsulto sagaz. método que exige o estudo das condições sociais em que se desenvolveu a vida de Max Weber. de inúmeras chaminés. país de camponeses. essa cátedra foi a tributa mais brilhante da ciência alemã. A Alemanha teve. que seguiu. uma evolução rápida. Em 1920. país de minas. em 1897. não teve raízes no povo. Embora já docente na Universidade de Friburgo. Durante vinte anos. pior. o maior poder econômico do Continente. um ataque cardíaco extinguiu-lhe a vida. no século XIX. sem a compreender. que ele mesmo havia previvido. os seus projetos. e a vida de Max Weber aparece-nos como símbolo de uma catástrofe. É a obra da grande burguesia. a evolução . a serviço da oposição democrática ao imperador Guilherme II. destruiu. Em 1880. mas essa obra. de pequenos-burgueses. muitas vezes aborrecido. de artífices. a inteligência isolada nas pequenas capitais de Estados minúsculos. No mesmo ano foi nomeado professor de economia política da Universidade de Heidelberg. Em 1919. essa filosofia espiritualista da história. Para interpretar essa vida utilizarei o método da sociologia do conhecimento de Max Scheler. vida vertiginosa de grande capital. pela sua ciência e pela sua vida. a mais ampla rede ferroviária do mundo. quase artificial. Nascido em 1864. na aparência.E a tragédia da sua existência é que ele negou radicalmente. a vida. de um professor alemão. um país riquíssimo. Eis tudo. Weber figura entre os colaboradores da Constituição republicana de Weimar. era um país muito pobre. de comunicações precárias. pobre de acontecimentos. o país materialmente mais atrasado da Europa.

de rapidez não natural. Por isso, impossível ali o liberalismo parlamentar sobre o qual os burgueses ingleses e franceses construíram o seu poder. A burguesia alemã apoiou-se na burocracia e no exército prussianos. Foi Bismarck o criador dessa aliança feudo-burguesa: todo o poder econômico para os grandes-burgueses; e todo o poder político para o imperador, encarnação dos poderes burocráticos e feudais. Um dia, este imperador se chamará Guilherme II, e será, então, a catástrofe da Alemanha. Mas o sol do poder e da prosperidade raiava ainda tão brilhantemente que não foram percebidas três vítimas da aliança: o catolicismo, o operariado e a burguesia liberal. Como os católicos se curvaram, como os operários se condenaram a uma oposição estéril, isso é outra história. A burguesia liberal tinha, pelo menos, o direito de se queixar. E queixava-se, muitas vezes alto, pelos jornais, pelas cátedras universitárias. E um filho desta burguesia liberal foi Max Weber. Por isso, o lugar de Weber na vida da nação estava definido. Convém não esquecer, igualmente, o fator psicológico. Weber foi um dos homens mais apaixonados que a Alemanha já conheceu. Orador nato, de temperamento indômito, profundamente conhecedor dos grandes problemas da vida pública, seu verdadeiro lugar não era a cátedra, mas a tribuna, de onde se dirige a nação. Weber o sabia. "Somente a política me interessa" - diz ele numa carta - "tudo o mais não é senão um meio." E depois: "Todas as grandes questões, sem exceção, são de ordem política." É, visceralmente, um homem político. Na França ele seria presidente do Conselho; na Inglaterra, Chancellor of Exchequer. Na Alemanha, entre um povo apolítico, ele foi professor de universidade. A vida política, ali, estava paralisada, pelo predomínio da burocracia, do militarismo. Os oradores do Reichstag podiam gritar até enrouquecer; mas a vontade do imperador é a lei. Weber tem consciência desta situação desesperada; qualquer coisa, neste homem político, o impede, em cada oportunidade, de entrar na vida pública. Era ele ainda muito jovem, quando uma das maiores empresas industriais desejou nomeá-lo síndico. Foi o caminho que conduziu, mais tarde, um

Gustav Stresemann do escritório à chancelaria do Reich: Weber recusa. Após a primeira publicação científica, Miquel, o grande ministro das Finanças, quer nomeá-lo subsecretário de Estado: Weber recusa. Ainda em 1918, o Partido Democrático, que tinha Weber como um dos seus fundadores, propõe a sua candidatura para o Reichstag: Weber desiste, espontaneamente, em favor de uma figura de importância local. À luz desses fatos, a crise nervosa de 1897 não é um acidente; é uma fuga. Ele, que odeia a burocracia, que ama a luta dos partidos, é uma individualidade demasiado forte para submeter-se à hierarquia de um ministério, de um partido. É o último dos individualistas. Encontra o seu lugar onde não existe submissão, disciplina pessoal, nem limites: na ciência. Em 1903, a vida pública o esquecera. No mesmo ano, a sua produção científica principia a florescer. Na ciência também, Weber é um apaixonado. Ele criará uma síntese, a maior síntese, talvez, que a ciência dos nossos tempos viu. Mas a sua paixão é a especialização, sólida e profunda, dos velhos professores. "Quando a vida alemã" - disse uma vez - "perde, de todos os lados, a solidez, para depravar-se nas especulações mais ousadas, como salvar a velha solidez senão pelo trabalho racional dos especialistas sinceros?" Esse "racional" é significativo. Filho da burguesia e do século liberal, tem viva consciência da sua faculté maîtresse, e crê na força da razão que dominará tudo. Não é positivista: impedem-lho as lembranças da filosofia hegeliana; o "Benedetto Croce alemão" cria uma nova ciência, independente e compreensiva, sem preocupações ideológicas, uma ciência não racionalista, mas integralmente racional. E como a ciência pura de Croce, ela será invadida, depois, pelo irracionalismo de uma ciência sem consciência. Não existe ciência absolutamente independente, e a ciência dos próprios Weber e Croce, de grandes-burgueses, o prova. Em alguns momentos de lucidez, Weber o reconhece. A própria escolha de um assunto científico - a simples escolha de provas na imensidade do material virgem já obriga a suposições e vem, talvez, imbuída de preconceitos. Quanto à explicação, Weber compreende. "O que se

torna objeto de estudo" - diz ele - "mas, acima de tudo, o que faz a ligação causal entre o objeto e a realidade, é determinado pelos valores que dominam o sábio e seu tempo. Ele não é capaz de julgar um fato histórico sem trair, a cada linha, o mundo que gira em sua cabeça." Weber busca para encontrar. Estuda para comover, para agitar o seu meio. E vence. Amaram-no, odiaram-no, como nunca um sábio foi amado e odiado. Era isto o que animava de um sopro ardente as suas conferências acerca dos assuntos mais ásperos, ao ponto de encantar os estudantes, arrancando-lhes aplausos intermináveis. É justamente o que faz dos seus estudos mais profundos e mais sólidos um auto-retrato de artista. Max Weber é uma natureza de artista; prova viva da teoria de Croce - que não há fronteiras definidas entre os gêneros, entre a historiografia e o romance. Weber é artista, mas o é mau grado seu. Este westfaliano, de corpo pesado, grande comilão e beberrão, de voz retumbante, de humor grosseiro, despreza a arte como os grandes industriais e comerciantes, do qual descende, desprezam o luxo supérfluo e frívolo: herança longínqua do puritanismo de seus antepassados, que eram pietistas, possivelmente anabatistas holandeses. Entre seus antepassados, tanto do lado materno como do paterno, encontram-se mártires do protestantismo. É "long, long, ago". Entretanto, os pais de Weber construíram fábricas, usinas. Weber é desses puritanos de uma nova mentalidade econômica, que criaram o capitalismo. Algumas vezes existem, nesta burguesia, filhos perdidos que se gastam em artes frívolas; distinguem-se pela irritabilidade, por crises nervosas. Max Weber, filho perdido de burgueses puritanos, é uma natureza de artista. O que torna possível essa definição de sua classe, de sua família, escrita por ele mesmo: A ética protestante e o espírito do capitalismo. Weber não descreveu a evolução religiosa das seitas protestantes; era tarefa de seu amigo Ernst Troeltsch. Weber não escreveu a história do capitalismo moderno; era tarefa de seu amigo Werner Sombart. Weber faz a síntese entre as ciências de duas Faculdades. Descreve como os puritanos secularizaram a sua fé, como desligaram a ética do trabalho ilimitado de suas origens no

dogma da predestinação, como a igreja sóbria, sem ornamentos, dos calvinistas, se transforma na oficina sóbria, sem ornamentos, dos burgueses. O próprio Weber é um puritano secularizado: substitui o dogma pela razão, o sermão pelo discurso, a seita pelo partido, o fanatismo religioso pelo ardor político. Sendo o maior descobridor de fenômenos da secularização, é também um fenômeno da secularização. Essa identidade completa entre a sua pessoa e a sua obra é notável, enchendo-o de estranho entusiasmo. Entusiasmo de apóstata. Ele não se deu conta de haver perdido Deus; julga-se capaz de apoderar-se de Deus para os seus fins. É cego, não vê a grande catástrofe de sua vida e de seu pensamento. Weber, que se imaginava arauto do progresso, era o arauto do capitalismo, quando já este caminhava irresistivelmente ao encontro, em 1914, do começo de seu fim. Exatamente como o seu antípoda Benedetto Croce, Weber é um homem contra o seu tempo. Ele não o sabia; mas pressentiu-o. Já em 1908, o artigo sobre a política agrária na Antiguidade romana, com as alusões à política agrária dos morgados prussianos, é cheio de sombrias visões do futuro. Enquanto o sol do poder e da prosperidade brilha sobre a Alemanha, Weber levanta-se como profeta do desastre. Começa a estudar os profetas do Velho Testamento, e escreve: "A profunda impressão dos oráculos de Amos vem, possivelmente, da circunstância de serem esses oráculos vaticinados ao sol, e verificarem-se mais tarde." Weber acredita-se um Jeremias. A guerra mundial começa. E Weber começa a sua grande obra sobre os profetas do Velho Testamento. É um estudo de profunda solidez científica, de extraordinário saber e, ao mesmo tempo, de um caráter altamente pessoal. Os antepassados puritanos de Weber amavam essas profecias ameaçadoras, esses gritos roucos contra os reis e os padres. Weber é como eles. Ainda uma vez, um retrato do artista, pintado por ele mesmo. Confessa escrever sob o barulho dos canhões, em excitação escatológica. Como os profetas lutavam contra os reis de Israel que arruinavam a nação, Weber luta contra o imperador infeliz. Weber, o

maior descobridor dos fenômenos da secularização, é um profeta secularizado. Um profeta sem Deus, naturalmente, como cumpre a um homo religiosus de uma época ateísta. Chamaram a Weber um "religioso do ateísmo". Isto foi no tempo em que escrevia os seus famosos artigos de jornal. Weber considera os profetas hebreus os maiores panfletários da literatura universal; e durante os seus estudos sobre estes profetas, escreve, na Gazeta de Frankfurt, seus grandes panfletos contra o imperador, cheios de clarões, de furor, de cólera, de desespero. A própria obra científica é um panfleto disfarçado. Weber subiu à tribuna. É um filho da sua classe e da sua época. Membro típico da "classe discutidora", nacionalista feroz ao mesmo tempo. É preciso salvar a nação da dinastia. O Jeová dos profetas não é o Deus dos reis, mas de seu povo. Weber, porém, o ateu, é um profeta sem vocação divina; seu nacionalismo "satânico" prepara o soerguimento de um povo "eleito", mas não eleito por Deus. Weber odeia o imperador, como os puritanos ingleses chamavam aos reis da Casa de Stuart "padres de Baal". O imperador diz-se "pela graça de Deus", mas é ungido de um falso Senhor, de um Baal. E os sacerdotes deste Baal são os burocratas. Weber luta contra a burocracia, como os profetas hebreus contra os sacerdotes do Templo. Esta luta contra os burocratas, aliados do trono, tem uma significação profunda. Na aparência, é a luta de um liberal, de um chefe de partido democrático, contra aquilo que Renan denominava "le despotisme": a administração pública. É na verdade a guerra dum gigante contra poderes gigantescos, anônimos. No decorrer desta luta Weber inventou a teoria dos três tipos de autoridade. Contra a autoridade legítima do monarca, contra a autoridade legalista dos burocratas, Weber ergue a autoridade "carismática", de revelação direta e divina, do profeta, do chefe. O carisma santo contra o métier profissional. O chefe "carismático" contra o rei legítimo. Algumas vezes Weber parece identificar-se com esse chefe. Não é de Deus que o liberal ateu tem seu carisma. Seu profeta será ateu: seu chefe será um ditador.

em grande-burguês calvinista. Weber encontra no seu caminho a oposição de outro coletivismo materialista: do marxismo. nas mãos desse chefe". A doutrina de Georges Sorel é. Contra esse inimigo inesperado. o "ardil dialético" de Hegel. dissimulada em seu capote. levanta-se contra a glorificação positivista da ciência. Como no poema de Heine. "Por uma forma rigorosamente democrática. o modelo mais convincente desta transição. numa pessoa.diz ele no seu último . do individualismo anárquico à ditadura coletiva. Ainda uma vez. a ironia do movimento histórico. na sua famosa conferência sobre La scienza e la vita. pelos grandes nominalistas da Idade Média dirige-se contra o pensamento coletivo da Igreja. de repente. O individualismo desencadeado por um Occam. A ciência tornou-se vida.diz Weber em 1916. é suicida. O individualismo de Weber. E Max Weber é o Croce e o Sorel da Alemanha.Weber descreve o tipo ideal do chefe "carismático". talvez. chama-lhe um sintoma de envelhecimento. E já sabemos que esta contradição vingará: matará o marxismo. "A ciência". Francesco De Sanctis. elas elegem-no chefe" . murmura: "Do teu pensamento eu sou a ação. Será um demagogo. o democrata calvinista Max Weber transforma-se. filho favorito do liberal. uma personagem misteriosa. colaborando na Constituição de Weimar. será "uma máquina obediente. Nos grandes meetings. Weber participava dessa opinião. o que tornou possível. empreende matar o marxismo pelas armas de uma filosofia espiritualista. O partido político. conseguiu a instituição da eleição plebiscitária do presidente. não menos materialista. sem alma. bem cedo. para erguer. Protagonista dum coletivismo puramente materialista. a eleição de Hindenburg e os plebiscitos. só para preparar os caminhos dum antimarxismo. por um Marsilio. O individualismo leva sempre a um novo coletivismo. como todo individualismo burguês. É um cesarismo plebiscitário. sob o qual reluz a espada do carrasco. a força coletiva do Estado. "rigorosamente democráticos". mais tarde. se manifesta. inflamará as massas com as suas arengas." Weber. do seu sucessor.

profundamente secularizado. Há entre as duas partes desta citação. cumpre conservar a lembrança desta possibilidade da existência humana que Weber realizou. de uma Contra-Secularização. Mas ele terá de fazer o sacrifício do seu intelecto. ainda quando seu nome e sua obra estejam esquecidos. uma ligação íntima. neste protesto.e é o mais provável . porém. A secularização da Igreja fundou este mundo capitalista e liberal. Weber desejava completar a secularização. Mas a arrière-pensée de Weber." Aqui. misericordiosamente abertos. Mas em nossa época não existem profetas. A personalidade humana não sucumbe neste regresso? Por contradição.discurso. o "carisma secularizado". Geralmente. desejava salvar a soberania da personalidade. senhores. nesse "retorno".ele a tenha escondido. O protesto de Weber contra o falso sacrifício do intelecto é justificável."a ciência é hoje em dia um ofício sóbrio e especializado. era muito outra. A ciência como ofício . talvez . Perguntareis: mas quem nos dirá o que devemos fazer? A que Deus devemos servir? Então. Hoje em dia. talvez Weber não haja reconhecido esta ligação. o protagonista mesmo da secularização. das velhas igrejas. . e ele sabia bem o que dizia. Aquele que não se pode conformar com isso volte para os braços. na época atual. e para a qual já não existem. condições apropriadas. mas a dialética da história ironizou-o terrivelmente. trata-se de uma distinção bastante sutil. o começo de uma Contra-Reforma. responderá somente um profeta ou um redentor. o "retorno às velhas igrejas" não passa de uma fuga que prepara as submissões subseqüentes. O messianismo "carismático". a ciência não responde. receava. exigiu o sacrifício da inteligência e o sacrifício subseqüente da vida. Foi a derrota do espírito. de um profeta. Era a sua razão de ser. Weber. e por isso o seu espírito viverá. ao serviço dos conhecimentos de especialistas. o salvará. É preciso explicar um pensamento pelo outro. que precede a derrota do mundo. ela já não é uma filosofia acerca do sentido da vida. hoje sobretudo. A conclusão era muito lógica. sobre a vocação da ciência e sobre o falso sacrifício do intelecto. a secularização da seita. o puritano secularizado. Ele.

A civilização. uma divina. extermínio mais radical do que o mundo. Por outro lado. e o que importa não são as obras de alguns gênios. a "luta das duas almas no peito" é coisa comum entre as nações e os homens. haveria duas Alemanhas. Estamos em face de um dilema gravíssimo. Mas a força alemã pretende destruir a nossa civilização. outra do diabo. na noite . a que assistimos. a banalidade metafísica de uma tragédia que se repete todos os dias. São soluções de propagandas banais. enfim. ou os próprios valores da civilização alemã seriam os criadores espiritualmente responsáveis daquela força destruidora. a catedral invisível de Bach. o espírito alemão. o céu olímpico de Goethe. em geral.NIETZSCHE E AS CONSEQÜÊNCIAS A NENHUM homem sério poderia deixar de preocupar a grave discrepância entre os valores da civilização alemã e as forças destruidoras no seio do mesmo povo que os criou. Nenhuma dessas três soluções satisfará ao presumido homem sério. num Pascal. num Michelangelo. ocupadas numa milenária luta interior. é o espírito que os criou. e a lição espiritual de tantos outros. o espírito é integral. Enfim. Oferecem-se-nos três soluções: os valores da civilização alemã seriam a justificação espiritual bastante da obra material que aqueles empreendem. a visão histórica de Hegel. e atinge força simbólica só nesses poucos heróis sofredores que lutam um combate representativo: num apóstolo Paulo. tem a tristeza banal. indivisível. O próprio Nietzsche soube-o vagamente: chamou-se a si mesmo "Dionísio crucificado". herança dolorosa da nossa natureza. imagina. e a luta contra o "perigoso espírito alemão" degeneraria inevitavelmente em luta contra o espírito em geral. A "justificação espiritual" do esforço alemão começou com o extermínio do próprio espírito alemão. se lhe faltassem a austeridade de consciência de Lutero. espectadores compassivos e vítimas passivas. seria incompleta. num Friedrich Nietzsche. e empreende a cruzada em nome desse mesmo espírito alemão. que é sempre incômodo. a nossa e a universal.

o Nietzsche-Archiv de Weimar é já um centro nacionalista. Mas o seu sacrifício representativo foi em vão: há no mundo uma força mais poderosa do que o espírito. Há neste círculo muitos estudantes universitários. ficam muito satisfeitos quando o grande poeta Stefan George. e a eles se deve a recuperação de Nietzsche para a força vital alemã. Reconhecem-no. verdadeiro filósofo oficial do Reich guilhermino. O fato de ter renegado a Wagner.da loucura que predissera a toda a humanidade. fundador dum aristocratismo espiritual. até pelos seus conterrâneos. Os jornais judeus frisam o antibismarckianismo e o filossemitismo de Nietzsche.de sua loucura . filósofo oficial do nacional-socialismo. de outra parte. Nietzsche é um "Siegfried". Nietzsche foi sempre mal entendido. admite judeus no seu "círculo George". festejam-no. um "alemão rebarbarizado". Os estudantes-voluntários da batalha de Langemarck. a validade do pensamento "de um professor louco". morriam com versos de Nietzsche nos lábios. esqueciam os professores de boa saúde que a residência de Nietzsche na casa dos alienados é já o julgamento de um mundo onde o psiquiatra é o dono da casa. a oposição dos liberais. bem nietzscheano. como restaurador das forças vitais. para os alemães. Os simbolistas que introduziram Nietzsche na França não tinham . com Max Scheler. começara: um professor secundário possuído de loucura furiosa. negando. a tolice humana. de Moebius a Bumm. Brandes proclama-o modelo do "bom europeu". fê-lo intolerável aos universitários e determinou a sua eliminação científica. o sofrimento e a própria loucura: é o símbolo terrestre do infinito. Para Alfred Bauemler. Na República de Weimar. com Georg Simmel. Pequenos círculos da burguesia já tinham mal entendido Nietzsche como precursor do nudismo ou de reformas alimentárias. Encarregaram-se disso os psiquiatras. Os filhos descobrem um meio mais eficaz da revitalização alemã: a guerra. Friedrich Nietzsche acaba como. o mal-entendido de Nietzsche no estrangeiro é mais triste. no outono de 1914. Se esses mal-entendidos germânicos constituem assunto de uma comédia. como vencedor do pessimismo schopenhaeuriano. A oposição da Alemanha imperial contra Nietzsche suscitou.

E todavia esse filho de gerações de pastores luteranos sofre intimamente de conflitos religiosos e é. e desde então passou Nietzsche pelo filósofo do pangermanismo bárbaro. É o estilista mais latino e mais claro da língua alemã. Esquecem-se de que "toda religião de beleza degenera em orgia". a claridade irônica dos latinos. e só mais tarde tiveram eco. como versículos mágicos das escrituras sagradas do Oriente.240 Nietzsche foi o inimigo mais furioso que o cristianismo jamais teve. às vezes. Os gritos dos jovens Siegfried nietzscheanos na batalha de Longemarck perturbaram desagradavelmente esses prazeres. que na Alemanha oferecera o programa duma sinfonia de Richard Strauss. Até que os êxitos incontestáveis dessa revitalização alemã perturbaram os próprios cérebros franceses. profere fanfarronadas de uma ébria vontade de dominação. Não faltam tiradas nietzscheanas nos romances de D'Annunzio e na boca dos jovens libertinos russos de Artsybachev. e a nova geração dos Maulnier e dos Brasillach celebra em Nietzsche o rebarbarizador da Europa. proclama o individualismo germânico. mal-entendido de que o próprio Gide não pode ser absolvido. Karl Jaspers . afinal. O esteticismo confundiu Nietzsche com Oscar Wilde e deduziu daquele um falso imoralismo.e. bastante clara para esconder sob a virtuosidade dos meios estilísticos as contradições internas. ébrias de luz. o amoralismo bárbaro dos gigantes da Edda. ao mesmo tempo. dos provençais. A sua prosa é a do grande poeta que era. Donde esses mal-entendidos? Nietzsche não é um autor difícil. e. e.noção das diferenças entre Nietzsche e Wagner. Nietzsche é um inimigo mordaz dos alemães . Exprime com igual mestria o lirismo modesto e profundo dos alemães. como as canções. Nietzsche é o último filho da "velha Alemanha" humanista. e o Zaratustra. Os mesmos círculos wagnerianos fascinavam-se com o estilo de Nietzsche. Mas é sempre clara. um cristão pascaliano. o grande pathos da Bíblia. a sua língua soa como os aforismos densos dos filósofos pré-socráticos. tornou-se na França assunto duma grande ópera. ao mesmo tempo. que se perderam no reino sóbrio de Bismarck. filho espiritual de Goethe e Hölderlin.a expressão "bom europeu" é dele .

A sua filosofia. A única obra puramente poética de Nietzsche. União muito rara. que lembra as personagens de Dostoievski. A verdadeira união desses elementos só é possível no fundo agitado da alma dum homo religiosus. sobre o ressentimento dos fracos e vencidos como origem da moralidade. coberto de destroços contraditórios". O diagnóstico "poeta" não serve para nos subtrairmos aos problemas existenciais que o pensamento nietzscheano nos propõe. o Zaratustra. Pois filósofo era também.chama à obra de Nietzsche "um campo de ruínas. que lembra a mais velha metafísica. Lembra a verdade dos antigos . até as suas tentativas de uma metafísica da transformação eterna.que os poetas são uns delirantes. em todo artista. o "elemento ator". quando o espírito do poeta ainda anoitecia na casa dos alienados. coloca-nos diante de perguntas ameaçadoras. Friedrich Nietzsche era poeta. e não menos autêntico. Esse poeta autêntico é um autêntico pensador. . Nasce então um profeta. sobre o elemento teatral. as suas diagnoses da decadência e do niilismo da civilização moderna. e que não deve ser confundida com os balbucios pseudofilosóficos do poeta Hugo ou com os ócios poéticos do filósofo Santayana. O único laço que lhes dá coerência é a paixão intelectual de Nietzsche. o lanço apaixonado de toda a sua personalidade. última metafísica niilista e desesperadamente otimista. o que faz da sua loucura a sua obra máxima. a de Heráclito: não são poemas. em que Karl Jaspers identificou a primeira filosofia existencialista. agitada nas profundezas da existência humana. Percebeu-se isto muito cedo. após o diagnóstico "loucura" dos psiquiatras. mas a todo o nosso ser. As descobertas psicológicas de Nietzsche. é a sua obra mais fraca. Nietzsche é poeta e filósofo ao mesmo tempo. é a sua personalidade. Friedrich Nietzsche era um profeta. o diagnóstico "poeta" era a tentativa dos estetas para se subtraírem às verdades desagradáveis do pensador. O poeta Nietzsche chega ao cume. Nietzsche parece poeta porque a sua filosofia se dirige não só ao intelecto. onda a força da palavra poética contém uma inteligência existencial e profundamente verdadeira.

encarada com desesperado pessimismo schopenhaueriano. Nietzsche espera a salvação na obra poética e musical do schopenhaueriano Wagner. foram sentidos como catástrofe espiritual. e o messias "super-homem". Nisto reside a sua qualidade profética. e a tantos contemporâneos. . diria: um profeta anuncia a uma situação temporal uma verdade eterna. quando o precoce de 24 anos é feito professor de filologia clássica na Universidade de Basiléia. Nietzsche não era um inspirado de Deus nem um sábio que tem razão contra o seu tempo. Filólogos vivem no passado. já é tempo de situá-lo no seu tempo passado. o seu mundo espiritual não conhece a morte. Não sabia mesmo da última fase desse humanismo: o pensamento anti-histórico de Schopenhauer escondeu-lhe. que para eles é vivo. com que sonhava. veio. e na sua arte profundamente insincera uma teologia do ilusionismo. como Isaías antes do advento do Messias. A profissão é significativa: o jovem Nietzsche é um representante da "velha Alemanha" humanística. Tinha uma verdade existencial a proferir. que estava então sendo esquecido. encantado com os versos de Hölderlin. Para nós outros. Portanto. o ódio da nova Alemanha o prende. Nietzsche não conheceu a morte do seu mundo humanístico.Mas o que é um profeta? Um homem inspirado por Deus? Ou simplesmente o portador duma verdade que os homens não querem ouvir? Uma definição. Nietzsche colheu os primeiros ensinamentos sobre a psicologia "mimética" do artista: reconhece em Wagner o ator. A vida independente de Nietzsche começa em 1868. Nietzsche não foi mal entendido. ele não podia ser entendido antes do tempo. o fim da "velha Alemanha" e o advento do Reich de Bismarck não podiam ser compreendidos pela dialética histórica. Era menos e mais. cheio de Goethe. O templo de Nietzsche foi destruído. Pela primeira vez. mais e menos ampla ao mesmo tempo. para melhor compreender o nosso tempo presente. Em Bayreuth. pretensa pedra fundamental duma nova civilização alemã. que é o tempo presente. como Jeremias antes da destruição do templo. a dialética de Hegel. Mas a profecia não pode ser entendida antes do seu cumprimento.

que a desorientação neobárbara de Nietzsche. mal cristianizados. uma verdade pessoal. não é a barbaria dos velhos valentões germânicos. mas resulta dum atavismo real do paganismo nórdico. é um fato real. das suas rendas. (V. No entanto. É a última máscara. e todas as suas descobertas psicológicas. alma "naturaliter christiana". porém. existencial: a sua própria existência de professor reformado. sente a fascinação do sol mediterrâneo. A barbaria. germânica. Andreas Heusler mostrou. Atrás da máscara cristã de Wagner reconhece o paganismo interior dos alemães. nessa altura. da psicologia de Stendhal. que vive. Veneza. Reformado por motivo de doenças um pouco misteriosas. e desesperadamente. e achou em si a barbaria nórdica. bem germânica. onde o suave pessimismo histórico do velho humanista Burckhardt o consola e lhe abre o mundo do humanismo europeu. o papel do bárbaro. que o romântico incurável Nietzsche sempre amou. Descobre o mundo latino. saudade insaciável duma pátria irreal. O cristão Nietzsche queria ser um pagão mediterrâneo. mal disfarçada. Nietzsche só desempenha.Retira-se para a Suíça. de que Nietzsche pretendia ser o profeta. em Nice. os estudos de Weigand sobre a situação financeira e as . A doença moral do próprio Nietzsche advém da luta interna entre o cristianismo da alma e um atavismo pagão. Estamos no centro do problema. No fundo. num estudo profundo. Gênova. no seu novo Reich militar e burguês. Nietzsche. meio feudal e meio industrializado. em Nice e na Itália. que sabia pouco da sociologia. Monte Carlo. mas a barbaria dos novos burgueses alemães. Nietzsche apenas imaginava ser um espírito latino. da música de Bizet. tinha uma alma cristã. sulino. Não pode ser bárbaro: está gravemente doente. Nunca podia tornar-se um pagão grego. nova espécie da "flor azul" de Novalis. relativamente luxuosa.241 não tem nada com as máscaras de ópera pseudogermânicas de Wagner. vive da sua pensão e de algumas rendas pessoais. é uma existência burguesa. descobre. que não é idêntico ao humanismo alemão. Não sabe que está possuído da "nostalgia do Sul". Dessa contradição profunda provém o saber de Nietzsche a respeito das "máscaras".

não se sabia onde se estava." O privilégio do profeta consiste em não ser entendido. Sozinho. o antialemão. A situação é cheia de contradições dialéticas. o filósofo da transformação eterna. Ataca incessantemente o representante simbólico desse racionalismo: Sócrates. enfim. entre eles. o presente e o futuro. Nietzsche. que o torna um rendeiro ocioso. A estrutura heraclítica do próprio intelecto de Nietzsche fá-lo descobrir a estrutura heraclítica do espírito alemão e o caminho da autodestruição desse espírito: o caminho de Goethe a Hegel. A existência do próprio Nietzsche não é uma exceção. Redescobre os filósofos pré-socráticos. Apoderando-se das sugestões de Bourget. o fenômeno da decadência européia. Nietzsche. É a autodestruição niilista no espírito de Nietzsche que o torna apto a reconhecer o niilismo alemão. o aburguesamento e a proletarização da Alemanha: fenômenos exteriores e. nesse caminho. Nietzsche não recua nunca diante duma verdade . o caminho. Mas . Na Alemanha. de Hegel ao "Estado de poder" prussiano e. fala como cristão a cristãos que já não o são.Nietzsche reconhece que a Alemanha precede.) A existência ideal dos "senhores" nietzscheanos tem certas premissas econômicas. A face exterior desse processo é a industrialização. do nacionalismo e do socialismo à fusão de ambos no nacional-socialismo. aos outros povos e a toda Europa.o seu máximo feito profético . o maior. que é o precursor do grito apocalíptico de Nietzsche e o fundador do partido que fornece as massas disciplinadas do socialismo. fenômenos espirituais. igualmente. Di-lo o próprio Nietzsche: "Sou o profeta do niilismo europeu. a Marx. desde o nudismo e as reformas . ele está diante do nada.e da generalização dela: a sua doença revela-lhe a base doente de toda a civilização burguesa. e. que conduzem ao niilismo. o seu mestre: Heráclito. fala como alemão a alemães que já não o são. mas está baseada na doença. É o profeta do niilismo. faziam-se retratos de Nietzsche à própria imagem.despesas de Nietzsche. denuncia o enfraquecimento dos instintos vitais pelo racionalismo burguês. o anticristo. ao mesmo tempo. que a situação alemã se tornará a situação do mundo.

a defesa desses valores da civilização alemã. Nietzsche é. uma jovem geração européia. Precisa-se percorrer em direção inversa o caminho de Nietzsche. O heraclitismo de Nietzsche é um protesto inconsciente contra a falsa interpretação positivista de . estavam na defesa. Maravilhosamente. Eis por que será impotente uma resistência que opõe às armas mecanizadas outras armas mecanizadas. e a sua inesperada congruência material ameaça o Continente com a destruição definitiva. a situação espiritual era. alemão e ocidental. As profecias têm sempre uma significação negativa. mas o próprio niilismo já tornou impossível a defesa eficaz contra o niilismo mais poderoso. outra: lá. As diatribes anti-históricas de Schopenhauer haviam desacreditado o pensamento histórico de Hegel. e isto faz ver que a situação alemã de então se tornara a situação européia de hoje: a profecia cumpriu-se. A resistência contra essa solução é. Os malentendidos. mas protesta vivamente contra a identificação dos evolucionismos de Darwin e de Goethe. quando descobriram o Nietzsche nacionalista. O apelo só a essas armas trai aquele niilismo desesperado que Nietzsche denunciou. como Hegel. que o positivismo alemão desfigurara em sentido darwinista. No tempo em que Nietzsche estréia. Hegel está quase esquecido na Alemanha. Na Europa ocidental. era ainda possível o mal-entendido esteticista. Nietzsche. primeiramente. porém. O desaparecimento da Europa seria a solução niilista da "questão alemã". aquele estado de espírito que tolera a eliminação do espírito pela força material. à qual chama um "crime de lesa-majestade". reconhecendo a sua significação negativa. Quem só toma a sério as armas já está perdido no espírito.alimentárias até à "vontade de poder" do pangermanismo. a dos Maulnier e Brasillach. as anteriores oposições espirituais do "bom alemão" e do "bom europeu" desaparecem. saúda o niilismo de fora como a própria salvação. de fato. de Nietzsche encontram-se. não conhece Hegel. sem os quais não haveria civilização européia. o discípulo de Schopenhauer. Cumpre tomar a sério a profecia de Nietzsche. um espírito heraclítico. enfim. e sê-lo-á também no campo de batalha.

a sua situação "ahistórica". e todos o admiram. do crítico mais exigente até à girl mais engraçada. que a minha admiração seja perigosa e deixe entrever. e eu também desejo unir-me a esse cortejo glorioso. e um grande alemão. que. Todos o lêem. de ter perdido a ligação histórica com o centro da civilização alemã. A dialética histórica do pensamento de Hegel é a congruência das contradições. Em Goethe e Napoleão a congruência do "bom alemão" e do "bom europeu". Recuperá-lo seria impossível sob a base do niilismo espiritual de Nietzsche. enfim. mas sim uma tragédia humana. É impossível não admirar Thomas Mann. Foi um momento feliz do espírito alemão. e que passou. seria a morte. é objeto da admiração esperançosa do mundo. que se tornou realidade subjetiva em Goethe. que é o que o ligaria a Goethe. muitas vezes. e em tudo isto admirável. torna-se realidade espiritual. Com o primeiro romance. enfim. o pensador e escritor em ação. Nietzsche lamentou. a coincidentia oppositorum242 objetiva. O ADMIRÁVEL THOMAS MANN É IMPOSSÍVEL não admirar Thomas Mann. um escritor de primeira ordem. O tempo de Goethe é a idade de Péricles na história do espírito alemão. A única base possível era o niilismo político de Goethe. não um gênio vitorioso. O "caminho para trás" é o caminho de Nietzsche a Hegel e de Hegel a Goethe. reconhecendo a caducidade do poder exterior.Hegel. É a vida. porém. Perdera o sentido da dialética histórica. É irresistível. . a coincidentia oppositorum. com Goethe. de um ou de outro lado. temo. o mensageiro do mundo ocidental. o prêmio Nobel selou a admiração universal ao escritor. saudara em Napoleão o desmembrador da unidade alemã. A realidade material dessa congruência. lutando contra a tirania. porque Goethe via na impotência material das unidades políticas a garantia do poder espiritual dos indivíduos nacionais. conseguiu a admiração duradoura dos alemães. Os Buddenbrooks. É um pensador profundo.

. de Nietzsche. Em certos casos .causas célebres da subliteratura universal . o leitor desprevenido abre a boca. Na verdade. a diagnose e a explicação da decadência.de Goethe. sem encontrar uma solução. de Wagner e . um escritor de primeira ordem. Mann debate-se entre os pensamentos de Schopenhauer. Fócion. sem possível solução racional.a análise destruidora não deixará mais que montões de papel de embrulho. mas ficará um homem humano.a análise fará cair uma capa real. mas o amor infeliz dum bastante fraco herói de tragédia.A admiração é a inimiga mortal da compreensão. papel sujo. em Wagner procura a superação da decadência pelas ilusões intencionais dum romantismo ébrio. por isso. em particular. indiscutida. Mas não há pensamento. E todas as discussões intermináveis em torno desse problema irresolúvel seriam o caminho a Goethe? Goethe é o Deus absconditus da teologia vitalista de Mann. e a alemanidade não é a essência do seu ser. A experiência fundamental de Mann é a decadência. escondido e inacessível às rotações do moinho de rezas descrentes que são aquelas discussões. é o maior dos escritores de segunda ordem.e entre estes o de Thomas Mann . o orador grego. o escritor. sufocado sob enormes massas de pensamentos. Em outros casos . Thomas Mann é um pensador confuso. de Nietzsche. sobretudo a admiração unânime. Justamente no caso das chamadas "glórias da literatura universal" faz-se preciso um ato de destruição deliberada. Que é que a gente admira em Thomas Mann? O pensador. e a encarnação de tudo o que é ou foi honesto e admirável no homem alemão. Dizem-no um pensador profundo. o alemão.este mais mencionado do que pensado . humano e admirável. Mann tem a expressão filosófica da decadência. Nos romances de Thomas Mann há muitas discussões e muitas reflexões. contra os uivos da publicidade organizada e da adulação impudente. ouvindo os aplausos da multidão. costumava dizer: "Que erro cometi eu?" Sem conhecimento dos erros e das faltas não há admiração sincera. experiência vital e. compreensiva. De Schopenhauer. nenhum pensamento original. uma saída. Desde o princípio da sua vida literária até hoje.

em que se cumprem os mistérios do nascimento e da morte.Lembra as palavras de Donoso Cortés: "la burguesia es una clase discutidora". como outrora no escuro do ventre materno. em geral. cujo pensamento torturado é transfigurado por um raio de poesia. Mas a banalidade é rara em Thomas Mann. e o seu Goethe é o herói de gesso sobre o armário de livros pouco ordenados. desde então. liberdade. Thomas Mann é um admirável ensaísta. duma passagem. e que não posso resistir à tentação de citar: "A cama é um móvel metafísico. todos eles. não muito conhecida. recebendo as boas-vindas do resto do mundo". Lembro-me. uma grandeza trágica. de noite. de noite. intitulados por ele. a cama é um barco mágico. o conto de todas as noites? É no conto que Mann consegue condensar o seu lirismo em obras de arte. com razão. porque as suas discussões não são cheias só de pensamentos. Acha-se esse fraquíssimo liberalismo até na admirável Carta aberta ao Deão da Faculdade de Filosofia da Universidade de Bona. o que é a primeira condição do ensaísta. o que é coisa horrorosa. porém. um conto muito poético. é preciso saber que um ensaísta não é um causeur engraçado. Mann é um grande manejador de pensamentos." Não é um poema? Ou. esgota-se em cartas . Expressões caracteristicamente banais. Os seus contos magistrais são. mas um escritor sério. de dia modestamente coberto. Esforços. balouçamos para o mar do inconsciente e dos sonhos. um caixão. onde nos regeneramos. em Tristan. Nos penosos ensaios propriamente ditos de Mann. traindo que não foi por mérito de Mann que aquele liberalismo conseguiu. ensaios poemáticos em torno do seu próprio problema vital: o artista decadente. Não sendo pensador original ou claro. bem-estar e decência humana. misteriosamente. o raio de poesia é bem fraco. Apenas. Evita-a. inconscientes e de joelhos encolhidos. antes. mas em que. o que seria uma base de discussões possíveis. é um liberal burguês. presos ao cordão umbilical da Natureza. mas também de arrière-pensées. em que exorta a Alemanha a "voltar ao sistema europeu de justiça. Não é simplesmente um liberal. O literato Spinell.

Esses raros contos. Thomas Mann gosta muito da música. poucos romances cumprem integralmente as leis da espécie. A grande maioria dos romances da nossa época não passam de ensaios. Os grandes romances são caducos. na Morte em Veneza. e Thomas Mann. observações e ensaios de criação. enfim. Os Buddenbrooks e A montanha mágica. com os seus amores desesperados à loura Inge Holm. laboriosa e penosamente. como leitmotiv. nem sequer do romantismo aburguesado e impotentemente melancólico de Brahms. pensamentos. ofende loucamente o seu grosseiro marido. fala muito nela. Tonio Kroeger. O romance é um gênero relativamente novo e não bem definido. Acredita estar em sua casa. perde a sua dignidade artificial na paixão criminosa por um menino. Em compensação. de imensos ensaios gorados de grande ensaísta das pequenas formas. sabe compor como um músico. As duas obras capitais de Mann. atormenta com amores artificiais uma mulher doente. O romance é o gênero propriamente "moderno" da literatura. dormindo profundamente. na música clássica e romântica alemã. o romance é condicionado pelo tempo. Mas não é contemporâneo de Bach nem de Beethoven nem de Wagner. burguês. compostos. quão poucos sobrevivem! Mais do que os outros gêneros da literatura. dum baby são e gritador. sem imaginação alguma.artificiais. e Thomas Mann é o contemporâneo da música artificialmente perfeita e artisticamente . inutiliza-se para a literatura. de ensaios frustrados. de mil pinceladas de observação paciente. eis a escassa bagagem literária de Thomas Mann para a eternidade. é um ensaísta frustrado. Thomas Mann é muito pobre de imaginação. e dos grandes romances do século XIX. e encontra no caminho da perdição. todos eles já estão deitados. o famoso escritor Aschenbach. afinal. são dois imensos ensaios sobre a decadência da Alemanha e sobre a decadência da Europa. como os avós do último Buddenbrook. que não quer ser senão romancista. fazendo mil variações engenhosas em torno de um tema monótono. e foge. não passam. a figura disfarçada e guiadora da Morte. vaso paciente de todos os nossos sentimentos.

como o leitmotiv. com as virtudes estilísticas da época burguesa: irônico. Não é por acaso que a vida literária de Mann começou no famoso hebdomadário humorístico Simplicissimus. receosa de indiscrições. Thomas Mann é um grande estilista. do vocabulário. e num autor de trabalho minucioso. É a minha mais firme convicção literária a de que o estilo de um escritor é a chave da sua obra e da sua personalidade. um humorista. tudo trai a impotência para o verbo espontâneo. Lembra aqueles cuja roupa e comportamento corretíssimos querem esconder uma mancha do passado. sempre correto. Estilista de primeira ordem. de frases meticulosamente construídas como Thomas Mann. Grande nunca. da qual o seu estilo recebe os truques mais sugestivos e mais artificiais. em toda a sua gravidade solene. "Garder la tenue"243 é tudo. estilizada à maneira do Goethe da velhice. "fria severidade em casa comodíssima": antecipações daquele eufemístico "bem-estar e decência". Mas não é satírico. Thomas Mann é. Refoge às impotências da língua herdada e demasiadamente abusada. porque não conhece . penosa. querendo esconder um segredo delicado. ao ponto de caracterizar personagens por tiques de fala humorísticos. porém impotente. para a língua maior da música. ele estiliza tudo e ao seu estilo também. um aristocrata. É a música da grande burguesia. E o grande ideal estilístico de Thomas Mann é grande-burguês: como ele define. Um Nietzsche disfarçado em Flaubert. duma época de segunda ordem: é o maior escritor dos escritores de segunda ordem. na significação menos boa da palavra. A língua de Mann mofa de si mesma. é neste sentido que todas as obras de Mann são ensaios que poderiam chamar-se Esforços. correção laboriosa. psicológico.vazia de Richard Strauss. Uma dignidade artificial. empregado até à fadiga. analítico. penosamente disfarçada sob as máscaras da estilização. da construção das frases trai implacavelmente o segredo mais íntimo. Há em Thomas Mann um perpétuo pestanejo irônico. de vocabulário artificialmente escolhido. o estudo das minúcias gramaticais. espirituoso. Thomas Mann é o maior escritor duma época artificial e decadente. sentimental. sorrindo das suas personagens burguesas.

mas não quer saber disto. outra palavra para exprimir "decadência". na mesma Carta ao Deão. Thomas Mann não conhece metafísica nenhuma. porque ele mesmo se sabe continuamente na tentação de sair do seu papel. A morte na obra de Mann é um acontecimento biológico. para "garder la tenue" até a morte. Não é poeta: é só artista. é um burguês domesticado." "Decomposição". essa "falta de fé" que ele mesmo confessa na Carta ao Deão."Mann sustenta a alta dignidade da cultura germânica" . é patriota alemão antinazista em 1942. um fato a-metafísico. mas sempre na tentação de abandonar subitamente esse mundo policiado. começa o processo da decomposição.para provar a sua alemanidade. Há em Mann um burguês e um aventureiro. para atirar-se à aventura.a indignação moral. elegantes. caem de repente mortos. acometidos de apoplexia num lugar público. e como as aventuras de todas as suas personagens burguesas. até as discussões filosóficas de A montanha mágica evitam cuidadosamente as últimas questões. Afinal. que. um artista. Daí a ironia cruel contra si mesmo. A aventura de Thomas Mann é a arte. Thomas Mann é um escritor internacional. Acredita ser alemão. tipicamente alemão. acaba na resignação cética. por falta de fé. Por isso mesmo. para designar o desespero por detrás da máscara da correção burguesa. fim natural de discussões intermináveis. a arte de Thomas Mann é de tal maneira arte da altaroda. mas sem acrescentar a frase de A montanha mágica: "Onde falta a coragem moral da decisão. como no conto Dono e cão. em que passeia na floresta com o seu cão. para evitar o escândalo. Confessa. Foi patriota alemão imperial em 1914. na Carta ao Deão.não conheceu . que desdenha o dono por não saber caçar nem manejar um fuzil. que mereceu as glórias internacionais.. quase mundana. e são rapidamente transportados para o necrotério. internacional. não é um aristocrata caçador. o ponto final da decadência. foi patriota alemão republicano em 1922. Lembra os homens ricos. a "angústia mental e espiritual" . chega a citar o diploma de doutor honorário de Harvard .

e. as personagens não passam de leitmotivs daquela história. base de discussões intermináveis. Ligo pouca importância ao fato racial de ser Mann de ascendência mista. que Mann. meio crioula. a dialética de Hegel.é uma pergunta eterna. individuais. tocando a dança fúnebre dum mundo morto. A "alemanidade" de Thomas Mann é uma coisa delicada e crítica. sente-se fascinado pelo último produto da evolução industrial: o cavalheiro de indústria. O espírito alemão está aberto a contradições.da aristocracia de espírito de 1830 à aristocracia de dinheiro de 1900 evolução que é o assunto de Os Buddenbrooks. à pergunta: o que significa alemão? Há só muitas respostas. Justifica-se. meio alemã.de ser um alemão. mas vitalista. sem saber terminálo. Vendo apenas destinos vitais. contraditórias. que terminou por ser cruelmente desmentido. porque a Alemanha não é definida. . representada por fatalidades familiares. Mann não compreende bem a decadência da burguesia. a "angústia da alemanidade". e começou o romance As confissões do cavalheiro de indústria Felix Krull. a sua evolução . não compreende o sentido social dessa evolução. não conhece. Mann não compreende a história: Os Buddenbrooks não são um romance histórico. e todo o trabalho do espírito alemão através dos séculos consiste na construção duma dialética. definitiva. em cada alemão. Do velho burguesismo morto nada ficou senão o herdado busto de gesso de Goethe. O pretendido historiador da burguesia alemã é um romântico retardatário. o cortejo lúgubre das gerações decadentes dos Buddenbrooks. Por falta de dialética. é a pergunta de Mann também. para reconciliá-las. Assim como as fronteiras da Alemanha estão largamente abertas. o espírito alemão está aberto. o burguês schopenhaueriano da época da burguesia decadente. sem fronteiras. Como o conceito da decadência não é um conceito histórico.O que significa alemão? . Não há resposta inequívoca. capaz de reconciliar essas contradições. vê só neste a última possibilidade burguesa da aventura. e a pergunta de Wagner . e um liberalismo antiquado.

é sempre excluído da vida e ama-a sem esperança. não reconhece a responsabilidade dos pais pelos filhos falhados. Esse conceito não passa de um jogo de espírito que se transformou. O amor de Tonio Kroeger . afinal. A história dessa derrota pessoal de Mann está na sua obra chave: o conto Tonio Kroeger. No fundo. 1914: e Mann escreve o seu livro mais estranho. Mas Kroeger é escuro. seguindo com os olhos o navio que leva a loura Inge Holm e o seu noivo louro. banais". É toda a história de Thomas Mann. Lamenta. É a história romântica dum jovem artista excluído da vida. de olhos azuis. de repente. Não compreendendo a evolução fatal dessas gerações.Para o burguês alemão Thomas Mann. sem o navio que o levou. em realidade sangrenta. ele não compreende o seu próprio malogro na tentativa de identificar-se com o espírito alemão. sem o fim. O artista Kroeger sofre da "nostalgia da vida e das suas banalidades sedutoras". Thomas Mann escreve "romances de formação" em direção inversa. melancolicamente. que se sabe filho de gerações de patrícios arquialemães. Quis sabê-lo. está na ponte de embarque. felizes. aos claros. um espírito que não morrera. doente. mas que se transformara fatalmente. Thomas Mann não compreendeu por que a loura Inge Holm preferira os engenheiros e os oficiais de marinha. O espírito. Não reconhece mais a Alemanha e os alemães. de olhos azuis. para os mares do exílio. acredita Mann. reservado e esquisito. a morte da burguesia alemã significa a morte da Alemanha. pela identificação espirituosa.pertence "aos louros. como Tonio Kroeger ama a loura Inge Holm. repete sempre Os Buddenbrooks. vivos. sombrio. é um malogro. mas fictícia. romance da formação espiritual de um jovem até a sua madureza. amáveis.e do seu autor . Tenta identificar-se com essa alemanidade. esses ensaios que constituem os seus romances. os ensaios Considerações . infeliz. A forma especial do romance alemão é o Entwicklungsroman. incompreensível para ele. para os mares da felicidade. isto é. romances do declínio até à morte. do romantismo com o sentimento da morte. e fracassou nos ensaios de compreensão.

louro. filho da Itália fascista. A decadência é incurável. Coloca o tísico alemão Hans Castorp. Epopéia da doença? Para epopéia falta-lhe a fé. Mas o moribundo Hans Castorp não é a Alemanha. Vêm doentes para o sanatório nas montanhas."244 Atrás da máscara romantizada do junker prussiano. O seu pensamento já não tem nada que dizer senão frases de . de olhos azuis e furioso. fatalmente uma Europa decadente. escuro. pois elas não têm fim. e sublinha a ironia cruel. A resposta às Considerações dum apolítico é 1918. mas é para o resto da vida. Emigrante. Milagrosamente. na trouxa o pensamento fracassado. para Thomas Mann. Uma Alemanha decadente é. bem outra da que o historiador da decadência jamais sonhara. entre as discussões estéreis do espírito europeu moribundo. Luteranismo e romantismo. a Alemanha moribunda ressuscitou. a literatura fracassada. Desde então. "Começa o processo da decomposição": mas não para uma morte romanticamente estilizada. Thomas Mann se enganou. o alemão Thomas Mann está em caminho.no conto Desordem e mágoa precoce . protesto da consciência e amor da morte. louro. filho do gueto judeu. Desta vez. artista e doente. É a tentativa mais séria já empreendida de definir a alemanidade para lhe conservar o sentido ameaçado. acreditam que será por algumas semanas.dum apolítico. uma Alemanha com o rosto de Medusa. e um Naphta. para orador da democracia ocidental. a alemanidade fracassada. Espantado. são os termos da definição. Mann não acredita na cura.sem reconhecer o fruto amargo dos instintos mórbidos dos pais. Escreve A montanha mágica. A sua Alemanha já não existe. de olhos azuis. alguns meses. A capa de Flaubert cai dos ombros de Nietzsche. Mas a realidade oculta sob essas definições é o protesto do furor teutônico contra a civilização ocidental e o gosto de morrer no campo de batalha. para orador do misticismo antidemocrático. aparece o pálido rosto de Tonio Kroeger. ele observa no quarto de meninos da sua própria casa os instintos anárquicos . Pela última vez. Hans Castorp não sobreviverá ao fim dessas discussões. a palavra de Victor Hugo tem razão: "Le romantisme n'est que le libéralisme en littérature. escolhendo um Settembrini.

durante muitos anos de vida laboriosa. o exílio. com toda a "falta de fé". desde já. Hoje. Toda a sua literatura anterior passou. É o resumo da sua existência. para desaparecerem depois nas estantes. com Jean Moréas: "Car je haïs avant tout le stupide indiscret. depois de haver atravessado todas as fronteiras. Car le seul juste point est un jeu de balance. "Deus valha ao nosso desgraçado país. como o segredo está revelado. ensinando-lhe a fazer as pazes com o mundo e consigo mesmo!" Carta enviada para o vazio. que eu haveria de passar os últimos anos de minha existência como emigrado. nessa admirável Carta aberta ao Deão da Faculdade de Filosofia da Universidade de Bona. tão cuidadosamente escondido atrás da correção burguesa. era a expressão duma época fracassada. ele pode falar abertamente. dum alemão burguês e torturado. nunca me poderia ter sido profetizado no berço. invocar o nome de Deus em face da Alemanha diabolicamente caída. Fala à Alemanha. e ele poderia ter dito. com cujo ressuscitamento por Lutero começou também a tragédia alemã. para o mundo bíblico. a suprema responsabilidade da Palavra pela e perante a humanidade.propaganda. durante uma estação. para ganhar "a responsabilidade de natureza simbólica e espiritual". Confessa que "nunca poderia imaginar. e a sua palavra perde o artifício do jogo artístico. proscrito". Qu'enfin dans mon esprit je conserve un secret Qui remplirait d'effroi l'humaine nonchalance."245 Agora. atravessou esta fronteira . A última aventura do artista. está descoberto. do maior entre os escritores de segunda ordem. uma figura simbólica. O segredo pessoal de Mann. libertou enfim o artista no burguês. Já não é burguês. expropriado. também. E essa consciência lhe dá o direito supremo de. e que não teve resposta. não passou de um pensador confuso. Thomas Mann é. Resta um emigrante trágico para os tempos da aurora da humanidade. à categoria dos romances que "toda a gente precisa ter lido". O que é simbólico. Durante toda a longa vida laboriosa.

restabelecer a ordem dos valores. ficara silencioso. para definir a atividade dos intelectuais e a sua posição. tratase. duma questão vital. a Besta do Apocalipse. julgar a nós mesmos. e é melhor perder um nome "consagrado". É o resultado conseqüente de toda a nossa civilização. a frase: os intelectuais passeavam no paraíso das suas ilusões. há três séculos. que exige a maior coerência possível do pensamento. na catástrofe. Portanto. Estranha admiração. é a garantia única possível do futuro. julgar o mundo. o Silêncio apresentou-se perante o Juiz. precisamente na hora em que nasceram juntos o Estado moderno e a Ciência moderna. Havemos de acusar. desvelou o rosto. Thomas Mann foi eminente. Já não é um escritor triste. O êxito não é um critério crítico. passou da tristeza para a tragédia. Leviatã não é um mero fato político nem produto de certas anomalias nacionais ou sociais. das glórias da literatura universal. do seu destino. se tais processos analíticos fossem generalizados? Exatamente tanto quanto há nela de verdadeiramente grande. sem ser verdadeiramente grande. tem o direito de falar. Precisa-se restituir o "grande" aos grandes. JACOB BURCKHARDT E O FUTURO DA INTELIGÊNCIA É DE PAUL VALÉRY. enfim. e fez-se reconhecer como testemunha. para ganhar a alma imortal. porém. e perante um tribunal supremo. Chama-se o monstro: Leviatã. esta. Enfim. E não é uma sentença dirigida contra o passado este julgamento. tornou-se grande e admirável. cujas atividades intelectuais possibilitavam e criavam tal coisa. Durante muito tempo. simplesmente questão da nossa vida. um alemão triste: consciente. enfim. do seu fracasso. nome com que Thomas Hobbes designou a encarnação política totalitária. acredito. quase erostrática!246 Que permaneceria. um burguês triste. De nada serve acusar.também. E como figura trágica. até encontrar. há coisas diante das quais a voz emudece. . Durante toda a sua vida literária. Thomas Mann é admirável. as lamentações são inúteis. Já não tem o dever de falar. Mas há nisso uma contradição: "definir" é uma atividade racional.

O que exclui. retratando-o na História da civilização grega. que.. a apoliteia. O que fazer hoje. Trata-se da decisão mais difícil.. facilitava. não me deixam dormir. como pesadelos. com as suas contradições. a minha própria posição: o pessimismo leva inevitavelmente à derrota. receando a volta do monstro no período mais magnífico dos tempos modernos. e a conseqüência do pessimismo foi a sua atitude apolítica. previu a nossa situação. a própria decisão de não-agir seria uma decisão ativa. duma decisão terrivelmente vital. para todos os casos.que defendemos a qualquer preço. envolvendo conseqüências não menores do que qualquer outra atividade. Em todo caso. a coerência lógica. como convicções. já não servem. Os advogados e jornalistas do século XIX acreditavam extinto o monstro antediluviano. desiludido das suas realizações frustradas. Ao contrário. no meio da maior euforia européia. Ich bin ein Mensch mit seinem Widerspruch. e. Ponho em dúvida. e a raiz comum desse pessimismo e dessa apoliteia é um liberalismo antiquado. impostas. ou se o pessimismo de Burckhardt com respeito à sua própria época lhe fez descobrir o monstro. É difícil resolver se essa descoberta de Burckhardt criou o seu pessimismo. confesso-as. mas que não quer renunciar às ilusões. Soluções dogmáticas. duvidemos. amanhã?. era pessimista. de noite. ich bin kein gut geschrieben Buch." Eram versos da predileção de um outro suíço: Jacob Burckhardt. um abandono da vida ao monstro. De dia. mas sou o último a não as reconhecer profundamente problemáticas. Burckhardt redescobriu-o no período mais magnífico da Antiguidade. O pessimismo e a apoliteia de Burckhardt parecem-me atitudes exemplares. fugindo para a irresponsabilidade de sonhos históricos: lugar incômodo. Ocorrem-me versos do poeta suíço Conrad Ferdinand Meyer: "Das macht. fugindo ao Leviatã. onde está sofrendo as censuras alternantes de humanismo . Já não há subterfúgios." "Não sou um livro bem escrito. e radicalmente. e radicalmente. a retirada da política para a história. a identificação do vagabundo histórico. a apoliteia é uma traição à vida. sou um homem. como em todas as questões existenciais.

como um ser não-político. Prevê "o agradável século XX. para ele.petrificado ou de neo-romantismo fantástico. situação sem esperança. só pode responder. da publicidade que está invadindo os lugares mais privados"." Já é pessimista. não duvido que ela já possuía a significação acessória. Mas teve a boa sorte de poder escolher o lugar de seu exílio: "Pereceremos todos. Burckhardt queixa-se. que os filólogos continuam indignados com ele. a história da Antiguidade. dos gregos. Burckhardt é antidemocrata. a do mestre. Os gregos chamavam ao homem que não se ocupava da vida pública um idiotes. a experiência de Burckhardt. Para os cidadãos de Basiléia o velho professor Burckhardt não passava de um idiota. Desconfia das "massas. Já não quer nada da política. do "barulho enorme. um apolites. como jornalista político." A apoliteia está pronta. de idiota. o que estou fazendo. A estas dúvidas radicais. como homem privado. na melhor maneira cartesiana. E como bom cidadão de Basiléia. em que a autoridade erguerá uma cabeça terrível de Medusa". que podem cair amanhã nas mãos de qualquer tratante. uma experiência. no dizer dos gregos. escolher a coisa pela qual perecerei: a civilização da velha Europa. e se bem que essa expressão só significasse o homem privado. Era um exilado na sua própria pátria. para se tornarem brutos bestiais"." O desterro de Burckhardt era a história. cidade de Erasmo e dos humanistas. Burckhardt reescreveu a história da Antiguidade grega. cartesianas. faço-o como homem. Tornou-se redator da Basler Zeitung. Por esta apoliteia Burckhardt pagou um preço bem caro. e escreveu-a tão implacavelmente. Se a História da civilização grega fosse mais . Talvez esse fim da evolução democrática seja inevitável. Após os primeiros ensaios científicos Burckhardt entrou na vida pública. numa época e numa cidade que se estavam democratizando precipitadamente. substituindo à própria experiência. numa carta. mas. moderna. Em outra carta: "A política morreu para mim. "Às vezes tenho o pressentimento de que o mundo vai caminhando para um falso endereço. a história por excelência era. jornal conservador. Já poucos meses depois. mas queria pelo menos fazer a minha escolha.

e as tentativas repetidas de ressuscitá-la . há quatro séculos. o mundo antigo. É verdade que a filosofia grega situou todos os problemas que nos ocupam até hoje. iluminando desde então o mundo. e as definições científicas em superstições folclóricas. A opinião comum acredita que a civilização grega pereceu nas tormentas das migrações bárbaras e que. as sutilezas acadêmicas em disputas escolásticas. mas exames de consciência. Como todas as opiniões comuns. em petrificação acadêmica. a civilização grega não morreu inteiramente: sobreviveu através de todos os séculos. por definição.não eram libertações nem progressos. Os deuses do Olimpo transformaram-se em demônios populares e alegorias astrológicas. mas é duvidoso se as soluções antigas poderiam convir a nós outros. a arte e a ciência gregas: deuses ressuscitados que afugentaram os fantasmas da barbaria. Aquela opinião geral é falsa. a literatura e a arte gregas. para idealizar. os mais "escuros" também da Idade Média. A civilização grega não pereceu nunca inteiramente. interromper esses consecutivos exames de consciência traria a morte às civilizações modernas. também essa é inteiramente falsa e não deixa de produzir conseqüências funestas: pois. Conheço poucos assuntos tão sedutores como uma história grega. Mas os imbecis não podem. ter razão. mas hoje já não serve de nada. os filólogos redescobriram a filosofia e a literatura. Toda a Idade Média é cheia . se essa opinião geral fosse justa. Na verdade.as Renascenças . após um período de obscurantismo medieval. essa raiva professoral seria decerto mais generalizada. ao seu gosto.conhecida. e cada tentativa de constituí-las em modelos eternos degenera em constrangimento classicista. o mundo grego estaria. definitivamente morto. para nós outros. a opinião comum sobre a Renascença da Antiguidade justificaria inteiramente os argumentos utilitários dos anti-humanistas. Uma história das idéias que o mundo moderno teceu. Do mesmo modo. Como se vê. incomparáveis em si. pois esse livro destruiu um dos mais caros sonhos da humanidade. o conhecimento da ciência grega teve talvez bons efeitos libertadores. A célebre Querelle des anciens et des modernes está resolvida em favor dos modernos. em transformações estranhas. não são as únicas.

vimos a Grécia escultural dos italianos. A última dessas Grécias ideais é a de Burckhardt: ela parece. mas uma imagem ideal dela. Filho duma época relativista. e não sei quantas outras. A famosa Renascença não ressuscitou a civilização grega. em toda a significação da palavra. O que. Humanista. nos classicismos francês e inglês e no classicismo alemão de Weimar. ele reconhece o caráter evasivo do humanismo. A democracia ideal dos atenienses transforma-se. a Grécia já não é uma ilha feliz no oceano do passado. mas uma advertência. uma realidade bem desagradável. sob o olhar do antidemocrata implacável. mas um exame de consciência. a Grécia pastoral e anacreôntica do Rococó. criada conforme a própria imagem. e sim perante uma imagem da Antiguidade. na Renascença propriamente dita dos séculos XV e XVI. Falando a respeito das imagens idealizadas que os historiadores se fizeram da democracia grega. O humanismo não é uma petrificação. a última. Essas Renascenças continuam. saudade de todos os tribunos e intelectuais de todos os tempos. Assim. exilado dum mundo "moderno". mas . e Eurípides na Macedônia. como medida e instância judicial das novas civilizações. que . perceberam que Simônides emigrara para a Sicília. redescobre-a e tira as conclusões da sua própria experiência no mundo da democracia.de recordações gregas. foi ressuscitado não era a verdadeira Grécia. mas acabou com os seus resíduos. e o fim definitivo dessas Renascenças seria o fim da nossa civilização. de Chartres e de Salisbury. a não ser o grego. a Grécia cristianizada de Racine. que Ésquilo morrera lá também. Burckhardt prossegue: "Com o tempo. a Grécia democrática do povo ateniense ideal. nas Proto-Renascenças de Carlos Magno. rejeita o caráter absoluto do modelo grego. a Grécia esteticista e filosófica de Goethe.e nisso reside o caráter evasivo dos humanistas não perante uma realidade histórica. Pela primeira vez. pois não há civilização sem um "código de valores". e a história não criou código de valores. em tirania monstruosa. Burckhardt reconhece a relatividade de todas as medidas. Burckhardt redescobre a realidade grega. Cada humanismo é uma tentativa de justificar-se.

da polis. já não para extorquir o silêncio de oposições. da cidade antiga. Na literatura e na arte gregas. . No EstadoLaocoonte da polis.. de emigrações e de exílios. o Laocoonte. a apoliteia. o filósofo representativo da Antiguidade é o cínico Diógenes. a França. que exalta a morte prematura e dá por felicidade máxima "não ter nascido". dos denunciadores e dos ostracismos é a mais horrorosa tirania que a história viu. a polis exige o homem inteiro. do povo político. menos a liberdade. mas. As brincadeiras anacreônticas e pastorais não representam a Hélade. Os recursos democráticos da polis parecem inesgotáveis: após os oradores e denunciadores profissionais vêm os assassinos profissionais: passa-se a matanças gerais. e não querem servir. Não há vida privada. que Platão fugira. para apertar essas cadeias que reduzem o cidadão a um servo do Estado. Não importa. Burckhardt lembra-se das filas de emigrantes que abandonavam. até. e as inúmeras revoluções e revisões das Constituições não servem. que Sócrates preferira à fuga a cicuta. para Utopia. em 1792 e 1793.Heródoto vivera em Túrio. a personalidade livre é impossível. mas o júbilo de todos. que se ri da desgraça geral e da própria. Descobre o terror do "Demos". dos oradores e jurados profissionais. Os gregos conhecem tudo. No positivo e no negativo. é impossível escapar-lhe. Toda a vida grega está cheia de profundo pessimismo. fugindo ao terror dos jacobinos. A única saída é a liberdade interior do homem apolítico. O seu único pensamento é a fuga. ao contrário. Burckhardt descobre o grito de desespero. e a qualificação do homem privado como "idiota" é a preparação do ostracismo e do exílio. As idealizações da democracia ateniense desvanecem-se. não teme o exílio. Desde que Burckhardt reconheceu a natureza da polis. Nunca foi ultrapassado o pessimismo de Sófocles.. e o símbolo final dessa civilização é o homem moribundo. abraçado pelas serpentes do desespero. para libertar o cidadão das cadeias do Estado." A história das elites gregas é uma história de perseguições. A "democracia" da Ágora e dos "agorizantes".

e nisto se reconhece uma fonte do seu pessimismo. Os seus contemporâneos Fustel de Coulanges e Erwin Rohde explicam melhor o caráter totalitário da República grega pelos fundamentos religiosos desse Estado. exclamou: "On a tout ici. O templo do Júpiter Capitolino caiu em ruínas.Fugindo ao Leviatã. id est in solitudinem secedendum est. À luz desse conhecimento compreende-se por que a religião cristã. E não haverá nunca. les arts. o Grande. O totalitarismo da religião pagã caiu em face do individualismo da alma cristã. . porém. que triunfa dos poderes Estado e Igreja. mas só "na alta serenidade daqueles nobres. o Estado antigo. que se retiram para os mosteiros e as ermidas". Nem Taine nem Burckhardt compreenderam bem o caráter religioso dessa fuga do mundo. Já não há mosteiros nem ermidas. em que o Estado e a Igreja são uma e a mesma coisa. Tácito já predisse: "In nemora et lucos. Estudando a época de Constantino. ao fim. la science. seulement ils n'ont plus d'asile. Mas o Monte Cassino ficou. e só ela. nem no orgulho dos bárbaros vitoriosos. pelo caráter totalitário da sua religião. sem armas. rebutés par l'âpreté de la vie. pôde esmagar. pour les esprits qui. les grands spectacles de la nature. ainda uma vez. La race en subsiste encore. La science fera-t-elle un jour pour ses fidèles ce que la réligion a fait pour les siens? y aura-t-il jamais un Mont-Cassin laïque?"248 Não há. olhando o mosteiro beneditino de Monte Cassino. solitária. preparados para tudo. Burckhardt não compreendeu bem o caráter religioso da tirania política da polis. Burckhardt apela. Hippolyte Taine. Voilà ce que le vieux monde féodal et religieux avait fait pour les âmes pensives et solitaires. Orbis ruit. Burckhardt não acha sublimidade no império. para uma experiência histórica: o fim da Roma imperial." A fuga de Burckhardt não chega. que caiu sem dignidade. se réduisaient à la spéculation et à la culture d'eux-mêmes."247 E Burckhardt: "A fuga para a solidão do ermo faz parte integral daquelas épocas de crise em que justamente os mais fortes não se ocultam a amarga verdade: o mundo cai.

Ao humanista diremos: "Introite. Não é um abandono. Mas Burckhardt não era nem sequer um liberal. como um Croce ou um Ortega y Gasset o professam. dum volvitur orbis. que é um abuso.Às vezes. o sábio. tem mais razão do que aqueles que ainda ontem se orgulhavam de pertencer às "elites dirigentes". chamou "la aptitud para la comprensión amplia de todas las cosas en conjunto"."249 Assim. para demarcar e delimitar as relações etimológicas entre a liberdade e o liberalismo. A secularização dessa vocação cristã é. Este liberalismo é o único ar respirável para o artista. que. que não serve a ninguém. precisamente. e hoje escrevem "Liberdade" com maiúscula imensa. esse liberalismo a que Ramón Pérez de Ayala. aliás. contudo. Não há dogmas numa mera questão de tática. Não basta dizer: "Orbis ruit. e não sou absolutamente partidário dogmático de Benda." Ao humanista cristão não é preciso explicar que a condição da fuga é a vocação. e a delimitação da sua atitude contra a atitude liberal vale a pena. a apoliteia de Burckhardt. ao mesmo tempo. O que parece abandono é o caminho da liberdade. que é cômodo demais. Mas nunca é um exílio. Não há raças definitivas de réguliers e de séculiers. nem do liberalismo religioso. numa página sobre Pérez Galdós." Precisa-se saber que nesse mundo em queda alguma coisa fica de pé: a Cruz. Era um conservador. basta uma convicção firme: a fé. o intelectual. o mosteiro é a única solução. que reúne. Essa definição da apoliteia burckhardtiana serve. as portas do convento permanecem abertas. do ponto de vista histórico como do filosófico. é o meio para conseguir a liberdade. É o vestíbulo de outra pátria. Há poucas expressões tão altas do liberalismo cultural como o ensaio clássico Os limites da atividade do Estado. Para conseguir essa fuga feliz. "Stat Crux. de Wilhelm von . mas deveres diferentes nas épocas de segurança e nas épocas de crise. certas ilusões antiquadas e certas vantagens bem apreciáveis. nem mesmo à Liberdade. Evidentemente. não falamos do liberalismo econômico. nem do liberalismo político. Falo daquele liberalismo superior. nam et hic dii sunt.

Humboldt representa a burguesia mais culta que toma o lugar do Estado bárbaro prussiano. uma atividade essencialmente conservadora. . Burckhardt. O amigo de Goethe deseja limites mais estreitos da atividade do Estado. Pelo seu pessimismo. ao fim feliz. Humboldt é humanista. Mas segundo o credo progressista já não haveria o destino. espírito eminentemente histórico. Burckhardt desconfia do homem também.Humboldt. e a história deveria ter chegado. Burckhardt cede o lugar ao Estado bárbaro democrático. para abrigar a liberdade criadora da personalidade. é. naquela corrida. de la vie et de sa valeur est merveilleusement compatible avec l'action et l'optimisme qu'elle exige: et c'est bien européen. des choses. porém. mas as crises e as catástrofes. é. culturais. ele se vê forçado a deixar o curso ao mundo. é pessimista. já há muito tempo. limita-se a cuidar das realizações passadas. as mais das vezes. é invencível a sua resistência obstinada. Burckhardt é o crítico mais agudo do humanismo. impõe-se a manutenção da continuidade histórica."250 Na corrida do mundo para o abismo. No seu conceito da história. O liberalismo é. o seu "indivíduo solitário" está mais perto do "homem isolado" de Kierkegaard. O papel do intelectual. Mas é precisamente aí que a fuga aparente se revela como atividade superior. Humboldt quer substituir ao Estado o homem. que constitui a história. Atitude que reúne a convicção verdadeiramente idealista do weimariano com a possibilidade de todos os abusos futuros. e a mais poderosa. por definição. otimista. o destino é uma força real. por isso preocupa-se pouco da história e crê no progresso. a atitude do intelectual parece só fuga. por isso. Nessa alternação terrível de períodos de segurança duvidosa e períodos de crise declarada. econômicas. Ainda uma vez Paul Valéry: "Le jugement le plus pessimiste des hommes. um curso mal preestabelecido e. não vê os progressos. cheio de fé numa harmonia preestabelecida das coisas políticas. uma expressão clássica do liberalismo. funesto. e a única possível. para evitar a queda na barbaria definitiva. o homem Burckhardt está ganhando o que o cidadão Burckhardt está perdendo.

ou dos "mortales" de Lucrécio que. e que me lembra uma frase.A salvação da "civilização da velha Europa" era o único fim de Burckhardt. não é senão isto: no meio da crise que está sacudindo tudo. tudo o que deixou de fazer. tem algo do serviço vestalino de guarda do lume sagrado. e."253 . no turbilhão duma época ilusionista. É uma atitude altiva e humilde ao mesmo tempo. estar consigo mesmo.251 "vitae lampada tradunt". et tout ce que j'ai dit. Tudo o que fez. sem ilusões e consciente. guardar o ponto firme do espírito livre e da continuidade histórica. o papel dos intelectuais nas épocas de crise é essencialmente conventual. "quasi cursores". de si mesmo e de nós outros. de Barrès: "Il y a là mes blâmes. para. mes éloges.252 O que Burckhardt exige. pelas vicissitudes dos séculos. mais ainda. estava determinado pela convicção de que os intelectuais não devem levianamente livrar-se. cheia de desespero e de confiança. É a atitude duma consciência européia.

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