OTTO MARIA CARPEAUX A Cinza do Purgatório

(1942) AOS MEUS AMIGOS BRASILEIROS

PREFÁCIO AS VOZES PROFÉTICAS do passado ensinam-nos a interpretar a nossa situação; interpretação que equivale a um julgamento do mundo e de nós mesmos, a um exame de consciência. É só a luz interior que pode iluminar o caminho pelas trevas, para conferir um sentido moral ao purgatório dos nossos dias, para acender, na cinza do que foi, a vacilante luz duma nova esperança. Era o meu caminho também: ainda sinto na boca o travo amargo da cinza do purgatório; já devo agradecer a aurora duma vida nova. Quindi uscimmo a riveder le stelle. Devo agradecer ao sr. Paulo Bettencourt a generosidade com que me abriu a porta para atividades literárias no Brasil, concedendo-me a mais ampla liberdade e independência. Devo agradecer aos queridos amigos Álvaro Lins e Augusto Frederico Schmidt a regeneração da perdida fé nos homens, o sentimento duma nova vida e duma nova pátria. Devo agradecer: à magnânima ajuda de Aurélio Buarque de Holanda, sem cujo trabalho infatigável e generoso este livro não teria nunca visto a luz; ao impulso irresistível de José Lins do Rego; à compreensão de

Carlos Drummond de Andrade, José de Queiroz Lima e San Tiago Dantas; e a cada palavra de Manuel Bandeira. Devo agradecer compreensões, simpatias e apoios, que me comoveram e encorajaram, aos srs. Aldemar Bahia, Astrojildo Pereira, Brito Broca, Edmundo da Luz Pinto, Eugênio Gomes, Francisco de Assis Barbosa, Francisco Campos, Gilberto Freyre, Graciliano Ramos, Jorge de Lima, José César Borba, Murilo Mendes, Octavio Tarquínio de Sousa, Osório Borba, Sérgio Buarque de Holanda, Vinicius de Moraes; e aos meus jovens amigos estudantes, portadores de esperanças brasileiras que constituem hoje a nossa esperança comum. Os meus amigos brasileiros. Devo-lhes muito, devo-lhes também que o esforço deste livro não se tenha perdido: fui eu que escrevi, mas foram eles que operaram. Hoje lhes restituo, com gratidão comovida, o que já lhes pertenceu. OTTO MARIA CARPEAUX. Rio de Janeiro, julho de 1942.

OS ENSAIOS reunidos neste volume foram publicados, durante os anos de 1941 e 1942, no Correio da Manhã, Rio de Janeiro, exceto "Literatura belga", publicado na Revista do Brasil (dezembro de 1941). Todos foram aumentados e revistos, com a ajuda de Aurélio Buarque de Holanda.

PRIMEIRA PARTE: PROFECIAS ___________________________________________ JACOB BURCKHARDT: PROFETA DA NOSSA ÉPOCA A GLÓRIA, já se disse, é o conjunto dos mal-entendidos que se criam em torno de um nome. Muitas vezes esses mal-entendidos formam um denso nevoeiro, donde surge um busto de gesso, o ídolo das Obras Completas, cobertas de poeira: é o caso dos "clássicos". Às vezes esses nevoeiros desaparecem, de súbito, para permitir uma ressurreição surpreendente: é o caso dos "poetas malditos". É muito raro que o véu se levante pouco a pouco, oferecendo o espetáculo de uma renovação incessante, toda a história de uma glória: é o caso de Jacob Burckhardt. Os seus contemporâneos conheciam-no pouco. A posteridade imediata reconheceu o grande historiador da civilização, para depois enganar-se profundamente sobre as suas teorias. Para nós, no momento que atravessamos, tornou-se o conselheiro íntimo da nossa angústia. Amanhã será um profeta, o último dos profetas talvez, já que o tempo não terá mais futuro. Eis quatro etapas da história de uma glória. O caminho para a compreensão está traçado. A sua biografia é muito simples. Filho de uma velha família patrícia de Basiléia, nascido em 1818, consagra-se aos estudos mais diversos. Uma incursão no jornalismo político fracassa. De 1844 a 1893, ensina história das belas-artes na velha Universidade da sua cidade natal, pouco conhecido do público, mas muito estimado dos seus colegas. Burckhardt ama a sua cidade, as estreitas ruas medievais, os telhados e torres, observatório do grande mundo batalhador fuori le mura, a cidade íntima, pátria; só a abandona para viagens à Itália, país da sua nostalgia, nunca atenuada. Recusa cargos honrosos nas grandes universidades alemãs, traço de profunda significação que compreenderemos depois. Enfim, velho e

fatigado, retira-se da atividade para morrer docemente num dia de agosto de 1897. Uma vida fora vivida. Como explicar essa mistura dum patrício reservado e dum pequeno-burguês afável, dum professor pedante e dum poeta fracassado? Essa decifração revelará algumas surpresas. Os seus alunos também se surpreenderam, quando da primeira visita protocolar de um estudante: o sábio inabordável falava na intimidade o dialeto rude, quase humorístico, dos suíços, regalava o seu convidado com bons vinhos, explicava as suas coleções artísticas, tocava ao piano o seu querido Mozart, para enfim queixarse dos seus criados. Oh! que velho epicurista, esse professor de história, esse historiador de segunda ordem! Até faz rir: ele teria, no seu auditório, chorado lágrimas de crocodilo, ao recordar as obras perdidas da Antiguidade, destruídas pelos bárbaros; não será isso um anacronismo, no nosso século iluminado? Um dia o bom velho foi encontrado morto, bem morto. Mas atentai: ele voltará. Alguns anos depois da sua morte voltava, por uma segunda edição surpreendente, o grande historiador da Civilização da Renascença na Itália. O livro, quase despercebido quando seu autor estava vivo, esse livro imenso, reconstrução integral de um século, de uma civilização desaparecida, esse livro é uma primeira revelação e cria o primeiro desses mal-entendidos que fazem uma glória. O livro provoca uma moda européia, o culto do Renascimento, a adoração dos grandes animais ferozes de gênio artístico. O burguês de dinheiro, ansioso por uma árvore genealógica, acredita reconhecer-se nesses homens geniais que devem tudo a si mesmos. Hoje, nos palácios e nas casas burguesas da Europa os móveis à Renascença, tipo 1890, são obstáculos à circulação, colecionadores de poeira. Mas os filhos desses burgueses ainda não se despiram do costume renascentista dos seus pais: misturando o fraco poema de Gobineau e as visões de Spengler, esses "señoritos", para empregar a expressão de Ortega y Gasset, fazem-se confirmar pelo professor de seus pais, confirmam os seus próprios princípios maquiavélicos e desumanos, para se tornar, cada um deles, o seu próprio condottiere.

Seria necessário fechar este livro, grande e perigoso, e escrever na sua capa: É proibido citá-lo! Não se queria do Burckhardt morto senão Renascimento. Mas alguns discípulos fiéis não paravam de pesquisar nos seus manuscritos. Apareceu enfim a História da civilização grega. Mais uma vez, uma revelação. Está definitivamente destruído o idílio dos anacreônticos, o mundo ideal da alegria olímpica; e acha-se descoberto o bas-fond da alma helênica, o pessimismo de um Sófocles, o desespero de um Tucídides, a angústia de um Platão. A arte grega não é senão um grito de dor transfigurado em mármore. É certo que esse mundo helênico, visto através de um temperamento schopenhaueriano, está impregnado da consciência cívica de Burckhardt, cidadão-patrício de uma pequena república medieval, agora radicalmente democratizada. O mistério do pessimismo antigo, de acordo com Burckhardt, é o martírio da polis, da cidade, desaristocratizada, despida dos seus fundamentos religiosos, apóstata, vítima da tirania demagógica. Se bem que não chegando à compreensão dum Fustel de Coulanges, Burckhardt fornece o primeiro exemplo de sociologia religiosa, logo mal compreendido como programa de renovação política e cultural, sobre as bases de uma nova religião. O autor deste mal-entendido não é outro senão Nietzsche, jovem colega de Burckhardt na Universidade de Basiléia. Durante toda a sua vida Nietzsche tentou basear as suas doutrinas nas idéias de Burckhardt: durante toda a sua vida Nietzsche tentou conseguir a amizade do velho professor. Tudo em vão. A última carta do filósofo, já louco, é dirigida a Burckhardt: "Agora, você é, tu és o mestre!" Esse "tu" nunca foi retribuído. Mas a falsa interpretação ficou. Por fim a herança de manuscritos inéditos devolve o tesouro mais precioso: as Considerações sobre a História Universal. É o manuscrito de um curso universitário feito sob a impressão da guerra de 1870, sob a impressão da queda da civilização francesa e do advento do império militar dos alemães. Contam que, ouvindo durante a aula o falso boato de que o Louvre havia sido incendiado com todos os seus tesouros artísticos, Burckhardt chorou diante dos

única época da democracia realizada. Fixados os traços. A guerra é o auge dessas convulsões que sacodem periodicamente a humanidade: as crises. Não seriam coisas impossíveis na nossa época ilustrada? Esperem! Daqui a alguns anos aparecerá um livro sobre a guerra. sobre a felicidade e sobre a desgraça na história. sobre as grandes crises. assim povos desapareceram e outros desaparecerão. A crise é uma fase intermediária entre a democracia nascente e a democracia abolida. Sente-se Marco Aurélio nestas palavras. a ordem dos cemitérios.. massas incapazes de compreender e de conservar o que foi. não chegou a ver. um livro que será o breviário e o consolo de uma geração sem esperança: a nossa geração. Procurou somente as reações invariáveis dos homens diante dos seus destinos históricos. petrificados nas suas civilizações. algumas passagens quase proféticas fizeram deste livro o último apoio espiritual de milhares de intelectuais da Europa Central. que restabelece a ordem. a defesa mais justa torna-se inútil. não se prevê como grandes povos. uma ressurreição. Burckhardt é sobretudo o criador da noção moderna de crise. ao mesmo tempo desfaz beneficamente as nossas ilusões de progresso. cemitério daquilo . Quando nos consola dizendo que os males da história são sempre maiores que os nossos. incapazes de conceber e de construir o que será. Muitas vezes. segue-se-lhe o despotismo. para sua felicidade. A crise é a passagem das massas por um período de soberania. mas "o que não é certo é que a uma guerra ou a qualquer invasão suceda necessariamente uma renovação. recomeçariam as suas vidas. 164). O nosso planeta é talvez bem velho.seus alunos indolentes. Burckhardt não queria profetizar. acontece que reaparecerão num mundo que Burckhardt. à qual se subordinarão todas as teorias posteriores. e já é muito se Roma concorre para celebrar a glória de Numância e se o vencedor se ressente da grandeza do vencido" (p. Acha a guerra inevitável. Sobretudo. sobre a verdadeira e a falsa grandeza humana..

177)."Pois raríssima é a . Poderia subscrever a frase de Luís XVIII: "Quand le grand homme apparaît. a ultima ratio da história. e a infecção se espalha num instante. Aos protestos acumulados contra o passado juntam-se terrores imaginários. quando a crise explode: "Subitamente o processo subterrâneo evolve com terrível rapidez.. tornadas o próprio direito. esses são grandes. um suspiro de alívio. inacessíveis aos terrores do futuro. os únicos inacessíveis" (pp. o exemplo. como fantasmas. Soa a hora. O que se eleva sobre essas terríveis baixezas é a meditação acerca do grande homem. a mudança até das armas e das atitudes." Burckhardt não cai no hero-worship de um Carlyle. Burckhardt não se presta às generalizações de um Le Bon. incompreensíveis no "século estúpido" do "progresso irresistível".diz o provérbio. e depois todos os indivíduos que as representam. e à vontade de tudo mudar se junta a vontade de vingar-se dos vivos. pois. Burckhardt nem louva nem censura: comprova. em lugar dos mortos. Daí é que vem a indiferença pelos meios. ali uma nova teoria do mundo. cumprem-se num mês. sauve qui peut!"91 . moral e civilização. indissoluvelmente ligadas a tudo o que era. o terrível caráter das crises. Daí é que vem a gravidade dessas lutas. o desprendimento do pathos. Cada partido defende o seu 'mais sagrado'. Burckhardt conhece. séculos a se realizarem. Foi Burckhardt quem primeiro descreveu a hora decisiva. até então. Evitando os psicologismos fáceis.. o modelo: é a exceção. que não se conhecem umas às outras. de modo que o reacionário faz o papel de democrata e o demagogo representa o ditador" (p. numa semana. "Existe ainda uma oposição conservadora: todas as instituições estabelecidas tornadas direitos. absolutamente. evoluções que levariam. de um lado e de outro. mas notar-se-á nas suas palavras sobre os mortos."Mas aqueles que ninguém pode substituir. . "Ninguém é insubstituível" . aqui um dever e uma religião. 168-171).que não voltará nunca. ele não é. sobre centenas de milhas e sobre as populações mais diversas. como também a sua superior erudição histórica evita as teorias cíclicas de um Sorel. a elas ligados pelos deveres e pelas vantagens. em outro caso.

em relação a certos povos. e por muito tempo. eles verão. domina freqüentemente sobre a terra. porque não se leva em conta. et pour cause." Aqui está o centro da doutrina burckhardtiana. como mal. épocas de destruição e de escravatura. Burckhardt não disse tudo. a euforia dos vencedores. o sábio tímido. boa para fazer reaparecer os tempos longínquos. em vista dos grandes inconvenientes reais. surgir aqueles de quem eram cúmplices" (26 de janeiro de 1846." A felicidade não é senão uma ilusão de óptica dos historiadores. "De há muito sei que o mundo está sendo levado para a alternativa entre a democracia perfeita e o . tais épocas são consideradas felizes." Surge a velha desconfiança do calvinista contra o poder temporal: não existe poder temporal de direito divino. à maneira dos imperadores adotivos de Roma: porém nada mais" (14 de setembro de 1849). para outros. Mas essas épocas eram também. dos antepassados. é verdade. Nas suas Considerações sobre a História Universal. sob a ordem dos déspotas. herança. muito impregnada do fatalismo dos estóicos. Adverte e adverte: "Um terrível despertar está reservado aos homens de bem que. sob a luz de uma falsa transfiguração. mais depressa92 será de direito satânico. "Todo poder é mau. e a doutrina verdadeiramente cristã chama Lúcifer de príncipe deste mundo. O comentário indispensável é a sua correspondência. participaram do jogo da oposição." Sobretudo "todo poder é mau". As obras da civilização necessitam de ordem. Mas o estado florescente da arte. É por esta razão que o poder não melhora os homens. É possível que alguns lustros passavelmente suportáveis nos estejam ainda reservados. afinal. Aqui o aristocrata reservado. à grande tentação dos poderosos: o poder pelo poder. horrorizados. muito impregnada de Schopenhauer e do seu pessimismo anti-histórico. não passa de uma razão atenuante. abre-se em confidências aos seus raros amigos e lhes comunica os seus receios apocalípticos. e da sua desconfiança dos poderes temporais.) Cedo ele desanima: "Nada espero do futuro.grandeza d'alma pronta a renunciar às vaidades criminosas. calvinistas e cidadãos livres da república medieval de Basiléia. "O mal. "Uma ilusão de óptica nos engana sobre a felicidade em certas épocas.

mas por destacamentos militares soi-disant republicanos" (13 de abril de 1882). Não desespera. fixado e controlado pela autoridade. e será uma cabeça terrível. essa verdade pessoal quase a sorrir. mas este não mais será exercido pelas dinastias. com Nietzsche. escolher a coisa pela qual perecerei: a civilização da velha Europa" (5 de março de 1846). responde: "Os povos transformaram-se em um velho muro. será preciso ser . depois de ter sido confundido com Gobineau. é conservador e humanista ao mesmo tempo. fazem-no confessor dos intelectuais desesperados.despotismo perfeito. a Autoridade reerguerá a cabeça. inédita durante muito tempo. o intelectual que fez "parte per se stesso". as massas. Burckhardt. pois não fica seguro. Mas a verdade é outra. nas cidades e nas usinas. opõe-se: "Espero crises terríveis. a doutrina é muito mais profunda. no agradável século XX. diz-me: o Estado militar será um grande industrial. iniciado e encerrado cada dia com o rufar dos tambores: é o que deverá advir de acordo com a lógica" (26 de abril de 1872). Burckhardt era um protótipo do intelectual. vemo-lo hoje à luz dos seus "irmãos no espírito". foi confundido com Spengler. um certo grau de miséria. que desesperam do mundo e de si próprios." Terminou a profecia. hoje considerado louco. É privilégio dos profetas serem mal compreendidos. e ele o sabia: "Pereceremos todos. é patrício e burguês ao mesmo tempo. Julga-se ter sido Burckhardt o profeta da Decadência do Ocidente. demasiado fracas. Jan Huizinga e Benedetto Croce. onde não se pode mais fixar um prego. Antes de tudo. E se nos quiséssemos opor a esta lógica cruel? Uma anotação. mas queria ao menos fazer a minha escolha. Diz. Como eles. não serão mais deixadas na miséria e livres nos seus desejos. porém. os países de sua predileção. É esta a razão por que. a minha verdade interior. mas nenhuma revolução anulará a minha sinceridade. Burckhardt é formado na civilização da velha Europa luxemburgo-borgonhesa entre a Itália e a Bélgica. com Le Bon. "Um pressentimento.

sed victa Catoni. mas sim do homem. Esse estoicismo sofreu a ação de vinte séculos de cristianismo. no mundo do cristianismo secularizado. Burckhardt era burguês como os burgueses de Antuérpia. que gira. de Florença e de Basiléia. Por isso. Mas Burckhardt era bem burguês. Ele era um homem. no sentido dos estóicos. O velho professor fez uma estranha figura no traje burguês do século XIX. que. reconhecendo embora a pequenez do homem."93 Eis por que todas as suas simpatias eram para os vencidos: "Victrix causa Diis placuit. da cultura intelectual e artística. Esse caráter apolítico da sua cultura o preservava da "trahison des clercs". apoliticamente."94 É a frase-epígrafe invisível de toda a sua obra. pela última vez. Era um homem. neste mundo material e materialista. e é o fundamento de toda a sua obra. herdeiro altivo da liberdade feudal. Impavidum ferient ruinae. com um olho inexorável. em meio à luta encarniçada dos imperialismos e das classes. ele permanecia o que seus pais basileenses haviam sido: um humanista. mesmo sendo um humanista não deixou de ser um cristão. não de política. mundo da adoração da civilização e da arte. formado pela Itália da Renascença. burguês. Burckhardt. desde Nietzsche. reconheceu. pela Inglaterra das universidades aristocráticas e pela Alemanha de Weimar. o colocava no centro do Universo. falava. em torno da política. no seu auditório. no sentido de cidadão das pequenas repúblicas livres da Idade Média. O resultado foi essa atitude. Burckhardt é o último dos humanistas. sempre sincero" (13 de junho de 1842). a fragilidade do homem num mundo sem Deus. não de economia. inteiramente. não era . pela França de Luís XIV. "Si fractus illabatur orbis. imaginavam outra coisa atrás da modesta casaca: talvez os instintos selvagens das "bestas geniais" da Renascença. mundo acima da política. Amando ao mesmo tempo o seu Olimpo.sincero. a fragilidade do seu mundo ilusório. porém. Sendo um intelectual não deixou de ser um patrício. muitos. Sobre o fundo trêmulo de um mundo revolvido. O que significa: formarase.

conservador. Essa cidade. contra bispos e heresiarcas. Era um homem. acreditava na superioridade do espírito em relação a todas as agitações da matéria. como Maquiavel. na constância da substância humana. tornava-o capaz de revelar o mundo da Renascença florentina. Conservador. que defendeu o livre-arbítrio católico. Ali ainda se podia estar bem. tocou no problema talvez mais grave dos nossos tempos: a natureza dos deveres do espírito. é o inspirador de toda "crítica de ação". Isto o fazia incorruptível. observando as grandes batalhas. e todo pessimista tem em si a matéria de um profeta. Tremia-se. cidade de Holbein. modelo supremo do intelectual.disse orgulhosamente. A sua substância. enquanto fora. e sim transformá-lo. contra imperadores e tribunos. nas estradas de Paris. Hinc nostrae lacrimae. tanto da esquerda como da direita. que gravou na sua madeira a dança macabra da Idade Média e de todos os tempos. Ele próprio era um "cidadão". conservava a sua liberdade patrícia. Era-se fraco demais para se tomar partido nisso. se bem que as agitações demagógicas lhe tivessem feito perder o gosto da vida. Era este observatório que Burckhardt não queria abandonar jamais. sobre os telhados e sobre as torres. A sua substância.burguês como os burgueses da burguesia. de Milão. velha cidade humanista. de Antuérpia e de Colônia. Burckhardt era. em nada burguesa. pois. as grandes potências deste mundo se debatiam no campo de batalha. acreditava. cidade do Concílio que se revoltou contra o papa. enfim. "Eu tinha a coragem de ser conservador e de não ceder" . Filho e cidadão de Basiléia. tornava-o capaz de desvendar o enigma da Cidade Antiga. a besta . "fuori le mura". cidade de Erasmo. Humanista. em nada burguesa.95 No paraíso das suas ilusões os intelectuais reencontraram. Karl Marx. Isso o tornava pessimista. Intelectual. com viva emoção. contra Lutero. mas cada um tinha as suas simpatias. inflexível. que não queria interpretar o mundo. em todos os tempos e em todos os povos. último reduto do humanismo. Nessas agitações reconheceu os furores da Cidade Antiga que perdera o seu deus. de repente.

esqueceria toda felicidade e desgraça. de crítica.dizia Benedetto Croce . É o supremo modelo da existência espiritual nestes tempos. de filosofia. nesse artista que dedicou metade de sua vida à óptica e aos minerais. quando ele se constrói um novo edifício. o que é que ficou? Hesito em responder. coerência. cheios de poemas. a sabedoria . Quem disso tivesse uma idéia. É o maior poeta e o mais universal dos tempos modernos. e alguma coisa ainda mais. Ninguém poderia dizê-lo melhor do que Burckhardt nas últimas palavras das suas Considerações: "Seria um espetáculo maravilhoso seguir o espírito da humanidade." PRESENÇA DE GOETHE "DESEJAIS" . de romances. ligado a todos esses fenômenos exteriores e portanto a eles infinitamente superior. e fico surpreendido com a sua presença." E assim foi: "Minha vida foi um outono. de contos. onde estão nesse revolucionário que acabou ministro de Estado. Decepção que os fez compreender. ao lado de penosas imitações classicistas. Os mais belos poemas da língua alemã. "su esplendor y su miseria. Os intelectuais não têm a obrigação de transformar o mundo. de ciências naturais. o seu dever é transfigurá-lo pela criação. fosse ela como uma sombra. para viver somente cheio do desejo desse conhecimento. de tudo aquilo quanto existe entre o céu e a terra. entusiasmo. Mas o outono também tem o seu encanto . Quarenta e cinco volumes.apocalíptica. Realmente? Essa estátua impassível seria a expressão de uma vida exemplar? Fogo. nesse apaixonado que representa o papel de deus olímpico? Onde está a coerência nessa multidão de obras. a criação artística. dois terços das quais são completamente falhos? Dessa obra que louvam sempre sem conhecê-la. no dizer de Ortega y Gasset."fugir da baixa atualidade e ficar sempre atual? Refugiai-vos naquilo que jamais teve atualidade!" Refugio-me em Goethe. de tragédias. su virtud y su limitación".uma luz muito nobre. única poesia moderna digna da Antiguidade. as Elegias romanas. ao lado de mil futilidades em versos inábeis.

Traiu à humanidade. onde um grande espírito se dispersa em mil cintilações luminosas. colocou-se ao lado das forças feudais. Não são unicamente os liberais de outrora que o dizem. O inverso desse individualismo magnífico é uma impassibilidade desumana. pelo qual Goethe se transformava em olímpico impassível. não compreendeu o maior acontecimento do seu tempo. A renúncia à vida mata o espírito. os romances de Wilhelm Meister. embora intimamente as desprezasse. Onde está a unidade de tal obra? Foram buscar esta unidade na sua vida. a Revolução Francesa. quase ilegíveis por sua técnica de romance antiquada. cujos sofrimentos absolutamente não o preocupavam. já estava morto. aos cumes da humanidade. São os cristãos que retomam a censura a um humanismo puramente estético. no entanto. ao lado de fracas peças históricas. fogo de artifício. egoísta.sonora do Tasso e da Ifigênia. como nessas Conversações com Eckermann. realmente: a plenitude dos seus 82 anos. Mas pagou caro. em que Goethe misturou os mistérios mais sublimes a futilidades inexplicáveis. Ainda em vida. traiu a humanidade. Desigualdade surpreendente. em face de comédias ridículas pela incapacidade de provocar risos. primeira obra-prima do romance psicológico. do qual proviera. o segundo Fausto. Vida admirável. de um tédio torturante. somente pelas armas do espírito. desfigurado por um sentimentalismo insuportável. É o cúmulo da inatualidade. desumano. Todas as manifestações de um enfadonho classicismo pesam ao lado da sabedoria enternecedora de um velho homem. traiu o povo. a tempestade juvenil do primeiro Fausto. a grande paixão. espécie de suma da civilização humanística. espírito apolítico. e. Enfim. Goethe fez de si próprio um monumento. O amador de fósseis torna-se fóssil. Assim. Goethe respirava ainda. Goethe. . esta purificação de todas as paixões até à soberania de uma individualidade universal. Três pontos de acusação que já não permitem subterfúgios. As Afinidades eletivas. Contra ela. esta ascensão de um modesto filho de burguês. O Werther. acima do formigueiro dos homens desprezados. à arte e a si mesmo.

e que constituem a presença de Goethe." Goethe. ao beijar as mãos daquele que se deveria tornar o modelo de todos os déspotas. Goethe sabia insustentável o absolutismo do século XVIII. Inimigo da humanidade. são esses três fatos que o tornam exemplar. especialmente para nós. que não trai. para ele. porque ele não conhecia bem o seu papel. mas.Goethe. depois da insignificante primeira retirada dos aliados. Goethe aconselhou. em Valmy. tanto como os nossos conservadores de hoje reconhecem insustentável o atual estado de coisas. traiu a humanidade. a arte e a sua própria dignidade humana. A fragilidade do sistema fê-lo profetizar. e a frase foi muitas vezes comentada no sentido duma terrível indiferença moral. ao ajoelhar-se diante de Napoleão. Mas creio que é aí. traidor da arte. cativar os seus contemporâneos com a fórmula classicista. fazendo coro com a política. Depois de ter experimentado. diante do exército republicano: "Por aí. Goethe nunca fazia coro. Desde muito cedo. para abraçar as ciências naturais e enriquecê-las com as suas descobertas duvidosas e as suas fantasias arbitrárias. em vão. Goethe. Não chegou nunca a um sistema. em 1792. precisamente aí. inimigo de todas as violências. cuidadoso de "não perturbar o sono do mundo". não saudava a revolução vitoriosa. na verdade. Esta falta preciosa o preservava de todo espírito de partido. para não desencadear as forças desordenadas. por essas palavras. No fundo dessa independência existe um pessimismo que . adulador do déspota! Já é alguma coisa. não punir os crimes dos revoltosos: o humano continuou. diante da fúria revolucionária em Mainz. enfim. o artista. "J'aime mieux une injustice qu'un désordre"96 . e nisso ele continua exemplar. é a atitude de um verdadeiro sábio. que reside a sua verdadeira grandeza. Todas três ao mesmo tempo. o romantismo.disse em 1793. uma nova época da história começa. a um programa: falta preciosa numa época em que os sistemas da ciência servem a programas criminosos. de qualquer conformismo. porém. O seu conservantismo. ele trai a arte. não compreendeu o maior acontecimento literário do seu tempo. nessas três fraquezas. acima do político.

o mundo somente admira a riqueza e a velocidade. Aceitando a luta no terreno inimigo. do comércio e do jornalismo. Em lugar da sabedoria apolítica.escreve ele em 1825. o Império universal de Goethe e de Hegel começa. e em 1832. O individualismo da Renascença atinge. . Hegel morreu. a personalidade bem formada cede lugar à massa impessoal. e. sucumbir-se-ia certamente. começara a época do liberalismo. mas o inimigo não destruirá jamais a catedral invisível do espírito. o seu apogeu. É. O capitalismo quebrará as formas orgânicas da sociedade. Goethe. enquanto uma nova era começa. pela revolução de julho. meu caro" . nele. a única arma do espírito contra essa política que Napoleão dizia ser o destino da época moderna."tudo se tornou radical. nesse momento de humilhação. no terreno político. Goethe não lastima a queda do Império. decerto. uma sabedoria política. Um século mais tarde. E Goethe é um homem contra a sua época. Tal atitude é sempre uma atitude contra a época. dir-se-ia melhor sabedoria suprapolítica. porém Goethe deseja conservar a sua. contra a política total. Isto explica uma certa indiferença em face das catástrofes exteriores. porém. surpreendidos com a pergunta que a história nos dirige. uma filosofia da história que se aproxima da dialética do seu amigo Hegel: os transtornos históricos são apenas passagens inevitáveis. Assistimos ao último ato da tragédia comovidos com a catástrofe que ameaça devorar-nos. ao seu amigo Zelter . Esta sabedoria não é. as massas derrubarão a burguesia que as criou. para salvar a liberdade do espírito. Há nisso. a liberdade da criatura humana. subterraneamente.deriva igualmente do pensamento cristão e do pensamento "filosófico": a história é "le tableau des crimes et des malheurs de l'humanité". depois do desmembramento da Alemanha por Napoleão. a sinceridade. porém saúda o novo reino do espírito alemão. com efeito. em 1830. Somos os últimos de uma época que não voltará nunca." Em 1831. Goethe aprova o caos exterior. para dar lugar às multidões proletarizadas.97 Diante da tormenta ele se mostra cético: o mundo perdeu a cabeça. que defende a independência. Goethe o previu: "Tudo.

era incapaz de transfigurá-la em arte: supremo testemunho de sua sinceridade. Goethe. ela se impõe. é a imagem do Macrocosmo. nas hesitações duma época de transição. não da nova burguesia capitalista. Em 1795. Essas obras falidas marcam o fim da sua existência literária. Quanto mais o homem se purifica das suas paixões banais. aos quais está ligado pelo respeito das tradições. transformar em poesia a catástrofe. refugia-se na história natural. não menos comovida que a nossa. sempre renovada.no Fausto. no Universo. como a nossa. A . dominou-a. o filósofo. metamorfoses individuais que vão do nascimento. ele. Esta participação é possível porque a criatura. É um beco sem saída? Não. A grande invocação "Natureza. ele experimenta. que são. Negai a revolução. Goethe é filho da burguesia. Hegel.Para esta pergunta Goethe não tem resposta. paira muito alto. sem importância. Ele não pode arvorar-se em paladino de uma revolução que o supera. tornada desumana. quanto mais se eleva acima dessas perturbações. o poeta. muito acima do formigueiro humano e das suas convulsões. e tudo desabará. É que a sua existência privada. Quebrai as tradições. Esta concepção da natureza envolve admiravelmente a vida. o microcosmo. através das polaridades de toda existência viva. e sim da velha burguesia medieval. mas fracassa diante dos fenômenos da natureza inanimada. Na linha da analogia. junto aos poderes feudais. os seres evolucionam em metamorfoses perpétuas: metamorfoses gerais das espécies. Não a tem porque isso não é da competência do artista: as soluções são sempre fáceis e valem o que valem. é escrita enquanto Napoleão conquista a Itália. e une todos os membros do organismo Natureza: a lei da analogia. A Natureza. A natureza é o seu asilo misericordioso. que prepara uma nova metamorfose da vida. Deixa a história humana. minha mãe sublime" . continua o embaixador de uma burguesia ainda idealista. Naquela época. da história. tanto mais autorizado se acha ele a participar da tranqüilidade do Universo. em vão. é a dialética. se baseava. o filho da cidade livre de Frankfurt e das suas liberdades medievais. à morte. Uma grande lei impera. com maiúscula. o Macrocosmo. ela vos devorará.

"metamorfose das plantas" e a formação do crânio pela metamorfose das vértebras superiores, duas descobertas de Goethe, ficaram como base da botânica e da anatomia comparada. Mas na óptica, Goethe não sabe distinguir o lado físico do lado fisiológico do fenômeno "cor"; perde-se em polêmicas estéreis contra a ciência matemática de Newton, e cria uma ciência das cores que ele acredita ser a obra principal da sua vida e que a posteridade unanimemente rejeitou: o futuro era da matemática. A mesma posteridade fez, da metamorfose goetheana, a evolução darwiniana, da qual chamaram a Goethe o precursor. Mas Goethe não era precursor. Ele era refratário. No limiar da época das ciências naturais, ao serviço da técnica, Goethe é o último paladino de uma outra ciência da natureza, orgânica e desinteressada. Macrocosmo e microcosmo, analogia, metamorfose: são os princípios da ciência natural da Renascença e da Antiguidade, de Bruno e de Plotino. Como Giordano Bruno e Leonardo, Goethe é naturalista e artista ao mesmo tempo; ele não separa as ciências naturais e as artes. De todas as lições goetheanas, esta é, talvez, a maior. O abismo entre a arte e a vida existe sempre; o falso idealismo abjeto e o falso naturalismo tendencioso são igualmente enganadores; ambos, subterfúgios de um esteticismo que trai a vida e a arte ao mesmo tempo. É a mentira. Mas onde colocar a arte, que está além desse mundo e lhe fica sempre ligada, demasiado ligada? Unicamente num mundo que é bem nosso, e no entanto superior: a Natureza. Goethe reconcilia a arte com a vida, reduzindo-as à Natureza, que jamais mente. Esta imersão na Natureza é verdadeiramente romântica. Com efeito, Plotino e Bruno são os mestres do romantismo; Novalis e Schelling respiram na filosofia do Macrocosmo e do microcosmo, nos conceitos da analogia e da polaridade. O romantismo, que Goethe desejava afastar da poesia, este romantismo volta vitoriosamente na filosofia goetheana da Natureza; e é aí que ele está bem no seu lugar. Um romantismo puramente literário torna-se superficial e será amanhã um classicismo renovado. Outro romantismo, verdadeira redenção das forças humanas, prepara nossa

redenção das cadeias da ciência natural a serviço da técnica, devolvendo-nos à Mãe, à Natureza. Para Goethe o fim das ciências naturais não é servir ao homem pela técnica; o estudo da Natureza, segundo Goethe, deve fazer do homem um ser consciente de si mesmo, dar-lhe um coração puro, em harmonia com o Universo. Esta ciência da Natureza é quase uma religião. Para Goethe, o humanista, a Natureza tornou-se um templo, o templo que o Apóstolo encontrara em Atenas, dedicado "Ao Deus desconhecido". Houve, no templo científico, naturalista, de Goethe, a inscrição bem humanística, as palavras de Heráclito que Aristóteles nos transmitiu: "Introite, nam et hic dii sunt."98 E Goethe assemelha-se a esses sacerdotes da Antiguidade primitiva, que eram ao mesmo tempo, servidores do templo e conhecedores dos mistérios da Natureza. O que une, para Goethe, a arte à Natureza, é a sua inutilidade sublime. A criatura, obra da Natureza, é perfeita em si mesma, como a obra de arte; a arte alcança sempre a finalidade que não tem. Esta inutilidade sublime, este desinteresse completo do espírito, esta "religião da cultura espiritual", é o núcleo da "cultura goetheana", ideal da mais alta inatualidade. Foi o que tornou a Goethe solitário durante a sua vida; foi o que fez o século abandoná-lo; é o que o torna exemplar para os nossos dias. "Cultura goetheana" é uma concepção bem sem atualidade, mas que continua sempre presente. É uma religião da qual era Goethe o sumo pontífice. Nunca um grande homem foi tão consciente do seu papel: ser príncipe no reino do espírito. Realmente ele assemelhou a sua vida à de um olímpico. Mas os contemporâneos, como a própria posteridade, acreditavamno um déspota. Tinham esquecido o que este déspota havia realizado: uma obra de libertação. Ele se fez chefe da revolução pré-romântica, e depois de ter afastado os falsos deuses do racionalismo petrificado, dominou as forças desencadeadas, para instituir o Cosmos de uma nova harmonia entre o homem e a Natureza, sob a regência da arte. Essa vida tem apenas um rival: a vida do homem que se constituiu chefe da revolução, e que, depois de ter expulsado as

forças do passado, instituiu a harmonia de uma nova época; época que só foi vitoriosa depois que deixaram de julgar déspota o seu autor. É a vida de Napoleão. Bonaparte teve a intuição deste parentesco; encontrando Goethe, dirigiu-lhe a maior das suas palavras: "Eis um homem!" Goethe também possuía a consciência clara desse parentesco: ele teve mais do que admiração a Napoleão, ele o amou. É admirável, porém, como soube subtrair-se ao imperador deste mundo. Goethe é o clérigo que não trai, não serve. Goethe vê em Napoleão o lado noturno, demoníaco da sua própria existência olímpica. Napoleão era, aos olhos de Goethe, a encarnação de um demônio. Mas a expressão "demônio" tem, na linguagem de Goethe, uma significação especial, a mesma que para Sócrates. O demônio de Goethe é o lado perigoso do espírito, mas sempre necessário no movimento dialético da história. Era preciso que Goethe atingisse a idade do salmista para saber exprimir esta suprema sabedoria, a sabedoria do seu poema Cinco palavras órficas. Uma sabedoria que nos está bem presente: As cinco forças primordiais deste mundo são: Demônio, a força interior do homem; Natureza, a força do Universo; Tyche, a força das contingências que nos cercam e movimentam; Ananke, a força da necessidade que nos rege; e Elpis. A Tyche se opõe a Natureza: a criação perde a inocência do primeiro dia e torna-se o motivo da nossa dor. O homem se opõe a Tyche; o demônio, em nós, é mais forte do que as contingências, e transforma o mundo; o homem domina a Natureza e transforma Tyche em ordem humana, Ananke. Ananke domina ao Demônio: é necessário que o homem se curve. Desde então, somos os prisioneiros da necessidade que criamos. Mas existe ainda, em nós, um resto do Demônio, resto do paraíso perdido e promessa de liberdade: é nossa última deusa, Elpis, a Esperança. A LIÇÃO DE UMA SANTA HÁ ALGUNS anos um dos meus amigos entrou numa livraria católica e pediu um livro sobre Santa Teresa. A jovem que o atendeu trouxe um monte de livros sobre Santa Teresinha do Menino Jesus.

"Mas não, eu queria alguma coisa sobre a grande Santa Teresa de Ávila!" A jovem levantou os ombros e respondeu: "Sinto muito, mas a grande Santa Teresa já não é moderna." Sem dúvida, a "grande" Santa Teresa teria rido desta anedota; a visionária tinha, como verdadeira castelhana, o humor superior da sua raça e a inteligência prática. A invasão do "moderno" nas regiões da eternidade, sintoma tão grave aos nossos olhos, teria sido para a santa um novo impulso de atividade. São os santos que transformam o mundo. Nada mais interessante que observar as coisas que são tomadas a sério pelos nossos contemporâneos, se eles são ainda capazes de levar alguma coisa verdadeiramente a sério. Achar-se-á que os idealistas e os espiritualistas mais sublimes se apavoram em face das crises econômicas, das revoluções sociais e das batalhas militares, como se isso tivesse alguma importância. Ah! como o materialismo venceu até os seus inimigos mais rebeldes! Quanto a mim, estou convencido que os santos são o verdadeiro sinal dos tempos, muito mais importantes que a distribuição das forças diplomáticas e econômicas ou as novíssimas invenções da técnica militar. Todos esses que hoje se agitam tumultuosamente estarão mortos em breve, e nós juntamente com eles. É a morte que dá a esses episódios a sua verdadeira medida. A morte carnal, a decomposição, à qual maravilhosas lendas da Antiguidade cristã! - a carne dos santos resiste. Somente, é preciso saber o que é um santo. Os santos não são acessórios de crenças passadas nem figuras de gesso inexpressivas. O santo é um homem que possui a graça de levar o mundo mais a sério do que ele o merece; tão a sério que o seu caminho para o céu passa precisamente por este mundo. Levar o mundo a sério é a lição dos santos. Os santos não são infalíveis; mas são resolutos. Não vacilam entre um puerilismo ingênuo e a adoração do poder. Não são modernos; representam o eterno. Sabem que a espada do espírito é mais cortante que a espada de aço. Quem não acreditar estará perdido. Quem acreditar será salvo. É a lição da grande Santa Teresa.

Teresa de Cepeda y Ahumada é filha de um grande da Espanha, filha da cidade castelhana de Ávila, cujas muralhas ciclópicas pareciam construídas para a eternidade; Unamuno celebrou-as como símbolo da imortalidade. Alimentada tanto pelo espírito aventureiro dos romances de cavalaria - chegando mesmo a escrever um deles como pelo espírito exaltado da Flos Sanctorum, das lendas dos santos, e também desejosa de tornar-se santa, Teresa escolhe o caminho da aventura religiosa. Prepara-se para as cruzadas e para os martírios, abandonando o século e entrando para o convento do Carmo. Mas o que ela encontra no convento é o século. Estamos antes da reforma do Concílio de Trento. Parece que aí, no convento, se levava a sério o mundo. As religiosas nos seus parlatórios gozavam de uma liberdade que a severidade castelhana proibia às mulheres do século. A vida nos conventos é uma verdadeira "comedia de capa y espada", com as suas serenatas e seus duelos. O barulho das armas na Itália e em Flandres ecoava no parlatório, bem como o tilintar do ouro das Índias. "A súbita mudança de alimentação e de hábitos me fez cair doente" - escrevia a religiosa a seu pai. Ela estava mais doente do que imaginava. Caiu em letargias que duraram dias e dias. Uma vez as irmãs chegaram a preparar-lhe a sepultura. Mas a morte passa. Teresa volta ao mundo. A leitura das Confissões de Santo Agostinho ensina-lhe o valor único da alma humana. O destino do mundo não depende das guerras de religiões nem das guerras de conquistas. É na alma humana que os destinos do mundo se decidem. Iluminada por essa sabedoria, Teresa apavora-se com as palavras evangélicas que ouviu durante a missa: "Vigilate itaque, quia nescitis diem neque horam" - "Velai, pois que não sabeis nem o dia nem a hora". É o fim da parábola das virgens sábias e das virgens loucas, das virgens sábias que prepararam as lâmpadas para as núpcias, e das virgens loucas que esqueceram o óleo, e as lâmpadas apagaram-se, e caiu a noite, e o noivo celeste não as reconheceu; é o evangelho que se reza hoje em dia durante a missa em honra a Santa Teresa. Teresa está resolvida a não pertencer mais ao número das virgens loucas. Quer reformar a Ordem. Prontamente a virgem sábia foi considerada louca. Teresa cai em

mais sério que a pretensa vizinhança entre o gênio e a loucura. o anjo do Senhor fere-lhe o coração com a flecha do amor. Mas o gênio religioso? A histeria é uma doença do caráter. Porque a histeria não é uma loucura. o anjo que lhe fere o coração com uma flecha de amor parece um Eros. em Roma. sobre Santa Teresa. pois que ela não afeta a inteligência. um sorriso encantador nos lábios. porém. É precisamente pelo caráter que se distingue o histérico egocentrista e orgulhoso do santo teocentrista e humilde. e mais ainda: o humor superior e o gênio literário do criador dessas personagens imortais. e compreende-se imediatamente a intenção genial do artista: Teresa era histérica. em 1582. J. Bernini o esculpiu. Reclusa em Toledo. aos superiores.para fundar os trinta e dois conventos das Carmelitas descalças. cheias de conselhos práticos.êxtases: vê o céu aberto. Hahn S. que não é precipitada. que a torturam cruelmente. conseguira fazer o que o rei e o Grande Inquisidor não conseguiram: a Igreja na Espanha estava salva.que viagens pitorescas e picarescas! . Essa comprovação. Ela. Para o . Processaram-na. Com a coragem do cavaleiro andante ela percorre toda a Espanha . vê-se a santa com os olhos fechados em êxtase. escreveu inúmeras cartas aos grandes do mundo e às religiosas dos seus conventos. cheias de um humor surpreendente e de uma sabedoria superior. É uma obra-prima da arte barroca. Sobre um altar da igreja de Santa Maria della Vittoria. Resiste ao rei Felipe II e a seus inquisidores. coloca-nos diante de um problema sério. ao núncio apostólico e aos bispos. escreveu as obras místicas que a consagraram a primeira prosadora da literatura espanhola. prenderam-na. Um católico profundamente crente como o barão Huegel declara: "Nunca houve um santo visionário que tivesse uma saúde nervosa normal" (carta de 19 de novembro de 1898). Santa Teresa tem o seu monumento. não se deixa domar. Essa visionária extática reúne em si a imaginação de Dom Quixote e a inteligência prática de Sancho Pança. Ao morrer. e cita o livro do sábio bolandista P. cartas cheias de coragem indomável. A histeria pode perfeitamente ser acompanhada do gênio.

é incapaz de agir num mundo que ele mesmo criou e que não existe na realidade. assunto duma metapsicologia: ambos sofrem duma dissociação da consciência. de Manuel Bartolomé Cossio. A aparição de um santo é a invasão de nosso mundo pela eternidade. Numa carta a Morell. de Max Wieser. é uma das almas mais seráficas que a terra já viu. o santo sacrificou o seu eu a Deus. o suksma do ioga hindu. Mais ainda: a sua santidade e a sua atividade são a mesma coisa e transformam o mundo. que os outros não compreendem. O histérico.histérico. assunto da psicanálise. O mundo é um conjunto de material para a ação. Por aí o santo é capaz de agir. a dissociação mental do homem superior provém da irrupção dum "supraconsciente". e o homem superior. e é uma força de ação. mas esse mundo é superior ao nosso mundo. para os pequenos-burgueses de espírito. nos histéricos e esquizofrênicos. e toma o mundo a sério. de Henri Bremond. é uma grande figura da literatura espanhola. fechado dentro do seu eu. os seus . "Pelas suas obras vós os reconhecereis. É preciso procurar os seus traços nos estudos esparsos de Carl Neumann. o mundo do histérico e o mundo do santo parecem igualmente quiméricos. de 16 de dezembro de 1696. Para os "normais". Três atributos que pertencem ao passado. A doença mental paralisa a consciência. Um interessante estudo de Georg Sebastian Faber distingue entre o histérico." A obra de Santa Teresa! Ela é a maior figura da história eclesiástica barroca. a dissociação da consciência provém duma irrupção do subconsciente na consciência. o grande Leibniz escreveu: "Tendes razão em estimar as obras de Santa Teresa. Que temos a ver com isso? Que interesse tem isso para nós? A história literária de Santa Teresa ainda não está escrita. o supraconsciente enche o espírito com uma nova força superior." "Porque as suas obras os seguem. o mundo é um joguete em volta do seu eu. O santo é histérico em todas as aparências do seu mundo à parte. A pedra de toque de distinção é a ação. estudos que já permitem a afirmação de que Santa Teresa é uma figura central da história do espírito europeu. com aquilo que Sócrates e Goethe designavam como "Demônio".

E isto sobreviveu àquilo. Teresa foi despertada por Agostinho: ela viveu na época em que a Antiguidade ressuscitada pelo humanismo tinha feito esquecer o valor da alma humana. depois do desmoronamento do mundo antigo. Por outro lado. resiste perante Deus. ela só. O seu Camino de perfección é tão realista e tão eterno quanto as estradas de Castela. Teresa ocupa precisamente o mesmo lugar que o Agostinho das Confissões na psicologia antiga. Teresa teve na Espanha um público escolhido: foi lida pelo rei Felipe II e por Dom João d'Áustria. "Alma hermosa" .estas palavras significam exatamente o valor incomparável da alma humana. por Fray Luis de León e Cervantes. Max Wieser provou que Santa Teresa criou toda a terminologia psicológica empregada pelo sentimentalismo do século XVIII e em seguida pelo romantismo. em Flandres e entre os . Se Teresa foi chamada a criadora de um humanismo cristão. Cossio demonstrou que as influências de Santa Teresa operaram a transformação do pintor grego Theotokopouli em El Greco de Toledo. Teresa foi lida em Nápoles. O seu Castillo interior tem as muralhas tão duráveis como as da fortaleza de Ávila que Unamuno cantou. Na história da psicologia moderna. A Antiguidade não conheceu o valor da alma individual. que. Sola con El Solo" . foi porque acharam nas suas obras uma terminologia cujos efeitos eram incalculáveis sobre o espírito europeu: "Alma y Dios. Dois fatos que justificam algumas explicações mais especializadas.pensamentos fornecem reflexões filosóficas que já apliquei." Todo conhecedor da posição central de Leibniz na história da filosofia moderna ficará impressionado. Santa Teresa é uma grande psicóloga. Ora. Agostinho encontra a sua alma sozinha com o Criador: a alma humana é realmente o que há de maior valor sobre a terra. Teresa descobriu os tesouros da alma. a língua espanhola era então a língua universal. No tempo em que os Conquistadores espanhóis descobriram os tesouros da Índia.essa expressão salva toda a beleza das coisas deste mundo para os espaços infinitos do Castillo interior e dá um novo centro e nova direção a todas as atividades.

pois o espírito inglês deu mostras duma estranha afinidade com o espírito da santa - . e o seu discípulo Olier. cuja filosofia "ocasionalista" é a fórmula filosófica do "Sola con El Solo". cuja "mônada". nos apresentam o cardeal Berulle. e até mesmo no Peru. Sulpice. e Carl Schmitt achará o ocasionalismo em toda a filosofia do romantismo. em Santa Teresa. En attendant la mort. Foi lida pelos últimos católicos da Inglaterra. entre os quais Pierre Poiret é o "pai do pietismo literário" (Max Wieser). e tudo quanto tem valor na mística de Port-Royal: "A alma só perante Deus". de François Maynard. fixa uma atitude teresiana de alma nestas palavras: "Dans le désert sous l'ombre de la Croix. Malebranche transmitirá este pensamento a Leibniz.prisioneiros de guerra em Argélia. que se inspira no "humanismo devoto" de Francisco de Sales. em Novalis e no romantismo."99 Mas aqui o que mais nos preocupa é o grande oratoriano Nicolas Malebranche. Mas Unamuno achou a "mônada" no "só cristão" de Kierkegaard. bem como o terceiro volume de Bremond. O mais belo poema religioso da língua francesa. e o carmelita Pe Philippe Thibaut. por igual. não tínhamos ainda conhecido a grande "primavera espiritual" francesa do barroco. que se inspiram. o criador da expressão alemã "Schoene Seele" ("alma hermosa"): expressão que dominará o sentimentalismo do século XVIII e reaparecerá em Goethe.100 até Fénelon e os místicos da Renânia. Daí é que surgiram o abade de Saint-Cyran e Pascal. onde o grande poeta barroco Richard Crashaw lhe dedicou o seu Hymn to the Name and the Honour of the Admirable Saint Teresa. I-III). Depois. Aí ele encontrará o ramo inglês do pensamento teresiano . Até à admirável História literária do sentimento religioso em França (especialmente vols. Teresa inspirou a devoção do santo bispo Francisco de Sales. do abade Henri Bremond. Sabe-se que toda a literatura francesa até os nossos dias está impregnada de polêmicas jansenistas e antijansenistas. fundador do seminário de St. o bispo Pierre Camus. Sobretudo. a alma isolada. É ainda Bremond que persegue a linha "quietista" do Pe Lallemant e da religiosa Marie de l'Incarnation ("C'est vraiment notre Thérèse"). fundador da Congregação do Oratório. é o germe do idealismo alemão.

porém. é devido a esta notável e estranha oposição do humanismo cristão. Leopardi. Teresa descreveu as suas viagens sobre mulas miseráveis. do racionalismo do século XVIII e do materialismo do século XIX. onde reaparece a substância cristã do pensamento teresiano. O que há neste mundo. de verdadeiro "personalismo". ainda. do jovem Marx. como o nosso tempo. presentemente. Deixemos Unamuno prosseguir esta linha de Sénancour. as noites nos albergues. entre fidalgos que têm ar de ladrões e ladrões que têm ar de fidalgos. Santa Teresa conquistou um mundo. poeta do Unknown Eros. Em plena Inglaterra vitoriana. a única figura luminosa é o Grande Inquisidor Quiroga. Em toda parte do mundo os espanhóis batemse como heróis e destroem como selvagens. Chateaubriand. Paulo102 Tillich pôde prosseguir este pensamento até às polêmicas idealistas. humanitárias. O mundo de Santa Teresa é a Espanha barroca: um mundo rude. o pai espiritual do classicismo de Weimar101 e do neoclassicismo inglês do século XIX. . a imbecilidade dos bispos. o grande romancista Charles Morgan. se inspirou. A própria Teresa o descreveu no seu Libro de fundaciones: a frieza impassível do rei. Amiel. o oratoriano Cardeal Newman transmite a psicologia teresiana a Coventry Patmore. conquistou-o. que leu o seu Agostinho pelos olhos de Santa Teresa. Sem dúvida o pensamento teresiano era o "Castillo interior" da alma humana contra todos os ataques da violência barroca. que El Greco pintou inesquecivelmente. contra o mundo. O sentimentalismo e o romantismo têm a sua fonte comum nas Confissões de Rousseau. e cujo ensaio sobre Singleness of Mind representa a voz da última resistência. Vigny. a astúcia dos ministros. movimento que vence com Shaftesbury. É precisamente dessa Espanha desumana que a voz mais humana proclama o valor incomparável de toda alma. aos ventos do inverno de Castela e ao sol escaldante da Andaluzia. em que o último platônico inglês. a grosseria dos generais e a covardia dos burgueses. que nós conhecemos em Dom Quixote. É um tempo de ferro e de sangue. até Quental.ramo que provém dos anglocatólicos e dos platônicos de Cambridge.

mas sim uma esperança. "Sola con El Solo". Hoje o castelo dos reis de Espanha não é mais que uma lembrança. e o palácio vazio fica encoberto pelos arcos do Castillo interior.103 Amontoa os tesouros da alma. é bem a filha de gerações de senhores feudais espanhóis. solitária na sua cela de Toledo. A alma está com Ele. é preciso defini-la? O pensamento de Santa Teresa operou os seus efeitos fora da Igreja. olhando os alicerces gigantescos do Escorial. econômicos. Charles Morgan. Superior aos poderes políticos. militares.Esta voz venceu o barulho insensato de uma época. como Richard Crashaw a cantou. o céu castelhano do "Dios solo". porque é incapaz de levar a sério o mundo. "Dios solo" . "the sacred flames of thousand souls". a história não é o teatro dos generais e dos diplomatas. exprimiu-o no . e ela será mais forte. onde todo o poder do mundo está reunido para levar os seus idólatras sobre os caminhos do diabo. Os tesouros das duas Índias amontoam-se sobre o cais de Sevilha. Ela finalmente é a mais forte. Mas a fé de Santa Teresa é bem capaz disso. Esta mulher. O que. e o puerilismo contemporâneo. segue. altivos e livres nos seus castelos: os estranhos avós do mais sublime fenômeno dos nossos dias. bem compreendido. "with white steps the way of light". Deus não é o "Deus dos mais fortes exércitos". não é uma consolação. Teresa fez história. do liberalismo espanhol moderno. não resistirá. O último "teresiano". É a nossa fé. como as muralhas de Ávila não o são. a fé que acha uma ordem superior e um sentido no mundo e na sua história. e a definição dessa fé consiste essencialmente em estabelecer fronteiras. Teresa. no centro da alma humana. Essa fé. eclesiásticos e burgueses da sua época. tranqüilamente. a sua alma é o castelo duma liberdade superior. A verdadeira história passa despercebida. A história não se faz com armas e tesouros.104 Aos demônios da violência opõe o seu firme "Todo nada". A lição da santa é que as muralhas do Castillo interior são eternas. corajosa contra todos os poderes temporais e espirituais do mundo. mesmo o devoto. reais. o que soa muito bem na boca dos incrédulos. "todo nada".dizia ela. O pensamento de Santa Teresa é a sublimação religiosa da liberdade espanhola.

os árabes. os alemães. Pela doutrina. preceptor em casas de famílias nobres. parece insensível aos sofrimentos e sonhos humanos. da ciência e da fé. os romanos. historiógrafo miseravelmente pago do rei Carlos III. onde os gregos. exceto a fuga ou a destruição. Essa concentração espiritual a que Jesus chamou a pureza do coração. o parque municipal de Nápoles. que não sabem quem foi aquele que lhes traçou. os implacáveis destinos futuros. Perto do mar. Viveu em Nápoles. os franceses. contempla com o olhar frio de pedra as crianças inocentes que brincam ao pé do monumento. Mas há outro remédio que está ao alcance de qualquer. O remédio é esta concentração do espírito ativo. e que é o gênio do amor. do marinheiro. paisagem que sonha com o passado. do camponês. os longobardos.de ser um homem. Como a história. a figura de pedra. do Vesúvio." VICO VIVO A ESTÁTUA do filósofo Giambattista Vico ergue-se na Villa Nazionale. do sábio. de 1668 até 1744. corroída pelo tempo. onde tentou melhorar os . e com um futuro incerto. e que o preserva ainda. indomável e inflexível como o zelo dos santos. da ilha de Capri. Vico está bem vivo entre nós. que o pensamento humano conservou através de tantas tiranias. obscuro professor de retórica. Assemelha-se a um rio faiscante. os espanhóis deixaram os seus traços. dos jovens e dos velhos. Mas é no caos da política que através deles chegamos à ventura e ao milagre: .Essay on Singleness of Mind com o qual prefaciou o seu drama O rio faiscante: "Muitos homens se deixam convencer pelo desespero de não haver remédio contra a violência do mundo presente. ao pé do qual a cidade submergida de Pompéia dorme: paisagem essencialmente histórica. a elas também. Chamam aos santos de fanáticos. e realmente eles não permitem que ninguém os desvie dos seus objetivos. também aquela estátua. e por um problema premente que permanece conosco. na penumbra das árvores velhíssimas. olha o panorama do Posilippo. da mãe.

uma "Ciência Nova": a filosofia da história. Enfim. jurisconsultos e gramáticos. Todos os problemas viquianos estão resolvidos no livro estupendo que Croce lhe dedicou. nas concepções de Comte. cidade dos inquisidores espanhóis e da erudição sufocadora dos antiquários. no espírito coletivista e "populista" de Herder. de Marx. que feriram o professor: na maior miséria. a filologia e estética históricas e psicológicas. nunca perdeu a fé. na verdade.vencimentos magros escrevendo poemas de ocasião para aniversários natalícios e núpcias. Escreveu muito. para pertencer a um terceiro mundo. de Sorel e de Max Weber. o nosso problema presente. a compreensão dos contemporâneos napolitanos limitava-se a dúvidas e discussões acerca da sua ortodoxia católica. na Nápoles estreita de então. a sociologia comparada. que permitem compreender o sentido do passado e pressentir os destinos do futuro. aquele livro. dos românticos. Com esse livro. e que é o problema dos nossos dias presentes: como foi possível que alguém escrevesse em 1725 a Scienza Nuova. Os pequenos resultados acessórios desse trabalho foram a ciência histórica do direito. de Michelet. e o criador dessa doutrina caiu num olvido glorioso. a época em que as ciências naturais e matemáticas começavam a marcha triunfal que hoje termina com as vitórias terríveis da técnica. criou. otimista. Foi escrito. anti-histórico. . Mas foi compreendido só pelos descrentes.parece um problema histórico. progressista e intimamente a-histórico. O problema . e até na vulgarização de Spengler. o livro Principii di una Scienza Nuova intorno alla natura delle nazioni. onde Benedetto Croce o redescobriu. e escreveu. entre outros. Vico passou despercebido. Mas é. Influiu poderosamente na filosofia da história romana de Montesquieu. Foi ele quem primeiro empreendeu estabelecer leis históricas.como pôde a Scienza Nuova nascer em meio ao choque desses dois mundos. não nascido ainda . para nós outros que estamos vivendo a queda apocalíptica do nosso mundo e buscando o nosso caminho nas trevas. Era o século XVIII. com exceção dum único problema que parece puramente histórico. a doutrina de Vico tornou-se uma base evidente e quase natural da nossa estrutura espiritual.

Mas a democracia corrompe-se. Quando . batina semiclerical. Essa elite de guerreiros liberta-se da tutela dos sacerdotes. de Políbio até Spengler. os povos recaem na barbaridade das origens. e. numa volta. representada por sacerdotes que falam por mitos aos leigos e que escrevem em hieróglifos: é a "época dos deuses". opõem-se ao espírito do cristianismo. como uma elite. A Scienza Nuova é um grande poema barroco. sobre os ciclopes e os heróis. ciência em que as histórias da Bíblia e da Antiguidade se misturam numa erudição extensíssima. estúpidos. peruca de professor. o poema histórico de Vico não pode denegar a sua descendência da teoria cíclica da história do pagão Políbio. conseguem subjugar outros bárbaros inferiores e os governam. um pessimismo agudo junta-se à fé inabalável na providência celeste. faz guerras. privilegiados pela Revelação. especulações sobre Adão e Noé. A ciência de Vico está vestida do mesmo traje contemporâneo. Enfim. restabelecem por um "direito natural" a democracia. funda cidades. gravíssima. Os outros erravam "na grande floresta da terra". tem Homero como poeta: é a "época dos heróis". concebem os elementos duma religião.expõe Vico . que não conhece mais que .as águas do dilúvio desapareceram. Espantados pelo trovão. com exceção dos hebreus. Todas as teorias cíclicas da história. às vezes divertida e não raramente doida. dos heróis e dos homens. um pouco civilizados. Vestia o traje do seu tempo. bestiais. brutos e brutais. sempre doente. escrevem em caracteres alfabéticos. deixaram os homens sobreviventes em profundíssima barbaria.Giambattista Vico era um homem magro. escreve em caracteres figurativos e fala em língua metafórica. Portanto. Assim. recomeça o ciclo das épocas dos deuses. num "ricorso". Como em toda a poesia barroca. curvado pelas noites intermináveis à mesa dos estudos. tossindo na poeira dos inúmeros livros devorados. ditaduras lutam com anarquias. duma "cultura teológica". criam a historiografia e as ciências: é a "época dos homens". Pertence às especulações barrocas sobre a origem das nações e de suas línguas após o dilúvio. os subjugados vencem aos senhores. esses bárbaros.

mesmo no direito. na elaboração das epopéias homéricas. Todos os séculos precedentes tomavam Homero e Virgílio ingenuamente como pares. em Vico. um século antes de Wolf. os destinos dos homens. criou Vico a estética histórica e analítica. com poder absoluto. que se desenvolveu até SainteBeuve e Taine. só admite uma evolução retilínea.direito. está limitado pela lei histórica dos ciclos que se repetem. É independente dessas possibilidades interpretatórias a primeira conseqüência que Vico tirou do conceito da interdependência: Homero é o poeta da aurora da humanidade. religião. Criou o relativismo histórico. Vico discute. a parte da poesia popular. hoje renovadas entre Croce e Chiocchetti. reconhece a relatividade de toda ordem jurídica. a Igreja. Mas como o poder dum monarca constitucional está limitado pelas leis. O poder da história. é só relativo. e em Virgílio o poeta épico dum estado mais velho e mais refinado da civilização. Originaram-se daqui as discussões contemporâneas sobre a ortodoxia de Vico. anônima. Vico reconhece em Homero o poeta épico da idade heróica.uma única revelação e uma única encarnação de Deus e. É que Vico reconhece a interdependência de todas as regiões da atividade humana . civilização material e espiritual: é possível interpretá-lo no sentido da dialética idealista de Hegel e da dialética materialista de Marx. É estranho como frisa a mudança da escrita com os diferentes estádios da civilização jurídica e material. política. da criação até o juízo final. Vico vê a história como uma força que rege. cria a ciência histórica do direito. as bases sociais do direito. Eis a razão por que Vico não sabe como situar no ciclo histórico a história única do povo hebraico e da sua sucessora. Reconhece o papel do "espírito do povo" nacional e do "espírito dominante do tempo" na evolução das instituições humanas. Põe termo à identificação ingênua do direito romano com o direito natural. Na aparência. por isso. até Vico. que passou. Mas a ortodoxia sincera que Vico sempre professou parece residir em sua fé na providência divina: ela vence o seu pessimismo e fá-lo achar um sentido na história. Com isso. por invariável. a significação histórica das lutas . em Vico. assim o poder da história.

Vico é o criador do historicismo. uma crise terrível das consciências que cria uma nova época. se o preferem. a relatividade de qualquer ordem política e social. conforme o relativismo do mestre. de reencontrar a possibilidade da atitude viquiana em face do fim de um ciclo histórico. Toda época é uma "querelle des anciens et des modernes". O pobre professor napolitano do tempo barroco previu o nosso problema. o nosso "problema Vico". que. dos heróis e dos homens. Estava perplexo diante do espetáculo da história. depois a cidade. Num certo nível. depois a rua. como decisiva. ou. E é estupendo. É o próprio método histórico de Vico. A grande discussão literária desse tempo é a comparação apaixonada entre os poetas e escritores da Antiguidade e os contemporâneos: a "Querelle des Anciens et des Modernes". O livro fundamental de Hazard traz o subtítulo De 1680 a 1715 e marca. agora. exatamente o tempo em que o espírito de Vico se formou. enfim. a atitude espiritual. O problema de Vico é o nosso problema. e a sua perplexidade é a nossa confusão. depois a casa e. uma maravilha. Há. Trata-se de vencer a perplexidade pela visão superior. a relatividade de toda a nossa civilização. e estamos voltando. com uma nítida preferência pelos modernos. Vico predisse-o: percorremos as épocas dos deuses. onde o drama se passa. Um problema está.sociais. É. nisso. todas as soluções se tornam indiferentes. Trata-se. Novum Organon e Instauratio Magna chamam-se os livros de . a significação revolucionária da monarquia absoluta na luta da burguesia contra o feudalismo. e permanece. com isso. Criou esta atitude científica que hoje perece. O grande teatro do mundo viquiano é aquilo a que Paul Hazard chamou La crise de la conscience européenne. o processo de Balzac de fazer-nos ver primeiro o país. se está bem colocado. basta colocá-lo no seu tempo e no seu espaço. isto. Para resolver o problema Vico. serão sempre discutíveis. à barbaria. resolvido. diante de um novo dogmatismo. Não se trata da justeza e exatidão das soluções viquianas. no ano de 1725. para nós outros. o quarto. de início.

Bacon. contestam os milagres. que dissolve em lendas e fraudes todas essas histórias amadas. e o último ato chamar-se-á Napoleão. às quais Vico opõe as suas leis históricas."só não teve um Bacon. ocupa no palco desse grande teatro mundial o último lugar. implacável. do século XVIII.diz Vico . "saber é poder". que Vico leu e releu com um misto de curiosidade e medo. pelas leis matemáticas de Newton. Todo o restante saber humano. que excitou a oposição vivíssima de Vico. É o fim da velha Europa. técnicas. Seguir-se-ão. Para Galilei. A cidade de Nápoles. matemáticas. Ficam sendo essas leis matemáticas a última coisa certa e indubitável no mundo. a Revelação e a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. jurisconsultos e filólogos da velha estirpe. nesse caminho. aquele Franklin que "eripuit coelo fulmen sceptrumque tyrannis". sufocados na miséria. diante das crenças políticas: o "direito natural" serve-lhes para dissolver o direito positivo. o que é inconcebível aos velhos professores e eclesiásticos.106 Seguir-se-á a Revolução. Está à margem do mundo . incisiva. "knowledge is power". o liberalismo de Spinoza. naturalmente. incompreensível aos antiquários. e para Bacon. sobre o qual assentam todos os poderes." Reconhece a nova época das ciências naturais. A própria Bíblia é irreverentemente criticada pelo atrevido oratoriano Richard Simon. e os deístas ingleses tiram conclusões inauditas. de Pierre Bayle. inventor do pára-raios e da República americana. o braço jurídico de Grotius arma o absolutismo totalitário de Hobbes e. "A Antiguidade teve tudo" . Os demolidores das crenças religiosas não param. e Boyle transformá-lo-á em ciência nova da química. Gassendi acha na Antiguidade o que nenhum antiquário ousara achar: o atomismo materialístico de Epicuro e Lucrécio. práticas. as irreverências de Voltaire e Diderot. Está regida. esta máquina mundial. do mesmo modo. como as "máquinas animadas" da psicologia de Descartes. sucumbe à crítica cética. tão caro aos antiquários namorados da Antiguidade. O mundo transformase em máquina gigantesca. "la filosofia è scritta nel libro grandissimo della natura in lingua matematica"105. as proclamações teoréticas de Rousseau e práticas de Franklin.

do governo espanhol e da Inquisição espanhola. Olha o espetáculo histórico da humanidade. Lê Platão. em torno deles. a sua estátua olha a paisagem milenária. e observam. como. vestidos de couro de porco e por isso impenetráveis às influências do tempo lá fora. Giambattista Vico não amaldiçoa. o seu mundo também. que aquilo que aconteceu não aconteceu e não acontecerá nunca. com eruditíssimas analogias. tiradas da história. Descartes e Spinoza. As obras mais admiradas das academias eruditas chamam-se Antiquitates e Thesauri. por seu lado. Um deles. Resistem. Provam eles. O pobre professor. um após outro apostata e se submete servilmente aos novos senhores. Lá não há crises de consciência nem novos mundos. e entretanto implacável. Subsiste a erudição barroca. Está desesperado. escolástica. antiquária. tremendo. Está sonolenta. hoje. na miséria. "latinissimo". sob a pressão atenuada. com anátemas e exorcismos. ao pé do qual a cidade submergida dorme. e com doidíssimas profecias. uns aos outros.107 e é assim chamado pelo seu admirador humilde Giambattista Vico. Como salvar os bens mais sagrados? Como reage o seu mundo contra o ataque bárbaro? Parece-lhe que esse mundo de teólogos. Está buscando o sentido superior atrás do absurdo da catástrofe. o mar eterno e o Vesúvio. latina e toscana in tutte le spezie del sapere umano e divino". não treme e não se submete. Lê as histórias do reino decadente dos homens e do reino imperecível das idéias. os livros proibidos de Bacon.108 E o último lugar naquela cidade erudita e sonolenta é o pobre gabinete de estudos do miserável professor de retórica e autor de poemas de ocasião. . um livro com o título precioso De antiquissima Italorum sapientia. afinal. "dottissimo". impotentes. doente. é chamado "uomo di una immensa erudizione greca. no ar espesso e pouco respirável da decadência italiana. fica perplexo: sente a queda do mundo que era. que lê. como. noturnamente e clandestinamente. envelhecido antes do tempo. um abade napolitano. "eruditissimo". que escreveu. Chamam-se os homens.civilizado. tiradas da superstição. filólogos e jurisconsultos se tornou um hospital de doidos. lê Políbio e Tácito. em inumeráveis volumes.

Acha a lei da história. Por trás da história agonizante dos últimos romanos. para provar o improvável. Resta saber o que morrerá e o que continuará do velho mundo.109 Se os contemporâneos houvessem compreendido Vico. Vico ficou perplexo diante do espetáculo histórico do seu tempo. também. pois o seu pessimismo crente sabe da caducidade de tudo o que é. Qualquer coisa morre. Não há sempre progressos. Vico é o primeiro para quem a decadência não é um assunto de sermão moralizante. de modo nenhum. deve ficar. nenhum dos partidos em luta teria ficado satisfeito. A mão do velho professor treme. empresa bem escolástica -. as suas analogias iluminam o futuro. há também regressos terríveis. Traçar a fronteira. plus c'est la même chose". busca um modelo de história. os "ricorsi" da doutrina viquiana. Chega à conclusão de que a sujeição e a resistência são igualmente duvidosas. os contemporâneos enganam-se em profecias doidíssimas e em analogias históricas sutilíssimas. com . mas um problema da história. nas revoluções. mas felizmente bem pouco. Resta saber onde está a fronteira. como nós outros ficamos perplexos diante da catástrofe do nosso tempo. Hoje. sujeita-os ele ao moinho infernal e inevitável dos seus "ricorsi". irremediavelmente. Todos eles morrem. usa da erudição antiquária do velho mundo e do método científico do novo. Ele sabe que alguma coisa do velho deve. uma "storia ideal eterna". Não tem medo dos poderes. no próprio domínio da erudição "dottissima" e "latinissima". Mas não tem medo. Uns e outros. e que alguma coisa do novo. E "plus ça change. É sempre assim. e o que passa e o que fica dos novos mundos. que valha para todos os povos e épocas. nem dos velhos nem dos novos. Tira das histórias humanas de Políbio e Tácito a história real platônica. Mas a atitude de Vico foi superior. tiram as conclusões do anátema furioso ou da sujeição servil. perecer. Vico poderia dizer. voltam. e morrem ainda uma vez."distinguo". está buscando "leis". qualquer coisa nasce. consciente da responsabilidade. As suas profecias compreendem o passado. eis o dever do intelectual. Para distinguir .Vico não pode acreditar no progressismo ingênuo e alegre do seu tempo. Como os naturalistas.

112 filho de um pastor protestante. ao lado de Marco Aurélio e dos Pensées de Pascal.111 Exilado numa ilha deserta. Vico teria tido a coragem de passar sem ouvir a pergunta. e alguma coisa a mais. em 1769. pois compreende mais profundamente do que os outros o presente. de Eckermann. nem o ostracismo. sem ofender os meus santos. sobre a que partido pertence. no dizer de Samuel Butler. Mas valerá a pena conhecer o homem. em Hanover. E o próprio Goethe diz: "Onde Lichtenberg faz um bon mot. a elas também. o Hanover era a província continental do rei da Inglaterra. é um companheiro eterno. parece insensível como uma pedra. é professor de física da Universidade de Goettingen. "which is food and drink and the light of the mind". também. Não teria temido o campo de concentração. ao lado das Conversações com Goethe. classifica o Livro de aforismos de Lichtenberg entre os cinco melhores livros alemães. porque esperava auroras que ainda não resplandeceram. Na sua profissão.Valéry: "Je ne suis ni de droite ni de gauche. Uma criada deixa cair a criança. "a golden fluid". Submerge-se num passado que se foi. eu levaria este pequeno breviário de sadio bom senso." É isto. . duas viagens pela Inglaterra foram os únicos acontecimentos dessa vida professoral. e tão desastradamente. como a pedra corroída do seu monumento que olha a paisagem histórica. Estuda ciências matemáticas. demasiado humano. e num futuro que está por vir. um anão corcunda. AS VERDADES DE LICHTENBERG NÃO SE CONHECE muito o nome. Lichtenberg. Nasceu em 1742. Lichtenberg vos fará rir e refletir. por toda a vida. Nietzsche. no aforismo 109 de Humano. que ele ficou. os implacáveis destinos do futuro. em cada esquina. pois já estava dentro dele."110 Num tempo em que a gente é interrogado. já que o espírito superior o merece. Por isso mesmo. existe um problema para resolver. Nessa época. rodeado de crianças inocentes que brincam e não sabem quem era aquele que lhes traçou. Passaria por um pessimista excessivo. O seu pensamento é uma recreação. perto de Darmestádio.

vê desmaiar a fé: "Um dia. sem dar por isso: "A nobre simplicidade das obras da Natureza baseia-se na nobre miopia dos observadores. cheio de ilimitadas esperanças na bondade humana. em segredo. mas existem também nos nossos manuais de escola muitas coisas que não existem entre o céu e a terra." Os homens tendem sempre a saber o que os homens não podem saber: "Existem mais coisas entre o céu e a terra do que os nossos manuais de escola sabem. da mesma forma que os colegas temiam as sátiras mordazes que ele publicava esparsamente. A fé. Contemporâneo tanto de Voltaire como de Cagliostro. e confessa: "O que há de mais surpreendente no meu caráter é a superstição que me faz ver oráculos em mil coisas ridículas. Lichtenberg não chegaria nunca a se desprender do ar mofado desses quartos. Lichtenberg é um filho do século "filosófico". que vêem nas obras úteis da Natureza o dedo de Deus: "É admirável que os gatos tenham dois buracos no pêlo." Sua curiosidade ultrapassa os apologistas: "Sacrificarei a . Voltaire. é indispensável." Mas convém saber que ele tem medo dos cemitérios noturnos. Mas é também filho de gerações de pastores de uma devoção íntima e de um zelo lúgubre. mas lêem. Mas o melhor do seu espírito se refugiava nos aforismos com que ele enchia os seus cadernos. será tão ridículo crer em Deus como hoje acreditar em fantasmas. depois de ter expirado esta pobre vida." Lichtenberg. muito humano. O súbito apagar de uma vela modifica as minhas resoluções mais importantes. Ele troça dos teólogos. encerrando-os depois na escrivaninha. Isto é surpreendente num professor de física.Lichtenberg não era uma celebridade. com a condição de se excluírem dela os antropomorfismos grosseiros. Na sala das experiências físicas. progressista. e a leitura assídua da Bíblia transforma-se em consulta a um oráculo. precisamente onde esses buracos são necessários para os olhos. mas humano. diz ele. os estudantes apreciavam as suas conferências. Eles apareceram em 1799. continua a recitar mecanicamente os salmos luteranos. diz Hamlet. Na paróquia de aldeia do século XVIII. fazem preces apaixonadas. meio misantropos. Lichtenberg é extremamente supersticioso. não sendo ateu. otimista." Na Natureza o homem se reflete.

"um estado de beatitude eterna. e a terra e o mundo. ajudai a minha incredulidade." É que ele desconfia igualmente da religião irreligiosa dos "filósofos": "A incredulidade em uma coisa baseia-se quase sempre na cega credulidade em outra coisa. de retorno. ele encontra também as palavras surpreendentes para o seu século: "Existe alguma coisa de muito razoável nas guerras de religião. enquanto o dizia. dizia eu.diz ele ." Este ceticismo admite todas as possibilidades. mas não infame. as religiosas também. Tu tinhas sido. meu Deus. o homem retribui-lhe bem e o cria à sua. profundamente emocionado." Mas Deus é "o outro" da humanidade: "Deus criou o homem à sua imagem." Antítese que explica a incredulidade hesitante de Lichtenberg. e leio muitas vezes. este espírito seco encontra as palavras admiráveis: "Quando o meu espírito se levanta. e espero que o meu Criador exigirá docemente uma vida. e não gostem de viver de acordo com os preceitos dela?" Contudo." Lichtenberg o sabe: "Não poderei acreditar nisso. meu Deus. "Que sabemos nós dos outros? Possivelmente todo pronome 'outro' é um antropomorfismo. "Se existe" ." São mais do que simples brincadeiras. o corpo se põe de joelhos. e cumpre confessar que todas as objeções contra a fé se transformam em futilidades diante desta terrível e perspicaz exposição da essência histórica da nossa religião." São contradições. a Deus: "Penso muitas vezes na morte." Todavia. e os instintos da sua raça teológica o levam. o salmo: 'Antes que as montanhas fossem criadas. a sua desconfiança da religião é desconfiança dos homens que a professam: "Não é extraordinário que os homens gostem de se bater pela sua religião. da qual eu era um proprietário pouco econômico. Lichtenberg é um caçador de antropomorfismos.'" E num raro momento. de toda a eternidade. como as contradições do bíblico: "Creio. observei que já tinha acreditado pela segunda vez. Todos os dias faço as minhas orações da manhã e da tarde.metade da minha vida para conhecer a altura média do barômetro no Paraíso. e. não compreendo por que ele não começa desde este momento". ele não se queixa: "A .

o "eu odioso" de Pascal modifica-se em um: "Aquele que é apaixonado por si próprio terá a vantagem de ter poucos rivais. para um espírito obtuso. ele gosta de exprimir as suas dúvidas e crenças por fórmulas matemáticas: "Diante de Deus. há uma única regra sem exceção. nem no progresso ilimitado. talvez sejam escritos também por gente que não compreende nada. o em que todo o mundo crê." Mesmo as regras da tábua de multiplicação: "Se um anjo nos explicasse a sua filosofia. "O progresso" . é justamente o que é preciso mais rigorosamente examinar. e fazemos regras que não existem." Como Pascal. baseada num ceticismo bem pascaliano. "As opiniões de todo o mundo. e que admitem mil exceções. são lidos e criticados por gente que não os compreende melhor." Os lugares-comuns não têm maior valor quando autorizados pelos professores e os seus livros: "Não há mercadoria mais esquisita do que os livros.diz ele ." Para um Lichtenberg tudo será igualmente suspeito. Um tradicionalista repetiria este aforismo: "As novas invenções na filosofia são quase sempre novos erros." Os especialistas." Se tudo é possível. e existe em Lichtenberg alguma coisa de religiosidade. nada mais". ignoram sempre o melhor. nem no melhor dos mundos possíveis de Pangloss. igualmente aceitável: "O caminho mais seguro para a tranqüilidade da alma é não ter nenhuma opinião. ele que não crê na bondade humana. as crenças otimistas e progressistas do seu tempo o que ele visa. São impressos por gente que não os compreende. ou antes." É um inconformista contra o seu tempo. seria preciso reservar a ciência aos homens . "É pena que a gente se eleve para o estudo."não anda direito: coxeia. sobretudo. são vendidos por gente que não os compreende também. para nós. existem apenas regras. a um: duas vezes dois são treze. Apenas. e sê-lo-ia em todos os tempos. possivelmente todas as nossas regras são exceções. tudo seria." E o seu conhecimento amargo deste mundo lhe arranca um suspiro: "Não compreendo por que as crianças não riem tão continuamente como choram.dúvida deve ser apenas vigilante. diz ele. os axiomas se assemelhariam. Mas nós homens não conhecemos a suprema regra." São.

Lichtenberg não é lido pelo classicismo sensato nem pelo romantismo nacionalista. entoa-se o Te Deum laudamus. trata-se somente de saber o que o sol enxerga durante o seu curso sobre esses Estados. está impregnado de civilização inglesa." E conclui profundamente melancólico: "Derramou-se muito sangue anônimo. É que os alemães não gostam da oposição à moda inglesa. Aos seus compatriotas servis ele fala: "Conheço um país onde não se sente mais a pressão do governo do que a pressão atmosférica. este semiinglês é um cidadão livre. e Lichtenberg lhes diz: "Quando se faz a paz. Lichtenberg. quando já ninguém o lê. .que descem para os estudos." A menção do poeta inglês não é um acaso. é admirador de Swift e Sterne. seja qual for este: "Afirma-se que." Na literatura alemã ele é. ele não crê na felicidade garantida pelo poder: "Não se trata de saber que o sol não se deita nunca nos Estados de um príncipe. a última voz da oposição." Lichtenberg nunca se deixa iludir." Lichtenberg é de uma rude independência: "Eu não podia ler todo Young quando ele estava em moda. no século que funda academias sobre academias. mas acho-o ainda um grande poeta. um cidadão do mundo. ao contrário. as nossas academias é que são os melhores hospícios de alienados. cidadão alemão do rei da Inglaterra. das quais se diz publicamente que foram feitas para a pátria." O que ele porém detesta mais profundamente são as assembléias desses homens de letras e de ciências. Eles preferem a guerra. pois ela vale mais do que a reputação do cientista: há menos homens de ciência do que se pensa. Diante da pequena Alemanha servil de então. mas. em conseqüência." É que ele não acredita muito nos "benefícios do governo". um homem do outro lado. quando rebenta a guerra. como outrora na Espanha." Desconfia do patriotismo oficial: "Eu gostaria de saber para quem foram feitas as façanhas. os hospícios de alienados seriam as melhores academias. nestes últimos 500 anos. até Nietzsche." Pouco alemão. em todo o país. seria preciso entoar um Te Diabolum laudamus. ninguém morreu de alegria. e a ciência ganharia muito. ele ousa escrever: "A mais curiosa aplicação da razão de que os homens cuidaram foi não usála.

como em face da humanidade. ousa dizer: "A conseqüência mais funesta da Revolução Francesa é que se tomarão por germes de sedição as reivindicações mais justificadas. permanece à janela do seu minúsculo gabinete de trabalho. ele observa calmamente: "Liberdade. Aparentemente. eu proporia algumas modificações. tenho desejado ser rei. são os que se submetem a tudo. mas sei que é preciso mudar para que seja melhor. um boêmio. o aleijado desliza pelas ruas. Timidamente. Ele é um homem do outro lado. e a sua própria mutilação não o assusta mais. que o envergonha. são todos aleijados. Lichtenberg vê a relatividade do seu tempo e de todos os tempos. em casa. e o professor se enfeita de solenes títulos acadêmicos." "Às vezes. Conhece-os a todos. nas convulsões do seu tempo. os mais belos. Na verdade. os mais bem feitos. não somente em face da Alemanha." Mas o aleijão implica uma superioridade: "Os homens mais sadios. Desde a sua juventude. Na segunda edição celeste. pois é um aleijado. onde descobre abismos desconhecidos e demoníacos. . afasta-o da sociedade humana. talvez desse ele menos relevo a certas partes.Rodeado de estudantes entusiasmados pela Revolução. a rara neutralidade do bom senso." Ele será inconformista. Ele a despreza. de onde fita com penetrante olhar os transeuntes. Despreza-a: "O meu corpo é constituído de tal forma que o desenhista mais incapaz o desenharia melhor. leva ele uma vida modesta de pequeno-burguês. ele continua um original. ele guarda. Escandaliza a pequena cidade universitária com a sua concubinagem com uma criada ternamente amada. Igualdade. Moralmente. em sonho. Quando alguém tem um defeito corporal." Enfim." Em suma: "Eu não sei se será bom quando isto mudar. unicamente para ser chamado Lichtenberg o Grande. o aleijão. Fraternidade: é um décimo primeiro mandamento que elimina os dez outros." Cercado de professores timidamente conservadores. até o íntimo. e recomenda uma leitura política de grande força consoladora: os jornais do ano passado. porém. tem opinião própria.

bocejaram. e ainda fizeram dois ruídos para os quais a nossa língua não tem expressão. conhecia o som de cada degrau da velha escada de madeira. dilaceram-me o coração. a indiferença é um crime. no seu íntimo a sensibilidade do infeliz o faz sofrer com estes outros: "Muitas coisas que toda a gente lastima. e o ritmo com o qual cada um dos meus amigos a pisava. Um extraordinário talento observador e algumas convicções irracionalistas. assobiaram. Chega a confessar as crises homossexuais da sua juventude.Assim como os cegos têm o ouvido mais sensível. muito raras no seu tempo." Intrepidamente. em assassinar os inimigos. mas não se enrubesce de pudor. Ele ouve mais do que os outros: "Eles espirraram. e que poderiam ser ressuscitadas por estas impressões. ao mesmo tempo. que o cérebro ratifica depois. O seu talento observador fá-lo descobrir os movimentos de expressão inconscientes e adivinhar as bases sociais das reações morais: "Na escuridão." São as suas palavras mais gideanas. roncaram. Lichtenberg tem a sensibilidade mais sutil." Se a malícia do corcunda o faz menosprezar os outros. Algumas vezes aproximase da psicologia de Proust: "No meu cérebro existem ainda as impressões de coisas mortas há muito tempo. precursor de Freud. mas Deus me perdoará. empalidece-se de medo." E esta lição: "Onde a moderação é um erro. nos sonhos." Ele vê na sinceridade a suprema virtude: "Por causa da minha sinceridade os homens me condenam. propõe explorá-lo pelo sonho: "Toda a nossa história não é senão a história do homem . tossiram. as possibilidades criminosas no abismo." Ele antecipa Nietzsche e Scheler. um precursor da psicologia moderna. É impiedoso para com os outros e para consigo mesmo. e o prazer que sente." Algumas vezes a sensibilidade eleva este espírito seco para a poesia: "Na casa onde eu morava. Já descobriu o subconsciente e. fazem dele um moralista da melhor estirpe francesa e. com as suas troças. descobre as raízes sexuais do caráter. mas o barulho de pés desconhecidos me arrepiava." O seu irracionalismo o faz adivinhar as bases sentimentais das funções intelectuais: "Todos os nossos raciocínios são precedidos de sentimentos muito pessoais.

Por isso mesmo são estas mais preciosas do que os grandes sistemas posteriores. e Lichtenberg é o intermediário entre Galiani e Nietzsche. quando teremos a história do homem que dorme e que sonha? Os sonhos são. A demonstração da utilidade e da necessidade não chegou ainda nem ao meio. A razão engana. porque isentas dos exageros de todo espírito sistemático. o filósofo astenoesquizóide do ressentimento. mas a boa natureza nos armou melhor. Lichtenberg. e que glorificou esses seus dois precursores. Lichtenberg chega a duvidar da moral cristã: "Será possível que a nossa moral cristã seja baseada numa certa fraqueza e covardia. O marinheiro fala de um vento nor-noroeste. Para começar esta tarefa: "Os motivos dos homens não são tão desprovidos de razão. e o psicólogo falará de um motivo glória-glória-pão ou pão-pão-glória. esquizóide. no entanto. E como Galiani." Só tem sugestões este precursor. sem o sabermos." Entre todos os contemporâneos. A ciência professoral pouco lhe interessa: "Todos os dias os astrônomos descobrem novas regiões da sua ignorância". e. sem intervenção das morais inculcadas. com arrepios. podese deduzir. as conseqüências: "Em certas constituições corporais. ou oeste-oeste-norte. nas paixões se encontra Deus. ambos fracos anões astênicos." Lichtenberg reconhece a força dos instintos: "Pode-se ser cego pró ou contra uma tese. graças a Deus. o caráter de uma pessoa. enquanto a outra moral se baseia na força do corpo e do espírito?" É o ressentimento anticristão de Galiani e Lichtenberg.diz ele. astênico mas não. somente o abade Galiani tem semelhantes palavras. Talvez como as trinta e duas direções do vento sobre a bússola. Na razão se encontra o homem. viu. o homem observado como um animal estranho no jardim zoológico: "É no hospício de alienados que se deve estudar a razão sadia" . por um certo número de sonhos. antecipando um famoso conto de Machado de Assis. e numa certa idade. As nossas razões justificam as nossas pretensões.acordado. o instinto já nos conquistou. absolutamente. e somente o homem é que interessa a este professor de física. É preciso ordená-los bem. o resultado da nossa existência espontânea. as paixões .

orgulhosamente . palavra envergonhada para não chamar de profeta a esse espírito alegre e mordaz.diz a severa positivista George Eliot." Isto quer dizer: se os filósofos chegassem ao poder. queixamonos dos honorários que se pagam aos profetas e que se recusam aos filósofos. mas na qual a palavra pura de Lichtenberg profere as suas verdades alegres e proféticas.diz ele. Desconhecendo. no mito germânico. É . e a razão. talvez o crítico também. Há nele um Tersites sublime. "A profecia é a mais irracional forma do erro" . teria havido profecias se não fosse uma procura urgente. para impedir o enfraquecimento das paixões patrióticas e civis. esta inteligência sadia enjaulada num corpo doente fala para nós. Nunca. Lichtenberg é inteligente. e o amargo Lichtenberg diz: "Não se tem com que viver. Olhando-os fixamente. e a razão não desdenha mesmo o braço forte da polícia. que cuidam do ouro das profundidades. sem dúvida. Ele é solitário no seu tempo. Mas isto já é exigir demais. o censor lerão o meu livro. em parte alguma. os profetas não teriam de que rir." Isto o fez sobreviver ao seu século. corresponde a oferta. mas se tem bastante predizendo. e o seu riso faz ressuscitar os mortos: "Não posso vivificar" . sozinha. conforme as leis da economia. e todos os homens de mais de quarenta e cinco anos?" Lichtenberg é um precursor de verdades próprias. prisioneiros de um século doente.calam-se. DEFESA DOS PROFETAS É A NOSSA ANGÚSTIA que produz os profetas. mas posso fazer soar a trombeta do despertar para ver se alguma coisa se move ainda entre os mortos no campo de batalha. em face de todos os tempos é um homem do outro lado. Lichtenberg não foi lido." De fato. mandasse matar todos os fracos. dizendo a verdade. quando se trata de exterminar a razão dos outros. Mas são os anões. e alguma coisa mais: ele viu os fundos demoníacos do mundo. o revisor. Mas se um governo. muito inteligente. estas leis. fala. Mas eles têm má reputação. ele não se assusta. É o destino dos precursores passarem despercebidos: "O tipógrafo."a matéria morta. hoje em dia ainda. porém. à qual. na cega anarquia em que a voz da razão se cala.

as boas profecias não se realizam nunca.. chega-se mesmo a encomendá-las. morto em 1566. médico e astrólogo de Carlos IX. nós todos" .113 É que desejavam muito saber o futuro. começavam cada discurso por: "Eu recuso acreditar. Sim. Eis a palavra de ordem do dia. conhece-se e estuda-se o seu livro de quartetos que prediz os acontecimentos do futuro.verdade que já não se atiram os profetas às cisternas." Mas esta polícia obedece apenas às cóleras do público. Existem boas profecias e más profecias. sim. muito recentes. Como contentar a toda a gente? Lembrem-se ainda uma vez dos velhos judeus. Os seus versos . todos esquecem os profetas que tinham tido razão. porém os colocam sob o controle da polícia. como os judeus tinham o hábito de fazer. e quando elas não se realizam. nós o sabemos.. segundo. mas ninguém o crê. baixinho: Profetizar é difícil nas garras de um gato." E lembrem-se de certos homens de Estado. "As boas profecias não se realizam nunca. as más profecias se realizam sempre. e isto se entende. Quando as más profecias se realizam. os profetas têm razão." Mas os profetas tinham bastante razão.dizia Disraeli . que. Comecemos pelo primeiro ponto da acusação. "Nós o sabemos. é preciso dizer que a não-realização de uma profecia não é nunca uma objeção contra a profecia em geral. Deseja-se unicamente ouvir as boas profecias."sim. a única circunstância que justifica a oposição a uma profecia é que ela se tenha realizado. rei de França. dos quais Pascal diz que eram "grands amateurs des choses prédites et grands ennemis de l'accomplissement". O mais famoso dos profetas modernos é Miguel de Nostradamus. não se fica menos zangado. e não será difícil defendê-los perante o tribunal de uma filosofia e de uma opinião morosas. de onde eles podem repetir as palavras do velho poeta russo Krilov: "Falando-vos aqui. numa época em que todo o mundo "o" sabia. Desde 1555." Antes de tudo. sem acreditar nele. Para resumir as acusações principais: primeiramente.

como verdadeiro profeta. já são cinco. e Nostradamus com ela. e sobretudo as ruins. mas não se pode também negar. a Revolução de Fevereiro e Napoleão III. O que existe de mais extraordinário nessas profecias não é. a Revolução de Julho e Luís Felipe. isto nada prova: ela poderá ainda realizar-se no futuro. que são os verdadeiros acusados.O acaso! . Depois da morte de Nostradamus. absolutamente. que elas não se realizem nunca. a revolução da Fronda e Luís XIV."114 Então. esta profecia se realizou nada menos de sete vezes: a Revolução da Liga e Henrique IV. o que não se pode provar. por exemplo. então. Compreende-se que Nostradamus haja morrido misantropo. e em palavras bastante claras. Esperemos que esta profecia se realize ainda muitas vezes. Mas outras profecias se realizaram. É assustador que os intérpretes tenham desejado aplicar os seus quartetos a outros países ainda. seguidamente. pourquoi Jérémie A tant pleuré pendant sa vie? C'est qu'en prophète il prévoyait Qu'un jour Le Franc le traduirait. Com efeito. sem dúvida prevendo o epigrama de Voltaire contra Le Franc. o tradutor de Jeremias: "Savez-vous.O acaso. Dito isto.são tão obscuros que vêm sendo interpretados há quatro séculos. ocupando-se das crises de gabinete da Terceira República. Nostradamus. As profecias que não se realizam estão absolvidas. deus dos . a Grande Revolução e Napoleão. a gente fica zangada115 e diz: . Mas que uma profecia não se realize. o golpe de Estado de maio de 1879 e Gambetta. está provado que é preciso defender o profeta contra os seus intérpretes. não sem acrescentar alguns pormenores bastante obscuros e que são a reserva dos intérpretes. que uma profecia se realizasse era uma razão de desconfiança. Nostradamus prediz. uma grande revolução e o aparecimento de um grande monarca. teria tido muito que fazer. ou até experimentado traduzi-los a outras línguas. mas que se realizem sempre. o zelo dos intérpretes não hesitou em acrescentar a Comuna e Monsieur Thiers. pois a França é imortal.

obrigatoriamente. A Providência é a base da profecia religiosa. pouco amadas. Passado. "que não nega o cristianismo.e. o grande espírito religioso. que tinha previsto. algumas vezes. Obras Completas. X. o que é uma contradição em si e o subterfúgio da preguiça de pensar. das quais tenho medo de falar. mas essa obrigação da nossa estrutura espiritual se estende mais ainda. Estas profecias religiosas. organizados em sucessão. Todos os acontecimentos nos aparecem em sucessão. e parece que o Acaso é o grande subterfúgio daqueles que não desejam refletir sobre o Tempo. um deus do qual se sabe bem o que fez no passado. mas vale a pena. porém superior ao nosso. e que é vegetariano". mas só gosta de si próprio e dos animais. nas suas Três conversações (1900). por isto. por ordem do rei Manassés. São as duas formas de compreender o Tempo: a Providência Divina ou o determinismo "scientiste". sim. quer imaginemos as sucessões organizadas unicamente pelo encadeamento de causa e efeito. mas não se saberá jamais o que fará no futuro.Deus bem sabe por quê . e Isaías foi serrado. e nesta altura é inevitável a introdução de qualquer antropomorfismo. "que acredita na Providência. Os reis não gostam dos profetas. Petersburgo. participar da previsão divina dos acontecimentos futuros. p. predisse também o Imperador-Anticristo. o aparecimento vitorioso dos japoneses. quer imaginemos as sucessões organizadas por um espírito análogo.incrédulos. "que burla todo o mundo por meio de um grosso livro. não são organizados. Admitir a Providência é admitir ao mesmo tempo que Deus permite. são quase sempre desagradáveis . Soloviev. serrado. Jeremias teria sabido fazer disso uma longa lamentação. é preciso pensar nos acontecimentos sucessivos encadeados por uma ordem. vol.. s. d.116 Não existe terceira via: "acaso" quer dizer que os acontecimentos. mas que usurpa o nome do Cristo para suas campanhas e suas batalhas". "que se proclama Chefe e Presidente dos Estados Unidos da Europa" (Vladimir Soloviev. . Futuro são dimensões do Tempo. pela qual o nosso espírito ordena os acontecimentos em sucessão. aos seus eleitos. traduzido em todas as línguas". O tempo é uma categoria do pensar.

em alguns astros. possivelmente porque o texto grego diz. com efeito. IV. os "mitos". e sim no pátio da prisão. "Clere peyne" é a "clara pena". não o executaram na Grande Praça.81-221). graças à sua posição. em 1555: "Le lys Dauffin portera dans Nanci Jusques en Flandres electeur de l'Empire. em 30 de outubro de 1632 ele foi executado. Porém é preciso também saber que a . por outro lado. a execução pública de acordo com os preceitos da lei. Nostradamus. Mas eu gostaria de saber por que os nossos polemistas católicos se servem muito pouco do texto admirável: "Haverá uma época em que eles não sustentarão a sã doutrina. que não admite mais uma sincronia rigorosa: nos diversos espaços. que encheu o segundo volume dos Parerga e Paralipomena com as profecias e a sua possibilidade científica. Neufve obturée au grand Montmorency. mas procurarão um Mestre à sua vontade. Hors lieux prouvés delivré a clere peyne. escreveu. em francês moderno: "Il y a une nouvelle prison pour le grand Montmorency que sera exécuté publiquement hors du lieu commun."118 Ora. O determinismo. favorece ainda os profetas. aumentado ainda hoje pelas doutrinas da física relativista. Henrique. o tempo difere também. Ninguém poderia ser mais feliz. o mais severo dos deterministas. ad Timotheum. recentemente construída. estava encarcerado na prisão. Com efeito. e o futuro. de posse deste raciocínio. se todos os acontecimentos se encadeiam de acordo com um causalismo rigoroso. do que Schopenhauer. velho de quarenta anos. 3). para "fábulas". de Tolosa. Sejame permitido acrescentar um exemplo surpreendente. e o único resultado é que este livro."117 As duas primeiras linhas referem-se a acontecimentos que se produziram. o que exclui as aplicações unilaterais. Paulo. em 1632. é contemporâneo do nosso passado. no quarteto 18 do seu nono capítulo." (S. As duas outras linhas dizem. mas. duque de Montmorency. entre 1633 e 1635. II Epist. e abandonarão a verdade para se voltarem para as fábulas. é sempre possível um certo grau de previdência. foi mais tarde proibido na Alemanha.

em 1893: "Le XX.Goethe disse a Eckermann: "Haverá ainda o projeto de um canal do Panamá.. dans le aristocraties de race. mas quando esta é conservada. mas não viverei mais. chamava-se Clerepeyne. Ce sont des justiciers redoutables. toutes épuisées. se vale alguma coisa.000. Mas escutai a voz de um homem muito mais simples e quase desconhecido. e os Estados Unidos da América estão à margem do mundo . Ficarei surpreendido se os Estados Unidos não tomarem esta obra entre as mãos. A 21 de fevereiro de 1827 . esta jovem república terá povoado a Califórnia. dans les classes moyennes. quando não se perde a cabeça. Seria o acaso? Mas a probabilidade de predizer ao acaso estes pormenores é de 1 em 30. Ils fonderont leur légitimité sur le témoignage de ce qui se passe sous nos yeux. Mas os resultados seriam incalculáveis. dizem os cronistas. de uma inteligência encantadora: Emile Banning. avachies. ayant forfait leur droit d'aînesse par leur incapacité et leur égoïsme." No entanto. O que não nos poupa ao aviso de Lessing: "Aquele que não perde a cabeça por causa de certas coisas não tem cabeça para perder. e eles o terão. dirão. A capacidade de um grande espírito de prever as relações complicadas e longínquas é quase ilimitada. eu desejaria ver os ingleses na posse de um Canal de Suez. C'est d'en bas que viendront les maîtres futurs. Banning escreveu nas suas Réflexions morales et politiques. Para os Estados Unidos este canal será indispensável. e este soldado. É trabalho do futuro.não existem caminhos de ferro nem vapores transatlânticos.execução não foi feita pelo carrasco. mas por um soldado escolhido por sorte. ao qual ele aconselhava a colonização do Congo. Le peuple ne les cherchera pas dans les dynasties régnantes.. Desejava bastante vê-lo.. Mas depois será necessário evitar a longa viagem em volta do Cabo Horn. leur pouvoir sur l'anarchie qui nous dévore. existem profecias mais surpreendentes ainda. amigo íntimo do rei Leopoldo II dos belgas.e siècle ne s'achèvera pas sans avoir ouvert une période de Césars."119 .000.. Em trinta ou quarenta anos. Enfim." É de Goethe.

escritas em 1882. l'Allemagne se saisira de la Meuse. Qu'elle le veuille ou non. e que abalará a República enfraquecida. Voltaire já o lembrou: "Oui. e lembra as palavras do velho poeta inglês Michael Green: "Prophecy. Cassandra tinha razão. contradiz: "O papel de Cassandra é ingrato." Existe um caso único no qual o otimismo vence melhor ainda: quando ele prediz as coisas e as prepara ao mesmo tempo. instruído pela ciência política da Action Française. l'Angleterre devra prendre parti dans la mêlée pour sauver son empire de l'hégémonie germanique. em 1914. That fools believe. which dreams a lie. Si tout prétexte fait défaut à l'Allemagne pour envahir la Belgique. nas suas Considérations politiques sur la défense de la Meuse. O artigo está assinado por Charles Maurras. mas pensai bem. Nisso vejo a única razão de acusar aqueles que são bons profetas mas falsos profetas. mais il a tort d'avoir raison si publiquement. Ninguém lhes agradece isto. com minúcias as mais precisas: "Faisant fi de sa parole. and knaves apply."121 (Estas últimas palavras são exatamente as próprias palavras do chanceler Bethmann-Hollweg no Reichstag. elle invoquera d'impérieuses nécessités militaires. em 4 de agosto de 1914. no entanto. não queria acreditar. são coisas desagradáveis essas profecias que se realizam. Não esqueceremos o artigo do Figaro de 13 de setembro de 1901. Como o prova o exemplo de Schopenhauer."123 ."122 O orgulhoso húngaro Kossuth. um general.120 (Exatamente o que Joffre. notamment par la vallée de l'Oise. e são os pessimistas que vencem melhor. Son armée se servira des deux rives de ce fleuve pour pénétrer en France.O mesmo Banning.) Sem dúvida. no qual o jornalista prevê um "Monck francês". existe uma ligação íntima entre a profecia e o pessimismo. Socrate a raison. car elle y a un puissant intérêt. Paris sera menacé. sinon pris. previu uma guerra entre a França e a Alemanha.) L'armée allemande balayera tout ce qui subsiste des fortifications françaises sur la frontière du Nord.

" E para a opinião pública o sr. Ele está morto desde a véspera. representantes simbólicas da humanidade: Dom . Vous étiez milliers à l'avoir bien prévu. E se cumpríssemos o nosso dever. et c'est parce que vous l'avez prévu que c'est arrivé. aliás. acabaria.Algumas vezes. Partridge morrerá. o pessimismo.certo poder de profecia está ao alcance de todos. Partridge estava morto desde aquela hora. Swift publicava. 1 de abril de 1709. Mr. um calendário."125 SEGUNDA PARTE: INTERPRETAÇÕES ENSAIO DE ANÁLISE EM PROFUNDIDADE A LITERATURA universal chega ao cume na criação daquelas personagens típicas. onde encontrou pregada uma proclamação de Swift: "Hoje. vereis o sr. que ne se sont jamais produites. A opinião mata os falsos profetas. é uma triste glória ter tido razão. não é senão um cadáver mal informado. Em 1 de abril de 1709 Partridge. por seu lado." Toda Londres estava curiosa. até mesmo ele. Mas não vos deixeis enganar. "Eh! oui.e é este o ponto culminante da defesa . Partridge. com brilhante saúde. apareceu triunfalmente na rua. É isto. Partridge na rua."124 Claro . O grande Swift deu-nos um exemplo surpreendente revoltando-se contra as ridículas profecias de um fazedor de calendários. O sr. acrescentaria o meu mestre Alain. e poderíamos subscrever integralmente as palavras de Ludovic Halévy: "Je m'aperçois que j'ai passé ma vie à annoncer des catastrophes. é preciso apenas a gente adaptarse às loucuras coletivas. no qual se leu: "Em 31 de março de 1709 o sr. Partridge. Uma razão coletiva. Muitos homens já estão mortos sem o saber. que vereis.

que superam em plenitude vital aos seus próprios criadores e fazem esquecê-los. foram desprezados nos tempos em que o dogmatismo estético dominava. Ficam fora do alcance de toda crítica estética. nestes últimos casos. assim definido. Assim. apenas. à maneira de Croce. Hamlet e Dom Quixote. Os grandes tipos da literatura universal são.João e Fausto. toda crítica de princípios puramente literários baseia-se num aristocratismo. fica ao alcance só de poucos. e só uma análise em profundidade resolverá o problema crucial da crítica. de outro lado. a crítica "pura". À custa da vida literária dos seus autores. Sir John Falstaff. o que dificulta ou mesmo impede a análise psicológica à maneira de Sainte-Beuve. eles desafiam a crítica dogmática à maneira de Boileau. de tanta substância humana. e. A universalidade desses tipos é bem diversa da universalidade do "bom gosto" classicista e acadêmico. consciente ou inconsciente. e sobreviveram a este. Tão vivos estão. graças a uma popularidade invencível. o desaparecimento do autor atrás da obra. São poucos: esta vida eterna é um privilégio raro. a nacionalidade e a época já limitam a universalidade do símbolo. muito velhos. Mas essa popularidade desafia. adquirem uma vida humana mais do que qualquer homem de carne e sangue. Homais. e um crítico literário será inclinado a acrescentar a essa raridade o advérbio "felizmente". como num semi-anonimato. e poucos outros. com que medida crítica medi-las? Essas criações superliterárias parecem desafiar todos os métodos da crítica literária. Daí o semi-anonimato desses tipos. que atravessam todos os limites do tempo e do espaço. enquanto aqueles tipos são propriedade comum do gênero humano. Édipo e Till Eulenspiegel. o marujo Robinson Crusoé. pois. uma vida eterna. na maioria. . O século XIX foi intelectualista demais para criá-los. Ousamos ajuntar-lhes. o estudante Raskolnikov. Mas aqueles permanecem como criações de tanta validade universal. são os próprios métodos que hão de justificar-se perante essas obras. o problema crucial da crítica literária. Pois essas criações típicas constituem o problema mais difícil. o farmacêutico M. por isso. porque o valor literário.

Quer percorrer. mas em vão. E descobre que são "botas de sete léguas". Enfim. Schlemihl está mesmo incluído entre os livros preferidos do super-realismo. Schlemihl torna-se muito rico. Contudo. tanto mais dinheiro ela encerra. pobre como antes. O preço que Schlemihl há de pagar é a sua sombra. pois. A história maravilhosa de Pedro Schlemihl foi escrita em 1814. Prefere a infelicidade terrestre à reprovação eterna. por todo o mundo. está pronto a restituir-lha. fere-lhe o coração. Os outros homens escarnecem ou evitam o sinistro sem sombra. mas por um preço bem alto: a alma.Homais e Raskolnikov são criações intelectuais. Desde então. obedecendo ao outro. ele mesmo evita o sol. o comerciante enrola-a como um lenço e desaparece. e na paz da Natureza reencontra a paz da alma. parte integral do seu eu. pelo poeta francês Adelbert de Chamisso. teve o destino da demasiada popularidade. o livrinho é mais familiar às crianças do que aos adultos. não quer vender a alma imortal. num instante. que o levam. e vende-lhe uma "bolsa de Fortunato". mas não é feliz. O pequeno livro tornou-se verdadeiramente internacional: o prefácio duma recente edição regista "traduções em vinte e duas línguas estrangeiras". estendendo-lhe à vista a sombra. não quer nada mais do diabo e deita fora a bolsa maravilhosa. Pedro Schlemihl é um rapaz pobre. ao ponto de descer a livro para a infância. para não trair o seu segredo. o mundo. como as Viagens de Gulliver e tantos outros grandes livros da humanidade. Schlemihl é o mais desgraçado dos homens: o espetáculo da sua sombra. mas em língua alemã. Agora. . O nome do "herói" é uma expressão universalmente conhecida do jargão judeu. o diabo aparece-lhe ainda uma vez. No entanto. e com o último dinheiro compra um par de botas. A única criação do século passado do legítimo tipo universal é Schlemihl. disfarçado em comerciante holandês. que contém dinheiro sem fim: quanto mais dinheiro se lhe tira. Submerge-se na Natureza e na exploração dos seus mistérios. Um dia aparece-lhe o diabo. e significa um malfadado. Pedro Schlemihl está independente dos homens.

perante o juiz Osíris. É narrada com tanto realismo. reproduz-se. relaciona-se com isso .perguntará: . o mito se desvaneceu. na origem. A força de sugestão que emana desse modesto livrinho é um problema crucial da crítica literária. com ele. que o romantismo de evasão do assunto desaparece. é um conto de fadas? . enfim. heróis populares de contos de fadas. mais precisamente. representa uma idéia. assim.É uma novela. no inferno.Novela não é. uma fábula? Há inúmeras interpretações da pequena obra que a degradam a alegoria e lhe tiram a vida poética. Chegam até a personificar a sombra num double.existe hoje ainda . Mas A história de Schlemihl não representa vida real. que é o seu encanto até para as crianças. No diálogo Nekuomanteia. representação abreviada da vida real. Desde então. a sombra do homem acusa-o. A história do homem que perdeu ou vendeu a sua sombra descende de uma idéia primitiva da humanidade.Uma história muito simples e verdadeiramente maravilhosa. Eis por que esses motivos têm uma longa história e constituem objeto de preferência da crítica histórica. de Luciano. a novela é um gênero moderno. é uma fábula. Será. da alma-sombra dos povos antigos. Acreditamos haver conhecido pessoalmente o comerciante holandês. pertence à espécie mais velha do conto. acreditamos ter perdido a sombra e ter sido infelizes com Schlemihl. gênero que representa uma camada mais velha da literatura do que a novela ou o romance. Não é por acaso que os contos de fadas encantam a infância. vêm da infância da humanidade. como o Fausto que faz um pacto com o diabo. mas dele ficou um resíduo: a sombra é sempre olhada pela humanidade com invencível horror. na qual o homem se vê acusado pela sua alma-sombra. fantasma dum "outro eu". é um conto de fadas. A crítica dogmática . e recuperamos. A história de Schlemihl é um conto. o Dom João levado pelo mesmo diabo. e como Tyl Uylenspieghel126 é ainda o doloroso herói fantástico do povo flamengo. como todos esses eram. a cena do Livro dos Mortos egipcíaco. a paz da alma. explicada em ação. o Hamlet com o fantasma e o Édipo com a Esfinge. pois. o Dom Quixote lutando contra os moinhos de vento. pelos crimes cometidos.

em que Chamisso é o ponto de partida e não tem precursores propriamente literários. o partidário da crítica histórica dará um grito de triunfo: de fato. no país da "flor azul" de Novalis. Era menino ainda quando os tormentos da Revolução obrigaram a família a emigrar e fixar-se na Prússia. e o primeiro conto de Hoffmann com um "outro eu". As guerras da Prússia contra a França. Adelbert de Chamisso-Boncourt nasceu em 1781 na França. A. infelizmente. na qual dominava então a evasão romântica. Com isso. Essas representações literárias do "outro eu" derivam. mas só folclóricos. filho duma família aristocrática. oferecendolhe uma pátria supra-real. no seu livro. teve uma segunda pátria. e o "Schlemihl do nosso grande Chamisso" vem lá expressamente citado. Tudo parece esclarecido. e assim o leio realmente em todas as histórias da literatura.o medo de ver-se à noite num espelho. É um pesadelo que se manifesta até nos sonhos delirantes de Heine. e muitos críticos acreditam que a vida de Chamisso oferece explicação satisfatória. como aquele. duma única fonte: do mestre do conto fantástico. Mas a prioridade literária de Chamisso não prova nada. em 1806 e 1813. Nesta altura. causaram-lhe. a realidade era mais forte do que o sonho. frisou: não importa que um poeta escolha assunto alheio. entrou a servir no exército prussiano. sobre Shakespeare. A história de Pedro Schlemihl é uma obra autobiográfica. Já o velho Wetz. O jovem Chamisso. graves conflitos de consciência. refugiou-se na poesia. Profundamente influenciado por Goethe. o autor do Schlemihl. Mas. E. Maupassant e Dostoievski. é de 1815. era amigo íntimo de Hoffmann. Hoffmann. Mas a grosseria do serviço militar repugnou ao jovem oficial. Entretanto. T. mestre da literatura comparada. a cronologia é mais forte do que a erudição literária: o Schlemihl é de 1814. de 1890. fugiu. duvida do valor da "história dos motivos". Gogol. precisa-se saber por que ele escolheu esse assunto. tanto mais nesse caso. ao poeta alemão de coração francês. da . O próprio Van Tieghem. estamos no terreno da crítica psicológica. alemanizado em pouco tempo. Chamisso. todas. As aventuras duma noite de ano-novo.

A história de Pedro Schlemihl é autobiográfica. num ensaio sobre Lawrence Sterne. agora facilmente interpretável pela vida do autor. explicam as fraquezas. e muitas vezes a emoção vital chega a intrometer-se de novo e deformar a obra no sentido da solução puramente artística. desatada por esse acontecimento. Tornou-se botânico. ouso dizer: na origem da obra literária não está um acontecimento da vida do autor. umas edições de Schlemihl para uso da infância chegaram a alterar arbitrariamente esse fim. quanto mais a emoção original está dominada. homem sem pátria. O crítico inglês A. nessa qualidade. transformada em "forma". de modo que a vida de Schlemihl é perfeitamente compreensível sem o mínimo conhecimento da vida de Chamisso. Da emoção vital fica só uma emoção poética. acompanhou. puramente intelectual. mas só a emoção. . sustenta que os elementos biográficos não fornecem nunca uma explicação literária das obras. onde o estilo simples e realista esconde perfeitamente as saudades do poeta romântico sem pátria. sugerindo-lhe que a história do sem-pátria que perdeu a sombra e a felicidade diz respeito a nós outros. altamente venerado como poeta. contém os acontecimentos dolorosos da vida de Chamisso. Morreu em Berlim. as imperfeições literárias. Mas o poeta Chamisso transformou-os inteiramente. rever o conceito sainte-beuveano de crítica biográfico-psicológica. a expedição científica de circunavegação mundial do capitão russo Otto Kotzebue. condicionadas pela deformação vital do conceito. a obra é tanto mais perfeita. "Qu'est-ce que cela prouve?"127 A história maravilhosa de Pedro Schlemihl. em livro formoso. que não garantem a todos a paz da alma. a este ponto. expedição que descreveu. Ensaiando sistematizar o pensamento do crítico inglês. Precisa-se. erudito e sábio. depois. O único elemento da obra que não produz essa impressão de validade universal é a volta de Schlemihl à Natureza e aos estudos científicos. mas. dos antecedentes biográficos deste.baixa realidade política para a realidade superior da Natureza e dos estudos científicos. mas esta perfeição é rara. seria um "romance à chave"? Seria uma nova degradação a alegoria. sim. que se comunica ao leitor. Calder-Marshall.

nos "pés". com o tempo. da situação original da humanidade. a livros para a infância. ou por um pacto com o diabo. "filhos exilados de Eva. mas um fim." Temos aqui. Os contos de fadas são contos da infância da humanidade. todos os medos e o fado inexorável. A situação de Schlemihl no mundo é a situação fundamental da humanidade no mundo: a de um ser sem pátria. o germe das "botas de sete léguas". não há "botas de sete léguas". neste vale de lágrimas". é o seu sonho. in hac lacrimarum valle". outrossim. como Chamisso as interpretou. Na vida real. As "botas de sete léguas" não são. trata-se de mais que uma lembrança literária. É o único pensamento que não cresceu na emoção pessoal de Chamisso. representam a conquista da nova pátria mundial.Decerto. explica-se a razão por que os livros que contêm esses símbolos descem muitas vezes. O que garante ao Schlemihl o efeito durável não é a vida real de Chamisso. Isto só foi possível em pleno romantismo. é significativo. refugiando-se nas ciências. submissos. É um sonho infantil de onipotência." "Feliz aquele que pôde conhecer as causas das coisas. um meio.. pela magia da "bolsa de Fortunato" ou das "botas de sete léguas". e apraz-me sublinhar a palavra "infantil". A essa situação fundamental da humanidade corresponde um sonho fundamental da infância: um sonho de onipotência. em vez da pátria perdida. Se há neles a origem de alguns grandes símbolos literários da humanidade. A infância está mais perto das origens. é um pensamento sublime. Atque metus omnes et inexorabile fatum Subjecit pedibus. Homens adultos e modernos não ousariam exprimir essa idéia. É um sonho infantil. expresso nos versos da Geórgica de Virgílio: "Felix qui potuit rerum cognoscere causas. que revalorizou . e calcar.. mas resultou da sua imitação de Goethe. Como o Salve Regina da Igreja o exprime: "exsules filii Hevae. que o homem Chamisso também não haja encontrado no pensamento alheio a paz definitiva. Infelizmente. um conto de fadas. aos pés. na de Chamisso e na de nós outros.

os contos de fadas e o sonho. Mas a obra-prima Schlemihl é um livro da humanidade. a que Croce chama o "lirismo" da obra. Mas surge. Dom João e Fausto são criações anônimas. só pode afirmar: a mestria da obra. Shakespeare não é Hamlet. das elites. No romantismo. Como Novalis. A alegoria é compreensível ao raciocínio do leitor. Chamisso é muito ligado a Novalis. Com isso. da parte do autor. Tanto mais durável é a sua obra quanto mais universal o . e Chamisso não é Schlemihl. O sonho romântico do Schlemihl está dominado pela forma realística e muito simples: é o naturalismo primitivo da poesia popular. A expressão simbólica é o privilégio do poeta. mas a toda a nossa personalidade. Para voltar. estética. à crítica biográfico-psicológica: essa congruência seria impossível se as obras procedessem da situação individual do autor. O símbolo fala-nos. O princípio da crítica pura. Chamisso é dos poucos que chegaram a dominar o sonho pela arte. se não. sem sugerir a emoção. não é a situação real. mas só a emoção. A forma desse lirismo é o símbolo. não ao nosso intelecto. o poeta e pensador do sonho e da onipotência mágica que supera a ânsia religiosa do homem exilado no mundo real. Há nisso o que a crítica não pode explicar. reencontramos a crítica literária: a crítica estética. entra na obra. a maioria das obras ficou no estado do sonho caótico. realizações artísticas perfeitas são raras. nascida da situação. As obras raríssimas que se tornam propriedade comum de todos os homens baseiam-se na congruência perfeita entre o individual e o coletivo. Mas não é assim. essa emoção simbólica. uma grave contradição. O que. Chamisso é um precursor do super-realismo. e o Schlemihl figura entre os livros recomendados por Aragon e Breton. Cervantes não é Dom Quixote. ainda uma vez. ele só consegue uma alegoria. O símbolo exprime o que nós outros sentíamos também sem poder exprimir. com isso. é sempre aristocrático: o verdadeiro valor estético acha-se ao alcance só de poucos. até um livro da infância! O problema da contradição entre a arte como expressão individual do artista e a arte como propriedade coletiva da humanidade não está resolvido. Nasce uma obra de arte se o autor chega a transformar a emoção em símbolo.

Era esta a experiência pessoal de Chamisso. é a tarefa da análise em profundidade. recusando a segunda tentação do diabo. pensou. o velho mito desperta. a sombra vendida será a alma perdida. mas pelo sol que o elucida. a sombra do homem é um produto de fora: da pátria. Não projeta uma sombra. independente do mundo exterior. cristalizada no Schlemihl. essa sombra. porque tem uma luz própria no coração. é aquele eu íntimo. É uma experiência universalmente humana. na Natureza quis encontrar uma nova pátria. do povo. da família. das relações pessoais. da reputação. o símbolo tem maior conteúdo do que supõe seu autor. Schlemihl não perdeu a sombra.símbolo. esse conteúdo profundo. E há mais. decerto. de Ovídio até Valéry. vendeua. porque é sem alma. uma nova vida interior. ainda. e o desgraçado recai na solidão e na ânsia primitivas da humanidade. do "outro eu" de Hoffmann até Dostoievski. Como Novalis o disse: "O verdadeiro caminho vai para dentro. Explicá-lo. Enfim. Mas já não precisa da sombra. só na sua pátria perdida. inútil porém. mais universal e imperecível. Mas o símbolo de Chamisso é maior do que ele mesmo. do seu corpo. Schlemihl é o nome moderno da alma-sombra dos egípcios. Não é uma ilusão. da situação social. mas uma realidade sólida sem a qual o homem não pode viver: perdida essa sombra. não saiba que o seu herói triste encarna as ânsias mais velhas da humanidade. do nome. É significativo que. pois não está esclarecido pelo sol de lá fora. em geral. o homem se vê nu ao espelho." . É o caso de Schlemihl. Há símbolos que refletem a situação humana inteira. do homem-espelho Narciso. Mas assim como a sombra do corpo não se produz pelo próprio corpo. Mas essa pretendida realidade é só ilusão. Com cada fraude envelhece e endurece-se o coração. Acreditava ter adquirido uma nova realidade. Quando Chamisso criou o símbolo da alma perdida. O homem está inclinado a olhar a sua sombra como uma parte. O que Schlemihl recupera. uma alma. É muito provável que Chamisso não saiba nada da história maravilhosa do seu Schlemihl através dos séculos.

é a retirada para a alma que não precisa do sol de lá fora. Hoje. constitua o último conto autêntico. mas do leitor. a nossa geração de exilados. que nenhum amor de amigos poderia substituir.O caminho de Schlemihl é o caminho da dependência exterior e brilhante. da tipografia: romance é para ser lido. O conto é o último resto dos tempos passados da literatura oral: conto é para ser narrado. para a luz interior que é o reflexo da luz eterna. propriamente exilados. Talvez o conto de fadas. recaída na solidão ansiosa do homem primitivo. para dizer a verdade. grita como uma criança na escuridão. que perdemos a nossa sombra terrestre. "exsules filii Hevae in hac lacrimarum valle". . anacrônico. Deste modo. e em todos os tempos. Pois toda a humanidade. a última consolação. chega a ter significação universal o que era uma experiência pessoal de Chamisso: o exílio. Nesse destino. É um caminho humano. toda a humanidade está no exílio. conto da infância da humanidade. Ninguém o compreende melhor do que nós outros. O símbolo é bastante rico para falar a todos. O romance é filho das épocas modernas. que a transfigura. Quanto mais um autêntico contista no meio da literatura mais moderna. Cada geração descobre uma nova maneira de interpretá-lo. E todos os grandes contistas modernos têm certo ar esquisito. A colaboração autobiográfica na obra não provém do autor. e nossa geração acha-lhe um sentido muito novo e muito velho. para as crianças da humanidade. está no exílio. Havendo perdido ou estando ameaçada de perder a sombra exterior. para nós outros e para todos. que se reconhece no espelho. até à independência interior. da norte-americana! Rodeado pelos pálidos classicistas da Nova-Inglaterra e pelos violentos naturalistas do Middle-West. através da ânsia solitária do exilado. a pátria. PONTE GRANDE REFLEXÕES SOBRE A ARTE DO CONTISTA THORNTON WILDER O CONTO pertence a uma camada mais velha da literatura do que o romance. reconhece o valor desses pobres bens terrestres. Schlemihl está vivo entre nós outros.

muito nobres e muito ricas. A ponte é o símbolo desse autor. levou o próprio Mr. que parecia o caminho do país dos mortos. depois de ter estreado com uma série de pequenas peças de teatro. que queriam. esse estranho e comovente contista Thornton Wilder. Cabala é uma sociedade secreta de cinco damas. tradições da Antiguidade. do alto da Roma dos cardeais. Thornton Wilder. em 1921. professor de literatura comparada em Chicago: não se assemelha em nada aos pálidos classicistas da Nova-Inglaterra. que ele busca até no Peru dos tempos coloniais. Também não se assemelha aos grandes realistas que procuram desesperadamente nas realidades vivas o sentido da vida. Prefere Ariel. ressuscitar a velha Europa da monarquia. da aristocracia.diz o jovem americano do seu romance Cabala . da nova América do Norte à velha América do Sul. cheio de beleza e de mistério. cujo obra é uma ponte da velha Europa à nova América. Fox a "dar-se a honra de apresentar Mr. numa interpretação cinematográfica. tradições do barroco católico. Procura este sentido nas tradições que estavam esquecidas. da fé. mas era a ponte. acontecimento incompreensível. O bom êxito mundial do seu romance A ponte de San Luis Rey. a grande ponte para o país da vida.está escrito num romance de Sinclair Lewis . ao Calibã setentrional. "Eu sou americano e protestante" . Thornton Wilder". descendente de antepassados remotos. Não é por mero acaso que a obra-prima de Thornton Wilder tem o nome de uma ponte. amanhã se desmoronará para o . para citar Rodó. o seu primeiro romance." Thornton Wilder conhece uma saída. e que fracassam totalmente.parece um estrangeiro. antigo aluno da Academia de Arqueologia de Roma."só tem duas saídas para o mistério: a estrada de ferro e a missa católica. Thornton Wilder é um bloco isolado na nova literatura americana. dos prelados e dos diplomatas. "Nossa cidade" . Um perfeito europeu. publicou."e esta resposta me livrou de professar o monarquismo católico!" Mas sob a ironia desta réplica sente-se a secreta nostalgia de um outro mundo. Tentemos então apresentá-lo antes de ousar interpretá-lo. mas consolador. A ponte das tradições já não está firme.

e. dos seus desesperos e da sua morte. Em seguida. e que leva para a morte o filho da grande pecadora."Como conservar vosso patrimônio?" . Mas o poeta os encontrou novamente."Volta para tua cidade e enche-a de mistério!" Wilder escondeu esse mistério numa bufoneria profunda. No dia 20 de julho de 1714 a ponte de San Luis Rey caiu no abismo. das suas paixões. infeliz enamorado da grande artista Périchole.dizem as aventuras . cuja preciosa vida ainda não começara. assim como ao seu livro."Como fazer de Manhattan. Porém o que seus olhares. o tio Pío que foi por ela arruinado. A grande ponte que liga a vida à morte caiu para sempre. e nunca mais se perderão. voltados para o passado. a marquesa de Montemayor. visão maravilhosa do Mediterrâneo da Antiguidade. a jovem Pepita. a grande cidade.abismo. com ela. Mais uma evocação do Velho Mundo. que quer responder à angustiada pergunta sobre a significação de tal desgraça.pergunta o jovem americano de Cabala à sombra de Virgílio. O mistério da Ponte de San Luis Rey reconduziu seu poeta à sua pátria americana. na Praça de Lima. Por um cálculo com a morte. eis a razão por que a Inquisição o fez queimar. permanecem encobertos. uma grande cidade?" E a sombra do Romano responde: . descobrem nas Américas. Mas o frade expiará com a morte as suas dúvidas. É o cego e tirânico absurdo dessa perda que comove profundamente o franciscano frei Juniperus. e que por isso põe a desordem no seu mundo. Wilder confia-se ao mar maior. Não se pode agir normalmente neste mundo . A mulher de Andros. cortando o fio de cinco vidas. . ele queria justificar Deus. que o reconduz ao Novo Continente. é uma Europa transformada: o Peru espanhol dos tempos barrocos. Heaven's my Destination é a história do caixeiro-viajante George Brush. que queria moldar sua vida quotidiana segundo os princípios da moral puritana. . Devemos o conhecimento dessas cinco vidas às buscas infatigáveis do frade. que era ontem o mar de Ulisses e será amanhã o mar de São Paulo. cinco vidas das quais nenhuma se havia realizado plenamente: Estebán. e os segredos desses cinco corações. depois que uma noite cruel lhe revelou que sua filha idolatrada a havia traído.

no meio de um acampamento. É um grande viajante. contava as suas experiências. que desafiam qualquer experiência. aí. e sim contista. porém. Thornton Wilder é essencialmente um contista. Os melhores narradores eram os camponeses que contavam as tradições dos seus antepassados e os marinheiros que narravam as descobertas das suas viagens. Nada de psicologia sutil. A morte do americano é o assunto da última peça teatral de Wilder. Essa qualidade de "narrador" é a chave da arte de Wilder. Não é romancista. O mundo sofreu mudanças. A narração é aquela arte. Esse régisseur é a morte. Mas a viagem preferida deste viajante incansável é a viagem ao país do passado. Daí o fato de que a arte da narração está desaparecendo. ao serão das fiandeiras. Os outros escrevem grandes romances de mil páginas. ama os deuses e os poetas do Lácio. noção que está quase apagada pelas mais modernas de "novela" e de short story. Thornton Wilder é essencialmente um narrador. só há neste mundo um único ato normal: morrer. nada de coloridos. na véspera da catástrofe.um narrador. Esta Europa. que sabia o que os outros ignoravam. ainda havia experiências. Our Town. ou. Não se tem mais confiança na experiência. Ou. até com 100. em Paris e em Viena.desse Dom Quixote americano . Mas para compreender isto é preciso saber o que é uma "narração". ele se contenta com 200. as ilhas gregas e os seus costumes patriarcais. e a "rua principal" é a ponte que liga a "nossa cidade" ao país donde não se volta mais. já lhe parece o passado. alguém. muito antiga. de contar uma coisa nova. Ele ama a Europa barroca. nada de documentação social. que se passa na rua principal de uma cidade americana. sob a tenda de pastores. melhor. não se quer mais executá-la. melhor ainda . muito "em casa" em Roma e em Londres. Contar é comunicar a outro uma experiência que se fez na vida.sem que surja a sua anomalia. onde o régisseur que comenta a ação chama e manda embora os personagens à vontade. narrador. e . Peça de uma técnica estranha. Antigamente.

a sabedoria já não tem lugar. A vida saiu dos eixos do mistério. Escutamo-los com prazer. A informação. como aqueles camponeses e aqueles marinheiros. A vida já não tem mistérios." A morte dá à vida o seu . ao menos na do seu ridículo neto. são homens práticos. é substituída pela informação. e é mais razoável do que queremos torná-la. porque eles sabem dar conselhos. porém cheia de sentido. A sabedoria se perde. conjunto dos velhos conselhos. cheia de colorido frágil. A verdadeira narração permanece fora do tempo.essas viagens só terminam no ponto onde a terra e o céu se tocam. Jamais ninguém realizou a sua vida durante a vida.disse Villemessant ."que sabem o que é a vida. cheia de psicologia preconcebida. A narração pode resolver esse problema. Na nossa vida. acha todos os homens "muito gentis e inconscientemente enganadores". porque a sabedoria. o caixeiro-viajante George Brush. É talvez a tarefa mais velha da narração. da destruição pela morte: a tarefa do frade Juniperus. a de salvar a experiência da vida. O frade Juniperus. fazendo as suas buscas. "São somente os mortos" está dito em Nossa cidade ." Mas para o narrador Thornton Wilder a catástrofe peruana tem mais importância."é mais interessante para os meus leitores do que um terremoto no Peru. A arte transforma misteriosamente este pesadelo da vida e faz conhecer que acordaremos amanhã na morte. porque é a morte que dá sentido à vida. sabe que acordará amanhã". o romance de Balzac e a imprensa de informação são contemporâneos. como sonhos reveladores. sob pleno pesadelo ou encanto fantásticos. Os narradores. conselhos para as pequenas e as grandes perplexidades desta vida confusa. no mistério da alma e da morte. Sabedoria é o conselho entretecido na vida vivida da narração. desapareceu. Nossa vida está sem conselhos. Ele não se interessa pela atualidade. Certa vez Wilder definiu a arte como "a magia do sonho que. ou não os entrega aos estudiosos. A narração morre. Não sabem contar nada ao frade investigador. Mas Thornton Wilder não é um sonhador. É um narrador. é o germe do romance moderno. Essa imprensa entende-se com o seu público: "Um incêndio no Quartier Latin" . senão na cabeça de Dom Quixote.

e por fim a morte. Pela arte. a morte natural transfigura-se em morte espiritual. "Ninguém morre tão pobre" .sentido. A história natural do homem torna-se a história sagrada da humanidade. que completará os papéis e a peça. onde um narrador imaginário.diz Pascal . Como. é a crônica "de omnibus rebus et quibusdam aliis"."que não deixe uma coisa: uma recordação." A recordação é a única que os mortos de San Luis Rey deixaram ao seu cronista. O narrador Thornton Wilder narra sempre e sempre a morte. e todas as narrações juntas o dizem por imitação: "Assim vai o mundo". do sentido de uma vida perdida para sempre.diz toda narração. em nome da morte. e vêm em seguida todas as classes e profissões. tendo à frente o rei." Por essa coincidência. ao som do sino. a ponte sobre o abismo da exterminação."é a coincidência mágica do acaso e do sentido. o jovem americano de Cabala ou o frade Juniperus. "Assim vai o mundo" . Essa grande crônica do mundo envolve todas as coisas entre o céu e a terra. nos relógios das torres da Idade Média. para dar à vida o sentido que os vivos procuram em vão. porque é a morte que dirige secretamente a pena do verdadeiro narrador: "Talvez um acidente" chama-se o primeiro capítulo de A ponte de San Luis Rey. se lembra do que tem de contar. Todas essas vidas se reúnem na maior forma da narração . "O que eu queria mostrar nos meus livros" . e pela qual o anjo da morte sobe e desce. que vem. e o último capítulo intitula-se: "Talvez uma intenção". como a morte de San Luis Rey. dum mundo. de Boccacio a Conrad.a crônica: crônica duma cidade. a procissão das criaturas passa. É da morte que o narrador recebe a sua autoridade. É o de que o frade Juniperus duvidou: que é que Deus quer conosco? Por que dá e toma arbitrariamente a vida? O narrador Thornton Wilder sabe responder a isto.diz Wilder . duma ilha. sem ser chamada e vazia de sentido. gostam de colocar as suas narrações num quadro. . Todos. o narrador chama e manda embora os personagens.128 é a escada de Jacó que leva da terra às nuvens. O que resta é a recordação. Como o régisseur de Nossa cidade. Eis por que a recordação desempenha um papel importante na obra de todos os narradores. o tumulto da vida se alinha como uma procissão bem organizada.

vela para que o sentido da nossa vida não se perca. o conto de fadas. que. consola as crianças pelo fim tradicional: ". Dá uma palavra aos milhões que dormem. leva. um pontifex. a narração da infância da humanidade. O que nos conduz seguramente sobre o . até esse dia."os deserdados da nossa fé de infância nas fadas. Eis por que o gênero mais velho e mais perfeito da narração. vivem ainda. em Roma." O conto de fadas é o último sobrevivente da mais velha tradição. o conto de fadas." "Restituir a vida aos mortos". Mas a recordação é mais do que o quadro da verdade vivida. é o mito reduzido a narração. desconhece a morte. pela cadeia das tradições. os símbolos míticos sobrevivem. ao país dos mortos. "Somos" . que o sacerdote mágico desse povo. E na mitologia dos latinos primitivos o símbolo da ponte é duma importância tão capital. um construtor de ponte. pontifex maximus.. ele também. que não têm ninguém para falar deles. na mitologia dos povos primitivos.o artista. e quando ainda não estão mortos.129 Precisamos todos passar na ponte de San Luis Rey. Thornton Wilder. na sua peça A morte de Mozart. como o Leonardo da Vinci de Valéry. se chamava o "grande construtor da ponte". Somente a grande arte e o grande amor acalmam o grito do desespero e restituem a vida aos mortos. O narrador é. dez séculos antes do nascimento de Cristo. guarda as chaves do reino celeste chamar-se-á.. como este velho símbolo. a ponte. a Morte diz ao artista agonizante: "É a própria morte que te manda escrever este réquiem. através de mil perigos. As recordações fundam as tradições. alem de ti . Thornton Wilder ama o conto de fadas como uma recordação do paraíso perdido. quando nós e nosso pequeno destino formos esquecidos." A vida feliz da infância não tem ainda necessidade da morte para a plenitude. Pontifex Maximus. Daí ver Wilder na arte um reflexo do amor divino. Eis a arte da narração. il pense à un pont". Mas o que dá a esse sentido o calor da vida vivida é o amor. "quand il voit un abîme. No conto de fadas. Comporás a sua Miserere nobis que se elevará até o trono de Deus.guardada para sempre.diz . Caiu a tarde das suas recordações. e aquele que. A recordação.

Precisa-se ter experimentado os caminhos de países desconhecidos. E quem procuraria nuanças no pão quotidiano dos intelectuais e dos pobres. estaremos mortos. as frases inesquecíveis: "Para fazer um verso. Há um país da vida e há um país da morte. duramente justapostas. todos. não as suporta e não as tolera. mas também sem nuanças. Faltam as nuanças entre as cores locais. mistérios da infância não esclarecidos. Foi o mesmo em que pensou ao escrever. no cinema? Estamos coletivamente felizes. faltam as nuanças na língua homofônica dos músicos. poder-se-ia dizer: é uma época sem nuanças. despedidas longamente pressentidas. Em pouco tempo. e nós mesmos somos amados durante um piscar de olhos e depois esquecidos. dos pintores. sem nuanças. a cada um a sua própria morte. a reza de Rilke: "Dá. de sua mãe. e a ponte entre eles é o amor: a única coisa que vale. dogmáticas." AS NUANÇAS DE JENS PETER JACOBSEN CONTRIBUINDO à definição da nossa época. duma só cor e ruidosamente unânime. homens e coisas. no romance Os cadernos de Malte Laurids Brigge. Desafiando a frase brilhante e venenosa de Renan . Périchole só se lembra do tio Pío e de seu filho. coletivista. "verdades em bloco". do amor.abismo da morte é a nossa partilha imortal do divino. em voz muito baixa. Morremos mesmo.130 E termina assim a narração da grande ponte mortuária e salutar: "Quase já ninguém se lembra de Estebán e de Pepita."la vérité est une nuance entre mille erreurs"131 . ressoa. e essa mulher. todas essas correntes de amor voltam ao amor que as criou. Mas o amor basta-se a si mesmo. das quais a nuança seria uma heresia. "l'amor che muove il sole e l'altre stelle". isto é. porém. ó Senhor.a nossa época prefere as verdades simplificadas. somente eu me lembro. a única coisa que fica." Sei em que Rilke pensou escrevendo este verso. profundamente infelizes. A recordação não é necessária ao amor. a mesma morte. . precisa-se ter visto muitas cidades. a reza do poeta. e a recordação desses cinco terá abandonado a terra. Neste mundo. O espírito dominante.

Enfim. daqueles poetas que suportam o esquecimento sem morrer. as recordações se tornam anônimas e não se distinguem do nosso próprio ser. Eu mesmo. esquecera-o." Pensou Rilke na mesma pessoa. durante muitos anos. Não basta mesmo ter recordações: precisa-se saber esquecê-las. quase. então pode acontecer que. . senão uma lembrança agradecida da Dinamarca. de tuberculose. escreveu pouco. ingratamente: esse poeta é para mim. Nada ficou. precisa-se possuir a grande paciência de esperar até que elas voltem. ao ponto de essas influências e recordações se tornarem anônimas e deixarem esquecer o seu autor. E tudo isso muito delicadamente. Sei por que estou folheando esses pequenos volumes de papel amarelecido. nosso gesto. quando. A sua influência literária foi imensa: remodelou não só a literatura mas a própria língua de todas as nações escandinavas. uma preciosa lembrança da mocidade perdida. para confessar a verdade. nasça a primeira palavra dum verso. quando fez do herói do seu romance um dinamarquês. Hoje. na Rússia e entre os tchecos. e morreu em 1885. pode-se afirmar que a sua própria vida foi uma nuança.132 Relendo-o. Nasceu em 1847. que era também um poeta de nuanças.mares e noites de viagens. na pequena cidade dinamarquesa de Thistedt. e. como preciosidades frágeis duma civilização perfeitamente requintada. sei por que Jacobsen está esquecido. senão um nome. uns versos de Rilke. então. não é. Jens Peter Jacobsen era um poeta de nuanças. e para muitos da minha geração. nosso olhar. Trabalhador infinitamente meticuloso e vagaroso. "on revient toujours à ses premiers amours". numa hora rara. uma grande saudade. Antes. Quem era Jens Peter Jacobsen? Sem querer espremer a expressão. que morreu há séculos. infiltrou-se no sentimento e na expressão de certos simbolistas alemãs e franceses. uma nuança entre vida e morte. Pensou no poeta dinamarquês Jens Peter Jacobsen. para nós outros. Lembram porcelanas chinesas da época do poeta Li Tai Po. teve discípulos na Holanda. discretamente. Está esquecido. rivalizou na Inglaterra com a influência de Keats. as recordações devem entrar em nosso sangue. Pois as próprias recordações não o são ainda.

a sua tese botânica Aperçu systématique et critique sur les desmidiacées du Danemark133 foi coroada pela Universidade de Copenhague. Uma paisagem monótona e delicada. duros realistas. Escreveu. Foi então que um menino de sete anos. dos quais o mais belo se chama Senhora Foenss. mas parece que todo o país sofreu tal choque de nervos. os nervos e a vida. ressoa um murmúrio longínquo do mar. é o ateísmo do estudante darwinista. como a paisagem pouco vistosa da Dinamarca. Maria Grubbe e Niels Lyhne. dirigida. Eis tudo. que encontrou os seus pintores. que refratam a luz dum sol quase meridional. bela pelas nuanças. contra si mesmo. de longe. Skovgaard. foi bela e rica. É uma paisagem discreta. O romantismo nacional. Essa paisagem aguardava o seu poeta. essa pobre vida. o choque que lhe arruinou. A madrugada que seguiu àquela noite encontrou outros homens. No entanto. A Dinamarca defendera-se heroicamente. em monotonias delicadas. Para isso foi preciso uma grande mágoa. dois romances." O rapaz magro. o futuro poeta Herman Bang. "Nunca" . desvaneceuse. em 1873. sentem-se. na noite do assalto imprevisto à casa paterna na fronteira. Pastagens ondeantes. Depois caem névoas azuladas sobre a paisagem outonal. gramíneas tenras. recebeu. os Koebke. mais tarde: "É um estudo extraordinariamente exato. e meia dúzia de contos. para sempre. Ninguém o leu. quando a Prússia se atirou brutalmente sobre o minúsculo país e lhe arrancou a metade do seu território. Veio a guerra de 1864." Falei em nuanças. com a nuança da saudade romântica nas almas. satisfeito e vaidoso."a gente podia tomar ao pé da letra as suas palavras.diz um dos seus amigos . mais delicados da velha Europa. as linhas da praia fria. florestas de faias. com o germe da doença mortal no corpo.Escreveu alguns versos. pouco vistosa. que estava então em voga. O grande crítico dinamarquês e europeu Georg . Kroeyer. O jovem Jacobsen estudou ciências naturais. as mais das vezes. Tornaram-se realistas. que não podem ser aceitas literalmente. entrincheirou-se atrás duma ironia cruel. E uma dessas nuanças. Traduziu Darwin. os pintores mais tranqüilos. transformada em jogos mágicos de claridades e sombras.

em Jacobsen. de que a literatura simbolista da Bélgica. Lá e cá. orgulhava-se desse ateísmo do seu pretendido discípulo. e que fez muito pela glória européia de Jacobsen. Sem conhecer muito as mulheres. na Dinamarca. Há. adeus. ao escrever as seguintes palavras de diálogo: "Deus está ali? . Jacobsen era também sem esperança. Mas não se deve imaginar um pálido poeta tísico. a morte. é quase música nacional na Dinamarca. liberal radicalíssimo e impenitente. mas compreensivo. Quando. ainda uma vez. A doença devorava-o lentamente e inexoravelmente.Brandes. festejada até num trecho célebre de Kierkegaard. não cínico nem euforicamente dionisíaco. num pobre quarto. e o guia misericordioso é. Mas o agnosticismo e realismo de Jacobsen significa bem outra coisa: a sua arte. escrevera a mais bela carta de despedida: "Adeus. era dum erotismo profundo. a de Mozart. que são os mais agudos observadores.E nós. é outro testemunho. Professava as opiniões religiosas e políticas mais radicais. transição do político ao humano. Teve aquele ar aristocrático próprio do espírito dinamarquês. muito jacobseniana. estamos aqui?" Jacobsen estava mais lá do que aqui. Morreu em Copenhague. decadentes. em Jacobsen como em Maeterlinck. morrendo. Brandes não compreendeu que o ateísmo de Jacobsen era uma nuança entre mil verdades duma profunda ânsia religiosa que lembra a do seu patrício Kierkegaard. o qual pensava. poder-se-ia designar a todas com um título de Herman Bang: "famílias sem esperança". Gostava da conversação alegre e superava a todos em mordacidade. mas não podia dissimular um ar muito aristocrático. é a transição para uma arte simbolista. o seu olhar silencioso a fitou. até o último adeus. na última hora. cuidado pela mãe desesperada. Não é por acaso que a música do mais aristocrático dos músicos. aquelas velhas famílias aristocráticas. pensou na sua Senhora Foenss. chamavam-no "Vossa Excelência". Foi aquela ânsia que influiu em Rilke. Sabia a proximidade da morte. nascida de profundas agitações políticas. e as crianças. simbólica." Pensou no cortejo fúnebre das . tipo velho romantismo. meus filhos. o fundo do abalo político era uma angústia religiosa. também uma mãe desesperada que.

como a do seu autor. Jacobsen começara com os versos românticos das Canções de Gurre. Disciplinou a sua língua intencionalmente. escrito. Descreve o brilho dos archotes de pez sobre o ouro e prata das jóias." É também assim nas notícias policiais. dos Bliders. O olho agudo do botânico e a sensibilidade fabulosa do doente vêem coisas que ninguém viu antes. as pessoas aparecem de súbito. É um colorista. O romance dissolvese em quadros. mas foi boa. "Ela vivia em versos. com artifício habilíssimo. é sem sentido. para sempre. Maria Grubbe. Isto tem significação. em quadros consecutivos. descreve mil nuanças do modesto sol de setembro num quarto. Vê tudo. um jogo de vermelho. tão simples. versos livres que são uma nuança entre a poesia e a prosa." Pois a vida de Maria Grubbe. se bem que só uma nuança. mas há uma diferença entre elas e a poesia. O romance Niels Lyhne é todo poesia. irmão do rei. do começo: "Ela tinha os olhos pretos.suas outras figuras: no fim impenitente de Niels Lyhne: "Depois morreu a morte. a difícil morte". isto é. um pintor de nuanças. e que caíra." Niels. o seu filho." "Ela" é a mãe de Niels. sobre o aço das armaduras. descrita. foi uma vida inteiramente rica. sobre seda e veludo. um pintor sem duras cores locais. que Arnold Schoenberg pôs em música moderníssima. ela sonhava em versos e acreditava nos versos mais do que em qualquer outra coisa. assim como foi. foi boa. É só uma vida em passividade. azul. brilhantes. e a vida de Maria Grubbe. na língua e no estilo da época. "devia fazer-se poeta". Mas não é assim na vida real também? "C'est la vie. Há . no fim da Maria Grubbe: "Não deploro a vida. Mas vê somente quadros. O romance é quase incoerente. ainda uma vez. de degrau em degrau. até acabar como mulher do sujo palafreneiro Soeren. Interiores do século XVII134 é um romance histórico. Passou ao verso livre dos Arabescos. que era a mulher do cavalheiro Ulrik Gyldenloeve. e de súbito desaparecem. natureza duma poetisa fracassada e que legou ao filho a fraqueza e o fracasso. e tornou-se o maior artista da prosa das línguas escandinavas. Mas não se fazem poetas. Quem o leu não esquecerá nunca as palavras. pelo artifício arcaizante de Maria Grubbe. como toda vida. preto e lilás. amarelo.

é uma boa morte." O uso transitivo do verbo "morrer" é muito raro. só de passagem ouvimos que Niels se alistou como voluntário e recebeu no peito a ferida mortal. e quis morrer de pé. procura nas mulheres a poesia que devia ser a sua arte. Niels ficou no lazareto. saindo. Mais tarde. e algumas cenas de morte. estava cortado o último laço que o ligara à vida. perdoar-lhe-ia. e começou a ameaça da guerra". à toa". É depois da derrota. Isto também é poesia." A agonia leva horas. disse Hjerrild. "Passou a vida à toa.no Niels Lyhne muitas cenas de amor. mas um Dom João sempre fracassado." "Depois morreu a morte. o médico militar Hjerrild. delirando qualquer coisa duma armadura. Pertenceu àquela "sociedade secreta dos melancólicos". O último visitante é um amigo pouco íntimo. "Quando Hjerrild o viu pela última vez. os acontecimentos exteriores são rapidamente narrados. Enfim. Logo no princípio. e a quem não foi dado o verso. Niels já não reconhecia ninguém. a difícil morte. o médico pensou: se eu fosse Deus. Após as cenas de amor. e a expressão quase dramática parece preparar a última despedida de Niels. só existia na sua vida. "veio aquele dia de novembro. Estas palavras são a introdução à cena final do livro. Estava deitado. invisível para ele. e Jacobsen era o . como nós outros que sentimos a poesia com o coração e com todos os sentidos. morreu o filhinho de Niels. Depois. afinal. sem compreender o definitivo dessa primeira despedida de sua vida. é bem uma nuança. em que o rei morreu.E. "Adeus. Niels é um Dom João. a difícil morte. vai morrer. Niels. há em Niels Lyhne cenas de despedida. Depois morreu a morte. morrer pelo nosso pobre país. à qual um cavalheiro galante se referira em Maria Grubbe. O ateísta impenitente recusa o sacerdote." Uma dessas cenas termina com as palavras: "Exit Niels Lyhne". há a morte da jovem tia Edele. que o menino Niels amara quase inconscientemente e que vê morrer. e que. há as cenas de morte. . mas com uma nuança. na passividade aristocrática dinamarquesa. Como sempre em Jacobsen. São comoventes e lembram a frase de George Eliot: "Em cada despedida há a imagem da morte. algumas cenas de despedida. e por isso foi um poeta.

Isto. e que Bourget denunciou. admito mesmo: todo o homem. porém. Não se pode imaginar homem mais decadente do que . de Mogens. Não são "experimentos" no sentido de esboços inacabados. depois da morte de Jacobsen. mas já cheio de impressões desconhecidas na literatura européia de então. saudável. Mas Jacobsen não era decadente. Poderia ter sido o cume de requinte estilístico. são obras episódicas. promessas de realizações futuras. e sobrava-lhe tão pouco tempo! Deste modo. do conto histórico A peste em Bérgamo. naqueles anos.poeta das nuanças. nas significações boa e má da palavra. a moda do romance europeu. mas a arte consumada do poeta conferiu-lhes alguma coisa de definitivo. Mas o romance não é uma arte de nuanças. mas no sentido de amostras do que a arte de Jacobsen "poderia ter sido e que não foi". como na pequena fantasia Aqui haveriam de ficar rosas. uma pequena sinfonia de cores e sons. não implica a arte. Poderia ter sido a arte soalheira. como Flaubert: nas 317 páginas de Niels Lyhne levou sete anos. Dissolvem-se em quadros maravilhosos. castamente abreviado. As descrições minuciosas constituem sempre exteriorizações simbólicas de estados de alma. com a noção nova de "decadência". é possível que o seu corpo o fosse. onde Jacobsen antecipa o neogongorismo das últimas correntes poéticas. Jacobsen escreveu poucos contos. os contos de Jacobsen são como experimentos. Afinal. Maria Grubbe quis ser o romance duma alma. ainda muito romântico. onde cada palavra era bem deliberada. A mocidade literária ficou espantada em face dessa "revelação dum belo país. nem Maria Grubbe nem Niels Lyhne são romances. Poderia ter sido o estilo disciplinado. que não se realizavam. aquela dissolução que se tornou. ou o fantástico do Tiro na névoa. Era um trabalhador infatigável. O perigo desse caminho era a dissecção psicológica. mas muito lento. que a gente não sabia onde ficava". já se vê que Jacobsen é sobretudo um contista. A primeira obra publicada de Jacobsen foi o conto Mogens. e a sensibilidade hiperestésica vai-se encaminhando para dentro. e Niels Lyhne já o é. conto erótico. O futuro mais verossímil da arte jacobseniana era o conto psicológico. Trabalhava mais lentamente ainda nos contos.

as últimas linhas que Jacobsen escreveu: "Adeus. Ellinor. Enfim. Talvez. Nos últimos dias da sua vida doente. adeus. Seguem-se muitos anos de separação entre mãe e filhos. "On revient toujours à ses premiers amours". tão simples e tão saudável. pela primeira vez. até o último adeus. Quero-o dizer o mais tarde possível. A Senhora Foenss cai doente." Tudo isto é muito fino. para difamar a arte das nuanças. casar. casa-se. meus filhos. quando reli. só não o é porque fica ainda. aos sãos e higienicamente imbecis. Adeus. e já ela sabe que toda a sua vida anterior foi um engano. anos de decepção também. vai morrer. mas é uma volta perigosa. ainda jovem. ainda uma vez. Que o assunto dessa arte viva é a morte não é um milagre.o tísico Keats. em alguma parte do mundo. e mil agradecimentos. quer. são lembranças de dias que se despediram de nós. em que a sombria compreensão da vida e o sereno sabor da morte confluem para as linhas finais. Nesses momentos escreve aos filhos a carta de despedida. e a lembrança do tempo em que vocês eram pequenos. na tempestade destes dias. tantos anos. o . mas só a vida que não foi. após tantos. lá ela encontrou o esquecido amigo da mocidade. enaltece ainda o milagre de arte no último conto. e a sua poesia é o cume da beleza vital na poesia inglesa. a palavra "decadência" serve. esse livrinho amarelecido. e haverá nele todo o meu amor e a saudade de tantos. parecerá sem importância. fino demais para nós outros. digo-o agora. e mil votos. mas não é aquele adeus que deverá ser o último adeus a vocês. Jacobsen chegou a uma arte de nuanças psicológicas. Ela é uma viúva. Senhora Foenss. tantos anos. definitivamente. adeus. o quarto onde um jovem leu. Na Provença. A Senhora Foenss insiste. e se não é o último adeus. eu também tive ligeira decepção. Mas os filhos se opõem: então ela não seria a mãe venerada. Em geral. A Senhora Foenss tem dois filhos. que todas as objeções emudecem. Não era a felicidade. morto aos 26 anos de idade. Para confessar a verdade. quase adultos: o filho Tage e a filha Ellinor. cujo sol sadio Jacobsen conheceu nas suas tentativas frustradas de manter a vida fugidia. e a muitos. Não era a vida que poderia ter sido. Tage. em face do estado do autor. muitas vezes. mas uma mulher exposta a críticas sacrílegas.

" LITERATURA BELGA À MEMÓRIA DOS MEUS AMIGOS BELGAS É PRECISO audácia para escrever sobre um assunto que não existe. ó Senhor. Mas não é toda a verdade. Não existe uma nação belga. O dialeto valão e os diversos dialetos flamengos carecem de importância literária. É essa a verdade. é o que se chama o Existencial. Enfim. Por isso. é a língua materna da humanidade. Não há literatura belga. Tudo isto. E isto se explica: o reino da Bélgica é de criação artificial e recente. no que é humano e no que é menos que humano. a cada um a sua própria morte. é a língua materna. em conjunto. sem nuanças até a morte. Uma vez armado o problema. Inclui-se também tudo o que é brutal. e os flamengos. aparece nesse existencialismo simplificado o perigo do nivelamento no cru. O que se perde é a nuança. literatura belga. fica a poesia. Inclui-se neste conceito de humano tudo o que é frágil. caduco. impregnada como ela é . cru. A língua é a um tempo um fenômeno psicológico e fisiológico. Ainda no requinte mais artístico. Não existe. apenas. portanto. vital. perecível. "a difícil morte". um coração de mãe. É a língua mais que humana. se provém das condições raciais e exteriores. fundado em 1830 por uma conferência diplomática das grandes potências. e porque ainda bate. Fica uma vida sem nuanças. Somos homens.adeus da Senhora Foenss. que nos ensina a reza: "Dá. em alguma parte do mundo. com alguns toques de regionalismo. Na Bélgica vivem dois povos: os valões. somos todos mortais. das disposições espirituais e suprafisiológicas de um povo. provém também. que falam francês. que falam holandês. Há pois na Bélgica uma literatura francesa e uma literatura holandesa. Entender ainda essa língua é a prova de que somos ainda homens. É o que é igual em todos os homens. no animal. É a língua do coração. a língua da poesia. achamo-nos em face de uma questão da qual dependem a existência e o futuro da civilização européia. por outro lado. Por isso.

O acesso a esse mundo não é assim tão fácil. aos Pol de Mont. não prestavam atenção aos Conscience. Mas a confusão chega ao cúmulo quando se sabe que Georges Rodenbach exprime a melancolia mística da alma flamenga. para reuni-los depois na grande unidade histórica da Europa. Segundo a concepção da língua. Existe uma literatura belga. conforme o passado. A língua fisiológica une os povos. depois da vaga passageira do simbolismo. de Maeterlinck. Eis toda a verdade. no restaurante. onde o trem para à espera do correspondente. de Bruges la Morte. uma estação de pequena cidade acolhedora. vista de fora. pouco menos célebre na literatura flamenga. e a literatura belga de expressão francesa. aos De Clercq. independentemente dos seus antecedentes históricos. . Sem a diversidade na unidade. a civilização européia não sobreviverá. e que constitui assim uma como estação central da Europa. a Europa nada é sem a sua história. temendo repetirem-se as decepções causadas por livros holandeses de autores de nomes franceses. O primeiro encontro é uma decepção. com seu primo Albrecht Rodenbach. recaiu no seu sono de Bela Adormecida no bosque. ao fundo avistam-se alamedas cuidadosamente plantadas. Não há dúvida que a literatura belga é um mundo à parte. os nomes bárbaros de Van Lerberghe.de sua história e de sua civilização. os leitores holandeses. habituados a ler os escritores da França. parece. burgueses joviais tomam boa cerveja. e Albrecht Rodenbach é um elegíaco da melhor tradição francesa. Ora. da Alemanha e da Holanda e a linha de passagem para a Inglaterra. Enfim. A Bélgica. de Verhaeren. conforme conceitos raciais. afirma-se ou nega-se a história. onde se encontram as estradas de ferro da França. confunde-se facilmente o célebre Georges Rodenbach. bem distinta e muito independente. Para a maioria. a última das quais se forma no seio maternal da língua. a língua psicológica os separa. ponto de baldeação. as letras flamengas são impenetráveis. Tudo isso traz complicações. É nas expressões bilíngües da literatura belga que o coração da Europa marca sua vida ou sua morte. envoltos na fumaça do incenso místico. A crítica francesa sempre desconfiou do vento do Norte que lhe levava.

escrita por um poeta de ascendência francesa. literatura de nuanças delicadas. a inquietação belga viu o inferno. . e no sentido duma civilização requintada. entre as Tentações de Jérôme Bosch e as Campagnes hallucinées de Emile Verhaeren. que o escritor empregou para celebrar a luta das comunas francesas revoltadas contra o sistema feudal. A felicidade belga é profundamente burguesa. na verdade. Mas essa terra tão rica de imagens. em 1838. tão rica de quadros. Afirmando que a Bélgica é profundamente burguesa. O primeiro esboço do romance O leão de Flandres. o misticismo belga descobriu o céu. a epopéia da independência valônica e belga. A literatura belga é burguesa. foi escrito por Hendrik Conscience em francês. Foi a poesia flamenga que deu à alma silenciosa dessa paisagem uma voz. crê-se estar na Beauce ou no Orleanês. é pobre de cantos. e inteiramente francesa. a única verdade belga. Entre os dois grupos. certamente. que nos confins do horizonte vão encontrar as torres das igrejas de Nossa Senhora. feita pelo criador da literatura flamenga. Haverá talvez nisso a vingança secreta do idioma flamengo. é. é uma literatura política e uma literatura simbolista. Entre as Núpcias espirituais de Jan van Ruysbroeck e o Trésor des humbles de Maurice Maeterlinck.casas bonitas. Mas é também uma literatura "em profundidade". Assim. a torre da igreja: recanto tranqüilo onde a felicidade como que acena ao viajante. O leão de Flandres. os seus campos que parecem jardins. e da Europa. pelo qual começa. nem quando escreveu a epopéia nacional dos flamengos. da qual é ele a miniatura. as suas alamedas intermináveis. A Valônia é terra clássica. Percorrendolhe as risonhas colinas. Essa palavra talvez encerre toda a glória e toda a miséria desse país. aliás. diz-se uma verdade que por ser impopular não deixa de ser verdade. no sentido do sentimento altivo de independência dos burgueses medievais. uma orquestra. Mas não é. vendo as suas casas sólidas. onde ressoam todos os acentos da alma francesa. a literatura flamenga moderna. Conscience nunca foi bem servido por sua língua materna. há Toute la Flandre: a boa terra belga. bem assentadas no chão. obra predileta dos flamengos. ou melhor.

que o século clássico francês não pôde cantar. tão franceses. da retórica pequeno-burguesa de um romantismo deturpado ao simbolismo admirável dos Perk e dos Kloos. nos operários taciturnos. esse místico da pobreza e do sol tem alguma coisa de Villon e alguma coisa dos poetas da Plêiade. da "pobre Flandres". A réplica desse pesadelo naturalista é o pesadelo expressionista de Paul Van Ostayen. Precisemos: esse camponês amante da mãe Terra e da mãe Maria. tem o cunho do nacionalismo cavalheiresco e impetuoso dos franceses: é a voz de "arm Vlaanderen". Depois. nas paisagens campestres. dos barulhos fantásticos de Music hall. é um irmão de Péguy. de todos os homens. esse cantor de pequenas canções populares onde o cosmos se prostra diante de Deus e cujos títulos. Essa voz do céu sobre uma terra muito francesa é o cimo da poesia flamenga.esse nacionalismo. mas sem perder os acentos latinos que tão bem se lhe ajustam. nos pequenos e grandes burgueses céticos e espirituais. Esse padre. de Richard Minne e Maurice Roelants. quase meridionais. rebrilhantes de sol. não há lugar para Gezelle. entoou o cântico. Toda a pobreza amarga e toda a doce riqueza da alma desse povo ressoam na voz do maior poeta flamengo. dos Sinais apocalípticos. imbuído da mais devota piedade. quase sempre tirados do breviário. e que nos recordam que a terra clara da Valônia é também a terra dos mineiros. meio galicano. Precisemos: esse padre e professor de seminário. esse católico místico e não-conformista. pobre como Job. Sabem-no bem os conhecedores da literatura holandesa: na sua evolução. de todas as criaturas. O intérprete de Toute la Flandre é Guido Gezelle. na alucinação suprarealista da Cidade assediada. pintados por Gustaaf Vermeersch com as cores mais sombrias e mais precisas do naturalismo francês. e sempre revoltado contra a autoridade eclesiástica. ela desceu para a terra. revolta de "miseráveis" à maneira de Victor Hugo. de Stijn Streuvels. de todos os animais. mas não de Toute la Flandre. Há esses mesmos tons. Nada conheço de mais latino do que a . negra de pó. anunciam a piedade da Contra-Reforma. tristes. esse inspirado franciscano do irmão Sol e da "mãe Terra. o seu mundo é outro. feita por mãos veneráveis".

Depois dos sons de orgão dessa poesia.135 a casa paterna. histórias. o mundo sentiu-se fascinado pelos "tristes après-midis de dimanche. a chuva e a morte que o poeta ali via em toda a parte. muito suave. Depois de Bruges la Morte.139 Nessas casas havia quartos estranhos. insistiu-se demais sobre o aspecto fúnebre de Flandres. que sabiam segredos. o welig huis. sua requintada sensibilidade. quartos que eram como gente velha. Valeria realmente a pena aprender o holandês para conhecer a poesia desse filho pródigo que. "le carillon tinte sa musique pâle"137. seu aristocratismo mórbido. poeta latino em língua flamenga. où un grand silence se met à genoux"136e. suas nostalgias elegíacas. diante de seu irmão Thanatos. Fornecem à poesia francesa um tema inesgotável. inesquecível a ponto de se tornar insuportável. Turris Davidica". que tinham o cheiro das flores de outono. abandona a paisagem mais rica e feliz do mundo. au long d'un canal mort".poesia de Karel Van den Woestijne. onde uma tênue voz de criança cantava a "Rosa mystica. A Virgem recebe as mesmas litanias nas igrejas de Toute la Flandre. de quando em quando. Mas em terra flamenga respira-se atmosfera diferente. August Van Cauwelaert. ou pelos "quais endormis et les vastes esplanades. a verdadeira senhora . entoou-as em honra da padroeira da terra. como o filho pródigo. o poeta modesto da Luz atrás da colina.140 onde famílias inteiras pereciam diante do vulto da terrível intrusa. "Vlaandren. de forma clássica: um dos maiores poetas líricos da literatura universal. au long d'un mur d'hospice. as cidades cinzentas da Flandres morta. Gezelle fala das "névoas que se elevam dos poços do passado": essas neblinas cobrem as planuras ingratas da Campina.138 onde se encontravam as faces pálidas das brancas primeiras-comungantes. Nossa Senhora. atendendo ao apelo do desconhecido. o outono. Um momento. waar we zijn als genooden aan rijke taaf'len". a que só voltou curvando-se. esbatem até a fumaça inflamada das chaminés de Gand e as bandeiras e a turba multicor do porto de Antuérpia. e das "béguines qui frôlent à pas étouffés les maisons agonisantes". há a música em surdina. das Canções à Virgem. cenas das peças maravilhosas de Maurice Maeterlinck.

Há no fundo da alma germânica a nostalgia imperecível do Sul.146 Não é uma poesia perfeita. Estamos no coração de Flandres. como nos quadros dos "vieux maîtres qui sûrent jouer dans la paille avec l'enfant de Bethléem". ao sair das missas e das procissões. Folheando os simples poemas de Elskamp.144 e o sonho de um infinito em busca do qual se lançavam marinheiros e pescadores. dessas gruas que estendem os braços melancólicos para o céu baço da tarde. Também Maeterlinck fala de uma "île dans les brouillards. Não a imagineis muito bela. na Itália. o flamengo Charles Van Lerberghe. poesia da velha Antuérpia. d'un château dans l'île". encontrou.142 A poesia de Van Leberghe representa uma corrente da poesia flamenga de língua francesa. seus "Vagues accords où se mêlent des battements d'ailes". mais íntima. mais sincera. Para essa pequena burguesia flamenga vira-se uma nova página. nas suas "barques tragiques". mas é a própria poesia da vida dessa gente que.143 é desse mar cinzento que surgem as brumas e "le vague bleuâtre qui enveloppe les lointains". esse imperfeito verbo! . da literatura belga de expressão francesa. . recordo-me sobretudo desse humilde povo curvado.pequenas lanternas iluminando as madonas das esquinas. É desse mar cinzento. onde a imaginação hugoana de um Verhaeren vê "une fête écumeuse". diante da pequena burgerij de olhos e boca muito abertos. a cidade feia que me foi uma pátria. poesia da grande cidade portuária dos flamengos. Há também a poesia menos grandiloqüente.que triste. onde a piedade e a jovialidade se encontram lado a lado. talvez a mais preciosa. Mas essas câmaras funerárias tinham saídas.desse mundo fúnebre: a Morte. Lá havia . a cidade que amei como a nenhuma outra. Havia o cheiro das gaufres145 de Bruxelas e as luzes das tavernas onde os marinheiros conversavam. desses armazéns sujos que se olham com suas órbitas cegas e simétricas. a de certas páginas de Lemonnier e de Georges Eekhoud.141 e um dos poetas mais latinos da poesia francesa. e lembra-nos um fato sempre esquecido pela poesia flamenga em língua flamenga: os flamengos vivem à beira do oceano. Mas a poesia nem sempre paira tão longe. Mas era uma pátria. de Max Elskamp.

Povo de campônios e burgueses. o povo flamengo merece uma epopéia. essas festas têm alguma coisa de mitológico. é a obra que dá início à moderna literatura belga de expressão francesa. perfumadas pelo cheiro do trigo maduro e do pão fresco. dos queijos e dos vinhos. onde se levanta "le coeur myriadaire de la foule. É que não se conhecia bem a Bélgica. les appels. e teve-a: La légende d'Ulenspiegel. censurando-lhe a grandiloqüência de um Hugo encarnado num burguês atormentado. a "terra das experiências sociais". Seu espírito "burguês" tem dois lados. les espoirs de la rue". escrita pelo flamengo Charles de Coster em língua francesa. mas verdadeiramente épico. não o esqueçamos.se atira às loucuras das quermesses endiabradas. somente comparável às epopéias intermináveis de Tolstoi. Hoje. não se sabia que a música triste e neutra do carrilhão se transforma por vezes em toque de reunir.148 "les gares de feu qui ceinturent le monde et accompagnent de leurs hurlements d'acier la prière unanime d'un monde en flammes". um dos maiores romances da literatura universal. de dois povos. onde o mito de Flandres-a-morta é substituído pelas naturezas-mortas das viandas. a atração do regionalismo pitoresco de Flandres sobre os poetas valões. Verhaeren cantou a outra Bélgica. Cumpre recorrer a forças de poder histórico para se compreender o acordo .147 "rue en rouge au fond du soir enflammé". Tudo isso é do passado. essa intercomunhão de duas literaturas. da cerveja forte e das mulheres exuberantes. de duas línguas. fouettée par les haines. epopéia da liberdade flamenga.o campo de batalha da Europa. A atração do centro Paris sobre os poetas flamengos. É a poesia francesa visitando a terra de Brueghel. isso quase nada explica. um dos quais se exprime pelo grito de alegria e o outro pelo grito de revolta. que formam uma única literatura e uma nação . mas a lembrança delas vive ainda nas grandes lojas repletas. Essa interpenetração. a terra das revoluções indomáveis .zomba das explicações fáceis. Mas o ímpeto vital dessa raça tenaz que Emile Verhaeren cantou é invencível. A posteridade foi muitas vezes injusta para com Verhaeren.149 É.

Neerlandeses. até à quebra da unidade ocidental pelo nacionalismo vitorioso. A explicação de tal paradoxo resolverá o último problema dessa literatura bilíngüe: por que ela só principia a falar no século que findou. o outono dos Países Baixos. de nacionalidade incerta: o germe da Europa.151 que Jan Huizinga descreveu de maneira inesquecível. entre a metade latina dos francos e a metade germânica dos alemães restava um império intermediário. É tão velha como a Europa. porém. de que a Itália é a primeira a separar-se. a vida do meu povo"). e os Países Baixos por fim. absolutamente. no leito de morte. só durante um único século precário. O advento do princípio das nacionalidades. e o flamengo Emile Verhaeren. até esse Herfstij der Nederlanden. no fim. e com tenacidade. Para levar ao cúmulo o paradoxo: a Bélgica é a Europa mesma. em língua flamenga: "Ik heb altijd geleevd. a existência da Bélgica . Borguinhões. Toda a história da Europa medieval. É como se um coração se contraísse dolorosamente. o império lotaríngio. het leven van mijn volk" ("Vivi sempre."150 Tenaz. haverá a Bélgica. consiste no lento desmembrar-se desse império intermediário. Sendo. não. Nessa terra intermediária floresciam quatro grandes monarquias da civilização ocidental: Carolíngios. en met tenaciteit. opera-se nesta terra das nacionalidades intercaladas. vindo depois a Borgonha. estendido do Mar do Norte aos Alpes italianos. A Bélgica não data de 1830. a unidade européia substituída por um frágil "concerto das grandes potências". Eram conservadores esses diplomatas que sancionavam uma revolução. em seguida a Alsácia. ela o era. em língua francesa: "Je suis un fils de cette race Ténace. Quando os filhos de Carlos Magno partilharam entre si o mundo. que dizia. Luxemburgos. que cantava. e Flandres será o coração doloroso da Europa. Os diplomatas que em 1830 fundavam o mais belo dos pequenos reinos europeus não faziam mais do que consagrar um fato histórico.perfeito entre o valão Hendrik Conscience. a um tempo grandeza e miséria da Europa.

foi o simbolismo. fala à consciência da Europa. não se revolta para subverter a ordem. Os momentos desse espírito dominam a paisagem belga: os Belforts. outrora. para salvar suas liberdades de outrora. ambas as literaturas proferem as suas verdades do passado na língua poética do futuro. A literatura belga tem uma função política. expressão bilíngüe de um reino supranacional. último fruto da civilização burguesa.devia estar sempre sob ameaça. mas para salvá-la. de Maeterlinck e de Verhaeren. europeu. de que Conscience e De Coster traçaram a epopéia bilíngüe. A Bélgica é o único país da Europa que não é filho dos campos e dos castelos. o simbolismo. expressão das muitas línguas de um império supranacional. pela literatura belga. contra os Oranges. chegaram à madureza. Nessas torres os carrilhões tangem o nascimento. a epopéia dos súditos muito leais e sempre revoltados contra os condes de Borgonha. A Bélgica justificava a si mesma sua existência nacional pela expressão de seu espírito.desde o . parte do vasto império austríaco-espanhol-habsburgo. Ela é o fruto do século burguês. Esse revoltado revolta-se por espírito burguês. as altivas torres dos Hôtels de Ville. O belga é o herdeiro legítimo das cidades livres de Flandres. europeu. E a analogia é fértil: como essa Bélgica era também. o espírito citadino deixou a sua marca neste solo. todas as horas da vida burguesa. do "outono dos Países Baixos". mas eles sabem soar a hora da revolta. Ainda hoje. a literatura belga. dedos de imprecação estendidos para o céu. A forma em que ambas. contra os reis de França. contra os espanhóis. Em todas as cidades desse país urbano reconhecem-se ainda os vestígios das comarcas romanas. a literatura belga e a literatura austríaca. o casamento e a morte. em símbolos significativos. nada revolucionário. e o grito de rebelião ainda ressoa nos gritos multiplicados dos vendedores de jornais pelas ruas belgas . contra os Habsburgos. e esse encontro feliz não é o primeiro. mas das cidades. como a literatura austríaca. de Hofmannsthal e de Beer-Hofmann. o belga está sempre em oposição a alguém. lembrando-lhe as verdades mais gloriosas de sua história. O belga.

O Gran teatro del mundo de Hofmannsthal reflete. o grande teatro do mundo. da Gazet van Antwerpen ao Volksrecht . É o caso de Hugo van Hofmannsthal. No fundo deste problema psicológico encontra-se um problema de ordem ontológica. hoje. em Salisburgo. e o ensaio de Du Bos. e ele deveria saber o que dizia. como um sonho divino.154 quando Max Reinhardt levou à cena as tragédias de Hofmannsthal.a série das Approximations. que as fazia festejar um passado glorioso. ela é um testemunho do passado da Europa e será um arauto de sua ressurreição.dominados todos pelo grito repentino e incontido: Indépendance Belge! Esse espírito. embora Du Bos tenha tocado no ponto nevrálgico. os seus arranjos do mistério medieval. l'épée et l'esprit. um mundo internacional se acotovelava. A torre. A estas glórias mundanas se acrescentava a consagração definitiva por um ensaio de Charles Du Bos na 4. a maior obra do poeta. poucos anos depois da sua morte. Que ele seja esquecido. tão século XIX. No entanto. a incompreensão estraga tudo. um grande caso da literatura universal. É por isso que Du Bos não compreendia a curva muito irregular da vida literária de Hofmannsthal. O mundo não sabia nada. Jedermann. é que dava voz às letras belgas. mas que não o tenham compreendido nunca. lastimar um presente acinzentado e predizer um futuro esplêndido. os estudos de Hofmannsthal sobre a língua e a literatura alemãs. contribuição das mais interessantes à psicologia da criação artística. do Cavaleiro das rosas153 principalmente. ou do Gran teatro del mundo de Calderón. não foi nunca representada. Esse futuro é assegurado pelo espírito da literatura belga. Admiravam e aplaudiam o libretista das grandes óperas de Richard Strauss. por notável que seja. HOFMANNSTHAL E O SEU GRAN TEATRO DEL MUNDO O ESQUECIMENTO não resolve nada. A literatura belga calou-se? "Il n'y a que deux forces au monde. isto arruinou a sua vida e alguma coisa mais. et à la fin l'esprit est toujours plus fort":152 foi Napoleão quem o disse.Matin a Soir. O caminho para o fundo do problema assemelha-se à viagem de Fausto . não importa. não abrangia o problema.

de Laforgue. O espírito precoce do poeta é cheio de imagens multicores: a tradição greco-latina e o classicismo francês. e Hofmannsthal foi sempre um católico exemplar. alguns pequenos dramas de um sabor precocemente maduro. no fim. . da dinastia que governava. E o auto espanhol. o herói de A torre: "Dai testemunho: fui presente. em Viena. e ele somente. Ninguém quis ver A torre nem compreender o seu poeta. representou os Infantes apáticos e mórbidos da Coroa de Castela. parecia ter descido dos quadros do Museu Imperial de Viena. esse império. Hugo van Hofmannsthal nasceu em 1874. A magia dos seus versos renova a poesia alemã.esta sabedoria vienenseespanhola que sabe que a vida não passa de um sonho e que o sonho é a vida. o lied popular eslavo. A educação é católica. no fundo. compreensiva. se encontrará a mãe Europa em perdição. e enchia a atmosfera da cidade com a sua piedade barroca e o seu ceticismo desiludido e transcendente . Ainda que ninguém me conhecesse. de Verlaine. dentro da literatura de língua alemã. e Hofmannsthal podia dizer. algumas gotas de sangue húngaro e polaco. de origem espanhola. meio aristocrata. meio burguesa. com longínquos antepassados judeus. no sentido também de uma universalidade ecumênica. O pai descende da pequena aristocracia tchecoalemã da Boêmia. política e espiritualmente. uma época especificamente austríaca. Mas este adolescente já fundou uma escola. alguns ensaios. confere. O jovem poeta. pintor dos reis. a mãe descende de patrícios italianos. inaugurando a época simbolista. ele também.às Mães. com o refinamento espiritual que o declínio das velhas civilizações. A sua obra é rara: alguns poemas de encanto inesquecível." Demos o nosso testemunho. com o seu príncipe agonizante. Existe nele um pouco de Maeterlinck. onde Velásquez. de Milão. que é. Pois sobre a graça vienense deste poeta de 17 anos paira ainda o céu dos imperadores Habsburgos. depois a Alemanha de Goethe. filho de uma família muito rica. a poesia dialetal de Viena. a comédia de máscaras italiana.

comédias sem força cômica. Hofmannsthal não assiste a estas festas. em torno dele. encontra-se em face das ruínas da Áustria e da Europa. A crítica e o público recusam. Dolorosamente. escreve fragmentos sobre fragmentos. ocupa-se da reconstrução futura da Europa. Nesses anos. A música domina tudo. O poeta cede. Uma vertigem sacode os atormentados. Salisburgo é um sol de crepúsculo. o Jedermann e o Gran teatro del mundo. um espírito de puro esteta morreu. Desaparece. Hofmannsthal encontra em si uma consciência política. ensaios sobre ensaios. a beleza e o sonho de séculos se condensam. que leva à cena. tragédias gregas de um histerismo insuportável. Desesperado. muitos dos quais. como o romance inacabado Andreas ou Os reunidos. E a malícia acrescentou: "Que poeta teria sido ele se houvesse morrido com 17 anos!" O poeta não está morto. Hofmannsthal atravessou a fronteira difícil entre a morte da poesia e a poesia da vida. após os quais reaparece com algumas obras falidas. A inflação completa o desmoronamento. Mas o seu mundo morre. uma fronteira mortal. nos quais abundam definições para precisar o caráter particular da . é a febre. se desfaz. Ele surpreende o mundo literário com estudos profundos sobre a literatura alemã. O velho Império treme até os fundamentos. arranjos de velhas peças inglesas. Escreve a comovente Carta de Lorde Chandos. mal feitas. e interna-se cada vez mais na mística católica do barroco. Em alguns momentos de plenitude. ele se cala. Hofmannsthal desespera. Cala-se durante anos. só postumamente aparecerão. A Viena de outrora já não existe. As suas gavetas enchem-se de fragmentos múltiplos. a qualquer preço. em Salisburgo.Depois. E quando desperta do seu sonho anacrônico. para o qual ele já tinha escrito o Cavaleiro das rosas. na qual confessa a sua incapacidade e explica a sua resignação às letras. Algumas vezes uma nova vida parece desabrochar. É a grande guerra. Tudo. e escreve as grandes alegorias barrocas musicais. Viver. viver. É então que Hofmannsthal reencontra Ricardo Strauss. Aí ele encontra Max Reinhardt. Para a Europa Central.

A Europa centro-oriental. Para a Alemanha a sua obra está definitivamente morta. o polaco. o romeno. Poder-se-ia dizer: ele abandonou a literatura alemã. De acordo com a sua disposição testamentária. um problema gravíssimo. Hofmannsthal foi enterrado vestido do hábito da Ordem Terceira de São Francisco. estes enfadonhos arranjos. Só uma vez na história o universalismo católico dos Habsburgos dominou o caos. uma morte quase simbólica. é um caos de povos intercalados uns nos outros. durante séculos. Alguns anos mais tarde.literatura austríaca. Aqui. na cripta da família. do qual o poeta estava enfim consciente. Uma velha família se extinguira. que. Charles Du Bos bem o viu: ele explicou os estudos de Hofmannsthal sobre literatura alemã pelo desejo do poeta de reconciliar a sua posição austríaca. atrás dessas preocupações. que já não era obrigada a excluí-lo. onde o mundo germânico. É verdade. a literatura viva não toma conhecimento do fato. seguindo a moda esnobista do barroquismo! . o tcheco. se suicidara. também os soberanos do império alemão.dizem os literatos. de Calderón: que anacronismos. a torre da civilização sobre o abismo. Hofmannsthal caiu num esquecimento radical. o alemão. Desde então. de uma nacionalidade tão incerta e tão mista como os seus povos. ocupa-se em refazer La vida es sueño. aproximados e violentamente separados pelas mesmas forças históricas. o mundo eslavo e o mundo latino se encontram. Uma morte à beira do túmulo do mundo. mas não era um poeta alemão. o italiano. Os imperadores Habsburgos. Eis a nossa tese: Hofmannsthal escrevia em língua alemã. Existe. Ao mesmo tempo. Mas não se compreendem um ao outro o húngaro. mas impõe-se uma aproximação mais precisa. Mas é fora de dúvida que ela vive para a literatura européia. a sua posição alemã e a sua posição européia. pela revolução. foram. para construir a Casa da Áustria. ele morreu. atormentado pela guerra. pela inflação. Quando A torre aparece. nenhum teatro a representou. por isso a . não existem e não existirão nunca nítidas fronteiras nacionais. à beira do túmulo de seu filho. em 1929.

Hofmannsthal o exprimiu: "A Áustria tornou-se espírito na música. Ele o diz admiravelmente num poema: "As lassidões de povos esquecidos. onde as lembranças espanholas ainda fermentam. dos Mozart. Na Alemanha."o espaço espiritual da nação". a língua dos Smetana e Dvorak. a estes povos e estas estrelas. do exército. a língua da burocracia. Hofmannsthal escreve a . Nós sonhamos com todas as possibilidades e desprezamos a realidade. A literatura chegou mais tarde. Quase ao mesmo tempo. aos quais Hofmannsthal pertenceu. mas constituem uma confissão. mas não uma função alemã. Essa grande Áustria teve. A poesia do adolescente Hofmannsthal reflete este mundo multiforme."trai a fraqueza interior e a impotência de criar. "Impotência de criar" é a expressão da Carta de Lorde Chandos.diz ele num estudo desta época . foi um começo. é a "língua geral" da humanidade e a língua nacional da Áustria. pela sua descendência germano-ítalo-judaicotcheca. Grillparzer.Hofmannsthal criou o termo . pelo nascimento e pela educação. A Áustria tinha muitas línguas."155 Hofmannsthal." Estas palavras se lêem num estudo sobre Amiel. a língua geral de comunicação entre todos esses povos. eu não posso arrancá-las das minhas pálpebras. não." A língua dos Haydn. da aristocracia." Mas o jovem esteta não os conhece ainda. Mas ele representa uma última maturidade que vê a queda do Império. Na Áustria. é um espelho microcósmico do macrocosmo austríaco. "A multiplicidade dos esforços" . a língua alemã era .língua alemã tornou-se a "língua geral". e não posso afastar da alma amedrontada a queda muda de estrelas longínquas. dos Schubert. mas não tinha uma língua. os seus esplendores e as suas decadências. Hofmannsthal já é o fim. a língua comum dos círculos bem austríacos. no começo do século XIX. É por isso que a Áustria não se tornou espírito numa literatura. dos Liszt e Cimarosa. "Ripeness is all. É que a língua alemã era somente um elo exterior para coordenar os múltiplos esforços nacionais de todos esses povos. uma função européia. compreende-se.

um epígono. aonde sempre volta o barroco. Em todos esses fragmentos e esses ensaios. de Longhi. os contemporâneos não viam senão a impotência. Sem o saber. Disse-o Hofmannsthal no seu ensaio sobre o grande herói do exército austríaco." Estas palavras sobre o herói da Áustria foram escritas quando a velha Áustria já agonizava. pois. de Casanova. onde compara o poeta ao Santo Aleixo da lenda. em que um jovem aristocrata austríaco devia encontrar. sabia que o passado nunca é inteiramente passado. a vida de Andreas ficou fragmento. um arcaizante.sua conferência O poeta e o nosso tempo. tudo é presente. envolvido como estava por imagens e fantasmas que pareciam gritar-lhe: . na Veneza do século XVIII.Ele. Hofmannsthal tornou a encontrar a sua pátria quando ela morria. O poeta é sempre um exilado do seu tempo. à porta do palácio real. . É o espetáculo da decomposição fosforescente por trás da fachada esplêndida que o atrai. Para a poesia. e este poeta o é principalmente porque não conhece a sua verdadeira pátria. desconhecido entre os mendigos. este passado especialmente austríaco. Mas Hofmannsthal não era absolutamente um arqueólogo. austríaca outrora. Estes eram modernos. por sua vez. Mas a "impotência de criar" continuou: a este mágico da palavra as palavras se recusam a atender. ele vive. o príncipe herdeiro exilado que dorme. no romance fragmentário Andreas ou Os reunidos. Ele gosta principalmente de fazer passar em Veneza as suas obras e as suas cenas. para o espírito. Para ele o passado era vivo. o poeta. e ninguém nos conheceu. a imagem da Áustria agonizante. ele se aprofundava cada vez mais no passado. .Dê o seu testemunho de que nós estávamos presentes. Dão testemunho disto fragmentos. não existe passado. ele busca esta pátria desconhecida. a verdade pessoal da sua vida. a Veneza de Tiepolo. que todos vivemos com o passado e morremos com ele. em Veneza. o príncipe Eugênio: "Aos olhos do espírito. aquela Veneza que era. Uma vez ele se aproxima do centro do seu ser e do seu mundo. era um "passadista".

disse Hofmannsthal. cuja importância Du Bos compreendeu bem. Nunca eles esquecem as montanhas natais. e aquilo que não se pode dizer torna-se música. O passado está presente nas grandes alegorias barrocas de Salisburgo. Embora em língua alemã. porque estas formas eram a criação própria da civilização barroca. com a farsa italiana e a comédia espanhola de capa e espada. não é literatura alemã. a literatura austríaca encontrou a sua essência austríaca: ela voltou para a música. do Império da Casa d'Áustria. O "grande teatro do mundo". a sua alta função política. Ele dá testemunho. o titanismo e o equilíbrio. La vida es sueño. é o sol do crepúsculo da Áustria. como na Flauta mágica. predileção do teatro popular vienense. e Hofmannsthal escreve os seus estudos sobre a língua e a literatura alemãs.Então. Existe. Hofmannsthal deu à peça um outro nome. Lembrando-se a gente dessa sabedoria vienense-espanhola de que a vida é um sonho e o sonho é a vida. a Áustria ressuscita na poesia de Hofmannsthal. Descem-se os degraus desta . É preciso distinguir. uma mistura de estilos mozartiana. Esta torre misteriosa é construída nas profundezas. compreende por que a literatura austríaca é essencialmente teatral. espanholhabsburgo. a literatura austríaca realiza. precisamente então. Enfim. e outro sentido. Ali. Mas já é uma política anacrônica. de Salisburgo. no Cavaleiro das rosas. Em Hofmannsthal. "O teatro é essencialmente sonho" . o espírito alemão não é senão um ingrediente entre os demais: o latino e o eslavo. A torre. As palavras não se recusam mais. A vida é um sonho. que servem freqüentemente de fundo para os seus cenários. Faz-se preciso distinguir. feita por filhos do campo. a união da peça de sonho. mas interpretou mal. O espírito alemão e o espírito austríaco se diferenciam como a filosofia e a música. como um túmulo. da civilização do Império católico. E dá testemunho nas grandes formas de teatro barroco. enfim. onde jaz o mundo do passado. transplantados para Viena. a inteligência do intelectual e a sabedoria do povo. do passado. É de Calderón. A literatura austríaca é intensamente popular.

e cujo curso já não é possível . a este mundo tão frágil e sempre ameaçado de abismar-se. entre a sabedoria do príncipe calderoniano e a sua vitória final. uma revolução do povo liberta-o. uma grave contradição: não se governa com esta sabedoria.E se tudo isto fosse.cripta: uma luz incerta vacila. em cura de um louco. Esta sabedoria encontrou uma expressão adequada no sentimento barroco de que a vida é sonho: a sabedoria do príncipe Segismundo. Lembremos: um mágico tinha predito ao príncipe herdeiro um futuro despótico. Como o teatro espanhol e o teatro popular vienense. em La vida es sueño. ajoelha-se perante o pai. para salvar a ordem do mundo. Num gesto magnífico. Mas a voz interior lhe sopra: . a tragédia de Calderón transforma-se em revolução de palácio. Hofmannsthal tinha sempre uma predileção pelas "peças de sonho". e o caos volta a esta alma. O espírito austríaco foi sempre consciente da fragilidade da construção do seu mundo. Sé bien que la vida es sueño. chama-o para a corte. Mas o príncipe de Calderón reinará sobre este mundo. deixai-o sonhar. e esta consciência produziu a sabedoria do "quieta non movere". Pelo desfecho feliz.desengañado ya. um sonho? . uma cortina se levanta. e eis-nos envolvidos num sonho. O príncipe Segismundo de Hofmannsthal sucumbe aos terrores da revolução que o chamou. de Calderón. mas o rei. Existe..Ele domina-se. Existe um problema muito austríaco: o problema do sonho e da ação. onde o passado ressuscita. Aqui e ali um mundo velho morre e um novo mundo se levanta. o velho rei o faz prisioneiro. o príncipe cresce numa torre dentro da floresta. ele quer assassinar o rei. bem cedo os maus instintos despertam. que parecia lassidão e algumas vezes indolência. "não toqueis no sono do mundo". quase um selvagem.. levam-no para a torre. da ação e da não-ação.. ainda uma vez. É o segredo do conservantismo habsburgo. fazendo-o crer que tudo era apenas um sonho. e o príncipe de Hofmannsthal morre. porque ". desencadeiam-se."156 Esta sabedoria é comum a Calderón e a Hofmannsthal. e ele se arma contra o próprio pai. torturado de remorsos.

" Hofmannsthal. O príncipe Segismundo de Hofmannsthal é um príncipe herdeiro desconhecido. Não o conhecem mais porque já não há Áustria. espiritualmente. Com Hugo von Hofmannsthal. é a revolução dos povos que acreditam libertar-se. uma velha família se extinguiu. porém. como Santo Aleixo. A separação dos povos pela força fracassou. Sonho também. Falta construir uma Europa cristã. Não é a preocupação de renovar a Áustria. O povo não o reconhece. É um poeta austríaco. união acima das nações.deter. A torre desmoronou-se. É assim que o príncipe morre. também. e a sua pátria está esquecida. O velho império desapareceu. Ninguém o conheceu. era. este edifício do velho Império que a violência da guerra acordou para fazê-lo morrer. O poeta está esquecido. um sonho insensato. Mas o vácuo que ela deixou tornou-se o . E é justo: Hofmannsthal foi excluído da literatura alemã. tudo está presente". porque não lhe pertencia. Não compreenderam isto. porque. É uma torre de sonho. A torre é a tragédia da fatalidade do velho Império. uma tarefa da Europa. Ainda que ninguém me conhecesse. Mas. Não é um poeta alemão. "para o espírito. é a tarefa de criar uma outra Áustria que será a Europa. e que arruinam a casa paterna. Esta presença abrange um passado e um futuro. a ela. a Áustria continua como uma missão. o patrono dos poetas. A sabedoria de sonho do príncipe não governará nunca. ela é somente a luz interior que ilumina as adegas misteriosas do edifício enigmático que é esta torre. Violentaram este príncipe para salvar a ordem do mundo: "tocaram no sono do mundo". e. um príncipe exilado. De qualquer forma. e corre atrás dos demagogos que o escravizarão. A família dos povos austríacos extinguiu-se. Não sei se esta Áustria que acabou voltará um dia. a sua reunião pela força fracassará também. a Áustria continua. e pela violência este mundo se desmoronará. e nem o creio sequer. o poeta. também. e ninguém o conhecerá mais. ele murmura as palavras lapidares que constituem o testamento de Hofmannsthal: "Dai testemunho: fui presente. o Gran teatro del mundo austríaco. morrendo.

" ASSIM fala o poeta brasileiro. "Abyssus abyssum invocat. 10 DE NOVEMBRO DE 1891 "A poesia é incomunicável. numa atmosfera onde já não se pode respirar. como se o mundo tivesse sido morto antes dele. . Depois que o puritanismo pétreo da mãe-viúva o afugentou. Tenho medo de falar da sua vida. ou como a crista sobre o abismo." A FRONTEIRA PELO CINQÜENTENÁRIO DE ARTHUR RIMBAUD. Pois essa vida é uma série de aventuras. cortante como a navalha dos suicidas. não se tornou ainda proeza dos biógrafos profissionais. Entre uma e outro há uma fronteira. lá onde a fronteira é sempre trágica. e o outro poeta brasileiro responde: "Sei que fora de mim há um clima diferente Sei que há céu azul. O homem desta fronteira é Arthur Rimbaud. antes uma série de tentativas de fuga. fronteira belgo-francesa. cidade de fronteira. a do poeta. Não ame. felizmente.abismo onde toda a Europa se perde." Estes versos descrevem toda a região da poesia. que. através da qual a Áustria continua presente e nos fala: "Dai testemunho: fui presente. mas que se prestaria facilmente a isso. supremas claridades. filho póstumo. Fique quieto aí no seu canto. Não há acontecimento mais simbólico do que o nascimento de Rimbaud. e nasceu em Charleville. Sinto-me capaz de amar o ambiente de incompreensão que me cerca. a tensão entre a personalidade fechada e o cosmos aberto. Ainda que ninguém me conhecesse."157 Resta apenas uma voz. uma série de evasões que levam sempre até à fronteira extrema.

"La douceur fleurie des étoiles et du ciel. que por amor do estranho menino abandona mulher e filhos. o mercador fantástico dos mares e dos desertos. até o crime. . Enfim. Rimbaud conhece o seu primeiro e último dia de glória. sempre em busca do sonho: "Ô saisons. comme un panier. Vagabundagens. Dizem que houve remorsos no hospital de Marselha. onde o fracassado sucumbe. Sucedem-se as evasões. "Je ne sais plus parler" . que Rimbaud descreveu inesquecivelmente. na Arábia. a abundância verbal do Bâteau ivre converte-se em mutismo.achouos? -. contre notre face et fait l'abîme fleurant et bleu là-dessous. destrói tudo.ele está em Paris. ô châteaux!"159 . onde Victor Hugo descobre o gênio nesse menino maligno de 17 anos. essa vagabundagem nas fronteiras da sociedade.achou-os? "Par délicatesse J'ai perdu ma vie"160 . et du reste descend en face du talus. Queima e destrói toda a sua poesia. e dificilmente acessível. Apenas uma obra esparsa.Tiros. prisão. . a catástrofe de 1870. Na fronteira da velha poesia moribunda e de novas experiências poéticas. nas fronteiras do mundo civilizado . fronteira entre duas épocas. é o Oriente."158 Será o abismo. aos seus "saisons et châteaux".diz um dos seus últimos poemas. onde atravessa a fronteira do país do qual não se volta. numa afasia metafísica. na Abissínia. Segue-se a segunda evasão. em companhia de Verlaine. "une saison en enfer". Então. onde os achou . Noites sob o céu. Foge da poesia. fuga. ressoa quase como remorsos. mais tarde. Duas vezes a fuga fracassa. e a "délicatesse" parece estranha na boca desse niilista brutal. as chamas devoram Paris. O que é que ele deixou? De modo nenhum os tesouros orientais de Mil e Uma Noites.diz ele.quatro palavras mágicas que exprimem perfeitamente a nostalgia do Nada fantástico ao ar livre do vagabundo. evasão dessa fugitiva glória literária a que ele chamou. e a organização policial do mundo reconduz o náufrago a Charleville.

contrastandoa com a outra filiação. Há muitas interpretações. Por isto a sua vida é a fronteira da literatura e a sua obra é a fronteira da poesia. Há nisso um paradoxo. Aos não-poetas a poesia mantém-se essencialmente incompreensível. de Rimbaud até o super-realismo. E isto constitui o julgamento da poesia pelo mundo. não sendo deste mundo. Só um poeta consentiu nesse julgamento: Rimbaud. de Mallarmé até Valéry. Dante que se recusou ao seu século e a todos os séculos. Para explicar a sua obra. por todas as espécies de mal-entendidos astutos. É uma explicação por contradições. a vingança é mais incisiva: o poeta parece um vagabundo inadaptado ou um ridículo. E é muito bom que assim seja: pois a poesia. que julgou toda a sua obra. e com razões suficientes. Neste sentido. pois a vida de Rimbaud é também enigmática: essa vida de evasão. Enfim. e a canonização posterior. "Os poetas" . a posição do poeta. o ato mais definitivo da sua vida. mas recusa comunicar-se numa língua que seja a nossa língua. e onde Baudelaire representa o progenitor comum. para dizer a verdade. queimando-a. se o mundo compreendesse a poesia. uma vida incompreensível. estaria já julgado. por Marcel Raymond.disse Wilhelm Dilthey "constituem os nossos órgãos de compreensão do mundo. A recusa cria a reação: Dante foi exilado. caso único na literatura francesa. mas num sentido diferente do que era habitual a Sainte-Beuve. Mas esta é. Representa mais do que a erupção duma adolescência en détresse. Hoje. exatamente como convém. vida antiliterária e anti-social. Representa. e há uma explicação histórica. Queimou os seus poemas. não há senão um verdadeiro crítico de Rimbaud: o próprio Rimbaud. como a sua obra permanece incompreensível ao burguês. por dois enigmas contraditórios. . Mas Thibaudet contradiria. a aparente compreensão não passando dum acaso ou dum mal-entendido. não conseguiu revocá-lo do túmulo solitário de Ravena.A obra continua dificilmente acessível. precisa-se interrogar a sua vida. Era um ato. é o julgamento do mundo. Dante é o padrão. Non plus ultra. a mais social das literaturas. que traça a filiação." O poeta diz o que os outros não sabem dizer.

irrompeu num circo um incêndio. Para escapar aos equívocos da língua convencional. o sábio abriu a boca: "Já vos comuniquei o mistério: o Grande Brama.Onde fica esta fronteira? Conta uma velha lenda hindu que os discípulos do sábio Sânkara pediram a este que lhes comunicasse o "Grande Brama". O sábio permaneceu silencioso. língua poética e língua "mundana'. eliminar os restos irredutíveis da personalidade e do cosmos e substituí-los pelos lugares-comuns fixados. Mas a língua do "mundo" segue a direção oposta: tende a afastar o mistério. acostumado a rir-se das palavras do clown. Os dois pólos da língua. e por duas vezes o sábio permaneceu silencioso. afastam-se. ao mesmo tempo. um do outro. a última sabedoria. para aplicar uma terminologia nova (Kenneth Burke. a tornar-se cada vez mais convencional. A poesia quer explicar o indizível: por isso. cava mais profundamente o abismo entre a poesia e o mundo. esta linha cortante como a crista sobre o abismo. A língua é. cada vez mais." O mistério do mundo é indizível. os poetas criam uma língua artificial.. "paradoxo" no sentido de Kierkegaard. por sua vez. mas o público. Já não se compreendem. ela choca-se com a língua. 1941). e o diretor o fez comunicar ao público pelo clown. é o lugar da poesia. fica fora do nosso mundo das coisas dizíveis. outro dia. é o silêncio. Mas como eles pediram ainda uma vez. que está sempre ameaçada de tornar-se. que constituem a face exterior das "novas sensibilidades" de todas as "poesias modernas". o meio de expressão da poesia e o instrumento da vida quotidiana: "meaning" e "semantic". que continua silêncio. então ela cede a novos artifícios. Philosophy of Literary Form. a última sabedoria. Louisiana State Univ. Por duas vezes os discípulos repetiram o pedido. mais perto do mistério. . Cada refinamento do instrumento poético torna o paradoxo mais agudo. Studies in Symbolic Action. Kierkegaard conta que. uma língua convencional da poesia. A fronteira entre o dizível e o indizível. Tal evolução indica sempre uma conquista: os poetas conseguiram deslocar a fronteira do dizível na direção mais perto do indizível. A poesia torna-se o "paradoxo" no mundo.

Essa revolução acompanha. Deste modo. Isto é. Porque são incapazes de tomar a sério a poesia. pelos convencionalismos. é o homem mais moderno. A língua é. Mas ninguém tomou jamais a poesia tanto a sério como Rimbaud. a evolução do mundo moderno. ao mesmo tempo. afastadas das raízes tradicionais. percorreu os dois caminhos. Enfim. por sua vez. O "dicionário do universo" transforma-se em língua privada. Rimbaud é "um escândalo para os gentios e uma estupidez para os judeus". Que é que é moderno? O afastamento do universo é moderno. em línguas individuais. de individualista o mais radical. queimou a sua poesia: a sua vida era mais forte do que a sua poesia. Pela sua poesia. Coloca-se do lado da poesia contra a vida. afastando-a do mundo "civil". O afastamento do "mundo". o poeta mais moderno e o poeta mais antimoderno. línguas verdadeiramente "modernas". A vida de Arthur Rimbaud é uma série de evasões. a comunicação entre a personalidade e o cosmos. que a queimou e destruiu. Os artifícios do instrumento poético tornam a língua da poesia cada vez mais pessoal. Isto parece incompreensível aos burgueses incapazes de tomar a sério uma vagabundagem voluntária. Pela sua vida. É o julgamento do mundo pela poesia.riu-se. é antimoderno. mas afastando-a também do mundo "cósmico". ele é o poeta mais antimoderno. É. o enigmático. a vida. ao mesmo tempo. Nas suas origens. e do lado da vida contra a poesia. É a sua vida que mais importa na evolução da poesia. a poesia é a voz pessoal do cosmos. civil ou burguês. como ele. Rimbaud. incapazes de tomar a sério. a expressão mais individual da personalidade e o dicionário mais universal do cosmos. ficou e perdeu-se nas chamas. Esta tragédia tem uma outra face também. um escândalo para os poetas. Porém depois o mundo apoético se intercala e interrompe. ao mesmo tempo. que já não conhece a "vida moderna" do mundo e que já não é compreendida por ela. como se vê. De que é que ele foge? Foge da sua poesia. Precisa-se do artifício para se manter penosamente o sentimento pessoal do mundo. Abandonou a poesia ao perceber que ela é necessariamente .

desmente o seu satanismo e trai o sentido hierárquico do seu catolicismo secreto. o grito está justificado: a poesia morreu. então a expressão verbal deste sentido. O mundo volta ao silêncio." Rimbaud vivia este conselho. e a vida está vingada. o "Verbo". perdeu a sua razão de ser. já não há poesia. contra a fé e contra o Estado. contra a ciência e contra todo bonheur établi. é conseqüente: se não há sentido no mundo.um artifício. representam caminhos para conseguir o poder mágico de destruir o mundo. Não há caminho para trás de . Lamartine parece um classicista enfadonho. revolta-se contra Aquele "per quem omnia facta sunt". As suas cartas manifestam o niilista mais completo que jamais tenha existido. um flirt com o Nada. mas um fim. A sua vida confere-lhe o direito de declarar "la séance close". havia poetas incomparavelmente maiores do que ele. Hugo um ancião mítico. todos parecem prosaicos. revoltando-se contra a criação. Sem dúvida. Rimbaud não é romântico nem baudelaireano. Os românticos conheciam isto também. então. O sentido do mundo está atacado por essa rebelião luciférica. O seu ocultismo. Tomou o partido do mundo. tão profundamente. que desfaz todas as coerências da razão e todos os obstáculos da moralidade. Verlaine um gago. arquitetônica. Musset um rimailleur. Só Baudelaire resiste. e a forma estritamente disciplinada. não se deve lesar a ninguém. queimou a sua poesia. Depois de Rimbaud. nem sequer frustrar o mundo da sua vitória. A revolução contra a língua é a mais radical das revoluções. apóia o mundo. Rimbaud não é um começo. Mas. Rimbaud é um revoltado contra todos os artifícios. mas era uma fraca coquetterie. após uma leitura de Rimbaud. À revolução contra o Verbo segue-se a revolução contra a Palavra. de Baudelaire.161 contra o criador a que a fé cristã chama. é verdade. revoltado contra a família e contra a literatura. Lembra o verso de Corneille: "Cette obscure clarté qui tombe des étoiles. É o fim da poesia. Rimbaud lembra-me um aforismo diabólico de Franz Kafka: "Na luta entre ti e o mundo."162 A claridade escura de Rimbaud escurece todas as claridades. a língua. Para falar com os teólogos: Rimbaud. a sua submersão no sonho. que não se realizou.

na esperança de reencontrar o sentido: a Palavra e o Verbo. Estabelecida a árvore genealógica da "poesia do mundo caído". charitatem autem non habeam. Após ele.Rimbaud. com ele. há somente duas alternativas: a convenção eterna. não é um "Baudelaire brasileiro"."164 Há a verdade da Palavra naqueles epigramas. o seu lugar na literatura universal. aberta e de simplicidade humana. da sua origem comum. carregada de sentido. Correspondem a esse dois caminhos duas correntes da poesia contemporânea. mais tecnicamente: o epigrama e a ode. Manuel Bandeira. Mas como a poesia nasce da comunhão entre a personalidade e o cosmos. Bem entendido. não se trata de "influências". Abstraindo das "mensagens poéticas". Poder-se-iam inscrever-lhe as palavras do apóstolo: "Si linguis hominum loquar. a poesia da suprema consciência humana. ensaia dois caminhos diferentes . A poesia "epigramática". e há a caridade do Verbo nestas odes. abundante de coração. Poder-se-iam inscrever-lhe as palavras de Santo Agostinho: "Noli foras ire. factus sum velut aes sonans. in interiore homine habitat veritas. no Rimbaud das Illuminations e do "Bâteau ivre". et angelorum. Eis por que esta poesia autorizada persiste em vozes autorizadas: Manuel Bandeira é a voz autorizada da poesia brasileira. Baudelaire é o padrão desta poesia. pós-baudelaireana. a qual conseguiu. A poesia baudelaireana. poderia estabelecer-se a árvore genealógica da poesia epigramática e da poesia ódica.o da poesia mais pessoal e o da poesia mais universal . o desespero metafísico da criação caída. é a expressão mais larga do sentimento cósmico. Eis por que a poesia de Baudelaire resiste: é a voz autorizada da humanidade presente e da sua condição eterna. salva a poesia. um dos poetas mais pessoais do mundo."163 A poesia "ódica". é a expressão mais densa da personalidade. ou a queixa do mundo sobre a poesia. aut cymbalum tinniens. o plágio convencional. a poesia moderna. fechada e amarga. . prefiro designar essas correntes. mas ele tem. aliás indefiníveis. a queixa da poesia sobre o mundo. Abre-lhe o caminho que só foi possível depois de Rimbaud: o caminho às origens. de Baudelaire a Bandeira. bandeiriana. pós-bandeiriana.

Lionello Fiumi." O caminho desta dialética. Do mesmo modo. H. é o caminho de Une Saison en enfer até às Illuminations: o caminho que Rimbaud percorreu.. decerto. confessa também: "Estou preso à vida. Jorge Guillén. e de outra parte Pierre-Jean Jouve.. Rafael Alberti. e entre o Rimbaud "ódico" da caridade cósmica e o Augusto Frederico Schmidt do Sinto-me capaz de amar. duma parte. mas a identidade dialética também. O poeta. já não será misterioso: "Elle est retrouvée! Quoi? l'Eternité! C'est la mer mêlée Au soleil. Boris Pasternak.isto sim. Stephen Spender. Hugh Auden. Marsman. Giuseppe Ungaretti. "correntes sublunares" (em analogia com "subconsciente"). Franz Werfel. É grande a tentação de estabelecer um panorama da poesia contemporânea sob o aspecto rimbaudiano. entre Rimbaud e os dois grandes poetas com que principiei: entre o Rimbaud epigramático da "verdade interior" e o Carlos Drummond de Andrade da "poesia incomunicável". a grande noite resinosa e infinita. Vladislav Chodassevitch. e ao fim do qual achou o mágico poema que. Gottfried Benn. agora. Há uma contradição. cujo "sentimento do mundo" chega ao dever de "anunciar o Fim do Mundo". não há influência visível. mas sim filiações invisíveis. que não pode ser pensada senão em poesia. Jan Slauerhoff." E o poeta que cantou o "desejo de sol e de um tempo novo". Jules Supervielle. na poesia brasileira. O presente é tão grande. não nos afastemos. Mon âme éternelle Observe ton voeu Malgré la nuit seule . professa o: "Seremos simples como a noite. a função de Baudelaire na poesia francesa.

Recordações. "Minha fé é como uma guilhotina. A escada range. . FRANZ KAFKA E O MUNDO INVISÍVEL O MUNDO do contista Franz Kafka é uma casa burguesa. Mas é um espírito profundamente angustiado. aqueles cuja fé irrompe das convulsões duma agonia: Agostinho. Delírio. donde emana uma impressão inquietante. aqueles que nascem duas vezes. Soeren Kierkegaard. O sótão é uma loja de recordações. Um labirinto. Apodera-se de nós o sentimento do déjà vu. assim leve e assim pesada. Voltamo-nos para o outro lado: aparece a face de Deus. Esta irrupção do sobrenatural no mundo não o salva: enche o homem de terrores desconhecidos. o Deus de Kafka faz estremecer os fundamentos do céu e da terra. e o seu mundo é cheio de seres sobrenaturais. Entramos. Nenhuma saída."165 Há nesta poesia um fim e um começo. Franz Kafka não é um poeta religioso: não trata nunca de religião nas suas obras. entre a vida e a morte. A religião de Kafka não é a religião fácil dos bem-pensantes. como o encontro com uma mitologia desconhecida. Figuras de demônios. Blaise Pascal. na nossa vida quotidiana. O espírito da fronteira nela está. Os mortos surgem. a fronteira do país donde não se volta: Arthur Rimbaud. recordações. solidamente construída na aparência. Os fantasmas que apavoravam a criança. a quem o seu Deus garante todas as ordens deste mundo. de repente. da fronteira entre o dizível e o indizível. de quartos mal ventilados. e respiramos o ar das penúrias dolorosas. Um canto guarda os brinquedos esquecidos. que aparecesse. de já ter visto tudo isso. Só um atravessou essa fronteira.Et le jour en feu. O numen de Kafka é um numen tremendum. com uma fachada um pouco descuidada." É a ameaça mortal que antecede a esperança vital. Martinho Lutero. Esta é a religião daqueles que a psicologia religiosa de William James chama os "twice-born". Fuga.

carregada de estranhas metáforas. editará arbitrariamente. seguem os caminhos escuros e estreitos. que o executor. germano-tcheco-judia. K. A pessoa e a vida de Franz Kafka acham-se também cobertas por um véu. Kafka descreve a vida quotidiana dos escritórios.Esses terrores e esses esplendores.166 O primeiro romance publicado depois da morte do autor foi O processo. ao sul pelo medo A leste pelo apóstolo São Paulo. de parábolas.. dos quais três se desenvolvem em romances. mas esses lugares banais são cheios de potenciais demoníacos. que se estendem às vezes em contos. das casas de família. A língua é muito límpida. Explicam-lhe que fora instaurado contra ele . A língua lúcida faz adivinhar um outro mundo. morre num sanatório de Viena. a oeste pela minha educação. simplesmente K. espreitado pela catástrofe. que se alongam às vezes em parábolas. Tísico. e cujo assunto se poderia condensar em parábola ou aforismo. característica dos meios intelectuais dessa cidade. Max Brod. filho de família pequenoburguesa. dormem. pois "quem vir descoberta a face de Deus morrerá".) A vida corre-lhe nos quadros da burocracia subalterna. mas são os caminhos do inferno e do paraíso." (Murilo Mendes. da mais alta concisão. o humanismo alemão desses meios é flanqueado pelo cabalismo judaico e pelo misticismo eslavo. Acontecimentos simples revestem-se de uma tensão febril. contra os quais o homem luta desesperadamente. dessa nacionalidade incerta. O seu herói chama-se K. em 1924. Kafka os escondeu nos andrajos da vida quotidiana. fragmentários. Nasceu em 1883 em Praga. Esse misto de clareza e de mistério revela a fragilidade do nosso mundo. A sua obra se compõe: de aforismos. "Estou Limitado ao norte pelos sentidos. comem. de contos. No testamento ordena a destruição dos seus manuscritos. na rua. Um dia. As personagens falam. dos cafés. Desde a sua infância. é subitamente preso. são os caminhos "per realia ad realiora".

evita pelas suas falsas atividades é a graça."que nos faz datar o juízo final. sem o saber e sem o querer. mas todos estão convencidos da justiça e da onipotência do tribunal. um dia. K. ao mesmo tempo. onde a todo momento o tribunal está presente e a força armada. assim como nós outros executamos. na verdade é uma corte marcial cuja audiência está aberta todos os nossos dias. a purificação em si mesmos. alguns contos explicam a situação metafísica do homem. prevalecendose obstinadamente da sua inocência. corrompe o carcereiro e o escrivão. não conhece e não quer conhecer. mas poucos os eleitos". A prisão não passava de uma provocação por parte daquele estranho tribunal: o próprio K. No seu diário Kafka copiou as palavras de Lutero: "Deus não é inimigo dos pecadores." Em torno deste romance. todos são empregados do tribunal. O delito desconhecido é o pecado original.diz Kafka ." Mas o céu negro se iluminará. Pelas suas atividades. O processo é um apólogo e uma apologia. soltam-no a fim de que possa prosseguir na sua defesa. Obstina-se. não faz mais que jogar o processo contra si mesmo.um importante processo criminal. "É somente a noção que temos do tempo" . E o que K. E cria o delito mortal. A colônia penitenciária é uma como espécie . Kafka instrui uma acusação contra a justiça do tribunal divino. Sob o véu da alegoria. O delito desconhecido está vingado. aconselham-no a confessar um crime que K. aconselham-no a confessar e. e "Aquele que quiser salvar sua vida a perderá".. A prisão é o signo da predestinação. temerariamente. mas que procuram. em seguida. Há nesse romance uma lembrança incerta de certas palavras do Senhor: "Muitos serão os chamados. sobre estas cenas de horror. os desígnios da Providência. Nenhum destes compreende melhor o processo do que K. Faz tudo o que se pode fazer: contrata um advogado e um médico. tem de criar pelas suas atitudes as razões da sua absolvição ou condenação. mas somente dos descrentes que não reconhecem os próprios pecados nem procuram o apoio de Cristo. De maneira misteriosa. Mas as palavras evangélicas perdem-se neste mundo de provação e desespero. Pelas suas providências apressa a catástrofe que será a sua condenação e execução.

destituída de fios. corredores sobre corredores. que significa "apóstata"."Como te chamas?" . indefinidamente. lembrando Hound of Heaven.167 um jovem é subitamente transformado num horrível inseto que os seus próprios parentes querem matar. decide alargar e fortificar o seu edifício subterrâneo. que são desconhecidos dos próprios condenados. ainda mais terrível. temendo a perseguição dos cães. mas que não descansa nunca.de continuação de O processo. atento aos ruídos funestos do mundo exterior. ou ao silêncio. de origem incerta. até o último dia. Em A transformação. Nesta colônia. como em O processo. sem nenhuma significação. por causa da preguiça lá não podem voltar. e a queda torna-se radical até se perder o direito de existir. Em todas essas parábolas. uma terrível máquina de precisão grava no corpo dos forçados. pois saber o nome do delito é a condição preliminar para saber justificar-se."Odradek". Cava buracos sobre buracos. os nomes dos delitos. não se pode deter essa queda onde se desejaria. no sentido da segurança neste mundo. A falsa direção das atividades humanas é o assunto da obraprima de Kafka: o romance inacabado O Castelo. coisa absolutamente inútil. A tortura pela qual a sua culpa lhes será revelada é a única esperança. que sobe e desce incessantemente a escada. de Francis Thompson. o homem é a vítima passiva da perseguição celeste. O homem. Mas Kafka não condena a atividade: "Há dois pecados cardeais donde se poderiam deduzir todos os outros: a impaciência e a preguiça. . A transformação tornou-se definitiva nesta pequena obra-prima chamada A preocupação do Pai Celeste. . palavra eslava. o animal. aprisionado e sem saída. Então o animal agacha-se no seu canto. É objeto da inquietação do Pai misericordioso uma bobina. No conto A toca de texugo. até que afinal esquece a única saída. em alguma etapa propícia. não é mais a imagem de Deus. Por causa da impaciência foram expulsos do paraíso. e espera. numa estranha solidão. por meio de agulhas incandescentes. submergido pela vida banal de todos os dias." O que Kafka deseja excluir é a falsa direção das nossas atividades.

o hospedeiro acolhe-o. Com efeito. Desejaria obrigar o Castelo a conceder-lhe o direito de permanência na aldeia. estremeceu um pouco"): "Sim. Quer o direito de permanecer. não tem nenhum direito de permanecer na aldeia. outros . está à morte. Quer forçar esta comunhão dos fiéis. destituída de qualquer sentido. K. desta vez. executam as suas tarefas diárias. é modesto. o tribunal. K. aqui não temos trabalho para um nivelador. K. K. quer somente achar um emprego de diarista." Em O Processo. K. Recorre a meios impuros. o homem instaura processo contra o Céu. cai gravemente doente. Em O Castelo. desesperadamente recorre à mentira: "O Castelo contratou-me como nivelador. chega. Não quer ser tolerado. o direito. tem permissão para ficar." É o primeiro dom voluntário da graça: mas contém uma punição. ele o exige mesmo. tem. sem ter obtido a graça. é o nivelador contratado. Pois o Castelo acrescenta: "K. ser-lhe-á permitido que aí permaneça até a morte. Espera a morte. Sim. Eis-nos nas últimas linhas do fragmento. "Uns negam a miséria evocando o sol. encontra-se impossibilitado de verificar o contrato surrupiado. como a nossa vida quotidiana sem a vocação interior. Uma anotação explicanos o fim: "Quando K. que não fará voltar o peregrino. permissão para ficar. simplesmente K. mas não para trabalhar. Sua vida será vazia. Esgotado. há sempre possibilidades. o lugar onde a graça está concentrada. Quer extorquir a graça. Ao pé desse Castelo há uma aldeia." Resolvem telefonar para o Castelo. Numa fria tarde de inverno. E o Castelo responde de maneira surpreendente ("K. justificar sua presença na aldeia. enfim. não está contente. O seu adversário não é. Nesse ínterim o filho do castelão aparece para expulsá-lo.. mas o Castelo. É o cúmulo da temeridade titânica. chega a decisão definitiva do Castelo: K." Deste modo. crentes humildemente submissos. K. mas o seu contrato foi um lamentável engano. mas considerando-se certas circunstâncias acessórias. K. K. contando com a piedade. perde-se em mentiras e subterfúgios. Tudo em vão. É preciso frisar: ele o quer. portanto.Ainda aqui o herói chama-se K. onde os camponeses. o Céu instaura processo contra o homem. também desejaria ser camponês nessa aldeia.

"O verdadeiro caminho desdobra-se sobre uma corda." Na aparência dessas parábolas Deus não tem razão. Revolta-se. em sua obra." Às vezes Kafka atinge uma inversão diabólica: "Leopardos forçavam o templo e esvaziavam os vasos sagrados. esperança. Até que conseguiram calcular a hora em que chegavam e faziam do incidente uma parte do cerimonial. um Charles Du Bos deploram a inacessibilidade das obras. Isto se repetia freqüentemente. adquire traços blasfêmicos. muita esperança. o seu dia chegará. segundo uma frase de Kierkegaard. "aspirava a uma imortalidade mais alta que a da glória". À propagação dessa obra opõem-se obstáculos do destino. Acusa Deus. parece ser destinada mais a fazer tropeçar que a ser transposta." O homem. mas isto significa somente que o mundo não o está escutando. Uma casa editora de Praga promete a publicação das obras . A sua publicação póstuma não encontrou nem leitores nem críticos. Deus se cala. Em toda parte. muita esperança. no mundo desse Deus.negam o sol evocando a miséria. "Todas essas parábolas dizem somente que o incompreensível é incompreensível. se já não chegou. Mas um outro aforismo diz: "O nosso mundo não é mais do que um mau humor de Deus. Franz Kafka. mas não para nós homens. lançada muito perto do chão. Não parece que esse Deus queira a redenção do homem. perante o tribunal de Deus. há tribunais e forcas. Fato simbólico: Kafka não estava destinado a escrever esse fim. em Kafka. Há. Dez anos depois da sua morte. a inexistência de traduções." Tais blasfêmias lembram a zoolatria dos egípcios ou o Demiurgo mau dos gnósticos. como Ivan Karamazov. A despeito dele. Kafka desejava que a sua obra morresse com ele para servir de testemunha em seu favor." Este "não para nós homens" equivale a uma grande confissão. A face de Deus. a graça aparece. que restabelece a ordem dos valores. um André Gide. mas esta falta de razão significa somente uma incapacidade do homem em face do mandamento de Deus. Na aparência dessas parábolas. No fim de O Castelo. não vê na sua miséria a conseqüência da sua condição humana. portanto. Há esperança.

Eis o lema de Anton Tchecov. A tradução integral. Não é o tempo psicológico de Proust. A despeito de tudo. talvez nunca apareça. A sua vida quotidiana é destituída de sentido. A edição de Praga é interrompida pela derrota do Estado tcheco. a presença de Kafka na literatura alemã é simplesmente ocasional. prometida na França. como nos romances fantásticos de Julien Green. Mas um traço significativo distingue Kafka radicalmente deste grande contista pessimista do fin de siècle: a noção do tempo.completas. como nos contos de um . pela revelação de um mundo mais real atrás do mundo real dos bempensantes: "per realia ad realiora". tornando-os comparáveis às personagens plásticas de um Di Chirico. A reflexão sobre o lugar de Kafka na literatura universal é o primeiro dever. aos anjos de um Rilke. em vez de sufocá-lo. não se pode dizer a respeito de nenhuma obra de Kafka em que século decorre a ação dela. "dois quilômetros mais ou menos". acontecimento que se repete todos os dias. Existe uma herança que se deve conservar. É antes um tempo religioso: o caminho da aldeia ao castelo. A. pela estranha transposição dos acentos. é um fato extramundano. todas as horas. eônios. Mas o tempo. aos cantos "homófonos" de um Stravinsky. o seu dia chegará. A psicologia desses homens é uma psicologia de monstros revoltados. a Nouvelle Revue Française traduz alguns contos. a quem Kafka deve a técnica do conto. O simbolismo de Kafka perturba o mundo. leva séculos. A era dos deuses e a vida quotidiana dos nossos dias se confundem. Hoffmann. o Kleist do ensaio Sobre o teatro de bonecas. pela desvalorização dos fatos tradicionais. há unicamente uma data: a da irrupção do divino no mundo. T. Os homens de Tchecov vivem no seu tempo.168 para ser percorrido. Todos esses obstáculos aprofundam mais a virtude desse pensamento. em Kafka. Esta ausência do tempo humano destrói a estrutura normal do mundo e isola os homens em desertos de eternidade glacial. Feita a abstração de alguns pontos de contato com Heinrich von Kleist. e com E. O seu lugar está na literatura européia do após-guerra. Não existe tempo. se já não chegou. no tempo do seu mundo.

O que é comum a todas essa correntes é o relativismo. O dia de Kafka chegou. a outra na Alemanha. não se conforma nem decompõe. O mundo é um cadáver que se decompõe porque o espírito abandonou o corpo. que já não admite a integridade do mundo. A corrente literária do após-guerra achase diante de um montão de ruínas. coloca-se em caminho. Kafka procura o lugar da graça. Enfim. a "Teologia Dialética" de Karl Barth e de Emil Brunner. Não é nem tradicional nem relativista. como os "fragmentistas" italianos. Esta atitude o situa no meio de duas grandes correntes dos nossos tempos: uma na França. E a sua vida real se passa na atmosfera mágica dos romances de Marcel Jouhandeau. Este desespero se conformará ou não se conformará: ele afirma e confirma a decomposição do mundo por meio de uma nova psicologia. São estas as posições do romance e da poesia modernos. No artigo XV das Pensées enumera as quatro . A literatura e o pensamento modernos tentaram contentar-se somente com os destroços. olhando-os primeiro como brinquedos de uma nova infância. e em seguida como pedras para a construção do futuro.Bontempelli. Todas essas comparações só têm como fim estabelecer mais solidamente as oposições. exceto a daqueles. Não se contenta com os destroços. que mergulham na fé tradicional. está a caminho de Damasco. este mundo acha a sua expressão final nos poemas apocalípticos dum Pierre-Jean Jouve que precedem a catástrofe. ou se insurge contra essa decomposição pelas expressões de um pessimismo cínico. eram as etapas do primitivismo e do construtivismo. e faz ressuscitar a obra esquecida de Soeren Kierkegaard. Entre dois mundos e entre duas épocas. a incomensurabilidade entre Deus e o mundo. É Pascal quem define a situação. não raros. Mas se reconhecerá o verdadeiro estado de coisas e um profundo desespero prevalecerá. que gira em torno do abismo dialético. No abismo entre o Deus soberano dos dialéticos e o homem falido de Pascal. os novos estudos pascalianos que giram em torno do problema da graça e inspiram até o André Gide de L'École des femmes. A atitude de Franz Kafka é muito diferente.

cheio de orgulho e de angústia. Não se é mais pagão depois de Jesus Cristo: a velha inocência desapareceu. mas não conhece a Deus. Uma fé vem nascer no caos de uma alma em desespero. Enfim. "Como cumprir a vontade de Deus? Teme-se que essa lei não seja mais do que uma tentação. Terceiro. Em vão nos entrincheiramos nas linhas Maginot da nossa "toca de texugo". E se o seu cumprimento não representar nada perante Deus?" É um aforismo de Kafka. impotentes. sem a possibilidade de uma libertação. quem não procurar. é o caso do farisaísmo orgulhoso. para assistir. através de Pascal: "Consoletoi. Primeiro. tergiversações que nos abismam cada vez mais. Mas o apóstolo Paulo poderia ter dito isso. Todas as seguranças exteriores são vãs. para preparar "o segundo nascimento": é o caminho da apocalipse do mundo para a escatologia da alma. o homem conhece a Deus. Mas é também a posição atual do mundo apóstata. Nela se lê o seu aforismo." E uma voz lhe responde. Em vão "a angústia da lei" maltrata o rabino Saul antes de ter ele visto a luz do mundo. tu ne me chercherais pas si tu ne m'avais trouvé. A obra de Franz Kafka é um indicador na direção desse caminho. Só o caminho misterioso de Damasco é que liberta dos terrores exteriores. é o desespero ateístico. Quarto. mas não conhece a sua própria miséria. Todos os outros caminhos são subterfúgios inúteis. ou procuramo-Lo. o homem conhece a sua miséria."169 UM ENIGMA SHAKESPEAREANO .possibilidades do homem. sua miséria e sua graça. mas não a graça. É a posição do judaísmo perante o seu Messias encarnado. A posição de Kafka é a terceira. o homem reconhece em Jesus Cristo seu Deus. é a angústia. Segundo. que renuncia à graça e se declara pagão. cheio de aflição e de esperança: "Quem procurar não encontrará. ou renegamo-Lo. Sem a graça não se escapa deste mundo. será encontrado. o homem conhece a Deus e a sua própria miséria. O caminho de Damasco é a única saída desta prisão que é o nosso mundo envenenado. somos os prisioneiros das nossas próprias prisões. à nossa derrota decisiva. É a confissão de um homem no caminho de Damasco.

oculta. para explicar a profunda emoção que emana de certas obras. banal ou esquisito segundo o ponto de vista. de Medida por medida. sem consideração de relações históricas. aplicado para resolver certos problemas de crítica. Eliot é inimitável. O método do grande crítico e maior poeta inglês. ao mesmo tempo. maravilhoso. duma força misteriosa atrás da superfície. explicável só pela comparação. e que compara as obras de diversos povos em diversas épocas. Porém. Contentava-se em dramatizar contos ou então retocar velhas peças. frei Ludovico. sem consideração de pretendidas relações históricas. em conjunto. Devemos a este método a redescoberta das poesias barrocas espanhola e inglesa. em aparência menos bem-sucedidas. ou como aquela comédia Measure for Measure ("Medida por medida").EXERCÍCIO DE LITERATURA COMPARADA CENSURA-SE muitas vezes à jovem ciência da literatura comparada o valor puramente histórico e pouco interpretativo dos seus estudos. Ângelo é um puritano. como os contos de Franz Kafka. para tirar conclusões gerais" (Edmund Wilson). o Duque dispôs-se a voltar clandestinamente a Viena. com ligeiras modificações. Contudo. Obras que fazem pressentir a presença escondida. Indignado com os excessos de imoralidade que davam à cidade uma atmosfera pesada. e estando de posse de plenos . S. O Duque de Viena. Eliot. as leis caíam em desuso e se aproximava a anarquia moral. Quase nunca Shakespeare inventava os argumentos das suas peças. homem conceituado pela austeridade e inflexibilidade. disfarçado num simples monge. T. sob o seu reino indulgente. escondendo uma arrière-pensée metafísica. para observar a conduta de Ângelo. escapa a estas censuras: "Método maravilhoso que encara. enigmático. de Shakespeare: um enredo. resolve abandonar por algum tempo o país e confiar o governo ao seu conselheiro Ângelo. reconhecendo que. toda a literatura universal. com obras com as quais nunca foi comparada. Num conto medíocre do escritor George Whetstone achou assunto para transfigurá-lo no mundo completo. pode-se imaginar um método análogo.

Ângelo fica sensibilizado e confuso ante a eloqüência da jovem . sem o perdão a lei do Estado abateria o homem e a sua fraqueza. pesa sobre a cena na prisão noturna à espera da alvorada da execução. não vos admireis demasiadamente de como tudo isto se . fica a princípio aterrada. Isabel vai ao palácio do governador. Desde já evita o mundo. e a futura religiosa arrisca mesmo a leve alusão teológica de que "o perdão é a virtude do homem. Cláudio.poderes.e sacrificará o irmão. pois cumpre o prometido. habituados como estavam às leis que não eram cumpridas. antes do casamento. a própria noiva. como para sua irmã. A vida alegre continua. Tudo debalde. faz toda a cidade rir das determinações do casto Ângelo. dizendo-lhe que a nossa vida é um sonho confuso e a morte uma libertação. "Mas" . sob pena de morte. E a sua primeira vítima é um jovem fidalgo. Para Isabel. porém. de alcoviteiros. regenerado pela graça divina"."vede a estrela da manhã. Mas Ângelo não deixará que ninguém se ria. Mas o desespero do irmão a comoveu. que seduzira.diz Frei Ludovico. Cláudio implora a sua irmã Isabel a clemência de Ângelo. Entre todas as deliciosas figuras femininas shakespeareanas. sendo condenado à morte pelas mãos do carrasco. lembra a Ângelo que o perdão é a justiça suprema. de casas de tolerância. e o irônico Lúcio. renova uma velha lei que proibia. o Duque disfarçado.se Isabel se render! Apesar de todas as conjurações desesperadas de Cláudio. Em pleno desespero. Ela está resolvida a entrar num convento e dentro de pouco tempo deverá conquistar o céu. Isabel guardará a sua pureza . A cidade. Cláudio treme. Eloqüentemente. Frei Ludovico oferece-lhe o consolo da religião. ao carcereiro . que acompanha a ação com raciocínios maliciosos. Mas logo depois todos se acalmaram. cheia de devassos. cujo desespero não recua diante da infâmia. Num só momento funesto toda a orgulhosa virtude do puritano se desmorona! Perdoará a Cláudio . "O perdão é um atributo de Deus". Isabel é a mais admirável. em transes mortais. todas as ligações ilegítimas. O terror paralisa a cidade.e ante a sua beleza. Pórcia. embora lhe condenasse a depravação. no Mercador de Veneza. um ar dostoievskiano. Um ar abafado de tempestade. Sua alma é uma encarnação de pura poesia.

Medida por medida é uma tragédia política. Este problema é representado na peça por um eterno conflito da vida pública. mas o Duque já tinha imaginado um plano engenhoso que afugentaria os fantasmas noturnos. todos são logo perdoados. Assunto desta educação humana é o Estado. À exceção do malicioso Lúcio. inaplicável.são as terríveis palavras que ele lança ao pérfido governador. Assistimos à educação de três homens para a verdadeira vida pública: Ângelo saberá quanto é profunda a fragilidade humana e a injustiça das leis inflexíveis. ousa levantar-se contra as mais altas autoridades. a sua própria noiva Mariana. Os sargentos agarramno e o difamador Lúcio arranca-lhe o capuz . em vez de indulgência e contemplação. daquela graça que Isabel proclamara como a única salvação do Estado corrompido. a maior tentação dos poderosos. velando como um verdadeiro anjo a cidade que já não se perderá. Um simples monge. No outro dia. Ao lado do Duque ela reinará sobre Viena. mesmo no Estado de um déspota oriental. alegando falsos escrúpulos morais. que deverá expiar as suas insolências. o choque inevitável entre a ordem jurídica do Estado e a ordem vital da sexualidade. o problema da responsabilidade que a força impõe aos governos. Uma lei impossível! Verdadeiramente. Ângelo falta com a palavra: para apagar os traços do seu crime. levaram. . Em lugar de Isabel. é necessário atividade e clemência." O nó da tragédia parecia inextricável. todas as dificuldades se tornam leves quando são reconhecidas.e todos reconhecem o Duque. o Duque aprenderá que. ordena a execução imediata de Cláudio. em Medida por medida. que ele já tinha abandonado. Frei Ludovico. afim de satisfazer os desejo de Ângelo.encadeia. verdadeiras vítimas dos seus plenos poderes. O símbolo dramático deste choque é uma lei impossível. Isabel saberá que a sua virtude se torna mais necessária no mundo que no convento. não estamos. Mas chegou o dia do perdão. "Medida por medida" . lei que nunca houve e que nunca haverá. E Isabel não entrará para o convento. Medida por medida é uma tragédia política: o problema é o abuso do poder. Ângelo ajoelha-se e espera a morte.

O fim da peça. e todas as dificuldades se tornam leves quando são reconhecidas". A intriga pela qual a pureza de Isabel é salva dá a impressão de uma farsa obscena. Isabel entrega-se realmente a Ângelo. Por isso. comparando-os a obras do mesmo gênero. feérica. mas as raras modificações indicam uma direção certa: Ângelo. no qual todos os vícios e crimes são perdoados e somente o inofensivo Lúcio é castigado. Mas Shakespeare assim o quis. instalado por tempo determinado. um espesso nevoeiro de sensualismo animal e sujo que faz suster a respiração aos espectadores. impossível na realidade. Essa atmosfera de irrealidade é um grave erro contra a veracidade dramática. e por cuja presença nós sabemos a todo momento "como tudo isso se encadeia. Experimentemos separar os elementos. . em Shakespeare. a boa fada é o Duque disfarçado. e que nos propõe o enigma desta peça: Medida por medida é uma comédia! O hábito de Shakespeare de misturar as cenas trágicas com as cômicas aí é quase insuportável. onde o mesmo assunto aparece em pura tragédia ou em pura comédia. este fim é uma sátira gritante contra o título Medida por medida. que inventou uma noiva de Ângelo. Devemos rir. ela é salva por uma intriga engenhosa. governador da província. o conto de Whetstone.num mundo de realidades. Em toda a peça há uma atmosfera irreal. devemos chorar? A impressão final é altamente desagradável. A maior parte dos críticos estão de acordo: uma obra-prima falhada. e esta limitação temporária do seu poder nos faz levar a ação ainda menos a sério. Pouco modificou a ação de sua fonte. segundo Whetstone. Toda a peça está cheia de repugnantes cenas de bordel. Mas será Medida por medida uma tragédia? Eis a modificação mais profunda do argumento. Diante de uma peça de Shakespeare. os espectadores. somente o espectador ou o crítico podem fracassar. Talvez não tenhamos compreendido por que o poeta encerrou uma tragédia numa comédia. e engenhosa demais para uma tragédia. é transformado em lugar-tenente. a peça é raramente representada. reconhecível somente por nós. No conto de Whetstone. Este método comparativo nos abrirá talvez o pensamento secreto do mais incompreendido dos poetas.

e depois ainda estaremos muito longe da Europa!" Isto enquanto o "revisor". que pagam gemendo. Tudo está em ordem: o prefeito só tem a velar para que "nenhum funcionário roube acima dos seus direitos legítimos". fazendo tinir o sabre. deixando uma carta onde tudo fica explicado. o verdadeiro revisor do tzar. a situação. para fazer a grande revisão e julgar severamente: medida por medida. a vitória estava duvidosa. no mesmo instante. Cada dia. Chlestakov reconhece. justamente o que havia sido formalmente proibido pelo Eleitor. Um dia. batalha que tornará a Prússia uma grande potência."a Europa ou a opinião pública? Da nossa cidade a Moscou a diligência leva quinze dias. de Nicolai Gogol. em grande uniforme. a centenas de milhas da capital. e numa pequena cidade do interior da Rússia. Na batalha decisiva contra os suecos. Por isso. o fundador do poder prussiano. crivado de dívidas. O príncipe de Homburgo é general do seu exército e noivo de sua sobrinha Natália. O prefeito julga-se praticamente independente. sempre dinheiro. o revisor aparece. que. A cena se passa sob o reino do tzar Nicolau I. e tira partido das aflições dos burocratas culpados para satisfazer a sua fome. é o jovem velhaco Chlestakov. e um belo dia desaparece. com as maiores honras. quando de repente. o temível inspetor do tzar.diz ele . "Que nos importa?" . e dinheiro. fugiu para a província e se vê acolhido. Os burocratas da cidade formam em volta do prefeito um grupo estupefato. de Heinrich von Kleist. aparece o revisor. chega até a arrancar ao prefeito um suspiro: "Ah! Se eu só soubessse exatamente os poderes de que ele está munido!" Logo saberá. jovens belas. A tragédia é o Príncipe Frederico de Homburgo. por isso. Na verdade. segundo a classe dos funcionários. faz o que pode. não aparece. o . O verdadeiro herói da peça é o Grande Eleitor Frederico Guilherme de Brandeburgo. com surpresa sua. Chlestakov torna-se mais insolente. conseguir refeições cuidadas e aventuras fáceis. Chega a estabelecer uma tarifa fixa. chefe despótico de uma burocracia totalmente corrompida.A comédia é O revisor. porém. mas o príncipe alcança-a com um ataque pelo flanco. Chlestakov compreende quanto o seu posto é temporário. Oferecem-lhe banquetes.

É preciso consciência clara. O Grande Eleitor é o primeiro servidor do seu Estado. a representação dramática provém do interior das almas profundamente angustiadas dos seus autores. A lei é a lei. Mas conhecemos Gogol e Kleist. É preciso que fique de pé a justiça. Enfim o soberano e o seu exército se encontram novamente e juntos gritam: "Abaixo os inimigos de Brandeburgo!". Mas o perdão é o perdão. de acordo com as leis marciais prussianas. começa a tremer lamentavelmente. por estudos de Simon . que se vinha desenrolando com uma grandiosidade romana. As aparências políticas das duas peças assentam em fundamentos religiosos. deverá morrer. Daí por diante a tragédia. que desafia a morte em inúmeras batalhas. e deu a ordem fatal. são duas grandes obras falhadas. se bem que as conseqüências tenham sido felizes. de perto. como o seu primo shakespeareano Cláudio. O príncipe. grito que acompanhará este exército numa série interminável de vitórias. porém muito feliz. Confirma. sem o trágico. toma novo rumo. embora o perdão já esteja assinado. O problema dessas criações é de profunda existencialidade.príncipe é culpado de insubordinação e. então. Sabe que a existência do Estado depende da inflexibilidade e da imparcialidade da lei. O revisor é a mais brilhante comédia social que existe. Entretanto. porque os autores queriam escrever obras inteiramente diferentes das que escreveram. Todavia o destino do Estado não deve depender de uma intuição. mesmo no sentido mais estrito da lei: Homburgo sofre de ataques de sonambulismo e em tal confusão não ouviu a proibição do ataque. Do homem Shakespeare não sabemos quase nada. e para educar o príncipe no cumprimento consciente dos seus deveres o Eleitor deixa subsistirlhe até o último momento a angústia ante a sentença de morte. Ele sabe que o príncipe está inocente. a sentença da corte marcial. Em vão os oficiais do mais leal dos exércitos revoltam-se e ameaçam o Eleitor de uma revolução a fim de salvar o amado general. Suplica a sua noiva que procure enternecer o terrível soberano e dele obter o perdão: em vão. O Príncipe Frederico de Homburgo é uma grande tragédia política. uma comédia desesperada. O coração do soberano está com os oficiais.

O herói da comédia O revisor é o príncipe do inferno. Somente Gogol. que eram entendidos nisso."a quinze dias de diligência. Na verdade. O elemento trágico da comédia é representado pelo problema do abuso do poder. Na aparência. ele era um fanático da Igreja ortodoxa e do tzar autocrata. O seu O revisor.e se acha com o direito de classificar os vícios segundo as ordens burocráticas . Mas aos monges da Tebaida. é verdade. Gogol amou e odiou a Rússia. O mundo oriental pensa por parábolas. enfim o ar em que o poeta vivia se apresentava tão cheio de pequenos demônios que ele não podia mais respirar. Não sabiam qual o poder que o verdadeiro revisor havia concedido.Frank e de Friedrich Braig. Moscou" . como o seu prefeito. porém. Em O revisor trata-se de pequenos funcionários. e O revisor é um apólogo."nenhum acima dos seus direitos legítimos" ao pecado. a si próprio. É o ponto em que a religião e a política. o Anticristo pelo Cristo. Como Dostoievski. os demônios apareciam como nuvens de insetos. tão infinitamente longe . o Anticristo. "Cidadãos" . Incapaz. de cristão. mas queria saber. porque o diabo lhe aparecia sempre como uma personagem cômica. a tragédia demoníaca é sempre cômica. Atrás da comédia social do russo e do drama político do prussiano há uma grande inquietação religiosa e duas tragédias humanas. e talvez fosse o próprio revisor do próprio tzar também um falso revisor. que quantidade de injustiças e de crimes é permitida a um mundo que se chama. vêm a chocar-se. talvez. ao mesmo tempo.escrevia ele . via na Rússia a realidade infernal. não sabia "os poderes de que ele está munido". Gogol não sabia. e Gogol é o maior demonólogo da literatura universal. quadro simbólico da humanidade que acredita em Deus. ao falso. em relação ao verdadeiro revisor celeste. de iludir-se. no sentido mais alto da palavra. concebido como tragédia. O seu romance humorístico Almas mortas é a epopéia dantesca da Rússia tzarista. o problema da Medida por medida. O revisor fracassou por esta dúvida: a tragédia da humanidade desapareceu atrás da comédia burocrática. Este mundo está bastante cego para não tomar o falso revisor pelo verdadeiro. é uma pura comédia.

e Kleist. mas cuja luz poética é bastante forte para esclarecer o suicídio do seu autor. que conhecia toda a fragilidade da natureza humana. Kleist via a única salvação do seu país num homem de Estado verdadeiramente cristão. O revisor e o Príncipe de Homburgo. heróis trágicos. Kleist estava possuído do problema dos "plenos poderes". Para evitar a comédia. Mas a salvação é impossível sem a violência. presos às confusões dos seus subconscientes. frágeis. que tremia em face da morte." O fim foi a loucura religiosa e a morte voluntária. e imaginou como tal o seu Grande Eleitor. era incapaz de criar um verdadeiro herói que fosse ao mesmo tempo um verdadeiro cristão. e representar na cena. comédia disfarçada em tragédia. O revisor. ele queria criar a tragédia pura. mas a estragava pela fraqueza tão humana do seu príncipe. homens independentes. auge do cômico. Eis por que ele criou um supercristão. o julgamento da história não vos pede justificativa") e a intriga torturante da sua comédia A bilha quebrada. "políticas" no sentido de Kierkegaard: a força supranatural irrompe para o mundo. a todo custo. se curvava perante Napoleão. que nos devorarão. humilhando-o até à comicidade. do problema de Medida por medida.em 1846 . queria evocar na política. enquanto sabia os homens fracos. . Medida por medida. eis por que o sonambulismo o interessava fortemente e a "purificação das consciências" o ocupava. na qual um juiz culpado tem de julgar o seu próprio crime. cristão sem o saber. e no sentido mais alto da palavra: Kleist. Vacilava entre o grito de vingança sem escrúpulos da Batalha de Armínio ("Matai-os. na sua opinião. O Príncipe Frederico de Homburgo foi escrito quando a Prússia. Daí estar excluída a tragédia pura. o espetáculo das marionnettes. eis por que o espetáculo da mais perfeita inconsciência o perseguia. a falsa bondade do Eleitor já não salvam a peça."tenho medo! Desses insetos nascem monstros gigantescos. É o ponto em que a religião e a política se chocam. A intriga artificial do sonambulismo. livres. humilhada. Elevou os poderes do Grande Eleitor até torná-lo um semideus. espírito cristão sem o saber. o Príncipe de Homburgo são três tragédias políticas. comédias involuntárias.

a única. discussões que atingem muitas vezes o ridículo.colocam-nos perante o problema da possibilidade de um teatro cristão. A grandeza do trágico cristão aparece logo quando a face de Deus é coberta. nesta comédia sombria. como nos romances de Franz Kafka: a divindade escondida nos bastidores de um mundo sem Deus. É a tragédia do homem cujo "poder" neste mundo é temporário como o poder de Ângelo. Na obra de Shakespeare. Com este naturalismo intrépido. A única exceção. entregue à sua vontade e à sua fatalidade. mesmo em Deus. O revisor e o Príncipe de Homburgo resultam em comédias involuntárias. Deus está ausente. pelo qual Shakespeare modificou o assunto para elevá-lo do político ao humano. porque Deus está ausente do seu teatro acristão. é Medida por medida. A consciência de uma Providência. porque concebidos no espírito dum teatro cristão. se levanta como advertência. na terra. sabe o rei Lear. que é a prerrogativa do . da lei e do perdão do qual nossa vida material depende. O que sabemos é o que o poeta do Rei Lear é o maior pessimista da literatura universal. que vela sobre os nossos destinos. a maturidade pela morte. A peça é dedicada a todos nós. Dizem que a terrível fragilidade de todos os homens. de Calderón. Traço profundo. Não sabemos quase nada do homem Shakespeare. com a divindade anônima. e Shakespeare podia conceber Medida por medida como comédia. está maravilhosamente tranqüilizada pela presença animadora do Duque disfarçado. que. O homem shakespeareano é um joguete dos deuses que nos matam como moscas para passar o tempo. em vestes altamente cômicas. quer dizer. parece excluir o trágico. E neste sentido Shakespeare é um poeta sem Deus. O pessimista é um homem sem esperança. nas obras cristãs de poetas nãocristãos. a única saída. desde Kierkegaard. onde o happy end da Vida es sueño. nesta obra imensa. Não é somente a tragédia do Estado. O trágico cristão só pode aparecer. Deus está ausente. sabemos impossível. O homem de Shakespeare está só no mundo. Nossa vida não é mais do que um sonho cercado de um profundo sono. "ripeness is all". e eu não pretendo meter-me em discussões sobre a sua verdadeira religião e o seu pretenso catolicismo.

verdadeira antítese do Estado. já que vivemos. e nós não sabemos mais se devemos rir ou chorar. os mais fracos e os mais falíveis: na sexualidade. do sonho insensato da vida. Mas está. o maior intérprete shakespeareano. A peça tem um único verdadeiro espectador: o Duque. . Mas "todas as dificuldades se tornam leves quando são reconhecidas". "virtude do homem regenerado pela graça divina". mas também é graças a ele que se salva a verdade humana da peça. dos deuses que nos matam como moscas. esse drama. Assim Ângelo é. Oculto. É este artifício sobre-humano que salva os homens de Medida por medida do círculo de ferro em que Shakespeare os aprisionou. então é a graça que nos salva da justiça do "Medida por medida". nós outros homens. em todos os meus passos. O conflito dessas duas forças em Medida por medida é apresentado no costume desenfreado e turbulento da Renascença. nós mesmos. da morte que já não é a única justiça. em que todos os homens fracassaram. que é inteiramente artifício humano. "atributo de Deus"." É o poder divino oculto que acompanha toda a nossa vida. chamou-lhe "uma personagem verdadeiramente misteriosa de teatro".maior dos poetas. Medida por medida nos desagrada porque ultrapassa a nossa medida. E nós. com o artifício das suas intrigas. no fim. que nos liga profundamente à natureza. e dizia-o no sentido depreciativo para caracterizar o artifício teatral das intrigas do Duque. É preciso reconhecer que o Duque. ele é a terrível divindade da justiça implacável. Shakespeare fixou esta tragédia humana no ponto onde nos achamos. Um "poder divino" salva a justiça pelo perdão. regenerado pela sinceridade da sua confissão: "Ó meu Senhor! eu seria mais culpado que a minha culpabilidade se eu pensasse poder ficar despercebido. porque vós me acompanhastes como um poder divino. A vida aí está tão integralmente representada que a plenitude do trágico e do cômico nos sufoca. espectadores. nós fracassamos com eles. Mas quando se constitui juiz e desvenda a sua face. ultrapassa toda a veracidade humana. mais presente que o pretenso diabo da comédia de Gogol ou o pretenso deus da tragédia de Kleist. na verdade. Quem é o Duque? Hazlitt. Deus parece ausente.

e que este Petersburgo dostoievskiano é. percebe-se que Dostoievski não expõe nunca o exterior das suas personagens. e deixa apenas admirar o "forte colorido russo". o fantasma de uma cidade visionária. Quando. ninguém escapa à sua influência subjugadora. em 1870. e como esse bárbaro barbado. decerto o mais poderoso escritor do século XIX. pois a sua obra constitui o marco entre dois séculos da literatura. ao menos. os europeus entrincheiram-se. Daí se origina a pretensão de reclamar Dostoievski em favor das rebeliões mais subversivas do espírito anárquico do après-guerre. a estúpida combinação de "Tolstoi e Dostoievski" fecha. mas unicamente a paisagem urbana de São Petersburgo. esta psicologia requintada. E o espírito sensitivo do fin de siècle admira. Dostoievski é. Depois. O que ele fixa . num baluarte de interpretações erradas.e com que segurança! . por este "e" comparativo. parece irresistível. os críticos literários não viam na obra senão um extraordinário romance policial. nem sequer os mais contrários. ou do século XX.ENSAIOS DE INTERPRETAÇÃO DOSTOIEVSKIANA EXISTEM poucos escritores cuja obra tenha sido tão tenazmente mal compreendida como a de Dostoievski. apareceram as primeiras traduções do Raskolnikov. porém. Recordações da casa dos mortos alimentou neles o novo equívoco de se encontrarem diante de um naturalista à maneira de Zola. e certa interpretação anarquista ressoa até no livro de André Gide. sobretudo.são as paisagens da alma. Parece. o caminho da compreensão. que ele não descreve nunca a paisagem russa. que toda a Europa tentar resistir-lhe. principalmente. Que esta . das quais conhecemos tão perfeitamente os mais íntimos movimentos da alma. Literariamente. tudo o que é prédostoievskiano é pré-histórico. com a face sulcada de sofrimentos. Dostoievski será um assunto de predileção da psicanálise. na qual acredita reconhecer a sua própria decadência. instintivamente e obstinadamente. se não o maior.

é preciso admitir que daí para uma revolução total. Berdiaev revela o Dostoievski hagiocrata. . Reconhecendo-se que certas acusações violentas à Europa são plenamente justificadas. às quais ele não desejaria fugir. distinguir entre os frutos da inspiração poética. Mas como aceitar um poeta cujo pensamento nos abala? Dostoievski não faz "arte pela arte". objeto somente da crítica psicológica e da história literária. à nossa maneira. reacionário intratável: ajoelha-se. e as opiniões íntimas do autor. o pastor Thurneysen descobre nele o transcendentalista. cumpre admitir que na obra de Dostoievski a política ocupa um lugar maior do que a literatura. Em virtude de tal distinção. igualmente. Inútil. a obra de arte se tornaria o fruto sublime dum solo impuro. É justamente isto. e que se transformará. e à sua concepção de uma humanidade cristã ele mistura um ódio violento à Europa e ao sonho de um Império Universal russo. Nesse mundo. produto exclusivo do subconsciente. como também ante o retrato do tzar. em pesadelo bolchevista. Ao contrário. Enquanto quase todos os poetas russos do século são revolucionários. ele nos arrasta até às últimas conseqüências. válidos também para nós. resultado de uma partenogênese misteriosa. e que as suas convicções políticas nos surpreendem. Dostoievski é conservador. não somente perante as imagens da Igreja russa. mesmo espiritualista. liberais. que se perde em especulações gnósticas. dos quais somente o primeiro custa. de responsabilidades. não existe lugar para nós outros. quase um Pai da Igreja. para nós outros. democratas e socialistas. Mas a satisfação dessas descobertas é perturbada pelo conhecimento das estranhas convicções políticas do escritor. sonho que constituiu antigamente. vão poucos passos. Vjatcheslav Ivanov reconhece o individualismo cristão de Dostoievski. o pesadelo do pan-eslavismo. Depois de Merejkovski. melhor. e nós não aceitaríamos esse artifício unicamente para isentar o autor. perto do cristianismo "incondicional" dos neocalvinistas.psicologia se baseia numa antropologia cristã foi a descoberta do após-guerra. seja ele negro ou vermelho. ou. Inúteis quaisquer concessões. amanhã.

exterminar. comentário indispensável dos seus romances. é "ocidental". que muitas censuras de Dostoievski à Europa são justificadas. como no parlamento inglês. e o é apaixonadamente. No Diário de um escritor. ele afirma a decadência do Ocidente. Alexandre III. o dos "Ocidentais". estão impregnadas de política. O tzar Alexandre II. pela força. Admitir. Mas o é contra nós. E é diante do retrato do tzar Alexandre III que Dostoievski se ajoelha. A literatura invade. o que lhes vale a acusação de obscurantistas. os "eslavófilos". e prega o domínio universal dos eslavos ortodoxos. o emancipador dos camponeses. Um. O seu sucessor. Seria necessário aceitar essas convicções políticas para poder aprovar integralmente o escritor. e a literatura é a única voz do povo. Dostoievski também é revolucionário. então. Existem aí. para isto é preciso primeiramente destruir as instituições estabelecidas. glorificam o passado nacional. . mesmo o asiático. Faz-se mister destruir a Europa. a apostasia da Igreja romana.A literatura russa do século XIX é profundamente política. por sua vez. e isso é impossível. Dostoievski é escritor político. erguer o Império Eslavo. o que lhes vale a acusação de niilismo. "o cemitério das artes e o foco das revoluções". em plena evolução política e social. derrubar a Europa corrompida. a ciência. dois partidos opostos. Os outros. Todas as coisas. todas as nacionalidades e religiões estrangeiras que se acham sobre o território russo. Admitir a coexistência de uma força artística e de um pensamento confuso seria arriscar muito. faz do eslavofilismo a doutrina oficial do pan-eslavismo. mas que elas derivam de outra fonte que não desse pan-eslavismo louco? Quer dizer que o pan-eslavismo representa na obra de Dostoievski papel diferente do que o supôs o escritor. Primeira possibilidade de achar um terreno onde Dostoievski e nós poderemos encontrar-nos. O país não tem imprensa nem tribuna. que glorificam a Europa e desejam a europeização integral da Rússia. a política. a própria teologia. voltar-se para o despotismo asiático. nem mesmo cátedras livres. É irritante. é necessário esmagar as influências estrangeiras. A literatura torna-se uma tribuna.

Dostoievski é mestre em denunciar o mundo inimigo. via primeiramente os problemas e depois as personagens. um Kirillov.. os verdadeiros russos. às vezes."E Deus?" Ele começa a balbuciar: . Não lutam pelos seus ideais. é muito curioso. Acaba ou pela negação desoladora do Idiota ou pelas vagas promessas de Raskolnikov e dos Karamazov. o "idiota" ideal. um Ivan Karamazov . convertido no fim de Crime e castigo. ele professa a fé no tzar.com grande simpatia. ao terminar Os irmãos Karamazov. Quando se interroga o eslavófilo Schatov sobre as suas convicções. no povo russo.Quando Dostoievski escrevia um romance. . defendem. um Aljoscha. acima de tudo. representam a esperança do futuro. Dostoievski não crê nos seus próprios ideais. mas os niilistas verdadeiramente idiotas. O aspecto dos seus manuscritos. O príncipe Myschkin. de que o próprio Dostoievski era revolucionário e ateu. Isto explica o mal-entendido. e.. e que estes constituem. Depois. sucumbe. ou o é apenas pelo anjo vencido. demônios.um Raskolnikov.. Aljoscha. eu.. que simbolizam os seus problemas. Ele sabe que o mundo não é governado pelos anjos. No começo ele emenda mais do que escreve. mas Dostoievski nunca escreveu as prometidas continuações desses romances. os Possessos. os intérpretes do escritor." O futuro do verbo acreditar é traidor. eu acreditarei também em Deus. mas não consegue jamais criar a sua visão redentora. anjos. conservam-se como sombras. representando catedrais. Parece que ele forma os seus "anticristos" . Raskolnikov. e as margens são cheias de figuras.. serão os vencedores. . e os desenhos simbólicos se transformam em retratos imaginários. o seu direito de viver entre as figuras mais fortes dos inimigos. um Schatov. Dostoievski é de uma perfeita imparcialidade artística. e esta comparação prova aquilo que a interpretação dos textos deixava prever: as preferências do poeta são para os seus inimigos ideológicos. a personificação começa. As outras personagens."Eu.. a comparação permite estabelecer as preferências do poeta. o texto corre mais ligeiro. muito tempo reinante. escapam. possivelmente. na ortodoxia oriental. muitos dos quais foram editados em fac simile.

um proletariado desarraigado. Soeren Kierkegaard. as causas sociais da miséria e da humilhação. O seu sonho de uma humanidade espiritualizada é o de uma humanidade emancipada das forças econômicas que. na qual reina o . mas desta vez ateísta.Seria ele verdadeiramente um revolucionário? Com efeito. de onde um novo comunismo nasce. contra o hegelianismo anticristão dos protestantes liberais? Ambos combatem a idéia que não se realiza: Kierkegaard contra os pastores filosóficos que não seguem o Evangelho. uma vez desencadeadas. a coletividade agrária dos camponeses russos. Ele desejava impedir a invasão do capitalismo na Rússia patriarcal. Irrita-se contra a revolução política. no apêndice ao Discurso sobre Puchkin. Inútil acentuar o sentimento muitas vezes sádico de Dostoievski para explicar por ele todas as formas do sofrimento. mas não sabe sempre o que diz. a burguesia e o socialismo igualmente materialistas. Já compararam a luta de Dostoievski contra o hegelianismo revolucionário dos socialistas com a luta deste outro revolucionário cristão. a utopia da Igreja-Estado. Kierkegaard transforma em utopia o Sermão da Montanha. O negativismo do príncipe Myschkin em relação ao seu meio tem qualquer coisa de perigoso. qualquer leitor o sabe. A religião do Staretz. não se assemelha em nada à doutrina da Igreja oficial. Mas luta pela revolução social. que criou. em troca. Em Os possessos. Dostoievski sabe perfeitamente o que quer dizer. Dostoievski levanta. onde os apóstolos viviam num pretenso comunismo cristão. Dostoievski predisse claramente esta catástrofe. Dostoievski contra os chefes esquerdistas que não cumprem suas promessas. Dostoievski erige em utopia a velha Igreja de Jerusalém. nos Karamazov. como o conservou a organização econômica de alguns grandes mosteiros russos. tornariam inevitável a queda no abismo materialista. a sua ética de humildade não fornece a razão de Estado no regime tzarista. Essas instituições primitivas têm um inimigo terrível: a nova burguesia dos "ocidentais". e o continua o mir. Contra esses irmãos inimigos. Raramente o romancista se esquece de indicar a "condição humana".

Contra as forças feudais. ele aprova a revolução. e ele teria saudado a revolução verdadeiramente russa. os véus ideológicos lhe cairiam dos olhos. Então. Ao contrário. e utilizam as mesmas expressões de desprezo: "o operário de Londres. este protagonista da autocracia tzarista e da Igreja ortodoxa. Dostoievski é um pequenoburguês. dizem os bolchevistas. o liberal Stefan Verkhovenski é o pai do socialista Piotr e o preceptor do . na qual os social-democratas e os burgueses estavam ligados contra o tzar. derrotaram o tzar e a burguesia ao mesmo tempo. pelo menos para um socialista europeu? Mas houve alguma vez um pequeno-burguês europeu. que tivesse o ar de um Dostoievski? Como sempre.comunismo da perfeita fraternidade cristã. os operários. Mas Dostoievski teria sido partidário da revolução de 1917. Não existe ainda movimento operário. em 1917. Publicaram-lhe até uma edição monumental das Obras Completas. com os ataques mais violentos ao socialismo e à revolução: não se deixam enganar pelas aparências. Tiremos a fraseologia teológica: fica um bolchevismo um tanto idealizado. mas de nenhuma significação real. Essa "fraternidade" é russa e bolchevista ao mesmo tempo. Um ponto. Todos os ataques que ele dirige à revolução justificam-se em vista da revolução de 1905. restos educacionais e supersticiosos. com todos os manuscritos. Toda a sua vida este nacionalista falou do cristianismo verdadeiramente russo. enfim. não se escandalizaram nem mesmo com os seus artigos no jornal. Em Os possessos. de contato. ambos imbuídos de "fraternidade eslava". Dostoievski e Lenin. Essa ideologia é somente um véu sobre a condição social. Mas Dostoievski vê mais claro. Dostoievski alia-se às forças do passado para combater a invasão burguesa. É por isso que os bolchevistas nunca baniram este profeta cristão. não é senão um reflexo ideológico. a argumentação marxista encontra acertadamente o lado negativo e falta-lhe completamente o lado positivo. o burguês de Paris e o professor de Heidelberg. mesmo genial. odeiam o individualismo europeu. até então inéditos. Eis a interpretação bolchevista. todos a mesma coisa". Essa fraseologia dostoievskiana. em que somente eles. Mas a revolução à qual os "ocidentais" o convidam é a revolução dos burgueses.

estão de acordo: Dostoievski não visou.é a religião do Anticristo. Dostoievski é cristão. de acordo com Berdiaev. onde o homem se torna consciente da sua dependência de Deus. Vosso pretenso cristianismo . Ao lado do operário de Londres. cada vez mais violenta. O socialismo. Creio. Nós também. Eis aí o assunto de O Grande Inquisidor. e tem necessidade da conversão e da fraternidade cristã. Dostoievski disse ele . que alivia o homem das responsabilidades da sua existência metafísica? Quanto a um aspecto. Para o pai Verkhovenski a Madona Sistina é um ideal estético. Que me conste. é apenas a propagação do egoísmo burguês entre os proletários. cujo fim não é a coletividade bolchevista. A última aproximação fornece um tratado de antropologia cristã. As interpretações formam legião. para seu filho. só um apologista católico. ela foi mil vezes destruída e volta sempre. ele coloca o padre romano. mas unicamente a Igreja dos homens. O liberalismo começou a libertar a humanidade da sua base religiosa.niilista Stavrogin. para Dostoievski. absolutamente. aproximando-se da teologia de Pascal e dos protestantes da "teologia dialética". permanece odioso. Protestos contra toda a organização eclesiástica.diz ele . mas a "comunhão dos santos". Pois Dostoievski nos recusa o direito de nos chamarmos cristãos. quase todos os comentadores. católicos ou não-católicos. herança do velho sectarismo eslavo de uma Igreja invisível. que esta Igreja não tem que temer as polêmicas. Mas o grande psicólogo desce até os mais profundos recantos da alma. A censura é arquivelha. O eu.acusa a Igreja Romana de já não ser a Igreja de Deus. mas superando o pessimismo pela aleluia da ressurreição. Ao contrário. reconheceu o verdadeiro alcance da acusação. de acordo com Simon Frank. enfim? Não. porém.diz o . A primeira aproximação sugere quase um tratado de sociologia cristão. sem padres e sem sacramentos? Protestos. ou não visou unicamente. e deve mesmo sentir-se orgulhosa desta polêmica. do burguês de Paris e do professor de Heidelberg. um fetiche desprezível. Isto . a Igreja Romana. na sua superficialidade. contra toda idéia de uma elite dirigente. Campo de encontro. o cônego Paul Simon.

todo o nosso mundo europeu.que Dostoievski censura a Igreja romana. até ao risco de deixar de ser humana. razão por que. no dizer de Rosmini. mais profundamente do que nunca. Nós outros. a nossa civilização cristã. nos censura violentamente. cristã. Conseqüência gravíssima do fato de a Rússia não ter tido Renascença. justamente por isso. meio oriental. Ela é. porém. nunca ter conhecido a Antiguidade senão por intermédio da especulação gnóstica. é a Igreja de Deus e a Igreja dos homens. nós nos encontraremos. até. Mas. Porém. é a nossa razão de viver. espiritualista ou bolchevista. continuará humanista. e é esse humanismo que a Rússia bárbara. deve ser a rocha da nossa condição humana.continua . alguma coisa de sobre-humano. tendo perdido as humanidades. Assim é.deve ter uma causa profunda. mais ainda. daí vem a eterna "possibilidade" de "humanizar-se". É deste humanismo . "as cinco chagas do corpo humano de Cristo não cessam de sangrar sobre o corpo da sua Igreja". a nossa civilização.a Europa deixou. há muito tempo.cônego . A Rússia nunca foi humanista. A Igreja Romana não é espiritualista.e eis a terrível justificação das censuras dostoievskianas . precisamente lá. O abismo entre nós e ele está aberto. profundamente humana. Mas. As "Humanidades" constituem a base da nossa civilização. a advogada da humanidade perante o trono de Deus. o humanismo descristianizado. Mas lá. Aqui. É uma questão de vida ou morte. O humanismo não é a nossa religião. temporal ou espiritual. assim mesmo. ela abandona o homem às misérias terrestres. nesse cristianismo espiritualista à margem do abismo. mesmo demasiadamente. ao mesmo tempo. enquanto viver. deve haver uma eterna "possibilidade". nos espreita. de ser cristã.ousemos o termo . Mas continuou. sim. e . chegará ao fim. nunca deixaremos de sentir. A Igreja espiritualista. esta Igreja é. petrificado na letra morta da filologia . cá e lá. A Europa . da qual Dostoievski se faz apologista. e permitiu esta confusão terrível: certas questões e interrogações muito cristãs foram deixadas para o bolchevismo. eleva-se para o alto e abandona os homens.se nisto não há verdade. A morte.

Em milhares de exemplares esse crime dum pintor famoso está divulgado no mundo. e esse homem é cego.170 "victorious psalms". A atitude imperiosa do rebelde restabelece o trono de Deus. Mas não sejamos intransigentes diante dessa face barbada. Sempre é necessário saber aquilo que nos separa e aquilo que nos une. eles nos devoram. disfarçado em costume histórico. a luta dos poderes das trevas contra os poderes da luz recomeça. por um esforço de síntese. É o poeta da teogonia. o cristianismo desumanizado. Cumpre recomeçar. É exatamente o retrato de Milton que uma posteridade incompreensiva fez à sua própria imagem: é Milton. Nuvens imensas conglobam-se em formações monstruosas: a luta da formação do mundo. o destino da humanidade está-se decidindo. Mais claramente: esses perigos já não nos espreitam. o "clássico". . O que nos separa é muito e muito. O cego Milton ditando o "Paraíso Perdido" às suas filhas.ou endurecido no disfarce de um neocatolicismo neopagão. Esse cantor cego é Milton. por um "humanismo cristão". Para poder dignamente apreciar o tamanho de Milton. A sua coragem de rebelde indomável vence as trevas e torna-se "Saintly shout and solemn jubilee". sulcada pelos sofrimentos. No gabinete de trabalho de meu pai achava-se o quadro horroroso de Munkacsy. que lance uma ponte sobre o abismo. Cumpre recristianizar o mundo e a fé. preciso afugentar uma lembrança feia. O que nos une é o Cristo. e "tout le reste est littérature".171 "endless morn of light". Exorciza o bramido das ondas do mar desconhecido com a magia das ondas verbais do seu canto noturno. A CONSCIÊNCIA CRISTÃ DE MILTON PENSANDO em Milton. Mas participa da luta cósmica nas profundezas da alma. retrato dum burguês de 1880. vejo o firmamento noturno sobre o sombrio mar do Norte. O representante dessa humanidade é um homem solitário à margem do abismo. petrificado pelo dogma da Igreja sectária ou endurecido pela dissimulação do evangelho socialista. Lá. intermináveis auroras de luz.

conhecem-se os clássicos desde a infância. cottages bem inglesas.Que é um clássico? As definições imbecis abundam. entre mil alusões mitológicas ao gosto renascentista. Milton é a última voz da velha Inglaterra alegre. um clássico é um autor desconhecido. ninfas bem inglesas brincam entre flores selvagens. a escola. doce Shakespeare. a admirável elegia Lycidas. alusões. o ar estão cheios de citações. filho da Imaginação. mas também a alegria pensativa do poeta que o Allegro chama "sweetest Shakespeare. No Paraíso Perdido ressoam todas as vozes humanas e mais que humanas. "most musical. é inesquecível a melancolia musical do Penseroso. para poderem vender livros que ninguém gosta de ler. A grandeza dum poeta consiste em ver as coisas pela primeira vez. como se ninguém as tivesse visto antes. com a música mágica das suas palavras. interpretações. Pecado. e as buzinas de caça do Allegro ressoam pelas "fresh woods and pastures".173 as suas noites sob o firmamento de Hécate. talvez o mais belo poema da língua inglesa. Mas seria apenas um artista incomparável do verso se não tivesse aplicado o seu domínio da língua em evocar. a luta entre Deus e Satanás e a Redenção. sobre esse poema cai o doce poente do sol de Shakespeare. Há frescura virgiliana nesse poema. e um "clássico" insuportável volta a ser o grande poeta de outrora por uma leitura "pela primeira vez". Em virtude dessa definição comercial. da Merry Old England. o esplendor . o maior poeta da maior das literaturas. perturbando os pastores Corydon e Thyrsis em aldeias.172 matas frescas e prados. as leituras de Platão ao pé da lareira. É inesquecível como. Milton seria imortal já com esses dois poemas: um artista autêntico. a majestade divina e a grandeza demoníaca dos infernos. o drama universal: Criação. Comece-se com o pequeno poema L'Allegro and Il Penseroso. Acredito ser o termo uma invenção dos livreiros. Fancy's child". à parte o gênio universal de Shakespeare. porque toda a gente os conhece. Basta ler Milton "pela primeira vez" para saber-se que ele é. e na hora da primeira leitura o clássico está já "conhecido" e incompreensível. Realmente. most melancholy". Maldição. o mais encantador da língua. Ninguém conhece os clássicos. A literatura. cantou-lhe o hino funeral.

e o lento passo dos expulsos do Éden. é mais rebelde ainda na sua prosa. a música ruidosa. Já têm sido notadas muitas vezes as simpatias secretas de Milton pelo seu Satanás. nem do profundo sentimento religioso do poeta. até os últimos instantes. no fim dos tempos. contra toda Igreja estabelecida. Voice and Verse". Milton também sacudiu as colunas do templo.174 O Paradise Lost é o mais sublime poema da literatura universal. do papa ou do Estado. Como o seu Samson Agonistes. Luta contra qualquer Igreja que se arrogue a orientação das consciências. a mais viril da língua inglesa. O próprio Milton é um rebelado perpétuo e impenitente. Essa sublimidade não é o produto das magnificências da língua. enfim. segundo a qual o próprio Diabo receberá. secretário literário do terrível Cromwell. e mais ainda contra o próprio . música haendeliana antes de Haendel. o "undisturbed Song" das "sphere-born harmonious Sisters. A sublimidade do Paradise Lost reside justamente nesse elemento que parece contradizer a dignidade do assunto divino: na audácia quase temerária do poeta religioso. Não é rebelado pelo apetite anarquista da destruição. a Apokatástasis. as ânsias da tentação e do arrependimento. mas pela mais íntima ânsia da consciência. a felicidade voluptuosa dos primeiros homens no Paraíso. para quem o drama teológico era um sofrimento pessoal. nem sequer da grandeza sem igual do assunto. de mãos dadas. O poema não seria tão dramático e tão humano se Milton estivesse partidariamente ao lado do Todo-Poderoso.dos anjos de alto e de baixo. O fundo das suas violentas polêmicas é uma luta perpétua pela liberdade da consciência individual e contra qualquer poder que ouse sobrepor-se à consciência livre do homem. Mas Milton sente com o anjo das trevas. Com efeito. o perdão de Deus. pelo mundo e pelos tempos. Milton professou o velho dogma dos heréticos origenistas. a quem a vitória final está assegurada. um rebelado que está certo do perdão final de Deus. e há nele. Não é esta a única heresia de que o puritano Milton se tornou culpado. no caminhar solitário. rebelado contra todas as leis humanas e contra algumas leis divinas. o velho herói cego entre os filistinos de Gaza. Milton. com o primeiro e o modelo de todos os rebelados.

pacificamente. reprovada por todas as Igrejas. Como no poema." E no mesmo tom. Na época alegre da Restauração. "Após a encarnação de Deus em forma humana" . Milton é sociniano. era solitário como o seu Samson. de 1662. para um ortodoxo. aquele século dominado pela classe média dos Dissenters. Milton revela-se quase um maniqueu. Ensina ter sido criado o mundo. como acusou a indissolubilidade do matrimônio. um deicida.Estado. num panfleto em favor do divórcio: "Aquele que coloca o matrimônio ou qualquer outra instituição acima do homem ou da clara exigência da misericórdia. um clássico da família inglesa: fazem presente dos livros de Milton às crianças. é culpado de morte. seja ele católico ou protestante. crente na luta eterna entre o Bem e o Mal. chega a recomendar a poligamia. acredita ser Jesus Cristo uma criatura de Deus. e que não ousaram publicar antes de 1823. na Defensio pro populo Anglicano "nenhum homem tem mais um direito divino. era um excomungado. dos poetas cristãos não seria um cristão! Pergunta imperiosa: como foi possível a esse poeta haver-se tornado um "clássico"? Bem entendido. e um rei que se arroga a soberania que cabe só a Deus. conforme o Velho Testamento. Como é isso possível? Milton não foi sempre um clássico.escreve ele. deixam-no empoeirar-se nas estantes. O maior. ele que defendeu nessa ocasião o seu próprio divórcio. um regicida e. ariano. não do Nada. o seu destino foi continuar entre os filistinos. que é eterna. os descendentes dos velhos puritanos." No tratado De doctrina christiana. depois de Dante. Ensina a doutrina da graça dos arminianos. Milton não crê na divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. E como o Paradise Lost já o fez suspeitar. nos aniversários. Na vida. Cheio é esse tratado de conceitos heréticos e não-conformistas. e defendeu-a com a mesma ânsia profunda no trêmulo da voz. ao lado das coleções de sermões da Igreja Anglicana. mas da matéria. não é senão um fariseu. Só o século XVIII o colocou no trono da poesia inglesa. Rejeita o batismo das crianças. A pena de Milton defendeu a execução do rei Carlos I. Mas já não são os puritanos . lêem Milton às tardes de domingo. prisioneiro entre os filistinos de Gaza.

Com efeito. Milton. Milton é poeta da Renascença. Milton parece o primeiro grande poeta da meio descrente e muito liberal burguesia. Milton tornou-se poeta dum cristianismo bem moderado. como o romantismo alemão está relacionado com a voga do "segundo pietismo". muito relacionado com o movimento metodista de Wesley. ele antecipa o conceito de "espaço" newtoniano. É um puritanismo razoável. os conceitos da física de Galilei. Antes de tudo. é visível na angústia religiosa de Cowper. como as rebeliões políticas de Milton parecem preparar ideologicamente as revoluções européias e americanas. mas os seus versos classicistas escondem um conteúdo sentimental e. Coleridge. Não se esqueça o forte sentimento religioso no romantismo inglês. que o conhecem sem o ter lido. amolecido. Wordsworth. era um conhecedor de física e astronomia. Um estudo de Carl Haemmerle mostrou as relações de Milton com a velha escola nominalista de Oxford. que não compreendiam o "clássico" Milton. que vai de Bacon e Galilei até os Enciclopedistas e à Revolução Francesa. no século XVIII. Em virtude desse destino literário póstumo. um pouco racionalista. e o protestantismo um precursor do deísmo. Milton pertence à grande corrente européia da Aufklärung ou Enlightenment. Esse puritanismo desinfetado chegou a desinfetar Milton. por vezes. que não é senão um Deus sem poder. Poeta indiscutido das classes médias bem-pensantes. onde um Occam e um William de Heytesbury ensinavam. em Blake. A sua influência literária começa tarde. tranqüilizado. não compreendiam também essa religiosidade protestante. igualmente distante da descrença atrevida dos aristocratas e da credulidade ingênua dos camponeses. Para eles a Reforma era uma revolução contra a Idade Média. Os historiadores do século XIX. surgem objeções de ordem literária e crítica contra essa falsa aparência. com efeito. já no século XIV. Milton é um pré-romântico. Parece que Milton ressuscitou as velhas heresias gnósticas. só para minar a ortodoxa fé cristã. do liberalismo religioso e político e da democracia. Um clássico. Desde os grandes estudos de Ernst .de Cromwell. em todo o pré-romantismo e romantismo ingleses. romântico.

que os estudos miltonianos de Denis Saurat esclarecem. Milton teve conhecimentos da Cabala judia que o erudito rabino Manasse ben Israel introduzira na Inglaterra. Abstraindo das conseqüências não intencionais. para continuar no terreno da consciência religiosa. mas sim religiosa. que acompanham a grande revolução religiosa. para quem o mundo exterior morrera. que o aproxima dos cristianismos heréticos dos eslavos. Não está sob o signo do progresso. era na época em que o filósofo Henry More. o "fundo profundo". o Zohar. platônico de Cambridge. aproximando-o dos sectários fantásticos. mas para reconstrui-lo como Igreja invisível nas almas. e que tinha no sangue a rebelião ingênua do camponês Petr Chelcicky e as . filósofo também da preferência de Newton. Milton é o maior poeta dessa cosmologia mística. influíram nas idéias de Milton a respeito do maniqueísmo e da criação do mundo. o cristianismo de Milton adquiriu um aspecto fantástico. duma psicomaquia e duma teogonia. Milton é o poeta desse protestantismo. na Inglaterra. traduzira o livro fundamental da Cabala. que se refugiou. Mas as especulações místicas do sábio sapateiro silesiano sobre o Urgrund. A sua luta pela liberdade da consciência é uma luta em prol da consciência cristã. pode-se definir: esses puritanos não destruíram a Igreja para abolir o cristianismo. O seu gênio poético foi fantástico. e os boehmeanos ingleses Lee e Pordage tiraram do seu mestre o dogma da Apokastástasis. em 1641.Troeltsch o sabemos melhor: o velho protestantismo foi uma revolução não filosófica nem política. um pouco oriental. Os mesmos platônicos de Cambridge estudavam assiduamente o filósofo místico alemão Jacob Boehme. mas sob o signo da Cruz. Daí a sua suscetibilidade às influências estranhas. e que observou com os olhos do espírito a luta cósmica. A grande luta entre Deus e Satanás está afastada do terreno da política eclesiástica. E essa guerra espiritual encontrou a expressão máxima na alma do cego. como daquele grande tcheco Amos Comenius. A alma cristã torna-se cena duma cosmogonia espiritual. Não sabemos se Milton leu Boehme. que Milton também professou. e profundamente medieval. Tingido com essas influências. de que ele fora combatente: na alma de Milton.

o cristianismo herético. e. contudo. através de todos os séculos da literatura inglesa. o homem de Cambridge. no qual se abrem fontes esquecidas da alma inglesa. de Milton. de T. em que Deus se acusa. . com o espírito de ingênuas especulações cosmológicas e com o espírito da rebeldia indomável contra Deus e o Diabo. F. Ora. no poder mágico de personificar os elementos e as forças da Natureza. no Casamento do Céu e do Inferno e nos outros livros "proféticos" de William Blake. no Glastonbury Romance. enfim. de Tolstoi. Milton permanece. de todas as misérias do mundo. não se extinguiu até hoje. Milton distinguiu-se dessas confusões de espíritos anárquicos pelo gosto artístico da Renascença e pelo sentido de ordem bem inglês. Isto não foi nunca inteiramente esquecido. mais velhas do que o humanismo clássico. A mística cosmológica de Milton é o cume duma velhíssima tradição inglesa que. o poema anglo-saxônico Queda dos anjos. Mas a heresia de Milton é menos racionalista. no Caim. Powys.velhas heresias maniquéias dos Bogomilos. Parece mesmo que Milton conheceu. um inglês classicamente educado.175 até os nossos dias. a precursora da literatura inglesa. A mística cosmológica acha-se já na literatura dos anglo-saxões. mais mística. e mais velhas do que o próprio cristianismo. de Saurat e dos outros não esclarecem por que Milton sentiu a atração desses mistérios longínquos. assemelha-se ao cristianismo racionalista. em que o assunto bíblico é tratado com o espírito bárbaro dos velhos germanos. começando nos tempos primitivos da ilha. Na aparência. mediante o seu erudito amigo Junius. em que desperta o mito primitivo da paisagem inglesa. rebelde. em certas expressões de Thomas Hardy ("The President of the Immortals had ended his sport with Tess"). Esse espírito está vivo. Milton é um inglês cristão e humanista. de Byron. no romance The Only Penitent. Está vivo em certas passagens do Rei Lear. Powys. do seu irmão John C. É o aspecto mais curioso e menos conhecido da alma inglesa. Os estudos de Haemmerle. é inglesa. no confessionário. Mas as suas afinidades com misticismos estranhos têm raízes muito profundas. rebelde.

1936). Na obra e na vida. Passou a moda de desvalorizar a consciência. Passou a moda de desvalorizar a consciência. É verdade que Milton odiava mais a opressão do que amava os oprimidos: fraqueza do grande rebelde. violento. Samson Agonistes teve a "soul of an ancient stoic". Pode-se definir essa sublimidade como a união da beleza estética e da beleza moral. A luta cósmica que ele suportou é uma tragédia antiga. é próprio duma personalidade superior. É verdade que Milton era voluptuoso. como dos heróis da Antiguidade.Assim também Milton está nessa estranha tradição inglesa. Atualmente. psicofisiológicas e psicopatológicas. Após o livro fundamental do psicólogo católico Roland Dalbiez (La Méthode psychanalytique et la doctrine freudienne. suspeito que a própria consciência já não é tida como realidade. Essas máculas são o fim definitivo do "clássico" indiscutido.176 como ele diz no Samson Agonistes. William Blake: "Não há grandes obras sem a colaboração do Demônio. Desclée De Bouwer. a alma dum antigo estóico. mas a ressurreição vitoriosa do grande homem. agitada pela violenta ânsia religiosa duma natureza pascaliana. Conheço bem os estudos do sueco Liljegren. O que o distingue de todos os seus precursores e pósteros é a sublimidade. A nenhum poeta da literatura universal cabe a palavra "sublime" como a Milton. o cantor cego da luta entre a noite e a luz. não me convenceu. sacudida pelas dúvidas e tormentos dum protestante nato." Milton era duma grandeza demoníaca. reduzindo-a a realidades inferiores. Cumpre insistir na realidade cruel dessas tragédias da consciência. nos quais revelou as fraquezas morais de Milton. A arte de Milton é uma união única de beleza clássica e de profundeza germânica. já não há subterfúgios para . de "Strength and Wisdom". fantástico: fraquezas do grande poeta. desenrolada na consciência cristã. Milton confirma as palavras do seu irmão no espírito. como o afamado egoísmo de Goethe. É um erro que será vingado. A mesma união aparece na personalidade moral de Milton. um dia. O egoísmo de Milton. e o melhor antídoto parece aquela mal afamada psicanálise. grandeza de alma monumental. reduzindo-a a meros "movimentos psicológicos".

Por isso é o mais inglês de todos os poetas ingleses. por isso. precisa-se seguir a consciência. ela continua como método. para nós outros. a solidão desamparada do homem no universo. com Deus. precisa-se desobedecer ao juiz e preferir a excomunhão". cujo choque com as realidades superiores da alma constitui a tragédia da consciência.177 Eis por que a Inglaterra não é. como "via regia" para os abismos da alma. o castelo dos diabos. numa superposição já não precisamente explicável. Esse descendente de valentões bárbaros e de orantes humildes não vê outra solução para a tragédia senão a resolução livre da consciência livre. Milton já não é o rebelde herético e impenitente.afastar a psicanálise como sendo obra do Diabo.. mas o advogado intrépido da maior lição que o cristianismo nos ensinou: do valor único de cada alma humana. 13): "O que se faz contra a consciência edifica para o inferno. papel definido num cânone do papa Inocêncio III (c. Eis por que se precisa de heresias: "oportet haereses esse". como ontem. que vê por dentro do coração. díst. e as palavras esclarecedoras de Santo Tomás de Aquino (Sent. e de conclusões doidas. o poeta da liberdade inglesa. Contra esse pesadelo precisa-se defender o papel da heresia na "economia" superior do mundo cristão. A psicanálise extrai desses abismos a lição terrível e fértil de que as forças profundas da alma são realidades. anacrônicas. Ao espírito fantástico de Léon Bloy apareceu a Inglaterra. como o "château de l'hérésie". recebendo daí a sublimidade que distingue o poeta Milton. mas a consciência está obrigada à sentença de Deus. futuristas. e o seu maior prosador também. liv. Para Milton." Sabemos que houve tais conflitos gravíssimos de consciência. esses choques vitais e mortais identificamse. Liberta de premissas cientificistas. 13 X. com os terrores do esquecido mito germânico e com as ânsias da alma cristã. . possuído e defendido por todos os diabos. Visto daí. a ilha no mar sombrio. significa o horror supremo. mesmo contra a força da Igreja. e a mais terrível delas. tít. 38): "A Igreja julga conforme as aparências exteriores. Para muitos essa liberdade de consciência é o germe de todas as heresias. II. e há-os ainda hoje. mas o castelo da liberdade da consciência. IV.

mas também um pouco mais: deixariam de ser livros eternos para se tornarem camaradas eternos. são três livros para toda a vida. a vaidade exibicionista olha. mentales même. les puissances temporelles. em que Milton. Purificados de todos os resíduos de artifício literário. estamos solitários em face do mar desconhecido dos nossos destinos. seriam um pouco menos. Escrevem-se livros para serem impressos. não há consolação mais cristã do que a palavra de Milton: "Há só uma reprovação definitiva e um pecado imperdoável: o maior dos horrores."quem toca neste livro toca num homem. espelhos de humanidade completa. lidos. ne pèsent pas une once devant un mouvement de la conscience propre. não resiste ao prazer de expor as suas fraquezas amáveis e os seus conhecimentos de latim. pelos rasgões que o desespero fez na capa filosófica de Rousseau. É uma lição que nos convém. agir contra a consciência. o mais ingênuo de todos."178 TRÊS LIVROS INGLESES "CAMARADA!" . homens que nos acompanham a vida inteira." Livros tais são raros. como se os tivéssemos conhecido sempre: como amigos. sobre seus poemas . homens que respondem sem nunca mentir. na descrição mais objetiva. o próprio Montaigne.valor que se revela na dignidade indelével da consciência livre. Ainda as Confissões de Santo Agostinho são um plaidoyer perante Deus e os homens. Numa época de consciências adormecidas. comprados. e as nuvens conglobam-se em monstros horrorosos. Portanto. qualquer artifício literário. Que o Deus dos cristãos nos dê a impavidez estóica da consciência livre. o protestante herético. no grito mais espontâneo.escreveu Walt Whitman. intellectuelles. . les autorités de tout ordre. la raison d'État. já não seriam obras da grande literatura. se encontra com o católico muito independente Péguy: "Tout l'appareil des puissances." Como Milton. les puissances politiques. na confissão mais desenfreada entremete-se qualquer consideração ao leitor ou à posteridade.

como esses três livros completos. sem ter a mínima idéia da grandeza demoníaca e celeste do poeta. grosseiro e sublime na natureza humana. Foram escritos por homens fora da profissão literária. em Londres. onde esperou. demasiado humano". o sermão do decano Rev. George Herbert. Dr. a biografia do Most Rev. livros alivrescos. As tormentas da revolução e da ditadura cromwelliana expulsaram-no por muito tempo para os campos. cheios de tudo o que é grande. estupendo. Dr. com resignação humilde e serena. que é a expressão mais espontânea e mais completa da existência humana. do "Humano. Não existem em nenhuma outra literatura livros desta espécie. ridículo. a biografia do Rev. na Fleet Street. Clérigos da Igreja Anglicana eram os seus melhores amigos. o Diário. livros humanos. Conheço só três. cônego de Salisbúria. Aos domingos ouvia. Robert Sanderson. A profunda humanidade. sem forma. John Donne.179 a quem a liturgia inglesa deve umas rezas muito suaves. enciclopédicos. é o segredo da grandeza do povo inglês. Izaak Walton era um modesto mercador de ferragens. bem diferenciada do humanismo. Samuel Johnson. e desaprovou o orgulho dos sectários. que fazia os sermões mais pacíficos e conciliadores para todos os bons . Paul. de James Boswell. A pesca a linha era a única paixão da sua existência burguesa.Livros tais são raros. na catedral de St. São O perfeito pescador a linha. indestrutível como esses três livros indestrutíveis. nos bons velhos tempos dos reis Stuarts. Nos dias úteis entregava-se inteiramente ao pequeno comércio. e todos os três são livros ingleses. e depois fazia excursões pelos campos. Dr. formas definitivas da maneira inglesa de ser um homem. desprezível. e A vida do Dr. sem arte. fastidioso. Dr. Acredito sejam impossíveis tais livros fora da literatura inglesa. sem pretensões literárias. o fim da tempestade. bispo de Lichfield. de Izaak Walton. de quem Walton era paroquiano e a quem venerava como a um santo. de Samuel Pepys. nobre. e nas horas de ócio da velhice escreveu as biografias de alguns deles: a biografia do Rev. para pescar a linha. John Donne. pois Izaak Walton estava lealmente ao lado do Rei e da Igreja. sem conclusões.

burgueses. nas tardes de domingo. se tornaram. eruditos e serenamente gordos. que celebram os ofícios em poderosas catedrais medievais." O próprio Deus Todo-Poderoso plantou primeiramente um jardim. e acima de tudo os ribeiros. de sua arte de pescar. é preciso ter nascido para isso. amigos paternais. como diria o velho Polonius. onde vivem em casamentos harmoniosos. esse tratado "trágico-cômico-histórico-pastoral". é um livro único. que sabem estimar as vantagens duma boa biblioteca e duma boa cozinha. para descer. e um pouco lírico. sui generis. O seu manual do perfeito pescador a linha. Eis por que tais ministros de Deus. nesses livros. solene como um sermão anglicano. esses prelados pios e sossegados. que o julgaram digno de sua amizade. depois.de observar de perto a conduta edificante destes veneráveis homens de Deus e da Igreja. Essas biografias não têm ambições literárias. pela paisagem inglesa. para nós também. e que glorificam os benefícios e os milagres de Deus na natureza. e não quis que exemplos tão frutíferos se perdessem com a morte deles. men are to be born so" . esse tratado de pescaria está misturado de lindos versos. com seus prados e ribeiros. Um tratado didático de especialista na matéria.tudo na sua vida era boa sorte . íntimo como uma conversação entre amigos.que não houvesse conhecido pessoalmente. passeando. e sabe que o é: "Angling is like poetry. que eram a paixão calma da sua vida. como num jardim bem plantado. Só escreveu as vidas destes homens superiores. "God almighty first planted a garden. não acha necessários nem santos nem heróis. Com efeito.por mais admiráveis que fossem . rodeados de filhos e de netos. Izaak Walton estava como em sua casa: amava os prados e os ribeiros. The compleat angler. esses tipos bem ingleses de bispos e cônegos devotos.diz: "a pescaria a linha assemelha-se à poesia. Neste jardim. Acredita que a pescaria a linha ensina todas as virtudes dum gentleman inglês. perdão. Izaak Walton tivera a boa sorte . amigos. humorístico como velhas anedotas. mas . pois esse pescador a linha nato é um poeta nato. porque há neles os peixes. à pequena cidade. inclusive os mercadores de ferragens. Jamais teria pensado em escrever biografias de homens ." Izaak Walton tem um grande conceito de sua poesia.

se espantaram. Cada noite.000 libras esterlinas.180 Todas essas notas foram feitas à luz privada da lâmpada noturna. porque o seu livro não pertence à literatura. Samuel Pepys era um caráter. De noite. se deitará. esperando as alegrias celestes da pescaria a linha no outro mundo. Samuel Pepys vestia uma grande peruca e era um grande senhor. o importante e o mesquinho. A vida do right honorable Samuel Pepys é uma vida de pompa e dignidade. não no sentido da consistência moral. Quando estava a morrer. e a peruca do Lorde do Almirantado encobre "certains accommodements avec le ciel". espontânea. um dia santo ao ar livre. Na época alegre dos Stuarts restaurados foi secretário de Estado da Marinha Real e presidente da Royal Society. bons camaradas. porém. O rei Carlos II honrava-o com tal confiança. o interessante e o fastidioso. despida dos atributos de sua dignidade. a gente só veste a camisa de dormir. o honesto e o menos honroso. um hino a Deus. certas páginas. em 1825. Ele só escreve para si mesmo. que lhe tomou por empréstimo 10. Não pensa em abrandar a sua vida. o sublime e o ridículo. Eis por que Walton seria feliz se todos os homens se quisessem fazer bons pescadores a linha. A sua poesia e a sua pescaria a linha era um salmo. pois o presidente da Royal Society é um right honorable "ex officio". diante da cama aberta. rotunda. sem as restituir jamais. Samuel Pepys se despia da peruca e anotava no seu diário tudo o que o dia trouxera. e debaixo vem logo o caráter. até hoje. com suficiente temor de Deus e uma boa digestão. A sua sinceridade no escrever esse diário era tão desacanhada.só homens honestos. toda a sua vida fora uma lembrança feliz. onde a importante figura do secretário da Marinha. então toda a vida seria o que era realmente para Izaak Walton: "a holiday in plein air". ficaram inéditas. que fariam corar o próprio autor da Lady Chatterley. e foi sepultado na Abadia de Westminster. que os descobridores do Diary. morreu com um sorriso nos lábios. Pepys é o mais sincero confessor de todas as literaturas. mas no sentido de uma natureza humana completa. como ele mesmo é um excelente camarada e o seu livro um camarada para a vida. um "abridgment of all that was pleasant and unpleasant . em idealizar a sua conduta.

íntegro." Era um homem rico. dos comerciantes e operários do porto. mestres de dança franceses e inválidos reformados: e no centro desse mundo está o right honorable Samuel Pepys com o seu diário. ele anota uma representação de Otelo ("peça bem medíocre") e o primeiro chocolate vendido em Londres ("bebida excelente"). e tive muito prazer"). esse livro inesgotável. a sua verdadeira fortuna. e de substância mais duradoura do que os reinos e os impérios é a vida cotidiana. Sem a mínima preocupação de ordem ou da hierarquia das coisas.900 libras esterlinas. pregadores sectários. preguiçoso e ambicioso. em libras esterlinas e em substância humana. um jantar com o rei ("Sua Majestade disse-me coisas muito amáveis") e uma tarde com Doll Lane na Belle Taverne ("Fiz com ela o que desejei. gosta da música. piratas. as leituras ("Prefiro as ciências a tudo") e as discórdias com a sua mulher ("Ela fica zangada quando volto tarde da noite"). curioso e ignorante. Samuel Pepys não se perturba: a sua região mais própria. conhece até a emoção religiosa. prático. Pepys sabe muito. comuns e bispos. e não sabia que nos legava. pródigo e cobiçoso. é um homem culto. Com tudo isso. Começa o dia escutando um sermão ("Dormi todo o tempo na igreja"). um compêndio de tudo o que é agradável e desagradável no homem: era. Estava presente quando o rei Carlos II foi coroado. a nós outros. seja louvado. dos holandeses e judeus da Bolsa. capaz. egoísta e bondoso. medíocre e estimável. e não se esquece de anotar que terminou o dia comendo um melão moscatel. uma bíblia da . e diz tudo e muito mais. quando Londres foi consumida pelo fogo e devastada pela peste. políticos dos cafés. uma reunião do conselho dos ministros ("Esse burro do Lorde Presidente não sabe latim") e uma briga com os seus criados ("cabeças de ferro que resistem às pancadas")." Pois Samuel Pepys gostava de dinheiro e disse: "É melhor viver como homem rico do que morrer como homem rico. mas na última hora não legou deixas a ninguém. No seu Diary vive a Londres dos lordes. ao mesmo tempo. a que Stevenson chamou "a bible of human being". criador da Terra e dos Céus. dos aventureiros. meretrizes das tavernas. para que o grande Deus. sobretudo quando está liquidando as contas: "Achei um saldo de 1.in man".

puro. mais interessante. nasceu e viveu na miséria e na sujeira. que constitui a delícia dos professores. Samuel Johnson. os livros eram os seus amigos e inimigos íntimos. continuam a ser o horror dos colegiais. tendia a reforçar o peso das suas opiniões com o peso do seu corpo. simpatizava com todas as autoridades estabelecidas. são ilegíveis. elogiava sempre o rei. Os seus sócios do tempo e do clube . Após ter fracassado na arte ligeira de versos satíricos e na arte severa da tragédia. o ator Garrick. escritas no estilo clássico. conseguiu vingar-se da posteridade. cheios de pedantismo moralizante. e o cume da sua vida era o grande Dicionário da língua inglesa. É a sua única herança. Autoridade literária. útil na época. Samuel Johnson foi o papa literário do século XVIII. a quem desdenhava intimamente. Porque a verdade é sempre mais estranha do que a ficção: "Truth is always strange. Mas parece que essa apreciação proveio menos da admiração do que do medo. mais cheio de vida do que todos os romances realistas e naturalistas. tornou-se logo obsoleta. Ditador nato. o parlamentar Fox tinham-no por um gênio da conversação. Ditou até à língua. harmonioso. e os bispos. nunca se citam os seus ditos espirituosos e às vezes profundos sem respeitosamente se acrescentar ao nome o título de que ele se orgulhava: Doutor Samuel Johnson. Com efeito. stranger than fiction. o livro dos livros. de boêmia e de esperanças malogradas. e terror dos amigos. o pintor Reynolds. As suas Vidas dos poetas ingleses. uma conversação: não . o poeta Goldsmith.e havia entre eles homens como o historiador Gibbon. um dicionário. Na realidade. Enorme. e estão esquecidos. assim. e mais verdadeiro. cresceu entre livros. Os seus versos secos e abstratos não chegaram a realizar poeticamente a sincera emoção religiosa e as lástimas duma vida incompreendida e malograda. Era o tipo de literato estéril.existência humana. Até hoje. Filho dum livreiro. não era possível. a sua crítica literária." Dr. Samuel Johnson era muito grosseiro. com esse ditador. de cujas crenças desconfiava. os seus ensaios. empreendeu ditar aos seus confrades as leis que deveriam seguir na arte de escrever. e. após uma vida de pobreza. como era. Alvo da mofa dos inimigos.

Sir". Triunfou pela grosseria. a cordialidade dum Goldsmith. Sir. Boswell votava a Johnson um respeito tão desmedido. e de registrar a vida e os ditos do mestre com a precisão dum diário de experiências místicas ou dum guarda-livros. admirador. heterodoxia é a doxia de qualquer outro. Com a fidelidade comovente dum idiota consumado colheu tudo quanto caiu dos lábios do oráculo: aforismos mordazes. ou "No. acreditava ser de primeira importância tudo o que se relacionava com Johnson." "Ortodoxia é a minha própria doxia. não estou obrigado a achar para você uma compreensão. em seu livro. heterodoxy is another man's doxy. Em troca. como um sacerdote das oferendas. Estava tão convencido da sublimidade. tinha um cão. nobreza e imortalidade de tudo o que dizia respeito a Johnson. e porque gozava da prerrogativa de viver perto do ídolo e de nutrir-se dele espiritualmente. chistes sarcásticos e asneiras indignas. Tal homem não podia ter um verdadeiro amigo. James Boswell não tinha personalidade própria. a eloqüência dum Fox e as cores dum Reynolds. Cheio duma reverência idolátrica. devoto. is my doxy." E isto era irrefutável." Quando começava uma réplica com um dos seus famosos "Yes. Sir". Um companheiro humilde. o grande homem com .e: "Achei uma argumentação para você. Não era e não queria ser senão a voz do seu mestre. sentia a obrigação de fazer a posteridade participar de tamanha felicidade. que não cuidava de amenizar nada: com uma sinceridade quase sacrílega anotava as estupidezes. o talento imitativo dum Garrick. que não ousava acrescentar às do mestre nenhuma palavra própria .não era mesmo capaz disso. O dia em que conheceu pessoalmente o mestre foi decisivo para sua vida. Vemos. mas a espontaneidade da sua escritura supriu-lhe a compreensão dum Gibbon. e a sua exatidão torna-se diplomática.disse . James Boswell não era dotado do mínimo talento literário. sabia-se que logo viria um dogma infalível. os pequenos vícios e as sujeiras do seu ídolo. Esse cão chama-se James Boswell e escreveu A vida do Doutor Samuel Johnson. infatigável.tolerava perguntas nem respostas. "Questionar não é um modo de conversação entre gentlemen" . "his master's voice". "Orthodoxy.

sobretudo por nós outros. lança-nos as suas frases retóricas sobre as coisas mais insignificantes. um relâmpago de gênio. e às vezes cai do seu bafejar. E o tempo implacável não poupou esses livros. Para precisar melhor. no mais profundo "demasiado humano". grasnar. Acreditavamno definitivamente sepultado sob a sua pedra em Westminster e a montanha dos volumes do seu dicionário. um gemido cheio de luto duma vida incompreendida e malograda. involuntariamente. está garantida uma vida eterna. sabe-se de segredo mais precioso para estes tempos. ridícula e imortal. Não pode morrer. A atitude de Izaak Walton contém o segredo de viver em felicidade.o casaco manchado. mesquinha. soprar. Samuel Johnson: três imortais. solene. aos quais. mas quando esse monumento literário tinha desaparecido. com o seu "Yes. um equilíbrio perfeito. esmagar-nos. são as suas atitudes humanas. perdeu-se esse segredo delicioso? A atitude de Samuel Pepys contém o segredo de guardar. Izaak Walton. Ouvimo-lo roncar até meio-dia e disputar até meia-noite. homens de profissão literária. não são os homens que se tornaram imortais. Ele fita-nos com o seu olhar irritado por cima dos óculos. já não precisamos dos Boswell. o seu tremor nervoso de mãos e pés. o ventre enorme cheio de bifes e de muitos litros de chá que engoliu e embebeu até suar. porém. nesses três segredos. para. todos respiraram. há muito tempo. Ninguém percebeu. é o nosso lema: "Everymen his own Boswell. Sir" e "No. No fundo. como Hamlet ou Dom Quixote. quase um dever de saúde mental? Mas a atitude de Samuel Johnson está integralmente conservada. Samuel Johnson . um segredo bem inglês: o segredo de guardar. no meio das tempestades. a sua vida grosseira. devorado pelos vermes. Cada um o seu próprio Boswell. A literatura e a glória de Samuel Johnson foram-se. uma palavra. percebeu-se que o velho Johnson está bem vivo. Começamos a imitar. Sir". Mas ele continua a sua vida no livro de James Boswell. a peruca empoada. Com a eloqüência ridícula de um mestre-escola irascível. Samuel Pepys." Há. o mais profundo humano. Quando morreu. Izaak Walton. porque nunca viveram. Transformou-se em personagem mítico. Samuel Pepys.

de sublime e grande: Izaak Walton. se não tivesse deixado a obra de Joseph Conrad. eles representam o lado "demasiado humano" e o lado humano de tudo o que há. filho das estepes ucranianas. com a família.e bons serviços . ao "appel de l'inconnu":181 aprende a navegação em navios de contrabando do Mediterrâneo. Como eles são. Um polaco. viverá. enfim. Mas isso ainda pesa na balança da natureza. o talento de bem instalar-se na terra. o individualismo da liberdade civil. para.devem a imortalidade à arte estupenda e bem inglesa de guardar. arrisca-se em pequenos veleiros no Pacífico. nos descuidos e nos ridículos.sobre os sete mares." O MISTÉRIO DE JOSEPH CONRAD É UM CASO único na literatura universal. mais cultos. neles. em 1924. aquele Boswell alemão. Então Joseph Conrad Korzeniowski. aristocrata polonês que esqueceu a língua materna. como o mais inglês dos ingleses. um inglês. e teria desaparecido para sempre. obedeceu. Eckermann. entre o humano e o desumano. disse a Goethe: "Não se pode afirmar que esses ingleses sejam mais inteligentes. Mas a que preço! A sua correspondência é cheia de lamentos. e será tudo isso. É um "professor de energia". Samuel Pepys. a autoridade da literatura inglesa. de queixas e de censuras . não! Sucessivamente. e Samuel Johnson. repentinamente. Eles têm a consciência da sua liberdade e da importância universal do nome inglês. prestará serviços . O nascimento aristocrático ou as riquezas também não dizem nada. perdida a saúde. em modesta casa de campo nos midlands. e que venceu. aposentar-se. doidos completos. um escritor. Será capitão diplomado da marinha mercante inglesa. O que vale é que eles têm a coragem de ser como a natureza os fez. o equilíbrio. concedo. estudante da Universidade de Cracóvia. que era o mais fascinante dos romancistas ingleses. e o grande sábio respondeu: "Mas isso não tem importância. Às vezes. são sempre homens completos. ou que tenham mais coração do que outros homens.". ele resolve tornar-se um marinheiro. Até nas ingenuidades. Um aventureiro? Oh.

por ter escrito os melhores romances marítimos para a juventude inglesa! Numa das suas últimas cartas confessa: "Nunca obtive. Conrad julga-se. errantes sobre os mares do Sul. em Bornéu. mas não foi jamais além da direção de pequenos navios. Romancista." É este o mistério que invade os seus romances. Marinheiro. um neurastênico. história da decadência de um fraco sonhador sob o céu tropical. epopéia de uma fantasmagórica república da América Central. ele não consegue senão elogios medíocres. André Gide aprende inglês expressamente para ler os textos de Conrad. aquilo que desejei. Joseph Conrad foi um vencido. na vida. e os torna alucinantes. por uma mulher malaia. sonhou grandes navegações. até o fim. o ar salgado. e convirá também ao famoso Lord Jim. O mar está ausente em Nostromo. O mar não existe. "Era incompreensível" . senão no fundo. inglês. vagamente. romance em que Conrad penetra implacavelmente o exotismo perigoso dos russos. O retrato feito por Frank Brangwyn mostra um esgotado. onde estamos em pleno mundo mágico de Conrad. um vencido. O mar não está presente em todos os seus romances." Existe um mistério em torno dessa derrota. Por que desejava ele fazer-se marinheiro. mas existe sempre. para fins misteriosos. e quanto mais nos aproximamos do elemento.é uma divisa para toda a obra de Conrad. a submeter-se a correções gramaticais humilhantes.ao destino. um problema de crítica literária. mais nos penetramos do mistério que era o seu e que parece ser o nosso também. O mar é apenas uma lembrança na Loucura de Almayer. misterioso. que é forçado. no fundo deles. sobre este mar implacável que . não conseguira esquecer nunca certas nostalgias da pátria polonesa.diz ele sobre o herói do seu romance Typhoon "porque ele se evadira para confiar-se ao mar. carregados de fretes duvidosos. Inglês.e este título The Outcast of the Islands . em direções desconhecidas. nem sequer dominar perfeitamente a sua língua adotiva. como em Sob os olhos do Oeste. que se revelará como problema humano. em O pária das ilhas . escritor? É o nosso problema este mistério. a si próprio. "Romances do mar"! Mas é esquisito o mar de Conrad. romance de um aventureiro que se perdeu.

sem comentários. Conrad prefere a narração indireta. romance e história deste romance ao mesmo tempo.arruina um pária da civilização. Alguém relata os acontecimentos. o navio na tranqüilidade enganadora do oceano das Índias. É preciso surpreendê-lo. Este mar não é lugar de aventuras. anos mais tarde. fracassos de toda ordem. Algumas vezes o encadeamento fica obscuro. até ao desespero. A sua técnica do romance parece o caminho para o centro do seu mundo e da sua alma. os quais. Não se poderia penetrar neste passado misterioso sem o socorro de . ele enche as suas páginas semeando o pavor de uma criação malograda. nem um nem outro. silencioso. Mas como desvendar o mistério desse "poeta mudo". fundaram um lar sobre um navio maldito que cruza os mares sem destino certo. sulcados por navios fantasmas. povoados de párias. linha terrível que torna insensata a vida. casto. e quem sabe se se chegará. Tragédia da Linha de sombra que retém indefinidamente. alternam-se dois narradores que não conhecem. depois. guerras. que conhece apenas superficialmente o destino de Flora e do capitão Anthony. The Chance é relatado em primeira pessoa. e que completa as suas lembranças. Conrad consegue admiravelmente fazer-nos sentir todos os infortúnios da humanidade: traições. de André Gide. ou. ao porto de salvação? Em toda parte existem mares desertos sob o sol tropical. algumas vezes. decepções. doenças. e não saberíamos o fim se não fosse uma carta que o autor recebeu. É o horror. o modelo declarado dos Faux-Monnayeurs. O cume desta técnica complicada é The Chance. mas de tragédias. falências. discreto como um autêntico inglês? Ele não se trai por uma única palavra. de um Deus que nos faz viver em tantos horrores. depois de crimes desconhecidos. o desfecho. O mistério deste mar é o mistério do mundo e da humanidade. dos quais ele conhece apenas uma parte. mas este "eu". Charles Powell. e que não se pode transpor senão ao preço de todas as ilusões de felicidade. não é senão o ouvinte do capitão Marlow. do qual um dos ouvintes é informado por acaso. Tragédia do Typhoon. que agita a pobre alma do capitão Mac Whirr.

ao contrário. de diferentes pontos de vista." Esta verdade não é de ordem filosófica. porque ele próprio está envolvido na vida de Flora. pela refração da narração indireta. "A minha tarefa" . que desapareceu para sempre nos mares do Sul. E Powell virá a saber o fim. que sonda as almas. essas complicações são tentativas para penetrar no eterno isolamento dos homens. nas ondas. Eis o segredo da técnica de Conrad: todo esse enredamento. deseja. e nada mais. Conrad é . que domina. para unir os episódios dispersos das suas vidas insensatas. na luz transfiguradora da saudade. essas lembranças encerram o mistério dos seus heróis e o seu próprio mistério. Igualmente. integrar. um esforço desesperado de chamar as lembranças ameaçadas de se perderem e que não deviam perder-se. medo. como nos contos do alemão Theodor Storm."é fazer ouvir. às vezes artificiais. quase diria das suas vítimas.alguns marinheiros que viram o casal em portos longínquos. ver. consolação. fazê-los viver ainda uma vez. Mas ninguém conheceu pessoalmente o misterioso Anthony. e levam consigo os seus segredos para o túmulo do mar. ao contrário. as paixões violentas. Mas nisso tudo há: atração. representados por narradores intermediários.aquele admirável psicólogo Henry James. porque toda a arte de Conrad é. Mas Conrad não tem preocupações de psicologia apurada: ele não deseja analisar as almas. e as complicações. sentir. Menos ainda ele desejaria mergulhar os acontecimentos. e a verdade também. para distinguir por trás deles a verdade. Aos outros e a si mesmo ele desejaria lembrar com força esses acontecimentos. dos enredos simbolizam maravilhosamente a complexidade insensata da vida. pelas narrativas que se recortam. essas embrulhadas. desconhecidos. Conrad aprendeu esta técnica na escola do romancista americano Henry James. ele não se inspira na técnica de Prosper Merimée. Isto. reconstituir os fragmentos de vidas desconhecidas. pela força da palavra. Os mistérios em torno dos personagens de Conrad simbolizam a impenetrabilidade misteriosa da alma humana. para sondar as profundezas da alma desses heróis que se abismam. sobre o qual escreveu um ensaio .diz ele . as paixões dos homens não contam no mundo conradiano da fatalidade.

é digno de nota que. Conrad sabe descrever navios como só os velhos pintores holandeses. esses heróis do dever não passam de humildes servidores de certos seres fantásticos: os navios. para pôr em ordem o caos. e a isto corresponde uma luta desesperada com a forma. o mar está ausente. como nos quadros dos mestres. incoerentes. navios de velas desfraldadas. O caminho para transformar essas experiências em arte é a sua técnica de romance. esses capitães silenciosos. como A linha de sombra. nesses romances. navios na tempestade. orgulho da raça inglesa. e é nela que ele busca. ele é autor de "romances marítimos". os caminhos para chegar ao coração das almas e das coisas. o mar é a obscura "causa primária" que dirige os destinos. Em outros romances. é de natureza caótica. leais. Sim. Conrad chama-lhe . Há romances. lutando contra o elemento destrutivo que determinou a vida de Conrad: a sua literatura é a tentativa desesperada de iluminar as trevas. Conrad se opõe corajosamente ao elemento "inimigo": conta em primeira pessoa. de dominá-lo. armas de batalha do homem contra o destino desconhecido. navios no porto. em todas as partes. enfim. magnânimos. do elemento. sem tendências. e até os meninos se encantam com os seus heróis. de emprestar um sentido à vida. As suas cartas abundam de descrições desta luta. dentro da técnica tradicional. A sua verdade não é pensada. sem psicologia mesmo. enfim. mas. Existem outros romances. pela misteriosa "linha de sombra". a luta com a forma é a luta desesperada contra um inimigo impessoal e imponderável. aqui. representados por esta sucessão de relações que se confundem e se recortam. sem dificuldade. O mar. e de lamentos: "Os episódios sucessivos do romance não conseguem desprender-se do caos das minhas lembranças!" Toda a sua literatura é apenas uma tentativa de pôr em ordem o caos. em poder do inimigo terrível. como Nostromo. nos quais o próprio mar é o herói da ação. A vida.um autor sem filosofia. mas vivida. vistos mais de perto. na memória de Conrad. O poderoso símbolo deste caos é o mar. nos quais ele escreve. e na sua memória ela se dissolve em mil episódios vividos. todos esses navios. estão paralisados. aqui.

mas não é vencido. católico e francês. "heróis do dever" de Conrad. Os fracos e os maus. É a oportunidade de dominar o nosso caos interior pela disciplina que este inimigo furioso nos impõe: é a oportunidade de tornar-se um homem. O mar é o símbolo de uma ruim organização do mundo. a voz da sua consciência." São palavras esquisitas. Um pessimismo viril. a oportunidade dum jogo ou dum combate. a oportunidade que aparece nessas ondas é o apelo à consciência humana. a que estamos ligados pela nossa consciência. sucumbem. porque escutou. todas as vitórias e todas as derrotas. e cujo pensamento é não menos audacioso do que a sua coragem de marinheiro: se não há saída. superiores. ele sabe. inteiramente devotada ao dever. na boca de um homem que se gabava sempre de "ser um aristocrata católico e polonês". Mas o inimigo nos dá uma oportunidade. É o monstro que encerra no seu seio todas as tentações e todas as desditas.simplesmente: "o inimigo". É a vida. Mas este pessimismo viril se aproxima do estoicismo verdadeiramente cristão de outro capitão aposentado. "Uma oportunidade". O seu olhar sobre o mundo é incorruptível. eis a nossa missão. de outro aristocrata. simplistas. "Cheguei a suspeitar que a criação não fosse absolutamente moral. É a nossa tarefa esta atenção intrépida que se esquece de si mesma. É. que a vida terrestre é amarga experiência. Nos momentos extremos. os Jim e os Anthony. pela qual o sombrio pessimismo de Conrad se salva. transformam-se em silenciosos pensadores. . Não a oportunidade do aventureiro ou do guerreiro. os silenciosos e .tão simples. ressoam mais como aristocráticas do que como cristãs. compreensivos do destino humano. e não é por acaso que a obra-prima de Conrad traz este título: The Chance. mas o pobre e medíocre Mac Whirr pode ser salvo. muito humanamente. muito cristãmente. à ordem superior da solidariedade humana. É a força rigorosamente disciplinada da alma. no barulho do tufão. ao humano em nós. também professeur d'énergie e castigado também pela vida: lembramos a sombra nobre de Vauvenargues.na aparência . Não gasta palavras de um otimismo fácil e oficial. castigado. precisa-se ir através.

mas não teria também escutado a voz da sua consciência nem salvo a sua alma. Então. É preciso mergulhar no mar: por isso é que Conrad se fez marinheiro. em direções desconhecidas.Conrad enfrenta a vida. honra e fé. para fins misteriosos. Talvez preferisse a vida patriarcal de um nobre polonês nos seus domínios. como ele mesmo o era. Se obedeceu ao "appel de l'inconnu". sem dúvida teria preferido a vida de um homem da middle class inglesa na sua cottage. É o mar longínquo. foi porque a sua consciência o chamava. o supremo perigo é a oportunidade de que resulta a solidariedade. Conrad foi sempre um sem-pátria. a oportunidade da salvação para os seus heróis. . Conrad era marinheiro. deserto. É a última esperança de toda uma humanidade que será bem cedo um "outcast of the islands". e que promete reincorporar os "outcasts" à humanidade. que é. Conrad desejava salvarse a si mesmo e aos outros: um marinheiro que salva os companheiros em perigo de naufrágio. a sua "filosofia". e da última possibilidade também. O apelo da consciência é a oportunidade que o mar oferece. um expulso. humildade. sulcado de navios fantasmas povoados de párias. Assim. Narcissus. Mas não se trata do mar que banha agradavelmente as nossas costas. sob o sol tropical. fornecerá o tríplice segredo da vida de um marinheiro. não responde a isso. cheio de mistério. Relembremos: "Era incompreensível por que ele se evadira para confiar-se ao mar. esses "outcasts of the islands". A fuga é inútil. Por essa razão cumpre aventurar-se ao mar. Cumpre mergulhar no elemento destruidor: o mar. Não importa que. Pela sua arte e pela sua vida. de um inglês. como a vida. de um poeta. O mar era a sua pátria. cumpre tudo arriscar para salvar a sua alma." A "filosofia" simples de Conrad. para a tripulação revoltada do navio maldito. simples e corajosa. não tivesse conhecido a aventura e a glória. esses "desclassificados superiores". um "enchanted state". filosofia no sentido quase popular de sabedoria de homem muito experimentado. A técnica de Conrad forneceu o segredo da sua arte. assim. com as virtudes heróicas da nobreza medieval: lealdade. Ele não tem nada de um aventureiro. um "estado mágico".

o supremo valor humano. representantes do anárquico espírito oriental que ele viu Sob os olhos do Oeste. à "perduta gente". Conrad desejava ser um simples marinheiro inglês. Existe um povo ao qual os horrores dos sete mares nunca fizeram medo. para Conrad. deste mundo eslavo que ele odiou. "o dever a que estamos ligados pela consciência". um marinheiro livre e leal de Sua Majestade Britânica. A liberdade apurada pela disciplina é. a consciência da liberdade inglesa. Ele vem do Oriente. o dever ao serviço desta grande epopéia que levou os ingleses até os confins do mundo. o oriental e o infernal: tornou-se marinheiro. os "outcasts of the islands". Conrad aprendeu a mais difícil arte inglesa. na escola dos franceses. a comodidade da vida inglesa. que oscila sempre entre o despotismo e a anarquia. um marinheiro que cumpre o seu dever. onde a liberdade e a disciplina estão em harmonia. os europeus coloniais.182 Mas sobre este mundo maldito levantou-se uma estrela. nessa submissão voluntária à solidariedade voluntária que é o segredo e a grandeza da liberdade dos ingleses. membro da elite inglesa afrancesada. e como James chegou a naturalizar-se cidadão inglês.como o seu Jim. Os seus compatriotas eram Almayer. disciplinou-se literariamente. ele pertence. Conrad odiava os russos e a literatura russa. Conrad era inglês. tudo o que vale o gastar uma vida para tornar-se inglês. Era a voz misteriosa da consciência que impelia Conrad a tornar-se inglês. Se o mundo de Conrad é um inferno. Nesse sentido. de nacionalidade incerta. mas não se tornou. o único mundo. como Henry James. a que Charles Morgan celebrou no Essay on Singleness of Mind: a arte de ser um homem. Quando já não podia servir à Inglaterra no mar. Após ter conhecido as glórias da literatura inglesa. Ele cumpriu este "dever que a Inglaterra espera de cada um dos seus filhos". como James. também. tornou-se membro desta outra elite inglesa que enfrenta sempre o caos. passou a servi-la naquilo "que ficará da Inglaterra quando nosso último navio de guerra repousar no fundo do mar que . Existe um povo que se sente em sua casa em todos esses mares e em todas essas ilhas: o povo inglês. ele vai ao mundo.

e o Lawrence Sterne da Viagem sentimental. Vinte anos antes encontrara. seu Almayer. em episódios fragmentários. A esta composição por etapas corresponde o estilo conradiano. para compor a epopéia do Oceano. Conrad desprezou. Robinson percorre os mares e Gulliver os países da imaginação. não para fazer literatura. os romances dissolvem-se. romance de aventuras para uso da juventude. e o romance do goetheano Wilhelm Meister chama-se Anos de viagem. Os criadores do romance moderno. as mil e uma noites sobre o Pacífico. eles próprios. não são romances essas viagens sem fim nem termo. A bem dizer. Fragmentos de epopéia duma humanidade em marcha. cada um dos quais é uma etapa no caminho da humanização da humanidade. embaraçado ainda pela língua estrangeira. Desde então o grande romance europeu passou a habitar "a cidade e a província". antes do século XIX. Vinte anos depois escreveu a Loucura de Almayer. o "romance préhistórico". desaparecido do mundo civilizado. acumula febrilmente as mil anedotas dos portos malásios. não pertencem à categoria do romance moderno. para salvar essas lembranças. à atenção da crítica. na França. em Bornéu. onde muitas vezes as palavras mais elementares de repente se revestem de uma tristeza metafísica ou de uma significação superior. o romance de viagem tornou-se um gênero menor. reconhecível entre mil: narração seca e sóbria. a literatura. Em seguida. e para classificá-las é necessário estabelecer uma distinção que escapou. pelo menos. O velho romance. domiciliaram-no. até agora. Agora.terá devorado os nossos últimos rochedos cretáceos": a literatura inglesa. Tom Jones viaja na Inglaterra. está sempre em viagem. O seu primeiro romance apareceu quando ele tinha quarenta anos. para "procurar uma recordação de coisas longínquas e homens esquecidos". do mar inglês. epopéia da qual os seus romances constituem os fragmentos. Dom Quixote percorre a Mancha e Gil Blas a Espanha. como o raio da sorte cai das nuvens do tufão. Stendhal e Balzac. surpreendentemente. mas. explica-se o mal-entendido .

Aprenderam na derrota aquela "concentração espiritual" que o "teresiano" Charles Morgan celebrou como a arte de tornar-se um homem. aquilo que desejei". aspirações.quanto aos "romances marítimos" de Conrad: ele retomou uma antiga forma para revolucionar o gênero. a chance está presente. e esta concentração transforma o seu passado. falências. temores e esperanças. sofrimentos. como ele mesmo era um vencido. restabelece-se a solidariedade dos corações. a solidariedade da humanidade faz-se pressentir. Somente. talvez. alegrias. na vida. mas acrescenta: "O melhor. aqueles que morreram àqueles que vivem. Ainda uma vez. pelo mar e pela vida. e quem sabe se se voltará. para todos os mares. malogros de toda ordem. "outcast of the islands". ao porto de salvação? Os vencedores de Conrad são sempre vencidos. "este sentimento de solidariedade que une a solidão de inúmeros corações a esta outra solidão de sonhos. a linha que não se pode transpor senão ao preço de todas as ilusões de felicidade. e. Com a derrota. a humanidade. aqueles que vivem àqueles que nascerão". é."nunca obtive. como Marcel Proust o abriu para o tempo. nunca ter obtido aquilo que se desejava. embarcará. Abriu o romance para o espaço. doenças. descobriram o que haviam perdido. na vida. o que os tinha expulsado para os sete mares: a falta do sentimento de humanidade. Nas suas lembranças. e aquele que perder sua vida pelo amor. "Eu" . que une todos os homens a todos os homens. Aquele que desejar salvar sua vida a perderá. ilusões. depois. como o seu autor. o seu romance "em marcha" prediz um futuro sombrio." . o ponto morto do desespero. Mas esses vencidos são os verdadeiros vencedores. expulsa da civilização. decepções. O romance de Conrad mostra-nos aquilo que nos espera: traições. através deste caminho de horrores. é um expatriado. Ele dissolveu a forma. toda a humanidade numa unidade superior. guerras. a reencontrará. O romance de Conrad. a direção de Conrad não é o passado. a terrível "linha da sombra".tinha ele dito .

e também não há fim no murmúrio longínquo do mar sombrio. por ocasião do jubileu da velha rainha Vitória. e a brutalidade simplista dos seus contos indianos representa o estado de espírito de certos gentlemen. procedem como no jângal dos selvagens. e a assembléia dos Lordes e dos Bispos e dos Comuns na Abadia de Westminster. que tagarelam nos Barrack Room Balads e zombam dos nomes incompreendidos das cidades subjugadas: "My name is O'Kelly. Hongkong and Peshawur And fifty-five more. espantado. que se comportam perfeitamente em sua casa. todas terminando em pore". da riqueza. all endin' in 'pore'. com as suas "cinqüenta e cinco cidades. Não suporto esta raça kiplinguiana de comerciantes violentos. que ouviu. mas. A Inglaterra de então estava na culminância da glória. à sombra dos túmulos dos grandes mortos da nação. from Leeds to Lahore. mais poderosa. e quando gritava. e a soberania do mundo. da força. e sob a cúpula da ruidosa Aleluia de Haendel. era a reunião mais gloriosa. a soberania das Índias.Sem dúvida."183 Deus prometeu-lhes. então Rudyard Kipling lhe lançava o desafio contrito do seu Recessional: "Lo. ALGUMAS PALAVRAS SOBRE A INGLATERRA DETESTO sinceramente Rudyard Kipling. com orgulho incrível: "God save the Queen". o seu poema Recessional. I've heard the Revelly From Birr to Barelly. mais rica do mundo. o grito orgulhoso: "God save the King!" Uma só vez Rudyard Kipling exprimiu uma emoção profundamente humana: foi quando compôs. esta filosofia de Joseph Conrad não é uma conclusão nem um fim. Sua mandíbula de buldogue é a expressão fisionômica da educação tanto no jângal como para o jângal. mas a vida também não tem conclusões. a eles. no estrangeiro. all our pomp of yesterday . dissimulados em suboficiais. à maneira das ladainhas de procissão da Igreja Anglicana.

Pensava nesta imensa herança.lest we forget!"184 Toda esta glória será de ontem. lest we forget . para não esquecer! Eu o tinha esquecido. visto pelas janelas da alma": a Inglaterra. be with us yet. todos terminando em shire. uma floresta de pequenas casas uniformes. sed victa Catoni. Londres. e do mar visionário ante os meus olhos subiam os cem condados ingleses. e perecerá como a glória de Nínive e de Tiro. fantasma na bruma. para não esquecermos. para não esquecermos! "Thy mercy on Thy people.Que o Deus dos Exércitos nos assista. ao brutal mercenário Kipling.lest we forget!"185 Como um profeta. Uma floresta de gruas e de mastros. . Lest we forget . como uma marcha fúnebre. mas a Catão a vencida.quando um aparelho de rádio distante tocava o Marlborough s'en va-t-en guerre. esta paisagem a que Katherine Mansfield chamou "um jardim longínquo. uma floresta de pedras. pensava na grandeza viril dos estóicos da Antiguidade. das cidades malditas: ó Juiz das Nações. poupanos. os subúrbios. catedrais enormes dominando pequenas cidades medievais. E as cinqüenta e cinco cidades todas terminando em pore submergiamse nas águas tenebrosas do Oceano longínquo. e os sinos da Abadia de Westminster ressoavam uma Aleluia abafada e um muito longínquo God Save the King. com a sua loquacidade orgulhosa e suas "cinqüenta e cinco cidades. todas terminando em pore".foi ontem . spare us yet. no verso amado de Lucano: "Victrix causa diis placuit." A causa vitoriosa agradou aos deuses. como um grande navio incendiado. Lord! Amen. o poeta se assusta do dia da catástrofe: . em que a raça dos fellows e dos tutors guarda. para não esquecermos. Era a hora de uma cidade terminando em pore. A sua figura anônima me ocorreu à lembrança . para não esquecermos! "Lord God of Hosts. a luz amarela da tarde de inverno sobre as capelas e os colégios. o porto.Is one with Nineveh and Tyre! Judge of the Nations."186 Para não esquecer.

o riso irônico de Jane Austen. "cuidado há trezentos anos". o riso ruidoso de Fielding. os Milton para atear as revoluções.187 um mot-clef para indicar a literatura inglesa. o riso maligno de Swift. Shakespeare. três coisas preciosas: a liberdade civil. o riso mordaz de Ben Jonson. as visões infernais de Blake. frias na bruma de uma chuva fina e incessante. em baixo. um "pars pro toto". homérico.como os monges da Idade Média. e seu spleen acrescentava: "Uma ilha da danação. o riso espirituoso de Congreve. chaminés e chaminés. e para compensar essas borralheiras da criação. o nosso último tesouro. vomitando fumaça negra. concedeu-lhes Deus um pouco de domínio mundial. ao gosto de Versalhes. as ninfas. no alto. uma máquina barulhenta. o mestre." Assim é. e. em vez de coração. a mais profunda literatura do mundo. cujo prado. mas um livro de contos. o espírito inglês sempre lhe sabe opor o seu taedium. Não o imagineis como um jardim muito regular. a mais rica. o vento horroroso sobre os Wuthering . praias e praias. o nome de William Shakespeare não figura lá senão como uma metáfora. um "jardim visto pelas janelas da alma". os sátiros e as mênades da Hélade não cessaram de vaguear orgiasticamente pelos seus prados. nem sentidos para gozar da vida. o riso bonhomme de Dickens. Um poeta chamou-a "o castelo do império e do tédio". essa hipócrita e ébria Inglaterra. o riso alegre de Chaucer. a maior. é guardado aristocraticamente pelas sebes clássicas da poesia de Alexandre Pope. seu spleen: os terrores da noite de Thomson. para merecê-lo. um riso inextinguível. E quando este riso ameaça tornar-se em pequenez mesquinha da média. o conforto. o riso melancólico de Sterne. e os Carlyle para exorcizar. ressoa através dos séculos da literatura inglesa. Evidentemente. a ilha que governa o mundo. de Marlowe e de Chapman a Keats e Swinburne. Fantasma de um castelo irreal: a ilha no mar setentrional. Deus até ficou desolado quando criou o inglês e viu que não lhe dera voz para cantar. e o William Shakespeare. cuja vara mágica de Próspero evoca todos os espíritos do céu e do inferno. Shakespeare representa aí o senhor feudal. o lorde do castelo. a literatura inglesa sempre teve profetas.

Lá fora. mas at home. Mas. o doce luar sobre os jardins da Inglaterra faz cantar os rouxinóis de Shelley e dançar as fadas de Spenser. marinheiros: uma literatura ao ar livre. pura." É uma literatura de fidalgotes. tão feliz em suas fórmulas. o marinheiro de Coleridge sobre o seu navio maldito. O nome de William Shakespeare não é senão uma cifra: resume-os todos. disse: "Quando nosso último navio de guerra descer ao fundo do mar. o "waits in unhope"188 de Thomas Hardy. e cujo monumento mais velho é uma canção de verão: "Summer is y-comen in! Sing cuckoo! Cuckoo!"189 Mas o verão inglês é uma coisa singular. Estes sonhos diabólicos da vida. haverá sempre um monumento imperecível da nossa nação: a literatura inglesa. . pelos cantos piedosos de John Donne. e à sua luz responde a lâmpada solitária dos humanistas Matthew Arnold ou Walter Pater em suas células monacais de Oxford ou de Cambridge. está a igreja. Deus disse aos ingleses: "Make the best of it!". é o mestre desta floresta encantada da literatura inglesa. o marinheiro Joseph Conrad sobre os sete mares e o Oceano ardente do Sul? Não há recanto sobre a terra onde não cintile a lâmpada solitária dum marinheiro inglês. esportistas. quando a tempestade quebrar o último rochedo cretáceo desta ilha. caçadores. fresca. de Cowper e Wordsworth.Heights de Emily Brontë. é o incomparável nas obras da literatura inglesa. Robinson sobre a sua ilha deserta. É preciso ter bons nervos para senti-lo. e das inclemências do tempo fizeram eles o conforto. E perto da célula do colégio. de que o velho filistino Macaulay. onde o dia. em nome do "Lord Almighty". onde o espírito evoca os demônios. que são eles senão as alegorias dos terrores que o marinheiro inglês arrostou. Byron sustentou que o inverno inglês acaba em julho. que mais do que outra é apaixonada da Natureza. para recomeçar em agosto. livre. A atmosfera. é saudado. e muita gente nunca percebeu um verão inglês. que expulsa os demônios. de uma vez por todas. os furacões devastam.

cujos efeitos incríveis. Sob todos os ministérios. Não pagar . o Compleat Angler de Izaak Walton. o fair play da competição. imperturbavelmente.dir-se-á . o vizinho mais seguro. Cada dia de Ano-Novo. e seus vassalos mui leais forçariam seu rei a aceitar esse pobre feixe de lenha. os mesmos lugares de esportes ingleses. têm divertido a muitos. Mas não há quem não se admire da virtude poderosa de instalar-se em todos os continentes.constitui naturalmente sua virtude tradicional. o Direito inglês não está codificado." Mas a maior glória da Inglaterra é o fair play. O grande manual da pesca a linha. be with us yet. É sobretudo o espírito da liberdade civil. havia na Câmara dos Comuns o deputado escocês Joseph Hume. extremamente antipático. a tenacidade de certos usos seculares já desprovidos de sentido. o seu lugar era sempre nos bancos da oposição. Canning não ousava . ao comércio e aos estudos gregos. O inglês é o amigo mais frio. Mas escutai a história do cidadão Joseph Hume: Ao tempo de Canning e da reforma parlamentar. Era o terror dos ministros. É um método de negociar. A Constituição inglesa não está escrita. floresta que já não existe há muitos séculos. ao tênis e ao cricket. é ao mesmo tempo o grande manual do perfeito gentleman. os mesmos clubes ingleses.Não é em toda parte que se gosta dos ingleses. de cabelos ruivos. o livro de contas personificado. capacidade de dedicar-se. os deputados da City de Londres apresentam a Sua Majestade Britânica um pedaço de madeira. A Inglaterra teve muita glória: "Lord God of Hosts. O orçamento era a sua especialidade. porque ele lhes garantiu o privilégio de isenção de certos outros impostos. de transplantar para sob todos os céus as mesmas casas inglesas. e que não podia dizer três palavras sem referir números. à pescaria a linha e ao golf. sem falar de dinheiro. É difícil a gente entender-se entre os mil "casos de precedência". lest we forget. em toda parte e sempre. o inimigo mais generoso. homem grosseiro. lembrança do arrendamento de uma floresta que um rei da Idade Média concedia a seus vassalos mui leais. a tranqüilidade da alma. de executar os esportes e de fazer a guerra. no qual se aprende o sangue-frio dos nervos.

sobre um assunto fora do orçamento. a significação da palavra privilégio em outros idiomas. porque "recusar os impostos é privilégio da Câmara dos Comuns e pagar os impostos é privilégio do cidadão inglês". Na França os privilégios são abusos abominados e detestados. e. propõe a moção de não pagar impostos. Os privilégios são herdados por tradição. com surpresa de todos. porque a própria revolução é um privilégio. e fazem-se revoluções para restaurá-los. Um dia. Um passo a mais. e o privilégio real se dirigiria contra os revolucionários. Sai-se da legalidade somente para reparar a legalidade violada. para falar. que é conexa à liberdade inglesa. até as situações mais irregulares e ameaçantes. Na Inglaterra os privilégios são liberdades tradicionais e veneradas. estando a guerra às portas e o tesouro esgotado. e regulada pela lei do fair play. Esta palavra privilégio é o mot-clef da liberdade inglesa.nunca em sua presença pronunciar um número. nada além disso. e nenhum gentleman se prestaria a tal violação da ordem legal. e a arte do fair play político está em equilibrar honestamente. e este sistema simples e complicado substitui todos os códigos e todas as constituições escritas. na Inglaterra. o referido Joseph Hume ergueu-se e declarou querer pagar voluntariamente os impostos do ano seguinte. porque o seu coração estava em sua bolsa. . e a sua voz de bolsista embotado se tornou estrepitosa como os sinos da Abadia de Westminster. fazem-se revoluções para aboli-los. uma instituição do Estado. sem violência. em relação à língua inglesa. nove anos depois. em francês por exemplo. Eis por que a oposição é. as forças opostas. sem primeiro consultar o Tesoureiro: "How much?" Todo o mundo o temia e o detestava. e atestados e garantidos pelos "casos de precedência". o velho bolsista revolucionário! Mas. Joseph Hume ergueu-se e pediu a palavra. A ordem e a liberdade inglesas estão sempre em equilíbrio. porém. Ah. necessária à manutenção do equilíbrio chamado "sistema dos partidos". Notai bem como difere. porque o rei e os lordes não cumpriram a palavra empenhada na reforma do Parlamento.

e o inglês mais individualista e mais obstinado logo pára. Daí o motivo por que chamei ao fair play a maior glória inglesa . a dos Lordes e a dos Comuns. símbolo do poder real. edifício que reúne ao aspecto gótico da tradição medieval todas as instalações do conforto inglês. das coroações e dos enterros dos reis. não constituem mais do que símbolos. as duas Câmaras. instituído para proteger as liberdades individuais e obstinadas de todos os ingleses. Assim. na rua. É a força duma tradição multissecular e venerada.lest we forget!" A Constituição inglesa não se escreveu. o primeiro-ministro e o chefe da oposição. levanta o seu bastão muito inocente . O polícia. saem da Casa do Parlamento. somente pela convenção tácita do fair play. que regem sem força exterior. no meio dos rei e dos nobres lordes.Isto não se escreveu em nenhuma Constituição. para o fair play. todas as glórias desta instituição nacional que é a literatura inglesa: a estátua de Shakespeare saúda o túmulo de Henrique VII. um ao lado do outro. nem conservador. estão enterrados os poetas. O cortejo é conduzido pelo primeiro ministro e pelo chefe da oposição.o último método . O mais poderoso desses símbolos é o que reúne em si todos os aspectos da vida pública inglesa: é a famosa "procissão de Westminster". fruto duma educação de todo um povo.de uma honesta vida comum de pessoas honestas. nem sequer uma lei. Toda a vida inglesa está cheia de tais símbolos. a famosa Magna Charta. É o método . pois que o bastão policial é também um símbolo. É só uma tradição. Nem um sistema político. E o símbolo supremo . símbolos jurídicos da política do fair play."lest we forget . Algumas leis. em vigor ainda mas já obsoletas. não é nem liberal. totalmente independente de parágrafos jurídicos e convicções de partido. símbolo do fair play político. a tradição da liberdade. a festa real e eclesiástica por ocasião da inauguração e do encerramento dos Parlamentos. Foi num desses momentos solenes que se escreveu a prece "lest we forget . cujos túmulos e pedras formam uma revista shakespeareana da história inglesa. a Declaration of Rights. os lordes e o povo entram na Abadia de Westminster. O fair play. do equilíbrio entre a ordem legal e a liberdade civil.lest we forget!" Então.

TERCEIRA PARTE: JULGAMENTOS TRADIÇÃO E TRADICIONALISMO O S ASPECTOS do nosso tempo trazem a todos os lábios as expressões: "Isso nunca se viu". por nós todos. resumo terrível das nossas angústias: "For whom the bell tolls? He tolls for you. que se prestaram a título de uma obra de nossos dias."191 "Por quem dobram os sinos? Dobram por vós. Só? Ocorrem-me as palavras do velho e grande poeta John Donne.lest we forget!" 190 Os sinos de Westminster dobram. spare us yet. Pensei nisso quando os sons longínquos do Marlborough s'en va-t-en guerre e dos sinos fúnebres fendiam meu coração." Por vós. a nós.desta unidade de tradição. . Cabe-nos. história duma conquista da liberdade. Tive a visão desta grande história inglesa. para as reconhecer. Não esqueçamos. Lest we forget . com suas "cinqüenta e cinco cidades. o rei. todas terminando em pore". É um sintoma muito grave. e estava enfim reconciliado com este soldado inglês. ele também um soldado anônimo da liberdade pela Inglaterra. de liberdade e de honestidade é o primeiro gentleman do país. "Isso desafia toda a experiência". e todo o povo o seu God Save the King. É por uma "cidade terminando em pore". não esqueçamos nunca! God save the King. por nós todos: "Judge of the Nations. O primeiro dever de Adão foi "o de chamar as coisas pelos nomes". que aí reside no meio de seus lordes e de seu comuns: é em sua honra que os sinos da Abadia de Westminster oferecem sua Aleluia.

aos Donoso Cortés. de um grupo é. É essa a mesma "faculdade crítica de distinguir" de que o místico tem necessidade a fim de verificar se as suas visões provêm de Deus ou do Demônio. todo esse conjunto de coisas. Mas como consegui-lo. Em certos homens . o que está na base da verdadeira civilização". a família. reconhecer as coisas. que se lamentava "Cualquiera tiempo pasado Fue mejor"192 . Desde o velho poeta espanhol Jorge Manrique. desde Adão. Sabemos ainda hoje o que é uma tradição? É o que me pergunto. É preciso suportá-las e meditá-las. os costumes. Mas. . por nossa própria conta. E a "verdadeira civilização" é a visão da humanidade. as canções. para responder. das quais só nos damos conta quando se vão. pois.e há muitos deles . Talvez Matthew Arnold denominasse a isto "a faculdade crítica de distinguir. para reconhecer as coisas e pôr em ordem o caos.antes de tudo. a cozinha. primeiramente. aos de Bonald. A tradição de um povo. cuja atividade espiritual foi excitada pela perda das tradições da sua própria época. que se achava em estado de graça natural. ainda outro dia.esse tradicionalismo de ressentimentos se condensa numa hostilidade violenta contra o seu próprio tempo: eles estão prontos a aderir a todas as revoluções contra seu tempo. Elas são o objeto de lamentações nostálgicas de todos os velhos e de todos os retardatários. se as próprias coisas "desafiam toda a experiência?" A perda das tradições é o sinal do nosso tempo. de acordo com as experiências que. que "o verdadeiro amor apenas existiu pelos anos de 1890". O que é uma tradição? Há várias respostas. a casa. desde Adão. o pior dos caminhos seria recorrer aos De Maistre. Nossas perdas são bem nossas. de uma região. Temos. aos Adam Müller. a necessidade das experiências. sem ver que assim perecem os últimos restos das queridas tradições. a humanidade vem acumulando. aos grandes tradicionalistas.até ao velho que me assegurava. O reverso é a florescência dos tradicionalismos de toda ordem. um conjunto de tradições: as crenças. cuja soma está acumulada nas tradições da humanidade.

Ali foi criada a . a autoridade de distinguir o que é a verdadeira tradição e o que não é. a França moderna despedaçou-se entre duas tradições: a galicana e a jacobina. Não há uma só tradição em nenhum lugar.num quadro vivo do passado: unicamente quando esse passado se foi para sempre. a escolha da tradição.sob a mão de um grande artista. a tradição subconsciente das lembranças populares. o que se transmite oralmente. ressentimentais193 das revoluções erostráticas. Porque a escolha das tradições do passado determina o futuro. de autenticidade duvidosa. Isto determinou a sua história. Primitivamente. O que une as duas espécies de tradicionalistas é que eles não são exigentes. Tradição é escolha.194 encontra-se nos amadores entusiásticos das tradições moribundas. Às vezes não há tradições que escolher. porque se perderam todas as tradições. até mesmo arbitrária: cada recanto da maravilhosa Roma medieval dos papas que desaparece para dar lugar às escavações de alguma ruína desinteressante da Roma imperial prova a política arqueológica. de um Gilberto Freyre .O contrário desses partidários pequeno-burgueses. Elas precisam ser garantidas por uma autoridade. entre as quais é preciso escolher. da Itália fascista. Nisso consiste a grande política. os "grandes tradicionalistas" do romantismo não procuram a tradição dos livros. como na Alemanha depois de Nietzsche. nos folcloristas das velhas canções e costumes. é uma decisão suprema. Lamentam e colecionam tudo. Muitas vezes a escolha da tradição é impossível. Por aí ganhamos um primeiro elemento de definição de uma verdadeira tradição: tradição é escolha. Os Estados Unidos rejeitaram as tradições aristocráticas do Sul e adotaram as tradições puritanas do Norte. Por isso as tradições encerram um elemento perigoso de incerteza. cujos museus mofados só raramente se transformam . Em toda parte há muitas tradições. Quase sempre essa escolha de tradições é muito consciente. a tradição era "o que não está escrito". A escolha de uma tradição é a reprovação das outras. O complemento indispensável do princípio de tradição na Igreja Romana é a autoridade do papa. mas a tradição não escrita do povo.

em vez de Deus." Vê-se que Lenin escolheu cuidadosamente sua tradição. Mas a continuidade é essencial à tradição: o segundo elemento da definição. Ainda uma vez a Igreja Romana nos instrui: ela reúne a autenticidade das suas tradições a uma continuidade. Assim. a magnífica apóstrofe: "Maldito seja aquele que começa por si mesmo! Somente a infâmia começa por si mesma um novo mundo. Não o digo por prazer do paradoxo. e o fez para guardar uma continuidade. sem uma revolução que destruísse e preservasse ao mesmo tempo: a revolução social é necessária para realizar. chamadas contra-revolucionárias. Contra essa blasfêmia revolucionária o grande romântico e conservador alemão Achim von Arnin lançou. Isso significaria colocar-se a si mesmo na origem das coisas."não poderia sobreviver ao capitalismo. e o país mais tradicionalista. Lenin é tradicionalista." Lenin critica. muitas vezes. "A civilização" . e a tradição e a contra-revolução não são a mesma coisa.diz ele . lembro-me de ter lido: "A cultura proletária não deve ser outra coisa senão a evolução sistemática dos tesouros que a humanidade conquistou sob o jugo dos capitalistas. No volume XVII das Obras de Lenin. que a criou. Houve. zombeteiramente. conhece apenas revoluções tradicionalistas. que esmaga todas as continuidades. e acrescenta: "O marxismo é o resultado de três produções da burguesia: a filosofia alemã. porém. e o materialismo francês do século XVIII.tradição artificial dos velhos germanos. no seu romance A condessa Dolores." Com isso a tradição parece essencialmente contrarevolucionária. Não se "cria" uma tradição por si só. como eles. Digo-o para poder melhor definir a "continuidade" e salvá-la do monopólio de um programa . a continuidade da civilização. revoluções de tradicionalistas. O verdadeiro inimigo da tradição é a anarquia espiritual. a Inglaterra. os "radicalismos ridículos" dos artistas revolucionários. que não está ligada por nenhuma continuidade aos alemães modernos. a economia política dos ingleses. O que é bom o foi eternamente. no futuro. a sucessão apostólica dos seus bispos. para defender-se de inovações." Continuidade é a primeira e a última palavra dos Bonald e dos Adam Müller.

dos Savigny não é estático. que quisera ver a continuidade dos seus progressos materiais garantida pelas tradições que ele secretamente desdenha. Visivelmente. Não se trata de revolução ou de contra-revolução. Há somente um mestre: a Ordem dos Jesuítas. Naturalmente não falo da pedagogia escolar. Trata-se de um problema grave: como conservar a continuidade do mundo? Questão de tática. ele sublinha sempre o "tornar-se" orgânico. maior. A liberdade civil inglesa é também uma tradição em continuidade. o que representa a pedagogia nas regiões do espírito. o mundo destruir-se-ia por si mesmo.político. porque é um cerimonial. . e incuti-las por uma disciplina que é um cerimonial. Ele treme pela existência do mundo. Ao ver dos tradicionalistas. assunto de extraordinária importância e por aí muito pouco estudado. a verdadeira grandeza dos jesuítas reside nos princípios da sua pedagogia. em movimentos precipitados. As grandes contradições políticas e ideológicas desaparecem. mais ou menos. aí. subtraídas a qualquer discussão. Essa nova definição fornece um elemento positivo e um elemento negativo. nas relações materiais dos homens.é seriamente preocupado com angústias religiosas. O tradicionalismo dos Burke. A tática representa. Essa disciplina. se a "durabilidade" e a continuidade histórica não reagissem. continuado. muitas vezes inconsciente. Falo da pedagogia. dos povos. por assim dizer. O contrário do bem-pensante burguês. O verdadeiro tradicionalista . O elemento negativo ensina-nos que o tradicionalismo não é um programa político. Essa função de transmissão revela o caráter pedagógico da tradição. que assim poderia ser resumida: apresentar aos alunos noções fixadas. às gerações do futuro. mecanizado.Lenin o é só pela metade . Tradicionalismo não é um programa político. é coisa diversa da "evolução" dos liberais: estes revelam o movimento em todas as coisas duráveis. Estamos sempre na iminência de cair no abismo. aqueles revelam a durabilidade em todas as coisas movimentadas. Sem dúvida. A tradição guarda as experiências do passado e transmite-as. pela continuidade.

Essa atitude anticrítica em relação ao passado é característica dos tradicionalismos. encerra a vida cotidiana e banal pela vida. a opereta.preocupou seriamente o espírito atormentado de Pascal. com a sua duração obscura. tradição eterna do mau gosto. porém. Eis por que os jesuítas são humanistas convictos. de noite. O cerimonial dá-nos a disciplina para suportar o olhar das "noções fixadas". é idealista. O cerimonial é a disciplina pedagógica da "continuidade" tradicionalista. representa mais do que caprichos individuais: é a ligação entre o dia. Mas ele não tem razão. de modo algum. Essa comunidade de vistas idealista é independente de todos os programas políticos ou espirituais: a civilização antiga dos hu[C1]manistas. Há dias. mais alta e mais solene. que adormecem nosso espírito. aplicam o cerimonial de seus estereótipos. o rádio. Mas aquela atitude é verdadeiramente anticrítica? Ela me parece. platônico. Cada um de nós tem necessidade de certas cerimônias muito pessoais para poder adormecer. dentro de cerimônias. pragmatista. O cerimonial do adormecimento. não tem relações com o dinamismo . antes. e a noite. do velho Eckermann: "Em Roma hospedei-me numa casa perto da Piazza del Popolo. lia nas Conversações com Goethe. com os seus movimentos instáveis. Esse ponto de vista não é. Não importa. o que não é uma distinção muito sutil. o que está na base da verdadeira civilização". a literatura fácil. a civilização proletária à maneira de Lenin constituem conjuntos semelhantes de idéias de valor indiscutível. A tela. acrítica. todos nós. Parece contrária ao que procuramos? Não devemos esquecer que procuramos "a faculdade crítica de distinguir. Vivemos. Eis o elemento positivo da definição que a noção de "continuidade" nos forneceu: todo tradicionalismo. dos dogmas. subtraídas a toda crítica. invariáveis. hoje vê-se em Roma uma outra casa onde pretendem que eu teria habitado. Os jesuítas e os humanistas aliaram-se pela fé comum nas idéias duráveis. da durabilidade. é preciso deixar seguir as tradições" (8 de abril de 1829). das "idéias". Todo tradicionalismo crê em idéias invariáveis. Todo o cerimonial. a civilização medieval dos românticos cristãos. ao contrário do progressismo. o cerimonial religioso sobretudo.

que só deixa subsistir as coisas bem realizadas. Dizia a verdade que os grandes mestres do positivismo alemão não viam: a civilização acha-se à beira do abismo niilista. pela durabilidade. Todo platonismo é de ordem estética. Tudo quanto é moderno não vale nada. tudo o que é velho é belo. Ele nos leva à veneração respeitosa do que é. o grande arquiteto vienense."Feias! Mas são velhas!" Essas casas não podem ser feias. Ninguém admira Nietzsche mais do que eu. destruindo as falhadas. que não põe mais em discussão as "idéias". é um verdadeiro caminho de salvação. Permitam-me pequena digressão. "Que casas feias!". porque estão indestrutivelmente consagradas pelo tempo. Nietzsche é um poeta-profeta. E isso vale também quanto ao verdadeiro.dizia Loos . gostava de dizer: "Tudo o que é moderno é feio. nós é que temos necessidade de justificar-nos perante a tradição. Os antigos têm sempre razão." Porque o tempo esquece o feio. esquece o feio e só conserva o belo. O tempo. Mas a "evolução" de Hegel não é outra coisa senão a "durabilidade" de Goethe. de Nietzsche. na consciência dos semiletrados. paradoxalmente anti-histórico por definição. através de Hegel. seu mestre Schopenhauer barrou-lhe o caminho de volta a Hegel. O tradicionalismo é platônico. A profunda ignorância filosófica do seu tempo impediu-o de reconhecer a origem dessa catástrofe na falsa interpretação da evolução hegeliana em sentido darwinista e materialista. mas a mentira é esquecida por si mesma. porque o tempo as poupou. Assim. "As velhas verdades" . a Goethe. Muito ao contrário. que respondeu: . a pequena digressão conduziu-nos a um acriticismo consciente. Eis uma profissão de fé bem tradicionalista. É quase . dizia alguém a Machado de Assis. pela continuidade. do que se formou no seio da durabilidade. O caminho de volta. em profeta do pangermanismo ou apologista de um ateísmo especificamente alemão. ninguém lamenta mais os malentendidos brutais que o transformam. Meu amigo Adolf Loos.artificial de Nietzsche."dizem-nos mais que as novas mentiras." Alain explicaria isso pela função exterminadora do tempo. A tradição não tem necessidade de justificar-se perante nós.

As verdades da Antiguidade greco-romana não eram verdades eternas. e "tudo quanto existe tem a sua razão de ser".ridículo criticar uma tradição. Ele nos examina. portanto." Não cito isso para lembrar o elemento disciplinar. retardatários. e que prevalece na função escolhedora. A tradição é. dirigido para a vida. os velhos. e isto as erige em instâncias duráveis. da tradição. certamente sem ele o saber. que nos ensina a guardar a continuidade em relação às experiências do passado.Sois dignos de nós. rancorosos. e esse exame do moderno em face do eterno revela a função pedagógica da tradição. Ouso dizer: reconhecem-se as falsas tradições pela sua essência determinista. uma tática pedagógica. Essa "escolha" é de suprema importância. Nesta exigência reside a razão de ser de todo humanismo. A verdadeira tradição é sempre ativa. É muito mais razoável exigir que nós nos confirmemos perante elas. porque ela existe. que é a essência do humanismo: . Longe de mim fechar os olhos ante as verdades que existem em todo erro: há uma grande verdade histórica no marxismo. as tradições se confirmem perante nós. nós nos abandonaríamos ao falso tradicionalismo dos "homens de ontem". que dirigem a todas as épocas e a todo homem consciente esta pergunta. A esse "tradicionalismo arqueológico" nos contrapomos com a frase de Barrès: "Encontrei uma disciplina nos cemitérios. Sem essa "escolha". os vossos antepassados? Sois dignos? .Assim fala o tradicionalista. A frase citada de Goethe é bem hegeliana. fatalista. amadores do "que já foi antigamente e para onde é preciso voltar". Longe de nós o academicismo insuportável. pedagógico. Mas foram as primeiras verdades e as primeiras belezas bem-sucedidas que uma tradição contínua nos transmitiu. e as suas belezas não eram insuperáveis. e há mesmo uma verdade antropológica incontestável no racismo. mas para sublinhar o elemento ativo. É uma insolência crítica exigir que os antigos. Mas o que existe de . e a escolher as experiências que nos servem para reconhecer o durável dentro do instável em nosso curto momento de vida. como se a morte fosse um convite para a vida. passivista. há uma grande verdade humana na psicanálise.

com o espírito. E. Não é por um acaso que essas "escolas" tendem a estabelecer Inquisições mais "ortodoxas" e mais intolerantes do que qualquer Inquisição que tenha tentado suplantar a consciência humana. cuja putrefação envenena ainda a saúde magnífica dos tempos modernos. do destino racial. feita uma vez por todas.essencial nessas grandes heresias do nosso tempo é o passivismo fatalista que lhes é comum: a convicção da inevitabilidade do destino econômico. Somente a consciência humana possui a liberdade de escolher. Não há muito tempo que Nicolai Berdiaev lançou a idéia de Uma . do destino subconsciente. A consciência humana. o termo "medievalismo" tornouse conhecido. do bem ou do mal."a infâmia que começa por si mesma um novo mundo. E essa tentativa é característica das falsas tradições. romântico ou leninista. o que é indispensável ao verdadeiro tradicionalismo. O que é bom o foi eternamente. sucumbe. Então. "Maldita seja" . encerrada num "modernismo" individualista ou coletivista. mas para os antiprogressistas o termo significa a luz longínqua de um passado melhor e que talvez esteja destinado a iluminar um melhor futuro." MEDIEVALISMO DEPOIS DA famosa disputa entre o ex-jesuíta "modernista" George Tyrrell e o cardeal Mercier. Os seus feitos "desafiam toda a experiência".diz Arnim . morre a faculdade crítica pela qual julgamos o caos e "chamamos as coisas pelos nomes" a fim de as reconhecer. os homens começam por si mesmos. artificialmente cortada das experiências da verdadeira tradição. Os critérios se perdem. A tradição só existe na consciência humana. para nos deixar viver dentro de uma cega fatalidade. É a morte do espírito. O falso tradicionalismo tenta sempre suplantar a consciência humana por uma escolha. uma liberdade sem a qual todo tradicionalismo. Para todos os progressistas ele significa o fantasma das sobrevivências feudais e clericais. Não há mais compreensão do verdadeiro ou do falso. degenera em opressão inquisitorial.

uma esperança e uma ameaça. É preciso restituir o verdadeiro sentido às palavras. como John of Salisbury. nos seus Commentari. São os lettrés.. que se queixa da barbaria da sua época. sem possibilidade de retornar.os "tempos modernos" são a continuação legítima da Antiguidade e a Idade Média é um intervalo obscuro. os primeiros "humanistas" que se apoderam avidamente desta concepção para combater os monges "bárbaros" das velhas universidades. como teve ocasião de assinalar o P. A consciência histórica dos pensadores medievais conhece apenas duas eras: a era pagã e a era cristã. A veracidade não presidiu à formação do termo "Idade Média".nova Idade Média. no qual a verdadeira arte estava perdida. já que os contornos de um novo feudalismo e o clericalismo de uma nova religião apareciam no horizonte rubro. A idéia de uma era "média" está excluída. A concepção histórica trinária é de origem estética e surgiu depois que os artistas começaram a escrever para justificar. é um esquematismo dos retóricos. um termo filosófico e político. uma arte totalmente nova. P.Antiguidade. A nitidez e a sinceridade das concepções constituem hoje o primeiro dever. Idade Média. binária. pela evocação da Antiguidade. maltratadas por paixões ou por falta de veracidade. Mandonnet O. Os protagonistas da concepção trinária são o escultor Lorenzo Ghiberti. hoje. A noção de sucessivas "Renascenças" medievais precisa duma retificação. e Leone Battista Alberti. Um monge pré-humanista como Hildeberto de Lavardin lastima. a noite do paganismo passou. para os quais uma expressão lapidar valia mais do que a verdade. Nesta concepção trinária . Mesmo um "oposicionista". Ontem. mas não lhe passa pelo espírito a idéia de que essa grande era passada possa voltar. em elegias de uma perfeita latinidade. em virtude da força luminosa da Cruz. A oposição humanística contra a escolástica é muito menos uma oposição filosófica do que uma . porque as decisões incontestáveis do cristianismo excluíam uma terceira época histórica. continua fiel a esta concepção histórica. a grandeza decaída de Roma. Tempos Modernos .

o termo recebe uma significação política. inventor de um verdadeiro arsenal de injúrias furiosas contra os "séculos obscuros". A "lei dos três estados" de Augusto Comte é o último eco. O próprio Lutero. e o historiador William Robertson fala em "Dark Ages". Chateaubriand descobre o gênio do Cristianismo na catedral gótica. Ao mesmo tempo. que estava obscurecido pela mentalidade dos papas medievais. sua transformação em instrumento anticristão. Sua expressão torna-se definitiva. Grotius e Pufendorf.oposição gramatical e estilística. procedente da seita deísta dos Collegiantes. Enfim. a concepção trinária tem ainda uma base cristã: eles saúdam a renascença do cristianismo. Edmund Burke descobre a origem medieval da Constituição inglesa. cujos restos impedem ainda o advento da nova época burguesa. A revisão histórica deste erro e a reação política são a mesma coisa. A idéia de um progresso político paralelo a um progresso cultural firmou-se. lançou vigorosamente este grito "modernista". "medievalista" por excelência. porque a idéia antimedieval já havia encontrado uma expressão muito mais forte na retórica dos revolucionários de 1789 e dos Convencionais. O Romantismo é contrarevolucionário e ao mesmo tempo medievalista. Burke é o mestre de todos os teóricos contra-revolucionários. "séculos obscuros". já fraco. Isto continua até às primeiras luzes do século XVII. O professor holandês Horn. a idéia antimedieval tornou à sua origem: a retórica. A secularização da concepção trinária. Assim. é o inventor da expressão "Idade Média" com sentido pejorativo. O livre-pensador Bolingbroke também contribui para este mesmo sentido. aos viri obscuri. A Revolução Francesa é a última conseqüência da concepção de uma "Idade Média obscura". de Joseph de Maistre a Haller. começa por Giordano Bruno. combatem a Idade Média como época de feudalismo. Os novos discípulos de Cícero revoltam-se contra os filhos de São Francisco e São Domingos. é o seu latim bárbaro. Em Hutten ou em Erasmo. dessas concepções. até mesmo na glorificação da Idade . fraco. os criadores da forma moderna do "direito natural". e o que Hutten censura violentamente aos monges.

o Grande. Não ajudou a Cassiodoro. em que proíbe ao clero os estudos literários. que escrevia um latim impecável. não serviu a este pretenso humanismo. onde ele condena severamente os estudos de gramática e de literatura.a mesma a que sucumbiria o mundo bizantino pelas suas virtudes sóbrias e práticas de um último romano. e outra ao bispo Didier. Este simplismo vingar-se-á. propagada entre os cristãos ocidentais. última degeneração da retórica pagã. Para a destruição desses dois simplismos apostos. Assim eles se contentam com substituir a concepção antimedievalista do barroco por uma concepção de sucessão. o Grande. Idade Média obscura. Mas é preciso conhecer a literatura que o grande papa condena. Como prova. idéia especificamente barroca. Mas Gregório. cita-se a sua carta ao arcebispo Leandro de Sevilha. Mas eles sucumbem logo a uma confusão funesta: Haller reivindica para a Idade Média a idéia de um "Estado paternal". O simplismo é o inimigo da verdade. Certamente. o Grande. da verdade histórica sobretudo. De Maistre não distingue bastante o ancien régime de Luís IX do ancien régime de Luís XIV. enquanto o cristianismo oriental acabava de petrificar-se nos últimos formalismos gregos. divitiae omnes ac ordinis splendor constansque stabilitas. desviou a morte que ameaçava o espírito ocidental . Os séculos proclamam que este monge matou o humanismo.Média feudal por Carlyle. Restauração luminosa". À trindade "Antiguidade luminosa. comecemos pela destruição do pretendido simplismo medieval. Tornar-se-á possível a combinação de Joseph De Maistre com Augusto Comte: eis Charles Maurras. Ele. Tempos modernos corrompidos. porém. de Viena. "Ex scholis omnis nostra salus. omnis felicitas. principalmente por esta grande figura a que Fedor Schneider chamou "o simplista sobre o trono papal": Gregório. A ideologia contra-revolucionária sucumbe à retórica revolucionária e ao seu esquema trinário. Tempos Modernos luminosos" eles opõem a trindade: "Idade Média luminosa. Gregório."195 Lêem-se estas . instituiu fundamentos materiais sobre os quais a Ordem de São Bento pôde construir os seus castelos de espírito. que se fechava com os tesouros de seus livros no mosteiro Vivarium.

Siècle. d'Études Médiév. Vita S."foetor infernalium vitiorum in Romana curia"196 . simples religiosa. a liberdade de falar . Baumgarten S. Não se duvidará mais das palavras do P.. 1937.. Cumpre acrescentar o desinteresse científico. e os tempos modernos mal têm conhecido a liberdade ilimitada do ensino e a comunhão internacional dos espíritos nacionais que distinguiram a Universidade medieval. La renaissance du XIIme. o dogma da Igreja baseara-se no agostinismo neoplatônico. La vie scolaire du Moyen-Age. num pólo oposto. lembro Santa Catarina de Siena. Brunet et Treblay. N. A Universidade é uma criação da Idade Média. Na Idade Média não se tinha ainda que recear o espírito sectário. devem-se ler os recentes estudos sobre a escola de Chartre (Paré. Acta Sanct. 30 Apr.era muito mais ampla na Idade Média do que mais tarde. ao mesmo tempo que a ciência se nacionaliza pela perda da língua internacional.obrigou um papa desconcertado a calar-se (P. Otava. Cath. Raimundus Capuanus O. Inst. apoiado na autoridade do maior Pai da Igreja. 152). P. Para conhecer a universalidade dos seus interesses espirituais. sobretudo.. Mas o . no estudo em que Franz Strunz descreveu as origens monásticas da Universidade (F. Durante 800 anos. 306). violenta . A concepção "Idade Média" em sentido pejorativo coincide como advento do espírito utilitário e dos dogmas barrocos contra a velha Universidade. 1934) ou o repertório dos estudos latinos de Vincent de Beauvais (em Alex.. com os seus ataques vigorosos ao clero e à aristocracia. E a liberdade? Não se deve pôr em dúvida que a liberdade de pensar . citadas. Strunz. p. e.e. Thonnard: "Dois princípios dominavam a organização da Universidade medieval: a Liberdade e o Internacionalismo" (Histoire de la philosophie. cuja linguagem singular. natural num clero monacal. J. Falemos na vitória dessa liberdade medieval: Santo Tomás de Aquino. Isso possibilitou a extraordinária licenciosidade do Roman de la Rose. Histoire de la littérature chrétienne médiévale). porque o Roman de la Rose foi o livro mais lido durante três séculos". o que fez um Gourmont confessar: "É necessário rever a nossa concepção sobre a Idade Média. Sien.palavras beneditinas. 1923). 891.. ad. do latim.

Seduzidos pelas mesmas incompreensões. este mesmo Aristóteles que todas as instâncias da autoridade eclesiástica tinham recentemente condenado. porém. eram lutas entre operários e patrões (Inama-Sternegg. O mercantilismo estabeleceu barreiras alfandegárias que também só foram destruídas pelo liberalismo. descreveramnos o corporativismo medieval como instrumento eficaz para extinguir a luta de classes.monge Tomás ousa abandonar estes conceitos sagrados para basear o dogma da autoridade no filósofo pagão Aristóteles. isto seria impossível. É com certa surpresa que vemos envolvidas na política corporações julgadas inteiramente econômicas. 447). art. estabilizado. com os seus organismos corporativos de todas as profissões. um professor de seminário que abandonasse o tomismo para basear o dogma em Kant ou Hegel! E sabereis o que perdíamos. Como as modernas lutas de classes. teológicos e filosóficos. "Toda a segunda metade da Idade Média. 1920.). 1933) sabemos que era uma economia internacional e livre. do barroco. gostaria de falar da economia medieval. p. Entretanto. 872). vol. I. supl. p. hoje. e sim para obter privilégios iguais (Henri Pirenne. 1934) demonstrou que as corporações medievais não tinham as suas . Mas antes de tudo havia a luta de classe dos artífices e comerciantes contra a nobreza privilegiada. p. 197 ff. Aí o liberalismo e a Idade Média se juntam contra um inimigo comum: o barroco. Mas desde Fritz Roerig (Le Commerce international du Moyen-Age.disse o economista conservador Gustav Schmoller (Précis de l'économie politique. O cônego Wilhelm Schwer (Corporations et organisations corporatives du Moyen-Age. Na época dos sistemas fechados. Dictionnaire des sciences politiques. II. Ela nos foi descrita como um sistema fechado. Muito ao contrário: o corporativismo medieval era um instrumento para a luta de classes. Na verdade. é uma época de lutas de classes" . Sua liberdade só foi destruída pelo mercantilismo barroco. essa luta não era para abolir esses privilégios. Já insistimos demais sobre os elementos estáticos da organização medieval. Les anciennes démocraties des Pays-Bas. descuidamo-nos do seu dinamismo. "Corporation". Insistindo ainda neste ponto de liberdade. Imaginai.

e seria irrealizável sem essa condição. Se nos foi permitido falar. tendo o barroco por inimigo comum. verdadeira antítese do Estado medieval. Ainda uma vez o liberalismo e a Idade Média se encontram. Nos séculos XIV e XV os Estados se dissolviam por movimentos anárquicos das corporações. Ortega y Gasset chega mesmo a falar em "Direitos do homem" da Idade Média. mas os privilégios feudais e as instituições do liberalismo inglês tiveram as suas origens comuns no direito germânico. as corporações urbanas. Às corporações da nobreza e do clero ajuntam-se. V) Ortega y Gasset assinala o caráter antidemocrático. pois o Estado medieval era muito fraco. No seu admirável ensaio sobre os castelos de Castela197 (El Espectador. e opõem-se mais tarde. num "liberalismo medieval". Não é por acaso que o liberalismo dos "Direitos do homem" se revolta contra o absolutismo barroco. O corporativismo moderno tem necessidade de um Estado forte. com as necessárias reservas. t.origens em corporações profissionais. Mesmo sem querer subscrever todas as . logo na primeira página da sua Storia di liberalismo nell'Europa (1925. incapaz de pôr freio às usurpações dos privilegiados. Afinal. a origem feudal da "Liberdade" e a sua prioridade cronológica em relação ao Estado absolutista do barroco. o que torna muito limitados os poderes do Estado em relação aos direitos individuais. seria excessivo falar num "liberalismo medieval". mas profundamente liberal. o corporativismo medieval é um fenômeno de degeneração do feudalismo. Esta diferença é particularmente visível nas relações entre as corporações e o Estado. os seus modelos são muito mais recentes. prolongamento do sistema feudal e conseqüência de um Estado muito fraco. e sim em corporações políticas. As corporações medievais reclamam com arrogância o direito de resistência contra o Estado. da sociedade medieval: os senhores feudais colocam os seus direitos pessoais acima da lei do Estado. 1-7). pp. o corporativismo moderno não tem nenhum modelo medieval. não nos será difícil descobrir o seu adepto mais fervoroso: a Igreja. Eis por que Guido De Ruggiero assinala. Sem dúvida.

e. a Igreja como base espiritual da Ordem estabelecida. cada derrota da Igreja é confirmada por um tratado chamado Concordata com o Estado vencedor. com argumentos convincentes. Como era e é admissível este erro? Fez-se da Idade Média um pretexto para polêmicas apaixonadas. a queda de Constantinopla. Entretanto. 1921). a definição de uma época histórica é difícil. sim. os sistemas filosóficos rigorosamente fechados. Concordata já não significa uma derrota. o Estado absolutista do barroco chegou a modificar essas relações. Para refutar as censuras perversas e ridículas de "espírito dominador clerical" seria melhor admitir francamente esta oposição revolucionária da Igreja medieval aos poderes monárquicos. um papel revolucionário. Desde os estudos de Alphons Dopsch (A transição da Antiguidade para os tempos modernos. mesmo para os compêndios escolares. a Igreja teve outros aliados. Depois. não tem uma cronologia definida. A luta durou todos os séculos da Idade Média. Cola di Rienzo e o anônimo Lavrador de Boêmia. e a da Idade Média o é extraordinariamente. o Estado paternal e forte. porém. 1492. e desde então. Desde as estipulações de Worms. em 1122. desempenhou. e. por fim. A conclusão já está tirada. aliada às forças revolucionárias da pequena nobreza e das cidades. e. porque a Idade Média não tem fronteiras bem determinadas. A própria "invasão dos bárbaros". As velhas datas que marcam o seu fim . O que se odeia ou admira na Idade Média. a Reforma Luterana . 1931). definitivamente. 1517. Konrad Burdach.198 não se poderá negar que a Igreja. uma vitória! Apenas as derrotas eram menos duvidosas do que as vitórias. sabemos que não há interrupções definitivas entre as épocas.afirmações do historiador protestante Eugen Rosenstock (Les révolutions européennes. atributos da Idade Média. em vez de defini-la sinceramente. nos seus estudos sobre Petrarca. considerada como o seu começo. provou. sim. pelo menos desde Gregório VII. que a Renascença não começou com . A Igreja foi muitas vezes vencida. do barroco. surpreendentemente.1453. Sem dúvida. a descoberta da América. não são.não são bastante precisas.

por outro lado. para se encontrar a sua verdadeira origem. com a velha. a Idade Média não é uma época histórica determinada. e Carl Neumann ("Fim da Idade Média". nem uma esperança nem uma ameaça. Uma nova Idade Média seria obra de outros bárbaros. que surgiam da escória de civilizações muito velhas: "monstrum horrendum. Bárbaros sem luz. p. Uma nova Idade Média justificaria talvez ainda as angústias progressistas. Mas não se parecerá com as Idades Médias que a antecederam. Mas desta "nova Idade Média" nada sabemos. 124) persegue o espírito medieval até o começo do barroco. Idade Média é um destino. pois que uma luz divina brilhava sobre o mundo. não será. absolutamente. Elas não representam nem infernos nem paraísos. Não há fronteiras da Idade Média. Quando uma era da história termina. Se uma nova Idade Média nos atingir. Realmente. senão que ela não se parecerá. nenhuma luz poderia brilhar. 1932) encontra o espírito medieval e cristão em toda parte. Eduard Meyer (Histoire de l'Antiquité. cuja vitalidade abundante podia ser dominada.os humanistas nem com Petrarca. os "bárbaros verticais" de Rathenau. e que. cumpre remontar até o século de São Francisco de Assis. para nós outros. nem admitir. Atualmente uma era da história está chegando ao fim. As "Idades Médias" repetem-se sempre. Ernst Walser (Estudos sobre a história espiritual da Renascença. Idade Média é uma certa disposição e atitude do espírito. uma nova Idade Média pode ressurgir. em pleno movimento do Renascimento. que os últimos servidores da luz estejam na obrigação de aliar-se a esta nova era. por definição. Não se pode subscrever. Mas. Não há mais uma definição. Deutsche Vierteljahrsschrift fuer Geistesgeschichte. Os admiráveis estudos de Jan Huizinga sobre o Outono da Idade Média na Borgonha quatrocentista marcam o fim definitivo da velha cronologia. cui lumen ademptum". II) estabeleceu a lei histórica segundo a qual toda civilização passa por uma "Idade Média". mas não as esperanças tradicionalistas. A "velha Idade Média" era obra de jovens bárbaros. t. de uma juventude cheia de promessas. XII. um monstro sobre o qual. .

" No meio do pátio. não será mais "a" Idade Média. "uma" Idade Média. Silêncio. Olhando pelas frestas das portas monumentais . O fim das universidades seria um fim definitivo. Via a biblioteca coberta de poeira. as velhas pedras. e isto é grande coisa. os estudantes haviam-se juntado a uma imensa manifestação popular. pois. as universidades são doentes. Das universidades depende a vida espiritual das nações. E reconheci um fim definitivo. e. e que se chamavam "acadêmicos". Sabia muito bem o que isso significava para mim: um adeus para sempre. Nas paredes viam-se os bustos dos professores que ali estudaram e ensinaram. tendo nos lábios o sorriso enigmático da morte. A decepção foi muito grande. o edifício estava fechado. num pequeno jardim. exames fáceis e fraudulentos. senão moribundas. no solene recinto da Universidade da minha cidade natal. erguia-se uma estátua de mulher nua. com toda a ingenuidade dos meus dezoito anos. e no busto de um astrônomo: "O princípio que traz o seu nome ilumina-nos os espaços celestes. no busto de um helenista lia-se a inscrição: "Ele acendeu e transmitiu a flâmula sagrada". o jardim. sim. os auditórios barulhentos.Se houver. sob o ameno sol de outono. com olhos enigmáticos: a deusa da sabedoria. Por toda parte. Não esquecerei nunca. Os iniciados bem sabem que não é esta uma questão para os pedagogos especializados. Nesta partícula "uma" fica toda a incerteza do nosso futuro.via sob a luz branda do sol os pórticos. Um pórtico silencioso. uma nova Idade Média. O abismo entre o progresso material e a cultura . A última vez que passei perto deste "templo das Musas". e a deusa nua. A IDÉIA DA UNIVERSIDADE E AS IDÉIAS DAS CLASSES MÉDIAS JAMAIS esquecerei o dia em que entrei pela primeira vez.estávamos na primavera . brutalidades de bandos que gritavam os imbecis slogans políticos do dia. estupidez e cinismo em cima e em baixo das cadeiras dos professores.

às vezes. ali. igualmente. "úteis" para os serviços do Estado. Porque não cabe à Universidade formar crentes nem sequer sugerir convicções." "Entramos numa corrida entre educação e catástrofe. demais. Pode ser que todas essas instituições lamentem. afastada da vida. somos riquíssimos de saber e mendigos de cultura. Acusa-se o Estado por ter-se intrometido. Falham. acusar-se-á amargamente o utilitarismo das . deste modo. e acusa-se o Estado por não se intrometer. Acusam-se os professores por mergulharem nos ensinos profissionais e descuidarem-se da ciência desinteressada. os mesmos doutores que antes. queixam-se de que as universidades fornecem elites demais. Os edifícios das universidades resistem ainda." E. Já abundam os homens cegamente convictos. e as suas boas crenças não resolverão a doença da Universidade. o que agravaria o problema em vez de o resolver: a ciência seria. e acusam-se os professores por mergulharem na ciência pura sem saberem ensinar. esta catedral invisível. mas dar ao estudante capacidade para escolher a sua convicção.espiritual aumenta de dia para dia. Desejam salvar as universidades pela separação entre as instituições puramente científicas e os institutos de ensino. e neles trabalha-se muito. e o ensino entregue à rotina. Quem é o culpado? Evidentemente. da Igreja. muito "práticos". queixam-se de as universidades não fornecerem elites. e as armas desse progresso nas mãos dos bárbaros é fato que clama aos céus. é inadmissível simplificar uma discussão de tal envergadura. um proletariado intelectual. assim. Abundam os remédios propostos. mas o edifício do espírito. de que a nação tem necessidade. os mesmos bacharéis. Então. Aqui. a abundância de homens convictos e a falta de homens livres." Aí está a questão da Universidade. Hoje em dia Herbert George Wells pode dizer: "We are entered in a race between education and catastrophe. as tentativas mais bem pensadas de curar a doença infundindo uma nova crença ou uma velha fé: teremos os mesmos estudantes. em breve. Em tempos mais felizes a sueca Ellen Key dizia com sutileza: "Cultura é o que nos resta depois de termos esquecido tudo quanto aprendemos. está ameaçado de cair em ruínas. dos partidos e das empresas comerciais.

que disso entendem muito bem. que continuam bem tranqüilas. a física e a química. com surpresa? Estes regimes não se ocupam. são ciências "inúteis". O utilitarismo é o inimigo mortal da Universidade. acharam indispensável regular pela força o estudo das ciências. são justamente as favoritas dos regimes totalitários. e aquele que desejar transformar uma nação deverá transformá-las integralmente. a filosofia. Foram justamente estas Litterae que formaram os caracteres das nações. Ora. que as abraçam até sufocá-las. a história e a filosofia. são as ciências úteis. que nos forneceram a luz elétrica e os gases asfixiantes. é sempre Oxford e Cambridge. A França medieval é a Sorbonne. Está claro. e cujo prolongamento moderno é a École Normale Supérieure. Apelo desta sentença para a sabedoria de certos homens práticos.universidades modernas. mais conservadora. absolutamente. Tratam somente das "velhas" ciências. Mas o que é ainda mais notável é uma certa coincidência. os estudos literários. ao qual julgo que devemos algumas perspectivas novas. É digno de nota. cujas conseqüências práticas poderiam abalar estes regimes. que na Idade Média já eram conhecidas. que vemos nós. cujo enfraquecimento coincide com a fundação renascentista do Collège de France. é uma criação da Idade Média. os ditos regimes não se ocupam com as ciências naturais. que a Idade Média conhecia pouco. Para a mentalidade média do nosso tempo a utilidade das ciências é determinada segundo as aplicações práticas: a física e a química. Eles sabem o que é uma universidade. Por felicidade os poderosos deste mundo introduziram um novo ponto de vista. a história. A Alemanha luterana . Mas o que quer dizer "prático". Ora. das Litterae. A história das universidades é a história espiritual das nações. Universitas Litterarum. Mas as ciências totalmente inúteis. que não nos fornecem nada. com as ciências "práticas". A Inglaterra. Certos regimes. Sabemos que a Universidade. "útil"? A resposta não é tão simples. ditos totalitários. e que formam a verdadeira alma da Universidade. e que se juntaram mais tarde à Universidade.

México. Universidades e Estudos Gerais. nos tempos modernos. súditos e naturais tenham Universidades e Estudos Gerais em que sejam instruídos e titulados em todas as ciências e faculdades. o clero das universidades medievais. confiadas aos frades. and we builded our houses and settled the Civil Government. de 21 de setembro de 1551. e já a primeira cédula de fundação. formam o tipo ideal da nação: o lettré. e ao bem público de nossos reinos. e que construímos as nossas casas e estabelecemos um governo civil. e desterrar deles as trevas da ignorância. a Alemanha moderna é Bonn e Berlim. o gentleman. o espírito desinteressado da Universidade medieval: "Para servir a Deus. o Gebildeter. admirável. do que semelhantes termos haverem sido empregados quando os puritanos fundaram.") . convém que nossos vassalos. em 1636. As velhas universidades da América Latina .Lima. uma das nossas primeiras ocupações foi estimular o ensino e perpetuá-lo para a posteridade. Córdova são fundações da Coroa de Espanha. a ordem real do imperador Carlos V. dreading to leave an illiterate Ministery to the Churches. one of the next things we looked after was to advance Learning and perpetuate it to Posterity. As velhas universidades são de utilidade muito reduzida. Nosso Senhor. mas foram. a de Harvard: "After God had carried us safe to New England. ("Depois que Deus nos tinha seguramente conduzido a Nova-Inglaterra. fundamos e constituímos na cidade de Lima dos reinos do Peru. desde o início. Bogotá. Elas formam os homens que substituem. e na cidade de México da Nova Espanha. a primeira universidade da América inglesa." Nada mais eloqüente. criamos. com receio de deixar às igrejas um clero iletrado quando os nossos clérigos atuais jazerem em pó. 1643). dá claramente a entender o sentimento da responsabilidade perante o espírito. Elas formam os clercs. As universidades americanas têm a mesma origem. Elas não fornecem homens práticos. when our present Ministers shall lie in the dust" (New England's First Fruits.é Wittenberg e Iena. e pelo muito amor e vontade que temos de honrar e favorecer aos de Nossas Índias.

que os examinadores lhes devem como recompensa dos seus esforços. os seus estudos não são de . por sua vez. Entre os estudantes "ricos" existem os pobres que desejam manter penosamente o standard de uma família em decadência. dizemos. porque o pai tem um. porque isto dá certa consideração na sociedade ou para adornar fortuna um pouco recente. Quem é o culpado? Ainda uma vez apelo para aqueles que disso entendem. Antes. muitas vezes imensos. só há estudantes. Já não formam lettrés. Seria cruel e estúpido censurá-los. mas que através dos estudos testemunham grande respeito às ciências. Todavia. em virtude dos sacrifícios. advogados. precisam deles. aliás. Há duas espécies de estudantes: chamá-las-emos os "ricos" e os "pobres". Junte-se a isto a benevolência. importa não se dissimularem os graves inconvenientes. para subsistir materialmente. Por toda parte onde há aqueles regimes os estudantes estão nas vanguardas da violência. que não têm necessidade de estudar. estudam para se assegurarem um melhor sucesso na luta pela vida. professores. pelas ocupações acessórias para ganhar a vida. e é um romantismo utilitário que vem muni-las das asas do progresso. são apenas duas expressões cômodas para abraçar uma generalização inevitável. Ouso responder: os estudantes são os culpados. o nível baixa sensivelmente. As universidades tornaram-se lugares de investigações científicas. formam médicos. nem gentlemen. Não há mais clercs. devemos admirá-los. muito louvável. até o nível dos estudantes "ricos". O nível baixa. São estes os que têm necessidade de um grau acadêmico. o que é. plenamente justificável. sobretudo têm pressa de terminar os estudos. Em todo caso. há muitos deles: vivem embaraçados pela miséria. e estas. Existem outros verdadeiramente ricos. feitos por eles e seus pais para melhorar um futuro incerto e tornar a existência mais digna. nem Gebildeter. Em suma. sublinhando que há pobres entre os "ricos" e ricos entre os "pobres". Estudantes "pobres". Os estudantes "pobres" são aqueles que estudam "para a manteiga e para o pão". Não é um acaso.O que resta destas Universitates Litterarum? O nome.

José Ortega y Gasset caracterizou essa nova espécie de intelectuais. os especialistas científicos de toda sorte. The Idea of a University. Este nuevo bárbaro es principalmente el profesional más sabio que nunca. os homens que se encerram nas especializações têm a inteligência em regresso" (citado pelo cardeal Newman. mas em compensação fornecem verdadeiras massas. p. os esforços ulteriores parecem-lhes ridículos. Queixam-se de que as universidades já não fornecem elites. da elite de outrora. Sim. porque as ciências modernas e suas investigações têm menos necessidade de cérebros que de batalhões de estudantes. el científico" (Misión de la Universidad. pela sua situação social. predizia: "Ainda que a ciência seja favorecida por essas concentrações de inteligência a seu serviço. A inteligência que é precisa para estudar uma profissão. bom advogado. mas sinceramente: "Nuevo bárbaro. os advogados. pero más inculto también . 72). os funcionários superiores de toda espécie. por seu lado. determinam o nível geral. É o regredir de uma elite à condição de massa ornada de títulos acadêmicos. arcaico y primitivo en comparación con la terrible actualidad de sus problemas. p. el médico. e para isto eles satisfazem. bom professor. . eles não estudam mais do que o necessário. Obras. o cônego dr. Existe Inteligência e existem "intelectuais". aqui. Copleston. em Oxford. e ter o espírito preso aos limites da profissão. mesmo acadêmica. Intelectuais são os médicos.el ingeniero. Sejamos sinceros: podemos ser bom médico. É preciso que se digam. Mas deve-se dizer que somente uma parte desses "intelectuais" pertence à Inteligência. el abogado. algumas verdades muito impopulares e muito desagradáveis. e sabemos que o grau acadêmico nem sequer é sempre a garantia de boas qualidades profissionais. Há vários séculos um sábio inglês. o indispensável para passar nos exames. 1289). retrasado con respecto a su época. que é. E esse nível é a morte da Universidade. fellow do Ariel College. E são eles que. não é tão grande como os leigos imaginam. o resto dos clercs. violentamente.necessidade absoluta. Mas ele confere sempre uma autoridade social.

enfim. E esta proletarização interior é um fenômeno da educação. Chama-se "classes médias" o problema central da nossa época. a ascensão de camadas igualmente novas. mais forte do que o mestre. considerando essas multidões de homens . Ora. o espírito da reação violenta contra certas condições econômicas e sociais. das quais é a expressão triunfal. Fascisme et grand capital. É o fato central da nossa época: as classes médias. a liberdade de movimento. É também um fato fundamental que a Rússia não conheceu.as classes médias. de funcionários públicos. de Daniel Guérin. seguindo a corrente da época. todos formados num regime de ensino secundário ou superior muito facilitado. O fascismo foi impossível na Rússia. verdadeiros exércitos de empregados privados. transformam-se em massas proletárias. Sim. não está exclusivamente ligado às massas obreiras. todos mais ou menos educados. nos outros países. essas multidões de "pequenos intelectuais". Considerando. apresenta a tese de que o fascismo é a última expressão do grande capitalismo. essas massas de homens. juntos. O livro mais bem documentado que conheço sobre o fascismo. mesmo justamente para evitar a ameaça da proletarização.O fato central da nossa época é a violência generalizada a todos os setores da vida pública. a violência que pretende substituir o espírito no seu papel guiador das massas. mas o espírito proletário. Guérin esquece-se de concluir que o instrumento se mostrou. A burocracia soviética. participam dele todas as "massas". como fenômenos sociológicos. e que os operários e os capitalistas perderam. não teve uma classe média. Provando irrefutavelmente que o grande capital se serviu do fascismo para bater o movimento trabalhista. Tese errônea. Dessas massas que os pensadores políticos muitas vezes confundem com o proletariado econômico. de pequenos empresários. Fato fundamental do nosso tempo: o fascismo propaga-se e vence através das classes médias. e a massa dos intelectuais também. os stakhanovistas e outras camadas privilegiadas do operariado não são outra coisa senão uma nova classe média. o bolchevismo criou uma classe média. que o século XIX ainda não conhecia. mesmo antes de serem proletarizadas. pela ação deste inimigo de ambos .

O mal-entendido correspondente não viu nas novas classes médias as possibilidades revolucionárias. Via-se na classe média a classe essencialmente conservadora. No pensador revolucionário Sorel não se viu o conservador. esqueceu-se que a classe média fizera a Grande Revolução. preocupado. o representante das classes médias. nem capitalistas nem trabalhistas. Chegou o dia de uma nova classe média. o pai espiritual comum do fascismo e do bolchevismo. o século XIX. e ela o era enquanto os princípios consolidados da Revolução Francesa abrigavam a classe média contra as ameaças do grande capitalismo e do movimento socialista. dos Pasteur e Henri Poincaré. porém. acabou. E a ideologia que permite explicar o espírito das novas classes médias é a ideologia pequeno-burguesa. a portadora mesma das tradições humanísticas. numa das épocas mais magníficas do espírito francês. Explica-se. pela qual ele responsabiliza violentamente a Inteligência. seja um homem profundamente pequeno-burguês. dos Rodin e Debussy. dos Mallarmé e Claudel. dos Degas e Cézanne. Mas é por isso mesmo. deve-se precisar o pensamento: o fascismo e o bolchevismo têm o lado comum de serem expressões das novas classes médias. o ideólogo da violência. ao espírito ele prefere a vitalização pelos instintos bárbaros da massa. Sorel parece sobretudo "moderno". por isso. Isto. triunfar contra um . enfim. Fica-se a admirar que Sorel fale em decadência. com a decadência vital da raça latina. que Karl Marx não podia prever. que ele concebeu fielmente no espírito conservador de Le Play. Sorel é violentamente antiintelectualista. que Georges Sorel. Vê no espírito e suas obras o grande obstáculo da volta ao primitivo.novos. na França dos Taine e Bergson. pronta a vencer por uma nova revolução violenta ou. Neste ponto. dos Flaubert e Proust. Georges Sorel. preocupado com a decadência das "autoridades sociais". como na Rússia. representante típico das classes médias francesas. É a hostilidade ao espírito que liga Sorel diretamente às novas classes médias. Durante um século. contemporâneo de nós outros. violentamente revolucionária e antiintelectualista.

regime obsoleto. Foi Sorel quem emprestou às novas classes médias a ideologia revolucionária. Poder-se-ia acreditar que os grandes obstáculos dessa revolução fossem os capitalistas e os trabalhadores, ou, na Rússia, um regime milenário e eclesiasticamente consolidado. Engano. Vimos a fraqueza incrível do regime tzarista, a derrota fácil dos socialistas, o suicídio dos capitalistas. O verdadeiro obstáculo - e Sorel o previra bem - era a Inteligência. É ela que merece as diatribes mais cruéis dos chefes e dos caudilhos. Para a vitória final, precisa-se acabar com a Inteligência. Como? Não é a classe média o principal agente dos movimentos espirituais? Sim, é, ou melhor, foi. O século XIX, o século liberal, abre a todos todas as possibilidades. A educação superior é o caminho da ascensão. A preeminência da classe média no século XIX baseia-se na sua cultura universitária. Mas o século XX acaba com isso. O grande capitalismo precisa mais de exércitos de pequenos empregados do que de self-made men; as profissões liberais estão superlotadas; o movimento socialista repele os que resistem à proletarização e suas humilhações e privações. Privada dos privilégios da Inteligência, a classe média quebra furiosamente o instrumento, como uma criança quebra o brinquedo insubmisso. É uma criança essa nova classe média; mas uma criança perigosa, cheia dos ressentimentos dos déclassés, furiosa contra os livros que já não sabe ler e cujas lições já não garantem a ascensão social. Está madura para a violência. A violência é o fenômeno "espiritual" central das novas classes médias e da nossa época; significa a determinação de empregar todas as armas, todas as que o esforço do espírito criou, para conseguir um fim material: a salvação social da classe. Não se admitem outros fins. Ridiculizam ou anatematizam todos os esforços independentes, desinteressados, do espírito. Admiram a especialização útil do "intelectual de profissão", e banem o humanismo do "professor". A violência antiintelectualista das novas classes médias é, afinal, uma falta de educação, ou, antes, o fruto de uma falsa educação. Fruto da falsa idéia que as classes médias

formavam da Universidade: da nova Universidade, que fornece exércitos de médicos, advogados e técnicos, em vez de clercs, de uma elite. O problema capital do nosso tempo, o problema da elite, é, no fim das contas, um problema de pedagogia humanística. Existe mesmo, hoje, política que consiste na exterminação das elites pelas armas dos especialistas. E foi bem preparada: da diminuição das lições latinas existe apenas um passo para a destruição dos livros e dos museus. O resultado mais freqüente da moderna educação universitária é um decidido adeus aos livros. Mais tarde, combaterão as "línguas mortas" na escola. Enfim, declararão inútil todo o ensino secundário, com as suas idéias vagas e inúteis duma "cultura geral"; talvez toquem, com isso, no ponto nevrálgico da discussão. Todo o problema espiritual dos nossos dias é, pois, um problema de falta de educação humanística, um problema pedagógico; e todo o problema pedagógico dos nossos dias é um problema da escola específica das classes médias, da escola secundária. Segundo o regime escolar vigente em todos os países, sem exceção, a Universidade dedica-se ao ensino profissional superior, enquanto a "cultura geral" fica reservada ao ensino secundário, aos ginásios e aos liceus. Quer dizer: o ensino da cultura geral limita-se aos jovens de dez a dezoito anos. Depois, a "cultura" termina, e a medicina e a jurisprudência começam, sem nenhuma "cultura geral". Os conhecimentos do ensino secundário empalidecem, naturalmente, com o tempo; mas ainda há coisa pior: todo esse ensino de "cultura geral" é feito ao alcance de jovens de dez a dezoito anos: a história, a filosofia, a literatura, amoldadas ad usum Delphini, e forçosamente puerilizadas. E aí fica. Nunca mais o jovem médico ou engenheiro ouve falar em história, filosofia, literatura, exceto pela imprensa ou pelo rádio, que se colocam ao alcance do espírito das grandes massas, pueris por natureza. Resultado: um espírito artificialmente preservado no estado pueril com uma formação profissional superposta. Conheço bem as numerosas exceções que felizmente existem. Mas, em geral, estas massas graduadas se distinguem dos

iletrados somente por uma autoridade profissional que as torna menos úteis que perigosas. Ainda uma vez cito Ortega y Gasset: "La peculiarísima brutalidad y la agresiva estupidez con que se comporta un hombre, cuando sabe mucho de una cosa y ignora de raíz todas las demás" (O. C., p. 1291). Eles, porém, os iletrados, têm sempre razão, porque são muitos e ocupam um lugar de elite, esse "proletariado intelectual", sem dinheiro ou com ele, isso não importa. Julgam tudo, e tudo deles depende. Lêem os livros e decidem sobre os sucessos de livraria, criticam os quadros e as exposições, aplaudem e vaiam no teatro e nos concertos, dirigem as correntes das idéias políticas, e tudo isto com a autoridade que o grau acadêmico lhes confere. Em suma, desempenham o papel de elite. São os nouveaux maîtres, os señoritos arrogantes, graduados e violentos; e nós sofremos as conseqüências, amargamente, cruelmente. "We are entered in a race between education and catastrophe." Wells tem muita razão. Mas é de grande importância datar a desgraça. Esta catástrofe irrompeu sob o signo do progresso, e o progresso ilimitado, muito do gosto de um Wells, cavará mais profundamente o abismo. O verdadeiro caminho é a volta. Temos mais uma vez "a disputa do medievalismo". Uma coisa fica, porém: a Universidade é uma criação da Idade Média. Todas as universidades medievais são, por princípio, instituições "clericais": elas formam os clercs. O restabelecimento das universidades "clericais" é uma restauração de tradições. Quatro ou cinco faculdades reunidas não constituem ainda uma universidade. Elas não criam esta "convivence of sciences, which forms a philosophical habit of mind",199 de que fala o cardeal Newman. Não se trata destas ciências ou daquelas profissões. Tratase do espírito comum que as anima, do espírito filosófico, antiutilitário, desinteressado, que as nossas universidades perderam, e que é a própria Idéia de Universidade. Derrubemos, pois, este estado de coisas. É ao ensino secundário que cabe o preparo do ensino profissional, dispensado nos hospitais e na magistratura. Em

conclusão, é à Universidade que incumbe a formação do espírito da "clericatura". Voltemos aos estudantes: o seu utilitarismo, mais perigoso que o das ciências, perdurará enquanto a freqüência das universidades for a chave para as posições de mando na sociedade. Verdadeiramente, o oposto deste utilitarismo é o desinteresse, no qual Newman via o espírito e a idéia de universidade, o espírito do clero universitário medieval, que se sentia independente do mundo e somente responsável perante Deus. Sem tais padres o altar fica vazio e o culto abandonado. Poderia chegar o dia em que ninguém compreenderia mais as fórmulas nem os poemas, em que os quadros de Rembrandt seriam pedaços de tela e as partituras de Beethoven farrapos de papel; dia da barbaria, em que a história humana se transformaria, pela sucessão de desgraças, num formigueiro mal organizado. E este dia talvez já esteja mais próximo do que realmente pensamos. "Somos a última reserva, fiquemos conscientes disto" - dizia Hugo Ball. Fiquemos conscientes, "dreading to leave an illiterate Ministery to the Churches, when our present Ministers shall lie in the dust". LETRAS ITALIANAS Conhece-se pouco, no estrangeiro, a literatura italiana. E é pena. É uma das maiores e mais magníficas literaturas, a literatura deste povo que amei sempre; e as letras italianas encerram uma grande lição humana. A literatura italiana é uma literatura latina e a filha predileta da literatura romana. Como literatura latina, ela encanta pela harmonia de sons e cores, pela melodia verbal, pela superfície; como literatura romana, ela constitui uma escola de firmeza e de caráter. Eu sonho com uma história da literatura italiana onde se veria, através das letras, a incomparável estabilidade do caráter italiano sob a pressão dos mais terríveis sofrimentos e atribulações, que duraram séculos e séculos. Tal história seria uma consolação para nós outros, uma lição; e se acaso esta firmeza se partiu, nem por isso a lição será

menos importante. Será uma grave advertência para nós intelectuais, cuja substância se submete mais facilmente a corrupções do que a vitalidade deste povo muito antigo. É um povo tranqüilo, alegre, zombador, sombreado por algumas melancolias do mar e da montanha, orgulhoso de seus antepassados e das grandes obras que deixaram, mas, acima de tudo, cuidadoso da sua nutrição, da sua família, de um pouco de prazer e, enfim, de uma boa morte. É um popolo minuto, um "pequeno povo", que se exprime numa preciosa literatura dialetal. Nos gracejos espirituosos dos pequenos-burgueses florentinos e nas canções nostálgicas dos marinheiros napolitanos resplandece um último raio do sol jônico, do sol de Homero. Sobre este pequeno povo arqueia-se um Olimpo. É o céu, e algumas vezes o inferno, desses grandes poetas italianos, que foram, em todas as épocas, grandes profetas. Dante, o Juiz, é o mestre de toda a literatura italiana. Seguem-se-lhe Petrarca, não somente o amante de Laura, mas também o poeta colérico dos panfletos contra os papas corrompidos e contra os pequenos tiranos que dilaceram o povo, e aos quais ele grita: "Pace, pace, pace!"; Ariosto, cuja epopéia fantástica encerra orações dantescas contra a "Itália, cloaca de servidão"; Filicaja, o patriota desesperado; Alfieri, o homem de ferro, cuja poesia "é um ranger de dentes sobre a miséria da Itália"; Foscolo, o poeta do exílio; e enfim Leopardi. Manzoni e Carducci representam o fim das tradições que criaram a Itália moderna: Manzoni, o último católico liberal; Carducci, o último humanista toscano. Depois deles, é o vácuo. Os juízes do prêmio Nobel, quando desejam honrar a Itália, encontram apenas os fracos contos folclóricos de Grazia Deledda. O novo século vê uma geração pequena. Vede os romances de Antonio Fogazzaro, retrato da burguesia católica de província, muito bem feitos, mas sem medula; de um catolicismo que se adapta a todas as excursões de sensualidade amorosa e de acomodação modernista. Vede as poesias de Giovanni Pascoli, que lastimam os sofrimentos dos emigrantes italianos em todos os continentes, e cujo socialismo sentimental encerra já alguns

poeta e novelista fascinante. Mas a última novidade é Marinetti. Ardengo Soffici. para desarraigar todo um povo e não deixar.poderoso. cada ano. Mas. mas essa destruição constitui um acontecimento bem italiano. um verdadeiro mestre: Giovanni Verga. misturados com a extraordinária magia da palavra que serve para narcotizar os desesperos da alma vazia de Gabriel D'Annunzio. em que os pequenosburgueses de Florença se divertem. do velho mundo feudal que se transforma. de onde traz. polemista furioso. até nesse recanto idílico. entre esses grandes mestres de uma pequena arte. onde as banalidades turísticas de Nápoles se transfiguram em grande poesia. O que existe de mais notável é a falta de bom senso. as mais das . cada um à sua maneira. Giovanni Papini experimenta todas as aventuras espirituais. É uma obra completamente regionalista. que era. deixai a síntese do falso misticismo e da sensualidade desenfreada. o patriarca e o vate. senão destroços. é o Balzac da Sicília. título da sua autobiografia precoce. mas estéril. da demagogia furiosa e do chauvinismo bárbaro. D'Annunzio. esgota-se na propagação das modas intelectuais de Paris. o cantor às vezes .raras vezes . nas canções de Salvatore Di Giacomo. no mundo burguês. tinham-no ainda. nos sonetos de Cesare Pascarella. nos quais o povo suburbano de Roma joga na loteria e zomba da polícia. chama-se a si mesmo "Un uomo finito". contudo. através da sua revista Voce. Giuseppe Prezzolini. Existe. O seu poderoso romance-ciclo apresenta-nos quadros empolgantes de um mundo que morre. sem saber dominar seu caos interior. a inteligência mais viva sem nenhuma faculdade de criar. o "diretor dos jovens". A nova geração é desarraigada. Pascoli. O bom senso tradicional dos italianos refugia-se na pequena literatura dialetal. é de uma curiosidade insaciável. nos contos de Renato Fucini. Ele não é somente o libretista da Cavalleria rusticana. desequilibrada. Fogazzaro. as últimas novidades. antes de se precipitar na agitação nacionalista. Manzoni e Carducci. eu vos suplico.apetites imperialistas. o tipo do intelectual invertebrado. talento incontestável. após si. são desequilibrados.

Francesco Gaeta. vítima da tísica. talvez a maior esperança intelectual da Itália. "armar" a "Italietta" dos . os frammentisti. Marinetti. continuou com boa saúde. morto aos vinte anos. para enaltecer a beleza dos viadutos e dos arranhacéus. pronta para "modernizar". aos D'Annunzio. Renato Serra. morre em 1915 no Monte Podgora. É o quadro perfeito da mudança radical do espírito burguês: à velha burguesia humanista e satisfeita substituiu-se uma nova classe média. cantor delicado das velhas lembranças de família. no romance Rubé. o último dos grandes profetas italianos que castigam e amaldiçoam por amor. jovens poetas infelizes que se esgotaram em fragmentos. cheio de mortos. crítico incisivo e construtivo. mas um grande crítico. à vida regrada da paz. Pouco depois. que se suicidou. A. Croce é o único caráter. aos Fogazzaro. "As obras-primas da impertinência": a palavra é de Benedetto Croce. Scipione Slataper. e é em francês que exige imperiosamente a destruição de todas as igrejas e museus. A sua crítica é um campo de batalha. imensa promessa. que ele prefere escrever em francês. tomavam gosto à vida desregrada dos acampamentos. Croce os amou. até a Marinetti. do mundo moderno.vezes absurdo. depois. morre em 1915 no Monte Podgora. aos Pascoli. Borghese descreveu. Aqueles a quem ele deixou viver morreram demasiado cedo. Ele penetrou-os e destruiu-os implacavelmente. partindo aborrecidos para a guerra. aos jovens. A guerra matou a velha Itália. "americanizar". e não podiam acostumar-se. Caso único. esta geração tem uma pequena literatura. Guido Gozzano. desequilibrada e aventurosa. que viveu o seu romance Il Carso. esta hecatombe será um massacre. o adolescente desesperado. Entre os moluscos. Esta terrível montanha devorou todo um futuro. G. a Itália do futuro deveria ser "uma sinfonia de cimento e de aço". Eles eram sinceros. sem poder realizar sua poesia e sua vida: Sergio Corazzini. A língua clássica é tão imprópria aos seus absurdos. porém. A guerra mundial destruiu uma geração. no qual os ventos salgados do Adriático atormentam uma mocidade inquieta. a perturbação interior dos intelectuais pequenoburgueses que.

Em outros tempos. caracteristicamente fechados. na paz. A consciência desta confusão inconsciente é Luigi Pirandello. Mas são uns solitários. desequilibrado.pais. dos aproveitadores da inflação e dos dançarinos de foxtrot. num mundo estável e fechado. e resolve fingir-se louco para continuar imperador. Arrisca-se mesmo a dizer que a ficção se tornou a condição de vida indispensável ao intelectual que colaborou para criá-la. que uma infelicidade atirou à loucura de ser o imperador medieval. dos fascistas. O novo mundo é um mundo de ficções. Existem. e as suas vozes não conseguem atravessar a densa rede metálica que Marinetti e os seus teceram. ou melhor. mas sua época produziu terríveis comédias. diante do qual não se cansa de experimentar o sentimento de inferioridade de um velho pedante. exceções: Corrado Alvaro. Bem cedo ele se põe a dilacerar. Criaram. mas não reconhece mais o seu mundo. mais tarde ele recupera a sanidade mental. de repente reconhece inútil toda a sua preciosa cultura. sua profissão de voluntário de guerra. . está bem à sua vontade nessa época. que é a guerra na paz. Ele resolve continuar imperador num império de ficções. e a paz não quer voltar. humanista de velha escola. ou. Alberto Moravia. vivemos num intervalo incerto. e para suportá-lo é preciso criar um mundo fictício. e à luz artificial de seus holofotes tecnicamente perfeitos o espírito não se reconhece mais. Alfredo Panzini. professor de ginásio. Curzio Malaparte. o amargo novelista da vida de província. a comédia do homem moderno. para definir sua atitude: já não há guerra. antes. Pouco importa: Panzini é o maior talento humorístico da literatura italiana contemporânea. Mas é um velho. este mundo baixo e vil. reconheceo muito bem. o único verdadeiro romancista da Itália moderna. jovem voluntário da guerra. Malaparte escreverá mesmo uma Técnica do golpe de Estado. ele seria um grande trágico. nos seus romances. nessa nova Itália dos bolcheviques. A mais significativa de todas é talvez este Enrico IV. ele o estará quando lhe permitirem continuar. A vítima é a velha geração. sem dúvida.

Os protagonistas da literatura contemporânea são os Emilio Cecchi e Vincenzo Cardarelli. Mas deve-se responder pela negativa. capazes de fazer a poesia da poesia de fazer uma poesia. Aqueles que cederam à educação foram os intelectuais. Abundância de talento. nenhum verdadeiro romance. levam a descrição de um quadro.Expulsaram. a frase dannunziana. este latinismo fictício. que não suporta mais reeducação. ela própria é uma ficção. que. os clercs. empenha-se em . poetas sobre a poesia: fazendo um romance. antigo mesmo. sem sucessão possível. Mas substituíram-na por um pálido classicismo. nem ao menos tem necessidade dela. arrancou este pelas raízes. aparentemente de aço. Para transformar esses fragmentos em grandes obras. Giuseppe Ungaretti é um autêntico poeta. São espíritos de escol. No começo era a acomodação. confundindo o sentimentalismo e o humanismo. de uma viagem. Literatura em terceiro grau. revelarão como se faz um romance. grande poeta mesmo. Esgotam um talento excepcional escrevendo pequenas peças autobiográficas. um único sentimento de mistério. com o furor de que só as almas desarraigadas são capazes. Com efeito. definitivas. este belicismo fictício são construídos sobre um prussianismo fictício. O mal vem de longe. era preciso apenas uma coisa: caráter. mas nenhum grande poema. conseguiu condensar o profundo desespero da sua poesia noturna em formas destinadas a se tornarem clássicas. este corporativismo fictício. da vida. Antes uma auto-educação. é certo. que não atinge a alma do povo italiano. Este povo é tão velho. críticos da crítica. Observando certas deformações da coluna vertebral. os Riccardo Bacchelli e Bruno Barilli. e principalmente o novelista Massimo Bontempelli. este catolicismo fictício. perguntamos se não seria responsável por isto aquela rede metálica que aperta os membros como uma camisa-de-força. Ainda uma vez: não falta espírito nem talento. e não se pode sustentar que era uma educação sentimental. A Itália moderniza-se febrilmente: há 60 anos ou mais. Para retomar a terminologia de antes da guerra: o frammentismo conquistou a literatura italiana. porque esta rede. Mas não existem caracteres num mundo fictício.

imitar o modelo alemão, que parece o supremo modelo de "modernização" mais rápida. Mas este modernismo contradiz algumas tendências íntimas do espírito italiano, inclinado para um catolicismo muito amplo, um socialismo puramente humanitário, um patriotismo muito pacífico. Perto de 1900 a Itália parecia a terra de promissão da tolerância religiosa, da compaixão social, do pacifismo universalista. Agora já se vêem alguns sinais da transformação. A modernização econômica e técnica enxota o humanismo, pelo ridículo das academias provinciais. O patriotismo, o socialismo, a própria religião revestem-se de uma espécie de violência, transformam-se em nacionalismo, sindicalismo, integralismo. A dialética da história fez uma volta terrível: o pensamento do próprio Benedetto Croce, amigo íntimo de Georges Sorel, era a maior força da revolução espiritual que devia voltar-se enfim contra ele e sua obra. Todos os seus companheiros, filósofos e críticos, dirigem-se contra a superioridade quase frívola do humanitarismo, do socialismo, da religiosidade italiana. Contra o humanitarismo, ele apóia-se em Hegel; contra o socialismo marxista, apóia-se em Sorel; contra o modernismo católico, apóia-se na tradição autoritária. Croce tornou-se o coveiro do seu próprio liberalismo sublime. Após ele veio a era das novas classes médias, anti-humanitárias, sindicalistas, antitradicionalistas, fascistas. Antonio Fogazzaro é modernista; desejaria um catolicismo "modernizado"; não o conseguindo, acaba por acomodar o catolicismo à italianidade. Giovanni Pascoli passou por socialista; abraçou o socialismo humanitário, e suas últimas horas são perturbadas pelas primeiras explosões da violência sindicalista. Sobre o patrioteirismo de D'Annunzio é melhor não falar. São mortos? Mas "la mort n'est pas une excuse";200 e existem vivos cujos corpos deixam ver todos os estigmas da acomodação, como os condenados do Inferno de Dante mostram, nas deformações hediondas, a punição de seus pecados. A Prefeitura de Florença teve a engenhosa idéia de mandar gravar em mármore e colocar nas esquinas das ruas florentinas os versos de Dante que se referem a tal localidade. Parece que todas as ruas da literatura italiana

contemporânea estão marcadas com esses tercetos terríveis, "flamas cantantes que não largam as suas vítimas, prisioneiros por toda a eternidade". Giovanni Papini converteu-se. Mas não conseguiu dominar os instintos anárquicos da sua alma caótica. Os desafios violentos do seu Gog e Magog mostram-no "... nella chiesa Co' santi, ed in taverna coi ghiottoni"201 (Inf., XXII, 14). Seu catolicismo era capaz de acomodar-se à revolução social, e, mais tarde, a muitas outras coisas. Confundindo a universalidade religiosa com o imperialismo temporal, ele escreveu, na Nuova antologia (janeiro de 1939): "O povo italiano é mestre e chefe perpétuo do mundo, por essência e por vocação. Desde a época em que Augusto governava e Jesus nasceu, Roma e o povo italiano dominaram sempre o mundo." Roma, nessas palavras, é um equívoco, e o católico Papini esqueceu a palavra do Evangelho: "De que serve ao homem o mundo, se ele o ganha mas perde a sua alma imortal?" Esta conversão era antes uma demissão: onde existe a demissão, a submissão não está longe. É assim que Giuseppe Prezzolini, tipo do intelectual, se submete, na Gazzetta del Popolo (8 de fevereiro de 1939): "Eu também fui um intelectual, e sei falar, por experiência, do mal intelectualista. É necessário que os intelectuais italianos reconheçam que o seu dever consiste em se retirarem e deixarem dominar outras forças, mais importantes na vida dos indivíduos e da nação. O fascismo não desconfia dos intelectuais italianos; mas a sua desconfiança seria muito natural e muito oportuna." A isso Dante acrescentaria alguma coisa sobre as "... terre d'Italia tutte piene di tiranni..."202 (Purg., VI, 124) ou um desesperado "O voi, ch'avete l'intelletti sani..."203 (Inf., IX, 61).

Ardengo Soffici, ao menos, não seguiu o conselho de calar-se. Ele fala, e muito alto: ele, que glorificou a França e amaldiçoou a Alemanha, mudou depois os nomes: chama a Dostoievski um "gorila bolchevista", e condena a América em nome da "Europa cristã e católica". Há trinta anos ele zombava da Academia e declarava: "Desejam-me ditador? Eis-me ditador." Hoje, vestido de acadêmico, ele pode dizer: "Desejam-me acadêmico? Eis-me acadêmico." Sem dúvida, ele assemelha-se "... a quella inferma, Che non può trovar posa in sulle piume, Ma con dar volta suo dolore scherma"204 (Purg., VI, 149). Mas são teóricos. Não citarei de Curzio Malaparte senão os títulos das suas últimas obras: três volumes de contos, Fuga em prisão, Sangue e Viva a morte; e uma coleção de documentos e fotografias, Os italianos na Espanha. É um mundo dantesco. Relemos a descrição dos "Malebolge", dos círculos inferiores do inferno, onde os pecadores baixos espiam, "Tutto di pietra et di color ferrigno"205 (Inf., XVIII, 2), e nos lembramos do "mundo de cimento e de aço" de Marinetti. A literatura dos jovens reflete fielmente a pálida luz dessas paredes. Marcello Galliani, a quem o seu editor chama "o mais fascista dos escritores", fala de uma "atmosfera de sangue, de aborrecimento e de morte". Enrico Pea explica "sua neurastenia e seu caráter violento pelas injeções aplicadas, durante a guerra, contra o cólera, o tifo, a encefalite e outras doenças, como aconteceu com muitos outros combatentes, que são hoje em dia meio loucos" (Maremmana, p. 233). É um mundo meio louco, meio criminoso, uma casa de alienados perigosos, dotada das novíssimas invenções técnicas, ao ponto de transformar toda a vida em pesadelo mortífero dum paranóico, como Brancati a define: "A vida é uma máquina que vos raspa o crânio, vos arranca os dentes, vos transforma, enfim, num semblante de morte."

Máquina maravilhosa! Lia-se a definição no excelente hebdomadário Omnibus, onde colaboravam Moravia, Bachelli, Ungaretti, Missiroli, e Adriano Tilgher, que escreveu, num estudo sobre o Leviatã, o Estado todo-poderoso de Thomas Hobbes: "Os súditos guardam a liberdade: a liberdade de fazer aquilo que o soberano se esqueceu de proibir. Finalmente, o Leviatã é um enorme carabiniere, um policial de tamanho mitológico." Sem dúvida, Tilgher pensava repetir a cena do canto 22 do Inferno, onde os condenados logram os diabos. Mas, como em Dante, o diabo respondeu: "Tu non pensavi ch'io loico fossi!" (Inf., XXVII, 123), e Omnibus foi incluído entre as coisas que não se esqueceram de proibir. A resistência é inútil; mas a fuga também. Existe, entre os exilados, um grande escritor, Ignazio Silone, que experimentou "come sa di sale Lo pane altrui, e com'è duro calle Lo scendere e il salir per l'altrui scale"206 (Parad., XVII, 58). É por isso que o herói do seu romance O pão e o vinho volta à pátria, que ele não reconhece mais e onde não mais o reconhecem, até que se perde, para sempre, nas montanhas, cobertas de neve, onde os lobos o dilacerarão; uma jovem - somente ela - fará, sobre o perdido, o sinal da cruz. É uma grande obra de arte; como todas as grandes obras, faz pairar, atrás de si, um profundo silêncio. É o mesmo silêncio, nobre e obstinado, que guarda Benedetto Croce, "che vive in Italia peregrino"207 (Purg., XIII, 96). É o único que podia verdadeiramente retirar-se, porque outras épocas o esperam em que já não haverá "partido". Ele tem "fatta parte per se stesso"208 (Parad., XVII, 69). Se existe lirismo nesta citação, a Toscana é a responsável. Pensa-se em Pisa, a grande cidade, que reunira entre as suas muralhas todos os esplendores, e que se perdeu pela loucura de querer dominar. Só ficou, "fuori le mura", a catedral, que não se desmoronará, e o Campo Santo, o cemitério, verdadeiro coração da "cidade morta". Existe, neste cemitério, o túmulo de um nobre, cujo nome a história esqueceu, mas cuja memória fica, eternizada no

monumento funerário que lhe ergueram, a Inconsolabile, a Itália em luto, que vela o rosto. ORAÇÃO FÚNEBRE DE CHARLES MAURRAS "Non enim cogitationes meae cogitationes vestrae; neque viae vestrae viae meae, dicit Dominus" (Is., LV, 8).209 Queridos em Cristo, os povos, percorrendo, pelos séculos da história, os caminhos da terra, passam cabisbaixos, curvados por tribulações sem fim. De vez em quando, levantam os olhos para o céu, lamentando, implorando, suplicando. E Deus responde-lhes pela boca do seu profeta Isaías: "Non enim cogitationes meae cogitationes vestrae; neque viae vestrae viae meae, dicit Dominus." Não compete às nossas pobres meditações o decifrar as decisões da Providência divina; na desgraça e na salvação dos homens, como são incompreensíveis e maravilhosos os caminhos do Senhor, perante o qual nos convém curvar-nos com humildade! Assim, eu, o mais humilde dos servidores de Deus, recebi a vocação de pronunciar a oração fúnebre dum príncipe no reino do espírito. Ele mereceria a homenagem sob a cúpula da Academia Francesa, onde todos os acordes da língua se teriam harmonizado num réquiem solene; mereceria a pompa fúnebre na Notre Dame de Paris, matriz de todas as igrejas da França. Curvemo-nos, porém, com humildade: a cúpula que ouvirá as nossas palavras incultas, simples e sinceras, é o céu cinzento sobre frias montanhas, longe do Sena, e o lugar do nosso luto e da nossa meditação é a modesta matriz duma cidadezinha provinciana, lugar triste, onde os velhos, os doentes, os alquebrados procuram a saúde, lugar de últimas esperanças e de últimas consolações. Ao que parece, o Senhor quer falar-nos e dizer: "Non enim cogitationes meae cogitationes vestrae, neque viae vestrae viae meae." "Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos; nem os vossos caminhos são os meus caminhos, diz o Senhor."

de Joana d'Arc e de Bossuet abandonara os caminhos. dos instintos anárquicos. e assim a sua vida foi para nós outros. e a França real. pela última vez. e da sua Provença natal. uma ponta desta mortalha. na Itália. O seu espírito venceu até os inimigos vencedores. e . encantado. ouviu essa música. Esse homem surdo fez ressoar todas as músicas da língua francesa. subjugadas à severa disciplina do civismo romano e do método cartesiano. Havia discípulos desse homem em todos os países e em todos os continentes. discípulos sem o querer ou sem o saber. Todo o mundo. cuja profundidade só pode ser averiguada pela sapiência divina.chama-se L'Avenir de l'Intelligence o seu livro mais decisivo . católicas. com mãos trementes. na Espanha. romanas. outrora ilustrados pelos "gesta Dei per Francos". do continente do Sul. uma grande consolação. que hoje se curvam perante o poder das armas invisíveis deste príncipe espiritual.o futuro da Inteligência foi a preocupação de toda a sua vida.Os caminhos da vida e da história humanas são como que cercados de abismos. até nas costas longínquas do novo continente latino. que é a pátria da nossa civilização: a França. Charles Maurras viu esse futuro ameaçado pelo turbilhão dos romantismos revolucionários. que era o mar de Ulisses e do apóstolo Paulo. sempre superior à matéria bruta. Charles Maurras era um representante autorizado da Inteligência. Charles Maurras era um príncipe no reino do espírito. que nunca será esquecida. resplandeceu em todas as luzes mediterrâneas. e mirai o rosto exânime do homem que está deitado aqui neste ataúde: Charles Maurras. na sua voz balouçaram as melodias do mar. a força do espírito.210 E resolveu indicar à França o caminho da salvação. Viu como a França de São Luís. nutrido das tradições gregas. pobre servidores do Espírito. Charles Maurras provou. O mundo. Distinguiu entre a França legal. Viu ameaçada pelas mesmas forças a sua pátria. a França do . na França. Quereis compreender algo desses mistérios? Quereis levantar uma ponta do mistério dos destinos mortais entregues às mãos de Deus vivo? Pois levantai. e o seu espírito latino. a França das leis sacrílegas e das sujidades materialistas.

"211 Romaria estranha. Na verdade . perante nós. ele quis prescrever à Providência os caminhos da sua ciência política. sistema cheio das contradições que surgiram na polêmica.era um polemista. O mesmo Maurras que com tanta força pregava a primazia da Inteligência desdenhou o papel da inteligência na ação. Mas através do caminho da sua vida. Os seus caminhos não eram os caminhos d'Ele. E desse ponto de partida o seu caminho o levou. e assim se manifestou sobre esse livro: "Point de départ de mon pèlerinage. A esta cerimônia preside o supremo representante da morte cristã. Houve quem duvidasse dessa lógica. a liturgia da deusa que surgira das espumas do mar. os emblemas da morte. fiel aos caminhos da Providência. Il . romaria pagã! O frêmito essencial do jovem Maurras calmou-se perante a sublime estabilidade da Beleza. até o abismo. O seu Deus não era o Nazareno martirizado.rei e da fé cristã.. O mesmo homem que a uns parecia um profeta. o Cristo morto. parecia a outros um sofista. entre panos pretos e círios vacilantes. com a conseqüência implacável do espírito latino. Mas o homem morto ao pé deste Crucifixo era um pagão."212 O mesmo Maurras que se vangloriou de possuir a técnica política mais eficiente do mundo desdenhou qualquer preocupação com a questão social. nesta câmara ardente. Escreveu. o Crucifixo. Não escreveu jamais uma palavra que não fosse polêmica. Era o ponto de partida. Num deslumbramento orgulhoso. da morte cristã. políticas e religiosas. Olhai em derredor: por toda parte vereis. e edificou sobre essa polêmica o sistema das suas idéias estéticas. Não eram os caminhos da vida.. em Anthinéa. Passou a vida inteira buscando as contradições dos seus inimigos. O seu ídolo era a deusa pagã da beleza. trace du frémissement essentiel devant les énigmes humaines. Charles Maurras sucumbiu à tentação da Inteligência: substituir a própria inteligência à Inteligência divina. quis desempenhar o papel de providência da França. E hoje ele está deitado. mas os caminhos da morte. caindo no ingênuo liberalismo da frase: "Un peu plus de justice?.e é a verdade que devemos aos mortos . caindo no perigoso irracionalismo da frase: "Jamais depuis le monde est monde on n'attendit d'avoir une idée claire pour agir.

et de l'ordre. achou-as no templo vivo da Santa Madre Igreja. da Grécia.eis as nostalgias do jovem Maurras."215 Razão. e ele acrescentou com o tom lapidar dos jurisconsultos romanos: "Certae fines! Leges! Définitions certaines et justes confins. Renan e France se . Assim ele elogiou as linhas claras. quando a autoridade eclesiástica se lhe opôs. de l'intelligence et du goût. Era um homem cheio de contradições.invocou. Inteligência. eis o que constitui. Ordem . até à fórmula que enfeitiçou os infiéis: a Ordem é o Catolicismo. o meu primeiro chef d'accusation. mas a ordem científica do positivismo e a ordem estética do paganismo. resplandecente como Vênus das espumas do Mediterrâneo.faut laisser la conjecture économique!"213 O mesmo Maurras que sabia magnificamente exaltar os benefícios da disciplina católica caiu.o claro. Gosto. Perante as ruínas da Acrópole."point de départ de mon pèlerinage". a beleza escultural dos corpos. Mas no mar dessas contradições saiu. o incerto. "Mon maître Anatole France l'avait vu. o definido. Grécia . les lois de la beauté nous faisaient aussi penser aux lois de la vie. como mestres. os cardeais e os bispos. As linhas bem definidas impõem limites à anarquia estética do romantismo e à anarquia política da democracia. l'ordre de l'esthétique à celui de la politique. Na introdução de Anthinéa . A Ordem! Era a primeira e a última palavra de Maurras."218 Eis o ponto de partida: como criar essa Ordem? Então. por fim. o jovem Maurras meditara: "Comment sauver l'ordre du monde?"214 E essa idéia não o abandonou nunca mais e levou-o. Oui. nas mais baixas injúrias contra o papa. a dizer sobre toda a sua própria obra: "Il ne s'agit dans ces essais que de la raison. da Itália."217 E lembrou-se da deusa da Beleza saindo vitoriosamente das vagas impuras do mar asiático do anarquismo. chegando até à fórmula que enfeitiçou os católicos: o Catolicismo é a Ordem. a figura divina que iluminou o seu caminho: a Ordem. bem definidas pela luz mediterrânea.o vago.216 A Ordem de Charles Maurras não era a ordem cristã do mundo. da sua terra provençal. a beleza geométrica das figuras. os positivistas Comte e Taine e os pagãos Renan e Anatole France. Ásia . como diria Bossuet. Procurou-as no templo abandonado da Grécia.

das suas máquinas. nem a honra nem a vida privada dos seus inimigos. O técnico ocupado em construir máquinas não conhece preocupações de ordem moral. a deusa da Beleza. a "technique nationale". manual da política nacionalista. Ousou escrever: o seu primeiro artigo de jornal. e a alma dessa máquina é o nacionalismo. et l'on refait la France comme on peut. On rentre comme on peut. o de Maurras.escrito após ter o coronel Henry confessado. Palas é. a deusa dos escultores e da razão científica. e a esse empirismo amoral dos técnicos correspondeu o "par tous les moyens" do niilista agnóstico Maurras. e a suprema obra de arte da razão é o Estado."219 "Comme on peut". bárbaros exteriores e interiores. pregava a violência sistemática. nem os segredos do Estado. Ao primado da Inteligência substitui-se o primado da diplomacia. O técnico só pensa na eficiência. la morale de l'État a ses propes lois et ne connaît que l'intérêt national. "comme on peut".retiraram para deixar falar a clara razão mediterrânea de Comte e Taine. O Estado é uma máquina científica de leis e instituições. empiricamente experimentada. Aplicava a calúnia sistemática. no seu jornal. ficando salvo apenas pela força mágica de linhas bem definidas: as fronteiras. e escreveu. as mais freqüentes na sua pena. honravam os espíritos mais altos e os patriotas mais devotados à pátria. a falsificação dos documentos Dreyfus ousou defender o criminoso com as palavras: "Il ne faut pas considérer la question du point de vue de la morale individuelle. não respeitando nada. Le premier sang . J'ose écrire: tout est béni et tout est dû."220 Mais tarde ousará recomendar que matem o primeiro ministro com uma "faca de cozinha". É um Estado. chegou a pregar o assassínio e a alta traição. Não desaprovará os seus . "Pour l'établissement de la Monarchie tout est permis. a um tempo. cercado de inimigos. ousou escrever. Política é uma técnica. o seu culto à Raison d'État. a eficiência das suas construções é tudo: e isto constitui o meu segundo chef d'accusation. e mais do que a Afrodite. A razão era sempre a faculté maîtresse de Maurras. As palavras "imbécile" e "traître". a L'Avenir de l'Intelligence segue-se Kiel et Tanger. a deusa da Razão. pelo suicídio. adorava a Palas.

como os mestres positivistas. de que a "ciência universal" constitui a "moral universal". Não os desaprovará."222 E Monck veio."224 Contra os protestantes ele serviu-se da mesma apologética estranha: "Je ne quitterai pas le cortège savant des . ele. que não é uma máquina cartesiana: e eis o meu terceiro chef d'accusation. os instintos anárquicos do cristianismo primitivo.223 Toda a vida interior pareceulhe suspeita de anarquismo. convencido. porém. le plus grand événement de l'histoire du monde". Eis por que esse homem opôs ao cristianismo. como duma perpétua tentação à anarquia. opôs ao nascimento do Cristo. sem consideração da moral individual. "nocturne et asiatique". e sufoca a alma sob o peso da sua arbitrária autoridade. e acaba com todo o cristianismo. o "poder espiritual" serviu-se da sua "autoridade científica" para transformar a Ordem em ordens militares.discípulos quando eles tiverem obedecido a tais conselhos. com as palavras: "C'est notre tâche de révéler Monck à lui-même. Lui il connaît l'art militaire.221 e: "Nous sommes l'autorité scientifique par laquelle le sabre devient raisonnable et la baïonnette intelligente. A "moral universal". que lhes preparara os caminhos. il faut que le pouvoir spirituel les donne". Não há moral das máquinas políticas. finalidade da redenção cristã. a luz da razão grega. O maurrasianismo tem medo da liberdade. "la naissance de Pallas. La doctrine est maintenant en élaboration: on en sature le cerveau du Monck de demain. Nous. pela disciplina da Igreja Romana. centro da história universal. não é a moral cristã. Assim. uma moral como técnica científica não sabe respeitar a majestade da pessoa humana. No famoso artigo "L'Éducation de Monck" lembrara a restauração da monarquia inglesa pelo general traidor. Acaba com a alma humana. e elogiou o espírito romano por ter domado. "Le Catholicisme est le remède du Christianisme. Les chefs militaires ont besoin d'ordres pour marcher. nous lui enseignons les principes de l'organisation politique. Entre duas forças vive a alma humana: graça e liberdade.

Entendeu as palavras "inteligência" e "elite" como designações de um novo feudalismo. Chamou ao catolicismo romano "arche du salut des sociétés". o ateu. E também não é francês. para ele. ordem estabelecida da sociedade estabelecida. Mas isto não é cristão."229 E eis o homem ao qual se atribuem tantas conversões! Charles Maurras. que é um grito cristão. que saudou a Marselhesa. Elogiou o catolicismo dos outros. ouso dizer neste recinto sagrado: havia cristianismo até na França dos jacobinos. do cardeal Pacelli. o mesmo destino? "Qu'importe que Dieu soit. "Un peu plus de justice?" Maurras quis deixar subsistir. Lembrando-me da figura. mesmo no cristianismo inconsciente dos revolucionários. Considerou o catolicismo como a religião do Estado. ordem dos jurisconsultos romanos. pagando a "os outros"."225 E o "catholique athée" chegou a dizer sobre Jesus Cristo: "Je connais peu ce personnage et je ne l'aime pas. Mas como pode o espírito queixar-se disso. na França do eterno grito de justiça. do Estado científico e nacionalista. Essa Ordem não é a ordem da Justiça.conciles. "C'est en affaires politiques que nous considérons les affaires de religion. já então venerável. arruinando o pretenso primado da inteligência. com as palavras baratas dum novo corporativismo. contanto que lhe deixassem o seu próprio ateísmo. subordinando-a aos fins políticos.227 como se Jesus Cristo tivesse morrido para salvar a sociedade. A França sempre foi cristã. para a alegria dos bem-pensantes convertidos. não significava outra coisa senão ordem: ordem romana. dos Senhores e dos servos."228 Eis o famoso lema "politique d'abord" substituindo o lema cristão "vérité d'abord". pourvu qu'il serve. Rindo-se da "superstição" dos outros. como privilégio de elite. . assegurou-se o seu próprio agnosticismo. na doutrina maurrasiana. uma desordem: a desordem econômica. se Deus teve. duma renovação da França medieval. não desaprovou as conversões. caricatura da França do Rei. des papes et de tous les grands hommes de l'élite moderne pour me fier aux évangiles de quatre Juifs obscurs. o povo."226 O cristianismo.

revogada. no dia 5 de julho de 1939. que altas e mais altas autoridades da Igreja manifestaram a mais paciente clemência em face desse advogado do diabo: condenado Maurras. e sobretudo dos conservadores católicos. XIII. Este homem foi. e não entendereis. conforme as suas palavras: "Avoir raison c'est une des manières comme l'homme s'éternise. as palavras do profeta que nosso Senhor citou: "Vós ouvireis com os ouvidos. da qual um dos seus amigos chegou a dizer: "Jamais je n'ai vu une âme plus désolée que la sienne. porque de antemão anunciou.Charles Maurras não ouviu esse grito. as infâmias que ele mesmo preparara. Nesses deslumbrados sobrevive obstinadamente o triste espírito de Maurras. publicamente. a Academia Francesa."231 Podem alegar. Permaneceu surdo à palavra de Deus. À pessoa divina do Cristo ele quis substituir um boneco de batina. E até hoje eles têm esse Maurras por um profeta. a ele. imagem da sua alma vazia. e surdo à voz da França. surdo. e vereis com os olhos. 14). chegando a recebê-lo na companhia mais conservadora de todas. como justificação. O mundo das letras sufocou-o sob homenagens. E à curta memória dos homens passou despercebido que isto também profetizou alguma coisa: que naquele dia nefasto começou a catástrofe da França. . desde a mocidade. que confundiram o nacionalismo traidor e ateu de Maurras com o verdadeiro nacionalismo de Barrès e com o verdadeiro cristianismo de Péguy. O mundo político recebeu-o alegremente. o niilista. À França dos séculos cristãos ele quis substituir um fantasma utópico. como o aliado mais precioso dos conservadores. deste modo."230 Um mundo de deslumbrados deixou-se enganar pelo fogo de artifício desse espírito morto. no dia 29 de janeiro de 1914. e não vereis" (Mat. a condenação foi. lembrando..232 subterfúgio hipócrita do acatólico Maurras para continuar a sua obra funesta. esquecendo todas as infâmias. e. razões de política eclesiástica não deixaram publicar a condenação antes de 5 de setembro de 1926. contentando-se da submissão dobre de "ceux d'entre nous qui sont catholiques".

deixa ir livres aqueles que estão quebrantados. e rompe toda a carga. onde no frio da madrugada os reféns fuzilados estertoraram e expiraram. II.Charles Maurras era o papa da religião pagã da beleza. 1). o choro e o grande lamento: Raquel chorando a seus filhos. e em fazer cama de saco e de cinza? Rompe as ligaduras da impiedade. Os católicos que o seguiam cegamente esqueceram que toda religião da beleza acaba em orgia. e agora os vossos jejuns servem apenas para ocultar a vossa culpa e agrilhoar tanto mais as vítimas inocentes da vossa traição. Ainda não entendestes as palavras do profeta: "Acaso o jejum. Em vão é toda a vossa penitência. LVIII. I. vivo ainda." Charles Maurras refez a França como pôde. Às vezes em orgia de sangue. vós estreitais as ligaduras da impiedade. vós carregais os feixinhos que deprimem. que eu escolhi. E seguiu-se-lhe uma terrível madrugada. O magnífico Symposion pagão ao qual Maurras presidiu era o bíblico "festim dos ímpios". 18). em vez de vos acusardes a vós mesmos. vós agrilhoais aqueles que estão quebrantados. consiste em afligir um homem a sua alma por um dia? Está porventura em retorcer a sua cabeça como um círculo.e sob este ataúde não vedes o corpo exânime de Charles Maurras. "On refait la France comme on peut. Mas em vez de cumprir deste modo o mandamento de Deus.. A França deixou-se ir após o conselho dos ímpios. levanta com força esta mortalha . Os vossos festins prepararam a desgraça. Surdos como era surdo o vosso falso profeta.. 5-6)." (Is. deteve-se no caminho dos pecadores. cambaleia para a . E as vossas declamações hipócritas não podem abafar "o clamor. colaborando infamemente com o opressor estrangeiro. vós não ouvistes os tiros contra o muro. empurrando-as.. que. sem admitir consolação pela falta deles" (Mat. Diz o salmista: "Bem-aventurado o varão que não se deixou ir após o conselho dos ímpios. e que não se deteve no caminho dos pecadores. E agora há choro e ranger de dentes. Mas o vento frio daquelas madrugadas abre agora. e que não se assentou na cadeira da pestilência" (S. as portas deste templo. com a qual quereis acusar e responsabilizar e punir o vosso povo. desata os feixinhos que deprimem. fantasma de si mesmo. e assentou-se na cadeira da pestilência.

"O fim vem. e eu desafogarei o meu furor contra ti. Aquele homem que lamentais era porventura um profeta? Era testemunha e culpado do "Dies irae. E farei vir os péssimos dentre as gentes. dies illa Solvet sæclum in favilla. e aqueles péssimos possuirão os santuários deles. E agora vós acreditais. já os sinos começam a repicar para o serviço dos mortos.vedes sob este ataúde o cadáver da sua desgraçada pátria. vem o fim. O fim vem. fons pietatis. Salva me. dont vous vous croyez peut-être les juges. "Quando judex est venturus. hipocrisias e orgulhos. serdes autorizados para julgar o acusador e as suas palavras. abafando as vossas objeções. e não a . quando "Tuba mirum spargens sonum Per sepulcra regionum. e dentro a peste e a fome: o que está no campo morrerá à espada. Fora a espada."234 Era juiz da sua época? Estará como réu."235 Com os mortos. vous jugera au dernier jour. Qui salvandos salvas gratis. Oh! não. e te julgarei conforme os teus caminhos. e te julgarei conforme os teus caminhos: e te porei diante dos olhos todas as tuas abominações."237 E ele responderá pela boca do seu verdadeiro profeta.cova: . Ao sobrevir-lhes de repente a angústia. talvez. Ouviste os meus três pontos de acusação. vem o fim sobre as quatro plagas desta terra. o vivo. Coget omnes ante thronum. Agora é que vem o fim sobre ti. É chegado o tempo. lembrai-vos da frase de Bossuet: "Mon discours."233 Ouvi. e eles se apoderarão das suas casas. Cuncta stricte discussurus. ouvi."236 Então ele e vós com ele rezareis: "Rex tremendae majestatis. da França. Teste David cum Sibylla. e os que estão na cidade serão devorados pela peste e pela fome. ressurgirá. e no dobre dos sinos ecoam as vozes do hino fúnebre. ele. eles buscarão a paz. está perto o dia da mortandade.

Mesmo aquele severo hino termina com as palavras de reza esperançosa: "Huic ergo parce. Mas é o seu direito também trazer-vos a consolação. mas o seu espírito morreu. o jovem professor Max Weber publicou numa revista científica alemã. mas o teu espírito vive. É o dever do pregador: dizer-vos a verdade. e a lei perecerá na boca do sacerdote. os Arquivos de Ciência e Política Sociais. vós habitareis na terra que eu dei a vossos pais. e a um estrondo outro estrondo. e o príncipe cobrir-se-á de tristeza. uma nova ciência se fundava. com esse estudo. e as mãos do povo da terra tremerão de medo. E enquanto vive o espírito. destino do intelectual dos nossos . está deitado aqui como morto."238 E os cristãos não rezam em vão. Mas ninguém poderia supor que. E assim vos fala a voz do profeta (Ez. e buscarão alguma visão dalgum profeta.. que não vê os corpos. e os julgarei conforme eles julgaram os outros: e saberão que eu sou o Senhor" (Ez.haverá. Os teus caminhos não eram os Seus caminhos.. Eu os trarei conforme o seu caminho. Consola-te. E ninguém poderia então suspeitar uma tremenda catástrofe humana por trás daquelas páginas secas: catástrofe de uma vida intelectual. que abalou o estreito círculo de especialistas em história econômica. não morreu a mais cristã das virtudes: a esperança. pois o Senhor te reconduzirá. e eu serei para vós o vosso Deus." Amém. um estudo sobre "A ética protestante e o espírito do capitalismo". ó França. mas sim os corações. 26-28): "Dar-vos-ei um coração novo. dona eis requiem. Ele. Deus: pie Jesu Domine. filha Sião. e o conselho na boca dos anciãos. e vós sereis para mim o meu povo. O corpo daquele está vivo ainda. O teu corpo. MAX WEBER E A CATÁSTROFE EM 1905. O trabalho era uma revelação. O rei chorará. um novo continente se descobria. A um susto sucederá outro susto. mas incompreensíveis são os caminhos do Senhor. e todos são caminhos que vão à pátria. e maravilhosos. XXXVI. e porei um novo espírito no meio de vós. pode ressuscitar até as pedras dos túmulos. 2-27). VII.

sua religião educará humildes artesãos. e os huguenotes. bons pais de família. Calvino é de outra espécie. e que muitos dos grandes capitalistas descendem de famílias pietistas e muito devotas. A devoção protestante e a habilidade econômica coexistem sempre. expulsos da França. e uma doença que atinge a todos deixa de o ser. a lealdade para com o Estado. um dos mais lúcidos espíritos de todos os tempos. Todavia. os dissidentes da Igreja Anglicana.tempos. Na Inglaterra. uma distinção se impõe. Max Weber observa que. Preparemos o caso clínico. nessas regiões católicas. tanto na Renânia como nos Estados-Unidos. a Holanda e a Suíça francesa. Estranho fenômeno: todos esses novos capitalistas são calvinistas. O homem ideal da Idade Média era o frade que renunciava à vida e preferia a pobreza voluntária ao trabalho secular. funcionários leais. hostil ao ascetismo monástico. Um boletim médico deve ser sóbrio e preciso. símbolo da catástrofe geral que se seguiu inexoravelmente. Estende os seus estudos a toda a Europa: os centros da mentalidade capitalística são a Inglaterra. tinha a alma gravemente enferma. Descrevamos primeiro os sintomas. não constituem exceção. O protestantismo. santifica o trabalho profissional. . que. em toda parte. os adeptos das pequenas seitas protestantes distinguem-se pelo espírito de iniciativa e pelas suas riquezas. a vida em família. a Escócia. Essa doença é a nossa doença. são sobretudo os "não-conformistas". Seguir-se-á o diagnóstico. ao contrário. em conseqüência. que era frade. disseminaram por toda a Europa as suas manufaturas. em mãos de protestantes. e. homem profundamente medieval. Façamos tudo para nos dominar. Estudando as origens do capitalismo na Alemanha meridional. Max Weber. e Max Weber encontrou-a. Deve haver uma relação subterrânea. O seu dogma da predestinação transformará o mundo. na maioria. santifica e consagra a vida profana. o grande capital está. O assunto é palpitante. Lutero.

a vida econômica. como era a da Reforma. Será que estou condenada. Deus predestinou. todas as forças do bem. confirmarmo-nos perante nós mesmos e perante os outros. já que o homem não tem vontade livre e todos os seus atos dependem diretamente de Deus. O sucesso na vida prática responderá. esse dogma significava. nessas igrejas calvinistas. Numa época de excitação religiosa. é preciso uma vida metodicamente regrada. um forte. e a conclusão psicológica seria um desespero até à morte. ele estava certo da sua salvação. Os calvinistas vivem no mundo como os frades da Idade Média no convento. sua alma está sempre atormentada pelas incertezas. dominada pela concupiscência. sua vontade. como a uma tentação ímpia. Cada um está só. Para os outros.e outros para as trevas.. perante este Deus terrível que o elegeu ou o renegou por todas as eternidades. . entrincheiravam-se num biblicismo fanático.Segundo o dogma calvinista. herdeiro de uma mística íntima. não revela a sua vontade tirânica. O luterano. fixada dentro de austeros princípios morais. Cumpre saber se estamos predestinados ou condenados. para cada um. pelo pecado original. Seguro? Estaremos jamais seguros? É preciso. o homem perdeu. ou alcançarei perdão? pergunta ansiosamente a alma calvinista. só restava procurar uma confirmação da sua qualidade de eleitos na vida do mundo. absolutamente só.. Calvino. não existe descanso dominical. não conheceu o problema. arbitrariamente. Tanto mais que já não existem. faz-se preciso observar e dirigir todas essas atividades para se ficar seguro da predestinação ao céu e da nãocondenação ao inferno. é incapaz de atingir a beatitude. São frades secularizados: a esfera de confirmação é a vida do mundo. Como reconhecê-la? Porém. acalmava as suas angústias pela contemplação da tarde de domingo. Isto não permite um quietismo cômodo. sempre e sempre. nem padres nem sacramentos. Para o calvinista. uns para a vida eterna . os homens do mundo. a dúvida sobre a sua condição de eleitos. O dogma inexorável não responde. Os seus sucessores no ministério repeliam. O Deus dos calvinistas é um "Deus escondido". uma questão de vida ou morte.

e que se revoltam contra o tradicionalismo dos padres. Mas esse espírito revoltado. É que a religiosidade tradicionalista dos camponeses resiste às tempestades revolucionárias. E as seitas. das seitas é . enquanto o paganismo .Eis o que é fundamental. quando o cristianismo conquistou as cidades. sobretudo o inglês Richard Baxter: o trabalho é a finalidade da vida. Conquistará todo o planeta. Essas tempestades. de um Jeremias. Atravessará os muros da Igreja. Daí ser o catolicismo sempre hostil ao espírito de partido. e que explica o conservantismo dos camponeses. a quem pertencerá o mundo. por mais bem organizada que seja. Max Weber lê os moralistas do tempo. A racionalização metódica e a atividade incansável ocupam toda a vida. Leis rigorosas proíbem à vida qualquer decoração. fenômeno tão importante na história da Igreja. Por esse estudo cheio de agudeza. "camponês" . Weber encontra-as também na história dos grandes profetas do judaísmo. A religiosidade difere de muito nas cidades e no hinterland. fenômeno muitas vezes de importância política. É uma vida rigorosamente uniforme. não há outro meio de obedecer a Deus senão trabalhar incansavelmente. terá sempre de combater o espírito sectário. uma Igreja. mas sem gastar. Trabalhar-se-á sempre. Weber encontra novamente esse fenômeno nos últimos séculos da Antiguidade. burocracia eclesiástica sem o carisma da vocação profética. A fé se perderá. inspirados imediatamente por Deus. não são de menor importância na história profana: a seita secularizada é o partido político. sobretudo a vida econômica. Ficará o grande-burguês. antiautoritário.se mantinha forte no interior. A distinção profunda entre o luteranismo pequeno-burguês e o calvinismo grande-burguês leva a estabelecer "tipos de religiosidade". Fazem-se economias que fecundarão novos empreendimentos. Em razão dessas diferenças. como o frade incansavelmente reza. Max Weber fundou a sociologia religiosa. ciência que não se contenta com estudar as relações entre a religiosidade e a mentalidade econômica. Essa atividade não tem nem fim nem termo.a palavra tem suas relações com paganus. de um Isaías.

todavia. toda profissão de fé política é. "sectário". de um chefe. que o luteranismo imprimiu a esse povo. uma profissão de fé religiosa. Os historiadores da literatura comparada brilhavam.e com isso . nascido da imaginação modernizante de um Mommsen e de um Ferrero. mais alas adquire. a própria unificação da Alemanha só foi possível por intermédio dos Hohenzollern. toda a história alemã se explica pelo caráter apolítico. no século XVII. dos quais Max Weber foi o mais feliz descobridor. a Igreja católica e as monarquias estilo ancien régime constituem o tipo da autoridade tradicionalista. a vida e a nós mesmos. A fertilidade incrível do método de Max Weber confirma-se nos seus sucessores. convertidos. que criou a disciplina prussiana. como fenômenos de "secularização". mais fendas se lhe percebem na fachada. baseada numa ordem legitimista. Todos os fenômenos da vida moderna se revelam. em SchulzeGaevernitz. A crítica se concentra no problema das origens do capitalismo. no fundo. porque representa outra forma de autoridade. Com efeito. baseada numa ordem legalista. e o nosso tempo substituirá a teologia política de outrora por uma política teológica. permanece irrefutável . Hoje. primeiramente no seu amigo Ernst Troeltsch. os Estados modernos representam o tipo da autoridade positiva. Aí está. atualizados na pessoa de um profeta. que nos ajuda a melhor compreender o mundo. dos protestantes nas letras francesas.também imortal. Para dizer a verdade: quanto mais o edifício cresce. cada vez mais. enfim. porém. ao calvinismo. O que. que estuda os caminhos do puritanismo construindo o Império inglês. O fantasma de um capitalismo antigo. explicando o papel revolucionário. esclarecendo as raízes religiosas do romantismo. Afinal de contas. as seitas e os partidos revolucionários encarnam o tipo da autoridade "carismática". baseada numa revelação ou num ato de graça divinos. Aí está a obra grandiosa de Max Weber. onde Max Weber deu toda a sua medida: ele impôs o seu método até aos adversários. que renova a história social das Igrejas protestantes. era fácil de dissipar. secularizada. Weber consegue estabelecer três diferentes tipos de autoridade.

sob aparências medievais. a mentalidade burguesa na França nasceu independente de todas as doutrinas religiosas. e isto prova que já era necessária a acomodação à mentalidade capitalística numa sociedade católica. Werner Sombart. contra as quais o povo minuto. o grande amigo de Weber. E Alberti não é uma exceção no seu tempo e na sua cidade. por uma ética ascética do trabalho. as classes médias. e a jovem burguesia. Segundo Bernhard Groethuysen. Mas os poderosos são os poderosos e é preciso fazer concessões. que desencadeia disputas.é que os traços do capitalismo se manifestam na economia e na sociedade das cidades medievais de Flandres e da Itália. Mas. para laicizar precocemente a vida francesa. se revoltam. organizações verdadeiramente capitalísticas. Conhece-se a grande discussão. e August Knoll mostrou que essa discussão entre os dominicanos intransigentes e os jesuítas mais complacentes acompanha toda a história moderna da teologia católica: os jesuítas da Universidade de Ingolstadt inventaram o contractus trinus para burlar a interdição eclesiástica dos interesses. Na Inglaterra essa . essa mentalidade ameaçava tornar supérfluas todas as sanções eclesiásticas. pela concepção de uma nova camada da sociedade. proibidos pela lei canônica. que lembram estranhamente os conselhos de Richard Baxter e de todos os pregadores puritanos. mas indispensáveis à evolução do capitalismo. e mais ainda: nascida sem a sanção eclesiástica. reconquistar o terreno perdido. A teologia moral dos santos Antonino de Florença e Bernardino de Siena é cheia destas concessões ao capitalismo nascente. verificou estranhas analogias entre a mentalidade burguesa de Benjamim Franklin e a sabedoria de vida do poeta Leone Battista Alberti. cidadão de Florença. Diante desta ameaça. fazendo concessões: os jansenistas. e os jesuítas. no fim. pai de família econômico do século XV. e seu clérigo. As corporações de Florença constituem. tradicionalista. aproximando-se do calvinismo. abraçava o laicismo "filosófico" e a revolução. nenhum dos dois partidos podia vencer a resistência da ordem feudal. É sobretudo a discussão dos interesses do capital. decepcionada.concordou o próprio Weber . dois partidos tentaram opor-se.

Gustav Gundlach S.revolução era dispensável. rica em terrores de predestinação. que atinge a síntese. Que é o que resta? Um método. É uma fraqueza. Enfim. Ao contrário. O common sense dos ingleses Tawney e Robertson revoltou-se contra o estabelecimento dos "tipos de religiosidade". Não quero dizer que o método de Weber não haja sido contestado. disso dão testemunho. para provar que a religião e todas as obras do espírito não são mais que reflexos ideológicos da . e o calvinismo foi. um ao outro. J. somente o século XVIII inglês é que vem conhecer os pequenos tratados de um Cristianismo. mas não porque o puritanismo aí tenha vencido: ele foi batido depois de Cromwell. de valor inestimável. Marx e Weber procedem ambos da filosofia da história de Hegel. Robertson diz. Kraus S. que "a Escócia foi. restrições sérias se lhe têm feito. servindo-se dele. que trai o racionalismo encarniçado de Weber. eles próprios se sucedem. unicamente uma ideologia conveniente. isto é. J. Tawney observou que os pregadores puritanos do século XVII resistiam com bastante vigor ao espírito capitalista. com razão. observou que esse racionalismo torna o sábio incapaz de compreender a íntima essência supra-racional dos fenômenos religiosos. Os seus próprios adversários. facilitado para o uso das pessoas do mundo. como a tese e a antítese do movimento dialético. M. derrubou a teoria weberiana: o capitalismo inglês nasceu exclusivamente das revoluções sociais. os fenômenos da secularização. O P. R. durante dois séculos. Mas é a essa fraqueza que Weber deve a sua extraordinária capacidade de descobrir as formas racionalizadas do pensamento e da vida religiosa. o sábio P. Poderia ser uma admissível "hipótese de trabalho". J. Nesse caminho Weber só tem um predecessor: Karl Marx. porque esses tipos são idéias preconcebidas que Weber tira da história para coordenar "racionalmente" os fatos. E H. B. Marx estabeleceu os princípios de uma história do capitalismo. se não fosse esta palavra "racionalmente". Daí a razão por que a atenção de Weber se concentra nas formas exteriores da organização eclesiástica e da vida moral. mas pobre em bens temporais". posteriormente adotada. H. para esses burgueses.

As faculdades separam-se. o ponto de vista marxista. elas aparecem quando o espírito humano ultrapassa os seus limites. . e aquela ironia histórica nos ensina que não se estabelece uma filosofia da história sobre um racionalismo estreito. Essas ironias da história têm sempre um sentido profundo. para confessar. Max Weber é outra coisa. racionalista encarniçado. acreditava na emancipação do homem. umas das outras. estuda toda a história do capitalismo para provar que as organizações sociais e econômicas constituem meros reflexos materiais da vida religiosa. O século XIX é. tentará "racionalizar" essas forças irracionais. Homem do século XIX. o século do especialismo. das cadeias da matéria. É a matéria. e nesse erro também. que restitui. Weber é um homem do século XIX: nisto reside a sua força.organização social. descobre o poder das forças irracionais. Na saída do túnel que ele cavou. na história das ciências. um dos maiores especialistas. Weber nada tem de comum com os antimarxistas vulgares. com as palavras de Corneille: "Les gens que vous tuez se portent assez bien. Mas Weber falhou. A sua filosofia da história era. por muralhas chinesas. Weber estabelece a antítese. o P. precisamente. que matam todo dia o marxismo. ou o espírito. onde havia triunfado. transpôs essa muralha. Weber. Kraus. que determina a história da humanidade? Tudo depende da resposta. que haveria de comum entre a Faculdade de Teologia e a Faculdade de Ciências Econômicas? Max Weber. conscientemente. Os sábios já não conseguem dominar as disciplinas e as subdisciplinas. e a sua fraqueza. abriam-se novos horizontes: Weber. E uma ironia da história quis que o terceiro movimento de idéia fosse reservado a um jesuíta. então os fatos nos "ironizam". Durante a sua vida lutou contra Marx. contra Weber."239 É porque eles desconhecem a fonte de verdade que há em cada erro. Sem dúvida. no dia seguinte. para quem o espírito era somente a luz da razão. Na verdade. antimarxista. pela luz da razão.

da qual nunca mais se restabeleceu inteiramente. que seguiu. destruiu. de artífices. um ataque cardíaco extinguiu-lhe a vida. de uma família burguesa da Westfalia. uma evolução rápida. não teve raízes no povo. e a popularidade do professor aumentava ainda graças a uma rica atividade jornalística. No mesmo ano foi nomeado professor de economia política da Universidade de Heidelberg. de inúmeras chaminés. Em 1830. e a vida de Max Weber aparece-nos como símbolo de uma catástrofe. na aparência. a vida. Mas uma grave crise nervosa. método que exige o estudo das condições sociais em que se desenvolveu a vida de Max Weber. era um país muito pobre. Em 1920. a evolução . país de minas. essa filosofia espiritualista da história. Durante vinte anos. pela sua ciência e pela sua vida. muitas vezes aborrecido. os seus projetos. A luta espiritualista contra o materialismo marxista criou outro materialismo.E a tragédia da sua existência é que ele negou radicalmente. a mais ampla rede ferroviária do mundo. dispunha-se a seguir a carreira de advogado ou de síndico de grandes empresas industriais. um país riquíssimo. Nascido em 1864. Eis tudo. de comunicações precárias. o maior poder econômico do Continente. essa cátedra foi a tributa mais brilhante da ciência alemã. no século XIX. país de camponeses. pouco antes da morte de Goethe. e aí ficou. em 1897. Para interpretar essa vida utilizarei o método da sociologia do conhecimento de Max Scheler. bem cedo se distinguiu pelo talento extraordinário de jurisconsulto sagaz. a inteligência isolada nas pequenas capitais de Estados minúsculos. sem a compreender. pior. de pequenos-burgueses. A Alemanha teve. A vida de Max Weber é. É a obra da grande burguesia. o país materialmente mais atrasado da Europa. mas essa obra. quase artificial. Weber figura entre os colaboradores da Constituição republicana de Weimar. Em 1880. que ele mesmo havia previvido. vida vertiginosa de grande capital. pobre de acontecimentos. a serviço da oposição democrática ao imperador Guilherme II. Em 1919. Embora já docente na Universidade de Friburgo. demasiado rápida. de um professor alemão.

de rapidez não natural. Por isso, impossível ali o liberalismo parlamentar sobre o qual os burgueses ingleses e franceses construíram o seu poder. A burguesia alemã apoiou-se na burocracia e no exército prussianos. Foi Bismarck o criador dessa aliança feudo-burguesa: todo o poder econômico para os grandes-burgueses; e todo o poder político para o imperador, encarnação dos poderes burocráticos e feudais. Um dia, este imperador se chamará Guilherme II, e será, então, a catástrofe da Alemanha. Mas o sol do poder e da prosperidade raiava ainda tão brilhantemente que não foram percebidas três vítimas da aliança: o catolicismo, o operariado e a burguesia liberal. Como os católicos se curvaram, como os operários se condenaram a uma oposição estéril, isso é outra história. A burguesia liberal tinha, pelo menos, o direito de se queixar. E queixava-se, muitas vezes alto, pelos jornais, pelas cátedras universitárias. E um filho desta burguesia liberal foi Max Weber. Por isso, o lugar de Weber na vida da nação estava definido. Convém não esquecer, igualmente, o fator psicológico. Weber foi um dos homens mais apaixonados que a Alemanha já conheceu. Orador nato, de temperamento indômito, profundamente conhecedor dos grandes problemas da vida pública, seu verdadeiro lugar não era a cátedra, mas a tribuna, de onde se dirige a nação. Weber o sabia. "Somente a política me interessa" - diz ele numa carta - "tudo o mais não é senão um meio." E depois: "Todas as grandes questões, sem exceção, são de ordem política." É, visceralmente, um homem político. Na França ele seria presidente do Conselho; na Inglaterra, Chancellor of Exchequer. Na Alemanha, entre um povo apolítico, ele foi professor de universidade. A vida política, ali, estava paralisada, pelo predomínio da burocracia, do militarismo. Os oradores do Reichstag podiam gritar até enrouquecer; mas a vontade do imperador é a lei. Weber tem consciência desta situação desesperada; qualquer coisa, neste homem político, o impede, em cada oportunidade, de entrar na vida pública. Era ele ainda muito jovem, quando uma das maiores empresas industriais desejou nomeá-lo síndico. Foi o caminho que conduziu, mais tarde, um

Gustav Stresemann do escritório à chancelaria do Reich: Weber recusa. Após a primeira publicação científica, Miquel, o grande ministro das Finanças, quer nomeá-lo subsecretário de Estado: Weber recusa. Ainda em 1918, o Partido Democrático, que tinha Weber como um dos seus fundadores, propõe a sua candidatura para o Reichstag: Weber desiste, espontaneamente, em favor de uma figura de importância local. À luz desses fatos, a crise nervosa de 1897 não é um acidente; é uma fuga. Ele, que odeia a burocracia, que ama a luta dos partidos, é uma individualidade demasiado forte para submeter-se à hierarquia de um ministério, de um partido. É o último dos individualistas. Encontra o seu lugar onde não existe submissão, disciplina pessoal, nem limites: na ciência. Em 1903, a vida pública o esquecera. No mesmo ano, a sua produção científica principia a florescer. Na ciência também, Weber é um apaixonado. Ele criará uma síntese, a maior síntese, talvez, que a ciência dos nossos tempos viu. Mas a sua paixão é a especialização, sólida e profunda, dos velhos professores. "Quando a vida alemã" - disse uma vez - "perde, de todos os lados, a solidez, para depravar-se nas especulações mais ousadas, como salvar a velha solidez senão pelo trabalho racional dos especialistas sinceros?" Esse "racional" é significativo. Filho da burguesia e do século liberal, tem viva consciência da sua faculté maîtresse, e crê na força da razão que dominará tudo. Não é positivista: impedem-lho as lembranças da filosofia hegeliana; o "Benedetto Croce alemão" cria uma nova ciência, independente e compreensiva, sem preocupações ideológicas, uma ciência não racionalista, mas integralmente racional. E como a ciência pura de Croce, ela será invadida, depois, pelo irracionalismo de uma ciência sem consciência. Não existe ciência absolutamente independente, e a ciência dos próprios Weber e Croce, de grandes-burgueses, o prova. Em alguns momentos de lucidez, Weber o reconhece. A própria escolha de um assunto científico - a simples escolha de provas na imensidade do material virgem já obriga a suposições e vem, talvez, imbuída de preconceitos. Quanto à explicação, Weber compreende. "O que se

torna objeto de estudo" - diz ele - "mas, acima de tudo, o que faz a ligação causal entre o objeto e a realidade, é determinado pelos valores que dominam o sábio e seu tempo. Ele não é capaz de julgar um fato histórico sem trair, a cada linha, o mundo que gira em sua cabeça." Weber busca para encontrar. Estuda para comover, para agitar o seu meio. E vence. Amaram-no, odiaram-no, como nunca um sábio foi amado e odiado. Era isto o que animava de um sopro ardente as suas conferências acerca dos assuntos mais ásperos, ao ponto de encantar os estudantes, arrancando-lhes aplausos intermináveis. É justamente o que faz dos seus estudos mais profundos e mais sólidos um auto-retrato de artista. Max Weber é uma natureza de artista; prova viva da teoria de Croce - que não há fronteiras definidas entre os gêneros, entre a historiografia e o romance. Weber é artista, mas o é mau grado seu. Este westfaliano, de corpo pesado, grande comilão e beberrão, de voz retumbante, de humor grosseiro, despreza a arte como os grandes industriais e comerciantes, do qual descende, desprezam o luxo supérfluo e frívolo: herança longínqua do puritanismo de seus antepassados, que eram pietistas, possivelmente anabatistas holandeses. Entre seus antepassados, tanto do lado materno como do paterno, encontram-se mártires do protestantismo. É "long, long, ago". Entretanto, os pais de Weber construíram fábricas, usinas. Weber é desses puritanos de uma nova mentalidade econômica, que criaram o capitalismo. Algumas vezes existem, nesta burguesia, filhos perdidos que se gastam em artes frívolas; distinguem-se pela irritabilidade, por crises nervosas. Max Weber, filho perdido de burgueses puritanos, é uma natureza de artista. O que torna possível essa definição de sua classe, de sua família, escrita por ele mesmo: A ética protestante e o espírito do capitalismo. Weber não descreveu a evolução religiosa das seitas protestantes; era tarefa de seu amigo Ernst Troeltsch. Weber não escreveu a história do capitalismo moderno; era tarefa de seu amigo Werner Sombart. Weber faz a síntese entre as ciências de duas Faculdades. Descreve como os puritanos secularizaram a sua fé, como desligaram a ética do trabalho ilimitado de suas origens no

dogma da predestinação, como a igreja sóbria, sem ornamentos, dos calvinistas, se transforma na oficina sóbria, sem ornamentos, dos burgueses. O próprio Weber é um puritano secularizado: substitui o dogma pela razão, o sermão pelo discurso, a seita pelo partido, o fanatismo religioso pelo ardor político. Sendo o maior descobridor de fenômenos da secularização, é também um fenômeno da secularização. Essa identidade completa entre a sua pessoa e a sua obra é notável, enchendo-o de estranho entusiasmo. Entusiasmo de apóstata. Ele não se deu conta de haver perdido Deus; julga-se capaz de apoderar-se de Deus para os seus fins. É cego, não vê a grande catástrofe de sua vida e de seu pensamento. Weber, que se imaginava arauto do progresso, era o arauto do capitalismo, quando já este caminhava irresistivelmente ao encontro, em 1914, do começo de seu fim. Exatamente como o seu antípoda Benedetto Croce, Weber é um homem contra o seu tempo. Ele não o sabia; mas pressentiu-o. Já em 1908, o artigo sobre a política agrária na Antiguidade romana, com as alusões à política agrária dos morgados prussianos, é cheio de sombrias visões do futuro. Enquanto o sol do poder e da prosperidade brilha sobre a Alemanha, Weber levanta-se como profeta do desastre. Começa a estudar os profetas do Velho Testamento, e escreve: "A profunda impressão dos oráculos de Amos vem, possivelmente, da circunstância de serem esses oráculos vaticinados ao sol, e verificarem-se mais tarde." Weber acredita-se um Jeremias. A guerra mundial começa. E Weber começa a sua grande obra sobre os profetas do Velho Testamento. É um estudo de profunda solidez científica, de extraordinário saber e, ao mesmo tempo, de um caráter altamente pessoal. Os antepassados puritanos de Weber amavam essas profecias ameaçadoras, esses gritos roucos contra os reis e os padres. Weber é como eles. Ainda uma vez, um retrato do artista, pintado por ele mesmo. Confessa escrever sob o barulho dos canhões, em excitação escatológica. Como os profetas lutavam contra os reis de Israel que arruinavam a nação, Weber luta contra o imperador infeliz. Weber, o

maior descobridor dos fenômenos da secularização, é um profeta secularizado. Um profeta sem Deus, naturalmente, como cumpre a um homo religiosus de uma época ateísta. Chamaram a Weber um "religioso do ateísmo". Isto foi no tempo em que escrevia os seus famosos artigos de jornal. Weber considera os profetas hebreus os maiores panfletários da literatura universal; e durante os seus estudos sobre estes profetas, escreve, na Gazeta de Frankfurt, seus grandes panfletos contra o imperador, cheios de clarões, de furor, de cólera, de desespero. A própria obra científica é um panfleto disfarçado. Weber subiu à tribuna. É um filho da sua classe e da sua época. Membro típico da "classe discutidora", nacionalista feroz ao mesmo tempo. É preciso salvar a nação da dinastia. O Jeová dos profetas não é o Deus dos reis, mas de seu povo. Weber, porém, o ateu, é um profeta sem vocação divina; seu nacionalismo "satânico" prepara o soerguimento de um povo "eleito", mas não eleito por Deus. Weber odeia o imperador, como os puritanos ingleses chamavam aos reis da Casa de Stuart "padres de Baal". O imperador diz-se "pela graça de Deus", mas é ungido de um falso Senhor, de um Baal. E os sacerdotes deste Baal são os burocratas. Weber luta contra a burocracia, como os profetas hebreus contra os sacerdotes do Templo. Esta luta contra os burocratas, aliados do trono, tem uma significação profunda. Na aparência, é a luta de um liberal, de um chefe de partido democrático, contra aquilo que Renan denominava "le despotisme": a administração pública. É na verdade a guerra dum gigante contra poderes gigantescos, anônimos. No decorrer desta luta Weber inventou a teoria dos três tipos de autoridade. Contra a autoridade legítima do monarca, contra a autoridade legalista dos burocratas, Weber ergue a autoridade "carismática", de revelação direta e divina, do profeta, do chefe. O carisma santo contra o métier profissional. O chefe "carismático" contra o rei legítimo. Algumas vezes Weber parece identificar-se com esse chefe. Não é de Deus que o liberal ateu tem seu carisma. Seu profeta será ateu: seu chefe será um ditador.

o modelo mais convincente desta transição. do individualismo anárquico à ditadura coletiva. "A ciência". a eleição de Hindenburg e os plebiscitos. o que tornou possível. será "uma máquina obediente. é suicida. É um cesarismo plebiscitário. A ciência tornou-se vida. elas elegem-no chefe" . para erguer. como todo individualismo burguês. só para preparar os caminhos dum antimarxismo. dissimulada em seu capote. o democrata calvinista Max Weber transforma-se. "rigorosamente democráticos". o "ardil dialético" de Hegel. a ironia do movimento histórico. se manifesta. mais tarde. Será um demagogo. E já sabemos que esta contradição vingará: matará o marxismo. Ainda uma vez. levanta-se contra a glorificação positivista da ciência. numa pessoa. E Max Weber é o Croce e o Sorel da Alemanha. uma personagem misteriosa. murmura: "Do teu pensamento eu sou a ação. talvez. por um Marsilio. pelos grandes nominalistas da Idade Média dirige-se contra o pensamento coletivo da Igreja. a força coletiva do Estado. Nos grandes meetings.Weber descreve o tipo ideal do chefe "carismático".diz Weber em 1916.diz ele no seu último . Francesco De Sanctis. chama-lhe um sintoma de envelhecimento. O individualismo desencadeado por um Occam. em grande-burguês calvinista. conseguiu a instituição da eleição plebiscitária do presidente. de repente. Protagonista dum coletivismo puramente materialista. nas mãos desse chefe". Weber encontra no seu caminho a oposição de outro coletivismo materialista: do marxismo." Weber. Como no poema de Heine. O individualismo leva sempre a um novo coletivismo. não menos materialista. sob o qual reluz a espada do carrasco. O partido político. na sua famosa conferência sobre La scienza e la vita. sem alma. do seu sucessor. O individualismo de Weber. filho favorito do liberal. Contra esse inimigo inesperado. inflamará as massas com as suas arengas. "Por uma forma rigorosamente democrática. Weber participava dessa opinião. colaborando na Constituição de Weimar. A doutrina de Georges Sorel é. empreende matar o marxismo pelas armas de uma filosofia espiritualista. bem cedo.

profundamente secularizado. e ele sabia bem o que dizia. desejava salvar a soberania da personalidade. nesse "retorno". hoje sobretudo. Ele. mas a dialética da história ironizou-o terrivelmente. receava. cumpre conservar a lembrança desta possibilidade da existência humana que Weber realizou. Há entre as duas partes desta citação. exigiu o sacrifício da inteligência e o sacrifício subseqüente da vida. na época atual. o puritano secularizado. Mas a arrière-pensée de Weber. neste protesto.ele a tenha escondido. A ciência como ofício . Foi a derrota do espírito. ainda quando seu nome e sua obra estejam esquecidos. o "retorno às velhas igrejas" não passa de uma fuga que prepara as submissões subseqüentes. era muito outra. talvez . A secularização da Igreja fundou este mundo capitalista e liberal. que precede a derrota do mundo. ela já não é uma filosofia acerca do sentido da vida. e para a qual já não existem. das velhas igrejas.discurso. ao serviço dos conhecimentos de especialistas. de uma Contra-Secularização. . O protesto de Weber contra o falso sacrifício do intelecto é justificável. A conclusão era muito lógica. A personalidade humana não sucumbe neste regresso? Por contradição. Hoje em dia. o "carisma secularizado"."a ciência é hoje em dia um ofício sóbrio e especializado. e por isso o seu espírito viverá. responderá somente um profeta ou um redentor. O messianismo "carismático". o protagonista mesmo da secularização. Mas ele terá de fazer o sacrifício do seu intelecto. Geralmente. Perguntareis: mas quem nos dirá o que devemos fazer? A que Deus devemos servir? Então. misericordiosamente abertos. porém. a ciência não responde. o começo de uma Contra-Reforma. Weber desejava completar a secularização. condições apropriadas. trata-se de uma distinção bastante sutil. Mas em nossa época não existem profetas. Aquele que não se pode conformar com isso volte para os braços. talvez Weber não haja reconhecido esta ligação. sobre a vocação da ciência e sobre o falso sacrifício do intelecto. senhores. o salvará. uma ligação íntima. É preciso explicar um pensamento pelo outro." Aqui.e é o mais provável . Era a sua razão de ser. a secularização da seita. Weber. de um profeta.

A "justificação espiritual" do esforço alemão começou com o extermínio do próprio espírito alemão. herança dolorosa da nossa natureza. a nossa e a universal. uma divina. Nenhuma dessas três soluções satisfará ao presumido homem sério. A civilização. que é sempre incômodo. enfim. tem a tristeza banal. o espírito alemão. indivisível. a banalidade metafísica de uma tragédia que se repete todos os dias. a que assistimos. e atinge força simbólica só nesses poucos heróis sofredores que lutam um combate representativo: num apóstolo Paulo. e empreende a cruzada em nome desse mesmo espírito alemão. outra do diabo. Estamos em face de um dilema gravíssimo. a visão histórica de Hegel. Mas a força alemã pretende destruir a nossa civilização. se lhe faltassem a austeridade de consciência de Lutero. e a luta contra o "perigoso espírito alemão" degeneraria inevitavelmente em luta contra o espírito em geral. num Michelangelo. O próprio Nietzsche soube-o vagamente: chamou-se a si mesmo "Dionísio crucificado". Por outro lado. haveria duas Alemanhas. seria incompleta. extermínio mais radical do que o mundo. São soluções de propagandas banais. num Pascal. é o espírito que os criou. Enfim. Oferecem-se-nos três soluções: os valores da civilização alemã seriam a justificação espiritual bastante da obra material que aqueles empreendem. ocupadas numa milenária luta interior. espectadores compassivos e vítimas passivas. o espírito é integral. a "luta das duas almas no peito" é coisa comum entre as nações e os homens. a catedral invisível de Bach. na noite . e o que importa não são as obras de alguns gênios. em geral. num Friedrich Nietzsche. imagina. e a lição espiritual de tantos outros. ou os próprios valores da civilização alemã seriam os criadores espiritualmente responsáveis daquela força destruidora. o céu olímpico de Goethe.NIETZSCHE E AS CONSEQÜÊNCIAS A NENHUM homem sério poderia deixar de preocupar a grave discrepância entre os valores da civilização alemã e as forças destruidoras no seio do mesmo povo que os criou.

ficam muito satisfeitos quando o grande poeta Stefan George. Os jornais judeus frisam o antibismarckianismo e o filossemitismo de Nietzsche. com Max Scheler. e a eles se deve a recuperação de Nietzsche para a força vital alemã. o Nietzsche-Archiv de Weimar é já um centro nacionalista. morriam com versos de Nietzsche nos lábios. Nietzsche é um "Siegfried". Brandes proclama-o modelo do "bom europeu". Na República de Weimar. Para Alfred Bauemler. negando. fê-lo intolerável aos universitários e determinou a sua eliminação científica. Pequenos círculos da burguesia já tinham mal entendido Nietzsche como precursor do nudismo ou de reformas alimentárias. de Moebius a Bumm. no outono de 1914. Reconhecem-no. Friedrich Nietzsche acaba como. admite judeus no seu "círculo George". esqueciam os professores de boa saúde que a residência de Nietzsche na casa dos alienados é já o julgamento de um mundo onde o psiquiatra é o dono da casa. Os filhos descobrem um meio mais eficaz da revitalização alemã: a guerra. o sofrimento e a própria loucura: é o símbolo terrestre do infinito. A oposição da Alemanha imperial contra Nietzsche suscitou. Os simbolistas que introduziram Nietzsche na França não tinham . bem nietzscheano. um "alemão rebarbarizado". O fato de ter renegado a Wagner. para os alemães. de outra parte.de sua loucura . verdadeiro filósofo oficial do Reich guilhermino. Se esses mal-entendidos germânicos constituem assunto de uma comédia. festejam-no.da loucura que predissera a toda a humanidade. Nietzsche foi sempre mal entendido. a tolice humana. fundador dum aristocratismo espiritual. Os estudantes-voluntários da batalha de Langemarck. filósofo oficial do nacional-socialismo. com Georg Simmel. a oposição dos liberais. até pelos seus conterrâneos. Encarregaram-se disso os psiquiatras. como vencedor do pessimismo schopenhaeuriano. como restaurador das forças vitais. Há neste círculo muitos estudantes universitários. começara: um professor secundário possuído de loucura furiosa. a validade do pensamento "de um professor louco". Mas o seu sacrifício representativo foi em vão: há no mundo uma força mais poderosa do que o espírito. o mal-entendido de Nietzsche no estrangeiro é mais triste.

como as canções. ao mesmo tempo. a claridade irônica dos latinos. e a nova geração dos Maulnier e dos Brasillach celebra em Nietzsche o rebarbarizador da Europa. a sua língua soa como os aforismos densos dos filósofos pré-socráticos. o amoralismo bárbaro dos gigantes da Edda. Exprime com igual mestria o lirismo modesto e profundo dos alemães. e o Zaratustra. tornou-se na França assunto duma grande ópera.e.noção das diferenças entre Nietzsche e Wagner. Os mesmos círculos wagnerianos fascinavam-se com o estilo de Nietzsche. Os gritos dos jovens Siegfried nietzscheanos na batalha de Longemarck perturbaram desagradavelmente esses prazeres. É o estilista mais latino e mais claro da língua alemã. dos provençais. Donde esses mal-entendidos? Nietzsche não é um autor difícil. o grande pathos da Bíblia. proclama o individualismo germânico. ao mesmo tempo. Karl Jaspers . que na Alemanha oferecera o programa duma sinfonia de Richard Strauss.240 Nietzsche foi o inimigo mais furioso que o cristianismo jamais teve. e. mal-entendido de que o próprio Gide não pode ser absolvido. e desde então passou Nietzsche pelo filósofo do pangermanismo bárbaro. profere fanfarronadas de uma ébria vontade de dominação. Até que os êxitos incontestáveis dessa revitalização alemã perturbaram os próprios cérebros franceses. que se perderam no reino sóbrio de Bismarck. filho espiritual de Goethe e Hölderlin. como versículos mágicos das escrituras sagradas do Oriente. Nietzsche é o último filho da "velha Alemanha" humanista. bastante clara para esconder sob a virtuosidade dos meios estilísticos as contradições internas. A sua prosa é a do grande poeta que era. e. e só mais tarde tiveram eco. Mas é sempre clara. Esquecem-se de que "toda religião de beleza degenera em orgia". Nietzsche é um inimigo mordaz dos alemães . E todavia esse filho de gerações de pastores luteranos sofre intimamente de conflitos religiosos e é. Não faltam tiradas nietzscheanas nos romances de D'Annunzio e na boca dos jovens libertinos russos de Artsybachev. às vezes. afinal. O esteticismo confundiu Nietzsche com Oscar Wilde e deduziu daquele um falso imoralismo.a expressão "bom europeu" é dele . ébrias de luz. um cristão pascaliano.

União muito rara. Esse poeta autêntico é um autêntico pensador. coberto de destroços contraditórios". após o diagnóstico "loucura" dos psiquiatras.chama à obra de Nietzsche "um campo de ruínas. última metafísica niilista e desesperadamente otimista. coloca-nos diante de perguntas ameaçadoras. Nietzsche é poeta e filósofo ao mesmo tempo. o que faz da sua loucura a sua obra máxima. Friedrich Nietzsche era um profeta. onda a força da palavra poética contém uma inteligência existencial e profundamente verdadeira. e que não deve ser confundida com os balbucios pseudofilosóficos do poeta Hugo ou com os ócios poéticos do filósofo Santayana. A sua filosofia. é a sua personalidade. agitada nas profundezas da existência humana. Lembra a verdade dos antigos . A única obra puramente poética de Nietzsche. Pois filósofo era também. é a sua obra mais fraca. O diagnóstico "poeta" não serve para nos subtrairmos aos problemas existenciais que o pensamento nietzscheano nos propõe. . sobre o ressentimento dos fracos e vencidos como origem da moralidade. o lanço apaixonado de toda a sua personalidade. quando o espírito do poeta ainda anoitecia na casa dos alienados. A verdadeira união desses elementos só é possível no fundo agitado da alma dum homo religiosus. Friedrich Nietzsche era poeta. o diagnóstico "poeta" era a tentativa dos estetas para se subtraírem às verdades desagradáveis do pensador. mas a todo o nosso ser. Nietzsche parece poeta porque a sua filosofia se dirige não só ao intelecto. As descobertas psicológicas de Nietzsche. sobre o elemento teatral.que os poetas são uns delirantes. Nasce então um profeta. O poeta Nietzsche chega ao cume. que lembra a mais velha metafísica. Percebeu-se isto muito cedo. a de Heráclito: não são poemas. em todo artista. o Zaratustra. e não menos autêntico. que lembra as personagens de Dostoievski. até as suas tentativas de uma metafísica da transformação eterna. O único laço que lhes dá coerência é a paixão intelectual de Nietzsche. as suas diagnoses da decadência e do niilismo da civilização moderna. em que Karl Jaspers identificou a primeira filosofia existencialista. o "elemento ator".

Tinha uma verdade existencial a proferir. Para nós outros. Não sabia mesmo da última fase desse humanismo: o pensamento anti-histórico de Schopenhauer escondeu-lhe. como Isaías antes do advento do Messias. Era menos e mais. foram sentidos como catástrofe espiritual. pretensa pedra fundamental duma nova civilização alemã. Portanto. A vida independente de Nietzsche começa em 1868. como Jeremias antes da destruição do templo. veio. Em Bayreuth. mais e menos ampla ao mesmo tempo. Pela primeira vez. Nietzsche não era um inspirado de Deus nem um sábio que tem razão contra o seu tempo. e na sua arte profundamente insincera uma teologia do ilusionismo. diria: um profeta anuncia a uma situação temporal uma verdade eterna. . Mas a profecia não pode ser entendida antes do seu cumprimento. o fim da "velha Alemanha" e o advento do Reich de Bismarck não podiam ser compreendidos pela dialética histórica. que estava então sendo esquecido. cheio de Goethe. O templo de Nietzsche foi destruído. encarada com desesperado pessimismo schopenhaueriano. Nietzsche colheu os primeiros ensinamentos sobre a psicologia "mimética" do artista: reconhece em Wagner o ator. já é tempo de situá-lo no seu tempo passado. o seu mundo espiritual não conhece a morte. Nietzsche espera a salvação na obra poética e musical do schopenhaueriano Wagner. com que sonhava.Mas o que é um profeta? Um homem inspirado por Deus? Ou simplesmente o portador duma verdade que os homens não querem ouvir? Uma definição. que para eles é vivo. encantado com os versos de Hölderlin. Nisto reside a sua qualidade profética. A profissão é significativa: o jovem Nietzsche é um representante da "velha Alemanha" humanística. que é o tempo presente. Nietzsche não foi mal entendido. e o messias "super-homem". e a tantos contemporâneos. para melhor compreender o nosso tempo presente. ele não podia ser entendido antes do tempo. a dialética de Hegel. o ódio da nova Alemanha o prende. quando o precoce de 24 anos é feito professor de filologia clássica na Universidade de Basiléia. Filólogos vivem no passado. Nietzsche não conheceu a morte do seu mundo humanístico.

onde o suave pessimismo histórico do velho humanista Burckhardt o consola e lhe abre o mundo do humanismo europeu. mal disfarçada. (V. num estudo profundo. No entanto. o papel do bárbaro. da música de Bizet. Atrás da máscara cristã de Wagner reconhece o paganismo interior dos alemães. O cristão Nietzsche queria ser um pagão mediterrâneo. em Nice e na Itália. Descobre o mundo latino. mas resulta dum atavismo real do paganismo nórdico. porém. Andreas Heusler mostrou. mal cristianizados. é uma existência burguesa. No fundo. germânica. Reformado por motivo de doenças um pouco misteriosas. nessa altura. sulino. Veneza. Nietzsche só desempenha. que o romântico incurável Nietzsche sempre amou. Dessa contradição profunda provém o saber de Nietzsche a respeito das "máscaras". relativamente luxuosa. Nunca podia tornar-se um pagão grego.241 não tem nada com as máscaras de ópera pseudogermânicas de Wagner. das suas rendas. que a desorientação neobárbara de Nietzsche. em Nice. uma verdade pessoal. de que Nietzsche pretendia ser o profeta. não é a barbaria dos velhos valentões germânicos. A doença moral do próprio Nietzsche advém da luta interna entre o cristianismo da alma e um atavismo pagão. que vive. é um fato real. meio feudal e meio industrializado. Nietzsche. e achou em si a barbaria nórdica. É a última máscara. bem germânica. Não pode ser bárbaro: está gravemente doente. os estudos de Weigand sobre a situação financeira e as . que sabia pouco da sociologia. Nietzsche apenas imaginava ser um espírito latino. Não sabe que está possuído da "nostalgia do Sul". tinha uma alma cristã. existencial: a sua própria existência de professor reformado. Gênova. nova espécie da "flor azul" de Novalis. Monte Carlo. Estamos no centro do problema. sente a fascinação do sol mediterrâneo. saudade insaciável duma pátria irreal. e desesperadamente. descobre. A barbaria. no seu novo Reich militar e burguês. mas a barbaria dos novos burgueses alemães.Retira-se para a Suíça. que não é idêntico ao humanismo alemão. alma "naturaliter christiana". da psicologia de Stendhal. vive da sua pensão e de algumas rendas pessoais. e todas as suas descobertas psicológicas.

Nietzsche reconhece que a Alemanha precede. enfim. o caminho. o presente e o futuro. Sozinho. Nietzsche. fenômenos espirituais. fala como alemão a alemães que já não o são. A existência do próprio Nietzsche não é uma exceção. ele está diante do nada. faziam-se retratos de Nietzsche à própria imagem. nesse caminho.o seu máximo feito profético . o seu mestre: Heráclito. mas está baseada na doença. fala como cristão a cristãos que já não o são. e. É a autodestruição niilista no espírito de Nietzsche que o torna apto a reconhecer o niilismo alemão. Apoderando-se das sugestões de Bourget. que a situação alemã se tornará a situação do mundo. A estrutura heraclítica do próprio intelecto de Nietzsche fá-lo descobrir a estrutura heraclítica do espírito alemão e o caminho da autodestruição desse espírito: o caminho de Goethe a Hegel. do nacionalismo e do socialismo à fusão de ambos no nacional-socialismo. a Marx. que o torna um rendeiro ocioso. o anticristo. não se sabia onde se estava. de Hegel ao "Estado de poder" prussiano e. o aburguesamento e a proletarização da Alemanha: fenômenos exteriores e. o antialemão. o filósofo da transformação eterna. A situação é cheia de contradições dialéticas. que é o precursor do grito apocalíptico de Nietzsche e o fundador do partido que fornece as massas disciplinadas do socialismo. A face exterior desse processo é a industrialização. Mas . Di-lo o próprio Nietzsche: "Sou o profeta do niilismo europeu. o maior. Redescobre os filósofos pré-socráticos. denuncia o enfraquecimento dos instintos vitais pelo racionalismo burguês. É o profeta do niilismo. igualmente. o fenômeno da decadência européia.despesas de Nietzsche. Na Alemanha. ao mesmo tempo. Nietzsche não recua nunca diante duma verdade . desde o nudismo e as reformas . Ataca incessantemente o representante simbólico desse racionalismo: Sócrates. entre eles. aos outros povos e a toda Europa. que conduzem ao niilismo." O privilégio do profeta consiste em não ser entendido. Nietzsche.e da generalização dela: a sua doença revela-lhe a base doente de toda a civilização burguesa.) A existência ideal dos "senhores" nietzscheanos tem certas premissas econômicas.

alemão e ocidental. um espírito heraclítico. Precisa-se percorrer em direção inversa o caminho de Nietzsche. sem os quais não haveria civilização européia. a situação espiritual era. Nietzsche é. porém. à qual chama um "crime de lesa-majestade". que o positivismo alemão desfigurara em sentido darwinista. a defesa desses valores da civilização alemã. outra: lá. O apelo só a essas armas trai aquele niilismo desesperado que Nietzsche denunciou. e isto faz ver que a situação alemã de então se tornara a situação européia de hoje: a profecia cumpriu-se. de Nietzsche encontram-se. A resistência contra essa solução é. saúda o niilismo de fora como a própria salvação. uma jovem geração européia. aquele estado de espírito que tolera a eliminação do espírito pela força material. Eis por que será impotente uma resistência que opõe às armas mecanizadas outras armas mecanizadas. Na Europa ocidental. No tempo em que Nietzsche estréia. enfim. estavam na defesa.alimentárias até à "vontade de poder" do pangermanismo. Hegel está quase esquecido na Alemanha. e sê-lo-á também no campo de batalha. Maravilhosamente. era ainda possível o mal-entendido esteticista. Cumpre tomar a sério a profecia de Nietzsche. mas o próprio niilismo já tornou impossível a defesa eficaz contra o niilismo mais poderoso. Os malentendidos. como Hegel. As diatribes anti-históricas de Schopenhauer haviam desacreditado o pensamento histórico de Hegel. a dos Maulnier e Brasillach. de fato. e a sua inesperada congruência material ameaça o Continente com a destruição definitiva. reconhecendo a sua significação negativa. O desaparecimento da Europa seria a solução niilista da "questão alemã". Nietzsche. o discípulo de Schopenhauer. O heraclitismo de Nietzsche é um protesto inconsciente contra a falsa interpretação positivista de . primeiramente. não conhece Hegel. as anteriores oposições espirituais do "bom alemão" e do "bom europeu" desaparecem. quando descobriram o Nietzsche nacionalista. Quem só toma a sério as armas já está perdido no espírito. As profecias têm sempre uma significação negativa. mas protesta vivamente contra a identificação dos evolucionismos de Darwin e de Goethe.

O ADMIRÁVEL THOMAS MANN É IMPOSSÍVEL não admirar Thomas Mann. a coincidentia oppositorum242 objetiva. seria a morte. A dialética histórica do pensamento de Hegel é a congruência das contradições. Os Buddenbrooks. lutando contra a tirania. enfim. e um grande alemão. conseguiu a admiração duradoura dos alemães. que se tornou realidade subjetiva em Goethe. porém. o pensador e escritor em ação. Em Goethe e Napoleão a congruência do "bom alemão" e do "bom europeu".Hegel. enfim. É a vida. Recuperá-lo seria impossível sob a base do niilismo espiritual de Nietzsche. É um pensador profundo. o prêmio Nobel selou a admiração universal ao escritor. O "caminho para trás" é o caminho de Nietzsche a Hegel e de Hegel a Goethe. a coincidentia oppositorum. com Goethe. A realidade material dessa congruência. muitas vezes. porque Goethe via na impotência material das unidades políticas a garantia do poder espiritual dos indivíduos nacionais. Todos o lêem. de um ou de outro lado. do crítico mais exigente até à girl mais engraçada. a sua situação "ahistórica". que é o que o ligaria a Goethe. é objeto da admiração esperançosa do mundo. É impossível não admirar Thomas Mann. Nietzsche lamentou. o mensageiro do mundo ocidental. A única base possível era o niilismo político de Goethe. temo. um escritor de primeira ordem. O tempo de Goethe é a idade de Péricles na história do espírito alemão. e todos o admiram. e eu também desejo unir-me a esse cortejo glorioso. É irresistível. não um gênio vitorioso. saudara em Napoleão o desmembrador da unidade alemã. de ter perdido a ligação histórica com o centro da civilização alemã. e que passou. mas sim uma tragédia humana. reconhecendo a caducidade do poder exterior. Com o primeiro romance. Perdera o sentido da dialética histórica. Foi um momento feliz do espírito alemão. que. que a minha admiração seja perigosa e deixe entrever. . torna-se realidade espiritual. e em tudo isto admirável.

de Goethe.este mais mencionado do que pensado . de Wagner e . o leitor desprevenido abre a boca. é o maior dos escritores de segunda ordem. Em outros casos . Dizem-no um pensador profundo. Mann debate-se entre os pensamentos de Schopenhauer. por isso. sufocado sob enormes massas de pensamentos. E todas as discussões intermináveis em torno desse problema irresolúvel seriam o caminho a Goethe? Goethe é o Deus absconditus da teologia vitalista de Mann. o orador grego. Mann tem a expressão filosófica da decadência.causas célebres da subliteratura universal . escondido e inacessível às rotações do moinho de rezas descrentes que são aquelas discussões. contra os uivos da publicidade organizada e da adulação impudente. Mas não há pensamento. experiência vital e. Que é que a gente admira em Thomas Mann? O pensador. Em certos casos .a análise fará cair uma capa real. Thomas Mann é um pensador confuso. de Nietzsche. indiscutida. De Schopenhauer. mas ficará um homem humano. A experiência fundamental de Mann é a decadência. . papel sujo. sem encontrar uma solução. o alemão. e a encarnação de tudo o que é ou foi honesto e admirável no homem alemão. uma saída. e a alemanidade não é a essência do seu ser.e entre estes o de Thomas Mann . nenhum pensamento original.a análise destruidora não deixará mais que montões de papel de embrulho. sem possível solução racional. em Wagner procura a superação da decadência pelas ilusões intencionais dum romantismo ébrio. costumava dizer: "Que erro cometi eu?" Sem conhecimento dos erros e das faltas não há admiração sincera. sobretudo a admiração unânime. compreensiva. Na verdade.A admiração é a inimiga mortal da compreensão. Fócion. humano e admirável. ouvindo os aplausos da multidão. Desde o princípio da sua vida literária até hoje. de Nietzsche. Justamente no caso das chamadas "glórias da literatura universal" faz-se preciso um ato de destruição deliberada. um escritor de primeira ordem. o escritor. Nos romances de Thomas Mann há muitas discussões e muitas reflexões. mas o amor infeliz dum bastante fraco herói de tragédia. em particular. a diagnose e a explicação da decadência.

O literato Spinell. misteriosamente. um caixão. mas em que. mas um escritor sério. traindo que não foi por mérito de Mann que aquele liberalismo conseguiu. ensaios poemáticos em torno do seu próprio problema vital: o artista decadente. Nos penosos ensaios propriamente ditos de Mann. Não é simplesmente um liberal. bem-estar e decência humana. a cama é um barco mágico. com razão. inconscientes e de joelhos encolhidos. Evita-a. o que seria uma base de discussões possíveis. de noite. Thomas Mann é um admirável ensaísta. Lembro-me. intitulados por ele. de noite. o raio de poesia é bem fraco. em Tristan. em geral. Mann é um grande manejador de pensamentos. o que é a primeira condição do ensaísta. Os seus contos magistrais são. o conto de todas as noites? É no conto que Mann consegue condensar o seu lirismo em obras de arte. desde então. todos eles. recebendo as boas-vindas do resto do mundo". esgota-se em cartas . porque as suas discussões não são cheias só de pensamentos. Mas a banalidade é rara em Thomas Mann. Não sendo pensador original ou claro. como outrora no escuro do ventre materno. é um liberal burguês. em que se cumprem os mistérios do nascimento e da morte.Lembra as palavras de Donoso Cortés: "la burguesia es una clase discutidora". em que exorta a Alemanha a "voltar ao sistema europeu de justiça. onde nos regeneramos. duma passagem. Apenas. o que é coisa horrorosa. liberdade. e que não posso resistir à tentação de citar: "A cama é um móvel metafísico. de dia modestamente coberto. e o seu Goethe é o herói de gesso sobre o armário de livros pouco ordenados. Acha-se esse fraquíssimo liberalismo até na admirável Carta aberta ao Deão da Faculdade de Filosofia da Universidade de Bona. não muito conhecida. cujo pensamento torturado é transfigurado por um raio de poesia. presos ao cordão umbilical da Natureza. balouçamos para o mar do inconsciente e dos sonhos. Expressões caracteristicamente banais. Esforços. é preciso saber que um ensaísta não é um causeur engraçado." Não é um poema? Ou. antes. um conto muito poético. mas também de arrière-pensées. uma grandeza trágica. porém.

como leitmotiv. nem sequer do romantismo aburguesado e impotentemente melancólico de Brahms. ofende loucamente o seu grosseiro marido. e encontra no caminho da perdição. de imensos ensaios gorados de grande ensaísta das pequenas formas. é um ensaísta frustrado. O romance é o gênero propriamente "moderno" da literatura. a figura disfarçada e guiadora da Morte. e foge. e dos grandes romances do século XIX. Acredita estar em sua casa.artificiais. eis a escassa bagagem literária de Thomas Mann para a eternidade. sabe compor como um músico. na música clássica e romântica alemã. com os seus amores desesperados à loura Inge Holm. Mas não é contemporâneo de Bach nem de Beethoven nem de Wagner. de ensaios frustrados. e Thomas Mann é o contemporâneo da música artificialmente perfeita e artisticamente . dormindo profundamente. perde a sua dignidade artificial na paixão criminosa por um menino. A grande maioria dos romances da nossa época não passam de ensaios. o romance é condicionado pelo tempo. enfim. Os Buddenbrooks e A montanha mágica. todos eles já estão deitados. na Morte em Veneza. fazendo mil variações engenhosas em torno de um tema monótono. fala muito nela. As duas obras capitais de Mann. O romance é um gênero relativamente novo e não bem definido. burguês. atormenta com amores artificiais uma mulher doente. não passam. poucos romances cumprem integralmente as leis da espécie. sem imaginação alguma. vaso paciente de todos os nossos sentimentos. Thomas Mann é muito pobre de imaginação. Esses raros contos. afinal. o famoso escritor Aschenbach. Os grandes romances são caducos. como os avós do último Buddenbrook. inutiliza-se para a literatura. Em compensação. dum baby são e gritador. de mil pinceladas de observação paciente. são dois imensos ensaios sobre a decadência da Alemanha e sobre a decadência da Europa. que não quer ser senão romancista. compostos. e Thomas Mann. Tonio Kroeger. observações e ensaios de criação. pensamentos. quão poucos sobrevivem! Mais do que os outros gêneros da literatura. laboriosa e penosamente. Thomas Mann gosta muito da música.

tudo trai a impotência para o verbo espontâneo. Mas não é satírico. Lembra aqueles cuja roupa e comportamento corretíssimos querem esconder uma mancha do passado. sorrindo das suas personagens burguesas. É a minha mais firme convicção literária a de que o estilo de um escritor é a chave da sua obra e da sua personalidade. do vocabulário. Grande nunca. duma época de segunda ordem: é o maior escritor dos escritores de segunda ordem. sentimental. A língua de Mann mofa de si mesma. o estudo das minúcias gramaticais. Estilista de primeira ordem. Refoge às impotências da língua herdada e demasiadamente abusada. de vocabulário artificialmente escolhido. correção laboriosa. psicológico. É a música da grande burguesia. porque não conhece . da construção das frases trai implacavelmente o segredo mais íntimo. um humorista. porém impotente. na significação menos boa da palavra. Thomas Mann é o maior escritor duma época artificial e decadente. Uma dignidade artificial. Thomas Mann é um grande estilista.vazia de Richard Strauss. em toda a sua gravidade solene. e num autor de trabalho minucioso. "fria severidade em casa comodíssima": antecipações daquele eufemístico "bem-estar e decência". estilizada à maneira do Goethe da velhice. para a língua maior da música. ao ponto de caracterizar personagens por tiques de fala humorísticos. é neste sentido que todas as obras de Mann são ensaios que poderiam chamar-se Esforços. de frases meticulosamente construídas como Thomas Mann. Há em Thomas Mann um perpétuo pestanejo irônico. espirituoso. com as virtudes estilísticas da época burguesa: irônico. um aristocrata. penosa. Não é por acaso que a vida literária de Mann começou no famoso hebdomadário humorístico Simplicissimus. querendo esconder um segredo delicado. Thomas Mann é. ele estiliza tudo e ao seu estilo também. Um Nietzsche disfarçado em Flaubert. E o grande ideal estilístico de Thomas Mann é grande-burguês: como ele define. penosamente disfarçada sob as máscaras da estilização. sempre correto. receosa de indiscrições. como o leitmotiv. "Garder la tenue"243 é tudo. da qual o seu estilo recebe os truques mais sugestivos e mais artificiais. analítico. empregado até à fadiga.

um fato a-metafísico. mas não quer saber disto. mas sem acrescentar a frase de A montanha mágica: "Onde falta a coragem moral da decisão. chega a citar o diploma de doutor honorário de Harvard . é um burguês domesticado. internacional." "Decomposição". A aventura de Thomas Mann é a arte. Daí a ironia cruel contra si mesmo.não conheceu . a arte de Thomas Mann é de tal maneira arte da altaroda. Por isso mesmo. como no conto Dono e cão. Afinal. o ponto final da decadência. começa o processo da decomposição. Confessa. a "angústia mental e espiritual" . Thomas Mann não conhece metafísica nenhuma.a indignação moral. Foi patriota alemão imperial em 1914. Há em Mann um burguês e um aventureiro. tipicamente alemão. por falta de fé. foi patriota alemão republicano em 1922. para "garder la tenue" até a morte. que mereceu as glórias internacionais. para evitar o escândalo. que desdenha o dono por não saber caçar nem manejar um fuzil. acometidos de apoplexia num lugar público.. Não é poeta: é só artista. Thomas Mann é um escritor internacional. um artista. acaba na resignação cética. quase mundana. caem de repente mortos. e são rapidamente transportados para o necrotério. Lembra os homens ricos. Acredita ser alemão. para atirar-se à aventura. que. fim natural de discussões intermináveis. elegantes. porque ele mesmo se sabe continuamente na tentação de sair do seu papel. para designar o desespero por detrás da máscara da correção burguesa. A morte na obra de Mann é um acontecimento biológico."Mann sustenta a alta dignidade da cultura germânica" . não é um aristocrata caçador.para provar a sua alemanidade. mas sempre na tentação de abandonar subitamente esse mundo policiado. e como as aventuras de todas as suas personagens burguesas. essa "falta de fé" que ele mesmo confessa na Carta ao Deão. outra palavra para exprimir "decadência". na mesma Carta ao Deão. na Carta ao Deão. em que passeia na floresta com o seu cão. é patriota alemão antinazista em 1942. até as discussões filosóficas de A montanha mágica evitam cuidadosamente as últimas questões.

representada por fatalidades familiares. individuais. Mann não compreende bem a decadência da burguesia. O pretendido historiador da burguesia alemã é um romântico retardatário. vê só neste a última possibilidade burguesa da aventura. as personagens não passam de leitmotivs daquela história. é a pergunta de Mann também. o cortejo lúgubre das gerações decadentes dos Buddenbrooks. não conhece. a "angústia da alemanidade". e todo o trabalho do espírito alemão através dos séculos consiste na construção duma dialética.de ser um alemão. sem saber terminálo. Não há resposta inequívoca. a dialética de Hegel. Por falta de dialética. a sua evolução . Mann não compreende a história: Os Buddenbrooks não são um romance histórico. meio alemã. o burguês schopenhaueriano da época da burguesia decadente. Assim como as fronteiras da Alemanha estão largamente abertas.é uma pergunta eterna. não compreende o sentido social dessa evolução. base de discussões intermináveis. Vendo apenas destinos vitais. para reconciliá-las. sem fronteiras. e. que Mann. à pergunta: o que significa alemão? Há só muitas respostas. tocando a dança fúnebre dum mundo morto. e a pergunta de Wagner . contraditórias. porque a Alemanha não é definida. Justifica-se. Ligo pouca importância ao fato racial de ser Mann de ascendência mista. e começou o romance As confissões do cavalheiro de indústria Felix Krull. Como o conceito da decadência não é um conceito histórico. que terminou por ser cruelmente desmentido. meio crioula. e um liberalismo antiquado. O espírito alemão está aberto a contradições. sente-se fascinado pelo último produto da evolução industrial: o cavalheiro de indústria.O que significa alemão? . Do velho burguesismo morto nada ficou senão o herdado busto de gesso de Goethe. definitiva. capaz de reconciliar essas contradições. o espírito alemão está aberto.da aristocracia de espírito de 1830 à aristocracia de dinheiro de 1900 evolução que é o assunto de Os Buddenbrooks. A "alemanidade" de Thomas Mann é uma coisa delicada e crítica. em cada alemão. . mas vitalista.

e do seu autor . Thomas Mann não compreendeu por que a loura Inge Holm preferira os engenheiros e os oficiais de marinha. como Tonio Kroeger ama a loura Inge Holm. de repente. repete sempre Os Buddenbrooks. amáveis. 1914: e Mann escreve o seu livro mais estranho. os ensaios Considerações . A história dessa derrota pessoal de Mann está na sua obra chave: o conto Tonio Kroeger. banais". esses ensaios que constituem os seus romances. romances do declínio até à morte. para os mares do exílio. em realidade sangrenta. Quis sabê-lo. pela identificação espirituosa. Lamenta. Thomas Mann escreve "romances de formação" em direção inversa. do romantismo com o sentimento da morte. não reconhece a responsabilidade dos pais pelos filhos falhados. O amor de Tonio Kroeger . seguindo com os olhos o navio que leva a loura Inge Holm e o seu noivo louro. é sempre excluído da vida e ama-a sem esperança. de olhos azuis. O artista Kroeger sofre da "nostalgia da vida e das suas banalidades sedutoras". ele não compreende o seu próprio malogro na tentativa de identificar-se com o espírito alemão. afinal. está na ponte de embarque. Não reconhece mais a Alemanha e os alemães. e fracassou nos ensaios de compreensão. No fundo. aos claros. sem o fim. infeliz.Para o burguês alemão Thomas Mann. sombrio. vivos. É toda a história de Thomas Mann. melancolicamente. O espírito. que se sabe filho de gerações de patrícios arquialemães. doente. Não compreendendo a evolução fatal dessas gerações. mas fictícia. um espírito que não morrera.pertence "aos louros. É a história romântica dum jovem artista excluído da vida. a morte da burguesia alemã significa a morte da Alemanha. A forma especial do romance alemão é o Entwicklungsroman. de olhos azuis. Tenta identificar-se com essa alemanidade. romance da formação espiritual de um jovem até a sua madureza. isto é. Mas Kroeger é escuro. Esse conceito não passa de um jogo de espírito que se transformou. acredita Mann. incompreensível para ele. felizes. sem o navio que o levou. para os mares da felicidade. mas que se transformara fatalmente. reservado e esquisito. é um malogro.

entre as discussões estéreis do espírito europeu moribundo. mas é para o resto da vida. bem outra da que o historiador da decadência jamais sonhara. alguns meses. uma Alemanha com o rosto de Medusa. A resposta às Considerações dum apolítico é 1918.no conto Desordem e mágoa precoce . Desde então. É a tentativa mais séria já empreendida de definir a alemanidade para lhe conservar o sentido ameaçado. para orador do misticismo antidemocrático. de olhos azuis e furioso. Mann não acredita na cura. escuro. Espantado. "Começa o processo da decomposição": mas não para uma morte romanticamente estilizada.sem reconhecer o fruto amargo dos instintos mórbidos dos pais. para Thomas Mann. pois elas não têm fim. Uma Alemanha decadente é. acreditam que será por algumas semanas. o alemão Thomas Mann está em caminho. de olhos azuis. artista e doente. louro. Milagrosamente.dum apolítico. Mas a realidade oculta sob essas definições é o protesto do furor teutônico contra a civilização ocidental e o gosto de morrer no campo de batalha. Escreve A montanha mágica. e sublinha a ironia cruel. filho da Itália fascista. e um Naphta. a palavra de Victor Hugo tem razão: "Le romantisme n'est que le libéralisme en littérature. Thomas Mann se enganou. são os termos da definição. a literatura fracassada. A sua Alemanha já não existe. protesto da consciência e amor da morte. na trouxa o pensamento fracassado. A decadência é incurável. Hans Castorp não sobreviverá ao fim dessas discussões. Pela última vez. a alemanidade fracassada. O seu pensamento já não tem nada que dizer senão frases de ."244 Atrás da máscara romantizada do junker prussiano. Coloca o tísico alemão Hans Castorp. a Alemanha moribunda ressuscitou. A capa de Flaubert cai dos ombros de Nietzsche. Mas o moribundo Hans Castorp não é a Alemanha. Emigrante. Luteranismo e romantismo. escolhendo um Settembrini. Epopéia da doença? Para epopéia falta-lhe a fé. Desta vez. louro. ele observa no quarto de meninos da sua própria casa os instintos anárquicos . fatalmente uma Europa decadente. para orador da democracia ocidental. filho do gueto judeu. aparece o pálido rosto de Tonio Kroeger. Vêm doentes para o sanatório nas montanhas.

e a sua palavra perde o artifício do jogo artístico. ele pode falar abertamente. para desaparecerem depois nas estantes. era a expressão duma época fracassada. a suprema responsabilidade da Palavra pela e perante a humanidade. com Jean Moréas: "Car je haïs avant tout le stupide indiscret. com cujo ressuscitamento por Lutero começou também a tragédia alemã. que eu haveria de passar os últimos anos de minha existência como emigrado. Car le seul juste point est un jeu de balance. também. expropriado. do maior entre os escritores de segunda ordem. É o resumo da sua existência. nessa admirável Carta aberta ao Deão da Faculdade de Filosofia da Universidade de Bona. E essa consciência lhe dá o direito supremo de. invocar o nome de Deus em face da Alemanha diabolicamente caída. e que não teve resposta. à categoria dos romances que "toda a gente precisa ter lido". Qu'enfin dans mon esprit je conserve un secret Qui remplirait d'effroi l'humaine nonchalance. dum alemão burguês e torturado. para ganhar "a responsabilidade de natureza simbólica e espiritual". Já não é burguês. ensinando-lhe a fazer as pazes com o mundo e consigo mesmo!" Carta enviada para o vazio. não passou de um pensador confuso. O que é simbólico. está descoberto. como o segredo está revelado."245 Agora. nunca me poderia ter sido profetizado no berço. A última aventura do artista. Durante toda a longa vida laboriosa. atravessou esta fronteira . o exílio. libertou enfim o artista no burguês. Resta um emigrante trágico para os tempos da aurora da humanidade. depois de haver atravessado todas as fronteiras. Toda a sua literatura anterior passou. durante uma estação. Fala à Alemanha. durante muitos anos de vida laboriosa. proscrito". para o mundo bíblico. Thomas Mann é. "Deus valha ao nosso desgraçado país. Hoje. e ele poderia ter dito. Confessa que "nunca poderia imaginar. com toda a "falta de fé". desde já. O segredo pessoal de Mann. tão cuidadosamente escondido atrás da correção burguesa.propaganda. uma figura simbólica.

enfim. O êxito não é um critério crítico. Thomas Mann é admirável. E não é uma sentença dirigida contra o passado este julgamento. as lamentações são inúteis. ficara silencioso. se tais processos analíticos fossem generalizados? Exatamente tanto quanto há nela de verdadeiramente grande. o Silêncio apresentou-se perante o Juiz. Já não é um escritor triste. do seu fracasso. Enfim. De nada serve acusar. enfim. Chama-se o monstro: Leviatã. tratase. para ganhar a alma imortal. na catástrofe. e perante um tribunal supremo. há coisas diante das quais a voz emudece. acredito. que exige a maior coerência possível do pensamento. Precisa-se restituir o "grande" aos grandes. Portanto. tornou-se grande e admirável. um alemão triste: consciente. porém. Já não tem o dever de falar. até encontrar. é a garantia única possível do futuro. sem ser verdadeiramente grande. JACOB BURCKHARDT E O FUTURO DA INTELIGÊNCIA É DE PAUL VALÉRY. e fez-se reconhecer como testemunha. Leviatã não é um mero fato político nem produto de certas anomalias nacionais ou sociais. Durante muito tempo. a frase: os intelectuais passeavam no paraíso das suas ilusões. simplesmente questão da nossa vida. É o resultado conseqüente de toda a nossa civilização. esta.também. Estranha admiração. um burguês triste. para definir a atividade dos intelectuais e a sua posição. julgar a nós mesmos. restabelecer a ordem dos valores. E como figura trágica. precisamente na hora em que nasceram juntos o Estado moderno e a Ciência moderna. há três séculos. das glórias da literatura universal. a Besta do Apocalipse. nome com que Thomas Hobbes designou a encarnação política totalitária. do seu destino. desvelou o rosto. Thomas Mann foi eminente. Mas há nisso uma contradição: "definir" é uma atividade racional. tem o direito de falar. cujas atividades intelectuais possibilitavam e criavam tal coisa. passou da tristeza para a tragédia. Durante toda a sua vida literária. e é melhor perder um nome "consagrado". . julgar o mundo. duma questão vital. quase erostrática!246 Que permaneceria. Havemos de acusar.

Trata-se da decisão mais difícil. O que fazer hoje. O pessimismo e a apoliteia de Burckhardt parecem-me atitudes exemplares. Ich bin ein Mensch mit seinem Widerspruch. e radicalmente. É difícil resolver se essa descoberta de Burckhardt criou o seu pessimismo. envolvendo conseqüências não menores do que qualquer outra atividade. Ao contrário. a própria decisão de não-agir seria uma decisão ativa. fugindo ao Leviatã.. Soluções dogmáticas. Ocorrem-me versos do poeta suíço Conrad Ferdinand Meyer: "Das macht. duma decisão terrivelmente vital.. ich bin kein gut geschrieben Buch. onde está sofrendo as censuras alternantes de humanismo .que defendemos a qualquer preço. previu a nossa situação. como em todas as questões existenciais. O que exclui. fugindo para a irresponsabilidade de sonhos históricos: lugar incômodo. no meio da maior euforia européia. sou um homem. e radicalmente. já não servem. De dia. desiludido das suas realizações frustradas." "Não sou um livro bem escrito. com as suas contradições. Burckhardt redescobriu-o no período mais magnífico da Antiguidade. como pesadelos. era pessimista. e a raiz comum desse pessimismo e dessa apoliteia é um liberalismo antiquado. Em todo caso. a apoliteia é uma traição à vida. mas sou o último a não as reconhecer profundamente problemáticas. como convicções. ou se o pessimismo de Burckhardt com respeito à sua própria época lhe fez descobrir o monstro. retratando-o na História da civilização grega. e a conseqüência do pessimismo foi a sua atitude apolítica. confesso-as. um abandono da vida ao monstro. duvidemos. mas que não quer renunciar às ilusões. receando a volta do monstro no período mais magnífico dos tempos modernos. Os advogados e jornalistas do século XIX acreditavam extinto o monstro antediluviano. e." Eram versos da predileção de um outro suíço: Jacob Burckhardt. a retirada da política para a história. a apoliteia. a coerência lógica. amanhã?. Já não há subterfúgios. Ponho em dúvida. a minha própria posição: o pessimismo leva inevitavelmente à derrota. facilitava. para todos os casos. de noite. impostas. que. a identificação do vagabundo histórico. não me deixam dormir.

do "barulho enorme. para ele. da publicidade que está invadindo os lugares mais privados". na melhor maneira cartesiana. a história da Antiguidade. dos gregos. em que a autoridade erguerá uma cabeça terrível de Medusa". o que estou fazendo. Desconfia das "massas. Mas teve a boa sorte de poder escolher o lugar de seu exílio: "Pereceremos todos. como um ser não-político. cartesianas. Já não quer nada da política. numa época e numa cidade que se estavam democratizando precipitadamente. moderna. faço-o como homem. Em outra carta: "A política morreu para mim." A apoliteia está pronta. e escreveu-a tão implacavelmente. E como bom cidadão de Basiléia. Para os cidadãos de Basiléia o velho professor Burckhardt não passava de um idiota. não duvido que ela já possuía a significação acessória. Por esta apoliteia Burckhardt pagou um preço bem caro. só pode responder.petrificado ou de neo-romantismo fantástico. situação sem esperança. substituindo à própria experiência. como homem privado. para se tornarem brutos bestiais". de idiota. mas. a história por excelência era. Se a História da civilização grega fosse mais . Tornou-se redator da Basler Zeitung. como jornalista político. jornal conservador. Prevê "o agradável século XX. Burckhardt queixa-se. um apolites. no dizer dos gregos. Burckhardt reescreveu a história da Antiguidade grega. Já poucos meses depois. mas queria pelo menos fazer a minha escolha." Já é pessimista. Após os primeiros ensaios científicos Burckhardt entrou na vida pública." O desterro de Burckhardt era a história. uma experiência. "Às vezes tenho o pressentimento de que o mundo vai caminhando para um falso endereço. a do mestre. numa carta. Talvez esse fim da evolução democrática seja inevitável. que podem cair amanhã nas mãos de qualquer tratante. que os filólogos continuam indignados com ele. Os gregos chamavam ao homem que não se ocupava da vida pública um idiotes. A estas dúvidas radicais. cidade de Erasmo e dos humanistas. Burckhardt é antidemocrata. Era um exilado na sua própria pátria. escolher a coisa pela qual perecerei: a civilização da velha Europa. e se bem que essa expressão só significasse o homem privado. a experiência de Burckhardt.

interromper esses consecutivos exames de consciência traria a morte às civilizações modernas. Uma história das idéias que o mundo moderno teceu. as sutilezas acadêmicas em disputas escolásticas.as Renascenças . Mas os imbecis não podem. e as tentativas repetidas de ressuscitá-la . mas hoje já não serve de nada. e as definições científicas em superstições folclóricas. Toda a Idade Média é cheia . para idealizar. para nós outros.não eram libertações nem progressos. Os deuses do Olimpo transformaram-se em demônios populares e alegorias astrológicas. há quatro séculos. Do mesmo modo. por definição.conhecida. em petrificação acadêmica. o conhecimento da ciência grega teve talvez bons efeitos libertadores. os mais "escuros" também da Idade Média. ter razão. e cada tentativa de constituí-las em modelos eternos degenera em constrangimento classicista. Aquela opinião geral é falsa. a arte e a ciência gregas: deuses ressuscitados que afugentaram os fantasmas da barbaria. A opinião comum acredita que a civilização grega pereceu nas tormentas das migrações bárbaras e que. definitivamente morto. o mundo grego estaria. incomparáveis em si. Na verdade. A célebre Querelle des anciens et des modernes está resolvida em favor dos modernos. iluminando desde então o mundo. Como se vê. após um período de obscurantismo medieval. o mundo antigo. ao seu gosto. mas é duvidoso se as soluções antigas poderiam convir a nós outros. A civilização grega não pereceu nunca inteiramente. essa raiva professoral seria decerto mais generalizada. não são as únicas. mas exames de consciência. a civilização grega não morreu inteiramente: sobreviveu através de todos os séculos. pois esse livro destruiu um dos mais caros sonhos da humanidade. em transformações estranhas. a opinião comum sobre a Renascença da Antiguidade justificaria inteiramente os argumentos utilitários dos anti-humanistas. se essa opinião geral fosse justa. É verdade que a filosofia grega situou todos os problemas que nos ocupam até hoje. Conheço poucos assuntos tão sedutores como uma história grega. Como todas as opiniões comuns. a literatura e a arte gregas. também essa é inteiramente falsa e não deixa de produzir conseqüências funestas: pois. os filólogos redescobriram a filosofia e a literatura.

Humanista. foi ressuscitado não era a verdadeira Grécia. na Renascença propriamente dita dos séculos XV e XVI. mas . vimos a Grécia escultural dos italianos. a Grécia esteticista e filosófica de Goethe. Burckhardt redescobre a realidade grega. e não sei quantas outras. a não ser o grego. criada conforme a própria imagem. em tirania monstruosa. e Eurípides na Macedônia. a Grécia democrática do povo ateniense ideal. a última. mas acabou com os seus resíduos. Cada humanismo é uma tentativa de justificar-se. ele reconhece o caráter evasivo do humanismo. em toda a significação da palavra. mas uma imagem ideal dela. nas Proto-Renascenças de Carlos Magno. mas uma advertência. de Chartres e de Salisbury. nos classicismos francês e inglês e no classicismo alemão de Weimar. a Grécia já não é uma ilha feliz no oceano do passado. Filho duma época relativista. que . saudade de todos os tribunos e intelectuais de todos os tempos. A democracia ideal dos atenienses transforma-se.de recordações gregas. exilado dum mundo "moderno". O que. Assim. que Ésquilo morrera lá também. pois não há civilização sem um "código de valores". Falando a respeito das imagens idealizadas que os historiadores se fizeram da democracia grega. a Grécia pastoral e anacreôntica do Rococó. uma realidade bem desagradável. e sim perante uma imagem da Antiguidade. Pela primeira vez. O humanismo não é uma petrificação. a Grécia cristianizada de Racine. Essas Renascenças continuam. perceberam que Simônides emigrara para a Sicília. e o fim definitivo dessas Renascenças seria o fim da nossa civilização. Burckhardt reconhece a relatividade de todas as medidas. redescobre-a e tira as conclusões da sua própria experiência no mundo da democracia. A última dessas Grécias ideais é a de Burckhardt: ela parece.e nisso reside o caráter evasivo dos humanistas não perante uma realidade histórica. como medida e instância judicial das novas civilizações. sob o olhar do antidemocrata implacável. mas um exame de consciência. Burckhardt prossegue: "Com o tempo. A famosa Renascença não ressuscitou a civilização grega. e a história não criou código de valores. rejeita o caráter absoluto do modelo grego.

e não querem servir. em 1792 e 1793.Heródoto vivera em Túrio.. de emigrações e de exílios. Não há vida privada. A única saída é a liberdade interior do homem apolítico." A história das elites gregas é uma história de perseguições. ao contrário. Desde que Burckhardt reconheceu a natureza da polis. e as inúmeras revoluções e revisões das Constituições não servem. não teme o exílio. já não para extorquir o silêncio de oposições. Na literatura e na arte gregas. As brincadeiras anacreônticas e pastorais não representam a Hélade. dos denunciadores e dos ostracismos é a mais horrorosa tirania que a história viu. Os recursos democráticos da polis parecem inesgotáveis: após os oradores e denunciadores profissionais vêm os assassinos profissionais: passa-se a matanças gerais. Nunca foi ultrapassado o pessimismo de Sófocles. que exalta a morte prematura e dá por felicidade máxima "não ter nascido". até. e a qualificação do homem privado como "idiota" é a preparação do ostracismo e do exílio. para Utopia. é impossível escapar-lhe. Toda a vida grega está cheia de profundo pessimismo. o Laocoonte. abraçado pelas serpentes do desespero. . o filósofo representativo da Antiguidade é o cínico Diógenes. Burckhardt lembra-se das filas de emigrantes que abandonavam. que se ri da desgraça geral e da própria. Burckhardt descobre o grito de desespero. da polis. A "democracia" da Ágora e dos "agorizantes". do povo político. que Sócrates preferira à fuga a cicuta. As idealizações da democracia ateniense desvanecem-se. para libertar o cidadão das cadeias do Estado. a apoliteia. a polis exige o homem inteiro. que Platão fugira. fugindo ao terror dos jacobinos. dos oradores e jurados profissionais. e o símbolo final dessa civilização é o homem moribundo. Descobre o terror do "Demos". a personalidade livre é impossível. Não importa. O seu único pensamento é a fuga.. mas o júbilo de todos. a França. No EstadoLaocoonte da polis. da cidade antiga. menos a liberdade. No positivo e no negativo. mas. Os gregos conhecem tudo. para apertar essas cadeias que reduzem o cidadão a um servo do Estado.

"247 E Burckhardt: "A fuga para a solidão do ermo faz parte integral daquelas épocas de crise em que justamente os mais fortes não se ocultam a amarga verdade: o mundo cai. se réduisaient à la spéculation et à la culture d'eux-mêmes. solitária. pelo caráter totalitário da sua religião. que se retiram para os mosteiros e as ermidas". que triunfa dos poderes Estado e Igreja. para uma experiência histórica: o fim da Roma imperial. Estudando a época de Constantino. Mas o Monte Cassino ficou. sem armas. Burckhardt apela. olhando o mosteiro beneditino de Monte Cassino. E não haverá nunca. Burckhardt não acha sublimidade no império. La race en subsiste encore. .Fugindo ao Leviatã. o Grande. que caiu sem dignidade. preparados para tudo. ao fim. Já não há mosteiros nem ermidas. id est in solitudinem secedendum est. porém. Orbis ruit. les grands spectacles de la nature. o Estado antigo. pour les esprits qui. nem no orgulho dos bárbaros vitoriosos. les arts. À luz desse conhecimento compreende-se por que a religião cristã. O totalitarismo da religião pagã caiu em face do individualismo da alma cristã. La science fera-t-elle un jour pour ses fidèles ce que la réligion a fait pour les siens? y aura-t-il jamais un Mont-Cassin laïque?"248 Não há. Voilà ce que le vieux monde féodal et religieux avait fait pour les âmes pensives et solitaires. exclamou: "On a tout ici. Os seus contemporâneos Fustel de Coulanges e Erwin Rohde explicam melhor o caráter totalitário da República grega pelos fundamentos religiosos desse Estado. la science. O templo do Júpiter Capitolino caiu em ruínas. Hippolyte Taine. Tácito já predisse: "In nemora et lucos." A fuga de Burckhardt não chega. mas só "na alta serenidade daqueles nobres. Burckhardt não compreendeu bem o caráter religioso da tirania política da polis. e nisto se reconhece uma fonte do seu pessimismo. Nem Taine nem Burckhardt compreenderam bem o caráter religioso dessa fuga do mundo. seulement ils n'ont plus d'asile. rebutés par l'âpreté de la vie. em que o Estado e a Igreja são uma e a mesma coisa. e só ela. ainda uma vez. pôde esmagar.

e não sou absolutamente partidário dogmático de Benda. nem do liberalismo político. Não é um abandono. Mas Burckhardt não era nem sequer um liberal. tem mais razão do que aqueles que ainda ontem se orgulhavam de pertencer às "elites dirigentes". para demarcar e delimitar as relações etimológicas entre a liberdade e o liberalismo. do ponto de vista histórico como do filosófico. certas ilusões antiquadas e certas vantagens bem apreciáveis. e a delimitação da sua atitude contra a atitude liberal vale a pena. Essa definição da apoliteia burckhardtiana serve. Não há dogmas numa mera questão de tática. as portas do convento permanecem abertas. de Wilhelm von . é o meio para conseguir a liberdade. O que parece abandono é o caminho da liberdade. esse liberalismo a que Ramón Pérez de Ayala. aliás. o sábio. Não há raças definitivas de réguliers e de séculiers. o mosteiro é a única solução. Ao humanista diremos: "Introite. Não basta dizer: "Orbis ruit. não falamos do liberalismo econômico. "Stat Crux. precisamente. o intelectual. É o vestíbulo de outra pátria. Evidentemente. mas deveres diferentes nas épocas de segurança e nas épocas de crise. que é um abuso. nem mesmo à Liberdade. que. nam et hic dii sunt. Falo daquele liberalismo superior. Este liberalismo é o único ar respirável para o artista. basta uma convicção firme: a fé. e hoje escrevem "Liberdade" com maiúscula imensa. que reúne. como um Croce ou um Ortega y Gasset o professam.Às vezes. que não serve a ninguém." Ao humanista cristão não é preciso explicar que a condição da fuga é a vocação. dum volvitur orbis. Mas nunca é um exílio. Para conseguir essa fuga feliz." Precisa-se saber que nesse mundo em queda alguma coisa fica de pé: a Cruz. numa página sobre Pérez Galdós. Era um conservador. chamou "la aptitud para la comprensión amplia de todas las cosas en conjunto". ao mesmo tempo."249 Assim. a apoliteia de Burckhardt. A secularização dessa vocação cristã é. nem do liberalismo religioso. Há poucas expressões tão altas do liberalismo cultural como o ensaio clássico Os limites da atividade do Estado. que é cômodo demais. contudo.

Mas segundo o credo progressista já não haveria o destino."250 Na corrida do mundo para o abismo. é invencível a sua resistência obstinada. Burckhardt cede o lugar ao Estado bárbaro democrático. e a história deveria ter chegado. O amigo de Goethe deseja limites mais estreitos da atividade do Estado. O liberalismo é. impõe-se a manutenção da continuidade histórica. e a única possível. limita-se a cuidar das realizações passadas. econômicas. as mais das vezes. é. por definição. Pelo seu pessimismo. o destino é uma força real. e a mais poderosa. ele se vê forçado a deixar o curso ao mundo. Nessa alternação terrível de períodos de segurança duvidosa e períodos de crise declarada. o seu "indivíduo solitário" está mais perto do "homem isolado" de Kierkegaard. já há muito tempo. funesto. para evitar a queda na barbaria definitiva. naquela corrida. Burckhardt desconfia do homem também. . o homem Burckhardt está ganhando o que o cidadão Burckhardt está perdendo.Humboldt. cheio de fé numa harmonia preestabelecida das coisas políticas. é pessimista. não vê os progressos. Atitude que reúne a convicção verdadeiramente idealista do weimariano com a possibilidade de todos os abusos futuros. Humboldt é humanista. Humboldt quer substituir ao Estado o homem. a atitude do intelectual parece só fuga. otimista. No seu conceito da história. mas as crises e as catástrofes. é. Burckhardt é o crítico mais agudo do humanismo. ao fim feliz. uma expressão clássica do liberalismo. uma atividade essencialmente conservadora. Mas é precisamente aí que a fuga aparente se revela como atividade superior. des choses. por isso. culturais. Ainda uma vez Paul Valéry: "Le jugement le plus pessimiste des hommes. para abrigar a liberdade criadora da personalidade. porém. Burckhardt. Humboldt representa a burguesia mais culta que toma o lugar do Estado bárbaro prussiano. espírito eminentemente histórico. O papel do intelectual. por isso preocupa-se pouco da história e crê no progresso. um curso mal preestabelecido e. de la vie et de sa valeur est merveilleusement compatible avec l'action et l'optimisme qu'elle exige: et c'est bien européen. que constitui a história.

tem algo do serviço vestalino de guarda do lume sagrado. mes éloges. É a atitude duma consciência européia. pelas vicissitudes dos séculos. Tudo o que fez. para. estava determinado pela convicção de que os intelectuais não devem levianamente livrar-se. sem ilusões e consciente. ou dos "mortales" de Lucrécio que. e que me lembra uma frase. mais ainda. tudo o que deixou de fazer."253 . no turbilhão duma época ilusionista.A salvação da "civilização da velha Europa" era o único fim de Burckhardt. de Barrès: "Il y a là mes blâmes. não é senão isto: no meio da crise que está sacudindo tudo. É uma atitude altiva e humilde ao mesmo tempo. et tout ce que j'ai dit.252 O que Burckhardt exige. de si mesmo e de nós outros. estar consigo mesmo. o papel dos intelectuais nas épocas de crise é essencialmente conventual. e.251 "vitae lampada tradunt". cheia de desespero e de confiança. guardar o ponto firme do espírito livre e da continuidade histórica. "quasi cursores".

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