A Peste

Albert Camus
O Autor e sua Obra Quando o prémio Nobel de Literatura de 1957 foi concedido ao escritor francês Albert Camus, ele já era considerado um dos autores mais significativos e representativos de seu tempo. Isso apesar da pouca idade. Camus recebeu o prémio aos quarenta e quatro anos, e, depois do poeta inglês Rudyard Kipling - que o conquistou aos quarenta e dois anos -, era o mais jovem detentor do Nobel de literatura. Mas a idade pouco tinha a ver com a importância que Camus assumira gradativamente no panorama da cultura francesa. Como já acontecera outras vezes, o prémio não foi concedido exclusivamente ao romancista, mas também ao pensador, ao homem preocupado com as angústias do século, o absurdo e o desespero que determinam o ato de existir, e decididamente envolvido na luta diária que tornava possível a esperança. Esperança que ele exerceu, com maior ou menor intensidade, por quarenta e sete anos, quando a morte o surpreendeu, a cem quilómetros de Paris. Uma câmara de ar estourada e o choque contra uma árvore. Muitos se lembraram do que Camus pensava sobre a existência do homem e seu destino no universo, sem um sentido, tendo apenas o absurdo para explicá-la. A frança ficou de luto pelo desaparecimento de uma de suas consciências mais honestas, como destacou André Malraux, também escritor e então ministro da Cultura: ”Há mais de vinte anos a obra de Albert Camus era inseparável da obsessão da justiça”. Há mais de vinte anos. . . Nascido em 1913, em Mondovi, departamento de Constantine, na Argélia, território francês que lutava por sua independência, filho de um operário, Camus teve uma infância difícil, entre duas culturas que seriam sempre cada vez mais antagónicas. Sua formação é francesa, seu compromisso é com os homens: ”Sou, antes de tudo, solidário do homem comum. Amanhã o mundo poderá romper-se em pedaços. Há uma lição de verdade nessa ameaça que paira sobre nossas cabeças”. Mecânico, professor primário, empregado no comércio, Camus publicaria seu primeiro livro em 1937, e no ano seguinte

ingressaria no jornalismo, duas grandes paixões. Atuando em Paris, abandonou o jornal em que trabalhava por uma cama maior, a resistência à barbárie que ocupava parte da França. Participante ativo da luta contra os alemães, não desdenhava de sua obra literária. A ”Envers et endroit”, ”Núpcias” e ”O verão” - os dois últimos publicados pelo Círculo do Livro - seguiam-se ”O estrangeiro” também publicado pelo Círculo - e ”O mito de Sísifo”, além das peças ”Lê malentendu” e ”Calígula”. O jovem escritor expunha com uma lucidez dolorosa a precariedade da condição humana, ainda que em ”O mito de Sísifo” propusesse: ”É preciso imaginar Sísifo feliz”. Depois da libertação, com apenas trinta anos, ele se tornou o jornalista mais lido da França. Nas páginas do jornal ”Combat”, lutava para que não fossem esquecidas as lições da guerra, a indiferença. As lições foram esquecidas, Camus abandonou o jornalismo. ”A peste” data dessa época, 1947, e reporta-se à experiência que ele desejava presente na consciência dos franceses. Uma epidemia assola uma cidade, como a ocupação nazista assolara a França. A epidemia cessa - a ocupação termina -, e a apatia que cercava a vontade humana diante do elemento estranho volta a imperar. O livro foi um grande sucesso de livraria e se tornou uma obra clássica. Porém, ”A peste” seria também um passo decisivo no rompimento com o existencialista Jean-Paul Sartre, de quem Camus se aproximara. Como seria ”O homem revoltado”. Ele preconizava a revolta individual e libertária, enquanto Sartre colocava o existencialismo a serviço do marxismo, Camus estava só e preparava as últimas obras: ”Lê Minotaure ou La malte d’Oran” (1954), ”O exílio e o reino” e ”A queda” (1956), esta última também publicada pelo Círculo. A lição para o futuro permanece aquela que proferiu no Brasil, em 1949, numa frase: ”Não poderemos ficar alheios e distraídos. Nem o momento comporta atitudes de indiferença. Não durmamos, pois, que a paz será uma realidade, ela que, agora, não passa de uma promessa”.

A Peste
Os curiosos acontecimentos que são o objeto desta crónica ocorreram em 194..., .em Oran. Segundo a opinião geral, estavam deslocados, já que saíam um pouco do comum. À primeira vista, Oran é, na verdade, uma cidade comum e não passa de uma prefeitura francesa na costa argelina. A própria cidade, vamos admiti-lo, é feia. com seu aspecto tranqüilo, é preciso algum tempo para se perceber o que a torna diferente de tantas outras cidades comerciais em todas as latitudes. Como imaginar, por exemplo, uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, onde não se encontra o rumor de asas, nem o sussurro de folhas. Em resumo: um lugar neutro. Apenas no céu se lê a mudança das estações. A primavera só se anuncia pela qualidade do ar ou pelas cestas de flores que os pequenos vendedores trazem dos subúrbios: é uma primavera que se vende nos mercados. Durante o verão, o sol incendeia as casas muito secas e cobre as paredes de uma poeira cinzenta; então, só é possível viver à sombra das persianas fechadas. No outono, pelo contrário, é um dilúvio de lama. Os dias bonitos só chegam no inverno. Uma forma cómoda de travar conhecimento com uma cidade é procurar saber como se trabalha, como se ama e como se morre. Na nossa pequena cidade, talvez por efeito do clima, tudo se faz ao mesmo tempo, com o mesmo ar frenético e distante. Quer dizer que as pessoas se entediam e se dedicam a criar hábitos. Nossos concidadãos trabalham muito, mas apenas para enriquecer. Interessam-se principalmente pelo comércio e ocupam-se, em primeiro lugar, conforme sua própria expressão, em fazer negócios. Naturalmente, apreciam prazeres simples, gostam das mulheres, de cinema e de banhos de mar. Muito sensatamente, porém, reservam os prazeres para os domingos e os sábados à noite, procurando, nos outros dias da semana, ganhar muito dinheiro. À tarde, quando saem dos escritórios, reúnem-se a uma hora fixa nos cafés, passeiam na mesma avenida ou instalam-se nas suas varandas. Os desejos dos mais velhos não vão além das associações de boulomanes’, os banquetes das amicales2 e os ambientes em que se aposta alto no jogo de cartas. Dirão sem dúvida que nada disso é característico de nossa cidade e que, em suma, todos os nossos contemporâneos são assim. Sem dúvida, nada há de mais natural, hoje em dia, do que ver as pessoas trabalharem de manhã à noite e optarem, em seguida, por perder nas cartas, no café e em tagarelices o tempo que lhes resta para viver. Mas há cidades e países em que as pessoas, de vez em quando, suspeitam que exista mais alguma coisa. Isso, em geral, não lhes modifica a vida. Simplesmente, houve a suspeita, o que já significa algo. Oran, pelo contrário, é uma cidade aparentemente sem suspeitas, quer dizer, uma cidade inteiramente moderna. Não é necessário, portanto, definir a maneira como se ama entre nós. Os homens e as mulheres ou se devoram rapidamente, no que se convencionou chamar ato de amor, ou se entregam a um longo hábito a dois. Isso tampouco é original. Em Oran, como no resto do mundo, por falta de tempo e de reflexão, somos obrigados a amar sem saber.

o dos outros. Pelo menos. quando ela chega assim. pode-se dizer que tudo vai bem. e que. podemos admitir sem dificuldade que nada podia fazer prever aos nossos cidadãos os incidentes que se produziram na primavera desse ano e que foram. Em Oran. um cronista não pode levar em conta essas contradições. inverossímeis. fala de letras de câmbio. que se revelará no momento oportuno. Esses fatos parecerão a alguns perfeitamente naturais e a outros. seja impossível ver o mar. não é o termo exato: seria mais certo falar em desconforto. os primeiros sinais dos acontecimentos graves cuja crónica nos propusemos fazer aqui.) 2 Nome das associações formadas por membros do ensino. a importância dos negócios que se tratam. Dificuldade. Aliás. E a nossa população franca. o narrador. pelo contrário. e afinal adormece-se nela. portanto. enquanto. Sob este aspecto. É bastante natural. nos entregar. aconteceu. os seus: em primeiro lugar. É isso que o autoriza a agir como historiador. do T. mesmo moderna. A partir do momento em que nossa cidade favorece justamente os hábitos. de conhecimentos ou de descontos? Compreenderão o que há de desconfortável na morte. há milhares de testemunhas que irão avaliar nos seus corações a verdade do que ele conta. afinal. a vida não é muito emocionante. porém. do T. Sua tarefa é apenas dizer: ”Isso aconteceu”. Mas. quando sabe que isso. na verdade. de certo modo. desconhece-se a desordem. simpática e ativa sempre despertou no viajante uma estima considerável. tudo exige boa saúde. Mas é justo acrescentar que está enxertada numa paisagem sem igual. no mesmo minuto. Esta cidade sem pitoresco. O que dizer então daquele que vai morrer. já que.O que é mais original na nossa cidade é a dificuldade que se pode ter para morrer. em seguida. o seu testemunho. portanto. O importante era ressaltar o aspecto banal da cidade e da vida. mesmo que não passe de um amador. Agora. os excessos do clima. Lá o doente fica muito só. sem vegetação e sem alma acaba parecendo repousante.) Essas poucas indicações dão talvez uma ideia suficiente da nossa cidade. Pode-se apenas lamentar que tenha sido construída de costas para essa baía e que. apanhado na armadilha por detrás das paredes crepitantes de calor. portanto. O narrador desta história tem. não disporia de meios para lançarse num empreendimento desse género se o acaso não o tivesse posto em condições de recolher um certo número de depoimentos e se a força das circunstâncias não o tivesse envolvido em tudo o que pretende relatar. toda uma população. (N. a insignificância do cenário. pelo seu papel. aliás. tem sempre documentos. desde que se tenham criado hábitos. ao telefone ou nos cafés. mas há cidades e países que nos amparam na doença e onde podemos. como compreendemos depois. etc. é necessário não exagerar. a rapidez do crepúsculo e a qualidade dos prazeres. Nunca é agradável ficar doente. É claro que um historiador. gosta de se apoiar em alguma coisa. Aliás. foi levado a recolher as confidências de todas . É sempre preciso ir procurá-lo. sem dúvida. diante de uma baía de desenho perfeito. rodeada de colinas luminosas. (N. no meio de um planalto nu. que isso interessou à vida de todo um povo. O doente precisa de carinho. 1 Neologismo que designa os entusiastas de jogo muito popular na frança. Mas os dias transcorrem sem dificuldades. num lugar seco.

Para Rieux.A enfermeira vem às onze horas. afastou o bicho sem prestar atenção e desceu a escada. provavelmente morto.Veja se consegue dormir -• disse. e. do fundo obscuro do corredor. . Nessa mesma noite. Propõe-se ainda. à luz da lâmpada de cabeceira. Em resumo. porém. lançando sangue pela boca entreaberta. pois estavam cheios de sangue. A presença desse rato morto parecera-lhe apenas estranha. finalmente. Bernard Rieux. Diante da reação do velho Michel sentiu melhor o que sua descoberta tinha de insólito. Beijou uma testa ligeiramente úmida. O sorriso acompanhou-o até a porta. um rato enorme. o Dr. A posição deste último era aliás categórica: não havia ratos na casa. aos trinta anos e a despeito das marcas da doença. Mas é talvez tempo de abandonar os comentários e as precauções de linguagem para passar ao assunto em si. Pretende servir-se deles quando lhe parecer útil e utilizá-los como lhe aprouver. Bernard Rieux saiu do consultório e tropeçou num rato morto. Na manhã do dia 16 de abril. preparava-se para o cansaço da viagem.Sinto-me muito bem . procurava as chaves antes de subir para sua casa. e eu vou levá-las até o trem do meio-dia. quando viu surgir. por fim. de passo incerto e pêlo molhado. segurando os ratos pelas patas. pareceu procurar o equilíbrio. O médico olhou o rosto voltado para ele. Por mais que o médico lhe garantisse que havia um no patamar do primeiro andar. . como lhe pedira que fizesse. No momento. Não era no rato que ele pensava. parou de novo. O médico contemplou-o por um momento e subiu. . deu uma cambalhota com um pequeno guincho e parou. no meio do patamar. veio-lhe a ideia de que esse rato não estava no lugar devido e voltou para avisar o porteiro. esse rosto era sempre o da mocidade devido talvez ao sorriso que dominava todo o resto. Assim. Sua mulher. Ao chegar à rua. esperando que os culpados se traíssem . No dia seguinte. O relato dos primeiros dias exige certa minúcia. O animal parou. devia partir no dia seguinte para uma temporada na montanha. . 17 de abril. de pé no corredor do prédio. correu em direção ao médico. Não havia ratos na casa. a convicção de Michel permanecia firme. o porteiro deteve o médico e acusou gracej adores de mau gosto de haverem posto três ratos mortos no meio do corredor. Aquele sangue fazia-o voltar à sua preocupação. Sorria. Deviam 10 tê-los apanhado com grandes ratoeiras. Foi encontrá-la deitada no quarto. enquanto para o porteiro constituía um escândalo. tratava-se de uma brincadeira. e era necessário que tivessem trazido este de fora.as personagens desta crónica.. doente há um ano. os textos que acabaram caindo em suas mãos. O porteiro ficara algum tempo à porta. às oito horas.dizia.

disse ele durante a injeção -. Momentos depois. . . A coleta do lixo era feita muito mais tarde no local. eles estão saindo. roçava os caixotes de detritos deixados à beira da calçada. . muito bem.É verdade . No momento em que o médico entrou. já viu? . que todo o bairro falava dos ratos. Rieux não teve dificuldade em constatar. O médico perguntou-lhe se tinha visto novos ratos. voltou para casa. Era um velho espanhol de rosto duro e vincado. Rieux decidiu começar sua: visitas pelos bairros exteriores onde moravam os clientes mais pobres. Ela percorreu com o olhar o compartimento. já pintada.Hem.Há um telegrama para o senhor lá em cima informou Michel. não é verdade? . esses eu acabo apanhando. não . a enfermeira já estava lá. vêem-se em todas as latas de lixo. Rieux viu a mulher de pé.Está bem . Quando o médico entrou em casa. Encontrou o primeiro doente na cama. doutor . como de costume.disse o porteiro. 11 . num quarto que dava para a rua e que servia ao mesmo tempo de quarto e de sala de jantar. em seguida. O telegrama avisava Rieux da chegada de sua mãe no dia seguinte.É que estou tomando conta.Ah. Mas nada acontecera. A mulher trouxe uma bacia. Acabadas as visitas. duas marmitas cheias de ervilhas. . o médico contou uma dúzia de ratos jogados sobre restos de legumes e trapos sujos. na estação. Vinha ocupar-se da casa do filho durante a ausência da doente. que corria ao longo das ruas retas e poeirentas do bairro. sobre a coberta.dizia Michel -. . É a fome.Começam a sair. .Ah . meio erguido no leito.confirmou a mulher. instalava-a no carro-leito. . inclinava-se para trás numa tentativa de recuperar seu fôlego penoso de velho asmático. Tinha à frente.por algum sarcasmo. Intrigado.disse -. Numa rua que percorria assim. compreende. O velho esfregava as mãos. e esses safados não se atrevem.o vizinho apanhou três.É caro demais para nós. . e o automóvel. o doente.

- É preciso - respondeu Rieux. - Que história de ratos é essa? - Não sei. É estranho, mas vai passar. Depois, disse-lhe muito rapidamente que lhe pedia perdão, que devia ter olhado por ela e que se descuidara muito. Ela sacudia a cabeça, como para lhe dizer que se calasse. Mas Rieux acrescentou: - Tudo correrá melhor quando voltar. Vamos recomeçar. - Sim - concordou ela, com os olhos brilhantes -, vamos recomeçar. Um instante depois, voltava-lhe as costas e olhava pela vidraça. Na plataforma, as pessoas apressavam-se aos empurrões. O guincho da locomotiva chegava até eles. O médico chamou a mulher pelo nome e quando ela se voltou, viu que o rosto estava coberto de lágrimas. - Não - disse ele, carinhosamente. Sob as lágrimas, voltou o sorriso, um pouco crispado. Ela respirou profundamente. - Vá embora, tudo correrá bem. Rieux abraçou-a e, na plataforma, nada via agora a não ser o seu sorriso. - Cuide-se, por favor - pediu. Mas ela não podia ouvi-lo. Perto da saída, Rieux encontrou o Sr. Othon, o juiz de instrução, que trazia pela mão o filho pequeno. O médico perguntou-lhe se ia viajar. Othon, alto e escuro, que parecia, em parte, o que se chamava outrora um homem de sociedade e, em parte, um coveiro, respondeu com uma voz amável, mas breve: - Estou à espera da Sra. Othon, que foi apresentar seus respeitos à minha família. A locomotiva apitou. - Os ratos. . . - disse o juiz. Rieux teve um movimento na direção do trem, mas voltou-se para a saída. - Sim, não é nada. Tudo o que guardou desse momento foi a passagem de um empregado que levava debaixo do braço um caixote cheio de ratos mortos.

Na tarde do mesmo dia, Rieux, no início de suas consultas, atendeu um rapaz que lhe disseram ser jornalista e que já viera de manhã. Chamava-se Raymond Rambert. 12 Baixo de estatura, ombros largos, rosto decidido, olhos claros e inteligentes, Rambert vestia roupa esporte e parecia à vontade na vida. Foi direto ao assunto. Fazia uma pesquisa para um grande jornal de Paris sobre as condições de vida dos árabes e queria informações sobre o seu estado sanitário. Rieux informou-o de que esse estado não era bom, mas quis saber, antes de ir mais longe, se o jornalista podia dizer a verdade. - Certamente - disse o outro. - Quero dizei, pode fazer a condenação total? - Total, não, devo dizê-lo. Mas creio que essa condenação não teria fundamento. com delicadeza, Rieux disse que na verdade semelhante condenação não teria fundamento, mas que, ao fazer essa pergunta, procurava apenas saber se o testemunho de Rambert podia ou não ser feito sem reservas. - Só admito os testemunhos sem reservas. Não estou, pois, disposto a apoiar o seu com as minhas informações. - É a linguagem de Saint-Just - disse o jornalista, sorrindo. Sem elevar a voz, Rieux disse que não sabia nada disso, mas que era a linguagem de um homem cansado do mundo em que vivia, mas que amava, contudo, seus semelhantes e estava decidido a recusar, de sua parte, a injustiça das concessões. Rambert, com o pescoço enterrado nos ombros, olhava para o médico. - Creio que o compreendo - disse por fim, levantando-se. O médico acompanhou-o à porta. - Agradeço-lhe por aceitar as coisas assim. Rambert pareceu impaciente. - Sim, compreendo, perdoe-me o incómodo. O médico apertou-lhe a mão e informou-o de que haveria uma curiosa reportagem a fazer sobre a quantidade de ratos mortos que se encontravam na cidade nesse momento. - Ah! - exclamou Rambert. - Isso me interessa. As cinco horas, ao sair para novas visitas, o médico encontrou na escada um homem ainda novo, de silhueta pesada, de rosto maciço e cansado, riscado por sobrancelhas espessas. Tinha-o encontrado algumas vezes em casa dos

bailarinos espanhóis que moravam no último andar de seu prédio. Jean Tarrou fumava com empenho um cigarro e contemplava as últimas convulsões de um rato que morria num 13 degrau, a seus pés. Levantou para o médico um olhar calmo e um pouco fixo nos olhos cinzentos e acrescentou que aquela aparição de ratos era uma coisa bastante curiosa. - É verdade - respondeu Rieux -, mas acaba por tornar-se irritante. - Num sentido, doutor, só num sentido. Nunca vimos nada de semelhante, eis tudo, mas eu acho isso interessante, sim, positivamente interessante. - Tarrou passou a mão pelos cabelos, para atirá-los para trás, olhou de novo para o rato agora imóvel e depois sorriu para Rieux. - Mas, afinal, doutor, isso é sobretudo com o porteiro. De fato, o médico encontrou o porteiro em frente à casa, encostado à parede, perto da entrada, com uma expressão de cansaço no rosto habitualmente congestionado. - Bem sei - disse o velho Michel a Rieux, que lhe comunicava a nova descoberta. Encontram-se agora aos grupos de dois e três. Mas é a mesma coisa nas outras casas. Parecia abatido e preocupado, esfregando o pescoço com um gesto maquinal. Rieux perguntou-lhe como ia de saúde. O porteiro não podia dizer, na verdade, que não ia bem. Simplesmente, não se sentia em forma. Em sua opinião, era o moral que estava um pouco abatido. Aqueles ratos tinhamno perturbado, e tudo ficaria melhor quando eles desaparecessem. Mas no dia seguinte, 18 de abril, pela manhã, o médico, ao voltar com a mãe da estação, encontrou Michel com uma expressão ainda mais abatida: do porão ao sótão, uma dezena de ratos jazia nas escadas. Os caixotes do lixo das casas vizinhas estavam cheios deles. A mãe do médico tomou conhecimento da notícia sem se admirar. - São coisas que acontecem. - Era uma senhora de cabelos prateados, de olhos negros e meigos. - Estou satisfeita por voltar a ver-te, Bernard. Os ratos nada podem contra isso. Ele aprovava. Era verdade que, com ela, tudo lhe parecia sempre fácil. Entretanto, Rieux telefonou ao serviço comunal de desratização, cujo diretor conhecia. Já ouvira falar desses ratos que vinham em bandos morrer ao ar livre? Mercier, o díretor, tinha ouvido falar nisso e, no seu próprio serviço, instalado próximo ao cais, tinham sido encontrados uns cinquenta. Perguntava a si próprio se a coisa teria importância. Rieux não podia decidir, mas pensava que se impunha uma intervenção do serviço de Mercier. 14 - Sim - disse Mercier -, com uma ordem. Se acha que vale realmente a pena, posso tentar obter essa ordem.

transtornada em alguns dias. foi necessário acabar de matar os bichos.respondeu Rieux. Mas. outros. A imprensa da tarde ocupou-se do caso a partir desse dia e perguntou se a municipalidade se propunha ou não a agir e que medidas de urgência tencionava adotar para proteger seus munícipes dessa repugnante invasão. Dos porões. Em seguida. das adegas. nas lixeiras ou junto às sarjetas. duzentos e trinta e um ratos apanhados e queimados. nos dias que se seguiram. O número de roedores apanhados ia crescendo. na emissão radiofónica de informações gratuitas. Mas desde os bairros exteriores até o centro da cidade. as fábricas e os depósitos vomitaram centenas de cadáveres de ratos. só no dia 25. mas começou por reunir-se em conselho para deliberar. A municipalidade nada se tinha proposto e nada previra. e a coleta era a cada manhã mais abundante. Em alguns casos.. Foi dada ordem ao serviço de desratização para recolher os ratos mortos todas as madrugadas. pois. encontravam-se estendidos nas sarjetas com uma pequena flor de sangue nos focinhos pontiagudos. em longas filas. pois sua agonia era demasiado longa. Sua empregada acabava de lhe comunicar que tinham apanhado várias centenas de ratos mortos na fábrica onde o . La Promenade de Front-de-Mer apareciam conspurcados. até então tão tranqüila. Na própria cidade. ocorria a mais de um noctívago sentir sob os pés a massa elástica de um cadáver ainda fresco. À noite. para virem vacilar à luz. De manhã. as avenidas. girar sobre si mesmos e morrer perto dos seres humanos. a cidade voltava 15 a encontrá-los pouco a pouco. Dir-se-ia que a própria terra onde estavam plantadas nossas casas se purgava dos seus humores. como um homem saudável cujo sangue espesso se pusesse de repente em revolução! As coisas foram tão longe que a Agência Ransdoc (informações. por vezes nos terraços dos cafés. a minavam interiormente.marido trabalhava. nos recreios das escolas. Este . por toda parte onde nossos concidadãos se reuniam.Vale sempre a pena . Imaginem só o espanto da nossa pequena cidade. inchados e pútridos. a partir do dia 18. encontravam-nos nos locais mais frequentados da cidade. cada vez mais numerosos durante o dia. nos subúrbios. Limpa dos animais mortos ao amanhecer. A Place d’Armes. rígidos e com os bigodes ainda eriçados. dois carros do serviço de desratização deveriam transportar os animais até o forno de incineração de lixo a fim de serem queimados. Vinham. eram encontrados em pequenos montes nos patamares ou nos pátios. documentação. dos esgotos. estupefatos. por toda parte onde o Dr. morrer isoladamente nos vestíbulos das repartições. subiam em longas filas titubeantes. pois deixava subir à superfície furúnculos que. Rieux passava. Nas calçadas também. Foi mais ou menos nessa época que nossos concidadãos começaram a inquietar-se com o caso. uns. ouviam-se distintamente seus guinchos de agonia. Nossos concidadãos. os ratos esperavam em montes. a situação agravou-se. também. os ratos começaram a sair para morrer em grupos. todas as informações sobre qualquer assunto) anunciou. nos corredores ou nas ruelas. até então. A partir do quarto dia. seis mil.

que caminhava com dificuldade. aumentou a agitação.São uns inchaços . Rieux. estão saindo. Depois do almoço. mesmo por aqueles que são indiferentes em matéria de religião. Era o Padre Paneloux. nas axilas e nas virilhas tinham-no obrigado a voltar e a pedir auxílio ao Padre Paneloux.Devo ter feito algum esforço. as pessoas tinham apenas se queixado de um espetáculo um pouco repugnante. Contudo. Até então.disse. . e alguns que tinham casa à beira-mar já falavam em retirar-se para lá. ao meio-dia. . Esperou-os. viu ao fundo da rua o porteiro. de que não se podia ainda avaliar a amplitude nem determinar a origem. o médico perguntou ao Padre Paneloux o que achava daquela história de ratos.Eles estão saindo. Entretanto. Tinha-se formado uma espécie de nó.Oh . e que era muito estimado na nossa cidade. que dava um sentido claro ao espetáculo cotidiano que a cidade tinha diante dos olhos. a agência anunciou que o fenómeno cessara bruscamente e que o serviço de desratização apanhara apenas uma quantidade insignificante de ratos mortos. o médico apalpou o pescoço que ele lhe estendia. E os olhos sorriram por detrás dos óculos redondos. foi na mesma data. Quando o porteiro partiu. com os braços e as pernas afastados. que o doutor reconheceu. O velho Michel tinha os olhos brilhantes e a respiração ruidosa. O velho apoiava-se no braço de um padre. e a ansiedade atingiu o auge. de cabeça baixa. acusavam-se as autoridades. A cidade respirou. Venho vê-lo esta tarde. Rieux relia o telegrama da casa de saúde que lhe anunciava a chegada . . a Ransdoc anunciava uma coleta de aproximadamente oito mil ratos. que o Dr.número.Deite-se e tire a temperatura. deve ser uma epidemia. tinha qualquer coisa de ameaçador. mas dores 16 vivas no pescoço. um jesuíta erudito e militante que encontrara algumas vezes. Exigiam-se medidas radicais. a 28 de abril. Mas no dia seguinte.respondeu o padre -. Só o velho espanhol asmático continuava a esfregar as mãos e a repetir com uma alegria senil: . Compreendia-se agora que esse fenómeno. ao parar o carro diante de casa. numa atitude de fantoche. . com o braço fora da porta. Não se sentia muito bem e tinha saído para tomar ar.

Naturalmente. Rieux leu. quando ouvi ruído.agradeceu o homem.Na minha opinião. encontrou Joseph Grand. a operação deve ser dolorosa. entrei. Eu me enforquei”.disse. mas julguei que ia morrer. embora falasse a linguagem mais simples. No segundo e último andar. Tinham empurrado uma porta e encontravam-se à entrada de um quarto claro. 17 Coçou a cabeça. num bairro periférico. Nos intervalos da respiração. . Mas ela pendia no vazio. Mas nada se mexia pelos cantos. . Respirava fortemente e olhava-os com olhos congestionados. Aconteceu alguma coisa em casa do meu vizinho. com os ombros estreitos e os membros magros. Rieux pensou no porteiro e decidiu que o veria depois. e o empregado ficou com um ar confuso. o empregado da Câmara que vinha ao seu encontro. um pouco de asfixia. Sofrera durante muito tempo de um estreitamento da aorta e. Rieux perguntou a Grand se tinha avisado o comissário. . . ao chegar perto de Rieux -. O médico deteve-se. até mesmo sinistro. Mas é de outra pessoa que se trata.dizia ele -.Sim . mas pobremente mobiliado. Era um homem dos seus cinquenta anos. fria e malcheirosa. de bigode amarelo. doutor . atravessava a porta de uma casa baixa da Rue Faidherbe. Assoou o nariz. Uma corda estava pendurada por cima de uma cadeira caída. Venha depressa. parecia-lhe ouvir guinchos de ratos. . Um homenzinho gordo estava deitado no leito de cobre.Agora estou melhor . nem muito bruscamente. Falava com voz cansada. se assim se pode dizer.Não. com uma voz sufocada. empregado da Câmara. . julguei que se tratava de uma brincadeira. a mesa fora empurrada para um canto.Desatei-o a tempo . que o chamava. No meio da escada. O médico deu-lhe uma injeção de óleo canforado e disse que tudo estaria bem dentro de alguns dias. Ao ver a inscrição. Rieux tratara-o de graça.dizia Grand. sei que se lembra de mim.Obrigado. que parecia sempre rebuscar as palavras. . . Era um dos seus antigos clientes. Seria necessário fazer uma radiografia. Mas ele soltou um gemido engraçado.. na porta da esquerda. ”Entre. alto e curvado.Ia justamente sair. . não! Pensei que o mais urgente. Alguns minutos mais tarde. escrito com giz vermelho. como era pobre. como explicar-lhe?. . Entraram. Rieux aproximou-se do leito. e as vértebras tinham resistido. O homem não tinha caído de muito alto.de sua mulher quando o telefone tocou. Na verdade.

- Sem dúvida - interrompeu Rieux. - vou fazê-lo agora. Nesse momento, porém, o doente agitou-se e ergueu-se no leito, protestando que estava melhor e que não valia a pena. - Acalme-se - disse Rieux. - Não tem importância, acredite, mas é necessário que eu faça a minha declaração. - Oh! - exclamou o outro. E atirou-se para trás, chorando com soluços curtos. Grand, que há um momento cofiava o bigode, aproximou-se dele. - Vamos, Sr. Cottard, tente compreender. Pode-se dizer que o doutor é responsável. Se, por exemplo, o senhor tivesse vontade de recomeçar. . . Mas Cottard, entre lágrimas, disse que não recomeçaria, que fora apenas um momento de loucura e que só desejava que o deixassem em paz. Rieux redigia uma receita. - Entendido. Deixemos isso. Voltarei dentro de dois ou três dias. Mas não faça bobagens. No patamar, disse a Grand que era obrigado a fazer a declaração, mas que pediria ao comissário que só procedesse ao inquérito daí a dois dias. - É preciso vigiá-lo esta noite. Ele tem família? - Não a conheço. Mas posso vigiá-lo eu mesmo. 18 Abanava a cabeça. - Tampouco posso dizer que o conheço, note bem. Mas é preciso nos ajudarmos uns aos outros. Nos corredores da casa, Rieux olhou maquinalmente para os cantos e perguntou a Grand se os ratos tinham desaparecido totalmente do seu bairro. O funcionário nada sabia. Tinhamlhe falado, na verdade, dessa história, mas ele não prestava atenção aos boatos do bairro. - Tenho mais com que me preocupar - afirmou. Rieux já lhe apertava a mão. Tinha pressa de ver o porteiro antes de escrever à mulher. Os vendedores dos jornais da tarde anunciavam que a invasão dos ratos tinha parado. Mas Rieux encontrou o seu doente meio deitado para fora do leito, com uma das mãos no ventre e a outra em volta do pescoço, vomitando, com grandes arrancos, uma bílis rosada numa lata de lixo. Após grandes esforços, sem fôlego, o porteiro voltou a deitar-se. A temperatura era de trinta e nove e meio, os gânglios do pescoço e os membros tinham inchado, duas manchas escuras alastravam-se pelo flanco. Queixava-se agora de uma dor interna.

- Está ardendo - dizia ele -, esta porcaria está ardendo. A boca fuliginosa obrigava-o a mastigar as palavras e voltava para o médico uns olhos protuberantes, dos quais a dor de cabeça fazia correr lágrimas. A mulher olhava com ansiedade para Rieux, que continuava mudo. - Doutor - perguntou ela -, que é isto? - Pode ser uma série de coisas. Mas não há ainda nada de certo. Até esta noite, dieta e depurativo. Deve tomar bastante líquido. Precisamente, o porteiro sentia-se devorado pela sede. Ao voltar à casa, Rieux telefonou ao seu colega Ríchard, um dos médicos mais importantes da cidade. - Não - dizia Richard -, não vi nada de extraordinário. - Nem febre com inflamações locais? - Ah! Sim, na verdade, dois casos de gânglios muito inflamados. - Anormalmente? - Sim - respondeu Richard -, o normal, você sabe. . . A noite, de qualquer forma, o porteiro delirava e, com quarenta graus, queixava-se dos ratos. Rieux tentou um 19 abscesso de fixação. Sob a queimadura da terebintina, o porteiro berrou: - Ah, são uns safados. Os gânglios tinham aumentado, estavam duros e fibrosos ao tato. A mulher do porteiro afligia-se: - Fique junto dele - ordenou o médico - e, se for necessário, pode me chamar. No dia seguinte, 30 de abril, uma brisa já morna soprava sob um céu azul e úmido. Trazia um cheiro de flores que vinha dos bairros mais afastados. Nas ruas, os ruídos da manhã pareciam mais vivos, mais alegres do que habitualmente. Em toda a nossa pequena cidade, liberta da apreensão em que tinha vivido durante a semana, esse era o dia da renovação. O próprio Rieux, tranqüilizado por uma carta da mulher, desceu até a casa do porteiro. E na verdade, de manhã, a febre caíra para trinta e oito graus. Enfraquecido, o doente sorria no leito. - Está melhor, não é verdade, doutor? - perguntou a mulher.

- Vamos esperar um pouco. Ao meio-dia, porém, a febre subira bruscamente a quarenta graus, o paciente delirava sem cessar e os vómitos tinham recomeçado. Os gânglios do pescoço eram dolorosos ao tato, e o doente parecia querer manter a cabeça o mais afastada possível do corpo. A mulher estava sentada aos pés da cama, segurando levemente os pés do doente. Olhava para Rieux. - Ouça - disse ele -, é preciso isolá-lo e tentar um tratamento mais radical. vou telefonar para o hospital e vamos levá-lo de ambulância. Duas horas depois, na ambulância, o médico e a mulher curvavam-se sobre o doente. Da boca, coberta de fungosidades, saíam fragmentos de palavras: ”Os ratos”, dizia ele. Esverdeado, com lábios descorados, pálpebras pesadas, respiração entrecortada e breve, dilacerado pelos gânglios, abatido no fundo da maca, como se quisesse fechá-la em torno dele ou como se qualquer coisa, vinda do fundo da terra, o chamasse sem descanso, o porteiro sufocava sob um peso invisível. A mulher chorava. - Não há mais esperança, doutor? - Está morto - disse Rieux. A morte do porteiro, pode-se dizer, marcou o fim desse período, cheio de sinais desconcertantes, e o início de outro, 20 relativamente mais difícil, em que a surpresa dos primeiros tempos se transformou, pouco a pouco, em pânico. Nossos concidadãos - a partir de agora eles se davam conta disso nunca tinham pensado que nossa pequena cidade pudesse ser um lugar particularmente designado para que os ratos morressem ao sol e os porteiros perecessem de doenças estranhas. Sob esse ponto de vista, era evidente que estavam errados e que suas ideias precisavam ser revistas. Se tudo tivesse ficado por aí, os hábitos, sem dúvida, teriam vencido. Mas outros concidadãos nossos, que nem sempre eram porteiros nem pobres, tiveram de seguir o caminho que Michel fora o primeiro a tomar. Foi a partir desse momento que começou o medo e com ele a reflexão. Entretanto, antes de entrar nos detalhes desses novos acontecimentos, o narrador acha útil dar, sobre o período que acaba de ser descrito, a opinião de outra testemunha. Jean Tarrou, que já encontramos no início deste relato, fixara-se em Oran há algumas semanas e morava, desde então, em um grande hotel no centro. Parecia ser suficientemente próspero para viver dos seus rendimentos. Mas, embora a cidade se tivesse habituado a ele, pouco a pouco, ninguém sabia dizer de onde vinha, nem por que estava lá. Era encontrado em todos os lugares públicos. A partir do início da primavera, fora visto muitas vezes nas praias, nadando frequentemente e com um prazer manifesto. Bonachão, sempre sorridente, parecia

Veja só! E que foi que ele teve? . de bigode preto? . Além disso. o único hábito seu que conheciam era a convivência assídua com os bailarinos e músicos espanhóis. . Nem por isso é menos verdade que os seus cadernos podem fornecer.Camps? Um alto.dizia um. não era forte. isso mesmo. ainda. a sua própria singularidade impedirá que se julgue precipitadamente essa interessante personagem. . Pode-se sem dúvida deplorar esse preconceito e suspeitar uma certa dureza de coração. .No entanto.ser amigo de todos os prazeres normais. morreu. em suma. Tarrou assistira à conversa de dois condutores de bonde: . parecia um homem como os outros. tinha o peito fraco e tocava no orfeão. 21 As primeiras notas de Tarrou datam de sua chegada a Oran.Sim. . . À primeira vista.Ah! E quando foi isso? . exceto um pouco mais tarde.Não. em ser o historiador do que não tem história. Mas trata-se de uma crónica muito especial que parece obedecer a uma ideia preconcebida de insignificância. grande quantidade de pormenores secundários que têm contudo importância. as casas sem graça e o plano absurdo da cidade. diálogos ouvidos nos bondes e nas ruas.Não sei. Na realidade.Exatamente. Mostram desde o princípio uma curiosa satisfação por se encontrar numa cidade em si tão feia. Trabalhava no controle. Encontra-se uma descrição pormenorizada dos dois leões de bronze que ornam a municipalidade. para uma crónica desse período. bastante numerosos na nossa cidade. Seus apontamentos de certa forma constituem também uma espécie de crónica desse período difícil. Na confusão geral. Não resistiu. Tarrou mistura. poderíamos achar que Tarrou se empenhara em ver as coisas e os seres por um binóculo ao contrário. . Febre. . .Depois da história dos ratos. sem ser escravo deles.Você conheceu o Camps . em relação às conversas a respeito de um tal Camps. considerações benévolas sobre a ausência de árvores.Pois bem. Teve abscessos debaixo dos braços. Soprar num pistom acaba com a pessoa. ele se empenhara. sem acrescentar comentários.

Tarrou parecia. escolher os itinerários de trem mais longos e menos cómodos e viajar de pé. os bichos.Ah! . Tarrou parecia ter sido definitivamente seduzido pelo caráter comercial da cidade. Essa singularidade (é o termo empregado nos cadernos) recebia a aprovação de Tarrou e uma de suas observações elogiosas chegava a terminar por esta exclamação: ”Finalmente!” São os únicos pontos em que as notas do viajante. . cuja aparência. Na minha opinião é impossível que os gatos comam ratos mortos. chamava os gatos com um ”bichano. O velhinho escarrava. atraídos por essa chuva de borboletas brancas. após essas digressões de linguagem e de pensamento. etc. nessa data. em seguida. viver as tardes de domingo na varanda. ouvir conferências numa língua que não se compreende. Eis em todo caso as explicações dadas por Tarrou sobre a história dos ratos: ”Hoje.” Mas de repente. É difícil avaliar o seu significado e seriedade. com os cabelos brancos e bem penteados. Desapareceram na verdade excitados pela grande quantidade de ratos mortos que se descobrem nas ruas. avançavam para o meio da calçada. Por fim. com uma letra menos nítida que de costume: ”Pergunta: Como fazer para não se perder tempo? Resposta: Senti-lo em toda a sua extensão. Já não há gatos. seu quarto dava para uma rua transversal.terminou o segundo. ter sido favoravelmente impressionado por uma cena que se desenrolava muitas vezes na varanda que ficava em frente à sua janela. onde os gatos dormiam à sombra dos muros. Os gatos levantavam os olhos pálidos de sono. Depois dessas poucas indicações. parecem assumir um caráter pessoal. animação e até prazeres pareciam comandados pelas necessidades do negócio. Tarrou perguntava a si próprio por que razão Camps tinha entrado para o orfeão contra seu próprio interesse e quais eram as razões profundas que o tinham levado a arriscar a vida pelos desfiles dominicais. todos os dias. ereto e austero nas suas roupas de corte militar. da sua forma de bote.Quando se é doente. Assim é que depois de ter relatado que a descoberta de um rato morto levara o caixa do hotel a cometer um erro na sua conta. O outro rasgava pedacinhos de papel e os jogava para a rua. Na verdade.. . não se deve tocar um instrumento de sopro. Mas. nas horas em que a cidade inteira cochilava no calor. sem se perturbarem. 22 estendendo uma pata hesitante para os últimos pedaços de papel. o velhinho que mora em frente está perturbado. depois do almoço. Lembro-me de que os meus detestam isso. fazer fila nas bilheterias dos espetáculos e não ocupar o seu lugar. então. naturalmente. da sua sujeira habitual. ele ria. . bichano” ao mesmo tempo meigo e distante. um velhinho aparecia numa varanda do outro lado da rua. numa cadeira desconfortável. os cadernos começam uma descrição detalhada dos bondes da nossa cidade. da sua cor indecisa. Tarrou acrescentara. Se um dos escarros atingia o alvo. O que não impede que eles corram pelos porões e que o velhinho esteja . Meios: Passar os dias na sala de espera de um dentista. terminando essas considerações por um ” é notável!” que nada explica. sobre os gatos. com força e precisão.

que é homem digno de confiança. e ele perguntou se isso não me inquietava.’ Disselhe que era verdade no caso dos navios. O jornal . Reconheci que era possível. dessa vez. senta-se. ’é encontrar a paz interior. nariz fino. na cidade fala-se muito dessa história de ratos. e então entra. Ao chegar à mesa. não se sabe como. se podia esperar. boca horizontal dão-lhe um ar de uma coruja bem-educada. Percebe-se que ele está inquieto. Philippe. Jogou-se fora o rato. de pronunciar essa palavra. Duas 23 ou três mulheres desceram. Perguntei-lhe que desgraça. e a coruja agradeceu com um sinal de cabeça. Está menos bem penteado. disse a rata preta. O bonde voltou a funcionar. Na cidade. Trata a mulher e os filhos cerimoniosamente. pequenina como um rato preto. No hotel. pararam um bonde hoje porque se descobriu um rato morto que. de colarinho engomado. Apesar desse belo exemplo.perturbado. ’Quando os ratos abandonam o navio. daqui em diante. sua convicção persistia.’ ’Seu pai tem razão’. No entarto. deixa passar a mulher. No restaurante do hotel há uma família bastante interessante. Tem o meio do crânio calvo e dois tufos de cabelos grisalhos à direita e à esquerda. vestido de preto. Mas não se admiraria se fosse um tremor de terra. O pai é um homem alto e magro. em sua opinião. Afasta-se. Uns olhinhos redondos e duros. Proíbo-o. Quis dizer qualquer coisa à mesa. o rapaz estava todo agitado com a história dos ratos. . chegara lá. escarrara no vazio.’ Ele me compreendeu perfeitamente. . que não queria dizer muita coisa. ’A única coisa que me interessa’. É sempre o primeiro a chegar à porta do restaurante. Só que. Os dois cãezinhos meteram os narizes nos pratos. É o que é preciso. espera a mulher sentar-se. Demorou-se um momento apenas e entrou. É impossível prever a desgraça. dirige gracejos bem-educados à primeira e palavras terminantes aos herdeiros: ’Nicole. respondi-lhe. e os dois cachorrinhos podem finalmente 1 empoleirar-se nas cadeiras. mas que nunca se tinha verificado isso com as cidades. o vigia da noite. disse-me que com todos esses ratos esperava uma desgraça.’ Essa manhã. menos vigoroso. ’Não se fala de ratos à mesa. trazendo atrás um rapaz e uma mocinha vestidos como cachorros comportados. Não sabia. está soberanamente antipática!’ ’A menina está prestes a chorar.

ocupou-se do caso. A crónica local, que é habitualmente muito variada, é agora totalmente ocupada por uma campanha contra a municipalidade: ’compreenderam os nossos edis o perigo que podiam representar os cadáveres podres desses roedores?’ O diretor do hotel 24, não consegue falar de outra coisa. Mas é também porque se sente envergonhado. Descobrir ratos no elevador de um hotel respeitável parece-lhe inconcebível. Para consolá-lo disselhe: ’Mas acontece o mesmo a todos!’ ’Justamente’, respondeu-me, ’somos agora como todos os outros.’ Foi ele que me falou dos primeiros casos dessa febre que começou a se tornar inquietante. Uma das camareiras do hotel foi atacada. ’Mas, evidentemente, não é contagioso’, apressou-se a declarar. Respondi-lhe que isso me era indiferente. ’Ah, compreendo, o senhor é como eu, o senhor é fatalista.’ Eu não tinha dito nada de semelhante e, aliás, não sou fatalista. E eu lhe disse isso. . .” É a partir desse momento que os cadernos de Tarrou começam a falar com alguns pormenores dessa febre desconhecida com que o público já se inquietava. Ao notar que o velhinho voltara a encontrar os gatos com o desaparecimento dos ratos e que retificava pacientemente os seus tiros, Tarrou acrescentava que já se podia citar uma dezena de casos dessa febre, a maior parte dos quais tinha sido mortal. A título documental pode-se enfim reproduzir o retrato do Dr. Rieux feito por Tarrou. Até onde o narrador pode julgar, ele é bastante fiel: ”Aparenta trinta e cinco anos. Estatura mediana. Ombros fortes. Rosto quase retangular. Olhos escuros e diretos, mas maxilares proeminentes. O nariz forte é regular. Cabelos pretos, cortados muito curto. A boca é arqueada com os lábios cheios e sempre fechados. Tem um pouco o ar de um camponês siciliano com a pele queimada, o cabelo preto e as roupas sempre de cor escura, mas que lhe ficam bem. Anda depressa. Desce as calçadas sem mudar de passo, mas duas vezes em cada três sobe a calçada em frente com um pequeno salto. Distrai-se ao volante do automóvel e deixa muitas vezes as setas ligadas, mesmo depois de ter feito a curva. Sempre de cabeça descoberta, parece pessoa bem informada.” 25 Os números de Tarrou eram exatos. O Dr. Rieux sabia alguma coisa a respeito. Isolado o corpo do porteiro, telefonara a Richard para interrogá-lo sobre essas febres inguinais.

- Não compreendo nada - respondera Richard. Dois mortos, um no prazo de quarenta e oito horas, o outro, no de três dias. Eu tinha deixado o último, uma manhã, com todos os indícios de convalescença. - Avise-me se tiver outros casos - disse Rieux. Telefonou ainda para outros médicos. Essa sindicância mostrou uns vinte casos semelhantes em alguns dias. Quase todos tinham sido fatais. Pediu então a Richard, secretário do Sindicato dos Médicos de Oran, o isolamento dos novos doentes. - Mas não posso fazer nada - respondeu Richard. - Essas providências são com a prefeitura. Além disso, quem lhe diz que há risco de contágio? - Ninguém, mas os sintomas são inquietantes. Richard, entretanto, achava que não tinha ”competência”. Tudo o que podia fazer era falar com o prefeito. Porém, enquanto se falava, perdia-se tempo. No dia seguinte à morte do porteiro, grandes brumas cobriam o céu. Chuvas diluvianas e curtas abateram-se sobre a cidade, seguindo-se a esses bruscos aguaceiros um calor de tempestade. O próprio mar perdera o azul profundo e, sob o céu brumoso, tinha reflexos de prata ou de ferro, dolorosos à vista. O calor úmido dessa primavera nos fazia desejar os ardores do verão. Na cidade, construída em caracol sobre um planalto, quase fechada para o mar, reinava um morno torpor. No meio dos seus longos muros caiados, entre as ruas de vitrines poeirentas, nos bondes de um amarelo sujo, as pessoas sentiam-se um pouco prisioneiras do céu. Só o velho doente de Rieux dominava a asma para se regozijar com esse tempo. - Está pegando fogo - dizia ele. - É bom para os brônquios. Queimava, na verdade, mas nem mais nem menos do que uma febre. Toda a cidade estava com febre. Era essa pelo menos a impressão que perseguia o Dr. Rieux, na manhã em que se dirigia à Rue Faidherbe a fim de assistir ao inquérito sobre a tentativa de suicídio de Cottard. Mas essa impressão parecia-lhe insensata. Atribuía-a ao enervamento e às preocupações que o assaltavam, e admitiu que era urgente colocar um pouco de ordem nas ideias. 26 ; Quando chegou, o comissário ainda não estava. Grand esperava no patamar, e decidiram entrar primeiro na sua casa deixando a porta aberta. O funcionário municipal ocupava duas peças sumariamente mobiliadas. Notava-se apenas uma estante de madeira branca guarnecida com dois ou três dicionários e um quadro-negro, onde se podiam ainda ler meio apagadas, as palavras ”aléias floridas”. Segundo Grand, Cottard tinha passado bem a noite.

Mas de manhã tinha acordado com dor de cabeça e incapaz de qualquer reação. Grand parecia cansado e nervoso, passeando de um lado para outro, abrindo e fechando sobre a mesa uma grande pasta, cheia de folhas manuscritas. Contou ao médico que conhecia mal Cottard, mas que julgava que tivesse alguns bens. Cottard era um homem estranho. Durante muito tempo suas relações tinham-se limitado a alguns cumprimentos nas escadas. - Só tive duas conversas com ele. Há alguns dias, derrubei no patamar uma caixa de giz que trazia para casa. Havia giz vermelho e giz azul. Nesse momento, Cottard apareceu no patamar e ajudou-me a apanhá-los. Perguntoume para que servia esse giz de diferentes cores. Grand explicara então que tentava recordar um pouco o seu latim. Desde o ginásio, seus conhecimentos tinham esmaecido. - Garantiram-me - explicou ao médico - que é útil para conhecer melhor o sentido das palavras francesas. Escrevia portanto palavras latinas no seu quadro. Copiava com giz azul a parte variável das palavras, segundo as declinações e as conjugações e, com giz vermelho, a invariável. - Não sei se Cottard compreendeu bem, mas pareceu-me interessado e pediu-me um pedaço de giz vermelho. Fiquei um pouco surpreso, mas afinal. . . Não podia adivinhar, evidentemente, que isso iria servir ao seu propósito. Rieux perguntou qual fora o assunto da segunda conversa. ^Mas, acompanhado do seu secretário, chegou o comissário, que quis ouvir, em primeiro lugar, as declarações de Grand. O médico observou que Grand, ao falar de Cottard, referia-se sempre a ele como o ”desesperado”. Empregou até, em certo momento, a expressão ”resolução fav’ .*scutiram sobre a causa do suicídio, e Grand mostrou-se hesitante na escolha dos termos. Deteve-se por fim nas palavras ”desgostos íntimos”. O comissário perguntou se 27 algo na atitude de Cottard deixava prever o que ele chamava ”a sua determinação”. - Bateu ontem à minha porta - respondeu Grand - para me pedir fósforos. Dei-lhe a caixa. Pediu desculpas, dizendo que entre vizinhos... Depois, afirmou que me devolveria a caixa. Disse-lhe que ficasse com ela. O comissário perguntou ao funcionário municipal se Cottard não lhe parecera estranho. - O que me pareceu estranho foi ele mostrar vontade de conversar. Mas eu estava trabalhando. Grand voltou-se para Rieux e acrescentou, com ar constrangido:

a um sinal de Rieux. Cottard. ao sair -. . garantiu que nunca se cogitara de nada desse género e que enfim ele estava ali para proteger o seu doente.Não se pode tocar num doente.suspirou o comissário.. . . respondeu que não e que só desejava que o deixassem em paz.Convém observar . e o médico voltou à porta. Trata-se de responder depressa t corretamente às perguntas para acabar com isso de uma vez por todas.Eu também não morro de amores por ela. . . num tom 28 irritado . . Este pareceu acalmar-se. Mas Cottard respondeu que isso não servia para nada e que não gostava da polícia. Quando entrou no quarto.disse o comissário. Ele respondeu apenas. que ”desgostos íntimos” estava muito bem. temos outros problemas com que nos ocupar desde que se fala dessa febre. ele estava erguido no leito. doutor? Rieux olhou-o por um momento e. Cottard calou-se. hem? . .disse Rieux. Leram para Cottard o depoimento de Grand e perguntaram-lhe se podia precisar os motivos de seu ato. finalmente. Perguntou ao médico se a coisa era séria. Rieux ficou impaciente. num homem que se enforcou. Mas o sujeitinho chamou-o e agarrou-lhe as mãos quando chegou perto da cama. Entretanto.É . mais nada . Mas Rieux achava que primeiro era melhor preparar Cottard para essa visita.Um trabalho pessoal. e Rieux respondeu que nada sabia.Não se preocupe. animando-se. e voltado para a porta com uma expressão de ansiedade.que no momento é o senhor que perturba a paz dos outros. O comissário forçou-o a dizer se tinha vontade de reincidir. e sem olhar para o comissário.O senhor compreende . e Rieux mandou entrar o comissário.É a polícia. Duas ou três formalidades e deixá-lo-ão em paz. . . não é verdade. apenas com uma roupa de flanela acinzentada. . o comissário queria ver o doente. calou-se. Mas.concluiu o comissário.É o tempo.

Foi o momento que Gastei.Naturalmente . Mas. você sabe tão bem quanto eu o que é. encolhendo os ombros. exceto os mortos. E depois. Na noite daquele mesmo dia. bastou que alguém pensasse em fazer a soma. . O céu. apenas. já não mencionava nada. sabe do que se trata. Em apenas alguns dias. colega de Rieux. É que os ratos morrem na rua e os homens. Enquanto cada médico não tinha tido conhecimento de mais de dois ou três casos. ao longe. não se teve a coragem de lhe dar um nome. há 29 uns vinte anos. . escolheu para ir visitá-lo. todos sabiam. . Um deles começava a supurar e logo se abriu como um fruto podre.perguntou -. Rieux telefonou para o depósito de produtos farmacêuticos do departamento.perguntou Rieux. Rieux. em resumo.respondeu.disse o velho médico: .Você sabe o que vão nos responder . mas parece peste. Fiz uma parte da minha carreira na China e vi alguns casos em Paris.É verdade. ninguém pensara em se mexer.Pois eu sei. em casa. muito mais velho que ele. . . Era evidente que se tornava necessário abrir os abscessos. A opinião pública é sagrada: nada de pânico.Que quer dizer isso. Suas notas profissionais mencionam. E os jornais só se ocupam da rua. Tudo ficava pegajoso à medida que o dia avançava.”Ela desapareceu dos países temperados há muitos anos”. Sim. Simplesmente. . no subúrbio. desapareceu? . Sobretudo.É incrível. sobre a baía. Dois golpes de bisturi em cruz. tojo mundo sabe que ela desapareceu do Ocidente”. e dos gânglios escorria uma pasta sangrenta. que se tratava de uma verdadeira epidemia. Na maior parte das vezes o doente morria exalando um cheiro terrível. Mas surgiam manchas no ventre e nas pernas. Gastei . um vizinho do velho doente apertava as virilhas e vomitava em meio ao delírio. depois tornava a inchar. Rieux refletia. para aqueles que se preocupavam com a curiosa moléstia. Vamos. e a soma era alarmante. E não preciso de análises.Estou esperando o resultado das análises.Era o tempo. como dizia um colega: ”É impossível. Pela janela do escritório olhava a falésia rochosa que se fechava. nada de pânico. tão indiscreta no caso dos ratos. A imprensa. . sem dúvida. E já o chamavam de outros lugares para casos semelhantes. Os gânglios estavam ainda maiores que os do porteiro. e Rieux sentia crescer sua apreensão a cada visita. Os doentes sangravam. Gastei levantou-se e dirigiu-se para a porta. um gânglio deixava de supurar. Chegando a casa. . Mas a prefeitura e a municipalidade começavam a se questionar. os casos mortais multiplicaram-se e tornou-se evidente. tinha um brilho pálido que se esbatia à medida que a tarde avançava. embora azul. Rieux? . nessa data: ”Resposta negativa”. .

com algumas variações. Quando estoura uma guerra. Aí está o que se deveria fazer. que se chama inquietação. de sonho mau em sonho mau. pois não tomaram suas precauções. encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas.Bem. o que não a impede de durar. que suprime o futuro. e os humanistas em primeiro lugar. Nossos concidadãos não eram mais culpados que os outros. eram humanistas: não acreditavam nos flagelos. Apenas se esqueciam de ser modestos e pensavam que tudo ainda era possível para eles. e compreendê-la-íamos se não pensássemos sempre em nós. diz-se então que o flagelo é irreal. Rieux estava desprevenido. cem milhões de cadáveres semeados através da história esfumaçam-se na imaginação. na verdade. Os flagelos. Flutuavam números na sua memória. sem aviso. não se esqueça: em Paris ainda. e dizia a si próprio que umas três dezenas de pestes que a história conheceu tinham feito perto de cem milhões de mortos. E por isso é preciso compreender. quando se é médico. E contudo. preparavam viagens e tinham opiniões. O médico lembrava-se da peste de Constantinopla. que ele estivesse dividido entre a inquietação e a confiança. poder-se-iam . há quase vinte anos. Neste momento da narrativa. A palavra ”peste” acabava de ser pronunciada pela primeira vez. são uma coisa comum. tinha feito dez mil vítimas em um só dia. Ao olhar pela janela sua cidade que não mudara. Mesmo depois de o Dr. é necessário compreender assim as duas hesitações. também. Simplesmente. Como poderiam ter pensado na peste.Sim. Nossos concidadãos. as pessoas dizem: ”Não vai durar muito. como as guerras. Juntam-se as pessoas à saída de cinco cinemas para conduzi-las a uma praça da cidade e fazê-las morrer aos montes para se compreender alguma coisa. permitir-se-á ao narrador que justifique a incerteza e o espanto do médico. Em outras palavras. são os homens que passam. E sem dúvida uma guerra é uma tolice. assim como nossos concidadãos. E já que um homem morto só tem significado se o vemos morrer. mas é difícil acreditar neles quando se abatem sobre nós. diante do amigo. esperemos que não seja mais grave hoje que naquela época. Mas é realmente incrível. e nunca alguém será livre enquanto houver flagelos. Ao menos. eram como todo mundo: pensavam em si próprios. que é um sonho mau que vai passar. sua reação foi a da maior parte dos nossos concidadãos. Mas nem sempre ele passa e. já que. o perigo continuava irreal para ele. a esse respeito. que. Ele procurava reunir no seu espírito o que sabia sobre a doença. já é muito saber o que é um morto. . faz-se uma ideia da dor e tem-se um pouco mais de imaginação. era com dificuldade que Rieux sentia nascer dentro de si esse ligeiro temor diante do futuro. o que pressupunha que os flagelos eram impossíveis. com Bernard Rieux atrás da janela.. as pestes. Rieux ter reconhecido. que um punhado de doentes dispersos acabavam de morrer da peste. seria idiota”. Continuavam a fazer negócios. Dez mil mortos são cinco vezes o público de um grande cinema. os deslocamentos e as discussões? Julgavam-se livres. O flagelo não 30 i está à altura do homem. segundo Procópio. Houve no mundo tantas pestes quanto guerras. Mas que são cem milhões de mortos? Quando se fez a guerra. A tolice insiste sempre.

Podia-se imaginar as fogueiras rubras . Rieux. há setenta anos. os catres úmidos e podres colados à terra batida do hospital de Constantinopla. sustentando lutas sangrentas para não abandonarem os cadáveres. pensava nas fogueiras 32 l citadas por Lucrécio e que os atenienses atacados pela doença acendiam à beira do mar. não havia um meio de contar os ratos. Sim. quarenta mil ratos em fila dariam. Mas. sabe-se que as pessoas como Procópio não sabiam contar. Mas. o carnaval dos médicos mascarados durante a Peste Negra. . isso é impossível de realizar. a construção. naturalmente. De um lado da vidraça. as manchas no corpo. os doentes suspensos por ganchos. se um 31 rato tem trinta centímetros de comprimento. Era preciso limitar-se àquilo que se sabia: o torpor e a prostração.colocar alguns rostos conhecidos nesse amontoado anónimo. se é possível ser ao mesmo tempo feliz e taciturno. mas o lugar era pequeno e os vivos batiam-se a golpes de archote para colocarem os que lhes tinham sido queridos. tudo isso não era ainda bastante forte para matar a paz desse dia. no fim de tudo. Do outro lado da vidraça. quem conhece dez mil rostos? Além disso. o dilaceramento interior e. a dor de cabeça. uma frase surgia no espírito do Dr.. e depois. as cidades chinesas cheias de moribundos silenciosos. E uma tranqüilidade tão pacífica e tão indiferente negava quase sem esforço as velhas imagens do flagelo: Atenas empestada e abandonada pelos pássaros. por alto. Jafa e os seus mendigos horrendos. em 1871. No fim de tudo. ao fundo do tabuleiro baço das casas. a campainha de um bonde invisível tilintava de repente e refutava num segundo a crueldade e a dor. Mas o médico impacientava-se. Só o mar. antes que o flagelo se interessasse pelos habitantes. Fazia-se o cálculo aproximado. Deixava-se entregar. feliz em suma. a sede terrível. A palavra não continha apenas o que a ciência queria efetivamente atribuir-lhe. Alguns casos não constituem uma epidemia. Em Cantão. uma frase que no seu manual terminava justamente a enumeração dos sintomas: ”O pulso torna-se filiforme e a morte sobrevêm por ocasião de um movimento insignificante”. a palavra que ressoava ainda na sala: peste. os acasalamentos dos vivos nos cemitérios de Milão. e três quartos da população . os tumores. mais zumbidora que ruidosa. no fim de tudo ficávamos presos por um fio. os olhos vermelhos. E o Dr. mas uma longa série de imagens extraordinárias que não combinavam com essa cidade amarela e cinzenta. na Provença. com evidentes probabilidades de erro. Levavam os mortos para lá durante a noite. a boca suja. que olhava para o golfo. as noites e os dias em toda parte e sempre cheios de gritos intermináveis dos homens. Contudo. o delírio. e tJsta tomar precauções.estavam impacientes para fazer o movimento imperceptível que as precipitaria. do outro. . as carretas de mortos na aterrada Londres. quarenta mil ratos tinham morrido da peste.. o céu fresco da primavera. comprovava o que há de inquietação e de eterna falta de tranqüilidade neste mundo. moderadamente animada a essa hora. os condenados de Marselha empilhando em covas os corpos que se liquefaziam. de uma muralha para deter o vento furioso da peste. O médico continuava a olhar pela janela. Não. Rieux. e isso era perigoso.era o número exato .

com um sorriso. vencê-la em seguida. Em seguida. Podia-se recear. e o ruído da cidade cresceu de repente. não se podia perder tempo com isso. O médico viu entrar Grand na companhia do seu vizinho Cottard. . Mas. E. ao descer as escadas atrás do médico. aquilo podia parar. prestativo por natureza. estamos tateando. O médico abriu a janela. prendia-se a fios. . preciso ir ao laboratório. . de nada lhe serviria. talvez seja preciso decidirmo-nos a chamar essa doença pelo seu nome verdadeiro. Caso contrário. utilizavam-no periodicamente no serviço da estatística do registro civil. -• Sim.o que era o mais provável -. porque ou não se podia imaginar a peste. Mas o médico olhava para a folha de estatística. Mas que nome é esse? . O resto. Rieux estava nessa altura de suas reflexões quando lhe anunciaram Joseph Grand.Os números sobem. Mas venha comigo. além disso.diante da água tranqüila e escura. ou então a imaginávamos de modo falso. é verdade que. os combates de archotes na noite crepitante de fagulhas e densos vapores envenenados subindo para o céu atento. que diabo.anunciou. no trabalho de todos os dias.Onze mortos em quarenta e oito horas. O funcionário municipal brandia uma folha de papel. saber-se-ia o que ela era para. tomar as providências adequadas. Até &ÉJora. concordara em levar pessoalmente à casa de Rieux uma cópia dos seus resultados. doutor . Mas essa vertigem não se mantinha diante da razão. a peste pararia.É preciso chamar as coisas pelo nome verdadeiro. . Rieux despertou. Assim é que ele tinha de fazer a contagem dos óbitos. a movimentos insignificantes. Como era funcionário da municipalidade. De uma oficina vizinha chegava o silvo breve e repetido de uma serra mecânica. . O necessário era reconhecer claramente o que devia ser reconhecido. não havendo meio de se defender dela primeiro. tudo correria bem. O essencial era cumprir o seu dever. É verdade que a palavra ”peste” fora pronunciada. Rieux cumprimentou Cottard e perguntou-lhe como se sentia. expulsar enfim as sombras inúteis. Grand explicou que Cottard fizera questão de agradecer 33 ao médico e pedir-lhe desculpas pelos transtornos que lhe causara. . o flagelo abalava e derrubava uma ou duas vítimas. nesse mesmo instante. Se ela parasse .Está vendo? .Não é fácil. . Aí estava a certeza.disse Rieux -.disse o funcionário municipal. . embora suas ocupações fossem muito diversas.Não posso lhe dizer e. O Dr.Vamos . . sim -• dizia Grand.

enterrando o chapéu sobre as orelhas. disse-lhe que iria no dia seguinte ao seu bairro e que passaria pela sua casa no fim da tarde. Grand respondeu que não. largas demais. não haja muitos progressos.disse Grand. E.disse Rieux. mudando de opinião. Um instante depois. Minhas noites são sagradas. e assim escolhidas por ele na ilusão de que durariam mais. Rieux. . acendendo-se por cima das ruas. que sem dúvida não seria séria. mas depois. . Como dizem na minha terra: ”Não se deve deixar para amanhã.Há anos que trabalho nisto. As ruas começavam a encher-se de gente. nascido em Montélimar. como: ”um tempo de sonho” ou ”uma iluminação feérica”.Ah . que trabalhava por conta própria. com um passo apressado. fórmulas banais que não eram de lugar algum. Embora.perguntou o médico. forçosamente. Rieux perguntou a Grand se trabalhava para a prefeitura. detendo-se. as lâmpadas. Alto e magro. Se conservava ainda a maior parte . Mas o funcionário já os deixava e subia o Boulevard de La Mame.Digiriram-se para a Place d’Armes. de que se trata? .Desculpem-me . À 34 entrada do laboratório. é verdade. na esquina da Place d’Armes -. .Mas. E Rieux compreendeu muito vagamente que se tratava de qualquer coisa sobre o desenvolvimento de uma personalidade. o médico descobria no empregado municipal um arzinho de mistério. . obscureceram todo o céu. mas preciso tomar o bonde. Ao deixar Cottard. sob os f í cus. O crepúsculo fugidio da nossa região já começava a recuar diante da noite. É impossível arrancá-lo de casa depois do jantar. Cottard disse ao médico que gostaria muito de consultá-lo para pedir-lhe orientação. Imaginava-o no meio de uma peste. e não daquela. afinal. mas de uma das grandes pestes da história.Ah . e o ruído das conversas pareceu subir de tom. continuando a pensar nisso. Rieux já notara essa mania de Grand. que remexia nos bolsos a folha de estatística. em seguida. flutuava dentro das roupas. para ter o que dizer -. e está dando certo? . Grand gaguejou. em outro sentido.” Lembrava-se de ter lido que a peste poupava as constituições fracas e destruía sobretudo as compleições vigorosas. o médico se deu conta de que pensava em Grand. Cottard continuava calado. Joseph Grand nada era além do pequeno funcionário municipal que aparentava ser. e as primeiras estrelas apareciam no horizonte ainda nítido.disse Cottard -. convidou-o a ir ao consultório. ”É o tipo de homem que é poupado nesses casos. À primeira vista. de evocar provérbios regionais e de acrescentar. com efeito.

fazer valer. com efeito. pelo menos. sorria-lhe a perspectiva de entregar-se sem remorsos às suas ocupações favoritas. Era. Quando. ”solicitar”. se assim se pode dizer. que o impedia sempre de escrever a carta de reclamação em que meditava ou de tomar as medidas que as circunstâncias exigiam. pelo menos as garantias que lhe tinham dado. um dos seus sinais. Se aceitara a oferta que lhe faziam. como Rieux pôde observar. para um jovem redator. de que. não se coadunavam com sua dignidade pessoal. Conseqúentemente. discretas mas indispensáveis. em primeiro lugar. há vinte e dois anos. na verdade. O sorriso. no seu entender. É aqui que se mostra a originalidade de Grand ou. que lhe erguia o lábio superior. Depois. Enfim. todos os sinais da insignificância. ele não pudera ir. era ainda irrisório. que teria implicado exigências do que lhe era devido. revendo as tarifas dos banhos de ducha da cidade ou reunindo. Tratava-se apenas de dar. na verdade. aceitara esse emprego. sentia-se particularmente impedido de empregar a palavra ”direito” sobre a qual não estava seguro ou ”promessas”. durante algum tempo. de que não estava muito seguro. sua vida material . a menção que ele dizia constar das folhas de emprego. se não os direitos. Se se acrescentar a esse retrato um andar de seminarista. e teria. em contrapartida perdera a maior parte dos superiores. haviam lhe dado a esperança. Era essa particularidade que melhor retratava o nosso concidadão. por fidelidade a um ideal. o chefe de rep irtição que o tinha contratado morrera há muito tempo e o empregado municipal não se lembrava tampouco dos termos exatos da promessa que lhe fora feita. não poderia deixar de chegar ao lugar de redator que lhe permitiria viver comodamente. recusava-se a empregar os termos ”benevolência”. tinham-lhe garantido. Ele teria podido. deu-se conta. nosso concidadão continuou a exercer suas obscuras funções até uma idade bastante avançada. Mas. mas ninguém parecia dar importância ao fato. A acreditar nele. ”gratidão” que. por falta de dinheiro. tornava-lhe a boca escura. Tinha-se queixado a Rieux. a sessenta e dois francos e trinta centavos por dia. a arte de resvalar pelas paredes e de deslizar por entre as portas. por falta da palavra certa. Aliás. Certamente não era a ambição que fazia Joseph Grand agir. por consequência. de uma ”efetivação rápida”. reconhecer-seá que só era possível imaginá-lo diante de uma mesa. Assim. ao fim de uma licenciatura além da qual. o custo de vida tinha aumentado em proporções desmedidas. Era ela. segundo ele.dos dentes do maxilar inferior. Mesmo para um espírito desavisado. Joseph Grand não achava as palavras. os elementos de um relatório sobre a nova taxa de lixo. um perfume de adega e de fumaça. de qualquer maneira. com o hábito. e sempre segundo o que ele dizia a Rieux. fora por motivos dignos e. e o ordenado de Grand. de auxiliar municipal temporário. em seguida à palavra ”qualificação”. ele parecia ter vindo ao mundo para exercer as funções. Havia muitos anos que esse estado de coisas provisório durava. e sim 35 a perspectiva de uma vida material assegurada por meios honestos. se revestido de um caráter de ousadia pouco compatível com a modéstia das funções que desempenhava. apesar de alguns aumentos gerais. segundo ele assegurava com um sorriso melancólico. provas de competência nas questões delicadas que a administração da nossa cidade apresentava. Por outro lado.

. a vida quase ascética que Joseph Grand levava. grande industrial de nossa cidade. 37 . visitava na França. Ele não imaginava um lugar para essas manias no meio da peste e julgava que ela não tinha praticamente futuro entre nossos concidadãos. que afirmava enfaticamente que afinal . O pouco que confidenciava dava provas de bondade e dedicação que não se ousa confessar nos nossos dias. onde entrou por fim. Rieux obtinha a convocação para a Prefeitura de uma comissão sanitária.disse-lhe . ”Ah.estava assegurada. De qualquer forma. Não se recusava a admitir que amava. únicos parentes que lhe restavam e que.e acentuava bem essa palavra que continha todo o peso do raciocínio . a menor palavra custava-lhe mil esforços. isso tranqüilizara Rieux. No dia seguinte. acima de tudo. .É verdade que a população se inquietava . Finalmente. . mortos quando era ainda jovem. graças a uma insistência tida como fora de propósito. Para evocar emoções tão simples. no seu carro. Já no laboratório. como em qualquer lugar. ”gostaria tanto de aprender a me expressar”. nunca se tinha visto ninguém morrer de fome. todos os anos. Reconhecia que a lembrança dos pais.afinal. Admitia. assim. o acerto de uma das frases prediletas do prefeito. doutor”. Reconheceu. contudo. É preciso mandar vir de Paris. compreendeu de repente o que Grand tentara dizer: sem dúvida. essa dificuldade tinha-se tornado sua maior preocupação. O prefeito me disse: ”Vamos agir depressa se quiser. pode-se dizer que sua vida era exemplar. à Prefeitura. O diretor caiu das nuvens.Sei. 36 Em certo sentido. Continuava a procurar as palavras. que gostava dos sobrinhos e da irmã. Bernard Rieux levou Gastei. um certo sino do seu bairro que tocava suavemente por volta de cinco horas da tarde. Telefonei para o depósito. na verdade.que o departamento não tem soro? . ele estava escrevendo um livro ou algo semelhante. raros na nossa cidade. mas não conseguia acreditar que a peste se pudesse instalar verdadeiramente numa cidade onde podiam encontrar-se funcionários modestos que cultivavam manias respeitáveis. finalmente o liberava de qualquer preocupação dessa ordem. Nessa noite.reconhecera Richard. Era um desses homens.E depois os falatórios exageram tudo. Sabia que essa impressão era tola. . mas em silêncio”. o médico. sem ruborizar. Falava disso a Rieux todas as vezes que o encontrava. portanto. Aliás.Sabe . ele está convencido de que se trata de um alarme falso.Espero que não demore. que têm sempre a coragem de assumir seus bons sentimentos. ao ver o funcionário municipal partir. dizia. Exatamente. fazia com que sofresse. já que lhe bastava afinal adaptar suas necessidades aos seus recursos.

pelo menos. pouco importa que lhe dêem o nome de peste ou febre de crescimento. que mastigava tranqüilamente o bigode amarelecido. Fiz incisões nos abscessos. de quadruplicar o volume do baço.Comecemos. pode matar metade da população em menos de dois meses. estremeceu e voltou-se automaticamente para a porta. .Trata-se de uma febre de caráter tifóide. Richard declarou que. na ciência como na vida.Quando um micróbio . Os médicos conheciam a situação. em todo caso. em três dias. . é necessário dizer. Richard ressaltou que isso justificaria hesitações e que seria preciso esperar. não era uma boa maneira de argumentar.é saber se se trata de peste ou não. Pude. assim. que fazia os colegas recuarem e portanto estava disposto a admitir. que certas modificações específicas do micróbio não coincidem com a descrição clássica. Ele sabia que era isso. O velho restei..é capaz. mas que. depois de um curto silêncio . é claro. provocar análises em que o laboratório julga reconhecer o bacilo da peste. no fundo. mas nervoso. não se devia ceder ao pânico.A questão . o resultado estatístico da série de análises que começara há alguns dias. para tranqüilidade deles. de dar aos gânglios mesentéricos o volume de uma laranja e uma consistência de mingau.respondeu Rieux. . em sua opinião. Para ser preciso. mas acompanhadas de abscessos e de vómitos. . são sempre perigosas. Conseqúentemente.insistiu Gastei . O essencial é apenas impedi-la de matar metade da cidade.não é que essa maneira de argumentar seja boa.O importante .interveio brutalmente o velho Gastei . Pela rapidez com que a doença se propaga.disse Rieux. se não for detida. Depois dirigiu um olhar benevolente à plateia e declarou que sabia muito bem que era a peste. perguntaram-lhe a sua opinião. O prefeito agitou-se e afirmou que. . já não permite hesitações. Os focos de infecção encontramse em extensão 38 crescente.Já telegrafei . já que as hipóteses. Quanto ao prefeito. entretanto. levantou os olhos claros para Rieux. Dois ou três médicos se sobressaltaram. Tratava-se de uma febre com complicações inguinais e era tudo o que se podia dizer. O prefeito estava amável. Os outros pareciam hesitar. como para verificar se ela havia impedido aquela enormidade de se espalhar pelos corredores. Como Rieux se calasse. A questão era apenas saber que medidas convinha tomar. Querem que resuma a situação? Richard achava que era inútil. senhores. . mas que ela nos obrigue a refletir. que não era a peste. reconhecê-lo oficialmente implicaria medidas implacáveis.

e Richard acabou por dizer: . o contágio não estava provado. Não se trata de ver as coisas pretas.interveio o prefeito .A questão . apesar de tudo. .E.Sem dúvida .A verdade é que nosso colega acredita na peste.Mas morreram outros . Poderia o Dr. Não é uma questão de vocabulário. ela pode.O problema está mal colocado. seria necessário admitir oficialmente que se tratava da peste. Senão. isso exigia reflexão. mas preciso que os senhores reconheçam oficialmente que se trata de uma epidemia de peste. seria necessário aplicar as graves medidas de profilaxia previstas na lei e que. trata-se de tomar precauções. Ríchard interveio com certo nervosismo. fatais em quarenta e oito horas. é preciso que se entenda. já que os parentes dos doentes estavam ainda indenes. é uma questão de tempo. o contágio nunca é absoluto. para isso. é essa. sinceramente. deveriam adotar-se as medidas profiláticas indicadas em tempo de peste. . Richard pensava em resumir a situação. . Entretanto. matar metade da cidade. . e. .observou Rieux. Rieux respondeu que não descrevera uma síndrome. mas se são necessárias para impedir que metade da população morra. tinha descrito o que observara.Se não o reconhecermos.seria que.Ríchard achava que era preciso não ver as coisas tão pretas e que. . 39 mesmo que não se tratasse de peste. justamente. com efeito. além disso. Sua descrição da síndrome o comprova. as manchas.não é saber se as medidas previstas em lei são graves. o seu pensamento: tem certeza de que é a peste? .insistiu Rieux . Richard assumir a responsabilidade de afirmar que a epidemia se deteria sem medidas profiláticas rigorosas? Ríchard hesitou e olhou para Rieux: . lembrando que. E o que observara eram os furúnculos.retrucou o prefeito -. se ela não parasse por si só.Se é absolutamente necessário que eu tenha uma ideia.A sua ideia . . teríamos uma progressão matemática infinita e um despovoamento fulminante. O resto é com as autoridades. Os médicos consultaram-se. nossas leis prevêem um prefeito para resolver essas questões.Diga-me. para deter a doença. . como a certeza a esse respeito não era absoluta. as febres delirantes.

que tinham aparecido na comuna de Oran alguns casos de uma febre perniciosa que não se podia ainda caracterizar como contagiosa. Compreendidas e aplicadas como deviam sê-lo. e com um espírito de prudência que podia ser compreendido por todos. Esses casos não eram bastante característicos para serem realmente inquietantes. entre as quais uma desratização científica. . portanto.A fórmula me é indiferente . que se assuma a responsabilidade de agir como se a doença fosse a peste. . e uma vigilância estrita do íornenecirnento de água. essas salas estavam equipadas para tratar os doentes no mínimo de tempo e com o máximo de probabilidade de cura. Alguns momentos depois. Recomendava aos habitantes o asseio mais rigoroso e convidava. Era difícil tirar desses cartazes a prova de que as autoridades encaravam a situação de frente. Aliás. medidas gerais. em seguida. meu caro colega? . No outro dia. a febre deu mais um pequeno salto. e não havia dúvida de que a população saberia manter o sangue-frio.. . As medidas não eram draconianas. Por outro lado. com gritos terríveis. e pareciam muito submetidas ao desejo de não inquietar a opinião pública. enfim. Em meio à irritação geral. Alguns artigos suplementares submetiam à desinfecção obrigatória o quarto do doente e o veículo de transporte. No dia seguinte ao da reunião. Rieux partiu. voltava-se para ele.Digamos apenas que não devemos agir como se metade da cidade não corresse o risco de morrer. no subúrbio que cheirava a fritura e a urina. O decreto dizia.respondeu Rieux. em todo caso. por injeção de gases 40 l tóxicos nos esgotos. todos os que tinham pulgas a se apresentarem nos dispensários municipais. Chegou até os jornais. as famílias deviam notificar obrigatoriamente os casos diagnosticados pelo médico e consentir no isolamento dos seus doentes em salas especiais do hospital. Conseqúentemente. o prefeito não duvidava por um só instante de que seus administrados dariam a mais dedicada colaboração ao seu esforço pessoal.É também a sua opinião. se bem que de uma forma benigna. Quanto ao resto. o prefeito tomava algumas medidas preventivas. uma mulher.perguntou Richard.É preciso. porque senão ela morrerá de fato. Contudo. Rieux podia ler pequenos cartazes brancos que a Prefeitura mandara rapidamente colar nos lugares mais discretos da cidade. o edital limitava-se a recomendar aos parentes que se submetessem a uma vigilância sanitária. as virilhas ensanguentadas. na verdade. essas medidas eram de natureza a debelar qualquer ameaça de epidemia. já que se contentaram em fazer algumas alusões. O cartaz anunciava. A fórmula foi calorosamente aprovada: .

uma dezena de doentes havia sucumbido na cidade.Isso vai lhe fazer bem. a companhia é boa. finalmente. Uma vez ou outra recebia a visita de dois ou três homens. tanto interesse em escutar a vendedora de tabaco. Oficialmente.Sim . Nas ruas. enfim. nas casas dos fornecedores. começado a frequentá-los. Era um homem fechado e silencioso. era representante de vinhos e de licores.observava Grand é uma verdadeira víbora. . Tudo isso. e.A gente sente-se bem nesses lugares . levantou de novo os braços ao vê-lo. os números estão subindo. com efeito. Cottard tinha levado Grand aos restaurantes e bares luxuosos da cidade. Às vezes. Nunca empregara tanta suavidade ao falar com os merceeiros. Cottard nunca mais recebera 41 visitas. . que o esperava. pois eu o acho mudado. Por duas ou três vezes. depois.Essa vendedora de tabaco . . com um jeito de javali.Tornou-se gentil. um restaurante modesto e saídas bastante misteriosas eram toda a vida de Cottard. que quer todos do seu lado.dizia ele -.Tem razão . ele me interessa e. Disse isso a Cottard. à noite. que deviam ser clientes. . eu sei. O médico disse a Grand que talvez se encontrassem à noite. mudara muito: . convida-me para sair com ele e nem sempre consigo recusar.Não sei como dizê-lo. Desde a tentativa de suicídio.disse Rieux -. . pois ia visitar Cottard. O empregado municipal chegara a notar que Cottard preferia os filmes de gângsteres.respondeu Grand. Na véspera. Rieux afastou-se rapidamente do cartaz e retomou o caminho do consultório. Em todas as ocasiões o representante de vinhos mantinha-se solitário e desconfiado. mas tenho a impressão de que procura reconciliar-se com as pessoas. ia ao cinema que ficava em frente à casa. a expressão não seria correta. . Joseph Grand. Tinha. mas ele respondeu-me que eu estava enganado e que ela possuía o seu lado born. O seu quarto. . segundo Grand.Não era gentil antes? Grand hesitou.Como? . Fala sempre comigo. Aliás. Não podia dizer que Cottard fosse indelicado. era preciso saber descobri-lo. . salvei-lhe a vida. procurava conquistar todas as simpatias.O Dr.

voltara para casa em estado de furor desmedido. Cottard dissera a Grand: . pedira a Grand. .Perguntar o quê? Cottard hesitara. e era impossível não acreditar que ele até se dava ao trabalho de ostentar. provava-o bem. .É Jom sujeito. diante da agitação de Cottard. Mas fora forçada a interromper-se. Grand devia também apontar a Rieux outras modificações no caráter de Cottard. ”Os grandes 42 l sempre comem os pequenos”.Mande-lhe duzentos. Minha irmã acha que nunca penso nela. boquiabertos. já há algum tempo comprava apenas o jornal conservador de Oran.dissera a vendedora -. Mas a verdade é que a estimo muito. Grand e a empregada. para lhe fazer o favor de expedir um vale postal de cem francos que enviava mensalmente a uma irmã. ela falara de uma prisão recente que alvoroçava Argel. Cottard parecia muito sensível às amabilidades que recebia em troca. Este sempre tivera opiniões muito liberais.Se metessem toda essa corja na prisão . Num dia em que um maítre d’hôtel o acompanhara e ajudara a vestir o sobretudo.Passou para o lado dos outros. viramno fugir. . as pessoas honestas poderiam respirar. alguns dias depois de ter-se levantado. Sua frase favorita.Bem. Porém.Que outros? . No entanto. pode perguntar a ele. Mais tarde. de certa forma. Tratavase de um jovem que matara um árabe numa praia. perguntar se eu sou má pessoa. Num dia em que o merceeiro se mostrara menos amável. . Aliás.Todos os outros.Grand tinha observado as atenções especiais que os empregados dispensavam ao representante de vinhos e compreendeu a razão quando viu as gorjetas excessivas que ele deixava. que ia ao correio. No meio de uma conversa animada. esse crápula repetia. Da mesma forma. sua leitura nos lugares públicos. Grand chegara a assistir a uma cena curiosa com a vendedora de tabaco. Será uma boa surpresa. no momento em que Grand saía. tinha um humor variável. . pedira-lhe: . que se precipitara para fora da tabacaria sem uma palavra de desculpa. .

Se quer minha opinião. . todos sabem disso. então.Gostaria de fazer o mesmo. O carro da desratização passou por baixo da janela com um grande ruído do cano de escapamento. como a de muitos outros.Oh! . nada sabemos.É um homem . Na realidade. como Cottard. tivera com Grand uma curiosa conversa. . .bom . .De resto . Grand mostrara-se surpreso e Cottard balbuciara que ser artista devia resolver muitas coisas. .Como queira. Finalmente.respondeu Grand. pelo menos. . doutor . Como dizia o comissário. Mas. Estes animais têm sempre um ar de originalidade. . O soro ainda não tinha chegado. Rieux calou-se até que fosse possível fazer-se ouvir e pediu distraidamente a opinião do funcionário municipal.Não concordo.perguntara Grand. reconheceu que tinha medo.dissera Cottard -. Ou. .Ora.Não acho. .Finalmente. Este olhava-o com gravidade. assim o supõe. simplesmente .exclamara Cottard. tinha mais o que fazer. Este fora obrigado a responder às perguntas de Cottard. intrigado pelo trabalho a que Grand se entregava todas as noites. À tarde. a suposição é geral Durante todo o dia. sentia necessidade de calor humano. . O médico deu de ombros.Claro que suponho. Mas não só eu.Por quê? . .Ah! . é a mesma coisa. no fundo. mas é mais complicado do que isso! .perguntava Rieux -. ele tem medo da febre.Você.disse . Também ele. . você está escrevendo um livro. . Entrou por duas vezes em bares cheios de gente. 43 .que tem qualquer coisa na consciência. será útil? Este bacilo é estranho. . .disse Rieux a Grand na manhã dos cartazes -. a história dos ratos virou-lhe a cabeça.respondeu Gastei. o médico sentiu aumentar a pequena vertigem que o atacava a cada vez que pensava na peste. .Ora. porque um artista tem mais direitos que os outros. Perdoam-lhe mais coisas. Rieux teve uma reunião com Gastei.

e uma exclamação surda e de alívio saudou lá fora o instante em que as luzes se acenderam. se já ocorrera de prenderem alguém que se encontrasse numa . 44 .Por que não? Cottard perguntou. Mesmo fora do bairro. . que todo o bairro podia testemunhá-lo. Não se deve ficar muito tempo fechado em casa. Mas a tarde já estava adiantada e devia ser difícil ler na obscuridade nascente. Mas tudo isso é secundário.Oh. Rieux continuou calado.Rieux achava aquilo idiota. note bem. . estivesse sentado na penumbra. cheiros de carne grelhada. A rua animava-se.Diga-me. então.Não é o meu caso. Era mais provável que Cottard. o rumor que subia do mar e da multidão que passava. invadida por uma mocidade ruidosa. Ocupavam-se dele e ele nada sabia. Rieux observou que não se podia ficar sempre só.Conhece Rigaud. Cottard. Cottard pareceu irritar-se e respondeu que não fazia outra coisa. À noite. um minuto antes. na verdade. não lhe faltavam conhecidos. Mas estava lendo este romance. viase em cima da mesa um romance policial aberto. Rieux perguntou-lhe como ia. . mas falo das pessoas que se ocupam em nos trazer problemas. Quando entrou. pensando. e que iria ainda melhor se pudesse ter certeza de que ninguém se preocupava com ele. mas isso o ajudou a lembrar-se de que prometera uma visita ao representante de vinhos. o zumbido alegre e perfumado da liberdade que enchia pouco a pouco a rua. os grandes gritos dos barcos invisíveis. aceitar-me-ia no seu serviço do hospital? .Podemos acender a luz? . Aí está um desgraçado que é preso de repente. numa certa manhã. Ríeux foi até a varanda e Cottard o seguiu. sentandose.disse Rieux. resmungou que ia bem. nunca se tem esse direito. escreviam-lhe o nome em fichas. o médico encontrou Cottard diante da mesa da sala de jantar.Em certo sentido. uma brisa ligeira trazia murmúrios. De todos os bairros em redor. o homenzinho olhou-o piscando os olhos. esta hora que Rieux conhecia tão bem e de que gostara outrora. . À noite. O senhor precisa sair. . Acesa a luz. Falavam dele nas repartições. não é isso. doutor: se eu adoecesse. A penumbra aumentava na sala. como em todas as noites na nossa cidade.Depende . se fosse necessário. Acha que é justo? Acha que se tem direito de fazer isso a um homem? .perguntou a Cottard. parecia-lhe hoje opressiva por causa de tudo o que sabia. o arquiteto? É um dos meus amigos.

Eu . Rieux tinha o pé no acelerador. . sem transição. . E por volta das dez da noite. apertava-lhe a mão. doutor. Um verdadeiro! Não houve terremoto. O médico desviou o olhar.clínica ou num hospital. o médico parou o carro diante de um grupo de crianças. antes de se afastar. Nunca Rieux achara sua profissão tão pesada. com o carro parado diante da casa do velho asmático. traços perfeitos e rosto sujo. O velho asmático estava sentado na cama. o médico sentia-os reticentes. fixava Rieux com os olhos claros e ameaçadores. Depois perguntou ao médico se podia levá-lo para a cidade no seu automóvel. Parecia respirar melhor e contava os grãos-de-bico.disse Cottard .Tem razão. Recebeu o médico com um ar Fitisfeito. .perguntou o médico. mas que tudo dependia do estado do enfermo. entregando-se a ele.respondeu Rieux. que ele visitava por último.As pessoas falam sempre. e para Rieux o dia seguinte passou-se simplesmente em longas corridas aos quatro cantos da cidade. mostrando todos os dentes. em conversas com as famílias dos doentes e em discussões com os próprios doentes. . com uma voz cheia de lágrimas e de furor: . E de repente. refugiados no fundo da sua doença. Rieux sentia dificuldade em se levantar do assento. Era uma luta a que ainda não estava habituado. Demorava-se a contemplar a rua escura e as estrelas que apareciam e desapareciam no céu negro. Pela primeira vez. Não era disso que precisávamos. Cottard. Aos gritos. Mas um garoto. é natural . Cottard agarrou o portão e. gritou. Rieux respondeu que sim. É verdade? .De um terremoto. a criança lhe sorriu. . com uma espécie de espanto desconfiado. mais raras.Então. Crianças brincavam ainda diante das portas. de uma panela para a outra.tenho confiança no senhor. E depois. O motor já roncava. de cabelos pretos e lisos. as ruas já estavam menos povoadas e as luzes. Até então os doentes facilitavam-lhe o trabalho. quando tivermos uma dezena de mortos. Duas ou três vezes olhou para trás. sorrindo para a criança. jogavam amarelinha. vai ser o fim do mundo.Fala-se em epidemia. de pé na calçada. O representante de vinhos falava numa voz rouca e difícil. mas olhava de novo para a criança que não deixara de fitá-lo 45 com o olhar grave e tranqüilo. No centro da cidade. Quando Cottard pediu. de que estamos precisando? .

Não. e que ou era preciso erguer contra a epidemia uma verdadeira barreira. Apenas em dois ou três casos a incisão provocara uma melhora.Há os que têm medo e os outros. ou . os que não tiveram tempo. .Os funerais não são fiscalizados? .Então. há mais de trinta doentes na cidade. Gastei telefonara a Rieux: . Entretanto. como falam. curvados sobre seus furúnculos. não frases.De qualquer maneira . . nada mais.Oitenta. com as janelas calafetadas.respondeu o médico.. Examinara o velho e agora estava sentado no meio daquela sala de jantar miserável. Quanto às salas ”especialmente equipadas”.Quantos leitos tem o pavilhão? . um cordão sanitário ao redor. tinha medo.Não acredite nisso .Certamente.Li no jornal. Para a maioria. é cólera? . Se a epidemia 46 não parasse por si própria.Que história é essa? . Telefonei a Richard para lhe dizer que eram necessárias medidas completas. sabia bem do que se tratava: dois pavilhões apressadamente evacuados dos seus outros doentes. doutor. No dia seguinte. dissera-lhe a mulher de um dos seus doentes. muito excitado -. porém. . E o rádio disse também. ”Não quero que ele sirva para as experiências deles”. Sim. mais numerosos. Não serviria para as experiências deles. hem! . não seria vencida pelas medidas que a administração tinha imaginado. Era evidente que as medidas decretadas eram insuficientes. à noite.Não. Sabia que no próprio subúrbio uma dezena de doentes o esperariam no dia seguinte. os comunicados oficiais continuavam otimistas. seria o hospital e ele sabia o que isso significava para os pobres.disse o velho. . não é cólera. Morreria. . a Agência Ransdoc anunciava que as medidas da prefeitura haviam sido acolhidas com serenidade e que já uns trinta doentes se tinham notificado.

Estou com os números .São mais que Ínquietantes. organizados pela cidade nas condições que veremos a seguir. São claros.Os ratos morreram da peste ou de qualquer coisa muito parecida . A notificação compulsória e o isolamento foram mantidos. nas ruas. . O prefeito assumiu a responsabilidade.absolutamente nada. . Rieux fez uma descrição clínica e colocou números. a coisa vai aumentar.concluía ele. o soro .vou pedir ordens ao governo-geral.Puseram em circulação dezenas de milhares de pulgas que irão transmitir a infecção segundo uma progressão geométrica. na verdade. As casas dos doentes deviam ser fechadas e desínfetadas. No mesmo dia. . .As medidas são insuficientes. a febre deu quatro saltos surpreendentes: dezesseis mortos. 47 . A prefeitura. Em três dias. Nossos concidadãos. Um dia depois. no entanto. O sol enxugava as poças dos últimos temporais. Rieux desligou. Por essa época. submetidos a uma quarentena de segurança. o tempo pareceu estabilizar-se. . . pediu a Rieux um relatório destinado à capital da colónia. . são ínquietantes. trinta e dois. por intermédio de Richard. roncos de aviões no calor nascente.respondeu -. Richard julgava que iam desativar uma escola e um hospital auxiliar. Um céu azul.E então? . anunciou-se a abertura do hospital auxiliar numa escola maternal. Rieux calava-se. de intensificar a partir do dia seguinte as medidas prescritas. vinte e quatro.Chega esta semana.Respondeu-me que não tinha poderes. Rieux aguardava as vacinas e abria os tumores. Em minha opinião. No quarto dia. contaram-se cerca de quarenta mortos. que até então tinham continuado a disfarçar sua inquietação com gracejos. pareciam. os dois pavilhões ficaram cheios. Gastei voltava aos seus velhos livros e fazia longos estágios na biblioteca. Rieux decidiu telefonar para o prefeito. diante de Gastei. os enterros. os que os rodeavam. como ele dizia. transbordante de luz amarela. tudo na estação convidava à serenidade. . Em quatro dias. vinte e oito. na verdade. se não conseguirmos detê-la a tempo. mais abatidos e mais silenciosos. para solicitar ordens.Ordens! O que falta é imaginação.E o soro? .

deu-se conta de que estavam todos. o principal sofrimento desse longo tempo de exílio. alguns dias antes. exclamando: ”Estão com medo!” O telegrama dizia: ”Declarem estado de peste. amantes que tinham julgado proceder. a prefeitura foi invadida por uma multidão de requerentes que. Os bondes continuavam sempre cheios nas horas de afluência. de repente. como primeiro efeito. Mães e filhos. e seu perfume adocicado flutuava por toda a cidade. Tarrou observava o velhinho. Pode dizer-se que essa invasão brutal da doença teve. Othon. Na verdade. viram-se. O velho asmático despejava os grãos-debico de um recipiente para o outro. que se tinham beijado na plataforma da nossa estação. a primavera chegava aos mercados. até o próprio narrador. apesar da surpresa e da inquietação trazidas por esses acontecimentos singulares. nada mudara. com duas ou três recomendações. certos de se reverem dentro de alguns dias ou algumas semanas. a uma separação temporária. 48 II A partir desse momento. o de todo um povo e. expunham situações igualmente interessantes e. No dia em que o número dos mortos atingiu de novo trinta. ao telefone ou junto aos funcionários. por exemplo. momentaneamente distraídos de suas ocupações habituais por essa partida. e este escarrava nos gatos. subiu de modo vertiginoso. encontrava-se o jornalista Rambert com um ar tranqüilo e interessado. de todos os subúrbios. Cottard vagueava sem destino e o Sr. impedidos de se encontrarem ou de se comunicarem. a epidemia pareceu recuar. vazios e sujos o resto do dia. Nas primeiras horas do dia em que o decreto entrou em vigor. No entanto. irremediavelmente afastados. porque as portas tinham sido fechadas algumas horas antes de ser publicado o decreto do prefeito e. e durante alguns dias contou-se apenas uma dezena de mortos. isso devia continuar. ao mesmo . Assim é. de repente. Responderam ao telegrama de Rieux que o estoque de reserva estava esgotado e que estava sen^-b iniciada nova produção. naturalmente. mergulhados na estúpida confiança humana. continuava a passear com seus animais. Até então. a mesma multidão enchia as ruas e as filas estendiam-se diante dos cinemas. por vezes. pode-se dizer que a peste se tornou um problema comum a todos nós. e. Sim. uma vez fechadas as portas. Aliás. a partir das primeiras semanas. Milhares de rosas murchavam nas cestas dos vendedores. o juiz de instrução. subitamente. Grand se recolhia em casa todas as noites para seu misterioso trabalho. juntamente com o medo. Aparentemente. um sentimento tão individual quanto o da separação de um ente querido se tornou. À noite. o de obrigar nossos concidadãos a agir como se não tivessem sentimentos individuais. cada um de nossos concidadãos continuara suas ocupações conforme pudera. uma das consequências mais importantes do fechamento das portas foi a súbita separação em que foram colocados seres que para isso não estavam preparados. no seu lugar habitual. Fechem a cidade”. era impossível levar em conta os casos particulares. sem dúvida. Era insuficiente se a epidemia viesse a se alastrar. metidos no mesmo barco e que era necessário ajeitar-se. esposos. Bernard Rieux olhava o telegrama oficial que o prefeito lhe estendera. que. Era suficiente para os casos em tratamento. Durante esse tempo. E. Depois.chegava por avião. ao longo das calçadas.

recusaram-se a assumir responsabilidades cuja extensão não podiam prever. a essa conversa árida com uma parede. a cidade já não estava ligada ao resto do país pelos meios de comunicação habituais e. sobrepondo a qualquer prudência o desejo de rever os parentes. Algumas famílias. No entanto. a copiar as mesmas informações e os mesmos apelos. E como. Mas logo estabeleceu que os repatriados não poderiam. alguém teve a ideia de perguntar se o regresso dos que haviam partido antes da epidemia podia ser autorizado. quando os próprios guardas se convenceram realmente da gravidade da situação. Alguns. por meio dessas frases mortais. alguns dias depois. um novo decreto proibiu a troca de qualquer correspondência. depois de um certo tempo. obstinavam-se em escrever e. A bem da verdade. foram necessários vários dias para que nos déssemos conta de que nos encontrávamos numa situação sem compromissos e que as palavras ”transigir”. Penso em ti. contudo. perdiam o seu sentido. estritamente limitadas aos chamados casos urgentes. ao fim de algum tempo. nós as copiávamos maquinalmente. então. Até mesmo a leve satisfação de escrever nos foi recusada. . Mesmo quando alguns dos meios que tínhamos imaginado obtinham êxito. em caso algum. nosso único recurso. se bem que. convidaram estes últimos a aproveitar a ocasião. finalmente. a fim de evitar que as cartas pudessem transformar-se em veículos de infecção. Os telegramas tornaram-se. a prefeitura respondeu afirmativamente. a esse monólogo estéril e teimoso. alguns privilegiados puderam chegar às portas da cidade e entender-se com sentinelas dos postos de guarda que concordaram em facilitar a passagem de mensagens para o exterior. reduzidos a recomeçar sempre a mesma carta. Por um lado. longas vidas em comum ou paixões dolorosas resumiram-se rapidamente numa troca periódica de fórmulas feitas como ”Estou bem. provocaram tal congestionamento nas cabines públicas e nas linhas. não o seriam para tornar a partir. voltar a sair da cidade e que. ”favor”. As comunicações telefónicas interurbanas. quando se tornou evidente que ninguém conseguiria sair da cidade. por outro. ditadas pelo coração. Então. não levaram a situação a sério e. o apelo convencional do telegrama parecia-nos preferível. Depois de alguns dias de reflexão. A princípio. se eram livres para vir. por não recebermos qualquer resposta. na realidade. para se corresponder com o exterior. autorizadas a princípio. as fórmulas que se podem utilizar num telegrama se esgotam depressa. dar sinais 50 de nossa vida difícil.ue foram totalmente suspensas durante alguns dias e. sem trégua. . ficávamos sem sabê-lo. as palavras de sangue. nascimento e casamento. depois. poucas aliás.49 tempo. tentando. E. Saudades”. igualmente impossíveis de examinar. então. como morte. Isso era ainda nos primeiros dias da epidemia. imaginavam estratagemas que acabavam sempre por se revelar ilusórios. em que os guardas achavam natural ceder a sentimentos de compaixão. Durante semanas ficamos. pelo coração e pela carne ficaram reduzidos a procurar os sinais dessa comunhão antiga nas maiúsculas de um telegrama de dez palavras. Seres ligados pela inteligência. Aliás. ”exceção” já não tinham sentido. com efeito.

E. assumia um novo aspecto. Chegava sempre um momento em que nos .No entanto. ao mesmo tempo. essas flechas ardentes da ’memória. e em seguida. diante dessa verdade subitamente revelada. Maridos e amantes que tinham a maior confiança nas companheiras revelavam-se ciumentos. reduzidos a vagar sem destino pela cidade triste e entregues. Mas essa separação brutal e prolongada os capacitara a afirmar que não conseguiam viver afastados um do outro e que. numa cidade tão pequena. segundo todas as probabilidades. casados há tantos anos. o sentimento que fazia a nossa vida e que. e o narrador está em condições de dizer que. os caminhos eram precisamente os que. Não eram sequer um desses casais que oferecem ao mundo o exemplo de uma felicidade invejável. aliás. o desejo irracional de voltar atrás ou. o que ele próprio sentiu então. nesses momentos. essa emoção precisa. Sim. era realmente o sentimento do exílio esse vazio que trazíamos constantemente em nós. sem meio-termo. dia após dia. haviam percorrido com o ausente. Assim. têm paixões simples). não eram dois amantes. como já foi dito. Se algumas vezes dávamos asas à imaginação e nos comprazíamos em esperar pelo toque de campainha que anuncia o regresso. Na verdade. para todos nós. se. ou pelos passos familiares na escada. a peste deixava-os ociosos. era evidente que a separação não devia cessar senão com a epidemia. E o narrador está convencido de que pode escrever aqui. só se viu um caso em que os sentimentos humanos foram mais fortes que o medo de uma morte torturada. Mme Gastei dirigira-se a uma cidade vizinha. nossos concidadãos teriam encontrado uma solução numa vida mais exterior ou mais ativa. até então. Tratava-se de uma exceção. mal olhando para ela. em primeiro lugar. Homens que se julgavam volúveis no amor redescobriam-se constantes. não tinham a certeza de estarem satisfeitos com a sua união. eram levados a passar sempre pelos mesmos caminhos e a maior parte das vezes. que ocupava agora nossos dias. esposa ou amante. de acelerar a marcha do tempo. ainda tão próxima e já tão distante. sofrimento que atribuíamos aos ausentes: filho. incapazes de reagir contra a 51 lembrança dessa presença. Na maioria dos casos. depositavam toda a preocupação e angústia numa ruga de seu rosto que lhe povoava a lembrança. no entanto. acima do sofrimento. Essa separação brutal. deixava-nos perturbados. nos seus passeios sem rumo. No momento mais grave da doença. Alguns dias antes da epidemia. os prisioneiros da peste logo compreenderam o perigo a que expunham os parentes e resignaram-se a sofrer a separação. Mas. já que o sentiu ao mesmo tempo que muitos dos nossos concidadãos. consentíamos em esquecer que os trens estavam imobilizados. Filhos que tinham vivido junto da mãe. sofríamos duas vezes: o nosso sofrimento. aos jogos enganosos da recordação. pois. esses esposos. a primeira coisa que a neste trouxe a nossos concidadãos foi o exílio. Tratava-se apenas do velho Dr. esses jogos obviamente podiam durar. se nos organizávamos para ficar em casa à hora em que normalmente um viajante podia ser trazido pelo expresso da tarde até nosso bairro. a peste era coisa sem importância. pelo contrário. em nome de todos. Gastei e de sua mulher. julgávamos conhecer bem (os naturais de Oran. Em outras circunstâncias. sem futuro previsível. que o amor atirava um para o outro. em outra época. Ao contrário do que se poderia esperar.

Impacientes com o presente. quando ainda podiam fazê-lo. em seis meses. Sabíamos. abandonados a dias sem rumo e recordações estéreis. afinal. E assim encalhados a meia distância entre esses abismos e esses cumes.dávamos conta claramente de que os trens não chegavam.assim como misturavam o ausente a todas as circunstâncias de sua vida de prisioneiros. todos os nossos concidadãos se privaram muito depressa. então. os olhos baixos. junto a esse ou aquela que esperavam . tinha apenas o gosto do arrependimento. e erguido. não havia razão para que a doença não durasse mais de seis meses. dos momentos bastante frequentes em que podiam esquecer a peste nas imagens de seu futuro reencontro. Esse próprio passado. Experimentavam assim o sofrimento profundo de todos os prisioneiros e de todos os exilados. e o resultado não podia satisfazê-los. do hábito que porventura tivessem adquirido de calcular o prazo da sua separação. baixar a guarda para recusar o combate. Então. com grande esforço. por assim dizer. Em particular. o desmoronar da coragem. um anúncio de jornal. talvez um ano. uma suspeita fugaz ou uma brusca clarividência despertava a ideia de que. Na verdade. na maior parte dos casos era o exílio em casa. se obstinava no silêncio. sobre o qual refletiam sem cessar. um conhecido. estirado numa tão longa sequência de’dias. essa prudência. então. que nossa separação estava destinada a durar e que devíamos tentar entender-nos com o tempo. através da imaginação. da vontade e da paciência era tão brusco. Nesse momento. Ao mesmo tempo em que evitavam esse desmoronamento que não queriam por preço algum. A partir de então. nos reintegrávamos. gostariam de poder acrescentar-lhe tudo quanto lamentavam não ter feito. a sua coragem ao nível dessa prova. às vezes. mesmo as relativamente felizes. recolocar em movimento os trens e encher as horas com os repetidos sons de uma campainha que. à nossa condição de prisioneiros. Por quê? É que. se havia exílio. ao experimentar as feridas que a imaginação finalmente inflige aos que nela confiam. logo renunciava. mesmo em público. estávamos reduzidos ao nosso passado e. inimigos do passado e privados do futuro. incapazes de se fortalecer a não ser aceitando enraizar-se na terra de sua própria dor. quando os mais pessimistas o tinham avaliado. o único meio de escapar a essas férias insuportáveis era. parecíamo-nos assim efetivamente com aqueles que a justiça ou o ódio humano fazem viver atrás das grades. ou seja. naturalmente. na verdade. reunindo as últimas forças para continuar sem vacilar à altura desse sofrimento. afinal. restringiam-se a não pensar mais na libertação. sombras errantes. a não se voltar para o futuro e a manter sempre. Mas. viver com uma memória que não serve para nada. Para terminar. quando haviam esgotado 52 antecipadamente toda a amargura dos meses vindouros. E. privavam-se. ainda que alguém fosse tentado a viver no futuro. que lhes parecia que não poderiam jamais sair desse precipício. embora o narrador só . por exemplo. mais flutuavam que viviam. essa maneira de enganar a dor. ou mais. Mas. eram mal recompensadas. no entanto.

chamando em silêncio pelas noites que só eles conheciam e pelas manhãs de seu país. como em todos. fortalecer o caráter. consentir na dor. recordar o seu amor e examinar-lhe as imperfeições. do ente a que não podiam juntar-se e de seu próprio país. Era-lhes fácil. com o tempo. Para alguns de nossos concidadãos. diante do céu. que víamos vagando a todas as horas do dia pela cidade poeirenta. que o nosso permanecesse medíocre. pelo contrário. Esse abandono geral que podia. não deve esquecer aqueles. essa desgraça que nos vinha do exterior e que atingia toda uma cidade não nos trazia apenas um sofrimento 54 injusto. estavam também presos ao espaço e chocavam-se sem cessar de encontro aos muros que separavam o seu refúgio empestado da pátria perdida. Em épocas normais. Lamentavam o desconhecimento de como empregava o seu tempo. Eram esses. acusavam-se de seu descuido em informar-se disso e de como haviam fingido acreditar que. Fechavam os olhos sobre esse mundo exterior que pode sempre salvar de tudo. como o jornalista Rambert ou outros. conscientemente ou não. entre as quais é preciso assinalar o remorso. eram os mais exilados. E. duas ou três colinas. como um voo de andorinha. eles eram ’então submetidos a uma outra . Mas a recordação é mais exigente. Essa era uma das maneiras que a doença tinha de desviar a atenção e de baralhar as cartas. a partir desse momento. que não há amor que não se possa superar e aceitávamos. para quem. Encontravam-se eles ainda atormentados por outras angústias. Assim. fazendonos. com que teríamos podido indignar-nos: levava-nos a incitar mais sofrimentos em nós mesmos. ao mesmo tempo. o emprego do tempo do ser amado não é a fonte de todas as alegrias. No exílio geral. porque viajantes surpreendidos pela peste e retidos na cidade se encontravam afastados. a angústia que lhe é própria. no entanto. em perseguir com todas as forças as imagens de uma terra em que uma certa luz.tenha conhecido o 53 exílio de todos. obstinados em acariciar suas quimeras demasiado reais e. só. Alimentavam então a sua dor com sinais imponderáveis e mensagens desconcertantes. muito logicamente. para um ser que ama. E era raro que nessas ocasiões suas próprias fraquezas não lhes aparecessem mais claramente. assim. falemos mais expressamente dos amantes: são os de mdior interesse e deles o narrador está talvez mais habilitado a falar. permitia-lhes analisar o seu sentimento com uma espécie de objetivídade febril. as agruras da separação se intensificam. A primeira ocasião que encontravam para isso estava na dificuldade que tinham em imaginar com precisão os atos e os gestos do ausente. pois se o tempo despertava neles. um orvalho de poente ou os estranhos raios que o sol às vezes abandona nas ruas desertas. começava no entanto por torná-lo fútil. Afinal. cada um teve de aceitar viver o dia-a-dia. na verdade. por exemplo. Essa situação. a árvore favorita e rosto de mulheres . sabíamos todos. com maior ou menor tranqüilidade. sem dúvida.compunham um ambiente para eles insubstituível.

o egoísmo do amor os preservava e. a peste colocava guardas às portas e desviava os navios que faziam rota para Oran. a resposta caía sempre no vazio. no meio da epidemia. as dores mais verdadeiras adquiriram o hábito de se traduzir em fórmulas banais de conversação. uma melancolia em série. A animação habitual que . o ser que vivia com eles se colocava diante do seu universo. diretamente. seu pensamento estava inteiramente voltado para o ser que esperavam. teve-se a impressão de que os automóveis andavam sempre em círculos. pelo menos. e cada um ficava só com sua preocupação. a dor que se vende nos mercados. uma distração salutar que se era tentado a considerar como sangue-frio. se acontecia que um deles fosse levado pela doença. por acaso. numa certa medida. pelo contrário. Haviam escapado há algumas semanas dessa fraqueza e dessa escravidão absurdas porque não estavam sós diante do mundo e porque. enquanto os dias de chuva lhes punham um véu espesso sobre o rosto e os pensamentos. Tinham. Ainda nesse caso. de maneira convencional. Compreendia então que ele e o interlocutor não falavam da mesma coisa. Na verdade. A partir desse instante. de certo modo. resignavam-se a adotar a língua dos mercados e a falar. Ao vê-los. foram privilegiados. com efeito. imaginava uma emoção convencional. Se alguém.servidão que os punha a serviço do sol e da chuva. nem um único veículo entrara na cidade. por mais dolorosas 55 que fossem essas angústias. e o que é mais importante. Amável ou hostil. era apenas na medida em que ela trazia à sua separação o risco de se tornar eterna. Ou. Só por esse preço podiam os prisioneiros da peste obter a compaixão dos porteiros ou o interesse dos ouvintes. Arrancado a essa longa conversa interior que mantinha com uma sombra. parecia que recebiam pela primeira vez. no primeiro período da peste. já que os outros não conseguiam encontrar a verdadeira linguagem do coração. pelo contrário. para o mais espesso silêncio da terra. Enfim. era preciso renunciar a ela. O desespero salvava-os do pânico. ficaram aparentemente entregues aos caprichos do céu. A partir desse dia. a do simples relato e do noticiário. era quase sempre sem que tivesse tido tempo de se precaver contra isso. O porto apresentava também um aspecto singular para aqueles que o olhavam do alto das avenidas. Enquanto nossos concidadãos tentavam acomodar-se a esse súbito exílio. pode-se dizer efetivamente que esses exilados. qualquer que fosse. Por exemplo. havia algo de bom na sua desgraça. O outro. a impressão do tempo que fazia. Entretanto. Depois do fechamento das portas. a resposta que recebia. no próprio momento em que a população começava a afligir-se. No desespero geral. apesar de vazio. nesses extremos da solidão ninguém podia contar com o auxílio do vizinho. ele se exprimia do fundo de longos dias de ruminação e de sofrimentos. o que significa que sofreram e esperaram sem razão. tentava fazer confidências ou dizer alguma coisa do seu sentimento. para aqueles a quem o silêncio era insuportável. era então lançado. sem transição. magoava na maior parte das vezes. por mais pesado que estivesse esse coração. Suas fisionomias alegravam-se à simples visita de uma luz dourada. da crónica cotidiana. e a imagem que queria transmitir ardera muito tempo no fogo da espera e da paixão. também eles. se pensavam na peste. Não tivera tempo para nada.

até ficar quase nulo. Só os produtos indispensáveis chegavam por terra e pelo ar a Oran. trocavam mais gracejos que lamúrias e aparentavam aceitar com bom humor inconvenientes evidentemente passageiros. A resposta do prefeito. apesar de tudo. pequenos vagões deitados de lado. parece que nossos concidadãos tinham dificuldade em compreender o que lhes acontecia. Foi assim que se viu o trânsito diminuir progressivamente. sem dúvida desagradável. mas. diariamente. contudo. diante 56 das críticas de que a imprensa se fazia eco . Mas nos cais. Por um lado. não eram covardes. Prescreveu-se até a economia de eletricidade.foi bastante imprevista. as pilhas solitárias de barris ou de sacos testemunhavam que também o comércio tinha morrido de peste. as lojas de luxo fecharem de um dia para o outro. com efeito. Na verdade. O número de pedestres tornou-se mais . Continuavam assim a circular nas ruas e a sentar-se às mesas dos cafés. racionada. Apesar desses espetáculos inéditos. à agência. era culpar as autoridades.o tornava um dos primeiros portos da costa extinguira-se bruscamente. era eloquente. irritavam-se. Ignorava-se se essa proporção de óbitos era normal. tivessem a impressão de que se tratava de um acidente. Este foi limitado e a gasolina. A maior parte era sobretudo sensível ao que perturbava seus hábitos ou atingia seus interesses. outras guarnecerem as vitrines com cartazes negativos. Oran assumiu assim um aspecto singular. Ao público faltavam. ninguém na cidade sabia quantas pessoas morriam por semana em tempos normais. mantidos em quarentena. em meio à sua inquietação. A cidade tinha duzentos mil habitantes. Impacientavam-se. As aparências estavam salvas. ao constatar o aumento das mortes. Para começar. mais ou menos durante a semana de preces de que se falará mais adiante. Ninguém aceitara ainda verdadeiramente a doença. A primeira reação. enquanto filas de compradores se formavam diante de suas portas. apesar do interesse evidente que apresentam. É esse o género de detalhes com que nunca nos preocupamos. transformações mais graves modificaram o aspecto da nossa cidade. trezentos e quarenta e cinco. Por outro lado. Mas não era bastante forte para impedir que nossos concidadãos. O aumento. No fim do mês. de algum modo. como a separação ou o medo. No conjunto. Havia os sentimentos comuns. grandes guindastes desarmados. Viam-se ainda alguns navios. Até então nem os jornais nem a Agência Ransdoc tinham recebido qualquer estatística oficial sobre a doença. Mesmo nesse caso. talvez nem todos tivessem morrido de peste. pedindo-lhe a publicação de uma nota semanal. o anúncio de que a terceira semana de peste somava trezentos e dois mortos não falava à imaginação. a reação do público não foi imediata. por exemplo. que a opinião pública tomou consciência da verdade. O prefeito passou a comunicá-la. pelo menos. no entanto. e esses não são sentimentos que se possam contrapor à peste.”Não se poderiam propor medidas mais flexíveis que as adotadas?” . pontos de referenciai Foi só com o tempo. temporário. o prefeito tomou medidas relativas à circulação dos veículos e ao abastecimento. mas continuavam a colocar em primeiro plano as preocupações pessoais. a quinta semana deu trezentos e vinte e um mortos e a sexta.

espalhando afirmações otimistas. . E o outro acrescentou. e que tinham encontrado latas de conservas debaixo da cama quando foram 58 l buscá-lo para levá-lo ao hospital. Suas receitas contudo não diminuíam.Diga-me. mata a febre”. Mas os circuitos que os filmes cumpriam normalmente eram interrompidos. Por ora. dois dias depois de fechadas as portas.considerável e. Rieux encontrou Cottard. as coisas vão muito bem . . A peste não compensa. ”Morreu lá. puderam igualmente servir os clientes. Ao sair do hospital.Sim. Caminharam um momento juntos. graças ao considerável estoque a :umulado numa cidade onde o comércio de vinhos e álcool ocupa o primeiro lugar. por exemplo. um número considerável de bêbados expulsos dos cafés enchia as ruas. dizia-se . e sob um belo céu. Ao fim de duas semanas. Cottard contou que um grande merceeiro do seu bairro armazenara géneros alimentícios para vendê-los mais caro. cheio de histórias. O médico concordou.respondeu o homenzinho. hem? A coisa está começando a ficar séria. Todas essas modificações porém. reduzidas à inação pelo fechamento dos 57 armazéns ou de certos escritórios. que levantou para ele um rosto que era a própria imagem da satisfação. em certo sentido. A bem da verdade. por volta de dez horas. cujo trânsito e comércio tivessem sido fechados para permitir a realização de uma manifestação pública e cujos habitantes tivessem invadido as ruas para participar do regozijo. a impressão ilusória de uma cidade em festa. O resultado era que continuávamos a colocar em primeiro lugar nossos sentimentos pessoais. muitas pessoas. Oran dava então. Finalmente os cafés. Rieux felicitou-o pela aparência. até nas horas mortas. Todas as noites. e essa maldita peste. bebia-se muito. que não era fácil considerá-las normais e duradouras.” Cottard estava assim. doutor. o Dr. acabavam projetando sempre o mesmo filme. Naturalmente. Por exemplo. com uma espécie de prazer: . já natural no público. eram tão extraordinárias e tinham-se realizado tão rapidamente. enchiam as ruas e os cafés. algum tempo depois. de que o álcool evitava doenças infecciosas reforçou-se na opinião geral. Vai ficar tudo de pernas para o ar. mas de licença. a ideia.Agora não há razão para que ela pare. por volta das três horas da tarde. os cinemas se aproveitavam dessas férias generalizadas e faziam um bom negócio. sobre a epidemia. falsas ou verdadeiras. Como um café tivesse anunciado que ”quem vinho bebe. os cinemas foram obrigados a trocar os programas e. não estavam ainda desempregadas.

num tom amável que não combinava com sua afirmação -. vamos todos ficar loucos. como observou Rieux. Não me sinto feliz por partir. mas não é necessário ser feliz para recomeçar. Jeanne e ele nunca saíam do bairro. trabalha. Joseph Grand. Quando estava de folga. Vira a fotografia da Sra. o futuro lentamente fechado. E. . desproporcionados. com toda a certeza. Mais tarde. ele deixara correr as coisas. ”Gostei muito de você. Trabalha tanto que se esquece de amar. pela primeira vez desde que Rieux o conhecia. Provavelmente. certa manhã. Ia vê-la em casa.Compreendo. que Grand não podia vê-la atravessar uma rua sem sentir angústia. ficara: acontece que se sofre muito tempo sem saber. diante de uma loja enfeitada para o Natal.não há lugar para a paixão num tal universo. em resumo.que. e os pais de Jeanne riam-se um pouco desse pretendente silencioso e desajeitado. Rieux em cima da mesa e olhara para o médico. tinha sofrido. era muito simples. Um dia. Os anos tinham passado. dizendo: ”Como é bonito”. .Ah! . Foi assim que o casamento foi decidido. viam-no sempre sentado a um canto. era preciso um pouco de imaginação para compreender o que Grand queria 59 dizer. olhando o movimento da rua.Bem . Teria podido recomeçar.exclamou Grand. . ama ainda um pouco. Rieux respondeu que sua mulher estava se tratando fora da cidade. a pobreza. O resto da história. Jeanne.observava Cottard.” O médico respondeu que sem dúvida era uma sorte e que era apenas necessário ter esperança de que sua mulher se curasse. ela partira. É o mesmo para todos: a gente se casa. Era tão pequena. Na verdade. O pai era ferroviário. ”é uma sorte. maravilhada. ”Em certo sentido”. já que as promessas do chefe da repartição não tinham sido cumpridas. Os veículos pareciam-lhe. um homem que apresentava os sinais da peste. o que ela lhe escrevera. então. com as mãos enormes pousadas nas coxas. A mãe cuidava sempre da casa e Jeanne ajudava. conseguia quase sempre encontrá-las. Jeanne tinha sofrido. pensativo. . por sua vez. Um homem que trabalha. Tinha-se casado muito jovem com uma moça pobre da vizinhança.” Eis. Embora procurasse ainda as palavras. no delírio da doença. o silêncio das tardes em redor da mesa . voltara-se para ele. enquanto gritava que contraíra a peste. Da mesma forma. na tarde do mesmo dia. atirando-se sobre a primeira mulher que encontrara. não partira só. no centro. dissera Grand. mas agora estou cansada. Jeanne trabalhava também. . segundo Grand. como se tivesse pensado há muito no que estava dizendo. tinha-se calado cada vez mais e não cultivava na jovem mulher a ideia de que era amada. Ele apertaralhe o pulso. Rieux. que olhava a vitrine. . Aqui. Fora justamente para se casar que interrompera os estudos e arranjara um emprego. abraçando-a. tinha-se precipitado para a rua. com a ajuda do cansaço. pôs-se a falar com exuberância. Contudo. Joseph Grand acabara fazendo confidências pessoais ao Dr. perto da janela.

esclareceu o outro . Pensara. os correios tinham-no mandado voltar da porta. Durante esse tempo. sim . . . somos compreendidos sem palavras. eu devia ter encontrado palavras para retê-la. Rieux propôs-lhe caminharem até o dispensário do 60 } centro. Rieux encontrou. Para dizer a verdade. mas era a mesma coisa. não era sua mulher.” Grand assoavase numa espécie de guardanapo xadrez. . Chamo-me Raymond Rambert. um jovem que o esperava. Telegrafara-lhe logo que a cidade foi fechada. mas a cidade. acabara fazendo com que aceitassem mandar um telegrama. limpou o bigode. pois tinha algumas ordens a dar.Suponho . agora tem um belo assunto de reportagem.Desculpe . Três semanas depois de a cidade ser fechada.disse-lhe este último . que se tratava de um acontecimento provisório e procurara apenas corresponder-se com ela. O outro parecia nervoso. Os colegas de Oran tinham-lhe dito que nada podiam fazer. mas não consegui. . Rieux o observava. doutor . . entre os muros axuis. um secretário da prefeitura rira-se na sua cara. A noite se aproximava. primeiro. . -Mas uma pessoa não ama sempre. mas não conheço ninguém nesta cidade e o correspondente do meu jornal tem a infelicidade de ser imbecil.Antes desses acontecimentos . Informou que não se tratava disso e que vinha pedir auxílio ao Dr. Depois de esperar duas horas numa fila. Alguns toques de clarim no céu ainda dourado testemunhavam apenas que os militares se davam ares de cumprir o dever. que ela devia continuar a tratar-se e que pensava nela.Desculpe. continuava a pensar nela.disse o velho -. dizia. ao sair do hospital. Enquanto somos amados. Desceram as ruelas do bairro negro. parecia curiosamente solitária. Visivelmente. À noite. muito agitado. mas como dizer? Tenho confiança no senhor. Rieux. . Rambert falava.Mas faltava-lhe fé. Até breve”. antes tão barulhenta a essa hora.Bem.respondeu Rieux. mas hesitava. De modo que isso me comove. Simplesmente.Rieux julgava conhecê-lo. . ao longo das ruas íngremes.que se lembra de mim. Grand estava a mil léguas da peste. cor de ocre ou roxos das casas mouriscas. O que teria desejado seria escrever-lhe uma carta para se justificar. Sinto que posso falar. que ele estava bem.acrescentou -. Em dado momento.Ah. onde tinham escrito: ”Tudo vai bem. Deixara a mulher em Paris. ”Mas é difícil”. Rieux telegrafou para a mulher a fim de dizerlhe que a cidade estava fechada. Depois.vim pedir-lhe informações sobre as condições de vida dos árabes. ”Há muito tempo que penso nisso.

.continuou Rambert. o jornalista tinha um ar teimoso e . Nenhum sorria. Chegavam ao centro da cidade. Para concluir. mas não podiam abrir exceções. que se encontrava lá por acaso e que era justo que o deixassem ir embora. a situação era grave e não podia decidir nada.É uma estupidez. cinzentos de poeira. os números estavam ainda muito frescos na memória. Rambert encolhia os ombros. em resumo. Rieux pensou que era o resultado da comunicação que a Ransdoc fizera nesse dia. ao levantar-se. viera-lhe bruscamente o pensamento de que afinal não sabia quanto tempo aquilo podia durar. . tem-se certas facilidades). Mas talvez tenha vindo ao mundo para viver com uma mulher. Nesse mesmo dia. Creio que isso me seria útil. compreenda. agarrou um rapazinho que se atirava nas suas pernas e recolocou-o suavemente de pé. . ia ver. Ao fim de vinte e quatro horas. conseguira falar com o chefe do gabinete do prefeito e disseralhe que não tinha nenhuma ligação com Oran. . esperemos que a epidemia não dure muito. à volta de uma estátua da República empoeirada e suja. porém. apesar de tudo. Não é a ordem natural das coisas? 61 Rieux respondeu que pelo menos isso lhe parecia razoável. imóveis. mas que. O chefe do gabinete respondera-lhe que compreendia muito bem.dissera Rambert -.Queria apenas perguntar-lhe se podia passar-me um atestado. Nas ruas do centro não havia a multidão habitual.Sem dúvida. mal-barbeado.mas. tinha tentado consolar Rambert. Rieux bateu no chão os pés cobertos de uma camada esbranquiçada. . uma vez lá fora. com o chapéu ligeiramente para trás.É que .Mas. Olhou para Rambert. Eu não vim ao mundo para fazer reportagens. Decidira partir. o obrigassem a fazer uma quarentena. ainda que.Mas de manhã. doutor. Como era recomendado (na sua profissão. nossos concidadãos recomeçavam a ter esperança. Alguns transeuntes dirigiam-se apressadamente para suas casas distantes. Os ramos de fícus e das palmeiras pendiam. afinal . Partiram de novo e chegaram à Place d’Armes. Rieux acenou afirmativamente com a cabeça. eu sou um estranho nesta cidade. o colarinho desabotoado debaixo da gravata. em que se afirmasse que não tenho essa maldita doença. Rieux não dizia nada.Mas eu o estou amolando . que não tinha nada que ficar.disse Rambert sem mais nem menos eu e ela encontramo-nos há pouco e entendemo-nos muito bem. observando que podia encontrar em Oran matéria para uma reportagem interessante e que todo acontecimento tinha o seu lado bom. . .

será daqui. mas que falava a linguagem da evidência. . .vou deixar esta cidade. Essa história é tola. bem sei.A partir de agora. .disse por fim Rieux -. com amargura -. . apesar de tudo. desejava que Rambert voltasse e reencontrasse a mulher e que todos os que se amavam se reunissem.? .interrompeu Rambert. o que não era obrigatoriamente a mesma coisa. não posso atestar que entre o segundo em que sair do meu consultório e aquele em que entrar na prefeitura.E ainda que. ele não lhe serviria para nada.Não é razão suficiente.Mas não sou daqui! . não a tenha contraído. eximo todo mundo. E ainda que.Por quê? . . .insistiu Rambert. com todas as suas forças. infelizmente. O jornalista ajeitou a gravata. O médico levantou os olhos para a estátua da República e esclareceu que não sabia se falava a linguagem da razão. Rieux não respondeu imediatamente. . o senhor não pode compreender.Então isso significa que tenho de arranjar-me de outra maneira? Mas . O senhor fala a linguagem da razão. havia a peste e o seu papel era fazer o que era necessário. ser autorizados a sair. . mas seu raciocínio não é correto. .Ainda que eu lhe desse esse atestado. . Não posso passar-lhe o atestado. ignoro se o senhor tem ou não essa doença. fala de modo abstrato. mesmo nesse caso.É uma questão de humanidade. 62 . e porque. O outro animava-se.irritado. mas havia decretos e leis. . juro.Não . Talvez não compreenda o que significa uma separação como esta para duas pessoas que se entendem bem.Mas e se eles não tiverem a peste? .Porque há na cidade milhares de homens na sua situação que não podem. . mas diz respeito a todos. Depois disse que julgava compreender. É preciso aceitá-la como é. pois. na verdade. .Pode ter certeza de que o compreendo .prosseguiu com uma espécie de desafio .

por exemplo. dirigir-se a esse hospital auxiliar . que não quisera levá-lo em conta. Rieux viu-o entrar no hotel onde vivia Jean Tarrou.de que estava encarregado. Mas teria razão quando o acusava? ”O senhor vive na abstracão.Dirigi-me ao senhor porque me disseram que tinha um papel importante nas decisões tomadas. O outro abanou a cabeça com impaciência. . Pensei então que.Vai falar do serviço público. Não era fácil. O doente era transportado para sua ilha. um plano em que podiam encontrar-se.murmurou. .e agora havia três . no centro do qual se encontrava uma ilhota de tijolos. é necessário que nos ocupemos da abstracão. Mas isso lhe é indiferente.Sim.Sim.Sim. que parecia sair de um devaneio. Não levou em conta os que estavam separados. O solo cavado formava um lago de água com creolina. certamente. . E roubei-lhe muito tempo. em certo sentido. há coisas que minhas funções me proíbem de fazer. Mas o interesse público é feito da felicidade de cada um. Simplesmente. E Rieux sabia apenas que isso era o mais fácil. . .Não é só isso. Rieux pediu-lhe que o mantivesse a par das suas providências e que não lhe guardasse rancor.Ah! Compreendo . O jornalista tinha razão na sua impaciência de felicidade. Improvisara. Rambert pareceu subitamente perplexo. com um súbito lampejo. Rieux reconheceu que. num cómodo que dava para o consultório. o médico abanou a cabeça. . o senhor poderia desfazer o que fora feito com sua contribuição. isso era verdade. havia na desgraça uma parte y) de abstracão e de irrealidade.disse o médico.afirmou Rambert. Mas o senhor não tem razão em se zangar. coberto com a . despido rapidamente e as roupas caíam na água.” Eram realmente abstracão esses dias passados no hospital. Havia. Hesitou. elevando a quinhentas a média de vítimas por semana? Sim. . faço mal em me zangar. mas que não tinha nada com isso.O médico respondeu-lhe que o compreendia ainda. enxuto. Mas quando a abstração começa a matar-nos. ficarei profundamente feliz.Acho que sim . Logo depois. onde a peste se saciava em dobro.respondeu Rambert. . 63 . Mas não posso concordar com o senhor. ao menos em um caso. apesar de tudo o que me disse. Não se deve julgar ninguém. tem .Vamos . uma sala de recepção. Se puder encontrar uma solução. Lavado. depois de um silêncio. Puxou o chapéu para a testa e partiu com um passo rápido. Não pensou em ninguém.

como abstração. a inchação dos gânglios. ao todo. preferindo a convivência com a peste a uma separação cujo resultado agora conheciam. abertos os abscessos. Rieux podia partir. a peste. um pequeno apartamento decorado com leques e flores artificiais. todas as noites braços se agarravam aos de Rieux. promessas e prantos se precipitavam. Todas as noites as mães gritavam assim. Durante as primeiras semanas. a maioria dos quais ocupados. todas as noites as sirenes das ambulâncias desencadeavam crises tão vãs quanto qualquer dor. intervenções da polícia e.tinha piedade. Tinham sido obrigados a utilizar os pátios cobertos de. Começavam então as lutas. palavras inúteis. Era vigoroso e resistente. quando cada médico passou a ser acompanhado por um inspetor voluntário. das forças armadas. com um ar abstrato. uma escola. Depois.Mas com a continuação. levantando o lençol e a camisa. a abstração e a dificuldade. Rieux fora obrigado a esperar até a chegada da ambulância. ao fim de toda essa longa série de noites sempre semelhantes. na 64 . mais tarde. Na noite anterior sua mãe observara. e o doente era tomado de assalto. sem poder dominar-se. ficarei menos nervoso. Rieux verificava mais uma vez a estatística e voltava às consultas da tarde. Depois da recepção da manhã que ele próprio dirigia. tendo entrado em casa da Sra. fechavam-nas precipitadamente. Logo se ouvia ressoar a sirene da ambulância. E. Rieux só podia esperar por uma longa série de cenas iguais. Uma única coisa talvez mudava o próprio Rieux. No início. indefinidamente renovadas. Era preciso telefonar. j verdade. enfim. E ele. ”Piedade. quinhentos leitos. gritava. Loret. . Mas os parentes fechavam então a porta. Mas suas visitas. A mãe olhava para as pernas da filha e.Sim . Mas o doente era levado. sem . se tornavam insuportáveis. fazia visitas e voltava para casa muito tarde. mãe da empregada que trabalhava no hotel de Tarrou.dissera ele. investidas. ao entregar-lhe um telegrama da jovem Mme Rieux. Que significava isso? É evidente que ele. os vizinhos abriam as janelas e olhavam. que as mãos do filho tremiam. a persuasão. Mas isso não adiantava nada. em suma. Sim. todas as noites foram corno essa em que. diante de ventres expostos com todos os sintomas mortais. vacinados os doentes. junto ao monumento à República. foi recebido pela mãe. que lhe disse com um sorriso maldesenhado: . porém. a abstração.Espero que não seja essa febre de que todos falam. sem esperar a ambulância. que continha agora. Diagnosticar a febre epidêmica equivalia a mandar retirar rapidamente o doente. Na realidade. Rieux pôde correr de um doente para outro. contemplando em silêncio as manchas vermelhas sobre o ventre e as coxas. apenas consciente da indiferença que começava a invadi-lo. as lágrimas. dizia a Sra. passava às mãos de Rieux. Sentia-o nessa noite. sendo depois transportado para uma das salas. No início. pois a família do doente sabia que só voltaria a vê-lo curado ou morto. Então começavam. não estava ainda cansado. Mais tarde. Das primeiras vezes tinha-se limitado a telefonar e a sair para atender outros doentes.camisa áspera do hospital. doutor!”. era monótona. Loret. À noite. . por exemplo. Nessas casas superaquecidas pela febre e pela angústia desenrolavam-se cenas de loucura. Gritos.

De fato. Mostrara-se. O Padre Paneloux já se havia distinguido por colaborações frequentes no boletim da Sociedade de Geografia de Oran. Mas sabia também que chega o momento em que a abstração se mostra mais forte que a felicidade e que é preciso então. Mas podia isso ser sensível a Rambert? A abstração. Nessa ocasião. . tinha razão. Muito antes desse sermão. E na verdade. à sua maneira. De temperamento fogoso e apaixonado. deplorava precisamente o único enternecimento que Rieux podia então encontrar. A semana de preces foi seguida por um público numeroso. Para lutar contra a abstração. tinham dado a palavra ao Padre Paneloux. E na consciência desse coração lentamente fechado sobre si próprio. se afligia com o olhar vazio que pousava sobre ela. aceitara com determinação a missão de que o encarregavam. que lhe haviam granjeado um lugar à parte na sua ordem. Nessa ocasião não poupara duras verdades ao seu auditório. Rieux sabia que o jornalista. as autoridades eclesiásticas da nossa cidade decidiram lutar contra a peste com seus próprios meios.tirar os olhos da porta do hotel por onde Rambert desaparecera. Sabia que sua tarefa seria facilitada. onde suas reconstituições epigráficas constituíam autoridade. recebendo-o às duas da madrugada. defensor ardoroso de um cristianismo exigente. igualmente distanciado da libertinagem moderna e do obscurantismo dos séculos passados. Por isso se alegrava. Daí sua reputação. Essas manifestações da devoção pública deviam terminar no domingo com uma missa solene. e só então. já se falava dele na cidade e ele marcou. essa espécie de luta enfadonha entre a felicidade de cada homem e as abstrações da peste que constituiu toda a vida da nossa cidade durante esse longo período. onde uns viam a abstração. o jesuíta que assistira o velho Michel no princípio da doença. o santo atacado pela peste. Quando a mãe. sob a invocação de São Roque. No entanto. até certo ponto. por volta do fim do mês. Rieux compreendia que já não precisava defender-se contra a piedade. levá-la em consideração. Era o que devia acontecer a Rambert. e o médico pôde sabê-lo em pormenores pelas confidências que o jornalista lhe fez posteriormente. Há uns quinze dias que este abandonara seus trabalhos sobre Santo Agostinho e a Igreja africana. organizando uma semana de preces 66 coletivas. o médico encontrava o único lenitivo desses dias esmagadores. Pôde assim seguir. é preciso assemelhar-se um pouco a ela. 65 Ao final dessas semanas estafantes. por exemplo. Mas conquistara um auditório mais vasto que o de um especialista ao fazer uma série de conferências sobre o individualismo moderno. num novo plano. para Rambert. o fim do primeiro mês de peste foi obscurecido por uma recrudescência acentuada da epidemia e um sermão veemente do Padre Paneloux. No domingo de manhã. Ora. Não que em tempos normais os habitantes de Oran sejam particularmente piedosos. então. As pessoas cansam-se da piedade quando ela é inútil. era tudo o que se opunha à sua felicidade. uma data importante na história desse período. outros viam a verdade. depois de todos esses crepúsculos em que a cidade saía para as ruas para dar voltas sem rumo.

Um cheiro de incenso e de molhado flutuava na catedral quando o Padre Paneloux subiu ao púlpito. Ríeux: ”De qualquer maneira. estavam na expectativa. mudara. já que tinha vindo. muitos continuavam a esperar que a epidemia parasse e que eles fossem poupados. por um hábil processo oratório. Quando se apoiou ao rebordo do púlpito. sentiam efetivamente que algo. vós o merecestes”. transbordando até o adro e os últimos degraus da escadaria. apenas. que alcançava longe. Em suma. a assistência se tumultuou. que podia definir-se pela palavra ”objetividade”. E. Nos primeiros dias. mas robusto. Logo depois dessa frase. irmãos. o que se seguiu não parecia estar de acordo com esse exórdio patético. Logicamente. A maior parte dos que seguiram a semana de preces poderia ter feito sua a frase que um dos fiéis havia proferido diante do Dr. por um lado. A peste nada mais era para eles do que uma visita desagradável que havia de partir um dia. que para decidir a questão seria preciso estar informado sobre a existência de um génio da peste 67 e que a nossa ignorância sobre esse ponto tornava estéreis todas as opiniões que se pudessem ter. a peste tinha-lhes dado uma singular disposição de espírito. No entanto. apaixonada. caístes em desgraça. Os que estavam do lado de fora tinham aberto os guarda-chuvas. Desde a véspera. encimada pelas manchas de duas faces rubicundas sob os óculos de metal. Tinha uma voz forte. com a cidade fechada e o porto interditado. é óbvio. o céu tinha-se toldado. vão tocar tambor diante do génio da peste. muitos habitantes ficavam ainda nos jardins de palmeiras e romãzeiras que se estendem diante do pórtico para ouvir a maré de invocações e de preces que refluíam até as ruas. Por conseguinte. No que se refere à religião. com o auxílio do exemplo. a catedral de nossa cidade esteve quase cheia de fiéis durante toda a semana. o tema de todo o seu sermão. não se via nele senão uma forma espessa e negra. Tampouco foram iluminados por uma súbita conversão. como um golpe que se desfecha. no domingo. Paneloux citou o texto do êxodo relativo à peste do . Acrescentava. encontravam-se num estado de espírito bem singular em que. mas não desesperados. a chuva caía pesadamente. De qualquer modo. observava que era absolutamente impossível saber se. e quando atacou a assistência com uma única frase veemente e martelada: ”Irmãos. uma multidão considerável invadiu a nave. sem terem admitido no fundo de si próprios os acontecimentos surpreendentes que os atingiam. com suas famílias. o padre tinha dado de uma só vez. tão afastada da indiferença como da paixão. O próprio Tarrou. em casos semelhantes. Pouco a pouco. não chegara ainda o momento em que a peste lhes surgiria como a própria forma de sua vida e em que esqueceriam a existência que até agora tinham podido levar. Só a sequência do discurso fez compreender aos nossos concidadãos que.os banhos de mar fazem séria concorrência à missa. não se sentiam ainda obrigados a nada. os mesmos ouvintes decidiram-se a entrar e a mesclar uma voz tímida aos responsos da assistência. Assustados. mal não pode fazer”. os banhos não eram possíveis e. o instrumento se mostrava mais eficaz que as medidas profiláticas. como a muitos outros problemas. depois de ter anotado em seus cadernos que os chineses. apertando a madeira entre as mãos grandes. Mas. na realidade. Era de estatura mediana. por outro lado.

sem outro ruído que não fosse o ranger de alguma cadeira. belo como Lúcifer e brilhante como o próprio mal. Até lá. mais chamados que eleitos e essa desgraça não foi desejada por Deus. desiludido na sua eterna esperança. que alguns ouvintes. de vizinho a vizinho. Depois de uma curta pausa. que trazia uma lança de caça. tantos mortos havia que dela saíam”. alguém resfolegou como um cavalo impaciente. talvez. este mundo compactuou com o mal. Ela está lá. a lança ressoa sobre a madeira: mais um instante e a peste entra em vossa casa. que se tornou ainda mais profundo pelo crepitar da tempestade sobre os vitrais. o arrependimento viria por certo. tudo era permitido. e a peste o faz então cair de joelhos. a vã ciência humana. E tantas vezes quantas uma casa recebia pancadas. Pois bem! Isso não podia durar. ”é a mesma caçada mortal que hoje prossegue nas nossas ruas. repousou na misericórdia divina. O faraó opõe-se aos desígnios eternos. respirou profundamente e continuou. nem sequer. erguido acima dos vossos telhados. Desde o princípio de toda a história. empunhando a lança vermelha à altura da cabeça. num tom mais baixo: ”Lê-se na Legende dorêe que no tempo do Rei Humberto. mas os maus têm razão para tremer. que durante tanto tempo baixou sobre os homens desta cidade seu rosto de piedade. Nesse mesmo instante. Paneloux estendeu aqui os dois braços curtos na direção do adro. acabara de afastar o olhar. E. vede bem. de tal modo que. num tom mais veemente: ”Se hoje a peste vos olha. Bastava arrepender-se. Vede-o. o flagelo implacável baterá o trigo humano até que o joio se separe do trigo. Haverá mais joio que trigo. o padre continuou. o mais fácil era deixar-se levar. Outros julgaram que era necessário seguir o exemplo. deixaram-se deslizar da cadeira para o genuflexório. depois de um segundo de hesitação. A chuva redobrava lá fora e esta última frase pronunciada no meio de um silêncio absoluto. Os justos não podem temê-la. segura como a própria ordem do mundo. Chegado o momento. batidos 69 . paciente e atenta. E um anjo bom apareceu nitidamente dando ordens ao anjo mau. nenhum poder humano. eis-nos por muito tempo nas trevas da peste!” Na sala. o flagelo de Deus põe a seus pés os orgulhosos e os cegos. senta-se no vosso quarto e espera o vosso regresso. como se mostrasse alguma coisa por detrás da cortina móvel da chuva. Meditai sobre isso e caí de joelhos”. a misericórdia divina faria o resto. disse com força. na Lombardia. todo o 68 auditório se encontrou logo ajoelhado. ordenando-lhe que batesse nas casas. esse anjo da peste. Na imensa granja do universo. Privados da luz de Deus. Essa mão que ela vos estenderá. cansado de esperar. ”Meus irmãos”. o seu dedo se estende para a vossa porta. E para se arrependerem. designando com a mão esquerda uma de vossas casas. Deus. Essa peste castigava sobretudo Roma e Pavia. é porque chegou o momento de refletir. a Itália foi devastada por uma peste tão violenta que os vivos mal chegavam para enterrar os mortos. pode fazer com que a eviteis.Egito e disse: ”A primeira vez em que esse flagelo aparece na história é para atacar os inimigos de Deus. Por longo tempo. todos se sentiam fortes. ressoou com tal inflexão. Paneloux endireitou-se então.

a peste e a salvação. Este mesmo flagelo. a bem dizer. Ele queria ver-vos mais tempo. Há muito tempo. sem fraquejar. visitou todas as cidades do pecado desde que os horúèns têm história. a cólera e a piedade. sereis repelidos como a palha. com os cabelos caídos sobre a fronte. a misericórdia divina que colocou em todas as coisas o bem e o mal. que é preciso chegar ao essencial”. Para nossos espíritos mais clarividentes. os caminhos crepusculares que conduzem à libertação. é um olhar novo que lançais sobre os seres e as coisas. espalhando. enfim.na eira sangrenta da dor. apesar de tudo o que vos disse. corn~. e prosseguiu. cansado de esperar vossa vinda. a verdade é uma ordem. Pensastes que algumas genuflexões bastariam para pagar vosso desleixo criminoso. crepitando. o padre retomou. uma mão fraterna eram os meios de vos guiar para o bem. Um vento úmido infiltrava-se agora na nave e as chamas dos círios curvavam-se. atacando ao acaso e erguendo-se de novo. de angústias e de clamores. como esses o fizeram. Ele manifesta a vontade divina que. ele faz apenas valer esse clarão sublime de eternidade que j az no fundo de todo sofrimento. através dessa caminhada de morte. essa fúria de salvação não é recomendável. Essas atenções espaçadas não bastavam à sua ternura devoradora. os cristãos da Abissínia viam na 70 .” Aqui. ensanguentada. Ao fim desse longo período. E o caminho da salvação é uma lança vermelha que vos aponta e vos conduz. Evocou a imensa lança volteando por cima da cidade. o Padre Paneloux parou. perguntaram a si próprios aonde quero chegar. meus irmãos. deixou que o flagelo vos visitasse. como o souberam Caim e seus filhos. bem próxima do orgulho. e tudo o que pretende acelerar a ordem imutável que Ele estabeleceu de uma vez para sempre conduz à heresia. peste um meio eficaz. É aqui. Ele nos guia para o silêncio essencial e para o princípio de toda a vida. Um cheiro espesso de cera. um espirro chegaram até o Padre Paneloux. os de Sodoma e Gomorra. de origem divina. a imagem patética do flagelo. Eis por que. que. Sabeis agora o que é o pecado. Passou o tempo em que os conselhos. Ele ilumina esse clarão. o corpo agitado por um tremor que as mãos comunicavam ao púlpito. com mais amplidão ainda. Mas Deus não é fraco. que vos aflige. Hoje. os de antes do Dilúvio. Sabeis agora. o imenso consolo que queria . Mas. a única maneira de amar. para alcançar a eternidade. o sangue e a dor humana ”para as sementeiras que preparariam as searas da verdade”. o faraó e Jó e também todos os malditos. finalmente. prosseguiu com voz calma: ”Muitos dentre vós. é a sua maneira de vos amar que é. Hoje ainda. voltando à sua exposição com uma sutileza que foi muito apreciada. enfim. esse exemplo comporta uma lição. Os que não eram atingidos enrolavam-se nas roupas contaminadas para terem a certeza de morrer. mais surdamente mas em tom acusador: ”Sim. ao menos. que se manifesta. meus irmãos. bem o sei. Não se deve ser mais apressado que Deus. Sem dúvida. Pensastes que vos bastaria visitar Deus aos domingos para ficardes com vossos dias livres. Eis. chegou a hora de refletir. Ela revela uma precipitação lamentável. vos eleva e vos mostra o caminho. E. Quero fazer-vos chegar à verdade e ensinar-vos a vos regozijar. tosses. transforma o mal em bem. desde o dia em que esta cidade fechou seus muros em torno de vós e do flagelo.

por um crime desconhecido. vivendo assim sem socorro e sem esperança. Em primeiro lugar. Poucos dias depois do sermão. o juiz de instrução. Nesse mesmo momento as luzes de nossa cidade. Nem todos. o deslizar de veículos. Pois bem! Mathieu Marais era cego! Nunca. A princípio. Lembrou apenas que. a despeito do horror desses dias e dos gritos dos agonizantes. É difícil dizer se esse sermão produziu efeito sobre nossos concidadãos. a uma prisão inimaginável. o sermão tornou mais evidente para alguns a ideia. depois de ter mostrado a origem divina da peste e o caráter punitivo desse flagelo. sentiam confusamente que essa reclusão lhes ameaçava toda a vida e. para outros. sem procurar avançar. de que estavam condenados. pelo contrário. Deus faria o resto. mas também um verbo de paz”. ao dirigir-se para os subúrbios. é saber se na verdade a modificação estava na atmosfera ou nos corações. sob a tampa do céu em que o verão começava a crepitar. Um céu mesclado de água e de sol derramava sobre a praça uma luz mais brilhante. com um sussurro surdo. que . foi a partir desse domingo que houve em nossa . subitamente conscientes de uma espécie de sequestro. quer seja ou não por efeito de uma coincidência. evadirem-se dessa prisão. que comentava o acontecimento com Grand. Os ouvintes juntavam discretamente seus pertences. O Sr. Ele esperava. o padre retomou a palavra e disse que. Othon. tinha terminado e não faria apelo. por ocasião da grande peste de Marselha. as pessoas tinham aceito estar isoladas do exterior como teriam aceito qualquer outro inconveniente temporário que apenas perturbasse alguns de seus hábitos. mais que hoje. nossos concidadãos dirigissem ao céu a única palavra que era cristã e que era de amor. Mas. contra toda a esperança. Parecia-lhe que tudo devia ser claro para todos. A questão. vaga até então. Sentia-se que o Padre Paneloux terminara. para concluir. chegavam ruídos de vozes. Sob esse ponto de vista. pelo contrário. porém. o Padre Paneloux tinha sentido o socorro divino e a esperança cristã que eram oferecidos a todos. a partir desse momento. que. disse 71 ao Dr. chocou-se na escuridão contra um homem que cambaleava diante deles. Simplesmente. E enquanto uns continuavam a sua vidinha e se adaptavam à clausura. a energia que recuperavam com o frescor os lançava por vezes a atos de desespero. tinham uma opinião tão categórica. toda a linguagem de uma cidade que desperta. Entretanto. a uma eloquência que seria inoportuna em matéria tão trágica. chegada a noite. porém.vos trazer para que não leveis daqui apenas palavras que castigam. Da rua. Lá fora a chuva havia cessado. Rieux que tinha achado a exposição do Padre Paneloux ”absolutamente irrefutável”. a atmosfera de nossa cidade modificou-se um pouco. o cronista Mathieu Marais se queixara de estar mergulhado no inferno. Rieux.idade uma espécie de medo generalizado e bastante profundo para que se pudesse suspeitar que nossos concidadãos começavam verdadeiramente a tomar consciência da sua situação. a única ideia foi.

Esta brusca declaração surpreendeu Rieux. . Rieux perguntava a si próprio o que ele queria dizer.continuava o outro . no céu negro. ele se levante depois de ter lido e diga aos seus colaboradores: ”Meus senhores. que bebeu de um trago.É um louco . Em seu rosto esbranquiçado. . é que no dia em que o manuscrito chegar ao editor. para grande surpresa do médico. doutor.Ainda bem .concordou Rieux. Mas a questão não é essa. Em qualquer parte. Parecia preparar qualquer coisa. . com volubilidade.Sim. doutor. sentia a garganta seca. ainda bem . .que tenho meu trabalho. que ria sem ruído.disse Rieux -. as pessoas falavam em voz baixa. 72 No balcão.Ainda bem. isso é uma vantagem.Ainda lhe falta muito? Grand pareceu animar-se. Não.Sim . Lá fora. Grand. sem razão aparente. pediu aguardente. Depois quis sair. e declarou ser muito forte. Rieux adivinhava que ele agitara os braços. resplandeceram bruscamente. Vamos tomar qualquer coisa.se acendiam cada vez mais tarde. com o calor do álcool transparecendo na voz.Dentro em pouco. levando a mão à cabeça e trazendo o braço à posição horizontal. O alto lampião por trás deles iluminou subitamente o homem. . . a questão não é essa. com o cansaço. creio que estou no bom caminho.Não sei.O que eu quero. que veio bruscamente. Lá em cima. um sibilar surdo lembrou-lhe o invisível flagelo que agitava incansavelmente o ar quente. sentiu que o empregado municipal tremia de nervoso. de olhos fechados. parecia a Rieux que a noite estava cheia de gemidos. Rieux. No pequeno café em que entraram. . tirem o chapéu”. decidido a não escutar o sibilar. no ar espesso e avermelhado. perguntou a Grand se estava contente com esse trabalho. iluminado por um único lampião em cima do balcão. o estranho silvo parecia redobrar de intensidade. que acabava de pegá-lo pelo braço para arrastá-lo. E. . o suor corria em grossas gotas. . distendido por uma hilaridade muda. . não haverá senão loucos dentro de nossos muros . Parecia-lhe que o companheiro fazia o gesto de se descobrir.murmurava Grand.disse Grand. Na obscuridade. sabe.

. Comprendeu apenas que a obra em questão tinha já muitas páginas. A rigor. como este se situava num ponto alto. é fácil escolher entre ”mas” e ”e”. depois de hesitar. é saber se se deve ou não colocar o e. . O outro pareceu confuso e deu alguns passos para alcançá-lo. o que há. uma ligeira brisa refrescava-os.Compreendo .Desculpe . . é necessário que seja perfeito. Grand continuava a falar. . . . Grand deteve-se e agarrou o médico por um botão do casaco.Sim. convidou o médico a subir um momento. Já é mais difícil optar entre ”e” e ”depois”.Sente-se . e Rieux não compreendia tudo o que o homenzinho dizia. chegando a casa.disse Rieux. A folha tremia-lhe na mão. . e Rieux preferiu calar-se. . O outro pareceu acalmar-se um pouco e. Rieux aceitou. As palavras saíam trôpegas de sua boca malguarnecida. Faz-me mal.gaguejou. Também ele contemplava todas as folhas. Recomeçou a andar. Rieux bateu-lhe suavemente no ombro e disse que desejava ajudá-lo e que sua história lhe interessava muito.pediu o médico . e sua mão pareceu incontrolavelmente atraída para uma delas. . Contra a vontade. que levantou e colocou em transparência. limpando ao mesmo tempo a cidade de todos os seus ruídos. mas que o esforço a que seu autor se submetia para a levar à perfeição lhe era muito 73 doloroso. . Noites.e leia. Rieux tinha no entanto a impressão de que as coisas não se deviam passar tão simplesmente e que. diante da lâmpada elétrica sem cúpula.Compreenda bem. . às vezes com uma simples conjunção. deviam estar de cabeça descoberta.É verdade . Porém. escutava os rumores misteriosos da peste.Não sei o que tenho esta noite. .É minha primeira frase. porém.disse Grand ao médico. de mais difícil. sem dúvida. é que nunca se sabia. . é isto . Embora pouco a par dos hábitos literários. doutor.dizia Grand -. No entanto. semanas inteiras com uma palavra. faz-me muito mal. .. Chegavam ao bairro de Grand e. Rieux notou que o empregado municipal tinha a testa úmida.Rieux recusou. Olhava para as folhas de papel. por exemplo.Não olhe . nos seus gabinetes. Na sala de jantar. que o interrogava com o olhar. A verdade. A dificuldade aumenta com ”depois” e ”em seguida”.pediu Grand. Grand convidou-o a sentar-se diante de uma mesa coberta de papéis cheios de emendas feitas numa letra microscópica. Nesse ponto.Quer beber alguma coisa? Tenho um pouco de vinho. os editores.

Rieux levantou-se. .Acho. alguns de nossos concidadãos. de certo modo. Rieux já descia. A voz de Grand elevou-se 74 surdamente: ”Numa bela manhã do mês de maio. e que.Isso é apenas uma aproximação. depois sentou-se. e dois homens passaram por ele quando chegou à rua. pois. E. apesar da satisfação que lhe trazia. deixavam-se arrastar à violência e tinham tentado burlar a vigilância das barreiras para fugir da cidade. por vezes se dava conta de que ela ainda não se ajustava perfeitamente à realidade.dizia Grand. a ilusão será tal. tentavam também fugir dessa atmosfera de pânico nascente. Mas para isso faltava muito trabalho. O silêncio voltou e com ele o rumor indistinto da cidade. do mundo fechado que ela formava e dos uivos terríveis que ela sufocava na noite. como Rambert. quando a minha frase tiver o próprio ritmo deste passeio a trote um-dois-três. Nesse momento preciso. Grand pousara a folha e continuava a contemplá-la. Outros. mantinha uma facilidade de tom que se assemelhava de longe. realmente. Aparentemente. Na verdade. .O outro olhou para ele e sorriu com uma espécie de gratidão. mas . Ao fim de um momento. Esperou um pouco. as aléias floridas do Bois de Boulogne”. tinha uma percepção extraordinariamente aguda dessa cidade que se estendia a seus pés. parecia responder ao silvo do flagelo. um-dois-três. na cidade. . Mas o barulho de passos precipitados recomeçava. Mas o outro afirmou com animação que esse ponto de vista não era bom e bateu nos papéis com a palma da mão. acrescentou: Quando tudo isso tiver acabado. a um chavão. em todo caso. levantou os olhos. sempre olhando para a folha. que será possível dizer: ”Tirem o chapéu”. Rieux escutava ao mesmo tempo uma espécie de zumbido confuso que. sobretudo. mas que se assemelhava. Era esse pelo menos o sentido do que ele dizia quando ouviram homens correr sob as janelas. . voltado para a janela. que estou com vontade de ler. uma elegante amazona percorria. tal como estava.Que acha? Rieux respondeu que o princípio lhe despertava a curiosidade de conhecer o resto. desde o princípio. numa soberba égua alazã. que sofria. Quando eu conseguir transmitir perfeitamente o quadro que tenho na imaginação. iam para as portas da cidade. Nunca consentiria em entregar aquela frase. perdendo a cabeça entre o calor e a peste.Vai ver o que vou fazer dela . então o resto será mais fácil e. a um editor.

com mais obstinação e habilidade. com uma expressão de grande repugnância. pois. enfim. mas diziamlhe que era também o caso de um certo número de pessoas e que. Ao lado deles podiam encontrar-se os bem-falantes. 75 Visitara. havia. se não com mais êxito. às laranjas e limões. os tradicionais. ser desembaraçado era sua profissão. informando que decidiriam sobre o pedido. Os progressos da peste escapavam-lhe praticamente. e sempre que isso fora possível. os metódicos. Rambert defendera sua causa. entretanto. como Rambert dizia a Rieux com uma ponta de amargura. e replicavap-lhe que mudava alguma coisa nas dificuldades administrativas que se opunham a toda medida de favor. ou ainda. que indicavam a Rambert outra repartição ou nova diligência a fazer. ou a alistar-se no exército colonial. os fúteis. Segundo a classificação que Rambert propôs ao Dr. No entanto. nesse caso. Rarr> bert prosseguira suas diligências oficiais. A vantagem. que asseguravam ao suplicante que nada daquilo podia durar e que. que o faziam preencher uma ficha e arquivavam-na em seguida. uma grande quantidade de funcionários e de pessoas cuja competência habitualmente não se discutia. Eram. Rieux. os exaltados. à exportação. Em primeiro lugar. seu problema não era tão particular quanto imaginava. de tanto entrar em repartições onde as fisionomias eram tão previsíveis quanto o arquivo e os fichários. de longe os mais numerosos. em matéria de peste. conseqúentemente. um precedente. que levantavam os braços e os aborrecidos. a obstinação acaba por triunfar sobre tudo e. de tanto esperar num banco estofado diante de grandes cartazes que o convidavam a subscrever obrigações do Tesouro. esse género de argumentadores constituía a categoria dos formalistas. os interlocutores do jornalista admitiam de bom grado esse ponto. Diante de cada um deles. O jornalista tinha assim se esgotado em visitas e formara uma ideia justa do que podia ser uma câmara ou uma 76 prefeitura. que possuíam indiscutíveis conhecimentos sobre os problemas de contencioso ou de seguros. tal competência de nada lhes servia. sem contar que os dias assim se passavam mais depressa e. de um certo ponto de vista. Havia também os importantes. Porém. era que tudo isso mascarava a verdadeira situação. Era até a boa vontade o que de mais impressionante havia em todos. Segundo ele próprio dizia. que pediam ao visitante que deixasse uma nota resumindo seu caso. sem contar os diplomas sólidos e uma boa vontade evidente. que desviavam os olhos. consolavam Rambert decidindo que se tratava apenas de um problema momentâneo. seu caso devia merecer um exame especial. na . a maior parte das vezes. Ao que Rambert podia retrucar que o fato não mudava em nada a essência de sua argumentação. ao comércio dos vinhos. isentas de impostos. que corria o risco de criar aquilo a que chamavam. que lhe propunham vales de alojamento ou endereços de pensões económicas. Em geral. Sua argumentação principal consistia sempre em dizer que era estrangeiro na nossa cidade e que. por conseguinte. seus conhecimentos eram quase nulos. pródigos de bons conselhos quando só se lhes pediam decisões. homens que tinham ideias precisas e bem classificadas sobre tudo o que se refere aos bancos.

depois de ter lido. estavam agora fechadas. desgostoso. por ordem superior. por um lado. Afirmaram-lhe então que era para o caso de ele vir a adoecer da peste e a morrer dela.situação em que a cidade inteira se encontrava. o cor-de-rosa do céu poente refletia-se nas vidraças e o mármore das mesas reluzia fracamente na obscuridade nascente. com sua expressão de tristeza e. e o que chamava de seu curriculum vitae. a fim de que se pudesse. saber se se deviam debitar as despesas do funeral ao orçamento da cidade ou se se podia esperar que os parentes as reembolsassem. O mais notável. por outro.Que caso? . antigos e atuais. a publicidade dos grandes aperitivos que já de nada serviam. Vagava então de café em café. Mas era também o momento em que todos os prisioneiros dessa cidade sentiam seu próprio . e Rambert o observou. O boletim inquietava-se com sua identidade. desviava-se. Rieux teve de reconhecer que esse ponto de vista era verdadeiro. sentava-se num terraço. Mas não era um consolo. e Rieux pensou que era a hora de se sentir abandonado. Rambert parecia uma sombra perdida. Era um período de estagnação 77 Tinha visitado todas as repartições. No meio da sala deserta. Era aquela hora em que nos cafés. Algumas informações confusas colhidas numa repartição confirmaram essa suspeita. diante de um copo de cerveja morna. seus recursos. O crepúsculo invadia a sala como uma água cinzenta. depois de algumas diligências precisas. feito todas as diligências e todas as saídas. se retardava ao máximo o momento de acender as luzes. a situação da família. olhava para o rosto dos transeuntes. isso provava que ele não estava inteiramente separado daquela que o esperava. No entanto. pela simples razão de que era feita para esse fim. chegava assim a noite. mas que se tratava. Evidentemente. avisar a família e. precisamente à porta de um café. era a maneira como no auge de uma catástrofe uma repartição podia continuar o seu serviço e tomar iniciativas de outros tempos. conseguiu descobrir o serviço que tinha enviado o boletim. de uma verdade demasiado genérica. lia um jornal com a esperança de encontrar alguns sinais do fim próximo da doença. Teve a impressão de que se tratava de um inquérito destinado a recensear as pessoas suscetíveis de serem enviadas para a sua residência habitual. podia-se dizer que cada dia que passava aproximava os homens. visto que a sociedade se ocupava deles. O período que se seguiu foi para Rambert simultaneamente mais fácil e mais difícil. Pareceu decidir-se e foi sentar-se ao fundo da sala. muitas vezes com desconhecimento das autoridades mais altas. levantava-se e caminhava ao acaso pelas ruas amarelas da cidade. por esse lado. pela centésima vez. as tabuletas das lojas em frente. Em dado momento. em todo caso.perguntou Rambert. De manhã. com a condição de que não morressem ao fim de suas provações. Rieux viu-o uma noite. onde o jornalista hesitava em entrar. Rambert alimentou uma esperança. Em passeios solitários para cafés e de cafés para restaurantes. Tinha recebido da prefeitura um boletim de informações em branco que lhe pediam que preenchesse com exatidão. . e disseram-lhe então que essas informações tinham sido recolhidas ”para o caso de virem a ser necessárias”.

sem que se soubesse se era da peste ou do calor que as pessoas julgavam assim proteger-se. os pombos do Palais Royal. no meio de desenhos em oito. apoderou-se da cidade uma espécie de abatimento. atacava-os então. contudo. quando chega o tempo da ausência. se eles paravam. Nos subúrbios. às quais se chegava por fora. já que o grande desejo de um coração inquieto é possuir interminavelmente o ser que ama e poder mergulhar esse ser. pois eram sombrias e frescas. Mas as salas de espera. os bairros desertos do Panthéon e alguns outros lugares de uma cidade que ele não sabia ter amado tanto. Rieux afastou-se. Tinha havido feridos. Antes. dorme-se a essa hora e isso é tranqüilizador. mas falava-se de mortos na cidade. No dia seguinte ao da chuva tardia que marcara o domingo do sermão. permaneciam abertas e às vezes ali instalavam-se mendigos nos dias de calor. Rambert ficava lá. onde tudo se exagerava por efeito do calor e do medo. avisos proibindo cuspir e o regulamento da Polícia Ferroviária. nesse bairro onde toda a gente vivia sempre nas soleiras. sentava-se a um canto. Para ele. num sono sem sonhos que só possa acabar no dia do reencontro. A sala estava escura. viam-se muitas vezes curiosos que paravam na rua. o calor começou. sem dúvida. o médico não teve dificuldade em traduzir do fundo de sua própria experiência que ele gostava de imaginar a mulher que tinha deixado. parecia que o coração de todos tinha endurecido e que caminhavam ou viviam ao lado dos queixumes como se eles fossem a linguagem natural dos homens. O sol perseguia nossos concidadãos em todas as esquinas e. durante os quais os guardas tinham sido obrigados a servir-se de armas. imagens mais difíceis de suportar. Como esses primeiros calores coincidiram com uma subida vertiginosa do número de vítimas que se calculou em cerca de setecentas por semana. Uma paisagem de velhas pedras e das águas. Mas depois desses longos alarmes. Depois. Até as quatro horas da manhã não se faz nada. em geral. para ler velhos horários. a Gare du Nord. saíam gemidos. à escuta. De algumas casas. E no dia em que Rambert lhe disse que gostava de acordar às quatro da manhã e de pensar em sua cidade. Rambert sentia aqui essa espécie de terrível liberdade que se experimenta no fundo da miséria. eram as de Paris. O sol fixou-se. todas as portas estavam fechadas e as persianas corridas. a animação decresceu e. perseguiam então Rambert e impediam-no de fazer qualquer coisa de preciso. Um velho fogão de ferro fundido esfriava há meses. criaram uma surda agitação. Chegava-se ao fim do mês de junho. Vagas incessantes de calor e de luz inundaram a cidade durante todo o dia. Os tumultos junto às portas da cidade. Rieux pensava apenas que ele identificava essas imagens com as do seu 78 amor. segundo o que dizia Rieux. Levantou-se primeiro um vento forte e ardente que soprou durante um dia e ressecou as paredes. Fora das ruas em arcada e das casas parecia não haver um único ponto na cidade que não estivesse colocado na reverberação mais ofuscante. Na parede alguns cartazes promoviam uma vida feliz e livre em Bandol ou em Cannes. o verão irrompeu de repente no céu e acima das casas. Rambert passava também longos momentos na estação. Pouco depois do sermão. fazer qualquer coisa para apressar a libertação. era a hora em que ele podia apoderar-se dela.abandono e era preciso. quando isso acontecia. O acesso às plataformas estava interditado. Em . com efeito. nas ruas planas e nas casas com terraços.

Cada um compreendia com terror que o calor ajudaria a epidemia e. ouviam-se os disparos dos grupos especiais encarregados de matar os cães e os gatos que poderiam transmitir pulgas. Patrulhas percorriam a cidade. Ele seguia. No calor e no silêncio. O sol inclemente. depois da venda da manhã. A cidade abria-se então para o mar e derramava sua mocidade nas praias.” Evocava também os aspectos patéticos ou espetaculares da epidemia. cada um via que o verão se instalava. Pelo contrário. tinham o mesmo sentido ameaçador que as centenas de mortos que a cada dia pesavam sobre a cidade. aliás. a bem da verdade. Pela primeira vez todos se tornavam sensíveis às cores do céu e aos odores da terra causados pela mudança das estações. os progressos da peste em geral. Nesse verão. Para todos os nossos concidadãos. Tinham perdido o brilho metálico das estações felizes. anunciados em primeiro lugar pelo ruído dos cascos dos cavalos nos paralelepípedos. mantida sob o flagelo. cento e sete e cento e vinte mortos por dia. Não mais se enquadravam nesses crepúsculos de junho que ampliam o horizonte em nosso país. as pétalas amontoavam-se nas calçadas poeirentas. Desaparecida a patrulha. nas ruas desertas e escaldantes viam-se avançar. ao mesmo tempo. Que fazer nessas condições? É ainda Tarrou quem dá a imagem mais fiel de nossa vida de então. todos os nossos concidadãos acolhiam o verão com alegria. Essas detonações secas contribuíam para estabelecer na cidade uma atmosfera de alerta. observando justamente que uma mudança da epidemia fora assinalada pelo rádio quando deixou de anunciar as centenas de óbitos por semana para passar a comunicar noventa e dois. soavam lúgubres na cidade fechada e silenciosa. De vez em quando. O grito dos gaviões no céu da tarde tornava-se mais débil por cima da cidade. O sol da peste apagava todas as cores e escorraçava qualquer alegria. estas horas com gosto de sono e de férias. pelo contrário. Imaginam que lhe tiram alguns pontos porque cento e trinta é um número menos impressionante que novecentos e dez. tudo assumia. o céu de verão. Muitas vezes. um silêncio pesado e cheio de desconfiança recaía sobre a cidade ameaçada. Era essa uma das grandes revoluções da doença.todo caso. Os jornais publicaram decretos que renovavam a proibição de sair e ameaçavam com penas de prisão os infratores. é verdade que o descontentamento não cessava de aumentar. que se tinha prodigalizado em milhares de flores que desabrochavam por toda parte e que ia agora adormecer. uma importância maior. guardas montados que passavam por entre duas fileiras de janelas fechadas. Via-se claramente que a primavera se extenuara. . que nossas 79 autoridades tinham receado o pior e estudado muito a sério medidas a serem tomadas no caso de essa população. Em geral. já não convidavam como antes às festas da água e da carne. esmagar-se lentamente sob o duplo peso da peste e do calor. o mar próximo 80 estava interditado e o corpo já não tinha direito às suas alegrias. essas ruas que empalidecem sob os tons da poeira e do tédio. As flores de mercados já não chegavam fechadas em botão e. ser levada à revolta. ”Os jornais e as autoridades brincam de espertos com a peste. e para o coração em pânico dos nossos concidadãos.

é proibido escarrar nos gatos” era a conclusão das anotações. Certa manhã. que passeava de um lado para outro. No restaurante. com rancor. No mesmo dia. e as janelas ficaram obstinadamente fechadas sobre um desgosto bastante compreensível. alguns estilhaços de chumbo tinham matado a maior parte dos gatos e aterrorizado os outros. viuse reaparecer o Sr. ”Em tempo de peste. tinha subitamente aberto uma janela por cima dele e soltado dois grandes gritos antes de voltar a fechar as persianas sobre a sombra espessa do quarto. Ele não deixava de lembrar a todos que chegavam que tinha previsto o que estava acontecendo. como escrevia Tarrou. Depois de um certo tempo desaparecera bruscamente. as janelas. muitos tinham preferido instalar-se em casa de amigos. . com a mão dava pequenas pancadas na grade da varanda. . Continuava também a observar suas personagens favoritas. pois muitas pessoas as chupavam para se prevenir contra um contágio eventual. que as pastilhas mentoladas tinham desaparecido das farmácias. Colhidas as informações. A Tarrou. teria há muito fechado o estabelecimento. mostrara uma certa surpresa. a figura sombria do vigia. haviam soado tiros e. e pronto. Pedia muitas vezes a Tarrou que calculasse a duração provável da epidemia. Esperava ainda. Mas. no vestíbulo. O proprietário não andava menos desanimado. como a epidemia se prolongasse. De qualquer modo. o velhote surgira na varanda. observava Tarrou. ”que o frio é inimigo dessa espécie de doença. impedidos de deixar a cidade. Mas essa porcaria de doença? Até os que não a apanham. já que não chegavam novos viajantes a nossa cidade. . mas que lhe 81 recordava sua ideia de terremoto. que reconhecia ter-lhe ouvido prever uma desgraça. meu caro senhor. tinham sido mantidos no hotel quando as portas da cidade se fecharam. parecem trazê-la no coração”. soubese que a mulher tinha tratado e enterrado a própria mãe e que estava. e o gerente não perdia oportunidade para lhe fazer notar que. à hora habitual. quando Tarrou entrava à noite em casa. E as mesmas razões que tinham enchido todos os quartos do hotel mantinham-nos vazios desde então. se fosse um terremoto? Uma boa sacudidela. Contam-se os mortos. ainda faltam alguns meses”. A princípio. Othon. nesse momento. se não fosse seu desejo de ser agradável aos seus últimos clientes. Mas ele anotava. Tinha certeza aliás de que os visitantes continuariam durante muito tempo a evitar a cidade. Essa peste era a ruína do turismo. examinara as extremidades da rua e resignara-se a esperar. Por outro lado. d pois de uma curta ausência. Ao fim de uma semana. rasgara um pedaço de papel. os viajantes. com efeito. Soube-se que o velhote dos gatos vivia também na tragédia. tinha sempre certeza de encontrar. num bairro deserto. com as persianas fechadas. e não se fala mais nisso. de quarentena. ”Dizem”. fechando.” O gerente exasperava-se: ”Mas aqui nunca faz realmente frio. o velho guarda respondia: ”Ah. pouco a pouco. debruçara-se.como a mulher que. os vivos. mas seguido apenas pelos dois cachorrinhos comportados. mas podiam ler-se no rosto do velho uma tristeza e uma perturbação cada vez mais manifestas. que abandonaram a rua. Nos dias seguintes repetiu-se a mesma cena. entrara e tornara a sair. Tarrou esperou em vão o aparecimento diário. o homem-coruja. além disso. Tarrou era um dos raros hóspedes.

O vigia. ”é hora de comer. É que a coisa anda depressa.Ah! Aquele vai morrer todo vestido. Esperemos”. eles também. No primeiro caso. ”Ah. Apenas o garoto mudara de aspecto. esfregando as mãos. Tarrou fez-lhe notar que. longas páginas ao velho asmático tratado por Rieux. O sermão de Paneloux era também relatado. com o médico. dissera a Tarrou: . na verdade. ”É o mundo às avessas. com suas duas panelas. conseqúentemente. um pouco mais curvado sobre si próprio. a peste não ia levar vantagem alguma. Não conseguia tolerar relógios e. Vai direitinho. tinha decidido aos cinquenta anos que já trabalhara bastante. No entanto. por fim. É muito simples. parecia uma 82 ) pequena sombra do pai. Mas o Sr. a propósito disso.” No dia seguinte. Estava na cama.disse o gerente a Tarrou. Se se der crédito às suas anotações. Mas o outro era categórico e tinha sobre a questão opiniões bem definidas: . ”De quinze em quinze panelas”. No começo dos flagelos e quando eles terminam. dizia ele. Enchia a outra. Eles são. depois da entrevista. por cima das suas duas panelas de grãos-de-bico. a única que lhe importava. Entrava da mesma maneira na sala do restaurante. nem será preciso arrumá-lo. lojista de profissão. ao silêncio. Vestido de preto como a irmã. a cor castanho-clara dos olhos da mãe do médico. enfim. sempre se faz um pouco de retórica. Othon. dizia ele. uma das quais estava cheia de grãosde-bico quando acordava. é bem merecido.Não gosto disso . todos eram suspeitos.Não. num dia medido por panelas. Calculava o tempo. mais médicos que doentes. É no momento da desgraça que a gente se habitua à verdade. ela é suspeita. e no segundo. Metera-se na cama e não voltara a levantar-se desde então. Tarrou anotava.. Tinha ido vê-lo. quer dizer. nem o senhor nem eu somos suspeitos. Uma pequena renda o mantivera até os setenta e cinco anos. senhor. que não gostava do Sr. que tivera uma longa conversa com o Dr. Rieux. e. da qual recordava apenas que dera bons resultados e esclarecia. afirmava estranhamente que um olhar onde se lia tanta bondade seria sempre mais forte que a peste e consagrava. mas com o seguinte comentário: ”Compreendo esse simpático ardor. ele já retornou. com o mesmo movimento aplicado e regular. Tarrou voltara sem avisar. e sobretudo a hora das refeições. sentava-se antes dos filhos e continuava a dirigir-lhes frases distintas e hostis. O velho acolhera Tarrou com risinhos. cujo peso ele carregava alegremente. com quarentena ou sem quarentena. o velho asmático. hem? O padre tem razão. encostado ao travesseiro.” . ”Um relógio é um objeto caro e bobo”. sob esse ponto de vista. dessa vez. dissera ele ao ver Tarrou. Encontrava assim seus pontos de referência. Othon não se alterava por tão pouco e. não havia um único em toda a casa. não se perdeu ainda o hábito. uma a uma. a sua asma conciliavase com o tempo em que estivera em pé. mais um”.

nem a música. se a santidade é um conjunto de hábitos”. E respondia: ”Sem dúvida. que lhe podiam ser arrebatados a qualquer momento. em algumas. vão espalhar-se por toda a cidade. ’Haverá um outono de peste?’ O Professor B. era não fazer nada. os padres seriam inúteis. a não ser os bêbados”. que parecera admirar-se da vida enclausurada que ele levava. um declínio. ao mesmo tempo. desde muito novo dera sinais dessa vocação. por certas reflexões que se seguiram.” Depois. A contradição. Cento e vinte 84 e quatro mortos. e que o melhor. justamente.Aliás. tinha descido na estação mais próxima de Oran. o aviso ’Fechada por causa da peste’ atesta que não abrirão dentro em pouco como as outras. obrigado a ir a Argel para cuidar de negócios da família. Vendedores de jornais meio adormecidos não gritam mais as notícias. segundo a religião. Todas as lojas estão fechadas. Apesar da crise de papel. a se acreditar na mulher. oferecendo de braço estendido as folhas onde se destaca a palavra ’peste’. e que ele exprimiu várias vezes perante seu interlocutor: esperava morrer muito velho. retomava sua descrição: ”De madrugada. dizia Tarrou. que ele nada podia fazer deles. de outro modo. Tarrou dedicava-se à descrição bastante minuciosa de um dia na cidade tomada pela peste. oferecem sua mercadoria aos lampiões com gestos de sonâmbulos. A essa hora que fica entre as mortes da noite e as agonias do dia. e já forçou alguns . e voltara no primeiro trem. e eis o balanço depois de noventa e quatro dias de peste’. A Tarrou. ”Ninguém ri. nem os cafés. Mas. mas. nem os amigos. que no declínio. Nunca saía da cidade. incapaz de levar mais adiante a aventura. os dias do homem já não lhe pertenciam. brisas leves percorrem a cidade ainda deserta. Mas. tinha mais ou menos explicado que. parece que a peste suspende por um instante seu esforço e toma fôlego. No entanto. aliás. . Mas o que completava o retraio do velho era um desejo que parecia profundo. ”e esses riem demais. a primeira metade da vida de um homem era uma ascensão e a outra. ”Será um santo?”. pois tinha pouco depois dito a Tarrou que certamente Deus não existia. perguntava Tarrou a si próprio. 83 nem as mulheres. Daqui a pouco. . responde: ’Não’. Tarrou compreendeu que essa filosofia estava estreitamente ligada ao estado de espírito que lhe davam os peditórios frequentes da sua paróquia. Na verdade. não o assustava. já que. dando assim uma justa ideia das ocupações e da vida de nossos concidadãos durante esse verão. nada lhe interessara jamais: nem o trabalho. que se torna cada vez mais acentuada. exceto num dia em que. encostados às esquinas das ruas. nem os passeios. despertados pelos primeiros bondes.

renunciaram a qualquer publicidade. Aliás. todos esses jornais começam a ser vendidos nas filas que se instalam às portas das lojas mais de uma hora antes da sua abertura. há um desfile de homens e de mulheres jovens. Mas deixam intacta a angústia do contágio. fornecer as opiniões mais categorizadas sobre o futuro da epidemia. certos restaurantes anunciavam: ’Aqui escaldam-se os talheres’. na medida do possível. Os convivas perdem longos minutos limpando pacientemente os talheres. Por volta de duas horas. É a hora em que aqueles que não fazem nada se arriscam pelas avenidas. a cidade desperta pouco a pouco. O Correio da Epidemia. Depois da passagem dos primeiros bondes. Frequentemente. Por volta das seis horas da manhã. estejam dispostos a lutar contra o flagelo. já que os clientes eram forçados a vir. os estribos sobrecarregados. os candidatos à comida esperam a vez. ocorrem cenas devidas apenas ao mau humor. levantar o moral da população. ’Traga o seu açúcar’. o bonde despeja uma carga de homens e de mulheres cheios de pressa de se afastarem e de se isolarem. são o começo de uma corrida desenfreada. esse jornal limitou-se muito rapidamente a publicar anúncios de novos produtos infalíveis para evitar a peste. Ao meio-dia. Quanto mais a epidemia se estender. mais o moral se tomará elástico. transmitir as diretrizes das autoridades e. em que se pode sentir essa paixão de viver que cresce no seio das grandes desgraças. porque um cliente. Muito depressa. dos subúrbios. numa palavra. nas artérias principais. prestar o apoio de suas colunas a todos os que. que se torna crónico. porém. Ao mesmo tempo. Depois. os suplementos mais caros. dos progressos ou retrocessos da doença. criou-se mais um jornal. empalidecera. O céu começa a perder a luz por excesso de calor. com a preocupação de uma escrupulosa objetividade. Ao longo das grandes casas . indisposto. voltam as costas aos outros para evitar um contágio mútuo. levantara-se cambaleando e dirigira-se rapidamente para a saída. À sombra dos grandes toldos. as ruas animam-se. formam-se à porta pequenos • 85 grupos que não conseguiram encontrar lugar. depois nos bondes que chegam.periódicos a diminuírem o número de páginas. Voltaremos a ver as saturnais milanesas à beira das sepulturas. reunir todos os esforços para lutar de modo eficaz contra o mal que nos assola’. Na realidade. . os restaurantes enchem-se num abrir e fechar de olhos. Pouco a pouco. Todos os dias. as primeiras cervejarias abrem as portas. com os balcões carregados de avisos: ’Não há mais café’. abrem-se as lojas. Não há muito tempo. o cliente gasta de bom grado. Coisa curiosa. no entanto: todos os ocupantes. apinhados. por volta de onze horas. que se impõe como tarefa ’informar nossos concidadãos. a poeira. à beira da rua estalam ao sol. o sol e a peste se encontram na rua. conhecidos ou desconhecidos. a luz sobe e o calor aumenta pouco a pouco no céu de julho. a cidade esvazia-se pouco a pouco e é então o momento em que o silêncio. etc. Se os restaurantes são invadidos. Parece também que houve cenas de pânico num restaurante. é porque simplificam muito o problema do abastecimento. Os vinhos finos ou assim considerados. A maior parte parece ter-se encarregado de conjurar a peste pela ostentação do seu luxo. Os bondes tornaram-se o único meio de transporte e avançam com grande dificuldade. . Nas paradas.

no crepúsculo ardente e poeirento. E. o médico contemplava a mãe. . .Oh. Tudo que uma vida laboriosa nele colocara de mutismo parecia então animar-se. Rieux. Sabia que a inquietação e o excesso de trabalho dos últimos dias lhe haviam vincado o rosto. . numa liberdade desajeitada que inflama todo um povo. Puro engano! A morte nada é para os homens como eu. vinde a Ele’. .disse Rieux. repetindo sem cessar: ’Deus é grande. E também eu sou como eles. Todos se precipitam. para qualquer coisa que mal conhecem ou que lhes parece mais urgente que Deus. e as estatísticas subiam. as tardes eram desertas. Rieux.Provavelmente. discutem ou desejam-se e. a religião tinha prestígio.” 86 Foi Tarrou que pediu a Rieux a entrevista de que fala nos seus cadernos. Seria muito triste. Mas agora a primJira friagem traz uma trégua. Mas quando viram que o caso era sério. . carregada de casais e de clamores. uma lâmpada muito fraca punha alguns reflexos nas sombras da cidade. recaía no silêncio. com um chapéu de feltro e gravata esvoaçante. a cidade. Rieux não tinha sequer a certeza de que fosse ele quem ela esperava. No entanto. quando achavam que era uma doença como as outras.O dia não correu bem? . Nessa noite. A princípio. sob o céu vermelho de julho. falam para se atordoar. A iluminação tinha sido diminuída de dois terços. Continuava a não haver a possibilidade de inocular . o calor desliza sem cessar. olhava através da janela para a rua deserta.Contanto que isso não dure até o inverno. Toda a angústia que se pinta durante o dia nos rostos se dissolve então. um velho inspirado. . Na noite em que Rieux o esperava. qualquer coisa se alterava no seu rosto quando ele aparecia. deriva em direção à noite ofegante. pelo contrário.Vão manter a iluminação reduzida durante toda a peste? . com as mãos juntas sobre os joelhos. e sem que se saiba por quê.cinzentas. se não uma esperança. . Era aí que ela passava seus dias quando a arrumação da casa a deixava livre.É verdade . Em vão. lembraram-se do prazer. numa espécie de excitação desvairada. . São longas horas prisioneiras que acabam nas tardes inflamadas que se abatem sobre a cidade populosa e tagarela. atravessa a multidão. Viu o olhar da mãe pousar-lhe na fronte. uma vez ou outra. como de costume. É um acontecimento que lhes dá razão.perguntou a Sra. Todos descem então para as ruas. placidamente sentada a um canto da sala de jantar. Como de costume! Quer dizer que o novo soro enviado de Paris parecia ser menos eficaz que o primeiro. esperava. Durante os primeiros dias de calor.perguntou a Sra. todas as tardes nas avenidas. Depois. aqui e ali.

Rieux fez o visitante sentarse diante da secretária. vestido de cinzento. A maior parte dos abscessos recusavam-se a abrir-se. . mamãe? . não se sabia nada. . Estavam separados pela única lâmpada acesa em cima da secretária. Tem notícias? .Na minha idade. 87 . penso no seu trabalho. os médicos. A campainha da porta tocou.Está com medo. sem preâmbulos . parecia um grande urso.É verdade . como se tivesse chegado a época do seu endurecimento.Está bem informado. Desde a véspera. no decurso de uma reunião.o soro preventivo a não ser nas famílias já atingidas. Mas o descontentamento já é grande. E quando você não está. Dentro de quinze dias ou um mês. A peste tornava-se então pulmonar. desde que saiba que vai chegar. Nesse mesmo dia. tinham pedido e obtido novas medidas para evitar o contágio que na peste pulmonar se fazia de boca a boca.Rieux aprovou em silêncio.disse Tarrou. .Soube que a prefeitura está planejando uma espécie de serviço civil para obrigar os homens válidos a participarem no salvamento geral. Faltam-lhe homens e tempo. já não se teme muita coisa. O belo olhar castanho revolveu nele anos de ternura. exaustos diante de um prefeito desorientado. havia na cidade dois casos de uma nova forma da epidemia. e torturavam os doentes. . estará superado pelos acontecimentos. Rieux reconheceu ainda que era verdade. . atrás da poltrona. O médico sorriu para a mãe e foi abrir. Teriam sido necessárias quantidades industriais para generalizar sua utilização.respondeu o médico. Mas sei que ela diz isso para me tranqüilizar. Como sempre.Para mim é indiferente esperar. .A organização do serviço sanitário é má.Sim. . Tarrou. se posso acreditar no último telegrama. Olhou para a mãe. . o senhor já não terá aqui qualquer utilidade. Na penumbra do patamar. vai tudo bem.Sei .Os dias são muito compridos e eu agora nunca estou em casa. Ele próprio ficou em pé.que posso lhe falar com franqueza. e o prefeito hesita. .

É provável .Pensa então. .Então? . os cristãos falam às vezes assim. que a peste tem o seu lado bom. as autoridades estão suplantadas. São melhores do que parecem. . . doutor? A pergunta foi feita naturalmente.disse Rieux -.Vivi demais nos hospitais para gostar da ideia de castigo coletivo. que obriga a pensar? O médico sacudiu a cabeça com impaciência. Se os deixarmos agir.Tenho horror às condenações à morte. Nunca estão à altura dos flagelos. sobretudo nesta profissão. Rieux olhou para Tarrou. Em todo caso é preciso que eu o previna.perguntou.Então. Temos necessidade de ser ajudados. . . . . Mas por quê. E naturalmente. não há outra opção. Encarrego-me de fazer a prefeitura aceitar a ideia. acabarão por morrer. . .Eu também.. Autorize-me a ocupar-me disso e deixemos as autoridades de lado.Está bem . . como sabe. participarei dele.Gostaria mais que fossem homens livres.Devo dizer que pensam também nos presos para os chamados trabalhos pesados. Mas. . afinal? . mas os resultados foram insignificantes.retorquiu Rieux.Mas esse trabalho pode ser mortal. Aliás. como sabe. . aceito com alegria. como Paneloux. Aliás. sem que realmente o pensem. que abre os olhos.Por que não se pedem voluntários? . O que lhes falta é imaginação.Isso foi feito. Mas. Pensou bem? Tarrou olhava-o com seus olhos cinzentos e tranqüilos. Tenho amigos por toda parte e eles formarão o primeiro núcleo. Rieux refletiu. tenho um plano de organização de equipes sanitárias voluntárias. e Rieux respondeu naturalmente: . e nós com eles. .Que pensa do sermão de Paneloux. .Fez-se por via oficial e sem muita fé no que faziam.

o médico disse que já respondera e que.disse -. Sem sair da sombra.Não é isso o que o separa de Paneloux? . Não viu a morte o suficiente. . .Como todas as doenças deste mundo. e é por isso que fala em nome de uma verdade. . . Refletiu bem? Tarrou empertigou-se um pouco na cadeira e esticou a cabeça para a luz. acreditava num Deus desse género.Posso responder com uma pergunta? Foi a vez de o médico sorrir. que cuida dos seus paroquianos e que ouviu a respiração de um moribundo.disse Tarrou.Gosta do mistério. Ele trataria da miséria antes de querer demonstrar-lhe a excelência. .É isso . julgava estar no caminho da verdade. Rieux apenas erguera um pouco o tom de voz. . que julgava acreditar.. . . deixando a ele esse cuidado. Há muito que deixei de achar isso original. ao menos ele. Mas o mais modesto padre de aldeia. mas que quer dizer isso? Estou nas trevas e tento ver claro.continuou Rieux. nem mesmo Paneloux. já que não acredita em Deus? Sua resposta talvez me ajude a responder.Sim . quando se vê a miséria e a dor que ela traz é preciso ser louco.Não acho. doutor? De novo. se acreditasse num Deus todopoderoso. pensa como eu. Mas Tarrou fez um gesto com a mão como para acalmá-lo. Pode servir para engrandecer alguns. a pergunta fora feita naturalmente. . Seu rosto estava agora na sombra. lutando contra a criação tal como ela era.Vamos deixar isso . dando de ombros. Mas desta vez Rieux hesitou. já que ninguém se entregava totalmente e que nisso. cego ou covarde para se resignar à peste. sem se mexer na poltrona. Mas o que é verdade em relação aos males deste mundo é também verdade em relação à peste. Sorria. . Mas que ninguém no mundo. deixaria de curar os homens.Acredita em Deus. já que não quer responder. não.Por que o senhor mesmo demonstra tanta dedicação. Rieux.Não. Tarrou sorriu.Mas não me respondeu. Paneloux é um estudioso. . No entanto. Vamos lá. 89 Rieux levantou-se.

bem sei..Contra quem? Rieux voltou-se para a jane^. . Quando entrei para essa profissão eu o fiz abstratamente.Bem sei . não me habituei a ver morrer.Rieux calou-se e voltou a sentar-se. Tarrou.Ah! . . Eu os defendo como posso. nesse tempo. afinal. Adivinhava ao longe o mar por uma condensação mais escura do horizonte. .Diz a .É uma coisa que um homem como o senhor consegue compreender.respondeu o médico. . e minha repugnância julgava dirigir-se à própria ordem do mundo. . juro-lhe que não sei. .J próprio que para isso é preciso ter orgulho. talvez convenha a Deus que não acreditemos nele e que lutemos com todas as nossas forças contra a morte. E depois foi necessário ver morrer. nem o que virá depois de tudo isto. voltando-se para a luz. . e o médico olhou para ele. . é tudo. onde ele se cala.perguntou suavemente Tarrou.continuou. uma das que os jovens se propõem. . há doentes. Simplesmente.Afinal?. porque tinha necessidade. Depois tornei-me mais modesto. E descobri então que não conseguia me habituar. Tarrou assobiou baixinho.Sim . mas que sentia fraternal.concordou Tarrou -. Mas eu não tenho senão o orgulho necessário. Sentia apenas seu cansaço e lutava ao mesmo tempo contra um desejo súbito e irracional de se abrir um pouco mais com esse homem um pouco singular. acredite. de certo modo.Então é essa a ideia que tem da sua profissão? . Mas suas vitórias serão sempre efémeras. Não sei o que me espera. e é preciso curá-los. Era novo. Sentia a boca seca.Não sei.Mais ou menos . compreendo... Talvez também porque era particularmente difícil para um filho de operário corno eu. não é verdade? Já que a ordem do mundo é regulada pela morte. e voltou a hesitar. Mas. . . Mas o mais urgente é curá-los. No momento.Afinal. Não é uma razão para deixar de lutar. Não sei mais nada. Em seguida.exclamou Tarrou. mais nada. . . . Sabe que há pessoas que se recusam a morrer? Já ouviu alguma vez uma mulher gritar ”Nunca!” no momento de morrer? 90 Eu já. O semblante de Rieux pareceu anuviar-se. .Sempre. . sem erguer os olhos para o céu.continuou o médico. . . olhando para Tarrou com atenção. eles refletirão e eu também. porque era uma situação como as outras.

apoiando-se no ombro de Rieux. encontraram a Sra. .disse.Não. Era talvez apenas 91 porque os porteiros e nossos concidadãos em geral já não tomavam cuidado com coisa alguma. O outro propôs acompanhá-lo. ainda que lhe pareça ridícula: o senhor tem toda a razão. não é uma razão. . As escadas continuaram mergulhadas na noite. Rieux seguiu-o.Quem lhe ensinou tudo isso.Muito prazer em conhecê-lo. Mas imagino então o que essa peste significa para o senhor. e o pé de Tarrou. Rieux. . Rieux encolheu os ombros para si próprio. . tenho poucas coisas a aprender. O médico parou.. . doutor. . a quem o médico apresentou Tarrou.Um amigo . e o médico aceitou.Ah! . Já há algum tempo que tudo nas casas e na cidade se estragava. o que acha? .disse o outro. No fim do corredor.Mais uma palavra. .exclamou a Sra.Oh .perguntou este.Não sei. sem se perturbar -.A miséria. Rieux. escorregou num degrau. o médico tentou em vão acender a luz. realmente. Alcançava-o já quando Tarrou.Julga saber tudo da vida? . Rieux abriu a porta do escritório e. lhe perguntou: . Mas o médico não teve tempo de continuar a interrogar-se porque a voz de Tarrou ressoava atrás dele: .tornou Rieux. No patamar. Tarrou equilibrou-se.É verdade . Depois levantou-se e caminhou pesadamente para a porta. A resposta veio do escuro. Mas o senhor. pois precisava ver um de seus doentes no subúrbio. que parecia olhar para os pés. Quando se afastou. O médico perguntava a si mesmo se seria o efeito de uma nova medida de economia. atrás dele. Tarrou fixou um momento o médico. . disse a Tarrou que ia descer também. Mas não se podia saber. No escuro. no corredor.Uma interminável derrota. Tarrou voltou-se mais uma vez para ela. . trazida pela mesma voz tranqüila. doutor? A resposta veio imediatamente.

compreenderam que era bastante tarde.É preciso que vá amanhã ao hospital. uma epidemia de peste matou todos os habitantes de uma cidade da Pérsia.Teve sua terceira probabilidade. Mas o narrador está antes tentado a acreditar que. Tarrou . . 92 Tarrou voltou-se para a casa e Rieux não viu mais seu rosto até o momento de entrarem em casa do velho asmático. Tarrou pôs-se a trabalhar e reuniu o primeiro grupo que devia ser seguido por muitos outros. a questão não é essa.disse ele. Mas ignoram mais ou menos. Quando saíram para a rua.O que o leva a ocupar-se de tudo isso? . que . não têm sentido. ao dar demasiada importância às belas ações. um sorriso de amizade. Diante do automóvel. e é a isso que se chama virtude ou vício.Sim. nesse caso. Talvez minha moral. Há cem anos.Vamos. e a boa vontade. Pararam. A intenção do narrador não é. ouvia-se a sirene de uma ambulância. Pois. doutor. Um reflexo do céu iluminava os rostos. sabe tão bem quanto eu. onze horas. O mal que existe no mundo provém quase sempre da ignorância. . Entraram no carro. para terminar e antes de entrar nessa história. . é verdade que muitos de nossos concidadãos cederiam hoje à tentação de lhes exagerar o papel. Muito longe. e Rieux ligou o motor. se não for esclarecida.Qual? . se estaria supondo que essas belas ações só valem tanto por serem raras e que a maldade e a indiferença são forças motrizes bem mais frequentes nas ações dos homens. Entravam agora nos subúrbios. com uma voz subitamente mais surda. No seu lugar. dar a essas equipes sanitárias mais importância do que elas realmente tiveram. sendo o vício mais desesperado o da ignorância.Mas é verdade que temos ainda muito a aprender sobre esse assunto. entretanto. por causa da vacina preventiva.Não sei. Rieux perguntou a Tarrou se queria entrar.A compreensão. . Essa é uma ideia de que o narrador não compartilha. pense que tem ^ma probabilidade contra duas de sair disso. de repente. . Logo no dia seguinte. Rieux deu. Mas. talvez. se presta finalmente uma homenagem indireta e poderosa ao mal. mais nada . pode causar tantos danos quanto a maldade.. povoada apenas de rumores. . e o outro disse que sim. exceto precisamente o lavador de defuntos. A cidade estava muda. que nunca tinha deixado de exercer a profissão. Os faróis brilhavam nas ruas desertas. na verdade.disse Rieux. Os homens são mais bons que maus e. .Esses cálculos.

É por isso que nossas equipes sanitárias.julga saber tudo e se autoriza. tinham de decidir se estavam ou não na peste e se • era ou não necessário lutar contra ela. com a de todos aqueles que têm o coração igual ao do professor e que. A questão é saber se dois e dois são ou não l quatro. ou pelo menos essa é a convicção do narrador. que esses homens arriscavam • a vida. em parte. devem ser julgadas com uma satisfação objetiva. para honra do homem. Talvez o felicitemos por ter escolhido essa bela profissão. como o problema de todos. É por isso que o narrador não quer ser o propagandista por demais eloquente de uma vontade e de um heroísmo a que atribui uma importância apenas razoável. esse raciocínio. pois. ela surgiu realmente como era. Uma vez que a peste se tornava o dever de alguns. Essas equipes ajudaram nossos concidadãos a penetrar mais na peste e persuadiram-nos. os que se dedicaram às equipes sanitárias não tiveram um mérito tão grande em fazê-lo. Mas não se cumprimenta um professor por 93 l ensinar que dois e dois são quatro. isto é. que era provável que Tarrou e outros tivessem escolhido demonstrar que dois e dois eram quatro e não o contrário. Mas continuará a ser o historiador dos corações de nossos concidadãos que a peste tornara dilacerados e exigentes. Quanto a nossos concidadãos que então arriscavam l a vida. uma vez que a doença existia. Aliás. . de que. Digamos. Mas chega sempre uma hora na história em que l aquele que ousa dizer que dois e dois são quatro é punido l com a morte. este compreende muito bem a objeção • que lhe poderia ser feita. pois sabiam que era a única coisa a fazer. A alma do assassino é cega. mas digamos também que essa boa vontade lhes era comum com a do professor. e não há verdadeira bondade nem belo amor sem toda a clarividência possível. a matar. são mais numerosos do que se pensa. que se concretizaram graças a Tarrou. deviam fazer o necessário para lutar contra ela. E a quesI tão não é saber qual é a recompensa ou o castigo que espera • . Está certo. com efeito. e não se decidir fazê-lo é que teria sido incrível. então. ou seja. O professor sabe muito bem disso.

Toda a questão residia em impedir o maior número H possível de homens de morrer e de conhecer a sepam ração definitiva. dirigia os carros dos doentes e dos mortos. com efeito. que nada tinha de herói. e não cair de joeI lhos. mais tarde. já que o micróbio diferia ligeiramente do bacilo da peste tal como era classicamente definido. havia um único meio: combater l a peste. Gastei f esperava ter em breve seu primeiro soro. Rieux e os amigos podiam responder isto ou l aquilo.preciso lutar. Para isso. parte dos grupos formados por : Tarrou dedicava-se a um trabalho de assistência preventiva nos bairros muito populosos. assumisse agora uma espécie de secretaria das equiequipes sanitárias. era apenas conseqüente. garantindo 94 o transporte dos doentes e até. Tentava-se introduzir aí a higiene necessária. l Por isso. Rieux e ele esperavam que um soro fabricado com as culturas do próprio micróbio que infestava a cidade teria uma eficácia mais direta que os soros vindos do exterior. Tudo isso exigia um trabalho de registro de estatística que Grand aceitara fazer. Esta verdade não era admirável. era natural que o velho Gastei pusesse toda a i sua confiança e toda a sua energia em fabricar soros ali mesmo com material precário. contando-se as águas-furtadas e os porões que a desinfecção não tinha visitado.l Muitos moralistas novos da nossa cidade diziam então l que nada servia para nada e que era preciso cair de joelhos. na ausência de pessoal especializado. desta ou daquela maneira. Desse ponto de vista e mais que Rieux ou Tarrou. Uma outra parte dos grupos ajudava os médicos nas visitas domiciliares. o narrador considera que Grand era o verdadeiro representante dessa virtude tranqüila que animava as equipes sanitárias. Aceitara . Por isso era natural que Grand. mas a conclusão era sempre o que eles sabiam: era l . • E Tarrou.

sem hesitação.Bem.Sim . Era pouco sugestivo. .Que cor? . Grand pareceu muito impressionado. ” porque ”mês de maio” alongava um pouco o trote. Uma noite. evidente.Não é verdade . quando o trabalho das fichas terminava. em meio à peste. e ele procurava o termo que fotografasse imediatamente a égua faustosa que ele imaginava. ”É mais concreto”. e Grand se abria com um prazer cada vez mais evidente aos dois companheiros. Também eles. O negro indicava discretamente a elegância.perguntou Tarrou. encontravam nisso uma espécie de repouso. e refletiu.que a vemos melhor assim? E eu preferi: ”numa manhã de maio. E.Ainda bem que o senhor está aqui.Que acha de ”suntuosa”? . com a boa vontade que o caracterizava. .Alazã não indica raça.Sim! E.Não é possível . . . em sua opinião. Grand olhou para ele. perguntava muitas vezes Tarrou. . ”Reluzente” o havia tentado por um instante. em sua opinião.disse.Muito obrigado . . se tudo fosse tão simples!” E repetia sua frase. à noite. Grand disse que tinha posto definitivamente de lado o adjetivo elegante para a sua amazona e que a classificava agora de esbelta. por fim. esboçava um sorriso. Estes acompanhavam com interesse o trabalho paciente que Grand continuava. com um sorriso: ”Vai trotando. Há peste. leu para os dois ouvintes a primeira frase. . . mas o ritmo não se prestava.disse Rieux. Tinham acabado por juntar Tarrou às suas conversas. mas a cor. acrescentara. Certa noite. Das dezoito às vinte horas podia dar seu tempo. Por vezes. Ah. . como Rieux lhe agradecesse calorosamente. Rieux conversava com Grand. Manifestara apenas o desejo de se tornar útil em pequenos trabalhos. E Grand respondia invariavelmente. ele se admirava: ”Não é o mais difícil. montada numa soberba égua alazã. Estava velho demais para o resto. percorria as aléias floridas do Bois de Boulougne”. vai trotando”. mas um pouco pejorativo. Outra vez. Mostrou-se em seguida muito preocupado com o adjetivo ”soberba”. em todo caso. Era concreto. assim modificada: ”Numa bela manhã de maio. uma esbelta amazona.E por quê? 95 .disse ele. . Mas veja como é difícil. ”Como vai a amazona?”. é preciso nos defendermos. anunciou triunfalmente que tinha encontrado: ”Uma negra égua alazã”.disse Grand . uma cor que. não é preto. ”Gorda” não podia ser. pouco a pouco.

é bem verdade que ele parecia mais cansado que Rieux. podemos vê-las e cheirá-las. disse o chefe da repartição. Como só conhecera Oran e Montélimar. Instalava-se lá com seus papéis.Algum tempo depois. E a primeira maneira de se tornar útil nessas terríveis circunstâncias é fazer bem seu trabalho. Ou senão o resto não serve para nada.Ele tem razão . na realidade. Esfregava as mãos. se relacionava com ”aléias”. mas nem por isso deixava de fazer as somas e as estatísticas de que precisavam as equipes sanitárias. pediu ao médico licença para ir embora. fora do seu trabalho. A bem dizer. meus senhores!” Leu triunfalmente a frase: ”Numa bela manhã de maio. No entanto. como se soube depois. exatamente como se instalava à sua mesa na prefeitura. calculando que todos compreenderiam. Foi nessa época. sentou-se. O que me diz respeito é o seu trabalho aqui. o que. juntavalhes curvas e esforçava-se lentamente por apresentar quadros tão precisos quanto possível. Depois. ”que o senhor faz serviço voluntário nas equipes sanitárias. Tirem o chapéu. e o chefe da repartição repreendeu-o severamente. mas a convicção do funcionário os abalava. ”Parece”. Tinha necessidade de refletir um pouco. o médico encontrou-o numa grande excitação. Tinha substituído ”floridas” por ”cheias de flores”. elas nunca tinham dado a impressão. Certas noites. percorria as aléias cheias de flores do Bois de Boulogne”. Ele estranhava aquela incerteza. Só os artistas sabem olhar. de serem floridas. os três genitivos que terminavam a frase soaram mal e Grand gaguejou um pouco. . obrigações avassaladoras. Mas certa vez. Nada tenho com isso. lembrando-lhe que era pago para executar um trabalho que precisamente não cumpria. Mas então a frase parecia relacionar-se com ”flores”. todas as noites passava fichas a limpo. Pacientemente.” . às vezes pedia aos amigos indicações sobre a forma como as aléias do Bois eram floridas. confessou que a palavra ”floridas” o constrangia. . O serviço ressentiu-se disso. Muitas vezes. que ele deu na repartição certos sinais de distração considerados lamentáveis num momento em que a prefeitura enfrentava. Tentava então honestamente não pensar mais na sua amazona e fazer apenas o que era necessário. com um pessoal reduzido. Mas a situação de ”Bois” entre um substantivo e um adjetivo que ele separava arbitrariamente era como um espinho na carne. tem razão . montada numa suntuosa égua alazã. Sim. Examinara também a possibilidade de escrever: ”As aléias do Bois cheias de flores”. uma esbelta amazona. Acabrunhado.concordou o médico. estava fatigado por essa busca que o absorvia por completo.disse Grand a Rieux. Tinha pensado em suprimir ”de Boulogne”.Sim. 96 Mas eu ando distraído e não sei como sair do fim da minha frase. e no ar que os desinfetantes e a própria doença tornavam espesso agitava as folhas para fazer secar a tinta. ”Afinal. 1:dos em voz alta. a Rieux ou a Tarrou. ia encontrar-se com Rieux em um dos hospitais e pedia-lhe uma mesa em algum gabinete ou enfermaria.

Era essa sua maneira de recusar a servidão que os ameaçava. aparentemente. em vão Rieux se mantinha alerta. mas demonstravam ao mesmo tempo a terrível impotência em que se encontra todo homem de compartilhar verdadeiramente uma dor que não pode ver. vozes desconhecidas e fraternas tentavam desajeitadamente dizer sua solidariedade e diziam. o tom de epopeia ou de discurso de distribuição de prémios impacientava o médico. e embora essa recusa. isto é. sentimentos que nem são ostensivamente maus nem exaltadores à feia maneira de um espetáculo. faziam para reencontrar sua felicidade e tirar à peste essa parte deles mesmos que defendiam contra todos os ataques. Tendo adquirido a prova de que não poderia sair da cidade pelos meios legais.” E justamente o que falta relatar antes de chegar ao auge da peste. que deve ser o de uma relação feita com bons sentimentos. Rieux quando lia nos jornais ou ouvia no rádio os apelos e estímulos que o mundo exterior fazia chegar à cidade da peste. Isso dará à verdade o que lhe é devido. por vezes. Era pelo menos a opinião do Dr. Mas ela não se podia exprimir senão na linguagem convencional pela qual os homens tentam exprimir o que os liga à humanidade. ele sabia 97 que essa solicitude não era fingida.Sim. ”Oran! Oran!” Em vão o apelo atravessava os mares. e nunca antes. ”Oran! Sim. não há outro recurso. por exemplo. logo depois. logo a eloquência subia e acusava mais ainda a separação essencial que fazia de Grand e do orador dois estrangeiros. a usar de outros. Um garçom de bar está sempre a par de . o médico girava o botão de seu aparelho. no grande silêncio da cidade então deserta. pelas ondas ou pela imprensa. enquanto o flagelo reunia todas as suas forças para lançá-las sobre a cidade e apoderar-se dela definitivamente. e ao heroísmo o lugar secundário que lhe cabe. o narrador propõe justamente esse herói insignificante e apagado que só tinha um pouco de bondade no coração e um ideal aparentemente ridículo. E todas as vezes. comentários piedosos ou de admiração se abatiam sobre a cidade agora solitária. dissera a Rieux. como Rambert. ”amar ou morrer juntos. E. Oran! Mas não”. Rambert lutava para impedir que a peste o vencesse. por não poder exprimir o que Grand significava no meio da peste. e se é absolutamente necessário que haja um nesta história. Naturalmente. à adição de dois e dois o seu total de quatro. todas as noites. da exigência generosa da felicidade. dos confins do mundo. através de milhares de quilómetros. À meia-noite. pensava o médico. no momento de voltar à cama para um sono demasiado curto. a opinião do narrador é que ela tinha efetivamente um sentido e comprovava também nas suas próprias vaidades e contradições o que havia então de altivez em cada um de nós. não fosse tão eficaz quanto a outra. se é verdade que os homens insistem em propor-se exemplos e modelos a que chamam heróis. estava decidido. Eles estão muito longe. E essa linguagem não se podia aplicar aos pequenos esforços diários de Grand. Ao mesmo tempo em que os socorros enviados por ar e por terra. são os longos esforços desesperados e monótonos que os últimos indivíduos. O jornalista começou pelos garçons dos bares. de fato. Isso dará também a esta crónica seu caráter.

onde tinha amigos e que estava informado sobre a existência de uma organização que se ocupava desse tipo de operação.perguntou Rambert. E acrescentou. É difícil.Tem certeza? . Rieux e ele tinham falado mais uma vez nas vãs diligências que o jornalista fizera pelas repartições. Em certo caso. . .Não aproveitei porque não tenho vontade de partir. na verdade. Enfim. . . . depois de um silêncio: . nada.Não se pode contar com as repartições.Não me pergunta quais são as minhas razões? . . já que me fizeram uma proposta. .perguntou ele.respondeu Rambert .Não.disse Cottard.Não seja desconfiado .Suponho . A verdade é que Cottard. Ele conhecia um caminho. . .Ah! . a única coisa evidente é que me sinto bem melhor aqui desde que temos a peste conosco. Foi-lhe necessário encontrar Cottard em casa de Rieux para avançar um pouco. revendia cigarros e álcool de má qualidade cujos preços subiam sem cessar e que lhe propiciavam uma pequena fortuna. Tenho minhas razões. .que isso não seja de minha conta. cujas despesas ultrapassavam agora as receitas. Não foram feitas para a compreensão.disse Cottard. foi até tomado por um provocador. que se admirava.Nada de novo? . Mas os primeiros que ele interrogou estavam sobretudo a par das sanções muito graves que se aplicavam a esse género de empreendimento.E não aproveitou? . Cottard encontrou Rambert na rua e acolheu-o com a franqueza que sempre imprimia agora às suas relações. 98 . .Em certo sentido. Mas eu procuro outra coisa. Nesse dia.Compreendo. . Assim. . tinha se metido em negócios de contrabando de produtos racionados. Alguns dias depois. .Tenho. isso não é de sua conta. Mas em outro.É verdade.tudo. com um ar bonachão. explicou que há muito frequentava os cafés de Oran. e a Rambert.

Não estou dentro dele. depois de um certo rebuliço. mas não é muito importante. cobertos de sujeira e de teias de aranha em espessos filamentos. já que ela só se traía por sinais negativos. Não se sabia se o ar estava carregado de ameaças ou de poeira e de ardor. adiantou-se afastando o galo com um vigoroso pontapé e perguntou. Nesse momen’^. Cottard e Rambert andavam por ruas com arcadas e caminharam longo tempo sem falar.disse o outro. . um papagaio. Sob um céu pesado. . deviam estar deitados de lado. Eram quatro horas da tarde. .Não é fácil. cuja origem ele não compreendia muito bem até que de um canto obscuro. Um homenzinho. Ao entrar. perdido num comprido avental azul. À esquerda. O garçom enxugou as mãos úmidas no avental. Sentaram-se em cadeiras dobráveis de jardim diante de mesas de ferro verde. de penas caídas. Moscas zumbiam no ar. já havia vários dias que não o viam no café. saiu do fundo. o calor pareceu aumentar ainda mais. de língua de fora à procura de um frescor impossível. Era preciso observar e refletir para chegar à peste. 99 Esse silêncio.disse Cottard. normalmente. essa morte das cores e dos movimentos podiam ser tanto os do verão quanto os do flagelo. saiu saltitando um galo magnífico. Quero só apresentar-lhe um amigo.Acha que ele virá esta tarde? . secavam excrementos de galinha. estava abatido no poleiro. a ausência de cães que. à entrada dos corredores. atravessaram a Place d’Armes e desceram para o Quartier de Ia Marine. no meio dos cacarejes da ave. Cottard e Rambert enxugaram o suor da testa. que tinha afinidades com ela. um café pintado de verde abrigava-se sob um toldo oblíquo. por exemplo. de grossa lona amarela. fez notar a Rambert.O outro escutou o discurso: .Sei. Numa gaiola amarela pousada no balcão. Cottard pediu vinho branco e perguntou por um certo Garcia. a cidade ardia lentamente. Seguiram pelo Boulevard dês Palmiers. Segundo o homenzinho. . Era uma das horas em que a peste se tornava invisível. o que os senhores desejavam que lhes servisse. Em todas as mesas de ferro e diante do próprio Rambert. Cottard. Mas sabe a que horas costuma vir? . Velhos quadros representando cenas militares pendiam das paredes.Ah! . Cottard tirou o casaco e bateu na mesa. Todas as lojas tinham baixado os toldos.Como entrar em contato com essa organização? .Ora! . As ruas estavam desertas. A sala estava absolutamente deserta. Venha comigo. cumprimentou Cottard logo que pôde vê-lo.

Sim . . . Tomaram três rodadas em silêncio. Ao sair.Bem . Um rosto regular e queimado.Ah! E algum tempo depois: . . . o toldo estava levantado.Jornalista. mas apenas para o que chamou ”uma saída”. Fez perguntas. . 100 } . dentes brancos. Desceram em direção ao porto. Garcia caminhava reto em frente e ia fumando.Para quê? . dizendo ”ele” ao falar de Rambert.respondeu Cottard. e Garcia perguntou o que queriam dele. Eles fazem passar mercadorias pelas portas da cidade. e as mesas estavam rodeadas de homens em mangas de camisa. parecia ter uns trinta anos.disse ele.E têm cúmplices? . . naturalmente. Vendem com lucro. À tarde. sem parecer dar-se conta de sua presença.perguntava.Justamente. olhos negros e pequenos. vou mandar-lhe o garoto. . Cottard disse-lhe que não era exatamente para negócios que queria apresentar-lhe Rambert. Rambert perguntou de que negócios se tratava. .Então. o papagaio tagarelava na gaiola.A mulher está na França. .afirmou Cottard. O homenzinho fungou: .disse então Garcia.De contrabando.É um amigo .Como? O senhor também se ocupa de negócios? ” . . . levantou-se à entrada de Cottard. de camisa branca sobre o peito cor de terra queimada. volte hoje à tarde.Salve! . com o chapéu de palha para trás.disse Rambert.E se saíssemos? . Um deles. dois ou três anéis nos dedos.. Rambert não dizia nada.Qual é sua profissão? .Vamos beber no balcão.É uma profissão em que se fala muito.

diante da grande porta.Não para mim . o que se passa é bem interessante.acrescentou. Não vai ser fácil. . mas com Raoul.Moramos no” mesmo hotel. E é preciso que eu o encontre. l 101 Pouco depois. Nesse momento.Caminhava em silêncio. .Depois de amanhã.aprovou Rambert.perguntou Cottard. .respondeu Rambert. parou e voltou-se para Rambert pela primeira vez.Fez menção de partir. . às onze horas. . Tarrou dirigia. Perto da taverna. esse ajuntamento permitia muitas idas e vindas. . Mas dirigiram-se a uma pequena taverna onde se vendiam sardinhas fritas. Em suma.É curiosa . . .É claro . postavam-se pessoas vindas na esperança de uma visita que não podia ser autorizada ou à procura de informações que. ao atravessar uma rua muito movimentada. Dois dias depois. Tinham chegado ao cais. qualquer dia me retribui isso. na esquina do prédio da Alfândega. Mas. . o automóvel de Rieux parou junto deles.Já nos conhecemos . de uma hora para outra. com animação. cujo cheiro chegava até eles. mas voltou-se para os dois homens. isso não é comigo. Rambert e Cottard subiam as grandes ruas sem sombra que levam ao alto da nossa cidade. Acordou para fazer as apresentações. e podia supor-se que essa circunstância não era diferente da maneira como o encontro de Garcia e de Rambert tinha sido marcado. .disse o outro com jovialidade.essa obstinação em partir.disse Tarrou. e Ríeux parecia meio adormecido. Ele está escondido? Garcia não respondeu. . . E depois você é jornalista.disse Cottard . antes da peste. arriscava-se a mesma coisa. .Como? . Uma parte do prédio da Alfândega tinha sido transformada em enfermaria e. afinal. .Há despesas . caducariam. Em todo caso.Oh! não .Oh! É claro que se arrisca alguma coisa. cujo acesso estava interditado por grandes grades.De qualquer maneira.Tenho prazer em prestar-lhe um serviço. o jornalista agradeceu a Cottard:.

Avançou para eles sem lhes fazer sinal e disse.Aquele . O juiz cumprimentou os ocupantes do automóvel e. Othon descia a rua e avançava para eles. temos um encontro aqui. . Rambert e Cottard viram Garcia chegar. Nunca se respeitaram tanto as leis antigas. Tarrou.admirou-se Cottard . Tirou o chapéu ao passar pelo pequeno grupo.É que. O juiz olhou para o céu por um segundo e suspirou.Pelo contrário. Este mudou de expressão.disse Cottard. é a condenação. que se ocupa da aplicação de medidas profiláticas. o Sr. quando o juiz partiu é o inimigo número um.bom dia. O juiz abandonou o ar sonhador que assumira.cumprimentou Tarrou. com o olhar como que suspenso do céu.Não é a lei que conta. os casos que chamamos de direito comum diminuem.Que diferença faz? .Ofereceu a Rambert levá-lo para a cidade. Só tenho que instruir infrações graves às novas disposições. doutor. . olhando para Cottard. Nada podemos contra isso.Ah! . dizendo que era uma época bem triste.Sim . olhando para Cottard e Rambert. elas parecem boas. saudou-os gravemente com a cabeça. que os desígnios da Providência eram insondáveis. . O carro arrancou. Permita-me que o felicite.disse Tarrou -. Tarrou perguntou-lhe se os acontecimentos lhe haviam trazido um aumento de trabalho. à guisa de cumprimento: . . Sr.disse este. E examinou Tarrou com um ar frio: . Tarrou apresentou o capitalista e o jornalista. que tinham ficado atrás.Disseram-me. com efeito. .Não. Pensa.Aí vem o juiz de instrução . que a doença vai se propagar? 102 j Rieux respondeu que era necessário esperar que não e o juiz repetiu que era preciso esperar sempre. . em comparação .o doutor está a par? . necessariamente. Um pouco mais tarde. . num passo vigoroso e compassado. Rieux olhou para Rambert: . senhor juiz .avisou Tarrou. .perguntou.

um grito estranho atravessava o pátio que ficava em frente da porta. O seu nome não havia sido pronunciado. Na assistência. Rambert não precisava dele. vestia um terno jaquetão de cor escura e um chapéu de abas reviradas.Garcia. Caminharam rapidamente. Os três homens contemplavam esse espetáculo quando.Garcia explicou-me .A coisa pode ser 103 arranjada. magro e mal barbeado. esperava num silêncio total. vai custar-lhe de mil francos.Almoce comigo. A porta estava guardada por soldados armados e. rostos inquietos voltavam-se para a enfermaria. todas as cabeças se voltaram à sua passagem. que se colocara no meio. instalado a uma mesa no fundo. às suas costas. acertando o passo pelo de Raoul. . Raoul estava vestido muito corretamente. Raoul calou-se. um ”bom dia” claro e grave os fez voltarem-se. Quase todas carregavam cestos que tinham a vã esperança de poder fazer passar aos parentes doentes e a ideia. Raoul falava de uma maneira rápida e precisa: . Os braços compridos e delgados. À volta deles. cobertos de pêlos negros. só era frequentado por homens.É preciso esperar. o jornalista entrou no restaurante espanhol.. Acenou com a cabeça três vezes quando Rambert lhe foi apresentado. Raoul tinha à sua mesa um sujeito alto. de que estes poderiam utilizar suas provisões. rosto cavalar e cabelos espessos. Tinha o rosto bastante pálido. . ainda mais louca. Cottard desculpou-se. . que voltaram aos seus pratos. de ombros desmedidamente largos. Alto e forte.ordenou. Não estaria livre no dia seguinte e. Ele vai. Quando. fez um sinal ao jornalista e este se dirigiu para ele. no restaurante espanhol do Quartier de Ia Marine. com os olhos castanhos e a boca cerrada.Vamos descer para a cidade . além disso.Nosso amigo acha possível ajudá-lo. . situado numa pequena rua amarela e seca pelo sol. amanhã. . sorrindo pela primeira vez. Garcia acendeu um cigarro e deixou-os afastarem-se. a maior parte de tipo espanhol. Rambert concordou e Raoul apertou-lhe a mão. em que predominavam mulheres. O porão sombrio. a multidão. .disse. Mas logo que Raoul. De qualquer maneira. e Raoul referia-se a ele como ”nosso amigo”. a curiosidade desapareceu dos rostos. no dia seguinte. Rambert respondeu que aceitava. pois a empregada . . saíam de uma camisa de mangas arregaçadas. de vez em quando. Depois de sua partida. Apesar do calor. você pode nos deixar.

o cavalo estava totalmente animado e tratava Rambert por tu. Simplesmente. falou com um leve sotaque espanhol. Rieux disse que não era isso e que até a curva da estatística subia mais devagar. . Ao partir. Raoul e Rambert imitaram-no. Mas a coisa não termina aí. os meios de luta contra a peste não eram ainda suficientes. No fim do almoço.Espero que Tarrou não demore . Dirigiu-se à casa de Rieux e contou-lhe com detalhes suas diligências. Antes. . A discussão foi interrompida apenas por um aparelho de rádio que.disse Rieux. um barulho de corridas e de vozes: avisavam à família da chegada do médico. O cavalo concordou mais uma vez e Rambert aprovou sem entusiasmo. .Mais dois dias . do valor dos times profissionais ingleses e da tática em W. Parecia cansado. .É preciso encontrar as pessoas. O mais simples seria o senhor instalar-se durante algumas noites em casa de um deles que mora perto das portas. no campeonato da França. O amigo mais uma vez sacudiu a cabeça de cavalo.perguntou Rambert. depois de ter entoado em surdina melodias sentimentais. E distribuir o jogo. Quando tudo estiver arranjado. dizia ele.Chamo-me González .observou Rambert. nosso amigo vai facilitar-lhe os contatos necessários. Ninguém reagiu na sala. Ele próprio praticara esse esporte.A epidemia está andando muito rápido? . Os próprios guardas é que devem indicar o momento propício. sem parar de mastigar a salada de tomate e pimentões que engolia. é a ele que deve pagar.disse. Mas tudo se tornou muito fácil quando 104 Rambert descobriu que o cavalo era jogador de futebol. Propôs a Rambert que se encontrassem dois dias depois.Ele vai pô-lo em contato com dois de nossos amigos que o apresentarão a dois guardas que trabalham conosco. .disse Raoul. ”o centro-médio é quem distribui o jogo. anunciou que na véspera a peste fizera cento e trinta e sete vítimas.” Rambert era da mesma opinião. .aproximava-se para servir Rambert. onde o esperava um doente suspeito. embora tivesse sempre jogado como centroavante. para persuadi-lo de que não havia lugar mais belo num time que o de centromédio. . debaixo do pórtico da catedral. . O resto do almoço desenrolou-se na procura de um assunto. Falou-se. o centro-médio apertou a mão de Rambert com energia. No corredor. ”Compreendes”. Depois. porém.É que não é fácil . Esses dois dias pareceram intermináveis a Rambert. às oito horas da manhã. acompanhou o médico em uma de suas visitas e despediu-se dele à porta da casa. Depois. O homem de cabeça de cavalo encolheu os ombros e levantou-se. isso é futebol. portanto.

deve apressar-se para resolver logo o caso.Sabe. começa-se a envelhecer. Mas também há falta de homens.disse Rambert -. mas não consigo suportar a ideia de que isso vai demorar muito e que ela vai envelhecer durante todo este tempo. . dez médicos e uma centena de homens. . .Vieram médicos do exterior e sanitaristas. quando Tarrou chegou.É preciso apenas dar-lhes uma oportunidade. . .Fico satisfeito em saber que ele é melhor que seu sermão.Falta-nos material .perguntou o médico..Ele refletíu e concordou. substitui-se geralmente a falta de material por homens.Fico satisfeito . . Aparentemente. muito animado. Será insuficiente. . Rieux murmurava que julgava compreender.disse -.E a minha função na vida é dar oportunidades. Aos trinta anos. Só quê há ideias que não consigo suportar. não é isso que me faz partir.disse o médico.Sim . mas preciso chegar a tempo. Uma sombra passou pelo rosto do jornalista. O médico olhou-o de frente. pelo menos não sempre. .disse. depois sorriu para Rambert.Vai encontrá-la . Mal chega para o estágio atual da doença.disse. se a epidemia se propagar.Rieux respondeu que sabia. .Desculpe-me . .Todos são assim . . .E então? . 105 . mas Rambert continuou: Creio que não sou covarde. . . .Talvez. e é preciso aproveitar tudo. Sorriu e piscou o olho para Rieux. Não sei se consegue me entender. Já tive ocasião de prová-lo. .Sim . é muito.disse Rieux -. Rieux apurou o ouvido aos ruídos do interior.Em todos os exércitos do mundo. .Acabo de pedir a Paneloux que se junte a nós.afirmou Tarrou.

o primeiro a chegar. os cânticos cessaram. há algum problema.concluiu González. Rambert dirigiu-se ao pórtico da catedral cinco minutos antes das oito horas. Ao fim de um instante conseguiu distinguir na nave os pequenos vultos negros que tinham passado por ele. . O sol. ainda. Um vago cheiro de umídade subia ainda do gramado. No dia seguinte.Na quinta-feira do encontro. que a bruma na qual flutuavam. Rambert. Acendeu um cigarro.Claro . Outros vultos negros faziam a ascensão das grandes escadas e dirigiam-se para o pórtico. Rambert suspirou e atirou o chapéu para a nuca. De repente. olharam-no . O ar estava ainda bastante fresco. onde acabavam de instalar um São Roque executado às pressas numa das oficinas da cidade. O monumento aos mortos de Oran encontra-se no único lugar de onde se pode ver o mar. González já descia as escadas e dirigia-se à cidade. Rambert começava a impacientar-se. Às oito e quinze.Não é nada . . mas depois pensou que talvez não fosse permitido naquele lugar. rindo. Vagas salmodias chegavam-lhe do interior com velhos perfumes de porão e de incenso. mas a partida só dura hora e meia. . uma espécie de passeio que ladeia. Explicou que tinha esperado os amigos num outro encontro que marcara. aproximaram-se dois homens.Seria natural. . Estavam todos 106 reunidos a um canto.Naturalmente. . Rambert penetrou na abóbada escura. Alguns minutos depois. No céu avançavam pequenas nuvens brancas e redondas que a vinda do calor logo desfaria. os ataques e os passes que é preciso fazer para marcar um gol. as falésias que dominam o porto. aquecia apenas o capacete da Joana d’Are toda dourada que guarnecia a praça. os órgãos da catedral começaram a tocar em surdina. pouco mais espessos. Propunha um outro encontro para o dia seguinte. Quando Rambert saiu. Rambert -. Ajoelhados. aqui e ali. em vão. por detrás das casas do leste. numa distância bastante curta. os órgãos executavam variações sem fim. perdidos entre os tons cinzentos como pedaços de sombra coagulada. Nem sempre se fica à vontade no trabalho que fazemos. não longe dali. no entanto seco. pareciam ter-se encolhido ainda mais.Pensa só em todos os deslocamentos.disse ele ao jornalista. lia com atenção a lista dos mortos no campo de batalha. Um relógio deu oito badaladas. Uma dezena de pequenos vultos negros saíram da igreja e puseram-se a caminhar em direção à cidade.Pensei que tinha ido embora . . à mesma hora. junto do monumento aos mortos. Mas esperara por eles vinte minutos. Por cima deles. em frente a uma espécie de altar improvisado. Rambert ensaiou alguns passos sob o pórtico deserto. às dez para as oito.disse.

As despesas serão pagas na saída. Não eram de confiança e. Não havia condições de envolvê-los no negócio.Se dispuserem de um momento depois do jantar. eu te faço companhia. pareciam-se muito. Ele falou-me muito em você.disse. . em determinadas noites. Mas era preciso não perder tempo.Nunca sei se o estou incomodando . 107 . . Falta fazer o negócio. O jornalista refletia: . Rambert. duraria uma semana e que seria preciso escolher o dia mais conveniente. vestidos com as mesmas calças azuis e idêntica camiseta de malha azul-marinho de mangas curtas. ao subir ao seu quarto. . . que apresentou com os nomes de Mareei e Louis.com indiferença. dois dias depois. além disso.Não vale a pena. De frente. . Mareei ou Louis disse então que seu plantão começaria dentro de dois dias. A passagem seria então muito fácil. poderiam seguir para a casa dos guardas.disse.disse ele a Rambert -. depois foram encostar-se ao parapeito da avenida e pareciam inteiramente absorvidos na contemplação dos cais vazios e desertos. e Rambert calculou que fossem irmãos. Combinaram novo encontro. . González propôs um jantar no restaurante espanhol. .Não acho. No dia seguinte. cruzou com Tarrou na escada do hotel.Na primeira noite . porque se falava ultimamente em instalar postos duplos no exterior da cidade. Mas às vezes. . não tinham mais de vinte anos.vou encontrar-me com Rieux .Estes são nossos amigos . De lá.disse González.Pronto . com certeza. Nesse momento viu González.Agora a apresentação está feita. . desculpando-se. O jornalista afastou-se um pouco. Mareei ou Louis propunha assim a Rambert que fosse instalar-se em casa deles. os dois colegas iam passar uma parte da noite na sala dos fundos de um bar que eles conheciam. só viriam aumentar as despesas. Rambert concordou e ofereceu alguns dos seus últimos cigarros.Quer vir? . O rapaz que ainda não tinha falado perguntou então a González se a questão do pagamento estava resolvida e se podiam receber um adiantamento. que caminhava em direção a ele. . próximo das portas. Eram ambos da mesma estatura. é um conhecido.Não .disse González. depois sentou-se num banco e pôde observá-los à vontade. Viu então que. depois de uma hesitação. Eram quatro a guardar a porta de oeste e os dois outros eram militares de carreira. e que esperasse que viessem buscá-lo.disse. conduzindo-o na direção dos dois rapazes. venham os dois ao bar do hotel.disse Rambert. mesmo tarde.Ouça .

O álcool não os assusta? -. com tendas para doentes e. Recém-chegados do silêncio da cidade infestada. a conversa era incompreensível e perdia-se nos compassos do Saint James Infirmary.disse Rambert.Tarrou diz isso porque acha que você podia nos ser útil aqui. O médico não podia julgar ainda se ele estava bêbado.Não . Rieux aspirou o cheiro de ervas amargas do seu copo. . pequeno e estreito. com tranqüilidade. . ”tinham feito acampamentos para os indígenas. dizia ele.” Na outra mesa. sem pressa.perguntou Rieux. com uma mulher em cada braço. um pouco aturdidos. em toda a volta. um cordão de sentinelas que atiravam contra a família quando ela tentava trazer clandestinamente remédios caseiros. os dois pararam. mas Rambert parecia sobretudo ocupado em beber.Está próximo .Bem . No entanto.Por quê? Tarrou olhou para Rieux. Era difícil nesse tumulto. .Pelo contrário. . Tarrou empurrando.disse este.Oh! . .É pena . falando muito alto.Está contente? .Isso depende dele e da peste . elevando a voz. um freguês barulhento. Era duro. Numa das duas mesas que ocupavam o resto do local onde se encontravam. ocupada por rapazes elegantes.. . . Mas eu compreendo muito bem o seu desejo de partir. Eles o cercaram.Talvez esta semana. estendendo a mão para o copo. Rambert estava numa ponta do balcão 108 e fazia-lhes sinais do alto de seu banco.Nas nossas equipes .gritou Tarrou. Rambert desceu do banco e olhou-o de frente pela primeira vez: . às onze horas da noite Rieux e Tarrou entraram no bar. um oficial da Marinha. Umas trinta pessoas acotovelavam-se lá.Em que poderia eu ser-lhes útil? . . derramados por um pick-up colocado no alto. . . ”Acampamentos”. mas era certo.respondeu Tarrou.disse Tarrou. Compreenderam a agitação ao verem que ainda serviam bebidas alcoólicas. relatava a um gordo interlocutor congestionado uma epidemia de tifo no Cairo.disse Tarrou. Tarrou ofereceu outra rodada.

procurou Rieux para perguntar-lhe como poderia encontrar Cottard. os homens voltaram à sala de] jantar e instalaram-se. Rieux notou que sua mão tremia. ele estava totalmente bêbado. Pagou e saiu. Rambert retomou o ar de profunda reflexão que lhe era habitual e subiu de novo no banco. Acenderam a luz. Lá fora. Rambert viu que a sala estava vazia e que a empregada olhava para ele com espanto. no entanto. Às nove e meia dirigiu-se ao seu hotel. e a abóbada j muito baixa encheu-se de ruídos de talheres e de conversas! surdas.é seguir de novo a pista. Pensou que com toda a certeza. que durante todo esse tempo tinha de algum modo esquecido a mulher.respondeu o jornalista. no dia seguinte muito cedo. No interior. . Fumavam um tabaco de cheiro acre. cujo endereço não tinha.disse . E bebeu. Em frente ao restaurante um café estava aberto. sim. Pediu o jantar. . Às oito horas. a noite caía muito rapidamente. com todos os caminhos mais uma vez fechados. que ele compreendeu. com o coração desanimado por todas as providências que teria de retomar.perguntou Tarrou. . terminara sem ter visto González nem os dois rapazes. para dedicar-se inteiramente < à busca de uma abertura nos muros que o separavam dela. A sala esvaziava-se lentamente.Essas equipes não lhe parecem úteis? . ele a encontrou de novo no centro do seu desejo e com uma irrupção tão súbita de dor que começou a correr para o hotel a fim de fugir a essa queimadura atroz que.sanitárias. Rambert instalou-se no balcão para vigiar a entrada do restaurante.Tarrou pediu-me que convidasse Cottard. Uma brisa morna que vinha do mar levantava suavemente as cortinas das janelas.Muito úteis .Venha amanhã à noite . Novos clientes instalaram-se à mesa. que acabava de beber e olhava para Rambert com atenção. Pouco a pouco. Às oito e meia. Entretanto. não sei . Eram l sete e meia. Fumou. Foi nesse momento. Rambert ainda esperava. Rambert foi sentar-se à mesa do fundo. na noite atravessada por ambulâncias apressadas. . levava consigo e que lhe devorava as têmporas. Mas foi nesse momento também que. passou no meio de um pequeno 109 grupo de homens que tinham puxado cadeiras para a calçada e saboreavam uma tarde verde e dourada em que o calor começava apenas a abrandar. como viria a dizer ao Dr. No dia seguinte.Tudo o que me resta fazer . Rieux. onde encontrara González j pela primeira vez. .disse Rieux. o restaurante estava quase deserto. Começaram a servi-los. quando Rambert entrou pela segunda vez no restaurante espanhol. Disse à empregada que esperaria. Às nove horas. procurando imaginar como havia de encontrar González.

esta tarde? Tarrou. Cottard ria. Cottard? O outro levantou-se com ar ofendido e pegou o chapéu redondo: .Um em dez. 110 . que se agitava na cadeira. Quando. Sabem tão bem quanto eu que a peste não perdoa. .dizia Tarrou. Venha às dez e meia. que olhava para o capitalista com benevolência. já que está curado. Tarrou continuava a olhar para o capitalista. que a epidemia dizia respeito a todos e que cada um devia cumprir seu dever. . .Não é possível.Não é minha profissão. As equipes voluntárias estavam abertas a todos.Não me parece.O senhor já as tomou. não .disse Cottard -. Sr.retorquiu pacientemente Tarrou quando tivermos tentado tudo. à sua secretária.Além disso. sintome bem na peste. Garantiram-lhe que se tratava efetivamente da doença. com um pouco de obstinação. . Cottard olhava para Tarrou sem compreender.Mas. . Durante esse tempo Rieux. . num tom de bravata. acrescentou: . . . Teve sorte .Bem! .Depois. A peste é forte demais. tem-se surpresas.Já. Tarrou bateu na testa. mas isso não servirá para nada. Ele deve chegar às dez horas.disse Rieux. Ouviu os números.exclamou Cottard.para quê.Então não era peste.Por que não se junta a nós. Tarrou e Rieux falavam de uma cura inesperada que ocorrera no serviço deste último. mas é preciso que cada um as tome por conta própria. respondeu que conhecia os números e que a situação era grave. Este disse que homens demais continuavam inativos. copiava fichas. .Vamos saber . no dia seguinte. .É uma ideia . como que iluminado por uma verdade súbita. . . Não vejo por que haveria de me empenhar em fazê-la cessar. .Em geral. Cottard chegou à casa do médico. mas que provava isso? Provava que eram necessárias medidas ainda mais excepcionais.

A sua história não nos diz respeito. o senhor seria preso.gritou o capitalista..Como? . Uma bobagem. mas que talvez tudo se solucionasse.que eles desenterraram.Mas o senhor mesmo. .Depende da interpretação. em todo caso. Ou. Mas houve um que falou. dos meus hábitos.Prisão ou trabalhos forçados? Cottard parecia muito abatido.Ah! Por ora. sente-se. Não será o doutor nem eu que vamos denunciá-lo. . O capitalista olhou para a cadeira e sentou-se. foi o que o doutor e eu julgamos compreender. pelo menos. Cottard estremeceu e agarrou-se à cadeira. . após uma hesitação. de ser separado da minha casa.É uma velha história . sem isso. E.Ah! É verdade. recomeçou. . Vamos.Foi. é claro. Tarrou mostrou-se surpreso e respondeu: . invadido de repente por uma raiva forte demais para ele. Rieux tinha parado de escrever e olhava-o com um ar sério e interessado.reconheceu . E não consigo suportar a ideia de ser preso por isso.perguntou Tarrou. 111 E como Cottard. . além disso.perguntou Tarrou. Rieux falou pela primeira vez e disse a Cottard que compreendia a sua inquietação. . não é um assassinato. .Foi por isso que resolveu enforcar-se? . Mandaram chamar-me e disseram que me mantivesse à disposição deles até o fim do inquérito. .É grave? . de todos os que conheço. . ia me esquecendo. Mas logo depois. suspirou. Um momento depois. De qualquer forma.Foi um erro.Não se irrite. com veemência: . . . Compreendi que acabariam por me prender. Todos erram. acrescentou: . a polícia é algo de que jamais gostamos. Achei que estava esquecida.Prisão. . sei que nada tenho a temer. como se fosse cair.Quem lhe disse isso? . se tiver sorte. gaguejasse palavras incompreensíveis.

E.disse Rambert.Claro que não. Naturalmente. o capitalista acrescentou com muita energia na voz: . . ao menos . na esquina de uma rua. O outro.dizia. De manhã. ou no dia seguinte. iremos à casa dos garotos e trataremos de resolver tudo. Deixaram-lhe recado para que aparecesse no dia seguinte. durante vinte e quatro noras. E Rambert voltou para casa com uma expressão que impressionou Tarrou quando o encontrou à tarde: .Algum problema? .Não me queiram mal por isso. Cottard protestou que não tinha querido a peste. esperaram em vão. Ouvia em silêncio a história de Rambert.É preciso recomeçar tudo.. Rambert soube que Cottard desconhecia o endereço de 112 i González.Amanhã de manhã. E quando Rambert chegou à porta. No dia seguinte. Era possível que González e os dois rapazes não tivessem conseguido atravessar as barreiras.Vejo . . . não seria antes de dois dias. Mas tente. Raoul confirmou a hipótese de Garcia: os bairros inferiores tinham sido fechados. como Rieux manifestasse o desejo de ser informado. . Garcia estava lá. ao meio-dia. mas sabia que haviam fechado bairros inteiros. Essa era também a opinião de Rambert. Rambert convidou-o a ir com Tarrou ao seu quarto. levantou para Tarrou um olhar incerto. que ela viera espontaneamente e que não era culpa sua se ela o beneficiava no momento.disse Tarrou . mas que podiam sempre voltar ao pequeno café. Dois dias depois.É uma idiotice .perguntou-lhe. sorrindo -. em caso de impedimento.Devíamos ter combinado uma maneira de nos encontrarmos. no fim da semana. Era preciso entrar novamente em contato com González. na Place du Lycée. À tarde. .disse Tarrou. .Compreendo . os garotos não estavam em casa. Não estava a par.que não entrará para nossas equipes. . a fim de proceder a verificações domiciliares. a qualquer hora da noite. Dois dias depois. não propagar voluntariamente o micróbio. . No dia seguinte.De resto. Tudo o que podia fazer era colocá-lo de novo em contato com Raoul. Rambert almoçava com o jogador de futebol. que fazia girar o chapéu entre as mãos. Marcaram encontro para o dia seguinte. minha ideia é que não conseguirá nada. Cottard e Rambert foram ao café e deixaram recado para Garcia marcando encontro para a tarde.

. quando os dois homens penetraram no quarto de Rambert.perguntou Tarrou.Que disco é este? . .disse Rambert.Conheço a música.A peste. que chegara ao mesmo ponto e que teria em breve o seu último encontro. No meio do disco. pegando o seu.Naturalmente.respondeu Rambert. O jornalista respondeu que tinha feito tudo de novo. E renovou o convite: .É preciso não fazer disso um princípio . . o disco acabou e a sirene de uma ambulância se definiu.disse Tarrou. . Rambert foi a um canto do quarto e abriu um pequeno fonógrafo.exclamou Rieux. mas só tenho este. Um momento depois. encolhendo os ombros. Rambert respondeu que era o Saint James Infirmary.Apareça esta noite.Um cão ou uma fuga . . ele estava estendido na cama.Fui obrigado a recomeçar . perguntou-lhe se as coisas estavam bem encaminhadas.Gosta tanto assim dele? . aumentou. Bebeu e acrescentou: 113 i. .Os senhores não compreenderam ainda . Levantou-se e encheu os copos que tinha preparado. já o ouvi pelo menos dez vezes hoje. . . . À noite. passou sob as janelas do hotel.disse Tarrou. E além disso.O quê? . não compreenderam que consiste em recomeçar.Ah! .Não. .Este disco não é nada bom . ouviram-se dois tiros dispararem ao longe.respondeu Rambert.. Rieux. diminuiu e finalmente extinguiu-se. . . eles não virão.Não.

Descobriu de repente que Rambert o fitava. .Do lado dos vencidos.Sabe. sei que o homem é capaz de grandes ações.Na coragem. . 114 j . Agora. Mas desde então. . Tarrou. É incapaz de sofrer ou de ser feliz por muito tempo.De que lado? . Olhou para eles e continuou: .E um momento depois. . Esperavam criar outros.Temos a impressão de que ele é capaz de tudo disse Tarrou. . é porque tenho minhas razões. curvada à beira da cama. você é capaz de morrer por um amor? . O que me interessa é que se viva e que se morra pelo que se ama.perguntou Tarrou. agora.insistiu Tarrou.Não sei. pensei um pouco. Pois bem. . estou farto das pessoas que morrem por uma ideia. Se não estou nela. não me interessa. O jornalista tinha se sentado na cama e parecia preocupado com as unhas. creio que saberia ainda sacrificar a minha vida: fiz a guerra na Espanha. Rambert. Quanto ao resto. Portanto. pensei muito na sua organização. Sei que é fácil e aprendi que é criminoso. . Mas se não for capaz de um grande sentimento. Rieux escutara o jornalista com atenção. O outro saltou da cama com o rosto inflamado de paixão. doutor.Eu não disse que tudo consiste em recomeçar? Perguntou a Rieux como iam as equipes.Em quê? . Sem deixar de olhar para ele. disse. suavemente: .O homem não é uma ideia. é visível a olho nu.Está vendo? Você é capaz de morrer por uma ideia.Não. Não acredito em heroísmo. Havia cinco grupos trabalhando. não é capaz de nada que preste.Vejamos. . Rieux examinava-lhe a silhueta curta e robusta. mas parece-me que não. acrescentou: .

Sabe que a mulher de Rieux se encontra numa casa f de saúde a algumas centenas de quilómetros daqui? f Rambert fez um gesto de surpresa.É uma ideia. sei que consiste em fazer o meu trabalho..Não . Rambert olhava-os. Mas devo dizer-lhe uma coisa: não se trata de heroísmo. Não irei mais longe.perguntou Rambert. . no dia seguinte. nós já não somos capazes de amar. voltou-se para o jornalista e disse: l .Não sei o que ela é em geral.Temos muito que fazer. que me parece justo e bom. Rambert. Rambert. . mas a única maneira de lutar contra a peste é a honestidade.Não sei qual é o meu trabalho. . tem toda a razão. É mais fácil ficar do lado bom.Sim.disse Rambert com raiva. Mas no meu caso. mas pareceu mudar de ideia no mo-f mento de sair. se verdadeiramente não for possível. É uma ideia que talvez faça rir.disse com energia -. a partir do momento em que se desvia do amor.disse. Rieux esvaziou o copo. Rieux o enfrentou: . . e depois Rieux disse: . não está errado. . Na verdade. Esperemos vir a sêlo e. . E. E saiu. esperemos a libertação geral sem brincar de herói. mas Tarrou já saíra. 1 Muito cedo.Creio que ambos nada têm a perder em tudo isso.Aceitaria que eu trabalhasse com o senhor até encontrar um meio de deixar a cidade? Houve um silêncio do outro lado da linha. Muito obrigado. pensativo. . Trata-se de honestidade. talvez esteja errado ao escolher o amor. 115 Tarrou seguiu-o.Vamos . e uma ideia curta. doutor. . . . Rambert telefonou para o médico.Õ que é honestidade? . Resignemo-nos. justamente.Tem razão. Rieux levantou-se com um ar de súbito cansaço. e por nada deste mundo eu gostaria de demovê-lo do que vai fazer.Ah! . com um ar subitamente sério.

dizia o gerente do hotel. Os que ali viviam até então não puderam deixar de considerar essa medida como uma peça que lhes havia sido pregada especialmente e. no auge do calor e da doença. ”Há sempre alguém mais prisioneiro que eu”. consolavam-se ao imaginar que outros eram ainda menos livres que eles. por contraste. Passavam apressados pelas ruas. como se vê. como Rambert. curvados para a frente. com o crepúsculo que chegava bem mais rápido nessa época. que ainda podiam escolher. ela se recobrira de uma camada cinzenta que se descamava ao sopro do vento. pois não encontra nenhum obstáculo natural no planalto em que ela está construída e invade assim as ruas com toda a violência. branca de poeira. que ainda agiam como homens livres. Os habitantes acusavam o vento de transportar os germes da infecção. O vento é particularmente temido pelos habitantes de Oran. em todo caso. ”Ele baralha as cartas”. mais povoados e menos confortáveis do que no centro da cidade. a sirene das ambulâncias que faziam ressoar sob suas janelas o apelo monótono e desapaixonado da peste. À noite. agora mais raros. Estes. pensavam. por outro lado. os enterros dos defuntos e o sofrimento dos amantes separados. descrever de maneira geral e a título de exemplo as violências dos nossos concidadãos vivos. encontravam-se pequenos grupos de pessoas com pressa de voltar para casa ou de entrar nos cafés. as ruas ficavam desertas e só o vento soltava lamúrias contínuas. Fosse como fosse. podia-se dizer nesse momento. era a frase que resumia então a única esperança possível. saturada de odores marinhos. e cada vez mais frequentemente. gemia então corno uma ilha infeliz. Esse levantava assim ondas de poeira e de papéis que batiam nas pernas dos transeuntes. Mas ela pareceu de repente aproximar-se e instalar-se também nos bairros comerciais. em lugar das reuniões em que se tentava prolongar o mais possível esses dias em que cada um podia ser o último. na noite. durante semanas. Depois desses longos meses em que nem uma gota de água refrescara a cidade. os bairros do centro sabiam que sua vez tinha chegado ao ouvirem vibrar muito perto deles. E alguns. Já não havia então destinos individuais. com o que isso comportava de medo e de revolta. nos meados do mês de agosto. 117 Até aqui. nos seus momentos difíceis. os prisioneiros da peste debateram-se como puderam. O maior era a separação e o exílio. vinha um cheiro de algas e de sal.116 in Assim. com a mão ou um lenço sobre a boca. Essa cidade deserta. que a peste tudo dominara. Foi no meio desse ano que o vento se ergueu e soprou durante vários dias na cidade empestada. nos habitantes dos outros bairros como homens livres. Do mar agitado e sempre invisível. se bem que durante alguns dias. Eis por que o narrador acha conveniente. . porém. toda sonora dos gritos do vento. teve-se a ideia de isolar certos bairros particularmente castigados e de só autorizar a saída dos homens cujos serviços eram indispensáveis. chegavam até a imaginar. Até no próprio interior da cidade. a peste tinha feito muito mais vítimas nos bairros periféricos. Mas. na realidade. mas uma história coletiva que era a peste e sentimentos compartilhados por todos.

sobretudo nos bairros residenciais à porta oeste da cidade. feita pelas autoridades. não era a pena de prisão que fazia recuar esses infelizes. Na verdade. talvez pela primeira vez. Para os primeiros. Apesar do isolamento de certos detidos. foi necessário instituir penas severas contra os incendiários inocentes. estavam condenados e. de que uma pena de prisão equivalia a uma pena de morte em consequência da excessiva mortalidade verificada na penitenciária municipal. as militares. Como fora decretado o estado de sítio e. se os detidos não fizeram ouvir nenhum protesto. Do ponto de vista superior da peste. eram destacadas pequenas companhias das casernas para se aquartelarem em escolas e edifícios públicos. Evidentemente. aparentemente. Isso causava tumultos. o seu ponto de vista. Depois de ter demonstrado em vão que a desinfecção das casas. pagavam seu tributo à doença. Foi muito difícil combater esses empreendimentos. Todos ficaram descontentes. sempre que possível. todos aqueles homens. reinava na prisão uma justiça absoluta. E sem dúvida. enlouquecidas pelo luto e pela desgraça. . Da mesma forma. mas a certeza. ela apresentava o inconveniente de não produzir o efeito moral que se obtivera através da atribuição de uma condecoração militar. Além disso. os meios militares não aceitaram bem a ideia e fizeram notar. em menor escala. podia-se considerar que os guardas da prisão estavam mobilizados. que se podia estabelecer no espírito do público uma lamentável confusão. tinha forçado os habitantes à solidariedade de sitiados quebrava ao mesmo tempo as associações tradicionais e devolvia os indivíduos à sua solidão. cuja frequência submetia bairros inteiros a um perigo constante devido à violência do vento. comum a todos os habitantes. não se podia pensar em retirar-lhes as condecorações. parecia que a peste se empenhara em atacar particularmente aqueles que tinham adquirido o hábito de viver em grupo: soldados. a doença que. porém. houve também uma recrudescência de incêndios. Assim. bastava para excluir qualquer risco de contágio. a administração da penitenciária não pôde atuar como as autoridades religiosas e. o mal estava feito. Foi em vão que as autoridades tentaram introduzir hierarquia nesse nivelamento. As informações revelaram que se tratava de pessoas egressas da quarentena e que. com razão. desde o diretor ao último dos detidos. religiosos e prisioneiros. essa crença não era destituída de fundamento: por motivos óbvios. a medalha militar lhes era concedida a título póstumo. Fez-se justiça ao seu pedido e pensou-se que o mais simples era atribuir aos guardas a medalha da epidemia. era banal obter uma condecoração desse género.Mais ou menos nessa época. no que se refere à medalha da epidemia. uma prisão é uma comunidade e a prova disto é que na nossa prisão municipal 118 os guardas. já que. tanto quanto os presos. os monges dos dois únicos conventos da cidade tinham sido dispersados e alojados provisoriamente em casa de famílias piedosas. em tempo de epidemia. Por outro lado. ateavam fogo às suas casas na ilusão de dizimar a peste. No entanto. concebendo a ideia de condecorar os guardas da prisão mortos no exercício de suas funções. de certa forma. e os meios militares continuaram a manter.

mas não é certo que isso impressionasse os outros. a cidade era de pedra. Os postos de guarda foram reforçados e essas tentativas cessaram com certa rapidez. indivíduos furiosos capazes de se precipitar numa casa ainda em chamas na presença do próprio proprietário. A única medida que pareceu impressionar os habitantes foi a instituição do toque de recolher. entre os quais as efígies taciturnas de benfeitores esquecidos ou de grandes homens antigos. viram-se fugir por todos os lados sombras deformadas pelas chamas moribundas e pelos objetos ou móveis que carregavam nos ombros. Casas incendiadas ou fechadas por motivos sanitários foram saqueadas. sufocados para sempre no bronze. com seus falsos rostos de pedra ou de bronze. A bem da verdade. cenas semelhantes se desenrolaram com bastante frequência sem que as autoridades fizessem menção de intervir. isso bastou para levantar na cidade um sopro de revolução que provocou algumas 119 cenas de violência. Foram incidentes que forçaram as autoridades a assimilar o estado de peste ao estado de sítio e a aplicar as leis decorrentes. assim. jamais perturbadas pelos passos de um transeunte ou pelo latido de um cão. As portas da cidade foram atacadas de novo durante a noite e por várias vezes. as duas execuções passaram despercebidas: eram uma gota de água no oceano. a sua ordem última. não eram feitas para tranqüilizar nossos concidadãos. feridos e algumas fugas. Houve troca de tiros. enfim. e as verdades. a de uma necrópole em que a peste. todas as vozes. A partir de onze horas. Mas a noite também estava em todos os corações. No entanto. Diante de sua indiferença. mergulhada na noite completa. à luz do incêndio. Não é que ele goste desse tipo . evocar uma imagem degradada do que fora o homem. a preocupar-se com enterros. como as lendas que se contavam sobre os enterros. uma oportunidade súbita levava pessoas até então respeitáveis a ações repreensíveis que eram logo imitadas. é difícil supor que esses atos tenham sido premeditados. pois no meio de tantos mortos. imbecilizado pela dor. o obrigaram.Pode-se pensar que todas essas circunstâncias. jamais manchadas pela massa negra de uma árvore. E na verdade. A grande cidade silenciosa não passava então de um aglomerado de cubos maciços e inertes. Sob os céus enluarados. mas dessa feita por pequenos grupos armados. tentavam sozinhos. acrescentadas ao vento. a pedra e a noite teriam feito calar. de certo modo. Na maior parte das vezes. brutos insensíveis que bem representavam o reino imóvel em que havíamos entrado ou pelo menos. e o narrador pede desculpas. Esses ídolos medíocres reinavam sob um céu espesso nas encruzilhadas sem vida. levaram também o incêndio a certos espíritos. Encontraram-se. como obrigaram a todos os nossos concidadãos. Fuzilaram-se dois ladrões. Porque é efetivamente necessário falar dos enterros. mas a única justificativa é que houve 120 enterros durante toda essa época e que. Sente naturalmente a crítica que lhe poderia ser feita a respeito. ela alinhavava os muros esbranquiçados e suas ruas retilíneas. o exemplo dos primeiros foi seguido por muitos espectadores e nessa rua obscura.

Absorvidas pelas filas que era preciso fazer. por felicidade. Os parentes tomavam um dos táxis ainda autorizados e. na maior parte dos casos. sem dúvida. de recusar os enterros no dia em que nossos entes queridos precisam ser enterrados? Pois bem. a toda a velocidade. Rieux. pouco depois. davam uma carimbada no salvoconduto oficial. Qual o meio. Assim. afinal. de uma maneira geral. de modo que os que morriam à tardinha passavam a noite sós e os que morriam de dia eram enterrados sem demora. se a princípio o moral da população se ressentira com essas práticas. Além disso. fazia-se o chefe da família assinar papéis. e a sociedade dos vivos receava durante todo o dia ser obrigada a ceder lugar à sociedade dos mortos. À porta. Quinze minutos depois. apresentava-se à hora indicada da partida para o cemitério. tudo se passava na verdade com o máximo de rapidez e o mínimo de riscos. Um padre acolhia o corpo. Os doentes morriam longe da família e tinham sido proibidos os velórios rituais. preferindo. as pessoas não tiveram tempo de se . mas a evidência tem uma força terrível que acaba sempre vencendo. Na verdade era sempre possível esforçar-se por não vê-la. pouco antes para se submeter a uma desinfecção e. Naturalmente. Passava-se logo ao mais importante. A ambulância partira urr. era arrastado. a pompa fúnebre fora suprimida. amontoavam-se os caixões. a família entrava num táxi. não podia deslocar-se por estar de quarentena. No próprio corredor a família encontrava um único caixão. Mas. se tinha vivido perto do doente. desapareciam. A escola tinha uma saída por trás do edifício principal. Era a evidência. enquanto as pás de terra ressoavam cada vez mais surdas. Suponhamos que essa formalidade se passara no hospital auxiliar de que se ocupava o Dr. a família era avisada. depois de o corpo ter sido lavado e colocado no caixão. fechar os olhos e recusá-la. e os carros iam colocar-se perto de um quadrado onde numerosas covas esperavam que as enchessem. por exemplo. Tiravam o caixão para as preces. pelas providências a tomar e pelas formalidades a cumprir caso quisessem comer. chegava à casa. sem o qual era impossível ter o que nossos concidadãos chamam de última morada. pois os serviços fúnebres tinham sido suprimidos na igreja. mas. o problema do abastecimento tornou-se delicado e o interesse dos habitantes derivou para preocupações mais imediatas. o padre agitava o seu hissope e já a primeira pá de terra caía sobre o esquife. E. os guardas faziam parar o cortejo.de cerimónias. pelo contrário. porque o desejo de ser enterrado decentemente é muito mais profundo do que se supõe. passavam-lhe uma corda. Em tempos de peste porém não é possível levar em conta semelhantes considerações: tinha-se sacrificado tudo à eficácia. deslizava. no princípio pelo menos. 121 batia no fundo. No caso de a família não morar com o defunto. é evidente que o sentimento natural das famílias se ofendia. os banhos de mar. os banhos de mar tinham sido suprimidos. Em seguida. o que caracterizava no início nossas cerimónias era a rapidez! Todas as formalidades haviam sido simplificadas e. para dar um exemplo. a sociedade dos vivos. os carros dirigiam-se ao cemitério por ruas exteriores. e. Num grande cómodo que dava para o corredor. já fechado. quer dizer. colocava-se o corpo num carro que podia ser um verdadeiro carro funerário ou uma ambulância transformada.

Tolerava-se 122 apenas que viessem até a porta do cemitério e nem isso era oficial. pois. Muitos desses enfermeiros e coveiros. o que mostra a diferença que pode haver entre os homens e. o caráter desagradável de que se revestiam agora as formalidades obrigou a prefeitura a afastar os parentes da cerimónia.ocupar da maneira como se morria à sua volta e como elas próprias morreriam um dia. multiplicar as viagens entre o hospital e o cemitério. Uma vez cheios. Nas bordas do mesmo buraco. os parentes eram convidados a assinar um registro. Assim. pela força das circunstâncias. uns sobre os outros. Felizmente. . quando se pensa bem. Assim. Porque os caixões escassearam. este último pudor desapareceu e se enterraram de qualquer maneira. morreram de peste. eram recobertos de cal viva e depois. levavam-se as macas em cortejo. essa confusão extrema marcou apenas os últimos momentos do flagelo. os corpos cor de ferro eram colocados em macas e esperavam num local preparado para esse fim.Sim . mais ou menos ao lado uns dos outros. O progresso é incontestável. a separação das fossas existia. no que se refere à última cerimónia. no que diz respeito ao serviço de Rieux. deixavam escorregar para o fundo. mas só até uma certa altura. uma espessa camada de cal viva fumegava e fervilhava. No entanto. No cemitério eram esvaziados. como já vimos. Para todas essas operações era preciso pessoal e este estava sempre prestes a faltar. Os caixões eram regados com uma solução anti-séptica e levados novamente para o hospital. quando a coisa era necessária. a ambulância os transportava. portanto. as coisas tinham mudado um pouco. o mais extraordinário é que nunca faltaram homens para exercer essa profissão durante todo o tempo da epidemia. Sob esse aspecto.respondeu Rieux -. tinham sido abertas duas enormes fossas. e ainda por razões de eficácia. essas dificuldades materiais que deviam ser um mal revelaram-se depois um benefício. No período de que nos ocupamos. é o mesmo enterro. Foram necessárias algumas precauções. pareceu ser agrupar as cerimónias e. Disse até a Rieux que afinal isso valia mais que as carretas mortuárias conduzidas por negros. um montículo da mesma cal deixava suas bolhas arrebentarem ao ar livre. de terra. o hospital dispunha nesse momento de cinco caixões. E tudo teria corrido bem. O período crítico ocorreu um pouco antes de a . nesse momento. A organização era. Apesar desses êxitos de administração. Havia a fossa dos homens e a das mulheres. No fundo de cada uma delas. os cães: a verificação era sempre possível. muito boa e o prefeito mostravase satisfeito. depois improvisados. por exemplo. onde a operação recomeçava tantas vezes quantas fossem necessárias. Num extremo do cemitério. se a epidemia não se tivesse alastrado. tal como se lia nas cerimónias de antigas pestes. o contágio acabava por se fazer um dia. num local coberto de lentisco. No dia seguinte. faltou pano para as mortalhas e lugar nos cemitérios. Sim. O mais simples. as autoridades respeitavam as conveniências. Depois de acabadas as viagens da ambulância. os corpos desnudados e ligeiramente retorcidos que. a fim de poupar espaço para os futuros hóspedes. primeiros-oficiais. os homens e as mulheres. Por mais precauções que se tomassem. mas nós fazemos fichas. sem preocupações de decência. e foi só muito mais tarde que. e as autoridades eram muito exigentes em relação a isso.

salvo no caso de terem também entrado em férias no intervalo. puderam. fazendo soar discretamente a sirene nas ruas vazias da noite. pois. Nem para os trabalhos especializados. tomar outras medidas. Afastou-se para mais longe o piquete da guarda e um empregado da prefeitura facilitou muito a tarefa das autoridades ao aconselhar o uso dos bondes que antigamente . tornou-se necessário conduzir os próprios mortos da peste para a cremação. estes não permitiam recrutamento para os técnicos. avisavam-se os primeiros da lista que. a partir do mês de agosto o acúmulo de vítimas ultrapassou em muito as possibilidades que nosso pequeno cemitério podia oferecer. Um decreto da prefeitura expropriou os jazigos perpétuos e todos os restos exumados foram encaminhados ao forno crematório. ele era de opinião que se podia esperar. A partir desse momento. foi preciso procurar outro lugar. Puderam amontoar-se os corpos cada vez mais numerosos nas ambulâncias. contudo. pelo menos com uma ordem suficiente para que a administração mantivesse a consciência de que cumpria seu dever. Decidiu-se. Foi assim que o prefeito que hesitara muito tempo em utilizar os condenados temporários ou condenados à prisão perpétua. Mal tinham acabado de cair e já as pás de cal se abatiam sobre os rostos. em primeiro lugar. nossos concidadãos. Em breve. viu-se sempre a miséria mostrar-se mais forte que o medo. para esse género de trabalhos. fazer os enterros à noite. pôde evitar que se chegasse a esse extremo. e as inquietações do Dr. abrir aos mortos uma saída para os terrenos vizinhos: em breve tornou-se necessário encontrar outra coisa. Mas é necessário antecipar um pouco a sequência dos acontecimentos para relatar os últimos procedimentos a que foi preciso recorrer. na realidade. Os serviços sanitários puderam dispor de uma lista de pretendentes e. Na maior parte dos casos. com efeito. não deixavam de se apresentar. Apressadamente. Bem ou mal. e a terra os cobria de modo anónimo.peste ter atingido o seu auge. Um pouco depois. logo que havia uma vaga. então seu próprio excesso provocou consequências bastante cómodas. Mas. ~se encontravam ainda nos bairros exteriores depois do toque de recolher (ou aqueles que o dever levava para lá) encontravam por vezes longas ambulâncias brancas que corriam a toda a velocidade. a partir do momento em que a peste se apossou realmente de toda a cidade. os corpos eram lançados nas fossas. De nada servira derrubar muros. então. no estágio em que a peste se manteve. se não decentemente. contra todas as regras. fora das 124 portas. nem para o que se chamavam os trabalhos grosseiros. Rieux eram então fundamentadas. o fato é que até o fim do mês de agosto. foi preciso utilizar o antigo forno de incineração que se encontrava a leste da cidade. o que logo dispensou certos cuidados. mas os trabalhos grosseiros encontraram-se extremamente 123 facilitados. pois ela desorganizou a vida económica e suscitou assim um número considerável de desempregados. Enquanto houvesse desempregados. a mãode-obra era suficiente. tanto mais que o trabalho era pago na proporção dos riscos. Mas. nas covas que se abriam cada vez mais profundas. E alguns retardatários que. ser conduzidos à sua última morada.

em todo caso. Na lembrança dos sobreviventes. como em meio às chuvas do outono. era possível ver passar. Para esse fim. Na opinião dos médicos. Sabia também que. Ouviam-se. Mas os habitantes desses bairros ameaçaram imediatamente abandoná-los. uma administração prudente e impecável de bom funcionamento. nenhuma organização. alguns grupos conseguiam insinuar-se com certa frequência por entre os rochedos escarpados sobre as vagas para atirar flores aos carros. sobretudo. persuadidos de que a peste assim se abatia também sobre eles do alto dos céus. pela sua própria duração. o narrador sabe perfeitamente quanto é lamentável não poder relatar aqui algo de verdadeiramente espetacular como. o sentimento do exílio e. Ela era. porque se pode calcular que a engenhosidade de nossas repartições. Não. arrumou-se o interior dos veículos retirando-se os assentos e desviou-se a linha para o forno. e que a cidade veria. os mortos agarrarem-se aos vivos. no coração de cada noite. na noite de verão. que os homens viriam a morrer amontoados e apodrecer na rua. para nada trair e. felizmente. solavancos dos veículos. Rieux no princípio da epidemia. que se tornou. com sua carga de flores e de mortos. e imaginava facilmente sua espuma monstruosa sobre a água azul. os dias terríveis da peste não surgem como grandes chamas intermináveis e cruéis e sim como um interminável tropel que tudo esmaga à sua passagem. É assim que. como o lançamento dos cadáveres ao mar. a não ser no que diz respeito às . com um misto de ódio legítimo e de estúpida esperança. em nossos concidadãos. então. não eram nocivas a ninguém. Rieux sabia que se tinham previsto então soluções desesperadas. oscilando acima do mar. diga-se entre parênteses. Pela manhã. assim. Os habitantes acabaram sabendo do que se tratava. nos primeiros dias. apesar da prefeitura. as disposições da prefeitura e até mesmo a capacidade de absorção do forno poderiam ter sido ultrapassadas. o narrador tendeu para a objetividade. nas praças públicas.serviam à orla marítima e que se encontravam desativados. Não quis modificar quase nada pelos efeitos da arte. para não se trair a si próprio. Mas. as grandes desgraças são monótonas. É que nada é menos espetacular que um flagelo e. essas exalações. a peste nada tinha a ver com as grandes imagens exaltadas que tinham perseguido o Dr. todas as noites. estranhos cortejos de bondes sem passageiros. por melhor que fosse. algum herói altruísta ou alguma ação brilhante. Ê durante todo o fim do verão. 125 De qualquer forma era esse tipo de evidência ou de apreensão que mantinha. Foram essas as consequências extremas da epidemia. um vapor espesso e nauseabundo pairava sobre os bairros orientais da cidade. apesar das patrulhas que proibiam o acesso à orla marítima. à passagem dos bondes. E. Só nos dias de muito vento um vago cheiro vindo do leste lhes lembrava que estavam instalados numa nova ordem e que. resistiria. ela não aumentou depois. embora desagradáveis. em primeiro lugar. as chamas da peste devoravam a sua tribo. da separação. A esse respeito. por exemplo. semelhantes aos que se encontram nas velhas histórias. se as estatísticas continuassem a subir. à beira-mar. de modo que as autoridades foram obrigadas a desviar a fumaça por um sistema de canalizações complicadas e os habitantes acalmaram-se. uma estação final.

sofriam com a desencarnação. era a separação. nos cafés ou em casa dos amigos. tanto mais eficaz quanto mais medíocre era. naturalmente. fazer dele uma nova descrição nessa fase da peste. Seria mais exato afirmar que. nem como havia podido viver perto deles um ser em que podiam a todo momento pousar a mão. graças a eles. perderam também a memória. achava que essa era justamente a desgraça e que o hábito do desespero é pior que o próprio desespero. Ninguém mais. ele perdera a carne. diziam nossos concidadãos. Antes. de seu riso. De resto. tinham memória. e se é indispensável. os separados não tinham repugnância em falar dos ausentes. a atitude da desgraça e do sofrimento. tinham entrado na própria ordem da peste. Teriam nossos concidadãos. porque não havia outro modo de proceder. em examinar sua separação sob o mesmo enfoque que as estatísticas da epidemia. os separados não eram realmente infelizes. por exemplo. com a continuação. Os que tinham uma profissão. executavam-na ao ritmo da própria peste. e com um ar tão entediado que. o que vem a dar no mesmo. compreenderam. tanto o mais geral quanto o mais profundo. mas já não os sentiam. Desse ponto de vista. tanto moral quanto fisicamente. tinha grandes sentimentos. tinham dificuldade de imaginar o que o outro podia estar fazendo no próprio momento em que o evocavam e em lugares de agora em diante tão longínquos. já não o sentiam no interior de si próprios. No começo da peste. mas uma imaginação insuficiente. se habituado à situação? Não seria inteiramente justa essa afirmação. Agora. E. em usar a linguagem de todos. sucedera um abatimento que seria erro considerar como resignação. não deixa de ser verdade que até esse sofrimento era então menos patético. de só lhes restarem sombras das 126 coisas amadas. enquanto tendiam a queixarse. eram vistos pelas esquinas. mas que nem por isso deixava de ser uma espécie de aquiescência provisória.necessidades básicas de um relato mais ou menos coerente. meticulosamente e sem brilho. Ao fim desse longo tempo de separação já não imaginavam essa intimidade que fora sua. ”É tempo de acabar com isso”. e na verdade desejavam que aquilo acabasse. Todos eram modestos. pois havia no seu sofrimento uma luz que acabava de se extinguir. toda a cidade parecia uma sala de espera. pelo menos os que mais haviam sofrido com essa separação. Mas. Mas todos experimentavam sentimentos monótonos. lembravam-se nitidamente do ente que haviam perdido e sentiam saudade. em sua consciência. plácidos e distraídos. Na segunda fase da peste. Pela primeira vez. Em suma. Rieux. mas. Enquanto. se o grande sofrimento dessa época. Tinham ainda. E é a própria objetividade que o obriga agora a dizer que. como se costuma dizer. o Dr. se se lembravam nitidamente do rosto amado. nesse momento. Nossos concidadãos tinham-se adaptado. . Mas tudo isso se dizia sem o calor e sem o sentimento amargo do princípio e apenas com as poucas razões que nos restavam ainda claras e que eram bem pobres Ao grande impulso feroz das primeiras semanas. Não que tivessem esquecido esse rosto. até então. que essas sombras podiam tornar-se ainda mais descarnadas ao perderem até as cores ínfimas que a recordação conservava. de determinado dia que agora reconheciam ter sido feliz. entre nós. porque em período de flagelo é normal desejar o fim dos sofrimentos coletivos. nas primeiras semanas.

Ao passo que nos primeiros tempos da peste eles se surpreendiam com a quantidade de pequenas coisas que contavam muito para eles. retrocessos. da mesma forma. . Ela os mantinha suspensos por um momento. Pois se é verdade 127 que todos os separados chegaram a esse estado. Perdiam as aparências do senso crítico ao mesmo tempo em que ganhavam as aparências do sanguefrio. os mais inteligentes fingirem procurar. instalavam-se no presente. só se interessavam por aquilo que interessava aos outros. inopinadamente e por efeito de alguma graça. A peste. então. em que eles formavam algum projeto que implicava o fim da peste. Na verdade. quer dizer. que para os crentes é a do exame de consciência. uma vez instalados nessa nova atitude. os bordos irritados dessa ferida. E. porque esses dias eram consagrados a certos ritos. que aspecto tinham esses separados? Pois bem. Podia-se ver. à rotina. no domingo. voltavam à atonia. já estavam dormindo. uma certa melancolia que os invadia ao fim da tarde davalhes o aviso. a mordida de um ciúme sem objeto. aceitavam agora a confusão. é preciso que se diga. agora. já não tinham senão ideias gerais e seu próprio amor assumira para eles a forma mais abstrata. é dura para o prisioneiro ou o exilado que só pode examinar o vácuo. perguntar-se-á. de noite. sua ferida aparentemente fechada se reabria bruscamente. Compartilhavam a placidez e as agitações pueris da cidade. aliás. como todos. bruscos estados de lucidez. tirara a todos o poder do amor e até mesmo da amizade. lampejos. encerravam-se na peste. Mas. Porque o amor exige um pouco de futuro e para nós só havia instantes. naturalmente. do tempo do ausente. tudo se tornava presente para eles. redescobrindo num lampejo seu sofrimento. e faziam assim a experiência da vida pessoal. por exemplo. de que a memória ia voltar. Era preciso que eles sentissem. voltavam ao flagelo. Essa hora da tarde. nem sempre confirmado. na realidade. levavam os pacientes a uma sensibilidade mais nova e mais dolorosa. sem terem qualquer existência para os outros. Outros encontravam também renascimentos súbitos. Estavam a tal ponto abandonados à peste que lhes acontecia às vezes só desejarem o sono e surpreenderem-se a pensar: ”Que venham logo os tumores e se acabe com isso!” Mas. distraídos. Ou. tinham o aspecto de todos. saíam do seu torpor em certos dias da semana.tinham subtraído ferozmente seu sofrimento à desgraça coletiva. e todo esse tempo não foi mais que um longo sono. um aspecto 128 inteiramente geral. De manhã. pelo contrário. Sem memórias e sem esperança. Ou. É claro que nada disso era absoluto. se se prefere. Já se compreendeu que isso consistia em renunciarem ao que tinham de mais pessoal. é justo acrescentar que não chegaram todos ao mesmo tempo e que. depois. despertados em sobressalto. A cidade estava povoada por sonolentos acordados que só escapavam realmente ao seu destino nos raros momentos em que. Eram necessários para isso momentos de distração. e aos sábados à tarde. muito simples: não tinham aspecto nenhum. apalpavam então. a imagem perturbada do seu amor. subitamente rejuvenescido e com ele.

nos jornais ou nas emissões radiofónicas. preguiçavam ou se esgotavam. arquivavam fichas ou faziam girar discos sem se distinguirem muito uns dos outros. no meio das detonações que irrompiam às portas da cidade. Aceitava-se tudo em bloco. capaz de tudo devorar. aparentemente. como o crime ou a condenação. Para encerrar. Os demais bebiam sua cerveja ou tratavam de seus doentes. Era a mesma resignação e a mesma persistência. Todos nós. todos nós nos nutríamos do mesmo pão do exílio. entre fumaças terríveis e as sirenes tranqüilas das ambulâncias. Não era mais que uma paciência sem futuro e uma espera obstinada. na ausência dos ruídos de veículos e de máquinas que normalmente constituem toda a linguagem das cidades. Seria apenas necessário elevar esse sentimento a uma escala mil vezes maior no que diz respeito à separação. Tinham perdido o egoísmo do amor e as vantagens que dele tiravam. tarde após tarde. sem dúvida. em meio aos incêndios e às fichas. em nossos corações. Em todo caso. seria preciso evocar de novo as eternas tardes douradas e poeirentas que caíam sobre a cidade sem árvores. E. o doloroso deslizar de milhares de solas. razões para acreditar num fim rápido da peste e conceberem. ao terror e às formalidades. Porque. enquanto homens e mulheres se espalhavam 129 por todas as ruas. ao mesmo tempo ilimitada e sem ilusões. a atitude de alguns de nossos concidadãos fazia pensar nas longas filas. bocejando de tédio. inerte. mas registrada. nos quatro cantos da cidade. ritmado pelo silvo do flagelo no céu pesado. esperando sem o saber a mesma reunião e a mesma paz perturbadoras. supondo que se queira ter uma ideia justa do estado de espírito em que se encontravam os separados de nossa cidade. pesado. diante das lojas de alimentos. porque se tratava então de uma outra fome. dos carimbos que marcavam o compasso de nossa vida ou de nossa morte. o que chegava então dos terraços ainda ensolarados. estranhamente. a peste manteve a cidade sob seu domínio. desse ponto de vista. era apenas um rumor de passos e de vozes surdas. substituía então o amor. dava sua voz mais fiel e mais melancólica à obstinação cega que. Já que se tratava de marcar passo. Em outras palavras: já não escolhiam nada. esperanças quiméricas ou sentirem receios sem fundamento ao ler considerações que um jornalista havia escrito um pouco ao acaso. Nosso amor. várias centenas de milhares de homens continuaram a arrastar . E isso se via pela maneira como ninguém mais se ocupava da qualidade do vestuário ou dos alimentos que se compravam. 130 IV Durante os meses de setembro e outubro. prometidos a uma morte ignominiosa. estava presente ainda. mas simplesmente era inutilizável. Pelo menos agora. A peste suprimira os juízos de valor. estéril. um interminável e sufocante arrastar de pés que enchia pouco a pouco toda a cidade e que. pode-se dizer que os separados já não tinham esse curioso privilégio que no princípio os preservava. a situação era clara: o flagelo era problema de todos.

não liam os jornais nem ouviam rádio. e não se explicava. por exemplo.os pés durante semanas intermináveis. Rambert. E se lhes anunciavam um resultado. a estranha peça de madeira que girava. instalada há pouco no seu hotel. aos silvos. Viam-no assim num estado contínuo de esgotamento. passaram muito alto. Mas era incapaz de dizer o número semanal das vítimas da peste. a não ser pelo cansaço. e de trabalhar então de maneira positiva. resolvera telegrafar ao médico-chefe da clínica onde ela se tratava. na verdade. que fora encarregado provisoriamente de dirigir uma das casas de quarentena. que continuava a efetuar os cálculos exigidos pela peste. Esses homens. sua secretaria junto a Rieux e os trabalhos noturnos. o que nunca fizera até então. Na verdade. vindos do sul. meus senhores”. como a de se oferecer umas férias completas depois da peste. ignorava se ela realmente progredia ou recuava. teria certamente sido incapaz de indicar seus resultados gerais. já não se preocupavam com elas. O Dr. Foi com ele que Rieux se surpreendeu um dia a falar de sua própria mulher no tom mais banal. absorvidos em seu trabalho dia e noite. A bruma. o calor e a chuva sucederam-se no céu. ao ler os jornais. no que tinha à mão. Quanto aos outros. interrogara-o acerca de sua mulher e Rieux respondera. por cima das casas. esgotados pelo esforço. ”Como sabe. pensaria nele. Bandos silenciosos de estorninhos e de tordos. simulavam interessar-se. sustentado por duas ou três ideias fixas. mas acolhiamno. visivelmente resistentes ao cansaço. tinha recebido a comunicação de um agravamento do estado da paciente e a garantia de que tudo seria feito para deter a evolução do mal. dedicados apenas a não desfalecer em seu dever cotidiano. Estava a par dos mínimos pormenores do sistema de evacuação imediata que organizara para aqueles que mostravam subitamente sinais de doença. com a indiferença distraída que atribuímos 131 aos combatentes das grandes guerras. os homens dos grupos sanitários já não conseguiam digerir esse cansaço. como tinha podido confiá-la a Grand. isso . E. No começo de outubro grandes tempestades varreram as ruas. depois de lhe ter falado de Jeanne. mas contornaram a cidade como se o flagelo de Paneloux. E durante todo esse tempo nada de importante se produziu além desse monstruoso arrastar de pés. Ao contrário de Tarrou. os mantivesse à distância. mas já sem esperar pela operação decisiva nem pelo armistício. ele acumulava as funções de auxiliar da prefeitura. Rieux e seus amigos descobriram então a que ponto estavam cansados. Em resposta. Incerto do crédito que podia atribuir aos telegramas sempre tranqüilizadores da mulher. apesar de tudo. perguntava a si próprio onde estaria ela naquele momento e se. de Rambert e de Rieux. Grand. Rieux apercebia-se disso ao observar nos amigos e em si próprio a evolução de uma curiosa indiferença. Tinha guardado para si a notícia. conhecia perfeitamente o número dos que tinha em observação. ”tirem o chapéu. mantinha a esperança de uma evasão próxima. falava de bom grado de Jeanne a Rieux. durante uma semana pelo menos. nessas ocasiões. A estatística dos efeitos do soro sobre os internados estava gravada em sua memória. que até aqui tinham mostrado vivo interesse por todas as notícias que diziam respeito à peste. O empregado municipal. Era também sujeito a bruscos enternecimentos e. Ora. sua saúde nunca havia sido boa.

Mas. a quem. Esposas agarravam-lhe as mãos e gritavam: ”Doutor. Mas ele não estava ali para salvar a vida. E. quando reparou que seu interlocutor adormecera profundamente na cadeira. em que habitualmente um ar de ternura e de ironia punha uma perpétua juventude e agora. este comunicava ao velho amigo as últimas estatísticas. subitamente abandonado. no dia em que veio anunciar a Rieux que o soro estava pronto e depois de terem decidido fazer a primeira experiência no garoto do Sr. ao passo que hoje ela devia sentir-se totalmente só. essa era sua tarefa. Sua única defesa era refugiar-se neste endurecimento e apertar o nó que nele se formara. vêem-se segundo a justiça. é claro. não eram socorros que ele distribuía durante todo o dia e sim informações. salve-o”. diante desse rosto. Rieux sentiu um aperto na garganta. Amarrada a maior parte do tempo. mal ouvia Grand ou o doutor enunciarem os resultados. nas fisionomias? ”O senhor não tem coração”. Porque sabia que. que acabavam de remover para o hospital e cujo caso parecia desesperador a Rieux. não se podia chamar uma profissão de homem. Tarrou resistia melhor. Se Rieux estivesse mais vigoroso. perdera em diversidade. . Descobrir. Desviava 132 imediatamente a conversa para os pormenores da vida de Oran que geralmente o ocupavam. De agora em diante. em casa de Rieux. onde acabara por se instalar desde que o hotel fora transformado em instituição de quarentena. tinham-lhe dito um dia. então. À noite. Vêem-se as coisas como elas são. seu papel já não era o de curar. Aquilo. Othon. durante um período cujo término não conseguia vislumbrar. dizendo simplesmente que a separação começava a ser longa e que ele poderia talvez ter ajudado à mulher vencer a doença. estava ali para ordenar o isolamento. não tinha muitas ilusões e seu cansaço tirava-lhe as que ainda conservava. ele aparentemente só se interessava por Cottard. Quanto a Gastei. Depois. De que servia o ódio que lia. Como esse coração seria suficiente para dar vida? Não. a horrenda e irrisória justiça. registrar. se a sua curiosidade não se tornara menos profunda. Servia-lhe para recomeçar todos os dias. Quanto ao resto. ele tinha um coração. Sim. ver. deixava ver os estragos e a velhice. Os outros encontravam-se no mesmo estado. afinal. Mas quando só se dorme quatro horas não se é sentimental. calara-se e só respondera muito evasivamente às perguntas de Grand. depois condenar. A sensibilidade lhe fugia. Sabia efetivamente que essa era a melhor maneira de continuar. então. descrever. mas os cadernos mostram que. endurecida e seca. Servia-lhe para suportar as vinte horas por dia em que via morrer homens que haviam sido feitos para viver. Era por tais fraquezas que Rieux podia julgar seu cansaço. Seu papel era diagnosticar. aquele cheiro de morte espalhado por toda a parte poderia tê-lo tornado sentimental. o coração mal dava para isso. irrompia de vez em quando e abandonava-o a emoções que já não conseguia dominar. Rieux tinha concordado. aquela multidão aterrorizada e dizimada tinha deixado tempo para exercer a profissão de homem? Ainda bem que havia a fadiga. na realidade. isto é. Durante todo esse período. dissera Grand. com um filete de saliva a unir-lhe os lábios entreabertos.agora se cura muito bem”.

133 l E os outros, os condenados, sentiam o mesmo. Antes da peste, recebiam-no como um salvador. Ele ia consertar tudo com três pílulas e uma seringa, e apertavam-lhe o braço, ao conduzi-lo pelos corredores. Era lisonjeiro, mas perigoso. Agora, pelo contrário, apresentava-se com soldados, era necessário dar coronhadas para que a família se decidisse a abrir a porta. Teriam desejado arrastá-lo e arrastar toda a humanidade com eles para a morte. Ah! Era bem verdade que os homens não podiam dispensar os homens, que ele se achava tão despojado quanto esses desgraçados e que merecia esse mesmo tremor de piedade que sentia crescer em si depois de deixá-los. Eram pelo menos as ideias que o Dr. Rieux, durante essas intermináveis semanas, agitava com as que se relacionavam à sua situação de separado. E eram também aquelas cujo reflexo ele lia no semblante dos amigos. Mas o efeito mais perigoso do esgotamento que vencia, pouco a pouco, todos os que continuavam a luta contra o flagelo não estava nessa indiferença aos acontecimentos exteriores e às emoções dos outros, e sim na negligência a que haviam chegado. Porque tinham então tendência a evitar todos os gestos que não fossem absolutamente indispensáveis e que lhes pareciam sempre acima de suas forças. Foi assim que esses homens chegaram a desprezar cada vez mais as regras de higiene que tinham codificado, a esquecer algumas das desinfecções que deviam praticar em si próprios, a correr por vezes, sem se prevenirem contra o contágio, para junto de doentes atacados de peste pulmonar, porque, alertados no último momento de que deviam dirigir-se a casas infectadas, tinha-lhes parecido de antemão exaustivo voltarem a qualquer local para fazerem as instilações necessárias. Nisso residia o verdadeiro perigo, pois era a própria luta contra a peste que os tornava então mais vulneráveis a ela. Apostavam em suma no acaso, e o acaso não pertence a ninguém. Contudo, havia na cidade um homem que não parecia nem esgotado, nem desanimado e que continuava a ser a imagem viva da satisfação. Era Cottard. Continuava a manter-se à distância, preservando, no entanto, suas relações com os outros. Mas optara por visitar Tarrou sempre que o trabalho deste o permitia; por um lado, porque Tarrou estava bem informado sobre o seu caso, por outro, porque ele sabia acolher o pequeno capitalista com uma cordialidade inalterável. Era um milagre perpétuo, mas Tarrou, apesar do esforço que despendia, continuava benévolo e atencioso. 134 ; Mesmo quando o cansaço o arrasava, em certas noites, no dia seguinte ele encontrava uma nova energia. ”com esse”, dissera Cottard a Rambert, ”pode-se conversar, porque é um homem.” É por isso que, nessa época, as notas de Tarrou convergem pouco a pouco para a

personagem Cottard. Tarrou tentou fazer um quadro das reações e reflexões de Cottard, tal como elas lhe eram confiadas por ele ou tal como ele as interpretava. Sob a rubrica ”Relações entre Cottard e a peste”, esse quadro ocupa algumas páginas do caderno, e o narrador acha útil fazer aqui um resumo. A opinião geral de Tarrou sobre o pequeno capitalista resumia-se neste juízo: ”É uma personagem que cresce”. Aparentemente, aliás, ele crescia em bom humor. Não lhe desagradava a feição que os acontecimentos tomavam. Exprimia, às vezes, o fundo de seu pensamento diante de Tarrou, por meio de observações do género: ”É claro que a coisa não está melhor. Mas, ao menos, estão todos no mesmo barco”. ”Evidentemente”, acrescentava Tarrou, ”ele está ameaçado como os outros, mas justamente com os outros. Depois, não está seriamente convencido, tenho certeza, de que possa ser atingido pela peste. Parece viver com a ideia, aliás, não totalmente tola, de que um homem presa de uma grande doença, ou de uma angústia profunda, está dispensado, por isso mesmo, de todas as outras doenças ou angústias. ’Já reparou’, disse-me ele, ’que não se podem acumular doenças? Imagine que você esteja com uma doença grave ou incurável, um câncer sério ou uma boa tuberculose, nunca apanhará peste ou tifo. É impossível. Aliás, a coisa vai ainda mais longe, pois nunca se viu um canceroso morrer em desastre de automóvel.’ Falsa ou verdadeira, essa ideia deixa Cottard de bom humor. A única coisa que ele não quer é ficar separado dos outros. Prefere estar sitiado com todos a estar preso sozinho. com a peste, já não é preciso inquietar-se com inquéritos secretos, processos, fichas, instruções misteriosas ou prisão iminente. Para dizer a verdade, já não há polícia, não há mais crimes, novos ou antigos, já não há culpados, há apenas condenados que esperam o mais arbitrário dos perdões e entre eles, os próprios policiais.” Assim, Cottard, e sempre segundo a interpretação de Tarrou, era levado a considerar os sintomas de angústia e de perturbação que apresentavam nossos concidadãos com satisfação indulgente e compreensiva que se podia exprimir por um: ”Continuem falando, senti isso antes de vocês”. 135 ”Em vão eu lhe disse que a única maneira de não estar separado dos outros era afinal ter uma consciência tranqüila. Olhou-me com maldade e disse-me: ’Então, desse modo, ninguém está nunca com ninguém’. E depois: ’Pode ter certeza, sou eu quem o digo. A única maneira de juntar as pessoas ainda é mandar-lhes a peste. Olhe à sua volta’. E, na verdade, compreendo bem o que ele quer dizer e o quanto a vida de hoje deve parecer-lhe confortável. Como não haveria ele de reconhecer reações que foram suas; a tentativa que cada um faz para congregar todos à sua volta; a gentileza com que nos desdobramos para informar às vezes um transeunte perdido e o mau humor de que outras vezes damos prova; a precipitação das pessoas para os restaurantes de luxo, seu prazer em lá se encontrarem e em lá se demorarem; a afluência desordenada que faz filas todos os dias no cinema, que enche todas as salas de espetáculos e os próprios cabarés, que se espalha como uma maré desenfreada em todos os lugares públicos; o recuo diante de qualquer conta to, o apetite de calor humano que, no entanto, impele os homens uns para os outros, cotovelos para cotovelos, sexos para sexos? Cottard conheceu tudo isso antes deles, é evidente. Exceto as mulheres, porque, com sua cabeça... E suponho que quando se sentiu tentado a frequentálas, recusou-se para não ganhar uma fama que poderia prejudicá-lo no futuro.

”Em resumo, a peste lhe convém. De um homem solitário que não queria sê-lo, ela fez um cúmplice. Porque, visivelmente, é um cúmplice e um cúmplice que se deleita. É cúmplice de tudo o que vê, das superstições, dos terrores ilegítimos, das suscetibilidades dessas almas em alerta; de sua mania de querer falar da peste o menos possível e, no entanto, de falar dela sem cessar; de sua aflição e de sua palidez à menor dor de cabeça, desde que sabe que a doença começa por cefaléias, e de sua sensibilidade irritada, suscetível, instável, enfim, que transforma em ofensa esquecimentos e se aflige com a perda de um botão.” Acontecia muitas vezes a Tarrou sair com Cottard. Contava em seguida, em seus cadernos, como mergulhavam na multidão sombria dos crepúsculos ou das noites, ombro a ombro, imergindo numa massa branca e preta, em que uma rara lâmpada brilhava, acompanhando o rebanho humano para os prazeres ardentes que o defendiam contra o frio da peste. O que Cottard, alguns meses antes, procurava nos lugares públicos, o luxo e a vida ampla, aquilo com que 136 sonhava sem poder satisfazer-se, isto é, o gozo desenfreado, todo um povo o procurava agora. Enquanto o preço das coisas subia irresistivelmente, nunca se tinha desperdiçado tanto dinheiro e, quando o essencial faltava à maioria, nunca se tinha dissipado tão bem o supérfluo. Multiplicavam-se todos os jogos de uma ociosidade que era apenas desemprego, Tarrou e Cottard seguiam por vezes, durante longos minutos, um desses casais que antes se aplicavam em esconder o que os unia e que agora, apertados um contra o outro, caminhavam obstinadamente através da cidade, sem ver a multidão que os rodeava, com a distração um pouco fixa das grandes paixões. Cottard enternecia-se. ”Ah! Que safados!”, dizia ele. E falava alto, expandia-se no meio da febre coletiva, das gorjetas reais que soavam à sua volta e das intriga • que se teciam diante de seus olhos. Entretanto, Tarrou achava que havia pouca maldad na atitude de Cottard. Sua frase, ”Conheci isto antes deL^ ’, revelava mais infelicidade que triunfo. ”Creio”, dizia Tarrou, ”que ele começa a amar esses homens, prisioneiros entre o céu e os muros da cidade. Por exemplo, ter-lhes-ia explicado de bom grado, se pudesse, que a coisa não era tão terrível como tudo isso. ”Eles dizem”, afirmou ele, ”depois da peste, vou fazer isto, depois da peste vou fazer aquilo. . . Envenenam a própria existência, em vez de ficarem tranqüilos. E nem sequer se dão conta das vantagens de que desfrutam. Será que eu poderia dizer: Depois da minha prisão, vou fazer isto? A prisão é um começo, não é um fim. Ao passo que a peste. . . Quer a minha opinião? Eles são infelizes porque não se entregam. E sei muito bem o que estou dizendo.” ”com efeito, ele sabe o que diz”, acrescentava Tarrou. ”Avalia no seu justo valor as contradições dos habitantes de Oran que, ao mesmo tempo em que sentem profundamente necessidade do calor que os aproxima, não conseguem contudo abandonar-se a ele, por causa da desconfiança que os afasta uns dos outros. É sabido que não se pode ter confiança no vizinho que é capaz de nos passar a peste à nossa revelia e de aproveitar-se do nosso abandono para nos contagiar. Quando se passou o tempo, como Cottard, a ver indicadores possíveis em todos aqueles cuja companhia, contudo, se procurava, pode-se compreender

” Finalmente. de um dia para o outro. Mas. as páginas de Tarrou terminam por uma narrativa que ilustra essa consciência singular que vinha ao mesmo tempo a Cottard e aos atacados pela peste. É nisso que ele está errado e que é mais difícil de compreender que outros. os homens retomavam a segurança que lhes faltara algumas horas antes. enquanto os músicos afinavam discretamente os instrumentos. Instalados nos lugares mais caros. com um ligeiro excesso de patético. ao Senhor dos Infernos que se deixasse comover pelo seu pranto. .esse sentimento. ele está à vontade no terror. Eles tinham ido à Ópera Municipal. Em suma. Cottard e Tarrou dominavam uma plateia repleta pelos mais elegantes de nossos concidadãos. Certos gestos bruscos que lhe escaparam apareceram aos mais perspicazes como um efeito de estilização que aumentava ainda mais o valor da interpretação do cantor. após um acordo com nossa Ópera. No entanto. para fazer isso no 137 momento em que elas se regozijam de estar ainda sãs e salvas. Cottard convidara Tarrou. esse espetáculo continuava a conhecer o interesse do público e tinha sempre boas bilheterias. o terror parece-lhe então menos pesado de suportar que se estivesse totalmente só. Bloqueada pela doença. Mas. Mais exatamente. É fácil ser indulgente com pessoas que vivem na ideia de que a peste pode. e cantou-se o amor em pequenas árias. de Gliick. Orfeu queixou-se com facilidade. Esse relato reconstitui aproximadamente a atmosfera difícil da época e é por isso que o narrador lhe atribui importância. ressoavam os lamentos melodiosos de Orfeu e os chamados impotentes. ele sente efetivamente que sua vida e sua liberdade estão todos os dias às vésperas de ser destruídas. as silhuetas destacavam-se com precisão. Tratavase de uma companhia que viera. fazer algumas representações em nossa cidade. creio que não consegue sentir inteiramente com eles a crueldade dessa incerteza. há meses. porque ele sentiu tudo isso antes deles. entre as ruas negras da cidade. pôr-lhes a mão no ombro e de que ela se prepara. já que ele próprio viveu no terror. de Eurídice. Mas. todas as sextas-feiras. acha normal que os outros o conheçam por sua vez. A sala reagiu com um entusiasmo discreto. Durante todo o primeiro ato. no nosso teatro municipal. inclinavam-se com graça. Sob a luz contundente da ribalta. Mal se notou que 138 Orfeu introduzia na sua ária do segundo ato tremores que não figuravam e pedia. A casaca expulsava a peste. a companhia se vira forçada. onde se representava o Orfeu. passavam de uma fila a outra. Tanto quanto isso é possível. na primavera da peste. talvez. Os que chegavam esforçavam-se visivelmente em fazer notar sua entrada. como todos nós que não morremos ainda da peste. é por isso que merece mais que os outros que tentemos compreendê-lo. algumas mulheres de túnica comentaram com graça seu infortúnio. Assim. a repetir o espetáculo uma vez por semana. No ligeiro rumor de uma conversa de bom-tom. afinal.

os homens guiando as companheiras pelo cotovelo. Era preciso ter paciência até a semana seguinte. Desssl vez. acabando por se empurrar aos gritos. mas que assim se tornou aos olhos dos espectadores pela primeira vez e de uma maneira terrível. sorridente e cheia de rugas. e. na sala. perto das portas que davam para a estrada da orlai marítima. Em todo caso. para que uma certa surpresa corresse pela sala. o murmúrio tornou-se exclamação e a multidão afluiu às saídas.I González admirou-se. ficaram sós diante de uma das imagens do que era a sua vida de então: a peste no palco. González e o jornalista viram chegar os dois rapazes. de paredes es-l pessas. Rambert trabalhara seriamente ao lado de Rieux. como se o cantor tivesse apenas esperado esse movimento do público ou. já não era a sua semana de plantão. enquanto o jornalista pensava unicamente na semana que tinha de passar.” Mas Mareei. como se sai de uma igreja depois de acabada a missa. Cottard e Tarrou. uma velha espanhola. e desceram para o porto. Rambert co-1 mia e bebia. porém. dessa forma. servido pela mãe dos rapa-l zes. um encontro para a segunda-feira seguinte. no terceiro ato (era o momento em que Eurídice fugia ao seu amante). e González afirmou que ele era um compa-1 nheiro de verdade. sob o aspecto de um histrião desarticulado. ou Louis. Isso porque. ou de uma câmara mortuária depois de uma visita. Pouco a pouco.1 E. Vamos explicar onde mo-I ram.! Se não fosse muito exigente. disse nesse momento que ol mais simples era conduzirem imediatamente o companheiro. recomeçariam. que apenas se tinham levantado. ao mesmo tempo. E. o movimento precipitou-se. Então. que riam. Se eu não aparecer J você vai diretamente à casa deles. Ao meio-dia. janelas exteriores de madeira pintada. ele se informaria logo. . para vir abater-se no bucolismo do cenário. pois já havia falta de arroz na cidade.I ”Nós o arranjamos nas portas”. disse Mareei. a orquestra calou-se. havia comida para os quatro. l Mareei e Louis moravam no final do Quartier de lal Marine. mas que era preciso esperar. todo um luxo tornado inútil sob a forma de leques esquecidos e de rendas agarradas ao vermelho das poltronas. as mulheres segurando as saias e saindo de cabeça baixa. evitando o choque das cadeiras. com os braços e pernas afastados no seu traje antigo. compartímen-l tos nus e sombrios. Rambert 139 l disse que era exatamente essa a palavra. Apenas pedira uma folga no dia em que devia encontrar-se com González e os dois rapazes em frente ao liceu. mais certamente ainda. que nunca deixara de ser anacrónico. Disseram que não tinha havido sorte da outra vez. foi esse o momento que ele escolheu para avançar para a boca da cena de uma forma grotesca.Foi necessário o dueto de Orfeu e Eurídice. porém. instalariam Rambert em casa de Mareei e Louisl ”Vamos marcar um encontro você e eu. Havia arroz. primeiro em silêncio. González disse quel era uma excelente ideia. como se o rumor vindo da plateia tivesse confirmado o que ele sentia. Era uma pequena casa espanhola. comprimindo-se. Durante os primeiros dias do mês de setembro. as pessoas da plateia levantaram-se e começaram lentamente a evacuar a sala. González propôs^ portanto.

. por que me diz que devo me apressar? . ”De qualquer 140 modo”.acrescentou subitamente Rieux. ele sorria. Era seca e ativa. de uma pequena praça. foi correr ao alto da cidade e lá. vivia só a maior parte do tempo ou conversava com a velha mãe espanhola. disse-me ele. Rieux. então. A passagem brusca da ociosidade a esse trabalho esgotante deixava-o quase sem sonhos e sem forças. Rieux notou que. ”Está se expondo. de maneira ininterrupta. Tinham-lhe feito uma cama no compartimento comum. não tinha argumentos a contrapor.” . pela primeira vez desde a peste.disse Rambert. apertando a mão do médico. Rambert estava enfim instalado na pequena casa espanhola. teve de esperar duas semanas. e que concordou com Rieux não ser racional.Talvez porque também eu tenha vontade de fazer qualquer coisa pela felicidade. a não frequentar os meios de contrabando”.O Sr. Pensou que era a peste. Tarde da noite. Uma semana depois. E a única reação que pôde ter então. vestida de negro. com o rosto moreno e enrugado debaixo dos cabelos brancos muito limpos. Rieux abanou a cabeça com seu movimento habitual e respondeu que isso era problema de Rambert.Quer dizer que tem de apressar-se. Silenciosa.Por que não me impede então de partir? Dispõe de todos os meios. Falava pouco de sua próxima fuga. Rambert trabalhou sem se poupar. Sentia-se incapaz de julgar o que era bem ou mal naquele caso. Como os rapazes não comiam em casa e como lhe tinham recomendado que saísse o menos possível. não falaram mais de nada.Perguntou-me se eu o conhecia. na noite anterior. por cima dos muros da cidade. deítava-se e dormia um sono profundo. ”Aconselhe-o. mas trabalharam juntos. De volta a casa e não descobrindo no corpo nenhum sinal de infecção. mas de onde se via um pouco mais de céu. de onde ainda não se divisava o mar. desde a aurora até a noite. não se orgulhara muito dessa crise súbita.Na realidade.Que quer dizer isso? . sorria sozinha com todo o . pela primeira vez. chamar sua mulher com um grande grito. Ao sair do bar. disse ele.Nessas condições. e que ele.” . no momento em que Rambert ia deixá-lo. . .Obrigado . Já à porta. Rieux disse que compreendia muito bem que se pudesse agir assim. E durante esses quinze dias. Um único fato notável: ao fim de uma semana confessou ao doutor que. se embriagara.. No dia seguinte. que escolhera a felicidade. ”pode acontecer que se tenha vontade de fazê-lo. . teve de repente a impressão de que suas virilhas se inchavam e seus braços se moviam com dificuldade em torno da axila. pois os turnos de guarda foram prolongados para quinze dias a fim de reduzir o número de equipes. com os olhos de certo modo fechados. voltou-se de repente. Othon falou-me a seu respeito esta manhã .

que normalmente dividia o quarto com o primeiro. No dia seguinte. sem dúvida. um estava atacado pela peste e o outro.Tem razão. sem falar.perguntava a velha. No dia seguinte.Não acredita em Deus? . ”Está contente?”. . Bruscamente. Ele disse que sim.Acho que sim. Fique preparado”. ao passo que. Na semipenumbra da casa. . Dos dois homens que guardavam o posto com eles. Mareei tocava guitarra e bebiam um licor anisado.Muito simpática. . mas que afinal a probabilidade era mínima. Era. por mais que fizesse. A velha espanhola conservava. . forçosamente. Ele pensava que era um risco que valia a pena correr. No decurso da noite. permanecendo na cidade. Rambert parecia pensativo. . Mareei e Louis estariam a sós. que ia à missa todas as manhãs. Depois do jantar. o que lhe restaria? O resto do tempo Rambert andava à volta das paredes nuas e caiadas. À noite. dizia. Rambert refletia. arriscavam-se a ficar separados para sempre. Rambert reconheceu que não.Ela é simpática? .rosto quando olhava para Rambert. .Bonita? . Rambert agradeceu. afagando os leques pregados nas paredes ou então contava as bolas de lã que franjavam o pano de mesa. seria possível. a serenidade. o calor era úmido e sufocante. Outras vezes. vestiu-se e disse que ia sair. perguntou a velha.Ah! . senão para dizer que não chegara ainda o momento. 141 .perguntava a velha.dizia ela. e a velha disse ainda que era por isso. é preciso ir ao encontro dela. isso lhe tornava os torsos morenos e lustrosos. perguntava-lhe se não tinha medo de levar a peste a sua mulher. iam acertar os últimos detalhes. mas era impossível que fosse só por isso. ”Por isso. estava em observação. As notícias da peste eram más. sorrindo. o suor corria-lhe entre os ombros e sobre o peito. Rambert dava voltas. ”Há pecado no mundo”. sob um céu pesado. Não falavam muito. . Assim. mas pensava em outra coisa. Porém. . por isso.É por isso. Mareei disse ao entrar: ”É para amanhã à meia-noite. contudo. os rapazes voltavam. . às quatro horas da tarde. Na quarta-feira. de persianas fechadas. Senão. durante dois ou três dias.” Como Mareei e Louis. Rambert estava de peito nu.

com uma voz que o pano abafava. Tarrou olhou para o jornalista e mostroulhe as fichas.Hoje. hem? Pois bem. é para a meianoite.perguntou. são mortos. .. Mas se isso pudesse arranjar-se sem ele. . apesar do calor infernal. disse apenas: ”Seis”.Está na sala. . Diante do posto da guarda. . Alguém bateu. enxugava com um lenço o suor que lhe corria pela curva do braço. Colocou em cima da secretária de Tarrou um maço de fichas e. cujo suor atravessava o dólmã. Depois. saiu. dizia um sargento de olhos protuberantes. à meia-noite. . mas ficavam. sentado atrás de uma secretária de madeira preta com as mangas da camisa arregaçadas. Queria falar com Rieux. Juntou de novo o maço de fichas. e entrou um enfermeiro. . Tarrou levantou-se. Tinha a fronte cheia de sulcos.A única coisa que nos resta é a contabilidade.Por quê? . Numa pequena sala branca que cheirava a farmácia e a pano úmido. de máscara branca.Ainda aqui? . A mãe de Rieux disse-lhe que o encontraria no hospital. Era também a opinião dos outros. os mortos da noite. Tarrou.recomendou Mareei -. Tinha emagrecido. O cansaço turvava-lhe os olhos e os traços. Evito tudo o que possa perturbá-lo. Os outros circulavam. a mesma multidão continuava a girar sobre si própria. que saía do gabinete. A porta 142 . .Diz isso sinceramente? Tarrou encolheu os ombros.Belas fichas.Está esgotado. ”Não há nada a esperar”. O jornalista foi à casa do médico. .Ainda. Rambert mostrou o salvo-conduto ao sargento que lhe indicou o gabinete de Tarrou. mas em roda. Os ombros fortes estavam curvados. . seria melhor. apesar de tudo.Vai partir em breve? . ”Circulem”. dizia o sargento. Rambert cruzou com o Padre Paneloux. .Cuidado . Rambert olhava para Tarrou. que abriu em leque. Está tudo preparado. Tarrou disse que isso o alegrava e que Rambert devia ter cuidado. dava para o pátio. apoiando-se na mesa.

. Mentir é cansativo demais. que duas enfermeiras. . de repente. que formavam apenas um lamento monótono. . Falta a terceira brigada de prospecção. Por cima da máscara. Empurraram a porta envidraçada.disse Rieux. Pouco antes de chegarem a uma porta dupla envidraçada. mas que dava confiança aos outros. apesar da estação. Rieux aprovou com a cabeça. . Vamos. . Seguiram por um pequeno corredor. Quando se reergueu. uma de cada lado da cama.perguntou a Tarrou. de janelas hermeticamente fechadas. Rambert sentia-se pouco à vontade no calor terrível da sala e teve dificuldade em reconhecer Rieux. O jornalista perguntou se aquilo servia para alguma coisa. e suas hélices curvas agitavam o ar espesso e superaquecido por cima de duas fileiras de camas cinzentas. No alto das paredes.Não é isso . por trás da qual se via um curioso movimento de sombras.disse Rambert.Tarrou . Rieux voltou-se. seus olhos se franziam ao ver o jornalista. é preciso ser sincero. . Tarrou fez Rambert entrar numa sala mu iço pequena. .Na minha idade. Tarrou olhou para ele e. O doutor abria as virilhas do doente. deixou cair os instrumentos numa bandeja que um ajudante lhe estendia e ficou por um momento imóvel.Que há de novo? . inteiramente coberta de armários. . a se reagrupar sem Rambert. Abriu um deles. cujas paredes estavam pintadas de verde-claro e onde flutuava uma luz de aquário.Eu sei. vinham gemidos surdos ou agudos.Gastei terminou os primeiros preparados e propõe uma experiência.Muito bem.. E calou-se. curvado sobre uma forma que gemia.Finalmente.Ah! . convidando-o a usá-la. Era uma sala imensa. mantinham de pernas afastadas. Ele é mais humano que eu. De todos os lados. sorriu-lhe.Paneloux aceita substituir Rambert na casa de quarentena. tirou de um esterilizador duas máscaras de gaze hidrófila e estendeu uma a Rambert. ronronavam circuladores de ar. e Tarrou respondeu que não. Desculpe-me. está aqui Rambert. queria falar com o doutor. . com dificuldade. que se aproximava. a olhar para o homem em quem faziam um curativo. . Homens vestidos de branco deslocavam-se com lentidão na luz crua que transbordava das janelas guarnecidas de grades. Já fez muito.disse o jornalista -.

sem voltar a cabeça. . observou. . se quiser.disse Rambert -. jamais teria tempo para ser feliz. com uma voz surda.disse Rambert -. fico com o senhor. A cada vez que um deles falava. mas que se partisse teria vergonha. 144 ) . Um momento depois. Mas Rieux endireitou-se e disse. Isso tornava a conversa um pouco irreal.Sim .Que faz aqui? .disse Rambert. não vou embora. Tarrou nem pestanejou. com uma voz firme. que continuava a acreditar no que acreditava. O silêncio durou muito tempo. com mais . .Acabou a gasolina . que nada dissera até então. ao arrancar.Devia estar longe. Senão. Tarrou. quer não. Rieux parecia incapaz de sair de seu cansaço. Ninguém respondeu. Isso perturbaria seu amor por aquela que tinha deixado. . Mas agora que vi o que vi. . que. teremos de andar a pé. sei que sou daqui.disse Rambert. sabem muito bem disso. e Rambert pareceu impacientar-se. mas pode haver ^vergonha em ser feliz sozinho. Tarrou disse que era para a meia-noite e Rambert acrescentou: ”Em princípio”.perguntou. Rambert disse que tinha refletido.Aliás. se Rambert queria compartilhar da desgraça dos homens. quer queira. Rieux e Rambert instalavam-se no banco traseiro do carro do médico. a máscara de gaze inchava e ficava úmida à altura da boca.Queria falar-lhe . Tarrou dirigia.E ela? . . até que se aproximaram da casa do médico. o que fariam neste hospital? Acaso fizeram a sua escolha e renunciaram à felicidade? Nem Tarrou nem Rieux responderam.Não é isso . .Vamos sair juntos.. . como um diálogo de estátuas.Pensei sempre que era estranho a esta cidade e que nada tinha a ver com vocês. .perguntou. Continuava a dirigir. E Rambert de novo fez sua última pergunta. que aquilo era tolice e que não era vergonha preferir a felicidade.Doutor .disse. A história diz respeito a todos nós.Amanhã. . Era preciso escolher. Espere-me no gabinete de Tarrou.

disse. Rieux. Depois prosseguiu. Registremo-lo e aceitemos suas consequências. ao mesmo 145 tempo. atrás dele. .É um fato. Tarrou e o doutor faziam para Rambert o mapa do bairro que estava encarregado de fiscalizar quando Tarrou olhou para o relógio. sem que possa saber por quê. Ao levantar a cabeça encontrou o olhar de Rambert. o mais depressa possível. O garoto estava no período de abatimento e deixou-se examinar sem se queixar. . . mas não sei. olhando em frente.Tinha mandado um recado . Rambert . .Não os avisou? O jornalista desviou o olhar. A menina tinha sido afastada. Praticamente era a última esperança de Rieux. viuse pois isolada pela segunda vez. contudo. Foi nos últimos dias de outubro que o soro de Gastei foi experimentado. junto à cama. Uma guinada do carro fê-lo calar-se. também eu me afasto.Não se pode. o juiz mandara chamar o Dr.Perdoe-me.perguntou Rambert. já que assim o deseja. E. . Então.disse Rieux. Quando o médico levantou a cabeça. À meia-noite. Ergueu-se com esforço. Deixou-se cair de novo sobre a almofada.perguntou o juiz. . Quando Rieux chegou. com esforço antes de vir ao seu encontro. curemos. logo que reconheceu no corpo da criança os sinais da doença.É isso.Ah! .disse -. com uma voz fria. . encontrou o olhar do juiz e. curar e saber. Othon adoecera e toda a família fora posta de quarentena. quer a epidemia prolongasse seus efeitos durante longos meses ainda. A mãe. . Fique conosco. quer decidisse deter-se sem razão. . não é verdade? . É o mais urgente. Só Rieux se voltou para ele.força ainda. o filho do Sr. o rosto pálido da mãe.Nada no mundo vale que nos afastemos daquilo que amamos. o pai e a mãe estavam de pé. que colocara um lenço na boca e seguia os gestos de Rieux com os olhos dilatados. Na própria véspera do dia em que Gastei veio visitar Rieux.Que consequências? . . que saíra de lá pouco antes. é só. Cumpridor das determinações legais. Em caso de novo fracasso o médico estava convencido de que a cidade toda ficaria entregue aos caprichos da doença.

abanando a cabeça. Mas o doutor voltou-se para a mulher: . Entretanto. temos de fazer o que está determinado. que a princípio era uma simples formalidade. dolorosos.disse ela. sem reagir.Será rápido . era preciso não multiplicar as possibilidades da doença. tinham exigido que os membros de uma mesma família fossem sempre isolados uns dos outros. Othon parecia perplexa. Se um dos membros da família tivesse sido infectado sem o saber. Acho que devia preparar suas coisas. olhando de novo para a criança. porém. . já não havia lugar senão no campo de isolamento que a prefeitura estava organizando. .. Para o juiz de instrução. 146 O Sr. A Sra.disse ele.•-. A quarentena. com o auxílio de barracas emprestadas pelo serviço de vigilância sanitária. Estava de antemão vencido. engolindo a saliva -. O pequenino corpo deixava-se devorar pela infecção. e que era justo obedecer. A Sra. Rieux evitava olhar para a mãe. . Olhava para o chão. Rieux explicou essas razões ao juiz. depois do jantar. Antes de sair.Sim . Nessa mesma noite. . hesitando -. .Lamento muito. mas ainda em formação. No dia seguinte. Rieux julgou seu caso desesperador.Não .. Mas dessa vez o juiz desviou o olhar. bloqueavam as articulações dos frágeis membros. a mulher e ele olharam-se de tal modo que o médico sentiu até que ponto essa separação os deixava perturbados. Othon e sua filha puderam ser alojadas num hotel de quarentena dirigido por Rambert. Em especial. Othon disse que ia indicar-lhe o caminho.disse ele. Rieux não pôde deixar de perguntar se não precisavam de nada.Pois bem. todos se dirigiram ao leito do menino para julgar a experiência decisiva.É o que vou fazer. que mantinha o lenço na boca. Foi por isso que Rieux teve a ideia de experimentar nele o soro de Gastei. . que as achou razoáveis. Sabe como é.Sim . A mulher continuava a olhá-lo em silêncio. Rieux pediu desculpas. Quanto ao garoto.respondeu Rieux. mas o juiz disse que havia uma só regra para todos. de madrugada. Umas vinte horas depois. foi transportado para o hospital auxiliar para uma antiga sala de aula em que haviam sido instalados dez leitos. doutor. mas ela continuava calada. Pequenos tumores. O juiz calou-se também e depois disse. eles praticaram a longa inoculação. Os olhos da mãe dilataram-se ainda mais. no estádio municipal. mas salve meu filho. tinha sido organizada por Rieux e Rambert de uma maneira muito rigorosa. sem obter uma única reação da criança. se puder telefonar.. num tom mais baixo: .

Depois de lançar um olhar ao pequeno. Quando. Gastei e Tarrou estavam junto dele desde as quatro horas da manhã. há meses. a criança dobrava-se de novo com um . nu sob o cobertor militar. de certo modo. olhava para Rieux por cima dos óculos. Justamente como se lhe mordessem o estômago. Pouco a pouco. levou os braços e as pernas para o centro da cama e. Sem falar. voltou a guardar o maço no bolso. . O Dr. A criança descontraiu-se pouco a pouco. À cabeceira do leito. mas talvez já soubessem alguma coisa de preciso. Gastei. com os dentes de novo cerrados. a dor infligida a esses inocentes nunca deixara de lhes parecer o que era na verdade.Tem notícias do pai? . está no campo de isolamento. Joseph Grand chegou. Em primeiro lugar. à medida que o dia avançava na antiga sala de aula. um velho livro. O médico apertava com força a barra do leito onde a criança gemia. E. Tinham visto morrer crianças. com os olhos fechados e o rosto transtornado. Rieux encontrou o olhar de Tarrou.A criança. estava bastante claro para que no quadro-negro que ficara ao fundo da sala pudessem distinguir-se vestígios de antigas fórmulas de equações. sentado junto de Rieux. mas nunca lhes tinham seguido o sofrimento minuto a minuto. Do pequenino corpo.Não . saída do seu torpor. Por sua vez. se encolheu um pouco ao nível da cintura. com toda a aparência de tranqüilidade. os dentes cerrados até o limite de forças. tão longamente. o corpo imóvel. 148 Mas até então ao menos escandalizavam-se abstratamente. agitava-se convulsivamente entre os lençóis. virava e revirava a cabeça da direita para a esquerda no travesseiro sem fronha. o corpo maciço de Tarrou estava um pouco curvado. Não tirava os olhos do pequeno doente. a agonia de um inocente. que. Encostou-se aos pés da cama vizinha e tirou um maço de cigarros.disse Rieux -. Só podia ficar um instante. acompanhando passo 147 a passo os progressos ou recuos da doença. Rieux mostrou-lhe a criança. que estava de pé. Eram sete horas e o empregado municipal desculpou-se por estar esfalfado. Lia-se em seu rosto uma expressão dolorosa. que continuava sentado. Aos pés da cama. afastando lentamente os braços e as pernas. um eescândalo. naturalmente. Gastei lia. isto é. já que o terror. não escolhia. Paneloux. veio um cheiro de lã e de suor acre. pareceu respirar mais depressa. e o cansaço de todos esses dias em que ele se entregara totalmente traçara-lhe rugas na fronte congestionada. que se colocou do outro lado do leito em relação a Tarrou e encostado à parede. que desviou os olhos. no entanto. pois nunca tinham olhado de frente. ainda cega e muda. finalmente. como faziam desde essa manhã. os outros chegavam. que se enrijeceu bruscamente e. chegou Rambert.

A criança.Não houve remissão matinal. ao fechar os olhos. que de vez em quando lhe tomava o pulso. enxugou o pequeno rosto. cuja carne se fundira em quarenta e oito horas. Por trás da janela. e. a febre pareceu retirar-se e abandoná-lo ofegante num patamar úmido e envenenado. repelindo o cobertor. Rieux. fez um esforço visível para se dominar e voltou a olhar para a criança. a criança se retorceu. Confundia-se então com a criança supliciada e tentava apoiá-la com toda a sua força ainda intacta. Grossas lágrimas lhe jorravam das pálpebras inflamadas e corriam pela face lívida. não era já o terror dos primeiros tempos. No entanto. uma manhã de calor começava a crepitar. mesmo para os doentes. a criança tomou no leito devastado uma atitude de grotesco crucificado. no fim da crise. Rieux voltou-se bruscamente para ele e abriu a boca para falar. sacudida por calafrios e tremores convulsivos. terá sofrido mais tempo. mais para sair da 149 imobilidade impotente em que se encontrava. não é verdade. Parecia que. Mal se ouviu Grand sair. em que o repouso já se parecia com a morte. mas com uma discrição que parecia combinada. Tarrou curvou-se e. as pulsações dos seus dois corações desencontravam-se. sempre de olhos fechados. Ficou assim encolhida durante longos segundos. reunidas um minuto. A luz aumentava na sala. Ao longo das paredes caiadas. encharcado de lágrimas e de suor. mas foi obrigado a tossir para poder terminar. mas que a criança resistia há mais tempo do que o normal. encostado à parede. Passada a tempestade. crispando as pernas ossudas e os braços. formas mexiam-se e gemiam. Paneloux. essa agitação misturar-se ao tumulto de seu próprio sangue. soltava com intervalos regulares pequenas exclamações que pareciam traduzir mais espanto que dor. sentia. com a pesada mão. surdamente: . a criança lhe escapava e seu esforço perdia-se no vácuo. .Se tiver de morrer. sem necessidade aliás. Começou uma frase. pois sua voz desafinava bruscamente. dizendo que voltaria. Agora.gemido débil. Nas outras cinco camas. como se sua frágil carcaça se curvasse sob o vento furioso da peste e estalasse aos sopros repetidos da febre. que parecia um pouco abatido. no outro extremo da sala. Soltava então o frágil pulso e voltava ao seu lugar. Rieux? Rieux disse que não. havia até uma espécie de aquiescência na maneira como aceitavam a doença. Quando a vaga ardente o atingiu de novo pela terceira vez e o soergueu um pouco. Todos esperavam. parecia acalmar-se um pouco. exausta. ele se descontraiu um pouco. Só o pequeno se debatia com todas as suas forças. As mãos . disse então. recuou para o fundo do leito no terror da chama que o queimava e agitou loucamente a cabeça. a luz passava do rosa ao amarelo. Gastei fechara há um momento seu livro e olhava para o doente. mas calou-se. O único que gritava.

Talvez .Será preciso recomeçar tudo? . enquanto os outros gemiam cada vez com mais força. que fechou o livro que ficara aberto sobre os joelhos. Mas a criança continuava a gritar e. E deixou-se cair de joelhos. Mas Rieux saía já da sala. encontrou Tarrou a seu lado. O médico reconheceu então que o grito da criança tinha enfraquecido e 150 que enfraquecia ainda e que acabava de cessar.Afinal. os outros doentes calaram-se. Rieux cerrou os dentes. Porque a luta chegara ao fim. Rambert aproximou-se do leito. emitiu um único grito contínuo que a respiração mal modulava e que encheu de súbito a sala de um protesto monótono. agarrado à barra do leito. .que agora pareciam garras raspavam suavemente os flancos do leito. de repente. com restos de lágrimas no rosto. Aquele cujas exclamações não haviam cessado. os lamentos recomeçavam. conspurcada pela doença.perguntou Tarrou a Gastei. por detrás do lamento anónimo que não cessava: ”Meu Deus. agora como que fixado numa argila cinzenta. com uma voz um pouco abafada. fechou os olhos. mas muda. bêbado de cansaço e de desgosto. mas surdamente e como um eco longínquo da luta que acabava de terminar. precipitou o ritmo de seu lamento até fazer dele também um verdadeiro grito. e Tarrou voltou-se. subitamente menor. a criança repousava no fundo dos cobertores em desordem. Abriu então os olhos pela primeira vez e olhou para Rieux.Preciso ir embora . Depois. com a boca aberta.Não consigo mais suportá-los. perto de Gastei. e Rieux.Vamos. ele resistiu muito tempo. o pequeno dobrou as pernas.disse. doutor . Gastei tinha passado para o outro lado do leito e disse que tudo findara. quase imediatamente. bruscamente. cheia desse grito de todas as idades. Quando voltou a abri-los. . O velho médico abanava a cabeça. . com um passo tão precipitado e com um tal aspecto que. saiu pelo corredor central. este estendeu o braço para detê-lo. Paneloux aproximou-se do leito e fez os gestos da bênção. Uma maré de soluços irrompeu na sala. salvai esta criança”. .disse-lhe. quando passou por Paneloux. no outro extremo da sala. que se encontrava diante dele. À sua volta. Paneloux olhou para a boca infantil. mas nítida. .disse com um sorriso crispado. Mas. coçaram o cobertor perto dos joelhos e. cobrindo a oração de Paneloux. No rosto cavado. Depois subiram. aproximou as coxas do ventre e imobilizou-se. e todos acharam natural ouvi-lo dizer. desafinado e tão pouco humano que parecia vir de todos os homens ao mesmo tempo. à sua volta. a boca abriu-se e. os doentes agitaram-se. . .

. Rieux voltou-se e lançou-lhe com violência: . doutor . . Trabalhamos juntos para qualquer coisa que nos una para além das blasfémias e das orações. com tristeza -. . respondeu com mais suavidade: . O calor caía lentamente entre os ramos das árvores. . Mas não quero discutir isso com o senhor. 151 Rieux endireitou-se bruscamente. acabo de compreender aquilo a que se chama graça.Compreendo . vencendo pouco a pouco o cansaço.disse. . para desfazer enfim o nó violento que lhe apertava o coração. . Do fundo do cansaço que lhe voltara. . como o senhor bem sabe! Depois voltou-se e.Por que me falou com tanta raiva? .disse ele -.exclamou. . . padre . chegou ao fundo do pátio da escola. Paneloux sentou-se junto de Rieux.Também para mim o espetáculo é insuportável. em que nada sinto a não ser minha revolta. bem sei. Tinha vontade de gritar mais.Tenho outra ideia do amor. era inocente. E há horas.Isso é revoltante.Ah! Aquele. O céu azul da manhã cobria-se rapidamente de uma névoa esbranquiçada que tornava o ar mais abafado. atravessando a porta da sala antes de Paneloux. Rieux voltou-se para Paneloux. e enxugou o suor que já lhe escorria pelos olhos.disse uma voz atrás dele.com o mesmo movimento arrebatado. também o senhor trabalha para a salvação do homem. Rieux deixou-se ficar no banco.Desculpe-me.murmurou Paneloux.É o que eu não tenho.Sim . Mas o cansaço é uma loucura. Sentou-se num banco. Olhava para os galhos.disse ele. Parecia comovido. E vou recusar até a morte essa criação em que as crianças são torturadas.Ah. nesta cidade. pois ultrapassa nossa compreensão. para o céu.Não. No rosto de Paneloux passou uma sombra de perturbação. pelo menos. entre pequenas árvores poeirentas. . é verdade. Mas Rieux deixara-se cair de novo em seu banco. Só isso é importante. Mas talvez devamos amar o que não conseguimos compreender. Olhava para Paneloux com toda a força e toda a paixão de que era capaz e abanava a cabeça.É verdade . . recuperava lentamente a respiração.

Como vê . . . no primeiro posto.Que importância tem isso? . o que odeio é a morte e o mal.A salvação do homem é. a preocupação com sua própria morte não lhe era estranha.Como sabe. na posição que lhe parecia ser a sua. a partir do dia em que vira.Perdoe-me. quer queira. o doutor teve a impressão de que se tratava de algo mais sério do que parecia dizer Paneloux. não o convenci.Gostaria que viesse. no dia em que disse a Rieux. sorrindo. evitando fixá-lo -. estamos juntos para sofrê-los e combatê-los. que rèfletia.E. E embora. contudo. Paneloux não abandonara os hospitais e os lugares onde se encontrava 152 a peste. E. Paneloux hesitou.respondeu Rieux. Tinha-se colocado. nessa ocasião. e seus olhos brilhavam quando se levantou. Paneloux anunciou-lhe que devia fazer um sermão na missa dos homens e que. uma palavra demasiado grande. se levantou também e deu um passo em sua direção. doutor. que preparava nesse momento um curto tratado sobre o assunto ”Um padre pode consultar um médico?”.disse ele.Rieux segurava a mão de Paneloux. E. O padre fez seu segundo sermão num dia de grande ventania. Também sobre sua fronte o suor começava a escorrer. . Murmurou ”adeus”. nem mesmo Deus pode nos separar agora.disse. a saúde em primeiro lugar. . passo a passo. Não vou tão longe.Doutor. Paneloux estendeu-lhe a mão e disse com tristeza: . Lia-se no seu rosto uma tensão crescente. . em princípio. mais uma vez. Desde que entrara para as brigadas sanitárias. quando Rieux. Para dizer a verdade. Esse rompante não voltará a se repetir. . Aparentemente. pareceu modificar-se. No entanto. entre os salvadores. mantivera sempre a calma. Não lhe tinham faltado os espetáculos da morte. o assunto vai interessar-lhe. uma criança morrer. para mim. a . É sua saúde que me interessa. . Mas deteve-se. Como o médico exprimisse o desejo de tomar conhecimento desse trabalho. exporia pelo menos alguns de seus pontos de vista. Ia partir. . Quer dizer. . . estivesse protegido pelo soro. . quer não.Rieux tentou sorrir.

tiravam delas semelhanças (que as profecias chamavam constantes) e. quando Rieux chegou. pretendiam extrair delas ensinamentos relativos à presente provação. a própria palavra ”novidade” tinha perdido seu sentido. O que. Compreendendo que a curiosidade do público era insaciável. Outras estabeleciam comparações com as grandes pestes da história. Aliás. que se infiltrava em filetes de ar pelas portas de entrada. circulava livremente entre os ouvintes. se mostraram tão competentes quanto seus modelos dos séculos passados. e em várias ocasiões os ouvintes notaram uma certa hesitação em seu discurso. começaram a recear que essa desgraça não tivesse realmente fim e. cada um dos quais podia ser aquele que a cidade sentia e cuja complexidade permitia todas as interpretações. Coisa .. a maior parte das pessoas. à medida que os dias passavam. Editores da cidade viram rapidamente o proveito que poderiam tirar dessa mania e difundiram em numerosos exemplares os textos que 153 circulavam. de resto. quando não tinha desertado inteiramente de seus deveres religiosos. Essas superstições substituíam para nossos concidadãos a religião. que ele se instalou e viu o Padre Paneloux subir ao púlpito. Pode-se dar como exemplo o uso imoderado que nossos concidadãos faziam das profecias. Na tarde do sermão. ou quando não os faziam coincidir com uma vida pessoal profundamente imoral. finalmente. Algumas dessas previsões baseavam-se em cálculos estranhos em que intervinham o milésimo do ano. o término da doença tornou-se o objeto de todas as esperanças. com efeito. Nostradamus e Santa Odília foram assim consultados diariamente e sempre com proveito. ao mesmo tempo. o fim da doença. e foi por isso que o sermão de Paneloux se realizou numa igreja de que a quarta parte estava vaga.assistência era menos numerosa que por ocasião do primeiro sermão. encomendaram-nas a jornalistas que. numa linguagem apocalíptica. havia substituído as práticas normais por superstições pouco razoáveis. E foi numa igreja fria e silenciosa. Este falou num tom mais brando e mais refletido que da primeira vez. ao menos nesse ponto. É que esse género de espetáculo já não tinha para nossos concidadãos a atração da novidade. por meio de cálculos não menos estranhos. de um momento para outro. Era mais fácil usar medalhas protetoras ou amuletos de São Roque do que ir à missa. sem contestação. Era assim que passavam de mão em mão diversas profecias atribuídas a magos ou a santos da Igreja Católica. Quando a própria história já não tinha profecias. esperara-se. se tornava comum a todas as profecias era o fato de elas serem. no meio de uma assistência composta exclusivamente por homens. Nas circunstâncias difíceis que a cidade atravessava. Na primavera. mandaram fazer pesquisas nas bibliotecas municipais sobre todos os testemunhos do género que as pequenas histórias podiam fornecer e espalharam-nos pela cidade. Só a peste não o era. e ninguém pensava em pedir aos outros detalhes sobre a duração da epidemia. o vento. já que todos estavam persuadidos de que ela não duraria para sempre. anunciavam séries de acontecimentos. o número de mortos e a conta dos meses já passados sob o regime da peste. Mas as mais apreciadas pelo público eram. Mas. Algumas dessas profecias apareciam até em folhetins nos jornais e não eram lidos com menos avidez que as histórias sentimentais que lá se encontravam em tempo de saúde. as que. tranqüilizadoras.

Pois. ”Meus . Havia Dom Juan mergulhado nos Infernos e a morte de uma criança. pelo contrário. distraído por essa agitação. entretanto. era que em tudo. ele nada sabia. que não se devia tentar explicar o espetáculo da peste. Havia. Deus nos facilitava tudo e. as pessoas sabiam explicar facilmente o que os distinguia. A dificuldade começava porém no interior do mal. segundo o padre. a religião não tinha méritos. que retomava o sermão. Ter-lhe-ia sido fácil dizer que a eternidade das delícias que esperavam a criança podia compensar 155 seu sofrimento. pelo menos. mais ou menos. até então. como acontecia a todos. nesse caso. ele encostava-nos contra a parede. E. E Rieux. não tivéssemos escutado bem. fiel a esse esquartejamento de que a cruz era o símbolo. certamente. se é justo que um libertino seja fulminado. agora que a conhecíamos melhor. poderíamos talvez receber melhor o que ela nos dizia sem descanso e que talvez. No entanto. mal ouviu Paneloux. sua convicção. sua voz tornou-se pouco a pouco mais firme. Aqui. No resto da vida. Uma das portas almofadadas da entrada bateu suavemente. havia qualquer coisa a reter. e batia no peito. Ou talvez ainda. por exemplo. O Padre Paneloux chegava até a recusar as oportunidades que lhe permitissem escalar a muralha. geralmente. O que continuava verdadeiro. Seu interesse fixou-se quando Paneloux disse vigorosamente que havia coisas que se podiam explicar em relação a Deus e outras que não se podiam. com a primeira surpresa. cujo Mestre conheceu a dor nos membros e na alma. Nesse momento. diante do sofrimento de uma criança. E diria sem temor aos que o escutavam nesse dia. na verdade. O que o Padre Paneloux já pregara no mesmo lugar continuava verdadeiro ou era essa. Quem podia afirmar que a eternidade de uma alegria podia compensar um instante da dor humana? Não seria um cristão. não se compreende o sofrimento de uma criança.mais curiosa ainda. nada havia a explicar. o padre continuaria encostado à muralha. Alguém se deu ao trabalho de segurá-la. Rieux compreendeu coníusamente que. na verdade. Estávamos assim sob as muralhas da peste e era à sua sombra mortal que era necessário encontrar nosso benefício. nada havia de mais importante sobre a terra que o sofrimento de uma criança e o horror que esse sofrimento traz consigo e suas razões que é preciso descobrir. o mal aparentemente necessário e o mal aparentemente inútil. em vez de empregar a segunda pessoa do plural. agora. mas sim tentar aprender o que com ele se podia aprender. à volta de Rieux as pessoas pareceram enterrar-se entre os braços de seus bancos e instalar-se o mais confortavelmente que podiam. devia procurar era seu benefício e de que era ele feito e como podia encontrá-lo. e sempre. certamente. Dizia. caminhar ao nosso lado ou esperar a nossa chegada aos lugares de trabalho. A provação mais cruel era ainda benefício para o cristão. ele o tivesse pensado e dito sem caridade. e justamente o que o cristão. Não. o bem e o mal e. Havia. Começou por lembrar que a peste estava entre nós há longos meses e que. por a termos visto tantas vezes sentar-se à nossa mesa ou à 154 cabeceira dos que nos eram queridos. dizia agora ”nós”. portanto. mas.

segundo o que se tinha escolhido. Escolheria crer em tudo. chegou a hora. porque Deus a queria. É preciso crer em tudo ou tudo negar. pretendera revelar o segredo da Igreja. aparentando perguntar. e que só se podia ser salvo ou condenado. ousaria negar tudo?” Rieux mal tivera tempo de pensar que Paneloux beirava a heresia e já o outro recomeçava. ao afirmar que não havia Purgatório. e Rieux ouviu melhor. se lhe permitissem acrescentar o adjetivo ativo. diziam: ”Meu Deus. qual era em suma a conduta a adotar. que parecia redobrar lá fora. debaixo das portas. Todo pecado era mortal e toda indiferença. que a alma repouse e se rejubile nos tempos de felicidade. Subentendia. que não se tratava da banal resignação. sem dúvida. mas de uma humilhação consentida pelo humilhado. Tratava-se de humilhação. ainda que incompreensível. Mas a religião do tempo da peste não podia ser a religião de todos os dias. mas sem esse pão. para afirmar que essa injunção. O padre sabia que o que havia de excessivo na virtude de que ia falar chocaria muitos espíritos habituados a uma moral mais indulgente e mais clássica. que não havia meias medidas. E como as boas mulheres que nas igrejas. Sem dúvida. em que não se podia contar muito com esse Purgatório. essa pura exigência. Era por isso . criminosa. as lamúrias do vento. o burburinho surdo que geralmente acompanhava as pausas do Padre Paneloux começava a fazer-se ouvir. desejava-o excessivamente nos excessos da desgraça. o pregador recomeçou com força. Tudo ou nada. dai-nos tumores”.e Paneloux afirmou ao seu auditório que o que iria dizer não era coisa fácil . Deus concedia hoje às suas criaturas a graça de colocá-las numa desgraça tal que lhes era necessário reencontrar e assumir a maior virtude que é a do Tudo ou Nada. Um autor profano. ele não recuaria diante do termo. na opinião de Paneloux. e se Deus podia admitir. Aqui. inopinadamente. Receava efetivamente que eles fossem pronunciar a aterradora palavra ”fatalismo”. Pois existia um Purgatório.irmãos. ao saber que os tumores que se formavam eram o caminho natural por onde o corpo rejeitava a infecção. Era. o sofrimento de uma criança era humilhante para o espírito e para o 156 coração. quando. que só havia o Paraíso e o Inferno. nesse momento. E quem. em lugar de seus ouvintes. também. Mas havia épocas. com todas as saídas fechadas. com veemência. assim. era preciso agarrar-se avidamente a esse inaceitável que nos era oferecido. Pois bem. há muitos séculos. sua virtude.preciso querê-la. nesse momento. Sem . Só assim o cristão nada se pouparia e. havia épocas em que não se podia falar de pecado venial. Paneloux deteve-se. Era. Não se podia dizer: ”Isso eu compreendo. o cristão saberia abandonar-se à vontade divina. dentre vós. era o benefício do cristão. uma heresia que só podia nascer no seio de uma alma libertina. mas aquilo é inaceitável”. para não ficar reduzido a tudo negar. O sofrimento das crianças era nosso pão amargo. e mesmo desejar. Nesse instante. nossa alma pereceria de fome espiritual. iria ao fundo da escolha essencial. justamente para que fizéssemos nossa escolha. Mas exatamente por isso era necessário passar por essa prova. o padre dizia que a virtude da aceitação total de que falava não podia ser compreendida no sentido restrito que lhe era habitualmente atribuído. nem mesmo da difícil humildade.

Quanto ao resto. desses quatro. o Padre Paneloux evocou a grande figura do Bispo Belzunce durante a peste de Marselha. Não se deviam escutar os moralistas que diziam ser preciso cair de joelhos e tudo abandonar. não havia meiotermo. Eis a fé. ao ler isso. que mandou murar. pelo fim da epidemia. o bispo. zangaram-se com ele. é preciso que nos igualemos. E o padre. Assim. Não.Meus irmãos . só quatro sobreviveram à febre. Segundo o cronista da grande peste de Marselha. Mas só ele pode apagar o sofrimento e a morte das crianças. que os habitantes. que lançavam seus bandos sobre os piquetes cristãos. Os doentes persas e os monges pecavam igualmente. e não podemos senão desejá-la. a ordem inteligente que uma sociedade introduzia na desordem de um flagelo. tudo se confundirá e se nivelará. Aqui. Em ambos os casos. dos oitenta e um religiosos do Convento de La Mercy. Diante dessa imagem terrível. começar a caminhar para a frente. Não se devia sequer pensar em imitar os persas atingidos pela peste. E. o amor de Deus é um amor difícil. invocando o céu em altas vozes. em todo caso. Assim falavam os cronistas. tal como ocorre por vezes no excesso das dores. apenas. Isso porque. sobretudo. Nesse cume. a verdade brotará . para os outros. Lembrou que. numa última fraqueza. pois era necessário escolher entre odiar a Deus ou amá-lo. mesmo na morte das crianças. Mas. de quem era o ídolo. decisiva aos olhos de Deus. Ele pressupõe o abandono total de si mesmo e o menosprezo da pessoa. Era preciso admitir o escândalo. o pensamento do Padre Paneloux ia para aquele que ficara sozinho. pelo contrário.disse por fim Paneloux. por uma reviravolta de sentimentos. de quem é preciso nos aproximarmos. é preciso ser aquele que fica!” Não se tratava de recusar as precauções. Era preciso. o receio bem humano da dor tudo invadira. e tentar praticar o bem. apesar do exemplo de seus três irmãos. por outro lado. já que devíamos persuadir-nos de que não havia ilha na peste. três fugiram. o bispo. pois é impossível compreendê-la. se trancou com víveres em sua casa.dúvida. não se deviam imitar os cristãos da Abissínia de que falara. cruel aos olhos dos homens. apesar dos setenta e sete cadáveres e. batendo com o punho no rebordo do púlpito. Eis a difícil lição que desejava compartilhar convosco. Mas havia outros exemplos que Paneloux queria recordar. anunciando que ia terminar -. para pedir que mandasse a peste a esses infiéis que queriam combater o mal enviado por Deus. nas epidemias do século passado. e mais uma vez. e os mortos caíam-lhe do céu sobre a cabeça. julgando que já não havia remédio. era preciso ficar e aceitar entregar-se a Deus. Mas. só ele. o sofrimento de uma criança não contava e. um pouco às cegas. Todos permaneciam surdos à voz de Deus. para evitar o contato com aquelas bocas úmidas e quentes em que a infecção podia dormir. o problema era escamoteado. tampouco se deviam imitar os monges do Cairo que. para os primeiros. davam a comunhão pegando a hóstia com uma pinça. tendo feito tudo o que devia fazer. 157 e não fazia parte de seu ofício dizer mais. cercaram-lhe à casa de cadáveres para infectá-lo e chegaram até a atirar corpos por cima dos muros para fazê-lo morrer com mais certeza. Esse era também nosso caso. porém. E quem ousaria escolher o ódio a Deus? . exclamava: ”Meus irmãos. tinha julgado isolar-se da morte no mundo. pode torná-la necessária. nas trevas. e sem procurar um recurso pessoal.

um padre já não tinha o direito de ficar inquieto. disse simplesmente: . Diante do Dr. que lhe contava as palavras de Paneloux. Achava que esse sermão indicava mais inquietação que força e. Prestava homenagem à eloquência de Paneloux. o padre teve de deixar a casa em que sua ordem o instalara para ir morar em casa de uma pessoa idosa. que saíam nesse momento. Quando Rieux saiu. Paneloux ocupou-se em mudar de casa. na idade de Paneloux.disse Tarrou.da injustiça aparente. um velho padre e um jovem diácono.perguntou o velho padre.•. que estava a par de sua evolução. assim como Tarrou tivera de abandonar o hotel para morar em casa de Rieux. Era a época em que a evolução da doença provocava mudanças constantes na cidade. mas mostrava-se inquieto com as ousadias de pensamento que o padre tinha mostrado. Na verdade. irá até o fim.Paneloux tem razão . Tinham chegado ao adro e o vento cercava-os. Quando conseguiu falar. O jovem diácono. o mais velho deixou de comentar o sermão. . o padre sentira aumentar o cansaço e a . uivando.Qual é afinal a ideia dele? . . Será que essa observação de Tarrou permite esclarecer um pouco os lamentáveis acontecimentos que se seguiram e em que a atitude de Paneloux pareceu incompreensível aos que o cercavam? É o que se verá. contudo. seguravam com dificuldade os chapéus. afirmou que frequentava o padre. sob as lajes do coro. Durante a mudança. a sua parte. um vento violento engolfou-se pela porta entreaberta e atingiu em pleno rosto os fiéis. que seu tratado seria ainda muito mais ousado e que não obteria o Imprimatur. um aroma de calçadas molhadas que lhes deixava adivinhar o aspecto da cidade antes de saírem. um cristão deve perder a fé ou aceitar que lhe furem os olhos. frequentadora das igrejas e ainda imune à peste. com a cabeça baixa para proteger-se do vento. e o espírito que eles propagam brota dessa cinza para a qual as crianças deram.Se um padre consulta um médico. disse que conhecia um padre que perdera a fé durante a guerra ao descobrir um rosto de rapaz com os olhos vazados. Foi isso o que quis dizer. Nem por isso. E. . há séculos. há contradição. e os padres falam por cima de seus 158 . Trazia até a igreja um cheiro de chuva. alguns dias depois do sermão.Quando a inocência tem os olhos vazados. ) •’ túmulos. cortando a palavra ao mais novo. A Rieux. É assim que em muitas igrejas do sul da França os mortos da peste dormem. Paneloux não quer perder a fé. Rieux. .

Tinha-se desculpado pelo mau humor e declarara-lhe que não devia ser a peste. devida sem dúvida ao cansaço. Como esta lhe tivesse louvado calorosamente os méritos da profecia de Santa Odília. que estava nas mãos de Deus. mais uma vez. que não visava a sua própria segurança. como ele nada mais acrescentasse. antes de voltar para o quarto cheio de rendas de croché. Mas. não o conseguiu. O que mais a impressionara fora a agitação incessante em que o padre passara o dia. Segundo seus próprios termos. passando incessantemente as mãos sobre a testa úmida e erguendo-se muitas vezes para tentar tossir. o padre tocara e mandara chamar Ia. e que ela estava reduzida a levar-lhe um chá. rouca e úmida. bater à porta. com a cabeça latejante. aos arrancos. Pensava apenas ter compreendido . Encontrara-o ainda deitado. latente há dias. decidira-se. olhava para a frente. depois de uma noite de insónia. visitara regularmente o doente de duas em duas horas. sua anfitriã. O padre recusara de novo. chamar o médico. O que se seguiu só ficou conhecido depois.que o padre recusava essa consulta porque estava em desacordo com seus princípios. mas acrescentando explicações que a velha senhora julgara muito confusas. para obter da velha senhora pelo menos uma neutralidade benévola. admirada de não ver o padre sair do quarto. propusera-lhe. pela qual se julgava. com todos os sinais de esgotamento. durante um breve momento.e isso justamente lhe parecia incompreensível . mas a proposta fora repelida com uma violência que ela considerava lamentável. senão retirarse. Concluíra que a febre perturbava as ideias de seu inquilino. o padre demonstrara uma impaciência muito ligeira. no momento de se deitar. desejosa de cumprir inteirametne seu dever. Parecia então incapaz de extirpar do fundo da garganta os tampões de algodão que o teriam sufocado. Ao fim de certo tempo. deixava-se cair para trás. E. De manhã. Nada pudera fazer. responsável. semierguia-se de novo e. pelo relato de sua anfitriã. E foi assim que ele perdeu a estima da dona da casa. que não apresentava nenhum dos sintomas e que se tratava de um cansaço passageiro. tinha de contemplar as costas de sua anfitriã. Sempre decidida a cumprir com grande exatidão as 160 obrigações que a situação lhe criava. Um pouco mais tarde. com uma tosse estrangulada. a acreditar em suas palavras. Tinha causado má impressão. mas que só pensara na saúde do padre. A velha senhora respondera-lhe com dignidade que sua proposta não nascera de nenhuma inquietação dessa ordem. como de costume. Tirava os lençóis e tornava a cobrir-se. Por fim. as ondas de uma febre. Podia ser um simples acesso de . Padre Paneloux” que ela lhe dirigia secamente e sem se voltar. em seguida. Ao fim dessas crises. em parte. todas as noites. ele sentiu desencadearem-se. nos pulsos e nas têmporas. Foi numa noite dessas que.159 angústia. Por mais esforços que fizesse. sentada na sala ao mesmo tempo em que levava a recordação do ”Boa noite. tinha-lhe proposto com cortesia chamar um médico. depois de muita hesitação. com uma fixidez mais veemente que toda a agitação anterior. Respirava com dificuldade e parecia mais congestionado que habitualmente. ela se levantara cedo. Mas a velha senhora hesitava ainda em chamar o médico e contrariar o doente.

Então. meio sufocado. Aterrada. Diante do relato. parecia nessa altura ter sido surrado durante toda a noite e ter perdido todas as forças para reagir. de maneira que era impossível saber se o dizia com tristeza ou não: . O podre recebeu-o com o mesmo ar indiferente. O padre sorriu estranhamente. Rieux examinou-o e ficou surpreso por não encontrar nenhum 161 dos sintomas principais da peste bubônica ou pulmonar. em todo caso. voltou a cabeça em sua direção. se o estado do padre não tivesse melhorado. depois de lhe ter dado um chá fresco. mas calou-se. À entrada da velha senhora. há dúvidas e tenho de isolá-lo. mas. Concentraram tudo em Deus. articulou dificilmente. O padre fixava o pequeno lustre de contas multicolores que pendia por cima da cama. Olhava para o padre. correu para o quarto.Ficarei perto do senhor . Perguntou-lhe como estava. À extrema congestão da véspera. Rieux chegou ao meio-dia. recebendo como resposta apenas algumas palavras confusas. que havia poucas esperanças.Obrigado. Rieux saiu para telefonar e voltou. a não ser o ingurgitamento e a opressão dos pulmões. contudo. . À tarde. Pediu o crucifixo que estava colocado à cabeceira do leito e. sucedera uma espécie de lividez que se acentuava pelas formas ainda cheias do rosto. Mas os religiosos não têm amigos. Segundo ela. numa voz em que notou o tom estranhamente indiferente. a velha correu para o telefone. O padre estava estendido. respondeu-lhe distintamente que não queria um médico. E.disse-lhe. o pulso estava tão baixo e o estado geral tão alarmante. respondeu apenas que Paneloux tinha razão e que devia ser tarde demais. tentou falar com o padre. pretendia visitar seu locatário durante a noite e velar por ele. como por delicadeza. Nesse momento. Mas então o padre ergueu-se e. ele disse que ia mal. Depois.febre. Mas à noite. -• O senhor não tem nenhum dos sintomas principais da doença. . Sempre atenta a seus deveres. a anfitriã decidiu que esperaria até o dia seguinte de manhã e que. voltou para ele o olhar. quis descansar um pouco e só acordou de madrugada. suavemente. quando o recebeu. Renovou a proposta. para que tudo se fizesse segundo as regras. O outro pareceu reanimar-se e voltou para o médico uns olhos aos quais uma espécie de calor parecia ter retornado. que não precisava de médico e que bastava que o levassem para o hospital. sem um movimento. De qualquer maneira. telefonaria para o número que a Agência Ransdoc repetia todos os dias uma dezena de vezes pelo rádio. por mais impressionante que parecesse.

A tosse tornou-se cada vez mais rouca e torturou o doente durante todo o dia. após sua passagem. Paneloux conservava o olhar indiferente e quando. Eis por que a festa dos mortos. Era o dia em que se tentava compensar junto ao morto o isolamento do esquecimento em que fora mantido durante longos meses. finalmente. segundo a opinião de pessoas competentes. precisamente. nesse ano. Mas notava-se um número surpreendente de tecidos impermeabilizados e brilhantes. o que se seguiu viria demonstrar que essa incerteza não tinha importância. os bondes se enchiam do cheiro enjoativo dos crisântemos e as mulheres em bandos dirigiam-se aos locais onde estavam enterrados os seus para cobrirlhes de flores as sepulturas. não foi o que era habitualmente. escamoteada. os médicos usavam oleados para sua própria preservação. O Dia de Todos os Santos. graças às quais todos esperavam imunizar-se. ”É um bom gráfico. Eram intrusos que se desejava esquecer. o número dos mortos não aumentava. era bom sinal. É que. Mas. em quem Tarrou reconhecia uma linguagem cada vez mais irónica. As primeiras 162 capas de chuva tinham surgido. Entretanto. por exemplo. de certo modo. durante as grandes pestes do sul. Paneloux não descerrou os dentes. As lojas tinham se aproveitado disso para liquidar um estoque de roupas fora de moda. Como nos outros anos. E não se tratava mais de voltar a eles com um pouco de pesar e muita melancolia.No hospital. . Já não eram os abandonados junto dos quais os vivos vão justificar-se uma vez por ano. meio fora do leito. naquele ano. ninguém queria mais pensar nos mortos. o tempo era o de costume. Mudara bruscamente. um vento frio soprava agora de modo contínuo. Nos outros anos. porém. Era a peste e não era. um excelente gráfico”. o encontraram morto. Richard. escreveram: ”Caso duvidoso”. e os calores tardios tinham dado lugar de repente a uma temperatura mais baixa. Na ficha. Há’algum tempo. na verdade. nas quais caía. o caso do padre continuava a ser ambíguo. Mas parecia que a peste se tinha instalado confortavelmente no seu paroxismo e incorporava aos seus assassinatos diários a precisão e a regularidade de um bom funcionário. Em princípio. Na verdade. O gráfico da evolução da peste. foi. com efeito. Abandonou-se como uma coisa a todos os tratamentos que lhe impuseram. Segundo Cottard. Era vermelho. mas não largou o crucifixo. À noite. que. parecia inteiramente reconfortante ao Dr. Em meio ao tumulto da febre. A febre subiu. já se pensava demais nisso. nesse ano. com sua subida incessante. no dia seguinte de manhã. seu olhar não exprimia nada. duzentos anos antes. o padre expectorou o algodão que o sufocava. Mas todos esses sinais da estação não podiam fazer esquecer que os cemitérios estavam desertos. todos os dias eram dia dos mortos. Grossas nuvens corriam de um lado para outro no horizonte e cobriam de sombra as casas. No caso de Paneloux. realmente. a luz fria e dourada do céu de novembro. ela parecia comprazer-se em confundir os diagnósticos. as fogueiras da peste ardiam com uma satisfação cada vez maior no forno crematório. depois o longo planalto que lhe sucedera. E. A dúvida persistia no espírito de Rieux. De um dia para o outro. Os jornais tinham contado.

a igualdade irrepreensível da morte. alguns êxitos imprevistos. deveria ter reforçado a igualdade entre nossos concidadãos pelo jogo normal dos egoísmos. Havia. pela imparcialidade eficaz com que exercia seu ministério. mas essa. com essa nova forma de epidemia. A especulação interviera e oferecia. voltou ao pessimismo com a mesma inconsequência com que acolhera. os géneros de primeira necessidade que faltavam no mercado habitual. os doentes eram arrebatados muito mais rapidamente. ninguém 164 queria. para maior segurança. se assim se pode dizer. faltava praticamente nada. graças à relativa estabilidade da peste nessa época.dizia ele. mas que. mas considerava que na realidade nada se podia prever. multiplicavam-se agora nos quatro cantos da cidade. Em meio aos vómitos de sangue. o pessoal sanitário continuava a respirar através de máscaras de gaze desinfetadas. quando o próprio Dr. enquanto às ricas não assim. que. outros motivos de inquietação em consequência das dificuldades de abastecimento. mais acentuado no coração dos homens o sentimento da injustiça. a balança mantinhase em equilíbrio. A prefeitura. afinal. diante desse exemplo sem dúvida im. esse trabalho sobre-humano. Contudo. só poderia decrescer. o otimismo. a princípio. E ele atribuía o mérito disso ao novo soro de Gastei. que há muito desejava tranqüilizar a opinião pública e à qual a peste não 163 proporcionava os meios necessários. assim. Restava.j pressionante. Daqui em diante. No entanto. a preços fabulosos. Gastei limitava-se a preparar seu soro com o maior cuidado possível. as opiniões dos especialistas tinham sempre sido contraditórias sobre esse ponto. a organização prevista por Rieux não foi de modo algum ultrapassada. Os médicos e os auxiliares. De um modo geral. À primeira vista. Richard. já não havia nenhum lugar público que não estivesse transformado em hospital ou em isolamento. De qualquer forma. como os casos de peste bubônica diminuíam. porém. numa situação muito difícil. e se a prefeitura ainda era respeitada. O contágio tinha agora probabilidade de ser maior. ao contrário. que já se tinham manifestado. é bem verdade. A administração. foi arrebatado pela peste e precisamente no patamar da doença. A peste. Achava que a doença tinha atingido o que ele chamava de ”patamar”. tornava. que cresciam com o tempo. com efeito. logo ele. a doença deveria ter-se alastrado. não eram obrigados a imaginar um esforço ainda maior. como se o vento acendesse e alimentasse incêndios nos peitos. já que a história das epidemias comportava saltos imprevistos. que contribuíam com um esforço inesgotável. As famílias pobres viam-se. se propunha a reunir os médicos para lhes pedir um relatório sobre o assunto. que acabava de obter. com mais nostalgia ainda. O velho Gastei não o contradizia. Os pobres que sofriam de fome pensavam. Na realidade. no entanto. em todo caso. nada provava. é porque era efetivamente necessário manter um local de reunião. As formas pulmonares da infecção. Deviam apenas prosseguir com regularidade. nas cidades e .

O estádio fica situado quase às portas da cidade e dá. estes.nos campos vizinhos. que era àquela hora. Ao lê-los. ouviam. as horas de entrada e de saída das repartições. Essa fórmula irónica dava o alarme de certas manifestações logo reprimidas. pelo maior rumor que estes deixavam para trás. bastava entrar num local de quarentena ou num dos campos de isolamento que haviam sido organizados pelas autoridades. Tarrou. com a condição de exercê-la apenas nos fins de semana. por um lado. De tal modo que se difundira uma divisa que se lia. para se ter uma ideia justa da calma e do sangue-frio de que se falava. Sabiam. onde a vida era livre e o pão não era caro. Acontece que o narrador. porém. Tarrou nota. que durante todo o trajeto através das ruas esburacadas do subúrbio. o limão dos intervalos e a limonada que arde nas gargantas secas com mil agulhas refrescantes. que ele se preparava para começar sua partida. Já que não podiam alimentá-los suficientemente. os infelizes que estavam de quarentena. nem chuvoso nem quente. o jogador não parava de chutar todas as pedrinhas que encontrava. Os jornais. evidentemente. os muros impediam as pessoas do exterior de importunar. que a vida de que estavam excluídos continuava a alguns metros dali e que os muros de cimento separavam dois universos mais estranhos um ao outro do que se estivessem em planetas diferentes. pelo outro. Procurava acertar nos bueiros e. Essa era uma das razões pelas quais aceitara essa vigilância. nos muros ou se gritava à passagem do prefeito: ”Pão ou ar”. na verdade. Eis por que só pode citar aqui o testemunho de Tarrou. González dissera aos dois homenSj no momento em que se tinham encontrado. exclamava: . Foi uma tarde de domingo que Tarrou e Rambert escolheram para se dirigir ao estádio. a vigilância do 165 estádio. por turnos. mas cuja gravidade todos percebiam. para a rua onde passam os bondes e. não era mais possível. O céu estava meio encoberto e González. quando conseguia. obedeciam às instruções que recebiam. Habitualmente. com sua curiosidade. Rambert devia apresentá-lo ao administrador do campo. Agora que os estádios estavam requisitados. não os conheceu. às vezes. antes da peste. é cercado por muros altos de cimento e bastara colocar sentinelas às quatro portas de entrada para dificultar a fuga. observou com pesar que esse tempo. Recordava como podia o cheiro de embrocação nos vestiários. relata em seus cadernos uma visita que fez com Rambert ao campo instalado no estádio municipal. era o mais favorável a uma boa partida. durante todo o dia. E. Da mesma forma. as tribunas apinhadas. Acompanhava-os González. em que nada conseguia ficar em segredo. o jogador de futebol. de que deveriam tê-los deixado partir. ocupado com outros chamados. González sentia-se e parecia inteiramente ocioso. de otimismo a qualquer preço. de nariz no ar. sem vê-los. o que caracterizava a situação era ”o exemplo comovente de calma e de sangue-frio” dado pela população. Em compensação. que Rambert voltara a encontrar e que acabara aceitando dirigir. pouco sensato aliás. os uniformes de cores vivas sobre o terreno fulvo. ninguém tinha ilusões sobre o ”exemplo” dado pela comunidade. para os terrenos baldios que se estendem até a beira do planalto em que a cidade está construída. os carros que passavam e adivinhavam. assim. Numa cidade fechada sobre si mesma. aliás. eles tinham o sentimento.

na verdade. . Cada um daqueles que Tarrou olhava tinha os olhos desocupados. entraram no estádio. vê-se que ninguém é realmente capaz de pensar em ninguém. no entanto. e González deu-se ao trabalho de devolvê-la com precisão. portanto. quando encontravam um ouvido complacente. Perto do estádio. com o pé.Que fazem durante o dia? . afinal. e os antigos vestiários dos jogadores. E. calar e desconfiar. pegá-la no ar. para que os internados pudessem abrigarse do calor ou da chuva. e isso é bem compreensível. Mas. todos tinham um ar de desconfiança. Ao anoitecer. ainda que seja na pior das desgraças. sem se deixar distrair pelo que quer que seja: nem os cuidados . que tinham sido transformados em gabinetes e enfermarias. de longe. ocupados em escutar as moscas ou coçar-se. que tinham sido arranjados. crianças que jogavam mandaram uma bola para perto do grupo que passava. muitos estavam deitados e pareciam esperar.Nos primeiros dias. Outros ainda estavam agachados à entrada de sua barraca e passeavam sobre todas as coisas um olhar vago. E. Finalmente. à medida em que os dias corriam. e todos pareciam sofrer de uma separação muito genérica daquilo que constituía a sua vida. atirava a ponta do cigarro à frente e tentava. Nas tribunas. não pensavam em nada. já não pensam naqueles que querem retirar. Já que os tinham separado dos outros. A julgar por suas anotações. restava-lhes. Sim.”Um a zero”. sobre o campo vermelho. As tribunas haviam sido conservadas. Estavam de férias. tinham os braços caídos e as mãos vazias. Essa imensa assembleia de homens mantinhase curiosamente silenciosa. como não podiam pensar sempre na morte. e apresentavam o rosto dos que procuram suas razões e as temem.perguntou Tarrou a Rambert. no interior das quais se avistavam. . Também isso é normal. a partir do momento em que o campo ficara superpovoado.Mas. de tanto pensarem nessa saída. A maior parte dos internados . Mas o terreno estava coberto de várias centenas de barracas vermelhas.encontrava-se nas tribunas. Porque pensar realmente em alguém é pensar de minuto a minuto. ”Mas o pior”. ”é eles serem esquecidos e saberem disso. Quanto aos que os amam. devia haver alguma razão. Quase todos. encontravam-se os chuveiros.Nada. ninguém se entendia aqui 166 disse Rambert. pois são forçados a esgotar-se em diligências e projetos para retirálos dali e. escrevia Tarrou. esqueceram-se também. . camas e embrulhos. As tribunas estavam cheias de gente. Na verdade. luminoso. passaram a falar cada vez menos. deviam simplesmente retornar às barracas. . Outros vagavam pelos corredores laterais. Quando acabava de fumar. Tarrou os compreendia e via-os a princípio amontoados em suas barracas. havia uma espécie de desconfiança que caía do céu cinzento e. Os que os conheciam esqueceram-nos porque pensam em outra coisa. uivando sua cólera ou seu medo. Debaixo das tribunas.

os homens abandonaram as tribunas e dirigiram-se para as barracas.Não . duas conchas mergulhavam nas panelas e delas saíam para encher as duas tigelas. Disse que tinha muito prazer em vê-los e encarregou-os de agradecer ao Dr. Mas há sempre moscas e coceiras. . O jogador riu ao apertar-lhes a mão.respondeu o outro. quando se ouviu um enorme zumbido nas tribunas. Morcegos voavam . o juiz continuava a olhar para o lado de onde vinha o sol. Quando se retiraram. que estudava um quadro de vigilância por turnos.disse ele.É científico . nem a mosca que voa. Chegara o crepúsculo e o céu se descobrira. Tarrou notou apenas que os cabelos nas têmporas estavam muito mais eriçados e que um dos cordões dos sapatos se desatara.” O administrador. algum tempo depois . Depois de todos estarem instalados. Em seguida os alto-falantes. É por isso que a vida é difícil de viver. . que os internados deviam voltar às barracas para que pudesse ser servido o jantar. Os outros calaram-se. Othon desejava vê-los. Os homens estendiam os braços. Rieux pelo que fizera. dois pequenos carros elétricos. Lentamente. os raios penetravam lateralmente nas tribunas.que Philippe não tenha sofrido muito. Othon. que nos bons tempos serviam para anunciar os resultados das partidas ou para apresentar os times. não. Estão como antes. nem uma coceira. entre duas nuvens. fanhosos. . transportando enormes panelas. O sol baixava no horizonte e. apertando-lhes a mão -. declararam.disse Tarrou ao administrador. O juiz parecia cansado e nem uma única vez olhou seus interlocutores de frente. como os que se vêem nas estações. de onde o Sr. Pouco depois. nem as refeições. dourando-lhes o rosto. arrastando o passo. O carrinho prosseguia na sua marcha. E eles sabem muito bem. ele realmente não sofreu. Conduziu González ao seu gabinete e depois levou-os a um canto das tribunas. descobri os vestiários .disse Tarrou -. que se sentara a alguma distância. . se levantou para recebê-los. disse-lhes que um tal Sr.disse o juiz. A cena recomeçava na barraca seguinte. satisfeito.É verdade . 167 . ruídos de colheres e de pratos vinham de todos os lados. Continuava a vestir-se da mesma maneira e usava o mesmo colarinho engomado. passaram por entre as barracas.da casa.Ao menos. Na calma da tarde. o administrador reconduzia Tarrou e Rambert.Espero . Uma luz suave e fresca banhava o campo. Era a primeira vez que Tarrou o ouvia pronunciar o nome do filho e compreendeu que alguma coisa mudara. que se dirigia a eles. é científico. Foram despedir-se de González.

em que reconheceram a primeira colina. os dois homens deram com a tagarelice do velho. Mas como se ajuda um juiz? . Um sol sem força espalhou sobre a cidade. na saída. Do outro lado. Este informou-os de que havia alguns que não estavam de acordo. explicou-lhe que havia vizinhas no terraço. o ar ficava de novo morno. uma luz brilhante e gélida. que a manteiga ia sempre para os mesmos. por cima de algumas ruas e do porto invisível.disse o velho -. Um bonde gritava na agulha. O médico tratou-o sem que ele parasse de comentar os acontecimentos.Pobre juiz . as manhãs tornaram-se muito frias. Tarrou acompanhou Rieux. que havia uma bela vista lá de cima e que. A velha. por vezes era possível às mulheres do bairro visitarem-se sem sair de casa. Foi esse o momento que Tarrou escolheu para se revelar um pouco junto ao Dr. as vozes enormes dos altoíalantes no crepúsculo. do outro lado do muro. . Ouviam passos por cima deles. e o mar se misturavam numa palpitação indistinta. depois de um dia longo e exaustivo. podem subir. nada mais pode dizer. que tanto o jarro vai à fonte que um dia quebra e que provavelmente . o mistério dos muros e o temor desses lugares condenados pesavam duramente sobre o moral de nossos concidadãos e aumentavam ainda mais a desorientação e o mal-estar de todos. notando o ar interessado de Tarrou. vários outros campos sobre os quais o narrador. na cidade. Encontraram o terraço vazio e guarnecido de três cadeiras. que ia fazer ao velho asmático sua visita da noite. O céu brilhava suavemente por sobre as casas do velho bairro. Rieux. .Era preciso fazer qualquer coisa por ele. 168 Havia assim. só se viam terraços que acabavam por ir encostar-se a uma massa escura e pedregosa. limparam o céu e deixaram-no puro de nuvens por sobre as ruas reluzentes. Por volta de dez horas. Mas o que ele pode afirmar é que a existência desses campos.nesse ponto. Pela tarde. . como os terraços das casas se tocavam. No fim de novembro. Chuvas diluvianas lavaram as calçadas. Uma ligeira brisa soprava sem ruído através das encruzilhadas obscuras.ia haver problemas. Souberam. tão longe quanto a vista podia alcançar.É verdade . o cheiro de homens que deles vinha. entretanto. De um lado.murmurou Tarrou. Das ruas calmas. por escrúpulo e por falta de informação direta. . todas as manhãs. Os incidentes e os conflitos com a administração multiplicaram-se.. o olhar mergulhava num horizonte em que o céu 169 II.. Para além do que eles sabiam ser as . . ao mesmo tempo. esfregava as mãos . ao contrário.por cima das barracas e desapareciam subitamente. Lá em cima o ar é bom.

quis sempre sair dele. Tudo me corria bem. de frente para Rieux. .Está agradável. olhava para o mar. mais ou menos. um momento depois. . Algumas ruas adiante.disse Tarrou. Veio sentar-se perto do médico e olhou para ele atentamente. para simplificar. o clarão reapareceu no céu. isto é.O tempo está agradável .Digamos. de costas para ele. das profundezas da rua. uma cinza passageira. desde a primavera. No céu varrido e polido pelo vento. recortada no céu. Basta dizer que sou como todos. Falou longamente. Rieux. nunca procurou saber quem eu era? Sente amizade por mim? . brilhavam estrelas puras. um automóvel pareceu deslizar longamente sobre a rua molhada. romperam ainda o silêncio. A brisa trazia cheiros de especiarias e de pedra. de momento a momento. seu discurso reconstituído: .Está bem. Não sou do género atormentado. Depois. o que nos faltou foi tempo. Quer que esta hora seja a da amizade? Como única resposta.Bem. Na casa uma porta bateu.É verdade . e eis. isso me tranqüiliza. Afastou-se e. vivia com a ideia de minha inocência. vindas de longe. comecei como convinha. . . . num tom natural -.retorquiu ele. este caiu de novo sobre os dois homens com todo o seu peso de céu e de estrelas. que continuava enterrado na cadeira.É como se a peste nunca tivesse subido até aqui. Tarrou levantara-se para se empoleirar no parapeito do terraço. Só se via dele uma forma maciça. a que o clarão longínquo do farol misturava. um clarão cuja origem não distinguiam reaparecia regularmente: o farol do canal.disse Rieux. 170 .falésias. Rieux sorriu. .Rieux . ”Quando era jovem. agora. chegou até eles um ruído de louça. O silêncio era absoluto. Tarrou. sern ideia nenhuma. Da rua.respondeu Rieux -. Mas há pessoas que não o sabem ou que se sentem bem nesse estado e pessoas que o sabem e que gostariam de sair dele. . Por três vezes. que eu já sofria da peste muito antes de conhecer esta cidade e esta epidemia. continuava a girar para os navios que demandavam outros portos. sentando-se. . . Por mim. exclamações confusas. depois dele.Sim .

não era muito original e. Tinha suas aventuras por fora. Ele ocupava-se de mim com afeto. Para encurtar. melhor ainda com as mulheres. mas prefiro não falar dela. agora tenho certeza disso e estou longe de me indignar. Isso me divertia muito e eu o interrogava muitas vezes. e creio até que se esforçava por me compreender. . pois eu lhe fornecia um auditório cuja boa vontade ele apreciava. que é duradoura. Minha mãe era simples e apagada. no Tribunal do Júri. É capaz de dizer como se vai de Briançon a Chamonix? Até um chefe de estação se perderia. pois era bonachão por natureza. Eu tinha aceitado. da mesma forma. 171 para me levar a entrar para a carreira que ele próprio escolhera. exceto nas férias. forneceu-me uma oportunidade. ele só teve uma influência indireta na minha determinação. também. se tinha algumas inquietações. as combinações de horários que era necessário fazer para ir de Lyon a Varsóvia. Adaptava-se ao meio. pois isso dava prazer ao meu pai e porque. Não pensava em mais nada. Mas meu pai. pensava que essa superioridade em relação às estradas de ferro valia tanto quanto qualquer outra. Acho. Quando muito. não. passavam como tinham vindo. tinha curiosidade de vê-lo e ouvi-lo em um papel diferente do que representava entre nós. comecei a refletir. para ir à Bretanha. a quilometragem exata entre quaisquer capitais à sua escolha. Mas era capaz de dizer exatamente as horas de partida e de chegada do ParisBerlim. de uns trinta anos. também não era um mau homem. Exercitava-se quase todas as noites a enriquecer seus conhecimentos nesse ponto e sentia nisso um certo orgulho. ”Devo dizer-lhe que eu não era pobre como o senhor. ”Tinha. para terminar. ”Contudo. ”Mas estou divagando e arrisco-me a atribuir demasiada importância a esse bom homem. onde tinha uma pequena propriedade. Creio que ele era realmente culpado. quando fiz dezessete anos. entretanto. Fazia disso uma ideia abstraía e que não me incomodava. encantado por verificar suas respostas no Chaix e reconhecer que não se enganara. tão sinceramente aterrorizado pelo que tinha feito e pelo que iam fazer-lhe. meu pai convidou-me a ir ouvilo. e. parecia tão decidido a admitir tudo. se não viveu como um santo. Um dia. e é esse o género de homem por quem se sente uma afeição razoável. hoje que está morto. nunca deixei de amá-la. Quanto a mim. compreendo que. Mas o homenzinho de cabelo ruivo e ralo. O que se passava num tribunal sempre me parecera tão natural e inevitável quanto um desfile de 14 de Julho ou uma distribuição de prémios. e certamente ele tinha pensado poder mostrar-se na sua melhor forma. Tratava-se de um caso importante. Esses pequenos exercícios ligaramnos muito um ao outro. ninguém diria ao vê-lo. Porque. própria para impressionar as imaginações jovens. mas não importa de quê. o que é uma bela situação. não conservei desse dia senão uma única imagem: a do réu. uma particularidade: o grande Guia Chaix era seu livro de cabeceira.sentia-me à vontade com a inteligência. . Não que viajasse muito. Conduzia-se em tudo isso como era de esperar que se conduzisse: sem chocar ninguém. Agora. Contudo. que ele contava com essa cerimonia. Meu pai era procurador-geral. Na verdade. que ao fim de alguns minutos eu não tinha olhos senão .

e que era justamente nesses dias que ele se levantava muito cedo.era assim que ele explicava o meu gesto. pois ela havia sido pobre toda a sua vida até no casamento. Este devia. pelas execuções. não foi ele que fez então o trabalho. então. com uma vertigem. só agora me dava conta disso. sem parar. que acompanhei. eu tinha partido. a diferença não era grande. Não. bruscamente. porém. Acabou aceitando. sem lhe explicar nada. ”Eu. segundo o costume. pelas condenações à morte. que fui vê-lo e que. pois até então só tinha pensado nele através da categoria de ’acusado’. Isso me ajudou a perdoar-lhe. fui regularmente ver minha mãe e encontrei-o então. tive com esse infeliz uma intimidade bem mais vertiginosa do que meu pai jamais teve. nem bonachão nem afetuoso. deu-me mil conselhos e reprimiu as lágrimas sinceras que lhe vinham aos olhos. em seguida. meu pai pediu o despertador. pois era cordato por temperamento. quando voltou. Não me atrevi a falar disso a minha mãe. exclusivamente. Mais tarde. Mas. quase um ano. Na realidade. 172 passei a interessar-me com horror pela justiça. assistir àquilo que se chamava delicadamente ’os últimos momentos’ e que é preciso classificar como ’o mais abjeto dos assassinatos’. e um instinto formidável como uma vaga me levava para seu lado com uma espécie de cega obstinação. e compreendi que já não havia nada entre eles e que ela levava uma vida de renúncia. mas qualquer coisa me apertava o estômago e me tirava toda a atenção além daquela que prestava ao acusado. não vale a pena insistir mais. Creio que . fez-me um discurso sobre a estupidez que havia em eu querer viver minha vida . sua boca fervilhava de frases imensas que. ele dava corda no despertador. Não dormi a noite toda. A partir desse dia. Digamos logo que meu pai me mandou procurar. O nó da sua gravata não se ajustava exatamente ao ângulo do colarinho. soube que não havia nada a perdoar-lhe. Mais tarde. ”Espera. e a pobreza ensinara-lhe a resignação. Não posso dizer que esquecia então meu pai. É verdade que ele dizia apenas: ’Aquela cabeça deve cair’. verificando. na verdade. já compreendeu que ele estava vivo. Não ouvia quase nada. E deu no mesmo. Uma noite. e eu não o dissuadi -. Só despertei. Mas meu coração estava doente. . Simplesmente. em nome da sociedade. embora bastante tempo depois. sentia que queriam matar aquele homem vivo. mas observei-a melhor. fiquei vários meses. No dia seguinte. pois tinha de levantar-se cedo. a direita. ”Transformado pela toga vermelha. disse-lhe que me mataria se ele me forçasse a voltar. Parecia uma coruja assustada por uma luz demasiado forte. que meu pai devia ter assistido várias vezes a assassinatos. nesses casos. E compreendi que ele pedia a morte daquele homem. ”A partir desse dia. que eu lhe diga que parti logo. saíam dela como serpentes. contudo. o caso até sua conclusão. Em resumo. realmente. Roía as unhas de uma única mão. como eu dizia então.para ele. . E eu. e que pedia até que lhe cortassem a cabeça. no fim. já que obteve a cabeça. não consegui olhar para o Guia Chaix sem uma repugnância abominável. com o requisitório de meu pai. sem dúvida.

não sabe. todos sabem disso. O gosto ruim me ficou na boca e desde então não deixei de insistir. os executores concentram todos os tiros na região do coração e que. a essa curta distância. para terminar. com certeza. afinal. que tinha até provocado essa morte. em geral. pelos menos. não tinha animosidade contra ele. Quando me acontecia exprimir meus escrúpulos. minha mãe veio viver comigo. Descobri que tinha contribuído indiretamente para a morte de milhares de homens. E não me dei muito mal. no entanto. alguns soldados. Mas eu respondia que os grandes . outros me disseram e. Quando morreu. e. ”Nunca viu um homem ser fuzilado? Não. Os outros não pareciam perturbados por isso. condenações. não tinha deixado de ser um empestado durante todos esses longos anos em que. Pois bem. Conheci a pobreza aos dezoito anos. eu julgava lutar contra a peste. Mas diziam-me que essas poucas mortes eram necessárias para construir um mundo em que não se mataria ninguém. com toda a minha alma. nunca falavam disso espontaneamente. e o público é escolhido antecipadamente. não dormi bem desde aquela época. e o gosto consiste em não insistir. O certo é que eu hesitava. Eis tudo. bateria com o peito nas espingardas? Sabe que. Mas eu tinha um nó na garganta. ocasionalmente. por sua vez. se. Coloquei-me. entre todos. um barrote e. com aqueles que amava e que não deixei de amar. Agora. Mas o que me interessava era a condenação à morte. Fiquei com eles durante muito tempo. apenas um pouco de tristeza no coração. Mas pensava na coruja. Não queria ser atacado pela peste. irei mais depressa. eu sabia que também nós pronunciávamos. Quanto a mim. fazem um buraco onde se poderia meter o punho? Não. ou. Acreditei que a sociedade em que eu vivia repousava na condenação à morte e que. ”Insisti longamente nesse princípio. e a coisa continuava. porque foi realmente o princípio de tudo. Mas eu. contudo. se o condenado desse dois passos à frente. estava só. pois. Era verdade. e não há país da 173 Europa de cujas lutas eu não tenha compartilhado. O resultado é o que o senhor conhece apenas pelas gravuras e pelos livros.essas relações lhe bastaram. de certo modo. O sono dos homens é mais sagrado que a vida dos empestados. Sabe que o pelotão se coloca a um metro e meio do condenado? Sabe que. a convite. Passemos adiante. talvez eu não seja capaz de me manter nesse género de verdades. isso se faz. Não se deve impedir as pessoas decentes de dormir. pelo menos. pois são pormenores de que não se fala. Uma venda. achando bons os princípios e as ações que a tinham fatalmente acarretado. quer dizer. diziam-me que era preciso refletir no que estava em jogo e davam-me razões muitas vezes impressionantes para me fazer engolir o que eu não conseguia deglutir. ao combatê-la. ao cair da abastança. Até o dia em que vi uma execução (foi na Hungria). Estava com eles e. ”Compreendi assim que eu. Exerci mil profissões para ganhar a vida. Por isso. longe. em grande parte era verdade. cornbateria o assassinato. onde ainda estaria. por mim. não tivesse morrido também. e a mesma vertigem que atacara a criança que eu era obscureceu meus olhos de homem. meti-me na política. de pensar. ”É claro. não é nada disso. Queria ajustar umas contas com a coruja ruiva. como se diz. Seria mau gosto. com suas grandes balas. Acreditei nisso.

não. Sei apenas que é preciso fazer o necessário para deixar de ser um empestado e que só isso nos permite esperar a paz. Sei. pelo menos. É isso que pode aliviar os homens e. Há muito tempo que tenho vergonha. 175 a respirar na cara de outro e transmitir-lhe a infecção. se cedesse uma vez. um assassino. O resto . porque estava na lógica em que viviam e que não se podia fazer um gesto neste mundo sem se correr o risco de fazer morrer. tentando compreendê-los a todos e não ser o inimigo mortal de ninguém. ”Meu negócio. Meu negócio era o buraco no peito. Mas eu me dizia. E foi por isso que decidi recusar tudo o que. faz morrer ou justifica que se faça morrer. dispõem também de excelentes razões 174 nesses casos e que. após noites e noites de agonia. O que é natural é o micróbio. entretanto. de ter sido. Eles faziam-me notar que a maneira correta de dar razão às togas vermelhas era deixar-lhes a exclusividade da condenação. porque ninguém. um pouco de bem. se não os salvar. compreendi apenas que até os que eram melhores que outros não conseguiam impedir-se. a integridade. num minuto de distração. de perto ou de longe.para essa repugnante carnificina. a pureza. E dizia a mim mesmo. que. Sim. E como é preciso l ter vontade e tensão para nunca se ficar distraído! Sim. se quiser . ”Desde então. Parece-me que a história me deu razão: hoje cada qual mata o mais que pode. é aquele que tem i o menor número de distrações possível. na sua falta. às vezes. de matar ou de deixar matar. uma boa morte. ou. de ciência certa (sim. não havia razão para parar. O homem direií | to. sei tudo da vida. e perdi a paz. Sei ainda que é preciso vigiar-se sem descanso para não ser levado. hoje. pelo menos de minha parte. não poderia rejeitar as dos grandes. Ainda hoje a procuro. uma única . os que vestem togas vermelhas. na verdade. continuei a ter vergonha. Sim. ainda que de longe.empestados.é um efeito da vontade. ninguém no mundo está isento dela. escolhi essa cegueira obstinada. senão que é preciso combatê-la ao seu lado. ”É ainda por isso que esta epidemia não me ensina nada. se eu admitisse as razões de força maior e as necessidades invocadas pelos pequenos empestados. . por boas ou más razões. Era a coruja ruiva. com o tempo.a saúde. que cada um traz em si a peste. de uma vontade que não deve jamais se deter. fazer-lhes o menos mal possível e até. durante as quais ele esperava de olhos abertos ser assassinado. Estão todos no furor do crime e não podem proceder de outra maneira. aprendi isso . por minha vez. essa suja aventura em que bocas sujas e empestadas anunciavam a um homem acorrentado que ia morrer e preparavam tudo para que ele morresse. não era o raciocínio.compreende? . não mudei. uma vergonha mortal. recusaria sempre dar uma razão.que estávamos todos na peste -. como vê). Rieux. então. enquanto esperava poder ver mais claro. que. ainda que na boa vontade. aquele que não infecta quase ninguém. em todo caso.

”Seria necessário. a não ser a morte. Mas é ainda mais 5 cansativo não querer sê-lo. isto xv yy e. em todas as ocasiões.aprendi a ser modesto. hoje em dia. já que todos. posso. Se. Por isso. também. Mas é por isso que alguns que querem deixar de sê-lo conhecem um extremo de cansaço de que já nada os libertará. É por isso que todos parecem cansados. para me colocar no bom caminho. Isso lhe parecerá talvez um pouco simples. Como vê. julgar í esses outros. recusarmo-nos a estar com o flagelo. que não posso. a paz. procurar como se chega à terceira categoria. ”Até lá. sei que já não valho mais nada para este mundo e que. aparentemente. digo que há flagelos e vítimas. o médico 176 soergueu-se um pouco e perguntou-lhe se tinha alguma ideia sobre o caminho que era preciso seguir para se chegar à paz. mas que viraram bastante outras cabeças para fazê-las consentir no assassinato. São os outros que farão a í história. Digo apenas que há neste mundo flagelos e vítimas e que é necessário. a dos verdadeiros médicos. para limitar os prejuízos. me i condenei a um exílio definitivo. . No meio delas. Não é. e nada mais. Depois de um silêncio. me torno eu próprio um flagelo. não é por minha vontade. não é uma grande ambição. a partir do momento em que renunciei a matar. A simpatia. é bem cansativo ser um empestado. pois. Procuro ser um assassino inocente. Rieux. que compreendi que toda a desgraça dos homens provinha de eles não terem uma linguagem clara. ao menos. ao dizer isso. porém. Foi assim que decidi pôr-me do lado das vítimas. Ouvi tantos raciocínios que por pouco não me fizeram perder a cabeça. consinto em ser o que sou . Decidi então falar e agir claramente. mas sei que é verdadeiro.Tenho. se acham um pouco empestados. sem dúvida. uma superioridade. Falta-me uma qualidade para ser um assassino »Í razoável. tanto quanto possível. . Agora. Não sei se é simples. que houvesse uma terceira categoria. mas é um fato que não se encontram muitos e que isso deve ser difícil. Sei.J. Tarrou balançava a perna e batia levemente com o pé no terraço. Ao terminar.

o que me interessa é saber como alguém pode tornar-se santo. Depois o silêncio voltou. As exclamações. Bruscamente. . . Rieux contou duas piscadelas do farol. A brisa pareceu ganhar mais força e. nitidamente. na vaga claridade que vinha do céu. O que me interessa é ser um homem.O que quiser . . Creio que não sinto atração pelo heroísmo e pela santidade.Justamente. mas. ainda agora confusas. Tarrou levantara-se e escutava. é um prazer digno. ouviram-se claramente gritos de homens. Numa pausa do vento. . . ficou apenas uma mancha vermelha. depois o barulho de uma descarga e o clamor de uma multidão. subindo a corrente do vento. a surda respiração das vagas contra a falésia. Tarrou murmurou que nunca acabava. longe.Agora acabou . pois essa era a ordem natural. perto da colina pedregosa. e Rieux sentia-o morno sobre a pele. podemos ir até o cais. um grande clarão irrompeu do lado dos gritos e. Rieux sorria. qualquer coisa que se assemelhava a uma detonação. . . Rieux pensou que Tarrou gracejava e olhou para ele.Houve briga de novo nas portas. .Em resumo . sabe. e que haveria mais vítimas. um clamor obscuro chegou até os dois homens. O vento levantara-se de novo. Tarrou agitou-se. .com nossos salvo-condutos.Sabe o que devíamos fazer em prol da amizade? . O clarão apagou-se imediatamente e. à beira dos terraços. ao mesmo tempo. Ouviu-se. viu um rosto triste e sério.Duas sirenes de ambulância ressoaram ao longe. Mas.disse Tarrou com simplicidade -. Poder ser santo sem Deus é o único problema concreto que tenho hoje.disse Rieux.respondeu o médico -. juntaram-se nos confins da cidade. . sinto-me mais solidário com os vencidos do que com os santos. Não se ouvia mais nada. Ouvia-se agora. buscamos a mesma coisa.respondeu Rieux. .Talvez . Mesmo para um futuro santo. ao mesmo tempo. um sopro do mar trouxe cheiro de sal.Tomar um banho de mar.Sim.Mas você não acredita em Deus. mas eu sou menos ambicioso.

solitários. e que agora era preciso recomeçar. Ao fim de algumas braçadas. nem mesmo o assassinato. que isso era bom. Um baque surdo indicou-lhe que Tarrou mergulhara. sem ter pronunciado uma palavra. Lentas. Mas. de que serve lutar? . fustigados por essa surpresa do mar. sob o rosto calmo e grave do amigo. Por trás deles. partiram. estranhamente claro no silêncio e na solidão da noite. Momentos depois. Essa respiração calma do mar fazia nascer e desaparecer reflexos oleosos na superfície das águas. Voltado para Tarrou. . Mostraram os papéis a um guarda. Assobiava suavemente aos pés dos grandes blocos do cais e. Rieux sabia que Tarrou dizia para si próprio. espesso como veludo. adivinhou. Sem nada dizer. as águas pareceram-lhe mornas quando voltou à tona. Despiram-se. como ele. de costas. Rieux foi o primeiro a parar e voltaram lentamente. ficou imóvel diante do céu cheio de luar e de estrelas. Um céu leitoso projetava sombras pálidas. ambos aceleraram os movimentos. flexível e macio como um animal. Rieux mergulhou primeiro. A lua nascera. Rieux. estendia-se a cidade. avançaram com a mesma cadência e o mesmo vigor. As batidas dos pés deixavam atrás dele uma efervescência de espuma. o automóvel parava junto às grades do porto. Na realidade. que os impelia para o mar. nessa noite. a direção do cais. entre os cheiros de vinho e de peixe. e dela vinha um sopro quente e mórbido. um homem deve lutar pelas vítimas. Tarrou aproximava-se. Rieux voltou-se. estava morno: eram os mares do outono que retomavam da terra o calor armazenado durante longos meses. quando os transpuseram. experimentava uma estranha felicidade. era suave a lembrança dessa noite. através dos terraplenos cobertos de tonéis. Instalaram-se nos rochedos voltados para o largo. Pouco antes de chegarem. da cidade e da peste. Diante deles. Tarrou avançava com mais força e ele teve de acelerar os movimentos. Durante alguns minutos. Novamente vestidos. Frias no começo. que a doença acabava de esquecê-los. a noite que não tinha limites. a não ser num momento em que entraram numa corrente 178 gelada. Respirou longamente. ele apareceu-lhes. Quando viram de longe a sentinela da peste. Mas entendiam-se. a água fugia ao longo de seus braços para colar-se às pernas.Tem razão . o cheiro de iodo e de algas anunciou-lhes o mar. que os examinou durante bastante tempo. Depois ouviram-no. longe do mundo.Vamos. Nadava regularmente. em breve ouvia-se a sua respiração. as águas inchavam e desciam.177 Afinal. que sentia sob os dedos o rosto gasto dos rochedos. sabia que o mar. enfim.disse Rieux. essa mesma felicidade que nada esquecia. Passaram e. Depois. . ouviu com uma nitidez cada vez maior um barulho de água batida. Rieux. libertados. é bobagem viver só na peste. colocou-se ao lado do amigo e nadou no mesmo ritmo. tomarain. se deixa de gostar de todo o resto.

. Rieux admirou-se. protestara na prefeitura. Durante o mês de dezembro. . . iluminou o forno. mas eu me sentiria menos afastado de meu garoto.Sabe. . precisa de repouso. Disseram-me que havia voluntários da administração no campo. a forma pulmonar. era preciso recomeçar. enquanto a peste assumia. uma carta dizendo que seu tempo de quarentena tinha passado.respondeu ele -. onde tinha sido mal recebida e onde lhe tinham dito que nunca havia enganos. Por volta do fim de dezembro. os doentes pareciam. Rieux recebeu do Sr. Era preciso esperar ainda. o mantinham ainda isolado por engano. O juiz rolava um pouco os olhos redondos e tentava abaixar um tufo de cabelos. Embora o cansaço fosse o mesmo para o médico. cada vez mais. menos só nessas ocasiões. Notou entretanto que. Quanto a Rieux. ele se sentia. ele passava através dos primeiros rigores da estação sem desanimar. Houvera. depois. no entanto. ela ardeu nos peitos de nossos concidadãos.Não é isso. um engano. Othon. Em lugar de se abandonarem à prostração e às loucuras do início. Mas o Sr. O médico pensou apenas que alguma coisa mudara. que já saíra há algum tempo. ninguém mais espera . o instante fugidio de paz e de amizade que lhe haviam dado não teve continuidade. ajudar o médico. levantou a mão mole e disse. alguns dias depois.disse Rieux. Tinham aberto mais um hospital.Que vai fazer. Pediam incessantemente para beber e todos queriam calor. E. senhor juiz? Seus processos o esperam . e o médico só conversava com os doentes. paciente e sincopada. certamente. 179 que todos podiam enganar-se.Na verdade. Sua mulher. . de certo modo.Não me expliquei bem. As autoridades tinham contado com os dias frios para deter esse avanço e. queria tirar uma licença. não deixou. .Sim. que tinha emagrecido. contudo. medindo as palavras. o juiz de instrução. de progredir.e nossa cidade inteira vivia sem futuro. e a peste não esquecia ninguém por muito tempo. com efeito.Não . Rieux fez Rambert intervir e. queria voltar para o campo de isolamento. Mas de tanto esperar. Othon. parece bobagem dizê-lo. que a administração não encontrava a data de sua entrada e que. povoou os campos de sombras com as mãos vazias.Mas acaba de sair de lá! . que se encontrava ainda no campo de isolamento. e Rieux indignou-se um pouco por isso. teria uma ocupação. viu chegar o Sr. Othon. nessa fase da epidemia. . enfim. pareciam ter uma ideia mais correta de seus interesses e reclamavam por si mesmos o que lhes podia ser mais favorável.

E essas lágrimas perturbaram Rieux. nada lembrava os Natais passados. o médico. carregado de oferendas. se juntava outrora. quase colado a uma vitrine cheia de brinquedos grosseiramente esculpidos em madeira. os bondes carregados de rostos sombrios. graças aos dois guardas seus conhecidos. uma espécie de correspondência clandestina com a mulher. Na véspera. em que toda gente. Nessa festa.vou tratar disso. Mas eles tinham se tornado mais brumosos. algumas crianças corriam. De fato. Por volta de onze horas. e de Jeanne voltada para ele para lhe dizer que estava contente. porque as compreendia e as sentia também na garganta apertada. já que assim o deseja. no próprio coração dessa loucura. Quanto a Grand. no fundo de uma loja sórdida. com o rosto desfigurado. O Natal daquele ano foi mais a festa do Inferno que a do Evangelho. Rambert foi ao hospital dizer ao médico que tinha avistado Grand de longe. sem encontrá-lo. velho como o sofrimento humano. os chocolates falsos ou as caixas vazias nas vitrines. inquieto. Recebia uma carta de tempos em tempos. Rieux sabia o que pensava nesse minuto aquele velho que chorava e achava. o médico tratou do caso. perdera-o de vista. mas com enorme dificuldade. a mesma que impede os homens de se entregarem à morte e que não é mais que simples obstinação em viver. Ofereceu a Rieux o benefício do seu sistema e ele o aceitou. Mais que de ações de graças. Não era possível que naqueles olhos duros e vazios se instalasse subitamente uma suavidade. Ao meio-dia. que saíra do carro. a voz fresca de Jeanne voltava até Grand. rica ou pobre. . já não havia lugar senão para alguns prazeres solitários e vergonhosos que os privilegiados se ofereciam a preço de ouro. Ele se lembrava do noivado de um infeliz diante de uma loja de Natal. Todos haviam sido alertados. Por seu lado. lúgubre e gelada. e a vida da cidade empestada retomou seu ritmo até o Natal. Só havia lugar no coração de todos para uma esperança muito velha e muito taciturna. Rieux.Certamente . . mas novo como a jovem esperança. vagando pelas ruas. As lojas desertas e privadas de luz. Pelo rosto do velho funcionário as lágrimas corriam sem interrupção. Havia uma linguagem que ele perdera. ignorantes ainda do que as ameaçava. disso tinha certeza. Mas ninguém ousava anunciar-lhes o Deus de outrora. as igrejas estavam cheias de lamentos. olhava de longe Grand. A carta partiu. passara em sua casa de manhã cedo. Do fundo desses anos longínquos. Cottard prosperava e suas pequenas especulações o enriqueciam. Grand tinha faltado ao encontro. O médico e Tarrou partiram de automóvel à sua procura. como ele. pela primeira vez desde há longos meses. 180 Na cidade. Escreveu. A resposta demorava a vir. o período das festas não lhe devia ser favorável. Tarrou continuava a passear por toda parte sua tranqüilidade eficiente. tinham perdido a pureza de metal.disse. Depois. hora gelada. que este mundo sem amor era como um mundo morto e que chega sempre uma hora em que nos cansamos das . Rambert confiava ao médico que tinha estabelecido.Rieux olhava para ele.

prisões. paravam bruscamente. doutor! Eu tenho assim este ar calmo. voltou-se e encostou-se à vitrine.dizia.disse. Mas agora até isso é demais. com a pele esverdeada e o olhar apagado. que trataria dele. com ele. com uma espécie de violência. Rieux pegou-lhe a mão. continuava a balbuciar pedaços de frases. Mas Grand fugiu dele e correu alguns passos. sem ousar prosseguir. Grand estava enterrado no fundo de seu travesseiro.Ah. Mas sempre precisei fazer um grande esforço para ser apenas normal. Sem deixar de chorar. Mas o outro viu-o pelo vidro. Rieux balançava a cabeça para mostrar aprovação. Para que ela saiba. E. Ah. saía um crepitar estranho que acompanhava tudo o que dizia. depois parou. Para que serviria levá-lo? Ficaria só. O funcionário municipal não tinha família. na cama. Foi necessário que Rieux carregasse o velho nos braços. abriu os braços e pôs-se a oscilar para a frente e para trás.Sim. 181 O outro. Agora. . A gente tem vontade de se entregar. do trabalho e da coragem. . com o rosto molhado das lágrimas. Os transeuntes olhavam de longe. . com Tarrou. Rieux refletia. . . Parou. Isso vai mal. veio-lhe ao .Isso está durando demais. .. e para que possa ser feliz sem remorsos. . . Olhava fixamente para um fogo medíocre que Rieux acendia na lareira com os restos de um caixote. doutor! Ah. . com as pernas e os braços tremendo e com os olhos desvairados. Grand sufocava: tinha os pulmões tomados. do fundo de seus pulmões em chamas. O doente esboçou um sorriso estranho e. incapaz de pronunciar uma palavra. e o aperto que sentia no coração nesse momento era a imensa cólera que surge no homem diante da dor que todos os homens compartilham.É preciso voltar para casa.Gostaria de ter tempo para lhe escrever uma carta. doutor! . que continuavam a correr. Essa tristeza era também sua. Deu uma volta sobre si mesmo e caiu na calçada gélida. para vê-lo chegar. para reclamar o rosto de um ser e o coração maravilhoso da ternura. Grand . Estava ardendo. Rieux recomendou-lhe que se calasse e disse que ia voltar. quase se deixando arrastar. dizia ele. . Rieux fez Grand avançar.

para. falando com Tarrou. E Rieux leu: . que Rieux atirou as folhas para o fogo quase apagado. estendê-las ao médico. bela não é o termo certo. O médico folheou-o e compreendeu que todas as páginas traziam apenas a mesma frase.” Por cima. vai ser de tirar o chapéu. uma mão aplicada tinha apenas escrito com uma tinta ainda fresca: ”Minha querida Jeanne. .disse Grand. sem olhá-las. Mas no fim da última página. enriquecida ou empobrecida. Bela. este tinha as costas voltadas e quase tocava a parede com o rosto.Deixe. doutor!” Mas logo a seguir caiu na prostração. . pediu que lhe trouxessem o manuscrito. mas Grand repetiu a ordem com um tom tão terrível e com tal sofrimento na voz. Rieux encontrou Grand sentado na cama.Ah! . como estranho à cena. o mês de maio.rosto uma espécie de ternura. e Rieux ficou aterrado ao ler no seu rosto os progressos do mal que o queimava. percorria. . A febre desaparecera. em seguida.”Numa bela manhã de maio. Piscou o olho com esforço. por vezes demasiado longas. O médico aceitou. no dia seguinte de manhã. doutor.” . Mas parecia mais lúcido. e Tarrou ofereceu-se para ficar. Rieux disse ao amigo que Grand não passaria daquela noite. A obra continha também explicações. Mas. com uma voz estranhamente cavernosa.. agitando-se.Leia . a amazona e as aléias do bosque confrontavam-se e dispunham-se 182 . O peito levantava penosamente. Toda a noite.disse o outro. Tarrou deu-lhe as folhas. Rieux pegou-lhe a mão por cima do cobertor. Quando o médico voltou para junto do doente.Bem sei. convidando-o com um gesto a ler. retocada. a ideia de que Grand ia morrer o perseguiu. figurava a última versão da frase. Incessantemente. e variantes. ”Se escapar dessa.. . Tarrou olhava pela janela. Não terei tempo. indefinidamente copiada. Restavam apenas os sinais de um esgotamento geral. Algumas horas depois Rieux e Tarrou foram encontrar o doente meio erguido no leito. Rieux não levantou os olhos para ele.É isso? . Era um manuscrito curto de umas cinquenta páginas. e um calor breve o aqueceu. .. no meio das flores. as aléias do Bois. O quarto iluminou-se rapidamente.de maneiras diversas. que guardara numa gaveta. . que ele estreitou contra o peito. montada numa suntuosa égua alazã.. e de repente.perguntou o velho numa voz febril. e ele gritou de repente: .Queime-o! O médico hesitou. Depois de ter injetado o soro. hoje é Natal. numa caligrafia cuidada. uma esbelta amazona. .

O velho esfregava as mãos. A moça.Esperemos . . 184 v . No fim da mesma semana. Mas.. contudo.Ah. Tinha visto dois ratos vivos entrarem em sua casa pela porta da rua. À noite. Mas ao meio-dia. a febre não tinha subido.perguntou Tarrou a Rieux. . levaram a Rieux uma doente. Revelava um recuo da doença.Quem? . A moça estava em pleno delírio e apresentava todos os sintomas da forma pulmonar da peste.dizia ele -. contudo. respirava livremente no leito.Será que vai recomeçar? . que a experiência o habituara a considerar como um mau sinal. continuam a sair. ouvia-se de novo o rebuliço esquecido há meses. . nada mudara.dizia Grand. como no caso 183 de Grand. quatro casos semelhantes se apresentaram no serviço do médico. embora fraca. O médico achou que se tratava ainda.disse Rieux a Tarrou.Pronto .Precisa vê-los correr! É um prazer. À noite.Ora. Nas madeiras dos forros. o velho asmático acolheu o médico e Tarrou com todos os sinais de uma grande agitação. cujo estado julgou desesperador e que mandou isolar logo que chegou ao hospital. . Rieux esperou a publicação da estatística geral que ocorria no princípio de cada semana. . tinha desaparecido. os ratos haviam feito sua reaparição. Grand podia considerar-se salvo. Mais ou menos pela mesma época. Alguns vizinhos tinham relatado que. Lembro-me de tudo. . Mas vou recomeçar. aumentou alguns décimos apenas. Rieux disse a Tarrou que ela se salvara. e. doutor . Rieux não compreendia nada daquela ressurreição. Ao meio-dia. durante a semana. também em casa deles. Mas. no dia seguinte de manhã. a febre baixara. no dia seguinte pela manhã.Fiz mal. da remissão matinal. contra todas as regras. os ratos! Desde o mês de abril não se tinha descoberto nenhum rato morto. vai ver.

O mês que acabavam de passar. porém. aparentemente. Considerava-se. enfraquecia mais depressa do que se teria podido razoavelmente esperar. pareceu esgotar-se nos cadáveres 185 cada vez menos numerosos que alinhava. Ao vê-la liberar presas já marcadas. ao mesmo tempo. Perdeu. a seu respeito. ao vê-la assim esbaforir-sel ou precipitar-se. exacerbar-se em certos bairros! durante dois ou três dias. desse modo. como I Grand ou a moça de Rieux. por sua vez. sem ser abertamente esperado. na quar-| ta. agitava-se uma grande esperança inconfessada. multiplicar as vítimas na segunda-feira e. Foi o caso do juiz Othon. de repente. E. Um dos sinais de que o tempo de saúde. oposto. em três semanas. que o reabastecimento podia ser um pouco melhorado e que. Eram! os azarentos da peste. mas. ensinara-lhes a prudência e os habituara a contar cada vez menos com um fim próximo da epidemia. a partir desse momento. aqueles que ela matava em plena es-1 perança. nossos concidadãos não se apressaram em regozijar-se. que perdia. E. ao mesmo tempo uma esperança insensata se desenfreava a tal ponto que nossos concidadãos às vezes tomavam consciência disso e afirmavam então com precipitação que. até então. e que sua fraqueza súbita fazia a força das armas embotadas que lhe tinham. sob essas observações anódinas. ainda que aumentasse o desejo de libertação. num cur-l to intervalo. que tiveram de evacuar! do campo de quarentena e Tarrou disse. estava acuada. deixá-las escapar quase todas. Cada medida tomada pelos médicos e que anteriormente não dava nenhum resultado parecia. em todo caso. contudo. Parecia que a peste. apenas. embora com ares de indiferença. e em quedas sucessivas. o frio instalou-se com uma persistência inusitada e pareceu cristalizar-se por cima da cidade. se ficaria livre da preocupação mais premente. nunca o céu tinha estado tão azul. numa espécie de sobressalto cego J levava três ou quatro doentes. Durante os primeiros dias de janeiro. na realidade. dir-seia que ela se desorganizava por ener-1 vamento e cansaço. a libertação não era para o dia seguinte. não tinha tido . Na verdade. enquanto desaparecia totalmente l de outros. quase a totalidade das forças que levara meses I para acumular. Apenas uma vez ou outra j a doença se animava e. a peste. o domíniol sobre si própria e a eficácia matemática e soberana que cons-l tituíra sua força. a peste não parou no dia seguinte. Durante dias inteiros seu esplendor imutável e gelado inundou nossa cidade de uma luz ininterrupta. Todo o resto passava para segundo plano. cuja cura era esperada.Embota essa brusca retirada da doença fosse inesperada. acertar em cheio. esse fato novo corria de boca em boca. da maneira pela qual a vida se reorganizaria depois da peste. Todos estavam de acordo em pensar que as comodidades da vida passada não voltariam de repente e que era mais fácil destruir que reconstruir. e no fundo dos corações. era no entanto aguardado em segredo foi nossos concidadãos falarem espontaneamente. As novas vítimas da peste pesavam bem pouco junto a esse fato enorme: a estatística tinha baixado. na verdade. Nesse ar purificado. No entanto. que. O soro de Gastei conhecia subitamente uma| série de êxitos que lhe haviam sido recusados até então.

todos podiam verificar. Mais exatamente. os enormes progressos realizados por nossos concidadãos no caminho da esperança. e esses se recrutavam especialmente entre os que tinham vivido até então separados dos seres que amavam. aparentemente feliz. em que dominavam apenas os sobretudos e as echarpes. depois desse longo tempo de clausura e de abatimento. mais de perto. E era então a oportunidade de verificar que. primeiro. ou ainda. Era ainda um alívio inteiramente negativo que não assumia uma expressão franca. talvez. aliás. Os cinemas e os cafés faziam os mesmos negócios.Nem por isso. de que se retirava depois de ter alcançado todos os seus objetivos. no justo momento em que as estatísticas eram mais favoráveis. até o momento. hoje. as pessoas que se evadiam nesses momentos obedeciam a sentimentos naturais. Foi assim que se registraram novas tentativas de fuga. De qualquer maneira. que a partir do momento em que a mais ínfima esperança se tornou possível para a população o reinado efetivo da peste tinha terminado. Sempre silenciosas durante o dia. Invadia-os uma espécie de pânico ao pensamento de que podiam. na realidade. apesar de tudo. com obscura . a infecção recuava em toda a linha. No conjunto. e. na verdade. passaram por alternâncias de excitação e de depressão. seria permitido respirar. acabava de abrirse um rasgão. morrer talvez. as ruas eram invadidas à noite pela mesma multidão. s-. que nada mudara na cidade. nenhuma surpresa. tinham feito nascer uma tímida e secreta esperança. Na realidade. enfim. Enquanto durante meses. que um trem tinha partido ou que um navio tinha chegado. nossos concidadãos reagiram de maneira menos contraditória. Tinha-se apenas a impressão de que a doença se esgotara por si própria ou. Isso surpreendeu muito as autoridades e os próprios postos de guarda. e os comunicados da prefeitura que. sem uma certa incredulidade. podia-se ver que os rostos estavam mais distendidos e que. ao passo que anteriormente não se teria descoberto. durante todo o mês de janeiro. Mas essa sutil mudança traduzia. Era pouco. no 186 véu opaco que há meses cercava a cidade. Em alguns. a peste tinha enraizado um ceticismo profundo de que não podiam se liberar. sem que se pudesse saber se ele pensava na morte ou na vida do juiz. Mas. que não voltariam a ver o ser que amavam e que esses longos sofrimentos não lhes seriam pagos. Pode-se dizer. sorriam. pelo contrário. Era-se apenas obrigado a verificar que a doença partia como viera. a convicção de que a vitória estava ganha e que a doença abandonava suas posições. era difícil decidir que se tratava de uma vitória. às segundasíeiras. sem dúvida. A estratégia que se lhe opunha não tinha mudado. Em outros. ineficaz ontem. ninguém sorria nas ruas. às vezes. Olhando-se. que os automóveis iam ser de novo autorizados a circular. Estavam atrasados em relação aos acontecimentos.sorte. no espírito do público. tão perto do fim. Mas. que o rasgão aumentava e. o vento de esperança que se levantava acendera uma febre e uma impaciência que lhes tirava qualquer autodomínio. pelas notícias de rádio. Na verdade. seu papel acabara. continuavam a viver segundo suas normas. Mesmo quando o tempo da peste já passara. porém. o anúncio desses acontecimentos nos meados de janeiro não teria provocado. acabaram confirmando. pelo contrário. A esperança já não tinha efeito sobre eles. Dir-se-ia. porém. visto que a maior parte das fugas teve êxito.

mas faziam dela uma provisão que guardavam de reserva e proibiam-se de se servir dela antes de terem realmente esse direito. o alívio era também profundo. por espírito de prudência que não podia deixar de ser aprovado pela população. 187 Ao mesmo tempo aliás manifestaram-se sinais espontâneos de otimismo. portanto. Esses pequenos fatos eram grandes indícios. Mas as famílias que deviam ficar mais estranhas à alegria geral foram. Os dois conventos da cidade começaram a reconstituir-se e a vida comum pôde recomeçar. esperavam que o f flagelo 188 acabasse verdadeiramente com eles. como se o recuo da peste repercutisse por toda parte. nossos concidadãos espalharam-se então em grupos risonhos e barulhentos. as portas da cidade continuariam fechadas durante mais duas semanas e as medidas profiláticas seriam mantidas por mais um mês. e na noite de 25 de janeiro uma alegre agitação encheu a cidade. em meio ao regozijo geral. essa vigília silenciosa. as formalidades da quarentena tinham sido mantidas nas portas e o abastecimento estava longe de ter melhorado. Naquela semana. situada entre a agonia e o júbilo. Nas ruas iluminadas. apesar da prisão e do exílio. Durante esse período. O comunicado acrescentava. Do ponto de vista da economia pura. para muitos desses seres enlutados. após consulta à comissão médica. a um rendimento puramente moral. quer pelo fato de que o medo de ver arrebatados outros parentes se acalmasse enfim. parecia-lhes ainda mais cruel. a esperança. As dificuldades continuavam as mesmas. a primeira esperança bastou para destruir o que o medo e o desespero não tinham conseguido abalar. ”o status quo devia ser mantido e as medidas. a prefeitura anunciou que a epidemia podia ser considerada erradicada. Ao mesmo tempo. que. nas casas de quarentena ou em suas próprias casas. é bem verdade. Para se associar à alegria geral. quer porque o sentimento de sua conservação pessoal deixasse de ficar em alerta. ao menor sinal de que o perigo podia recomeçar. sem dúvida. A população viveu nessa agitação secreta até 25 de janeiro. Assistia-se. Naturalmente. o prefeito deu ordem para que fosse restabelecida a iluminação do tempo de saúde. Foi assim que se registrou uma redução sensível dos preços. como tinha acabado com outros. Essas concebiam. prolongadas”. sob um céu frio e puro. Todos no entanto concordaram em considerar esses aditamentos como cláusulas de estilo. esse movimento não se explicava.tenacidade. as que nesse mesmo momento tinham um doente se debatendo contra a peste num hospital e que. E essa expectativa. . Precipitaram-se como loucos para ultrapassar a peste. tinham perseverado na expectativa. as estatísticas baixaram tanto que. O mesmo aconteceu com os militares que se juntaram de novo nos quartéis livres e retomaram a vida normal da guarnição. No entanto. em muitas casas as persianas continuaram fechadas e famílias passaram em silêncio essa vigília que outros encheram de gritos. é claro. o otimismo dominava aqueles que viviam antes em grupos e que a peste tinha obrigado à separação. incapazes de acompanhar-lhe o passo até o último momento.

em marcha com sua carga de sobreviventes. se tinha morrido. esse alguém era Cottard. não podiam separar esse sofrimento. sombrios e imóveis onde atirara suas raízes de pedra e punha-se. A libertação que se aproximava tinha um semblante mesclado de risos e de lágrimas. o primeiro que se via desde a primavera. embora sua própria benevolência. Encontra-se. uma forma corria célere. era preciso perguntar a seu respeito. porém. não estivesse em jogo. passou-a rapidamente sobre a orelha direita. que o velho estava ofendido ou morto: que. Tarrou. as janelas continuaram teimosamente fechadas. e pela primeira vez. Talvez pelo cansaço. No dia seguinte. se estava ofendido. Era um gato. Além disso. dele. como para o velho asmático. a peste nunca diminuíra sua consideração por essa personagem. ”Talvez”. havia pelo menos alguém na cidade que essa partida lançava na consternação. Sem dúvida. observavam seus cadernos. Imobilizou-se um momento no meio do asfalto. assim. Tarrou parou. curiosamente. Disso concluíra. mas o certo é que a letra se torna difi189 cilmente legível e passa-se com excessiva frequência de um assunto para outro. mas que. A acreditar em Tarrou. Num momento em que o rumor se tornou mais forte e mais alegre. No momento. nas ruelas desertas. e que a peste lhe enganara. Alguns dias depois da noite de 25 de janeiro. os trens partiam. Tarrou não achava. abandonava os lugares fechados. e os navios sulcavam os mares luminosos. a peste não tinha ainda acabado e viria a prová-lo. um pequeno relato sobre o velho dos gatos. Tarrou e Rieux. Porque ele tinha procurado ré vê-lo. a cidade inteira animava-se. Na rua sombria. Rambert e os outros caminhavam no meio da multidão e também eles sentiam faltar-lhes o chão debaixo dos pés. com algumas semanas de antecedência. E até por causa de seu cansaço. no meio de longos trechos sobre o caso de Cottard. na hora habitual. da alegria que enchia as ruas um pouco adiante. Tarrou sorriu. No decurso dos dias seguintes. e como. é porque pensava ter razão. lambeu a pata. tinha ido postar-se na esquina da pequena rua. que se prolongava por detrás das janelas. enfim. A acreditar nos cadernos de Tarrou. ”não se possa atingir senão a aproximação da . fiéis ao antigo lugar de encontro. Tarrou nunca as viu abertas. Mas. A bem dizer. Mas no momento em que a peste parecia afastar-se para voltar ao covil desconhecido de onde saíra em silêncio. retomou a corrida silenciosa e desapareceu na noite. Tarrou e Rieux ainda ouviam a alegria persegui-los. os espíritos estariam mais calmos e as dúvidas renasceriam. se fora um santo. os cadernos tornam-se bastante estranhos a partir do momento em que a estatística começa a baixar. mas pensava que havia no caso do velho uma ”indicação”. apitando sobre as intermináveis vias férreas. Muito tempo depois de terem saído das avenidas. hesitou. na própria hora em que. Os gatos estavam lá. infelizmente. O velhinho também ficaria contente. que lhe interessava depois da epidemia. aquecendo-se nas réstias de sol. esses cadernos deixam de ser objetivos e dão lugar a considerações pessoais. não poderia mais interessar-lhe. como lhe havia interessado antes. Nessa noite. já em todos os espíritos. passavam por janelas de persianas corridas.Mas essas exceções nada tiravam à satisfação dos outros. No entanto.

depois da febre das . sem aviso? Era cético sobre esse ponto. Rieux. ele travara com os comerciantes do seu bairro conversas em que tentava propagar a opinião de Rieux. pedia sempre a Rieux prognósticos sobre a evolução da epidemia. mas cujo brilho 190 )’ ele julgava ver transparecer em tudo o que dizia ou fazia. a cada vez. ela conhecia tudo sem nunca refletir. de resto. já que. então. quando me voltei. Desde que a estatística baixara. Mas é preciso voltar a Cottard. porém. conseguia ficar à altura de qualquer luz. não posso dizer que ela tenha morrido. e a coisa pode recomeçar de um dia para o outro? . como também é possível que o movimento de cura se acelere. que era melhor não cantar vitória ainda.observara Cottard -.” Sempre entremeadas com observações relativas a Cottard. diante de Tarrou. Essa incerteza. E. segundo ele. na maneira que tinha de exprimir tudo em frases simples. fizera várias visitas a Rieux. já não estava mais lá”. as atitudes da velha senhora. Mas as perguntas repetidas que formulava pareciam revelar uma convicção menos firme. Aqui.Em outras palavras . . encontram-se também. invocando diversos pretextos. fazendo dela uma sombra negra na luz cinzenta que avançava pouco a pouco e dissolvia. a letra de Tarrou mostrava estranhos sinais de abatimento. As poucas conversas que a coabitação autorizava entre esta e Tarrou. até que o crepúsculo invadisse a sala. Rieux. e que. um pouco reta. Acha que ela pode parar assim. inquietante para todos. Na realidade. Por volta de meados de janeiro. a silhueta imóvel. até mesmo a da peste. seria necessário contentarmo-nos com um satanismo modesto e caridoso. assim o declarava. nos cadernos. essas respostas. mas que iam do mau humor ao abatimento. na ligeireza com que se deslocava de sala para sala. suas observações sobre a peste são escrupulosamente anotadas. Nesse caso. em vez de alegrarem Cottard. É verdade que não tinha dificuldade em fazê-lo. numerosas observações muitas vezes dispersas. tinham-lhe provocado reações variáveis segundo os dias. Tarrou insistia sobretudo no retraimento da Sra.santidade. eu apreciava nela a mesma reserva e foi a ela que sempre quis juntar-me. As linhas que se seguiam eram dificilmente legíveis e. Seguidamente. como para dar uma nova prova desse abatimento. Apagou-se apenas um pouco mais que de costume e. com tanto silêncio e sombra. no fato enfim de que. o médico tinha sido levado a dizer-lhe. aliviara visivelmente Cottard e. Há oito anos. pelo menos. as últimas palavras eram as primeiras que tinham um caráter pessoal: ”Minha mãe era assim. ou.Sim. a despeito das indicações favoráveis dadas pelas estatísticas. Rieux tinha respondido de forma bastante otimista. com as mãos tranqüilas e o olhar atento. algumas das quais dizem respeito a Grand (agora convalescente e que tinha voltado ao trabalho como se nada tivesse acontecido) e outras evocam a mãe do Dr. de repente. na bondade de que nunca dera provas precisas diante de Tarrou. no gosto particular que mostrava por certa janela que dava para a rua calma e atrás da qual ela se sentava à noite. nada se sabe. seu sorriso.

Tarrou. Mas Cottard não sorria. Dois dias depois. era melhor prever a próxima abertura das portas e o retorno à vida normal.disse Cottard -.disse-lhe Cottard -. sem transição. . comprando aquilo de que necessitava. encontravam-no sociável. Cottard tranqúilizava-se com o espetáculo dessa inquietação. Queria saber se se podia pensar que a peste não mudaria nada na . Durante dias inteiros. de um dia para o outro. sempre taciturno e agitado -. todos vão me abandonar!” Até 25 de janeiro. Cottard pediu-lhe que o acompanhasse até o subúrbio. nem no teatro. . Só ao fim da tarde dava saídas furtivas. do mesmo modo que de outras vezes também desanimava. ”Sim”. falando abundantemente da peste. depois de ter procurado 191 tanto tempo conciliar-se com seu bairro e conhecidos. falando depressa e alto. vai ver. para deter um flagelo. bem podia ter falado em vão. ia cessar. Vivia completamente retirado em seu apartamento e mandava vir as refeições de um restaurante vizinho. mas era válido pensar que a epidemia. Mas que chama de retorno a uma vida normal? . E. Tarrou considerava isso possível. salvo qualquer imprevisto. de certa forma. com complacência. que se sentia particularmente cansado. rompia com eles.Sim . aliás.respondeu Tarrou.Admitamos . punha-se a viver como selvagem. Mas o outro insistiu. Na verdade.disse Cottard. vagando pelas ruas. a prefeitura tinha previsto. retirava-se então do mundo e. Depois. no entanto. hesitou. No dia da declaração da prefeitura. dizia ele a Tarrou. todos notaram a instabilidade de seu caráter. Tarrou considerava que uma declaração administrativa não bastava. gesticulando de maneira desordenada. saindo das lojas para se lançar em ruas solitárias. pois da maneira como vão as coisas. no entanto. E. sorrindo. Perguntou ao companheiro se pensava que a declaração da prefeitura punha realmente termo à peste. voltara a muitos espíritos uma dúvida que devia sobreviver à excitação causada pela declaração da prefeitura. Se Tarrou o encontrava então. mas pensava que. não parecia voltar à vida comedida e obscura que levava antes da epidemia.E fez bem . solicitando a opinião de cada um e mergulhando todas as noites. Cottard saiu completamente de circulação. . Tarrou fez-lhe notar que. o imprevisto. Não o viam no restaurante. Parecia muito agitado. uma vez que instituíra um prazo de duas semanas para a abertura das portas. na vaga da multidão. nem nos cafés de que gostava.primeiras vitórias.Novos filmes no cinema . admitamos. por si só. ”vão acabar abrindo as portas. só conseguia arrancar-lhe monossílabos. salvo qualquer imprevisto. Tarrou encontrou-o. E há sempre o imprevisto. Aparentemente pelo menos.

Bem . mas que não era uma razão para não se estar pronto e perguntava a si próprio se justamente ele estava pronto. da sombra do corredor. se. Estavam diante da porta e apertavam-se as mãos. perguntavam. Tarrou pensava que a peste mudaria e não mudaria a cidade. era necessário supor que todos esses serviços. De volta a casa. em certo sentido. Podia-se. talvez as coisas se arranjem para você também. . Os dois chegaram perto da casa de Cottard. nem Tarrou. .disse Tarrou. como se nada tivesse ocorrido. Segundo ele. E Tarrou teve de admitir que nada sabia.Tem razão . Mas. em outro sentido. O pequeno capitalista declarou abertamente que não se interessava pelo coração e. Acrescentava 193 que ainda havia muito a fazer. Este se animara. pelo menos nos corações. que tinham o ar de funcionários endomingados. é uma vida nova que vai começar. nada.É possível.Afinal.e é aqui . uma reorganização dos antigos serviços. Tarrou mal teve tempo de ouvir o companheiro perguntar o que quereriam aqueles dois sujeitos. não se pode esquecer tudo.cidade e que tudo 192 recomeçaria como antes. Tarrou perguntou aos dois homens o que desejavam. teriam uma certa dificuldade em se restabelecer. soltando uma espécie de exclamação surda. tivessem tempo de esboçar um gesto. mesmo com a vontade necessária. também.a letra provava-o bem . Tarrou relatava essa cena e logo . haviam surgido dois homens. Os sujeitos. que o coração era a última de suas preocupações. cada vez mais agitado. admitir que surgiriam muitos outros problemas que tornariam necessária. apagando seu passado para recomeçar do nada. por exemplo. Respondia. até mesmo. Assumiram um ar reservado e cortês para dizer que se tratava de informações e partiram calmamente na direção que Cottard tomara. .Ah! . girava sobre si mesmo e logo mergulhava na noite sem que os outros. na verdade. perturbados durante a epidemia. . Passada a surpresa. Todos terão de recomeçar tudo. na verdade. .disse Cottard. o mais forte desejo de nossos concidadãos era e seria agir como se nada tivesse mudado e que. pelo menos.Começar do zero seria uma boa coisa. e este. seria mudado. isto é. e a peste deixaria vestígios.disse Cottard. Imaginava a cidade começando a viver de novo. De certa forma.anotava seu cansaço. para terminar . portanto. mas que. Que. O que lhe interessava era saber se a organização em si não seria transformada. todos os serviços funcionariam como no passado. . com efeito. esforçando-se por se mostrar otimista. a Cottard se ele se chamava efetivamente Cottard.

logo agora! E a seguir: . o peito forte desenhando-se sob a espessura dos cobertores. Dois dias depois. Embora seus dias fossem ainda tão exaustivos como no auge da peste. talvez pelo cansaço.Oh! . . Rieux poderia recomeçar. empalidecido pelas fadigas e pelas privações. Rieux revia aquele rosto. Sim. mas não tinha conseguido sair e acabava de se deitar de novo.Bernard . Bernard.Não. recomeçaria quando a abstração tivesse acabado.Não tenho esse direito . ele também. os dois. Se o telegrama esperado fosse. O novo porteiro. sua mãe vinha ao seu encontro. sorria-lhe. alguns dias antes da abertura das portas. . o Dr.disse o filho.disse Rieux. depois de examiná-lo. e é uma felicidade poder. . mas que. Mas Tarrou sentia-se devorado pela sede. Não se pode manter indefinidamente a vontade em estado de tensão. Estava com febre. com a pesada cabeça enterrada no travesseiro. . . enfim. No corredor. desatar esse molho de forças trançadas para a luta. com o rosto colado na vidraça.Mas as portas vão abrir-se. . que havia sempre uma hora do dia e da noite em que o homem era covarde e que ele só tinha medo dessa hora. . na efusão. Ao subir as escadas. Rieux refletia. nada de preciso por enquanto .Não é possível. . Creio que seria esse o primeiro direito que eu tomaria para mim se você não estivesse aqui. deixe-nos.disse ela. A Sra. Tarrou não se sentia bem.Talvez não seja nada de grave •. doía-lhe a cabeça.disse ela -. Rieux estava inquieta. o médico disse à mãe que podia ser o começo da peste. .Deixemo-lo ficar. . 194 . favorável. Levantara-se de manhã. Tarrou estava estendido.que os cadernos de Tarrou terminam -. Rieux voltava para casa ao meio-dia e perguntava a si próprio se iria encontrar o telegrama que esperava. e com um pouco de sorte. Ele era de opinião de que todos recomeçariam. Passou diante do cubículo da entrada.disse ele. a expectativa da libertação definitiva tinha dissipado nele qualquer cansaço. No mesmo momento em que abrira a porta. Bem sabe que acabo de ser vacinada mais uma vez. devia ter deixado passar a última injeção de soro e esquecera algumas precauções. O médico disse que também Tarrou o fora. Disse a Rieux que se tratava de sintomas vagos que podiam também ser os da peste. tinha esperança e alegrava-se com isso. Agora. para anunciar que o Sr.

. . Lute. mas os olhos cinzentos estavam calmos. Tarrou calou-se e o médico. Durante o dia. . ouviu a voz de Tarrou. o frio.Veja se consegue dormir.É a primeira vez que vejo injetar um soro sem se determinar ao mesmo tempo o isolamento. Tinha o rosto cansado. que o chamava. quero que me diga tudo.Veremos esta tarde .Não. quero ter um bom fim.Não . O rosto maciço do outro contraiu-se num sorriso. .Mas mamãe e eu trataremos de você. O doente olhava para ele. Tenho necessidade de sabê-lo. mas é uma precaução. por fim -.Não é certo que você tenha a peste.disse ele. é isso .Para se ser santo. . que tinha sido intenso. Como única resposta. Volto daqui a pouco. é preciso viver. Rieux abaixou-se e apertou-lhe o ombro.disse Rieux. Tarrou viu que trazia as enormes ampolas de soro. olhando Tarrou de frente.E o isolamento. Tarrou estendeu o braço e recebeu a interminável injeção que ele próprio tinha dado a outros doentes. que arrumava as ampolas. Rieux sorriu-lhe. -• Ah. Voltou-se para ele. . Mas. Quando voltou ao quarto. esperou que ele falasse para se voltar.Obrigado. À porta.Rieux já se dirigia ao escritório.articulou. . Não tenho vontade de morrer e vou lutar. . Mas Tarrou parecia debater-se contra a própria expressão do que tinha a dizer.disse. Estará melhor aqui. Tarrou sorriu com esforço. . dirigiu-se para o leito. .Prometo.Rieux . Rieux? . diminuiu . se a partida estiver perdida. Por fim. .

estou perdendo a partida. Rieux disse que o soro ainda não tivera tempo de produzir todo o seu efeito. Tarrou sorria. Tarrou encolheu um pouco. o céu se descobriu um pouco e o frio tornou-se mais penetrante. distendidas.Então . à sua maneira. os abscessos que devia provocar. Os sólidos ombros e o vasto peito de Tarrou não eram suas melhores armas. combatendo. Mas também não falou uma única vez. Sua mãe fazia tricô.disse ele -. o que era mais interior que a alma e que nenhuma ciência podia trazer à luz. diziam da luta que ele travava. o peito parecia ressoar com todos os ruídos de uma forja subterrânea. E ele não podia fazer mais que ver o amigo lutar. seus ombros fortes. . ora fechados. ela se dedicava a despistar as estratégias erguidas contra ela. com as pálpebras mais apertadas contra o globo ocular. . apenas. os tónicos que era preciso inocular. Rieux e a mãe instalaram-se junto do doente.Então? . para desaparecer daqueles onde parecia já instalada. Uma vez mais. Tinham-se formado gânglios sob a pele ardente. mas antes esse sangue que Rieux fizera brotar ainda agora sob a agulha e. Rieux voltou para casa no fim da tarde. Uma vez mais. entrou no quarto do amigo. ouviram-se passos precipitados na rua. Porque Rieux encontrava-se diante de uma face da peste que o desconcertava. Ao erguer-se.perguntou o médico. A cada vez que Rieux encontrava esse olhar.195 um pouco. empalidecidos pela febre. Pareciam fugir diante de um . era dar oportunidade a esse acaso que tantas vezes só age quando provocado. ou. confessando assim. Depois do jantar. na verdade. fora do leito. opôs a agitação aos assaltos do mal. a violentas tempestades de chuva e de granizo. com grande esforço. Curiosamente. Sem tirar o sobretudo. com toda a sua solidez e todo o seu silêncio. o olhar fixo num objeto ou voltado para o médico e a mãe. Era preciso que o acaso se desse ao trabalho de manifestar-se. O que ia fazer. Tarrou lutava. Em certo momento. imóvel. Sua única tarefa. as fases do combate pelos olhos do amigo. Ao crepúsculo. mas os lábios. aparecia nos lugares onde não era esperada. Tarrou apresentava as duas espécies de sintomas. que a distração já não lhe era possível. mas para dar lugar. Tarrou parecia não se ter mexido do mesmo lugar. A noite começava para ele na luta. nesse sangue. e Rieux sabia que esse duro combate com o anjo da peste devia durar até o amanhecer. durante a noite. Mas uma onda de febre que veio rolar na sua garganta afogou as poucas palavras que Tarrou tentou pronunciar. de tarde. Rieux seguia 196 apenas. O médico curvou-se sobre ele. vários meses de fracassos repetidos tinham-lhe ensinado a apreciar-lhes a eficácia. Nem uma única vez. dedicava-se a causar espanto. pelo contrário. ora abertos.

Ela recusou com a cabeça. As rodas de madeira e de ferro do carro rolavam ainda à distância. Alguns transeuntes. Depois da chuva.rumor longínquo. Faça inalações antes de se deitar. Pouco antes do amanhecer. A Sra. Lá fora. compreendeu que tinha havido uma pausa e que o doente dormia também. O médico tinha agora feito tudo o que havia a fazer. Rieux. A rua estava muda. Quando o médico avançou em direção à cama. levantando a cabeça. que se aproximou pouco a pouco e acabou enchendo a rua com seu matraquear: a chuva recomeçava. Tarrou.Dormi. logo mesclada ao granizo que estalava nas calçadas. pelas luzes e pela multidão. aproveitando a estiagem. O suor encaracolava-lhe os cabelos sobre a fronte dura. pela primeira vez. um instante distraído pela chuva. arrumou seu tricô e dirigiuse para o leito. e privada das sirenes das ambulâncias. Viu o rosto suave curvado para ele e.perguntou Rieux. depois examinou cuidadosamente. O frio da manhã começava a fazer sentir-se no quarto. Rieux instalou-se na poltrona que a mãe acabava de deixar. cheio apenas do mudo tumulto de uma guerra invisível. mas o primeiro carro da madrugada arrancou-o à sonolência. Rieux suspirou. que também lá a peste se declarasse vencida. . E parecia que a doença. e o doente abriu os olhos. Rieux inclinou-se para a mãe. seus olhos iluminaram-se. já há algum tempo. mantinha os 197 olhos fechados. A Sra. não é verdade? . Era uma noite libertada da peste. o sorriso tenaz reapareceu ainda. e o silêncio era agora completo. iluminado por uma lâmpada de cabeceira. Mas sibilava suavemente no ar pesado do quarto.Você devia deitar-se para me substituir às oito horas. Fez sinal à mãe. . O médico cochilou. cheia de notívagos retardatários. Mas os olhos fecharam-se logo. de vez em quando. Rieux levantou-se. Era necessário esperar que também lá ele parasse. Rieux levantou-se para dar de beber ao doente e voltou a sentar-se. enxotada pelo frio. Sua mãe tricotava. Os grandes reposteiros ondularam diante das janelas. contemplava novamente Tarrou. para olhar atentamente para o doente. O médico. fugira das profundezas obscuras da cidade para vir refugiar-se nesse quarto quente e fazer seu último assalto ao corpo inerte de Tarrou. Os passos diminuíam e afastavam-se. como se estivesse ainda do lado do sono.Dormiu. olhando para Tarrou. Tarrou olhou-o com olhos sem expressão. Só. o dia estava ainda escuro. . um ponto que não lhe parecia perfeito. era semelhante às de outrora. reconheceu que essa noite. Sentiu um arrepio e. o silêncio tornou-se mais espesso no quarto. Na escuridão do quarto. para que fosse deitar-se. . sob as ondas móveis da febre. Crispado pela insónia. Era ele que Rieux ouvia já há algumas horas. o médico imaginava ouvir nos limites do silêncio o silvo doce e regular que o acompanhara durante toda a epidemia. caminhavam rapidamente na calçada. na ponta das agulhas. O flagelo já não agitava o céu da cidade.

Não. mas levantou-se logo e voltou ao quarto. Só se iluminou ao ver Rieux curvado sobre ele. adiar as consultas.dizia-lhe este. . Tarrou fechou os olhos. pondo um dedo sobre os lábios. o dia filtrava-se rapidamente e.A febre vai recomeçar. a Sra. com as mãos juntas sobre as coxas. no fundo dele mesmo. Isso significa alguma coisa?.disse. em qualquer parte. levantou-se para apagar a lâmpada de cabeceira. Rieux calou-se e ao fim de um momento disse: . Rieux. também. de repente. .Vai.Beba . Mas. E. não é.Um pouco. compridas e duras como membros de defunto. Mas. Rieux? . E contemplava-a com tanta intensidade que a Sra. O médico dirigiu-se ao escritório para telefonar para o hospital e providenciar sua substituição.disse. Esperava a subida da febre. Às sete horas.. com uma voz ofegante. seu olhar era baço. Rieux tinha-se sentado aos pés da cama. . mas Tarrou. isso não significa nada.Responda-me sempre com essa exatidão. O sorriso que Tarrou tentou ainda esboçar não conseguiu passar dos maxilares cerrados e dos lábios cimentados por uma espuma esbranquiçada. a febre refluiu visivelmente até sua fronte. os olhos brilharam ainda com todo o fulgor da coragem. Você conhece como eu a remissão matinal.Está respirando melhor? . com o olhar desviado.perguntou. que já se agitava. Quando abriu os olhos. . Rieux. Tarrou. O outro bebeu e deixou cair a cabeça novamente. Decidiu. na face endurecida. já não reagia. por trás das cortinas. Rieux entrou no quarto. Sentia perto dele as pernas do doente. deitou-se um momento no divã do seu escritório. Quando o olhar de Tarrou voltou a pousar no médico. Tarrou respirava com mais força. Lia-se em suas feições uma expressão de cansaço. -• Obrigado . a Sra. Tarrou aprovou. Rieux pôde ver que ele . mas ao meio-dia saberemos alguma coisa. este o animava com o rosto tenso. Rieux pegou-lhe no braço. parecendo reunir suas forças. . Olhava para a pequena sombra abatida perto dele. quando as feições do doente emergiram da sombra.Demora tanto . como se tivesse arrebentado alguma 198 represa interior. pouco a pouco. numa cadeira. Tarrou tinha a cabeça voltada para a Sra.

era a mesma noite fria. No princípio da noite. Mas logo os olhos começaram a abrir-se cada vez menos. julgava saber que nunca haveria a possibilidade de paz para si mesmo. e Tarrou estava à deriva. Continuavam lá. O médico não sabia se. uma vez mais. como se em qualquer parte dentro dele uma corda essencial se tivesse rompido. era tão compacto. pelo menos. No quarto semiobscuro. mas ele a repelia sempre. A noite que se seguiu não foi a da luta. com o lado direito iluminado pela lâmpada de cabeceira. Ao meio-dia. Nesse quarto separado do mundo. acima do corpo morto agora vestido. sempre o mesmo sossegar que se seguia aos combates. Curvou-se sobre ele. era o silêncio da derrota. Em todo lugar. foram efetivamente as lágrimas da impotência que impediram Rieux de ver Tarrou encostar-se bruscamente na parede e expirar. a Sra. tinha pensado nesse silêncio que se elevava dos leitos onde ele deixara morrer homens. Rieux esperava em sua poltrona. duros como porcas atarraxadas no vão das articulações. nesse momento. E. pousou um instante a mão sobre os cabelos úmidos e emaranhados. mas. num lamento surdo. estrelas geladas num céu claro e gélido. no fim. e a luz que vinha agora iluminarlhe o rosto devastado tornava-se cada vez mais pálida. que começou a escarrar sangue. assim como não há armistício para a mãe amputada do filho ou para o homem que enterra o amigo. ao levantar-se. Rieux já não tinha diante de si senão uma máscara agora inerte. Quando ela se sentou de novo. a grande respiração lívida de uma noite polar. No centro do quarto. Uma espécie de tosse visceral sacudia o corpo do doente. Rieux sentiu pairar a calma surpreendente que muitas noites antes. A lembrança de sua mulher o atraía. a febre chegava ao máximo. retorcida pelos ventos rancorosos do céu. e o rosto esgotado. no fundo dessa tormenta. e ele nada podia contra esse naufrágio. a que termina as guerras e faz da própria paz um sofrimento incurável. longe da luz. sentia-se o frio que pesava nas vidraças. moldava-se tão estreitamente ao silêncio das ruas e da cidade libertada da peste. queimada por um mal sobrehumano. crivada agora de golpes de lança. Tinha de ficar na margem. Quanto a esse que envolvia agora o amigo. mas a do silêncio. endireitou o travesseiro e. lentamente. Essa forma humana que lhe fora tão próxima. da derrota definitiva. parecia sorrir de novo. apesar da boca lacrada. era a mesma pausa. Tarrou uma vez ou outra olhava ainda para os amigos. vinda de longe. 199 sem armas e sem recursos. que Rieux sentia efetivamente que se tratava. Nos intervalos da febre e da tosse. então.continuava a olhá-la. Ouviu. dizer-lhe ”obrigado” e que tudo agora ia bem. se seguira ao ataque às portas. desta vez. contra esse desastre. . Tarrou tinha encontrado a paz. Perto do leito. para acabar. uma voz ensurdecida. com as mãos vazias e o coração oprimido. de onde o sorriso tinha desaparecido. Os gânglios tinham parado de inchar. nos terraços por cima da peste. o mesmo intervalo solene. os saltos dos transeuntes tinham soado claro na noite fria. Já naquela época. mergulhava diante de seus olhos nas águas da peste. Lá fora. Tarrou fechara os olhos. Rieux estava sentada. e Rieux julgou impossível abrilos. A tempestade que sacudia seu corpo de sobressaltos convulsivos iluminava-o de relâmpagos cada vez mais raros. na sua atitude familiar.

200 dois bondes rangendo numa curva. Quando ele surpreendia um desses olhares. que Tarrou tinha vivido. Tudo o que o homem podia ganhar no jogo da peste e da vida era o conhecimento e a memória. Talvez fosse a isso que Tarrou chamava ganhar a partida! De novo.Precisa ir descansar na montanha. privado do que se espera. Era assim. já telefonei. Mas ele. chamados. Mas sabia também que não é grande coisa amar um ser. o silêncio que voltava. sem dúvida. . A Sra.perguntara a Sra. rumores imprecisos e de novo a respiração da noite. Vozes. desapareciam e reapareciam em seguida.Não está cansado? .ou ele . E ela morreria por sua vez . . Rieux mexeuse um pouco na cadeira.. ele tinha vivido ao lado de Tarrou e essa noite ele morrera. um amor não é nunca bastante forte para encontrar sua própria expressão. Embora não houvesse ainda autorização. muitos carros circulavam de novo. Tarrou perdera a partida. retomaram a vigília silenciosa.sem que. Não há paz sem esperança. Por que não? Seria também um pretexto para recordar. Da mesma forma. o que tinha ganho? Lucrara apenas por ter conhecido a peste e lembrar-se dela. Os ruídos familiares da noite tinham-se sucedido na rua.Que é? . Rieux. Ela lhe disse que não estava cansada e logo a seguir acrescentou: . iria descansar lá. mamãe. durante toda a vida. como ele dizia. O filho sorriu-lhe.Sim. passos de cavalo. sua mãe e ele sempre se amariam em silêncio.É claro. tivessem conseguido ir mais longe na confissão de sua ternura. sem que sua amizade tivesse tido tempo de ser verdadeiramente vivida. que recusava aos homens o direito de condenar quem quer que fosse. Rieux olhava de vez em quando para o filho. e ele tinha consciência do que há de estéril numa vida sem ilusões. Ele sabia o que a mãe pensava e que nesse momento ela o amava. Mas se era isso ganhar a partida. . Sugavam rapidamente o asfalto.Bernard? . um automóvel passou e a Sra.Tratou de tudo? . Assim. Sim.Não. ou que. . conhecer a ternura e haver um dia de lembrar-se dela. e Tarrou. Então. como devia ser duro viver apenas com o que se sabe e aquilo de que se tem lembrança. sorria. pelo menos. Rieux. ter conhecido a amizade e lembrar-se dela.

pelo rádio e pelos comunicados da prefeitura. sem movimento. para todos os que gemiam por estar separados. pelos jornais. à sua maneira. Todos tinham reservado seu lugar para esse dia. As únicas imagens de Tarrou que conservaria seriam as de um homem que pegava no volante do seu automóvel com mãos 201 firmes. o Dr. Os trens que. Um calor de vida e uma imagem de morte. quase correndo. O médico perscrutou-a com ar distraído. que ninguém se pode impedir de condenar e que até as vítimas se encontravam. pela janela. uma manhã magnífica que se erguia sobre o porto. Alguns dos viajantes que se aproximavam de nossa . apesar de tudo. vindos de mares longínquos. . no entanto. às vezes. depois saíra para dar a gorjeta ao mensageiro. Quando voltou. saudadas pelo povo. O médico continuava calado.disse a Sra. Depois pediu à mãe que não chorasse. no papel de carrascos. afinal.perguntou ela. na madrugada de uma bela manhã de fevereiro. A Sra. .O telegrama? . entraram em nossa cidade não vinham menos cheios que os que dela saíram. que ele já esperava. contudo. jamais conhecera a esperança. Eis por que. enquanto. os navios já entravam no porto. ao narrador fazer-se o cronista das horas de alegria que se seguiram a essa abertura das portas. era isso o conhecimento. Grandes festejos estavam organizados para o dia e para a noite. Estava no escritório. o da grande reunião. Seria por isso que ele tinha querido a santidade e buscara a paz a serviço dos homens? Na verdade. de manhã. Rieux voltou a cabeça para a janela. sem dúvida. a decisão da prefeitura fosse anulada. para dirigi-lo. Rieux recebeu com calma. e isso pouco lhe importava. o filho tinha na mão o telegrama aberto.É isso . temendo que. no último momento. era a mesma dor que continuava. os trens começavam a fumegar na estação. sabia que seu sofrimento era sem surpresa. Olhou para ele.Bernard . no decurso de duas semanas de sursis. Tarrou tinha vivido no sofrimento e na contradição. mas que era difícil.Há oito dias. ou as deste corpo espesso estendido agora. que. ao dizer isso.que sabia. Resta. que esse dia era. Há meses e há dois dias. embora ele próprio estivesse entre os que não tinham a liberdade de se juntar a elas inteiramente. Ae mesmo tempo. a notícia da morte de sua mulher. Rieux. A mãe chegara. . pois. durante o dia. As portas da cidade abriram-se. Rieux nada sabia.reconheceu o médico. contemplava obstinadamente. Imaginar-se-á facilmente aqui em que se transformou o sentimento da separação que tinha habitado tantos de nossos concidadãos. Simplesmente. acentuando. . para trazer-lhe um telegrama.

se conheciam em geral o destino daqueles que os tocavam de perto. teriam desejado empurrar para que se apressasse. Ele mudara. seguro. Rambert compreendia que tudo lhe seria devolvido de uma vez e que a alegria é uma queimadura que não se saboreia. e que. pelo contrário. Mas o sentimento de exílio. o acontecimento ia mais depressa que a expectativa. como Rambert. encontravam-se na mesma impaciência e no mesmo tumulto. durante os meses do exílio. já que. E segurando-a com a força de seus braços. os apaixonados estavam entregues a sua ideia fixa. fazia-os exigir confusamente uma espécie de compensação. de que elas o impediriam de verificar se esse rosto enterrado em seu ombro era aquele com que tanto . fizera o necessário para chegar. ignoravam tudo dos outros e da cidade em si. Rambert. pela qual o tempo da alegria teria corrido duas vezes mais devagar que o da espera. no momento em que braços se fecharam com uma avareza exultante sobre corpos cuja forma viva tinham esquecido. avisada há semanas. Teria desejado voltar a ser aquele que. trocando entre si olhares e sorrisos. Todos. à qual atribuíam uma fisionomia terrível. inteiramente livres da sua apreensão. de todos esses meses de vida perdidos para o amor. mais ou menos conscientemente. com um único impulso. confrontá-los com o ser de carne que tinha sido seu sustentáculo. por sua vez. Porque esse amor ou essa ternura que os meses da peste tinham reduzido à abstração. num tremor. apertando contra si uma cabeça de que só via os cabelos familiares. para fora da cidade e atirar-se ao encontro daquela que amava. Na plataforma da estação onde recomeçavam sua vida pessoal. continuava nele como uma angústia surda. Uma única coisa mudara para eles: esse tempo que. Rambert esperava. entretanto. ali terminaram. a peste tinha deixado nele uma distração que. tentava negar. aliás. que havia neles. de que não recuperara sua presença de espírito. desde que viram a fumaça do trem.cidade não vinham. 202 aliás. queria correr. cuja mulher. ao mesmo tempo vago e agudo. Mas sabia que isso não era mais possível. De certa forma. agora que já se encontravam diante de nossa cidade. num segundo. separações 203 intermináveis. E aqueles que os esperavam num quarto ou no cais. tinha o sentimento de que a peste terminara com demasiada brutalidade. estavam como ele. desejaram freá-lo. com todas as suas forças. apagou-se bruscamente sob a tempestade de uma alegria confusa e perturbadora. e é de todos que é preciso falar. sentiam ainda a sua comunhão. Na verdade. que se empenhavam em precipitar ainda. que em muitos casos tinham começado nessa mesma plataforma de estação. e mante-lo suspenso desde que o trem começava a reduzir a marcha antes da parada. pelo menos. Quando o trem parou. O sentimento. sem saber se elas vinham da felicidade presente ou de uma dor muito tempo reprimida. Mas isso só era verdade para aqueles que a paixão não tinha queimado durante todo esse espaço de tempo. mal teve tempo de olhar essa forma que corria para ele e já ela se abatia contra seu peito. deixou correr as lágrimas. A felicidade chegava com todo o ímpeto. no princípio da epidemia.

distribuíam seus últimos álcoois. do contemporâneo da peste. rezavam-se ações de graças. o sol. a maior parte efetuava peregrinações aos lugares onde tinham sofrido. felicidades mais delicadas. agora mais numerosos. o de uma desconhecida. daquele que viu muitas coisas. A igualdade que a presença da morte não tinha realizado de fato. Diante dos balcões comprimia-se uma multidão de pessoas igualmente agitadas e. contentavam-se com o papel de guias. esposos. para festejar esse minuto em que acabava o tempo dos sofrimentos e ainda não começara o tempo do esquecimento.era ainda a peste. e os que enchiam as ruas ao fim da tarde. no topo das colinas. alheios ao resto do mundo. Esses prazeres eram inofensivos. Toda a cidade lançou-se às ruas. Na 204 i verdade. A provisão de vida que tinham feito durante aqueles meses em que cada um tinha velado a alma gastavam-na nesse dia. Apertados uns contra os outros. Em alguns casos. Os sinos da cidade repicaram toda a tarde. Mas quem pensava nessas solidões? Ao meio-dia. ao menos por algumas horas. Os canhões dos fortes. vindos no mesmo trem. Dançava-se em todas as praças. tratava-se de itinerários mais frementes. nas igrejas. disfarçavam muitas vezes. que era como o dia de sua sobrevivência. tudo se passava de modo muito diferente. nesse momento. Muitos casais e muitas famílias pareciam apenas transeuntes pacíficos. começaria a própria vida. abandonado à doce angústia da recordação. De um dia para o outro. os vestígios de sua história. podia dizer a sua companheira: . os lugares de prazer transbordavam e os cafés. todos voltaram então para casa. Em outros casos. Mas essa exuberância banal não dizia tudo. o trânsito tinha aumentado consideravelmente e os automóveis. pelo contrário. Todos gritavam ou riam. entre elas. dominando os sopros frios que lutavam no ar desde a manhã. para outros que se consagravam. No momento. esquecidos de toda a desgraça e daqueles que. em que um amante. não tinham encontrado ninguém e se dispunham a receber em casa a confirmação dos temores que um longo silêncio já fizera nascer nos corações. queria fazer como todos os que à sua volta pareciam acreditar que a peste pode chegar e voltar a partir sem que o coração dos homens mude com isso. amantes que tinham perdido toda a alegria com o ser agora abandonado numa cova anónima ou fundido num monte de cinza . Na realidade. Mas. à recordação de um ser desaparecido. circulavam com dificuldade nas ruas invadidas. Para estes últimos.sonhara ou. e o sentimento da separação tinha atingido o auge. Saberia mais tarde se a sua suspeita era verdadeira. O dia estava suspenso. pessoas de origens mais diversas acotovelavam-se e confraternizavam. ao mesmo tempo. sob uma atitude plácida. aparentemente vencedores da peste. Tratava-se de mostrar aos recém-chegados os sinais evidentes ou ocultos da peste. Para esses . com suas vibrações.mães. com suas precauções. e falavam do perigo sem evocar o medo. No dia seguinte. que não tinham agora por companhia senão a dor muito recente. estabelecia-a a alegria da libertação. enchendo. porém. trovejavam sem cessar no céu fixo. um céu azul e dourado. Por ora. despejava sobre a cidade as ondas ininterruptas de uma luz imóvel. ao lado de Rambert. numerosos pares enlaçados que não receavam exibir-se. sem se preocuparem com o futuro.

com todo o enervamento e o grito de desejo. esperava sua vez. À sua volta. que são as cartas. que acabara a peste e o terror chegara ao fim. às vezes. em todos os cantos da cidade. essa prisão que trazia consigo uma pavorosa liberdade em relação a tudo o que não era o presente. álcool. de já não poderem comunicar-se com eles pelos meios normais da amizade. esse cheiro de morte. com todo o triunfo e toda a injustiça da felicidade. que tivéssemos 205 sido esse povo atordoado de que todos os dias uma parte. a confusão aumentava e parecia-lhe que os subúrbios que queria alcançar recuavam. À medida que avançava. que. se evaporava em fumaça gordurosa. que tivéssemos jamais conhecido esse mundo insensato em que o assassinato de um homem era tão cotidiano quanto o das moscas. essa selvageria bem definida. Esses turistas da paixão eram então facilmente reconhecíveis: formavam ilhotas de sussurros e de confidências no meio do tumulto em que caminhavam. com a miséria e as privações. talvez. o de emigrantes cujo rosto. Rieux. Homens e mulheres agarravam-se uns aos outros. esse grito que. caminhava só. sofriam por estar colocados fora da amizade dos homens. no sentido profundo do termo. subiam os velhos odores de carne assada. Bastava-lhe agora olhar à sua volta. faces risonhas voltavam-se para o céu. cujo grito ele compreendia cada vez melhor. mais raros. procurando alcançar os subúrbios. paz. Era isso. a peste tinha acabado com o terror e esses braços que se entrelaçavam diziam bem que ela havia sido exílio e separação. em meio ao tumulto.negavam. Rieux continuava a andar. Rieux podia dar um nome a esse ar de família que tinha lido. eu desejei você. contra toda a evidência. Sim. a multidão crescia à sua volta. tinham sido afastados desse calor humano que faz esquecer tudo. só tinham vivido na separação. tinham desejado a reunião com qualquer coisa que não podiam definir mas que lhes parecia o único bem desejável. e você não estava aqui”. eram eles que anunciavam a verdadeira libertação. estreitamente enlaçados e avarentos de palavras. em todos os rostos dos transeuntes. ao canhão. Porque esses casais encantados. esses homens e essas mulheres tinham aspirado a uma reunião que não era para todos da mesma natureza. esse delírio calculado. empilhada na boca de um forno. e agora as roupas. primeiro. a ternura ou o hábito. afirmavam. muitas vezes sem o saber. nessa época. não há férias. E. que entorpecia todos aqueles a quem não matava . o calor de um corpo. às músicas e aos gritos ensurdecedores. Outros. o que saltava aos olhos do Dr. A partir do momento em que a peste tinha fechado as portas da cidade. Mais que as orquestras nas praças. Chegados ao fim da peste. como Tarrou. A maior parte tinha gritado com todas as suas forças por um ausente. por um . chamavam-lhe. os trens e os navios. anis. em meio aos sinos. durante meses. Pouco a pouco. diziam da ausência da pátria longínqua. em todo caso. enquanto a outra. carregada com as cadeias da impotência e do medo. Seu trabalho continuava: para médicos. os rostos inflamados. no fim da tarde. Na bela luz fina que descia sobre a cidade. Pela primeira vez. fundia-se nesse grande corpo ululante. todos esses homens acabaram por assumir o traje do papel que desempenhavam já há muito tempo. à falta de outro nome. Em graus diversos. mas que para todos era igualmente impossível. Negavam tranqüilamente. Alguns. enfim.”Neste lugar.

Durante algum tempo. que eles queriam voltar. Mas. Esses tinham tido. pouco a pouco. é agora que é preciso ter razão”. seriam felizes. Entre esses amontoados de mortos. Sim. seu amor e tinham cegamente buscado. a verdadeira pátria encontrava-se para além dos muros desta cidade sufocada. os avisos do que se convencionou chamar destino. Para todos eles. privados do ser que esperavam. antes da epidemia. um exílio sem remédio e uma sede jamais satisfeita. Bernard Rieux confessar que é o seu autor. afastando-se do resto com repulsa. cientes do pouco que eram. Rieux nada sabia. um vazio difícil. Felizes ainda dos que não tinham sido duas vezes separados. vez por outra. pensava que era justo que. pelo menos. Se outros. que o doutor deixara nessa mesma manhã. Para todos aqueles. como alguns que. o difícil acordo que acaba por juntar um ao outro amantes inimigos. pelo contrário. não tinham podido construir. Aqueles que. pelo menos. é porque tinham pedido a única coisa que dependia deles. o ausente que tinham julgado perdido. a alegria viesse recompensar os que se contentam com o homem e seu pobre terrível amor. dizendolhes que era preciso encontrarem sua verdadeira pátria. Ela estava nas matas perfumadas das colinas. a leviandade de contar com o tempo: estavam separados para sempre. É tempo de o Dr. as sirenes das ambulâncias. Esta crónica chega ao fim. que Rieux avistava nas soleiras das casas. tinham obtido o que queriam. pelo menos. à primeira tentativa. nos países livres e no peso do amor. essa qualquer coisa é a ternura humana. pelo contrário. era seu grito. o tropel impaciente do medo e a revolta terrível de seu coração. no momento de entrar na rua de Grand e de Cottard. ao menos. chegava. E era para ela. não tinha parado de correr um grande rumor que punha de sobreaviso esses seres aterrados. dizendo-lhe: ”Coragem. na hora em que não podia lhe servir para nada. E Rieux. alguns^deles continuavam a caminhar na cidade. se há qualquer coisa que se pode desejar sempre e obter algumas vezes.206 ’ ) lado. não houvera resposta. Decerto. todos tinham sofrido juntos. Caminhando sempre. antes de narrar os últimos acontecimentos. como o próprio Rieux. enlaçados com todas as suas forças e olhando-se com enlevo. às ruas menos apinhadas e pensava que não era importante que essas coisas tivessem um sentido ou não. durante anos. de justificar sua . Quanto ao sentido que podiam ter esse exílio e esse desejo de reunião. haviam reencontrado. Ele sabia agora qual era essa resposta e a compreendia melhor nas primeiras ruas dos subúrbios. era para a felicidade. mas só a tinha encontrado 207 na morte. sem hesitar. eram por vezes recompensados. interpelado. quase desertas. que se tinham dirigido por cima do homem a qualquer coisa que nem sequer imaginavam. Tarrou parecia ter alcançado essa paz difícil de que falara. no mar. mas que é preciso ver apenas a resposta dada à esperança dos homens. tanto na carne quanto na alma. Mas outros. Sabiam agora que. solitários. como Rambert. comprimido de todos os lados. tinham apenas desejado voltar à casa do seu amor. ele gostaria.

no momento de entrar na rua de Grand e de Cottard. nas únicas certezas que eles têm em comum e que são o amor. na verdade. À sua volta. o Dr. O resto. Tratava-se. com efeito. afinal. foi detido por uma barreira de policiais. devia falar por todos. Assim é que não há uma só das angústias de seus concidadãos de que não tenha compartilhado. de não atribuir aos companheiros de peste pensamentos que. ou para dar forma. Decididamente. Ao longo de toda a duração da peste.sua expectativa. tomou deliberadamente o partido da vítima e quis juntar-se aos homens. Impediam sua passagem e diziam que os tiros saíam de sua casa. eles sentiam de modo confuso. De longe.devia calá-lo. sua profissão o colocou em condições de ver a maior parte de seus concidadãos e de recolher seus sentimentos. .disse-lhe o guarda -. Mas. os documentos e os boatos. pelo qual o Dr. compreendo-o. Mas fique aí. em boa posição para narrar o que tinha visto e ouvido. Tendo sido chamado a depor. pois. No meio da rua. Mas há um de nossos concidadãos. De uma maneira geral. como convém a uma testemunha de boa vontade. esse esforço da razão não lhe custou nada. Quando saiu das grandes ruas barulhentas e da festa. devia relatar sobretudo os atos. uma só situação que não tenha também sido a sua. e ele o imaginava tão deserto quanto mudo. É justo que esta crónica termine com aquele que tinha um coração ignorante. esforçou-se no sentido de não contar mais coisas do que pôde ver. o doutor viu Grand. Para ser uma testemunha fiel. num mundo em que a dor é tantas vezes solitária. Os rumores longínquos da festa faziam o bairro parecer silencioso. mas isso sou obrigado a perdoar-lhe”. doutor . segundo a lei de um coração honesto. daquele de quem Tarrou lhe tinha dito um dia ”Seu único verdadeiro crime foi ter aprovado de coração o que fazia morrer as crianças e os homens. eles não eram obrigados a formular e de utilizar apenas os textos que o acaso ou a desgraça lhe tinham posto entre as mãos. o sofrimento e o exílio. Grand também nada sabia.Impossível. há um louco que está atirando sobre a multidão. isso era uma vantagem. Para dizer a verdade. Se se valeu delas. ao que. foi apenas para compreender ou fazer compreender seus concidadãos. suas provações . manteve uma certa reserva. na maior parte do tempo. dourada pela última luz de um sol sem calor. Rieux não podia falar. seus concidadãos. Estava. poderá ser útil. ao mesmo tempo. era detido pelo pensamento de que 208 j não havia um só de seus sofrimentos que não fosse ao mesmo tempo o dos outros e que. Quando se encontrava tentado a misturar diretamente sua confidência às mil vozes das vítimas da peste. quer dizer. solitário. Tirou seu cartão de identidade. na verdade. Nesse momento.intervenção e fazer compreender por que quis assumir o tom de testemunha objetiva. recortava-se um grande espaço vazio que ia até a calçada em frente. pelo menos. que se dirigia a ele. por ocasião de uma espécie de crime. tão precisa quanto possível. Mas o que pessoalmente tinha a dizer . a fachada. Não esperava por isso. via-se . via-se. Rieux.

O sol baixava um pouco e a sombra começava a aproximar-se da janela de Cottard. Por trás deles. . As pessoas divertiam-se na rua. contudo. viram aparecer um cão. paralelo ao que os impedia de avançar e por trás do qual alguns habitantes do bairro passavam e tornavam a passar rapidamente.Por que disparam? . adivinhou-se mais do que se viu uma certa agitação às portas dessas casas. É um louco. para cair depois de flanco. e o cão voltou-se. viram também policiais de revólver em punho. De repente. . tudo ficou de novo em silêncio. do outro lado da rua. um cordão de policiais. o primeiro que Rieux via há muito tempo. Ao primeiro tiro de revólver. não compreenderam. Rieux e Grand podiam ver muito longe.distintamente um chapéu e um pedaço de pano sujo. Olhando bem. 209 . Estamos esperando um carro com o material necessário.disse de repente Grand. do outro lado da rua. Já há um policial ferido. cinco ou seis disparos vindos das portas em frente despedaçaram mais a persiana. O silêncio caiu de novo. agitando violentamente as patas. De repente. Vários assobios dos policiais chamaram-no.Por que ele atirou? . e que trotava beirando o muro. . agachados nas portas dos edifícios em frente da casa.Não se sabe.Para distraí-lo. depois decidiu-se a atravessar lentamente a rua para ir farejar o chapéu. . mas estava agora caído numa poça escura. O silêncio era completo na rua. por detrás do doutor. Em resposta. hesitou.Estão aí . No mesmo momento.disse o policial. De longe. sacudido por longas convulsões. O cão já não se mexia. um ferido e todos fugiram. . pois ele atira sobre os que tentam entrar pela porta do edifício. No segundo andar. aquilo parecia um pouco irreal a Rieux. muito agitado. os minutos pareciam arrastarse. uma escada e dois embrulhos oblongos. uma delas parecia meio arrancada.perguntou Rieux a um policial. só pode ser! No silêncio que voltara. trazendo cordas. Ouviam-se apenas os restos de música que chegavam do centro da cidade. No segundo. Desta. sentou-se e começou a catar as pulgas. apareceram policiais. houve gritos. todas as persianas estavam corridas. Um momento depois. Ele levantou a cabeça. um víra-lata sujo que os donos deviam ter escondido até então. Freios gemeram na rua. esperou-se. depois do tumulto do dia. .Mas Cottard desapareceu. um tiro partiu do segundo andar. Dirigiram-se para uma rua que contornava o bloco de casas em frente ao prédio de Grand. Depois. dos edifícios em frente da casa saíram dois tiros de revólver e saltaram estilhaços da persiana desmantelada. Em certo momento. Chegando à porta.É a janela de Cottard . Depois. das janelas das casas ocupadas pelos policiais saiu uma rajada de metralhadora. envolvidos em oleado.

agora. No mesmo segundo. Mas Rieux pensava em Cottard e no barulho surdo dos punhos que esmagavam seu rosto. e o fogo da metralhadora parou. doutor. Cottard tinha caído. de uma casa mais adiante. que houve com ele? . podia-se ouvir o rumor longínquo da liberdade.Enlouqueceu. As balas entravam. e viu-se sair da casa. ”Eliminei todos os adjetivos”. E depois tinha recomeçado sua frase. onde Rieux e Grand. enquanto o velho continuava imperturbável. É preciso de tudo nesre mundo. Duas detonações longínquas ressoaram no prédio. um grupo confuso agitou-se e dirigiu-se para o médico e seu velho amigo. tirou o chapéu numa saudação cerimoniosa. já que uma delas fez saltar um estilhaço de tijolo. . todas as persianas fechadas da rua se abriram e as janelas guarneceram-se de curiosos. Como por milagre. essas ruas afastadas enchiam-se de novo com o zumbido de uma multidão em festa. precipitaram-se para lá mais três. Grand e o médico partiram no crepúsculo. E seu colega.disse o policial. Depois. Quando Rieux chegou à casa de seu velho doente. . um homenzinho em mangas de camisa. sem dúvida. no quadrado da janela. uma segunda metralhadora crepitou. Depois. com uma espécie de calma aplicação. lentamente. Como se o acontecimento tivesse sacudido o torpor em que o bairro adormecera. Ia trabalhar. viu-se o homenzinho no meio da rua.balbuciava Grand. disse. a despejar seus grãos-de-bico.Todos andando . Viu-se. E. a noite já devorava todo o céu. enquanto uma multidão de pessoas saía das casas e se comprimia por detrás das barreiras. que terminava. mais carregado do que arrastado. Rieux desviou os olhos quando o grupo passou diante dele. que gritava sem parar. Mais uma espera.A persiana visada desfez-se literalmente e deixou a descoberto uma superfície negra. Quase imediatamente. . nada podiam distinguir. com um sorriso malicioso.Eles têm razão em divertir-se. Mas no momento de subir disse-lhe que tinha escrito a Jeanne e que.É Cottard . sentia-se feliz. com os pés finalmente no solo. 210 três policiais atravessaram a rua correndo e mergulharam pela porta de entrada. de outra esquina. Do quarto. Um policial aproximou-se dele e deu-lhe dois murros. Junto à casa. os braços seguros atrás das costas pelos policiais. Por um momento. do seu lugar. Quando a rajada parou. . Gritava. o policial chutar corn toda a força o monte que jazia por terra. ouviu-se um rumor. com toda a força dos seus punhos. ainda. Talvez fosse mais duro pensar num homem culpado que num homem morto. que o perseguia enquanto se dirigia à casa do velho asmático. Grand despediu-se do doutor.

Enfim. . o mar estava mais barulhento que então junto às falésias. as estrelas endureciam como sílex. Ao longe.” E depois vão encher a barriga. Quer vê-los lá de cima. contudo. . . Por pouco. .perguntou o médico. Eu sei viver. são os melhores que partem.Diga-me.Por nada. .É verdade . . ele me agradava.reconheceu o velho. Mas é assim.Parece que consigo ouvi-los daqui: ”Nossos mortos.Tinha certeza. Rieux já subia a escada. .acrescentou Rieux. escura. . Mas que quer dizer isso. Rieux dirigiu-se para a escada.Não se importa que eu vá até o terraço? . indicava a localização das avenidas e das praças iluminadas.Morreu . Mas essa noite era a da libertação e não a da revolta. o desejo não conhecia barreiras e era seu rumor . . O grande céu frio cintilava por cima das casas e. nada mais.exclamou o velho.Oh! Não tenha medo. Na noite agora libertada. . Mas era um homem que sabia o que queria. mas eram pacíficas: crianças que soltavam suas bombas. hem? À vontade. uma mancha vermelha.Claro que não. é verdade que vão construir um monumento às vítimas da peste? . O ar estava imóvel e leve.O jornal assim o diz. doutor.211 Chegavam até eles detonações. Nunca falava para não dizer nada. .Peste . E haverá discursos.disse o doutor.Por que diz isso? . Mas hoje. O velho ria com um riso estrangulado. É a vida. arrumando o estetoscópio. O rumor da cidade.Faça suas inalações regularmente. aliviado pelos sopros salgados que o vento morno do outono trazia. tivemos peste”. Esta noite não era tão diferente daquela em que Tarrou e ele tinham vindo a esse mesmo terraço para esquecer a peste. O médico parou no meio do quarto. um pouco perplexo. Uivos de alegria responderam-lhe ao longe.Ah! . a peste? É a vida. Ainda vou viver muito tempo e vê-los morrer todos. . Os outros dizem: ”É a peste. . continuava a chegar aos terraços com um marulho de vaga. Mas são sempre os mesmos. pediriam que os condecorassem. . auscultando o peito resfolegante. Uma coluna ou uma lápide. perto das colinas. um instante depois -.

os homens eram sempre os mesmos. ao ouvir os gritos de alegria que vinham da cidade. . subiram os primeiros foguetes dos festejos oficiais. que termina aqui. sem dúvida. apenas. Podia. O velho tinha razão. a peste acordaria seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz. Em meio aos gritos que redobravam de força e de duração. nos porões. para depor a favor dessas vítimas da peste. ser o testemunho do que tinha sido necessário realizar e que. o Dr. Rieux decidiu. todos. acima de toda dor. para não ser daqueles que se calam. que viria talvez o dia em que. nos lenços e na papelada. mortos ou culpados. Tarrou. não podendo ser santos e recusando-se a admitir os flagelos. e era aqui que Rieux. E sabia. Mas.que chegava até Rieux. se esforçam no entanto por ser médicos. estavam esquecidos. redigir esta narrativa. contra o terror e sua arma infatigável. Porque ele sabia o que essa multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca. para desgraça e ensinamento dos homens. aqueles e aquela que Rieux tinha amado e perdido. A cidade saudou-os com uma longa e surda exclamação. à medida que as chuvas multicores se elevavam mais numerosas no céu. para deixar ao menos uma lembrança da injustiça e da violência que lhes tinham sido feitas e para dizer simplesmente o que se aprende no meio dos flagelos: que há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar. deveriam realizar ainda. também. então. Cottard. Na verdade. Rieux lembrava-se de que essa alegria estava sempre ameaçada. todos os homens que. sentia que se juntava a eles. nos baús. a despeito das feridas pessoais. no entanto. Mas essa era sua força e sua inocência. pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa. sabia que esta crónica não podia ser a da vitória definitiva. que repercutiam longamente junto do terraço. 212 Do morro escuro. espera pacientemente nos quartos.

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