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Contos e Apólogos (psicografia Chico Xavier - espírito Humberto de Campos) (1)

Contos e Apólogos (psicografia Chico Xavier - espírito Humberto de Campos) (1)

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FRANCISCO CANDIDO XAVIER

CONTOS E APÓLOGOS
PELO ESPÍRITO IRMÃO X

Caro Amigo Se você gostou deste livro e tem oportunidade de adquiri-lo, faça-o, pois os direitos autorais são doados a instituições de caridade. Muita Paz

INDÍCE

TEMA A CAPA DE SANTO A CONDUTA CRISTÃ A CONSULTA A DIVINA VISÃO A ESCOLHA DO SENHOR A ESMOLA DA COMPAIXÃO A ESTRADA DE LUZ A FICHA A LIÇÃO DO DISCERNIMENTO A ÚLTIMA TENTAÇÃO AS ROSAS DO INFINITO DAR E DEIXAR DEUS SEJA LOUVADO DÍVIDA E RESGATE EU CONTRA EU IDÉIAS INFORTÚNIO MATERNO JUDICIOSA PONDERAÇÃO JUSTIÇA DE CIMA LOUVORES RECUSADOS

CAP 01 22 32 19 34 38 33 07 14 26 25 27 36 23 05 20 39 31 03 13

TEMA LENDA SIMBÓLICA NO CAMINHO DO AMOR NO REINO DAS BORBOLETAS NOS DOMÍNIOS DA SOMBRA O AVISO OPORTUNO O BENDITO AGUILHÃO O CAÇADOR PROVIDENCIAL O CANDIDATO INTELECTUAL O COMPANHEIRO DOS ANJOS O CONFERENCISTA ATRIBULADO O ENCONTRO DIVINO O ENIGMA DA OBSESSÃO O ESCRIBA ENGANADO O EXAME DA CARIDADE O FAROLEIRO DESPREVENIDO O HOMEM QUE NÃO SE IRRITAVA O REMÉDIO OBJETIVO PARÁBOLA SIMPLES QUESTÃO DE JUSTIÇA SEARA DE ÓDIO

CAP 37 18 29 40 24 06 09 15 16 28 21 15 30 12 04 17 08 10 35 11

OFERENDA

Meu amigo: A maneira dos velhos peregrinos que jornadeiam sem repouso, busco-te os ouvidos pelas portas do coração. Senta-te aqui por um momento. Somos poucos junto à árvore seivosa da amizade perfeita. Muitos passaram traçando-te o caminho... Visitaram-te muitos outros, compelindo-te a dobrar os joelhos perante o Céu... Não te imponho um figurino para atitudes exteriores. Ofereço-te o lume da experiência. Não te aponto normas para a contemplação das estrelas. Rogo veja no firmamento a presença divina da Divina Bondade. Trago-te apenas as histórias simples e humildes, que ouvi de outros viajares. Recebe-as, elas são nossas. Guardam o sorriso dos que ensinam no templo do amor e as lágrimas dos que aprendem na escola do sofrimento. Assemelham-se a flores pobres entretecidas de júbilo e pranto, dor e benção, que deponho em tua alma para a viagem do mundo. Acolhe-as com tolerância e benevolência! Dir-te-ão todas elas que, além da morte, floresce a vida, tanto quanto da noite ressurge o esplendor solar, e que se há flagelação e desespero, ante o infortúnio dos homens, fulgem, sempre puras e renovadas, a esperança e a alegria, ante a glória de Deus. Irmão X Pedro Leopoldo , 30 de outubro de 1957

Foi aluno de filosofia e encontrou numerosas tentações contra a fé espontânea que lhe sustentava a alma simples e estudiosa. Momentos houve em que a tempestade o defrontou ameaçador. mas o aprendiz.A CAPA DE SANTO Certo discípulo. Depois de precioso descanso. fervoroso. Logo após. recorria aos Heróis Bem-Aventurados e entesourou forças para vencer. ressurgiu no campo humano para exercitar-se no domínio das ciências e das artes. Exercitaram-se. se as dores lhe buscavam o coração ou o lar. de onde retornou ao mundo para ser copista. muita vez experimentou conflitos amargurosos. Operário digno e leal. Rematou o serviço de maneira louvável e voltou à Casa Celeste. nos trabalhos de escrita. foi médico e surpreendeu padecimentos que nunca imaginara. que haviam conquistado a láurea da santidade. . quando a aflição ou o enigma lhe visitaram a alma. e atravessaram ilesas. sempre louvado pela conduta irrepreensível. em viagens inúmeras. Desceu da Esfera Superior em que se demorava e nasceu entre as criaturas para ser carpinteiro. jubiloso. todavia em todos os percalços do caminho. nas lides do mar. desceu aos círculos de luta comum para ser lavrador. as provas difíceis. e. extremamente aplicado ao Infinito Bem. depois de largo tempo ao lado do Divino Mestre recebeu a incumbência de servi-lo entre os homens da Terra. suplicava os bons ofícios dos Advogados dos Pecadores e jamais ficou desamparado. e recebeu encargos de marinheiro. Regressou à carne e trabalhou assíduo. gravando luminosos ensinamentos dos sábios. Serviu com inexprimível abnegação à gleba em que renascera e. espalhando benefícios em nome do Senhor. Afligiram-se milhares de vezes ante as agruras de muitos destinos lamentáveis. refugiou-se na paciência. Novamente restituído ao Domicílio do Alto. implorava a cooperação dos Grandes Instrutores da Perfeição. então. pacientemente. mas. nas mais diversas nações. Tornou ao céu.01 . apegava-se à proteção dos santos e terminou a primeira missão admiravelmente. lembrava-se dos Benfeitores Consagrados e nunca permaneceu sem o alívio esperado.

reconhecendo-lhe a condição. que. exigiram-lhe. doravante. considerou sem detença: . Adivinhava. junto dos homens.Tens vencido em todas as provas que te confiei e. Vitorioso em tantos encargos foi chamado pelo Mestre.Senhor. Manifestaram-se nele dons sublimes. na forma de operário. . músico. em massa. venceu. escritor. A inteligência.pediu socorro dos Protetores da Humanidade e.. muito esperançoso.. Tamanha devoção adquiriu que não sabia mais trabalhar sem recurso imediato ao concurso dos Espíritos Glorificados na própria sublimação. administrador.. privilegiados do Pai Supremo ou súdito favorecidos do Trono Eterno. junto da Humanidade.O fruto que alimenta deve estar suficientemente amadurecido. podes escolher a própria tarefa. embriagado de ventura. tantas graças tenho recebido dos Benfeitores Divinos.Pretenderias.. agarrando-se-lhes à colaboração. ser um santo?. o interlocutor insistiu.indagou o Celeste Instrutor. esclarecia. sorrindo. .. a intuição e a ternura nele eram diferentes e fascinantes. de administrador e orientador. junto de mim. Até hoje. Foi alfaiate. E. aos vinte anos de corpo físico. consolava. ignorantes e instruídos. por isso. em tom grave. o tempo.. agora. desse modo. tens estado a meu serviço. de artista. O discípulo. porventura. e o mestre não lhe negou a concessão. e. semelhantes benfeitores seriam campeões da graça. Há muita diferença.. escultor. legislador e sempre se retirou da Terra com distinção. . buscou-lhe. Renasceu. desejaria ser um deles. mais uma vez. humilde.Sim. considerou: . condutor. que lhe falou. Mas. com o patrocínio deles. a saúde. E o povo. Para ela. Bons e maus. professor. prossegui trabalhando. jovens e velhos. curava. .confirmou o aprendiz extasiado. conciso: .. justos e injustos. a paz e a vida. recebeu do Alto o manto resplandecente da santidade. as bênçãos e diretrizes. sem consideração por suas necessidades naturais. poeta. O senhor.

não podia comer. mas reconfortado. Reparando-lhe o pranto sincero. nem lavar-se. Não valiam escusas. Na posição de carpinteiro. modelavas a madeira. O povo exigia sempre. brunido. até agora. filósofo arregimentava idéias. Tangias o instrumento. escultor cinzelava a pedra. por parte dos devotos e beneficiários reconhecidos.. cansaço e serviço feito.. Para envergares a capa de santo.. Devia dar. lágrimas. dirigiu-se em preces ao Senhor e alegou que a capa de santo era por demais espinhosa e pesava excessivamente.Na categoria de santo. médico. escritor dispunha sobre as letras. porém. o discípulo em pranto. lavrador determinava o solo. serás. Depois de dois anos de amargosa batalha espiritual. nem pensar. nem desesperar. à maneira da vela. atormentado e desgostoso. esperava novas ordenações para ingressar no precioso curso de obediência.. nem dormir. músico. não podia subtrair-se à luta. é necessário aprender a servir. as próprias forças. administrador e legislador interferiam nos destinos alheios. o Mestre ouviu-o. e por mais que fosse rodeado de manjares e flores. E enquanto o Mestre sorria complacente e bondoso. de ora em diante. professor instruía os menos sábios que tu mesmo. . e explicou: . mantendo a chama por duas pontas. aprimorado e educado pela vida.Olvidaste que. ordenavas aos enfermos. Sempre te emprestei autoridade e recurso para os trabalhos de determinação. modelado. sem reclamação. A fim de alcançares esse glorioso fim. compadecido. agiste no comando.

fixando no Senhor os olhos arguciosos. cordialmente. que se caracterizava pela profunda capacidade intelectual. -Quem nos presidirá à organização? -Nosso Pai Celestial. -Qual o direito que competirá aos adeptos da Revelação Nova? -O direito de servir sem exigências. Recebeu-o o Mestre. como proceder? -Desculparemos a ignorância. O candidato inteligente. o salário do discípulo? -Na alegria de praticar a bondade. filhos do mesmo Pai.O CANDIDATO INTELECTUAL Conta-se que Jesus.02 . O Evangelho seria a luz das nações e consolidar-se-ia à custa da renúncia e do devotamento dos discípulos. improvisadas. e. Ensinaria aos homens a retribuição do mal com o bem. foi procurado por um candidato ao novo Reino. depois de infrutíferos desentendimentos com doutores da lei. em nossas atividades. indagou: -A que escola filosófica obedecerá? -A escola do céu respondeu complacente. E outras perguntas choveram. O rapaz arregalou os olhos aflitos e prosseguiu indagando: -Em que consistirá desse modo. em Jerusalém. o Divino Amigo. acerca dos serviços da Bom-Nova. A Paternidade Celeste resplandeceria para todos. Judeus e gentios converter-se-iam em irmãos. -Em que base aceitará a dominação política dos romanos? -Nas do respeito e do auxílio mútuos. passou a explicar os objetivos do empreendimento. em seguida às interpelações do futuro aprendiz. -Na hipótese de sermos perseguidos pelo Cinéreo. quantas vezes for preciso. -Estaremos arregimentados num grande partido? . o perdão infinito com a infinita esperança.

trabalho. com as nossas próprias forças. esperança. O candidato coçou a cabeça. -Onde a voz imediata de comando? -Na consciência. enobrecido e feliz. na estrada comum. e continuou. -O programa? -Permanecerá nos ensinamentos novos de amor. -Com quem contaremos de imediatos? -Acima de tudo com o Pai e. -Mas não teremos recursos de constranger os seguidores à colaboração ativa? -No Reino Divino não há violência. -Quantos filósofos. -De quantos companheiros seguros dispomos para início da obra? -Dos que puderem compreender-nos e quiserem ajudar-nos. . uma assembléia de trabalhadores atenta à Vontade Divina.-Seremos. sacerdotes e políticos nos acompanharão? -Em nosso apostolado. a condição transitória não interessa e a qualidade permanece acima do número. em todos os lugares. francamente desorientado. -Quanto tempo gastará? -O tempo necessário. -E os cofres mantenedores do movimento? -Situar-se-ão em nossa capacidade de produzir o bem. -Quem reterá a melhor posição no ministério? -Aquele que mais servir. concórdia e perdão. finda a pausa: -Que objetivo fundamental será o nosso? Respondeu Jesus. sem se irritar: -O mundo regenerado.

-Os livros de apontamento estão prontos? -Sim. -Fará diferença entre senhores e escravos? -Todos os homens são filhos de Deus. realmente nada sabiam da cultura grega ou do Direito Romano. . mantendo-se. assim dizendo.-A missão abrangerá quantos países? -Todas as nações.. mas Jesus silenciou sorridente e calmo. sem perguntar. contudo. onde procurou os pescadores rústicos e humildes que. o afoito rapaz inquiriu ansioso: -Senhor. O talentoso adventício continuou a indagar. abandonou Jerusalém na direção da Galiléia. por que não esclareces? O Cristo afagou-lhe os ombros inquietos e afirmou: -Busca-me quando estiveres disposto a cooperar. E. -Quais são? -Nossas vidas. Após longa série de interrogativas sem resposta. -Em que sítio se levanta as construções de começo? Aqui em Jerusalém? -No coração dos aprendizes.. perfeitamente prontos a trabalhar com alegria e servir por amor.

sem afetação: -Volta à paisagem onde viveste e recomeça a luta de redenção. Ao primeiro deles. reajustando o equilíbrio daqueles que prejudicaste. cada qual. o árbitro amigo observou. um halo de irradiações específicas. foram analisados por idêntico padrão. É indispensável resgates os débitos de alguns milhares de horas. contudo. Ostentando. utilizando os teus recursos de trabalho para fins inconfessáveis. e ouviu as seguintes considerações: -Revelam os apontamentos a teu respeito que lesaste a fábrica em que trabalhavas. Detiveste vencimento e vantagens que não correspondem ao esforço que despendeste. durante alguns dias. transparecem os pesados compromissos que assumiste. foi conduzido ao juiz que lhes examinara o processo. . num acidente espetacular. atenciosamente. O magistrado convidou um a um a lhe escutarem as determinações. Há viúvas e órfãos. E. mostravam-se diferentes entre si. Na vida espiritual. como se estivesse envolvido numa atmosfera pardacenta. em nome do Direito Universal. acrescentou: -Torna ao teu antigo núcleo de serviço e auxilia os teus companheiros e as máquinas que exploraste em mau sentido. Aproximou-se o segundo. em atividade assistencial. E porque o interpelado inquirisse quanto ao futuro que o aguardava. depois de haverem perdido o corpo físico. Excelentes rapazes. reclamando variados estudos e diversa apreciação. que se movimentava sob irradiações cinzentas. cercados de pontos escuros. o compassivo julgador disse.03 . guardando amargas recordações de tua influência.JUSTIÇA DE CIMA Quatro operários solteiros quase todos da mesma idade compareceram ao tribunal de Justiça de Cima. Na Terra. junto deles. bondoso: -De tuas notas. perante numerosa assembléia de interessados nas sentenças. percebendo-lhe as interrogações mentais. com as mesmas homenagens sociais e domésticas. aniquilados pela morte. És naturalmente obrigado a restituir-lhes a paz e a segurança. chorando no mundo.

contentes. Sacrificava-se pelo bem de todos. Raios de safira claridade envolviam-no todo. o julgador esclareceu persuasivo e bondoso: -O irmão promovido é um herói anônimo da renúncia. Em seguida. oferecendo-lhe preces. sempre respeitou a oficina em que se honrava com a sua colaboração e não se limitou a ser correto para com os deveres. alegrias e bênçãos. Suportava o fígado enfermo dos colegas. através dos quais conquistava o que lhe era necessário à vida. A Lei Divina jamais se equivoca. Distribuía estímulo e entusiasmo. Não te valeste das tuas possibilidades de serviço para prejudicar os semelhantes. generoso: -As informações de tua romagem no Planeta Terrestre explicam que demonstraste louvável correção no proceder. E porque o julgamento fora satisfatoriamente liquidado. O trabalhador humilde. Inspirava confiança. afastou-se em lágrimas de júbilo e gratidão. mas ainda na Terra. O juiz inclinou-se. Sorria e auxiliava sempre. além da morte. diante dele. onde precisas continuar no curso da própria sublimação. não traíste as próprias obrigações e somente recebeu do mundo aquilo que te era realmente devido. que asseveravam nele conhecer um simples homem de trabalho. com bondade e entendimento. Serviços mais nobres esperam-te mais alto. parecendo emitir felicidade e luz em todas as direções. como que desejoso de ocultar a luz que o coroava. encerrou a sessão. A tua consciência está quite com a Lei. e. Centenas de corações seguiram-no. o tribunal da Justiça de Cima. em razão das perguntas a explodirem nos colegas despeitados. . disse o juiz. a destoar dos precedentes pelo aspecto em que se apresentava. surgiu o último.Ao terceiro que se aproximou. Vinha nimbado de belo esplendor. Podes escolher o teu novo tipo de experiência. Soube ser delicado nas situações mais difíceis. nos braços de velhos amigos que o cercavam. a colheita de tua sementeira confere-te a elevação. e informou: -Meu amigo. Nunca impôs qualquer prejuízo a alguém.

Quantos viajantes havia já perdido a vida e os bens na traiçoeira passagem? Quantos pescadores incautos não mais regressaram à benção do lar? Ninguém sabia. O servidor. Findo o crepúsculo. Ainda mesmo fora da tempestade. Eunice. a breve tempo. implorou certa cota mais elevada para sustento de algumas tochas. Quando os vizinhos. o grande general situou Teofrasto no farol que se erguia na costa. reclamou cinco potes destinados à manipulação de remédios. porém.04 . a costureira. Embolo. mas o que procuravam. era cercado de envolventes apelos. era a concessão de óleo destinado às pequenas necessidades que lhes eram próprias. defendendo a salvação de todos os que transitassem pelas águas escuras. O soldado. passaram a visitá-lo. Todos os afeiçoados das redondezas. porém. quando a fúria dos deuses não soprava sibilante sobre a Terra. amiúde. implorou-lhe a doação de alguns pratos de azeite.O FAROLEIRO DESPREVENIDO O soldado Teofrasto. a sorte de seus comandados. Realmente estimavam nele a cordialidade e a doçura. além das horas do dia. veio pedir-lhe meio barril do combustível para os serões de sua fazenda. o fabricante de ungüentos. interessados em satisfazer as exigências domésticas. atingido na sensibilidade. fora nomeado faroleiro por Alcebíades. honrado com semelhante mandato. o lavrador. permaneceria no ministério da luz contra as trevas. alegando que o pai agonizava. Cor Ciro. a tarefa que lhe competia. Antifon. mantinha a luz acesa. Teofrasto desenvolveu. Teofrasto. Para garantir-lhe o êxito. rochedos pontiagudos esperavam sem piedade as galeras invigilantes. souberam que o soldado guardava um coração terno e bondoso. Por ali. dentro da noite. os pequenos e grandes barcos eram como que atraídos aos penhascos destruidores. Preservando. sem dificuldade. derribando casas e arvoredo. revelando a rota libertadora. no fundo. na expedição da Sicília. distribuiu o combustível precioso pela ordem das rogativas. o negociante. qual ovelhas precipitadamente conduzidas ao matadouro. com a missão de iluminar o caminho equóreo. De início. homem de excelente coração. mandou-lhe emissários com vasta provisão de óleo puro. relacionaram solicitações simpáticas e comoventes. rogou-lhe duas ânforas cheias para terminar a confecção de algumas túnicas. o sapateiro. a fim de orientar as embarcações em zona perigosa do mar. Crisóstomos. . a fim de que o genitor não morresse às escuras.

afirmava. se esgotou a reserva de doze meses. indicandolhes os rochedos das trevas e descerrando-lhes o rumo salvador: todavia. Assim foi que. a benefício de todos os que navegam a pleno oceano da experiência terrestre. desceram aflitos ao abismo do mar. Comerciantes diversos. Confiados pescadores jamais tornaram ao ninho familiar. As requisições. Alcebíades. Prestigiosos contingentes de tropas perderam a vida. portadores de valiosas soluções e problemas inquietantes da luta humana. o servidor do elevado encargo. exonerou recomendando lhe fosse aplicado às penas da lei. quantos deles perdem a oportunidade de serviço vitorioso pela prisão indébita nos casos particulares que procedem geralmente de bagatelas da vida? . ao término de duas semanas.Não podia sofrer o quadro angustioso. naturalmente indignado. O funcionário não pôde comunicar-se facilmente com os postos avançados de comando e. tão logo se apagou o farol solitário. no seu parecer. por várias noites consecutivas os penhascos espatifaram embarcações de todos os matizes. eram justas e oportunas. O médium cristão é sempre um faroleiro com as reservas de óleo das possibilidades divinas.

redargüiu colérico. ao gasto inconseqüente? Ele. -Detém-te! Por que te confias assim ao mal? O interpelado.05 . todavia. à condição de perdulário e adotando a extravagância e a loucura por normas de viver. porém respondeu orgulhoso: -Eu quero. aproximou-se o Bom Senso e observou-lhe. quando poderia beneficiar a coletividade."EU " CONTRA "EU" Quando o Homem ainda jovem desejou cometer o primeiro desatino. que o levaram ao pelourinho da desaprovação pública. inutilmente. Absorvendo imensos recursos. mais tarde. abeirou-se dele o Amor e pediu: -Modifica-te! Sê caridoso! Como podes reter o rio das oportunidades sem socorrer o campo das necessidades alheias? E o mísero informou: -Eu ordeno. -Eu mando. contudo. recebeu a visita da Humildade. Mais tarde. esclareceu jactancioso: -Eu posso. a Justiça acercou-se dele e recomendou? . que lhe rogou. Praticando atos condenáveis. Passando. piedosa: -Reflete! Por que te não compadeces dos mais fracos e dos mais ignorantes? O infeliz. apareceu a Ponderação e aconselhou-o: -Pára! Por que te consagras. desse modo. mobilizando os outros a serviço da própria insensatez.

. um dia. prosternou-se diante dela e considerou: -Morte. até que. conduziu-o à casa da Verdade para maiores lições. -Como podes atacar-me deste modo? -Eu mando. E. contra "eu". duelarei e receberás a minha maldição!. -Defender-me-ei contra ti -clamou o Homem. -Eu posso-retrucou a visitante.-Não prossigas! Não te dói ferir tanta gente? O infortunado.. sem ouvir as sugestões das virtudes que iluminam a Terra. -Por que me constranges a aceitar-te?-gemeu triste. por que me buscas? -Eu quero-disse ela. e afirmou: -Eu exijo. acentuou implacável: -Eu exijo. -Que poderes te movem? -Eu ordeno. E assim viveu o Homem. na luta do "eu". . desesperado-. entretanto. a Morte o procurou e lhe impôs a entrega do corpo físico. acreditando-se o centro do Universo. O desditoso entendeu a gravidade do acontecimento. reclamando. Mas a Morte sorriu imperturbável. oprimindo e dominando.

contra a inveja que ateia o incêndio da cobiça. aliada ao amor que auxilia.. Compreendo que o ensino da Bom-Nova estenderá a felicidade sobre toda a Terra. perguntando: -Senhor. Não é fácil concentrar idéias no Alto. No entanto. Nosso Pai espera que os povos do mundo se aproximem uns dos outros e que a maldade seja esquecida para sempre. estabelecerá o império da infinita Bondade sobre o mundo inteiro. É imperioso reconhecer.O BENDITO AGUILHÃO Atendendo a certas interrogações de Simão Pedro. na exposição do Mestre. a esperança fiel alcançará o Reino divino. contra a vaidade que improvisa a loucura e contra o egoísmo que isola as almas entre si.. aparece adequada solução ao grande problema. A paciência no ensino garantirá êxito à sementeira. Operemos. . não concordas que as enfermidades são terríveis flagelos para a criatura? E se curássemos todas as doenças? Se proporcionássemos duradouro alívio a quantos padecem aflições do corpo? Não acreditas que. Santifiquemos o verbo que antecipa a realização. porém. Pedro interferiu. ajuntou algo tímido? -Grande realidade!. as tuas afirmativas são sempre imagens da verdade. No pensamento bem conduzido e na prece fervorosa. se regenerarmos a fonte. e a nossa palavra. Não é justo combatam as criaturas reciprocamente. como se a existência na Terra fosse uma corrente de águas viciadas. dos quais somos todos simples usufrutuários. Há sombras e moléstias por toda a parte. no singelo agrupamento apostólico de Cafarnaum.. Restaurado o espírito. em suas linhas de pureza. Em face da pausa natural que se fizera.. receberemos as energias imprescindíveis à ação que nos cabe desenvolver. a grande transformação não surgirá do inesperado. sobretudo. à vitória da fraternidade. assim instalaríamos bases mais seguras ao Reino de Deus? E Filipe. Naturalmente. assim.06 .. a pretexto de exercerem domínio indébito sobre os patrimônios da vida. que. espontânea. Jesus explicava solícito: -Destina-se a Boa-Nova.. sublimam-se-lhe as manifestações. quando o sofrimento físico nos incomoda..

Desagradável silêncio baixou sobre a reduzida assembléia. rematou: -A carne enfermiça é remédio salvador para o espírito envenenado. à tranqüilidade e ao movimento. mas o Cristo falou compassivo: -Pedro.. Os enfermos penetravam o gabinete improvisado ao ar livre. impôs suas milagrosas mãos sobre os doentes de todos os matizes. a título de experiência.. apoiando o plano de proteção integral aos sofredores. em breves instantes. Tão logo reapareciam. demonstraria o amor e a sabedoria do Pai e descortinaria horizontes divinos da renovação. Declaravam-se alguns ansiosamente esperados no ambiente doméstico e outros se afirmavam interessados em retomar certas ocupações vulgares. foram libertados mais de cem prisioneiros da sarna. com manifesta expressão de abatimento. mas não nos esqueçamos de que o sofrimento é criação do próprio homem. com urgência. de olhar fulgurante.. Jesus deixou que a serenidade reinasse de novo. todos os enfermos seriam curados. desde manhãzinha. estuda a experiência e aguarda a lição. contudo. se a carne permanece abatida de achaques. se afastavam céleres. O pescador de Cafarnaum endereçou significativo olhar de tristeza e desapontamento ao Mestre. louvando a piedade. restituídos à alegria. da paralisia. No curso de algumas horas. desvendando segredos do Céu para que o povo traçasse luminoso caminho de elevação e aperfeiçoamento na Terra. e voltavam jubilosos. Outros companheiros se exprimiram. da obsessão. Se o bendito aguilhão da enfermidade corporal é quase impossível tanger o rebanho humano do lodaçal da Terra para as culminâncias do Paraíso. acolitado pelos apóstolos. formulava Pedro o convite fraterno para o banquete da verdade e luz. Com efeito. Com a cura da última feridenta. Os alegres beneficiados.É quase impossível meditar nos problemas da alma. da cegueira. o Médico Celeste. ajudando-o a esclarecer-se para a vida mais alta. E sorrindo. entre frases apressadas de agradecimento e desculpa. do cancro. do reumatismo. O Mestre. e. comunicou aos amigos que.. antes da pregação. no outro dia. . expressivamente. a vasta margem do lago contava apenas com a presença do Senhor e dos doze aprendizes. Aliviemos a dor. no dia imediato. falaria com respeito à beleza da Eternidade e à glória do Infinito.

e. na noite em que atingiu meio século de idade no corpo físico. intentava alçar-se para melhor desfrutar a excelsitude do Paraíso. depois de orar enternecidamente com os amigos. solícito: . -Excelente apetite. distinto pregador do Evangelho na seara espírita.. -Pais carinhosos e amigos. -Bons livros. -Berço manso. -Juventude folgada.João. foi deitarse. para evitar qualquer surpresa desagradável no avanço. -Constante proteção espiritual.07 . -Instrução digna. em cuja face leu espantadiço: -João Mateus. convém uma visita de olhos em sua ficha. quando um funcionário da Passagem Celeste se aproximou. deslumbrado com a leveza de que se via possuído.. -Invejável noção de conforto. E o viajante recebeu primoroso documento. -Renascimento na Terra em 1904. -Inteligência preciosa.A FICHA João Mateus. -Seguro abrigo doméstico. -Boa saúde. -Cérebro claro. . -Sono calmo. Sonhou que alcançava as portas da Vida Espiritual. a lembrar-lhe.

672 missas. -Além dos recursos naturais que lhe renderam respeitável posição e expressivo reconforto doméstico. -Grande intolerância para com os vizinhos. -Notável narrador. conserva . -Efetuou 106 viagens de repouso e distração. -Católico romano até os 26. transferiu-se para as fileiras espíritas.Escreve cartas e páginas comoventes. -Realizou 1. -Relaciona-se tão-somente com amigos do mesmo nível. -Boa mesa em casa. -Não encontra tempo para auxiliar os filhos na procura do Cristo. -Presenciou. -Refratário a qualquer mudança de hábitos para a prestação de serviço aos outros.602 palestras e pregações doutrinárias. -Compareceu a 2.195 sessões de Espiritismo. empregou-se no comércio. embora destaque incessantemente o imperativo da fraternidade entre os homens. -Quatro filhos.-Nunca sofreu acidentes de importância. em regime de escravização da mulher. através de múltiplos mensageiros. -Aos 27 de idade. . -Aos 20 anos de idade. através da sua conduta. -Sofre horror às complicações da vida social. mas revela extrema suscetibilidade ante a conduta alheia. sob o constante amparo de Jesus. -Sabe defender-se com esmero em qualquer problema difícil. -Polemista cauteloso. -Casou-se aos 25. -Nunca percebe se ofende o próximo. sem maior atenção. sob a invocação de Jesus.

...... relatando-lhes a ocorrência.. Para isso. bem humorado. Quando ia ler o item referente às próprias dívidas.... reuniu-se aos companheiros. E... -Para Jesus. À noite.... um aviso precioso. achava-se disposto a colaborar substancialmente na construção de um lar destinado à recuperação de crianças desabrigadas que....00 e guarda em conta de lucro particular a importância de Cr$ 302.. desejava socorrer. despediu-se dos irmãos de ideal.. Contudo.bens imóveis no valor de Cr$ 600.... vitimado por um acidente das coronárias...000.... na noite imediata......... quando os amigos lhe bateram à porta... Era manhãzinha. de necessitados e doentes. solicitando-lhes novo reencontro para o dia seguinte. -Débito.00. Esperava assentar as bases da obra que se propunha levar efeito... sorridente...000.. fortemente impressionado. Estava transtornado...... já ofereceu 12 cruzeiros em obras de assistência social.. dizia... .. O sonho o modificara-lhe o modo de pensar. Pretendia renovar-se por dentro.. Consagrar-se-ia doravante a trabalho mais vivo no movimento espírita.. A experiência daquela noite inesquecível era. desde muito. -Para cooperar no apostolado do Cristo. deu durante toda vida 90 centavos... João Mateus estava morto.... reuniria agora palavra e ação... João acordou.. decerto. que o procurou na pessoa de mendigos.

está exausto! Que me aconselha? O mau juízo sufoca-me. concordando a contragosto. repisava: . O companheiro choramingava e. Se cumpro minhas obrigações. contudo. com o sacrifício de nós mesmos. como proceder ante os adversários gratuitos? O cerco dessa gente é insuportável. O protetor respondia tolerante: A tarefa. Que fazer? O mentor desencarnado contornava o problema. reclamando: -Irmão Policarpo. Tenhamos calmas e prossigamos a serviço de Nosso Senhor. não obstante o devotamento com que se entregara aos princípios evangélicos torturava-se. a obra de evangelização das almas demanda paciência e perdão. o benfeitor espiritual que dirigia a casa. intervinha Isidoro.O REMÉDIO OBJETIVO Isidoro Vianna. ante os golpes da crítica. Quem conhece Jesus deve desculpar a leviandade daqueles que ainda o não conheço. Toma-se a iniciativa do bem. ainda é de enormes contrastes. colaborador nos serviços da caridade cristã. entretanto. Nas sessões do grupo. que nos ajudou até à cruz. chamam-me bajulador. Isidoro gemia. pela causa do bem vitorioso. A luz é combatida pelas trevas. Se não nos dispusermos a sofrer. atento aos compromissos que assumi. acusam-me de preguiçoso. Aliás. de algum modo. se me afasto do dever durante alguns minutos. infinitamente. quem nos libertará do mal? Tenhamos suficiente valor e imitemos o exemplo da suprema renúncia. e acabava asseverando: -O plano Terrestre. do Mestre. na semana seguinte. voltava a pedir: -Irmão Policarpo. Renda-se culto à gentileza. meu amigo. será mesmo assim. o mal pelo bem. vivia em queixas constantes. delicadamente. Tão logo se incorporava Policarpo. abrindo o espírito à ternura dos amigos. meu amigo. Não consigo caminhar em paz. e.08 . declaram-me afoito. na próxima reunião. afirmam que não passo de orgulhoso e mau irmão. A hostilidade que a ignorância nos abre favorece o trabalho geral de esclarecimento. dizem que sou explorador da confiança alheia e. que tentar em favor da harmonia? Minha boa-vontade é inexcedível. classificam-me de tardio. se busco isolar-me. se aguardo a cooperação de alguém.

Enquanto a imperfeição dominar as almas. Como agir? O amigo generoso replicava sereno: -Semelhantes conflitos são injunções da luta santificante. que será de mim? A opinião do mundo é obstáculo intransponível.. começou a servir sem perguntar. despreocupe-se de todos os deveres. daí em diante.. a crítica baterá em retirada. Não se prenda às desarmonias alheias.. a única medida aconselhável é a paralisia da consciência. Ligue-se ao bem e acompanhe as sugestões mais nobres. De semana a semana. e acentuou: -Ah! Já sei.. Quem muito fala aprenderá. à maldade? O benfeitor espiritual sorriu magnânimo. Isidoro lamentava-se e o assunto transferia-se à reunião imediata. desde que você se faça completamente inútil. Não têm fruto que tente os que passam.-Irmão Policarpo. fuja à aspiração de elevar-se. Coloque sua mente e seu coração na Vontade do Senhor e caminhe para frente. -Isto mesmo! -tornou Isidoro. de olhos arregalados e. mais tarde. exclamou desesperado: -O que eu desejo irmão Policarpo. benevolente-. durma o resto da existência. Dão-se recursos materiais. é uma orientação decisiva contra os ataques indébitos. agastado talvez com os incessantes apelos à serenidade que o instrutor lhe propunha. Tome meio quilo de anestésicos por dia. a crítica será um estilete afiado convocando-nos à demonstração das mais altas virtudes. a calar-se. Você pede um remédio objetivo.Pois bem . à deturpação. Experimente e verá. tanto quanto a ostra se agarra ao penedo. resigne-se à própria ignorância e cole-se a ela. As árvores ressequidas ou estéreis jamais recebem pedradas. até que.concluiu o amigo espiritual. A incompreensão dá para enlouquecer. se procuro retrair-me. Não agüento mais. descanse o corpo em poltronas e leitos. gritam por aí que tenho um coração empedernido e gangrenado. e. Avancemos corajosos no trabalho cristão. . e. o aprendiz chorão multiplicava perguntas.. Isidoro escutou a estranha fórmula. Que medida adotar para não sermos perturbados? Como anular a reprovação desalentadora? Por que processo nos livrar-nos dela? Como furtar-nos ao remoque. certa noite.. . sou apontado por vaidoso com mania de ostentação. por mais nada fazer. contribuindo nas obras da compaixão fraternal. de alguma sorte. Em tudo a censura castiga. ansioso.

no entanto. transformarse-ia num pombo alvo. tenho meus ovos na praia. O abutre confessou em tom enigmático: -Comovente é a vossa descrição do Plano Divino. a exalar as virtudes do Alto. Os ouvintes assinalaram as promessas com emoção. pousando num cômoro verdejante. que a tartaruga receberia nova forma. Meus filhotes não me entenderiam a ausência. guindando aos cimos de luz. Aproximaram-se dele um melro.. o iluminado peregrino começou ali mesmo.. que o abutre seria metamorfoseado numa ave celestial. batendo as asas. Preciso voar. E afastou-se. E partiu. suave e leve.. escuse-me! Um ninho espera-me no arvoredo... A borboleta achegou-se ao pregador da bem-aventurança e disse delicada: ... entretanto.O Anjo da Libertação desceu do Paraíso a este mundo. à habitação que lhe era própria. Reconhecendo que essa era a assembléia de que podia dispor para a revelação que trazia. quando o orientador hindu que nos acompanhava contou uma simplicidade infantil: . uma tartaruga e uma borboleta. A tartaruga moveu-se lentamente e explicou: -Quisera seguir-vos. E regressou pachorrenta. convidando-os à Vida Superior. possuo interesses valiosos no mundo. o melro alegou: -Anjo bom. abandonando o cárcere sob o qual me arrasto no solo. apressado.. assim que o silêncio voltou a reinar.09 . a reduzida distância do mar. a fim de arrojar-se sobre carniça próxima. um abutre. em que lhe seria possível planar na imensidão azul e que a borboleta converter-se-ia em estrela luminescente. Com frases convincentes. esclareceu que o melro.. contudo.O CAÇADOR PROVIDENCIAL Conversávamos acerca do sofrimento..

não pode viajar convosco. na volta a casa.. O narrador fez pequena pausa e considerou: -O sofrimento é assim como um caçador providencial em nossas experiências. porém. A borboleta. debalde. dificilmente consegue descortinar a Vida Mais Alta. contente.. presenciou a morte de alguns dos familiares que repousavam. perseguida. Sem ele. e. aprende a receber na Terra o socorro do céu. marchou sozinho. e. tentou alcançar a árvore em que residia. Ensaiou. Chorosa. oferecendo-lhe asilo nos próprios braços. que não podia violentá-los. esconder-se entre velhos barcos esquecidos na areia. a Humanidade não se elevaria à renovação e ao progresso. Após longa resistência. sem o concurso da dor.-Santo. Saibamos. lembrou-se do Anjo da Libertação e voou ao encontro dele. Tudo em vão. assim. mas. porque ninguém comentasse o formoso apólogo. garantiu-lhe a salvação. para adiante. O mensageiro divino recebeu-a. apenas avançara alguns metros.. passamos todos a refletir. armando-lhe ciladas cada vez mais inquietantes. Calou-se o mentor sábio. tolerar a aflição e aproveitá-la. viu-se defrontada por hábil caçador que lhe cobiçava as asas brilhantes.. O anjo. sendo facilmente desalojada pelo implacável verdugo. Quem se acomoda com os planos inferiores. E tornou à frescura do bosque. buscou refugiar-se em velha furna. . Moro num tronco florido e meus parentes não me desculpariam a fuga. Quando a pobre vítima se sentia fraquejar. porque o homem tenaz era astucioso e sabia frustrar-lhe todas as tentativas de defesa. Quando a criatura se vê na condição da borboleta aflita e desajustada.

― Certa feita ― narrou. emitiu um raio de luz e insuflou-o sobre o coração dele.PARÁBOLA SIMPLES Diversos aprendizes rodeavam o Senhor. por intermédio de uma boca maldizente. o raio de luz transformara-se numa época de colheitas sadias para a tranqüilidade popular. inflamando-lhe os sentimentos mais elevados numa chama sublime de ideal do Bem. enquanto outros preconizavam a frase branda e compreensiva. porém. um dia em que o povo afortunado. já transbordante.10 . o raio minúsculo era uma fonte de claridade a criar serviço edificante em todos os círculos do sítio abençoado. acentuando-lhes os bens e os males. do campo venturoso para todas as regiões que o cercavam. em discussão acesa. Propunham alguns o verbo contundente para a regeneração do mundo. com respeito ao poder da palavra. o Gênio do Bem. triunfal. os trigais cresceram com promessas mais amplas e a vinha robusta anunciava abundância e alegria. que emitiu um estilete de treva sobre ao coração de uma pobre mulher do povo.. Muita gente ocorreu aquele recanto risonho e calmo. Converteu-se o raio de luz em esperança e felicidade na alma dos lavradores e a seara bem provida avançou. através de uma boca otimista. sob a sua atuação permanente. tentando aprender a ciência da produção fácil e primorosa e conduziu para as zonas mais distantes os processos pacíficos de esforço e colaboração. a fagulha acentuou-se. Em breve tempo. despejou a sua provisão de trevas. que o lume da boa vontade ali instalara no ânimo geral. em Cafarnaum. derramando-se para todas as pessoas que povoavam a paisagem. orgulhando –se agora do poderio obtido com o auxílio oculto da gratidão que devia à magnanimidade celeste e pretendeu humilhar uma nação vizinha. No peito do modesto homem do campo. Isso bastou para que grande brecha se abrisse à influência do Gênio do Mal. Ao fim de alguns poucos anos. com doçura ―. atendente à prece de um lavrador de vida singela. o Mestre interferiu e contou uma parábola simples. A infortunada criatura não mais sentiu a claridade interior da harmonia e deixou que o traço de sombra se multiplicasse indefinidamente em seu íntimo de mãe enceguecida. à maneira de mensagem sublime de paz e fartura. Reparando o tom de azedia nos companheiros irritadiços. Logo após. O Mestre fez ligeiro intervalo e continuou: ―Veio.. em forma de pequenina observação carinhosa e estimulante. na alma de dois filhos que .

. Pensou. mas uma sentença perturbadora pode transportar todo um povo à ruína. O Divino amigo silenciou por minutos longos e acrescentou: ― Nesta parábola humilde.. . dantes prósperos.trabalhavam num extenso vinhedo e ambos. E sendo todo homem filho de Deus e herdeiro dEle. temos o símbolo da palavra preciosa e da palavra infeliz. detestada e cruel para todos. estabeleceram-se estéreis conflitos em todo o reino. trazendo o domínio da miséria que passou a imperar. suscetível de erguer uma nação inteira. enegrecendo o que vai encontrando. mas a direção vem sempre do pensamento. envenenados por pensamentos escuros de revolta. a duelo mortal. através da língua. na criação e na extensão da vida. Em verdade. a ação é dos braços. desvairados. facilmente encontraram companheiros dispostos a absorver-lhes os espinhos invisíveis de indisciplina e maldade. Administradores e servos confiaram-se. em tempo curto. Uma frase de incentivo e bondade é um raio de luz. incendiando vasta propriedade e empobrecendo vários senhores de rebanhos e terras. pensou e concluiu: ― Estejamos certos de que se lhe oferece à paisagem. a treva rola também. A perversa iniciativa encontrou vários imitadores e. ouça quem tiver “ouvidos de ouvir”.

. mãe.Expulsar-te-ei... . procurando redimir-me.Mãe. . és perturbação e obstáculo..Esqueces-te..Ajuda-me! . não..11 . ampara-me! Procuro o serviço de minha restauração. em cujos ramos tecerei o meu ninho de paz e de esperança. mãe! Não me mates! Protege-me! Deixa-me viver. até que. . deixa-me viver!.... alma com alma.Não. Sorverei contigo a taça de suor e lágrimas. . Serei o rebento de teu amor.Não posso. quando a criança tentava vir à luz. Sufocar-te-ei antes do berço. . coração a coração? ..Piedade mãe! Não vês que procedemos de longe. a quem a Lei do Senhor conferira a doce missão da maternidade.Mãe..Que importa o passado? Vejo em ti tão-somente o intruso.. .SEARA DE ÓDIO .Sou mulher e sou livre. . renovava-se o diálogo sem palavras. Dia a dia.. tanto quanto serás para mim a árvore de luz.... Completar-nos-emos.estamos juntos! Dá-me a bênção do corpo! Devo lutar e regenerar-me.Compadece-te de mim!.dizia a jovem mãe. Suplicava-lhe a criancinha no santuário da consciência . para o filho que lhe desabrochava do seio .. Sou mocidade e prazer. Disputo a minha felicidade e a minha leveza feminil. constrangendo-a a beber o fel da frustração: . .Não! Não te quero em meus braços! .Auxiliar-te seria cortar em minha própria carne. renúncia.Torna à sombra de onde vens! Morre! Morre! ... de que Deus nos reúne? Não me cerres a porta!. disse-lhe a mãezinha cega e infortunada. sofrimento.. Dá-me arrimo.. .Não me abandones! .. . dar-te-ei alegria. cuja presença não pedi.Mãe.não me furtarás a beleza! Significas trabalho..

Duramente repelido. que destrambelhou. até que. agarrou-se ao coração dela. Ambos. . para os dois. no anseio desesperado de preservar o corpo tenro. porém.. A sementeira de crueldade atraía a seara de ódio. E a seara de ódio lhes impunha nefasto desequilíbrio... ligados um ao outro. projetaram-se no Espaço. como duas almas apaixonadas pela carne. famintos de consolo e renovação. Desprovidos do invólucro carnal. sombrios e inquietantes.. caiu o pobre filho nas trevas da revolta e. caridoso Espírito de mulher recordou-se deles em preces de carinho e piedade. então. Envolvidos pela caricia maternal. detestando-se e recriminando-se mutuamente.. à maneira de um relógio desconsertado. um dia. aceitando o generoso abrigo. reaparecendo. arrastando-se por muito tempo. Ambos responderam. pelas cadeias magnéticas de pesados compromissos. Anos e anos desdobraram-se. disputando o mesmo vaso físico.Nunca! . repousaram enfim..Não posso. traziam o estigma do clamoroso débito em que se haviam reunido.Socorre-me! . entre os homens. Brando sono pacificou-lhes a mente dolorida. sustentando duas cabeças. gritando acusações recíprocas. como a ofertar-lhes o próprio seio. ao invés de continuarem na graça da vida. quando despertaram de novo na Terra. Todavia.. no triste fenômeno de um corpo único. precipitaram-se no despenhadeiro da morte. Achavam-se.

árvore abençoada e frondosa.O EXAME DA CARIDADE Em populosa cidade do Brasil. ante a emoção recolhida nos discursos sublimes. Pires e Martins completavam-lhe a obra. uma sementeira promissora. resultando em fonte para sedentos. Convertera-se a casa num florilégio precioso. . aquele reduto iluminativo e. inspirados no Espiritismo consolador. seria. que encontrara. incansáveis nas preleções reconfortantes. quase sempre tinham lágrimas copiosas. nas convicções dos três fundadores. porque. Custódia. através de médiuns devotados à Causa. Livros edificantes eram interpretados com inimitável brilho. se revelaram simpáticas. Conferências evangélicas multiplicavam-se em admiráveis torneios oratórios. quando lidos em semelhante parlamento de amor. colaborando brilhantemente para que a melhor compreensão do Evangelho reinasse no grupo. na condição de iluminada instrutora. Expressivo número de companheiros se lhes agregaram ao ideal e entidades amigas. os três amigos. era portador de observações fraternas e convincentes. finalmente. A caridade. soavam estranhamente. Cada irmão na fé. e Ribeiro. Delanne e Crookes. inclinados às perquirições cientificas. que tomou a si o encargo maternal de orientar os três companheiros que haviam entrelaçado esperanças e aspirações.12 . mesa farta aos famintos e refúgio calmo aos sofredores. especiais. A protetora invisível aos trabalhadores encarnados rejubilava-se. que lhe dava direito à mais ampla expectativa. salientava-se a benfeitora Custódia. amparando-se. a instituição era um templo exclusivamente dedicado ao evangelismo salvador. ao se despedirem. em torno da redentora virtude. ao trabalho que se propunham desenvolver. a benfeitora. feliz. Irmã Custódia ensaiava as mais belas tarefas verbais. dentre elas. exclusivamente consagrado a estudos da caridade cristã. sobretudo. Pires e Martins. proferindo comentários luminosos. com enlevo. pediu que fizessem orações comemorativas. exultante. no fundo. Autores quais Richet. Inúmeros estudiosos visitaram. fundaram prestigioso núcleo doutrinário. ali. Explicava-nos. Ribeiro. a breve tempo. junto à comunidade acolhedora. Avizinhando-se o décimo aniversário da instalação.

de mistura com lágrimas insofreáveis. Pires e Martins exultaram de contentamento. tornaria ao agrupamento na semana seguinte. franca e reverente: – Senhores! ajudem-me. Tenho trabalho urgente em arrabalde próximo. em tom súplice. quando foram defrontados por uma senhora de humilde expressão. através de conceitos construtivos e comoventes. Pires e Martins. Ribeiro. em nome da caridade! Estou sozinha e é mais de meia-noite. esclarecendo que. sou desconhecida na cidade. manifestou-se. a trindade orientadora encantou os ouvintes com as suas dissertações renovadoras e inspiradas. E.. de maneira a apreciar os júbilos da efeméride com a desejável amplitude. A mentora espiritual da casa comunicou-se. entretanto. Houve preces tocantes. Ribeiro. mas os pés calçados pobremente. a roupa modesta e limpa e o chalé escuro infundiam-lhe dignidade venerável. convidava o trio a solenizar o acontecimento com palavras de louvor ao Mestre dos mestres. Chegada a noite de paz e luz. constrangido. para melhor se entregarem à conversação íntima e longa. Minha mulher não compreenderia. no templo ornado de flores. Abordou-os. na posição em que me vejo.. não cabendo em si de contentes.As irradiações da caridade do Alto visitariam os três pilares humanos daquela obra divina e. acentuou: – Qual dos três me concederá um abrigo até manhãzinha? Somente até o nascer do Sol. por haver reservado pequena tarefa para si mesma. E a notável sessão foi encerrada com indisfarçáveis sensações de ventura no espírito coletivo. assustadiços. por isso. no dia indicado. Ribeiro. o segundo discorreria sobre “Caridade e Iluminação” e o último sobre “Caridade e Harmonia”. não posso. .. Não haviam caminhado um quilômetro. hesitante: – Infelizmente. Não se lhe viam os traços fisionômicos. durante as horas próximas. Combinaram pronunciar três palestras diferentes. Um deles falaria sobre o tema “Caridade e Humanidade”. Os cavalheiros entreolharam-se. no retorno ao ambiente domestico. evitaram o bonde. com suficiente nitidez..

através do médium. não é mesmo razoável o que solicita a uma hora destas. encorajado. Não conseguiram. a fim de examinar-lhes o progresso em matéria de caridade. entretanto. ergueram-se. ali.. consoante a promessa que formulara. Sem dúvida. Custódia apareceu e. sentir-me-ei muito feliz se conseguirem abrir o coração ao verdadeiro amor fraterno. daqui a cem anos. sobre os quatro. Algo lhes feria a consciência e o coração. porém. nem Martins conseguiram repousar. . Preocupados com o incidente. de nenhum modo. até que. Reparei que para vocês ainda é muito difícil abrir a porta do lar. por último. Sorriu. contudo. e rematou: – O essencial... Enorme silêncio abateu-se. Acontece. junto de mim. é não interromperem. nada posso fazer. a mínima notícia. Mas. Realmente não sou um homem sem lar. aquela senhora era eu mesma. é mulher.. muito bem humorada. ajuntou: – Eu também sinto dificuldade. se com dez anos de estudo. Minha família. porém. Com a graça de Jesus. explicou ao trio assombrado: – Sim. a senhora. Aliás. no entanto. e meus vizinhos não me perdoariam. Martins.. mas Ribeiro lembrou que se cotizassem. Não há motivo para desânimo! Vamos continuar. embora um tanto desapontada. infinitamente surpreendidos. não entenderia a concessão que a senhora está pedindo. na reunião da semana seguinte.. por algumas horas. à porta da pensão modesta que haviam indicado à forasteira... e encontraram-se. o estudo e o trabalho na direção do Alto. Desejavam saber como havia passado a senhora que lhes dirigira a palavra com tão grande confiança e intimidade. com palavras de agradecimento. meus amigos.Pires. em plena rua. Não posso arriscar. apesar de credora de todo o meu respeito. oferecendo-se-lhe um leito. que nem Ribeiro. materializei-me. estou pronto a praticar o bem. num hotel barato. puderam desatar a bolsa e ceder quinze cruzeiros. falou. firme: – Por minha vez... Cada qual ofereceu cinco cruzeiros e a senhora afastou-se. expressivamente. antes do amanhecer. nem Pires. notando-lhe a presença.

em cerimônia de grande gala. minhalma freme de júbilo pela herança que enviaste à minha casa pela morte de meu avô que. de uniforme agaloado. Não permitas.13 . Meus negócios estão prósperos. guerreiros condecorados. à frente de ricos senhores coloniais. que me designaste boa presa. Outro devoto adiantou-se e falou em voz alta: – Senhor. De minha poltrona calma. capitães do mar.LOUVORES RECUSADOS Conta-se no plano espiritual que Vicente de Paulo oficiava num templo aristocrático da França. o meu regozijo pelas gratificações com que fui quinhoado. meus campos da colônia distante. Agradeço os negros sadios e submissos que me mandaste e. que teu servo fiel se perca de miséria. agradeço-te os navios preciosos que colocaste em meu roteiro. mas quem senão tu mesmo colocaria a força em minhas mãos para a defesa indispensável? Doravante. ó Senhor. Um homem antigo. minhas terras foram dilatadas. políticos ociosos e avarentos sórdidos. Eu sabia que a tua bondade não me desprezaria. Seja louvado o teu nome para sempre. cederei à tua igreja boa parte dos meus rendimentos. com o teu auxílio.. exibindo o rosto caprichosamente enrugado. em sinal de minha sincera contrição. farei orações fervorosas. Velho corsário abeirou-se da sagrada mesa eucarística e bradou. Um cavalheiro maduro. graças a ti.. enfim. agradeceu: – Mestre Divino. te serviu gloriosamente no campo de batalha. trago-te a minha gratidão ardente pela vitória na demanda provincial. a certa altura da solenidade. Erguerei uma nova igreja em tua honra e tomo os presentes por testemunhas de meu voto espontâneo. Os meus latifúndios procedem de tua bênção. Graças ao teu poder. Agora podemos. para comemorar o triunfo que me conferiste por justiça. não precisarei cogitar do futuro. olvidando o trabalho e a fadiga. contrito: – Senhor. Dar-te-ei valiosos dízimos. descansar sob a tua proteção. se verificou à frente do altar inesperado louvor público. em outro tempo. estão agora produzindo satisfatoriamente. É verdade que para preservá-los sustentei a luta e alguns miseráveis foram mortos. Mestre da Infinita Bondade. quando. Adornada senhora tomou posição e exclamou: – Divino Salvador. fugindo ao imundo intercâmbio com os . Construirei por isso um santuário em tua memória bendita. acercou-se do altar e clamou estentórico : – A ti.

sendo imediatamente substituído. . Extático. prisioneiro de visões que ninguém entendeu. ali mesmo. por que te afastas de nós? O Celeste Amigo ergueu para o clérigo a face melancólica e explicou: – Vicente. em se. até ao fim de seus dias. O interlocutor sensível nada mais ouviu. sentindo e perguntou-lhe... continuaram agradecendo os troféus de sangue.. diante do mesmo altar e afirmaram que Vicente de Paulo havia enlouquecido. quando Vicente de Paulo. em se sentindo junto dele. febril. diante da assembléia intrigada. sinto-me envergonhado de receber o louvor dos poderosos que desprezam os fracos dos homens válidos que não trabalham. no burgo onde a minha fortuna domina. reparou que a imagem do Nazareno adquiria vida e movimento. dos felizes que abandonam os infortunados. um templo digno de tua invocação. trabalhando incessantemente na caridade. viu-se à frente do próprio Senhor. recordando-te os sacrifícios na cruz! Os agradecimentos continuavam. Para retribuir-te. ouro e mentira. assombrado. Os adoradores do templo. igualmente em lágrimas: – Senhor. que desceu do altar florido.. Cérebro turbilhão desmaiou. e. em pranto. farei edificar. contudo.pecadores. Quando se levantou da incompreendida enfermidade vestiu-se com a túnica da pobreza. O abnegado sacerdote observou que Jesus se afastava a passo rápido. delirou alguns dias. ó Eterno Redentor. entretanto.

as mulheres desse naipe são reservadas e fogem à multidão.. a corrigenda é inadiável imperativo. noutros setores. na raça pública.Mestre. atendendo a desesperadoras necessidades? O discípulo.A LIÇÃO DO DISCERNIMENTO Finda a cena brutal. Quem terá provocado a cena desagradável a que assistimos? Geralmente. de perto. interpelou-o. zelosamente: . há então. acaso.Quem poderá examinar agora o acontecimento.. no propósito de exalçar a justiça. seremos sempre julgados pela medida com que julgarmos os nossos semelhantes. Pedro. em toda a extensão dele? Sabemos.De qualquer modo. Que motivos teriam trazido essa infeliz ao clamor da praça? Jesus sorriu. e tornou: . complacente. que seguia o Senhor. não estaremos oferecendo apoio à devassidão? Abrir os braços no espetáculo deprimente que acabamos de ver não será proteger o pecado? Jesus meditou.. compreendo a caridade que nos deve afastar dos juízos errôneos.Sim . essa desditosa irmã terá sido arrastada à loucura. desculpando os erros das mulheres que fogem ao ministério do lar. trazida ao apedrejamento. sereno: . contudo. quantas lágrimas terá vertido essa desventurada mulher até à queda fatal no grande infortúnio? Quem terá dado a esse pobre coração feminino o primeiro impulso para o despenhadeiro? E quem sabe. em que o povo pretendia lapidar a mulher infeliz. o culpado ou os culpados que precisamos punir. e respondeu: .. contrariado: . acrescentou: .Simão. o Messias observou. Pedro. . irritado -.Quem sabe a pobrezinha andaria à procura de assistência? O pescador de Cafarnaum acentuou. meditou. mas porventura conseguiremos viver sem discernir? Uma pecadora. Se ela nos merece compaixão e bondade.14 .clamou o apóstolo. não perturbará a tranqüilidade das famílias? Não representará um quadro de lama para as crianças e para os jovens? Não será uma excitação à prática do mal? Ante as duras interrogações.

Por trás da antiga porta. mas. enérgico. herdeiro da fé vitoriosa de nossos pais. não tem tido até hoje uma vida regular. Sou contra a desordem e na gritaria que presenciamos estou convencido de que o cárcere e os açoites deveriam funcionar. Moramos nas vizinhanças e vínhamos ao mercado em busca de alimento. Nesse ponto de entendimento. diante do Mestre.E onde está o miserável? . nosso Poderoso Senhor! A mulher apedrejada é filha de minha irmã paralítica e cega.Pedro. quase junto deles. estacou. restabelece a verdade e faze a justiça! .. . a discernir. simplesmente porque minha infeliz sobrinha. depois de repelido por ela. Ali!. à maneira do menino necessitado de proteção. em lágrimas de cólera e amargura.. Jesus. porém.. Ambas estamos feridas e. com dificuldade. Que fazer?!. com júbilo de uma criança reconduzida repentinamente à alegria. Angustiado. filho de Jafar. em luta corpo a corpo. trêmulo de vergonha. e bradou: . digna de melhor sorte. escondia-se um homem. . Abeirávamo-nos daqui. Se é possível. velha mendiga que ouvia a conversação. bondoso. caminhando vagarosamente.gritou Simão. graças sejam dadas a Deus. Aprendamos. E apontou uma casa de peregrinos. Simão adiantou-se para o Cristo. quando fomos assaltadas por um rapaz que. saiu indicá-la ao povo para a lapidação. para onde o apóstolo se dirigiu.. acompanhado de Jesus que o observava.O responsável devia expiar semelhante delito. a breves segundos. sereno. pupilo de sua sogra e comensal de sua própria mesa.Galileu bondoso.. pálido e abatido. O autor da cena triste era Efraim. contudo... exclamou para Simão. não julguemos para não sermos julgados.. Pedro avançou de punhos cerrados..... mas Pedro bem reconhecia agora que o irmão adotivo de sua mulher guardava intenção diferente. surpreendido: . Seguira o Messias com piedosa atitude.informou a velhinha. tornaremos para a casa.Mestre..Ali!. Mestre!. .. acolheu-o amorosamente nos braços e murmurou: . galileu generoso.. que o seguia.

os assalariados do mal comprometem-se ao redor de escuros objetivos. em estômagos malcheirosos e insaciáveis. tranqüila. reservando-lhes à família e a eles próprios horrível destino no açougue. Se alguns deles hesitavam no trabalho comum. deles se valia para ingratos serviços de tração. eram. em torno de crianças e jovens. tostando-as ao fogo para churrascos alegres. enquanto outras lhes mergulhavam os pedaços sangrentos em panelas com água temperada. eram despojados dos próprios chifres e dos próprios ossos. O homem que. Há quem se renda às tentações do dinheiro. pela coroa de inteligência. das honras sociais e dos prazeres subalternos. E. depois de abatidos. sofrendo com a tuberculose ou com a hepatite. em delito recente. Não conseguiam nem mesmo o direito à paz do túmulo. quando Menés. prossiga imantada ao criminoso. mas como interpretar os processos de metodizada perseguição no tempo? Como entender o ódio de certas entidades. Muitas pessoas compravam-lhes as vísceras cadavéricas ainda quentes. devia protegê-los e educá-los. do poder político. Apesar de trabalharem exaustivamente para o homem. através de reencarnações numerosas e incessantes? No mundo. de pronto. os bois sentiram que também eram criaturas feitas por nosso Pai Celestial. Por que motivo se empenham criaturas encarnadas e desencarnadas em terríveis duelos no santuário mental? Que a vítima arrancada ao corpo... mas em derredor de que razões lutam as almas desenfaixadas da carne se para elas semelhantes valores convencionais de posse não mais existem? Longa série de “porquês” empolgava-nos a imaginação. encaminhados à morte e ninguém lhes respeitava o martírio final. furtandolhes o leite dos próprios filhos. Não se contentando com essa forma de exploração. porque eram sepultados. de enfermos e velhinhos? Por que a ofensiva persistente dos gênios perversos. Sentindo essa verdade.15 . alinhando observações e apontamentos. contarei a vocês um apólogo que nos pode conferir alguma idéia acerca do nosso imenso atraso moral. quando a treva da ignorância lhe situa o espírito a distância do perdão. de vez que. à maneira de carinhoso avô. narrou: – Em épocas recuadas. sob golpes sucessivos de aguilhões e azorragues. não obstante inferiores aos homens. escravizava-lhes as companheiras. é compreensível. começaram a observar a crueldade com que eram tratados. otimista ancião do nosso grupo. convertendo-os em saborosos quitutes para bocas famintas.O ENIGMA DA OBSESSÃO Comentávamos em circulo íntimo o inquietante enigma da obsessão na Terra. falou bem humorado: – A propósito do assunto. não conseguiam a mínima recompensa. aqui e ali. numa cidade que os séculos já consumiram. para fortalecimento .

sorrindo –. cujas energias lhes constituem precioso alimento à ilusão. temem a grandeza do Universo e recuam apavorados. Quem devora os animais. embora portadores de belas virtudes potenciais. entretanto. e a nossa assembléia. Assim. as vítimas da voracidade humana recorreram aos juízes. são defrontados por gênios invisíveis que se acreditam incapazes de viver sem o concurso deles. de repente. deve ser apetitosa presa dos seres que se animalizam. E desse modo que as enfermidades do corpo e da alma se espalham nos mais diversos climas. mas os bichos se mostravam tão nédios e tão tentadores que ninguém se arriscava à solução do problema. convertendo-se num exemplo de sublimação para as entidades inferiores que o procuram. sozinhos. Sem qualquer habilitação para a vida normal. conservando em si mesmo qualidades talvez piores que as deles. era apedrejado. Depois de numerosas súplicas sem resposta.. procurando a intimidade com os irmãos ainda envolvidos na carne. contudo. Então. começaram a reclamar. Como enfrentarem. com a serenidade sorridente dos sábios. Os homens... Os semelhantes procuram os semelhantes. Esta é a Lei. irremediavelmente. é problema educativo. é arriscar-se..da indústria. os homens. . Magoados e aflitos. O enigma da obsessão. espancado e conduzido. Afastou-se Menés. que se julgam distantes da harmonia orgânica sem o sacrifício dos animais. a consciência particular inflamar-se-á na luz da consciência cósmica e os tristes espetáculos da obsessão recíproca desaparecerão da Terra. Até lá – concluiu. à desilusão e ao espancamento. no fundo. os magistrados igualmente cultivavam a paixão do bife e do chouriço e não sabiam servir à Justiça. sem as utilidades do leite e do couro dos animais. ante a glória do Espaço Infinito. a destacar-se da subserviência em que se mantinha o rebanho. deixará de ser um flagelo para a Natureza. O venerável amigo fez longa pausa e acrescentou: – Essa é a luta multissecular entre encarnados e desencarnados que se devotam ao vampirismo. a fim de pensar. as duras tarefas do arado? Como sustentarem a casa sem o leite? Como garantirem a tranqüilidade do corpo sem a carne confortadora dos seres bovinos? O petitório era simpático. calou-se. O ímã que atrai o ferro não atrai a luz. incorporando-lhes as propriedades ao patrimônio orgânico... dantes excitada e falastrona... ao matadouro. o impasse permaneceu sem alteração e qualquer touro mais arrojado que se referisse ao assunto. reclamar contra a atuação dos Espíritos delinqüentes. como os bois. receavam viver sem o cativeiro dos bois. fora do vaso físico. Quando o homem cumprir em si mesmo as leis superiores da bondade a que teoricamente se afeiçoa.

Paixão interceptou-lhe a palavra e clamou: – Já sei. pelo desengano e pela discórdia.16 .. fora defrontado. oriente-me. em que pontificavam a boa-vontade e a dedicação de Malásio. E um posto avançado de personalismo em dissidências constantes. segundo o velho hábito. a data de hoje assinala o vigésimo quinto aniversário de meu ingresso na Doutrina. sem trabalho definido. observou: – Benjamim. pela incompreensão. Entre os que ali ensinam e aprendem. Benjamim exclamou em voz súplice : – Malásio. Prestimoso irmão. Em razão disso. Vinte e cinco anos de casamento com o Espiritismo Cristão e ainda se reconhecia impossibilitado de partilhar-lhe os serviços. não se sabe qual o pior. há um templo de caridade. O guia refletiu. dirigiu-se a certa instituição. Jamais pudera firmar-se em agrupamento algum. ao invés de procurar o clube. ensine-me! Onde encontrarei a comunidade que se afine comigo? Onde estão aqueles com os quais devo realizar a tarefa que me cabe? A entidade benevolente meditou alguns minutos e acentuou.. E modificando o tom de voz. alguns passos além de seu lar. e obtemperou: . experimentou indizível amargura. sem qualquer sinal de reprimenda: – Vinte e cinco anos de Espiritismo Evangélico. por instantes. nessa noite. é condição muito grave para a alma. venerando guia espiritual. Depois da prece de abertura dos trabalhos e quando o abnegado amigo invisível passou a comandar a assembléia. em toda a parte. Em seu modo de ver. por intermédio de uma senhora.O COMPANHEIRO DOS ANJOS Quando Benjamim Paixão atingiu as bodas de prata com a filosofia Consoladora dos Espíritos.

que mantém valioso culto doméstico do Evangelho. A Doutrina é ele só. alegou. É mesmo incrível não se saiba. Quem sabe. – Aquela dama é um poço de vaidade – atalhou Benjamim.– Dentre seus amigos você tem o Pereira. Com invejável bondade.. a benefício dum orfanato. Paixão. não longe de sua residência. porém. por momentos. na vida espiritual. intempestivo –. Reside justamente no caminho de sua repartição. irreverente: – Ah! o Pereira! Nunca vi homem mais agarrado ao dinheiro. Melásio não se deu por aborrecido e aventou: – Não sei se já entrou em contacto com os serviços de Dona Soledade.. – Aquilo é a petulância em pessoa. Benjamim fixou um gesto de enfado e desabafou: – Dona Soledade mata a paciência de qualquer um.. O tolerante amigo ponderou então: – Em seu trabalho. e voltou a dizer: – O irmão Carvalho. que vem trabalhando.. vem protegendo os velhos de um asilo e.. O interlocutor aparteou. sarcástico. a estimada médium da pobreza. com valor. junto ao qual muitos doentes encontram alívio. contudo. seu vizinho. O guia. o condutor da reunião interrogou cristãmente: . – O Ladeira? – gritou Paixão. considerou com a mesma calma : – A senhora Silva.. que ele possui mais de uma família. irônico: – O Carvalho é homem de moral duvidosa.. É avarento sórdido.. É mulher despótica e arbitrária. organizou interessantes atividades de cura para obsidiados. O benfeitor silenciou. Não posso entender a sua referência. Absorveu o Espiritismo todo. você conhece o Ladeira.. entrincheirou-se dentro do próprio “eu” e não aceita a cooperação de ninguém..

em seu bairro? – Há muito tempo – redargüiu. meu amigo. – Soares é um espertalhão. morando num palácio. o remédio se destina ao doente e o socorro àqueles que o reclamam pela posição de ignorância ou sofrimento. é mais razoável que você nos procure quando tiver duas asas. com inflexão de energia: – Paixão.– Conhece você as sessões do Soares. contudo. O Espiritismo solicita o esforço e o concurso dos homens de boa-vontade e de entendimento fraternal que se amparem uns aos outros. não se acreditando vencido na argumentação. Não me negue as diretrizes necessárias!. . Segundo os ensinamentos de que dispomos. e. O benfeitor. ao que me parece. contudo. ajude-me! Preciso trabalhar e progredir na obra da verdade e do bem. ofereci a você sete sugestões de trabalho que foram recusadas. Vive de infindáveis trapaças. entretanto.. Quando os guias da casa não aparecem. sem qualquer escrúpulo. Nesse ponto do diálogo. à custa da ingenuidade alheia. dispõe-se a substituí-los.. Benjamim voltou a pedir em voz enternecedora: – Dedicado amigo. azedamente. você é o companheiro dos anjos e os anjos. respondeu. estão muito distanciados de nós. embora se mostrasse sorridente. É provável possamos colaborar no roteiro de ação para o seu Espírito. o descortês visitante. Melásio entrou em profundo silêncio.

o orientador observava. com humildade : – Poderoso senhor. segundo os padrões da reta consciência.17 . Não sabia acumular tesouros exclusivamente para si e. a fim de que as pessoas menos favorecidas pela fortuna não sofressem frio ou fome. na própria melhoria. porém. caindo nas amargas conseqüências do verbo impensado. solicitou ao filósofo que lhe acompanhasse a lide cotidiana. porque a palavra é. em desespero passivo. contudo. De semelhante posição vinha roubá-la o filósofo. o valoroso monarca se sentia atrasado e hesitante. Admirado e querido pelas qualidades sublimes que pudera fixar na personalidade. no entanto. Interessado. que. ainda os mais humildes. convidou um filósofo para socorrê-lo no aperfeiçoamento da palavra. não continha a franqueza rude e nem sopitava o mau humor. A expressão serena e sábia revela grandeza interior que reclama tempo para ser devidamente consolidada. através de reiteradas distribuições de lã e trigo. tenha paciência e continue trabalhando no aprimoramento das próprias manifestações. Não sabia disfarçar a cólera. instituíra escolas e abrigos e incentivara a indústria e a lavoura. O monarca não se conformava e. encontrassem acesso à educação e à prosperidade.O HOMEM QUE NÃO SE IRRITAVA Existiu um rei. confiava-se a rigoroso silêncio. caracterizava-se por largos gestos de bondade e inteligência. Quem alcança a ciência de falar. pode conviver com os anjos. No circulo das manifestações pessoais. Fazia quanto lhe era possível para exercer a justiça. quanto na vida privada. Fizera-se portador de primorosa cultura e. e demonstrava inexcedível carinho na defesa e proteção do povo. desejando que todos os súditos. que prejudicava consideravelmente os negócios do reino. tanto no ministério público. Quando se descontrolava. obedecendo às virtudes sociais de que se fizera o exemplo vivo. advertindo. amigo da sabedoria. em razão disso. sofria. depois de grande trabalho para subjugar a natureza inferior. a mágoa e a desconfiança de muitos que passaram a temer-lhe a frase contundente. sem dúvida. a continuação de nós mesmos. respeitoso: . Conseguira indiscutível progresso na arte de sublimar-se.

– Amado soberano, a extrema quietude pode traduzir traição aos nossos deveres. A pretexto de nos reformarmos espiritualmente, não será lícito desprezar os nossos compromissos com o progresso comum. Fale sempre e não desdenhe agir! O verbo é a projeção do pensamento criador. O rei voltava a conversar, beneficiando o extenso domínio que lhe cabia dirigir, mas lá chegava outro momento em que se perdia na indignação excessiva, humilhando e ferindo ministros e vassalos a que desejaria ajudar sinceramente. Lamentando-se, aflito, vinha o filósofo conselheiral, afirmando, prestimoso: – Grande soberano, tenha paciência consigo mesmo. O reajustamento da alma não é obra para um dia. Prossiga, esforçando-se. Toda realização pede o concurso abençoado das horas... O rio deixaria de existir sem a congregação das gotas... Guarde calma, muita calma e não desanime... O monarca, no entanto, desacoroçoado, depois de regular experimentação com o filósofo, exonerou-o das funções que ocupava e expediu doía emissários às suas províncias extensas para que lhe trouxessem a palácio algum homem incapaz de se irritar. Pretendia entrar em contacto com o espírito mais equilibrado de suas terras, a fim de melhor orientar-se no autoburilamento. Os mensageiros iniciaram as investigações, mas impacientavam-se desiludidos. O homem que observavam ponderado na via pública era colérico no lar. Quem se revelava gentil em casa, costumava irar-se na rua. Alguns se mostravam distintos e agradáveis junto da família consangüínea, todavia, eram azedos no trato social. Diversos exibiam formosa máscara de serenidade com os estranhos, no entanto, dirigiam-se aos domésticos com deplorável aspereza. Depois de trinta dias de porfiada pesquisa, descobriram, jubilosos, o homem que nunca se exasperava. Seguiram-no, cuidadosamente, em toda parte. Nunca falava alto e mantinha silêncio comovedor, no domicílio que lhe era próprio e fora dele. Durante quatro semanas foi examinado sob atenção vigilante, não perdendo um til na conduta irrepreensível. Trabalhava, movimentava-se, imperturbavelmente. alimentava-se e atendia aos menores deveres,

Apressaram-se os mensageiros em levar a boa-nova ao monarca, e o rei, satisfeito, convocou assessores e áulicos de sua casa para receber a personagem admirável, com a dignidade que lhe era devida. O vassalo venturoso foi trazido à real presença, entretanto, quando o soberano lhe dirigiu a palavra, esperando encontrar um anjo num corpo de carne, verificou, sob indefinível assombro, que o homem incapaz de irritar-se era mudo. Sob o respeito manifesto de todos, o rei sorriu, desapontado, e mandou buscar novamente o filósofo, resignando-se a ter paciência consigo mesmo, a fim de aprender a conquistar-se pouco a pouco.

18 - NO CAMINHO DO AMOR

Em Jerusalém, nos arredores do Templo, adornada mulher encontrou um nazareno, de olhos fascinantes e lúcidos, de cabelos delicados e melancólicos sorriso, e fixou-o estranhamente. Arrebatada na onda de simpatia a irradiar-se dele, corrigiu as dobras da túnica muito alva; colocou no olhar indizível expressão de doçura e, deixando perceber, nos meneios do corpo frágil, a visível paixão que a possuíra de súbito, abeirou-se do desconhecido e falou, ciciante: -Jovem, as flores de Séforis encheram-me a ânfora do coração com deliciosos perfumes. Tenho felicidade ao teu dispor, em minha loja de essências finas... Indicou extensa vila, cercada de rosas, à sombra de arvoredo acolhedor, e ajuntou: -Inúmeros peregrinos cansados me buscam a procura do repouso que reconforta. Em minha primavera juvenil, encontram o prazer que representa a coroa da vida. E' que o lírio do vale não tem a carícia dos meus braços e a romã saborosa não possui o mel de meus lábios. Vem e vê! Dar-te-ei leito macio, tapetes dourados e vinho capitoso ... Acariciar-te-ei a fronte abatida e curar-te-ei o cansaço da viagem longa! Descansarás teus pés em água de nardo e ouvirás, feliz, as harpas e os alaúdes de meu jardim. Tenho a meu serviço músicos e dançarinas, exercitados em palácios ilustres!... Ante a incompreensível mudez do viajor, tornou, súplice, depois de leve pausa: -Jovem, porque não respondes? Descobri em teus olhos diferentes chama e assim procedo por amar-te. Tenho sede de afeição que me complete a vida. Atende! Atende!... Ele parecia não perceber a vibração febril com que semelhantes palavras eram pronunciadas e, notando-lhe a expressão fisionômica indefinível, a vendedora de essências acrescentou uma tanto agastada: -Não virás? Constrangido por aquele olhar esfogueado, o forasteiro apenas murmurou: -Agora, não. Depois, no entanto, quem sabe?!... A mulher, ajaezada de enfeites, sentindo-se desprezada, prorrompeu em sarcasmos e partiu. Transcorridos dois anos, quando Jesus levantava paralítico, ao pé do Tanque de Betesda, venerável anciã pediu-lhe socorro para infeliz criatura, atenazada de sofrimento.

Fitou o Mestre e reconheceu-o. agora semelhante ao esterco da terra.. reanima e alivia?!. conturbada de assombro... acentuou. Que viste fazer. nunca se extingue a esperança. Num pardieiro denegrido. junto de mulher tão miserável quanto eu? Ele. sorriu benevolente.O Mestre seguiu-a. porém.. recordando-lhe a palavra do primeiro encontro. O Profeta que cura. Era o mesmo mancebo nazareno.. O Mestre. retrucando apenas: -Agora. venho satisfazer-te os apelos. tocados de intraduzível ternura e convidou: -Vem a mim. E. compassivo: -Descubro em teus olhos diferentes chama e assim procedo por amar-te . Feridas sanguinolentas pontilhavam-lhe a carne. O Cristo estendeu-lhe os braços. Exceção dos olhos profundos e indagadores. Era uma sombra leprosa. de porte sublime e atraente expressão.. O Messias nazareno?. mas não conseguiu mover os próprios dedos.. em voz reticenciosa e dorida -Tu?.. contudo. um corpo chagado exalava gemido angustioso. A infeliz reuniu todas as forças que lhe sobravam e perguntou. de que ninguém ousava aproximar. prosternou-se fraternal. e conchegou-a. vencida de dor. A interpelada quis recuar. de pele enegrecida e rosto disforme. tu que sofres! Na Casa de Meu Pai. transbordando compaixão. sem hesitar. de manso. A disputada marcadora de aromas ali se encontrava carcomida de úlceras. nada mais lhe restava da feminilidade antiga.

Em muitas ocasiões. Muitas vezes notava que largo rumor de vozes vinha de baixo. Mortificava-se. Entre o desapontamento e a admiração.A DIVINA VISÃO Muitos anos orara certa devota. quase sozinha. na intimidade com os pedestres distraídos. começava a encanecer. porém. ao Alto: . Milhares de dias alongaram-lhe a expectação. o rosto. Certa manhã ensolarada. A oração convertera-se-lhe na vida em luz acesa. nas tricas dos homens. quando virás? Findo o colóquio sublime. Não se detinha. dantes basta e negra. entregava-se a edificante leitura de páginas seráficas. viu que Jesus parara mais adiante. Vivia segregada. olhos lavados em lágrimas inquiria. . fitava a amplidão azul. O Inesquecível Amado como que lhe vinha ao encontro. Rugas enormes marcavam-lhe. Mas. meditava sempre. balbuciando comovedora súplica. Exercitava não somente rigorosos jejuns. Crescendo.. viu que um ponto luminoso se formara no Espaço. Aflitivas penitências alquebraram-lhe o corpo e a alma. faminta de integração com o Divino Amor. agora. como se lhe não percebesse a presença. a humildade pura lhe constituía cristalina fonte de piedade. Sabia consagrar-se ao bem das pessoas que lhe eram queridas. Em verdade. Até que se transformou na excelsa figura do Benfeitor Eterno. aguardando a Visita Celestial. Confiava-se a difícil adestramento espiritual e entesourara no íntimo preciosas virtudes cristãs. reparou.. súplice. Da janela ampla de seu alto aposento. sopitando a emoção. entre preces e evocações. Carinhosamente distribuía a água e o pão à mesa. da via pública. A cabeleira. Aprazia-lhe cultivar a fé sem mácula. no entanto.. a adoração impelira-a ao afastamento do mundo. Renunciara às posses humanas. crescendo. convertido em genuflexório. De olhos pousados no firmamento.Mestre.. que o Mestre passou junto dela. implorando uma visão do Senhor. Em seguida. Mentalizava o exemplo dos santos e pedia-lhes força para conduzir a própria alma ao Divino Amigo. voltava aos afazeres domésticos. Mal se alimentava. Que preciosa mercê lhe faria o Salvador? Arrebatá-la-ia ao paraíso? Enriquecê-la-ia com o milagre de santas revelações? Extática.19 .

descia para o trabalho à multidão desconhecida. pobre menino recém-nascido. Mostra-me a tua vontade! obedecerei!. ou para levar uma palavra de ânimo ou consolo.Incontinente. de pronto. contendo a custo o coração no peito. Na aparência. aguardou o momento de servir. E assim procedendo. ela nada mais viu.. imóvel e zelosa. fosse para lavar a ferida de um transeunte.. sobraçando um anjinho enfermo. quando a infortunada mãe apareceu.Senhor. Depois de prece curta.. genuflexa: .. dentro em pouco. Logo após. porém. radiante. Desde então. O Mestre como que se fundira na neblina esvoaçante. na janela do seu alto aposento. é valioso trabalhador do Reino de Deus. Passará. a serva do Cristo socorreu-a.Ajuda-me aqui e agora!. abeirouse dele e rogou. muita vezes. Entretanto.. é um rebento infeliz de apagada mulher. Ajudemo-lo. com alimentação adequada e roupa agasalhante.. De alma renovada. cujo futuro nos cabe prevenir. desceu até à rua e. aos quais devemos amparar com o nosso amor e dedicação. Não tem pai que o ame na Terra e nem lar que o reconforte. digna-te receber-me por escrava fiel!. deslumbrada. tornou a ver. bem como a tantos outros irmãos necessitados. na execução de tarefas aparentemente sem importância.. E. a devota transformada não mais esperou por Jesus.. por mais se esforçasse. o Senhor que lhe sorria reconhecido. para socorrer uma criancinha doente. O Embaixador Divino afagou-lhe os cabelos salpicados de neve e respondeu: . Manda e ...

aguardavam dele o pão de cada dia. Surpreendido. em casa. Pereira indagou. um Espírito delinqüente! Não tenho capacidade para ajudar ninguém. Finda a explanação veemente e florida. que não contava com tempo para isso. sem preâmbulos. levantou-se Dona Malvina e falou largamente sobre a conveniência de fundarem uma escola. violenta reação lhe assaltou a direção pacífica e produtiva. e oito bocas. presidia simpática associação espiritista. Sou uma pecadora. Interpelada. Pereira assentou medidas para a realização de uma assembléia. Concordava com os méritos do movimento e ele mesmo – repetia bondoso e humilde – seria o primeiro a colaborar na renovação imprescindível. Era empregado de uma companhia de seguros. quanto ao empenho de sua responsabilidade feminina no empreendimento.. Em seguida.20 . célere: – Oh! eu? que graça! Tenho idéias. passes. mas Fonseca afirmou. com setores de alfabetização e ensino profissional. O primeiro a falar foi o Senhor Fonseca que.. dentro da Instituição. comentários religiosos e sessões invariáveis. . projetando-a além das quatro paredes – pontificavam outros. Certa feita. à altura moral da casa. através do qual a agremiação pudesse influenciar o ânimo do povo. antigo orientador da sementeira evangélica. enxugando frequentemente o suor da larga testa. exclamou. Constituída a grande reunião. onde os companheiros pudessem opinar livremente. – Era necessário criar vida nova. porém. mas sereno. mas não tenho forças. expôs o plano de um orfanato modelar.IDÉIAS Otávio Pereira. o velho condutor assumiu a presidência dos trabalhos e abriu o debate franco. sem afetação. se o autor da idéia estava disposto a dirigir-lhe a realização. rogando aos amigos expusessem as idéias de que se faziam portadores. pelo orientador. – Aquelas diretrizes “carro de boi” – criticavam alguns – não serviam. – Otávio é orientador antiquado – asseveravam muitos – e vive circunscrito a preces.

até que sejamos o conjunto harmonioso de peças vivas. Quando os trabalhos atingiram a fase final. todavia. Ferreira informou. comentou breve : – Meus irmãos. orar.Logo após. as idéias pululavam. Sou um doente. Estou excessivamente fraco e. entretanto. quando Pereira lhe pediu aceitasse a incumbência da orientação.. Quando pelo mentor da instituição foi consultado sobre as probabilidades de sua atuação pessoal no feito em perspectiva. no Espiritismo das quatro paredes. no grande mundo das consciências. toma a palavra o Senhor Fernandes. com uma pessoa responsável e abnegada à frente da iniciativa. de cérebro a cérebro. sem proveito. Pereira. sem dúvida. como veículos irrepreensíveis do bem. sou portador de um carma pesado. sob o orvalho das lágrimas com que Pereira encerrou a sessão. E. que encareceu a edificação de um departamento para a cura de obsidiados. multiformes. em razão do socorro da Misericórdia Divina. de boca em boca. desapontado: – A idéia é minha. precisa movimentar-se. apagou-se o brilho faiscante das idéias. na máquina da caridade e da educação. entretanto. sinto-me inapto. não tenho merecimento. o pensamento não faz outra coisa senão imaginar. as confissões de ineficiência se sucediam. Não posso. que lembrou a organização de um trabalho metódico de assistência aos enfermos e necessitados.. contudo. Tenho a resgatar muitos crimes de outras encarnações. Alguns se revelavam doentes. entusiásticas e fascinantes.. diante da estranha melancolia que dominou a sala. no entanto. quando as mãos e os pés se mostram inertes? Todos possuímos idéias fulgurantes e providenciais. depois de compridas conversações.. e há muito tempo estou de pé. . lá fora. E. A assembléia parecia trazer fogo no raciocínio e gelo no sentimento.. avançar e progredir. Mal havia terminado. não disponho de outro remédio senão aguardar o futuro. vigiar e esperar. sorrindo. nossa casa. como poderá o corpo adiantar-se.. Sou o primeiro a reconhecer o imperativo de nossa expansão. outros cansados. muitos se declaravam absorvidos de inquietações domésticas e não poucos se diziam dominados por monstruosas imperfeições. mas eu não disse que posso executá-la. onde está a nossa coragem de materializá-las? Quando os membros se demoram paralíticos. além disso. ergueu-se o irmão Ferreira. mas. sublimes e coloridas. Fernandes explicou. sem detença: – Minha idéia resultou de inspiração do Alto.

servir ao Senhor. fielmente. em busca de precioso empréstimo. com rigorosa precisão.O ENCONTRO DIVINO Quando o cavaleiro D'Arsonval. Eminente cristão. cujas mãos. destinado à própria economia. Quem seria semelhante infeliz a vaguear sem rumo? Preocupava-o serviço importante. aos quais se devotara. o infortunado pedinte. No mesmo lugar. em missão de prelados amigos. trazia consigo um propósito central . arremessando-o ao triste caminheiro que parecia devorá-lo com o olhar. Não se passou muito tempo e o castelão. atirou-lhe a bolsa farta. orgulhosamente. em chaga aberta. mais tarde. com os braços em rogativa. e. o patrão feudal se movimenta na direção de porto distante. menos afortunado nos negócios. No mesmo trato de solo. a casa. valoroso senhor em França. O fidalgo. Demandava a Espanha. é interpelado pelo mendigo. para encontrá-lo. Não longe de suas portas. . intrigado. cuja velha petição se ergue no ar. sem se dignar fixá-lo. de inesperado. menos feliz no círculo das finanças. alusivos à organização doméstica. é surpreendido pelo amargurado leproso. ulceroso mendigo a estender-lhe as mãos descarnadas e súplices. O cavaleiro arranca do chapéu estimada jóia de subido valor e projeta-a sobre o conhecido romeiro. necessitou viajar para a Inglaterra. O nobre cavaleiro tornou ao lar e. pela primeira vez. ameaçada de colapso fatal. onde pretendia solucionar vários problemas. e. revolveu grande saco de viagem e dele retirou pequeno brilhante. Decorridos alguns meses. de armadura fulgindo ao Sol.21 . viu surgir. dirigia-se à Itália para solver urgente questão política. deixou. se voltam ansiosas para ele. d& novo. no mesmo sitio. em demasia. se ausentou do medievo domicílio. postava-se.

e seus filhos. em sombrio crepúsculo. sentiu que aquele homem. sem qualquer pausa no galope. em definitivo. o ex-fidalgo. na Palestina. devia ser seu irmão. Procurando velhas afeições. chagado e sozinho. quando encontrou o mendigo. é defrontado pelo mesmo lázaro. . homem convertido em fantasma. No mesmo ângulo da estrada. O Castelão atira-lhe um gorro de alto preço. à conta de louco. agora. a esposa deu-se pressa em substituí-lo. cruzando com ele o olhar angustiado. sem qualquer alteração. um dia. com séqüito festivo. extremamente dedicado à caridade. premido por questões de imediato interesse. O ilustre viajor dá-lhe. soltaram cães agressivos que o dilaceraram. torna ao lar que não o reconhece. na cruzada com que se pretende libertar os Lugares Santos. caindo. Propalada a falsa notícia de sua morte.D'Arsonval. abandona a respeitada residência. cruelmente. Sucedem-se os dias e o nobre senhor. Avançava. Relembrou a passada grandeza e atentou para ai mesmo. então.. em que seguia. Torturado. Interpretado. sofreu repugnância e sarcasmo. presto. junto à expedição de Godofredo de Bonillon. ataques e humilhações. era aguardado pelo mendigo. vai a Paris invocar o socorro de autoridades e. que lhe repete a antiga súplica. que lhe reitera a solicitação em voz mais triste. num ato de fé. por anos a fio. combalido e separado de seus compatriotas. de longe. à frente da casa. penosamente. receando-lhe o contacto. Representará os seus. até que. rico farnel.. E. padeceu miséria e vexame. qual se buscasse alguma coisa para dar. ferido. Seguir para onde? O mundo era pequeno demais para conter-lhe a dor. Contemplou o infeliz pela primeira vez e. a passos vacilantes. sem comiseração para com o pranto que lhe escorria dos olhos semimortos. revoltados. em poder dos adversários. não hesita. de feição dolorida. Despe fino manto e entrega-o. ausentou-se. D'Arsonval combateu valorosamente. sem oferecer-lhe a mínima atenção. Depois de um ano.

Mas. aqui tão perto! Agradeço o ouro. Foi. esperando o teu próprio coração!.. Enquanto me buscava à distância.. tropeçaram no orvalhado caminho com um cadáver. o manto. quando os semeadores regressavam às lides do campo.. teu amigo. mais cedo me encontra. eu te aguardava. como se quisesse dar-lhe o calor do próprio sangue. . as jóias. entre a Terra e o Céu. . O antigo cavaleiro nada mais viu senão vasta senda de luz. tocado de simpatia. recolhido no regaço do companheiro que considerava leproso.Abriu os braços e caminhou para ele. D'Arsonval estava morto.D'Arsonval. no outro dia. o agasalho e o pão que me deste.. dele ouviu as sublimes palavras: . más há muitos anos te estendia os meus braços. que. Quem me procura no serviço ao próximo.. então. sob a claridade da aurora. vem a mim! Eu sou Jesus.

com a disposição de servir. dilacerando os meus nos interesses mais caros? – Perdoarás e trabalharás a fim de que a normalidade se reajuste sem ódios. de novo : . mas também a todos os irmãos em Humanidade que o Pai nos recomenda amar e ajudar. entrou na residência acanhada de Simão e. – E se me cercarem todos os dias? – Continuarás perdoando e trabalhando a benefício delas. admirado –. não somente os que se fazem detentores do nosso bem-querer. ao que Jesus respondeu com a doçura habitual. a calúnia é um braseiro a requeimar-nos o coração. em torno do Reino de Deus no coração dos homens. como me comportarei. Como proceder quando me enlamearem o caminho. Admitamos que tais pessoas me vergastem com frases cruéis e apontamentos injustos.. tecendo considerações preciosas e simples.22 . cabendo-nos a obrigação de auxiliar. assombrado. à frente do Cristo. que o fitava de olhos translúcidos. – Mestre – invocou Ibraim. compreendendo que há milhões de seres na Terra fustigados por aflições maiores que a tua. incessantemente. indagou. pediu instruções da Boa-Nova. em louvor da perversidade? – Perdoarás e trabalharás. possibilitando a renovação do pensamento que a teu respeito fazem. atirando-me flechas incendiadas? – Perdoarás e trabalharás sem descanso. Ibraim. na hipótese de aceitar a nova revelação. curando as próprias chagas. fazendo quanto possível para que se coloquem no nível de tua compreensão. perante as criaturas de má-fé? – Perdoarás e trabalharás sempre. desejando conhecer as normas evangélicas –. desculpando-as e amparando-as. e se a pesada mão dos ignorantes ameaçar-me a casa? se a maldade perseguir-me a família. invariavelmente.. – Mestre – perguntou Ibraim.A CONDUTA CRISTÃ Ibraim ben Azor.. – Senhor – clamou o consulente desapontado –. na certeza de que as leis do Justo Juiz se cumprirão sem prejuízo dum ceitil. o cameleiro. infinitamente.. – E se me ferirem? Se a violência sujeitar-me à poeira e a traição golpear-me pelas costas? Se meu sangue correr.

sem alterar-se. Ibraim. se encarar. conturbado. confiando na Proteção do Pai Celestial que envia socorro e alimento aos próprios vermes anônimos do mundo. avançou para fora e seguiu para diante. e se me prostrarem no leito? Se me crivarem de úlceras. levantou-se. diante da grandeza divina? que título honroso exibirei? Jesus. intrigado –. cultivando a oração e o entendimento no espírito edificado. a quem pertence o Universo. oferecendo a luz pela sombra e o bem pelo mal. o cameleiro. desde o grão de areia às estrelas. Entre estupefato e aflito. – Mestre – prosseguiu o cameleiro. agindo sempre segundo as sugestões do bem. considerou : – Depois de todos os nossos deveres integralmente cumpridos. E quando o pescador de Cafarnaum confirmou a identidade do Mestre. me matarem? se depois de todos os sacrifícios aparecer a morte por estrada inevitável? – Demandarás o túmulo. conservando a paz sublime da consciência. distantes. por fim.– Senhor. ajudando-os e recebendo-lhes os insultos como benefícios. mas nunca algemará a idéia pura. e se me prenderem por homicida e ladrão. e se. Ibraim voltou a indagar depois de alguns instantes: – Senhor. – Mestre. . em benefício de todos. os golpes arremessados contra os meus. quando nos resta apenas o direito de chorar? – Perdoarás e trabalharás com o sorriso da paciência fiel. se receber feridas e sarcasmos sem reclamação e se aceitar a própria morte. sem que eu tenha culpa? – Perdoarás e trabalharás. nobre e livre. e se eu conseguir tolerar os ignorantes e os maus. sem dizer adeus. impossibilitando-me qualquer ação? Como trabalhar de braços imobilizados. perdoando e trabalhando na ação gloriosa. guardando sincera compaixão por meus algozes? Que lugar destacado me caberá. qual se houvesse recebido grave ofensa. carrancudo. à face do Pai. chamou o dono da casa e perguntou a Pedro se aquele homem era realmente o Messias. com serenidade. convencido de que o homem pode encarcerar o corpo. não passamos de meros servidores.

pobre moça mestiça. Precisamos conversar. na direção do quintal. . a orgulhosa matrona. fazia um gesto de complacência. “sinhá”! . nobremente assentada em velha poltrona sobre largo estrado que lhe permitisse mais amplo golpe de vista. a mãezinha infortunada veio atender à ordenação recebida. antes que a pobrezinha lhe dirigisse a palavra. homens rudes do campo. Acompanhada de numerosos amigos que lhe desfrutariam a festiva hospitalidade. chamou para junto de si o Cérbero humano que seguia de perto a jovem escrava. Foi a última que se aproximou para a saudação. após quase um ano de passeio repousante na Corte. e. Contudo. sorridentes e humildes. E afastando-se do recinto. duramente: . às margens do Paraíba. Dona Maria Augusta Correia da Silva. esperava a sua vez. A fazendeira soberana levantou-se.DÍVIDA E RESGATE Na antevéspera do Natal de 1856. No grande pátio que a noite agora amortalhava em sombra espessa.Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. A interpelada obedeceu sem hesitação. sustentando nos braços duas crianças recém-nascidas. sob a feroz atenção de capataz desalmado.Matilde. Dona Maria Augusta e o assessor de azorrague em punho cochichavam entre si. moços e crianças desfilavam nas boas-vindas. Velhinhos de cabeça branca. à distância. austeramente. na tarde chuvosa e escura. . para cada servidor que exclamava de joelhos: .determinou Dona Maria. em ângulo recuado.Louvado seja! – acentuava Dona Maria com terrível severidade a transparecer-lhe da voz. senhora de extensos haveres. faloulhe.23 . lhe pediam a bênção.Acompanhe-nos! . retornava à fazenda. empertigada. recebia os sessenta e dois cativos de sua casa que. mulheres desfiguradas pelo sofrimento. guarde as crias na senzala e encontre-me no terreiro. Na sala grande.

a um sinal da patroa. poderá você trabalhar noutra parte para comprar esses rebentos malditos. “sinhá”! Não me expulse! . mas fuja de minha presença.. darei meu sangue para reaver meus filhinhos. Dona Maria pousou o olhar coruscante na mestiça humilhada e falou: . em meio do pranto copioso.De “Nhô” Zico “sinhá”! . não me separe dos meninos! Não me separe dos meninos! Pelo amor de Deus!. assim não! Tenha piedade de sua cativa! Ai. .“Sinhá”.Não quero você mais aqui e essas crias serão entregues à venda. . rouquenha: . Matilde sorriu. as duas mulheres abordaram a margem do rio transbordante.Não posso! Não posso! A patroa encolerizada relanceou o olhar pela paisagem deserta e bramiu. .Ajude-me. o capataz envilecido estalou o chicote no dorso da jovem. caindo na corrente profunda. “sinhá”.Nunca mais verá você essas crianças que odeio. irônica: ..Livre.Guiadas pelo rude capitão do mato. acentuou...Não me expulse. em soberbo espetáculo de grandeza.. dominando o vale extenso. que oscilou. Mas.. Negue essa infâmia! . ... Dona Maria Augusta indicou-lhe o Paraíba enorme e sentenciou: .Ah! “Sinhá” – soluçou a infeliz -.Diga de quem são essas duas “crias” nascidas em minha ausência! . Derramava-se o Paraíba.. Jesus! Não posso morrer. indefesa. de hoje em diante você é livre! E depois de expressivo gesto para o companheiro.Você está livre. e exclamou: .Miserável! – bradou a proprietária poderosa – meu filho não me daria semelhante desgosto... Atravesse o rio e desapareça! . Nuvens formidandas coavam no céu os medonhos rugidos de trovões remotos..Desavergonhada. Se é assim.

decorridos alguns momento. As águas. Dona Maria Augusta Correia da Silva. reencarnada estava na cidade de Passa-Quatro. ante a violenta separação do companheiro e dos pequeninos. Sofria no lar as privações dos escravos de outro tempo. ante o silêncio da noite. se fez mais intensa. como quem mudara de vestimenta. com a diferença de que. meu Deus! Valei-me Nosso Senhor! Todavia. em rigorosa luta para ajudar o marido na defesa do pão. porém. arrastando o que se lhes opusesse à passagem. gritando em desespero: . avançou para fora. ante o silêncio da noite. Mostrava-se noutro corpo de carne.. Na antevéspera do Natal de 1956..Socorro! Socorro. Nosso Senhor! – gritou a mísera. Diante da ex-fazendeira erguia-se um rio inesperado e imenso e. . apenas um cadáver de mulher descia rio a baixo. seguida do esposo e das crianças. quando a chuva.Socorro! Socorro. tombou na caudal.. esmagada de dor. Todavia. era agora apagada mulher. A pobre senhora..... Cem anos passaram. padecendo aflições e sonhos. debatendo-se nas águas. Era mãe.. ao invés de rica latifundiária. mas era ela mesma. subiam sempre em turbilhão envolvente e destruidor. em dado instante.. ante a expectação do Natal. no sul de Minas Gerais. sobre o telhado. Meditava nos filhinhos. meu Deus! Valei-me.. apenas um cadáver de mulher descia corrente a baixo. Alagara-se tudo em derredor da casa singela. Horrível temporal desabava na região.. vendo a água invadir-lhe o reduto doméstico. A antiga sitiante do Vale do Paraíba resgatou o débito que contraíra perante a Lei. daí a instantes.

. rematava: – E. Junto dele. Mas. respirava-se uma atmosfera pesada. Noé Silva transformava a lealdade em vestimenta agressiva. senão os padecimentos atrozes da incompreensão. impulsivo: – Desgraçado. agarrados ao ouro e aos prazeres.. na vida comum. quando desferem gritos de dor. clamava. triunfante. com segurança. irritadiço: – Que faltas terá cometido esse infeliz? Se o condutor do ônibus parecia vacilar em certos momentos. cumpra o seu dever! Se o rapaz de serviço. ante a realidade. Com a volúpia do pescador que recolhe o peixe. outro destino não poderiam esperar os sacripantas do mundo. Alma franca e rude. bradava.. austero orientador de antiga instituição destinada à caridade –. no café. além da morte.24 . demasiadamente convencido quanto aos próprios méritos. colérico: – Que estará fazendo esse hipócrita retardatário? Se um médium não conseguia recursos para interpretar. exigente: – Moço. Se um companheiro demorava-se para a reunião. indagava. cometia qualquer leve deslize. como se estivesse repleta de espinhos invisíveis. protestava. e não existe para mim lição maior que a dos campeões da mentira e da treva. . exclamava. depois de longa expectativa. O senhor permanece aqui para servir. gritante: – Afinal de contas. atirava os pensamentos que lhe vinham à cabeça qual se houvera recebido do Céu a triste missão de salientar os defeitos do próximo. acima de tudo.O AVISO OPORTUNO – Não há maior alegria que a de doutrinar os Espíritos perturbados – dizia Noé Silva. as tarefas que lhe cabiam nos trabalhos de assistência. Sorrindo. Era assim o rígido mentor das sessões. Analfabeto da gentileza. A palavra dele era uma chuva de seixos.. Tenho bastante paciência para aturá-los e conduzi-los ara a luz. veja lá onde tem a cabeça!. devem agradecer a Deus a possibilidade de encontrarem a minha palavra sincera e clara.

quem planta. Se você estima o Espiritismo prático. Se algum transeunte lhe impedia o passo rápido. permaneceu sozinho. em sinal de regozijo. E num gesto de carinhosa fraternidade. é o de não encher. meu irmão. quando. O tempo rolava.. A nossa fé representa a Doutrina do Amor e a cordialidade é o princípio dela.. esperá-la-ei nas minhas preces. colhe. diminua a reprovação e reduza a extensão do espinheiral. com a cabeça mergulhada nas mãos. E enquanto os companheiros permutavam expressões de Júbilo. pensando. pensando.. Um carinho aqui. todas as pessoas compreendem a verdade. O nosso problema.. mas está superlotando o seu espaço mental com adversários que esperam gostosamente o tempo de doutriná-lo. ansiosamente: – E para mim. Se um irmão de ideal lhe exprobrava o procedimento. das lições de renúncia e dos ensinamentos vivos com adequadas demonstrações. Você não estaria sofrendo se não houvesse praticado o mal. buscando entendimento e consolo. respondia.. severo: – Meu irmão. perguntou. tenho um recado para o seu coração. repetia. um dos orientadores desencarnados se manifesta. não hesitava. um abraço ali.. não há qualquer mensagem? O visitante sorriu e falou. A sessão foi encerrada. desde hoje. Cultive a plantação da simpatia. Na via pública. rematou em seguida a pequena pausa: – Noé. não olvide o Espiritismo praticado. célere: – Se essa gente não puder entender-me as boas intenções. Não se esqueça do verbo silencioso do bom exemplo. o amigo espiritual confortava os presentes. desapontado. Noé. dava serviço aos cotovelos e em seus trabalhos profissional era sobejamente conhecido pelas frases fortes com que despejava a sua vocação de fazer inimigos. mas.Se alguém lhe trazia alguma confidência dolorosa. o arrojado doutrinador. em se despedindo sem dizer palavra ao mentor da casa. Você está sempre disposto a doutrinar os ignorantes e os infelizes do Espaço.. felicitando a todos. Depois da morte. no vigésimo aniversário do agrupamento que dirigia. esvazie o cálice de fel. . desde agora. meu caro. Não espere a morte para extinguir os desafetos. bem humorado: – Tenho sim. sentado á mesa. infatigável..

nos múltiplos exemplares que aí se alinhavam. . Quando a expectação geral se mostrava adiantada. miosótis e crisântemos exaltavam a Sabedoria do Criador em festa espetacular de cores e perfumes.25 . servidores espirituais iam a vinham. na posição de heroínas desconhecidas. alegre comissão juvenil trouxe a exame delicado ramalhete de açucenas. Os julgadores não se fizeram esperados. estruturadas nos sonhos e nas esperanças dos noivos que sabem guardar a Bênção Divina. Rosas de todos os feitios e cravos soberbos. iniciaram o trabalho que lhes competia. Aproximou-se o primeiro grupo. três emissários da Majestade Sublime atravessaram as portas de dourada filigrana e. Envergando túnicas resplendentes. Procediam de lugares diversos e traziam flores para importante aferição de mérito. trazendo uma braçada de rosas. A exposição singular destinava-se à verificação da existência de luz divina. colunas multicores exibiam guirlandas de soberana beleza. lançadas à toalha surpreendente. como preito de amor e reconhecimento dos trabalhadores do bem. Logo após. à espera dos juizes angélicos. que preservam os tesouros de Deus. formados pelas vibrações de fervor das almas piedosas que se devotam nos templos ao culto da fé. e os anjos abençoaram o devotamento das mães. Safirinas emanações cruzaram o espaço e os celestes embaixadores louvaram os santos misteres de todos os religiosos do mundo. brilhante conjunto de Espíritos jubilosos deitou ao pano singular uma coroa de lírios.AS ROSAS DO INFINITO Em deslumbrante paisagem da Esfera superior. Na praça enorme. lírios e açucenas. o único apetrecho que certamente utilizaria na tarefa de análise das preciosidades expostas. depois das saudações afetuosas. salientando-se que os espécimes com maior teor de claridade celeste seriam conduzidos ao Trono do Eterno. expediram suaves irradiações em azul indefinível. gerânios e glicínias. Cada ramo era seguido de pequena comissão representativa do serviço espiritual em que fora elucidando. tecidas com as emoções do carinho materno que. diversos mensageiros se congregavam em curioso certame. Em seguida. Aquele que detinha mais elevada posição hierárquica trazia nas mãos uma toalha de linho translúcido. pavimentada de substância semelhante ao jade.

o grande juiz do certame esclareceu. Depois. quais se fossem constituídas de eterizados rubis. colhidos na renunciação dos sábios e dos heróis. no entanto. a irradiar-se do recinto à imensidão dos Céus. e os pontos alvos expressam o pranto mudo e aflitivo dos heróis anônimos que sabem servir sem reclamar. Os acúleos que se destacam nas hastes agressivas simbolizam as dificuldades superadas. que lutais no caminho empedrado de cada dia. a dedicação dos filhos. o carinho dos verdadeiros amigos. inflamaram-se de luz solar. mostrando pontos esbranquiçados a guisa de manchas. da suprema consagração à virtude. onde os companheiros de boa-vontade sabem viver para a vitória do bem. Quatro almas. E. porque somente as almas libertas de todo o egoísmo conseguem servir a Deus. revelando características de extrema simplicidade. Os três anjos puseram-se de joelhos. E porque alguns dos presentes chorassem. da fraternidade real. entre cânticos de transbordante alegria. nascidos da ternura infantil. as rosas estranhas subiram rutilantes do Paraíso. Depostas. enxugai as lágrimas e esperai! As flores mais sublimes para o Céu nascem na Terra. . Em derradeiro lugar. semelhante a fios de aurora. depostos sobre a toalha miraculosa.e raios verdes de brilho intraduzível se projetaram em todas as direções. de cor arroxeada. e que. sob os olhos dos anjos. as pétalas roxas simbolizam o arrependimento e a consolação dos que já se transferiram da desolação para a esperança. bela grinalda de cravos rubros. a serviço da Humanidade. Eram rosas mirradas. E. com o suor do trabalho incessante e com as lágrimas silenciosas do próprio sacrifício. Ó vós.. emocionado: -Estas flores são as rosas de amor que raros trabalhadores do bem cultivam nas sombras do inferno. emitiram alvíssima luz. sobre a mágica toalha. São glórias do sentimento puro. surgiram com um ramo feio e triste. a desabrocharem ao longo de hastes espinhosas e repelentes. O devotamento dos pais. compareceu a mais humilde comissão da festa. Lindas crianças foram portadoras de formosa auréola de jasmins. enquanto os emissários do Todo-Misericordioso entoaram encômicos aos afetos santificantes das almas. cada comissão submeteu ao trabalho seletivo as jóias que trazia. na escória das trevas. incidindo sobre a neve. os laços esponsalícios. a devoção de vários matizes ali se achavam magnificamente representados pelas flores cuja essência lhes correspondia. Inesperada comoção encheu de lágrimas os olhos espantados da enorme assembléia. assim. pequeno agrupamento de criaturas iluminadas colocou.. que exteriorizaram vermelhas emanações. com interrogações imanifestas.

de perto. Fustigado pelas vibrações de ódio e crueldade. começou a lembrar os afeiçoados e seguidores da véspera. em cuja presença tanto se comprazia? Sentiu profunda saudade de Filipe e Bartolomeu. mas os meninos simples e humildes que o amavam perdiam-se.. teve fome da ternura e da confiança das criancinhas galiléias que lhe ouviam a palavra. de encontro ao peito... a angustiada Mãe. Por que motivo Simão Pedro fora tão frágil? que fizera ele. Onde estariam seus laços amorosos da Galiléia?. deslumbradas e felizes. achava-se ali mesmo.. A saudade amargurava-lhe o coração. à distância.. em terrível desapontamento. Contemplou.. Rememorou suas conversações com Mateus e refletiu quão doce lhe seria poder abraçar o inteligente funcionário de Cafarnaum. sob um montão de espinhos. em cujo carinho conseguisse encontrar um apoio e uma esperança. assim. e desejou escutá-los. agora.26 . em silêncio. Recordou Zebedeu e suspirou por acolher-se-lhe à casa singela. no seio da agitada multidão que lhe cercava o madeiro.. para merecer a negação do companheiro a quem mais se confiara? Que razões teriam levado Judas a esquecê-lo? Como entregara. sedento e em chagas. João. De reminiscência a reminiscência. Recordou o primeiro contacto com os pescadores do lago e chorou. qual se devera morrer.. em busca de algum olhar amigo em que pudesse reconfortar o espírito atribulado. na hora extrema. O Mestre desejava alguém que o ajudasse. .. ao pé da cruz. mas precisava socorro para sustentar Maria. ao preço de míseras moedas. a turba enfurecida.. Jesus..A ÚLTIMA TENTAÇÃO Dizem que Jesus. o amigo abnegado. começou a procurar os discípulos.. o coração que o amava tanto? Onde se refugiara Tiago.

reconheceu. mas o pranto manou-lhe mais intensamente da olhar translúcido. Encontrou. mas não por máfé. O Gênio da Sombra. Ansioso. de alto a baixo. Dize que os teus amigos são covardes e duros. no pináculo do templo e no cimo do monte. a fim de que a justiça te reconheça a grandeza angélica e descerás. de rosto enigmático. o Espírito das Trevas aguardava-lhe a pronúncia. O Mestre vencera a última tentação e seguiria. alguém que ele. eles não passara de míseros desertores.. Tu sabes que. triunfante. Judas entregara-o. abeirou-se dele e murmurou: – Amaldiçoar. dentre a multidão desvairada e cega. .. a necessária justificação para todos e parecia esforçar-se por dizer o que lhe subia do coração. mas o Cordeiro de Deus. Jesus escutou. Era a mesmo Espírito perverso que o tentara no deserto.. fixando os olhos no céu inflamado de luz. agora. Nesse instante. o Senhor notou que o firmamento rasgara-se. os teus amigos ingratos e dar-te-ei o reino do mundo! Proclama a fraqueza dos teus irmãos de ideal.. rogou em tom inesquecível: – Perdoa. – Sim – pensava –.-lhes. Iludira-se com a política farisaica e julgara poder substituí-lo com vantagem nos negócios do povo. diante de Deus. da cruz!. no imo dalma. Pai! Eles não sabem o que fazem!. Uma paz indefinível e soberana estampara-se-lhe no semblante. a desafiar a implacável visita dos anos. Pedro negara-o. ao invés de deter-se na contemplação de Jerusalém dominada de impiedade e loucura. impassíveis e traidores e unir-te-ei aos poderosos da Terra para que domines todas as consciências. tecendo de estrelas e flores o caminho que o conduziria ao Trono Celeste. com os dias. radiante e vitorioso. A fragilidade do apóstolo podia ser comparada à ternura de uma oliveira nascente que. de pronto.. O Príncipe das Sombras retirou-se apressado. com expressiva mudez. mas não por maldade.Foi quando viu levantar-se. e viu que os anjos iam e vinham. porém.. se transforma no tronco robusto e nobre. para a claridade sublime da ressurreição eterna.

Fragoso traduzia o próprio pesar com a boca. junto aos poderes celestes. agindo à pressa. rogou à entidade angélica tornasse em consideração a legitimidade das suas demonstrações de virtude. amontoara vultosos bens. doei quanto pude.27 . em quatro dias. Protegi os pobres e os doentes. onde a esperança dos que se entregaram às promessas do Cristo? E passou a choramingar em desespero. de tudo. inclusive as que ele pretendia criar.DAR E DEIXAR Quando Cirilo Fragoso bateu às portas da Esfera Superior e foi atendido por um anjo que velava. porque o tempo lhe minguava cada dia. prevendo a morte que se avizinhava. Atingira retumbante êxito nos negócios a que se afeiçoara e desprendera-se do corpo terrestre no cadastro dos proprietários de grande expressão. nas derradeiras horas do corpo. Por isso. e retornou à presença do amigo espiritual. inflexível. mais aconselhável praticar a beneficência. dotara-as todas com expressivos recursos. lhe observava os gestos. que só mediante provas tangíveis advogar-lhe-ia a causa. E assim. porém. Cirilo deu-se pressa em voltar à Terra e. diante de quem leu em voz firme e confiante: . reafirmando que a caridade por ele efetuada deveria ser passaporte justo ao acesso ao paraíso. irritadiço –. Trouxesse Fragoso a documentação positiva daquilo que verbalmente apontava e defender-lhe-ia a entrada no Paço da Eterna Luz. amparei as viúvas e os órfãos. no entanto. nunca pudera dispensar um minuto às mulheres infelizes que lhe recorriam à casa. Quanto fiz lhes pertence. como que instalada agora em seus ouvidos. porém. na laboriosa tarefa de preservação da própria fortuna. O benfeitor espiritual declarou respeitar-lhe o argumento. com surpresa verificou que seu nome não constava entre os esperados do dia. – Fiz muita caridade – alegou. entretanto. presentes e futuras. Não conseguira visitar pessoalmente os necessitados. a consciência. Inegavelmente. não se esquecera das instituições piedosas das quais possuía vago conhecimento. Oh! Deus. organizara generoso testamento. com referência aos legados que fizera às associações pias. antes da atribulada viagem para o túmulo? Notando que o coração e a consciência duelavam dentro dele. informando. pois. Não se desfizera. compadecidamente. jamais obtivera folgas para ouvir um indigente. enquanto o funcionário celestial. extraiu as notas mais importantes. aflito. para exercer o auxilio ao próximo? Não teria sido. instava com ele a recordar. encomendando-se-lhes às preces. solícito.

triste: – Fragoso. onde situamos o tesouro de nossa vida aí guardaremos a própria alma. Em razão disso. em favor dos leprosos. Para a instalação de um hospital de câncer. você não deu. reparou que o anjo não se mostrava satisfeito. Quem deixa. Volte ao mundo e ampare aqueles a quem você confiou os bens que lhe foram emprestados pela Providência Divina e. Agora. De conformidade com os ensinamentos do Mestre Divino. porque não podia trazer. realmente. Quem dá. é preciso pensar. bem-aventurado é aquele que dá com alegria. aclarou. Para meus empregados. deixei quatrocentos mil cruzeiros. Para a assistência à infância desvalida. deixei. Em mãos do meu testamenteiro. deixei oitocentos mil cruzeiros. no valor de um milhão e duzentos mil cruzeiros. ainda não é aqui. porém. Suas anotações não deixam margem a qualquer dúvida. Para os doentes de várias agremiações. assim. por enquanto. meu amigo. Mas. deixei quatro casas e seis lotes de terras. cabe-lhe exercitar a ciência de dar com alma e coração. a importância total de três milhões e oitocentos mil cruzeiros. Você ainda não se exonerou das responsabilidades para com o dinheiro. Foi assim que Cirilo Fragoso. a fim de aprender a beneficência com alicerces na renúncia. embora acabrunhado. desse modo. seu lugar. perguntou. E porque Cirilo entrasse em aflitiva expectação. para a realização de boas obras. deixei trezentos mil cruzeiros. Segundo o Evangelho. Para a fundação do Instituto São Damião. serve e passa. os preceitos de Jesus? O interpelado. ajudando-os a usá-los na caridade verdadeira. com experiência própria.– Para os velhinhos de diversos refúgios. o anjo rematou: – Infelizmente. deixei quinhentos mil cruzeiros. A morte obrigou-o a deixar. regressou à esfera dos homens. Terminada a leitura. deixei seiscentos mil cruzeiros. você conhecerá. ansioso: – Não terei cumprido. Você simplesmente deixou. o desprendimento da posse. . Seu testamento não exprime libertação. larga provisoriamente. em espírito. Deixou.

estamos recebendo de Jesus o bendito ensejo de auxiliar. Depois de renovadora prece. recebe nele a tua valiosa oportunidade de perdoar. em qualquer parte. Torres anotou o corpo estranho e. como instrumento de aflição em tua casa. – O caluniador é um teste de paciência. tranqüilo. acreditava que a luta na Terra era abençoada escola de formação do caráter e. Espiritualista consciencioso. pousara pequena mosca. enfileirava. – Suporta a dificuldade com valor. a velha criada veio trazer o chocolate. é nosso irmão. alinhava preciosos conceitos sobre a arte de ajudar. encontrando a morte. – A calma tonifica o espírito. sem que ela percebesse. Nesse momento. – Se alguém aparece. começou a escrever. bradou para a servidora: – Como se atreve a semelhante desconsideração? Acredita que eu deva engolir um mosquito deste tamanho? .O CONFERENCISTA ATRIBULADO Naquela manhã ensolarada de domingo. Gustavo Torres. atendendo às exigências do próprio ideal.. sentidamente: – O próximo. sobre o qual. – Desesperação é chuva de veneno invisível. por isso. credor de nosso melhor carinho. porque a provação é recurso demonstrativo de nossa fé. é fermento da discórdia. frases primorosas para o comentário evangélico que pretendia movimentar na noite seguinte. – Não olvides que a irritação.28 . – Quando somos vitimados pela ofensa.. – A desculpa constante é garantia de paz. em seu gabinete de estudo. repentinamente indignado. – Se um irmão transviado te prejudica o interesse. não fujas ao exercício da tolerância. de qualquer procedência.

Da mesa. como se fora atingido por um raio.. O dono da casa desceu para a via pública.Impressionada com o golpe que o patrão vibrara na bandeja. na frase preciosa que escrevera. envergonhado. possesso. O conferencista da arte de ajudar ainda não dera o incidente por terminado. num lance infeliz. ameaçando: – Vagabundos! Larápios! Rua. Pagarei as despesas da reconstrução.. passou a refletir. fique sabendo que não preciso de empregados inúteis. sentou-se. discando para o delegado de plantão. a vida está em paz. reconheceu quão fácil é ensinar com as palavras e quão difícil é instruir com os exemplos e. a pobre mulher implorou: – Desculpe-me. .. em que releu o formoso dístico aí grafado por ele mesmo: – “Quando Jesus domina o coração. meninos curiosos invadiam-lhe o jardim bem tratado.. Abeirou-se do motorista mal trajado. senhor! A enfermidade ensombra-me os olhos.. policiais atenciosos cercavam-lhe o domicílio e Torres regressou ao gabinete. Exasperado.. Dai a instantes. mas o meu caso será entregue à polícia. rua!.. qual se estivesse acordando de um pesadelo. Fora daqui!. Fora daqui!. esmagando a plantação de cravos que lhe exigira imenso trabalho na véspera. colérico: – Criminoso! Que fizeste? – Senhor – rogou o mísero –... arrojara a máquina sobre um dos muros da sua residência.e gritou. Tenho a cabeça tonta com a moléstia de meu filhinho.. E quando Torres.. destacava-se minúsculo cartaz... perdoe-me o desastre.. há muitos dias.. que agonia.” Atribulado. quando o recinto foi invadido pelo estrondo de um desmoronamento. – Desgraçado! O problema é seu. avançou para as crianças. usa o telefone. – Se é assim – falou áspero –.. Deteve-se novamente. O condutor de um caminhão.

.Ah! Não posso crer no que vejo! . pousou sobre um ninho de larvas e falou para as pequeninas lagartas. não mais vos arrastareis.. ouviam-se exclamações admirativas: .NO REINO DAS BORBOLETAS À beira de um charco. varre a paisagem. desapareceu.. Viajareis deslumbradas. castigado pela serpente que o destrói.... irritada: ..... graciosa. amanhã. sob novo prisma!. Mentiras...Nada possui de comum conosco. de quando em quando. Nunca teremos asas. . Adquirireis preciosa visão da vida! Subireis muito alto e vosso alimento será o néctar das flores. voltando. lançando carinhoso olhar à família alvoroçada.Que misteriosa e bela criatura!. e vereis a serpente que fascina o sapo.29 .. Observareis o sapo que nos persegue.Será uma fada milagrosa? .Não vos confieis à incredulidade! Não sou uma fada celeste! Minhas asas são parte integrante da nova forma que a Natureza nos reserva. e.. a delícia da altura e a largueza do firmamento!.. que andava ausente. nada mais .. Fujamos aos sonhos e aos desvarios.. distendeu o corpo colorido e. Enquanto a mensageira se entregava à ligeira pausa de repouso.... Somos lagartas. Uma vossa irmã de raça!. refletindo o esplender solar. elevar-vos-eis. acordareis com asas de puro arminho. Então. fustigada pelas armas do homem!. atônitas: ..Não temais! Sou eu. Ontem vivia convosco. formosa borboleta. divagações..Calem-se e escutem! Tudo isso é insensatez. desferindo vôos sublimes à plena luz! Libertadas do chavascal. Ninguém deve filosofar. ouvindo as entusiásticas referências das companheiras mais jovens. Nisso chega ao ninho a lagarta mais velha do grupo. Logo após. contemplando o mundo. fulgurando ao crepúsculo. Esperai! Depois do sono que vos aguarda. presas ao solo úmido e triste. Nem sempre permanecereis coladas à erva do pântano! Tende calma. felizes! Libertadas do chavascal. ordenou. elevar-vos-eis. fortaleza.... Venho para comunicar-vos esperança.. felizes! Conhecereis a beleza das copas floridas e o saboroso licor das pétalas perfumadas. Esforçai-vos por sucumbir aos golpes da ventania que. Irradiando o suave aroma do jardim em que se demorava. a linda visitante sorriu e continuou: . vivereis comigo! Equilibrar-vos-eis no imenso espaço. paciência!.

.. amanhã. preocupadas. As irmãs. Caiu a noite e. Estava ela completamente imóvel. observavam curiosas o fenômeno e puseram-se na expectativa.. será o sono.. Desçam do delírio da imaginação para as realidades do ventre! Abandonaremos este lugar. porque. a lagarta-chefe adormeceu.. . Nossa fortuna está no pé de couve que passaremos a habitar. Sejamos práticas. Será nossa propriedade. Nada mais.. em meio à sombra.que lagartas. Anotando a lição breve e simples. voejante e leve.. Devorarlhe-emos todas as folhas. Encontrei a horta que procurávamos. no imediatismo da própria vida. sem despertar no outro dia... creio que há muitos pontos de contacto entre o reino dos homens e o reino das borboletas. Calaram-se as larvas. desencantadas. depois. a morte e o nada. Esqueçam-se de pretensos seres alados que não existem. repararam que a orgulhosa e descrente orientadora se metamorfoseara numa veludosa falena. com infinito assombro. Findo algum tempo. Precisamos simplesmente comer..

Sim. vinham discutir os problemas da fé. prosseguiu: . desde os primórdios. Estudara muitíssimo.. quando no santuário doméstico. . recebia visitas corteses e indagadoras. no entanto. . Em virtude da inteligência inata com que sabia tratar os problemas do revelacionismo. Cumpro as minhas obrigações e não suporto a presença de quantos dilapidam o altar. sobraçando rolos volumosos e guardando ares de mistério na palavra sigilosa e malevolente. a minha solidariedade sem condições. Dói-me contemplar a Casa Divina ocupada por ladrões e cambistas sem consciência. explicando os motivos de sua vinda. na pátria dos faraós. com respeito à Terra da Promissão. não só com o verbo inflamado. em derredor do grande lago. tão-somente os que vinham consultá-lo acerca de princípios libertários.Venho trazer-te. preciosas tradições ocultas que relatavam os sofrimentos da raça na Assíria e no Egito. chamado à restauração nacionalista. douto e perspicaz. Comentavam-se-lhe as preleções qual se fora ele um príncipe desconhecido.confirmou Jesus. sem comentários. sob pretexto de protegê-lo. cuidadoso. aduziu o escriba entusiasta: . Sou cultivador da Lei. era apontado como revolucionário em vias de levantar a bandeira de antigas reivindicações e. Tenho o Levítico de cor. Encontrava-se em ligação com vários remanescentes de sacerdotes hebreus de outros séculos. Datan. inflados de superioridade. declarava-se disposto a colaborar no restabelecimento da verdade. Discutia. rigorista e intransigente. mas também com a bolsa no banimento sumário de todos os exploradores do Templo.30 . em localidades diversas. Possuía velhos escritos. extremamente loquaz. Fez solene preliminar. Conhecia o drama de Israel. pois. Se aparecia em público. e recolhera conhecimentos novos.O ESCRIBA ENGANADO Achava-se o Mestre em casa de Pedro. não será indiscutível a necessidade de reforma da fé? . Foi assim que o escriba Datan se acercou familiarmente dele. Não surgiam. mas também os que. Pretendia contribuir. referentes às perseguições mais remotas.Mestre.. contudo. sobre o passado de Moisés e Aarão. para evitar o contacto de pessoas e alimentos imundos. Arquivara. Depois de pormenorizada exposição que o Senhor ouviu em silêncio. propalava-se-lhe a Boa Nova.

de maneira a explorar-lhes a boa-fé. do átrio da casa de Deus para dentro é uma ovelha.Fixou expressão colérica no olhar de raposa ferida. enverga túnica respeitável durante o dia e é salteador. mas do átrio para fora é um lobo. mas é proprietário de muitos palácios. lendo textos sagrados.. em Cesaréia. Nenrod. Nasson. precisamos conter. o visitante desdobrou um dos rolos. o fiscal de carnes impuras. é um explorador de mulheres desventuradas. evadido da Síria. Manassés. já possui três casas grandes. a humildade fingida lhe encobre os tenebrosos planos de dominação. tem a casa repleta de utilidades do santuário. vende pombos a preços asfixiantes. cheias de escravos. que cede modicamente. sei quantas pessoas foram por ele assaltadas no último ano sabático.Vejamos pequena galeria de criminosos que. à maneira de denunciador comum. O rabino Jafé. porém. ébrio de maledicência. baixou o tom de voz. O rabino Jocanan vive cercado de discípulos. Reparando. o zelador do Santo dos Santos.Tenho comigo a relação de todos os lagartos e corvos que insultam o santuário de Deus. Conheço os que roubam do povo miserável a benefício dos próprios romanos que. Há feras em forma humana que ali devoram as riquezas do Senhor. touros e cabras destinados aos sacrifícios. tem sete assassínios nas costas. é político sagaz. o levita. que Jesus se mantinha mudo. e concluiu: . vale-se da elevada posição que desfruta para vender. insaciável. formula preces comoventes no lugar divino. o explicador dos Salmos de David. fixou-o com desapontamento. e anunciou sussurrante: . Efraim. o interlocutor interrompeu-se. mas é malfeitor contumaz. por intermédio de terceiros que lhe enriquecem as arcas. Gad. nos dominam. conseguidos à custa de viúvas misérrimas. enchendo-se-lhe os cofres de ouro e prata. fixou alguns apontamentos e acrescentou: . administrando lições. o sacerdote. com vastos rebanhos de carneiros. durante a noite. de imediato. São criaturas melosas e escarninhas. desde muito. a preços infames. Agiel. O Cristo ouvia sem qualquer palavra que lhe demonstrasse o desagrado e. Ser-te-ei devotado colaborador para confundi-los e exterminá-los. Meus pergaminhos são brasas vivas da verdade.. um dos guardas do sagrado candeeiro. criando constrangimento às mulheres imundas que buscam a purificação. untuosas e traidoras. é um homem asqueroso pela sovinice a que se confia. O Templo está cheio de rapinagem. que se insinua presentemente na casa do Sumo Sacerdote.

Auxiliar-te-ei a massacrar os impostores. a fim de que nos façamos melhores uns para com os outros. sereno e persuasivo.. aceita-me no ministério.Datan.. em nome de nosso Pai. renovaremos a crença de nosso povo.. Estamos buscando simplesmente homens e mulheres que desejam amar o próximo e ajudá-lo. naturalmente. . sorrindo agora.Senhor. A Boa Nova é de salvação. Não procuro delatores. nem carrascos. mas o escriba eloqüente.. qual acontece a muitos outros. O Mestre. compassivo e triste. Mas Jesus. Informaram-me de que te dispões a fundar um novo reino e uma nova ordem. apressado. equivocas-te. enrolou os pergaminhos. sempre valiosos nos tribunais.. ia continuar. franziu os lábios amarelos de cólera inútil e atravessou a soleira da porta sem olhar para trás. Estou pronto. retrucou muito calmo: . tão profundo no conhecimento das vidas alheias.

a fim de estudá-la com as minudências possíveis. E. em vez de alcançarem Paris. com importantes agrupamentos humanos. condicionando-se. à limitada provisão de recursos que trazia. Acontece. Os excursionistas. os competentes pesquisadores mobilizaram o tentame. depois de analisarem a refinada capital da França. A primeira veio até nós. enviando ao nosso mundo diversas expedições. contemplando-a na feição de minúscula estrela avermelhada. no entanto. . através de sucessivos estágios na Terra. a Terra era um simples formigueiro de criaturas primitivistas. com a intenção de trazê-los aos amigos terrestres. ilustrando a judiciosa observação. voltou asseverando que t nosso domicílio não passava de um cemitério gelado. nova comissão nos foi remetida para a complementação de informes.A Humanidade evolvida de um astro que se localiza a milhões de quilômetros da Terra. voltaram ao ponto de origem.JUDICIOSA PONDERAÇÃO Dispúnhamos-nos a escrever uma série de apontamentos acerca de nossas ligeiras excursões ao redor de outros mundos. por isso. A idéia causou grande alvoroço e. de tempos a tempos. sensato: . quaisquer impressões de nossa parte serão fragmentárias e imperfeitas. porém. e. anotando-lhe os patrimônios artísticos e culturais. por mais de setenta horas. que ainda estamos construindo. novo grupo de investigadores veio ao plano terrestre. desnorteando a curiosidade sadia das almas bem intencionadas. contou. Ante as controvérsias. quando abnegado orientador falou. Guardando avançados conhecimentos. como é lógico. para eles. no domínio da força gravítica. não podemos prescindir da consciência cósmica. tão logo se fel possível. anunciando que o nosso mundo era centro de notável civilização. examinando justamente larga: extensão da Sibéria e. que os viajantes alcançaram os céus de Paris e. desmentindo as conclusões existentes. sorridente: . porquanto. singularmente distanciadas da educação. Para relacionar as múltiplas manifestações da vida noutros planetas. depois de complicadas peripécias no Espaço. elementos esses que lhe asseguraram a permanência de três dias sobre a face do nosso globo.Vocês não se desenvolveram suficientemente para tratar o assunto com a precisa autoridade. desceram sobre vasta e inculta região africana e regressaram alarmados.31 . reuniu alguns dos seus sábios mais eminentes. nesse sentido.

solitário e inabitável. alusivos à casa alheia. dessa vez os estudiosos planaram sobre a região triste e seca do Saara. Contudo. nos será concedido ao conhecimento. comunicando a quem de direito que o nosso mundo era puramente líquido. sob pavorosas tempestades de areia. porque o Senhor sabe quando convirá modificar os programas de serviço. as asas com que remontaremos às esferas superiores. Quando pudermos estar nos cimos da evolução. esbarraram com as águas do Pacífico. através do justo discernimento. a nosso próprio respeito. "Ir lá" é muito diferente de "lá estar". a autoridade superior resolveu sustar as expedições. . estudemos e sirvamos. sem antecipar-nos às decisões divinas. pelo trabalho perseverante na cultura e no bem. Cada viajante pode falar simplesmente daquilo que vê. e o que podemos observar é ainda muito pouco daquilo que. de cuja luz conquistaremos felizes.Como vemos. mergulhou em nós o olhar muito lúcido e rematou: . de vez que os relatórios não concordavam entre si e que não valia ausentar-se da intimidade doméstica para voltar com problemas insolúveis e inquietantes.Nova expedição foi levada a efeito. Mais não disse o mentor. saberemos examinar e compreender. o galardão da Vida Maior. retomando a penates. Até lá. Diante das informações contraditórias e estranhas. Assim sendo. não será bom precipitar noticiários e conclusões. mais tarde. Outros pioneiros entraram em lide e. O orientador fez uma pausa. auscultando-nos a residência. nossos irmãos. sendo levados a crer que a Terra se reduzia a imenso deserto. contudo expressara-se c bastante para que nos acomodássemos à obrigação de prosseguir trabalhando na edificação do Reino do Espírito. construamos com os homens.

Horrível sensação de pavor assaltou-me o espírito e comecei a gritar. além do sepulcro. porque minha vida está realmente transtornada. seguro de si.. . . minha irmã. outras ocorrências me espantam. sonhei que meu pai. repetem-se ao meu lado. qual se uma luva de sombra me buscasse a garganta? Muitas vezes. ouvi-lhe a voz. Entretanto. dirigi-lhe algumas indagações em pensamento e..aduzia a visitante -. . mediunidade.Mediunidade....Mediunidade. junto de mim.. vejo coisas e..32 .. embora cerre as pálpebras. . explicando-me que a morte não existe.continuou a exaltada senhora -. magro e vivo.. rente a mim. prestes a morrer. todos os dias. vejo mãos. afoita: .esclareceu o mentor.Ah! sim ..A CONSULTA Ante o amigo que se responsabilizava pelas tarefas do templo espírita-cristão. diariamente. sustentando' comigo longa palestra. Em muitas ocasiões.Minha irmã. Que supõe vem a ser isso? . a se movimentarem. E a dama contou novos sonhos. Acordei.. como se fossem de névoa translúcida. noto que objetos se movem. Tenho a idéia de que forças inexplicáveis me escaldam a cabeça. cada noite. até que terminou por suplicar. antes do sono. depois de longo tempo: .. Pancadas nos móveis.. a dama bemposta rogava. à sesta. . .São fenômenos de sua mediunidade .respondeu o ponderado interlocutor. relacionando novos fatos. . sim . Ainda ontem. sem dissipar o temor de que me vejo possuída. . Nesses instantes. como se pessoas invisíveis desejassem conversar conosco.Venho pedir-lhes socorro. Acabrunhada. e ainda pude ver-lhe o rosto. ou quando em conversação com amigas. . Como definir essas impressões? .. com assombro. sem contacto físico. muitas pessoas de minhas relações afirmam que. fico parada. Como classificar esses casos? .. diviso vultos estranhos que me cercam o leito. minha senhora. de súbito. Debalde. tudo isso é mediunidade . ouço vozes e lamentações que me torturam o pensamento. calmo e prudente. que a vida continua e que.. prossegue interessado em meu bem-estar. agravando-me os sustos. veio a nossa casa.E essa angústia que sinto. E essa asfixia vem de longe. de fato. ao mesmo tempo em que me enregelam o corpo. Desde criança. Como interpretar esses fatos? . não pude furtar-me aos calafrios. Muitas vezes. sou médium. tenho experimentado tratamentos diversos.comentou o orientador. desde muito no Além.Sim.. inconscientemente.

falou a enferma. e acentuou. disciplina das emoções. por amor de Deus!. perdeu a eloqüência em que se distinguia. renovação. Para isso. . Estude.... E saiu sem despedir-se.A solução do problema está com você..Sim . O dirigente da instituição deixou-a extravasar as promessas brilhantes que enf1leirava uma sobre a outra.Darei o que for preciso para desvencilhar-me dos obstáculos que me levam a semelhantes perturbações. mas virei amanhã. quando a irrequieta senhora ouviu falar em estudo.Sim. Todavia.. . no qual conhecerá.. aflita: . Nossos estudos vão começar. Estude e trabalhe. a consulente não mais voltou. hoje não posso. e trabalhe na sementeira do bem.Julguei obter auxilio mais facilmente. Estou disposta a qualquer sacrifício. Renovação mental. o Espiritismo ser-lhe-á valioso campo de luta. à luz da prece. solícitos. . tartamudeou.. cultura e caridade. em seguida: . trabalho. minha irmã.. minha irmã. Contudo. Desapontada.. . esforço persistente no bem e meditação sadia não devem ser desprezados na aquisição de nossa paz. com mais segurança. desencantada -.Amparem-me. disciplina. a senhora será ajudada a fim de ajudar-se E porque o relógio modificasse a fisionomia das horas o diretor convidou: . que não pode ser comprada a terceiros e sim construída por nós mesmos na intimidade do coração. Os dias correram apressados. atraindo a cooperação e a simpatia dos outros. enriquecendo-as pela cultura edificante e pela caridade bem conduzida. para dilatar os domínios do seu pensamento.. compreendendo a vida com mais largueza. aprimorando a personalidade que lhe é própria. esforço. as suas energias psíquicas. por mais que os amigos do Grupo a esperassem. meditação.Iniciemos agora.

pobreza!. distribuiu as águas. Atendendo a indicação..Pai. afagando-lhe a fronte. Depois de muitas lágrimas.. porém. prometendo-lhe proteção e carinho.33 . E o Todo-Bondoso. retomou ao Paraíso e pediu em pranto: . socorre a minha extrema. com o esforço próprio. Improvisando utensílios rústicos... ante a contemplação de pântanos e desertos. minha cabeça jaz em trevas.. os primeiros livros de pedra.... Auxilia-me! Dá-me claridade ao entendimento!.. voltou. drenou os charcos. adquirindo preciosas lições da Natureza e criando. Ampara-me! Ajuda-me a fugir do cárcere de mim mesmo!. corajosamente. receoso.Pai misericordioso. Aspirava à comunhão com os outros seres. O homem tornou à gleba escura e triste e agiu. Senhor. em tarefas e estudos. na casa simples. reafirmando-lhe o seu amor infinito.Senhor. abençoou -lhe a presença e receitou-lhe o trabalho dos sentidos. experimentou o anseio de exteriorizar-se e voar. Implorando: . recomendou-lhe o trabalho das mãos. anelava penetrar os segredos do firmamento. Entristecido. aconselhou-lhe o trabalho do pensamento. regressou ao Céu. ao Trono do Senhor e rogou em voz súplice: . . Ilhado. Instalado..A ESTRADA DE LUZ Quando o primeiro homem desceu aos vales e aos montes da Terra. Amedrontado com as inibições espirituais que o sufocavam. compadece-te de mim! A indigência persegue-me.. todavia. estou sozinho. O Todo-Poderoso.. A solidão amargava-lhe o espírito. selecionou as plantas frutíferas e conseguiu edificar o primeiro ninho doméstico. o homem passou a observar com redobrada paciência os fenômenos que o cercavam. reconheceu que a ignorância lhe ensombrava a Imaginação. E o Todo-Sábio. sentiu que a miséria lhe entravava todos os passos.

Que será de mim? Assiste-nos com a tua compaixão!. as moléstias devastam-me a casa. passou a ser visitado pelo cortejo de variadas enfermidades. foi assaltado por diversas tentações. auscultando a beleza das pedras e dos metais e ouvindo as vozes das fontes e dos ventos. . gênios perversos me atormentam a vida!. descobriu a arte. mobilizou os recursos dos olhos e dos ouvidos e. ao Senhor. . garantindo. Depois de muitos anos. surpreso.. mirando as flores. mas reparou com surpresa que o Paraíso elevara-se além das estrelas. reiterou-lhe a promessa de auxílio e recomendou-lhe o trabalho do raciocínio. com o aprimoramento da paisagem e com a prosperidade dos seus bens. que lhe falou carinhosamente: . a sua harmonia mental. procurou o Trono Divino e solicitou. suplicando.. contemplando as estrelas luzentes. O Todo-Generoso acariciou-lhe a cabeça trêmula e indicou-lhe mais trabalho para a atenção. lacrimoso: . A inveja. o orgulho e a vaidade sopravam-lhe aos ouvidos os mais estranhos projetos. orou em lágrimas ardentes. o infeliz demandou à Casa do Senhor.. aflito. recorreu. Mais tarde. Torturado. na direção das Esferas Superiores. O Todo-Amoroso sorriu.Senhor.. em cuja companhia pôde afastar-se do mundo.. compassivo. O Todo-Compassivo não veio pessoalmente ouvir-lhe a súplica. Triste e cansado.O homem. Dias rolaram sobre dias. com isso..Pai Amado. a propósito de inutilidades e ilusões. o homem conseguiu a formação de numerosos remédios para combater as doenças que o vergastavam. aureolado de bondade e de luz. amargurado: ... A discórdia armava entre eles perigosos abismos. mas enviou-lhe um mensageiro. Examinando detidamente as plantas e os minerais.. através da atividade incessante. instituindo novas colônias de serviço para a multiplicação das tarefas gerais... Espantado com a ruína física dos filhos e dos netos. Fortalece-me contra a loucura!. em espírito. notou que os seus inúmeros descendentes surgiam irritados e desarmônicos. Rodeado de enorme descendência.. Aflito. já encanecido. O homem tornou à Terra imensa e procurou fugir de si mesmo.

e trabalha constantemente.. . Segue e atende ao progresso. marcando atua romagem com os sinais imperecíveis das boas obras!. amando. entre as margens do amor e da reta consciência. O trabalho. a fim de que a Terra se transforme no divino espelho da Glória de Deus.Volta ao mundo. o emissário respondeu. Avança. Se teus filhos e netos se desentendem uns com os outros. é a estrada de luz que te reconduzirá ao Paraíso. porque o homem indagasse sobre a ocasião sublime em que lhe caberia repousar na companhia do Eterno Pai. servindo e ensinando sempre.. delicado e solícito: . em nome do Senhor.Vai e constrói. E.. dá trabalho ao teu coração.. perdoando..

fazendo anotações num pergaminho celestial. abnegado e atento. Voltariam ao mundo. Era um antigo servidor do deserto que não se filiara a igreja alguma. convocados pelos poderes angélicos. Trazia os pés descalços. Muito acima das interpretações humanas. enfim. Isolado no festim. um deles destoava do brilhante conjunto. Não possuía qualquer sinal que o recomendasse ao respeito e à consideração. constituíam provisoriamente no Céu toda uma assembléia de beleza e sabedoria. Bem-aventurados pela glória e pela bondade. báculos. tão calejadas se achavam no rude trabalho de assistência aos viajantes perdidos. Na veste rota. Veneráveis sacerdotes das igrejas católicas e protestantes confundiam-se com patriarcas judeus e budistas. auréolas. faiscando ao sol em que se banhavam. enquanto que os santos do Oriente exibiam túnicas liriais. colares. Exornava-se cada um com a mensagem simbólica dos templos que haviam representado. medalhas e outras insígnias preciosas destacavam-se do linho e da púrpura. mostrava as manchas sanguinolentas das crianças feridas que havia conchegado de encontro ao peito. mas encovados e tristes. cruzes. As mãos magras e hirsutas pareciam forradas em couro de camelo. no prosseguimento da obra de amor em que se entrosavam. Admiráveis seguidores de Confúcio e insignes devotos de Maomé entendiam-se uns com os outros. sublimação de suas almas. lembrando as instituições religiosas a que haviam pertencido. em chaga e pó. Anéis. da seda e do ouro. conseguiram atingir o limiar do Santuário Resplendente do Cristo. no entanto. a suprema união na esfera dos princípios.A ESCOLHA DO SENHOR Conta-se que alguns apóstolos do bem tanto se ergueram na virtude que.34 . Entretanto. Ibraim Al-Mandeb fora apenas devotado irmão dos infelizes que vagueavam nas planícies arenosas da Arábia. o ancião notou que dois anjos examinavam a assembléia. alcançavam. pela extrema. e o rosto enrugado e rijo era a pesada moldura de dois olhos belos e lúcidos. tendentes à discórdia. . Os cabelos grisalhos e imundos falavam de longas peregrinações sob a tempestade. Missionários ocidentais ostentavam dalmáticas imponentes. poderiam excursionar felizes pelas vizinhanças do Lar Divino. guardando pavorosas visões das dores alheias que ele havia socorrido.

trazendo larga faixa com um nome grafado em caracteres de luz.clamou o anônimo beduíno. Pretendia o Senhor conversar com ele.inquiriu o forasteiro com humildade. Era o nome do velho Ibraim Al-Mandeb.. . . Amigo . . . Contudo. como alguém que amou imensamente os semelhantes. mergulhando a cabeça nas mãos ossudas.Não se preocupem então comigo! .Depois de analisarem todos os circunstantes. quando não posso ter lugar entre os eleitos da fé. enquanto os companheiros presentes comentavam o estranho procedimento daquele que fizera bem sem se lembrar sequer da existência de Deus.Nunca pude consagrarme ao culto do Senhor e sinceramente ignoro por que razão fui guindado até aqui. soluçou reconhecido.Que o Senhor me perdoe à ingratidão e a dureza .Que fizeste entre os homens? .Para que a pergunta? . porque o deserto estava cheio de aflição e lágrimas!.interrogou um dos emissários -. mas colocaremos teu nome no pergaminho. Vendo que o estranho peregrino prorrompera em pranto.suspirou o velhinho -. por ordem. . abeiraram-se dele. em cânticos de júbilo. .. o anjo que se mantivera silencioso opinou. depois de longos minutos de expectação. compreensivo: . O ancião. um por um.Em verdade. Nunca pude refletir na sublimidade do Paraíso. estranhandolhe a desagradável presença.O Senhor deseja entender-se com um dos visitantes do Lar Divino e estamos relacionando. a que igreja pertenceste na Terra? . mas o sofrimento de meus irmãos não me deu oportunidade de pensar nele. . vasto grupo de mensageiros divinos penetrou o átrio engalanado de flores. os nomes daqueles que mais profundamente o amaram no mundo. não podemos situar-te na relação dos que amaram o Benfeitor Eterno.

designaram-no para observar os fenômenos da consciência reta. depois de Jesus . em que se processavam os serviços do julgamento de um homem desvalido e sozinho. uma história em torno dos comentários que enfileirávamos sobre a justiça do mundo: . lavravam-se documentos oficiais. o mensageiro devidamente credenciado vinha ao mundo. . em nome do Mestre Inesquecível. num tribunal movimentado. nos lares e nas escolas. de imediato. Em nome do Cristo. Como estariam as nações terrestres. Grandes gênios da Espiritualidade Superior. Para examinar essa realidade. por haver sido apanhado em delito de furto. nos santuários e nos parlamentos. ao objetivo que o trazia. Como estaria sendo aplicada a substância do Evangelho na vida prática? Decerto. acompanhamo-lo a uma grande capital da Civilização moderna. no círculo das criaturas. Espíritos amigos sustentavam-lhe a coragem moral e a luz da prece coroava-lhe a fronte.Um grande juiz. . a fim de verificar o progresso do Direito entre os homens. o Celeste Orientador justiçado na cruz? Achar-se-ia a comunidade social integrada no ensinamento do "amai-vos uns aos outros"? Grande civilização havia sido fundada. Terra. desejando aferir os valores da evolução terrestre. domiciliado num planeta onde o amor já solidificou suas bases nos corações. expediam-se decretos e instituíam-se programas educativos.. O mísero comparecia. ingressando. bem humorado. . revestido de poder para exprimir-se quanto ao assunto. Atendendo. desse modo. à frente do júri. foi indicado para vir à.35 .QUESTÃO DE JUSTIÇA E o velho amigo contou-nos. Sabia-se que a imagem do Senhor constava de múltiplos símbolos patrióticos. o discernimento irrepreensível permanecia vigilante em todas as casas da direção espiritual. Nós e ó emissário do Plano Superior ficamos a par da verdadeira situação do réu..Cristo.

em estímulo à restauração moral do culpado.. rogando o perdão da Providência Divina para o crime que cometera.. com enorme desapontamento para nós. caíra lamentavelmente. Esperava recuperar-se e trabalhar. nos moldes indispensáveis da compaixão. o mensageiro do Alto tentou confortá-lo indiretamente e anunciou que visitaria o dirigente do país. -0uvindo os soluços convulsivos do infortunado. No entanto. no mundo. cedendo à tentação de apropriar-se de alguns gêneros alimentícios para a subsistência da família. por semanas e semanas. Ninguém desejava contratar a cooperação de um homem considerado velho e inútil. sem detença. atingindo o formoso palácio da governança. O examinador da justiça. . aguardou o veredicto. comovido tanto quanto nós. . inflexíveis. sucediam-se à porta. Aquele pai sofredor poderia materializar ainda.. de altas personalidades.. o magnífico solar vivia um dia de festa. e. Desertara da virtude. .. confiaria no porvir. Provavelmente. na expectativa de uma corrigenda benéfica. ante a mulher enferma e as crianças famintas. Assaltara um empório comercial. sim. O Senhor ajudálo-ia a levantar-se. não encontrava recurso senão o de mergulhar na escura corrente das idéias deploráveis que o seduziam ao furto. A oração do réu doía-nos a alma. vira-se condenado ao desemprego e ao abandono. o infeliz foi sentenciado a vinte anos de prisão. santificantes bênçãos e a justiça 'não deveria incentivá-lo ao desespero e à revolta. . Roubara. à caça de trabalho digno.. entretanto. que reconhecia frustradas todas as esperanças.... havendo falido no singelo empreendimento agrícola a que se afeiçoara por muitos anos.O desventurado pedia a Deus abençoasse a esposa doente e os quatro filhinhos menores que curtiam dolorosas privações na furna de miséria que lhes servia de lar. tivera forças para sobrenadar. Reconhecia-se. Contudo. porém. vazada'. O tribunal parecia sombreado por estranhas perturbações. em negro momento da sorte. Enquanto a saúde lhe garantira a casa. Seguimo-lo. inspiraria medidas adequadas à administração da metrópole que visitávamos e a justiça surgiria no caso. na suposição de conseguir um reajuste. Talvez por coincidência. mas todas as portas cerravam-se. Ultrapassara os quarenta anos. Muita gente ocupava-lhe as dependências. Carros suntuosos. arrependido. Errara..

em atitude de profunda tristeza. mas todas as atenções estavam centralizadas na ruidosa alegria do ambiente. com alguns dos responsáveis. despedir-se com um gesto amável de adeus. a.Mas nunca mais receberam notícias do emissário desencantado? Como teria ele respondido aos instrutores quanto à missão que lhe fora confiada? O velho companheiro sorriu. despediu-se de nós. mas o ancião entrou em silêncio e. Os comentários de nossa pequena assembléia continuaram acesos. remontando ao mundo feliz de onde viera.. que se enriquecera à custa da pilhagem. cruel. o governador foi identificado por nós. que espalhara o infortúnio em diversas direções e que manejara. a fim de responder. calado e sorridente. O narrador fez longa pausa. O magistrado espiritual procurou comunicar-se. e esclareceu: . à maneira de um semideus... Era o homenageado um insensível oficial de guerra que planejara a morte de milhares de homens. demoradamente. chamava um homem de nariz adunco e de olhos felinos e o condecorava sob aplausos gerais. quebrando o silêncio. engalanado de flores..Num salão.Tivemos notícias. Vimos.. por isso. rogava o prazo de quinhentos anos para continuar observando os homens. choravam. então. alguém perguntou: . embora instado por nossas interrogações.. sim. em espírito. Alguém nos esclareceu em poucos segundos. centenas de entidades reclamavam. que depredara por conta própria. no instante preciso em que. com significativa medalha de honra.. o mensageiro do Alto. Era precisamente esse homem o herói da festa. gritavam e gemiam.. Afinal. regada por numerosas taças de saborosa champanha. variados instrumentos de destruição. . Ao redor dele. crivandoo de maldições.. notificou que havia algo errado na máquina da justiça humana e que. As interpelações dos Mentores da Vida Mais Alta. solene. glorificado pela autoridade máxima da nação.

é indispensável saibamos que muitas dessas entidades. Há muitos anos venho recebendo de todos eles os mais amplos testemunhos de amor.velho africano que se dá a conhecer por "pai Amâncio". dos africanos -desencarnados que.. diligente.Realmente .Eu . embora a noite gélida.E o nosso adorável Benedito? . até que as oito pancadas do relógio fizeram que Félix convocasse o pessoal ao silêncio e à oração.. aparentemente apagadas e simples. Parece ter trazido da escravidão todo um tesouro de sabedoria e carinho. . são grandes almas de escol no progresso da inteligência.ainda não recorri a ele sem resultado.Lembram-se daquela entidade que se fazia conhecer por "mãe Felícia"? . Em todas as circunstâncias é o mesmo admirável amigo.tarefas de auxilio.afirmava Dona Celeste -.. É um modelo de paciência. enquanto aguardavam o horário fixado para o início da sessão mediúnica.perguntou Dona Ernestina ao grupo atento. ao tempo do cativeiro. . Abnegado. . . prosseguem nas mais nobres ..36 . aqueles dezenove companheiros da prece conversavam animadamente. . tenho como generoso protetor um .aclarava Dona Adélia -. ... . que se vestiram de escravos. jamais pagarei o que devo a esses heróis anônimos da humildade. minha recuperação foi completa.DEUS SEJA LOUVADO No recinto ataviado. Quantos sábios de outrora surgem por trás desses nomes humildes. companheiro atencioso do círculo' -. ternura e bondade.ponderava Ernesto. . não obstante libertos do vaso físico. sobretudo. sincero. lavando as nossas mazelas e curando as nossas chagas? . Como lhes negar a nossa admiração e respeito Incondicionais? A conversa prosseguia. caloroso defensor da caridade na pequena assembléia . devemos aprender com eles a ciência do amor desinteressado e puro. todas as opiniões mantinham estreita afinidade nos pontos de vista. o fervoroso padeiro que dirigiria o culto da noite .e.Sim.Isso mesmo .. conquistando a grandeza do coração.Desde que ela me administrou passes aos pulmões enfermos. . Nunca os vi desesperar à frente de nossos petitórios incessantes.ajuntou Fernandes. sim.considerou Félix. E. no mesmo tom. Comentava-se o devotamento de muitos.

Dona Adélia pediu ajuda para a solução de velha pendência que lhe levara o nome a um tribunal. Suplico-lhes um pedaço de lar para eles... Para nós.. pela médium: .. Se vocês iniciarem semelhante trabalho. encerrando a reunião. há longos anos estamos juntos.Os dezenove amigos consagraram-se a alguns minutos de leitura e comentário de precioso livro evangelizante e. esse largo convívio tem sido uma bênção. ao se apresentar. foi logo interpelado de maneiras diversas pelos circunstantes. Dona Celeste rogou-lhe amparo em favor de um mano desempregado.. na solução de problema assim tão grave. a enfermidade e a viciação! Não seria melhor fossem eles cativos nas senzalas do trabalho que prisioneiros nos charcos do crime? É por isso que vimos rogar a vocês caridade para eles.. mas. nossos netos. a médium mais experiente da equipe.. Hoje. Em todos vocês. assim como folhas de arvoredo no vendaval!. falou... . Peço-lhes.. decerto que. Se cada um de nossos amigos abrigar um só de nossos pequeninos. Dona Amália. afinal.. os irmãos desencarnados. para que venhamos a iniciar uma cruzada de amor. Não lhes rogo a fundação de abrigos para meninos de pele escura. um pouco de carinho que nasça. . . do coração.. entre a ignorância e a miséria.. de joelhos. na intimidade do templo doméstico. sentimo-nos ainda felizes escravos de vocês todos. puro.. ofertando-lhes o nível de experiência em que sustentam a própria família. Ah! meus filhos. o bom exemplo estará vicejando e produzindo frutos de educação e luz na prática fraterna... em seguida...Meus amigos. portador de úlcera gástrica. Ernesto solicitou concurso para deteml1nado tio. que.. Isso seria alimentar a discórdia de raça e dilatar a separação. invocamos nossa amizade para suplicar-lhes sublime favor. Com muita alegria.. em pouco tempo. . em verdade. E não houve quem não formulasse requisições e perguntas. Quantos deles vagueiam sem rumo! Quantos suspiram pela graça do alfabeto! Quantos se perdem nos morros de sofrimento ou nos vales de treva. temos também nossos descendentes na Terra! Nossos rebentos. emocionado.. São milhares de criancinhas abandonadas. albergou o irmão Benedito. encontramos filhos do coração cujas dificuldades e dores nos pertencem.... teremos resolvido o enigma doloroso. denodado benfeitor do agrupamento. O velho africano respondeu a todos com invariável benevolência e.

entretanto. todos os companheiros se revelaram entre a Dona Celeste alegou a condição de esposa sacrificada por marido exigente. sentindo talvez o frio ambiente... insistiu.O amigo espiritual entregou-se a longa pausa. Dona Josefa explicou que tinha a existência presa aos caprichos de uma filha que lhe não concedia o menor prazer. quanto seja possível. . assim. resignado: . explicou em voz sumida: . a quem cabia o governo da casa. Dona Ernestina acusou-se velha demais para ser útil numa iniciativa de tão elevado alcance.Quem sou eu. como quem observava o efeito de suas palavras. despediu-se afirmando como sempre: . velhos. Estavam todos doentes. meus irmãos! Sabemos que vocês nos ajudarão. à resposta direta evasiva e a negação. encerrou o assunto. .. pequenino e miserável servo do Senhor. Ernesto clamou que o tempo lhe fugia em carreira desabalada. aprendendo com vocês as lições do Evangelho de Nosso Senhor. como ninguém rompesse a quietude. fatigados. dizendo. para encetar um empreendimento assim tão grande? Foi então que o benfeitor espiritual. E. E o próprio Félix.Quem de vocês desejará começar? Constrangidos. sorrindo desapontado.Que Deus seja louvado! . sacrificados ou sem horário suficiente para a lavoura do bem. . Até a semana próxima. Ninguém poderia corresponder favoravelmente à petição. generoso: . quando estaremos novamente aqui.Benedito compreende.

37 - LENDA SIMBÓLICA

Existe no folclore de várias nações do mundo antiga lenda que exprime comumente a verdade de nossa vida. Certo homem que pervagava, infeliz, padecendo intempérie e solidão, encontrou valiosa pedra em que se refugiou, encantado. A maneira de concha em posição vertical, o minúsculo penhasco protegia-o contra as bagas de chuva, ofertando-lhe, ao mesmo tempo, o colo rijo sobre o qual vasta porção de folhas secas lhe propiciava adequado ninho. O atormentado viajor agarrou-se, contente, a semelhante habitação e, longe de consagrar-se ao trabalho honesto para renová-la e engrandecê-la, confiou-se à pedintaria. Além, jornadeavam companheiros de Humanidade em provações mais aflitivas que as dele, contudo, acreditava-se o mais infortunado de todos os seres e preferia examiná-los através da inveja e da irritação. Adiante, sorria a gleba luxuriosa, convidando-o à sementeira produtiva, no entanto, ocultava as mãos nos andrajos que lhe cobriam a pele, alongando-as simplesmente para esmolar. Na imensidão do céu, cada manhã, surgia o Sol, como glorioso ministro da Luz Divina, exortando-o ao labor digno, mas o desditoso admitia-se incapacitado e enfermo de tal sorte, que não se atrevia a deixar a pedra protetora. Ouvia de lábios benevolentes incessantes apelos à própria renovação, a fim de exercitar-se na prática do bem, a favor de si mesmo, mas, extremamente cristalizado na ociosidade e no desalento, replicava com evasivas, definindo-se como sofredor irremediável, vomitando queixas ou disparando condenações. Não podia trabalhar por faltarem-lhe recursos, não estudava por fugir-lhe o dinheiro, não ajudava de modo algum a ninguém por ser pobre até à miserabilidade completa, dizia entre sucessivas lamentações. Rogava pão, suplicava remédio, mendigava socorro de todo gênero, acusando o destino e insultando o próximo. . . Por mais de meio século demorou-se na pedra muda e hospitaleira, até que a morte lhe visitou os farrapos, arrebatando-o da carne às surpresas do seu reino.

Foi então que mãos operosas removeram o enorme calhau para que a higiene retornasse à paisagem, encontrando sob a pequena rocha granítica um imenso tesouro de moedas e jóias, suscetível de assegurar a evolução e o conforto de grande comunidade. O devoto da inércia experimentara desolação e necessidade, por toda a existência, sobre um leito de inimaginável riqueza. Assim somos quase todos nós, durante a reencarnação. . Almas famintas de progresso e acrisolamento, colamo-nos ao grabato físico para a aquisição de conhecimento e virtude, experiência e sublimação, mas, muito longe de entender a nossa divina oportunidade, desertamos da luta e viajamos no mundo à feição de mendigos caprichosos e descontentes, albergando amarguras e lágrimas, no culto disfarçado da rebeldia. E, olvidando nossos braços que podem agir para o bem, estendemo-los não para dar e sim para recolher, pedindo, suplicando, retendo, reclamando e exigindo, até que chega o momento em que a morte nos faz conhecer o tesouro que desprezamos. Se a lenda que repetimos pode merecer-te atenção, aproveita o aconchego do corpo a que te acolhes, entregando-te à construção do bem por amor ao bem, na certeza de que a tua passagem na Terra vale por generosa bolsa de estudo, e de que amanhã regressarás para o ajuste de contas em tua esfera de origem.

38 - A ESMOLA DA COMPAIXÃO

De portas abertas ao serviço da caridade, a casa dos Apóstolos em Jerusalém vivia repleta, em rumoroso tumulto. Eram doentes desiludidos que vinham rogar esperança, velhinhos sem consolo que suplicavam abrigo. Mulheres de lívido semblante traziam nos braços crianças aleijadas, que o duro guante do sofrimento mutilara ao nascer, e, de quando em quando, grupos de irmãos generosos chegavam da via pública, acompanhando alienados mentais para que ali recolhessem o benefício da prece. Numa sala pequena, Simão Pedro atendia,prestimoso. Fosse, porém, pelo cansaço físico ou pelas desilusões hauridas ao contacto com as hipocrisias do mundo, o antigo pescador acusava irritação e fadiga, a se expressarem nas exclamações de amargura que não mais podia conter. - Observa aquele homem que vem lá, de braços secos e distendidos? - gritava para Zenon, o companheiro humilde que lhe prestava concurso - aquele é Roboão, o miserável que espancou a própria mãe, numa noite de embriaguez... Não é justo sofra, agora, as conseqüências? E pedia para que o enfermo não lhe ocupasse a atenção. Logo após, indicando feridenta mulher que se arrasava, buscando-o, exclamou, encolerizado: - Que procuras, infeliz? Gozaste no orgulho e na crueldade, durante longos anos... Muitas vezes, ouvi-te o riso imundo à frente dos escravos agonizantes que espancavas até à morte... Fora daqui! Fora daqui!... E a desmandar-se nas indisposições de que se via tocado, em seguida bradou para um velho paralítico que lhe implorava socorro: - Como não te envergonhas de comparecer no pouso do Senhor, quando sempre devoraste o ceitil das viúvas e dos órfãos? Tuas arcas transbordam de maldições e de lágrimas. . . O pranto das vítimas é grilhão nos teus pés. . . E, por muitas horas, fustigou as desventuras alheias, colocando à mostra, com palavras candentes e incisivas, as deficiências e os erros de quantos lhe vinham suplicar reconforto. Todavia, quando o Sol desaparecera distante e a névoa crepuscular invadira o suave refúgio, modesto viajante penetrou o estreito cenáculo, exibindo nas mãos largas nódoas sanguinolentas. No compartimento, agora vazio, apenas o velho pescador se dispunha à retirada, suarento é abatido.

no aposento isolado somente havia a sombra da noite que avançava de leve.Quem és tu. os olhos para abraçar o visitante querido. Nesse instante. mas amoroso pescador de Cafarnaum. O rude. gemeu. de novo. quando o dia de trabalho já terminou? E porque o desconhecido não respondesse.Pedro. e tocou-o docemente. silencioso. dos quais transpareciam. Venho rogarte a caridade do silêncio quando não possas auxiliar! Suplico-te para os filhos de minha esperança a esmola da compaixão. impulsivo: . aflito: .Senhor! Senhor! Que pretendes de teu servo? Foi então que Jesus redivivo afagou-lhe a atormentada cabeça e falou em voz triste: . compreendeu que se achava diante do Mestre. que chegas a estas horas. e quando ergueu. ansioso. Fitou os pés descalços.. insistiu com inflexão de censura: .. Perplexo e desfalecente. mergulhou a face nas mãos calosas para enxugar o pranto copioso e sincero. e. porém. encontrou no estranho peregrino o olhar que refletia o fulgor das estrelas... ainda vivos.. . deteve-se' a contemplar as rosas de sangue que desabotoavam naquelas mãos belas e finas. em lágrimas. clamando. porém.O recém-vindo. O conturbado discípulo do Evangelho só assim lhe deu atenção.. ajoelhando-se. sutil.Avia-te sem demora! Dize depressa a que vens. os rubros sinais dos cravos da cruz e. lembra-te de que não fomos chamados para socorrer as almas puras.. aproximou-se..

Para alcançar mais altos níveis de evolução..Quando mo permitem . corrigindo-as pouco a pouco..INFORTÚNIO MATERNO Em pleno hospital da Espiritualidade.. fui mãe de um filhinho.repliquei entre pesaroso e assombrado. no rumo da arena carnal. o amigo a que me reportei. antes de mim. que por nossa culpa direta e indireta jaziam nas fumas da crueldade e da indisciplina.O senhor consegue escrever para a Terra? . durante quase meio século..clamou a infeliz. oito corações de nosso próprio passado espiritual. após entender-me com um amigo dileto que seguiu.. pobre criatura estendeu-nos o olhar suplicante e rogou: .Estive na Terra. .. Saberíamos morrer gradativamente no sacrifício pessoal. Quem era aquela mulher que me interpelava desse modo? A fisionomia escaveirada exibia recordações da morte. cuja bondade nos obtivera o retorno à escola física. Suportar-lhes-íamos as falhas renascentes. .. ao preço de nossos exemplos de bondade e renúncia.Rogue-lhes não fujam da maternidade nobre e digna. renovando-lhes o espírito.. A triste narradora fez longa pausa que não ousamos interromper e continuou: . para que os associados de nossos erros diante da Lei Divina recuperassem a noção da dignidade..Escreva. A face inundada de pranto tinha esgares de angústia e as mãos esqueléticas e entrefechadas davam a idéia de garras em forma de conchas.. . Dante não conseguiria trazer do Inferno imagem mais desolada de sofrimento e terror... Com assentimento dos instrutores.As mulheres. comprometemo-nos a recolher oito filhinhos.39 . casando-me com Cláudio.. suplicamos a prova reparadora.. E a infeliz contou em lágrimas: ..Entretanto.. ao hálito de nosso amor..Mas escrever a quem? . . cujo nascimento não pude evitar. onde me recebeu nos braços de esposo devotado e fiel. Os soluços a lhe rebentarem do peito induziam-nos a doloroso constrangimento.. peço não façam do casamento uma estação de egoísmo e ociosidade. Tomei corpo entre os homens. . Nós mesmos solicitáramos semelhante serviço..repetia chorando. escreva! . Cabia-nos acolhê-los carinhosamente..

Despertava em meu ser comoções que o verbo humano não consegue reproduzir. assassinando as horas de trabalho que o Senhor me havia facultado no campo feminino.. pobre de mim. qual flor inútil a viver no luxo dourado. ainda jovem... cujo perfume envenenado lhes abreviará o passo na direção das trevas.desencarnando em tormento indescritível num desastre da via pública... A mísera doente. Fatigado de minhas exigências. conheci a dolorosa tumoração das próprias entranhas... após vinte anos de teimosia delituosa. apesar do respeito que consagramos à mulher de nosso tempo. terminando a existência num suicídio espetacular... Surda' aos ditames da consciência que me ordenava o apostolado maternal. era uma pérola tenra em nossas mãos. Mas a frivolidade social não era o meu crime. o nosso primogênito. onde me arrastei largo tempo. impressionados com tamanho infortúnio.. de vez que.......Fale de minha experiência às nossas irmãs casadas e robustas que dispõem de saúde para o doce e santo sacrifício de mãe! Ajude-as a pensar.. extremamente revoltados contra a minha ingratidão. a vida e matar as horas. contudo. Cláudio era compelido a gastar largas somas para satisfazer-me nos caprichos da moda. abordando a madureza... E. Nas reuniões mundanas mais aparentemente vazias pode a alma aprender muito quando resolve servir ao bem. sustentada por braços amigos. quantos quiseram ludibriar. transmitindo avisos e apelos da Vida Superior. Cristalizada. Enlaçada magneticamente àqueles que a Divina Bondade me restituiria por filhos ao coração e aos quais recusei guarida em minha ternura. meu esposo refugiou-se no vício.. . sob a pressão dos perseguidores ocultos que formei para a nossa casa. sob a flagelação e o achincalhe daqueles a quem podia ter renovado com o bálsamo de meu leite e com a bênção de minha dor. além da morte. como que horrorizada de minha presença. Meu filho. Ainda assim. asilando-me no prazer. tentamos cumprir-lhe ri desejo e transmitir-lhe a palavra. Que não transformem o matrimônio na estufa de flores inebriantes e improdutivas... na preguiça.. com todos os meus débitos terrivelmente agravados. ante o auxílio constante que me era conferido pelo Amparo Celestial. Escreva!... expulsou-me para os domínios da morte. converteram-se em perseguidores de minha felicidade doméstica. acovardada perante a luta. foi conduzida a vasta câmara de repouso e. contudo.. e eu. cremos que o nosso êxito seria mais seguro se caminhássemos para um cemitério e assoprássemos a mensagem para dentro de cada túmulo. fosse eu entregue aos resultados de minha própria escolha. detestei a maternidade. seis deles.. Diga-lhes algo do martírio que espera.. fui obrigada a tolerar-lhes o assalto invisível.. para minha edificação. expulsei de mim os antigos laços que em outro tempo se acumpliciavam comigo na delinqüência... . por doze vezes pratiquei o aborto confesso. A desditosa enferma enxugou as lágrimas com que nos acordava para violenta emoção e terminou: . A veste carnal. . caiu nas sombras da alienação mental. por mais me advertisse o esposo abençoado.Paulo. nossos Benfeitores permitiram..

por isso.NOS DOMÍNIOS DA SOMBRA Em compacta assembléia do reino das sombras.O argumento não serve. Compreendiam. faremos com que gozem a vida no mundo. o orientador das legiões da vaidade e opinou: .Procuremos veicular a crença de que Deus não existe e de que as criaturas viventes estão entregues a forças cruéis e fatais da Natureza. . Em toda parte da Terra. O maioral das trevas. ergueu-se o comandante das legiões da incredulidade e falou: .Espalharemos a notícia de que Jesus nada tem que ver com o Espiritismo. iluminando a paisagem social do mundo e. sendo atraído inelutavelmente para a fé ardente e pura. complacente: . os ensinamentos do Evangelho. aclarando a mente humana. Muita gente entregava-se aos livros nobres. explicava o motivo da grande reunião.40 . as criaturas começavam a raciocinar menos superficialmente! Indagavam. Meditavam na reencarnação e passavam a interpretar com mais inteligência os deveres que lhes cabiam no Planeta.. objetou. Quanto mais avançamos nos trilhos da inteligência mais reconhece o homem a Paternidade de Deus. desencantado: . sem qualquer obrigação para com o Evangelho e. Oravam com fervor. como melhor lhes pareça. Levantou-se. serão colhidos no túmulo. desnorteando os profitentes da Renovadora Doutrina. . assim.. com as mesmas lacunas morais que trouxeram do berço. diante de milhares de falangistas da miséria e da ignorância. no entanto. e. prejudicava os planos infernais. Depois de alguns momentos de expectativa. Que fazer para conjurar o perigo? E pediu para que os seus assessores apresentassem sugestões. um poderoso soberano das trevas. sem cadeias dogmáticas. porém. O Espiritismo com Jesus. que as manifestações dos desencarnados se resumem num caso fisiológico para as conclusões da Ciência. à caridade e à compaixão. O rei das sombras anuiu. todas as atividades da sombra surgiam ameaçadas. as lições da Justiça Divina. sem maior dificuldade. quanto aos enigmas do sofrimento e da morte e aprendiam. com segurança.

todavia. penetrando a onda mental em que se comunicam com os Benfeitores Celestes. os carregadores de lixo social.. na certeza de que as portas do sepulcro não se abririam para os vivos da Terra. embusteiros e . O chefe satânico. exagerando-lhes a noção da dignidade própria. Nesse ponto. isso é precioso trabalho de rotina que não podemos menosprezar. a fim de que os iniciantes não venham a perseverar no trabalho da própria elevação. contudo. contudo necessitamos de providência de efeito mais profundo. considerou: . Buscaremos desalentá-los e dispersá-los.trevas mostrou larga satisfação no semblante e ajuntou: . os fiscais do próximo e os examinadores de consciências alheias para que os seus templos se povoem de feridas e mágoas incuráveis e.Se o problema é de reuniões. O soberano das . sem a intervenção de Jesus. Tumultuaremos o ambiente nos lares. Entretanto. carecemos de recurso diferente. Improvisaremos tentações determinadas para os companheiros que possuam maiores deveres e responsabilidades junto às assembléias. Buscaremos sugerir aos membros dessas instituições que o lugar dos conclaves é muito longe e que não lhes convém afrontar as surpresas desagradáveis da via pública. há milhares de pessoas despertando para a verdade. obrigando-os a se sentirem mentirosos. ergueu-se o condutor das falanges da desordem e ponderou: .Sim. o diretor das falanges da discórdia pôs-se de pé e conclamou: . Chamaremos em nosso auxílio os polemistas. porque sempre aparece um dia em que as brigas e os desacordos terminam com os remédios da humildade e com o socorro da oração. com sorrisos nos lábios. Assim sendo. e nas quais tomam contacto com os Mensageiros da Luz. assim. essa ilusão já foi muito importante.Isso é medida louvável. escondendo chapéus e bolsas. Separá-los-emos uns dos outros com o invisível bastão da maledicência. assopraremos acizânia entre os seguidores dessa bandeira transformadora. os discutidores. palhaços.. Faremos que o horário das reuniões coincida com o lançamento de filmes especiais ou com festividades domésticas de data fixa. Organizaremos dificuldades para as conduções e atrairemos visitas afetuosas que cheguem no momento exato da saída para os cultos espiritas-cristãos. os irmãos em Cristo saberão detestar-se uns aos outros.Sabemos que a força dos espíritas nasce das reuniões em que se congregam para a oração e para o aprendizado da Vida Espiritual.. desistindo do serviço espiritual e desacreditando a própria fé. fazendo-lhes crer que a palavra do Além resulta de um engano deles próprios.As reuniões referidas são sempre mais valiosas com o auxílio de médiuns competentes. carteiras e chaves para que os crentes se tomem de mau humor. conseguiremos liquidá-lo em três tempos. A essa altura. .Sim. inutilizando-se para as obras do bem. O responsável pelas falanges da dúvida ergueu-se e disse: . .

. mas considerou: .. Desse modo. O mentor do recinto aprovou a alegação.. que a Justiça Divina é indefectível. que a liberalidade do Senhor é incomensurável e que todos os serviços e reformas da consciência. POIS SEUS DIREITOS AUTORAIS SÃO DOADOS PARA INSTITUÇÕES DE CARIDADE. sem perturbar-se: . que Jesus é o Guia da Humanidade. sem qualquer confiança em si mesmos. pedindo às almas encarnadas para que se regenerem. podem ser transferidos para amanhã. é. e concordou: . tomou a palavra. precisamos de providência mais viva. feliz.Onde pretende chegar com semelhantes afirmações? O comandante dos exércitos preguiçosos acrescentou. que a reencarnação é uma verdade inconteste e que a oração é uma escada solar.mistificadores. mas que há tempo bastante para a redenção. o combate aos médiuns não pode esmorecer. e falou respeitoso: .. reunindo a Terra ao Céu. entretanto. mais penetrante.. que ninguém precisa incomodar-se.Indiscutivelmente. para que as assembléias se vejam incapazes e desmoralizadas. Foi então que o orientador das falanges da preguiça se levantou. De todos os lados ouviam-se risonhas exclamações: . buscando o conhecimento superior e servindo à caridade... com fé ou sem fé.. marcados para hoje. que tudo deve permanecer agora como está no íntimo de cada criatura na carne para vermos como ficarão depois da morte. diremos que o Espiritismo com Jesus.Bravos! Muito bem! Muito bem! O argumento do astucioso condutor das falanges da inércia havia vencido. de fato. creio que a melhor medida será recordar ao pensamento de todos os membros das agremiações espíritas que Deus existe. tanto vale viverem no Espiritismo como fora dele.Sim. entre o espanto e a ira. SE VOCÊ GOSTOU DESTE LIVRO ADQUIRA-O. o roteiro da luz. que a alma é imortal. porém. O rei das sombras sorriu... exclamando: .Ilustre chefe. porque o salário de inutilidade será sempre o mesmo... . cortou-lhe a palavra.Oh! até que enfim descobrimos a solução!. O soberano das sombras. que as realizações edificantes não efetuadas numa existência podem ser atendidas em outras.

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