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Georg Simmel - A filosofia do dinheiro trad.

Antonio Carlos Santos - tradução ainda a revisar - favor não citar

Segundo Capítulo

O valor substancial do dinheiro

I

A discussão sobre a essência do dinheiro está em toda parte atravessada pela questão: se o dinheiro em sua tarefa de medir, trocar, representar os valores, é e tem de ser também um valor ou se para isso é suficiente que, sem substância própria, seja um mero signo e um símbolo, como um rastro, que substitui os valores sem ser igual a eles. Todo esse debate histórico concreto sobre uma questão que toca fundo na teoria do dinheiro e na teoria do valor seria supérfluo se pudesse ser decidido por um argumento lógico frequentemente citado. Um instrumento para realizar medidas, diz-se, deve ser do mesmo tipo do objeto que mede: uma medida de comprimento deve ser longa, uma medida para peso, pesada, uma medida para volumes, espacialmente extensa. Por isso, uma medida para o valor deve ter valor. Duas coisas que eu comparo podem não ter nada a ver uma com a outra – mesmo em relação a todas as suas outras determinações – mas no que diz respeito às qualidades que uso como parâmetro, elas devem concordar. Toda igualdade ou desigualdade quantitativa ou numérica que afirmo sobre dois objetos não teria sentido se não se referisse a quantidades relativas de uma mesma qualidade. Sim, essa concordância na qualidade não deve ser muito geral; não se pode comparar a beleza de uma arquitetura com a beleza de uma pessoa, embora haja em ambas a qualidade unitária da “beleza”, pois só as belezas arquitetônicas específicas ou as belezas humanas específicas permitem a possibilidade de comparação entre si. Mas se na ausência de toda qualidade comum quiséssemos considerar a comparabilidade na reação que liga o sujeito que sente aos objetos; e se a beleza de uma obra arquitetônica e a beleza do ser humano pudessem ser comparadas através do prazer que sentimos ao contemplar uma ou outra; então estaria se falando também aqui de uma igualdade de qualidades sob aparências diferentes. Pois a igualdade do efeito sobre o mesmo sujeito significa imediatamente a igualdade entre os objetos na relação aqui questionada. Dois fenômenos completamente diferentes que proporcionam ao mesmo sujeito uma mesma alegria são, apesar de todas as diferenças, iguais em força ou em sua relação com esse sujeito; como uma lufada de vento e uma mão humana que, apesar da impossibilidade de comparar suas qualidades, ao quebrar um galho de árvore, atestam uma igualdade de força. Assim, a matéria do dinheiro e tudo aquilo que é medido por ela podem ser totalmente diferentes, mas sobre um ponto devem concordar: ambos têm valor; e ainda quando o valor é apenas um sentimento subjetivo com o qual respondemos às
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impressões que as coisas nos causam, é preciso que pelo menos a qualidade – mesmo não isolável – que lhes permite atingir, por assim dizer, o sentido de valor humano seja a mesma em ambos. O dinheiro não pode se furtar à qualidade de valor, em virtude do fato de ser comparado com valores, isto é, de entrar em uma equivalência quantitativa com eles. A essa série de reflexões, contraponho outra, com um resultado distinto. Só podemos comparar, no exemplo acima, a força do vento que quebra um galho, com a da mão que faz o mesmo, na medida em que essa força é qualitativamente a mesma em ambos. Só que nós podemos medir a força do vento também pela espessura do galho que ele quebrou. Certamente, o galho quebrado não exprime em si e para si o quantum de energia do vento no mesmo sentido que a força da mão pode exprimir; mas a relação de força entre duas lufadas de vento e, portanto, a força relativa de cada uma, pode ser medida porque uma quebrou o galho que a outra não conseguiu nem danificar. O exemplo seguinte me parece decisivo. Os objetos mais diferentes que nós conhecemos, os polos da imagem de mundo que nem a metafísica nem as ciências naturais são capazes de reduzir um ao outro – são os movimentos da matéria e os fenômenos da consciência. A pura extensão de uma e a pura intensidade da outra fazem com que, até agora, não se tenha descoberto nenhum ponto que pudesse valer como sua unidade de modo convincente para todos. Ainda assim o psicofisiologista pode medir as mudanças relativas de força em nossa percepção consciente segundo as modificações nos movimentos externos que afetam como estímulo nosso aparelho sensorial. Na medida em que haja entre os quanta de um e os de outro fator uma relação constante, as grandezas de um determinam as grandezas relativas do outro, sem que precise existir qualquer relação ou igualdade entre eles. Com isso, o princípio lógico que parecia tornar a capacidade do dinheiro de medir valores dependente de seu próprio valor cai por terra. Isso é certo: só podemos comparar os quanta de objetos diferentes quando são da mesma e única qualidade; onde o medir pode ocorrer por meio de uma comparação imediata entre dois quanta, ele pressupõe a equivalência qualitativa. Mas onde uma alteração, uma diferença ou a relação de quaisquer duas quantidades deve ser medida, basta que as proporções das substâncias medidoras se reflitam naquelas das substâncias medidas para que essa possa ser determinada, sem que seja necessária qualquer equivalência essencial entre as substâncias. Duas coisas qualitativamente diferentes não se deixam então comparar e sim duas proporções entre duas coisas qualitativamente diferentes. Dois objetos m e n podem estabelecer uma relação que não é absolutamente uma relação de igualdade qualitativa de modo que nenhuma delas pode servir de medida para a outra; a relação estabelecida entre ambos pode ser de causa e efeito, simbólica ou de relação conjunta com um terceiro objeto ou algo assim. Suponhamos agora um objeto a do qual sei que é um quarto de m; e um objeto b do qual se sabe apenas que é uma fração qualquer de n. Se existe uma relação entre a e b que corresponda à relação entre m e n, deduz-se então que b tem de ser igual a um quarto de n. Apesar de toda

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diferença de qualidade e da impossibilidade de uma comparação direta entre a e b, é possível determinar a quantidade de um pela do outro. Certamente não é possível estabelecer nenhuma relação de igualdade, por exemplo, entre certo quantum de víveres e a necessidade de alimentação imediata que ele pode satisfazer completamente; mas quando há tantos víveres de modo a satisfazer a metade dessas necessidades, posso então, com isso, determinar imediatamente que esse quantum disponível é igual à metade daquele primeiro. Em tais condições, basta que haja uma relação global para medir os quanta de cada parte entre si. Se fosse possível considerar a medida dos objetos em dinheiro como um esquema desse tipo, então a comparação direta de ambos e consequentemente a exigência lógica de atribuir um caráter de valor ao dinheiro deixariam de fazer sentido. Para passar dessa possibilidade, por assim dizer, meramente lógica para a realidade, pressupomos uma relação de medida geral entre um quantum de bens e um quantum de dinheiro, tal como ela se mostra no nexo muitas vezes encoberto e rico em exceções, é verdade, entre reservas crescentes de dinheiro e alta dos preços, e entre reservas crescentes de bens e queda dos preços. Concebemos a partir daí, salvo determinação mais precisa, o conceito de reserva global de mercadoria, de reserva global de dinheiro e uma relação de dependência entre elas. Cada mercadoria singular é, então, uma parte determinada de uma quantidade global disponível de mercadorias; chamemos esse último de a, então aquele é 1/m a; o preço que ele requer é a parte correspondente da quantidade global de dinheiro, de modo que se chamamos esse de b, então será 1/m b. Se conhecêssemos as grandezas a e b e soubéssemos qual a parte de uma determinada mercadoria em relação ao total das mercadorias postas à venda, saberíamos então seu preço em dinheiro, e vice-versa. Portanto, totalmente independente do fato de o dinheiro e o objeto de valor terem uma igualdade qualitativa, e também independente do fato de o dinheiro ser ou não em si mesmo um valor, uma certa quantidade de dinheiro pode determinar ou medir o valor de um objeto. – Deve-se ter sempre em mente o caráter totalmente relativo do ato de medir. Quantidades absolutas equivalentes entre si são medidas em um sentido completamente diferente das quantidades parciais postas em questão aqui. Se temos como hipótese que a soma de dinheiro global – sob determinadas restrições – representa o contravalor da soma global dos objetos postos à venda, não precisaríamos então reconhecer que essa equação serve para medir um com o outro. É somente a relação de ambas com o ser humano que estabelece valores e seus objetivos práticos que as coloca em uma relação de equivalência entre si. A tendência de tratar o dinheiro em geral e a mercadoria em geral como correspondentes é tão forte como nos mostra o fenômeno seguinte, observado em mais de um lugar. Quando uma tribo primitiva dispõe de uma unidade de troca natural e entra em contato com um vizinho mais desenvolvido possuidor de moeda de metal, então muitas vezes a unidade natural é tratada como se tivesse o mesmo valor

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favor não citar da unidade monetária. não tem aqui nenhuma importância. E para tanto é necessário apenas uma grandeza determinável de algum modo numericamente.Georg Simmel . a divisão entre cada uma das duas quantidades parciais e o quantum absoluto ao qual ambas pertencem. vendem então um grão de milho de ouro por uma enxada! Dado que a unidade de mercadoria no escambo torna perceptível a idéia de valor de todo o conjunto dos objetos. Antonio Carlos Santos . Por meio desse expediente. ou seja. equiparar à fração correspondente do estoque de dinheiro atuante. efetiva mesmo que não consciente. Pode-se admitir que a relação das unidades é sentida. entre um e outro. Pressupondo um completo equilíbrio entre todos os deslocamentos e irregularidades ocasionais na formação de preços. mesmo que se trate de coisas totalmente diferentes. Se há relação entre a mercadoria n e a soma A de todas as mercadorias à venda. como exposição simbólica da relação das totalidades. Mas retiram ouro do rio e vendem às tribos vizinhas. Mas se há equivalência entre esses conjuntos. mas é preciso ressaltar sempre que o pressuposto de uma relação simples entre todas as mercadorias e todo o dinheiro é provisório. Se no mais das 4 . qualitativa. para além da contingência subjetiva. estabeleciam sua própria unidade de valor. Se existe uma ligação conceitual.tradução ainda a revisar . Pois agora existe realmente alguma coisa igual de ambos os lados: a saber. para as finalidades da troca e da determinação do valor é preciso apenas determinar a relação das diversas (ou todas) mercadorias entre si (ou seja.A filosofia do dinheiro trad. seria uma exigência correta que a mercadoria e o seu parâmetro tivessem a mesma essência. ela vale 1/n das reservas de bens em geral. podemos formular o seguinte: um contra um – apenas a expressão ingênua da equivalência dos conjuntos em questão. como equivalente a uma onça de prata. que só praticam a troca natural. ao menos. quando entravam em contato com os romanos. assim como entre a unidade monetária a e a soma B de todas as unidades monetárias dadas: então o valor econômico de n é expresso por a/B. o resultado da divisão da mercadoria singular por todas as outras) e a equiparar à relação da quantidade de dinheiro. uma barra de prata de certa grandeza. 20m podem medir completamente essa mercadoria. Se uma mercadoria custa 20m. ela apresenta. como igual a um búfalo. isto é. A mesma característica fundamental encontramos em uma tribo selvagem do Laos: só praticam o escambo e sua unidade é a enxada de ferro. uma proporção objetiva entre quantidades parciais. sendo o único objeto que pesam. os antigos irlandeses. a vaca. isto quer dizer 1/n da reserva monetária em geral. Assim. têm o búfalo como valor fundamental e no contato com os habitantes mais cultivados da planície. Caso se pretenda equalizar imediatamente uma mercadoria singular a um valor monetário. estimam a unidade de valor desses últimos. assim como a unidade monetária representa a idéia de valor do complexo monetário. Para isso não têm outro meio que o grão de milho. podemos observar no âmbito da troca dinheiro-mercadoria que a relação entre toda mercadoria e seu preço é a mesma que a relação entre todas as mercadorias economicamente ativas em um dado momento e a totalidade do dinheiro ativo nesse mesmo momento. cru e esquemático. as tribos selvagens das montanhas de Anan. Entretanto.

pode-se então dizer que o interesse teórico orienta mais a consciência para os traços comuns e o interesse prático mais para a individualidade das coisas. as relações conscientes que se estabelecem entre os diferentes membros se constroem sobre a experiência das qualidades individuais pelas quais cada um se distingue dos outros. a vida prática exige que percebamos em todas as partes. que é o fundamento de toda relação. Antonio Carlos Santos . particularidades e nuances com a mais aguda consciência. mas não conscientemente. só vem à consciência justamente aquilo que o diferencia de todos os outros. de fato. Entre esses dois extremos e em vários níveis estão esses pontos ou aspectos do fenômeno total aos quais a consciência dá a mais alta atenção. as diferenças. enquanto os traços familiares comuns não são objeto de uma atenção particular da parte daqueles que os compartilham. do outro lado da escala. Para o pensador interessado na metafísica. começa com uma série de fenômenos nos quais apenas aquilo que é comum a todos é percebido. e mesmo tal atenção só com muito esforço poderia torná-las claras. De modo geral. e a oportunidade de economizar energia em sua utilização. em si e para si.tradução ainda a revisar . O mesmo vale para círculos mais amplos. ele se mantém aferrado a ideias tão gerais como ser ou devir que são simplesmente comuns a todas as coisas. relações muito diferentes entre eles de acordo com o caráter e a atmosfera geral que reina em toda a família. o característico é que. Isso não impede que o fundamento geral e inconsciente tenha efeitos psicológicos. por um lado. fazem com que apenas uma pequena parte dos inúmeros aspectos e determinações de um objeto de interesse seja realmente notada. as diferenças individuais entre as coisas muitas vezes desaparecem por não serem essenciais. tão pouca que apenas quem está longe é capaz de descrevê-los. essa. enquanto o universal e o fundamental permanecem aquém do limiar da consciência. nos seres e circunstâncias que nos concernem. o que nos interessa nesse caso singular são os numeradores n e a. esse caráter geral constitui o fundo não percebido sobre o qual as qualidades individuais podem desenvolver seus efeitos claramente determinados.favor não citar vezes não se representa as coisas dessa maneira. As qualidades individuais dos membros de uma família suscitam. A capacidade de percepção limitada de nossa consciência. é porque B assim como A são totalmente autônomos – suas mudanças não nos são facilmente perceptíveis – e por isso não tomamos consciência de sua função de denominadores. Daí poderia nascer a ideia que n e a. por sua vez. cair no esquecimento. se correspondessem imediata e absolutamente e que portanto seriam da mesma natureza. por outro. de atuar concretamente.A filosofia do dinheiro trad. Ao contrário. apenas o fundamento que partilha com os outros se torna consciente. seria um exemplo para um dos traços mais decisivos da natureza humana. enquanto as qualidades humanas gerais ou o fundamento comum a todas as circunstâncias em questão são tidos por óbvios e não atraem a atenção de maneira especial. por exemplo. o absolutamente individual. Claro que todas as relações humanas repousam sobre condições específicas que cada singular traz 5 . O fato de o fator geral. Aos diferentes pontos de vista que precedem a escolha e a classificação dos momentos da percepção pela consciência corresponde o fato de podermos encadeá-los em uma escala sistemática. No interior de uma vida familiar. de cada fenômeno.Georg Simmel . ou seja.

essa forma não se torna consciente. Como equação. Claro que. A enorme importância dessa equação absoluta e fundamental tornaria tão pouco inverossímil. grudada a esse pressuposto. ela acontece porque ambas as somas. são dadas como equivalentes.a determinação do preço de uma mercadoria singular acontece simplesmente como uma divisão entre seu valor e aquele valor total. como pressuposto absoluto de toda relação. só é possível medir quantidades relativas na medida em que suas quantidades absolutas estejam em algum tipo de relação. posso então.tradução ainda a revisar . sob circunstâncias conhecidas de mudança da força hidráulica.Georg Simmel . a questão de saber se toda mensuração exige uma igualdade essencial entre o objeto e seu padrão de medida. se a observação se limitasse a esses dois momentos. Não há certamente entre a espessura de um tubo de ferro e uma força hidráulica determinada nenhuma igualdade ou mensurabilidade. o fator inconsciente sem o qual esses elementos não teriam nenhuma possibilidade de relação. para além delas. por outro. o que já foi indicado outras vezes. Sendo o fundamento geral de todas as equações entre mercadorias singulares e preços singulares. o preço em dinheiro não teria nenhuma relação com as mercadorias cujo valor deveria expressar. por um lado. Exatamente a mesma relação psicológica poderia valer em relação ao preço em dinheiro. porém. é a soma de todas as mercadorias. o círculo vicioso: a capacidade de uma determinada soma em dinheiro de medir o valor de uma mercadoria singular se baseia na relação de equivalência entre todo dinheiro e toda mercadoria. percebidos singularmente. supondo um dinheiro em si sem valor. colocamos a soma de tudo o que pode ser vendido e a soma de todo dinheiro como equivalentes – num sentido de “soma” que será discutido mais tarde – . ou seja. Antonio Carlos Santos . tão verossímil sua inconsciência como no caso das analogias aqui tratadas. por isso.A filosofia do dinheiro trad. pressupondo essa já a mensurabilidade de uma pela outra. que se repete como a divisão entre seu preço e o quantum total de dinheiro. que não precisa ser uma medida ou uma igualdade. 6 . Tão logo. ou melhor: a relação prática que aplicamos às duas categorias se reflete na consciência teórica na forma de uma equivalência. comprovando assim a totalidade da relação. não seria mais pertinente em um caso concreto e ficaria insolúvel. por razões práticas a priori. portanto se elas se realizam efetivamente em sua maneira determinada é porque. medir exatamente. A equivalência entre o valor de uma mercadoria e o valor de uma soma em dinheiro não significa uma equação entre fatores simples e sim uma proporção. Isso não implica. a soma de todo dinheiro – ambos naturalmente precisando ainda de maiores determinações – de um círculo econômico determinado. mas constitui. dada uma certa modificação dessa. ou melhor. existem certos fatos e pressupostos totalmente universais que constituem o denominador geral com o qual as diferenças individuais se relacionam como numeradores determinados. não se saberia por que tal objeto deveria implicar um preço muito alto ou muito baixo ou outro qualquer.favor não citar consigo. a igualdade entre duas frações cujo denominador. De fato. mas quando as partes integradas de um sistema mecânico produzem um efeito determinado de força. qual o diâmetro do tubo no sistema. para os elementos que nos interessam singularmente e que são.

Temos agora de lidar com a restrição mencionada acima ao conceito de quantum global de dinheiro. em certas ocasiões e em oportunidades sedutoras. na medida em que presta o serviço do dinheiro. mas nenhum comerciante pode impedir que partes importantes de suas reservas permaneçam longo tempo sem uso antes de poder vendê-las. como para as coisas qualitativamente semelhantes. ou seja.favor não citar Mesmo que as mercadorias em geral e o dinheiro em geral não possam ser medidos um pelo outro. E que no caso apenas a relatividade da medida seja consciente e efetiva não se altera com a hipótese segundo a qual teria significado nos tempos antigos uma barra de cobre de peso determinado. comparar diretamente todas as mercadorias com todo dinheiro não nos leva a nenhuma conclusão. não existe então entre eles nenhum mais ou menos imediato. Poder-se-ia dizer: seja qual for o volume absoluto de reserva de dinheiro. de uma parte. há alguns séculos. ás significa apenas um todo composto de 12 partes que tanto se refere a uma herança quanto à medida ou ao peso. enquanto material de qualquer tipo. Assim. da qual representa uma quantidade determinada.A filosofia do dinheiro trad. de outra. já que. Não se pode dizer simplesmente que há tanto dinheiro para gastar quanto mercadorias a comprar e isso não se relaciona à diferença quantitativa que existe entre todas as mercadorias acumuladas. o que varia é o quantum que esse signo ou peça representa em outra relação. de modo que a modificação quantitativa de um represente o índice para a modificação do outro. era preciso esvaziar a bolsa sacudindo-a. Antonio Carlos Santos . Pois. Essa diferença na velocidade de transformação se torna ainda maior se contamos com os objetos que não são postos à venda. A que ponto isso pode acontecer realmente sem impedir a circulação nos mostra o fato relatado: na Rússia. tanto à libra quanto a qualquer parte dela. por princípio. Como não há para ambos nenhum padrão de medida comum. quase sempre se pode evitar.tradução ainda a revisar . como denominador daquelas frações que exprimem o valor. de fato. Essa redução significativa da quantidade de dinheiro enquanto tal a uma fração que não diz nada sobre a grandeza absoluta. e todo dinheiro acumulado. basta que ambos desempenhem um certo papel para a vida dos seres humanos no âmbito de seus sistema dos fins práticos. havia moedas de prata tão minúsculas que não se podia pegálas da mesa com a mão. toda finalidade do dinheiro pode ser alcançada com qualquer pequena quantidade de dinheiro. será sempre “dinheiro” suficiente. ninguém deixa uma grande soma de dinheiro sem uso e. A desproporção entre a totalidade do dinheiro e a totalidade de mercadorias. separar a soma a pagar para então cada um pegar sua parte com a língua e recolocá-la na bolsa cuspindo-a. mas seu quantum como dinheiro não precisa mudar por isso. Nenhuma quantidade de mercadoria tem por si mesma uma ligação determinada com certa quantidade de dinheiro. Assim.Georg Simmel . enquanto pode evitar. mas que podem sê-lo. tem a ver com o fato de os romanos marcarem sua moeda – com uma exceção especificamente justificada – por seu peso relativo e não pelo absoluto. repousa antes no fato de que o suprimento de dinheiro como um todo se transforma muito mais rapidamente do que o valor mercadoria como um todo. Se partirmos então dos preços realmente pagos por mercadorias singulares e perguntarmos o quantum de 7 .

o quantum total de mercadoria como constituído pelas vendas realmente realizadas em um dado momento. sobre a produção da matéria monetária ou equivalente. 190 vezes. Mas olhando mais de perto me parece que a reserva de mercadorias em repouso só tem efeito sobre o dinheiro efetivamente em circulação de três maneiras: sobre o tempo de circulação do dinheiro. as mercadorias momentaneamente em repouso não são de modo algum economicamente inativas e a vida econômica seria incalculavelmente alterada se as reservas de mercadoria alguma vez entrassem a cada momento totalmente em circulação como faz a reserva de dinheiro. possibilita um número ilimitado de transações e que sua diminuta soma total. ou seja. da mesma forma. poder-se-ia ver o quantum total de mercadorias como aquele que se encontra atualmente à venda. que a quantidade total de dinheiro corresponde à soma total dos objetos à venda no mesmo período. só é objeto à venda em virtude de e no interior de uma antecipação ideal. ao contrário. sobre a relação do gasto de dinheiro com as reservas. mas não sobre cada instante singular. é preciso dizer que há muito menos dinheiro do que mercadorias e que a fração entre mercadoria e preço não é a mesma que entre todas as mercadorias e todo o dinheiro. a soma de dinheiro é de grandeza irrelevante em relação ao total disponível como resultado de sua circulação. Mas há duas maneiras de se salvar nossa proporção de base.tradução ainda a revisar . o Banco da França registrou em contas correntes 135 vezes a soma de dinheiro efetivamente depositada (54 bilhões contra 400 milhões de francos) e o Deutsche Reichsbank. fica muito claro o papel irrelevante da substância do dinheiro na compensação de valores por ela mediada: em 1890. é totalmente evidente e idêntica a proposição de que há tanto dinheiro quanto objetos à venda – com o que. Pode-se afirmar então sobre um período de uma determinada extensão temporal. No total da soma de dinheiro em uso que determina o preço em dinheiro das mercadorias.favor não citar dinheiro seria necessário para comprar toda a reserva. Mas esses momentos já exerceram seus efeitos sobre as transações em curso. que não é consumido da mesma maneira que as mercadorias. antes. Em alguns pontos altos do sistema monetário. A partir desse ponto de vista. a mercadoria só o é quando vendida. e isso se deduz facilmente do que se disse antes. aceita particularmente os preços para as grandes transações não em relação ao 8 . Primeiro. se entende como dinheiro todos os substitutos possíveis como crédito e transações bancárias. Desse ponto de vista. veremos certamente que essa ultrapassa em muito a reserva de dinheiro efetiva. em relação à soma das mercadorias que se constitui em cada momento isolado. Assim como o dinheiro só é realmente dinheiro no momento em que compra algo. Em termos aristotélicos. em nossa relação proporcional de base. O singular faz suas despesas. isso também pode ser reconhecido como consequência do fato de que o mesmo quantum de dinheiro. é consideravelmente menor.Georg Simmel . Em segundo lugar. seja compensada pela velocidade de sua circulação. em que exerce a função de dinheiro. mercadoria não vendida é apenas uma mercadoria “em potencial” e se torna mercadoria “em ato” só no momento de sua venda. na verdade. naturalmente.A filosofia do dinheiro trad. sob sua influência se formou a relação empírica entre mercadoria e preço e eles não nos impedem de modo algum de compreender. Antonio Carlos Santos . Ora.

pois não há um padrão de medida comum para ambos. a fração de dinheiro pode ser igualada à fração de mercadorias pelo fato de seu denominador não indicar a quantidade de substância monetária efetivamente existente. Essa relação das totalidades entre si tem. Antonio Carlos Santos . A partir desse ponto de vista. apenas essas são comprováveis. enquanto aquele não pode se referir a nada de onde se poderia deduzi-lo logicamente. poderia se equilibrar e se compensar diretamente uma à outra. visto como uma unidade ou na média. tão certo quanto podem existir oscilações e desproporções no caso de uma determinada grandeza das frações em questão ser fixada psicologicamente enquanto paralelamente deslocamentos objetivos estabelecem uma outra. experimenta muito mais dor do que prazer. e. não pode haver uma desproporção fundamental – tão certo quanto se pode divergir sobre a relação correta entre uma mercadoria singular e um preço singular. Aqui aparece uma regra metodológica de grande importância que vou ilustrar com um exemplo tirado de uma categoria de valores totalmente diferente. em um círculo econômico fechado.Georg Simmel . Como se pode explicar que tais comparações sejam feitas continuamente. quando um aumento rápido da circulação pode produzir uma escassez temporária de meios de pagamento.favor não citar dinheiro disponível no momento e sim em relação ao conjunto das entradas de dinheiro em um período maior. poderia haver em si e para si uma quantidade da mesma grandeza de alegria de modo a atingir um equilíbrio. Em nossa proporção. o significado de um axioma que não é verdadeiro no mesmo sentido em que o são as proposições baseadas nele. 9 . mas um múltiplo determinado do número de trocas efetuado em um certo período de tempo. enquanto na equação que liga a totalidade dos objetos à totalidade do dinheiro se trata apenas de adequação ou inadequação e não de uma verdade logicamente demonstrável. de alguma forma. particularmente. a pergunta se um preço é adequado ou não seria imediatamente respondida por duas perguntas anteriores: primeiro. que parte tem o objeto considerado na quantidade total de mercadorias disponíveis. e tão certo. o mundo do ser vivo. Uma tal afirmação é desde logo impossível. como grandezas qualitativamente semelhantes com sinais trocados. Mas isso não acontece na realidade. Essa última é a questão decisiva e a equação entre a fração representando o objeto e a fração representando o dinheiro pode ser objetiva ou numericamente verdadeira ou falsa. segundo. Com base nessa suposição. As importações e exportações de metal resultantes de uma carência ou de um excesso de dinheiro em relação aos valores das mercadorias de um determinado país são apenas compensações no interior de um círculo econômico cujas províncias são formadas pelos países participantes e significam que a relação geral entre os dois termos que existe naquele momento no sistema econômico é restabelecida graças ao deslocamento de uma parte singular. quais as somas de dinheiro e de objetos à venda atualmente ativas. Pois ela pressupõe que o prazer e a dor.tradução ainda a revisar . podemos resolver a antinomia entre as mercadorias potencialmente disponíveis e as mercadorias atuais como contravalores do dinheiro e manter a afirmação de que entre a soma total de mercadorias e a de dinheiro. A afirmação de base do pessimismo é que a totalidade do ser demonstra um excedente considerável de sofrimento em relação às alegrias. Em nenhum quantum de sofrimento.A filosofia do dinheiro trad.

sem o qual a própria média não seria rápida ou lenta. ou seja. em outra constitui o padrão para o julgamento de casos. Isso basta para caracterizar o tipo de conhecimento com que estamos lidando aqui. normal.A filosofia do dinheiro trad. quanto sofrimento em média é preciso aceitar para poder obter a esse preço certa quantidade de prazer e quanto de ambos apresenta o destino típico do ser humano. o tempo dos acontecimentos sentido e vivido como média. só chegam a isso quando a medida da quantidade total forma o absoluto segundo o qual o individual. Mas essa média não pode ser ela mesma “desproporcional” já que. como também se pode dizer erroneamente que “o tempo” passa rápido ou devagar. É claro que em si e para si os elementos desses casos singulares possuem tão pouca relação com correção ou falsidade.tradução ainda a revisar .Georg Simmel . Portanto a afirmação do pessimismo de que a vida humana apresenta na média mais sofrimento do que prazer é tão metodologicamente impossível quanto a do otimismo de que haja mais prazer do que sofrimento na média. os elementos do acontecimento singular estão em uma relação “correta”. No interior do campo mencionado e em muitos outros. como “desproporcionalidade”. quanto sua totalidade. Mas o fato de que um elemento exista em certa medida e o outro elemento. igualdade ou desigualdade. Na medida em que repetem a proporção da quantidade total. acontecimentos e problemas singulares e parciais nos quais ambos os elementos cooperam. típica. antes. se pode dizer que em um caso específico se obteve um prazer a preço muito alto – ou seja. como relativo. é o padrão a que se refere a rapidez ou a lentidão no fluxo das vivências singulares. sua média para um indivíduo ou um período de tempo) é o fenômeno primordial cujas partes não podem ser comparadas porque para isso seria necessário um padrão que estivesse fora de ambas e que as englobasse equitativamente. – Esse tipo poderia ser a relação entre o objeto à venda e seu preço em dinheiro. enquanto o afastamento dela aparece como “preponderância” de um elemento.favor não citar como podemos afirmar nos assuntos cotidianos. nas conexões do destino. Talvez ambos não tenham como 10 . Só quando se forma uma certa ideia a respeito. Antonio Carlos Santos . pois é justamente essa média que fornece o padrão para medir o ser humano singular – e só ele pode ser grande ou pequeno. é avaliado. ademais. a quantidade total de prazer e dor sentida (ou dito de outra forma. mas o próprio absoluto não está submetido às determinações da comparabilidade. no conjunto da vida singular que a medida da alegria tenha sido inferior ou superior à da dor? Isso só é possível na medida em que a experiência de vida – com mais ou menos precisão – nos ensine como alegria e tristeza se repartem efetivamente. que por sua vez possibilitam o relativo. com um quantum de sofrimento muito alto – ou que um destino humano singular demonstra um excesso de dor em relação ao prazer. é ela que determina desde logo se a relação dos sentimentos em um caso específico é ou não adequada – assim como tampouco se pode dizer que a média das pessoas seja alta ou baixa. pois o passar do tempo. os elementos primários que constituem o campo não podem ser comparáveis entre si porque possuem qualidades diferentes e portanto não podem ser medidos entre si ou por um terceiro. média. ou seja. mesmo que inconsciente ou indefinida.

ele só precisa constituir com a quantidade total de dinheiro a mesma fração que a mercadoria estabelece com todos os valores mercadorias. pois é 11 . Só quando tudo o que pode ser vendido e todo o dinheiro formam juntos um mundo econômico. Em períodos econômicos primitivos.Georg Simmel . pois de sua utilização generalizada resulta obrigatoriamente a fixação dos preços médios: as contínuas ponderações subjetivas sedimentam a relação objetiva entre mercadoria e preço que depende tanto da proporção entre as reservas globais e efetivas de mercadorias e a quantidade total de dinheiro quanto – salvo qualquer modificação – da proporção entre as necessidades globais do singular e as receitas globais que dispõe para isso. no começo. Não é preciso um “valor” igual entre uma mercadoria e uma determinada soma de dinheiro para fundamentar sua proporcionalidade recíproca. isso significa que sua despesa singular está para suas despesas totais assim como o significado do objeto singular procurado está para a totalidade dos objetos desejados e disponíveis. Mesmo o caso de uma economia individual mostra quanto o preço em dinheiro de uma mercadoria é dependente da relação dessa mercadoria com a totalidade das mercadorias.tradução ainda a revisar . não o obrigar a ter um valor próprio. ela é proporcional ao total de suas entradas. Quando cada um regula sua despesa privada de tal sorte que. valores de uso aparecem por todo lado no papel de dinheiro: vaca. talvez sejam tão desiguais qualitativamente quanto quantitativamente incomparáveis. O gasto com cada objeto singular deve se orientar pelo fato de eu querer ainda comprar outros objetos além desse. só quando representa uma determinada parte da quantidade total de dinheiro efetivo do mesmo modo que a mercadoria em relação à quantidade total de mercadorias efetivas. no entanto. em todo caso. libera a via para o conhecimento não apenas de seu processo de desenvolvimento real. sal. Antonio Carlos Santos . para cada tipo de mercadoria. o preço de uma mercadoria pode ser “adequado”. tabaco. Diz-se que só fazemos um sacrifício de dinheiro – que para nós já é penoso – quando obtemos um contravalor adequado. A adequação do preço significa que eu – como um ser médio – depois de tê-lo pago tenho de ter ainda o suficiente para comprar o restante dos objetos igualmente desejados. o preço em dinheiro não precisa de modo algum de um valor ou pelo menos de um valor nesse sentido. Seja qual for a maneira com que o dinheiro se desenvolveu. Mas só é um ganho porque permite realizar o mesmo sacrifício em outra ocasião.favor não citar conteúdo nada em comum. mas apenas no fato de sua função. Se eu não soubesse o que fazer com o dinheiro daria então todo o que possuo por esse objeto que o exige. na realidade. A troca de uma coisa valiosa por um pedaço de papel impresso só se torna possível em virtude da grande extensão e confiabilidade da série dos fins. de sua essência interna. Toda nossa argumentação até agora não tocou de modo algum na questão de saber se. mas.A filosofia do dinheiro trad. E esse esquema da economia individual não é apenas uma analogia da economia em geral. escravos. Toda poupança nesse sacrifício é vista como um ganho positivo. Essa simples possibilidade. acima de tudo. ele tinha de ser um valor – imediatamente percebido como tal. peles. medir valores. etc. o dinheiro é ou não um valor.

a exercer suas funções com argumentos o mais possível concretos e de uma exatidão tangível – naturalmente em detrimento da mobilidade do pensamento e da amplitude de seus objetivos. O dinheiro não teria podido originar-se como meio de troca.Georg Simmel . a única suposição incontornável me parece ser a de que esse caráter tenha originalmente se ligado a objetos que. a realização das séries de valor através daquilo que não tem valor intensifica bastante sua extensão e sua eficácia. Ninguém é tão tolo a ponto de abandonar um valor por algo que não pode utilizar imediatamente se não está seguro de poder transformar esse algo novamente em valor.tradução ainda a revisar . A necessidade das coisas é para nós sempre um acento que nossa sensibilidade concede a seus conteúdos em si igualmente justificados – ou melhor: em si de modo algum “justificados” – e que depende exclusivamente da meta que nos colocamos – então é desde logo impossível determinar quais são simplesmente os valores imediatamente prementes que tendem a assumir o caráter de dinheiro. Em aparente contradição com o resultado obtido anteriormente. se não fosse sentido de modo imediato como valioso. ao contrário. um pensamento primitivo. mas isso só acontece graças à maturidade intelectual do singular e a uma organização permanente do grupo. ainda hesitante. encontrar uma série de deduções lógicas que conduza a conclusões convincentes através de elos impossíveis ou contraditórios – mas só quando esse pensamento está muito seguro de sua direção e de sua exatidão. puderam psicologicamente dar origem a um padrão de medida geral. Pode-se. que circulavam justamente em virtude de sua demanda geral e que também com muita frequência tinham seus valores medidos na relação com outros objetos. uma troca direta de valores. em virtude de sua matéria. segundo o qual o dinheiro em si e para si não precisa ser um valor. Nenhuma pessoa de cultura européia crê hoje em dia que uma moeda seja valiosa por se deixar produzir como um objeto de adorno. O valor dinheiro de hoje não pode voltar a seu valor de metal justamente porque agora o metal precioso existe em quantidades muito grandes para que se possa encontrar uma utilização 12 . os mais valiosos entre todas as coisas que para nós parecem muito mais necessárias. então. antes de tudo. perderia em tal ponto totalmente sua direção e seu objetivo e seria obrigado. a necessidade de se enfeitar com adornos pode ter um papel dominante entre as coisas percebidas como “necessidades”. de fato ouvimos falar de povos naturais que consideram os adornos de seu corpo. Antonio Carlos Santos . Supõe-se que objetos que eram frequentemente trocados. O mais necessário não no sentido psicológico. De modo correspondente. por isso. em seguida. por exemplo. aparecem muitas vezes na troca com uma variedade de outras coisas. nem como medida de valor. um valor. Por isso só se pode pensar que a troca era originalmente um escambo. vemos aqui que. por serem percebidos como necessários. assim como os objetos utilizados para esse fim. não resta dúvida que o dinheiro não é mais valioso para nós porque sua matéria é vista como imediatamente necessária.favor não citar ela que garante que aquilo que é diretamente privado de valor nos ajuda a conseguir. Comparando com a situação atual. é justamente o mais necessário e o mais valioso que tende a se tornar dinheiro. ou seja.A filosofia do dinheiro trad. como um valor indispensável.

Avaliar o dinheiro por sua possível conversão em outros objetos de metal só é possível no caso dessa conversão não acontecer ou acontecer apenas em quantidades ínfimas. como já mencionei acima. mas também nos medievais. mesmo intensificando a produção de metais preciosos. Essa evolução é ainda reforçada pelo fato de o ser humano primitivo. O ornamento não tem mais na vida cultural moderna o mesmo papel social que constatamos com espanto não só nos relatos etnológicos. haveria uma tamanha pletora de objetos produzidos com metal precioso que seu valor cairia ao mínimo. nos termos da teoria do valor metálico da moeda. Não se deve declarar como irrelevante a falta de valor material do papel moeda por ele ser apenas uma referência ao metal. tanto mais o seu valor funcional precisa ultrapassar o seu valor substancial.favor não citar rentável meramente como jóia ou com alguma finalidade técnica.A filosofia do dinheiro trad. o que fazem realmente.tradução ainda a revisar . por outro. Quanto mais extensos e variados os serviços a que o dinheiro é convocado e quanto mais velozmente a quantidade singular circula. Se pensarmos em uma tal transição como terminada. por um lado. O desenvolvimento moderno da circulação monetária tende a se sobrepor cada vez mais ao dinheiro como portador de um valor substancial e ele deve necessariamente tender a isso. A crescente substituição da moeda de metal por papel moeda e pelas mais variadas formas de crédito age inevitavelmente sobre o caráter daquela primeira – mais ou menos como quando uma pessoa se faz representar constantemente por outra e no fim ganha apenas o apreço que é atribuído a seus representantes. quando havia muito pouco metal precioso. são apenas pontos relevantes dessa tendência geral cujas manifestações primeiras e características serão tratadas na última parte desse capítulo. mas o desenvolvimento posterior das escalas de valor inclui esse interesse na categoria dos “dispensáveis” ou “supérfluos”. Essa circunstância nos serve ainda para reduzir o significado que o dinheiro tira de seu material.Georg Simmel . essa ligação desaparece à medida que sua produção se intensifica. considerar como uma necessidade vital se enfeitar de uma determinada maneira. ou seja. As movimentações bancárias. se situa no mesmo nível do papel moeda. pois. Pode-se dizer que o valor do dinheiro passa cada vez mais de seu terminus a quo para seu terminus ad quem e que assim a moeda em metal. Contra isso há o fato de que mesmo um papel moeda totalmente descoberto sempre será avaliado como dinheiro. Antonio Carlos Santos . A concepção exposta acima: que a equação de valor entre uma mercadoria 13 . Mesmo que no começo desse desenvolvimento. quanto mais primitivas são as representações econômicas. sua utilização como adorno pudesse ter determinado seu valor monetário. no que concerne à capacidade psicológica de comparação ligada ao valor de seu material. não seria suficiente para saldar todas as transações em moeda. E mesmo se quiséssemos invocar a pressão política. Em termos gerais. então isso significaria que justamente outras razões que não a utilização material imediata podem dar a uma determinada matéria seu valor monetário. tanto mais o medir pressupõe uma relação sensível-imediata entre os valores comparados. e as letras de câmbio internacionais. que somente ela permite ao papel moeda circular.

para um governador de estado. mas dado que o dinheiro só aparece gradualmente. se cunhava na moeda apenas a imagem do objeto (boi. assim. no Dnieper. o valor de um boi médio. uma vaca. pois só ela transforma um objeto realmente em dinheiro. para comprar peixe se dá. Aqui a necessidade de considerar a igualdade de valor como igualdade quantitativa – obviamente um ponto de apoio forte. talvez.tradução ainda a revisar . uma camela. mas mesmo assim não renunciando à correspondência externa. Supõe-se então que esse povo de pescadores utilizava originalmente o atum como unidade de troca e – talvez em razão de suas relações com tribos vizinhas mais primitivas – julgasse necessário. uma jumenta. Antonio Carlos Santos . por exemplo. na formação do valor primitivo – se refugiou na expressão lingüística. para o de um chefe de um vilarejo. uma colônia de Mileto. da mulher de um governador. O mesmo sentimento fundamental aparece quando o Avesta prescreve que o médico deve exigir como honorário para o tratamento do proprietário de uma casa o valor de um boi ruim. vale a mesma medida de conchas cauri. provavelmente. o de um boi valioso. em regra. Sobre esse dinheiro cauri se conta ainda que o modo de compra consiste no fato de duas mercadorias de mesma medida valerem a mesma coisa: uma medida de grãos. enquanto em outros casos menos evidentes. esse modo só vai se desenvolver a partir do modo mais primitivo de comparação direta entre os objetos de troca. E. O nível mais baixo. diante dela. da mulher de um chefe de vilarejo. que impressiona os sentidos. tanta dewarra quanto sua própria extensão. A correspondência dos sexos entre o serviço prestado e sua remuneração demonstra também aqui a tendência de se 14 .A filosofia do dinheiro trad.. sob aspectos bem diferentes. representar o valor de um atum em uma moeda. Os nativos utilizam como dinheiro conchas cauri enfiadas em um cordão que eles chamam de dewarra. uma comparação de valor que não desemboque em uma congruência quantitativa representa um processo intelectual mais alto. uma égua. uma quadriga. nos seja dado por um caso da Ilha Nova Bretanha. Esse dinheiro é usado em função de sua extensão: a extensão de um braço. com a adoção da moeda. Aqui a equivalência direta entre mercadoria e preço atinge sua expressão mais acabada e mais simples. Da cidade de Olbia. através da igualdade de sua forma. outros fenômenos podem ser atribuídos à mesma sensação fundamental. etc. Um rudimento dessa avaliação igual de quantidades iguais se encontra no fenômeno relatado por Mungo Park no século XVIII a respeito de algumas tribos do oeste africano. Lá circulava uma moeda com forma de barra de ferro que servia para designar as quantidades de mercadoria de modo que uma determinada medida de tabaco ou de rum fosse denominada uma barra de tabaco ou uma barra de rum. para o tratamento da mulher de um proprietário. atum e cesta de peixe. da mulher de um prefeito.favor não citar e uma soma de dinheiro representa a igualdade das frações entre ambas como numeradores e que as quantidades globais de mercadoria e de dinheiro atuam economicamente como denominadores – é obviamente efetiva em toda parte. peixe. ela concretizaria diretamente a igualdade do valor com o objeto que substituía.Georg Simmel . machado) que havia constituído a unidade fundamental na época do escambo e cujo valor a moeda representava. nos chega uma moeda de bronze em forma de peixe com inscrições que significam. para um prefeito municipal.

o obang japonês (220 marcos). de significado e de valor. também dominava as trocas monetárias e exigia para um objeto extremamente grande um signo monetário igualmente grande: que uma desigualdade quantitativa extrema entre fenômenos permita uma igualdade de força. Onde a prática requer a execução de equivalências. Vale aqui ainda a regra do camponês: riqueza atrai riqueza – à qual se associa um sentimento natural que só pode ser superado por um empirismo mais refinado e reflexivo. há também em Anam uma moeda de prata que vale 60 marcos. Por isso. é a menos ligada à materialidade de seu substrato. é a que menos mudou ao longo das transformações da economia moderna. cobre.A filosofia do dinheiro trad.Georg Simmel . a circulação do dinheiro estava reservada não às pequenas necessidades diárias. 15 . exige-se inicialmente uma imediaticidade a mais visível da equivalência. de que o importante é a quantidade. mas aos objetos relativamente grandes e valiosos e.favor não citar basear a equivalência entre valor e contravalor em uma igualdade externa imediata. no mesmo sentido. daí vem o fato de a primeira nota de banco que conhecemos e que foi conservada. Esse caráter quantitativo enorme não é próprio apenas das formas primitivas da moeda em metal. da China do século XIV. como demonstra a quantidade imponente de dinheiro primitivo em relação a seus contravalores. a função do dinheiro como instrumento de medida que. bronze. A abstração que permite. aos mais altos detentores do poder. em relação a eles. e os sátrapas a pequena moeda de ouro de menos de 25 centavos. enquanto as pequenas (do mesmo metal) são produzidas por instâncias inferiores: assim. Desse mesmo sentimento. mas sim como expressão abstrata para o valor do outro lado. com a finalidade de que um lado da equivalência do valor não mais funcione como valor em si e para si. um pequeno pedaço de metal seja reconhecido como equivalente de qualquer objeto muito maior intensifica-se. usavam como dinheiro peças de linho. só pode ser concebido por estágios evolutivos superiores. o benta dos asantes. Também no caso do dinheiro feito com metais preciosos encontramos as moedas maiores quase que exclusivamente entre povos de culturas menos desenvolvidas ou vivendo em uma economia natural: as maiores peças de ouro são o lool dos anamitas que vale 880 marcos. o antigo groschen era uma grossa (grossus) peça de prata. no caso das grandes moedas. Antonio Carlos Santos . medir 18 polegadas inglesas de comprimento por 9 de largura. desde o início. o dinheiro no início de seu desenvolvimento consistia em peças grandes e pesadas: peles. o direito de cunhagem é reservado.tradução ainda a revisar . o antigo marco valia uma libra de prata e uma libra esterlina 70 marcos. própria a todas as civilizações pouco desenvolvidas. mais tarde. Em condições primitivas e de economia natural. ou muito numerosos como a moeda cauri. o grande rei da Pérsia cunhava as grandes peças. mas também dos tipos de moeda que lhe precederam: os eslavos. o poder de compra de uma tal peça alcançava 100 galinhas ou grãos para 10 homens durante um mês! E mesmo no interior do sistema monetário desenvolvido é notável como o conceito de dinheiro se torna cada vez menos determinado pelo valor metal. O florim medieval era uma moeda de ouro do valor de um ducado – que hoje vale 100 cruzados de cobre. a tendência à simetria. que no primeiro século de nossa era se instalavam entre o Saale e o Elba e que eram um povo extraordinariamente rude. gado. Do mesmo modo.

obviamente. a descoberta de um mundo novo a partir do material do velho mundo. pode ser igual ou comparável. A possível igualdade de tais relações cria. O dinheiro. como produto dessa força ou forma fundamental inerente a nós.A filosofia do dinheiro trad. em relação à quantidade de força que cada uma tem de empregar. uma diante da outra. é não somente seu exemplo mais amplo. por assim dizer. Antonio Carlos Santos . o mesmo domínio ou sujeição em relação a uma terceira. totalmente estranhas entre si. pois. elas representam a mesma tensão da vontade e o mesmo sacrifício. Finalmente. que o desarmônico só seja percebido através da exigência de uma ordem unificadora e de uma ligação íntima dos valores entre si – esse traço essencial. A partir do problema. assim como a segunda em relação a uma quarta pessoa. seus valores não se ordenariam segundo o nexo de uma escala. nasce em nós uma norma e com ela sua realidade tem uma relação perceptível de proximidade e distância que. tão logo a primeira demonstra o mesmo amor ou ódio. não mais por comparação direta. um último exemplo. nada menos que sua própria encarnação. então essas relações fundamentaram uma igualdade profunda sob a alteridade do ser-para-si delas. E agora indo mais longe: não importa o quão incomparáveis duas pessoas possam ser em suas qualidades específicas. embora suas relações com um terceiro e quarto elemento sejam iguais – mas é justamente por isso que um se torna um fator para se calcular o outro. uma afinidade ideal segundo o valor. Duas potências de níveis muito diferentes se manifestam – e se tornam comparáveis porque. mas também as relações dessas duas com outras duas e de condensá-las na unidade de um juízo de igualdade ou semelhança.favor não citar Estabelecer uma proporção entre duas grandezas. E isso se estende não apenas ao mundo da arte. Não somente para nosso sentimento se trama uma espécie de afinidade entre dois elementos – na verdade. a partir de obras singulares.tradução ainda a revisar . mas de tal modo que cada uma delas entre em relação com outra grandeza e que ambas as relações sejam iguais ou desiguais entre si – esse é um dos maiores progressos que a humanidade fez. uma relação com uma terceira funda uma igualdade entre elas. do material. eles são estranhos um ao outro em seu caráter imediato e substancial. Dois movimentos que possuem velocidades completamente diferentes obtêm homogeneidade e igualdade tão logo observamos que a aceleração em relação ao momento inicial é em ambos a mesma. apesar da grande variedade de obras. nossa imagem de mundo deve à capacidade de considerar não só duas coisas. se cada uma não tivesse uma relação determinada com o ideal peculiar à sua categoria. Não poderíamos comparar entre si o grau de perfeição de obras de arte de natureza distinta.Georg Simmel . uma ordem precisa. Pois o dinheiro só pode expressar as relações de valor das coisas entre si realizadas na troca de modo que a relação da soma singular com um denominador obtido de alguma maneira é a mesma que entre a mercadoria correspondente a essa soma e a totalidade das 16 . um mundo estético. mas. que da matéria de nossas avaliações isoladas se origine um conjunto de significados de importância igual ou gradual. dois destinos se encontram distantes um do outro na escala da felicidade – mas eles adquirem logo uma ligação mensurável desde que se considere cada um deles em função da quantidade de mérito que torna o portador digno ou indigno dessa felicidade. de seu estilo.

de acordo com sua essência. apenas um limitado apoio desse tipo. ainda vai mudar mais: a partir da forma da imediaticidade e da substancialidade em que realiza essa incumbência. é muito mais o produto imediato do trabalho como tal que representa o valor decisivo. em parte. finalmente. embora a “abundância” de dinheiro não seja buscada apenas por si mesma e sim por fins funcionais determinados que podem ser alcançados por. na verdade. digamos. cujas partes entre si ou face ao todo teriam. essa transição começa. antes. como meio de conservação e de transporte de valor. No que se refere a seu significado ideal como padrão e expressão do valor das mercadorias. ou seja. Um novo progresso nessa direção seria pensar que os valores que servem a esses fins não precisam da forma dinheiro. ainda guiado pelo princípio “riqueza atrai riqueza”. o que ele consegue em virtude daquela capacidade do espírito cultivado: de equivaler as relações das coisas mesmo ali onde as próprias coisas não possuem equivalência ou similitude alguma. O esforço dos governos de levar ao país o máximo de dinheiro possível é. totalmente independente de um valor próprio que lhe seja inerente. isso demonstram os fenômenos mencionados acima ao tentarmos levar também o dinheiro a uma ligação imediata desse tipo com seus contravalores. mudou. ele permaneceu totalmente inalterado. ele esgota seu sentido ao exprimir a relação de valor justamente desse outro objeto face a outro. o que importa é a relação de suas partes entre si. enquanto como mercadoria intermediária. é. Tornou-se evidente que. de caráter e. mas o objetivo final com o qual devia colaborar era o estímulo à indústria e ao mercado. Antonio Carlos Santos . É um pouco como o objetivo da velha política: conquistar o máximo de território possível e povoá-lo com o máximo de gente possível: até quase o fim do século XVIII.A filosofia do dinheiro trad. nenhum homem de Estado poderia imaginar que a grandeza nacional pudesse ser promovida de outra maneira que não através da conquista territorial. passa à forma ideal. O dinheiro não é. exerce seus efeitos simplesmente como ideia que se liga a qualquer símbolo representativo. um objeto valioso. ou seja. por acaso. em parte. Na economia moderna.favor não citar mercadorias em questão na troca. 17 . segundo nossos modelos acima. com o sistema mercantil. é cada vez menos importante a presença física do equivalente monetário.tradução ainda a revisar . a mesma proporção que outros valores entre si. por exemplo. O significado do dinheiro. A justificativa para tais fins em determinadas circunstâncias históricas não nos impediu de pensar que essa abundância substancial é importante apenas como fundamento de uma evolução dinâmica que demanda. expressar o valor relativo das mercadorias.Georg Simmel . com uma terceira grandeza – portanto a escala que o dinheiro oferece para a determinação de valores nada tem a ver com o caráter de sua substância. assim como é indiferente para que se meça o tamanho de um espaço que a escala seja de ferro. Que essa capacidade tenha se desenvolvido gradualmente a partir da capacidade mais primitiva de julgar e expressar a equivalência ou semelhança entre dois objetos de modo imediato. processos flutuantes que excluem o dinheiro – o que particularmente comprova a moderna troca internacional de mercadorias. para o crescimento da produção e da riqueza. madeira ou vidro.

e que. aos quais ela se refere. Mas essas diferenças não são. por outro lado. em um movimento inverso. demonstra um contínuo fluxo e refluxo entre elas. se abre novamente uma solução para essa ligação. os símbolos não param de se dissolver sendo reduzidos a seus substratos originais. mas ao mesmo tempo. antes. só nos últimos séculos. se o conhecimento teórico se dirige diretamente à realidade sensível ou à sua representação mediante conceitos gerais e símbolos metafísicos ou mitológicos – tais são as diferenças mais profundas que separam as orientações vitais. cresce a simbolização da realidade. quanto aos mais desenvolvidos e complexos. elas passaram a ser objeto de cautela – o símbolo se confunde com o significado afetivo da realidade. mero símbolo usado com finalidade artística. se a consideração que pessoas têm umas com as outras se manifesta em um esquematismo rígido em que as posições respectivas são indicadas através de determinadas cerimônias ou de uma cortesia.favor não citar Desse modo. em relação a isso. de um devotamento e de um respeito informal. seus meros símbolos. em que medida servem como mediação entre símbolos. se submetem à mudança. a história interna da humanidade. Agora. todo círculo. se ligarem as mesmas sensações que às próprias coisas. A orientação naturalista em arte chamou a atenção para a falta de diferenciação e de liberdade no caso de à palavra.tradução ainda a revisar . Podemos caracterizar as diferentes camadas culturais da seguinte forma: qual a amplitude e em que pontos elas têm uma relação imediata com os objetos que lhe interessam e.Georg Simmel . todo indivíduo) demonstra uma certa proporção de simbolismo ou realismo direto no tratamento dos objetos que lhe interessam ou que justamente essa proporção permanece no todo imutável e apenas os objetos.A filosofia do dinheiro trad. Assim nos domínios mais estritos. Talvez se possa afirmar com mais precisão que uma acentuação particularmente marcada de simbolismo é própria tanto a estratos mais primitivos e ingênuos. deixando as palavras. novamente livres. Se. rígidas. por um lado. apareça uma maior liberdade geral nos estratos mais cultos no que tange à abordagem de assuntos delicados. o desenvolvimento progressivo no campo do conhecimento nos libera cada 18 . por exemplo. nesses tempos modernos. acordos e contratos são realizados pela simples enunciação de seu conteúdo ou devem ser legalizados e sancionados por atos solenes de caráter simbólico. o desenvolvimento do dinheiro parece se inserir em uma tendência cultural profundamente estabelecida. a representação da indecência não é uma representação indecente e é preciso separar as sensações de realidade do mundo simbólico em que cada arte. onde se pressupõe uma mentalidade objetiva e pura é muitas vezes permitido se falar do que antes era proibido – o sentimento de vergonha se dirige exclusivamente às coisas. as necessidades religiosas são satisfeitas através de ritos e fórmulas simbólicas ou através de uma comunicação direta do indivíduo com seu deus. no que tange aos objetos. Tomo um exemplo bem singular. Antonio Carlos Santos . como nos mais amplos. Talvez. se movimenta. Os assuntos sexuais sempre estiveram encobertos pela disciplina e pela vergonha. se compras. a relação entre realidade e símbolo oscila e se chega quase a acreditar – mesmo se tais generalidades se deixassem demonstrar – que ou todo nível de cultural (ou toda nação. inclusive a naturalista. enquanto as palavras que os descrevem se mantêm ainda intocadas. naturalmente.

sob a impossível pressuposição de sua factibilidade. de modo que esse resultado vale sem reservas para essas singularidades e pode ser a elas aplicado. segundo sua avaliação das forças. nos graus mais elevados serve justamente a uma economia de forças e a uma atitude com relação a fins dominadora das coisas. por assim dizer. em termos lógicos.A filosofia do dinheiro trad.favor não citar vez mais dos símbolos. Isso só se torna possível à medida que as relações de quantidade entre os objetos vão. por assim dizer. de tal modo que o vencido se submete ao resultado como se tivesse sido suplantado na batalha. Ele mesmo é. A riqueza dos momentos – forças. Por trás dos representantes de qualquer potência coletiva existe. portanto. ou seja. poder-se-ia então poupar qualquer batalha.Georg Simmel . o movimento intelectual entre os representantes dos diferentes grupos de poder simboliza aquilo que poderia acontecer na luta real. a força real de seu partido e é na medida exata dessa força que sua voz se faz ouvir e que seus interesses podem triunfar. substâncias e acontecimentos – que toda vida evoluída deve ter em conta nos impele a uma condensação em símbolos totalizantes. toda inteligência de comando encontrasse uma expressão simbólica acabada. na forma potencial condensada. seria forçado a fazê-lo pela deflagração da greve real. Aquela proposta utópica: decidir as guerras vindouras em uma partida de xadrez entre os generais – é absurda porque o desfecho de uma partida de xadrez não nos diz nada sobre o desfecho de uma batalha. todas as chances. faz com que se opere muito mais com resumos. não podendo. tanto no que diz respeito à política internacional. Lembro. poderia tornar as batalhas físicas desnecessárias.tradução ainda a revisar . a acumulação extensiva e intensiva dos momentos vividos. mas no campo prático os torna cada vez mais necessários. Cada partido trata de ceder apenas no ponto em que. na luta física. por sua vez. Ocorreu 19 . quanto àquela dos partidos. simbolizá-la e representá-la com resultados válidos. uma espécie de jogo de guerra em que todos os exércitos. fazemos cálculos seguros de que teremos o mesmo resultado que teríamos se tivéssemos operado com a total amplitude das singularidades. Ao contrário do simbolismo nebuloso da visão de mundo mitológica. Assim se evita a ultima ratio antecipando os eventos em representações condensadas. por exemplo. que nos graus mais baixos da vida. condensações e substituições na forma de símbolos do que era necessário em relações mais simples e estritas. com eles. A diferenciação crescente de nossas representações traz com ela uma certa separação psicológica entre a pergunta sobre o quanto e a pergunta sobre o que – mesmo que isso pareça. Podemos pensar aqui na técnica diplomática. Se sempre fosse possível com certeza tal substituição e medida das forças reais através de meras representações. fantasioso. uns contra os outros. Mas esses não se medem mais imediatamente. o simbolismo. o simbolismo moderno demonstra uma incomparável imediaticidade na apreensão dos objetos. das negociações entre trabalhadores e patrões sob a ameaça de uma greve. significa amiúde desvio e dispêndio de força. e sim através de meras representações. Antonio Carlos Santos . o símbolo desse poder. ao contrário. É certamente a relação de forças reais que decide sobre uma saída em caso de conflito de interesses. se tornando autônomas.

antes na região do oceano Índico e na Europa pré-histórica. apenas o número importava e à medida que cresciam as transações se utilizava. Nos estágios inferiores da economia. um dinheiro de valor absolutamente concreto como o gado ou pedaços de algodão que circulavam nas Filipinas como grandes moedas. quando de uma quantidade qualquer de objetos se retirou essa quantidade qualquer para transformá-la em um conceito autônomo. não teria sido possível se não fosse puramente ideal. mais o interesse se dirige às suas relações quantitativas e. Um exemplo muito característico dessa passagem da expressão que pode ser determinada qualitativamente para uma determinação quantitativamente simbólica nos oferece um relato da velha Rússia. Essa seleção e ênfase da quantidade facilita o tratamento simbólico das coisas: de fato. então as relações. é uma realização do espírito de consequências extraordinárias. parece que um dinheiro que fosse desde o início apenas ideal não poderia satisfazer às exigências econômicas mais altas. acaba-se por declarar como o ideal do conhecimento dissolver todas as determinações qualitativas da realidade em determinações puramente quantitativas. Antonio Carlos Santos . Como consequência. como o dinheiro da casca da amoreira. que circula há mil anos em uma grande parte da África. de outro. para facilitar. Aqui se mostra claramente como a redução ao ponto de vista puramente quantitativo dá sustentação para a simbolização do valor. apenas a ponta de uma pele como dinheiro até que. sobre a qual então repousa a realização absolutamente pura do dinheiro.favor não citar inicialmente e com maior sucesso na formação dos números. circularam como meio de troca.tradução ainda a revisar . um totalmente ideal. as determinações e os movimentos de um objeto podem fornecer uma imagem válida das de outro objeto.A filosofia do dinheiro trad. por fim.Georg Simmel . o mesmo que todas as outras. que Marco Polo descobriu na China. finalmente. Ao contrário. provavelmente validados pelo governo. como as peças de porcelana com ideogramas chineses válidos no Sião. A extraordinária expansão do dinheiro cauri. se encontram os maiores contrastes entre os valores monetários. Mesmo a possibilidade do dinheiro está ligada a ela na medida em que ele. expõe a pura quantidade do valor em forma numérica. que hoje nos parece óbvia. A possibilidade de símbolos através da separação psicológica da dimensão quantitativa das coisas. Mas no transcorrer das transações o tamanho e a beleza das peles singulares perderam qualquer influência sobre seu valor de troca de tal modo que cada pele tinha simplesmente o valor de uma pele. os exemplos mais simples são as fichas que ilustram visivelmente as determinações numéricas de quaisquer objetos ou o termômetro à janela que nos indica na escala numérica o mais ou menos do sentimento de calor que devemos esperar. pedaços de pele. Quanto mais os conceitos se estabelecem segundo seu conteúdo qualitativo. apesar do fato de a ausência de relação direta com todos os valores presentes – que implica uma relação igual entre elas – o tornar apto a uma difusão particularmente grande. Lá se utilizou primeiro a pele de marta como meio de troca. dado que as coisas mais diferentes no que tange ao conteúdo podem coincidir em termos quantitativos. de um lado. como o cauri. abstraindo toda qualidade do valor. Um certo desenvolvimento funcional para além 20 .

cresce extraordinariamente o significado do intelecto para a condução da vida. ouro e prata. a cobertura de notas bancárias através reservas monetárias! – mas também uma aceleração deles. entre pessoas refinadas. No produto de exportação. Essa forma de vida pressupõe não apenas um incremento extraordinário dos processos psíquicos – que pressupostos psicológicos complexos já não exige. O princípio cada vez mais ativo da economia de forças e substâncias leva à utilização cada vez mais ampla de substituições e símbolos que não têm nenhuma afinidade de conteúdo com aqueles que representam. Tão logo a vida não mais transcorre entre singularidades sensíveis. arroz na Carolina. se. então. entre os mais ignorantes só se pode arrancar através da reação dos fatores em questão – é porque o significado obtido por objetos e atos simbólicos só se torna possível com uma intelectualidade muito elevada. Mas o ponto ótimo entre os tipos de dinheiro abstrato que já mencionamos e essa moeda produto do consumo é a moeda feita de jóias. a execução mais rápida e mais precisa dos processos de abstração produz um considerável avanço. é suficiente uma palavra levemente sugerida ou um gesto mínimo para estabelecer uma relação duradoura e sólida.Georg Simmel . particularmente na relação entre os humanos. Se em tempos mais rudes. se apenas uma assinatura nos obriga incondicionalmente em termos internos e externos. nem tão grosseira e singular como os segundos. hoje basta a mera presença de um funcionário. Antonio Carlos Santos . Esse é o suporte que conduz o dinheiro mais facilmente e de modo mais seguro à sua transformação em símbolo. só com a existência de uma força espiritual tão autônoma que dispense a intromissão de singularidades imediatas.A filosofia do dinheiro trad. a ordem pública só podia ser mantida pela força física. se estamos obrigados a sacrifícios em função de contas escritas em um papel. enquanto entre os menos evoluídos isso só acontece após longas negociações ou comportamentos longamente acumulados. o mesmo acontece quando operações com valores se concretizam em um símbolo. porque não é nem tão arbitrária e destituída de sentido como os primeiros. é preciso passar pelo estágio dessa ligação para atingir o máximo de sua eficácia e parece que não poderá totalmente se desligar dele num futuro previsível.tradução ainda a revisar . portanto. mas se deixa determinar através de abstrações. chá na China e peles em Massachusetts.favor não citar dos tipos de dinheiro de valor concreto começa quando artigos naturais que são ao mesmo tempo artigos de exportação passam a valer como meio de troca: o tabaco. bacalhau salgado na Nova Escócia. de fato. que perde cada vez mais a relação material com as realidades definitivas de seu domínio e se torna mero símbolo. o valor se destaca psicologicamente do caráter imediato próprio ao consumo interno dessa moeda-mercadoria. À medida que símbolos secundários – como se pode nomeá-los para fazer a diferença com um simbolismo ingênuo de estados espirituais ingênuos – vêm substituir cada vez mais na prática a apreensão imediata dos objetos e dos valores. Conduzi as coisas até aqui para mostrar claramente como o dinheiro também se insere nessa corrente cultural. 21 . na Virginia. médias e condensações.

estético ou outro qualquer. assim como no interior do campo comercial. seja qual for o progresso realizado no sentido de uma melhora na circulação do dinheiro em relação à moeda de pano. II É preciso ter em mente que assim apenas uma direção do desenvolvimento é determinada. de dois côvados cada.favor não citar uma virada fundamental da cultura para a intelectualidade.tradução ainda a revisar . o soberano. ao qual poderiam nos conduzir as seguintes noções. A ideia de que a vida deva se apoiar essencialmente no intelecto que. particularmente onde acontecem apenas transações com dinheiro. deixa de ser dinheiro. e assim com todos os outros tipos de dinheiro. Parece que até o objeto mais útil tem de renunciar à sua utilidade para funcionar como dinheiro. Como ocorre muitas vezes. o intelecto é. O aumento das capacidades intelectuais e de abstração caracteriza a época em que o dinheiro se torna cada vez mais um símbolo puro indiferente a seu valor próprio. o dinheiro está completamente fora dessa série. por exemplo. sem dúvida. é fixado desse modo na forma do enrijecimento e da antecipação o que só pode ser alcançado com infinitas aproximações. O possível uso do ouro e da prata para fins técnicos e estéticos não pode mais ser concretizado tão logo ambos passam a circular como moeda. Por isso. elas só são dinheiro por não serem mais utilizadas como sal. Na costa da Somália. Todos os outros valores devem ser comparados entre si e trocados segundo a medida de seu quantum de utilidade com o objetivo de se apropriar justamente desse quantum. como dinheiro. sobre a ausência de valor da substância dinheiro. Todos os inúmeros efeitos irradiados pelo dinheiro material no campo de nossas finalidades devem se calar para que seu efeito como dinheiro aconteça. essa forma de uso indica a tendência a se renunciar à utilização do pano como pano. na medida em que acentuam a diferença que o dinheiro apresenta em relação a todos os outros valores e com isso tentam provar que o dinheiro não pode ser fundamentalmente um valor do mesmo tipo dos outros valores.A filosofia do dinheiro trad. devem ser refutadas algumas concepções próximas que aparentemente concordam com a nossa. são retirados de circulação e deixam de ser dinheiro. Se na Abissínia. que pode ser cortada e recomposta à vontade. Antonio Carlos Santos . Sobre a tendência específica dos 22 . No momento em que esses metais preciosos desenvolvem seu valor prático. pedras de sal cortadas de modo específico circulam como moedas. não devemos cair no dogma de seu não-valor.Georg Simmel . aquele que começa com o valor real do dinheiro material coordenado a todos os outros valores. circulavam antigamente peças de algodão azul. é tida como a mais valiosa em termos práticos – como nossas reflexões posteriores vão nos mostrar – anda lado a lado com a penetração da economia monetária. Pois tão logo é usado no mesmo sentido do contravalor a ser obtido. Ao rejeitar o valor dogmático do dinheiro. entre todas as nossas energias psíquicas.

pode-se dizer que eles voltam muito facilmente à forma dinheiro. suas limitações pessoais. mesmo depois de terem sido utilizados sob outras formas para fins diversos. segundo outras relações. Pois se eu compro um metro de lenha. Se afirmamos que o valor do dinheiro consiste no valor de sua substância. A matéria crua do sentimento com sua impulsividade. dito de outro modo: de funcionar como dinheiro ou como valor de uso. Pois na medida em que a lírica e a música se constroem sobre a força de emoções íntimas subjetivas. dados os pressupostos. reconquistamos a liberdade e a autodeterminação. O contrasenso que essa afirmação parece conter indica que o dinheiro não requer necessariamente como suporte certas substâncias que são valiosas “em si”. seu caráter de arte exige que essa imediaticidade seja superada. avalio também sua substância pelo serviço que ela me presta como matéria que produz calor e não por outros usos possíveis. pode parecer que o dinheiro é novamente inserido nas outras categorias de valor. Antonio Carlos Santos . Se após fortes entraves e constrangimentos externos à nossa atividade.Georg Simmel .A filosofia do dinheiro trad. Esse resultado do aquilo-que-não-é para aquilo-que-é parece algo modificado e nossa questão específica – apesar da estranheza dos conteúdos – está mais próxima do significado que a vida sentimental imediata tem para a obra de arte lírica ou musical. Mas na verdade não é bem assim. isso significa que ele se encontra nos aspectos ou nas forças dessa substância segundo os quais ou pelos quais ele justamente não é dinheiro. orientados eticamente de modo diverso. e da questão de se saber como o sentido e o valor dessa função concretizada são modificados pela retirada das outras. ou seja. a grandeza moral de uma tal avaliação não é extraída do momento em que ela realmente acontece – pois o conteúdo ético desse mesmo momento não é diferente. Se uma tal renúncia a todas aquelas funções de valor sobre as quais se fundou o valor necessário da substância monetária nos permite decidir com razão pela possibilidade de o dinheiro ser sempre apenas dinheiro e nada além disso – é o que nos resta provar. Para compreender a coexistência de diferentes possibilidades é preciso ressaltar como a sucessão de múltiplas funções afeta aquela que finalmente sobrevive. Trata-se aqui do fenômeno extremamente importante do objeto com muitas possibilidades funcionais das quais apenas uma. e do fato de esses momentos não mais existirem. a essa ação se liga um sentimento de bem-estar e de valor que não brota de modo algum do conteúdo singular ou do sucesso de tal ação e sim exclusivamente da superação da forma de dependência: a mesma ação. da situação do justo desde sempre – e sim dos que o precederam. sua eventualidade heterogênea constitui sem dúvida a 23 . mas por isso mesmo estão sempre diante da alternativa de ser dinheiro ou jóia. careceria do encanto que brota da simples supressão daquela forma de vida anterior. em meio a uma série ininterrupta de ações autônomas. pode ser concretizada.tradução ainda a revisar . mas que basta transferir a capacidade de funcionar como dinheiro a quaisquer outras substâncias irrelevantes. Com isso.favor não citar metais preciosos a se tornar dinheiro material. com a exclusão de todas as outras. Se o pecador arrependido deve ter mais valor na ordem ética mundial do que o justo que nunca teve um tropeço.

Exigências prementes súbitas nos ensinam que ainda temos talento e forças para tarefas que até agora pareciam distantes. uma grandeza descuidada da existência. por causa deles. por assim dizer. inúmeras chances de outros prazeres e ocasiões para nos pôr à prova. em especial a pessoas socialmente inferiores. mas a pureza da arte exige distância. pouco observado em virtude de estar profundamente radicado em nossas avaliações fundamentais. alguma coisa que não dá a ele – mais é importante para ele que o outro lhe dê uma parte de si. Quanto mais o beneficiário percebe que o outro conserva alguma coisa para si mesmo. E assim indefinidamente no significado de nossas ações e criações para nós mesmos. energias que poderiam permanecer latentes para sempre. mas para além do valor próprio desse não-gozo se irradia dele sobre o que possuímos de fato agora um encanto novo. E finalmente o caso mais decisivo e geral desse tipo. além das forças que ela comprova. enquanto a forma imediata se desvanece. perde valor a seus olhos quando passa de um certo limite. Antonio Carlos Santos .A filosofia do dinheiro trad. A doação amigável.favor não citar condição da obra de arte. a quem poderíamos dar tanto e que poderiam também nos dar tanto – não é em si e para si apenas um dispêndio suntuoso. essa representa. E quando se diz que o encanto da obra de arte vive na ressonância desse sentimento autóctone. afastamento dessas emoções. finalmente. assim como para aquele que a desfruta: o de nos elevar para além da relação imediata com nós mesmos e com o mundo. Se de todas as possibilidades a vida permite apenas um número muito limitado. Isso demonstra que em cada pessoa. quantas formas de atividade permaneceram não desenvolvidas e têm de sacrificar seu quantum de força para que elas alcancem seu desenvolvimento. elevado e concentrado. se nenhuma necessidade fortuita as obrigasse a sair. À medida que uma multiplicidade dessas confirmações é sacrificada para que se possa chegar a uma realização determinada. um extrato de energias vitais de alcance muito mais amplo e retira da recusa ao desenvolvimento daquelas um significado e uma precisão. dessa comoção originária da alma. O fato de somente uma das inúmeras possibilidades da vida ter se tornado realidade lhe empresta um tom de vitória e sua marcha triunfal é constituída pelas sombras de uma plenitude vital não remida e não desfrutada. seu valor depende daquilo que deixamos para trás e que continua a agir como aquilo que não está mais lá. essas nos parecem tão mais importantes e valiosas quanto mais claramente percebermos a escolha que elas representam. Mesmo isso que se dá ao outro tira muitas vezes seu valor daquilo que se retém ou decididamente se guarda para si.Georg Simmel . um tom de 24 . quando se é muito pouco reservado.tradução ainda a revisar . Não apenas nos encontros e desencontros das pessoas. repousa uma quantidade indeterminada de outras potências de modo que. estamos admitindo que o específico desse encanto não reside no que é comum à forma imediata e à forma estética do conteúdo afetivo. Parece-me que o encanto que um número enorme de conteúdos vitais exerce sobre nós deve sua intensidade ao fato de deixarmos inexploradas. Pois esse é todo o sentido da arte para o criador. mas na nova tonalidade que a forma estética adquire. qualquer pessoa poderia ter se tornado qualquer coisa de muito diferente do que se tornou de fato. em suas separações após um breve contato. na completa estranheza em relação a tantos outros.

É bem verdade que os outros valores do dinheiro material precisam deixar de funcionar para que este se torne precisamente dinheiro. então. ou seja. vemos que os usos potenciais não concretizados contribuem enormemente para seu valor como dinheiro. pois pode se apropriar diretamente de tudo 25 . esse valor implica que um objeto corresponda a uma determinada necessidade que existe em muitos indivíduos ou em grande intensidade.Georg Simmel . Antonio Carlos Santos . um efeito duplo. Se aquilo que determina o valor de um objeto é o sacrifício feito em seu favor. a próxima quer nos fazer acreditar que o dinheiro não pode ser um valor. o valor percebido da função concretizada se compõe de seu conteúdo positivo e da negação simultânea das outras funções sacrificadas. Esse tipo de avaliação tem. essas duas funções se achavam em pura interação: o significado das conchas como ornamento adquire certamente um tom particular de distinção justamente pelo fato de. Pensemos em uma personalidade absolutamente poderosa que no interior de um determinado círculo tivesse o direito despótico de dispor de qualquer coisa que desejasse – como se diz dos chefes nos mares do Sul que eles “não podem roubar”. Como em todos os outros casos.tradução ainda a revisar . para além da província de nosso ser a ela destinada. se recusar sua utilização potencial imediata como dinheiro. Ora. Quando o wampun dos índios era feito de conchas que serviam como dinheiro. seja entre muitos indivíduos diferentes – então tudo vai depender dos limites da reserva que não permitem que cada uma dessas necessidades encontre sua satisfação. se diversas necessidades que podem ser satisfeitas por um mesmo objeto entram em concorrência – seja com o mesmo indivíduo. mas o valor que ele possui enquanto tal e que o permite funcionar como tal pode ser determinado por aquelas possibilidades de valorização de que ele precisa abdicar. um tal ser não teria nunca ocasião de se apropriar também do dinheiro desse círculo. mas também era usado na cintura como adorno. porque tudo lhes pertence desde sempre –. Podemos considerar todos esses tipos como um caso de valor por sua raridade. o dinheiro material deve sofrer uma valorização de suas outras utilidades na medida em que se renuncia a seu uso como dinheiro. da renúncia a outras utilizações rebaixar o metal como dinheiro ao mesmo nível de valor das matérias totalmente sem valor. o mesmo acontece com o dinheiro material que não existe em quantidade suficiente para satisfazer. por sua causa. Em geral. O importante aqui não é o fato de as outras funções agirem e sim o fato delas não agirem. Em vez. Assim como o valor de troca do grão se baseia no fato de não haver grãos suficientes para satisfazer a toda fome sem problemas.A filosofia do dinheiro trad. além das necessidades de dinheiro.favor não citar distinção e força acumulada que fazem dela. todas as outras que se apresentam. para que ele seja dinheiro. É nesse tipo geral de formação do valor que o dinheiro pode se inserir. o ponto focal e o representante de sua totalidade. naturalmente. Mais diretamente que a opinião refutada aqui sobre a falta de valor do dinheiro material. então o valor da substância monetária reside no fato de que todas as suas possibilidades de valorização precisam ser sacrificadas.

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aquilo que o dinheiro pode comprar. Se o dinheiro fosse um valor que se juntasse aos outros valores, seu desejo poderia se dirigir tanto a ele quanto a qualquer outro. Como isso não acontece nos casos hipotéticos aqui mencionados, parece que se pode deduzir que o dinheiro é, na verdade, um mero representante do valor real do qual não se tem mais necessidade tão logo temos acesso direto aos objetos sem ele. Esse raciocínio simples supõe o que ele quer demonstrar: que o substrato monetário não tem valor próprio além de sua função como dinheiro. Se tivesse, poderia ser desejado pelo déspota não por seu significado como dinheiro e sim por seu outro valor, por seu valor substancial. Se esse valor falta desde sempre, sua falta não precisa novamente ser comprovada. Para além de sua inconsistência lógica, esse caso esclarece a modalidade peculiar de valor do dinheiro. O valor que o dinheiro possui enquanto tal, ele o adquiriu como meio de troca; quando não há nada para trocar, ele não tem nenhum valor. Pois seu significado como meio para conservar e transportar valor não é do mesmo gênero e sim derivado de sua função como meio de troca; sem ela, não poderia exercer mais nenhuma outra função enquanto sua função como meio de troca é independente. O dinheiro tem tão pouco valor para quem, por alguma razão, não atribui valor aos bens que ele pode comprar, assim como para aqueles que não precisam de dinheiro para alcançá-los. Em resumo, o dinheiro é expressão e meio da relação, do estar-referidoaos-outros dos seres humanos, sua relatividade, que faz com que a satisfação dos desejos de um dependa sempre mutuamente de outro; ele não encontra lugar onde não há relatividade alguma – seja porque não se deseja nada mais das pessoas, seja porque se está muito acima delas – portanto, por assim dizer, em nenhuma relação com elas – e a satisfação de qualquer desejo pode ser alcançada sem contrapartida. Visto dessa forma, o mundo do dinheiro está para o mundo dos valores concretos como o pensamento e a extensão para Spinoza; um não pode penetrar no outro, porque cada um expressa para si e em sua própria língua todo o mundo; ou seja, a soma dos valores em geral não se constitui da soma dos valores das coisas mais a soma do valor do dinheiro; o que há é uma certa quantidade de valor, que se realiza por um lado naquela forma, por outro nesta. Se o dinheiro se reduzisse a seu próprio valor e fosse destituído de toda coordenação com os objetos preciosos em si e para si, então realizaria no campo econômico a concepção extraordinária que fundamenta a teoria das idéias de Platão. A profunda insatisfação com o mundo sensível, ao qual no entanto continuamos presos, moveu Platão a conceber um reino das idéias, supra-empírico e acima do espaço e do tempo, que conteria a essência própria e absoluta das coisas. Em seu benefício, a realidade terrena é esvaziada, por um lado, de todo ser verdadeiro e de todo significado, por outro lado, no entanto, algo se irradia para ela dessas idéias, ao menos como sombra pálida desse reino iluminado do absoluto ela participa dele e adquire, através desse desvio, uma importância que lhe é negada em si e para si. Essa relação encontra, de fato, uma repetição ou confirmação no campo do valor. A realidade das coisas, tal como

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aparece ao puro espírito que conhece, ignora – assim estabelecemos no início dessas investigações – tudo sobre o valor; ela transcorre em meio a essa legalidade indiferente que destrói o mais nobre para poupar o mais vil, porque não procede justamente segundo as hierarquias, os interesses e os valores. Esse ser objetivo e natural nós o submetemos a uma hierarquia de valores, criamos uma articulação em seu interior em termos de bom e mau, nobre e vil, caro e sem valor – uma articulação que não toca o próprio ser em sua realidade palpável, de onde, porém, vem todo o significado que ele pode ter para nós e que percebemos, com toda a clareza sobre sua origem humana, estar em contradição ao simples humor e vontade subjetiva. O valor das coisas – o ético assim como o eudemonístico, o religioso assim como o estético – paira sobre elas como as ideias platônicas sobre o mundo: estranho ao ser e intangível, um reino governado por normas internas próprias que no entanto confere ao mundo seu relevo e suas cores. Ora, o valor econômico se origina de uma deriva desses valores primários imediatamente percebidos em que os próprios objetos, na medida em que podem ser trocados, são pesados uns em relação aos outros. No interior desse campo, não importa como ele se constituiu, o valor econômico ocupa a mesma posição específica em relação aos objetos singulares que o valor em geral: é um mundo para si que estrutura e classifica a concretude dos objetos segundo normas próprias, estranhas a eles: as coisas, ordenadas e ramificadas por seu valor econômico, constituem um cosmos totalmente diferente de sua realidade natural e imediata. Se fosse apenas a expressão do valor das coisas externas a ele, o dinheiro se comportaria em relação a essas coisas como as ideias, que Platão imaginava como substanciais, como seres metafísicos, em relação à realidade empírica. Seus movimentos: equivalências, acumulações e escoamentos – representariam imediatamente as relações de valor entre as coisas. O mundo dos valores, que paira sobre o mundo real, aparentemente desligado dele, mas dominando-o, encontraria no dinheiro a “forma pura” de sua representação. E assim como Platão interpreta a realidade, de cuja observação e sublimação vieram as ideias, como um mero reflexo dessas ideias, assim também as relações econômicas, os ordenamentos e flutuações das coisas concretas, parecem derivados de seu próprio derivado: ou seja, como representantes e sombras do significado atribuído a seus equivalentes monetários. Nesse sentido, nenhuma outra espécie de valor se encontra em uma posição mais favorável do que o valor econômico. Enquanto o valor religioso se encarna nos sacerdotes e na igreja, os valores éticos e sociais, nas administrações e instituições visíveis do poder do estado, o valor cognitivo, nas normas da lógica, nenhum deles está mais separado das coisas e dos processos concretos de valor, nenhum é o simples suporte abstrato de valor e nada além disso, em nenhum a totalidade do campo de valor em questão está tão bem refletida. Esse caráter de puro símbolo dos valores econômicos é o ideal almejado pelo desenvolvimento do dinheiro, que ele jamais alcança completamente. Ele se encontra originalmente – e isso tem de ser levado em conta – em série com todos os outros

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objetos de valor e seu valor substancial concreto se contrapõe ao deles. Com a necessidade crescente de meios de troca e de padrões de valor, ele deixa cada vez mais de ser apenas um elemento da equação para se tornar a expressão dela e portanto cada vez mais independente do valor de seu substrato. Ainda assim não pode se desfazer de um resto de valor substancial e não certamente por razões internas que decorrem de sua essência e sim por causa de certas imperfeições da técnica econômica. Uma delas diz respeito ao dinheiro como meio de troca. A substituição do valor próprio do dinheiro por um significado meramente simbólico pode resultar, como vimos, do fato de a proporção entre a mercadoria singular e o quantum global de mercadorias economicamente ativas naquele momento ser igual, com algumas modificações, àquela entre uma soma de dinheiro e o quantum global de dinheiro economicamente ativo naquele momento; do fato de os denominadores dessa fração terem efeitos práticos mas não conscientes, pois só os numeradores variáveis que determinam a circulação verdadeira interessam realmente; e do fato de que, nessa circulação, parece ter lugar uma equivalência entre uma mercadoria e uma soma de dinheiro que, certamente, repousa sobre bases totalmente distintas da equivalência primária entre o objeto e o valor substancial do dinheiro – mas uma se transformando gradualmente na outra. Se admitirmos essa evolução, então os fatores que emergem da respectiva soma global de valores se situam entre fronteiras extremamente flutuantes e a estimativa instintivamente adquirida só pode ser muito imprecisa. Talvez essa seja a razão pela qual não se pode renunciar totalmente a uma equação de valor imediata entre mercadoria e dinheiro. A porção de valor próprio, material, incluída no dinheiro, é o suporte e o complemento que precisamos, já que nosso conhecimento não consegue determinar a proporção que tornaria supérflua uma igualdade essencial entre aquilo que é medido e o padrão de medida, ou seja, o valor próprio do dinheiro. Quando se percebe, e se mostra na prática da economia, que essa proporção necessária não possui nenhuma exatidão, então o ato de medir exige uma determinada unidade qualitativa entre o padrão de valor e os próprios valores. Talvez não seja de todo inútil esclarecer um caso análogo de utilização estética de metais preciosos. A propósito da exposição de 1851, em Londres, um conhecedor fala sobre a diferença no trabalho com ouro e prata entre ingleses e indianos: no caso dos ingleses, o fabricante parece se esforçar para comprimir a maior quantidade possível de metais em um mínimo de forma; no dos indianos, “a esmaltação, a incrustação, a perfuração etc. são tão utilizadas que uma quantidade mínima de metal acolhe a maior quantidade possível de trabalho altamente qualificado. Mas não é certamente indiferente para o significado estético desses trabalhos que o pouco de metal em que as formas se expressam seja justamente metal precioso. Aqui também a forma, ou seja, a mera relação das partes substanciais, se torna o mestre em detrimento da substância e de seu valor próprio. No entanto, mesmo que se tenha chegado ao ponto de a quantidade de metal utilizada ter apenas um valor evanescente, é preciso que esse mínimo seja sempre uma matéria nobre para que o objeto enfeite da melhor maneira e agrade esteticamente. Não é seu valor material
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Enquanto as funções de troca do dinheiro. Mas isso é logicamente injustificável. A função de troca e a função de medir do dinheiro estão associadas claramente a uma determinada limitação de sua quantidade. Mas não se deve esquecer que representações inconscientes não dão conta de um esclarecimento suficiente. Antonio Carlos Santos . Ao instinto de esclarecimento resta somente investigá-los e tratá-los como causa – inconsciente – efetiva pois são mero símbolo de um curso real. Se for válida a proporção entre o quantum singular e o quantum global de mercadorias e dinheiro. como se diz. interpretar as formações do valor.A filosofia do dinheiro trad. puderem ser preenchidas por um mero dinheiro-símbolo. como processos inconscientes. segundo as normas e as formas da razão consciente. as experiências e as conclusões inconscientes são apenas a expressão do fato de que esses efeitos ocorrem como se fossem o resultado de motivos e ideias conscientes. se não se quer voltar ao desígnio inconsciente da forma de vida humana. a sua “escassez”. em uma integração tão finamente organizada dos inúmeros elementos que é preciso admitir como condutor um espírito surpreendente dotado de uma sabedoria supra-individual. Na verdade.Georg Simmel . mesmo com um aumento qualquer na quantidade de dinheiro. e pode se manter com o mesmo significado para a formação do preço.tradução ainda a revisar . não sabemos nada sobre processos que produzem resultado psíquico sem pressupostos conscientes e as representações. nenhuma potência humana poderia dar garantias suficientes contra possíveis abusos. sendo apenas uma expressão auxiliar que se constitui sobre um sofisma. em algo positivo. A fração monetária mostrava apenas que para cada incremento do 29 . É evidente que o retraimento do valor material do dinheiro a um princípio de complementação e de suporte referido a meras relações não suficientemente certas é apenas uma interpretação de processos que transcorrem totalmente na subconsciência daqueles envolvidos no processo econômico. é preciso além do mais admitir experiências e cálculos inconscientes acumulados ao longo no processo histórico da economia regulando seu curso. e por isso legítimo. suas fixações e suas flutuações. só que de forma inconsciente. vistas como abstratas. então parece que ela fica inalterada. A vontade e a previsão conscientes do singular não bastariam para manter a atividade econômica em harmonia ao lado de suas tremendas dissonâncias e insuficiências. Certas ações e certos pensamentos nascem em nós em razão de determinadas ideias ou raciocínios. A segunda razão para não se deixar o dinheiro se dissolver em seu caráter simbólico reside em seu significado como elemento da circulação. Transformamos o fato meramente negativo de nesse caso não termos consciência de nenhuma representação fundadora. a existência de representações inconscientes. As interações econômicas ocorrem em todo caso em uma conformidade a fins tão maravilhosa. então deduzimos que eles já estavam lá.favor não citar próprio que não está mais em questão e sim o fato de que apenas a mais nobre das matérias pode ser o suporte adequado para uma relação formal entre partes. Mas tão logo afloram em nós sem esses antecedentes. No estágio atual do conhecimento é inevitável.

um estadista francês propôs que não se usasse mais futuramente a prata como dinheiro e sim que se cunhassem moedas de ferro – e isso porque a entrada massiva de prata proveniente da América roubava desse metal sua escassez. Antonio Carlos Santos . e que o papel moeda só afasta o perigo do abuso de um incremento arbitrário na emissão através de uma ligação determinada com o valor do metal.favor não citar denominador corresponde outro do numerador. sem que seu valor se modifique. tomássemos um metal que obtém seu valor exclusivamente da cunhagem estatal.A filosofia do dinheiro trad. o governo se encontra novamente com uma reserva monetária deprimida. O numerador da fração – o preço da mercadoria – só aumenta então proporcionalmente quando as enormes reservas do governo são despendidas substancialmente. a condição declaradamente pobre da moeda e sua variedade obrigaram as transações a se basearem no câmbio e em ordens de pagamento. Ora. não haveria nenhum limite para a massa monetária. seja ele fixado por lei ou através da própria economia. No século XVI. Mas na verdade quando a quantidade de dinheiro cresce em demasia. quando por algum razão elas falham aparece em seu lugar um meio de circulação melhor qualificado nesse sentido: em Gênova. fica muito menor. um fenômeno extremamente contraditório o comprova de maneira decisiva. e mais especificamente o ouro.tradução ainda a revisar . o numerador permanece o mesmo até que todas as relações de troca tenham se conformado ao novo fundamento. A que ponto pode ser eficaz uma limitação que se apropria até da especulação primária individual – é o que 30 . mais confiável em termos de limitação. Enquanto na realidade o denominador da fração cresce bastante. em primeiro lugar o governo. no ano de 1673. se encontra em uma situação extremamente vantajosa diante de todos os vendedores de mercadorias. quando deixa de fazê-lo. razão pela qual aparecem as inevitáveis reações que abalam profundamente as relações de troca. ao contrário. principalmente quando as próprias receitas do governo se transformam em dinheiro desvalorizado. como em geral são apenas determinadas qualidades funcionais dos metais preciosos que lhe atribuem preferência como meio de circulação. de modo que. garantiríamos melhor a limitação exigida do quantum de dinheiro. como fração. enquanto se todo possuidor de prata pudesse convertê-la imediatamente em dinheiro. o que faz o jogo recomeçar. hoje sabemos certamente que apenas os metais preciosos.Georg Simmel . situação tentadora para se recorrer a uma nova emissão de dinheiro. Também o preço que se constitui da grandeza absoluta do numerador permanece provisoriamente o mesmo. Menciono isso apenas como um exemplo dos fracassos numerosos e muitas vezes estudados provocados pelas emissões arbitrárias de moeda. diante do aumento no preço de suas necessidades. Pois estas se tornam perigosamente tentadoras assim que deixa de existir uma ligação fixa do dinheiro a uma substância cujo aumento é limitado. Como consequência. Se. particularmente a limitação quantitativa. entra em cena. o detentor de novas massas de dinheiro. Essa proposta curiosa deixa clara a sensação de que o metal precioso como tal só é a matéria apropriada para o dinheiro na medida em que impõe um limite imprescindível à fabricação de moeda. Assim. essa proporcionalidade nas alterações não mais acontece. garantem as qualidades exigidas. ou seja. algum outro substrato. Ora. enquanto em termos relativos.

ninguém ousava pagar com eles por um empréstimo em ouro. não têm esse significado regulador imprescindível em função de sua equivalência de valor com os objetos cuja troca ele permeia. dos interesses partidários e das influências do governo. Mas o ouro e. eles despencaram muito rapidamente a uma fração muito baixa de seu valor nominal. a distância entre oferta e demanda se torna cada vez maior e o circulus vitiosus dos efeitos recíprocos indicados faz o valor desse dinheiro despencar. parece que se poderia atribuir as inconveniências de um incremento ilimitado na emissão de moeda não a si mesmo mas apenas à maneira de sua distribuição. Choques. Foi dito que se todos os ingleses descobrissem subitamente que o dinheiro em seu bolso 31 . a prata. o que só é possível. só assim se acreditava estar a salvo das crises políticas. que impede a inundação do mercado com dinheiro e com isso a destruição permanente da proporção sobre a qual repousa a equivalência entre uma mercadoria e um determinado quantum de dinheiro. embora fossem meios de pagamento legais. se encontramos uma maneira de repartir a massa monetária igualmente ou segundo um princípio determinado de justiça. hipertrofias e estagnações só ocorrem porque o dinheiro criado do nada se encontra desde sempre em uma única mão e a partir dela se espalha de modo desigual e caótico. mas o preço das mercadorias aumentou por causa disso de 20 a 50%! E quando um câmbio forçado deixa em circulação exclusivamente papel e moedas pequenas. O aumento excessivo de dinheiro produz na população pessimismo e desconfiança e por causa disso se procura dispensar o mais possível o dinheiro e voltar à troca natural ou às ordens de pagamento. Antonio Carlos Santos . Como a instância que emite dinheiro opera essa desvalorização através de um aumento crescente na emissão. e sim por causa de sua escassez. por sua vez. E de fato a destruição dessa proporção acontece dos dois lados. mas tudo isso parece contornável. E isso não acontece apenas nos exemplos aqui citados. operação que daria um lucro de 150%.Georg Simmel . Apesar de determinar em lei que um quarto de cada pagamento deveria ser realizado com esses bônus. Na medida em que a demanda por dinheiro diminui. através de uma limitação precisa na emissão de papel-moeda.tradução ainda a revisar . só se pode evitar o pior se o ágio no longo prazo apresenta oscilações mínimas.A filosofia do dinheiro trad. enquanto no atacado se utilizava principalmente dinheiro por peso. Tais casos comprovam que as próprias leis de circulação conservam o significado do dinheiro de metal. antes dele. Dito isso. cai o valor da moeda que circula.favor não citar nos mostra o fenômeno seguinte. Durante a Guerra da Secessão nos Estados Unidos. A desconfiança em relação ao valor do dinheiro cunhado pelo Estado – em comparação à confiabilidade no puro valor do metal – pode também tomar a forma que prevaleceu no final da república romana com as moedas circulando apenas no varejo. sua desvalorização em relação ao ouro foi de apenas 3 a 5%. Algo semelhante aconteceu no início do século XVIII com os bônus que o governo francês emitiu em virtude da grande necessidade de dinheiro. Quando o Banco da Inglaterra deixou de resgatar suas notas entre 1796 e 1819. a circulação de papel moeda – os greenbacks – estava proibida de fato nos estados do Oeste. pois ele depende justamente da demanda.

não tem nenhum sentido. ao contrário. a posição social de cada um em relação a quem está mais abaixo ou mais acima permaneceria a mesma. O desejo de embolsar ao máximo o dinheiro dos outros é certamente crônico mas só se revela suficientemente agudo a ponto de levar o singular ao esforço e à atividade quando se toma consciência de modo particularmente acentuado e premente de sua pobreza em relação aos outros. o conteúdo cultural da vida singular tomada em termos absolutos. A possibilidade de que o incremento na emissão de moeda. Por mais que não valha a pena discutir essas construções tranquilizadoras por si mesmas porque se baseiam em pressupostos irrealizáveis. ou seja. elas nos levam todavia ao conhecimento das reais condições em que atuam e ao fato de que a dissolução progressiva do valor substancial do dinheiro nunca pode alcançar totalmente seu ponto final. configuração exclusivamente sociológica que. distribuído de modo proporcional. tomados absolutamente. O dinheiro. Se é 32 . então uma conclusão: a de que tudo permanece como antes porque todos os preços também sobem – contradiz a outra.A filosofia do dinheiro trad. mais intensiva e mais extensiva de modo que finalmente os conteúdos e prazeres vitais de cada singular. nesse sentido se diz: les affaires – c’est l’argent des autres. seriam elevados junto com a totalidade dos níveis sociais sem que nada tivesse sido alterado nas relações de riqueza ou de pobreza que são determinadas exclusivamente através de uma relação com o outro. Observando mais de perto. poder e cultura. um tal resultado objetivo só acontece se o incremento na emissão de moeda – pelo menos a princípio – se dá pela via de uma distribuição desigual. limitada a um indivíduo. Antonio Carlos Santos . ou seja. meios de entretenimento – que antes faltava mesmo aos ricos sem que se tenha deslocado a posição relativa de ambos em proveito dos mais pobres. aumente a cultura objetiva. a grande diferença seria ter de calcular em cifras mais elevadas as libras. A agitação e a intensidade crescentes da circulação econômica que se segue a uma pletora de dinheiro estão relacionadas ao fato de que com elas aumenta também o anseio dos indivíduos por mais dinheiro. porém. enquanto as relações dos indivíduos entre si permanecem inalteradas – vale certamente ser debatida. Então é muito tentadora a ideia de que as relações entre os indivíduos. conforto. Com isso. haveria um corresponde aumento em todos os preços sem que ninguém tirasse disso nenhuma vantagem.favor não citar duplicou. só pode provocar uma mudança qualquer em um determinado estado de coisas se houver mudança nas relações dos indivíduos entre si. – Se admitimos a situação ideal em que o incremento na emissão de moeda tem como efeito um aumento igual nos bens individuais.tradução ainda a revisar . não apenas a objeção contra o dinheiro-símbolo seria suprimida. Vale ressaltar que a cultura moderna da economia monetária tornou acessível aos pobres uma série de bens – instituições públicas. possibilidades de formação. os shillings e os pence. como surgiria também a vantagem de uma multiplicação do dinheiro fundada no fato empírico de que uma maior quantidade de dinheiro significa sempre também um aumento de circulação.Georg Simmel . os bens culturais objetivos seriam produzidos de maneira mais viva. a de que ao incremento na emissão de moeda corresponderia o estímulo e a elevação da totalidade das transações.

tentativas arriscadas de especulação. 10. sem que o poder dos interesses individuais afete esse deslocamento. tomados pela euforia da nova riqueza. mas cria novas relações de preço entre eles. mas também os objetivos – enquanto esse último seria. nem o comprador a alta que obrigatoriamente acontece quando a equivalência entre o valor do dinheiro e o valor da mercadoria resulta do mesmo mecanismo perfeito em virtude do qual um termômetro sobe ou desce conforme a temperatura do ar sem perturbar a proporção exata entre causa e efeito que advém da mudança no grau de resistência ao movimento. não haveria tal estímulo às energias gastas com o trabalho. mostra que não se trata de uma regulação proporcional de 33 .000 marcos desloca consideravelmente a relação recíproca de seus detentores em comparação ao estado precedente: não se compra com os mil marcos suplementares simplesmente o dobro do adquirido com os primeiros mil marcos. da falta de seu nexo interno com as mercadorias. três rendimentos de 1. mas segundo o antigo. os níveis subjetivos permaneceriam de todo modo inalterados. ele não se modifica por causa de uma mudança no valor do dinheiro sem criar alguma resistência.favor não citar válido o pressuposto da teoria: que o incremento do quantum de dinheiro mantém inalteradas as relações das pessoas entre si e dos preços das mercadorias entre si. Mas a transgressão do nível agora convencionado. Quando o preço de uma mercadoria se mantém por longo tempo em um certo nível médio dentro de limites de oscilação determinados. em terceiro. alterado e a melhoria louvada só poderia se mostrar se a diferença de riqueza entre os singulares fosse mais decisiva que antes ou assim percebida. em segundo. Haveria. por exemplo.A filosofia do dinheiro trad. Pois dobrar. apesar de sua relatividade. Ele deriva antes do fato de que o preço de uma mercadoria. Ainda mais próximo de nosso alvo está a consideração que se liga ao lado objetivo dessa teoria: a de que a duplicação desse dinheiro deixe tudo inalterado. por exemplo. Igualmente. Antonio Carlos Santos . não nos inquietássemos com o preço cujo significado seria avaliado não por causa do novo padrão.Georg Simmel . A associação – segundo conceitos ou interesses – entre o objeto e seu preço se torna psicologicamente tão forte que nem o vendedor aceita a baixa. de maneira imprevisível. uma melhora na alimentação. essa duplicação mágica da quantidade de dinheiro só não traria consigo nenhuma mudança nas relações existentes se não se baseasse em uma diferença de riqueza. pois haveria simultaneamente uma duplicação igual no preço das mercadorias.tradução ainda a revisar . assim como uma posição aquém desse nível. refinamento da cultura estética e.000 e 100. ninguém se dispõe a gastar o dobro pela mesma mercadoria. talvez. Só que essa argumentação é falsa e esquece uma característica peculiar e profundamente decisiva do dinheiro que se poderia chamar de a sua falta relativa de elasticidade: um novo quantum de dinheiro distribuído no interior de um círculo econômico não eleva os preços segundo as proporções até então estabelecidas. Pressupondo uma igualdade absoluta anterior. Mesmo quando subitamente se tem o dobro de dinheiro no bolso do que antes. ao qual já estávamos acostumados.000. adquire a longo prazo uma certa fixidez de modo que parece um equivalente objetivo. em primeiro lugar.

ou seja. é portanto falsa porque essa relatividade não acontece totalmente na prática da formação de preços. Aquelas dúvidas valem apenas para a modificação do estado de coisas. a custo dos outros. por bens que estão bem acima de seu atual padrão de vida. 34 . tal estado de transição.A filosofia do dinheiro trad. a demanda por mercadorias se deslocará muito em função do aumento ou da diminuição na quantidade de dinheiro. No primeiro caso. Certamente. a associação fixa entre a mercadoria e a margem de jogo de seu preço intervém sempre nessa regulação para desviá-la. sobressaltos e dificuldades de transição. ao contrário. não se pode conceber um meio de troca em que finalmente não se dê um ajuste perfeito. portanto nenhum incremento de dinheiro poderia perturbar essa proporção permanentemente. sendo constantemente quebrada por um processo psicológico que torna os preços de certas mercadorias fixos e absolutos. que se baseia na relatividade dos preços. por princípio. não encontrarão mais comprador. dadas as condições humanas de insuficiência. Pode-se argumentar que essas dúvidas sobre a inocuidade de um incremento de dinheiro não limitado por nenhuma barreira externa são válidas apenas em períodos intermediários de ajuste entre dois diferentes níveis de preços. tanto no caso das necessidades básicas – cuja capacidade de consumo é psicologicamente limitada – assim como no das mais altas e refinadas – que só contam em círculos diminutos e de crescimento lento – a demanda não apresentaria um crescimento significativo.tradução ainda a revisar . mas para além de um certo limite. não se trata de uma distribuição proporcional do excesso de dinheiro sobre todos os preços. A alta de preços atingiria aqueles bens médios de maneira extrema. mesmo se ambos atingem igualmente todos aqueles envolvidos no processo econômico. Em termos teóricos: a doutrina que declara indiferente a quantidade absoluta de dinheiro disponível. no caso de um incremento generalizado de dinheiro. cujas oscilações e dificuldades admitimos. Antonio Carlos Santos .Georg Simmel . objetos até então vendidos costumeiramente poderão ter uma queda. Só que não prova que a remoção de todas as barreiras internas ao incremento de dinheiro seja possível. – Isso é correto. mas não para o estado de coisas já alterado que não pode ser responsabilizado por desequilíbrios. pode ser alcançada com qualquer quantum de dinheiro. seria permanente e não permitiria alcançar a adaptação que. até uma certa medida de quantidade ou de fluidez. Se fosse possível. relativamente presos a seus preços. Além do mais. Por outro lado. para a metade de seus preços. pelo menos nos primeiros tempos de uma pletora de dinheiro. segundo o qual o preço em dinheiro de uma mercadoria não possa traduzir de maneira justa a proporção entre seu valor e o valor do quantum global de mercadorias no mesmo momento. e que. Mas mesmo essa proporcionalidade pode ser estabelecida também em outro nível e as oscilações futuras eliminadas como as precedentes.favor não citar preços. Seu pressuposto é justamente que o processo como um todo provém de uma proporcionalidade de preços determinada segundo as relações de quantidade entre as mercadorias e o dinheiro. por exemplo. isto é. aparecerá uma demanda turbulenta por bens desejados por uma ampla massa de pessoas.

Um fenômeno eminente da economia pode a princípio esclarecer esse ponto e fornecer. muito frequentemente. é por vezes exageradamente estimulado. Com isso. em situações individuais. pode o dinheiro criar em si interesses. de qualquer modo empurrado para fora daquele desenvolvimento que corresponde às condições intrínsecas e às necessidades reais. À medida que procura os maiores rendimentos possíveis. adquirindo uma existência própria em um determinado substrato. Mas a realização de grandes ganhos na Bolsa só pode ser obtida quando há excessiva flutuação nas taxas de câmbio e preponderância de elementos puramente especulativos. a produção e o consumo de mercadorias. negligenciado.Georg Simmel . quando não representa simplesmente o lado de valor das coisas. perder ambos quando esse é atingido. ao mesmo tempo. por outras. são determinados por ele inequivocamente em sua direção – mas se o atingissem realmente perderiam justamente as qualidades que mantinham enquanto lutavam para atingi-lo. ligado ao dinheiro. na medida em que se mantém. a transição da função do dinheiro para um dinheiro-símbolo puro e sua separação total daquele valor substancial que limita a quantidade de dinheiro. no entanto. Isso não é uma contradição já que inúmeros desenvolvimentos obedecem a esse mesmo esquema: eles se aproximam de um ponto determinado. o especulador da Bolsa de Valores provoca a agitação das negociações. como um puro esforço – enquanto a obtenção final de seu objetivo pode minar a dos fins sociais. mas é preciso diferenciar o fato primeiro do segundo: aqueles devem seu valor ao dinheiro enquanto esse tem como determinação primeira e única ser valor. uma analogia para as consequências de um incremento ilimitado de dinheiro. a inclusão de valores outrora estéreis no circuito econômico. finalmente ligado à produção e ao consumo de bens. certamente.A filosofia do dinheiro trad. pode favorecer o esforço econômico social.tradução ainda a revisar . sobre os quais repousa o interesse social em última instância.favor não citar Poder-se-ia resumir essas considerações da seguinte forma: o dinheiro preenche melhor suas funções quando não é meramente dinheiro. movimentos e normas que ocasionalmente vão entrar em total oposição com aqueles inerentes aos objetos simbolizados. o ajuste recíproco entre oferta e demanda. O esforço econômico privado. não é tecnicamente factível. na forma da pura abstração. ou seja. Lembro aqui do amor que recebe do desejo de união íntima e durável todo seu conteúdo e seu colorido para. Encontramos com mais frequência e de modo mais decisivo esse tipo de fenômeno lá onde impulsos afetivos se esforçam em direção a um objetivo absoluto sem se dar conta que a satisfação esperada só pode advir de uma aproximação relativa e se atingido completamente pode até mesmo se transformar em seu contrário. O esforço do singular no sentido de obter cada vez mais dinheiro tem um enorme significado econômico-social. valioso. embora o progresso desse desenvolvimento ocorra como se fosse terminar nesse ponto. Que os metais preciosos possam ser utilizados como adorno ou para finalidades técnicas é também. do ideal 35 . Só quando o valor das coisas se separa dessas mesmas coisas. Antonio Carlos Santos . Mas justamente a realização dessa exigência conceitual. É portanto a partir da essência bem específica do dinheiro que o interesse individual e o interesse social desenvolvem sua divergência depois de ambos terem caminhado juntos até um determinado ponto. por assim dizer.

apesar de nossa vontade agir como se devesse desembocar em um tal estado. Mas no momento em que isso acontecesse e qualquer traço do segundo elemento desaparecesse completamente.tradução ainda a revisar . Cada momento específico da evolução da arte é uma mistura do simples reflexo da realidade com sua transformação subjetiva. muitas vezes. o materialismo prático e o filistinismo. mas após sua realização através desses movimentos não provoca de modo algum uma situação ideal e sim a paralisia. a direção do desenvolvimento parece funcionar como se ela progredisse mediante a total eliminação de um pelo outro. Acontece o mesmo em períodos de individualismo crescente.Georg Simmel . Mas se a política partidária de uma tal época decide o seguinte: como todo progresso agora repousa sobre o crescimento do elemento socialista. ele o desmentiria tão logo fosse alcançado e só a adição de seu contrário em fuga. a intensificação do momento generalizante e idealizante. Antonio Carlos Santos . Há épocas históricas em que. também a eficácia e o sentido do primeiro ficariam paralisados. depois de obtidos. o interesse nele até então crescente se transformaria em indiferença porque a obra de arte não se diferenciaria mais da realidade e o significado de sua existência particular se perderia. seu ímpeto moral e espiritual. A proporção em que uma coisa e seu contrário. Algo semelhante ocorre no desenvolvimento artístico com as tendências naturalista e estilizante. do ponto de vista do realismo. ou talvez de todos. por mais que enobrecesse por 36 . um objetivo absoluto de nossos esforços. do anseio de tranquilidade e serenidade existencial que dão um objetivo às penas e aos trabalhos para justamente. então o domínio completo desse elemento é a condição mais avançada. depende de que existam ao seu lado elementos de sentido contrário. por exemplo. se transformarem em vazio e insatisfação íntima. mas também como resultado de convicções ideais e como expressão de uma constituição social em progresso que tende à perfeição. mas cujo total desaparecimento teria efeitos inesperados e diferentes dos obtidos até agora por essas mesmas medidas. ideal – ela esquece que todo o sucesso de medidas de cunho socializante está ligado ao fato de terem sido implementadas em uma ordem econômica ainda individualista. Por outro lado. a arte poderia alcançar um desenvolvimento mais perfeito através do crescimento permanente do elemento objetivo. na oposição entre as tendências individualista e socialista. o sofrimento. É o que ocorre. O significado de suas medidas está ligado ao fato de existirem ainda instituições de caráter centralista e socializante que podem ser cada vez mais restritas. o socialismo domina a evolução e certamente não apenas na realidade. Pode-se descrever mais precisamente esse tipo de desenvolvimento da seguinte forma: a eficiência com relação aos fins de certos elementos da vida. interagem da maneira mais adequada é certamente variável e. Já se tornou uma trivialidade que mesmo o sentimento de felicidade. se tornaria simples tédio se conseguíssemos realizá-lo como eterna felicidade. unidos. Ora. por exemplo.favor não citar político que dá à vida de muitas gerações sua força. Todos os progressos devido a sua multiplicação relativa não autorizam a concluir que sua imposição absoluta representaria um progresso ainda mais amplo. Só que no momento em que esse se constituísse no único conteúdo da obra de arte. no sentido de que um elemento sempre aumenta e o outro sempre diminui. poderia lhe trazer seu sentido.A filosofia do dinheiro trad.

não devem ser rejeitados por isso: ao contrário. porém. roubaria desse elemento seu caráter mais específico. assim como o mundo físico a movimentos que. o estado de realidade. no entanto. mas em alguma medida o primeiro precisa ainda estar presente. uma série de desenvolvimentos importantes se constitui segundo o esquema: a preponderância crescente de um elemento dado intensifica cada vez mais um certo resultado sem que a soberania absoluta desse e a eliminação completa de seu oposto elevem esse resultado a sua mais alta realização. que elabora conceitos e máximas exagerando e novamente reduzindo.Georg Simmel . a vida é orientada no sentido de tais esforços absolutos como algo que lhe é inerente. abandonados a si mesmos. com desvios e retornos. Antonio Carlos Santos . em cada período e em cada campo específico. conduziriam ao impensável. só nos resta na prática deixar nosso comportamento ser governado absolutamente. – Segundo tais analogias. Esses conceitos. estranho a todo valor próprio. muito alto e muito puro que só um obstáculo inibidor confere a consistência e o volume de realidade e de verdade. é totalmente justificado. A fórmula com a qual nossa alma. ao contrário. estabelece a imagem de mundo destinada a nosso conhecimento. E quando o mundo prático chega ao ponto de nossa vontade tomar a direção do infinito atingindo. expressão do valor das coisas medido reciprocamente. assim como na teoria. justamente esse procedimento. então a formação prática prefigura a teórica: nossos conceitos sobre as coisas são construídos inúmeras vezes de tal modo que a experiência não os mostra em sua pureza absoluta.favor não citar um tempo a arte. Não se trata aqui apenas de uma analogia formal entre desenvolvimentos intrinsecamente diferentes e sim da unidade do sentido profundo da vida que se concretiza nessa igualdade externa. mas que colidindo com reações inibitórias resultam justamente em acontecimentos naturais racionais. embora a realidade histórica apareça sempre como depreciação desse conceito por meio do conceito contrário de dinheiro como algo que 37 . Com a pluralidade de elementos e de tendências que constituem a vida.tradução ainda a revisar . Em resumo. a diversidade do real nos envolve entrelaçando nosso esforço subjetivo a todos os fatores opostos em uma existência empírica em que o ideal pode conviver com a realidade. pode-se desenvolver a relação entre o valor próprio substancial do dinheiro e sua essência meramente funcional e simbólica: cada vez mais a segunda substitui o primeiro. mas através de atenuações e limitações no contato com tendências opostas que lhe conferem uma forma empírica. adquire uma relação com a unidade imediata e não acessível das coisas é. na prática. Nesse caminho. pois a realização absoluta desse desenvolvimento comprometeria a significação prática e a consistência do caráter funcional e simbólico do dinheiro. por um princípio homogêneo e unilateral.A filosofia do dinheiro trad. o conceito puro de dinheiro. algo primário muito forte. à custa de um trabalho de estruturação a posteriori. Por isso. chegaria a um ponto em que a eliminação de toda contingência individualista o privaria de relação com a realidade em geral que o movimento idealista deveria justamente representar em formas cada vez mais puras e perfeitas. isso não significa uma negação do ideal. ao contrário.

etc. é para nós totalmente indiferente. assim como a de todas as coisas práticas. como causa em si mesma eficiente dessa evolução. Nosso intelecto só pode dominar e compreender a realidade como uma limitação de conceitos puros que. Pois. mas apenas em sua produtividade. – portanto. sua substância. Com a restrição. como parte integrante de uma evolução maior. mesmo quando uma disposição estética atribui aos metais preciosos aquele 38 . sair de si mesmos e entrar em interação com os outros. Antonio Carlos Santos . trato agora do significado da função do dinheiro e sua intensificação até encobrir seu significado substancial. III Trata-se agora de responder com a elaboração histórica à construção conceitual. e certamente ele ganha esse nexo em todas as formas possíveis: por um lado. é apenas a seus efeitos que se associa o sentimento de valor. de que se trata aqui de uma via não levada a seu termo. objetos que proporcionam prazer estético. Assim. Pode-se dizer. da maioria dos objetos: eles não são valiosos. se legitimam pelos serviços prestados à sua interpretação. o substancial em processos flutuantes. de uso técnico. segundo seus grandes nexos filosóficos e culturais. permanentemente. por outro. mas se tornam valiosos – e para isso têm de. isso só acontece por serem eles objetos de adorno. observado com mais cuidado. porque exercem uma determinada função. O que nesse nexo nos interessa é a formação do dinheiro como consequência da constituição e das necessidades da comunidade humana. por um lado.tradução ainda a revisar . por outro. como símbolo deles. como efeito de correntes culturais reguladas por essa evolução. colocada de uma vez por todas. Mesmo que se apreciem os metais preciosos como mera substância. Visto a partir de seus fundamentos últimos. a mencionada dissolução do conceito de dinheiro é menos radical do que parece.A filosofia do dinheiro trad. embora se distanciem dela.favor não citar possui valor próprio. o valor substancial do dinheiro nada mais é do que um valor funcional. em um movimento que o conduz da prisão a uma substância determinada a seu puro conceito – ainda que essa via não possa alcançar o objetivo que lhe dá direção. Pois. seu valor nunca pode constituir-se em seu ser em si. A essência e o significado do dinheiro aparecem. ele segue a tendência geral da evolução que procura dissolver.Georg Simmel . em razão de sua relação peculiar com os valores concretos. de distinção. meramente como tal e excluída de sua produtividade. em todas as áreas e em todos os sentidos.

mais compacto em relação aos objetos do que na época moderna em que ele atua e parece mais dinâmico. uso e consumo coincidem e que. mantendo apenas seu efeito. cuja simples existência. seja qual for seu suporte. Para essa concepção superficial. A adoção da doutrina aristotélica – é antinatural que o dinheiro gere dinheiro – e a condenação dos juros como roubo. contribui o velho esquema que divide os fenômenos em substância e acidentes. não se pode vender à parte. uma importância incalculável. pois o capital restituído já é igual ao capital emprestado. pois o valor substancial dos metais é igualmente valor funcional. como desde sempre ele se destina a ser gasto. naquela época. a substância do dinheiro. na economia. em vez de incluí-lo entre eles e reconhecer que. um primeiro guia seguro para a enigmática ausência de forma das coisas. fluido e flexível. Antonio Carlos Santos . segundo o qual. como na Idade Média. parecer e ser mais rígido. torna o mundo em si e para si mais precioso e mais significativo – eles não entrariam com esse valor. O oposto da concepção medieval é constituído pelo sistema de crédito em que a ordem de pagamento substitui o papel do dinheiro. Mas é esse mesmo sentimento fundamental em relação ao dinheiro que nos leva a considerar sua essência como ligada a uma substância metálica como tal.favor não citar valor objetivo.Georg Simmel . no caso do dinheiro. todo valor permanece preso à sua produtividade e é apenas uma maneira arbitrária de encobrir sua verdadeira situação dizer que os metais preciosos possuem um valor substancial que poderia ser separado conceitualmente de sua produtividade como dinheiro. sua justificação por Alexandre de Hales: o dinheiro não se gasta com o uso e não perde sua utilidade para o credor. uma maneira de lhes dar forma e integrá-los em uma categoria geral adequada a nosso espírito. as simples diferenças sensíveis do primeiro olhar adquirem assim a 39 . como um ens per se em relação aos movimentos dos objetos econômicos. como um imóvel – tudo isso nos mostra o quanto ele parecia rígido. apresentando muito pouco o caráter de força produtiva. Também essa ideia o coloca. Para aquela. Todos os valores dos metais preciosos constituem uma série que nada é além de uma série de funções. Toda desconfiança da Idade Média contra os empréstimos a juros remete ao fato de o dinheiro. Assim. Quanto menos vivas forem essas funções na realidade. mais substancial. por isso. historicamente. além de sua função como dinheiro. Claro que isso teve. e não seu efeito. para além de todo reconhecimento e fruição. como acontece com os objetos de um contrato de locação. mas é reduzido ao mínimo – enquanto na concepção moderna do dinheiro ligado ao metal o ponto central é a substância operante. de modo algum. desligado das flutuações da vida. o ensino de São Tomás.tradução ainda a revisar . mais elas escapam ao conhecimento. como dinheiro ele não tem uma função. mas é uma função. A insignificância real de seus efeitos encobre completamente seu caráter funcional. que os fenômenos tenham sido divididos em um núcleo substancial e modos de expressão e qualidades relativos e móveis foi uma primeira orientação. que é o que interessa. é a ideia dominante – o efeito se deixa muito pouco isolar. pois a economia baseada no crédito tende a isolar a substância.A filosofia do dinheiro trad.

da forma de tratamento entre amigos que acontece como a expressão final de uma tendência presente há muito tempo. existir sob a aparência e a exigência de uma duração infinita. Mas o valor do dinheiro pode tão pouco resistir à sua redução a um valor funcional quanto a luz. em uma medida para a qual as forças internas ainda não estariam maduras e cuja legitimação a posteriori não ocorreria. de repente. é o que veremos com um exemplo negativo que será relacionado a uma reflexão fundamental. nunca alcança totalmente essa intimidade. É o caso. que buscam sua expressão em determinadas constelações do direito. e de fato essa inadequação se apresenta de tal maneira que as relações internas se desenvolvem continuamente. não se chega lá. ela cria. Mas é da essência de tais formas. Mas. em regra geral – e aí reside seu traço característico – não se detêm no ponto que corresponde às relações internas naquele mesmo momento. inicialmente. Depois de as relações econômicas em geral pressionarem. Certas forças da vida social.favor não citar organização e determinação da relação recíproca. A partir de um determinado grau. ter sucesso por que a forma adquirida nesse campo facilmente se torna rígida. assim como das organizações sociais. muitas vezes como um pouco exagerada.A filosofia do dinheiro trad. a espinha dorsal da imagem do mundo. ou seja. em certa medida. Mas se a mudança externa. a economia do dinheiro. durante longo tempo em sua direção. acontecesse. em um determinado momento. muitas vezes. por assim dizer. nos primeiros momentos. em uma relação entre duas pessoas. aos saltos. estas persistiriam na forma adquirida. Observamos que. enquanto aquelas se intensificariam.Georg Simmel . em que medida é realmente dinheiro. mesmo se. para além delas. Algo semelhante acontece nas relações não pessoais. mas sentida. Assim surgiu. elas se correspondessem. embora possa corresponder. Observo agora. a transformação dos sistemas intelectuais provoca a mesma impressão: a solidez objetiva e a compreensão subjetiva do mundo parecem esfacelar-se quando falta uma categoria que era até então. atua como dinheiro. Assim como a destruição de uma constituição social em beneficio de outra parece o fim de toda ordem e de toda constituição. Em que medida o dinheiro depende dessas relações e não de sua substância. por exemplo. não conseguem. a forma externa raramente corresponde à expressão adequada de seu grau de intensidade interno. das formas de troca e das relações de dominação. antecipam uma intimidade ainda por vir. uma intimidade externa. exigida internamente. ela se produziria. às vezes. a economia do dinheiro se apresenta em fenômenos de tal magnitude que essas relações não lhe são 40 . muitas relações se desfazem por que sua forma. há um repentino crescimento daquelas relações externas que. determinadas relações estruturais da esfera econômica. mas. algumas vezes. Assim. à sua intimidade. Antonio Carlos Santos .tradução ainda a revisar . o calor e a vida podem preservar seu caráter substancial peculiar e escapar à sua dissolução em tipos de movimento. enquanto as externas. que só vai encontrar seu correspondente interno com o tempo. muitas vezes.

A ideia.A filosofia do dinheiro trad. menos ele precisa ser dinheiro (segundo sua substância). ignora os poderosos efeitos que o dinheiro provoca por causa da esperança e do medo. menor é a quantidade de substância necessária à sua operação. as dificuldades. se a evolução das forças econômicas internas não alcançasse logo a forma que as antecipou. a consistência da esfera econômica que prepara a dissolução da substância monetária. mas que ainda não dispunha das comunicações. porque lá podia funcionar como tal sem obstáculos – embora. As relações gerais ainda não se encontravam em um patamar que pudesse permitir recuperar dívidas na Espanha e com os soberanos.favor não citar suficientes. por exemplo. totalmente comparáveis às transações dos banqueiros internacionais modernos. A simples ideia da existência ou da falta de dinheiro em um determinado lugar cria tensão ou paralisia. os atrasos. tem muitos efeitos. de maneira palpável. e as reservas em ouro. As necessidades financeiras da Espanha. das certezas e dos usos necessários a tais negócios. 41 . Quanto melhores forem as condições locais para a função dinheiro. Acontecia o mesmo com os devedores daquelas potências financeiras e pelas mesmas razões. comprovam. nasceram por que o dinheiro. certamente muito frequente na Espanha. ocorreram em uma época que já havia superado os limites estreitos da economia natural da Idade Média. que o dinheiro. esporádicos e preguiçosos. em sua guerra contra a Espanha. é a solidez e a confiabilidade das interações sociais. Além da influência das condições locais. Foi essa situação que causou a perda dos Fugger e de todos os grandes banqueiros do sul da Alemanha no século XVI. do desejo e da preocupação a ele associados. faltava ali onde era mais necessário: nos Países Baixos. relativamente. ele irradia esses afetos tão importantes também economicamente da mesma forma que o céu e o inferno: como simples ideia. algumas vezes levantada de que o significado econômico do dinheiro é produto de seu valor e da frequência de seu uso em determinado período. quando ele mesmo está em repouso.tradução ainda a revisar . Em condições locais distintas. de modo que se pode dizer. o fato de o dinheiro trazer consigo um número cada vez maior de efeitos. e o dinheiro. As novas formas de economia monetária levaram Anton Fugger a fazê-las exceder amplamente a medida que seria adequada às condições econômicas da Europa daquela época. uma enorme vantagem de poder usar seu dinheiro exatamente ali onde ele estava. possuísse muito menos substância do que na Espanha e sua existência estivesse baseada no crédito. por isso. É claro que o efeito do dinheiro como pura potência depende totalmente da precisão e da segurança da organização econômica. Seus negócios. instaura-se um outro modo de funcionamento do dinheiro: os Países Baixos tinham. os fenômenos poderiam então ter um fim trágico. por assim dizer.Georg Simmel . no século XVI. Isso é o que nos mostra. que nos porões dos bancos cobrem as notas. paradoxalmente: quanto mais dinheiro real exista (segundo sua essência). ele era realmente “dinheiro”. só se vende contra dinheiro vivo. Nas mãos dos holandeses. aqui ele pode ser realmente caracterizado como o “motor imóvel”. Antonio Carlos Santos . representado por um símbolo meramente psicológico. os custos que contribuíram em muito para a ruína das finanças espanholas. Onde os laços sociais são frouxos.

o emprestador pode obter com ele os mesmos efeitos que teria se estivesse. sua natureza aparece de modo mais puro quanto mais condensados. está pouco ligado à concretude de seu substrato. O fiscalismo da Idade Média e o mercantilismo podem ser definidos como políticas monetárias materialistas. por outro.Georg Simmel . em virtude de sua essência. do crédito. só em uma determinada estrutura avançada das relações individuais e sociais. produz um enorme efeito. com relativa segurança. fidedignos e agradáveis forem os laços sociais. na forma ideal.tradução ainda a revisar . Se o papel moeda. só pode chegar a bom termo em condições sociais consolidadas e aprimoradas para que se possa finalmente. A prática e a teoria da política monetária parecem comprovar tanto a evolução do significado substancial do dinheiro para seu significado funcional quanto sua dependência das condições sociológicas. então talvez o dinheiro de couro simbolizasse seu estágio preliminar: das qualidades que caracterizam o dinheiro substancial. extremamente importante. na Idade Média. Só em uma esfera cultural garantida por uma proteção recíproca sólida e organizada é possível que uma matéria tão fina e facilmente destrutível como o papel se torne suporte do mais alto valor monetário e que uma série de perigos elementares – tanto de natureza externa quanto psicológica – seja suprimida. o dinheiro de couro ainda guarda. Ora. da mesma forma é necessário um incremento considerável desse processo para espiritualizar seus efeitos. é justamente em todos os aspectos externos da forma dinheiro que residem a solidez e a segurança geral da cultura da circulação. se usava muito dinheiro de couro. emprestar dinheiro e fundamentar ações econômicas sobre suas funções parciais. como realidade na mão dos devedores. Assim. a qualidade de uma relativa indestrutibilidade e.A filosofia do dinheiro trad. por outro lado. pertence aos bens dos credores e. Mas há entre eles a mesma diferença que há entre uma forma de materialismo bruta e outra refinada.favor não citar que está em repouso. Como dívidas a receber. Mas a abstração intelectual. Encontra-se aqui também a dupla existência do dinheiro: por um lado. Assim como o dinheiro para ser ativo precisa de certa extensão e intensidade nas relações sociais – antes não se diferenciava de outras mercadorias de troca –. como ele é totalmente um fenômeno sociológico. digamos. no mínimo. insubstancial. mesmo que esse valor não esteja entre seus bens. com o empréstimo. A primeira sustenta que mesmo a ideia seria algo material e que o cérebro 42 . não encontra os canais psicológicos através dos quais pode produzir efeitos. por causa disso. pode a ela renunciar. o fiscalismo e o mercantilismo consideravam a essência e a força de movimento da vida sócio-econômica como ligadas à substância do dinheiro. por sua essência profunda. que permite operar essa divisão. Assim como o materialismo classifica o espírito com suas manifestações e seus valores pela matéria. marcasse a dissolução progressiva do valor do dinheiro em mero valor funcional. e o resultado de sua energia econômica muito intensificado. embora ausente. Nesses fenômenos intensificados. Antonio Carlos Santos . uma forma de interação entre as pessoas. aparece de maneira particularmente transparente quanto o dinheiro. o dinheiro tem sua atividade dividida em duas partes.

o calor e a eletricidade. procura tirar a maior quantidade possível de dinheiro vivo para uso direto do príncipe ou para fins do Estado. vemos surgir a virada do significado grosseiramente superficial dessa substância para o significado funcional. todos os prejuízos. muitas vezes totalmente inorgânica. a política da moeda. A essa diferença de ponto de vista intelectual corresponde. A emergência do Estado despótico. então se pode compreender que a direção da 43 . como a luz. que parece ter nascido com os orientais. como o fígado. por outro. centralizado. o mercantilismo que certamente atribui um valor capital ao dinheiro vivo. cuja importação por si só incrementa tão pouco o bemestar dos países quanto o simples aumento no número de utensílios faz com que se tenha mais comida. estabelecida por casamento ou através de conquista. A alegria de possuir dinheiro vivo. seu fluido. Lá onde reinava o regime fiscal na Idade Média. e. era a técnica mais à mão. nada além de utensílios de cozinha. com sua função. que consistia na contínua deterioração da moeda. mas ele o faz para intensificar uma interação entre a cabeça e os membros do corpo estatal. mas uma forma de movimento da matéria. a um equilíbrio cada vez mais instável entre seus elementos. que não tem mais como objetivo final da aquisição de dinheiro sua posse substancial. mas para animar. consistem em tipos de vibrações de partes do corpo. Nessas orientações materialistas da política monetária. o fiscalismo que. do l’État c’est moi ao rei como primeiro servidor de seu povo. tais políticas só são possíveis em um conjunto completamente inorgânico. a bílis. que ainda se baseiam profundamente na ideia de que a substância monetária seria o valor em si e para si. o movimento econômico do país. porém não para tirar dele sua substância. E quando finalmente se dissolveram as antigas ordens substanciais a ponto de possibilitar ideais anarquistas. que dá a uns todos os benefícios e a outros.favor não citar produz pensamentos como a glândula.Georg Simmel . A segunda: a ideia não é ela mesma material. para animar a existência do Estado enquanto tal. e os pensamentos. a uma flexibilidade sem entraves. o que se expressa de modo perfeitamente adequado na tendência de arrancar o máximo de dinheiro do país – donde a venda frequente de territórios inteiros por dinheiro era a conclusão consequente. estava assegurada a base material para a teoria de Adam Smith: o ouro e a prata são apenas instrumento. no interesse do governo. Também aqui o interesse do governo se prende à atração da maior quantidade possível de substância monetária. Antonio Carlos Santos . o interesse fixo no dinheiro meramente substancial que ligava soberanos e súditos demonstra o quanto ambos estavam desligados. levou ao fiscalismo de seus príncipes que usam a prerrogativa de cunhar moedas para cobrar impostos sem se preocupar com a desvalorização da moeda: a contrapartida necessária é a paixão dos súditos em acumular ouro e prata. o príncipe tinha uma relação superficial com seu país. E isso corresponde à constituição política dos períodos em questão.tradução ainda a revisar .A filosofia do dinheiro trad. por um lado. Quando então as tendências liberais levaram a vida do Estado a um fluxo cada vez mais livre. mas sua fecundidade para o desenvolvimento da indústria. Na relação sociológica entre as duas partes. tão aplicada pelos soberanos na Idade Média. significou uma relação mais estreita e viva entre os atores políticos: a ideia de sua unidade orgânica constitui aquilo que é comum aos ideais dos príncipes.

que também é uma substância. Essas formações se manifestam nos mais variados fenômenos: na realidade palpável. que só pode ser ultrapassada com poderes reais. mas a expressão teórica adequada de uma situação sociológica real. enquanto o materialismo esclarece: espírito é matéria – a filosofia transcendental ensina: a matéria também é espírito. ainda que imaterial. Não se trata aqui de um espírito no sentido do espiritualismo. pois nele via um análogo preciso daquelas formações de dominação que retiram dos indivíduos sua interação viva para cristalizá-la em si mesmas.A filosofia do dinheiro trad. que descartava qualquer formação estatal fixa e reconhecia como única forma justa de vida social a interação livre e direta entre os indivíduos. a partir das necessidades e dos usos que se desenvolvem a princípio caso a caso na relação entre companheiros até se fixar finalmente. se formaram as leis objetivas dos costumes. Proudhon. então qualquer mercadoria em si e para si pode representar o valor sem a intermediação do dinheiro. um ser em repouso. está aberto o caminho para a teoria monetária aqui representada como transcendental. em contraposição à teoria materialista.favor não citar teoria monetária atinja também com esses ideais seu limite extremo. por assim dizer. na classe política e em toda representação parlamentar. a de uma união mística em seu cálice sagrado. do direito e da moral – resultados ideais da capacidade humana de imaginar e avaliar. Assim. antes que sua contrapartida teórica possa ser vencida por forças teóricas. O próximo nexo em que se coloca o caráter sociológico do dinheiro é o seguinte. intermediando-as. a lei do Estado se incorpora na classe dos juízes e em toda hierarquia administrativa. A evolução continuada substitui o caráter direto das forças de interação pela criação de formações suprapessoais superiores. fundar uma permutabilidade dos valores sem a intervenção do dinheiro. ou melhor: na medida em que é uma função da alma.Georg Simmel .tradução ainda a revisar . assim como a coesão de um regimento se expressa em sua bandeira. Então as 44 . Não importa o quão real sejam os primórdios históricos envoltos em sombras – sua análise genética e sistemática tem de levar em conta essa relação mais simples e mais direta a partir da qual vemos ainda hoje se originarem numerosas formações sociais novas. a reflexão histórica nos mostraria que tal erro não foi casual. etc. do mesmo modo a força de coesão de um partido político. Com a continuação desse processo. mas de saber que qualquer objeto. lutava contra a utilização do dinheiro em geral. Antonio Carlos Santos . Contudo se a concepção materialista do dinheiro aparecesse como erro. Com Adam Smith. bem além da vontade e da ação singulares. que aparecem como suporte especial dessas mesmas forças e conduzem as relações dos indivíduos entre si. por isso. assim como o governo da sociedade sem a intervenção do rei. para nosso pensamento. corpóreo ou espiritual. assim como na representação de pessoas singulares. assim como em puras ideias e produtos da fantasia. que se situam. só se constitui para nós na medida em que é produzido pela alma em seu processo vital. nas organizações com amplas ramificações. Pois. e como se atribui a cada pessoa o direito de voto. como suas “formas puras” isoladas. Só podemos imaginar como ponto de partida de toda formação social a interação de pessoa a pessoa. Seria preciso.

O desconforto e a insuficiência. pressionam pela cessão dessas funções a órgãos específicos. as relações de troca entre suas partes. por si. por outro. se originassem dela como seu suporte ou moldura. pois a sociedade não é uma unidade absoluta que deveria. em vez das interações simples entre eles aparece a relação que cada um. sua ligação interna. A troca de produtos do trabalho ou de alguma posse adquirida por quaisquer meios é. quando a proteção externa do grupo ainda é efetuada pelo serviço militar primitivo de todos os membros do grupo. muitas vezes salientados da troca natural. ou seja. comunidade religiosa. deixassem de existir. tem com o comerciante. O comerciante é o portador diferenciado das funções de troca antes exercidas diretamente pelos produtores. assim como controle e coesão imediatos do grupo de cidadãos são substituídos pela relação comum com os 45 . coesão. por um lado. uma interação direta entre indivíduos.Georg Simmel . uma dessas relações cuja existência faz de uma soma de indivíduos um grupo social. à ordem dos comerciantes. então não haveria mais sociedade: assim como a unidade vital de um corpo orgânico ainda poderia sobreviver se uma ou outra de suas funções. quando a associação e a organização repousam ainda exclusivamente na autoridade e no poder exercido pessoalmente. formação partidária e muitas outras. todas aquelas impropriedades. É a essa categoria de funções sociais que devém substância que pertence o dinheiro. quando a administração da justiça acontece ainda através do voto direto da comunidade – resultam então.tradução ainda a revisar . ao dinheiro. com certeza. a princípio. Claro que uma parte ou outra pode deixar de operar e a “sociedade” sempre permanecer – mas só quando a eliminação de uma deixa ainda um número suficientemente grande de outras em ação. a própria troca é uma das funções que fazem surgir. que criam a unidade social. uma das formas mais puras e primitivas de socialização humana e não a ideia de que a “sociedade” seria perfeita se aparecesse a troca em seu interior.favor não citar interações entre os elementos primários. Antonio Carlos Santos . Por isso. divisão de trabalho. é ainda um pouco ambíguo dizer que a troca produz socialização: ao contrário. se cristaliza com o dinheiro em uma formação autônoma. mas não se todas parassem – pois a “vida” não é nada além da soma de todas as forças em interação entre os átomos de um corpo. são comparáveis àqueles que aparecem em outras interações sociais ainda no estágio da relação imediata: quando todas as medidas governamentais têm de ser deliberadas e aprovadas pelo conjunto dos cidadãos. com a extensão e a complexidade crescentes do grupo. A função da troca conduz efetivamente a dois tipos de formações: por um lado. por outro. troca. a partir de um simples estar junto dos indivíduos. são substituídas pela relação de cada um desses elementos com esse órgão que se coloca acima e entre eles. ataques e defesas correspondentes. existir para que todas as relações singulares de seus membros: superioridade e subordinação.A filosofia do dinheiro trad. Sociedade é apenas a suma ou o nome geral para o conjunto dessas relações de troca especiais. imitações. porque a “sociedade” é idêntica à soma dessas relações. obstáculos e relaxamento que. ela é uma socialização. a sociedade. pela criação de ideais e símbolos de representação e de coesão. A função de troca. se todas deixassem de existir.

as pessoas se enfeitam para os outros. a troca entre as pessoas. encontra seu 46 . como a interação mais acabada. Só que. o metal precioso se distingue radicalmente dos meios de troca mais originários. como vimos antes. Pois. por causa de seu uso. na encarnação de uma função pura. cada uma delas estando em relação com ele.A filosofia do dinheiro trad. usar joias de ouro estava proibido a toda pessoa inferior a uma certa categoria. na França medieval. como a qualidade em sua substância. cada objeto entra por si em uma relação de igualdade e de troca com o dinheiro. indica uma relação entre indivíduos. desperta nos outros. Todos esses são exemplos semelhantes de um tipo mais amplo: a partir de fenômenos. ele se situa para além das coisas singulares. que. não são as coisas. ele é a simples objetivação desses movimentos de compensação e de troca. ou seja. a atividade em seu sujeito. o dinheiro não é nada. O que é ação na troca entre indivíduos se torna. de processos primários de um aspecto singular que só existem neles e com eles. a simples relação substancializada das coisas entre si.tradução ainda a revisar . nesse momento. no domínio que nos interessa aqui. Como a joia tem todo seu significado nos processos psicológicos. sua defesa. por assim dizer. Em vez de seus equivalentes agirem diretamente. sua coesão. fixada. A troca. grãos. Por isso. pondo um fim a seus movimentos. mas as pessoas que realizam esses processos e as relações entre as coisas. assim como o regimento e suas bandeiras fora dos ataques e defesas da comunidade ou o sacerdote e o templo fora da religiosidade. ao contrário. Antonio Carlos Santos . e os metais preciosos. ou seja. Fora da troca. como a ordem dos guerreiros.favor não citar órgãos do governo. seu caráter sociológico. como disse antes. Assim como o comerciante encarna a função da troca. como um domínio organizado por normas próprias. o dinheiro encarna a função de ser trocado: ele é. por seu significado como ornamento. certas joias estão reservadas a determinadas posições sociais: assim. por seu brilho. determinados por puros interesses individuais. para além de seu suporte. O metal precioso. preparando um conhecimento mais preciso. pode-se dizer: assim como o comerciante se coloca entre os sujeitos que trocam.Georg Simmel . como o paládio ou a arca. Os meios de troca primitivos. autônoma. finalmente. de substâncias. tal como aparece em seu movimento econômico. solipsistas. outras pessoas se interessem por eles. tabaco. centrípetos. forma concretizada. no mesmo sentido em que o governo representa o controle mútuo dos membros do grupo. como acontecimento sociológico puro. são. como sal. que originalmente ocorriam entre as coisas singulares. E então. Desse modo. deles se destaca cobrindo um corpo próprio: a abstração se realiza quando se cristaliza em uma formação concreta. A natureza dupla do dinheiro: ser ao mesmo tempo uma substância concreta e como tal muito estimada e ter sentido apenas em sua total dissolução em movimento e função – se baseia no fato de que consiste unicamente na hipóstase. gado. se prestam a atrair os olhos para si. A evolução da matéria do dinheiro exprime. são apenas relações entre as pessoas. cada vez mais. por assim dizer. isso é apenas uma visão preparatória. com o dinheiro. da mesma maneira está o dinheiro entre os objetos trocados. Enfeitar-se é uma necessidade social. são consumidos por um singular sem que.

mencionado em razão de sua relação com o caráter de crédito do dinheiro. para o conjunto pode ser ligação. cabe então a pergunta: qual é. cujo significado. por pertencer à mesma esfera econômica. Há somente duas maneiras de se desfazer do laço criado por uma prestação de serviço: através de uma contraprestação direta ou de uma ordem de pagamento. como relação com as outras pessoas. só pode acontecer quando a troca já se tornou outra coisa além de um evento privado entre dois indivíduos totalmente encerrado em ações e reações individuais das partes. sendo causa e efeito da circulação do dinheiro. em vez de ser trocado diretamente por outro. na medida em que a devolve a quem lhe prestou o serviço. remete-a a um produtor anônimo que. para seu possuidor. vendo mais de perto. no circuito econômico que aceita o dinheiro e o comprova através da cunhagem por seu mais alto representante. através do uso do dinheiro. é antes trocado por essa formação. por seu interesse no dinheiro. O eixo da interação entre as duas partes recua continuamente. significa que agora o conjunto assume o compromisso contra quem de direito. é nesse caso 47 . A abstração do processo de troca. a saber. Assim que o escambo é substituído pela compra a dinheiro. não adquire seu significado para o outro diretamente. ele aparece como uma letra de câmbio em que o nome do devedor não foi preenchido: em que o selo ocupa o lugar do aceite. me parece claro que o fundamento e o suporte sociológico da relação entre os objetos e o dinheiro é a relação dos indivíduos econômicos com o poder central que emite e garante a moeda. É o dono do dinheiro que tem nas mãos essa ordem de pagamento e.A filosofia do dinheiro trad. se mostra apenas indiretamente. enquanto o pagamento com moeda desfaz o laço. só pode servir aqui como metáfora. afirmando que o crédito funda um laço. Ele se torna essa outra coisa mais ampla na medida em que o valor de troca.Georg Simmel . então esquecemos que o que é desenlace para o singular. Quando essa encarnação do ato de troca em uma formação particular se realiza tecnicamente de tal modo que cada objeto.favor não citar suporte correspondente na substância do ornamento. aparece uma terceira instância entre as duas partes: a totalidade social que põe à disposição desse dinheiro um valor real correspondente. Nisso repousa o núcleo de verdade da teoria segundo a qual todo dinheiro é somente uma ordem de pagamento dirigida à sociedade.tradução ainda a revisar . Ora. o comportamento correspondente das pessoas por trás dos objetos? – pois o comportamento comum em relação aos comerciantes. Antonio Carlos Santos . A diferença entre papel moeda coberto ou descoberto. a partir da troca real singular e de sua encarnação em uma formação específica objetiva. atribuído por uma das partes. mas como mera indicação a outro valor definitivo – uma indicação cuja realização depende do conjunto do círculo econômico ou do governo como seu representante. toma para si o serviço prestado em troca desse dinheiro. A dissolução de qualquer laço privado. O dinheiro só serve como instância intermediária absoluta entre produtos singulares quando sua cunhagem o eleva acima de seu mero quantum de metal – para não falar dos tipos de dinheiro naturais. distanciando-se da linha que os une diretamente e deslocando-se para a relação que cada uma delas tem. Quando manifestamos nossa discordância em relação à doutrina que vê na moeda também um crédito.

muitas vezes. Justamente. Antonio Carlos Santos . 48 . Ela tem de certa maneira suas nuances. que se tenta compreender como o oposto absoluto do crédito. não há dúvida que também a moeda é uma promessa e que ela só se distingue do cheque pelo tamanho do círculo que garante sua convertibilidade. quanto tempo durariam essas relações se a confiança não fosse tão forte e. mais forte do que provas racionais ou até mesmo evidências! – sem confiança. Diz-se que somente papel inconvertível é realmente dinheiro (papier-monnaie). Primeiro. para ela. nas pessoas capazes de verificar o valor real da moeda em relação a seu valor nominal. era imprescindível a confiança de que o dinheiro que se tomava naquele momento pudesse ser usado com o mesmo valor.T. a pluralidade. A inscrição na moeda maltesa: non aes sed fides* – descreve muito bem o suplemento de confiança sem o qual mesmo uma moeda de pleno valor não conseguiria exercer sua função na grande maioria dos casos. para que fosse aceito como autêntico! Em segundo lugar. esconde dois pressupostos entrelaçados de maneira peculiar. o táler com a efígie de Maria Tereza tinha de ser muito branco e limpo.). mas a confiança (N. sua determinada medida de valor. Assim como a falta de confiança mútua entre as pessoas esfacelaria a sociedade – pois quantas relações se baseiam realmente no pouco que uns sabem comprovadamente sobre os outros. vale a pena lembrar que essa diferença não tem nenhum sentido na relação entre comprador e vendedor.T. gorduroso e sujo. não há transações com dinheiro vivo.Georg Simmel . Ninguém pode se servir da moeda sem dar crédito nesses dois sentidos. pois nela o papel reembolsável também não funciona como uma promessa de pagamento. também as transações em dinheiro fracassariam. um exame da substância da moeda não é factível no decorrer das transações quotidianas. o quantum de valor dado para um valor provisório recebido. muitas vezes quase irreconhecível.favor não citar totalmente irrelevante. diferente do cheque. Sem a confiança do público no governo emitente ou. sem prejuízo. A relação comum entre dono do dinheiro e comprador em um mesmo círculo social – a exigência do primeiro sobre um serviço prestado no interior desse círculo e a confiança do segundo de que essa exigência será honrada – é a constelação sociológica em que as trocas em dinheiro se realizam em contraposição às trocas naturais. se fosse o caso. enquanto o convertível é apenas uma ordem de pagamento (monnaie de papier)∗. a moeda. Na verdade. de razões para se aceitar um dinheiro mostra que o essencial não é sua capacidade objetiva de comprovação: em algumas regiões da África. mas como pagamento definitivo. muitas vezes a oposição. a moeda. que é apenas uma promessa entre comprador e vendedor. Não o dinheiro.tradução ainda a revisar . A afirmação de que todo dinheiro é simplesmente crédito. de que seu ∗∗ ** Em francês no original (N. em outras. só essa confiança dupla empresta à moeda suja.). Também aqui o indispensável e decisivo: non aes sed fides – a confiança de que o círculo econômico vai nos restituir.A filosofia do dinheiro trad. Toda essa discussão não penetra a realidade sociológica.

uma forma específica.favor não citar valor repousa sobre a confiança do receptor. mas que não se justificam por elas. uma unidade. A garantia de poder reutilizar o dinheiro. O crédito econômico também compreende. não semearia. como se pode sentir em casos de boicote. trata-se aqui. em larga medida. também aqui se ressalta que o desenvolvimento do dinheiro como substância para o dinheiro como crédito é menos radical do que parece. se o comerciante não acreditasse que o público deseja suas mercadorias. Esse processo subjetivo é. pois. que se concretiza de maneira mais pura na fé religiosa. um nexo. mas de um estado de espírito que não vai na direção do saber. de uma conclusão indutiva. uma certa consistência em sua representação. que inclui a relação do contratante com a totalidade do grupo. pois o dono do dinheiro não pode forçar ninguém a fornecer algo em troca de dinheiro. mas qualquer economia em geral. É justamente o sentimento de que. no caso do crédito. é talvez a forma e a expressão de confiança mais concentradas e mais afiadas na organização e na ordem estatal e social. a potência mais alta da ordem que cria o valor do metal: só quando esse valor é pressuposto. Quando alguém diz que acredita em deus.A filosofia do dinheiro trad. entre nossa ideia acerca de um ser e esse mesmo ser. em virtude dessa confiança recíproca. difícil de ser descrito. É uma forma de expressão muito fina e profunda dizer que “se acredita em alguém” – sem que se complemente melhor ou que se explique mais claramente em que consiste essa crença. Se o agricultor não acreditasse que naquele ano a terra seria tão fértil quanto no ano anterior. desde logo. da confiança em alguém.tradução ainda a revisar . por outro. repousa não somente a economia do dinheiro.Georg Simmel . Por isso. uma segurança e falta de resistência na dedicação do eu a essa representação que advêm de certas razões. com esse instrumento de troca. por um lado. pois é da essência do crédito que 49 . maior do que ele. pode obter uma certa quantidade de mercadoria – ainda não foi totalmente esclarecida. garantida pela posse do dinheiro. um elemento dessa crença suprateórica. Pois. pois o dinheiro como crédito deve ser entendido como evolução. em muitos casos. Antonio Carlos Santos . autonomização e separação dos momentos de crédito que já existem de maneira decisiva no dinheiro como substância. mesmo que esse seja incontestavelmente bom. sejam lá quais forem. no entanto. Esse tipo de confiança não é nada além de um saber indutivo atenuado. há. Só onde já existem obrigações. se pode forçar uma parte a saldar as obrigações. Só que. ele então se torna prático. sobre esse tipo de confiança. de que. não se trata apenas de um conhecimento imperfeito em relação a ele. e essa confiança tem como efeito sobre a comunidade nada menos do que conduzi-la a nos garantir contravalores concretos para os símbolos contra os quais trocamos o produto de nosso trabalho. A possibilidade de a promessa contida no dinheiro não ser satisfeita confirma o caráter do dinheiro como um mero crédito. Como já mencionado. etc. mas que inclui ainda um suplemento dessa “crença” sócio-psicológica semelhante à fé religiosa. entra em jogo também um momento mais amplo. tem. ela não está dada de antemão. ele não as adquiriria. por assim dizer. é certamente menor. O sentimento de segurança pessoal. Em termos abstratos. com dinheiro – e mesmo assim em nem todas as legislações.

a moeda mais alta. vai recebê-lo. porém. o singular é livre para entregar ou não seu produto ou sua propriedade ao dono do dinheiro. mas o singular não é forçado a um tal comportamento. Acontece do papel moeda de um Estado ser limitado a uma província: na Turquia. tem muitas possibilidades de escolher certo ou errado – ao contrário dos atos da coletividade que são desprovidos de qualquer liberdade em virtude de serem guiados por instintos e finalidades imutáveis. Assim ocorria na cultura mais primitiva: em Darfur. segundo as leis naturais. em 1853. de modo que os grandes 50 . de produzir. de roubos e de nascimentos ilegítimos. mas que a totalidade. mesmo que se aproxime bastante dela. assim como as massas da matéria pela gravidade. no entanto. o gado. Na verdade.. por sua vez. em função das leis naturais. o total dos serviços a serem prestados. Finalmente. um número determinado de mortes.Georg Simmel . da qual ele faz parte. sem hesitação. são irrelevantes. Antonio Carlos Santos . Não cabe aqui verificar o quanto essas ideias estão certas ou erradas. deve circular um dinheiro com menor valor. Essa divisão entre liberdade e obrigação. A ampliação das relações comerciais. foram emitidas notas que só deviam valer em Constantinopla. ele é livre para agir ou não segundo as leis morais. embora paradoxal. é levado por teorias e conflitos. apesar da liberdade de poder recusar o dinheiro. significa aceitar a enorme probabilidade de que cada singular. foi ressaltado que as ações de um grupo são sempre determinadas por seus interesses. o indivíduo.favor não citar a probabilidade de sua realização não seja total.tradução ainda a revisar . exige um dinheiro de alto valor. porque a necessidade de enviá-lo a grandes distâncias torna conveniente a concentração de seu valor nos menores volumes possíveis. no interior de um distrito. o escravo. defensores das “leis estatísticas” afirmam que a sociedade tem. A garantia de poder reutilizar o dinheiro. este como livre. por assim dizer. A partir dessas conexões. para limitar a liberdade deste com a obrigação daquele e para integrar na determinação de um resultado global. e o singular poderia até se abster deles sem que o conjunto das tarefas seja afetado. circulavam meios de troca locais: enxadas. tabaco. bolas de algodão. No interior de um grupo de dimensões locais. que o soberano ou representante da coletividade assume pela cunhagem da moeda ou impressão do papel moeda. Sociedades muito pequenas e solidamente ligadas concordam ocasionalmente em aceitar qualquer símbolo – mesmo a ficha de um jogo – como dinheiro. porém. no desenvolvimento do ser em direção à sua transcendência teleológica. ao contrário. tem de produzir uma quantidade predestinada desses mesmos atos. Ouvimos dizer também: o conjunto da sociedade ou da espécie tem seu papel definido no plano divino. serve não raro como categoria de conhecimento.A filosofia do dinheiro trad. etc. mas elas servem para mostrar como esse esquema vale para uma relação entre o geral e o indivíduo: para representar aquele como necessário. os portadores singulares disso. a lei estatística não determina que uma pessoa deva ou não realizar tais atos. era comum a todos: a roupa. sob determinadas condições. enquanto a comunidade certamente está comprometida com ele. maior é o valor da moeda. Assim. eles teriam toda liberdade de repartir entre si. podemos observar que quanto maior é o círculo em que o dinheiro vale.

Justamente porque o círculo extenso de sua estrutura sócio-econômica exigia um dinheiro bom. vale lembrar que o último resíduo do império romano. era necessário que a moeda se tornasse aceitável e sedutora tanto para os estrangeiros quanto para os países fornecedores. sendo de valor duvidoso em outros círculos. a execução das exigências mais incertas. Em tais condições. o privilégio da cunhagem não vale muito por que o mercado para as moedas é muito limitado. na Idade Média. Em áreas muito pequenas. com a leviandade indescritível com a qual se distribuía o direito de cunhagem a cada vila. a ser acrescentado ao caso citado mais acima de restrição imposta à circulação de papel moeda dentro dos limites do Estado emissor: havia na França. Alguns fenômenos apresentam também a prova com o contrário. há – ceteris paribus* – um certo relaxamento: a visão recíproca nas relações se torna menos perfeita. ele lucrava com a diferença entre ela e a moeda trocada. com a ampliação do círculo econômico. melhor que a sua. portanto. novos pfennige e impor a troca de todas as moedas velhas ou estrangeiras que entrassem em seu território através das transações comerciais por outras novas. reside no fato de que o senhor da moeda podia produzir em seu domínio. a concessão do direito de cunhagem se restringia às moedas de prata. Schillings e pfennigs eram apenas pequenas moedas que qualquer paisinho ou vilarejo podia cunhar.tradução ainda a revisar . o direito de produzir moedas de ouro exigia uma autorização especial que só era concedida a um governo de grande território. Antonio Carlos Santos . tão desvalorizados quanto quisesse. Por isso. a vantagem de uma moeda ruim e imposta é notavelmente grande nesse espaço. como se pode ver.) 51 . era o direito exclusivo de cunhar moedas de ouro. Ele vai. portanto. em um determinado momento. no século XIV. assim como os estados comerciais com círculos de troca extremamente vastos são levados a usar dinheiro com valor substancial relativamente alto. ninguém forneceria mercadorias se o dinheiro usado como pagamento só pudesse ser usado com segurança no círculo do comprador. Isso acabou se provando positivo à medida que o crescimento das transações europeias. De maneira geral. Sobre essa correlação. de modo que. E finalmente essa correlação é ainda provada pelo seguinte exemplo. menos nas cidades portuárias. A vantagem essencial do privilégio.favor não citar impérios históricos. vale dizer. não nos pontos de circulação mais ampla. exigir um dinheiro que seja valioso por si. para seus negócios. à medida que o círculo se ampliava. a cada desvalorização de sua moeda.A filosofia do dinheiro trad. a qualquer momento. Pois. a desordem monetária na Alemanha teria sido muito pior se a vantagem da desvalorização da moeda não estivesse condicionada a um determinado tamanho da área.Georg Simmel . (N. O aumento do valor substancial do dinheiro significa crescimento no círculo de sujeitos no qual é ** Mantido inalterado todo o resto.T. de cunhar moedas na Idade Média. ou seja. aceito em toda parte. resultou na implantação do florim como unidade geral do sistema monetário e na eliminação do padrão prata pelo padrão ouro. notas que valiam em toda parte. a cada pequena cidade. que a corte de Bizâncio mantinha até o século VI. essa vantagem se deve ao fato de a área do senhor da moeda ser relativamente grande. Mas. a confiança mais condicionada.

favor não citar geralmente aceito. quanto o faziam na proximidade. Embora estejamos ainda muito distantes de um nexo mais estreito e confiável – tanto no interior de uma nação singular quanto entre as nações – é nesse sentido que caminha certamente o desenvolvimento: a crescente ligação e a unificação através de leis. a uma função vivaz com a produção. o valor próprio do dinheiro. O imposto. um banqueiro rico. mas naquilo que produz: sua evolução o levou de elemento fixo. incrementa o valor substancial dos meios de troca. então seu valor substancial se assemelharia ao de um penhor. Vale ressaltar que a ampliação espacial das relações econômicas. jurídica e pessoal. preciso e calculável à distância. que. recai nos dias de hoje preponderantemente sobre a renda e não sobre a propriedade. é inerente a essa reflexão. a evolução é dominada por essa forma. enquanto em um círculo mais restrito sua reutilização pode depender de certas garantias e conexões de ordem social. E nem mesmo a posse de dinheiro. mas o produto de seu trabalho. é que decide sobre as obrigações e. Ora. aquele penhor. dinheiro que sai de dinheiro. intrinsecamente estranho à produção. daí a relação pouco clara e inorgânica entre ambos. Por isso. Antonio Carlos Santos . como mencionado acima. ou seja. os juros não podiam obviamente passar por frutos naturais do capital. conduz.A filosofia do dinheiro trad. Vamos supor que a reutilização do dinheiro seja o motivo de sua aceitação. ela perde naturalmente sua concisão à medida que a formação objetiva representante da 52 . que havia perdido dinheiro nos últimos anos. À medida que isso acontece. Para saber em que direção vai o desenvolvimento do dinheiro.tradução ainda a revisar . Esse é o maior contraste em relação à situação atual em que o capital não tem mais seu significado em si e para si. hábitos e interesses de círculos cada vez maiores constituem o fundamento para que o valor substancial do dinheiro seja cada vez menor e cada vez mais substituído por seu valor funcional. decide também sobre os direitos diante da comunidade. Voltemos uma vez mais à garantia do dinheiro como seu nervo vital. que poderia cair a zero se a utilização fosse garantida por outros meios e que crescesse à medida que o risco fosse maior. tomemos o papel do capital monetário na Roma antiga. por exemplo. que aparece nas dificuldades em relação aos juros ao longo de toda a Cristandade e que só pode ser regulamentada e organizada pelo capital produtivo como conceito e efetividade. tributos. à sua eliminação total: à compensação interlocal e internacional via operações bancárias ou letra de câmbio. operações de troca – também não estava destinado à produção pelo emprestador. Como ele mesmo foi conquistado por vias improdutivas – guerras. de que ele só seria possível em escala internacional. pode perder importância. à medida que o direito de voto depende dos impostos. o crescimento da cultura econômica produz. Mesmo no interior de zonas de interesse singular do dinheiro.Georg Simmel . Na Prússia. ficou isento dos impostos. mas apenas ao consumo. na cultura moderna. a não ser do ínfimo e também muito recente imposto sobre os bens. no círculo que se amplia até se internacionalizar. certos traços que antes caracterizavam apenas grupos fechados: as condições econômicas e jurídicas vencem cada vez mais profundamente a separação espacial e operam de modo tão seguro. A ideia corrente entre os partidários do bimetalismo.

como não há vigilância do Estado para transferir a garantia para a formação central. ou seja.A filosofia do dinheiro trad. ainda eram cunhadas. O desenvolvimento ascendente tende. como pessoa. na medida em que esse órgão emissor represente ou exprima realmente em si o círculo de interesses.tradução ainda a revisar . Antonio Carlos Santos . ainda no século XV e início do XVI. mas. fica patente na imperfeição do caráter de “dinheiro” de suas notas que a área de sua objetivação é puramente parcial. que se imiscui nas transações de interesses individuais. baseada no papel moeda. tanto o crédito pessoal quanto o estatal. não dependia em nada de circunstâncias particulares que deviam ser investigadas. sua qualidade. mas. em diversos lugares. O mal da economia norteamericana. Aqui aparece a grande tendência centralizadora da época moderna que não contradiz em nada a tendência individualizante simultânea: ambas são as faces de um mesmo processo. ter um crédito duradouro. por exemplo. Assim se esquece que a mera relatividade da diferença entre moeda de metal e papel moeda que ambas. pouco crédito no total. outro para o sujeito. em dinheiro. de uma nova síntese de dois aspectos da personalidade. e o Estado não deve se imiscuir. eram em geral baseados na renda singular da coroa e por ela garantidos. na realidade. de uma diferenciação mais apurada. Depois de séculos da morte de Felipe e de Alexandre. Nesse sentido. mas o valor das cauções e dos penhores. O crédito pessoal se baseia no pressuposto de que mesmo que os objetos que constituem a posse do devedor possam mudar. a soma do valor de sua posse será sempre suficiente para cobrir a dívida. na medida em que são dinheiro. muitas vezes. com esse desenvolvimento. não se questionava muito sua capacidade de pagamento pessoal. verdadeiramente universal. as moedas de governantes de pequenos Estados procuram. portanto. O desenvolvimento elimina da essência do dinheiro todos os elementos que o isolam e individualizam e faz das forças centralizadas de vastos círculos sociais seus suportes. Uma transição desse estágio ao estágio 53 . a uma expansão – no caso. Os príncipes como pessoas possuíam. senão dependerá sempre das mudanças ocorridas em seus bens. consistem apenas em uma substancialização da função de troca através de uma relação comum dos interessados a um órgão objetivo e que o dinheiro só pode exercer sua função.Georg Simmel . a uma centralização – dos órgãos e poderes que garantem o valor da moeda. na verdade. Só quando os bens de alguém são taxados como valores. Esse caráter sociológico o torna apto à emissão de dinheiro. é notável que os títulos do Tesouro emitidos pelos Estados. ele pode. deriva em parte da opinião de que a moeda seja coisa do Estado. A forma patrimonial abstrata do dinheiro beneficia. um virado para a sociedade. só pode representar diretamente o valor. obter pelo menos a aparência de pertencer a uma formação mais ampla. imperiais. Por isso. Assim. antes do século XVIII. ou seja. residia apenas na confiança geral na capacidade de pagamento do Estado. moedas com seus nomes e selos – formalmente. Só os exchequer bills ingleses do século XVIII eram ordens de pagamento sobre o conjunto das receitas do Estado. um banco privado é também um ser suprapessoal relativamente objetivo. enquanto a produção de papel moeda cabe aos bancos privados.favor não citar totalidade representa apenas partes limitadas dessa totalidade ou seus interesses de modo incompleto. moedas municipais.

o câmbio e o comércio de metais preciosos se dissociaram da moeda. o câmbio e o comércio com seu material se torna livre para todos e isso justamente à medida que sua função como dinheiro ganha uma garantia supraindividual. ela se torna independente de suas ligações habituais. portanto. até um certo limite. O principal é que o significado do metal para sistema monetário recua cada vez mais para a segurança de seu valor funcional garantido pela organização da comunidade. não atingir o valor global se o outro coeficiente aumentasse de modo correspondente. É sobre a segurança do dinheiro que repousa seu valor. Aqui aparece uma analogia com uma nuance negligenciada do sentimento de valor. O conceito de valor abstrato. seu valor então seria determinado por dois coeficientes: o valor intrínseco do objeto a ser adquirido e a segurança de que ele pode adquirir esse objeto. mas apenas o Estado ou uma personalidade singular como garantia. não havia ainda se tornado totalmente efetivo – aquele valor que não tinha mais atrás de si uma determinação objetiva. no século XVIII. eram os tintureiros que se ocupavam regularmente com as operações de câmbio. ligada à sua matéria por uma união. Antonio Carlos Santos . eram originalmente privilégio da própria moeda. Só quando mais tarde as cidades obtiveram o direito de cunhar moedas. Se o valor de um objeto repousasse sobre o fato de que ele torna um outro acessível para nós. Nas ciências naturais. que na Idade Média conduziam a circulação do dinheiro (já que. Assim. por princípio. pessoal. A despersonalização crescente da moeda. o significado de um conhecimento para nós é igual ao produto de sua segurança e da importância de seu conteúdo. A função da moeda é. por isso. As operações de câmbio. Assim. a diminuição de um coeficiente pode. seu portador. só se podia pagar com a moeda local). na Viena dos inícios do século XIII.favor não citar atual aparece no fato de que. por isso. as instituições públicas. eram os ourives. por assim dizer. da “corporação dos moedeiros”. os interesses e as forças públicas não podem nunca se tornar senhores absolutos dele. que. e também em parte da Alemanha. se liga de modo preciso e efetivo à intensificação de suas funções autônomas em relação ao valor do metal. como na Inglaterra. no sentido estrito da palavra: ele consiste sempre mais no que o poder público. antes de mais nada. cresce gradualmente reprimindo o significado direto do metal. o dinheiro. Pois originalmente o metal é sempre uma posse privada e. em cada lugar.Georg Simmel . os negócios com dinheiro se apoiavam em atividades específicas ou na produção técnica das moedas ou no comércio com os metais preciosos. o que torna fundamentalmente 54 . Vale ressaltar. sua relação cada vez mais íntima com um círculo social amplo e centralizado. em épocas antigas. enquanto nas ciências do espírito é o segundo que vale. Pode-se dizer que o dinheiro se torna cada vez mais uma instituição pública. por assim dizer. desde que o poder público lhe dê garantia. ainda a maioria das dívidas eram expressas em somas determinadas de moedas determinadas.tradução ainda a revisar . e o poder político central. não podia manter-se sozinho em sua função abstrata. separado de qualquer forma especial. o primeiro coeficiente tende a preponderar. os modos de circulação e garantias reconhecidos pela comunidade fazem dele e nos objetivos dessa legitimação.A filosofia do dinheiro trad.

seu outro coeficiente de valor. nas épocas de economia natural. pois a expansão da circulação da moeda significava a ampliação do poder real onde antes havia um modo de circulação meramente privado e pessoal. o valor de um título de crédito é composto de segurança para o capital e aumento nos rendimentos. até Napoleão I. porque agora as relações recíprocas desses elementos devem. Por outro lado. mantinham o direito de produzir pequenas moedas. a moeda romana de ouro ou prata. de modo que o poder do dinheiro de ligar mais os singulares à coroa acabou sendo considerado como o sentido profundo do sistema mercantil. por outro lado. só quando não se duvida da segurança de um conhecimento. passar através dele. era cunhada exclusivamente em nome e por ordem de César. com a segurança crescente de seu uso. O valor de um bilhete de loteria é o produto da probabilidade de sua extração e da elevação de um ganho eventual. Antonio Carlos Santos . Do mesmo modo. por outro. Augusto. O império russo em sua totalidade já era indivisível quando Ivã III distribui a seus filhos mais jovens territórios 55 . o valor intrínseco do metal.tradução ainda a revisar . Por outro lado. por assim dizer. Toda a técnica que permite. o fato de os imperadores alemães deixarem aos senhores de terra esse instrumento de centralização é uma das razões essenciais da fragmentação do império – enquanto os reis franceses e ingleses dos séculos XIII e XIV fundavam a unidade de seus reinos com o auxílio do movimento em direção à economia monetária. enquanto o senado. e as associações comunitárias. pois à sua segurança cada vez maior não corresponde uma queda no valor do objeto cuja aquisição garante. mas a analogia vale na medida em que. desde Augusto. Ora. o Grande. por um lado.Georg Simmel . o valor de um comércio qualquer é igual ao produto da probabilidade de se alcançar um fim e da importância desse fim. Diocleciano. pode seu valor depender exclusivamente do objeto.A filosofia do dinheiro trad. das reservas de metal americanas. O Estado centralizador moderno cresceu também por causa do enorme desenvolvimento da economia do dinheiro impulsionado pela exploração. a uma grande potência social manter-se consiste em sua autosuficiência – como no caso de grandes senhores de terra desde os merovíngios – e no esforço de manter um Estado dentro do Estado. O direito de cunhar moedas era um privilégio exclusivamente real. Alexandre. pode cair em proporções indeterminadas sem alterar seu valor global. a posição sociológica do dinheiro tem como causa direta. multiplicar. o dinheiro não se comporta exatamente assim. A autosuficiência das relações feudais foi destruída com a introdução da moeda em cada transação que se reportava ao poder central. tanto como efeito imediato. os carolíngios se esforçavam claramente para deslocar as trocas naturais ou através do uso do gado em favor da economia monetária. e esse nexo se generaliza na medida em que grandes príncipes criavam poderosos sistemas monetários: Dario I. Eles exigiam sempre que a moeda não poderia ser recusada e castigavam duramente sua não aceitação. situando as relações entre as partes para além de si mesmas. formações de poderes correspondentes em uma economia monetária se formaram e se mantiveram justamente em contato com organizações estatais. Assim. como no caso de Aristóteles.favor não citar possível uma igualdade de seu valor global. reforçar e estreitar as relações entre o poder central do grupo e seus elementos singulares. no início da era moderna.

parecesse coisa de plebeu enquanto o mercador de dinheiro se elevava. o direito de cunhar moedas. além da Alta Corte de Justiça. as relações com os príncipes provocadas por essas transações faziam com que o comércio de mercadorias. criaram o negócio com dinheiro em grande estilo. pois mesmo que a objetivação da totalidade do grupo. que elas estejam acima das realizações singulares. portanto. o rei concedeu a pessoas e instituições o direito de cunhagem. analogamente. Um dos traços essenciais do ouro e da prata é sua relativa indestrutibilidade. a separação do sistema monetário do poder central caminha pari passu com a deterioração da moeda: ou seja. os agraciados com esse direito podiam fixar à vontade o padrão e o selo e. Na Alemanha. Assim. Foram os negócios com os príncipes que. Dessa forma.T. a dissolução e o esfacelamento do grande círculo de cuja unidade ele dependia. por sua solidez. necessária ao ** Moeda de ouro inglesa no valor de uma libra esterlina. Assim. tirar todo lucro que queriam. para si a determinação da qualidade e da forma da moeda. o dinheiro é tão mais dinheiro de verdade quanto mais o círculo sociológico extenso. já antes do século XII. serve tanto como seu símbolo quanto como sua comprovação. que faz com que seu quantum global permaneça quase constante durante longos períodos. ele se coloca acima delas. à dignidade real. mas também a seus instintos antimonarquistas. no entanto. ou seja.Georg Simmel . Ora. desde então ainda ligado a elas. o ouro permanece em sua quase ilimitada durabilidade intocado pela mudança das coisas individuais.A filosofia do dinheiro trad. como a unidade objetiva do grupo está acima da flutuação das personalidades. por seu lado. reservando.) 56 .tradução ainda a revisar . também o ódio dos socialistas às finanças não se deve unicamente à dita supremacia. reservando somente ao poder central. logo após a época carolíngia. Pode ser que uma relação puramente formal e simbólica tenha contribuído de alguma forma para esses fenômenos. A inversão desse nexo comprova o mesmo ponto: a deterioração do dinheiro provoca. assim como o poder central. do destino sempre em mudança de seu grupo e para a qual a relativa eternidade da moeda que traz sua efígie. a esfera frouxa constituída pelas relações comerciais de um país que se estendem para além de suas fronteiras políticas adquire uma extensão e uma consistência extraordinárias desde que a moeda do país se torna. pois qualquer quantidade acrescida através da prospecção é mínima em relação à já existente. integrada a elas e novamente delas destacadas: é a imortalidade do rei que. formações estáveis na torrente dos fenômenos individuais. a circulação do sovereign* inglês em Portugal e no Brasil deu um grande prestígio ao comércio inglês. em uma economia privada. Assim. por assim dizer. no século XVI. Mas. desaparece no fluxo constante e é novamente substituído.favor não citar onde podiam reinar como soberanos. mantendo a unidade das relações comerciais que se irradiavam nesses países. Enquanto a maioria dos outros objetos se desgasta. ao lado de sua personalidade contingente. do capitalista sobre o trabalhador. ligando todos os pontos desse círculo ao país de origem e fazendo sempre referência a ele. (N. de suas decisões singulares. o garantirem. válida em toda parte. Pois é isso justamente que caracteriza a forma de vida dessas abstrações concretizadas nas funções dos grupos. Antonio Carlos Santos .

a exigência fiscal do poder central compreende também a propriedade do objeto com o qual desde sempre mantém a mais estreita relação. mas esse é somente um sintoma da relação entre o dinheiro e a objetivação dos nexos do grupo em uma formação central específica.favor não citar dinheiro. que era o que o dinheiro exprimia trazendo em si mesmo o símbolo da divindade comum a todos. só foram possíveis graças aos impostos em dinheiro. de um dinheiro que valesse realmente. aos impostos naturais não transportáveis corresponde o deslocamento da corte que os consome. eram os únicos em uma região relativamente vasta. Mesmo as residências fixas dos príncipes. Entre os gregos. era o grande portão ou portão principal (Bab i Ali) que dava acesso à sala no palácio Topkapi. A formação de funcionários intimamente ligados às finanças é somente um sintoma desse desenvolvimento centralista. a unificação das províncias. mas o pagamento sempre renovado em dinheiro o reconduz a ela. em virtude da constante deterioração de sua moeda. muitas vezes. para além dos particularismos. Todo dinheiro helênico era antes de tudo sagrado. sua condensação em uma forma mais concisa possível. onde o sultão recebia os embaixadores dos governos estrangeiros. no início do século XIX. essa relação era atribuída não à união do Estado. mas a uma unidade religiosa. por assim dizer. A unidade social religiosa cristalizada no templo se tornava.Georg Simmel . dando a esse dinheiro um fundamento e uma função para além de seu significado como peça individual de metal precioso. foi justamente essa forma que permitiu. as associações mais antigas se baseavam unicamente em princípios religiosos que. referência ao governo do Império Otomano desde o século XVIII. (N. medida.T. fundamentando-as. in natura. É nesse mesmo sentido que a moderna política fiscal procura. deixar às municipalidades o imposto sobre a propriedade. em Istambul. ** Porta. novamente fluida com o dinheiro que ele gastava. a estabilidade do padrão de valor. entre todos os serviços prestados pelo dinheiro e que lhe dão seu conteúdo. Sublime Porta ou Porta Otomana. Na medida em que se dirige apenas à receita do singular. a cunhar moedas para seus funcionários e oficiais duplamente mais pesadas. reforçando cada vez mais sua dependência. Antonio Carlos Santos . Alguns exemplos e reflexões podem esclarecer esse processo e certamente.) 57 . que favoreciam a centralização. um significado centralizador. não ocorra na forma monárquica. contagem do tempo. Por isso. a Porta* foi obrigada uma vez.tradução ainda a revisar . E esse corpo de sacerdotes representava. assim como as outras unidades de medida válidas: peso. Os santuários tinham. ao mesmo tempo. a introdução do poder central nas funções econômicas do grupo. muitas vezes. a administração feudal descentralizada e a propriedade territorial do vassalo distante fazem com que ele se desinteresse da instância central. diante dos funcionários públicos. porque precisava. atribuindo ao Estado o imposto sobre a renda. Fundamentado por essas constelações sociológicas e. a função do dinheiro cresceu às expensas de sua substância. em toda parte. proveniente do corpo sacerdotal. ao mesmo tempo. eu escolheria os seguintes: o favorecimento do comércio. Assim o crescimento e o aperfeiçoamento enormes do funcionalismo só foram viabilizados pela economia monetária.A filosofia do dinheiro trad. de modo mais marcante na história moderna. a mobilização dos valores e a aceleração de sua circulação.

Havia. as autoridades de Holstein. uma grande necessidade de dinheiro miúdo logo aproveitada pelo rei de Portugal. entre os mineiros de ouro no Brasil no final do século XVII. Hamburgo e outras publicaram um decreto segundo o qual o taler a partir de um determinado momento deveria valer apenas 40 schillings. A finalidade funcional do dinheiro superou aqui seu valor substancial a ponto de inverter seu significado. avaliam os últimos um pouco mais caros que os primeiros por que são mais procurados. que a qualificação de uma forma monetária determinada para cálculos e pagamentos cria para essa forma um valor que é elevado deliberadamente muito acima do objetivamente válido. O que obrigava os súditos a aceitar a moeda desvalorizada dando em troca outra de melhor valor era o fato de que a primeira realizava o objetivo de troca do dinheiro. aconteceu de os garimpeiros pagarem de duas a 16 vezes o valor do metal em ouro para ter dinheiro miúdo. que trocava moedas de prata por um enorme ágio em ouro. o dinheiro tem obrigatoriamente de ser pior do que aquele do vizinho mais rico. um preço incrível. por exemplo. feitas pelos príncipes em prejuízo das massas. um comitê de política monetária nas colônias americanas esclareceu: em países com economia pouco desenvolvida. Isso acontece.Georg Simmel . Mais tarde. como no exemplo seguinte. Esse caso é também a intensificação e a culminância do fato. assim como na Austrália. É a mesma coisa. esclarecem da maneira mais precisa o valor função do dinheiro em relação a seu valor como metal. quando as bolsas hoje em dia. diz-se. ou seja. saudável e aceitável. muitas vezes. parece. Aqui se incluem. Antonio Carlos Santos . por isso. Em 1749. o taler continuou a valer 48 schillings por muito tempo em razão da facilidade de distribuição e de cálculo. senão migraria inevitavelmente para o país mais rico. os súditos tinham de aceitar a troca de moedas.favor não citar À guisa de introdução. Pomerânia. A moeda que os senhores produziam era o equivalente indevidamente intensificado do valor função do dinheiro. mencionadas mais acima. antes mencionado. Lá não existia moeda de níquel nem de cobre. que consomem mais do que produzem. O pior caso desse tipo nos oferece a situação da moeda até pouco tempo atrás na Turquia – atualmente. na Califórnia. em 1621. temos a manifestação específica no fato de um dinheiro mais adaptado por sua forma às relações comerciais ser superior a outro não apenas no caso de um conteúdo substancial igual: ele pode até mesmo ultrapassar seu próprio significado substancial. Só que esse é somente o fenômeno geral para o qual. mais propícios às pequenas trocas comerciais – mesmo que seus valores pro rata sejam exatamente iguais. nas áreas de garimpo onde a riqueza obtida produz relações comerciais intensas. em processo de reforma. mas se usava como dinheiro trocado ligas de prata de má qualidade: 58 . a abandonar por livre vontade seu valor como metal. em relação aos títulos emitidos em partes grandes e pequenas. a desvalorização da moeda na baixa Alemanha elevou o valor do reichstaler de 48 para 54 schillings.A filosofia do dinheiro trad. a um nível mais elevado e mais complexo. todos os casos em que a pequena moeda totalmente desvalorizada em relação ao metal precioso alcança. Embora isso fosse geralmente visto como correto. gostaria de ressaltar que as desvalorizações da moeda. como prova da passagem do valor metal para o valor funcional. Quando.tradução ainda a revisar . Lübeck. sem que se tenham meios de troca para as pequenas necessidades cotidianas.

uma garantia contra a possibilidade de o imperador inundar o país com dinheiro miúdo sem valor substancial. eram produzidas pelo Senado e. Com a desvalorização. que o imperador se atinha à desvalorização da prata que estava à sua disposição. enquanto o cobre. é aqui capaz de inverter completamente as características habituais das substâncias de metal como portadores do valor monetário. isto é.A filosofia do dinheiro trad. evocados aqui em comparação.Georg Simmel . em virtude de seu caráter relativamente elevado ou rebaixado. que podem elevar seu valor quase ilimitadamente. cujo valor nominal foi desvalorizado pelo próprio governo. consideradas os piores símbolos monetários em circulação em todo o mundo. às vezes. as moedas para o gasto diário. A diferença com os bens. junto com sua qualidade principal. O resultado foi. as pequenas moedas são as primeiras vítimas das desvalorizações. começou a queda vertiginosa do sistema monetário romano. o direito exclusivo de cunhagem de moedas de ouro e prata. Como ele é a abstração absoluta acima de todos os bens concretos. Antonio Carlos Santos .tradução ainda a revisar . independentemente de seu valor substancial. enquanto as moedas de cobre. toda qualidade exterior à sua determinação é impropriamente onerada e desviada. a prata despencou para o nível da moeda miúda. antes de tudo. Que a intensificação ou a diminuição da função do dinheiro possa elevar ou abaixar seu valor. No sentido dessa 59 . – vale mesmo para uma avaliação do dinheiro que parece estreitamente ligada a seu valor substancial: a estabilidade de seu valor.favor não citar altiliks. O preço das metalliques contém o paradoxo de que um dinheiro pode ser tão mais valioso quanto menos valioso for – pois justamente sua ausência de valor substancial o torna apto a certos serviços funcionais. Pois o objetivo principal do dinheiro é facilitar a troca de bens. em igualdade com o ouro! É exatamente isto que é muito característico: a moeda mais miúda é a mais importante para a circulação e é avaliada justamente por essa importância – razão pela qual também. Disso adveio uma curiosa inversão das relações de valor. beschliks e metalliques. por ser bela e quente. menos qualidades secundárias do que os outros bens. da mesma forma alguma peça de roupa pouco confortável. no Oriente. todas em uma quantidade insuficiente para o mercado. pelas cidades. mantiveram esse valor quase inalterado. Isso representava. Mas um dinheiro pouco prático é como uma comida intragável ou uma roupa que não veste bem. e mesmo as metalliques. em 1880. não fazendo nenhum deságio notável em relação ao ouro. A consequência disso foi que essas moedas. retomou em grande medida o caráter de moeda de valor. que seja necessariamente cômodo e manejável. Os Césares romanos possuíam. A qualidade da estabilidade do valor. em todo lado. em mais ou menos a metade. desde logo. finalmente. A consciência crescente e a efetividade do significado funcional do dinheiro possibilitaram também as objeções contra o padrão prata: o que se exige do dinheiro é. como já mencionado. por ter se mantido razoavelmente invariável. Pode-se ter consigo alguma comida cuja utilização traga muitos inconvenientes desde que seja nutritiva e saborosa. ficam. é que o dinheiro tem. a partir daí.

Georg Simmel . Pois. De modo geral. a saber. essa estabilidade. Como o dinheiro não tem nenhum outro tipo de valor. no caso da restituição de um empréstimo. a hipótese de sua estabilidade é ainda mais surpreendente.A filosofia do dinheiro trad. é uma ficção: meio quintal de batata que se pede emprestado na primavera para restituir mais tarde in natura pode valer então pouco mais ou pouco menos. Quando a moeda se desvaloriza. a não ser o de troca.favor não citar preponderância do valor estabilidade sobre o valor substancial. seu valor de saciedade e de nutrição permanece exatamente o mesmo. Antonio Carlos Santos . O desenvolvimento voltado a fins tende a confirmar mais e mais essa ficção na prática necessária. por exemplo. de acordo com a mesma quantidade de metal de boa qualidade ou por seu valor nominal. Mesmo sendo uma teoria discutível. seja pela qualidade da liga. cujas notas nem fazem mais deságio em relação à prata. já foi enfatizado aqui que a passagem. sua mera possibilidade nos mostra a separação psicológica do conceito de dinheiro do conceito de substância e sua crescente realização através da ideia de seu papel funcional. que é o que importa. portanto. Só que aqui podemos voltar ao significado imediato do objeto: enquanto o valor de troca da batata pode oscilar. Ademais. Entretanto. seja pela mudança do padrão monetário. ao existir. disponível ali mesmo para qualquer empreendimento. Já foi 60 . valem apenas parcialmente e seus conceitos indicam uma finalidade de desenvolvimento que se situa no infinito. assim como a dos objetos naturais. do papel moeda ao padrão ouro de modo algum deve trazer consigo de volta o pagamento em dinheiro. a estabilização do valor do dinheiro: a função da substância. quando o valor do dinheiro muda nesse meio tempo. Se isso acontecesse durante a queda do valor do dinheiro de tal modo que a mesma soma tem menos valor na hora da devolução. vence a ideia de que o dinheiro mantém seu valor inalterado. todas as funções do dinheiro estão visivelmente submetidas às condições que se baseiam em sua dissolução generalizada em funções: a cada momento. O fato de os valores que o dinheiro avalia e cuja relação recíproca deve exprimir serem algo meramente psicológicos impossibilita a estabilidade na medida de espaço e peso. em um país. na prática contamos com a estabilidade do valor ao nos depararmos com a questão de saber como nos comportar. seria alcançável mesmo sem a própria substância. foi através da passagem pelo simples cálculo sobre o ouro que se obteve a vantagem decisiva do padrão ouro. acima de tudo. as leis decidem se será preciso restituir a soma correspondente. não apenas a vantagem de permanecer no país. calculada a partir do novo padrão. os diferentes países entram em um sistema comum que submete as transações internas de cada um a todas as flutuações que agitam os destinos políticos e econômicos dos outros! Um papel-moeda sem cobertura oferece. E recentemente o interesse pela estabilidade do valor da moeda fez com que se abandonasse completamente a cobertura das notas pelas reservas de ouro. Ora. para a estabilidade total de seu valor.tradução ainda a revisar . mas. da qual ninguém duvida no momento do empréstimo. em virtude de não servir para a exportação. a mesma soma em dinheiro vale certamente pelo mesmo valor. Em um país como a Áustria. nada disso seria levado em conta pela legislação.

Podemos observar um momento particular do processo de separação entre valor função e valor inerente do dinheiro nos casos em que. etc. só outros estados de alma existentes. ela consome imediatamente uma grande quantidade. como sentimentos contrastantes. em uma constituição social ideal. uma felicidade positiva. em determinadas condições históricas e psicológicas. impedindo assim a forte pressão sobre seu valor. Antonio Carlos Santos . como dor. A estabilidade completa do dinheiro só seria atingida se ele não fosse mais nada para si. Pois mesmo uma substância tão apropriada quanto o metal precioso não pode escapar totalmente às oscilações causadas por suas próprias condições de demanda. E também o valor que ele teria pela prestação desse serviço atingiria um máximo de estabilidade. sem prestar também o serviço de medida. enquanto. indiferença. a cada aumento das reservas de metal. sob total eliminação de qualquer resíduo terrestre – mas como esse amor é inacessível. utiliza-se um dinheiro com o qual não se efetuam os pagamentos na realidade. depressão. um dinheiro completamente destituído de sua substância fosse o meio de troca absolutamente adequado à sua finalidade.Georg Simmel .tradução ainda a revisar .A filosofia do dinheiro trad. Assim.favor não citar ressaltado a respeito do dinheiro feito de metal precioso que sua ligação com as joias serve a estabilidade de seu valor: pois. nada têm a ver com o papel de meio de troca e expressão do valor relativo das mercadorias. o objetivo parece ser a eliminação da substância do dinheiro. um máximo de sentimento de amor vai manifestar-se lá onde a relação puramente espiritual obtém um suplemento e uma mediação através da proximidade e da atração sensível. as reservas de joias servem como reservatório de onde tirar o quantum necessário e limitar o aumento de preço. Esta última circunstância não significa nenhum desvio do caminho infinito que leva à dissolução do dinheiro em um suporte meramente simbólico de sua pura função. No 61 . em caso de necessidade crescente de dinheiro. então até lá sua relativamente alta adequação aos fins estaria condicionada à sua ligação a uma substância. de fabricação. O dinheiro não pode prestar o serviço de troca. enquanto formos humanos. de produção. até certo ponto. e. Se. Com isso não se quer negar que. mas apenas a pura expressão das relações de valor entre os bens concretos. sendo a necessidade de joias tão elástica. pois assim a relação entre oferta e demanda se deixaria regular de modo muito mais preciso do que em uma dependência de uma substância cujo quantum só se submete imperfeitamente à nossa vontade. Mas a continuar essa tendência. embora de certo modo o último se mostre independente do primeiro. a ligação com o metal garanta ao dinheiro uma estabilidade ainda maior do que sua separação dele – como já assinalei mais acima. podem nos trazer. assim o paraíso só cumpre as maravilhosas promessas de felicidade quando a consciência dessa felicidade não requer o contraste de sentimentos opostos – mas. Então pode ser – para se retomar a analogia mencionada antes – que o amor mais profundo e mais sublime seja aquele que existe entre duas almas. chegaria a uma imobilidade que seria tão pouco alterada pelas oscilações dos bens quando o metro pelas diferenças entre as grandezas reais que mede. para a avaliação dos valores como padrão.

alheia às oscilações e confusões da moeda cunhada. etc. Por exemplo. Quanto mais o significado do dinheiro como meio de troca. era uma moeda perfeitamente sólida. é um título usado na troca de bens. antes. o princípio do scudi de’ marchi é transformado em teoria geral. justamente por seu caráter ideal. que não coincide mais com nenhuma realidade palpável. segundo um padrão monetário. através de um padrão ideal tão sólido. o preço em dinheiro era fixado de variadas formas. calculado a partir do dinheiro. em geral. Nas ocorrências precedentes. os preços eram determinados pelo uten. Em muitos lugares da África. também a solidez de seu valor relativo. que possibilite a circulação. cresce de sua insignificância original para a preponderância sobre o dito valor de substância tanto mais o dinheiro pode circular no mundo em outras formas que não a de metal. Ora. a única relação que tem com ela é a que a lei abstrata tem com o caso empírico (não entendi esse período). Os negócios das feiras de troca extraordinariamente importantes dos genoveses do século XVI eram realizados segundo a unidade de valor do scudo de’ marchi. 62 . portanto. muitas vezes. Assim chegamos quase ao ponto que um teórico do século XIX tinha diante dos olhos. puramente imaginária: 100 scudi valiam cerca de 99 dos melhores escudos de ouro. Na medida em que ele afirma que todo dinheiro. aos casos em que o valor do dinheiro é substituído por equivalentes na medida em que esses fazem aparecer a mobilização dos valores como um dos serviços essenciais do dinheiro.Georg Simmel . E o desenvolvimento que leva da rigidez limitada e da fixidez substancial do dinheiro a esses representantes continua valendo no interior desses últimos. Na Idade Média. mas os pagamentos eram efetuados com os mais diversos artigos de primeira necessidade. que correspondia a uma determinada quantidade de prata e que só estabelecia um padrão para as moedas reais deterioradas. de tal modo idealizado em uma forma pura e em um conceito relacional. a troca de bens se realiza. Esse não estava expresso em nenhuma moeda existente. o dinheiro mesmo não é encontrado. na evolução das notas promissórias que valem de pessoa a pessoa para o título ao portador. Antonio Carlos Santos . enquanto dinheiro mesmo seria o padrão ideal para todos os valores correspondentes aos bens. o dinheiro ideal presta o mesmo serviço que o bom dinheiro. hoje em dia. porque até este só é bom em virtude de sua função: a de segurança na mensuração de valores que se realizam com sua ajuda. um pedaço de fio de cobre torcido. uma moeda jamais cunhada. isso nos leva ainda mais longe. o dinheiro. à deterioração e à falsificação da moeda indiana. Essas ganharam assim.favor não citar Egito antigo. a função de medida de valor se separa de seu suporte substancial: a moeda de cálculo aparece deliberadamente em oposição à moeda de metal. No contexto em questão. Até a Companhia da Índia introduziu o rupee current para se contrapor à desvalorização. para estabelecer seu lugar para além de si mesma. mas o comprador podia pagar in quo potuerit. era. padrão de valor. seja na forma de moeda ou outra.tradução ainda a revisar . mas.A filosofia do dinheiro trad. meio de conservação. chega enfim à negação da realidade do dinheiro: ele opõe simplesmente o dinheiro à moeda e designa a última como “título”. Todas as obrigações eram feitas em scudi de’ marchi donde a medida monetária. bastante complicado. Aqui.

no começo. mesmo pago pelo credor original. o Banco da França. Quando grande parte do dinheiro vivo está no mercado. que. Na medida em que esses substitutos aparecem no lugar dos pagamentos em dinheiro. O que se poupa aqui não é simplesmente o dinheiro. muitas vezes. observada mais acima. no caixa. ajustado através de títulos de dívida determinados individualmente entre credor e devedor. de modo que sua validade teria de ser fixada por uma ordem imperial. Contra uma concepção unilateral da relação entre o dinheiro e seus substitutos já foi ressaltado que esses últimos – cheques. por exemplo. Pode-se ver justamente essa função dos representantes do dinheiro no fato de as notas passarem de valores grandes e. de mobilidade difícil a valores cada vez menores: até 1759. portanto. desenvolve-se imediatamente a relação entre a substância e a função do dinheiro. na Antuérpia. saem de sua limitação substancial para entrar no movimento geral da economia do Estado e. até 1848. finalmente. A cláusula que acompanha o reconhecimento da dívida que o portador. tem direito de cobrança. por assim dizer. mas para facilitar a cobrança por um representante do credor. o singular é poupado de ter em caixa uma grande soma em dinheiro. Isso aparece como a contraface ou a virada subjetiva. mas sobre as receitas do Estado.favor não citar Os vários degraus dessa evolução devem ainda ser perseguidos. cresce também a economia do crédito 63 . embora não se elimine a designação de um credor até que. Este reenviava formalmente a um devedor individual cujo nome não está ali escrito. pelos bancos. não para transferir seu valor. mas provocam uma circulação mais rápida. As verdadeiras transações comerciais com simples títulos ao portador começaram no século XVI. mas desde que se escreva um nome no lugar vazio. Essa mobilização puramente formal do papel se tornou mais efetiva com o billet em blanc que circulava na Bolsa de Lyon. O valor em questão é. Antonio Carlos Santos . rejeitados no dia de vencimento se não tivessem uma nota de cessão particular. como uma moeda. o banco inglês não emitia nenhuma nota menor do que 20 libras. eles seriam. mas a maior vantagem é que o dinheiro disponível pode ser usado de outras maneiras. da evolução. Temos aqui uma progressão bem clara. esse papel ganha sua primeira mobilidade quando pode ser resgatado pelo menos por uma outra pessoa. comunicam um ao outro um movimento mais animado. esse movimento se amplia na medida em que o papel em branco é postergado. e não apenas aquele que verdadeiramente empresta. já existia na Idade Média.tradução ainda a revisar . letras de câmbio. Com a aceleração geral da circulação dos valores. nos títulos emitidos pelo Tesouro Nacional. se tornam suportes com uma mobilidade infinitamente maior.Georg Simmel . como a comprovação de sua qualidade particular não mais existe. eles perdem sua rigidez em relação aos devedores. seu valor se torne totalmente móvel com o título ao portador. sabemos que. só as de 500 francos. Dado que esses eram estabelecidos não mais sobre a receita particular da coroa.A filosofia do dinheiro trad. por assim dizer. pode passar de mão em mão. mas seu passivo estar ali. Deve-se observar também que crédito e dinheiro vivo. warrants e giro bancário – não eliminam. longe de se substituírem um ao outro simplesmente. então o devedor passa a ser determinado individualmente.

na França. de modo algum. eliminam-se e se substituem – coisa fácil de conceber e nada rara. na Inglaterra. uma relação de impulso recíproco. Entre dois fenômenos que provêm do mesmo motivo fundamental. segundo a natureza e o meio dos singulares. tendo. de seu dinheiro. a unidade do interesse fundamental.tradução ainda a revisar . no escuro. demonstram. dissolver-se novamente em um mínimo de substância. que parece fomentado pela intensificação das transações. substituindo-o. É o que acontece de maneira 64 . de tal modo que essas duas maneiras de se manifestar se fortaleçam reciprocamente. no lugar do incremento da substância monetária. finalmente. Lembro que o sentimento fundamental do amor pode expressar-se de modo sensível ou espiritual. um jogo entre essas duas possibilidades realize. em partes divergentes que mostram sua medida de força tanto na paixão da luta entre si quanto na associação fortuita para uma ação comum no interesse de todos. 190 vezes. na Alemanha.A filosofia do dinheiro trad. quanto quando se suprimindo umas às outras. o banco francês havia posto em circulação 135 vezes mais dinheiro do que o que tinha depositado (54 bilhões para 400 milhões de francos). da mesma forma. o Reischsbank alemão. já em 1838. Já mencionei anteriormente que. como as diferentes atividades do impulso ao conhecimento. Isso não contradiz. apesar da produção em crescimento vertiginoso. Em tempos normais. se move rapidamente em círculos e aparece como um grande círculo incandescente – para. em que o crédito torna o dinheiro supérfluo: nesse sentido. por um lado. quando essa função se apresenta no desenvolvimento de um de maneira muito acentuada. com a circulação do dinheiro vivo. Que dinheiro e crédito incrementem reciprocamente sua importância significa somente a mesma vocação para o serviço de função. Antonio Carlos Santos . havia menos dinheiro vivo do que 50 anos antes. ouvimos que. mesmo que momentaneamente. quando à grande importação de metal se associou uma vasta e insegura expansão do crédito que. resultou em uma corrida febril para a fundação de novas empresas. como se ele desaparecesse sob a terra. mas que também tendam a se excluir e que. muitas vezes. a velocidade de circulação leva a crer que a substância é muito maior do que na realidade é – como uma centelha brilhante que. relembro. significaria apenas a interrupção da circulação causada ou reforçada pelo medo do singular de se separar. desde 1890. de maneira mais profunda e viva. no século XVI. Raramente nos damos conta de que o dinheiro presta seu serviço com uma quantidade muito pequena de substância. aponta para a unidade do serviço que ambos prestam. O fenômeno notável de desaparecimento do dinheiro. há uma relação dupla: por um lado. tanto quando ressaltadas reciprocamente.favor não citar atabalhoadamente e até de modo patológico: foi assim. de modo que. por outro. esse sentimento fundamental. no caso de irrupção de uma guerra ou de alguma outra catástrofe.Georg Simmel . as energias políticas de um grupo se condensam. no exato momento em que seu movimento termina. Assim o significado do crédito. a outra relação entre eles. a velocidade da circulação. Surge então. intensificam-se mutuamente. por outro. a respeito disso. também o outro é atingido pelo mesmo movimento agitado. menos do que antes da Revolução.

ela aumenta seu número. Quanto mais precisa for a forma com que o dinheiro presta seu serviço. capaz de desenvolvimento. menciono o seguinte caso: na Inglaterra. Claro que a diminuição da moeda tem como consequência o fato de não se fazer mais nada gratuitamente. por certo.favor não citar mais acentuada com um dinheiro ruim. dever moral ou gentileza voluntária. em limites previsíveis e proporções determinadas. o pobre dispunha de dinheiro para as quantidades muito pequenas de mercadoria. o roubo também não. O procedimento subjetivo é certamente também de alto valor econômico – mas estabelece limites muito estreitos para a economia. a introdução de moedas diminutas. assim como. e que dinheiro trocado não havia. Uma das funções do dinheiro consiste em não apenas expressar o significado econômico das coisas em sua própria língua. Para sê-lo. desde logo. a maneira peculiar em que o dinheiro funciona é capaz de substituir o incremento quantitativo de sua substância. Se alguém quisesse comprar meio táler de cevada. mas. na medida em que acelera o tempo das transações monetárias.12 gramas de prata) foi. das maiores para as menores. o comércio era extraordinariamente prejudicado pelo fato de se aceitar apenas um tipo determinado de moeda. em geral. só a partir de 1843 foram cunhadas moedas de meio farthing. levam a prejuízos incalculáveis e quase ilimitados.A filosofia do dinheiro trad. Mas aquela doação sem contrapartida que. por isso. não representa ainda nenhuma economia verdadeira. e esses só podem ser ultrapassados por medidas que. emprestar e ajudar.Georg Simmel . sobre isso. ou seja. nos anos 60. que era a regra nos tempos primitivos. têm um sentido estranho à natureza da substância. no caso de desvios e deterioração. entre elas. em Bornou. Como o bom dinheiro não está carregado de tantos efeitos secundários quanto o ruim e. destroem imediatamente esses valores. não exige em sua utilização tantas ponderações. mas também 65 . O incremento das transações tanto pode ser obtido através do aumento da substância monetária em circulação quanto da diminuição das moedas. Dois exemplos disso são o poder da água ou do fogo. tanto menor pode ser seu quantum e tanto mais fácil sua substituição por seu movimento. na Abissínia. por isso mesmo. durante muito tempo. Até então todos os valores inferiores a um farthing estavam banidos das transações em dinheiro e todos os situados entre dois números inteiros de farthing dificultados. em átomos eleva a circulação extraordinariamente. a menor moeda. o farthing (igual a 0. Pois o dinheiro pertence àquela categoria de fenômenos cuja atividade se mantém. antes de tudo. Um viajante conta que. A evolução das moedas vai. é necessidade social. teria que aceitar um outro objeto qualquer para o resto de seu dinheiro. estão excluídos tão logo haja para os serviços mais mínimos um equivalente em dinheiro que. e. diz-se que o comércio estava tão fácil por que o táler tinha sido dividido em 4 mil conchas de cauris e. A evaporação da matéria monetária. Por sua vez. passa a ser exigido. depois. sob condições de forma e duração regulares. Antonio Carlos Santos . Mas há também alguns préstimos do dinheiro que.tradução ainda a revisar . essa doação precisa vir junto com a objetivação das transações e de seus objetos. ao contrário. atenção e medidas secundárias. por assim dizer. por isso. o táler com a efígie de Maria Tereza de 1780. pode então circular mais fácil e fluidamente como dinheiro.

talvez divididos em um grande período. porosa. mas como valor de um pedaço de terra é o símbolo unificador. por exemplo. mas também as forças humanas. essa soma. por exemplo. se encontram e se fundem – também o preço em dinheiro faz convergir todo o múltiplo e extenso significado econômico do objeto para uma unidade concentrada. como. certamente. apesar de todas as suas diferenças. eles permanecem para sempre ligados na forma da justaposição. Quando se diz. seja qual for o número de unidades monetárias que o constituem. resume o valor do bem em um conceito unificado. mas a unidade ideal onde essas características. a 66 . É por isso que os avanços de tecnologia e a redução do tempo de trabalho podem e devem andar juntos: porque as máquinas aperfeiçoadas colocam não apenas as forças naturais. Meio milhão de marcos representa em si e para si. a expressão ou equivalente de seu valor e tão pouco uma mera justaposição de unidades singulares do marco quanto uma temperatura de 20 graus não é a soma de 20 unidades singulares. mesmo de um objeto de grande valor e alta complexidade. mas um estado de calor em si totalmente unificado. do mesmo modo que a avaliação de uma coisa unificada em si por uma moeda unificada em si. mas integradas em uma entidade unificada. quando. ele se junta às grandes potências culturais cuja essência é reunir a maior força possível no menor espaço e. quanto os valores particulares de seus diferentes componentes. Isso corresponde ao serviço prestado pelo dinheiro de condensar valores. Um preço. comparar isso com a unidade do conceito que resume a essência de um monte de formas individuais. formam essas partes uma unidade completa que quase não existe na vida prática.Georg Simmel . que ele vale meio milhão de marcos. Vale lembrar aqui a máquina e não apenas por que ela dirige as forças naturais de modo concentrado no sentido dos fins desejados por nós. Na unidade da soma do dinheiro que serve para pagar um objeto. como um terreno. Parece certamente que esse caráter meramente quantitativo poderia evitar justamente o seguinte: que um marco nunca pudesse formar uma unidade com um outro marco da maneira como fazem os elementos de um corpo orgânico ou de um grupo social por que falta a eles essa relação mútua. concebo o conceito geral de árvore as características que abstraio das manifestações mais diversas de árvores singulares não estão mais umas ao lado das outras. Como o sentido profundo do conceito é não ser uma mera junção de características. um simples conglomerado de unidades desconexas. graças à forma de concentração de energia. não vale nos casos em que a soma em dinheiro expressa o valor de um objeto.tradução ainda a revisar . se condensam tanto os valores de todos os momentos de sua fruição. Antonio Carlos Santos . muitas vezes.favor não citar condensá-lo. quando muito. dominar as resistências ativas e passivas a nossos objetivos. graças à indistinção de suas partes que mantém seu sentido exclusivamente no nível da quantidade. por assim dizer. assim como também os valores de todas as forças e substâncias que o prefiguram e nele deságuam. mas também por que todo aperfeiçoamento da máquina e aumento de sua velocidade obriga o trabalhador a uma maior intensidade de trabalho. na realidade. assim. sob uma forma mais concentrada. sejam quais forem os pressupostos e as ponderações singulares que a fundamentam. distantes no espaço.A filosofia do dinheiro trad. atua como uma unidade. Só que isso. por exemplo: uma hora de trabalho vale um marco. Poderíamos.

(N. ela resume. um efeito de uma extensão inalcançável diretamente. expressando o valor das coisas de modo mais sintético e concentrado.A filosofia do dinheiro trad. a uma quantidade muito alta de possibilidades de ação. O Estado moderno repousa sobre uma imensa concentração. pois o espírito comprime a extensão espacial e temporal do acontecimento em um sistema sintético em que o mundo inteiro se acha contido em estado latente. mas também tem uma relação direta com muitos outros fenômenos com a mesma orientação. estão divididos entre seus elementos. Do ponto de vista das realizações efetivas. Na época do surgimento das armas de fogo. as tensões sociais são aí levadas a uma forma tão concisa que. imbricação e unificação de todas as forças políticas. por outro lado. a forma de vida do Estado moderno. com sua organização de funcionários. na fusão do singular a seu grupo. sob a forma limitada da existência pessoal. a pólvora tirou as armas dos cavaleiros e dos cidadãos e as colocou nas mãos dos mercenários.) 67 . mas pertencentes a domínios totalmente diversos. estejam submetidas ao mesmo princípio. de modo que se pode dizer diretamente: diante do desperdício de energia de uma nação subdividida em pequenas comunidades autônomas e encerradas em si mesmas. Talvez a importância e a diferenciação da personalidade no interior do movimento histórico. fazendo de sua posse e utilização um privilégio de quem tinha dinheiro. E isso não é contraditório com o fato de que. Na medida em que se irradiam as forças em movimento de portadores cada vez mais individualizados e externamente mais limitados. Vejo a mesma tendência cultural concretizar-se no interior de nossa imagem de mundo. Há. que aparece no lugar das organizações gentílicas. diante de qualquer exigência singular. seus meios de poder. com um mínimo de esforço muscular. a pecunia se tornou nervus belli*. a substituição das armas brancas pelas armas de fogo demonstra a mesma forma de desenvolvimento. Em um outro polo. sua centralização. uma enorme condensação de força que desencadeia. a personalidade livre e diferenciada. se concentram agora nele mesmo. a lei natural é uma condensação enorme de conhecimento. ao mesmo tempo.favor não citar serviço de nossos objetivos. o modo de aparição e desenvolvimento de inumeráveis casos singulares. elas parecem mais comprimidas do que antes. basta um gasto mínimo de energia para se obter um máximo de resultado. com a contingência e o isolamento do empirismo primário. familiares e cooperativas. É interessante notar como o dinheiro não apenas se inclui entre os exemplos dessa tendência histórica à condensação de forças. apresenta uma incomparável concentração de forças. e os fatores do destino. a autodeterminação do ser humano moderno conforme a seus fins não poderia ter ocorrido se não estivesse ligada. no caso do domínio das leis da natureza: comparado com a prisão ao fenômeno singular. o grande Estado moderno. Nem é preciso demonstrar quanto o aparecimento e progresso da técnica está ligado à natureza do ** Pecunia nervus belli – o dinheiro é o nervo da guerra.Georg Simmel . as funções dessas comunidades limitadas tenham se passado em grande parte ao grande Estado muito mais extensivo. é infinitamente mais intensa do que a das pequenas comunidades primitivas. em uma fórmula breve.T.tradução ainda a revisar . na pólvora. assim como. Antonio Carlos Santos . totalmente diferente. que.

Como uma ponte que liga a matéria ao espírito. pois a descontinuidade do sensível contradiz sua essência.Georg Simmel . quaisquer traços característicos se fundem em uma unidade. em sua uniformidade e rigidez mecânica. para além de seu significado próprio como suporte. mas no espírito há uma integração. pois. com ela fica mais claro que a essência do dinheiro são as representações investidas nele. a substância se torna cada vez mais inadequada à plenitude. por meio de um juízo. mas através da extensão de sua função a cada vez mais objetos. Antonio Carlos Santos . a mim. em parte.A filosofia do dinheiro trad. Quando os serviços prestados pelo dinheiro se realizam. Só quando a substância se afasta. que o desenvolvimento que vai da formação dos grupos primários à liberação da individualidade. próximos à sua substância. o organismo é certamente um começo disso. Quando tradicionalmente contamos entre os principais serviços do dinheiro que ele é um meio de conservação e transporte de valores. o que só pode ser uma ação do espírito. Encontramos assim a tendência cultural à condensação de forças em toda sorte de conexões diretas e indiretas com a forma monetária do valor. sujeito e predicado se tornam uma unidade para a qual não encontramos nenhuma analogia na percepção imediata. Só no espírito a interação dos elementos se torna uma verdadeira interpenetração. Todos os significados indiretos do dinheiro para os outros aspectos do processo cultural dependem de seu serviço essencial. ele é um esforço continuado em direção a uma unidade perfeita e inalcançável. mais à frente. e quando isso faz seu valor despencar – não significa que o valor do dinheiro em si tenha caído. que o valor econômico das coisas obtenha com ele sua expressão mais concisa e um substituto de intensidade absoluta.tradução ainda a revisar . por outro. com a interação entrelaçando seus elementos. ou seja. só pode encontrar em tudo que é espacial e substancial um símbolo. através da condensação de valores sempre diferentes nessa forma – tanto mais ele se afasta de uma ligação necessária à substância. uma integração real e um ponto de unificação de elementos de valor em interação. Pois a essência do espírito é proporcionar ao múltiplo a forma da unidade. o dinheiro se torna realmente dinheiro. A interação na troca proporciona ao valor essa unidade espiritual. independentes de sua quantidade. Quanto maior o papel do dinheiro como condensador de valores – e isso não pelo incremento do valor de seu quantum singular. Por meio do conceito. nos atemos apenas aos aspectos mais grosseiros e secundários dessa função fundamental. Ambos são tão diferentes que se pode dizer: 68 . Pode-se chamar isso de espiritualização crescente do dinheiro. por um lado. mas o valor da quantidade de dinheiro concreta. à mudança e à diversidade dos valores que são projetados e condensados no conceito de dinheiro. comprovar. Na realidade sensível. em parte. tudo está justaposto. Mas cabe. e à ampliação do grande Estado. Mas essa função fundamental não tem obviamente nenhuma relação íntima com o fato de o dinheiro estar ligado a uma substância. singular. É por isso que o dinheiro. abstração dessa interação.favor não citar dinheiro. tem uma relação muito estreita com o surgimento da economia do dinheiro.

sua quantidade singular se torna mais valiosa do que na febre econômica das grandes cidades de hoje em dia. No interior do indivíduo. pode ele alcançar ampla difusão. mas a uma causa direta: que qualquer soma de dinheiro singular tenha menos valor hoje do que há um século é a condição imediata para o enorme crescimento do significado do dinheiro. quando o dinheiro fica muito mais tempo em um mesmo lugar. Trata-se aqui de um modelo amplamente difundido: o valor de um todo se eleva na mesma relação em que a de suas partes individuais diminui. enquanto o dinheiro em geral fica cada vez mais importante por que o comércio com dinheiro afeta mais intensiva e extensivamente o singular do que o faria em uma existência menos agitada. No campo das avaliações. a propósito. apenas aqueles dirigidos ao centro do poema são iluminados.favor não citar quanto menor for a quantidade de dinheiro. rápida circulação e utilização em toda parte que garanta seu papel hoje. E finalmente um exemplo totalmente exterior. Pois só porque o dinheiro se tornou muito barato e qualquer soma dele menos valiosa. a limitação e a atrofia: o todo é tão mais perfeito e harmônico quanto menos o singular for ainda um todo harmônico. as cores do todo são mais exatas e matizadas quando cada parte oferece uma superfície colorida tão mínima quanto possível. com um tempo econômico mais lento. alcança seu mais alto nível com a divisão do trabalho que expulsa. tão simples e insignificante em si. Em épocas calmas e lugares tranquilos. O valor de produção. torna qualquer quantidade singular psicologicamente indiferente e sem valor. do crescimento do valor função do dinheiro em detrimento de seu valor de substância. não é extraordinário que os valores do todo e das partes se desenvolvam de modo inversamente proporcional. o portador singular e participante dessa cultura para a especialização monótona.Georg Simmel . o conjunto das associações que constituem o significado próprio de uma palavra se retira completamente e. em 69 . As pessoas que gastam mais fácil e generosamente quando se trata de uma despesa particular são aquelas mais dependentes do dinheiro. para a consciência. Antonio Carlos Santos . e isso não se deve a um acaso. Lembro. muitas vezes. mas também nos fenômenos singulares dele decorrentes: a taxa de juros se manteve extremamente alta enquanto havia poucos empréstimos a juros. de um mosaico é tão maior quanto menores forem suas pedras. por seu lado. O encanto particular e a perfeição de certos poemas consistem no fato de que as palavras em si não deixam passar nenhum sentido autônomo com ressonâncias psicológicas além daquele que serve o sentido dominante ou o fim artístico do todo.tradução ainda a revisar .A filosofia do dinheiro trad. com a multiplicidade viva de seus conteúdos concretos. É esse também o significado da expressão que diz que só uma pessoa que tem muito dinheiro pode desprezá-lo. assim como o valor artístico. de modo que o todo é da mesma maneira mais artisticamente perfeito na medida em que seus elementos perdem seu significado individual unicamente para si. Isso aparece não apenas no dinheiro em geral. que a cultura objetiva. E essa condição depende. que a medida e o significado de um grupo social crescem quanto menos a vida e os interesses de seus membros como indivíduos forem valorizados. A circulação rápida produz o hábito de gastar e de receber. Essa forma se apresenta também objetivamente. mais valor tem o dinheiro em si. ocorre a mesma relação entre quantidades de dinheiro singulares e sua totalidade.

então parece que o valor do dinheiro retorna de suas funções à sua substância. mas a medida desse valor não depende de modo algum disso. a ideia. e só a raridade pode fazer com que o significado funcional exerça um efeito especial sobre o preço. a utilidade estabelece para esses objetos um limite além do qual o preço não deve subir. uma lei chinesa expressa com a precisão característica o monopólio do governo punindo mais severamente os falsários que utilizam o metal puro do que os que usam metal de menor valor: porque. não tem nenhuma influência sobre a formação do preço. como se tivessem tirado dele tanto quanto a alma a um ser humano – ou seja. um valor maior do que seu material. porque as funções nas quais o dinheiro se dissolve são por si mesmas valiosas e fornecem a ele um valor. tudo. É por que a locomotiva. tão logo a ideia se torna um bem comum. seja parcialmente na forma de metal precioso. também a utilidade permite a inúmeros objetos que eles tenham um preço no mercado. suas realizações perdem o caráter de “raridade”. mas não pode determinar sua grandeza positiva. sobre esse monopólio do governo repousa a “raridade” do dinheiro. ou seja. embora o nível de tal preço seja determinado por outros motivos. acrescido ainda do valor de trabalho nela contido. Atribuir o valor do dinheiro a seu valor de substância significa o mesmo que atribuir o valor da locomotiva a seu peso em aço. Como essa comparação vale. em parte por causa das relações econômicas naturais. ela mostraria no preço elevado que lhes é concedido o valor que elas possuem para além da soma de valor material mais valor de trabalho. assim se justifica. o primeiro entra em flagrante 70 . ele é tão seguramente um valor quanto o é uma locomotiva no exercício de suas funções de transporte.Georg Simmel .A filosofia do dinheiro trad. ou completamente quando é de papel ou moeda. mas também se torna um valor por que exerce essas funções. Claro que ele pode exercer as funções de dinheiro por que é um valor.tradução ainda a revisar . Mas justamente essa analogia parece contradizer a admissão de um valor especial que emana da função. sem a qual material + força de trabalho não resultaria nunca em uma locomotiva. Antonio Carlos Santos . ela não vale mais. + valor da força de trabalho aí investida. Que uma locomotiva seja paga apenas por seu valor material e seu valor de forma depende unicamente do fato de qualquer um poder construir uma locomotiva e. O preço de uma locomotiva – não é necessário nesse contexto fazer a distinção entre valor e preço – consiste evidentemente de valor material + valor forma. por isso. E mesmo do ponto de vista teórico seria um grande erro interpretar o desenvolvimento que vai da substância à prestação de um serviço como um devir “semvalor” do dinheiro. os juros adquirem uma importância maior à medida que se tornam mais baixos. permite a troca de objetos que lhe atribuímos um valor. Mas. que. no caso do dinheiro de metal é adicional. assim como o dinheiro. No primeiro caso.favor não citar parte por causa da doutrina da igreja sobre a usura. Se houvesse uma patente para as locomotivas. Mas há alguma coisa no dinheiro que corresponde à patente: o direito de cunhagem dos governos que impede a realização da ideia do dinheiro a pessoas não autorizadas. Essa concepção passa longe do principal. mas no caso do dinheiro-símbolo é único. no momento decisivo.

mas valor material. Desde a introdução da moeda cunhada no lugar da moeda de cobre com base no peso. pagáveis apenas em valor real e não por seu valor nominal como dinheiro (quanti ea res esti).tradução ainda a revisar . Por isso. 71 . mas o para que que empresta a ele seu valor. Por isso mesmo a moeda legal adquiriu um valor que as outras só podiam adquirir com seu suporte. por seu valor convencionado. por sua vez.Georg Simmel . essas funções adquirem. Inversamente. Isso significa. de lhe conferir um valor. a função de medir. já da era republicana. o dinheiro é um desses objetos cujo “valor de uso”. Essa independência do metal exige. a possibilidade de acrescentar ao valor material e valor forma do dinheiro uma quantidade de valor com efeitos mais amplos ou. que o valor do outro dinheiro não era valor monetário. os romanos trataram de tornar aceitáveis estas últimas legalmente. entre outros que presta. o lugar de poder dos ricos e dos chefes é facilmente abalado. como já demonstrei. assim também o valor do dinheiro reside no serviço de medir. já foi notado pelos etnólogos que onde qualquer um pode produzir dinheiro. Muito característico a esse respeito é uma norma do direito romano. no entanto. O fato desse valor só poder ser expresso com suficiente generalidade em dinheiro torna mais difícil reconhecê-lo do que a medida de um litro cujo valor é expresso por algo além dele mesmo. sendo todas as outras meras mercadorias.favor não citar concorrência com o governo e intervém muito mais profundamente em suas prerrogativas. que garante ao dinheiro a possibilidade constante de funcionar como dinheiro. portanto. essa cunhagem. que deve expressar-se de alguma forma em seu valor de troca. mesmo que seja um valor original que o dispôs a exercer suas funções. uma cláusula suplementar: o dinheiro é então somente essa moeda. Assim como a medida de um litro tem valor econômico não por conter matéria e forma – porque se não fosse útil para alguma finalidade fora de si mesma. justificando assim sua independência em relação a seu valor intrínseco. Antonio Carlos Santos . ligado à cunhagem pelo governo. como no caso das conchas. no caso daqueles faltarem. Graças ao direito de cunhar moedas reservado ao poder central. como as dívidas em mercadoria. porque só à moeda legal se reservava a função monetária. ninguém a desejaria – mas porque cumpre. as dívidas anteriores são. O serviço do dinheiro constitui seu “valor de uso”. todo aquele que possui dinheiro participa pro rata do privilégio do Estado de cunhar moedas – como o comprador de um objeto patenteado compartilha da patente do inventor. não é o que. A teoria da substância do dinheiro se defende da inevitável tendência do conhecimento de deslocar o significado das coisas de seu terminus ad quo para seu terminus ad quem. do que o segundo! Se qualquer um pudesse cunhar moedas então seu valor cairia com certeza para a soma valor material + valor forma – com o que qualquer monopólio seria eliminado assim como suas vantagens. mesmo que seu valor efetivo não correspondesse. conforme a seus fins. contém ao mesmo tempo o “valor de raridade” que implica. de tal modo que.A filosofia do dinheiro trad. ele adquire valor exercendo essas funções e obtém novamente em um grau mais elevado o que abandonou em um mais baixo. todas as ações por causa de dívidas devem se basear nessa moeda.

Nesse sentido. inúmeros fenômenos paralelos mostrariam a tendência geral da história do espírito (Geistesgeschichte) que levam a essa direção. e só adquiriríamos uma posição satisfatória no mundo se cada ponto da imagem que temos dele conciliasse a realidade concreta do singular com a profundidade e a amplitude do universal-formal. nos desenvolvimentos descritos acima. percebemos o conhecimento como algo de valor. Em níveis mais elevados. O interesse que temos. Portanto. Assim podemos. se encontra essa avaliação da função em sua separação do conteúdo. o historicismo e a concepção social do mundo são uma tentativa de afirmar o universal negando. ou seja.favor não citar Se então. por exemplo. tornado símbolo puro. ou seja. e modos particulares de avaliação se dirigem para a função como pura forma. a seu tema e aos sentimentos originais em cuja sublimação e objetivação ocorre a verdadeira função estética. o sentimento para a importância do universal. de derivar o singular do universal. o universal em relação a seus objetos singulares. admirar uma atmosfera religiosa. Assim. um interesse estético refinado se dirige sempre mais àquilo que na obra de arte é arte pura. traços gerais no interior da infinita diversidade de conteúdos das crenças históricas – é o que sentimos como algo de valor. de refletir o mundo em si.Georg Simmel . dessa intensidade. não desapareceu. quanto a seu conteúdo. qualquer força em geral. na medida em que se eleva acima disso. porém. porque ela é a forma desse conteúdo. acredita-se cair no vazio. Assim. sem sacrificar sua realidade material. A pluralidade de conteúdos trazidos por ele é insignificante em relação a essa forma. pelos fenômenos toma-os como um todo indiferenciado: como eles aparecem a nós como unidade de forma e conteúdo. o conhecimento. tanto na produção quanto na recepção. A presença dessa elevação. na singularidade palpável. em relação a cuja multiplicidade ela se comporta sempre da mesma maneira – como uma forma ou suporte que recebe as matérias mais 72 . esses elementos se distinguem. o dinheiro tendesse a um ponto em que. o universal em relação a suas tarefas específicas. então nosso sentimento de valor se liga tanto à sua forma. como essa pura função formal do espírito. seu caráter de abstração: de se elevar acima do singular. mantendo uma indiferença em relação a seu conteúdo dogmático. Tanto na teoria quanto na prática da vida. Assim. se voltasse totalmente a seus fins de troca e medição. o universal é tratado como coisa puramente abstrata que só pode encontrar seu significado na matéria. porque é o conteúdo dessa forma. dessa paz na alma. A função é o universal em relação a um fim específico que ela serve: o sentimento religioso é o universal em relação conteúdo da fé. ficando indiferente a sua matéria.tradução ainda a revisar . uma demonstração de força como tal nos inspira um respeito que recusaríamos a seus resultados. de modo primário e espontâneo. e indiferente ao fato de os objetos ou resultados do conhecimento são gratificantes ou não. utilizáveis ou puramente ideais.A filosofia do dinheiro trad. Todavia. pois a sociedade é o universal que não é abstrato. que atingiu seu ponto mais alto com Platão. a forma da arte no sentido mais amplo. Antonio Carlos Santos . Essa diferenciação do sentimento de valor tem ainda um lado notável. Todo o desenvolvimento do espírito moderno naturalista caminha no sentido da destituição do conceito de universal e a sublinhar o singular como o único conteúdo representacional legítimo.

supraindividual em relação a alguns de seus suportes materiais.tradução ainda a revisar . se dirigia a essa unidade constituída por uma matéria exercendo essa função. A avaliação. mas.favor não citar diversas. adquire um valor particular e autônomo. que. o suporte é o totalmente secundário e se sua natureza e seu ser em si importassem ainda alguma coisa seria apenas por razões técnicas exteriores ao sentimento de valor. e. Que o dinheiro seja o mediador de trocas e sirva para medir valores é. 73 . Antonio Carlos Santos . torna-se dinheiro – como as ideias sobre o supraterrestre se tornam religião à medida que a função religiosa do sentimento o aceita. à medida que o metal aceita essa forma. como o mármore. sua função. ao contrário. Nessa tendência evolutiva.Georg Simmel . se diferencia e.A filosofia do dinheiro trad. o dinheiro parece tomar parte quando o sentimento de valor a ele ligado se torna independente de sua matéria e se transporta para sua função que é um universal. o mais importante é que ele não mais provém de seu suporte. enquanto o metal precioso como tal é cada vez mais estimado. no começo. embora não seja abstrata. por assim dizer. Claro que o valor do dinheiro tem de ter um suporte: porém. a forma de sua existência para nós. O refinamento da percepção do valor desfaz essa imbricação original e deixa a forma ou a função transformar-se para nós em um valor autônomo. se torna obra de arte quando a produtividade artística lhe dá a forma que não é nada além dessa função solidificada no espaço.