FOTOGRAFIAS COMO EXERCÍCIOS DE OLHAR

WUNDER, Alik – Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação – Unicamp Grupo de Pesquisa OLHO - alik@unicamp.br GT: Educação e Comunicação / n. 16 Agência Financiadora: CAPES

Que outros jeitos de ver moram em nossos olhos? Quais as possibilidades da fotografia ampliar os sentidos daquilo que vemos e nos acontece? A fotografia além, de ser um registro de acontecimentos, poderia também ser pensada/vivenciada como acontecimento (Deleuze, 2003)? Estas são algumas questões que acompanham minhas experiências como pesquisadora em educação, formadora de professores (as) e fotógrafa-aprendiz. Neste texto, trago algumas reflexões sobre o olhar, a fotografia e o acontecimento, que insistem e persistem em minha trajetória de pesquisa de doutorado. Entremeadas a estas reflexões teóricas, narro três experiências educativas vivenciadas em cursos de formação de professores(as)1, nos quais os atos de fotografar e de observar fotografias foram compondo novas possibilidades de olhar para aquilo que lhes é comum: o cotidiano escolar. Em paralelo ao texto, no lado direito da página, há uma seleção de fotografias e de pensamentos. Um varal de

A pessoa, o lugar, o objeto estão expostos e escondidos ao mesmo tempo só a luz, os dois olhos não bastam para captar o que se oculta no rápido florir de um gesto.

É preciso que a lente mágica enriqueça a visão humana e do real de cada coisa um real mais seco extraia para que penetremos fundo no puro enigma das figuras.

Fotografia é o codinome da mais aguda percepção que a nós nos vai mostrando e da evanescência de tudo, edifica uma permanência cristal do tempo no papel.

Carlos Drummond de Andrade

vozes e imagens que querem manter uma conversa paralela, caótica, sem começo e sem fim, aleatória. Imagens soltas, falas fragmentadas, como comentários que escapam, que cortam o curso contínuo do texto, que podem ser recolocados, revistos e, quem sabe, revelarem outras verdades. Convido o leitor(a) que colha, a seu modo, relações e inspirações para acompanhar a sua leitura.

Estes cursos foram realizados no Centro de Formação de Professores (Ceforma) da Secretaria Municipal de Educação de Campinas e fazem parte da minha pesquisa de doutorado, que se encontra em vias de finalização.

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A primazia do olhar molda nossa linguagem e nossa forma de pensar o Cremos que as coisas e os outros existem porque vemos e os vemos porque existem. ter ou não ter a ver. a primeira perspectiva . sem sombra de dúvida. em nossas expressões como: ponto de vista. as épocas e os acontecimentos. pacotes de informações2 A linguagem fotográfica gera em nós uma dupla sensação ao nos colocar a frente de algo que. Rosane de Andrade Imagens são observações estéticas ou documentais da realidade? Marilena Chauí 2 Sontag. e nele a fotografia foi recebida como expressão plena.2 Nuvens de fantasias. mais radicalmente. iluminados e sombrios. A constituição do olhar como o sentido da realidade é algo que aparece em nossa linguagem cotidiana. perspectiva. Uma fotografia é um pacote de informações na medida em que nos fornece dados sobre os lugares. E a fotografia é também uma nuvem de fantasias. Vivemos em um mundo em que o olhar foi construído como o sentido mais adequado para conhecer as coisas. ao mesmo tempo. No entanto. Espelho do Mundo mostra como a visão foi se construindo como sentido primordial na cultura ocidental.a imagem como pacote de informações – é mais marcante em nossa cultura devido à forte aproximação que fazemos entre a idéia de realidade e a fotografia. É neste sentido que ela ganha um grande valor como registro histórico e. visões de mundo. está e não está ligado ao que chamamos de realidade. 2004. quando nos diferenciamos entre lúcidos e alucinados. as pessoas. é uma criação humana. desejos. Marilena Chauí (1998) em seu texto Janela da Alma. marcada pelas escolhas. 2 . indiscutível e definitiva de um real imaginado. imaginações e representações daquele que fotografa e daqueles que observam as imagens fotografadas. como documento de comprovação dos fatos.

conhecer é clarear a vista (Chauí.20). A fotografia. como recurso de avaliação rigorosa dos procedimentos experimentais nos observatórios. Por estes caminhos a fotografia se constrói como documento. 33). uma máquina como mediadora. analisa. Diferente das outras formas de expressão como a pintura. Um olhar ativo e racional que não se deixa afetar pelas coisas. como se estivesse a salvo da subjetividade humana (Machado. 1998. p.9).9). 3 . nossa cultura construiu um olhar que se distancia da sensibilidade. 1998. formalizada e disciplinada. p. é que forjou o chamado efeito realidade. a idéia de que uma foto representa o mundo como ele é. como atestado de pré-existência da coisa fotografada (p. Nicolau Svcenko Esse anseio pelo naturalismo absoluto. àquilo que esteve a frente da câmera. sem mediações. regularizada. como a neutralidade e a verossimilhança. que fragmenta. Uma máquina que registra quimicamente os raios de luz refletidos pelos objetos e que parece reproduzir automaticamente a aparência visual do mundo da maneira mais exata possível.3 mundo. classifica. como conseqüência dos avanços da física e da química. Atrelada ao racionalismo da ciência. Marli de Quadros necessariamente. objetivamente. o desenho e a escrita. 1998. a escrita (grafia) da luz (foto). A fotografia surge partilhando os caminhos e as buscas da ciência. O efeito da emanação dos raios luminosos na superfície sensível parece nos unir diretamente. avalia e corrige. por um equipamento mecânico capaz de representar a natureza tal qual ela se manifesta. p. surge no século XIX. a fotografia tem. bem dos princípios filosóficos das ciências naturais. àquilo que aprendemos a chamar de realidade. hospitais e laboratórios que abriu caminho para os desenvolvimentos técnicos da câmera fotográfica (Svcenko. sem a intervenção das contingências humanas. Foi a ênfase que a ciência deu à visão. nessa lógica. Um olhar geometrizado e em perspectiva que quer ver e organizar o mundo dentro de uma única lógica.

magia e técnica. de certo modo em dívida para que pudesse então reconhecer o que escapa (Fatorelli.e na revelação. de focos. que foquemos nossa atenção para os contradisparos das fotografias (Wenders. de certo modo. o ‘contradisparo’.23: 2003). Proponho aqui que pensemos nas fotografias como um discurso visual mediado pelas subjetividades daqueles que fotografam e daqueles que observam fotografias. são recentes em nossa sociedade. mas de repensar o pensamento. de efeitos de luz e sombra. na internet. as reflexões da fotografia como discurso visual que se constrói na relação entre a tecnologia. no cinema.99). o efeito mágico dos equipamentos de captação da imagem parece permanecer. nos jornais. p. nos outdoors . 4 . Segundo Arlindo Machado (1998). E neste nosso mundo atual repleto de imagens por todos os lados . fica obscurecida pela magia do equipamento. desloca a discussão sobre a primazia do caráter natural ou cultural para os agenciamentos temporais. Antigamente os métodos para se detectar planetas eram indiretos.na TV. espaciais. Fala de um repórter durante o programa de televisão “Fantástico” – 08 de maio de 2005. Sugiro que nos desloquemos da idéia da fotografia como arte de captar para a idéia de arte de soltar.diferente daquele no qual surgiu a câmera. ultrapassado pelos acontecimentos. de recuá-lo. 1983 apud Leite. no momento de fotografar. na escolha de momentos . nas revistas. Antonio Fatorelli (2003) em seu texto Fotografia e Viagem convida-nos a assumir o lugar híbrido da fotografia pertencente à natureza. ao coletivo e ao discurso. estéticos e políticos gerados por ela: Não se trata então de propor uma inversão das hierarquias (entre natureza e cultura. posicioná-lo como se estivesse. 2001. mesmo. ampliação e seleção das imagens. p. Win Wenders Uma fotografia é sempre uma imagem dupla: mostra seu objeto e – mais ou menos visível – ‘atrás’.4 A mediação humana que se dá na atuação do fotógrafo no ato de fotografar – na busca de ângulos. ciência e arte). de balanceamento de cores. mas agora é tudo na base da fotografia. a imagem daquele que fotografa. como se a cada disparo da máquina fosse o fotógrafo que se esvaísse em disparada. os códigos da fotografia e as subjetividades do fotógrafo.

já sem a venda. pessoa ou paisagem que encontrou pelo caminho. mergulho de se expor. Neste trajeto há dois personagens. uma fotografia de um objeto. Um passeio pelo invisível Como seria o mundo . Depois das experiências sensitivas. Depois da foto pronta. ter uma intenção nesta escolha.. – ‘Que maravilhação esse mundo. Para o guia. fazemos uma partilha de sensações. medos e descobertas de cada aventura cega. fazê-lo passar por experiências sensíveis. fazendo. para o guia.se fossemos todos cegos? Que outras sensibilidades de visão ficam ofuscadas pela luz que entra rotineiramente por nossos olhos? Guiados por estas questões nos lançamos a um passeio pelo invisível. um guia e um cego. Ao final do passeio. e uma composição na definição das proporções do que fica dentro da moldura. Gigito!’ Gigito Efraim estava como distanciamento e aproximação em relação ao que será fotografado. o cego pode contemplar seu presente. Gigito Efraim. sentir cheiros e texturas das coisas e das pessoas.. Gigito. O mundo ele minunciava eram fantasias e rendilhados . O cego. buscar deixá-lo seguro. Para o cego.5 como se através do obturador aberto. ele se permitisse um vôo cego. A mão de Gigito conduziu o desvisado por tempos e idades .. o que descrevia era o que não havia. curioso queria saber de tudo. Acompanham-nos nesta conversa as imagens e depoimentos do documentário brasileiro Janela da Alma de João Jardim e Walter Carvalho. um exercício que requer as mesmas habilidades de um fotógrafo: escolher um tema.e os nossos pensamentos sobre ele .. Me conte tudo. por meio de uma moldura de papel. as fotografias de Eugen nunca esteve São Tomé: via para não crer. ouvir os sons.. Mia Couto. O sempre lhe era pouco e o tudo insuficiente. É. que depois trocam seus papéis. ser seus olhos. o guia presenteia o cego com uma imagem. com uma venda nos olhos.. buscar um foco no O cego Estrelinho era pessoa de nenhuma vez: sua história podia ser contada e descontada não fosse seu guia. o desafio é experimentar a cegueira por minutos. fica o papel de escolher os caminhos do cego. relacionarse com seu guia. O cego Estrelinho 5 . Ele não fazia cerimônia de viver. porém. perceber o espaço de outra forma.

outras aproximações. 2003(b). escritores. Porque a miúda não tinha nenhuma sabedoria de inventar. a miopia e o estrabismo e por suas experiências com as linguagens artísticas. pouco a pouco. ora bastante conhecidos do público.. entre a memória. Nos depoimentos o ato de olhar vai sendo dobrado e redobrado. Ela descrevia tintins da paisagem. preenchem o documentário Janela da Alma com suas experiências de olhar o mundo e olhar-se.. por segunda vez. nos coloca em dúvida a idéia da visão como naturalmente o sentido prioritário de conhecer as coisas. pode-se dizer que as experiências narradas no documentário.. Aquele mundo a que o cego se habituara agora se desiluminava. poetas – personagens. Como ele mesmo conta. até mesmo da total sombra. porém faço imagens.. Foi no mês de dezembro que levaram Gigitinho. O seu contato anterior com o mundo das imagens abriu-lhe a possibilidade de. desnaturalizado. como a cegueira. um professor. na sua paradoxal condição de profissional da imagem e cego. uma criança. incômodos e descobertas.. um músico. E era como se Estrelinho. a imaginação e o uso de seus outros sentidos. tristezas. que aparecem entremeadas por suas memórias de amores. com senso e realidade. Não vejo imagens. A escolha dos entrevistados parece ter sido guiada por suas formas diferenciadas de ver.57). p. Aproximando-nos da visão de Pasolini (1982) de que a realidade seria um cinema de planosequência ininterrupto que cada um de nós filma com seus sentidos. nos fazem percorrer por outras possibilidades de percepção.‘Não vai ficar sozinhando por aí. bem como as imagens que entremeiam estas narrativas.. ora desconhecidos. sua visão não lhe foi tirada bruscamente: fui ficando cego. eu tento fazer surgir objetos. focos. Minha mana já mandei para ficar no meu lugar’. uma atriz. Desde então. e o conto O cego Estrelinho do escritor moçambicano Mia Couto (1996). Fazia-o com discrição e silêncios. cineastas. imagens a partir de um berço de 6 . moldadas por limites. um fotógrafo cego. como se tratasse de um longo adeus a luz (Bavcar. Lhe tiraram do mundo para pôr na guerra . perdesse a visão. jogos de luz e sombra. criar imagens mentais e transformá-las em fotografia.. a menina passou a conduzir o cego.6 Bavcar. Eugen Bavcar. nos levando a dimensões fílmicas dos cheiros. personagem marcante do Mia Couto documentário. O guia chamou Estrelinho à parte e lhe tranqüilizou: . movimentos. tatos e sons.. Um fotógrafo.

pois. Os acontecimentos são suas fotografias. p. Eugen Bavcar série: Auto-Retratos 7 .62). Em Janela da Alma. Suas sábias palavras invertem nossas lógicas e fazem-nos refletir sobre onde. Suas fotografias brincam com a luz. Vive-se um tipo de cegueira generalizada. da imprecisão. As reflexões deste artista e pensador ofuscam a idéia clássica de controle do mundo pelo sentido da visão e mostram-nos que o visível é um campo bem menos homogêneo do que habitualmente nos damos conta (Bandeira. E assim ficou. 2003(b).23).‘Isso tudo.. eu vou lhe mostrar o caminho!’. são invenções. Deslocamonos da idéia da fotografia como resíduo do visto (FranceschiLima. imaginações e nelas por vezes a luz ganha peso e as sombras se iluminam. em decisão de passo e estrada. Estrelinho? Isso tudo existe a onde? ’ E o cego. Até que a ela se chegou o cego e lhe conduziu para a varanda da casa. Este trabalho artístico paradoxal e polêmico (Um dia. iniciou de descrever o mundo. Aos poucos foi despontando um sorriso: a menina se sarava da alma. p. Mia Couto De manhã chega a notícia: Gigito morrera.. sem competência de reviver. uma professora do curso desabafou indignada: Como pode um artista expor sem ele próprio ter visto sua obra!) traz uma contribuição interessante no pensamento da fotografia como acontecimento deleuziano: É neste sentido que é um acontecimento: com a condição de não confundir o acontecimento com sua efetuação espaço-temporal em um estado de coisas. dos desejos internos e da necessidade de miraginar mundos (Couto. lhe respondeu: . 2003. Então. Estrelinho miraginava terras e territórios. . O acontecimento pertence essencialmente à linguagem (Deleuze. deixou de falar. qual o sentido de um acontecimento: o acontecimento é o próprio sentido. A moça essa. seus modos de inventá-las ao sabor do acaso. O seu modo de produzir imagens desprega por completo a conotação da fotografia como registro de algo que aconteceu em um tempo e espaço determinados. Bavcar nos instiga ao dizer: hoje vivemos em um mundo de cegos..7 trevas (Bavcar. em nós. pois não tem mais o olho interior. mora a escuridão.‘Venha.15). As pessoas não sabem mais ver. indo além dos vários firmamentos.. p. Não perguntaremos. 1984). 2003 apud Bavcar. 2003(b). 1996).

menos com a fotografia em si e mais com os efeitos que ela surte em cada pessoa. nesta partilha deixar que as diferentes visões apareçam. que se deixa afetar pelas coisas vistas. Ou seja. Buscamos. dar-lhe uma versão oficial e verdadeira. agorien=falar) e parece nos convidar à experiência da evasão. Preocupamos-nos assim.8 Encontro com imagens. A fotografia. A linguagem fotográfica parece exercitar o olhar circular. em que as metáforas precedem as explicações e conceituações. Há também em alguns textos a tentativa de explicar a fotografia dentro de uma lógica. um outro saber. no entanto. não aquele ativo que quer explicar a imagem. Durante um tempo silencioso fazemos uma viagem entre a imagem e suas palavras. uma mesma fotografia e a pergunta: que palavras lhe surgem ao entrar em contato com esta imagem? Um convite: entre na imagem experimente-a. subordinação da imagem em relação ao texto. Para um único olhar não é possível o todo. Deixamos que a imagem transforme e que também sofra as transformações dadas pelo observador. sem nos preocuparmos em produzir um sentido consensual e único. as longas narrativas repletas de memórias. Essa parte contém o todo. Deixamos que a multiplicidade apareça e se instaure. como o todo contém a parte Parte-Todo. Gilbert de Oliveira Santos professor participante do curso. que produz um outro dizer. assim. Aparecem então leituras tímidas de palavras soltas. a 8 . da novidade e da imaginação.. dessecá-la. Um olhar é uma forma encontramos as imagens. Estamos acostumados com uma relação de de mostrar essa parte. não causal e alegórico (allos=outro. nascimento de palavras Diferentes observadores. as frases reflexivas. com os acontecimentos/sentidos que nos possuem quando Um único olhar é um único olhar. Compartilhamos depois os diferentes textos. É bastante instigante a carga poética e reflexiva da maioria dos textos produzidos nesta atividade.. revelar a verdade que mora por detrás dela. aquelas emocionadas de textos poéticos. Exercite um olhar passivo. todo-Parte.

mas como uma matéria-prima que da forma. A imagem nestes casos vem como forma de complementação e comprovação de uma mensagem. neste caso. em que o uso de fotografias vem acompanhado de textos: Os comentários. muitas vezes.61). Como a linguagem que anima a curiosidade e com ela se anima. Fotografia de minha autoria enfraquecida dos seus valores expressivos e conteúdos propriamente visuais (p. seja fotográfica. compreendidas como imparciais. como ilustração das palavras ou como comprovação dos conhecimentos produzidos textualmente. Lembrando Paulo Freire (1996) quando nos diz que a curiosidade já é conhecimento. mas como verdadeiro e único (Fatorelli. p. não surgem a partir de indagações dirigidas às imagens. cor e textura própria aos saberes gerados por ela. produtora de discursos e conhecimentos outros. para validar um ponto de vista sobre o tema retratado: validar um ponto de vista. criando um minúsculo elemento de outro mundo: o mundo das imagens Ensaios fotográficos que se oferecem a sobreviver a todos nós.27). via de regra. A fotografia pode nos ajudar na busca do que Roseana de Andrade (2002) chama de ver com olhos livres: olhos que não se cegaram para o comum que ainda podem enxergar 9 Susan Sontag .9 fotografia aparece. Fatorelli (2003) nos traz reflexões sobre a relação palavra e imagem estabelecida em algumas pesquisas. A linguagem.29). é também conhecimento e não só expressão dele (p. deixa de ser considerada como instrumento de expressão e revelação de saberes. oral ou escrita. Buscamos com esta dinâmica uma perspectiva em que fotografia é trazida como uma linguagem outra. Fotografar recria mundos: o fotógrafo (ou a fotógrafa) permanece detrás da câmara. referem-se a preconceitos adquiridos em outros momentos e se utilizam das imagens. 2003. não como um entre outros.

É o tempo desgastado nas tintas e nas chuvas. é fotografar muitas vezes a mesma coisa até conseguir dizer aquilo que se quer. de acordo com seus desejos. Há por detrás das lentes. 5 Trecho selecionado do vídeo “Encontros”. transformando a realidade em obra. a seu modo.5 Gene Heber . a partir de um vídeodocumentário3. Como nas palavras de Luis Humberto (2000). Entramos em contato com narrativas de diferentes fotógrafos sobre suas experiências. Uma paisagem não é apenas uma paisagem. Cristiano Mascaro e Gal Oppido.professora participante do curso. a busca pelos ensaios fotográficos é uma forma de tentar contar uma história. previsto ou inesperado. Para Juca Martins. Uma fotografia é resultado de um bom e fugaz encontro. de uma intenção que possibilita ver coisas que poderiam passar despercebidas. Uma parede. Fotografar é um prazer interior. de livros e revistas de fotografia. como se moldasse um mundo meu. recorta e define o momento certo do clique. não mais com uma fotografia. em outro significado que não funcional e prático (p. é colecionar imagens. Juca Martins. e que os sonhos saídos de mim. Cada um deles. não é uma parede. mas também de uma busca. Série “Encontros” do Itaú Cultural – Caixa Cultura: fotografia.10 reparando. façam alguém outro sonhar. é ir à busca de uma resposta para uma pergunta ou. 4 Trecho selecionado do vídeo “Encontros”. como nas palavras do fotógrafo Gal Oppido: é ter uma idéia e tentar traduzi-la em imagem4. um olho que escolhe. suas fotografias são fruto de um olhar O olhar fotográfico percorre caminhos distantes da realidade explícita. no qual há depoimentos dos fotógrafos: Maureen Bisilliat. Uma maneira da imagem se libertar do texto. se atém a alguns temas de interesse. Leonardo Crescenti intencionado. sensível e ativo. fotojornalista. o instante da fotografia se dá no momento em que há o encaixe entre o que está sendo fotografado e alguma idéia préexistente do fotógrafo. É aí que estampo meus sonhos. Lançamos ao final do curso um desafio aos professores (as): realizar um ensaio fotográfico individual na/sobre a escola que leciona. Tal exercício nos parece interessante para quem lida com a educação. Fazer um ensaio fotográfico é estudar algo por meio do olhar.27). A fotografia ganha diferentes sentidos em cada uma destas experiências. 3 10 . Roubo da realidade o que não existe no mundo real. mas com várias.

Foram criados diversos ensaios.. composição e jogo de luz e sombra. Diferentes sentidos que vão nos ajudando a descobrir nossas de artes de fazer fotografia. Como preparação para a elaboração dos ensaios. o encontro com o que não quer ser visto. digital ou comum. como enquadramento. Rosângela Rennó 11 . traduzir idéias. Antonio Carlos Amorim (2005). inspirado em vertentes pós-estruturalistas. Crio territórios para fazer o espectador duvidar daquilo que vê. entre o registro e a invenção que se dá no ato de fotografar buscamos compreender por onde caminham os significados dados aos pequenos acontecimentos dos nossos ricos e conflituosos cotidianos.115).. sugere-nos uma forma de produzir e de olhar para tais imagens do cotidiano: Como recursos de construção de nossas experiências cotidianas e de nosso imaginário e não uma expressão que possa ser submetida à análise e interpretação. desejos. escolhidos e pesquisados por meio da observação e da fotografia pelos professores (as): os olhares externos por entre as janelas de uma escola.11 Contar uma história. E nesta dança entre a informação e a imaginação. colecionar. moldar um mundo.. Fotografar é um movimento de expressão e produção de sentidos que se faz na relação entre os mundos internos e os externos. abordamos algumas técnicas básicas da fotografia. cada qual enfatizando um tema do cotidiano escolar. É possível forjar situações simplesmente pelo olhar do fotógrafo e pela edição. encontrar nossas minguadas verdades. os movimentos da criança nos diferentes espaços e tempos. estampar sonhos. assumida como possível e verdadeira nas apresentações do cotidiano (p. os instantes de solidariedade em uma sala de aula. Parece-me que pelas fotografias produzidas nos ensaios fotográficos expressam-se e produzem-se sentidos. Faço o que se passou a chamar de fotografia construída.. criar territórios. questionamentos e encantamentos sobre o vivo Deise Fahl – professora participante do curso. um espelho distorcido. para equipamentos simples.

. os computadores e os disquetes repletos de imagens digitais. processa pela fotografia como forma de possuir aquilo representado pela imagem. portas de banheiro. Os reveladores e os fixadores do processo fotográfico nos servem para este processo de Jerry Uelsmann 12 . as conquistas. os alunos.. Parece haver uma busca cotidiana de imortalizar alguns instantes. os bons encontros que merecem ser eternizados. Você escolhe uma imagem a ser retida. esmagada por tudo que querem fazer caber nela.. Restos escolhidos para serem mantidos. Entendo o ato de fotografar como um gesto de colecionar. Há muitos que passam e não deixam seus nomes. O que se quer que sobreviva a partir das fotografias? Na relação com as fotografias como se fazem e refazem sentidos sobre a escola? A escola com seus tempos esmagados pelos sinais que separam as aulas. esmagada pelos desejos do que deve ser a professora.. cadeiras. Pulverizam-se sentidos/acontecimentos neste A câmera é uma maneira fluida de encontrar outra realidade oferecimento à sobrevivência. Geralmente são os bons momentos que são Janaína Pinheiro – professora participante do curso. os cadernos queimados pelos alunos ao final do ano. tempo que nunca chega. pelos anos.. morremos e as fotografias são objetos que se oferecem a sobreviver entre nós.. parecem ser as alegrias.. O fotógrafo é um colecionador. morrem. Esmagada pelo tempo que corre. há os que passam e que insistentemente querem marcar o espaço: nomes de adolescentes por todos os lados. A escola muitas vezes é um lugar de apagamentos . Os acontecimentos passam. Rochelle Costi fotografados. os cartazes jogados no lixo ao final dos bimestres. Outras vezes não. de dar importância a eles. mesas. as boas sensações. de trazê-los a vista. Nas escolas fotografa-se muito. As caixas repletas de fotografias que se empilham nos armários das escolas..12 mundo da escola e busca-se eternizar o que muitas vezes se esvai nas rotinas escolares. paredes..os escritos da lousa transformam-se diariamente em pó de giz. os pais. pelos bimestres que separam os conteúdos.. O tempo na escola flui.

Revista Rosimar Alves . do que não foi. 2005.professora participante do curso 5. 2003(b).13 mumificação. Luis Humberto Bibliografia 1. Antonio Carlos. também as ajudam a tomar posse de um espaço que se acham inseguras (Sontag. que busca dar materialidade às luzes fugazes que continuam no espaço em destino infinito. Penso na fotografia como aquilo que se cria como resto. Rosane. COSTI. CHAUI. de encontro com nossas minguadas verdades. poderíamos pensar na fotografia como aquilo que deseja ser realidade. com as quais queremos estar apaziguados.. janeiro de 2003(a). Photografias. Fotografia e Antropologia – olhares fora-dentro. 1984. formação de professores (as) e currículo. 2005. acontece quando se dá o encaixe entre os significados descobertos no objeto de nosso interesse e alguma coisa pré-existente dentro de nós.19). do que poderia ter sido. O instante da fotografia. Eugen. 2. BAVCAR. nº 49. Cada instante desses é uma espécie de sofrida e exultante redescoberta de nós mesmos. 13 . Um outro olhar. mesmo que sejam incompletas. NOVAES. Cotidiano escolar.. Buscam criar um outro mundo. de reter aquilo que inexoravelmente passa. uma aspiração. Memória do Brasil. Como as fotos dão às pessoas a posse imaginária de um passado irreal. 1996). 4.. como restos do que foi.. São Paulo: Metalivros. São Paulo: Edusp. como objetos simbólicos que dão certa materialidade há o que insiste em esvair. Janela da alma espelho do mundo. 6.) São Paulo: Cia. BAVCAR. do que se deseja que seja. perfumes fugindo do mundo (Couto... Carlos Eduardo (org). Um passado imaginário. In: FERRAÇO. objetos que materializam desejos. ANDRADE.. 2002. escritascotidiano e currículo deformação. Eugen. 1999. Humanidades. p. AMORIM. São Paulo: Cosac & Naify. Sem título=untitled=sin titulo.. As fotografias são restos que recriam sentidos. In: O olhar. Tentativa de reter a passagem do tempo. Marilena. das Letras. Adauto (Org. 3. Rochelle. São Paulo: Cortez. Talvez.

15. A ilusão especular: introdução à fotografia. 14 . PASOLINI. a poética do banal. 16. In: Histórias Abençonhadas. Rio de Janeiro: DP&A. Ano II. Remexendo Fotografias e Cotidianos. MACHADO. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. São Paulo: Paz e Terra. 10. LEITE. 2003. 1996. NOVAES. 2006. Empirismo Herege. Revista 17.14 7. Paulo (Org). 1982. 1998. 14. Píer. Espaços e Imagens na Escola. (Coleção Leitura). Susan. nº 49. Márcia. SONTAG. Rio de Janeiro: Relume Dumará: FAPERJ. Lógica do sentido. MACHADO. janeiro de 2003. Nilda & SGARBI. In: ALVES. 11. 1995. Paulo. In: ITAU CULTURAL. Sérgio Cláudio de. 2003. Fotografia. Ensaios sobre a fotografia. 2000. Mia. Nicolau. 1984. 12. 9. 13. São Paulo: Brasiliense. Collage: textos sobre a re-utilização de resíduos (impressos) do registro fotográfico em nova superfície. O cego Estrelinho. 2001. Adauto. COUTO. Arlindo. 20.saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Editora Perspectiva. no7. 1984. Brasília: Editora UnB e Imprensa Oficial. Imagens Impossíveis. Gilles. DELEUZE. Fotografia e Viagem: entre a natureza e o artifício. 2004. 18. Luis. HUMBERTO. Lisboa: Assírio e Aluim. FRANCESCHI-LIMA. Arlindo. mar. Fotografia: visão do fotógrafo ou visão do real. FREIRE. Eu queria roubar a natureza. FATORELLI. 8. REVISTA BIEN´ART. Caixa de Cultura: fotografia (Caderno do Professor). 4ª ed. São Paulo: Companhia das Letras. 19. Humanidades. Antonio. Pedagogia da Autonomia . In: ITAU CULTURAL. Caixa de Cultura: fotografia (Caderno do Professor). 1998. São Paulo: Hassao Ohno: Parma Raul de Pace. SVCENKO.