CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993

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Cadernos de

Museologia
Centro de Estudos de Socio-Museologia

ISMAG/ULHT
Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias 1-1993

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ÍNDICE
Apresentação ................................................................................ 3

Mário MOUTINHO Sobre o Conceito de Museologia Social ............... 5
Agostinho RIBEIRO Novas Estruturas / Novos Museus ................................................ 9 Maria Madalena CORDOVIL Novos Museus Novos Perfis Profissionais .......................................................... 17 Luís MENEZES O Primado do Discurso Sobre o Efeito Decorativo ........................................................... 29 José‚ Manuel BRANDÃO Conservador e Museólogo: Abordagem de Conceitos Texto 1 ........................................................................................ 37 Ana Maria LOUSADA Conservador e Museólogo: Abordagem de Conceitos Texto 2 ....................................................................................... 43 Francisco CLODE SOUSA Museologia e Comunicação Texto 1 ........................................................................................ 49 Teresa AZEREDO PAIS Museologia e Comunicação Texto 2 ........................................................................................ 59 Luís MENEZES A Evolução de Conceitos entre as Declarações de Santiago e de Caracas Texto 1 ........................................................................................ 77 Francisco PEDROSO de LIMA A Evolução de Conceitos entre as Declarações de Santiago e de Caracas Texto 2 ........................................................................................ 85 João Paulo MEDEIROS CONSTANCIA A Evolução de Conceitos entre as Declarações de Santiago e de Caracas Texto 3 ....................................................................................... 95 Otília MORGADO F. JORGE Evolução de Conceitos entre as Declarações de Santiago e de Caracas

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Texto 4 ....................................................................................... 103 José Manuel BRANDÃO International Summer School of Museology (ICOM/UNESCO) ..................................................................... 111 Ana Maria LOUSADA; Maria Leonor CARVALHO; Otília JORGE e Leonor TAVARES Estágio de Museologia no Centre International en Formation Écomuseal, Quebeque: Balanço de Quatro Estagiárias ................................................... 125

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APRESENTAÇÃO
Efeito e causa da verdadeira revolução teórica e prática que, nos últimos tempos, vem tendo lugar na área das Ciências do Património e da Museologia, o Curso de Especialização em Museologia Social, quer pela sua qualidade substantiva quer pela quantidade das pessoas já formadas, deu um contributo decisivo para a consolidação entre nós, das novas vidências e vivências museológicas, que se procuraram sintetizar na designação terminológica e epistemologivamente inovadora de Museologia Social ou Socio-Museologia. No momento em que em que o referido Curso de Especialização em Museologia Social se vai transformar no primeiro Curso de Mestrado do ISMAG/ULHT e em ordem à prossecução, intensificação e alargamento dos seus objectivos originais, é criado no âmbito da mesma Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias o Centro de Estudos de Socio-Museologia (CESM).

Nada melhor que estas palavras fundadoras do Centro de Estudos de Socio-Museologia (Ordem de serviço de 26 de Março de 1993) para colocar nas primeiras páginas de uma iniciativa como a dos Cadernos de Museologia, a qual vem demonstrar com factos (que, por sinal, também são palavras escritas) a verdade daquelas afirmações, além de constituir, para os demais centros e áreas de estudo da ULHT, o "bom exemplo", que deverá servir não de imitação, mas de inspiração... Na sua voluntária discreção, não poderiam estes Cadernos de Museologia constituir também os primeiros passos em ordem a uma já necessariamente menos discreta Revista de Humanidades e Tecnologias do conjunto de todos os departamentos e outras unidades científico-académicas da ULHT ? Lisboa, 20 de Setembro de 1993 Fernando dos Santos Neves Reitor da ULHT

Esta evolução é evidentemente. aristocrática. tanto. na abertura da XV Conferência Geral do ICOM da seguinte forma: o fenómeno mais geral do desenvolvimento da consciência cultural . foi sintetisado pelo Director Geral da Unesco... museus itinerantes ou museus que exploram as possibilidades aparentemente infinitas da comunicação moderna . A instituição distante. olimpiana. situando a sua actividade no quadro histórico que permite esclarecer os problemas actuais. A revolução museológica do nosso tempo .que se manifesta pela aparição de museus comunitários. Frederic Mayor. ecomuseus. encontrado um acolhimento largamente favorável nos museus.tem as suas raízes nesta nova tomada de consciência orgânica e filosófica". Este processo anunciava-se já na Declaração de Santiago (1972 UNESCO/ICOM) onde se considerava também: Que o museu é uma instituição ao serviço da sociedade da qual é parte integrante e que possui em si os elementos que lhe permitirem participar na formação da consciência das comunidades que serve. quer se trate da crescente tomada de consciência cultural como reaçâo às ameaças inerentes à aceleração das transformações sociais tem no plano das instituições... consciente da sua relação orgânica com o seu próprio contexto social. traduz uma parte considerável do esforço de adequação das estruturas museológicas aos condicionalismos da sociedade contemporânea.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 5 SOBRE O CONCEITO DE MUSEOLOGIA SOCIAL Mário MOUTINHO O conceito de Museologia Social. tem cada vez mais . qualitativa como quantitativa.dado lugar a uma entidade aberta sobre o meio. que o museu pode contribuir para levar essas comunidades a agir.quer se trate da emancipação do interesse do grande público pela cultura como resultado do alargamento dos tempos de lazer. Que a transformação das actividades do museu exige a mudança progressiva da mentalidade dos conservadores e dos . Que esta nova concepção não implica que se acabe com os museus actuais nem que se renuncie aos museus especializados mas que pelo contrário esta nova concepção permitirá aos museus de se desenvolver e evoluir de maneira mais racional e mais lógica a fim de se melhor servir a sociedade . reconhecido e incentivado pelas mais importantes instâncias da museologia. .e alguns disso se inquietam . Este esforço de adequação. museus 'sans murs'. abcecada em apropriar-se dos objectos para fins taxonómicos.

noções e conceitos que podem dar conta deste processo. testemuham claramente que a comunidade museológica portuguesa se integra e é cada vez mais actora neste processo geral de transformação. conservadores. Hugues de Varine. A importante participação nessas reuniões de museólogos. as questões de interdisciplinaridade. ligados sempre e de formas diferentes a processos museológicos que cobrem todo o país. deve ter também em consideração as novas condições sociais da produção museológica. O alargamento da noção de património. de reforço do poder autárquico e da democratização da vida cultural e associativa. . é a consequente redefinição de "objecto museológico". apesar deste movimento ser mais recente. É pois neste contexto nacional e internacional. Refira-se a título de exemplo e em particular as "Jornadas sobre a função social do Museu" organizadas pelo MINOM (Movimento Internacional para uma Nova Museologia) em Vila Franca de Xira 1988. renovação e inovação que percorre os museus e a museologia. autarcas.". Na Declaração de Caracas de 1992. 3 do Estatuto do ICOM. deve ser entendida como um factor fundamental no desenvolvimento das nossas estruturas museológicas. Esta formação que em nosso entender deve ter obrigatoriamente por base o quadro geral da museologia. Vilarinho da Furna 1990. responsáveis associativos. a utilização das "novas tecnologias" de informação e a museografia como meio autónomo de comunicação. Beja 1991 e Setúbal 1992. deve-se reconhecer que estas questões têm sido amplamente debatidas no presente contexto de descentralização. a ideia de participação da comunidade na definição e gestão das práticas museológicas. tal como está definido no Art. a museologia como factor de desenvolvimento. Lisboa 1991 e Setúbal 1992 e os "Encontros Nacionais de Museologia e Autarquias" que já tiveram lugar em Lisboa 1990.que o ex-presidente do ICOM. considerou como a mais profunda reflexão colectiva sobre museus e museologia dos últimos vinte anos estes princípios são claramente reafirmados e considerados como fundamentais para o desenvolvimento da museologia e estruturam a prospectiva apresentada no Relatório de Síntese da XVI Conferência Geral do ICOM. Portimão 1989. Em Portugal. A abertura do museu ao meio e a sua relação orgânica com o contexto social que lhe dá vida tem provocado a necessidade de elaborar e esclarecer relações. são exemplo das questões decorrentes das práticas museológicas contemporâneas e fazem parte de uma crescente bibliografia especializada. investigadores e professores universitários. que a formação no domínio da museologia.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 6 responsáveis dos museus assim como das estruturas das quais eles dependem.

motivador para uma profunda reflexão e potenciador de um sem número de questões que à nova museologia cabe interpretar e responder positivamente. entre os velhos e os novos museus? Ou então não estaremos a discorrer sobre realidades cuja natureza se nos apresentam de tal forma diferentes na função e objectivos institucionais que deixa de fazer sentido tal dicotomia? Ou. Com efeito. na senda. por operações de cosmética? O que faz. Terá algum fundamento esta oposição novo/velho. em rigor. provado que está o desajuste de alguns museus já existentes? Fará sentido exercitar a possibilidade de. poder discorrer livremente sobre alguns fenómenos conceptuais em torno das mais recentes correntes museológicas. O título proposto. grosso modo. Se do ponto de vista sociológico uma estrutura se define. finalmente. função e utilidade da chamada "nova museologia". consequentemente. a renovação dos seus programas museológicos? E isto será nova museologia tradicional adaptada às novas circunstâncias. a existência (e eventual falência) das "velhas estruturas" e. conscientemente provocador.. por oposição. dos "velhos museus". a partir de estruturas pré-existentes. é.. é possível e desejável o encontro de soluções de compromisso entre as velhas e novas estruturas. como o conjunto de partes organizadas que mantêm entre si relações de interdependência com alguma consistência e . quer pelos equívocos que pode sugerir. pelo menos.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 7 NOVAS ESTRUTURAS/NOVOS MUSEUS Agostinho RIBEIRO Constitui um interessante desafio. "Novas Estruturas/Novos Museus" pressupõe. a diferença entre os velhos e novos museus? A função? Os métodos? Os objectivos? A que novas estruturas nos poderemos referir para potenciar a existência de novos museus? Estruturas sociais? Políticas? Económicas? Culturais? Todas? Nenhumas? Algumas. quer pela amplitude das abordagens que permite. os novos museus não são mais que a resposta actual às necessidades e preocupações que a sociedade contemperânea encerra. pelo contrário. num exercício meramente académico e sem outra finalidade que não seja a de expôr algumas dúvidas e interrogações sobre a razão de ser. a partir do tema proposto. no sentido da tão falada e discutida ruptura epistemológica primordial ou.? São todas estas questões e interrogações que irão merecer alguns comentários. ensaiar a criação de novos museus ou. aliás. dos grandes debates e discussões de princípios a que nos fomos habituando ao longo das sessões da cadeira "A Função Social do Museu". desde logo.

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durabilidade, tal realidade de conjunto nunca poderá ser considerada como algo rígido e imutável mas sim como um todo dinâmico em permanente transformação. Nesta perspectiva de base sociológica um museu pode ser considerado uma subestrutura em permanente relação e interdependência com as restantes subestruturas que, no seu conjunto formam o todo social. Se o desajuste existe, ou seja, se o museu não mantém nem potencia tais relações, a sua própria razão de ser deixa de ser válida ou importante para o conjunto. Perdida a noção desta relação a sua utilidade passa a ser discutível e a sua função perde eficácia. Neste contexto, não importa distinguir se estamos perante novas ou tradicionais correntes museológicas. Vale para todas na medida em que todas se constituem e existem em função do todo social. A diferença residirá nas inadaptações de algumas destas subestruturas por razões de natureza, a mais das vezes, operacional. A inadaptação técnica e/ou humana estará quase sempre na base destes desajustes. Com efeito, um museu, independentemente do seu programa, espaço e colecções, possui em si mesmo todo o potencial e apetência indispensáveis para uma correcta e eficaz inserção no todo social. O protagonismo humano, técnico e profissional, é que dará possibilidades ou não de inserção nesse mesmo todo. Isto remete-nos para o grande e grave problema da formação, que deve ser activa e permanente para, precisamente o factor humano consiga adaptar-se e adequar estratégias ao constante movimento e mutações que a sociedade contemporânea traduz. Assim, para podermos progredir numa reflexão cuidada em torno das novas estruturas que caracterizam os tecidos sociais actuais, eles próprios em constante movimento, é imprescindível proceder a uma caracterização, ainda que muito sumária, da própria sociedade, aos diversos níveis perceptíveis para a maioria das pessoas. Na sua totalidade, isto é, à escala planetária, põe-se em evidência as grandes dicotomias que não só a identificam como também resultam mais sensíveis à percepção humana. São os grandes problemas ou, para utilizar uma expressão mais corrente na cadeira, as grandes angústias com que a humanidade se debate, tantas vezes impotente para resolvê-las, dadas a amplitude e natureza das mesmas. Caracterizar a sociedade actual não é tarefa fácil e o rigor de tal análise é sempre muito discutível, porque subjectiva na valoração dos fenómenos políticos, económicos, sociais e culturais dos seus autores. A grande questão é a de saber o que marca e define, verdadeira e decisivamente a sociedade actual, do ponto de vista universal? A verdadeira revolução tecnológica que, por exemplo, ao nível das telecomunicações, produziu a "aldeia global"? O extraordinário desenvolvimento científico que permite a manipulação e domínio em áreas do saber que vão do infinitamente grande ao infinitamente pequeno?

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A abundância e o desperdício dos países e continentes ricos em oposição à fome e miséria dos cada vez mais pobres? O fim das ideologias ou a ditadura de uma só, no contexto político internacional? A vitória do consumismo versus capitalismo selvagem num permanente sacrifício do equilíbrio social (identidades socio-culturais próprias) e natural (degradação permanente e irresponsável do ambiente)? Desprezo alarmante pelos mais elementares direitos do ser humano e da vida em geral, em certas áreas do globo, em oposição à assunção, por vezes ridícula e hipócrita, noutras, em função de meros interesses economistas? Explosão de fundamentalismos religiosos e rácicos? Choques de cultura ou profundas resistências ao fenómeno cada vez mais sentido de aculturação? E os Museus? Que papel podem e devem desempenhar no meio disto tudo, ou seja, como estrutura crítica e interveniente no processo de desenvolvimento económico, social e até mesmo político? Terão os museus obrigações e responsabilidades em áreas que, à partida, parecem distantes da sua vocação específica? No documento final das resoluções adoptadas pela Mesa Redonda de Santiago, são precisamente estes fenómenos os que merecem maior destaque declarativo. Estamos perante uma situação que vai muito mais além do que uma mera tomada de consciência e posição públicas sobre assuntos que afligem a comunidade internacional. Com efeito, esta declaração promove e anuncia um novo tipo de museu, que pouco ou nada tem que ver com os museus ditos tradicionais, quase exclusivamente vocacionados para a recolha, classificação e preservação do património e sua consequente exposição com fins educativos e de recreio. O museu "integral" insere, no âmbito específico das suas actividades, preocupações de carácter social e defende a participação alargada da comunidade como justificação última da sua própria essência e razão de ser. O museu passa a ser um instrumento de intervenção capaz de mobilizar vontades e esforços para a resolução de problemas comuns, no seio das comunidades humanas onde se encontra. Os espaços e as colecções passam a plano "secundário" e a "pessoa", singular e/ou colectiva, assume o papel primordial no processo museológico. Tudo funciona e se justifica num quadro de profundas relações e trocas sociais, em áreas tão aparentemente diversas que vão da animação cultural ao desenvolvimento económico, passando pelas funções tradicionais que aos museus é suposto cometer. A declaração de Santiago, no fundo, constata uma realidade específica (América Latina) com todas as suas contradições e injustiças para, seguidamente, propôr uma actuação

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museológica que tenha em conta estas realidades e as consiga, senão resolver, pelo menos minimizar. Pela extrapolação, a proposta é válida para todo o lado, salvaguardadas que devem estar as respectivas especifidades comunitárias, num processo de adequação às realidades concretas de cada zona do globo. O que está em causa não é, propriamente, a descoberta da panaceia universal, mas tão somente a prestação de um contributo que pode ser, em diversas circunstâncias, decisivo para a resolução de problemas de cariz social, por mais pequenos e irrelevantes que eles nos possam parecer à primeira vista. Curiosamente, toda a declaração nos remete para uma proposta de profundas mudanças, sobretudo ao nível das atitudes dos responsáveis, de estruturas museológicas pré-existentes não é absolutamente necessário que, para se conseguir atingir tais objectivos, se criem novas estruturas e se construam novos museus, como se esta fosse uma questão vital para a sobrevivência das novas correntes museológicas. É possível, embora se reconheça difícil, "contruir" novos museus a partir dos museus existentes. Tudo depende, afian, do labor humano que em torno da estrutura se pode, ou não, construir. Um museu dito tradicional, pode, em qualquer momento, revêr o seu programa, reformular os seus espaços, repensar as suas colecções, formar e actualizar os seus quadros, integrando novas funções mais compatíveis com os desafios da sociedade contemporânea. Do ponto de vista teórico, nada impede que tal aconteça. Na prática, sabemos bem que as resistências são muitas e as possibilidades de êxito bastante reduzidas. No entanto, este será um exercício aliciante e construtivo para quem quiser e ousar pô-lo em prática. É importante que as barreiras que separam a "nova" museologia da "tradicional", se esbatam e se tente construir um espaço intermédio de intervenção que resulte em algo mais que simples actualizações dos esquemas tradicionais, tão gratos à maioria dos museus existentes sem chegar ao ponto de negar a herança museal que a identifica e, de certo modo, a justifica. Resta pois considerar que é desejável que os novos museus surjam e laborem a partir de novas estruturas. Isso é inquestionável, mais que não fosse, por uma questão de eficácia. Tal não implica, entretanto, as reais possibilidades e pouco exploradas apetências dos existentes, capazes de também contribuir para uma nova museologia, mais virada para o homem que para o objecto. Até porque qualquer objecto só tem valor e tem valor precisamente porque foi construído pelo homem.

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económicos e políticos na segunda metade do nosso século vem afectar todas as estruturas e instituições. Local de "culto" e repositório do prestígio da sociedade dominante. a acção de Georges-Henri Rivière começa a fazer sentir-se. II . as ideias de "novo Museu" e de "novo museólogo" têm sido entendidas e aplicadas. bem como os novos conteúdos que tal conceito integra hoje. ao mesmo tempo que dotá-lo dos elementos indispensáveis para exercer uma liderança social. mas dos contributos de outras áreas e socorremo-nos de bibliografia suplementar àquela que foi fornecida. supõe. 13). de que maneira e que circunstâncias determinaram que o conceito de Museu tivesse sido alterado. mas.O NASCIMENTO DA NOVA MUSEOLOGIA Durante mais de um século o Museu permaneceu como uma instituição inquestionada. a existência de um "novo Museu". uma gestão eficiente e uma comunicação acertada" (id. sobretudo. A tais mudanças não escapou a instituição Museu. ao qual eram transmitidos os valores que as peças veiculavam. logo no imediato pós-guerra. No início dos anos 60 uma equipa liderada por Hugues de Varine-Bohan transforma todo um território económica e . o Museu ía difundindo a sua "colecção" a um "público" que se pretendia variado e que nela se revia ou não. percorrer a história mais recente da museologia e verificar quando. um pouco por toda a parte. não apenas nas sessões de "Função Social dos Museus". este novo perfil profissional dos trabalhadores dos museus proposto pelos participantes do Seminário de Caracas. no caso português. 13). Para tanto servimo-nos das ideias e do debate suscitados ao longo do ano. Antes de definir o perfil do novo museólogo impõe-se.INTRODUÇÃO A recente Declaração de Caracas considera no seu ponto 6 que a "profissionalização do pessoal dos museus é uma prioridade que esta instituição deve encarar como premissa para contribuir para o desenvolvimento integral das populações" (p. então. para verificar como. primeiro em França e. p. De facto. depois. igualmente. A emergência de novos paradigmas sociais. Ora. A esta recomendação subjaz a ideia de que a formação do museólogo deve "torná-lo capaz de desempenhar as tarefas interdisciplinares próprias do museu actual.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 12 NOVOS MUSEUS NOVOS PERFIS PROFISSIONAIS Maria Madalena CORDOVIL I .

CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 13 socialmente degradado no Ecomuseu de Cresot com a participação da população. Pouco tempo depois. reconheceram os participantes do Seminário de Caracas. perante uma nova concepção de Museologia e um novo tipo de Museus e não se trata já de adaptar ou ampliar as funções do museu tradicional. A declaração final desta assembleia. então. então." Mais se afirmava então. a ideia de que o desenvolvimento dos povos é algo que tem a ver também com os museus e. no tema mesmo da Mesa Redonda. assimilando os conceitos de ecomuseologia e da nova museologia e pondo a tónica no desenvolvimento e no equilíbrio ecológico. Abrem-se. . é da máxima importância porque define claramente o novo tipo de Museu. (Provavelmente nasceu então o termo e constituiu-se o conceito de Ecomuseu). realizou-se no México uma reunião que juntou alguns dos participantes do Quebéc a outros latino-americanos. as experiências estimuladas pela Mesa Redonda de Santiago. visavam transformar o Museu num organismo vital para a Comunidade e num instrumento eficaz para o seu desenvolvimento integral. Trata-se agora de ultrapassar estes princípios substituindo-os por um território. a ideia de que o Museu não é apenas repositório de colecções do passado mas que a sua acção tem que ver com a contemporaneidade. aos seus fins e métodos: por um lado. A declaração final afirma "a necessidade de uma tomada de consciência pelos Museus da situação presente e a necessidade para estes de desempenhar um papel decisivo num mundo em transformação". Do mesmo modo. Aí se afirma: "O museu tradicional produz-se num edifício. como vinte anos mais tarde. Logo aí. na Europa e no continente americano. A esta museologia de cariz popular a declaração chama Museu Integral e define-a como vocacionada para "situar o público no seu mundo para poder tomar consciência da sua problemática enquanto indivíduo e homem-social". um património integrado e uma comunidade participativa. se introduzem duas ideias inovadoras no que respeita à museologia. O desenvolvimento de tais experiências museais. por outro. um pouco por todo o mundo. o ICOM promove em 1972 a Mesa Redonda de Santiago significativamente dedicada ao tema "O desenvolvimento e o papel dos Museus no mundo contemporâneo". ao mesmo tempo que lembra que a abordagem da realidade socio-cultural deve ser multidisciplinar e interdisciplinar. levou à primeira reunião internacional da Nova Museologia que teve lugar no Quebéc em 1984. adaptado aos novos tempos. Experiências semelhantes desenvolveram-se. conhecida como Declaratoria de Oaxtepec. Estamos. as portas à existência de um Museu de novo tipo que se adapte e sirva as pequenas comunidades locais e regionais. com uma colecção e para um público determinado. que um tal museu constituía um "Acto pedagógico para o ecodesenvolvimento". Aproveitando as especificidades latino-americanas e o momento particular que então se vivia no Chile. de facto.

a massificação ou a falsa cultura". as culturas etnológicas e as culturas eruditas para proporcionar o desenvolvimento desta cultura crítica que permite adquirir o sentido da qualidade.Novo Desafio dos Museus. apresentação. A Mesa redonda de Santiago do Chile sublinhava com ênfase a "orientação eminente social do papel da museologia". Esta declaração vai mesmo mais longe ao terminar afirmando ver na "museologia um instrumento para o livre desenvolvimento das comunidades". o desenvolvimento da cultura crítica no indivíduo e o seu desenvolvimento em todas as camadas da sociedade como melhor remédio para a desculturização. p. 3/4. reunido em Aragão. Para o desenvolvimento desta consciência cultural e patrimonial como meios de desenvolvimento integral. René Rivard. o património material. conservação. "Formação de promotores seleccionados no próprio meio. Tal directiva foi assumida e reforçada em Oaxtepec. O NASCIMENTO DO NOVO MUSEÓLOGO 1 . Criação de uma museografia popular. . Preparação e participação de profissionais para um diálogo consciente com a comunidade". então. utiliza. Criação de estruturas associativas. os participantes reunidos em Caracas reafirmam esta função social do museu atribuindo-lhe uma nova dimensão que "é a de ser protagonista do seu tempo" . em 1987. Curiosamente. libertar-se dos estereótipos e portanto. a fim de preservar a cultura viva. Duas décadas decorridas. valorativa e difusão. mas não podemos deixar de sublinhar. a nova museologia. incluindo inventariação. durante o IIIº Atelier Internacional da Nova Museologia. O que. (Museologie et Cultures. mas mais tarde. retomou as mesmas ideias ao afirmar que "A nova museologia tem essencialmente por missão favorecer por todos os meios. . implica que se encontre para ele o perfil do profissional adequado.O Desenvolvimento .CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 14 A escassez do espaço disponível não permite uma análise cuidada dos pressupostos e das conclusões das duas declarações em apreço. o desenvolvimento sócio-económico e a dignidade humana". III. pela síntese que representa. E mais adiante: "Dependendo do tipo de instituição na qual opera. . assegurar ao maior número uma estratégia de vida individual e colectiva do mesmo modo que uma identidade mais forte".p. o seguinte ponto da Declaratoria de Oaxtepec: "É necessário fortalecer e desenhar acções que integrem vontades políticas conscientes. Sublinhados do autor). definido que está o Novo Museu. os participantes da Assembleia de Oaxtepec recomendavam: .

humanamente valorizado. entre o objecto e os seus utentes ao substituir o conceito de público pelo de população e comunidade.a comunidade. em Portugal. museólogos. Desde logo. deitou abaixo as barreiras.O Papel do Museólogo no Museu Tradicional Em comunicação apresentada às Ias Jornadas Sobre a Função Social do Museu. É que. e aboliu mesmo o conceito e a necessidade do edifício. o novo conceito de Museu. Bem como. Ora. . Entretanto. a função do conservador deixa de ter. Isto equivale a dizer que o conservador é um especialista. De facto. o seu equilíbrio físico e químico. o destino e o usufruto do património assumem um carácter distinto daquele que têm no Museu tradicional. definido a partir da Mesa Redonda de Santiago. comunicações.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 15 e conclamam os trabalhadores do museu a "assumir a dinâmica da mudança e a preparar-se para enfrentar com êxito o desafio". na conservação e no restauro de peças. Tal reflexão teórica. Raramente se ocupa da investigação aprofundada do património que tem à sua guarda e por vezes. o conservador tem a seu cargo a preservação da colecção. com a intervenção de outros agentes . realiza actividades de extensão cultural. neste tipo de Museu. Rui Parreira dá conta dos equívocos que envolvem a designação de Museólogo. o enquadramento anterior. dão igualmente conta desta preocupação. deixou de sacralizar o objecto ao mantê-lo no seu enquadramento histórico e ambiental. no museu tradicional. Não só as tarefas são diversas. como há que contar. que não cabe aqui analisar exaustivamente. Pode bem dizer-se que o desenvolvimento é agora o novo desafio. o desenvolvimento passou a estar no centro das preocupações dos museus. aqui. chegou a definir os contornos do modelo de desenvolvimento que se requer desenvolvimento integrado por oposição ao simples crescimento económico . e ainda. sobretudo da última década. o Museólogo era identificável ao Conservador. substituindo-o por todo o território em que a comunidade exerce a sua actividade e influência. 2 . inúmeros textos. poder político central.e a posicionar perante esse desafio os vários intervenientes: população. uma vez que os objectos estão deslocados do seu contexto ambiental e histórico e a sua apresentação a um público. nesse tipo de instituições. Em praticamente todos os Encontros celebrados desde 1985 até aos nossos dias (Jornadas Sobre a Função Social do Museu: Encontros Nacionais sobre Museologia e Autarquia) encontramos temáticas. conclusões e recomendações que versam o problema do desenvolvimento das comunidades. que se pretende vasto. poder autárquico. a redefinir os elementos constituintes do Museu. também entre nós. com formação académica adequada. falando-se agora de património integrado. na administração. Como já atrás demos conta.

é claro que esta acção se faz com as populações e para elas..34). mas reveste muitas vezes o carácter de intervenções nos domínios do social.. da felicidade e do prazer. do património para um autodesenvolvimento individual e colectivo... de desenvolvimento integral das populações e com as populações".O Novo Museólogo 16 Ao novo Museu incumbem então diferentes funções. supõe a acção criadora da população no seu próprio desenvolvimento. Adiante e nas mesmas conclusões. quando se afirma que "a museologia (. respeitando a diversidade de interesses.. Nesse sentido o Museu é um centro de formação de criadores". * favorecer as trocas culturais reconhecendo o saber das populações. muito para além da tradicional conservação de uma colecção. E a finalizar: "o novo Museu é um agente de desenvolvimento através de um trabalho criador e de sentido libertador feito pela população (em que se integra a equipa museal). o que há de novo nas práticas da Nova Museologia é a demonstração da capacidade (e a prática disso) de as populações se auto-organizarem para gerir o seu tempo e o seu futuro". (p. (Cadernos de Minom. E mais adiante: "nesse sentido.. investigadores. Por outro lado.) cuja acção se desenrola em ligação com os restantes elementos que integram o projecto e tem de ser sempre orientado para a resolução dos interesses da população. cultural e social com vista à reapropriação do território.. o grau de desenvolvimento e as necessidades em número de participantes em cada projecto (. M.. ainda que haja a consciência de que essa participação se manifesta de modo vário. . O mesmo documento dá um assinalável contributo para a definição. (p.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 3 . O IV Atelier da Nova Museologia define como objectivos comuns do Museu a favor das populações: * favorecer a tomada de consciência. do político (. agentes de desenvolvimento. * estimular a criatividade em função de uma qualidade de vida.. pondo sempre a tónica na liberdade e na criatividade das próprias comunidades.) na detectação e resposta a esses problemas têm papel fundamental os técnicos (museólogos. o enquadramento e o papel do museólogo ao afirmar que se reconhece "o carácter mais vasto da acção do museu e do museólogo que não pode confinar-se à acção cultural (que no entanto é essencial) e ao espaço local. 13).)".)". instrumentos. contribuir para o despertar da dimensão política...)". para a população (. animadores. p.. afirma-se: "Na perspectiva do desenvolvimento integral da população a primeira obrigação do Museu e da equipa museal é detectar as carências do meio e responder-lhes de modo correcto e eficaz (. Tais intenções ressaltam nas conclusões do grupo III das citadas Ias Jornadas.) a par de outros. Ou ainda "a acção da N.. nº1. do económico e até.. 33).

pois uma nova vertente do perfil do novo museólogo. empreender. tem de ser capaz de detectar e gerir os problemas com que se defronta a comunidade. a Declaração de Caracas aponta para que se aproveitem os seus benefícios e ensinamentos. utilizando-os de modo crítico. o problema da formação de museólogos para criar museus. nomeadamente a Declaração de Caracas.Comunicação e Linguagem Sejam quais forem os problemas concretos com que se defronta cada projecto museal.6). ao mesmo tempo que se aproveita a sua utilização para desmistificar o uso de tecnologias sofisticadas sempre que seja em proveito do homem na sua integridade. A linguagem específica do museu deve merecer ao museólogo e a toda a equipa um cuidado especial.8) Quanto às tecnologias ou informação. Eis. (Declaração de Caracas... as linguagens utilizadas devem ser variadas e facilmente descodificáveis por todos os públicos de modo a que a comunicação seja eficaz e tenha utilidade. Tal perfil implica um museólogo capaz de se integrar na população e se manter com ela um diálogo permanente. fundamentalmente. os museólogos sabem que "a função museológica é. "nesse sentido o processo importa mais do que o produto" (id. p. (id. gerir o Museu. um processo de comunicação que explica e orienta as actividades do museu (. e não apenas como meros testemunhos da produçaõ cultural do passado. que estão omnipresentes no mundo actual. de responder a solicitações variadas que vão das questões culturais às socioeconómicas e políticas. Além de que a comunicação no museu deve ser sempre entendida como um processo multidireccional e interactivo capaz de manter "um diálogo permanente que contribua para o desenvolvimento e o enriquecimento mútuos e evite a possibilidade de manipulação ou imposição de valores e sistemas de qualquer tipo". Semelhante ideia já tinha de resto.7). O que põe.)".CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 17 Do que acima fica transcrito ressalta que o museólogo do novo Museu é um profissional de tipo novo. insistem ainda em que o museu dirija o seu discurso para o presente. p. além do domínio das áreas tradicionais da museologia (que me parece não deverem ser esquecidas). incentivar ou coordenar os vários trabalhos de investigação que decorram na área do Museu e finalmente. para concluir que. Tem de ser capaz de integrar uma equipa que tome as decisões aos vários níveis. que. . finalmente. Os principais textos teóricos da Nova Museologia. mostrando que os objectos têm significado na cultura e na sociedade contemporânea e são por elas iluminados. sido afirmada nas Conclusões das Ias Jornadas Sobre a Função Social do Museu. p. 4 . De facto. Um profissional deste tipo tem naturalmente de ser polivalente e de possuir uma formação transdisciplinar.

assinalase no ponto 7: "Perante a impossibilidade de as instituições actuais darem resposta cabal à formação dos profissionais de museus de acordo com as necessidades actualmente sentidas. É que. de que este texto é largamente tributário. Recomenda-se que saia destas Jornadas uma Comissão encarregada de constituir um Centro de estudos para uma Nova Museologia que tenha nos seus objectivos a formação de novos profissionais. orientado cada vez mais para a satisfação das suas necessidades individuais e colectivas. a criação de ateliers práticos locais e a formação permanente e que se assuma como interlocutor válido junto das Universidades e Institutos que promovem ou possam vir a promover a formação profissional. justifica-se uma formação alternativa. Não deixa de ser sintomático que logo nas Ias Jornadas do Minom um dos temas em debate tenha sido "A profissão do museólogo no quadro de uma nova Museologia". passa pelo acesso à propriedade sobre o meio e consequentemente sobre o museu. tomar em mãos o seu futuro. poderá o Museu ser então. sensíveis à problemática acima enunciada. Esta relação." Cremos que terá sido aí dado um primeiro passo para a resolução deste problema.A FORMAÇÃO DOS NOVOS MUSEÓLOGOS Definidos que estão o novo museu e o perfil do novo museólogo. onde possa rever-se no seu passado comum e em conjunto. flexibilidade do museu . claramente o problema da formação profissional do novo museólogo. partilhar com elas as responsabilidades e a gestão de projectos museais e dotados de um saber pluridisciplinar. não queremos terminar sem abordar uma questão que nos parece essencial: a formação dos novos profissionais à qual as instituições tradicionais não poderiam ter dado resposta. a formação de novos profissionais. capazes de se integrar nas comunidades. Já as Declarações de Santiago e de Oaxtepec insistiam em dois ítems fundamentais no que respeita ao pessoal dos museus: por um lado. Coloca-se então. o espaço privilegiado para que toda a comunidade se possa expressar. Nas conclusões desse grupo de trabalho. uma participação acrescida da população que gradualmente deverá dominar as técnicas e o saber museológico e por outro. como afirmou Mário Moutinho em comunicação às IIas Jornadas Sobre a Função Social do Museu.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 18 IV . "A relação entre o Museu e o seu público ou utilizador tem vindo a ser modificada no sentido de maior implicação deste no trabalho museológico. V .CONCLUSÃO No respeito dos princípios acima enunciados que contemplam o enquadramento do novo museu e o perfil do novo museólogo.

).66. pela valorização das competências.. Cadernos do Minom." ("Museologia e Economia".CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 19 para funcionar como um utensílio de intervenção social. O que em última análise. in Textos de Museologia. nº1. . por estruturas de gestão não hierarquizadas e participadas. p. implica com a capacidade e o trabalho de dinamização que o museólogo for capaz de transmitir à comunidade em que se desenvolva o seu trabalho.

Um programa. colocá-los no seio de conjuntos significantes.explícita ou implicitamente. é assim um acto científico. apresentando em maquete o exemplo de vitrinas. e o projecto nesta acepção. o acto de conceber as estruturas de exposição. sem perturbações por parte dos equipamentos. a estrutura da exposição. Colocar em situação é.um projecto museológico tem de encontrar os meios e processos de exposição.o colocar em valor e o colocar em situação . da predominância do programa sobre o modo de emprego no espaço das colecções. Partindo do princípio que a museologia vive entre a tensão do desejo de mostrar e de dizer. selecção e apresentação. Ela funda-se sobre imperativos científicos. De imediato. a uma concepção museológica. projectar para uma exposição. e este suporte materializado é inerente. deve ser proporcional à importância do discurso museológico pré-definido. programa e projecto não devem corresponder só às necessidades de exploração científica das colecções de um museu. que define como preservar e musealizar. a propósito de dados científicos e sua interpretação. diga-se que uma exposição não se improvisa. um suporte cuja forma substantiva exprime o uso do vidro-matéria prima de construção de algo que se pretende constituir como uma barreira entre o objecto exposto e o meio ambiente. devem saber destacar os valores inerentes à comunidade em que se inserem. Assim. em função de uma estrutura racional resultante da investigação prévia do que se pretende expôr. na medida em que constitui a armadura ideológica da exposição. como diria Henri Georges Rivière . Utilizar a relação e comparação entre objectos. de forma a que seja acessível e simplificada a percepção da mensagem. Todavia. ao nível da sua arquitectura e composição interna. é por seu turno. segundo os imperativos do discurso programático. .CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 20 O PRIMADO DO DISCURSO SOBRE O EFEITO DECORATIVO Luís MENEZES Trata-se nesta abordagem de pôr à discussão os modos de exposição nos museus. É dar resposta a esta função primeira. e dando resposta às permissas do programa de exposição. que determinam um programa e um projecto. através dos diferentes espaços estabelecidos pelo projecto. estabelecer os percursos adequados à transmissão de uma imagem concreta do discurso museológico. A sua elaboração prevê a escolha dos objectos e disposição. entende-se a concepção de itinerários. em síntese. são items que derivam em última instância. Colocar em valor. os meios de apresentação para uma melhor apreensão possível dos objectos e documentos. como situar-se no âmbito das suas necessidades. No sentido de colocar em situação. mas também pela sua pertinência.

a evolução operada desde que surgiram os museus. a intensificação das empresas coloniais por parte dos poderes europeus. Já a partir do séc.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 21 Mediante este entendimento. a subtileza de dignificação ou valorização de uma peça em exposição. a este novo movimento se liga uma preocupação de classificação dos objectos e selecção do que se apresenta ao público. outros mais naturalistas e etnográficos. a revolução industrial e a sua propagação gradual na Europa e América do Norte. os museus reflectem uma alteração importante. mas sim a forma de utilização ou o trabalho museográfico que lhe é subjacente. em Londres. -. Questões de protecção ou segurança. artes decorativas. salientando as implicações entre a museografia e o discurso museológico. onde se arrumam as unidades . cujo testemunho é o surgimento das vitrinas nos museus. resguardo de agentes fisícos ou químicos. resultante da eclosão do espírito de colecção. artes e ofícios. etc. em que os povos tomam a consciência da sua identidade.museus de arte e arqueologia. Para elucidação da questão levantada. etnologia. só a partir de 1750. vem a necessidade de uma outra forma de apresentação. projecta-se como exposição permanente e de tudo. e evocando a imagem de uma filosofia humanista ou o microcosmos dos conhecimentos humanos. XVIII. as implicações políticas e culturais da Revolução Francesa. XV. Com o apogeu do tempo das "luzes". história natural. reforçando a sua missão de educação e protecção do património. Dá-se uma impulsão irreversível no mundo internacional dos museus nesta época. por parte dos seus realizadores particulares. A forma de apresentação dos objectos desde o nascimento dos gabinetes de curiosidades ou dos quartos maravilha no séc. vejamos em primeiro lugar. e a emergência da burguesia como classe dominante. mas a forma como se apresenta este trabalho e as suas implicações sobre o discurso museológico. sem contudo se abandonar o espírito de colecção. espaço por execelência simbólico da nova era. enquanto preocupação da museologia tradicional ou da nova museologia. revelam sobre a sua aparência de bric-à-brac a necessidade pré-enciclopédica de comparar e explicar. se encontra uma alteração significativa na instituição museal. Depois. a par da inauguração da primeira exposição internacional em 1851. e de forma breve. Com a classificação. por inspiração nas montras. o movimento das nacionalidades e o acesso à independência dos países da América anglo-saxónica e latina. não estão aqui em discussão. . com a sequência de diversos acontecimentos históricos de impacte universal. reproduzindo em síntese uma evolução da própria museografia. relação que não é tão secundária como uma primeira leitura possa sugerir. não oferece discussão a necessidade técnica de um suporte expositivo. de pintura. Uns mais artísticos. ao mesmo tempo que se generaliza na Europa a estatização do processo de musealização. com o fim de promover a indústria.

no séc. das falsas vilas na Suécia . inaugurado em 1905. como o dos museus de etnologia e ciências naturais. constata-se a orientação ecológica dos museus de história natural. constituem o veículo ou o meio de expressão ideológica do Poder.museus de pleno ar -. XIX. já esta evolução operada a partir do séc. e à própria interactividade quando a lei científica se entende como o objecto do trabalho museográfico . Neste âmbito. o grande instrumento de explicação do cosmos. as exposições universais onde a vida rural e colonial encontram a sua verdadeira vitrine. Sucedem-se os casos dos parques zoológicos. como ideologia triunfante.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 22 seleccionadas segundo um princípio de uma nova racionalidade cientifíco-disciplinar. quando a forma de apresentação retira o objecto da sua força evocativa. Ainda no séc. com as restituições ou reconstruções de ambientes numa tentativa de aproximação à realidade. ainda que se assista a uma exposição exaustiva.o que conta é a experiência vivida por cada um no museu". a exposição como uma "mise en scène". como posteriormente a inauguração do Planetarium de Paris em 1913. XVIII. com o desenvolvimento dos museus de etnologia. o objecto transforma-se num emblema. Como afirmava Georges Henri Rivière.. a museografia tende cada vez mais a desprender-se do objecto. marca o nascimento do museu racional. de apresentação e exposição. como para finais do mesmo século. as exposições revertem-se na pretensão de serem o espelho do progresso. nascidos após a revolução industrial. Todavia. acompanhando a diferenciação das diversas disciplinas que vão enriquecer a museologia. Refirase o exemplo pioneiro de interactividade do museu de modelos mecânicos de Munique. a abstração leva até ao surgimento das maquetes e modelos mecânicos nos museus.em que é já o público por si mesmo a tornar-se o objecto de experiências. Não obstante. simboliza a passagem de uma museologia da observação para uma museologia do discurso. XIX se evidencie ainda o príncipio exaustivo de apresentação. ". para repôr como suporte de um discurso de valores ideológicos. Ao mesmo tempo que surgem neste período os primeiros museus pedagógicos e da ciência. e a colecção propriamente dita a distanciar-se. como a ilusão procurada pela museografia. No caso dos museus de arte ou das ciências e técnicas. . Acompanhando o passo dado pela museografia através do primado do discurso. as exposições de armas e artefactos de tribos colonizadas. cuja etapa inaugural constitui a criação de espaços específicos para colecções. dá-se início a outras práticas museológicas. e vulgarmente no século seguinte. e ainda antes da I Guerra Mundial. é este o ponto em que o discurso museológico se interioriza. num contexto de disputas coloniais e a discussão sobre os direitos históricos das potências ocidentais sobre os territórios conquistados. Já entrado o século XX. por iniciativa americana..

Após a II Guerra. como o reforço da tendência ecológica dos museus de história natural. um novo modelo de apresentação faz apelo a três princípios: a selecção. e ao apresentarmos estes exemplos de suportes expositivos. e não por razões decorativas. que por seu turno é geralmente preconizada pela cor cinzenta. e não do detalhe dos seus acessórios. entendese como inversa à consciência de que a qualidade de uma exposição depende em primeiro lugar de tratamento do tema. ou motivos de divertimento. como no Museu do Império em Roma. a informação e. Três aspectos relacionados com o trabalho museográfico. ferindo a coerência material e formal de uma apresentação. ou na forma de estruturação de um espaço museológico. em simultâneo nos países fascistas à exaltação da pátria de forma teatral. um caso pontual ilustrativo da relação existente entre a museologia e a museografia. mas não deixa contudo de se lhe colocar o desafio perante a evolução dos meios de animação e difusão cultural. convertendo o suporte expositivo num elemento ilustrativo de si próprio. O mesmo será dizer. de forma banal. a sobriedade. Dentro desta problemática. entre as duas guerras. que a consideração de um bom livro não depende da sua capa ou papel de impressão. e a noção de museu-laboratório posto em prática pelos museus de história natural estão em franco desenvolvimento. traduzido pela criação de uma ambiência neutra. mas do seu conteúdo. como um fim em si mesmo. perspectivando aqui o texto como ao longo da história dos museus se foram encontrando outras formas e meios de apresentação ou exposição. Actualmente a tendência da museologia é para a animação e para a interdisciplinariedade. Não obstante. Os meios de apresentação numa exposição devem ser judiciosamente seleccionados em função da sua eficácia. após a Revolução de 1917. que pretende facilitar a concentração sobre o objecto ou documento. e os museus de arte contemporânea passam a acolher a fotografia. enquanto os serviços educativos e culturais dos museus ganham cada vez mais recursos e maior eficácia. na primeira metade do séc. cujo exemplo paradigmático desta é o ecomuseu nascido nos anos 70. Esta justaposição. uma vez que toda a forma de exposição induz sentimentos e valores que transformam o objecto em análise. Por outras palavras. verifica-se uma cada vez maior especialização dos museus. não pretendemos realçar. vitrines pouco visíveis e etiquetas discretas. dos anos 30. como a expressão museológica da geologia e da biologia. XX. os museus de arte em geral não sofrem alterações significativas na sua forma de apresentação. e meios audio visuais. senão caricaturar. O paradoxo que se pretende evidenciar aqui. é o da primazia da estética num processo museográfico. reflectindo a instituição museal o confronto ideológico de dois mundos. cuja apresentação de árvores geneológicas servem para justificar o racismo. não devem expôr-se entre o objecto e o público como elementos . e uma cada vez maior massificação e comercialização cultural. pela estética.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 23 No período subsequente.

CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 24 decorativos. ou da identidade do discurso museológico. ou procurando o seu "anonimato" e neutralização perante o objecto focalizado na exposição. em detrimento da perda dos princípios de seriedade cultural e científica da museologia. embora a museografia deva estar consciente dos modernos processos tecnológicos disponíveis para uma mais eficiente e eficaz divulgação e informação cultural. . que um projecto de exposição deve determinar a organização do espaço. definindo as distâncias espaciais ou museográficas que correspondem à hierarquia das ideias do discurso apresentado. cabe por fim conceber um projecto que responda com eficácia a uma pontuação do espaço. Aos experts na matéria. sem exibir os meios operativos. Conclui-se. adequado à organização ideológica da problemática a transmitir. deve estar ao mesmo tempo consciente de que isso pode reverter-se numa nova obsessão pelo espectáculo.

ultimamente de uma forma mais pensada. educação e recreio" (Dec-Lei 45/80 de 20 de Março). despoletou subitamente com o novo clima social criado pelo 25 de Abril e tem vindo a amadurecer ao longo dos anos.instituições permanentes ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento. tanto para o desenvolvimento de capacidades e aptidões dos indivíduos. é também corolário da revalorização do papel que os Museus têm vindo a desempenhar na sociedade. que. em que a par de regulamentos. ao mesmo tempo que os adquirem. definição de carreiras e outras recomendações específicas. Assim se justifica que encontremos já um quadro legal bem definido.. Este movimento.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 25 CONSERVADOR E MUSEÓLOGO: ABORDAGEM DE CONCEITOS Texto 1 José Manuel BRANDÃO A proliferação de Museus regionais e locais bem como de parques. se definem os Museus como ". isto é os edifícios (independentemente da sua funcionalidade e equipamento). da tomada de consciência do valor intrínseco que as exposições têm. nem mesmo os espaços que tradicionalmente lhes têm sido atribuidos. Velhas e Novas Práticas A tomada de consciência da força que as mensagens "passadas" pelos Museus têm. como para a sua própria integração social. mais nítido nas duas últimas décadas. conservam e expoem para fins de estudo. permitiu reequacionar o seu posicionamento social destas organizações. como contributos para o desenvolvimento integral dos cidadãos. fruto sobretudo. a legislação define um quadro de pessoal técnico e de apoio. . no qual os conservadores são assumidos como os principais intervenientes na elaboração das políticas de actuação das respectivas instituições. que fazem investigação sobre os testemunhos materiais do Homem e do seu ambiente. pode dizer-se. Para a prossecução dos objectivos a que se propõem os Museus. O nosso país não tem sido estranho a esta movimentação. é sintoma do despertar de um novo interesse pelas questões da preservação e salvaguarda do património natural e cultural.. sem fins lucrativos e abertos ao público. concluindo-se que na sociedade actual as funções que os Museus devem desempenhar já não são consentâneas com as exposições-repositórios de curiosidades tradicionalmente produzidas e mantidas. reservas e áreas protegidas a que se tem vindo a assistir um pouco por toda a parte.

ao entenderem que a função museológica é fundamentalmente um processo de comunicação que serve para estabelecer uma interacção da comunidade com os processos e os produtos culturais. Em ambos os casos há necessariamente uma diferença abismal entre o conteúdo das mensagens e da sua formalização. Assim. recorrendo às novas tecnologias de comunicação e revalorizando o significado dos materiais exibidos têm vindo a renovar completamente as suas exposições. mas pela produção de exposições que resultam duma necessidade sentida e participada pela comunidade. canalizando para elas os recursos necessários à sua preservação. Quando nos propomos analisar o conjunto de Museus que conhecemos. prática emergente da verificação de que os Museus contém os elementos que possibilitam a consciêncialização das comunidades em que se inserem e que os Museus devem estar ao serviços da sociedade (Declaração de Santiago. que nelas se revê". Pautando-se pelas linhas tradicionais. e os Museus de comunidade. conservação e exibição. noutra perspectiva poderia dizer-se que o contraste se nota também pelas exposições surgem não para "dar ar às peças" ou para mostrar o que valem os seus conservadores. Conservadores ou Museólogos ? . No primeiro caso temos uma linguagem hermética. em certa medida. Museus centrados no engrandecimento das suas colecções. fazendo apelo a novas museografias. assimilar as duas diferentes facetas ou correntes da Museologia: por um lado a visão clássica da função museal. na linha da qual são produzidas e mantidas exposições "científicas" sobre as mais variadas matérias. 1972). por outro uma "nova Museologia". que embora não dispondo do "mediatismo" dos anteriores estabelecem fortes laços com a população e "passam" mensagens com muito maior facilidade. que perseguindo diferentes objectivos e atingindo diferentes públicos. de forma que qualquer pessoa as possa apreender e interiorizar. podemos. havendo apenas em comum. vamos encontrar os grandes Museus tutelados pelos Governos ou ligados a grandes instituições culturais: seguindo a outra linha de trabalho. deparamos sem grande dificuldade com a existência lado a lado com dois grandes tipos de Museus. onde em vez de um espaço limitado se tem toda uma região e em vez de uma colecção se tem toda uma comunidade com o património que a caracteriza. e o modo como estas são concebidas e montadas. atigindo apenas públicos determinados.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 26 É nesta perspectiva que muitos Museus têm vindo a defender. Este contraste é ainda mais nítido no caso específico dos recentes ecomuseus. em que a acção se desenvolve não sobre os objectos mas sobre as pessoas que os criaram e os utilizam. criando de si próprios uma nova imagem. Em contraste temos pois. muitos deles de menores dimensões. o rigor que as duas respeitam. as mensagens são simples e abrangentes. codificada. no segundo. vamos encontrar alguns Museus de âmbito local.

um papel de programador. a Natureza e a Cultura formam um conjunto harmónico e indivisível (Declaração de Caracas. filosofia subjacente aos conceitos de ecomuseu e/ou museu de comunidade.. a responsabilidade da aquisição e gestão das colecçõe. Em oposição a este perfil profissional. e que decorrem em detrimento das acções mais estritamente ligadas à sua esfera de actividade. para provocar o total envolvimento e identificação dos utilizadores do Museu com as exposições concebidas. Investigador. procurando nela a fonte de conhecimentos para a compreensão do seu processo cultural e social e envolvendo-a nos processos e actividades museísticas desde a investigação e colheita até à sua preservação e exposição. educador.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 27 A assunção de que os Museus. enfim tarefas para as quais nem sempre estão muito vocacionados ou possuem o perfil adequado. Entre as suas principais preocupações deverá estar portanto a problemática do Homem enquanto que ser eminentemente social. marca uma situação de tensão ou mesmo rotura entre dois tipos de profissionais da museologia: os conservadores tradicionais e os "novos" museólogos. Claro que esta perspectiva. . são apenas alguns dos atributos que à primeira vista nos parecem fundamentais no perfil deste "novo" profissional. a quem tem competido além de tarefas mais específicas ligadas à sua área de especialidade (nomeadamente a investigação. têm sido os conservadores a assegurar a gestão da instituição a que se encontram vinculados. animador. 1992). cenógrafo. desempenhando em simultâneo com a sua missão principal. de modo a que possa ser revalorizada a vivência das comunidades às quais estão intimamente ligados. Como cenógrafo. Estes novos agentes de acção museológica. temos o conservador "clássico". Em muitos casos.privilegiada Ao museólogo cabe a tarefa priveligiada de promover amplas e profundas investigações sobre a comunidade em que está inserido o Museu. isto é o local e o "clima social" inerente a cada um dos objectos museológicos. sabendo que a ambiência é um dos mais importantes passos para captar a atenção e assim conseguir "fazer passar" mensagens. gestor etc. têm sobretudo por função conciliar novas formas de gestão dos recursos à sua disposição com uma profunda democratização da sua utilização. fizeram emergir a necessidade de novos profissionais. a conservação e o restauro das peças que constituem o acervo das respectivas instituições). Entenda-se esta ideia de uma forma suficientemente elástica para que nela tanto possam caber as exposições realizadas em espaços tradicionais como a exposição dos objectos e actividades na sua própria ambiência comunitária. devem constituir-se em instrumentos eficazes para o fortalecimento da identidade cultural das populações e fomentar a consciencialização destas para os problemas da preservação do meio ambiente. cujo perfil se distancia do perfil do conservador que conhecemos. além do planeamento das actividades e a liderança de grupos em visitas guiadas. a quem se exige ainda a visão de que o Homem. cabe-lhe a missão espinhosa de conceber e aproveitar os espaços e recursos à sua disposição.

à partida. .CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 28 Compatibilidade ou Incompatibilidade ? Mesmo no quadro de acção da "Nova Museologia". De entre os vários intervientes. Como especialista. devendo-se assim uma particular atenção e termos de formação e valorização profissional. cabendo-lhe a delicada tarefa de conservação de peças cujo valor é com frequência elevadíssimo. o conservador pode ter um importante papel a desempenhar. para que estas instituições possam efectivamente contribuir para o desenvolvimento das comunidades. deve poder capacitá-los para desenvolver as tarefas interdisciplinares inerentes às exigências dos Museus actuais. uma comunicação eficiente e um fornecimento adequado de respostas às necessidades das comunidades. dando deste modo aos materiais estudados a sua dimensão cultural. isto é dotá-los dos instrumentos indispensáveis para exercer uma liderança social. ou melhor no quadro de uma "Museologia comunitária". Formação Profissional A profissionalização dos trabalhores dos Museus é uma tarefa fundamental e prioritária. uma gestão de recursos eficiente. sem dúvida que os Museólogos e os conservadores são os protagonistas principais. histórica e humana. A formação ministrada a estes agentes. bem posicionado para participar na definição da política de aquisições do Museu. a informação necessária à compreensão das peças e ao seu enquadramento temporal e espacial. cabe-lhe ainda aprofundar a investigação no sentido de poder fornecer tanto aos Museólogos como aos utentes dos Museus. O conservador está também. mas numa esfera de acção mais específica e técnica.

Que técnico de Museologia vai entrar na formação do Error! . no fundo das memórias colectivas. Não perdendo. as tradicionais funções de reunir. Na década de 60/70 estruturam-se os princípios de uma Nova Museologia por oposição a uma Museologia tradicional existente. e aqui entra a questão central desta exposição .mas passivo. conservar e divulgar as colecções com o intuito enriquecimento de estudos e conhecimentos mas também de deleite e prazer.mais ou menos glorioso . o evoluir e até o transformar da sua população envolvente. com capacidade de intervenção no mundo em mudança que está inserido. A acção da nova museologia vira-se para o meio físico e humano envolvente. ou pelo menos contribuir para uma equação da sua problemática é o propósito da nossa exposição. A ambiguidade dos termos Museólogo/Conservador decorre no desenrolar de uma nova concepcão museológica. está na comunidade. O Museu é agora encarado como um espaço activo. Este deixa de ser olhado como um "belo armazém" estático. A nova Museologia ultrapassa esses princípio. só consegue sobreviver recorrendo à prática da interdisciplinaridade. Este reflecte o sentir.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 29 CONSERVADOR E MUSEÓLOGO: ABORDAGEM DE CONCEITOS Texto 2 Ana Maria LOUSADA Museólogo/Conservador: realidades idênticas com nomes diferentes? profissões com funções diferenciadas mas que indiscriminadamente se confunde a terminologia? conservador actualizado será um museólogo? Tentar clarificar estas questões. questionar e intervir criticamente na complexa estrutura socio-cultural. denominado também como Error! Reference source not found. centrado exclusivamente nos objectos e virado para um tempo passado . um diálogo crítico e profundo do património envolvido. Mas como? A grande chave desta Error! Reference source not found. em detrimento dum tempo presente e até futuro. equacionando um espaço museólogico que deverá problematizar. porém. Esta relação homem-meio acaba definitivamente com o monólogo museográfico possibilitando. Neste sentido este novo Museu. A comunidade é um agente activo que trabalha em conformidade com o Museu. pelo contrário. sobretudo das ciências humanas. É repensado o papel e a funcão social e política do Museu.

explorando um recurso importante que é o potencial humano que trabalha nos Museus e que usufrui destes mesmos Museu. conservar e expor as colecções está obviamente desajustado do novo Museu. Nesta função de gestor social.? O Conservador.personagens centrais de uma museologia tradicional . Além disso apesar dos museus serem denominados instituições sem fins lucrativos. como grande postulado uma investigação participativa (em que entra a comunidade e os técnicos do Museu) que permita responder às novas necessidades sociais do novo tipo de Museologia ditadas pela comunidade envolvente. mas também todos os trabalhadores dos Museus). . Vejamos. E aqui surge: o Muséologo -técnico da nova museologia que ultrapassa e subverte as típicas funções do técnico Conservador. A linguagem escolhida como o processo de comunicação com a comunidade deve aprofundar a consciência crítica do indivíduo. que um dos campos privilegiados do Museólogo é a intervenção sociocultural. uma vez que a Museologia de tipo novo pressupõe um campo de actividade interdisciplinar constituindo um palco de acção transdisciplinar é necessário clarificar o perfil profissional do Museólogo: Museólogo-Comunicador. têm também que operar-se transformações ao nível das mentalidades e formação dos técnicos dos Museus.ou mantêm-se unicamente como técnicas de conservação ou urge a necessidade de uma reciclagem e adaptação aos novos rumos da Museologia. criar espaços de reflexão dos tempos contemporâneos. Muséologo-Gestor Gestor social no sentido que tem de trabalhar como todo um sector de recursos humanos (inserido-se aqui a comunidade envolvente. Os conservadores .CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 30 Reference source not found. Uma Museologia de tipo novo pressupõe técnicos com outra formação e com outro tipo de requesitos. é importante existir da parte do museólogo um conhecimento das necessidades económicas da sua casa no sentido de poder minimamente rentabilizar o seu produto cultural. portanto. aprofundar diálogos e conhecimentos quer do ponto de vista emocional quer do afectivo. dirigente dos velhos postulados da museologia tradicional? Se limitarmos o papel do Conservador ao técnico que tem por funções inventariar. Para atingir tais resultados a nova metodologia do Museólogo deve ter. o museólogo tenta igualmente aprofundar a relação Museu/ Meio. Somos de opinião. Tal como se deu uma transformação ao nível dos objectivos da Museologia.

o Museólogo deve deve ser também um transformador de espaços. pensado e trabalhado das formas mais variadas consoante "gostos e apetites". permitindo-lhe noções mais exactas das potencialidades recursos e necessidades do projecto que pretende levar a cabo. as escolas. Museólogo e a pluridisciplinaridade Como já foi referido a nova museologia recorre a um vasto campo de intervenção pluridisciplinar. pedidos mesmo pela comunidade ou por sectores mais restritos que são. foi desde sempre sentida pelos movimentos da nova museologia.Declaração de Caracas 16 de Janeiro a 06 de Fevereiro de l992 . Também neste Sector o Museólogo gestor deve recorrer a uma gestão em que participa a própria comunidade envolvente responsabilizando-a pelo produto cultural. não nos estamos a referir à produção de espectáculos propagandísticos.foi mesmo referênciado um item respeitante exclusivamente à formação profissional dos trabalhadores dos museus " . descaracterizados. gostaríamos de destacar algumas ideias: . mas a programas organizados para públicos específicos. somos de opinião. Neste sector.. Neste mesmo documento pontualizam-se projectos de acções para o enriquecimento da formação do museólogo. É fruto deste trabalho de interdisciplinaridade que nascem as produções da nova corrente da museologia. Posto isto e em jeito de conclusão. mas sim um técnico de museologia com determinado perfil que quando tem necessidade recorre trabalho de outros especialistas dos mais variados ramos científicos. Esta necessidade e preocupação pela formação dos técnicos dos museus. que o museólogo e as instituições escolares têm que conjugar esforços e evoluir em sentidos paralelos estimulando públicos mais jovens a desenvolver o espírito crítico e sobretudo demonstrar-lhe que um museu pode ser um espaço de inteira liberdade: visto.. com isto não pretendemos retratar o museólogo como "o homem dos sete instrumentos". a sua formação deve possibilitar-lhe o desempenho de uma tarefa de interdisciplinaridade própria do museu actual dando-lhe ao mesmo tempo elementos indispensáveis para exercer uma liderança social. Quando falamos na vertente da animação no trabalho do museólogo. No último seminário internacional .CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 31 O Museólogo gestor consegue ainda uma abordagem muito mais sistematizada do Museu enquanto instituição. uma gerência efectiva e uma comunicação acertada"(1). Museólogo-Animador Na nossa opinião. por exemplo. objectos e mensagens.

O Conservador . Por oposição. catalogação. Caracas 16 de Janeiro a 06 de Fevereiro de 1992. Unesco. . o raio de acção que o conservador e que uma museologia tradicional pretende atingir limitam-se ao público que visitará a sua exposição. Vejamos: . Paris. BIBLIOGRAFIA MOUTINHO. cadernos do MINOM. 13. 1989 Textos de Museologia. Georges Henri. Museus e Sociedade. Jornadas sobre a função Social do Museu. 1973 Declaration de Quebec Declaration de Oaxtepec Declaração de Caracas . p. conservação e exposição personagem central das correntes tradicionais da museologia foi ultrapassado pelo Museólogo técnico da comunicação em estrita ligação com a comunidade. de caracter prático associados a problemas bem concretos. Por consequência.A ruptura verificada entre conservador e museólogo acentua-se cada vez mais quando entramos nos princípios metodológicos de cada um. Bordas. O conservador recorrendo a métodos de investigação centrados exclusivamente no objecto a expôr. nº 3. técnico gestor enfim agente quase pluridisciplinar das novas correntes da museologia social. técnico animador. 1989 RIVIÈRE. La Muséologie.técnico da inventariação. NOTA 1. o museólogo e a nova museologia derrubam os muros do museu indo ao encontro da comunidade. o museólogo introduzindo a gestão participada da comunidade com as suas memórias colectivas passadas e vividas presentemente. ela própria produtora e produto deste museu. In Declaração de Caracas. Mário. Paris. nº 1. Monte Redondo.uma questão que ultrapassa o plano académico e se prende com questões reais.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 32 Museólogo/Conservador . Lisboa 1991 "Resolution adopted by the round table of Santiago (Chile)" In Museum.

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o que não sai na televisão. ou nos circuitos especializados da informação. programar o futuro. tem levado até certo ponto. pela construção de modelos. pediu-se aos museólogos que se encontrassem com não-museólogos. em que estes novos problemas se puseram. dificilmente detectáveis se os Museus tivessem mantido uma atitude sobranceira em relação à sociedade. Para a fixação dos problemas da museologia. . e as dificuldades crescentes em construir modelos para comunicar. inexoralmente a afirmar-se. A Mesa Redonda de Santiago do Chile em 1972. Neste processo. sido várias vezes posta. reunidas nos anos 60. em cemitérios de tecnologia informativa. Todos sabemos como vai o Mundo "através da média". que revela necessidades e problemas. e messianismo dos critérios. em gerir informação que lhe era estranha. pode hoje falar-se numa sobreacumulação de informações. fez aparecer mais cedo do que no "primeiro mundo".CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 35 MUSEOLOGIA E COMUNICAÇÃO Texto 1 Francisco CLODE SOUSA O esgotamento de um modelo tradicional. se é que se pode falar de "tradição". que fazem harmonizar acessos a uma informação. na busca por exemplo. que condicionou os campos da museologia. Equacionada sobre esta ânsia acumulativa. plena de informação. como as de Nova-Deli e de Bagdad. e mais do que isso. Desse encontro saíu uma Declaração. lembremos aqui alguns momentos. pela rigidez insuportável dos códigos. Este fenómeno acumulativo. . não existe para nós. O equacionamento de novos referentes sociais têm ao longo da segunda metade do século. banaliza os problemas da sociedade à beira do século XXI. a uma preservação dos conceitos. pela disponibilização de meios técnicos. A Museologia e o Museu tradicional. construíram sobre a sociedade uma organização conceptual. na busca de princípios que levassem o Museu para além do seu quadro tradicional. isto é. tende hoje. civilizações. num afastamento progressivo do homem. contextualizado pela sociedade. Das realidades fizemos próteses. num frenezim constante para tipificar e arrumar correntes. organizada pelo ICOM (Concelho Mundial dos Museus) a pedido da Unesco.. o problema da aferição dos códigos de informação à sociedade. com crescente actualidade. à espera de utilizações impossíveis. da construção de novos veículos de comunicação. resultado das dificuldades crescentes em comunicar. que anula diferenças. clarificando conceitos. dava a continuidade a outras reuniões. As dificuldades crescentes do "terceiro mundo".. ninguém conhece realmente o que se passa. na percepção dos seus problemas.

... Definindo campos específicos de actuação. Mais se afirma que: "o Museu é uma instituição ao serviço da sociedade..)..) "que as técnicas museográficas tradicionais devem ser modernizadas a fim de permitir uma melhor comunicação" (.) Sugere-se à partida a construção de um novo sentido para a comunicação. incentivo à utilização de meios audio visuais. na criação do Museu integral..) "Os problemas que se põem ao progresso das sociedades no mundo contemporâneo devem ser equacionados de forma global e serem vistos nos seus múltiplos aspectos.) permitindo-lhe agir dentro e fora do Museu. etc.(.. a existência de uma política nacional de ensino. na criação de novos instrumentos: (.. Que: (. estruturando lugares de acção interna e externa. A Declaração de Santiago. comum: desajuste entre as necessidades e os códigos de comunicação do Museu e os da sociedade. (.. para longe da vida.) Mais se afirma a necessidade dos Museus: (. Para poder desenvolver esse papel procura listar-se alguns meios a incentivar: "A criação de serviços educativos (.)".. ponto de fixação de propostas em amadurecimento. congelando a História. fez arrastar o Museu.. Na construção de novos pressupostos e na abertura a novas estruturas para rentabilizar a sua acção: (..) como agente incomparável de educação permanente da comunidade(.)" No entendimento de um novo sentido para comunicação e o posicionamento do Museu nesse processo..)". está também presente do outro lado.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 36 Situados à partida no "terceiro mundo"... na difusão de imagens tipo que o caracterizaram. são muito mais gerais do que se pensava. Como recomendações finais a Mesa Redonda de Santiago do Chile adianta a necessidade de reequacionar.. os problemas da Museologia. permitindo-lhe participar na formação da consciência das comunidades" (. A passividade que havia caracterizado a Museologia tradicional...) "abertura do museu as disciplinas fora do seu domínio tradicional"." Que "a escolha das soluções a adoptar e a sua aplicação não devem ser apanágio de um grupo social.... sendo a raiz das dificuldades. afastando a sociedade da "construção" de si. tendo em conta a situação actual da comunidade (. reconhece-se ainda a importância do Museu" (..) emprego dos Museus na difusão dos progressos realizados nesses domínios.) "situando a sua acção num quadro histórico permitindo esclarecer os problemas actuais". sendo dela parte integrante. Nos considerandos afirma-se: (. organizou-se para esclarecer. mas exigindo que todos os sectores da sociedade participem desse processo"... o primado da descentralização.. a existência de programas da informação. não para problematizar. reconhece antes de mais a necessidade de reajustar o papel do Museu face à sociedade contemporânea. e o que primeiro se sentiu nestas partes da terra. sem equivalentes no domínio cultural (.) "estimularem o desenvolvimento tecnológico..) "A técnica permitiu à civilização material a concretização de gigantescos progressos.. definir e lançar uma nova concepção de acção dos Museus... . assim como o "(..

na certeza que o poder de decisão se remete para a comunidade que a incorpora.. revertia a própria presença dos objectos museológicos perante outros apelos informativos. Vilarinho das Furnas. perigosos". sobreviventes.) de fazer apelo a especialistas de outras disciplinas. e nela às ciências do património. na certeza de que a criação de novos conceitos sobre a gestão e espaços e condicionantes museográficas são o cerne do problema. tende a rever os modelos teóricos sobre as referências dos Museus. 1990. não propriamente na revisão do conceito de Museu na sociedade contemporânea. e a presença da população. saído do Seminário "La Mision del Museo en Latino America hoy: nuevos retos". Reconhece o esgotamento progressivo de um modelo que. Hughes de Varine. realizado pelo ICOM. particularmente daquelas que tratam do presente e do futuro das sociedades (. antes de mais. pela necessidade: "(. quando cada vez mais se assiste à inutilização destes pressupostos. um outro documento.. A mudança de conceitos.. sobre a "fadiga dos Museus". para projecto que diz respeito a uma população. Preso a lógicas de natureza elitista. levanta no seu documento "La participation de la population". deve assim assumir-se como processo que diz respeito a uma comunidade.). em Portugal. nas III jornadas sobre a função social do Museu. como nos afirmou no Iº Encontro da Nova Museologia no Quebec em 1984. a preocupação de George Henri Rivière. apenas quando se intensificam campanhas de "marketing". de um novo entendimento dos códigos de comunicação. pelo esvasiamento destas organizações... em Janeiro . lugar de despejo de públicos. A construção dinâmica do museu novo. criou públicos que só tinham direito a assistir ao espectáculo. introduz a possibilidade do agenciamento de novos circuitos. Se a sociedade contemporânea trouxe o primado da informação. na reequação dos seus processos de comunicação. A busca de um novo sentido do Museu passa. pela forma e sentido como é veículada. na medida em que o. (. que definirá a melhor forma de se afirmar. do problema ser bem mais profundo. como a passagem do Museu.) "público é em primeiro lugar a própria população. de uma comunidade num "Museu-enquanto-processo". ela deve ser entendida.. no Monte Redondo. não soube converterse pela percepção de outros campos do conhecimento. Para além da "Declaração de Santiago do Chile". os melhores modelos são aqueles que são elaborados pelos próprios interessados e os especialistas exteriores são. no melhor dos casos. O desassossego só se instala. Varine lança a possibilidade.naquilo que em cada região quis dizer classicismo. a uma comunidade. Afirmação aqui entendida como forma a construir. inúteis e. e se recordarmos Hughes de Varine.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 37 Instituições à partida ligadas a arquétipos como edifícios de arquitectura quase sempre clássica . no pior. e da invenção ou conversão de novas formas de comunicação na construção do presente e do futuro.

CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 38 de 1992. deve compreender-se a variedade dos campos que constituem as acções educativas. mas sobretudo a sua definição enquanto espaços e meios de comunicação. trouxe consigo o estigma da "sociedade da comunicação" pelo aproximar das distâncias que fez acelerar a standartização cultural. perante os meios tecnológicos. pela difusão de paradigmas. o acentuar das clivagens entre os vários mundos económicos. e talvez por isso. do papel do Museu na sociedade contemporânea levantada em Caracas seja precisamente "Museu e Comunicação". Os declarantes de Caracas afirmam que: "(.. Venezuela. equaciona problemas. em Caracas. que o elege como instrumento e não como fim. Não faz assim sentido. A aceleração do processo histórico. que definem essa comunicação. dificultando acções de manipulação ou controlo. ou reptos. Baseada na observância da maioria dos problemas levantados vinte anos antes em Santiago do Chile. o Museu não deve intentar na elaboração de códigos de comunicação que se encontrem desenquadrados com a realidade social em que estão integrados. como processo de informação intercontinental. Se a comunicação pressupõe a interacção de dois pólos. num processo interactivo da própria comunidade. enquanto integrada num processo educativo do indivíduo. põe à nossa disposição alguns dos princípios e desafios fundamentais do Museu contemporâneo. o desenvolvimento impensável da ciência e da tecnologia. perante a aceleração da história.. Na declaração de Caracas. o fim de barreiras políticas e ideológicas julgadas intransponíveis. É que o primado da linguagem verbal.) "transformar o Museu num organismo vital para a comunidade e um instrumento eficaz de desenvolvimento integral". na sua aproximação ao que mais interessa às populações. o Museu manter uma atitude passiva.. na acepção de que o seu papel ultrapassa largamente o seu estatuto tradicional. pelo desajustamento entre as linguagens e os códigos do Museu e os da população. mas interactivo. não tendo na maioria dos casos consciência do seu enorme potencial de comunicação se reelaborados. a liberdade de construção dos códigos ou linguagens. um dos pressupostos. enquanto fonte de informação ou instrumento de educação. . toma-se consciência de uma das dificuldades de empreender a comunicação como processo interactivo. devem ser à partida um processo livremente escolhido pelo homem enquanto ser social. na certeza de que um processo de comunicação não é unidireccional. Assim deve antes demais constatar-se que o museu como instrumento de comunicação. que elegeram a realidade virtual.) a função museológica é fundamentalmente. Espaço de comunicação. com referências a objectos ou ideias e que essas mensagens. um processo de comunicação. cerceia outros campos de intervenção. são à partida próximas a uma linguagem não verbal.. Se se aceitar a importância do museu. como o reconhecimento do êxito de algumas experiências que visem: (.

na certeza de que com a construção de novas linguagens e códigos. na construção interactiva de processos de comunicação. mas na reflexão da sua posição enquanto instrumento posto à disposição de uma comunidade que delimitou o seu próprio território. interactiva. Como recomendações saíram do encontro de Caracas. e na . como processo crítico de auto-identificação de homens.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 39 na constatação da urgência em abarcar os campos da educação não formal. O problema da standartização dos padrões culturais. À beira do século XXI. que ponha em evidência a criatividade. onde o homem não tem voz activa como criador. pela força de avanços tecnológicos e códigos simplistas de referências. suficientemente versáteis. A criação de novos meios de comunicação passa então pela recuperação de poderosos processos que se estendem para além da palavra. se colocados de forma correcta. perante a observância de tantos exemplos de total desajuste entre a comunidade em que se encontra e os seus objectivos. pode fazer entrar para a museologia novas capacidades até então desprezadas. não tanto na descoberta de mais um meio de angariar públicos. deve focar as suas prioridades no presente e no futuro. e a passagem dos museus do gheto da Cultura. O apelo à interdisciplinariedade. o Museu deve situar-se como ponto de encontro. deve equacionar-se. Contrariando a polarização e dirigismo. servem de veículo de accionamento de comunicação. que sejam eles mesmos reflexo da enorme diversidade do homem. deve situar-se como instrumento privilegiado de comunicação. a percepção mais aprofundada do papel do Museu como meio privilegiado de comunicação. na construção de uma comunidade. o Museu como processo interactivo. em que se integram. de referentes tecnológicos que nos levam a uma realidade virtual. assumidos pelos meios de comunicação contemporâneos. mas apenas enquanto elemento onde também circulam mensagens. Se a aceleração do mundo contemporâneo é uma constante cada vez mais visível. e não como resultado a fixar. desenraizadora. que ele não controla. sobretudo como assumir-se num espaço de relação dos indivíduos e das comunidades com a sua própria identidade. As tecnologias e os instrumentos científicos postas à disposição do Museu. Que se assuma o Museu como portador de potencialidades comunicacionais e como portador de linguagens e métodos que lhe sejam próprios. posto em afirmação pela construção dos preconceitos e formas de conduta. na circulação de informação. entendida como processo. participativa. integrados numa determinada comunidade. sente-se pela criação cada vez mais acentuada. devem ser equacionados de forma a permitirem a valorização das experiências e não como tirania. para o conjunto da actividade humana. Assim o agenciamento dos instrumentos postos à disposição dos homens. enquanto construção criativa. posto à disposição da sociedade. na conversão dos circuitos de informação. o papel do Museu.

ela mesma. se a entendermos como forma em construção e poderosos instrumento para a criatividade. do Museu na sociedade trará obrigatoriamente a dimensão do homem como autor. Se o Museu tradicional. Hoje deve assumir-se que a construção do Museu enquanto processo de comunicação. que resultará na invenção constante das formas de comunicação contemporânea. e se constituiu como reserva onde está assegurada a sua ausência.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 40 constatação que a circulação de informação. as noções de território e de poder. a organização da memória. trará consigo. A descoberta de novos meios e formas de comunicação. passa obrigatoriamente pela conversão dos impulsos. se assumirão como permanentes causas e efeitos. a casuística do bem e do mal. adquiriram por construção tal robustez. A entrada em cena. da intromissão das populações na definição dos modelos de comunicação. no tempo e no espaço. esmagando o "software". ou utilidade só se põe se se der aos homens a capacidade de gerir a sua oportunidade. e aceitação do papel dos museus como espaços de comunicação. o empenhamento. o dinamismo. A sua operacionalidade. deixou de entender a reconstituição da memória e o primado da memória cultural.não é senão um efeito de linguagem. O assunto . é um processo em construção. como estratégia inevitável. O Museu enquanto memória. em que o "hardware" destrói. a criação de novos pressupostos de construção do Museu. . O Museu como processo de construção do presente e do futuro. como processo de homens de uma determinada comunidade num determinado território. sempre temeu. construíam-se por uma ordem de causa e efeitos. vive de ausências. e o do Museu como instrumento de trabalho. onde se agencia a própria comunidade. Ao longo do século XX as concepções de espaço. o sistema da "verdade". mais não tem feito do que construir robots. que só agora no fim do século nos atrevemos a tentar desconstruir. desprezando as tecnologias. na certeza de que agora seremos corresponsáveis também de todas as derrotas. enquadra o homem como ser inteligente e criador capaz de reconhecer-se no seu próprio dinamismo. que de causa e efeitos. de desenquadramentos entre a população e as suas urgências. por via de linguagens de sentido único. Se os circuitos tradicionais de interacção do Museu com a sociedade.disse Roland Barthes .

ser responsáveis pela transmissão de ideias exactas. a abordagem do tema desenvolveu-se em três pontos: 1 . é em última análise.Desenvolvimento . de que nos fala a declaração de Santiago.Educação . racial. do curso de pós-graduação em Museologia Social. Metodologicamente. em 1972.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 41 MUSEOLOGIA E COMUNICAÇÃO Texto 2 Teresa AZEREDO PAIS Sem ter a pretensão ou o objectivo de criar um texto original ou cientificamente elaborado sobre o tema "Museus e Comunicações". torna-se hoje cada vez mais evidente. questionar. O profundo desequilíbrio e desajustamento económico e tecnológico que separa as sociedades desenvolvidas dos países em vias de desenvolvimento. A escolha do tema deveu-se ao facto de considerar ser esta a questão principal e o maior desafio que se coloca aos museus na actualidade. mas perfeitamente desenquadradas da realidade? Eis algumas questões para as quais urge dar resposta. Reflectir sobre ela. reavaliar todos os domínios. Ambas tiveram como objectivo comum reflectir sobre a missão actual do Museu como um dos principais agentes do desenvolvimento de uma região ou comunidade. a destruição de vidas. correctas. Por tudo isto. e na génese de novas correntes e instituições museológicas. no âmbito da disciplina "A Função Social do Museu". este trabalho constitui um instrumento de reflexão sobre questões levantadas. são algumas das imagens com que diariamente somos confrontados através dos meios de comunicação social. a guerra.Da Mesa Redonda de Santiago à Declaração de Caracac 2 . A fome. Estes documentos revelam algumas interrogações e preocupações face ao evoluir da sociedade contemporânea. práticas e conceitos da actividade museológica. cada vez mais caracterizada por antagonismos e preconceitos de ordem política. torna-se necessário perguntar: Como se posicionam os museus face a todos estes problemas? Para que servem os Museus? Querem os museus e os profissionais da museologia.Comunicação . Para uma melhor estruturação do trabalho. cultural e religiosa. este trabalho tem como ponto de partida a referência e análise dos dois documentos "Resoluções adoptadas pela Mesa Redonda de Santiago do Chile" e a "Declaração de Caracas". considerados dois marcos fundamentais na mudança que se pretende para os museus. económica. cidades inteiras e consequentemente de todo um património.

alguns museus. conferiram a este encontro um carácter de seriedade e cientificidade. marcando a diferença que aparece na concepção de Museu enquanto Instituição Cultural ao serviço de uma sociedade: "Que le musée est une institution au service de la société dont il est partie intégrante et qu'il possède en lui-mème les élèments que lui permettent de participer à la formation de la conscience des communautés qu'il sert. natural ou edificado. qu'il peut contribuer à entrainer les communautés dans l'action en situant leur activité dans un cadre historique qui permette d'eclairer les problémes actuels. Esta metodologia permitiu o desenvolvimento da ideia de que os museus têm uma missão social particularmente importante a desempenhar. en cours et en provoquant d'autres changements à l'intérieur de leur réalité nationale respective.o Museu Integral. Considera-se que a "Mesa Redonda" de Santiago foi pioneira e reveladora de novas ideias. exigiu. bem como um agenciamento e equacionamento dos problemas e conceitos no âmbito da actividade museológica. . Esta reunião caracterizou-se pelo encontro de pessoas ligadas aos museus com especialistas de várias áreas das ciências naturais. em 1972. Analisados e identificados os profundos desajustamentos e a inadequação dos museus face à realidade sócio-económica e cultural da sociedade latino-americana. principalmente dirigidas para a conservação e inventário científico de património artístico. c'est-à-dire en ratachant le passé au présent. os participantes desta "Mesa"."1 Esta definição de Museu. e a formulação de uma definição de museu na sua globalidade. De instituições estáticas e distantes. A aproximação e o estabelecimento de práticas interdisciplinares.Novas Referências Museológicas 1 . ao nível regional.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 3 . único processo que convém à realidade contemporânea. realizou-se em Santiago do Chile uma "Mesa Redonda" consagrada ao papel dos museus na América Latina.DA MESA REDONDA DE SANTIAGO À DECLARAÇÃO DE CARACAS 42 Organizada sob os auspícios da Unesco. sociais e aplicadas. en s'engageant par rapport aux changements de structure. têm progressivamente realçado o . já sob influência dos novos ventos soprados de Santiago do Chile. uma reavaliação e transformação do papel da instituição museal. partiram para novos postulados museológicos. trilharam novos caminhos. que marcou ao nível regional uma viragem radical no domínio da museologia. que é aplicável em qualquer contexto. preocupações e sobretudo de novos posicionamentos do museu face à comunidade.

onde a diversidade étnica e religiosa fundada sobre patrimónios e "memórias" de diversas origens e diferentes contextos. Pede-se assim. É curioso notar que decorridos 20 anos sobre a realização da "Mesa Redonda" de Santiago do Chile muitas das suas resoluções. mantêm-se fundamentalmente actuais e por aplicar na maioria dos museus. realizada em 1992. depois de aceite que o museu se deve integrar e ser um agente privilegiado no desenvolvimento geral da sociedade. como agentes potenciais de comunicação. classificam e expõem as obras. paz e criatividade. já manifestadas na "Mesa Redonda de Santiago. É visível a preocupação cada vez maior de colocar o Homem no centro da acção museológica e situá-lo num contexto global da sociedade. de novas correntes e sobretudo de novas situações museológicas (Ecomuseologia. mas cuja finalidade e objectivo é compreender o momento presente e perspectivar o futuro. Conservam. originam frequentemente momentos graves de conflito. comprovam o impacto destes dois encontros que extravazou as fronteiras do próprio continente latinoamericano. a grande maioria vive ainda hoje. cujo ponto de partida se situa num momento qualquer do passado. um importante papel de mediar e divulgar a importância das implicações do conceito de Identidade Cultural. Impõe-se aos museus e a outras instituições afins. em função do passado. Ao analisar a "Declaração de Caracas" e mais especificamente o capítulo referente a Museus e Comunicação constata-se que. Nova Museologia) que se manifestam em vários pontos do globo.que los museos no son sólo fuente de información o instrumentos de educación. sobretudo ao nível de alguns países europeus.. "."2 . sino espacios y medios de comunicacion que sirvam para estabelecer una interacción de la comunidad con el proceso y los productos culturales." outras sobressaem pelo seu carácter inovador e pelo desafio que constituem à museologia actual. No decurso deste Encontro. Apesar desta abertura e consciêncialização por parte dos museus e seus profissionais. foi decidido inverter o sentido do "seu vector temporal". fazendo dele a sua razão de ser. É importante constatar que os museus podem e devem ajudar na formação e no reforço da personalidade duma nação. para além das muitas considerações importantes. destacando aspectos do seu passado com vista à criação de uma unidade nacional. sem grandes preocupações de as apresentarem no seu contexto histórico. se transformem em mensageiros de esperança. reafirmadas e desenvolvidas na Declaração de Caracas. que os museus se "desamarrem" do passado e.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 43 desafio que consiste em colocar esse património ou patrimónios ao serviço do desenvolvimento cultural contemporâneo. Geradores de novas ideias. que apenas reflectem áreas culturais muito restritas. desenvolvimento e prazer..

Estas questões. um desafio e apontam para uma total reconversão de valores tradicionalmente pré-concebidos na actividade museológica."Vous êtes dans un ballon" répondit. devem estar abertos e disponibilizar os seus próprios espaços para a realização de outras experiências comunitárias."Qu'est-ce qui te fait dire cela ?" demanda l'autre. y evita la posibilidade de manipulatión o imposición de valores y sistemas de cualquier tipo. verdadeira. Lorsqu'elle se calma."3 Isto significa que os museus. où sommesnous?" . outros saberes. da diversidade cultural da nossa sociedade ? Que critérios são usados ? . du sol. Esta afirmação não deixa de ser verdadeira. Não será muito arriscado concluir que o maior contributo da Mesa Redonda de Santiago e posteriormente da Declaração de Caracas. Que esta interacção só é autêntica se estabelecida. que contribuye el desarrolo y enriquecimiento mutuo.DESENVOLVIMENTO "Un jour.EDUCAÇÃO COMUNICAÇÃO . "C'est que l'information qu'il nous a donné est parfaitement exacte. No quadro diversificado de instituições culturais. "Holà! crièrent-ils. et l'un dit : "Il doit s'agir d'un conservateur de musée" . constituem. ils aperçurent un homme qui cheminait au-dessus d'eux. Mas. foi o alerta. Que ela sugere novas perspectivas. Les deux hommes se regardèrent. un diálogo permanente entre emisores y receptores. deux hommes faisaient un voyage en ballon lorsque une brusque tempête les fit dévier de leur route. os museus afirmam-se como lugares privilegiados para a preservação e representação da nossa "memória colectiva". la petite silhouette. de facto. se prestarmos bem atenção. sino un proceso interactivo. para a necessidade urgente de ajudar as populações a adquirir uma consciência social e política que se projecte no futuro de uma forma positiva. cujas fronteiras se tornam cada vez mais indefinidas. 2 . a sensibilização dirigida aos museus e seus responsáveis. Par chance. ils réalisèrent qu'ils étaient complètement perdus. no quadro de uma ampla participação e responsabilidade dos "promotores" envolvidos no processo. que não os que derivam das suas colecções e da sua própria natureza. na forma de comunicar. através do diálogo e do intercâmbio conseguido entre a Instituição museal e a comunidade. O que vemos representado nos nossos museus ? Os museus transmitem uma imagem real. novos equilíbrios. como instituições de interesse público e patrimonial. mais totalement inutile!" (4) Esta "história" reflecte bem a imagem e a realidade da maioria dos nossos museus.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 44 "Que el proceso de comunicación no es unidireccional.

Assiste-se progressivamente a uma maior especialização por parte dos museus. Os museus favorecem o passado em detrimento de realidades presentes e futuras. hoje em dia. no decorrer do ano de 1992 e dedicada ao tema: "Os Museus: Quais os seus limites? Onde começa e acaba a função e responsabilidade do Museu? O que se pede aos museus é que saibam comunicar as diferentes experiências do passado em função de uma maior clarificação de situações presentes. como factores da sua própria sobrevivência. O alargamento da noção de "património museal" e a complexidade de funções e responsabilidades sociais atribuídas aos museus. limitaram-se a preservar e "mostrar" objectos. coloca grandes interrogações a todos os profissionais ligados à museologia. podemos afirmar que. como meios de expansão e prosperidade. de maneira evidente para a 16ª Conferência Geral do ICOM. Só os objectos de grande valor artístico ou histórico e socialmente reconhecidos. no decorrer dos últimos anos. durante muito tempo. a protecção do património cultural ultrapassa. Est-ce aussi notre avis à nous. é que se tornaram dignos de ascender à categoria de "obras de arte" e expostas num museu. às diferentes actividades humanas. a própria competência dos museus. explica-se pela importância vital que estes aspectos vêm assumindo na vida dos museus. É este diálogo permanente entre passado. muitos museus apresentam já diferenças substanciais. avant même d'education. ou seja. às várias categorias sociais. não totalmente representativos de um povo na sua globalidade. a pesquisa e a conservação se estenderam a uma multiplicidade de aspectos respeitantes aos diversos períodos da História. muséologues"(5) A forma insistente com que se fala da missão ou serviços educativos. Contudo. e negam o seu próprio dinamismo. vivências decorridas e realizadas em momentos passados da nossa história. do museu enquanto agente de comunicação. que deverá constituir o fundamento da organização e a natureza do "Novo Museu". motivados por novas concepções e práticas museológicas. . não apresentam uma imagem correcta da História. e num sentido mais amplo. est maintenant considerée comme l'objectif primordial des musées. realizada no Canadá. e que se assumam como veículos de desenvolvimento das populações. na compreensão global do processo histórico. A integridade do objecto constituía a sua principal preocupação. tidos para uns. presente e futuro. os museus. "La communication. Por outro lado. É verdade que. presentemente.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 45 Obedecendo a uma longa tradição museográfica e a uma lógica herdada do passado. e para outros. na perspectivação de novas preocupações sociais. Todas estas preocupações reportam-nos.

os museus reorganizam-se e reestruturam-se na tentativa de captar novos públicos. A imagem que o museu transmitia era a de um lugar sacralizado. um serviço educativo. e com responsabilidades perante a comunidade onde estão inseridos. Para combater o "estigma" dos museus tradicionais. A gestão de uma instituição cultural. . objectos. recusando assim. se mantiveram ausentes e isolados das comunidades e dos seus problemas. Contudo. tradicionalmente estruturado e realizado como prolongamento do ensino formal. de cariz racionalista como o praticado nas nossas escolas. cujo fim é o prazer da contemplação da própria "obra de arte". raramente são sinónimos de comunicação. no meio envolvente. na tentativa de cumprirem e corresponderem às expectativas para que foram criados. apostada na qualidade e desenvolvimento deverá estar permanentemente atenta e reflectir sobre as mudanças efectuadas no seu meio envolvente. enquanto agentes potenciadores de diálogo. Mais (et ceci constitue l'un des point les plus forts de mon approche du problème) cette transformation ne peut être realisée para le service éducatif. Não se pretende com isto dizer. Si elle n'est pas partie intégrante de la nouvelle approche de l'institution muséale dans sa totalité. a sua continuidade. aceitando. rien de vraiment nouveau ne pourra advenir. No sentido de uma maior divulgação e democratização do acesso aos seus espaços. usando uma linguagem demasiadamente erudita e pouco acessível à maioria da população. enquanto representantes das correntes e produções artísticas nacionais ou internacionais. a eficácia de uma política de comunicação e divulgação só resulta se corresponder realmente a uma mudança de mentalidade da própria instituição. se for fruto de um trabalho contínuo. suscitar novas emoções. e sobre os interesses do público a que destina. o seu desencantamento em relação às instituições museológicas. realizado quotidianamente e conjuntamente com a população. que esses. que fazem apelo à "educação sensorial". onde se expunham objectos raros.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 46 Acontece que os "serviços educativos". deixem de ser importantes. e até mesmo como veículos geradores de "encontros" puramente pessoais e estéticos. assegurando assim. que modificam ou constroem novas estruturas de apoio e maior conforto para os utilizadores. "Le rôle éducatif du musée doit être repensé si l'on veut qu'il atteigne sa vraie dimension. desajustados da própria realidade. em primeiro lugar. é necessário encetar novas formas de comunicar com o público."(16) Da necessidade da justificação da sua própria existência enquanto instituições culturais. que durante muito tempo. preciosos. Existem já algumas experiências realizadas por museus. muitos são já os museus que empreendem e multiplicam as suas actividades culturais e lúdicas.

que não deve centrar-se exclusivamente sobre as artes ou a criação artística. centram-se no interesse das comunidades e na identificação dos seus problemas. para conquistar novos utilizadores. Considerada por alguns como um "heresia". Utilizam a museografia como instrumento privilegiado de comunicação e intervenção social. São evidentes as diferenças que separam os dois conceitos de museu e do seu papel na sociedade contemporânea. Ela propõe-se transformar radicalmente as finalidades do museu e da ciência museológica. de serem diferentes. inovação e desenvolvimento. para se colocarem ao serviço do Homem. provocou ao nível da instituição museal tradicional graves interrogações e inquietações. políticas e financeiras que tutelam a maioria destas instituições. enfim. avaliada por novos condicionalismos sociais. Os programas e as actividades do museu devem reflectir mais as preocupações e os interesses do público e do "não público". mas sim ser o reflexo de tudo aquilo que nós fazemos e pensamos. problemas e questões pertinentes e sucessivamente adiadas. e consequentemente. mas desde que elas não ultrapassem a própria lógica e natureza do poder instituído. qualidades. culturais e económicos.NOVAS REFERÊNCIAS MUSEOLÓGICAS Os pressupostos teóricos em que assenta a nova museologia. respondendo à questão que todos nós procuramos: Quem somos nós? É claro que temos que ser realistas e apercebermo-nos quanto é difícil para muitos museus. as fortes dependências administrativas. Ao colocar à luz do dia. a uma imagem renovada do museu. 3 . a verdade é que esta se vem afirmando em alguns sectores do público. os objectivos. continuam inalteráveis. falar ou idealizar novas imagens. . deixaram de se centrar nos objectos. no entendimento da nova museologia. do que privilegiarem os próprios objectos. Esta situação agrava-se quando as próprias políticas culturais seguidas e estipuladas pelos governos. como um movimento capaz de corresponder à mudança necessária. enquanto membro activo de uma sociedade. negam na prática e desvirtuam o próprio conceito de cultura. os fins. Aos museus é "permitido" transparecer e associar-se. na identificação dos seus dilemas.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 47 O que é importante salientar. ou seja. frustrações. ajudando a situá-las no decurso da sua própria experiência histórica. com ideias de democraticidade. a nova museologia. ou se possível. de certa maneira. é que. clarificando. O museu para comunicar. diversas formas de comunicar. apela a uma profunda mudança de mentalidade e de atitude do "museólogo" ou do conservador. sem ter em conta que o seu contexto exterior. tem de se tornar cúmplice na pesquisa.

doit pouvoir bénéficier d'une structure administrative permettant une permutation des cadres afin de pouvoir rester à l'ecoute des populations. assente numa lógica de preservação e valorização dos objectos artísticos e circunscrito ao espaço físico de um edifício. não concorrem para a supressão dos chamados museus tradicionais. vê com alguma dificuldade a aplicação destes novos princípios à prática museológica. mas têm contribuído. A nova museologia reconhece ainda. . de que o desenvolvimento dos museus se processa "fora dos grandes orçamentos estatais ou de ricas fundações privadas. O programa museológico do novo museu preferencialmente voltado para as ideias e os problemas que quer transmitir. vemos muitas vezes. na qualidade de convidado. propondo novas formas de comunicar e promovendo um maior sentido de responsabilidades sociais da instituição. adopta o conceito de "museu descentralizado". constacta a necessidade da mudança e considera que: "le museé doit permettre à l'homme de travailler pour son propre développement social. "subverteu" por completo a ideia tradicional da museologia e do museu."(8) No entender de Hugues de Varine ( antigo director do ICOM) também presente neste Encontro. em 1987. O reconhecimento. que não há modelos exclusivos a seguir. os museus clássicos surgirem com uma nova terminologia. constatadas a partir da realização da "Mesa Redonda" de Santiago e desenvolvidas desde então. própria do novo museu (novo no sentido em que representa novos ideais). Estas diferenças de atitudes que separam as duas correntes museológicas. privilegiando o factor humano. est un bon outil s'il est crée avec et pour celui qui doit s'en servir: la communauté qui doit inventer son propre développement. le personnel du musée. son propre musée". defende a conservação "in situ" e a racionalização da gestão do museu. à partida. seul véritable mode d'expression du musée. realizada em Espanha. isso sim. "l'exposition.(9) A introdução destes novos conceitos e a sua discussão nos organismos que tutelam a orientação da prática museológica actual. Alpha Konaré. Museu de Problemas).CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 48 O museu tradicional. das suas estruturas e das suas actividades. por parte da nova museologia. promove o alargamento da noção de objecto museal. No IV Encontro Internacional da Nova Museologia. tendo em vista um desenvolvimento harmonioso e global. sem que isso signifique uma alteração substancial dos seus objectivos. Numa tentativa de se adaptar aos novos postulados. relegando objecto para a condição de utensílio da acção museal e já não como fim dessa mesma acção"(7). organizada pelo MINOM. para a modificação das relações tradicionais Museu/Público. en tant qu'animateur social. (Museus de Ideias. em muitos casos. conduziu. a uma reflexão e uma reavaliação dos problemas que afectam o dia a dia dos museus. mas que é junto das populações ou da comunidade que se deve procurar as soluções mais convenientes e ajustadas à realidade. e fora também de uma equipa técnica omnipotente.

Falar de comunicação não faz muito sentido se a situação estratégica dos museus continua a mesma. Observar-se que são os próprios museus que não têm sabido adaptar-se às novas condicionantes políticas e sócio-culturais. demasiadamente rígido. Muitas vezes os organismos de tutela. em que medida as grandes ou mesmo pequenas instituições museológicas. "(. à primeira vista. muitas vezes negligenciadas ou esquecidas e isoladas do meio ambiente. os novos mentores da museologia. a museologia deve beneficiar das experiências inovadoras que o mais recente pensamento económico transpôs para um novo tipo de empresa. que reconhece no indivíduo e nas suas capacidades de criatividade. importa que as autoridades responsáveis reconheçam a gravidade da situação e manifestem vontade política para iniciar a mudança. que. ser bem mais difícil "dar vida" a uma instituição clássica e ultrapassada. . De certa forma. explicando quais os seus objectivos e participando nos seus próprios projectos de desenvolvimento. o seu principal "capital". pela existência de factores comuns entre estas duas disciplinas. não querem ou não podem assegurar os mecanismos financeiros ou administrativos de forma a permitir que o museu cumpra com as suas responsabilidades. . Ao promover um novo processo de distribuição e participação comunitária das tarefas e responsabilidades na gestão e organização dos recursos culturais e patrimoniais.) O aprofundamento das questões museológicas passará pelo reconhecimento da necessidade permanente de alargar o estudo da museologia ao mundo da economia. de organização. atestam com o seu silêncio. do que criar um novo museu. quebrar o seu próprio "isolamento" e se adaptar a uma nova realidade. Só assim a comunidade se identificará com o espaço/museu e com as suas actividades. Parece."(10) Assim. a sua própria "certidão de óbito". É necessário que os museus se mostrem interessados e preocupados pelos grandes problemas de desenvolvimento e da informação no mundo actual. Necessário se torna a discussão pública destas questões. O museu deverá servir de catalizador de desenvolvimento programado pelos próprios governos.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 49 Julgo ser pertinente aqui questionar. que se encontram fortemente dependentes e pressionadas por um sistema administrativo e financeiro. Isto é particularmente importante para as instituições (mais antigas). podem "sobreviver". . Por outro lado. de maneira que estes se tornem melhor adaptados à sociedade presente e futura. preconizam uma maior aproximação desta a outras áreas científicas. trata-se de retirar a museologia do gheto da cultura. nomeadamente a economia.

1987. nº 153. "De l'Éducation à la Communication". Keneth. 199/201. nº 2. SOLA. "La nouvelle muséologie afirmée. (8) "Mouvement International pour une nouvelle muséologie" (MINOM). in MUSEUM. 5/10. (6) SOLA. 40. p. p. 17. 7. 22. Muséologie et Musée". 40. 41. 6. 1988. p. nº 153. in NOUVELLES DE L'ICOM. MAYRAND. (3) Idem. 1987. (2) "Declaration de Caracas". (9) Ibidem. "De Nouvelles voies pour l'organization du musée". Fernanda de. nº 3/4. Vol. nº 141. in MUSEUM. OUTRAS REFERëNCIAS BIBLIOGRÁFICAS "Musée et Communication". 8/13. Tomislav. (7) MOUTINHO. Mário. nº 3/4. 3/4. p. 50 (4) SOLA. p. (5) HUSHION. 199. p. "De l'Éducation à la Communication". 45/49. 45/49. Lisboa. Tomislav. p. "Museo y comunication" p. Vol. 1987. in NOUVELLES DE L'ICOM. p. nº 148. . Nancy. Mário. 6. "Les musées: y a t-il des limites?". 12. "O Papel da "Nova Museologia" ou "Museologia Social" na Sociedade Contemporânea". p. Museu Calouste Gulbenkian. 1984. 1992. CAMARGO-MORO. Vol. Pierre. HUDSON. "Concept et nature de la muséologie". 1987. Vol. 5. nº 3. 61. Peter Van. in NOUVELLES DE L'ICOM. conferência integrada nas actividades da Comissão Nacional do ICOM. in MUSEUM. p. 40. 1987. in O Lugar e o Papel das Ciências Sociais e Humanas na Modernização de Portugal Contemporâneo. "O Prémio do "Museu Europeu do Ano" como Indicador de Tendências". 15 de Maio de 1990. 1985. p. in NOUVELLES DE L'ICOM.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 NOTAS BIBLIOGRÁFICAS (1) "Résolution adoptées par la Table ronde de Santiado du Chili". (10) MOUTINHO. 45. 1992. MENSCH. Vol. in NOUVELLES DE L'ICOM. p. "O Papel da "Nova Museologia" ou "Museologia Social" na Sociedade Contemporânea". Edições Universitárias Lusófonas. p. in MUSEUM. Tomislav.

não pode alhear-se dos momentos conjunturais em que ambos foram produzidos. o ensaio de modelos político-económicos desenquadrados das realidades sócio-culturais a que se dirigiam. quando os progressos científicos e tecnológicos e a superação das fronteiras político-ideológicas auguravam uma época de maior justiça. é um tempo em que na maioria dos países da América Latina se travam violentos combates para a institucionalização da democracia. saldouse por um maior contraste entre os países desenvolvidos e os subdesenvolvidos. não resultou numa alteração das condições económicas e sociais pré-existentes. Em segundo lugar. entre os países do centro e da periferia. os fenómenos de massificação e uniformização cultural produzidos por esta nova era da comunicação. antes pelo contrário. Reconhecendo ambas as declarações. cujo conceito de "globalização" procurava corporizar essa ironia do destino. inerente a uma acelarada alteração de valores e à desintegração sócio-cultural das comunidades. enquanto a Declaração de Caracas se insere num contexto em que as esperanças depositadas como o estabelecimento dos regimes democráticos já em grande número daqueles países. Os antagonismos expressos nesta viragem do século. ou tomando o modelo de Wallerstein sobre o sistema da economia-mundo capitalista. que o avanço da ciência e da técnica permitiu à civilização material grandes progressos. o mundo contemporâneo da Declaração de Santiago. fruto da urbanização descontrolada. igualdade e solidariedade universal. o progresso da ciência e técnica que arrasta consigo desequilíbrios do ecossistema e complexos problemas relativos à sobrevivência da humanidade. não se colocam com tanta acuidade em 1972: o fortalecimento dos blocos económicos que cavam cada vez um maior fosso entre os ricos e pobres. que separa a Declaração de Santiago da Declaração de Caracas. início dos anos setenta. Em primeiro lugar.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 51 A EVOLUÇÃO DE CONCEITOS ENTRE AS DECLARAÇÕES DE SANTIAGO E DE CARACAS Texto 1 Luís MENEZES O confronto analítico que aqui se preconiza entre a Declaração de Santiago do Chile e a Declaração de Caracas. a reflexão feita na Declaração de Caracas sobre a conjuntura actual da sociedade latino-americana já nos dá conta de uma cultura da violência que se instalou com a crise económica. mas sem equivalência no domínio cultural. o processo de transformações a que se assistiu no mundo no intervalo de tempo de vinte anos. como da realidade sobre a qual se debruçam de forma particular. frustraram as expectativas e agudizaram essa crise. contra o homem e a natureza. a América Latina. constituindo essa luta política uma condição prévia para a superação da sua profunda crise económica e social. que geram actos de aviltamento da identidade dos povos e das comunidades. das migrações campesinas em direcção às áreas .

os têm servido no decurso da sua história (Declaração de Santiago do Chile.. Em síntese. i. os acontecimentos políticos. mesmo. pilares essenciais da Nova Museologia. de uma para outra declaração assiste-se ao aprofundar da crise nos países latinoamericanos. têm a grande coragem e o lúcido mérito de denunciarem a situação de desigualdade e de injustiça que se vive no mundo. o tráfico de drogas. sociais e económicos que se sucederam posteriormente ao ano de 1972 na América Latina.o que procuraremos inferir do confronto entre aqueles dois documentos. a lavagem de dinheiro. No fundo. enquanto ser social. o próprio fundamento do regime democrático. e embora os momentos conjunturais da sua produção sejam diferentes. o que explica que na Declaração de Caracas se reconheçam como actuais os postulados essenciais firmados na Declaração de Santiago. os desequilíbrios entre os países com um elevado desenvolvimento material e os restantes à margem desta expansão e que. o desmedido afã do lucro. EVOLUÇÃO CONCEPTUAL Em ambos os documentos se reconhece o museu como uma instituição ao serviço da comunidade.. v.e. o nos países da periferia dos sistemas... do homem que enquanto indivíduo e. Assim. e concretamente nos países da América Latina. a corrupção generalizada. as transformações do mundo desde então e as novas problemáticas que se levantaram. Porém. quer a Declaração de Santiago quer a Declaração de Caracas.. etc. Instituição que tem como missão crucial participar na formação da consciência da comunidade que serve. cuja degradação acelarada das condições de vida daqueles povos levanta hoje uma questão de natureza política complexa.(. obrigaram a uma nova reflexão sobre a função do museu e a forma de acção por que se deve pautar para cumprir a sua missão como instrumento de desenvolvimento integral da comunidade . ambos os documentos encetam uma reflexão sistemática sobre a missão das organizações museológicas na América Latina a partir de um diagnóstico sobre a realidade amarga do mundo contemporâneo. enquanto atento ao sistema ambiente que o circunda. v. . como o dever de desempenhar um papel de liderança na formação de uma consciência pública sobre a defesa do património cultural e natural dos povos .) Vinte anos depois ..1 Considering). 2. a que põem já em causa a consciência da necessidade de liberdade. persistem idênticos problemas estruturais. (Declaração de Caracas.. Ambos transferem para o museu um papel de protogonismo social. deveis actualizar conceitos e renovar os compromissos adquiridos como aquela oportunidade.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 52 urbanas.. de forma a que esta apreenda através de um quadro histórico os problemas do seu presente. Antecedentes) .

e como processo que permitindo novas abordagens ou diferentes leituras. enquanto organização cultural que deve trabalhar em interacção com a comunidade. que os participantes da mesa redonda de Santiago do Chile não tenham reflectido sobre esta questão. mas também como espaço dinâmico que propicia e estimula a consciência crítica. é importante realçar que o museu devendo jogar um papel fundamental como meio de descoberta de soluções para os problemas presentes da comunidade. que problematiza o seu quotidiano e se insere como pólo dinamizador do seu desenvolvimento. Todavia. O museu projecta-se não só como um instrumento de desenvolvimento e fortalecimento da identidade do indivíduo e da comunidade. nem da noção de património. de que a reinvidicação para o museu de um papel de protagonismo social. levantasse novas problemáticas e fosse gerador de novas dinâmicas. existe. considerando que a onerosidade dos meios não deveria conduzir o museu a um gasto incompatível com a situação dos países latino-americanos. como processo de melhorar a comunicação entre objecto e o visitante1. pela definição de uma estratégia de apropriação dos modernos instrumentos de gestão de que dispõem as empresas no mercado concorrencial. aponta-se mesmo para a necessidade de actualizar as técnicas museológicas tradicionais. é uma evolução conceptual relativamente à forma e aos meios que o museu deve pôr ao seu serviço para cumprir a sua missão.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 53 latino-americanos. projecta-a agora para um outro campo de análise. um espaço aberto que envolve a participação de todos os sectores da sociedade. No capítulo das suas resoluções. Isto não significa. Neste ponto. de modo a se obter uma visão global dessa realidade multifacetada. como também. económicos e políticos. É nossa convicção. como uma necessidade inerente aos problemas novos e complexos das sociedades contemporâneas. que entre uma e outra declaração não existe uma evolução do conceito de museu e da sua missão como agente de transformação sócio-cultural. não dirigista e interclassista. isso sim. Infere-se.. compreende os aspectos técnicos. ou melhor. . no âmbito de uma nova contextualização do museu. por via do processo interactivo que desenvolve com a participação da comunidade na tomada de consciência dos seus problemas e da forma de os solucionar. sociais. ou constituir-se como um instrumento eficaz de desenvolvimento integral da comunidade onde se insere. a Declaração de Caracas abordando esta questão.e. passa pelo domínio dos modernos sistemas de gestão das organizações. onde se apreende a necessidade de explorar de forma sistemática as vias e os meios de que dispõe o sistema da economia de mercado e a nova era da comunicação. Em ambos os documentos em análise. i. sobre a necessidade dos museus se abrirem a especialistas de diferentes áreas disciplinares. se reivindica para o museu um papel de vanguarda de transformação social. se deve colocar como um espaço catalizador da comunidade para a acção. como factor e meio de transformação.

a Declaração de Caracas toma esta ruptura e leva-a mais longe. por uma reflexão política e ideológica que se generalizou a partir da década de 80. enquanto modelos de desenvolvimento económico-social. como o sistema socialista e capitalista. A eficácia na materialização dos seus objectivos. era naturalmente inerente a um posicionamento político-ideológico de oposição a um sistema económico capitalista e a regimes ditatoriais na maioria dos países da América Latina. típicas do sistema. explicada. esta possibilidade não só é assumida claramente como é exigida. financeiros e técnicos. ao inverter o seu objecto tradicional prioritário. para utilização pelo museu de estratégias fortes de mercado.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 54 Perante as novas circunstâncias da sociedade latino-americana da década de 90. é munir-se das mesmas 'armas' estratégias que os outros parceiros sociais. podemos dizer. . Aponta-se assim na Declaração de Caracas. direccionando a sua reflexão essencialmente para os meios e processos de que a organização museológica deve dispôr para uma gestão mais eficiente e eficaz. secundarizando-o em relação à comunidade. cuja possibilidade de utilização dos meios ou processos de gestão das organizações com fins lucrativos. por se entender como um processo contraditório ou corruptível dos princípios morais ou éticos de uma organização cultural com aquela missão. a colecção. através da elaboração de um planeamento de acções a curto. sem que isso implique a alteração dos seus princípios e objectivos. não se colocava. e este processo passa pela inovação e consolidação de modernas estratégias de gestão. e como forma de conseguir a autonomia de gestão e desempenhar um papel de liderança efectiva no processo de recuperação e sociabilização dos valores da comunidade. médio e longo prazo. enquanto estruturas políticoinstitucionais de legitimação do Poder. a concepção do museu como instrumento e agente de transformação social. Esta a evolução conceptual fundamental que entendemos reproduzir a Declaração de Caracas. segundo um diagnóstico prévio do seu sistema ambiente que determina qual o seu espaço social de actuação. ou os regimes de democracia liberal ou popular. já na Declaração de Caracas. percebendo-se de que a melhor forma de o museu desenvolver a sua missão e assumir um papel de liderança social no seio de um mercado fortemente concorrencial.quando não é o objecto que justifica por princípio a existência de uma organização cultural como o museu . o campo por excelência operativo da Nova Museologia . deve o museu apetrechar-se dos conhecimentos de outras ciências para alcançar com maior eficácia e eficiência os objectivos da sua missão. concebe-se então como inerente à sua capacidade de optimização dos seus recursos humanos. em parte. Em síntese. ainda que modelos com nuances conforme os seus espaços geográficos e sócio-culturais de implantação. sem contudo desvirtuar os seus princípios éticos e alterar a sua missão. forçada pela degradação e ruptura de sistemas e regimes paradigmáticos da era contemporânea. Enquanto na Declaração de Santiago. que se a Declaração de Santiago corporiza a ruptura epistemológica no âmbito da ciência museológica.

CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 55 NOTAS 1. Expressão a nosso ver pouco feliz. uma vez que o termo "visitante" nos parece desadequado relativamente à concepção museológica expressa. .

CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 56 A EVOLUÇÃO DE CONCEITOS ENTRE AS DECLARAÇÕES DE SANTIAGO E DE CARACAS Texto 2 Francisco PEDROSO de LIMA 1 . produziu alguns documentos que vamos em seguida analisar. Por outro lado. Teruggi. os museólogos sentiram que o seu trabalho produzido nos museus. O carácter interdisciplinar desta reunião. como as condições de vida das populações na América Latina o que obrigou aqueles a tomarem consciência do muito pouco ou quase nada que se tem feito nos museus sobre esta área e revelar de facto o divórcio existente entre o Museu e a Comunidade. definiu assim: "Nous avons pu définir le type de musée qui s'adapte à notre situation: le musée intégral. De facto. nos inícios dos anos setenta. os seguintes considerandos: . fez com que os museólogos fossem confrontados com outros problemas. foi considerada por Raymonde Frin como uma nova experiência no que respeita a este tipo de encontros internacionais promovidos pela UNESCO. destacamos no 1º ponto . organizada pela Unesco em 1972. Esta mesa redonda. um dos animadores da Mesa Redonda de Santiago do Chile de Maio de 1972. levantados pelos outros participantes. No que respeita às resoluções adoptadas pela mesa. esta reunião internacional.A Declaração de Santiago do Chile "On dirait que l'humanité ignore ce que sont les musées et à quoi ils servent réelment. c'est-à-dire un musée qui participe à la vie du pays et présente les objects dans leur contexte recrée". que juntou pela primeira vez museólogos com outros especialistas para discutir o papel dos museus na América Latina. que uma participante. Comecemos pelos princípios de base do Museu Integral. e não era propriamente acessível às populações a quem se destinavam. não era insensível às questões económico-sociais como servia essencialmente para sua satisfação.Para uma mudança do museu na América Latina. Grete Mostny Glaser. é o autor desta frase publicada num artigo da revista Museum dedicado à América Latina e que me parece que de alguma maneira reflecte a situação dos museus perante a sociedade." Mário E.

para haver uma melhor compreensão sobre o desenvolvimento das nações sul-americanas. Depois destes considerandos propôs-se o seguinte: 1 . 4. .Que o problema do desenvolvimento das sociedades deve ser reflectido globalmente por todos os sectores da sociedade e não só por uma ciência ou um grupo social. Na área da educação permanente. 2 .Aperfeiçoar e desenvolver a formação e reciclagem do pessoal dos museus. .museu integral . Refere ainda em relação ao meio rural. .será um espaço mais vocacionado para uma região ou uma localidade.Que por estas características. propõe-se criar serviços educativos para actuar no interior e exterior do museu. 5 . os museus devem estimular o desenvolvimento tecnológico adequado à comunidade e serão potenciais difusores desses progressos através de exposições itinerantes. No campo do desenvolvimento científico e técnico. Em relação ao meio urbano. . contribuindo ao mesmo tempo para a descentralização da sua acção e impacto. assim como soluções para os problemas do ambiente.As técnicas museográficas devem ser modernizadas para melhorar a comunicação objecto . . a divulgação de tecnologias capazes de melhorar a vida comunitária. os problemas do seu crescimento desenfreado.Os museus devem intensificar o seu trabalho na recuperação do património cultural e usá-lo para fins sociais a fim de o melhor preservar.A necessidade de abrir os museus às disciplinas que não entram tradicionalmente nas suas competências. os museus estarão integrados nas . 6 .Que o museu como instituição ao serviço de uma comunidade pode contribuir para a reflexão desta problemática.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 57 . o novo tipo de museu .Que este contributo não vai desvalorizar os princípios tradicionais dos museus.Que a humanidade atravessa um período de crise profunda.público. económicas e culturais são um desafio à museologia.Que as transformações sociais. 3 . o que provocou grandes assimetrias entre países desenvolvidos e sub-desenvolvidos. mas sim enriquecê-los.O museu deve criar os seus sistemas de avaliação para verificar a eficácia da sua acção na Comunidade. e que o grande avanço tecnológico não tem sido acompanhado por um desenvolvimento cultural. porque vai obrigar os museólogos a abrirem os seus domínios a outros especialistas de outras áreas.Os museus devem tornar o seu espólio acessível não só aos investigadores mas a todos os interessados.

. realizou-se um seminário em Caracas. . técnico e cultural. integrado no Programa regular de Cultura da Unesco para a América Latina.Estratégias para captação e controle de recursos financeiros..Para que este organismo internacional. mais aussi parce qu'il semble que ce soit une très bonne politique d'inviter à l'avenir aux réunion de muséologues des personalités éminentes de diférents domaines du savoir.O museu como um meio de comunicação.A UNESCO deve recomendar aos Ministérios de Educação e Cultura.Declaração de Caracas Em 1992.A inserção de políticas museológicas nos planos do sector da Cultura e a importância que poderão ter no desenvolvimento dos povos. Para finalizar não deixa de ser curioso reflectir nas palavras de Mário Teruggi na revista museum acima citada: ". II .Reflexão sobre a acção social do museu.destinado a fornecer à comunidade uma visão global do seu ambiente natural e cultural." . seuls les éducateurs y ont participé fréquemment. de considerarem os museus como um meio de difusão dos progressos realizados nessas áreas. .CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 58 políticas nacionais de ensino com serviços específicos e através de meios audio-visuais difundirão conhecimentos nas escolas e meios rurais. A criação de uma Associação Latino-Americana de Museologia (ALAM) com o fim de melhor resolver os problemas museológicos desta região. Análise dos propósitos teóricos dos museus do futuro. assim como aos organismos responsáveis pelo desenvolvimento científico.museu integral .A UNESCO deve continuar a intensificar a formação e reciclagem dos recursos humanos dos museus. divulge esta nova concepção de acção dos museus .il est fort probable que les conséquences de La Table Ronde de Santiago auront une répercussion profunde et durable dans le monde de la museologie.O perfil dos profissionais para as instituições museológicas. e sob o título La mision del museo em Latino América hoy: nuevos retos. . Os aspectos mais importantes discutidos neste seminário foram: . Jusqu'à présent. . . Venezuela.... Non seulement à cause de lá conception du musée intégral qui en est resulté. . Finalmente apresentam um III capítulo com um conjunto de recomendações dirigidas à UNESCO: .

o nível de vida baixou e entre 46% e 60% da população se encontra nos limites da pobreza crítica. Constata-se a vigência dos seus postulados essenciais.O desenvolvimento extraordinário da ciência e tecnologia abriu inúmeras possibilidades. . etc. .000 milhões de dólares. No entanto reconhecese igualmente que a época em que nos encontramos e a sua multifacetada problemática requer uma nova reflexão assim como acções imediatas e adequadas para que o museu cumpra a sua missão social.Aprofundam-se as brechas entre os países do 1º mundo e dos outros em vias de desenvolvimento. A situação no mundo.Museus e recursos humanos . Em consequência.000 milhões de dólares. porque se encontravam desajustados da sua realidade socio-cultural. . de experiências de muito valor no sentido de transformar o museu num instrumento eficaz para o desenvolvimento integral.Estamos na época das comunicações. mediante a difusão de paradigmas. que podem levar a uma crise política e pôr em risco a democracia tão arduamente conquistada nesta região. mas ao mesmo tempo insondáveis abismos que podem provocar desequilíbrios irreversíveis.Museus e património Nos antecedentes. .A tendência para a privatização e de confiar à sociedade civil responsabilidades até agora atribuídas ao Estado e que podem pôr em perigo o património cultural. As distâncias foram reduzidas substancialmente. A dívida externa da A. no entanto esta possibilidade pode standarizar o homem e uniformizar a sua cultura. tráfico de drogas. violência sobre o homem e o ambiente. 1972). Devem-se pois actualizar os conceitos e renovar os compromissos adquiridos naquela oportunidade (Santiago. Latina ascende a mais de 400. urbanização descontrolada. assim como a realização em duas décadas. o que implica cada ano 30. verifica-se uma degradação de valores morais . e particularmente na América Latina. senão vejamos: . também não melhorou.esa reflexion fue el fundamento para un nuevo enfoque en la acción de los museos en la region. reconhece-se o papel fundamental da Mesa Redonda de Santiago . .corrupção.Intimamente ligado com o problema económico.. .Museus e comunicação .Museus e gestão .CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 59 Dentro destes aspectos foram tratados com profundidade os seguintes pontos: .Os modelos económicos e tecnicistas aplicados nos anos setenta na América Latina sofreram um rotundo fracasso.

poderemos dizer que se a declaração de Santiago é a tomada de consciência de que os museus poderão contribuir de alguma maneira para a desenvolvimento da sociedade e para a melhoria da sua qualidade de vida. para este melhor compreender e comprometer-se com a acção do museu. III .Potencializar a sua qualidade de espaço de relação entre os indivíduos e o seu património onde se propicia o reconhecimento colectivo e se estimula a consciência crítica. naturaleza y cultura forman un conjunto armónico e indivisible. a declaração de Caracas é já uma posição de consolidação da museologia no seio da sociedade. Para enfrentálos é necessário: .fundamento de la integracion . pela comunidade a que pertence e o público com quem comunica. un papel imprescindible para la toma de conciencia de la preservation del medio ambiente. Por fin. . Depois de analisar a profunda crise que atravessa a A. os participantes consideraram este Seminário. Latina é depositária de uma grande riqueza humana espalhada por um vasto território com imensos recursos culturais e naturais. . Latina. em termos de reconhecimento. Latina enfrenta os desafios impostos pelo meio social onde se insere.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 60 Apesar de este panorama negativo. em 20 anos não se poderá dizer que a museologia não evoluiu e não ganhou expressão nas nossas vidas.Museus hoje: novos desafios Confrontando as duas declarações. um maior interesse pelo património cultural e o proliferar de associações para a defesa do património são um e exemplo disso. o aparecimento de um movimento para a nova museologia (MINOM). . reconhece-se que a A. donde hombre.Estabelecer relações entre o Museu e o poder político. . para su asimilación al desarrolo intergral de nuestros pueblos. Na realidade.Lutar pela valorização social do trabalhador do museu. a declaração de Caracas é já uma posição de consolidação da museologia no seio da sodiedade e para o desenvolvimento da sociedade e para a melhoria da sua qualidade de vida.Adoptar o inventário como instrumento básico para a gestão do património.Desenvolver a especificidade da linguagem museológica como mensagem aberta. O museu na A. . estabilidade e remuneração. Os ecomuseus. Perante estes novos antecedentes pode-se afirmar que o museu terá hoje uma missão transcendental a cumprir na A. ocasião inadiável para analisar os novos desafios propostos aos museus e postular as acções para enfrentá-los. democrática e participativa. Latina: Debe constituirse en instrumento eficaz para el robustecimento de la identidad cultural de nuestros pueblos y para su conocimento mutuo .Tiene tambien un rol essencial en el processo de demitificación de la tecnologia.

les centres d'interprétation de la nature s'adjoignent déjà de grands laboratoires de recherche et d'expérimentation. Latina na viragem do século. os participantes deste seminário em Caracas. aspectos económico-sociais de uma região. Latina. Non seulement la muséologie se veut interdisciplinaire mais elle montre. Teruggi em 1972. en Italie et dans d'autres pays encore. Há 20 anos atrás se eu lesse algum documento relacionado com alguma conferência ou seminário de museólogos não teria certamente conhecimento sobre. revelada em Caracas. No entanto o que se propõe em Caracas. quando escreve que os museus na A. muito pouco ou nada tinham a ver com os problemas sociais económicos e ambientais daquela parte do mundo. não deixam de revelar alguma maturidade quando afirmam que a nova dimensão do museu na A. por exemplo. Este facto é sem dúvida. que me parece revelador do papel da museologia hoje e das suas potencialidades futuras.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 61 Evidentemente que o mundo mudou muito em 20 anos. ou seja. No entanto. preencheram essa função. tomei conhecimento de alguns problemas socio-económicos que afectam a América Latina. equilibrado e um maior bem estar colectivo. tem outro alcance. Talvez por isso. à travers le dynamisme de ses investigations. Latina serão já um instrumento eficaz na valorização da Identidade cultural das suas populações? Muitos concerteza que já de alguma maneira. que a museologia é por excelência uma área interdisciplinar e ou se afirma como tal ou estará irremediavelmente condenada. Direi ainda que ao ler o documento onde é apresentada a declaração de Caracas. e provavelmente a museologia não evoluiu tanto como poderia ou deveria. como também um instrumento útil para levar a cabo um desenvolvimento humano. com a angústia demonstrada por Mário E. no início da declaração de Caracas se afirma: "Hemos entrado ya en un nuevo siglo: la história se acelera. comment on peut réfléchir sur le sens de cette interdisciplinarité dans un contexte social complexe en répondant à des sciences passera-t-elle des laboratoires de recherche aux nouveaux musées? Au Canada. Viejos dogmas que parecían inamovibles caen y con ellos los muros que marcaban fronteras ideológicas y políticas. Para reforçar esta ideia terminarei com um extracto da obra de Henri-Pierre Jeudy "Memoires du Social". é a de ser protagonista do seu tempo. les écomusées. um indicador de que pelo menos alguns museólogos se encontram num bom caminho. Hoje certamente as coisas já não estarão no mesmo ponto. Poderá então perguntar-se: Os museus na A. Não podemos deixar de confrontar esta atitude. quando se afirma que o museu não só é a instituição idónea para a valorização do património. . e aqui apelam a todos aqueles que trabalham nos museus para enfrentarem condignamente este desafio.

CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 BIBLIOGRAFIA 62 TERUGGI. nº 3. in Museum vol. 1986. Cadernos do MINOM nº 1.vol. P. XXV. Mémoires du social. Mário. Paris. 1991 "MUSEUM" .ICOM . 1973. XXV. JEUDY. Mário E.F..U. La table ronde de Santiago du Chili. MOUTINHO. nº 3. . Henri-Pierre... Museus e Sociedade Textos de Museologia.

Sem dúvida uma das primeiras reflexões no âmbito de uma mudança radical de atitudes nos museus. procura uma avaliação da capacidade dos Museus em se adaptarem aos problemas postos pelo desenvolvimento da cultura social e económica. onde eram crescentes as injustiças sociais. respeitados os mais elementares princípios de liberdade e democracia. que desde a mesa redonda de Santiago do Chile. os problemas económicos e humanos e onde não eram. Este será por certo um dos factores circunstanciais da Mesa Redonda de Santiago que se reveste de importância fundamental. bem patente no enfoque dos problemas sociais. não só numa análise profunda do papel dos museus. a Declaração de Santiago surge num contexto inequivocamente propício ao debate sobre a missão social dos Museus e sobre o seu papel num desenvolvimento integrado das comunidades. no seio de uma América Latina conturbada. integradora de conhecimentos das mais variadas áreas. que constituiu. A consciência emergente de que a museologia deve ser encarada como uma ciência interdisciplinar. Numa análise sumária. Não terá sido por acaso que esta declaração emerge de uma Mesa Redonda realizada em Santiago do Chile. reflecte-se na profundidade da análise conseguida e nas recomendações propostas. têm vindo a tomar a forma e a consistência de um corpo teórico. tem despertado atenções e ganho adeptos. de todo. claramente traduzidas na declaração final. visando uma mudança de atitudes nos Museus. Este espírito iria reflectir-se. A preocupaçao de interdisciplinaridade demonstrada pela organização da Mesa Redonda. pretende-se traçar as linhas gerais da evolução conceptual relativa aos fundamentos propostos para a museologia. alvo de inúmeras reflexões durante as últimas décadas. da América Latina de então. Assim. no dizer de Teruggi. uma inovação ao programa tradicional. incumbindo a Mesa Redonda de Santiago do Chile o tema "Papel do museu na América Latina de hoje". fazendo reunir especialistas de vários domínios. económicos e culturais da América Latina. como viria a traduzir-se num conjunto de recomendações concretas. não só entre museólogos e especialistas. em 1972. procurou a formação de um grupo autogerador de motivações alimentadoras de discussão em torno do tema em causa. a Declaração de Santiago deixa transparecer uma reflexão de cariz sociológico. A UNESCO.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 63 A EVOLUÇÃO DE CONCEITOS ENTRE AS DECLARAÇÕES DE SANTIAGO E DE CARACAS Texto 3 João Paulo MEDEIROS CONSTANCIA A "nova museologia". mas também entre o cidadão comum que nas suas acções se vê envolvido. e demonstrando uma preocupação de interdisciplinaridade. De um .

e procura a sua adequação aos problemas e aspirações das comunidades. adequação e actualização da museografia serão instrumentos privilegiados de intervenção. e preconiza uma atitude de intervenção social que terá de ter em conta os desafios inerentes às grandes transformações mundiais. nem mesmo pretendem uma mudança teórico-operatória que constitua uma ruptura epistemológica fundamental com a museologia. principal responsável pelo desequílibrio cultural e sócio-económico entre os países. contudo. de analfabetismo. O museu passa a ser sede de preocupações pertinentes de um presente/realidade. Este novo conceito assenta sob o postulado de que os Museus são instituições ao serviço da sociedade e que contêm elementos que lhes permitem ajudar a moldar a consciência das comunidades em que estão inseridos. Deste modo pretende-se que seja equacionada a problemática do homem enquanto indivíduo e do homem enquanto ente social. numa atmosfera de preocupação pelos problemas da América Latina. ou num sentido mais amplo . Assim. de nutrição. força motriz de uma evolução sustentada. cortando radicalmente com a usual perspectiva histórica direccionada para o passado. bem como os cenários produzidos por um desenvolvimento tecnológico acelerado. fazendo-os partir do passado e projectando-os no presente e no futuro. não acompanhado por um desenvolvimento cultural. Esta nova concepção assume para os museus uma função social que até então lhes era negada.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 64 modo global. onde os problemas ambientais. Estamos perante novos conceitos que não constituem. que aqui encontram os seus fundamentos de partida. Fruto de uma profunda reflexão multidisciplinar. que. e tantos outros. é proposta uma reformulação do discurso museal. um futuro/vontade. reverte o sentido do direccionamento dos museus. intervindo activamente no seu desenvolvimento.um património colectivo. Desta forma. mais característica de um coleccionismo individual mesquinho. estimulando o seu desenvolvimento. As novas correntes de pensamento da museologia. consistiria no estabelecimento de uma ruptura tendente a originar um outro qualquer tipo de missão social. uma negação dos museus existentes. norteadores da actuação/intervenção dos museus. irão constituir alvos privilegiados. poder-se-à dizer que esta declaração se afirma como uma nítida rejeição à usual introspecção dos museus. Uma negação do objecto.o Museu Integral. assente numa visão dinâmica da dimensão temporal. de saúde pública. tão somente pretendem que os museus assumam a sua função social e . de gestão dos recursos naturais. É requerida a desmistificação do objecto mas é aceite que sobre ele se edifica a museologia como ciência estruturada. ou de um património museológico. através da ligação de um passado/memória a um presente/realidade e procurando projectar em antevisão. integrado e identificando cada um com o seu meio natural e humano. continua subjacente aos novos conceitos a existência de objectos. a Declaração de Santiago do Chile concretiza uma nova concepção de Museu . constituindo-se como uma consciência colectiva. que por reformulação. Nesta perspectiva os museus são enquadrados num processo de desenvolvimento das comunidades.

A todos os desafios postos pelos problemas da actualidade. neste novo contexto. reitera a validade dos postulados essenciais da Mesa Redonda de Santiago e reflecte.o discurso da nova museologia. não sem controvérsia. como um intuito de adequação aos problemas da comunidade e que tenderá a constituir-se em formas de comunicação permanentemente renovadas. será tão mais rico quanto maior for a sua capacidade de equacionar questões e promover a reflexão. a Declaração de Caracas. e é procurado através da participação e do envolvimento comunitário. avaliar as acções do museu. Assim. A "nova museologia". emergente das ideias geradas em Santiago do Chile. deverá incrementar o espírito crítico. adequar-se e dar resposta. a evolução dos conceitos dela emergentes. novamente na América Latina. Duas décadas depois da reunião de Santiago do Chile. bem como todo um conjunto de acções e programas. tem vindo a adquirir. O carácter de intervenção dos museus passa a pretender-se actuante. A declaração agora produzida. numa perspectiva semelhante. participem activamente no desenvolvimento das comunidades. valorizando o saber individual. a era das comunicações. a nível do indivíduo e do colectivo. o descalabro económico dos países em vias de desenvolvimento. gerar formas de comunicação.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 65 que. São levantados e actualizados os problemas inerentes ao mundo actual. em vez de um edifício um território. o desenvolvimento científico e tecnológico. em vez de colecções um património colectivo. O discurso museal. integrada numa análise social política e económica da América Latina. fazendo uso de um discurso museal de intervenção. conhecida por Declaração de Caracas.. através das culturas populares e das culturas eruditas inerentes a cada tipo de museu. Responsabilizados os museus pela sua função social. . englobará os vários aspectos de uma linguagem museográfica. promover a participação comunitária. será o de organizar o discurso museal. em vez de um público uma comunidade. O papel do museólogo. como sejam o desequilíbrio profundo entre países. propõe também uma reflexão do papel dos museus. Assente na necessidade de que os museus Latino-americanos devem cumprir a sua missão social. claramente. De acordo com René Rivard (1987) a nova museologia tenderá a constituir-se como meio de desenvolvimento de uma cultura crítica no indivíduo. tem-se assistido a uma evolução conceptual traduzida numa melhor definição de objectivos. .. os museus devem saber estar atentos. entendido numa perspectiva alargada. a missão social dos museus volta a ser discutida. Desta forma. Este discurso. um corpo teórico e uma estruturação dos seus conceitos. vêm alargados os seus horizontes. Nos últimos vinte anos testemunha-se a evolução do conceito de eco-museu e o surgimento de inúmeras reflexões de carácter teorizante que vão edificando a nova museologia. passando a considerar-se. de campos de acção e de meios. as questões da cultura e do ensino. moldando o indivíduo e tornando-o um ser menos vulnerável.

assume valores e significados nas várias linguagens culturais em que está inserido. também. pensa-se que a Declaração de Caracas pode ser vista como a tradução obrigatória de duas décadas de reflexão e de amadurecimento da museologia. Só assim a mensagem poderá ser acessível. conducente por sua vez.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 66 Assim. Assume-se claramente que não podem ser descurados estes aspectos. uma notável contribuição em termos formais e operatórios. O museu é reafirmado como um domínio de intervenção. numa perspectiva de adequação às condições sócio-económicas e na integração em questões de poder político. O inventário do património deverá continuar a ser um instrumento da sua gestão. e continuando a considerar o museu como um agente privilegiado de desenvolvimento integral da Região. Em todo o caso. RIVARD. a uma transformação da sociedade. como resultado da inter-relação de um espaço. indispensáveis à concretização dos objectivos. muitos dos conceitos que nos últimos anos têm vindo a ser aceites pelas correntes de pensamento da Nova Museologia. peça em torno da qual se escreve o discurso museal. esta declaração não é apenas um reflexo de uma evolução conceptual. definida no espaço social do próprio museu. bidireccionais. BIBLIOGRAFIA MINOM. e ao coneito de museu. tendentes a tornar-se veículos de um processo interactivo onde não haja manipulações ou imposições de valores ou de sistemas de qualquer tipo. com especial atenção os problemas relativos aos recursos humanos e à gestão e administração dos recursos materiais. sem valor intrínseco. Nesta declaração são focados. 1991. o museu terá de ser capaz de um discurso museal de linguagem aberta. É defendido que o objecto. Jornadas sobre A Função Social do Museu. Communication au 4e Atelier International de la nouvelle muséologie (MINOM). Museologie et Cultures. deve encontrar um lugar para se exprimir. para a museologia. Aragon (Espagne). mas constitui. Em face do exposto. tal como havia proposto Henri Rivard. Em termos formais é aceite que os museus são poderosos meios de comunicação. onde a comunidade. 1987. de uma comunidade e de um património. É igualmente bem clara a reafirmação da necessidade dos museus serem promotores de uma consciência crítica na comunidade. não restam dúvidas da sua importância. . e transformada em enriquecimento individual. democrática e participativa. Nesta declaração é bem patente a importância que têm sido dada à participação comunitária no discurso museal. Textos de Museologia. a Declaração de Caracas reflecte. Cadernos do MINOM nº 1. amplamente compreendida. incontestávelmente. Deste modo é valorizado o objecto e a sua circunstância. René. Neste sentido. Relativamente ao património museológico. Esta visão pragmática é fundamental.

19. Museum. Museum. 1972. Declaration de Caracas.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 67 TERUGGI. Paris V 24 nº 3 UNESCO. Caracas. Mário E. UNESCO. 1973. Paris. Rev. La Table Ronde de Santiago Di CHILI.. Declaration of Santiago (Chile). . .

. para além de que a resolução deste desequilíbrio não se encontrava numa única ciência ou disciplina. Verificou-se igualmente a existência de um notório desequilíbrio entre os países desenvolvidos e os em vias de desenvolvimento. investigação e divulgação do seu acervo. IV Jornadas MINOM 1991. conservação. nº 4 . técnicos. além de um espaço. um veículo para a tomada de consciência por parte da população não só da sua verdadeira situação bem como da intenção de a resolver através de uma acção participativa e dinâmica de forma a beneficiar com essa resolução. o mesmo não acontecia em termos de bem estar económico. JORGE "Eu tenho uma antena parabólica na minha casa e sei tudo o que se passa na Europa. in Boletim Informativo do MINOM. sem negar a importância e o valor dos existentes. sociais. Neste campo o Museu seria. Assim. mas não sei quem mora no meu prédio. a par de outras instituições. Desta forma. mas alargar-se a um campo de investigação multidisciplinar relacionado com a região onde se insere. Pensar o Museu nos nossos dias é pensar numa organização perfeitamente integrada na comunidade para a qual existe. culturais e naturais que os envolvem. Dentro desta visão de conjunto o Museu. a porpôr alternativas para o desenvolvimento local. cultural e natural. mas sim numa "visão de conjunto e tratamento integrado dos seus vários aspectos". 1992. Jan. nem conheço bem a minha rua. Na Mesa Redonda efectuada naquela cidade evidenciou-se que a resolução dos problemas dos países latino-americanos passava através do entendimento pela comunidade dos aspectos políticos. A realização desta Mesa Redonda inseriu-se no contexto de uma tomada de consciência de que se por um lado a humanidade tinha atingido um substancial desenvolvimento científico e tecnológico. o Museu deixará de ser um mero depósito da memória e passará. económicos.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 68 EVOLUÇÃO DE CONCEITOS ENTRE AS DECLARAÇÕES DE SANTIAGO E DE CARACAS Texto 4 Otília MORGADO F. após uma reflexão conjunta acerca do "Papel dos Museus na América Latina". o Museu não poderá encerrar-se no espaço físico do seu edifício nem centrar as suas investigações nas colecções que possui." Anónimo. deveria ultrapassar os seus fins tradicionais de recolha. Esta maneira de sentir o Museu consubstanciou-se na declaração de Santiago do Chile. e abrir-se a um novo conceito de Museu que passaria a ter não só uma função cultural mas igualmente uma função social.

símbolo da divisão ideológica do globo abre as portas ao "paraíso" que parecia vir a ser o conceito de globalização. de acordo com a sua função social. patrimonial e natural. corrupção e violência. de recorrer a saberes multidisciplinares de forma a poder ser um veículo não só de promoção de uma maior consciencialização por parte da população da importância da salvaguarda da sua herança cultural. Caracas acolherá um conjunto de pessoas interessadas em reflectir em conjunto sobre "a missão actual do Museu como um dos principais agentes de desenvolvimento integral da região". a um isolamento das populações no "ghetto" que se . removendo capitais que poderiam ser aplicados na melhoria do nível de vida das populações ou seja no seu desenvolvimento integral. Assiste-se ainda. museólogos de outras regiões do globo.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 69 Este Museu activo e participativo teria. Vinte anos mais tarde. cultural e natural da comunidade onde está inserido. 3. Actualizar as técnicas museológicas e museográficas de forma que os objectos expostos sejam melhor compreendidos pelo público/população. bem como em actualizar "os conceitos e renovar os compromissos estabelecidos em Santiago do Chile". social. já que estes países passaram de receptores a exportadores de capital. físico. intensificar esforços de recuperação da sua herança cultural. Igualmente a queda do muro de Berlim. Conjuntamente com a população que serve e para a qual existe. no mundo urbano. encontram novas perspectivas de acção bem como resposta a determinadas questões que a museologia especializada não consegue responder. Utilizar técnicas que levem o Museu a aperceber-se da receptividade na comunidade das acções por si realizadas.5. Esta actualização prende-se com as mutações que o planeta sofreu no campo ideológico. Com a declaração de Santiago. 2. Conceito que encontra resistências em diferentes regiões do globo. Mutações estas. Assim o Museu deve: 1. patrimonial e natural mas igualmente de disseminação de conhecimentos científicos e tecnológicos com a finalidade de melhorar o bem estar económico. já que por todos os continentes se vão afirmando as noções de nacionalismo e de regionalismo. consequência da sua crescente dívida externa. económico e ambiental ao longo destas duas décadas agudizando os problemas do globo: agravamento do fosso entre países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento. catástrofes ambientais. novo encontro se efectua na América Latina. tráfico e consumo de drogas para além de uma preocupante inversão e perda de valores. o carácter social e globalizante da acção e função do Museu. em suma. Promover a educação permanente da comunidade. pelo contrário as agravou. Estimular o desenvolvimento tecnológico baseado nas condições reais da população. má repartição dos alimentos. que servem para mostrar que o modelo económico utilizado com a finalidade de melhorar as condições de vida das populações dos países em vias de desenvolvimento não resultou. Perspectiva-se. 4.

CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 70 transformou o seu apartamento.a era da informação . o Museu tem de se assumir como um verdadeiro protagonista do seu tempo . Ora. Assim "os novos museus vão ser a expressão do novo modelo de desenvolvimento descentralizado". foi ultrapassado ao longo da década passada por outro recurso considerado de grande importância para o desenvolvimento das organizações. Igualmente os Museus especializados devem assumir a sua liderança nas áreas temáticas que . visando para além do seu desenvolvimento integral o da região onde se inserem. perdendo o contacto directo com a realidade envolvente. a informação. Através de uma linguagem multidisciplinar possibilita-lhes o enriquecimento.Jornadas sobre a Função Social do Museu . Perante todos estes problemas que afectam a sociedade em geral. apoiado essencialmente no capital. 3 . sendo o Homem possuidor. o Museu como local privilegiado "no sentir" destas realidades deve afirmar-se como um agente principal para a sua tomada de consciência por parte das populações que serve. no presente. Utilizando as palavras de João Moreira (Museologia e Desenvolvimento .e abrir novos caminhos de desenvolvimento assentes em aspectos considerados prioritários: 1 . por excelência.A Liderança. natural e ambiental existente no seu país sublinhando a urgência da feitura de legislação para a sua preservação e salientar o papel do Estado como o garante idóneo nessa protecção sem. Além disso. para o seu desenvolvimento integral. não só relativamente ao conhecimento do seu passado bem como na utilização de meios tecnológicos e científicos que contribuirão.cadernos do MINOM nº 1) "O desenvolvimento local e regional não é agora visto como derivando de desenvolvimento global do país. de informação caminhamos a passos largos para uma revalorizaçao dos recursos humanos. contudo. Perante todas estas questões/problemas. Neste campo o Museu deve manifestar a sua preocupação perante o património cultural. uma tónica fundamental é posta na região e no local. O Museu deve assumir o seu papel de liderança "no processo de recuperação e socialização dos valores da comunidade". olhados agora como os espaços privilegiados do desenvolvimento". mas sim precisamente o inverso. 2 . o modelo económico desenvolvido na década de setenta. passando esta a ser quase exclusivamente aquilo que se passa na sua televisão. Na prática. descurar a importância que as populações assumem na preservação do património que as envolve.O Património. Para isso o Museu integral deve possuir um conhecimento pleno da realidade envolvente de forma a poder intervir de uma forma eficaz. O Museu é o palco ideal para estabelecer esta comunicação na sua relação com os indivíduos e a comunidade.A Comunicação. situando-se "na vanguarda da recuperação/reformulação estrutural do capitalismo".

noções tão caras a quem faz depender o verdadeiro sucesso de uma organização do seu recurso informação. Esta função manifestar-se-à num programa de acções/intervenções a curto.Os Recursos Humanos. .CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 71 dominam. Assim o Museu. Uma das novas atitudes de uma boa gestão do Museu será a de dar ênfase aos recursos humanos. Função esta que será elaborada após ter sido feito um diagnóstico do ambiente externo. e da existência de boas relações com o poder e outras organizações. valoriza o seu papel na sociedade e assume-se como um dos principais agentes para o desenvolvimento integral do Homem. já que são estes os possuidores da criatividade e do conhecimento. de um óptimo aproveitamento dos recursos financeiros. técnicos e humanos. terá de propôr formação ao seu pessoal. Em suma. A Gestão do Museu deve estar ligada à sua função na comunidade. médio e longo prazo.A Gestão. pretende-se que o Museu seja cada vez mais o utensílio e não o fim da acção museal. 4 . 5 . Só assim o Museu será um verdadeiro protagonista do seu tempo. O objectivo será formar uma consciência crítica respectivamente na comunidade e no público. orientada não só na valorização deste recurso bem como na importância da multidisciplinaridade para se conseguir ter uma acertada forma de comunicação com a comunidade para quem as suas acções existem. que passará a pertencer à informação. O sucesso desta gestão está relacionado com a capacidade de se conseguir responder às solicitações do ambiente externo.

Ciências Naturais e Economia e Administração). conta actualmente com seis Faculdades (Artes e Letras. Pedagogia. patrocinados pela UNESCO. têem decorrido no departamento de Museologia da Universidade Masarik em Brno. 2 . Durante o mês de trabalho. Politécnica. é constituído por sete departamentos espalhados por outros tantos edifícios. Actualmente.O MUSEU DA MORAVIA O Museu da Morávia em Brno. vem a desenvolver actividades de formação intensiva. funcionam também neste departamento. dando assim cumprimento às resoluções tomadas durante os trabalhos da 23ª Conferência Geral do ICOM. Mestrados e Doutoramentos em Museologia. destinadas ao aperfeiçoamento dos quadros técnicos dos Museus. É dificil resumir um intenso mês de trabalho em meia dúzia de páginas. Estes cursos.A UNIVERSIDADE DE MASARIK Fundada em 28 de Janeiro de 1919. especialistas nos vários domínios da Museologia. além dos cursos de pós-graduação. Medicina. que a imposição da Museologia como disciplina científica. 58 1294 LISBOA codex Desde há sete anos que o ICOM. O Departamento de Museologia. como também como factor condicionante do seu próprio futuro. comemora presentemente 175 anos. conduzidos pelos responsáveis dos cursos e por um grupo internacional de convidados. seminários e visitas de estudo a museus e exposições.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 72 INTERNATIONAL SUMMER SCHOOL OF MUSEOLOGY (ICOM/UNESCO) 2 a 30 de Julho de 1993 José Manuel Brandão Museu Nacional de História Natural R. . através do ICOFOM (comité para a formação). de âmbito internacional. importante monumento da arquitectura barroca e renascentista. é o segundo maior da República Checa e um dos mais antigos Museus da Europa central. foi criado em 1963 no seio do Departamento de Filosofia (Faculdade de Artes e Letras) e desde então. deixamos no entanto algumas notas sobre os pontos altos do curso em que participámos. os estudantes participam num intenso programa de conferências. tem vindo a promover cursos de pósgraduação para a globalidade do pessoal técnico dos museus checos e eslovacos. Direito. onde estudam cerca de 40 000 alunos. República Checa. tem uma importância fundamental não apenas na afirmação do papel dos Museus na sociedade contemporânea. 1 . a Universidade de Masarik é a segunda maior Universidade Checa. Esc. com o apoio do Museu da Morávia. Sediado no palácio Dietrichstein. É convicção dos responsáveis pelo Departamento.

ACTIVIDADES LECTIVAS 3. Poderíamos agrupar os principais tópicos abordados da seguinte forma: 3. apoiando-se numa metodologia própria e desenvolvendo-se em várias áreas de trabalho. para referir a teoria cujo objecto é em si mesmo. leccionou o módulo "Introdução à Museologia". MuWoP (Museological Working Papers) e MN (Museological News). que se cararcterizaram muito resumidamente: * MUSEOLOGIA HISTORICA A missão da Museologia Histórica é a descoberta e o conhecimento da origem. por isso. durante o qual desenvolveu um modelo teórico em que a Museologia foi apresentada como uma ciência de carácter trans-disciplinar. a própria Museologia. Prof. Neste domínio. que compreende vários sub-sistemas. deve ser objecto de uma explicação teórica. coube fazer o ponto da situação no que respeita ao enquadramento da Museologia (e dos Museus) na sociedade actual e a abordagem da problemática da formação profissional do pessoal dos Museus. Stránsky considera a Museologia como um sistema. Formação profissional Ao Coordenador científico do Curso. tendo sido apresentados materiais de trabalho resultantes das suas diversas conferências. 1983-1991). histórico e (meta)científico.Conferências e Seminários As conferências e seminários realizados durante o Curso. . contando com um acervo global de cerca de à milhões de objectos. sendo ainda poucas as oportunidades de ensino universitário no domínio da Museologia. Z. 3. O investigador propõe assim a utilização da expressão METAMUSEOLOGIA. Zbynek Stránsky(1). verificou-se que. a nível internacional. nomeadamente os cadernos ISS (ICOFON Study Series. a Museologia constitui um sistema de conhecimentos específicos. e. 3 .1.1 . Vice-presidente do ICOM e Presidente do ICOFOM.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 73 cobrindo os diversos ramos da História Natural e das Ciências Humanas. contextualizada do ponto de vista social. Dr. Stránsky. nascimento e evolução do fenómeno museal. Vinos Sofka. de um modo geral. Para Z.1. Dr. * MUSEOLOGIA SOCIAL A vocação da Museologia Social é a descoberta da motivação da musealização e da sua importância para os indivíduos e a sociedade. Considerando que a Museologia é o "estudo das relações específicas entre o Homem e a realidade" De acordo com este esquema.2. procuraram abarcar a globalidade dos principais temas nas diversas áreas de trabalho e correntes da Museologia. com um objecto muito preciso. Metamuseologia O Director do Curso. No domínio da formação.1. a formação específica dos profissionais dos museus é relativamente pobre. salientou-se o papel do ICOM/ICOFOM.

Teoria da Selecção Envolve a problemática da recolha e da definição de objecto problemática da localização temporal da documentação. Conservação.Pós-moderno contra moderno. acarreta sérias dificuldades que nós próprios também sentimos durante as discussões. é necessário ter em conta que o valor museal não gira em torno do objecto em si mesmo. A inexistência de léxicos museológicos. Principais domínios específicos: Management. K.1.Ciência.A Humanidade no final do século XX. Exposição. a Museologia tende para a constituição duma colecção. É uma área multidisciplinar. na qual se aplicam saberes específicos de outras disciplinas.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 * MUSEOLOGIA TEORICA 74 A Museologia teórica constitui a essência do conhecimento museológico. sendo as restantes conferências e seminários específicos articulados em cada um dos diferentes níveis do módulo.3. se comparada por exemplo. Teoria da "Thesaurisação" Numa segunda fase. mas nas relações objecto-sujeito. Prof. através da sua apropriação material e contextualizada. Horak(2) . pilar fundamental para a preensão e exploração dos valores culturais a preservar (os "thesaurus"ou colecções). técnicas e tecnologias que permitem a apropriação da realidade. diferenças significativas há no que respeita aos conceitos envolvidos. V. Informação. Teoria da "Apresentação" O sentido da "musealização" da realidade consiste na manipulação dos "thesaurus" no sentido de agir sobre a consciência social. A sociedade na hora actual Conferências: Dr. de modo a uniformizar o emprego da linguagem técnica fundamental. * MUSEOLOGIA APLICADA (MUSEOGRAFIA) O objecto da Museografia é a descoberta dos processos. Aliás pode acrescentar-se que a produção de um substrato teórico da Museologia é ainda relativamente escassa. e a 3. cultura e Humanidade. museal. Relações públicas e Publicidade.Dr. . dificuldade que em nosso entender se deve sobretudo à falta do reconhecimento da Museologia como uma Ciência entre as outras Ciências. com a produção de textos no domínio da Museologia Aplicada. Muller (3). P. se muitos dos termos propostos são comuns à nossa linguagem corrente. Prof. A apresentação e discussão deste modelo. Arqui-tectura. com a definição dos conceitos. modificados no sentido da prossecussão das finalidades da Museologia.Dr. Problema muito discutido e que ficou em aberto é o da premente necessidade de elaboração de um glossário de termos museológicos. O objectivo desta disciplina é a descoberta da motivação da relação específica do Homem com a realidade. Sofka . prolongou-se durante quase todo o mês.

3. Utilização de meios informáticos nos museus. 3.Didáctica dos Museus Problemática da concepção das exposições. Hainard (6) . Museus de sociedade e Ecomuseus.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 75 Abordagem das grandes linhas do pensamento contemporâneo.1.A arquitectura dos Museus Abordagem genérica dos problemas em cada uma destas áreas específicas.Contacto com os públicos .Expomos.Museus e museologia . modos de exposição e estudo do comportamento dos visitantes. percursos. apresentação e discusão das experiências levadas a cabo em França. Bellaigue (5) .1.Museus: de que têm necessidade? Como dirigir um Museu? Engº A. perturbamos . alternativas de intervenção e adequação dos Museus às realidades sociais contemporâneas. Museografia Engº F. J. Morgos(10) . Documentação e informatização Conferências: Engº F.1. tendo nalgumas delas sido também visitados os laboratórios de conservação e restauro e as reservas. 3. Bratislava e Viena. estrutura e organização dos Museus. nomeadamente: Museus como organizações sem fins lucrativos. Ghafouri(11) .Introdução aos problemas da conservação Arqº. valores e as transformações sociais. Este tema foi ainda tratado em visitas de estudo ao centros de documentação e informática do Museu da Morávia. Praga. Gale .2. P.Gale(8) . nomeadamente em Brno.. a mudança dos sistemas económicos. Desvallés (4) . Políticas culturais. com as comunidades de Creusot e Montceau-les-Mines. M. conservação e restauro de obras de arte.Visitas de estudo No decorrer do curso foram efectuadas diversas visitas de estudo a Museus. A. Construção do discurso museológico.Políticas museológicas Drª M. onde pudemos tomar contacto com os programas de inventário e segurança que ali estão a ser desenvolvidos para todos os museus checos.Tratamento informático das colecções. van Mench(9) . promoção da imagem de marca dos Museus. Museus. Organização dos sistemas de arquivo e gestão de colecções. 3.4. .Objectos manipulados Dr.7. reflexos na temática e prática museológicas. museologia e políticas museológicas Conferências: Dr.Management e marketing dos Museus Dr.5. Comunicação e Pedagogia nos museus Conferências: Dr.Museus e sociedade . Animação e "ateliers" para grupos escolares nos Museus. 3. design e iluminação das exposições.Nova Museologia e Ecomuseus Abordagem diacrónica do papel da museologia.. arquitectura de interiores em Museus. Van Praet (7) . M.1.6.

. fundado em 1893. reunidas desde a idade média. autoridades locais e empresas. tendo o gupo de estudantes tido acesso ao projecto de arquitectura. Preparada com recurso a grandes meios.. ocupando um total de cerca de 5 000 funcionários. a visita da exposição "Jan Amos Comenius(12). inaugurada em 1992 no âmbito das comemorações internacionais dos 400 anos sobre o seu nascimento. Com a abertura desta exposição o Museu recebeu a Menção Honrosa da EMYA em 1992. a quem domina língua checa. Os museus Checos e Eslovacos O nascimento e evolução dos Museus Checos e Eslovacos está intimamente ligada à história nacional e cultural dos dois povos.2. com a utilização de recursos audiovisuais fundamentais para a contextualização das peças expostas. 3. O grupo mais numeroso de museus. que no conjunto perfazem um acervo global de cerca de 10 milhões de objectos. como por exemplo as colecções dos imperadores Carlos IV e Rudolfo II. que fizeram um breve historial dos Museus Checos e um levantamento das principais dificuldades e desafios postos na presente situação de transição para a democracia. Esta exposição tinha sido escolhida pelos responsáveis do curso para um "estudo de caso". 3. no castelo de Praga (actual Galeria Nacional). que conta entre os vários pólos (Ciências Naturais e Ciências Humanas). infelizmente apenas acessíveis na sua plenitude. quer pela informação prestada. guião e demais documentação da exposição. quer pelo projecto de arquitectura escolhido. Salientem-se no entanto. pela elevada qualidade museográfica. ou consagrados a personalidades importantes da história e da cultura. por exemplo em Praga. no Museu Etnográfico de Viena. perfazem um número total de visitantes entre 8 e 10 milhões/ano. a exposição sobre os povos da Oceania no Museu Etnográfico. Merece também destaque muito particular. conseguem levar o visitante a uma integração perfeita na ambiência dos ritos culturais da comunidade judaica. Constituíu de certa forma uma decepção. a nova exposição permanente sobre os povos da Polinésia e as culturas Maia e Asteca. tutelados pelo Ministério da Cultura. com um acervo de cerca de 3 milhões de objectos. que concilia uma sugestiva concepção dos expositores climatizados. muitos dos quais instalados em lugares históricos. que empregam cerca de 1800 trabalhadores. Excepção também é a exposição permanente do pequeno museu da cultura judaica em Bratislava. Na Eslováquia. é constituído pelos museus regionais. As exposições Com poucas excepções. que a par de uma criteriosa escolha das peças expostas. Os primeiros museus remontam aos séculos XVIII e XIX. as exposições permanentes visitadas estão organizadas segundo técnicas tradicionais. Visitam-no anualmente cerca de 700 000 pessoas. A semelhança de muitas outras instituições semelhantes. entre os mais antigos.2.2. A mais importante destas instituições é o Museu Nacional Eslovaco. esta exposição mostra-se insatisfatória. das quais aproximadamente 20% são estrangeiros. A República Checa possui actualmente uma rede de 187 Museus e Galerias tuteladas pelo Ministério da Cultura. muitos dos actuais museus surgiram a partir de importantes colecções eclesiásticas e profanas. contribuição para a Humanidade".1. ressalvem-se no entanto os excelentes programas audiovisuais. quer pelos excelentes programas audiovisuais (diaporamas e computadores) disponíveis. conseguiu um sugestivo design que sala após sala. existem presentemente 89 Museus e Galerias. No seu conjunto. contam-se os de Brno (1817) e Praga (1818). o grupo foi recebido pelo Director-Geral dos Museus (Ministério da Cultura) e pela Presidente do Comité nacional do ICOM.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 76 Em Praga. quer pela cenarização utilizada.

Praga. estamos convencidos que o estudo da teoria da Museologia etapa fundamental no treino profissional dos quadros dos Museus -.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 77 Particularmente interessante foi a visita ao Museu da Boémia Central (Roztoky). visitados. museus de Belas Artes. foram assim. no controlo e eliminação de pragas pelo emprego de radiações gama. Museus históricos e arqueológicos. de Masarik. durante e paralelamente às actividades lectivas. 4 . Univ. revelou-se muito interessante. existentes nos museus. organização e avaliação de exposições e arquitectura e design de exposições. Brno. o grupo de participantes teve oportunidade de partilhar experiências e ideias. 4 Direcção dos Museus de França. apenas de uma intervenção curativa. 3 Academia da Ciências. Universidade de Masarik. 1 Director do Dep. Muito enriquecedor foi também o trabalho realizado em grupo. para a resolução de problemas concretos. estabelecido no início da década de oitenta. . como pelos seminários sobre problemas específicos. 6 Museu de Etnografia de Neuchatel. As visitas de estudo realizadas. tendo os responsáveis pelo curso tentado cobrir os diferentes temas da rede museológica internacional. A Museologia teórica pode também desempenhar um papel importante tanto no desenvolvimento de políticas culturais adequadas às realidades sócio-económicas de cada país/região. Vindos de 13 países diferentes(13). permitiram obter uma perspectiva geral do trabalho desenvolvido na globalidade dos Museus. constitui um suporte básico da pratica museológica. onde funciona um Centro de Conservação e Restauro. Museus Etnográficos. proceder ao levantamento dos principais problemas profissionais que se colocam em cada um dos países e apreciar e discutir projectos em curso ou a concretizar a prazo. de Filosofia. integrando-as no contexto mais vasto da compreensão do fenómeno museológico em si mesmo. o Curso da ISSOM. 5 Direcção dos Museus de França.NOTA FINAL Embora fundamentalmente teórico. nomeadamente nos domínios da estrutura e organização dos Museus. no entanto de grande interesse face à enorme quntidade de peças fabricadas com materiais orgânicos. Trata-se como é sabido. sistematizando claramente as diferentes áreas de intervenção da Museologia. Museus da Ciência e da Técnica e Museus de História Natural. Universidade Karluv. pelo desenvolvimento de uma orientação social crítica e contribuindo atrvés das bases da compreensão do fenómeno museal. Paris. 7 Museu Nacional de Historia Natural. tanto pela abordagem modelizada que proporcionou. Paris. 2 Dep. de Museologia. 8 Universidade Marsarik e Museu da Morávia. Paris. Embora seja discutível. que presta assistência ao conjunto dos museus Checos.

numa Europa central repartida entre várias correntes filosóficas e religiosas. Suécia 1. Eslovénia 2. Durante a sua atribulada vida. Finlândia 1.A. 13 Participantes da ISSOM 93: Egipto 6. México 1. Dep. vindo a falecer na Holanda onde se radicara em 1656. Estónia 1. 11 Arquitecto. Comenius viveu e trabalhou na Moravia. na Polónia. de Conservação. Grécia 1. filósofo e pedagogo se projectou na cultura Europeia do século XVII. na Suécia. 10 Museu Nacional da Hungria. Consultor ICOM.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 78 9 Academia Reinwardt. cujo trabalho como historiador. 12 J. foi uma das mais ilustres personalidades Checas. Lituânia 1. . Portugal 1. República Checa 2. Letónia 1. em Inglaterra. O seu trabalho inspirou e influenciou o pensamento de várias gerações e a sua mensagem humanista sobre a paz no mundo ainda hoje permanece viva. Roménia 1.Comenius (1592-1670). Amsterdão. J. Malta 1.

Estas expectativas vieram a confirmar-se por inteiro. da Universidade do Quebeque.por um lado. À partida. e com a colaboração de excelentes profissionais. Nicole Lamontaigne. todos os colaboradores do "Écomusée de la Haute Beauce" e. este estágio constituía uma promessa de contacto com a PRÁTICA museológica (depois da aprendizagem TEÓRICA do curso de Museologia Social em Portugal). Ferreira Antunes.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 79 ESTÁGIO DE MUSEOLOGIA NO CENTRE INTERNATIONAL en FORMATION ÉCOMUSEALE. que nos orientou e acompanhou ao longo deste estágio com uma sapiência e com uma amizade que jamais poderemos esquecer. todos os profissionais ligados à museologia com quem contactámos e que tão bem nos receberam. QUEBEQUE: O BALANÇO DE QUATRO ESTAGIÁRIAS 1. . De entre estes. sem o qual o Museu Criminalístico não teria beneficiado desta oportunidade única de aprendizagem e experiência. Pierre Mayrand. 2. Pierre Mayrand. Além disso. Para ele e para Renée Rivard. Fazemos aqui questão de salientar o papel do Prof. em instituições de uma qualidade verdadeiramente modelar. de um modo geral. . Dr. ministrado pelo ISMAG.last but not least ! . O curso de pós-graduação de Museologia Social. o estágio veio a revelar-se como uma oportunidade única de contacto com personalidades e instituições conhecidas internacionalmente pelo seu mérito profissional e pelo seu vanguardismo e espírito de inovação no chamado movimento da Nova Museologia. A estrutura do estágio revelou-se extremamente útil e eficaz em termos de resultados. uma grande liberdade de acção. assim como para Michel Noel. proporciona aos finalistas vários estágios em instituições museológicas portuguesas e estrangeiras. a que as signatárias deste artigo tiveram acesso.a estagiária Leonor Sá gostaria de agradecer o estímulo e o apoio que lhe foram dados pelo director do Instituto Nacional de Polícia e Ciências Criminais. que permitiu uma abordagem multifacetada e optimizada de toda uma vasta quantidade de informação. os nossos sinceros agradecimentos. orientado pelo Prof. tendo como base dois vectores principais: . a todos os níveis. o estipular de locais de trabalho bem precisos e definidos e a obrigatoriedade de cumprimento de tarefas e prazos.por outro lado. destacamos o estágio no Centre International en Formation Écomuséale. que nos acolheu de braços abertos. Por último .

museólogo responsável pelo Economuseu do Bronze. conservador responsável pelo sector das reservas do "Musée de la Civilization". cidade do Quebeque: Musée de la Civilization. Gostaríamos de salientar os seguintes contactos estabelecidos.Michel Noel. Prof. respectivamente Nicole Lamontaigne e Ginette Gagnon.7. foram elaborados e apresentados vários trabalhos. Nova Yorque: Museum of Modern Art. . Prof. vimo-nos confrontadas no Quebeque com uma realidade museológica a todos os títulos notável.Balanço geral e propostas de trabalho relativamente ao Écomusée de la Haute Beauce. Guggenheim. 8. Museum of Science. 93 ao coordenador do estágio.Renée Rivard. apresentados a 7. . 3. crítica e dirigida a um número apreciável de instituições museológicas canadianas e norte-americanas: Montréal: Musée d'Art Contemporain. por se terem revelado particularmente interessantes e profícuos: . .Contactos com personalidades da museologia do Quebeque.Evariste (Ecomusée de la Haute Beauce). 4.2ª fase . Para acompanhamento da estrutura do estágio. em Inverness.93 a 23. do vidro (cidade do Quebeque) e do papel (Papeterie St. . .Relatório final apresentado ao coordenador do curso de Museologia Social. .Michel Laurent.1ª fase . Pierre Mayrand. Musée des Beaux Arts.Os elementos das equipas de trabalhadores que integram o Écomusée de la Haute Beauce.Integração nas equipas de trabalho em diferentes núcleos do Écomusée de la Haute Beauce. Prof. Évariste" e da "Maison du Granit". 93 ao coordenador do estágio.Pierre Mayrand. Boston: Children's Museum.Gilles).Observação activa. Estado do Quebeque no geral: Musée des Civilizations (Hull). Museus regionais de Charlevoix e da Gaspésie. Secretário Geral do MINOM internacional. apresentados a 22. . resultado de uma acção cultural empenhada e eficaz que . em três fases sucessivas: . 93) noticiada pela imprensa local (ver anexo 2). ver documentos dos Anexos.3ª fase . Centro de Interpretação da cidade.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 80 O trabalho efectuado ao longo do estágio no Centre International en Formation Écomuséale (13.Gilles Gagné. . 8. Professor de Museologia da Universidade do Quebeque. particularmente as directoras do "Centre de St.93) dividiu-se em três grandes momentos: . Parques naturais de Forillon e du Bic. coordenador do Centre International de Formation Écomuséale e fundador do Écomusée de la Haute Beauce. A partir da recolha de informação e de documentação efectuada em todos estes momentos. Pierre Mayrand. 8. Economuseus do bronze (Inverness). consultor especialista e teórico da Nova Museologia.Organização de uma Soirée Cultural Portugal-Quebeque (a 21.Relatórios críticos sobre a Maison du Granit e sobre o Centre de St.8. Mário Moutinho. . Metropolitan Museum. Mc Cord Museum. . De um modo geral.

CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 81 não se tem poupado a esforços. mas nasce a partir de ideias e desenvolve-se em função desses valores que tem de preservar e transmitir. com certeza. com verdadeiros hábitos de frequência dos museus. estáticas e prontas a ser consumidas por um público passivo. apesar do elevado custo de algumas entradas. principalmente nas três últimas décadas. como teremos ocasião de especificar num próximo artigo. locais onde o conhecimento e a reflexão se tornam sedutores. se confrontado com os preços praticados no nosso país. num museu. a chamada "idade de ouro". que acorre em massa a diversas destas instituições museológicas. alheios factos tão conhecidos como a dignidade dos espaços arquitectónicos escolhidos. Defrontámo-nos. famílias. (Políticas de redução de preços para crianças. Estas formulam-se a partir de um vector principal que se define não só como tentativa permanente de ligação real com a comunidade. assim como a vulgarização de esquemas associativos de amigos dos museus permitem uma optimização dos custos para os visitantes mais assíduos). Simultaneamente. No que diz respeito aos museus mais inovadores. sem o qual não se torna possível abarcar o fenómeno global de mudança: as ideias que se procuram transmitir não são ideias feitas. de uma densidade populacional das mais baixas do mundo e da vastidão dificilmente abarcável do seu território. deixam de constituir um fim em si mesmo e passam a ser encarados como meios preciosos de transmissão de mensagens com variadíssimos fins culturais. estudantes. conseguiu valorizar o seu património de um modo que poderemos considerar dificilmente excedível. estimulantes e interactivos. tanto no Canadá como nos Estados Unidos.. mas ideias que. Com efeito. apesar da exiguidade relativa da sua história. portanto. o Quebeque). ou a existência de serviços educativos / de animação muito activos. a qualidade das colecções e de todo o trabalho subjacente de conservação. Por todo lado e a cada passo nos defrontámos com os sinais visíveis de uma acção efectiva com vista à conservação e divulgação sistemáticas do património natural e cultural canadiano. etc. procuram também estimular a reflexão perante diversas questões importantes. a grande importância dada às exposições temporárias. ou direccionadas para horários muito específicos facilitam a entrada dos economicamente mais vulneráveis. viemos também encontrar outras. e na rotação constante de diferentes exposições. Alguns exemplos flagrantes que poderemos dar deste novo tipo de museu serão o "Musée de la Civilization" da cidade do . Verificámos também que esta valorização encontra pleno eco no público. Este facto significa tão só que os objectos. servindo-se dos objectos para os comunicar. para além de transmitir conhecimento. para já não falar das campanhas de marketing e divulgação . mais especificamente. para além das preocupações atrás referidas. Esta preocupação fundamental implica uma inversão total na própria génese e nas directrizes orientadoras dos museus: o museu já não nasce nem vive em função dos objectos e das coleccções que possui. ou seja. dá-se outro facto muito importante. de investigação e de museografia. patente na elevada percentagem de espaço que lhes é destinada (em termos de espaço arquitectónico global). o Canadá (e. em camadas etárias e sociais muito diversas. mas também de implicação da mesma comunidade em processos e actividades dos museus. grupos escolares. A esta realidade comum ao conjunto dos museus analisados (tanto museus tradicionais como museus inovadores) não são. Os resultados da materialização deste reformular de toda uma filosofia museológica são bem visíveis: estes novos museus são locais vibrantes de vida. transformam o espectador num interveniente activo.

uma lição de vida . que já tivemos ocasião de analisar anteriormente.Programa de estágio 2. apesar de todas as dificuldades e obstáculos. O facto de termos tido ocasião de participar nas suas actividades e de partilhar o seu quotidiano constituíu para nós uma verdadeira lição: não só uma lição de museologia prática mas também . com o qual a região da Haute Beauce muito tem beneficiado.Comunicado do Comité d'action touristique et culturelle de St. Da sua acção concluímos que. os centros de interpretação dos Parques Naturais de "Forillon" e do "Bic". incluindo uma "soirée culturelle portugaise/québéquoise organisée par un groupe de stagiaires portugaises em muséologie sociale" . Por último mencionemos o "Écomusée de la Haute Beauce". ÍNDICE DE ANEXOS 1. constitui um verdadeiro agente de desenvolvimento e mudança de vocação regional. pioneiro dos Ecomuseus no continente americano.CADERNOS DE MUSEOLOGIA Nº 1 – 1993 82 Quebeque. o "Children's Museum" de Boston ou o "Museum of Science" da mesma cidade.Hilaire sobre comemorações e actividades na mesma aldeia.

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