José de Mesquita

Do Instituto Histórico e da Academia Mato-grossense de Letras

JOSÉ DE MESQUITA

Da Epopéia Mato-grossense
Sonetos

José Barnabé de Mesquita (*10/03/1892 †22/06/1961)
Cuiabá - Mato Grosso

Biblioteca Virtual José de Mesquita http://www.jmesquita.brtdata.com.br/bvjmesquita.htm

Almeida Jr, A partida da monção, Museu Paulista

CUIABÁ Escolas Profissionais Salesianas MCMXXX 2

Antônio Corrêa da Costa 1920 O Catholicismo e a Mulher (discurso) 1925 Elogio fúnebre do General Caetano de Albuquerque 1926 Terra do berço (poesias) 1927 A Cavalhada (contos) 1928 Um paladino do Nacionalismo (elogio acadêmico de Couto de Magalhães) 1929 Semeadoras do futuro (discurso paranynfal) 1930 Da Epopéia Mato-grossense (sonetos) 1930 A Guerra As Mulheres de Coimbra O “Bravo” do Sará Baluarte vivo A Vivandeira do 17 A Reconquista As “Posses” de Lopes A Rosa de Maracajú Vedeta da Pátria Visão do Futuro O Sul A Éra Nova 3 4 .DA EPOPÉA MATOGROSSENSE 3 JOSÉ DE MESQUITA Taboa A Terra Virgem O Preço da Conquista Os Descobridores A Missão de Antunes Maciel A Colônia O Milagre da Custodia Bom Jesus A Heroína do Carandá O Cruzeiro da Aldeia Velha Os Festas do Ouvidor A Éra das Fundações Os Plantadores de Cidades Dido Colonial A Rainha do Quariteré O Socorro á Villa Bella Os Paranistas I Os Paranistas II Velho Santeiro Jacobina Flor da Selva Cyclo Imperial 6 7 8 10 11 12 13 14 16 17 18 19 21 22 23 24 25 27 28 29 30 31 33 34 35 37 DO AUCTOR: Poesias 1919 Elogio histórico do Dr.

17) JOSÉ DE MESQUITA A Terra Virgem A Ulysses Cuiabano Novo Jasão empós do vellocino louro. (Antonio Corrêa da Costa − Os predecessores dos Pires de Campos e Anhangueras. o heroísmo desmarcado desses a quem seduz um longínquo thesouro ou um distante amor. da Sierra de La Plata o redente azulado.DA EPOPÉA MATOGROSSENSE 5 O Preço da Conquista Não conseguiu. Eis que ao voltar. todo coberto de riqueza. na sortida. prostra-o do payaguá a flecha.. em seu sonho ardente e cheio de belleza. o valor. vai Aleixo Garcia em busca do Eldorado. Rebrilha-lhe no olhar. carregado de ouro. ao fulgor de uma miragem de ouro. foi assassinado pelos índios payaguás. a ambição. prende-se para sempre ao seio idolatrado da terra que lhe cobra ao preço vil da vida essa gloria immortal de a haver primeiro amado! 5 6 . pg. apoderando-se estes índios dos despojos que elle conduzia do Perú. e elle. da mesma forma porque o fôra depois seu emulo Ayolas. sem pecha nem desdouro. Ao regressar de sua estupenda investida a essas remotas regiões. vagamente esperado. Acena-lhe. gozar da fortuna que o seu inaudito esforço alcançara. entretanto..

ais largos horizontes! 7 8 . encarregado pelos chefes da “bandeira” Maciel. campus. levando. mulheres e filhos. capitão-general de S. a cata de conquistas de índios e do ouro bom. do Tietê riscando as tremulinas. em pouco. foram dar a Cuyabá... A Francisco Mendes Missionário feliz. o sertão perigoso corria. Paulo se abalaram muitos deixando casa. que nesta terra havia. valle aberto em marneis. lá se vão as monções. de tal maneira que. na intrépida carreira. Todo a terra que − ó ouro! encantas e allucinas − se agita duma febre e ardor. parte das novas minas. a par das amostras aurinas. Lar pacifico e amigo. anno 1719) A Antonino Ferrari Vinham de muito longe aquelles sertanistas. que a alma do bandeirante ahi vai. rompendo a selva espessa. a solidão bravia. ali. o bando heróico de paulistas.destes o primeiro que subiu o rio Cuyabá foi Antonio Pires de Campos em procura do gentio Coxiponé. por selva e montes. rios e igarapés. sendo governador o Conde de Assumar... No seguinte anno prosseguiu Paschoal Moreira Cabral o mesmo rumo. . adeus! adeus. sem descansar um dia. (Chronicas de Cuiabá) A Missão de Antunes Maciel Por esta escripta aqui copiada do mesmo original mostra-se ser Antunes Maciel o enviado com as noticias e mostras de ouro do novo descobrimento . palmo a palmo.DA EPOPÉA MATOGROSSENSE 7 JOSÉ DE MESQUITA Os Descobridores . Trás dos coxiponés e do ouro e dos diamantes. e.. onde. roças. aos de Piratininga a nova alvissareiras. e de toda a capitania de S.. a arrulhar em beijos. . os bravos bandeirantes ergueram o arraial.. entre as verdes colinas. simples desejos. destemido.. fazendas. Vinham de muito alem. a povoar do seu sonho os rincões sertanejos e a abrir para o Brasil tr. se abrem lábios de esposa e filhos ainda insontes. serra ouriçada em cristas. e. (Chronicas de Cuyabá. Paulo e das Minas. depois de muito esforço e lida.

alva camélia. a dôr em tudo punha. o que aconteceu terceira vez á vista de todos. armado por fóra da parede da Capela sem tribuna.DA EPOPÉA MATOGROSSENSE 9 O Milagre da Custodia Chegada a quaresma. as minas a assolar. Era ao tempo em que.. deu a Custodia volta para a parte da Epistola. (Chronicas de Cuyabá. em compacta multidão.. ao olhar da turba estupefacta.. porém. a sua dilecção tão claro testemunha. ficando com o lado para o povo. a vida no sertão exsurge e se reenflóra! 9 10 . flor de prata. agora. Ante a forma. que era de madeira. anno de 1728) JOSÉ DE MESQUITA A Colônia A Nilo Povoas Sobre o rústico altar. Dia de Endoenças. Os mineiros. da matriz enchem a nave inteira.. em throno de madeira. demonstração que fez Deus Nosso Senhor de que não era servido que se despovoasse este sertão como todos determinavão e da perpetuação desta colônia. por três vezes se volve a custodia. em maneira que da hóstia apparece a face verdadeira: em haste de ouro. Eis sinão quando. Do êxodo a porta abria o horror do sacrifício. em quinta-feira santa. posta a custodia no throno. com que o Senhor. celebrando-se os officios divinos na egreja Matriz. sobre a miséria. na custodia se occulta a hóstia intemerata.. o flagicio.. expondo-se o Santíssimo Sacramento.

.. E ahi. no Carandá. E avulta. vem a imagem buscar uma turma luzida. o que sabendo-se nesta villa. na velha e heróica Sorocaba.. paulista sem temor. anno de 1729) A heroína do carandá . Eis que se lhes defronta a indômita energia do fero payaguá. em que acaba o animo do mais rude e audaz desbravador: − rios nove a vencer. esgotado em sangue sustentou ainda a forte maltrona por espaço de uma hora a peleja com toda a brutina furia. a energia vencida. e não podendo continuar o caminho pelas difficuldades que naquelles tempos havia. oppondo ao invasor a lança e o arco violento. (Chronicas de Cuiabá. Trouxe-a não um extranho. cruel a jornada. no districto do Carandá lhes sahio hum grande tumulto de Payagoas . que sobem dia a dia. serras e boqueirões medonhos a transpor ! Mas quando. fizeram esta augusta imagem do Senhor.. oppondosse unicamente Pimentel na sua canoa auxiliado de Maria mullata natural do Alentejo.. o ouro virgem fulgia. trouxe-a comsigo um Pedro de Moraes. um advena.. combatendo. e. entre festas e gáudio. (Chronicas do Cuyabá. lhe que exausta do sangue passou desta a eterna vida.. E abre-se nas monções. como á luz da ribalta eschyliana. . ás minas a conduz e doando o Bom Jesus á Cuyabá virente.. num rechaço cruento. ao morrer. Mas Pedra de Moraes. a linda Cuyabá consagra ao Bom Jesus! A Fernando Campos Começava a povoar-se o sertão. que da barranca a flecha irosa despedia. um emboaba. baptiza com o seu sangue a terra cuyabana! 11 12 . baldo o esforço. . que.. enfrentam-se as três raças. Nas catas. a tragédia da entrada e o rude povoamento. inscreve-se o tremendo conflicto secular.. repleno de desgraças.. na pugna cimmeria.DA EPOPÉA MATOGROSSENSE 11 Bom Jesus Foi esta imagem fabricada na villa de Sorocaba por mãos de uma mulher. anno do 1733) JOSÉ DE MESQUITA A Feliciano Galdino Mãos de mulher. . desde Araritaguaba. Morto Pimentel.. lento e lento. param em Camapuan. foi mandado buscal-a. . arriba e deixa a imagem em um rancho coberto de palha. a faiscar. desalentadamente. essa extranha Mulher que. Dura a rota.

no seu lânguido tom. Desde a funcção na egreja. cuja gloria e louvor em meus versos exalto. Abre-se-lhe em redor a flor rústica e pobre do gerbão e. abrindo-se ali. ali junto. imponente e severa. nessa expansão sincera das horas de prazer.H. ao luar. como que abençoando. Vêl-o é tudo evocar desse tempo esquecido... como si do planalto ao sol. (D. em seu menear dengoso. lá fóra.. brilha na luz fagueira. ás forças. que o estima e venera. cuida ver o Padre Estevão. em meio do terreiro. Tem por sócco a alta serra e docel estendido é lhe o céo plumbeo ou azul. fosse elle um marco entre a região do Olvido. os annos lhe festeja. de saphira ou cobalto. á orla do campo erguido. (Notas de Toledo de Piza ás Chronicas do Cuyabá. breves e fugidias. á quente luz do bronzeo candieiro.. ouvidor do Cuyabá. pois toda a Cuyabá. em maio á tribu que lhe pende dos lábios. os seus horizontes interminos. emquanto.Paulo. 219) A Frei Ambrosio Dayde Eil-o á margem da estrada. levantar ainda o sua cruz de missionário naquellas culminâncias da terra cuiabana. a virgem cabeceira do Coxipó-Mirim entre o cangal se encobre. Aquino − Apóstolos Anonymos) As festas do Ouvidor Estas festas duraram mais de um mez e foram celebradas no anniversário do dr. E a alma do que o erigiu paira no ambiente rudo. canta na água a escachoar. folias. entremez. Ver. tosco. Diogo Ordonhes. cavalhadas. vibra a alma popular. em meio de alegrias. no negro da madeira a imitar o basalto. lado lado. mixto de alegre riso e de chorar dolente. a “tyranna” desperta a noite docemente.S. Na sala. dança-se o passapié fidalgo e maneiroso. 13 14 . A Ovidio Corrêa Em casa do ouvidor Diogo de Lara impera grande rumor festivo e álacre ha muitos dias. de um perfume subtil embalsamando tudo.DA EPOPÉA MATOGROSSENSE 13 JOSÉ DE MESQUITA O Cruzeiro da Aldeia Velha E o viajante que alli o escuta. I.

denodados. se levanta o presente. na Historia. erguei-vos. Capitães-generaes. a resistente.DA EPOPÉA MATOGROSSENSE 15 JOSÉ DE MESQUITA Os plantadores de cidades Violador de sertões. a ridente Villa Maria e após. nesse abrolhar bemdicto. Albuquerque. De Rolim a Luis Pinto e ao Cáceres invicto.. numes de nossa terra. pujante e audaz. representas o esforço. luctaram bravamente. a base de granito em que. plantador cidades.. para que ainda hoje a ampare o vosso hercúleo braço. Arcebispo de Marianna A Era das Fundações Grande éra que és. Dentro do coração da pátria viverás! (Bilac − O caçador de esmeraldas) de A D. e outros mais. a lendária. eis surge Villa Bella. rijos hoplitas de aço. de cidades fecunda e bella sementeira. antes de nós. e Coimbra. Vizeu e Casalvasco e Príncipe da Beira e Miranda. germes de povoados. 15 16 . a gentil. Helvécio. o trabalho inaudito desses que.

que é a liberdade só que dá valor á vida. Não Teresa.. Mas já de Villa Bella a tropa numerosa na pugna árdua e feroz os leva de vencida e. cujas meigas feições.. sertaneja visão da dôr e da saudade. No mais ermo da matta ergue o seu throno lindo a Rainha que traz a seu sceptro curvado o quilombo. na ânsia de livre ser. prefere a morte ao jugo e mostra.DA EPOPÉA MATOGROSSENSE 17 A Rainha do Quariteré Quando foi presa esta negra Amazona parecia Pestesilea furens. symbolo desse amor que. morto. longe do jugo odiado. em gestos de quem vehementemente impréca um gordo e roliço Capitão general. pobre Dido ou misera Moema. JOSÉ DE MESQUITA Dido Colonial Numa portada de antecâmara. na matriz da Trindade. em cruel e trágico reinado. intemerosa. Imitou no animo a grande Cleópatra que quiz a morte. como á luz de antiga illuminura. no cáes do Guaporé. no crysol divino de um poema. tua ignota paixão tomasse como thema. porém.. − filha de Pouso-Alegre − em estrophes lavradas. que morreu enfurecida. esmagada e ferida. trahindo a dôr extrema. que.. (João Severiano − Viagem ao redor do Brasil) A Alfredo Pacheco Quem foste. Viva te sinto. foi de Quariteré o quilombo afamado. em que a negra Teresa o seu poder infindo exercera. uma dama trajada de amplo vestido escarlate.. ainda é mais vivo! 17 18 ... do que entrar no triumpho em Roma. E foi tal a paixão que tomou em se ver conduzir para esta villa.. (Nogueira Coelho − Memórias do anno 1770) A Olegário de Barros Lá por onde o Galera as águas vai fluindo. revivendo o esplendor das épocas passadas! Da “Sala do docel” te evoco entre a moldura... a que vai nova gente affluindo. se lhes reabre a via-dolorosa. avultas. presos. mediisque in milibus ardent. em teu perfil sombrio e altivo. anonymo pincel aqui deixou vasadas? Feliz quem. figura senhorial dessas eras douradas.

nobre de linhagem. senhor das lavras de Cocaes.. para a audácia abater da tropa castelhana! Cyclo Imperial 19 20 . Á frente. e Antonio Luis. e eil-os.DA EPOPÉA MATOGROSSENSE 19 JOSÉ DE MESQUITA O socorro a Villa Bella ..porque se vêm ordens sobre ordens do General que manda aos chefes dos corpos Auxiliar e ordenanças que sem perda de tempo e quanto antes fação expedir gente e mais gente para socorrer a fronteira da capital que considera sitiada já dos Espanhoes.. cresçam cada vez mais. E não tarda redobre o ardor e os pelotões. E toda a fina flor do Cuyabá se irmana ao rude trom que. alem. em recontros fataes.. presto. Já de Paschoal Delgado os rijos fuzileiros em flotilha lá vão. eis chama o General do mais rico ao mais pobre. rumo ao palco da lucta. na fronteira se escuta... se vão. Poupino. (Chronicas de Cuiabá. José Paes Falcão das Neves. anno 1771) A Leônidas de Mattos Porque o luso poder não se afraque ou sossobre ante as armas de Espanha. altivos e leaes. c Rebello e Barreiros. os hussares commanda .

tanto mais bella. sendo a mais notável a do Salto Augusto”. a rodar. E eil-os vão-se. Tudo venceram e eis já lhes assoma ás vistas. meiga. cerca de 30 dias. em temerária empreza. voltam os paranistas. longos dias a fio. ao álacre gritar das araras em bando. salteou-os o pium e as séttas imprevistas do tapanhuna. E Diamantino accorda ao rumor da chegada. estridulo e fremente. reboando. e o rude e forte trom dos tiros. trazem o guaraná e as castanhas cheirosas. o Tapajós gigante canta-lhes ao ouvido. ao sol e á chuva. ao longe. salto em salto. domínio da sorpreza. Já no Itaituba. o país da Incertteza. Ouve-se. ao longe. quaes tropheus de lendárias conquistas. echoar a buzina estridente.. Do sombrio Rio Preto. tendo de varar embarcações por terra em differentes lugares de cachoeira. da leve igarité ao deslisar macio. á canção dolorida das águas. entre as barrancas silenciosas. a visão do lar − mães e esposas saudosas − para quem. pelos ínvios sertões. (Moutinho: Noticia. cortando. onde com a féra ultriz se alterna o índio bravio. pág 213) II À memória do meu tio Herculano de Mesquita Moniz I Eil-os que vão. quanto menos conhecida! Meses longos após. 21 22 . nessa obscura e anonyma epopéa. em doce melopéa. gastão de descida atê o −Itaituba que dista do RioPreto 270 leguas. rio em rio.. a acenar-lhes o fim da jornada extenuante. de porto em porto. que enchem o claro céu da sua revoada. demandam Santarém. repercute no valle. á flor da lenta correnteza.DA EPOPÉA MATOGROSSENSE Os Paranistas 21 JOSÉ DE MESQUITA Costumão reunir-se em monções para se prestarem mutuo auxilio. as febres insidiosas. Tostou-os a intempérie.

. as primeiras e tocantes manifestações do pensamento artístico brasileiro.. na madeira.. a irradiar luz e galas. vencendo o tempo e o seu destino obscuro.os artistas futuros hão de procurar nos Santeiros e encarnadores anônimos. symbolo de uma éra e berço de uma raça! 23 24 ... que rivalisaram com a da Villa (hoje cidade de Cáceres) havendo missa cantada. em outros tempos... como aos de hoje. A “casa dos senhores”. de sol a sol.. publicada no “Ittinerário da Visita pastoral” do P. terna e bôa. uma linda Santa Anna.. falas ! Tal. do insano amor promana. o fogo a consumir-se. Festas de antanho. na modesta arribana.. Idyllios dos salões. corrida de cavalhadas. O “engenho”.. Extinctos esplendores! Tudo.. corta. ardente. mas também desconhece esse áspero flagicio.” (Memória escripta por Mariano Ramos.. em que. horas a fio entregue ao seu officio... na obra das suas mãos. tragédias das senzalas. A escravatura. desbasta. ó velha Jacobina. Mestre Catirité. a um tempo.. O velho heroísmo luso em selvagem petrina. lixa. Ao Desembargador João Carlos Pereira Leite Velho e augusto solar de altiva e nobre gente. fóra da agitação do mundano bulicio.. ao clarão de uma edade fulgente. o antigo fausto resplendente. se tortura a alma humana. encéra e aperfeiçôa a imagem que o seu nome ha de tornar longevo. pois que. que lhe abrira o futuro. escombros do que foi.. Relumbras. No cuidado lavor de um artista medievo.DA EPOPÉA MATOGROSSENSE 23 JOSÉ DE MESQUITA Jacobina Velho Santeiro . Bento. 1888.. touros. sob a cinza. Dias de gloria e pompa. Não lhe chega ao casebre a torrente do vicio. (Affonso Arinos) Jacobina fez sua época: ali faziam-se festas do Espirito Santo... inda a alma do passado erra por tuas salas... porque tu és. em teus muros esvoaça. que da torpe ambição. saudoso e evocativo. vive-lhe inda a memória humilde.. e as quaes concorria grande multidão de povo.) A Arnaldo Serra Paciente. como num sonho. esculpta.

Que estupenda lição. nos déste de abnegado heroísmo. ainda maior no teu longo supplicio. do olor do sacrifício! A Guerra 25 26 . (a índia Rosa tendo apenas a curtir a saudade dos dias victoriosos. rija e forte. 58) A Tolentino de Almeida Linda flor dos sertões de minha terra agreste.. a arrostar. a ingratidão daquelle em quem a fé puseste.DA EPOPÉA MATOGROSSENSE 25 JOSÉ DE MESQUITA Flor da Selva Esquecida e abandonada. Mendonça − Datas.. indigno de entender um a alma do teu porte! Tua raça acha em ti o symbolo sublime. II. tua fragrância embalsama esta terra do aroma da paixão. tua alma ainda erra entre nós e o passado infamante redime. E’s grande. Rosa. Sacrifica á paz e ao amor.. (E. balbuciando o nome da filha que tanto amava...sucumbiu nos braços do seu único filho José. todavia. mais que as tuas irmans te foi cruel a sorte: Iracema de luz romântica se veste e Lindoya encontrou o consolo na morte.

bravamente. nas vidas que salvaste os tropheus da victoria?! 27 28 . de bronze resistente. horas longas no forte. vencendo enormes distancias e rios caudalosos. eil-as a preparar o embate formidando. debaixo de contínuos aguaceiros. chans. por logares nunca transitados. por salvar centenares de vidas. passa os limites da descripção. alta noite velando. esposas e filhas de officiaes e praças da guarnição. sem guia. á espera do inimigo. e. são. 51) A Antônio Fernandes de Souza Vigília heróica a vossa. noites longas velando. soffrendo. E emquanto a noite corre e os homens. alternando. (V. a fome e a sede braços.. diante do dever. o olhar no espaço mudo.. ellas − os corações cheios de febre e ansiosos − mostram-nos. chegas trazendo. Pág.sos. os mais rudes supplicios. ante os seus passos. se. ellas passaram a noite fabricando cartuchos (Gensérico de Vasconcellos: A Guerra do Paraguay no theatro Matto-Grosso) O ‘Bravo’ do Sará O que foi aquella terrível marcha durante quatro mezes. exhausto. o corpo em cem feridas. por sob um céu de fogo. no labor e na prece as vemos. − até que a Cuyabá.. o frio pantanal. teus sacrifícios sem termo. apetrechos de morte e excidio fabricando! Mãos que a esmola e o perdão sempre trazem comsigo.DA EPOPÉA MATOGROSSENSE 27 JOSÉ DE MESQUITA As Mulheres de Coimbra Dentro de forte estavam. A Miguel Mello Vede-o que vai com a dor. a ver pelos espaços os astrus a rolar no seu gyro fatal. mulheres brasileiras. em solo sempre encharcado cortado de fundos corixos na estação mais rigorosa do anno. valoro.. de Taunay − A cidade de Matto Grosso. vencendo morros. Quem teu êxodo atroz dirá. nesse exemplo altisono e eloqüente. Emquanto os maridos e paes montavam guarda nas muralhas. Dias cruéis de augustia. nessa manhan de gloria. corixos. e vendo desdobrar. por paúes quasi invadeaveis. que as mãos que para o amor são feitas de velludo.. como na evocação de rude quadro antigo. infindo.. légua e légua a ganhar nessa marcha infernal. ao invés de semear o doce amplexo amigo. tremedal.. quedam-se na muralha.. porém. a arder os membros lassos.

Excia (Leverger) a quem conhecido multo como experiente. a alma abeberar da nossa mocidade ! 30 29 . − apparição marcial de olympica bravura! A tua condição misera e deprimente resgatou-a a bondade acrysolada e pura e. a pensar-lhe as chagas. o povo. por vezes. mais que a morte. Eis sinão quando. a miséria. altivo. a pilhagem perpassa. surge. mulher humilde e obscura. nas horas do prélio. (Taunay − A retirada da Laguna. a deshonra. como o alcyone no mar. sereno e audaz. pois brilha mais que o sol no aço da sua espada! A Luiz Feitosa Rodrigues Qual de ludro atascal. com piedade. esplende. que faz que.. o velho marinheiro. E dos teus seios jorra o leite da bondade que deve. á luz fulgente da tua alma de neve. uma flor. Junto ao ferido foste a sédula enfermeira. Anna Mammuda. dedicada. palpita. em pouco. seu nome que − elle só! − faz recuar o extrangeiro. prevenira os cuidados da administração militar nesta obra caridosa.. na collina sagrada. heróica vivandeira. assim tu. á luz feral e baça do incêndio − qual sinistro avejão. através do passado. o trágico degredo. mulher de um soldado. resolverão não subir até a Capital. ias da tropa á frente. 70) A Vivandeira do 17 A preta Anna. freme. negro e tredo − o rauso. bem cedo já parece toldar de bellica fumaça. e oppõe.DA EPOPÉA MATOGROSSENSE 29 JOSÉ DE MESQUITA Baluarte vivo Soube-se mais tarde que os Paraguayos tendo noticias de que S. o saque. E. olente. entre a cólera e o medo. que. É a morte e. ante a cruel e inaudita ameaça que o cuyabano céu. o povo a coragem recobre. (Moutinho − Noticia. ergue o seu vôo nobre. a tua effigie escura. entre o negro do fumo e o rubro da sangueira. o crime. lúcido e azul. Collocada durante o combate dentro do quadrado do 17° ella se desvelara com todos os feridos tirando ou rasgando das próprias roupas o que faltava para os curativos e ligaduras. se achava á frente do Commando de forças mais ou menos consideráveis. XII) A Dona Regina Prado Ruge.

. e em que tombam heróes do amor pátrio na pyra. tremula o pavilhão da Pátria novamente. Formidável peleja a que a força se atira. assaltava as trincheiras. té que. que dentro de uma hora Antonio Maria dominava a praça. brilhou da liberdade o sol. Correa Filho − Matto Grosso. audazes. para rehabilitar o nome brasileiro! Já de Antonio Maria os bravos legionários no arrojo da offensiva intrépida e valente se espalham pela villa. expellindo os paraguaios a rijos golpes de bravura... sob o lento revoar das grandes garças brancas.DA EPOPÉA MATOGROSSENSE 31 JOSÉ DE MESQUITA A Reconquista Ao mesmo tempo. e eis que. . ledo e fagueiro. Christão Carslens Dois annos de tristeza e de opprobrio curtira a infeliz Corumbá. no ardor do seu esto guerreiro. em seu céu azul de límpida saphira. por terra e água. do Paraguay sobre as altas barrancas. Tão vigorosa foi a investida. 40) A J. . (V. em poder do extrangeiro. . temerários. O Sul 31 32 . o destemeroso arrojo do grosso da força.

. Joaquim Lopes espalha a semente bemdita das “posses” e onde passa eis se ergue uma choupana e o fumo dos casaes pelos ares se agita. em plena crista da serra.. a formosa. em centelhas divinas. em cuja fronte mora a fé. alliando ao labor e ao progresso paulista o perfume subtil da tradição mineira! 33 34 . em Junho de 1927) JOSÉ DE MESQUITA As “posses” de Lopes O systema de Joaquim Lopes fazer "posses" era todo sui generis. junto á energia. Leva por onde vai a faina do trabalho e em cada valle. nesta vasta extensão de campanha infinita por onde o Sucuriú as águas espadana. a flor linda e flammante.DA EPOPÉA MATOGROSSENSE 33 A Rosa de Maracajú Em 1872 − quando os primeiros ventos do verdo varriam o sólo atirando ao léo as folhas secas das arvores − da pequena cidade mineira de MonteAlegre partiam rumando os sertões do Sul de Matto Grosso.. através de morros e campinas. e o gado muge. (O Município de Sant’Anna e o inicio do seu povoamento − Mario Monteiro de Almeida) A Rosário Congro Pelos amplos sertões que o Rio Grande limita. Eis surge. a grande. a altaneira. o de erguer. seja lugente noite ou refulgida aurora. sem demora. . nas chapadas sulinas. em pouco tempo. risonho. em cada grota. elle possue a terra − o Sul desponta aos pés do intrépido posseiro! A João Evangelista Vieira de Almeida Chiam carros de bois pela campanha afóra. se abre. − novo Cid sem posse. os primeiros carros de bois que compunham a comitiva do velho Zé Antonio Pereira. rosa de humus vermelho. um tépido agasalho Graças ao seu arrojo e ao seu valor primeiro. O velho Zé Antonio. As “posses” eram postas com estacas. e a roça viça. um lar. traz um voto a cumprir. um templo de oração. Almeida no Jornal do Commercio dessa cidade. Antônio de Campo Grande − memória publicada por V. a abrir-se.. . Vêm de longe. e já espargindo um aroma irradiante: − é Campo Grande. em cada serra. chiando. e o milho grana. do pontal do Rio Verde á lendária Sant’Anna. desde os montes azues e distantes de Minas. (S.

Ponta Poran era então um ermo inhospito. Ângelo da Rosa − Annaes Pontaporanenses). tua historia. é para que mais vivo. . É a tua a minha edade. e si não tens ainda um vultoso passado. fulgure o teu futuro esplendido e arrojado! A Era Nova 35 36 . o capitão João Antonio da Trindade. das coxilhas á beira. como o minuano. em luzes peregrinas. flor do Amambay. Talvez por isso eu sinta affeição verdadeira por ti.. se entretece de lucta e de faina guerreira. (P..DA EPOPÉA MATOGROSSENSE 35 JOSÉ DE MESQUITA Vedeta da Pátria Nesse anno (1892) chegava ao logar onde hoje se ergue a cidade de Ponta Poran. bella e altiva cidade. em lances aguerridos. . em verdade. Tua raça caldeou-a. a alma sentimental e lânguida das “chinas” e a bravura sem par dos “guascas” atrevidos. Sopra nos teus hervaes a aura da liberdade. Extremenha gentil. alem. atalaia do sul e guardian da fronteira. A José Paul Vilá Nasci quando nasceste.

rijos e decididos surgir desse teu seio apojado e fecundo. O auto. com que se há de nutrir a humanidade inteira − Terra da Promissão e celleiro do mundo! 37 . célere. (Gal. fortes e unidos.DA EPOPÉA MATOGROSSENSE 37 Visão do Futuro E quando o tivermos realisado. se espraia. de que deram prova os nossos paes... do trabalho no afan. A orchestra do progresso os seus hymnos ensaia. nos labores da leira. ardente e gaia. então os nossos filhos. corta Teus campos. Silva a locomotiva. Rondon − Conferencias) A Josephi Nunes Ribeiro A era nova desponta. Tempo é de ressurgir.. os teus filhos farão. sobranceiros aos soffrimentos do corpo. E da tapera morta Como que nova luz radia. inflexiveis ás ameaças e ás injustiças dos poderosos que passam.. O velívolo leve os teus ares recorta. para a gloria sem par que no horizonte raia! Venha o dia feliz em que. nesse teu sonho absorta. com aquella nossa fortalesa de animo resoluto e sereno. onde a messe. esplendida. repetirão cheios de justo orgulho as palavras do poeta.