' 'Esse //vro de José Gui//>erme Aíere/uioré'umaf?

ese/a/ia incisiva e estimulante sobre a b/stór/a e evo/ução da teoria /ibera/ desde o sécu/o XVIIao /empo presente. Com/;wa uma enorme riqueza c/e Informações — surpreeui/en/emen/e condensada -- com penetrante apresentação a/os temas centra/s a/o ribera/ismo. Aíerece, assim, os mais a/tos e/ogios.
ERNEST GEI.LNER Professor Cambridge University

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' 'Um /ivro importante sobre um movimento fundamenta/ dapo//tica moderna... Escrito com erudição, ironia e paixão.
PIERRH MANENT Collège de France, Paris

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' 'Merquiorforça-nos a lembrar que o riberarismo tem sic/o um movimento internaciona/ Esse /ivro éum 'tour de force', o produto de uma mente poderosa e e/egante inteiramente à vontade em meio a um extraordinário número de cu/turas.
JOHN A. I-IALL Professor de Sociologia I larvard University
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EDITORA NOVA FRONTEIRA SEMPRE UM BOM LIVRO

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Sumário

Prefácio - Roberto Campos

1

1 Definições e pontos de partida
Liberalismo Liberdade e autonomia Três escolas de pensamento O indivíduo e o Kslado

15
15 21 27 '52

2

/\.v raízes c/o liberalismo Primeiras fontes modernas O legado do Uuminismo

:ir. ;(.r> 49

3

Liberalismo clássico, 1780-1860
Locke: dircilos, consenlimenlos o confiança De Locke a Madison: humanismo cívico e republicanismo moderno Whigs e radicais: o nascimento da idéia liberal democrática ... Os primeiros liberais franceses: de Constant a Guizot O liberalismo analisa a democracia: Tocqueville O santo libertário: John Stuart Mill Em direção ao liberalismo social: Mazzini e Herzen Os discursos do liberalismo clássico

05
(>0

69 76 82 87 95 101 105

4

Liheraliwios conservadores Conservadorismo liberal e liberalismo conservador Liberais conservadores evolucionistas: Bagchot c Spencer O liberalismo construtor de nações: Sarmicnlo c Albcrdi O segundo liberalismo francês: de Rémusat a Renan Semiliberalismo: do llechtsstaat alemão a Max Weber Croce c Ortega Conclusão

109 109 115 I 19 126 \?>2 139 148

Prefácio

Merquior, o liberista

5

Dos novos liberalismos aos neoliberalismos
As reivindicações do liberalismo social De Kelsen a Keyncs: liberalismo de esquerda no entre guerras Karl Poppcr e uns poucos moralistas liberais do após-guerra .. Neoliberalismo como neoliberismo: de Mises a llayck, e a teoria da escolha pública Liberalismo sociológico: Arou e DahrcndorC Os ncocontratualistas: Rawls, No/.ick e Bobbio Conclusão

151
151 165 178 188 196 205 2 IH 22 I A p a r t i d a de J o s é G u i l h e r m e Merquior, aos -19 anos, no apogeu da p i o d u l i v i d a d e , p;u'e< r uni eiuel dcfipri dírio, Meitíi Ia/. de.'isari < <>i sas. Fabrica gênios e depois q u e b r a o m o l d e . As vezes dá vonlado de a gente, c o m o no p o e m a de Murilo Mendes, intimar o C r i a d o r a n ã o repetir a piada da Criação... Legou-nos u m a rica obra, q u e vai da crítica literária à filosofia, à sociologia e à ciência política. Escrevendo em inglês e francês, c o m llttência igual à exibida em sua língua nativa, M e r q u i o r tem hoje c o m o sociólogo uma projeção internacional s o m e n t e comparável à alcançada em sua época p o r Gilberto Frcyre, em seus pioneiros e s t u d o s sociológicos. Só (pie mais diversificada, pois q u e a b r a n g e i m p o r t a n t e s excursões na filosofia e na ciência política. OMttgnum opus de M e r q u i o r é sem dúvida 0 libmúismo - anliftíi ti nitiilmio, cMciilu q u a n d o ainda e m b a i x a d o r no Ménii o, uuni c u r t o p e r í o d o d e q u a t r o meses, S o m e n t e u m a prodigiosa erudição a c u m u l a d a lhe permitiria d e s e n h a r em tão p o u c o t e m p o esse cafedralesco mural q u e descreve a longa e /.igue/agueanle peregrinação 7 "Este é um livro liberal sobre o liberalismo, escrito p o r alguém q u e acredita q u e o liberalismo, se e n t e n d i d o a p r o p r i a d a m e n t e , resiste a q u a l q u e r vililicação." — Merquior, na introdução ao I.iheralism - Old and New

Conclusão Cronologia
:

22M 227 246 2 9,
L

Notas e referências biblioü-rá ficas ; Leitura complementar índice |

O liberalismo econômico pregado em 1776 por Adam Smith somente viria a tornar-se a doutrina vitoriosa em meados do século XIX. comparável talvez ao de 1776. Em formoso estudo recente. terminou a guerra fria entre o capitalismo e o comunismo. que invadiu a maior parte deste século. que cobre liada menos que três séculos. os socialismos fizeram o papel de juizes. Talvez Merquior pressentisse que o rondavam as Parcas p que se impunha um esforço de coroamento de obra. Este século.antigo e moderno Prefácio . A publicação da versão brasileira do I. quando começou a desenhar-se a grande passagem do mercantilismo para o capitalismo liberal e a democracia constitucional. eles próprios estão sendo julgados". enquanto o nazi-facismo viria a representar um "coletivismo" de direita. O neoliberalismo econômico só ressurgiria comopraxis política na década dos 80. No Annus Mirabilis de 1989 pode-se dizer que. É que o mundo assiste agora à vitória do liberalismo em suas duas faces — a democracia política e a economia de mercado — não apenas como doutrina intelectual.iberalism . o grande patrono da economia liberal. Milton Friedman. nos últimos anos da década de 1980. como a chamou Paul Johnson. para outros uma nostalgia. Este deixou de ser um paradigma. Ou. como Merquior faz notar pitorescamente. pois que analisa as diferentes vertentes do liberalismo com sobras de erudição e imensa capacidade de avaliação. Os desafios socialistas eram doutrinários antes que práticas de governo.Merquior. assistiu ao fenecimento e à ressurreição do liberalismo. mas como praxe política. três coisas aconteceram simultaneamente:. o nome de maréfabiana. pois talvez se . Este se baseava entretanto numa sobreeslimação da capacidade dos governos de gestionar a economia através de uma "sintonia fina" das variáveis macroeconômicas. Viria depois a "maré coletivista". ao ruir o muro de Berlim. Quem vivesse no ano 1776 não saberia que um livro — A riqueza das nações — e um curto documento político — a Declaração de Filadélfia — dos rebeldes norte-americanos mudariam a face do mundo. Essa foi a primeira maré. Nesse. "nos últimos anos da década de lí)'l(). cuja evolução Merquior traça com maestria. entramos nesta última década na idade liberal. E que ele atribuiu o fermento intelectual do coletivismo à fundação da Sociedade Fabiana pelos socialistas ingleses. o liberisla 3 humana em busca da sociedade j aberta. Se o período entre 1920 c 1980 foi a "era coletivista". Mais do que uma simples história das idéias. desde o Annris Mirabilis de 1776. O Annus Mirabilis de 1989 será visto. que alhures chamei de "século esquisito". em perspectiva. em 1883. A grande depressão dos anos 30 enfraqueceu o capitalismo liberal e surgiu o keynesianismo como doutrina salvadora. é um ensaio de crítica filosófica. A revolução Soviética de 1917 iniciava a "era coletivista" de esquerda. Essa lacuna foi preenchida pelo sobrevôo intelectual de Merquior. como um dos grandes divisores de água da história. Estes pregavam a "marcha gradual para o socialismo". que expandiu o intervencionismo do Ivslado e apequenou as liberdades do indivíduo. sem que os coetâneos percebessem suas conseqüências majestáiicas — o nascimento do liberalismo econômico. Tal imputação é arbitrária. Faltava-nos.O/d and Nexo não poderia vir num momento!mais oportuno. para ninguém um modelo. aquilo que Toynbee chamava de visão "panorâmica ao invés de microscópica". E para alguns um pesadelo. ( lonti iliuiti para o fortalecimento da democracia política e para a prosperidade da belle époque. interpreta a onda de liberalismo econômico que sopra no mundo como a "terceira maré". Friedman dá a essa maré. em relação ao liberalismo. o deslanche da Revolução Industrial e a criação de um modelo de democracia política pela Revolução Americana. Seu livro será uma indispensável referência.2 O liberalismo .

enquanto o coletivismo econômico é habitualmente associado ao despotismo político. 70 anos depois. estava pregando uma utopia. no auge do intervencionismo governamental. Um sério desafio "interno" foi a grande depressão dos anos 30. principalmente no plano econômico. A terceira característica é que os períodos de liberalismo econômico induzem um certo grau de liberdade política. de enfrentar perigosos desafios neste século. O golpe quase mortal no liberalismo seria a Cirande Depressão dos anos 30. A maré ncolibcral começou. Antes de se candidatar à condição de ideologia universal. que no continente europeu começou com Marx e na Inglaterra com os (abianos. Friedman aponta características interessantes nessas marés da história. num artigo intitulado "O lim da história". é que as novas marés se formam quando as antigas atingem seu apogeu. com a abrogação da Lei do Milho na Inglaterra. o casamento da democracia política com a economia de mercado? Francis Fukuyama. de 1848. funcionário do Departamento de Estado. Será a presente ascensão ncolibcral apenas um relluxo da maré ou estaremos lace a um fenômeno histórico novo. 8() anos depois. A "outra" característica interessante. pois que se tornou também vitoriosa a economia de mercado sobre os regimes dirigistas. teria começado com outro livro — O caminho da servidão — de Mayek. começaria a invadir o mundo com o colapso «Ia velha ordem na Segunda (hiena Mundial e com o advento da Revolução Russa.durante a Segunda (hiena Mundial. Fukuyama dá mais ênfase ao liberalismo político. entretanto. que sobreestimava a capacidade dos governos de manipular instrumentos fiscais para estabilizar a economia e evitar o desemprego. um desafio herético às doutrinas correntes. O marxismo e o fabianismo nasceram quando o liberalismo dera ao mundo quase um século de prosperidade econômica e propiciava crescente liberdade política. segundo Friedman.Í. e uma experiência dirigista — o keynesianismo — é que o neoliberalismo chegou ao poder político. A "primeira" é que elas começam como um fenômeno puramente intelectual. da mesma forma que nesta década a falência do Estado começou a matar o coletivismo. além do marxismo. liberava-se o comércio de grãos c. e o comunismo. As teorias de Ilayek tiveram que hibernar 40 anos. paradoxalmente. que criou dúvidas sobre a economia de mercado e encorajou experimentos dirigistas. Adam Smith achava que. o liberista 5 possa dizer que o grande desafio ao liberalismo proveio do Manifesto comunista de Marx e Engels. Muitos falaram então no "fim do capitalismo". E precisamente a conjugação do liberalismo político com o liberalismo econômico. pretende que a história do pensamento sobre os princípios fundamentais que governam a organização política e social estaria terminada ai ravés da vitoria do lihci alisiuo políl i <o< •< • < onõmiro. Anos ou décadas se passam antes de se transformarem cm ação política. . como aconteceu com Mitler e Stalin. A eleição de Madame Thatchcr na Inglaterra e do presidente Reagan nos Estados Unidos marcou o divisor de águas.antigo e moderno Prefácio . Mas o fenômeno é mais abrangente. quase 70 anos depois do Manifesto comunista. ao pregar o livre comércio. o liberalismo político-econômico teve.ou o liberalismo.ÍI > marcaria não só o lim da Guerra Fria mas a prevalência de um formato político-social com características de "sustentabilidade" e "universabilidade". I. o nazismo e o comunismo. Entretanto. que está despontando na atual década com a ressurgência do liberalismo econômico. A "terceira maré". A fermentação coletivista. Foi a falência da empresa privada que anemi/.4 O liberalismo . Mas houve dois desafios "externos" — o nazismo. a Inglaterra e a frança assinavam o tratado (lobden de livre comércio. Entretanto. que se pode chamar de "capitalismo democrático". que provocou grande controvérsia. Durante esse período.Merquior. principalmente no plano político. só nesta década dos 80 após fracassadas duas experiências coletivistas. publicado em 1944. vicejou o keynesianismo.

só trouxeram violência e pobreza. Felipe Gonzales. Apenas estes dificilmente seriam conflitos globais. Serão o produto de nacionalismos locais. Esse. Mas a integração prevista para 1992 traz embutida uma harmonização de políticas à base de dois princípios da moderna economia de mercado. centro-direila e socialistas. . o "globalismo". liberais. Ele desbancou o keynesianismo. Pode-se aliás falar numa "crise do nacionalismo" pois este (Im de século nos apresenta contrastes esquisitos. pois as fábricas se tornam globais. Finalmente. nos1 quais não estão em jogo as opções institucionais básicas. democratas-cristãos. se diz um "socialista de livre mercado". de nítida preocupação produtivista. É surpreendente neste fim de século o ressurgimento do liberalismo econômico como idéia-força. São variados os rótulos dos governos europeus — conservadores. é preciso uma ideologia não excludente baseada em métodos consensuais e susceptível de universalização como paradigma. . a social-democracia não é percebida como o último reduto do dirigismo e sim como o primeiro capítulo do liberalismo. social-democralas. pois que as economias européias modernas se conformam cada vez mais aos princípios da economia de mercado. Enfraquece-se de um lado. Os experimentos ideológicos do Terceiro Mundo. características universanzaveis. a social-democracia. o liberista 7 Conjurados esses desafios. Somente será capaz de prover tranqüilidade sistêmica o formato de governo que apresente duas características: sustentabilidade e universabilidade. Falharam as ideologias alternativas. o Japão e a Europa Ocidental. como o fundamentalismo islâmico.! Cada vez mais se reconhece o "paradoxo de Daniel Bell": "o estadonação é grande demais para os pequenos problemas e pequeno. . integrados. não significaria o fim dos conflitos. sem infirmar. O que se fortalece é o "nacionalismo das etnias". Em outras palavras. o planejamento dirigista e.6 O liberalismo . Restam poucas dúvidas de que esse formato político-social se consolide neste fim de milênio. eficiência econôj mica e razoável satisfação social (no sentido de que nenhum sistema alternativo oferece melhores perspectivas de bem-estar social). da frustrada busca terceiro-mundista de uma terceira via entre o capitalismo e o socialismo. demais para os grandes problemas". o estatismo assistencial. Até mesmo por exclusão. buscando afirmação de identidade. observa Fukuyama. o nacionalis/ . fala num socialismo supply side. Exceto no Brasil. O socialismo "real" exibiu dois ingredientes funestos — a máquina do terror e a ineficiência econômica. tão encontradiço na América Latina |e África. o fato novo na história da humanidade. como se fossem queijos que necessitem envelhecimento.Merquior. ter-se-ia atingij do. . os conflitos remanescentes se referem a pra-j gramas partidários. As áreas de tranqüilidade sistêmica seriam basicamente a NortcAmérica. personalidades e prioridades na alocação de recursos. uma forma de governo que permite conciliar o tríplice objetivo da liberdade política. c os mercados financeiros. onde as idéias chegam com atraso. por sua própria natureza. pois que o soberano será o consumidor e não o planejador. o socialista espanhol. entretanto o desejo de integração em blocos econômicos maiores.antigo e moderno Prefácio . Dentro dos limites da condição humana. o nacionalismo do estado-nação. O socialista francês Michel Rocard. Dentro dessa cosmovisão pode-se considerar os países como divididos em dois grandes grypos: os que atingiram o estágio elej "tranqüilidade sistêmica". substituindo a igualdade pela eficiência. e o "clientelismo". de tensões religiosas como o fundamentalismo islâmico. antes que distributivista. a Australásia. . ex-Primeiro Ministro. . i . trouxe um rosário de fracassos. mo nao tem. com o sepultamento do nazismo e a agonia do comunismo. não há ideologias alternativas que possam competir com o liberalismo democrático na ambição de se universalizar como forma definitiva de governo. O fim da história como ideologia. O populismo nacionalóide. finalmente. presejrvação da língua nativa e autonomia administrativa. Há menos ênfase sobre a independência e mais sobre a "interdependência". após uma busca secular.

apenas três países — Chile. estão cada qual á sua: maneira buscando um formato po as tico e social cslávcl. na formação da república. A Uijião Soviética fez a suaglasnosl política mas fracassou em sua pereslròika econômica. o Uruguai e o Peru fizeram sua transição democrática. invenção da democracia ateniense. o liberalismo é uma convicção. dominada por uma burocracia socializante. com fina percepção das nuances de pensamento. penosamente alcançada na Europa em resultado da Reforma e das guerras de religião. o liheristu A maior parte do mundo. em seu grande mural. mais moderna. Isso deriva da diferença percebida nos obstáculos à liberdade e no próprio conceito de liberdade. Mas nenhum desses países aceita a disciplina da economia de mercado. de nos adverlir de que o renascimento de mais liberdade econômica — a tendência liberisla não significa um golpe de morte para os impulsos igualitários. de Montesquieu sobre a divisão de poderes e de Rousseau sobre o contrato democrático. serão os primeiros exemplos de capitalismo democrático na América Latina. com vários processos e em vários graus de transição. lula imemorial. São luminosas as páginas de Mcrquior sobre o "liberalismo clássico". Os países pós-comunistas da FAiropa Oriental estão tentando uma transição simultânea do autoritarismo político para a democracia representativa. As ditaduras estão fora de moda. No sul do continente. pois a economia dé mercado ainda é uma visão longínqua. A vitória atual do liberalismo sobre ideologias alternativas c a culminação de um longo e complexo histórico que Mcrquior nos desvenda. Todos insistem em controles burocráticos.antigo e. as lições de Loçke sobre os direitos humanos. A sociedade. É o mie ocorre no inundo socialista e na üiandlé 1 I maioria dos países que se convencionou chamar de "terceira mundo". Essas são características das sociedades "mercantilistas". com ensaios de economia fie mercado. há estágios históricos na busca da liberdade. com seu tríplice componente: a teoria dos direitos humanos. mas. a Argentina. A quarta. se acha cm estado de intranqüilidade sistêmica. embora cambiante. A China começou pela reforma econômica m sofre de paralisia política. A segunda é a liberdade de participação política. entre o crescimento da liberdade e o ímpeto em direção a uma maior igualdade". Malásia e Indonésia combinam resquícios autoritários na política. o constitucionalismo e a economia liberal. A primeira é a liberdade contra a opressão. a começar pela clássica distinção de Isaiah Berlin entre a liberdade negativa (ausência de coerção) e a liberdade positiva (presença de opções).S O liberalismo . moderno Prefácio . mantém inchadas máquinas estatais e se protegem através de reservas de mercado. o Brasil. Na América Latina. se completada sem transtorno sua liberalização política. Bolívia e México — aderiram explicitamente ao ideário da economia de mercado e. está longe de se parecer com uma economia de mercado. Uma curiosa observação de Merquior é a diferença vocacional entro os teóricos do liberalismo. aliás. entretanto. A franja asiática experimenta também um processo de transição: Coréia do Sulj e Taiwan são economias de mercado em fase de democratização política. Tailândia. só restando Cuba. possibilitada pela divisão do trabalho e o surgimento da sociedade de consumo. A terceira é a liberdade de consciência. As duas grandes potências socialistas. permanece caracterizada por uma "dialética contínua. Diferentemente das utopias radicais. que simplificam barbaramente a realidade. como caso teratológico. É verdade que houve um rcflorescimento da democracia. o liberalismo comporta uma larga variedade de valores e crenças. Os liberais ingleses eram . é a liberdade de autorealização. cujos patriarcas combinaram. que encontrou sua expressão prática mais concreta com a formação da democracia americana. praticamente inexiste o capitalismo democrático. e da economia de comando para a economia de mercado. Muito mais que uma fórmula política.Men/uior. Aliás. Como nota Merquior. diz ele. Sem deixar. a União Soviétic ( li a China. A índia é uma grande e robusta democracia política.

o protesto antitotalitário (Orwell e Camus). Para este fim. Na América Latina. Dahrendorf era no fim dos anos 70 o presidente da London School ofEconomics. São originais suas observações sobre o surgimento. auto-realização. Nosso diagnóstico sobre a moléstia brasileira era convergente. mas se contagiou de pessimismo quanto à democracia de massas. a do militarismo e a da sociologia histórica. Keyncs favorecia intervenções governamentais para correção do mercado. principalmente historiadores (Guizot e Tocqueville) e os liberais alemães.anligo e moderno Prefácio . os liberais franceses. benedelto Croce na Itália e Ortega y Gasset na Espanha. em parte por se tratar de terreno menos palmilhado. Em nossas últimas conversas senti que José Guilherme se tornava cada vez mais "liberista". j São luminosas as considerações de Merquior sobre os principais idiomas do liberalismo no após-guerra: a crítica do historieismo. Neste credo. No delicado balanço entre as duas vertentes do liberalismo — o libertarianismo e o democratismo — os conservadores liberais. Nada melhor para se entender a diferença entre o "novo liberalismo" e o "neolibcralismo" do que contrastar lorde Kcyncs com Hayek. (Popper). Falta liberismo. Na teoria inglesa. Com extraordinária erudição. Coisa paralela ocorreria recentemente no seio do marxismo. generosas demais TIO tocante a Kcyncs. Entre os modernos. e generosas de menos no tocante a Hayek. a concentração de poder econômico é um exercício liberticida. "Não sei porque". o neo-evolucionismo (Hayek) e a sociologia histórica (Aron). Como e sabido. Sobre ambos Merquior redigiu brilhantes vinhetas. privilegiaram a primeira. na alemã. Desapontados com a inflexão totalitária do socialismo soviético. como Spenecr e Uourke. como o assinalou José Guilherme em sua importante obra sobre o Marxismo ocidental. Max Weber na Alemanha. onde Merquior estudava para doutorado cm sociologia. O mais fascinante dos capítulos do magnum opus de Merquior. na francesa. a do humanismo cívico. que era liei ao individualismo e à liberdade de consciência. ao enfatizarem a importância do "carisma" c das "elites culturais" para viabilizar a democracia. Ao Brasil de hoje não falta liberdade. a arte como consolação e o do pluralismo (Isaiah Berlin). para se concentrarem na crítica cultural ao produtivismo e tecnicismo da sociedade burguesa. dizia-me Dahrendorf. Dahrendorf gostava de debater com Merquior suas teses pessimismo como quiescôneia". a dos estágios históricos. o veredicto de Perry Anderson: o Marxismo Ocidental. é o intitulado "Dos novos liberalismos aos neoliberalismos". E mordente. adota o "método como impotência. incorreriam naquilo que Merquior chama de "curiosa alergia que sente o intelectual moderno diante da sociedade moderna". Dois dos mestres — Ralf Dahrendorf e Raymond Aron — cujo pensamento Merquior desfibrila com brilho. principalmente juristas. foram nossos amigos comuns. O "liberista" é aquele que acredita que. se não houver liberdade econômica. liberdade significaria independência. a função do governo é apenas "prover uma estrutura para o mercado e lor necer os serviços que este não pode prover". os marxistas ocidentais na Alemanha e França abandonaram sua crítica obsessiva ao formato democrático das economias liberais. e correto. no século que medeia entre \H'M) e \'. as outras liberdades — a civil e a política — desaparecem. do "conservadorismo liberal".Merquior. comungávamos. Merquior disseca as diversas linguagens liberais: — a dos direitos humanos. a ét. autogoverno. "pois tem mais a ensinar do que a aprender".YM). o liberista 11 principalmente economistas e filósofos morais (Adam Smith e Stuart Mill). num capítulo chamado "o liberalismo sociológico". enquanto Hayek descrevia esse comportamento como presunçoso "eonstrulivismo".10 O liberalismo .ip . Merquior examina eruditamente uma das antigas tensões dialéticas do liberalismo: a tensão entre o crescimento da liberdade e o impulso da igualdade. em parte porque conheci pessoalmente alguns dos atores.

it. com exagerada modéstia. Seria ilusório p e n s a r q u e na classe política brasileira existam posições dessa nitidez. q u e acredita q u e cabe á sociedade redistribuir o p r o d u t o do trabalho dos indivíduos e admite coerção política para garantir utopias igualitárias. > i li > íni IIvli lui i. chamando-os de "progressistas". Só q u e se t o r n a m inviáveis. No s e g u n d o . exercício em q u e sua avassalante s u p e r i o r i d a d e provocava nos c o n t e n d o r e s a mais dolorífica das feridas — a ferida do orgulho.12 O liberalismo . M e r q u i o r fez nolar q u e a Revolução Industrial foi unia revolução de "provisões". chamando-os de "entreguistas". e i n t i m i d a m patriotas.antigo e moderno Prefácio . um conceito distributivo. a oposição básica e n t r e provisiom (provisões) e cnlillements (intitulamentos). "o j o v e m q u e tinha lido tudo'j. M e r q u i o r só se desiludiu q u a n d o descobriu q u e na e s q u e r d a brasileira ainda há gente q u e n ã o se dá c o n t a de q u e caiu o m u r o de Berlim. no p r i m e i r o caso. O anlípoda do liberal clássico é n a t u r a l m e n t e o "socialista". especialmente q u a n d o direcionados para ambiciosas inovações. exemplifica aliás m u i t o b e m esse conflito. e n q u a n t o a o s e g u n d o n ã o r e p u g n a v a essa coexistência. do organicismo e do ceticismo político. circunscrito q u e eslava p o r suas funções diplomáticas. ou seja. Os organicistas acreditam q u e a sociedade é mais do q u e a soma dos seus m e m b r o s e h in iivilm vali H iiiiilh. aqueles que: desejam preservar a l i b e r d a d e q u e r contra o a u t o r i t a r i s m o político. Era o metabolismo chjis idéias. O liberal clássico. pela busca le suas raízes lilosolicas. l'or isso passou da "coi e n c r u s t a d o s na "mídia" e b r a n d i n d o eficazmente d u a s a r m a s : a adulação e a intimidação. se descrevia seu nieslre francês. Os tradicionalistas acreditam q u e a sabedoria política é de natureza histórica e coletiva e reside nas instituições q u e passam o teste do t e m p o . q u e r conira o intervencionismo e c o n ô m i c o . na Itália. ou o "liberista". t e r m o q u e M e r q u i o r gostava de usar reportando-se à controvércia nos a n o s 20. ! os inlli H i s ilu ceticismo político desconfiam do p e n s a m e n t o e teoria aplicados ã vida pública. hiip. em q u e o p r i m e i r o defendia a incompatibilidade e n t r e liberdade política e intervencionismo e c o n ô m i c o . N u m a antítese feliz. Mais p e r t o de nós a década dos 70 teria sido uni p e r í o d o em q u e prevaleceram as preocupações com os "intitulamentos". N ã o é fácil discutir com nossos p a t r u l h a d o r e s de esquerda. C o m Aron. se usarmos a classificação de David Nolan. A nova Constituição brasileira. O liberal difere do "conservador". C o m o se enquadraria e|c cm nosso confuso panorama político? Ceda m e n t e e n t r e os "liberais clássicos". Empenhou-se nos últimos t e m p o s na dupla tarefa — a ilumin. pela dei iiiticia do M o levou várias vezes a esgrimas{intelectuais c o m as esquerdas brasileiras. Era um ativista. ou seja. confortavelmentje . i li ii a. pois este a d m i t e restrições à l i b e r d a d e política em n o m e do Iradicionalismo. A tribo mais n u m e r o s a é daqueles q u e Nolan vieção liberal" à "pregação liberal".t quais passarai i a acentuai: a p r o d u ç ã o mais q u e a distribuição. as provisões antes q u e os "intitulamentos". Isso liíkação do socialismo. M e r q u i o r n ã o passou da polêmica de idéias ao ativismo político. As garantias sociais ampliadas. E s e m p r e A r o n me perguntava pelo seu discípulo dileto. Trata-se. C o o p t a m idiotas. de 1988. O u . As liberdades econômicas são restringidas. çao do liberalismo. e u m e encontrava f r e q ü e n t e m e n t e n u m g r u p o d e debates presidido p o r H e n r y Kissinger. Mas o impressionante em J o s é G u i l h e r m e não era a absorção de leituras. N ã o se resignava ele a ser um "espectador engajado" coujio. o liberista 13 prediletas sobre o conflito social m o d e r n o : a disputa e n t r e os q u e advogam m a i o r "liberdade de escolha" e os q u e q u e r e m um maior "elenco de direitos".. c o m o n o t a Merquior. viciadosna "sedução do mito e na tirania do dogma". um conceito incrementai. e n q u a n t o a década (IOM HO arwííiliii a unia m u d a n ç a do políticas. e n t r e Einaudi e Croce.. ou "libertários". do direito de acesso aos bens.Merquior. e a desinis e u fracasso histórico. e n q u a n t o a Revolução francesa loí tuna revolução de "inlíltilamenlos". de alternativas de oferta de bens.

"Cavalinhos andando.. c. Estes acreditam na liberdade política. portanto. tais como Locke. Para sugerir uma teoria do liberalismo. deve-se proceder a uma descrição comparativa de suas manifestações históricas. o apelo mais nobre que já ressoou no planeta.antigo e moderno chamaria de "liberais de esquerda".. só nos resta parafrasear Manuel Bandeira. Montesquieu e Adam Smith. e íinalmentej a vertente corporal htisia. A determinação ile conviver com o Inimigo e ainda. cm nossos dias. E tanta gente ficando. o liberalismo reflete a diversidade da história moderna. maio de 1991 1 Definições e pontos de partida Liberalismo Nietzsche disse que apenas seres a-históricos permitem uma definição no verdadeiro sentido da palavra. o liberalismo. Roberto Campos Rio de Janeiro. o filósofo espanhol Ortcga y Gasset proclamou o liberalismo "a forma suprema de generosidade: é o direito assegurado pela maioria às minorias e. Agora. na tristeza desse vazio. os sindicais e os burocráticos. Em seu influente ensaio de 1929 A rebelião tlm massas. abre um enorme vazio cultural em nossa paisagem." José Guilherme morrendo. Esses diversos matizes colorem a fauna abundante dos falsos liberais. Dewey c Keynes. Assim. a Vertente nacionalista. O Brasil politicando. depois de meses em que corajosamente comeu o pão da tristeza e bebeu as águas da aflição. O alcance de idéias liberais compreende pensadores tão diversos em formação e motivação quanto Tocqucville e Mill. subdividida por sua vez em três grupos: ^>s corporativistas empresariais. um fenômeno histórico com muitos aspectos. para não falar em seus "antepassados de eleição". dificilmente pode ser definido.14 O liberalismo . a vertente protecionista. Tendo ele próprio moldado grande parte do nosso mundo moderno. mas admitem iulctvc|nções econômicas secundo divrrsh^ vertentes: a vertente assistencialista. Hayek e Rawls. onde os arbustos são muito mais numerosos do que as árvores. 1 É muito mais fácil — e muito mais sensato — descrever a liberalismo do que tentar defini-lo de maneira curta. a mais antiga e a recente. o 15 . A morte de Merquior. Cavalões comendo. que acredita no governo benfeitor. antigo e moderno.

o século XIX. Assim. 'Em sua idade de ouro. o jurista e teórico político alemão Carl Schmitt. mas pobres repúblicas da antigüidade remota. embora o acesso ao poder fosse controlado por uma oligarquia.antigo e moderno Definições e pontos de partida 17 que é mais. . Os objetivos dos vencedores da Revolução Gloriosa eram tolerância religiosa e governo constitucional. a aliança entre a lei e a liberdade promovia uma sociedade mais sadia e próspera do que quaisquer das monarquias continentais ou das virtuosas. uma forma de governo fundada em poder monárquico limitado e num bom grau de liberdade civil e religiosa. uma demarcação da autoridade estatal em esfera de competência — classicamertte associada com os ramos legislativo. Por consenso histórico. enquanto a capacidade que assiste ao governo de intervir nessa esfera é em princípio limitada. como Montesquieu. A declararão ilc Orlega resliltii t> sentido moral da palavra a seu sentido político — bastante apropriadamente.es cistrangeiros inteligentes. Depois da Revolução Francesa e do seu interlúdio de ditadura geral do que ei» qualquer outra parte da Kuropa. A comparação com a Grã-Bretanha convenceu muitos protoliberais de que o governo deveria procurar apenas aluar minimamente. marciais. Embora denote obviamente política liberal — as regras liberais de jogo entre maioria e minoria —. com um inimigo fraco". e havia mais liberdade compreenderam que. apenas em "artes liberais". resumiu isso muito bem em sua Conslitulional Theory de 1928. jacobina. o liberalismo (a coisa senão o nome) surgiu na Inglaterra na luta política que culminou na Revolução Gloriosa de 1688 contra Jaime II. y/neroM). que ali esteve em 1730. "educação liberal". espalhando-se com o tempo pelo Ocidente. Forque nasceu como um protesto contra os abusos do poder estatal. o nível de pensamento e o nível de sociedade. o liberalismo procurou instituir tanto uma limitação da autoridade quanto uma divisão da autoridade. dessa forma o ônus da justificação cabe à intervenção estatal e não à ação individual. o dito de Ortega também ut. Adam Smith e Adam Ferguson — divisaram as vantagens do governo submetido à lei e da liberdade de opinião oriundos das atividades espontâneas de uma sociedade civil dividida em classes.ili/a o primeiro significado corrente: do adjetivo liberal em qualquer dicionário moderno. reza o Webster: liberal (1) originariamente apropriado para um homem livre: hoje em dia.16 O liberalismo . algumas antigas (como parlamentos) e outras novas (como liberdade de imprensa). Ambos tornaram-se pilares do sistema liberal. na Inglaterra. Schmitt escreveu que seu objetivo consiste em fazer vingar o princípio distributivo. Tal princípio estabelece uma divisão de poder (ou poderes). num parlamento que se revolta contra o absolutismo. Os pensadores do assim chamado Iluminismo escocês — David Hume. o pensamento liberal (já agora chamado por tal nome) enfrentou novas ameaças à liberdade.silaul. já que "liberal" como rótulo político nasceu nas Cortes espanholas de 1810. Vi. Consistia num corpo de doutrinas e num grupo de princípios que sustentam o funcionamento de várias instituições. zelando pela paz e segurança. mas ainda assim imóvel. Quanto ao princípio de organização da constituição liberal. Um grande anliliberal moderno. o liberalismo — ou melhor. A declaração de Ortega proporciona um preâmbulo conveniente para a nossa abordagem histórica porque combina com felicidade os significados moral e político da palavra liberal. fora refreado o poder arbitrário. o movimento liberal atuava em dois níveis. executivo e judiciário — para refrear o poder mediante o jogo de "pesos e contrapesos". No século que medeia entre a Revolução Gloriosa e a grande Revolução Francesa de 1789-1799. onde escreveu que a constituição liberal revela dois princípios mais importantes: o princípio distributivo significa que a esfera de liberdade individual é em princípio ilimitada. protoliberalismo — era constantemente associado com o "sistema inglês" — ou seja. tudo o que não for proibido pela lei é permitido.!) mão aliei Ia. O liberalismo burguês lutara . Em outras palavras. Na Inglaterra. ('. Divide-se a autoridade de maneira a manter limitado o poder.

Não obstante. tais como a Itália e a Alemanha. Mas isso prova apenas que a lógica da liberdade algumas vezes ultrapassa os interesses e preconceitos dos partidos liberais. O advento da democracia no Ocidente industrial a partir da década de 1. o progresso geral do liberalismo democrático tem sido menos constante do que foi no século passado. - I Unidos do após-gucrra. em Do espírito das leis (1748). freqüentemente contra a vontade das elites liberais. e as grandes monarquias centro-européias. O liberalismo pressupõe uma grande variedade de valores e crenças. os Estados liberais. Ao endossar a democracia representativa e o pluralismo político. Nem todas as conquistas democráticas resultaram de forças explicitamente liberais. Montcsquieu. desviaram-se da autocracia para constituições semiliberais. o grande rival da democracia liberal. Agora. o maior dos teóricos liberais do início do século XIX. a ordem liberal civil acolheu aquilo que Benjamin Constant. De forma alguma o Estado democrático liberal foi apenas obra dos liberais. os dilemas da modernização na América Latina e em outros lugares ocasionaram mais de um eclipse da democracia. Em 1989. insinuou que a Inglaterra moderna era animada por uma batalha conflituosa de "todas as paixões irifrenes". a sociedade vitoriana tardia. A violenta turbulência política causada pela "guerra civil européia" de 19141945 provocou o colapso de democracias mais recentes. a Espanha coriseguiu estabilizar um governoI liberal. Áustria e Alemanha. como se a história fizesse vingar o liberalismo mesmo contra os . a partir de meados da década de 1960 até meados dos anos 80.18 O liberalismo . o mundo testemunhou o colapso do socialismo estatal. assim como na fase final da política de modernização dos Estados reeeminduslrializados. a Holanda e os países escandinavos seguiram pelo mesmo caminho. uma mistura política-histórica. contrariando o pacto moral alegado por conservadores ou prescrito pela maioria das utopias radicais. e a legitimação da mobilidade social. governo representativo responsável. e o autocrático Napoleão III ou introduziram ou ajudaram a introduzir o sufrágio masculino quase universal. em contraste. a democracia tem sido o critério da legitimidade no mundo moderno. tanto os conservadores quanto os socialistas. apelidou "le juste milieu": um centro político. direitos humanos. Esse ordenamento burguês. a democracia liberal permaneceu a ordem civil "normal" das sociedades industriais. não passou de uma forma histórica transiente. mas praticamente ninguém propôs com seriedade uma mudança completa de instituições. Os tories ingleses durante o governo de Disracli. j A Itália unificada voltou-se para a política liberal. Assim. muitas vezes antes. o reacionário Bismarck. quaisquer que fossem seus objetivos. ordem legal. No século XX. já que o sufrágio e a representação eram restritos a cidadãos prósperos. Isso ocorreu depois de um doloroso processo de reforma e de crise de identidade. no entanto. Posteriormente. como se vê na reconstrução após-guerra da Alemanha. mas não estava preparado para aceitar uma ampla franquia e suas conseqüências democráticas.. cederam de forma patente a princípios liberais. O liberal italiano Luigi Einaudi costumava caracterizar a sociedade liberal por dois aspectos: o governo da lei e a anarquia dos espíritos. O liberalismo tornou-se a doutrina da monarquia limitada e de um governo popular igualmente limitado. No Ocidente. Portanto.870 significou a preservação definitiva das conquistas liberais: libbrdade religiosa. c a Terceira 'República francesa inauguraram amplas e duradouras experiências em democracia liberal. a meio caminho entre o velho absolutismo e a nova democracia.antigo e moderno Definições e pontos de partida 19 contra o privilégio aristocrático. pensa-se que o pluralismo social e político das democracias liberais é algo mais específico: o único princípio verdadeiramente legítimo de governo em sociedades modernas. Por mais de um século. Itália e Japão. que foi logo substituída pelo sufrágio universal masculino. ouve-se muitas vezes falar numa crise cultural. A Suíça.

de vigia noturno. em teoria. Mas. a ausência de constrangimento. Por outro lado. e mesmo. "liviauieiilo".rly como palavras não sinônimas. no entanto. v //'Ací/m. mais adiante no texto. conforme a sua etimologia. Desde Montesquieu. do século XVII. tem sido costumeiro em discussões de liberdade social evitar discutir esse espinhoso problema. nas festejadas palavras de Richard 1 lofstadter. Liberais ulteriores. "um tom sooial-deinocrálico". ou seja. "é a ausência de constrangimento". freedom e liberty estão na Magna Carta e no texto da Declaração de Direitos. e não nos ocorreu melhor do que autonomia. uma diferença entre liberdade negativa (ausência de constrangimento) e liberdade positiva. o liberalismo americano adquiriu. Freedom. achou que a i . Além disso. A distinção que o dicionário Funk and WagnalVs estabelece entre freedom e liberty consiste em que a primeira é absoluta. qur em latim. o significado do liberalismo alterou-se muito. procuramos uma palavra para freedom. o autor mostra que existe. nenhum episódio foi mais importante do que essa mudança americana de significado.! 20 O liberalismo . mas que. (N. Hoje em dia. <üo equilíbrio. E verdade que. como Max Weber. Liberdade e autonomia Este livro trata de liberalismo. tal como o de Adam Smith. usafreedom e libe. a liberdade de determinar-se. como a introdução dessa idéia complicaria a questão. Em toda a história da semântica liberal. ou em inglês falado. conforme o dicionário Saraiva. precisamente porque liberdade. Desde o New Deal de Roosevelt. o próprio liberalismo tornou-se um campo de idéias e posições altamente diversificado. selecionar os sentidos ou espécies de autonomia pode de alguma maneira iluminar as variedades do liberalismo. a significação de liberalismo na sua renovação atual.omia entre membros interagentes de uma dada comunidade. mantém apenas uma tênue ligação com a corrente principal do significado americano. Tendo isso em conta. não de liberdade. tanto nos Estados Unidos como em outras partes. Há liberalismos de harmonias e liberalismos de dissonâncias. Tipos de autonomia* O que é autonomia? Num trabalho sobre teoria social (diferentemente de unia obra sobre filosofia geral). a primeira coisa a fazer é descartar o velho dilema de livre-arbítrio versus determinismo. diz o dicionário. Mas nenhum estudo sobre o liberalismo pode omitir uni exame dos diversos significados de liberdade e autonomia. ao invés da consecução. limitamos esta ao que está nos dicionários. Como não sinônimas. podemos focalizar o tema mais empírico. Mesmo antes de Keynes e Roosevelt — provavelmente o teórico e o estadista que mais fizeram para modificar o legado do século XIX — o liberalismo já compreendia distintamente mais de um significado. muitas vezes. resolveram salientar a irredutibilidadc dos conflitos! de valores. enquanto a segunda é relativa. Afastando-se a questão filosófica do livre-arbítrio.antigo e moderno i ! Definições e pontos de partida 21 O liberalismo clássico. | Na medida em que a organização liberal se desenvolveu com 0 passar do tempo. Também nesse sentido figura autonomia no Aurélio. exaltada pelos velhos liberais. Ação livre é uma ação que parte de um motivo (*) O autor. ou liberdade. Analistas modernos da liberdade' insistem na importância dessa dimensão social. A origem da pala vi a /ihnty. pode significai' "soltura". do T.I! competição levaria a um mundo quase newtoniano de equilíbrio social. o liberalismo esposa umá opinião liberal da luta humana.) . nos subtítulos deste capítulo. Liberty "é a remoção ou o contorno de constrangimento". Mas. mas no texto ora as usa como sinônimos ora as diferencia. em ambos os casos. que significa. mais sensato de autonomia c não-nutoii. tem mais de um significado. O liberalismo nos Estados Unidos aproximou-se do liberal-socialismo — uma preocupação igualitária que não chega ao autoritarismo estatal. o que a palavra liberal geralmente significa na Europa continental e na América Latina é algo de muito diverso do que significa nos Estados Unidos. dele se aparta. como liberalismo. prega uma ação estatal muito além da condição mínima. O mesmo ocorre na generalidade dos textos em inglês. No decorrer de quase meio século.

Uma ação a que falta liberdade eqüivale a uma ação executada não exatamente "contra nossa liberdade". com liberdade. estar livre de coerção: implica que os outros não impeçam o curso de ação que escolhemos. ou porque. imemorial e universal espécie de sentimento e comportamento. Como protesto. tomam parle no processo de decisão coletiva. entranhado em posições sociais específicas (e historicamente variáveis). ciija violação significava opressão não apenas para ele mas. exerce papéis sociais protegidos pela lei e pelo costume. A terceira é a liberdade de consciência c crença. Um bom exemplo disso aparece na escritura (Atos 21: 27-39). Tendo criado um tumulto ao dirigir-se à multidão em Jerusalém. no espírito de qualquer agente. ou porque suas crenças podem ser livremente expressas.antigo e. A questão. como liberdade polui ca {polis significa "cidade:"). quase todas as reivindicações de independência religiosa eram tratadas como heresia e subjugadas com êxito. O camponês vinculado à terra. O sujeito desses últimos é o homem como tal.segundo tipo de autonomia. para a cultura da Roma imperial. disse: "Será legal açoitar um homem que é romano e não foi condenado?" As palavras do apóstolo mostram que ele se sentia legalmente com direito a um certo grau de respeito. portanto. secularizado no moderno direito de opinião.22 O liberalismo . por sua vez. Isso foi. sempre qur esse eleito opere como um tuolivo nào desejado no compot lamento de lal agente/' A presença de uma alternativa que permita escolha é um elemento definidor de uma ação livre. relevante primeiro como uma reivindicação de legitimidade da dissidência religiosa (da Roma papal ou outras Igrejas oficiais) durante a Reforma européia. Algumas ações não livres são forçadas pela vontade de outras pessoas. estendeu-se a qualquer nacional livre nas cidades antigas tais como as gregas. i É precisamente desse tipo de liberdade que qualquer indivídjio moderno espera fruir quando. a liberdade social pode ser definida como "a ausência de constrangimento e de restrição". Vamos chámá-la de liberdade como intilulamentò. moderno Definições e pontos de partida 23 desejado ou de um motivo neutro. Tendo em mente esse significado geral. experimentava tal autonomia tanto como o próprio senhor. quando seus privilégios eram reconhecidos pelo rei. E uma velha e. Embora dificilmente se possa dizer que fosse essa a intenção dos grandes reformadores Lutero e Calvino. e foi por esse motivo conhecido. Autonomia é. por escassos que fossem. () . enquanto o portador do intitulamento era e é sempre individualmente situado. na verdade. tal como refletido na liberdade de imprensa e no direito à liberdade intelectual e artística. tornou-se. a liberdade de participar na administração dos negócios da comunidade em qualquer nível. cujos direitos tradicionais. tem pouco a ver com o princípio muito mais recente de direitos humanos universais. a Reforma inaugurou uma idade de pluralismo religioso. das ações de outras pessoas. Mas embora a fruição da liberdade como intitulamento implique uma apreensão de direitos e dê origem a um sentimento de dignidade. A primeira materialização de autonomia é a liberdade de opressão como interferência arbitrária. consiste em que as pessoas geralmente se propõem objetivos e padrões de excelência que pouco têm a ver com o bem . Portanto. podem-se relacionar pelo menos quatro principais materializações de autonomia no curso da história. Essas pessoas também se sentem livres porque dirigem sua vida mediante opção pessoal de trabalho e lazer. Os modernos não se sentem livros simplesmente porque seus direitos silo respeitados. Consiste na fruição livre de direitos estabelecidos e está associada a um sentido de dignidade. Liberdade de realização pessoal traduz a essência do assunto. Historicamente. conslrangimento e restrição referem-se ao efeito. Antes disso. Aqui. realçada por John Plamcnatz. A quarta e última liberdade é a materialização da aspiração de que temos de viver como nos apraz. e de modo duradouro. mas oriunda de um motivo não desejado. Paulo de Tarso foi açoitado por ordem de um general romano. na verdade. desde o início. eram respeitados pelo senhor feudal.

. a liberdade positiva está relacionada à incorporação do controle. é uma tendência bpm moderna. 5 Além disso. por outro lado. Filósofos políticos (por exemplo. ainda assim. Em primeiro lugar. um anseio de autonomia. um conceito clássico liberal de liberdade de um conceito clássico democrático de liberdade. Do espirito das leis. grosso modo. a saber. adveio a disseminação da liberdade individualista. "Dois conceitos de liberdade". Inspirados por elevados ideais de humanidade. No conceito liberal. umas poucas definições famosas de liberdade na literatura liberal: 1. tendo em mente essas ressalvas. Contrariamente à liberdade negativa. a nossa classificação cronológica de autonomias parece sustentável. a vida política grega incluía o conceito de isegoriq. positiva e negativa. 4 i Nossa classificação de espécies de autonomia segue. Ele definiu a liberdade negativa como estar livre de coerção. com freqüência. No início do século V a. não é liberdade de. a decidir com autonomia em vez de ser objeto de decisão. 2.' Em sua famosa conferência de 1958 cm Oxford. Liberdade moderna é a "fruição pacífica da independência individual ou privada" (Benjamin Constant. brevemente. é essencialmente um desejo de governar-se. Isaiah Berlin opôs liberdade negativa a liberdade positiva. a liberdade de satisfazer pessoalmente gostos e a livre procura de objetivos individuais (em oposição a padrões impostos).C. A liberdade de consciência entrou a afirmar-se. A liberdade negativa é sempre liberdade contra a possível interferência de alguém. absorvem grande parte dos esforços deles. 3. A liberdade política no nível estatal parece ter sido uma invenção de Atenas. liberdade de expressão não como contraposição à censura.24 O liberalismo . cap. Contrato social. Enquanto a liberdade negativa significa independência de interferência. O filósofo canadense Charles Taylor corrigiu Berlin advertindo que ambas as espécies de liberdade. a ordem histórica de quando apareceram. liberdade significa ausência de coerção. Norberto Bobbio) distinguem. mais recentemente. 8). livro 12. Mas1. mas liberdade para: a aspiração ao autogoverno. Cabem aqui pelo menos duas ressalvas. Tipos de liberdade Relembremos agora. tendem a salientar que os partidários da liberdade positiva terminam justificando o governo tirânico das elites "esclarecidas" afirmando objetivos humanos "verdadeiros" ou "mais nobres" (como a formação do "novo homem" sob o comunismo). estar livre de opressão é uma experiência imemorial. construída com base em uma ampla privacidade. Liberdade antiga e moderna). a quarta espécie de! liberdade em nossa tipologia. durante a Reforma e as guerras de religião que se lhe seguiram. livro 2. No conceito democrático. uma margem razoável de liberdade de opinião fazia parte da antiga liberdade política. No sentido acima indicado. primeiro. deve-se evitar a impressão de que faltava no mundo antigo como um todo a liberdade individualista. Críticos da liberdade positiva. alicerçada na crescente divisão do trabalho na sociedade industrial e. Por fim. por exemplo. mas como o direito de falar com liberdade na assembléia de cidadãos. "Liberdade significa obediência à lei que nós nos prescrevemos" (Rousseau. A liberdade positiva. o poder de autodeterminação. mas que. A liberdade como realização e conquista pessoais. são com freqüência caricaturadas no calor dos debates ideológicos. "Liberdade é o direito de fazer aquilo que a lei pcrmiie" (Montesquieu. 2). e que atormentaram a Europa até meados! do século XVII.antigo e moderno Definições e pontos de partida 25 comum ou até mesmo com a afirmação pública de crença — objetivos e padrões de um caráter individualista ou privado. na época clássica. significa autonomia. cap. a autonomia de expressar crenças (em oposição à censura). São exemplos disso a autonomia de fiuir intitulamentos (contra possíveis abusos). na expansão da sociedade cie consumo e do tempo dedicado ao lazer.

é obvio. em nosso lugar.26 O liberalismo . Assim. e a liberdade negativa um "conceito de aproveitamento de oportunidade". o meu desejo de viajai' pode chocar-se com a minha preguiça). Cada uma identifica-se com um grande país europeu — Inglaterra. ou (na famosa opinião de Hobbes) a ausência de obstáculos externos. a autodeterminação e a liberdade política (a nossa segunda liberdade histórica. portanto. primeiro em florença ' e depois 110 resto da Kl tropa. na busca de meus objetivos livremente escolhidos (liberdade negativa) posso enfrentar barreiras internas (por exemplo. acha que a liberdade como independência e a liberdade como autonomia partilham um mesmo campo. Mas o ideal de governo político foi reanimado — e muito reforçado — pelos humanistas da Renascença. Além disso. rematados defensores da liberdade negativa. dela deve participar o indivíduo (o que sustenta a liberdade positiva ou "democrática"). Criticou tanto Maquiavel como o poeta Milton por suas opiniões republicanas e redefiniu liberdade. Em vez de exaltar a virtude cívica. são tão cegos quanto os anteriores a certas dimensões psicológicas compulsivas da liberdade de escolha. para a liberdade negativa. em nossa era social-liberal. estreitamente aparentadas. . à primeira vista a liberdade positiva é um "conceito a ser posto em prática". Hobbes deliberadamente chocou-se com a tradição humanista — a adoração de valores cívicos e. procurou desesperadamente dissociar o conceito moderno de liberdade dessa tradição. e o significado das respostas que se lhes dá está longe de ser acadêmico. que vai de Hobbes e Locke a Bentham e MUI. Na Idade Média. eles simplesmente decidem a nossa vida.i . uma cidade era tida como livre quando podia fazer sua própria lei ("civilas libera qxuic possil sibi legc. Esta noção pode ser seguida até a democracia da polis e nunca morreu inteiramente.K Io. uma voz que ambas implicam autodeterminação. ü que quer que o indivíduo possa decidir por si mesmo deve ser deixado à sua vontade (o que sustenta a liberdade negativa ou "liberal"). Três escolas de pensamento Outra maneira de realçar as diferenças entre espécies de autonomia e liberdade — forma essa mais próxima do terreno familiar da história das idéias — é diferenciar três principais escolas de pensamento sobre a liberdade. e onde quer que haja necessidade de decisão coletiva. A própria história criou uma progressiva integração de ambas as formas de liberdade — a tal ponto que. ambas as questões são. por exemplo. ou uma liberdade "rousseauniana"). não se impondo qualquer real execução.5 Inglaterra A escola inglesa de teoria da liberdade. vê a liberdade como ausência de coerção. França e Alemanha. é a ausência de obstáculos significativos. A liberdade negativa relaciona-se com a questão: "Que significa ser livre para o indivíduo considerado isoladamente?" A liberdade positiva relaciona-se com outra questão: "Que significa para o indivíduo ser livre como membro de um todo7"s Na democracia liberal. a psicologia da liberdade positiva. Bobbio. I lohbes.11 Ia uma 1 Ias duas doutrinas responde a unia questão dilerenle.m Jacaré").antigo e moderno Definições e pontos de partida 2 7 esses utópicos geralmente írevelam-se sombrios virtuosi do subttilucionismo moral: em nome de nossa mais elevada forma de ser. descartando o entusiasmo cívico. Como observou Taylor. Mas.ol ihio < oiII lui <|ii<. Pensadores liberais de inclinação mais histórica também concluíram que a distinção entre liberdade positiva e negativa não é tão nítida. Tudo o que se requer. portanto. Tudo liem ronl. escrevendo enquanto raiava a guerra civil inglesa. o próprio uso da liberdade negativa pode com freqüência envolver muito controle pessoal. podem-se concebei' as duas como perspectivas coniplementares. Quando classificou tal autonomia como liberdade social. e. l.

em lugar de algo exterior à lei. retornou a Maquiavel e ao princípio republicano. prefere Rousseau a Montesquieu. A formulação de Hobbes é a fonte da idéia inglesa de liberdade negativa.28 O liberalismo . elaborara um conceito patrimonial do poder. de 1793-1794 foi executado em seu nome. Na Inglaterra a aristocracia feudal centralizouse ela própria. Disso resultava que havia vários parlamentos regionais na França. cie pós o cidadão mini plano limito mais elevado tio que o burguês — ca liberdade política. Para ele. e um precursor do totalitarismo. bem acima da autonomia civil. e a coroa firmou-se a partir da forte posição proporcionada pela conquista normanda. palavra que ele preferia) limitasse a liberdade. Sustentava que. O particularismo refletia o encanto de uma velha força na política francesa: patriinonialismo. por um lado. O verdadeiro objetivo de sua exaltação da liberdade democrática em detrimento da liberdade liberal não consistia num prejuízo ao individualismo. filho da livre Genebra. Jean-Jacques Rousseau. e o resultado foi uma estrutura inteira de interesses partinilaristas e de posições desiguais. Mas essa noção é completamente infundada. nascido calvinista como Milton.antigo e moderno Definições e pontos de partida 29 I Iobbes louvou a liberdade não política. tal como o da Republique de Jean Bodin. como principal precursor do romantismo. Mas ao tratar de liberdade social. na realidade. em vez de fortalecê-lo. A monarquia francesa.es no século XVT. embora sua formulação clássica dentro do pensamento liberal tenha sido feita por um francês — Montesquieu. uma vez instituído o governo. França A escola "francesa" de liberdade. A centralização foi um problema maior para os reis franceses do que para os reis ingleses. a liberdade deixa de sei' um assunto de autodeterminação para constituir algo a ser fruído "no silêncio das leis". É crucial a frase de Hobbes. Rousseau era um individualista tão radical quanto qualquer um. Muitos defenderam a idéia de que Rousseau foi uma espécie de esquízóide ideológico: um iniciador do individualismo na cul-J tura. o que frustra sua própria definição. A liberdade política. porque iguala liberdade com tudo o que a lei permite pelo simples fato de que não proíbe. por muito tempo acossada pelo problema de controlar uma ordem social dividida. em contraste com o velho parlamento nacional inglês. sonhavam com fortalecer os parlamentos. tentou utilizar o conceito de soberania para combater a anarquia feudal. Nas palavras inteligentes de Ellen Meiksins Woods: "Onde Bodin subordinou a particularidade do povo á (pretensa) universalidade do governante . a Coroa francesa comprou a aristocracia com uma venda notoriamente maciça de cargos públicos. A contribuição estratégica de Rousseau para a história do discurso político consistiu em usar o fruto do pensamento de Bodin — soberania não dividida e indivisível — para eliminar o poder dos governantes como fonte de opressão particularista. A soberania significava propriedade privada em grande escala — e o rei era o único proprietário. ele foi o mais importante originador do individualismo em literatura e religião. como um modelo teórico. muito do terrorismojacobino revolucionário. de 1576. Rousseau nunca cogitou que a democracia (ou república. fora sempre concebida como liberdade por meio da lei (e legislação). como os luigtienol.1'" O pensamento político monarquista que surgiu primeiro na França. A eloqüênqa de seu Contraio social redirecionou o conceito de liberdade da esfera civil para a esfera cívica. Mas os inimigos do poder monárquico. a forma mais elevada de liberdade consistia na autodeterminação. e a política devia refletir a autonomia da personalidade. ou civil. Embora Rousseau nunca tenha previsto algo como revolução. Em seu esforço em prol da centralização. mas na destruição do particularismo. por outro. como instituições públicas capazes de refrear a Coroa. mas na França a fragmentação era a regra.

ele é a estrutura lógica por trás de um conceito alemão de liberdade que tem por muito tempo prevalecido. Há liberdade no Estado concebido por Hegel. 15 O ideal Bildung é incrivelmente importante na história do liberalismo. Immanuel Kant. A liberdade política era coisa boa. como Constant e John Stuart Mill. Kant defendeu o republicanismo como uma ordem social-liberal em que a independência pessoal pelo menos alimentaria uma ordem legal mais próxima da moralidade do que as egoístas monarquias beligerantes de seu tempo. mas liberdade como um poder em desenvolvimento de realização pessoal. O conceito está estreitamente ligado à liberdade política porque também salienta a autonomia. desde que se quisesse uma liberdade total.pelou para limitar cm vez de simplesmente controlar a aut< >i idade central. 14 Constant compreendeu que. F. esta também teria db florescer além da esfera cívica. mas é liberdade racional — não apenas independência da coerção. Educar a liberdade. John Lockc. çoamento pessoal. Embora nunca tenha confundido política com moral. não gira em torno da participação política. o contrato social de Rousseau poderia ser usado como arma conjtra a liberdade como independência. mas em torno do desdobramento do potencial humano. Mas Rousseau preocupava-se tanto com a necessidade de despatrimonializar o poder que perdeu de vista a outra questão chave: a do alcance do poder. e também na política de Hegel: nos três casos há uma direção comum. No livro On lhe Limits of State Aclion. a contribuição goethiana de Humboldt à filosofia moral. um progresso da razão no curso da história. entendera isso.antigo e moderno Dejinições e pontos de partida 31 (monárquico). uma geração depois de Hobbcs. Humboldt exprimiu um tema liberal profundamente sentido: a preocupação humanista de formação da personalidade e aperfei- . no silêncio da autoridade. Essa era a alma do conceito alemão Alemanha Bem no início do século XIX. o maior dos filósofos pós-kantianos. Montesquieu ensinou que a autoridade deveria ser dividida para não ser tirânica. contudo. Rousseau colocara a democracia no lugar da autocracia. a autotelia. Kant colocou a autotelia no centro da moralidade. se mais não fosse porque garantia a independência iudividijuj." 13 Rousseau armou uma poderosa retórica em defesa da liberdade política ou democrática contra o caráter odioso do privilégio — algo que os primeiros liberais como Montesquieu não estiveram acima de sustentar. Constant advertiu que a soberania tinha dp ser limitada para não ser despótica. a própria essência da Bildung numa elevada versão política. e libertar para educar — esta era a idéia da Bildung. Quando G. O próximo passo consistia em atalhar o despotismo democrático. "a legitimidade do governo depende tanto do seu objeto quanto da sua fonte". Rousseau subordinou a particularidade do governante à universalidade do povo. escreveu sua Filosofia do direito em 1821. Idealizou então o Estado como uma materialização mundana do Espírito. ao focalizar quase exclusivamente a fonte da autoridade (soberania popular). o sábio de Kónigsberg em cujos aposentos austeros encontrava-se um retrato de Rousseau. por assim dizer. pondo em risco a autonomia pessoal e a vida da individualidade. um ilustre humanista e diplomata alemão. Pois o mesmo ocorre na moralidade de Kant e na Bildung de Humboldt. devia "ser considerado um fim em si mesmo".30 O liberalismo . Isto cia outra dimensão chave dos cou-ccitos alemães de liberdade: autotelia ou realização pessoal. e da pessoa para o Estado. como observou Constant. Pois. Além de exercer forte influência em pensadores liberais que deixaram sua marca. barão Wilhelm von Humboldt (irmão mais velho do grande naturalista Alexandre von Humboldt e fundador da Universidade de Berlim . Mas. Hegel (1770-1831). afirmou que o homem. W. transferiu a autotelia de Kant do campo da ética para o campo da política. não como animal mas como pessoa.

A sociedade francesa. como um personagem numa tragédia clássica. enquanto na Inglaterra o relacionamento Estado-indivíduo era basicamente descontraído. mas tratava-se de liberdade positiva com uma ênfase cultural. foi traçada com vigor na Hislory of European Liberalism de Guido de Ruggiero. 19 Disso resultou a preocupação de liberais franceses. que. cujo relacionamento com o Estado era mais associativo do que subordinado. quando seguirmos a sorte do liberalismo nos dois últimos séculos. a variedade francesa procurava fortalecer a autoridade estalai paia garantir a igualdade diante da lei. 0 indivíduo e o Estado Para nos aproximarmos da história concreta. O novo Estado. um inglês e o outro francês. As classes superiores inglesas eram senhoras do Estado. Pois é possível distinguir dois padrões liberais principais no interior da evolução política ocidental. fazendo com que os cidadãos entrassem em choque com o poder estatal em solidão heróica e rebelde. Embora a estrutura social inglesa conservasse uma forte base de classe. de aclimatar na França uma trama associativa do modelo americano que pudesse IVear o poder estalai. especificamente. Como conseqüência. manteve uma estrutura hierárquica fechada por muito tempo. garantindo-lhe os direitos. li i I I f BiSLSOiECi 2 . estabeleceu um modelo no qual o Estado se apoiava em indivíduos independentes. oscilou entre democracia e despotismo. De Ruggiero observou que. como Tocquevillc. A distinção entre os dois liberalismos com um matiz nacional. em grande parte inacessível à mediação de instituições associaiivas que pertenciam à sociedade civil. Quando a Revolução privou essa estrutura de sua legitimidade política. e o da teoria alemã era o Estado "orgânico". mantinha-se alto e poderoso como única fonte de autoridade legítima. que foi a obra padrão sobre o assunto no período de entre guerras. Não há dúvida de que era liberdade positiva. a hierarquia dos Estados característica da sociedade tradicional fora logo corroída pela emergência de agricultores livres e pela igualmente precoce conversão da nobreza ao capitalismo agrário.32 O liberalismo . em contraste. o Estado. A versão francesa procurava também a demolição da ordem "feudal" bem sustentada pelo privilégio social e pelo poder da Igreja. precisamos esboçar uma tipologia diferente da primeira. uma mistura de elementos tradicionais e modernizados. 18 Isso. dois padrões básicos no relacionamento entre Estado e indivíduo. Nesse meio tempo. tanto na Europa como alhures. na França tornouse muitas vezes tenso e dramático. Resumindo: a teoria inglesa dizia que a liberdade significava independência. Voltaremos a encontrar esses dois modelos. Há neste ponto um paradigma inglês e uni francês.antigo e moderno Definições e pontos de partida 33 de liberdade. incorporava a vontade geral. Essa diferença tem raízes sociais. juntamente com a realização precoce de um Estado unitário. a lógica da situação tornou necessário o uso do Estado para libertar o indivíduo. A escola alemã replicou a isso que a liberdade é realização pessoal. especialmente o francês. que se transformara numa sede zelosa da vontade geral mediante as ficções de representação onipotente {asscmbléiime) e de governo plebiscitado (bonapartismo). O ambiente político da teoria francesa residia no princípio democrático. uma vez que constituía da forma mais conspícua um exemplo de "liberdade para". ao que se pretendia. enquanto a espécie inglesa de liberalismo favorecia por inteiro a limitação do poder estatal. O conceito francês (de Rousseau) consistia em que liberdade é autonomia.

Devotarei aqui duas seções para assinalar algumas raízes do liberalismo da Reforma ao Iluminismo e o começo do século XIX. mas o enriquecimento da doutrina liberal raramente foi um processo linear. ou liberalismo em sua forma histórica original. uma autoridade nacional central com poderes bem definidos e 35 . o liberalismo enriqueceu-se verdadeiramente em temas e em tópicos. progressos numa direção foram contrabalançados por retrocessos. Muitas vezes. porque o liberalismo teve de aprender coisas importantes com o desafio de ideologias rivais. Primeiras fontes modernas O liberalismo clássico. os capítulos 3.2 As raízes do liberalismo Este capítulo e os três seguintes serão os capítulos de caráter mais histórico neste livro de perspectiva histórica. 4 e 5 proporcionam uma visão generalizada da teoria liberal desde os whigs de peruca até os neoliberais de dias ulteriores. No decurso de três séculos. Qualquer impressão de triunfalismo deve ser evitada. pode ser toscamente caracterizado como um corpo de formulações teóricas que defendem um Estado constitucional (ou seja.

em outras partes do mundo. elas próprias. Foi então que a "sociedade civil" composta por indivíduos mundanamente independentes recebeu sua legitimação apropriada. Para Hegel. e "economia clássica" (grosso modo. entre outros escritores. e da economia clássica na próxima. até mesmo protestantes fiéis. A liberdade grega fora uma conquista gloriosa. a Reforma e a Contra-Reforma. mas mesmo no Ocidente cristão a liberdade como individualidade não alcançou uma forma ativa até a Revolução e Napoleão. como um importante antepassado da mesma. por Mill). a perseguição entrou em prática. depois. A opinião deles consistia em que os males da Revolução remontavam — através do lluminismo — à Reforma protestante do século XVI. o divisor de águas moderno não fora tanto 1500 quanto 1800 — um deslocamento considerável. Desde então. disse Hegel. o direito civil da Europa pósrevolucionária. mas não desenvolveu a individualidade humana. embora temesse tanto o fanatismo como temia o poder — o tempo que se alongou de Richard Hookcr (1554-1600). de pronto. Esses reacio- nários concordariam com a nossa equação de modernidade e liberdade. na intolerância e na repressão. que soltara o demônio do individualismo. historicamente. no máximo. o pensamento político de vanguarda respeitou por um tempo a liberdade religiosa. o cristianismo. Tiratarei dos direitos e constitucionalismo nesta seção. Direitos e modernidade A luta formativa do liberalismo foi a reivindicação de direitos religiosos. A doutrina liberal clássica consiste em três elementos: a teoria dos direitos humanos. sistematizado David Ricardo c ilustrado. Mas onde começar? Uma vez admitido que a escala e crescimento são a marca distintiva da modernidade. A cultura moderna é normalmente associada a rima profusão de direitos individuais.antigo e moderno As raízes do liberalismo 37 limitados e um bom grau de controle pelos governados) e uma ampla margem de liberdade civil (ou liberdade no sentido hobbesiano.se célebre do furor protestante contra a heresia. com a sua metafísica da alma. Compreensivelmente. Mas será que na história das instituições liberais o vínculo entre consciência e liberdade era tão reto e direto? As seitas protestantes que sustentavam a liberdade de consciência diante da intransigência católica recaíam muitas vezes.36 O liberalismo . em ambos os campos. Hegel foi um exemplo típico e de grande influência. podemos procurar as raízes do liberalismo na experiência histórica da modernidade. individualístico examinado no capítulo 1). os princípios de autoridade e hierarquia.?) tornou-se uma eau. vivera por muito tempo como uma crisálida. onde se encontra o ponto èm que isso se passou. Sem medo de errar. A Reforma trouxe consigo uma forte afirmação da consciência individual. O grande culpado original fora Lutero. constitucionalismo. como Erasmo tristemente previra. mas a julgavam em termos fortemente derrogatórios. primeiro no Ocidente c. Mas outros. A morte na fogueira do médico Miguel Servetus na Genebra calvinisla (155. mas. foi o berço histórico do princípio da individualidade. a crítica e a anarquia entraram a solapar a ordem social e os seus alicerces. o . O tema protestante da inviolabilidade de consciência foi uma contribuição poderosa e seminal para o credo liberal. viram a Reforma não como iniciadora da modernidade. Parece seguir-se a fórmula de que liberdade é igual a modernidade quelé igual a individualismo. argumentaram eles. podemos dizer qijie a liberdade se relaciona corri o advenlo da civilização inodei na. políticos e econômicos — e a tentativa de controlar o poder político. mais visivelmente no Código dt: Napoleão. Antes daquele momento. Portanto. o divisor de águas histórico? Foi dada uma resposta a essa questão pela assim chamada escola reacionária da teoria social — os publicistas franceses como Maistre c Honald que escreviam cm reação Iioslil à Grande Revolução. a individualidade. a força motora na cultura da modernidade. o ramo de conhecimento inaugurado por Adam Smith.

a dissidência calvinisla logrou criar um ambiente fie reforma ousada. enquanto a tolerância nunca provocara uma convulsão social.a em meados do século XVII. e nos padres da Igreja. A luta pelos direitos religiosos alimentou a idéia de direitos individuais gerais. um livre consentimento. na jurisprudência imperial romana (notadamente Gaio e Ulpiano). Na "Aeropagitica" (1644). Nesse meio tempo. A tolerância religiosa tornou-se também a pedra angular do sistema protoliberal de Locke. Sua Carta acerca da tolerância (1689). o individualismo protestante vingou apenas nos movimentos místicos espontâneos <lo século XVIII. o proeminente teólogo protestante liberal Ernst Troeltsch (1865-1923) advogou com vigor que a moderna cultura religiosa se apartasse da Reforma. o deísta Voltaire. não cristã. livro 3. Poderia ser encontrada na filosofia estóica.iis). Poucas seitas como os socinianos. Na revisão de Troeltsch. a tolerância. A noção de um direito natural era muito antiga. assim. Desafiando as devoções das classes médias alemãs. Na "teologia natural" de William Paley (The Principies of Moral and Political Philosophy. nas obras de Cícero (notadamente De republica e De offir. Lutero libertara o cristianismo do retraimento místico. salientou em seu próprio Traitê sur Ia tolérance (1763) que. a intolerância causara muitos banhos de sangue. A contenção básica da teoria do direito natural é a de que existe uma lei mais alta. ao invés de coerção. como o piclismo. 22). no todo. a defesa da liberdade de consciência desdobrou-se num argumento a favor da liberdade de opinião. uma das próprias fontes do liberalismo. Albrecht Ritschl (1822-1889). "uma razão reta (recta ralio) segundo a natureza". replicou Troeltsch: a verdadeira fé tem origem na experiência pessoal. pregavam a tolerância muito acima de sua época.ismo moderno. Mas. uma corrente ítalo-polonesa dos primórdios do século XVII. cheia de simpatia pelos dissidentes arminianos. Direitos: direito natural e consentimento A principal foiça na legitimação conceituai 'Ia moderna idéia de direitos foi a modernização da teoria de direito natural. Na Inglaterra. a argumentação a favor da tolerância tornou-se utilitária. em contraste com a Alemanha luterana. Mas. tão ardentemente advogada pelo puritano de formação John Locke.Mant. Longe de anunciar o pluralismo moderno. o poeta-profeta do puritanismo inglês. Pouco antes da Primeira Guerra Mundial. Assim. muito pouco devia à fidelidade autoritária à escritura da Reforma. que adoravam a luta de Lutero contra Roma como uma prelibação da liberdade moderna. a Troeltsch a Reforma pareceu fundamentalmente não moderna. como disse Cícero (em De republica. disse Troeltsch. 1 Alguns ramos da Reforma preliguraram o pluralismo liberal moderno e o seu respeito ao indivíduo heterodoxo. subtitulada "um discurso a favor da liberdade de imprensa livre de licença". portanto. o prntc. tornou-se o objeto de justificações seculares. Essa razão tão imutável aplicada ao comando e proibição é "direito" porque permite às pessoas diferenciar o bem do mal consultando não mais do que suas cabeças e .anugu « modtiino Aç raízes do liberalismo 39 principal defensor da solução clisabctana. Locke sublinhou que o cuidado da alma cristã requer "persuasão interna" e. o indivíduo levava uma vida religiosa principalmente por meio de sua participação na Igreja estabelecida. e pensadores como Milton. portanto. Troeltsch estava deliberadamente contradizendo seu professor em Gõttingen. segundo Ritschl. Para Ritschl. ao redirecionar as energias religiosas no sentido do serviço no mundo e no sentido da estrita observância das obrigações de cada um para com a família. declarou que a perseguição é contrária à caridade e. seus líderes tinham sustentado fortes crenças teocráticas dignas da Idade Média. alé Ilobbes e Spino/. o mais destacado philosophe. o trabalho e o Estado. afirmando que "a própria verdade resulta da discussão e da controvérsia".•?(? O Liberalismo . 1785). Tal não se dava. cap.

medievais e dos primórdios da era moderna. também reconhecia que Lutero e Maquiavel haviam posto de lado o direito natural. formulada em linguagem patentemente jusnaturalista.40 O liberalismo .. embora caídas. mas da própria natureza das pessoas como seres humanos. em contraposição. O modelo do contrato social. juristas medievais terminaram por mesclar dois conceitos que originalmente eram distintos no direito romano: ius e dominium. Por sua vez. Esse direito decorre não do direito civil ou do intercurso social. Nem . os romanos tinham tido a liberdade na conta de um direito cívico conquistado. O próprio Cícero sugerira que havia um parentesco entre tal direito natural e o direito das gentes — na realidade. seu senso moral interno. Em vez disso. e tem um forte lado subjetivo. Mas no século XIII o grande glosador : Acúrsio concebeu o dominium como qualquer ius in re. O contratualismo não nasceu automaticamente do conceito medieval de direitos subjetivos e de sua moldura jusnaturalista. 4 No início da Idade Moderna. o conjunto de precedentes que integrava o Corpus Júris Civilis de Justiniano. Antes do Principado (que se iniciou com Augusto no século I a.slil.uni atributo inato dos seres humanos. O conceito de direito sofreu modificações ainda mais profundas durante a transição da Antigüidade para a Idade Média. ou propriedade. Qualquer direito que podia ser defendido erga omnes — isto é. Na baixa Idade Média. De acordo com Richard Tuck. Levados pelo emaranhado de relações feudais.antigo e moderno As raízes do liberalismo 41 corações. ocorreu um novo fenômeno. contra qualquer outra pessoa — e que poderia ser alienado por seu próprio proprietário veio a ser considerado um direito de propriedade. pensadores nominalistas como Gerson em Paris misturaram o conceito de nus com a faculdade natural de libertas. o principal publicista da Contra-Reforma. revelaram-se ingredientes cruciais na ascensão do pensamento liberal. essa fusão criativa de ius e dominium foi aprofundada. ocorreu uma mudança conceituai no Digesla. no século III a. e o modelo do "contrato social" emergiu como a versão política da teoria do direito natural. Há diferenças significativas entre a teoria do direito natural dos antigos (jusnaturalismo clássico) e elaborações ulteriores. A visão sombria de Lutero sobre a pecaminosidade humana dificilmente era compatível com o pressuposto jusnaturalista de que as pessoas. o resultado final da resistência ao evangelismo franciscano residiu na conclusão de que os indivíduos têm direitos de dominium sobre suas vidas e bens. uni direito consuetudinário da humanidade (Jus commune). Os comentaristas medievais das Inslilutc. os conceitos de direito natural influenciavam primariamente o direito público? Mas o robusto novo conceito de direitos naturais como reivindicações subjetivas de largo alcance logo invadiu a teoria da ordem social. podiam aprender a vontade de Deus e dessa forma refletir a justiça divina ao ordenar a sociedade. muitas vezes relativa a coisas (como o direito de propriedade).. era bem objetivista. Suas premissas individualistas. e os hi. entenderam que o dito dc| Ulpiano significava que as pessoas deviam respeitar as respectivas reivindicações. serviu à idéia de direitos naturais com vigor.D. Nossa noção de direito denota uma reivindicação caracterizada. o dominium referia-se apenas a possessões e não a relações interpessoais.iita diziam "que a justiça é a determinação contínua e duradoura de atribu r a cada um seu ius" (o famoso princípio suum cuique tribuere). Incluía uma definição da liberdade como "a faculdade natural que nos assiste de fazermos aquilo que queremos". como Azo de Bolonha (cerca de 1200). poucos séculos depois. que era uma peça central no primeiro pensamento político moderno de Hobbes a Rousseau.C). O conceito romano de ius. Mas. O jesuíta Francisco Suárez (1548-1617).'' Ulpiano. Isto significava simplesmente que um juiz devia sempre buscar a solução justa de uma disputa. Essa definição era uma prefiguração da liberdade negativa. como coisa distinta de suas conclusões políticas. em vez de considerá-la. Inicialmente. um luminar na história da teoria do direito natural. do século VI.

ele definiu o Estado ou a sociedade política como "uma comunidade de direitos e soberania" (II. conselheiro pensionista (primeiro executivo) de Rotterdam. Es^sá síntese de tomismo e nominalismo de Occam deu ao mundo ibérico um cunho político duradouro. mas também denota "uma certa capacidade moral que todos possuem". que mal atingira os trinta anos de idade. teorizou um contrato social que estabeleceu um governo .antigo e moderno As raízes do liberalismo 43 a razão do Estado de Maquiavel dava lugar a critérios de uma justiça preternatural. 7 Essa forma racionalista e individualista de modernizar o direito natural 8 tornou o jusnaturalismo. Isso deu origem a uma nova visão da teoria de direito natural. mas foi reverenciado em toda a Europa como fundador do direito internacional. compreendendo o quão funcionais eram tais direitos na convivência. Como Hobbes escreveu no De Cive (cap. Grotius propôs-se salvar padrões morais universais do ceticismo renascentista. e foi executado. Hobbes partiu do indivíduo e viu a sociedade como uma coleção de indivíduos. Suárez teve dificuldades em conceber que os direitos subjetivos estavam subordinados a um conjunto holístico. VIIÍ. o holandês Hugo Grotius (158Í51045) era de outra opinião. 14. o direito natural não mais se apoiava na natureza das coisas. como embaixador de Cristina da Suécia à França. o primeiro pensador liberal que teve grande influência. 9 Ora.42 O liberalismo . não há dúvida. um todo moráljsocial definido por uma visão tradicional de direito natural. IX. Oldenbarnevelt tornou Grotius. nas palavras agora veneráveis de Otto Gierke. Grotius (depois de trair o seu chefe) foi condenado à prisão perpétua. Grotius. p. Suárez viu que também os católicos necessitavam desses direitos para resistir ao poder protestante nos países reformados. A autoridade legítima passou a ser encarada como coisa fundada em pactos voluntários feitos pelos súditos do Estado. rrias na natureza do homem. Na ousada reformulação do jusnaturalismo feita por Grotius. Grotius redefiniu o direito natural à parte da teologia. "a força intelectual que finalmente dissolveu a visão medieval da natureza dos grupos humanos". Contemporâneo de Suárez. de opções claras praticadas pela vontade individual. 1612) observando que ius não significava apenas "o que é direito". Exatamente como Maquiavel separara a análise política da ética. Grotius recorreu ao jusnaturalismo para dar uma explicação individualista da sociedade — o contrário mesmo da visão holística de Suárez. O Estado era um grupo separado do resto cia humanidade por direitos particulares. e escapou numa grande cesta que a sua devotada esposa enviara à prisão cheia de livros. Postulou uma ética minimalista. sete anos mais tarde Oldenbarnevelt fracassou miseravelmente em conter o ambicioso príncipe de Nassau. um herói dos calvinistas. Em 1612. Ilustrou essa capacidade mencionando o apego do proprietário a suas posses. Grotius ainda acreditava (como não ocorreu no caso de Hobbes) na sociabilidade natural. Infelizmente. Hobbes rompeu com a velha visão da sociedade e da ordem política. Essa abordagem puramente individualista fora. (i Conseqüentemente. Suárez e outros acreditavam que o contra-ataque católico contra protestantismo e secularismo exigia um total retorno à perspectiva do direito natural. Na sua grande obra de 1625 De iure belli ac paris ("Sobre a lei de guerra e paz"). Terminou sua existência num naufrágio. o cerne do contratualismo. como auxiliar e conselheiro do grande estadista fan van Oldenbarnevelt. o pensamento protoliberal era uma mistura do contratualismo de Locke e do constitucionalismo de Montesquicu. passara muitos anos tentando prevenir um choque entre os calvinistas ortodoxos e a minoria arminiana na Holanda. as obrigações decorrem de promessas — isto é. mas. como Grotius. composta apenas de dois princípios: a legitimidade de autopreservação e a ilegalidade do dano arbitrário feito aos outros. John Locke (1632-1704). Acima de tudo. Suárez não esqueceu as formas que assumira a teoria legal na baixa Idade Média. 2). Rejeitando a idéia de ordem natural. Iniciou seu tratado De Legibvs ac Deo Legislatore ("Sobre as leis e Deus legislador". 2). Além disso1.

Esse velho conceito agosliniano 10 (ora muito realçado pela importância dada pelo nominalismo de Occam à idéia de direitos subjetivos. Entronizando o direito de resistência.. inclusive Occam. primeiro no livro de Marsílio de Pádua Defensor Pacis (1324) e depois no movimento conciliar antipapista no interior da Igreja. Enquanto os membros do pacto. e o ponto crucial da questão consiste na reelaboração frutífera por parte de Locke da noção de consentimento. e. seja periódica e condicionalmente. igualmente no Estado e na Igreja. e estão longe de dissolverse no pacto social. em Locke os direitos pessoais provêm da natureza. Sttáre/. Locke encarou os governantes como curadores da cidadania e. é a principal característica da legitimidade em política liberal. um protoliberal —. as pessoas — ou sua maioria — possuem o direito de eleger. imaginou um direito à resistência e mesmo à revolução. No caso da maioria dos prévios pensadores do consentimento. haviam celebrado o livre-arbítrio humano juntamente com o de Deus. publicado em 1689) consistiu em fazer o consentimento (mesmo tácito) periódico e condicional. ele ampliou o princípio individualista de vontade e consentimento. Por contraposição. Locke realçou uma tendência que já tinha quinhentos anos de idade: a fusão pós-clássica de ius e dominium. o consentimento a um governo pode ser dado seja de uma vez por todas. de direito e propriedade. o consentimento pode ser concebido tanto numa base individual como corporativa. Suárez buscara atenuar o papel da vontade no mito do direito natural. Marsílio sustentara que. há todo um mundo de diferença conceituai entre Hobbes e Locke — um. "corrigir". A inovação por parte de Locke (no seu Segundo tratado sobre o governo.1"5 Ao sacralizar a propriedade como direito natural anterior à associação civil e política. .antigo e moderiw \ As raízes do liberalismo 45 legal em termos individualistas. O contiatualismo de Locke representou a apoteose do direito natural no sentimento individualista moderno. se necessário. este era um ato corporativo da comunidade que fora efetuado no passado. também julgaram o consentimento como a fonte da obrigação política. os indivíduos de Locke só abandonam um direito — o direito de fazer justiça com as próprias mãos — e conservam todos os outros. para citar um dos seus mais capazes intérpretes modernos. caso em que pode ser retirado (ou não) segundo a opinião dos cidadãos quanto à qualidade do desempenho governamental. embora o Leviatã (1651) propusesse a monarquia absoluta enquanto Locke defendia um governo limitado. um dos pais do federalismo. Dessa maneira. E consentimento. o outro. A necessidade de consentimento como base para a legitimidade viera à tona em teoria política bem antes de Locke. A idéia de consentimento como origem da autoridade legítima implica vontade politicamente expressa. A obra de Locke. vários grandes teóricos como Ilooker. Mais tarde. abandonam todos os seus direitos exceto um — suas vidas —. e o alemão Johatin Althusius (morto em 1638). como o fizera Hobbes.44 O liberalismo . 12 inaugurou "a política de confiança". no entanto. absolutista. Em primeiro lugar. o consentimento tornou-se a base do controle do governo. A reconsideração do direito natural por Grotius e 1 lobbes fora acompanhada por uma forte ênfase na vontade. como dádiva de Deus. no caso de I lobbes. fossem seculares ou eclesiásticos. de forma memorável. A Occam (cerca de 1300-1349) é geralmente atribuído o mérito da primeira derivação da legitimidade governamental do consentimento baseado no direito natural. mas os occamistas estimavam que o direito natural era obrigatório por ser tido como a vontade de Deus. Apesar de todo o individualismo que partilhavam. Hobbes antes dele e Rousseau depois imaginaram contratos sociais em que os indivíduos alienariam por inteiro seu poder em favor do rei ou da assembléia. depor os governantes. Em segundo lugar. Mas o consentimento pode variar em torno de dois eixos. A originalidade de Hobbes e Locke consistia em sublinhar o consentimento pelo indivíduo. em lugar de tradição. Nominalislas. no século XV.

as raízes do constitucionalismo no Ocidente foram amplamente eclesiásticas. mostrou que as doutrinas conciliares como o consentimento se tornaram conhecidas muito antes da era de Gerson.antigo e moderno As raízes do liberalismo 47 Constitucionalismo É o bastante. num espírito individualista. Tudo bem contadoj o Japão também tivera estruturas \ feudais. está ligado ao crescimento do individualismo. Que maijs. O primeiro pensamento político moderno. no entanto.tigland (187. Refutando Stubbs. Mas pelo menos desde João de Paris (1255-1306). Iniciamos nosso inquérito seguros no conhecimento de que a liberdade moderna. alimentou devotamente a idéia de que o parlamento gótico fora uma assembléia política. no que diz respeito ao elemento de direitos. um debate acirrado entrou a opor partidários da teocracia papal e defensores do poder eclesiástico e até mesmo autoridades seculares independentes. um dos primeiros tomistas. Quanto ao segundo componente.aw of lhe Canstitution (1885). o professor de Cambridge Frederick William Maitland (1850-1906) demoliu a lenda e estabeleceu que o parlamento medieval inglês fora. Conclusão Nossa busca das raízes dos conceitos de direitos e constitucionalismo deu num quadro de certa forma irônico. No século XIX. de Oxford. Uma constituição. e portanto anglo-saxã. Tierney. o privilégio (especialmente na Inglaterra) de um Estado centralizado circunscrito por garantias fundamentais para seus súditos? A erudição moderna discordou da opinião de Figgis. rcsponddu com uma teoria mais séria. a doutrina do consentimento). "A liberdade estava no sangue".j argumentava Figgis. escreveu muito antes dos normandos e tia Magna Carta. devotou-se .-In O liberalismo . Como o individualismo não floresceu em larga escala antes da Idade ! I . Aristóteles e Cícero. cm vez disso. O historiador constitucional americano Charles Mcllwain reagiu à teoria feudal ao realçar o papel do direito romano no pensamento político medieval. Em Platão. J. também deu crédito a onlia c mais riujle lenda: a idéia de que a libere ade inglesa provinha de um tronco de liberdade (eulônica. fundamento e resultado do movimento liberal. nas glosas sobre direito canónico desde 1200. Naquela época. Tais pensadores aproximavam-se do problema ria*legitimidade (em sua resposta. conslitucíonalismo. ' Mais recentemente. consiste nas normas que regem o governo. Stubbs. Figgis. do conciliarismo no século XV ao jusnaturalismo moderno do século XVII. o problema jusnaturalista de legitimidade vinha preocupando a filosofia política. ale os laços contratuais do feudalismo. essencialmente uma corte de justiça. II. de TTobbes e Locke a Rousseau. o pri meiro e mais importante dos três componentes do liberalismo clássico. sua economia rudimentar. Diversas teorias quanto às raízes ocidentais da doutrina constitucionalista e de sua legitimidade foram apresentadas.i isso. o grande historiador William Stubbs (1829-1901). O estudo clássico de A. j O pupilo de Maitland em Cambridge. cm sua monumental Conslilulional Hislory of Medieval F. Figgis sublinhara a linha de pensamento de Gerson a Grotius. Kle seguiu o constitucionalismo. enquanto seus predcccssorcs medievais estavam sob o encanto da hierjarquia e do todo. mostrou que o governo da lei era a essência do constitucionalismo. The I. o problema da origem da obrigação foi posto à sombra pela questão do melhor regime. que sustenta a exclusão tanto do exercício do poder arbitrário quanto do exercício arbitrário do poder legal. Dicey. comia. a um tempo. poderia ter dado à sociedade medieval. V. mas não desenvolveu qualquer coisa como o constitucionalismo ocidental. pode ser consideravelmente mais breve. a l|íi| díi liberdade.H--1878). 14 É a mesma coisa que o governo da lei. Na sua opinião. escrita ou não. o fenômeno histórico que é. Brian Tierney escolheu uma explicação alternativa.

48 O liberalismo . dos Estados Unidos). o Iluminismo juntou uma complexa coleção de idéias que abrangiam direitos humanos. governo constitucional e liberismo. no pensamento político moderno. pelo progresso e pela ciência. Hume e Adam Smith. é isso que separa o mundo de Locke do mundo de São Tomás de Aquino. era lógico que a esti idássemos. mas tinham objetivos bem diferentes. A primeira coisa em que acreditavam era a perfectibilidade do homem. para compreendê-lo. O jogo que jogavam se chamava melhoria mediante reforma. Contudo. a ordem e o classicismo pela razão. voltamo-nos para a modernidade como o divisor de águas da liberdade no seu sentido plenamente contemporâneo. na formulação correta de Peter Gay. e. seja no conformismo luterano. Um de seus mais importantes intérpretes. Azo de Bolonha. distintamente pós-medieval: uma visão da sociedade individualista.antigo e moderno As raízes do liberalismo •'!') Moderna. de quem não se pode dizer que acreditasse no progresso. Mesmo Rousseau. Pufendorf. tinha uma dimensão adicional. Paul Ha/. não-holística e não-hierárquica. mas. seja no dinamismo social das seitas puritanas. Isto é. do mundo. Tal combinação. não preciso dizê-lo. ambas já presentes nos juristas e filósofos medievais. Como tal. era relativamente esperançoso no que diz respeito ao homem. desde que fosse- . não alcançaram a estatura intelectual de Descartes ou Leibniz.lwvs dans cc si ir Ir à ImU pcr/hclionncr": o comentário de Voltaire a respeito das reformas penais humanitárias advogadas por Cesare Beccaria — um dos pontos altos do pensamento reformista naquele século — capta a essência da época. Em última instância. sem ser sempre liberal em termos estritamente políticos. os philosophr.' 8 Ao mesmo tempo que se desdobrava na obra de Voltaire e Diderot. Acúrsio. Dado o papel essencial da Reforma no progresso da liberdade de consciência. quanto mais fundo penetrávamos nas raízes dos direitos e do constitucionalismo. por mais valiosa que fosse. Hobbes. de Occam e de Gerson — e traz o contraio social dos primeiros pensadores modernos para perto do nosso próprio universo liberal democrático.ard. já que o teocratismo da Reforma era fundamentalmente autoritário. não se tratou apenas de combinar a idéia de direitos e consentimento. em grande parle. Lessing e Kant. Não obstante. devemos rememorar a natureza daquela era intelectual. mais adiamos que decisivos desv os conceituais haviam sido realizados naquele prolongado e ainda sombrio laboratório da cultura ocidental: a Idade Média.uteroie de Calvino revelou-se no máximo um prólogo à cultura do individualismo. 0 lemdo do Iluminismo o Muitas vezes se diz que o liberalismo decorre em grande parte do Iluminismo. ou liberdade econômica. argumentou que o Iluminismo foi basicamente uma tentativa de substituir a religião. na esteira de um notável crescimento de população. Mas o (empo de I. assim como na cultura política moderna. Seguimos então Hegel e Troeltsch e situamos a liberdade moderna na nova religiosidade do misticismo do século XVIII e na sociedade civil dá Europa pós-revolucionária (e. verdade.s eram autores voltados para a prática. Apoiou-se no novo senso de expansão do domínio sobre a natureza e a sociedade que tomou conta da Europa por volta de meados do século XVIII. de Grotius ou Hobbes. Occam e Gerson mostraram-se quase tão iínportantes quanto os primeiros contratualistas e jusnaturalisuis modernos — Grotius. o Iluminismo significou acima de tudo uma "recuperação do alento". comércio e prosperidade que se seguiu a uma era de depressão econômica. por isso. O pensamento do Iluminismo veio a coincidir com a maior parte dos ingredientes do credo liberal clássico. "Naus chetr. Locke e Rousseau. Na maioria dos casos. Com a exceção de Kant.

Na medida em que procuravam pôr em prática a perfectibilidade.enl and lhe Duties ofSovereigns (1771) (que Frederico o Grande escreveu em francês para que Voltaire o lesse). Mas as formulações clássicas da teoria do despotismo esclarecido submetiam o poder monárquico e a nova abordagem instrumental da lei ao clima de opinião gerado pela ideologia da liberdade e do aperfeiçoamento. 22 Assim. Mas só com Montesquicn veio unia explicação inteiramente dcsabrochada do consiilucionalismo. Graças ao impacto do Iluminismo. lançou largamente mão dessa nova perspectiva — a visão "maquiavélica". Montesquieu deu ao protoliberalismo aquela profundidade institucional que lhe faltava na tradição contratualista. por Montesquieu. com muita influência.antigo e moderno As raízes do liberalismo 51 adotado o contrato social certo ou conseguida a educação certa (como estipulou no Émile. como os fisiocratas e o amigo deles. uma espécie de modelo parlamentar anglófilo foi sustentado. Representava o rei como o primeiro funcionário do Estado. Turgot. Montesquieu. o inteiro florescimento da "civilização da corte" na "Europa das capitais". que ele chegou a chamar de "cidadãos". o que Frederico sublinhou foi "esclarecido" e não "despotismo". identificada com a proteção da liberdade e da propriedade. O bloco histórico formado pela Renascença e o Barroco. . também se inclinou para o constitucionalismo. Nenhuma outra estratégia se ajustaria à sua incorporação do consentimento corporativo no grande lema liberal de consentimento (rovogávcl) como controle (periódico). os economistas franceses conhecidos como íisioorafas (embora não endossassem o conceito de contrato social). seu tratado pedagógico de 1762. Pensamento político Lockc reforçou sua teologia dos direitos nalurais com unia preocupação clara pelo governo da lei. proporcionou uma base contratualista implícita em sua ênfase nos devores monárquicos. pois Do espírito das leis ofereceu o que o Segundo tratado de Locke não fez: uma ampla consideração de como distribuir a autoridade e de como lhe regular o exercício. I. fizeram uma distinção entre o "despotismo legal" e o simples despotismo. Enquanto antes havia sido encarado principalmente como uma simples estrutura da ação governamental. 21 A ideologia política mais característica do Iluminismo. o despotismo esclarecido. desde que se quisesse aumentar ou apenas preservar a liberdade. Por causa disso. como um instrumento de poder. publicado no mesmo ano em que o foi o seu catecismo republicano). Uma idéia profoliberal. é corretamente tido na conta de um dos iniciadores do Iluminismo. falando em uma monarquia funcional como uma autocracia. o absolutismo sofreu uma curiosa metamorfose num paradoxo: autocracia responsável — no nível de legitimidade senão no nível do exercício real do poder. por assim dizer — das normas como instrumentos do poder. abstendo-se inteligentemente de meter-se no jogo livre do mercado. o direito passou então a ser visto sob nova luz." As teorias políticas dos philosophes dividem-se em três posições principais. moral senão legalmente responsável perante os seus súditos. e também por causa de seu poderoso esboço de uma justificação sociológica da lei e da política. No discurso do despotismo esclarecido.oeke. ()s proponentes principais do absolulismo progressista na Kuropa ocidental. o segundo grande antepassado do liberalismo clássico depois de Locke.overnm." testemunhara uma grande mudança no conceito da lei. O acolhimento muito difundido da jurisprudência romana contribuiu para a emergência de uma nova relação entre governo e normas legais.50 O liberalismo . o locus classicus do conceito de despotismo esclarecido. os philosophes aproximaram-se da essência da famosa identificação kantiana do Iluminismo com a emancipação da humanidade em relação a tirania e a superstição. Voltaire (e por um tempo Diderot) esteve perto da monarquia esclarecida. Em resumo. o Essay on lhe Forra ofC. o paladino dos direitos. Nessa medida.

estética e filosofia da história. da caça e do pastoreio até a agricultura. parafraseando o título do livro de 1767 de Adam Ferguson. em busca de significados mais profundos e de amplas matizes. a "história da sociedade civil". bárbaro e polido. mas isso. Hume deixou uns poucos ensaios medi tados além de sua History ofEng\land e sua obra crucial em filosofia mas escreveu como um tory. temos de voltarnos para outra área — a teoria da história. Por fim. Onde a palavra civil em sociedade civil correspondera antes a civilas. Elhocracia (1776). Foi com Ferguson e com o famoso discurso de Rousseau Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens (1754) que a expressão "sociedade civil" entrou em uma nova carreira semântica. referia-se à condição da moral e dos modos sem qualquer necessária conexão com a política. encontrou em Rousseau seu pregador. Lessing em crítica teatral. uma posição republicana. conservador utilitário. tinha um foco mais específico. e não como um modernizador político. Uma passagem brilhante ao fim do Livro I de A riqueza das nações de Adam Smith (1723-1790) declara que mesmo o "camponês frugal e trabalhador" numa sociedade comercial vivia muito . e então a "sociedade comercial". ou a sucessão das épocas. Como tal. (I Iegcl e Marx. Alguns esquemas de estágios sublinharam modos de subsistência. mas seu zelo reformista dirigia-se mais a códigos penais. O que mais importa é que lições extraídas de Locke (direitos naturais).antigo e moderno As raízes do liberalismo 53 com a sua tese constitucionalista da necessidade de uma separação de poderes. como uma maneira de prevenir o despotismo monárquico — o que não difere muito de Montesquieu. combinou opalhos moralista e anticomercialista de Rousseau com a defesa de corpos representativos (como parlamentos) que partilhariam da soberania. Isso era verdade também fora da França. A seqüência do próprio Ferguson concentrou-se antes na condição dos costumes e distinguiu três estágios: selvagem. de "história filosófica". Influenciados pelo interesse de Montesquieu por causas subjacentes das formas sociais. fortemente democrática em espírito. os historiadores filosóficos escoceses como Ferguson. falando de modo geral. Adam Smith e John Millar construíram entre eles uma teoria de desenvolvimento da humanidade em estágios. Era de orientação prática. Por fim. dei longe a obra principal foi dada pelo Iluminismo escocês. 2 ' A utopia de Holbach.52 O liberalismo . Nesse ponto. Pensamento histórico e econômico O Iluminismo chamou a sua maneira de encarar os acontecimentos. Como veremos. como os quatro sistemas de manutenção de Millar (e de seu mestre Smith). Ainda assim. sistemas de educação e instituições econômicas do que à mudança política. Seu conteúdo primordial era a história da civilização. o Iluminismo não foi em essência um movimento político. firmaram "sociedade civil" nesse sentido não político. Montesquieu (divisão de poderes) e Rousseau (o elemento democrático) combinaram-se num novo sistema republicano erigido na época na América independente — e então ajudaram a moldar as opiniões constitucionais da Revolução Francesa. subseqüentemente. se «j quisermos identificar as principais contribuições do Iluminismo à cosmovisão liberal. em Rousseau e Ferguson civil relacionava-se com civilitas. significando "civilidade" ou "civilização". em quej pesem algumas intuições de Vojtaíre que desbravaram terreno. e possuía tradicionalmente um significado "político". Beccaria em reforma penal. e Kant em teoria do conhecimento e ética. havia mesmo um Ilumi nismo conservador. Gibbon realizou-se principalmente em "história filosófica". Os teóricos sociais escoceses insistiram num progresso da vida bruta à vida refinada. por sua vez.) O caminho da vida bruta ao refinamento descrito nos esquemas dos escoceses era também um caminho da pobreza à prosperidade.

mas Diderot e Rousseau o achavam pior do que inútil — julgavam-no prejudicial. Smith é o bandido da história. Ao contrário. mediante a indústria e|a propriedade. os chefes índios alimentavamjse. e eles não podiam. como "domadores de paixões". As paixões e os interesses: argumentos políticos a favor do capitalismo antes de seu triunfo. que tanto Montesquieu quanto C. observou que. Na época em que Smith. Mas o grande texto básico da economia clássica. Ao contrário: o gosto pelo luxo. vestiam-se e habitavam pior do que um diarista inglês. Essa linha de argumentação. dava energia à economia. Isso fora descoberto por liberistas convictos como os Osiocratas. O penetrante estudo de Albert O.antigo e moderno As raízes do liberalismo 55 melhor do que "um rei africano.ibbon reconheciam. e seu lema perverso. Hirschman. portanto. apoiando uma ética do trabalho fundado no princípio do ideal cívico. num sentido. o médico de Madame de Pompadour. djisse Smith. Podemos ver que o lluminismo estava descobrindo ou inventando a economia. em última instância. A criação da economia clássica foi acompanhada por uma considerável mudança de valores. por exemplo. Locke. Vários autores na época partilhavam essa compreeulsão de que a força econômica significava novos e melhores padrões de vida mesmo para as massas! trabalhadoras. e assim fazendo criava uma riqueza muito difundida embora desigual. tirando proveito do crescente descrédito da idéia de glória marcial. Argumentavam que a própria busca de interesse pessoal levava à prosperidade geral e. embora os ricos procurassem satisfazer seus desejos infinitos por pura vaidade. Smith assinalou que. Contra esse humanismo moralista. o mercantilista sir James Steuart) de que o surto da sociedade comercial traria mais ordem política controlando paixões mais selvagens e turbulentas da espécie "feudal". não eram susceptíveis de: colapso como tinham sido os antigos impérios: as artes do comércio logravam êxito onde havia fracassado o gênio da guerra."' Pouco a pouco. de 1714. faz Smith sobressair proeminentemente. se dedicou à economia. simplesmente porque este pertencia a urna economia em que a produção da terra. era tão mais adiantada. senhor absoluto das vidas c liberdades de dez mil selvagens nus". Smith dedicou sua magnum opus ao líder flsiocrata François Quesnay (1694-1774). seus estômagos não eram maiores que os estômagos dos pobres. pois ele não partilhava da opinião de Montesquieu (também abraçada pelo principal economista escocês anterior a Smith. Mas os partidários da riqueza afirmavam algumas vezes que o bem-estar social não era tanto o resultado de qualquer virtude. pelo declínio de grandes impérios. Uma velha sabedoria histórica atribuía ao luxo a culpa pela debilitação e. embora controlassem grandes extensões de terra. sendo Roma o caso mais conspíeuo. Além disso. A defesa da opulência punha muitas vezes a magnânima laboriosidade de co- mcrrianles c artesãos diligentes no lugar da ética frugal da virtude cívica sustentada por moralistas como Rousseau. esfomear o resto. benefícios públicos". "vícios privados. através do seu consumo. Voltaire e Hume justificavam o luxo apoiando-se em motivos utilitários (porque produzia empregos). não era inteiramente original em sua análise e receita de mecanismos de mercado. como Rousseau sugerira em seu Discurso sobre a desigualdade. à harmonia social. Mas. quanto uma conseqüência não intencional de muitos atos egoístas. os interesses passaram à frente como um novo paradigma ético. Corrigindo Rousseau. por tolo que fosse. privada ou cívica. devia-se à produtividade muito mais elevada de sua divisão do trabalho. Smith . bem conhecida desde a obra de Bernard Mandeville Fable of Bees. foi retomada por Hume e Smith. um professor de filosofia moral em Glasgow. ocorria um debate entre os phüosophes a respeito do bom ou mau luxo. economias em expansão. mesmo das camadas mais baixas da "sociedade civilizada".54 O liberalismo . outros escritores afirmavam uma nova visão que legitimava a riqueza. A riqueza das nações (1776). O segredo da superioridade. A contribuição do próprio Smith consistia no seu exame cuidadoso da divisão do trabalho como (ator subjacente da prosperidade moderna.

A sociedade antiga." (Livro 3. E essa mudança de valores implicava o abandono da propensão elitista incorporada à saudade cívica. fora uma planta estéril. em algo que ultrapassa a atividade' que o produz. que haviam antes vivido numa condição quase contínua de guerra com seus vizinhos. incapaz de crescimento sustentado ou de uma liberdade duradoura. Smith. enquanto a produção passa por cima. ao mesmo tempo. Por que motivo? Porque enquanto o objetivo da poiesis reside no produto e. como vimos. foi colocada muito acima da poiesis. Na cosmovisão clássica da ideologia cívica. a praxis de políticos. juristas e soldados é redondamente depreciada. Smith foi o primeiro teórico social de importância a inverter essa valorização: em A riqueza das nações. Smith não deixa dúvida de que julgava que o quarto estágio na marcha da civilização. e com eles a liberdade c a segurança dos indivíduos.antigo e moderno As raízes do liberalismo 57 pensava que os impulsos não econômicos estavam atrelados à tarefa de alimentar "o desejo de melhorar sua condição" de cada homem. entre os habitantes do campo. Smith nunca esqueceu que o ardor de conquista das legiões romanas não fora resultado de opção. a praxis ou ação é um lim em si mesma. nas palavras de Smith). tais como os eleitos entorpecentes <le larelas simples na crescente divisão do trabalho (suas observações prenunciam a crítica da alienação. no mínimo. a praxis. e de dependência servil em relação aos seus superiores. uma vez que reduzia drasticamente o grau de dependência pessoal característico da maior parte das relações sociais na sociedade agrária. aos quais voltaremos na próxima seção. optou pela justiça acima da virtude. Smith apegou-se à idéia iluminisla de que o comércio era iun caminho aberto para a melhora. portanto. o próprio "interesse" tornou-se uma paixão tão ardente quanto a velha aspiração de glória. Quanto à liberdade."1' Deve-se tomar o cuidado de não sugerir de forma excessivamente sombria uma imagem faustiaua ou demoníaca da opinião de Smith quanto ao capitalismo emergente. a despeito de todo o requinte de sua flor — a democracia da cidade —. a motivação econômica deixa de ser um sustentáculo automático da estabilidade social.) Se Smith estava longe de apresentar um quadro otimista do capitalismo nascente na sua psicologia da economia. na formação do conceito de direitos. sociedade comercial. Foi fundamental no empreendimento analítico de Smith a elucidação do crescimento econômico. significava um aumento em independência. O comércio e a manufatura. por relações de clientela. Portanto. para Smith. que foi crucial. seguia a maior preocupação de outra tradição de discurso eme rivalizava com a do humanismo cívico: a tradição de jurisprudência do direito natural. Os ideólogos cívicos. proporcionam o modelo da atividade meritória. a ação de homens livres. Neste ponto. e não a prática da política ou a atividade guerreira. eram acima de tudo adoradores da virtude. no entanto. A despeito de Ioda a sua aguda consciência de algumas sérias "desvantagens do espírito comercial". cap. Como escreveu em A riqueza das nações: "O comércio e as manufaturas introduziram gradualmente a ordem c o bom governo. a produção ou trabalho manual. por Marx). A vaidade e o anseio de estima instigaram a maior parte da humanidade a buscar riquezas por meio de trabalho árduo ("the toü and bustle oj'this world". a.56 O liberalismo . e. um reino de virtude cívica sustentado pelo trabalho escravo ou. sua sociologia da economia defendia a superioridade do "espírito comercial". temos de salientar pelo menos dois aspectos: liberdade e justiça. Como Hume. 4. mas uma saída para o endividamento constante das sociedades agrárias que se apoiavam no trabalho escravo e foram forçadas a apreendei' a terra e o labor de seus vizinhos. Conforme declara abertamente . como nos outros casos ideológicos estudados por I-Iirscliman. Ao fazê-lo. Smith atribuiu pouca importância à saudade humanista de um mundo de cidadania de elite.

Smith introduziu a idéia do pròn gresso na defesa do liberisnío. Nao espanta que ele tenha sido uipaí crítico persistente do privilégio e da proteção. era bem menos injusto do que fora o seu predecessor agrário. O Iluminismo presenteou o liberalismo com o tema do progresso. o liberalismo podia restringir-se aos dois últimos. mas não. devido à difusão geral da prosperidade. Faz muitos anos. num estudo que deu o que pensar. salvacionista a pri. foram muito atingidos pelos porta-vozes da virtude cívica. o Iluminismo escocês acrescentou à teoria de direitos de Locke e à crítica do despotismo por Montesquieu uma poderosa estrutura: uma nova explicação da história ocidental. ordem e harmonia. creio eu.ori. uma vez que a sociedade comercial leva da pobreza à prosperidade. Entre Hume e Smith. Pois todos os seus membros pelo menos podiam gozar de igual acesso aos meios de subsistência. principalmente teorizado pela economia clássica. [Verdadeiro iluminista."" C) "espírito liberal" tende com freqüência para o feio pecado estigmatizado por Michael Oakeshott como comlriüivisnío racionalístico. Uma investigação sobre a natureza e causas da riqueza das nações. levar a um ponto máximo a riqueza da sociedade e aj udar a distribuí-la de forma mais ampla. o equilíbrio entre direitos| e necessidades — poderia caber àquilo que ele chamou "o sisten de liberdade natural" e a sua evolução espontânea em direção prosperidade e ao bem-estar. Um é uma rejeição libertária de tradições informativas. de fato. moderna. I Progresso e liberisnío Os temas de progresso e liberismo. Kenneth Minogue distinguiu "dois liberalismos". sem necessidade seja de conquista seja da sombria perspectiva de declínio. além de ser uma doutrina política. O progresso era sem dúvida uma crença iluminista. identificada com a crença no progresso. Seu significado consistia no progresso mediante o comércio que prosperava na liberdade — na liberdade civil. modernidade. ou planejamento social em grande escala de uma espécie abstrata. o privilégio e a proteção não. Contudo. Politicamente. mas será que era também uma crença liberal? O grupo ideológico de direitos/constitucionalismo/progresso/liberismo sugere que sim. foram substanciais acréscimos aos dois elementos formativos do credo liberal.J Promotor do pensamento liberal. em grande parte.58 O liberalismo . Este tende a ser uma busca intolerante de eficácia. tudo menos libertária. mas é difícil distinguir o outro do utopismo autoritário ou do despotismo das receitas progressistas.antigo e moderno As raízes do liberalismo 59 no título inteiro do seu grande livro. perto de sua caricatura neoconservadora. Más tornaram-se alvos naturais do liberalismo enquanto a voz da. individual. a responsabilif dade pela justiça dislribuiiva — ou seja. não virtuoso em sua moral. alguns críticos argumentaram que a ideologia do progresso era. ele estava fundando a teoria do desenvolvimento. Juntamente consideradas. embora certamente desigual no que diz respeito à estrutura da sociedade e. Adam Sniilh conferiu ao tema do progresse sua profundidade socioeconômicã.~9 O difundido reformismo do Iluminismo chegou perto de um liberalismo empreendedor. tão proeminentes em Smith. as passagens tão famosas sobre a "mão invisível" na Teoria dos sentimentos morais (1759) de Smith e em A riqueza das nações significam uma percepção de que o indivíduo que procura os seus próprios interesses pode não intencionalmente^ a um tempo. o mesmo estágio mais elevado de civilização. era também uma cosmovisão. pelo menos em perspectiva histórica. Como pilares eh-i cadeados da sociedade pré-moderna. Mas o liberalismo. direitos e constitucionalismo. The Liberal Mind.justiça — em termos de uma nova espécie de economia políticaj — a teoria do crescimento — e em mostrar que. Pois uma abordagem histórica mostra que a verdadeira experiência das reformas esclarecidas tinha um sabor . Mas uma das principais coisas que ele comprova é que. A realização de Smith consistiu em enfrentar com êxito o problema do direito natural j.

A imaginação romântica só podia florescer dentro de um profundo respeito pelas fantasias pessoais. a humanização das [práticas penais por Beccaria. Comprcensivelmente. a não Ser pelos interesses obviamente prejudicados no processo. Em contraste. A lula do Voltairo contra a torturai e a censura.''1 . Á verdadeira materialização histórica — e histérica — do salvacionismo autoritário não foi o reformismo esclarecido. por isso o romantismo era liberalismo em literatura. Politicamente falando. os fanáticos jacobinos eram mais próximos do discurso da virtude do humanismo cívico do que do hedonismo O muito pouco virtuoso dos que. O que fez com que o liberalismo e o romantismo se misturassem? Um estudo recente de Nancy Rosenblum prontamente respondeu que foi a experiência e a apreciação do individualismo moderno. Ele pouco se importava com a virtude. mas como avanços na verdade libertadores. a abolição da servidão na Áustria de José não foram vistas cedio medidas despóticas. a eliminação de privilégios de castas e guildas. era (ilosoficamentc um seguidor de Hume. Pois o próprio Hugo liderou a transformação do romantismo francês de monarquismo a liberalismo de vanguarda. a maior parle de seus resultados ajudou a aumentar a liberdade e a igualdade. Via de regra. de Goya a Beethoven. Condorcet (1743-1794). Romantism. o que causou uma reação contra o Iluminismo não foi nem progresso nem reforma. mesmo quando era ilíberal. Victor Hugo acertou mais quando declarou que o romantismo era o liberalismo em literatura. Beethoven e Stendhal não foram românticos. A mesma feliz combinação de Iluminismo e liberalismo pode ser encontrada na mais pura arte da época. de um ponto de vista europeu. era certamente um autocrata. mais se valoriza o chão comum que pisavam o Iluminismo e o liberalismo. Na França. a escola romântica nasceu atada à política Ugilimisle ou de Restauração. Igualmente o liberalismo sustentava que o domínio pessoal era algo de inestimável em si mesmo e não apenas um meio para outro objetivo. Sc o ousado reformismo dos déspotas esclarecidos não era libertário em sua intenção. Quanto mais se mede a distância que separa o Iluminismo do jacobinismo. mas todos constituíram forças principais na cunhagem do romantismo. e em sua política tentou realçar dois elementos — conhecimento e consentimento — que eram inteiramente estranhos ao volunlarismo. alguns dos liberais mais avançados como Constant estavam plenos da herança iluminista. Os dois movimentos coincidiam no fato de que ambos acalentavam a intimidade. seriamente tentada (e que falhou em grande parte).60 O liberalismo . mas o voluntarismo jacobino: a teimosa tirania da virtude administrada por Robespierre e Saint-Just. O imperador José II da Áustria. na sua desconsideração do decoro clássico e na sua subversão de regras clássicas. como Hume e Smith. a liberalização do comércio. judeus e o homem do povo.antigo e moderno As raízes do liberalismo 61 distintamente libertário. jacobino. a retirada de apoio estatal à perseguição ou discriminação religiosa. na Restauração e na França de Orléans (1815-1848). o pregador quintessencial do progresso. Condorcet pode ser considerado o próprio oposto de Robespierre. mas sua revolução pelo alto (embora de nenhuma forma liberal em seus métodos). legitimavam costumes mercantis. Contudo.o Goya. O grande crítico Sainte-Bcuve escreveu que o romantismo é o monarquismo em política. A antítese que punha cm contraste os seus republicanismos simbolizava o abismo entre o jacobinismo e a principal corrente do Iluminismo. continha uma perspectiva genuína de emancipação para camponeses e protestantes.30 Ideologicamente. inquieto e pronto a sacrificai-se. na forma de violência jacobina. o Iluminismo terminava por desbravar terreno para instituições mais! livres e (no conjunto) uma sociedade menos desigual. mas revolução.

o catastrofismo evangélico era mais difundido entre os rendeiros fundamentalistas protestantes do que entre os primeiros industriais. na qual não se podia desentranhar o pecado do destino. benevolência e melancolia. embora mantivesse seu a|>r(. e os crentes evangélicos eram todos liberistas. uma vez que encaravam o mercado como arma potencial contra o pecado. as classes médias inglesas estavam reinterpretando o protestantismo de uma maneira que era antes sentimental do que calvinista. o fundador do metodismo.*~ Campbell começa por dizer que a história literária tinha por muito tempo mostrado que. o protestantismo evangélico proclamou uma época de expiação. Instalou-se o sentimentalismo. portanto. a Época da Expiação começou a retroceder. antes que isso ocorresse. fundado por Wesley. Também veio de uma forma mais escura. Wesley realçou a paixão e a profecia. parte do reconhecimento de que o protestantismo foi humanizado (e modernizado) pelo misticismo — um processo que moldou a cultura moderna tanto quanto a racionalização do mundo acarretada pelo capitalismo ascético. Somente na segunda metade do século XIX.antigo e moderno As raízes do liberalismo 63 Não espanta.62 O liberalismo . Como observa o seu qualificado estudioso. chocou si.'<> â I V . mas havia lugar no liberalismo para ambas as coisas. O protestantismo evangélico. com o surto de uma mentalidade melhorista. Km oposição a essas alegres perspectivas. ela havia tornado romântico o . de 1987. que eram muitas vezes de ânimo mais secular e tendiam a esposar a economia ricardiana no lugar do sentimento trágico da vida inspirado pelo drama do pecado e da salvação. transformando o drama da conversão pessoal num protótipo da experiência romântica. Contrariamente ao ascetismo austero do espírito puritano.) As origens românticas ou pioto-românticas do individualismo moderno foram convincentemente descobertas pelo livro de Colin Campbell. que um moralista liberal importante como John Stuart Mill fosse buscar a origem de sua preocupação com a individualidade espontânea em raízes românticas. seja de uma aparência expressivisla (seu lado romântico). o credo evangélico. cada uma dessas imagens. ditada pelo hedonismo moderno. A teoria da ética romântica. A ética do trabalho construiu a economia e a tecnologia modernas. a bancarrota passou a ser interpretada como um sinal de punição. arminiano. a racionalista-utilitarista e a expressivista-romântica. o pregador da religiosidade interna. The Romanlic Etlik and Üic Spirit. corresponde a uma escola "nacional" do pensamento liberal. que logo seria reforçado pelo movimento evangélico. chegou ao final do século XV1I1 com um ânimo mais sombrio. Boyd Hilton. (Na verdade. A Natural Tlieology (1802) de Paley foi o ponto mais alto que o otimismo religioso da época atingiu. lão importante na scculai i/ação da posição de Locke a favor da tolerância. Enquanto o liberalismo utilitarista pertence ao conceito inglês de liberdade como independência social. uma visão do erro redimido por vicissitudes apocalípticas. Pouco mais tarde. ligada a uma visão um tanto severa da economia. tornou-se um admirador de Rousseau. Tipicamente. o liberalismo de expressão relembra o conceito germânico de liberdade como aulolclia psicológica <• cultural. O individualismo podia revestir-se seja de uma máscara de cálculo (Bentham). A fase romântica do individualismo não se limitou a doces hedonismos e a devaneios. essa nova devoção viu o prazer como um companheiro natural da virtude e alimentou sentimentos de simpatia. of Modem Covsw>ifirism. Mas.cm vr/ de apegar se ao ritual. num espírito otimista. portanto. um opositor da doutrina calvinista da predestinação. era um arminiano — isto é. ' Na medida em que o evangelismo protestante maduro era um romantismo religioso. mas a ética romântica faz com que concordem por força de uma demanda perpétua. por volta de meados do século XVIII.min o deísmo do teólogo William 1'aley. Nessas sinistras circunstâncias. sua singular justificação teológica do liberismo proporcionou ao liberalismo mais de um poderoso laço com a cultura romântica. John Wesley (1703-1791). protéica.

ela contribuiu de forma significativa para que se alçasse a uma cultura liberal. com graus diferentes de ênfase. tomados em conjunto. e o constitucionalismo. esses elementos seriam incorporados. tais como o conceito de direitos individuais. E porque tal romantização era um impulso fortemente individualista. 3 Liberalismo clássico. No nível do pensamento político propriamente dito. 28 de abril de 1778 Seguindo a pista de elementos chaves no credo liberal. Os liberais clássicos. Em primeiro lugar.64 O liberalismo . chegamos a uma representação bastante abrangente do prololibcralismo — um conjunto ideológico de valores e instituições que historicamente desbravou o caminho para a ordem social-libcral inteiramente desenvolvida que se tornou a forma avançada de governo no Ocidente no século XIX.antigo e moderno espírito de parte substancial das classes médias vitorianas. introduziram e desenvolveram dois outros temas no pensamento 65 . Em segundo lugar. fundiram traços liberais numa advocacia coerente da ordem social-Iiberal secular que estava então tomando forma nos governos representativos da época." — Do Doutor Johnson a James Boswcll. nos escritos dos principais pensadores clássicos liberais — de Locke e Montesquieu aos federalistas americanos. o governo da lei. deram duas contribuições decisivas ao desenvolvimento do pensamento liberal. e de Benjamin Constant a Tocqueville e John Stuart Mill. 1780-1860 "Senhor. o primeiro whig foi o diabo.

toda autoridade era de natureza paternal. Para Locke. (N. atuando como um autocrata.) . 1780-1860 67 . absolutismo. seu "teimoso grupo de santos errantes" eslava destinado a "provar sua doutrina ortodoxa. I e os fanáticos religiosos. um erudito profundamente envolvido com a oposição xiilúg por meio da associação de toda a sua vida com o primeiro conde de Shafslebiu y.antigo e moderno j Liberalismo clássico. szr Robert Filmcr. Os intelectuais cívicos voltaram a dar vida à idéia aristotélica de que a cidade é natural — o que quer dizer que os homens são naturalmente animais sociais. nas circunstâncias da Inglaterra de 1640. por meio de golpes e pancadas apostólicos".O liberalismo . esses temas essenciaijs constil. da ascensão ao trono do duque de York. naqueles dias de predomínio masculino não questionado. também. significava natureza paterna. Em 1680 foi impresso um tratado escrito muito antes por um contemporâneo de Hobbes. Num nível social mais baixo. viesse a usar o Estado não como um árbitro mas como uma monocracia — uma concentração de poder político e ideológico. Seu título era cristalino: Patriarca: uma defesa do poder natural dos reis contra a liberdade inalural do povo. Os puritanos. leva uma espada e um báculo: maneja tanto o poder espiritual quanto o temporal. Locke: direitos. mas também contra intromissões de constrangimento social. Os intelectuais acadêmicos ensinavam aos magnatas do reino modelos antigos de liberdade cívica. consentimentos e confiança \ O De Cive de Hobbes divide-se em três partes. na pessoa de Jaime II. Hobbes deduziu que o princípio da ordem política não podia decorrer seja da natureza seja da Graça. o qtie. Na mocidade de Locke. tornaram sua fé um motivo de subversão e regi oídio. eram whigs aqueles que resistiam às políticas da coroa. cada uma das quais nomeada segundo um conceito chave no cenário ideológico em qiie se desenvolveu o liberalismo: libertas. Filmer afirmou que a sociedade não passava de uma família ampliada. por um lado.uírain uma defesa do iiidivíduo não apenas contra o goverhó opressivo. no enlanlo. O objetivo de Hobbes consistia em definir as relações entre poder estalai (potestas). Como o bispo Samuel Butler disse em seu Hudibras. lihntarian). Vendo tudo isso. potestas ameaçava recorrer à religio para esmagar libertas. esta analogia entre autoridade política e paterna era completamente falsa. polcstas c religio. sentiram que os ameaçava outro problema. por volta de 1680. Já a libertas não se encontrava protegida pela potestas. Eram tones os partidários do rei. pelo Parlamento. já que tem de refrear a um só tempo uma aristocracia guerreira e as seitas carismáticas. A luta contra a autocracia Stuart tornou-se crítica por causa da crise da Exclusão. "rei de todos os filhos do orgulho". e liberdade (autonomia como independência) e religião (poder ideológico). Portanto.) Iniciou-se nesse momento a brecha entre tones e whigs. o soberano gigante. liberal: democracia e libertariánismo. com a técnica da lei e de uni contrato social possibilitando ao Estado humilhar os grandes cio reino. ou seja. por outro. potestas devia controlar a farisaica religio. No frontispício do Levialã. o resultado foi pura desordem. pessoa q u e suslenla a idéia da l i b e r d a d e de v o n l a d e . e evitar que a sociedade tombasse no caos. (:H) I JluTlai ianistno: IViix ípio ou d o u l i i n a do liberlãrio (cru inglês. (Estava em jogo a possível exclusão. bem afastado o risco de uma guerra civil.2 Os sucessores protoliberais de Hobbes mantiveram seu princípio teórico — contratualismo —. ao contrário. os "santos" puritanos disseminaram o direito de dogmatizar em nome de uma inspiração divina. Hobbes distinguiu duas causas ideológicas da guerra civil inglesa. Para proteger libertas.1 Tinha de ser uma arte. Mas. mas abandonaram sua receita política. Era isso que significavam as inclinações católicas da sucessão Stuart. do T. O que agora preocupava os amigos da liberdade era que o rei.* Juntos. rebeldes. que cinco anos mais tarde se tornaria Jaime II.

ou de pessoas vencidas que prometiam servir desde que lhes fossem poupadas as vidas. fosse num compromisso entre indivíduos jurando obediência em troca de paz.) poder paternal resulta do nascimento.68 O liberalismo . eles foram os primeiros liberais na história moderna.antigo e moderno Liberalismo clássico. O De Cive de Hobbes não fez distinção entre o soberano e o senhor. e existia proeminentemente para a proteção das liberdades naturais dos cidadãos. uma teoria do consentimento e uma teoria da confiança. a filosofia política de Locke foi a primeira altamente influente que objetivou o estabelecimento das condições de liberdade. Ora. Pois. Tanto os liberais como os marxistas passaram a contar um típico conto whig no qual a liberdade era impulsionada pelos ventos da história.3 Os Dois tratados desenvolveram. cap. livro 2. no fundo. O capítulo 15 do Segundo /. A teoria do consentimento respondia pela legitimidade do governo (e comparava o absolutismo à guerra social). Uma espécie de idioma antiabsolutista. consistiu em sua teologia dos direitos naturais. verdadeiramente seminal tipo de telos.de escravos. porque ambos os tipos de poder apoiavam-se. enquanto os pensadores antigos e medievais escreveram com um objetivo platônico de idealizar uma boa sociedade.ocke. do liberalismo dos direitos naturais à democracia utilitária. Também inauguraram um novo. ou fim. dissera que o poder sobre o povo pode provir de Ires fontes: nascimento. pois o poder político brota inteiramente do consentimento. endossada por Grotius (em De iure belli ae paris. 4 Hartz entendeu que os pais fundadores americanos eram fervorosos seguidores de Locke. daí ser a escravatura uma punição por agressão injusta. (. como Norberlo liobbio sagazmente observou. o obscurecimento da distinção entre poder político e dominação despótica era coisa da lavra de Hobbes. era um dom de Deus ao homem. ambas ajudadas por modernos conceitos de direitos. Nenhuma das duas teorias jamais foi abandonada pelas tradições liberais subseqüentes. Essa visão tradicional foi formulada pelo inglês Harold Laski c pelo americano Louis Hartz. 1780-1860 69 Locke devotou o primeiro de seus Dois tratados sobre o governo a uma rematada refinação da tese patriarcal. Com que se parece o poder "civil" (isto é. num compromisso. provém alegadamente da conquista em guerras justas. político). consentimento e crime. Mas a teoria dos direitos em linguagem do direito natural não foi a única espécie de discurso que os whigs praticaram. . o poder despótico. inimigos do absolutismo e defensores da tolerância. mento recíproco. Também ela deixou uma profunda marca no liberalismo clássico. O poder monárquico era mais necessário do que natural. em teoria política. igualado com o domínio sobre escravos. e enquanto Hobbes se preocupava com a conquista da ordem. enquanto a singularidade do patriarcalismo de Filmer era a fusão falaz de poder político e poder paternal. O pensamento político anglo-saxão entre a Revolução Gloriosa c a publicação da constituição americana já foi encarado como um caminho direto de Locke a Bentham . 5). Para l.isto é. A teoria da confiança mostrava como os governantes e súditos deviam compreender o seu relaciona-.ralado separa enfaticamente "poder civil" dos dois outros tipos de domínio: poder paternal e poder despótico. com o tipo paternal ou com o tipo despótico? Foi adamantina a resposta de Locke: com nenhum dos dois. Uma velha tipologia. a liberdade do povo era bem "natural" — na realidade. foi a ideologia do humanismo cívico ou republicanismo clássico. a um tempo. de confiança e consentimento. apesar de sua diversidade. diverso e vastamente apreciado. sublinharam a natureza progressiva da sociedade comercial e das instituições parlamentares. De Locke a Madison: humanismo cívico e republicanismo moderno O fundamento das teorias de Locke.

cheia de dúvidas q u a n t o à ascensão do capitalismo. favoreceu a inovação política. ( O p r ó p r i o H a r r i n g t o n n u n c a acreditou no mito da antiga constituição. t i n h a m de acabar. A república ou se tornaria heróica o u pereceria. Maquiavel foi o p r i m e i r o a voltar-se ous a d a m e n t e para a história. 5 Pocock c o m p r e e n d e u q u e Locke era u m teorista d o c o n s e n t i m e n t o d e m a s i a d o radical p a r a ser o p e n s a d o r oficial da Revolução Gloriosa. O "partido do c a m p o " republicano. eles c o n c o r d a v a m c o m os republicanos da p e q u e n a n o b r e z a puritana: os n e o . de o u t r a forma. e suspeitava q u e a p r o p r i e d a d e comercial acarretava d e p e n d ê n c i a . Mesmo em Florença as opiniões rivais de Guicciardini. criou t o d a u m a escola n a história d o p r i m e i r o p e n s a m e n t o político moderno. A p e q u e n a nobreza republicana. p r o c u r a v a m ainda u m a constituição imutável. D u r a n t e o i n t e r r e g n o p u r i t a n o . E central na análise de Pocock a idéia de q u e o m o m e n t o crítico maquiavélico i n a u g u r o u um "novo p a r a d i g m a " na conceiujalização de política. da Universidade J o h n e virtú. m u i t o s n e o h a r r i n g t o n i a n o s imaginavam q u e houvera no passado u m a "antig a constituição". Pocock a r g u m e n t o u q u e essa ideologia do p a r t i d o do c a m p o sobreviveu até tardios r e p u b l i c a n o s e radicais do século XVIII.h a r r i n g t o n i a n o s opuseram-se a um exército p e r m a n e n t e . H a r r i n g t o n queria prosseguir (contra Cromwell) com milícias da p e q u e n a nobreza (uma idéia favorita no p e n s a m e n t o de Maquiavel). a p r i m e i r a ideologia a m e r i c a n a foi h u m a n i s t a r e p u b l i c a n a na esteira da a p r o p r i a ç ã o inglesa dos t e m a s maquiavélicos. D u r a n t e a R e s t a u r a ç ã o Stuart. Iniciando-sc c o m o " p a r t i d o do c a m p o " dirigido p o r Bolingbroke (1678-1757). Os velhos valores da m o n a r q u i a universal. 1780-1860 77 Mas recentemente John Pocock. d e r r o t a d o na sucessão da rainha A n a p o r whigs hanoverianos. O principal livro de Pocock. e n ã o dela se afastar. c o m o s o n h a d o s p o r Dante. Para Pocock essa ética cívica um t a n t o tensa p e r m e o u toda a tradição atlântica de discurso. Longe de ser individualista e capitalista. for/una . Observou q u e T h o m a s Paine iniciou seu Os direitos do homem (17í) I) d e n u n c i a n d o o crédito. aquele pesadelo dos humanistas cívicos. o elitista. Pocock descobriu u m a peq u e n a nobreza angustiada. N a d a m e n o s p o d i a salvar Florença da d u p l a a m e a ç a de conquistas estrangeiras e do despotismo dos Mediei. o populista. afirmou. já Velho ivhig p o r volta de 1680. muito conhecedora de Cícero. criticaram a c o r r u p ç ã o ministerial. a visão ocidental de política girara em t o r n o de valores intemporais. e Giannotti. T a m b é m questionou a representação lockiana do republicanismo da I n d e p e n d ê n c i a . Eles injuriaram o c o m p a d r i o g o v e r n a m e n t a l c a c o r r u p ç ã o ministerial. equilibrada. e mais tarde resistiram às duas principais "instituições comerciais" q u e haviam sido criadas na virada do século. Swiíi e P o p e ) . p r o p ô s u m a magistral revisão desse e n t e n d i m e n t o .s e c o m o futuro dos p r o p r i e t á r i o s indep e n d e n t e s . aquelas bocas r e p u b l i c a n a s estavam repletas de ideais de autojg o v e r n o virtuoso.) Mas. tornou-se tory q u a n d o Bolingbroke. J a m e s H a r r i n g t o n com e ç a r a a p r e o c u p a r . Sua refinada cidadania apegou-se ao h u m a n i s m o cívico c o m o um refúgio contra o comércio e a c o r r u p ç ã o . a p e q u e n a n o b r e z a cujo slatus crescera c o m o fim do feudalismo. Consciente do imprevisível inter-relacionamento da fortuna e da coragem.ory no r e i n a d o da rainha A n a (que mais (arde orientou a oposição a Walpole e acolheu os n o m e s e m i n e n t e s di literatura clássica. E H o p k i n s . Plulareo o Políbio. u m dique d e o r d e m c o n t r a o m a r da história. u m passado gótico d e l i b e r d a d e p o v o a d o p o r guerreiros proprietários d e terras.70 O liberalismo .antigo e moderno Liberalismo clássico. a voz republicana rio p u r i t a n i s m o inglês. Calava fluentemente um vocabulário cívico de l i b e r d a d e e cidadania. saiu do p o d e r c o m o antagonista cie R o b e r t Walpole. Seus evangelhos c o m o textos m o d e r n o s foram os Discursos sobre Tüo •Lívio de Maquiavel (obra p ó s t u m a . Antes de Maquiavel. o B a n c o da I n g l a t e r r a e a dívida n a c i o n a l . o líder l. The Machiavellian Moment (1975). 1531) c o livro O cearia de H a r r i n g t o n (1650). O paradigrna maquiavélico atribuiu primazia ao tempo.

sua jovem América nasceu "com pavor da modernidade".antigo e moderno Liberalismo clássico. Keith Thomas. gozavam de liberdade para celebrar um contrato social. feridas pela afirmação britânica de poder imperial. os whigs modernos da época de Walpole adotaram quietamente essa lovy e veterana exoneração da antiga constituição — e lançaram ao mar a ética cívica. como o fizera no continente. Nesse meio tempo. que a argumentação republicana do The Federalisl funda-se numa psicologia realista que compreende os impulsos políticos de pessoas e não . Num sentido. as boas maneiras à virtude "primitiva". Em oposição ab comercialismo georgiano. estabelecendo-se na América. o professor Pocock mudou de foco. Pocock reconheceu explicitamente que o populismo lockiano. comoJo. foi adotado pelos insurretos americanos nas décadas de I 7G0 e 1770. antes ida Revolução Gloriosa. respondeu que. esse Iluminismo conservador tentou defender a administração hanoveriana dos ataques das contra-elites. portanto. Gibbon e Smith como suas figuras centrais. mas não sobre suas capacidades legislativas (ou seja. por contraste. Daniel Defoe (famoso por causa do Rohinson Crvsoe) trocou a milícia cívica pelo culto das maneiras. desembaraçado das liberdades ancestrais. Como David Epstein demonstrou em The Polüical Theory of "The Federalisl" (1984). taxação). afirmou que o republicanismo clássico. dificilmente um léxico humanistarepublicano. pois insistia na ordem política c paz social sob a inteira proteção do poder soberano.seph Addison. comercial) e cujo espantalho era o privilégio político e social — o monopólio da pequena nobreza.72 O liberalismo . Epstein penou para mostrar que eles haviam proposto uma forma de governo "estritamente republicana" ou "inteiramente popular". retornaram a um discurso lockiano. os colonos ingleses haviam ingressado no estado da natureza e. que a república americana. pouco tinha a oferecer à baixa classe média urbana cuja propriedade era reduzida e móvel (isto é.7 Em sua obra mais recente. contornado na Inglaterra em 1688. os autores de The Federalisi Papers (James Madison. com sua ênfase nas elites agrárias e seu estado de espírito nostálgico. Jefferson recorreu a uma linguagem de direito natural e à tese da antiga constituição para asseverar que. Os velhos w/iigs. em tamanho e sistema. uma das leituras favoritas de Adam Smil. as questões centrais em argumentação política haviam sido soberania. passou a aplicar seus notáveis poderes analíticos ao "whiguismo" 8 moderno. De forma não surpreendente. o que implicava que o poder monárquico podia crescer. 1780-1860 73 Pocock interpretou o antifederalismo e antigoverno forte de Jefferson e Madison como ujma nova versão da doutrina do partido do campo. Kramnick insistiu em que. e os iluministas escoceses completaram isso edificando sua explicação por estágios da evolução humana. a despeito de todo o seu ataque à corrupção. obrigação e o direito de resistência — um léxico hobbesiano e lockiano. tanto religiosas como radicais-republicanas. Mas sua ideologia era uma espécie definitivamente liberal-modernizadora. O perito de Oxford em assuntos do século XVII. mim passo inteligente. Pocock retratou um "Iluminismo conservador inglês". Alexander Hamilton e John Jay) enquadraram-se muito na tradição do populismo lockiano. as colônias americanas. haviam inventado o mito da antiga constituição. tinha alicerces hobbesianos. em brilhante conferência na Escola de Economia e de Ciência Política de Londres. Em 1988. Não faltaram críticas à tese de Pocock. Responderam os lories da Restauração que nunca houvera tal coisa. Escrevinliadores -whigs modernos. 9 Com Hume. os radiciais como Paine deviam mais a Locke do que à ideologia cívica. um dos principais críticos de Pocock nos anos 1980. não podia deixar de ser muito diferente de uma antiga democracia (do que decorreram os tiros de tocaia do The Vederalisl no anliquarianismo de Rousseau). Em vez de investigar a sobrevíy^icia do republicanismo clássico. essas camadas mais baixas apoiaram radicais igualitários como Wilkes e Paine.h. opuseram a educação. Agora. 6 Isaac Kramnick. a autoridade britânica prevalecia sobre suas capacidades federativas. podemos relembrar.

nestes últimos anos. e que. é claro. 1 1 . A mesma preocupação reapareceu na crítica de Benjamin Constant a Rousseau: não basta transferir o poder — impõe-se também claramente delimitá-lo. havia bastante lugar no liberalismo clás-. Como escreveu Madison. mas os republicanos federalistas apegaram-se ao governo representativo.antigo e moderno Liberalismo clássico. O tema constitucional flui de Montesquieu a Madison. parece que assistimos à vingança de Locke das interpretações que o deslocaram do cânone dos primórdios do republicanismo americano. No caso americano (o único exemplo maior da implementação republicana na época).10 Equipa. Delimitar o poder era. 1780-1860 75 apenas seus impulsos econômicos. "inclui-se uma maior variedade de partes e interesses". sico para elementos da ideologia cívica. Compreenderam que uma república grande e heterogênea diminuiria a necessidade de virtude cívica enfraquecendo as "facções" no interior de um vasto conjunto nacional. Queriam empregar a liberdade política para proteger e fortalecer a autonomia civil largamente. Hamilton aprofundava a apreensão psicológica do liberalismo e Madison tratava de inventar uma maquinaria republicana que se adaptava à moral múltipla de uma sociedade comercial. "aumentando a esfera". um novo elemento conceituai mostrou-se não menos importante: a preocupação constitucionalista. como diz Thomas Pangle. num ousado abandono tanto da tradição protestante quanto da tradição clássica. mesmo que numa sociedade comercial a virtude pudesse constituir no máximo "apenas um gracioso acessório da riqueza". Tal preocupação ultrapassava a velha idéia polibiana de equilíbrio social rcllelido na constituição (com a aristocracia representada no Senado e o povo nos comícios) e seguiu o conselho de Montesquieu de separar e equilibrar os poderes ou ramos da autoridade soberana.74 O liberalismo . Em The Federalisl emergiu a preocupação com um novo perigo: o poder majoritário desenfreado. Jefferson permaneceu escravo da democracia local direta. Em outras palavras. Mas no caso de Montesquieu (como no de Locke) o espectro que assombrava a liberdade ainda era o despotismo latente do poder monárquico. a renovação americana do ideal republicano significava uma obrigação sem precedentes de assegurar liberdade privada e econômica. Mas Hamilton e Madison tinham consciência de eme essa solução federal significava despedir-se do republicanismo clássico.ido governo popular com uma ampla república federal. Além disso. o The Jrderalisl Papers tentou lidar com a tarefa de equilibrar interesses e facções. as "sociedades civilizadas" não podiam evitar uma grande porção de diversidade e. " Em termos políticos. o fundamento lógico do jogo de Locke de confiança e consentimento. tinham de resolver o problema de garantir o bem de cada parte — 'Cr. Mas esse abandono nutria-se na igualação sutil de Locke do Deus bíblico com a lei racional da natureza. justiça. Hamilton contava com uma paixão específica — o amor ao poder e à fama — para atrair os ricos e virtuosos à vida pública. em conseqüência. para não falar em crenças em direitos naturais que partiam de Locke e Paine. . tornando assim menos provável uma usurpação majoritária dos direitos dos outros. preocupavam-se em recorrer ao conceito "francês" de liberdade como um meio de fomentar a experiência da liberdade "inglesa". como também p a r | princípios liberalistas-progressivistas de origem iluminística. Enquanto Jefferson sonhava com a virtude agrária no interior de uma autarquia na Arcádia de Rousseau. E. Assim. liberdade e justiça. A busca da felicidade e a proteção da propriedade eram os motivos lockianos que figuravam no centro da visão moral do republicanismo moderno. enquanto a antiga democracia em pequenas repúblicas passou por cima do problema da justiça em favor do bem comum.

e basicamente estavam inocentes de progressivismo. Km segundo. a liderança liberal escorregou gradualmente das mãos de aristocratas como Russell e Palmerston. havia o governo responsável — a saber. a mudança de tuhigs para liberais estava vinculada a uma mudança na direção da democracia. Por último na ordem. era estranha ao código de valores dos republicanos "cívicos" harringtonianos. com a conseqüente rejeição de visões "orgânicas" da sociedade. ele estipulou que todos os postos seriam eletivos. Durante a década de 1830. uma. mas não em importância. tão singular no conjunto da Europa. Em quarto lugar.76 O liberalismo . contemplou uma economia liberista. Nem foram a segunda e a quarta dessas posições sustentadas por republicanos cívicos. pelo pelo menos. os whigs nesse sentido governaram a Inglaterra de Walpole ao mais velho Pitt. eram apenas individualistas pela metade. os whigs voltaram ao poder. o latitudinarismo moral. alargando a franquia em favor das classes médias superiores. Foi corretamente que se percebeu que a federação americana era a forma mais livi e já assumida por um Estado whig c. Impelidos para a oposição no longo reinado cie Jorge III. governo responsável — logo tornou-se um princípio partilhado e foi a bandeira dos lorins de Holingbroke depois de 1714. em 1832. Depois de lutarem com êxito contra cjs Stuarts.antigo e moderno Liberalismo clássico. Foi nessa época que se entrou a chamar os whigs de "liberais". Mas algumas outras conotações estão contidas na substituição do rótulo liberal pelo rótulo whig. a mudança do tipo de Palmerston para o tipo de Gladstone significava uma mudança de despreocupação do lluminismo (tingida de descrença) pela alta seriedade da virtude vitoriana. relutância em aceitar que há uma melhor maneira de viver ou uni bem comum suscetível de definição por qualquer monismo ético. figurava o individualismo. o uniíicador e principal libertador no sul c'Io Hemisfério. Mas no contexto inglês da Revolução Gloriosa. Em terceiro. que provinha realmente do torismo liberista "herético" de Peel. diferentemente de Locke. em terinos dinásticos. figurava um apelo iluminista em favor do progresso e do liberismo (ou uma preferência pelo liberismo justificada pela crença no progresso). Grcy c Melbournc. O liberalismo tornou-se em grande parte uma espécie de . j Aquela altura já havia um elenco reconhecível cie posições whigs. exatamente como lóia um programa whig contra a coroa Stuarl. inclinando-se antes a contemplar a história como uma promessa ominosa de decadência moral e de declínio político. crescim<|•nto c transformação do wliiguismo: como o ancestral histórico do liberalismo. como lal. linha. Vimos que o partidaris-! mo whig nasceu da afirmação de direitos contra o poder monárquico e quico e linha. menos. aquele que se podia chamar a prestar contas. já que as velhas batalhas whigs em favor da liberdade de religião e do governo constitucional haviam sido largamente vencidas. e foi assumida por um arquiburguês. a terceira posição whig — a saber. conseguiram retornar brevemente ao comando em 1806. dirigidos pelo adiantado liberal Charles James Fox (1749-1806). Em primeiro lugar. A primeira posição whig. dirigidos por dois lordes. A despeito da escala modesta da reforma eleitoral. Adotaram a primeira I . William Gladstone (1809-1898). No nível da elite política. sob os dois primeiros Jorges (1714-1760). Fomentaram o comercialismo e a exparsão e consolidação do primeiro Império britânico. a um tempo atraiu e rcpugnou o conservador Si mel )n Bolívar (1783-1830). o grande opositor parlamentar do jovem Pitt. c dois objetivos: liberdade religiosa je governo constitucional. figurava um latitudinarismo moral. Este é um bom ponlo em nossa história para dar unia vista de: olhos no nascimento. Taijnbém acenou com um substantivo potencial democrático no interior de instituições liberais. ou. 1780-1860 77 Whigs e radicais: o nascimento da idéia liberal democrática O republicanismo liberal na América dos pais fundadores ampliou a idéia lockiana do Estado sob o aspecto de que.ei da Reforma (Reform /i/7/). No nível ideológico.

Outra fonte era a democracia plebiscitaria recomendada por ( loudiircel. Ele não teve dificuldades em admitir que as maiorias podem estar completamente erradas. de Daniel Webster). Ambas as evoluções do whiguismo para o liberalismo foram feitas no interior de um horizonte democrático. Os dons de Bentham ao liberalismo incluem um entusiasmo pela administração inteligente e pela reforma judiciária e. com seu grito de combate ("Liberdade e União". como o governo democrático frustra "interesses sinistros". e. havia um partido whig antes que a questão do solo livre de escravidão o dissolvesse. 1780-1860 79 evangelismo leigo.. Além disso. e radicais benthaiuitas. Henry Clay. j O secularismo olímpico dos whigs como pessoas distintas dos liberais e também seu gosto por compromissos elitistas sobreviveram um pouco mais do outro lado do Atlântico. Julgou . também tem interesse em descobrir e corrigir erros. com freqüência. Criado como um quaker de Norfolk.filosóficos".78 O liberalismo . Em terceiro lugar. os utilitaristas passaram a ser conhecidos como "radicais. a idéia de democracia representativa tinha pelo menos três fontes. Paine e Bentham são. lendo um interesse natural em sua maior felicidade. Na América ide antes da guerra. A advocacia que Bentham fez pela democracia foi caracleristicamente animada por um espírito rijo. " O que ocorreu com o individualismo liberal em tudo isso? Bentham nunca parou de argumentar que o ônus da prova cabia aos que desejavam limitar a busca privada da felicidade.1832). Tal conteúdo era uma regra de utilidade. cheio de campanhas reformistas empreendidas como causas morais. Bentham rejeitou a ênfase de Locke nos direitos naturais. Seu principal líder. disse ele. A longo prazo. As conferências de Blackstone em Oxford haviam proporcionado uma exposição lúcida e humana da lei consuetudinária. tal como incorporada na teoria de direitos naturais de Tom Paine (1737-1809). apelidados de pensadores "radicais".rnmenl. de Helvécio o seu conteúdo. Inicialmente. na década de 1850 os whigs americanos. o jiliilosii/ihe gii ondini > que morreu vítima do terror jacobino. e não para deles se despirem. encabeçou a oposição ao partido democrático de Andrew Jacksón. que os homens formam sociedades para assegurar seus direitos naturais. a lei devia receber os seus princípios. a democracia também foi promovida pela escola militarista fundada em Londres por Jeremv Bentham (I 7-1S•. o registro empírico histórico justifica encarai' os utililai islãs como membros da grande família liberal. mergulhado como estava no reformismo esclarecido de Helvécio e Beccaria. como Locke. De Locke. mais importante do que isso. Mas seus pressupostos jusnaturalistas (grotianos) e seu constitucionalismo conservador irritaram o jovem Bentham (A Fragmenl on Gove. sempre correspondendo à razão e logo igualada "à maior felicidade do maior número". Além da fórmula americana do federalismo republicano. ex-tories liberistas como Gladstone. ele tinha três principais componentes: whigs como Russell (o primeiro-ministro da Reforma). O primeiro golpe ideológico de Bentham foi sua crítica do grande jurista William Blackstone (1723-1780). Contudo. é mais provável que se descubram erros. Uma era a esquerda de Locke. na verdade.. ingressaram no partido republicano de Lincoln.mitigo e moderno Liberalismo clássico. o consentimento geral é o sinal mais seguro de ulili dade geral porque a maioria. Paine acreditava. um movimento jacksoniano que representava os direitos dos Estados e o populismo de fronteira. exatamente como na Inglaterra de meados do século os whigs patrícios do Reform Clitb ingressaram na grande corrente do liberalismo burguês de Gladstone. a americana e a francesa. no entanto. a proposta democrática não foi obra seja dos whigs seja dos liberais. uma visão mais ampla das finalidades do Estado. 1776). Assim. o qual para ele devia promover o bem-estar e a igualdade e também fazer vigorarem a liberdade e a segurança. Quando o partido liberal britânico se formou depois da Reform Bill e a rejeição das leis do milho (1846). o militante de duas revoluções. dos quais zombou como "tolices com base em nada".

A mais forte alternativa para o hegelianismo — nacionalismo germânico. Enquanto o liberalismo levava uma vida miserável na Alemanha. Ele definiu a autoridade legítima na nova França em termos de soberania nacional. Mas. Como Nuárez dois sé ' l i los antes. no esforço de guerra contra Napolèão. por exemplo. poucos anos mais tarde.i Revolução Francesa e o «•xlreino < onlialua lismo. no início da revolução. com seu vigoroso individualismo burguês.iS2 O liberalismo . nos discursos apaixonados de Johann Fichte (1762-1814) — correspondia ainda menos às preocupações liberais. Inimigo jurado do privilégio. c pôs a razão de Estado a serviço de um ostensivo nacionalismo autoritário. Hegel. e rejeitou cnfaticameile a idéia do contrato social — o próprio ponto essencial do liberalismo e da democracia. a França já contara com contribuições liberais originais. Mas. Hegel tentou cavalgar duas épocas.antigo e moderno Liberalismo clássico. De Constant a Guizot e Tocqueville. os liberais de maior prestígio da época foram franceses. para só falar em alguns. a filosofia pollica dominante era hegeliana. Sieyès foi o principal responsável. Nesse processo. louvou o Estado ético. de fato. Sua deificação do Estado não foi de qualquer forma socialmente reacionária (e. Assim. Fichte escreveu elogiando . a eloqüência de Fichte empenhou o nacionalismo alemão numa longa animosidade contra o liberalismo. e Hegel não era um liberal. por volta de 1860. Sua síntese aceitou inteiramente a obra da Revolução legitimando a sociedade DÚV guesa. Contudo. de 1789. à parte do protoliberalismo aristocrático de Montesquieu e de sua difundida influência internacional. Na Alemanha do início do século XIX. e o liberalismo Bildung (brevemente examinado rio capítulo 1) do grande humanista Wilhelm von Humboldt (embora o ensaio juvenil de Humboldt sobre os limites do Estado tenha sido publicado muito mais taide). Ele servadores prussianos). Bolívar e Tocqueville. mesmo quando transferido do rei ao povo — permanecia intacto. na estrutura de um Estado holista que acomodaria as hierarquias tradicionais do . Mas Sieyès era um admirador da liberdade moderna. Em 1793. Sieyès misturou a nebulosa vontade geral de Rousseau com alguma coisa bem anli-rousseauniana: a representação. atacou a modernidade como a "idade da peca- . também encontrou tempo para fabricar um opúsculo anülibcrista. ele se distanciou das conseqüências política]. 17S0-1S60 Sj Os primeiros liberais franceses: de Conslanl a Guizoí Voltemo-nos agora para a sorte do liberalismo fora do mundo anglo-saxão. existiam pelo menos dois ramos principais de pensamento liberal: o republicanismo cosmopolita dos panfletos pós-revolucionários de KJant. notadamente sua Paz perpétua (1795). Isso não era nem remotamente igual à "antiga constituição" — precedente e prescrição (as próprias coisas que Edmund Burke censuraria a Revolução de ter abandonado) não significavam mais do que uma longa opressão usurpatória na França. como continuaram a ser até o apogeu político de John Mill. Constant. Antes sua Filosofia do direito (1821) representou uma grande tentativa de in serir a "sociedade civil" moderna. na França pós-napoleônica a doutrina liberal floresceu até mais do que ocorrera do outro lado do canal. (Moiilcsqnieti era leitura obrigatória para Madison. ele redefiniu a liberdade como o desenvolvimento do "mais alto" ser de uma pessoa. Mesmo antes da Restauração. de Locke a Rousseau. pela elaboração de um novo conceito de legitimidade. na Alemanha. o caso muito interessante do padre Sieyès (1748-1836). o pôs em conflito com os con• • i minosidade absoluta". que funcionava por meio da educação compulsória até o sentimento de nacionalidade. o grande problema cm Rousseau — o poder soberano não dividido. Todo podei' para o Terceiro Kslado! Assim.) Tomemos. até a devolução de 1848. que começou.jmligo regime. e não mais ao status. A representação foi redirigida contra a hierarquia: o voto e a elegibilidade foram predicados à propriedade. The Closed Commercial State (1800). mas também não era compatível com o conceito liberal de liberdade política.

Orador cativante. tão elogiado desde Montesquieu. que o ideal republicano de Rousseau da apropriação coletiva da soberania absoluta. Pois a liberdade exige moralidade e a moralidade alimentase da fé. como Constant. mais praticamente democrático do que o dela. seu grande constitucionalista após Sieyès. A política não é um dever—c uni ofício.>i<!. e. Primeiro. Sua mãe quase casou-se com Gibbon em Lausannc. para ele. de Benjamin Constant (liberalismo) e depois de August Schlegcl (romantismo). Madame de Staél (1766-1817). Entre Constant. Suíço protestante como sua amiga Germaine. ele também salientou as íontes religiosas da liberdade. Houvera uma boa revolução em 1789. uma função confiada por ninhos a uns poucos governantes. a cintilante filha do banqueiro suíço Necker. que trouxe consigo o Terror e um igualitarismo violento. é claro.84 O liberalismo . Seu líder foi Royer-Gollard (17(531845). Sua história era muito nova porque rompeu ao mesmo tempo com a condenação por atacado tradicionalista da Revolução e com a defesa da esquerda <lo jacobinismo. podiam por sua vez ser apropriados por minorias tirânicas que governassem cm nome de todos por causa da justiça. sua teorização rica e pensada marcou dois pontos decisivos. a limitação institucional da autoridade. 1818) contavam uma história simples. e nessa medida ele eslava niepaiado a lonipii nao rio com o i cpulilli aniriiiio. que. 18 O outro grande padrinho do liberalismo francês é uma madrinha. encarou a soberania como um perigo potencial. mas também com o pensamento liberal prévio. Kxilada por Napoleão.autoridade sobre os . a divisão do trabalho também se apljica à política. Constant percebeu. Mas esqueceu de limitar a extensão da mesma autoridade. Mademoiselle de Staèl converteu seu amor filial em uma influente avaliação da Revolução. Não espanta que os idéologes. da autoridade. para o problema rousseauniano da soberania não dividida. Adveio então uma revolução má. mas não devoto do poder parlamentar. em particular. Insistamos ainda uma vez nesse ponto. Germaine era uma mliig. segundo. mais inteligente c mais popular dos ministros de Luís XVI. Mas seu liberalismo era menos patrício. Escrevendo após os surtos ditatoriais na Revolução Francesa. o último. !>'' l'Aflr>nrif>. Gomo liberal. Tocqueville relembraria esse laço entre a liberdade e o cristianismo. Royer-Collarcl era constitucional. nao uma democrata. sombreada por Sieyès na sua fase tardia. a vindicação da liberdade moderna. primeiro. suja. Germaine. deve-se isso a que. em 1800) ela valorizou a religião. do Diretório.antigo e moderno Liberalismo clássico. Benjamin Constant. popularizou a idéia da liberdade moderna como um fenômeno individualista. Sua anglofilia política era uma maneira de evitar o republicanismo. Suas Considéralions sur Ia Révolulion Française (obra póstuma. Essa foi sua solução à moda de Montesquieu. que acarretou igualdade civil e governo constitucional. a Câmara. como foi indicado (capítulo 1). ela casou-se com um diplomata sueco. e tornou-se depois amante. diferentemente da assembléia de Sieyès. advertiu Constant. E sob o encanto dos românticos alemães (que ela introduziu na Kuropa num livro notável. Sendo representado. o povo pode dedicar-se a outra coisa. afirmou. Os liberais amadurecidos são de melhor alvitre. Rousseau. 1793. está certo quanto à fonte. 1780-1860 85 colocou brilhantemente Adam Smith contra Rousseau. a progênie de Condorcet. e a ascensão de Tocqueville. tal fé fosse um princípio protestante e não uma intolerância papista. Tudo bem considerado. Montesquieu e Guizot). alinhando por isso a França com a Inglaterra (Staêl juntou-se assim à ilustre companhia dos liberais anglófilos franceses que inclui Voltaire. que é o contrato social como um símbolo de soberania popular. Se a democracia direta é um anacronismo. embora. o liberalismo francês prosperou entre os assim chamados "doutrinários". zombassem da religião — pois eram republi- canos. e mesmo o próprio governo da lei. e isso deixou indeterminado o assunto crucial das relações entre governantes e governados. numa sociedade civilizada. não tinha .

salientando que .Liberalismo clássico. Royer-Collard julgou a Revolução com menos benevolência do que Constam e do <]ue Mudnmr de Staél.. De forma bastante estranha. na verdade. François Guizot (1787-1874). Como liberal da Restauração. Bill. opôs firmemente a liberdade à dinâmica da igualdade. a adoção do princípio da representação nacional prometeu liberalizar o país. Mas. Do círculo "doutrinário" proveio o principal ministro de Luís Filipe (1830-1848). enquanto a luta pela emancipação humana fazia com que a liberdade crescesse. com seus fundamen os de pressupostos otimistas quanto à natureza humana. a França tinha muito menos eleitores do que esta última depois ida Reform. No fim. 178U-1860 86 O liberalismo . Tocqueville descreveu-se como "um liberal de nova espécie". Como jovem historiador sob a Restauração. tão fervoroso e apaixonado quanto qualquer deles quando se tratou da vida da liberdade. deixou o liberalismo francês muito atrás de Constant. a prática política de Guizot era bastante reacionária. resultando em linha direta na revolução de 1848. um nacional e o outro liberal. A política devia sei deixada ii. Guizot explicou a história ocidental em termos da ascensão da sua própria classe. Ele apreciou a coii(|iiisia da igualdade civil. Não foi sem razão que ele tentou fazer surgir uma aristocracia endinheirada como uma nova e legítima classe governante. na prática senão no espírito. implantando a moharquia constitucional e um governo responsável. O calvinista que havia ei n Guizot. desbravando o terreno para a centralização administrativa. O controle do poder na sociedade atomista amendrontava-o — o mesmo fantasma que assombraria Tocqueville. E. mas achou ([iie o desaparecimento do antigo regime dissolvera a sociedade. enquanto em teoria o seu parlamentarismo era mais avançado do que os doutrinários da Restauração. cie diferiu significativamente de seus predcccssorcs franceses. Ele foi. como ministro de Luís Filipe. se tanto. Conseqüentemente. Guizot foi perseguido pela perspectiva de outros levantes revolucionários e. levou-o a abandonar a ve|ha gloriíicação liberal da soberania popular. O liberalismo francês nasceu. A revolução de 1789 nada mais fizera do que declarar o seu advento.antigo e moderno 87 ministros. tal como ocorrera em 1688 na Inglaterra. porque este muito ajudou o impulso nacional. Alexis de Tocqueville (1805-1859). Guizot saudara os efeitos niveladores da ascensão burguesa. recusou-se teimosamente a ampliar a franquia. Guizot conferiu-lhe um aspecto demasiado conservador — tão conservador que muito parecia. Guizot justificou o absolutismo francês com fundamentos históricos. Ele substituiu a soberania popular por uma mciitocnitica "soberania da razão". portanto. Coube à revolução de 1830 a tarefa de completar a Grande Revolução. enquanto um programa nacional de educação básica elevaria gradualmente o resto da nação a padrões morais e intelectuais dignos da inteira cidadania. A construção da nação apontava para a unidade. lamentou que o absolutismo paralisara o impulso liberal cerceando a Reforma na França. mas os jacobinós c Napoleão estragaram tudo. Em 1789. Com o (dobro da população da Inglaterra. 21 Protestante e historiador acadêmico oriundo da burguesia provincial. Contudo. O liberalismo analisa a democracia: Tocqueville Outra figura elevada entre os liberais franceses ao lado de Constant. odiava Guizot e tornou a igualdade e a democracia as principais preocupações de sua obra. Mas como estadista. Sob sua dieta oligárquica e autoritária. podou-se o liberalismo de seus germes democráticos. A civilização moderna refletia a força de dois impulsos distintos.-i "capacidades" das elites burguesas. 1789 estabelecera uma sociedade mas não um Estado. como uma ruptura moderada com o exorcismo reacionário de 1789. no salão de Madame de Staèl. com o reacionarismo sob nova forma.

fundadores do socialismo tecnocrático. necessária à unidade nacional). nos escritos reacionários de Joseph de Maistre. do que qualquer dos liberais constitucionais que o pri _ necederam. não passou de um episódio. no enlanlo. disse ele." a longo prazo. 1789. Tal foi a tese de seu estudo O antigo regime e. A questão pode ser facilmente resolvida se tivermos em mente o significado da palavra democracia em Tocqueville. na atomização da sociedade acarretada pelo centralismo administrativo (o qual cuidou de distinguir da centralização funcional do governo. Ele não hesitou. Tocqueville endossou o lamento. cie A democracia na América de Tocqueville (originalmente publicada em duas partes. Além disso. I Em outros aspectos importantes. 1781!-1860 89 "uma nação que nada pede de seu governo além da preservação da ordem já está escravizada em seu coração". a revolução. com a exceção de que situou sua causa não no choque da Revolução. com mais freqüência o empregou como um sinônimo para sociedade igualitária. Âõs olhos desse nobre íionnandí). Mas nelas divisou antes um corretivo do que um reflexo de democracia. Uma tradição centralista despóüca alimentada pelo absolutismo. um autocentralismo difundido. Algumas vezes. A avaliação nostálgica por Tocqueyille da liberdade feudal fez com quje ele pintasse o antigo regimq não apenas como a condição. Em sua viagem à América. mas de virtude pública ou cívica. Nesse contexto democrático Tocqueville divisou o individualismo como uma patologia social. em seu amor à autoridade p Darlamentar. Além disso. Vale a pena relembrar que a palavra individualismo fez um de seus primeiros aparecimentos em língua inglesa na tradução. a França sofria de uma propensão crônica para o governo autoritário. em 1835 e 1840).se. como 1848. o termo surgiu muito mais cedo. mas uma sociedade em que a hierarquia já não era a regra do princípio aceito de estrutura social. não de virtude per . Uma segunda discrepância crucial entre Tocqueville e os liberais anteriores ligava-se ao problema do individualismo. é uma categoria moral. é um vício. coisa com que ele não designava uma sociedade de iguais. Enquanto o egoísmo aflige todos os tempos. a aristocracia nada linha de mal eijn si mesma. trocando a sociedade pelo pequeno grupo da família e de amigos. E seu desprezo pelas classes médias constituiu um triço aristocrático persistente nesse estranho liberal-democrata. mas como a própria causa da Revolução Francesa. Egoísmo.antigo e moderno Liberalismo clássico. caro aos doutrinários. . nessa interpretação.SS O liberalismo . de 1856: E desnecessário dizer que. o termo foi freqüentemente ouvido entre os discípulos de Saint-Simon. Individualismo é um conceito sociológico. fez da religião uma preocupação de toda uma vida. enquanto Royer-Collard preocupava-se com o Estado. Tocqueville estabeleceu uma distinção entre egoísmo e individualismo. ele empregou o termo em seu sentido político normal. de um sistema representativo fundado num amplo sufrágio. seus documentos íntimos mostram que a sua formação jansenista moldou sua visão do homem e da moral. A razão para tanto consistia. Nem foi menos anglófilo. por exemplo. Mas. Como se pode ver. tendo emasculado a aristocracia. reafirmou-se com osjacobinos e Napoleão. Tocqueville admirou o vigor cívico das reuniões municipais na Nova Inglaterra. Se Benjamin Constant. Tocqueville entrou por um caminho um tanto diferente dos seus antecessores. Tocqueville provavelmente ainda foi mais devoto. que denota uma falta. protestante. Tocqueville focalizou o estado da sociedade e tornou-se o sociólogo do liberalismo clássico. ele manteve uma preocupação sincera com a base moral das instituições liberais e especialmente por sua fundamentação religiosa. o individualismo é uma característica da sociedade democrática. É uma disposição pacífica que separa uma pessoa de seus concidadãos. na opinião de Tocqueville. mas num prolongado crescimento da tirania administrativa sob o absolutismo. por Henry Reeves. A partir de 1825."" Em francês. em elogiar o passado feudal. de uma "société en poussière". apenas para novamente engolir a liberdade francesa no Segundo Império.

Tocqueville escreveu o que seria o último arroubo do humanismo cívico.ot. Tocqueville transformou o estado de espírito antiburguês num potente motivo cultural. e demonstrou que a igualdade não resulta (necessariamente) em liberdade. não o comércio. Tocqueville tirou de Do espirito il/is íris uma perspectiva critica <la interpretação da igualdade. Montesquieu. seu gosto pela independência parecia muito mais com o heroísmo romântico celebrado por seu primo distante Chateaubriand.antigo e moderno j í i Liberalismo clássico. democrática — ou seja. No entender de Lamberti. Também por isso. era de natureza política. no sentido de Constam. O liberalismo de Tocqueville. Tocqueville não ignorou de qualquer forma o valor da independência pessoal. Tocqueville apontou uma fonte social para ele o nivelamento das "condições" ou. ou Gui/. Para eles. do que com o elhos burguês de Gui/. famoso pela publicação de A democracia na América." J Para Tocqueville. Diferentemente de reacionários como Maistre e Bonald. a liberdade eslava atada às distinções entre classes sociais do reino e o sentimento feudal da honra. Como Lamberti sugere. paz e moderação ("a domeslicação das paixões". Uma ótima interpretação recente por Jcan-Claude Lambertr 3 focaliza a originalidade da abordagem de Tocqueville do problema do individualismo. por outro lado. a tendência democrática. Em seu O antigo regime eleja encontrou o individualismo na sociedade privilegiada de antes da Revolução. Tocqueville. Não se podia distinguir tal antipatia pelo individualismo seja em Constam. sucumbira ao encanto do estadialismo escocês e . pilares idos de um mundo nobre desfigurado pela ascensão do vulgar comereialismo. celebrou o contraste entre o "espírito de conquista" e o "espírito de comércio". Nas monarquias de Montesquieu. Toda a sua vida ele deu de ombros diante da exaltação liberista do homo oeconomiais professada por economistas como Say e Bastiat. o individualismo era uma coisa boa.ot) pois eram as portadoras naturais do individualismo reforçado. A democracia gera o individualismo. que censuravam a revolução por ter desencadeado o individualismo. mas também não seguiu a idealização conservadora (tão proeminente em Burke) da Igreja e da cavalaria na Idade Média como fatores de refinamento. competição e ressentimento. no entanto. Tocqueville sentiu forte desconfiança pelas classes médias (que haviam sido sagradas para Gui/. Tocqueville não aceitou a crença ilummista na força civilizadora do comércio. A isto se opunha uma tradição de pensamento que louvava os efeitos civilizadores da ascensão da burguesia. um monarquista legitimista que se tornou liberal depois de 1830. é a democracia. pensou no espírito comercial como um criador de ordem. Os despotismos de Montesquieu. não econômica. Tocqueville definiu a democracia pelo impulso para a igualdade. a própria principal referência de Tocqueville.90 O liberalismo . eram sistemas dominados pela igualdade no interior da servidão gerai."' Constant. ingressou na Academia como o "novo Montesquieu". Num capítulo inteiro (livro 2. Como viu Raymond Aron. e individualismo significa aspirações materialistas e falta de virtudes cívicas. o coração da "liberdade moderna". como o do economista suíço Símonde de Sismondi (1773-1842). em sua linguagem. um tema analisado por Hirschman).. moderna — mostram que ele manteve distância com relação à alta estima que os burgueses tinham pela liberdade negativa e por seu modelo de homo oceonomicas. que adoça as maneiras — mas ao preço de um individualismo isolacionista. 1780-1860 91 oriundo de uma sociedade igualitária dominada por materialislmo.ot. Com 36 anos de idade. mas suas dúvidas quanto ao crescimento do individualismo em sociedade. fragmentando a nação em pequenos grupos de interesse que tinham inveja uns dos outros que dcsbastaram terreno para o "verdadeiro individualismo" da sociedade democrática moderna. em sua juventude em Edimburgo. 8) discorreu sobre a maneira pela qual os franceses se tinham tornado a um tempo mais semelhantes e mais isolados. cap.

s|n ili. a obra de Tocqueville afastou-se da d e m o cracia p a r a focalizar cada vez mais a revolução. a l ii . mas lambem mais livre do q u e a sociedade francesa depois da centralização absolutista. era um pessimista. Salientando excessivamente os perigos da igualdade. Estabelecer-se-á uni Leviatã tutelar. Daí suas prescrições esperançosas de a u t o g o v e r n o local e de associação voh faria — as duas coisas. ou sobre os quais era muito a m b i v a l e n t e Por o u t r o lado.1 u <lc. .' 9 P o d e r se-ia dizer Estes e r a m p r e c i s a m e n t e valores q u e Tocqueville não partilhava. Tocqueville c o m p r e e n d e u q u e o industrialismo t e n d e a fortalecer os efeitos n ã o liberais da centralização administrativa. Mou!c. e p r e s s i o n a r ã o o Estado a apressar o passo do nivel a m e n t o . livro 19. q u e ele elogiou c o m o garantias americanas de liberdade . tornar-se-ão c r e s c e n t e m e n t e assertivos e inquietos. afirmou ele. a m a r c h a p a r a m a i o r igualdade e a necessidade de escolher e n t r e a liberdade e o d e s p o t i s m o b e n i g n o c o m o f o r m a de sociedade democrática. Tocqueville p o d e parecer um tanto p r ó x i m o de seu d e t e s t a d o Guizot. C o m o se p o d e ver.) A longo prazo. m u do Es lado. cap. livres instituições p o d i a m criar c o s t u m e s liberais. U m a d o c e servidão podia d u r a r ."" A partir de 1840. t a n t o mais d e p e n d e n t e ela t o r n a o servo da maquinaria. c o m o se sabe. u s a n d o o centralismo c o m o alavanca. o liberal autoritário antidemocrático. consternou-o a vida fabril de Manchester. Viajou p a r a Pittisburgh. Tocqueville p o u c a atenção dispensou ao industrialismo emerg e n t e de seu t e m p o . n ã o era ele de q u a l q u e r forma mais livre. O "instinto democrático". M e s m o suas observações mais perceptivas s o b r e a industrialização revelaram-se estranhas à sua principal c o n t e n ç ã o . Pois se o passado feudal era c e r t a m e n t e menos igual do q u e a sociedade m o d e r n a . da lealdade à visão . foram m u i t o mais curiosos). Nisso ( loiiMaiil p o u c o diferia de 1 . Isso t a m b é m m u i t o se parecia com M o n t c s q u i e u .s<|uieu e Jcíícrson. Tocqueville era mais otimista q u e Guizot no q u e diz respeito ao p o d e r institucional da liberdade.92 O liberalismo .do Iluminismo exibido p o r liberais franceses anteriores! Constant. em suma. e n f r a q u e c e n d o a posição do o p e r á r i o . Ele encarava a l e g r e m e n t e antídotos contra o impulso centralista. costumes liberais tinham t o r n a d o livres as instituições políticas. (Não estamos longe das teses de alienação de Marx. c o m o Michel Chevalier. na frança. assim c o m o classes e condições. o valor profético desse cenário só p o d e reforçar a teoria democrática no sentido de Tocqueville. C o m o observou John Plamenatz. I7HO-1H60 93 O q u e mais receava o liberalismo francês mie |>i c < c d r n To< que vi lie ei . A segunda parte da A democracia na América falou de " u m a nova espécie de despotismo": a "tirania da maioria". n ã o era mais do q u e a tendência p a r a a i g u a l d a d e . em sua nostalgia aristocrática. O "novo liberal". 2 mas uào um falalisla. a m e n o s q u e se limite a liberdade aos escalões s u p e r i o r e s da e s t r u t u r a social.na democracia social. mas seu p e n s a m e n t o n ã o ultrapassou a r e p u g n â n cia m o r a l . no e n t a n t o . Mas Tocqueville descobriu u m a nova ameaça à liberdade: o c o n f o r m i s m o de opinião. 27). era um tanto falacioso dizer q u e o passado feudal fora mais desigual. sob a tutela bem-intencionada de um Estado paternalista — mas n e m p o r isso deixaria de ter p o r conseqüência a privação da liberdade. parecia p r ó x i m o a nivelar espíritos.smo. Q u a n t o mais avança a divisão do trabalho. í h O q u a n t o Tocqueville se tinha afastado. em 1805. p e r g u n t a d o c o m o p o d i a m as leis ajudar a í o r m a r o caráter de u m a nação (Do espírito das leis. j u n t a m e n t e com os efeitos tônicos da r< rt- li- gião. n a d a mais do q u e pela p u r a força de seu n ú m e r o .antigo e moderno Liberalismo clássico. Por contraste.ocke. pois este tinha. fechando um a c o r d o e n t r e um princípio a m p l a m e n t e formal de soberania p o p u l a r e p progresso ulterior do centralismo burocrático. Tocqueville r o n d o u m e s m o em q u e a o r d e m social correta geraria a liberdade. Na America. Perfectíbilidade. mas i g n o r o u suas usinas de aço (outros visitantes franceses da época. os trabalhadores. A causalidade social é u m a via d e m ã o dupla. escreveu t o d o um ensaio sobre a perfectibilidade da h u m a n i d a d e . outras variáveis for a m p o r ele ignoradas. pensou.

.j. 3 1 Sedan. p o r q u e o liberalismo francês c o m e ç a r a d e s c a r t a n d o a d e m o n i z a ç ã o reacionária da Revolução. A busca de s e n t i m e n t o p o r p a r t e de Mill em lugar de p u r a análise levou-o a d e s c o b r i r C o l e r i d g e . sem p r e j u d i c a r suas conquistas sociais.'|ráis. e Pasl and Prcsenl. era c o m o tal o próp r i o c o n t r á r i o de B e n t h a m . atacou o m a m o n i s m o . o clássico do g e n ê r o no século.. e m b o r a tardia. Carlyle. 1833.94 O liberalismo . manifestam uma influência conspícua de Tocqueville. Isso é um tanto irônico. 1843) h ã o p o u p o u o militarismo de Hentham e James Mill. O trocadilho n ã o deix o u de ter efeito no j o v e m Mill. Mill foi um francófilo q u e amava dois aspectos do p e n s a m e n t o francês de q u e ele tristemente sentia falta na Inglaterra — teoria e política progressiva de um tipo radical. c o m u m a mística d o altruísmo e sacrifício em lugar da fria satisfação objetivada pela ética utilitária. q u a n d o sofreu u m a d e p r e s s ã o n e r v o s a p o r passar a duvidar do valor de sua formação arquiintelectualista e d e s s e c a n t e dirigida c o m zelo p o r seu pai James. o futuro sábio de Chelsea. p o r otilro lado. sua infindável seqüela. grinding-mül). Tocqueville foi capaz de relacionar alguns "instintos liberais" na evolução democrática da sociedade m o d e r n a . 0 santo libertário: John Stuart Mill Os textos q u e c o r o a r a m o liberalismo clássico. Coleridge. ela — isto é. o elhos saint-simoniano. O saint-simonismõ oferecia-lhe u n i tipo m u i t o diferente d e progressivismo. um fervoroso benthamita. Ettore C u o m o . e s o b r e t u d o deixou a impressão de q u e c o m o amigo sincero da liberdade ele estava apenas resignado à democracia c o m o igualdade. e a "Era M e c â n i c a " (industrialismo).. Diferentemente dos liberais ingleses e n t r e Locke e Mill. devotou t o d o um livro. Os libe . q u e estava em completa. satirizou o "cálculo gerador' de felicidade". pelo m e n o s . suas origens. A pouca afeição de Guizot pelo laissez-faire e a atitude m o r n a de Tocqueville para c o m a sociedade comercial parecem sustentar aqueles q u e afirmam q u e o primeiro liberalismo não (oi uma ideologia da burguesia mercantil e industrial. rebelião edípica.. p o r ela ratificado). m e l h o r dizendo. os de J o h n Stuart Mill (1806-1873). Carlyle e Saint-Simon. E o p o r t u n o dizer ainda algo antes de nos d e s p e d i r m o s dos liberais clássicos franceses. a aferição b e n t h a m i t a do prazer e da d o r c o m o um horrível "rebolo de caixa" (em inglês. C e d o na vida ele n a m o r a v a idéias saint-simonianas ou. S u a p r o s a flamejante (em Sartor Resartus. Os conservadores franceses eram em geral reacionários d a d e política no m u n d o da igualdade civil criado pela Revolução (ou. o f u n d a d o r do r o m a n t i s m o inglês. os franceses n ã o estavam justificando u m a o r d e m social[ mas tateavam cm busca de um. queriam p ô r t e r m o à Revolução sem acabar com . 1780-1860 95 q u e seus sofisticados devaneios sociológicos acabaram partilhando a obsessão de Guizot c o m ameaças revolucionárias. mas o i n s t r u m e n t o de u m a aristocracia d e c a d e n t e ou de u m a camada culta mais interessada na razão e no d e b a t e livre do q u e no lucro. mas ainda havia muito d e s a c o r d o q u a n t o aos m é t o d o s de normalizar a liberI ! cem sugerir temas pocockianos q u e persistem m u i t o além de seu p e r í o d o q u e vai de H a r r i n g t o n a Jefferson. jno curso cheio de altos e baixos da política francesa de Waterlpp a cjuc q u e r i a m extirpar c o m p l e t a m e n t e a obra da Revolução. Mas b a s i c a m e n t e deixou-osi à sombra. mas ambas as obras pare- . Sente-se aqui a peculiarid a d e do liberalismo clássiéo francês: u m a referência constante à Revolução. o "elo a r g e n t á r i o " (capitalismo). nas palavras de Tocqueville." N e n h u m deles cita Pocock. m e r c a d o e progresso.antigo e moderno Liberalismo clássico. Nisso.. A descrição lambertiana de Tocqueville c o m o um h u m a n i s t a cívico tardio c o n c o r d a c o m tal interpretação revisionista. à qual um e r u d i t o italiano. Em sua Autobiography. Constant. Mill escreveu de forma c o m o v e n t e a respeito de sua cris e m e n t a l d e 1826. Guizot e Tocqueville c o n c o r d a v a m .

Harriet Taylor. recorreu a um sistema de votação plural que fazia com que os mais bem qualificados pudessem ciar mais de um voto e receber votos de mais de ura distrito eleitoral. Mill também partilhava com Tocqueville um respeito pela moral cívica e uma fé no valor educativo da participação democrática. Mas aqui termina a principal concordância entre os dois pensadores liberais clássicos tardios.antigo e moderno ' Liberalismo clássico.senttilive (itweinwriil (lH(il). Mill não alterou em seus Princípios a defesa do laiisez-faire como uma prática geral. Cerca do início da década de 1850. no coração. E manteve-se fiel ao individualismo liberal em sua rejeição firme da tecnocracia autoritária recomendada pelo maior dos saint-simonianos. Coii. ele se engajou em questões práticas. Mill tinha uma experiência e uma visão muito diferentes. Mill objetou que Tocqueville havia . entrou na idade madura como o autor de duas obras-primas racionalistas. mas.i perspectiva da uniformidade "chinesa". A mudança de sentimentos em Mill decorreu de sua reação entusiástica às revoluções de 1848 — uma sublevação que apavorou extremamente Comte.siilerrttions on Rejire. o System ofLogic (1843) e os Princípios de economia política (1848). era um liberal pessimista. Mill. O jovem Mill manteve o sufrágio universal. o Essay on Government de 1820. estas nunca implicaram qualquer deslocamento seu para o dirigismo. nas sete edições da obra. Mill endossou tanto o alarme de Tocqueville diante do despotismo social em vez de político quanto o antídoto de Tocqueville. durante a sua vida. em última instância. como Tocqueville. a despeito de seu agnosticismo. uma devota libertária. os quais. Como assinalou John Burrow. nos cautelosos arranjos de Mill em favor do autogoverno representativo protegido contra a tirania majoritária.i representação proporcional como sistema eleitoral com o objetivo de garantir respeito pela diversidade ideológica.' ^ decorria na realidade de um objetivo liberal que estava muito distante do objetivo de James. Mill chamou a atenção para a necessidade de preservar "os antagonismos de opiniões". mas que Mill esperava que tornasse republicana toda a Europa. Também estava muito sob a influência de sua mulher. enquanto John Mill a preso evia para maximizara responsabilidade/"' Pela mesma razão. no entanto. Auguste Com te (1798-1857). Para conferir maior peso aos educados — um propósito elitista —. On Liberty deve a Tocqueville seu permanente cuidado com a tirania de opinião. ele podia falar como um herdeiro fiel do progressivismo do lluminismo e de seus mestres utilitaristas. o acesso democrático e o governo esclarecido. Temendo . As respectivas visões do mundo estavam muito longe de serem idênticas. um tema liberal muito ignorado pelos teóricos políticos franceses (distintamente de teóricos econômicos). democracia participatória. mas nem o valor igual do voto. nem de sua inclinação religiosa. A sua memória está dedicado o mais famoso ensaio de Mill: On Liberty (1859). 1780-1860 97 Mill. de que se aproximou com um espírito de liberalismo de esquerda militante. Pois Jantes Mill prescrevia a democracia paia minimi/ar a opressão. mas nada tinha cia nostalgia aristocrática do francês. Significativamente. John Mill descartou os votos secretos. Essa tentativa de equilibrar a participação c a competência. a distância entre a democracia qualificada de John Mill e o apelo de seu pai em favor do sufrágio universal muito nos revela quanto à evolução da inclinação liberal. tornaram-se compêndios na ainda clerical Oxbridge. Representative Government é um curioso abandono do breviário de James Mill para a democracia. nem o voto secreto. ele defendeu . a saber. Em seu lratado mais político.96 U liberalismo . Quaisquer que fossem as simpatias socialistas sentidas nos seus anos maduros. Ainda assim."4 Oficialmente. Filho de um funcionário público que vencera por seus próprios esforços e ele próprio um burocrata no mesmo departamento (o Ministério da índia). tendo esgotado sua veia romântica. resta pouco da aposta utilitarista na racionalidade da humanidade. e como economista ele também salientou o liberismo. Resenhando o segundo volume de A democracia na América na Edinburgh Review (1840).

O conservadorismo era para Mill. O velho apelo protestante para a consciência. cm termos de Heinrich Heine e Matthew Arnold. 35 Depois que Mill abandonou o conceito passivo do espírito sustentado por Bentham e por seu pai.SOO W exagerado o impacto da igualdade e subestimado o dinamismo do comércio. acima de tudo. The Subjeclion ofWomen (1869). Na verdade. Não é necessário dizer que tal visão entrópica da história opunha-se fortemente ao primeiro utilitarismo. uma má epistemologia. Em seu ensaio "Civilization" (1836). disse Mill com sarcasmo. uma ponte intelectual entre o liberalismo. uma forma secularizada. clássico e o socialismo liberal. como alguém que não argumentava a partir de qualquer posição de "direito natural". A liberdade era. o Canadá francês era uma sociedade tão igualitária quanto os Estados Unidos. liberdade como autogoverno. e na década de 1860 ele era o deputado progressista em Westminster. afirmou que seu efeito era um aumento na dependência de cada um da sociedade e um geral "afrouxamento da energia individual". E por essa razão que tantos ainda o julgam. autonomia negativa. Mas Mill já não via a sociedade comercial como uma idade de melhoria. On Liberty tornou-se logo uma Bíblia libertária. ser livre de preconceito e de dogma. consistia em proporcionar à liberdade um lugar central em utilidade. A angústia histórica não era o forte de Bentham. liberdade como intitulamento. aquela sede impaciente de progresso. entre outras coisas. sua própria idéia de felicidade tornou-se inseparável da atividade. que também era tão conspícua na Inglaterra desigualitária.o. o ascético e o estético. o que resulta difere consideravelmente da síndrome de Tocqueville. Mill prescreveu ao mesmo tempo experimentação moral e força de caráter.'AV O liberalismo . fundada na intuição em vez de o ser na indução. ou seja. a despeito de todo o seu elitismo. ele demonstrou que a liberdade é amplamente instrumental no fomento do progresso. liberdade como privacidade e independência. apelando assim para os dois lados da alma vitoriana. Seu objetivo. Mill entrelaçara vários ramos do pensamento liberal. Umaj individualidade desimpedida c uma! tniravelmetite complementado pela obra sobre Hc/iivsrultttiue . Mill viu a liberdade como! C(iísi\ essencial ao autodesenvólvímenl. seu zelo reformista nunca se abateu.antigo e moderno Liberalismo clássico. Escreveu um opúsculo feminista apaixonado. Liberdade política. em sabedoria acolhida e crença não examinada em vez de o ser num tipo inquisitivo de espírito. 36 Esse traço alemão de liberalismo autotélico combinou-se com uma preocupação por autonomia (liberdade política) e com um gosto pela experiência e pelo experimento. Na aparência. ou. Harmonizando o liberalismo dos Princípios com o indutivismo da Logic. On Liberty foi ad- empréstimo a Humboklt. O pessimismo subjacente de Mill não o impediu de formular reivindicações progressistas. já que. um lema que tomou (lei esfera abrangente de privacidade são necessárias à cultura da personalidade. embora lhe faltasse o empresariado móvel. demonstrando seu papel chave na felicidade e na formação do caráter. nele figurava. e cooperativas de produtores como tuna maneira de democratizai' a propriedade. liberdade de opinião. como um liberal militarista. Proibiu a interferência! do Estado no comportamento quej só interessa à própria pessoa. Afinal de contas. Além disso. e da atividade de escolha em particular. 17S0-I. e exaltou a liberdade de "procurar oi seu próprio bem à sua própria!maneira". a complexão política de Mill era muito mais adiantada do que a de Tocqueville. uma abertura à experiência no sentido de que esta significava uma disposição a ser crítico. Desde o dia cm que foi preso na adolescência por distribuir propaganda em favor do controle da natalidade. como nunca seria possível julgar Tocqueville. e o mesmo ocorria com a abordagem iluminística da liberdade como o instrumento de progresso. Assim. Ele propôs a reforma agrária como uma solução para a questão irlandesa. On Liberty foi interpretado como um manifesto do individualismo. autodesenvolvimento. isso parece um cordial regresso ao peã do Iluminismo ao progresso. o hebraico e o helênico.

jA que o primeiro foi um protesto contra a tirania de opinião e o segundo uma receita contra a tirania da maioria. e paternalismo era precisamente aquilo que Mill mais queria rejeitar. Em seu tempo de estudante. o cientificismo de Comte — um sonho de despotismo esclarecido cio século XIX — serviu para realçar por contraste as intenções do próprio Mill. uma organização que rapidamente se difundiu fazendo campanha por um Estado republicano unitário em toda a península. Mill voltou a dissociar-se da posição çle Comte por causa das tendências "liberticidas" deste. 39 A antítese de Siedentop opõe um liberalismo psicológico a um liberalismo histórico-sociológico. discutem calorosamente a autenticidade da mensagem de Mill. e sua própria abertura à evolução pacífica da sociedade inglesa fez com que seu liberalismo fosse mais pobre em conteúdo sociológico c histórico. Assim. em nome da liberdade individual. em 1831. Hayek e. mesmerizado pela insuportável sabichona e pretensiosa Harrict Taylor para repudiar seu próprio repúdio juvenil da superficialidade utilitarista. í F. Por contraste. como os dois Mills. Também.. não se pode negar que o programa liberal de Mill. pela qual nada mais sentia do que o maior desprezo. no entanto. cujo biógrafo.' Na década de 1860. Outrok firmados numa leitura mais cuidadosa do grande ensaio de I8»{j> rejeitam essa acusação. Mill pode ter alimentado ideais elitistas utópicos. apesar de toda a sua inegável reticência diante da democracia. Mas.antigo e moavruo Liberalismo clássico. 1780-lübU 101 Government. A crítica de Macaulay — de que ele exagerara em sua representação do conformismo em uma idade de caracteres fortes e uni tanto excêntricos — é muito mais adequada. quase exatamente contemporâneo de Mill. Gertrtide Himmelfarb nos Estados Unidos e Maurice Cowling na Inglaterra retrataram Mill como um radical intermitente. destacaram-se como grandes e influentes paladinos da liberdade. Um era o italiano Giuseppe Mazzini (1805-1872). ele se uniu à seita dos carbonários. que travava uma luta secreta para unificar a Itália e libertá-la da Áustria. justificando-se apesar do grande interesse de Mill pela história francesa (Michelet) ou pela sociologia política (Tocqueville). duas figuras. John Stuart Mill simbolizou a despedida final do liberalismo de seu longo passado patrício. prestaram uma atenção especial à mudança histórica e adotaram geralmente uma perspectiva comparatista. se nos voltarmos para a história interna do liberalismo inglês. fundou a Jovem Itália. John Gray censuraram Mill por ter separado irrealisticamente |a individualidade dos contextos sociais c da (radição cultural. Cerca de meados do século. Eruditos. como em muitas outras coisas. e seus liberais tendiam a tratar as instituições políticas em função das condições sociais. Mas. ultrapassava amplamente em espírito social e escala moral a fórmula ivhig. A. mas em On Liberty ele compensou seus receios de umá. Os ingleses eram principalmente filósofos do espírito. ambas emigradas em Londres. O outro era o russo Alexander Herzen (1812-1870). tirania de opinião majoritária com uma insistência explícita na necessidade do autodesenvolvimento geral e evitando inculcações de qualquer espécie. Mazzini contribuiu com duas coisas para o catecismo liberal: nacionalismo e juventude. mais recentemerite. O erudito de Oxford Larry Siedentop estabeleceu uma distinção instrutiva entre os ramos francês e inglês do liberalismo clássico sumariados por Tocqueville e Mill. Mill permaneceu fiel ao impulso progressista do círculo benthamita. Nisso. era discípulo de Mill. John Morley.100 U liberalismo . Por volta . A Igreja positivista teria significado paternalismo. Em direção ao liberalismo social: Mazzini e llerzen É apropriado rematar nossa vista de olhos do liberalismo clássico relanceando outras partes da Europa. a escola francesa era constituída por historiadores e juristas. Muito respeitado por Gladstone.

Ends and Beginnings. o jacobino coroado.en saudou o fato de que os "bárbaros" russos não haviam sido contagiados pelo direito romano e pelo direito de propriedade. que ele julgava iliberal e lambem amoral por causa de seu maierialismo. Tendo perdido toda esperança de uma revolução propriamente dita na Europa. Em swã History ofEuropean Liheralism. de Herzen. incapaz. Mazzini gozava de imenso prestígio. O liberalismo . conduzidos por Robert Owen (1771-1857). Mazzini e Proudhon e ao socialista alemão Georg Herwegh (até que descobriu que Herwegh e a bela senhora Herzen gostavam demasiado um do outro). Herzen não se tornou apolítico ou reformista. De Ruggiero censurou-o por esposar um antiindividualismo místico inteiramente inadequado à Itália atrasada da época. considerou a era da burguesia. No liberalismo altamente idealista de Mazzini. ller/. Mazzini teve de exilar-se. Era uma classe sem tradição. Mazzini foi intransigente na rejeição do socialismo. Mas salientou que a ascensão das classes médias estabilizara o capitalismo e promovera o avanço social e material das massas. e no apogeu do vitorianismo ele constituía uma verdadeira consciência do republicanismo liberal. ller/. pondo de lado o generoso republicanismo de Mazzini e Garibaldi (1807-1882).antigo e moderno Liberalismo clássico. Herzen demonstrou uma compreensão notável da evolução social do Ocidente. Escrevendo a Michelet. E seu democratismo estava tingido de social-cristianismo à moda de Charles Kingslcy (1819-1875) e Lamcnnais (1782-1854). a despeito da ênfase de Mazzini na luta entre gerações em vez da luta de classes. Nele Gandhi divisou. ele viu a Europa burguesa como uma nova Roma decadente. Quando o socialismo foi miseravelmente derrotado em 1848.en difundiu sua concepção. que a burguesia não tinha "grande passado e nenhum futuro". 1780-1860 103 do fim da década. Numa série de artigos polêmicos dirigidos ao romancista Turgueniev. e começo.) — a "Primavera do Povo" — Iornou Mazzini um Iriúnviro muna república romana de curla duração. prometeu. e em Londres escreveu ensaios mais tarde coligidos como The Duties o/Man (1860). A Rússia. decretara. que estivera sob o encanto d o . Seu tom moral era claro. e foi até prever o . como tinham feito Mill e Tocqueville. Porque a seus olhos o liberalismo não significava mais do que um vulgar libcrismo materialista. e ousou mesmo celebrar a selvagem modernização de Pedro o Grande. como o reino da mediocridade.r ofa Russian to Mazzini (1849). a causa nacional do Risorgimento era perfeitamente compatível com um humanitarismo universalista e uma federação européia. Mazzini considerava-se um opositor da escola liberal. nunca seria nem protestante nem burguesa. Sua visão socioeconômica decorria de Sismondi e dos socialistas comunitários na indústria. Herzen escreveu em From lhe Olher Shore que a história não tem finalidade — e tanto melhor para a liberdade individual.'10 Mas como social-cristão que era. A Revolução de 1818-18-1'. os socialistas como os primeiros cristãos perseguidos. que podia dizer bons ventos a levem a qualquer utopia que exigisse grandes sacrifícios em benefício do futuro. estúpida e conservadora. afastou-se da ortodoxia eslavófila. de substituir a economia política pela honra aristocrática. juntamente com Tolstoi. hegelianismo em seu país. Herzen. uma de suas inspirações ocidentais. e os eslavos como os novos bárbaros.IUJ. e o livro dirigia-se aos trabalhadores.' Gomo os prévios cslavólilos. achando que a comuna aldeã era uma instituição demasiado tediosa. como hegeliano de esquerda radical. Deixando a Rússia para o exílio dois anos antes. Cerca da década de 1860. Tornou-se apenas eslavóíilo (antes de seu exílio ele fora um proeminente ocidentalista). Depois do fracasso da revolução de 1848 veio a Lette. Mas a unificação seria finalmente controlada pelo liberalconservador conde Camillo Cavour (1810-1861) em benefício do reino piemontês. Desesperançado de seu antigo historicismo. de um socialismo russo. Ao mesmo tempo.

e história em fases. Havia u m a longa distância e n t r e o tímido constitucionalismo m o n á r q u i c o e o censo oligárquico de Royer-Collard e Guizot — e m b o r a n ã o tão afastados Ida política dos primeiros militaristas. T e r r a e Liberdade. Q u e n u n c a espia pelo olho d e santo. E H e r z e n julgava Mazzini digno de receber u m a de suas principais avaliações da situação pós-1848.O liberalismo . P r e g o u ao czar reformas sem violência. 1780-1860 e m b u r g u e s a m e n t o dos trabalhadores n u m a era d e p r o s p e r i d a d e difundida. O q u e nov a m e n t e apenas mostra q u ã o extenso havia sido o caminho trilhado Nossos q u a t r o liberais clássicos tardios. Mazzini gostava de Mill o bastante para convidá-lo (em vão) a seu lar de emigrado em Blackheath.de (1869). u m jusnaturalismo lockiano mais opiniões favoráveis a estádios (o t e m a da sociedade comercial 105 Os discursos do liberalismo clássico M u i t o depois do a u g e do liberalismo clássico t a r d i o — o floresc i m e n t o de Tocqueville. do T. Restabelecendo u m a q u a n t i d a d e razoável de historicismo. m e s m o naquela fase. é claro. Herzen deixou um testamento político em suas Lelters to an Old Comra. H e r z e n passou a encarar o Estado e a p r o p r i e d a d e c o m o algo historicamente funcional. whig ou q u a l q u e r o u t r a coisa. no e n t a n t o .) pelo liberalismo. e m b o r a c o m esperanças e atitudes diferentes. mas isso não o impediu de contribuir p o d e r o s a m e n t e p a r a a visão libertária no c r e d o liberal. Q u a n t o ao liberalismo clássico de m e a d o s da era vitoriana. n e n h u m deles n u n c a foi — um whig. p o d e r í a m o s d o m e s m o m o d o concluir d a n d o ênfase à diversidade conceituai do liberalismo clássico. n ã o era liberal. n u n c a foi um liberal no inteiro sentido ocidental. E eu gostaria de p r o p o r o nosso hedonista lírico Herzen. O jliberal conservador Tocqueville ensinou ao elitista Mill o valor cívico do a u t o g o v e r n o e os perigos do p o d e r majoritário. r a n c o r o s o . O u pelo olho d e u m b ê b a d o . ele estava definitivamente na ext r e m a esquerda. partilhavam algumas idéias c o m u n s . espécies de degraus p a r a o desenvolvimento h u m a n o . O p r ó p r i o a n o de 1848 e n c o n t r o u todos Os q u a t r o do lado republicano. t o m o u e m p r e s t a d o seu título da a m p l a m e n t e lida revista de H e r z e n . U m a coisa. até q u e um p r i m e i r o republicanismo a m e r i c a n o . Q u a n d o foi fundada em 1861. ! j O q u e é whiguismo?* U m a espécie de espírito nivelador. na o p i n i ã o de seus opositores. Mill. no espectro político russo da época. O p r i m e i r o liberalismo clássico já conhecia pelo m e n o s Ires lipos fie discurso teórico: teoria dos direitos naturais. racional. apesar de toda a cjiferença que os separava. foram na realidade escritas c o m o autocrítica. C o n d e n o u r e d o n d a m e n t e o c o m u n i s m o p o r sua idéia de igualdade de "escravo de galera". Ele censurou nas vanguardas revolucionárias a sua tentativa "petrograndista" de i m p o r sua vontade às massas. Dirigidas a Bakunin. e dispensou sua b ê n ç ã o — p a r a a fúria de Bakunin — à m o d e r a ç ã o da Primeira Internacional. e talvez fosse p o r isso q u e criticou c o m o " w h i g u i s m o " algo q u e era r e a l m e n t e mais p a r e c i d o c o m b e n t h a m i s m o . Mazzini e H e r z e n na m e t a d e do século XIX — William Butler Yeats p e r g u n t o u n u m p o e m a cham a d o " O Sábio": . The Bell.antigo e moderno Liberalismo clássico. 'não s e n d o n e m constitucionalista n e m u m a pessoa versada e m economia. republicanismo cívico. Herzen. c o m o um b o m c a n d i d a t o p a r a o lugar de " b ê b a d o " do liberalismo. A evolução da d o u t r i n a liberal manifestou um progressivo d e s p r e n d i m e n t o da ideologia cívica. (N. (*) Do original whiggery. Yeats. este tinha c e r t a m e n t e pelo m e n o s dois santos — Mazzini e Mill. a primeira organização revolucionária. C o n t u d o . p r i n c i p a l m e n t e d e suas atitudes d e s a l e n t a d a s depois de 1848. N u m t o m mais sério. c o m o na e c o n o m i a política e na teoria social do I l u m i n i s m o escocês.

fundando suas afirmações numa lapreensão comparatista. das causas subjacentes de mudança macropolítica:. Subjacente à forma pela qual os primeiros liberais clássicos se dirigiam à natureza da ordem social e ao significado cia liberdade no século XIX havia um grande divisor a partir dos dias de Locke. era a sede em última instância da autoridade política. levou a thamitas colocaram-se o liberalismo voltou it voz dos direitos ou da E aqui foi Rousseau. à moda de Montesquieu. Tal foi a tarefa que exercitou os espíritos de Constant e Guizot. O modo cívico originouse no humanismo renascentista. Esse divisor foi causado pelo impacto das revoluções atlânticas do fim do século XVIII em teoria política. E os três discursos remanescentes brotaram do lluininismo. com Montesquieu. da utilidade. I I Os primeiros liberais franceses. na teoria liberal. somavam cinco os discursos do liberalismo. história utilitária e história comparatista. e nau comi . I Por volta de 1870. por volta de 1800. retomando a perspectiva de estádios. Montesquieu e Smith. tal era o perfil conceituai do liberalismo clássico. Então. criaram ainda um npvo modo. economia política. a teoria política da sociedade comercial. más em sua própria obra retornou à abordagem utilitária.antigo e moderno Liberalismo clássico. os béna umai maior distância do discurso cívico e Ia lar ijoin a vo/. 1780-1860 107 melhor. e os tornou "liberais clássicos" num sentido moderno. As revoluções americana e francesa introduziram uni novo princípio de legitimidade. Tocqueville e Mill. quem deu a contribuição decisiva. Rousseau foi o principal antepassado da idéia de que a nação. embora em mais de um caso eles estivessem combinados: direitos naturais. Quase todos os {liberais clássicos franceses escreveram num idioma histórico. O primeiro tinha raízes medievais e unia decolagem jusnaturalista do século XVÍI. Mill conhecia e admirava essa aliança de liberalismo e história teórica. Uume e Smith como suas principais fontes teóricas. Mas não é suficiente assinalar o enriquecimento do discurso de teoria política do protoliberalismo ao liberalismo clássico tardio. Dando uma torção democrática ao discurso conlraiiialisla dos direitos. c não o rei.106 O liberalismo . ou civilizada). Em grandes traços. As análises de Tocqueville foram simplesmente a forma mais sutil desse modo histórico-sociológico de discurso político. A questão agora consistia em como conciliar a antiga preocupação liberal em limitar o poder com o novo princípio pós-revolucionário de legitimidade. . muito mais do que os primeiros liberais ou protoliberais. mais tipicamente em Constant.|i virludc cívica. baseado na soberania nacional em vez de o ser em direitos dinásticos. republicanismo cívico.

tais como o respeito dos direitos e o governo constitucional. sua imaginação conceituai e sua força analítica num estado de espírito leigo.íssiro era uni equilíbrio enlre demorni lismo e libertai ianisino. Tocqueville e Mill. emergiram várias 109 ft ft » ft ft ft ft ft ft » ft » ft ft I » . O liberalismo clássico não ocupou todo o palco do pensamento liberal. atribuíram grande importância à religião. For volta de meados do século XIX.I I I I I I I » » ft 4 Liberalismos conservadores I I » I I ft • (Urnscruadorismo liberal e liberalismo conservador O legado do liberalismo rl. Mesmo quando os seus teóricos. como Constant e Tocqueville. o liberismo foi geralmente sustentado e os liberais clássicos foram basicamente fiéis à promessa democrática e ao potencial libertário da idéia liberal. foram preservadas. Mas de Madison e Rcnlham a Constant. seu modo de teorizar já não era ditado por preocupações teológicas. As primeiras conquistas do pmlolibera lismo. Pelo menos nisso. foram efetuados claros progressos no escopo social e no alcance moral do credo do liberalismo. O liberalismo clássico conduziu sua inventiva institucional. o espírito leigo do Uuminismo impôs-se muito coerentemente. Enquanto o robusto otimismo histórico do lluininismo foi seriamente atenuado entre a era dos federalistas e militaristas e a era dos grandes liberais vitorianos.

enquanto os conservadores britânicos estavam tentando preservar o acordo antiabsolutista de 1688. terceira é o ceticismo político. o seu conservadorismo. em contraste. como observa um destacado intérprete moderno. tendia a petrificar a tradição num edifício intemporal e a ter as instituições na conta de inalteráveis. e como tal muito diverso do conservadorismo compacto. A maioria dos conservadores continentais. A. Mas qual era a diferença. autoridade consagrada pela continuidade. podem ser reunidas sob um único rótulo racional: liberalismo conservador. Além disso. especialmente com amplos propósitos inovadores. Quando o duque de Newcastle pediu-lhe que abandonasse o velho rótulo whig. no entanto./ 10 O liberalismo . lorde RusselI.' Esta resposta encerra claramente a distância entre o whiguismo institucional e o <lassicism. e o organicismo não exclui a modificação parcelada das instituições e procedimentos. dificilmente compatível com o prudente ceticismo dos conservadores institucionais. a maioria ! dos conservadores continentais ainda resistia ao governo repr<j>| sentativo. e como tal possui um valor definitivamente muito superior ao indivíduo. pregando uma restauração sem compromissos da autocracia e da hierarquia. exatamente . O espírito democrático . As novas correntes eram também bastante distintas dos desenvolvimentos tardios conhecidos como "novo liberalismo" e caracterizados por seu conteúdo "social".o liberal em sua forma vitoriana final. o primeiro-ministro da Reform Bill.e republicano do liberalismo clássico desviara o liberalismo do conservadorismo whig. social e politicamente. Em sua tentativa de forçar a sociedade européia a recuar para o Antigo Regime depois de um quarto de século de mudança política e social (1789-1815). Friedrich Gentz (1764-1832) e Adam Muller (1779-1829) foram grandes admiradores de Edmund Burke (1729-1797). reacionário do continente. A primeira é o Iradicionalismo. vadorismo liberal? j O conservadorismo liberal era um produto muito inglês. A segunda é o organicismo. o tradicionalismo e o organicismo são. ele defendera os insurretos americanos quinze anos antes. e é geralmente considerado o pai do conservadorismo inglês. Burke foi o primeiro crítico proeminente da: Revolução em suas amplamente lidas Reflexões sobre a revolução em França (1790). Na primeira metade do século XIX. representados por Tocqueville e Mill. O conservadorismo britânico. eles foram vazados numa atitude altamente doutrinária e mesmo visionária. Recorrendo ao mesmo argumento em favor dos velhos direitos. responsável." Como lorde Quinton e muitos predecessores sublinharam. na tradição conservadora britânica. e não apenas uma soma de suas partes ou membros. os pensadores da Restauração francesa e seus sósias alemães nadaram contra a corrente do próprio princípio burkiano de legitimidade: prescrição. replicou que whig tinha a vantagem de dizer em uma única sílaba o que liberai conservador diz em sete.antigo e moderno Liberalismos conservadores 111 rrentes liberais que diferiam consideravelmente das posições (' modos de discurso dos liberais clássicos. algumas das quais eram contemporâneas do último estágio do liberalismo clássico. saindo de uma repugnância rábida à Revolução Francesa e seu contágio. a crença de que a sabedoria política é de algunjia forma de natureza histórica e coletiva e reside em instituições que passaram pela provação do terrpo. abrange pelo menos três doutrinas. Anthony Quinton. caso houvesse. e à liberdade religiosa. a! idéia de que a sociedade é um todo. Louis de Bonald (1754-1840). em vez de revigorar' os velhos direitos contra o absolutismo monárquico. entre o!liberalismo conservador e o consét-. ambos. Reacionários continentais como Joseph de Maistre (17531821). A essência do ataque de Burke contra a Revolução consistia em que os revolucionários franceses tinham querido passar a borracha no passado. As tradições não impedem a mudança adaptativa. Tais correntes. posições flexíveis. O respeito de Burke pela tradição não era sempre reacionário. Ironicamente. no sentido de uma desconfiança dó pensamento e da teoria. quando aplicados à vida pública.

Maine era um liberal conservador. ção — um tema a que logo seria conferido muito brilho na prosa mágica do maior conservador liberal. em vez. haviam sido restauradas em 1688. O pensamento do mais importante historiador whig.3 Ele também botou no lugar do desprezo iluminista whig pela superstição uma reverência pela religião. uma vez que isso significava o próprio oposto de dois traços persistentes na corrente principal do liberalismo. presumivelmente. Assim. adaptável da tradição. em sua influente Constilulional Hittory of England. colocando uma cunha entre representação e delegação. Em 1830. admiradores^ da Revolução. Macaulay empreendeu demonstrar que era uma solução para o tempo dela e. como ele os apelidava. Isso preservou seu conservadorismo liberal a uma grande distância do liberalismo clássico. O jurista sir Henry Maine (1822-1888) juntamente com o historiador católico lorde Aclon (1834-1902) são exemplos. o latitudinarismo moral e o individualismo. Contra o apelo Imy á tradição paia resistir à reforma. Hallam desenvolveu a tese da antiga constituição contra a popular History of England (1754-1762) de Hume. tanto política como conceitualmcnte. uma jóia muito citada das Reflexões. os conservadores liberais exprimiram-se com freqüência na língua de Burke. A tarefa que Maine atribuiu a si próprio consistia em demolir as idéias rousseaunianas sobre o estado da natureza. Provavelmente. como o fizeram os philosophes. A inclinação de Burke pela ortodoxia religiosa e pela sociedade orgânica tornou-o um verdadeiro conservador. também era economicamente moderno: ninguém menos do qufe Adam Smith elogiou-o por sua perfeita compreensão da economia liberal. sustentou um conceito antes flexível. em suas mãos o tema burkiano de mudança na continuidade transformou-se por sua vez na idéia de uma continuidade de mudança. como tal. não um conservador. que cobriu o período a partir da acessão dos Tudor até a morte de Jorge 11 em 1760. Macaulay afirmou uma Intuição de reforma. Não obstante. Sua defesa da antiga constituição era muito mais sofisticada do que os argumentos daqueles que se limitavam a afirmar um conjunto imutável de normas que. formou-se contra esse pano de fundo burkiano. Além disso. e partilhava a crença de Macaulay no . Nesta perspectiva. os lories estavam apresentando a Revolução Gloriosa (originalmente um movimento antitory) como um arranjo para todos os tempos. Aquela altura. Thomas Macaulay (1800-1859). o visconde François-René de Chateaubriand (1768-1848). apenas uma fase de sábios ajustes políticos à mudança histórica. É típico da tendência conservadora do espírito de Burke o fato de que ele substituiu uma ênfase histórica na tradição inglesa pela ênfase cosmopolita do Iluminismo escocês nos estágios da civilização. que se (ornara Imy porque na década de 1790 os "novos whigs". abrindo espaço para mudança na continuidade. a nostálgica visão histórica de Burke não era equilibrada por uma aceitação da democracia. exibido como fundamento para um contrato social que justificava a igualdade universal. Macaulay divisou brilhantemente a necessidade de opor a resistência Imy à reforma eleitoral tratando criativamente do mito da antiga constituição.112 O liberalismo . IVIo conlrário. Henry Hallam (1777-1859). o mais famoso de seus epigramas ainda é "Um Estado sem meios de iilguma mudança não dispõe de meios para conservar-se". Burke era um whig institucional da década de 1770. Burke foi um dos criadores da reavaliação romântica da fé e da cavalaria medievais como fatores da civiliza-. eram pessoas como Fox. a sabedoria de 1688 proporcionou (íin precedente para a Refonii llill de lH'í'2.antigo e moderno Liberalismos conscwadnres J JJ como era politicamente liberal. Burke logrou manter seus modelos parlamentares separados por uma grande distância de exigências radicais e utilitárias para a democratização do poder. Ainda mais. Burke reacendeu a chama da "antiga constituição". A perspectiva burkiana de mudança na continuidade foi usada por um historiador whig. de ligar o refinamento com a ascensão do comércio. A partir de então.

/ /'/ O liberalismo . para outros efeitos inúteis. em Maine e noutros. jornalista e teórico político que editou The Economist desde 1861 até morrer. As décadas de 1860 e 1870 testemunharam também outra espécie de liberalismo conservador: a espécie utilitária. Mas. Humanista católico. Assim. pois devia ser um obstáculo à democracia mediante uma multiplicação whigúc centros de poder. na verdade. apoiava-se num. as classes governantes podiam permanecer no topo mediante astuciosas práticas eleitorais. a rainha Vitória e o príncipe de Gales) atrair tanta atenção? Se o faziam era porque a Inglaterra "não podia ser governada" sem o efeito estupidificante da coroa. Km seu livro The English Conslüvtion (1867). evoluíra de um estado social em que todas as relações eram governadas por slalus numa estrutura familiar para uma fase cm que o moderno individualismo prospera sobre a propriedade pessoal. ambos os partidos. uma tendência iliberal. cm última instância. manipulando os aspectos dignificados da ordem política para conseguir respeito aos poderes em vigor. disse ele sem rodeios. erradamente encarado como ameaçado pela democracia. Nobre de genealogia européia. exprimiu receios de que. Maine deplorou a perspectiva de um retrocesso socialista nesse processo de crescente individualização. deviam "uma viúva isolada e um jovem desempregado" (a saber. ele combateu o absolutismo papal (que foi declarado "infalível" pela Santa Sé em 1870) e condenou o "moderno confessionalisino" juntamente com o nacionalismo. um banqueiro. barão A_c_lon. A estabilidade. num conjunto de hábitos formado por práticas sociais sedimentadas por força do estranho prestígio de instituições. A humanidade. Igualmente. escreveu Maine. Isso apareceu em seu célebre conceito de uma evolução "de slalus a contraio". exposto primeiramente em seu livro de 1861. recorrendo ao darwinismo social paia frear a democracia. Por que motivo. conservador e liberal. e foi educado no Uiiiversily Gollcgc bcnlliamita de Londres. Ele dividiu sua lealdade entre inovação e estabilidade.'1 Liberais conservadores evolucionislas: Bagehot e Speneer Nem todas as desconfianças sobre a democracia eram burkianas. Áncient Law. tornou-se professor régio de História em Cambridge. foi educado como católico sob a direção do historiador liberal Ignaz von Dollinger e. John Dalberg. Como Maine. Em Physics and Polüics (1872) Bagehot conferiu a esse maquiavelismo cétíco uma torção darwinista: ele representou o êxito social e nacional como exemplos . com a próxima extensão da franquia (que efetivamente se materializou em 1807 e I88'l). liberdade e tradição. economista. Bagehot colocou a evolução social contra o progresso democrático. olhou nostalgicamente para a Igreja medieval como o baluarte da liberdade no mundo feudal. combinou religião. lutariam pelo apoio dos trabalhadores — algo que Bagehot encarava como um "perigo" para a liberdade. perguntou ele. As preocupações de lorde Aelon não eram muito diferentes. Mas enquanto para outros historiadores liberais o federalismo era a própria garantia de uma participação política como a da polis. Bagehot vinha de uma família bancária provincial nãoronformisla. argumentos burkianos serviram ao objetivo não burkiano de individualismo. como a monarquia ou os Lordes (as partes "dignificadas" em contraposição às partes "eficientes" da constituição). como burkiano. 1 imensurável estupidez. Seu antinacionalismo levou-o a sustentar o federalismo. Em Popular Government (1885). o federalismo de Acton foi idealmente 'dirigido para um propósito muito diferente.antigo e moderno Liberalismos conservadores 115 progresso. Tal era a posição de Walter Bagehot (1826-1877).

Liberty.is.' fim A posição conservadora liberal de longe mais influente no do século foi articulada pelo pai do evolucionismo como Uma ideologia geral. Godwin é geralmente tido na conta de pai do anarquismo inglês e. Usando estas pressuposições. apegou-se tenazmente a uma idéia minimalista do Estado e uma . para quem a sociedade era um bem. Depois de algumas campanhas apaixonadas em! favor de açoites nas escolas e. como pai de Mary Shelley. como fizera Bentham. ai de nós!. Em primeiro lugar. o juiz Stephen (que paradoxalmente era um tanto indulgente no tribunal) terminou seus dias num hospital de doentes mentais — uma glosa apropriada do desequilíbrio que estava transformando o utilitarismo de um estado de espírito libertador estado de espírito punitivo. zombou de tod. e um "direito de ignorar o Estado" — no fundo. Patrocinando a promoção do bem-estar por meio da legislação industrial e muitas outras medidas ! I contra Mill. Alguns de seus ohiter rficla\s-Ão boas máximas de áspero individualismo. "na medida em que progride a civilização. Mas impacientou-se com o tardio moralismo de Mill e não gostava da sentimentalidade vitoriana. Eqiuililyi Fratmiüy (1873). como "Não é amor que desejamos da grande massa da humanidade. Tornou-se um colaborador do The Economisl. a aferição da felicidade geral do maior número. Spencer nasceu no Derby industrial.. era uma tarefa impossível. irmão mais velho de Leslie Stephen e tio de Virgínia Woolf. Grande codificador da lei penal. Stephen criticou Mill por ter uma visão demasiado favorável da natureza humana. Aos olhos de Spencer. embebendo a Logic e os Princípios de economia política de Mill. avô de Frankenstein. mas respeito e justiça". tonto mais razoável porque. de qualquer forma. Spencer acreditava que o "cálculo da proporção da felicidade". e não a liberdade. A doutrina dos direitos naturais foi posta de lado por Bentham ("tolices com base em nada"). Também era um individualista extremo e um verdadeiro herdeiro do desprezo benthamita pelo privilégio aristocrático e pela hierarquia espiritual. um direito individualista de retirar-se. não se tinha confinado a essa função legítima. e seguiu então a engenharia. Herbert Spencer (1820-190'?). rejeitou firmemente o reformismo benthamita. o jovem Spencer extraiu de uma "lei de liberdade igual" a propriedade privada e o laissez-faire. Toda a sua vida. deplorando que o homem estava-se tornando cada: vez "mais sensível c menos ambicioso". tanto estrangeiros como domésticos. afirmou a preexistência de direitos.as três coisas. autor de PoliticalJustice (1793). Seu ensaio forma maximalista de liberismo. houve pelo menos duas fases no caminho que Spencer seguiu para justificar seu individualismo. já que significava um conjunto de mudanças estatais (legais e governamentais). Spencer achou que o governo. Essa espécie de liberalismo utilitário conservador de fala franca tornou-se um tanto maligna na obra do juiz James Fitzjames Stephen (1829-1894). e seu liberismo.11(> O liberalismo . mas o governo um mal. mas Spencer formulou três objeções contra o utilitarismo. Stephen recebeu uma educação igual à de Mill em Cambridge. em vez de insistir. Mas quando examinou a legislação liberal depois de 1860. os governos decaem". O livro do jovem Spencer Social Slalislics (1850) revela uma teoria de direitos naturais extraída de William Godwin (1756-1836). Mas. Em terceiro lugar. Mas a representação alternativa bestial de Stephen foi menos um aprofundamento do que uma patologia do liberalismo. a única função dos governos é a defesa dos cidadãos contra agressores. afirmando que a força. ele pendeu demasiado paia o outro lado.. é claro a pena de morte. num lar wesleyano. Em segundo lugar. Contudo. o sufrágio universal. seu antiestatismo. como disse ele.antigo e moderno Liberalismos conservadores 117 da "sobrevivência do mais capaz" e apoiou a função social da força junto à fraude institucional. seu ponto de partida foi o proto-anarquismo de Thomas Paine. governa a vida social: os homens devem ser coagidos a serem honestos por castigos legais da espécie mais dura. em que os direitos são criados pela lei.

Muitos outros. da Universidade de Yale. o importante é que. Além disso. Mas também quase podia tornar-se conservadorismo liberal. "Emborajá jnão tenhamos idéia de coagir os homens para o seu bem espirihlaF'. e a liberdade com a civilização urbana. igualou a autocracia católica de Rosas com o ruralismo. chamou a crença em maiorias parlamentares de a maior superstição política da época. Ambos eram liberais na década de 1840. por contraste. portanto." Aborrecido pela aquisição de casas para a municipalidade e pela propriedade estatal de ferrovias. 0 liberalismo construtor de nações: Sarmiento e Alberdi O liberalismo conservador — a fuga da democracia — também estava no espírito de muitos liberais latino americanos da época. de poetas vitorianos a populistas russos. quando o darwinismo social prevaleceu completamente sobre sua primitiva teoria de direitos. que foi deposto em 1852. foi citado infinitamente. Numa história de idéias liberais. Spencer alcançou uma espécie de utilitarismo social.ao poder do Parlamento". o crescimento do Estado acarretava burocracia./ IS O liberalismo . a despeito de toda a sua dureza. o conceito de evolução. encontrava-se a evolução. Domingos Sarmiento (1811-1888) e j u a n Bautista Alberdi (18101884). a ampliação da legislação de bem-est. no seu caso.'' Do lado da razão. A revelação dessa traição liberal forma o cerne do livjro The Man versus the State. "ainda nos julgamos chamados a coagi-los para o.ar — "um excesso de legislação". com a sobrevivência dos mais aptos. William (iraham Summcr (\M0-1910). Por outro lado. a função do verdadeiro liberalismo seria "impor um limite. Assim. Dos grandes magnatas como John D. ' Na opinião de Spencer. em sua opinião. Como muitas vezes foi observado. e que funciona mediante o duro método da sobrevivência dos mais aptos. puseram a idéia em dúvida. e a burocracia era para ele algo de intrinsecamente corrupto. a lei da sobrevivência do mais apto não era obra do homem e. No final do século. e declarou que. Spencer deplorou em voz alta a perspectiva de "usurpação pelo Estado" de todas as indústrias. Essa opção foi mais conspícua no contraste entre dois argentinos. no futuro. os liberais haviam perdido de vista a posição tradicional do liberalismo contra a coação. Passou a ser um crítico severo do governo majoritário. a seleção natural. com a violência do barbaiis- . como afirmou num ensaio do (iinal da década de 1860 — só podia levar ao despotismo. seu bem material. Rockcfellcr c Andrew Carnegie aos intelectuais liberais na Europa e nas Américas. Faeundo apresentou a situação argentina como um drama em atos. de 1845. (. o best-setler de Spencer de 1884. declarou celebremente que. cm toda parte em que se sentiu a extensa influência de Spencer. o estatismo do bem-estar também era imoral.cmtigo e moderno Liberalismos conservadores 119 filantrópicas. precisamente no oposto da variedade benthamita: uma desconfiança da democracia representativa. escreveu ele. abandonou sua primeira preocupação igualitária com a liberdade geral e o sufrágio universal. ameaçava "suspender o processo de adaptação" e seu resultado. Um dos pais d» sociologia americana. porque se opuseram à longa ditadura do caudilho Juan Manuel de Rosas. A fé moderna no governo não passava de "uma forma sutil de fetichismo". Mas esse utilitarismo social resultou. a leoria social de Spencer torceu o darwinismo porque afirmou menos que i> condito evoludonário ocorreu na sociedade como ocorre na natureza do que devia funcionar para que a civilização progredisse. no entanto.) grande livro de Sarmiento Facuvdo. "a disciplina beneficente embora severa" a que estava sujeita toda a vida. que. não obstante. não podia ser ab-rogada pelo homem. ciailizacao ou barbárie. na medida em que ele aderiu inteiramente ao evolucionismo. o liberismo e o liberalismo foram vistos como coisas contrárias à democracia.

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mo agrário irrompendo numa idade de refinamento e de progresso citadino. Como exilado no Chile, no entanto, Sarmiento estava longe úc apoiai' os liberais locais: em seu jornal, El Progreso, ele elogiou o autoritarismo esclarecido do regime de Santiago, fundado por Diego Portales, e salientou a necessidade de um governo forte e estável. Deixando de lado a tradicional preocupação liberal com pesos e contrapesos, Sarmiento admirou a fusão majoritária
<lo executivo c do legislativo no governo de Andrew jackson. I Ima

viagem à Europa e o fracasso de 1848 convenceram-no de que a democracia não era viável em países muito iletrados. Mas a decepção com a Europa resultou em mais do que isso. Depois de 1848, como Herzen, Sarmiento mudou seu modelo político. Descobrindo a pobreza urbana e a riqueza rural na Europa industrial, Sarmiento suavizou sua dicotomia cidade-campo e embarcou numa descoberta tocquevilliana da América do Norte. Diferentemente de Tocqueville, no entanto, Sarmiento achou que os Estados Unidos eram uma democracia (no sentido social) mas não uma república — uma vigorosa civilização fundada no mercado e na escola. Sarmiento tornou-se grande amigo do pedagogo da Nova Inglaterra Horace Mann (1796-1859). A única maneira de superar a barbárie, pensou, consistia em construir a igualdade, pois a igualdade não era tanto o fruto como a condição do progresso. A sua receita sociopolítica tornou-se a sociedade domiciliar da fronteira em vez de ser a rede cie cidades históricas. Propriedade amplamente distribuída, escolas onipresentes, e comunidades urbano-rurais deviam proporcionar a coluna dorsal da liberdade e da civilização. À moda de Tocqueville, Sarmiento queria injetar virtude cívica na república moderna. Foi por isso que ele cogitou em conceder franquia a imigrantes — os agentes naturais, a seus olhos, do progresso na civilização dos Pampas argentinos. Mais tarde no século, depois de seu próprio mandato presidencial, vitorioso mas amargo (1868-1874), ele compreendeu que as elites indígenas haviam

retido uma hegemonia oligárquica e que o trabalho estrangeiro não adquirira qualquer cidadania. Aceitou então o princípio de um sistema patrício dirigido por criollos proeminentes e imigrantes proprietários, até o momento em que a educação central, seu animo civilizador favorito, ampliasse a base social da república. Sarmiento nunca previu que, quando a prosperidade e a instrução alcançassem as crianças filhas de imigrantes, como ocorreu muito cedo no século seguinte, elas ingressariam em política num cenário social fortemente diverso da democracia doméstica de que ele tanto gostara nos Estados Unidos. Aquela altura, de qualquer forma, a maior preocupação de Sarmiento parecia ter-se desviado da virtude cívica para a manutenção da ordem. O homem que se fez partidário de Benjamin Franklin tornara-se um admirador da crítica denegridora de Taine à Revolução Francesa. O homem que sonhava com a democracia terminou um verdadeiro liberal conservador, colocando a autoridade tão alto como a liberdade cívica, tão próxima de Bagehot quanto de Tocqueville. O outro pai fundador do liberalismo argentino, Alberdi, nunca sucumbiu a ilusões democráticas. Criticou a pregação pedagógica de Sarmiento como simplesmente uma nova forma de domínio colonial dos eruditos, a velha tentativa eclesiástica de arrebanhar o povo sob uma direção moral vinda de cima. Alberdi interpretou o barbarismo rural como o ressentimento das velhas elites deslocadas pelo declínio da economia colonial e que recorriam, em desespero de causa, ao militarismo oligarquia). Acima de tudo, ele fustigou a adoração livresca de Sarmiento da educação como uma solução nacional. Sarmiento, ironizou Alberdi, queria livrar-se das conseqüências da pobreza antes de pôr terrno à própria pobreza. Não era a escolaridade, disse Alberdi, mas uma educação objetiva nas artes do progresso, a prática quotidiana da vida civilizada, que salvaria a Argentina do atraso e da desordem. Como Sarmiento, Alberdi ficou impressionado com a realização americana. Mas em vez de seguir Tocqueville, ele prestou mais

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atenção a Michel Chevalier (1806-1879), o saint-simoniano liberista que adivinhou e avaliou o futuro industrial dos Estados Unidos. Alberdí sentia forte aversão pela retórica liberal. Ridicularizava as revoluções.latino-americanas por seu "caligrafismo", sua atitude imitativa com relação a idéias e princípios europeus inaplicáveis à América do Sul, uma sociedade em que a Independência havia concebido um casamento desastrado entre o progresso do século e uma herança hispânica atrasada. 8 Como Natalio Botana mostrou inteligentemente, Alberdi estava adaptando Burke à toada da imigração. Segundo ele, a única maneira de deter o caligrafi$mo e erradicar tanto a pobreza como a violência consistia na iransplanlação das culturas européias acertadas para a Argentina. "Governar c povoar", escreveu em seu programa para a constituiçãjo pós-Rosas de 1853, as Bases e pontps de partida para a organização política da República argentina. Dado um ambiente social e moral apropriado — uma idéia muito montesquieuniana —, a república prosperaria. Diferentemente do apelo de Sarmiento à virtude cívica, Alberdi não se preocupava comia legitimidade de conteúdo, mas com a legitimidade de ambienta que se enxertasse na Argentina o contexto social apropriado, e adviria o progresso. \ E quanto à liberdade? I lá dois tipos de liberdade, disse Alberdi, uma externa e outra interna1. A liberdade externa reside na independência nacional. A liberdade interna consiste na independência pessoal e no direito de escolher os próprios governantes. O grande problema da política pós-colonial da América do Sul é a sua incapacidade de discernir que o bom método para conquistar e manter a liberdade externa é inepto quando se trata da criação de liberdade interna. Esse método, a que recorreram os libertadores, era a espada. Seus herdeiros espirituais, os caudilhos, agiam como libertadores armados depois de conquistada a independênda, <• o que resultará era falta de liberdade tio interior de suas (i'Onleiras. Alberdi recomendou uni método alternativo, a produção

capitalista: "Só os países ricos são livres, e só os países onde o trabalho é livre são ricos." 10 Bom leitor de Montesquieu e Constant, Alberdi preferia o comércio à conquista. Seu liberalismo foi principalmente uma rejeição do Estado patrimonial. O rei da Espanha possuíra toda a terra na América do Norte, antes mesmo que fosse descoberta, mas o solo era res nullivs, terra de ninguém, disponível para quem quer que a ocupasse e nela trabalhasse. Alberdi impugnou essa noção "política", estatista-patrimonialista da propriedade, de acordo com a qual ser rico consistia em ter uma concessão da coroa ou de seus sucessores. Queria substituí-la — tanto em mentalidade social como em direito — por uma concepção lockiana de propriedade como um direito natural, brotando antes do labor individual do que do favor da corte. A crítica de Alberdi ao patrimonialismo, juntamente com seu conceito de "duas liberdades", figurou numa "palestra" dada por uma personagem fictícia, Luz do Dia, em seu romance de 1871 Peregrinación de Luz dei Dia en América, subintitulado "Viagens e aventuras da verdade no Novo Mundo" — na realidade, uma crítica acerba à presidência de Sarmiento. Como se podia esperar de uma posição tão "lockiana", Alberdi atribuiu grande valor à sociedade civil. Com efeito, Botana acerta ao dizer eme a primeira regra da legitimidade alberdiana é que a sociedade civil é mais importante que o Estado — algo que um homem de mentalidade cívica como Sarmiento não engoliria facilmente. Alberdi queria povoar a Argentina com imigrantes desprovidos de direitos políticos. Devia ser muito aberta a liberdade civil, pensou, mas altamente restrita a liberdade política. Em grande medida, Alberdi foi menos o legislador de 1853 do que o mentor do progresso não democrático fin-de-siècle nos Pampas. No cerni: da contenda de Alberdi com Sarmiento eslava a diferença em seus modelos sociopolílicos depois de meados do século. Como vimos, após 1848 Sarmiento aderiu ao modelo

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americano. Alberdi, em contraste, encontrava-se sob o encanto do Segundo Império francês e de seu progressivismo iliberal. Aceitava — e mesmo queria — a política autoritária, desde que trouxesse um ativismo econômico desimpedido. Forçado a escolher entre liberdade e progresso, diz Mariano Grondona, Alberdi optaria pelo progresso, pois igualava a primeira com o segundo." É esse o roteiro clássico do conservadorismo liberal, ou, talvez se deva dizer, do conservadorismo liberista, tentando resistir à maré democrática. No conjunto, Alberdi emergiu como uma espécie de saintsimoniano burkiano: um elitista constitucional, dotado de uma consciência aguda das raízes da autoridade, e contudo profundamente enamorado do progresso econômico na idade da industrialização. Pois, como Macaulay e Maine, Alberdi não era um verdadeiro conservador: não havia em seu coração amor ao passado, nenhum romantismo organicista, nenhuma reverência pela religião estabelecida. Político autoritário e social-conservador, Alberdi era inteiramente isento de conservadorismo cultural. Mas, ao pregar o centralismo, Alberdi entregava reféns ao futuro. Pois quando as massas imigrantes se tornaram letradas (num triunfo tardio da utopia pedagógica de Sarmienlo), a sua demanda de cidadania e resistência patrícia deu origem a um conflito de facções de natureza concentrada -— exatamente aquilo que a estratégia madisoniana em prol de uma república federal procurou prevenir.' 2 Infelizmente, a ressunção da grave luta política depois do colapso da "ordem conservadora", em 1916, tendeu a reproduzir o conflito cruento, faccional — com a exceção de que, desta feita, os antagonislas eram antes lóiças sociais mais <lo (jii<' regionais. ' Para compreender este longo processo de decadência política num país que era uma das terras prometidas de 1900 e \'.VM), devemos voltar-nos para a encruzilhada sarmienliana/alberdiana. Alberdi queria negar a cidadania a suas futuras massas imigrantes, sendo estas obrigadas a reter sua nacionalidade (em sua maioria, italiana). Na Argentina, país em que a porcentagem estrangeira era

muito maior que nos Estados Unidos, os imigrantes não eram conacionais, e não gozavam de franquias políticas. Num país amplamente desprovido da estrutura institucional liberal dos países anglo-saxões, os imigrantes não-cidadãos que encheram o país inquietaram muito a burguesia nativa. A época de reforma liberal, sob os "radicais" de Irigoyen (1916-1930), estendeu as franquias políticas, mas deixou a massa da classe trabalhadora despida de representação política — e, portanto, suscetível de mobilização demagógica pela esquerda fascista de Perón. Por volta do fim da Segunda Guerra Mundial houve uma quebra de coragem entre as oligarquias exportadoras. Estas haviam governado não democraticamente desde a Depressão de 1930, e já não as garantia um mercado protegido na Grã-Bretanha. As elites locais tornaram-se temerosas da luta de classes. Por outro lado, na Argentina, o trabalho possuía uma força de união de Jacto, mesmo antes de Perón, que nada tinha de semelhante seja no Brasil, seja no México. O cenário resultante incluiu tanto um regresso ao protecionismo durante o governo de Perón (desta feita, contenção industrial e corporativista da classe trabalhadora) como um poder de veto investido nos sindicatos muito depois da primeira queda do peronismo (1955). Embora incapaz de governar, o operário era capaz de impedir outras classes de implementar reformas econômicas. O meditado estudo de Carlos Waisman Reversal of Development in Argentina explica a mecânica dessa estagnação mutilante, que constitui agora o maior desafio da democracia póspreloriana. 1 Embora fosse radicalmente nao < iciilílico lançar Ioda a culpa nas portas da ideologia, parece muito óbvio que um número de opções estratégicas praticadas há um século por um patriciado liberista mas iliberal condenou de antemão toda a cultura política. De uma forma bastante interessante, as instituições liberais têm falhado por muito tempo na Argentina, não porque o Estado é forte (embora o estatismo o tenha sido), mas porque, nas palavras do

o liberalismo francês permaneceu profundamente histórico porque foi. mas amaldiçoavam o Terror jacobino. Rémusat liderou uma mudança ideológica importante. ele fez com que Michel Chevalier assinasse um tratado de livre comércio com a Inglaterra. uma voz influente no jornal liberal saint-simoniano de Pierre Leroux.126 O liberalismo . . decidiu fazer brilhar seu trono arrivista ajudando Cavour (mas não Mazzini) a unificar a Itália. Em 1840. acrescentando nesse processo Nice e Sabóia à França. O seu populismo colocou-o contra anglófilos como Guizot. um líder da esquerda em 1848. um diálogo com os fantasmas da Revolução Francesa. Na esteira da Revolução de fevereiro de 1848 e da subseqüente guinada para o governo burguês autoritário. Mas Calhou. mas tampouco permaneceu simplesmente nas posições whiggish da maioria de seus predecessores. Le Globe. antes de mais nada. Charles de Rémusat (1797-1875). logrou pôr abaixo Luís Filipe e Guizot em 1848. por sua vez. Afinal de contas. Rémusat não elogiou nem o Antigo Regime nem a Revolução. Mas o seu liberalismo entrou em choque com socialistas neojacobinos como Louis Blanc (1811-1882). Em todo o decorrer do reinado de Luís Filipe (1830-1848). Adolphe Thiers (1797-IK77). Ele queria muito colocar a glória bonapartista a serviço da nova fé política — o nacionalismo. que representavam a plutocracia orleanista. o governo representativo responsável era o que mais convinha. como um retorno ao despotismo e uma ameaça velada à propriedade. argumentou ele. Rémusat tentou fazer com que seu excompanheiro o "doctrinaire" Guizot liberalizasse a política do "rei burguês". de pouca valia para com ji geração moderna e suas tendências espiritualistas e românticas. Por volta do fim da Restauração. Õs liberais franceses sorriam diante de 1789 e rosnavam diante de 1793 — bendiziam a conquista da igualdade civil. Em 1860. em 1859. A nova onda de ideólogos liberais que atingiram a idade intelectual depois de 1848 não seguiu exatamente o liberalismo de esquerda de Michelet. portanto. as forças sociais têm "colonizado" a ação do Estado em vez de permitir que funcione um mínimo de contrato social. Como conseqüência. seja qual fosse a sua (preferivelmente) vestimenta monárquica.antigo e moderno Libeialismos conservadores cientista político Guillermo 0'Donnell. com o seu potencial democrático. historiador liberal da Revolução e principal rival de Guizot.'" O segundo liberalismo francês: de Rémusat a Renan Nesse meio tempo. A própria república sucumbiu. tornou-se aceitável à principal corrente do liberalismo orleanista na França. ele aceitou o princípio republicano como uma forma histórica de soberania nacional. Assim. ele deu ordens para o aprisionamento do inquieto sobrinho de Napoleão. A evolução pode ser medida por um relance no mais jovem "doctrinaire". aplacando dessa forma o alarme londrino diante do novo ativismo francês no continente. como ministro do gabinete de curta duração de Thiers.se de seu ami^o. Mas Luís Napoleão estava longe de partilhar o credo reacionário. O pânico burguês depois das desordens de junho de 1848 condenou o novo regime e abriu caminho para a ditadura imperial. Luís Napoleão. N^ época. até mesmo Constant parecialhe demasiado condescendente para com o Iluminismo e. Michelet (1798-1874) lutou em duas frentes em suas obras. Rémusat foi uma figura chave na transição liberal da monarquia constitucional ao republicanismo liberal. Pela primeira vez entre os liberais franceses. Depois que Thiers. Opositor do Segundo Império. Isso iniciou um desenvolvimento que terminou na dissociação da república do iliberalismo jacobino. a interpretação liberal de 1789-1794 tornou-se nacional populista nas páginas exuberantes da História da revolução: da queda da Bastilha à festa de federação (1847-1853). <• aproximou . Logo católicos e outros uniram-se à pressão liberal para tornar o regime parlamentar. Assim a república. que havia tentado encenar um golpe.

o vencedor selvagem da Comuna Vermelha de Paris na primavera de 1871. tornando. que foi publicado por um exilado liberal. mas em países como a I'Yancja. desde o início. Quinet abalou o mito historiográfico da burguesia e do liberalismo de esquerda pronto para novas e menos classistas reivindicações. o Segundo Império es tivera sob ataque dos católicos liberais. também um académicien. . que a nobreza perdera os seus direitos. tanto no parlamento como na prestigiosa Académie Française. Mas o "segundo liberalismo" francês tornou-se conservador na prosa ética de um dos mais lidos pensadores do século.antigo e moderno Liberalismos conservadores 129 a arena política tornou-se ostensivamente mais animada. !Sua arremetida imperialista no jMéxico. The Liberal Party. que em seu livrojde programa de 1863. Em vez disso. Quinet desafiou a opinião que então prevalecia de que a história moderna francesa era a marcha triunfante da burguesia. salientou que o governo de um Homem que agisse e pensasse por todo o mundo era uma idéia paga. Edgard Quinet (18031875). de que a liberdade religiosa era um animo da liberdade ger ü. Pior do que isso. Quinet não queria monarquia libertadora. onde o Estado fazia valer a ortodoxia católica. Isso eqüivalia: a atualizar a tese de Staêl-Conptant. Desde o início. Renan é algumas vezes descrito como positivista. Rémusat: encerrou sua carreira po- O mais sério trabalho historiográfico daqueles anos (além de O antigo regime de Tocqueville) foi intitulado La Révolution Française. e obviamente incompatível (f ( j m ii liberdade cristã (Das catholw/ues au XlXbne. ele foi expulso de sua cátedra universitária. Renan quase tomou ordens mas perdeu a fé.I(> Laboulayc não era um anglófilo político. depois de esvaziar a religião tradicional. a autonomia local seria rapidamente entronizada pela influente obra — La France Nouvelle (1868) — escrita por um dos discípulos de Thiers. ao aliar-se com a coroa absolutista. sem nada lítica como ministro do Exteijior durante a curta presidência (18711873) de seu amigo de longa data Thiers. da Terceira República (1871-1940). Rémus|t. Ele variou entre o ceticismo e a nostalgia. um culto da ciência. Renan considerava Comte um reducionista infiel à "infinita variedade da natureza humana" e dolorosamente ignaro de história e filologia. 1852). assinalou que o socialismo parecia prosperai. que combatejü o partido ultramontano.não em terras protestantes. ou papista. Também nascido de uma família humilde na Bretanha. Amargurado pela nova onda de autoritarismo sob Napoleão III. Vítima. o Terceiro Estado francês prejudicara a democracia. um guru encantador. na última década do império. notou ele. seguindo por uma de crítica. para tornar-se um herói dos intelectuais e dos livres-pensadores. Sua graduação ia de uma época de fé. mas tudo o que partilhava com Comte (cujo estilo lhe desagradava) era uma negação do sobrenatural. da repressão imperial. que terminou num fiasco' ém 1867. a coroa iliberal. obsei-vou. Reivindicação destinada a um futuro brilhante na retórica. e educado como um orienlalista. Era claro. Então. a uma época final de "síntese". mas o povo não recebera direito algum. tendo tratado Cristo como um homem. pertencia à escola americana. foi empreendida para agradar aos católicos. que era a um tempo científica e religiosa. O problema chave de Renan consistia em fundamentar a fé.O conde Charles de Montalembert (1810-1870). como seu amigo Michelet. na massa do pensamento republicano. com muitas intervenções liberais. Lucien Prévost-Paradol (1829-1870). incorporada nos césares ron lanos. aceitando o presidencialismo num sistema de separação cie poderes e recomendando calorosamente a descentralização. adaptou o liberalismo ao isufrágio universal. em 1865.128 O liberalismo . em sua Vida de Jesus de 1863.1 Era conseqüência. Ernest Renan (1823-1892). se não na prática. A modernização tia fórmula liberal política coube ao perito jurídico Edouard Laboulayc (1811-1883). O astucioso Luís Napoleão compreendeu rapidamente que a religião era um cimento poderoso para o apoio conservador. siède. permitiu à Igreja tentar controlar a educação. c uma visão da civilização em três fases. .

feita em 1882 na Sorbonne. lambem se distanciou do racismo quase histérico da Reforme. Sua segunda linha de ataque consistia numa crítica moral da tradição revolucionário-deniocrática usando o vezo racial que era tão comum na época. denunciou sua genealogia revolucionária como um direito "abstrato". a democracia ainda o deixava frio. Na altura do fim da década. Essa confusão foi coroada pelos devaneios de Renan sobre os dois tipos de sociedade que ele deparou como prevalecentes na época. exatamente como Roma caíra nas mãos dos bárbaros por falta de alguma coisa que os romanos amassem. A diferença consistia em que agora Renan acreditava que as massas poderiam ser "domadas". e assim não era de admirar que a moral francesa e o moral francês estivessem minados. de uma vez por todas. escreveu ele. como os reacionários. Sua famosa conferência "O que é uma nação?". Decidiu então trocar a depressão pela investigação e identificou as raízes da decadência francesa. Em 1848. amplamente lido como um evangelho da regeneração nacional. Renan distinguiu duas principais causas de declínio: democracia e materialismo. no entanto. mostrou que ele ainda via o povo como a populaça e esta como um monstro. visivelmente esquecido de que a vivência real fora aquela a que o terror branco recorrera para dizimar os partidários da Comuna de Paris. A Comuna foi uma "horrenda paródia do Terror". Renan — mesmo sem endossar a idéia rousseauiiiana de nação como uma unidade política fundada na vontade geral — definiu-a como "um plebiscito de todos os dias". desprovido de história. um prolongado exemplo de consenso tácito. o que fazia com que o futuro pertencesse à República e não à Revolução. escrito em 1848 mas publicado 42 anos depois. Portanto. Mas o diálogo de 1878 que marcou a sua reconciliação morna. A Alemanha.antigo e moderno Liberalismos conservadores 131 daquela ardorosa fé secular típica da "religião da humanidade'' de Gomte. ao "fclichismo de 1789". a Comuna Vermelha levaram-no a um abatimento. ele descreveu a ciência como uma nova religião do saber que estava tomando o lugar de antigos dogmas no coração do homem moderno. agora um membro da Academia e muito honrado pelos meios anticlericais da Terceira República. Renan. Mas em O futuro da ciência. a limitação do sufrágio que ele aconselhara explicitamente na Reforme intellectuelle et morale podia ser atenuada. O que resultou foi um livro curto. Enquanto a sociedade americana. de uma maneira que não. ainda mais. exaltando a Grécia antiga como o berço da razão ei da beleza. Insistindo no substrato celta do sangue francês. a Prússia prosperava sobre a ciência e a hierarquia. vinha vivendo nobremente em prol da ciência e da guerra. A democracia. Sua Oração na Acrópole (1876) foi um clássico do humanismo vitoriano. "nem disciplina. diferia muito da visão elitista da psicologia coletiva elaborada por Gustave Le Bon (18411931) — que era uma tentativa racista de destruir "o mito democrático". por contraste. "Calibã". afirmou que a raça gaulesa — diferentemente da alemã — detesta hierarquia. Primeiro. queria pôr termo. A França sucumbira porque estava tornandose egoísta e cética. nem resulta em aperfeiçoamento moral". Entrementes. Recusando-se a aceitar o conceito germânico da nação como uma comunidade racial. Mas a humilhante derrota da França diante da Prússia em 1870 e. O país navegava para a mediocridade. Renan prefaciou seu livro Nouvelles études d'histoire réligieuse (1884) reconhecendo que o progresso da educação básica minava a superstição e fomentava a ascensão de uma mentalidade científica — e ainda assim . Renan tinha duas críticas à democracia. Renan simpatizou com os republicanos. O gosto germânico pela conquista e sentimento de propriedade estava sendo substituído a oeste do Reno pelas forças niveladoras do socialismo (que brotavam do egoísmo) e da democracia (oriundas da inveja). jovem e desprovida de história. chegara a um acordo com a democracia. fundava-se na liberdade e na propriedade./ 30 O liberalismo . Reforme intellectuelle et morale (1871).

O conceito chave consiste aqui no Rechlsslaal. Sendo possivelmente o maior artista da prosa não liccional francesa desde Chateaubriand. e os liberais franceses em sua rnaioria historiadores (como Guizot e Tocqueville). sendo ambos Estados devotados explicitamente à felicidade dos súditos. a participação do cidadão. Um consiste na idéia de Humboldt dos "limites do Estado".~l Havia um parentesco claro. Embora o termo lenha sido cunhado (por KarI Welrker) em INI'1. num momento em que muitos liberais franceses estavam prontos a acolheu' uma visão ampliada da liberdade política. ou autodeterminação — um conceito kantiano que Humboldt fundiu no humanismo de Weimar na forma da idéia de Bildung. O outro reside na liberdade como autotelia individual. a idéia de lu-c/itwlmil pei lence a época de Kanl. O primeiro pensamento liberal opôs-se fortemente a essa visão paternalista. Felizmente.anlitro e moderno Liberalismos conservadores 133 não creditou isso aos esforços democráticos d. civilizado.) . por volta de meados do século XIX. os publicistas alemães de tendências liberais eranj principalmente juristas. do 'I'.i Teueira República./ J2 O liberalismo . A filosofia política dos grandes pós-kantianos. (*) A palavra:figura. portanto. Pois exatamente como os liberais ingleses haviam sido principalmente economistas e filósofos morais (como Smith. afastou-se do liberalismo. a sacralização dos direitos públicos subjetivos na lei positiva. o princípio de cultura pessoal. isto é. O pai da teoria do Rechlsslaal foi Robert von Mohl (17991875). Constant formulou uma exigência famosa de que o Estado se limitasse a garantir a ordem e a segurança. por indireta que fosse. Mill e Bagehot). no dicionário de Laudelino Freire. oriundo da noção não-intervencionista do Estado como um "vigia noturno" (Nachlwãchlerstaat).' 9 uma alternativa germânica para o governo do direito. um regime de prolessoies de escola se jamais houve algum. (N. polido). 20 O Rechlsslaal assim concebido implicava dois princípios liberais básicos: direitos individuais e constitucionalismo no sentido do governo da lei. entre o "Estado de direito" e o Estado vigia noturno do primeiro liberalismo em ambas as margens do Reno. A ascensão do conceito de um "Estado de direito" foi uma reação contra a idéia do Polizeislaat. o que faz com que tenhamos de regressar a Kant para apreender as sementes do pensamento liberal alemão. nesse seniiclo. o "Estado àz direito". abrindo lugar dessa forma para o conceito de um "Estado legal" fundado em direitos. um jurista de Heidelberg muito ativo em política liberal.* O Polizeistaat era o "Estado moral" do absolutismo esclarecido ou da monarquia constitucional hegeliana. a imagem de Renan pernumeceu prisioneira da separação implausível que praticou entre liberalismo e democracia. Semiliberalismo: do Rechtsstaat alemão a Max Weber Já foram mencionados dois conceitos do liberalismo alemão. (Ele foi ministro da Justiça durante o breve governo do Parlamento de Frankfurt na Revolução de 1848. enquanto a responsabilidade pela felicidade pessoal em uma sociedade livre caberia aos cidadãos ("nous nous chargerons d'être heureux"). no processo legislativo.) Mohl dividiu o direito estatal em dois ramos^ o constitucional e o administrativo. o legado ideológico de Renan foi tão retrógrado para o liberalismo quanto a política de Gui/ot. " No conjunto. suplantando a velha identificação da lei com o governante. o liberalismo francês no último quartel do século contornou ou ignorou largamente suas obsessões. uma despersonalização da lei. o "Estado de polícia" (no sentido clássico de "polícia". Denota pelo menos quatro coisas: um arranjo constitucional capaz de garantir segurança e que dota o sistema legal de regularidade. notadamente Fichte e Hegel. pelo reconhecimento do direito como uma norma eme obrigava tanto o governante como o governado.

Seu Dicionário político (1834-1848). submetera o executivo á assembléia nacional. como as de Mohl. deu-se ao trabalho de dissociar o "Estado de direito" do "Estado popular de Rousseau e Robespierre". assim. Aquele que mais desafiava Stahl. Os primeiros são direitos privados. é um exemplo. e o submetido. enquanto os últimos são direitos públicos inerentes ao status do indivíduo. dominado pelos prussianos. tornou-se o mais prestigioso corpo do liberalismo alemão. mas asseverou que. o mais das vezes. tratava despolicamente a cidadania. porque."" Mohl não estava inteiramente satisfeito com o individualismo de Kant. O conservadorismo alemão autoritário era tão forte que. um ataque cujo significado político tornou-se demasiado claro quando Stahl. A mais forte escola legal na segunda metade do século XIX. fez distinção entre duas espécies de direitos pessoais. tinham de lutar contra medidas reacionárias em vez de propor reformas liberais abrangentes. o grande filósofo diminuíra a dimensão política dos direitos individuais. de Heidelberg. j \ O liberalismo do conceito de Rechtsstaat foi criticado por Friedrich Julius Stahl (1802-4-18G1). O maior nome na teoria guilhermina do Estado. à moda do direito natural. Rudolfvon Gneist (1816-1895). por sua vez. ter o poder"). foi retomada por um erudito mais jovem. de forma paradoxal. Também Stahl favorecia o governo constitucional. que permanece inteiramente ao arbítrio da pessoa. e. de Estrasburgo (1838-1918). o povo soberano vivia sob um governo arbitrário. afirmou Gneist. Heinrich von Treitschke (1834-1896). assim como os da esfera da liberdade de seus cidadãos — nessa ordem. da individualidade absoluta. Georg Jellinek (1852-1911). Com a ascensão do Segundo Reich.. os liberais sulistas. a positivista legal. A defesa feita por Gneist do sistema germânico. desprovido de poder parlamentar mas com tribunais executivos. ergueu-se em pleno declínio do conceito de cidadão. Treitschke definiu liberdade como autonomia no interior do Estado. Isso só podia significar uni ataque no Rechtsstaat liberal. A França. Exaltou as reformas de Bismarck como uma terceira via entre os privilégios feudais dosJunkers e o governo local eletivo segundo o modelo ocidental. O objetivo dos liberais alemães sulistas Karl von Rotteck (1775— 1840) e Karl Welcker (1790-1869) consistia em fortalecer o escopo da liberdade política no interior do "Estado de direito". Rotteck e Welcker eram liberais constitucionalistas e ambos perderam suas cátedras em Heidelberg porque exigiram governo representativo moderno.iem sua opinião. descartando enfaticamente o conceito de vigia noturno. o liberalismo alemão passou a ser distinguido com dificuldade do conservadorismo liberal ou não tão liberal. não exterior a ele. competia ao Estado io direito de determinar e garantir o escopo e os limites da açáo governamental. por meio da lei. contra o conservadorismo de Stahl. afirmou que "o indivíduo é tão pouco absorvido pelo conjunto como o ser humano pelo cidadão". Paul Laband. Diferentemente de licere. teórico conservador que ensinava em Berlim. Em seu tratado clássico. . uma "aberraçacj>" em que o povo pensa que seus padrões não são "limitados por qualquer barreira legal". à sua esquerda. reitor da Facuklai de de Direito de Berlim. ele censurou o sistema parlamentar francês por implicar um triunfo da política em detrimento da consciência legal. Der Rechtsstaat (1872). de 1846./ >'-/ O liberalismo ~ antigo e moderno Lwaulismos cumeivadures lít> Em 1859. que sustentavam opiniões antiprussianas. Figura dirigente do positivismo legal guilhermino. contra o liberalismo ocidental. simplesmente negou a existência de direitos públicos subjetivos — a noção mesma que motivara a criação do princípio do Rechtsstaat. os direitos posse são ao mesmo tempo direitos e deveres — e a afirmação de tais direitos não implica um reconhecimento. em sua anti-hegeliana Filosofia do direito."'1 Gneist lutou em duas frentes: à sua direita. Há direitos que têm a natureza de um licere (do latim para "ser lícito") e há direitos que eqüivalem a um posse ("ser capaz de. Em todo o seu desenvolvimento havia uma baixa conspícua: a autonomia dos direitos individuais. conjuntamente editado.

no q u e diz respeito a p r o m o v e r os interesses da A l e m a n h a c o m o u m a potência. Aos olhos de W e b e r . e n q u a n t o a burocracia poderia I rançar a sociedade m o d e r n a n u m a "gaiola de feiro" de* sei vidao. tão b e m retratado em sua o b r a mais conhecida. q u e se t o r n o u a estrela mais brilhante no f i r m a m e n t o acadêmico de H e i d e l b e r g depois da virada do século. Sua crítica da men1 a!idade "feudal" Jiuiher c do slatus nligánpiicn ronl inlui uma opção tanto para o capitalismo q u a n t o para o liberalismo. Na época pós-bismarckiana (1890-1918). Robert Edcn. Em t e r m o s de influência m u n d i a l p ó s t u m a . impregn a d o de m u i t a reticência diante do individualismo. a m o d e r n i d a d e t a m b é m significava um crescimento de racionalidade formal. revelou-se no m á x i m o u m semiliberalismo. u m a velha idéia luterana. Isso l a m b e m o habilitou a reconstituir o ethos ascético da idade heróica da burguesia. tradição. e sugeriu q u e o g o v e r n o autocrático de Bismarck e sua estrutura institucional haviam privado a Alemanha de uma boa educação política. sust e n t a n d o o u s a d a m e n t e o governo. difundido de racionalidade i n s t r u m e n t a l (a a d a p t a ç ã o ideal "dos fins aos meios" e m ação social). Webertlcsaliou a csliittura auloiitái ia do Reicli guílhei mino a partir de unia posição nacional-libcral avançada. Diferentemente de Tocqueville e Mill. Contra essa perspectiva gelada. ou s e n t i m e n t o . um n ú m e r o crescente de n o r m a s cuja aplicação exige perícias específicas. e a hegem o n i a nacional. n u m e x a m e m u i t o lúcido do p e n s a m e n t o político de Weber.o fato de que m e s m o os líderes mais criativos necessitam de apoio social e têm de trabalhai' n u m contexto de classes. Parlamento e /'•(ineriio (1917). n e n h u m deles ultrapassou o sociólogo ( d i p l o m a d o c o m o historiador j u r í d i c o ) Max W e b e r (1864-1920). mas W e b e r conferiu-lhe novo e n c a n t o usando-a p a r a esboçar u m a dialética e n t r e a individualidade e a ascensão do profissionalismo em nosso [empo. c o m o na clara advertência de "Política c o m o vocação". vocação (um talento) e carisma. e m contraste com c o m p o r t a m e n t o g o v e r n a d o p o r valores absolutos. 2 '' O conceito de vocação era. é claro. c o m o p a r a Nietzsche. tanto q u a n t o a eficiência. Sua visão histórica era u m a f o r m a b r a n d a do Kulturpessimümus. o d o m í n i o dos 'políticos profissionais' sem u m a vocação. N u m a aula m a g n a p r o n u n c i a d a em Ereiburg em 1895. u m a nova geração de liberais e n t r o u a questionar o statu quo político. mais b e m exemplificada p o r líderes c o m o Gladstone e Lloyd George. " t a l e n t o " e carisma são misturados. E m b o r a W e b e r não ignorasse. ou democracia sem liderança — ou seja. o d o m í n i o da elite. a leste do Elba. o fantasma de Hegel prevaleceu o b v i a m e n t e s o b r e a s o m b r a de Kant e Locke. acredita q u e sua ênfase n o "talento" era u m a resposta a o individualismo d e m o n í a c o d e Nietzsche. Weber discerniu dois antídotos. De m o d o mais amplo. publicado em 1919: "há apenas a opção: democracia com liderança (/''ii/irenlemohralie) com a 'máquina' (partidária). a criação de valores implicava hierarquia e d o m i n a ç ã o ./ 36 O liberalismo . advogou MIM regime parlamentar c o m o um meio de selecionar a verdadeira liderança." A única m a n e i r a de evitar "o d o m í n i o burocrático descontrolado" era u m a política do carisma. um e l e m e n t o nietzschiano em seu p e n s a m e n t o fez c o m q u e ele encarasse a liderança c o m o um a r r i m o p a r a hierarquizar m o d o s de vida. W e b e r foi m u i t o um "liberal do poder". A ética protestante e o espirito do capitalismo (190 / l). Weber . Um dos primeiros golpes de W e b e r na luta política foi um estudo da inépcia e c o n ô m i c a c política da classe úosjunkers. W e b e r alimentava graves desconfianças q u a n t o à m a r c h a da racionalização p o r q u e ela p o d e r i a firmar um d o m í n i o dos meios sobre os fins. Em seus escritos políticos tardios. Para ele. N u m a série de artigos q u e escreveu na é p o c a da g u e r r a . a alma do vasto processo social de hurocralização. A m o d e r n i d a d e era o r e i n o da racionalização — o c r e s c i m e n t o c o n t í n u o . O liberalismo j u r í d i c o alemão. sem as qualidades carismáticas internas que s o m e n t e elas constituem um líder. Essa espécie de perícia em n o r m a s era. ele c e n s u r o u todas as classes sociais p o r sua i m a t u r i d a d e política.antigo e moderno Liberalismos conservadores 137 Nesse p o n t o .

e o positivismo c o m o u m a busca de explicação causai em ciência social. A p r ó p r i a d e m o c r a c i a . Croce e Ortega E m sua sociologia histórica c o m o u m t o d o . p o r mais q u e fossem d e m o c r á t i c a s as suas i n t e n ç õ e s .r>. o filósofo e h i s t o r i a d o r B e n e d e t t o C r o c e (1866-1952). Economia c soí. Mas se o liberalismo deve Ser . segundo a qual a lógica das humanidades é essencialmente alheia à p r o c u r a de realidades q u e caracteriza a ciência natural.antigo e moderno Liberalismos conservadores 139 ansiava p o r cesarismo eletivo. e n ã o a p e n a s das esperanças. Essa c o m p r e e n s ã o levou-o a encarar com m e n o s e n t u s i a s m o o P a r l a m e n t o c o m o u m seletor d e líderes. S e m p r e ansioso q u a n t o à liberdade do h o m e m culíitas vezes i g n o r a d o o alcance c o n c r e t o tural. W e b e r rejeitou o socialismo p o r q u e . em sua opinião. O liberalismo de W e b e r n ã o continha q u a l q u e r teoria de direitos naturais e n e n h u m a m o r pela democracia. o socialismo e n g e n d r a r i a um planejamento social a m p l o e. inclusive de seu colega de H e i d e l b e r g Jellinek. Era b e m diferente a atitude do principal c o n t e m p o r â n e o de W e b e r na Itália. Vindo de u m a escola de p e n s a m e n t o a b e r t a m e n t e neo-idealista. 2 '' I m p r e s s i o n o u W e b e r a dem o n s t r a ç ã o p o r Moisei Ostrogorski e R o b e r t Michels (seu a l u n o em Heidelberg) do papel r e p r e s e n t a d o pelas oligarquias partidárias em g r a n d e s d e m o c r a c i a s m o d e r n a s ./> < S ' O liberalismo . De forma bastante estranha. dos clássicos da liberdade. Croce estava orgulhosamente m e r g u l h a d o em antipositivismo e. apenas um declínio de chefes locais e u m a ascensão do líder plebiscitário. era p a r t e de um q u a d r o mais amplo d e e r r o intelectual. c o m o a G r ã ." Ele n. devido à e m e r g ê n c i a de g r a n d e s m á q u i n a s partidárias p a r a enfrentar o sufrágio em massa. T o d o o historicismo p e n d i a para a i n t e r p r e t a ç ã o e e f e t i v a m e n t e desenvolveu a c o n c e p ç ã o dualista do conhecimento.i Revolução Russa de lí)(). i n d e p e n d e n t e m e n t e da revolução (a qual. e na sua a b o r d a g e m pioneira do palrimonialismo em sua magrmtn opus. e no d e b a t e constitucional no começo da República de W e i m a r ele prescreveu u m a presidência forte q u e brotasse do sufrágio universal. E n q u a n t o o seu individualismo e o seu dissabor p e l o Estado g u i l h e r m i n o salvaram-no do semiliberalismo dos juristas Staatslehre. p a r a Croce. no caso dos social-democratas alemães. W e b e r parece ter mu Lfio p r o p o r c i o n o u . p o r t a n t o . n ã o acarretaria qualquer verdadeira distribuição de p o d e r ." q u a l q u e r visão de baixo p a r a cima. a sua falta fundamental de instintos democráticos colocouo atrás da sabedoria. tanto em seu kS pS~ fiel à sua p r e o c u p a ç ã o c o m o c o n t r o l e do p o d e r . na sua eoneeituali/.ii'dada. Só isso. p a r a c o m a tradição positivista. em poucas palavras da liberdade social.B r e t a n h a e os Estados Unidos. O positivismo. Mas seu lugar na história do liberalismo é um tanto prejudicado pela ausência. classifica o liberalismo de liderança de W e b e r c o m o um liberalismo conservador. liderança plebiscitaria. de q u a l q u e r perspectiva caie ligue a legitimidade dos regimes e dos governantes à condição real dos governados. pode-se dizer q u e W e b e r foi o h o m e m q u e celebrou a paz e n t r e o historicismo alem ã o . deu seu p r i m e i r o passo fazendo saltar as versões mais d e t e r m i n a n t e s do marxismo (em Malcrialismo histórico e a economia de Karl Marx. c o m sua paixão pelo significado singular dos f e n ô m e n o s sociais e culturais. e m b o r a p e r m a n e c e s s e convicto do papel da C â m a r a no controle da administração e na p r o t e ç ã o dos direitos civis. ele p e r c e b e u q u e era mais retórica do q u e ameaça).açãc > d o Estado. 1900). o italiano meridional Croce estava muito mais p r ó x i m o d o d e s p r e z o c o r r e n t e pela explicação causai n o Historimus do q u e o prussiano W e b e r . nessa condição. W e b e r p o d i a ser u m analista m u i t o a r g u t o d e conjunturas políticas e de estruturas sociopolíticas. com efeito. c o m o se vê em seus comentários sobre . ele tem de perm a n e c e r a t e n t o ao p o n t o de vista d a q u e l e q u e está p o r baixo. os hegelianos do sul da Itália. mais burocracia. r e m o n t a n d o a o p e n s a m e n t o jusnaturalista critos sociológicos q u a n t o políticos.

Croce tornou-se o mais conhecido dos opositores liberais do regime de Mussolini. o próprio termo com que denotava "liberdade econômica". uma História da Itália de 1871 a 1915 (1925) e uma História da Europa no século XIX (1932).140 O liberalismo . o liberalismo. Croce sentia prazer em dizê-lo. O principal intelectual fascista era o seu ex-amigo. mas a verdade é que o próprio C roce incluiu a democracia entre os princípios mais contaminados pela "fraseologia positivista" e suas visões do homem e da sociedade "profundamente erradas". como herdeiro da ala direita do Risorgimenlo ("Ia destra storica"). por causa do seu altivo desprezo pelo materialismo em ética. ./. franco-maçonaria e fanatismo igualitário) e a triste idade do positivismo no fim do século XIX. Na opinião de Croce. Mas também queria demonstrar o motivo por que o liberalismo falhou. e ele se pôs ao lado dos Impérios centro-europeus na Grande Guerra. O própúo Jin-desiècle de Croce abundava em virúlentas correntes antipositivistas. depois de alguma hesitação. Em seu ensaio "Liberalismo e liberismo" (1928). como apreensão de Iodas as coisas hiimanasj à razão histórica concreta forjada por volta de 1800. para se defender contra a opressão ideológica dos meios tradicionalistas. 29 A nova posição intelectual estava fadada a refletir-se na sua própria qualidade de liberalismo. por assim dizer. Seu anlima/. em seus dias heróicos. Ele tendia a depreciar a ala mais romântica do Risorgimenlo — a escola de Mazzini. o liberismo não passa de um preceito econômico que. nunca penetrara em Nápoles. a longo prazo. Em 1023. Croce salientou que. porque sustentavam crenças histórico-políticas muito'mais sólidas. o filósofo Giovanni Genlile. em lugar da fé. em última instância. ele veio a aceitar se não propriamente gostar da ação recíproca dos mecanismos democráticos.antigo e moderno Liberalismos coiiservadores 141 c ao racionalismo do Iluminismo. Também. tomado equivocadamente por uma ética liberal. que fora redescoberlo por românticos como Mie íélcf.inismo. Ele queria escrever história filosófica como "a história da liberdade" de um "ponto de vista éüeo-político" — um programa actoniano. ele parecia sugerir que algum consenso moral. dois anos antes de lançar um manifesto de intelectuais antifacistas. Croce seguiu o teórico conservador elitista Caetano Mosca (1858-1941) numa defesa das instituições liberais. pouca simpatia mostrara pelo republicanismo de esquerda — pelo componente democrático da herança liberal. Croce escreveu duas obras notáveis sobre o século de seu nascimento e formação. alimentasse a chama liberal. 30 Croce era o símbolo vivo do pensamento anticlerical entre os não-socialistas italianos. no entanto. insistiu em que o liberalismo não devia ser igualado à idade efêmera do laissez-faire ou. a práticas e interesses econômicos. ao fazer isto. o espírito democrático da igualdade era tão simplista quanto "abstrato". Assim. Croce introduziu uma cunha conceituai entre liberalismo e liberismo. Aos //hiloso/mes do Iluminismo. solapara a sua própria convicção moral. lançara a opinião de que os valores são subjetivos e que os fatos são neutros em matéria de valor. o liberalismo. Croce estimava tão pouco a democracia quanto Weber. enquanto o liberalismo é um princípio ético. Sua fama na Europa depois da publicação de sua Estética (1902) forçou o fascismo a respeitá-lo. de um modo geral. Para Croce. st') podia agravar as desconfianças de Croce quanto à democracia. como Weber. Não obstante. Croce resolveu resistir. degrada o liberalismo a um baixo hedonismo utilitário. Mas o problema consistia. desde que coubesse a ela inflamar um movimento político como o fizera no Risorgimenlo. a qual. a razão do século XV11I fora demasiado abstrata e rígida e era definitivamente inferior. Croce opõe o jconlra-Ilimiinisnío de Giamballislaj Viço (1668-1744). Mas. em que. acompanhado como o foi por tuna onda belicosa de luta de: classes. uma ditadura a que. que logo seria partilhado pêlos fascistas. Croce exaltou o próprio Risorgimenlo como um maravi l^oso interlúdio romântico entrei dois estágios negativos — o Iluminismo (jacobinismo. Ele pensou que. ao dar origem a uma resistência bem-sucedida do facismo." O advento pós-guerra da democracia política. Em seu livro Ética e política (1922) e em outros textos da década de 1920.

no entanto. proliferaram na Espanha diagnósticos introspectivos da "doença nacional". Ortega é mais conhecido em teoria política como o autor de A rebelião das massa. pela primeira vez em história registrada. disse ele. No lado negativo.antigo e moderno Liberalismos conservadores 443 Como ministro da Educação de Mussolini (posição que o próprio Croce ocupara previamente no gabinete do astucioso primeiroministro Giolitti). Croce reduziu seu "historicismo absoluto" a uma teologia leiga da liberdade.rnol. Antônio Gramsci. sendo Mosca o fundador da teoria elitista. (1929). a despeito de seus aspectos conservadores. Croce manifestou uma indiferença básica pelo conceito liberal dos limites do Estado e do podei'. a decadência tornou-se um IHl. Ortega queria ir tão longe quanto possível numa abordagem mais radical: a busca das antigas raízes do mal espanhol. Ortega censurara seu próprio país por sua "aristofobia". Ortega começou por desfechar um tiro a longa distância na democracia. Tentou também provar que o direito histórico — liberalismo italiano tradicional — fora tudo menos individualístico. terminando numa noção de liberdade quase mística. o inspirado "historicismo da liberdade" de Croce não foi um grande ganho teórico.'. Seu tipo humano geral leva a uma afirmação dos direitos da mediocridade. com os quais o jovem Ortega estudara em Marburgo imediatamente antes da guerra. uma influência hegemônica da espécie que Croce exerceu na Itália pertenceu por muito tempo a José Ortega y Gasset (1883-1955). como pode uma sociedade ser? Essa problemática constitutiva era típica dos neokantianos. A ideologia democrática. falou da liberdade como a revelação do Espírito da história concreta — algo apenas menos nebuloso do que o seu original hegeliano e que dificilmente levava a uma análise empírica da liberdade e da coerção. no final das contas. um Estado. tem o hábito de perguntar: o que deve ser uma sociedade? Mas o verdadeiro problema reside em decidir: em que consiste uma sociedade? O que a constitui — ou melhor. Relembrou igualmente a fascista fábula política em torno da consciência que tinha Maquiavel da política como esfera de foiça e de condito.í2 — na linguagem prática da práxis real. o que fazia com que o fascismo fosse uma verdadeira continuação do genuíno liberalismo italiano. Depois da derrota traumática diante dos Estados Unidos na Revolução Cubana de 1898. a Espanha fora outrora um grande Estado. enquanto seu exorcismo do liberismo parece um tanto inadequado em nossa idade de liberalização econômica. 33 Mas. A sociedade de massas é habitada por criaturas eníátuadas. Na Espanha. capaz de criar sistemas integrativos ainda mais . Sete anos antes. apesar de sua tardia aceitação de instituições liberais. Croce teve o bom senso de refutar a mistificação fascista quanto ao "Estado ético" chamando honestamente atenção para os elementos de coerção inerentes a todos os Estados. pelo fato de que evitava e depreciava os melhores. embora psicologicamente estejam um pouco perdidas no meio da tecnologia. A meritória oposição de Croce ao fascismo e sua defesa da individualidade moral diante do holismo autoritário colocaram seu liberalismo.iv da alta cultura espanhola. Sua historiografia liberal como um épico da "vida moral" do Ocidente moderno deixa transparecer um espírito que não se pode achar em qualquer coisa escrita pelo "neomaquiavélico" Mosca. Analisando a sociedade moderna.142 O liberalismo ." Para evitai' o voluntarismo irracionalista de Gentile (mesmo antes que se separassem por causa do fascismo). Nisto ele seguiu Treitschke (cuja Política ele traduzira) e manteve-se próximo da famosa definição de Webei de que o Estado e o monopólio da coerção no interior de um dado lerrilório. a boa distância do conservadorismo liberal de Vilfredo Pareto (1848-1923). Ortega afirmou que. como Roma. "uma religião da liberdade". a civilização viera a rejeitar o princípio da elite. em seu panfleto Espanha invertebrada. Ora. em última instância intraduzível — como acusou um marxista crociano. Gentile apropriou-se do conceito hegeliano do "Estado ético" com um franco ânimo antiindividualista. provideneialista.

portanto. O culturalismo era para ele um cristianismo sem Deus. pois parece residir em sua equalização amplamente implícita da democracia com uma civilização alegadamente estéril. nas regiões. Ortega conclui que a ascensão "visigótica" de 1500 apoiara-se numa força artilícial — e. é claro. afirmou. Ortega aplicou uma crítica nietzschiana à cultura européia. a tribo! germânica que se estabelecera na península. Por que então toda a raiva contra a democracia? A resposta de Ortega é uma tautologia. O homem da massa. e esse raciovitalismo. Tais Estados não se fundam apenas na força. os visigodos haviam sido contaminados pela decadência romana. o que cabia ao povo. conservadora e espiritualmente estreita. danças. A rebelião das massas escreveu aristofobia em letras garrafais.144 O liberalismo . impõe-se que haja um "projeto sugestivo de vida em comum" — como a prolongada luta de Castela contra os mouros. e não um preconceito social a favor das classes superiores. um nivelamento niilista em nome do democratismo. os modernos. disse Ortega. perguntando como se podia chamar conquista a um empreendimento que exigira tanto tempo (oito séculos) para ter êxito. a cultura vitoriana da razão e do progresso. empreendeu a conquista da Itália e especialmente da América. enquanto Grécia e Roma fracassaram porque lhes faltaram princípios. uma figura central embora solitária na . pregando "a necessidade de sujeitar a razão à vida". O tema moderno (1923). já na altura de 1600. depois de Filipe III. Em seu livro mais original. deveriam fundar-se na excelência. O mundo do homem do povo estava a ponto de ser governado por "gente infantil" como os americanos e os russos. Significativamente. faltava-lhes o instinto franco para seguir líderes vigorosos. Esforçouse seriamente para explicar que o seu pleito em prol das elites era uma questão cultural. Por um momento. Ortega definiu barbarismo como uma falta de normas. Ortega não se dignou a explicar como uma ascendência tão pobre chegara a inventar o ' projeto sugestivo" tanto da Reconquista como da Conquista. para que um Estado seja tão integrativo. não era de espantar que a decadência se tivesse logo instalado. O grande cursor de Ortega no ensaísmo espanhol foi Miguel de Unamuno (1864-1936). não podia haver formação de Estado ou expansão de Estado — nem mesmo reafirmação nacional. avessa a ser governada pelos aristoi. A Espanha. Diferentemente! dos francos. Acima de tudo. era a mediocridade tentando impor a mediocridade. Mas também nos disse que.antigo e moderno Liberalismos conservadores 145 abrangentes. em conquista e dominação. Sem aristocracia. os primeiros limitavam-se a mascarar seu primitivismo por trás das invenções mais modernas. estamos fracassando porque nos faltam homens — os aristoi. sua melhor arte era a arte popular — ofícios. tornou-se a bandeira filosófica de Ortega. Num vôo de fantasia social não indigno de Renan. A Espanha permanecera uma nação de camponeses. Em lodo lugar haviam surgido particularismos — no governo. Ortega cismou na fraqueza dos visigodos. Contudo. Nietzsche descobrira a autonomia dos valores da "vida" numa civilização propensa à adoração da cultura e contra tal civilização. a partir do fim da Reconquista. uma liderança que conta com o assentimento — e mais: com o acompanhamento entusiástico — do povo. disse Ortega. todo esse esforço requer uma aristocracia. das Sete Colinas ao Lácio e da Itália a todo o Mediterrâneo. nas classes sociais. tornara-se hesitante. Ele chçgou a zombar da Reconquista. Ortega não era de forma nenhuma um elitista social. Era uma bena que a Espanha nunca tivesse contado com o feudalismo certo^ disse ele. nós. pois aos olhos burgueses (aqueles que Nietzsche apelidou imortalmente de "filisteus da cultura") o reino da cultura gozava do mesmo status transcendental antes atribuído à divindade cristã. especificou. Daí a energia com a qual a Espanha. e não no dinheiro. as novas elites. pelos rhclhores: era uma sociedade aristofóbica que produzira tão poucos grandes homens quanto a Rússia. O tema moderno foi um apelo de trombeta para que se rompesse com o fanatismo da cultura em benefício da "razão vital".

Mas. não podia esconder s|eu desprezo pelo duro. mas um homem com visão. Unamuno oferecia uma franca aversão. Ele namorou a República. disse Ortega. Entre Unamuno e Ortega.'1'1 Mas O tema moderno não é apenas uma crítica do culturalismo. Depois. insistia no valor da ciência é |da tecnologia e zombava de Unamuno por colocar São João da Cruz (isto é. Contudo. de que as revoluções são "temporadas de ética experimental". como fizera Croce na Itália fascista. separa decididamente a arte do estadista do revolucionarismo. Ortega. sua visão burguesa patrícia salvou-o de complacência para com a política plebéia de mobilização no fascismo. que Ortega chamou de "chacal"). Em termos mais gerais e a longo prazo. Unamuno era um individualista radical. Unamuno vilipendiara o "Sancho Pancismo" da civilização moderna: seu positivismo. Devemos. O estadista é mais que um homem de ação. que queria transformar a Espanha num "povo de eus" {unpueblo deyos). seu empirismo. havia um abismo pessoal. recusou-se a atuar como um foco de resistência liberal. Ortega era um nacionalista. Ortega não esteve acima de citar o dito de seu mestre de Marburgo. Mas. 36 e então tomou por sua própria iniciativa o caminho do exílio a partir do início da guerra civil até o fim da guerra mundial. a posição de Ortega passou a ter matizes crescentemente conservadores. e escreveu com simpatia a respeito da linha antiindividualista e antiutilitarista dos "novos liberais" ingleses. chocava-se com os sonhos de Ortega de projetos nacionais. mas principalmente de uma posição direitista. o "raciovitalismo". seu naturalismo. inflexível humanista provincial que foi exilado pela ditadura militar de Primo de Rivera (1923-1930) nos últimos espasmos da monarquia espanhola. começando talvez com sua resenha do livro de Georg Simmel Schopenhauer e Nietzsche. Ortega detestava q homem mais velho por causa de! seu áspero romantismo. uma estrela da alta sociedade madrilenha. uma aberta repugnância pelo rácionalismo. exatamente como o agnosticismo deles . Como Weber e diferentemente de Croce. Diferentemente do intelectual. Ortega tentou conjugar seu socialismo e seu nietzschianismo. De início. Isso. durante a década de 1920. é óbvio. um de seus mais vivos ensaios. nos anos vinte. declarou: "Sou um socialista por amor à aristocracia". "Mirabeau ou o estadista" (1927). durante sua últinia década. em contraste. o socialismo tinha de brilhar como um aperfeiçoamento moral da humanidade.antigo e moderno Liberalismos conservadores 147 geração antidecadente de 1&98. o sofisticado filósofo de classe média superior. desprovido de calor interno. Em vez da síntese esperançosa embora indefinível de Ortega. de 1908. É um livro que também questiona em termos nada equívocos o culto utópico do revolucionarismo. Além disso. Seus heróis eram socialistas reformistas que endossavam o princípio. Em seus primeiros artigos. a observação de Ortega de que o culto da revolução ia a contrapelo da moderna cultura ocidental mostrou-se uma opinião inegavelmente presciente. é um camarada trapalhão eme termina obtendo exatamente o oposto do que intencionava. como Ferdinand Lassalle (1825-1864) e Eduard Bernstein (1850-1932). A política real de Ortega sofreu uma evolução curiosa. por outro lado (como Robespierre. 35 Então. Na juventude. Novamente como Croce. o estadista deve ser um homem de ação. nem um pouco como o programa intelectualista do ideólogo. o misticismo espanhol) contra Descartes (o racionalismo do pensamento moderno). Eu. Em seu ensaio de 1913 "Socialismo e aristocracia". por exemplo. O revolucionário. o jovem Ortega começou a pisar em terreno virtualmente não democrático. Hermann Cohen (1842-1918). do Estado e da nacionalidade. neste ponto. a visão do estadista é altamente realista e pragmática. ele fora atraído pelo socialismo ético de seus professores neokantianos.116 O liberalismo . Uma vez que o poder capitalista não tinha rosto e era materialista. nos perguntar se o anti-revolucionarismo apriorístico de Ortega concorda com o que diz a história. não posso pensar em Lênin como alguém que obteve o oposto do que queria — mas exatamente o contrário.

o liberalismo clássico progrediu do whiguismo — a mera . membros do Estado. em contraposição à política. pois enquanto a natureza lúdica da arle moderna a torna IIlii símbolo de valores da vida contra o culltiralisino vitoriano. como o individualismo e o latitudinarismo. pois se a aceitação Conclusão O liberalismo clássico desdobrou-se numa série de discursos conceituais. da história por estágios (Smith e Constant). A democracia censitária. Assim. "caudilho da Espanha pela graça de Deus". Disse certa vez que. portanto. Ortega sabia como impedir que seu elitismo cultural degenerasse em reação política. Nem eram democratas os evolucionistas utilitaristas como Bagehot.IIS O liberalismo . ou mesmo o barbeiro não são. O brilho de A desuwanizacão advém logicamente (e não apenas cronologicamente) entre 0 lema moderno e A rebelião das massas. e na rejeição do holismo e da autoridade religiosa. o balconista. no fim. desde cerca de 1830 a 1930. não são independentes o bastante para o exercício de direitos políticos. toda concepção não democrática do direito público é tirânica. liberais ou não. e assim não se qualificam para ser cidadãos"/ 7 com o fundamento de que tais pessoas subsistem mediante a venda de seu trabalho e. em que "o empregado doméstico. o liberalismo clássico ultrapassou. parecia. Os whigs normalmente concordariam com Kant. pela fidelidade aos traços básicos da visão liberal do mundo. Com tais discursos. em A desumanização da arte (1925). assinalaram um regresso a posições whig. a evolução do segundo liberalismo francês. procuravam geralmente retardara democratização da política liberal. de uma posição tocquevilliana. não contando com uma base de propriedade. Mas coincidiam com os conservadores na sua inclinação contra a democracia. exigência de liberdade religiosa e governo constitucional — para a democracia. de 1830 a 1870. quanto a repugnância do elitista cultural pela política populista — menos porque é uma política nãoliberal do que porque é plebéia. a forma pela qual Ortega foi hostil ao estatismo fascista implicava tanto a tradicional preocupação liberal pela esfera social. e da sociologia histórica (Tocqueville). Em contraste. o trabalhador. do utilitarismo (Bentham e Mill). e os subseqüentes liberais como Mame e Acton tentaram recorrer ao liberismo (Maine) ou ao federalismo (Acton) contra a maré democrática. O liberalismo whig era essencialmente um liberalismo de representação limitada. liberal republicano e constitucional.. de Paine e lientham a Tocqueville. Stephen e Spencer. restritiva. a ampliação cautelosa das franquias políticas inventada por reformadores whig como Macaulay tinha um escopo e significação menos que democráticos. antes disso. ou autonomia com uma ampla base social. localizou um elemento "aristocrático" da arte moderna em sua voluntária obscuridade lúdica de pensamento. Diferiam dos conservadores. os liberais conservadores. Igualmente. O mesmo pensador que.. permaneceu a pressuposição padrão no liberalismo whig — e lói precisamente isto que. uma involução. como escreveu em Mirabeau. Os teóricos liberais falaram as línguas dos direitos naturais (Locke e Paine). Assim. Os liberais conservadores eram neowhigs. pensou que a "verdadeira realidade histórica ó a nação c não o Estado" — um axioma normativo em vez de descritivo. do humanismo cívico (Jefferson e Mazzini). enquanto toda interpretação democrática de uma ordem viva diferente da esfera do direito público é plebeísmo. o hermetismo das formas modernistas representa um insulto deliberado ao espírito vulgar e demólico do homem do povo. era submeter a democracia a propósitos nãodemocráticos (Bagehot) ou a ela resistir em nome da garantia da sobrevivência dos mais aptos (Stephen e Spencer).antigo e moderno Liberalismos conservadores 149 os separara do clericalismo direitista que abençoou tanto o incrédulo Mussolini como o devoto general Franco. a despeito de toda a incongruência da base. o que queriam. Sob esse aspecto.

o apelo de Weber ao carisma e o anseio de Ortega por aristocracias culturais foram antes casos complexos da revolta modernista contra a modernidade — a curiosa alergia que sejnte o intelectual moderno diante da sociedade moderna. Pois onde Mill queria uma democracia qualificada exatamente porque sonhava com uma democracia de qualidade. de raízes elitistas. Croce e Ortega. acrescentaramJ I ' se três outros modos à série de discursos liberais: o idioma burkiano. convictos de que o "individualismo mais velho" já não era válido no contexto social do industrialismo tardio. e assim foi a primazia da ordem sobre a liberdade na fórmula de Alberdi de construção de nações. O semiliberalismo dos juristas alemães. manifesto ou coberto da democracia liberal. o jurista liberal que escreveu o clássico The Law ofthe Constilution. deplorou o salto do laissez-faire para o "coletivismo". Pois enquanto o foco de Croce na odisséia da vida moral ocidental ("vita morale") ainda se parecia 5 Dos novos liberalismos aos neoliberalismos As reivindicações do liberalismo social Segundo Albert Dicey (1835-1922). Desde então. tais como Weber. como em Macaulay. Alberdi.' Teóricos como Montague rejeitaram a visão evolucionista dos spencerianos. . por estágios. e o historicismo.150 O liberalismo . no fim do liberalismo clássico. Renan e Acton. relutavam todos. A livre competição. visou à justiça social. a equalização por Renan da democracia com decadência tomou a direção oposta. a linguagem "darwinista". I O resultado claro da inflexão conservadora da doutrina liberal. chamou de "revolta contra a liberdade negativa" — a própria coisa ainda tão central no liberalismo libertário de Mill. Eram os "novos liberais" de 1880. portanto. a reforma legal na Inglaterra conheceu duas fases durante o século XIX. seu objetivo foi primariamente ampliar a independência individual. De 1825 a 1870. Mill e Mazzini. foi um recuo aberto ou interno. e não como uma verdadeira preferência. Maine. Em seu caráter discursivo. ó qual estavam preparados a esposar no máximo por causa de motivos I racionais. o uso do darwinismo como uma elegia ao valor ameaçado do individualismo. Montague armou uma refutação habilidosa da analogia em que se predicava o darwinismo social. um liberal conservador amigo de sir Henry Maine. Seu movimento reacionário foi apenas em parte desfeito por sua rendição morna e final ao curso democrático da Terceira República. Começaram o que um deles. No livro The Limils of Individual Liberty (1885).antigo e moderno por Rémusat do princípio republicano foi um passo considerável dado no caminho da democracia (como o reconhecimento por Laboulaye do sufrágio universal). afirmou. os primeiros liberais conservadores do século XX. com seu tema de direitos sob controle. Seu dissabor pela política de massa ou cultura igualitária levou-os a posições menos liberais-democráticas que as de Tocqueville. como em Spencer. Francis Charles Montague (1858-1935). /5/ í J' vagamente com a velha visão progressiva. de Weber e Ortega. foi ainda outro exemplo do retardamento conservador no interior do liberalismo. Outros partilharam seu relato do salto sem endossar a avaliação que fez dele. Dicey. ou eram ambivalentes diante da democracia. Finalmente. os liberais conservadores tendiam a brigar corri o próprio princípio democrático. do historicismo liberal.

eel. Gomo Montague. O novo liberalismo era tão individualista quanto o de MUI. a liberdade é um conceito positivo e substantivo. Portanto. os fins racionais da conduta implicam a compreensão de que. pensamos num poder positivo de fazer coisas meritórias ou delas usufruir. especialmente porque a sua degradação terfnina por prejudicar o conjunto? A defesa que Montague fez do liberalismo social estava longe de ser antiindividualística. Normalmente. o Estado devia deixar que a cidadania livremente tratasse de seus negócios.O liberalismo . Então. fundada na idéia hobbesiana de liberdade como ausência de impedimento. Mas seu hegelianismo era um tanto peculiar. mas desorganizada paia qualquer outra finalidade. Isso consistia num ataque franco ao empirismo. A morte prematura de Green não impediu que sua redefinição do liberalismo se tornasse muito influente antes da Grande Guerra. qiie a sociedade moderna é de tal forma organizada que deixa pouco espaço para a liberdade individual. ou cultura pessoal. Green salientou o valor absoluto da pessoa como a fons et origo das comunidades humanas. Ele estava longe da base humana da ética utilitária (e do famoso dito de Hume: "A razão é e deve ser escrava das paixões"). . Green acreditava que. ensinou. e à tradição atomista de Bentham-Mill. o liberalismo estava se tornando "obstrutivo". Pois enquanto retinha a idéia do mestre de que a história é uma longa luta pelo aperfeiçoamento humano. na medida em que sua receita poli- Oblignliim pronunciadas em Oxford poiTliomas I lill Green (I8SG1882) em 1879 (publicadas postumamente em 1886). 2 O Estado nunca se podia pôr no lugar do esforço humano para a liildung. em sua forma clássica. Sua interferência só era legítima em benefício da segurança individual. como uma garantia da livre determinação pela sociedade da maior felicidade para o maior número. quando falamos em liberdade como algo de inestimável. Green não era tão minimalista.antigo e moderno Dos novos liberalismos aos neolitwraiumos 153 deixava impotentes os fracos. na Idade Média. também implicava uma crítica dos pressupostos filosóficos de Mill. Filho de um clérigo de Yorkshire. Não é verdade. Isso era também uma idéia alemã. mas podia e devia "promover condições favoráveis à vida moral". reduzido a sensações. Green caminhava de uma preocupação com liberdade ile para uma estima novamente despertada de liberdade para. o idealismo do novo liberalismo foi efetivamente uma revolta contra a liberdade negativa no sentido de Locke e de Mill. Para Green. e a moralidade a impulsos. Green opôs-se a uma representação do que é humano na qual o conhecimento é. burguês e camponês tendiam a partilhar a mesma vida interior ou a falta desta. suas diferentes roupagens recobriam muito mais uniformidade — cavalheiro. A mesma fé individualista inspirou as famosas I . A função do Estado. Montague pensou que nos tempos modernos as pessoas diferem em suas personalidades (se não em suas vestimentas) mais do que diferiam no passado. Green adotou o hegelianismo na Oxford de meados da era vitoriana. Tanto em ética como em teoria política. Não obstante.'por que não os ajudar. emjsociedade as vítimas da evolução não são inteiramente eliminadas. Nesse sentido. e que encara a sociedade como um amontoado de indivíduos. O que é desafortunado é que a sociedade está organizada para a consecução de dinheiro. diferentemente do que acontece na natureza. ele pôs um acento kantiano na autonomia individual. Green insistiu em que a ação racional é ditada pela vontade e opção de uma forma que ultrapassa o seguir simplesmente o desejo ou a paixão. devia consistir na "remoção de obstáculos" ao autodesenvolvimento humano. e não um conceito formal e negativo. um ataque levado adiante em nome do idealismo à moda alemã. em última análise. ao utilitarismo.ares on lhe Principies oj 1'oHUeal. mas permanecem como um peso morto no corpo social. Mas na sociedade os fracos estão longe de serem os piores. decorrente de Humboldt. De qualquer forma. Que dizer quanto a suas opiniões a respeito do Estado? O liberalismo clássico fizera recair o peso da justificação sobre a interferência estatal. argumentou Montague.

reflete uma preocupação greeniana em equilibrar a segurança social com a liberdade individual. Crane Uriiilon chamou Clrren de um salvado) do liberalismo. com sua filosofia idealista altamente espiritual. o poeta e legitimista que se tornou um inimigo feroz do Segundo Império. houve o republicanismo romântico do espírito de 1848. que consistia na qualidade da interferência estatal. como um terceiro grupo. em ambas as margens do canal da Mancha. na teoria social da Belle Époque. duas bíblias do liberalismo de esquerda na época. Em segundo lugar.*' Primeiro. Considerou a propriedade privada um arrimo essencial ao desenvolvimento do caráter. e no elhos de comunidade. ele não conferiu ao novo liberalismo vitoriano tardio qualquer inflexão socialista. porque mudou pressupostos c queria aliciar práticas. havia o republicanismo positivista de Jules Ferry (1832-1893) e l. no seu livro notável Lldée répnblicaine en France. Green sublinhou a participação política como uma obrigação moral. Convencido de que a independência econômica alimenta a autoconfiança. Renouvicr emergiu das batalhas de 1848 com uma posição filosófica que partilhava muitos princípios éticopolíticos. Green escreveu o prólogo moral ao liberalismo social de 1900. e não no fato de que esta se verificava. No fundo. os receios de MaineDicey-Spencer quanto a tal tendência erravam o alvo. por sua vez. Ao lado de Vacherot c Simon. Vacherot publicou La démocralie (significando a república) e Simon. em diversas posições políticas: neogirondinos como Quinet. Deve-se estar preparado para violar a letra do velho liberalismo para sei' liei a seu espírito — o amparo à liberdade individual. e como admirador sincero do liberalista quaker John Rright (1811-1889). Por exemplo. senão pressupostos metafísicos. Green foi o pai do reverdecimento do liberalismo mais exatamente na modificação do que na negação do credo clássico. antiaristocrática da o7 história inglesa.:Seus intérpretes modernos estão certos: Green deu ao liberalismo um recomeço de vida conjugando os valores básicos dos direitos e liberdades individuais com uma nova ênfase na igualdade de oportunidades. Pode-se dizer que a carta original para o Estado social britânico. Green pensou que é boa coisa a "remoção de obstáculos" mediante reformas esclarecidas que possibilitassem a maior número de indivíduos gozar de mais altas liberdades.154 O liberalismo . desejou converter os trabalhadores em pequenos proprietários. traçada pelo liberal William Beveridge (1879-1963) no Reform Club (onde mais poderia ser?) em 1942.eihires de (Irceii) assumiu a forma de republicaniavw. um prolífico filósofo não acadêmico. A seus olhos. embora não. La liberte. ele não abandonou o liberismo. pode-se colocar Charles Rcnouvier (1815-190-5). Em 1859. distinguiu (rês espécies de pensamento republicano por volta de 1870. Em último lugar. ele manteve uma visão enfaticamente rão-whis.'' Ao fazê-lo. Como Mill. neodantonistas como Michelet e Victor Hugo (1802-1885). 4 Isto ocorreria um pouco mais tarde. a idéia que Green tinha de aperfeiçoamento social consistia em que as classes médias iriam atenciosamente ajudar os pobres a se tornarem bons c conscienciosos burgueses — o que não é lão distante do próprio clitismo cívico de Mill. sem renegar os valores básicos da doutrina. Isso exigia fortalecer o acesso à oportunidade. houve os republicanos espiritualistas como os acadêmicos Etienne Vacherot (1809-1897) e Jules Simon (1814-1896). e resistiu á crença socialista de que o capitalismo é a causa fundamental da pobreza. que perderam suas cadeiras porque se recusaram a prestar juramento de fidelidade ao regime imperial. com o republicanismo espiritualista.' K isso (írcen foi. Claude Nicolet. Este subdividia-se.antigo e moderno Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 155 tica minimalista tornava-se crescentemente obsoleta devido à penetração cada vez maior do direito na sociedade no mesmo passo em que a civilização progredia.fosse partidário do laissez-jhire. Mas.éon . e neojacobinos como o socialista Louis Blanc. Na França. a transformação ética do liberalismo numa direção social liberal embora não socialista (que começou na GrãBretanha com o encanto das l.

Oriundo de um meio burguês protestante. em contraste. um catecismo socialista para professores primários. Simon denominava-se um "republicano profundamente moderado". transformaram os camponeses em franceses. Nasceu em Montpellier como Comte (e estudou sob a direção deste na Escola Politécnica) e morreu no mesmo ano em que morreu Spencer. Renouvier. como no positivismo de Comte.8 Ferry concebeu a república como Uma alavanca do progresso tanto moral quanto material. Quanto à economia. Combateu os clérigos católicos e elogiou o protestanlismo por sua ênfase na consciência individual. naturalista e necessitaria — e a filosofia da consciência — finitista. Ferry era um liberal anticlerical para querri a ação do Estado quanto ao problema social devia ser preferivèlmente "higiênica" a "terapêutica": o governo deveria encorajar arranjos de segurança social. o homem racional estava obrigado a assinar (por assim dizer) dois contratos: um consigo próprio. uni trocadilho fundado Jia bem-conhecida ópera cômica Les contes fantasiiques d'Hoffvuèn\i). Mas Ferry substituiu a utopia de Comte de governo científico pela política liberal. contrapondo o ideal republicano ao comunismo insurrecional de Auguste Blanqui (18051881). Ele era profundamente hostil ao revolucionarismo e ao jacobinismo. implantando a impressionante cadeia de escolas leigas que. Numa obra de ficção política. mas sem tentar remediar diretamente necessidades sociais.antigo e moderno Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 157 Gambetta (1838-1882). seus semelhantes./ 56 O liberalismo . na frase de Eugen Webér. mas a forma de seu espírito não poderia ser mais diferente que a de qualquer um dos dois. e concebeu o ethos republicano como um sentido de missão. devia ser "forte mas restrito. Em seu livro Esquisse d'une classification systématique des doclrines philosophiques (1885). O poder legítimo do Estado devia ser mantido num nível de um "mínimo de ação". mas não um princípio de organização social. forte porque restrito". Os dois últimos adjetivos encerram a essência do liberalismo ético . ele compôs Le manual republicam de 1'homme et du ciloyen (1848). e que os deveres são mais importantes que os direitos. Feny foi ele próprio nomeado prefeito da capital depois da queda do império. Tendo-se retirado da política durante o Segundo Império. Em sua opinião. Ferry era mais um estadista do que um teórico. o outro. O poder governamental. líderes republicanos da jovem Terceira República. Ucronie (1876). Simon pregou o sufrágio universal. Embora fosse o autor da Politique radicale (1868). e liberdades locais. Jules Ferry serviu como ministro nas primeiras décadas da Terceira República. Renouvier era um kantiano livre que acreditava que a ética é uma obrigação. ele distinguiu duas espécies de filosofia: a filosofia da coisa — infinitista. A república era ao mesmo tempo uma ordem e um ideal predicados não em direitos naturais. numa série de artigos para Le Temps (coligidos espiriluosamente corho Les comptes puilasliques dMLiussmann. publicou La science de Ia morale (1869). fundado na justiça assim como o respeito kantiano — quer dizer. Mas o seu maior trabalho foi o que executou como ministro da Educação na década de 1880. escreveu. os casos mais interessantes nessa variegada série republicana são os de Simon. estabelecendo um "governo interno" de comportamento. Tendo arruinado as transações financeiras do famoso prefeito de Paris de Napoleão III. Como Simon. como um compromisso de não reduzir os outros a simples meios para fins de terceiros. governo responsável. mas na evolução do espírito e da sociedade. o socialismo veio a significar um lelos racional. Do ponto de vista da teoria liberal. Nesse contexto. civilizando a sociedade moderna. Renouvier e Ferry (sem contar com a reinterpretação da Revolução Francesa por Michelet e Quinet). Renouvier igualou a felicidade humana com o reconhecimento generalizado da liberdade individual. ele era favorável à competição e não ao dirigisme de Louis Blanc. com os outros agentes morais. nada mais era que um intelectual. personalista e libertária. que descrevia a saga da humanidade como poderia ter ocorrido. Na sua juventude.

foi mais uma vez evitada. Era uma teorização bastante aparentada com o [espírito do idealismo de Green na Inglaterra. em termos intelectuais. na verdade. "La crise du libéralisme". com exceção de economistas como Jean-Baptiste Say (1767-1832) e Frédéric Bastiat (1801-1850).158 O lilwmlismo . I Enquanto na Grã-Bretanha o novo liberalismo de tendência social de 1900 foi estimulada por instituições de serviço público. por Paul Leroy-Beaulieu (1834-1916). . Mas pelo menos um membro proeminente da escola de Durkheim. Poder-se-ia mesmo dizer que. não estava nada morto na França. Ele compreendeu que os ataques direitistas contra a liberdade. porque muitos objetivos diferentes podiam ser alcançados pelos mesmos meios. Como no caso inglês. O choque entre intelectuais republicanos e forças reacionárias na sociedade francesa quanto ao destino do capitão Dreyfus suscitou uma ruptura na opinião nacional que levou muitos espíritos ponderados a meditar sobre a condição moral da sociedade moderna. independentemente de rótulos. mostrando que as raízes sociais da liberdade moderna eram tão fortes e saudáveis (manto variadas. por um lado. suas defesas equilibradas do liberalismo permaneceram amplamente ignoradas. como a teoria sociológica como um todo entrou por um caminho diferente de sua índole liberal-democrática. o crescimento da liberdade como autonomia de escolha fundava-se numa expansão significativa da igualdade. Ele viu na sociedade moderna um processo de diferenciação de valores. o individualismo. e não um detrator. de multiplicação de fins ("politelismo"). A política favorita entre os seguidores de Durkheim era o socialismo liberal de Jean Jaurès (1859-1914). liberal — sociedade. a condição de ausência de normas. o papel que a filosofia de Oxford representou na Grã-Bretanha foi representado na França pela ascendente disciplina da sociologia. de modo mais geral. o curso moral na civilização urbano-industrial. Idées égalüaires. Bouglé resistiu à preocupação do próprio Durkheim com a alegada unidade perdida da moderna — ou seja. e não uma negação. antes que. Ao mesmo tempo. se definido em termos de controle estatal. estavam impelindo os liberais para a angústia da unidade. Durkheim procurou proteger a sociedade fortalecendo associações profissionais e. ele se fortaleceu numas poucas dimensões. Seu ensaio de 1902. por outro. finalmente. do individualismo. por causa da fidelidade geral da escola ao individualismo como a moderna matriz de valores. foi um defensor. No entanto. na França o equivalente local do liberalismo social — o republicanismo ético — foi poderosamente catalisado pela campanha de direitos humanos lançada por meio da questão Dreyfus (1896-1898). Mas a proliferação de fins não prejudicava a unidade social. Os liberais franceses do princípio e de meados do século haviam muitas vezes sido indiferentes ao liberismo. Emile Durkheim (1858-1917). VÉlal moderne (1890). Célestin Bouglé (1870-1940). um dreyfusista para quem o socialismo era um remate. Um clássico do liberismo Jín-de-siède. Na mudança do personalismo de Renouvier para o solidarismo de Diirklieim. A passagem para o socialismo. elogiando diversas formas de solidariedade social. foi uma representação inteligente da situação ideológica. como Bouglé mostrou num inteligente estudo de 1899. mas o perfil do liberalismo social tornou-se mais nítido. fosse negligenciado na teoria social francesa. como um analista da anoinia.amigo n i/iptlemo Dos novos liberalismos aos ncoliberulismos 159 de Renouvier. e o surto anarquista através da década de 1890. o brilho clico do liberalismo do lim <lo século XIX foi bem preservado. Com essa espécie de argumentos penetrantes. Bouglé queria evitar uma entrega liberal a uma demasiada autoridade estatal. mas. um esteio do pensamento liberal. um amigo dos livre-cambistas de Manchester. Pode-se ligar legitimamente o durklieimiaiiismo com o liberalismo. mas passou a contar com um público mais amplo. tanto quanto uma crescente divisão do trabalho. O fundador da escola sociológica francesa. Mas. do individualismo. como o Toynbee Hall. tentou abertamente colocar a sociologia a serviço do liberalismo. tornou-se um besL-seller.

enquanto para Robson a dificuldade real consiste em que o investimento pode tornar-se excessivo em relação ao consumo. O liberalismo social propriamente dito floresceu nos primeiros anos do novo século principalmente graças "aos dois Mobs". em vez de fundamentá-lo em Hegel. Maitland rompeu com a pia lenda whig de que os di. queria que o governo criasse oportunidade igual. historiador jurídico de Cambridge. A crítica do mercado feita por Hobson tem sido freqüentemente interpretada como precursora do keynesianismo. Ao mesmo tempo que rejeitava a idéia do mestre de uma consciência coletiva. Talvez um rótulo experimental — liberalismo marginal* — cjualificas. ele criticou Rousseau e Kant por passarem por cima do berço e da armação social da autonomia individual. Pode-se dizer de Maitland. Sua influência entre os funcionários públicos e a esquerda moderada no período de entre guerras foi enorme. reitos corporativos (lei da associação. reafirmou em termos inequívocos o individualismo como a legítima fé da sociedade moderna. em contraste. Ao fazê-lo. na opinião de Hobson. (N. o teórico jurídico Léon Duguit (18591928). viu o mercado como uma fonte de desperdício e desemprego — males para os quais a poupança sozinha não era uma solução. Como Durkheim. o problema surge no entender de Keynes quando as poupanças deixam de se tornar investimentos. do T. O conservador liberal Mame acreditava que a corporatividade era uma noção antiga. numa defesa da liberdade positiva não diferente da de Green. John Mobson (1858-1940) e Leonard Iíobhouse (1864-1929). dando ênfase ao crescimento orgânico.16(1 U libeialümo . 10 Outra ponte entre a sociologia e a tradição liberal foi a atitude durkheimiana para com o Estado. portanto. ele atacou o Slaatslehre alemão por falar no Estado como um sujeito legal dotado de uma personalidade mais elevada.) autônomas não eram antigüidades "teutônicas" — eram criaturas da sociedade comercial moderna. Pequenas unidades (*) Tradução livre áefringe libc. que foi de grande importância na história dos entrelaçamentos da teoria política e a filosofia jurídica. a resposta à glorificação alemã do Estado deveu-se principalmente a outro durkheimiano independente. como sindicatos e associações. ajudou a estabelecer uma base jurídica para os suportes institucionais do liberalismo social. Mas em seu Traité de droil conslilulionnel (1911). Mas Maitland. "comercialista" de Spencer. Na verdade. a visão que Green tinha do capitalismo ainda era excessivamente benigna. não-individualista. 1 3 Da mesma forma. H Hobson herdou o conceito de subconsumo de uma tradição liberista que remontava a Say. o próprio Durkheim. Pertencia à esquerda do Partido Liberal inglês e. reconheceu o método evolucionista "em todos os processos orgânicos". do fruto do carvalho ao carvalho. Duguit recorreu à ênfase de Durklieim nas associações da sociedade civil para desmantelar a mística da soberania nacional e a sua aura cslatista. de ruídos selvagens à sinfonia. que alcançou um ponto similar de chegada por um caminho muif to diferente. Mas fundamentou o novo liberalismo na evolução.ralkm. mostrou que a corporação era um conceito muito mais recente. Mas. ele transportou o pensamento republicano francês para o limite entre liberismo social e comunitarismo. em Duguit) estavam ligados ao mundo pré-moderno da tradição e prescrição.se bem a sua posição.antigo e moderno Vos novos liberalismos aos neoliberalismos 161 No auge da questão Dreyfus. O conceito que Duguit formulou do Estado colocava a função do serviço público no lugar do imperium da soberania. em estudos como Township and Borough (1898). contemporâneo de Ricardo na . Hobson. e da tribo primitiva ao Estado federal moderno. que recendia a Gemeinschafl e. Em Work and Weallh (1914). 11 Conferindo ao "solidarismo" uma face legal. de fato (como Lioncl Robbins observou faz muito tempo e Peter Clarkc relembrou). 12 Maitland aprendeu com Gierke que esse não era o caso. Hobson era um ensaísta prolífico e escrevia alto jornalismo. embora lutasse para dissociar a mensagem da sociologia do individualismo estreito.

Seu ideal consistia numa sociedade orgânica que proporcionasse à maioria de seus membros "uma igualdade viva de direitos" com oportunidades abundantes para o autodesenvolvimento individual. uma vez que a tardia riqueza vitoriana podia permitir uma ampla distribuição. sensível ao conceito que o primeiro tinha da liberdade como o direito que se tem de produzir "o melhor de si mesmo". mas sua função residia em auxiliar o crescimento da individualidade. Hobhouse tentou formular uma ética evolucionista como uma base para o livre coleiivismo. tornou-se o evangelho da nova religião. enquanto o capitalismo. manchesteriana de política externa agressiva e intervenção militar. mas disposto a reconhecer que. Como os saint-simonianos e os anarquistas mais humanos. pastor de aldeia. ele era um acadêmico e fundou a primeira cadeira de sociologia na Escola de Economia e Ciência Política de Londres. como novos liberais. em 1907. partilhavam a visão coletivista dos Fabianos (os Webbs e Shaw). a única forma liberal razoável de lidar com o problema consiste em garantir a liberdade pessoal no sentido de Mill. Hobson reacendeu a antiga condenação liberista. Hobhousc era o filho de um. declararam-se favoráveis à ação impeiialista na África do Sul. como no caso de Hobson. mostrou certa ambivalência com relação aos sindicatos. escrito como reação à Guerra dos Bôeres. O protesto anliimperia islã de Hobson tinha um veio de KuUurpessimistmis — deplorou a :raição dos trabalhadores aos intelectuais na oposição à guerra e a força do jingoísmo em sociedade industrial avançada. Na opinião de Hobson. os dois Ilobs afastaram-se deles. Hobson salientou outra causa: má distribuição da renda. do altruísmo sobre o egoísmo. de 1911.antigo e moderno Dos novos liberaliwws aos neoliberalismos 163 frança. afinal de contas. porque estes podiam agir movidos por interesses particularistas em vez de lutar pelo bem comum. nenhum monopólio. no fundo. Mas também reviu o diagnóstico de Manchester. transporte público. Gomo Green. notadamente Kropotkin (18421921). A fidelidade ao liberalismo foi. cjue permitisse habitação decente. a principal maquinaria institucional. uma rede nacional de escolas públicas (no sentido continental). Hobhouse desejava ardentemente demonstrar que a sociedade progride por força da cooperação humana e da superioridade. de uma maneira que não se assemelhava remotamente a revolução. até maior noí caso do outro Hob. os direitos hobhousianos eram concedidos pela sociedade. A redistribuição fiscal da receita faria a tarefa. Era urn evolucionista do "espírito" — quer dizer. Enquanto para Cobden e Bright o militarismo brotava da ambição aristocrática. O livro de Hobhouse Liberalürn. um evolucionista que dava ênfase à emergência de formas mais nobres de existência em vez de salientar a aspereza da sobrevivência dos mais aptos. o iL-médio estava à mão: iinponha taxação redistributiva. portanto. eram agências de bemeslar social financiadas por uma taxação socialmente orientada. Hobhouse ocupava uma posição a meio caminho entre Green e Mill. enquanto sindicatos responsáveis manifestavam uma crescente capacidade de praticar a democracia. e terá consumo e justiça em casa juntamente com paz no exterior. Mas. Hobson e seu amigo Hobhousc. Quando os Webbs. atribuindo à liberdade positiva no sentido greeniano um fundamento evolucionista. uma vez regenerado e regulado. em última instância. Diferentemente de Hobson. Imperialism (1902). A riqueza e as poupanças excessivas levavam ao subconsumo e. e um sistema legal mais justo. quando se trata de decidir quem é o melhor juiz no caso. Antes do conflito dos Bôeres. ele . Como Green. como outros liberais reformistas tais como Asquith e Haldane. Em seu livro mais bem conhecido. não devia certamente ser substituído por um sistema econômico inteiramente diverso. Hobhouse acreditava que o pior da lula de classes já passara. O que Hobson pleiteava era alguma propriedade pública do solo. Como em todo novo liberalismo.I(>:' O liberalismo . Seu ensaio de 1909 "The Crisis of Liberalism" foi escrito em defesa da reforma social (o embriônico Estado social de Lloyd Gcorge). ao imperialismo como uma saída.

antigo e \moaemo Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 165 divisou o bem comum como uma norma mais elevada que os objetivos individuais. Diferentemente de I lobson. começou a temer os poderes crescentes do Estado e se aproximou tanto do liberismo como do liberalismo político tradicional. Emile Chartier. e ao fazê-lo pensaram no direito e no Estado como instituições habilitadoras. como questão de princípio. esses distinguos. Mas o caminho conceituai aberto! por conceitos begelianos. como sabemos. Em conseqüência. e sua preocupação cívica já estava presente em Tocqueville e Mill. seja ao individualismo. como uma refutação dó tributo de Bernard Bonsanquet (1848-1923) e de outros begelianos britânicos ao "eu coletivo". ensinando filosofia em liceus. mas não eram estatistas. Green e Hobhoúse partilhavam. Mas Hobhoúse. como o eu mais elevado do "Estado ético". ! Na prática. Alain percorreu uma longa carreira. seja ao liberismo. escreveu um ensaio muito influente. Bonsanquet. à mescla milliana de aperfeiçoamento humano com os conceitos clássicos ingleses e franceses de liberdade como independência pessoal e como autogoverno coletivo. com reservas. O exorcismo praticado por Hobhoúse do fantasma de Hegel foi uma oportuna reafirmação de verdades liberais.i irrupção da Segunda Guerra Mundial. como se isto ela fosse. o porta-voz do radicalismo como liberalismo de esquerda foi um contemporâneo dos dois Hobs. sob a influência de Bradley. inclusive o liberalismo social dos dois Hobs. o liberalismo social da Belle Epoque se parece mais com o liberalismo clássico do que com o socialismo da vertente principal — pelo menos antes que o socialismo se transformasse conscientemente em social-democracia. o novo liberalismo. De Kelsen a Keynes: liberalismo de esquerda no entre guerras Na França. a qualquer voniade suprapessoal. conhecido como Alain (1808. Tudo bem ponderado.J64 U liberalismo . podia abrigar implicações perfeitamente iliberais. sofreu uma evolução sutil.t Bellc Epoquc. Mas não eram de qualquer forma hostis.195 1). mas tornou-se então um crítico feroz do nacionalismo belicoso. uma das posições padrões da Direita. que reduzia o eu moral a uma alimentação social do eu sobre a consciência da função humilde que se tem no interior do organismo social. ele não viveu para ver . ouvindo o estrondo das bombas alemãs. lutou na Grande Guerra. a qual. The Metaphysical Theory of tíie State (1918). Hobhoúse raivosamente travou-se com Hegel e escreveu todo um volume!. 1876). é compatível com a liberdade como autonomia (política) mas dela difere. evitando deliberadamente a Sorbonne. Na década de 1920 seu dissabor pela estrutura . declarou que "as mais profundas e mais elevadas realizações do homem não pertencem ao ser humano particular em seu repugnante isolamento" (prefácio a The Philosophical Theory of lhe State) — o que era sem dúvida anliindividualismo no mais alto grau. depois de 1918. não se apresentava como muito estranho ao pensamento de Mill. a idéia alemã de liberdade perdeu algum terreno importante em seu pensamento quando regressou. Na Londres do tempo da guerra. não importaram em muito. Com o benefício do recuo no tempo. Os novos liberais queriam implementar o potencial para o desenvolvimento do indivíduo que fora caro a Mill em seguimento a Humboldt. Francis Ilcrbert Bradley (1846-1924). "Minha posição e seus deveres" (coligido em seus Ethical Studies. Assim. por indicativos que fossem da capacidade que tinha o empirismo de sobreviver à síntese de Mill. uma versão social do conceito alemão de liberdade como autotelia. como o líder moral do liberalismo n. Dreyfusista. o "novo liberalismo" aproximou-se do liberalismo clássico. o principal neo-idealista. mas este não devia ser igualado. à maneira de Durkheim. Mas. Eles certamente se livraram da primeira estatofobia liberal. Esta preocupação com a liberdade positiva levou-os a ultrapassar o Estado minimalista.

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U liberalismo - antigo e moderno

Dos novos uberalismos aos neoliberalismos

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social republicana ditou livros como l^e citosen contrc les poiivoirs 11926), em que o singular ("o cidadão") e típico: pois a qualidade do liberalismo de esquerda de AJain não era, como no caso dos dois Hobs, uma modulação do individualismo em preocupação social. Era antes uni ataque moral contra o parlamentarismo corrupto, à medida que a Câmara republicana se perdia em escândalo após escândalo. O individualismo de Alain era áspero, beirando o anarquismo. Para ele a democracia não era o resultado final nobre de um republicanismo pedagógico, como em Simon e Ferry; era, de forma mais imediata, uma estratégia antielitista, uma arma contra o despotismo tanto militar quanto político. O ensaísmo de Alain proporcionava mais raiva do que teoria política, mas foi altamente influente no período de entre guerras e uma leitura decisiva para a geração (nascida no início do século) de Sartre, Simone Weil e Raymond Aron. Na Itália, o liberalismo de esquerda era menos moralista e mais historicamente orientado. A morte prematura (como um exilado antifascista) de Piero Gobetti (1901-1926) privou a esquerda liberal de um líder imaginativo. Em 1924, dois anos depois da fascista Marcha sobre Roma, o jovem turmas Gobetti coligiu uns poucos ensaios sob o título (já dado a um hebdomadário) The Liberal Revolution. Seus veredictos históricos eram bastante duros: o Risorgimenlo fora um fracasso, e a política parlamentarista corrupta no governo de Giolitti, na Belle Époque, fora um simples prefácio ao fascismo. Quanto ao presente, os liberais e os republicanos -f a "direita histórica" — não afinavam com os novos tempos. Os socialistas eram impotentes c os comunistas burocráticos, enquanto os nacionalistas se tornaram presas de uma retórica vazia. Como o marxista Gramsci, Gobetti sonhou com uma revolução social italiana, a promessa não cumprida do Risorgimenlo. Mas ele tinha em vista uma revolução italiana que, diferentemente da francesa, séria preferencialmente popular em vez de burguesa e ainda assim — diferentemente da russa — liberal em vez de comunista.

Quase da mesma idade que Gobetti, Cario Rosselli (18991937) também morreu moço — assassinado por bandidos fascistas na França. Seu objetivo, como declarado em Liberal Socialism (1928), era resgatar o socialismo do marxismo. Enquanto o marxismo opusera o socialismo ao liberalismo, Rosselli insistiu em que o socialismo só podia superar sua derrota diante do fascismo agindo como verdadeiro herdeiro da idéia liberal. O socialismo tinha de ter a liberação como objetivo, e o Estado liberal — improvável, mas de que não se devia desistir — como meio. Essa tendência liberalsocialista alimentou o efêmero Partido delEAzione, fundado em 1942 pelo filósofo acadêmico Cuido Calogero (nascido em 1904). O partido estava destinado a ser o berço político do jovem Noberto Bobbio, cuja obra discutiremos ao encerrar este capítulo. No mundo alemão, o liberalismo de esquerda significou antes de mais nada uma doutrina política conveniente à República de Weimar — aquela ordem institucional frágil que nascera da derrota do Reich guilhermino e do esmagamento do socialismo vermelho. O maior nome na teoria política e jurídica de Weimar foi o de um austríaco, Hans Kelsen (1881-1973), que terminou seus dias como professor de direito em Berkeley depois de codificar a constituição da república austríaca (1920) e de servir como juiz no Tribunal Constitucional. Rebento de uma família judia da Galícia, Kelsen lecionava em Colônia quando Hitler subiu ao poder. Quando ele publicou seu livro Teoria pura do direito (1934), o reitor da Escola de Direito de Harvard, Roscoe Pound, chamou-o de "inquestionavelmente, o maior jurista da época". No mínimo, ele era o mais influente, desde a Inglaterra até a América Latina e oJapão. Kelsen reestruturou a tradição do positivismo jurídico. O positivismo jurídico afastou o direito natural reconhecendo a contingência do laço que liga o direito à moralidade. Mas, tendo separado o direito da ética, os positivistas jurídicos mais velhos esgotaram as normas em fatos, reduzindo direitos e obrigações a

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.!•' •:';-.>ciment.os cio acaso. Kelsen, pelo c o n t r á r i o , salientou a natureza normativa do direito. Para que u m a exigência se revista .!Í legalidade (para que não fosse semelhante, digamos, à o r d e m dada por uni bandido a r m a d o ) , tal exigência tem de .ser autoriza• !a por u m a n o r m a j u r í d i r a fundada, por sua vez, em toda u m a cadeia de outras normas. i iomo se aplica a filosofia jurídica de Kelsen à esfera política? ( ) i onecilo crucial aqui ê o do Estado, pois u m a dimensão vital do Estado consiste cm ser este uma estrutura de normas. Em 1900, Jcillnek se apropriara do gosto n e o k a n t i a n o p o r um dualismo de fato e valor para p r o p o r uma teoria que dividia o Estado: u m a /,':'(; i/.\Ir /ire lidaria com o Estado c o m o um c o r p o de leis, e n q u a n t o u m a Stjziallehre preocupar-se-ia com o Estado c o m o uma instituição social. Kelsen rejeitou essa dualidade. Em seu lugar, apresentou uma idéia p u r a m e n t e j u r í d i c a do Estado: o Estado era igual à o r d e m jurídica. O neokantiano reinante nos anos de entre guerras, Krnsí Cassirer, ensinara a distinção entre conceitos de substância e conceitos de função. Assim o á t o m o , disse Cassirer discutindo a física moderna, não é, para falar com p r o p r i e d a d e , qualquer núcleo substancial — é a p e n a s um Funküonsbcgrijfen, um conceito funcional usado pela análise científica. Da mesma forma, o Estado kelseniano é apenas u m a idéia lógica útil: o conceito de unidade i Io sistema jurídico. Kelsen recorreu muito à modernização epistemológica: tentou fundar sua teoria jurídica e política em novas abordagens do con h e c i m e n t o . Depois da década de 1880, a epistemologia austríaca, graças a Ernst Mach (18.-58-1916), estava r e c o m e n d a n d o que se colocassem os Funklionsbegri/fen no lugar dos conceitos causais. Kelsen viu o marxismo c o m o um p r o g r a m a causalístico, naturalístico para a ciência social, tão mais duvidoso p o r causa de sua herança hegeliana historicista. O marxismo j u n t a v a o anacronismo de postular essencialismo causai com u m a mística de profecia hísíorica. T u d o isso foi sugerido p o r Kelsen, n u m a crítica poderosa,
!

Soziatismiis and Sinal (Sorialisino r o Estado, 1920). Os marxistas se equivocaram a respeito das relações entre Estado e sociedade de duas maneiras. Primeiro, reduziram o Estado à expressão de forças sociais, t o r n a n d o assim um p a r a d o x o a sua famosa reivindicação da abolição final do Estado. Em segundo lugar, os marxistas erravam ao afirmar que havia u m a contradição (Widrrspriirli) entre o Estado e a sociedade. Pois a sociedade é para o Estado o q u e um conceito mais amplo é para um conceito mais estreito, c o m o "mamífero" para " h o m e m " . O relacionamento, p o r t a n t o , é de distinção e implicação, e não de contradição: é um Gegensalz, não um Widersprurli. Kelsen t a m b é m combateu as opiniões da direita antiliberal, n o t a d a m e n t e os escritos do jurista r e n a n o Carl Schmitt ( 1 8 8 8 1987). Schmitt descobriu u m a coincidência e n t r e o Estado e a sociedade. Na sua obra de 193 l Der Hiiler der Verfassung (O guardião da Constituição), ele afirmou que, e n q u a n t o as instituições liberais do século XIX não se haviam alterado, a situação sociopolíüca real fora p r o f u n d a m e n t e modificada. U m a m u d a n ç a principal consistia precisamente em que já não se podia discernir o eme era político do q u e era social. A sociedade tornara-se Estado na medida em que o Estado m o d e r n o atuava c r e s c e n t e m e n t e c o m o u m a agência econômica, um Estado previdenciário, u m a fonte de cultura, e assim p o r diante. Do Estado absolutista dos séculos XVII e XVIII, e do "Estado n e u t r o " do século seguinte, acontecera um salto, em política européia, para o "Estado total". Aos olhos de Schmitt, o Estado total, p o r sua vez, devia ser t o t a l m e n t e politizado, c o m poucos limites liberais constitucionais. 1 8 Para Kelsen, em contraste, o Estado é c p e r m a n e c e s e n d o um g r u p o específico no interior da sociedade, a associação para o domínio (Herrschaftsverband). Mas, c o m o o sistema legal de governo, o Estado reflete a natureza de u m a o r d e m j u r í d i c a que, c o m o o direito positivo, regula sua própria criação. O sistema jurídico c o m o Estado d e n o t a um processo m e d i a n t e o qual as n o r m a s se t o r n a m

!h>s 7WVOS lilicmiismos <;-.•.< nmiihiTulisiiins

i, I

••'.,\ vez mais concretas, lerminanclo em instruções específicas :',::is'.as p o r indivíduos autorizados (os agentes do Estado). Num ;: ;igo publicado em 1922, na revista de Freud /mago, Kelsen valeu• : i <:!a psicologia de massa da psicanálise para salientar que Freud di.stinguia c o r r e t a m e n t e a massa primitiva, transitória, que seguia cegamente caudilhos (como a h o r d a primitiva, em Totem e tabu, 'v-1'2.), das massas artificiais, estáveis, que substituem o líder p o r •;m princípio abstrato. Para Kelsen, o Estado pressupõe a segunda -. -suécie, institucional, de massa e c o r r e s p o n d e à especificação in: ei ca m e n t e normativa de seu princípio diretor. A nomogènese — o processo de formação de n o r m a s — é crucial para. Kelsen. Em 1920, o m e s m o ano em que primeiro publicou Sr-jiiüsníiLS undSlaal, ele editou um clássico entre as m o d e r n a s exposições com respeito à d e m o c r a c i a : Ynn Wescn und Werl der .•"'• ;:n>l;ralie (Da essência e do valor da democracia). A democracia, seca ido Kelsen, é u m a espécie particular de n o m o g è n e s e : remon:,mdo à distinção kantiana e n t r e autonomia e heteronomia, Kelsen destacou a forma pela qual as constituições regulam a p r o d u ç ã o de n o r m a s n u m d a d o Estado ou sistema jurídico. Q u a n d o o destinatário de tais n o r m a s não toma parte em sua elaboração, o sistema e h e t e r ô n o m o . Q u a n d o toma, o sistema é a u t ô n o m o . Politicamente, a h e t e r o n o m i a significa autocracia, e a autonomia, d e m o cracia. A democracia, na m e d i d a em que implica o princípio de autogoverno, é um processo de n o m o g è n e s e a u t ô n o m a . Na década de 1920, Kelsen t a m b é m deixou claro q u e a democracia liberal é fruto de u m a visão relativista. O pluralismo político implica um p o u c o de r e c o n h e c i m e n t o de perspectivismo, de crenças menos que absolutas, a r g u m e n t o u . A democracia pluralista ;• a o r d e m social a d e q u a d a a u m a cultura marcada pelo q u e W e b e r celebradamente chamou de "o politeísmo de valores". Assim Kelsen — o liberal de e s q u e r d a nos turbulentos anos de Weimar — acrescentou um a r g u m e n t o epistemológico à sua esclarecida defesa jurídica do Estado d e m o c r á t i c o .

W o o d r o w Wilson (1856-192-1) não é um n o m e n o r m a l m e n t e incluído em enciclopédias cio p e n s a m e n t o político, ruas modificou a índole do liberalismo a m e r i c a n o . Os pais f u n d a d o r e s haviam c o m p r e e n d i d o o c o n t r a t o social republicano c o m o um meio de resolver ou h a r m o n i z a r m o d e r a d o s conditos de interesses. Podese dizer que Wilson foi o primeiro g r a n d e líder a m e r i c a n o que se tornou insatisfeito com esse ideal sensato de consenso utilitário. C o m o um a c a d ê m i c o p r o e m i n e n t e , ele introduziu na política americana o que a ideologia de ca w pus tanto estimaria meio século mais tarde: a ética da convicção, a política do princípio. Seu s o n h o de d e m o c r a c i a de liderança abriu c a m i n h o p a r a o reformismo patrício do segundo Roosevelt. O p r o g r a m a real de Wilson, "A nova liberdade", q u e foi form u l a d o c o m a ajuda do juiz Louis Hrandeis e c o n q u i s t o u p a r a Wilson a Casa Branca em 1912, evitou atacar o capitalismo, conc e n t r a n d o seu fogo nos grandes trustes. Wilson fustigou os "interesses especiais" do g r a n d e negócio e p r o m e t e u leis q u e favorecessem os h o m e n s em ascensão contra aqueles que já estavam em cima — u m a ótima reprise política do S o n h o Americano, sem a aspereza do conflito de classes que ainda estava presente no movim e n t o populista. Mesmo o u t o p i s m o de sua posição internacional na Conferência de Paz. em Versalhes era c o e r e n t e com o tradicionalismo, de última instância, de suas opiniões políticas: pois c o m o Richard Hofstadter divisou, exatamente c o m o a esperança wilsoniana de competição sem m o n o p ó l i o retrocedeu ao capitalismo de m e a d o s do século, seu pacifismo depois de 1918 objetivava restaurar o equilíbrio mundial de p o d e r r o m p i d o pela guerra. 2 0 N u m plano estritamente teórico, a variação esquerdista no liberalismo a m e r i c a n o deve mais a um o u t r o acadêmico c o n t e m p o râneo, J o h n Dewey (1859-1952). Pedagogo ilustre, Dewey m u d o u se para a recém-fundada Universidade de Chicago q u a n d o tinha trinta e p o u c o s anos, e instalou ali sua famosa Escola Laboratório. No início do século, foi para Colúmbia. Ele era um pragmatista de

devese reconhecer que a moralidade é um p r o d u t o do desenvolvimento social. e m b o r a n e m p o r isso m e n o s individualizada. um m é t o d o sust e n t a d o de intercâmbio inteligente. de 1930. Dewev manteve o valor da individualidade e n q u a n t o rejeitava sua antítese â sociedade'." A moral e a política são. significando a aplicação do sentido de adaptação a problemas de c o m p o r t a m e n t o . assim. censurou a "cultura pecuniária" cia nossa época c o m o uma "perversão" cio individualismo perfectivo. Antes. é p o r isso m e s m o mais necessário examinar cada meio c o m m u i t o cuidado para determinar inteiramente quais seriam as suas conseqüências. em matéria de conhecimento.tmiiff) e muderno pus /!<:?>(« Iil. e m b o r a algumas vezes fácil. ele p r ó p r i o tem de ser justificado. tanto sociais q u a n t o experimentais. e n q u a n t o .(J !il:i:fi. p r o p o r c i o n a os únicos critérios p a r a a moral. T o d a realidade é relativa ao homem. Trotsky prejulgara os meios de u m a m a n e i r a aprio- . A tradição clássica p r e s s u p u n h a q u e o universo era essencialmente fixo e imutável. u m a atividade social. A n ã o ser no caso de manutenção da fidelidade a absolutos religiosos. p o r t a n t o . Ler Hegel ensinou-lhe um sentido de inter-relação e t a m b é m u m a visão altamente dinâmica da realidade. No começo daquele ano. n o t a d a m e n l e Democracy and Edriration (1916) e Fnrtlom and Cailurc (1939). Para Devvey. Dewey aceitou o ponto de partida de Trotsky — a rejeição da ética absolutista. "fransíbnrtou o n a m o r o ocasional do liberalismo clássico (como o de Mill) com princípios socialistas n u m a simpatia mais forte. Não há critérios morais.s tíroíiheratismos 17) • •:•••./. n e m Lodo fim é legítimo. religiosa ou não.vnilisnws a>. fora da história e i n d e p e n d e n t e s do h o m e m social. Mas isso não constitui licença para q u e se recorra a um raaquiavelismo vulgar. a democracia liberal de um forte c u n h o espiritual reformista tornou-se. O criticismo é assim. no sentido das conseqüências. p r e e m i n e n t e m e n t e .'M!ii> . um t r a t a d o sobre psicologia social. dava primazia à contemplação individual. e x t r a m u n d a n o s . e de transformação dela. Devvey fez b o m uso de seu saudável instrumentalisnío n u m a curta polêmica com Trotsky. O livro de Dewey huiividualism Old and New. u m a defesa r e t a r d a d a da atitude muito criticada de Trotsky na rebelião de K r o n s t a d t de 1921. P o r t a n t o . o g r a n d e exilado soviético escreveu um ensaio intitulado "A moral deles e a nossa". do afastamento da filosofia com relação ao m u n d o ativo. com n e n h u m fim além e n e n h u m absoluto. a conclusão do ensaio de Trotsky foi devotada a afirmar a s u p e r i o r i d a d e do fim marxista — a libertação da h u m a n i d a d e .es.. O que Kelsen acabou p o r valorizar em n o m e cio pluralismo dos valores. para quem o objetivo era mais o aperfeiçoamento ••In que a perfeição. A n a t u r e z a h u m a n a é social d e s d e o início. para Dewey o "criticismo". Dewey exaltou como um regime mais bem a d a p t a d o â realidade de m u d a n ç a . Em 1938. e um crítico e l o q ü e n t e . a verdade é a eficácia. foi o a u g e do p r a g m a t i s m o de í Vwcy. Dewey salientou que o fim. consistiu n u m processo de investigação mediante o qual se escolhe a espécie de ação capaz de transformar u m a situação p e r t u r b a d o r a n u m a condição integrada. O mais elevado b e m h u m a n o é o crescimento de tal a d a p t a ç ã o coletiva.ilo e erro. A teoria do impulso em Hiunan Sature and Condticl (1922). a o r d e m social mais legítima. E fora e x a t a m e n t e isso q u e Trotsky deixara de fazer. para Dewey. e todos os fins humanos são inianent. C o n t u d o . Dewey partiu para desafiar a "tradição clássica" <ic Platão à s í n d r o m e m o d e r n a do empirismo e utilitarismo. ajudaram esquerdistas c o m o Sidney Mook a se livrarem do d o g m a marxista sem a b a n d o n a r inclinações socialistas. The New International. a r g u m e n t o u Trotsky. Pelo contrário. publicada na m e s m a revista. Mas se os meios são justificados na medida em q u e conduzem a fins a p r o p r i a d o s .. Seus livros. "Meios e fins". entre outras coisas. Dewev esboçou o seu pragmatismo c o m o um "instrumentalismo" para dar ênfase a que o comportam e n t o e o c o n h e c i m e n t o não passam de instrumentos de adaptação à experiência. Exaltando a luta de classes e m e s m o o terror revolucionário c o m o meio para a libertação h u m a n a . se a moral e a política são assim e n t e n d i d a s . Era. Em sua resposta. E fácil distinguir o motivo p o r que.

V. justiça social e liberdade individual". c o m o primeiro r e p r e s e n t a n t e do T e s o u r o britânico na Conferência de Paz de Paris. . Com a irrupção da guerra. de 1926.1 9 1 6 ) . afirmou em The Economic Consequmces of tha Pracr que o capitalismo vitoriano fora apenas um caso especial. sirJames Stephen. a figura central no liberalismo de esquerda para o m u n d o d-c expressão inglesa não foi n e m Dewcy . Em seus Essays in Prrsuasion (1931). M o o r e (1873-1958) solapara a ética tradicional. fora um típico vitoriano: dizia-se que certa vez provara um c h a r u t o e o achara tão delicioso que nunca fumou outros. os Fabianos c o m o os Webbs e G e o r g e Bernard Shaw. mas John Maynard Keynes ( 1 8 8 3 . sendo o capitalismo n o r m a l m e n t e frágil e instável.v». ele discordara radicalmente da política aliada de sobrecarregar a Alemanha. que haviam sido severos dissidentes. Os imoralistas de C a m b r i d g e e Bloomsbury passaram a entregar-se furiosamente a prazeres p e c a m i n o s o s . Keynes apontava para eles u m a causa psicocullural. Mill.'Í/> . O s e g u n d o apenas provava q u e os novos liberais da Depressão não a b a n d o n a r i a m as inquietações h u m a n a s . n e m o jurista. humanitárias e humanísticas da geração Hobhouse-Duguit-Devvey (os mestres sociais-liberais que haviam nascido por volta de 1860). j . em C a m b r i d g e . Lytton Strachey. M. Esta veio a ser conhecida e praticada c o m o "keynesianismo".anhgo e vwdrriio // ' O revisionismo e c o n ô m i c o de Kevnes brotava de algo mais •: ::. • • /»/:-. filisteus. End of Laissez-faire. o j o v e m Keynes não estava acima de situar "os prazeres das relações h u m a n a s " em aventuras homossexuais.úila vitória lógica do pragmatismo sobre o d o g m a revolucionário. como os prazeres das relações h u m a n a s e o gozo de belos objetos". Pigou) determin a d o s a ingressar n u m a o u s a d a n e g a ç ã o da moral vitoriana. o círculo literário l o n d r i n o de Virgínia Woolf e E. Keynes c o m p r e e n d e u que o p o d e r leninista estava historicamente decidido a destruir o capitalismo (a despeito das | táticas de c o m p r o m i s s o da NEP) e que o fascismo sacrificava a democracia para salvar a sociedade capitalista. Mas o primeiro e l e m e n t o — eficiência econômica— foi uma lição amarga extraída cios traumas da guerra e da depressão mundiais. . Na a u r o r a do século. N u m a total relação c o n t r a o ethos vitoriano. Não o •• íj ] " lilósofo-pedagogo. Keynes escreveu que "o p r o b l e m a político da h u m a n i d a d e consiste em c o m b i n a r ires coisas: eficiência econômica. Spencer e Bradlcy. isso lançou fora a ética clássica e o cristianismo. O liltimo p r i n c í p i o m o s t r a a força de sobrevivência das preocupações de Mill. O avô de Virgínia Woolf./Í.Y.. M o o r e afirmou que não há definição q u e se adapte ao " b e m " a não ser diversas formas de "falácia naturalística". C. j u n t a m e n t e c o m Kant. E. . culpavam o capitalismo pelos males sociais. m e s m o depois de meio século de especifi!J cações sociais-liberais."' 1 C o m o Strachey.:os hlvntliMMa uns ).a. protestantes.//<« !iu. Sugeriu e n t ã o eme se p o d e m fruir delícias em " d e t e r m i n a d o s estados de consciência. o filósofo G. Mas já em 1919. John M a y n a r d pertencia a u m a b r i l h a n t e g e r a ç ã o de e r u d i t o s de C a m b r i d g e (foi aluno do g r a n d e economista Marshall e de A. Em seu influente livro Principia ethica (1903). eles atribuíram u m a i m p o r t â n c i a m e n o r ao c o m p o r t a m e n t o e exaltaram e x a t a m e n t e o q u e os seus antepassados ascéticos. . Os c o n t e m p o r â n e o s socialistas de Keynes. que era salvar a democracia renovando o capitalismo.. sem n a d a dizer da m o r a l i d a d e convencional em matéria de sexo.<i>/:.. Consideravam-se "imoralistas" e inspiraram o assim c h a m a d o g r u p o de B l o o m s b u r y . Restava u m a terceira opção. Foster. " A resposta de Dewey constituiu uma tran1 a m p l o que c o n s i d e r a ç õ e s econômicas e políticas: era profundam e n t e vinculado a u m a revolução na moral. C o m o logo r e p a r o u o c o m p a n h e i r o de Keynes. ! Keynes deu ao liberismo o r t o d o x o o golpe de m o r t e com seu livro The.1 ri nem Kelsen. Em m e a d o s da década de 1920.'>c?<^//. mas o economista que reformulou a economia política tornou-se a principal referência do liberalismo reconstruído. Pois não havia razão por si só evidente para declarar que a .rj'.i:ta de classes era o único meio de conseguir a melhora suhsiancial <ia condição h u m a n a . o b e d i e n t e m e n t e evitaram: relacionamentos pessoais e experiências estéticas.

enquanto variável dependente. Já foi dito que. Keynes. Influenciado pela idéia de Marshall de que explicando crescimentos e crises a análise econômica tem de ser separada de outras áreas da economia. Keynes basicamente aceitou a microeconomia de Marshall. o que Samuel Brittan chamou graficamente de "as conseqüências econômicas da democracia"."' Mas o keynesianismo projetou a análise de curto prazo de Keynes (sua teoria era defeituosa no que diz respeito a ciclos comerciais e retardamentos) numa receita de longo prazo para crescimento e desenvolvimento. (N. do T. Como foi observado. se não por outro motivo.antigo e moderno Dos nonos liberalismo. No cerne da economia clássica estava a Lei de Say. o dinheiro não gasto em bens de consumo é poupado mas não entesourado. O próprio Keynes superestimou a racionalidade de políticas econômicas adotadas por governos democráticos — ele ignorou. já que uma demanda forte levaria a um tempo a altos lucros e ao pleno emprego. aos neoliberalismos J 77 a ética puritana. entre a vitória sobre os Confederados e os anos de Eisenhower. mostrou que em algumas circunstâncias o dinheiro é entesourado. a taxa de poupança não significaria alio investimento. a prescrição de Keynes residia em que o Estado controlasse os gastos e a demanda. a quase-ausência de investimentos e de acumulação de capital — eram traços britânicos. descobriu que a instabilidade decorrera principalmente de inconstâncias no suprimento de dinheiro — e. ou de bloquear. Assim. numa palavra. mostrou que a poupança." 5 Keynes não quis que o governo invadisse a esfera microeconômica. já que nenhum proprietário racional de poupanças desejaria manter um saldo que não produzisse receita. As singularidades da situação — o papel chave desempenhado pelo dinheiro. escrutinando a história monetária dos Estados Unidos. com efeito. Mas tal ocorreu. em vez de controlar a propriedade e a oferta. ele estava apenas adaptando-a. no entanto. Desafiando a equalização convencional de poupança com investimento. mas complementou a microeconomia — teoria do valor ou de preço — com um novo grau de atenção a níveis gerais de renda. com salários crescentes. Keynes.) . em vez de fazê-lo na taxa de acumulação. muitas vezes em nome do próprio Keynes. como a resposta criativa do capitalismo à insistência socialista na socialização da produção. podia exceder a necessidade de investimento. muito britânico. além de ser com freqüência menos importante para o investimento do que o crédito. apoiando-se em pressupostos duvidosos quanto à demanda e ao consumo. Sua A teoria geral do emprego.'. Keynes procurou a origem das baixas nos instintos entesouradores de uma classe de "capitalistas". Além disso. Keynes viu no nível de receita. as múltiplas distorções acarretadas por pressões de grupos de interesses capazes de fazer prevalecer. o mercado político democrático.//O O liberalismo . atuando b governo diretamente sobre salários e preços. Milton Friedman. Por conseguinte. Keynes propôs "a eutanásia do capitalista" e "uma socialização um tanto abrangente do investimento". produção e emprego. por não constituir apenas urri meio de troca. que afirmava que a oferta cria a sua própria demanda. o problema crucial. a concentração na demanda agregada muito fazia para desarmar a luta de classes. (*) A parte de Londres onde se estabeleceu a comunidade de negócios. embora Keynes gostasse de pensar em si mesmo como o coveiro que enterrara a economia ricardiana. mas também uma soma de valor para propósitos especulativos (um meio de adquirir bens no futuro). deixada a si mesma. acarretando a redução do desemprego. do juro e da moeda (1936) tratou do problema do desemprego subvertendo a doutrina econômica. Tradução: toda receita é gasta. O que Ricardo tinha principalmente feito fora analisar como o resultado da rivalidade entre latifundiários e industriais determina a taxa de acumulação de capital. portanto. substituiu o latifundiário pelo financista e se concentrou no nível de emprego. O diagnóstico de Keynes foi. hostil à City*. Contudo. do comportamento governamental mais do que qualquer outra coisa.

Mas é inequívoca a inclinação reformista da política de Popper. o próprio setor público. grosso modo. Na medida em que a crítica de Popper contém uma justificação de uma certa espécie de sociedade e de política. os capitalistas vitorianos haviam preferido investir a consumir. Ironicamente. pós-keynesiano. A dedicatória de sua monografia The Povrriy of Historicism. Passou a guerra na Nova Zelândia. Lutando contra "soluções finais". com seus exércitos burocráticos. altamente individualíslica. obedeceram ao invés de se revoltarem. de 1957. Ele viu o marxismo./ 7S O liberalismo . A "sociedade aberta" é análoga. ela é. A sociedade aberta de Popper é. em que as pessoas se responsabilizam pelas decisões umas das outras. "cabala" para conseguir maiores gastos governamentais. Karl Popper e uns poucos moralistas liberais rio a pós-guerra. no entanto. A idéia de Popper consistia em que os revolucionarismos totalitários do nosso século. são no fundo monstros políticos fundados em raízes profundamente arcaicas. A sociedade aberta e seus inimigos (1945). que Popper considera falso porque afirma leis gerais sobre um fenômeno — todo o processo histórico — que é singular por definição.)()'J) mm e uni filósofo político." O próprio Popper. da história. Já não há mais autodomínio. Popper tentou estabelecer um laço entre o historicismo e o totalitarismo. Popper preconizou "remendar socialmente aqui e ali". mas um crítico severo de filosofias políticas associadas a uma crença particular — historicismo. ascetismo e abstenção — se manteve como força viva na sociedade capitalista. o define como uma abordagem da ciência social com a finalidade de predição. as receitas de Keynes. A projeção do espírito tribalista no pensamento alimenta crenças falsas como o historicismo. e quando os trabalhadores atravessaram a maior miséria. reza: "Aos inumeráveis homens e mulheres de todos os credos ou nações ou raças que caíram vítitnas da crença fascista ou comunista nas Inevitáveis Leis do Destino Histórico. A lógica da pesquisa científica (1934). mesmo se seu tom cauteloso transmite uma . alimentando ainda mais a "crise fiscal do Estado". o antipuritano. só funcionaram enquanto a ética puritana — a saber.antigo e moderno Dos novos liheralismos aos neoliberalismos 179 O paradoxo de Keynes consiste no seguinte: embora tivessem obtido lucros fabulosos. de forma patente. ou significado global. O oposto da sociedade aberta é o Iribalismo. na Escola de Economia e Ciência Política de Londres. a essa ousadia intelectual. já autor de um clássico da epistemologia moderna. Tecnicamente. K uma cultura livre pensante. quando fugiu da Áustria pouco antes do Anschluss nazista. o critério do conhecimento científico. descrito como a teoria da lógica. cm matéria de sociedade. Hoje em dia. Nada disso subsiste. com efeito. uma defesa conseqüencialista da democracia liberal — algo não muito distante da posição de Mill em On Liberty. enfrentando o risco de falsificação. a despeito de todas as suas pretensões à novidade radical. os espaços sociais dominados por dogmas em vez de o serem pela experimentação científica. Popper. via de regra. como em sua prévia longa contribuição para a teoria social.v/Y Karl Popper (nascido cm l'. Em The Poverty of Historicism. Diferentemente dos neopositivistas de Viena. o brilhante filho de prósperos judeus luteranos de Viena. e então lecionou. proporcionando a cosmovisão para uma utopia totalitária. desde 1945. Popper considerava a falseabilidade. no capitalismo moderno. . fora um membro independente do assim chamado Círculo de Viena de positivistas lógicos liderado por Moritz Schlick (1882-1936) é RudolfCarnap (1891-1971). e não a verificação. como um historicismo econômico. em particular. O historicismo pode ser. uma versão mais individualística do "criticismo" de Dewey como uma forma de vida. totalitárias. Tal abordagem é para ele intelectualmente insustentável e moralmente repugnante. A lógica da pesquisa científica representou o racionalismo crítico como a disposição para expor-se.

Hegel e Marx —. ele se qualificara de tory anarquista). mas de que maneira minimizar os prejuízos que eles nos podem causar. é verdade que Popper mantém sua idéia de democracia demasiado próxima de uma noção estreitamente procedimental. como Conlierimento objetivo. a classe média alta sem dinheiro —. mostrou seu gênio para o jornalismo de ficção e para a apreensão moral de apertos sociais. o pseudônimo de Eric Blair. seu autoritarismo não decorre do seu historicismo. em isolamento e. convivendo com vagabundos. desde que se proceda com consciência clara do custo-benefício. Orwell tinha uma educação etoniana. 2 Tudo isso me parece" muito bem observado. Sua obra pouco tem a oferecer no que diz respeito a uma análise da estrutura da política ou da natureza cia autoridade. O livro que reproduz essas experiências. Na pior. mas não logrou ingressar no mundo de Oxbridge. o que só o tornou antiimperialista. Depois disso. um teórico da ciência (nos seus úlii inos escrilos. Embora tenha atingido um público maior com esse livro. Nascido na índia no que chamou "a classe média alta mais baixa" — ou seja. cio lado republicano. 1972) da evolução. o que frustra o escopo generoso da democracia benthamita. também foi publicado A revolução dos bichos. a um empo natural e humana. Contava a história de uma revolução de bons animais que é bestialmente traída por porcos stalinistas. em Paris c cm Londres (1933). um meio para mudar o poder sem violência. E exatamente como deveríamos tentar reduzir a miséria ao mínimo de preferência a elevar a felicidade ao máximo. A observação sarcástica e muito citada de que Popper é um revolucionário em ciência mas um tímido reformista em sociedade parece-me desprovida de fundamento. Quinton acha que nenhum deles foi totalitário (o máximo que se pode dizer é que Platão e Hegel foram autoritários). A democracia de Popper é. a primeira fábula política escrita por George Orwell (1903-1950). No mesmo ano em que Popper publicou A sociedade aberta (1945). Foi policial na Birmânia até 1927. as suas afirmações quanto ao historicismo e o totalitarismo. como ocorreu no fim melancólk :o da República de Wcimar. levou a vida de um escritor autônomo com poucos fundos. 20 Também se pode criticar o âmago da posição de Popper. No entanto. de fato. Alguns críticos salientaram que a sua analogia científica é fraca para tratar de problemas sociais. nos cumpriria perguntar. com elas não se pode lidar com um espírito de desprendida objetividade. portanto. Reavaliando os três principais inimigos da sociedade aberta nos termos de Popper — Platão. Seu minimalismo é humanitário. já que questões dessa natureza. Assim. embora Hegel fosse definitivamente um autoritário. inclusive com uma passagem por uma favela parisiense. Em A caminho de Wigan (1937) ele descreve a desgraça do desemprego e anuncia que se convertera ao socialismo (entre a Birmânia e seus anos de marginalidade. Foi exatamente o que fez lorde Quinton. Popper permanece principalmente um epistemologista. Orwell foi para a guerra civil da Espanha.mitigo e moderno Dos novos liberalhmos aos neoliberalLsmos 181 ou duas notas de prudência desiludida. Orwell vinha polemizando com a esquerda — eno interior dela — por quase uma década. Mas. ele fala constantemente da necessidade de que se elimine a miséria. via de regra.ISI) O liberalismo . acima de tudo. em vez de se procurar em vão elevar a felicidade ao máximo. a cautela de Popper é mais epistemológica do que social. Popper também ressalto 1 o "paradoxo da democracia" — o fato de que a democracia poc e suicidar-se votando na tirania. e que. não existem. não como podemos arranjar bons governantes. fazendo trabalhos subalternos e. Então. diferentemente de indagações científicas. uma e outra vez. que Platão foi apenas muito marginalmente um historicista. não diferente da famosa redefinição de Joseph Schumpeter (a democracia é menos um método de autogoverno do que uma luta competitiva pelo voto do povo). Nada há na essência da sociedade aberta que impeça uma ampla reforma social. Voltou com um livro — hlomage to Calalonia (1938) — que desafiou abertamente a tentativa stalinista de dominar a esquerda. Durante a Segunda Guerra Mundial. manteve a posição esquerdis- .

por causa disso e de seu extraordinário romance O estrangeiro (1942). muito mais próximo do liberalismo popular de William Cobbett do que de qualquer coisa pertencente seja ao ethos patrício conservador ou ivhig seja ao novo elitismo tecnocrático dos Fabianos. o brilhante jovem já estava escrevendo para o Combat. tornou-se a moderna distopia clássica. a enfrentar o desafio do absurdo. exortando o homem moderno. Orwell. Será que isso fazia dele um liberal? Temos aqui um problema de autodelinição. O socialista típico. O cerne do absurdo era. Ele foi. o que Orwell fez para desmitifícar a "Novilíngua"* — a descarada desonestidade intelectual embrulha da nas "nobres mentiras" do partido — é coisa de que não se pode esquecer. No entanto. nem formalmente liberal — mas o liberalismo não pode dispensar a verve ética de seu libertarianismo.'9 Talvez a melhor resposta a tais investidas de má-fé entre intelectuais radical-chic seja relembrar tranqüilamente a inabalada popularidade de Orwell na Europa oriental. durante a Ocupação. Orwell acreditava que era da maior importância "destruir o mito soviético". é claro. escreveu como um "libertário igualitário". um crítico mordaz de todos os elitismos — inclusive. Orwell nunca alimentou inclinações tradicionalistas. 28 Num aspecto básico. teatrólogo e ensaísta Albert Camus (1913-1960). Hobhouse e Keynes — que a prosa cristalina de Orwell exibiu sua crítica moral irresistível da ideocracia socialista. acima de tudo e sempre. Particularmente. o elitismo dos intelectuais radicais. Foi de tal posição — um valor central partilhado por Locke e Mill. seu existencialismo era menos como o de Sartre. jornal da Resistência. foi logo incluído entre os existencialistas. exaltou uma tradição radical de patriotismo agarrando com sofreguidão a oportunidade de roubar a Union fack das mãos conservadoras e im 1* íialistas. Em lnside the Whale (1941). Também cristalina foi grande parte da prosa do romancista.antigo e moderno Dos novos liberalismos aos neoliberalisrnos 183 ia independente. atinai. não foi nenhum teórico. vários entre eles tentaram rebaixar o Orwell maduro como um praticante preconceituoso da guerra fria e um burguês decadente — e essa espécie de exercício veio à tona de maneira oportunística em Mil novecentos e oitenta e quatro. é claro. Previsivelmente. Em The Lion and the Unicorn. E claro que não se tratava de sugerir que: o farisaísmo é endêmico aos socialistas. Sua segunda ficção política. violência. ele escreveu que o romance é praticamente uma forma protestante de arte. Orwell foi muito um liberal: seu amor pelo individualismo desenfreado. porque é o produto do indivíduo autônomo. "O mito de Sísifo". a mortalidade. E seus en-i saios retomaram muitos temas liberais: censura. e Camus. Mil novecentos e oitenta e quatro (1949). H. é "um homenzinho empertigado com um trabalho de executivo". usualmente abstêmio e vegetariano. uma maravilhosa proeza da ldeologickrilik. Por outro lado. escreveu ele. nestes mesmos termos. linguagem ofuscante. ajudando Aneijirin Revan a editar Tribune. o conto perfeito para que as pessoas se acautelem contra as tendências totalitárias que funcionavam em nome do redencionismo comunista. que acentuava a (*) "Novilíngua": apelido dado por Orwell à linguagem criada pelo Estado totalitário de Mil novecentos e oitenta e quatro. ateu. Mas. O Orwell maduro sempre pensou em si mesmo como um socialista democrata. . Durante toda a sua vida. Em 1942. Camus passou uma infância órfã de pai num bairro operário de Argel. Mas a fama mundial de Orwell vem de que ele desvendou a hipocrisia comunista. mas de mostrar o quanto pode ser pedante a mentalidade de alguns autodesignados salvadores da humanidade. a parelha francesa de Orwell como um moralista liberal menos no nome. Camus publicou um longo ensaio. As suas opiniões eram muito apresentadas com a repugnância que D. certamente um grave desvio da cosmovisão da principal corrente do liberalismo. Um "pied noir" (francês colonial do norte da África).IS2 O liberalismo . Lawrence sentia pela civilização industrial moderna.

Mas avisou que nenhuma verdadeira dialética jamais podia afirmar. contra Niet/. do que um regresso à moral paga. desde que queiramos encontrar critérios para a humanidade de nossos atos e instituições. Camus declarou. fundavase no princípio do contrato. O livro criticava a excessiva confiança do liberalismo vitoriano na harmonia natural e final dos egoísmos individuais. Era melhor ter revolta do que revolução: o esforço nítido e lúcido para dizer não ao absurdo da vida e aos males da sociedade. Mas o Estado moderno. ele se tornou o mais jovem ganhador do Prêmio Nobel desde Kipling. Camus. Em 1957. no que ele próprio chamou de seu segundo ciclo. o moralista. O problema consistia em que a democracia. Republicano moderado. Muito mais velho que Camus e mesmo Orwell. sem dúvida. Camus exaltou o Sul. escreveu em seu último. fidelidade pessoal e princípio democrático. a muito prestigiada revista de Sartre. Em sua notável peça Les justes. os revolucionários são personagens burguesas que não buscam tanto a justiça como a autojustificação. o liberal don Salvador estava horrorizado com o abuso dos plebiscitos em mãos fascistas. seja um fim para a história. resumiu e enriqueceu mais tarde essa antítese entre o historicismo da revolução e a ética "presentista" da revolta.antigo e moderno Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 185 incessante embora fútil inquietação da consciência humana. dever-se-ia abandonar o sufrágio universal e construir em seu lugar um . contou com pelo menos mais um notável moralista liberal: Salvador de Madariaga (IMH(>-1D7N). estes eram errados porque dependem da massa. Na década de 1950. o grande escritor mexicano. necessitava ser orgânica: não apenas a soma de opiniões passageiras. travou uma polêmica contra o marxismo. de 1950. aos 44 anos. Anarquia ou hierarquia. que Platão estivera certo. A morte e o sol — tal foi a arena existencial de Camus. Pois a história não tem consciência. acabou por escolher um silêncio farisaicamente condenado pela esquerda parisiense.ISI O liberalismo . Era isso o que recomendava o "pensamento solar". para ser estável.lioiiniu1 reonlté (1951). Ainda necessitamos dessa espécie de realismo moral. indiferente ao sofrimento humano. A brecha foi logo alargada pelo impacto da tragédia argelina. Sartre e seus seguidores apoiaram o anticolonialismo integral de escritores como Franz Fanon (1925-1961). em seu dom de penetrar a retórica da revolução. Quanto a plebiscitos. portanto. filho das revoluções inglesa. Km l. "Nenhum homem é um hipócrita em seus prazeres". Madariaga foi um prolífico homem de letras espanhol que contribuiu para o estabelecimento da Liga das Nações. uma Itiga pseiidocientílica da carga da liberdade. mas o fruto maduro do convívio. Octavio Paz. o espírito do Mediterrâneo: lucidez e sensualidade. acima de tudo. pensou Mandariaga. Camus reconheceu com prazer o papel desempenhado por Marx no despertar de nossa má consciência social. póstumo romance. Camus era verdadeiramente semelhante a Orwell em seu anseio por uma posição independente de esquerda e. que era então a maré alta do mundo intelectual francês. dilacerado entre "a justiça e sua mãe". As Erínias fascistas e os flageladores comunistas aproveitaram-se do vácuo resultante." ° O mundo latino. seja um fim da história. Os slalinistas e os existencialistas sartrianos pareciam-lhe todos prisioneiros da história — o que o levou a uma amarga polêmica com o grupo de Les Temps Modernes. nas décadas do após-guerra. A queda (1956). e conseqüentemente temos de olhar para outra parte.scbe. americana e francesa. Em tempos europeus mais antigos. Portanto. e não da nação orgânica — e também porque. não diferentemente de Orwell. o Estado fora como uma planta. em vez da neblina da fé revolucionária.que havia nele. O testamento político de Madariaga foi De Ia angustia a Ia libertad (1955). Camus divisou o historirismo marxista como iiiii álibi. O idealismo revolucionário levava a slogans e. que continha a sabedoria histórica de um liberal conservador decepcionado. publicou em 1937 um ensaio político. seu segundo ensaio de maior importância. ao Terror. um sentimento de tragédia <• um gosto pela medida.

com a implicação de que cumpria ao homem ordenar sua vida. nascido em 1909. a longa. tentando reformular todos os valores como aspectos de uma dada "liberdade racional". especialmente sobre pensadores como Marx. Ainda assim.•" A tônica de seu ataque não diferia muito da posição an(i-hisloricis(a de Popper: parecia-lhe enganosa a busca de leis que possibilitassem a predição em história. servindo em Moscou. Era novamente o organicismo. Berlin é um libertário eloqüente. É inevitável o pluralismo de valores. Como Weber. nas coisas. e a crença num destino histórico resultava numa atrofia do sentimento de responsabilidade. Sua obra no terreno da história das idéias. a fome de consideração é quase inseparável do senso de realização pessoal e do sentimento de . uma pirâmide de associações locais e industriais. eles são dados — ou impostos — pelo homem ao mundo. insistiu Berlin — e. daí o segundo erro da tradição filosófica ocidental — seu monismo. e a liberdade positiva à procura de fins racionais — o que. O moralista liberal da Grã-Bretanha não era nascido no país.SVi () liberalismo . o que dificulta as concepções de "liberdade positiva" é que. Em 1953. Na sua opinião. Para sir lsaiah. em seu nome. por mais nobre que seja o seu objetivo original. de onde seus relatórios chamaram a atenção de ninguém menos que Churchill. o universo é irresgatavelmente plural. no fundo. num estado de ânimo um tan(o melancólico. Berlin questionou intencionalmente tal objetivismo em matéria de valores. "Dois conceitos de liberdade" (1958). prevaleceu no pensamento ocidental a idéia do universo como um todo inteligível governado por um só princípio. em práticas autoritárias. pouco tem a dizer sobre o lado institucional da liberdade. que se instalou na Inglaterra em conseqüência da Revolução Russa. Vista numa perspectiva histórica. professor em Oxford. é uma realização singular.antigo e moderno Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 187 lederalismo geral. que codificou para Os países anglo-saxões a distinção entre liberdade negativa e (liberdade) positiva. ou liberdade de e liberdade para?1 Como vimos no capítulo 1. abandonou as relações exteriores para passar a uma vida acadêmica prolongada e distinta no Ali Souls College. em sua opinião. provém de uma família judia de Riga. "um anseio por status e reconhecimento" distinto de (embora não sem relação com) qualquer das duas liberdades. Herder e Herzen. Nos anos da guerra. social e pessoal. Berlin ajudou a resgatar a filosofia de Oxford do bizantinismo da análise lingüística. Enquanto Popper salientara os defeitos epistemológicos do historicismo. Berlin igualou a liberdade negativa à ausência de constrangimento. quem negaria que a conquista de crescentes intitulamentos. Sir lsaiah Berlin. Rejeitando esse monismo moral ligado a uma hierarquia de valores. Berlin — escrevendo poucos anos antes da publicação de The Poverty of Historicism — acentuou o lado moral do problema. que enfrentara a impossibilidade de conciliar a ética paga da virtú e fortuna com a moral cristã da transcendência. a da liberdade com a Berlin afirmou que. de acordo com essa estrutura cósmica unitária./. elas recaem no monismo moral — e muitas vezes. Berlin preferiu aprofundarse em Maquiavel. abre o caminho para outra igualização decisiva. ele pensava que os significados de última instância não estão ali. e o cerceamento de laços tribais e tradicionais foram amplamente experimentados por milhões como uma fruição da liberdade? Na prática histórica. serviu na Embaixada britânica em Washington. Berlin pronunciei! uma famosa conferência sobre a inevitabilidade histórica. de Platão a Marx. também o são o conflito e a escolha. Em 1946. a multiplicação das oportunidades de vida. Orwell e Camus. maciça "busca moderna da felicidade" é. a liberdade positiva no sentido geral de liberdade para merece um julgamento mais bondoso do que o que lhe dispensa Berlin. em conseqüência. Sua mais bem conhecida contribuição à teoria política é uma outra conferência. não receou formular novamente algumas grandes questões "metafísicas". Além disso. Como Popper. Viço.

a obra mais notável de ética übeh ral desde Rawls. porque muitos diferentes modos de vida são dignos de[ viver. o recente liyro de Joseph Raz The Morality of Freedom (1987). Raz considera preciosa a auj tonomia. 33 Se assim é. "a economia tornou-se o destino". seguindo dali paia Chicago em 1950. o litn da velha Europa em 1914-1918 significou que. A singular contribuição de Raz a essa escola de pensamento moral consiste em separar o elogio da variedade fun-i dada na autonomia de uma visão demasiado individualística das competências e realizações humanas. num passo mtiito pouco berliniano. e finalmente para Freiburg em 1960. c tratado de Raz. Hayek alçou-se a uma cátedra na Escola de Economia de Londres em 1931. há uma explicação sociológica da liberdade que desafia a antítese de Berlin. O que Berlin manteve bem separado — pluralismo de valores e liberdades positivas — Raz engenhosamente uniu. Em seu erudito tratado sobre dinheiro. Mas Hayek ultrapassou explicitamente Mises sublinhando (em seu prefácio a Socialism) que não foram "penetrações racionais em seus benefícios gerais que levaram á difusão da economia de mercado". reafirma o pluralismo de valores. mas não detém o impulso autônomo das forças econômicas. Os primeiros desafios teóricos à reação antieconômica partiram de um austríaco. deixando de lado o mercado. sabiam.j)i/<d (194 1) refletiu o estado de espírito nntikcyiicsiano Neoliberalismo como neoliberismo: de Mises a Hayek. De modo assaz interessante. prevaleceu a economia. a obra de Raz torce de forma irônica as idéias mais caras a Berlin. como Mill e Berlin. a longo prazo. Isso é Hayek autêntico: como Adam Ferguson c Adam Smith. Discípulo de Mises.36 É claro que a política prossegue./<S7>' O liberalismo . que tentou pôr termo à "anarquia da produção". O jovem Mises participou do seminário antebellum de Eugen von Bohm-Bawerk. Este era muito antagônico a Mill. combina a aprovação do pluralismo de valores com uma convincente defesa da autonomia. 35 Nos anos de entre guerras. juntamente com Jevons. traduzido como Socialism) forneceu munição essencial contra os modismos que favoreciam uma super-regulamentação da economia. da escola neoclássica. Sen livro Pine Tliri/iy (>/'Cti. salientando a incomensurabilidade do valor tãc enfatizada por Berlin. O capítulo central do Socialism de Mises consistia numa crítica feroz à utopia socialista do cálculo econômico. Friedrich August von Hayek (nascido em 1899) transformou o catalítico numa visão do mundo. 34 claramente pior do que Estados comerciantes. e a teoria da escolha pública Segundo Walther Ralhenau. Em 1974. Walras e Marshall. fundador. profundos admiradores da variedade humana. já aposentado. mas não do desígnio do homem. Mises publicou um volume intitulado em alemão I/tberalismus. Mises foi atraído para a economia pelas obras de Carl Menger (1840-1921). e a outra era o fascismo. da liberdade positiva. uma tentativa de atrelar o capitalismo ao fascínio do nacionalismo ou racismo. e em amputar a defesa da liberdade civil de suas premissas utililai islãs millianas. Paia o historiador de idéias. Tradilion. Meio século depois da ascensão das autocracias de I liller c de Slalin. um formidável crítico de Marx. Contudo. mas cuja essência é mais bem transmitida pela tradução inglesa: Libcralism in lhe Clássica!. foi agraciado com o Prêmio Nobcl de Economia. desde então. Em 1927. Mises cunhou o termo catalüico para denotar fenômenos de câmbio — a alma do mercado. ele pensa que o progresso decorre das ações do homem. os Kstados conquistadores ou pereceram ou se deram . Contudo.antigo e modt Dos novos liberalismos aos ncoliheralismos 189 livrar-se de grilhões. havia duas principais reações à ameaça de hegemonia institucional econômica: uma era o socialismo estatal. Ludwig von Mises (1881-1973). Nascido em Viena. Seu livro de 1922 Die Gemeinwirtschafl (A economia comunal.

Hayek. 3 Generalizando seu discernimento do papel do mercado. A lição é clara: o liberismo pode não ser uma condição suficiente. S8 Hayek colocou o cosmos. Hayek fortaleceu essas opiniões numa esplêndida trilogia. mas é certamente uma condição necessária de liberdade global — tal é a mensagem do grande expoente de Chicago. Em Capitalismo e liberdade (1962). o que apenas demonstra quão pouco ele se tinha afastado do credo liberal. como ele pensa agora. nadando contra a corrente. este ocorre através de uma miríade de tentativas c erros feitos pelos seres humanos. muito acima da táxis — o arranjo intencional das utopias racionalistas. milila contra o mercado. o economista Milton Friedman (nascido em 1912). salários. Law. inclusive um ataque fascinante a Kelsen a respeito do conceito de justiça. O que se afirma é que. A intervenção do Estado é má porque faz com que a rede de informações do sistema de preços emita sinais enganadores. Legislaiion and Liberty reafirmou também o que veio a ser conhecido como a tese da indivisibilidade da liberdade. além de reduzir o escopo da experimentação econômica. graças a outra estrela de Chicago. espontânea. Legislaiion and Liberty (1973-1979). de forma bastante curiosa. mostra que Hayek. A suma de Ilayek contém muitas coisas boas. Um tratado na forma clássica. embora tenha sido fomentado desde a Revolução Francesa por tantos programas para a sociedade perfeita. Tive o privilégio de estar presente ao jantar do centésimo aniversário do Reform Club. Tal racionalismo é um grande erro. Hayek sustentou que os problemas humanos como um lodo são demasiado complexos e mutáveis para serem dominados de . Law. dispersando-se o poder. Mas o prognóstico de Hayek era obviamente muito exagerado. ou ordem criativa. Ironicamente.I'H) O liberalismo . Isso. (Em seus aposentos. ele desafiou abertamente a interdição analítica da filosofia política. Hayek partiu para apresentar o mercado como um sistema sem rival de informação: preços. Na década de 1970. as outras liberdades — civil e política — se desvanecem. As duas únicas funções de um governo legítimo consistem. seu contemporâneo na Escola de Londres. o Estado liberista evita por definição toda tendência de se colocar o poder econômico nas mãos políticas do Estado.antigo e moderno Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 191 da economia da Escola de Economia de Londres (onde. Keynes declarou-se "simpático em termos gerais" aos sentimentos que animavam o livro. Quanto ao progresso. no qual acusou o planejamento e o Estado previdenciário de levarem à tirania. Como o conservador liberal Michael Oakeshott. segundo I layek. aliás. "em prover uma estrutura para o mercado. já que a massa colossal de fatos economicamente significantes está fadada a escapar-lhes. publicou O caminho da servidão. Em 1944. "uma nova exposição dos princípios liberais de justiça e economia política". lucros altos e baixos são mecanismos que distribuem informação entre agentes econômicos de outra forma incapazes de saber. a menos que se obtenha ou se mantenha a liberdade econômica. pois a evolução social procede mediante "a seleção por imitação de instituições e hábitos bemsucedidos". Se a democracia desimpedida. Ora. seja dito de . não se limitou a retroceder a um puro favorecimento do laissez-faire ou ao Estado vigia noturno. e prover serviços eme o mercado não pode fornecer". Encerra uma reafirmação cordial do liberismo. pelo menos ela obviamente sobreviveu em vc/ de perecer durante o piolongado crescimento do Estado social. a despeito de todo o seu determinado abandono da "miragem da justiça social". O livro completo de Hayek sobre teoria política foi publicado em 1960 com o título Os fundamentos da liberdade. suas próprias críticas ulteriores à democracia podem ser interpretadas como refutação da tese de O caminho. a ciência política na época estava sob a influência esquerdista de Laski). o jogo do mercado equilibra concentrações de poder político. Enquadrou o mercado e o progresso numa moldura evolucionista. Friedman argumentou que. forma "construtivista" pelo intelecto humano.

"não é contrário à evolução e mudança".o para o pequeno grupo". para criar e manter uma ordem social susceptível de crescimento constante e de freqüente melhora. a fórmula de Hayek resume brilhantemente diferenças reais entre o liberalismo e suas alternativas. mas Lêm também de abandonar "muitos sentimentos que eram aliment. por violento que seja ou fosse — e. De fato. Como Samuel Iirittan percebeu. além do controle dos instintos. de F. tendo-se em vista todos os pontos. Um epílogo ao livro Os fundamentos da liberdade leva precisamente o título "Por que não sou um conservador". em sua juventude em Viena. as discrepâncias entre conservadorismo e liberalismo tornam-se tão claras quanto as que separam o liberalismo do socialismo. celebrando 50 anos de participação no Club. dedicados a libertar-se do fascínio cie Marx e Freud. "demarquia") são tidos geralmente na conta de fatores que o colocam na companhia de liberais conservadores. teve a brilhante idéia de escolher como orador um membro notável. Legislation and Liberty termina com uma crítica do construtivismo do marxismo c do ana. Sua crítica contundente dos sonhos igualitários e seu repúdio quixotesco à democracia majoritária (substituída por uma versão condicionada. Um elemento é a valorização . o liberalismo e o socialismo como pontos que se suceçlem numa linha. 41 Então. Pois a civilização. Mas. Com relação ao impacto deste último (a despeito das próprias dúvidas de Freud em ensaios1 mais tardios como O mal-estar da civilização). é uma "sociedade abstrata". Não. Elas tendem a eiievoat-se por causa do costume (muito encorajado pela propaganda socialista) de ver o conservadorismo. e chegam mesmo a tomar a si a construção de uma 'contracultura'". uma boa medida de distância de sentimentos "tribais". Hayek é o ultra do liberismo entre os neoliberais pós-Kcynes. inapto para a fria manipulação de normas que distinguem os membros da sociedade abstrata. é claro. há um abismo entre dois elementos no pensamento de Hayek. o terceiro volume de Laiv. diz Hayek. adverte Hayek. a marcha da civilização pressupõe. Hayek preocupa-se com a impensada ruína da repressão em nome da saúde psicológica. Hayek não se considera um conservador. resultando em nossa época permissiva com "selvagens nãodomesticados que se representam como alienados de alguma coisa que nunca aprenderam. O funcionamento de sua melhor corporificaçao1 numa explicação evolucionista — o mercado — implica um respeito por normas. na realidade. mas não qualquer solidariedade espontânea/ 10 O significado macro-histórico disso destaca-se com grande. lorde Beveridge traçou seu famoso relatório. como tal.192 O liberalismo . as pessoas não se devem apenas submeter a sacrifícios de instintos. o lar social de Macaulay e Gladstone. de comunidade e "comunalidade" — em resumo. Ilayck. que estava. a Magna Carta do Estado social britânico. O último ponto tem um aspecto irônico.antigo e moderno Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 193 passagem. tais como tendências inatas para agir em conjunto na busca de objetivos cò muns. sendo geralmente leniente em matéria de coerção e.rquismo latente do freudianismo. clareza: deve-se entender o homem primitivo como supersocializado — um camarada sociável. Contudo. enquanto o conservadorismo tem demasiado apego à autoridade. mas excessivamente gregário. 39 Na opinião de Hayek. tão vivo como sempre aos 84 anos. algo de muito mais liberal em sua primeira concepção do que em sua condição atual. que se apoia muito mais em normas aprendidas do que na busca de: finalidades comuns. Começou contando-nos quão grandes (oram seus esforços intelectuais. ignorante em economia. diz Hayek. Tratavase. isso é uma ilusão óptica: a verdade conceituai nos obriga a vê-los de preferência como ângulos de um triângulo. Portanto. ele próprio. A. O liberalismo. demasiado nostálgico e preferencialmente antidemocrático ao invés de antiestatista. naquele mesmo verão. de Geyneinschaftslust. muitas vezes.) A comissão de diretores de nossa venerável instituição. já que o próprio Hayek tornou-se na velhice menos que entusiasta quanto à democracia.

não são eles também o resultado de muitas evoluções imprevistas? Estas são apenas umas poucas interrogações suscitadas pela cega confiança de Hayek na ciência da evolução como tradição. exceto no que diz respeito a âmbitos bem delimitados. mais do que prova. é. portanto.i 194 O liberalismo . um mantenedor do individualismo moral e. com que fundamento pode-se negá-la às instituições há muito existentes que! Hayek tanto detesta. a sabedoria oculta de instituições há muito existentes. O principal nome nesse contexto é James Buchanan. como controle da renda. pois. muitas vezes encontramos grandes elogios a Hayek nos textos da assim chamada teoria da opção pública. mercados livres e o governo da lei. Buchanan concentrou-se na política como troca. O outro é uma mística burkiana. um instrumento de progresso.antigo e moderno | liberal clássica de governo limitado. Buchanan salientou o papel da escolha pública como uma "perspectiva sobre política que emerge de uma extensão-aplicação dos instrumentos e métodos do economista para empreender a divisão coletiva ou de não mercado". Na literatura liberista. não será verdade que a maio-j ria dos Estados previdenciários não se fundaram com base em um. Ele acha que. para Hayek. Hayek é partidário da nomocrucia: aquilo de que necessitamos Dos novos liberalismos aos neoliberalkrnos 195 são antes regras do jogo do que valores c objetivos partilhados. o mérito supremo do indivíduo "hayekiano" é contribuir (inconscientemente) para a evolução social. solapa indiretamente a liberdade — pode ser abençoado por seu critério. Buchanan muitas vezes cita Hayek. Sob a inspiração da obra sobre finanças públicas construída pelo economista escandinavo neoclássico Knut Wicksell (1851-1926). Como economista. escreveu ele. isso representa um problema de peso. não há necessidade de acordo quanto a objetivos: "não pomos em vigor uma escala unitária de objetivos concretos". se evolução é seleção. no fundo. como também a excelente . mas ele é um liberista que não hesita em inventar "normas para um jogo justo". naturalmente. por que todo o espalhafato a respeito de experimentos sociais que. uma compreensão tão significativa para a ciência política quanto foi para a economia a teoria dos defeitos do mercado. Se a evolução é uma tradição cósmica. a rejeição de grandes definições substanciais sobre o bem comum. autor (com Gordon Tullock) de The Calculus of Consent (1962) e de Cost and Choice (1969). Capilalkm. Marhet and State. ' Outras importantes obras liberistas incluem o trabalho de dois franceses. portanto. Henri Lepage (Tomorrow. a liberdade. termina por minar o próprio âmago da ética liberal. Por outro lado." Isso soa como Berlin — individualismo libertário em seu jogo favorito. O que resulta é uma penetração crucial nas causas dos fracassos governamentais (devido basicamente à tendência por parte de políticos eleitos e de burocracias parkinsonianas de criar déficits orçamentários). que afirma muitas vezes. do pluralismo de valores. uma seleção recente de seus escritos. a influência de Buchanan no renascimento liberista só perde a primazia para a de Milton Friedman. assim como o neo-evolucionismo. 45 O neoliberismo. 43 Hayek é. Em Liberty. planejamento abrangente e consciente? Em outras palavras. se em seu evolucionismo burkiano Hayek defende o progresso e o mercado porque possuem uma espécie de sabedoria inerente. Essa opinião solapa o direito que assistiria a Hayek de ser um liberal na mesma liga que Locke e Humboldt. Quando todas as contas são feitas. Ora. serão de qualquer forma abandonados? Não espanta que Hayek tenha sido duramente criticado por causa da contradição entre o seu fideísmo evolucionista e o papel que atribui à razão crítica. controle de preços e taxação progressiva? Não poderia a abolição destas desequilibrar! toda uma sociedade? Além disso. Em vez disso. 1987). 1978) e Guy Sonnan (La nouvelle richesse des nalions. tudo — mesmo o que embaraça o mercado e. "nem tentamos garantir que alguma opinião particular sobre o que é mais <• o que é menos importante governe toda a sociedade". segundo essa teoria. inclusive unia visão sóbria de laxações de transferências e educação pública como moderadores da desigualdade social.

e Robert Merton também é um liberal. um liberal conservador. Economy and State. Pelo menos um dos pares de Weber. Aron era altamente crítico do que chamava de sociologismo. j0 Aron nunca esqueceu a alternativa posta em relevo por seu herói Tocqueville: que as sociedades democráticas podem ser governadas seja de forma livre seja de forma despótica. ele atacou quatro mitos: o mito da esquerda. pertence ao mesmo tempo ao Grunderzeit da sociologia e à linha central do liberalismo alemão. iniciada com Eighteen Leclures on Industrial Society (proT nunciadas em 1955-1956. ao qual ambos fizeram contribuições muito importantes. o mito da revolução. limitarei minha discussão a dois intelectuais mais militantes. assinalou. embora somente Boudon. O discípulo americano de Mises. dois fenômenos em geral sustentados pelo principal veio do liberalismo. É curiosa a posição de Raymond Aron (1905-1983) na história do pensamento liberal. reagiam contra os efeitos de ruptura da industrialização e da secularização. Elas diferem é no seu sistema de governo. Nos Estados Unidos. foram levados a desdobrar sua obra sociológica em alguns ensaios. Aqui. Em O ópio dos intelectuais (1955). acumulação de capital para investimento. Talcott Parsons foi um liberal mode-j radamente conservador (e como tal foi criticado pelo falecido Alvin Gouldner 19 ). Georg Simmel (1858-1918). ele deixou sua primeira marca no cenário internacional com uma crítica penetrante da ideologia "progressiva". Embora sociólogo. Robert Nisbet sublinhou energicamente as afinidades entre a sociologia clássica e o conservadorismo. tem sido. Mas logo trocaria a Ideologiekritik por uma análise aprofundada da sociedade industrial moderna. Murray Rothbarcl (Man. 47 Aron e Ralf Dahrendorf. 1970. Alain Touraine podem ser classificados como tal. contabilidade e planejamento racionais. o mais insistente defensor do liberismo com fundamentos libertários. creio.Fifty Proposüions about Prosperity. enquanto na escola sociológica francesa gerada por Durkheim temos o caso interessante de Bouglé. contudo.196 O liberalismo . que a figura dominante de Weber. merece ser contado entre os liberais (embora um liberal antes apolítico do que político). Aron divisou o industrialismo como um feixe de quatro processos básicos: uma crescente divisão do trabalho. Aron salientou que a principal diferenciação entre as sociedades modernas reside na ordem política. Todas as sociedades industriais. Esta foi objeto de sua famosa trilogia da Sorbonne. Elhics of Liberty. e. Equality and Liberty. Depois de uma notável obra de juventude sobre a filosofia da história (Introduction à Ia phüosophie critique de VHistoire. Raymond . publicadas em 1962).'IK Vimos. o mito do proletariado. a disciplina e a ideologia. aceitaria o rótulo. Escrevendo como um Montesquieu da sociedade industrial. Podem-se reconhecer com facilidade as fontes teóricas: Durkheim em primeiro Liberalismo sociológico: Arou c Da/ircvdorf A sociologia tem sido muitas vozes tida na conta de um tanto hostil ao liberalismo. que já discutimos. Em contraste. de 1986. no entanto. 1938). Talvez por se engajarem a fundo em política (Dahrendorf literalmente. professando abertamente o credo liberal. a negligência dos aspectos específicos da política em teorias que afirmam determinismos sociais. The Capitalist Revolution . e a separação da empresa do controle familiar. progressivamente. num exame curto do pensamento liberal desde a guerra. 1982). são muito semelhantes no nível cultural e no tipo de forças produtivas. Aron exibe soberbas habilidades comparaüstas. como pai fundador da sociologia.antigo e moderno Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 197 obra do sociólogo Peter Berger. na medida em que ambas as correntes. enquanto Daniel Bell trocou seu esquerdismo juvenil por posições! liberais: na França de nossos dias. Na sociologia pós-clássica americana. e Aron por meio de décadas de jornalismo político). de longe. e o mito da necessidade histórica. Raymond Boudon.

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lugar, Marx em segundo, Weber em terceiro, e Schumpeter em quarto. Acrescentem-se a propriedade privada dos meios de produção, o motivo do lucro, e uma economia descentralizada, e se obtém o capitalismo. Mas, como bom sociólogo, Aron também reparou em algumas imperfeições da teoria social clássica, como quando censurou Tocqueville por deixar que sua preocupação com a igualdade o fizesse fechar os olhos à hierarquia industrial. A sociologia política de Aron começa numa encruzilhada conceituai onde questões tocquevillianas alimentam uma espécie de análise inspirada por Klie Halévy (1870-1937) e Max Weber. O testamento intelectual de Halévy, The Era of Tyrannies (1938), transmitiu a Aron o tema do despotismo moderno (fascista ou comunista), enquanto Weber, do conhecimento de cuja obra ele foi pioneiro na França, ofereceu-lhe perspectivas frutíferas sobre o poder, o Estado, e grupos de slatm. Assim armado, Aron desvendou as ornamentações da democracia representativa, dando muitas vezes início a avaliações que desbravavam caminho do jogo do poder entre partidos e governos por um lado, e de forças sociais como sindicatos e as inle.lligentsiàs, por outro. • O principal objetivo das conferências de Aron na Sorbonne não foi tanto a sociologia do industrialismo per se quanto uma investigação das diferentes espéciej de ordem política no interior do mundo industrial. O passo inicial do tríptico de Aron sobre a sociedade industrial foi a sua compreensão de que, contrariamente à imagem que faziam de si mesmos, os bolchevistas, longe de representarem os trabalhadores, eram uma nova classe governante. Em outras palavras, Mosca e Pareto (a classe governante, a circula- I ; ção das elites) desmentiam Marx. Como divisou Robert Colquhoun, j seu minucioso e competente comentarista, esse confronto Pareto/ j Marx e a teoria do crescimento econômico elaborada por Colin ; Clark, e seu discípulo francês, Jean Fourastié, foram os dois principais elementos na base teórica de Aron para as Eighteen Lectures e ; o que se lhe seguiu.51

A trilogia de Aron alcança realmente sua conclusão lógica no fim do terceiro tomo, Democracy and Totalitarianism (1965; pronunciada em 1957-1958), onde ele apresenta uma dicotomia das ordens políticas industriais. Por um lado, os regimes constitucionais pluralistas têm uma constituição, competição partidária e pluralismo social reconhecidos. Por outro, nas ideocracias, há um monopólio do poder, revolução em vez de uma constituição em funcionamento, absolutismo burocrático, e o partido do Estado. Segue-se então uma tipologia da liberdade, com a posição de cada principal ordem política industrial para com os tipos de liberdade. Assim, os regimes constitucionais pluralistas garantem a liberdade enquanto segurança, a liberdade de opinião, a liberdade política, mas preocupam-se menos com a liberdade no trabalho e com a mobilidade social. Por contraste, os regimes de partido estatal violam com muita freqüência as primeiras três espécies de liberdade. Em resumo, as políticas livres são apenas moderadamente igualitárias, mas as ideocracias são realmente horrorosas. Outra dimensão da obra aroniana — também conhecida por sua extraordinária contribuição à política internacional — consiste precisamente numa reflexão cuidadosa sobre a liberdade em si mesma. Dois livros ressaltam: Un essai sur Ia liberte (1965) c Estudos políticos (1972). Na segunda das coletâneas, Aron, entre outras coisas, critica Hayek e Berlin em nome do realismo sociológico. Ambos os volumes contêm uma defesa e ilustração do que Aron chama de "a síntese liberal democrática" — um amálgama de direitos civis e políticos tradicionais com modernos direitos sociais, que ele representa como direitos "créditos" (droits-ertíances). O eme Aron quer provar é que, em nosso tempo, o governo da lei não pode possivelmente esgotar as funções do Estado; a nomocracia de Hayek tem de abrir espaço para as inevitáveis tarefas sociais e de fornecimento de infra-estrutura ligadas ao Estado moderno. Em sua velhice, abalado pelo renascimento do irracionalismo ideológico em 1968, Aron regressou a uma sua antiga preocupação:

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o fenômeno de "ideocracia", o hppulso totalitário de regimes radicais. Tendeu a rejeitar a visão esquerdista da ditadura Ieninista como um "desvio" resultante do atraso social e político da Rússia. Em lugar disso, Aron corretamente retraçou as raízes do autoritarismo soviético até a própria desconfiança de Marx do dinheiro e das mercadorias; uma desconfiança que os seus seguidores dogmáticos puseram em prática para destruir a autonomia institucional, e, portanto, a resiliência da economia. Um de seus últimos livros, Plaidoyer pour une Europe decadente (1977), é uma polifonia conceituai sutil entre o declínio da détente Leste-Oeste, a depressão da década de 1970, a natureza do pensamento de Marx, e o papel do marxismo como ideologia estatal. Aron foi um eminente intelectual doublé de um magistral jornalista político. Deixou uma grande obra errante, seminal em pelo menos três áreas: política externa, filosofia da história, e sociologia política. Seu liberalismo Incido, muilas vezes cáustico, sempre demasiado cônscio das contradições da modernidade, marca uma retomada merilória do melhor elemento na tradição do liberalismo francês: sua apreensão da história, sua habilidade de interpretar e avaliar amplas estruturas de mudança. Por muito tempo vitimado pelo fanatismo ideológico em seu próprio país, estigmatizado por Sartre e pelos comunistas como um atlanticista servil, tornou-se, na altura do (im de sua vida, o santo padroeiro do notável renascimento liberal na França.'" Ralf Dahrendorf disse certa vez que Raymond Arou "habita seu panteão". <) panteão c, de lato, respeitável: lambem inclui Ilumboldl, Tocqueville, Weber, Keyncs, Beveridge e Schumpeter. Veremos que inspiração comum Dahrendorf extraiu de tal plêiade. Nascido em 1929, o jovem Dahrendorf ganhou uma permanência num campo <!e concentração por ser demasiado travesso como colegial anlinazisla. Como estudante da Escola de Economia de Londres, assistiu às aulas de Popper e do sociólogo T. H. Marshall, cujo livro Cüizenship and Social Class (1950) contava a história do

progresso moderno dos direitos: direitos civis conquistados no século XVIII, direitos políticos ganhos no século XIX, e os direitos sociais estabelecidos em nosso século. Dahrendorf, sempre um bom liberal-social, foi ativo em política, na Alemanha e na Comunidade Econômica Européia, de 1965 a 1974, quando se tornou um brilhante diretor da Escola de Economia de Londres por toda uma década. E agora reitor de St. Anthony's College em Oxford, e recentemente foi feito cavalheiro. O primeiro livro de Dahrendorf, As classes sociais e seus conflitos na sociedade industrial (1955), tencionou proporcionar o capítulo não escrito em O capital de Marx: o capítulo sobre classe. Dahrendorf aceitou alegremente a ênfase marxista na luta de classes, mas mostrou que as classes antagônicas não precisam ser grupos econômicos. Ao contrário, o conflito econômico é apenas uma espécie de um gênero: a luta pelo poder. Aquela altura, graças à

influencia de 1'arsons e de outros, lodo o discurso du principal
corrente da teoria sociológica consistia na coesão social e na comparticipação em valores. Não, disse Dahrendorf: o conflito é endêmico, por causa de diferenças no acesso ao poder. A qualidade de tais diferenças muda; o fato da assimetria do poder não muda. Em grande medida Parsons vinha encobrindo o que Weber sabia: o quanto o poder molda a sociedade. Mas enquanto Weber tivera alguns êxtases tolstoianos que o levaram a demonizar o poder, Dahrendorf apreciava, senão o poder, pelo menos o conflito (que gira cm torno do podei). Num texto de 1902 sobre "Incerteza, ciência c democracia"/'' 1 ele desenvolve o argumento altamente "popperiano" de que a única resposta adequada à incerteza é a necessidade "de manter uma pluralidade de padrões de decisão, e uma oportunidade para que eles interajam c mirem cm com/ir/içi/o" (grilos meus). Contudo, o eoul li Io, para sei frutífero, requer um mínimo de homogeneidade social. Na Alemanha de Wcimar as elites não foram capazes de articular essa saudável espécie de competição. Tudo o que puderam reunir foi

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um cartel de angústias, que solapava completamente o jogo democrático. Tal foi a tese do livro de Dahrendorf Society and Democracy in Germany (1965).5"1 Seguindo as ondas de protesto dos últimos anos da drcada de l'.)(')0 <• a depressão econômica da OK(!D depois da primeira crise do petróleo em 1973, Dahrendorf ingressou numa tentativa persistente de analisar a nova condição das modernas democracias industriais. De alguma forma, ele se vê retomando o exame minucioso de Arou do industrialismo após-guerra, e, de falo, poucos outros cientistas sociais mantiveram-se inteirados de uma compreensão mais profunda de tendências recentes. Três livros em particular encerram as opiniões do último Dahrendorf: A nova liberdade (1975), Life Chances (1979) e The Modem Social Conflict (1988). Life Chances, uma coletânea de ensaios, inclui um sobre a abdicação da social-democracia. Dahrendorf atribui um papel menor ao conflito e lamenta a perda de "vínculos", de raízes que dão sentido a "opções" individuais. Há uma desconfiança quanto ao crescimento e à modernização rápida. Como foi visto por John Hall, o tom não está distante do ethos "pós-industrial" do último Daniel Bell, embora Dahrendorf seja mais enfático no que diz respeito ao papel da iniciativa no "melhoramento da sociedade" que ele encara como uma cura para recentes males capitalistas. The Modem Social Conflict tanto glosa como refina o diagnóstico do presente. Para Dahrendorf, o conflito social moderno ocorre entre os defensores de mais escolha e aqueles que demandam mais direitos. A oposição chave está entre "provisões" e "intitulamentos". Provisões são "o suprimento de alternativas em dadas áreas de atividade". São "coisas", passíveis de crescer ou de diminuir; é um conceito econômico. Intitulamentos, por outro lado, são bilhetes de entrada, direitos de acesso a quaisquer bens ou profissões. Dahrendorf toma o conceito de empréstimo a Amartya Sen, o perito de Oxford em pobreza e fome, que demonstrou que a maior parte das fomes não ocorreu por falta de alimento mas

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por falta de acesso ao alimento. Diferentemente das provisões, que são relativas a crescimento, os intitulamentos traçam linhas e barreiras. Como bilhetes de entrada, ou se os tem, ou não. A Revolução Industrial gerou uma revolução de provisões, enquanto a Revolução francesa foi uma revolução de iulilulamenlos. A década de 1970 foi um período de política de intitulamenlo, enquanto a de 1980 testemunhou um desvio para provisões, para a escolha de preferência ao acesso. As reformas keynesianas concentraram-se na manutenção de intitulamentos — basicamente, o direito fomentado pelo Estado de trabalhar; na década de 1980, por contraste, Schumpeter prevaleceu, pois esses foram anos do empresário conquistador, da fé animal "schumpeteriana" no crédito e na inovação. Armado com esses dois conceitos básicos, Dahrendorf representa a sociedade contemporânea ocidental. (Não diz muito sobre o Japão.) Preocupa-se acertadamente com o "capitalismo de cassino" (na inteligente frase de Susan Strange) e com a teimosa presença de uma "subclasse" minoritária, mais visível nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha do que na Europa, ainda assim dolorosamente não-integrada em toda parte. Dahrendorf vê muitas pessoas entregues a "dois vícios": ganhar dinheiro fácil e drogas. Adverte contra os fundamentalismos nacionalistas e o "seu ataque às forças civilizadoras de cidadania em nome de direitos minoritários ou de autonomia cultural, religiosa ou étnica". Reflete sensatamente sobre os conflitos anômicos de nossa sociedade, impregnada de violência e corrupção: de nações onde cidades internas têm áreas "proibidas" e de cultura social que agora também exibe áreas simbolicamente "proibidas", áreas "tabus", como a absolvição dos culpados e a descarada infração à lei que floresce entre a juventude. Dahrendorf não faz moral a respeito de tudo isso. Antes, escreve como um preocupado Aufklãrer das últimas luzes do século XX, ansioso por compreender e melhorar. Seu ensaio sobre a década de 1980 restaurou completamente seu senso de conflito social

enquanto o PIB multiplicou-se quatro vezes de 1950 a 1986. alguma coisa definitivamente além da popperiana "ação de remediar socialmente aqui e ali". e a sociologia histórica (Aron). em pensar sobre o desemprego. contrastando com a aparente calma social dos anos oitenta. "o trabalho já não é a solução óbvia para os problemas sociais. havia espaço para uma nova espécie de discurso neoliberal: a linguagem dos direilos <• do contraio social. "o liberal que deixa de buscar novas oportunidades deixa de ser um liberal". decretando muito necessárias "sociedades civis no sentido clássico do termo" como passos para uma sociedade civil mundial. Tais como os vê. A situação contrária passou a ser a de "um dominante ânimo social-democrático representado por muitos diferentes partidos políticos. seus desafiantes lliakhei islãs e a conlracullura: o partido yuppic e o partido neo-hippie. a ética do pluralismo (Berlin). o neo-evolucionismo (Hayek). paralisando assim o processo de provisões em expansão". Nozick e Bobbio As principais linguagens do liberalismo desde a guerra têm sido a crítica do historicismo (Popper). Pensando em seu panteão. O mundo que Dahrendorf tão bem descreve já não é. Sublinhando ainda uma vez que "o conflito é liberdade (e) também uma condição de progresso". De qualquer forma. Apenas na Alemanha. e assim provocar conseqüências regressivas. Esse liberalismo radical terá de ser algo bastante ambicioso em escopo e escala. Sen lom.5 Os neocontratualislas: Rawls. como aconteceu com Keynes e Beveridge. por exemplo. uma arena de luta de classes no sentido tradicional. no gigantesco tratado de John Rawls Uma teoria da justiça (1971). a soma de trabalho per capita. diz sir Ralf o Agonista — melhor aceitar e conter o conflito do que negálo ou ignorá-lo. como receitas radicais específicas proporcionadas no interior de uma estrutura geral conservadora ou não-revolucionária. Na época de Keyncs. como declarado em The Modem Social Con/licl. E logo o tranqüilo Rousseau de Harvard fez sensação quando sua fórmula liberal foi ruidosamente . e tentativas episódicas de fugir do grande consenso. o protesto antitotalitário (Orwell e Camus).204 O liberalismo . Em nossos dias. ele censura o corporativismo da década de 1970 por ter "transformado intitulanientos em interesses seccionais. seja por uma democracia fundamental e estilos de vida alternativos. As tensões entre "a classe majoritária" — os dominantes assalariados operários e executivos — e a subclasse não geram conflito em alinhamento. não destruí-lo. foi acolhido como o novo evangelho dos liberais — especialmente no sentido americano da palavra. Mostra que o desemprego é em grande parte efeito de profunda mudança tecno-econômica. Por volta de 1970. mas uma parte do próprio problema". decaiu: assim. no entanto. arranjar trabalho parecia a melhor maneira de remediar tanto a depressão econômica quanto a miséria social. uma prolongada batalha campal em torno de novas reivindicações de cidadania. Dahrendorf segura com mão firme tendências estruturais. O essencial é mudar o sistema. Ele é muito destro. JJ Acima de tudo. Dahrendorf sugere que a inovação política pode advir."5'1 Em resumo. há o arraigado bem-fazer social da classe majoritária. capaz de lidar com o abismo que separa o Norte do Sul. seja por inovação ou arte do empresariado. exceto residualmente. Ele sonha com uma "alternativa radical liberal".antigo e moderno Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 205 sem abandonar o alarma cultural de seus escritos dos anos setenta. depois de crescer até os últimos anos da década de 1950. uma vasta nova riqueza foi produzida com muito menos esforço humano. os anos noventa ameaçavam ser um período conílituoso. Dahrendorf não está feliz com essas opções. Não se incomodem. estando o ar ainda impregnado do voluntarismo romântico das revoltas estudantis.

' 8 Outros radicais divisaram no contrato de Rawls um reflexo do espírito do consumismo. Ronald Dworkin. o filósofo jurídico. Entrementes. um mínimo de renda e respeito próprio — são meios necessários para uma vida decente e desejável. pois foi tias técnicas que empregou paia deduzir princípios de justiça que Rawls adotou uma posição contratualista. é provável que o pactuante escolha dois princípios de justiça: (1) a cada um deve caber um direito igual ao máximo de liberdade compatível com medida semelhante para outros. teriam de agir cobertas por um "véu de ignorância". Na segunda parte de Uma teoria da justiça. numa hipotética "posição original". em nome do individualismo libertário. as pessoas não conheceriam seu lugar na sociedade. como eu não saberia se sou rico ou pobre.60 . mas em firmar regras de justiça. macho ou fêmea. Rawls trilha um terreno familiar tanto no primeiro princípio (em que a liberdade é definida como autonomia enquanto independência mais direitos políticos) quanto ao atribuir ao primeiro princípio prioridade sobre o segundo.se típico equilíbrio liberal americano. Assim mesmo. Km tal situação imaginária. inteligente ou burro. como em llobbcs. garantindo que cada desigualdade beneficie os menos favorecidos entre os pactuantes. Rawls foi acusado de igualitarismo superficial. 59 Na época. branco ou prelo. E Uma teoria da justiça não foi obra menos atrevida em objetivo: nada menos que uma alternativa plenamente desenvolvida para o militarismo. na Europa. devido ao véu de ignorância. O "maximínimo" é. muito abaixo dos verdadeiros níveis de justiça distributiva. quando Rawls contempla uma democracia constitucional e uma economia livre — e contudo abre espaço para um regime liberal socialista. o chefe da Escola de Turim. Tendo estudado em 1'rinceton. Por isso considerarão uma hipótese de risco máximo. portanto. como seres racionais. que trata de instituições. é que seus interesses podem chocar-se num mundo em que a escassez tende a prevalecer. Dada essa situação. Norberto Bobbio. Pois em tal condição. a despeito de todo o espírito igualitário do último. eu deveria me sentir forçado a agir com prudência e. sabem também que alguns "bens primários" — uns poucos direitos e liberdades.Dos novos liberalismos aos ncoliberalismos 206 O liberalismo . pela teoria de direitos de Robert Nozick. Assim tem de ser para garantir "justiça como eqüidade". A principal afirmação de Rawls é de que podemos alcançar princípios sólidos de justiça social pensando em que regras adotaríamos. Lockc ou Rousseau. foi quase o único no campo "progressista" a saudar a "posição original" de Rawls como o fundamento do direito para "respeito e cuidado iguais". Tudo isso não agradou a esquerda. As pessoas na posição original não são altruístas — tudo o que sabem. nem seus próprios talentos e habilidades: antes pelo contrário. uma apólice de seguro. iiotiiiiilmeiile miniini/mílo o perigo de serem prejudicados. era um contrato social muito diverso do contrato social da primeira tradição moderna. Além disso. indivíduos num limbo social deveriam preferir tais princípios porque seguiriam um critério "maximínimo": estando inteiramente incertos quanto às conseqüências de sua opção. Nascido em Baltimore em 1921. já que seu propósito não consistia no estabelecimento de autoridade e obrigação legítimas. John Rawls tinha 50 anos de idade quando seu grande livro 1 ornou-se o assunto de todos nas universidades. e (2) só devem ser permitidas desigualdades sociais até onde beneficiem os membros menos favorecidos da sociedade — o que Rawls apelida "o princípio da diferença". é muito observável es. poderes e oportunidades. Seu grande retorno à ética normativa rompeu ousadamente com as tímidas minúcias da abordagem lingüística da filosofia moral. alcançou um público internacional com seu longo intercurso com os clássicos do contratualismo. em contraste com a série de identidade-de-liberdade que ocorre no primeiro princípio. Segundo Rawls.antigo e moderno '207 contestada. a escolher princípios que não favoreçam qualquer grupo à custa de outros. A natureza cout radialista do empreendimento de Rawls mostrou-se num plano processual. Rawls já estivera em Harvard por uma década. portanto.

ele quer demonstrar que o bom Estado não precisa cercear os direitos individuais naturais. Mas os sociólogos não se podem impedir de questionar o grau de aplicabilidade de tais princípios a sociedades tão complexas quanto as industriais. Nozick empenha-se em demonstrar que pode haver um Estado legítimo compatível com a liberdade. Como é natural. escreve Nozick. que é. o mais jovem dos principais teóricos liberais aqui discutidos.) Nozick está convicto. fundamenta-se para Nozick numa exigência absolutista de consentimento voluntário. Nozick defendeu uma idéia "minarquista" do Estado. no hipotético contrato social de Rawls. Estudou em Columbia e Princeton e foi designado para Harvard em 1965. parece demasiado distante de uma sociedade moderna. Nozick opõe-se a "teorias padronizadas" da justiça. cada pessoa está "intitulada" a conservar aquilo que tem — a menos que tenha sido injustamente adquirido — e o que quer que a isso se possa acrescentar no futuro. que todos numa comunidade igualitária decidam dar ao famoso desportista Wilt . Rawls historicizou consideravelmente a sua teoria. a fuga ao risco. Daniel Uell. Como libertário radical. h2 Rawls manteve a sua posição antiutilitarista porque os rebentos de Bcntham só admitiam um bem. é saber se impõe-se que haja um Estado". em particular. Estado e utopia consiste em desenvolver uma defesa do Estado mínimo em duas frentes.antigo e moderno Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 209 Também não faltam críticas do lado liberal. Como ele escreve. como assiste a todos um direito à integridade do próprio corpo. diz ele. Nozick é um mestre do raciocínio conjectural. por outro lado.1' Falando de modo geral. "de cada um como escolhe. Contra os antiindividualistas. que numa dada sociedade a metade da população tem dois olhos.sua falta de realismo em seu confessado Gedankenexperiment. a felicidade. ambos divergem de maneira crucial. Nozick discordou. como o tratado de Rawls. para proporcionar uma norma relevante. parafraseando Marx. o mesmo deve ocorrer com o que quer que seja feito ou produzido por ele: que cada pessoa conserve o que tem e qualquer propriedade que disso lhe possa legalmente advir. mas à moda de Locke mais do que de Hobbes.20H O liberalismo . Em sua obra mais tardia. Anarquia. capazes de agir de acordo com a justiça social sem deixar de perseguir seus próprios ideais do bem. sem direito a taxai. A segunda parte de Uma teoria da justiça esboçou uma consideração de talentos individuais e seus frutos como ativos sociais e contemplou a legitimidade da distribuição da riqueza em largo alcance. Mas. individualística. eme estipulam a distribuição de riqueza ou receita conforme as características das pessoas (como os "menos favorecidos" de Rawls). Tem de haver um Estado. Suponhamos. o sociólogo de 1 Iaivard. enquanto a outra não tem nenhum. Suponhamos. Nozick elogia Rawls por ter cumprido "um grande progresso com relação ao utilitarismo". questão esta que precede outras questões sobre como o Estado deve ser organizado. a partir desse ponto. N^i segunda parte do livro. Não será extravagante pensar (presumindo que os transplantes de olhos não constituem problema) que cada pessoa pertencente à primeira metade deveria perder um olho em favor de cada pessoa do grupo sem olhos? Ora. mas apenas protecionista e.Chamberlain um quarto de dólar para fazê-lo jogar basquete. Robert Nozick. Nozick começa com um Estado da natureza. escreveu um comentário admiraiivo. Contra os anarquistas. De acordo com ele. O objetivo de Anarquia. (Nozick equipara o imposto de renda ao trabalho forçado. uma carta institucional. dificilmente seria justo censurar Rawls por. Como Rawls. que não querem saber de qualquer Estado. como diz logo de saída. de que "a questão fundamental da filosofia política. mas lamentou que Rawls parecia postular uma economia estacionaria. nasceu no Brooklyn em 1938. Estado e utopia (1974). Isso proporcionaria a Chamberlain unia enorme fortuna — mas como manter o padrão sem frustrar a liberdade individual? A legitimidade política. é autor de um só texto. atribuindo seus "bens primários" a agentes morais kantianos. na verdade a legitimidade de todos os arranjos sociais. para cada um como é .

e ainda não transferiram". de forma um pouco mais elaborada. por que cargas-d'água. r (ambém quanto à tradicional ênfase social-liberal nas condições para a liberdade como autodesenvolvimento. Amplamente traduzido na Alemanha. impedem a democracia moderna de liberar os bens que originalmente pretende: autogoverno transparente fundado na cidadania autônoma. Os mandatos revogáveis poderiam ser vantajosos para o autoritarismo. instigada por exigências populares como as expressas pelo voto. 65 O processo democrático de tomada de decisões fora da política e dos parlamentos é encarado com um bom complemento para as democracias liberais de nossos dias. a própria representação espelha o jogo de grupos de interesses e não tem mais um caráter predominantemente político. com cada indivíduo esdolhendo sua forma de vida. hipertrofia burocrática. e os mandatos imperativos já existem na forma de disciplina partidária parlamentar — em detrimento da democracia. mas grupos (como partidos e sindicatos).. Os reíerendos não teriam qualquer possibilidade de enfrentar toda a carga de legislação complexa de uma sociedade tecnoburocrática. as assembléias populares são excluídas tendo em vista a escala demográfica da maioria dos países modernos. se. negócios. escreve. Disso advêm as "promessas não cumpridas" da democracia. Bobbio adverte contra transformar em fetiche a democracia direta. hoje em dia os atores politicamente importantes já não são indivíduos. o ideal nobre mas impraticável do governo do povo pelo povo revela-se uma "utopia reacionária". mas antes de onde se vota". a liberdade dos outros tem de ser cerceada? Isto basta para os velhos argumentos a respeito de necessidade e merecimento. M Para Nozick. e queda da produção governamental. Bobbio concorda com o velho ataque de Kautsky contra o "democratismo doutrinário": na sociedade moderna. 63 A regra principal é sempre o consentimento individual livre. Em resumo: tecnificação do governo. sente-se uma pessoa intitulada a uma receita de subsistência. para cada um segundo o que faz para si mesmo (talvez com a ajuda contratada de outros) e o que outros por ele fazem e resolvem lhe dar dó que lhes foi previamente dado. e a própria pressão imposta por tais reivindicações sempre crescentes sobre a capacidade que assistiria aos governos de governar. Espanha e América Latina. só porque dela necessita.210 O liberalismo . para obtê-la. Pois nem os reíerendos. pergunta Nozick. nem as assembléias populares. a prática real das liberdades políticas não correspondeu ao sonho de Mill de educação através da democracia: a apatia. Para começar. Por fim. Ou. largamente inculcada pelos mass media e pela indústria cultural. seus livros começam agora a receber a atenção que merecem na França e no mundo anglo-saxão. Norberto Bobbio (nascido em 1909) é um ilustre teórico político. "de cada um segundo escolhe fazer. Pregando uma expansão da democracia para várias áreas da vida social. É óbvio que não se tem direito a uma bela mulher ou a um bonito marido só porque se necessita de tal. portanto.antigo e moderno Dos novos liberalümos aos neoliberaüsmos 211 escolhido". em vez do civismo inspirado. Não espanta que essa espécie de rápido castigo tenha irritado intelectuais liberais nos Estados Unidos. Portanto.. a difusão da burocracia. difundiu-se. Enquanto a participação individual na escolha de representantes não passa de uma sombra do preceito liberal. nem . Em O futuro da democracia (198'1). Em conseqüência. a utopia só poderia ser (como ele explica na pai te 3) uma condição libertária de os mandatos imperativos de descendência rousseauniana se dariam bem em nosso ambiente moderno. Bobbio relaciona três obstáculos à democracia: o incremento de problemas políticos que requerem perícia técnica para sua solução. Bobbio afirma que a "passagem da democracia política para a social-democracia" deveria ser considerada algo de melhor e de mais viável do que propostas radicais de substituir a democracia representativa pela democracia direta. por sua vez. "o atual problema do desenvolvimento democrático já não se pode limitar apenas à questão de quem vota. Esses obstáculos.

A estrutura clássica é especialmente visível em Esliulo. desviando-a de sua preocupação tradicional. Bobbio exibe algo de novo. cos levaram alguns críticos. que ele estigmatizou como puros "valores de classe". Althusius e llarrington. no marxismo. com relação à época de Gobetti e Rosselli: uma nutrida polêmica com o marxismo. sociedade (1985). Acima de tudo. Bobbio convincentemente opôs-se a essa "identificação da doutrina liberal do Estado com uma ideologia burguesa do Estado". Bobbio tem sido corretamente elogiado por haver "reorientado a teoria política italiana. como o foi. Schimipeler.' Por fim.212 O liberalismo . visto que também era uma teoria do Estado representativo.. portanto. a erroneamente interpretar a posição de Bobbio como um criptoconservadorismo. Bobbio surge como um grande e sutil codificador. em Leo Strauss. diferentemente de todos eles. efêmero. Bobbio atribui a primazia a um liberalismo de "direitos" aparentado com a tradição anglo-saxônica. Contudo. o novo Estado oriundo das cinzas do Estado burguês destruído — a ditadura do proletariado — não passa de um Estado de transição. a /irininzia iln /)tii/i/lo. governo. e. Esta combinação de realismo quanto aos limites da democracia e a busca de novos espaços democráti. como Maquiavel e Bodin. epistemologista marxista e comentarista de Rousseau. Bobbio enfatizou que a forma pela qual o poder é conquistado não pode ser indiferente ao seu futuro exercício. Escreve Bobbio: "Se o Estado está destinado a desaparecer. Delia Volpe salientara a necessidade de uma "maior liberdade" socialista muito além das liberdades civis de origem burguesa. Bobbio entrou em choque com Galvano delia Volpe (1895-1968). de Platão. Por que motivo falta ao marxismo uma teoria <lo Estado? Bobbio pode pensar em duas razões. Nele. o credo liberal significava a possibilidade de um acesso ao poder.1'1' Mas é essa própria ênfase na democracia que confere à categoria de liberalismo própria de Bobbio um sabor muito diferente das prévias encarnações italianas da idéia liberal. O liberalismo de Bobbio c definitivamente de esquerda. por exemplo. Em primeiro lugar. Dahl e Maepherson. são encontrados em suas páginas com tanta freqüência quanto Tocqtieville e Mosca. Como conseqüência. devotou-se muita atenção ao partido revolucionário. atualmente. A essência do pensamento político de Bobbio é um diálogo constante com os clássicos. de um ideal compêndio de teoria política moderno. torna-se muito menos importante o problema do seu melhor funcionamento". Rosselli e Calogero. com muitas visões penetrantes do pensamento político através da história ocidental. O primeiro capítulo de Qii. mas praticamente nenhuma ao listado porvir. quase exclusiva. Bobbio declarou que a teoria liberal do Estado limitado — limitado ao mesmo tempo pelas garantias individuais e pelos controles institucionais — era uma barreira não apenas para a monarquia absoluta "mas para qualquer outra forma de governo". Se o novo Estado é transitório. Aristóteles e Cícero a Weber c Kclsen.antigo e moderno Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 213 Bobbio insiste em difundir tanta democracia quanto possível i através de todo o tecido social. Em 1954. como o de Gobetti. o que há de mais próximo. em Bobbio o constante inlercurso com os antigos da teoria política não é nunca uma repugnância à sociedade moderna. em profundidade e em escala. quanto ao conceito de liberdade. A verdade histórica consiste em que o movimento operário revelou-se mais interessado na conquista do podei' do que em sua subseqüente organização e exercício. notadamente o neomarxista Perry Anderson. Insistindo em que reduzir os direitos civis a privilégios burgueses era cometer uma falácia genética. Mas. com jogos de poder (a linhagem maquiavélica) para um exame mais atento do Estado como um complexo instiiu . aberto a todos os grupos sociais. como o liberalismo econômico de Pareto e o liberalismo ético de Croce. e que. de uma teoria do Estado socialista e de democracia socialista. Tanto os antigos como também os primeiros clássicos modernos.nl socialismo? (1976) confronta a ausência.

lecionou direito durante} muitos anos (1938-1972) em Siena. tem com freqüência uma natureza contratualista. Weber divisara que há. governo. jé claro. sociedade ele afirmou que o mundo contemporâneo testemunhou uma verdadeira eslatificação da sociedade devido. é esse o sentido da democracia. resigna-se a ter perdido o monopólio da ideologia e da economia. Bobbio declara que essa lógica de acordo e (cripto)coiitrato verifica-se em muitos sislemas . E. w) Mas também está muito alerta à distribuição societária do poder. A aplicação por Bobbio do conceito a tendências modernas parte do agora familiar (e muito marxista) uso antitético: sociedade civil versus o Estado."' O elemento ascendente. é um Estado respeitoso dos direitos civis e cívicos. Em vez disso. o conjunto de direitos civis invioláveis. além de conhecer essas "limitações ao" poder estatal.~/•/ O libntilisnía . por assim dizer. Isso inspira mais um. o invasor social do Estado moderno.mitigo r inoilrnio Dn. O bom Estado. Como um perito em inteiro domínio do armamento conceituai da teoria social clássica.) Em qnarte lugar. de um ponto de vista do direito públi-i co. então os grupos de interesse tendem a estabelecer um acordo. dos direitos minoritários | da livre expressão de oposição! Bobbio não é apenas um pensador político mas um filósofo jurídico muito proeminente — um verdadeiro sucessor de Kelsen e um igual de H. Em terceiro lugar. de participar de suas decisões a latere acarretou uma igualmente enérgica socialização do Estado.s tihcinlismtis um iifíililicmliviniis 2/r> cional". inclusive. como um Estado liberal. evitando o jogo nulo de litígios resolvidos pela regra da maioria.s iimui. Incorpora as observações de Mosca. Isso quer dizer que seu único monopólio de poder é o uso de força legítima — quanto ao resto. muitas vezes. em quinto lugar. na linguagem kantiana de Kelsen. Por outro lado. não foi o Estado como uma totalidade ética que assumiu uma sociedade civil fragmentada. é um Estado cujos súditos participam (não importa de que distância) na sua elaboração de normas. Hart. Se não — como no Slãndeslaal medieval —. ideológico e econômico estejam separados um do outro. dois meios principais de alcançar decisões coletivas. não é preciso dizer. e assim por diante. O comentário filosófico de Bobbio é impecável. no fim de sua História das doutrinas políticas (1933). Dalla strutlura alia funzione 6 xim audaz afastamento da abordagem esti uluralisla de Kelsen e Hart com o objetivo de compreender o novo papel desempenhado pelo direito no interior de uma paisagem social dominada pela economia mista e o Estado previdenciário. ele também tem. argumenta ele. tocando desta feita na dicotomni público-privado. vive num ambiente policrático. Contrariamente à predição de Hegel. "limitações do" poder estatal: os pesos e contrapesos: constitucionais. particularmente forte. numa grande medida. segundo Bobbio. Antes de ensinar filosofia política em Turim. são as forças sociais de baixo que permearam a esfera mais alta da autoridade estatal. o crescimento de grupos de interesse e organizações de massa capazes de pressionar o Estado e. L. (Para Kelsen. sua nomogênese é autônoma. entre outros. o leitor se lembrará. não heterônoma. Bobbio investigou a história da idéia de sociedade civil a partir dos primeiros teóricos modernos do direito natural até Hegel e Gramsci. prevalece o governo majoritário. sãò marcos do pensamento jurídico moderno. é também democrático no sentido mínimo de que possui uma larga cidadania e de que Seus cidadãos podem realmente e& colher entre equipes políticas que competem em torno de postos temporários. exibe cinco características. e também Dalla strutlura alia sfunzione (1977). Em Estado. discernimento "jurídico" bobbiano. quanto à resiliência e a desejabilidade de regimes em que os poderes político. Pádua e novamente em Turimt Teoria delia norma giuridica (1958. inter alia. e nota que o governo partidário monocrático do tipo leninista não manifesta distinção entre regnum e sacerdotiurn. tão proeminente em direito. Tendo em mente a política parlamentar italiana. A. Se é possível presumir que as partes são basicamente iguais no ponto de partida. . ao crescimento do Estado social. Primeiro. Em segundo lugar.

mas p a r a q u e o p t e m p o r fazê-lo?".) ou mais jovens (Nozick) do q u e ele. A questão q u e Bobbio dirige à e s q u e r d a em geral — quais são as regras de governo? — n ã o p o d e ser evitada pelos verdadeiros amigos da liberdade. "A prática cia democracia". as p r e o c u p a ç õ e s esquerdistas liberais de Bobbio acrescentam-se à resistência teórica às novas formas de liberalismo conservador. os socialismos fizeram o papel de juizes. "é u m a c o n s e q ü ê n c i a histórica do liberalismo. Nossos c o n t r a t o s sociais adverte ele. N o s últimos anos da d é c a d a de 1940. observou. sua c o m p r e e n s ã o da alterada posição histórica do socialismo p o d e m irritar muitos radicais. guildas e estados. 7 4 E n q u a n t o nos anos do após-guerra a h u m a n i d a d e c o m p a r o u os muitos defeitos e deficiências da o r d e m liberal com as radiosas promessas materiais e morais do p r o g r a m a socialista. estende-se s o b r e o crescente e n t r e l a ç a m e n t o da "lógica privatista do c o n t r a t o " e a "lógica publicista da d o m i n a ç ã o " Mas a o m e s m o t e m p o Bobbio se recusa a a b r a n d a r as diferenças e n t r e o velho e o n o v o contratualismo. De todos os contratualistas neoliberais vivos. mais n o t a d a m e n t e e n t r e governos e forças sociais. Um e n s a i o i n t e i r o em 0 fuluro da democracia.antigo e moderno Dos novos liberiãismos aos tieolibendisinos 217 partidários hoje em dia. q u e n ã o é mais "burguesa".. ' T a n t o as dimensões políticas c o m o legais da o b r a de B o b b i o estão i m p r e g n a d a s de u m a espécie m o d e r n a de social-liberalismo. c seu respectivo valor. 7 " Alguns tipos de Estado c o n t ê m controles institucionais do poder. Ele n ã o participa de q u a l q u e r p o r ç ã o da rápida "estatofobia" de o u t r o s neoliberais. C) ensaio de q u e extraímos nossa última citação. Celso Lafer. diz ele. Mas B o b b i o fez algo de inestimável: ele reafirmou e n e r g i c a m e n t e a ligação e n t r e o liberalismo e a democracia. ' Sua insistência na d e m o c r a c i a real. outros simplesmente não os contêm. ' A alma do governo do Estado previdenciário é o contrato social. tipos de regime. p o r mais valioso q u e seja. Richard Bellamy diz q u e Bobbio trava-se com "a questão de: q u e arranjos institucionais são necessários p a r a q u e as pessoas n ã o a p e n a s mud e m a sua condição social." E Bobbio vê c o r r e t a m e n t e a atual redescoberta do liberalismo "como u m a tentativa de justificação do liberalismo existente c o n t r a o socialismo existente". a nossa está fadada a ser a m p l a m e n te u m a avaliação d o s r e g i m e s alternativos existentes. O liberalismo de Bobbio n ã o c o b r e todos os principais problemas na a g e n d a neoliberal. c o m o um de seus i n t é r p r e t e s mais competentes. devemos antes voltar-nos p a r a Hayek ou p a r a A r o n . Ele t a m b é m assinala q u e o impulso a s c e n d e n t e da idéia do c o n t r a t o social mod e r n o implica u m a base social mu lo mais ampla do q u e jamais (oi p e r m i t i d o pelos rapporls de force q u e prevalecem n o t e m p o dos castelos. n e n h u m e m p e n h o pela libertação coletiva.2/6 O liberalismo .. mas elas p e r m a n e c e m a única o p o r t u n i d a d e de sobrevivência para o liberalsocialismo c o m o u m a p r o p o s t a significativa. nos últimos anos da d é c a d a de 1980. eles p r ó p r i o s estão s e n d o julgados. e n q u a n t o a c o m p a r a ção após-guerra foi um exercício de p e n s a m e n t o (já que um de seus t e r m o s era p u r a m e n t e ideal). E p o r q u e c o m p r e e n d e i n t e i r a m e n t e isso q u e Bobbio afirma q u e "Ioda democracia genuína ê necessariamente uma democracia liberal". Além disso. E n t r e m e n l e s . mais velhos (Hayek. p o d e jamais resolver automatic a m e n t e a questão t o r t u r a n t e tia conslitulio liberlalis — a natureza e estrutura do p o d e r estatal. apressou-se a acrescentar. Se q u i s e r m o s p o n d e r a r o p a p e l do m e r c a d o ou as complicações do j o g o internacional do p o d e r . significativamente intitulado "Velho e novo liberalismo". 40 a n o s mais t a r d e t o r n o u . Pois. é de fato uma .s e impossível n ã o levar e m c o n t a a s desastrosas c o n s e q ü ê n c i a s do socialismo estatal e as imperfeições da socialdemocracia. n u n c a p o d e m esq u e c e r a base individualista da sociedade m o d e r n a — u m a base. " C o n t r a t o e c o n t r a t u a l i s m o no d e b a t e de hoje em dia". empiricamente avaliados. Bobbio é o q u e mais se a p r o x i m a de c o m b i n a r u m a busca da justiça e um gosto pela igualdade c o m um firme senso de estruturas institucionais. t o d o s os Estados democráticos existentes foram o r i g i n a l m e n t e estados liberais.

como para Hegel. más. como Nozick. Spencer efetuou uma redução arbitrária do direito público a direito penal. estão espiritualmente próximos . às inclinações igualitárias do novo liberalismo. como Rawls e Bobbio. julgam a justiça social um conceito desprovido de significação. Bobbio o ataca por causa de sua tacitamente cíclica idéia da lijstória — seu ingênuo dualismo de boas e más fases (boas. a obra escrita de Dahrendorf tomou corpo em reação à negligência neoliberal das reivindicações igualitárias.antigo e. Quanto aos neocontralualistas que se alçaram à fama na década de 1970. Diferentemente de Rawls. vitorianos (Spencer) e contemporâneos (Hayek). moderno Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 219 crítica breve dos liberalismos conservadores. Enquanto Aron foi essencialmente o crítico do totalitarismo. real (como no início da Idade Média) ou intelectual (como na teoria social de Spencer). Bobbio pretende que.218 O liberalismo . Conclusão O novo liberalismo de 1880 ou 1900 consistiu em três elementos essenciais: uma ênfase na liberdade positiva. e um desejo de substituir a economia do Itiixsrz-Jtiiiv. e recomendam um papel mínimo para o Estado. uma preocuparão com a justiça social. negando ao Estado mesmo o menor propósito social. alguns deles. Os neoliberais "hayekianos" tendem a desconfiar da liberdade positiva como uma permissão para o "construtivismo". Tal grupo de novos objetivos e pressupostos levou a uma nova visão política liberal. os triunfanles "neoliberalismos" de cerca de 1980 tinham uma mensagem muito diferente. Também se pode interpretar os sociólogos liberais como pessoas que são sensíveis à nova dicotomia neoliberal. sempre que cresce). qualquer retraimento do direito público é sinal de decadência política. quando o Estado se retira. aparentam-se antes com os neoliberais. enquanto outros. defendem um retorno ao liberismo. Ora. para Bobbio. esse liberalismo modificado recebeu novo impulso de vida graças a pensadores influentes como Kelsen e Keynes. o neocontratualismo de Bobbio desafia abertamente os neoliberais conservadores. enquanto as velhas reivindicações de direitos individuais haviam aberto espaço paia exigências mais igualitárias. No período de entre guerras. Quanto a Hayek. Em contraste. partilhando muitos pressupostos ou prescrições liberais.

ou o humanismo da Renascença. Em primeiro lugar. mesmo tão necessariamente incompleta quanto esta.Conclusão Uma vista geral. várias espécies de discurso liberal. há diferentes obstáculos á liberdade.ockc — o absolulismo — já não era obviamente o que assustava Mill ou. O pensamento liberal clássico estabeleceu a doutrina construindo a teoria da liberdade moderna (Conslani) e especificando a estrutura da ordem política livre. Mayek. como na' ideologia cívica do primeiro republicanismo. o que permite uma redefinição periódica do liberalismo. a impressionante variedade dos liberalismos: há vários tipos históricos de credo liberal e. contribuiu com uma visão secular. o Iluminismo. acima de tudo. ainda. e que remontam à primeira Idade Moderna ou mesmo. enquanto o movimento romântico subseqüente salientou o valor do indivíduo. há diferentes conceitos de liberdade. à Idade Média ocidental. progressiva da história. da história três vezes secular das idéias liberais mostra. o que assustava l. graças aos pais fundadores 221 . não menos signiíicantes. O auge da primeira Idade Moderna. Iniciamos relembrando alguns elementos formativos. Este livro tentou representar os delineamentos das principais linguagens e posições históricas do liberalismo. Em segundo lugar. tais como a noção de direitos e as reivindicações de constitucionalismo. mais bem chamados protolibaralismos. em alguns casos. Tal diversidade parece decorrer principalmente de duas fontes.

como os gloriosos acontecimentos na Europa oriental cm 1989 tornaram espantosamente claro. desta feita no sentido das reivindicações igualitárias dos novos liberais. e Hobhouse. seja no campo da argumentação ou na prática. economistas clássicos.recn. o liberalismo conservador produziu uma versão elitista da idéia liberal. na altura de 1910. As últimas duas décadas tornaram manifesto um forte renascimento do liberalismo. Além disso. mais notadamente na obra de John Mill.' O liberalismo . articulando uma poderosa i j defesa neoliberal do mercado e uma crítica convincente do burocratismo. Entrementes. No entanto. ocorrera uma importante inflexão na teoria liberal. como se tornou a nossa. e Dewey nos Estados Unidos. Em meados do século XIX. como Kelsen na Europa. Canitts e líciiin. de Smith a Ricardo. a vontade contemporânea de liberdade é um movimento amplo e parece valorizar a liberdade civil e política tanto quanto os mais altos padrões de vida dependentes de grandes influxos de liberdade econômica. .antigo e moderrip Conclusão 223 . quando o meco da democracia levou muitos pensadores proeminentes a defenderem um liberalismo distintamente conservador."-". Uma escola muito diversa de pensamento desafiou a preocupação social do novo liberalismo. Bobbio e Nozick. Nem o surto ou renascimento de mais liberdade econômica — a tendência liberisla — significam o dobre de finados para impulsos igualitários. Como foi observado por alguns distintos sociólogos como Aron ou Dahrendorf. Foi esta a posição que prevaleceu de Bagehot a Spencer. ! Os últimos anos do século XIX testemunharam um sesrundo importante desvio do paradigma clássico. Esta posição compreendeu a maior parte das opiniões germânicas quanto ao Rechlsslaal.imcricanos e sua redefinição do Conceito de república em termos <lc governo representativo em lrrga escala. senão ao laissezfairc. Houve uma evidente retomada do discurso contratualista dos direitos. e também o impacto mais tardio dos influentes filósofos latinos Croce e Orlega. embora camhiante. Os anos do após-guerra assistiram à ascensão de uma crítica liberal do totalitarismo (a ser distinguida da crítica conservadora) nos escritos de Popper e de moralistas como Orwell. de Bentham a Tocqueville. esta parece estar muito bem entrincheirada numa época de liberalização corrente.'. como afirmado por prestigiosos pensadores como C. como em Rawls. e desenvolveram as preocupações libertárias do individualismo liberal. Muito de sua posição intelectual foi preservada pelos grandes liberais de esquerda do período de entre guerras. a nossa sociedade permanece caracterizada por uma dialética contínua. por volta de 1880. Keynes na Inglaterra. entre o crescimento da liberdade e o ímpeto em direção a uma maior igualdade — e disso a liberdade parece emergir mais forte do que enfraquecida. Falando em termos gerais. legitimaram a liberdade econômica — outro tema principal do liberalismo em sua forma clássica. os liberais clássicos acrescentaram dois novos focos: iniciaram a teorização dá democracia. Na medida em que a investida neoliberal significa so ao liberalismo.

llisloire générale de Ia civilizaiion en Enrope M o r r e Simón Bolívar A p r o v a d a na Grã-Bretanha a Reform Bill Rotteck e Welcker. e estabelece-se na E s p a n h a u m a m o n a r q u i a constitucional Unificação da A l e m a n h a Spcncer.1788 The Federalisl l>a/>ers 1789 'Fornada da Bastilha. La liberte 1860 Mazzini.1861 Macaulay. Leclures on lhe. História da revolução: da queda da Bastilha à festa de federação Revoluções da 1'Yança de 1818. Do espírito das leis I 762 Rousscau. A riqueza das nações 1787 Os Estados Unidos r e ú n e m a C o n v e n ç ã o Constitucional 1787.ore 1852 Inicia-se o r e i n a d o de N a p o l e ã o III 1 l u m b o l t . On lhe Limits of lhe State (obra p ó s t u m a ) 1853 Nova Constituição p r o m u l g a d a na Argentina 1855. Dicionário político Tocqueville. Consi. The Man versas lhe State 1885 Dicey. A democracia na. Simon. Segundo tratado 17'I8 Montesquiou.en. Essay on Government 182 1 N a p o l e ã o m o r r e cm Santa 1 Telma. inicia-se a Revolução Francesa B e n t h a m . o México conquista sua i n d e p e n d ê n c i a da Espanha 1828 1830 1832 1834-1848 1835-1840 1688 Revolução Gloriosa na Grã-Bretanha 1689 Locke. The English Constilution 1868 Isabel II abdica. Princípios de economia política 1818 De Staêl. tem início a Segunda República 1850 Ilcr/. The Lato of lhe Constilution 1886 G r c e n . Principies ofPoliiical Obligaliou 1884 A d o t a d a na Grã-Bretanha a Reform Bill 1859 J o h n Stuart Mill.d. Uma introdução aos princípios da moral e da legislação 1791 Declaração de Direitos a d o t a d a nos Estados U n i d o s Paine. Provi lhe Olher Sh. Carla acerca da tolerância 1690 Locke. Os direitos do homem 1795 1799 1810-1816 1814-1815 1815 Kant.éralions sur Ia Révolulion Française 1820 J a m e s Mill.Cronologia 225 1817 Ricardo. Ilislory of ilnglantl J. The Duties o/Man 1861 J o h n Stuart Mill. On Liberty Cronologia 224 . inicia-se o r e i n a d o de N a p o l e ã o I Inicia-se a luta da A r g e n t i n a pela i n d e p e n d ê n c i a O Congresso de Viena cria a C o n f e d e r a ç ã o Germânica Napoleão d e r r o t a d o em Waterloo Constai.it. Contraio social 1775-1783 Revolução Americana 1776 Smith. Represenlalive Government 1867 A d o t a d a na Inglaterra a Reform Bill Bagehot. Príncipes de polilique. América Vitória sobe ao t r o n o britânico Michelet. Paz perpétua Golpe do 18 B r ü m á r i o na França. 1871 1837 184-7-1853 1818 GuizoL.

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assunto do livro de Giuseppe Bedeschi. embora também discuta as origens intelectuais da doutrina liberal. assim como o livrete de J. nenhuma fortuna herdada. e nenhum início de vida privilegiado. A década de 1980 assistiu a notáveis respostas à restauração. editada por Douglas Maclean c Claudia Mills (Totowa. 1977). Anterior a este. Erceden e Burrow. Mansfield The Spiril of Liberalism (Harvard University Press. c vol. Salwyri Schapiro. Massimo Salvadori. 1985) defende o liberalismo contra as críticas de Macpherson. mercado e Estado a um autorizado esboço histórico do pensamento liberal. retomava o contratualismo conjectural de forma extremada. 1982) questionava um princípio metafísico subjacente alegadamenle a toda a tradição liberal. D.ilirai Thonght (Chicago University Press. 1969). A seleta Liberalism. e ele. As monografias. Modernamente. Mauncnl. em Socialjustice in the Liberal State (New Haven: Yale University Press. 1986) acrescenta uma excelente análise conceituai da liberdade. seletas e sumários históricos mencionados nas notas aos cinco capítulos não voltarão a ser mencionados aqui. Liberalism. Koerner Liberalism and Its Critics (Londres: Croom Helm. O livro de John Gray Liberalism (Milton Keynes: The Open University Press. 1983). Nicola Matleuci. Por outro lado. por conseguinte. entre outros. Hall Liberalism (Londres: Paladin. Reconsidered. Its Meaning and Ilislory (Nova York: Vau Nostrand. A abordagem de Salvadori. 1984). anterior a ele. imaginando um planeta de colonos pioneiros com sentimentos antiutilitários. do contratualismo. uma história recente que cobre o liberalismo de Locke a Croce e Kelsen. The LiberalHeresy. Esta é. examina os pressupostos filosóficos do credo liberal em diversos ensaios por. História do pensamento político (Rio de Janeiro: Zahar Editores.a. o li246 vro de Robert Paul Wolff. Bruce Ackerman. The Poverty of Liberalism (Boston: Beacon Press. concentra-se na ideologia social e na história das instituições liberais tanto quanto na teoria liberal. 1972). em particular as histórias do liberalismo por De Ruggiero. por Rawls. Slorid dei pensiero liberale (Bari: Later/. tolerância. 1982-1983). Ronald Dworkin. Manning. 1965). por contraste. Enquanto o livro de Atny Gtitnian Liberal Equalüy (Cambridge: Cambridge University Press. 1987) é uma tentativa sóbria e penetrante de defesa moderada de idéias e instituições liberais em termos de sociologia histórica. 1990). inclusive a Rawls: a prioridade ontológica do ego. Origins andHistoricalDevelopme. 1980) defendia tini igualitarismo liberal próximo ao socialismo de merca do. Girard.nl (Londres: Macmillan. Clarkc. propõe uma substituição comunitária do individualismo liberal. The Rise and Decline of Western Liberalism (Oxford: Blackwell. Theda Skocpol e Christopher Lasch. II liberalismo in un mondo in Irasformazione (Bolonha: II Mulino. Reavaliações críticas do liberalismo escritas de um ponto de vista radical incluem Anthony Arblastcr. O livro de Kirk F. New [ersey: Rowan & Allanheld. 1980). Le libéralisme (Paris: Seuil. I lisloty: A Study <>j(the Developmenl oj Liberal J'ol. A obra de Harvey C. 1978) é um inteligente exame "straussiano" que . Laski. 1979). a obra de Michael Sandel Liberalism and the Limits of Justice (Cambridge: Cambridge University Press. Human Nature and. 3 de Jean-Jacques Chevalier. lealdade e poder. Cumming. O livro de John A.Leitura complementar 247 Leitura complementar A literatura do liberalismo cresce mês a mês. Strauss e Oakeshott. Marcuse. 1968) critica o pensamento liberal examinando os conceitos de liberdade. podem se encontrar relatórios históricos globais em R. Georges Burdeau.

C) livro de Michael Wal/. ocupação da. lorde. 144 Aron. 99 Auto-realização. Irony and Solidarity [ C a m b r i d g e University Press. 208 índice 249 . 84-85 Montesquieu. and Equality (Nova York: Basic Books.antigo e moderno termina c o m u m a crítica ao "liberalismo de p e p i n o " de Rawls e No/. Alberdi sobre movimentos de libertação na. 183. liberdade de. c o m exceção de Benoist. Economy and State. Juan Bautista.ihrrnlisvi Pro/irr niul Pro/irr Libera lis in (]olm l l o p k i n s University Press. 132-139 América. 22 opinião autotélica de Mill sobre. 165-166 Alberdi. Daniel. Hobbes sobre. 121-124 Alemanha. liberalismo de esquerda na. Califórnia: Institute for H u m a n Studies. 119. 83 fundada no consentimento. Ortega e. 17 Rousseau c. no Iluminismo. local. sobre dominium. tipos de. 44 limitações institucionais da. respeitosa à lei. Bell. 30-32 teóricos do século XIX. 1989). de Fichte. 132 liberais ingleses e.er Sphrrcs of Justice: A Defense of Pluralism. 82-83 Aulotclm. M e n l o Park. Serge-Christophe Kolm (Le contrai social liberal [Paris: PUF. 133 Tocqueville sobre. 31-32. mas. 02 Bildung e. 119-126 problemas políticos na. 184 Argentina.'•IS O liberalismo . 1983) p r o p o r c i o n a u m a defesa nova e sensata da justiça distributiva fundada no pluralismo liberal. 1984]) e H e n r i Lepage (Demain le libéralisme [Paris: Livre de Poche. 21. O livro de (loiifricd Oiel/e l. 71. 50 nação como fonte de. e Jeíferson c o m o teóricos da liberdade responsável. 124-125 Aristocracia. Kant. e n q u a n t o JeanMarie Benoist (Les outils de Ia liberte [Paris: Laffont. 115 . Finalmente. liberais franceses e a. 67 Polizeistaat e. 117 Argélia. populismo lockiano na. teoria econômica do. O mais insistente m a n t e n e d o r do liberalismo c o m f u n d a m e n t o s libertários tem sido o discípulo americano de Mises. como regular o exercício da. 1985]) t e n d e antes p a r a u m a vizinhança n e o c o n s e r v a d o r a de p e n s a m e n t o . 41 Alain. 73 republicanismo na. 1985) e na América p o r R o b e r t B. 55-56 Autonomia. Raymond. 122 Anarquismo. Tocqueville sobre. discutem o liberalismo de preferência c o m o u m a prática social ao invés de abordá-lo em suas premissas filosóficas. fontes de legitimidade da. 1985) e x a m i n a Montesquieu. Bildung. 82-83. vale a p e n a mencionar q u e alguns desenvolvimentos na assim c h a m a d a filosofia pós-inodcrna (rataram da natureza de u m a cultura liberal. Os paladinos liberistas franceses são Guy S o r m a n (La solulion libérale [Paris: Fayard. Murray R o t h b a r d (Man. um crítico a r g u t o do totalitarismo e do estatismo. 73-74 veja também Estados Unidos (da América) América do Sul. liberalismo na. 70. Os neoliberais franceses ainda na casa dos 40 anos foram p r e c e d i d o s pela obra prolífica de Jean-François Revel. 164 Bagehot. 1970). 197-200 Autogoverno. A política liberal t a m b é m foi revista na Inglaterra p o r George Watson em Theldea ofLiberalism: Studies for a New Map of Politics (Londres: Macmillan. 88 veja também Despotismo esclarecido Acton. mais c o n s p i c u a m e n t e na o b r a r e c e n t e do filósofo americano Richard Rorty (Contingency. 92 Auto-interesse. Walter. 1989]). de Godwin. Reich em The Resurgent Liberal and Other Unfashionable Prophecies (Nova York: R a n d o m H o u s e . 1980]). 167-170 teoria da liberdade na.ick. 107 reação liberal à. Absoluüsmo. The English Conslitution. 113-114 Acúrsio. Liberdade Autoridade. sobre Rawls. 1983]) é mais igualitário.^^aww-CTSSE-Snqfaimi»! '. 23 veja também Autotelia. 30 Autoritarismo. Smith.

193 liberais conservadores e. 91 direta. 159 Bradley. 151 The Law ofthe Constitution. 45 segundo Nozick. Republique. Alain sobre. 79 Bobbio. Albert V. 140 definição tocquevilliana de. na opinião de Smilli. 39 Comércio. 201 Life Chances. do ponto de vista do Iluminismo. crítica de Bentham a. 76 Bonaparte. político. 47 Direito natural.57-5H inodelna teoria de direitos <:. 51 Dewey. modernidade e. 215 O futuro da democracia. 137 Butler. "La crise du libéralisme". 26 Bodin. 46 nos Federalist Papers. como origem da autoridade legítima. comércio e. 210 Hayek sobre. 211 Qual socialismo?. 75. 214. Thomas. Edmund. constitucionalismo no.Jeremy. papel da. definição de liberdade no. 193 Inglaterra e continente comparados. 44 legitimidade do governo e. Herzen sobre. 30 sobre o espírito comercial. visconde de. 37 liberdade de. James. 215-216 Hobbes sobre. Jean. 66 Campbell. do ponto de vista do Iluminismo. 39 De republica. Ernst. 75 princípios mais importantes do. no conservadorismo inglês. Dahrendorf sobre. 172 Individualism Old and Neto. 153 conceito alemão de liberdade c. 172-174 Human Nature and Conduct. 96 esclarecido. a partir da década de 1870. 51 veja também Lei Direito canônico. teoria de Weber sobre. 78-79 Ortega sobre. 216 Estado social e. 59 crítica de Hayek ao. Liberdade antiga e moderna.'. escola militarista de. 139-143 Dahrendorf. Micbel.215 Estado. ciência e democracia". 44. Samuel. Herzen sobre. De ojficiis. 186-188 "Dois conceitos de liberdade". 96 origens intelectuais da. Hudibras. 161 veja também Comércio Carisma. Auguste. 29 Bolingbrooke. 23 Consentimento. 143 Popper sobre. 115. sobre utilitarismo. 210-212. 67 veja também Contrato social Corporação. Weber sobre. Simón.antigo e moderno índice 251 ltcniham. 111 Burocracia. 70 Bolívar. 209 teoria do. 200-205 As classes sociais e seus conflitos na sociedade industrial. 82. Norberto. 68 Conservadorismo. 209 segundo Locke. The Romantic Ethic and. Bobbio sobre. 137 Carlyle. 50 liberdade no. 43. 41. 115 Bobbio sobre. 168 Ceticismo. 110-114 Constant. direitos individuais e. 160 Croce. Alberdi e. 91. 134 veja também Conservadorismo liberal. 138 Desemprego. na Grã-Bretanha. 121-122 Cícero. 190 Contra-Reforma. 104 Condorcet. the. 205. origens da. 201 "Incerteza. Francis Herbert. 130 Sièyes sobre. Isaiah. governo. da maioria. 11H--IK) liberalismo social e. 78-81 lierlin. 149 liberal. 212 sobre liberdade negativa e positiva.'. 118-119 Weber e. 183-185 Capitalismo. 127 Bosanquet. democracia plebiscitaria do. 36-39 . 134 Digesta. 204 Despotismo. 39-41 Direitos. 164 Bouglé. Marco Túlio. 47 origens do. I layek sobre. 90-91 Burke. 25 limites institucionais da autoridade. 46-47 no liberalismo clássico. 103 Tocqueville sobre. 56-58 liberalismo e sociedade comercial.''O O liberalismo . 18 Constitucionalismo. como instrumento do poder estatal. 45 Rawls sobre. direito natural e a. 20 Comte. 46 Dicionário político (Rotteck e Welcker). 31 Blackstone. Mill e. partido Conservadorismo liberal. 202 Thr Modem Social Cov/lirl. Bobbio sobre. 210-218 Dalla struttura allafunzione. 94 veja também Burguesia Competição. 195 Burguesia. 166 Bagehot sobre. Albcil. 164 Buchanan. 196. Émile. 56 Hobson sobre. 17 Construtivismo. Tory. 18 Mill sobre. 78 filosofia republicana do. marquês de. sociedade. 110-111 na Alemanha. 85 sobre autoridade legítima. 41 Contrato social. 133 sobre o juste milieu. 60-61 Consciência. Benedetto. Veja França '•'• Comunismo. 95 Cassirer. 151-152 Democracia. 205 veja também Contratualismo Contratualismo. 39-45 Direito Romano. Veja Alain Ghevalier. 177 Croce e. 100 I Comuna Vermelha de Paris. Colin. Bernard. 83 Spencer e. Luís Napoleão. 213. Benjamin. Ralph. 213 conseqüências econômicas da. 172 Dicey. 110 Chartier. Célestin. 40 Direito. 90-91 sobre o Estado. 25 Bildung.John. no liberalismo clássico. 132. Spirit of Modem Coiisinnrrism. 180 Renan sobre. 62 Caimis.. influência na teoria européia do Estado. 202 Dai winismo social. 216 direito natural e. William.

82 Hobhouse sobre. 158 Duguit.mitigo e moderno Índice 253 sociais. 130 conceito de poder estatal. 175 Evangelismo. Léon. 53 Ferry. 199 teoria do direito natural e. 67 Fisiocratas. 134-135 Gobetti. 45 "Doutrinários". 113 teoria da liberdade na. 126-132 veja também Revolução Francesa Frederico o Grande. Legislalion and Liberty. 77-78 Grã-Bretanha. na Grécia antiga. Adam. ilayck sobre. 152 na Grã-Bretanha. 27 teóricos do século XIX. Veja Polizeistaat Estados Unidos (da América). conservadorismo alemão e. Guizot e a. 112-114 origens do constitucionalismo no. 1680). The Era o/Tyrannies. Henry. e liberdade.ot. 83-87. Piero. liberdade de expressão na. Alexander. 66 Spencer sobre o. 143-148 Estado. liberdade de. 67 Guerra Civil na. 22-23 no liberalismo clássico. 103 . 213 Dominium. 24 Green. I O . segundo Renau. liberalismo clássico e. 156-157 Feudalismo. Green e o. Émilc.Jules. 113 Hamilton. 85 Dreyfus. 191 Gentile. liberalismo na. 212-216 teoria de Jellinek do Estado dividido.. Aron sobre. opinião romântica dos conservadores sobre. François. 188-189 teorias iluministas de. conceito inglês de. 207 Economia. 19-1 1'i'jn tombem I >ai wini. aristocracia e. Albcrdi sobre os. 165-166 liberalismo do após-guerra e Aron. 82 durkheimianos e o. 170 Fricdnian. como demarcação da autoridade estatal. James. 160 Ferry sobre o. 190. 218 Laxu. 144 Constant sobre o papel do. escola. 117 Governo responsável. 19 Elite. 31 Hegelianismo. F. 133 deificação hegeliana do.O liberalismo . 151-155. 5 I Freud. justificação do liberismo. 28-30 teóricos do século XIX. 141-142 Gneist. 188. H. 158-159 Durkheimiana. 42 Gtti/. 174-178 liberalismo social na. 156-165 Revolução Gloriosa. 39-15 veja também Direitos humanos Direitos humanos. 160 Durkhcim. Friedrich August von. 168 teoria de Kelsen sobre o. 102-104 Ends and Beginnings. 70 Ilayck. 36 veja também Direitos Divisão de poderes. 166 Godwin. 86-87 teoria da liberdade na. 88 Fichte. 120 Ética. 164 sobre o cristianismo e individualidade. questão.siiio Mici. 101. 46 Filmer. Milton. 16. 51 França. Rouald. Ortega sobre a rejeição moderna da. Filosofia do direito. 164 Helvécio. 143 Escolha pública. 32-33 poder do. 191-192 O raniiti/io da servidão. 153 Mnmboldt sobre o. 199 Nozick sobre o. antiga. 79 Herzen. 21 Fascismo. 117 teoria de Bobbio sobre o. Oceana. 95-101 Grécia. no século XX. igualitarismo de.. Sigmund. 171 liberal-socialismo nos. 32-33 liberalismo de esquerda na. 109-114 Crise da Exclusão (c. 188-196 Bobbio sobre. Thomas Hill. 134 liberdade como intitulamento e. 198 Hallam. 73-74 Harrington. sobre as fontes do constitucionalismo. Giovanni. 74 Federalist Papers. segundo Ortega. sobre "sociedade civil". sobre Rawls. 192 Kelsen sobre. Johann. de Camiis e Sartre. Hugo. 132 na sociedade industrial. Croce e o. 141 Federalismo. 46 Tocqueville sobre. 193 Ilegel. sobre sociedade liberal. rejeição do contrato social. W. 77-78 Sarmiento sobre os. . ('apitalismo e liberdade. 40. 152-155 Grotius. The.il Kxislencialisnío. J. nos FederaliU Papers. 17 segundo Bobbio. Der Rechtsstaat. De iure belli ac pacis. 100-101 republicanismo liberal na. 121 Einaudi. 190 Os fundamentos da liberdade. 115-119 liberalismo de esquerda na. 53-58 veja também Capitalismo. 20 partido whig nos. 136 veja também Autoridade Estado policial. de Ilayck. 199 liberalismo inglês clássico comparado. Patriarca. teoria da. 156-157 Green sobre o. 63 Evolucionismo. 168-170 Weber sobre o. 155-160 Revolução de 1830. 35-36 política e. 73-74 Ferguson. Comuna de 1870. grupo de Bloomsbury e a. Luigi. Elie. 80-87 Ilalévy. 37 sobre o Estado. 32 conservadorismo liberal na. 13 1 segundo Sarmiento. H . Essay on the Form of (lovcrnmevt and the íhilies of Sooeteigns. conceito de poder estatal. 159-160 Dworkin. Comércio: Investimento l ' ( llM . Rudolf von. 183-184 Expressão. 121 liberalismo nos. 66 liberalismo conservador na. sir Robert. rei da Prússia. 208-209 o indivíduo e o. William. Alexander.G. 82 Figgis. 195 Espanha.

174 Kramnick. 191 Mill sobre.ibci alismo de esquerda. 158-160 Mill sobre. 174 A teoria geral do emprego. 138 Liberismo. David. Paul. 155-160 na Grã-Bretanha. sobre autotelia. 73 veja também Iluminismo escocês Iluminismo escocês. 160-165 Liberdade. 162 Work and Wealtk.antigo e. moderno Índice 255 Lettrrs to an Olá C. 66 política. 56 teoria de Croce sobre. segundo Tocqueville. 23 econômica. 167-170 Sozialismus und Staat (Socialismo e o Estado). Victor. 162-163 Liberalism. 30 Hume. 47 Lei. 77-80 como valor whig. 22 sociedade comercial e.Jcan. Flávio Petro Sabácio. crítica de Berlin ao. 82 o Estado como "vigia noturno". barão Wilhelm von. na Alemanha. 74 . Veja Grã-Bretanha Instrumentalismo. 22-23 de consciência. 139 do liberalismo francês. do juro e da moeda. 126 Hobbes. 153 Iluminismo. Bentham sobre. 32-33 Industrialismo. 61 Humanismo cívico. 154 Hayek e. crescimento econômico e. 76 | Legitimidade. 128 Lafer. 187-188 como intitulamento. Aron sobre. 69. 158 Liberalismoj definição de Ortega sobre. 76 Croce sobre liberalismo e. 60-61 liberalismo e. 142-143 teorias nacionais da.161-163 Independência. 161 Imperialism. UElat moderne. revolução a partir de cima. 67 sobre liberdade e autonomia. 202 Inglaterra. 63 os sociais-liberais franceses e o. Isaac. 197. jacobinismo e. Jellmek. 176-177 hegoria. modernidade e. 218 como valor whig. agrarismo de. 27 Hobhouse. Georg. Hans. 206 Justiniano. 122-123 Berlin sobre. 19 jefferson. 169. 90-93 Weber sobre. 172 Intitulamento. De eive. 183 romantismo e. 105-107 na Inglaterra. 16 veja também Liberalismo de esquerda} Liberalismo social I . 135 Laboulaye. no pensamento de Green. 166-167 Liberalismo social. 44. Edouard. Paul. 43. sobre o republicanismo do século XVIII. 91. 174 progresso e. 45 conceito romano tardio de. 40 Suárez sobre. 191-193 Keynes e. conceito de. 170 Von Wesen und Wert der Demokratie (Da essência e do valor da democracia). 98-99 Orwell sobre. 104 Historicismo. 76 durkheimianos e. 186-187 crítica de Popper ao. 23. 53-54 Imigração. 216 Latitudinarismo moral. 139-143 liberalismo de esquerda na. do partido whig. 31 Kelsen. 158 . 199 atitude de Tocqueville para com o. 43 veja também Ius Justiça. 153 Hobhouse sobre. 57-58 liberalismo clássico e. 167-170 na França. 57-58 Justiça social. 159-160 liberais-sociais franceses e. j: Kelsen sobre o Estado e a. 20 origem do.ommde. 70. 42 Jacobinismo. 66 Leviatã. 101-104 na França. 59 protestam ismo e. 168 Locke sobre o governo da. 22 Investimento. 135 José II da Áustria. 203 liberdade como. Celso. imperador. 40 Kant. 170 Keynes. 49. 61-62 Tocqueville versus Guizot e Constant. 24 Itália. 49-61 na Inglaterra. Leonard. 178 Croce e o. 22 de participação. 40 de opressão. 163 Hobson. Corpus Júris Civilis. 166-167 liberalismo do século XIX e nacionalismo na. tirania da virtude sob o. 27-32 Tocqueville sobre.254 O liberalismo . 62. 25. 89 Indivíduo. 37 segundo Hegel. 72: Laband.John. 199 Green sobre. teoria de Keynes sobre. 161. Rechtsstaat Leroy-Beaulieu. 141 Green sobre. 37 segundo Mill. Alberdi sobre. liberalismo conservador na. 93 Dahrendorf sobre. 15 nos Estados Unidos. 27 religião e. 94 Humboldt. 26 para Hayek. Thomas. sobre o romantismo. de Dewey. o Estado e o. 60 Jusnaturalismo. 132 On lhe Limits of State Action. 98 negativa versus positiva. 17 "história filosófica". 91 : veja também Liberdade Individualidade. ponto de vista liberal latino-americano de. Thomas. 40. 23 definição segundo o Direito Romano. 165. 98 veja também Individualismo Individualismo. veja Liberismo estrutura industrial do Estado e. 120-122. 76 Tocqueville e o. 176 Essays in Persuasion. 101-102 Ius. 151-155. teoria de Rawls sobre. Immanuel. 165-166 na Grã-Bretanha. 161 Hugo. 195 poder estatal e. 84 social. os liberais-sociais c o. 52 Idealismo. 60-61 Jaurès. John Maynard. 124 Imperialismo. 50 veja também Direito. 163 indivisibilidade da. 174-178 na Itália.

148 sobre o liberalismo. Hayek sobre. 133 Monarquia. 90 Moore. Camus sobre. Marimbo. Octavío. 51 i Nozick. conde Charles de..o.John. segundo Dahrendorf. John Stuart. T. . 109 influência de Mill sobre o. Machiavellian Moment. 183 Mil novecentos e oitenta e quatro. Weber sobre.. o homem da. Veja Escolha : pública Organicismo. defesa da monarquia e do. 96. liberdade de. 118 Minogue. sir Henry. 83 sobre a igualdade em monarquias.John. centralização da. 178-179 Positivismo. l«. 181 Insidethe Whale. Carta acerca da tolerância. 41 Luxo. 139 Kelsen sobre. 145 Mazzini. De Ia angustia a Ia libertad. 113 Maiüand. • Luís Nupolcão c. 70 Poiesis. 74 Maine. Discursos sobre Tito Lívio. 28-29 Paulo de Tarso. 54 sobre o contrato social. 54 Macauley. 187 como legado do liberalismo clássico. sobre os direitos dos cidadãos romanos. Kenneth.. 168-169 polêmica de Bobbio com o. Karl. 97 On Liberty. 44 Marxismo. 59 Occam. sobre direitos naturais. 49-50 teorias econômicas dos. Ortega sobre o. Salvador de. 107" Nacionalismo. Jules.">0 O liberalismo . Ludwigvon. 22 Paz. 185 Madison. 146. 72-73 The. 140 Mercado. 101-102. . Smith sobre o fundamento econômico do. 126 Mill. 70-71 Polizeistaat. T55 i• Nietzsche. 95-101 . debate iluminista sobre o. sobre a liberdade. 179 Poverty of Historicism. 178-181. E. Defensor Pacis. Guilherme de. Francis Charles. 98 Milton. . rejeição de Alberdi ao. Thomas.fonte de autoridade política. 184-185 Mind. Citizenship and Social Clnss. Veja Patrimonialismo Patriarcalismo. 57 ' • Progresso. 42. 39 Dois tratados sobre o governo. "A<-rop:tf{ilit::i". 81 I . 151 Montalembert. 54 teorias políticas dos. Croce e o. sobre construtivismo. rejeição de Berlin ao. 190 . 103 Croce sobre. Robert. 91 sobre a separação de poderes.antigo e moderno índice 257 iililkarismo e. 24 sobre a sociedade inglesa.)(i Nomogênese. 23 Particularismo. 15-16 Orwell. 45 sobre civilização o prosperidade. 57 Política. 200 Marsílio de Pádua. Giuseppe. Do espírito das leis. 187 Montague.1 Kelsen e a. sobre Sociedade e direitos naturais. 75 Palcy. de Madariaga. 139-148 A desumanização da arte. 50 influência de. 97 Mill. Essay on Government. Anarquia. Alberdi sobre. 185 . História da revolução: da queda da Bastilha à festa de federação. 46 Participação. 29 limitada. 100 Renane. The Liberal sobre o espírito comercial. Frcderick William. 57 Nação. 19 sobre como regular o exercício da autoridade. 160-161 sobre o parlamento medieval. James. 38 Croce e o.. massas. Autobiography. 137 Mohl. 81. 128 Monlesquieu. papel medieval do. 181-183 A revolução dos bichos. Thomas. 170 sobre a pecaminosidade humana. Anarquia ou hierarquia. LTdée républkaine en France. Ritsch sobre. polêmica entre Dewey e Trotsky sobre. 68 Segundo tratado sobre o governo. 70 Marshall. 186 A lógica da pesquisa científica. José. James. 135 • Mill e o. Robert.m \ Míses.. Ortega influenciado por. 39 Parlamento. 175 Moralidade. 110 Ortega y Gassel. 63 The Principies of Moral and Political Philosophy. H. 201. 189 Modernidade. 188 .'.. 19 legal. barão de. Natural Theology. 189 Michelet. Claudej. Oakeshott.. . 185 Philosophes. 68 Patrimonialismo. Robert von. Berlin e. 204 veja também Marxismo Lulcro. 55 segundo os philosophes. 182 Paine. 46 Maquiavel. Charles-Louis de Secondat. 127 na Alemanha. 95 Considerations on Represenlative Government. crença na perfectibilidade do homem. 43 Opção pública. 148 A rebelião das. 187 Pocock. 78 Pluralismo de valores. Michael. 50 Luta de classes. Jan van. 123 Rousseati c o. 185-186 no conservadorismo inglês. G. Berlin e o. 59 Locke. 18 Monismo. 113 Madariaga. como. 43 sobre o governo da lei. William. listado e Utopia. origem da corporação. sobre o "whiguismo". 139 Kelsen sobre o. 99 no liberalismo iluminista. 208 . . 133 Popper. 82-83 li : Nicolet. sobre republicanismo clássico. George. 124 Hayek sobre. 44 Oldenbarnevelt. 173-174 veja também Ética • Mundo clássico.John. 129 Praxis. 212-213 Massa.ihertarianismo. Fríedrich. 145 i Nlsbet. na visão de Maquiavel. e liberalismo. 145 O tema moderno.

111 Guizot sobre. 179 Troeltsch. partido. colapso na década de 1980. Brian. Keith. Domingos. 181 Raciovitalismo (Ortega). Leon. Larry. 143 "Sociedade aberta" (Popper). Veja Auto-realização. 107 Royer-Collard. conceito de legitimidade. 25 Textos Federalistas. 102 Revolução Francesa. 87-95 A democracia na América.antigo e moderno índice 259 idéia do. 42 Subconsumo. 83 Simonjules. 85 Contrato social. 46 Suárez. 217 liberal. 38 Trotsky. 37 legitimação da dissidência religiosa. 202 Servetus. Veja Despotismo. 128 c o Estado. 59-61 Propriedade. 119-120 Sartre. teóricos do século XIX. 86 liberais franceses c a. 142 Tribalismo. 140 Ma/. Liberty. Burkee. 144 Reforma. 47 Tirania. Albert. liberalismo e. 67 perspectiva histórica do. 53-58 Soberania popular. The Morality of Freedom. 61-64 Mill e. 169 Sen. origem do. 95-96 Rosselli. 138 Sociedade. 202. individualismo e a. 100 Sieyès. raízes do constitucionalismo. 183 Schmitt. Hobhouse e. 63 liberismo e. 145 Rawls. 101-104 Saint-simonismo. 127 Thomas. 25. 155-158 Revolução. Guido de. 53 Sociologia. sobre o liberalismo clássico. Charles. 86 Ruggiero-. Burke sobre. 74 os liberais-sociais franceses e. 84 Stahl. 116 Stubbs. 179 Tradiciohalismo. 132-135 Reconquista.258 O liberalismo . Instituía. sobre a discussão política do século XVII. 18. Miguel. conceito de (Dahrendorf). 72 Tierney. 86 veja também Autoridade Socialismo. Popper sobre. 128 Renan. 111 -conceito de poder estatal e a. Autotelia Rechtsstaat. Friedrich Julius. Dewey e. Ernest. 155-156 Sistema inglês de governo. 196-197 liberalismo francês e a. Adolphe. 188 Realização pessoal. La Révolution Française. 156. 134 Rousseau. 37 significado no Iluminismo. Jean-Jacques. 167 Rotteck.zini c o. 71 nos FederalLit Papers. 127 no século XVIII. na América. 85. 84 veja também Jacobinismo Ricardo. 88. 50 nação como sede da autoridade. 173 Ulpiano. 105 na França pós-1848. 29 Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. Constitutional Theory. Ortega sobre a. James Fitzjames. 17 Der Hüter der Verfassung (O guardião da Constituição). 85. 16 Smith. Carl. Francisco. 84. 20 Mazzini e o. 146 Revolução de 1848. 162 Taylor. 42 Protestantismo. sobre a liberdade. 39 Tory. 102 Ortega e o. padre. liberdade de. 218 The Man versus the State. William Graham. 97 Summer. evangélico. 33 conservadorismo e a. 81 Risorgimento. 52. 45 Suárez sobre. 119-121. De Legibus ac Deo Legislatore. no conservadorismo inglês. 184 crítica de Ortega ao culto da. John. Uma teoria da justiça. 161-162 Sufrágio universal. Filosofia do direito. Madame Germaine de. A riqueza das nações. 19. sobre Lulero. Constant sobre. Camus sobre. Mill e o. segundo Ortega. 163 Hobson e. William. 53 Émile. Edgar. 179-180 "Sociedade civil". Jean-Paul. 96-98 O antigo regime e a revolução. 110 Treitschke. Karl von. 45 Green sobre. David. 157-158 Republicanismo. 93-94 Madame de Staêl sobre. Fraternity. da maioria Toc<i<irvil]<\ Alexis de. teoria de Hobson sobre. 32 Rússia. ideologia política e. 111 sobre Popper. 203. Crocc sobre o. 28. sobre o conservadorismo britânico. Amartya. History of European Liberalism. Joscph. 200 historicismo e. 126 liberais franceses tardios e a. 40 . Charles. 147 rejeição de Weber ao. redistributiva. 126-127. I-Iobbes sobre. 102 Ritsehl. 123 Facundo: civilização ou barbárie. Charles de. Ernst. 158 Spencer. legitimação histórica da. 129 Quinton. da maioria. 118 Staél. Cario. Anthony. 116-119 Bobbio sobre. 119 Taxação. Heinrich von. nos EUA. 112 conservadorismo e. Aron sobre. Princípios de economia política. 8!) Mill sobre. 96. 90 Tolerância religiosa. Veja The Federalist Papers Thiers. 62-63 Provisões. Camus e. Herbert. 113 Totalitarismo. Alberdi sobre. 204 Quinet. 206 Raz. Considérations sur Ia Révolution Française. 66-67 Rémusat. Reforma protestante c. 95 Sarmiento. 38 Romantismo. 37 Siedentop. 134 Stephen. 38. Constitutional History of Medieval England. 129-132 Renouvier. Adam. Equality. 23 protestante. 154 Locke sobre. 123 como direito natural. sobre a Reforma. 48 Religião.

145-146 Utililarismo. 79 teoria do contraio social de Rawls e. 77-78 origem do. Dahrendorf sobre. nos EUA. antiabsolutismo e. 155 Valores. 201 liberalismo de esquerda na. 148 liberalismo e. consentimento e. 134 Wesley. Traüêsur Ia lolérance. 136-130 "Política como vocação". 69 liberais conservadores e. partido. Jeremy . 105 o a a o 's E o !S e e ir o >r Ia é u ir o IS n k .. 207 veja também Bentham. Veja Pluralismo de valores Vocação. Max. 117 reforma social e. Weber sobre. 62 crescente conservadorismo do. 116 crítica de Green ao. teoria de. 153 democracia e. Karl. República de. sobre whiguismo. 105 Ycats. 78 liberalismo clássico e. 39 Vontade. 106 objeções de Spcncer ao. 137 Weimar. 76-78 liberalismo clássico e. 67 Whiguismo. john. Miguel de. 72 Yeats sobre. 62 Whig. 167 Welcker. 105 Pocock sobre.44 Weber.260 O liberalismo .antigo e moderno Unamuno. 137 Volpe. 212 Vollaire. 205. Vacherot. William Butlcr. Galvano delia. Étierme. pluralismo de.

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