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I HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL

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OTTO MARÍA CARPEAUX

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DA EMPHBIA GBAFICA 0 CRUZEIRO S. A.,
EM JAMKIHO DE 1961, PABA AS EmgoEs O CRUZEIRO,
RÚA DO LIVBAMENTO, 189/203, Rio DE JANEIRO.

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PARTE III
FUND. mj. ..A. m MAMNGA
A TRANSIQÁO
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B I B L J O T E C

Universidade Estadual de Maringa


Sistema ds Bibliotecas - BCE

0000078057

Dlrttor
HERBERTO SALES

DlFElTOS ADQUIRIDOS PEÍA S E C Í O DE LtVROS DA


EMPRESA GRÁFICA O CRUZEIRO S. A., QUE SE
RESERVA A PUOPRIEDADE LITERARIA DESTA EDICÜO.
/
CAPÍTULO I ^

O "TRECENTO"

N A historia da literatura italiana, o século XIV, o "Tjfi.-


cento", é de urna importancia extraordinaria. A litera-
tura italiana, que até entao levara urna existencia preca-
ria ao lado das expressoes em latira e das literaturas proven-
gal e francesa, antecípou-se, de repente, a todas as outras
literaturas européias, criando novos géneros — a epopéia
religiosa, a lírica pessoal, a pastoral, o contó — e formas
d« exoress_ap_inteiramentí_ nav^fii ap.ar.eQ.em _0S .maiores. ge-
nios literarios que a Italia produziu em todos os tempos —
Dante, Petrarca, Boccaccio — e nao podíam deíxar de
exercer influencia sobre as outras literaturas da Europa.
Mas essa influencia foi muito desigual. No próprio século
XIV, Chaucer conheceu Dante e Petrarca, sem tirar maio-
res conclusoes; e a sua imitacao assídua de Boccaccio ba-
•eava-se mais em certa semelhanca dos temperamentos.
Dante despertou, no século XV, profunda admiracao na
península Ibérica: Francisco Imperial, Enrique de Villena
fii.nl i dii Comedia inteira), Juan de Mena e o Mar-
quli dt Santlllana imitaram-no na Espanha, e Andreu Fe-
brtr fia urna traduclo admlrável da Divina Comedia para
o catallo; depoia, porém, a literatura ••panholi eequeceu
o florentino, • na Franja, na Inglaterra, na Alemanha, só
•« encontram vestiglos taparlos de Dante, até o advento
dos estudos dantescos nos eéculos XVIII • XIX. (^Petrar-
ca teve, no século XV, um grande discípulo, o cataláo Au-
llas March, um imitador espanhol, o Marques de Santílla-
na, e alguna trádutoree anónimos na Franca. Mas a influén-
328 OTTO M A B I A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 329

cía internacional de Petrarca nao corneja antes do século renascimento das letras antigás, quando o resto da Europa
XVI, com Boscán e Garcilaso de la Vega, Sá de Miranda e se encontra aínda "ñas trevas medievais". Carducci ( a ) ba-
CamSes, Scive, Ronsard e Du Bellay, W y a t t , Surrey e seava nesses fatos urna teoría especial da literatura ita-
Spenser, sem alcangar a Alemanha. Boccaccio, enfim, é o liana : ela sería a continuagao legítima e direta da literatura
.autor mais traduzido do século X V : o Decamerone encon- latina, só modificada pela influencia do cristianismo, e por
t r a - s e j j á em 1429, em cataláo; das primeiras tradugoes im- ísso antecipando-se as outras literaturas européias. De
pressas, a alema é de 1472, a francesa de 1485, a espanhola acordó com ísso, iniciou-se, desde Burckhardt, a admira-
de 1496, mas a holandesa só aparece em 1564, e a primeíra c,ao ilimitada a Renascenca Italiana, que teria criado o
completa em inglés é sómente de 1620. .Aínda no simulo homem moderno e a civilizarlo moderna.
.XV, Diego de San Pedro, imitando a Fiammetta, chega, no Gerou-se um problema dos mals dificéis para a histo-
Cárcel de Amor, ao rornancje.^sicol6£ico._ Mas o última r e - riografía da literatura universal. Quando a exposícao
sultado notável da influencia de Boccaccio na Franja do acompanha a cronología, o "Trecento" italiano situa-se, ao
século X V I é o Heptaméron, de Margueríte de Navarre; os lado das expressoes medievais do Norte, como um bloco ¡so-
alemaes do mesmo século imitam Boccaccio em contos lado, urna antecipacao quase incompreensível. Mas quan-
grosseiros, e Greene, Shakespeare e outros ingleses consi- do a exposicao pretende acompanhar a evolug&o da menta-
deratn-no apenas como fonte de enredos. E ésse panorama lidade literaria, entao o "Trecento" italiano situa-se, ao
da influencia internacional dos tres grandes toscanos (*) . lado das literaturas modernas, como um pedago da Idade
sugere até urna impressáo exagerada da sua influencia real. Media, um bloco errático, intemporal como o poema de
Chaucer é um caso isolado; e o petrarquismo internacio- Dante. Resta citar alguns fatos da historia social para es-
nal do século X V I já é influencia indireta, mais dos pe- clarecer melhor a diferenga das situagoes, no século X I V ,
trarquistas italianos que do próprio Petrarca. Com a enor- dos dois lados dos Alpes.
me influencia da literatura francesa medieval nao pode O século X I V é urna época de intenso comercio inter-
ser comparada a do "Trecento" italiano. Para o próprio nacional f 8 ). As fazeñdas flamengas chegaram, através de
século XIV, ao Norte dos Alpes, o "Trecento" italiano Lubeca, ao Báltico; as florentinas, até o Oriente. A indus-
quase nao existe. tria textil de Florenga empregava la inglesa e borgonhesa.
Em resultado: a literatura italiana do século XIV e A industria textil de Flandres comprava a la na Inglaterra,
as outras literaturas contemporáneas nao se s^cjrMiizam; o potássio em Dantzig, as tintas na fndia, através do Egito
e no século XV, época dos Lourengos de Médicis, Polizia- e Veneza. Os comerciantes de fazeñdas baratas da cidade
nos e Pulcis, na Italia, e de Malory, das dancas macabras e alema de Ravensburg mantinham sucursais em Nueremberg,
dos Misterios, ao Norte dos Alpes, agrava-se a despropor- Veneza, Miláo, Lito, Avinhio, Tolosa, Barcelona, Valen-
$ao. A Italia já possui urna literatura moderna, apoiada no <;.a, Bruges e Viena. As cidades alemas da Hansa ven-

1) A. Bartoli: "II Decamerone nelle sua attlnenze colla novelística 2) O, Carducci: "Dello ¿volgimento della letteratura nazionale".
Europea". (In: Rivista Europea. T. XIV/3CV, 1879.) (1368/1871). Un: Prote. 1859-1903. Bologna, 1909.)
A. Farinelli: Dante in Spagna, Francia, Inghilterra, Germania. 3) H. Plrenne: Histoire économlque et lociale du Mayen Age. Pa-
Torlno, 1921. rís, 1933.
A, Meozzi: 11 Petrarchismo europeo nel secólo XVI, Pisa, 1934. I", Roerlng: MitteMterliche Weltwtrtachaft. lena, 1933.
330 OTTO M A R Í A CARPEAUX
HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 331

deram bacalhau noruegués na Espanha e minerais de fer-


cía aristócratas aburguesados. N a Italia, isto é, no Norte e
ro suecos na Italia. Com razio e orgulho, as letras de
no Centro da península, o feudalismo está práticamente
cambio florentinas falam de "communis omntum nationum
abolido. A literatura manifesta a tendencia característica-
mercantia". Só o mercantilismo do século X V I I quebrou
mente burguesa para o realismo, com i n c l i n a d o para a sá-
o internacionalismo económico da Idade Media, e só o li-
tira, esta última urna feicao bem medieval. A literatura
beralismo do século XIX o reconstruiu.
italiana do "Trecento" seria só iaso, se nao houvesse mais
Essa civilizacao comercial estava concentrada ñas ci- duas outras classes literaria!: os "ascetas" e os "clérigos".
dades, e havia certa uniformídade de costumes entre as Os "ascetas" escrevem • l i t e r a t u r a popular, religiosa e ás
cidades italianas e as setentrionais; mas havia díférenlas vezes revolucionaría; l i o o t monges de S. Francisco e de w
essenciais na estrutura social ( 4 ). Ñas cidades flamengas, S. Domingos. Os "clérigos", assumindo o papel do clero
francesas e alemas, os comerciantes ricos empregavam o di- na civilizagao eclesiástica, sao os jurisconsultos e outros
nheiro em compras de terrenos fora dos muros; tornaram- eruditos ñas universidades, ocupando-se, ñas horas livres,
se latifundíários. A aristocracia feudal, gozando aínda dos com estudos latinos e imitagáo da poesía provengal. No
privilegios políticos, mas já privada dos privilegios eco- "Trecento", estes "clérigos" estío aínda ligados ao movi-
nómicos, mudou-se com freqüéncia para as cidades, che- mento religioso. No "Quattrocento", tornam-se indepen-
gando-se a relagoes íntimas entre as duas classes dirigen- dentes, j á sao "humanistas" — só entlo a "tese clássica"
tes. Nasceu o patríciado urbano. Os burgueses italianos de Carducci se justifica.
preferiram a mobilizacao dos seus capitais; tornaram-se
Neste sentido limitado, o "Trecento" italiano é essen-
banqueiros. As familias florentinas dos Bardis, e Peruzzis,
cialmente medieval, preparando, porém, a Renascenga do
grandes comerciantes de la inglesa, no século XIV, che-
século XV. A evolugao está mais adiantada onde o capital
garam a conceder vultosos empréstimos aos reís da In-
Iinanceiro já é mais poderoso do que em outra p a r t e ; assim
glaterra; criaram a bolsa de valores. De ambos os lados dos
acontece em Florenca. Mas o pórtico do "Trecento" fica
Alpes havia o fenómeno ao qual Veblen chamou "conspi-
em Bolonha, sede da Universidade e dos intelectuaís uni-
cuous consumption": a o s t e n t a d o da riqueza ociosa. No
versitarios. Se ísso é "Renascenga", é entao renascenga so-
Norte, porém, o luxo era aristocrático no sentido feudal,
bre os fundamentos populares da religiosidade franciscana.
enquanto no Sul se manifestou a atitude típica dos tempos
A Italia do século X I V é espiritualista. Foi ésse esplritua-
do capital finaticeiro dominante: interésses culturáis, mu-
lismo que transformou a poesía erótica dos provengáis em
dancas rápidas de modas literarias e artísticas, f ormagao de
"dolce stíl novo", e o intelecttialismo dos escolásticos em
élites de literatos profissionais e diletantes abastados. A
universalismo de Dante.
burguesía setentrional imitava o estilo de viver dos feu-
dais; o clero perdeu a c o n s i d e r a d o e proletarizou-se em "Trecento" significa, " s é c u l o ' X I V " : mas o sentido li-
grande parte, formando as massas dos "vagantes", vaga- terario da palavra nao coincide completamente com o cro-
bundos latinos; entre os escritores aparecem com freqüén- nológico. JO "Trecento" literario (D) comegou em pleno sé-—
.culo X I I I e terminou antes do século X I V . . É um termo,
.literario, que significa determinado estilo, ao qual os pró-
4) J. Luchalre: Le» démocraties italiennes. París, 1&20.
H. Plienne: Les üiiíes du l&oyen Age. Bruxelles, 1B27.
S) N. Sapegno: II Trecento. 3.» *A. Milano, 1938.
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prioa italianos da época chamaram "dolce stíl novo". Com Essa transformagao extraordinaria baseia-se em mo-
Guinizelli • Cavalcanti, os mestrea de Dante, comega a tivos psicológicos e motivos sociais ( e ). Os vassalos que
poesia amorosa em "dolce stíl novo"; Dante e Petrarca a se encontravam nas cortes dos grandes senhores feudais
continuam, e Boccaccio fornece, désse "dolce stil novo", o_ da Provenga dependiam do apoío económico do senhor e
•mu II 'y-T*^ jequíntamento psicológico, na Fiammetta, e no Decatne- da benevolencia humana da senhora. Esta, vendida ao ma-
rone a parodia inspirada num sexualismo algo grosseíro. rido como um pedaco de carne, encontrou nas relacoes com
"Trecento" é quase sinónimo de "poesia de amor" ( B_A ). os vassalos novos sentimentos de amizade, daquela amiza-
de que é táo difícil manter entre tmilher e homem. Mas o
As expressoes nas quais os trovadores provengáis en-
erotismo das relacoes era limitado pelo rigor da dependen-
volvían! os seus sentimentos foram gastas pelo uso multis-
cia feudal. O amor dos trovadores provengáis, dirigindo-
secular e tornaram-se lugares-comuns. Essa circunstancia
jie sempre a urna dama de categoría social superior, tomou
esconde o fato essencial: o amor, na poesia provencal, é
a feicao de um código jurídico ou de um cerimonial áulico;
um sentimento novo. Toda a nossa poesia amorosa teria
só nos maiores entre os troubadours acontece que urna pa-
sido incompreensível aos gregos, que nao conheciam nada
Iavra de paixao sincera quebré o formalismo das expres-
disso, mas táo-sómente o casamento utilitario, as heteras e
soes. Nas famosas "cortes de amor" discutiam-se proble-
a pederastía. Mesmo nos elegiacos romanos, o amor é ex-
mas da etiqueta erótica — os resultados codificaram-se, em
clusivamente paixao sexual, acompanhada de sentimenta-
1324, nas "Leys d'Amors" de Tolosa, — assim como se
lismos e frustracoes. Depois, a moral crista excluí o
discutiam, nos tribunais feudais, os artigo» e parágrafos
erotismo, e o cristianismo dos feudais tem, do amor, a no-
complicados das "Assises du royaume de Jérusalem", có-
cao utilitarista de todos os proprietários de terrenos; as digo modelar do feudalismo. Nas poesías do "dolce stil
filhas dos senhores feudais da Provenga aínda eram dadas novo" tampouco se revela paixao erótica; ao contrario,
em casamento sem vontade própria e sem amor, assim como tudo é mais espiritualizado, a jurisprudencia é substituida
se vendem terrenos. Mas o trovador Peíre Vidal já tem pela filosofía escolástica e pela teología. A alegoría é mais
outro conceito do amor, como de um "élan vital": freqiiente, a forma artística mais rigorosa; aparecem no-
vas formas estróficas e, finalmente, o soneto.
"Amors mi ten jauxent e deleitos,
Amors mi ten en son dous recaliu, As origens do "dolce stil novo" continuam discutidíssi-
Amors mí ten galhart et esforsiu." mas ( T ). As opinioes diferem, conforme se dá mais relívo

Nao muito depois, na Italia, o amor é sentimento religioso


0) L, F. Mott: The System o/ Courtly Lo've. 3.» ed. New York, 1024.
e pensamento filosófico simultáneamente, e Dante termina O. Dolci: L'umano e il divino ndto conottfon* dantetoa dell'amo-
o seu poema cósmico com o credo: re. Milano, 1930.
1) F. Torraca: Le donne italiane nella poetia proveníale. Flrenze,
1001.
"Amor che muove il solé e l'altre stelle". L. Azzallna: 11 Dolo» stil Nuovo. Falermo, 1003.
K, VOMIM: Die philoiophliohm Qwndlagen «um Suessen Neuen
Stil. Heldelberg, 1004.
BA) V. De Bartholomaeis: Primordi deJUt lírica d'aríe in O, A. Cesáreo: "Amor m'lnaplra", (In: Miteellanea Arturo Oraf.
Torino, 1943. Bsriamo, 1B04.)
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HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 335

a novidade do conteúdo filosófico ou à novidade da forma rina de Siena são poemas em prosa do "dolce stil novo".
artística. Antigamente, a critica italiana sustentava a tese Jacopone e Catarina, porém, são gente do povo, escritores
da transformação puramente literária do estilo provençal sem intuitos artísticos. É preciso atribuir à consciência
pelos poetas italianos, que teriam sido menos formalistas formal dos eruditos a revolução da métrica: a nova mú-
e mais pessoais. Vossler acentuou, ao contrário, a impor- sica da canzone com as suas variações ilimitadas de com-
tância do conteúdo filosófico; os poetas do "dolce stil binações de versos e rimas e com a condensação da ideia
novo" eram burgueses eruditos, professores ou alunos de central do poema, no congedo (envoi): a transformação do
Bolonha, scholars. Contra essas teses levanta-se uma ter- strambotto siciliano, acrescentando-lhe dois tercetos, em
ceira, que pretende negar a origem erudita da litera- soneto; enfim, a terxa rima de Dante.
tura italiana, chamando a atenção para as expressões de
amor na poesia popular e na poesia franciscana e conside- Os poetas do "dolce stil novo" são burgueses erudi-
rando o "dolce stil novo" como expressão da alma italiana, tos. Mas essa definição não deve ser tomada ao pé da letra.
renascida no franciscanismo. Por enquanto, parece vito- Na Idade Média, o número dos letrados e até dos que sa-
riosa essa tese "nacionalista". bem ler e escrever é reduzido, reunindo-se, assim, autores
O fundamento do "dolce stil novo" é, sem dúvida, filo- de proveniência diferente na classe dos que escrevem. Na
sófico; os seus representantes principais são scholars. Itália do "Trecento" há três "classes literárias": os "inte-
O espiritualismo filosófico já estava, em germe, no dua- lectuais", os "burgueses" e os "ascetas". São membros da
lismo religioso da heresia provençal: entre as duas for- "Intelligentzia" os fundadores do "dolce stil novo": Gui-
ças do maniqueísmo, o homem medieval só pôde tomar o nizelli e Guido Cavalcanti. É burguês o realista e satírico
partido do espírito. Na Itália, a heresia religiosa foi subs- Cecco Angiolieri. E o ascetismo místico será representado
tituída pela heresia filosófica, o aristotelismo averroísta: por Catarina de Siena.
a identificação entre a "Donna" e a "Intelligenza", tão Guido Guinizelli ( 8 ), embora não tivesse sido grande
típica do "dolce stil novo", explica-se pela significação poeta, não merece o desprezo que resulta fatalmente da
da Inteligência, como Alma do Universo, no averroísmo.
comparação com os seus sucessores. E r a um erudito juiz
A vivificação poética desses conceitos abstratos pode ter
em Bolonha, e a inspiração não o frequentava muito; mas
raízes neoplatônicas. f) neoplatonismo estava presente na
a ideia central da revolução literária, a elevação espiritual
mística medieval, e a ideia neoplatônica da Escada do
do homem pela contemplação da beleza, encarnada na
Amor, cara aos Victorinos e a Bonaventura, também apa-
rece na filosofia do amor dos poetas. Mas tampouco é "Donna", já se encontra em Guinizelli. O amor era "a luz
possível ignorar o ímpeto da mística popular franciscana, interior" da sua poesia. Da nova literatura Guinizelli foi
penetrando a alma italiana. "Amor, amor, amorí", gritou "il padre mio, e degli altri miei miglior" ("Purgatório",
Jacopone da T o d i ; e certas cartas da mística Santa Cata- XXVI, 97-98).

V. Clan: I contattl litterari italo-provenxali e la prima rivolu- 8) Quldo Guinizelli, c. 1230-1370.


zione poética italiana. Messina, 1Q06. T. Caslnl: Rime gel poeti bologneii dei tecolo XIII. Bologna, 1881.
F. Figurem: II Dolce Stil Novo. Napoll. 1936. O. Salvadori: "Quldo QulntalU". (Ia: Rotsegna nazUmale. UCVI.
N. Sapegno: "Dolce stil novo". (In: Otãtura. I. 1830.) 1682).
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 337
33í> Dirii MA IMA (ÍAIUMIAUX

da bela Becchina, filha de um sapateiro. Cecco é como


Guldo Cavalcanti (") é o grande poeta, ti pensador ri-
goroso, aicoláitlco, partindo do subjetivismo céptico, atra- é o seu ambiente: vulgar e ordinário. Começa com expres-
VtBHndo um espiritualismo meio herético, chegando à com- sões quase românticas de melancolia:
prsenslo religiosa das suas angústias: o termo final do seu
"La mia malinconia é tanta e tale,
amor é — coisa bastante paradoxal para nós — a morte.
Ch'io non discredo che* s'egli Tsapesse
O tom da sua poesia é diferente, musical, quase celeste, e
Un, che mi fosse nemico mortale
i s vezes fresco, popular; o verso "piacente primavera, per
prata e per rivera", vemos o florentino em excursão pela Che di me di pietade non piangesse."
paisagem em torno da sua cidade. Cavalcanti é "la gloria
mas seguem-se sempre as mesmas queixas sobre mulhe-
delia língua" ("Purgatório", X I , 98), o pai da literatura
res baratas e dinheiro custoso. Contudo, não convém exa-
italiana. Mas foi um espirito sombrio com ares de "poete
gerar a modernidade das suas expressões. É bem medie-
maudit". E m nossos dias, o poeta e crítico americano Ezra
Pound chamou novamente a atenção para essa grande fi- val a sua sinceridade em dizer tudo isso com a maior fran-
gura. queza, na forma musical de sonetos em "dolce stil novo".
Não dissimula "il péssimo e '1 crudele ódio, chTporto*'; e
São numerosos os nomes de poetas que Dante eter- só quando, após tantas grosserias de humorista medieval,
nizou nos três reinos, mas o de Cecco Angiolieri ( 10 ) não chega ao seu refrão: "con grand malinconia sempre isto",
aparece entre eles. Dante, no entanto, conheceu-o bem; então revela-se Cecco Angiolieri como homem "moderno"
até trocou com ele sonetos polémicos, de azedume ines- do século X I I I ; não encontrou lugar no Cosmo místico
perado. Angiolieri não tem lugar no Inferno, nem no Pur- de Dante, mas está vivo, entre nós. E bem se compreende
gatório, nem no Paraíso; esse burguês pertence a um outro a riquíssima variedade desse mundo, medieval e moderno
mundo, fora do Cosmo de Dante. Cecco era negociante ao mesmo tempo, quando pensamos na multiplicidade de
de couros em Siena, e passou a vida esperando e desejando aspectos dessa pequena cidade de Síena: ao lado de um
ardentemente a morte e a herança do pai. Entretanto con- Cecco Angiolieri, a "noiva mística de Cristo", Santa Ca-
solava-se da sua miséria com a trindade de "la donna, la tarina de Siena (")> escrevendo ao papa corrompido e lan-
taverna e il dado", sofrendo muito por causa dos caprichos Çando-lhe as mesmas expressões, sem consideração e res-
peito, de um Cecco Angiolieri, e invocando o céu com a
9) Guldo Cavalcanti, e. 1255-1300. energia poética de Dante. A santa foi quem melhor escre-
Edição das poesias por L. Vi Benedetto, Torlno, 1925. veu em prosa no "dolce stil novo".
E. Rho: "II dolce stil nuovo e Guído Cavalcanti". <In: Pagine
critiche. Areszo, 1922.) Os caracteres mais diferentes e as classes inimigas vi-
J. E. Shaw: Guião Cavalcanti't Theory o} Leve. Toronto, 1949. veram juntos nessas cidades minúsculas, em ruas estreitís-
10) Cecco Angiolieri, 1260-1311 ou 1313. simas, todos eles amargurados e apaixonados pelo furor
Canzionere; edicáo por C. Steiner, Torlno, 1925. das lutas partidárias, pelo ardor dos sentimentos religiosos
L. Pirandello: "Un preteso poeta umorista dei seoolo Xttl". (In:
Arte e Sctenza. Roma, 1908.)
A. DAncona: Stuãi ãi critica e storta lettetaria. Vol. I. 2.» ed. 11) Caterina da Siena, 1347-1380.
Bologna, 1912. C. Pigorini Berl: Santa Caterina da Siena. Firensse, 1900.
Bruno Maier: La personalità e la poesia dl Cecco Angiolieri. G. Gctto: Saggio letterarío su Santa Caterina da Siena. Flrenae,
Bologna, 1947. 1939.
F. Figurelll: La musa biszarra di Cecco Angiolieri. Napoli, 1951.

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338 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 339

e o ciúme das competições comerciais, pelas invejas e ódios Epopeias são leitura difícil. O género morreu há mui-
pessoais e individualismo inato da raça. Cada pedra nas y' to, deixando inúmeras falhas e uns poucos monumentos i

ruas daquelas cidadezinhas tem significação histórica, e .••;• grandiosos que representam épocas passadas da humani-
deve isso não só ao gênió dos habitantes, mas também à d a d e ; por isso, é indispensável conhecer Homero e Virgí-
tragédia que era a sua vida. O testemunho dessa tragédia lio, Ariosto e Spenser, Camões, Tasso e Milton, Mas i
é a Crónica de Díno Compagni (**), É florentino, cidadão mais fácil admirá-los do que gostar deles. Se desapareces-
de "la piú nobile città dei mondo". Florentino típico que sem todas as imposições da escola e da convenção de uma
era, deixou um livro todo pessoal e, ao mesmo tempo, todo "cultura geral", teríamos de confessar que as grandes epo-
objetivo, ardente de paixão de partidário político e sem peias são hoje pouco legíveis. É preciso estudá-las; tere-
digressões subjetivas, da maior concisão, e no qual cada mos de admirar inúmeros pormenores geniais e o plano
palavra é cheia de sentido e de ação trágica. Pois trata-se grandioso; mas é impossível lê-las assim como se lê uma
de uma tragédia: os "malvagi cittadini", como chama o gí- obra de literatura viva. Dante é a única exceção.
belino aos inimigos guelfos, apoderaram-se dá cidade. E - • ' . ' . . •

entre os exilados da catástrofe estava o poeta, o poeta "sans T. Casini e S. A. Barbi, Firenae, 1922..
Fr. De Sanctis: Storia delta letteratura italiana. Napoli, 1870.
phrase". No quadro de Domenico di Michelino, na cate- (Muitas reedições.)
dral de Santa Maria dei Fiore, em Florença, está ele ao Fr. De Sanctis: Nuovi saggi critíci. NapoH, 1872. (Muitas re- . ;
lado do Palazzo Vecchío e do Duomo, mas "fuori le mura", edi;ões.)
J. Klaiízko: Causeries Florentlnes. Paris, 1880.
como exilado, com o seu livro na mão, apontando com o F, X. Kraus: Dante. Berlln, 1897.
dedo os reinos do Purgatório e do Inferno, que os "mal- O. A. Scartazzini: Enciclopédia dantesco. 2 vols, Milano, 1896/
vagi cittadini" mereceram; parece pronunciar as palavras 1898.
F. d'Ovidio: Studi sulla Divina Commeãia, Palermo, 1901.
que Dino Compagni disse a respeito dos seus patrícios: F. D'Ovidio: Nuovi stuãi ãanteschi. 2 vols. Milano, 1906/1907.
"Adunque piangete sopra voi e la vostra città!" Eram os F. Torrada: Studi ãanteschi. Napoli, 1912.
patrícios de Dino Compagni e de Dante Alighieri ( 1 S ). E. Moore: Stuãíes in Dante. 4 vols. Oxford, 1898/1817,
G. E. Parodi: Poesia e storia ncila Divina Commedia, Napoli,
1920.
P. Toynbee: Dante Studies. London, 1921.
12) t>lno Compagni, c. 1560-1324, B. Croce: La poesia di Dante. Bari, 1921. .-.
J. Del Lungo: Díno Compagni e la sua crónica. 3 vols. Firenze, F. Torraca: Nuovi studi ãanteschi. 2." ed. Napoli, 1924.
1879/1887. <0 2." volume é a edição crítica da Crónica.) (2.» ed. K. Vossler: Die Goettliche Komoeãie. 2.* ed, 2 vols. Heldelberg,
abreviada, 2 vols., Roma, 1917/1918). 1925.
13) Dante Alighieri, 1265-1321. T. s. Ellot: Dante. London, 1929.
Vita Nuova (c. 1294); Divina Commeãia (c. 1313/1320?); De N. Zingarelli: La vita, t tempi e le opere ât Dante. 2 vols. Mi-
vulgari eloquentia (c. 1304/1306); II convívio (c. 1304/1308); De lano, 1931.
Monarchia (c. 1308/1310). S. Breglia: Poesia e struttura neUa Divina Commedia. Génova,
Edições das obras: Società Dantesca Italiana, Firenze, 1921; 1935.
E. Moore, 2.° ed., Oxford, 1924. L. Gillet: Dante. Paris, 1941.
Edição da Vita Nuova por M. Barbi, Firenze, 1907, B. Nardi; Dante e la cultura medlevale. Bari, 1942.
Edições da Divina Commedia: G. L. Passerlni, Firenze, 1911. A, Chlari: Letture áantesche. Firenze, 1946.
Q. A. Scartazzini e Q. Vandelli, Milano, 1920. A. Momigllano: La Divina Commedia commentata. Firenze,
C. Ricci, Milano, 1921. 1947. ..
C. Steiner, Torino, 1921. A. Renaudet: Dante humaniste. Paris, 19B2.
L. Olschki, Heldelberg, 1921. A. P. d'Entrèves: Dante as a Politicai Thinker. Oxford, 1952.
• ' .
340 OTTO MARIA CARPE ÀUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 341

Ê posBÍvel ler a Divina Comédia assim como se fosse é o construtor de um Cosmo. O julgamento unâ-
uma obra de hoje, apesar das mil dificuldades criadas pelas nime dos leitores de todos os séculos concorda em um
alusões eruditas e politicas. É uma obra viva, capaz de ponto: que a parte mais "interessante", mais humana, do
despertar paixão e entusiasmo; porque não é uma epopeia.,- Cosmo dantesco, é o "Inferno"; e nesta afirmação se es-
Entre as grandes obras da literatura universal às quais a conde um dos julgamentos mais graves que já se pronun-
convenção chama "epopeia", a Divina Comédia Á.a_úniç_a ciaram contra a humanidade. A viagem de Dante pelo In-
que não tem nada que ver com os modelos antigos. Nem se- ferno é o seu "cammin di nostra vita"; da porta pela qual
quer com a Eneida, apesar de o autor desta ser um dos per- todos entramos — "Lasciate ogni speranza, voi che en-
sonagens principais da obra de Dante. A Itália, herdeira trate!" — através do pré-inferno dos covardes e indeci-
imediata da civilização latina, nunca foi "primitiva"; por sos, que são os marginais da sociedade cósmica — "Non
isso, não produziu "epopeia nacional" à maneira da Chan- ragioniam di lor, ma guarda e passal" — através das tem-
son de Roland, do Poema dei Cid ou do Nibelungenlied; pestades vertiginosas da sensualidade, através das flores-
' e a Itália burguesa do "Trecento" já não pôde criar uma , tas dos avarentos, irascíveis, traidores, suicidas, sodomitas,
epopeia heróica. O primeiro herói da Divina Comédia é prostitutas, até àquelas paisagens terríveis que nunca exis-
Virgílio, que aparece como encarnação da Razão; o último tiram e que, desde Dante, passaram a existir para sempre:
"Loco é in inferno detto Malebolge". E até ao círculo mais
herói da Comédia é "La Somma Sapienza", inspirada pelo
profundo, em que os diabos parodiam o cântico celeste:
"primo amore". São antes, ambos, os pólos — homem e
"Vexilla regis p r o d e u n t , . . . " A Giudecca de Dante, o lugar
Deus — entre os quais a ação se desenvolve. Mas a Divina
da punição de Judas, é o último abismo possível da per-
Comédia não tem ação; não tem enredo. O único ele-
versidade humana. Mas não é menos real a paisagem úmi-
mento que liga os versos, reúne os cantos, junta as três
da do Purgatório, úmida de lágrimas de arrependimen-
partes, é a pessoa do próprio poeta, constantemente pre-
to. E as vozes da emoção humana tampouco silenciam
sente. Do começo do Inferno até o fim do Paraíso, é no Paraíso, nos discursos apaixonados dos santos contra
Dante que fala. É uma obra de expressão pessoal, uma a corrução na Igreja e na confissão humilde do poeta pe-
obra lírica, no sentido da estética crociana: o lirismo é o rante o último mistério. O "Paraíso", em que Dante conse-
centro vital da obra de arte.» Por isso, a Divina Comédia guiu tornar visível o invisível e dizível o inefável, é o
vive. mais alto cume que a expressão humana jamais atingiu:
talvez seja o cume da literatura universal.
O título, algo estranho, corresponde a uma estética de-
saparecida: a "comédia", segundo Dante, seria um_ poema No mais, a arquitetura do poema, com a sua simetria
que começa por coisas penosas para terminar em felici- total nas partes e no todo, não permite qualquer decom- -
dade, assim como a história sacra da Humanidade começa posição analítica. Tudo está, nessa obra implacável, impla-
com o pecado original e termina com a redenção. Neste càvelmente ligado.' Ligado também pela arquitetura do
sentido, Dante pode chamar "comédia" à sua obra cósmica, verso, pelo metro incomparável da terza rima que Dante
inventou: em que a primeira linha rima com a terceira
" il poema sacro e a segunda com as linhas 1 e 3 do terceto seguinte, e
Al quale ha posto mano e cielo e terra." assim por diante, de modo que — era esta a vontade ex-
• ••
• i -

342 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA, DA LITERATURA OCIDENTAL 343


pressa de Dant* >— nenhum verso pode ser tirado ou in- ráfio do poeta e medir a altura das montanhas e abismos
terpolado sem que as rimas revelem o crime: a Comédia . do Inferno.
é um todo, um mundo só.
Contra essa erudição dantesca lançou Benedetto Çroce
A crítica anglo-amerícana moderna tem, por isso mes-
seu grito de batalha. Habituado a distinguir, até nos maio-
mo, considerado Dante o maior "arquíteto" poético de to- res poetas, entre os elementos poéticos e os não poéticos,
dos os tempos, o autor em quem melhor se pode estudar a rejeitou energicamente, como "não-poesia", toda a "má-
"estrutura" poética. * M a s nem sempte tem sido esta a quina" alegórica, todo o "romance teológico-filosófico",
\/' opinião da crítica italiana. E , sobretudo, não concorda- para guardar, como poesia verdadeira, só os episódios.
riam os leitores leigos, menos sensíveis aos valores estru-
' t u r a i s e mais abertos à beleza lírica dos episódios. . Mas não é possível separar os elementos; nem é justo
rejeitar o grandioso esforço atquitetônico de Dante. A
Pois são os episódios que antes de tudo se gravaram
," Divina Comédia é um edifício colossal, cuja unidade está
na memória da humanidade: episódios que são poemas com-
garantida justamente pelas convicções religiosas, filosófi-
pletos, como o romance de amor entre Paolo e Francesca
cas e políticas do poeta; e pela ferza rima--Mas a campa-
da Rimini; como a história terrível de Ugolino; como o
nha crítica de Croce teve efeito de tempestade purifica-
relato misterioso e quase profético de Ulisses que, impul-
dora. Relegou para limites mais razoáveis a crítica erudita,
sionado por indomável curiosidade de conquistador de no-
restabelecendo os direitos da crítica estética. Depois de
vos horizontes, submergiu no mar além das colunas de
havermos devidamente admirado a arquitetura do poema,
Hércules. Estes episódios são a leitura dantesca preferida
podemos voltar a sentir com a beleza lírica dos episódios.
dos séculos. Ainda um crítico tão grande como De Sanc- r ' I
tis, embora reconhecendo a imponente unidade da cons- [Há mil episódios :JPaolo e Francesca da Rimini, Fa-
trução do poema, preferiu este ou aquele episódio para rinata, Brunetto Latini; Ulisses, Ugolino, Cato, Manfredo,
interpretá-lo em profundidade. Opuseram-se a esse pro- Sordello, os Santos V m a s s 0 u m a P e s s o a e s t a sempre pre-
cesso crítico os eruditos. Durante cinco séculos, já a par- sente em todo o poema: o próprio Dante, fazendo a sua
tir do X I V , realizaram trabalho imenso para explicar as confissão pessoal, lírica, ídentificando-se com a humani-
inúmeras alusões históricas e políticas de que o poema dade inteira: a sua viagem pelo outro mundo é "il cammin
está cheio e que, com o tempo, ficaram cada vez menos
di nostra vita" de todos nós.' Mas como poderemos nós ou-
compreensíveis ao leitor comum. Sobretudo no século XIX,
tros identificar-nos com esse homem medieval e com o
reinado do positivismo, extraíram da Divina Comédia um
seu mundo alegórico e abstrato? Logo se admite que não é
panorama completo da Itália do século X I I I , panorama
abstrato um mundo em que as metáforas e comparações
que começou, enfim, a ter existência própria ao lado do
de realismo intenso nos apresentam paisagens imaginárias
poema. A Divina Comédia foi propriamente substituída
e no entanto inesquecíveis — o próprio Goethe, tão hostil
por um imenso "romance histórico-científico" em prosa,
obra dos eruditos, coroada pela exposição completa da às expressões da poesia cristã e medieval, chamou a aten-
teologia, filosofia e política dantescas, fundamentada por ção para a "veracidade" impressionante das montanhas, flo-
verdadeira astronomia e geografia do Outro-Mundo de restas e desfiladeiros do Inferno. A alegoria só serve para
Dante, no qual chegaram a determinar as datas do itine- esconder mais um sentido secreto que Dante julgava da
maior importância:
344 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 345

"O voi ch'avete gHntelletti sani, imutável credo político, a unidade do Império cristão sob
Mirate la dottrina che s'asconde o condomínio do Imperador e do Papa; e quando viu der-
Sotto '1 velame dellí versi strani." rotado esse ideal, apelou para a posteridade: seu libelo de \<Lo~'^t^\jL*.
apelação é a Comédia.
Mas, justamente por isso, os versos são "strani", e aquela
pergunta subsiste. Pergunta de importância transcenden- Discutiu-se a ortodoxia do poeta ortodoxíssimo, por
tal: a vida de quase toda a literatura do passado — a pró- que o seu ideal, profundamente católico, fora abandonado M^J^^^jH
pria continuidade da nossa civilização — depende da nos- róprio Papa. Como universalista medieval, Dante é ^
pelo próprio jgr
sa capacidade de realizar a "suspension of disbelief", a lário, mesmo em relação à sua própria época; o seu
reacionário
"suspensão temporária da incredulidade", que Coleridge tratado De Monarchia é o erudito discurso fúnebre da mo- <^f/
exigiu para que a Divina Comédia seja compreensível a narquia universal da Idade Média. Deste modo, Dante não
outros homens além dos católicos florentinos do século tem, politicamente, nada que dizer-nos, como já não tinha
XIV. que dizer, politicamente, aos seus contemporâneos. O re-
curso não chegou ao endereço. Mas chegou à posteridade
O caminho para esse fim abre-se na poesia lírica de como obra de arte, porque — o caminho da história é pa-
Dante. A Vita Nuova, o romance do seu amor místico, é, radoxal — empregou o instrumento soberano da poética
para tanto, o caminho de preparação: cântico da dona medieval: a alegoria. Pela alegoria, Dante incluiu, na vi-
"tanto gentile e tanto onesta", profundamente sentido, ape- são do outro mundo, todas as coisas deste mundo: Bea-
sar das formas convencionais, a Vita Nuova pretende en- trice e as ruas de Florença, os muros de Siena e as basílicas
sinar-nos a compreender as fases da purificação lírica do de Roma, o Papa, os partidos políticos, o Imperador, a fi-
poeta, através dos três reinos, até o Paraíso, "Luce intel- losofia tomísta, o arsenal de Veneza, os Apeninos e os Al-
lettual, piena d'amore". pes, trovadores e ladrões, gregos e latinos — tudo está na
Há uma atmosfera fria, quase irrespirável, em torno Divina Comédia, a cujo autor nada de humano ou infra-
de Dante, do homem que se purificou aproximando-se da humano está alheio, nem o humor terrivelmente grotesco
perfeição celeste. Nenhuma outra criatura humana sugere dos diabos ("Inferno", XXI/XXII). De modo que hoje
de tal modo a impressão do génio e da sua solidão imensa. pode haver nas esquinas das ruas de Florença inscrições que
Mas essa solidão não é a do artista, afastado do mundo. lembram os trechos da Comédia nos quais o respectivo lu-
É a do homem político, do homem de partido, derrotado gar está citado. Especialmente para os italianos, o panfleto
pelos adversários e exilado da pátria. Dante pôs tudo na político transformou-se em enciclopédia do seu passado.
Comédia: seu amor, sua religião, sua erudição, e sua pai- Dante, poeta essencialmente lírico; transfigurou tudo, in-
xão política. No fundo, a Comédia é um panfleto político clusive o mais profano, em poesia: os grandes e pequenos
como nenhum outro foi escrito, antes ou depois, uma ten- criminosos da sua época, em habitantes imortais do Infer-
tativa de aprisionar nas "flamas cantantes das suas ter- no; a moça florentina, Beatrice Portinari, em filha filosó-
xinas" os inimigos vitoriosos, io Papa e os seus aliados, i
fica do céu; e o programa de um partido político desapa-
os "republicanos" dos "comuni". Enfim, o exilado já não recido, em ideal político dos séculosrO programa político
quis pertencer a partido nenhum; em isolamento glorioso, de Dante não tem importância para nós farias o seu ideal
tinha "fatta parte per se stesso". Continuava fiel ao seu político tem muita. Quando Dante pretendeu julgar os
i

546 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA QCIKENTAI, 347


. . • • • • • .

seus adversários, instituiu u m sistema de penas infernais, ticos e às vezes absurdos; e ficamos perplexos quando ve-
fielmente conforme a ética aristotélico-tomista, que forne- mos colocado pelo poeta medieval, o sentido político acima
ceu as linhas mestras da composição do seu poema, e con- do sentido religioso/ Num poeta medieval, teríamos espe-
forme a astronomia ptolemaica, que lhe forneceu os andai* rado o contrário. Mas, pensando assim, estaríamos labo-
mes "científicos" do imenso edifício do seu Universo. O :f.i rando num anacronismo; a nós, que nascemos depois de
que Dante desejava era o estabelecimento do primado da Maquiavel, a politica parece negócio sempre inferior/Dan-
ética sobre a políticaf por isso, Bonifácio V I I I , o Papa po- pensava de maneira diferente. Para ele, a política era a
líti co, fica colocado no Inferno. Para compreender o idea- irmã da religião, e ambas, unidas, guiavam o homem para a
lismo político de Dante, não se precisa de nenhuma "sus- paz terrestre e a beatitude celeste; daí a inseparabilidade,
pension of dísbelief": o seu programa está morto e pode no pensamento político de Dante, do poder imperial e do
seduzir-nos tão pouco quanto nos aterrorizam as penas do poder papal. O que no céu é religião, na terra é política;
seu Infernc^fmas a sua reivindicação de uma política ética, e o Purgatório é a ponte entre a imperfeição humana e a
se bem que utópica, continua como aspiração para todos os perfeição divina. Visto assim, o sentido literal da Come- ~j -\
tempos futuros. Neste sentido, aquela parte da Comédia, dia —! o libelo __çpnira .DS...VÍCÍOS. do tempo — ^ L _ D a s * W j Í ^
ha qual essa aspiração aparece na forma mais pura, o "Pa- moral, e portanto indispensável, do poema; os famosos
raíso" é a parte mais moderna do p o e m a . ^ episódios só têm, para o poeta, valor de exemplos, e só a
imaginação realista do poeta os transformou em novelas
Esta última apreciação não está de acordo com o con-
poéticas. Dante é realista, antes de tudo.^Todos os críticos
senso geral. A grande maioria dos leitores da Divina Co-
salientaram o' realismo das comparações e descrições de
média só conhece o "Inferno"; vence as dificuldades das
paisagens imaginárias no "Inferno"; mas não são, de modo
alusões políticas e históricas, que tornam indispensável o
algum, imaginárias. O "Inferno" é a paisagem real dos >"
comentário, para compreender os grandes episódios que
pecados humanos; e porque a força da imaginação humana
criaram a glória do poema através dos séculos. Uma com-
tem limites, essa paisagem de montanhas, desfiladeiros,
preensão tão fragmentária do "Inferno" não sente escrú-
rios e florestas subterrâneas é o espelho da paisagem ita-
pulos, fragmentando o poema inteiro: o "Inferno", sim,
liana, dos Apeninos e dos Alpes, do Pó e do A m o , ilumi-
seria um reflexo satírico — sátira trágica — do mundo real
nada pelo bem observado "ser bruno", "quando lo giorno
e por isso acessível à nossa sensibilidade; o "Purgatório" se n'andava". E a grande cidade infernal não é outra se-
seria, apenas, repetição mais fraca do "Inferno", e o "Pa- não a cidade de Florença, porque —
raíso", enfim, uma abstracão, teologia escolástica em ver-
sos; para a grande maioria dos leitores o "Paraíso" não "Godi, Fiorenia, poi che' se' si grande
existe. Che per maré e per terra batti l'ali,
Ler assim a Divina Comédia significa trair o poeta. E per lo Inferno il tuo nome « spande".
Dante é um dos artistas mais conscientes de todos os tem- •

pos; devia saber o que disse quando atribuiu ap poema, O leitor não muda de continente quando "uscimmo a rive-
além do sentido literal, vários sentidos alegóricos: um der le stelle".
ético, um religioso, um político. Ao leitor moderno repug- Mas aquela limitação da imaginação não existe cc
na a interpretação alegórica, levando a artifícios antiartís- respeito ao "Paraíso"; lá o poeta podia construir livremente

348 OTTO M A B I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 349

o seu mundo de religião política e política religiosa; o céu literatura, a primeira literatura moderna do Ocidente. Fa-
de Dante não é a fantasia arbitrária de um sonhador, mas lando assim, em língua "vulgar", Dante foi .entendido e
um edifício construído segundo as normas sólidas da ló- permanece entendido até hoje; a cidade na qual o poeta, no
gica escolástica, com os elementos de uma doutrina religio- quadro de Domenico di Michelino, aponta com o dedo o
sa coerente e de uma doutrina política bem elaborada. Para reino da ética e do idealismo religioso, é a Florença de
aceitar esses elementos, nem é preciso a "suspension of 1300, mas a advertência convém à nossa cidade também, a
disbelief"; porque, de acordo com as regras da logística, todas as cidades. Dante, grande espírito religioso, é o
da ciência mais moderna, um sistema de ideias não pre- maior poeta político naquele seu alto sentido de política,
cisa corresponder a qualquer realidade exterior; só precisa graças à força inédita com que criou a maior e mais coe-
não ter contradições interiores. No caso do "Paraíso", essa rente estrutura poética de todos os tempos.
coerência é dada pela poesia, que transforma em realidade E n t r e Dante e os outros grandes poetas do "Trecento"
dentro da alma uma utopia irrealizável neste mundo lá existem apenas semelhanças artificiais; reuni-los numa
fora: trindade literária com Petrarca e Boccaccio, satisfaz só à
rotina. Língua e estilo de Petrarca são muito mais proven-
"In la sua voluntate è nostra pace". çais do que a língua meio latina de Dante; e a prosa retó-
Do ponto de vista literário — que é, para nós, o quinta rica de Boccaccio não tem nada que ver com a concen-
sentido da obra, essa realidade é de natureza musical, con- tração lírica do primeiro dos florentinos. O humanismo de ~\
lorme as finas observações de Francesco Flora. O Pa- Petrarca e Boccaccio, tentativa de renovar o espírito de-
raíso de Dante é construído como uma das grandes fugas,
como a própria A r t e da Fuga, de Bach. E quem poderia
duvidar da "realidade" dessas abstrações supremas?
cadente da suà época, não tem nada em comum com o im-
perialismo espiritualista de Dante; este parece um santo,
quando comparado com o intelectual Petrarca e com o bur-
I
guês Bqccaccio. ^Boccaccio está fora de todas as preocupa^
O "outro mundo" de Dante é um mundo real, tão real
ções políticas; Dante é essencialmente um poeta político. <
como o seu criador, que vive ainda, embora saibamos que
Petrarca julgava-se propagandista do Império, quando se
morreu há seis séculos.' Dante foi vencido na política atual
apaixonpu pela aventura política do aventureiro Cola di
da Itália do século X I V ; na política ideal de todos os tem-
Rienzo, aspirando ao restabelecimento da República ro-
pos, o derrotado realizou a sua visão ético-política, cons-
mana. Entre a política de Dante e a de Petrarca existe a
truindo outro mundo no qual os valores, perturbados neste
diferença que há entre o universalismo medieval e o hu-
mundo, estão restabelecidos/ Para esse fim, nobre e utó-
manismo italiano. Dante, exilado de Florença, continua
pico, empregou todos os meios então conhecidos de ex-
cidadão do Império; Petrarca, intelectual europeu, está
pressão: as visões dos monges e os apocalipses dos místi-
exilado em Avinhão, com o Papado.
cos; a poesia dos trovadores e o hino dos franciscanos; o
"dolce stil novo" e o humorismo dos diabos, nos Mistérios; O Papado, que fora capaz de vencer o Império uni-
as superstições infernais dos seus antepassados etruscos e versal, sucumbira ao Estado nacional dos franceses. A
o intelectualismo aristotélico do seu mestre Tomás de outra coluna do universalismo, a eclesiástica, também es-
Aquino; e, para exprimir tudo isso, criou, do díaleto flo- tava quebrada. Entre os clérigos, refugiados em Avinhão,
rentino, uma nova língua, a língua italiana, e uma nova reinava a nostalgia da Roma longínqua. Lá nasceu o hu-
350 OTTO M A R I A CARPEATJX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 351 .:.•

manismo, não como grito de revolução de uma nova época, vaao, vivendo as suas paixões pessoais e, no fundo, só vi-
mas como sentimento de crepúsculo, mentalidade de gente vendo para o aperfeiçoamentd da sua formação pessoal.
culta, perdida entre bárbaros grosseiros. O ideal dos clé- O amor de madonna Laura, o estudo da Antiguidade e os
rigos de Avinhão encontra o seu modelo entre os roma- esforços do diplomata em favor da restauração italiana da
nos cultos da última fase da República. Cipião, o Africano, Igreja exilada, são os pólos da sua vida movimentada, en-
chefe do grupo dos graeculi, é o herói preferido da época: tre muitas viagens, dezesseis anos de solidão em Vaucluse,
Petrarca dedicou-Ihe o fragmento de uma epopeia em lín- coroação como poeta no Capitólio, e a morte em Arquá.
gua latina. / D a n t e encontra na Antiguidade um ideal po- Para a posteridade, o acontecimento mais impressionante
litico: a monarquia universal dos césares.^Petrarca en- da Sua vida é a subida ao Mont Vcntoux, perto de Avinhão,
contra na Antiguidade um ideal humano: o do intelectual no dia 26 de abril de 1336; de lá, olhou, profundamente co-
culto, com as qualidades do esffirttó^em^iojj^fflfli fiftt» movido, para a paisagem, e depois abriu as Confissões de
será, ainda, o ideal de Goethe, com o qual Petrarca tem Santo Agostinho, lendo a grave advertência de que a ver-
mais de uma semelhança: a união de interesses científicos dade não se encontra nas montanhas, planícies e mares,
e lirismo pessoal é a mais importante. mas dentro da alma. Para nós, modernos, aquele dia signi-
fica a descoberta do sentimento da natureza e da indepen-
Francesco Petrarca ( 14 ) é universal como Goethe: poe- dência da alma. Petrarca não viu, do alto da montanha,
ta, erudito, diplomata e, mais do que tudo isso, homem pri- esse panorama do futuro. Viu os lugares onde passava a
sua amada, viu a cidade na qual a religião estava encar-
cerada, viu a Itália longínqua, e, à distância dos tempos,
14) Francesco Petrarca, 1304-1374.
Africa (1342); De contemptu mundi (1342); Cármen oucolicum
(1346/1356); De vita solitária (1346/1356); De viris illustribus; " 1'antiquo valore
Familiares e Variae (cartas); Camoniere (I In vita dl M. Laura: Ne gl'italíci cor non è ancor morto".
227 sonetos e 21 canções; II In morte dl M. Laura: 90 sonetos,
8 canções); Trkmfi.
Edições: Africa: N. Festa, Firenze, 1B27. Eis a temática da sua vida e da sua poesia. \ Petrarca é hu-
Cartas: G. Fracassetti, 3 vols., Firenze, 1859. manista, no sentido de cultor dos estudos clássicos, e no
Camoniere: G. Salvo Cozzo, Flrenze, 1904.
E. Bellorlnl, Torlno, 1924. sentido do "humani nihil a me alienum puto". Mas não lê
E. Chiorboli, Milano, 1924. Cícero nem ama a Laura sem sentir remorsos. No fundo
Trionfi: C. Çalcaterra, Torlno, 1924, da sua alma existe o clérigo medieval; e o apaixonado pe-
L. Getger: Petrarca. Leipzig, 1874.
B. Zumbinl: Studi sul Petrarca. Firenze, 1895. las leituras latinas ainda conhece horas em que prefere
F . De Sanctis: Saggio crítico sul Petrarca. 2.» ed. Napoll, 1899. S. Agostinho, De contemptu mundi e De vita solitária
G. Finzl: Petrarca. Firenze, 1900.
P. de Nolhac: Petrarque et Vhumantsme. 2.* ed. 2 vols. Paris,
.1907. A. Forestl: Aneddoti delia vita dt Francesco Petrarca. Brescta,.
E. N. Chíaradla: La storia dei camoniere ái Francesco Petrarca. 1928.
Bologna, 1908. L. Tonelll: Petrarca. Milano, 1930,
M. E. Jerrold: Francesco Petrarca. London, 1909, H. Hauvette: Les poésies lyriaues de Petrarque. Paris, 1B31.
A. Viscardl: Petrarca e il Meãio Evo. Génova, 1925. M. Bosco: Petrarca. Torino, 1946.
E. H. R. Tatham: Francesco Petrarca. 2 vola London, 11)25/1926. G. Contlni: Petrarca letterato. Roma, 1947.
H. W. Eppelsheimer: Petrarca. Bonn, 1926. J. H. Wnltfield: Petrarca e íl Rinascimento. Bari, 1949.
352 OTTO MARIA CARPEAUX '• HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL '• 353

estão entre as obras que Petrarca, nem sempre sincero, simismo melancólico, desesperado, cansado e egoísta,'iden-
escreveu com a maior sinceridade. Lutam, na sua alma, o tificando a própria desgraça íntima com a desgraça do
católico ortodoxo e o precursor da Reforma, o intelectual mundo; é o precursor de Byron, de Lamartine e de Espron-
moderno e o asceta medieval, e essa ambiguidade é o mo- ceda. Foi isso o que êle sentiu no alto do Mont Ventoux,
tivo da sua poesia: vivificou as abstrações sofisticas da e era isso p que acreditava encontrar ha melancolia das
poesia provençal. Petrarca é o primeiro poeta inteiramente rt;ínas •— outra descoberta sua, sentimento muito moder-
pessoal das literaturas modernas. É o primeiro poeta em no. Essa melancolia é o elemento vivo na sua Africa, ten-
que existem só motivos psicológicos, sem intervenção do tativa ambiciosa de imitar a epopeia latina; a passagem
sobrenatural. Petrarca é, na literatura, um grande revolu- mais bela é o lamento de Mago, antes de morrer. O mesmo
cionário. Não é fácil admitir isso hoje, A poesia de Pe- sentimento pessoal dá vida às suas cartas latinas, documen-
trarca parece a mais gasta do mundo; pois as suas ex-
tos vivíssimos da sua biografia; o estilo ciceroniano, que
pressões e metáforas foram mil vezes repetidas e imi-
Petrarca dominava da maneira mais perfeita, está todo
tadas em todas as línguas, e qualquer dos seus versos nos
modernizado. O mesmo sentimento moderno transforma a
lembra imediatamente outros versos que já conhecíamos.
sua erudição clássica em nostalgia da Roma antiga: lá,
A poesia petrarquesca virou imenso lugar-comum. Mas
onde quase dez séculos, só viram pedras acumuladas que
Petrarca não é petrarquista. O seu amor é paixão sincera,
a superstição popular povoou de demónios, vê Petrarca
e o Canzonieie constitui um grande drama de amor, ou an-
'Tantiche mure" — e começa á chorar como um romântico
tes uma epopeia psicológica coerente: da sexta-feira san-
do século XIX,
ta, na qual viu Laura pela primeira vez, até os dias da ve-
1
lhice, sem a capacidade de esquecer: Petrarca descobriu o encanto sentimental das ruínas.
De Sanctis observou muito bem que o poeta viu Roma só
"I' vo piangendo i miei passati tempo". de longe, do alto do Mont Ventoux e pelos olhos de ura
Petrarca é uma alma profundamente melancólica — "Solo provençal amoroso e melancólico. Mas nenhum trovador
e pensoso" — e como todos os melancólicos é bom obser- provençal foi capaz de sentimentos tão "modernos". Pois a
vador psicológico de si mesmo, "di quei sospiri ond' io nu- mesma transformação que Petrarca impôs à maneira da sua
driva '1 core"; repara bem nas suas ambiguidades ínti- época de sentir a Antiguidade, essa mesma transformação
mas, exprimindo-as nas famosas antíteses — se realizou em seu espírito no que respeita à poesia lírica
de seu tempo. ; Ê, como já Be disse, difícil afastar os pre-
"Pace non trovo, e non ho da £ar guerra;
conceitos modernos contra o grande lugar-comum erótico
E temo e spero "—
do Canzoniere.' A comparação entre i erudição medieval e
que geraram tantas antíteses artificiais, em mil poetas de o humanismo sentimental de Petrarca ajuda i compreensão
todas as línguas, e que são o retrato fiel de uma alma culta da modernidade da sua poesia lírica; embora nas formas
e sensitiva. Petrarca sente vivamente a natureza: Laura provençais e do "dolce stil novo", é Petrarca o primeiro
está sempre rodeada de primaveras, flores e "chiare, fres- poeta lírico moderno e — o superlativo se justifica — o
che e dolci acque", mas nesta poesia também aparece "lo mais original de todos os poetas líricos da literatura uni-
spirito lasso". Petrarca é o primeiro representante do pes- • • • , j ' - •

versai: Apenas, é preciso lê-lo sem comentário histórico e


354 Orro M A B I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 355

gramatical e sem preconceitos — ouvir como êle nos fala com patriotismo neo-romano e italiano — outro "moder-
no primeiro soneto do Canzionere — nismo" de Petrarca — e a desgraça da pátria devastada
arranca-lhe o grito muito moderno, o envoi com que manda
"Voi ch'ascoltate in rime sparse il s u o n o . . . " — aos grandes do mundo sua canção:

e observar esse homem que "Proverai tua ventura


"Solo e pensoso i piú deserti campi Tra magnanimi pochi a chi '1 ben piace;
Vo mesurando a passi tardi e l e n t i . . . " — Di' lor: Chi nYasBicura?
I' vo gridando: Pace! Pacel Pace!"
ouvir murmurar as "chiare, fresche e dolci acque" da sua
poesia, Onde Petrarca se julga romano, i moderno; onde se
crê moderno, é meio medieval, transformando a resigna-
"II cantar novo e '1 pianger degli augelli ção estóica em ascetismo de monge. Afinal, o único cen-
In sul di fauno retentir le valli, tro do seu mundo multiforme é o seu eu, também mul-
E '1 mormorar de' liquidi cristalli tiforme. Petrarca era polemista apaixonadíssimo e às ve-
Giú per lucidi freschi rivi e snelli." zes grosseiro; gostava de colocar-se a si mesmo no centro
dos grandes negócios políticos e diplomáticos, entre Papa,
E esse enamorado eterno é um espírito angustiado, la-
Imperador e o tribuno romano; mas só pôde colocar no
menta como Villon
centro de tão vasta atividade o seu amor, êle, que era um
"O caduche speranze! o penser fotlii" — grande egoísta. Mas a esse egoísmo devemos a sua poesia.
O egoísmo de artista ensinou-lhe a escolher cuidadosa-
e dirige-se, enfim, ao céu, numa das mais belas preces poé-
mente as palavras, buscar rimas musicais, aperfeiçoar o
ticas que já se conceberam:
verso. Petrarca, grande poeta, é ainda maior como ar-
"Vergine bella, che di sol vestita, tista, consciente de fazer arte e só arte. Até nisso é egoís-
Coronata di s t e l l e , . . ta, possesso do egoismo da arte. É o primeiro homem que
Raccomandami ai tuo Figliuol, verace sente a responsabilidade do espírito, do talento, do gêniõ,
Uomo e verace Dio, chamado a desempenhar grande papel nos acontecimentos
Ch'accolga '1 mio spírto ultimo in pace." deste mundo. Petrarca é o primeiro intelectual moderno.
A fonte dos sentimentos modernos em Petrarca — eis o O novo sentimento do mundo, sentimental na acep-
paradoxo da sua mentalidade — é de índole medieval: a ção original da palavra, criou ^ nova poesia. Não pôde
"acedia" melancólica do asceta é o que moderniza tanto as entrar na prosa. A prosa do "Trecento" conhece inspi-
suas expressões provençais. A última obra da sua vida são rações místicas como a da S. Catarina de Siena. Mas, em
os Tríonfi, poema alegórico que termina com o Trionío geral, revela o espírito sóbrio, realista, a i s vSzes classi-
delia Morte. A mesma "acedia" — espécie de anticleri- camente realista, dos italianos autênticos; até na litera-
calismo dos déiroqués — revolta o poeta contra os abusos tura religiosa, como nas Vite dei Santi Padrí, de Fra Do-
do clero, e particularmente contra os abusos da Cúria pa- menico Cavai ca ( 1B ), verdadeiro clássico da língua toscana.
pal em Avinhao, que êle conhecia de perto. O lado positivo
dessa revolta é a identificação do sentimentalismo romano 15) Edição de uma escolha das Vtíe por C. Naselli, Torino, 1925.
.

356 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 357

Representante típico dessa, prosa também é ó cronista flo- gueses, encontrando na Itália uma sociedade altamente re-
rentino Giovanni Villani ( i e ) , homem supersticioso e in- , quintada, que gosta da literatura aristocrática da França;
génuo, com os horizontes intelectuais de um pequeno bur- • ,i_ora, na própria Itália uma literatura assim não existe..
guês, mas com o seu realismo também, transcrevendo es- Depois, em Nápoles, Boccacciò conheceu uma corte e uma
tatísticas, descrevendo procissões, espetáculos, incêndios .aristocracia autêntica, Os seus começos literários revelam
e crimes, como um jornalista de subúrbio, e deixando-nos afinidades com Chrétien de T r o v e s ; trata mesmo assuntos
o quadro mais fiel, e até comovente, da Florença do século de Benoit de Saint-More, Ma» o homem do "Trecento" já
X I V , De humanista nada tem. O humanismo pensativo i incapaz de imitar esses modelo*. A i suas versões tornam?
de Petrarca não entra em cabeças de burgueses. J M a s n a . se paródias, ou então transformam radicalmente o modelo,
- 5 - ^ .cabeça burguesa de Boccacciò entrou outro humanismo: a , criando novos géneros literários. Só a obra de estreia, o
a n t i g u i d a d e como paisagem de espírito, na qual não existe ••' •
Filocolo, é imitação inábil, No Filostrato, um episódio do
ascetismo. Villani, atribuindo as desgraças de Florença à Roman de Troie, a história de Troilo e Cressida, i trans-
Providência Divina, explicou também assim_a grande peste formado em autêntico romance de paixão sexual; Chaucer
de 1348, durante a qual o cronísta.chegou a morrer. A mes- o imitou; e até Shakespeare entenderá assim o episódio. A
jrna peste, forçando tanta gente a fugir da cidade, constitui Teseide, tirada do Roman de Thèbes, difere do modelo
'Tórrido cominciamento" do Decameiqnej mas as damas
francês pela intervenção fastidiosa da mitologia clássica;
e cavaleiros de Boccacciò não se reúnem "fuori le mura"
Boccacciò já se julga humanista. Mas quando pretende
j>ara rezar e f lagelar-se, e sim para contar histórias sem
tratar u m assunto clássico, uma lenda à maneira das me-
ascese alguma e sem intervenções da Providência. Ao con-
tamorfoses ovidianas, então o Ninfale Fiesolano sai todo
trário dos cavaleiros e senhores que, no Tríonfo delia '•'••'
italianizado, passando-se na paisagem encantadora em tor-
Morte, no cemitério de Pisa, encontram a morte,_as perso-
no de Florença. É o primeiro poema pastoril da literatura
nagens de Boccacciò fogem da morte, e encontram uma vida
•moderna.
nova, muito diferente da Vita JViiova: ^; V
Na carreira literária de Giovanni Boccacciò ( l 7 ) é pos-
sível reconhecer certa evolução. É burguês, filho de bur- Ntn/alê Fitsolano: A. F. Massera, Torlno, 1926.
Decàmerone; A. F. Massera, 2 vols., Bari, 1927.
F. d* •anOtti: "II Decàmerone", (In: Storia delia letteratwra ita-
16) Giovanni VlUani, f 1348. liana, 1170. 9,* ed, por B. Orooe. V vol. I. Bari, 1913.)
Cronaca (1348), continuada por Matteo Villani, (1363) Edição por U. Lattdatl! Oiovanni Baooaocto, i«fn Leben uni teine Werke.
P. Massai, fi vols. Firenze, 1823. Trechos sqletos, editados por
I. Del Lungo, Mlíano, 1924, H. Ooflhln: stcwfMM, etudei ttaHennei. Paris, 1880,
17) Giovanni Boccacciò, 1313-1375. Stuiil m Oiovanni IOMOMIO nsl VI Centenário delia nascita;
Filocolo; Fílostrato (1338); Teseiáe (1341); mnfale Fieeolano; •dlt, psls JBoalsli, itorlo* dsll» Vnld»U«. Outel Florentino, 1013.
Amorosa Visione (1342); Fiammetta (1342); Decàmerone (1348/ : K. Hsuvstts: Boocaoê, itude biwraphique et mtiraire. Paris,
1353); Labirinto d'amore (Corbaccio) (1354-Í365),; De montibue, 1014.
sylvís, fontibus; De genealogiis ãeorvm gentilium; De claris mu- O. Llpparlni: La vi te « Is opere át Oiovanni Boccacciò. Livorno-,
lieribus; De casibus virorum illustriíim. 1926.
Edição das obras completas: J. Moutler, 17 vols., Firenze, 1827/ L. Russo: Commento ai Decàmerone, Firenze, 1939.
1834. M. Bosco: II Decàmerone. 3.* ed. Napoll, 1048.
Edições: Fiammetta: V. Crescini, Firenze, 1913. V. Branca: Boccacciò meáievale. Firenze, 1066.
\

358 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 359

Desde então, Boccaccio, que um acaso fêz nascer «m educação da mocidade. O fim de Boccaccio foi edificante,
Paris, é italiano. Amorosa Visione, declaração de amor ale- como o de um eremita.
górica, à maneira francesa, à sua amada Fiammetta, torna-
/ Boccaccio não tem nada em comum com Dante, do
se, involuntariamente, paródia da visão religiosa de Dante.
qual escreveu a biografia e o primeiro comentário da Co-
E a Fiammetta, imitação intencional da Vita Nuova, é coisa média ; nem com Petrarca, do qual era amigo. Chama ao
muito diferente: é o primeiro romance psicológico de amor, cosmo religioso de Dante "poesia di Dio", e o humanismo
o pendant prosaico da poesia de Petrarca. Pendant im- de Petrarca significa para êle poesia dos antigos; a mito-
perfeito, porém. O mesmo sentimento que encheu a vida logia é, apenas, um ornamento.. O amor cortesão das pri-
inteira do poeta é fonte de decepções desagradáveis para \
meiras obras é disfarce da sensualidade grosseira. Boccac-
o romancista. E exprime a desilusão no Labirinto demo- cio não é capaz de tomar muito a sério qualquer coisa —
re ou Corbaccio. O modelo foi a sátira VI, de Juvenal, con- \menos n s e x o — p o r q u e já não pode tomar a sério a religião
tra os vícios das damas romanas; a obra de Boccaccio é um ç.ríata: os representantes oficiais dessa religião estão cor-
panfleto violento, rancoroso, até nojento nos pormenores; rompidos demais. A decadência moral do século X I V não
j i m a das típicas sátiras medievais contra as mulheres, como produz ^ t e í s m o / só inspira indiferença moral e religiosa.
as tinha produzido o desgosto meio lascivo de clérigos, vi- Hão há céu por cima do mundo de Boccaccio, e os efeitos
vendo em celibato forçado. Quando Boccaccio se desilude,, do purgatório são bastante duvidosos. Não há ideais, a
revela-se homem m e d i e v a l ^ N o Decamerone encontram-se, , não ser o ideal de viver bem; mas isso não significa só
na variedade imensa dos contos, todas as tendências boccac- boa comida, vinho e mulheres — significa também conversa
cianas; o amor cortês, na história do falcão (V, 9 ) ^ o es- espirituosa, livros, música, o ambiente culto do prólogo
pírito antiascético, nos contos humorísticos em que zomba do Decamerone. Assim como aconteceu no fim do século
-fe dos monges (As falsas relíquias de fra Cipolla, V I , 10); o X I X , todos os ideais são abolidos, menos o ideal da cul-
espírito de farsa florentino, nas histórias de Bruno e Buf- tura. Por isso, Boccaccio é artista. O Decamerone não é
falmacco (IX, 5, e t c ) ; mas a devassidão invade tudo. unia coleção heterogénea de contos, mas uma composição
Só no fundo está, como advertência ascética, a peste, lá j n s p i r a d a pela imaginação mais fantástica, e solidamente
em Florença. E há mais: a história do judeu Abraão em fundamentada pelo realismo são e saudável de Boccaccio.
Roma (I, 2), o qual não acredita que essa Igreja corrom- „Q seu material não í o outro mundo, como em Dante, mas
~jp? pida pudesse representar a verdadeira religião; e a história J s t e mundo, tal como é; Boccaccio, burguês e plebeu, é rea-
dos três anéis (I, 3), tão semelhantes que a gente os con- lísi.-i, o primeiro grande realista da literatura universal.
funde, e também pergunta: qual é a verdadeira religião? ,Daí o panorama multicolor e, no entanto, sempre realista,
Mas Boccaccio não é ateu; é, apenas, céptico. Da inação dò da sociedade do século XIV, que é o Decamerone. O que
cepticismo salva-o o furor da paixão sexual, que por to- nos Gesta Romanorum e nos Contos dos.Sete Sábios era
dos os poros lhe invade a obra e a vida. • Mas Boccaccio imaginação ingénua e popular, entra no Decamerone ape-
também é capaz de dedicar a outras tarefas a mesma ati- nas como imaginação superior dum artista consciente:.com-
vidade febril. As numerosas obras com que serviu à di- põe os contos segundo uma lógica rigorosa (o conto do
. vulgação de conhecimentos da Antiguidade clássica, são falcão serviu a Heyse como ponto de partida para uma teo-
.trabalhos como os de um monge assíduo que se dedicasse à ria do conto), e quando o material — a vida — carece de
. • : . - . , •

OTTO MARIA CARPEAUX RIA DA LITERATURA OCIDENTAL 361


•.

lógica, produzindo padres desonestos, maridos ••••"-•• * lista. E esses géneros foram criados pelos três maiores
mulheres devassas, então a própria falta de lógica entra na poetas da literatura italiana, colocados ho início da htstó-
composição: como humorismo.^ É este elemento, da arte _ ria dessa literatura.; com a consequência desastrosa de que
boccacciana que nos parece tão moderno. E, para explicar essa literatura nunca mais foi capaz de igualar os seus co-
casa estranha modernidade do contista, a crítica do século ',"'.-" meços. Para a literatura universal, aqueles três grandes
_XIX, inclusive a de De Sanctis e Carducci, salientou-lhe têm significação muito diferente. Fora da Itália, Dante
.o anticlericalismo,. o antimedievalismo;, o humor de Boc- não é o autor da "Summa" poética do passado nacional, e
\m caccio teria sido sua arma dissolvente contra o espírito re-
ligioso da Idade, Média» Mas isto significa tirar o escri-'".';•&£.
sim o representante ou quase profeta de uma atitude idea-
lista; Petrarcay fora da Itália, não é o génio da lírica pes-
soal, e sim o criador de uma linguagem poética, da qual
tor, anacrônicamente, do seu ambiente espiritual. A Idade
Média não foi tão monolítica como a imaginava o libera- os poetas de todas as línguas aprenderam a expressão como
lismo do século XIX. A unidade da fé, não ameaçada porjL, num esperanto do amor; ÇJíoccaccT&ij para os de fora da H
heresias organizadas, permitia uma crítica mais livre. As Itália, não. é o criador da arte da prosa, e aim uma fonte
diatribes de Boccaccio contra o clero degenerado não são inesgotável de enredos cómicos, burlescos, trágicos, e sem- \
mais forte do que as de S. Catarina de Siena. A Idade , pre interessantes. A Europa do século XV não precisava •

Média é a época da filosofia escolástica; mas também de idealismo, nem de uma linguagem erótica, nem de enre-
é a dos poetas "goliardos". Construiu as catedrais; mas dos; era burguesa, falava francês e acreditava ainda no
também lhes colocou em cima dos tetos e das torres os mundo pseudo-histõrico da Idade Média. Eis os motivos
demónios, de boca aberta para dar gargalhadas sobre a .pelos quais o "Trecento" italiano não foi capaz de influen-
bela terra da Ile-de-France, onde o toscano Boccaccio, por ciar imediatamente as letras universais. Só o pseudofeu-
acaso, nascera, filho ilegítimo de um grande comerciante dalismo intelectual dos aristocratas cultos do século XVI
florentino e de uma francesa. Era natural. Boccaccio é ho- iria spoderar-se da linguagem de Petrarca. Só o novo
mem medieval. Êle é, porém, "moderno", em relação à sua . mundo dramático dos espanhóis e ingleses redescobrira a
época, pelo estilo retórico, .que imita a frase ciceroniana. "comédia terrestre" de Boccaccio. Mas Dante continua até
Esse estilo, por meio do qual Boccaccio criou a prosa ita- ~r"3- boje na solidão do seu túmulo de exilado, em Ravena,
liana, foi a arma retórica para defender a reabilitação da
carne voluptuosa; e foi, ao mesmo tempo, o dique artístico
contra o perigo de cair na grosseria do seu material. Im-
pediu a confusão entre a realidade bruta e a arte elabo-
rada. Assim, Boccaccio não nos deu uma série de documen-
tos, ilustrando a vida italiana do século XIV, mas criou, ;>;:i
segundo a expressão de De Sanctis, "la nuova Commedia,
non la divina, ma la terrestre".
O "Trecento" italiano criou três géneros inteiramente
novos; inteiramente novos porque enformados por um novo
espirito: a epopeia intelectual, a lírica pessoal, o conto rea-

j & ' \
•V' •
CAPÍTULO II

REALISMO E MISTICISMO

E NTRE a literatura do "Trecento" italiano e as literatu-


ras contemporâneas do resto da Europa existem poucas
semelhanças. A analogia entre Boccaccio e Chaucer, tem-
peramentos parecidos de artistas burgueses, é antes um
caso isolado; mas quando se procura explicar esta analogia
pela semelhança dos ambientes em Florença, cidade de in-
dústria têxtil, e Londres, cidade de comércio de fazendas,
torna-se, então, mais inexplicável do que antes a ausência
de literatura semelhante à do "Trecento" italiano nos cen-
tros mercantis da França, Flandres e Alemanha do século
XIV. A comparação é, aliás, dificultada pelo fato de o
"Trecento" italiano ser um estilo bastante bem definido
(Boccaccio é o reverso e complemento do "dolce stil
novo"), ao passo que o Arcipreste de Hita, o Roman de la
Rose, Ruysbroeck 1'Admirable, Froissart e os Mistérios não
revelam os traços característicos comuns de um estilo.
Apresentam qualidades que não se conjugam bem: sensua-
lidade recalcada ou desenfreada, alegorismo tímido e velei-
dades de oposição social e religiosa, misticismo exaltado e
realismo sóbrio, brutalidades grosseiras e devoção orga-
nizada. A historiografia literária nunca pensou em defi-
nir, com esses elementos antitéticos, um estilo.
Contudo, a historiografia das artes plásticas oferece
uma construção auxiliar: o "gótico". A reabilitação do
estilo gótico, que passou por sinónimo de barbaridade du-
rante os séculos do classicismo renascentista, deve-se aos
românticos alemães: celebraram o estilo gótico como cria-
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ção sublime do.espirito alemão medieval, expressão de re Os sentidos: pathos retórico; religiosidade extremamente -.
ligiosidade nostálgica do céu, e algo fantástica; enfim: "rõ: angustiada, com inclinações para a mística herética; gosto
mântica". Nãò demorou, porém, a proya de que esse "gó excessivo pela elaboração dos pormenores significativos,
tico" era um estilo francês; na França se encontram as ca com as consequências do naturalismo brutal ou da alegori-
tedrais que forneceram os elementos da definição, e aos •.'. zação de todos os detalhes. , 0 "Trecento" italiano não ma-
alemães ficou apenas a glória de imitadores. Contudo, exis- nifesta qualidades assim, e nisto reside 6 problema crono-
te um gótico particularmente germânico, caracterizado lógico da posição particular da Itália no século X I V . O
pelo exagero das qualidades do gótico original: a mís- "Trecento" italiano está mais perto do "verdadeiro gótico"
tica transformada em misticismo; o realismo das escultu- . das catedrais francesas. Neste sentido, a arte italiana pa-
ras de diabos e animais, nas catedrais francesas, tornando- rece, paradoxalmente, atrasada: as igrejas góticas de Santa
se independente, transformando-se em naturalismo gros- Maria Novella e Santa Croce, em Florença, são do século '•
seiro. Esse gótico decadente é o estilo comum dos países X I V . Ao lado do "Trecento" gótico existe, porém, um "gó-
europeus ao Norte dos Alpes, começando já no século X I I I , tico realista"; Gíotto é o seu precursor, e Donatello o seu
florescendo no século XIV, e assumindo no século XV as mestre mais expressivo. Embora o estilo gótico ao Norte
feições conhecidas do "gothique flamboyant", algo pare- dos Alpes seja considerado como expressão do universalis-
cido ao barroco e dominando toda a Europa, do Reno até mo religioso medieval, e o "Trecento" italiano como "pro-
à Espanha. O gótico decadente tem seus centros em Flan- gressista" e primeira fase da Renascença, os dois movimen-
dres, na Borgonha, na Renânia e no atual Norte da França, tos são, realmente, incomensuráveis. Mas quando se admi-
Artois e Picardia, regiões então etnicamente germânicas; tem o elemento gótico atrasado no "Trecento" e o gótico ; \
os arquitetos e escultores na Espanha do século X V tanv "nórdico" dos séculos X I V e XV como "góticú decadente",
bém são, na maior parte, holandeses, e alguns, alemães, ó s então ambos os movimentos aparecem como maneiras di-
elementos característicos do "gothique flamboyant" apa- ferentes de reagir contra o mesmo fenómeno de transição
recem com persistência nas obras de arte de origem ger- •social e política; o "Trecento" italiano parece então "rea-
mânica, e pode-se falar, neste sentido, de elementos góticos ccionário", è o "gótico flamboyant" apresenta-se como es-
no barroco alemão, no romantismo alemão, e até no expres- tado adiantado de decomposição da mentalidade medieval.
sionismo alemão, o que não acontece com o barroco e o ro- As muitas aspas só se impõem porque a historiografia l i -
mantismo de outras nações. Por isso, uma corrente da > terária rotineira, com as suas etiquetas feitas, confundiu
historiografia das artes plásticas define o gótico decadente Os termos. "Trecento" e "gótico flamboyant" assemelham-
(sem sentido pejorativo, antes no sentido de "o gótico mais se, quando se abstrai dos meios de expressão, da diferença
maduro") como estilo tipicamente germânico. A explica- produzida pelo estado imensamente mais adiantado da lín-
ção etnológica é duvidosa; mas como definição estilística gua italiana em comparação com as outras línguas da época.
pode ser aproveitada Q). No que diz respeito aos valoreB literários, esse fato lin-
Segundo Worringer, o "gótico germânico" da última guístico é da maior importância; por isso, nem a França •

Idade Média define-se pelo excesso de expressão em todos nem a Inglaterra, -nem a Espanha nem a Alemanha tiveram
um Dante. Mas quanto à situação histórica das produções
1) W. Worringer: Formprobleme der Gotik. Muenchen, 1911. Jiterarias, o alegorismo do Roman de la Rose corresponde
D. Frey: Gotik und Renaissance. Wien, 1929.
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366 OTTO MARIA CABPBAUK HISTÓRIA »A LITERATURA OCIDENTAL 367

à epopeia intelectualista de Dante, a mística de Ruysbroeck portãncia para a vida. Mas só as pode dizer por meio de
à lírica pessoal de Petrarca, e o realismo burguês dos cro- metáforas religiosas que representam a verdade literal.
nistas à arte de Boccaccio. As "classes literárias" — "clé- Com cores realistas descreve uma paisagem:
rigos", ascetas e burgueses — são, cá e lá, as mesmas. Na
Itália, a língua literária, adiantadíssima, conseguiu, até "La verdura dei prado, la olor de las flores,
certo ponto, a unificação estilística das tendências dife- Las sombras de los árboles de temprados sabores
rentes: por isso, Dante, Petrarca e Boccaccio parecem Refrescáronme todo, e perdi los audores...";
constituir uma trindade homogénea. Mos outros países, o
estado das línguas não permitiu essa unificação formal. e depois ficamos sabendo que é a paisagem mi «ti ca aos
Os dois elementos principais do estilo gótico, realismo e pés da Virgem entronizada (Mirado XIV). Berceo é, nas
misticismo, embora brotando da mesma raiz, continuaram vidas de santos e na poesia mariológica, de uma Ingenui-
antitéticos. Uma corrente realista e uma corrente mística dade encantadora: um monge angélico, fazendo versos de
constituem a literatura gótica, encontrando-se no uso da frescura pagã. A crítica espanhola moderna considera-o
alegoria para dizer o ilícito ou exprimir o inefável. como tipo do espanhol autêntico, antes da invasão do
A alegoria é a arma do pensamento medieval para clas- classicismo italíanizante.
sificar todas as coisas deste mundo como partes significa- Essa ingenuidade já não é qualidade das classes cul-
tivas da Criação hierarquicamente organizada. A alegoria tas. O sábio rei Don Alfonso X ( s ), génio enciclopédico,
da Idade Média decadente já tem mais outra função: serve astrónomo e historiador, codificador do Direito espanhol,
para dar significação espiritual a coisas novas que não e, também, o poeta devoto das Cantigas de Santa Maria em
•e adaptam bem ao Cosmo medieval, como que para lhes língua galega, é um intelectual consumado. A lenda lhe
conferir direito de cidadania. Essa transformação do sen- atribui, em face das complicações do sistema ptolemaico
tido da alegoria foi dificil: foi preciso percorrer muitas do Universo, as palavras: "Se eu tivesse criado o mundo,
fases para chegar ao Roman de la Rose, e quando o fim o resultado teria sido mais simples"; e nas suas sátiras
parecia atingido, foi apenas para se livrar do embaraço encontram-se obscenidades inesperadas. Essas ambiguida-
incómodo; o realismo maduro de Chaucer já não precisa des acentuam-se na figura mais fascinante da Idade Mé-
de alegoria, já acha dia espanhola: Juan Ruiz, o Arcipreste de Hita (*). O

"God*s in His Heaven — 3)Alfonso X el Sablo, 1221-1284.


AH's right with the world." Las Partidas; Lapidaria; Ubrot dei saber áe astronomia; Libro
dei acedree e dados % tablas; Grande e General Estoria; Crónica
Gonzalo de Berceo ( s ) é monge, filho do povo e que General; Cantigas de Santa Maria.-
Edição: Alfonso X. Antologia de s u u obrai, edlt. por A. a. So-
pretende falar ao povo, dízendo-lhe as coisas que têm im- lalinde (com introdução), 2 vola., Madrid, 1922.
E. S. Procter: Alfonso X of Castile. Patron o/ Literature and
2) Gonçalo de Berceo, c. 1200 - c. 1250. Learning. Oxford, 1861.
Prosas; Miraclos de Nuestra Sefíora. 4) Juan Ruiz, arcipreste de Hita, c. 1283 - c. 1360,
Edição: Biblioteca de Autores Espafioles, vol. LVH. Libro de buen amor.
R. Becker: Gonzalo de Bercea's "Milagros" und íhre Grunálacen.
Strasbourg, 1910. Edição por J. Cejador, Clássicos Oastellanoa, vol. XIII, Madrid,
1913.
M. Menéndez y Pelayo: Historia de la poesia cantellana en la J. Puyol y Alonso: El Arcipreste de Hita. Estadia critico. Ma-
Idaâ Media. Vol. I. Madrid. 1913. drid, 1909.
:i(
'" O-n-f) MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 369

Livro d* btun ãtuor do digno sacerdote tem, em parte, fei- é o Roman de la Rose ( B ); a primeira parte, obra de Guil-
• • • • .

t i o edificante: basela-ie am coleçSes de exemplos para ser- : laume de Lorris, é a primeira alegoria inteiramente pro-
mdea, sátiras bem medievais contra a» mulheres; mas uti- fana da Idade Média; a segunda parte, meio século depois,
Uga também poesias burlescas dos joglares, a escanda- tirará conclusões revolucionárias. A primeira parte é uma
losa comédia latina Pamphilus de amoie, e a Ars amanái, Ars amandi medieval:
de Ovídio. Euíz é um velho vigário alegre que gosta de
"Cest icí le Roman de la Rose,
contar, nas tardes de domingo, anedotas obscenas; sabe
Ou l'art d'amour est tout enclose."
apreciá-las, porque tem suas experiências, confessando que
Os obstáculos do amor e os conselhos que Ovídio dá para
" . . . yo como soy home como otro pecator vencê-los, aparecem todos personificados: o poeta, guiado
hobe de las mujeres a las veces grand amor." por "dame Oiseuse" e "Bel-Accueil", penetra no jardim de
Rose, lutando contra Honte, Peur, Danger e Malebouche.
É um goliardo que encontrou paz e estabilidade numa pa- Mas antes de conquistar Rose, êle acorda; tudo foi apenas
róquia gorda. Com a consciência tranquila pode rezar à um sonho, descrito aliás com a precisão realista dos so-
Virgem, "gloriosa madre de pecadores", com a mesma voa nhos — a descrição de dama Vieillesse e dame Pauvreté
com que cantou serraníilas para as moças da aldeia; e é pavorosa. O sonho de Guillaume de Lorris é o pendant
uma feita da Igreja toma aipecto alegre: ' alegórico das tardes em Piesole, quando os amigos e ami-
. gas de Bocca££io-.contavam as histórias do Decamerone.
"Dia da Cuaslmodo, igleeiaa • altares, O Roman. de la Rose foi o livro mais lido da época,
vi Uenoi dt alegrias, de bodas e cantares; objeto até de comentários eruditos com o fim de alegorizar
todoa habfen gran flesta, faclen grandes yantares. a alegoria, e nem em toda parte foi interpretado da mes-
Andam de boda en boda clérigos y juglares." ma maneira. O holandês Jacob van Maerlant ( e ), com a
feição seca da sua gente, só vê o lado didático: havia trans-
Valbuena Prat opõe a estes versos do Arcipreste outros,
menos alegrea — as aventuras com a alcoviteira Tròtacon- 6)Le Roman de la Rose.
ventos levaram, enfim, a lamentos amargos e gritos de O autor da primeira parte é Guillaume de Lorris, c. 1225/1230.
"Muerte, mataB la vida, el mundo aborreces", — O Arci- O autor da segunda parte é Jehan. de Meung, (Jean Cloplnel),
c. 1270.
preste acabou como asceta, porque tinha dispensado a ale- Edições por E. Langlois, 4 vais., Paris, 1914/1915, e por M. Qor-
goria. * ce, Paris, 1933.

I
E. Langlols: Origines et sources áv. Roman de la Rose. Paris,
O documento principal daquela transformação da ale- 1890.
goria, de instrumento teológico em instrumento "laicista", L. Thuasne: Le Roman de la Rose, Paris, 1939.
O. Pare: Le Roman de la Rose et la scholastique courtoise. Pa-
ris, 1941.
6) Jacob van Maerlant, c. 1230 - c. 1300.
M. Menêndez y Pelayo: Historia de la poesia castellana en' ta Alexander'$ Yeesten; Historie van Tropen; Rjpnbijbel; Spieghel
Idaâ Media. Vol. I. Madrid, 1913. Historiael; Wapene Martijn,
W. Lecoy: Recherches évr le Libro de Buen Amor. Paris, 1938. Edições: Alexanãefs Yeesten, por J. Franck, Qroningem, 1882;
Benito y Durán: La. filosofia dei Arcipreste de Hita. Madrid. Histoíre van Troyen por N. Pauw e E. GaUlard, 4 vols., Gent, 1889;
IMS. Spieghel Historiael, por M. de Vrles e E. Verwljs, 3 vols., Lelden,

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370 OITO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA nA LITERATURA OCIDENTAL 371

formado os romances de Alexandre e de Tróia em fastidio- nos. A leitores estrangeiros parecerá exagero a compa-
sas narrações dlditlcai, foi capa* de versificar a Bíblia in- ração do grande humorista com o exilado de Florença. Mas
teira e, em mais de 100.000 versos, a crónica de Víncenzio os ingleses, todos, estarão de acordo. Porque Chaucer é
de Beauvais; nos diálogos satíricos de Wapene Martijn já o Dante inglês, o pai da literatura inglesa. Criou-a, rom-
aparecem as perguntas perigosas sobre a origem dos pode- pendo a tradição insular dos anglo-saxões, realizando aque-
res estabelecidos e a corrução do clero, características da la fusão de elementos germânicos e elementos latinos que
segunda parte do Roman de la Rose, Os ingleses só se in- é o traço característico da literatura inglesa. Chaucer é
teressam pelo lado da fábula. John Gower ( 7 ) aproveita-se o europeizador da Inglaterra. £ também o primeiro a re-
da ficção do sonho para apresentar as histórias mais di- velar a prodigiosa capacidade dos ingleses de assimilar tão
versas; Shakespeare encontrará aínda um enredo nesse perfeitamente os modos estrangeiros que estes se transfor-
contador popular. E Gower é o mestre de Chaucer. mam, da maneira mais inconfundível, em modos ingleses.
Se não fosse Dante, Geoffrey Chaucer (B) seria o maior Assim, ficou inglesa a tradução-versão que Chaucer fêz do
poeta no intervalo entre a Antiguidade e os tempos moder- Romaunt of the Rose, e a novela boccacciana de FUostrato
produziu uma Troilus and Criseyde tão indígena que ne-
1858/1863; Wapene Martijn por P. Leendertz e J. Verdam, 3 vóls.,
Haarlem, 1918. nhum inglês se pode lembrar dela sem que venha à sua
J. Van Beers: Jacob van Maeríant. Gent, 1880. mente a figura do alcoviteiro Pandarus: que Chaucer criou
J. Te Wlnkel; Maerlanfs werken, beschoutod ais spieael van de e legou ao Shakespeare de Troilus and Cressida. \
XTI1 teuw. 3.' «d, Haag, 18B2.
J. Von Mlerlo: Jacob van Maerlant. Hertogenbosch, 1846. Chaucer esteve na Itália. A B^ççacxio deve muitos
1) John Gk>wer, e. lsaB-1408. enredos "è a maneira de encará-los. Os Canterbury Tales
Confeuio amantís; Vox clamantit; eto. são uma coleção de contos medievais, versificados com mui-
Ediçfto por O. O. Msmulay, 4 vols., Oxford, 1889/1902.
W. P. Ker: Snavs on Medieval Literature. London, 1805. ta graça e humor. O espírito que os vivifica e os conserva
8) Geoffrey Chaucer. o. 1340-1400. modernos, sopra do Prólogo, em que o poeta apresenta os
Romaunt of the Rose; The House of Fame; Troilus and Cri- contadores: membros de uma companhia de romeiros, par-
nyãt (o, 137B-UB4); The ParlUment of roíeis (c. 1377-1383); tindo da Tabard Inn, erri Southwark, Londres, para visitar
Canterbury Talei (c. 1387-1400).
o túmulo do arcebispo-mártir Thomas Becket em Canter-
Edições: W. W. Skeat, 6 vols., Oxford, 1894/1897.
F. N, Roblnson, Boston, 1833. bury. £ uma galeria impressionante: o knight, o cava-
Q. Sulntsbury: "Chaucer". (In: The Cambridge Hi&tory o} English leiro de armadura enferrujada; o moleiro burlesco; o
Literature. 3.» ed. Vol. H. Cambridge, 1930.) cozinheiro que conhece todas as boas coisas; o juriscon-
E. Legouls: Chaucer. Paris, 1810.
G. L. Klttredge: Chaucer anã His Poetry, Cambridge, Mass., 1B15. sulto perigosamente esperto; o marujo bonachão e grande
R. K. Root: The Poetry of Chaucer. 2.a ed. Boston, 1923. larapio; a abadessa, fina e elegante, leitora assídua de
R. D. French: A Chaucer Handbook. New York, 1827.
J. L. Lowes: Chaucer OJMÍ the Development of His Genius. Lõn- romances de amor; o monge gordo; o médico que se in-
don, 1934,
V. Mac Nabb; Geoffrey Chaucer. A Study Genius and Bthics. teressa pela situação financeira dos doentes; o vendedor
London, 1934. de indulgências, que precisa mais da sua mercadoria do
P. Van Dyke Shelly: The Uvina Chaucer. Phlladelphia, IMO. que os outros; a "Wife of Bath", viúva que já enterrou
M. Praz: Chaucer* Roma, 1947. vários maridos, mas que tem um coração tão bom que não
E, Rickert: Chaucer"s World. New Yorfc, 1948.
W. W. Lawrence: Chaucer and the Çanteroury Tales. London, pode resistir a nenhuma aproximação masculina; o frade
1BB0.
R. Preston: Chaucer. London, 1953.

í
372 OTTO M A R I A CAEPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 17$

hipócrita que só pensa em vinho e mulheres; o dera, so-


nhador, carregando tratados de filosofia; o comerciante
A mística, seja ortodoxa, seja heterodoxa, é uma daa
que só fala de renda e de j u r o s ; o bom vigário, coração
formas de emoção e pensamento religiosos: podemos defi-
evangélico e aspecto muito magro — e, entre eles, apa-
ni-la sumariamente e sem pretensão de ser exato, como
rece o próprio Chaucer, que os sabe caracterizar a todos, o
tentativa emocional ou filosófica de aproximação à divin-
primeiro grande retratista da literatura universal e cria- dade por um caminho mais direto ou mais pessoal do que
dor de uma "comédie humaine" perfeita: segundo o dizer o prescrito pela doutrina oficial da Igreja. Pode ser um
de Blake, Chaucer deu nomes às pessoas como Lineu às caminho ao lado do caminho da vida sacramental; então a
plantas; ou como Adão aos bichos. Cada um dos romei- mística fica impecavelmente ortodoxa; há muitos e grandes
ros conta uma história, revelando na escolha do assunto e místicos entre os santos da Igreja. Mas também pode acen-
na maneira de tratá-lo o seu próprio caráter, inspirando tuar-se tanto o "direto" e o "pessoal" que se atravessam as
os aplausos, censuras e ciúmes dos companheiros, que, des- fronteiras da heresia. A história dos movimentos místicos
te modo, se caracterizam também: Chaucer é um grande faz parte da história da Igreja e das religiões. À historio-
dramaturgo, o primeiro em língua inglesa, e não igualado grafia literária caberia apenas ocupar-se daqueles poucos
até Shakespeare, nem depois deste. místicos que souberam dar às suas experiências uma ex-
pressão de valor literário, independente do valor como do-
Entre todos os poetas ingleses, Chaucer é o mais na-
cumentos religiosos. Mas não é tanto assim. Na história
tural, o mais ingénuo. A sua poesia começa como que uma
espiritual dos tempos modernos, a mística desempenhava
"vita nuova"; é muito significativo o verso inicial doe
um papel importantíssimo, e tanto mais importante quanto
Canterbury Tales:
se conservou quase sempre subterrâneo. São raros os mo-
mentos em que a mística sobe à superfície, e então trata-
" W h e n that aprille with his schowres swoote". se sempre de momentos decisivos, com consequências incal-
culáveis para a história espiritual literária. Antigamente,
É a primavera da literatura inglesa. Mas Chaucer — é os historiadores da literatura tomavam conhecimento ape-
preciso revogar o adjetivo — não é ingénuo. Por um lado, nas de alguns daqueles momentos: Bernard de Claírvaux
é homem medieval, cínico, humorista algo grosseiro; por e a hinografia medieval, a mística franciscana e o "dolce
outro, é literato formado na escola dos franceses e italia- stil novo", a mística neoplatônica da Renascença e a res-
nos, grande artista do verso inglês, que também lhe serve surreição da lírica petrarquesca; e, no século X V I , S. Te-
para exprimir o lirismo mais meigo, emoções religiosas e resa de Ávila e S. J u a n de la Cruz. Hoje, já não é preciso
de tragédia psicológica. Ê popular, elegante, cómico e chamar a atenção para as relações entre a mística francesa
sério ao mesmo tempo. Homem que conheceu profunda- do século X V I I e o classicismo, estudados por Bremond,
mente o mundo, e aprendeu um sorriso superior e uma nem para a relação entre os movimentos pietistas e meto-
distas do século X V I I I e o pré-romantismo. Mas estas são
leve melancolia. É apenas um burguês; e isso não é posi-
apenas as influências manifestas. Onde ficou a mística du-
ção elevada na sua sociedade; mas é um burguês que so-
rante os períodos de intermitência? A resposta revela mais
breviveu a todos os lordes, seus patrões, pela sabedoria hu-
outros fatos. Não é justo imaginar a mística como contem-
mana. Os ingleses imaginam sempre Chaucer como ho- plação evasiva, fora do mundo, ou como exaltação meio pa-
mem muito velho; contudo, éle é o poeta inglês mais moço.
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374 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 375


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tológica. Em certos caso», a mística era um meio de afrou- Tauler (f 1361), e no maior entre eles, o Meister Eckhart
xar o rigor dos dogmas, declarando-os supérfluos ou até (c. 1260-1327). É um caminho de exploração filosófica da
obstáculos à união direta com Deus; nesse o místico ini- alma, de psicologia mística. O que Eckhart encontra nesse
ciava o caminho para seu sucessor, o livre-pensador. Ê caminho, é inefável; só pode ser expresso em metáforas
assim que se encontram movimentos místicos nas origens como "resposta silenciosa", "vigilância que dorme", "em-
da física moderna e da exegese crítica da Bíblia. Em ou- briaguez sóbria", antíteses que se parecem — em outro
tros casos, a mística é a mediadora subterrânea entre mo- nível — com as antíteses líricas do seu contemporâneo
vimentos filosóficos e literários que, aparentemente, não Petrarca.
têm ligação alguma. Pode-se considerar a mística como O maior entre os místicos é Jan van Ruusbroec ( 1 0 ), o
missing Hnk entre a religiosidade medieval e os movi- holandês a quem os estrangeiros chamam Ruysbroeck e os
mentos religiosos revolucionários do século X V I : eras- franceses 'TAdmirable". O Ornamento do Casamento Es-
mismo, anabatistas, sectários de toda a espécie; a Reforma piritual é sua obra mais importante; e o Livro das Sete Es~
não serve para explicar esses movimentos, que se dirigiram, cadas para o Cume do Amor Espiritual, um dos muitos su-
enfim, contra a própria Reforma. Uma lacuna encontra-se plementos. É um dos grandes neoplatônícos da história
nos séculos XIV e XV, na mesma época que também apre- da filosofia. Mas à gente fora dos muros do convento o
senta uma lacuna sensível na história literária: a falta de monge de Bruxelas só parecia um grande asceta. Escreveu,
pendant da poesia pessoal do "Trecento" nos países ao em vez de rio latim dos outros místicos, na língua do povo
Norte dos Alpes. A solução do problema seria: a mesma para ser entendido; e só não foi entendido porque era um
intensificação da vida psicológica que na Itália se manifes- grande poeta. Maeterlinck lhe atribui "la gaite de 1'enfant
tou na poesia, manifestou-se no resto da Europa pelo mis- et la clairvoyance du vieillard"; atrás da ingenuidade das
ticismo psicológico, transformando a aproximação com suas expressões e do peso dos seus períodos complicados,
Deus em exploração da vida intima da alma. Mais uma vez, revelam-se belezas inefáveis, celestes. Ruusbroec é como
revela-se a importância do estado da língua na evolução li- os quadros de altar de Roger van der Weyden ou Memlinc,
terária. O movimento do Norte não levou, como na Itália, nas silenciosas igrejas góticas da Bélgica: a Virgem, moça,
linguisticamente mais avançada, à grande arte, e sim ao
sectarismo e ao livre-pensamento.
10) Jan van Ruusbroec (Ruysbroeck), 1293-1381.
O conceito da vida mística como "caminho" é de ori- De chierheit der gheeateliker brulocht (c. 1350); Vingherlinc of
gem neoplatônica. Aparece entre os vitorínos, está no Iti- het blickende ateentje; Spieghel der ewlger salichheit; Tractaet
nerarium mentis in Deum, de S. Bonaventura, nas Reve- ' van âen Hke der ghelieven; Boec der hoechster waerheit;
Boec van seven trappen in ien graet der gheesteliker mtnnen;
lationes coelestes, da mística sueca Birgitta (f 1373), nas Boec van den gheesteliken tabernacule, etc.
Revelations oí Dtvine Love (c. 1373), da mística inglesa Edições: Obras, Gent, 1860; De chierheit der gheeateliker Bru-
Juliana de Norwich. Já é lugar-comum entre os grandes locht, Amsterdam, 1917.
V. A. Van Otterloo: Johannes Ruysbroeck, 3,* ed. Amsterdam,
místicos alemães ( e ), Heinrich Seuse ( | 1366), Johannes 1896.
M. Maeterllrick: Uornement des nocet spirituetles âe Ruys-
broeck VAdmirable. Bruxelles, 1908.
B) M. Preger: Geschiehte der deutschen Mystik im Míttelatter.
A. "Wautier d'Aygalllere: Ruysbroeck VAdmirable. Paris, 1923.
3 vols. Leipzig, 1874/1893. (Não existe obra definitiva sabre
M. d'Asbeck: La, mystique de Ruysbroeck VAdmirable. Paris, 1930.
Meister Eckhart.)

1
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*
376 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 377

quase criança, com o menino divino no colo, no trono ce- própria Idade Média ainda não admitira. O realismo "sans-
leste; anjos servem e tocam harpa, e ao fundo, pelas ja- phrase", medieval, é o ponto de partida. Um Joselyn de
nelas, vê-se a paisagem flamenga, com campos e prados, Brakelond ( u ) , monge de Bury St. Edmunds, descreve a
cidades e castelos, e o horizonte infinito dos céus. história dos frades laboriosos do seu convento com rea-
Ruusbroec foi grande mestre. Em Groenendael, os seus lismo tão ingénuo e minucioso que a gente acredita ler
discípulos fundaram um centro de vida religiosa sem com- um tratado de economia doméstica medieval; Carlyle fi-
promissos formais com qualquer regra monástica, e Geert cou impressionado, citando Joselyn, em Past and Present,
de Groote van Deventer (f 1384), o maior daqueles discí- como testemunha dos benefícios da organização patriarcal
pulos, é considerado o fundador da congregação livre dos da sociedade. U m dos senhores desBa sociedade patriarcal
"Irmãos da vida comum", que estabeleceu as suas casas e é Villehardouin ( 1 2 ), cavaleiro feudal e salteador nas es-
bégainages em toda a parte, nos Países-Baixos e na Re- tradas reais; è muito diferente do monge inglês, mas des-
nânia. E n t r e esses adeptos da "devotio moderna" nasceu creve da mesma maneira a conquista traidora de Bizâncio
aquele livro latino, a Imitado Christi, que a tradição atri- pelos "cruzados": homem prático, devoto como os outros t
bui a Thomas Hamerken van Kempen ou Thomas a Kem- cruel como eles. Villehardouin encarna um aspecto do
pis (f 1471), e ao qual Matthew Arnold chamou "the most
feudalismo; o outro está encarnado em Sire de Joinvile
exquisite document after those of the New Testament, of
( I S ) , biógrafo do santo rei Luís de França: o patriarca-
ali the documenta the Christian spirit has ever inspired
— the Imitatio Christi", E n t r e os irmãos da "devotio mo- 11) Joselyn de Brakelond, c. 1200.
derna" criou-se, naquele mesmo tempo, aquele que devia Chrontca,
reunir a independência religiosa de um místico holandês Edições por T. Arnold, London, 1890, e por H. E. Butler, Oxford,
A emoção lírica e erudiçlo clássica de um Petrarca nórdico 1949.
T. E. Tomlin: Monastic and Social Life in the Twelfth Century
do século X V I : Erasmo. in the Chronicle of Jocelyn de Brakeloná. London, 1844. (Fonte
de Carlyle.)
O expressionismo fantástico do "gótico decadente" T. Arnold: Memoriais of St. Edmunã's Aboey. London, 1890.
12) Geoífroy de Villehardouin, c. 1165 - c. 1213.
sabe fazer os seus compromissos com o mundo real; os con- Edição da Conquête áe Constantinople por Bouehet, Paris, 1892.
temporâneos de J a n van Ruusbroec têm todos "grand amor Ch.-A. Sainte-Beuve: Causeries âu lundí. Vol. IX.
de las mujeres" e "facíen grandes yantares", como o seu A, Debldour: Les chroniqueurs: Villeharãoutn, Joinville. Pa-
antípoda entre os padres, o Arcipreste de Hita. Mas não rla, 1688.
E. Faral: "Geoífroy de Villehardouin". (In: Revue Historique,
souberam dominar essa realidade. Chaucer é um caso ex- 177, 1836.)
cepcional. Quando os góticos pretenderam fazer arte rea- 13) Jean, 8ire de Joinville, 1224-1317.
lista, caíram <em grosserias enormes ou em fantasmagorias Vie de saint Louis: comment saint Lowis gouverna tout son
temps selon Dieu et selon VEglise, et ttt grandes chevaleries *t
diabólicas, à maneira de Hieronymus Bosch. O máximo de ses granis falts.
realismo possível era o relato, sem intervenção intencio- Edição por H. Longnon, Paris, 1936.
nal da imaginação; ao conto de Bxuxascio. corresponde, no Ch.-A. Sainte-Beuve: Causeries da lundi. Vol. V m .
A. Dehidour: Les chToniqueurí: Villehardouin, Joinville. Paris,
Norte, a crónica. Na historiografia, emEõra primitiva, aca- 1888.
ba o domínio da alegoria. G. Paris: "Btude sur Joinville". (In: Histolre littéraire de la
Mesmo assim, o realismo da crónica "gótica" permite France. Vol. XXXn.)
intervenções fantásticas que o realismo dos cronistas da A. Foulet "Notes sur la 'Vle de Saint Louis'". (In: Romania,
66, 1932.)
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378 OTTO M A R I A CARPEAUX H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL - 379


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lismo benevolente dos costumes, a religiosidade sincera, acreditaram nas suas histórias de "milhões e milhões", zom-
sem exaltação mística, e a simplicidade do homem dos cam- baram do "Messer Milione". O aparente exagero provocou
pos, deslocado entre as maravilhas estranhas do Oriente, até a paródia. J e a n d'Oútremeuse, cidadão de Liège, poe-
dão como resultado a imagem perfeita do cavaleiro cristão tastro e autor de uma lamentável Geste de Liège, no estilo
tal como o romantismo o irá sonhar. Mas nada é inventado,
das gestes francesas, escreveu uma Voyage d'Outre-Mer,
idealizado. Reflete-se na realidade o idealismo dessa alma
atribuindo a um cavaleiro inglês, Sir J o h n Mandeville,
simples, sem pretensões literárias, e que se caracterizou
morto em 1372, o relato de uma viagem fantástica à índia
a si mesma pelas palavras finais da sua obra — a citação
.e à África, onde descobrira as gentes mais estranhas, mes-
é um achado de Sainte-Beuve: " E t ainsi que l'écrivain
quí a fait son livre et qui l'enlumine d'or et d'azur, enlu- tiços de homem e animal, e mil outras maravilhas inéditas,
mina ledit roi (saint Luis) son royaume de belles abbayes chegando até às portas do paraíso. Era uma geste geo-
qu'il y fit." E Sainte-Beuve conclui que, então, "Dieu était gráfica, como o Roman d'Alexandre, mas, no fundo, um
physiquement présent, le monde semé d'obscurités, le ciei romance burlesco. O estranho é que esse livro, traduzido
au-dessus ouvert et peuplé de figures vivantes", porque a para o inglês como The Voiage and Travailé òf Sir John
fé em Deus era muito concreta, mesmo realista. Maundeville, Knight ( 1 6 ), foi considerado como crónica ve-
A intervenção da imaginação fantástica começa com rídica e teve sucesso imenso, nutrindo a imaginação geo-
o catalão Ramón Muntaner ('''), cronista das grandes con- gráfica e antropológica de muitas gerações, sendo traduzi-
• •

quistas da casa de Aragão, de Maiorca até Atenas. É como do para o italiano, latim, holandês, alemão e tcheco; o rea-
se a luz mediterrânea o deslumbrasse; a crónica torna-se lismo aparentemente exato das restrições de coisas impos-
epopeia de façanhas de cavaleiros andantes. Muntaner não síveis dá a impressão de ser o seu autor u m precursor de
é menos ingénuo do que os franceses; mas perde o senso * -'•'•rS Defoe e Dickens, ou então de Jules Verne. Durante sé-
da realidade, é quase romancista, no sentido de romanesco. culos, Mandeville ficou nos anais da história literária como
É contemporâneo do famoso Marco Polo ("•), do veneziano o Marco Polo inglês; só em 1886 se descobriu que "John
que seguiu os caminhos dos missionários franciscanos até Mandeville" nunca existiu.
na China; de volta, descreveu, em língua francesa, as coi-
sas que nunca um cristão havia visto, a Pérsia e a China, A época era dos disfarces fantásticos. A aristocracia
Burma e o Japão, Sião e Java, Ceilão e as estepes dos mon- feudal, mortalmente ferida pelas modificações de ordem
góis; e sabia também contar coisas da Abissínia e da Si- social, vivia num pitoresco carnaval de torneios. Pelo
béria. Os venezianos, comerciantes espertos e cépticos, não

14) Hainón Muntaner, c. 1265-1336. 10) The Voiage and Travatle o/ Str John Maundeville, Knight (1419).
Edição da Crónica por J. Coroleu. Barcelona, 1886. A atribuição do origina] francês a Jean d'Outremeu» (1338-1400)
A. de Boíarull: Ramón Muntaner, guerrero y cronista. Barce- '. não está fora de duvidas possíveis.
lona, 1883. Edição por J. Ashton, London, 1887.
16) Marco Polo, c. 1254-1324. A. Bovenschen: Untersuchungen ueber Johann von MandevSe
Edição do Livro ãe Marco Polo por O. Pauthler, Paris, 1865; edi- und die Quellen $einer Rel&ebeschrelbung. Berlln, 1888.
ção inglesa anotada por H. Yule, 3.* ed., 2 voU., London, 1903. M. Letts: Sir, John Maundeville. The Man and His Book. Lon-
G. Danielli: Marco Polo. Roma, 1941. don, 1949.

-
3IK> OTTO M A R I A CAHPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 381

menos assim parece nas crónicas de Jean Froissart ( 1 T ), celer de Castela, é humanista; leu com proveito os histo-
porque esse escritor habilissimo só viu a superfície pito- riadores romanos. Lívio, a quem traduziu, é o seu modelo.
resca dat coisas. Na Biblioteca Municipal de Breslau con- Figura e época do terrível rei Pedro, el Cruel, acharam
serva-se um manuscrito das suas crónicas, com miniaturas em López de Ayala um historiador de compreensão psico-
maravilhosas do pintor flamengo David Aubert: é o reper- lógica e que sabia tirar dos fatos um relato altamente dra-
tório mais rico de imagens da vida medieval. No texto de mático. Só não compreende o sentido das lutas com os
Froissart, as figuras do pintor vivem, falando, agindo, per- portugueses, em Aljubarrota; é, como Froissart, homem
sonificando a época dramática das guerras seculares entre medieval, incapaz de entender motivos políticos. O grande
a França e a Inglaterra. Mas Froissart não consegue tra- historiador de Aljubarrota é o português Fernão Lopes
çar os contornos firmes das personagens de Shakespeare ( 1 B ). Reúne à ingenuidade encantadora de um Joinville a
nos dramas históricos que tratam a mesma época. É belga; escrupulosidade historiográfica de um López de Ayala e
tem, como todos os belgas, o génio da pintura. Os motivos o colorido pitoresco de um Froissart; a história de Inês de
psicológicos não lhe importam, nem os fins objetivos da Castro, na Crónica d'El-Rei D. Pedro, basta para revelar
guerra. Êle mesmo está indeciso entre os partidos, é uma um grande escritor. Mas Fernão Lopes tem uma grande
espécie de correspondente de guerra a serviço dos grandes, vantagem sobre os seus precursores: a luta de Aljubarrota,
que pagam para verem glorificadas as suas façanhas. Frois- o seu tema na Crónica d'El-Rei D. João, tem sentido na-
sart não mente; mas nem sempre é capaz de dizer a verdade. cional e social. É a luta de uma burguesia, em favor da
U m novo realismo, mais digno de confiança historio- preservação da independência nacional do Estado. Pelo
gráfica, principia com os cronistas ibéricos; os descenden- tema não menos d o que pela arte, é Fernão Lopes, segundo
tes do Cid não perdem o senso da realidade, que começa Southey, "the greatest chronicler of any age or nation".
a vencer a imaginação quando as transições sociais se apro- A posteridade preferiu Philippe de Commynes ( 2 0 ),
ximam do fim. Pêro López de Ayala ( 1N ), grande e chan- sem empregar superlativos; superlativos não convêm ao
17) Jean Froissart. 1337 - D. 1410.
EdiçOes das Chroníques por J. B. M. Kervyn de Lettenhove, In: 19) Fernão Lopes, c. 1380 - o. 1460.
Oeuvres completes de Froissart, 29 vols., Bruxelles, 1870/1877, e Crónicas â'El-Rey D. Joam, d'El-Rey D. Fernando, á'El-Rey D.
por S. Luce, 11 vols., Paris, 1869/1899. Pedro.
J. B. M. Kervyn de Lettenhove: Froissart. Êtude littêraire sur Edição da Crónica d'El-Rey D. Pedro por L. Cordeiro, 4.» ed.,
le XlVe siècle, Bruxelles, 1857 ("standard work"). Lisboa, 1895.
Ch.-A. Salnte-Beuve: Causeries du lundi. Vol. IX. Edição da Crónica â'El-Rey D. Joam por A. Braamcamp Freire
A, Debidour: Les chroniqueurs: Froissart, Commines. Paris, 1893. Lisboa, 1915.
M, des Ombiaux: Froissart et le oénie du Hainaut. Bruxelles, A. F, O. Bell: Fernão Lopes. Oxford, 1921,
1935. E. Prestage: The Chronicles of Fernão Lopes and Qomet Eannes
M. Wilmotte: Froissart. Bruxelles, 1942. áe Zurara, Watford, 1928.
18) Pêro López de Ayala, 1332-1407. Hernâni Cidade: Lições de Cultura e Literatura Portuguesa. Vol.
Crónicas de Pedro I, Enrique H, Juan I, Enrique III. I. 2.a ed. Coimbra, 1943.
Edição: Biblioteca âe Autores Espaúoles, vols. LXVI, LXVlli. 20) Philippe de Commynes, 1445-1511.
M. Diass de Areaya: Don Pêro Lopes âe Ayala, sa estirpe, su casa, Mémoíres, edit. por Calmette Durville, 3 vols,, Paris, 1924/1926.
vida y ODTOS. Vitoria, 1900. Ch.-A, Sainte-Beuve: Causeries du lundi. Vol. I.
01. Sánchez Albornoz: "El Canciller Ayala, historiador". (In: A, Debidour: Les chroniqueurs: Froissart, Commines. Paris, 1893.
Humanitas, Revista de la Facultad de Filosofia y Letras de Tu- J, Bastiu: LeS Mémoíres de Philippe de Commynes. Paris, 1944.
cumán, 1/1, 1953.) G. Charlier: Commynes. Paris, 1945.
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•M: OTTO MARIA CARPEAUX * *>'' HISTÓRIA DA LITERATUBA OCIDENTAL 383
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mais seco entre os cronistas medievais; enquanto se pode • Qualquer manual basta para retificá-la. Infelizmente, os
dizer que Commynes é medieval. É um observador crítico', medievalistas mantinham esse conceito errado com grande
obstinação, acreditando que aquela paz social na paz reli- • •:
psicólogo cruel; não admite motivos de agir senão razoá-
veis, e os homens medievais da sua crónica, os cavaleiros giosa fosse a maior glória dos tempos medievais. Na ver-
e santos, parecem-lhe "loucos" e "doidos". Como homem dade, só uma Idade Média dilacerada por lutas de classe,
moderno, quer dizer, além da época da transição social, como todas as outras épocas do passado, é compreensível,
após a derrota do feudalismo, Coninrynes já não compreen- porque humana. A verdadeira glória da Idade Média é
de os motivos sociais, que os seus predecessores ainda não outra: das lutas de classes medievais nasceram oa princi-
haviam compreendido. Só conhece psicologia e politica: pios daq_garantias c o n s t Í t u c 'g n -gJ a -J a J[ftg r 4gjg pessoal, se
aplicação da astúcia diplomática para completar ou substi- bem que só em favor dos ígudaia, e o da soberania popular,
tuir a força física. Commynes ainda é bastante medieval embora só em favor dos príncipes contra a Igreja ou das
para sentir a imoralidade dos meios do seu herói Luís XI. cidades contra os príncipes. Toda a história medieval é
Por isso, moraliza e dá-se como pessimista. Mas esse pessi- uma história de lutas de classes, dos burgueses contra os
mismo fortalece-o na convicção de que coisa alguma adian- feudais, dos artífices contra os burgueses, dos operários
ta, a não ser o sucesso, a vitória sobre o inimigo: "Qui a contra os artífices, dos camponeses contra os feudais, dos
le profit de la guerre, en a Phonneur." Commynes foi com- burgueses contra os camponeses. Essa luta multiforme
parado com Maquiavel. produzÍu_noyos géneros literários: uma literatura burguesa .•
Os cronistas nem sempre apresentam a verdade; e ahtifeudal, uma literatura camponesa, uma literatura bur-
quando a apresentam, não è a verdade inteira. Mas dispo- guesa anticamponesa ( 2 2 ). Toda uma literatura de oposi-
mos de elementos para completar-lhes as crónicas. Nos ção ou de oposições, que foi antigamente classificada como ^*!*"
arquivos europeus existe abundância de documentos que "anticlerical", guando pa motivos sociais estavam esçon-
permitem reconstruir a vida dos séculos XIV e XV. Às ve- didos em metáforas religiosas, ou então como "literatura
zes, são coleções coerentes, como as Paston Letters {"), satírica" ou "burlesca", quando o escárnio pubatítuj ao •
as mais de 1100 cartas que os membros da família Paston, fraco as armas da força.
em Norfolk, entre 1422 e 1509, mandaram ou receberam: tfm dos documentos mais fortes da literatura burguesa
panorama incomparável da vida inglesa da época e das é a segunda parte do Roman de la Rose ( 2 3 ), obra de Jehan
suas relações com o continente. Os documentos revelam de Meung, por volta de 1270. Essa obra extensa, de mais ou
aquilo que os cronistas silenciaram ou em que não repara- menos 18.000 versos, não tem nada da elegância amorosa
ram: as lutas de classe na Idade Média. da primeira parte; ao contrário, é seca, didática; muitas
A unidade religiosa da Europa medieval produz as vezes, grosseira e obscena. Apresenta-se como continua-
aparências de paz social entre ás classes. Essa ideia ro- ção da primeira parte: a conquista de Rose é levada a
mântica de uma Idade Média em que senhores, burgueses cabo. Mas o que importava ao autor eram os discursos de
e camponeses estavam de mãos dadas, passando a vida a dame Raison sobre a arte de viver, de Ami sobre o estado
cantar hinos, é tão antiquada que não vale a pena discuti-la.
32) F. Tupper: Types of Sacietp in Medieval Literature. New York,
31) Ediçfio pbr J. Gaírdner, 4 vols., LOndon, 1872/1901. 1926.
H 8. Bennett: The Pastons aná their Englanã. Cambridge, 1932. 33) Cf. nota S.

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38* OTTO M A R I A CARPBAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 385

desnaturai em que se encontra a sociedade, de dame Na- ontologia, todo o sistema medieval das ciências. Nicholas
ture sobre o sistema do mundo. As opiniões de Jehan de Oresme (f 1382), bispo de Lisieux, prepara, em Deáifior-
Meung, expressas com grande vigor polémico, são bastante mitate qualitatum e no Traité du ciei et du monde, os ca-
radicais: adepto de uma teoria nominalista do direito na- minhos da física de Galileu e da astronomia de Copérnico;
tural, explica as origens do poder monárquico pela eleição e no Tracíatus de origine, natura, jure et mutationibus mo-
do mais violento entre os violentos ("Un grand vilain en- netarum apresenta uma teoria da moeda e da inflação. Mar-
tre eux é l u r e n t . . . le firent prince et seigneur"); as ori- silius de Pádua, reitor da Universidade de ParÍB, expõe em
gens da propriedade pela usurpação dos poderosos ("Main- Defensor pacis (1324) a teoria da soberania do povo e exige
te fois s'entrecombattaient, / E t s'enlevèrent ce qu'ils pu- a separação entre Estado e Igreja. Um centro do nomina-
rent") ; as origens da aristocracia feudal pela acumulação lismo foi o Merton College, em Oxford, onde WiUiam of
do capital ("Lors amasserent les trésors, de pierres et Heytesbury (f 1372), o "Maximus Sophistarum", educava
d'argent et d ' o r . . , De fer dur forgèrent les armes"); e gerações de monges revoltados. De Oxford saiu J o h n
Faux-Semblant, personificação do clero corrompido, defi- Wyclif ( 2 4 ), lutando contra abusos políticos, sociais e
ne a politica eclesiástica, nos versos: " J e suis prélat, je eclesiásticos, pedindo a expropriação dos bens da Igreja,
suis chanoine, / Tantôt chevalier, tantôt moine. .. / J e sais negando o dogma da transubstanciação, divulgando entre o
bien mes habits c h a n g e r . . . " As ideias científicas de J e - povo a sua tradução vigorosa da Bíblia. Os seus partidá-
han de Meung sabre o sistema do mundo não são menos rios, os "Lollards", revoltam a gente do campo.
radicais. Gaston Paris chamou-lhe "le Voltaire du Moyen Mas já não era preciso revoltar os camponeses. A
Age"; um Voltaire em que já existe qualquer coisa de recepção do Direito romano na Itália, na França, na Ale-
Marx, ou pelo menos de Rousseau. manha, introduzindo o conceito romano da propriedade,
Jehan de Meung exibe erudição considerável. Vive em modificou radicalmente a situação social; ou antes, san-
Paris, fora certamente estudante da maior universidade cionou a abolição sucessiva da pequena propriedade, trans-
medieval, e a sua grande admiração pelas ciências é exten- formando os camponeses em proletários rurais. As revo-
siva aos representantes delas: luções agrárias na Flandres, em 1328, e na França, em 1357,
estão em relação com isso. Na Inglaterra, o Direito roma-
" C e s t pourquoi pour noblesse avoir
no não foi aceito, fora das influências do Direito canónico
Les clercs, vous le pouvez savoir,
no Direito anglo-saxão e de certas influências formais na
Ont plus bel avantage et plus grand
legislação de Eduardo I I I . Mas, justamente na Inglaterra,
Que n'ont les seigneurs de la terre." a expropriação dos camponeses em favor do estabeleci-
Jehan de Meung é o primeiro representante da aliança en- mento de pastagens para criação de ovelhas era frequente;
t r e a burguesia e os intelectuais, daquela aliança que fará,
cinco séculos mais tarde, a Revolução Francesa. A Uni- 24) John Wyclif, c. 1324-1384.
versidade de Paris, aliás, está no tempo de Jehan de Meung De domínio divino: De civiU domínio; The Wi/clif Bible (c. 1352/
1389).
entre duas revoluções: entre a dos tomi&tas que introdu- Edição: J. Forshall e F. Maden: The WycUffite Verstons o} the
ziram, contra a vontade do bispo, a filosofia aristotélica, Holy Bible. 4 yols, Oxfoid, 1850.
e a dos nominalistas que revolucionaram, com a lógica e a H. B. Wortman: John Wyclif. A Studv of the English Medieval
Church. 2 vala. Oxford, 1926.
386 OTTO M A R I A CABPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 387

e quando o "Statute of Laborers" introduziu o trabalho for- A indignação dos camponeses contra os "clérigos", ser-
çado para o* "vagabundos", isto é, os expropriados, reben- vidores dóceis dos grandes, encontra-se com a indignação
tou em 1381 a revolução dos camponeses. E n t r e a revo- dos pequenos-burgueses contra o orgulho dos eruditos e
lução social e a revolução religiosa dos "Lollards" havia os truques dos advogados, produzindo-se uma estranha li-
certas relações. O produto da combinação era um socialis- teratura satírica contra os intelectuais. Um documento
mo religioso, do qual William Langland (2B) é o porta-voz. dessa literatura é a lenda, de origem judaica, de Marcolf
Sua Visão de Piers the Plowman é um grande poema ale- ou Morolf, homem simples mas manhoso, que venceu o sá-
górico, apresentando a visão como sonho, à maneira do .Ro- bio rei Salomão numa discussão meio erudita, meio ri-
ma/J de la Rose. Mas o autor não tem nada do francês. dícula. A versão original, o diálogo latino Salomo et Mar-
coJíus, foi parafraseada em todas as línguas europeias,
É homem do povo anglo-saxão, escrevendo em versos du-
sendo as versões mais conhecidas a alemã, Salmon urtd Mo-
ros, quase bárbaros, investindo com grande vigor polémico,
rolf, do século XIV, e a inglesa, intitulada Dyalogus or Co-
às vezes com a força das visões dantescas, contra os vícios
munyng betwixt the Wyse King Salomon and Marcolphas,
dos grandes, e também contra os vícios do povo. Tem
que foi, ainda em 1492, impressa em Antuérpia. Outra
qualquer coisa de Amos ou Oséias, dos profetas populares
amostra da oposição contra os "clérigos" é a farsa fran-
do Velho Testamento; assim como eles, recomenda como
cesa do Maitre Pathelin ( 2T ), na qual o espertalhão engana
remédio o amor a Deus e ao próximo. É um revolucioná-
ao seu próprio advogado.
rio cristão. Encontra eco longínquo entre os tchecos, cuja
De extensão enorme e história interessantíssima é a
universidade em Praga mantinha relações com a de Oxford.
literatura anticamponesa ( z *), nascida da repulsa do bur-
Petr Chelcicky ( íB ) é um anarquista eslavo, revolucionário
guês limpo e educado contra o homem grosseiro e sujo
religioso, democrata apocalíptico, que aterroriza os ricos
dos campos: a invasão das cidades por camponeses fugi-
e poderosos com a ameaça do último dia; a sua obra Rede
tivos, a resistência dos camponeses contra abusos das au-
da Fé será, quatro séculos mais tarde, uma das leituras pre-
toridades urbanas e, às vezes, o aparecimento de campone-
feridas de TolBtoi.
ses "nouveaux riches", constituem os motivos dessa lite-
ratura, cujos primeiros produtos jà aparecem no século
X I I I . Por volta de 1250 o alemão W e r n h e r der Gartenaere
36) William Langland, c. 1332 - c. 1400.
The Vtsion. of William concerning Piers the Plowman, (A obra descreveu, no poema Meier Helmbrecht, os costumes gros-
existe em três versões, A, B, C, muito diferentes. A atribuição seiros dos camponeses bávaros, e como um deles, que pre-
a Langland é Incerta.) tendeu tornar-se cavaleiro, encontrou fim lamentável. Na
Edição por W. W. Skeat, Oxford, 1886.
W. W. Skeat: The Vision of Piers the Plowman. Oxford, 1884. mesma época, o grande trovador alemão Neidhart von
J. J. Jusserand: L'èpopée mystique de William Langland. Pa-
ris, 1893.
J. M, Manly: "Langland". cm: The Cambridge History of English 27) Maitre Pathelin (Impresso em 1470). (O autor seria OulUaume
Literature. 3.' ed. Vol. II. Cambridge, 1930.) Alecls?)
O. Kane: Miããle English Literature. London, 19BL Edição critica por R. J. Holbroock, Paris, 1924.
R. J. Holbrook: Êtude SUT Pathelin. Princeton, 1917.
M) Petr Chelcicky, c. 1390-1480. L. Cons: Vauteur de la Force de Pathelin. Paris, 1928.
Rede da fé. — Edição por E. Smetanka, Praha, 1913.
O. Vogl: Petr Chelcicky. Praha, 1928. 38) D. Merlinl:' Saggio di rtcerche sulla sátira contro U villano.
F. O. Navratil: Petr Chelcidcy. Praha, 192S. Torino, 1894.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 389
388 OTTO MABIA CABPEAUX

Eeuenthal zomba, em poesias parodísticas, dos amores e Mas isso já é outra história, do século XVIII. Muíto
torneios entre os aldeãos. Por volta de 1400, um poeta suíço, antes, as classes cultas tinham encontrado motivo para,
Heinrich Wittenweiler ( 2 9 ), conseguiu produzir a obra em vez de zombar do camponês, invejar-lhe a vida pacífica.
mais vigorosa dessa literatura inteira: a epopeia herói-có- Nas Eclogues (c. 1513) inglesas, de Alexander Barclay
mica Der Ring, na qual as personagens da epopeia nacio- (1475-1552), existe ainda mistura estranha de mofa e idí-
nal alemã, do Nibelungenlieâ, aparecem como hóspedes lio ; mas Sannazzaro já havia criado o sonho da Arcádia, e o
numa boda de aldeia, seguindo-se briga enorme e san- homem rústico tornou-se herói de uma imensa literatura
grenta entre os camponeses e os gigantes; o poema, alta- idílica, no momento em que a palavra inglesa villain, sig-
mente humorístico e ao mesmo tempo de sabor fantástico, nificando "camponês", mudou de acepção, designando ago-
quase irreal, é uma das obras mais significativas desse "bar- ra "malandro"; em breve significará o cortesão ou ministro
roco nórdico". intrigante e traidor da tragédia elisabetana. Aristocrata
e camponês tinham trocado os papéis.
No século XV, o camponês grosseiro e imbecil é per-
sonagem permanente nas farsas que se representavam du- As lutas de classe, sociais e literárias, da Idade Média,
rante o carnaval: nos "Fastnachtsspíele" alemães, nos escondem-se atrás da aparente unidade religiosa. Mas essa
"Kluchten" holandeses, nas "sotties" francesas ( 3 0 ). "superestrutura" teve os seus efeitos literários, dos quais
o mais poderoso é a colaboração de todas as classes urba-
O camponês desempenha o mesmo papel em vários con-
nas na representação dos mistérios, das peças religiosas.
tos do Decamerone, A Nencia de Lourenço de Médicis é
A colaboração das classes corresponde, literariamente, a
uma das paródias mais finas, e até delicadas, do amor cor-
unificação das tendências góticas no teatro: do misticismo
tesão em ambiente rústico. Durante a Renascença, encon-
e do realismo. Aquele aparece no lirismo dos mistérios
tram-se numerosas obras de humorismo rústico: as Rime
franceses e italianos e na angústia dos mistérios alemães;
piactvoli, ds Alessandro Allegri, as farsas de Ruzzante,
este, sobretudo, nas cenas humorísticas dos mistérios in-
Andret Calmo e AHone, as Egloghe, da Accademia dei
gleses. As tendências encontram-se, principalmente, nas
Rozzi, em Siena, o famoso Coltellino, de Niccolò Campani,
cenas do diabo; e o diabo é o personagem de predileção da
ditto Strascino (f c.1533), os Villaneschi contrasti, de Bar-
literatura medieval inteira.
tolommeo Cavassico. O motivo do camponês que pretende
tornar-se aristocrata, volta na poesia macarrônica de Fo- O teatro medieval é de relativa uniformidade em toda
lengo; depois, com grosseria inédita, no Orlanâino (1540), a Europa. Mas a distribuição do género entre as diferentes
de Aretino; finalmente, em numerosas comédias do barr literaturas é muito desigual. A pequena Holanda é parti-
roço aristocrático, zombando das tentativas frustradas de cularmente rica em "Mirakelspelen"; um deles, Beatrijs
atravessar as fronteiras entre as classes da sociedade. Úl- ( 3 0 ), a história da religiosa que fugiu do convento, e que,
timo representante dessa estirpe ilustre de proletários des- quando voltou, arrependida, reparou que ninguém tinha
graçados é o Jeppe pa bergert, de Holberg. dado pela sua ausência, porque a Virgem a substituíra
em figura humilde — é uma das mais belas produções tea-
30) Heinrich Wittenweiler ou Wlttenwller: Der Ring (c, 1400).
Edls&o comentada por E. Wíessner. 2 vols. Leipzig, 1931/1939.
30) M. J. Rudwin: The Origín of the Germun Carnival Comedy. 30) Beatrijs, século XIV (atribuído a Gijsbrecht).
New York, 1Í20. C. C. Van der Graft: Marialegenden. Haarlem, 1918.
/'

HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 391


390 OTTO M A R I A CARPEAUX

trais da Idade Média, cheia de poesia. Na Espanha, que o Miracle de Théophile, de Rutebeuf, e a chamada Passion
criará mais tarde um poderoso teatro nacional, só é digno Didot do século XIV, em língua provençal, aparecem cole-
de nota o fragmento do Auto de los Reyes Magos, do sé- ções enormes: os 42 Miracles de Notre-Dame, do século
culo X I I I , além de notícias vagas de mistérios castelhanos XIV, enchem, na edição moderna, 8 volumes grossos, e o
e catalães. Mystère du Vieil Testament, do século XV, trata, nos 6
Os mistérios alemães ( 31 ) têm mais interesse religioso volumes da edição moderna, todos os acontecimentos da
do que literário. Quando, em 1322, se representou em Ei- história sacra do Velho Testamento. Finalmente, vêm
senach o Spiel von den zehn Jungfrauen, e o Conde Fre- obras de autores individuais: o Mystère de Ia Passion, de
derico de Turíngia, sentado entre os espectadores, ouviu Arnoul Gréban, 1452; outro de Jean Michel, 1486; e o
que nem a intercessão da Virgem conseguira que Cristo Mystère de Saint Lottis, de Pierre Gringoire, 1513. O tea-
perdoasse às "virgens loucas" da parábola evangélica, o tro religioso francês tem pouca força dramática; decom-
conde desmaiou, fulminado pela angústia religiosa, para põe-se em diálogos intermináveis, às vezes ricos em be-
morrer, poucos dias depois, em desespero. No Spiel von lezas líricas, como nas cenas famosas da Paixão, entre
Frau Jutten (1485), de Dietrich Schernberg, já se anteci- Cristo e a Virgem. Às vezes acreditamos ouvir a voz de
pam sentimentos de inquietação protestante e insatisfação Villon. O elemento cómico, tão bem desenvolvido nas far-
fáustica. O teatro religioso italiano ( B2 ), ao contrário, pa- sas francesas da mesma época, está rigorosamente excluído
rece literário demais; encontra-se até o pagão Lourenço dos mistérios. J á se prepara a separação exata do trágico
de Médicis entre os autores. E ' uma esceção honrosa o flo- e do cómico, que é de rigor no teatro clássico francês.
rentino Feo Belcari ( 3 3 ) ; as suas "rappresentazioni", como Os Mistérios ingleses ( 3B ) são quase em tudo o
Abramo ed Isacco, Annunziazione, Assunta, Giudizio, dão contrário dos franceses. O elemento humorístico é de pri-
testemunho da religiosidade sincera dos populares, que se- meira ordem, especialmente quando se trata dos pastores,
rão os adeptos de Savonarola. nas cenas de Natal, ou das tentativas inúteis dos diabos
O mais rico dos teatros medievais é o francês ( 3 4 ). De- de perturbar os acontecimentos da história sacra. As peças
pois das primeiras produções, entre as quais se encontram revelam notável força dramática. As coleções mais impor-
tantes são os 48 "miracle plays" de York (c. 1350/1440),
31) W. Stammler: Das religioese Drama des ãeutschen Mittelalters. as 32 peças do ciclo Wakefield (c. 1450), (também chama-
Leipzig, 1925.
das Towneley Plays, porque conservadas outrora em Tow-
32) V. De Bartholomaeis: Le orígini delia poesia ârammatica ita-
liana. Bologna, 1924.
33) Cf. "O Quattrooento", nota 27. 35) Edições: W. Marriott: A Collection o/ EnglUh Miracle Plays
34) Edições: Les miracles ãe Notre-Dame, por O. Paris e TT. Robert, or Mysteries, containinç the Dramas from th» Chester, Coven-
6 vols., Paris, 1876/1893; Le mystère âu Vieux Te&tament, por J. try and Totunelei* Seriei. Banel. 1838.
Rothschild e E. Picot, S vols., PaTis, 1878/1891; Le mystère ãe la Towneley Plays, ed, por G. England e A. W. Pollard, London,
Passion, de Arnoul Gréban, por O. Paris e G. Raynaud, Paris, 1897.
18T8. E. K. Chambers: The Medtwal Stage. 2.» ed. 2 vols. Oxford,
L. Petit de JulevlUe: Hlstoire du thêâtre en France au Moyen 1925.
Age. 4 vols. Paris, 1880/1886, {"standard work"). K. Young: The Drama of the Medieval Church. 2 vols. Oxford,
L. Cohen: Le théâtre en France au Moyen Age. 2 vols. Paris, 1933.
1928/1931. (Vol. I: Le théâtre retigteux; vol. II; Le théâtre pro-
fane.) H. Cralg: EnglUh Religioas Drama o} the JSiddle Age». Ox-
O. Franlt: The Medieval French Drama. Oxford, 1954. ford, 1955.
• • „ . .

392 OTTO M A B I A CARPEAUX


t

neley Hall, Lancashire), e entre as quais se encontram as


duas famosas Shepherd's Plays para Natal; e os Coventry
Plays, de 1468, com as duas peças para Corpus Christt, des-
tinadas à representação por alfaiates e tecelões. O teatro
medieval apresenta-se, ao mesmo tempo, como expressão
vigorosa da religiosidade e como obra de colaboração pa-
CAPÍTULO III
cífica entre todas as classes da sociedade.
Colaboração pacifica perturbada às vezes pelos ciú- O OUTONO DA IDADE MÉDIA
mes entre as corporações, e limitada, em todo o caso, aos
dias de festa. Ainda no século X V aparecem, a par dos
í ' T T 1 L A M B O Y A N T " chamavam antigamente os teóricos
mistérios, as "Moralités" e "Morality Plays", nas quais
-L franceses da arquitetura ao estilo gótico dos países
agem, como personagens alegóricos, as virtudes e vícios
borgonho-belgas no século XV. É o estilo dos imponentes
personificados; e, na ocasião de apresentar os vícios, entra
"hôtels de vi lie" em Bruxelas e Louvain, da igreja Saint-
logo a sátira social, acalmando-se apenas com a ideia de
Pierre, em Louvain, construções nas quais o ritmo orgânico
que, por fim, a Morte igualará a todos. A época, possuída
e algo esquemático das paralelas e ogivas góticas se dis-
da ideia da morte, sente-se decadente, crepuscular.
solve em rede de ramificações e rendas de pedra. Ê um
Um pedaço isolado dessa psicologia mórbida está con- estilo extremamente suntuoso, exibição orgulhosa de ri-
servado na mais singular de todas as peças dramáticas me- queza, emoldurando, como em relicários preciosos, os êx-
dievais: na peça holandesa Lanselot ende Sanderijn ( 3ti - A ). tases místicos de Roger van der Weyden, a devoção so-
Parece versão dramática de um romance de cavalaria; mas nhadora de Memling, as visões diabólicas de Hieronymus
às avessas. Sanderijn, a amante abandonada, não é grande Bosch e, no fundo do panorama, as inúmeras miniaturas
dama, mas uma criada, e, no entanto, capaz de sentir e ex- dos Livros de Horas e Breviários borgonheses e dos ma-
primir sentimentos nobres e elevados. Lanselot, o príncipe nuscritos de Valério Máximo e Froissart, nas quais cas-
e sedutor, este é uma alma perdida; e sabe disso. É um per- telos medievais olham do cimo das colinas sobre cidades
sonagem hamletiano. Aproxima-se, para empregar o termo góticas com as suas multidões apertadas de patrícios e ar-
de Huizinga, o "Outono da Idade Média". tífices, sobre campos, aldeias, sementeiras, ceifa e vindima,
festas de Natal e Páscoa, neve e sol, danças e forcas; e em
cima aparecem os sinais astrológicos que regem o ano, a

vida e a morte. Km nenhum outro tempo a arte conse-


guiu representar um quadro tão completo de vida elegante


e grosseira, exuberante e aventurosa, sensual e mística,
como a arte da época de Carlos, o Temerário, e Luís XI.
O estudo da documentação social e dos documentos li-
36A) Lanseloet en Sanderiín (séc. XTV). terários confirma só em parte essa impressão. J á estava
Edição, Haag, 1902.
J. Van Mierlo; "Het dramatisch Conílict In Lanseloet". (In: em decadência a riqueza realmente imensa das cidades fla-
Verslagen der Koninkl. Vlaamsche Academie, 1042.) mengas, ameçadas de perder o monopólio do comércio de
394 O T T O MAKIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 395

fazendas. Miséria lamentável reina nos campos, devasta- uma burguesia rica e insuficientemente culta. Pretendeu-se
dos pelas guerras, pelas epidemias e pela revolução social explicar assim o atraso dos países nórdicos em comparação
que penetra através dos muros das cidades e chega a des- com a culta burguesia italiana do mesmo século. Na ver-
truir palácios e conventos. As estradas reais estão cheias dade, o "flamboyant" é expressão de uma aristocracia feu-
de vagabundos, lixo humano das expropriações agrárias e dal que perdeu o fundamento do seu poder social, e que é
das renovadas guerras civis dos feudais. A corte de Bor- capaz de criar um sonho fantástico, maB incapaz de criar
gonha é o centro do último feudalismo, de luxo e orgulho um estilo literário.
espantoso, mas já condenado à morte pelo crescente poder
O fito fundamental é a crise agrária imediatamente
dos reis da França, pela futura monarquia absoluta. A
anterior à i grandes descobertas geográfica». Com essa crise
arte "flamboyant" é um grande sonho de evasão, destinado
— crise de comercialização doa campos — o feudalismo
a substituir a realidade terrível por epopeias de façanhas
perdeu o sentido. A expressão técnica dessa mudança é a
imaginárias, por idílios de inocência pastoril, por visões
modificação da arte militar pela pólvora e o canhão ( 2 ).
místicas. A literatura da época tem o mesmo objetivo; mas
Qualquer mercenário ou plebeu, capaz de manejar uma
não consegue atingi-lo. Com poucas exceções — exceções
arma de fogo, é agora mais poderoso do que o senhor mais
extraordinárias, porém — é uma literatura pobre, e atra-
ilustre; a bravura pessoal já não adianta. A democratiza-
vés dessa pobreza revela-se o que a arte não diz: uma
ção de uma arte tão cruel como a da guerra significa ple-
grande melancolia. Mas os homens do século XV são vio-
beização; a partir de então a brutalidade invadirá todos
lentos, sensuais, desmesurados, incapazes de desespero ou
os setores da vida. Mas o prestígio militar da aristocracia
de resignação estóica; com força pretendem apanhar a vida
está destruído, ao passo que o seu prestígio social, embora
que lhes escapa, e a sua grande obsessão é o medo de per-
inteiramente ilusório, se mantém de pé. A situação dos
dê-la para sempre: a ideia fixa do século é a morte.
feudais é como a dos aristocratas do século XIX, que já
O grande historiador holandês J a n Huizínga, ao qual perderam as fortunas, mas mantêm artificialmente seu an-
devemos a análise dessa época ( ' ) , definiu-a pela fórmula tigo standard de vida para não parecerem burgueses. É
insubstituível: "Outono da Idade Média". Verificou os "conspicuous consumption" sem dinheiro, ilusório como os
típicos estados de alma: o sonho do ideal de cavalaria; móveis preciosos e os vestidos ricos no palco. A vida da
o sonho de uma vida pacífica e idílica; e a obsessão da aristocracia feudal transforma-se em representação vazia.
morte. É um pessimismo profundo, sem força de renún- No maior centro feudal da época, na corte de Borgonha,
cia. Perde a realidade e substitui-a por uma vida de ima- Inventam o cerimonial complicado, que depois foi adotado
ginação, de brincadeiras sem finalidades. Essa atitude não na corte de Espanha e é conhecido como "etiqueta espa-
foi, em nenhuma época, a da burguesia, nem de uma bur- nhola". No fundo existe uma consciência pessimista, ex-
guesia decadente; e o "Outono da Idade Média" não pode
ser compreendido enquanto a sua exuberância artística e
pobreza literária forem interpretadas como expressões de 3) A explicação da queda do feudalismo pela evolução da arte mi-
litar é um expediente muito antigo da historiografia. Consiste
num paralogismo "post hoc, ergo propter hoc". A interpretação
D J. HulzítiÊa: De Heristij van de Miâdeleeuwen. 3." ed. Leiden, moderna, da técnica como arma da evolução social, In:
1928. (Traduç&o alemã: 2.» ed., Muenchen, 1928; tradução es- Oh, Oman: History oj the Art of War irt the Miâdle Ages. Lon-
panhola: Madrid, 1930.) don, 1928.
396 OTTO M A R I A CARPEAUX
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 397

primindo-se, umas vezes, em veleidades ascéticas, e, as mais


O romance de cavalaria, o romance de amor sentimen-
das vezes, em sonhos de evasão, em nostalgia de uma vida tal, a pastoral e a visão fúnebre, todas essas expressões do
mais autêntica, seja retomando os ideais da cavalaria, seja "Outono da Idade Média" não são fenómenos isolados da
retirando-se para uma Arcádia nos campos, longe das lutas história literária. O romance de cavalaria substitui o "ro-
absurdas dos torneios na corte. O ideal cavaleiresco tinha man courtois"; a matéria bretã fornece elementos substan-
duas possibilidades de expressão: o sonho de uma vida ciais aos romances de Amadis, e também ao romance sen-
guerreira, buscando aventuras para defender, em todas as timental-amoroso que deriva dos elementos ovidianos do
ocasiões, os princípios do cristianismo — é a transfigura- "roman courtois" e da Fiammetta. A pastoral é a inversão
ção do cruzado; ou então, o guerreiro nobre, buscando da "sátira" contra o "vilão"; e as visões fúnebres estão pré-
aventuras amorosas para praticar os requintes da galanta- formadas na literatura dos místicos. Também são manifes-
ria — é a transfiguração do trovador. E o sonho pastoral tas as analogias do romance de cavalaria com as obras ro-
substituiu a sátira medieval contra o "vilão", transfigu- manescas de Boccaccio, as do romance sentimental com o
rando o camponês rude em pastor de maneiras aristocrá- erotismo de Petrarca, as da pastoral com o Ninfale Fieso-
ticas; as atividades rústicas, na poesia pastoril, estão na lano, e as da visão fúnebre com a visão dantesca. No "Quat-
mesma relação com a vida camponesa real que o torneio trocento" contemporâneo correspondem-lhes a epopeia fan-
tástica de Boiardo, o lirismo de Giustiniani, a Arcádia* e
na corte com a guerra de verdade.
a predicação de Savonarola.
O meio soberano de expressão desses três tipos lite- O Amadis de Gania ( s ) tem uma história literária quase
rários —• o cavaleiro ideal, o galanteador ideal, o pastor tão complicada como o seu enredo. O texto espanhol de
ideal — é a alegoria. A alegoria do "flamboyant" tem fun-
ção diferente da alegoria medieval; não serve para in- 3) Romances de Amadis:
cluir fenómenos recalcitrantes num cosmo de valores Amadis de Gaula, texto espanhol de Garcl Rodriguez de Mon-
hierarquizados, mas para salvar da confusão de valores os talbo (1508). Edição: ' Biblioteca de Autores Espafioles, voL XL.
Lisuarte de Grécia (1510).
últimos ideais. A alegoria do "flamboyant" serve para dis- Palmerín ãe Oliva (1511),
farçar a realidade desagradável, para transfigurar a bruta- Primaleón ãe Greda (1512),
Amadis ãe Grécia, de Feliciano da Silva (c. 1530).
lidade em bravura, a sensualidade em amor e a pobreza em Don Florísel ãe Niquea (c. 1532; com continuações até 1BB1).
Arcádia. Só um fator da vida real não pode ser elidido Plaiir (1633).
por nenhuma alegoria: a morte. Daí a obsessão fúnebre da Palmerín de Inglaterra, texto espanhol de Miguel Ferrer (1547).
Edição: Nueva Biblioteca de Autores Espafioles, vol. XI.
época. Pretendem alegorizar até a m o r t e : nas "Moralités" Em língua portuguesa: Crónica do emperaãor Clarimundo (1522)
e "Moralíty Plays", a Morte personificada tem a sua fun- de João de Barros.
ção entre as virtudes e vícios personificados. Mas essa Theoí. Braga: História das Novelas Portuguesas de Cavalaria,
Porto, 1873.
função revela-se como papel de mandatário divino, resta- M. Menéndez y Pelayo: Origenes de la novela. Vol. I, Madrid,
belecendo a ordem na realidade confusa, igualando todos, 1905.
no final da peça. O século "flamboyant", cheio de ânsia H. Thomas: The Romance of Amadis of Oaule. London, 1912.
H. Thomas: Spanish anã Portuguese Romances of Chivalry.
de viver, não ousa olhar o inimigo principal, cuja sombra Cambridge, 1920.
sinistra cai sobre a vida inteira. G. J. Entwistlè: Arthurian Legend in the Literatures of the
Spanish Península. London, 1925.
m

598 OTTO M A R I A CABPEÀUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 399

Montalbo, de 1508, é tradução de um original português, tas vezes, quando a burguesia pretende imitar costumes
hoje perdido, mas já conhecido no século XV, ou mesmo aristocráticos, e isso é bem do século "flamboyant". Deste
antes, e atribuído a Vasco de Lobeira ou João Lobeira, sem modo, o elemento ibérico limita-se mais ao sucesso da
possibilidade de se identificar bem o autor. A dúvida cria obra, satisfazendo sonhos íntimos da alma espanhola, re-
outras dúvidas no que respeita à originalidade das nume- presentando para sempre certos ideais que nem Cervantes
rosas continuações e imitações do primeiro Amadis; da conseguiu extirpar. Se espanhóis e portugueses continuam
melhor dessas obras secundárias, o Palmeirim de Inglaterra, a brigar pela glória de ter criado o Amadis, temos aí a
existe, conforme o texto espanhol de Miguel Ferrer (1547), última aventura do grande cavaleiro andante; evidente-
uma tradução portuguesa de Francisco de Morais (1567), mente, a obra não pode ser tão enfadonha como a poste-
que sugere outras dúvidas quanto a um original português ridade acredita. Por certo o Amadis é hoje ilegível; mas
perdido. Enfim, a Crónica do Imperador Clarimundo, do quem já experimentou lê-lo? Estamos todos sob a impres-
historiador português João de Barros, ocupa lugar em se- são do julgamento de Cervantes, cujo ponto de vista tal-
parado, da mesma maneira que o Amadis de Grécia, de Fe- vez não seja o nosso. É até possível afirmar que a maior
liciano da Silva — e o resultado é uma luta homérica entre apologia do Amadis foi escrita pelo próprio Cervantes;
portugueses e espanhóis: cada uma das duas nações ibé- não pode morrer de todo um livro que foi a leitura prefe-
ricas atribui a si a glória de ter criado o livro que foi, de- rida de Dom Quixote. A última testemunha a favor de
pois da Bíblia, o mais lido de todos os tempos. Amadis é Unamuno.
Essa discussão, de grande interesse bibliográfico, per- Com efeito, Amadis de Gaula não morreu; continua as
de até certo ponto a importância quando se procede à suas aventuras com cavaleiros inimigos, feiticeiros e fadas,
análise da obra, ou melhor: daquele complexo de obras. As em castelos encantados e viagens perigosas, e continua
aventuras de Amadis com Oriana, Esplendián, castelos en- tudo isso no romance policial, que é um Amadis adaptado
cantados, feiticeiros, gigantes, anões, e t c , e t c , interminá- a exigências modernas pela composição mais concisa e o
veis como os romances-folhetins de Dumas pai (a com- estilo mais sóbrio, por assim dizer, técnico. A literatura
paração é de Menéndez y Pelayo), revelam-se como resul- inglesa já possui, há quatro séculos, um Amadis mais só-
tados de leituras assíduas dos romances arturianos, da ma- brio, mais novela do que romance, no sentido espanhol e
téria bretã. A r t u r e os cavaleiros da Távola Redonda são inglês dessas palavras. Por isso, a Morte d'Arthur, de Ma-
responsáveis pelas aventuras guerreiras; Lancelot e Gui- lory ( 4 ), nunca encontrou um Cervantes inimigo, e conti-
nevere, pelo elemento erótico; e o feiticeiro Merlin, pelo nua até hoje admirada e lida como a primeira grande obra
elemento fantástico, Amadis representa a última fase da
prosificação do "roman courtois". H á mais outras fontes.
4) Sir Thomas Malory, c. 1395-1471.
Os romances de Carlos Magno e dos pares da França for- Morte d'Arthur (impresso em 1485 por Caxton),
neceram muitos elementos; e existe nos romances de Ama- Edição do livro editado por Caxton, por A. W. Follard, 3 vols.,
dis até certo fundamento histórico: a vida dos cavaleiros London, I90O; edlcao do manuscrito original por E. Vinaver,
Oxford, 1B41.
ocidentais na Grécia bizantina, conquistada no século O. L. Klttredge: Who Wa» Sir Thomas Malory? Cambridge,
X I I I . O próprio estilo bombástico daquelas obras não Mass., 1897.
é especificamente ibérico: o "gongorismo" aparece, mul- W. H. Schoíleld: Chivalry in English Literature. London, 1911
E. Vinaver: Sir Thoma» Malorjf. Oxford, 1929.
^ /
/
/ HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 401
400 OTTO M A R I A CABPEAUX
O Cárcel de amor, de Diego de San Pedro ( 6 ), experi-
do romance inglês. É uma combinação das aventuras de
mentou algo do destino do Amadis: o livro, outrora muito
Lancelot e Guinevere com a Demanda do Santo Graal, com
lido, tornou-se ilegível. O uso de alegorias, a paisagem
a morte patética de A r t u r no fundo do panorama. Aos
estilizada à maneira da poesia bucólica, as intermináveis
ingleses, a obra foi sempre cara, pelo idealismo patriótico cartas de amor entre Leriano, encarcerado, e a princesa
que a distingue, distinção muito grande na época das ter- Laureola — tudo isso aborrece hoje. Impõe-se, porém,
ríveis guerras civis, que no século XV dilaceraram a In- uma analogia: há entre o Cárcel de amot e as sensualidades
glaterra. P o r isso, muita gente se espantou quando a per- grosseiras da época a mesma relação existente entre a Pa-
' :• sonalidade de Sir Thomas Malory foi melhor identificada: mela, de Samuel Ríchardson, e a comédia lasciva da Res-
era um nobre que costumava assaltar as pessoas nas estra- tauração inglesa; e Pamela também é um romance epistolo-
das reais. Mas só assim se explica a particularidade da gráfico. Quem sabe se ao Cárcel de amor não está prepa-
obra, entre evasionísmo de passadista e estilo sóbrio, téc- rada uma ressurreição tão surpreendente como a de Rí-
nico, contando sem eufemismos e sem os falsos psicolo- chardson, nos últimos anos, na Inglaterra? "Modernidade"
gísmos sentimentais que os imitadores românticos no sé- não lhe falta: o fim com o suicídio é, no século XV, es-
culo X I X acrescentaram. É uma obra bem inglesa. candaloso e inédito; influiu no amoralismo da Celestina.
Mas o futuro imediato pertenceu ao erotismo bucólico, com
Como modelo do romance de cavalaria da espécie eró- personagens reais, pouco disfarçados, à maneira da novela
tica e sentimental aparece a Fiammetta, de Boccaccio: é o de Pio I I ; na sociedade aristocrática de Nápoles, onde a
"missing link" entre o pvidianismo medieval e o erotismo Cuestión de amor de dos enamorados ( z ) foi escrita, desco-
espiritualista da Vita Nuova, e, por outro lado, o werthe- briu Croce os modelos dessa obra esquisita de um espanhol
rianismo, o sentimentalismo erótico do Cárcel de amor. anónimo.
Papel mediador também exerceu a novela erótica do gran- A oscilação indecisa entre o sentimentalismo erótico
de humanista Enea Silvio Piccolomini, mais tarde Papa e a sensualidade brutal é um traço característico da época;
Pio I I ( B ) : a Historia de duobus amantibus narra fatos que tanto na Borgonha e na Espanha como na Itália de Poli-
realmente aconteceram, disfarçando-se pouco os nomes ziano e Pontano. A síntese seria uma nova teoria do amor,
dos personagens históricos; essa circunstância situa a no- substituindo o ovidianismo obsoleto por nova doutrina,
vela entre a écloga virgiliana, que gosta de pseudónimos que daria direitos iguais ao corpo e à alma. Mas uma sín-
facilmente decifráveis, e o romance da paixão irresistível. tese assim, só a encontrará a lírica petrarquesca do século
Deste modo, a novela latina do humanista acrescentou ao
ovidianismo um pouco daquela melancolia virgiliana que 6) Diego de San Pedro, século XV.
é, por sua vez, precursora do sentimentalismo moderno. Cárcel de amor (c. 14B6, impresso em 1402).
Edição: Nueva Biblioteca de Autores Espafloles, vol. VII (por
Menéndez y Pelayo).
M. Menéndez y Pelayo: Origenes ãe la novela, Vol. I. Madrid,
5) Enea Silvio Ficcolomin (Papa Pio n>, 1405-1464. 1905.
Historia ãe doubus amantibus EuryaJo et Lucretía (1444). 7) Cuestión ãe amor de dos enamorados (1513).
W. Boulting: Aeneas Silviw, Pius II. Orator, Man o} Letter», B. Croce; Bi ún antico romarno spagnvoto relativo alia storia
Statesman, anã Pope. London, 1908. ãi Napoti, la "Cuestión de amor". Napoli, IBM.
C. M. Ady: Pius II, the fíumanist Pope. London, 1913.
402 OTTO M A R I A CAJLPEÀUX HlSTÓHIA DA LlTBBATUBA OCIDENTAL 403

X V I no neoplatonismo modificado de Leone Ebreo. O "Accident es amor e no sustança."


"flamboyant" debate-se entre as exigências físicas e as
A sua poesia é, como será a de Scève, um esforço de trans-
imposições espiritualistas; na península Ibérica mais do
formar o "accident" em "sustança", de salvar o que é fugi-
que em qualquer outra parte. As primeiras influências
tivo. As canções amorosas de Ausias March, grande se-
italianas produzem na Catalunha um petrarquismo que se
nhor aristocrático e sempre "prudente", são de certa frieza.
antecipa ao petrarquismo internacional do século X V I ; e,
Mas quando Teresa Bon, a amada, morreu, então, nas seis
por outro lado, influências orientais e do paganismo clás-
elegias Cants de Mort, March se tornou apaixonado. En-
sico inspiram ao ovidianismo medieval um novo ardor
tão, "Amor a mi descobre los grans secreta", e o moralista
sensual, que encontrará a sua transfiguração na Celestina.
severo — "cor d'acer, de carn e fust" — chega a profun-
Na Espanha do século XV há forte influência "tre-
dezas místicas, das quais Petrarca nada sabia. Chega a
centista". J u a n de Mena ( s ) , que fêz ainda um Homero
sentir em si "una força infinida", não quer submeter-se
romanceado, à maneira medieval, imita, no Labyrintho de
à lei geral, à morte, recusa até as consolações da religião:
Fortuna, as visões de Dante, colocando-as entre os arabes-
cos barrocos do "gótico flamboyant". O Marquês de San-
"Catolic so, mas la Pe no nVescalfa."
tillana imitará, no Infierno de los enamorados, Dante, e
no Triumphete de Amor, Petrarca. Na península Ibérica Diz isso entre rezas à Virgem, é homem medieval, místico
aparece o primeiro grande petrarquista das literaturas eu- do amor, como Dante; mas a sua mística excede todos os
ropeias, o catalão Ausias March (°) ; se a língua da sua re- limites, colocando-o perto do panteísmo. Não está tão
gião não fosse de divulgação tão restrita, êle já seria re- longe da Celestina como parece.
conhecido universalmente como o grande poeta que é, um Esta obra magna da literatura espanhola, verdadeiro
dos mais profundos da literatura universal. É poeta eró- milagre de "modernismo" no fim do século XV, não está
tico; mas não assim como o mundo imagina os enamorados. inteiramente isolada. Antecederam-na outras obras, de im-
É, antes de tudo, um intelectual, de vasta erudição aristo- portância muito menor, mas que também constituem pas-
télica, e principia com a confissão: sos significativos no caminho da libertação antimedieval
dos instintos. O Corbacho, de Alfonso Martínez de Toledo,
arcipreste de Talavera ( 1 0 ), também chamado Tratado con-
8) Juan de Mena, 1411- 145G. tra las mujeres 6 Reprobación de Caro Amor, é do tipo
La coronación; Labyrintho ãe Fortuna; Homero romanceado;
Cancionero. das sátiras dos clérigos medievais contra as mulheres; pre-
M. R. Lida de Malkiel: Juan ãe Mena, poeta áel prerrenacimíen- tende acabar com o amor profano para chegar ao puro
to espanol. México, 1950. amor de Deus. Procura, porém, inspiração no Corbaccio do
8) Ausias March, 1379-1459. Boccaccio desiludido, e, ultrapassando o modelo, o digno
Obras (.Obras de amors, ãe mort, morais) (primeira ediçáo,
Barcelona, 1543).
Edição crítica por A. Pagés, 2.» ed., 2 vols. Barcelona, 1922/1924.
J. Rubió y Ors: Ausias March y su época. Barcelona, 1879. 10) Alfonso Martínez de Toledo, arcipreste de Talavera, c. 1398 - c.
A. Rubió y Lluch: Ausias March y sv. obra. Barcelona, 1884. 1470.
A. Pagés: Ausias March et ses prédecesseurs. Essai sur la poésie El Corbacho; edlcfto por Pérez Pastor, Madrid, 1901.
amourev.se et philosophique en Catalogne aux XlVe et XVe M. Menéndez y Pelayo; Origenes de la novela. Vol. I. Madrid,
stècles. Paris, 1912. 1905.
,

404 OTTO MARIA CARPEAUX



HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 405
arcipreste revela conhecimentos surpreendentes das intimi-
dades femininas, não só das do vestuário, mas também das em torno dessa obra, e um deles é o sucesso imediato —
corporais. O sucesso da sua obra demonstra que não con- coisa rara, quando se trata de obras-primas. A primeira
seguiu inteiramente o objetivo de aborrecer os leitores. É edição foi publicada em Burgos, em 1499; e até 1550 pu-
a época na qual até um romance de cavalaria deve o su- blicaram-se nada menos que 43 edições em espanhol, 16 edi-
cesso às cenas menos elegantes, à maneira por que roman- ções da tradução italiana, várias traduções em francês, ale-
cistas modernos procuram apimentar as obras para au- mão, holandês; uma versão livre em língua inglesa é de
mentar as tiragens. É o caso do famoso romance Tirant lo 1530 e influenciou o teatro elisabetano. Outro enigma é
Blanch, do catalão Johannot Martorell í 1 1 ) , obra muitís- o autor. A edição de 1499 tem 16 atos; a segunda, de
simo extensa, mistura fantástica da crónica catalã de Mun- 1501, dá a entender que o primeiro ato é de outro autor
taner com elementos de Lancelot, Tristão e Rei Artur, que não o dos 15 atos seguintes; e a terceira edição, de 1502,
obra de decadência da cavalaria, e q u e seria ilegível sem já apresenta 21 atos come legítimos. O autor chama-se
aquelas cenas de sensualidade brutalíssíma, que fariam co- Fernando de Rojas; seria êle autor apenas do primeiro
rar D . H . Lawrence e que causaram tanto embaraço ao ato, de 16 atos, ou de 21? Esse Fernando de Rojas, ba-
bom Menéndez y Pelayo; mas o grande crítico católico, jus- charel, judeu convertido ao cristianismo, é uma figura mis-
to como sempre, não pensou em negar as qualidades extra- teriosa. Mas o maior enigma de todos é a possibilidade de
ordinárias de romancista psicológico que se escondem en- surgir essa obra na Espanha do século XV. O amor entre
tre as páginas intermináveis e fastidiosas d» Tirant lo Calisto e Melibea, com o desfecho trágico, seria assunto
Blanch. medieval, à maneira de Tristão e Isolda, se não houvesse
certos elementos novos: a paixão quase louca desse amor,
Quanto à Celestina ( 12 ) — o verdadeiro título do ro- ao ponto de Calisto substituir pelo nome de Melibea o
mance dialogado é Comedia de Calisto y Melibea — a opi- nome de Cristo no Credo; a côr romântica das cenas amo-
nião é unânime: se não fosse o D. Quixote, seria o maior rosas, lembrando Romeu e Julieta; a aproximação dos
monumento da literatura espanhola. Há muitos enigmas amantes por intermédio da alcoviteira Celestina, persona-
gem de um cinismo tão ingénuo, e quase simpático, que for-
11) Johanot Martorell, f 1460. neceu o título corrente à obra; o pathos sublime das ce-
Tirant lo Blanch (1490). nas sérias, contrastando vivamente com o diálogo grosseiro
Edições: New York, 1004; Barcelona, 1B20, 1324. e saboroso da Celestina, dos criados e das prostitutas; en-
M. Menéndez y Pelayo: Orlgenes de la novela. Vol. I. Madrid, fim, o desfecho trágico com as suas explosões violentas
1905.
O. Mas: Estúdio crítico ãe la novela caballerezca Tirant lo de acusação contra o regimento divino. Não basta cha-
Blanch. Madrid, 1911.
E. Vaeth: Tirant lo Blanch. A Study of its Autorship, Sources
anã Historical Settmg. New York, 1918. M. Menéndez y Pelayo: Origenes de la novela. Vol. m . Madrid,
Dám. Alonso: 'Tirant lo Blanch, novela moderna". (In: Revista 1910.
M. Menéndez y Pelayo: Estúdios de critica literária. 2.» série.
Valenciana ãe Filologia, 1951.) 2.» ed„ Madrid, 1912.
13) Fernando de Rojas, 1465-1525? Aaorin: "LB Celestina". (In: Los valores literários. Madrid, 1913.)
Comedia de Calisto y Melibea {Celestina) (1499). F, Castro Guisasola: Las fuentes ãe la Celestina. Madrid, 1925.
Edições por R. Foulohé-Delbosc (Biblioteca Hispânica, vol. XII, R. Maeztu; Dan Quijote, Don Juan y la Celestina, 2.* ed. Bue-
nos Ayres, 1938.
Paris, 1902), e pela Hispanlc Society, New York, 19».
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 407
406 OTTO M A R I A CARPEAUX

O conflito não está resolvido, e a Comedia de Calisto y Me-


mar à Celestina "digna de Shakespeare" para explicá-la.
Também não basta a análise de fontes e influências. Ca- libea continua como uma das expressões máximas do es-
listo exprime opiniões neoplatônícas sobre o amor como pírito humano.
supremo bem; há muitas reminiscências clássicas, e as ce- A literatura bucólica inicia-se com uma atitude de sig-
nas dos criados lembram a comédia de Plauto. Por outro nificação social. Sempre que a aristocracia se sente amea-
lado, as cenas populares têm o sabor da sátira medieval; a çada, descobre as origens rurais do seu poder e faz uma
alcoviteira Celestina, que evoca o diabo para que êle a tentativa de aliar-se ao povo dos campos contra a bur-
ajude na sedução da moça, é descendente da Trotaconven- guesia. Poetas aristocráticos entram a fazer versos ao
tos do Arcipreste de H i t a ; a lógica do desfecho trágico,
gosto popular. Em Neidhart von Reuental, o mesmo afã
apôs a paixão ilegítima, corresponde à ética medieval; e
ainda inspirou a paródia. Charles d'Orléans ( 1 S ), o último
a atmosfera total da obra é vagamente sombria, "como a
dos trovadores, príncipe de fragilidade decadentista, que
do gueto judeu em que nasceu o autor".
fala do
Esta última observação sugeriu a Maeztu a interpreta-
ção das contradições pelo fato da conversão do autor: "Chastel de mon coeur,
Fernando de Rojas teria saído do judaísmo, porque de- Tour de ma d o u l e u r . . . "
sesperava da justiça de Deus para com o povo eleito, e
da Providência; começou a acreditar que as paixões, o di- e do "puis profond de ma mélancolie", deve o sabor fresco
nheiro e o acaso governam o mundo. Mas tampouco con- das suas baladas, vilanelas e rondós ao sentimento da
seguiu acreditar na nova fé, e o fim foi cinismo e cepti-
natureza, "de vent, de froidure et de pluie" reais. Rea-
cismo. Explicação engenhosa, mas fantástica, porque nada
lismo relativo, que nasceu da longa prisão na Inglaterra,
sabemos sobre o autor. A interpretação até está em parte
"en regardant vers le pays de France". J u a n de Mena, o
errada, porque o espírito da obra não é cínico nem céptico.
A alcoviteira Celestina não encarna o cinismo; é antes in- italianizante, imita canções populares. O Marquês de San-
génua, na convicção da necessidade da sua profissão; a tillana ( 1 4 ), grande aristocrata e grande erudito, homem
cena com o diabo serve para simbolizar a grandeza sôbre- de Estado e admirador de Dante, sabe idealizar a poesia
humana do Mal e para apresentar a bruxa como servidora popular, ao ponto de haverem passado ao domínio do povo
digna da divindade terrível e vingadora, que é, na Celestina, certas poesias suas, como "Después que nací" e "Moça tan
o Amor. A comédia é pagã, não no sentido de anti judai- fermosa".
ca ou anticristã, mas no sentido da ausência de qualquer
religiosidade "moderna". A Celestina não é produto de
conflitos íntimos do autor, mas do conflito geral da época, 13) Charles d'Orléans, 1354-1485.
entre a sensualidade desenfreada e a obsessão da m o r t e ; Edição por P. Champion, 2 vols., Paria. 1924/1928.
nestas duas forças, Amor e Morte, concentravam-se todos P. Champion: La vie ãe Charles &'Orleans, Paris, 1911.
14) Ifílgo Lopez de Mendonza, marquês de SantiUana, 1398-1458.
os sentimentos religiosos, e o sobrenatural cristão perver- Obras, edição com vida e comentários, por J. Amador de los
teu-se-lhe em paganismo fantástico. O século reconheceu- Bios, Madrid, 1852. Edição das Cauciones y âecires, com intro-
se nessa imagem, como as inúmeras edições demonstram. dujão de V. Garcia de Diego, Madrid, IS 13.
408 OTTO M A R I A CARPEATJX HISTÓRIA DA LITERATUBA OCIDENTAL 409

Um dos resultados mais notáveis desse amor às coisas é mais forte do que as reminiscências clássicas. Bernar-
populares é o Romancero espanhol ( l f l ). Os "romances vie- dim Ribeiro ( i e ) , sobretudo, é um grande poeta que os pró-
j o s " são fragmentos isolados das gestes espanholas, úl- prios portugueses nem sempre parecem apreciar devida-
tima fase da decomposição da epopeia popular castelhana. mente. Menina e Moça é uma obra algo confusa, mistura de
Deste modo, constituem verdadeiros ciclos: romanças do romance de cavalaria e de romance de amor sentimental.
Cid, romanças dos Infantes de Lara, romanças em torno "Das tristezas não se pode contar nada ordenadamente por-
de Bernardo dei Carpio e Fernán González, do rei D. que desordenadamente acontecem elas". E, em outro lu-
Pedro, o Justiceiro, e das lutas de fronteira com os mou- gar, a confusão explica-se pela ambiguidade do sentimento
ros; também existem "romances viejos" da matéria bretã e , amoroso: "que sento contra o que sento". Desta ambigui-
de Carlos Magno. Se têm algo em comum com as baladas dade nasce a poesia muito pessoal de Bernardim Ribeiro;
anglo-escocesas, é porque também existem em versões "li- os romances e cinco éclogas, insertos na novela — eis a
terárias", obra de poetas cultos. Nas edições sucessivas poesia mais pessoal, mais sincera do tempo, e bem do sé-
do Romancero, os "romances viejos" foram, enfim, total- culo XV, em que o autor nasceu: cheia de angústias quase
mente substituídos por artificiais romanças de gosto ama- românticas, e da mais fina sensibilidade psicológica. Cris-
disiano. O género se tinha aristocratizado, sem perder, tóvão Falcão ( 1T ) é o menor desses dois grandes poetas
aliás, a popularidade, e sem perder de todo o sabor de poe- menores. As agudas auto-observações psicológicas dão à
sia bárbara, "romântica". O Romancero é um dos produtos sua écloga Crisial aspecto mais moderno. Mas a apresen-
mais genuínos da literatura espanhola; é o grande reposi- tação como sonho, à maneira do Roman âe ia Rose, é bem
tório das virtudes cavaleirescas e das paixões dramáticas medieval. Bernardim Ribeirp e Cristóvão Falcão, embora
da raça, naquele característico metro trocaico que tantas homens cultos e do século XVI, pertencem espiritualmente
vezes rejuvenesceu a poesia ibérica. ao "gótico flamboyant", que neles, como portugueses, é um
"gótico choroso", de saudades medievais. A sua écloga
Entre os primeiros bucolistas destacam-se os portugue-
ses Bernardim Ribeiro e Cristóvão Falcão; neles, o espí-
. rito popular, ou antes, a expressão autêntica da raça, ainda 16) Bernardim Ribeiro, 1482-1552.
Menina e Moça (1564).
Edição: Obras de Bernardim Ribeiro e Cristovam Falc&c-, edit.
16) Romancero por Carol. Mlcliaélls de Vasconcelos, 2 VOIB., Coimbra, 1923.
Theof. Braga: Bernardim Ribeiro e os Bucolistas. 2.s ed. Porto,
Edições antigas: Cancionero, edit. por Martin Núncio, Antwer- 1897.
pen, 1550. M. Menéndez y Pelayo: Orígenes de ia novela, vol. I. Madrid, 1906.
Cancionero, edit. por Lorenzo de Sepúlveda, Antwerpen, 1551. Carol. Michaelis de Vasconcelos: vol. I da edição citada.
Cancionero general, edit. por Luis Sanchez, Madrid, 1300. M. Silva Galo: Bernardim Ribeiro- Coimbra, 1932.
Edições modernas: por A. Durán, Biblioteca de Autores Espa- A. Salgado Júnior: "A "Menina e Moça" e o Romance Sentimen-
fioles, vols. X, XI.
M. Menéndez y Pelayo: Antologia âe los poetas líricos caste- tal no Renascimento". (In: Labor, 1937-1B40.)
llanos, vols. V3II-X. 17) Cristóvão Falcão, c. 1512 - c. 1663.
M. Menéndez y Pelayo: "Tratado de los romances viejos". (In: Êgloga Crisfal.
Antologia de los poetas líricos castellanos, vols. XI-XII.) Ed. cl. nota 16.
R. Menéndez Pidal: El romancero espanai. New York, 1910. Carol. Michaelis de Vasconcelos: vol. I da edição citada na
R. Menéndez Pidal: El romancero. Teorias e Investigaciones. nota 16.
Madrid, 1928. M. silva Gato: Cristóvão Falcão. Coimbra, 1933.
410 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 411

ainda não é, como no século X V I italiano ou inglês, pura a Sátira dos Três Estados, de David Lyndsay ( 1 B ' A ), ata-
reminiscência clássica; obra da tristeza e não da evasão. que de um calvinista da primeira hora contra a Igreja Ro-
Mas cheio está o século XV de paráfrases do horaciano mana, revelou ainda em tempos recentes capacidade de
"Beatus ílle qui procul negotiis" e da popularíssima poesia interessar plateias modernas.
"Le Dit de Franc Gontier", obra de Philippe de Vitry ( 18 ) E n t r e as "Morality Plays" inglesas, existe uma obra-
elogiada por Petrarca, que já tinha escrito o seu Cármen prima extraordinária: The Summoning of Everyman ( 2 0 ).
Bucolicum: Mas esta é de origem holandesa. Atribui-se a Petrus Dor-
land ou Diesthemius, clérigo holandês do século XV, a au-
"Soubz feuille vert, sur herbe delítable toria da "moralité" Den Spyeghel der salicheyt van Elcker-
Les ru bruiant et prez clere fontaine lye, modelo da peça inglesa. "Elckerlyc", "Everyman", ê
Trouvay fichee une borde portable, "qualquer homem", o representante da Humanidade inteira.
Ilec mengeoit Gontier o dame Helayne Na hora da agonia, é abandonado por Família, Amizade,
Fromage frais, laict, burre f r o m a i g e e . . . " Poder, Riqueza, e pelos Vícios, que eram os seus amigos, e
* o Diabo aparece para apoderar-se da Alma. Então, são só
Nos Contrediz Franc Gontier, Villon dará a esse sonho as Boas Obras que salvam o Homem e o guiam para o
idílico o desmentido da verdade. trono de Deus. A emocionante peça, que em versões mo-
dernizadas ainda hoje impressiona a plateia, teve uma for-
No teatro do "gótico flamboyant" triunfou a alego-
tuna literária fora do comum: o humanista holandês Geor-
ria. As personagens bíblicas são substituídas por personi-
gius Macropedius (f 1558) tornou o motivo famoso em
ficações das virtudes e vícios, brigando pela alma do ho-
toda a Europa, pela versão latina Hecastus (1539); o mo-
mem, e o único personagem em carne e osso que intervém
tivo se reconhece na Trilogia das Barcas, de Gil Vicente,
nesses sermões dialogados, é o Diabo. São as "Moralités" e em El gran teatro dei mundo, de Calderón. Elemento
francesas, como Bien Avise, Mal Avise, Charité, Condam-
mation de Banquei, e as "Morality Plays" inglesas, de
maior força dramática, sobretudo as "Macro Plays" (da co- 19A) Sir David Lyndsay, c. 1490 - c. 1555.
leção Cox Macro) : Wisdom, Mankind, e a melhor de todas, Ane Pleasant Satyre o} the Thrie Estaitis (1540).
Edlç&o por D, Lalng, Edintmrgh, 1879.
The Castle of Perseverance ( 1 8 ). O génio inglês revelou já W. Murison: Sir David Lyndsay. Edinburgh, 1938.
então a capacidade de vivificar alegorias, capacidade que 20) Den Spyeghel der salicheyt van Elckerlyc (século XV).
obterá em Spenser e Bunyan os maiores triunfos. Na Es- Edições por H. Logeman, Gent, 1892, e por K. H. de Ra&í, Oro-
ningen, 1897.
cócia, os Morality Plays antes serviram para fins satíricos: The Summoning of Everyman (1029).
Edições por K. Goedeke, Hannover, 1B85, e por F. Sldgwick,
London, 1902.
18) Philippe de Vitry. 1291-1361. K. Goedeke: Everyman, Homulus und Hekastas. Hannover, 1865.
Cf. o estudo de Piaget em Romania, XXVTT, 1898. (Introdução da edlç&o citada.)
18) Edição das principais Morality Plays por F. J. Furnivall e A. W. J. Van Mierlo: "De díchter van Elclcerlyc". (In: Verslagen van
Pollard, Lotidon, 1804. de Koninkl. Vlaamse Academie, 1940.)
L. W. Cushman: The Devil and Vice in English Dramatic Lite- H. de Vocht: Everyman. A Comparative Stuãy, wíth Special Be~
ference to Eltkerlyc. (Materials for the Study of Old English
Iature before Shakespeare. Halle, 1900. Drama. N. Y. 20, 1947).

HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 413


412 OTTO M A R I A CARPEAUX

específico da versão inglesa é o humorismo de certas ce- ciai; somente a modifica e melhora de harmonia com a
nas tomadas de empréstimo a uma obra alemã que muito ética, como o demonstra a hierarquia fúnebre da Divina Co-
influenciou a literatura inglesa do século X V I e toda a li- média. E a mentalidade medieval tampouco conhece a
teratura europeia: o Narrenschifí, de Sebastian Brant ( S 1 ). ideia da dança ou de cortejo de todas as classes, encabe-
É a descrição da viagem de um navio cheio de loucos, que çado pela própria Morte, porque a tendência igualitária
personificam todas as classes e profissões da sociedade: é desconhecida. Antes de conceber a ideia da dança ma-
obra de um moralista-humorista, de sabor medieval, sátira cabra, na qual a Morte representa um papel justiceiro e
carnavalesca, grosseira e popular, e vigorosa. É uma obra consolador, precisava-se de uma espécie de revolução con-
que foi logo traduzida e divulgada na Inglaterra, onde en- tra a "injustiça divina" que condena à morte todas as
tão floresceu uma vigorosa literatura satírica. Seu maior .-"':',' criaturas. O monumento memorável dessa "revolução" é
representante é Skelton ( 2 1 " A ), panfletário de fortes re- uma obra anónima, em língua alemã, o Ackermann aus
cursos rítmicos que chegaram em nosso tempo a impres- Boehmen ( 2B ). O autor é, segundo estudos recentes, Johan-
sionar certos poetas modernos. nes Tepla, de Saaz, na Boémia; morreu-lhe a esposa em 1 de
agosto de 1400, e como as queixas do "lavrador da Boémia"
A aproximação entre Everyman e Narrenschifí expli-
contra a Morte, que lhe roubou a mulher, constituem o as-
ca porque o herói representativo da "Morality Play" é •
sunto do diálogo, a obra deve ter sido escrita pouco de-
um homem rico. A peça pretende demonstrar que até o
pois de 1400. A forma exterior é a dos "debates" metafí-
ricaço está sujeito à mesma lei geral do género humano,
sicos medievais; existem relações com a visão de William
que sempre é pecador. Pretende demonstrar o poder da
Langland, e a. ideia de negar a existência do Mal provém
Morte de igualar todos. A expressão máxima dessa ideia
do nominalismo. Contudo, não é uma obra medieval. Há
são as "danças" macabras.
no Ackermann muitas reminiscências de leituras clássicas;
O motivo é frequente na arte medieval. O grande mu-
o autor parece ter conhecido o Trionfo delia Morte, de Pe-
ral do cemitério de Pisa, o Tríonío delia Morte, é uma
trarca; e, antes de tudo, a língua já não é o alemão me-
versão algo diferente da dança macabra: a morte espera
dieval: o Ackermann é o primeiro documento literário do
todos, iguala todos. A ideia parece e foi sempre conside- .
alemão moderno que se estava criando na chancelaria im-
rada como tipicamente medieval. Mas isso não é exato.
perial de Praga. É uma obra de nobre resignação estóica.
No conceito medieval, a morte não elimina a hierarquia so-
O que distingue o Ackermann das danças macabras é
o tom nobre e até sublime da discussão, enquanto o tom
21) Sebastian Brant, 1458-1521.
Das Narrenschtff (1494) (a tradução inglesa é de 1509).
Edição por H. Koegler, Basel, 1913.
C. H. Herford: The Literaty Relations of Englanâ anã Germany 22) Der Ackermann aus Boehmen (c. 1400).
in the 16th, Century. Cambridge, 1886. Edições por A. Bernt e K. Burdaoh (In; Vom Mittelalter zur
M. Rajewski: sebastian Brant. London, 1944. Reformation, vol, m , p. I, Berltn, 1917), e por A. Huebner,
21A) John Skelton, c. 1460-1529.
Leipzig, 1937.
Colyn Cloute; The Boke af Phyllyp Sparowe.
K. Burdach: "Der Dichter dés Ackermftnn aus Boehmen und'
Edição por Ph, Henderson, London, 1949. <f
selne Zeit". (In: Vom Mittelalter zur Reformation, vol. Ill, 2A
W. H. Auden: "John Skelton". Un: The Oreat Ttidors. Lon- ed. Berlln, 1932,)
don, 1935.) E. Gierach: "Der Ackermann aus Boehmen". (In: Die deutsche
H. L. R. Edwards: Skelton. London, 1949. Uteratur des Mittelalters, Verfasserlexikon, vol. II, Leipzig, 1932.)
414 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA O C I D E N T A I 415

das obras posteriores é, de preferência, burlesco, ou pre- "Temps de douleur et de temptacion,


tende inspirar horror. Essa feição entre horror e burlesco Aages de plour, d'envie et de tourment,
é bem "gótico flamboyant"; do seu gosto de representa- Temps de langour et de dampnacion,
ção também nasceu a ideia de imaginar o cortejo como Aages meneur prés du d e f i n e m e n t . . . "
dança.
Deschamps, sem ter escrito uma dança macabra, repre-
No pórtico do "Cimetière des Innocents", em Paris, senta a obsessão com a morte, da qual nasceu o motivo.
um artista anónimo pintou, mais ou menos em 1424, a dan- Este já está claramente expresso no Sermo III de defuncti,
ça macabra, o cortejo de imperador e papa, reis e bispos, do seu grande contemporâneo Jean Gerson, místico e chan-
nobres e camponeses, burgueses e mendigos, velhos e jo- celer da Universidade de Paris. Depois, começa a carreira
vens, seguindo todos o caminho para baixo; uma série de literária da dança macabra (2i): de Georges Chastellain
versos explica as figuras da dança. O motivo encontra-se (1403-1475), francês da Borgonha, é o vasto poema Le pas
repetido em toda a parte. A primeira versão literária da de la movi; J o h n Lydgate, discípulo de Chaucer, escreveu
dança macabra parece ter sido um poema latino, hoje per- para o cemitério de St. Paul's, em Londres, os versos de
dido, assim como a versão francesa de Jean le Fèvre. Do The Daunce of Machabree (c.1433), que explicam as figu-
espírito e feição das primeiras danças macabras dá-nos ideia ras da dança; a dança general, castelhana, parece ser uma
bastante clara a poesia de Eustache Deschamps (~3), poeta das versões mais antigas e também mais sérias; tornou-se
burguês, rimador incansável, que acompanhou todos os famosa em toda a Europa La Dance Macabre, impressa em
acontecimentos a sentimentos da sua época com inúmeros 1485, em Paris, com gravuras em madeira, de Guyot; desta
poemas didáticos, morais, históricos, satíricos, líricos, trá- versão francesa deriva a Dança Macabra catalã, de Pedro
gicos e humorísticos, que enchem, na edição moderna, nada Miguel Carbonell (f 1517), e outras versões, alemães, ho-
menos de 10 grossos volumes. E esse polígrafo foi quase landesas, escandinavas. Enfim, The Dance of the Sevin
um grande poeta. Conseguiu, em momentos de inspiração, Deidly Synnis, do anglo-escocês William Dunbar ( 2 0 ), cha-
ser a expressão máxima da sua época: na balada sobre a
morte de Bertrand Du Guesclin, o verso 24) W. Seelmann: Die Totentaenze des Mittelalters. Leipzig, 1893.
A. Lasso de la Vega: La dansa ãe la Muerte en la poesia cas-
tellana. Madrid, s. d.
"Plourez, plourez, flour de chevalerie" L. Dimier: Les danses macabres et Viãée ãe la mort âans Vart
chrétien. 4* ed. Paris, 1908.
Fl. Whyte: The Dance of Death in Spain and Catalonia. Bal-
é como o epílogo fúnebre da cavalaria inteira. Deschamps timore. 1931,
lamenta os seus tempos, é pessimista: J. M. Clarke: The Dance of Death In the Miâdle Ages ani the
Renaissance. London, 1950.
25) William Dunbar, c. 1480 - c. 1530.
23) Eustache Deschamps, c. 1340 - c. 1410. The Thrissil anã the Bolse (1B03); The Dance of the Sevtn Deí-
Miroir âe Mariage; muitos outros poemas didáticos, 1200 baila- âly Synnis (1503/1508).
das, 200 rondeaux, etc. Lament for the Makarts.
Edições por J. SmaU, 3 vols., London, 1884/1893, e por W. M.
Edição por G. Raynaud, 10 vols., Paris, 1878/1901. Mackenaie, Edinburgh, 1932.
A. Sarradln: Eustache Deschamps, sa vie et ses oeuvres. Paris, J. Schipper: William Dunbar. Setn Leben unã seine Qedichte.
1879. BerUn, 1884,
E. Hoepfíner: Eustache Deschamps, Leben unâ Werke. Stras- R. A. Taylor: Dunbar, London, 1032.
bOUTK, 1004. J. W. Baxter: William Dunbar. London, 1952.
416 OTTO M A R I A CARPEATJX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 417

mado, com certa razão, o "Chaucer escocês"; natureza mui- último cavaleiro. O último cavaleiro era êle mesmo. Sabe
to rica, cheia de humorismo abundante e melancolia nos- disso, e não acredita no f u t u r o :
tálgica. Cidadão do século "flamboyant", época urbana,
sabe celebrar riquezas e glórias da cidade (In Honour of "Cualquiera tiempo pasado
the City of London), escrever alegres baladas rústicas, fué m e j o r . . . "
com muita mofa por dentro, fazer, para o Natal, um poe-
ma de suave religiosidade memlinguiana (Et nobis puer Mas não se lamenta da vaidade das coisas diste mundo,
natus est). E conhece a obsessão da morte, que nunca foi da morte das grandes damas e senhores que se foram ("Qué
expressa com tanta ingenuidade como nos versos que féz se hizo el rey D. J u a n ? " ) . Realista castelhano, como o
à memória dos seus amigos mortos — os outros poetas es- autor do Poema dei Cid, Manrique aceita a morte como
coceses — sob o titulo Lament for the Makaris: parte integral da realidade:

"The state of man does change and vary, "Todo ha de pasaf


Now sound, now sick, now blyth, now sary, por tal manera".
Now dansand mirry, now like to die:
A nobreza da alma de J o r g e Manrique transfigura a obses-
Timor mortís conturbat me."
são da morte em elegia, a elegia em filosofia estóica, dis-
E, assim, cada uma das 25 estrofes termina com o refrão tinguindo três "vidas" diferentes ( í T ) : a vida terrestre «
latino: "Timor mortia conturbat me." É o epílogo da época. efémera, a vida celeste e duradoura, e a vida imortal na
Mas William Dunbar não passa de um poeta secun- memória dos homens:
UVv» l l U U H í l I l J É

dário que encontrou, uma ou outra vez, uns versos sobre-


maneira felizes. O "gótico flamboyant" não teria encon- "Otra vida más larga : . •

••

trado a melodia digna da morte definitiva da Idade Média, de fama, tan gloriosa ,
senão na voz dos representantes das duas classes que mor- acã dejáis."
reram com ela: os cavaleiros e os clérigos. O cavaleiro:
Com este pensamento, Manrique já pertence à Renascença,
Jorge Manrique. O clérigo: François Villon.
que fêz da glória entre os homens uma deusa. O resto é
Jorge Manrique ( 26 ) acreditava escrever, nas Coplas a
erudição medieval e melancólica, moralizante, mas antes
la muerte dei Maestre D. Rodrigo, seu pai, o epitáfio do
estóica do que cristã. Manrique é, afinal, patrício de Lu-
36) Jorge Manrique, c. 1440-1419. cano e Séneca.
• • Cancionero.
Edições do Cancionero por R. Foulché-Delbosc, Madrid, 1912, e "Partimos cuando nacemos, andamos mientras vivimos,
por A. Cortina, Cláslcos Castellanos, vol. XCIV, Madrid, 1829.
M. Menéudea y Pelayo: Historia de la poesia castellana en la y llegamos
Edaâ Media, Vol. II. Madrid, 1913. ai tiempo que fenecemos;
A. Krause: Jorge Manrique and the Cult o} Death in the Qua- así que cuando morimos
tràcientos. Berkeley, 1937.
P. Salinas: Jorge Manrique o Tradíción p Originalidaã. Buenos descansamos."
Ayres, 1947.
V. Borghini: Jorge Manrique, la nua poesia, i suoi tempi. Gé-
nova, 1952. 27) Am. Castro: Curso de literatura eapafíola. Barcelona, 1933.

'
418 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 419

A poesia de Jorge Manríque parece um lugar-comum me- dro condenado, sabendo que a forca o espera, toma a liber-
trificado. Mas é um dos exemplos mais impressionantes da dade de exprimir aqueles lugares-comuns de maneira dife-
experiência de que um grande espírito é capaz de trans- rente, quer dizer, pessoal:
figurar o lugar-comum da tradição rotineira em poesia "Qui meurt a ses loix de tout dire."
altamente pessoal, permanente como os muros indestrutí-
veis de Ávila. Os seus instrumentos de transfiguração eram Diz tudo. Guardando certa fé ingénua, embora certo de
a sobriedade sonora da língua castelhana, a "contenance" que não será perdoado, pode redigir uma prece poética para
do cavaleiro, o estoicismo do espanhol. Substituídos esses sua velha mãe, e essa prece —
elementos pelo nervosismo do homem da grande cidade, "Dame du ciei, régent t e r r i e n n e . . . " —
pela devassidão do clérigo "goliardo", pela melancolia es-
pirituosa do génio derrotado, chega-se à poesia do pari- tem as cores dos vitrais da Sainte Chapelle. Ê uma expres-
siense François Villon ( 2 8 ). são suprema do culto da "Madonna". Quanto ao mais,
mulher — a que Villon conhece — é criada das tavernas —
François Villon ( 2B ) é o último goliardo: clérigo da
Universidade de Paris, degradado até à devassidão, men- " T o u t aux tavernes et aux f i l i e s . . . " —
dicância, embriaguez, roubo e assassínio. Homem medieval,
e, ao mesmo tempo — o maior milagre poético de todos os e a prostituta dos bordéis:
tempos — um homem inteiramente moderno em pleno sé- " E n ce bourdel oú tenons nostre estat".
culo X V : poeta nosso. A sua língua está cheia de resíduos
dos estudos de escolástica, e os seus assuntos são todos Na vida pastoril, idílica, não acredita, e ao Dit de Franc
conhecidíssimos, até lugares-comuns da poesia medieval: a Cotiei responde com o cruel Contreditz, afirmando:
Virgem, a mulher, a vida pastoril, a morte. Mas o malan- "II n*est trésor que de vivre à son aise."

A esse ideal materialista Villon sacrificou t u d o ; mas só


28) R. Burk&rtr "Leben, Tod und Jenseits bei Jorge Manrique und conseguiu "la dure prison, / Oú l'ai laissé presque la vie";
François ViOon". (In: L. Spítzer: Romanische Sttl-uná Litera-
turstudien. Marburg, 1931.) e com trinta anos de idade apenas—
29) François Villon, c. 1431/1432-depois de 1464. " E n l'an de mon trentiesme age
Le Pettt Te&tament (1456); Le Grana Testament (c. 1461/1462).
Primeiras edições: Paris, 1489, e por Cl. Marot, Paris, 1532. Que toutes mes hontes j'eus b u e s . . , " —
Edições modernas: por L. Thuasne, 3 vols., Paris, 1923; por L.
Dímíer, Paris, 1927; por A. Jeanroy, Paris, 1934; por A. Long- o esperam a forca e o vento que move caprichosamente os
non e L. Foulet, 4.a ed., 1932, cadáveres dos enforcados,
G. Paris: François Villon. Paria, 1901.
P. Champion: François Villon, sa vie et son temps. 2," ed. Paris, "Puis ça, puis la, comme le vent varie."
1933.
F. Desonay: Villon. Paris, 1933.
I. Siciliano: François Villon et íes thèmes poétiques âu Moyen Nesta extrema desgraça foi que Villon se dirigiu aos " F r i -
Age. Paris, 1934. res humains qui après nous vivez", para gritar: " J e crye
L. Cons. Ètat présent âes étuães sur Villon. Paris, 1936. à toutes gens merciz!" Parece até que foi atendido; não
E. F. Chaney: François Villon in fiis Enviranment. Oxford, 1948,
S. Battaglia: François Villon. Napoli, 1953. nos consta — existem os autos dos processos, com os por-
420 OTTO M A R I A CAHPEAUX

menores dos seus crimes — que tivesse realmente sido exe-


cutado; OB vestígios da sua vida posterior perdem-se no in-
certo. O que ficou, é a sua arte permanente: e esta afirma-
ção, é preciso tomá-la ao pé da letra. Villon é um dos
maiores artistas da língua francesa; alguns acham: o maior
poeta da língua. Os seus versos, estrofes e baladas, com
refrãos que se gravam indelevelmente na memória, estão
construídos com uma precisão verbal inesperada nesse
boémio. Até o Grand Testament, composição aparente-
mente confusa, está construído segundo certas normas da
arte poética da escolástica, para dar uma base firme a
, essa grande confissão, quase o diário, de uma vida disso-
luta. A "vontade de forma" de Villon é o seu instrumento
mais poderoso contra a ideia da morte, pela qual está obse-
diado:

" J e congnois mort qui nous consomme";


PARTE VI

"mort", que se encontra em todos os versos que deixou.


Uma experiência vital enorme está cristalizada na poesia RENASCENÇAT E REFORMA
de Villon, e êle mesmo zombou disso, enumerando, na
"Ballade des menus propôs", todas as coisas insignificantes
que conhecia bem, menos uma:

" J e congnois tout, fors que moy-mesme."

Não se conheceu a si mesmo. Por essa ingenuidade, o


grande artista tornou-se maior poeta. Talvez o maior poeta
de língua francesa. E isto não é pouco.
William Dunbar, J o r g e Manrique e François Villon
constituem um trio bem desigual. São unânimes num sen-
timento só, que o menor entre eles exprimiu com a maior
concisão: "Timor mortis conturbai me." Nisto são eles as
expressões mais completas da sua época crepuscular, do
"Outono da Idade Média". Dão testemunho da afirmação
de outro poeta: quem viveu para a sua época, viveu para
todos os tempos.
CAPITULO I

O "QVATTROCENTO"

. G IORGIO Vasari, o famoso biógrafo dos artistas ita-


lianos da Renascença, não é um guia muito seguro;
os historiadores das artes plásticas tiveram oportunidades
de retificar-lhe muitos erros. Contudo, a ideia geral da
sua obra dominou os séculos XVII e XVIII: o "Cinque-
cento", o século de Rafael e Miguel Ângelo, foi conside-
rado o mais alto cume da arte italiana e europeia; por
consequência, a época anterior, o "Quattrocento", ou sé-
culo XV, foi apresentada como fase de preparação ainda
primitiva. A autoridade de Vasari caiu quando Ruskin
e os pintores ingleses contemporâneos seus, que se cha-
mavam "pré-rafaelitas", descobriram a beleza superior da
arte "quattrocentista", "antes de Rafael". Em vez de Va-
sari, subiram na apreciação os Cortimentarii do grande es-
cultor Lorenzo Ghiberti 0 ) . Hoje, prefere-se até o "Tre-
cento": Giotto é considerado o maior de todos. Mas isso
não impede admitir que o mundo nunca viu reunido, du-
rante poucos decénios e em uma região limitada, tanto es-
plendor das artes plásticas como na Itália e particular-
mente na Florença do século XV.
"In illo tempore", Brunelleschi colocou em cima da
catedral de Santa Maria dei Piore a célebre cúpula, único
exemplo de uma obra de arquitetura que conseguiu modi-
ficar uma paisagem; o vale entre San Miniato e Piesole

1) Os Commentarii de Lorenzo Qhiberti (1381-1465) foram edita-


dos por Jul. v. Schlosser, Wien, 1912.
42-1 OTTO M A R I A CARFEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 425

não pode ser lembrado sem aquela cúpula. O próprio Ghi- Nessa fabulosa evolução artística, a imitação da Anti-
berti fêz para o Batistério, a dez passos da catedral, as guidade desempenhou papel muito menor do que se pen-
portas de bronze que resumem a história sacra e que Mi- sa. Mantegna é antes uma exceção, e os escultores da famí-
guel Angelo achou dignas de servirem como portas do lia Pisano, nos séculos X I I I e XIV, são mais arcaizantes
Paraíso. Donatello transformou os suaves milagres de S. do que todos os artistas do "Quattrocento" j u n t o s ; o sé-
Francisco em visões plásticas de fulgor naturalista, cheias culo conhecia, aliás, só um número reduzido de obras de
de violência barroca, enquanto Fra Angélico da Fiesole arte antiga que podiam servir de modelot. No fundo, a
viu abertos os céus com a Virgem e todos os anjos e san- arte do "Quattrocento" não £ um "renascimento" da An-
tos. Pisanello eternizou os perfis dos condottieri e car- tiguidade, e sim uma expressão italiana, "moderna"; * An-
deais da Renascença em inesquecíveis medalhas de bronze, tiguidade serviu só de subsídio, para justificar, pela t u a
autoridade, as inovações radicais. A arte italiana do "Quat-
e Luca delia Robbia encheu Florença de maâonnas-meninas
trocento", que hoje nos parece cultíssima e requintada,
e jesus-hambini em tijolo esmaltado. Nas igrejas acumu-
e que no século X I X inspirou entusiasmo máximo aos adep-
laram-se os quadros clássicos de Masaccio e os românticos
tos da "torre de marfim" pré-rafaelita, era no seu tempo
de Fra Filippo L i p p i ; em frente do Trionío delia Morte,
uma arte popular. Basta ler, em Ghiberti e Vasari, os tes-
no cemitério de Pisa, pintou Benozzo Gozzoli, sob pre-
temunhos do interesse vivíssimo com que o povo acom-
texto de quadros bíblicos, todas as alegrias da vida, e ao
panhou a vida artística. A arte do "Quattrocento" tem as
mesmo tempo, em Veneza, Giovanni Bellmi fêz aqueles suas bases na tradição gótica e no génio nacional italia-
quadros de altar dos quais Anselm Feuerbach dizia: "Be- no, sendo o estudo da arte antiga apenas subsidiário ( 2 ) ;
las mulheres e homens dignos, conversando em torno da e esse fato é da maior importância também para a historio-
Virgem, à sombra de laranjeiras, e, embaixo, um pequeno grafia literária. Encontrar-se-ão os elementos da tradição
anjo, tocando o violino; não sei de imagem mais comple- medieval e do realismo popular na literatura classicista e
ta da vida em felicidade." Nos mesmos poucos decénios, requintada do "Quattrocento".
Andrea Mantegna ressuscitou as glórias dos triunfos mi- Essa verificação afeta a interpretação usual da Renas-
litares da Roma antiga, Verrocchio dominou Veneza pelo cença. Contudo, as linhas gerais da tese de Burckhardt ( 3 )
gesto imperioso do condottiere Colleoni, na sua estátua podem ser mantidas, se se introduzem, de antemão, consi-
equestre; Melozzo da Forli representou o poder sereno dos derações de ordem sociológica ( 4 ) ; outras modificações
Papas; e Bottícelli viu Afrodite sair das ondas e todas as essenciais serão o resultado da análise da evolução lite-
musas dançando no bosque primaveril, perto de Florença, rária em língua italiana e em língua latina.
e Perugíno e Chirlandajo transformaram o próprio céu em
Florença celeste; Signorelli pintou os terrores do último 3) M. Dvorak: Geschichte der italienischen Kunst im Zeítalter der
dia, na catedral de Orvieto, e as festas de Pã nos jardins Renaíssance. Vol. I: Das 14. uná 15. Jahrhunãert, Muenchen,
dos Medíeis, e, enfim, apareceu Leonardo. Quatro séculos 1927.
3) Jacob Burckhardt: Die Kultur âer Renaíssance in Italien. (Inú-
depois, um artista, após ter lido Ghiberti, dizia: "Estou meras edições; tradução francesa, 2." ed. Paris, 1906.)
com vontade, no caso de encontrar qualquer florentino, de 4) A. von Martin: Soziologie der Renaíssance. Stuttgart, 1933.
tirar o chapéu e curvar-me." F, Antal: Florentine Patnting and its Social Background. Th*
Bourgeioi Republie before Cosimo Mediei. London, 1948.
426 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 427

A base económica do "Quattrocento" italiano é a feu- Os novos "clérigos" que substituem os da Igreja no
dalização da cidade. As pequenas repúblicas urbanas con- serviço da nova aristocracia são os humanistas. À trans-
quistaram terrenos e campos "fuori le mura", transfor- formação do individualismo económico da burguesia ita-
mando-se em latifundiárias. A cidade de Florença acabará liana em individualismo literário corresponde a transfor-
encampando a Toscana inteira. Os banqueiros e grandes mação do clero revoltado da Idade Média italiana em "In-
comerciantes do "Trecento" preferem agora negócios me- telligentzia". Os humanistas fornecem as ideologias à Re-
nos arriscados. A classe dirigente das repúblicas urba- pública, considerada como obra de arte política, e ao de-
nas — os representantes do capital financeiro — torna-se senvolvimento harmonioso do indivíduo; justificam a nova
aristocrática; aparece, mais uma vez, o fenómeno que Ve- mentalidade pela citação dos modelos da Antiguidade; con-
blen denunciou como "conspicuous consumption". Em quistam novas regiões da alma, da paisagem, do planeta,
Florença, a família Médicis, casa de banqueiros com grande para alargar o campo da experiência humana, seguindo o
prestígio político, assume, junto com as famílias relacio- alargamento geográfico das atividades económicas. Ora, o
nadas (e as adversárias, como os Strozzi e Pitti), as fun- Estado como obra de arte, o desenvolvimento do indivíduo,
ções de uma aristocracia feudal. Mas não renegam — a a revivificação da Antiguidade e a descoberta de Homem
base popular do regime não o permitiria — as suas ori- e Mundo são, segundo Burckhardt, os traços essenciais da
gens burguesas; um verdadeiro feudalismo já é impossí- Renascença. Apenas, Burckhardt deixou de lado tudo o
vel na Itália. O novo "aristocrata" é um antigo "brasseur que se inspirou em outras fontes — tradições medievais,
d'affaires", que transformou o individualismo comercial influências populares — e que, no entanto, acompanha como
em individualismo da arte de viver. O tipo representativo corrente secundária o século inteiro.
da época é uma mistura de cavaleiro feudal e burguês
"O Estado como obra de arte do grande indivíduo",
rico e culto, uma criatura que reúne todas as qualidades
ideais então conhecidas: é uma espécie de super-homem, eis a tirania, não no sentido de despotismo, mas no sen-
aquele "tipo ideai" que se encarnou em Lourenço de Médi- tido que a Antiguidade grega deu ao termo tyrannis.
cis, ou em César Bórgia. Tipo que desconhece as obri- São "tiranos" — burgueses, fazendo negócios políticos —
gações morais comuns para dedicar-se inteiramente ao de- os grandes condottieri que se apoderaram, pelas armas e
senvolvimento da sua personalidade como a uma arte. Um pelo dinheiro, do E s t a d o : Giangaleazzo Visconti, Fran-
Lourenço de Médicis transformará a arte em vida; um Cé- cesco Sforza, o rei Ferrante em Nápoles, Cosimo e Lou-
sar Bórgia transformará a política criminosa em arte. Essa renço de Médicis; só os filhos destes serão realmente "ti-
arte nada tem de idealista, porque se baseia no rea- ranos", no sentido pejorativo, e só os Bórgias, que são es-
lismo daquela unidade perfeita de corpo e alma que é trangeiros, naturais da Espanha, começam logo como dés-
o grande individuo. As possibilidades do indivíduo são potas. A centralização do poder leva ao desenvolvimento
ilimitadas. É isto que explica um dos fenómenos mais es- de uma administração complicada e de uma doutrina ad-
tranhos do "Quattrocento": o interesse pela magia e a ministrativa; enfim, a uma doutrina política: surgirá Ma-
aversão à astrologia. Porque a magia promete onipotência quiavel. E ao abuso da "tirania antiga" responderá o abu-
ao indivíduo, enquanto a astrologia lhe limita a liberdade so do "tiranicídio à maneira antiga": o catilinarismo de
pelo determinismo das constelações celestes. Lorenzino de Mediei, dito "Lorenzaccio".
428 OTTO MAHIA CABPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 429

O individualismo é tradição na Itália. A sua primeira humanista que sabe escrever um latim clássico é indispen-
forma é a solidão do grande exilado: Dante. Os exílios, sável nos negócios políticos. Outro chanceler da Repú-
tão freqUentes nas repúblicas turbulentas do "Quattro- blica, Leonardo Bruni, chamado Aretino (f 1444), é no-
cento", libertam o indivíduo da estreiteza das cidades me- meado historiógrafo oficial, e quando morre é homenagea-
dievais, ensinam o cosmopolitismo. Nasce o "uomo univer- do com sepultamento no Panteão nacional de Santa Croce.
sal e", esse tipo bem renascentista, encarnado pela primeira Gianfrancesco Poggio Bracciolini (f 1459) tem a sorte de
vez em Petrarca; e a maior aspiração desse homem univer- descobrir em conventos alemães e franceses nada menos
sal é a "Glória". E a Glória, por sua vez, ajuda a acres- do que dezenove discursos de Cícero até então desconhe-
centar traços imaginários ao indivíduo real e a formar a cidos, e o poema de Lucrécio. Marsilio Ficino (f 1499)
lenda em torno do "grande homem". Ao mesmo tempo, os traduz os diálogos de Platão para o latim e funda a Aca-
que formam essas lendas por meio de uma propaganda lite- demia platónica, em Florença.
rária, os humanistas, participam do êxito: a Glória não cabe Em Nápoles, o grande úmbrico Giovanni Pontano
apenas ao poder físico, mas também ao trabalho intelectual. ( t 1503) cria outra academia; êle mesmo, erudito e poeta
Nisto reside a feição "moderna" do "Quattrocento"; e de génio, é uma academia em pessoa. E m Roma, a fei-
esse "modernismo" justifica-se pela descoberta da existên- ção medieval do Papado cria certos obstáculos. Flávio
cia de um mundo espiritual, igual em direitos ao mundo Biondo ( | 1463), o fundador da arqueologia, é uma figura
material, na Grécia antiga. A tradição romana — e os es- solitária, e o grande Lorenzo Valia (f 1457), revelando a
tudos de literatura romana — nunca sofreu interrupção falsificação da chamada Doação Constantina, está em opo-
durante a Idade Média. Mae só com o renascimento dos sição. Mas com Pio I I (f 1464), antes Enea Silvio Picco-
ettudoí gregos, pela Influência de bizantinos eruditos lomini, um humanista eruditíssimo sobe ao trono papal,
como Gemietos Pleton, Bessarion, Theodoros Gaza e tan- e Pomponio Laeto funda a Academia romana. A massa
tos outros, começa o verdadeiro humanismo ( 4 " A ). de conhecimentos que esses homens desenterraram é imen-
O desenvolvimento dos estudos clássicos durante o sa. Iniciaram ou renovaram estudos de extensão enciclo-
"Quattrocento" é enorme. É um grande movimento cien- pédica, em todos os setores do saber humano. Mas a con-
tífico e literário ( s ) , localizado nos centros da vida italiana. quista que mais lhes importava era o estilo ciceroniano:
O centro mais antigo e mais poderoso é Florença, a ci- a capacidade de exprimir o pensamento em língua clássi-
dade de Petrarca. Luigi Marsili (f 1394), amigo do poeta, ca. O esteti cismo dominava também a ciência.
criou, no convento de Santo Spirito, o primeiro centro de A fome de saber coisas novas ou esquecidas não é me-
estudos clássicos. O seu amigo e discípulo Coluccio Sa- nor do que a aspiração de vestir de beleza todos os fe-
lutati (f 1406), chanceler da República, introduziu o es- nómenos da vida. As grandes descobertas geográficas não
tilo de Séneca nos documentos oficiais; desde então, o estão — ou estão apenas de maneira secundária •— ligadas
ao humanismo; as cidades italianas foram antes prejudi-
4A) G. Cammelll: 1 ãotti bizantiní e le origini deWiimanesimo cadas pelo comércio ultramarino do» portugueses e espa-
Italiano. 2 vols. Firenze, 1940/1942. nhóis. Mas no seio do mundo conhecido descobre-se a
6) G. Volgt: Die Wieâerbelebung ães klassischen Altertums, 3.* paisagem, desde a memorável subida ao Mont Ventoux,
ed. 2 vols. Berlin, 1893. em 26 de abril de 1336, até que Pontano cantou, em la-
B. Garin: UUmanesimo italiano. Bari, 1953.
«o Oiro MARIA CARPEAUX
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 431

tim claBsicÍBBimo e espírito romântico, a beleza do golfo sivo esvaziamento da forma artística que levou a Itália ao
de Nápoles. Não se esqueceu, porém, a advertência de S. mero virtuosismo verbal e musical, expressão da derrota
Agostinho, que Petrarca lera no alto da montanha: cria- política e da corrução moral, De Sanctis viu o "Quattro-
se um novo lirismo pessoal, que, diferente do lirismo es- cento" como precursor do "Cinquecento" e da catástrofe
piritualista do "Trecento", pretende exprimir o homem in- da Itália. Não tendo acompanhado bem as mudanças na
tegral, os movimentos da alma e a sensualidade do corpo, crítica das artes plásticas no seu tempo, De Sanctis não
a emoção, a cultura e a beleza física. tomara conhecimento da revalorização da arte quatrocen-
A literatura italiana do "Quattrocento" (") não pare- tista em relação à cinquecentista; não deu atenção à des-
ce estar à altura da arte contemporânea. Lourenço de Me- coberta dos valores "pré-rafaelitas", da frescura juvenil de
díeis, Poliziano, Pulei, Boiardo, Sannazaro, com todas as Botticelli, da religiosidade ingénua de Perugino, do natu-
suas qualidades admiráveis, não se comparam aos Brunel- ralismo violento de Donatello, da força "primitiva" de
leschis, Ghilbertis, Donatellos, Bellinis, Boticellis. Até há todos eles. De Sanctis continuou a considerar o "Quat-
pouco, a historiografia literária acompanhou o relativo des- trocento" como início da decadência, enquanto a historio-
prezo que o crítico genial Francesco De Sanctis manifes- grafia e a crítica das artes plásticas já julgavam a época
tara com respeito à literatura do "Quattrocento" ( T ) : Lou- como de mocidade, realismo e "primitivismo", no alto sen-
renço de Médicis, diletante bem dotado, que não tomou tido desses termos. Carducci, no3 seus trabalhos de edi-
bastante a sério a literatura; Poliziano, artista vazio, vir- ção e crítica sobre Lourenço e Poliziano, já adivinhara esse
tuoso da forma sem conteúdo; Pulei, humorista de lazzi resultado da crítica mais recente ( lt ).
populares; Boiardo, poeta de ambições demasiadamente O "Quattrocento" italiano é o tempo de um grande
grandes p i r a a sua capacidade; Sannazaro, compondo mo- renascimento da literatura popular. Na península inteira
saicos de citações clássicas. Hoje, a apreciação é muito
ressoa uma sinfonia rústica de "frottole", "villotte", "cac-
diferente (") : Lourenço, realista genial da vida rústica; Po-
eie", "madrigali", "dialoghi"; a historiografia da música
liziano, escondendo atrás da forma fácil verdades filosó-
revelou a existência, ignorada pela historiografia literária,
ficas; Pulei, porta-voz do bom senso popular; Boiardo, o
de um centro de poesia popular na região veneta ( 1 0 ). Com
maior dos poetas "primitivos", digno dos "pré-rafaelitas
essa descoberta, a figura, até então isolada, do patrício ve-
primitivos" do "Quattrocento"; Sannazaro, poeta da me-
neziano Leonardo Giustiniani ( n ) , colocou-se, de repente,
lancolia nobre, de espírito virgiliano.
no centro da evolução literária. Assim como os seus con-
No julgamento de De Sanctis influíram cogitações de temporâneos espanhóis Juan de Mena e Santillana, o aris-
moralista e patriota: pretendendo demonstrar o suces- tocrata veneziano imita os strambotíi e canzonette da poe-
*
6) Ph. Mormieri Le Quattrocento. Histoire littêraire du XVe siècle 9) Ph, Monnier: Le Quattrocento. Essai «ir Vhistoire littêraire áu
ítalien, 2 vols. Parts, 1901. XVe siècle italien. Paris, 1901.
V. Rossl: II Quattrocento. 2.* ed, Milano, 1938.
10) F. Torreíranca: II Segreto áel Quattrocento. Milano, 1939.
7) F. De Sanctis: Storia delia letteratura italiana, 1871. (2,ft ed.
por B, Croce, vol. I, Bari, 1913.)' 11) Lionardo Giustiniani, 1388-1446.
Edição por B. Wiese, Bologna, 18B3.
8) E. Rho: La lírica âi Ambrogio Poliziano. Torino, 1923. A. D'Ancona: La poesia popolare italiana. 2.* ed. Livorno, 1906.
E. Rho: Lorenzo íl Magnifico. Bari, 1926. O. Baroncelli: Le Canzonette âi Lionardo Giustiniani. Forli, 1907.
432 Oiro MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA, PCIDBNTAL 453

lia popular, as pequenaa cenas entre namorados, os lamen- rima, cujo esquema de rimas — a b a b a b c c — dá à es-
tos e alegrias, e imita-os com tanta naturalidade e delica- trofe um fim, um acabamento, tornando-a independente da
deza que o povo não observou o fundo de melancolia aris- estrofe seguinte. Cada ottava rima é um indivíduo métrico,
tocrática desses versos: o sucesso das "giustiniane", em completo em si, e o poema épico do "Quattrocento" com-
toda a Itália, foi enorme, e — o que é muito significativo põe-se de grande número desses indivíduos métricos, mais
— nem os humanistas eruditos resistiram ao encanto popu- independentes e mais musicais do que a terxa rima, mas
lar; o arqueólogo erudito Flávio Biondo diz de Giusti- também mais monótonos e menos expressivos; lembram a
ntani que "dulcissimis carminibus et peritissime vulgari- beleza sempre igual, sempre perfeita e algo monótona dos
ter compositis replevít Italiam". Em face do novo co- quadros de certos pintores da Renascença. O realismo re-
mércio ultramarino dos portugueses e espanhóis, o comér- nascentista acaba quase sempre em formalismo virtuoso.
cio das cidades italianas tomou feição continental, depois Lourenço de Medíeis ( 1 2 ), ao qual contemporâneos e
'*:••* * nacional e provinciana. O realismo quattrocentista tem posteridade deram o apelido "o Magnífico", é realista e vir-
algo de regionalismo. tuose ao mesmo tempo; o príncipe de estirpe burguesa
reuniu em si todos os requintes da cidade altamente ci-
Esse provincialismo é, por outro lado, responsável pelo
vilizada e toda a frescura dos campos primaveris da Tos-
relativo atraso da filosofia italiana no século XV. As ve-
cana. A sua poesia respira a atmosfera erudita da sala de
lhas universidades italianas, inacessíveis ao humanismo,
estudos da Biblioteca Laurenziana e da Academia plató-
continuavam centros da escolástica; lá sobreviveu também
nica de Ficino, e o ar fresco em torno das vilas deliciosas
o nominalismo, defendendo-se contra a ortodoxia e alian-
de Poggio a Caiano e Careggi. Se o realismo não fosse
do-se, em Pádua, aos comentadores "alexandrinistas" de
o elemento mais forte, o humanista Lourenço teria escrito
Aristóteles, aristotélicos heréticos, dos quais Pomponazzi
em latim, e não em italiano; não seria o Magnífico que
ê o mais famoso. Até um humanista diferente, como Pico
é: o único príncipe que foi um grande poeta.
da Mirandola, quando defende a escolástica, pensa em pri-
meira linha em escotismo e nominalismo. Com efeito, se Lourenço parece petrarquista; o seu sentimento da na-
não fosse o latim "bárbaro" dos escolásticos, que devia cau- tureza é idílico e convencional. "Belle, fresche e purpuree
sar repulsa aos estilistas ciceronianos, o nominalismo agra- viole" — um soneto a Laura poderia começar assim. Mas
daria aos humanistas: é uma oposição de empiristas contra
o intelectualismo da escolástica ortodoxa, assim como os 12) Lorenzo de, Mediei, II Magnifico, 1448-1402. (Cf. nota 26.)
humanistas são empiristas dos estudos clássicos contra a Selve á'amore; Corinto; Amora; Caceia col falcone; Beoni; Al-
adaptação alegórica da tradição antiga pelo pensamento tercazione; JVencía da Barberino; Canzoniere; Trionfi; Canzoni
medieval. O nominalismo substitui as abstrações e gene- a bailo; Laudt Sacre; Rappresentuzione Ai S. Qtovanni e Paolo.
Edição por A. Simloni, 2 vols., Bari, 1813/1814.
ralizações pelos objetos concretos e pelos indivíduos, assim A. von Reumont: Lorenzo de'Mediei, il Magnifico. 2.» ed. Leipzig,
como a beleza abstraía e celeste do "Trecento" é substituí- 1883.
da, no "Quattrocento", pela beleza concreta, terrestre, fí- Q, Carduccl: "H Magnifico". (In: Opere, vol. II.)
E. Rho: Lorenzo il Magnifico. Bari, 1926.
sica. O sintoma formal da nova atitude é o novo metro da L. dl San Glusto; La víta e Vopera dl Lorenzo ti Magnifico. Fi-
poesia épica: em vez da terza rima, que foi a base da ar- renze, 1927.
quitetura homogénea do poema de Dante, aparece a oitava R. Palmarocchií Lorenzo d&Meiici. Torino, 1841.
P. Toscbl: Saggi eu Lorenzo il Magnifico. Firenze, 1851.
434 OTTO M A B I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 435

Lourenço não é um petrarquista comum, senão no sentido Landi sacie, das quais a mais bela se dirige ao Crucifixo, a
em que toda a poesia lírica italiana descende de Petrarca. peça religiosa S. Giovanni e Paolo, a meditação grave da
A sensualidade ardente das Canzone di bailo e dos Trionfi vaidade terrestre, na Altercazione, não podem ser conside-
para o carnaval florentino não permite comparações, e o radas como expressões de hipocrisia. Mas tampouco o Mag-
tom idilico de "O dolcissime notti, o giorni lieti" tem nífico é um torturado entre os prazeres do paganismo e os
mais da "Primavera" de Botticelli do que da solidão de remorsos cristãos. Lourenço é discípulo de Marsilio Fici-
Vaucluse. Com o mesmo ânimo, Lourenço goza da melanco- no, que sabia harmonizar bem o cristianismo e o platonismo.
lia noturna, da dança das camponesas, e de outros prazeres O próprio platonismo florentino já não é da Grécia ingé-
mais concretos. O seu realismo inclui tudo, alma e corpo, nua. A luta íntima de Lourenço trava-se entre o eupranatu-
tem algo de homérico. Daí certos traços naturalistas no ralismo platónico e outro platonismo, nostálgico do idí-
meio das petrarquizantes Selve d'amore, o realismo quase lio homérico. Daí a melancolia, daí as tentativas espiri-
impassível, flaubertiano, das descrições, nos idílios Ambra tualistas, religiosas, no sentido do "Trecento". Daí tam-
e Corinto, e, enfim, o humorismo do quadro de amores rús- bém o ligeiro verniz de petrarquismo. Mas, como Lourenço
ticos, na Nencía. Este último idílio é a única obra-prima não era, em realidade, um espírito religioso, e sim muito
realmente perfeita do Magnífico. O elemento de diletan- profano, a sua nostalgia chegou a outros fins que não a
tismo que havia no príncipe, a condescendência do grande poesia crista; chegou à poesia primitiva, rústica, idílica,
senhor em fazer poesia, não o deixou atravessar a fron- e com o virtuosismo da sua cultura requintada conseguiu
teira da improvisação virtuosa. Mas Lourenço, quando im- realizar com a maior perfeição o idílio. Fazendo poesia
provisa, dá poesia autêntica, porque tinha espírito e ima- popular, deu a realidade diferente da arte ao seu sonho,
ginação; florentino legítimo, ou antes, burguês florentino e deixou à posteridade a imagem perfeita de uma idade
legítimo. Em Lourenço de Medíeis, a alma florentina ser- áurea:
ve-se da cultura clássica para exprimir com toda a fran- "Quant' è bella g i o v i n e z z a . . . . " .
queza a sua índole pagã. Os famosos versos carnavalescos —
A poesia de Lourenço de Médicís é típica do realismo
"Quanf è bella giovinezza, do "Quattrocento". Os elementos desse realismo são o pri-
Che si fugge tuttaviai mitivismo intencional, como em Giustiniani, e o paganis-
Chi vuol esser lieto, sia: mo sensual, como na poesia culta, as mais das vezes latina,
dos humanistas, e ao qual seria mais exato chamar "natu-
Di doman non c'è certezza." —
ralismo", no sentido filosófico, ou no sentido em que se
serviram e servirão a todas as gerações para inspirar-lhes fala do "naturalismo sexual" do» antigos. O virtuosismo
saudades da Cidade eternamente jovem, com sua cúpula, da forma corresponde ao "intencional" de ambos os ele-
com os passeios ao longo do Arno, com o panorama que mentos. Sem o "intuito", o primitivismo seria a ingenui-
se estende do alto de San Miniato. Para nós, são versos dade anacrónica, "romântica", da "matière antique", do
de saudade romântica. Mas, em Lourenço são o primeiro Roman de Troie ou do Roman d'Enêas. Se um poeta "pri-
grito de Dionisos depois de mil anos de silêncio. Contudo, mitivo" medieval tivesse sido dono da cultura clássica do
Lourenço não é apenas pagão. O fundo de melancolia na- "Quattrocento", teria sido capaz de tratar assuntos de ca-
queles versos adverte contra essa interpretação. As suas valaria com ironia ligeira e no espírito do idílio. Teria
4B6 Oiro MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 437

sido uma poesia como a realizou Matteo Maria Boiardo consciente. O realismo de Lourenço de Médicis e o roman-
( 1 S ). Aristocrata da Emília, então uma das regiões atra- tismo de Boiardo seriam atitudes intencionais, de condes-
sadas e ainda um pouco feudais da Itália, Boiardo vive cendência com a poesia popular, a rústica e a da cavalaria.
em sua vila no campo, dedicado a estudos humanísticos. É Lourenço e Boiardo são, afinal, mais ou menos contempo-
um hohereau culto, com certa saudade dos tempos melho- râneos de J u a n de Mena e do Marquês de Santillana. O
res da cavalaria; mas já seria incapaz de participar das povo italiano, porém, base de uma civilização mais antiga,
rudezas dos cavaleiros autênticos — é um italiano do "Quat- e portanto mais consciente, já i capaz de tomar atitude pró-
trocento". Chamar "primitivo" a Boiardo não quer dizer pria em face das modificações sociais, que no mundo "flam-
que lhe falte a r t e : os seus sonetos amorosos, dirigidos a boyant" só produziram reaçoes aristocráticas. Na Itália,
Antónia Caprara, são dos mais belos da língua e dos mais o feudalismo acabou mais cedo do que em outra parte, e
bem construídos. O primitivismo está na ideia de escre- a literatura italiana não possui "epopeia nacional". Em
ver, em pleno "Quattrocento", uma epopeia de cavalaria, compensação, produziu uma literatura de escárnio popular
o Orlando Innamorato, que pretendeu ser uma Chanson de contra o feudalismo; o cume dessa literatura é a epopeia
Roland italiana. Só ocasionalmente Boiardo revela ironia, herói-cômica de Pulei, que é ao mesmo tempo o testemu-
porque já não acredita bem nas façanhas sôbre-humanas nho mais forte do realismo do "Quattrocento".
dos cavaleiros. Em geral, a sua atitude diante do assunto é
Como fonte de Pulei indicaram-se os romances Reali
romântica, e romântica também é a falta de composição:
di Francia e Guerino il Meschino, de Andrea dei Mágna-
inúmeros episódios, muitos entre eles admiráveis, compõem
botti (f 1431), versões fantásticas da "geste de Charle-
uma epopeia vasta e desordenada, sem finalidade manifesta
magne" í 1 *). Pertencem à última fase da transformação do
nem sentido secreto; obra que deste modo não acabaria
"roman courtois" em livro popular, em "Volksbuch". Pre-
nunca, e ficou realmente fragmento. Boiardo nunca pode
param, inconscientemente, o que será romantismo conscien-
ser comparado com o seu continuador Ariosto, que é homem
t e e ironizado em Ariosto. A tradição a que Pulei per-
diferente e artista incomparavelmente maior; mas Boiar*
tence é, porém, outra. Por volta de 1200, dois autores da
do é" mais sincero, mesmo na poesia amorosa. Menos ar-
tista e mais sincero, em comparação com seu grande su- terra firme de Veneza, que se chamavam provavelmente Mi-
cessor: neste sentido, Boiardo é primitivo, talvez o único noechio de Pádua e Nicola dá Verona, escreveram duas-epo-
poeta realmente primitivo da literatura mais velha da peias de cavalaria, em língua francesa: L'Entrèe d'Espagne
14 A
Europa. e a sua continuação, La prise de PampeJune ( " ). O que
distingue essas gestes franco-vênetas das gestes france-
Haverá quem considere impossível um primitivismo au- sas do ciclo de Carlos Magno, é o caráter de Rolando;
têntico no "Quattrocento" italiano, época da arte mais o grande cavaleiro aparece prepotente, irascível «violento,
tal como um burguês ou pequeno-burguès italiano imagina
13) Matteo Afaria. Bojardo, 1434-1494.
Amorum libri III; Orlando Innamorato (desde 1487).
Edições: Camontere, por C. Stelner, Torino, 1927. 14) Edição dos iíeaZt ãt Francia, por O. Vandelll e O. Cambaria.'
> Orlando Innamorato, por F. Foffano, Torino, 1926. Bari, 1947.
P. Rajna e outros: Stuâi su Matteo Afaria Bojarão. Bologna, 14A) UEntrée á'Espagne, editada por A. Thomas, 2 vols., Paris, 1913.
1894. A. Thomas:.Nouvelles recherches mr VEntrèe d'Espagne. Pa-
O. Reichenbach: Matteo Maria Bojarão. Bologna, 1929. ris, 1882.
A. Zottoll: Di Matteo Maria Bojarão. Bari, 1937.
438 OTTO M Á F I A CARPEAUX HISTÓBIA DA LITERATURA OCIDENTAL 439

um senhor feudal de outras terras. Nesta tradição está Mas Pulei não tem objetivos de livre-pensador. Outras
Pulei. vezes, fala como um burguês medieval. Acabamos acre-
Luigi Pulct ( 1B ) foi sempre muito admirado. O Mor- ditando que não quer parodiar nada, mas apenas fazer
gante não tem nada em comum com as epopeias herói-cô- r i r : seria o rei dos lazzi florentinos, alegres e espirituo-
micas dos séculos X V I e X V I I , paródias classicistas e algo sos, sem arrière-pensées profundas.
fatigantes da epopeia homérico-virgiliana da Renascença. Pulei é, em primeira linha, um burguês florentino, sor-
O Morgante zomba de outro objeto: do romance de cava- rindo dos costumes grosseiros — comer muito, beber muito,
laria. Mas tem menos de Cervantes que de Rabelais. Os e o resto — dos populares e da gente doB campos. Nisso,
personagens principais são os gigantes grosseiros Mor- éle é medieval. £ menos da epopeia da cavalaria que êle
gante e Margutte, personificações de um "naturalismo" zomba do que da desfiguração involuntariamente cómica
brutal dos instintos, imensamente ridículas. O próprio dessa epopeia nos romances populares; o verdadeiro aris-
Pulei não é grosseiro; lembra a malícia fina da qual, na tocratismo não lhe inspira riso, e a propósito da morte
Toscana, até a gente simples é capaz, e os seus versos são de Orlando o humorista sabe escrever versos comovidos
de uma perfeição formal considerável; Byron considerou- e quase sublimes. Mas, em geral, Pulei — como o autor da
os os melhores versos da língua italiana. Apesar de tudo Entrée d'Espagne — não acredita em virtudes extraordi-
isso, as opiniões sobre Pulei divergem, muito. O Morgante nárias dos cavaleiros; como todos os italianos, é republi-
é paródia; mas paródia de quê? Paródia da cavalaria? Ou cano por instinto, porque os reis lhe parecem homens como
paródia da paródia involuntária da cavalaria nos roman- os outros homens. Cavaleiros, sim; mas as aventuras que
ces populares, à maneira de Magnabotti? Ou paródia da se contam deles, são certamente exageradas e merecem um
civilização aristocrática, da qual Pulei, cortesão dos Me- sorriso céptico. E quem sabe se é verdade tudo o que se
díeis, fêz parte? Ou da civilização cristã inteira? Aceitar- conta de tempos remotos? E aquelas lendas santas que os
te-ia esta última interpretação lendo-se os versos (os mais padres contam no púlpito? Pulei não é ateu nem huma-
famosos do poema) nos quais Pulei zomba do Credo: nista pagão; os seus conhecimentos clássicos eram bem
fracos. Era, antes, um contaminado pelo cepticismo de ju-
"Ma sopra tutto nel buon vin ho fede, deus convertidos ou de seitas judaizantes ( 1 0 ), e valeria
E credo che sia salvo chi gli crede. a pena fazer um estudo comparativo do Morgante e da Ce-
E credo nella torta e nel tortello: lestina, obras quase contemporâneas. Mesmo assim sendo,
L'uno è la madre, e 1'altro è il suo figliuolo." Pulei permaneceu um filho autêntico da Toscana. O povo
italiano é céptico por índole: vai à missa, mas não acre-
15) Luigi Pulei, 1432-1494. dita em tudo o que se afirma do alto do púlpito. E bem
Morgante Maggíore (primeira edição 1470, aumentada 1483).
Edigôes por N. Addamiano, Palermo, 1926, e por G. Fatlnt, 3 vols., italiano, do povo italiano, também é o prazer das histó-
Torino, 1327. rias fantásticas, não pelo lado do romantismo, mas pela
L. Einstein: Luigi Pulei and the Morgante Maggiore. Berlin, deformação caricatural dos contornoB. Por isso, os per-
1902.
A. Momigliano: L'inãole e it riso ãi Luigi Pulei. Rocca S. Cas-
oiano, 1907.
L. Pirandello: VUmorismo. Laneiano, 1908. 16) E. Walser: Lebens-und Glaubensprobleme aus dem Zeitatter der
C. PelLegrini: Luigi Pulei, Vuomo e Vartista. Pisa, 1912. RenuUsance. Die Religíon âes Luigi Pulei, iftre Quellen und
U. Biecottlni: L'arte e Vanima dei "Morgtinte". Firenze, 1933. ihre Bedeutung. Marburg, 1926.

;
440 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 441

sonagens principais são os dois gigantes Morgante e Mar- • A distinção entre a Renascença e o Humanismo do
gutte, e um deles deu o título ao poema. A arte de Pulei
"Quattrocento" não pode ser realizada sem reconsiderar o
consiste na transformação desses contornos desfigurados
problema inteiro da Renascença e das renascenças, do Hu-
em arabescos engenhosos, de esprit inesgotável. Deste
manismo e dos hurnanismos. Quando se tratava de rea-
modo, a vida inteira transforma-se em arabescos do humo-
bilitar — para compreender — a literatura "medieval", foi
rista, em lazzi enormes: quando Margutte morre de rir,
preciso destruir o próprio termo "Idade Média", salien-
o arcanjo Gabriel vem e anuncia que o defunto rirá no
tando-se o papel da renascença carolíngia, da renascença
outro mundo por toda a eternidade, amém. A paródia
ottoniana, da "Proto-RenaBcença" do século X I I ; de modo
popular não poupa nada, mas também não destrói nada.
que a "grande" Renascença, a do "Quattrocento" e "Cin-
•" É a maravilha de um humor perfeitamente objetívo.
quecento", principalmente italiana, perdeu o aspecto de
Pulei é o único poeta dos tempos modernos que lem- singularidade, de fenómeno único. Agora, quando se trata
bra Aristófanes. O traço comum mais significativo é o "na- de definir melhor a Renascença do "Quattrocento", cum-
. , turalismo", a representação e apresentação mais do que pre acentuar as diferenças entre as renascenças sucessi-
franca de todos os lados da natureza humana, inclusive vas, sem perder de vista o resultado precioso daqueles ou-
dos físicos — atitude que não teria sido possível tomar tros estudos: o fato de não haver, durante os séculos "me-
antes da Renascença e do descobrimento, pelos humanistas,
dievais", solução de continuidade da tradição greco-roma-
do "naturalismo" da Antiguidade greco-romana. Neste sen-
. na. O estudo das tradições antigas nas artes plásticas me-
tido Pulei também é "humanista", ou antes, é a expressão
dievais fornece para esse fim documentos e conclusões im-
extrema do realismo renascentista dos pintores e poetas
portantes ( 1 S )-
florentino*. Sem dúvida, esse realismo nada tem que
ver com o humanismo propriamente dito, o humanismo dos A renascença carolíngia devemos o serviço inestimá-
eruditos quattrocentistas, movimento livresco, literatura de vel de ter conservado a maior parte da literatura romana;
segunda mão. A convivência deste humanismo e daquele mas a produção original dos monges e mestres-escolas de
realismo, tão típico do "Quattrocento", torna-se problema Carlos Magno é paupérrima. Em geral, não vão além da
difícil. Custou muito descobrir e revalorizar o realismo reunião e agrupamento de citações de autores antigos. Da
qúattrocentista, de Lourenço e Pulei. O reverso da meda- mesma maneira, os pintores que iluminaram os manuscri-
lha é a desvalorização do humanismo: antigamente, os hu- tos carolíngios, contentaram-se em copiar originais roma-
manistas pareciam pensadores corajosos, precursores da nos ou bizantinos, hoje em parte perdidos. Se foi real-
Reforma e até do livre-pensamento; agora, parecem passa- mente assim, a arte de copiar deve ter sido, no século IX,
distas, reacionarios, idólatras de um outro passado qué não maior do que em qualquer século posterior: pois os re-
o cristão — a diferença importa pouco — substituindo a tratos e paisagens, naquelas miniaturas — Evangeliário do
fé cega nas autoridades da Igreja pela fé cega nas auto-
ridades Cícero e Séneca. Evidentemente, é preciso recon-
siderar o problema inteiro, procurando uma distinção mais 18) O estudo do problema das renascenças sucessivas, do ponto de
nítida entre Renascença e Humanismo ( 1 T ). vista dà historia das artes plásticas, foi Iniciado pelos estu-
diosos reunidos em torno da "Blbllothek Warburg". Cf: A. War-
burg: Gesammelte Schriften. Hamburg, 1B34.
11) H. O. Taylor: Thougth anel Expression in the Sixteenth Centurv- Resumo dos resultados em E. Panofsky: "Renalssance and Ee-
2 vols. New York, 1820. naissances". (Dv Kenvou Review. VI/2, 1944.)
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tesouro da catedral de Aquisgrano, Saltério da Biblioteca agora uma Igreja de humanistas. Os burgueses de Flo-
universitária de Utrecht, Codex Aureus da Biblioteca Na- rença já não se distinguem sensivelmente dos burgueses
cional de Munique, Evangeliário de Godescalc na Biblio- atenienses: Lourenço é um Péricles renascido, Pulei um
thèque Nationale de Paris — são grandes obras de arte, novo Aristófanes; até Savonarola será um Cleon em há-
tão perfeitas que durante muito tempo foram considera- bito de monge. A identificação parece total.
das como trabalhos de pintores bizantinos. Revelam que
Não podia, porém, ser esta a atitude dos intelectuais,
aqueles monges dominaram perfeitamente os meios de ex-
dos humanistas que não participaram da economia bur-
pressão da arte greco-romana. Se foram "citações" pictó-
guesa, senão como "secretárioB", "historiógrafos" e pro-
ricas, então está demonstrado que a "renascença carolín-
fessores — parasitos da prosperidade alheia. Por isso, entre
gia" não foi uma renascença, e sim a continuação ininter-
eles, até os descrentes ficaram fiéis à Igreja, potência
rupta da tradição antiga. Os poetas e pintores carolíngios
essencialmente antiburguesa. Sentiam-se como despaisados.
não tinham a consciência de que utilizavam uma arte alheia
Aquela identificação não lhes parecia perfeita; ao contrá-
em espirito diferente.
rio, quanto mais se lhes aprofundaram os conhecimentos
O anacronismo só se torna evidente na "Proto-Renas- da Antiguidade, pretenso paraíso das letras e belas-artes,
cença" do século X I I . Assim como as estátuas da facha- tanto mais dolorosamente sentiam a diferença entre a "Sa-
da da catedral de Reims são expressões de espírito gótico crosancta Vetustas" e a atualidade burguesa, nada livre
em formas gregas ou quase gregas, assim também os "hu- de resíduos antipáticos de aristocratismo feudal e "supers-
manistas", clérigos ou leigos, do século X I I , misturam sem tições cristãs". Pela primeira vez, a Antiguidade se apre-
escrúpulos expressões antigas e cristão-feudais: o Aristó- sentou em distância histórica, sem anacronismo. O resul-
teles, citado nos seus tratados, é um monge e escolástico; tado é uma literatura passadista, nostálgica, romântica. E,
Virgílio, um poeta cristão; Heitor e Aquiles, Eneias e Dido, tratando-se de humanistas, começa como literatura em lín-
nas epopeias medievais, são cavaleiros feudais e amantes gua latina.
provençais: Alexandre Magno, um cruzado. Diz-se que O "passadismo reacionário" dos humanistas não se re-
"à Idade Média faltava o senso histórico"; mas isso quer para logo, porque grande parte da literatura latina do
dizer que não se sentia a diferença essencial entre os tem- "Quattrocento" é extremamente licenciosa — tentativa
pos remotos da Antiguidade e o próprio tempo. Também curiosa de recuperar o naturalismo sexual da Antiguidade.
isso é antes tradição viva do que renascença. Poggio Bracciolini (1l>), o descobridor feliz de tantos ma-
A "grande" Renascença italiana do século XV, d o nuscritos latinos, ainda se parece com os goliardos medie-
"Quattrocento", continuou esta tradição "medieval": apro- vais; as suas Facetiae, as histórias alegres e obscenas, à
xima-se da Antiguidade com o realismo ingénuo que a ca- maneira de Boccaccio, que os altoi funcionários da Cúria
racteriza — realismo de Lourenço, de Pulei. Esse realismo Romana costumavam contar nas reuniões noturnas do "Bu-
florentino, toscano, italiano, é de origem burguesa ou po- giale" (sala das mentiras) do Vaticano, lembram os fabll-
pular: reflete as condições sociais da Itália do século XV, aux. António Beccadelli, chamado Panormita (1394-1471),
Aquele anacronismo transformou-se em identificação per-
feita da Itália "moderna" com a "antiga"; o feudalismo já
desaparecera, e com êle o aspecto feudal da Igreja, que é IS) Gianírancesco, Poggio Bracciolini, 1380-14W.
E. Walser: Poggtus Florentinas. Lében unâ Werke. Leipzig, 1814.
ftrafl&xle Estadual de iiueno
de Maringá

444 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 445

autor dos epigramas obscenos do Hermaphroditiis, também O sentimento de amor, em Pontano, tem algo de cós-
foi comparado a um goliardo. Indubitavelmente "moderno" mico: compreende a paisagem e o universo, vivificando
já é o patrício veneziano Francesco Bárbaro ( 2 0 ) : grande tudo, de modo que as divindades e personagens mitológi-
homem de Estado e homem religioso, o moralista do tra- cas — artifícios fastidiosos em outros poetas — são, em
tado De re uxoría tem contudo opiniões bastante avança- Pontano, á coisa mais natural do mundo. O poema Lépidi-
das sobre o amor físico, embora as exprima sempre com na, que celebra o casamento do rio Sebeto com a ninfa Par-
serenidade aristocrática, enquanto Enea Silvio Piccolo- tênope, personificação de Nápoles, i a obra-prima do poeta
mini, mais tarde papa Pio I I , não dissimula, na novela úmbrico, tão perfeitamente naturalizado na cidade do golfo,
De ãuobus amantibus, a sensualidade do celibato forçado. da qual todos os lugares queridos, personificados em nin-
O grande poeta que conseguiu a transfiguração inte- fas, nereidas e tritões assistem à festa, verdadeira sin-
gral do "humano, humano demais", é Giovanni Pontano fonia paisagística. Mas a maior obra de Pontano é o poe-
( 2 1 ) ; está quase esquecido, por causa da "língua morta" em ma didático Urania: explicação poética das doutrinas as-
que escreveu; mas a perda é nossa. Para êle, o latim não trológicas, e na verdade um pendant dionisíaco de Lu-
era língua morta; escreveu em latim com a naturalidade crécio, um grandioso hino à luz d o sol e das estrelas e
de um Catulo, mas com espírito moderno. Não a sua maior à terra que iluminam —
obra, mas a mais característica, é" De amore coniugali, poe-
ma sobre o amor de esposos, de uma sensualidade dionisía- " Sic omnis ab alto
ca e senso quase religioso da importância do amor físico; Natura est; sequitur leges quas scripsit aether.
só em Coventry Patmore se encontram versos compará- Ipse Deus laeto spectat mortalia vultu."
veis, mas de densidade menor. Complementos parecem bs O cristianismo parece abolido. Pontano, grande patriota
epitalâmioB para o casamento de suas filhas, os arroios para italiano, é anticlerical nos seus diálogos, violento contra
o filhinho Lúcio, e os Versus iambici, canções fúnebres, o Papado e o clero. Mas o mesmo Pontano, patrício do
profundamente sentidas, escritas quando lhe morreram santo de Assis, sabe escrever os hinos mais comoventes
mãe, esposa e filho. à Virgem e ao Crucifixo. A coerência não foi o seu lado
mais forte. No fundo era um burguês pacato, um inte-
lectual oportunista, desejoso de guardar a independência
20) Francesco Bárbaro, 1398-1454. interior e a liberdade de gozar da família, das mulheres,
P. Gotheln: Francesco Bárbaro. Fruehhumanismus unâ Staatí-
kunst ín Venedig. Berlin, 1633. dos livros e estudos, da paisagem e do universo inteiro, e
21) Giovanni Pontano, 1426-1503. do qual ficam, com as suas próprias palavras, alguns "Hen-
Amores; De amorç coniugali; Versus iambici; Lépidina; Hénâe- decasyllabi beati", quer dizer, versos felizes.
casyllaborum seu Baiarwm libri II; Urania; Aíinus; Charon; De O teórico do "naturalismo" quattrocentista í Lorenzo
hortis Esperidum; Egídio.
Edição por B. Soldati, 2 vols., Firenze, 1902. Valia C22). No seu diálogo De voluptate, aparece António
C. M. Tallarlgo: Giovanni Pontano e i suoi tempi. 2 vols. Napoli,
'1871. ' -
22) Lorenzo Valia, 1407-1467.
B. Croce, M, Scherillo e outros: In onore ái Giovanni Pontano De voluptate; De voluntate et vero bano; De libero arbítrio; Ele-
nel V centenário ãella sua nascita. Napoli, 1926. gantmrum latlnae Hnguae libri VI; Dialecticae âisputatixmes;
G. Toífanin: Pontano. Bologna, 1938. De Donatione,-' Histortarum Feráinandi reçís libri III.
A. Altamura: Pontano, Napoli, 1938.
G. Mancint: Vita ãi Lorenzo Valia. Firenze, 1891.
446 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 447

Beccadelli, o poeta licencioso do Hermaphroditus, dispu- como poesia histórica, sucessão legítima da poesia antiga,
tando contra Leonardo Bruni Aretino, representante da eis o classicismo de Poliziano.
união oportunista entre cristianismo e estoicismo, que era Ambrogio Poliziano ( 2 8 ), considerado como humanista,
a filosofia comum dos humanistas, herdada das leituras parece apenas um imitador virtuosíssimo dos autores clás-
medievais de Boécio. Beccadelli, no diálogo, é o porta- sicos; mas considerado como "naturalista", poeta do he-
voz de Valia contra esse estoicismo cristão. Ressuscita donismo alegre, parece então aplicar a mesma virtuosidade
a figura, amaldiçoada havia séculos, de E p i c u r o : o prazer, à celebração dos prazeres efémeros da "bella giovinezza" do
afirma, é o verdadeiro objetivo da vida humana, e o epi- seu amigo e patrão Lourenço. De qualquer modo, parecerá
curismo é perfeitamente compatível com o cristianismo, virtuose vazio que sabe fazer tudo com a mesma elegância.
que também aspira a um prazer: o da beatitude eterna. Daí a grave injustiça tantas vezes cometida contra esse
Valia é mais conhecido como adversário feroz da filosofia poeta autêntico. E m Poliziano encontram-se o realismo
aristotélica e como agudíssimo crítico histórico: desco- "primitivo", popular, de Lourenço, e a poesia culta de Pon-
briu que a famosa doação Constantina, sobre a qual os Pa- t a n o ; a ligação é feita pelo historicismo, do qual Valia era
pas baseavam o seu poder temporal, era uma falsificação. o representante, pela vontade consciente não de imitar os
O livre-pensador Valia até é humanista contra o humanis- antigos, e sim de sentir e escrever como os antigos. Pelo
m o : em vez de idolatrar Lívio, o historiador elegante do seu historicismo, Poliziano é o primeiro classicista das li-
rei Fernando de Nápoles traduziu Tucídides; atacou Cí- teraturas europeias; e, já por isso, uma figura de alta sig-
cero, o ídolo dos humanistas, substituindo a sua autoridade nificação histórica. Mas êle seria apenas isso, reprodu-
estilística pela de Quintiliano, do qual Poggio Bracciolini zindo fria e elegantemente os modelos antigos, como tan-
acabava de descobrir o manuscrito da Jnstitutio oratória; tos outros classicistas posteriores, se nele não houvesse
uma angústia secreta que dá vida à sua poesia.
e Valia considerava como obra principal da sua vida os
Elegantiarum linguae latinae Hbri VI, nos quais restaurou Poliziano foi humanista eruditíssimo, um dos funda-
o uso clássico da língua latina. Valia, exercendo crítica dores da filologia moderna. Está cheio de reminiscências
histórica, preferindo o gramático Quintiliano ao orador latinas e gregas, e na edição crítica das suas poesias ita-
Cícero, restabelecendo o uso de uma língua já não falada,
só pode ser caracterizado como historicista; historicismo 23) Angelo Ambroglnl Poliziano, 1454-1494.
de oposição, irreverente, reverso do passadismo nostálgico FavoUz di Orfeo (1471); Stanze per la Otoatra (1478); Strambottt;
dos outros humanistas. Valia é também historicista no Canzoni a bailo.
Em latim: Sílvae; Amora; Rusticus^Miscellanea (14B9).
restabelecimento anacrónico da moral epicureia. E essa Edição: Stanze, Orfeo e Rime, por O. Oarduccl, 3.* ed„ Bologna,
combinação de historicismo com "naturalismo" é bem clas- IS 12. — Poe&le latine, por J. Del Lungo, Flrenze, 1867.
A. Fumagalli: Ambrogio Poliziano. Roma, 1014.
sicista. Um verdadeiro classicismo no "Quattrocento" "pri- P. Mlcheli: La vita e le opere dl Ambrósio Poliziano. Llvomo,
mitivo" só é possível como restauração historicista do na- 1917.
turalismo moral dos antigos, Pontano apresenta o natu- G. Vaccarella: Saggio sulla Rinascema e la poesie Ai Ambrogio
Poliziano. Palermo, 1921.
ralismo de maneira ingénua; êle é mesmo assim, por na- E. Rho: La lirica ái Ambrogio Poliziano. Torlno, 1923.
tureza. A tentativa de apresentar o naturalismo moral L. Malagolt: Lè Stanze e 1'Orfeo e lo spirito dei Quattrocento.
Roma, 1941.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 449
448 OTTO M A R I A CARPEAUX
Nas poesias latinas é que o naturalismo de Poliziano re-
lianas, por Carducci, aparecem indicadas, quase em todos benta com toda a força, num erotismo muito mais lascivo
os versos, alusões e paráfrases de Teócrito, Horácio, Vir- do que o de P o n t a n o ; e ao mesmo tempo consegue a ma-
gílio, Ovídio. Justamente nas poesias italianas Poliziano ravilha de exprimir na língua "morta" o sabor da paisa-
é mais convencional : » • . • . ' » gem da Toscana. Poliziano é um realista latino. P a r a
• " ' " • I , Th '<•

"Zéfiro già di be* fioretti adorno- esse historieista, o passado transformou-se em vida, sem
Avea de' monti falta ogni pruína: as falsidades do passadismo. Êle mesmo se tornou homem
.:, • '• ' Avea fatto ai suo nido g;à ritorno antigo, unidade perfeita de alma e corpo. É a síntese do
humanismo romântico com o realismo de Lourenço.
La stanca rondinella peregrina:
Risonava lã selva intorno intorno Não realizou integralmente esse ideal anticristão ou
Soavemente ali' ôra mattutina: antes acristão, pré-cristão. O cristianismo recalcado volta
E la ingegnosa pecchia ai primo albore como platonismo, nesse amigo do platonista cristão Mar-
Giva predando or uno or 1'altro fiore." silio Ficino. As Stanze, aparentemente sem conteúdo sé-
rio, revelaram-se à análise ideológica como "alegoria da
• São visões encantadoras do belo mundo mediterrâneo, as vida do espírito", poesia platónica. Não tem muita sig-
que começam com esses versos conhecidíssimos das Stanze; nificação a poesia religiosa de Poliziano, os seus hinos
mas os pormenores são livrescos, não são vistos, não dão à Virgem; o seu credo está na apóstrofe à deusa P a l a s :
um quadro completo. São antes uma série de belíssimas "O sacrosancta Dea, figlia di Giove". A angústia, pouco
variações musicais sobre um tema antigo. As Stanze não pagã, de Poliziano encontra-se na poesia erótica, pertur-
têm conteúdo Significativo — pelo menos parece assim bada pelos presságios da angústia maior que lhe causou
— são uma série de paisagens, caças, festas, num mundo o fim desgraçado da vida. Poliziano tem algo de um Os-
de pura imaginação: sonho alegre e vazio de um culto car Wilde, mais culto e mais delicado. Logo depois vem
gozador da vida. Por isso, De Sanctis profetizou ex S avo na rol a.
eventu que a "voluttà idillica" de Poliziano levará à mu- A luz dessa nova interpretação, já não é possível tra-
sicalidade vazia de Metastasio e da ópera. Com efeito, çar uma linha reta de Poliziano a Metastasio; a história da
seu Orfeo é a primeira ópera italiana; mas também uma literatura italiana perde um aspecto dramático. E m com-
pastoril de frescura toscana. O cultíssimo Poliziano, úl- pensação, revela-se o verdadeiro lugar de uma das obras
timo requinte da civilização florentina, é ao mesmo tempo mais esquisitas dessa literatura: a Hypnerotomachia Po-
representante de uma poesia juvenil: liphili, de Francesco Colonna ( a i ) . O romance enorme,

"Nel vago tempo di sua verde etate" — 24) Francesco Colonna, 1432-1637.
HypnerotonwcKia Foliphili, ubí humana omnla non nisl tomnivm
assim comegam as Stanze. Poliziano gosta de estudar ao esse docet. (A primeira ediçio, de 1489, e a mala bela produção
ar livre, entre árvores e flores, e a primavera — Botticelli da famosa oficina de Aldus Manutius, em Veneza.)
C. Popelin: Le sangt de PoUpMle. Parta, 1883.
a pintou — é como a redentora dos seus instintos: V. Zabughin: L'oltretomba clatrico, medievais, dantesco dei
Rinascímento. Roma, 1022.
Ben venga maggio, L. Flerz-David:- Der Liebestraum des PollpKilo. Sin Betíraa zwr
E il gonfalon selvaggio". Psycholoffie der Renaissance. Zuerlch, 1948.
í 5WW;;

HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 451


450 OTTO MAHIA CARPEAUX

ção passadista da burguesia assustada pelas tempestades


cheio de descrições de obras de arte, palácios, jardins, foi
políticas. As chamadas "ciências ocultas" não constituem
classificado entre as obras típicas do "Cinquecento", pro-
um bloco; é preciso diferenciá-las, distinguindo precur-
duto máximo da "conspicuous consumption" dos nou-
soras das ciências modernas e resíduos de crenças anti-
veaux xiches do século X V I . Mas é, por outro lado, obra
gas. Enfim, os homens cultos e os populares participam
de um padre, pretendendo dar uma espécie de itinerário
igualmente de movimentos religiosos, comparáveis aos do
místico da alma, procurando imitar a visão de D a n t e ; e
"Trecento", e sem o conhecimento dos quais a revolta de
a apresentação da viagem fantástica como sonho lembra
Savonarola seria um caso isolado e incompreensível. O
bastante ó Roman de la Rose. A Hypnerototnachia Poli-
phili seria bem medieval ; mas o fim da viagem e a suprema "Quattroceuto" é época de profundos interesses religiosos
felicidade de Polifilo é a contemplação da Vénus nua. que deixaram vestígios importantes na literatura ( a B ).
Francesco Colonna não é inteiramente humanista nem in- Não se deve dar muita importância ao fato de um hu-
teiramente trecentista. O seu fim é a criação de um mun- manista violento e antipático como Francesco Filelfo ter
do de pura ilusão e imaginação, um reino da arte pura. Co- escrito uma Vita de Sanctissimo Joanni Baptista (1446).
lonna é um Poliziano deformado, quase patológico, pres- J á é mais interessante um Maffeo Vegio, latinista ortodoxo
tando-se a interpretações psicanalíticas. Mas o seu mundo e ao mesmo tempo cristão devoto, escrevendo um poema
de ilusão artística, quando purificado, será o mundo de religioso, Antonias (1437), sobre a vida de S. António,
Ariosto. nos moldes da epopeia clássica. Antes de tudo, a poesia
religiosa de Lourenço de Médicis ( 2S ) constitui uma série
E m Lourenço de Medíeis, Pontano, Poliziano, Frances-
de sintomas importantes. Trata-se de uma "rappresentazío-
co Colonna encontra-se um elemento contraditório: há em
ne sacra", de Landi, e de um poema filosófico. A "rappre-
todos eles uma certa angústia religiosa. Na interpretação
sentazione" S. Giovanni e Paolo (1489) lembra o fato de
da Renascença por Burckhardt, assim como nas de Sy-
ser a Florença do século XV o centro do teatro religioso
monds e de De Sanctis, não há lugar para isso; admitem
na Itália; lá escreveu Feo Belcari ( 2T ) as suas "rappresen-
apenas misturas vagas de religiosidade popular com re-
tazioni", de uma religiosidade simples e sincera. As Laudi
miniscências da mitologia pagã, o que dá como resultado
de Lourenço, das quais a dirigida ao Crucifixo ("Vieni a
as superstições das quais a Renascença é extraordinaria-
mente rica. A situação religiosa da Itália no "Quattro-
cento" seria a seguinte: nas classes altas, indiferença re- 25) K. Burdach: Reformatlon, Renatttance, Humanimut. Berlln,
ligiosa até o ateísmo proclamado, junto com superstições ISIS.
disfarçadas em ciências, como astrologia e magia; nas clas- V. Zabughln: Storta dei Rinatcimento crUtlano in Itália. Mi-
ses baixas, religiosidade enfraquecida e superstições po- lano, 1924.
E. Walser: Qesammelte Studien cur Oeiitesaeschichte der Re-
pulares em abundância. Ora, as superstições populares são nalssance. Basel, 1932.
de todos os tempos, e na Itália quase sempre são resíduos G. Angeleri: II problema religioso dei Rinatcimento. Flrenze,
do paganismo antigo. Ao lado da indiferença e do ateís- 1952.
26) A. Viscardi: "La poesia religiosa dei magnifico Uxetao". (In:
mo, aliás raro, das classes cultas, há angústias religiosas AtU ãel Reale Istituto Veneto, LXXXVII, 1928.)
até nos espíritos aparentemente descrentes, e com tanta 27) Feo Belcari, 1410-1484. (Cf. "Realismo e misticismo", nota 33.)
permanência que não podem ser interpretadas como rea- F. Ceccarelli: Feo Belcari e le sue opere. Slena, 1907.
452 OTTO M A R I A CARPEAUJC
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 453
me p e c c a t o r e . . . " ) é a mais comovida; retomam a tradi-
ção da lírica religiosa do "Trecento"; também não é fato E m geral, o misticismo renascentista não é contempla-
isolado: Leonardo Gíustiniani escreveu Devotissime e tivo; é uma doutrina de ação, mais perto do ocultismo mo-
Sancte laudi (impressas em 1471), e o movimento popular d e m o do que da mística medieval. E s t á ligado a um certo
dos Bianchis, muito comparável aos movimentos que acom- desajustamento, à desproporção entre as exigências do "su-
panham o franciscanismo, deu origem a numerosas landi per-homem" renascentista, representante de um possibilis-
anónimas, expressões de fé ingénua. mo extremo, por um lado, e, por outro lado, os obstáculos
Enfim, Lourenço escreveu um poema filosófico: L'AI- da realidade semimedieval, eclesiástica e agrária. O espí-
teicazione (1474). O assunto é, na aparência, um lugar-co- rito renascentista, de feição estética, personifica logo esses
raum horaciano: a vida na cidade comparada à vida melhor obstáculos como Fortuna, a deusa arbitrária, que é a ini-
nos campos. No fundo, trata-se, como em muitas poesias miga do mérito pessoal e portanto da Glória, tão cobiçada
medievais e barrocas, da comparação entre a vida ativa pelos condottierí e pelos humanistas. A Fortuna os hu-
e a vida contemplativa; mas a argumentação não é teoló- manistas opõem a resignação estóica, ou então a evasão
gica, e sim filosófica: o desejo humano de construir um para o reino do espírito puro, das ideias platónicas. Ou
mundo espiritual, fora e independente das realidades ma- então, procuram conquistar forças sôbre-humanas, dedican-
teriais. É o mesmo pensamento platónico que aparece no do-se às ciências ocultas. Por isso, porque o ocultismo re-
sentido alegórico das Stanze, de Polizlano. E um dos in- nascentista é doutrina de ação, encontram-se entre os ocul-
terlocutores do poema dialogado de Lourenço é Marsilio tistas da Renascença alguns precursores da ciência e téc-
Ficino, mestre e amigo do Magnífico, criador da Acade- nica modernas: Paracelsus, Cardano, Gíovanni Battista
mia de Florença e de um sistema filosófico, no qual o delia Porta.* A maior aspiração dessa gente é a magia; até
platonismo e a religião cristã estavam reconciliados. na Cabala judaica procuram processos mágicos para domi-
Marsilio Ficino (SH) não foi um filósofo original. Mas nar a Fortuna. A astrologia, ao contrário, encontra mui-
o seu eBfôrço para construir um sincretismo filosófico-re- tos inimigos, porque limita a liberdade humana, sujeitando
ligioso, um platonismo cristão, tem alta importância sin- o homem ao determinismo das constelações astrais. O ape-
tomática, como testemunho da premência simultânea das go do homem renascentista às ciências ocultas é um fato
angústias filosóficas e religiosas. O platonismo de Ficino, importante: impede a confusão entre humanismo e pro-
ansioso por adaptar-se à teologia mística do amor, chega gressismo moderno. "Moderna" é antes a distinção nítida
a uma teoria emanatista do amor divino, espalhado no das atitudes diferentes do homem renascentista com res-
mundo. A filosofia de Ficino representa a feição que a peito à magia e à astrologia: daí resulta compreensão me-
mística podia tomar no ambiente do "Quattrocento". lhor do possibilismo e do conceito da "Fortuna", de tanta
importância ainda em Maquiavel. A figura, no eatudo da
qual se aprendeu aquela distinção, é a do maior místico
23) Marsilio Ficino, 1433-1499. da Renascença: Pico da Mirandola ( " ) , Sábio de erudição
Theologia platónica- áe immortalítate animarum.
A. Delia Torre: Storia delVAccaãemia platónica di Firense. Fi- 29) Gíovanni Pico da Mirandola, 1483-1494.
renze, 1902.
De hominls ãignitate; Contro Vastrologia, etc.
O, Saltta: La filosofia ái Marsilio Ficino. Messína, 1923. E. Anagnine: Giovanni Pico da Mirandola. Sincretismo reli-
W. Dress: Die Mystik áes Marsilio Ficino. Leipzig, 1929. gioso-filosófico. Bari, 1937.
P. Krlsteller; The Philosophy of Marsilio Ficino. New York, 1943. E. Qarln: Oiovanni Pico da Mirandola, Vita e Dottrlna. Flren-
ze, 1837.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 455
454 OTTO M A R I A CARPEAUX
nhóis, nascido e vivido em Nápoles, no reino onde havia
enciclopédica, Pico é, no fundo, um universalista medie-
ainda aristocracia latifundiária, mas já vencida pelo poder
val. Na Cabala judaica não procurou apenas processos de
dos reis da casa de Aragão. Sannazaro ocupa um lugar
magia, mas também os vestígios da perdida religião uni-
da maior importância na história da literatura universal:
versal que pudesse unificar todas as religiões positivas e
com o romance pastoril Arcádia criou um género que, du-
armar o homem contra as forças do desconhecido; Pico é
rante quase dois séculos, foi cultivado em toda a Europa.
um místico angustiado. A sua oposição contra a Igreja não
Mas esse fato prejudicou muito a fama de Sannazaro. Por-
é atitude de um livre-pensador, e sim de um defensor da
que o romance pastoril, com os seus camponeses falando
liberdade espiritual da alma mística contra as imposições
a linguagem delicada de cortesãos aristocráticos e cuidan-
do dogma formulado. A "dignidade do homem", eis a gran-
do mais de aventuras amorosas do que dos trabalhos rudes
de aspiração de Pico da Mirandola: o homem é um ser in-
do campo, é um género falso; custou muito destruí-lo. E
teiramente livre, independente das forças sobrenaturais do
a Arcádia já revela todos os característicos do género: o
alto e de baixo, construindo livremente o seu reino do es-
estilo af etado da narração, as poesias insertas, de sentimen-
pírito. Em Pico da Mirandola adivinha-e algo do fundo
talismo choroso ou de galantaria sutil, as cenas monótonas
místico do famoso individualismo da Renascença.
de festas, caças e enterros dos pastores, os nomes gregos
Será fácil afirmar que esse individualismo causou a dos personagens, o elemento autobiográfico (a Arcádia é
ruína politica da Itália; outros motivos mais fortes inter- a história amorosa do próprio autor), e as alusões aos
vieram para isso. Mas o individualismo impediu, até Ma- acontecimentos políticos da época. No mais, a Arcádia,
quiavel, a formação de uma doutrina política coerente. embora representando um novo género, tem pouco de ori-
Quanto à vida pública, havia três atitudes diferentes, con- ginal; o texto é um mosaico de reminiscências de Teócrito,
forme as classes: a evasão, atitude da aristocracia ven- Virgílio e outros autores antigos.
cida; a retirada para a vida particular e económica, atitude
da burguesia; e a revolução democrática, atitude popular Contudo, Sannazaro sofreu a injustiça dos t e m p o s ; é
que assume — o que é muito significativo — feição de re- um poeta autêntico. A Arcádia passa-se numa Grécia ima-
volta religiosa contra o paganismo das classes altas da so- ginária, justamente naquela parte central do Peloponeso
ciedade. Serão as atitudes de Sannazaro, Alberti e Savo- da qual a historiografia não tem quase nada que dizer.
narola. Na verdade, a paisagem arcádica de Sannazaro é, como nas
O grande representante da evasão é Jacopo Sannazaro suas encantadoras Eclogae piscatoriae, o golfo de Nápoles,
( 3 0 ) ; é importante o fato de ter esse filho de pais espa- o mesmo que Pontano cantara, e Sannazaro não é indigno
do seu grande antecessor. Mas enquanto o golfo de Pon-
tano é uma paisagem dionisíaca, caem «obra o golfo de
30) Jacopo Sannazaro, 1458-1530. Sannazaro as primeiras sombras do crepúsculo. Na poesia
Arcádia (primeiras edigões, 1502 e 1504); Eclogae piscatorUie c
outras poesias latinas; De partu virginis U626). de Sannazaro há uma melancolia nobre, aristocrática, ou,
Edijões: Arcádia, por M. Scherlllo, Torlno, 1888; e por E. Car- se quiserem, virgiliana. É o poeta da paisagem na qual Vir-
rara, Torino, 1926, gílio foi enterrado. Sannazaro é cristão; escreveu um poe-
Eclogae píseatoriae por W. P. Mustard, Baltimore, 1914.
F. Torraca: La matéria ãeWArcaãla. Città dl Castello, 1888. ma épico em latim sobre a Virgem. Nesse pormenor tam-
E. Bellon: De Sannazaríi vita et operibus. Parla, 1895. bém, Sannazaro pertence ao passado; ou antes, coloca-se de-
V. Zabughin: Virgilio nel Rinascímento italiano, Mllano, 1S24.
; • ; • : ,

456 OTTO M A R I A CARPBAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 457

liberadamente no passado. A Arcádia ê o sonho de uma indivíduo vencerá com essas armas o mundo e conquistará ' •

vida mais feliz, mats p u r a ; não um sonho fantástico, mas a "Glória": no caso do indivíduo comum, a "Fortuna" re-
sonho de um artista consciente. É a construção de uma vela-se como autentica superestrutura do ambiente, já não
paisagem irreal, mas possível, entre os mares e sob um céu feudal, já não medieval, mas ainda não burguês, ainda
de horizontes fechados, sem litoral. É o sonho de evasão cheio de obstáculos irracionais contra o desejo de levar
dos últimos aristocratas, sonho de um mundo em que não uma vida racional e equilibrada. " V i r t ú " contra "Fortuna",
há descobertas geográficas nem necessidade de negócios eis o começo da luta pela racionalização da vida. Primeiro,
e de comércio marítimo. Sannazaro era um espírito algo da vida em família e nos negócios; só depois, no Estado.
estéril, mas nobre. Leone Battista Alberti é o primeiro génio da burguesia.
Leone Battista Alberti ( 31 ) é um burguês de Florença, O passado foi da aristocracia. O futuro será da bur- ;

quer dizer, burguês quase aristocrático e "super-homem" guesía. Por um momento, momento critico ao fim do
do "Quattrocento", É um dos grandes homens universais "Quattrocento", o presente pertence ao povo. E não deixa
da Renascença. A glória do arquiteto do Palazzo Rucellai de ser significativo que o representante do povo.seja um
e da fachada de Santa Maria Novella sobreviveria princi- monge: Gerolamo S a v o n a r o l a ^ 2 ) , fazendo a revolução de- '
palmente na história das belas-artes, se Alberti não fosse mocrática em Florença. A sombra de Savonarola anda pe-
também o autor de Delia iamiglia, que interessa aos histo- los séculos, carregada menos dos anátemas da Igreja que
riadores da economia política como um dos primeiros' do- mandou queimar o revoltado, do que das maldições do
cumentos do autêntico espirito b u r g u ê s ; Alberti, bom pai mundo culto que não lhe perdoa a revolução desastrosa
de família e chefe de uma economia doméstica modelar, contra a civilização medicéia. Mas Savonarola não era ini-
é precursor de Franklin. Génio universal das artes e gé- migo da alta cultura. A profunda influência que o monge
nio da economia doméstica são qualidades pouco compatí- exerceu na mente de Botticelli e Miguel Ângelo basta para
veis. A explicação do equilíbrio encontra-se em Defunctus, refutar a acusação, e o convento de San Marca, em que
um dos diálogos dos Intercenali: uma teoria completa da Savonarola viveu, é um santuário da arte. Savonarola é
luta entre a "Fortuna" e a "Virtú" humana. A "virtú" de representante máximo, não da hostilidade contra a Renas-
Alberti e da Renascença inteira não é a virtude cristã. É cença, mas da outra Renascença, cristã e popular, que com
o desenvolvimento completo das qualidades do indivíduo os monges de S. Francisco começara e com esse monge
humano; num indivíduo genial como Alberti, o resultado de S. Domingos acabou. E n t r e os monges havia sem-
desse desenvolvimento será o "uoroo universale"; num in- pre poetas, e Savonarola é um dos maiores entre eles, não
divíduo comum, será pelo menos a "cultura geral" do bur- ,•

guês bem-educado e bem-f ormado. São as armas do homem


contra a "Fortuna", o jogo arbitrário dos acasos; o grande 32) Gerolamo Savonarola, 1462-1498.
Preáiche (1496).
Edição por F. Cognasso e R. Palmarocchi, 3 vols., Perugla-Firen- ;
31) Leone Battista Alberti, 1404-1472. ze, 1930/1933. ;
Intercenali; Delia famtalia. P. VlHari: La storia di Gertílanto Savonarola e dei suot tempi.
G. Mancini: Vita âi Leone Battista Alberti. Firenze, 1882. 2 vols. Firenze, 1887/1888. (2.* ed„ 2 vols., Firenze, 1928.) X

Q. Dolci: Leone Battista Alberti, scrittore. Pisa, 1912. A. Galletti: Gerolamo Savonarola. Milano, 1912.
W Sombart: Der Bourgeoís. Muenchen, 1913. J. Schnitzer:* Savonarola, tí.n Kutturb&d aus der Zeit der Re-
P. H. Michel: La pensée âe Leone Battista Alberti. Paris, 1930. naUsance. 2 vols. Muenchen, 1924.
. • ; .

. . . . • '

:
458 OTTO M A R I A CARPEAUX

nas poesias amorosas da Bua mocidade, nem sequer nos seus


comoventes e ingénuos hinos sacros, últimos rebentos da
hinografia medieval, mas em seus sermões — género po-
pular, aliás. Savonarola já foi chamado "grande lírico da
predicação popular", capaz de visões apocalípticas e pro-
féticas. Quando exclama: "O Firenze, siedi sopra i fiumi
de'tuoi peccatií Fa, un fiume di lagrime per lavarlií" — CAPITULO II
o leitor moderno se lembra que essas palavras foram grita-
das do alto dum púlpito, perto do quadro em que Dante O "CINQUECENTO"
aponta à cidade pecadora os reinos do outro mundo. Savo-
narola é medieval, reacionário, sim, se a reação popular < Í O I N Q U E C E N T O " significa "século X V I " . Mas se o
contra a burguesia aristocratizada pode ser considerada rea- V J Í termo tivesse só esse sentido cronológico, não se jus-
cionária. Neste sentido, Arnaldo da Brescia e Jacopone tificaria o seu emprego na história literária. Na verdade,
de Todi também eram reacionários. Savonarola reúne a aquelas duas expressões não coincidem. O termo "Cin-
paixão política de Arnaldo e a força lírica de Jacopone; quecento" foi criado para designar a pretensa "idade áu-
é um homem do "Trecento". E m Savonarola queimaram rea" da arte italiana: a época de Rafael e Miguel Ângelo.
o último descendente do mundo de Dante. Miguel Angelo, porém, considerado hoje como o precursor
Com Savonarola, a Renascença cristã acabou; sobrevi- da arte barroca, morreu em 1564; e a primeira igreja bar-
verá apenas em poucos poetas evasionistas, dos quais San- roca, II Gesú, em Roma, foi construída por Vignola entre
nazaro entrará no "Cinquecento". O caso Savonarola, po- 1568 e 1579. Quer dizer, o "Cinquecento", como época do
rem, terá consequências importantíssimas. A ameaça do alto classicismo, terminou muito antes do século X V I . Por
povo cristão estava dirigida contra duas forças até então outro lado, Rafael, que morreu em 1520, aproxima-se
inimigas ou separadas: a Igreja e o humanismo. O caso tanto de seu mestre, do quattrocentista Perugino, que não
Savonarola acabou com a rivalidade entre elas. Igreja e é possível atribuir a este ou àquele, com plena segurança,
humanistas, igualmente ameaçados, concluirão uma alian- certos quadros. É verdade que Lourenço de Médicis,
ça; e essa aliança é o que constitui o espirito do "Cin- Poliziano, Pulei e Boiardo morrerram entre 1492 e 1495,
quecento". e Pontano em 1503; Sannazaro, porém, só morreu em 1530,
e nada justifica a suposição de o fim do "Quattrocento"
coincidir com o fim do século XV. Ao contrário, os con-
temporâneos consideraram como "fim da Renascença, e por-
tanto do "Quattrocento", o ano de 1527, em que Roma foi
saqueada pelos mercenários do imperador Carlos V e o
brilho renascentista da corte papal acabou para sempre;
no mesmo ano começou a agonia da República de Floren-
ça, destruída em 1530. Desse modo, o "Cinquecento", em
sentido histórieo, é uma época de transição entre o "Quat-
trocento" e o Barroco, compreendendo menos de 50 anos;

HISTÓRIA » Á LITERATURA OCIDENTAL 461


460 OTTO M A M A CABPEAUX ; •

modernos, nos quais nenhum romano teria reconhecido o


i a época durante a qual a arte renascentista caiu em de- espírito da sua cidade. Espírito antigo encontra-se só em
cadência e enfim em decomposição. Nas artes plásticas é , , , outros setores da literatura cinquecentista: há qualquer '
a época de Giovanni da Bologna e Baroccio, do chamado coisa dos elegíacos romanos, de Catulo, Propércío, Tibulo,
maneirismo. dentro das formas modernas da lírica petrarquista, e Plauto
A literatura italiana do "Cinquecento" C) era a mara- teria gostado das comédias de Bibbiena e Grazzini. São jus-
1 tamente aqueles géneros da literatura cinquecentista que .;<"£;
vilha da época; a Europa inteira a conhecia, admirava e
imitava assiduamente. Constitui, com efeito, um edifício caíram depois em olvido, porque tinham estabelecido uma
imponente. Mesmo hoje, quando vastos setores daquela convenção que repugnou ao espírito italiano. A síntese .>.
literatura — a poesia lírica petrasquesca, a comédia à ma- . É não é tão perfeita como parece. Há mesmo muito dese-
neira de Plauto — se tornaram obsoletos e ilegíveis, ainda quilíbrio e muita luta lá dentro. E n t r e expressões aristo-
resta muito de admirável: a epopeia fantástica de Ariosto cráticas e expressões burguesas não era possível reconci-
e a poesia grave de Miguel Angelo, o aristocratismo nobre liação, depois das catástrofes de 1527 e 1530, que derru- •

de Castiglione e a individualidade exuberante de Cellini, a baram a preponderância dos artistas burgueses a serviço
.,
crítica de Maquiavel e a sabedoria prática de Guicciar- .. do Papado, em Soma, e a república em Florença, resta- •i

dtni ;• até mesmo expressões dissonantes como o humor rús- belecendo regimes de feudalismo falsificado, feudalismo de
& .
tico de Folengo e do Ruzzante e a libertinagem de Aretino parvenus sob proteção estrangeira. No seio do huma- -í

participam, de qualquer modo, do equilíbrio feliz entre nismo brigaram "ciceronianos" e "erasmianos", até essa
a força vital dai personalidades e a serenidade da expres- briga se transformar em luta mais séria entre humanistas • -

são estilística, regulada pelos modelos antigos. O "Cin- pagãos e paganizantés, aliados à Igreja, e humanistas cris-
quecento" revela as características de uma síntese defi- tãos, aliados à Reforma. Mas nem essas alianças se man- .-. •

nitiva. tiveram. A s tentativas de reforma erasmiana sucumbiram


ao espírito puritano do calvinísmo. A aliança entre Huma-
Como elementos dessa síntese apontam-se o culto da
nismo e Igreja, concluída diante da fogueira que consu-
Antiguidade e o génio nacional italiano; a nação ter-se-ia
miu o corpo de Savonarola, aliança que caracterizou o kl
lembrado das origens antigas da sua civilização e conse-
humanismo romano, nem essa aliança foi mais duradoura:
guido, por um momento feliz imediatamente antes da der-
rompeu-se nas sessões do concílio de Trento, que esta-
rota das esperanças políticas e eclesiásticas, o acordo per-
beleceu a ortodoxia & maneira espanhola e a própria do-
feito entre a expressão antiga e a expressão moderna. Con-
minação espanhola na Itália, marcando quase o fim da
tra essa interpretação convencional do "Cinquecento" po-
literatura nacional. A literatura dó "Cinquecento", em vez
dem-se levantar numerosas objegÕes: a poesia romântica
de apresentar um modelo de síntese equilibrada, saudade
de Ariosto não tem nada que ver com os modelos anti-
dos italianos humilhados do século X V I I , acompanha uma
gos, nem tampouco a melancolia aristocrática de Casti-
tragédia: a tragédia nacional da Itália. Faz-se mister uma
glioni e o individualismo desequilibrado de Cellini; até
reinterpretação completa do "Cinquecento".
a política de Maquiavel, que se apresenta como comen-
tário perpétuo da história romana, é moldada em cânones
Se o "Cinquecento" é classicista, o "Quattrocento", tão
m diferente, não o pode ter sido da mesma maneira. Com
1) O. Toffanln: Tl Cinquecento. MUano, 1935.
. " • ; • . ' • - , '
462 OTTO MABJA CAHPEAUX HlSTÓBIA DA LlTEHATUHA OCIDENTAL 463

efeito, o classicismo inegável do "Quattrocento" está mais constituem o bloco "Humanismo"; a pequena-burguesia,
na sua literatura latina do que na sua literatura italiana; sem erudição clássica, e os escritores de origem popular,
Pontano é classicista, mas Lourenço de Médicis é realista, e encontram a sua representação espiritual na Igreja, e só
BÔ Poliziano, que escreveu em latim e em italiano, intro- a invasão do protestantismo na Itália e a sua opressão pela
duziu o classicismo na literatura "vulgar". De acordo com Contra-Reforma destruirão essa representação- A aliança
isso, a literatura latina perdeu, no século XVI, muito da entre Humanismo e Igreja significava, portanto, uma es-
sua importância, enquanto se dá o paradoxo: humanistas pécie de união nacional: todos se reconheceram no classi-
ortodoxíssimos como Bembo, dominando perfeitamente a cismo, seja o aristocratismo fantástico de Ariosto, seja a
língua de Cícero, preferem exprimir-se em italiano. O lírica petrarquista e o teatro plauttno dos humanistas, seja o
"Quattrocento" é o século do classicismo em latim; o "Cin- conto boccacciano, "burguês", de Bandello; até um catili-
quecento" é o século ou meio século do classicismo em lín- nário como Lorenzino de Médicis e um popular inculto
gua italiana. Outro conceito que mudou de significação, como Aretino se referem aos modelos antigos. A história
foi o platonismo: o do "Quattrocento" procura a reconcilia- do "Cínquecento" é a história da dissolução daquela "união
ção da nova mentalidade com o cristianismo, cria uma mís- nacional". As tentativas de encontrar um ponto firme no
tica e quase uma religião sincretista; o platonismo do "Cín- caos já diferem muito: aristocratismo de Castiglíone, rea-
quecento" é cristão, pretende continuar e apoiar a tradi- ção cristã entre os humanistas (Girolamo Vida), política
ção cristã, ou então — no caso do neoplatonismo erótico do burguês Maquiavel, rustícismo de Folengo. No último
— iubitituí-la. O platonismo do "Cínquecento" desempe- ato, a dissensão será completa: o papel da aristocracia, já
nha a função d l escoláitlcs no "Trecento", e o "Cínque- subjugada pelos espanhóis, é desempenhado pelos indivi-
cento" pode ter definido, grosso modo, como síntese do dualistas violentos à maneira de Cellini; os humanistas de-
humanismo e do "Trecento" ressuscitado. Daí o culto de dícam-se ao epicurismo céptico, como Firenzuola, ou a
Dante e Petrarca, daí a possibilidade de a Igreja se aliar tentativas de reforma religiosa, como o círculo de Vittoria
ao movimento, aliança que constitui o primeiro ato da tra- Colonna; o burguês Guicciardini representa a renúncia ao
gédia. O segundo — a reação às catástrofes de 1527 e 1530 ideal antigo e a preferência pelo conformismo; e a litera-
— foi a procura de uma doutrina, de um ponto firme no tura popular, das farsas rústicas do Ruzzante até à Com-
caos da decomposição política e social; o terceiro ato, meâia deWAite, separar-se-á das tradições classicistas para
o da decadência, acaba com a cisão da literatura italiana encontrar nas raízes do génio popular tradições mais an-
em duas: a literatura pseudo-heróica, "barroca", das clas- tigas: as origens da comédia romana.
ses dirigentes, e a literatura popular e regionalista, sepa-
O caso Savonarola produziu.a aliança entre Igreja e
ração pela qual a literatura italiana se caracteriza até hoje.
Humanismo. Até então, Roma n i o fora um dos maiores
A grande síntese do "Cínquecento" fracassara.
centros das atividades humanistas. Paulo II, sucessor do
Esse fim lança uma luz retrospectiva sobre o "Cín- Papa-humanista Pio II, instaura até processo contra Pom-
quecento". A aparência da síntese nasceu pela colabora- pônio Laeto e os membros da Academia romana; e os pa-
ção das "classes literárias" no classicismo. São as mesmas pas da casa Bórgia não eram humanistas. Depois do caso
classes que fizeram a literatura do "Quattrocento": a bur- Savonarola, a situação mudou: com Júlio I I , Roma torna-
guesia aristocratizada e os seus "clérigos", os humanistas, se o maior centro do humanismo. E m Roma, como dizia
464 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 465

Mommsen, sente-Be a atmosfera da história universal; em mistério não reside apenas no génio individual do autor;
comparação, Florença sempre foi uma cidade provinciana. Ariosto, tendo começado a carreira com poesias latinas e
E em torno de Roma, no deserto da Campanha romana, voltando-se só mais tarde para a poesia italiana, autor de
onde as ruínas lembram a cada passo a majestade da His- uma epopeia fantástica de cavalaria e ao mesmo tempo poeta
tória, não existe aquela paisagem humana, rústica, que de sátiras realistas, esse Ariosto parece pertencer menos
constitui o encanto popular em torno da Florença cultíssi- ao classicismo do que ao "Quattrocento".
ma. Em Roma não é possível o realismo do "Quattrocento". Ludovico Ariosto ( s ) , apesar do seu génio, é um dos
Tudo ali é grandioso, clássico, e o poder que lá reside poetas mais "fáceis" da literatura universal. Não precisa
tende sempre a identificar-se com a Roma antiga. Os hu- de comentários nem impõe esforços de interpretação. Se
manistas de Roma sentiam-se romanos. Identificaram a aventuras de cavaleiros tivessem para o homem moderno
Roma antiga com a Itália atual. O ideal do "super-homem" o mesmo interesse que o noticiário dos jornais, o Orlando
burguês-aristocrático do "Quattrocento" tem agora um con- Furioso poderia ser lido como um romance policial. Mas
teúdo mais concreto, um conteúdo romano, italiano, na- não é, hoje, legível assim, e quanto mais a crítica se apro-
cional. A literatura dessa gente será grandiosa, pomposa, xima do poema, tanto mais dificuldades surgem. O pro-
entre o digno e o bombástico, com veleidades de zombar blema não é explicar o que está escrito no Orlando Fu-
dos incultos e dos estrangeiros bárbaros. Se o fundamento rioso, mas explicar porque foi escrito. Segundo a lenda,
dessa civilização fosse aristocrático, já seria uma litera-
tura barroca. Mas etaa civilização é, apesar das grandio-
sidade* romanas, essencialmente burguesa, e assim nasce 2) Ludovico Ariosto, 1474-1533.
o fenómeno que é típico das civilizações burguesas: o clas- Poesias latinas; Orlando Furioso (primeira edição, 1516; segunda,
emendada, 1521; definitiva, 1533); Satire (1517/1531).
sicismo. Comédias: I Suppositi (1509); Cassaria (1512); Neçromante
(1520); Lena (1529).
Houve génios classictstas, como Goethe; e o grande ta- Edições: Orlando Furioso, por Santorre Debenedettl, 3 vols., Bari,
lento Bem génio encontra no classicismo terreno sobre- 1928.
Liriehe, por G. Fatlni, Bari, 1924.
modo propício; é o caso dos Corneilles, Popes, Alfieris. Com.rn.eaie, por O. Guerrini, Milano, 1883.
Mas, em geral, está inerente ao classicismo a imitação F. De Sanctis: "L'Orlando Furioso", (In: Storla âella letteratura
hábil, o maneirismo, o convencionalismo; e o classicismo italiana, 1871; 2." ed. por B. Croce, vol. II. Bari, 1913.)
G. Tambara: Stuãt suite satire di Ludovico Ariosto. Udlne, 1899,
italiano não faz exceção. Sobretudo a poesia lírica res- E. G. Gardner: The King of Court Poets. London, 1906.
sente-se da imitação infatigável de Petrarca e dos con- G. Bertoni: L'Orlando Furioso e la Rinascema a Ferrara. Mc-
ceitos platonizantes do amor, e a comédia, de tanta viva- rieiui. 1919.
L. D'Orsl: Le commedie dl Ludovico Ariosto. Milano, 1924.
cidade e abundância, foi sufocada pelo impacto dõ mo- L. Ambrosini: Teocrito, Ariosto, minori e minimi. Milano, 1926.
delo Plauto. Essa objeção de convencionalismo não se H. Hauvette: VArioste et la poésie chevaleresçue d Ferrare.
pode, porém, fazer, de modo algum, a Ariosto; o seu poema Paris, 1927.
A. Momigliano: Saggto tu VOrlando Furioso. Bari, 1B2B,
fantástico-romântico, embora continuação do poema de Bo- B. Croce: Aríosío, Shakespeare e Corneille. 3.* ed. Bari, 1929.
iardo, com o qual não tem nada de comum a não ser o M. Catalano: Vita di Ludovico Ariosto. Genève, 1931.
assunto, não é uma imitação, nem foi imitado, porque é C. Grabher: Sul teatro dl Ariosto. Roma, 1947.
W. Binnf: Método e poesia dl Ludovico Ariosto. Messlna, 1948.
inimitável. Ariosto é sai geaeris, e a explicação desse W. Binní: Storia delia critica ariostesca. Lucca, 1951.
466 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 467

o Cardeal de Ferrara, ao receber a obra das mãos do poeta, Plauto, modernizando os costumes da comédia romana,
disse: "Messer Ludovico, onde achaste todas essas lou- apresentando-nos as aventuras amorosas, de nenhum modo
curas?" A atitude do homem moderno diante do Orlando aristocráticas, da jeunesse dorêe de Ferrara com moças
Furioso deve ser mais ou menos a mesma. O intuito do duvidosas. Das outras coisas que Ariosto viu em Ferrara
autor — — os crimes terríveis do Cardeal Ippolito, apaixonado por
Angela Bórgia, mandando cegar seu irmão Giulio e cas-
"Le donne, i cavalier, 1'arme, gli amori, trar o outro irmão, Ferrante — e do saque horroroso de Ra-
Le cortesie, 1'audaci empresa io canto" — vena, ao qual assistiu, de tudo isso o leitor do Orlando
Furioso não adivinha coisa alguma. De espelho da época
deixa-nos frios. A loucura de Orlando porque Angélica
não se pode falar. O Orlando Furioso ê pura invenção; o
ama a Medoro, as aventuras de Astolfo e Rodomonte, os
próprio autor não nos pede que acreditemos na realidade
amores de Ruggiero e Bradamante — é difícil conceber
das suas fantasias. A imaginação do maior génio não teria
como todos esses nomes foram outrora tão familiares a
sido suficiente para inventar "tantas loucuras", e por isso
qualquer homem culto de qualquer nação assim como hoje
Ariosto resolveu continuar a obra de Boiardo, colocando
nos são familiares os personagens de Balzac e Dostoievski.
os cavaleiros bárbaros da Idade Média no ambiente fino
Até ao fim do século X V I , em menos de 70 anos, havia 70
da Renascença. Os cortesãos e humanistas de Ferrara não
edições italianas dessa obra e traduções para todas as lín-
acreditaram na historicidade nem na possibilidade daquele
guas. Daí a "desculpa" usual da existência do poema: o
mundo romântico, e o próprio Ariosto também não. Ao
Orlando Furioso com os seus cavaleiros valentes, que já
contrário, Ariosto ironiza continuamente os seus perso-
n i o fizeram guerras sérias, com as suas damas amorosas e
nagens, sublinha, em apartes maliciosos, a inverossimilhan-
cultas, com as suas intrigas e cabalas, seria o espelho per-
ça das façanhas e o absurdo das paixões, e deixa-nos per-
feito da sociedade aristocrática do tempo. Bertoni reve-
plexos, com a pergunta nos lábios: por que o poeta inven-
lou todas as paralelas entre o poema e a vida ociosa, culta
tou um mundo para considerá-lo depois com tanto cepti-
e céptico-corrompida da corte de Ferrara, e a arte de Arios-
cismo?
to compara-se, as mais das vezes, aos quadros, suntuosos
como gobelinos, de Rubens e Paolo Veronese. Ariosto, A atitude de Ariosto com respeito a mundo e vida
porém, não era píntor-cortesao. Era um homem estudioso, reais era o cepticismo. A realidade não lhe importava. Em
livresco, que durante grande parte da sua vida esteve exi- vez de chamar-lhe céptico, seria mais exato chamar-lhe
lado da corte, desempenhando altas funções administrati- indiferente. O seu poema não é o espelho fiel de um mun-
vas na Garfagnana, região de camponeses e ladrões que do brilhante e suntuoso; tampouco o seu cepticismo iró-
lhe amarguraram a vida. De muitas coisas assim êle se nico é o reflexo da decomposição social a moral daquele
queixa nas Satire, modelos de sátira horaciana, espirituo- mundo. O mundo é, para Ariosto, um caos desordenado
sas sem malícia, realistas sem grosseria, obras de um ho- de criaturas e coisas absurdas; só um deus seria capaz de
mem inteligente e muito bom. Ariosto é perfeitamente ca- fazer disso um cosmo, e Ariosto n i o se julga divino.
paz de ser realista: quando a vida lhe revela os seus É apenas poeta, utilizando-se daquele material para tecer
lados menos agradáveis e também menos pomposos: nas combinações imaginárias, infinitas, que têm tão pouco "sen-
sátiras assim como nas comédias, imitações vivacíssimas de tido" como as combinações reais. Daí, o grande papel do
468 OTTO MARIA CARPEAUX IIISTÓJUA DA LITERATURA OCIDENTAL 469

"meraviglioso" no poema; Ariosto não acreditava em fei- nha à poesia lírica e à comédia. Mas a multiplicidade das
ticeiros nem em milagres, mas os outros acontecimentos formas impõe distinções.
da vida são porventura mais verossímeis? Os amores que A primeira e mais importante dessas distinções refe-
constituem o assunto principal — o herói não é o guer- re-se ao fato de que parte da literatura classicista está em
reiro Orlando, mas o louco Orlando, furioso por amor latim e outra parte em italiano. Os autores são, muitas
— e as batalhas e lutas que servem só para interromper a vezes, os mesmos; em todo o caso, trata-se de humanistas
monotonia e são, por sua vez, tão monótonas que é pre- que deixaram o latim para escrever em italiano, ou então
ciso ironizá-las, tudo isso é puro arbítrio. A arte de que preferiram logo a língua vulgar. Quem conhece o or-
Ariosto consiste na transformação desse arbítrio em lei gulho dos humanistas com respeito aos seus conhecimentos
do seu mundo fantástico. O meio para consegui-lo é latinos, estranhará o fato, tanto mais quanto aquele orgulho
puramente verbal, ou antes, musical. O Orlando Furioso não era injustificado.
não é um quadro; é, segundo a expressão justa de Croce,
No "Quattrocento", o latim ainda era língua erudita;
um "tema con variazioni", tão irreal como o são todas as
no século XVI, falava-se e escrevia-se o latim com a maior
obras musicais. Em certo sentido, uma composição musi-
naturalidade, como uma língua viva. Contudo, a poesia la-
cal é sempre uma obra de 'Tart pour Tart", porque as
tina do "Cinquecento" ( 3 ) não é de primeira ordem. Basta
leis da composição musical não têm nada que ver com
citar Andrea Navagero (1483-1527), o erudito editor de
as leis que regem este mundo. O Orlando Furioso é assim:
Cícero, Terêncio, Lucrécio, Virgílio, Horácio, Ovídio, Tt-
• sua estrutura nâo i determinada pelo assunto, mas pelo
bulo e Quintiliano, trabalhando para a casa editora Aldus
ritmo; é uma "melodia Infinita", composta de oitavas-ri-
Manutius, em Veneza; a posteridade o conhece sobretudo
mas. Ariosto e o maior mestre da ottava rima; é o ins-
como o poeta que sugeriu a Boscán a introdução das for-
trumento com que esse artista puro do "Quattrocento"
mas métricas italianas na poesia espanhola. De importân-
domina as desarmonias e dissonâncias da vida cinquecen-
cia muito maior é a prosa latina, da qual Cícero foi o su-
tesca, harmonizando aventuras e crimes, loucuras e nobre-
premo modelo. Poliziano já escreveu um latim bem cicero-
zas, sabedoria e doidice, tudo numa harmonia maravilhosa,
niano. Mas só no "Cinquecento" aparece a plêiade dos
puramente imaginária, e contudo não menos real do que
"ciceronianos" ortodoxos. O maior é Jacopo Sadoleto (*),
qualquer outra realidade. Ou antes, Ariosto considera esse
o digno bispo de Carpentras e um dos prelados mais nobres
seu mundo mais real do que o real: porque da "realidade"
daquela época corrompida. Sobrevive em antologias pelo
do seu tempo nada ficou; mas no poema ficou
epigrama latino que fez quando desenterraram o grupo de
Laocoonte. O latim era quase a sua língua materna; escre-
" quell' odor che sol riman di noi."
veu o diálogo Phaedrus de laudibus philosophiae para subs-
Dominando a realidade pela arte, Ariosto é um clás- tituir o diário perdido de Cícero, • não ficou aquém do
sico. O classicista adapta a sua arte ao mundo, enf eitando-o modelo. O mais famoso dos ciceronianos é Pietro Bembo
com decorações ilusórias; por isso os classicismos servem
tão bem às civilizações burguesas, nas quais a arte só tem
3) A. Sainati: La lirica latina dei Rinaicimento. Pisa, 1016.
a função de um ornamento. Esse conceito é aplicável a
4) Jacopo Sadoleto, 14Í7-1663.
grande parte da literatura cinquecentista, em primeira U- O. Puglia: Jacopo Sadoleto. Valle dl Pompei, 1623.
470 OTTO M A R I A CARPEAUX HrsTÓRiA DA LITERATURA OCIDENTAL 471

( B ), o autor de Epistolarum familiaium 1. VI e de diálo- encarnação da Razão poética que sabe bem compor e redi-
gos que reúnem à dignidade inata da língua a vivaci- gir em versos. "Degli altri poeti onore e lume", no dizer
dade coloquial das cartas de Cícero — mas Bembo foi de Dante, que também alegorizara em Virgílio a "Razão",
um dos primeiros que se passaram para a língua vulgar; não a dos racionalistas, mas a que tem ao mesmo tempo
como Castíglione, o autor do Cortegiano, que começou com sentido místico, como o nous dos estóicos, o sentido di-
um De oratore, e tantos outros. Essas mudanças estão re- vino, espalhado em toda a parte do mundo. Os humanis-
lacionadas com a famosa briga entre ciceronianos e eras- tas deviam simpatizar com esse conceito do "Trecento";
mianos: em 1528 — o ano imediatamente seguinte ao saque possibílitou-lhes uma idealização e estílização análoga do
de Roma — Erasmo, o chefe do humanismo cristão, lançou amor.
contra os ciceronianos o seu Ciceronianus, acusando-os de E m 1525 Pietro Bembo publicou, em Veneza, o diá-
romanismo falsificado e de preferência unilateral pelos va- logo Prose delia volgar língua, em que afirmou, com co-
lores estéticos da língua. O ataque não conseguiu bem o ragem notável, a superioridade da língua italiana sobre a
seu fim: o anticiceronianismo partiu de um ponto de vista latina. O primeiro esboço dessa obra, escrita durante mui-
religioso que pode agradar aos protestantes; mas o pro- tos anos, é mais ou menos de 1500, e foi realmente ou men-
testantismo já estava voltado contra Erasmo, humanista e talmente dedicado a uma senhora veneziana, da qual conhe-
católico incorrigível. Justamente os chefes do movimento cemos só o nome, Elena. O motivo do trabalho foi a lem-
protestante na Itália — Bernardino O chino, Aonio Palea- brança de Dante, que se exprimiu em volgar para ser
sio e o espanhol Valdês — eram grandes ciceronianos. A entendido pela amada; a origem da poesia amorosa do
acusação maia séria de Erasmo foi a de falso romanismo, "Cinquecento" é, pois, a mesma que a do "Trecento" («)'. O
Que acertou; o circulo humanista de Roma já estava dissi- estudo pormenorizado dessas origens justifica-se, senão
pado, depois da catástrofe de 1527. O sonho romano de- por outros motivos, pela enorme importância futura do pe-
sapareceu, substituído, mais uma vez, por aquela melan- trarquismo de Bembo na poesia espanhola, na francesa, na
colia passadista, da qual em todos os séculos Virgílio foi inglesa.
o modelo. Foi então que Sannazaro escreveu o poema De
A poesia amorosa em língua italiana, que Bembo tinha
partu virginis, poema cristão em estilo virgiliano, e Vida
em mente, não pode ser a dos provençais nem apoiar-se
a sua Cfiristias. Mas esse virgilianismo cristão estava fora
em teorias escolásticas. Quem quisesse tomar ao pé da
dos interesses e capacidades dos humanistas, indiferentes
letra o amor platónico, discutido no Cortegiano, de Castí-
era matéria de religião.
glione, e nos tratados de poética do tempo, eBtaria muito
Para os humanistas, Virgílio não era o "pagão em Ad- errado. O século X V I é uma época de sensualidade desen-
vento", o profeta meio cristão da Écloga IV. Para os hu- freada e de grosseira brutalidade dos costumes. Rabelaís
manistas, Virgílio era o poeta clássico dos classicistas, a é mais verídico do que Leone Ebreo, e até na poesia de
Ronsard se encontram expressões inesperadas. As teorias
escolásticas, embora ainda muito estudadas, não eram su-
6) Cf. nota D.
R. Sabbadinl: Storia dei Cicerontimismo. Torino, 1885.
L. Borghi: Umanesimo e concesione religiosa in Erasmo ãi Rot-
terdam. Flrenze, 1935. fi) Cf. o capitulo sobre Bembo em Toííanln (nota 1), e:
A. Renaudet: Erasme et Vltalie, Paris, 194B. V. Clan: Vn decennto delia vita dí Pietro Bembo. Torino, 1885.
OTTO MARIA CARPEAUX.
HISTÓRIA DA LITEBATUBA OCIDENTAL 47S

ftcientea p a r i conseguir aquela idealização e estilização


rosa. Nasceu uma poesia viciada nas raízes pela idealiza-
do» fatos reais, das quais uma arte classicista precisa para
ção filosófica e pseudofilosófica e pelo convencionalismo
a* apresentar decente em boa sociedade. A solução foi ofe-
da expressão.
recida pelo platonismo, ou antes, neoplatonismo, do judeu
A poesia lírica italiana do "Cinquecento" (•) »ão tem
espanhol Leone Ebreo ( 7 ), que escreveu em italiano os
muito boa fama, e a leitura de uma das grandes antolo-
Dialoghi d'amore. Era um homem muito culto, no seu pen-
gias revela realmente uma monotonia quase insuportável.
samento influíram o neoplatonismo do filósofo judeu me-
E m parte, porém, essa monotonia é a da perfeição formal,
dieval Avicebron, a mística dos vitorinos e de Bonaven-
assim como acontece em Andrea dei Sarto e outros pinto-
tura, o platonismo de Ficino, Contudo, é um pensador
res contemporâneos. Atrás dessa perfeição encontram-se,
original. A sua ideia do amor como princípio universal
às vezes, pensamentos originais e até — mais raramente
preparou o caminho ao monismo de Giordano Bruno e
— expressões novas, mesmo no mais difamado dos cinque-
Spinosa, que estudavam assiduamente o Ebreo, e a sua centistas, em Bembo. E entre o grande número de poetaa
meia identificação do amor platónico com o amor sensual insignificantes aparecem alguns autênticos, como Galeazzo
excitou a época: Leone exerceu influência profunda so- di Tarsia e G aspara S tampa. É verdade, no entanto, que
bre Bembo e Castiglione, Ronsard e Du Bellay, Fray Luís faltam as grandes personalidades, e que não há evolução
de León e Camões, Montaigne e Cervantes; estes dois úl- alguma: a poesia cinquecentista acabou como principiara.
timos incluíram os Dialoghi d'atnore entre os seus livros Por isso, não importa a ordem em que os poetas sejam trata-
preferidos. Leone 6 um grande estilista, e os seus pe- dos. "Plus ça change, c'est la même chose".
ríodos revelam, em meio de exposições secas e estéreis, O decano é Pietro Bembo ( 9 ), teórico platónico nos
Inesperada força poética. A teoria do amor de Leone Ebreo Asolani — belo panorama, aliás, das conversas espirituo-
deu ao "Cinquecento" latinizado a coragem de fazer poe- sas, no ambiente artístico da Veneza de 1500 — e poeta
sia erótica em língua italiana; os próprios Dialoghi Namo- convencional, imitador exato de Petrarca. No seu tempo,
re, escritos em volgar, são tratados e poesia ao mesmo
tempo. As formas dessa poesia não podiam ser outras
senão as nacionais, as italianas: o soneto e a canzone. 8) Q. Thomas; Êtude sttr 1'expression de Vamour platonique dans
Com essas formas métricas introduziu-se o vocabulário e la poéste italtenne du Moyen Age et de Vi Renaissance. Pa-
ris, 1892.
a sintaxe de Petrarca- O petrarquísmo tornou-se lei rigo- l i . Pieri: Le petrarquisme ou XVle siècle. Marseille, 1895.
A. Galletl: "La lírica volgare dei Cinquecento e 1'anlma dei Rl-
nasclmento". (In Nuova Antologia, agosto de 1929.)
1) Leone Ebreo (Judas Abarbanel), 1475-1508. Antologias:
Dialoghi ã'amore (escritos »ntre 1502 e 1505, publicados em 1535). L. Frati: Rime di poeti dei XVI secolo. Bologna, 1873.
Edições por S. Oaramella, Bari, 1929, e por O. Gebhardt, Hei- Lirici dei Secolo XVI (Biblioteca clássica económica Sonaogno,
delberg, 1920. Milano, 1879).
Joaquim de Carvalho: Leão Hebreu, Filósofo. Coimbra, 1918. 9) Pietro Bembo, 1470-1547.
H.Pflaum: Die Idee der Ltebe, Leone Hebreo. Tuebingen, 1926. Epistolaram familiarum libri VI; De Vergilit culice et Terentii
L. Tonellí: Vamore nella poesia e nel pensiero dei Renascimen- Jabulía; De Aetna; Gli Asolani (1505); Prose deite volgar lingua
to. Firenze, 1933. (1525); Rime (1530).
O. Fontanesl: II problema deli' amare nell' opera dt Leone Ebreo. Edição das obras por A. T. Seghezzi, Veneza, 1729. Edicâo da
Venezia, 1934. Sarça em A. Mai: Spiclleglum Romanum. Vai. VIII.
M. Santoro: Pfeíro Bembo. Firenze, 1837.
:

474 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 475

a glória desse ditador literário era imensa; hoje, é despre- momentos raros de grande inspiração. Foi sobretudo a
zado, embora um Burckhardt considerasse como obra-pri- noite que o inspirou, e ao "Sonno" da "Notte plácido fi-
ma o idílio latino Sarça — e não é de todo impossível que glio", o poeta insone dedicou o famoso soneto que termina
classicismos futuros lhe tributem admiração maior da que com o verso inesquecível:
permite o nosso anti-historicismo ingrato. Molza ( 1 0 ), ou-
tro difamado, escrevendo de preferência em latim, era ho- " o notti acerbe e d u r e i "
mem devasso e poeta licencioso; mas a sua fábula bucó-
São sobretudo Guiâiccioni e Delia Casa, os menos petrar-
lica Ninfa Tiberina é uma transfiguração tão bela da pai-
quistas entre os classicistas do "Cinquecento", que hoje são
sagem romana que até o severo De Sanctis a admirou.
reabilitados pelo crítico Cario Bo. Bernardino Gota ( í 4 )
Annibale Caro ( n ) , se não é, apesar do vigor dos «eus sone-
é menos original e menos desigual. Os 36 sonetos sobre a
tos satíricos, um grande poeta, é pelo menos um grande es-
morte de sua esposa — Rota é o único poeta do amor con-
critor, como revela nas suas cartas, consideradas clássicas,
jugal, entre os petrarquistas — e as 14 églogas sobre o
na bela tradução de Dáfnis e Çloe, e afinal na famosa tra-
golfo de Nápoles, imitam servilmente Petrarca e Sanna-
dução da Eneida: até os anacronismos do estilo dessa obra
zaro, mas com tanto virtuosismo verbal que os contempo-
revelam a arte vigorosa dos cinquecentistas para conquis-
râneos o julgavam superior a ambos. Galeazzo di Tarsia
tar ao voigar as obras da Antiguidade. Giovanni Gui-
(1B) é diferente de todos; misteriosa como a sua personali-
diccioni ( 12 ) salva-se aos olhos da posteridade italiana pelo
dade, que não foi possível identificar com certeza, é a ín-
patriotismo de alguns sonetos. Giovanni Delia Casa ( 1 3 ),
dole da sua poesia, indepedente das metáforas petrarques-
autor famoso do Galateo, espécie de pendant menos aris-
cas, de um romantismo melancólico; com as suas próprias
tocrático do Cortegiano, e poeta medíocre, retórico, tinha
palavras, viu e sentiu "altro sol, altra aurora". Enfim,
' ' ' ••"• Gaspara Stampa ( l 0 ) conseguiu o que nenhum dos outros
10) Francesco Maria Molza, 1489-1644. conseguira: sem romper com o petrarquismo, fazer do
Ninfa Tiberina.
W. Soederhjelm: Francesco Marta Molza, en renaessenspoets 14) Bernardino Rota, 1509-1575.
Ufverne och Dtktning, HelsinJd, 1811. In morte da Porzia Capece; Ecloghe piscatorie.
11) Annibale Caro, 1507-1566. Edição por Cacchio, Napoll, 1726.
Scritti scelti, edit. e comentad. por V. Cian e E. Spadolini, G. Rosalba: "Un poeta coniugale". (In: Giornale Sforíco, XXVI.)
Milano, 1912.
15) Galeazzo dl Tarsla, 1520-1553? (foi tantas vezes Já., pelos con-
12) Giovanni Guidiceionl, 1500-1541. temporâneos, confundido com outro poeta do mesmo nome que
Rime (1567), não é possível identificá-lo com certeza),
Edição por E. Chiorboll, Bari, 1912. Rime (publicadas por Baslle, 1617).
E. Chiorboli: Giovanni Guiâiccioni. Jesí, 1007. Edição por F. Bartelli, Cosenza, 1868.
13) Giovanni Delia Casa, 1503-1556. A. Emanuele: Galeazzo di Tarsia. Taranto, 1908.
Galateo (1554); Rime e Prose (1558). 16) Gaspara Stampa, 1523-1554.
As obras poéticas, completas, só na edição de G. B. Casottl, Rime.
Flrenze, 1707. Edít. por A. Salza, Bari, 1912.
EcliçíLo do Galateo por C. Steiner. Milano, 1910. G. A. Borgese: "II processo dl Gaspara Stampa". (In: Studi di
O. Tinlvella: II Galateo di Giovanni Delia Casa. Roma, 1037. letteratura moderna. Milano, 1915.)
L. Campana: "Monsignore Delia Casa e 1 suol tempi". (In: studi E. Donadonl:> Gaspara Stampa. Messina. 1919.
storiei, XVI.) G. A. Cesáreo: Gaspara Stampa, Donna e poetessa. Napoll, 1920.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 477
476 OTTO M A R I A CARPEAUX
pio italiano seduziu, no entanto, os dramaturgos de outras
soneto convencional o vaso de uma expressão pessoal e
nações: a Castro, do português António Ferreira ( 1(l ), que
apaixonada ("Amor m'ha fatto tal ch'io vivo Ln foco", e
tem, além da beleza lírica dos coros, a prioridade de ser a
"O notte a me piú chiara e piii beata", com alusão ine-
primeira tragédia sobre um assunto moderno e nacional,
quívoca), da qual o próprio Petrarca não fora capaz. O
e foí imitada na Nise lastimosa (1587), do espanhol J e -
preço dessa originalidade foi a vida inteira: iludida pelo
rónimo Bermudez (f 1599). Também pertence à série
primeiro ao qual se entregou, recebida com frieza pelo ou-
das tentativas sofoclianas a Cléopâtre Captive (1552), de
tro, acabando em febre da alma e do corpo, essa Labé
Etienne Jodelle, poeta da Plêiade francesa. Em nenhuma
italiana, menos artista e menos burguesa do que a cidadã
dessas obras se conseguiu atravessar a fronteira entre o
de Lião, não foi vitima romântica das convenções, que
triste e o trágico. Só o modelo de Séneca, interpretado
ela desprezou, e sim da poesia desmesurada na sua alma.
de maneira nova, dará a tragédia de Giraldi e Speroni, na
Gaspara Stampa não era daquele mundo.
Itália, Virués, na Espanha, e Garnier, na França, de Kid,
Um romântico chamaria "trágica" a vida de Gaspara
Marlowe e Shakespeare. A autêntica tragédia moderna
Stampa, e os dramaturgos barrocos, já da segunda metade
será criação do Barroco.
do século XVI, seriam da mesma opinião. Os contempo-
O produto mais vivo da literatura classicista é a comé-
râneos de Gaspara Stampa, não. O seu conceito da tra-
dia (-'"), embora sem sair da imitação de Plauto. Parece que
gédia excluiu a paixão "imoral" ou criminosa no herói,
escrever comédias plautinas, com os conhecidos pais es-
Justamente o que o Barroco julgará indispensável para
túpidos e avarentos, filhos enamorados, moças duvidosas
chegar a purificação moral no fim da pega. O conceito da
e criados astutos, era negócio de toda a gente. Ariosto ( 2 1 )
tragédia na Renascença é elegíaco, inspirado nos coros lí-
é um dos primeiros cultores da comédia plautína, e dos
ricos da Sófocles, compreendido como espécie de Virgílio
mais felizes; e a obra-prima no género será de Maquiavel.
da tragédia. Ê t t e foi o modelo de Trissino ( " ) ao escre-
A imitação de Plauto inicia-se, após as primeiras tenta-
ver a Sofonisba (1515), a primeira tragédia "clássica" das
tivas do "Quattrocento", com a Calanâria (1513), de Bib-
literaturas europeias, obra que tem apenas o mérito da
biena ( Z2 ), na qual a comicidade das confusões entre gê-
prioridade e o mérito menos certo de ter imposto à lite-
ratura trágica da primeira metade do século X V I ( 18 ) o 16) António Ferreira, 1528-1569.
modelo impróprio da tragédia grega; impróprio porque a Castro (1553?).
tragédia grega é mitológica, enquanto o teatro moderno Edição por Mendes dos Remédios, Coimbra, 1915.
T. Heinermann: ígnea de Castro. Die ãramatischen Behand.lv.n-
desconhece o mito. Daí a necessidade de escolher enredos gen der Sage tn ãen romanischen Literaturcn. Leipzig, 1814.
históricos, como na Rosmunda, de Giovanni Ruceilai (1475- J. O. Fuccila: Studies anã Notes. Napoll, 1953.
1526), enquanto Oreste (1526), do mesmo autor, se trans- 20) J. Sanesi: La commedta. Mllano, 1911.
L. Russo: Le comedie fiorentine dei 500. Firenze, 1039.
forma quase em tragédia burguesa ou doméstica. O exem- 21) Cí. nota 2.
22) Bernardo Dovlzi, dito Bibblena, 1470-1620.
17) Gianglorgio Trissino, 1478-1550. (Cf. "Teatro e Poesia do Bar- Calanâria (representada em 1513, em Urbtno, e em 1518, em
roco protestante", nota 25.) Roma, perante o papa Leão X).
Sofonisba (1915). Edição em: I. Sanesi: Commedie dei Cinquecento. Vol. I. Bari,
E. Ciampolini: La prima tragedia regolare delia letteratura Ita- 1913.
liana, Firenze, 1896. A. Moretti: "Bernardo Dovizl e la Calandria". (In: Nuova Anto-
O. Marchese: Studto sulla Sofonisba dei Trissino. Bologna, 1887. logia, 1882.) ,
18) F. Neri: La tragedia italiana nel 500. Firenze, 1904. A. Santelli: II carãinale Bibbiena. Roma, 1931.
478 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 479

meos, nos Menaechmi, de Plauto, está desdobrada pelo fato


tos em Boccaccio e outros contistas; mas a saborosa lín-
de OB gémeos serem de sexos diferentes; o diálogo da peça
gua florentina, da qual era considerado o mestre mais es-
i, aliás, de verve irresistível. As imitações dessa farsa
pirituoso, é só um dos meios de adaptação perfeita dos
vivacissima foram inúmeras. Só Aretino ( 2 3 ), que imitou
assuntos à vida moderna. As comédias de Grazzini são
na Talanta o Miles glotiosus, teve a coragem do plebeu sem
farsas como as dos outros plautianos — o seu Arzigogolo
erudição clássica, de zombar, no Filosofo, dos humanistas,
é a peça mais cómica do teatro italiano — e ao mesmo tem-
e escolher, no resto, assuntos vivos de invenção própria:
po um panorama vivo da sociedade italiana do século X V I ,
no Marescalco antecipou a Epicoene, de Ben Jonson, e n o
dos costumes da burguesia e da jeunesse dorée. Se hou-
Ipociito, o Tartuffe, Os outros, todos, exploraram Plauto:
vesse dúvida quanto à veracidade do quadro, bastaria citar
Firenzuola, nos Lucidi, os Menaechmi; Gelli, em La Spoita
os contos de Bandello ( 2fl ), homem de bom senso lombardo
(1543), a Aululaiia. Um dos melhores entre eles é Giamma-
e sem muita paixão pelos estudos clássicos, grande talento
ria Cecchí ( 23 ~ A ), que imitou, na Dote, o Trinummtts, nos
de narrador que o aproxima, às vezes, de Ariosto: o quadro
Rivali, a Casina, nos Incantesimi, a Cistellaria, na S fiava, o
da vida italiana em Bandello é o mesmo que em Grazzini.
Mercator; mas no Assiuolo conseguiu dramatização efi-
É como a prova definitiva do caráter burguês da civiliza-
ciente de um assunto boccaccesco. No resto, encontram-se
ção classicista do "Cinquecento". A historiografia literá-
entre os plautianos os nomes mais famosos do tempo:
ria tomou em face daquela comédia e daquela novelística
Trissino, imitando, nos Simillimi (1548), os Meneachmi;
uma atitude moralizante: salientou que a comédia obsce-
Lodovico Dolce, adaptando, no Capitano, o Miles glorious,
na de Bibbíena, que era cardeal da Igreja romana, fora re-
• no Marito, o Amphítruo; o famoso ocultista Giovan Bat-
presentada na presença do Papa Leão X, e isso em 1518,
tlita delia Porta, remodelando, na Trappolaria, o Pseudo-
quando no Norte já rebentara a tempestade da Reforma.
lus — i relação completa deBsas imitações, entre as quais
A corrução moral, da qual aquela comédia e novelística
iremos encontrar a Aridosia, de Lorenzino de Mediei, e o
são o espelho, teria sido a verdadeira causa da catástrofe
C andei aio, de Giordano Bruno, seria interminável. O maior
italiana.
de todos esses comediógrafos é Grazzini, chamado II Lasca
( a 4 ). Também êle imita Plauto, embora tomando os assun- Esse ponto de vista, em que há algo de verdade, não
pode ser mantido integralmente. A imoralidade daquela
literatura não pode ser deduzida dos assuntos, tomados
23) Cí. nota 35.
II Marescalco (1533); Cortigiana (1534); Ipocrito (1542); Ta- quase sempre de empréstimo à comédia latina e à novelís-
lanta (1542); Filosofo (1546). tica do "Trecento" e do "Quattrocento" ( a e ). A apreciação
U. Fresco: Le commeáie di Pietro Arentino. Camerlno, 1901.
23A) Giammaria Cecchi, 1518-1587. 25) Matteo Bandello, c. 1480 - c . 1561. .
Assiuolo (1550). Novelle (1554/1573),
F . RísszJ: Le commeáie osservate âi Cecchi e la commeãia clás- Edição por G. Brognoligo, 5 vols., Bari, 1910.
sica âel sec. XVI. Bocca S. Casciano, 1904. E. Masl: Matteo Bandello e la vita italiana in un novellatore
dei SOO. Bologna, 1900.
24) António Francesco Grazzini, dito II Lasca, 1503-1583. F. Plcco: Matteo Bandello, évêque d'Aaen. Agen, 1920.
Gelosia; La Spiritata; Le, Strega; UArzigogolo.- Th. G. Griffith: Banãello's Fictton. Oxford, 1955.
O. Dlni: II Lasca tra gli Accaãemici. Pisa, 1896. 26) V. De Amicis: Uimitazione latina nella commeãia italiana. Fi-
G. Gentile: Delle commeáie ãi António Francesco Qraazini. Pisa, renze, 1897.
1897. G. B, Pellizzaro": La commedia dei secolo XVI e ia novellistica an~
M. von Wolff: António Francesco Qraasini. Berlin, 1913. teriore. Vicenza, 1901.
*80 Oiro M A R I A CABFEAUX
' :•>: ;' HlSTÓHIA' DA LlTEBATUSA OCIDENTAL 481
moralista já é, aliás, a do próprio Grazzini; na edição de
1582 das suas comédias, justifica-lhes a licenciosidade pelo dias plautinas do século. Durante anos, foi companheiro
objetivo de revelar os segredos do vício e ensinar me- de devassidão do Duque Alexandre de Toscana, seu primo,
lhores costumes. Mas Grazzini escreveu isso 40 anos de- paira descobrir, de repente, a sua vocação de Bruto e assas-
pois de ter escrito as comédias e 20 anos depois do conci- sinar o tirano. No exílio escreveu, para defender-se, a ad-
lio de Trento. O moralismo de Grazzini é p r e t e x t o ; o nosso mirável Apologia, a maior peça de oratória italiana, de
ponto de vista não pode ser o mesmo, mas seria no fundo uma força digna de Demóstenes. Fêz o papel de B r u t o ;
o mesmo se considerássemos como fotografia da realidade e acabou falando como só um verdadeiro Bruto poderia
o que foram imaginações de um grande autor cómico. K Ci ter falado. "Lorenzaccio" é um problema psicológico: dra-
è in lui", dizia De Sanctis, "Ia stoffa di un grande scrittor maturgos como Shirley e Musset esforçaram-Be para expli-
cómico", mas advertiu: "Cosa manca ai Lasca? La mano car o caso. Mas não é um problema histórico. O Estado
che trema". A corrução nunca está no assunto; todas as já não era. Como no "Q/uattrocento", uma obra de arte, e
épocas são mais ou menos corrompidas. A corrução está sim um teatro de crimes, e os humanistas foram os aliados
no autor, na falta de critério moral. E isto se aplica não dos criminosos, elogiando-lhes a "virtú" que teria vencido
só ao Lasca, mas a toda a literatura classícista do "Cinque- a "Fortuna". A atitude catilinária já era anacrónica.
cento", que era, como os classicismos sempre são, confor- Em meio do caos moral, ainda permanece possível a
mista; contribuiu até, pela idealização, para ocultar a ver- procura de um ponto firme fora da realidade, limitando o
dadeira situação social: a derrota do nacionalismo romano possibilismo individualista pelas normas da tradição cristã,
ou pela "contenance" do ideal aristocrático, ou então pelo
dos humanistas, a impotência política da Itália no momen-
senso utilitarista, pragmatista, da burguesia. São as tenta-
to do seu maior desenvolvimento cultural, a degeneração
tivas dos humanistas virgilianos, de Castiglíone e de Ma-
do "possibilismo" renascentista em individualismo anárqui-
quiavel, e em todos eles age o platonismo subterrâneo,
co, a atomização da vida, o caos dos valores.
herdado da mística do "Quattrocento"; até o Estado de
Do humanismo não pôde vir a salvação; estava com- Maquiavel é uma utopia às avessas da utopia platónica.
prometido demais com os poderes estabelecidos, antigos e Ou então, as classes plebeias revoltam-se numa tentativa
novos. Exemplo disso é o famoso "Lorenzaccio", Lorenzino de oposição; representam-nas o pobre clérigo Berni, o pro-
de Mediei ( 2T ), autor da Ariáosia, uma das melhores comé- letário inculto Aretino, o camponês Folengo.
O virgilianismo dos humanistas cristãos é a reação ita-
31) LorenainD de"Medfci, 1513-1548. liana contra o ciceronianismo oficial. Virgílio fora sempre
Arídosia (1535); Apologia (primeira edição impressa na Storía um ídolo dos humanistas: o Cícero da poesia. Mas basta
florentina, de Varchi, publicada em 1723). comparar um humanista como Giovanni Rucellai — cujo
Edição por F. Revello, Torlno, 1921.
poema didático Le A pi (1524) é uma versão livre, muito
F, Martini: Lorenzino âe'Meãici, il tiranniciãio nel Rinasci-
mento. Firenze, 1882. bela, do quarto livro da Georgica — com os virgilianos
L. A. Ferrai: Lorenzino â&Meãíci e Ia socíetà cortigiana dei 500. cristãos, os Sannazaros e Vidas, para sentir um outro
Milano, 1891. espírito. Neste espírito é inconfundível a influência
M. Storti: Lorenzino â&Meâtci e i suoi scritti. Casalmaggiore, de Erasmo, que com o Ciceronianus se tornara adversário
1907. poderoso dos humanistas pagãos; o papel de Erasmo nos
A. Salvi: Lorenzino áe'Medict e Ia sua Apologia. Sulmona, 1913. movimentos religiosos da Itália do século X V I foi con-
E. Rho: Lorenzino il tiranniciàa. Rovlgo, 1928.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 483
482 <h 10 M A R I A CARPKAUX

siderabilísalmo (*"). O que distingue os virgitianos italia- o Cortegiano se interpretou assim; e já foi considerado
nos, è certa melancolia crepuscular e atitude de evasão. como realidade maravilhosa o que era apenas ideal de um
O primeiro e maior entre eles, Sannazaro, o autor do De sonhador. Os diálogos do Cortegiano, dos quais participam
parta virginis, é ao mesmo tempo o autor da Arcádia, No a Duquesa Elisabetta Gonzaga, Giuliano de Mediei, Bem-
seio do virgilianismo dos humanistas cristãos nasceu a pas- bo, Bibbiena e outros cavaleiros e damas de alta cultura
toral, a poesia bucólica ( Zfl ). literária e pessoal, apresentam um quadro encantador: a
O sucesso da poesia virgiliana cristã foi maior do que corte de Urbino como imagem da civilização aristocrática
se pensa e maior do que seu valor justifica. É hoje difícil
da Renascença. O cortesão ideal de Castiglione é um ca-
imaginar a glória internacional de Battista Mantovano
valeiro de maneiras distintas, igualmente forte nas armas,
(3<>); o espírito que enforma as suas 10 Eclogae latinas é o
de um monge medieval, mas a forma é virgiliana. As Eclo- nos esportes, na conversação culta, na galantaria e nas
gae do Mantovano foram divulgadas em inúmeras edições e letras clássicas e italianas. Segundo conceitos modernos,
numerosas traduções] no tempo de Shakespeare, serviram sua vida é completamente inútil, porque antieconômica.
de livro didático nas escolas inglesas. Mas só nas suas Certas licenciosidades e expressões fortes indicam que Cas-
poesias mariológicas (Parthenicae) o Mantovano conseguiu tiglione não pretendeu idealizar demais; se nós outros res-
a harmonia perfeita entre espírito cristão e forma clássica. piramos a atmosfera de Rafael nessas conversas de Ur-
A imitação exata de Virgílio prejudica as églogas cristãs bino, talvez seja erro de perspectiva. Contudo, aquela fi-
do latinista Marco António Flamínio (1498-1550). O espí- gura ideal de cortegiano não existiu nunca. Mas tam-
rito cristão é mais forte em Girolamo Vida ( 3 1 ) : afirma-se pouco o leitor moderno deve concluir que aquele ideal
que Tasso, Milton e Klopstok encontraram na sua Christias histórico seja sem significação atual. O Cortegiano é a
a ideia do conselho dos espíritos infernais, e recentemente
apologia da cultura pessoal, das leituras desinteressadas,
celebra-se Vida como precursor poético da Contra-Reforma.
do comportamento digno, do desenvolvimento igual e per-
Mas, como poeta, Vida oferece só o fraco encanto da "me-
feito do corpo e da alma. Em todos os pormenores, o livro,
lancolia da impotência".
que teve sucesso enorme e internacional, é da época. Hoje,
O crepúsculo do espírito aristocrático é representado
só pode ser lido como documento histórico e modelo de
pela obra de Baldassare Castiglione ( a 2 ). Mas nem sempre
estilo. Mas não mereceria prognóstico muito favorável a
28) P. de Nolliac: Erasme et VItalie. 2* ed. Paris, 1925. (Cf. nota 6.) civilização que se esquecesse de todo do ideal do Corte-
A. Renaudet: Erasme et VItalie. Paris, 1946. giano; pois seria, em ultima conclusão, a perda de todos os
29) V. Zabughin: Storia ãel rínascimento Cristiano in Itália. Mila-
no, 1924. valores superiores da vida humana. E o próprio Baldassare
30) Cf. "A Renascença Internacional", nota 57. Castiglione pressentiu esse fim da sua própria civiliza-
31) Girolamo Vida, 1485-1566. ção. No quarto livro da obra, discute-se a finalidade das
Christias (1535).
E. Lopez Celly: La Cristiaâe de Girolamo Vida. Alatri, 1917. sutilezas do espírito e delicadezas da alma, e uma tristeza
32) Baldassare Castiglione, 1458-1529. secreta obumbra o diálogo. Castiglione conhece o esplen-
Cortegiano (1528).
Edição comentada por V. Clan, 3.» ed„ Firenze, 1929. dor do espírito e sabe da sua limitação. Sabe escrever diá-
Q. Todaro: II tipo ideale ãel cortigiano nel Cinquecento. Vitto- logos como só o sabia fazer Platão, mas não tem a fé de
rla, 1906.
T. F, Crane: Italian Social Customs of the Sixteenth Century. Platão na indestrutibilidade das ideias e dos ideais. Este
Newhaven, 1920. livro tem o encanto do crepúsculo.
V. Cian: La lingua dí Baldassare Castiglione. Firenze, 1942.
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484 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA » A LITERATURA OCIDENTAL 485

Castiglione é um espírito antíutilitário, antipragmatis- aervàdores. A esse poder reestabelecido serviu, a partir
ta, aristocrático o antiburguês. É — espantosamente — : ó -'. de 1499, como secretário dos negócios exteriores. Exilado
contemporâneo de Maquiavel. Em Castiglione, a civili- ': pelos Médicis, viveu como burguês pacífico e apolítico, em
zação é um ideal sem utilidade, uma ideia platónica; em pobreza penosa, na sua casa em San Casciano, nos cam-
Maquiavel, é um meio, um instrumento para fins objetivos. pos, longe da cidade. Reintegrado no serviço diplomático,
A filosofia do burguês Maquiavel é, para empregar um foi expulso, depois, pelos republicanos, desta vez como par-
termo de Dewey, uma espécie de instrumentalismo. Ins- tidário dos Médicis. Estava sempre no campo errado, e
trumento, às vezes útil, às vezes inútil, também lhe parece ao uma vez teve sorte: quando êle, o republicano, morreu
a moral, e deste modo conquistou Maquiavel a fama histó- antes da morte da República de Florença. Esta biografia
rica do maior amoralista de todos os tempos. Confun- não é muito simpática; parece de um oportunista. Um ca-
dindo Maquiavel com os maquiavelístas, somos levados a minho de reconciliação provisória com o secretário flo-
imaginar um Maquiavel reacionário feroz e advogado da rentino seria considerá-lo mesmo como florentino: êle é
violência. Mas já a verdade biográfica revela uma perso- da gente mais alegre e espirituosa do mundo, está cheio
nalidade diferente. de conceitos jocosos e aperçus surpreendentes, no diálogo
Niccolò Machiavelli ( S3 ) foi inimigo da revolução de- vivacíssimo das suas comédias, ou quando zomba amar-
mocrático-religiosa de Savonarola, porque sabia que o po- gamente, na novela Belfagor, das suas próprias misérias
der devia permanecer, à la longue, com os ricos e con- conjugais e económicas e da superstição dos incultos. Ma-
quiavel é florentino. E a Florença da sua época, ainda
muito rica e civilizadíssima, mas já fraca e mero objeto
33) Nicoolo Machiavelli, HBD-1B27. das combinações políticas das grandes potências, essa Flo-
Viío dl Cctitruccio Çattracani (1520); DeWarte delia guerra (1521);
DiscorH topra la prima deca ãi Tito Livio (1531); Istorie íio- rença é um excelente posto de observação.
rentine (1532); II Princípe (1532); Manâragota (1524); Clisia
(1537); Novella ãi belfagor arcidiavolo (1549); Capitoli. Maquiavel é observador. J á como secretário de Es-
Edição completa por O. Mazzoni e M. Casella, Firenae, 1929. tado brilhava menos pela ação diplomática do que pelos
F. De Sanctis: "Machiavelli". (In: Storia delia letteratura italia-
na, 1871. 2* ed. por B. Croce, Bari, 1913, vol. II.) relatórios lúcidos. Observou as coisas com maior liber-
P, Villarl: Niccolò Machiavelli e i suoi tempi, 2.' ed. 2 vols, Ml- dade de visão quando esteve exilado, e então compreendeu
lano, 1895/1897. o grande problema da Itália: a simultaneidade de uma ci-
J. Morley: Machiavelli. London, 1897,
S. Manfredt: La vita e le opere dí Niccolò Machiavelli. Llvorno, vilização extraordinária e de uma decadência, moral e po-
1926. lítica, completa. Maquiavel é o primeiro espírito latino
E. Janni: Niccolò Machiavelli. Milano, 1927. a enfrentar o problema da decadência; Georges Sorel em-
D. E. Mulr: Machiavelli anã his Times. London, 1936.
R. Koenlg: Machiavelli Zur Krisenanalyse eíner Zeitenwenáe. pregará esse termo; Maquiavel preferiu dizer "corrutela".
Zuerich, 1941. Procura os motivos e torna-se historiador. As Istorie fio-
L. Olschki: Machiavelli the Scientist. Berkeley, 1945. rentine são o relatório das revoluções e dissensões que tor-
L. Russo: Machiavelli. Bari, 1945.
J. H. WWtfield: Machiavelli. Oxford, 1947. naram impotente a cidade mais culta da Itália. A con-
M. Brion: Machiavel. Paris, 1948. clusão é pessimista: a força estava sem "virtú", e a "vírtú"
F. Bruno: Romanità e moãernità nel pensiero di Mach sem força; daí o desastre. Como remediar? Reunir a força e
Milano, 1953. a virtude, para acabar com a "corrutela", quer dizer, para
R. Ridolli: Vita di Niccolò Machiavelli. Roma, 1954.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 487
486 OTTO M A R I A CARPEAUX

espírito prático e utilitário dos jurisconsultos e adminis-


munir Florença e a Itália de um poder real tão grande
tradores. Viu também a política sem eufemismos retóri-
como o poder espiritual da sua civilização. Para resta-
cos, uma política nua, resultante das emoções e paixões
belecer a República em Florença e expulsar da Itália os
humanas, e, só em última linha, dos pensamentos e pro-
invasores bárbaros, é preciso identificar "Virtú" e "Forza".
gramas. Não é exato dizer que desprezou os homens, apre-
E essa identificação é o germe do maquiavelismo.
sentando-os como feras e imbecis. Os personagens, na his-
Quanto aos pormenores práticos, Maquiavel revela- toriografia política de Maquiavel, não são muito bons nem
se burguês racionalista, de bom senso florentino. Na his- muito m a u s ; apenas são fracos e ambiciosos. Daí as mui-
toriografia não admite milagres, t na politica não admite tas revoluções malogradas e os muitos governos impoten-
acasos. Desconhece a Providência divina, e pretende ela- tes. Aquilo em que Maquiavel não confia, definitivamen-
borar um receituário político tão previdente que será pos- te, é na inteligência dos homens. A inteligência é a pri-
sível eliminar a "Fortuna", o acaso arbitrário. E isso é meira qualidade que êle exige do seu "príncipe" ideal; o
possível, segundo Maquiavel, porque êle acredita na cons- resto importa menos. Não por meio de frases bonitas a
tância do caráter humano — constância das qualidades más, Itália será salva, mas por meio de uma ação enérgica con-
péssimas mesmo — e na repetição eterna das mesmas si- forme projetos inteligentes. E i s o programa político de O
tuações e combinações políticas. Nessa convicção, estudou, Príncipe, recomendando a violência e permitindo a fraude
nos Discorsi sopra la prima deca di Tito Livio, os come- e tudo. É o manual dos tiranos, proclamando a separação
ços da história romana, para tirar lições atuais e imedia- absoluta entre a moral e a política. É uma separação que
tamente utilizáveis. Sem dúvida, procedeu de maneira ana- nos repugna como uma contradição. Talvez seja igual-
crónica, violentando o espírito do historiador antigo; o mente grave a contradição entre aquele livro e os Discorsi,
t e u livro n i o é um verdadeiro comentário de Lívio, mas em que conselhos semelhantes são dados para garantir a
em compensação tornou-se comentário permanente da his- liberdade republicana. J á se disse que O Príncipe ensina
tória europeia inteira até aos nossos dias. Maquiavel con- a fundar um regime; e os Discorsi, a mantê-lo. Mas será
siderava a história romana como "história ideal", cujas si- melhor admitir que Maquiavel foi realmente amoralista;
tuações e personagens sempre se repetem, de modo que é apenas, com uma grande saudade no coração, desejando que
possível extrair delas normas de comportamento político a separação entre a política e a moral deixasse de existir.
para todos os tempos. E, com efeito, de Carlos V e os
Papas da Renascença, através de reis, jesuítas, tribunos, Por enquanto, ninguém o quis ouvir, nas perturbações
chefes de indústria e chefes de revolução, até aos parla- da grande crise do seu tempo. Exilado em San Casciano,
m e n t a d o s antiquados de anteontem e os ditadores moder- levou Maquiavel a vida que descreve em sua justamente
níssimos de ontem, todos aplicaram o "maquiavelismo", do famosa carta a Francesco Vettori, de 10 de dezembro de
qual Maquiavel não foi o inventor, mas o médico que o 1513: durante o dia, as pequenas alegrias bucólicas da vida
diagnosticou. Foi um historiador convencional do passado rústica e as conversas burlescas com os camponeses gros-
e um historiador inconvencional do futuro. seiros, sua única companhia; mas de noite, veste-se de
roupas solenes e entra em sua biblioteca para conversar,
O estilo de Maquiavel é mais latino do que italiano,
nos livros, com os reis e sábios da Antiguidade, consul-
mas sem retórica ciceroniana. Da Roma antiga, Maquia-
tando-os sobre a melhor maneira de fundar e manter um
vel não tomou emprestadas as dobras da toga, e sim o

488 Orro MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 489

regime politico. Assim escreveu O Príncipe e os Discorsi. tiam, e exprimir o que os outros fizeram. Maquiavel, in-
Assim construiu uma utopia esteticamente perfeita, que teligência pura, falhou como homem de ação e venceu
tem semelhança desesperada com a realidade política. como homem de doutrina. Mas a inteligência é sempre am-
bígua, capaz de várias interpretações. A inteligência de
Maquiavel conheceu pessoalmente vários tiranos e tri-
Maquiavel, que foi, como homem, um pobre conformista,
bunos, cada um deles mais criminoso do que o outro. Mas
também é suscetível de várias interpretações. De Sanctis
não encontrou nenhum "príncipe" entre eles, e esse fato
disse que o "maquiavellsmo" pode ser doutrina dos reis
é de suma importância. Não se deixou iludir peia aparên-
ou dos povos — quem o entender melhor, servir-se-á dele.
cia da força. Aos "maquiavelistas" modernos teria res- O conformista Maquiavel está ao lado dos tiranos ou dos
pondido com a arma mais eficiente da anti-retórica: com povos — dependia essa atitude de qual fosse o mais pode-
o humor. Certamente é Maquiavel o único grande teórico roso; a inteligência de Maquiavel é também capaz de ser-
político que foi ao mesmo tempo um grande humorista. vir aos tiranos ou aos revolucionários — depende de se-
La Mandragola é a comedia do marido que, buscando um rem estes ou aqueles os mais inteligentes. O "maquiave-
remédio para conseguir descendência, é levado a introduzir lismo" não depende de Maquiavel, as táticas políticas do
o amante de sua mulher no quarto de dormir dela. É uma dia não têm nada que ver com o seu espírito insensível e
das grandes comédias da literatura universal; atrás da imo- permanente, quase como a Natureza. Não se pode tratar de
ralidade extrema da peça esconde-se a lição humorística e fazer a apologia de Maquiavel, que não precisa dela; ape-
profunda de que o caminho da natureza é o único certo. nas de dar uma ideia da grandeza do seu génio.
Nicio terá filhos, embora de um outro, e Fra Timóteo, o No seio da literatura classicista há, finalmente, oposi-
confessor que facilitou o negócio, os batizará. Na vida, ções. Enquanto o classicismo é interpretado como síntese
os malandros, os hipócritas e os astutos têm razão: eis o perfeita do humanismo e do génio nacional, não será pos-
CBpetáculo, a realidade, que o comediógrafo contempla com sível compreendê-las; e então Berni aparece como pobre
gosto amargo na boca e com um sorriso de auto-ironia nos humorista, Aretino como malandro literário, e Folengo, o
lábios. La Mandragola não é, como se dizia, uma comédia inventor da língua "maccaronica", mista de italiano e la-
política: o reverso humorístico da tragédia da sociedade tim, como "enfant terrible" do humanismo. A interpretação
italiana; pois têm vida própria personagens como o bon- do classicismo como conformismo literário restitui-lhes o
doso e esperto hipócrita F r a Timóteo ou a melancolica- papel de representantes de três "classes literárias" que de-
mente desonesta dona Lucrezia. Mas é algo como o resumo viam estar em oposição, porque não havia lugar para elas
das experiências de Maquiavel; inclusive das suas experi- no edifício da civilização classicista: os "clérigos" pobres,
ências políticas. E r a um exilado, como Dante, passadista a pequena-burguesia inculta, e os camponeses.
como Dante, visionário de uma utopia política como Dante. Francesco Berni ( 3 Í ) tem fama de humorista, num gé-
nero, aliás, que corresponde pouco ao nosso gosto. Pro-
Maquiavel é o único entre os muitos exilados italianos ca-
paz de figurar ao lado de Dante sem ser esmagado. O 34) Francesco Berni, 1498-1535.
exílio, porém, é um bom posto de observação, e Maquia- Rime, etc; Orlando innamorato rifatto (1641),
vel era um grande observador, porque um vencido da Edição por A. Virglll, Firenze, 1886.
A. Vlrgili: Francesco Berni. Fireme, 1B81.
política. É o tipo do intelectual que se encontra excluído C, Fariset: Vita e opere ãí Francesco Berni. livorno, 1816.
do poder; e por isso soube analisar o que os outros sen- A. Sotrentino: Francesco Berni, poeta delia Scapiuliatura dal
RiTiascimento. Citta dl Castello, 1933.
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HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 491
vocou riso e ganhou dinheiro com "Iode delle cose igno-
"Un papato composto di rispetti,
bili", sonetos e "capitoli" pomposos, grandiloqlientes, sobre
Di considerazioni e di discorsi:
coisas fúteis ou até sujas, como as "belezas" do corpo de
Di piú, di poi, di ma, di si, di forsi,
uma velha, a insónia causada pelas pulgas, etc. As expres-
Di pur, di assai parole senza e f f e t t i . . .
sões sublimes, aplicadas a "cose ignobili", deram o efeito D'innocenza, di buona intenzione,
cómico que o público desejava para descansar da monoto- Ch"è quasi come dir, semplicità
nia do petrarquismo, ciceronianismo e virgilianismo. Per non le dare altra interpretazione."
Berni sobrevive como antipetrarquista engenhoso, domi-
nando surpreendentemente a língua florentina. Apenas Berni tinha a força do desprezo, de que não abusou porque
causa estranheza que esse parodista tivesse levado anos e era nele mais forte a melancolia do humorista. Ao protes-
anos para fazer do Orlando innamorato, de Boiardo, uma tantismo, do qual se aproximava muito, preferiu afinal a
resignação estóica, e à emenda violenta da sociedade —
nova versão em língua mais florentina e versos mais poli-
como êle emendara o Boiardo — a tolerância do bem e do
dos, fornecendo, realmente, um Orlando innamorato rí-
mal na Natureza:
iatto que salvou, em épocas de purismo, a memória do
poema quattrocentista; é trabalho de um artista conscien- "Non fu mai malattia senza recetta,
cioso. Berni era artista, ou antes, desejava ser artista; L a natura l'ha fatto tutte due".
em vez disso, vía-se obrigado a ganhar a vida como "secre- É a atitude do humorista no sentido mais alto da palavra.
tário" mal pago de grandes senhores e cardeais, como pa- Pietro Aretino ( 3B ) é antes de t u d o um plebeu, filho
rasito, tolerado porque fazia rir. Gostava de ser um Arios- da paupérrima pequena-burguesia da província; por isso,
to mais leve, contando "cacce, musiche, festa, suoni e balli" não tinha cultura clássica, e continuou inimigo feroz dos
6 vivendo tudo isso; mas, pelas condições da sua classe, humanistas e petrarquistas, mesmo quando já tinha con-
do baixo clero, Berni tornou-se "clérigo" no sentido da quistado glória e dinheiro. Ainda então, residindo em
última Idade Média: "goliardo". No século X V I , chama- Veneza, num palácio transformado em museu de arte e
va-se a isso "buffone", e como buffone sobrevive Berni na harém de mulheres, permaneceu sempre plebeu, nouveaii
história literária. Mas era artista, talvez o último descen- riche, não podendo nem querendo renegar a sua profis-
dente dos artistas-realistas do "Quattrocento", num século são: Aretino era chantagista. Foi o primeiro literato que
de classicistas em que o realismo só serviu para paródias; se tornou independente de protetores, e deveu essa inde-
Berni dedicou uma vida ao quattrocentista Boiardo, Ao
classicismo oficial, do qual o petrarquismo era apenas um 35) Pietro Aretino, 1492-1556.
sintoma, Berni estava em oposição. Estava em oposição Ragionamentí (1535); Lettere (1538/165l>; Orlandino (1540);
Oratia (1546).
a tudo o que fosse irreal ou desnaturai, e essa sua reivin- Comédias, cf. nota 23.
dicação da Natureza contra as ficções é a atitude típica Edições: Lettere por F. NicolirJ, 2 volí. Bari, 1918.
Ragionamentí por D. Carracoli, 2 vota. Lanciano, 1914.
dos grandes satíricos. As poesias satíricas de Berni contra P. Gauthiez: UArétín. Paris, 1895.
os Papas Adriano V I e Clemente V I I são de um vigor C. Bertanl: Pietro Aretino e le sue opere. Sondilo, 1901.
digno de D r y d e n : O. Laini: II vero Aretino. Firense, 1955.
G. Innamorati: Note sulla fortuna critica ái Pietro Aretino.
Firenze, 1955.
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HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 493
pendência ao medo que a sua pena venal inspirou aos ricos A
e. poderosos. Foi o primeiro que utilizou a imprensa para Chama-se isso "língua macarrônica", e muita literatura sa-
aterrorizar a opinião pública. Daí a sua independência: tírica dos séculos XVI e X V I I , era diversos países, foi es-?
a financeira; a moral, que se exprimiu na sua literatura críta nurna mistura "macarrônica" de latim e da língua na-
pornográfica; e a literária. É admirável o que Aretino, cional ( a 6 ). Até hoje, humoristas populares empregam esse
sem cultura literária alguma, soube fazer do seu talento recurso de misturar a língua culta ou oficial com um dia»

natural. A retórica ciceroniana opõe o estilo coloquial do leto provincial ou de imigrantes estrangeiros, para conse-
florentino, e tornou-se mais legível, até hoje, do que a guir certos efeitos cómicos ( 3 1 ). Talvez por isso não se ÍS.;. ' :' t...

maioria dos seus contemporâneos: um grande prosador, até tivesse dado ainda a atenção devida ao fenómeno curioso
nos assuntos insignificantes da correspondência e nas obs- daquela língua artificial, nem ao poeta, que é um grande
cenidades dos Ragionamenti. As metáforas convencionais poeta.
X V •'•V
do petrarquismo opõe uma sensibilidade inteiramente nova, E m Teófilo Folengo ( 3 S ), vida e poesia não se harmo-
introduzindo na prosa italiana cinquecentista, seca e ra- nizam bem. Entrou cedo na ordem de S. Bento, para dei-
cional, as cores da pintura veneziana, que constituía o seu xar pouco depois o mosteiro e explodir em invectivas vio-
• • • / • ambiente artístico; a descrição, numa das cartas, do cre- lentas contra os religiosos; voltando novamente ao con-
púsculo sobre o Canal Grande em Veneza, é extraordi- vento, e deixando-o outra vez, numa vagabundagem ecle-
nária. A falta de preconceitos clas&icÍBtas ajudou-o até siástica perpétua, interrompida por anos de penitência em
na tragédia: a Oiazia, independente de todos os mode- eremitérios. J á antes de ser monge, era poeta humorís-
los, não é uma grande obra de arte, mas é a tragédia mais tico, sempre naquela fantástica língua macarrônica, escon-
original do teatro italiano antigo. Só não foi poeta, nem dendo-se por muitos motivos sob o pseudónimo de Merlin
sequer poeta satírico. O Orlandino, paródia da epopeia Cocai. A Moschea é uma epopeia herói-cômica, à maneira
romântica, saiu grosseiro. Em suma, Aretino não è, como da Batrachomyomachia grega. E logo depois vem a grande
se pensava, o sintoma da corrução da época, nem, como obra: o Baldus. É a epopeia de um filho de camponês que
outros pensaram, a mancha do século sublime, mas a vin-
gança do plebeu contra as ficções do humanismo, do pe-
trarquismo, do moralismo, do classicismo, do cristianismo 36) I. C. Brunet: La littérature macaronique. Paris, 1879.
literário, contra as ficções de que dependia a carreira li- 37) No Brasil, o poeta paulista JoSo Bananere, escrevendo em mis-
tura de português e do italiano dos Imigrantes, íol poeta ma-
terária; É o protesto de um homem impuro, mas livre. ca rrônico.
O último e maior dos "oposicionistas", Teófilo Fo- 38) Teófilo Folengo, 1490-1542. (Pseudónimo: Merlin Cocai.) . 3
Baldus (desde 1516; edições: 1521, 1B30); Moschea (1B21); Zani-
lengo, não escreveu em italiano as suas obras mais impor- tonella (1521); Chãos dei Triperuno .(1527); Uumanltà dei }U
tantes, nem em latim; mas numa língua, mista de ambos, gliuol âi Dio (1533),
na qual as palavras latinas têm a flexão italiana, e vice- Edição das obras "maccheronee" por A. Luzio, 2 vols. Bari, 1910.
Edição das obras italianas por U, Renda, 3 vols. Bari, 1810/1814.
versa, como: O. Timcredí: La matéria e le fontt dei BaldUi. Napoll, 1891.
"Altius, o Musae, nos tollere vela bisognat, T. Parodi: "Teófilo Folengo". (In: Poesia e lettere. Bari, 1916.)
G. F. Goffis: Teófilo Folengo. Torlno, 1635.
Valenthomini celebranda est forza baronis, C. Cordié: "II linguagglo maccheronlco e 1'arte dei Baldus". (In:
Quo non Hectorior quo non Orlandior, et quo Archivum Romanicum, XXI, 1, 1937).
Non tulit in spalla portas Sansovior alter." G. Billianovich: tra Teófilo Folengo e Merlin Coccaio. Napoll,
1948.

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pretende tornar-se cavaleiro e barão, um D. Quixote lant") abre-se-lhe o coração, e aos prazeres do "frigido
plebeu, materialista e ladrão; aB aventuras de Baldus em Parnasso" opõe o sonho de um país em que houvesse quan-
companhia do seu criado, o camponês Zambello, e do seu tidades ilimitadas de carne, queijo e vinho. É um campo-
cúmplice, o cigano Cingar, disfarçado em monge, consti- nês que tomou, por engano, o hábito. E quando canta:
tuem o enredo do poema, cheio de episódios jocosos, gros-
" . . . . T u q u e malenconica nocte, studente, godés." —
seiros e satíricos. A sátira de Folengo não conhece con-
sideração: é contra a aristocracia, os ricos, os prelados, os reconhecemos em Folengo um goliardo; nos Carmina fcn-
monges, a própria Igreja — só uma classe é poupada: os rana e nos "manuscritos Mapes" já se encontram poesias
camponeses. Trata-se de um grosseiro monge medieval, "macarrônicas", em que o latim se mistura com palavras ale-
nascido por engano na época e no país de Ariosto e Bal- mãs e inglesas. Dos goliardos medievais, Folengo distín-
dassare Castiglione. Com os rudes cavaleiros medievais gue-se pela atitude religiosa: o seu antíclericalismo já co-
Folengo poder-se-ia conformar, mas os cortesãos galantes nhece o protestantismo; cheira a heresia. Folengo deixou
e perfumados da Renascença — várias vezes o convento, por "disordine magno", e sempre
voltou. A sua doença era aquela a que os monges medievais
"Qui fingunt, cantant dovinant somnia genti,
chamaram "acedia": o horror dos exercícios religiosos exa-
Complevere libros follis vanisque novellis." —
gerados, alternando com acessos de angústia. Não foi hipo-
causam-lhe repugnância. Folengo é inimigo feroz da Re- crisia o fim da vida de Folengo: o poema, em língua ita-
nascença e da tua cultura artística. Essa atitude já foi liana, Umanità • dei figliuol di Dio, escrito em versos la-
interpretada como naturalismo brutal, à maneira de Are- mentáveis, como os dos folhetos que se vendem nas feiras.
tino. De SanctiB considerava o Baldus como espelho da Folengo era um pobre filho do povo que — a comparação
corrução da Renascença. Hoje, alega-se contra essa opinião é sua — como a rã "vivere non sa fuor dei pântano", e nos
a forma do poema: o naturalismo está menos no assunto seus últimos versos geme a dor do povo maltratado e in-
do que na expressão deliberadamente grosseira, e esta não compreendido pelos que falam a língua de Cícero e a de
deixa de revelar consideráveis valores artísticos. A língua Petrarca. Na boca do goliardo Folengo, a língua macar-
"macarrônica" de Folengo é construída segundo certas leis rônica é o protesto contra a transformação do latim, língua
linguísticas, rigorosamente observadas, e dentro dessas leis universal dos clérigos, em língua particular das elites cul-
o verso é tratado com mestria notável. Quando Folengo tas. Na boca do camponês Folengo, a língua macarrônica
pretende conseguir efeitos sérios, como no Chãos dei Tri~ é o protesto contra a transformação do italiano, língua da
peruno, revela força de visão dantesca — nenhum outro nação inteira, em língua artificial do clacissismo. Através
poeta italiano se aproxima tanto de Dante como esse humo- da brincadeira linguística desse humorista fala a voz da
rista. O mesmo se dá no furor da sátira, Baldus não é consciência do século.
apenas um herói cómico; é um malandro que ganha uma O drama da Renascença italiana nSo teve desfecho
boa vida, maltratando os outros, e estes outros são as víti- trágico. Terminou em agonia lenta, dolorosa e — em parte
mas da aristocracia, os camponeses. — cómoda. Na Itália, a Contra-Reforma era enérgica, mas
Folengo é o poeta dos camponeses. Na descrição da não violenta. Não se acabou, como na Espanha, com as
vida rústica ("Porcellus grugnit, gallus, gallina chechel- pessoas físicas, mas com os ideais. A aristocracia deixou
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 497
.4,96 OTTO M A M A CARPEAUX W:
Na Florença de Cosimo I já não existem republicanos,
de existir; não se pode chamar assim aos cortesãos, do- nem heréticos, nem aristocratas, nem grandes burgueses.
mesticados pelo moralismo do concílio de Trento, passan- Só a corte e a pequena-burguesia pacífica. Mas é uma pe-
do o dia em devoções públicas e a noite em orgias clan- quena-burguesia florentina, quer dizer, espirituosa, jocosa,
destinas; nem aos "hobereaux" que, premidos por dificul- produzindo autodidatas esquisitos que representam, volun-
dades económicas, se retiram da vida urbana. O espírito tária ou involuntariamente uma oposição silenciosa contra
individualista sobrevive em uns artistas indomáveis, como todas as doutrinas oficializadas. Assim è Giambattista
naquele Benevenuto Cellini ( s s ) , escultor de segunda cate- Gelli ( 4 1 ), sapateiro que aprendeu o latim e fêz leituras pú-
goria e personalidade extraordinária, artista e aventureiro, blicas sobre a Commedia de Dante. Nos seus diálogos, do
sujeito independente era extremo e escravo das suas pai- "artéfice" Bottaio com a própria alma, ou de Ulisses com
xões, escritor de uma sinceridade fabulosa. Em estilo ab- os homens que Circe transformara em animais, um caos de
solutamente pessoal, numa sintaxe arbitrária, fala de si ideias triviais ou espirituosas se vivifica através da sabo-
e só de si, das suas vitórias como artista e com as mu- rosa língua toscana e das censuras dissimuladas contra os
lheres, das suas desgraças na corte e em tavernas, e essa humanistas profissionais. Da mesma estirpe parece Doni
autobiografia, exibição exuberante de um homem egocên- ( 4 2 ) : nos seus Marmi, populares florentinos, sentados nas
trico, tornou-se o quadro maÍB completo que existe da Re- escadas de mármore em frente à Catedral de Santa Maria
nascença. As famosas biografias de Vasari (*") empalide- dei Fiore, passam as tardes em conversas curiosíssimas,
cem nessa vizinhança. Vasari, pintor famoso, não era ar- cheias de sabedoria popular e alusões aos preconceitos dos
tista, nem na pintura nem na literatura. O que o salvou foi eruditos; nisto há intenção mais do que maliciosa. Doni
o grande assunto: as vidas de Giotto, Masaccio, Brunelles- era um ex-padre, e nas suas pitorescas pesquisas científicas
chi, Ghiberti, Pra Filippo Lippi, Donatello, Botticelli, Ra- freme a inquietação secreta do apóstata clandestino.
fael, Miguel Angelo, com as inúmeras anedotas que — por Havia heréticos na Itália. Com os erasmianos surgi-
intermédio de Vasari — toda a gente conhece, e que dão ram reivindicações de reformas eclesiásticas, mais ou me-
testemunho de uma nação e de uma época que colocaram nos profundas, e ainda no tempo do concílio de Trento ha-
a arte no centro da vida. Ê, por assim dizer, uma exposi- verá vozes discordantes. E n t r e os protestantes (42'A) f ran-
ção retrospectiva de um grupo de grandes artistas que se
foram. Desde então, Florença é um museu. 41) Giambattista Gelli, 1498-1683.
I capricci di Giusto Bottaio (1648); Circe (1668).
Edição por U. Fresco, Camerino, 1B08.
39) Benvenuto Cellini, 1500-1571. A. Ugolini: Le opere ái Giovanni Battista Gelli. Pisa, 1898.
Vita (primeira edição por A, Cocohi, 1728). N. Tarantino: Le "Circe" e i "Capr&ci dei Bottaio" ái Oiamòat-
Edição crítica (com introdução) por O. Baccí. Flrenze, 1901. tista Gellí. Città dl Castello, 1917.
K. Vossler: Benvenuto Cellinis Stil ín seiner Vita. Halle, 1399. 43) António Francesco Doni, 1513-1574.
[.•'' E. Cai-rara: Preíácio da edição da Vita. Torino, 1927. Mondi (1552); Marmi (1552).
. E. Allodoli: Benvenuto Cellini. Flrenze, 1930. Marmi, edição Barbera, 2 vols., Flrenze, 1863.
R. Eggenschwyler: Saggio sullo stile ái Cellini. Zuerich, 1940. S. Stevanin: Ricerche ed appunti sulle opere dl A.. F. Doni. Fl-
40) Glorgio Vasari, 1511-1574. renze, 1903.
Le vite âeí piú celebri pittori, scultori e architetti (1550). 42A) C. Church: I riformatori italiani, 2 vols. Flrenze, 1935.
Edição por Corr. Riccl, 3 vols. Roma, 1927/1939, D. Cantimori: *GIi ereítcf italiani dei SOO. Flrenze, 1940.
U. Scoti-Bertinelli: Giorgio Vasari, scrittore. Pisa, 1905.
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498 pTTO M A R I A CABPEATJX HISTÓHIX DA LITERATURA OCIDENTAL- -'- 499

cos ou clandestinos, há personalidades como Francesco Ne- Vittoria Colonna morreu na fé e em desespero. A propó-
gri, Aonío Paleario, Bernardino Ochino, geral dos capu- sito, já se citou o verso de Dante ("Par.", XXIX, 91): "Non
chinhos, e — o maior de todos — o espanhol J u a n de Val- vi si pensa quanto sangue costa."
dês, pelo qual, segundo a expressão de Menéndez y Pelayo O seu amigo Miguel Ângelo Buonarroti ( 4 4 ), a persona-
foi "catequizada em má hora" Vittoria Colonna ( 4 8 ). Não lidade de artista mais poderosa de todos OB tempos, ex-
era grande poetisa; era antes •petràrquista fria; embora de primiu aquela mesma mística do' silêncio numa- quadra
notável perfeição de forma. Mas era uma grande alma, tão famosa que já não se repara no duplo sentido, alegórico,
inspirada pelo amor e pela memória de seu marido, o céle- que o poeta, leitor assíduo de Dante,"escondeu nos versos:
bre Marquês de Pescara, pela dedicação de um amigo como a quadra na qual a sua estátua da "Notte" diz aSBÍm:
Miguel Ângelo, e pelo desejo de reformas eclesiásticas,
fruto de uma religiosidade profunda e, por assim dizer, "Caro m'è il sonno e piu 1'esser di sasso,
altiva. A vida de Vittoria Colonna foi trágica — a viúva Mentre che '1 danno e la vergogna dura;
consumiu-se em adorações místicas de religiosa voluntária, Non veder, non sentir m'è gran ventura;
desesperando da vitória da causa protestante. É quase a Pcrò non mi destar, d e h ! parla basso."
tragédia do próprio protestantismo italiano. Os seus adep-
tos, filhos de uma civilização estática e de uma raça esté- É grande a tentação de compreender esses versos de ma-
tica, não Be podiam conformar com a expressão plebeia do neira romântica: "il danno e la vergogna" como alusão à
luteranismo nem com g expressão puritana do calvinismo. vida duríssima de Miguel Ângelo, cheia de desastres pes-
De qualquer maneira, continuavam discípulos de Erasmo, soais, e ao desastre maior da pátria, e a quadra inteira como
do grande intelectual, e a sua religião era um protestan- expressão de desespero e da vontade budístíca de sono
tismo de intelectuais, de uma elite, incapaz de romper de eterno. Então, Miguel Ângelo seria um poeta "moderno",
todo com a Igreja, que, no entanto, não lhes permitiu man- no sentido do século XIX, mas que infelizmente só encon-
ter esperança. Na poesia religiosa de Vittoria Colonna há trou como meio de expressão os artifícios do petrarquismo,
qualquer coisa da religião de outros semi protestantes de dos quais nunca logrou dtspir-se inteiramente, e que tam-
elite, dos jansenistas, e a sua última palavra é a mística de pouco aprendeu a dominar. A crítica italiana quase não
silêncio; é capaz de falar de Miguel Ângelo sem aludir aos graves
defeitos da sua linguagem e métrica, "desculpando-os"
pela grandeza da personalidade. Na verdade, Miguel An-
"Alma, taci ed onora il sacro nume!"
44) Michelangelo Buonarroti, 1475-1664.
Rime (primeira edição, truncada, por Buonarroti 11 glovane, 1623;
43) Vittoria Colonna, 1492-15*7. nova edição por Ces. Guastl, 1863).
Rime (1546). Edições por C. Frey, Berlin, 1897; por O. L. Fasserlnl, Venezia,
Edição por G. E. Saltini, Firenze, 1860. 1908; por G. Amendola, 2.» ed„ Lanciano, 1920.
A. Reumont: Vittoria Colonna; víta, fede e poesia nel secolo Lettere, edlt. por G. Paplnl, Lanclano, 1920.
XVI. 2.» ed. Torino, 1892. G. Saviotti: La vita e le rime di Michelangelo. Livorno, 1916.
B, Zumbiu!: Studí âi letteratura italiana. Vol. I. Firenze, 1894. A. Farinelli: Michelangelo poeta. Torino, 1018.
A. A. Bernardy: Vita e opere âi Vittoria Colonna. Firenze, 1927. F. Rirai: Michelangelo poeta. Milano, 1924,
K. Pfister: Vittoria Colonna. Werãen unã Gestatt der fruehba- V. Mariani: Poesia di Mlchel Angelo: Roma, 1941.
rockenWelt. Muenchep, 1950, G. Galassi: Michelangelo Buonarroti. Firenze, 1943.
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500 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 501

gelo não está na tradição petrarquesca, ou antes, o seu Pe- A s "imperfeições" formais de Miguel Angelo têm profundo
trarca é outro, diferente, mais perto de Dante. "L'amor mi sentido poético e humano: exprimem o indescritível, o
p r e n d e . . . " , começa o artista, e logo ocorre o "amor m'ins- indizível, o inefável. Desse poeta só se "parla basso".
pira" do "dolcc stil novo". O que assustou os primeiros "Danno e vergogna" têm, como em toda a alegoria dan-
leitores das Rime e continua a assustar críticos mais re- testa, além do sentido espiritual, também aquele sentido
centes é a língua "trecentesca", "bárbara", de Miguel Ân- real que sentiram todos os seus contemporâneos. Miguel
gelo em pleno "Cinquecento". A sua poesia é, de fato, poe- Angelo não era capaz de conformar-se com a sua própria
sia "dantesca", poesia da beleza espiritual. Se o assunto a r t e ; eles, porém, se conformavam com tudo. Na época
da sua poesia fosse o corpo, e os sofrimentos do corpo, o em que Miguel Angelo era já muito velho, os humanistas
escultor todo-poderoso não precisava escrever versos. O e anti-humanistas, literatos e burgueses, já não pensavam
seu assunto é, em palavras de confissão dantescas — em veleidades de oposição; só no pão de cada dia. O
classicismo degenerou em esteticismo, do qual Firen-
"Gl' infiníti pensier mie', d'error pieni",
zuola ( 4S ) é representante típico: mestre da língua floren-
e a sua poesia uma tentativa de tranquilizar a alma angus- tina, grande estilista e tradutor, sem qualquer seriedade
tiada: procura a "emotion, recollected in tranquillity", sem da alma, profundamente amoral sem imoralidade, vendendo
encontrar esta última. A poesia de Miguel Angelo é conse- sua pena para viver bem e acabando em melancolia; Fa-
quência da incapacidade do maior dos escultores de rea- tini comparou-o a Oscar Wilde.
l i z a r - » na escultura, porque o conceito espiritual da be- O teórico do conformismo burguês é Francesco Guic-
leza, o de Dante e do "Trecento", não pode ser realizado ciardini (*°), Diplomata e administrador, historiador teó-
em obraa viaiveis, pela "man che ubbidisce airintelletto".
46) Agnolo Firenzuola, 1493-1548.
Aa Rime de Miguel Angelo constituem um diário poético Tradução do Asino d'oro de Apulelo UB2B) ; DUcorsi delia bellez-
que acompanha os seus trabalhos artísticos. Mas não um za ãelle ãonne {1541); J. Ragionamenti (1548).
diário introspectivo, psicológico, romântico, e sim um diá- O. Fatini: Agnolo Firenzuola e la borohesia letterata dei Rinas-
citnento. Torino, 1932.
rio espiritual, submetido, como confissão, a Deus, dono
M. Oliveri: Agnolo Firenzuola. Carmagnole, 1S35.
de sua "carn* inferma"; nunca pensou Miguel Ângelo em 48) Francesco Guicclardini, 1483-1640.
publicá-lo. É uma tentativa de dizer o que não podia es- Storia íiorentína <160B); Rlcorãi poUtici e civill (1537/1530);
culpir, Considerazioni sui Discorsi dei Slachiavelli (1020); Storia d'Ita~
lia (-1540).
Obras completas, edit. por O. Canestrlnl, 10 vols. Firenze, 1857/
" um concetto di bellezza 1867.
Immaginata o vista dentro, ai core." Edição dos Ricorâi por A. Faggi, Torino, 1931.
Edição critica da Storia d'Italia por A. Qherardl, Firensse. 1919.
E encontrou o que não se pode dizer, porque "il danno F. De aSanctis: "L'Uomo dei Qulccíardini". In: Saogl crtííci, vol.
III, 3. ed., Milano, 1937.) (Brilhante ensaio,)
e la vergogna" da condição humana terminam só na morte E. Zanonl: La mente di Francesco QuicciariUnt nelle opere poli-
inefável: tiche e storiche. Ftrenze, 1887.
A. Cfustarelli: La vita e le opere di Francesco Gtricctortíini. Li-
il mio basso ingegno vorno, 1914.
L. Malagoli: Gtticciarãini. Flrenze, 1939.
Non sappia, ardendo, trarne altro che morte." A, Vitale; Guicciardini. Torino, 1941.

•502 '•QTTO M A R I A CAH-PBAIÍÍ HISTÓRIA DA; LITERATURA OCIDENTAL * 503 ••L ';.>&
• • • - *

- ' - • • . • - • . .

rico da política, grande intelectual, pessimista; florentino a dominação espanhola acabam radicalmente com os ideais
e contemporâneo de Maquiavel, do qual parece ser o com- da Renascença. A literatura culta encaminha-se para o Bar-
panheiro e é, em tudo, a antítese. Como historiador, não roco, civilização pseudo-aristocrática, pseudo-religiosa e
Se inspira em modelos antigos, censurando a idolatria de pseudo-erudita, civilização internacional, na qual, como na
Maquiavel aos romanos; não pretende extrair lições, da Itália, os espanhóis dominam. A literatura italiana perde
história, e sim escrever história exata, científica. G.uiccíar- a hegemonia na Europa. Fica, porém, outra literatura ita-
dini é realmente um historiador jnais autêntico do que Ma- liana, a pequena, a do povo.
quiavel; sabe separar rigorosamente os fatos e a teoria. Ali se encontraria o verdadeiro lugar de Folengo. E
Maquiavel foi um intelectual que, sem poder agir, deu logo se encontra outro poeta macarrônico, o piemontês Alio-
conselhos. Guicciardini é um intelectual que, embora agin- ne ( 4T ), que escreveu as suas farsas populares, parte em
do muito e com sucesso, reconhece a inutilidade da ação. francês, parte no dialeto da sua região de, ABti, e parte
O seu pessimismo não é psicológico, mas já quase religioso: numa mistura macarrônica de piemontês e francêB. Alione
de um católico, ou antes, "catholique mais athée", da Con- enquadra-se no movimento de uma extensa literatura rús-
tra-Reforma, que não confia nos poderes leigos. Nem tica, humorística, que acompanha jocosamente o classicis-
Florença nem a Itália o preocupam; são objetos da histo- mo e constituiu a antítese da literatura pastoral, bucólica.
riografia. O seu assunto é o homem isolado, o indivíduo, Literatura camponesa, composta, na maior parte, de farsas
mas não o grande individuo da Renascença, e sim o bur- e comédias, escrita por literatos desviados ou por atôres
guês que deseja viver em paz. Dal o anti-heroicismo dos rústicos que alcançaram êxito na cidade, de modo que
seus Ricordi poHtici e civili que irritou os patriotas ita-
nem sempre é fácil distinguir entre humor rústico e sá-
lianos de todot os tempos. Mas durante mais de três
tira anti camponesa; o Baldas, de Folengo, e o Qrlandino,
séculos os italianos foram realmente assim. No fundo desse
de Aretino, constituem os pólos dessa "pequena" literatura
conformismo existe um programa político: o ideal de Guic-
ciardini — enquanto teve ideais — não é a Itália grande e r>.
forte de Maquiavel, e sim uma confederação de pequenos Basta citar rapidamente os Villanescbi contrasti de
Estados pacíficos, nos quais se pode viver. É um programa Bartolommeo Cavassico; as farsas em dialeto de Siena, de
mais republicano do que o republicanismo doutrinário de Niccolò Campani; as farsas venezianas de Andrea -Calmo,
Maquiavel.' Este considerava "ainda a Itália como centro
I
que já imita o maior representante da literatura popular:
da civilização; tornou-se doutrinador político do mundo.
Guicciardini foi o doutrinador da "Itália pequena", da pro-
víncia* que o classicismo, ébrio de grandezas romanas, igno- 47) Giovannl Giorglo Alione, 14B0-1B2L
rava. O burguês florentino, transformado em mero objeto Farsa ãe Zoan Zavatino e de Beatrtx toa moçUere e dei prete -v{
. ascoso soto el grometto; Farsa de Nicolao Spranga; Farsa de • L.
da política, compreende o povo que sempre foi objeto da Gina í ãe Reluca, doe matrone repolite quale voHano reprender • • " .

política. Guicciardini, apesar do seu egoísmo etnicamente le Zovene; etc.


confessado, foi um sábio e, no fundo, um homem de bem. Edição das Commeãie e farse carnevaleiche. Milano, 1864,
B. Ootronei: Le farse di O. G. Alione. Regglo Cal,, 1889.
E, Bottasso: "Le Farse Astlglane dl Alione". (In: Bollettíno Síorí-

Depois do tempo de Guicciardini, o classicismo polí- co-biUiográfleo subalplno, 47, 1949.)


tico e literário já não é possível. O concílio de Trento e 48) L. Stoppato: La commedía popolare in Itália. Padova, 1887.
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i i 'áfl
504 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 505

Angelo Beolco, chamado II Ruzzante ( 4B ). Filho ilegítimo po, a literatura que com Petrarca, Boccaccio, Ariosto e Ma-
de um aristocrata veneziano e de uma camponesa paduana, quiavel tinha dominado o mundo, perdeu o seu papel no
viveu entre dois mundos; autor e ator de farsas que são concerto diplomático das literaturas europeias. Começara
versões rústicas de comédias plautinas e divertiram os a época do Barroco hispânico.
cultos pelas grosserias e astúcias dos camponeses; mas em
Ruzzante havia algo da melancolia do "pária", e, às vezes,
parece antes divertir os camponeses com a estupidez culta
dos nobres. É uma arte provinciana e extremamente sim-
ples, com um fundo de tristeza popular; mas teve reper-
cussões em toda a Europa. Dos tipos permanentes e fra-
ses feitas cómicas da farsa do Ruzzante nasceu o produto
mais autóctone, mais italiano, do teatro italiano: a farsa
improvisada, a "Commedia dell'Arte". E, depois, a ópera-
bufa. Ruzzante é o "missing link" entre Grazzini e Rossi-
ni, ou, se quiserem, entre Plauto e Pirandello. Mas o pró-
prio Ruzzante ficou quase esquecido. Durante séculos, as
dificuldade» de compreensão do dialeto paduano, em parte
já extinto, impediram o a c e n o direto a Ruzzante, que per-
maneceu na história da literatura italiana como curiosi-
dade. Hoje, sendo objeto de estudos mais acurados, é re-
conhecida sua importância mais do que só histórica. Foi um
dramaturgo autêntico. Com ele, a literatura italiana co-
meça a retirar-se das alturas do Olimpo clássico para as
aldeias do Vêneto, da Toscana, e da Sicília. Desde então,
existem duas literaturas na Itália: a sublime e eloquente
dos cultos, e a cómica e "vivace" do povo. Ao mesmo tem-

49) Angela Beolco (Ruzzante), 1502-1542.


Comédias em dialeto de Pádua: Piovana; Anconitana; Mos-
chetta; Vaccaria; Fiorina (Edição, Vicenza, 1584 e 1598).
Edição in: E. Lovarini: Antichi testi ái letteratiim padana. Bo-
logtia, 1884.
G. Boldrin: A. Beolco, áetto il Ruzzante. Padova, 1B25.
A. Mortier: Vn dramaturge populaire de la Renaissance ita-
lienne. Ruzzante. 2 vols. Paris, 1925/1926. (Com traduções.)
A. Cataldo: II Ruzzante. Milano, 1933.
F . Nerl: "II Ruzzante". (In: Poesia nel Tempo. Tortno, 1948.)
CAPITULO III

RENASCENÇA INTERNACIONAL

\ P A L A V R A "Natio" significava na Idade Média um


•£*• colégio universitário. Nas grandes Universidades me-
dievais, centros internacionais de estudos, os professores
e estudantes naturais do mesmo país moravam juntos no
mesmo colégio, à maneira dos "colleges" que ainda exis-
tem em Oxford e Cambridge. Mais tarde, a palavra "Na-
tio" reaparece nos concílios da Igreja, nos quais as uni-
versidades, como detentoras do saber teológico, estavam
representadas ao lado dos príncipes. Da colaboração entre
os príncipes e os doutores em Teologia nasceu o conceito
da nação política dentro da Igreja universal. O clero in-
ternacional — o das ordens — não participou dessa evo-
lução, e tampouco uma outra classe, tão internacional como
o clero: a aristocracia feudal. Os chamados "tipos" ou
"caracteres nacionais", o francês, o inglês, e t c , já se de-
senvolviam durante a Idade Média, mas como caracte-
rísticos especiais das classes inferiores, da burguesia e
do povo rústico. O "grande mundo" continuava uniforme,
internacional.
A relação entre a aliança "príncipes-doutôres" e o
conceito de nação revela-se pela primeira vez na voga de
nacionalismo francês que apoiava 6 rei Filipe, o Belo, e
os seus "legistes" contra o Papa Bonifácio V I I I . Da "na-
tio germânica" dos concílios nasceu a nação alemã; a alian-
ça entre os príncipes da Saxónia e os professores da Uni-
versidade de Wittenberg criara mesmo a Igreja nacional,
luterana. Na Espanha, a concordata que deu aos reis de
508 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA O C I D E N T A Í 509

Castela poder sobre a Igreja do seu país prestou serviço aristocrata da Renascença já não é o rude cavaleiro me-
semelhante, sem se realizar, porém, separação cismática. dieval; é igualmente guerreiro e diplomata, com as quali-
Na Inglaterra, a supremacia eclesiástica de Henrique V I I I dades de um homem de salão; mais tarde, depois da vi-
é complemento da constituição do Estado e da nacionali- tória do absolutismo, será cortesão apenas. Quando se
dade. As guerras religiosas na França relacionam-se com lembra da origem feudal dos seus privilégios sociais, é com
a formação da nação francesa. Na Itália, o fantasma do na- certa saudade romântica; no aristocratismo da Renascença
cionalismo romano dos humanistas, do qual Cola di Rienzo há qualquer coisa de romântico e fantástico, imaginação
fora o primeiro exemplo, devia substituir a realidade na- de aventuras e de ilhas felizes de evasão, nos campos pasto-
cional, como que esmagada pelo fato de que a Igreja ita- rais. O "clero" do século X V I não é o clero da Igreja;
liana era ao mesmo tempo a Igreja universal; ainda no este está lutando pela existência contra os heréticos ou
século X V I I I , os italianos passavam por cosmopolitas sem perdido nas esquecidas fortalezas da escolástica, nas uni-
senso de nacionalidade. Por outro motivo retardou-se a versidades, sem contato com o mundo. Do papel interna-
formação definitiva da nação alemã, apesar da Reforma cional do clero eclesiástico apodera-se o clero leigo da
eclesiástica: o feudalismo tinha-se cristalizado e perpetua- "Igreja" do Humanismo, outra Igreja internacional, ligada
do em forma de numerosos pequenos Estados soberanos. à verdadeira pela língua. Os humanistas são, durante a
O outro grande obstáculo à formação das nações, a par Renascença, os substitutos literários do clero católico. Os
da Igreja romana, é a aristocracia feudal. Em toda a parte, fatos históricos confirmam esta tese: depois do concílio
a cristalização das nações consuma-se com a derrota do de Trento, o humanismo internacional entra em decadên-
feudalismo pelo poder absoluto dos r t U : na Inglaterra, já cia; o clero da Igreja da Contra-Reforma reassume o seu
nos fins do século XV, com a dinastia T u d o r ; na França, papel, e o humanismo renascentista transforma-se em je-
só com Richelieu e Luís X I V . O aliado dos reis contra suitismo barroco; até hoje, os jesuítas são os partidários
a aristocracia feudal é a burguesia urbana, interessada na mais tenazes do ensino humanístico.
formação de maiores unidades territoriais com justiça Em consequência, a literatura europeia da Renascença
igual e comunicações livres. Pela vitória da burguesia, o é internacional, humanista e aristocrática. Pelo interna-
século X I X tornar-se-á o século do nacionalismo. cionalismo, oposto às forças novas do nacionalismo cres-
O século XVI, fora da Itália, é a época do nascimento cente, a literatura do século X V I conserva certa unifor-
das nações modernas. Movimento difícil, contra a hospi- midade, da qual é sintoma o reconhecimento universal dos
talidade das duas grandes classes do passado: da aristo- modelos italianos: o Cortegiano de Castíglione, a lírica
cracia feudal e do clero católico. Contra o conceito feudal petrarquesca, o romantismo à maneira do Amadis ou de
de propriedade adota-se o conceito de propriedade do Di- Ariosto, a écloga à maneira de Sannazaro dominam o mun-
reito Romano. Contra o internacionalíssimo latim do clero d o ; o fundamento filosófico dessa dominação é a divul-
adotam-se as línguas nacionais nos cultos protestantes. As gação internacional do platonismo, e só mais tarde ressur-
classes antigas respondem com a afirmação do ideal aris- girá, como presságio da mentalidade barroca, o estoicismo.
tocrático do "cortegiano" e dos ideais latinos do Huma- Os aristocratas são em grande parte os autores, em grande
nismo; e essas afirmações revelam a transformação pro- parte os leitores daquela literatura. Em todo o caso, de-
funda pela qual aristocracia e clero já tinham passado. O terminam o gosto internacional. Os agentes daquele in-
• • •" •'• I \ : '"••

'510 ' "ÓTTÒ M A R I A CÀ"RPEAUX •' - •HISTÓRIA"DA LITERATURA Ó C I D E N T A I •'•'' 511

ternacionalismo são os humanistas, continuando, com for- ram mais originais do que na criação de obras originais.
ça maior do que na Itália, uma poderosa literatura em lín- O próprio conceito da tradução é obra do humanismo. Nem
gua latina. Evidentemente, haverá uma oposição: resíduos a Antiguidade nem a Idade Média conheceram traduções;
da mentalidade medieval numa literatura popular, e co- aquilo a que damos esse nome entre as obras medievais,
meços de uma literatura realista. Mas isto já é outra são versões livres, libérrimas mesmo, adaptações mais ou
história. menos inescrupulosas, e plágios. De nada importava ao * "i-. •••*
O fato de o latim hoje não ser, como no século X V I , leitor medieval a origem e a estrutura formal de uma obra
uma língua que todas as pessoas cultas dominam, não é alheia; apenas desejava conhecer o conteúdo. Só o huma-
responsável pelo esquecimento radical da literatura neo- nismo criou a consciência da relação entre forma e con-
latina i1). Erasmo não foi esquecido. Na literatura neo- teúdo, da importância de verter letra e espírito do ori-
latina há evidente falta de originalidade, e "poderosa" só ginal, da necessidade eventual de reconstituir um texto
pode ser chamada pelo número das produções, em todos corrompido; e da propriedade literária. São esses os ele-
os géneros, e pelo papel de agente e modelo entre as li- mentos que constituem o conceito da tradução em sentido
teraturas nacionais. T e m grande significação histórica, filosófico; a mentalidade estética da Renascença acrescen-
mas só exige resumo rápido. A lírica petrarquesca está tou a vontade de transformar a tradução mais ou menos
representada ->- se bem que era metros diferentes — pelas literal em obra de ar.te na nova língua. , .,
elegias eróticas do holandês Johannes Everaerts Secundus Os humanistas italianos deram os primeiros exemplos
(1511-1536) e pelai poesias religiosas do alemão Petrus Lo- disto. Algumas das suas traduções — o Asino d'oro de
tichius (1528-1560). Duas traduções latinas de Ariosto re- Apuleio, traduzido por Firenzuola; as Metamorfoses, de
presentam romantismo de cavalaria, e as éclogas latinas Ovídio, traduzidas por Andrea Dell' Anguillara; a Eneida,
constituíam quase um dever dos poetas. As peças do ho- traduzida por Annibale Caro — pertencem aos clássicos
landês Georgius Macropedius ( | 1558) ainda estão ligadas, da língua italiana. Até entre os espanhóis, talvez menos ca-
em parte pelos assuntos bíblicos, ao moralismo das "Mora- pazes de assimilar valores alheios, se encontra um clás-
lity P l a y s " ; o Hecastus é versão latina do Everyman. Mas sico da tradução: Diego López de Cortegana, o alegre có-
o Jephtah (1554) e o Baptistes (1578), do escocês Georgius nego de Sevilha, que traduziu aquele romance divertido e
Buchanan, já estão a meio caminho entre a imitação re- licencioso de Apuleio. Mas foi principalmente na França e
nascentista de Sófocles e a imitação barroca de Séneca. na Inglaterra que a arte da tradução contribuiu decisiva-
E os tratados de filosofia platónica são quase todos em la- mente para a evolução da língua literária.
tim. O papel de intermediário dessa literatura sem origina- Os tradutores franceses ( 2 ) pertencem em grande par-
lidade é muito grande. te ao círculo da Plêiade: Lazare Baíf, que traduziu a Elec-
Outro meio importante de divulgação da cultura huma- tra, de Sófocles (1537); seu irmão Jean-Antoine Baíf, tra-
nística é a tradução; e na tradução os humanistas se revela- dutor da Antigone; Remi Belleau, tradutor das odes ana-
creônticas (1556); e o humanista Etienne Dolet, tradutor
das cartas e das Tusculana, de Cícero (1543). O mestre é,
1) F. A. Wright e T. A. Sinclair: A Htitory of Later Lafin Litera-
ture to the Enâ of the Seventeenth Century. London, 1932.
P. van Tieghem: La littérature latine âe la Renaissance. Paris, 2) F. Hennebert: Hiçtoíre des traâucteun trançais á'auteur$ grect
1944. et latins pendant le XVIe et XVIIe siècle. Gant, 1853.
512 OTTO M A R I A CAHPBAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 513

porém, Jacques Amyot ( 3 ), bispo de Auxerre e grecista Amyot, é o Plutarco, de Thomas North (B) : mas é uma obra
erudito, tradutor de Heliodoro e Longos, e principalmente inteiramente nova, de estilo heróico como o de um romance
das obras de Plutarco. A língua de Amyot tem a graça de cavalaria, e de uma vivacidade quase dramática, mas con-
do francês arcaico; a primeira impressão é algo como a servando sempre a dignidade greco-romana. Shakespeare
de Joinville. Mas o estilo é perfeitamente clássico, ele- encontrou em North os enredos de Coriolano, Júlio César
vando-se sem retórica à sublimidade dos assuntos. O Plu- e António e Cleópatra, inserindo nas peças frases intei-
tarco, de Amyot, é, historicamente, um dos livros mais im- ras do tradutor; e parece prosa do próprio Shakespeare,
portantes da língua francesa: exerceu profunda influên- o que dispensa elogios. O North da poesia é o drama-
cia na ideia que o século X V I I I francês formou da Anti- turgo elisabetano George Chapman ("), o tradutor de H o -
guidade; e no século X V I I I inspirou heroísmo "plutár- mero. A tradução nem é literal nem dá o espirito do ori-
quico" aos que não sabiam ler os originais, como Vauve- ginal; Chapman era poeta romântico, de vitalidade assom-
nargues, Rousseau e Napoleão, e, fora da França, a Alfieri brosa e linguagem musical. O seu Homero è um poema
e Schiller. Mas a maior glória de Amyot é a sua influência entre Shakespeare e Beaumont e Fletcher, ou antes, entre
na Inglaterra do seu próprio tempo. Marlowe e Webster, um imenso palácio ou jardim encan-
As chamadas "Tudor Translations" (*) nem sempre de- tado da língua inglesa — Keats, que pretendeu reconhe-
ram resultados muito bons em versos. Mas com elas nas- cer em Chapman o seu próprio sonho de poesia, confessou
ceu a prosa inglesa. Cita-ee até hoje com veneração o num soneto famoso — e a confissão é a da alma romântica
nome do mestre Philemon Holland, tradutor de Lívio da Inglaterra;
(1600) e Suetônio (1609) e dai obras morais de Plutarco
(1603). Lembram-se o Tucídides, de Thomas Nicolls "Oft one wide expanse had I been told
(1550), e as obras morais de Séneca, traduzidas magistral- That deep-brow'd Homer ruled as his demesne:
mente pelo dramaturgo Thomas Lodge (1614); a Renas- Yet did I never breathe its puré serene
cença inglesa chega, como as datas indicam, um pouco atra- Till I heard Chapman speak out loud and bold".
sada, já coexistindo o estilo barroco. A maioria das obras
mencionadas não foi traduzida diretamente do grego ou do
5) Bir Thomas North, 1567-1601.
latim, mas por intermédio de traduções italianas e france- Lives of the Noble Grecians anã Romans (1579).
sas. O que se perdeu, assim, em exatidão filológica, ga- Edição em "Tudor Translations" (Nutt), 6 vols., London, 1895.
nhou-se em modernidade da expressão, renovando-se a pro- G. wyndham: "North's Flutarch". {In: Etsays tn Ramantíc Lí-
teruture. London, 1919.)
sa inglesa. Uma dessas traduções indiretas, através de
6) George Chapman, 1559-1634. (Of. "Teatro e Poesia do Barroco
Protestante", nota 53.)
3) Jacques Amyot, 1513-1593. Iliaã (1598/1611); Oâyssey (1614/1616).
Vie áes hommes {Ilustres grecs et latins (1559, 1565, 1567); Edições: vols. I I / n i da Edição das Obras, por R. H. Shepherd,
Oeuvres morales et mélées de Plutarque (1572), 3 vols. London, 1874/1889.
Edição completa de Didot, 25 vols.. Paria, 1818/1821. Edição da iliad por H. Morley, 2 vols. London, 1883.
R. Sturel: Amyot traducteur des Viés Parallèles de Plutarque. Edição da Oâyssey em Temple Classlcs, 2 vols. London, 1897.
A. C. Swlnburne: The Age o/ Shakespeare. London, 1908.
Paris, 1909. H. Ellis: George Chapman, London, 1934,
4) F. Schoell: ttude sur Vhumanisme continental en Angieterre A James Smith: "George Chapman". (In: Scruíinjí, in/4, 1935, e
la fin de ia Renaissance. Paris, 1926. IV/1, 1935.)
•.' * . •

514 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 515

A s traduções criaram o ideal literário da época. O ' parados pelas metáforas preciosas e antíteses afetadas do
ideal humano foi criado pelo Cortegiano, de Castiglione, petrarquismo; e o petrarquismo é o estilo em que o "cor-
um dos livros mais traduzidos e mais lidos de todos os tegiano" exprime os movimentos da sua alma, particular-
tempos. Em 1528 publicou-se a obra; já em 1534 existe mente os eróticos, admitindo-se, como expressão subsidiá-
ela em espanhol (por Boscán); em 1537, em francês (por ria, o bucolismo. Pelo petrarquismo em primeira linha, a
Jacques Colin); em 1561, em inglês (por Thomas Hoby); literatura italiana exerceu no século X V I a hegemonia
em 1566, em polonês (por Lukas Gornicki). Os poetas maia sobre todas as literaturas da Europa ( 1 0 ).
nobres da época — o espanhol Garcílaso de la Vega, o in-
Uma das portas de saída do petrarquismo italiano era
glês Sir Philip Sidney — são encarnações perfeitas do
Nápoles, a capital italiana que se encontrava havia muito
"cortegiano" ideal. A idealização do cavaleiro não pro-
gride sem encontrar obstáculos em outros tipos ideais ou sob domínio espanhol. Havia relações íntimas entre Ná-
"ideais": Monluc ( T ) representa o cavaleiro cristão, valente poles e Barcelona, onde se formara Ausias March, o pri-
e pio, um desses de que Deus se serve para os "Gesta Dei meiro grande petrarquista fora da Itália, ainda figura iso-
per Francos"; e o seu antípoda Brantôme ( 8 ) representa o lada no século XV. March não deixou de exercer influên-
bon-vivant epicureu, de uma grosseria ainda meio medie- cia sobre Juan Boscán ( n ) , que foi definitivamente con-
val e já meio barroca. O ideal do "cortegiano" não pode- vertido em poeta petrarquista pelo latinista italiano An-
ria ser mantido sem exagerá-lo até o extremo, transfor- drea Navagero, embaixador de Veneza na Espanha, e pelo
mando o cavaleiro, diplomata e humanista em duelista, fa- / seu amigo Baldassare Castiglione. Boscán não foi grande
lador e bel esprit espirituoso; essa transformação é a poeta; atribui-se-lhe a categoria de Bembo, embora alguns
obra do espanhol António Guevara (•), que estabelece, em dos seus sonetos e canções revelassem certa frescura nacio-
plena Renascença, um ideal barroco; a consequência será nal. Em todo o caso, Boscán realizou duas obras exce-
um Barroco literário antes mesmo do Barroco: é o "eu- lentes e uma obra-prima. A primeira é a tradução caste-
fuísmo". lhana do Cortegiano. A segunda é a introdução dos me-
O eufuísmo inglês do século XVI e as suas parale- tros italianos na poesia espanhola: o hendecassílabo, o so-
las barrocas — o marinismo e o gongorismo — são pre- , neto, a canção petrarquesca, a écloga dialogada. A terceira
obra — a obra-prima — é o seu discípulo Garcilaso.
7) Blalse de Monluc, 1502-1577.
Commentaires (1592).

Edtç&o por A. de Ruble, 3 vols,, Paris, 1864/1867. 10) A. Meozzl: II petrarchimo europeo nel secolo XVI. PI», 1934.
J. Le Oras: Elaine ãe Monluc, héros malchanceux et grana
écrívain. Paris, 1927. 11) Juan Boscán de Almog&ver, c. 150Ò-1542.
As suas obras poéticas publlcaram-ae, Juntai com u de Gar-
8) Pierre de Bourdeilles, abbé et selgneur de Brantôme, 1540-1614. cilaso, em 1543; também n u edições modernas de Qarcilaso, cl.
Viés des granas capitaines étrangers; Vie des grands capítatnea nota 12.
)rançais; Recueil des Dames galantes; Recueil des Dantes illus- M. Menéndez y Pelayo: Antologia de poetas líricos castellanos.
tres, etc. Vols. XUI/XTV. Madrid, 1908.
Edição completa, 1665/1666; edição moderna por L. Labanne, 13 M. de Rlquer: Juan Boscán y ta canctonero barceUmés. Bar-
vols., Paris, 1864 (1882). celona, 1946.
F. Crucy: Brantôme. Paris, 1934. E. Segura Covarsi: Le canctón petrarquesca en ta lírica espana-
») Cf. nota 87. la ãel Siglo de Oro. Madrid. 1949.
516 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 517

Garcilaso de la Vega ( 1S ) é, em certo sentido, o maior mundo das ideias eternas. Daí a nossa impressão de rios
poeta de língua espanhola, porque nenhum outro foi tão e prados estilizados: "el sitio umbroso, el manso viento,
exclusivamente poeta. Mas isso não se entende no sentido el suave olor de aquel florido suelo" são presságios da
de poesia pura, separada da vida. A o contrário, Garcilaso beatitude eterna entre as ideias platónicas de todos os
transformou em poema a sua vida toda: os estudos clás- sítios, todos os ventos e todos os solos floridos. Garcilaso,
sicos e as contemplações platónicas, a vida de soldado, o sem ter escrito jamais um verso de conteúdo filosófico, é
exílio nas ribeiras do Danúbio, e até a sua morte no cam- um poeta filosófico: o poeta do platonismo. Não deixa
po de batalha. É um "uomo universale" no sentido da Re- de ser realista espanhol. O Tejo, na sua poesia, é o Tejo,
nascença, a encarnação espanhola do "cortegiano". Mas o e o Danúbio é o Danúbio. Mas a música, a harmonia ex-
único assunto da sua poesia é o amor, só modificado, às traordinária do seu verso aristocrático, transforma tudo na
vezes, pelo tom pastoril, nas éclogas, que são as suas poe- paisagem divina, até o rio do exílio:
sias mais elaboradas. Mas Garcilaso não idealiza a reali-
dade, e as metáforas e antíteses petrarquianas são tão pouco "Danúbio, rio divino,
afetadas e artificiais como as reminiscências de Virgílio que por fieras naciones
e Sannazaro nas suas éclogas. Garcilaso não transfigura vas con tus claras ondas discurriendo".
as suas damas em ninfas; as suas damas são ninfas. Gar-
cilaso não se imagina cavaleiro; é cavaleiro. Só vive na- O aristocrata da Renascença está em toda a parte do mun-
quele mundo poético, e do outro mundo, o da nossa pobre do em casa, e o místico platónico da Renascença está em
realidade, entra na poesia de Garcilaso apenas uma sombra, toda a parte do mundo no céu das ideias. Toda a vida real
uma melancolia ligeira e serena. Para nós, homens moder- de Garcilaso é poesia, e a sua poesia era a realidade coti-
nos, falta em Garcilaso o sentimento da natureza; os seus diana da sua vida. Tinha dito à amada que
rios, prados e bosques são decorações de teatro, sem vida
"por vos nací, por vos tengo Ia vida,
própria. Isto acontece porque Garcilaso, ao contrário de
por vos he de morír y por vos muero" —
toda a poesia romântica, não se identifica com a Natu-
reza; ela não lhe significa o ambiente da sua alma, e é
e os versos parecem escritos como que depois de o poeta
antes decoração divina através da qual o poeta adivinha o
ter cumprido a promessa. A morte não inspira angústia ao
enamorado—
12) Garcilaso de la Vega, 1503-1536. (Cf. nota 62.) "Contigo mano a mano
Obras poéticas (junto com as de Boscan, 1543).
Edição par T. Navarro Tomás, Madrid, 1B24. busquemos otro 11 ano,
H. Keniston: Garcilaso de la Vega. A Criticai Study of His Life busquemos otros montes y otroa ríos,
anã Works. New York, 1922. otros valles floridos y sombrios,
M. Arce Manco: Garcilaso de la Vega. Madrid, 1930.
M. Altolagulrre: Garcilaso de la Vega. Madrid, 1934, donde descanse, y siempre pueda verte" —
O, Diaz Plaja: Garcilaso y la poesia espafíola. Barcelona, 1937.
P. Salinas: "The Idealization of Reallty". (In: Reality and the porque a identificação entre a dama e a beleza divina, re-
Poet tn Spanish Poetrjf, Baltlmore, 1940.)
B. Lapesa: ta trayectoria poética âe Garcilaso. Madrid, 1948. curso artificial do petrarquismo platonizante, é em Gar-
Dam. Alonso: Poesia espaUola. Madrid, 1950. cilaso a coisa mais natural do mundo. O seu amor é o
1
518 OTTO MARIA CARPEAUX • •• HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL . 519

único assunto da sua poesia, e a sua poesia é o único con- obras desse poeta esquecido para desafiar o gongorismo
teúdo do seu mundo divino, sinfonia celeste na qual a barroco. Deste modo, Francisco de la Torre encontra-
morte no campo de batalha perde todo o terror. Nenhum se, paradoxalmente, na fila da reação classicista que na
poeta dá como Garcilaso a impressão da intemporalidade, Espanha, como em toda a Europa, acompanhou e interrom-
da imortalidade. peu a evolução da poesia barroca.
Não convém mencionar outros petrarquistas espanhóis O promotor do petrarquiBmo português, Francisco
ao lado de Garcilaso. Na mesma geração, só Aldana é digno de Sá de Miranda ( M ) , parente de Garcilaso de la Vega,
da sua companhia, e depois, só Fray Luís de León é su- não tem nada do seu génio. O papel de Sá de Miranda
perior, o maior de todos; mas estes dois, poetas do amor foi o de Boscán, e a sua própria poesia italianizante é po-
divino, pertencem a um outro mundo, o mundo do huma- sada e sem graça. Mas Sá de Miranda era um homem, tal-
nismo cristão, que Garcilaso, o poeta sem outra religião vez mesmo um grande homem. Com preocupação dolo-
a não ser a devoção à sua dama, ignorava, O verdadeiro con- rosa viu o patriota a corrução moral de Portugal pelo po-
tinuador de Garcilaso é Fernando de Herrera; nele, a es- der e pelas riquezas da índia, e nas suas "cartas" poéticas
tilização garcilasiana transforma-se em retórica sublime: é transformou a "Epístola", forma metrificada da sabedo-
o começo do Barroco. ria serena de Horácio, em vaso de graves advertências e
Mas ao lado do elemento barroco há um outro fator admoestações, até ao próprio rei. Escreve artigos de fundo
na poesia de Garcilaso e uma outra possibilidade: a me- metrificados; mas o sentimento é sincero. Em Camões,
lancolia da realidade. O poeta dessa melancolia é Fran- o mesmo tom patriótico se distingue na epopeia; o lugar
cisco de la Torre ('•), poeta misterioso do qual não sabe- de Camões, tão grande poeta lírico e talvez o maior de
mos quase nada. E misteriosa também é a sua poesia, poe- todos os petrarquistas do século, está, no entanto, acima
sia da noite: "Clara y amiga noche" e "Noche que en tu e, neste sentido, fora da corrente petrarquesca. O "tom
amoroso y dulce ouvido". Francisco de la Torre escreve nacional", não no sentido patriótico mas no sentido do
com grande perfeição. É classicista, também no hábito de sentimento da natureza, é representado por Diogo Ber-
encher as suas poesias com reminiscências alheias, de Horá- nardes (C.1530-C.1600), do qual não se pode dizer coisa
cio, de Virgílio, e principalmente de Tasso. Contudo, a melhor do que esta: várias das suas poesias foram con-
paisagem das suas éclogas é inconfundivelmente espanhola, fundidas com as de Camões. Enfim, o mais original dos
e na atmosfera há certa frescura mais rústica que em Gar- petrarquistas portugueses é o irmão de Diogo Bernardes,
cilaso; em todo petrarquismo (menos no italiano) mani- Fr. Agostinho da Cruz ( 1D ), que deixou o mundo para
festa-se a tendência de voltar à inspiração nacional. O pa-
pel de Francisco de la Torre na história da poesia espa-
nhola é, porém, diferente: Quevedo publicou, em 1631, as 14) Francisco de Sá de Miranda, c. 1486-1658.
Edi;ôo das obras por Carol. MlchaBlls de Vasconcelos, Halle, 1885.
Teof. Braga: Sá de Miranda e a Escola Italiana. Porto, 18S6.
A. Forjaz de Sampaio: Sá de Miranda. Llaboa, 1936.
IS) Francisco de la Torre, c. 1534-1594. 16) Frey Agostinho da Cruz, 1540-1619.
As poesias foram publicadas por Quevedo, em 1631. Edt;ão das obras (com prefácio) por Mendes dos Remédios, Coim-
Edição por A. M. Huntington, New York, 1903. bra, 1918.
I. P. W. Crawford: "Francisco de la Torre y sus poesias". (In: Felic. Ramos:. "A ascensão mística de Fr. Agostinho da Cruz".
Bomenaje a Menèndez Pidal Vol. H. Madrid, 1926.)
(In: Ensaios de Crítica Literária. Coimbra, 1933.)
520 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 521

se dedicar à purificação da sua alma. E n t r e os inúmeros tuenáo (1527). O programa foi executado por grecistas e
poetas renascentistas que metrificaram o motivo horacia- latinistas como o próprio Budé, Etienne Dolet, tradutor de
no da retirada para a vida pacífica nos campos, Fr. Agos- Platão, os lexicólogos Robert e H e n r i Estienne; final-
tinho talvez seja o único que realizou a resolução poéti- mente, fundou-se o Collège de France. As influências ita-
ca: tornou-se eremita. E m Fr. Agostinho existe algo lianas vieram depois, através dos numerosos artistas ita-
do sentimento da natureza dos franciscanos; mas nada da lianos que trabalhavam na França, das missões diplomáti-
alegria celeste do santo úmbrico. A "saudade" portuguesa cas, e do chamado "tour de chevalier"; a cultura de um ca-
aparece nesse monge como grave melancolia, como arre- valeiro não era considerada completa sem a viagem para a
pendimento perpétuo da vida passada, e o poeta desespe- Itália. Se a influência italiana só veio "depois", não foi
raria, se a luz mística do outro mundo não lhe aparecesse menos intensa do que em outra parte, e não se manifestou
na oração. Fr. Agostinho da Cruz não possui a profun- apenas na adoção do soneto e da filosofia "platónica" do
deza dos místicos espanhóis; mas é o único poeta do pe-
amor; nos poetas da Plêiade, como aliás em todos os pe-
trarquísmo internacional que se parece com os poetas re-
trarquistas europeus, muito do que parece original é tra-
ligiosos do petrarquismo italiano.
dução ou adaptação de poesias italianas da época; um Phi-
A porta de entrada do petrarquismo na França é a lippe Desportes, assim como Francisco de la Torre, é antes
cidade de Lião, importante centro do comércio com a Itá-
tradutor do que poeta original. Contudo, a atmosfera é
lia; do petrarquismo platonizante deriva a arte de Scève
diferente; e, com efeito, existe uma terceira fonte da poe-
e Louiie Labé. Mas a "école da Lyon" e a poesia renas-
sia renascentista francesa, uma fonte nacional, e sem isso
centista francesa não s i o idênticas; ao contrário, as rela-
a Plêiade teria ficado o que foi a "école de Lyon", uma
ções da Plêiade com os poetas de Lião não são muito
planta exótica. "O poeta nacional", quer dizer, de tem-
densas, e a origem do petrarquismo francês, embora não
peramento "gaulês", da época, é Marot. Mas não parece
constitua problema difícil, é bastante complicada ( 1 6 ).
menos importante o poeta belga Jean Le Maire de Belges,
Chamavam-se "Plêiade", lembrando os 7 poetas famo-
que se diz discípulo dos poetas borgonheses do século X V ;
sos de Alexandria, alguns alunos do colégio de Coqueret:
Ronsard, Baif, Belleau, Du Bellay, Jodelle e Pontus de e Ronsard fêz, em 1538, uma viagem para Flandres, onde
Tyard, convidando como sétimo companheiro o seu pro- recebeu sugestões importantes ( 1 8 ). E i s as três raízes —
fessor de Grego, Jean Daurat. Quer dizer, a primeira ins- o humanismo, o italianismo, a poesia borgonhesa, "fiam-
piração veio dos estudos clássicos ( 1 7 ). O título de uma boyante" — da poesia francesa do século X V I e, em par-
obra do famoso grecista Guillaume Budé (1467-1540) é o ticular, da Plêiade ( 1 B ).
programa: De stadio Htterarum recte ae commode insti-

18) P. Laumonler, In: Revue de la Renaissance, I, 1901.


lai I. Vlaney: Le pétrarqutsme en France au XVIe sièele. 2 vote. 19) H. Guy: Histoire âe la poésie françaite ou XVIe sièele. 2 vote.
Paris, 1906/1907. Paris, 1910/1926.
H. Chamard: Les origines âe la poésie française de ía Renaissan- P. de Noltiac: Tableau. de la poésie Jrançaise au XVte sièele.
ce. Paris, 1920. Paris, 1924.
17) J. Flattard: Lo Renaissance ães lettres en France. 2.» ed. Paria, Th. Maulnier: Introductíon o la poésie Jrançaise. Paris, 1939.
1931. H. Chamard: Histoire de Ia Plêiade. 4 vote. Paris, 1939/1940.
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522 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 523

Maurice Scève ( 2 ° ) é o grande poeta da "école lyon- trarquesco, e a intervenção perpétua de expressões filosó-
naise". É poeta erudito, e tem algo da ambição de Lucré- ficas naquela declaração de amor sugere até a impressão
cio : reunir num grande poema didático a erudição e filo- de que "Dame" seja um fantasma, mera alegoria. Não é
sofia da sua época. O Microcosme ó o esboço desse poema assim. "Dame" era uma mulher de carne e osso; o seu aman-
que não foi escrito: um sonho de Adão representa os sen- te revela às vezes sentimentos bem sensuais, e outras vezes
timentos cósmicos da humanidade inteira. O misticismo confessa: "Ma face, angoisse a quiconque la voit". A fra- -

meio científico dessa filosofia, o neoplatonismo do "le dé- gilidade da sua "condição humana", que o platónico cer-

sir, image de la chose", o emprego dos símbolos Macro- tamente sentiu com amargura, inapira-lhe expressões de •

cosmo e Microcosmo, lembram imediatamente Pico da melancolia profunda —


Mirandola. Mas a filosofia de Scève, que é poeta, não se
encontra nas suas teorias, e sim no simbolismo dos seus "O ans, ô móis, semaines, jours et heures,
versos. E o assunto desse simbolismo não é o Macrocos- O intervalfe, ô minute, ô moment" —
mo, e sim um Microcosmo: a Mulher. As 449 décimas •

da Dêlie já se chamava "a maior meditação poética em lín- verso» que dão testemunho da sua capacidade de trans- •

gua francesa"; em todo o caso, é a maior declaração de formar termos "científicos" em música verbal; às vezes,
amor que já se fez a uma mulher. o discípulo de Ficino e Pico da Mirandola supera o mis-
" T u es le corps, Dame, et je l u t i ton o m b r e . . . " pa- ticismo dos humanistas italianos. Nem sempre Scève o con-
rece Um galanteio elegante, até o leitor saber que o "corps" seguiu: a sua língua é dura, a sua sintaxe complicadís-
é a ideia eterna e i "ombre" o reflexo terrestre. "Dame" sima, grande parte da sua poesia é hermética, talvez invo-
é o simbolo da nossa participação no reino da verdade, e o luntariamente. Enquanto o hermetismo de Scève não foi
amor, resultado acessório da meditação em profundidade, foi"'o
tributo do poeta à realidade dura, do mundo e da língua;
"le souvenir, âme de ma pensée", e quando deu ao verso "Humanité brutale, sotte et lourde"
— a rima "sourde" não pôde adivinhar que a posteridade
é a recordação do mundo ideal, a "anamnese" platónica. seria surda à sua poesia. Nem os simbolistas da "fin du
Esse "amor cósmico" parece-nos. o cume do exagero pe- siècle" deram muita importância a Scève, considerado Bem-
20) Maurice Scève, c. 1505-1564. pre como mero "precursor" da Plêiade. Enfim, as gera-
Arion (1536); Délie, objet de la plus haute vertu (1544); Saul- ções atuais descobriram que Scève fora um precursor do
saye (1547); Mierocosme (1552). "modernismo" e' do super-realismo, o poeta mais filosó-
Edição por B. Guégan, Paris, 1927. (Importante introdução bio-
gráfica.) fico da língua francesa, mensageiro de um amor dantesco
F. Brunetière: "Un precurseur de la Plêiade: Maurice Scève". e de uma melancolia cósmica ã maneira de Lucrécio. Com
(In: Êtudes critiques SUT Thistoirè de la litterature française efeito, Scève é poeta profundo, e nos seus melhores mo-
6me série. 5.a ed. Paris, 1695.)
A. Baur: Maurice Scève et la Renais&ance lyonnaise. Paris, 1906. mentos sabe transformar em música pura uma filosofia
A.-M. Schmidt: La poésie identifique en France au XVle síècle. dialética que parece muito moderna:
Paris, 1939.
A. Beguin: "Sur Ia Mystlcrue de Maurice Scève".* (In: Fantaine,
VII, 36, 1944.) "Musique, accent des cieux, plaisante symphoníe,
L. Saulnier: Maurice Scève. 2 vols. Paris, 1949. par contraíres aspects formant son harmonie".
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524 OTTO MABIA CARPEAUX HISTÓBIA DA LITERATURA OCIDENTAL 525

Scève, assim como Villon, com quem tão pouco se parece, O "precursor nacional" da Plêiade foi Clément Ma-
tornou-se vítima da crítica classicista; mas, como Villon, rot ( 2 Í ) . É um polígrafo poético, que escreve inúmeras poe-
não precisa de justificações históricas. A grandeza de sias de ocasião, quer dizer, para todas as ocasiões da sua
Villon não consiste em ter sido, no século XV, precursor vida agitada. Marot escreveu poemas meio medievais, no
cronológico da poesia renascentista, com a qual nada tem estilo do Roman de la Rose, e poeãias italianizantes, fábu-
em comum; é, no século XV, o precursor do poeta mo- las alegres, epigramas e salmos — era protestante — e ba-
derno, de Apollinaire. Do mesmo modo, Scève não é o ladas e rondós no estilo de Villon, do qual editou as obras
precursor da Plêiade, e sim de Mallarmé e Valéry. sem herdar nada do seu génio. Tem graça gaulesa e o ta-
lento de narrar em versos. O problema, no seu caso, con-
As justas homenagens que a posteridade recusou a
siste em verificar porque os manuais e antologias da litera-
Scève, recebeu-as uma daquelas damas lionesas entre as
tura francesa concedem tanto espaço a esse versificador
quais se encontrava o modelo carnal de Délie: Louise Labé
simpático; trata-se de uma herança da crítica classicista,
( 2 1 ). Os seus 23 sonetos eróticos estão entre os mais fa-
que considerou como poesia o esprit metrificado e rimado.
mosos da literatura universal, testemunhos de uma "étran-
O lugar que Marot ocupa, pertence antes a Le Maire de
ge et forte passion". As antíteses petrarquescas ("Je vis,
Belges, poeta belga de expressão francesa.
j e meurs; je me brusle et me n o y e . . . " ) e as elevações mís-
ticas da linguagem não nos podem enganar: esse amor não Jean Le Maire de Belges ( 28 ) parece-se algo com
é platónico: Marot, mas, além de italianizar mais assiduamente — é um
precursor autêntico da Plêiade — tem mais colorido, vida
"O beaux ysux bruns, ô regards détouraés, e paixão. Também tem outros modelos. Não se refere a
O chauds soupirs, ô larmes épandues, Villon, e sim a Chastellain e Molinet, os "grands rhéto-
O noires nuits vainement attendues, riqueurs" da Borgonha. Esse grupo de poetas ( 34 ) com-
O jours luisants vainement retournés!"
22) Clément Marot, c. 1496/1497-1544.
Louise Labé é grande artista da elegia erótica. Ê possível Obras: 65 epltres, 27 elegias, 15 baladas, chansons. epigramas,
compará-la a Propércio; mas não a Catulo, nem a Gaspara etc, etc.
Edição por P. Jannet, 4 vols., Paris, 1868/1872.
Stampa. Não era uma aristocrata desgraçada, porque se en- E. Faguet: "Marot". (In; XVle atécle. ttvdet Uttérairet. Parla,
tregara a um amante indigno; era uma burguesa rica, 1893.)
H. Guy: Histoíre de la poêsie françaite au XVle alicie. Vol. II:
uma "dama". Também não é precursora da Plêiade, mas do Marot et son Ecole. Parla, 1926.
classicismo, de Racine. P. Jotrxda: Clément Marot, Pari», 1960.
23) Jean Le Maire de Belger - 1473-0. 1*20.
Edição por M. Stecher, -. LouvaUí, 1882/1891.
Ph. A. Becker: Jean Le A. .« Belges. Strasbourg, 1892.
21) Louise Labé, 1522-1565. M. Stecher: Notice sur Jea • Maire de Belges. Louvaln, 1908.
Oeuvres (23 sonetos, 3 elegias, etc.; 1965). P. Spaak: "Jean Le Maire de Belges". (In: Revue du XVle siècle,
Edições por Ch. Boy, 2 vols., Paris, 1887, e por T. de Visan, 1921/1923.)
Paris, 1910. 24) H. Guy: Histoíre de Ut poésie française au XVle siècle. Vol. I:
D. 0'Connor: Louise Labé. sa vie et son oeuvre. Paris, 1927. L'ecole des rhétorlquevrs. Paris, 1910.
J. Lamac: Louise Laoé, la belle cordtère de Lyon. Paris, 1934. P. Champion: Histoire poétlaue du XVe siècle. 2 vols. Paris, 1923.

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526 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 527

põe-se dos últimos representantes do gótico "flamboyant" grandes poetas da literatura universal. À primeira vista,
da Borgonha; e são dos mais característicos. Georges parece uma mistura de Petrarca e de Anacreonte, poeta de
Chastellain (1403*1475) parece fornecer o emblema da épo- amores e paisagens artificiais, de um epicurismo erudito
ca, quando celebra o esplendor do Duque Filipe de Bor- sem muita vida; e quando aspira à sublimidade de Píndaro,
gonha — é para erigir-se em poeta oficial da França. Esse mais
intencional dos poetas sempre consegue descobrir o lugar-
"Cor et d'azur, qui de lys reflamboye".
comum, erótico ou patriótico, já descoberto. A culpa do

Michault Taillevent (c. 1410-1458) exprime a melancolia equívoco é das antologias, que incluem incansavelmente os
macabra do "flamboyant": "Temps perdu n'est à recou- mais gastos versos do poeta: "Comme on voit sur la bran-
vrer", e Jean Molinet (1435-1507) é um acrobata das pa- che" e "Mignonne, allons voir", seguidos de um trecho
lavras, um jongleur de antíteses e metáforas, já quase truncado de um dos Discours poéticos. É preciso ler Ron-
barrocas; existem relações subterrâneas entre o Barroco e sard inteiro, mesmo que isso constitua trabalho forçado.
o gótico "flamboyant", Le Maire de Belges, que não era O amor de Ronsard não é fictício nem insincero.
um grande poeta, mas um poeta muito vivo, e que se re- "Quand vous serez bien vieille, au soir, à la chandelle "
fere a Molinet como seu mestre, exerceu certa influência é e continua a ser uma das mais belas poesias de amor que
sobre Ronsard. E se a crítica perguntasse qual o elemento '-1P existem, e as antologias suprimem justamente os momen-
estilístico que distingue o potrarquismo da Plêiade de to- tos nos quais o temperamento vence a erudição: os
dos os outros petrarquismos contemporâneos, a resposta
" . . . . amants, qui librement
seria: aquela vivacidade verbal e aquele colorido "flam-
Pratiquent folâtrement
boyant" que recebeu da Borgonha.
Dans les draps cent mignardises.'

Ronsard ( a 0 ) é o maior nome da Plêiade e, apesar de


todas as objeções que surgem sempre de novo, um dos e o "reliéf de porphyre, ouvrage de Phidie", os "tetins"
transformados em "deux boules marbrines". Ronsard sabe
36) Plerre de Ronsard, 1524-1685. CCf. nota 71.) guardar a justa medida; a sua poesia é dos
Odes (1650/1553); Les Amours (A Cassandre, 1552; Ã Marle, 1555;
 Hélene, 1574); Hymnes (1555/1556) Eglogues (15*0/1587); Diê- " légers Démons qui tenez de la terra
cours CDÍSCOJWS âes misères de ce temps à la reine mère, 1662; Et du haut ciei justement le m i l i e u . . . " —
Institutian paur Vadolescence du roi três chrétten Charles IX,
1562; Remontrance au peuple de France, 1563, e t c ) ; La Frãii~
:'. ' ciade (1572); Oeuvres «." ed. 1584). ' e neste sentido, é um clássico autêntico. Mas não um mero
Edições por M. Marty-Laveaux, 6 vols., Paris, 1887/1893; por P. classicista, porque sente a fresctfra de um novo mundo
Laumonler, 8 vols.. Paris, 1914/1318; por H. Vaganay, 7 vols. Pa- que a poesia lhe descobriu:
ris, 1923/1924.
H. Longnon: Essai sur Pierre Ronsard. Paris, 1904. , "Ciei, air et yents, plaine et monts découverts".
P. de Nolhacr Ronsard et 1'humanisme. Paris, 1921.
Laumonler: Ronsard, poete lyríque, 2." ed. Paris, 1904.
P. Champion: Ronsard et son temps. Paris, 1925. Ronsard descobriu o que um poeta maior — o parisiense
Q, Cohen: Ronsard, sa vie et son oeuvre. 5.a ed. Paris, 1933L V i l l o n — ignorara: a paisagem francesa. E se êle povoou
J. Silver: The Píndartç Odes o) Ronsard. New York, 1937. a Touraine de ninfas e faunos que os mortais comuns
M. Bíshop: Ronsard, Prince of Poets. New York, 1A40.
Wyodham Lewis: Ronsard. New York, 1S44. lá não distinguem, Ronsard poderia responder com as pa-
528 OTTO M A M A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 529

lavras de Corot, quando censuraram ao pintor o pouco Por essa capacidade de transformar pela imagem o terror
realismo das suas paisagens: "Não viu as ninfas? E u as vi." da vida em consolação inesquecível, afírma-se Ronsard
A grande e sincera dor da vida de Ronsard foi a de- como clássico.
vastação dessa paisagem pelas guerras de religião. Por Ronsard é o maior poeta da Plêiade; outros dirão,
isso, o poeta erudito e gozador da vida interveio na polí- talvez, que é Du Bellay ( a e ) o maior artista. A distinção
tica, ao lado dos católicos, mas com patriotismo imparcial é dificultada, outra vez, pelas antologias, quando escolhem
e elevado, censurando os prelados ("ôtez 1'ambition, la ri-
peças típicas do século, que poderiam pertencer a qual-
chesse excessive; / Arrachez de vos coeurs la jeuneusse las-
quer poeta do grupo ("A vous, troupe légfere... . " ) , Du
c i v e . . . ) e censurando também os protestantes ("ames peu
Bellay é poeta erudito, como Ronsard; mas os seus mo-
hardies!", "Entre vous, aujourd'hui, ne règne que dis-
delos são menos os gregos do que os romanos, e até na
c o r d " ) ; dirigindo-se com a maior franqueza a Catarina de
poesia erótica é menos o apaixonado Propércio do que o
Médicis e ao rei Carlos IX ("Sire, ce n'est pas tout que
d'être roi de France, / II faut que la vertu honore votre melancólico Tibulo. A sua paisagem francesa não é, como
enfance"). A descrição das misérias da França devastada a de Ronsard, uma floresta de faunos e ninfas, e sim "la
chega à força de Juvenal, como no poderoso "discours" "O douce France", recordação de alegrias juvenis e amores
Ciei! ô mer! ô terre! ô Dieu, p i r e commun", em que a guer- da primeira mocidade, e protetora de uma vida civil e
ra civil se transforma em terrível batalha dos corpos e es- polida,
píritOB, verdadeira "psicomaquia" nas nuvens, A imagem
da Franca ronsardiana i de uma atualidade tremenda, eu- "France, mère des arts, des armes, et des lois."

ropeia.
Por isso, o admirador apaixonado da Antiguidade prefere
"Si natura negat, facit indignado versos." Na epopeia
patriótica La Franciade, a natureza "negou" realmente. Tal- " . . . plus mon Loire gaulois que le Tibre latin,
vez Ronsard não tenha sido feito para isso. Era um poeta . . . et plus que 1'air marin la doulceur angevine."
"particular", íntimo. Nos últimos anos, era só o seu pró-
prio destino de criatura mortal que o preocupava; e, outra Nesse amor a Loire e Anjou, Vendòmois e Beauce há qual-
vez, o clássico encontrou a justa medida, entre a fé do quer coisa de nostalgia de quem esteve fora por muito
cristão e o desespero do epicureu, numa melancolia suges- tempo, e a mesma nostalgia, em relação ao tempo, inspi-
tiva. A morte lhe apareceu na imagem dos esplendores ra-lhe a poesia da melancolia das ruínas de Roma ("Pâles
terrestres que o homem tem que deixar: esprits, et vous, ombres poudreuBes"). Ronsard é clás-

"II faut laisser maisons et vergers et jardins";


26) Joachim Du Bellay, 1522-1660.
e a Morte, o esqueleto terrível das danças macabras, transfi- Defense et illustration âe la langue française (1MB); L'OUve
{1550); Les antiQuités ãe Rome (1556); Les Regreis (1559).
gurou-se-lhe em deusa serena que mata cedo os que ama, Edições por L. Séché, 3 vols., Parla, 1903/1910, e por H. Chamard
6 vols., Paris, 1907/1831.
" la mort qui nous enterre H. Chamard: Joachim Du Bellay. Paris, 1900.
Jeune nous tue, et nous conduit R. V. MerriD: The Platonism of Joachim Du Bellay. ChlcagD,
Avant le temps, au lac qui erre 1923.
J. Vlaney: Les ^'Regreis" ãe Du Bellay. Paris, 1930.
Par le royaume de la nuit." Fr. Ambrière: Joachim Du Bellay. 1934.
530 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 531

sico; Du Bellay é romântico, e por isso parece mais pessoal, Uma boa antologia da Plêiade ( aT ) é a leitura mais en-
mais moderno, sobretudo na poesia erótica da Olive, ins- cantadora do mundo; em todos aqueles poetas há o mesmo
pirada num platonismo mais puro do que o neoplatonismo fino gosto, formado nos modelos antigos, o sol sobre a
comum da Renascença. Mas é um romantismo relativo. Du "douce France", as noites melancólicas, sensualidades
Bellay, que morreu cedo, é da estirpe dos Garcilasos e Sid- agressivas e elevações espirituais. Em todos, a poesia eru-
neys, um cavaleiro brilhante e amante platónico, aspirando dita é autêntica poesia francesa, e o alexandrino, que é a
a ver grande conquista métrica da Plêiade, para se tornar mais
tarde o tirano dos poetas franceses, ainda e amplo e tudo
" l'Idée
acolhe. Ê poesia culta e, no entanto, viva. A leitura das
De la Beauté, qu'en ce monde adore."
obras completas de qualquer daqueles poetas é menos agra-
dável. Monotonia e excessos alternam, e BÓ Ronsard e Du
Da feição impessoal dessa poesia salva-se Du Bellay me-
Bellay se salvaram, desde o romantismo, do juísto impla-
nos pelo esplendor do seu mundo ideal, como Garcilaso,
cável de Malherbe. Mas há uma grande injustiça nessa
do que por um certo realismo rústico, que aparece cla-
condenação geral. Inspiração é coisa rara, e se o leitor
ramente no soneto "La terre y est fertile, amples les édi-
fices": sempre ficasse condenado à leitura das Obras Completas,
quantos poetas se salvariam? Justamente aquele poeta da
" l i s boivent nuit et jour en Bretons et Suisses, Plêiade contra o qual Malherbe foi mais cruel do que
11B sont gras et refaitB, et mangent plus que trois." contra os outros, é um dos melhores entre eles: Desportes
( 2 e ). Homem culto que leu muito e plagiou muito, epicureu
Neste soneto, Du Bellay cita Rabelais; mas a fonte dessa que sabia viver e era o contrário da "ombre maudite, errante
inspiração rústica é a poesia latina de Andrea Navagero, et déchassée" que cantou. Também não é seu (a fonte é
do mesmo que iniciou Boscán na poesia italiana. O sen- Sannazaro: "ícaro cadde q u i . . . . " ) o famoso soneto sobre a
timento comum de Du Bellay e Navagero é o da terra como morte de ícaro, que pretendeu voar ao sol e caiu no mar,
grande mãe que nos dá a vida e nos acolhe no seu seio. mas os últimos versos —
Por isso, Du Bellay, que foi melancólico durante a vida
inteira, olha sem melancolia a morte, que lhe parece — " . . . II eut pour le bruler des astres le plus beau;
quase como a Rilke — sombra do nosso corpo e parte da II mourut poursuivant une haute aventure;
nossa vida: Le ciei fut son désir, la mer sa sépulture:
Est-il plus beau dessein ou plus riche tombeau?" —
"II faut que chacun passe
En l'éternelle n u i t : 27) M. Aliem: Anthotogte poétique françaiie, XVIe liécl*. 3 voto.
La mort qui nouc menace, Paris, s. d.
Comme 1'ombre nous suit." 28) Phllippe Desportes, 1646-1606.
Les premières oeuvres (1573); Les psaumes de David (1603. 1603).
Deste modo, a poesia de Du Bellay termina como a de Edição por A. Michlels, Paris, 1868.
I. Lavand: Un poete de coar au temps des derniers Valais. Phi~
Ronsard. Mas, aqui, o majestoso "royaume de la nuit" é
Itppe Desportes. Paris, 1836.
uma província da alma; aliás, uma província francesa. M, Tb. Marchand-Roques: La vie de Phitippe Desportes, Abbé de
Tiron. Paris, 1946.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 533
532 OTTO MARIA CARPEAUX

são dos mais belos da língua francesa. Jean-Antoine de O lado mais forte da poesia da Plêiade é a elegia. Jo-
Baif ( aB ), ao contrário, do qual todas as antologias apre- delle ( 3E ), que se celebrizou pelas suas peças dramáticas
e o soneto
sentam as poesias anacreònticas, é dos menos agradáveis.
Só pode ser apreciado nas versões dos salmos ("Sur le haut "Des astres, des forêts et d'Aehéron 1'honneur,
des monts ça et là regardant,/J'ai leve mes yeux, si secours Diane "i
me viendrait...") e nas condenadas peças lascivas ("Le escreveu os seus versos mais belos na elegia "Aux cendres
corps au corps accouplé doucement, / O douce víe, ô doux de Claude Colet". E o dramaturgo Robert Garnier (") me-
trépassement..."). A poesia da Plêiade é mais rica do que receria um lugar especial na história da poesia lírica fran-
se pensa em peças obscenas e até pornográficas. Mas hou- cesa pelas elegias: "Élégie à Desportes", "Élégie à Nicolas
ve, em idade mais avançada, muito desejo de se reconciliar de Ronsard", "Élégie sur la mort de Pierre de Ronsard"
com o céu. Ninguém o conseguiu melhor do que Bertaut três peças realmente grandes, A última é o canto de cisne
( s o ) — poeta elegíaco, mais famoso pelas "pointes" espi- da Plêiade:
rituosas pré-barròcas, do que pelas versões de salmos e
"Vous êtes donc heureux, et votre mort heureuse,
a bela canção "Êtoile de la mer, notre seul réconfort...",
O Cygne des François;
para a qual Maulmier chamou a atenção — com efeito,
Ne lamentez que nous, dont la vie ennuyeuse
parece uma antecipação da Péguy. Mas foi mais seguro o Meurt le jour mille fois.
caminho que Pontus de Tyard ( 81 ) escolheu: o do silêncio. Vous errez maintenant aux campagnes d'Élise,
Nas suas Erreurs amoareases, a paixão é mais forte do que A 1'òmbre des vergers,
«m qualquer outro poeta da Plêiade; mas também o lugar- Ou chargent ent tout temps, assurés de la bise,
comum "L'homme n'est qu'ombre d'un songe" estava pro- Les jaunes orangers..."
fundamente sentido, e, afinal, o bispo de Châlons-sur-Saô-
Naquele tempo, a Plêiade já não existia, e os epígonos
ne deixou a poesia.
tinham encontrado o inimigo mortal no classicismo de
Malherbe. Na resistência contra Malherbe, a poesia fran-
cesa lembrou-se das origens nacionais de alguns dos seus
29) Jean-Antoine de BaYf, 1532-1589. elementos. Mathurin Régnier ("*) í a repetição do caso
Oeuvres en rime (1572/1573).
Edição por M. Marty-Laveaux, 5 vols., Paris, 1881/1890. 32) Etienne Jodelle, 1532-1573.
M. Augé-Chiquet: Jean-Antoine de Baif. Paris, 1908. Oeuvres et mélanges poétiques < 16.74).
30) Jean Bertaut, 1553-1611. Edição por M. Marty-Laveaux, 2 vols., Paris, 1868/1B70.
Recueil des Oeuvres poétiques (1801). B. Horvath: Etienne Jodelle, Budapeit, 1932.
Edição por A. Chenneviève. Paris, 1891. 33) Robert Garnier, 1545-1590.
Q. Grente: Jean Bertaut. Paris, 1903. Cf. "Teatro e Poesia do Barroco Protestante", nota 34.
31) Pontus de Tyard, 1521-1605. A reabilitação de Garnier como poeta lirioo deve-MI & Maulnier
Erreus amoureuses (1549/1553); Oeuvres poétiques (1573). (cf. nota 19).
Edição por M. Marty-Laveaux, Paris, 1875. 34) Mathurin Régnier, 1573-1813.
I. Abel Jeandet: Pontus de Tyard. Paria, 1860. Edição por E. Couibet, 2* ed., Paris, 1875.
S. P. Baridon: Pontus áe Tyard. Milano, 1053. J. Vlaney: Mathurin Régnier. Paris, 1896.
534 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 535

Marot: as BUIS sátiras em estilo horaciano revelam muita Gascoigne ( 3T " A ), do qual até há pouco apenas um Lover's
graça, esprit gaulês, e uma filosofia de bonhomme epi- Lullaby constava das antologias; Gascoigne é hoje quase
cureu e até libertino. Mas não é um Villon, nem grande desmesuradamente elogiado por certos críticos americanos.
poeta de qualquer espécie. É, porém, francês, poeta in- Os sonetos ingleses não são inferiores aos franceses
teligente. da Plêiade, com os quais estão em relação íntima. Samuel
O "tour de cavalier", a viagem obrigatória do cava- Daniel ( s a ) não nasceu poeta; mas aprendeu bem a poesia,
leiro culto para a Itália, é a origem da poesia petrarquesca em Du Bellay principalmente, embora o título dos 50 so-
na Inglaterra ( 8B ). Thomas W y a t t (BB) é o decano, o pri- netos de Delia lembrasse Sceve. O estilo, não; é simples,
meiro dos sonneteers à maneira de Petrarca e Sannazaro, o verso fica na memória, e certos sonetos como " W h e n men
com certas veleidades de independência na forma estró- shall find thy f l o w e r . . . " e "Care-charmer Sleep, son of
fica; também não lhe falta a independência de escrever the sable Night" tornaram-se conhecidíssimos. Drayton
poesia mais espontânea em outras formas, como as famo- ( 3 B ), ao contrário, é grande poeta. Um dos 51 sonetos de
sas peças antológicas "Forget not yet the tried e n t e n t . . . " Idea's MÍTTOX, a comovente despedida "Since there's no
e "And wilt thou leave me thus?". Assim como outros poe- help, come let us kiss and part", foi considerado por Dante
tas do século XVI, W y a t t já teve o seu dia de ressurreição, Gabriel Rossetti como o melhor soneto em língua inglesa:
encontrando novos admiradores. O seu amigo e discípulo e Rossetti entendia de sonetos. Drayton era um talento
Howard, Bari of Surrey ( S T ), leva a cabo aquela reforma de poeta intimista, de grande poeta menor; teria sido o
métrica: • transformação do soneto petrarquesco em "so- Du Bellay inglês, se não tivesse tido a ambição infeliz
neto elisabetiano", em que oa tercetos têm a forma: e f e de escrever.uma epopeia geográfico-histórica, espécie de
f g g, ou então e f f e g g, ou qualquer outra combinação corografia poética da Inglaterra. O Polyolblon é enorme
na qual aa duas últimas linhas constituam um couplet e ilegível. É oposta a situação de Edmund Spenser: foi
rimado; transformação importaru:, porque o soneto inglês grande como poeta liricd,* porém maior como poeta épico;
se distingue do italiano pela forma e^ : dramática do fim. • á*#
Será uma poesia na qual a expressão dos s. timentos ter-
37A) Georf^&ascolgne, c. 1527-1677.
mina em conceito espirituoso. O soneto de r kespeare W*tf por J. W. Cunllííe, Cambridge, 1907.
será assim. De sabor mais popular é a poesia .eorge O a/jScheUing: The Life and Wrítinos of Oeorge Qatcotcne.
Fhii.-delphla, 1894.
Y. Wlnters: "The Slxteenth - Century Lyrlo In England". (In:
35) L. Einstein: The Italian Renaissance in England. New York, Poetrv, Chicago, março de 1039.)
1902. 38) Samuel Daniel, 1562-1819,
M. Evans: English Poe.try in the Slxteenth Century. London, Delia (1502); Episttea (1803); tragedia Phltotai (1806); Oueen'»
1966. Arcádia (1606).
36) Slr Thomas Wyatt, c. 1503-1642. Edição (com introdução) por A. B. Gronrt, 0 volt., London,
Edição por A. K. Foxwell, 2 vols., London, 1913. 1885/1396.
C. M. W. Tillyard: The Poetry of Str Thomas Wyatt. London, 39) Miclmel Drayton, 1563-1631.
1939. Idea's Mirrar (1594); Polyolblon (1813/1623); égloga Endymion
8. Baldl: Le poesle ât Sir Thomas Wyatt. Flrenze, 1953. and Phoeoe (1595).
37) Henry Howard, Earl of Surrey, 1516-1547. Edição por J. W. Hebel, 5 vols., Oxford, 1631.
Edição por E, M. Padelford, 2.a ed., Seattle, 1928. O. Elton: Michaél Drayton. London, 1906.
E. R. Casady: Henry Howard, Earl of Surrey. Oxford, 193S. B. H. Newdigate: Drayton and hl» Circle. London, 1941.
536 OTTO M A R I A CAHPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 537

assim como no caso de Camões, a epopeia lhe dá impor- comuns aos dois poetas. Sidney é menos genial, menos
tância histórica maior em outra corrente literária, e o lu- clássico e mais classicista, porque a sua personalidade mais
gar do maior sonetista elisabetiano fica para Sír Philip forte exigiu mais disciplina. Garcilaso é quase um grego:
Sidney ( 4 0 ). A sua personalidade literária não é compli- Sidney é um romano, ou antes o primeiro gentleman in-
cada, mas complexa. Como teórico da poesia, é classicista. glês. Teria sido um dos maiores poetas ingleses, pela dis-
Pela sua Arcádia, imitada de Sannazaro e Montemayor, ciplina, o self-control, do seu génio, se não fosse a morte
ocupa lugar importante na história do romance pastoril; prematura:
mas essa mistura de égloga prosificada e romance de aven-
"O take fast holdt let that light be thy guide
turas, escrita em estilo afetado e excessivo, é inteiramente
In this small course wich birth draws out to death... 1 '
ilegível, pelo menos para nós outros, apesar de recentes
tentativas de "salvá-la". Só é digno de nota, entre as poe- Os sonetistas elisabetianos são, porém, menos classi-
sias insertas, o belo poema "My true love hath my hart and cistas, em geral, do que os espanhóis e franceses: a forma
I have hís", e este é inferior aos melhores sonetos do ciclo estrangeira serve-lhes para disciplinar a inspiração que, de
AstropheJ and Stella; " W i t h how sad steps, ô Moone, thou W y a t t a Sidney, vem da poesia popular. Os maiores huma-
clim'st the skyes", "Come Sleepe, ô Sleepe, the certaine nistas ingleses não desdenharam, de vez em quando, escre-
knot of peace", "Having this day, my horse, my hand, ver no tom das canções populares, das amorosas ou das ecle-
my launce". Os sonetos não são impecáveis: a sintaxe é siásticas, e alguns destes versos de ocasião pertencem aos
algo confusa, a versificação dura. Mas são mais ingénuos, melhores da língua inglesa. Sir Walter Raleigh ( 4 1 ), huma-
mais frescos do que quase todos os outros sonetos do sé- nista, historiador importante, cientista, cortesão, político,
culo X V I . Revelam uma personalidade ideal, encarnação guerreiro, não é, com tudo isso, um "cortegiano" no sentido
inglesa do "cortegiano": valente e gentil, amoroso e sin- de Castiglione. Encarna um outro tipo do homem da Re-
cero, culto e ingénuo. Sidney é o Garcilaso inglês; parece- nascença; é um condottiere inglês, um dos fundadores da
se com o grande espanhol até na biografia agitada, nas via- marinha de guerra e do Império colonial britânico. E aca-
gens pela Itália e Boémia, na morte no campo de batalha. bou, como um condottiere vencido, no patíbulo. Não pen-
Também certos artifícios e o gosto pela poesia pastoril são sava em ser poeta, mas quando, por vezes, escreveu versos,
esquecendo então a sua cultura humanística, saiu coisa ex-
traordinária, como The Passionate Man's Pilgrimage, com
40) 8ir Philip Sidney, 1554-1586. (Cf. nota 81.) o seu misticismo inesperado; ou aqueles versos sobre a
The Countess of Pembrokes Arcádia (1590); Astrophel and Stella
(1591); Dejence of Poeaie (1595). imortalidade da alma que o lívre-pensador Raleigh escreveu
Edição por A. Feulllerat, 4 vols., Cambridge, 1912/1926. no cárcere na noite anterior à execução:
J. A. Symonds: Sidney London, 18S6.
M. Wilson: Sir Philip Sidney. London, 1831.
K. O. Myricfc: Sir Philip Sidney os o Literary Craftsman. Cam- 41) Slr Walter Halegh, c. 1652-1818.
bridge, Mass. 1935. History of the World (1614).
C. H. Warren: Sir Philip Sidney. London, 1936. Edição das poesias por A. M. C. Lattiam, London, 1929.
J. F. Danby: Poets on Fortune'* HW. Studies in Sidney, Sha- E. Gosse: Sir Walter Raleah. London, 1886.
kespeare, Beaumont and Fletcher. London, 1052. W. Stebllng: Sir Walter Raleah. 2.* ed. London, 1899.
F. S. Boas: Sir Philip Sidney, Representative Elizabethan, Lon- E. Thompson: Sir Walter Ralegh. London, 1935.
don, 1955. Ph. Edwards: Sir Walter Raleah, London, 1S53.
538 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 539

"Even Buch is Time, that takes in trust durante séculos; mas em nosso tempo, os ingleses lembra-
Our youth, our joys, our ali we have, ram-se desse tesouro artístico, e hoje a música dos ma-
And pays us but with earth and dust; ârigalists tem outra vez a fama merecida. O que nunca
W h o in the dark and silent grave, foi esquecido foram OB textos que acompanharam aquelas
W h e n we have wander'd ali our ways, composições — versos amorosos ou jocosos, "vers de so-
Shuts up the story of our days; ciété", mas de um encanto musical extraordinário. São eles
But from this earth, this grave, this dust, que estão colecionados nos "Míscellanies" e "Song Books",
My God shall raise me up, I trust." fornecendo às antologias da poesia inglesa maior quantida-
de de belos poemas do que qualquer grande poeta. Entre
Outra bela poesia, atribuída a Raleigh sem argumentos os autores encontram-se Spenser e Sidney, Raleigh, Mar-
convincentes, o "As ye carne from the holy land of Wal- lowe, Greene, Shakespeare, ao lado de muitos anónimos,
singháme", encontra-se numa das famosas antologias da e ao lado de outros que só pelos "song books" se notabili-
época, os "Elizabethan Song Books", coleções de poesia zaram, Nicholas Breton contribuiu com "In the merry
culta e poesia anónima, de um encanto muito especial ( 4 2 ). month of May", Lyly com " W h a t bird so sings, yet so
A Inglaterra é considerada, por muitos, como país sem does wail?", Thomas Lodge com as lindíssimas canções
música. Mas essa opinião não está certa no que diz respeito "Love in my bosom like a bee", "My Phyllis hath the mor-
à Idade Média, época em que John of Dunstable é um dos ning sun", "Love guards the roses of thy lips", "Like to
maiores mestres da música eclesiástica, nem quanto ao sé- the clear in highest sphere". O maior desses líricos au-
culo X V I I , quando Henry Purcell é um dos maiores mes- tênticos é Thomas Campion ( 4 8 ) : nenhum outro poeta da
tres da ópera barroca. A idade áurea da música inglesa literatura inglesa revela tanta variedade, sobretudo na poe-
é, porém, a época da rainha Elizabeth. Floresceu parti- sia erótica. "There is a garden in her face" (com o refrão:
cularmente o "madrigal", pequena composição vocal para "Till Cherry-ripe themselves do cry"), "Rosecheek'd Laura,
várias vozes. O B compositores — Byrd, Gibbons, Dowland, come", " W h e n to her lute Corinna sings", "O sweet delight,
Morley são os mais importantes — estiveram esquecidos o more than human bliss", "Thou art not fair, for ali thy
red and white", "My sweetest Lésbia, let us live and love"
— nunca terminaria a lista das poesias que tratam o mesmo
42) As coleções mais famosas são: assunto em ritmos e expressões sempre variados, como varia-
TotteVs Míscellany, edit. por Richard Tottel, 1557; edição por H. ções musicais sobre um tema dado. Um lugar-comum — a
E. Rollins, 2 vols., Cambridge, Mass., 1928/1929.
The Passíonate Pilgrim (1599); edição por 8. Lee, Oxford, 1805.
Englanâ's Helicon (1600); edição por H. E. Rollins, 2 vols., Cam-
bridge. Mass, 1935. 43) Thomas Campion, c. 1566-1619.
Os "Song books" de William Byrd, John Dowland, Thomas Cam- Books of Ayres (1601/1617).
pion, Orlando Gibbons, etc. encontram-se estudados nas histó- Edição por P. S. Vivlan, London, 1909.
rias da música. T. Mac Donagh: Thomas Campion and the Art of English Poetry.
E. H. Fellowes: The English Madrigal School London, 1924. London. 1913.
I. Erskine: The Elizabethan Lyric. New York, 1903/1905. P. S. Vivian, in: The Cambridge Híttory of English Literature,
J. M, Berdan: Early Tudor Poetry. New York, 1920. vol. IV, 2,» ed., 1919.
F. Delattre et C. Chemin: Les chansons elisabéthaines. Paris. M. M. Kastendieck: Englanâ's Musical Poet, Thomas Campion.
1348. New York, 1938.
540 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 541

advertência às moças para utilizar os dias de amor — trans- Garcilaso, Du Bellay e Sidney são as figuras repre-
forma-se em canto de Prosérpina, do abismo do Hades, às sentativas da Renascença aristocrática. A sociedade que
vivas ("Hark, ali you ladies that do sleep"); outro lugar- representam encontra-se, no entanto, na mesma decadência
comum, o horaciano "Integer vitae scelerisque purus", apa- que na Itália. A plena realização do ideal aristocrático já
rece rejuvenescido como "The man of life upright"; e o não é possível senão num mundo de criação arbitrária; "ar-
mesmo Campion escreve o hino religioso, talvez o mais bitrária", quer dizer, sem consideração da realidade social.
belo da Igreja inglesa: "Never weather-beaten sail more É aquilo a que a crítica chamou antigamente "romantismo
willing bent to shore", com o verso final: "O come quickly, fantástico". A grande obra de arte do "romantismo fantás-
glorious Lord, and raise my sprite to T h e e ! " Campion é tico" é o Orlando Furioso. A divulgação da obra foi inter-
um daqueles poetas líricos que conseguiram construir um nacional. Mas a vontade de imitação nasceu sobretudo na-
mundo poético completo; e isso com ligeiros "vers de so- queles países nos quais as descobertas geográficas e decor-
ciété". rentes transformações económicas ameaçaram mais do que
O último dos líricos de espírito elisabetiano é William em outra parte a existência precária das classes feudais:
Browne (**), cujas canções "So shuts the marigold her na Espanha e na Inglaterra. Na Espanha, o livro mais lido
leaves" e "For her gait, if she be walking" se encontram no século X V I é o Amadis de Gania, e Ariosto encontra
em todas as antologias. Browne é um poeta pastoril, no muitos imitadores, todos infelizes, aliás: Luis Barahona
sentido da Renascença; as suas poesias rústicas são de um de Soto (Las lágrimas de Angélica, 1586), o grande Lope
poeta culto. De modo algum a poesia dos "song books", de Vega (La hermosura de Angélica, 1602), e ainda Ber-
embora de inspiração "popularista", pode ser considerada nardo de Balbuena (El Bernardo o la victoria de Ronces-
como poesia popular autêntica, nem sequer a dos poetas valles, 1624). Na Inglaterra, a própria rainha Elizabeth
anónimos. J á o emprego de nomes como Phyllis e Lésbia encarregou Sir John Harington de uma tradução completa
revela a cultura clássica e italiana dos autores. E o intuito de Ariosto em oitava-rima (1591), e a mistura de influên-
de fazer poesia "ligeira" intensifica o artifício. O fim ine- cias de Ariosto e do Amadis com as tradições alegóricas
vitável dessa evolução será o estilo barroco. Grande parte da poesia inglesa deu a epopeia de Spenser.
das poesias eróticas de Donne, poeta barroco por exce-
lência, pertence, pelos assuntos e pelo ritmo, à poesia dos Edmund Spenser ( 45 ) começou a reforma da métrica e
"song books", e quanto a poetas como William Browne e língua poética inglesas na poesia bucólica, assim como Gar-
William Drummond será difícil dizer se pertencem ao es-
tilo renascentista ou ao barroco. A fronteira é imprecisa.
45) Edmund Spenser, 1552-1699. (Of. nota 68.)
Na poesia espanhola, existe a mesma transição entre Gar- The Shepheardes Calender (1579); ComplalnU (1691); Amoretti
cilaso de la Vega e Fernando de Herrera. (1591-1595); Astrophel (1695); Epithalamion (1695); Prothala-
mion (1596); The Faerie Queene (1590/1596).
Edições por J. C. Smith e E. de Sellncourt, 3 vols., Oxford, 1909/
1910, e por E. Greenhaw, O. O. Osgood e F. M. Padelford, 8 vols.,
44) William Browne, 1691-c. 1643. Baltlmore, 1932/1940.
Britou 7»(a's Pastorais (1613, 1616); 8hepherd's Pipe (1614). B. W. Ohurcli: Spenser. London, 1870.
Edição por O. Ooodwin (com introdução por A. H. Bullen), 3 E. Legouis: Edmund Spenser. Paris, 1923.
vols., London, 1804. W. L. BenwicK: Edmund Spenser. An Essay on Renaissance
F, W. Moorman: William Browne. Strasbourz, 1897. Poetry. London, 1932.
542 OTTO M À B I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 543

cilaso na Espanha; mas as 12 éclogas do Shepheardes Ca- muito maior. A sua criação não é arbitrária. Como homem
lender exageram o que era maneira nas éclogas e o que da Renascença, Spenser acredita no poder transfigurador
Carcilaso evitara: as alusões políticas. Esse interesse pela da beleza, e confia-lhe a transformação da "matéria bretã"
política não é mera convenção em Spenser; é tão inglês do rei A r t u r em reino de Vénus e Minerva e imagem ale-
como os acessos ocasionais de realismo rústico. Contudo, górica da Inglaterra e Europa; pela beleza renascentista,
Spenser é antes um poeta musical, traduz Du Bellay, e su- o romance de cavalaria é "romantizado", e pelo sentido ale-
pera-o em um ciclo de sonetos, Amoretti, os mais perfeitos górico Spenser recupera a realidade. Um mundo é criado,
que a poesia inglesa produziu antes dos de Shakespeare. como o de Dante. Como criador de uma língua poética,
Agora, Spenser é o representante da Renascença na In- Spenser não é menor do que Dante; a sua nova forma é
glaterra. O Epithalamion, celebrando a harmonia de corpo a stanza de oito decassílabos e um alexandrino, que adapta
e alma, e o Prothalamion, transfigurando a paisagem in- de maneira admirável a ottava-rima à língua inglesa; é cha-
glesa ("Sweet Themmes! runne softly, till I end my mada, até hoje, "Spenserian stanza". Será o metro de By-
song!"), aproximam-se de Garcilaso. Depois, a síntese: a ron e Keats, dos românticos ingleses.
Faeríe Queene: imitação consciente de Ariosto, com remi- Spenser dispõe de uma capacidade suprema de criar
niscências de Virgílio e Tasso, de Malory, da maneira nar- imagens e quadros. O "garden of Adónis", o "mask of
rativa de Chaucer, da alegoria do Roman de la Rose — mas Cupid", a visão de Scudamour não encontram paralelo na
Spenser é o génio da capacidade inglesa de assimilar, an- literatura universal, e a mesma força de imaginação trans-
glicizar tâdaa as influências estrangeiras. O plano da obra forma em realidades palpáveis as alegorias: o "House of
era tSo grande que a epopeia ficou incompleta: só 6 "livros" Pride", o "Cave of Mammon", o "Cave of Despair". O pró-
e 2 "cantos" do sétimo existem, quando 12 livros estavam prio Spenser é como um dos feiticeiros do seu poema:
projetados. Contudo, o que existe já basta para o leitor evoca uma visão como dos gobelinos da Renascença, e acom-
se perder numa floresta de fadas, gigantes, feiticeiros, nin- panha-a com a música interminável dos seus versos. Ê
fas, sátiros, rainhas, cavaleiros misteriosos, castelos cir- uma grande festa do "l'art pour 1'art"; Lamb chamou a
cundados de chamas, cavernas cheias de fantasmas. É o Spenser "the poets' poet".
reino da imaginação mais arbitrária, como um último pro- Mas não se trata só de 'Tart pour 1'art", o a Fairie
duto da fantasia medieval, ou então do gótico "flamboyant". Queene, assim como a Divina Comédia, não pode ser bem
E m Spenser, porém, há apenas uma influência medie- compreendida sem nos capacitarmos de que todas aquelas
val: a de Chaucer, do qual também provém a arte de vi- visões, paisagens e personagens têm sentido alegórico. O
vificar as alegorias na poesia narrativa; e Chaucer foi ar- verdadeiro assunto do poema fantástico — obra de um in-
tista consciente. Spenser é artista consciente num grau glês de grandes interesses políticos — é a luta entre pro-
testantismo e catolicismo na Inglaterra, as relações da
rainha Elizabeth e da rainha Maria Stuart, a noite de
E. A. OreenhaW: Stuãies in Spenser" s Hisíorical Alleaory. Bal- S. Bartolomeu, a revolução doB Países Baixos contra a
timore, 1932,
B. E. C, Davis: Eâmund Spenser. Cambridge, 1933. Espanha, situação e consequências da dominação inglesa
A. C. Jndson: The lAje oj Eâmund Spenser. Balttmore, 1945. na Irlanda, e a ascensão do rei Henrique I V da França.
Hsln-Chang Chang: Allegory and Courtesy in Spenser. Edin- Spenser canta a vitória do novo mundo sobre o mundo me-
burg, 1955.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 545
544 OTTO M A M A CARPEAUX

descobrindo, conquistando e colonizando novos mundos. A


dieval, católico, e esse novo mundo é, na mente do poeta,
tarefa foi principalmente de três nações: dos portugueses,
regido pela síntese do cristianismo calvinista e do plato-
espanhóis e ingleses; e as respostas literárias eram tão di-
nismo cristão de Ficino: os ideais religiosos e políticos da
ferentes como as reações políticas e sociais.
Reforma, vestidos da beleza artística da Renascença. Spen-
ser, como Dante, dá a síntese da sua época. Na Inglaterra, a reação literária não ultrapassou a von-
tade de dar-se conta do acontecido; nisso, o estado embrio-
Os mundos de Dante e de Spenser, ambos, são hoje
nário da nova economia inglesa colaborou com o empirismo
mundos mortos. Mas há uma diferença. O mundo de Dante
do caráter nacional. O monumento inglês da época das des-
era o mundo de todos os homens e criaturas da sua época,
cobertas é a grande coleção de viagens reunida por Hakluyt
e por isso encheu-se o seu poema de tanta verdade humana
( 4 0 ). Na Espanha, a tentativa de manter os ideais aristo-
que sobrevive para todos os tempos. O mundo de Spenser
cráticos produziu a transfiguração da Conquista em epo-
era o mundo de uma elite de artistas e humanistas; é a
peia, sem a capacidade de conferir ao assunto verdadeiro
criação do "poets' poet". Nunca foi arte para todos, nem
sentido épico, embora haja autêntico estilo épico na Ver-
pode ser de todos. Mas entre os poetas ingleses, não houve
dadera historia, de Bernal Diaz dei Castillo ( 4 T ). Pelo con-
quem não o admirasse e amasse. Deu-lhes de presente uma
trário, falta esse estilo, apesar da imitação dos modelos
floresta infinita de poesia. Hazlitt chegou a afirmar que
antigos, na Araucana, de Ercilla ( 4 8 ). Poucas obras da li-
a "poesia poética" de Spenser dispensa a compreensão das
suas alegorias; o crítico foi contemporâneo dos românticos
que gostavam imensamente de Spenser, ao ponto de Walter 46) Rlchard Hakluyt, C. 1552-1616. •
Scott quase torná-lo popular, tomando-lhe emprestados os The Principal Navtffations, Voyages, Traffiques and Discoveries
of the Engtish Nation (1538/1600).
mais belos versos para servirem de epígrafes. Spenser, ávi- Edição da Hakluyt Society, 12 vols., London, 1903/1905.
do de "Glória" como todos os homens da Renascença, não T. L. Dodds: "Hakluyt and Voyages of Dlscovery In Tudor
tinha em vão acreditado no poder transfigurador da sua Times". (In: Proceãings of the lAterary anã Philosophical Society
Of Liverpool, LXII, 1912.)
poesia. Não se pode negar; Spenser é, hoje, cada vez mais C. W. Lynam: Bichará Hakluyt and His Successors. London, 1946.
estudado pelos especialistas e cada vez menos lido pelos 47) Bernal Dlaz dei Castillo, 1492-1581.
leitores. É um poeta imensamente remoto de nós outros. Verãadera historia de los tucesot áe la conquista ãe la Nueva
Afinal, não foi um Dante. Mas sua floresta poética con- Espuiia (1632).
Edição: Biblioteca de Autores Espafloles, vol. XXVI.
tinua existindo como numa ilha esquecida, uma paisagem R. B. Cunninghame Graham: Bernal Diaz dei Castillo. London,
mágica além das fronteiras humanas da literatura inglesa, 1917.
assim como o predisse um verso do Epithalamion: 48) Alonso de Ercilla y Zufiiga, 1533-1594.
Araucana (1569/1589).
Edição por J. Toribia Medina, 2 vols., Santiago de Chile, 1913.
" T h e woods shall to me answer, and my Echo ring". J. Ducamin: L'Araucana. Morceaux choísU. (Avec introductlon.)
Paris, 1900.
Enquanto a criação romântica de Spenser pode ser M. Menéndez y Pelayo; Historia áe la poesia hispano-americana,
considerada como tentativa de conferir um novo sentido Vol. II. Madrid, 1913,
Azorín: "Ercilla". (In: Los dos Luises u otros ensayos. Madrid.
ao ideal aristocrático — o cavaleiro da Renascença como 1920.)
campeão de uma causa "moderna" — Esse romantismo tem F, Pierce: The .Heroic Põem of the Spanish Qolden Age. Oxford,
um pendam na realidade: o cavaleiro da Renascença, 1947.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 545
544 OTTO MABIA CARPBAUX

descobrindo, conquistando e colonizando novos mundos. A


dieval, católico, e esse novo mundo é, na mente do poeta,
tarefa foi principalmente de três nações: dos portugueses,
regido pela síntese do cristianismo calvinista e do plato-
espanhóis e ingleses; e as respostas literárias eram tão di-
nismo cristão de Ficlno: os ideais religiosos e políticos da
ferentes como as reações políticas e sociais.
Reforma, vestidos da beleza artística da Renascença. Spen-
ser, como Dante, dá a síntese da sua época. Na Inglaterra, a reação literária não ultrapassou a von-
tade de dar-se conta do acontecido; nisso, o estado embrio-
Os mundos de Dante e de Spenser, ambos, são hoje
nário da nova economia inglesa colaborou com o empirismo
mundos mortos. Mas há uma diferença. O mundo de Dante
do caráter nacional. O monumento inglês da época das des-
era o mundo de todos os homens e criaturas da sua época,
cobertas é a grande coleção de viagens reunida por Hakluyt
e por isso encheu-se o seu poema de tanta verdade humana
( 4 0 ). Na Espanha, a tentativa de manter os ideais aristo-
que sobrevive para todos os tempos. O mundo de Spenser
cráticos produziu a transfiguração da Conquista em epo-
era o mundo de uma elite de artistas e humanistas; é a
peia, sem a capacidade de conferir ao assunto verdadeiro
criação do "poets' poet". Nunca foi arte para todos, nem
sentido épico, embora haja autêntico estilo épico na Ver-
pode ser de todos. Mas entre os poetas ingleses, não houve
dadera historia, de Bernal Diaz dei Castillo ( 4 7 ), Pelo con-
quem não o admirasse e amasse. Deu-lhes de presente uma
trário, falta esse estilo, apesar da imitação dos modelos
floresta infinita de poesia. Hazlitt chegou a afirmar que
antigos, na Araucana, de E rei lia ( í 8 ) . Poucas obras da li-
a "poesia poética" de Spenser dispensa a compreensão das
suas alegorias; o critico foi contemporâneo dos românticos
que gostavam imensamente de Spenser, ao ponto de Walter 46> Richard Hakluyt, c. 1552-1616. •
Scott quase torná-lo popular, tomando-lhe emprestados os The Principal Navigations, Voyages, Traffiques and Discoveríes
of the Engíish Nation (1538/1600).
mais belos verãos para servirem de epígrafes. Spenser, ávi- Edição da Hakluyt Society, 12 vais., London, 1903/1905.
do de "Glória" como todos os homens da Renascença, não T. L, Dodds; "Hakluyt and Voyages of Discovery In Tudor
tinha em vão acreditado no poder transfigurador da sua Times". (In: Proceâings of the Literary anã Philosophical Soclety
of Liverpool, LXII, 1912,)
poesia. Não se pode negar: Spenser é, hoje, cada vez mais C. W. Lynam: Richarâ Hakluyt anã His Successors. London, 1946,
estudado pelos especialistas e cada vez menos lido pelos 47) Bernal Díaz dei Castillo, 1482-1581.
leitores. É um poeta imensamente remoto de nós outros. Verâaãera historia de los sucesos de la conquista de Ia Nueva
Afinal, não foi um Dante. Mas sua floresta poética con- Espana (1632).
Edição: Biblioteca de Autores Espailole», vol. XXVI.
tinua existindo como numa ilha esquecida, uma paisagem R. B. Cunnlnghame Granam: Bernal Diaz dei Castillo. London,
mágica além das fronteiras humanas da literatura inglesa, 1917.
assim como o predisse um verso do Epithalamion: 48) Alonso de Ercilla y Zufiiga, 1533-1694.
Araucana (1569/1589).
Edição por J. Toritaia Medina, 2 vols., Santiago de Chile, 1913.
" T h e woods shall to me answer, and my Echo ring". J. Dncamin: L'Araucana. Morceaux choisls. (Aveo introductlon.)
Paris, 1900.
Enquanto a criação romântica de Spenser pode ser M. Menéndez y Pelayo: Historia de la poesia hispano-americana.
considerada como tentativa de conferir um novo sentido Vol. II. Madrid. 1913,
Aaorín: "Ercilla". (In: Los dos Luises y otros ensayos. Madrid.
ao ideal aristocrático — o cavaleiro da Renascença como 1820.)
campeão de uma causa "moderna'* — Esse romantismo tem F. Pierce: The.Heroic Põem of the Spanish Golden Age. Oxlord,
um pendant na realidade: o cavaleiro da Renascença, 1947.
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HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 547


546 OTTO M A R I A CARPEAUX
•- -

teratura universal sofreram apreciações tão diferentes. Na cie desafiam qualquer explicação que os quisesse transfor-
Espanha, a Araucana foi completamente esquecida. A fama mar em fatos históricos, bem determinados. O que se pode
universal do poema começou com os elogios que lhe teceu fazer só é: expor as circunstâncias especialmente favorá-
Voltaire, no Essai sur Ia poésie épique (1733); depois, veis ao génio individual.
Chateaubriand comparará a Araucana à Ilíada, sem conse- No caso da epopeia portuguesa, a circunstância espe-
guir leitores para o poema. Mais recentemente, fizeram-se cial é a derrota do -feudalismo português já durante a Ida-
Jt-t.
tentativas de salvação na Espanha: salientou-se a precisão de Média, e a existência, em Portugal, de uma civilização
da língua, a tradição de objetivismo do Poema dei Cid no económica de tipo burguês, mas sob as aparências políti-
reconhecimento da bravura do inimigo; até se falou em cas, militares e eclesiásticas do aristocratismo. No seio da
"Ariosto realista" e em estoicismo militar à maneira do es- burguesia portuguesa nasceu um espírito realista e até crí-
panhol Lu cano. Mas até hoje os críticos não chegaram a tico, que aparece nos grandes historiadores da época da 4

um acordo com respeito à questão se as paisagens chilenas Descoberta e Conquista, e que impediu a transformação des-
na Araucana correspondem â realidade americana ou são sa experiência em romance de cavalaria fantástico. Ao mes-
imitadas de descrições em Virgílio. Parece que ninguém mo tempo, entrou em Portugal o ideal da Renascença aris-
leu realmente a Araucana, que só existe como documento tocrática: o ideal do "cortegiano", guerreiro culto e hu-
da mentalidade dos que conquistaram o Chile. manista valente. Esse ideal correspondia à forma aristo- .
crática da organização portuguesa, e era portanto capaz de
A literatura portuguesa (**) conseguiu o que não con- •


fornecer a forma literária para aquela experiência: a forma . •

seguiu a espanholai a transfiguração da experiência na-


virgiliana. Como último resultado da cooperação de todas
cional — geográfica, militar • económica — em epopeia
essas condições foi criada pelo génio épico de Camões a
nacional. Mas concluir, daí, e essa conclusão se tirou vá-
epopeia de Os Lusíadas.
rias vezes, que os portugueses têm o génio épico, e que os
espanhóis não o têm, seria uma generalização ilegítima. O espírito realista manifesta-se na Peregrinação, de
Falando com rigor, não foram apenas os espanhóis que Fernão Mendes Pinto ("*)*, descrevendo com a ingenuidade •

falharam naquela conquista literária; as epopeias vir- de um homem do povo as suas aventuras inéditas na Ásia;
giliahas de todas as nações,.nos séculos X V I e X V I I — obra que seria preciso comparar com a de Marco Polo, e - •"•V
tentativas de realização de uma ambição já dos humanistas teve o mesmo destino: ser considerada mentira, porque os.
\*:\ — são todas elas artifícios enormes, e, as mais das vezes, me/os fatos pareciam contos de fadas e romance de cava- "•.-„*\.«g -;„*/.
monstros de iiegibilidade. Nenhuma das nações europeias laria. A parte mais interessante da' comparação seria ai
possui o "génio épico", e essa negação também se refere análise estilística, entre duas formas de narração sóbria —>
aos portugueses; dão testemunho disso os inúmeros imita- estilo oral em Marco Polo e estilo-escrito em Fernão Men-
dores portugueses dè Camões, cada um pior do que o outro.
Quem possuí o génio épico, não é a nação portuguesa e 60) Fernão Mendes Pinto, c. 1510-1583.
i sim o indivíduo Camões; e casos individuais dessa espé- Peregrinação (1614). . „ ,
Edições: por Brito Rebelo, 4 vols., Lisboa, 1908/1910, e por J. de
Freitas, Porto, 1930/1931.
F. Cristóvão Aires: Fernão Mendes Pinto. Lisboa, 1904.
49) Fid, de Figueiredos História ãa Literatura Clássica. Tol. I. 2." ed. O. Le Gentil: Fernão Mendes Pinto* Vn précurseur de 1'exoii*- >" --•>•>•;
Lisboa, 1924. '. me au XVIe siècle. Paris, 1947,

» •

• . . • •
5-18 Orro MARIA CAHPEAUX
HisTÓniA DA LITERATURA OCIDENTAL 549
des Pinto. Subsídio para compreender bem o espírito rea-
lista do povo que empreendeu aquelas viagens é a descrição grafos do espírito", como Damião de Góis ( M ) , humanista
de 12 famosos naufrágios na História trágico-marítima ( í l ) , cosmopolita, amigo de Bembo, Sadoleto, Erasmo e do re-
O ponto de vista é o do marujo, e a impressão, portanto, formador sueco Olaus P e t a . Albrecht Duerer pintou o re-
mais natural do que em Hakluyt. trato desse humanista cristão com veleidades de reforma
O ponto de vista do humanista culto é a posição de eclesiástica: entre os portugueses que viajaram para um
João de Barros C53), autor de um romance de cavalaria e novo mundo, este permaneceu na Europa, descobrindo ou-
portanto apto para descrever a descoberta e conquista da tro mundo novo, o do espírito. Camões não lhe acompa-
índia (até 1529) como empresa épico-fantástica, com o es- nhará de todo a liberdade do intelecto, mas sim a indepen-
pírito nacionalista de um Lívio português. Dizem que a dência da alma.
sua primeira Década inspirou a Camões a ideia de Os Lusía- Um dos elementos da grandeza de Luís de Camões (BB)
das, mas o nível da concepção é diferente; e não haveria é a perfeita unidade de subjetivismo e objetivismo na sua
Camões — ou antes espírito camoniano — sem a existên-
cia de outro humanismo, bem diverso do humanismo re- 64) Damião de Góis. 1502-1574.
tórico de João de Barros. Seria o humanismo crítico de Crónica do Felicíssimo Rei D. Manuel (1566/1567).
Damião de Góis, do qual descende, por sua vez, o realismo Edição por J. M. Teixeira de Carvalho e Dav. Lopes, 4 vols.,
Coimbra, 1936.
crítico de Diogo do Couto ( BB ), que continuou as Décadas Maxim, de Lemos: "Damião de Góis". (In: Revista de História,
até os acontecimentos de 1608: a sua curiosidade etnográ- IX/X, Lisboa, 1920/1922.)
fica não o deixa ver só os feitos dos portugueses, mas tam- M. Bataillon: O Cosmopolitismo ãe Damião de Góis (trad, port).
Lisboa, 1938.
bém as atitudes e a situação dos indígenas, e esse começo de
65) Luís de Camões, c. 1524-1580. (Cf. nota 64.)
uma mentalidade critica exprime-se com força maior na Lusíadas (1572); Rythmas (1595);
descrição sóbria, quase relatório e tanto mais impressio- comédias: El-reí Seleuco (1549?); Anfitriões e Filodemo (publi-
nante, da administração maléfica dos portugueses na índia. cadas 1587).
Edição pelo Visconde de Juromenha, 6 vols., Lisboa, 1860/1869;
A base dessa crítica fora a mentalidade livre de certos "geó- Edição Nacional (Afonso Lopes Vieira), Lisboa, 1928; Edição de Os
Lusíadas por H. Cidade, Barcelos, 1940; Edição das poesias líri-
cas por J. M. Rodrigues e AL Lopes Vieira, Coimbra, 1932.
81) História trágico-marítima em que se descrevem cronologicamen- P. Oliveira Martins: Camões. Os Lusíadas e a Renascença em
te os naufrágios que tiveram as naus de Portugal (eoleçâo de .Portugal. 2." ed. Porto, 1891.
Bernardo Gomes de Brito, 1688; public. em 2 vols., 1135/1736). W Storck: Vida e Obra de Luís de Camões (original alemão:
Edição por D. Peres, 6 vols., Lisboa, 1936/1937. Paderborn, 1890; tradução ampliada por Carol. Mlchatílis de
Vasconcelos). Lisboa, 1898.
62) Jo&o de Barros, c. 1496-1570. A, Padula: Camões peírarcfcísta. Napoll, 1904,
Crónica do imperador Clarímundo (1520; ed. 1550); Décadas da Teóf. Braga: Camões. .Época e Vida. Porto, 1907.
Ásia (I, 1552; II, 1553; III, 1563; IV, 1615). J. M. Rodrigues: Camões. Época e Vida, Coimbra, 1907.
Edição das Décadas em 8 vols., com biografia por Man. Severim Teóf. Braga: Camões e a Sua Obra Lírica e ípíca. Porto, 1911.
de Faria, Lisboa, 1777/1778. J. M. Rodrigues: Camões,a a Obra Lírica e ípica. Coimbra, 1911.
Hernâni Cidade: "João de Barros". (In: Boletim de Filologia, Ant. Sérgio: Ensaios. IV. série. Lisboa, 1B34.
XI, 1B50.) H. Cidade: Luís ãe Camões. I: O Lírico. Lisboa, 1939. Vol. II:
63) Diogo do Couto, 1542-1616. O Épico. Lisboa, 1950.
Crist. Martins: Camões. Temas e Motivos da Obra Lírica, Rio
Décadas da Ásia (IV, 1602; V e VI, 1612; VII, 1616; VIII, 1673). de Janeiro, 1944.
Edição em 14 vols,, Lisboa, 1778/1788. M, H. Houwens Fost: Culturele stromingen en intelectuele in-
A, F. Q. Bell: Diogo do Couto. Oxford, 1924. vloeden der Renaissance in het Werk van Luís de Camões. Gro-
ningen, 1948.
• ' • • • - . •

550 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 551

obra. Os portugueses consideram-no, com razão, poeta clás- assim começa a "Canção X", com o realismo de um relatório
sico, no sentido da Renascença virgiliana e humanista. Mas marítimo, desenvolvendo-se sem transições artificiais em
os românticos alemães e ingleses, que lhe renovaram a confissão da "alma cativa" naquele lugar; e o "envio",
glória, chamavam-lhe, também com razão, poeta romântico, com a sua antítese petrarquesca ("não m o u r o . . . porque
no sentido de'cristão*, nacional e ^moderno". Hoje, não * mouro"), é apenas a conclusão lógica de um estado contra-*
sentimos tão nitidamente essa antítese dos críticos de 18Ò0 ditório da alma. Deste modo, o leitor quase não percebe
( entre "clássico" e "romântico"; mas a mesma antítese volta que esse estilo coloquial não é coloquial nem é o estilo
em outro nível, entre o espírito objetivç, épico, da epopeia, de Camões: é o estilo internacional da Renascença, a lín-
e o espírito subjetivo, pessoal, da lírica de Camões. Os dois gua dos petrarquistas e bucólicos, língua que Camões apren-
elementos confundem-se de maneira completa: a vida des- deu com tanta perfeição como quem vive durante decénios
graçada de Camões — em país estrangeiro e perde enfim o sotaque, falando a lín-
gua alheia como se houvesse nascido com ela. Camões é
" vida poeta culto, e até erudito como poucos da Renascença.
Mais desgraçada que jamais se viu" — Inúmeras reminiscências de poesia antiga, italiana e espa-
nhola revelam os seus conhecimentos literários; história
faz parte, da maneira mais natural, da gloriosa epopeia portuguesa e geográfica da Ásia são objetos da sua medi-
dos portugueses que tação perpétua; a mitologia greco-romana e a astrono-
mia e cosmografia da Renascença alíam-se, em Os Lusía-
" entre gente remota edificaram das, de modo tão perfeito, que constituem um sistema cós-
Novo reino que tanto Bublimaram" — mico, fechado como o mundo de Dante, composto o In-
ferno das tempestades do Oceano, o Purgatório das prova-
e a catástrofe nacional de Portugal coincide, como se isso ções sofridas pelo gigante Adamastor, e o Paraíso volup-
também fosse natural, com a sua transfiguração em Olimpo tuoso da Ilha dos Amores; e como no segundo plano do
épico. O mesmo conjunto de objetividade e subjetividade "Triregno" de Dante, aparecem sempre o A m o e a colina
revela-se no estilo de Camões. Poucos poetas sugerem de Fiesole e a cidade de Florença, assim se adivinham
tanto como êle a impressão de poeta n a t o : a poesia parece sempre atrás das maravilhas da índia e dos terrores do
a sua língua materna. J á em Os Lusíadas, nos quais as nor- mar as "doces e claras águas do Mondego", a paisagem de
mas da imitação virgiliana e o tom da narração histórica Coimbra. Camões conseguiu o que nenhum outro poeta
constituem obstáculos da expressão livre, muitas passagens épico de estilo virgiliano logrou, alcançar, nem sequer o
têm o acento de confissão autobiográfica; um estilo colo- próprio Virgílio: a unidade perfeita do assunto real e do
quial, que é ao mesmo tempo fácil e preciso como o de quem estilo sublime. Só Os Lusíadas são "epopeia nacional 1 ' e
tem de fazer uma comunicação importante para ser en- "epopeia regular" ao mesmo tempo.
tendido. O mesmo estilo coloquial domina inteiramente
a poesia lírica de Camões. O número das "epopeias regulares" que sobrevivem,
é reduzidíssimo. A Divins Comédia não é epopeia em sen-
" J u n t o dum seco, fero, estéril monte, tido estrito, o Orlando Furioso não é regular, e o Paradise
Inútil e despido, calvo, informe" — Lost coloca-se intencionalmente fora dos moldes vírgilia-
552 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 553
m
nos. Fica a Gerusalemme Liberata, t sabe-se que Tasso me- o assunto histórico-nacional, conferir-lhe a dignidade de
ditara muito antes de encontrar um assunto que pudesse acontecimentos transcendentais e universais: a Providên-
interessar à cristandade inteira — intuito irrealizável de- cia cristã serve-se, para a criação do Império católico-por-
pois da Reforma, e que o levou ao artificio de apresentar os tuguês, dos deuses pagãos, assim como se serviu do pa-
cruzados medievais em trajes do Barroco. Camões venceu gão Virgílio para anunciar o nascimento do Cristo (Ecl,
a dificuldade pela limitação: não pretendeu interessar se- IV). Se Camões fracassou nisso, fracassou como Virgílio;
não à pequena nação portuguesa, mas naquele momento em na Eneida também, os deuses já não fazem parte, como em
que a história de Portugal se confundiu com a maior tran- Homero, da realidade, e entre os deuses de Camões e os
sição do mundo moderno. O símbolo dessa coincidência é seus guerreiros e comerciantes portugueses da fndia há
que em Os Lusíadas a história portuguesa inteira aparece discrepância evidente. Mesmo assim, a máquina mitoló-
como preparação do grande momento histórico das desco- gica de Camões é superior à de Virgílio: a mitologia vir-
bertas, assim como o pequeno rio Mondego desemboca no giliana é fria, como a da religião do Estado romano, na
grande Oceano. qual já ninguém acreditava, ao passo que os deuses do
cristão Camões são imponentes figuras retóricas, metá-
É justamente o interesse patriótico nacionalmente res-
foras pomposas, como pintadas por Rubens; Camões está
trito que confere a Os Lusíadas o interesse universal. O Im-
às portas do Barroco.
pério colonial português, criado por um ato da Providên-
cia Divina como o próprio Império Romano de Virgílio, A retórica pomposa e monótona, que é a maior inimiga
é um milagre histórico: é o Império da F é — eis a inspi- das epopeias classicistas e as condenou quase todas à ile-
ração que Camões pôde tirar da primeira Década de João gibílidade, não falta de todo em Os Lusíadas. Em Virgílio,
de Barros. Mas Virgílio devia construir artificialmente a é atenuada pela melancolia elegíaca; em Camões, pelo ine-
ligação entre Tróia e Roma e inventar uma pré-história vitável prosaísmo de muitos relatos de natureza político-
romana, enquanto Camões se pôde apoiar em fatos his- militar e, mais, pelo pressentimento angustioso da catás-
tóricos e acontecimentos vistos. Daí o realismo histórico
trofe nacional; e neste último ponto Os Lusíadas lembram
que Voltaire tanto elogiou em Camões: a falta de lendas,
a Ilíada. A melancolia virgiliana, em Camões, está em outra
milagres, aventuras inverossímeis e aventuras amorosas; o
p a r t e ; na sua poesia lírica, que muitos, e com boas razões,
crítico esqueceu, quanto ao último ponto, a Ilha dos Amo-
preferirão à sua epopeia. Camões é um dos maiores poetas
res, que é o cume do realismo camoniano, porque é um
sonho: o sonho de amor dos marujos portugueses, famin- elegíacos de todos os tempos. A sua lírica não é propria-
tos durante as viagens intermináveis. O ponto vulnerável mente original; a influencia de Petrarca era poderosa de-
desse realismo épico — o ponto em que Camões revela que mais. Mas através das frases e imagens convencionais sen-
não é um Homero — é a máquina mitológica do poema: as te-se sempre a expressão pessoal, menos nos sonetos do
intervenções dos deuses pagãos para impedir ou favorecer que nas canções. Como acontece em todos os elegíacos, o
a empresa de Vasco da Gama. Além de constituir parte conteúdo da lírica camoniana é limitado; pequeno, como
integral da arte poética virgiliana, a máquina mitológica o coração humano: partindo das "doces e claras águas do
foi para Camões mais importante do que para outros poe- Mondego", através dos "Erros meus, má fortuna, amor
tas épicos modernos; só assim parecia possível "sublimar" ardente", o poeta chegou ao resumo doloroso da sua vida:
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554 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 555

"Puras verdades já por mim p a s s a d a s . . . exilada na terra; e assim, como um dos rios sombrios da
Oxalá foram fábulas sonhadas!" Babilónia, corre a meditação poética, atravessando a dis-
ciplina da vida pecadora até, "vencida a natureza", chegar
Camões é profundamente pessimista, não pode haver dú-
ao "mundo inteligível" e encontrar a suprema consolação
vidas sobre issq. Pessimismo de um platónico cristão,
*'^.-/dò, platonismo cristão: -• . * .. , • - * . ' .
para o qual' ó mundo é uma "prisão terrestre e escura" da ..; „
1
alma. Nenhuma consolação estóica, tão familiar aos es- "Ditoso quem se partir " *
panhóis, pode atenuar o pessimismo do católico português para ti, terra excelente, .'•"* ,- .
contra o qual se conjuraram "Fortuna co Amor". E con- tao justo e tao penitente
tudo encontra outras armas para vencer esses inimigos. que, despois de a ti subir, •
Quanto ao amor, levanta-se aqui a questão espinhosa da lá descanse eternamente!"
sinceridade do erotismo petrarquesco de Camões, ou an-
Camões ocupa na literatura portuguesa ' o lugar de
tes da realidade carnal dos seus amores. Em face da sua
Dante na literatura italiana: a sua grandeza sufocou os
teoria idealista, neoplatônica, do amor, as dúvidas pare- posteriores. Mas isso não deixa de ter razões reais. A ' .- •
cem justificadas. Mas essa teoria não é, na poesia camo-
n a ç í o portuguesa foi, entre as europeias, a primeira que
niana, o ponto de partida, e sim o resultado. Os amores
chegou a uma estrutura económica bem definida, e isso
de Camões eram tão reais como a sua "má fortuna". A
numa época em que a epopeia classicista ainda era possí-
"Fortuna", êle venceu-a por confundir o seu destino pes-
vel. Deste modo, os portugueses criaram — o que nenhum
soal com o destino maior da sua raça, descendo com ela
outro povo conseguiu — uma moderna epopeia nacional,
como o Fado-Providência mandou; variando palavras de que foi, porém, sintoma do começo da petrificação daquela
Camões, poder-se-ia dizer: "da desgraça particular para a estrutura nacional e da petrificação da sua literatura.
desgraça geral". Mas o caminho da desgraça terrestre cons-
• O realismo nacional da epopeia camoniana é um caso
tituiu ao mesmo tempo o "caminho de subida" neoplatôni-
especial do romantismo aristocrático da Renascença: am-
co em que se vence o "Amor"; com as suas próprias pala-
bos representam atitudes ativas, uma real, outra ilusória.
vras, "da particular beleza para a Beleza geral". É esse
A terceira possibilidade do homem aristocrático da Renas-
caminho de ascensão que aparece na sua poesia lírica como
cença é a evasão para um mundo em que não há desco-
"intelectualização da emoção", chegando-se à disciplina de
bertas geográficas e lutas comerciais, mas onde, em com-
uma poesia pura. Camões descreveu esse caminho numa
pensação, também não pode haver guerra alguma: é o mun-
grande meditação poética que talvez seja a maior das suas
do bucólico, pastoril, de horizontes fechados, espécie de
obras: a paráfrase do salmo C X X X V I :
reagrarização ilusória da Europa; as elegâncias do "cor-
"Sôbolos rios que vão tegiano", transportadas para a paisagem da Arcádia.
por Babilónia, me achei, A primeira forma da literatura bucólica é a poesia pas-
toril, a écloga ( B9 ). O modelo não era o mimos de Teó-
onde sentado chorei
as lembranças de Sião". 56) E. Carrara: Poesia Pastorale, Milano, 1908.
A. Farinelll: Itália e Spagna. Vol. I. Torino, 1929.
A alegoria bíblica encobre dois sentidos: o literal, expres- H. Genouy: %/élement pastoral ãant Ia poéste narrative et le
são do exilado de Portugal, e o místico, expressão da alma arame en Angleterre ãe 1579 a 1640. Paris, 1929.
A. Hulubei: Véglogue en France att XVle siècle. Paris, 1938.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 557
556 OTTO M A R I A CARPEAUX
églogas foram escritas para as solenidades de casamentos
crito, e sim a écloga virgiliana, com os pastores dialogando e nascimentos em famílias soberanas, outras para exprimir
em linguagem elegante sobre ocupações rústicas e amoro- pedidos do poeta a fim de receber benefícios. Assim sendo,
sas, mais ou menos fúteis, inserindo-se alusões a persona- pode-se esperar péssima qualidade da poesia idílica. Mas
gens e acontecimentos importantes da história contempo- não é tanto assim; o forte senso de beleza formal, próprio
rânea. Petrarca deu no Cármen bucolicum o exemplo de dos italianos e especialmente dos italianos da Renascença,
églogas modernas em língua latina; e as églogas latinas criou uma série de produções belas e injustamente esque-
de Baptista Mantovano ( BT ), de inspiração cristã e versifi- cidas. A Sarça, do desprezado Bembo ( flS ), descrevendo o
cação virgiliana, conseguiram sucesso enorme, serviram de casamento do deus do rio desse nome com uma ninfa,
livro didático no ensino do latim de todos os países — Sha- não é indigna da Lepidina, de Pontano, porém mais pom-
kespeare aprendeu o latim nesse livro — e foram traduzi- posa, como um grande gobelino barroco; um juiz tão se-
das para várias línguas. Menos medievais, mais huma- vero como Burckhardt gostou desse poema. J á se mencio-
nistas, são as poesias bucólicas latinas de Andrea Nava- nou a bela Ninfa Tiberina, de Molza, enquanto a Clorida,
gero ( B8 ), o mesmo que iniciou Boscán no petrarquismo; de Tansillo, já pertence, estilisticamente, ao Barroco. Nes-
a sua écloga "Iolas" é uma das mais belas e menos conven- ta ultima écloga, a descrição do golfo de Nápoles é imitada
cionais. das já mencionadas Egloghe pescatorie, de Rota. As me-
A écloga italiana em língua italiana é principalmente lhores éclogas italianas do século X V I são as de Bernar-
narrativa; o Ninfale Ftcsolano, de Boccaccio, dera um dino Baldi ( e o ) : imitou, em vez de Virgílio, os bucolistas
exemplo teocritiano. Mas no século X V I desaparece o ele- gregos, e aproxima-se mais da verdade rústica. Enfim, o
mento rústico, realista, pelo qual se distinguiu a Nencia Batino (1618), de Francesco Bracciolini ( 9 1 ), imitação do
de Lourenço de Médicis. A écloga idealiza-se, pela intro- Moretum pseudovirgiliano, já é novamente um poema rea-
dução de ninfas e deuses de rios e montes, sátiros e fau- lista; descreve costumes de autênticos camponeses ita-
nos, acentuando-se nessa mitologia artificial a índole eva- lianos. Bracciolini é poeta barroco.
sionista da poesia bucólica; as alusões políticas são subs- O mestre da écloga espanhola é Garcilaso de la Vega
62
tituídas por bajulações a príncipes e a princesas, e várias ( ). A sua Écloga I, "El dulce lamentar de dos pastores,
Galicio juntamente y Nemoroso", e os versos —

67) Baptista Mantovano (Battista Spagnuoli), 1448-1516. (Cf. "O "Còrrientes aguas, puras, cristalinas;
'Cinqueeento'", nota 30.) árboles que os estais mirando en ellas,
Eclogae (1948; edição de Paris, 1513). verde prado de fresca sombra l l e n o . . . " —
Traduções para o francês por Jacques de Mortieres, 1523, e
Michel d'Ambolse, 1530.
Tradugâo inglesa por George Turbervlle, 1697.
Edição moderna por W. Mustard, 2," ed. Baltlmore, 192B. 59) Cf. "O 'Clnquecento'", nota 9.
V. Zabughin: "Un poeta beato: B. Spagnoli Mantovano". (In: 60) Bernardino BaldJ, 1533-1617.
Atti âell'Academia áelVArcádia, 1917, I.) Egloghe (1590).
O. Zaccagnini: Delia vita e delle opere âi Bernardino Baldi. 2
68) Andrea Navagero, 1483-1520. vols. Reggio Em., 1918.
E. Clcogna: Delia vita e ãelie opere ãi Andrea Navagero. Vene-
zia, 1855. 61) Cf. "Pastorais, Epopeias e Pfcaros", nota- 36.
E. Lamina: "Andrea Navagero, poeta". (In: Rassegna Nasionale, 62) Cf. nota 12.
CLX, 1908.)
558 OTTO M A R I A CARFEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 559
• . . • ' ' • • ' - ' • • . . • • • * • •

evocam toda a atmosfera da-poesia bucólica; mas a mú- "doce música", muito censurada, dos seus versos, oculta-
* - n tf -

sica verbal de Garcilaso é inconfundível. E n t r e os inú- esse espírito rústico que o distingue de Camões, e a sua
meros sucessores espanhóis de Garcilaso, na poesia idílica, Êgloga Sylvia não é certamente das piores; em Coimbra
distingue-se Pedro de Espinosa ( 6 3 ), reabilitado por Cossío, - permanecerá a sua memória. O último desses bucolistas
depois de esquecimento multissecular; na sua Fáhala de portugueses da Renascença Bera Francisco Rodrigues
Genil, a personificação de um rio — lugar-comum da poe- Lobo C 69 ); é, outra vez, transição para o Barroco.
sia bucólica — dá ocasião para criar um mundo úmidó O bucolismo encontrou os seus amadores mais perti- . ,
de cores e reflexos, antecipação imediata da paisagem bar- nazes na Inglaterra; a poesia da Natureza constitui uma
roca das Soledades, de Góngora. das tradições nacionais mais permanentes. Alexander Bar-
- . ' • • /

A écloga portuguesa começou fora dos moldes clas- clay ( 8T ) é um espírito meio medieval; traduziu para o•

sicístas: Bernardim Ribeiro e Cristóvão Falcão são poetas inglês o Narrenschiff, a sátira carnavalesca do alemão Se-
autóctones, e o que parece idealização sentimental nas suas bastian Brant. Mas também é o primeiro poeta europeu
églogas, é feitio nacional, já se encontrando assim na poe- que imítá em língua nacional as églogas latinas de Baptista
sia galai co-portuguêsa. Também as églogas de Camões Mantovano. O papel excepcional da poesia bucólica na
( 84 ) diferem caracteristicamente das églogas do seu mo- história da literatura inglesa revela-se por outro fato, mais
delo Garcilaso; o tom é mais elegíaco, às vezes desespe- importante; as 12 éclogas do Shepheardes Calender (1579),
rado. Na Êgloga I, diálogo doi pastores Umbrano e Fron- de Edmund Spenser ( 6 S ), são éclogas como todas as ou-
delío, uma paisagem muito parecida com a da Êgloga I, tras; os amores rústicos de Colin Clout com a sua Rosalind .
de Garcilaso, dá "quieto sono aos cansados", as lamenta- constituem confissão autobiográfica, e as alusões políticas
çSat se acumulam, e quando o poeta pretende enfim re- a acontecimentos contemporâneos são numerosas; a imi-
solver a dissonância em harmonia, termina a êgloga em tação de Marot e Baptista Mantovano é manifesta. Mas
língua castelhana. Grande parte da poesia portuguesa qui- foí nessas églogas que Spenser criou a linguagem da poe-
nhentista é bilíngue assim. A paisagem aparece com con- .*.?|s sia inglesa moderna. Os poetas que continuaram a poesia
* tornos mais visíveis na poesia de Diogo Bernardes ( 8 B ): a bucólica, tornando-a cada vez mais inglesa, já sê mencio-
naram: Samuel Daniel, Michael Drayton, William Browne
63) Pedro de Espinosa, 1578rl660.- , - -
A Fabula de Genil encontra-se na coleçáo Primeira parte ãe las C86). Phineas Fletcher ( T0 ) acrescentou a variedade italia- *' *V
'•#4* Flores de poetas 'ilustres de Espana (1805), editada.peio próprio
Espinosa. 66) Éclogas (1606). (Cf. nota 80.)
Edição das Obras de Espinosa por &. Rodrigues Marin, Madrid, 67) Alexander Barclay, c. 1475-1552,
1907. Eclogues (c. 1515); The Shyp of Folyt of the Worlúe (1608; tra-
F. Rodrlguez Mailn: Pedro Espinosa, estúdio biográfico, biblio- dução do Narrenschiff de Sebastian Brant),
gráfico y critico. Madrid, 1907. Edição das Eclogues (com introdução) por B. White, London,
' I. i/L. Cosslo: "La Fabula de Genil de Fedro Espinosa". (In: Siglo 1928.
XVII. Buenos Aires, 1939.). 68) Cf, nota 45.
A. Lumsden; "Pedro de Espinosa'\ (In: Liverpool Studies in Spa-
. * - •

núh, II, 1946.) 69) Cf. notas 38* 39, 44.


64) Cf. nota 55. 70) Phineas Fletcher, 1582-1650.
65) Diogo Bernardes, c. 1530 — c. 1600. Piscatory Eclogs (1633).
Rimas várias. Flores do Lima (1596). »••"*• Edição das obras por A. B. Grosart 4 vols., London, 1869.
Edição por Marques Braga, 3 vols, Lisboa, 1045/1946. A. B. Langdale: Phineas Fletcher. New York, 1934.

I . ' , '•••? y •'." • • • - " - •


560 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 561

na das eglogas pescatórias. Enfim, Milton conseguirá a pônios, que aparecem, por sinal, com nomes franceses,
síntese da forma classicista com o espírito da paisagem como Phlippot e Michaut, em vez dos convencionais nomes
inglesa: no Allegro, no Penseraso, no Lycidas. Na Ingla- gregos; queixam-se da devastação do país pelas guerras
terra, a égloga classicista de Milton substitui a fase bar- religiosas, da brutalidade dos mercenários e da indiferença
roca; depois começará a dissolução do género, e a écloga dos grandes com respeito aos sofrimentos do povo. É evi-
inglesa do século X V I I I será coisa diferente: instrumento dente que campos assim maltratados não se prestavam para
de reivindicações sociais e enfim transição para o pré- teatro de idílios de evasão. As últimas eglogas francesas
romantismo. são meras peças de salão: tais as Eglogues de J e a n Reg-
Existe muita poesia campestre na literatura francesa; nauld de Segrais (1624-1701), poeta "précieux".
mas difere sensivelmente da poesia bucólica. Quando os
O caráter aristocrático da evasão bucólica revela-se,
poetas franceses foram para os campos, brincaram como
com toda a evidencia, no romance pastoril ( T4 ). O modelo
artacreônticos, ou ocorreu-lhes somente o lugar-comum do
do género é uma obra do "Quattrocento": a Arcádia, de
"Beatus ille qui procul negotiis", ou então resolveram-
Sannazaro ( 7ts ) : série de quadros da vida rústica, idealizada,
se a voltar logo para a cidade. Marot exerceu influência
com poesias bucólicas insertas. Quase não há ação; a eva-
sobre a poesia bucólica; mas os seus rondeaux lembram
são do século XV deseja, antes de tudo, a imobilidade. O
antes Charles d'Orléans. As Bucoliques de Ronsard ( 7 1 )
romance pastoril do século X V I , apesar da imitação direta
são mais clássicas do que renascentistas. O único legítimo
de Sannazaro, é diferente. Continua o ideal da "Arcádia",
poeta bucólico da Plêiade é Belleau ( T i ) : a sua Bergeria
da paisagem fechada, sem litoral, sem expansão geográfica
inicia i serie dos Idílios k maneira do Rococó. Muito tar-
e transformações sociais, o ideal agrário do feudalismo.
de, em 1569, François de Belleforest deu na sua Pastorale
Mas a aristocracia do século X V I de£ende-se; deseja ação,
amoureuse a primeira imitação francesa de Garcilaso. Os
ação bélica, façanhas românticas como as apresentam Arios-
motivos da impossibilidade de aclimar na França a égloga
to e Spenser. Para conseguir essa transformação do roman-
italiana revelam-se, em parte, na poesia de Claude Gau-
ce pastoril, junta-se ao idílio arcádico a ação aventurosa do
chei Çs): a descrição bastatne realista e sincera da vida
romance de cavalaria. Na Menina e Moça, de Bernardim
rústica é interrompida pelas amargas lamentações dos cam-
Ribeiro ( 7fl ), o romance pastoril e o romance de cavalaria
estão em mera justaposição. No século X V I , produziu-se
71) Cf. nota 25.
As Bucoliçues compõem-se de 7 éclogas: I-tV (1560), V-VI a união completa, envolvendo os doces heróis e heroinas
(1564), Vn (1567). pastoris em aventuras romanescas à maneira do Amadis.
72) Remi Belleau, 1328-1577. O Amadis de Gaula, embora produto de tempos anteriores,
La Bergerie (1565), publícou-se em 1508, e o Palmeirim de Inglaterra, em 1547;
Edição de La Bergerie na ediçáo das obras de Belleau, por M.
Marty-Laveaux, 2 vols., Paris, 1877-1878.
A. Eckhsrdt: Remi Belleau, sa vie, sa bergerie. Budapest, 1917.
73) Claude Gauchet (nao é possível verificar os anos de nascimento 74) H. Rennert: The Spanish Pastoral Romances. Baltimore, 1892.
e morte; o poeta estava ainda vivo em 1620). H. Genouy: UMcadia ãe Stãney ãans ses rapports avec VArcádia
Le Plaisir des champs en quatre porfies selon les saisons ãe ãe Sannazaro et la Diana ãe Montemayar, Paris, 1826.
Vannée (1583). 75) Cf. "Quattroceiíto", nota 30.
Edição (com introdução) por E. Jullien, Paris, 1879. 76) Cf. "Outono da Idade Média", nota 18.
562 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 563

entre eles e depois deles, há a massa de imitações menores em certo sentido, ò melhor dos romances pastoris; a pai-
( " ) , e não precisamos do testemunho de Cervantes para sagem, a da Espanha meridional, é realmente vista. Tam-
saber que a literatura amadisiana era a mais divulgada e bém a Galatea (1585), de Cervantes, pela qual o seu autor
lida do século X V I . Romance pastoril e romance de ca- tinha predileção especial, não merece esquecimento com-
valaria crescem j u n t o s ; em muitos romances de cavalaria pleto. Quanto ao resto, basta citar alguns títulos para de-
ocorrem cenas pastoris, e o romance pastoril enche-se, em monstrar a divulgação do género: Atcadia (1598) e Pas-
grau maior, de aventuras de cavalaria, para satisfazer o tores de Belén (1612), do grande Lope de Vega, notáveis
desejo de açao ilusória dos seus leitores. Isto acontece pela inserção de poesias encantadoras; Pastor de Filida
em toda a parte, menos na Itália, onde só pode ser citada (1582), de Luis Gálvez de Montalvo, Primeira Parte de
a Diana (1627), de Giovan Francesco Loredano, que aliás las Ninfas y Pastores de Henares (1587), de Bernardo Gon-
já é imitação da Argenis, do inglês J o h n Barclay; a aristo- zálcz de Bpbadilla, Cintia de Aranivez (1629), de Gabriel
cracia italiana, sob o domínio espanhol, nem sentiu o de- de Corral, Pastores de Betis (1633), de Gonzalo de Saave-
sejo de ação. dra, e assim por diante. Em Portugal, a Lusitânia Transfor-
A união do assunto pastoril com o assunto de cavala- mada (1607), de Pernán Alvarez do Oriente é apenas um
ria tornou a Espanha centro do género assim transfor- título a mais, ao lado dos três romances pastoris de Rodri-
mado : a voga começa depois da primeira metade do século, gues Lobo ( s o ), poeta interessante e romancista curioso,
quando a grande maioria dos Amadises já existia. O novo uma das muitas personalidades notáveis da chamada "de-
modelo é a Diana, de Montemayor {"). Participa dos defei- cadência" portuguesa do século X V I I .
tos que tornam hoje impossível a leitura das obras desse Do pontp de vista histórico, o mais importante ro-
género: a expressão afetada, o artifício dos pastores e nin- mance pastoril do século X V I é a Arcádia (publicada em
fas; até mesmo os "selvagens" que aparecem são muito mei- 1590), de.Sidney ( 8 1 ) : é a fusão mais completa do romance
gos. Mas pelo menos em Montemayor aquele estilo é re- pastoril com o romance de cavalaria. Daí as aventuras com-
sultado de uma arte deliberada de prosa musical, e as poe- plicadíssimas e inverossímeis, que, apesar de grande poeta,
sias insertas são de grande beleza. O mesmo elogio res- Sidney não sabia dominar senão numa prosa complicada
trito se deve à Diana enamorada, de Gil Polo ( 7 9 ), que i; .m e ilegível. O artificio não foi imediatamente aceito. São
mais simples, mais rústicos,, ou anteB, mais no gosto ita-
77) Cf ."Outono da Idade Média", nota 3. :•'-, > liano do que espanhol, o Pandosto, de Greene ("*), do qual
78) Jorge de Montemayor, c. 1520-1561.
Diana (1558/1559).
Edição por M. Menéndez y Pelayo (Nueva Biblioteca de Autores 80) Francisco Rodrigues Lobo, 1580 -c. 1623. (OI. nota 68.)
I A Primavera (1601); O Pastor Peregrino (Í808); O Desenganado
Èspanoles, vol. Vil),
(1614); A Corte na Aldeia e Noites de Inverno (1619).
G. Schoenherr: Jorge de Montemayor, sein Leben und sein Ric. Jorge: Francisco Rodrigues Lobo, Estudo Biográfico e Criti-
Schaeferroman. Marburg, 1886. co. Coimbra, 1920.
H. Retmert: The Spanish Pastoral Romances. Baltimore, 1892. 81) Cf. nota 40 e nota 74.
M. Menéndez y Pelayo: Orígenes áe la Novela. Vol. I, Madrid, 82) Robert Greene, c. 1558-1592. (Cí. "Teatro e Poesia do Barroco
1905. Protestante", nota 47.) :"•••'
7P) Gaspar Gil Polo, t 1591. Pandosto, or Dorastus and Fawnia (1B88).
Diana Enamorada (1564); Edição do ronjance por P. Q. Thomas, London, 1907.
Edição: Nueva Biblioteca de Autores Èspanoles. vol. XVII. J. C. Jordan: Robert Greene, New York, 1915.
Cf. as obras de Rennert e Menéndez y Pelayo,: citadas na nota 78.

• '
564 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓHIA DA LITERATURA OCIDENTAL 565

Shakespeare tirou o enredo do Winter's Tale, e a Rosa- estilo afetado, melhor, aliás, do que a fama de que goza.
lynde, de Lodge ( 8 3 ), da qual Shakespeare tirou o enredo de O nome do pastor Céladon, um dos heróis da história,
As You Like It. O artifício bucólico só venceu na Ingla- tornou-se símbolo de galanteria fastidiosa e de bucolismo
terra cora o triunfo do gosto barroco. E mesmo então, falso à maneira do Rococó. Mas já se observou que aquela
não venceu em língua inglesa: a Argenis, de John Barclay estratégia erótica é o germe da psicologia novelística no
( S 4 ), foi escrita em latim. E o assunto pastoril serve ali romance francês: Madame De La Fayette, Racine, Mari-
de pretexto alegórico para defender a teoria do direito di- vaux, Abbé Prévost, Rousseau e Georges Sand herdaram
vino dos reis. É o Barroco. qualquer coisa da Astrée; e outTO crítico observou que a
A Argenis foi publicada em Paris e pertence a um sociedade francesa do começo do século X V I I se reconhe-
género algo diferente, à única espécie de romance pasto- ceu no espelho da Astrée do mesmo modo por que outra
ril que se aclimou na França. Nesta variedade, as aven- sociedade francesa, mais tarde, na Recherche da temps
turas de cavalaria continuam ocupando os pastores, mas peiãu, de Proust. A Astrée não pode, aliás, ser chamada
os guerreiros são retransformados em cortesãos, e os epi- Rococó; preparou o caminho do romance heróico-galante
sódios eróticos se confundem com as doutrinas políticas à do Barroco, nova forma da epopeia aristocrática.
maneira como as grandes damas das cortes barrocas exer- Argenis e Astrée encontraram, por sinal, imitação em
ceram influência política. Inicia-se esse novo subgênero países de formação burguesa: na Alemanha e na Holanda.
com a famosa Astrée, de D'Urfé ( s s ) , mistura curiosa do Não são meras curiosidades a Batavische Arcádia (1637),
Amadia, da Diana e de diversas teorias pseudocientíficas; do holandês J a n Van Heemskerk, e a Adiiatische Rosa-
a complicada ««tratégia de amor que D'Urfé ensina, é ale- mund (1645), do alemão Philip von Zesen, cujo enredo
goria da estratégia de que o cortesão precisa para alcançar também se passa na Holanda; duas obras apreciáveis, por-
os seus fins políticos e pessoais. O tamanho demasiada- que o idílio pastoril, transportado para a paisagem holan-
mente grande da obra não facilita a leitura; tampouco o desa, revela um encanto inesperado. São duas obras signi-
ficativas da vontade da burguesia de imitar o modo aristo-
83) Thomas Lodge, c. 1557-1625. crático de viver.
Rosalynde, Euphues Gclãen Legacie (1590). Após tantos artifícios, é um descanso encontrar uma
Edição por W. W. Greg, London, 1907. obra pastoril que é, de todo, Bincera e verdadeira. Mas.
E. A. Teimey: Thomas Lodge. Ithaca (N, Y.). 1936. é um descanso triste. Trata-se da Consolação às Tribula-
84> John Barclay, 1582-1621.
ções de Israel, do judeu português Samuel Usque ( s o ), r e -
Argenis (1621).
L. Boucher: U Argenis âe John Barclay. Paris, 1874. fugiado na Itália, perseguido pela Inquisição. A Consola-
K. F. Schmld: John Barclatfs Argenis. Berlin, 1904. ção é um poderoso libelo, cheia da força verbal dos pro-
85) Honoré D'UMé, 1568-1625. fetas do Velho Testamento; e o perseguido, volvendo os
I/Astrée, ou par plusieurs histoires et sous personnes des bergers olhos para trás, para o passado da sua nação infeliz, des-
et d'autres sont âéâutts les âivers ef}ets ãe VHonnête Amitié.
(1607/1627).
Edição por H. Vaganay, 2 vols., Lyon, 1925/1926.
O. C. Reure: La vie et les oeuvres ã'Honore D'Vr}e. Paris, 1910. 86) Samuel Usque.
J. Bonflglio: Les sources littéraires de VAstrée. Torino, 1911. Consolaçam às tribulações de Israel Ferrara, 1953.
H. Bosehet: L' Astrée, ses origines, son ímportance. Qenève, 1925. Edição por Mendes dos Remédios. 3 vols. Coimbra, 1906/1908.
M. Magendie: VAstrée d'Honoré D'Vrfé. Paris, 1929. Teixeira Rêgo: Estudos e controvérsias. Vol. n . Porto, 1931.
. •

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566 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 567


• •

cobre lá outra paisagem bucólica, a doa patriarcas de Is- soâl; os TamaJi, de Pontano, inspiraranvlhe os Threny, 19
rael, que eram também pastores. O idílio é de evasão, mas, canções fúnebres sobre a morte de sua filha Úrsula. Toda
desta vez, a evasão, a fuga, era realidade amarga; é o a obra de Kochanowski é, por assim dizer, uma coleção de
único romance pastoril de verdade. influências estrangeiras, mas a sua força de assimilação
A poesia lírica petrarquesca, o poema romântico-fan- transforma-as sempre em expressões pessoais: a inspira-
tástico e os géneros pastoris são as principais formas de ção religiosa dos poetas da Plêiade, no dignificado Saltério;
expressão da Renascença aristocrática. A aristocracia é, as tentativas italianas de tragédia sofocliana, na peça A
ao lado da Igreja romana e do Humanismo, uma das for- Despedida dos Mensageiros Gregos, tirada da Ilíada; a poe-
ças internacionais da época, e, por isso, a Renascença aris- sia pastoril, no Sátiro, em que o habitante das florestas
tocrática foi uma Renascença internacional; partindo da selvagens dá lições de moral aos civilizados. Mas nenhum
Itália, conquistou as literaturas que já na Idade Média ti- modelo existe para os Fraszki ('Burlas 1 ), que nem todos
nham constituído, sob a liderança da literatura latina e são cómicos; são uma espécie de diário poético de um ho-
da francesa, o corpus da literatura europeia: a espanhola mem culto, acompanhando com espírito de independência
e a portuguesa, a francesa e a holandesa, a inglesa e a alemã, as suas experiências, num ambiente ainda meio bárbaro.
com excursões ocasionais pela Dinamarca e Escandinávia. Um representante do tipo "cortegiano" na Hungria é
A Renascença Internacional do século X V I conquistou no- Balint Balassa ( s s ) ; mas na Europa oriental do século X V I ,
vas regiões na Europa oriental: a Polónia, a Hungria e esse tipo será menos cortesão e mais aventureiro, as lutas
a Dalmácia; a estas conquistas têm bastante interesse para mais sérias e a inspiração mais primitiva. Balassa era hu-
a compreensão das formas e da mentalidade da época. manista culto; de outro modo, um aristocrata e oficial hún-
Na Polónia, a competição do Humanismo com as ques- garo do século XVI não teria pensado em fazer versos.
tões religiosas da Reforma produziu entre a culta aristo- Mas a sua vida tormentosa, amargas experiências amoro-
]
cracia rural um movimento comparável à Plêiade francesa, • Jm

sas e longos anos de guerra na fronteira, contra os turcos,


movimento do qual J a n Kochanowski ( 8T ) é o maior repre- inspiraram-lhe uma poesia toda pessoal, na qual se re-
sentante; um poeta realmente grande. Amigo de Ronsard conhecem os traços característicos da poesia popular. Ba-
e estudioso de Petrarca, as suas verdadeiras fontes de ins- lassa morreu, como Garcilaso e Sidney, no campo de ba-
piração estão, no entanto, na literatura latina: em Horácio talha; só em 1874 as Buas poesias foram descobertas, e a
aprendeu o equilíbrio da alma, e em Pontano o tom pes- poesia húngara, sempre colocada antre tradições popula-
res e influências ocidentais, reconheceu-se no seu primeiro
87) Jan Kochanowski, 1530-1584. grande poeta.
Saltério (1678); A Despedida dos Mensageiros Gregos (1678);
Threny (1680); Fraszki (1584).
Edição por A, Brueckner, 2 vols., Lwow, 1924,
M, Brahmer: Der Petrarchismus in der polnischen Poesie des 18. 88) Baltnt Balassa, 1561-1594.
As poesias divulgaram-se só em manuscrito; redescobertas em
Jahrhunâerts. Kraków, 1927. 1874 e publicadas em 187S.
St. Wlndaklewicz: Jan Kochanowski. Kraków, 1930. (Em língua Edição por L. Dézsl, 2 vols., Budapest, 1923.
polonesa.) S. Eckhardt: "Balassa e Petrarca". (In: Corvina, I, 1921.)
J. Langlade: Jean Kochanowski, Vhomme, le penseur, te poete S. Eckhardt: Az Ismeretlen Balassa Belint. Budapest, 1941.
lyrique. Paris, 1932. (Em língua húngara.)
K. Weintraub: Der Stil Kochanowski's. Kraków, 1932.
568 OTTO M A R I A CAEPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 569

De uma literatura inteira se trata na Dalmácia, onde Frane Gundulic ( 9 0 ). Na sua poesia confundem-se, de
a cidade de Ragusa conseguiu conservar, contra venezianos maneira curiosa, estilo e intenção de Tasso com o cristia-
e contra turcos, a sua independência nacional e a sua cons- nismo militante das lutas contra os turcos e a inspiração
tituição republicana, à maneira das cidades medievais. Ri- da poesia popular eslava. A epopeia Osman, tratando das
queza comercial e relações frequentes com Veneza e ou- guerras dos poloneses contra os turcos, já é uma imitação
tras cidades italianas criaram em Ragusa uma curiosa ci- da Cerusalemme liberata; foi escrita em plena época bar-
vilização, de tipo italiano e expressão croata. A litera- roca; mas o assunto é contemporâneo, e o espirito é o dos
tura de Ragusa ( 8 e ) foi, durante mais de dois séculos, o guerreiros orientais, homens do povo, mas de nobreza aris-
posto mais avançado da civilização europeia. tocrática. De todo diferente, embora também inspirada
por Tasso, é outra obra de Gundulic, o drama pastoril
A relação de nomes e obras tem pouco interesse; mas
Dubravka ('A Ragusana'); dá a impressão de uma ilha de
só assim se pode dar ideia de um dos esforços mais sérios
civilização requintada, no meio de um mar bárbaro, lem-
de europeizar os Balcãs, ou antes, manter a civilização eu- brando os laranjais de Ragusa, que florescem entre os ro-
ropeia num lugar esquecido, em que esse esforço não está, chedos íngremes e os ventos frios das montanhas, deixando
até hoje, plenamente realizado. Os nomes mais antigos adivinhar a vizinhança da Grécia e do mar Jónico. Depois
são Djordji Drzic (1461-1SJ1), que escreve sonetos petrar- de Gundulic, a decadência é manifesta. Mas ocorrem os
quescos, e Petar Hektorovic (1487-1572), tradutor de Oví- nomes de J u n i u s Palmotic (f 1657), que deu uma versão
dio e autor de uma égloga piscatória, Ribanje; e Hannibal livre da Christias, de Vida, e Jacobus Palmotic (f 1680),
Lucic (1485-1553), autor de A Escrava. Andreas Cubrano- autor da descrição poética do terremoto de 1667, que des-
vic (f 1550) publicou em 1527 a Cigana, poema humorís- truiu a riqueza de Ragusa. No século X V I I I , ainda haverá
tico para o carnaval, uma das poucas obras da literatura marinistas em língua croata, e alguns padres ragusanos pu-
ragusana que sobrevivem na memória dos iugoslavos. Basta blicarão as canções populares dos sérvios, para encanto
fazer menção rápida de Mavro Vetranic (f 1576), que no de Herder, Goethe e Mérimée, e de todos os românticos.
A esse tempo, a literatura ragusana já não existe. O dal-
Peregrinus pretendeu dar uma visão dantesca, citar o pe-
matino Tommaseo, tornando-se um dos grandes espíritos
trarquista Dinko Ranjina (f 1607), e Dinko Zlataric (f
da literatura italiana do século XIX, pagará uma dívida
1609), tradutor do Aminta, de Tasso, para chegar ao maior
de gratidão.
poeta de Ragusa, e talvez das literaturas iugoslavas: Ivo
O internacionalismo aristocrático do século X V I en-
controu a sua expressão mais poderosa e mais trágica fora

88) A. Pavic: História do Teatro Ragusana. Zagreb, 1901. <Em lín- 90) Ivo Frane Gundulic, 1588-1638.
gua croata.) Osman (1626); Duoravka (1628).
M. Medini: História da Literatura Croata na Dalmácia e em Edição por A. Pavic, Zagreb, 1877; Edição crítica por M. Pesetar,
Ragusa. Vol. I. Zagreb, 1902. (Em língua croata.) Zagreb, 1933.
As obras de Hektorovic e Lucic foram reeditadas em: A. Jensen: GunãuUé ach Osman. Ooeteborg, 1900.
Stari Pisei HrvatsSU, vol. VI, Zagreb, 1874. Cí. também: A Cronia: Ulnfluenza delia Gerusalemme Literata dei Tasso sul
A. Cronia: II Canzonlere raguseo áe 1507. Zara, 1927. Osman ãi Gundulié. Roma, 1925.
J. Torbarlna: Italian Influence o» the Poets of the Ragusan A. Haller: O Osman de Gundulic, considerada do Ponto de Vista
Republic. London, 1931. Estético. Zagreb, 1929. (Em língua croata.)
570 OTTO M A R I A CARPEAUX
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 571

da literatura na pessoa do imperador Carlos V, que pre-


liares pretendem evidentemente ser cartas ciceroniànas, o j;
tendeu, pela última vez, realizar a monarquia universal se-
Menosprecio de corte y alabanza de aldeã é uma paráfrase
gundo o conceito de Dante, e que sucumbiu contra as
do "Beatus ille quí proeul negotiis"; e no centro do Relox
forças unidas do patriotismo francês, do protestantismo
de Príncipes o Libro A ureo dei emperador Marco A urelio,
alemão, e — do Papa, transformado em príncipe italiano
livro de anedotas, exemplos e aforismos morais em forma
renascentista. A base da força de Carlos V era a Espanha,
meio ficcionista, destinado à educação de um bom prín-
e na Espanha católica e monárquica o seu sonho encon-
cipe cristão, encontra-se o grande estóico romano. O mo-
trou expressão vigorosa no conhecido soneto de Hernando
delo foi, aliás, a Ciropedia, de Xenofonte. Apesar de • • .• <

de Acuna (f 1580):
tudo isso, Guevara não é humanista, As suas leituras clás-
"Ya se acerca, Sefior, o es ya llegada sicas são diferentes. A fonte principal é Valério Máximo,
la edad gloriosa en que promete el cielo o colecionador de anedotas morais, autor preferido da Ida-
una grey y un pastor solo en el suelo de Média e particularmente da Borgonha do século XV,
por suerte a vuestros tiempos reservada: "flamboyant". A moral de Guevara é a de um estóico
. . . un Monarca, un Império y una E s p a d a . . . " cristão, menos de Marco Aurélio que de Séneca; e, com
um imperialismo espiritual comparável ao imperialismo po-
MaB, "vuestros tiempoa" já nâo eram os tempos do De mo- lítico de Carlos V, é Séneca proclamado "filósofo espa-
rtarchia, de Dante. Em vez da monarquia universal, nasceu nhol". O Marco A urélio é, em todos os sentidos, a antítese
a Espanha barroca, grande potência europeia e Império do Cortegiano: aqui, filosofia platónica; lá, filosofia es-
colonial; a primeira estrutura politica na qual a aristocra- tóica; neste, formação de um cavaleiro culto e individua-
cia fora substituída pela burocracia. Filipe I I será o pri- lista; naquele, formação de um príncipe cristão; no se-
meiro grande burocrata moderno. O futuro pertence ao gundo, harmonia e simetria clássicas da composição; no
absolutismo e ao Barroco. Explica-se assím o curioso fato primeiro, um estilo prolixo, confuso, abundante, com os
de, sob o governo de Carlos V, na primeira metade do nervosismos do gótico "flamboyant" e as pompas do Bar-
século X V I e em plena Renascença, se haver escrito na roco. António Guevara é um precursor.
Espanha um livro que revela todas as características do O pendant de António Guevara na poesia é Fernan-
Barroco, e que teve um sucesso enorme na Europa: o Libro do de Herrera C 2 ) . Este poeta notável também parece hu-
Áureo dei emperador Marco Aurélio (1529), de António manista. É muito erudito, de extensas leituras clássicas, pe-
Guevara ( 8 1 ). Franciscano, inquisidor, bispo, predicador da trarquista na poesia erótica, da qual grande parte destinada
corte de Carlos V, Guevara não pôde deixar de ser hu-
manista, de extensas leituras clássicas. As Epístolas Fami- 92) Fernando de Herrera, 1534-1597.
Algunas obras (1582); Versos en três libros (1818).
Edições: Biblioteca de Autores Espafioles, vol. XXII, e por Gar-
cia de Diego (Cláslcos Castellanos, vol, XXVI); edição criti-
91) António Ouevara, c. 1480-1545. ca de Algunas obras por A. Coster, Paris, 1908,
Relox de Príncipes o Libro Aweo dei emperador Marco Aurélio A. Coster: Fernando âe Herrera. Paris, 1908.
(1529); Menosprecio de Corte y alabanza de aldeã U539); Epis- F. Rodrigues Marín: Fernando de Herrera y Ia Çonâesa de Geí-
tolas familiares (1539/1545). ver,. Madrid, 1911.
A. Morei-Fatio: Vhistoriographie de Charles-Quint. Paris, 1913. A. Gallego Morell: Dos ensayos sobre poesia espaUola. Madrid,
R. Cos ter: António de Ouevara, sa vie, son oeuvre. Paris, 1925, 1951.
572 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 573

à sua amiga espiritual, a Condessa de Gelves; evitou a poe- rera ( 9 3 ). Este publicou, aliás, um comentário erudito das
sia religiosa, para a qual não sentia vocação, preferindo poesias de Garcilaso, interpretando-as em sentido espiri-
escrever poesia histórica e heróica de grande estilo: dois tualista; a "Academia poética" da Condessa de Gelves, da
dos seus hinos, Por la victoria de Lepanto, para celebrar qual êle fêz parte, parece-se menos com a corte de Urbino
d o que com as reuniões das "Précieuses"; e a comparação
a vitória da esquadra hispano-veneziana sobre os turcos,
com o contemporâneo F r a y Luis de León, poeta máximo
e Por la perdida dei rey D. Sebastián, para lamentar a der-
do humanismo cristão, basta para revelar as qualidades
rota e morte do último rei nacional de Portugal, em Alcá-
barracas de Herrera.
cer-Quibir, têm o grande sopro de Isaías e Jeremias, dos
Está provada a existência de um Pré-Barrôco no solo
profetas do Velho Testamento; são modelos de uma retó-
do imperialismo espanhol do século XVI, Se fosse preciso
rica nobre, figurando, com dignidade, em todas as anto- mais uma prova, seria o sucesso inesperado dêBse Pré-
logias da poesia espanhola. Contudo, Herrera não é real- Barroco espanhol no solo do nascente imperialismo inglês.
mente renascentista. Leu Petrarca através de Ausias J á em 1532, Sir John Bourchier Lord Berners traduziu o
March, o que indica, outra vez, o século XV, o "flam- Marco Aurélio; em 1535, publicou-se The Golden Boke of
boyant", como fonte de inspiração; Herrera tem mais pai- Marcus Aurelius e antes do fim do século X V I já tinham
xão, mais colorido do que oa petrarquistas comuns. A sín- saído 12 edições dessa obra em língua inglesa ( 9 4 ). A con-
tese de amor e heroísmo parece a do Cortegiano; mas Her- sequência imediata foi, no idioma inglês, aquele estilo afe-
rera n l o é cavaleiro, • sim sacerdote, clérigo, embora não tado e conceituoso que é chamado "eufuísmo", do título
clérigo medieval, e sim, antes, clérigo barroco. O seu pa- do romance Euphues or the Anatomy of Wit (1578), de
triotismo espanhol e a falta de inclinação para a ascese J o h n Lyly ( B5 ). Esse estilo, com as suas antíteses acumu-
ladas, trocadilhos sutis e "zeugmas" complicados, um es-
parecem argumentos contra isso; mas o patriotismo de Her-
tilo bem espanhol em palavras inglesas, constituiu o maior
rera é menos espanhol do que católico; é universal no sen-
prazer da sociedade culta, no tempo da rainha Elizabeth;
tido da cristandade unida contra os infiéis. É o sonho de
só assim conversa fina era possível. £ o estilo do diálogo
imperialismo católico de Carlos V e Filipe I I , e a ascética
é substituída por uma nobre melancolia, também típica 83) M. Arce Blanco: Garcilaso de la Veça. Madrid, 1830.
das melhores expressões da época da Contra-Reforma. Há 84) i. M. Galvez Olivares: Ouevara in England. Berlln, 1816.
discussão sobre as relações estilísticas entre Herrera e Gar- 95) John Lyly, c, 1553-1606. (Cl. "Teatro e Poesia do Barroco Pro-
testante", nota 43,)
cilaso: são Menéndez y Pelayo e Adolfo de Castro que Euphues, or the Anatomy of Wit (1678).
encontram já em Garcilaso os germes do estilo barroco, am- Edição por B. W. Bond, 3 vols., Oxídrd, 1802. Edição de Euphues
pliados em Herrera e plenamente desenvolvidos em Gón- por H. Clemon, London, 1816.
F. Landmann: "Shakespeare and the Euphuism". dn: Transac-
gora, enquanto Keniston e M. Arce Blanço consideram tions o} the Neta Shakespeare Society. 1860/1886.)
Garcilaso como clássico, oposto a qualquer gongorismo; F. Landmann: Euphues. Heilbronn. 1887.
A. Feuillerat: John Lyly. Cambridge, 1810.
Dâmaso Alonso, reconhecendo a antítese entre o renasci- V. M. Jeíírey: John Lyly anã the Italian RenaUsance. Paris,
mento de Garcilaso e o barroquismo de Góngora, admite 1929.
contudo a posição intermediária, contra-reformista, de Her- Cf. a nota 1 do capitulo "Problema e Formas da Literatura
Barroca".
. . • '

574 OTTO M A R I A CABPEAUX HISTÓBIA DA LITEBATUBA O C I D E Í Í Í A L 575

humorístico nas comédias de Shakespeare, especialmente O eufuísmo é, no fundo, um estilo de evasão: as


em Love's Labour Lóst e Much Ado About Nothing. Em- metáforas elidem a realidade. O estilo barroco é a conse-
bora esse estilo seja hoje insuportável, o seu criador é uma quência lógica do estilo da Renascença aristocrática. Toda
personalidade interessante. É o tipo alegre e espirituoso a literatura aristocrática do século X V I é, no fundo, uma
do cavaleiro da Renascença, e no eufuísmo há muito de fuga para o amor platónico, petrarquesco, para os mundos
alegorismo petrarquesco e lascívia à maneira de Boccac- fantásticos da cavalaria, para o idílio pastoril. A última
cio e Bandello. Lyly é, em todos os sentidos, um precur- forma dessa vontade de evasão é o estoicismo ( 9 f l ): a fuga
sor: os seus belos "songs" ("Cupid and my Campaspe pára o interior da alma, onde "habitat veritas". É muito
play'd", "What bird so sings yet so does wail") são dos importante distinguir bem entre o estoicismo renascentista
primeiros modelos do "song" elisabetiano; a sua comédia e o barroco. O estoicismo barroco é uma forma de resis-
Aléxandèr and Campaspe preparou a comédia shakespea- tência heróica da parte de homens que desesperam da so-
riana; e, afinal, Euphues é o primeiro romance da litera- ciedade e também da religião cristã. O estoicismo renas-
tura inglesa. Recentemente, Lyly foi interpretado como centista revela maneiras de introspecção augustiniana, di-
precursor do amoralismo esteticista, que tem na Ingla- rige-se contra o platonismo dogmático do século, é repre-
terra urna grande tradição, de Marlowe a Wilde. Mas é sentado por homens indiferentes, almas "naturalitér paga-
difícil explicar a existência daquele estilo na Inglaterra da nas" que se conformam com as aparências da sociedade
segunda metade do século XVI. Nas definições usuais do cristã, para encontrar liberdade completa na solidão ínti-
Barroco citam-ss indistintamente marinismo, gongorismo e ma, no retiro da evasão. O estóico Quevedo é um cavar
eufuísmo, sem consideração à prioridade cronológica da leiro barroco; Montaigne é um monge do laicismo.
variedade inglesa; e esse erro é particularmente inadmis- O maior representante do estoicismo da Renascença
sível, porque a Renascença chegou, por vários motivos, é J u s t u s Lipsius ( e T ), o grande latinista que reconstituiu • .

muito tarde à Inglaterra. Consideram-se sempre Spenser o texto de Tácito, comentou Cícero e criou a arqueologia
• •

e Shakespeare como as figuras máximas da Renascença in- científica. Nasceu católico, foi secretário do Cardeal Gran-

glesa, e, no entanto, é Lyly que precede a ambos; mas é clas- vella, converteu-se, como professor de história em Iena,
sificado entre os representantes do Barroco internacional ao luteranismo, entrou, como professor em Leyden, na
.".••;••'•;,.. do século X V I I . Prefere-.se hoje a explicação psicológica Igreja calvinista, e enfim, como professor em Louvain, vol-
do anacronismo: Lyly teria sido um plebeu que pretendera tou ao catolicismo. Não era insincero. Dogma e liturgia
dar-se ares de aristocrata, afetando o estilo aristocrático,
exagerando os requintes da Renascença, prefigurando des-
te modo os conceitos do Barroco. Resta observar que as 86) L. Zanta: i o rtnaissance àu stoidsme au XVIe tiicle. Parla,
fontes verificáveis do eufuísmo são latino-medievais ( B B - A ); 19Í4.
esse estilo é expressão de uma aristocracia prestes a perder 87) Justus Upsius, 1547-1606.
De constantia (1584) j Manuãttctio ad Stoicam philogophiam
sua função na sociedade. (1604).
E. Amíel: Vn publictste áu XVIe siècle. Jttate-Lipse. Paris,
1884.
I. Van der Haeghen: Bibliographia Lip&iana. 3 vols. Oant,
B6A> M. W. Croce: Introdução da 1886/1888.
London, 1916. A. Roersch: Juste-Lípse. Bruxelles, 1925.


576 OTTO M A R I A C A R P E AUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 577

significavam pouco para êle, porque tinha na alma outra encontram em toda a parte na literatura antiga, especial-
religião: o estoicismo, que não era, para êle, erudição morta, mente em Cícero e Horácio, Séneca e Plutarco, fartamente
e sim uma norma de viver, para conservar, nas tempesta- citados e parafraseados pelo humanista francês. Desco-
des das guerras de religião, o equilíbrio da inteligência e bre-se, porém, que esses lugares-comuns consagrados são,
a serenidade da alma. O seu livro De constantia comoveu em Montaigne, opiniões heréticaB, opostas a tudo o que a
os melhores da Europa. U m contemporâneo chamou a L i p - cristandade havia acreditado até então, e não somente "até
sius "le plus savant homme qui nous r e s t e " ; foi o mesmo então"; descobre-se que certas opiniões de Montaigne so-
que disse sobre Amyot: " J e donne avec raison, ce me bre educação, higiene da vida sexual e outras coisas irri-
semble, la palme à Jacques Amyot sur tous les écrivains tam até hoje os "bem-pensantes", enquanto outras, sobre a
français pour la naiveté et pureté du langage." Quem vida retirada e o conformismo exterior com os credos ofi-
disso isto tínha-se caracterizado, porque era incapaz de ciais de Igreja e Estado, chocam igualmente os espíritos
escrever uma linha sem falar de si mesmo e revelar-se in- avançados. E Montaigne seria um grande escândalo, se
teiro. Junte-se à sabedoria de Lipsius a "naiveté et pu- não gostassem todos de perdoar-lhe os pecados por causa
reté" de A m y o t : eis Montaigne. da personalidade irresistível que se exprime através do seu
Sobre Montaigne O'8) será quase impossível dizer algo estilo, "la naiveté et pureté du langage". Montaigne é
de novo. Escrevendo sobre êle, saem lugares-comuns a que aceito à medida em que sua filosofia é considerada como
não se pode fugir, ou então, opiniões heréticas que irritam fenómeno meramente estético. Mas isso deve, por sua vez,
toda a gente. Não e de esperar outra coisa, porque o pró- chocar os estetas, porque se trata de um escritor prolixo,
prio Montaigne é assim: o seu livro de Essaís é uma co- sem arte de composição, escrevendo ao acaso. A glória
leção de lugares-comuns sobre arte de viver, educação dos permanente de um escritor assim só se justifica, quando
filhos e arte de aprender a morrer, lugares-comuns que se tem que dizer coisas extraordinárias; e, com efeito, Mon-
taigne, sem ser filósofo sistemático, é um pensador extraor-
dinário; não é Lipsius, e sim Montaigne, na verdade, "le
98) Michel Eyquem,a seigneur de Montaigne, 1533-1592.
Essais (1580; 5, ed., 1588; edição póstuma, 1595). plus savant homme qui nous reste".
Edições por P. Villey, 3 vols., Paris, 1922/1924; por F. Strowski,
7 vols., Paris, 1928/1935; por J. Plattard, 6 vols., Paris, 1931/1932. O ponto de partida para compreender Montaigne é a
C-A. Sainte-Beuve: Histoire de Port-Royal, tom. n , livre sua situação vital, a sua "humaine condition". Hoje, não
n i , chap. 2/3.
P. Stapfer: Montaigne. Paris, 1895. é fácil compreender e penetrar pensamentos c sentimentos
P. Villey: Les sources et 1'evolution des tdées de Montaigne. de um nobre francês do século X V I , de índole algo bur-
Paris, 1908. guesa, forçado a defender uma existência relativamente
A. Glde; Essai sur Montaigne. Paris, 1929.
F. Strowski: Montaigne. 2." ed. Paris, 1931. opulenta, vivendo na província, numa época de selvagens
P. Villey: Montaigne. Paris, 1933. guerras civis que se servem de pretexto ideológicos —
J. Plattard: Montaigne et son temps. Paris, 1933. desta vez de credos religiosos — para devastar o país e ex-
O. Hill; Montaigne, lecteur et ímítateur ãe Sénèque. Poitlers,
1938. terminar os adversários. Sirva como porta de entrada na
L. Brunschvicg: Descartes e Pascal, lecteurs de Montaigne, Neu- "torre de marfim" de Montaigne o fato de que um dos me-
châlcl, 1942. lhores ensaios sôBre êle foi escrito por André Gide. Este
H. Friedrich: Montaigne. Bern, 1949.
D. M. Framer Montaigne's Discovery of Man. New York, 1965. também foi um nobre-burguês, nobre por educação e gosto
J. :

578 OTTO MARIA CABPEAUX •


HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 579
classicÍBtas, e burguês pela situação abastada e segura, que
porque o amigo não desconhece os motivos do riso e a me-
dá independência, segurança e independência ameaçadas lancolia secreta.
porém pelas guerras civis, ideológicas, que devastavam o
mundo e exterminavam os adversários. A conclusão c, no Montaigne é sábio como Lipsius e ingénuo como
caso de Montaigne e no caso de Gide, a fuga para uma exis- Amyot; entre essas duas qualidades havia, em Montaigne,
tência privada, a renúncia ao agir e exercer influência. o que não havia em Lipsius nem em Amyot: o equilíbrio.
Montaigne e Gide estabeleceram, uma vez por todas, a reso- Para esse equilíbrio, exigiu êle o reconhecimento oficial da
l • lução de não falar senão de si mesmos e isso com a fran- parte dos outros: a tolerância. Mas sabia que na vida não
• ... queza de quem se sabe a salvo — ,e a consequência è uma se dá nada de graça, e que a gente tem de pagar caro
influência enorme em todos os outros dos quais não por-uma concessão tão preciosa. Montaigne pagou preço
se fala nos livros de Montaigne nem de Gide. São, ambos, muito elevado: o conformismo exterior com respeito aos
homens de exceção, em que se reconhece, apesar disso, poderes estabelecidos da Igreja e do Estado. Ao confor-
'Thumaine condition" geral, e essa contradição explica as mista permitiu-se dizer muita coisa que nunca se teria per-
suas heresias, os seus lugares-comuns e a sua grandeza li- mitido dizer ao revolucionário ou herético. Deste modo,
terária — quase não quer sair a palavra "literária", porque Montaigne conseguiu dizer a.verdade aos católicos e aos
se trata de grandeza humana. protestantes, aos monarquistas e aos republicanos, e enfim
a toda a Humanidade. Não tinha compromissos com nin-
Montaigne — pelo menos no ponto de partida — não guém, nem quis aceitá-los; nem.compromissos de ação nem
pretende fazer literatura; mais tarde chegou a criar um de crença. Assim, criou duas coisas que já existiam em
género literário, o ensaio. Pretende realizar, conforme a todos os tempos — Montaigne é o homem dos lugares-co-
sua própria declaração, um inquérito dentro de si mesmo. muns — mas que só por intermédio de Montaigne têm exis-
As coisas que lá encontra são, em parte, boas, porque se tência literária, consagradas por assim dizer pela oposição
trata de um homem bem formado e culto, nobre por na- geral: a "torre de marfim" e o cepticismo. A interdepen-
tureza, coração de elite; em parte, coisas menos agradá- dência dos dois conceitos é evidente. Só o homem de fé
veis, pequenas covardias e maldades, até sujas, porque Mon- certa, dogmática, pode agir, e a consequência humana, de-
taigne é um homem, e coisas assim acontecem a todos os masiadamente humana, do dogmatismo, é o fanatismo, a bri-
homens. Dizer tudo isso não cabia em nenhum género li- ga e a guerra civil, ao passo que a dúvida paralisa essas;
terário existente, nem numa epopeia virgiliana nem em convulsões e dá a paz, Montaigne é céptico por pacifismo.
poesia petrarquesca nem num romance pastoril ou de ca- Não é contra este nem contra aquele dogma, porque todos
valaria — era então preciso criar um género livre, livre os dogmas lhe parecem perigosos. Tudo em que os homens
como o homem que o criou: o ensaio. Eis os Essais; e "tout acreditam e em que baseiam os seus grupos, seus partidos
le monde me reconnait en mon livre". As contradições ín- e a sociedade, é perigoso. A paz só existe fora das "fables
timas desse livro são enormes: um gozador da vida escre- convenues", na Natureza; e Montaigne, tão despreocupado
veu um manual do estoicismo. Mas são sempre contradi- dos outros e da Humanidade, revela, de repente, um zelo
ções "íntimas", em outro sentido da palavra, coisas que de apóstolo, elaborando um sistema de educação segundo
"não se dizem" e têm, por isso, o encanto da conversa peB- a Natureza, que será, mais ou menos, o sistema do Êmile,
soal entre amigos: é possível rir até das coisas mais sérias, de Rousseau. Mas não estaria aí o erro de Montaigne?
fi8
0 OTTO M A R I A CARPEAUX
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 581

Pois não há paz na Natureza. A "humaine condition", da


de positivismo, aceitando a Natureza "talis qualis", e esse
qual Montaigne pretende ser o representante, também faz
positivismo não é menos pernicioso à salvação da alma.
parte da Natureza, e esta nem sempre é boa, tão boa quanto
Montaigne é céptico — esse lugar-comum está de pé —
Montaigne o é. Há misérias que êle desconhece, misérias
mas o seu cepticismo é diferente do cepticismo dos cépti-
do corpo e misérias da alma, e quem soube disso melhor
cos profissionais, dos pirronianos. Não duvida para re-
do que Montaigne, foi Pascal. Mas isto não quer dizer que jeitar tudo, mas para aceitar tudo (menos certas coisas de-
Pascal tenha razão contra Montaigne, nem tampouco Mon- sagradáveis), tudo o que há de bom no mundo, inclusive
taigne contra Pascal. Quem aprendeu cepticismo em Mon- os instintos (o que o torna, de vez em quando, escandaloso),
taigne — a nação francesa inteira o fêz — não se decidirá inclusive a desordem natural dos instintos, dos sentimen-
Com facilidade contra este ou contra aquele. A indecisão tos, dos pensamentos; e isso se reflete na desordem, na falta
entre eles faz parte da condição humana. Por isso, Sainte- de composição do seu livro. A unidade da composição li-
Beuve tinha razão com o aperçu espirituoso de colocar terária é substituída pela unidade da personalidade humana
Montaigne num lugar central da sua história de Port- do autor, sábio como Lipsius e ingénuo como Amyot, a
Royal, como adversário perpétuo de Pascal. J á se disse personalidade mais encantadora da literatura francesa. Se
que a história espiritual da nação francesa é um diálogo não abrigasse tantas contradições íntimas, não seria um
perpétuo entre Montaigne e Pascal; e se lhes substituirmos homem tão completo: e essa heresia montaigniana é, mais
os nomes pelos de Pelágio e S. Agostinho, então podere- uma vez, um lugar-comum,
mos substituir a nação francesa pela Humanidade inteira.
O ideal aristocrático da Renascença, o ideal do "cor-
Contra todas as aparências, Montaigne sabe daquele
tegiano", não sobreviveu. Mas o que havia, nesse ideal,
lado adverso da natureza e da condição humanas. Para
de nobre e humano, de perpétuo, sobreviveu na personali-
fugir da conclusão do pessimismo, tão oposta ao seu cará-
dade de Montaigne. Menos nobre e mais humano do que
ter sereno e alegre, faz os maiores esforços para evitar as
o "cortegiano", Montaigne teve a coragem de se confes-
Coisas desagradáveis, particularmente as dores físicas, e
sar menos nobre e mais humano, e guardar, assim, perden-
para "aprender a morrer" — bom exemplo, esse lugar-co-
do algo da sua nobreza aristocrática, a sua dignidade hu-
mum do "aprender a morrer", de como os lugares-comuns
mana. No retiro da sua evasão, Montaigne salvou um ideal
Se transformam, em Montaigne, em verdades pessoais. Há
da Humanidade.
«ma forte porção de epicurismo no estoicismo de Mon-
taigne, interpretação epicuréia do estoicismo de Séneca — A literatura inteira do século X V I parece literatura
já se disse que é um estoicismo gaulês. Mas é contradi- de evasão, da classe aristocrática ameaçada, o que ê uma
ção entre dois conceitos filosóficos incompatíveis, e não hipótese altamente inverossímil, Supõe-se a existência si-
ê a única contradição filosófica em Montaigne, porque o multânea de outra literatura, que não seja de evasão, ex-
estoicismo, cheio de fé nas leis da Natureza, é incompa- primindo a situação social e espiritual de outras classes:
uma literatura de oposição, do povo. Seriam representan-
tível também com o cepticismo. Certos críticos aprovei-
tes dessa literatura popular um Gil Vicente, um Rabelais,
taram-se disto para negar o cepticismo de Montaigne e
o autor anónimo do Lazarillo de Tormes, os panfletistas
salvar a alma do ensaísta. Mas de nada adiantou, porque
populares da Re.forma alemã, como Ulrich von Hutten. Se-
o cepticismo só poderia ser substituído por uma espécie
ria uma literatura antiaristocrática, de reivindicações bur-
582 OTTO M A R I A CABPBAUX HISTÓBIA DA LITERATURA OCIDENTAL 583

guesas e populares, e portanto anti-humanista. Mas tal não Ronsard), no naturalismo de Montaigne, no realismo da
acontece. Rabelais e Hutten eram humanistas, entusias- literatura das descobertas geográficas e no nacionalismo li-
tas das letras clássicas; em Gil Vicente, a influência do terário das "novas" nações, no Portugal quinhentista, na
humanismo erasmiano é inegável; e estudos recentes re- Inglaterra elisabetiana, e até na atitude "romana" dos hu-
velam os desígnios humanistas no criador do romance pi- manistas italianos do "Cinquecento". Todos esses elemen-
caresco. Hutten e os outros panfletários da Reforma alemã tos são capazes de aparecer em outras combinações, inédi-
são aristocratas, "cavaleiros" no sentido social da palavra, t a s : sátira medieval e humanismo oposicionista, combina-
defendendo os interesses da sua classe, aliada à Reforma; dos em Gil Vicente e no teatro espanhol contemporâneo;
na Inglaterra, um Deloney, advogado da classe média das nostalgias medievalistas e realismo popular, no romance de
cidades, pleiteia a volta à hierarquia social da Idade Média,
Deloney; naturalismo antiplatônico e humanismo, combi-
simpatizando mais com os aristocratas do que com a nova
nados em Rabelais; naturalismo e anti-humanismo, em Pa-
burguesia. Reivindicações populares surgem só em dis-
lissy e Bacon; humanismo e realismo, no Lazarillo de Toi-
farce religioso, na polémica dos sectários, anabatistas e ou-
tros, que são na verdade revolucionários sociais. O rea- mes; humanismo e nacionalismo, nos panfletistas da Refor-
lismo anti-humanista de escritores como Palissy e Bacon ma alemã. É a combinação, a acumulação de elementos re-
nada tem que ver com ÍSBO; prepara antes a ciência e técnica calcitrantes ou radicais, que dá as aparências de oposição
da futura burguesia industrial. Não existe, no século XVI, contra a Renascença aristocrática; os seus representantes
uma literatura popular, oposta à literatura aristocrática de não estavam conscientes de constituir uma oposição de
evasão, e êBte fato é de significação geral; o desejo de eva- reivindicações burguesas ou populares. Aparece assim so-
são não é privilégio de classes superiores, ameaçadas na mente à luz de uma interpretação sub specie historiae, pos-
sua existência social; o desejo de evasão é próprio de todos terior e em parte alheia aos fatos.
os insatisfeitos, e até hoje o público ledor das classes bai-
A Idade Média não estava morta; particularmente na
xas da sociedade prefere a leitura de evasão: romances po-
liciais, romances nos quais o milionário casa com a pobre pequena burguesia havia consciência da superioridade mo-
dactilógrafa, romances nos quais desfilam barões e prince- ral dos ideais medievais sobre os ideais humanísticos, e a
sas — e até edições deturpadas dos romances de cavalaria arma de combate dessa consciência era um género literário
medievais encontram ainda hoje leitores agradecidos. En- medieval: a sátira contra todas as classes e profissões da
quanto existia público ledor no povo, no século XVI, a sociedade. A Dança Macabra servira, no século XV, de
leitura preferida era o Amaãis e a sua numerosa descen- pretexto para satirizar todos, do Papa ao Imperador e até
dência. ao camponês, e a forma carnavalesca dessa sátira, o Nar-
Tenschiií, de Sebastian Brant, gozava, por volta de 1500, de
Os elementos de "oposição" literária encontram-se es-
popularidade enorme em toda a Europa. A nova vitalidade
palhados dentro da própria literatura aristocrática: as nos-
da sátira social medievalista, no século X V I , veio-lhe da
talgias medievalistas, no romantismo fantástico das epo-
aliança com outras forças de oposição: com a Reforma pro-
peias de cavalaria e em certa parte da literatura pastoril;
elementos de realismo, nas erupções de amor antiplatônico, testante na Alemanha, com o erasmianismo na Península
antipetrarquesco (Gaspara Stampa, Louise Labé, até em Ibérica.
584 OTTO M A M A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 585

Na Alemanha, o por ta-voz da pequena burguesia de Assim aparece Sachs nos Mestres-Cantores de Nurenberg,
feição medieval e credo protestante é Hans Sachs ( 9 *), o de Wagner, numa Nurenberg romantizada, e Sachs con-
famoso sapateiro de Nurenberg. As suas facécias e farsas quistou uma glória póstuma surpreendente. Mas não é um
carnavalescas, numerosíssimas, são tipicamente medievais: grande poeta, ou melhor, nem sequer é poeta em sentido
enredos da novelística medieval, sátira contra o clero cor- algum; é apenas uma figura histórica, de importância re-
ruto, contra o cavaleiro empobrecido e o camponês gros- lativa.
seiro; e Sachs gosta, no fim das peças, de advertências
A glória internacional que Hans Sachs conquistou, ca-
morais. Sachs sabe divertir; as suas peças, embora muito
beria com mais justiça ao seu contemporâneo português
simples, têm efeito humorístico, de modo que aparecem
Gil Vicente ( 10 °), que tem de comum com o sapateiro ale-
ainda, de vez em quando, nos teatros alemães, como entre-
mão o humor popular, o gosto medieval da sátira e as ten-
mezes, nos dias de carnaval. Nesse caso precisam, porém,
dências reformatórias; mas Gil Vicente é mais alguma
de renovação linguística, porque a linguagem de Sachs é
arcaica, a sua versificação é dura e inábil. Os românticos coisa: um grande poeta, um dos maiores da Renascença.
alemães consideravam esses arcaísmos como ingenuidade O humor popular, saborosíssimo, de Gil Vicente, não é
encantadora, celebravam Sachs como um Boccaccio, Rabe- bem comparável à jovialidade algo grosseira de Sachs; é
lais ou até Shakespeare alemão; sentiram com amargura humor de uma espécie mais fina. É que Gil Vicente não
a falta de uma literatura renascentista na Alemanha e te- escreveu para pequenos-burgueses alemães, e sim para a
ceram uma verdadeira lenda em torno de Sachs. Depois, corte d'El-Rei D . Manuel; os tipos populares com os seus
a burgueiia alem! do aéculo XIX, procurando uma árvore gestos e expressões caracteristicas tinham de hilarizar
genealógica, viu em Sachs o representante do bom burguês uma carte de cavaleiros da Renascença, entre os quais ha-
alemão, sólido, sem outras aspirações políticas além da via muitos humanistas. Além de ser grande poeta, Gil
grandeza da pátria; simpatizaram com o bom burguês pro-
testante que tinha saudado o "rouxinol de Wíttenberg",
100) Gil Vicente, c. 1465/1470-c, 1536.
Martinho Lutero, com a famosa canção: Monólogo áel vaquero (1502); Auto Pastoril Castellano (1502);
Auto dos Reis Magos (1503); Auto de la Sibila Casandra (1503?,
"Wach auff! es nahent gen dem t a g ! . . . " 1513?); Auto de S. Martinho (1504); Auto de los cuatro tiempos
(1508?); Farsa do Escudeiro; Auto da Alma (1508); Auto da ín-
dia (1509); Auto âa Fé (1610); Farsa dos Físicos (1613?); Velho
99) Hans Sachs, 1494-1576. da Horta (1512); Exortação da Guerra (1013); Comédia do V"iUw>
Facécias: Schlaweraffenlanã (1530); Sanct peter mit ãen Lands- (1514); Auto ãa Fama (1515); Auto das Fadas (1616?); Barca do
knechten (1556); Der bauer mit dem bodenlosen Sack (1563); Inferno (1516?); Barca do Purgatório (1518); Barca da Glória
etc. (1519); rraaicomádía das Cortes de Júpiter (1821); Comédia de
Farsas carnavalescas: Der farende Schueler im Paradies (1550); Rubena (1521); Farsa das Ciganas (1521?); Farsa de Inês Pe-
Fraii Wahrheít vAll niemand Beherbergen (1550); Das fteistê reira (1523); Auto Pastoril Português (1523); Frágua de Amor
Eisen (1551); Der Bauer im Fegfeuer (1552), etc, etc. (1525); Tragicoméãia de D. Duardos (1B25?); Juiz da Beira
Polémica reformatória: Die Wíttembergisch Nachtigall (1523); (1525); Templo de Apolo (1526); Cieripo da Beira (1526?); Farsa
Disputation zurischen einem Chorherran und einem Schulama- dos Almocreves (15267); Divisa da Cidade de Coimbra (1527);
cher (1524). Tragicoméãia Pastoril âa Serra da Estrela (1527): História de
Deus (1528); JVau de Amores (1528?); Auto âa Feira (1528?);
Edição por A, Keller e E. Goetze, 26 vols., Stuttgart, 1870/1908. Triunfo do Inverno (1529); Auto da Lusitânia (1531); Amaâis de
P. Landau: Hans Sachs. Berlin, 1934. Gaula (1533); Romagem de Agravados (1633?); Auto da Cananéía
E. Geiger: Der Meistergesang des Hans Sachs. Bern, 1958,
586 OTTO M A R I A CABPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 587

Vicente é grande artista, superior aos comediógrafos lati- cente alusões ou paralelos à doutrina de Erasmo. Contudo,
nizantes da Itália. Como quase todos os escritores portu- seria um anacronismo, da perspectiva do século XIX, con-
gueses da época, é bilíngue, empregando com facilidade e siderar Gil Vicente como Hvre-pensador anticlerical. A sua
arte iguais a língua portuguesa e a língua castelhana; as crítica à Igreja e ao clero é mais de ordem moral do que
suas farsas, além de representarem todas as facetas da vida dogmática; no Auto da Alma e no Auto da Mofina Mendes,
portuguesa da época, refletem vários aspectos da vida eu- com as suas mordacidades contra os monges e a filosofia
ropeia, da qual a Lisboa de então era um dos centros mais escolástica, Gil Vicente revela perfeita ortodoxia católica
vivos. Gil Vicente, sem deixar de ser filho do povo por-
e até fé ingénua, comovente — o Auto da Alma tem qual-
tuguês, é cosmopolita da Renascença, e no seu riso baru-
quer coisa do Everyman inglês, e em meio da luta entre
lhento e gostoso ecoa qualquer coisa do grito de júbilo com
anjo e diabo pela alma do homem, ocorrem expressões nas
o qual H u t t e n saudou a nova época: "Juvat viverei". Como
quais Gil Vicente defende, assim como Erasmo, a doutrina
homem da Renascença em país católico, Gil Vicente é eras-
católica do Hvre-arbítrio contra o determinismo dos pro-
miano. Foi Damião de Góis que chamou a atenção de
testantes. As expressões irreverentes de Gil Vicente con-
Erasmo para as farsas do português, e com razão: Gil Vi-
tra os representantes da Igreja não têm nada de comum
cente é erasmiano, no sentido de exigir, com a força pode-
com o anticlericalismo moderno; ou antes, é preciso lem-
rosa do seu riso satírico e com a seriedade própria de todos
brar o fato de que a Idade Média conheceu outro anticle-
os grandes humoristas, a reforma da Igreja, a purificação
ricalismo, diferente mas não menos intenso. O clero, na
do clero, a volta aos costumes da Igreja primitiva; em
Idade Média, não era considerado, como é pelos anticleri-
suma: uma Renascença cristã. O Auto da Feira o Clérigo
cais modernos, como parasito anacrónico, e sim como cor-
da Beira, a Farsa dos Físicos são peças capitais de um tea-
tro erasmiano; em toda a parte se encontram em Gil Vi- poração profissional entre as outras corporações profis-
sionais, em lugar privilegiado da hierarquia social, e por-
tanto com deveres maiores e mais rigorosos. A falta a esses
US34); Auto da Mofina Mendes (1534); Auto da Festa; Floresta deveres estava sujeita à crítica, como as faltas das outras
de Enganos (1536).
Edição princeps: Lisboa, 1562. profissões; e uma sociedade em que não existiam heré-
Edições por Mendes dos Remédios, 3 vols., Coimbra, 1907/1914; ticos nem livres-pensadores os próprios católicos se en-
por Margues Braga, Coimbra, 1933 (incompl.). carregaram da crítica, com uma liberdade de expressão que
Edição das poesias espanholas por Dam. Alonso, Madrid, 1934.
Teóf. Braga: Gil Vicente e as Origens do Teatro Nacional. Por- os católicos modernos não compreendem, assim como as
to, 1898. compreendem mal os livres-penBadoreB modernos. Gil Vi-
I. J. Brito Rebelo: Gil Vicente, 2.» ed. Lisboa, 1912. cente, exercendo essa crítica, utiliza as armas do erasmia-
Carol. Mlchaélis de Vasconcelos: Notas Vicentinas. 4 vols. Coim-
bra, 1912/1923. nismo; mas a índole medieval da sua crítica revela-se no
A, Braancamp Freire.: Gil Vicente, Trovador, Mestre da Balança. fato de incluir a crítica ao clero na crítica a todas as clas-
Porto, 1919. ses da sociedade. A trilogia da Barca do Inferno, Barca
Aubrey F. G. Bell: Gil Vicente. Oxford, 1921.
A. Forjaz de Sampaio: Gil Vicente, a Sua Vida e a Sua Obra. do Purgatório e Barca da Glória lembra a sátira social do
Lisboa, 1925. Narrenschiff, de Sebastian Brant, aluno da Universidade
Dam. Alonso: La poesia de Gil Vicente. México, 1940. de Basileia, cidade de E r a s m o ; ou lembra, pela ideia de
A, J. Saraiva: Gil Vicente e o fim do Teatro Medieval Lisboa,
1942. atacar os pecadores, no momento da travessia das suas ai-
588 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓBIA DA LITERATURA OCIDENTAL 589

mas para o outro mundo, as Danças Macabras da Idade { m ) , dramaturgo primitivo em quem, como em La Celesti-
Média. Mas do ponto de vista estético, esses precursores na, o amor moderno vence os conceitos medievais, e poeta
não podem ser, nem de longe, comparados a Gil Vicente, popular encantador. Contemporâneo de Gil Vicente é Bar-
artista extraordinário e poeta de categoria universal na tolomé de Torres Naharro ( 1(>s ), autor da Soldadesca, Hi-
apresentação de inúmeros tipos populares, falando todos menea e outras comédias, reunidas na coleção Propaladia,
eles com o acento característico da sua porfissão e da sua erasmiano resoluto e satírico contra a Igreja. E os ver-
província. Só Chaucer tem força parecida de caracteriza- dadeiros sucessores de Gil Vincente não são os seus imita-
ção dramática, e mesmo a Chaucer, que é poeta narrativo, dores portugueses, como Simão Machado, e sim dois es-
Gil Vicente é superior como poeta lírico. A dramaturgia panhóis: Lope de Rueda ( l o : i ), farsista popular de Sevilha,
de Gil Vicente é primitiva, às vezes infantil; está entre os e Juan de la Cueva (l(H)> que na utilização de assuntos his-
Mistérios medievais, as Morality Plays, e as farsas fran- tóricos, contemporâneos e da novelística italiana, já é o
cesas à maneira do Maitre Pathelin, Mas o génio lírico do precursor imediato de Lope de Vega.
poeta Gil Vicente, em ambas as línguas, é extraordinário. A combinação da poesia lírica com outro género lite-
As canções portuguesas como "Remando vão remadores", rário — recurso preferido da literatura popular — também
"Adorai, montanhas", "Exortação à guerra", e as espanho- se encontra nos romances de Thomas Deloney ( l 0 B ), um
las como "Muy graciosa es la doncella" ("tal vez la poesia
más Benci[lamente bella de la poesia espanola", segundo 101) Juan dei Encina, 1469-1529.
Dâmaso Alonso), "Dicen que me case yo", "Cuál es la Cancionero (1496); Auto dei Nacimiento y de la Pasión; Êgloga
de Fileno, Zambarâo y Cardonio; Êgloga de Plácida y Victoriano;
nifia" — nSo têm paralelo em todo o teatro peninsular; só
Êgloga âe Ctistino y Fébea.
Shakespeare e alguns outros dramaturgos elisabetianos ofe- Edição das poesias por A, Barbieri (in: Cancionero musical de los
recem a mesma abundância de lirismo espontâneo. Na poe- siglos XV y XVI. Madrid, 1890).
sia lírica, Gil Vicente revela-se grande artista, pelo uso Edição das obras teatrais por M. Cafiete e A. Barbieri, Madrid,
criterioso das formas populares, envolvendo o material fol- 1893.
J. P. W. Orawíord: Spanish Drama before Lope de Veaa. Phila-
clórico em todo o brilho da arte renascentista, sem cair na
delphia, 1937.
maneira erudita ou aristocrática. Assim como os poetas 102) Bartolomé de Toires Naharro, + depois de 1630.
dos "song books" elisabetianos representam a "Merry Old Propaladia (1517).
Edição (com introdução) por M. Menéndez y Pelayo, Libras de
England" antes da invasão do puritanismo, assim Gil Vi- antano, vols. IX/X.
cente representa o velho Portugal alegre, antes da invasão 103) Lope de Rueda, c. 1610-1566.
Comédias (1567>.
do humanismo erudito. E considerando-se que o senti- Edição por E. Cotarelo, 2 vols., Madrid, 1908.
mento nacional de Gil Vicente não é menos vivo do que E. Cotarelo: Lope de Rueda y el teatro espailol de su tlempo.
Madrid, 1898.
o de Camões, figura maior e menos original, o crítico es-
104) Juan de la Cueva, c. 1550-1610.
trangeiro, não embaraçado pelo peso das tradições conven- Tragedia de los siete infantes âe Lara; Comedia dei Infamador;
cionais, saudará em Gil Vicente o maior poeta da língua etc.
portuguesa; sem esquecer o seu lugar na poesia espanhola. Edição por Fr. Icaza, Madrid, 1917.
Com efeito, Gil Vicente pertence à história do teatro 105) Thomas Deloney, c. 1543-c. 1607.
Jack of Newberry (1597); The Gentle Craft (1598): Thomas of
espanhol. Sofreu a influência direta de Juan dei Encina Readíng (1600).
Edição por F. O. Mann, Oxíord, 1912.
A. Chevalley: Thomas Detonei). Parla, 1926.
590 OTTO M A E I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 591

dos escritores mais curiosos da literatura inglesa, tão rica Pico da Mirandola, adepto apaixonado da magia e cabala,
em figuras singulares. Os seus romances de enredos com- escrevendo um libelo contra a astrologia; falava-se até em
plicados à maneira das novelas italianas, são genuinamente crise espiritual do grande humanista. A análise da atitude
ingleses e destinados a leitores populares; na mistura de dos humanistas do "Quattrocento" revelou, de Salutati até
sentimentalismo melodramático com episódios humorísti- Pico, a sua aversão permanente contra a astrologia, en-
cos há nele algo não só de Dickens, mas também da mis- quanto que a magia os apaixonou ao ponto de buscarem
tura de elementos trágicos e cómicos no teatro elisabetiano. processos cabalísticos nos escritos dos judeus desprezados:
Assim como os Mistérios -medievais foram representados causou-lhes repugnância o determinismo astrológico, limi-
por determinadas corporações de artífices, assim dedica tando a liberdade do indivíduo, ao passo que a magia pa-
Deloney cada romance a determinada profissão: Jack of recia prometer ao iniciado a onipotência ( I09 -A). JJO século
Newberry aos comerciantes, The GentJe Graít aos sapatei- X V I , a magia começa a sua transformação em ciência ex-
ros, Thomas of Reading aos alfaiates; da Gentle Craft perimental; Giovanni Battista Delia Porta (1535-1615), co-
tirou Dekker o enredo da comédia mais popular do teatro mediógrafo plautino, dedicando-se a estudos quase doidos
elisabetiano, Shoemaker's Holiday. Mas Deloney não è um de magia experimental, é ao mesmo tempo um dos funda-
precursor; ao contrário, a sua defesa das corporações me- dores da óptica científica. Na Alemanha, o famoso Para-
dievais inclui a defesa da aristocracia rural. Deloney é celso, ocultista e fundador da farmacologia, ocupa lugar
um "reacionirio", pleiteando, contra a nova burguesia co- parecido. Várias teorias ocultistas, sobretudo a da corres-
mercial,'a volta à estrutura social da Idade Média. É esse pondência entre macrocosmo e microcosmo, serviram de
reacionarlamo um aspecto, digno de nota, de grande parte "hipóteses- de trabalho" aos naturalistas; também foram de-
da literatura popular do século. fendidas pelos platonistas italianos como Telesio e Pa-
A tendência contrária, levando à ciência e técnica da trizzi, precursores imediatos de Giordano Bruno ( 1 0 T ), o
burguesia, manifesta-se no empirismo. O precursor é Leo- filósofo que reúne à glória de ter criado a cosmologia mo-
nardo da Vinci ( 1 0 e ) : o grande artista plástico não é me- derna a outra glória de criador da literatura filosófica em
nor como pensador científico; e como escritor é o prede-
cessor imediato de Galileu. O século de intervalo só se
explica pelo fato de os escritos de Leonardo terem ficado 106A) L. Thorndike: A Htitory of Magic and Experimental Science.
vol. IV: "The Firteenth Century". New York, 19M.
escondidos nos arquivos. O lugar de Leonardo na evolução 107) Giordano Bruno, 1548-1600.
do pensamento científico foi ocupado por Bacon, o empi- De wnbris idearum (1582); 11 Candelaío (1682); Cena de le Ce-
rista. Mas o empirismo tem, por mais estranho que pareça, nerl (1584); Delia Causa Principio ed Uno (1684); DelV Infinito
Universo e Manai (1584); Spaccio delia Bestia Trtonfante (168*);
uma pré-históría mística: o ponto de partida está na magia Gli Eroici Furorí (1585).
e cabala. Constituiu antigamente um enigma a atitude de Edição tías Opere italiane em 3 vols. (vols. I-II, Scritti filoso-
fici, edit. por G,a Gentile; vol. III: ÍI Candelaio, edit. por V. ,
106) Leonardo da Vinci, 1432-1519. Spampanato). 2. ed. Bari, 1923.
F. de Sanctis: "La Nuova Scienza". (In: Storia delia letteratura
Edição dos escritos filosóficos e literários por E. Solmi, Fi- italiana. 1370. 2." ed. por B. Croce. Bari, 1913. Vol. II.)
renze, 1920. A. Graf: Studi drammatici. Torino, 1878.
E. Muentz: Léonard. Paris, 1899. G. Gentile: Giordano Bruno e II pensiero dei Rinascimiento. 2.»
V. von Seldlitz: Leonardo âa Vinci, der Wenãepunkt der Re- ed. Firenze, 1926.
naissance. Paris, 1909. L. Olschki: Giordano Bruno. Bari, 1027.
592 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 593

língua italiana e de escritor extraordinário. O monge, con- intermediário que ninguém pensava encontrar na história
vertido da escolástica medieval ao panteísmo como por um da literatura francesa: Bernard Palissy ( 1 0 S ). Era um gé-
raio, uma revelação, ficou deslumbrado: o mundo fechado nio universal como havia tantos na Renascença, um peque-
dos seus estudos teológicos caiu-lhe em escombros, e abri- no Leonardo francês: cientista, técnico, artista e grande
ram-se os espaços infinitos do céu, povoados de inúmeros escritor. Passou por mil experiências difíceis e dolorosas,
mundos; e o que será para Pascal motivo de angústia, foi desilusões e perseguições-de toda sorte, até descobrir o
para Bruno motivo de uma espécie de embriaguez cosmo- que foi a grande ambição da sua vida: a composição e fa-
lógíca. O que ele tinha abandonado — humanismo, con- bricação do esmalte. O título imenso e pitoresco do seu
vento, teologia, Igreja, a sociedade hipócrita e submissa da livro — meio relatório técnico, meio autobiografia — fala
Contra-Reforma — parecia-lhe um tecido de mentiras e primeiramente dos seus trabalhos sobre águas minerais, na-
falsidades, ocultando como nevoeiro denso, como jogo de turais e artificiais, sobre metais, sais, pedras, terras, fogos
sombras, a verdade brilhante dos inúmeros mundos e do e, só no fim, do esmalte, como para aludir às águas e fo-
Universo infinito. A atitude de Bruno foi sempre a do
gos pelos quais devia passar para conseguir a grande obra.
apóstolo — no convento tinham-no educado para isso. Com
O relatório, escrito num francês ingénuo e saboroso que
fúria enorme — Eroici furori é o título de uma obra sua
encantou Anatole France, revela o artista: utilizou-se da
— dirigiu a sua polemica contra o "mundo caduco" da
sua invenção só para enfeitar as "rustiques figulines" de
"Mentira", "Hipocrisia" e "Violência", que ainda se acre-
sua fabricação, as quais uma análise aguda conseguiu apro-
ditavam senhoras do mundo, contra a "Bestia trionfante",
ximar do sentimento rústico em certas poesias de Ronsard
e o contraste entre o seu idealismo fanático e a indiferença
e Du Bellay. Deste modo, o esquisito inventor francês en-
"bestial" do mundo que o rodeava, inspirou-lhe o desgosto
contra-se num ponto entre Andrea Navagero e a ciência
satírico do qual dá testemunho a comédia II Candelaio, co-
experimental, representada por Francis Bacon, que foi
média do pedante Manfurio, que "nihil divinum a se alie-
também grande escritor, talvez maior escritor do que fi-
num putat", que sabe tudo menos a verdade platónica de
lósofo.
que a vida é um jogo vazio de sombras; e a comédia de
Bruno pretende ser "um candelaio per illuminare le ombre Pode haver dúvidas quanto à importância de Bacon
delle idee" e tornar visível, atrás do nevoeiro das imbeci- ( l o e ) na história da filosofia e do método experimental;
lidades, a realidade. A realidade, porém, era o poder da-
qulas forças que êle acreditara mortas e continuou negando
até o momento em que, "na fogueira, devolveu ao Universo 108) Bernard Palissy, 1510-1589.
Discours admiràbles de la nature des eaux et de» fontaines, tant
a alma ardente". naturelles qu'artificielles, des métavâ), des seis et salines, des pier-
res, des terres, áu feu et des émaux (1B80).
Bruno esteve na Inglaterra. Encontram-se vestígios da Edição por B. Fillon, 2 vols., Nlort, 1883.
sua presença no Hamlet. Uma influência do italiano fu- E. Dupuy: Bernard Palissy, Vhomme, Partiste, le savant, 1'écri-
vaín, 2.a ed. Paris, 1B02.
rioso em Bacon, inglês frio e equilibrado, pareceria im- B. Hanschmann: Bernard Palissy und Francis Bacon. Leipzig,
possível, se não fosse um intermediário estranho que exer- 1903.
ceu influência direta sobre a ideia baconiana de uma ciên- 109) Francis Bacon, baron Verulam, 1561-1628.
cia experimental, e que estava em relações com B r u n o ; um Essays (1597. 1612, 1625); Novum Organiim (1620): New Atlan-
tis (1626), ctc, etc.
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&94 OTT.O M A R I A CARPE AUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 595


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este método estava pronto antes de Bacon, e êle nunca ou preconceitos tradicionais. Bacon é o fundador da so-
pensou em aplicá-lo; e em vez de uma explicação teórica ciologia do saber; a sua saída do cepticismo é o realismo
do mundo deu uma utopia do mundo futuro da ciência sólido, material ou quase materialista, que Maeaulay defi-
e técnica. Mas essa utopia se realizou. Ninguém pode n i u : "An acre in Middlesex ia better than a principality
arrancar a Bacon a glória de ter criado — ou antes, pela in Utopia". Bacon é contra as aparências e contra as es-
primeira vez representado em sua plenitude — o espírito .,.: téticas também: "HouseB are built to live iii and not to .
prático, utilitário, pragmatista, dos ingleses, e de o ter ex- •' look on"; eis a declaração de guerra à fachada estética da
presso numa prosa que é também criação sua, uma prosa aristocracia renascentista. A filo*ofia de Bacon é um "can-
sóbria, seca, sentenciosa, inconfundível: os Essays de : : detaio" antiideológico no que diz respeito ao passado, e
Bacon não são confissões como os de Montaigne; são uma luz ideológica quanto ao futuro. Mas uma frase como
notas, aperçus, lições, condensadas com uma energia es- esta: "It is as natural to die as to be born; and to a little
piritual extraordinária' e resumidas em aforismos inesque- infant, perhaps, the one is as painful as the other" — revela .
cíveis: "A crowd is not company; and faces are but à o leitor de Séneca e contemporâneo de Montaigne.
gallery of Pictures"; "God Almightie first planted a Um Gil Vicente, um Deloney representam as classes
garden"; "It is the solecisme of power, to think to com- do passado; um Palissy, um Bacon representam as classes
mand the erid, and yet not to endure the mean". Mas Ba- do futuro. E n t r e eles, no centro, está não apenas a aristo-
con nSo é apenas aforista, nem apenas o moralista dos en- cracia, mas também alguns grupos fragmeniados, consti-
saios sabre Amizade, Verdade, Velhice, Jardins e outros tuindo uma espécie de "Intelligentzia": são os futuros
assuntos permanentes; é mais importante a parte negativa jornalistas da "Ilustração", os futuros cientistas e heréti-
da sua filosofia, que diz respeito aos assuntos perecíveis. •" cos do Barroco; agora, na Renascença, perdidos entre as
"Men'B thoughts are much according to their inclination", Igrejas e seitas, apóstatas do humanismo ou da sociedade
diz o L o r d ; e é preciso aproximar essa observação psico- medieval. Na Idade Média, foram goliardos. Um goliardo
lógica de outra, de Maquiavel, do qual Bacon era grande assim, e ao mesmo tempo cidadão do mundo futuro, é Ra-
leitor: "Costoro hanno un animo in piazza, e uno in pa-
belaís.
lazzo" — para compreender o alcance da teoria baconiana •

dos "idola" que impedem aos homens o reconhecimento François Rabelais ( u 0 ) , vigário e médico em combina-
da Verdade: os "Idola tribus" ou preconceitos dos homens ção inédita, humanista erudito e humorista extragavantís-
como membros da espécie, os "Idola specus" ou precon-
ceitos sugeridos pelo ambiente, os "Idola fori" ou precon-
110) François Rabelais, c. 1493/1494-1553.
ceitos impostos pela opinião política, e os "Idola theatri" Pantagruel roi áes Dipsoães, restitui á íon naturél (1532); la
víe três horrifique da grana Gargantua, pèrt de Pantagruel
(1534); o romance completo, publicado em 1652,
Edições por A. Leíianc, 7 vols., Paris, 1912/1B36, e por J. Plattard.
Edição por J. Spedding, R. L. Ellis e D. D. Heath, 14 vols., Lon- 6 vols., Paris, 1929. Edição do Pantagruel por V. Saulnler, Pa-
don, 1857/1874. ris, 1946. .,:
Th, B. Maeaulay: "Lord Bacon", (In: Criticai and Historical E. Oebhardt: Rabelais, la Renaissance et la Reforme. 2* ed.
Essays, 1837.) Paris, 1896.
M. Sturt: Francis Bacon. London, 1932. L. Thuasne: Êtudes.sur Rabelais. Parts, 1B04,
Ch, Williams: Francis Bacon. 1933. J. Plattard: L'oeuure de Rabelais. Paris, 1910. ,, f.


596 OTTO M A R I A CARFEATJX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 597

«imo, é o autor do livro mais divertido e mais indecente da liberdade pública dos instintos. Nessa atitude contra a
literatura francesa. Vidas, aventuras e façanhas de Gar- opressão dos instintos naturais pela disciplina clerical há
gantua, Pantagruel e Panurge são uma espécie de epopeia qualquer coisa de oposição protestante, e Rabelais, como
herói-cômica em prosa, mistura de Pulei e Folengo, sátira outros humanistas de formação religiosa, não se oporia a
contra a cavalaria, sem o equilíbrio de Cervantes, sátira uma Reforma integral da Igreja, na qual, no entanto, per-
contra os monges, sem a teologia de Erasmo, sátira contra maneceu; contudo, achou prudente fugir do país depois da
os burgueses de Paris, sem a poesia de Villon, sátira con- execução do humanista protestante Dolet. Mas não podia
tra todas as convenções desnaturais, sem a serenidade de aderir à Reforma de Calvino, porque Rabelais é a encarna-
Montaigne — mas suprimindo essas falhas todas pelo fato ção do antipuritanismo. É um gaulês de formato sobrenatu-
estupendo de ter criado uma nova língua dentro da língua ral, de apetites enormes, bebendo lagoi inteiroi de vinho,
francesa, uma língua que é só de Rabelais, de combinações comendo rebanhos inteiros de gado — o *eu apetite é tão
inéditas, de excessos e monstruosidades, uma língua na poderoso que chegaria à antropofagia; e já se disBe que to-
qual o vocabulário excrementício e sexualógico ocupam o dos os grandes satíricos são antropófagos. Tudo, em Rabe-
primeiro lugar. E assim nasceu um livro, afastado para
lais, é de formato sobrenatural; pretende provar que "natu-
sempre da escola e das estantes dos bem-pensantes, e que
ralia non sunt turpia" e exagera esses "naturalia" até ver-
é um clássico da literatura francesa.
dadeiras orgias de falicismo e coprofilía. Reúne a gros-
Rabelais é clérigo, aluno da Universidade medieval; seria do monge medieval à do médico de aldeia, acostu-
domina o trívio, o quadrívio, a filosofia, as sentenças e as mado a falar com gente inculta e acabando por assimilar-
•umas, e por tudo isso não dá nem um sou, porque apren- se ao costumes dessa gente. Rabelais é um humanista muito
deu, depois, coisa melhor: Cícero e Séneca, Horácio, Vir- especial: em vez de ficar entre os livros, sai para o ar
gílio e os gregos; e desde então o latim bárbaro dos esco- livre, descobrindo o povo, a realidade. É um goliardo,
lásticos lhe causa verdadeira náusea, e para lhes tapar a
saindo de escola e taverna para o novo mundo do huma-
boca inventou aquela língua que não é menos bárbara,
nismo. Daí o seu interesse apaixonado pela educação fí-
pois é um francês bárbaro, e Rabelais é francês, ou antes,
sica e pela educação razoável em geral, à qual dedica os
gaulês, com paixão e alegria. A sua oposição aos monges
capítulos mais sérios da sua obra. Mas a sua goliarda r e -
não é só a oposição linguística do humanista erudito; abor-
vela-se justamente no que parece mais moderno em R a -
recem-no também os costumes sujos, a devassidão clandes-
belais: o seu ideal de vida epicuréia, na abadia de Thélème,
tina atrás do celibato forçado, pois Rabelais é partidário da
onde a gente passa a vida entre estudos e prazeres, em li-
berdade absoluta, anarquista, admitindo só uma lei: "Fais
P. Stapfer: Rabelais, sa personne, son génie, sou oeuvre. 5.* ed.
Paris, 1918. ce que voudras!" Parece um ideal moderníssimo, mas não
L. Sainéan: La langue ãe Rabelais. 2 vols. Paris, 1922/ 1B23. é; a existência ociosa e inútil em Thélème nada tem com
S. Putnam: François Rabelais. New York, 1921). os utilitarismos futuros. É o sonho do "pays de Cocagne"
Anat. France: Rabelais. Paris, 1931.
J. Plattard: François Rabelais. Paris, 1932. do estudante medieval, de um país em que há comida, vinho
L. Febvre: Le problème ãe Vincroyance ou XVle siècle. La, re- e mulheres à vontade, e onde se estuda só o que agrada, e
Ugion ãe Rabelais. Paris, 1943. em que não se trabalha. Rabelais é um homem medieval,
J. Charpentier: Rabelais. Paria, 1944.
M. P, Willcocks: The Laughing Philosopher. London, 1951. mas da estirpe dos párias da Idade Média; por isso odeia
• • • •

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598 OTTO M A R I A CARPEAVX HISTÓRIA BA RATURA OcÍDEMTAL 599 •

06 que ainda gozam dos privilégios medievais, os monges, O gentlertian rebelaisiano é tão pouco pagão quanto os
os burgueses, as personagens grotescas d6 seu carnaval sa- gentlemeh ingleses; apenas desconhece o cajir. As fun-
tírico, dança macabra sem morte e com muita vida. Rabe- ções naturais, exerce-as com a maior ingenuidade, e aos que
lais é um pária do clero, como Folengo, do qual é contem- pretendem inibi-las, mata-os pelo riso, para o qual a vida
...
porâneo, superando o italiano na abundância da imagina- dos instintos fornece matéria tão abundante. Não é por
ção verbal; Rabelais é o génio do macarronismo. Por isso, acaso que a forma linguística coloca a obra de Rabelais
nenhuma análise ou descrição poderia dar a mínima ideia num lugar especial na literatura universal; o próprio Rabe-
desse livro do qual não existe pendant na literatura uni- lais ocupa, como defensor alegre da liberdade humana com-
versal. pleta, um lugar especial na história da Humanidade.
Mais uma qualidade que Rabelais tem em comum com O outro goliardo do século X V I é o autor anónimo
Folengo: no fundo do barulho grosseiro contra o clero es- do Lazarillo de Tormes; mas o meio é diferente. A Espa-
conde-se o sentimento religioso ( 1 U ) . Rabelais é irreve- nha da segunda metade do século resume os males da Re-
rente, mas não ateu; não convencem as tentativas de eri- nascença e do Barroco: imperialismo económico e inflação
gi-lo em profeta de uma irreligião da Renascença. Se não monetária, burocracia rigorosíssima com toda a corrução
cumpre com a perfeição desejável as obrigações doutriná- da administração feudal, desemprego e vagabundagem ge-
rias e disciplinares de um vigário de aldeia, é porque me- neralizada de soldados reformados, aristocratas empobre-
lhor estaria como cardeal da Cúria Romana, um cardeal cidos, clérigos vagantes, parasitos e ladrões de toda a es-
da Renascença i n t e i da Reforma; naquela época tal- pécie ( 1 1 2 ). É o ambiente em que o acaso substitui o esfor-
vez tenha sido melhor prelado que muitos outros, falando ço, porque a inflação e a administração comem os frutos
bem latim — no resto, não teriam entendido em Roma do trabalho honesto; então, ninguém quer trabalhar, mes-
seu francês rabelaisiano. Do secreto ideal religioso em mo morrendo de fome, preferindo-se os pequenos truques
Rabelais poder-se-ia deduzir o fato de esse homem — me- que imitam os grandes truques da diplomacia. O ideal de
dieval em muitos aspectos — ser, em outro sentido, mais política maquiavelista, transplantado para o meio dos men-
moderno do que os seus contemporâneos mais avançados: digos e ladrões, eis o assunto do romance picaresco ( l i a ) .
o seu ideal da renascença dos estudos clássicos não é, de
O ambiente, por mais interessante que seja, não tem
modo algum, classicista, livresco. Ao contrário, esse dono
nada de extraordinário. O fato extraordinário é que, na
de uma língua barroca é um verdadeiro clássico: os estu-
época da solenidade aristocrática, alguém tivesse a fran-
dos apenas significam para êle o caminho c1^ harmonia do
queza de dizer aquilo tudo, e, além disso, narrar os acon-
desenvolvimento intelectual, espiritual, moral p físico da
tecimentos pouco edificantes nã primeira pessoa, como
personalidade. O seu "stoicisme gai" aproxima-se da pe-
se fosse confissão autobiográfica — o que se tornou depois
dagogia de Montaigne, sem os acessos de melancolia li-
lei de composição do romance picaresco. Mas por isso
geira do grande ensaísta, e o ideal pedagógico de Rabelais
preferiu permanecer anónimo o autor do Lazarillo de
seria realizado em Eton ou Harrow, onde se criam os gen-
tlemen que sabem latim e grego e jogam críquete e, golfe.
112) H. Hauser: La preponderance espaçnole. Paris, 1033.
113) M. Bataillon: Le roman picaresQue. Paris, 1931.
111) E. Gtison In: Revue des études franciscaines, 1924, I. A. Valbuena Prat: La novela picaresca en Espafía. Madrid,
600 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 601

Tormes ( m ) . Não é apenas o primeiro romance picares- por si mesma incompatível com o realismo — encontra-se
co; é o primeiro romance da literatura universal que per- tão-sòmente nas conclusões que o leitor tem de tirar. A
maneceu legível até hoje, legível não como objeto de es- obra, apesar de inacabada, está fechada como um cristal;
tudos históricos, mas como leitura divertida e como "crí- ficam, porém, os problemas ópticos da luz que entra e s a i :
tica da vida", o que constitui, segundo Matthew Arnold, de onde veio a inspiração, e como ela conseguiu impor-se
a finalidade da literatura narrativa. A palavra "crítica", ao espirito espanhol de maneira tão poderosa que o La-
aplicada ao Lazarillo de Tormes, só se entende como "crí- zarillo saiu em três edições só no ano da publicação e criou
tica implícita". Porque Lazarillo, embora narrando a pró- um dos géneros mais populares da literatura espanhola e
pria vida, fala com objetividade absoluta, sem se queixar europeia.
e sem acusar ninguém, e particularmente sem se envergo- O autor de Lazarillo de Tormes conheceu pela expe-
nhar dos fatos: o "herói" é sucessivamente criado de um riência própria o ambiente que descreve; mas pertence a
mendigo cego, de um padre, de um "fidalgo" orgulhoso e esse ambiente apenas pela metade, é superior aos seus per-
faminto, de um vendedor de indulgências, de um capelão, sonagens e tira daí a objetividade superior do relato. Essa
de um alguazíl — sempre maltratado, vingando-se como superioridade não é de ordem moral, e sim de ordem inte-
pode, e fazendo o seu caminho pelos bas fonas da socie- lectual. Com efeito, o autor é humanista, conhece muito
dade até chegar o seu dia. A galeria dos patrões de La- bem Horácio e Séneca; foi até possível demonstrar que a
zarillo lembra Chaucer, mai o humor é diferente: é seco, composição do Lazarillo acompanha de perto, como se fosse
sem alegria, discreto como um cavaleiro que na pior hu- paródia intencional, a composição da Eneida ( 1 1 B ). Croce
milhação guarda a compostura. O estilo é coloquial sem chega a falar em "epopeia da fome". O autor do Lazarillo
familiaridade — o primeiro modelo da prosa espanhola mo- era um universitário faminto, um "goliardo", mas em am-
derna — apresentando coisas desagradáveis ou vergonho- biente totalmente diverso do ambiente medieval, num am-
sas como se tivesse de ser assim. O Lazarillo de Tormes biente de vagabundagem generalizada que pretendeu con-
é uma obra-prima de realismo autêntico; a sátira social, tudo guardar as aparências aristocráticas. O pícaro é um
ladrão ou charlatão que tem, no entanto, a sua honra de ca-
valeiro; e isso não é apenas um meio para manter-se numa
114) La vida dei Lazarillo de Tormes, y de sus fortunas y adversidades
(1554). sociedade na qual os valores aristocráticos continuam em
A autoria do romance atribuiu-se, durante muito tempo, a Diego vigor; é também um meio para se conformar com uma or-
Hurtado de Mendoza (1503-1575), erasmiano, poeta humanista, e dem social hostil ao mendigo e a todos os pobres. Na so-
autor da famosa Guerra áe Granada (public. 1621), obra-prima
da historiografia; a hipótese foi definitivamente afastada por A. ciedade espanhola continuam em vigor os valores aristo-
Morel-Fatio. cráticos; na estrutura social-econômica, os valores em vi-
A atribuição ao dramaturgo e erasmiano Sebastián de Horozco gor são os do mercantilismo. O pícaro, vítima da ordem
(c. 1510-1580) não é menos incerta. O anonimato do primeiro
romance picaresco ficou bem guardado. económica, é conformista com respeito à ordem aristocrá-
Edições por A, Bonilla y San Martin, Madrid, 1915, e por J. Ce-
jador (Clásicos Castellanos, vol. XXV).
A. Morel-Fatio: Êtuães sur VEspagne, le série. Paris, 1895. 115) A. Marasso: "La elaboraclon dei Lazarillo de Tormes". (In: Bo-
J. Cejador: Introdução à edição citada. letín de la Academia de Letras de la Argentina, IX, 1941.)
B.8 Croce: "Lazarillo de Tormes". (In: Poesia Antica e Moderna, A conclusão de Marasso quanto ao autor da obra — certo ba-
2. ed. Bari, 1943.) charel Pedro de Rhua — não é, porém, convincente.
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602 Orro MARIA. CARPEAUX HISTÓRIA » A LITERATURA OCIDENTAL 603


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tica; é um representante legítimo da Espanha imperial de- t u s Rubianus, Eobàrius Hessus, Petrus Lotichius. O hu-
caída, do reinado de Filipe I I e dos seus sucessores. O manismo não se popularizou muito entre os alemães, e te-
romance picaresco substituiu o estoicismo erudito da Re- ria desaparecido sem deixar vestígios, se não fosse a figura
nascença pelo estoicismo popular, que sempre foi a filo- arquipopular do aristocrata Ulrich von Hutten ( 1 1 T ). As
sofia popular da Espanha. No século X V I I , a Europa in- Epistolàe obscurorum virorum, que Hutten redigiu com a
teira será hispanizada: aristocrática, empobrecida e estóica. colaboração de vários amigos, são uma das sátiras mais
O romance picaresco será o género do futuro. mordazes da literatura universal: correspondência fictícia
A última forma de "oposição" é a da própria aristo- entre monges alemães que, no latim bárbaro e ridículo
cracia contra o internacionalismo aristocrático da Renas- d o s últimos escolásticos, trocam notícias Bôbre brigas nos
cença: é a atitude nacionalista dos aristocratas e huma- conventos e escolas, aventuras amorosas e outras infrações
nistas da Alemanha. <la disciplina clerical, revelando-se como "obscuri" em to-
À primeira vista, o humanismo alemão (11B) parece um dos os sentidos; almas negras, obscurantistas, exprimindo
ramo, e nem sequer um ramo muito importante, do huma- a maior indignação contra todos os que ousam falar em es-
nismo italiano. Na segunda metade do século XV, univer- tudos clássicos ou reforma da Igreja, ameaçando esses re-
sitários alemães que haviam estudado na Itália importaram calcitrantes com a fogueira. A repercussão das Epistolàe
a paixão das letras clássicas. No começo, experimentaram- obscurorum virorum na Alemanha foi enorme: com elas
se em traduções: Albrecht von E y b deu, em 1474, Menae- Hutten ridicularizou os monges, especialmente os domini-
chmi e Bacchídes, de Plauto, e em 1499 saiu a tradução das canos da Inquisição em Colónia, humilhando-os perante a
comédias de Terêncio; mas a língua alemã, dura e pouco -opinião pública. As Epistolàe eram uma das armas jor-
polida, resistiu. O período latino do humanismo alemão nalísticas mais eficientes da Reforma luterana, da qual
foi iniciado pela fundação de bibliotecas e centros de es- H u t t e n se tornou colaborador importante. Foi êle quem
tudos por grandes mecenas burgueses como Willibald Pir- conseguiu a aliança entre os reformadores eclesiásticos e a
ckheimer, em Nurenberg, e Konrad Peutinger, em Augs- pequena aristocracia alemã, os "cavaleiros", a que êle mes-
burg. Os mais famosos entre os humanistas alemães, Con- m o pertenceu. Foram êle e Lutero que conferiram à Re-
rad Ceitis (1459-1508) e Jacob Wimpfeling (1450-1528), são forma o forte acento nacionalista, de indignação alemã con-
estudiosos pouco originais. Johannes Reuchlin (1455-1522) tra a intervenção dos prelados estrangeiros, italianos, nos
tem importância na história da exegese bíblica, como fun- negócios políticos da pátria. Pela atividade de Hutten e
dador dos estudos hebraicos; os seus trabalhos ajudaram
a atividade do maior dos humanistas ao Norte dos Alpes,
Erasmo de Roterdão, mas este é holandês. Os humanistas 117) UlricH von Hutten, 1488-1523.
alemães do século X V I são poetas latinos de segunda or- Epistolàe obscurorum virorum (1517; entre os co-autores: Reuch-
lin e Crotus Rubianus, c. 1480-1540); Ad Prtncipet Germantae
dem, que gostam de latinizar os seus nomes bárbaros: Cro- (1518); Gespraechbuechlein (1521).
Edição das Epistolàe por E. Boecking, 2 vols., Leipzig, 1864/1870.
W. Brecht; Die Verfasser der Epistolàe obscurorum virorum.
116) L. Gelger: Renaissance und Humanismus in Italien und Deuts- Strasbourg, 1904..
chl&nd. Berlin, 1882. D. F. Strauss; Ulrich von Hutten. 2* ed. por O. Clemen, 2 vols.
A. Taylor: Problems in Literary Historv of the Ftfteenth and Six- Leipzig, 1927.
teenth Centuries. New York, 1939. H. Holborn; Ulrich von Hutten. 2.» ed. Newhaven, 1937.
604 OTTO M A H I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATUBA OCIDENTAL 605

dos seus, a Reforma tornou-se Reforma alemã, formando-se Mutianus pretende falar da serenidade dos estóicos anti-
— o que não existia antes — uma consciência nacional da gos, emprega a expressão "beata tranquillitas", quer dizer,
nação alemã, com a consequência de essa nação se afastar, a "tranquilidade silenciosa da alma" dos místicos. Erasmo
depois, não só da Igreja romana, mas também dos outros é o último filho, filho pródigo, dessa mística teuto-holan-
movimentos reformatórios, e enfim, de toda a civilização desa.
ocidental ( 1 1 S ). O fato é de primeira importância para a Nas ricas cidades burguesas do Sul da Alemanha, esse
compreensão da história da Europa moderna. E, deste misticismo transforma-se — a evolução é típica e encon-
modo, o humanismo alemão que tinha começado de maneira trar-se-á várias vezes — em nacionalismo sentimental ( J 2 0 ) :
tão modesta, tornou-se grande acontecimento histórico, do procuravam-se testemunhos antigos da dignidade da na-
qual estamos ainda sofrendo as consequências. ção. Wimpheling considerou a Germânia, de Tácito, como
O fato é tão importante que exige e encontrou nova a obra mais importante da literatura romana, e outro hu-
interpretação. O aparecimento de Hutten e dos seus ami- manista, Beatus Rhenanus, editou-a. Ceitis editou as co-
gos aristocráticos sugeriu outrora aos estudiosos a opinião médias latinas da religiosa Hrotswith de Gandersheim, do
de que o verdadeiro humanismo alemão teria sido movi- século Xt para provar a cultura clássica dos alemães me-
mento dos "cavaleiros", e o humanismo burguês dos Pír- dievais, e Peutinger sugeriu a Cuspinianus uma história
ckheimer e Peutinger apenas um prelúdio. Essa opinião dos imperadores alemães da Idade Média (Caesares, 1540).
já não pode ser mantida O 1 *). O humanismo alemão é um O humanismo italiano do "Cinquecento", o humanismo "ro-
movimento da burguesia urbana. Os primeiros centros en- mano", era em grande parte um movimento nacional, iden-
contram-se na Renânía, entre Basileia e Antuérpia, as ci- tificando a Itália moderna com a gloriosa Roma antiga;
dades preferidas de Erasmo. Na mesma região, em Schlet- não pôde deixar de excitar, em outros países, movimentos
tstadt, na Alsácia, Colónia, Herford, Wesel, fundam-se as de reação, de nacionalismo anti-romano, e particularmente
primeiras escolas humanistas. O humanismo alemão é, nas num país germânico, não latino.
origens, um movimento pedagógico: os primeiros autores
latinos traduzidos são Plauto e Terêncio, cujas comédias já Hutten e os seus amigos deram a esse nacionalismo
serviam de livros didáticos nos conventos medievais. E os sentimental um conteúdo concreto: a defesa dos "cavalei-
fundadores daquelas escolas são os "irmãos da vida co- ros" e cidades, aliados contra o imperialismo da Igreja ro-
mum", os adeptos da "devotio moderna" de Ruysbroeck e mana e, logo depois, contra o imperador, o espanhol Carlos
Geert Groote. As casas da "devotio moderna" ganhavam V. Em Hutten encontram-se o nacionalismo humanista e o
a vida dos seus membros pelo ensino e pelo trabalho de misticismo religioso, dando como resultado a força polí-
copiar manuscritos. Reuchlin e Melanchthon saíram da- tica da Reforma luterana como 'movimento nacional. A
quelas escolas. No humanismo alemão viveu sempre um última obra que Hutten projetara, era um Arminius, uma
elemento de devoção mística: quando o humanista Conrad obra sobre o herói germânico que expulsou os romanos.

118) H. Flessner; Das Schicksal des âeutschen Geistes im Ausgang


seiner buergerllchen Epoche, Zuerlcli, 1935, 120) U. Paul: Studien zur Oeschichte dea deutschen jVatfonalbe-
119) W. Stammler: Von der Mystik zum Barock, 1400-1600, Stuttgart, wusstseins im -Zeitalter âes Humanismus und der Reformation.
1927. Berlin, 1S36.
606 OTTO MAEIA CARPEATJX •

Os "romanos" não foram expulsos, pelo menos não- : •

completamente; na Contra-Reforma, a Igreja romana vol-


tou, reconquistando vastas regiões da Alemanha. Mas a.
civilização alemã já estava luteranizada; já sé tinha sepa-
rado da Europa. :'

CAPITULO IV

RENASCENÇA CRISTA
•m

N OS manuais de história, o 31 de outubro de 1517 apa-


rece como uma data de primeira importância. Naquele
dia, Martinho Lutero, professor de Teologia em Witten-
berg, afixou na igreja principal da mesma cidade um car-
taz em que se propunha defender, contra qualquer adver-
sário, 95 teses que diziam respeito à venda de indulgências
pelas autoridades eclesiásticas. O comércio escandaloso de
bulas e cartas de indulgência indignara o monge contra a
Cúria romana, que arrancava de maneira pouco escrupulosa
imensas importâncias ao povo alemão para alimentar o luxo
renascentista dos prelados italianos. Com aquele ato, tão
comum ha vida universitária da época, Lutero conseguiu
excitar a indignação geral do povo alemão, o "furor teu-
tônico". Na disputarão com o teólogo Eck, na Universi-
>•
dade de Leipzig, confessou, depois, os seus intuitos, muito
mais extensos do que a supressão da venda de indulgências:
. reforma geral da administração eclesiástica, abolição de
todos os sacramentos menos o batismo e a eucaristia, abo-
lição do culto da Virgem e dos santos, das imagens e re-
líquias, substituição do latim, na liturgia, pela língua na-
cional, abolição do celibato do clero; enfim: abolição da
Igreja medieval para voltar à pureza da Igreja primitiva.
Sozinho, com coragem quase sobre-humana, imbuído da
consciência da sua missão divina, o monge desafiou a ex-
comunhão pelo Papa e a proscrição pelo imperador. A
. Í ••• • • • . • . ' . ' . '


HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 609
608 OTTO M A R I A CARPEATJX

Alemanha, e enfim a maior parte da Europa, aderiu a Lu- É verdade que Renascença e Reforma se encontraram,
tero ou a outros reformadores, discípulos ou competido- mas da maneira mais hostil: quando os mercenários lute-
res Beus. Na parte fundamental do seu sistema de sentir, ranos do Imperador Carlos V saquearam, em 1527, a cidade
pensar e viver, na religião, a Idade Média sofreu a primeira de Roma, destruindo para sempre o humanismo romano em
torno da corte papal. O acontecimento brutal é como uma
grande derrota. Então — afirmam ou afirmavam os his-
manifestação exterior do encontro espiritual entre Lutero,
toriadores — estava aberto o caminho para outras conquis-
o reformador, e Erasmo, o humanista, encontro que acabou
tas do pensamento livre: a tolerância religiosa, as ciências
em hostilidade para sempre. Devemos a Nietzsche a in-
naturais, a filosofia crítica, a crítica histórica e bíblica, até
terpretação da Reforma como movimento anti-renascentista
o mundo chegar enfim à liberdade espiritual completa dos
e portanto reacionário. Nos países onde a Renascença che-
séculos XIX e XX. Onde os povos não podiam acompa-
gou ao máximo esplendor, na Itália e na França, o protes-
nhar essa evolução, onde o protestantismo não venceu,
tantismo foi vencido e exterminado. Na Inglaterra semi-
como na Itália e na Espanha, ficou tudo em atraso lamen-
protestante — a Igreja anglicana considera-se como "via
tável. Deste modo, a Reforma, e em particular a Reforma
media" entre Roma e Wittenberg ou Genebra — a Renas-
luterana, seria o pendant religioso do outro grande mo-
cença só chegou com o atraso enorme de quase um século.
vimento libertador, da Renascença. A Reforma, ponto de
A Alemanha, pátria do luteranismo, não conheceu Renas-
partida do mundo moderno, seria a Renascença do cristia-
cença senão como importação estrangeira, logo eliminada.
nismo, a Renascença cristã. Eis como muitos manuais da E n t r e a Renascença "paga" e a "Renascença" cristã parece
história expõem os fatos, comentando a importância do dia haver incompatibilidade absoluta. As aspas foram coloca-
31 de outubro de 1517. das, aliás intencionalmente, uma vez no adjetivo é outra no
Na história dos erros humanos, é de uma esquisitice substantivo. J á se revelou ( x ) que a Renascença "pagã" não
extraordinária o fato de os próprios católicos terem taci- é totalmente pagã. Talvez a "Renascença" cristã não seja
tamente aderido a essa tese protestante. Ê grande a ten- uma Renascença. Os estudos modernos sobre Lutero con-
tação de construir árvores genealógicas de heresias para firmaram a segunda hipótese.
verificar qual o primeiro responsável. Assim, grande nú- Lutero ( 2 ) é uma das personalidades mais poderosas da
mero de teólogos, filósofos e historiadores católicos con- história universal; poderosíssima no bem e no mal. A ener-
sideraram e continuam a considerar Lutero como o pai es-
piritual de Bacon, Descartes, Voltaire, Rousseau, Darwin 1) Cf. "Quattrocento", nota 25; "Cinquecento", nota 28, etc.
e turíi quanti, acrescentando, em tempos mais recentes, 3) Martin Luther, 1483-1546 (cr. nota 40).
An den christliehen Adel âeutscher. Natíon t>on dei chttstUchen
os nomes de Marx e Freud. A interpretação de Lutero Standes Besserung (1520): Von der baTwlonUchen Qefangens-
como precursor de Kant, frequentíssima entre os católicos, chaft der Kirche (1520); Von der FretheU tinta ChrUtenmens-
chen (1520); Tradução do Novo Testamento (1632); Oetstliche
é diretamente emprestada aos historiadores do protestan- Lieãer (1524); Tradução do Velho Testamento (1534); Inúmeros
tismo liberal do século X I X , que são os responsáveis ime- sermões e tratados teológicos, etc; Tischreden (1556).
Edição de Erlangen, 100 vols.: 67 vols. de obra» em alemão, 2.»
diatos pelo erro. Pois de um erro histórico se trata no ed., 1862/1885, e 33 vols. de obras em latim, 1865/1873.
caso, de um erro que, se fosse mantido, tornaria impossível Edição critica de Welmar, ainda Incompleta, 54 vols., 1883/1928.
a compreensão da história moderna. Edição por O. Buchwald, I.* ed. 10 voU. Berlln, 1905/1906.

610 OTTO M A M A CARPEAUX HISTÓBIA DA LITERATURA OCIDENTAL 611

gia tremenda do seu sentimento religioso tem de ser re- a coragem singular do monge, rebelde contra todos os po-
conhecida e admirada por quantos sabem o que é o "senso deres da Igreja e do Império; a força do proscrito e exco-
de dependência" do "Deus absconditus"; se a sua angústia mungado que, sozinho, subleva uma nação inteira. É admi-
o levou a acessos quase patológicos de pavor da danação rável isso, também quando se admite que não são os indi-
eterna, a sensualidade brutal do homem é explicação par- víduos que fazem a história, e sim o conjunto de forças
cial; mas não é motivo para condená-lo; e nos momentos espirituais, sociais e económicas, pelas quais o rebelde de
de alívio, Lutero dispôs de vozes quase angélicas para can- Wittenberg foi bem servido: êle, a expressão religiosa das
tar o júbilo celeste. É possível que o reformador nunca perturbações políticas e sociais da Alemanha que exigiram
tenha tido um pensamento teológico original, um pensa- uma solução revolucionária.
mento que não tenha sido fruto de leituras imensas na li- Outra restrição, parecida, tampouco é capaz de anular
teratura patrística e escolástica; mas, pela energia com que a importância de Lutero em campo diferente, na história da ,
defendeu o que "o Espírito lhe insuflou", venceu todos os língua alemã ( 3 ) . Antigamente, Lutero foi' considerado . <•> .
adversários, talvez mais instruídos, mas menos firmes. como criador ex nihilo da língua alemã moderna; tê-la-ia
Como homem particular, Lutero era fraco: as Tischreâen criado, observando e empregando a linguagem dos seus pa-
('Conversas de Mesa') e o anedotário revelam um pequeno- trícios saxónicos, terminando a fase de decadência do ale-
burguês alemão, um "filisteu", com todas as virtudes de mão medieval. Depois dos estudos de Burdach, já não é
bom pai de família e excelente amigo, mas vulgar, gros- possível admitir isso: o alemão moderno é, em todos os
seiro, brutal; é precito conhecer de perto os costumes quase elementos essenciais, criação dos humanistas da corte im-
selvagem da Alemanha do século XVI para não nos assus- perial de Praga no século XIV, e essa "língua da chance-
tarmos ao contato mais intimo com Lutero, com os seus laria de Praga", depois empregada também nas chancela-
acessos de cólera, os palavrões ordinaríssimos, as enormi- rias das pequenas cortes da Saxônia, é a base da língua lu-
dades de toda a espécie que são, ao mesmo tempo, sinto- terana, que é, aliás, em relação ao alemão atual, bastante
mas de sua energia imensa como homem público. Os com- arcaica. Atualmente, admite-se, aliás, independência maior
promissos vergonhosos da sua velhice com os príncipes ale- de Lutero em face do uso linguístico saxônico. Mas, ainda
mães, chegando a admitir uma bigamia monárquica, a sua que assim não fosse, o papel de Lutero na história da língua
atitude impiedosa, crudelíssima, contra os infelizes campo- continua a ser extraordinário: se não criou aquela língua,
neses revoltados, tudo isso não basta para fazer esquecer pelo menos a fixou. E como estilista é incomparável. Nos
seus folhetos polémicos revela-se o maior jornalista dos
tempos modernos, e na tradução da Bíblia, por mais defei-
Edição das aulas sobre a Epístola aos Romanos: J. Flcker: Lu- tuosa que seja do ponto de vista da filologia, o domínio da
thers Vorlesung ueber âen Roemerbrief, Leipalg, 1908.
J. Koestlin: Martin Luther. Sein Leben und seine Schriften. língua para a qual traduz é assombroso. Lutero é o maior
6.* ed. 2 vols. Berlin, 1903. escritor da língua, o Dante da literatura alemã.
H. S. Denífle: Luther und Luthertum in âer ersten Entwícklung.
Vol. I. 2* ed. Matas, 1906. Vol. n . Maínz, 1905.
O. Buchwald: Martin Luther, 3.» ed. Leipzig, 1917. 3) P. Fietsch: Luther und tfíe neuhochdeutiche Schrifttprache.
H, Qrisar: Luthers Leben und Werke. 2." ed., 3 VOIB. Ftelburtr. Breslau, 1884.
1926. O. Reichert: Luthers deutsche Bíbel. Tuebingen, 1910,
J. Febvre: Vn deatin. Martin Luther. Paris, 1928. K. Burdach: Vorspicl Halle, 1925.
612 OTTO MARIA CARPEAUX HlSTÓBIA DA LITERATURA OCIDENTAL 613

Todas aquelas restrições não modificam sensivelmente Denifle, pela resistência de Lutero à disciplina conventual,
a imagem de Lutero na historiografia convencional: teria pela sua concupiscência indomável que exigiu certeza da
sido um grande libertador. A serviço de uma libertação salvação apesar de tentações irresistíveis e pecados reite-
ímpar na história universal estava a sua energia — palavra rados. Denifle destruiu, com energia digna do próprio
que sempre tem de voltar na caracterização da sua per- Lutero, a imagem convencional do reformador. Pela co-
sonalidade. Resta saber de onde lhe veio essa energia. A nhecida ironia da história, cabia a um jesuíta, Griaar, a
grande indignação de 1517, contra o comércio de indul- tarefa de retificar, por sua vez, os exageros de Denifle: a
gências, não é explicação suficiente; Lutero viu coisas honra do reformador como homem moral foi, contra ata-
assim durante anos, sem se revoltar, e sabia bem que aquele ques fanáticos e mal documentados, reabilitada, e a lenta
comércio justamente em 1517 não servia à corte papal e e angustiada evolução do pensamento religioso em Lutero
sim a negócios políticos de bispos alemães. Tampouco se melhor esclarecida. Mas ficou a imagem de um monge me-
pode alegar o que Lutero viu, em 1511, durante uma viagem dieval, preocupado só com a salvação da sua alma deses-
perada; uma figura que explica bem as atitudes anti-re-
para Roma; durante seis anos inteiros, a indignação ante a
nascentistas e reacionárias da Reforma, e que já não serve
corrução moral na capital da cristandade deixou-o dormir
para os discursos de centenário dos historiadores do pro-
em paz. O próprio Lutero alegou uma conversão repentina:
testantismo liberal.
no máximo desespero, quanto à eficiência dos sacramentos
para salvar a alma do pecador, ter-se-lhe-ia revelado o ver- Lutero é um homem medieval (*). A religião de Lu-
dadeiro sentido do versículo I, da Epistola Pauli ad Ro- tero não pretende, como a de Erasmo, uma Renascença
manos: "Justus «utem ex fide vivit" — não pelas boas cristã, uma volta ao cristianismo primitivo. Os seus pro-
obras nem pelas mortificações ascéticas se salva o pecador, blemas são os do augustinianísmo de um monge medieval:
mas tão-sòmente pela fé. Com efeito, a energia de Lutero concupiscência, predestinação, as boas obras. A graça pela
provim de uma conversão súbita que transformou e reno- fé não é, em Lutero, expressão de uma religiosidade indi-
vou o homem inteiro. Lutero é, segundo o termo da psi- vidualista, mas uma ajuda sacramental para chegar, com
cologia religiosa de William James, um dos grandes maior segurança, a uma vida santa. Lutero nunca preten-
twice-born, daqueles que "nasceram outra vez", como S. deu abolir os efeitos da fé na vida prática; apenas, pare-
Agostinho, Pascal e Kierkegaard. Mas as suas afirmações ciam-lhe melhor assegurados esses efeitos na mão do Esta-
sobre aquela revelação não correspondem exatamente à do leigo que na da Igreja corrompida. E de modo algum
verdade. Desde que Ficker descobriu o manuscrito das pretendeu Lutero substituir a autoridade espiritual pela li-
suas aulas sobre a Epistola ad Romanos, dadas em 1515/ berdade do pensamento ou qualquer outra; a Bíblia era o
1516, sabemos que Lutero professava já havia anos aquela seu "papa" infalível; infalível já mais de três séculos antes
interpretação de Rom., I, 17. Segundo o eruditíssimo do- da definição da infalibilidade papal; e Lutero destruiu a
minicano Denifle, toda a teologia medieval interpretou o tradição, o culto dos santos e tudo o resto, não por mo-
versículo da mesma maneira, e Lutero, professor de Teolo-
gia, devia saber disso; ao exagero do fideísmo exclusivo,
da redenção pela fé "só", chegou Lutero em consequência 4) E. Troeltsch: Protestantisches ChrUtentum und KircTie in áer
Neuzeit. (In: Díe Kultur der aegcnwart, edlt. por P. Hinneberg,
da sua adesão ao nominalismo, e isso foi motivado, segundo P. I, t. IV, vol. I. Leipzig, 1908). — Cí. nota 54.
614 OTTO M A R I A CARPJEÀUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 615

tivos de racionalismo ou livre-pensamento, mas para con- Tampouco é possível recorrer ao calvinismo. Calvíno (K)
servar melhor a autoridade única e absoluta do Verbo di- é uma personalidade menos espetacular, mas não menos
vino. Por tudo isso, a nova Igreja luterana pôde fazer, na poderosa do que Lutero. Não sabemos quase nada a res-
Confissão de Augsburg, concessões consideráveis ao cato- peito da formação do seu pensamento religioso; mas os
resultados são manifestos: uma energia como a de Lutero,
licismo; durante os séculos X V I e X V I I conservaram-se
apenas melhor disciplinada por uma espécie de classicismo
imagens de santos e trechos da liturgia católica em muitas
inato da raça. Calvino passara pela formação humanista,
igrejas luteranas, e a própria Igreja luterana não cessava
e a sua Institution de la religion chrétienne pertence, pela
de considerar-se a si mesma como ramo separado da Igreja clareza um pouco seca do estilo, à região dos precursores
católica. Na Reforma luterana não há que procurar nada do classicismo francês. Mas não se pode falar, a propó-
de "Renascença crista". sito de Calvino, em humanismo. O seu dogma central, o
da predestinação, é um dogma augustiniano e portanto ca-
O que poderia ser chamado assim é o protestantismo
tólico; o seu conceito da autoridade espiritual, por ser
liberal do século X I X . AH todos os vestígios da Igreja
concentrada nas mãos da própria Igreja, não é menos in-
medieval estão realmente eliminados, e dentro de um credo flexível do que o conceito luterano da autoridade eclesiás-
vago, que admite interpretações simbólicas e alegóricas do tica do Estado leigo. Pela evolução da comunidade cal-
dogma, há lugar para todos os racionalísmos e o próprio vinista no sentido da democracia crista e soberania popu-
livre-pensamento. O fundador desse protestantismo liberal lar, evolução posterior a Calvino, o reformador não é res-
é Schleiermacher; ele era realmente o que se pensava que ponsável, e menos ainda pelo racionalismo que só muito
Lutero fosse, o Padre da Igreja de uma Renascença cristã. mais tarde começou a atenuar o puritanismo. O que cria
Contudo, Schleiermacher não é racionalista; a sua fé, em- certo erro de perspectiva é a relação entre o espírito puri-
bora livre de todas as limitações dogmáticas, é antes mís- tano e a evolução do capitalismo. Por isso, o calvinismo
tica, revelando as suas origens e educação na seita dos parece mais moderno do que é; mas esse "modernismo"
Herrnhuters, que, por sua vez, derivam de outros ramos, económico não tem nada que ver com Renascença crista.
Os elementos humanistas, puramente formais, em Cal-
não luteranos, da Reforma do século X V I . Em outra parte
vino, provém da influência que exerceu sobre ele, indire-
da Reforma, fora do luteranismo, será possível encontrar
tamente, o reformador suíço Ulrich Zwingli ( ' ) : o menos
a verdadeira Renascença cristã daquela época.

Com efeito, não é admissível limitar a pesquisa à Re- 5) Jean Calvin, 1509-1564.
Instltutio religionis christianae (1538); edição francesa: Insti-
forma alemã, ou antes norte-alemã, saxónica; esse ponto tution de la religion chrétienne (1541).
de vista estreito era justamente o do protestantismo liberal, Edição da versão francesa por A. Lefrano e J. Pannler, 2 vols.,
Paris, 1912/1913.
alemão, do século XIX. Mas a saída não é fácil. A Igreja A. Autln: Ulnstitutíon chrétienne de Calvin. Parla, 1929.
anglicana, apesar do seu "liberalismo" inato, não entra em P. Imbart de la Tour: Calvin. L'Intíltution chrétienne. Pa-
conta; é uma Igreja criada pela vontade do poder real, ris, 1935.
6» tTIrlch Zwingli, 1484-1531.
"via media" entre protestantismo político e catolicismo li- B. Zeller; Das tkeologische System Zwinglls. Tuebingen, 1853.
túrgico, e nunca teve projeção no continente europeu. R. Staehelin: U. Zwingli. 2 vola. Basel, 1395/1897.
W. Koehler: Die Geisteswelt VlHeh Zwlngltt. OoUm, 1920.
616 OTTO M A E I A CARPEAUX HISTÓBIA DA LITERATURA OCIDENTAL 617

considerado entre os grandes reformadores, porque foi ven- nianos da Holanda, nos "Independentes" — de cujas fi-
cido. Morreu no campo de batalha, numa pequena guerra leiras saiu Cromwell — e nos batistas e quakers da In-
contra os suíços católicos. A Suíça tornou-se, depois, pre- glaterra e da América. E da Holanda voltaram, no século
ponderantemente calvinista. Mas Zwingli é uma perso- X V I I I , para a Alemanha, como irmãos da Morávia, Herr-
nalidade interessantíssima, e o seu papel, embora sempre nhuter — entre os quais Schleiermacher se educou — e
indireto, na história espiritual europeia, foi notável. Zwin- pietístas. Aí estão as raízes da democracia cristã e do pro-
gli, este sim, é um humanista legítimo: Platão, a filosofia testantismo liberal.
estóica de Séneca e o sincretismo religioso de Pico da Mi- O fundamento teológico dos credos sectários era uma
randola exerceram sobre êle influência profunda; e — íast observação exegética que escapara aos reformadores: a di-
but not least — Erasmo. A teologia de Zwingli aproxima- ferença entre o pensamento do apóstolo Paulo, colocando
se bastante do panteísmo e do conceito de considerar o no centro do cristianismo os conceitos de pecado e graça
cristianismo como uma forma entre outras formas, se bem e exigindo a submissão do pecador perante a autoridade
que a mais desenvolvida, da religião universal; às vezes, civil, e, doutro lado, o Sermão da Montanha, cuja ética
parece racionalista. Essas doutrinas não dissolveram in- apocalíptica não seria compatível com Estado leigo, Igreja
teiramente o cristianismo da Igrejc zwingliana de Zurique, organizada, ordem social e civilização profana. Em Zwin-
porque Zwingli era político conservador: o seu fim era a gli essa distinção desapareceu em face do voluntarismo
república cristã da burguesia de Zurique. Mas entre as político do reformador. Sustentaram, porém, essa distinção
massas populares da Alemanha meridional e ocidental, pe- os sectários revolucionários e, por motivos diferentes, os
quena burguesia e camponeses, angustiados pelas conse- intelectuais que, sem pensar em realização imediata, in-
quências terríveis da dissolução da ordem agrária do feu- sistiram na volta do cristianismo às suas origens evangé-
dalismo e da deslocação das vias de comércio pelas desco- licas, assim como o humanismo tinha voltado às origens,
bertas geográficas, as doutrinas radicais de um Zwingli e às fontes da erudição clássica. Eram os humanistas cris-
o espiritualismo da Reforma em geral, encontraram um tãos que se chamavam erasmianos, por serem discípulos
eco diferente. Não lhes parecia admissível substituir a do homem que fora o primeiro a observar aquela diferença
autoridade dos teólogos antigos pela autoridade dos novos de doutrinas dentro do Novo Testamento: Erasmo de Ro-
teólogos, e na tentativa da comunicação direta com Deus, terdão.
sem intermediário eclesiástico, misturaram-se lembranças "Renascens pietas, restitutio Christianismi, Christum
do misticismo medieval com veleidades de revolução so- ex fontibus praedicare": eis o lema do humanismo crÍBtão,
cial: toda a autoridade visível é diabólica, tanto a ecle- e ao mesmo tempo a enumeração dos fatôres que influíram
siástica como a leiga, e contra a aliança das novas Igrejas no pensamento de Erasmo.
reformadas com príncipes, feudais e burgueses recorreu-se "Renascens pietas": a região na qual Erasmo nasceu
às ameaças sociais dos profetas do Velho Testamento. é a dos místicos holandeses e renanos, dos discípulos de
Assim nasceram as seitas dos anabatistas revolucionários. Ruysbroeck TAdmirable. Por volta de 1380, Geert de
Na Alemanha foram vencidos. Mas sobreviveram, atenuan- Groote introduziu em Deventer e Zwolle a "devotio mo-
do as reivindicações sociais e as esperanças apocalípticas, derna", nova forma de devoção, abstendo-se das hipocrisias
nos unitários italianos e poloneses, nos menonistas e artoi- mecanizadas dos monges e do intelectualismo seco dos es-
618 OTTO M A R I A CABPEAUX
HiSTÓau DA LITEBATURA OCSOB1^*^ 6 1 9

colásticos: uma mística simples e até simplista, aspirando p e r g u n t a então o q ue 0 mundo deve a E r ^ m o - í j a c o r -
à simplicidade do Evangelho primitivo ( T ). Lá foi escrita respondência de Erastno, coligida por P- g ' }%n, não
a Imitatio Chiistt. Os irmãos, silenciosos e trabalhadores, se encontra a respo sta a essa carta orgul h o E l 3 ' e no * f ainda
ganhavam a vida copiando manuscritos e ensinando os me- hoje, sentimos dificuldades em responder. ^[^J^0
ninos. As suas escolas, da Renânia até o Báltico, semea- era um
trabalhador ingente; além de numerosos tr3tad 0 s ^
ram o amor às letras clássicas. Erasmo foi aluno das es- sos, filosóficos, filológicos, satíricos, e além <* su 9 ^ ^ a

colas de Gouda e Deventer; depois entrou na Ordem dos pondencia, que co n 5 t i t u i u m a enciclopédia *• BUa 6
Agostinhos, à qual Lutero também pertenceu. Como este, Erasmo deu a p r i r ^ a edição do texto g ' c S ° \ £ovo
o jovem humanista não suportava a disciplina conventual. Testamento (1516) e d i r i g i u a g r a n d e e diç3° b a * í l e e n s e
Da "renascens pietas" foi para Vala e Pico da Mirandola, dos Padres da Igr eja . Mas esses trabalhos, de VaL^ f u n _
Cícero e Séneca, e o humanista Erasmo não se teria tor- damental na época, M t g 0 superados há toai** • o .
nado humanista cristão sem a "restitutio Christianismi" dos disse sobre tolerância verdadeiro cristianismo e m ;
ingleses. d o espírito, foi r e p e t í d o i n ú m e r a 8 v ê z e S d e P°is ^ 8 u a
A tradição é de Oxford, fortalecida pela renovação dos morte e tornou-se, e n fi m > lugar-comum. T u d ° 0 ^
estudos gregos. No pensamento do venerável John Colet *reveu está em lati*, e ntão língua dos horfl*™ c ^ ^ ^
(") influiu o caso de Savonarola, demonstrando-lhe a ne- Continente inteiro, ho je língua morta, só conhaci^ d o g
cessidade da "reslit utio Christianismi": como anglo-saxão, especialistas e mestres_escolas. Erasmo é cor* 0 *m ^
acreditava no poder da pedagogia. O fundador da escola escurecido pelo temp0j apagada a legenda, « * g * ^
de St. Paul's e co-autor (com William Lily) da famosa gunta: " Q u e m UàV Mas nunca se soube b e m qiu P f
Eton Latin Grammar foi principalmente o grande peda- Erasmo. Carlos V, 0 i r n p e r a d o r católico, c b * » " * - ^
gogo do humanismo cristão; chegou a doutrinar Erasmo. ráter cnstianíssimo", e um t e ó I o g o p r o t e s t a n t e m ^ ^
O meio de renovação da "restitutio Christianismi" era o acompanha essa opi n i S o : "Profeta da ira s**™*» t ( m t r a
mesmo por que se renovaram os estudos gregos: consistia
em voltar às fontes. Daí o programa do humanismo cris-
tão: "Christum ex fontibus praedicare". Edição das cartas Wr P . B . AUen, 9 vols., O*lord- "Oí/V
Em 1530, Erasmo (») escreveu a um amigo: "Compara í 1 ^ ? U d e : Tke ty* anú Lmera °f Eravnus. ^ « ^ L
o mundo como foi há trinta anos com o mundo atual, e R S^AHen: The % of Srasmu9. Oxford. !"*• '
W. Koehler: Desiitrivs Erasmus. Zuertch, W1*' „
Pr. Smtth: Eram^ A stuãy of His Life, « • * " ai* K
7) E. Bruggeman: Les mystiques flamante. Lille, 1828. History. New York, I92 3.
8) John Colet, c. 1467-1519. J. B. Plneau: íro % e rf'to Papauté. Paris, l " * - _ „
J. A, R. Marriott: The Life of John Colet. London, 1933. W24) a:
*s- e a a r l e n l ' 1924 ' < trad " *** ** York.
fi) Desideriíis Erasmus de Rotterdara (Gerrit Gerrítssoon), 1467-1536. E. Pfelífer: Humaníta3 Erasmiana. Baael, !»»>•
Aãagtorum CoUectanea (1500); EnchirtdUm Militis Chrixtiani A. Maison: Erasnu, p^ls, 1933
(1504); Moríae Encomíum (Elogio da íolia) (1509); Querela pa~ Th Quonlam; Era^ P a r t s , iS3B.
cU (151B); Familiarium, coUoquiorum opus (1524); De libero ar-
bítrio (1624); Ciceronicmwi (1528); Apophteamatum sive scíte Z ? * B L Vman***o e concezione religiosa '» * n U , , t ó d nmRot.
terâam. Rrensse, 183S ^
dictorum I. VI (1531); etc. P. S. AUen, J. Hufc^ e outros: Oeamkachrift *ttm m- >odes.
Opera omnia, ed. por J. Le Clerc, 11 vols., Leyden, 1703/1706. toff ães Erasmo* v^ R0tterdam. Ba«I, 1938-
Opuscula Inédita, ed. por W. K. Fergiuson, Haag, 1033. R. A. Melsslnger: Stamus. Zuerieh, 1M2.

v
620 Orro MARIA CARPKAUX
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 621

tudo o que é falso e bárbaro". Mas o próprio Lutero cha- pria estrutura dó seu pensamento é estética, não admite
mou-Ihe "inimigo e adversário do Cristo, retrato de Epi-
emoções vagas, só articuladas, formadas; e o sentimento re-
curo"; e Pastor, historiador católico moderno acompanha
ligioso precisa também de uma forma, que é a Igreja. Eras-
a opinião do reformador: "Orador superficial, com velei-
mo i esteta, mas não esteticista: o culto da forma como
dades de paganismo". O próprio Erasmo fêz muito para J
Tart pour l'art" lhe repugna, e contra o ciceronianismo
criar equívocos: pensador intrépido e homem esperto, nem
vazio dos humanistas italianos lançou o panfleto Cicero-
sempre houve por bem exprimir claramente a sua opinião.
manus. Mas o seu gosto fino só admite formas claras e
As vezes encobriu-a em ambiguidades intencionais para evi-
simples: a sua crítica das formas antipáticas, "barrocas",
tar a perseguição, e outras vezes dissimulou a verdade por
do catolicismo vulgar, parece luterana — Lutero também
motivos financeiros, porque Erasmo era um intelectual in-
dependente — o primeiro do mundo moderno — que viveu pretendeu simplificar o culto e a devoção — e é antes o
da sua pena. Beste modo, parece aos católicos (e também simplismo intencional da "devotio moderna", lembrança da
a Dilthey) um Voltaire do século XVI, e aos protestantes infância entre os místicos holandeses. Também não é mero
(e também aos livres-pensadores) um representante do racionalismo a sua exegese crítica da Bíblia; só lhe repug-
cristianismo pelagíano, otimista até à negação do pecado nam as histórias, às vezes tão duvidosas e pouco decentes,
original e precursor do liberalismo. do Velho Testamento. Até a história da tentação pela
.serpente só lhe parece aceitável como alegoria, e aos his-
É certo que Erasmo não era ortodoxo: dogmas essen- toriógrafos dos reis de Israel prefere Lívio. O seu in-
cial! e forma» de culto tradicionais, êle os rejeitou, mas teresse no cristianismo é principalmente o do moralista;
nem sempre por heresia. Quoniam chamou a atenção para sem dúvida^ é ilegítima sua transformação da Imitatio
a atitude de Erasmo rejeitando a interpretação tradicional Christi em suma de elevados preceitos morais. Isso o ajuda
da angústia de Cristo em Getsêmani como expressão de a ignorar o entusiasmo apocalíptico e a hostilidade contra
compaixão pelos seus assassinos e afirmando o verdadeiro A civilização profana nos discursos do Evangelho. Obser-
medo de Cristo; parece blasfémia, mas é o zelo de conser- vando a diferença entre a doutrina do apóstolo Paulo e a
var a natureza humana em Cristo (o que é perfeitamente do Redentor, Erasmo rejeita os dogmas sombrios do pe-
ortodoxo); é humanismo cristão. Parece que Erasmo foi cado original e da predestinação, e só quer seguir a lição
ariano, não acreditando na divindade de Jesus Cristo; mas serena, "bela", do próprio Cristo, a mesma — acha Erasmo
exprime a heresia nas seguintes palavras, algo joco- — que se encontra em Platão e Séneca. Como Pico da Mi-
sas: "Se a Santa Madre Igreja exigisse não acreditar na di- randola e Zwingli, Erasmo acredita na revelação universal
vindade de Jesus Cristo, mesmo assim eu obedeceria", e de Deus através da Bíblia e das letras clássicas que não
essas palavras não eram mera brincadeira Erasmo zombou são menos sacras, que são "bonae Htterae", e "bom", "belo"
dos monges e do seu culto mecanizado, era inimigo das re-
e "santo" — para êle é tudo o mesmo. Essa síntese de hu-
zas multiplicadas, do culto dos santos, quando degenerado
manismo e cristianismo, esse humanismo cristão é a reli-
em idolatria, do dogmatismo, quando degenerado em espe-
gião do verdadeiro "cavaleiro", do "cortegiano" da Renas-
culação vazia — mas não era inimigo da Igreja. Ao contrá-
cença cristã, para o qual Erasmo escreveu a manual do
rio, declarou-se sempre filho submisso do Papa romano, e
cristianismo simplificado, moralista e estético: o Enchirí-
não por hipocrisia. Erasmo é homem da Renascença, a pró-
dion militis Christiam. Ê a Imitatio Christi dos homens
622 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 623

deste mundo. Com o júbilo do homem da Renascença q u e peu" no sentido de Nietzsche. A sua verdadeira pátria é
se vê indo ao encontro de um novo mundo, Erasmo lança a terra borgonhesa, entre a Itália e os Países Baixos, entre
as palavras do Cristo: "Veritas liberabit vos". a França e a Alemanha, que nunca teve nacionalidade bem
definida: as três grandes cidades dessa região, Basileia,
Nesta altura Erasmo chocou-se com a Reforma. Nas
Estrasburgo e Antuérpia, são as cidades de Erasmo. Lá,
doutrinas de todos os reformadores (menos Zwingli), a de-
estava em casa; em todos os outros países, sempre foi con-
pendência absoluta do homem em face de Deus estava no
siderado estrangeiro, um monge défroqué, um semivaga-
centro das angústias religiosas. Em De servo arbítrio, Lu-
bundo vivendo da sua pena, «em pátria como o próprio Es-
tero afirmou a incapacidade completa da alma humana de
pirito. Erasmo é, também, em certo sentido, o último go-
salvar-se. Contra ele, Erasmo defendeu, em De libero ar-
liardo, homem do passado. Em outro sentido, porém, o
bítrio, a doutrina católica. Não limpou, com isso, a sua má
seu espírito é a imagem de uma Europa que ainda hoje
fama entre os católicos; só ganhou hostilidade feroz dos
não nasceu.
protestantes. Mas Erasmo, desta vez, devia falar claro.
Devia levantar-se contra a Reforma, porque a revolução re- A influência de Erasmo era europeia. Os heréticos
ligiosa exigiu atitudes definidas e tornou insustentável a italianos, que não quiseram separar-se da Igreja, os Marc'
posição "neutralista" de Erasmo no meio, entre os adeptos António Flaraínio, Aonio Paleario, Francesco Negri, eram
e os adversários da reforma eclesiástica. O seu ideal se- erasmianos, mesmo quando hostis a êle por motivo do ci-
creto foi a "Terceira Igreja" dos intelectuais esclarecidos, ceronianismo obstinado dos italianos. E m Louvain, Erasmo
uma Igreja de pacificação europeia. A luta entre as Igre- havia fundado em 1518 o "Collège des Trois Langues", para
jas e seitas, assim como a guerra entre os príncipes cris- cultivar as línguas sacras, a latina, a grega e a hebraica,
tãos — guerra civil entre cristãos e europeus — significava e em 1530 críou-se, segundo esse modelo, o "Collège Royal"
para êle o horror da abominação, e contra esse horror lan- ou "Collège des Trois Langues" (hoje Collège de France),
çou a eloquência pacifista da Querela pacis. Porque a em Paris, o centro do erasmísmo francês.
guerra torna impossível o trabalho independente do inte- Na Inglaterra, os amigos e discípulos de Colet cons-
lectual independente, e eis a fórmula que define Erasmo. tituíram um grupo erasmiano, do qual Thomas Morus ( x o )
A própria ambiguidade do grande humanista apenas é o era o príncipe espiritual. Este não pode ser diminuído
reverso da sua independência, e o reverso da Querela pacis
é o Moriae encomium, a sátira mais brilhante da Renas-
10) Thomas Morus, 1478-1535.
cença, elogio da loucura contra os absurdos dos razoáveis, Utopia C1515/1516); RUtory of Rbshard Hl. (1518).
elogio da Razão contra a loucura de toda a gente. A t é na Edição por W. E. Campbell, A. W. Reed • R. W. Chumbar», 2
sátira, Erasmo continua ambíguo, assim como é ambíguo, vols., London, 1931.
W. H. Hutton: Thomas More. London, 1895.
aos olhos dos sábios deste mundo, o próprio espirito. E. Dermenghem: Thomas Morus et lei utopUtes de Ia Renalssan-
ce. Paris, 1927.
Erasmo é o primeiro grande intelectual da Europa mo- E. M. O. Routh: Sir Thomas More and Hit Frtends. Oxford,
derna. E da Europa inteira: holandês por nascimento, 1934.
R. W. Chambers: Thomas More. London, 193B.
francês, inglês, italiano por formação, alemão por decisão F. Battaglia: Saggi sull' Utopia di Tomtnam Moro, Bologna,
própria, espanhol pela cidadania política, Erasmo é o pri- 1349.
meiro europeu moderno que é só europeu, o "bom euro* J. K. Hextor: Mor&s Utopia. New Haven, 1964.
624 Oiro MARIA CAHPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 625

pelas discussões da historiografia partidária: para os ca- der-se-ia responder que êle é um dos mártires mais ilustres
tólicos, o chanceler do rei Henrique VIII é o santo mártir entre os intelectuais, e ao mesmo tempo o único santo do
do catolicismo inglês, o santo que preferiu a morte no socialismo. Seria uma resposta erasmiana.
patíbulo à submissão ao tirano cruel e cismático; e para O erasmismo tinha os seus agentes na Europa in-
os progressistas, Morus é o criador da primeira utopia, do teira. Entre eles, o famoso erasmiano português Damião
primeiro sonho de uma ordem socialista. Não adianta nada, de Góis ( l l ) , e o belga Félix Rex, que chegou a ser diretor
como se vê: os erasmianos ficam sempre envolvidos em da Biblioteca ducal, em KoenigBberg, o primeiro bibliote-
dúvidas, e o maior dos erasmianos ingleses tem o seu altar cário prussiano. Lá, na Europa oriental, havia erasmianos
na basílica de S. Pedro, em Roma, e uma estátua em Mos- entre os antitrinitários e outros sectários da Polónia e da
cou. A Utopia não pode ser classificada entre as obras pre- Transilvânia, e também entre ortodoxos insuspeitos. Até
cursoras do socialismo moderno: a vida, naquela ilha fan- o jesuíta Skarga (12)f nos seus discursos perante o Parla-
tástica, está sob disciplina conventual, e a economia diri- mento aristocrático da Polónia, c