Mário Ferreira dos Santos

A Sabedoria da Unidade

1

A Sabedoria da Unidade Mário Ferreira dos Santos

Mário Ferreira dos Santos

A Sabedoria da Unidade

2

"A sabedoria é a ciência das coisas divinas". "A sabedoria, pela qual somos sábios, é uma participação da Sabedoria divina". "A sabedoria é ciência enquanto versa acerca das conclusões, mas difere das outras ciências enquanto é acerca dos princípios". "O dom da sabedoria está na razão superior; o dom de ciência, na razão inferior". Santo Tomás de Aquino

"A sabedoria existe antes de todos os séculos”. “A memória de meu nome durará por toda a série dos séculos”. “Aqueles que me comem terão ainda fome, e aqueles que me bebem terão ainda fome”. Eclesiástico

Quando a sabedoria penetrar em teu coração e o saber deleitar a tua alma, a reflexão velará sobre ti, amparar-te-á a prudência para livrar-te do mau caminho, do homem de conversas tortuosas... Provérbios, 2 - 10-12

"MÉTODO DA SABEDORIA - objeto dessa disciplina é dar ao sujeito o hábito de aplicar a penetração adquirida por meio das disciplinas precedentes. Quando o sujeito se levanta, está em pé, anda, faz algo, detém-se, deveria constantemente concentrar a sua mente no ato e na execução não na sua relação com o ato nem no caráter e valor do ato. O sujeito deveria pensar: isto é andar, isto é deter-se, isto é advertir; e não: ando, faço isto, é bom, é desagradável, realizo mérito, sou eu quem adverte, como maravilhoso é. Daí nascem pensamentos vagarosos, sentimentos de júbilo, de malogro, de desdita. Em vez de tudo isso, o sujeito deveria simplesmente praticar a concentração da mente no próprio ato, entendendo como meio conveniente para alcançar a tranqüilidade mental, advertimento, penetração e sabedoria, e deveria seguir a prática com fé, com desejo e alegria. Após longa prática, as ataduras aos velhos hábitos se afrouxam até romper-se, e em seu lugar aparecem: confiança, satisfação, advertimento e tranqüilidade. Quem está destinado a revisar este método da sabedoria? Há

Mário Ferreira dos Santos

A Sabedoria da Unidade

3

três circunstâncias que impedem o sujeito avançar pelo caminho da iluminação: 1) Estão as seduções que surgem dos sentidos, das condições externas e da mente que Ihes serve. 2) Estão as condições internas da mente, seus pensamentos, desejos e humores. As primeiras práticas estão dispostas para eliminar todos esses obstáculos. 3) Na terceira classe de impedimentos figuram os impulsos do sujeito, instintivos e fundamentais, e, portanto, mais insidiosos e persistentes; a vontade de viver e gozar, a vontade de estimar a própria personalidade, a vontade de aumentar, que dão origem à cobiça e à concupiscência, temor e ira, orgulho e egoísmo. A prática do método da sabedoria está destinada a dominar e eliminar estes estorvos fundamentais e instintivos. Por meio dela, a mente se torna pouco a pouco mais clara, mais luminosa, mais tranqüila. A penetração se torna mais aguda, a fé aprofunda-se e abrange até que se funde no inconcebível SAMADHI da pura essência da mente. À medida que o sujeito adianta-se na prática do método de sabedoria, vai prestando-se cada vez menos a pensamentos de consolo ou desolação; a fé se torna mais firme, mais penetrante, benéfica, e se desvanece o temor de um retrocesso; não se pense, porém, que a consumação se pode conseguir fácil ou rapidamente; talvez sejam necessários muitos renascimentos, talvez tenham de passar muitas idades. Enquanto a dúvida, a incredulidade, a calúnia, a má conduta, os obstáculos do KARMA, a debilidade da fé, o orgulho, a preguiça, a agitação mental persistam e ainda enquanto não se retirem as suas sombras, não pode haver êxito do SAMADHI dos Budas, mas quem alcançar o primeiro dos mais altos SAMADHI, o conhecimento unitivo, poderá advertir com todos os Budas a perfeita unidade de todos os seres sensíveis, como DHARMAKAYA búdica. Na pura DHARMAKAYA não existe dualismo nem sombra de diferenciação. Todos os seres sensíveis veriam, se fossem capazes de adverti-Ia, que estão já no Nirvana. A pura Essência da Mente é o altíssimo SAMADHI, é a ANUTT ARA-SAMY AK-SAMBODHI, é PRAJNA PARAMITA, é a altíssima sabedoria perfeita". Ashaghosha (hindu)

para argumentar contra o logos ontológico apegam-se ao logos pragmático. um. o ponto de vista. ainda. com emprego da precisão dialética do nosso entendimento. Contudo. conseqüentemente. a forma. a lei de proporcionalidade intrínseca. querem subverter. o de construção sintáxica. que vão dar mais precisão à esquemática. encontramos. já que os elementos da unidade sofrem acidentes. que se confunde quase sempre com o primeiro. afirmou que o esquema eidético-noético fosse a cópia fiel do logos ontológico. kantistas. que vem desde Pitágoras. que é um logos esquemático. os quais são os logoi mais altos que pode alcançar o ser humano. da nossa pragmática. quando se trata de uma unidade também acidental. que corresponde. é também um poder que rege a unidade. sobretudo. ao logos empírico. mas ativos. com variações acidentais. enquanto é isto ou aquilo. ela está sujeita a variantes: enquanto. como acontece numa célula viva. e. o que neste ser se proporciona pode sofrer acidentes e. que são construídos pelo homem no decorrer da sua existência. que sofre o homem comum. aos quais se atribui esta doutrina. no qual incluimos o logos lógico. Esse logos pode ser meramente acidental. no segundo. a lei de proporcionalidade intrínseca é invariante. que não tem as precisões do lógico. tem o logos da sua estrutura eidética. que está na coisa. e outros aparentados. sobretudo quando o logos lógico recebe uma precisão mais filosófica. e entre esses logoi. a opinião. as . com exceção de alguns platônicos. por ser o que ela é. temos. Mas o logos ontológico é alcançado através da sintaxe. Esta conquista se deve à longa especulação e à disciplinação do pensamento humano. que podemos estabelecer: 1) o logos da estrutura eidética. como a unidade de um artefato. sofrer também variações. Alguns filósofos menores. o logos metafísico. e funda-se no logos lógico. e pode ser substancial. como os neopositivistas. No primeiro caso. Aristóteles. 2) o logos eidético-noético. por não atingir aquele grau abstrativo mais elevado. intencionalmente. constituído de esquemas fácticos comuns. ao logos eidético-noético. alcançado através da precisão intelectual. mas vários. Temos o logos noético-fáctico. mas além de ser tal. Deste modo. Nenhum grande filósofo. conforme concebamos mentalmente a variância e a invariância.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 4 CAPÍTULO I O LOGOS DA UNIDADE A unidade. que é uma variedade natural das deficiências da precisão. desejando fazer retomar para o campo da Filosofia. Platão. com aderências acidentais. Alguns autores modernos. a doxa. através de Sócrates. extraído da experiência humana. dos escolásticos. não um logos. que o permita alcançar o logos concreto.

porém não deixa de ser composta. inclui-os. É óbvio que a essência inclua o que classificamos como conceitos transcendentais. é presidida. como a unidade de uma célula. que dá esta unidade. sem que ele tenha unidade. Percebemos que a lei da unidade rege as coisas. Mas tudo isso se deve ao desconhecimento sistemático do que já foi realizado. é absoluta. em suma. a tornar a filosofia subjetiva predominante sobre a filosofia objetiva. em vez de volvermos a velhos erros já refutados. unidas por uma lei que rege esta unidade enquanto tal. uma lei. enquanto tal. Quer dizer. e a torna distinta das outras. além de haver a proporcionalidade intrínseca. Esta cadeira também tem uma lei de proporcionalidade intrínseca. há um esfôrço tensional. as suas partes componentes. em que as partes funcionam segundo o interesse da totalidade. Não é possível que haja alguma coisa. pois no caso da célula viva. assim. 2) a lei da unidade. que constituem a sua estrutura eidética e a sua estrutura hilética. como o de unidade. e. àqueles logoi arkhai. que deveria ampliar-se. que dá unidade à cadeira. de maneira que esta é pertencente. porque só se dão quando são também unidades. Ela é regida por algo que a transforma. Esta lei não é constituinte de sua essência propriamente. é dela ab-solta. contudo. porém não se define por eles. formando um todo in se. simplificar da seguinte maneira: há um logos da unidade. tendem. de modo que todas dependem dela. Esta coisa constitui uma unidade. do qual esses filósofos constroem apenas visões caricaturais. a lei da unidade. Esse logos da unidade. um tónos. mas este não é apenas a forma. dá-lhe uma unidade. em substituição à epistéme. tomada sob o aspecto meramente matético. que é o logos matético da unidade. que. de que falavam os pitagóricos. digamos uma unidade secundum quid. o que lhe dá unidade. tem algo como uma força que domina a totalidade. também. ou seja. mas a tensão. Mas a lei da unidade ainda pode ser desdobrada em duas: 1) a lei da unidade eidética da coisa. portanto. pois esta. sem ser regida pela lei da unidade.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 5 perspectivas. . o de alguma coisa. é um logos concreto. como ela é. não é apenas a lei de proporcionalidade intrínseca. por essa lei. Podemos. áliquid. que já foi conquistada. Neste caso. tomada ônticamente. segundo a sua qüididade. enquanto que o ser vivo não é apenas uma disposição mecânica. É verdade que não é possível dar-se um ontos qualquer. estão unificadas. que constitui o princípio da coisa. é produto de uma disposição mecânica e geométrica das partes.

que a fêz para servir que o ser humano nela se assente. além disso. que vai dar a unidade. porque esse é um dos seus aspectos. daí a expressão to synolon. Devemos chamar a atenção para três termos.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 6 Na cadeira. holos. aqui. na célula. como nos seres vivos. a presença. que tem uma estrutura eidética na constituição da sua tectônica. porque é uma unidade acidental. que é o logos eidético. de modo que as partes permaneçam subordinadas ao interesse do todo. ele constitui um holos. um plethos. pois a sua unidade é formada pelo ajustamento de partes obedientes a um logos. temos a estrutura hilética. o uso de termos como plethos. um que é a lei de proporcionalidade intrínseca. por apresentarem um tonos. Esta também tem logos. que passarão a ser usados pela Matese. quer dizer. e esse conjunto todo vai formar um composto. que é este esfôrço intrínseco. A unidade de um ser absolutamente simples é henos (do que é hen. foi ela tomada por um de seus aspectos. pelo logos hilético e pelo logo tonos. Assim um ser. e não na sua integralidade. a distinção. Ora. e o logos que é o tónos. Ela. que rege a proporcionalidade intrínseca das suas partes. [H1] Comentário: A tectônica é composta então pelo logos eidético. é um tónos. a tensão. Quando se trata de um ser relativamente simples. que vem de syn e holos. além de ser uma lei de proporcionalidade intrínseca. de que falavam os pitagóricos). que vai reger o funcionamento da coisa. [H2] Comentário: A forma não é apenas a lei da proporcionalidade intrínseca – os seres vivos constituem e exclusão. de dois logoi. Um artefato. que constitui a parte eidética da coisa. é um holos. e funcionem segundo esse interesse. . o que constitui a sua tectônica. constitui um plethos. Encontramos. e podemos mostrar. um). mas. e henos. segundo uma lei de harmonia. tomada no seu aspecto geral. como veremos posteriormente (arithmós harmonikós. unidade de composição. Essas distinções não são distinções meramente artificiais. Uma célula viva é um holos. nos gregos. precisá-Ios. encontramos um esforço intrínseco. unidade de simplicidade. henos. Já podemos distinguir nitidamente esses três nomes da unidade. Temos. em determinados casos. na célula. por se terem da forma uma visão muito restrita. segundo a intencionalidade do agente. a parte física das células. pois sem elas não poderemos compreender mais adiante certos problemas da Filosofia. que dá a unidade. como esta cadeira ou esta mesa. quer dizer. Contudo. De maneira que não podemos definir a forma apenas como se fosse uma lei de proporcionalidade intrínseca. tensão. e que nos é possível agora clareá-Ios. as partes funcionam. que se tornam aporéticos. que dá a unidade. que é a lei de proporcionalidade intrínseca. ainda. esses dois logoi podem ser o mesmo na coisa. o logos da sua totalidade.

É algo que eles têm em comum. nem se pode dizer que é um mero nada. de afastamento de tudo quanto é meramente contingente e variável. e sabemos que dela tratou Platão. nem singular daquele. porque se essa coisa pode ser reduzida. O esquema noético-eidético que construímos de nós mesmos é resultado de uma especulação. inclusive as propriedades da animalidade. Se as coisas individualmente repetem este logos in re. substancialmente. por que. não meramente presentativos. uma diferença específica. os platônicos. portanto. um modo de ser também ante rem. mas necessàriamente. mas possuidor de uma racionalidade. A posse de uma mente. o entendimento. e vejamos como poderemos representá-Io em nossa mente. raciocinar. e os pitagóricos de todos os tempos. isso trouxe. mas necessàriamente. Ora. ao que o homem é na realidade. deve haver uma forma ante rem. o esquema eidético-noético refere-se. não acidentalmente. Quando. a especulação em torno dessa forma ou fórmula. É natural que pairasse a pergunta se tal logos eidético não seria. que é abstrativa. além de in re. que tem um fundamento in re. o de homem. que são propriedades que decorrem ex constitutivis da natureza dessa mente. após a exclusão do que é acidental.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 7 Tomemos um conceito. Ora. como consequência. Tais fundamentos da definição metafísica do homem são evidentes e seguros. de análise. que é fórmula do logos concreto. que não é a do animal. ainda. e aquela. que só pode chamar de homem o animal terrestre que. pois não se lhe pode predicar nenhuma positividade. que é a presença do mesmo logos. Em suma.. Então essa fórmula não se pode dizer que dela não se possa predicar nenhuma positividade. de confronto. como as imagens. esta não é um ser singular desse ser. possuindo tudo quanto possui. se diz que homem é um animal racional. intencionalmente. que são as suas diferenças genéricas. podendo-se-Ihe predicar algo positivo. apresenta. quanto à estrutura hilética. e. compreender. é um corpo vivo. por que. O homem tem de ter uma razão suficiente da sua diferença em relação aos outros animais. já que este é algo que repete o logos concreto de outro ser da mesma espécie que ele. etc. é um produto de comparação. meramente contingente. e como há entre elas algo comum. o homem é assim. lógica e metafisicamente. é um ser capaz de captar possibilidades de possibilidades. é algo que pode ser repetido neste e naquele. à mesma fórmula. Nossa observação verifica. Essa pergunta surgiu aos filósofos gregos desde Pitágoras. porque este não é. ele é um ser que vive. também. ou seja. tem uma . na verdade. construir universais. não acidental. Queremos nos referir à sua estrutura eidética. diz-se o que é precisado através da especulação. capaz de operar com esquemas representativos. independentemente da coisa.

mas. e que contém. tornar finalmente efetivo esse surgimento. o que é discutível. como provocou. Mas as condições poderiam tornar provável o surgimento e. e o mundo real. sim. Platão admitiu fosse subsistente de per si. Contudo. O realismo moderado não afirma que este logos seja subsistente de per si. eminencialmente. na ordem do Ser Supremo. como. onde se dão esses logoi. julgando . deste ou daquele modo. não poderia estar em outro. Desse modo as possibilidades do homem surgir ou não surgir eram iguais antes dele surgir. É um proceder que ainda revela uma aderência infantil. para exemplificar. seria realismo exagerado afirmar a existência desses logoi subsistentes de per si. e não na ordem do nada. A admissão de um mundo formal. porque não há ordem do nada. O que a Matese pode estabelecer desde já. provocaria uma série de aporias insolúveis. porque se tal fosse. que é o ser primeiro. Não pode ser também uma entidade singular. porque então jamais se atualizaria. segundo determinadas circunstâncias. A identidade estaria na proporção intrinseca. e distinta concretamente in re. há os que preferem negar tudo isso. Estava contido. é o seguinte: há algo em comum. Parece haver uma contrariedade insustentável. é um modo de ser e qual a natureza desse modo de ser é que caberia à Filosofia discutir e precisar.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 8 entitas. contudo lembremo-nos que há princípios que podem ser contrários. que é a mesma em todos. de atualizar-se de modo formal. por que se dá neste. uma ordem que repete a de outro ser na mesma espécie. este ou aquele. como afirmam alguns. pois o que é comum é algo que há. como se escamoteando o problema encontrassem uma fórmula para resolvê-Io. a sua realidade só pode ser a da ordem do próprio ser. Ora. segundo um Iogos de proporcionalidade intrinseca. também não pode ser singular. o logos da humanidade era uma entidade aptitudinal na ordem do ser. Esta forma. que. nem da universalidade. O que se tornou possível num determinado momento histórico geológico do nosso planeta. distinta por distinção numérica neste ou naquele. não podendo ser um modo de ser universal. pois. antes da atualização do homem. pois este se repete tanto na estrutura hilética como na eidética. todos os possíveis. e também se dá naquele. a aptidão do ser. neste caso. em grau maior. enquanto tal. e ele não pode ser um mero nada. se identificaria com o logos concreto. (e veremos ainda que pode estabelecer muito mais). a forma deste não era um mero nada. fonte e origem de todas as coisas. Antes de haver o homem. Conseqüentemente. o seu modo de ser aptitudinal. eminencialmente. A realidade do logos não implica mais as aporias da singularidade. Ela só pode ser uma aptidão do ser para atualizar-se. por que se dá vários. e aí não há possíveis. que é da disposição dos elementos componentes.

que o ser humano constrói. que o ser humano possa fazer. propriamente. que nem é singular nem universal. referem-se ao que. sem encontrar solução. não só abstrativa. fonte e origem de todas as coisas. este logos. na realidade são os outros logoi. pensamentos de Deus. reduzem-se a um logos. e. ele é apenas ser. que fazem parte do poder do Ser Supremo. finalmente. que nele estão contidos eminencialmente em seus poderes. é o ser que é apenas ser. no estágio sintético em que estamos. a lei da harmonia. conseqüentemente. e é. Vemos. a própria forma ativa da coisa. não é mais admissível confundir o logos da unidade enquanto tal. como muito bem dizia Santo Agostinho. in re. constituintes da tectônica do ser. um dos temas mais controversos que surgem no filosofar. permanecemos nela. aqui. CAPÍTULO II UNIDADE . já que abordamos.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 9 que basta fechar os olhos para ocultar-se da presença de todos. A atualidade. não são nem singulares. porque não poderia singularizar-se nas coisas enquanto universal. portanto. nem é singular. é que os logoi. Esses logoi são. os quais intencionalmente. enquanto tensão. é o Ser Supremo. ao que realmente está contido na coisa. que não é apenas a lei de proporcionalidade intrínseca das partes. que corresponde à tectônica da sua estrutura hilética e eidética. Esse logos tensional pode ser. Mas é um pensamento contido eminencialmente no poder supremo do Ser Primeiro. considerados enquanto fórmulas. Porque. mas da especulativa. na verdade. de modo que ele atinja. pois. cuja maior precisão. especificamente distinta das partes. é o ser ausente de toda deficiência de ser. e que são comuns a muitos por sua vez.IDEM ET ALTER (AUTOS KAI ALLÓS) Em face das análises feitas até aqui. O que podemos dizer. na verdade. mas também aquele esforço intrínseco (tónos). que existe uma verdadeira gama desses logoi eidético-noéticos. desses logoi construídos pela mente humana. confundindo-se. Temos ainda de distinguir os diversos logoi noéticos. São apenas meros possíveis. teremos de fazer oportunamente. que regem as coisas na sua singularidade. cujos graus de precisão vão depender da capacidade. ante a Matese. com o logos desta unidade. cada vez mais com maior perfeição. quando. com o primeiro. em toda a sua pureza. porque não pode haver um individuo universal. que nos cabe investigar. que coerencia. e os faz funcionar segundo o interesse da totalidade. Não é universal. segundo uma hierarquia. que subordina os opostos analogados. julgando que assim resolvemos a aporia. como veremos. cuja essência é ser . e não escamotear o problema. segundo. nem universais. Os logoi.

por sua vez. que é invariável no ser. sem deixar de ser. e a duração do Ser Supremo. por que o que acontece é algo que. que. e. é o que se dá no tempo. pois a corrupção implica disassociação. por que. as palavras são universais em sua significação por que elas significam uma universalidade. é ser. de certo modo. do contrário. Estamos aqui. ou ter-se-ia de admitir que o ser seria capaz de se corromper. o que é absurdo. contudo. teria princípio. por que . é. seria parte dele. nem sofrer diminuição de ser. o que seria negar a sua absoluta simplicidade. como homem. e receberia o seu ser de outro. Também. abordando temas de Teologia. Ademais. porque só se corrompe o que é composto. já que o que dura sucessivamente. como consequência. o nada teria poder de realizar o ser. sendo simplesmente ser. naturalmente. que é apenas ser. apenas o atuar pertence ao agente. E como esse Ser Supremo é absolutamente simples. seria relativa. e estaria à espera de um ato que o atualizasse. casa. por que o nada é nada. a sua duração apenas pode ser uma simultâneamente consigo mesma. e neste caso o Ser Supremo seria uma potência passiva para atualizar em si alguma coisa. não pode sofrer mutações acidentais. o que seria absurdo. pois sendo absolutamente simples. teria uma concausa no nada. não poderia deixar de ser. Esse ser. Para os nominalistas. Senão teria tido um princípio. as coisas por ele criadas. por que a ação. existe de todo o sempre. a qual não pode admitir partes. duração totalmente simultânea de algo. De maneira que a primeira fonte só pode ser o ser. como seria isso possível de dar-se? Se sofresse mutações acidentais. ou receberia do nada. pertence ao paciente. dar-se-ia ao nada o poder de arrebatar ser do ser. o que é absurdo ante a sua absoluta simplicidade. é ação. embora sejam sucessivas as coisas atuadas. E os conceitos são universais em sua representação. Existindo de todo sempre. o que seria absurdo. e também no operar.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 10 existencialmente apenas ser. Mas o que se atualiza. o que perdesse de ser. o que seria impossível dada a sua simplicidade. neste caso. porque. esta simplicidade absoluta não seria absoluta. não é do pleno exercício do ser de um ente. a sua existência e sua essência são idênticas. passando de um estado para outro. que o sucede. como vimos. que apenas é ser. que atualizasse essa parte passiva. podemos compreender que o atuar deste Ser Supremo é simultâneo. não se dando sucessivamente. tanto ontológica como ônticamente. é eterna. separação. nem tampouco mutações substanciais. A fonte e origem de tudo quanto é tem de ser apenas ser. e esta. este ser. Como a fonte e origem do que é não pode ter vindo do nada. É a intensidade suprema de ser. pois. Então. e é eterno por ser a sua própria eternidade. que é apenas ser.

pode dar-se. sem qualquer fundamento in re. no ser positivo. o que constitui a sua positividade. Uma inclusão pode ser total ou parcial. em nossa mente. Mas o que distingue os realistas moderados dos nominalistas consiste apenas no seguinte: os realistas moderados afirmam que a representação tem ou não tem um fundamento in re. Por isso. divisa ab alio. assim. a qual é um conceito. por sua vez. tem algo extramentis. sem valor na Filosofia. é universal em sua representação. é algo que se afirma. O que é alguma coisa.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 11 os conceitos representam. o quid outro. e se não tem. é ser. de ser outro do que o que está excluído. e a exclusão. de certo modo. ou não. um fundamento in re. clusa. portanto. A unidade é. e esses conceitos estas representações ou têm. Se têm são reais. É verdade que os nominalistas modernos não chegam a alcançar a profundidade dos nominalistas antigos. encerrar. mas tais posições. e exclui o que é. O que é cluso numa unidade é incluso nela. mas ao mesmo tempo distinta de outra. se não têm. o quid alius. sem unidade. há alguma coisa. in se. No caso. o que é de si excluída. e exclui de si o que não constitui a sua positividade. é alguma coisa áliquid. é presença de positividade. são ficcionais. ou seja. há unidade. a exclusão parcial e a inclusão parcial podem coexistir. Se tem um fundamento in re. seria um ser que não é o que é. encerra-se na positividade. onde há ser. necessàriamente. seria nada. pode ser também total ou parcial. A unidade inclui. não distinta de si. tem positividade. na verdade. a exclusão parcial. do verbo latino claudo. que lhe dá base real. Em sua significação apontam a uma universalidade. de onde includere e excludere. é mero ente de razão. simultâneamente. O realismo moderado é a única posição filosófica séria que se pode tomar em torno da questão dos universais 1 . É a positividade clusa em si mesma. mas são consideradas 1 A prova apodítica desta nossa afirmação será feita na parte analítica e na parte concreta de nossos livros de de Matese. Onde há as propriedades de alguma coisa. Neste caso. tampa. Um ser. outro que ela. é ausência de não positividade. só podem impressionar a desprevenidos intelectualmente. tem. A unidade é. onde há unidade há ser. mas o que está incluído. algo que é afirmado. por sua vez. Tudo quanto é positivo. que provém de alius quid. o que é de si. inclusa in se. é outro que negação. É verdade que hoje há nominalistas que afirmam que as palavras não têm qualquer significação. por exemplo. tem ou não tem um fundamento nas coisas às quais se refere. . clusa. de uma inclusão parcial. ela inclui. uma universalidade. que. O que. A unidade fecha. tapar.

está em relação a outra na situação de ser outra que outra. pois o que é idem que si mesmo. o um tem de anteceder ao múltiplo. toma-se o que é in re. poder-se-ia captar o não ser. conseqüentemente. também. Esta unidade da afirmação do ser infere-se de outro ser. que nela se inclui. uma procede por negação. O que é positivo. a exclusão parcial. outro que outro. segue-se a captação da divisão. e fero. o não-ser só pode sobrevir do ser pelo menos cognoscitivamente. o que é includente. do allós. só depois de captar o ser. é outro que outro. Ontológica e logicamente. . enquanto considerada como tal. o idem é alter que alter. não sendo. Dando-se a ausência de positividade. e também ontologicamente. Ao considerar-se a unidade. portanto. pois o que é um é outro que outro. que é assim relativo ao primeiro. A primeira. levar. já que se tal fizesse seria positivo. uma para a outra. excludente. Dai decorre a divisão. não poderia darse o múltiplo sem o um. O idem ou aulos em face do alter. que corresponde ao grego allós. e o alter é também alter que alter. Uma nega. e havendo a divisão há o múltiplo. A idéia do um não surge da idéia do múltiplo. Cada uma. a outra por afirmação. outra afirma. por que o que primeiramente é outro que o ser é o não ser. considera o que é incluído. nas seguintes relações: cada uma é idem (autos) a si mesma. logo.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 12 segundo razões diferentes. Duas unidades estão. e afirma que é outro que outro. e este outro é. Do exame de ambos decorre a unidade. difere. trazer. de di. é outra que outra. outro que outro. o que apresenta positividade. e o que é extra se. mas a idéia do múltiplo é subordinada ao logos do um. por que é outra que outra relacionalmente e correlacionalmente. e o que dela se exclui é alter. e o mesmo que si mesmo. como é que a ausência poderia afirmar positividade? Portanto. o que se afirma como testemunhando a presença de si mesmo. por sua vez. o autos (idem) predica a unidade. não tem positividade. consideradas também em si mesmas. Como a captação do ser implica algo positivo. A captação de ser segue-se a postulação do não-ser. Da captação do não-ser. considera o que é excluído. afirma-se como unidade. a recusa da divisão in se. porque o não-ser. que corresponde ao grego autos. já que outro é diviso a outro distinto de outro (di fero. Onde há outro. é idem. o allós (alter) predica a negação. de outro). no ser alter. dois. a afirmação de que é outra que outra. que é a segunda. portanto. Uma afirma. é alter (allós) que aller. e a inclusão parcial. por que a afirmação da unidade é. ela mesma. pois o não positivo não poderia captar coisa alguma. há divisão.

É da sua essência. o que é indiviso em si mesmo. as partes de seu todo. A indivisão. negação. junta in se o que é. há indivisão segundo um logos. que. mas de caráter específico. outro que outro. de certo modo. Ou essa tectônica é simples ou é composta. que significa tantos. é outro que suas partes. adjetivo indeclinável. pois é o todo de suas partes. 5°) Multiplicidade. enquanto ela reúne. e distingue. 3°) Unidade: o que é indiviso in se e diviso ab alio. 4°) Divisão alltos kai anós. portanto. Enquanto unidade de totalidade é distinto das partes. positividade. é outra que qualquer outra unidade. in re. enquanto tais. mas composta nas estruturas que vão constituir os seus elementos. é constituída de uma unidade só. é simplesmente si mesmo. e nada mais que si mesmo. e não múltipla. portanto. O todo. Se ela é constituída de outras unidades múltiplas. contudo. ete. uma. o todo e as partes. Onde há unidade. como já examinamos. 2°) Não-ser. tem em si uma tectônica e também uma estrutura. segundo um logos. O todo é uma unidade. por ser clusa in se. O que constitui a unidade é apenas algo que é totalmente idem a si mesmo. que são unidades constitutivas de um todo. A unidade. apesar de múltiplas. elas formam uma totalidade. de seu logos. Estaríamos em face de uma unidade de absoluta simplicidade. é. Portanto. é a sua individuação. inclui o que é. o numeroso. do latim construir. é do seu logos. e estas. seria de simplicidade relativa. Assim. são outras que outras. a unidade é o verdadeiro fator de individuação. reunir). por sua razão de ser.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 13 Então temos aqui cinco esquemas fundamentais: 1°) Ser. idem et alter (si mesmo e outro) . indivisa in se. É uma unidade de multiplicidade em que. do latim tot. enquanto tal. indiviso in re e diviso ab alio. apenas de suas partes. Se simples. a unidade. o ser outro que outro. agregar. algo indiviso in re. enquanto todo. que é um todo (holos) é co-estruturada por suas partes. Tem uma especificidade. recusa da positividade. junta (de struo. afirmação positiva. porque realmente struo significa juntar. na unidade. um totum. não outro que si mesmo. e não é outra que si mesma. O todo é correlativo às partes. . e outras que outras em relação umas às outras. é simpliciter idem. [Se diante da unidade de simplicidade relativa] ela é simples na sua qüididade. Forma uma razão de ser in se. é o allós. Há unidade onde uma coisa é outra que outra. e distinto de outro. Unidade implica.

O que é um é indiviso in se. Ela é uma multiplicidade de unidades. o que equivale a dizer que o que é um. tomado como todo. de que tratamos. A negação. Eideticamente. é positiva. não se diz privação de unidade. é o que não é distinto em si mesmo. afirmativamente. como veremos oportunamente. Só pode opor-se por modo contrário. não é propriamente tal. A unidade. nas suas unidades. . temos de prosseguir em algumas análises. De maneira que dizemos que a unidade se opõe à multidão. mateticamente. ser dividido em partes. no entanto. que é divisa. que a compõem. enquanto tal. cujo conceito. A oposição. A unidade é um ser que não se divide. como fizemos positivamente. pois a unidade. Veremos que esse modo é aparentemente negativo. Usamo-la. 2 Sabemos não haver ainda na lingua portuguêsa a palavra completude. o conceito de unidade. mas não se opõe por modo de privação. nega a divisão. é a entre ente e ente. Quando se diz multidão. A unidade é o ser enquanto não diviso. e estamos expressando a unidade. por que forma uma unidade. Este ponto é de magna importância para auxiliar no exame do problema do fator de singularidade. pertence à multidão. porque esta. portanto. embora possa desgostar a alguns empedernidos “defensores” da língua que não a deixam enriquecer nem progredir. Este modo de ser é a própria essência da unidade. Podemos enunciar. a multidão não inclui. e não o seu sujeito. pertence ao de divisão. do latim completudo. contràriamente. podemos expressar que a "unidade é a propriedade que resulta da completude em si da entidade de alguma coisa". primeiramente. que é outra que outra: do contrário. tão necessária para o filosofar. a divisão. A estrutura eidética é sempre positiva.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 14 Indivíduo é o que não pode. a unidade não seria outra que outra. A idéia de multidão implica e exige a indivisão em cada um dos singulares. mas inclui a negação da identidade. propriamente. então. mas. é o mesmo ser que não se divide. e. o um e o múltiplo são contrários. Eis um modo de expressar aparentemente negativo. eideticamente. que se dá entre ambos. CAPÍTULO III UNIDADE E DIVISÃO A unidade inclui a negação da divisão. circunstancialmente. do fator de universalidade e do fator de individualidade. sob a mesma razão. mas. devido ao indiviso. a unidade visa a mesma unidade em completude 2 .

nem pode convir-lhe. indica que ele é indiviso in se. propriamente. Esta propriedade de completar-se em si. não se daria fora de suas causas. Então. Não existe por lhe faltarem completamente as condições necessárias para dar-se uma existência. o que pode ser confirmado. e a que alcançássemos. essa lei de intensidade do ser em si mesmo. não inclui a relação à existência. É o logos da unidade. o ser da essência dessa unidade não se pode conceber como existente. porque ele seria concebido apenas como alguma coisa apta a existir. Quer dizer. é um conceito apenas ficcional da nossa mente. de resumir este ponto. convém à natureza em si.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 15 O ser da essência não se pode conceber como real. digamos uma unidade em si mesma. quer negativo. é a lei da unidade. em face dessa matéria tão complexa e tão difícil. Esta lei da unidade se manifesta para nós apenas naquela propriedade que resulta da completude em si de alguma coisa. a não ser que lhe convenha. se esta unidade não pode convir à essência. não convém de si à natureza considerada em si mesma. essa lei de completude. porque. teríamos de dar-lhe uma individualidade. que sabemos que há. esta unidade não seria propriamente existente. através de um ato intelectual. do contrário. ainda seria contraditório. que se completa em si. não forma ainda uma individualidade. enquanto tomada aptitudinalmente. enquanto existente: digamos. a unidade precisiva. em razão dos indivíduos. enquanto unidade. considerada solitàriamente. essa unidade nada mais seria do que o logos da unidade. aqui. de reconjugar-se em sua própria entidade. essencial ou secundàriamente. com anterioridade à operação. e só existiria enquanto é individual. por ser individual. neste sentido. o existir. uma unidade precisiva. porque se não é individual não poderia existir de modo algum. segundo alguns pensam. logo. fora dos indivíduos. Ora. ela estaria apta. essa lei de contração em si mesmo. e. onde os filósofos têm encontrado tantos obstáculos. fora dos indivíduos. então. quer positivo. pois ao menos aptitudinalmente não inclui relação à existência. é o logos da unidade. ainda. Mas há necessidade. a essência. podemos admitir como dando-se independentemente de uma operação intelectual. na sua entidade. de modo algum. ou possa. Precisamente. E se lhe damos uma individualidade. por outro caminho. porque nenhum predicado. o que há aqui é uma confusão. essa unidade não convém em si. conseqüentemente. a existir. . pois que. não lhe convém essencialmente e. pelo fato de ser considerada nos indivíduos já não seria considerada em si solitàriamente. Para o platonismo. que é algo afirmativo e positivo. a qual verificamos nas nossas definições anteriores. convir aos indivíduos. e como não existe. Se tomamos uma unidade precisiva dos indivíduos. tampouco.

portanto. O ser per accidens. Se é composto. é aquele que tem uma essência. Aristóteles. não definiu as duas unidades. aquela que é assistencialmente fundada com outra. Unicamente se referem à substância. porque a natureza só é apta a existir em muitos enquanto prescinde de toda contração. a solução desse problema. São unidades que têm uma completude em si mesmas.. Se é simples. e a pouco e pouco poderemos estabelecer a fronteira. sua potência substancial é o próprio ato. que o ente não seja um mero plethos. produto de um equilíbrio mecânico de forças etc. como acontece com a cadeira. como fizeram alguns filósofos. A unidade não é um conceito. e não da meramente predicativa. numa unidade de agregação. São muitos tomados separadamente. por exemplo. Ente per se é o que é um per se. em referência a outro. mas que vão formar multidões. contràriamente. por exemplo. com os objetos que construímos através da nossa arte. Mas vamos traçar-Ihes o perfil. A unidade de uma cadeira é uma unidade per acidens. tem uma potência substancial e um ato próprio. e são conjugadas para constituirem uma unidade. é um modo das partes de um todo se agrupar. que são.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 16 Agora se vamos construir um conceito de unidade. ou é simples ou é composto de potência substancial e ato próprio. como se vê numa unidade de ordem. diz Aristóteles. com um artefato. e até muitos escolásticos. uma estrutura eidética substancial. e diz-se que é unidade per accidens a unidade relativa. O ente per se um. Per se e per accidens não querem dizer existir em si ou existir em outro. torna-se cada vez mais claro. nem tem a referida composição. e estas partes. ele apenas nos deu uma descrição através de exemplos. Elas existem à parte. Esta não precisa ser necessàriamente simples. A unidade de precisão só se funda no nosso entendimento. Ora. e não acidental. não surgem indivisamente entre si. . virtualizem-se. como uma entidade à parte. uma mera conjugação de coisas. é o que não é nem simples. em que as partes componentes atuem segundo um princípio eidético de unidade. [H3] Comentário: Isto é que é o raciocinar matético – os termos matéticos não são coisas ou conceitos. ou seja. O um per se é uma unidade de simplicidade. porque as suas partes não nascem. Com a distinção entre a unidade per se e a unidade per accidens. basta que a sua tensão o seja. como uma célula viva. mais possível. O logos da unidade per accidens é in ordo ad. em face do todo. de certo modo. são como leis de organização. distintos. que haja harmonia resultante da estrutura eidética substancial. mas um holos. A unidade per se é a unidade absoluta. não têm sido nitidamente distinguidas as fronteiras de ambas. de certo modo. estaríamos afastando-nos do que realmente é o logos da unidade. Ente per se. distintamente. mas que está integrado por várias realidades. enquanto uma unidade per se é algo que nasce indivisamente. como uma cadeira.

Um princípio tem de ser anterior. pois é como tal uma coisa só. e é um per se. enquanto unidade. o que é um adágio matético. é um. é demasiadamente extrínseca. Este enunciado é para alguns mais válido do que o que encontramos na Filosofia. Contudo. a "todo ente é um". Ela serve apenas para argumentar por redução ao impossível. é um ente real. Este é algo que tem essência. de certo modo. por ser outro que outro. o ser distinto de outro. a Igreja não são entes per se. pela conjunção de entes. é uma unidade singular e numérica. de modo. o Exército. Este "ao mesmo tempo". de que "é impossível que uma mesma coisa seja. já que uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo. ela é também positiva. que formam uma acidentalidade. primeiramente. dão surgimento a um ser assistencial. Tudo quanto é. no grau em que é ente. virtualizem-se em face do todo. dizem. infinito não quer apenas afirmar ausência de finitude. sem limites in se. A unidade do ente per se é uma unidade real e não uma unidade apenas de razão. por estar indiviso in se. extrínseca ou denominativa. É somente a conjunção. por que esta proposição. porque sendo a recusa da divisão in se. Característica peculiar da unidade é ser o que é um. Mas esta postulação não é puramente negativa. indiviso in se. Este conceito é apenas etimologicamente negativo: ausência de divisão. reduz-se. O ente per se implica uma união íntima da unidade estrutural eidética com a unidade estrutural hilética. Afirmativamente significa que é coesamente um por sua natureza. Assim. Suarez dedicou-se a estudar esses problemas e concluiu que a unidade apresenta uma negação em relação ao ente. o que convém ao ente enquanto unidade. dele se ausenta a divisão. ou não seja. que haja harmonia per se. Assim. do que não é ele. A unidade de outro é acidental. É única a unidade transcendental. por sua estrutura eidética. tanto ontológica como ônticamente. mas postula afirmação da presença da exuberância intensiva de ser. por exemplo: um homem. a priori. afirma a integridade do ser um em si mesmo. Um dos extremos contraditórios destrói. por que o ente per accidens é formado. Podemos considerar a unidade per se. por ser indiviso essencialmente. o outro. e não ser outro que si mesmo. enquanto tal. a unidade por outro. e mateticamente é este: é necessário que uma mesma coisa seja. a relação. . ou seja. contudo. e não pode servir para estabelecer autênticas demonstrações a priori. porque a unidade é propriedade do que é. Esta unidade se acha em todo ente. necessàriamente. ao ente corresponde. Enquanto unidade. que são entes per se. e não seja ao mesmo tempo". em contraposição à unidade per accidens. pelo fato de só poder ser uma coisa determinada. de onde se conclui que a unidade transcendental se estende além da individual.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 17 Todo ente simples é um ente in se.

. mas da espécie ou do gênero. que é a positividade. Na classificação aristotélica é uma propriedade. no sentido em que a todo ser deve necessàriamente corresponder o poder ser distinto de outro. ou ainda não foi. São efeitos formais. que é apenas ele mesmo. divisa ab aliud. divisão. a definição de unidade é aquela que demos. é independentemente desta. Um dos extremos contraditórios destrói. Na concepção criacionista. a essência do ser. que é a afirmação positiva. em si mesma. separado. por si mesmo. mas devemos colocar a distinção. por não ser este um termo real. e o ente não se distingue do nihilum. separada de outra. É necessário que uma coisa seja ou não seja. Convém-lhe ser distinto de outro. para a Matese. pois o estar dividida. primário ou secundário. como sabemos. no aristotelismo. fundada naqueles princípios. o nada absoluto. decorre do próprio ser. mas esse sentido é aptitudinal e fundamental. que surgem da própria razão de ser. também uma propriedade do próprio ser. e é lei que é princípio da completude da própria entidade. nem contradizendo que é uma propriedade. já que a sua distinção. enquanto que o ser é um termo real. que exige a conotação de um termo real e existente. que é outro que ele. ou pelo menos potencial. antes da criação. mas é algo que se segue a esse Logos. o ser. porque o conceito desta. possivelmente. já implica multidão. independentemente da criatura. que a rege. já que o nihilum. uma coisa é uma mesma. Deus é em si. não é do seu logos. da própria essência. é a lei do próprio ser. o outro. na sua completude. é a ausência absoluta. embora não haja necessidade de haver outra para que ele se distinga. a qual poderia não ser. houvesse ou viesse a haver. necessàriamente. o que é bastante para afirmar em parte a sua unidade. Ora. portanto. é a ausência absoluta de ser. é outro que qualquer outro. Assim o ser não é outro. necessàriamente. É. refere-se àquela accidência que não é própria. de modo que ele pode ser tomado como um efeito formal. um. o que não entra no Logos da unidade. de maneira que esta lei. na medida em que um ente é um. de outro. uma lei. ser completude de si mesma. da entidade de alguma coisa. enquanto tal. A unidade é a propriedade. O ser dividido. distinguido de outro. o ser na afirmação de si mesmo. ser distinta de outra não é o essencial da unidade. e. Unidade implica.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 18 Contudo este ser. ser indivisa in se. Portanto. é uma relação real. Contudo. é algo posterior. que resulta da completude do ser em si. É o ser tomado na sua intensidade. tem como propriedade ser um. enquanto Logos. já é anterior à multidão. perfeita e completamente. enquanto a unidade. não está negando. na classificação pitagórica é um Logos. que.

tem uma lei. como são os seres cósmicos. nem só a negação que faz a unidade. Esta se afirma pela completude em si mesma. que não necessita de outro para afirmarse. a unidade de cada qual é algo adequado a ela. porque não é só a razão. porque este afirma a si mesmo. nega a si mesmo. então. O ser é alguma coisa. o logos de alguma coisa. É mister fazer a distinção entre a unidade transcendental e a unidade que encontramos nos indivíduos. A unidade inclui. e se apresentam apenas aptitudinalmente. podíamos citar a posição parmenídica. dada pelos escolásticos. que haja positividade. ou estranho. porque a unidade. pois todas as coisas. e. Toda a positividade. mas. ou são adequadas de tal modo. sim. E dizemos adequadamente por si mesma. por ser alguma coisa. da sua unidade. porque o ser é alguma coisa. ser completude de si mesma. Assim. por afirmar-se. portanto. adequadamente. porque se o ser afirma a si mesmo. O que deve ficar bem claro é que a unidade não necessita de outro para afirmar-se. como uma unidade só. conceito objetivo real. Ao contrário. e tomados assim não há perigo de certas confusões. e a mais segura.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 19 Mais adiante examinaremos se as leis são efeitos formais. o logos do logos. deve ser considerada segundo o seu próprio conceito. podemos deduzir. Este é o logos do ser. cuja afirmação é qüididativamente outra que ela. que é . não é da essência da unidade. indivisa. Podemos nela distinguir o fato de ser distinta de outra. enquanto é. Não podemos conceber como possível sem necessidade de um outro. É uma propriedade do ser. e por si. e não segundo um superior. dessa afirmação. à afirmativa de ser divisa ab aliud. o ser tem um logos. Esta assistencialidade nos leva. mas por uma visão superior. que ela tem a aptidão de distinguir-se de outras. Esta é a melhor maneira de concebê-Ia. que é o ser que surgem da própria razão de ser. e a unidade é ser. e. na ordem do ser intensistamente máximo. ou inferior. porque não lhe convém adequadamente e imediatamente por si. de ser distinta de outro. mas essa segunda parte da unidade. primários ou secundários. nele. ou não. e lhe convém essencialmente. os contraditórios se excluiriam mutuamente. necessàriamente. porque simultâneamente afirmaria a si mesmo e não afirmaria. e se alguma coisa também é ser. O que é imprescindível para que se dê uma unidade é que haja um ser. que concebe o ser como algo só e único. ou são acidentais de algum modo. ser indivisa in se. quer dizer. lndivisa quer dizer “distinta de outra”. em cada coisa. Deste modo a unidade transcendental é a razão ou o Logos do ente real per se. A razão de homem é ser animal racional. uma unidade. O ser distinto de outro é um possível relacional nos seres que formam multidão. simultâneamente. mas a razão de ente indiviso ser ente em si mesmo. Assim a razão de homem não é animal. que é precisamente a afirmação da sua perdurabilidade e. o ser é unidade. Mas essa distinção não é necessária para que a unidade se afirme. seria contraditório. A unidade transcendental é a razão de ente real per se.

de uma totalidade. e a estrutura eidética de que falamos. sendo o que ela é. o synolon de ambas as estruturas. constituem o que emerge. caso contrário esta não se daria. A coisa é o que é pela determinação atual da sua determinabilidade potencial. também. De modo que a unidade remove a divisão. uma multidão deve ser composta de unidades. emprega-se muito na linguagem científica e filosófica este termo.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 20 passível de ser pensado. não é o que ele é. como a estrutura hilética de uma unidade. não é o quid sit. a unidade. se ele é relativamente simples. divisas entre si. necessàriamente. etc. desse modo. etc. Tanto o logos. a indivisão daquelas unidades das quais ela consta. a coisa surge. componência reflexa. A emergência do todo é o que constitui a sua natureza (do grego physis e natura. componência eidética. mas. sim. perderia as suas características. mas admite a divisão dos elementos que constituem a multidão. sim. remove a indivisão dos que constituem a multidão. o que para Aristóteles é a “matéria” de uma coisa é o que comunica ser determinável. que vai formar um conjunto analogado. ser classificada segundo o logos da subordinação. da subalternação. componência malevolente. em latim) por que a coisa nasce. não só este 3 A estrutura hilética e eidética comunicam ser à coisa. como a estrutura eidética e a estrutura hilética. portanto. O termo componência diz-se de tudo quanto é constituinte de uma unidade. a sua componência. sendo divisa. Não impede a formação da multidão. enquanto o nada não tem conteúdo de qualquer espécie. A componência pode. que formam a unidade do todo. . Na verdade. como tivemos a oportunidade de tratar 3 . da implicância. CAPÍTULO IV UNIDADE E A TENSÃO A unidade não remove a multidão. mas nega a divisão. A multidão implica. mas a multidão não remove a unidade. e a “forma” é o que comunica ser determinante. o que vem à margem da coisa. Assim. mas. Também a multidão não remove a unidade. sem o que o todo não é o que é. mas incluindo. de maneira que a tectônica de um ente revela a componência desse ente que é constituída. mas a divisão. quando se fala em componência sádica. Necessàriamente. de dar conteúdo a um pensamento. a primeira como ser determinável e a segunda como ser determinate. porque. A natureza é. assim. da estrutura hilética e da estrutura eidética. pelo que constitui a sua tectônica.

um conjunto é uma totalidade. à primeira vista. uma sequência de totalidades. A Matemática moderna. o que discutiremos em outras passagens. da Ontologia e de todo saber epistêmico. quando estas partes representam os termos de que se compõem a realidade do conjunto. mas. também é princípio das possibilidades de um ser. com uma coesão. Considerando-se um conjunto como um todo. passam a ser chamados elementos. formando. que. a constelação inclui complexos. e os conjuntos incluem os seus elementos. uma tensão. quando elementos de distintas origens constituem um composto. segundo os diversos Logoi analogantes. pode parecer que há uma contradição formal intrínseca em falar de um conjunto não composto. vai encontrar-se cada vez mais ràpidamente com a Matese. também. a natureza inclui a essência. à origem pitagórica. tudo quanto é acidental. porque. Resta discutir se há conjuntos não compostos. e que lhe é proporcionado. Mais adiante. podemos nos referir aos elementos que constituem a componência daquele. em todas as esferas e campos da realidade. Inclui não só o que é essencial. a idéia de natureza é muito mais ampla do que a idéia apenas de essência. E estes variarão segundo a maneira de se analogarem os elementos que os compõem. por sua vez. assim. os complexos incluem conjuntos. Não é apenas a essência. formando um novo complexo. unidades de totalidade. as suas partes. um sistema. para ver se ela é realmente contraditória. seguindo esse rumo. que são. Um conjunto comumente se refere a seres relativamente simples. que são chamadas membros na Lógica. ou se se poderia admitir um conjunto formado de um único elemento ou até de nenhum. por sua vez. Mas nós temos de tratar dessa mesma contradição. Estas podem reunir-se. tomado estaticamente. porque a natureza é o princípio da ação. de modo que os complexos podem realizar-se. Neste caso. Esse estudo permitirá. Esta tornar-se-ia uma meta-matemática. de maneira que ao falar de um conjunto. constelações. também. mas também na sua dinamicidade e na sua cinematicidade. veremos que há várias maneiras de considerá-Ios e classificá-Ios. como teremos oportunidade de ver.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 21 todo. retornando. na linguagem matética. . forma uma unidade. então. uma meta-linguagem. que a Matese se alie à Matemática dos conjuntos. por que podem ser de vários tipos. e como tal. não só da Matemática como. quer dizer. é uma unidade de multiplicidade. da Meontologia. com uma nova unidade. Assim. e também a parte ativa e as possibilidades deste ser. que é a meta que pretendemos realizar com esta obra. ao estudarmos os conjuntos. constituindo. portanto. *** Forma-se um complexo.

por sua vez. significando a matéria constituinte de alguma coisa. e. ela é o que ela é. tem de ter uma . formada dos elementos do stokheion. segundo a disposição dessas partes. da "Teoria Geral das Tensões". o interesse da parte. o que a constitui. que as arranja. pois. que vai constituir um todo coerenciado. uma ordo. segundo o logos. Nem apenas porque tem um logos. quo. que analoga a forma aristotélica. que funcionam segundo o interesse da totalidade. as partes como estôfo. a totalidade é uma unidade. ou a lei de proporcionalidade intrínseca. É o logos.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 22 Ora. de uma tensão. que. dá coerência ao todo. que as ordena. as partes constituem a estrutura hilética. propriamente. Portanto. que é unidade de composição. a não ser quando são partes de um todo. segundo uma lei de proporcional idade intrínseca. nós ainda temos o logos de proporcionalidade intrínseca. abandonado depois. que as arranja. juntas. muito embora elas também funcionem segundo o seu interesse próprio. razão. o synolon dos gregos. que é matéria. iniciado pelos pitagóricos. como estrutura hilética. observar-se-á mais adiante. quando em oposição e antinomia ao interesse do todo. e. Não é unidade apenas porque tem partes. segundo um logos de proporcionalidade intrínseca. a sua qüididade. As partes. enquanto unidade. trazemo-Io agora para ser reexaminado. cujo logos diz o que a coisa é. uma lei de proporcionalidade intrínseca. unidade. Mas o que as coacta. que é um todo. É. e que é o logos do ontos. e permite abrir o caminho para a compreensão do que se chamam as disposições prévias corruptivas. relativamente simples. dispostas segundo aquele logos. não são partes. o que lhes dá uma coesão. a coisa é o que ela é. retomado pelos estóicos. pelas partes positas. em que as partes estão coactas. quando constituem a estrutura hilética de um todo. esquecido durante séculos até os nossos dias. uma unidade de totalidade é tal pela composição (de cum e positum. Na unidade. um eidos. ordenados. por que veremos que esse logos da tensão é um princípio ativo. entra em contraposição. quando eles constituem a componência desse todo. enquanto unidade. o composto. Ou melhor. pois. em suma. Estes elementos estão arranjados. com a sua estrutura eidética. é a tensão. quod. porque há unidades sem partes. o qual. precisamente. Assim temos as partes como estôfo. cuja fórmula é o seu eidos. exerce o império sobre essas partes. uma ordem. a relação em que estão urnas coisas a respeito de outras. de modo a obedecerem a um império tensional. que é um holos. A sua estrutura hilética diz o de que é ela constituída. do estôfo que. por sua vez. o todo. formando uma coesão. hylen do grego. matéria. que são. ratio. por que diz o quid sit. proporcionalidade intrínseca. tomadas apenas como unidades várias. o que é. no todo. por tal estrutura. quando estamos num todo simples. o que as coerencia. que coacta as partes. na língua alemã. segundo uma proportio. É assim o pelo qual. Tema estudado. surge no termo Stoff. segundo um logos. uma tensão. uma proporção. a estrutura hilética. e coerenciadas. com as outras). em oposição ao interesse da totalidade. na totalidade. que já vimos.

a unidade de totalidade não o seria. que é um todo. como seria uma célula. por que a parte é parte do todo. que é unidade per accidens. como um batalhão em forma. porém. Num todo. a disposição (de dis e positio. em que tais partes estão apenas agregadas numa unidade. mas esse todo se distingue daquele em que as partes estão no todo. A primeira afirma a ordem. Então temos: 1) num todo. segundo o logos. que é a lei de proporcionalidade do todo. Porque se não houvesse a tensão para coactar e coerenciar as partes. pois além de analogadas. estas constituem elementos de sua estrutura. Num todo. distinto das partes pelo seu logos. que é um todo. há uma analogia. Na relação todo-parte deve-se distinguir o comum dos particulares. a conveniência do todo. numa célula. segundo a posição aristotélica. além de apresentarem essas propriedades. num todo de simplicidade. Num todo per se. 2) as partes funcionam num todo segundo a ordem do todo. como se vê num ser vivo. em . porque o todo exige partes. como um monte de pedras. do contrário a unidade hólica. estão ainda. intrinsecamente. mas ao contrário. pertence ao predicamento da qualidade. que é a soma das partes. Assim. mas que funcionam segundo um interesse. além de forma rem uma coerência. embora distinto delas enquanto todo. segundo uma ordem. há totalidades em que as partes. um pedaço de ferro é um comum. posta positivamente porque as partes têm de ser positivas enquanto tais. portanto. são unidades per accidens. o que. *** A parte não se predica do todo. mas composto de particulares. de estarem coesas com o todo. é importante e embora na Estética se possa fazer o contrário. As propriedades da unidade da totalidade são as propriedades do todo-parte e da ordem. não se pode. coactas. iremos compreender melhor também as diferenças tensionais que se formam nas diversas unidades. ou estão ordenadas. e não surge. funcionam segundo o interesse. o logos também é acidental. a tensão deveria surgir igual. quando estudarmos as divisões da unidade. porque a tensão de uma célula é completamente distinta da tensão de uma cadeira. que já estudamos. As partes estão acidentalmente ordenadas no todo. contém. mas do todo. Na unidade. a conveniência. posição). unidades que acontecem. que é a ordem das partes. unidade per ordinem. que tem partes. a unidade. por mero ajustamento. toda vez que se estabelecem conjuntos. pois sem elas ele não seria um todo. a estrutura do todo e a estrutura das partes. contudo. pelo seu eidos. fazer na Filosofia. a dispositio das partes num todo. não apenas dela. na Lógica. Por isso. partículas de ferro. um logos analogante. as partes estão analogadas. o eidos. que é um holos. um logos que as ordena. Assim.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 23 razão suficiente.

há um elo. que foi seguido. mas que são coagidas. Então temos uma unidade per se. como vemos no pensamento aristotélico. extrinsecamente. esta tensão (e este era o ponto fundamental do pensamento estóico. dentro de uma gama de variabilidade. de certo modo. Há um esforço. Temos: 1º) um logos de proporcional idade intrínseca. em alguns casos. Tais observações vêm mostrar que a teoria tensional tem seu fundamento em vários aspectos. num átomo integrado. coato de certo modo a um equilíbrio de forças de retração e de repulsão. do seu holos. sabemos que o nosso planêta age dentro desse sistema. quando observamos os seres vivos. atua como um todo. uma espécie de oposição de forças. perfeitamente. aqui. que coerencia e coacta as partes. que subordina. portanto. que subordina. que se antinomizam. de outras constelações. há partes que buscam excluir-se. por isso mesmo. que tendem para algo. que tem o seu máximo e tem o seu mínimo.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 24 que as partes funcionam segundo a norma dada pelo todo. conforme sentimos hoje. Ora. como. e move-se dentro do nosso universo como um todo. neles não são apenas substantes. elas são forçadas. a permanecer. Basta que olhemos o nosso sistema solar. Os antigos chamavam a primeira de forma acidental. e as faz funcionar segundo o interesse da totalidade. dessa totalidade. Sabemos que. e. As partes não são coactas espontâneamente. mas estão especificamente subordinadas per se. e no caso da forma substancial. mas. sobretudo. que ele funciona como uma totalidade. que é extrínseco à totalidade. elas não escolhem permanecer no todo e se unirem. Nós não podemos continuar fugindo à realidade. que atua para coactar essas partes. dentro de posições que são variáveis. que seguia. 2º) um logos de proporcionalidade extrínseca. que buscam o interesse próprio. aproximando-se. pelos escolásticos. também. escamoteado há dois milênios. há um poder. Na Ciência. não só neste. que o colocam dentro do sistema. e todo esse nosso sistema funciona como um todo. nada nos revela mais a presença dessa tensionalidade do que um átomo integrado. as partes. intrinsecamente. e este império é variável. e isto é o que se chama de tensão. e a segunda de forma substancial. é . a linha pitagórica) exige um esfôrço para dar-se esta unidade. depois. algum império. devido às dificuldades teóricas que ele provoca. e há. todas as suas partes funcionam segundo o interesse desse todo e da sua conservação. as partes. No entanto. Sabemos. um logos que é o império da tensão. Sabemos que este é um dos pontos mais difíceis da Filosofia.

Pode a filosofia moderna fazê-Io. nessa obra. e há necessidade de enfrentar este problema. como numa ordenação que se faça. em graus maiores ou menores. um todo composto de partes. daqui por diante. o que estudamos na "Teoria Geral das Tensões". No todo. Assim. assim considerada por ser imprescindível para que a unidade seja o que ela é. quid sit. um pedaço de ferro do qual predicamos as suas partes. sob um aspecto. então. não sob a natureza. que é to synolon. 9º) necessidade da estrutura hilética e da estrutura eidética. 5º) funcionamento das partes. Somos obrigados a tratar da tensão. Não se pode ceder a sua ausência. para que seja o que é. De forma que empregaremos. a coerência desse todo. só podemos predicar. em que ordenamos as partes. como de ferro. que é incedível. a presença das tensões. porque não é possível falar numa unidade hólica. 7º) a normal que as subordina. não é cedível). apesar das suas partes. algo que acontece com a sua totalidade. 2º) divisão das partes distintas entre si. a ausência é incedível (de ne e cedo. oportunidade de estudar esses aspectos. cada elemento é distinto do outro. digamos. se há a mesma especificidade nas partes. também. de holos e syn. 3º) estarem estas ordenadas segundo um logos de proporcional idade intrínseca. 6º) analogia entre as partes. especificamente. to synolon. que é uma unidade de composição. isto é. de totalidade. 10º) aspectos necessários e aspectos contingentes. então este todo é um todo heterogêneo. essência do ontos. o todo é heterogêneo.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 25 escalar. de móveis colocados dentro de uma ordem e que. sem que consideremos. no sentido de composição. Nós teremos. e trazer outras argumentações. há. vamos dar uma especificidade ao conjunto. além do que constitui a sua emergência. como num todo de ordem. e também o Logos do seu holos. Se negativamente. a sua unidade de totalidade imprescindível para que haja unidade. que é cedível de certo modo. tensão. o todo é um todo homogêneo. que poderia ter ou não ter. segundo o interesse do todo (holos). . assim. 8º) a harmonia das partes. os seguintes aspectos: 1º) uma totalidade que é uma indivisa. especificamente. ter de outra maneira que a unidade de totalidade. mas sob a acidentalidade das coisas. o que nos permite. a estrutura eidética e a estrutura hilética. ou per se ou per accidens. a expressão to synolon. o que constitui a emergência do ontos. É o que Aristóteles e os Escolásticos chamam a essência. 4º) uma subordinação das partes ao todo. Porque não é possível que a Filosofia vá permanecer indiferente a uma realidade patente a nossos olhos. Na unidade de totalidade. Não adianta escamotear o problema. dizer que a totalidade possui uma tensão maior ou menor. quer queiram quer não. que vão constituir a accidência desse todo. ainda. não sob outro. portanto é necessária à emergência de um ontos. o logos do todo. Encontramo-nos em aporias.

e esta ordem é o que se chama o quantulm. diz-se que não constitui a totalidade. No todo hólico. que é apenas composta por agregação. subestão no ser que se jecta sub. contingentemente. e conseqüentemente é alguma coisa finita. também as unidades per accidens. per ordinem. quer eidêticamente o mesmo. Mas o que está de tal modo. que é algo que acontece com aquelas. uma ordem destas. quer dizer em sua totalidade incluso. O conceito de parte implica. mas de modo necessário. mas que também inclui aquela. é. quer dizer que a sua ausência não implica que a coisa deixe de ser o que é. É apenas um acidente necessário. ou seja. há. e elas estão nele. há uma disposição das partes. a unidade hólica. No todo heterogêneo. Ambas têm o seu ser no que constitui o todo enquanto as contém. está incluído necessàriamente ou contingentemente. em qualquer de suas partes. esta deixa de ser o que é. o aspecto quantitativo. necessariamente. a unidade composta. os acidentes da qualidade e da quantidade são necessários. está incluso total ou parcialmente. quer hilética. enquanto parte do todo. que é a lei de proporcinalidade intrínseca. não em todas. que é uma unidade de totalidade simples. examinado. como vimos. apenas em uma ou mais partes. subjecta. por que uma coisa infinita não pode ser parte de uma totalidade. A quantidade. segundo um logos. Necessàriamente quer dizer: se se ausentar da coisa. cada parte. que é unidade de totalidade. partes extra partes. por que o que se diz parte. que é a determinação. nas suas linhas gerais. algo que acontece também necessàriamente. as partes. mas que não é da essência. o de finitude. uma ordem nas partes. quid sit.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 26 Temos. mas apenas um determinado aspecto ou elemento de uma coisa. tem a mesma estrutura hilética do todo. SÉRIE E SISTEMA O que está incluso numa unidade. Assim o todo vai ser constituído. portanto. e não só unidades pe. TOTALIDADE. enquanto que a qualidade decorre da sua estrutura eidética. totalmente. e as partes estarem determinadas de certo modo indica a sua qualis. assim. como é um pedaço de ferro. parcialmente. pois. O estar dispostas uma em ordem às outras é um aspecto incedível no todo. que tem partes extra partes. decorre da estrutara hilética. que é uma totalidade. . por sua vez. Num todo homogêneo. em sua emergência. a unidade que é relativamente simples. in subjecto. CAPÍTULO V A UNIDADE. como acontece com toda unidade hólica. Numa unidade.

de ortos que. e formarem um sistema. enquanto parte de um todo acidental. formar uma série. por sua vez. . é o logos henótico. um novo um. uma unidade. significa direito. uma unidade. desse logos. são considerados de cinco maneiras. enquanto parte. pode juntar-se com outras totalidades. Examinaremos mais adiante este problema. Todo sistema tem um logos hal'monikôs.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 27 enquanto tais. se'm perda de seu logos. falharia como tal. considerado na sua componência. por sua vez. Assim a unidade tem o logos da unidade. com as outras partes. é uma pluralidade que forma um plethos. ou da retirada de algum membro. ordem. de maneira que esta classificação dialética nos permite alcançar o quinto aspecto. elas estão em potência para novas formas acidentais. o que implica sempre um todo que se configura. e às vêzes também não têm todas a mesma estrutura hilética. hólico. além dos opostos estarem analogados. grego. a série. em. há sempre um logos analogante. elas são o que elas são dentro do todo. segundo a complexi dade de sua componência. o sistema im plica anterioridade da série. Assim como a totalidade implica anterioridade da unidade. quando há possibilidade de inclusão de mais membros. como série. por que. As partes podem estar num todo de diversas maneiras. do seu eidos. Pergunta se o sistema é uma unidade per se. Enquanto tais. quando estruturados entre si. que é o universo. embora elas venham a constituir uma estrutura eidética acidental. quando a sua forma é per se. como série. como um verso. Os conjuntos. e o próprio sistema constituem unidades. per accidens. como totalidade. o logos da harrnonia. Diz-se que o sistema é aberto. como sistema. a série implica anterioridade ontológica da totalidade. pois há uma normal. em que os mesmos elementos formam um conjunto acidental. ela. que é o logos do holos. que pode ser o Iogas orthikós. a totalidade tem o logos da totalidade. não têm todas a mesma estrutura eidética. segundo a qual as partes funcionam. as partes da totalidade funcionam segundo o interesse do todo. Como totalidade. como unidade. que. e esta totalidade constitui uma harmonia. e o universo implica. apenas um predicamento da qualidade. vai constituir. como sistema. como estudamos em nossas obras de Dialética. as partes estão em ato. Num todo meramente acidental. Além desses logoi. ou de ordem ou de puro acidente. mas o sistema só pode ser considerado tal. a anterioridade do sistema. e fechado. do contrário. por que. Assim a totalidade. que. vão constituir uma unidade. como um termo de ordo. Os sistemas. tomada apenas como unidade. que faz parte de uma totalidade. quando tal presença ou ausência provocaria a mutação da sua forma. As séries podem reunir-se entre si. sem mutação da sua estrutura hilética e eidética. ou não. como totalidade. há o da série. ou de agregação.

que tem todo conjunto. é uma unidade que tem um termo comum que lhe dá certa consistência. de maneira que todo conjunto tem um termo comum analogante de seus membros ou elementos. é a usagem da condução. onde há substância haveria acidente. o termo comum. complexos lógicos. O conjunto das pessoas que ouvem tal programa de rádio. sem conhecer os que os ouvem. são duas maneiras de estar. só há filho onde há pai. onde não há acidente não há substância. por natureza. Assim a substância é a substância do acidente. O complexo dos reis que abdicaram não constitui uma unidade per se. Resta agora saber se o sistema e o universo. conseqüentemente. logicizável. neste caso. que o compõem. em tal dia. a nossa mente pode construir conjuntos esquemáticos. Assim o salário é o logos analogante que se pode tomar como termo comum dos assalariados. e terá a sua resposta oportunamente. Numa fila de ônibus.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 28 Se queremos tomar um complexo correlativo como substância e acidente. ao estudarmos se há casos em que há sistemas necessàriamente per se e outros não. segundo a sua eideticidade. Estes complexos podem ter um fundamento real. totalidades. mas constitui uma unidade per accidens. Se são correlativos (1). em tais ou quais determinações. como tais. deve haver algo comum entre estes termos. e como tal tem um fundamento real. necessàriamente. por representações plásticas. necessàriamente. mas reaJ quanto à sua representação significativa. que subestá. É um grupo social transeunte. em outro. pai é pai do filho e filho é filho do pai. em tal hora. Mateticamente podemos perguntar se um sistema. por meios factivos. o acidente o acidente da substância. complexos e. é per se. que analoga os elementos. formando um universo. se nossa ordem cósmica. que é o logos analogante: o ouvir. ou também podem ser per accidens. ela pode ser acidental. Logicamente. No conjunto. e o ser do acidente consiste em estar na substância. e outra in. onde há acidente há substância. tem de ser per se. existe um termo comum que analoga os elementos ou membros. do pensamento aristotélico. temos de achar o termo cumum que analoga os termos opostos. O conjunto complexo das quimeras da Idade Média constitui um complexo com fundamento ideal. também. que implica criação respectiva. enquanto tais um implica o outro. mas real. . Neste caso. por exemplo. são per se. Os que ouvem tal determinado programa. de mínima consistência. e. Esta pergunta se impõe. o que lhe dá o termo comum do stare. por que sabemos que a totalidade nem sempre o é. e convertivamente. e também. ou serem apenas ideais. ou per accidens. Os conjuntos são. O estar pode ser prefixado como sub e como in. Do mesmo modo só há pai onde há filho. Acidente in stat. considerando-os sob o ângulo noético-eidético. o logos analoganle. etc. ou apenas eidético. e também a série. Um complexo é a componência. A substância subestá. que é um logos analogante. têm. um termo comum: o ouvir tal programa. uma sub. embora sem consciência uns dos outros. com a substância que sub stat. onde não há substância não há acidente. O termo comum é paternidade.

quando há um todo capaz de se desintegrar em suas partes. ou é em potência. chamam muitos de relativamente simples aquelas coisas que. enquanto é transcendentalmente. precisamente esta compreensão permite justificar a dicotomia em entes simples e entes compostos. em ato ou em potência. a substância. e anisomorfos. do contrário. É em suma. portanto. Confirma-se. Em relação a outros complexos. e. enquanto tem unidade pela quantidade. e também relativamente considerado. pode ser muitos relativamente. pode-se conceber a intrínseca unidade qualitativa acidental. absolutamente e relativamente. separada a quantidade. Os membros do todo bastam distinguir-se conceptualmente. não estão divididas. Estes termos referem-se. pelo contrário. unida à negação. são classificáveis em diversos predicamentos. são isomorfos. inclusive na substância material. não tem unidade per accidens. mas só em potência. que é absolutamente um. em seu próprio gênero. A unidade transcendental é intrínseca em sumo grau em cada ente. e lhe convém pela virtude de sua única entidade. Contudo. A multidão. pois podemos classificá-Ias diferentemente. é ente. cujas partes. Pode ser homogêneo ou heterogêneo. Logo. ela equivale à unidade simples. se não possuem essa similaridade. e em suas relações. se possuem similaridade de estrutura. a substância materia não poderia ter unidade per se. já que consta de coisas pertencentes a diversos predicamentos. A multidão é alguma coisa. . mas é imprescindível que esta substância tenha a sua unidade fundada na quantidade. que é propriamente a única multidão. O múltiplo pode ser absolutamente considerado. e se de partes essenciais. Naturalmente que não de simplicidade absoluta. aquela. o que é um absurdo. já que o ente. pelo qual. consta de coisas pertencentes a diversos predicamentos. enquanto múltipla. é absolutamente algo em que há uma multidão de elementos atualmente divididos. tomadas em si mesmas. na realidade. A unidade transcendental não é unidade quantitativa. separadas atualmente. é uma per accidens no gênero. porque a substância. Só há multiplicidade onde há unidade.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 29 quanto à sua estrutura hilética. segundo sejam homogêneas ou heterogêneas as partes que o compõem. que se funda na unidade. ou é atual. o que não se deve esquecer. Ambos podem ser tomados no sentido absoluto ou no sentido relativo. A unidade per accidens. se se desejar considerar tais membros. mas per se. quando é atualmente dividida. mas relativamente simples. já que ele é múltiplo de uns.

e. Na verdade Aristóteles não negava que se pudesse empregar ser como termo médio de um silogismo. de modo a poder tornar-se termo médio de um silogismo. são uma unidade relativamente. Ele concluia da premissa que o que é. como se fosse a totalidade do ser. o um de b. seria nada. ser não tem uma significação uma. o ente pr' accidens não é ente na realidade. por que. na realidade. a unidade também não pode ser unívoca. "tudo que está fora do um é não-ser. analogamente. ou seja. mas se é tomado precisivamente. na verdade. se para cada uma das partes e de cada um dos entes. nesse silogismo. que coata. a unidade. Por isso toda unidade per accidens. "ora não-ser é nada". Ele tomava um. o que está em si. Muitas são as coisas que. não pode ser tomada urivocamente. mas o ente se divide em per se e per accidens. Se é um ente pe' se. Era este o ponto onde Aristóteles julgava haver erro em Parmênides. por que ele tomava o ser apenas como transcendental. é nada". O que é dividido é o ente sob a razão de per accidens. Todas as coisas são realmente um. por que o ser. que são em absoluto muitas. estão atualmente divididas. e depois na segunda. de modo que tudo que estivesse fora do un. portanto. como se pode fàcilmente ver. por sua vez. No entanto. por que este usava equlvocamente o um. ao verbo. logo tudo que está fora do um. "fora da totalidade não há nada". um ente real. será um per se. o um de a. tudo quanto é. neste sentido cada ente é certamente um. e não ao substitutivo um em muitos. é um. e como imutàvelmente. não sendo unívoco. Para Suarez. de modo que repelia o seguinte silogismo de Parmênides. não é um deste modo. Se tomado distributivamente. que é uma potência ativa. que coerencia as partes numa totalidade. ao um como todo. na conclusão. está certo. se é per accidens será um per accidens. não porém. em que esta tem um papel de subordinante sobre aquelas. não são um todos os entes. não constitui um ente. e um relati vamente. É que Suarez nem sempre considera a tensão. em si mesmas. Se tomado logicamente. Também a unidade se divide em uma e múltipla. O ente per se é um absolutamente. pois a multiplicidade absoluta não divide o ente. aqui. uma fôrça intrínseca. Assim as coisas. mas apenas entes. o termo um era tomado. tudo que está fora do um é não-ser. na primeira premissa. "logo tudo que está fora do um é nada". atualmente individido. mas o um pode ser tomado distributivamente. teria que se referir sempre ao mesmo um. Ele não considera assim. Podia constituir um ente de razão. Essa é uma afirmação de Aristóteles.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 30 aqui. o ente enquanto prescinde da razão de per' se. o um de c. a não ser enquanto é uma unidade relativa. O ente divide-se em um absolutamente. Para . o ente se divide em um e múltiplo. e poderia ser tomado o um do todo. o não ser é nada. Mas. Na verdade Parmênides usava equlvocamente o termo um. mas apenas unidade de razão. mas entes. apenas negava em casos como esse de Parmênides. Contudo.

Suarez aceita esta tese. como indivisos. encontramos a tensão. não há verdadeiramente unidade. porém.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 31 Suarez. dada por nós. Não encontramos a tensão como um logos que impera. e considera tais entes de certa maneira per se unos. mas que só admitiríamos por analogia. quando se compreenda seus elementos. mas apenas certa proporcionalidade. afirma ele. Neste caso. há união. há coordenação das partes. como formando cada um uma unidade. mas aquele que não é per se. dizemos nós. De maneira que Suarez está certo. permite a unidade do ser vivo. no caso de uma máquina cibernética. tudo. um ser vivo. A vida flui na intrinsecidade da coisa. Consideremos uma máquina cibernética ou uma máquina eletrônica. dá uma certa coerência. Mas certos entes. mas apenas certa proporcionalidade. funcionaria todo ele segundo o interesse da totalidade. embora por uma intencionalidade extrínseca a eles. segundo a intencionalidade que lhe é dada. contudo. é algo construído e usado por nós. uma certa tensão análoga. é evidente. nela. Na agregação. é extrínseca às suas partes. apesar da multiplicidade de suas partes. seres per se formam unidades per se. e que estão coatos de certo modo. que estão divididas. uma certa coesão. nas unidades per accidens. há um lo gos tensional. Assim. não lhe é intrínseca. o que é importante. sem dúvida alguma. Ele afirma que. e diz que a razão de unidade convém à multidão por certa proporcionalidade ou imitação com a unidade. não há verdadeiramente unidade. que lhes dá uma unidade. É isto que aceita Suarez. um logos do holos. a unidade de ordem é per accidens sem dúvida. de haver nele uma heterogeneidade de entes. mas de modo análogo. . Compreende-se alguma coisa como multidão. e é evidente que há sempre uma tensão. contudo. coopera na formação de uma unidade. não apenas o ser composto. embora as coisas. aquele que não forma uma unidade per se. Então. e no caso de todos os tipos de unidade per accidens é evidentíssimo. no caso de agregação. não têm razão de tal. com um poder ativo. também se apresentam analogamente como seres tensionais. De forma que. que são per ordinem. sejam multidão. senão depois que a cada uma das coisas se lhe atribui o ser uma unidade. o que seria absurdo. Ela tem uma certa tensão. Suarez aceitaria que se trata de uma certa maneira do ser per se um. Realmente. com funções diferentes. Uma célula. Qualquer delas é um ente per accidens. que coacte as partes. no entanto. per' accidens é análogo e não unívoco. mas esta. na agregação. desde que classifiquemos como ser per accidens. de maneira que todas as partes funcionam subordinadas.

pois não surge desde início como um todo.FORMA .UM PER SE . Uma substância quantitativa forma uma quantidade. e cada parte obedece ao interesse do todo. E tal per se um é uma unidade múltipla e de certo modo per accidens. por que. enquanto substância. que funcionam todas acidentalmente. funciona analogamente a uma unidade per se. de certo modo. mas que funciona anàlogamente (análoga e não univocamente) como uma unidade per se. o que Suarez admite neste ponto. A transcendental é uma unidade per se. acidentes. quer dizer. composta de uma estrutura hilética e de uma estrutura eidética. A substância. em diferença com a unidade quantitativa. é a unidade tomada per se. que não é o per se um unívoco. É o que ele chamaria ou admitiria que se chamasse de unidade per se análoga. que têm forma e matéria. Digamos um pedaço de ferro dá uma unidade quantitativa a esta substância. Outro aspecto que se deve tratar é o que se refere à unidade transcendental. mas. mas. forma uma unidade transcendental. mas a substância. realmente. nestes entes. CAP. Isso verificamos no exemplo do relógio. de tal modo. Então. mas que funciona como se fosse per se uma. que é. uma espécie. que elas funcionam segundo o interesse da totalidade. ou seja. uma intencionalidade (embora extrínseca). que unifica as partes. Essa quantidade é a unidade acidental. também. acidental. É preciso distinguir a unidade transcendental da unidade per accidens. do contrário. não só de ordem. é uma unidade per accidens. sem dúvida. A quantidade vai dar-lhe uma unidade quantitativa. no entanto.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 32 Há. e não constitui uma verdadeira substância. todos os seres que têm uma tectônica. é que há. em todos os seres. esta é a diferença que tínhamos de fazer entre a unidade transcendental e a unidade quantitativa. o que seria absurdo. o per se um completo. a admissão do um per se análogo. Esta é a dada pela substância. das quais já tratamos. VI QUANTUM . não tem unidade per accidens. Uma unidade acidental que. mas per se. e que estão regidos pelas leis. embora sendo uma unidade acidental. é verdade que o relógio funciona como um todo. de certa maneira. a substância material não poderia ter unidade per se em seu próprio gênero. Neste caso. enquanto transcendentalmente tomada. estamos em face de uma unidade per accidens. que são compostos de substâncias. que não se pode dizer que é uma unidade per se uma. na obra de Suarez. por que é composta de partes. mas esta não é unidade transcendental. per se uma. como na classificação aristotélica. e julgamos tenha ele concedido uma boa contribuição para a "Teoria Geral das Tensões".

não o inverso. ou é capaz de existir. que está a ela subordinada. Está tomado indiviso in se. é abstração de segundo grau. mais um exemplo onde rege a lei da subordinação. atuaJmente. lei que nos revela que o subordinado implica. necessàriamente. não é algo diferente da unidade transcendental aplicada a tal ente. o nome de número. Nos quanta. Temos. através de suas criticas ao pitagorismo. é numericamente um ente real. Os entes quantos (quantum. o número. fundada na quantidade. necessàriamente. realmente. que é conveniente. Por outro lado. Como Aristóteles e seus seguidores costumavam dizer. Tudo o que é absolutamente um. a unidade quantitativa. a unidade não diz absolutamente negação de multidão. que acontece com uma substância. Neste sentido. que inclui. plural quanta) são os entes que têm quantidade. o que decorre da lei de que a negação é sempre posterior à afirmação. da indivisibilidade. diz-se que ele está tomado na completude da sua entidade. O ente real é singular e um numericamente. Ora. afetado pela quantidade. e ela há. A unidade não é a negação da multidão. subordinadamente. que é a abstração quantitativa. e não o inverso: a unidade transcendental não implica. um número. especialmente. em modo peculiar. na quantidade. como expressa Aristóteles. denominativamente. Assim. a unidade. a unidade transcendental. acha-se. Só por meio dos sentidos podemos numerar as coisas que têm magnitude. de cuja divisão resulta um número. A unidade quantitativa implica. de unidade numérica. por isso a magnitude de tais coisas recebe. uma unidade intrínseca quantitativa. a unidade transcendental é dada pela substância ferro. nega a multidão de certo modo num mesmo ser. ao ser. e não é subordinado a este. contudo. necessàriamente. além da unidade transcendental. e não deve ser confundido com o arithmós pitagórico. a multidão é tal. ou é apto. A divisibilidade. A unidade transcendental pode haver sem aquela. por que a unidade não exclui. absolutamente. A unidade. A unidade. por que a unidade quantitativa numérica está subordinada à quantidade transcendental. que surge na análise do contínuo. mas representa um aspecto acidental da primeira. que é uma abstração de terceiro grau. aqui. de modo especial. ou um contínuo divisível. porque quando se diz que algo é unidade. mas a unidade quantitativa é um acidente. acidental. temos de distinguir. na quantidade. enquanto conjunto de unidades. porque chamamos de singular o que é numericamente um.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 33 Na substância material. O ente real é o que existe na realidade. A unidade transcendental inclui a unidade quantitativa. A unidade tem anterioridade ontológica à multidão. num pedaço de ferro. como expressa Arist6teles. como indivisa. sem aquela. Agora a multidão inclui. pela qual a quantidade é uma. e essa a razão porque se chama. um subordinante. a unidade é a continuidade da quantidade. não . uma negação formal.

como estão as células num corpo. não é um. ainda. Então. A unidade não é privação daquela multidão que constitui ela mesma. Enquanto (1) Esta tese será oportunamente discutida sob outros aspectos. por isso a unidade não acrescenta ser ao ente. por exemplo. mas da multidão que se nega existir naquilo que precisamente se diz um. O que é ente múltiplo. como veremos mais adiante. Mas a idéia de multidão não está ainda afirmando-se como unidade. o atributo é multiplicidade. não é um. O um per se pode ser composto de atuais entidades parciais. como uma mera unidade de agregação. porque. o atributo de unidade. a unidade não é um atributo. as partes estão virtualizadas em relação ao que são com anterioridade ao todo. ou qualquer ser cognoscente. segundo uma unidade. portanto. mas são potência subjetiva num todo. o ente real é um ente que é numericamente um. e não à sua unidade. inclui a multiplicidade de unidades. A multiplicidade apresenta-se como uma unidade. ou nós. O que há de positivo num ente pertence à sua entidade.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 34 representa negação de multidão. anterior à divisão. na proporção que é mais ou menos composto. neste caso. ou singular. só poderia formar uma unidade per accidens (1). É uma potência que tem a sua presença. porque dizer-se que é indiviso in se caracteriza. como dissemos. enquanto múltiplo. a completude de si mesmo. por exemplo. como está. por natureza ontológica. de certo modo. não se pode dizer que a unidade é um atributo adequado do ente. tomaríamos apenas as unidades. O ente pode ser mais um que outro. Não são apenas potenciais. Se as entidades parciais estivessem totalmente em ato. ela pode receber. e dizia. A unidade é. elas não se tornam meramente potência objetiva. ele. o todo não poderia formar uma unidade per se. Mas o que se diz que é ente múltiplo é um ente que tomamos de certo modo. . mas atualizadas na forma do todo. virtualizadas no todo. com outros. que estas entidades virtuais parciais estão. o que não impede que ele faça parte. o ser um. adequadamente. por exemplo. no caso do ente múltiplo. porque se o ente é múltiplo. A negação da unidade não é pura negação. do contrário. e Suarez expunha esta tese. porque. enquanto é múltiplo. Não se quer dizer que o conceito de múltiplo inclua muitas unidades. Esta a razão porque os dialéticos dizem que a unidade não é um atributo adequado do ente. A unidade é medida da multidão. o oxigênio na água. apenas o é analogicamente. Só uma coisa individual é apta para existir. de uma multidão. Num todo de estrutura eidética substancial.

outras que outras. já que a água apresenta propriedades distintas das que pertencem ao hidrogênio e ao oxigênio. como sabemos. Então. podem atualizar-se na estrutura eidética anterior. o que se verifica através da análise química. Só haveria um todo substancial. para garantirmos a validez apodítica desta tese. porém. Se tudo em nós fosse apenas ilusão. basta provarmos a invalidade da mais extrema. que a diferença é dada na nossa primeira experiência. Tanto o hidrogênio como o oxigênio virtualizam-se de certo modo. que julga que tem imagens em si mesmo. embora permanecessem nele. que há diferenças. Quer dizer que a água. como os átomos de oxigênio podem reatualizarem-se na estrutura hilética e na estrutura eidética do oxigênio. as partes continuam atualizadas em sua estrutura hilética e em sua estrutura eidética. quid sit. retomar a ter a estrutura eidética correspondente. é o que é. mas. algum quid de alguma coisa. Se não houver. As partes de um todo substancial podem tornar-se partes de um todo acidental. as partes estão atualizadas em sua estrutura hilética. Deste modo. como se pode observar. elas funcionam segundo as leis dos conjuntos. O que é. quando. neste caso. em potência subjetiva. as coisas são distintas umas das outras. do contrário. que serão estudados oportunamente. E porque há diferença. quando se formasse uma unidade una per se. porque o que é alguma coisa é alguma coisa que é. Mas no todo substancial per se. embora ilusões. Contudo. é o que é. as coisas devem diferir por alguma coisa. mas esta virtualidade não os transforma em potência objetiva. e os elementos componentes virtualizassem. De modo que as partes atualizadas podem virtualizarse. Assim. e somos testemunhas dela. sim. a sua estrutura eidética. seriam diferenças. As partes virtualizadas podem atualizar-se total e parcialmente. não haveria coisas outras que outras coisas. construídas na nossa mente.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 35 virtualizados. porque. há coisas que são o que são. também. com absoluta certeza. nós decompormos novamente a água. A parte de um todo pode ser um todo com as suas partes. total ou parcialmente. sem terem fundamento as distinções. as partes de um todo acidental podem tornar-se partes de um todo substancial. as . Podemos afirmar. e afirmariam a diferença. mas é. Pergunta-se pelo que é alguma coisa que é o que é. total ou parcialmente. não. e o que constitui a estrutura hilética. Como há diferença entre as coisas. algo que nelas haja que não há nas outras. em sua estrutura eidética. de certo modo. em suma. essas ilusões de diferença. E tudo quanto é distinto dos outros seria o mesmo que os outros. que são outras que o que outras são. como é a água. numa proporção de dois para um. a variância das imagens. depois. do qual fossemos apenas uma imagem sua. através da análise química. apoditicamente. Não há alegações válidas em contrário. Pois toda coisa que é. ou na mente de outro ser. tanto de um como de outro poderá. a diferença entre elas. provam à saciedade. absolutamente há diferença. é um composto de hidrogênio e oxigênio. um jogo de imagens. no todo acidental. Porque essas diferenças. com a sua estrutura hilética. entre as coisas. E essa certeza nós a temos por nossa mesma evidência.

Esse princípio é o logos. É fundamental em toda assimilação. e pelo menos há diferença na experiência humana. nas coisas. A diferença é. porque há aqui campo para muita investigação. um esquema primário do homem. necessàriamente. por exemplo. E o que difere. um fundamento da diferença. e ainda mais que. fora da mente humana. mas alguma coisa. do contrário seria nada. poderia afirmar que há diferença na ordem do ser. porque é preciso a referência . Se alguém diz que o que difere é uma ilusão. diferença. o emparelhamento é feito por representações de ambos. e que esta se dá. O que diferencia uma coisa de outra tem um logos. o homem não é um nada. Assim. e. estejam emparelhados um ao lado de outro. pois. a diferença tem um fundamento. exige. Há. E como há diferença. porque o que se acomoda para realizar assimilação. é a ralio. Numa representação do ausente para emparelhá-lo com o presente. e princípio é onde algo principia a ser o que é. há também diferenças extra mentis em relação à ordem do ser. unum ad aliud. sem o qual seria impossível experimentarmos ou ainda conhecer. até na diferença ilusória. Não há aqui passagem do gnoseológico para o ontológico. porque elas se dão na mente humana. diferenças. porque não haveria nada nelas que diferisse. no homem. Não há experiência humana sem diferença. pelas simples razões que se seguem é evidente que há pelo menos. tudo isso dispensa demonstrações. a formação da captação psicológica. há diferença na ordem da realidade. que são verdadeiras aptidões. sem a captação de diferenças. A diferença. há pois alguma coisa diferente válida. que é o "Tratado de Esquematologia". terá de afirmar que há alguma coisa nessa ilusão. pelo menos na ordem do ser. pois. seria impossível. implica um ao outro. sem o qual seria impossível a assimilação. E tanto é assim que outra mente. atualmente ou não. uma relação. colocada na ordem do ser. de certo modo. Então as coisas não difeririam. poderia afirmar. Então há incluso. É assim. em toda acomodação psíquica sensível. E como há. os dois esquemas. tudo isso é óbvio. Têm de ter uma razão suficiente de serem diferentes. não poderia haver diferença. O genuíno nativismo pitagórico e platônico referia-se a tais esquemas. Ora. porque sem captar semelhanças.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 36 diferenças não teriam nenhuma razão de ser. O homem está incluso na ordem do ser. porque não é nada. conseqüentemente. implica dois termos. Como o homem é capaz de conhecer diferenças que estão no ser. se ambos estão ausentes. como alguém. sem captar diferenças. e este é um princípio da diferença. a razão da diferença. apressadamente. Volveremos a este assunto. Estes são realmente os esquemas que pitagóricos e platônicos diziam serem inatos. tudo isso é patente per se à nossa mente. e o fundamento é algo onde a diferença principia a ser. inclusive fora da mente humana. assim. de semelhança e de diferença. como o fazemos em nosso "A Sabedoria dos Esquemas". posteriormente. mas a diferença é uma noção dual. é alguma coisa. têm uma razão de ser.

quo. e que chamavam de natureza. um para outro. um ser assistencial. Considerando-se a estrutura hilética (física) e a estrutura eidética. esse pelo qual é a forma. assim. seu quid. que é nascido. essa forma exige ser precisada. das quais já tratamos em seus aspectos sintéticos. diferem ou num grau do logos. relacional. na diferença. graças também. Toda coisa é algo. Assim consideravam a coisa que é. Como este logos é constitutivo da tectônica do ser. o que dis. As coisas. é o seu quid. com a coisa. que. que retome. Como o que dis fero de outro. a este Iogas. o quid que é da sua estrutura. que faz ser o que é. é possível distinguir: a estrutura da coisa que é. Esse algo. que é princípio. mas apenas. que nasce. não haveria fundamento para esse diferenciar. é uma estrutura da coisa. a coisa que é. pelo qual ela é o que é. que é o que é. do contrário. Esse algo deve ser considerado tanto para um como para outro. a coisa é o que ela é. um princípio da coisa. é o que é. . Os pitagóricos e Platão diziam que esse pelo qual. diferem porque possuem o quid da diferença. Então. a diferença. também.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 37 de um termo para outro termo. pode-se notar que uma está relacionada à outra.. essa forma. por algo que é.. o que se separa de outro. que faz a coisa ser. um ad aliud. mesmo neste caso. É ela que nos dá a qualidade da coisa. o que diferencia. Esse quid é. Não é mister ainda precisar-se este quid. Como a coisa tem morphê. a sua quidditas. e este é a estrutura da coisa. Como. pois a coisa principia a ser o que ela é. por ora. no pensamento pitagórico e platônico. ou nos logoi outros que outros. que é da sua natureza (de nascor. Nessa . que é outro que o outro quid. o pelo qual (quo) a coisa é o que ela é. é um Iogas. do ser da coisa. forma. o pelo qual tudo o que é. a diferença é. portanto. eidos. para que se capte entre ele o que dis ferre. pode-se notar a assistencialidade de uma à outra. O mesmo tem de representar uma diferença àquilo que nos parece com mesmidade. E davam-lhe o conceito de estrutura física. e o pelo qual. estrutura eidética. Uma ferencia re. ser nascido). há um ad áliquid. que é de sua estrutura. assim. esse eidos. diferem. tem de apresentar uma diferença. que é o logos da diferença. cuja assistência é prefixada. Contudo. algo pelo qual a coisa é o que ela é. portanto. logos. é physis. Mas pode haver diferenças. Seu ser é um ser. estrutura hilética da coisa. pelo menos. no grego. e esse pelo qual (quo) foi atmgido pelo filosofar aristotélico. difere em algo. que diferem. porque. as leis da relação. num fundamento. enquanto o eidos seria a sua estrutura eidética. na diferença. basta saber que faz a coisa ser o que ela é. uma razão. regem. que surge. esse quid. Tem.

Qual. portanto. pela qual ela é o que é. veremos se estas coisas ordenadas formam coisas de qüididades distintas. arranjar é ordenar as partes de uma coisa. Então. mas que. o lagos desta distinção? Se partirmos de nossa observação. Em outras palavras. uma ratio. é a sua própria existência. quando ordenada de outro modo. Assim. pelo qual a coisa é o que ela é. Essa nova estrutura ou será hilética ou será eidética. há as seguintes possibilidades: 1") que a estrutura hilética e a estrutura eidética sejam a mesma coisa. o fundamento. no exemplo. sintaticamente. em sua estrutura hilética. Neste caso. ordenadas de certo modo. Costumam apresentá-lo de modo completamente diferente. as coisas são o que são por que o que constitui a sua estrutura hilética está intrinsecamente ordenado. então. mas pelo qual a coisa é o que ela é. Impunha-se. Assim a estrutura eidética seria algo distinto da coisa que é. Se uma unidade. Ora. segundo um lagos. o logos da coisa. seria absolutamente simples. com suas partes hiléticas. uma razão. um triângulo. os pitagóricos chamavam de lagos de proporcionalidade intrínseca de uma coisa. eidos. porque estas. Desse modo. Contudo. é algo que se distingue da mesma. depois. Os críticos aristotélicos do pensamento pitagórico-platônico desconhecem a precisão superior deste pensamento. o lagos desta distinção e se uma coisa. enquanto tais. faz que esta seja o que ela agora é. e apontava para a razão ontológica da coisa. deixaria de ser o que é para ser outra coisa. nas quais um arranjamento nas suas partes torna-as outras que o que eram.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 38 assistencialidade. saber se ambas estruturas se diferenciam. Ordenadas as coisas de outro modo. a forma da figura que realizam. Será fácil concluir que a estrutura eidética de uma coisa era distinta da estrutura hilética. pois. mas acrescentandose-lhe algo. 2º) O pelo qual. é o que é. Dar-se-ia. é algo que é acrescentado a uma coisa. esta coisa é o que ela é. Os pitagóricos afirmam que a estrutura eidética é o lagos de proporcionalidade intrínseca de uma coisa. então uma coisa. Assim inúmeras esferas coloridas podem ser dispostas. pelo menos nesses seres em que ambas se distingam. forma. verifica-se que há coisas. tornar-se-ia outra que o que ela era. ela é o que é por ser ela mesma. umas com as outras. Neste caso. acrescentando-se outra. formando um quadrado. a identidade entre o eidos e a physis da coisa. elas são outras do que eram antes. um círculo. o pensamento pitagórico-platônico ia além da sintaxe aristotélica. Esta seria simplesmente simples. o pelo qual a coisa é o que ela é. desde logo se vê que esse arranjamento das coisas é algo que dá a extrinsecidade da coisa. e onde estaria o fundamento. o . relacioná-Ias de um modo. permaneceriam sendo o que elas são. Haveria. etc. o que Aristóteles chamaria. sendo o que é. Terá de haver uma distinção entre a estrutura hilética e a estrutura eidética. as esferas. que é o pelo qual ela é o que ela é.

o que já examinamos. das quais muitas já examinamos. de uma ordenação mecânica de "coisas em referência . e segundo a forma que possui (1). e com precisão. Mas observando-se um ser vivo. o círculo. e com razão. umas às outras. por si mesmo. Portanto. algo primariamente opera pela estrutura eidética que a coisa opera. porque as partes.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 39 quadrado. será a sua própria existência. Estas formas são apenas qualitativas. será ele mesmo. Um ser vivo. na categoria da qualidade. são distintas no seu funcionar. Mas distintas das partes integrantes de um todo meramente per accidens. porém. são determinações qualitativas. que é meramente acidentaJ. não como aquele ser. por sua própria existência. que surge já com. por ser a sua própria forma. CAP. e que é do interesse desse todo. As partes. A forma. por que alguma coisa só opera pela forma que possui. sub-está na coisa.O SEU ATUAR A forma é tudo pelo qual algo primeiramente opera.. tomadas quantitativamente. . VII A FORMA . por exemplo. válido universalmente. que constituem a sua estrutura hilética. embora não simplesmente simples. mas é um todo. sofrem mutações. está na sua intrinsecidade. um todo. O Ser Supremo. funcionam segundo as leis. nesse todo. de forma substancial per se. Pode-se dizer que tal forma é da intrinsecidade da figura.A ESTRUTURA EIDÉTICA E A HILÉTICA . quando ela é uma coisa composta. Este é um adágio aristotélico. não é o resultado de um arranjamento. distinta da primeira. da intrinsecidade das coisas que as constituem. Este todo forma uma unidade de simplicidade. as partes de um ser vivo são partes integrantes. pelo qual. por isso tal forma era chamada pelos antigos filósofos. um qualis apenas das coisas. intrínsecas. não apenas extrínsecas. como um quantum. mas. cuja estrutura seria formada apenas de si mesmo. no ser vivo. e a forma de um ser henótico. absolutamente simpIes. Ora. relacionadas. no qual as partes funcionam segundo uma normal dada por este todo. a forma é o que. etc. Por isso os antigos lógicos as classificavam. também. então opera pelo que opera. verifica-se que a sua estrutura hilética é diferente. portanto. não. e segundo são elas partes integrantes ou essências. uma célula.

que realiza alguma coisa. Agora se a forma é acidental. Por que sempre a estrutura eidética é concreta. por que é precisamente esta que afirma o que ela é. pela estrutura eidética substancial que a informa. é propter subjectum. como já tivemos oportunidade de ver ao examinarmos a causa eficiente. A estrutura hilética. de seu operar. Ora. pela forma. que vamos passar a ressaltar. Esta. que corresponde à forma aristotélica.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 40 A unidade. Operação é toda ação que realiza alguma coisa. esta é a forma acidental. Como há o eidos substancial e o eidos accidentaJ. que corresponde à estrutura hilética. enquanto tal. recebe uma forma. como tal. Esta estrutura eidética. E assim o pelo qual algo primàriamente opera. está na coisa. e o que entre eles se distingue. Entretanto. é a estrutura eidética concreta. que existe na coisa. no exercício de seu ser. ou seja. distinguem-se em diversos pontos. pois o alimento que se torna osso e carne. Assim se dá quando a forma é substancial. é por si mesma incomunicável. atualiza-se. 4) Não é o eidos que é apenas gênero. mas o barro está com anterioridade em ato à forma do vaso. A forma é o que vai dar atualidade à matéria. Neste caso. dentro do novo modo de ser. que está na coisa. mas nas coisas compostas. é pois propter formam. para outro ser. A estrutura eidética. a sua estrutura eidética e a hilética são princípios de sua ação. O que recebe a forma substancial está em potência para esta. a de uma unidade. Ora. pelo homem. A estrutura eidética dos artefatos. não. e realizam algo em ato. A matéria está em potência para a forma. portanto. dos seres. não é o eidos. veremos que ela o é primeiramente pela sua estrutura eidética. É portanto propter subjectuml. Mas se se considerar o que a coisa é. apenas espécie. o eidos é simplesmente a coisa. dos entes criados pela cultura. vejamos o que entre eles se assemelha. Em ato. 3) O logos do eidos está no de que é eidos. à estrutura eidética acidental. com o qual não se deve confundir. 2) Ambos são constituintes da natureza da coisa. Assemelham-se no seguinte: 1) Ambos estão em ato. é acidental e não substancial. a estrutura hilética tem anterioridade de atualidade à forma acidental. quer dizer. mas compositulm da coisa. porque o operar é da natureza da coisa. a matéria aristotélica. é algo pelo qual ela primeiramente opera: a estrutura eidética. Só numa unidade per se simples. . a atualidade lhe convém com prioridade à acidental. estas duas estruturas eidéticas. por que a matéria. está em potência para a forma do osso e da carne. Assim o barro recebe a forma do vaso. o ser que ela é. uma coisa opera segundo o que ela é. opera. e atualiza-se do modo que é. formas. o subjectulm é o ente em ato. eide. já que ela não se transfere. Conseqüentemente. como diz Aristóteles.

e esta operará segundo a sua natureza. em outros se repete. com a mesma estrutura hilética e eidética. pois. dinâmica e cinematicamente. é um composto. A coisa forma um todo com a sua estrutura hilética e eidética. que constituem a sua natureza. é. A hilética. mas também . Duas unidades. A natureza. as suas possibilidades. além da estática. a forma atua pelas causas instrumentais que a ela estão subordinadas. sem esquecer a parte dinâmica e cinemática. as estruturas eidética e hilética são os princípios ativos do ser. podemos numerar vaso um e vaso dois. notese. Sem a composição hilética e eidética não pode dar-se a individualização. etc. conseqüentemente. ter uma cor mais acentuada que o outro. a natureza da unidade compõe-se. mas também dinâmica e cinematicamente.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 41 (1) Na verdade. Esta reunião individualiza a coisa. além disso. eidética e hilética. das duas estruturas. pois o vaso nasce como tal. se são distintas. é um synolon. também. distinguem-se um do outro numericamente. mas isso é discutível. Mais adiante discutiremos as controvérsias que pairam em torno desta individualização. poderíamos notar neles certas distinções acidentais. dois vasos. por que constituem a natureza do ser. É comum a muitos. são especificamente distintas. também princípio ativo das operações que possa realizar a nova unidade. e são os elementos componentes dela. com ambas as estruturas. para exemplificar. estar um mais para cá e outro mais para lá. que inclui ainda mais os outros aspectos. que constituem o seu composto. naturalmente. quer dizer. Ora. A natureza deste vaso aqui é o barro e sua forma de vaso. não apenas estàticamente. portanto. e mais das possibilidades que se atualizam. e constituem parte de sua natureza. inclui. mas devem ser tomadas não só estaticamente. a natureza é considerada. mas. Duas unidades de estruturas essenciais. embora não encontremos distinção quanto às suas estruturas. da eidética. da hilética. como veremos mais adiante. por que. No entanto. apesar do eidos ser comum. A estrutura eidética e a hilética são princípios ativos do ser. nós já nos colocamos na posição de que o que individualiza é o composto e não apenas uma parte. que já tivemos oportunidade de examinar. Ora. A estrutura hilética é o suppositllm da estrutura eidética. Contudo. pertencente à natureza. já atualizada pela eidética. como o fato de um ser maior que o outro. esta estrutura eidética surge semelhantemente em outros seres.

construir um quadrilátero. que faz um triângulo com aquele outro. Este ponto é importante. As estruturas eidéticas. polarizam esta polêmica. ele não rompe. como um esquema intencional. e veremos que em torno deste tema é que pairou a grande polêmica dos universais. a forma do triângulo não evolui para o quadrilátero. A estrutura eidética. sobrenatural a ela. não é. lógica e ontológicamente. por já ter atualizado aspectos dinâmicos e também cinemáticos. não ultrapassa a natureza. E vamos verificar que há uma validez realista. no ser. por que. que seria genérica em relação a ela. ela é invariável. ou seja. não se considerando assim. embora esta tenha as suas raizes sempre numa anterioridade pertencente à estaticidade. Vamos dizer. é invariável. por que quando tomamos a estrutura eidética apenas como um eidos. esse objeto. ela tem uma variância. considerado em sua subjetividade. o três não se torna quatro. sem compreender que é ela também dinâmica e cinemática. Se ela tem realmente esta realidade. Podemos considerá-Ia. a formação de uma esquemática posterior. quando nós a tomamos na sua estaticidade. salvo pela intervenção de um poder que estivesse fora dessa natureza. à parte estática da natureza. em que estudaram a natureza humana como se fosse a natureza estàticamente considerada. repetimos um erro cometido por muitos na interpretação de certos temas sociais. que representam os dois pólos. que temos dessa estrutura. porém.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 42 dinâmica e cinematicamente. e é natural. A estrutura eidética pode . enquanto tomadas em si. que constitui a sua dinamicidade e a sua estaticidade. em nossa mente. poderia. não se torna outra. sendo específica. é invariável. Assim uma forma não se transforma. considerada terminativamente. não a estrutura eidética deste ser. ou o realista poderia considerá-Ia ainda fora da nossa mente. tem um arithmós variável. como também há uma certa validez nominalista. estes lhe abrem caminho para novas esquemáticas e para novas possibilidades. A mesma estrutura eidética específica não pode pertencer a espécies distintas. com outra coisa. independentemente de nossa mente. e de qualidade. e apenas neste caso uma figura. que se deram com ele. que. porque a estrutura eidética. Mas este arithmós. neste ou naquele triângulo. portanto uma espécie de relação. O ser adulto. enquanto ela é uma estrutura eidética in concreto. Mas a estrutura eidética invariável é a que consideramos fora da coisa. nunca desborda naturalmente. pertence à espécie. Assim a forma do triângulo. Contudo. Por que também vai sofrer da interatuação com outras naturezas. invariável. sobretudo entre o realismo e o nominalismo. Contudo. ela poderia pertencer a uma outra estrutura. com suas modalidades. não variam na sua subjetividade. como uma realidade meramente eidética ou formal. que seria meramente predicamental. por exemplo. para novas atualizações. considerada subjetivamente. é tema a ser examinado depois. por que. o que nos permite perfeitamente encontrar um ponto de equilibrio entre ambas. portanto.

e extra naulrae rei. estas plantas. a secundum quid. à matéria. e pode ter uma forma acidental. que têm uma forma substancial. que ora tem a forma de vaso. Se despojamos pela mente de toda forma. a geração meramente acidental. que é a geração substancial. Elas. Assim vaso é tudo que é capaz de envasar líquidos. é necessário que se dê a corrupção e se dê a geração. de que falava Aristóteles. que compõe a coisa. depois. Uma hyJen não pode receber uma estrutura eidética que lhe seja desproporcionada. Pode ter a forma acidental de uma coluna. e também pela escolástica. dar-se-ia a corrupção da primeira e a geração da segunda. Este barro. receber várias do mesmo gênero e de espécies diferentes simultâneamente. é um vaso. in concreto. e mais a que a diferencia essencialmente de outras espécies. que se dá na coisa. uma coisa informada. sem necessidade de se abandonar esta concepção da geração simples. é proporcional à estrutura eidética. de certo modo. substancialmente. pois para haver um acrescentamento de formas substanciais. e que outras não surgirão oportunamente. incluir em uma forma acidental. aliás tema que já foi perfeitamente desenvolvido pelo aristotelismo. há uma grande controvérsia também. pode dar-se sem corrupção. o desaparecimento de uma forma. e não pode. Uma matéria recebe uma forma. a sua potencialidade para outras formas. a matéria aristotélica. Quer dizer. nas acidentais. Ela. simultaneamente. têm e terão solução. a afirmação da . mas que envase. poderão tornar-se carne. como a do cavalo. por exemplo. Aqui. salvo se tais espécies são sub-espécies meramente acidentais. poderão tornar-se ossos. Ela é proporcionada à estrutura hilética. mas desde que envase. mas esta representação não quer ainda afirmar que realmente se dê fora de nossa mente esta matéria pura. porque vamos encontrar. considerado como vaso. A estrutura eidética não tiraria do supósito. ter outra estrutura eidética. ou outra espécie subordinada ao mesmo gênero. por que se fôr substancial. enquanto que. A estrutura eidética de uma coisa não pode exceder a proporção da matéria. e não apenas de uma forma. poderão. no pensamento escotista. contidas na primeira. enquanto supósito hilético. contudo. não podem estar no mesmo subjectum. e da geração relativa.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 43 ser genérica e específica. enquanto tal. Já o mesmo não se pode dar no ser vivo. ou de uma garrafa com forma acidental de cavalo. receber a forma da célula animal. alcançamos a representação de uma hylen pura. pois uma célula não pode. porque é uma estrutura eidética substancial. como também da mesma espécie. uma matéria prima capaz de receber forma. poderá ter outra forma em substituição desta. mas. da hyJen da coisa. a não ser por intervenção de um poder superior. Muitas estruturas eidéticas do mesmo gênero. quando tem uma de um gênero. Tal não quer dizer que ela não ofereça certas aporias. que tem a estrutura hilética. Esta implica a primeira. mas deixarão de ser plantas. fora da natureza da coisa. Haverá uma substituição. é informada.

É aquela que representamos na mente. nunca enquanto gênero ou enquanto espécie. e mantêm relações. tem uma representação puramente noética na mente. matéria prima. se dá ind iferentemente (se habet indiferenter). um ser em outro. A estrutura eidética substancial não está sujeita a mais ou menos. na qual inherem. uma estrutura eidético-noético com representação mental. de que se dê uma matéria primo prima. ou seja. ela apresenta-se sincategoremàticamente. ou por defeito da causa que o faz. uma hylen para o gênero. perfecciona-se pela forma. que se fundamentam nas coisas. como muito bem foi estudado por Aristóteles. É pela estrutura eidética que uma estrutura hilética se constitui. A substância. A hylen apresenta-se quantitativamente. estes são alguns dos princípios que podem gerar a corrupção. porque é qualitativa. Ao introduzir-se numa hylen uma nova estrutura eidética. não têm uma matéria correspondente para informar. a sabedoria. a que chegou Scot. então. com exceção da substância. Pela estrutura eidética. Este postulado. A estrutura eidética de uma coisa corrompe-se e dá-se a mutação substantiva. A hylen. São entes de razão. e. a hylen. A sabedoria não tem uma estrutura hilética. considerada em sua estrutura eidética. porque o seu ser é um esse. variante e invariante. Então essa expulsão da outra precisamente dá-se corrompendo-se a coisa. no pensamento aristotélico. primo secunda e primo tertia. nem para a quantidade. não se individualiza existentemente. in concreto. embora possa ser singularizada eidêeticamente ou extra-mentis. ou por corrupção do sujeito. considerada a priori. do subjectum. Isso não quer dizer que toda qualidade esteja sujeita a mais ou menos. . será examinado oportunamente. que tenha uma certa atualidade. por ação dos contrários. mas a acidental. As categorias acidentais têm uma estrutura eidética. está. expulsa-se a outra que a informava. Ela só se singulariza como o indivíduo. nem para a qualidade.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 44 possibilidade. portanto sem possibilidades de informar especificamente uma matéria. matéria de tal estrutura eidética. e gerando a nova. individualmente. no caso da forma. nem para a propriedade. e informam apenas o já informado. que é a matéria tomada neutramente no sentido aristotélico. Por isso só a substância é categoremàticamente. como espécie ou como gênero. porque os acidentes não são subsistentes de per si. não o ser subsistente de per si. o que será oportunamente examinado. mas de uma maneira geral. assim. nas várias maneiras de ser de um ser. a substância. nem para a espécie. porque é uma qualidade. mas quando se dão na substância. no indivíduo. dentro dos esquemas escotistas. nem para nenhum dos predicamentos. Assim a hylen pura. Não há. está sujeita a mais e menos. por que é. Ela passa a ser. pela nova estrutura eidética. ou como diziam os antigos. qualitativamente. a todas as formas que lhe são proporcionadas e proporcionais à forma eidético-noética.

por exemplo. Essa espécie informa totalmente a célula. entretanto. que é o logos de proporcionalidade intrínseca desta coisa. como. pela mente. que partes da célula possam ter forma meramente acidental. a estrutura substancial informa o todo e as suas partes. na relação todo-parte. se nós temos uma célula. ao receber uma. podemos tomar uma estrutura eidética separadamente das coisas que ela forma. a matéria recebe esta estrutura eidética individualmente. é simpliciter.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 45 O homem é homem ou não é homem. simplesmente sua estrutura eidética. o alimento. e as partes também funcionam segundo este interesse. a substancial informa o todo e as partes. Intelectualmente. como todo. que nós consumimos. cujas leis são imprescindíveis para a solução posterior de muitos problemas. e no logos que dá também a forma eidética. e ela tem a sua forma. Ele não recebeu a forma do nosso corpo. Não é possível muitas estruturas eidéticas existenciais específicas. Por que. em relação a si mesma. enquanto que a acidental informa apenas as partes. porque. A forma separada só pode ser a intelectual. Contudo. as unidades pléthicas etc. e fonte de muitas aporias. enquanto que a estrutura eidética acidental apenas informa o todo. que está nesta coisa. mas esta presença está precisamente no logos. o que prova a informação. e tanto não é que a célula. no mesmo corpo. CAPÍTULO VIII A FORMA SINGULAR E A FORMA UNIVERSAL . há matéria que é muito controversa. que podem ser fàcilmente solúveis. indivídua. apesar das diferenças que as partes possam apresentar. a parte assimilada passará a receber a forma. Sobre este ponto ainda voltaremos. em torno das unidades. mas note-se bem. ela é universal. mas será assimilado ao corpo. nas formas substanciais. Assim. Essa forma. e a mente não individua. simultâneamente. Tal não impede. Porque. que tem o império. funciona segundo o interesse desse todo. Essa estrutura eidética no intelecto é. aqui. por isso passaremos a examinar as relações entre todo e parte. Este é um ponto importante. recebida no intelecto. no próprio corpo. portanto. o modo de ser de uma estrutura eidética. em todas as suas partes e não é apenas uma constituição figurativa. e ao ser assimilado. in re. pode envasar melhor do que outro. expulsar-se-ia a anterior. como nós sabemos. como as unidades hólicas. porque a considera universal. ela está toda em cada uma de suas partes. das quais é similitude. enquanto a estrutura eidética acidental é apenas uma perfeição do todo. mas um vaso pode ser mais vaso do que outro. tem. enquanto tomado segundo esta estrutura substancial. Ora. a estrutura eidética da célula. porque. A estrutura eidética substancial é uma perfeição do todo e de suas partes. desta espécie de célula. mas quanto às coisas.

por isso se diz negativamente indiferente. a natureza.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 46 A estrutura eidética de um mixto. A razão. hic homo. ter atual entidade nas entidades singulares e individuais. pode ser considerada onticamente in re. Os universais são possíveis. verdadeiramente considerado. logos de um ente determinado. Portanto. gera-se e pode corromper-se. que convém intrínseca e necessàriamente a alguma coisa. do contrário. a estrutura eidética da célula é substancial. enquanto ela é um esquema eidético-noético. funda-se em algo positivo. e também não poderia haver muitos se não houvesse entre si alguma coisa distinta. . Sem essas entidades. é uma estrutura acidental e não substancial. é preciso algo que seja distinto. A natureza comum só se distingue realmente dos indivíduos mediante o entendimento. por exemplo. Toda a negação. casa. homem. Não pode ter em si mesma unidade alguma que não tenha nos indivíduos. ou estão na mente divina. se a natureza não tem em si mesma entidade distinta da entidade dos indivíduos. Tais predicados só convêm à natureza contingentemente. tomada abstratamente pelo entendimento. que não pode ser conceitual. Se indiviso segundo a razão. o que é passível de formulação lógica. distinta da unidade do indivíduo. tomada secundàriamente. para ele. mas real. como forma universalis. enquanto é objeto próximo do conceito comum. as formas. porque. tomada enquanto se dá onticamente. Os entes que existem só podem existir imediatamente. por exemplo. Em qualquer parte. Há falácia se é ela aplicada à natureza. não aos indivíduos. não pode gerar-se ou corromper-se. os predicados negativos convêm à natureza comum. A natureza específica em si mesma. o de Sócrates. enquanto tomada eidéticonoeticamente. enquanto tomado abstratamente. A unidade real segue-se ao ser. não poderíamos perceber a presença de muitos. ou. in concreto. ontológicamente. isto é. não tem nada que repugne à comunicabilidade. ou existir. No pensamento de Platão. mas como mentalmente o concebemos. não se gera nem se corrompe. Mas. Assim homem. como se vê na Química. pelo menos. não é separável deste. é impossível que permaneça nada real. A natureza. Conseqüentemente. não pode ter em si unidade alguma. e por si. em que há algo comum a muitos. não se opõem entre si. e distinto de outros segundo a realidade. mas podemos tomá-Io não como ele realmente existe nele. mas este homem. enquanto ela se dá nos indivíduos. A estrutura eidética. enquanto ela se dá onticamente. tão pouco pode ter unidade real. já que a unidade (em negação) convém à própria coisa verdadeiramente. na coisa que informa. por razão dos singulares possíveis. ainda. que não tenha nos indivíduos. que é logos de um ontos.

mas à sua individuação. uma multidão numérica de universais. a coleção. seja incomunicável. segundo a realidade. e o que está fora da mesma distingue-se realmente. em sua totalidade. não é. A unidade formal. formas. não lhe dá este caráter. formaria. Pedro 3. quando examinado com exação. mas. é mister outra unidade. sim. que é o aspecto repetível. A aptidão não existe. do contrário. que existe realmente.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 47 e é uma possibilidade que ele admite. expressamente. a sua singularidade individual enquanto tal. outro que os outros. realmente o que está fora da essência deve distinguir-se dela realmente. in concreto. por exemplo. não constitui um universal concreto numericamente. porém. e a diferença específica são predicados do sujeito por identidade. A propriedade ou acidente não pode existir senão em outro.. que a representasse. tal espécie. Onticamente é incomunicável. mas o que está fora da essência de uma coisa. Pedro 4. pois. Além da unidade formal. a unidade não é. . Estes não têm condições de universal. etc. a unidade humana formal em Pedro. um aspecto negativo. mas. por informação. 2º) segundo a razão. O gênero. porque o comunicável é apenas segundo o aspecto formal. por sua vez. por si. a não ser em uma natureza. como Pedro. como Paulo. sim. que tem. as espécies. individualmente. obtida pela razão. Pedro tem unidade formal. Há. singularidade. não se deve a ser formal. mas como razões. considerando as coisas tais e como estão na realidade. que há no indivíduo. não existe em cada uma das naturezas individuais. Porque. numericamente. etc. afirmação de ausência. e existe. Na primeira. se multiplicaria. por ser ela representada por muitos conceitos que o homem construa. ele não é o seu eidos. Não há numericamente muitas espécies humanas. ou se dão separadas dos indivíduos. O homem só existe na realidade. pois. não apenas conceitualmente. mas no conjunto de todas. O que existe. enquanto informam seus sujeitos. logoi. embora não estejam separados na realidade. Se assim fosse. pois enquanto tais não são predicados: "esta é a brancura". que separa um do outro. O que faz que a unidade formal. A unidade de precisão é dada pelo entendimento. Terá de ter uma razão com anterioridade à mente. que é precisamente o que é chamado. como Paulo. individualidade. existe singularmente. A entidade leva unida a si uma negação. O que está fora da essência está de duas maneiras: 1º) segundo a realidade. As interpretações diferentes que se fizeram deste pensamento não se coadunam com o texto. A colectividade. Haveria Pedro 2. não realmente. portanto. uma unidade da natureza humana incomunicável aos indivíduos. não pode estar totalmente fora da essência. O fato de ser representada a espécie humana por um conceito numericamente único. cada mente. o que pertence à onticidade. in esse. É duvidoso que a propriedade e o acidente se dêem por identificação. Portanto. como nós veremos mais adiante.

mas. Suarez assevera que os universais não podem estar separados dos singulares. Os subordinados são de grau intensistamente maiores que os subordinantes. porque não seria mais que um certo singular distinto dos outros. se não está nele? Mas se está em Pedro e Paulo. Por isso toda coisa. pois. é mister que não esteja separado daquele. ou do estado que têm. afirmava Suarez. nem Paulo seriam homens. Não pode. ou permanece inteiramente separado. e assim aquele homem universal e separado seria um terceiro homem. o que estaria eivado de contradições. A aptidão da natureza comum para existir em muitos constitue-se só em certa indiferença ou não repugnância. ou seria distinto. do contrário. Por esta mesma razão. para Suarez. mas de grau extensivamente menor. contradistinto de Pedro e Paulo. de Paulo. fora deles. enquanto existente na realidade.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 48 Só há ente real em ordem ao ato da existência. uma se dividiria de si mesma por estar em outra. porque se existisse o homem universal. como tal. pois. fora deles. não só que fosse distinto de si mesmo. mas em razão de algo que se lhe acrescenta. ou permaneceria inteiramente separado. também o é a contração. e que é universal. Do mesmo modo que a abstração é intensiva. porque para que convenha a alguém um predicado essencial. A abstração total contrapõe-se à contração total. Toda entidade por uma entidade determinada não pode ser dividida de si mesma. A abstração ascende para os subordinantes. não pode estar separado dos singulares. e enquanto estivesse. ou é o mesmo. neste caso. neste caso. coisas que seriam contraditórias. o homem. dividir-se em várias. mas um. distinto de Pedro e Paulo. entitativamente nos dois. . Um predicado essencial. e então seria falsamente chamado universal. toda aquela entidade estaria em cada uma delas. ou estaria também em Pedro e Paulo. quer no entendimento. Universal. nem Pedro. se convém a um sujeito. segundo a entidade e a realidade em ambos. segundo a mesma essência. porque o homem universal ou estáem Pedro e Paulo. quer na realidade. enquanto a contração tende a descer aos subordinados. enquanto existente na realidade. Se se afirma esta última proposição. que sejam tais como ela. Por outro lado. se estivesse tanto em um como em outro. Os predicados contingentes não convêm à natureza em si. fora de Pedro. A relação inversa se dá dos subordinantes para os subordinados. senão como se poderia predicar essencialmente daquele. é apenas ente de razão. seria preciso. um e vários realmente. é mister que esteja separado deste. Este é um postulado de Suarez importantíssimo. sem natureza com anterioridade ao entendimento. seria algo singular. também. Então se diria falsamente que está neles. e assim Pedro e Paulo não seriam dois homens. tem de ser singular e individual. ou certamente.

e tem sido um tema aporético. e justificam porque a singularidade é uma. é chamado de metafísico. O singular é de per si incomunicável. senão o que é singular. Toda coisa tem uma diferença individual e uma natureza universal. é um em muitos e de muitos. o eidos do que é um. como nada se pode conhecer como real-real. o que há de individual é singular. como eidos. e que a espécie não diz toda a essência ou qüididade dos indivíduos. mas pelo que eles têm de universal. Esta pouca de água não é divisível em várias que sejam esta pouca de água. o que também estaria contrário ao que diz Porfírio e todos os dialéticos. Ninguém dirá que este ente é sua . pode ser predicado de muitos indivíduos. segue-se que a espécie pode dividir-se por diferenças essenciais. dizem alguns que é contraditório que uma coisa se torne real pela adição de algo singular à natureza comum. que se distinga da unidade numérica? Este tem sido um tema debatido na Filosofia. A água. Se os indivíduos são do mesmo tipo eidético. Não é outra que a unidade singular e individual. nem conhecimento. Se o universal é apenas atribuído ao sujeito in praedicando é o que se chama o universal lógico. Contudo. Na realidade. enquanto considerado eideticamente. Se essencial. é unidade. Se o universal é afirmado como estando in essendo. o indivíduo seria apenas um ente per accidens. Singular é o que é um em número. enquanto só predicados contingentes convêm ao indivíduo. que se divide. o que se acrescenta. O universal é algo que pode estar em muitos indivíduos. contra o que afirmava Porfírio. pois serão unicamente água. que não seja singular. heceidade. enquanto considerado ônticamente. como isto aqui. também tomado no seu aspecto comum com outros. não haveria assimilação. Se houvesse só a singularidade. ao invés.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 49 Os predicados necessários essenciais convêm ao indivíduo. Não pode ser termo da ação das causas. que só mateticamente se poderá solucionar. É evidente que todo e qualquer ente é tomado como uma unidade em sua singularidade numérica. Por outro lado. ou ser capaz de existência. Assim esta água é singular. Contudo. e do que se deduz ainda que os indivíduos diferem essencialmente. verdadeira e real unidade. o que é impossível. ontológicamente o sujeito receberia a individuação pelo acidente. portanto. Se um dos dois se individualiza pelo outro. em sua individualidade. ou é essencial ou é acidental. é mister acrescentar algo para que se distingam entre si. quando se dá precisamente o contrário. e o acidente não seria algo que sobrevém a um sujeito. ademais. universal. que realmente o sejam. há comunicação entre os singulares. ao estudar a espécie. de comum. é comum. como gênero ou espécie. mas o constituiria. haec. Há uma unidade formal-eidética nas coisas. O que o predicado acrescenta à espécie está fora da sua essência.

São construídas post rem. Mas terão eles que reconhecer que entre este gato. a palavra. um fundamento ao que a nossa mente concebe (conceptum). porém. o esquema noético-eidético. Suarez. variante desta. há in re. Neste caso. salvo com apelos à insanidade mental. universal. que a universalidade está fundada apenas na maneira de conceber. há algo em comum. e de que natureza é essa entidade. depois de conhecidas. Como o que há de semelhante e permite classificar há em cada um dos classificados. maneira conceptual. A primeira posição afirmou que esta unidade formal era subsistente de per si. os universais são ante-rem. que é o conceptualismo. do qual divergem todos os escolásticos. um conceito. na classe do gato. Dizemos extremado. Esta posição é chamada de conceptualista. ou seja. há alguns autores que não admitem tal coisa. sobre cuja matéria todos sabem formarem-se quatro posições. ou seja. nem o que realmente haja nas coisas. Para esta posição. e que foi atribuída a Platão. há singularmente em cada ente algo que tem. e um gato. simplesmente nomes. também constroem classes. recebem um nome. e que é comum a outros. eternos e imprincipiados. Ademais. Resta. ete Uma terceira posição. depois de conhecermos as coisas. Contudo. cuja natureza é mister estabelecer. e como já se viu que o que existe tem de necessàriamente ser no singular. porque não é apenas um esquema humano na mente humana. flatus vocis. independentemente das coisas. mas têm um fundamento real nas coisas. Os que não admitem haja nada neles em comum sabem perfeitamente classificar um cavalo na classe do cavalo. denominata. já que é comum. é um sinal que aponta uma universalidade de representação. antes da coisa. há nas coisas algo real. já que se refere ao que se predica de muitos e que está em muitos. sem apontar nem esquemas mentais. têm todos eles de reconhecer que há algo em comum nos entes. é a que afirma que há apenas a palavra. Portanto. aquele. se há um modo de ser comum. Scot. Para esta posição. com a qual nomeamos o universal. que apresentaram as suas respostas. posição realista exagerada quanto aos universais.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 50 espécie. Ou seja. afirma apenas o esquema mental. uma palavra para serem nomeadas. e aquele outro. A quarta. que dá fundamento ao esquema noético. saber se o que nele se singulariza é de uma natureza outra que essa natureza singular. A natureza comum não é apenas um ente de razão. defendida pelos grandes escolásticos. mas sem fundamento in re. A segunda posição afirma: tais universais estão em nossa mente. distinto do que há em comum entre este cavaIo. É a posição do nominalismo extremado. de todo sempre. e essas classes dão caracteres comuns. na coisa. aquele e aquele outro. que damos às coisas e nada mais. É a posição do realismo moderado. As palavras são meros sopros. singular. que aponta as coisas. que este gato é o gato como natureza comum. porque há nominalistas de maior vulto no passado que se confundiam com . eidético universal que está na mente. como Tomás de Aquino. as quais. finalmente.

mas quer. temos: universal é apenas uma palavra. realmente. por ser mais que um mero ente de razão. De modo que em um holos ou em um plethos. neste gato. pelo menos. Sabemos que os termos de uma realidade não se contradizem. não a contraditória. considerando na sua parte aparente e acidental. certamente. invertendo a ordem. nem a privativa. e deverão ser consideradas sob diversos . Nosso esquema mental pode não expressar adequadamente. Esses universais não são meros entes de razão. de modo absoluto. nominalismo exagerado. e neste outro. independentemente da nossa mente. algo que eles têm em comum. Portanto. ao qual se refere o conceito gato. e não cavalos. além de tudo isso. e não ens et non ens. que é real. eidêticamente. é mister conhecer as leis fundamentais que regem a relação todo x parte. Podemos não saber o que nos gatos lhes é comum. atribuído aos platônicos. CAP IX DOS CONJUNTOS Antes de examinar os conjuntos. por que há. as partes oponentes são positivas. mais adequado do que faz este automóvel ser Z e não Y ou X. que há neles. Assim entre as partes componentes. refere-se a algo real que há nas coisas: o realismo moderado dos escolásticos. Referem-se ao que há realmente nas coisas. não haja. No entanto. o que nos gatos faz com que eles sejam gatos. e. Assim. mas sabemos que neles há. mesmo que não tenha ele precisão noético-eidética. a oposição. finalmente. Se nos entes há algo em comum com outros e cada um é uma unidade real singular. que nelas se dá. não apenas. mas a contrária ou a correlativa. Universal é uma palavra que significa um conceito. pelo menos. além do que afirma o conceptualismo. É real-real. Por não sabermos como é. neles. o que os torna gatos. é uma realidade de per si subsistente: realismo exagerado. com universalidade de representação: conceptualismo.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 51 os conceptualistas. portanto. O universal. e naquele outro. mas apenas se opõem contrariamente. o que os torna gatos. nas coisas. ens et ens. nos artefatos. é mister que a natureza individual e a natureza comum sejam distintas formalmente. o universal. não podemos concluir logicamente que. referir-se ao quid. algo comum. e não cavalos. tem de haver. admitindo os esquemas mentais com a sua referência a uma universalidade de representação. é a de ens et ens. já há possibilidade de construirmos um esquema eidéticonoético. ou se opõem correlativamente. de certo modo.

esta indicará os elementos componentes do todo lógico. em que cada parte é ferro. como podem ser consideradas as partes. todo atual. quer dizer: animal e racional. Ora. intrínseca. no que está inferido. A sua estrutura é meramente eidética. de sua conotação. e vão constituir a sua estrutura hilética. o todo se aniquila como tal. tanto quanto podem ser consideradas as totalidades. em homem. termo que ainda usamos na linguagem comum.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 52 aspectos. Não se dá o mesmo com as partes integrais. A divisão. um todo pode ser apenas lógico. Ou. Se o todo é um todo hilético. Não se deve considerar Metafísica. um todo é real ou é lógico. as suas partes são. quando falamos nos tomos de uma obra. sintática ou logicamente consideradas. Se é lógico. as notas constitutivas da sua compreensão. quando são de natureza e . Se o todo é hilético. Também na Matese se usa tomos para indicar as partes de um todo. é em tudo meramente potencial. os logoi dos ontos. são separados na mente. físicas. as partes desse todo integral são heterogêneas. independentemente da mente. São chamadas de partes essenciais aquelas que. São de realidade metafísica. o nosso espírito. Se tiramos de homem a animalidade ou a racionalidade. todo real. conseqüentemente. ontológicas. regem uma realidade hólica ou plética as leis que também regem o todo x parte. Então dividir-se-á esse todo em seus inferiores. como uma idéia universal. como a entendiam idealistas e racionalistas. necessária e essencialmente. Se o todo é metafísico. conseqüentemente. Assim. o homem sem braços não deixa de ser homem. quando é ele composto de logoi eidétikoi e noétikoi quer dizer. e são fisicamente separáveis. Num todo integral. as partes são metafísicas. que estão contidos em potência no seu âmbito. Ora. Real é atual em si e pode ser dividido em muitas partes reais. então as suas partes são partes hiléticas. quando são da mesma natureza. que é um todo em relação ou a respeito de seus inferiores. e recebem a mesma denominação do todo (o todo homogêneo). Se o todo é um todo ontológico. daqueles logoi eidétikoi. por sua vez. A divisão é a distribuição do todo em suas partes. então é ele constituído de partes reais. ele deixa de ser eideticamente homem. pode ser dicotômica (em duas partes). tricotômica (em três partes) e policotômica (quando em mais de três partes). quando retirada uma. retiradas. quando constituem o todo. mas apenas concebido como tal pela mente. constrói. Essas partes são hiléticas. então. que o nosso nous. eideticamente. As partes metafísicas são separáveis apenas na mente. as partes são homogêneas. conseqüentemente. não é realmente um em si. As partes eidéticas. aniquilam o todo. como um pedaço de ferro.

A divisão tem de ter uma razão. heterogêneo. o que será discutível. é um todo lógico. da subordinação. que são as partes de sua componência. Conjunto é uma totalidade. O todo é. na tectônica. que mantêm entre si uma certa independência ou não. como ossos. O homem. Diz-se que é conjunto o que está junto com. tem uma estrutura hilética. Verifica-se que os conjuntos. ou subalternados. segundo o Iogas em que ela é considerada. que é um sistema. e que será. retirada uma parte. que está pegado. A divisão per accidens é aquela em que as partes não são propriamente enumeradas. cujas partes são propriamente tais. O homem. pois deixaria de ser o que é. ou. da inferência. etc. e tomados divisamente obedecem às leis da divisão. enquanto que o todo integral permite que algumas de suas partes. como termo médio. mas os seus acidentes ou atributos o são. como corpo e alma. uma unidade de ordem. ainda. . Deve-se ter presente esta distinção entre o todo essencial e o todo integral. Em todo caso. pois ele é tomado como um todo. que está próximo. a que tirarmos de uma parte integral não a destrói. O primeiro é aquele do qual não se pode tirar nenhuma de suas partes essenciais. Considerando-se pelo ângulo da divisão. especificamente distintas. ou subordinados. possam ser-lhe retiradas. Um todo integral também contém partes essenciais. Se os elementos de uma realidade são implicados uns nos outros. pois. matéria para classificação. A divisão pode ser per se ou per accidens. neste caso. que é um todo metafísico). não deixa de ser de ferro. também. é um todo integral hilético. físico. em gêneros e espécies. ele se comporta como todo e partes. O conjunto. agregadas segundo uma ordem. está submetido às leis de todo x parte e às leis da divisão. uma ratia. ou seja. como um corpo misto na Química. carne. segundo uma proporcionalidade intrínseca. da subalternação. desde que não sejam essenciais. segundo uma estrutura eidética que permite classificar o tipo de unidade do conjunto. que constituem o todo per' se (homem = animal racional. Per se é a do todo. de composto de partes. regem aqui as leis da divisão. regem as leis da implicância. por serem totalidades. Conjunto é. um Iogas. em que as partes são heterogêneas. tomado apenas no seu sentido de composição. não se lhe poderia atribuir a sua totalidade. e a estruturação das classificações. portanto. obedecem às leis correspondentes ao todo x parte. mas desde que não as retiremos. é um todo real hilético essencial. A substância. nada mais do que um acervem. contíguo. numa classificação total. como se vê no pedaço de ferro que. Ela inclui as subdivisões e as classificações.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 53 denominativamente diversas do todo. por exemplo. Um todo tem as suas partes. membros. justapostas ou meramente agregadas.

por sua vez. enquanto o lagos do ferro é irredutível. Dizem-se irredutíveis. impossível. assim o ponto. chamam-se elementos ou tomos. irredutíveis a outros elementos do espaço. Assim o ponto. é um conceito de abstração de terceiro grau. Uma molécula de ferro é constituinte do todo integral de um pedaço de ferro. quando esses elementos são possíveis. quando ao contrário. Podem formar conjuntos. quando tomamos o conjunto. ultrapassa aos poucos as abstracções de segundo grau. por sua vez. como se procede na Matemática. o que a leva à concepção pitagórica. . é uma abstração de terceiro grau. e também.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 54 Por uma abstração de terceiro grau. Portanto. São irredutíveis. ou. e justificamos porque a compreensão do conjunto. também. não possam ser divididos em outras partes. por sua vez. podemos tomar os conjuntos apenas enquanto conjuntos. como teremos oportunidade de ver. nem necessitamos dela para termos uma idéia daquele. como antecedente. possível. que constituem o conjunto. O conjunto. que exige se trabalhe com conceitos de terceiro grau. e assim sucessivamente. a superfície. enquanto tal não necessita da matéria para ser entendido. para considerá-Ios apenas como totalidade. o que não quer dizer que os elementos. integrantes daquela. Tendo o conjunto partes. pois há conjuntos de conjuntos. para penetrar nas de terceiro. que é uma oposição correlativa. vazio. quando ainda não preenchido por elementos atuais preenchíveis. sem ainda estabelecer quais as partes que são componentes. Um conjunto vazio pode ser. quando não prenchido de qualquer elemento atual. nota-se que é irredutível. Portanto. conseqüente. a linha. que regem os mesmos e podem ser aplicadas em sua generalidade. quando preenchido de elementos atuais. a superfície e o volume são elementos do espaço tridimensional tomados abstratamente. independentemente da estrutura hilética material no sentido aristotélico. quando estas são um constituinte irredutível da totalidade. Elementos são. a linha. nos conjuntos. enquanto não podem. da eidética. dentro das relações e leis que decorrem da oposição todo x parte. como o conjunto vazio. A matemática moderna. Desse modo. já metafisicamente tratada. valores. porém. enquanto permanece dentro de seu lagos. porque pode ser um conjunto imaterial. preocupando-se agora com os conjuntos. Um conjunto pode ser esvaziado. os constituintes irredutíveis de uma totalidade que a integra. Esvaziado. A investigação em torno do todo x parte. ser reduzidos a elementos mais simples. como uma partícula de ferro. Tomado eideticamente são. que pode ser preenchido. e essa irredutibilidade permanece dentro do logos analogante. nele regem as leis da relação. daquilo que constitue parte. quando especificamente estabelecida a sua especificidade. pois o todo é o todo de suas partes e as partes são as partes do seu todo. etc. o volume são elementos do espaço tridimensional. regras e leis. como há conjuntos de conjuntos de conjuntos. funtor. pois. Um conjunto pode ser: pleno. clareia uma série de normas.

por ter logoi distintos. que também era falsa. isto é. Este estágio (este momento. irredutível à fisiologia do sistema nervoso. sem que o múltiplo pudesse dar-se. Compreenderam. mas com corrupção. como também o que poderia ter sido atualizado. a terem um fundamento real para a sua atualização. como surgiu. este instante) é o irredutível da coisa. deixando de pertencer àquele Iogas. e aqueles que compreendiam a indivisibilidade. pois toda concepção do múltiplo viria. quando o que foi atualizado deixa de ser. dentro do logos que rege o fato biológico. mas o atualizado não é algo que pode ser ou não ser. e era. uma redutibilidade. só. a sua corrupção como água. ou irredutível à mera biologia. após à qual. isto é. nesta forma errada de julgar. quer dizer. por exemplo biológico. e criar uma ameaça a essa concepção. caiu-se em muitas confusões. a água não pode mais ser dividida. chegaram a afirmar que todas as coisas são indivisíveis. nos conjuntos. único. portanto. Mas podem reduzir-se os elementos hiléticos. este é apenas físico-químico. havendo. tornar-se aporética. que a irredutibilidade é proporcionada a cada lagos. que também deixou de ser. vemos. podemos também considerar. por haver uma parte irredutível e. atingiram à concepção da indivisibilidade total. necessàriamente. Então. compreendendo a multiplicidade dos logoi. passando-os para outros logos. conservando o seu logos. Alguns pitagóricos de primeiro grau trataram da divisibilidade e da indivisibilidade. o que não implica que o fato biológico não se dê com elementos da físico-química. por não se ter considerado assim. E por sua vez. como consequência. que passa para o passado. Mas apenas porque se dá com tais elementos não se pode afirmar que é reduzido àquela. enquanto passam muitos possíveis a serem virtualizados. Na atualidade. passa para o epimetéico. de forma que se pode falar em certa indivisibilidade e em certa divisibilidade. que a divisibilidade se desse em qualquer lagos. em relação à físicoquímica. sim. Então chegaram à concepção de uma divisibilidade infinita. o que pode vir constituir a parte prometéica do ser. porque a sua divisão traria. na sua atualidade. possível surgir daí o movimento atomista adinâmico. enquanto água. não pode mais reduzir-se.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 55 Quando se fala na irredutibilidade de um fato. há atualização do possível e virtualização prometéica dos possíveis. Há impossibilidade atual do contraditório (os possíveis podem ser contraditórios). inversamente. é possível. para o passado. Assim podemos dizer que a água tem certa indivisibilidade. portanto. Este é um ponto importante. e daí a necessidade da postulação de um nous homogêneo absoluto. por exemplo. então. portanto indivisível. há uma potencialização epimetéica. pois a atualização ou não atualização de a. Ora. . quando se atualiza um possível. pois. Um fato psicológico é. porque é agora. isto é.

por ser uma unidade. Passemos agora ao estudo dos conjuntos plenos. terá uma forma substancial. a linha limita-se no ponto. por exemplo. um Pathos e um Lagos. de subalternação. Há um logos analogante. com o mesmo império. de analogia. se for um conjunto h61ico. embora regido pela lei da harmonia. Desse modo obedecem à lei da harmonia. Os elementos do conjunto analogam-se entre si. Esta lei. por sua vez. a forma. obedece. à virtualidade. de qualquer forma. e não vice-versa. é uma totalidade que obedece às leis do todo x parte. como vimos. qualitativa. Mas é evidente em graus variados. Todo conjunto. ou a forma substancial. porque as suas partes funcionam segundo uma normal dada pelo todo. Todo conjunto. há uma irredutibilidade na superfície. as leis da divisão. ponto de partida do próximo. é o termo ad quo e ad quem do volume». nos quais ela é evidente. as leis que a regem. da linha. Quer dizer. como a potencia}ização prometéica. que permitem também a aplicação das leis correspondentes à atualidade. A linha está implicada na superfície. Há regularidade entre os elementos. de obedecer. Os elementos podem estar implicados uns em outros. a superfície limita-se na linha. Os conjuntos têm função harmônica com o mesmo. O conjunto. esta. conse qüentemente. como já vimos. mas podem ser atualizados. se queremos precisar com clareza os elementos de um conjunto. portanto. acidental. etc. como vimos. tem elementos. Regem o conjunto vazio possível as leis da potência real. segundo a sua especificidade. Estas leis pertencem. genérica e especificamente. porque todo conjunto. os elementos no todo. O conjunto pode ser considerado. por exemplo. Os elementos são termos uns dos outros. de subordinação. O conjunto. assim. Os conjuntos vazios possíveis são aqueles em que os elementos não são ainda atuais. Assim a linha está implicada na superfície. não quer dizer que ela se dê sempre com a mesma intensidade. Assim.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 56 estes aspectos. a qual inclui seu aspecto genérico. não só ao conjunto pleno. o volume limita-se na superfície. segundo a sua estrutura hilética e segundo a sua estrutura eidética. segundo a ordem em que eles são terminus ad quod de outro. Potência real é aquela que é princípio . o conjunto tem uma forma acidental ou substancial. não a superfície na linha. e o termo ad quem de seu final. temos de considerar rigorosamente as leis da dívisão. também. como a toda espécie de conjunto.. por sua vez. a sua forma será apenas acidental. de participação. Vejamos agora os conjuntos vazios possíveis e os vazios impossíveis. Ora. tem em última análise. isto é. para alcançar a precisão de seus elementos. rigorosamente. tanto a epimetéica. Segundo as relações de implicância. naturalmenmente. esta. e à potencialidade. rege os conjuntos hólicos. O elemento implicado está implicado no implicante. A linha é o termo ad quo e ad quem da superfície. Se for um conjunto plético. O Pathos é constituído dos elementos que são formados segundo um lagos. às leis da unidade. regem. Assim. dependendo do ser do conjunto. O ponto é o termo ad quo. Tem. no volume.

sobre a qual o homem não opera. e as transferidas ao passado. . como já vimos. como já examinamos. ou seja. Assim ser o barro apto para ser modelado é uma potência real de efecção. que é a que não tem fundamento. já está contida em ato na coisa. A potência real pode ser objetiva. por não terem uma contradição formal intrínseca. Impõe-se considerar. a potência real subjetiva. que podem ser prováveis ou improváveis. de certo modo. que é impossível. etc. embora com alguma determinação. e tal se dá quanto aos possíveis reais subjetivos de toda espécie. composta de determinação e determinabilidade. agora. possibilidades de realização futura. A potência real pode ser subjetiva ou objetiva. podem ser contraditórios. A potência real subjetiva não-pura ativa é a capacidade de alguma coisa finita de determinação. outrossim. os seres ainda não reais. como a matéria. como o círculo-quadrado. e podemos construir também eidético-noeticamente conjuntos vazios de potência real objetiva. este conjunto pode ser estudado. atualizando o possível atualizado. a que passa de potência objetiva a ser informada pela forma. de efetivação por nós. Podemos. ou não pura. A potência real subjetiva não-pura passiva é a determinabiJidade enquanto tal. que é a já disposta. ainda. construir conjuntos vazios com potências reais subjetivas. em seus elementos. porém. e pode ser pura ou atribuída ao Ser Supremo. a energia que move algo. ou só de determinabilidade. nem realizáveis por nós. porém. pois este só pode operar sobre a potência real subjetiva. como a da matéria. não-pura virtual é a que. segundo as normas das probabilidades. uma possibilidade prometéica. porém como energia de uma queda d'água não aproveitada para produzir força-motriz. não eivado. ser epimetéicas. e estabelecidas as regras específicas. aí (hoc). e ainda a eivada de contradição formal intrínseca. A subjetiva é a potência já disposta na coisa. de atualização. não. portanto. Esta pode ser ficção pura. Os possíveis. Mas por não serem contraditórios. como o é o Meon. ou não se atualizou ainda. Podem. assim. porém. ente de razão sem fundamento real conhecido.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 57 de ação ou de efecção. virtual ou passiva. são possíveis de referências eidético-noéticas. a que passa da não existência para a subsistência. esta pode ser ativa. como sabemos. a potência irreal. na concepção criacionista cristã. Enquanto tal. de determinabilidade. potência real subjetiva ativa pura. de fundamento meramente ficcional. para sermos mais claros. mas se um se atualiza. é potência real de ação. que terá de ser atualizado. que é ontologicamente a potência real objetiva. cuja impossibilidade de reversão histórica é postulada. Assim podem atualizar-se. Estas três potências apresentam. contudo. de contradição formal intrínseca. O conjunto potencial de possíveis é um conjunto ainda vazio. é contraditório afirmar que não podia atualizar-se. não. quando constituem as possibilidades já atualizadas.

porque a realidade de seus elementos é absolutamente impossível por contradição formal intrínseca. os conjuntos. na onticidade. nem ao conjunto nem a seus elementos. construir um conjunto de elementos potenciais reais não puros. leis ontológicas.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 58 Um conjunto de máquinas operatrizes. é então impossível. em suma. entre possíveis contraditórios pode atualizar-se um. Os elementos de tais conjuntos não estão implicados realmente uns nos outros. portanto. Pode-se. tal conjunto pode ser construído na obediência ao rigor das leis que presidem o conjunto. A impossibilidade relativa é a que não dispõe de elementos reais suficientes para atualizar-se. Assim. segundo a sua classificação. temos leis matéticas. Os conjuntos irreais impossíveis o são segundo as leis da impossibilidade. como o círculo-quadrado. pode ser regulado pelas leis dos conjuntos. Portanto. cuja atualização se torna impossível por contraditória ante a já atualizada. pois sua atualização seria nada. Não se deve. incluindo. com capacidade para realizar tais ou quais resultados possíveis. Este é passível de lhe serem dados conteúdos reais. por serem irreais os seus elementos. como ela o faz. mas esta pode ser relativa ou absoluta. possível de o terem sido. subjetivo não puro. Um conjunto de elementos potenciais irreais. Esses impossíveis são passíveis. obedecem as leis correspondentes à esfera em que são examinados. O conjunto é zero. e não o outro. nenhuma realidade pode ser predicada. o conjunto possível da economia russa. mas irreversíveis historicamente. o liberalismo. se a Rússia tivesse seguido o rumo democrático. de uma formulação conjuntiva por leis decorrentes de sua formulação eidético-noética. mas possível de o ser. tais como: conjunto irreal. ainda não construído. sem que sua atualidade ou atualizabilidade seja exigida. mas somente eidético-noêticamente. prometeicamente ou epimeteicamente. caso não tivesse advindo o bolchevismo. porque não consta de elementos positivos de qualquer espécie. de números imaginários. CAPo X OS CONJUNTOS E OS CONCEITOS . o conjunto absolutamente impossível. não eivados de contradição formal intrínseca. Se está eivada de contradição formal intrínseca. Assim. leis ônticas. todas as leis das ciências particulares. confundir o conjunto vazio com o conjunto esvaziado. contudo. e passivo sob outro. Assim. um conjunto dos elementos não atualizados. Os não atualizados podem constituir um conjunto. leis matemáticas. Assim o conjunto das figuras geométricas impossíveis implicaria uma série de juízos deduzíveis. não eivados de contradição formal intrínseca. ativo sob um aspecto. o conjunto dos possívei6 prometéicos. constitui um conjunto vazio potencial real. ademais. leis lógicas. Tais conjuntos pode criá-Ios a Matemática. A impossibilidade absoluta é tanto prometéica como epimetéica.

não estão ainda determinados. . Conseqüentemente. e onticamente preenchidos. são harmonizáveis segundo as leis da harmonia. segundo o logos da distinção. acrescentando. As leis dos conjuntos decorrem. portanto. não sendo. um conjunto vazio. A distinção dos elementos obedece à divisão das distinções. Neste caso. e as leis que o presidem são as que estudamos ao examinar aquele. A sua realidade não é superior à realidade de que são elementos. Um conjunto esvaziado. como o conjunto dos dinossauros vivos. Os elementos de um conjunto esvaziado. Oportunamente estudaremos essas leis. dois deles devem formar os extremos específicos da realidade. Neste caso. a superfície. onde os elementos e1. segundo a maneira em que é tomado o conjunto. o ponto. primária e fundamentalmente. conexões arbitrárias. os elementos. Conseguindo captar as leis dos conjuntos. pertinente a ela. a linha. necessariamente. há um logos analogante. Os elementos são reais segundo o tipo de realidade tomada. Se distintos especificamente. quanto aos elementos de uma ontologicidade regional. uma realidade. completando o conjunto real. A partir de todos. Assim. da eideticidade dos mesmos. enquanto considerados apenas na sua existencial idade. seus elementos exigem a pesquiza que corresponde aos elementos reais. Nenhum elemento dessa realidade é a sua realidade. Se esse conjunto é sem realidade equivale a um conjunto vazio. a realidade da extensão poderia ser dividida em elementos. conseqüentemente. as partes essenciais ou as partes integrais. e2. há neles o que os distingue uns dos outros. tornam-se ontologicamente preenchidos. a accidência correspondente. Se o conjunto é um segmento de realidade. e terem um logos analogante. Sendo distintos entre si. por serem de um conjunto. como totalidade. ou. na Ontologia. que é o logos do conjunto. e3. Sua classificação. constitui ele um segmento de realidade. preencheríamos o conjunto esvaziado. bastando incluir os conteúdos estruturais. então. Os elementos de um conjunto esvaziado podem ser enchidos de realidade. Consideremos um conjunto. relativa à sua onticidade. mas é da sua realidade. seus elementos são reais. no caso da totalidade. seriam o que outros são. enquanto passível de ser considerada como gênero. enquanto considerados em sua eideticidade.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 59 Conjuntos esvaziados são aqueles que não possuem elementos atuais constituintes de seu conteúdo estrutural. Os elementos devem ser estabelecidos segundo uma divisão perfeita. sendo idênticos. Como elemento é o que constitui. regem aqui as leis da divisão. o que prova que não há. estabeleceremos as leis gerais que devem presidir qualquer conjunto preenchido. Devem os elementos serem distintos entre si. depois. têm de ser analogados. caso contrário. por serem reais.

a superfície implica a linha. é especificamente outra. Pode haver um conjunto completamente vazio. não uma unidade real. enquanto parte atualizada no todo acidental. Os espedficos são termos finais da realidade. dar-se-ia o aniquilamento do conjunto. em relação a outro conjunto. Os elementos ontologicamente são termos uns dos outros. quer dizer: sem contradição. a linha. Assim o ponto e o volume são termos finais da corporeidade. E há tantas espécies de conjuntos quantas unidades.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 60 Uma realidade. e possuem as propriedades gerais da espécie e do gênero. O conjunto. A implicância dos termos obedece à lei da implidncia. Enquanto os elementos são tomados como espécies obedecem às leis do gênero e da espécie. O conjunto pode estar na relação de parte x todo. Se um conjunto esvaziado for preenchido. acrescida das leis que regem os nexos ontológicos e dos logoi das propriedades e dos aspectos. formando. De forma que . enquanto parte vizualizada num universo conjuntural. As estruturas eidéticas e hiléticas seguem as leis dessas estruturas. Todo conjunto esvaziado constitui um sistema coerência lógica. obedece às leis das totalidades substanciais. submetida às leis correspondentes. ou. Essa pertinência também pode ser per se ou per accidens. Nessa análise devem estar presentes as mesmas leis da unidade. etc. porque. Na formulação de juizos sobre os conjuntos esvaziados. Esses conjuntos obedecem às mesmas leis da unidade. termo do volume. As conjugações conjunturológicas podem ser contldas e analizadas pela mente. o inferior. portanto constelações conjunturais. pelo menos. Mas a inversa não é verdadeira. a negação dele. O conjunto. e seguem as leis dessa propriedade. Os universos conjunturais podem estar em relação a outros universos conjunturais. O superior implica. a superfície. obedece às leis das partes acidentalmente estruturadas numa totalidade. Temos conjuntos de conjuntos. e o volume implica a superfície. termo da superfície. e assim podemos chegar a um universal conjuntural. que forme apenas uma unidade de razão. como a da Física em relação à da Biologia. como formando uma esfera conjunturológica em relação com outras esferas conjunturológicas. como um todo. necessàriamente. substancIal. Conseqüentemente. o inferior está contido no superior constituindo os elementos os termos da realidade. estes seguem as regras das conversões e das ilações. genérica e especificamente determinados. na relação de parte para todo. A linha implica o ponto. já examinadas. per se. como o ponto é termo da linha. Um conjunto pode ser per accidens. do contrário. ou simples. estabelecldas na Dialética. o que já estudamos. às mesmas unidades já estudadas. da parte x todo. o conjunto se tornará real e funcionará como estabelecem as leis cor respondentes. sem deixar de considerar a parte irredutíveJ. e não sendo nenhum deles a realidade.

caso contrário o que entre eles se realizaria seria também termo dessa realidade. construído pelo intelecto por meio da abstração dos aspectos constitutivos da qüididade das coisas. destes muitos podemos predicá-lo. que ela possui. como já se demonstrou. CAPÍTULO XI O UNIVERSAL NA COISA E O UNIVERSAL EM SI – ABSTRAÇÃO E CONTRAÇÃO Deve-se distinguir o universal metafísico. só pelo intelecto. Convém ainda distinguir a comunidade da universalidade. em cada um. portanto. Demos. estando em muitos. segundo a lei da divisão. Esta é a razão por que uma realidade pode ser considerada como um segmento de outra realidade maior. O universal é. enquanto predicado de muitos. e o segundo apenas atribuímos. neles é singular. é ele universal. em linhas gerais. é algo a ser de muitos. e o universal lógico. e se está em muitos. e não convém ex se. Esta definição desdobrada nos dá dois tipos de universal: universal metafísico. No primeiro caso. ele se singularizaria em muitos. não é o universal em ato. É imprescindível uma continuidade necessária dos termos componentes da realidade. atribuído ao ente O universal é um em muitos. o que nela há ou houver será singular. o que rege propriamente os conjuntos. um de muitos. Também se deve considerar que um conjunto físico pode ser examinado. Neste caso. O universal.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 61 os conjuntos devem ser considerados como conjuntos ontológicos. é dado pela nossa mente. sendo esta singular. conjuntos matemáticos. é que se atualiza como atitude mental. . Por que. o segundo é apenas in praedicando. e de muitos. e por redução eidética pura. um de muitos. do universal lógico. em forma de sentenças. como um conjunto lógico. o aspecto universal ou a universalidade. Neste caso. conjuntos físicos. então. elementos da mesma. um em muíto. à natureza da coisa. O que é em muitos. e como conjunto ontológico. a primeira convém à natureza das coisas. então. conjuntos lógicos. Provém desta. assim. ma s universal em potência. por redução eidético-noética no primeiro caso. é meramente lógico. O esquema eidético-noético. Consiste em predicá-Io de muitos. que é um em muitos. já que o existir em ato é apenas singular. O primeiro é predicado in essendo. É a nossa mente que cria o universal em ato. O primeiro afirmamos como dando-se num ser. Os elementos distinguidos concrecionam a realidade. na verdade. predicamos ao ser. quanto à universalidade. no segundo caso. porque.

. teremos de estudar ainda certa postulação em favor deste realismo. É o intelecto. necessàriamente. animal.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 62 portanto. Negava Aristóteles que os universais.também é outra afirmação de Scot. segundo o que alegavam os platônicos. A universalidade não é constitutiva do eidos metafísico. o que postulava ser impossível. materialmente. fundamentalmente. segundo a qüididade. é algo constituído a posteriori. o universal no singular. mas forma/iter na mente humana. chamada platônica. o mesmo e a mesma coisa. aceita $cot Os máximos universais. (Aliás Platão nunca postulou que gênero e espécie fossem substâncias separadas). pode-se perguntar se não há algo que corresponda a tais universais. o eidos é materia/iter. mas. com o indivíduo no qual é. conclui-se: o universal não está separado das coisas singulares. sim. formalmente. mas essa forma será. é substância existente per se. Existem. se o gênero animal. dirá ainda $cot A natureza não é simplesmente universal. Antes de examinar esta posição. Se os universais. O universal não é separável dos singulares. nas coisas. singular. assim. separado das coisas. acrescentava $cot. como contêm também gêneros. como gênero. Ser e um não se dão separadamente. graças à abstração. não universal. singularizado neles. por uma coisa real e outra real atual. Nenhum universal. que está no homem e que está no cavalo. e para concluirmos ser ela conciliável com o realismo moderado. construído pelo intelecto. sim. pergunta-se. como gênero e espécies fossem substâncias separadas. que constrói. e que esteja ante rem. então. substâncias existentes per se. mas apenas são abstraídos pelo intelecto. ou por uma atual e outra potencial. Universal é realmente e também. secundum quid. enquanto espécies. ou melhor. nem um gênero da espécie. formalmente na mente humana. do eidos lógIco. Esta separação nem é atual nem potencial. apenas relativamente. mas simpliciter singularis. é um só. fossem substâncias separadas. Nenhum gênero contém o ser como substância. contudo. Neste caso tais espécies. Considerando-se. A composição do universal e do individual numa mesma coisa não é uma composição propriamente dita. Animal em homem e em cavalo não poderia ser o mesmo. ou muitos. simplesmente singular. Nem esta se dá separadamente. Deus pode criar uma forma separada da matéria. Nenhum gênero existe per se. nem pelo poder divino. Portanto. Uma composição pode ser realizada. É um de muitos. seria separado de homem. mas nos singulares. que é a causa eficiente da universalidade nas coisas. própria. não são eles. Universal. e de cavalo. . dito de muitos. que dizemos de todas as coisas. portanto. que aceita essa realidade. nos indivíduos. não é outra coisa que singular.

Na realidade tudo dá-se contrativamente. Assim como a lei da unidade. dentro do realismo moderado. ou fora da coisa. mas não é uma realidade que se dê fora de nós. mas que nós. e fora da nossa mente. um e outro. ao qual chamamos de contração. com os quais construímos o que há nela de comum em muitos. as nossas abstrações. que marcha cada vez mais para a realidade. primeiro. abstrai-se. além desta realidade contrada. segundo e terceiro graus. Então restariam. Então. ela dáse no nosso intelecto. que captamos. sendo bem fundadas. como ser subsistente. que regem toda esta realidade. ela não depende deste objeto. pela nossa mente. O modo de proceder unitário tem uma realidade universal. têm o seu fundamento real nestas leis. ou seja. A diferença. e esta lei é absoluta. o um em muitos. Um realista vai nos dizer outra coisa. absolutos da realidade. nem esta é uma parte real-real do indivíduo. podemos sintetizar o pensamento dos realistas moderados. contrativamente no primeiro. correspondem a aspectos reais que se dão na realidade. como esta é contraída no indivíduo. E como estas leis são desdobráveis. No intelecto pode descer outra vez para a realidade. que há. contraindo os aspectos abstrativos que a psíque mentalmente separou. porque os universais. mas contraído nesta. contrativamente na realidade. o gênero é abstraído da espécie. e que vão constituir os nossos conceitos. é o processo de inversão.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 63 O universal no indivíduo não se compõe com ele de nenhum desses modos. realmente. é dada pela razão. quer dizer. e do primeiro. ou como uma realidade na coisa. separar um e outro. dá-se contrativamente no segundo. . não se dá na realidade da coisa. A espécie só tem entidade real-real nos indivíduos. a realidade dá-se contrativamente. produtos de um processo abstrativo. não tem outra realidade senão esta: o único fundamento está na parte contrativa da realidade. O fundamento real desses esquemas abstrativos está na fundamental idade que eles possam ter in re. entre elas vamos encontrar. contudo. há uma realidade que pertence aos /ogoi arkhai. o processo. Mas fora dessa realidade contracta. pela mente. Mas o que consideramos do terceiro grau. traduzindo mais ou menos assim a sua maneira de ver as coisas: há uma realidade da qual fazemos parte. segundo os graus que eles descrevem. Funda-se na realidade da coisa. depois. a classificação dos universais ante-rem. os quais são absolutos. Abstrativamente. na realidade contrada. são classificáveis. O universal e o singular formam uma unidade pe se. só apenas noeticamente. fora da realidade contracta. as universalidades. O universal contrai-se realmente no individual. que é contracta. é nele o que ele é. tomamos abstrativamente. O gênero não é uma parte do real-real da espécie. este é que depende dela. que. em inversão ao nosso ato de abstração. ele vai nos dizer que. e do segundo. esta realidade nós a conhecemos e dela podemos extrair eide. não é possível dividir. e que nós predicamos de muitos.

Esta não é uma distinção entre rem et rem. forma/itas. contém-nas contractamente. se ela é genuinamente pitagórica. contentamo-nos em permanecer aqui.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 64 Como queremos nos colocar. permite ao ato abstrativo captar o que formalmente se distingue de outra formalidade. Assim. Temos primeiro res et res. é a distinção real-física. mas a discussão em torno deste outro aspecto. que se pode fazer entre a natureza universal e o indivíduo singular. mas apenas formalitas et forma/itas. não são duas coisas. que embora permita tomar distintamente as formalidades distintas. o princípio da individuação não consiste em algo negativo. absolutamente inseparáveis por princípio. como já frisamos. para realizar-se uma distinção. portanto. da validez da tese platônica e pitagórica. apresentam-se como coisas (res) . a distinção entre res e res. a distinção formal ex natura rei. a entidade positiva. Portanto. a distinção modus e modus. são estas formalmente distintas. tem um fundamento. por ora. res et res. As coisas. Este é o ponto importante de Scot. a distinção res e forma/itas. mas também na própria coisa. de nossa especulação. Mas o aspecto formal abstraído por nós. A distinção. formalitas et formalitas. Formalmente. se ela está bem enunciada como anunciam muitos. . Contudo. mas em algo positivo. não só na nossa esquemática noético-eidética. Assim a matéria e a forma são res et res. entre coisa real e coisa real. Modus e formalitas nos dão a distinção modal-formal. mas contraído na coisa. é conhecido segundo a razão do universal ou dos universais. modus. a entitas da singularidade. mas apenas intuitivamente. A distinção entre res e modus é a distinção real-moda/. fundadas nessa natureza. pois uma formalidade não é outra. objetos. a heceidade. e se por sua vez encontra validez. é a distinção real-formal. mas a natureza comum e a individualidade são realitas et realitas. res et res. como modalidades (modus) e como formalidades (formalitas). Para Scot. real-real. de Scot. porque esta fase da Matese ainda é sintética. distinção modal-modal. . é a que. Seis combinações são possíveis quanto às relações entre elas.. na posição de aceitar pelo menos o realismo moderado. tais afirmativas dependem de posteriores análises. visualizada segundo as diversas realidades. porque a distinção formal não afirma que sejam duas coisas. Para Scot. Esta é realmente a que se deve entender por distinção formal ex natura rei. na mesma coisa. numa coisa. Não se conhece o singular segundo toda razão do singular. há res. Porque nós ainda não estamos com suficiente material instrumental que nos sirva para fazer esta análise.. neste é apenas uma distinção formal. enquanto a natureza comum e a individualidade são as partes apenas metafísicas. formalitas e formalitas. a que se dá entre duas formalidades. matéria e forma constituem as partes físicas separáveis de uma coisa finita.

porque uma pode manter-se separada da outra. de forma que a solução desse problema levado pelo caminho clássico. portanto. A matéria é realmente distinta da forma. Ora. a comunidade de a universalidade. a natureza comum e a individualidade só são formalmente distintas. A universalidade seria dada pela nossa mente. porque a definição é sempre formal.º) fez-se a distinção entre o universal metafísico. sem ser aquela que está singularizada na coisa. a natureza deste vaso. Não este. é a parte metafísica da coisa. já que sabemos que qualquer existência atual poderá ser apenas singular. é algo que admitimos que se repita em muitos. A nossa mente é que vai tornar este universal em ato. necessàriamente será singular. Remontando ao que já foi tratado. esta é a conclusão a que chega Scot dentro do realismo moderado. Esta matéria deste vaso pode manter-se separada da forma do vaso. enquanto formalidade. o que está em muitos em cada um é singular. este universal que é em potência. mas pode ser repetido. e que poderia estar também em outro. mas o que é em muitos é algo que é apto a ser predicado de muitos. estando em ato em nosso intelecto. que está neste. realmente distinta da forma. O que está neste não é para nós um universal em ato. Nossa mente vai construí-Io. a comunidade se dá na natureza das coisas. mas a descrição jamais poderá defini-Ia. um de muitos. de forma que. e o segundo é aquele que apenas atribuímos ao ente. Distingue-se. mas um universal em potência. porque todo predicado real de uma singularidade é singular. Contudo. de qualquer maneira. apenas formalmente. É apenas in praedicando. e este vaso não podem manter-se separados. pois este vaso deixaria de ser tal se perdesse a sua forma. por exemplo. Por esta maneira de ver. à natureza das coisas. que está neste. o intelecto é apenas o agente que atualiza o universal. Entre a matéria e a forma há uma distinção real-real. porque admitimos que ele possa dar-se em muitos do mesmo modo que se dá neste. Vimos que o primeiro é o que damos como in essendo na coisa. através de um esquema eidético-noético. . a universalidade convém. quando perde esta forma. a universalidade convém apenas sob o seu aspecto universal. Este universal vai tornar-se em ato pela nossa mente. por si. Pode ser descrita. de certo modo também se singularizaria. A singularidade não é definível universalmente. para Scot. Portanto. mas a forma. um em muitos. Se nosso intelecto atualiza o universal. ela seria meramente lógica. aqui surge outra aporia. como este que está neste. A formalidade. mas a natureza comum e a individualidade só são formalmente distintas. o universal. A matéria é. c como só existe o singular. do universal lógico. naturalmente se singulariza. observamos o seguinte: 1. em outro.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 65 São duas formalidades que se distinguem. A primeira convém à natureza das coisas. enquanto formas. que afirmamos estar in concreto neste singular. como tudo o que está numa singularidade. sempre deixa-nos em estados cada vez mais aporéticos.

deverá ter. e que pode ser justificada. o ente e suas divisões. vamos examinar a entidade. construídos pela nossa mente. e que merece ter. Portanto. Contudo. necessàriamente. examinando a doutrina do realismo moderado. ela não deixa de pairar dentro de aporias. e a essa pergunta a Matese terá de responder. Porque. passa a ser apenas algo construído pelo intelecto. como outras. fora da nossa mente. bem fundada. no realismo moderado. separado das coisas. algo que lhe dá suficiente testemunho para dizer que ele tem algum valor. às quais apontamos essa universalidade. Quanto à resposta à pergunta se tais universais. uma resposta especial. aquilo ao qual se pode predicar a entidade. cabe a resposta. a entitas. que tem um fundamento in re. e a resposta do realismo exagerado é a seguinte: há uma realidade outra que a realidade eidético-noética do homem para dar fundamento às universalidades. Então veríamos que o que é construído pelo intelecto é apenas uma abstração. que ele universaliza. Mas tal problema não poderá ser solucionado sem resolver-se o seguinte: a realidade dessa universalidade. Então podemos dizer que ser é tudo quanto ao qual não se pode predicar contradição formal intrínseca. CAPÍTULO XII ANALISE DE TEMAS DO REALISMO MODERADO Também é possível explicitar o ser pela noção de nada. depois. o realismo moderado chega até aqui. são algo ante rem. antes desse nosso trabalho intelectual. antes de se resolver o problema se há um universal ante rem. de maneira que a causa eficiente da universalidade seria dada pelo intelecto. conseqüentemente. o universal. o ser afirma-se em oposição ao nada. Portanto. de qualquer forma. . Ora. e que nas coisas se repetem.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 66 E deste modo. e o foi por nós de modo apodítico. que consideramos certa. na coisa. daquilo que se dá nas coisas. e. Este é que daria a universalidade às coisas. para podermos. não porém. o que é ente. senão num ou noutro ponto. porque exclui todo ser fora do intelecto e também todo ser no intelecto. ter material suficiente para examinar não só esta controvérsia dos universais. Ser é tudo quanto ao qual podemos postular um predicado positivo. se essa universalidade tem uma realidade fora dessas coisas. será uma entitas ou não? Conseqüentemente. que não têm sido solucionadas pelos seus defensores. é preferível ao conceptualismo e ao nominalismo. Ora. suficientemente para garantir a vitória que o realismo. Qual é essa realidade? Foi essa pergunta que permaneceu. que ele generaliza. temos de examinar o que realmente entendemos por entitas. que encontra. o que tem entitas. demonstramos que o nada afirmado contém contradição formal intrínseca. que nega e não se positiva.

Ente é tudo ao qual não repugna ser. na mente. e fora da mente o ente real. como já vimos. e também uma hierarquia dessas divisões. porquanto o primeiro pertence ao contexto Alfa. o ente de razão. não contém esta contradição formal intrínseca. o ente de razão com fundamento real. porém. o que está em ato. e não havendo repugnância para afirmarmos que é ser. ente necessário. ente a se (ou por essência) e ente por participação. na mente e fora da mente. não repugna o ser. aqui. como é o ente ab alio. Não havendo. 2°) os entes podem ser essentes e existentes. Quando estudamos as divisões no ente. não em seu pleno exercício de ser este aqui (haec). nem a uma diferença específica. como consequência é um ente. Per se é o ser da substância. necessàriamente. veremos quais as válidas. tudo quanto ao qual não se pode predicar contradição formal intrínseca. e é também irrepresentável. pois. o que se positiva sem incluir em si nenhuma contradição formal intrínseca. pode ter uma entitas. . Mas a montanha-de-ouro. o que está no pleno exercício de seu ser. embora não se dê na realidade. quais as segundas. pela imaginação. haverá ser. quer dizer. aquele que é. Os entes então podem ser: 1°) a) na mente. negamos que seja quadrado. as divisões do ente. b) fora da mente. Podem ainda ser atual e potencialmente. como verificamos no filosofar. O ser essente é o que apenas há. para sabermos quais são as primeiras. 3°) infinito e finito. que não se separa. ente não é definível. pelo menos as maneiras diversas de ser ele concebido. é nada. o que o quadrado-redondo não tem. podemos construí-Ia. Ao quadrado-redondo repugna o ser. Então. em torno de cuja matéria há uma grande controvérsia. ser será o inverso. Temos.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 67 Se nada é o que ao qual se postula contradição formal intrínseca. Apenas podemos dizer de ente que é o que tem entitas. o que pertence ao contexto Beta. Ela tem uma realidade ficcional. onde não houver contradição formal intrínseca. c) na mente e fora dela conjuntamente. se afirmamos que é redondo. na mente. pois. Nós não podemos reduzi-Io a nenhum gênero próximo. pois se afirmamos que é quadrado. O ser existente é o que tem sistência ex. o quadradoredondo é algo que inclui contradição formal intrínseca. negamos que é redondo. do ser. E em que consiste esta repugnância? Esta repugnância consiste no haver uma contradição formal intrínseca. Apenas estamos citando algumas para trabalharmos com elas. Todo ente tem algum ser próprio. e também conjuntamente fora da mente. senão quanto ao existir. e não esgotamos. o que tem verdadeiro e próprio ser. O conceito de ente é um conceito absolutamente simples Por essa razão. enquanto per accidens é algo que pertence à substância. por ser ela realmente representável na nossa mente. embora ficcional. o que não pode ser. porque se é quadrado não é redondo. e por isso ela pode ter uma validez. Se tomamos qualquer coisa. o ente por outro. não pode ter existência. o que é importante distinguir. o que pode não ser. o ente contingente. Então.

mas na informação. é uma unidade formal. e o indivíduo individuado é o que é individuado. EIes o tem realmente. porém. como são os da quantidade e da qualidade. sim. mas é uma unidade formal. A quantidade individualiza-se pelo situs. Repugna. Indivíduo é o que o é segundo a razão formal. Será a heceidade a raiz física das diferenças individuais? Os acidentes têm a sua individuação in ordinem ao sujeito? Dependem naturalmente dele? A individuação do sujeito não é o princípio intrínseco de individuação do acidente? O ser completo do acidente não consiste na eficiência. que também se individualizam pela quantidade. Elas estão individuadas. podem. e em relação à medida tempo-espacial (cronotópica). . aquilo que não pode ser dividido. segundo a sua razão formal. enquanto mantém esta unidade formal. etc. como ferro. Por estas razões. reduz-se em outras tantas partes individuadas. dividido. pela ordem situs. que. estas não implicariam a supressão de sua unidade formal. ao individual existir em muitos. não pode ser tomado divididamente. individuada pela quantidade. A quantidade não se individualiza pelo sujeito. uma coisa deve individualizar-se pelos mesmos princípios pelos quais tem o ser.. a unidade formal distingue-se da unidade individual. Uma barra de ferro. dividida. o estar indeterminado para muitos se opõem. porque representa uma unidade não divisível. Aqui. ou à ordem situs.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 68 Um ser pode ser idêntico a outro nos conceitos. mas pode ser diverso na realidade. no sentido que constitui. Um pedaço de ferro individuado em partes. contraditória e privativamente. há necessidade de ser distinguido o indivíduo individuado do indivíduo. por exemplo. O indivíduo é. ou seja. O estar determinado a este. não indivíduas. não se constituem indivíduos simplesmente. como acontece com os acidentes. pois não há supressão de sua unidade formal. Deve-se distinguir a unidade formal da unidade individual. é uma unidade eidética. Os acidentes. sem constituirem propriamente indivíduos. dividido em pedaços. e real fora da mente. Um pedaço de ferro. e essa distinção não é apenas de razão. A sua individuação é dada pela medida tempo-espaço. multiplicar-se. estes são individuados. Na realidade não pode dar-se aptidão alguma para existir em muitos. implica a supressão de sua unidade formal. mas os relativos. algumas vezes. pois dividido em suas partes estas não perdem a sua unidade formal. o que. Ora. sem ter em si a razão formal per se da sua individuação. pois. mas real-real. Esta é uma tese do realismo moderado. O que há de igual em Pedro e Paulo não é dado pelo entendimento. não se multiplicam nunca numericamente no mesmo sujeito. inteiramente absolutos. uma célula. estão individuadas apenas predicamentalmente. real na mente.

O que é incomunicável seria a unidade individual. Neste caso. ele não pode nem afirmar nem negar um modo de ser outro para os universais. isto é. à unidade individual do mesmo. o realismo moderado fica girando sempre em torno dessas aporias. como é o modo de estar em uma mente que a concebe. de modo definitivo. a polêmica dos universais. seria incomunicável. sim. e já vimos que o singular é incomunicável. fora da coisa. neles. e sendo singular. então. ela não é comum. No entanto. mas sem poder resolver o problema fundamental. ora do acidente. com afirmações seguras. do contrário. formalmente. em Paulo repete-se a unidade formal de Pedro. ela se repete nos indivíduos. Este é o ponto fundamental importantíssimo. Conseqüentemente. resolver. Note-se que há aqui uma aparente contradição. e ela não se comunica. e não poderia ser comum a muitos. Agora estamos naturalmente tratando ora do ente. pois seria incomunicável. é a unidade formal. a sua unidade formal é completamente idêntica à sua realidade individual. Mas a unidade formal repetese tantas vêzes quantas são os indivíduos que tenham a mesma espécie. Se fosse singular. não apenas eideticamente. Não pode ser singular. Pode parecer às vezes que estejamos tratando tumultuariamente da matéria. não é idêntica a unidade individual de ambos? Neste caso. eles são distintos. a unidade formal é comunicável. na realidade. a unidade individual também devera comunicar-se. por que. como a de Paulo é de Paulo. tomado contractamente em Pedro. ora da unidade individual. Portanto. estão individualizadas. amanhã. porque a real de Pedro é de Pedro. é singular. e não pode ser comum a muitos. e se distinguem entre si.. e para existir. mas estão. porque uma ou outra sentença vai se tornar exigível para a compreensão de sentenças posteriores. A unidade formal teria que se distinguir da unidade individual. que não se pode esquecer se quisermos. Para ser ela universal teria que existir. é incomunicável. contudo não é assim. a tese que a unidade formal é incomunicável não teria nenhum fundamento. A unidade formal de Pedro é completamente idêntica..Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 69 A unidade formal é incomunicável. como deve ser resolvida. . Ela. Mas acontece que a unidade formal é idêntica à sua realidade individual. não pode ser singular. para ser comunicável. fundamentalmente. e fora da nossa . Ou seja. portanto. ora da substância. que. Formam a mesma realidade de Pedro. o que existe. deve haver uma distinção entre a unidade formal e a unidade individual. é única. Como não é possível expor a matéria com amplas digressões. ora da unidade formal. Em Pedro. Mas também é de Paulo. e por que? Dois termos iguais a um terceiro não são iguais entre si? Por que se a unidade formal de Pedro e a de Paulo são a mesma. Mas a unidade formal de Pedro não é a mesma que a de Paulo. sem deixar aporias. e historicamente irrepetível. somos obrigados a escolher o método sentencioso. mas. A unidade individual é de cada indivíduo. singularizar-se-ia. mas o comunicável. embora não se distinga in concreto no ser. Ora o que existe é singular.

e alguns chegam a afirmar até que os conceitos são universais em sua representação. ou são uma coisa (res) e um modo. . contudo. como dissemos. puramente tal. Se a antecedesse apenas uma matéria prima. as coisas. refere-se à matéria que estamos agora examinando. que é o que dá o caráter de universalidade. Os nominalistas mais conseqüentes afirmam que as palavras só são universais. na sua essência. Nós já estudamos os conceitos objetivos. Basta que atentemos para o seguinte: Quando distinguimos duas coisas. em distinção real-ficcional. falamos. incomunicável. Temos. embora a denominação de universalidade aplique-se às coisas em função dos conceitos. portanto. poderia parecer a muitos que estávamos apenas usando sentidos especiosos. é o que é comum a muitos. a heterogeneidade dos singulares seria impossível. Ora. Se permanecermos dentro desses dois conceitos. Portanto. está apenas na nossa mente. o formal é o que se repete tantas vêzes quantas são os indivíduos da mesma espécie. São as seis combinações de que já tratamos. quando preferimos fazer a divisão das distinções a nosso modo. existe alguma coisa que não se repete. e o que se repete. Se a natureza converte-se em singular. uma unidade comum. quando a simples distinção real seria suficiente. É ao que nos leva o pensamento também de Suarez. ela não pode ter. a repetição. ou duas formalidades. por exemplo. ou um modo e uma formalidade. em distinção real-real. A natureza não tem essencialmente unidade comum. Mas justificamos a nossa posição. que encontrar o logos da díada para compreender a heterogeneidade. por conseguinte. Outra passagem do mesmo autor. porque se ela tivesse. A conelusão que se tira é que sem a díada é impossível a heterogeneidade. sobre tudo se eles aceitarem que os conceitos são universais em sua representação. mas tratam directamente das coisas ou dos conceitos objetivos. sem necessidade de repetir esse real-real. Neste caso. em sua significação. ou dois modos. e absolutamente simples. portanto. As ciências não tratam só dos nomes e de nossos conceitos formais. as quais denominamos assim. que se dá em muitos. ela não poderia converter-se num singular. ou uma res e uma formalidade. que é comunicável. que é incomunicável. ou são duas coisas.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 70 mente: uma terceira realidade. Quando construímos outros tipos de divisões. a muitos inferiores. e de grande importância. são reais e existem no mundo real. como já tivemos oportunidade de examinar ao estudarmos os nominalistas e os conceptualistas. teremos mais facilidade em esclarecer o problema do irrepetível e do repetível. distinguimo-Ias como se elas fossem dois termos que comparamos para distinguir. diz Suarez. O que existe é singular e. Tais nominalistas confundem-se com os conceptualistas. diz Suarez.

portanto. já que a humanidade. como forma eidética. A humanidade seria apenas aptitudinalmente uma forma em uma mente. enquanto que a unidade universal é intencionalidade. Estes são dois pensamentos também de Suarez. a não ser por razão dos indivíduos. A unidade real segue-se ao ser. uma semelhança entre Pedro e Paulo. Logo não lhe convém realmente. A natureza comum só se distingue realmente dos indivíduos apenas mediante o entendimento. de modo algum. ou por razão do estado que têm na mente. como a . convém-lhe sempre. enquanto existe uma humanidade individual. senão o que pode convir-lhe. se esta unidade não pode convir à essência. Nenhum predicado contingente. mas a humanidade de Pedro. seria singular. sem que lhe possa convir o seu oposto. como vimos. naquele típico modo de raciocinar de Suarez. Nada em absoluto convém realmente à natureza. ou nos mesmos indivíduos. A unidade formal distingue-se da unidade universal pelo seguinte: a unidade formal é fundamental. O ser da essência não se pode conceber como real se ao menos aptitudinalmente não inclua relação à existência. já que seria impossível ser absolutamente nada. e estas coisas são reais e existem no mundo real. senão enquanto individual. a primeira. O que convém essencialmente a algo. e como entidade universal só pode existir numa mente. convém às naturezas comuns. E para finalizar esta parte. CAPÍTULO XIII O REALISMO MODERADO (CONTINUAÇÃO) Há. já está estabelecido por Suarez que a universalidade não pode ter uma existência singular. como se provou. Ora. que não tenha nos indivíduos. ela antecede ao homem. dá fundamento e realidade lógica e ontológica à segunda. Necessariamente. Qual o fundamento dessa semelhança? Dizemos que tanto Pedro como Paulo são seres humanos. então. a humanidade só existe.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 71 Note-se bem: a denominação de universalidade aplica-se às coisas em função dos conceitos. em uma mente. porque se não existe. é intencionalmente fundada na mente. é fundada nas coisas. inclusive os negativos. enquanto existente em algum indivíduo. não poderia ser um mero nada. porque. a não ser por meio do entendimento. Se a natureza não tem em si mesma entidade distinta da entidade dos indivíduos' tampouco pode ter unidade real. nem poderia existir. o que é uma postulação do realismo moderado. Portanto. enquanto existente. tampouco lhe convém enquanto apta para existir. tampouco é apta a existir senão enquanto é individual. distinta da unidade dos indivíduos. não pode ter em si mesma unidade real alguma. sem dúvida.

. assim. A unidade e aptidão para existir em muitos (in multis). determinada. aptitudinalmente.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 72 de Paulo. por razão do inferior. E já que à natureza superior não se pode acrescentar nenhuma propriedade. do contrário a natureza terá universalidade. que é uma relação de adveniência. o ser universal. Esta é. realmente. que é nos indivíduos. em Pedro e em Paulo. Em todos a humanidade não poderia estar. porque então a humanidade se singularizaria. e haver igualmente em muitos indivíduos. em linhas gerais. convêm. A água não é uma possibilidade do hidrogênio. segundo determinada reciprocidade. nem apenas em si mesma. é concreta neste ponto. enquanto apta a comunicar-se a muitos. Não a tem nos indivíduos. propõem-se os seguintes argumentos: a unidade de universalidade terá realidade ou nos indivíduos. nem esta pode permanecer em pé. que eles apresentam: a não repugnância a ser em muitos não é bastante para dar unidade de universalidade. à própria natureza. mas isso não quer dizer que haja unidade nessa unidade de universalidade. na relação de enérgeia (ato) e pathos (potênr cia). A universalidade de Pedro ou de Paulo. Antônio. com as propriedades que lhe convêm essencialmente. que é singular. porque a coleção não existe em cada um individualmente. portanto. estaria individuada. primária ou secundàriamente ao que é superior. dão-se in concreto. mas a possibilidade de uma possível combinação. com anterioridade à operação do entendimento. Dentro deste pensamento. cuja propriedade esteja em contradição com a essência. uma possibilidade das possibilidades dinâmicas e cinemáticas de seus elementos. e dentro de determinadas circunstâncias. a posição do realismo moderado. De maneira que a universalidade abstrato-noética humanidade tem o seu fundamento nessa concreção. o ser universal só convém na mente. Em suma. porque pode ser comum a outros. nem a tem em muitos e em todos simultâneamente. etc. ou seja. mas unicamente é pensada. Ela pode não repugnar. A unidade de universalidade não existe. já que não podem estas separar-se daquelas. pode convir à mente. A água é. convém por igual ao inferior. já que não a confundimos com a unidade formal. Naturalmente. em compatibilidade com propriedades contraditórias. ou em si mesma. João. considerados isoladamente. não há repugnância alguma que a um indivíduo haja outro indivíduo semelhante. então. uma realidade em si mesma. Como conclusão. apenas por meio do entendimento. segundo uma causalidade. Mas o que convém essencialmente. que é do logos da universalidade. o eidos concreto. e ela se multiplicaria numericamente. segundo determinado eidos. nem do oxigênio enquanto tais. as razões são estas. Outra é a que dá razão à mente. porque. pois é de cada um. Assim se colocam aqueles que negam uma anterioridade à uoiversalidade.

As espécies posteriores. Alguns universais. enquanto necessárias para a razão da universalidade não convêm realmente à própria natureza. a não ser por meio do entendimento. Mas a verdade é que a ciência se ocupa realmente dos universais. espécies individuais. Gênero é o que a modo de potência é apto a constituir a espécie. as espécies só são possíveis enquanto há espécies especialíssimas. distinguem-se. são generáveis e corruptíveis. O gênero e a diferença devem distinguir-se de algum modo na própria realidade. e não dos singulares. a modo de forma ou ato. não porque se ocupe dos nomes comuns. cavalo. e sabemos que se dá essa variância no pensamento humano. a universalidade lhe convém da mesma maneira. O universal físico é a natureza universal tal como existe nas coisas. estão fundadas nesta realidade. já examinadas. . mas. Será. o universal em ato. Quiseram reduzir os conceitos apenas a palavras. Portanto. chamado de dialético ou lógico. Pode haver variância de conceitos. O universal reflexo é realíssimo. é o eidos concreto. sim. o eidos universal. pela razão. Propriedade é o que advém essencialmente à espécie. é eidos concreto. mas estes representam. que resulta da operação do entendimento. como homem. embora às vêzes uns sejam mais precisivos do que outros. e só por meio de geração comunicam-se aos indivíduos.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 73 Por não haverem compreendido nitidamente este ponto é que os nominalistas de todos os tempos julgaram que a unidade formal é a unidade de universalidade. por sua vez. que se referem à espécie especialíssima. ou com os verbalistas modernos. ou seja. porque.. contudo. e constitui a espécie. que seriam gêneros. e de real e de representado. São idéias gerais. contrai e divide o gênero. por razão da mesma. enquanto se refere ao que representa. Não há muitas espécies pelo fato da mesma ser significada por muitos conceitos. e sob a razão de predicado. como eles pensam. do contrário. junto ao gênero. A espécie. aqueles aos quais correspondem indivíduos reais. A unidade e aptidão para existir em muitos. chamado de metafísico. têm representações da espécie. como aconteceu com os terministas. a espécie não se delinearia. embora o modo pelo qual representa não corresponda ao que é a coisa em si mesma. pelo entendimento. porque só existe a espécie enquanto existe uma espécie individual. O universal lógico é universal em ato. mas que convêm nunca esquecer. etc. termos. então. sob a razão do universal. A diferença o que. como alguns preferem. que não se distinguem na realidade dos singulares. porque trata dos conceitos objetivos comuns. comporse-á dessa diferença. casa. Ora.

Esse fundamento baseia-se. não pelo modo pelo qual é representado. Aqui já ultrapassamos o limite do real1smo moderado. e que podemos predicar de multis. segundo o que ele representa. constituem a tectônica geral de Pedro. portanto. um esquema. é que. que é nominalista em suas linhas gerais. O eidos. para este. e sua realidade termina nesta. segundo o nosso modo e o nosso poder de conceber. embora o modo como ele a ela se refira. não discutirá. Esse eidos concreto. no seu aspecto genérico. aqui. que é idêntico à existência. no existencialismo ateu. o repetível. mas a nossa representação não é uma cópia fidelíssima da coisa. é um eidos lógico. Ele tem valor. ou melhor. para entrar nas posições mais específicas. é uma criação do nosso entendimento. salvo algum realista moderado. ou seja. único. De maneira que o universal reflexo é o universal do nosso entendimento. Dentro dessa concepção gnoseológica. Esta essência não se distingue real-realmente da existência dele. mas apenas uma adequação intencional dela. junto com a estrutura hilética. não primàriamente. porque este ser aptitudinal deve-se dizer que não é generável nem é corruptíveI. considerada deste modo. que desconhecemos. real-realmente. não primàriamente. o que se dá em muitos. ou segundo pelo qual é representado. A coisa. A essência atual. . que nele se dá. Falamos. naquilo que se dá in multis. aqui e agora. Mas cada indivíduo. A existência não se distingue real-realmente dessa essência atuaI. que se dá na coisa.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 74 ele é real. a estrutura mental que formamos. fundando-nos nas semelhanças que possam existir entre os indivíduos. Esta tese é de Suarez e de Scot. a sua estrutura eidética. é irrepetível e. o universal. tese de Max Stirner. não apenas no indivíduo. É de certo modo único. porque se refere à coisa. De que natureza é esse repetivel? O realismo moderado não vai discuti-Io. segundo o modo pelo qual por nós é representada. na sua singularidade. da sua existência. tem um fundamento real. e poderíamos traduzi-Ia assim: a essência de Pedro está aqui e agora. nem a existência de Pedro distingue-se real-realmente da sua essência atual. que estabelece que há apenas o eidos in concreto. Agora a diferença que há em relação ao realismo moderado. segundo o que é representado. depois. no repetíveI. não seja realmente como a coisa o é em si. é o eidos concreto que nele se dá. salvo no existencialismo cristão. filósofo anarquista alemão. refere-se ao que é a coisa como ela é. do essencialismo ao existencialismo. basta apenas afirmar que aquele nosso esquema mental intencional refere-se ao que é comum em multis. conseqüentemente. Gera-se em razão dos indivíduos. Esta tese retoma. o esquema. existe secundàriamente nos indivíduos. não é distinta. que formamos mentalmente. e neste caso. rmas naquilo que é comum. vão constituir a essência de Pedro.

tomada como uma natureza universal. porque estes s6 podem dar-se numa mente.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 75 A unidade formal multiplica-se nos indivíduos. ela seria apenas aptitudinalmente uma forma. . porque. não pode ser um mero nada. e neste caso. ela não era absolutamente nada. necessàriamente estaria fundada em uma mente distinta da nossa. já que este começou. porque seriam necessàriamente singulares individuais. não estaria intrínseca e essencialmente nos homens. a formal multiplica-se nos indivíduos. Já que esta s6 pode existir numa mente. embora não nos dêem ainda uma solução concreta. depois de passarmos os olhos por todos os postulados fundamentais do realismo moderado. porque já nos dão uma relação sintética do problema. homem. porque se a humanidade há. nas religiões. não pode ser uma entidade universal. que a nossa mente constrói. e também não pode existir. o qual é a mente que conteria os universais. Agostinho demonstrava a necessidade da existência de Deus. para o realismo moderado. é fundado nestes argumentos que Sto. a única realidade que teria de tê-Ia. e ainda de modo absoluto. Sem dúvida. como forma eidética. Esta unidade. Então vejamos estes aspectos que são importantes. já que esta propriedade é essencial para o que se quer afirmar como universal. nem existente. Se é universal. A discussão sobre a realidade desta natureza universal vamos mais adiante examinar. A humanidade. enquanto a unidade singular não. mas algo numa mente que antecedia à do homem. já que seria impossível ser absolutamente nada. Neste caso. funda-se na unidade formal. se está separado. mas a unidade singular não. não é gerada nem criada. Necessàriamente. dar-se fora de suas causas). Sem a humanidade individual. A unidade universal. deveria estar intrínseca e essencialmente neles. o referente ao Ser Supremo. subsistentes de per si. Já distinguimos a unidade formal da unidade singular. primeiro princípio de todas as coisas na Filosofia. porque estes predicados levariam a uma contradictio in adjectis. necessàriamente tem de haver uma mente para conter a humanidade. está presente apenas formalmente com o seu logos e não singularmente. se os atribuíssemos à natureza universal. argumentam alguns defensores do realismo moderado. os quais iremos descrever. porque ele se daria separado. Por sua vez. então. Os universais não se dão realmente separados. enquanto ela é tomada absolutamente. A unidade de precisão. sendo singular. em seu sentido universal. seria um singular. A humanidade só existe enquanto existe uma humanidade individual (ex sistere. em uma mente. há uma mente que antecede à do homem. é de cada um. Os homens não teriam intrínseca e essencialmente esse universal. que é.

neles. e com fundamento in re nas coisas. Scot admite apenas um universal aptitudinal. que afirma tal realidade. e já a havia refutado. mas só poderia haver uma ciência dos termos. então nada corresponde aos termos comuns em seus conceitos. nas coisas. apontadas por palavras e por conceitos comuns. que é um universal formal. os nominalistas. Se assim fosse homem seria algo distinto real de Pedro e Paulo. Platão conhecia esta crítica antes de Aristóteles fazê-la. dentro de si. quando afirma que podemos chegar à construção de universais pela mente. nem se distingue realmente nos indivíduos. poderíamos chegar ao conceptualismo. e este é um universal em potência. as coisas conteriam. Neste caso. Agostinho. Nós poderíamos concebê-los. além disso. portanto. ou em potência. a aptidão de ser isto ou de ser aquilo. segundo as circunstâncias (segundo a sua dinamicidade e a sua cinematicidade). O conceptualismo tem a sua faixa verdadeira. tais universais não têm realidade. seria impossívet haver uma ciência das coisas comuns. existir. unidade real. definidas e determinadas. se não estivessem. segundo os casos. O universal em ato não pode existir nas coisas. Se tais idéias estão na mente divina. já que o que existe num ente determinado e singular é singular. É mister distinguir universal em ato do universal em potência. porque esses extremos são contraditórios. que está. Quer dizer. s6 se dá nas coisas pelo entendimento. mas comum a muitos. Esta aptidão lhe convém real e essencialmente. Esses universais são realidades significativas. está na nossa conceituação. e estar fora deles. seria o homem distinto realmente dos homens. estar neles. O realismo também é verdadeiro. têm fundamento in re. Esta doutrina. mas sem fundamento. Para os nominalistas. O universal. indiviso in se. Então o universal em ato não pode existir. O realismo moderado vai afirmar que. a universalidade. Os universais não têm entidade própria. multiplica-se numericamente. Entre comunicável e incomunicável não pode haver termo médio. É ao que alcançam.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 76 Não poderia estar simultâneamente separado e intrínseca e essencialmente neles. pode-se acrescentar que. crítica que se fez à concepção platônica. porque só há coisas singulares. e somos capazes de definir e até de precisar o seu conceito. Se a natureza não tem. distinta dos seres singulares. e como não se pode fazer uma distinção real-real. simultaneamente. portanto. como já vimos. caso elas não estivessem lá. como propõe Sto. . já que pode estar em muitos. inevitàvelmente. enquanto universal. na realidade. remota ou proximamente. é atribuída a Platão por Aristóteles. Quer dizer. a não ser os singulares. Contudo. A natureza é comunicável. Agora vamos prosseguir com o pensamento alheio. Não poderia. senão entre entidades reais. universalidade alguma. não impediria tal coisa que concebessemos os universais.

não há contradição em que uma unidade de razão indivisa in se enquanto tal. que em determinadas combinações numéricas. e da sua cinematicidade. Não estão os homens divididos no conceito de homem. A unidade universal. consiste na unidade e na comunicabilidade. A razão de universalidade. que é o universal. Um aspecto importante a salientar é o aspecto aptitudinal do universal. A unidade de homem. porque. o que é um ponto importante. e seria impossivel a ciência de qualquer espécie. não há oposição contraditória. se dá em todos. que . nos dão aquela. eles se dão em todos aqueles elementos. possa dividir-se segundo a realidade. e segundo determinadas circunstâncias. Nestas se dá a unidade formal in concreto. é indubitável. singular nele. Se não pudesse. e se refere à primeira. que. enquanto esquema eidético-noético. seriam impossíveis a Lógica. A unidade formal é uma no indivíduo. que ela tem com outro ser da mesma espécie. a Matese. a Matemática. enquanto universal. torna-se única. É ela que fundamenta a unidade universal. a forma de certo modo. Assim todos os homens são um só homem na razão específica. o eidos hilético. dadas determinadas circunstâncias. mas a unidade formal é comunicável por contração a muitos indivíduos. um em rationis. ao singularizar-se. porque se nós partimos dos elementos químicos e também das formas que a Química pode estabelecer. o conceito de homem não é comunicável enquanto tal. sem deixar. a sua estrutura eidética. Vimos que existe um universal in concreto. sobre o qual teremos de tratar oportunamente. aqui. realiza-se na mente. e como tal não se dá nas coisas. enquanto o conceito é comunicável por abstração. pois tal unidade universal é indivisa. o que é indubitável. é uma unidade de razão. Esta aptidão para existir não se dá em um. como querem os nominalistas. de ter algo em comum com outras. individualiza-se neles. porque nos facilita a solução desse problema. que de certo modo preexiste aptitudinalmente nas coisas. dentro da sua dinamicidade. enquanto tal. Ora.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 77 Tal não exige que a uniformidade formal não possa adequar-se à unidade individual. que é o eidos in concreto. que é uma unidade universal noético-eidética. singular e única. que se dá na natureza. Ela pode. A água não é uma possibilidade do hidrogênio. A unidade universal existe na mente. contudo. que se dá na mente. e que ela se singulariza na coisa. enquanto esquema noético-eidético. que é a forma aristotélica. O exemplo da água torna a servir-nos. O logos analogante. que se dá nos indivíduos. a unidade formal multiplica-se nos indivíduos sem dúvida. o eidos da coisa. na sua dinamicidade e na sua cinematicidade. que é noético-eidética. mas é uma possibilidade do oxigênio e do hidrogênio. enquanto dados separadamente. o que vem mostrar um certo sêmen. que está na coisa. nem do oxigênio. Portanto. a Ontologia. Ela. poderão atualizar-se in concreto numa estrutura eidética. não no seu aspecto formal. mas apenas no seu aspecto histórico. tomando-os pelo que eles têm de comum.

sabemos que se dá com absoluta segurança. a uma natureza. etc. mas uma forma que se acha numa mente. A natureza não prescinde. deve ter antecedido ao homem. na qual se davam e se dão. e essa construção nossa tem uma validez. enquanto é tal natureza. e segundo. e que se repete. CAPÍTULO XIV DA SINGULARIDADE E DA INDIVIDUALIDADE Se a precisão não se dá na realidade. O eidos de A. do contrário o nada absoluto seria princípio de ser. embora não diga como é na coisa. a nossa mente constrói esses universais. o é em virtude do entendimento. não por razão dos indivíduos. como no ser animal racional o ser capaz de admirar-se. que se afirma imediatamente de uma natureza comum. há. mas somente por meio de entendimento. ou pelo menos terá uma estrutura eidética. nada pode convir. porque ela se dá in concreto. nem convém à natureza em si mesma. Sabemos que se A é um ser. ou se separa de todas as diferenças. porque se funda na realidade. ou do de separação. se dá in multis. convém-lhe em virtude do estado de individuação que tem na realidade. os predicados.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 78 pode repetir-se. uma mente. se não lhe convém também essencialmente. a qual necessàriamente. precisamente. e não se refira corretíssima e adequadamente à coisa. e porque as coisas repetem eide. Ora. com toda propriedade. na verdade. enquanto tem razão formal. antes de se dar não poderia ser um mero nada. embora não possamos precisar em que ele consiste. não por razão de . o que convém. Todo predicado. muito embora este esque-ma seja impreciso. ele diz que a coisa tem. precisamente por ser tal natureza. convém a si mesmo. A natureza. se prescindimos do entendimento. Mas pela nossa intenção mental. ele se adeqúa à coisa. portanto. que é o fundamento real do esquema que formamos. aquilo que. Tal espécie de predicado diz-se. todas as formas possíveis. E como há eide que as coisas repetem. que convém à natureza em si e essencialmente. Ora. desde todo sempre. quer dizer de multis. tudo quanto convém contingentemente a uma natureza comum. já que aquele não pode ser senão numa mente. próxima e imediatamente. O predicado pode ser de duas espécies. Se há o universal. A terá uma estrutura hilética. que nós atribuímos a muitos. há uma mente que antecede tudo. Ademais podemos saber que se se dá em um ser. que tem por meio do entendimento. senão por obra do entendimento. pois este não é o primeiro princípio de todas as coisas. o que é absurdo. tão pouco a unidade pode convir à natureza em si mesma. Do contrário. que convêm à natureza em si. considerada em si.

na realidade que tomamos. A comunicação. O que convém a uma natureza em si mesma essencialmente. Ora. segundo os pares de contrários. é a natureza ante rem. muito embora sofra virtualizações nas suas possibilidades de ser. há algo na parte que permanece em sua singularidade incomunicável. convém de três formas: 1) corno existente nos indivíduos. tanto a extrínseca. Diz-se communis aos que tinham os mesmos muros. já que sabemos que a comunicação é uma qualidade. pois a parte comunica-se no todo. A comunicação dos superiores. cargo. pois. De antemão não pode convir-lhe a unidade numérica. mas porque o objeto é um. ou as mesmas funções comuns. O objeto não é um. porque. nestes. sobre a qual discutiremos. na sua dinâmica. Comum. obedientes à lei da díada. o mesmo que muitos têm ou são. Comunicação é ação ou a realização correspondente de tornar comum algo a muitos. 2) como existente no entendimento. como também a incomunicabilidade.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 79 precisão. e com anterioridade aos indivíduos e à operação mental. mas enquanto é parte de um todo. função. ela não tem realmente aptidão para existir em muitos. mas que convêm. porque os delimita a partícula em si. conseqüentemente. lncomunicabilidade quer dizer a qualidade de não ser comunicável. ou seja. podemos ainda distinguir o aspecto positivo. que pode estar obstaculizada. segundo o estado que têm no entendimento. O ser. uma natureza realmente existente seria uma natureza singular. 3) como existente em si mesmo. diz ele. portanto. separação. numa natureza realmente existente. é incomunicável. desempenho). considerar-se a comunicabilidade. Não pode dar-se realmente aptidão para existir em muitos. é o que se chama comunicação de razão. Esta é uma das teses apresentadas por Suarez. é o que é de muitos. de onde munus. convém-lhe como existente nos indivíduos. só há singulares. e não em virtude de qualquer estado de consumação ou de precisão. comunica-se no todo. segundo uma abstração da razão. considerado enquanto unidade e singularidade. é mister. Comunis. Contudo. e o aspecto negativo da . de não ser comum a muitos. A natureza considerada em si. e está regulada naquele predicamento. nada há realmente distinto deles. portanto. e. Neste caso. em latim. as mesmas muralhas. Em si mesmo significa conveniência essencial intrinsecamente à natureza. porque um é o seu conceito. ela não pode ser numerada. convém-lhe sempre. vem de cum e moenia ( muralha. como a comunicação intrínseca podem apresentar graus. Portanto. Como acontece com as partes de um ser vivo. ou de abstração. os mesmos cargos. O que convém à natureza.

e não enquanto ao que é negativo. Se o que se afirma é positivo. tanto pelo aspecto afirmativo como pelo aspecto negativo.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 80 incomunicabilidade. o que não pode ser. ao que é afirmativo. a forma. ele seria ele mesmo. como acidente. A natureza concreta de uma coisa não é universal e abstrata como ela o é para o entendimento. enquanto tomada na sua existência atual neste ente. A incomunicabilidade só é princípio de individuação enquanto se refere ao que é singular. Vê-se claramente que o conceito de incomunicabilidade não é apenas negativo. é um efeito formal. O positivo é princípio de positividade. Assim. porque estaríamos usando uma propriedade. o que caracteriza a individuação é a singularidade. a incomunicabilidade. seu princípio terá de ser positivo. E negativamente. propriamente. mas isto mesmo não serviria. tem a propriedade de não ser comum. enquanto está neste ente. a não ser daquele modo que propusemos. Portanto. não pode ser princípio da essência. que decorre. o negativo é princípio de negatividade. Nunca poderemos admiti-Ia como sendo princípio da própria espécie. é incomunicável a outros. enquanto singular. simultâneamente. não poderia ser. Pois afirma e também recusa o que não é ele. e segundo a sua incomunicabilidade. como alguns disseram. A incomunicabilidade é mais uma propriedade da individuação. O idealismo é que postulou que a natureza concreta de uma coisa seria. o que não é. estaríamos em contradição. Portanto. pois este pode ser comunicado. porque sendo singular. não se pode dizer que a incomunicabilidade seja princípio de individuação. Se a indrviduação é positiva. pela sua singularidade. não quanto ao logoi eidético. poder-se-ia tirar uma conclusão. que a incomunicabilidade é princípio de individuação. mas é também positivo. só poderiam ser de incomunicabilidade. porque os negativos só podem ser princípios de negação. porque. não a sua onticidade. em termos. de modo total. A. ou acidental de ser. e enquanto tal não é comum a outros entes. porque. porque é singular. Ela é. Conseqüentemente. e sob este aspecto. repetindo-se a sua ontologicidade. . simultâneamente. na coisa. Também podemos considerar o eidos segundo a sua comunicabilidade. enquanto negativa. O ser indivíduo. a mesma de muitos. não pode ser princípio daquela. já que todos podem ser virtualizados. como ela é no nosso entendimento. de maneira que não se pode dizer assim. que só a incomunicabilidade é princípio da individuação. propriedade. A singularidade é incomunicável afirmativamente. porque se ele fosse comum. o que é uma maneira também matética e dialética de se conceberem os conceitos. e outro que ele mesmo. como alguns o fazem. e ela pode ser comum em outros. singular é unidade enquanto ela mesma. enquanto tal. o que seria formalmente contraditório a ele. A propriedade. e transformando-a em princípio do ser que seria portador da propriedade.

então. não se reduz ao gênero animal. na coisa. de ser intrínseco a ela. na verdade. por exemplo. É um. que é o eidos. enquanto S6crates. que é a forma. uma diferença absoluta.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 81 O ser existente é aquele que existe fora das suas causas. Um ente. senão o que é singular. na sua tectônica. e que só pode ser predicado dele. já que nada pode ser termo de ação das causas. Como consequência. A barra de ferro é apenas individuada. A individuação não nega a realidade da universalidade. deve haver na coisa realmente o que a individue. Esta confusão é alcançada hoje como uma pseudo-glória da filosofia moderna. a individuação é algo real. Deve haver um princípio de individuação. e só analõgicamente poderíamos chamá-Ia de indivíduo. que é indivíduo sob um aspecto. seu próprio ser. não o individuaria na sua singularidade. algo deste fato determinado e singular. Caracteriza a individuação o haver. Portanto. e não é comunicável a muitos. objetivarnente na coisa ou. que tem real atualidade. Negar a universalidade. seu próprio ser. o indivíduo é um ente que não pode. que está no exercício pleno de si mesmo. Muitos erram ao julgar que a individuação consiste apenas na diferença numérica. o que não é aceito por quase todos. ou seja. e esle princípio deve ser intrínseco. na sua atualidade e na sua potencial idade. revela confusão entre os princípios de singularidade. a confusão entre o princípio de singularidade e o de individualidade com o fator de universalidade. ser dividido em muitos. nem à diferença específica racional. ainda. quando ela é tomada de modo a ter o caráter de indivíduo. certa incomunicabilidade. fundandose na individualidade. Sócrates. se toda individualidade é unidade.portanto. o não se reduzir ao gênero nem à espécie. o qual. considerada em . assemelhando-se ao que já foi feito no passado. Se é real. pela mesma razão. o princípio de individualidade. É. E nada há mais intrínseco que a sua própria entidade. Não. Há a indivisibilidade. e o fator de universalidade. porque o fato de um ente ser individual não impede que possua em comum alguma coisa com outro. a distinguibilidade. o que individualiza uma coisa tem. pode não ser sob outro aspecto. o que é o ser aqui e agora. Portanto. nos quais poderia ser dividido. ser capaz de existência. do contrário. pois o gênero e a espécie nele se dão. Esta confusão fazem-na nominalistas. o ser distinto de qualquer outro e não ser outro que si mesmo. e há a irredutibilidade. os quais fossem. é singular em toda a sua razão. e possui. é a forma. na verdade. que é a sua singularidade. é apenas um ente de razão. chama-se individuação a ação que consiste em individuar determinada coisa. existencialistas modernos. não passa de um exemplo de deficiência paleo-filosófica. porque. como a de Sócrates. nem toda unidade é individualidade. nas suas estruturas hilética e eidética. tomado completamente. e de nenhum outro. Em suma. segundo a mesma razão. singular. Ora. o que individualiza uma coisa é a sua própria entidade. mas. de onticidade igual à dele. portanto.

o suppositum. também. ou entre uma coisa e um modo real positivo. e tudo isso é o constitutivo atual e potencial do indivíduo. Só pode haver distinção real entre entidades atuais. a entitas deste ser. é o synolon. e da sua diferença individual. nem pela atualização das coisas da mesma espécie. suposto. ou da sua natureza. se é uma distinção entre coisas positivas. e esta. e este contém a sua subsistência. que é ele mesmo. nem esta enquanto está na coisa. Este ser é haec. Distinguem-se. que esteja acima da sua natureza. o seu piethos. o todo informado. dentro de todas as suas possibilidades. intrínseca e qüididativamente.a subsistência. no pensamento escotista. também a sua natureza universal e a sua diferença individual. Quer dizer. das diferenças individuais. como transcendente a cada uma das diferenças individuais. A razão da diferença individual. enquanto são elas individuais e singulares. a sua natureza estática. enquanto pode ser concebida como uma razão real e comum. o único ser. A subsistência individualiza o suposto. mediante o entendimento. constituindo a natureza do ente. A diferença entre Pedro e Paulo não é só a diferença individual de um e outro. o hipokeímenon. a individuação. esta contém o seu suposto. e é tudo isto que o funda. Só pode separar-se mentalmente o que não é bastante para garantir a distinção real. indiviso in se et diviso ab alio. Esta. nem por interatuação das coisas finitas. o ser de Sócrates é haec. é constituído da dupla composição da sua natureza universal. a entidade da natureza de um e de outro. portanto. A heceidade de um ente. na sua heceidade. até prescindindo-se. as que ela não atualizará por si mesma. é que individualiza este. tema que não podemos examinar aqui. não por uma nova composição. neste. pois não se poderá conceber nelas nada que não inclua tal razão. dinâmica e cinemàticamente. inclui-se na própria natureza da coisa. mas inclui. mas pela simples . Portanto.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 82 sua incomunicabilidade. mas incluindo. funda a base. mas o que obedece a um poder que lhe é sobrenatural. como entidade completa. De modo que o suposto se individualiza pela subsistência. A individuação de uma coisa não pode separar-se de maneira alguna da natureza da coisa. contém a sua natureza. a sua potência obediencial. mas este. Daí este esquema: . que é a unicidade. Inclui a sua espécie e aquilo que o diferencia individualmente de outros entes da mesma espécie. também. como duas coisas singulares. e este funda a natureza da coisa. a sua historicidade. portanto. que deve darse entre as coisas que existem na realidade. a individuação é um fundamento da distinção real. também. inclusive as obedienciais. será. pelo menos aquela razão comun. que se determinará a cada uma das diferenças. em sua informação. mas a individuação da mente não se toma da mera subsistência. mas.

A matéria. difira apenas materialmente. o um comum a vários indivíduos. e a quantidade ali. Portanto. e assim cessa qualquer ulterior resolução do processo. Então. sob o ângulo ôntico. E também faz parte do composto. em suma. porque seria mister que se distinguisse enquanto quantidade de outra quantidade para individualizar. do composto. o q'ue individualiza é esta matéria aqui determinada. Este aspecto qualitativo também coopera para individualizá-Ia deste modo. que é um acidente necessário das coisas materiais já informadas. mas não o é sob o ângulo ontológico. o fator de individualidade seria a matéria determinada pela quantidade. Podemos concluir: no concernente às coisas finitas que a razão específica mais a individual vão constituir o indivíduo. A matéria assinalada pela qualidade seria melhor um princípio de individuação do que a assinalada pela quantidade. distingue também aquele em relação aos outros. ele. como fator de individualidade. nem é a forma. porque se torna e se transfere em distinta matéria. se não pode dar a distinção. seria necessário que em algo se distinguisse essa matéria daquela. por si só. constitui o indivíduo em si. a quantidade. o que não acontece: a quantidade aqui. incomunicável e um. nem conceptualmente. o indivíduo é o imultiplicável. É assim o Ser Supremo a mais perfeita expressão de individualidade. . como o propõe Caietanus. a materia signata quantitate. porque a distinção deve fazer-se pelo ato. Na verdade. como ontologicamente se concebe. como já mostramos. Mas tal não é a própria matéria. os tomistas apresentaram. nas coisas finitas. simultânea ou sucessivamente. Se assim fosse. não é acidente daquela. enquanto onticamente considerada. A quantidade. O indivíduo. Em oposição a esta maneira de considerar a individuação e a individualidade. a matéria assinalada quantitativamente. Diferem numéricamente os seres que diferem materialmente. eie não se multiplica numericamente. Contudo. separada da quantidade. mas tal matéria já é a que pertence à matéria informada. a quantidade. a quantidade não individualiza a coisa plenamente. não é necessário que tudo quanto difere numéricamente. pois esta forma não é mais distinta daquela. Ora. que realmente a individúa. não acrescenta nada. mas Deus. o que realmente individualiza é o composto. a entidade desta coisa. Também diferem materialmente os seres que diferem numéricamente. pode diferir também de outro modo. mas do suppositum. Como Ser Supremo. ou. Na verdade. Assim. porque o acidente não pode ser princípio de individuação. acrescenta algo conceptualmente distinto da espécie.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 83 determinação do conceito mais expresso e determinado. a sua essência é ser essencialmente existente a sua natureza singular. é um fator cooperante da individualização. estando na matéria como acidente. O princípio de individuação tem de ser próprio em grau máximo. aceitamos mateticamente. nele. por si só não individualiza a coisa. por si mesma.

Contudo. é mais fator de universalidade do que de individuação. a estrutura eidética. ela é um fator de individualidade. A unidade individual. no que ela tem de formal. como tem de fazer a Matese. que se funda na natureza individual. realmente. constituindo a sua entidade. alegam. na Filosofia. Não há um princípio de individuação fora do próprio ser. é mais fator de singularidade do que de universalidade. porque esta forma. que interpretaram Tomás de Aquino de modo a atribuir-lhe esta doutrina. o fator de individualidade. dinâmica e cinemàticamente. tudo isto vai constituir a sua entidade. E essa entidade que é o princípio de sua individuação. porque. não pode acrescentar algo positivo real sobre a entidade individual. tanto a forma como a matéria. Distinguindo ambas. é fator cooperante de individuação. De maneira que esta própria entidade. isto é. na qual cooperam para formá-Ia todos esses fatores.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 84 tampouco. enquanto conserva em si a si mesma. senão a sua própria entidade. na parte atual e na parte potencial. afinal. é fator de universalidade. pois. não há questões insolúveis. considerada estática. do contrário. a forma. E a individuação in concreto. vai dar surgimento a este ser. os adversários da tese tomista. porém. o único fator. Cada coisa individualiza-se por si mesma. a polêmica travada em torno desta matéria revela que a problemática suscitada é apenas temática que provém de uma questão mal colocada. poderá dar a incomunicabilidade da individuação. Uma forma. informada a matéria. leis. a matéria signata quttntitate está assinalada pela quantidade. e apenas foi apresentada através da exposição de Caietanus. e esta entidade. corno geraram os tomistas. Ela tem seu fundo de verdade. enquanto forma. começa na sua individualidade. E os seres não materiais também podem ser indivisos. não. é o princípio da sua individuação. enquanto esta matéria. a estrutura hilética. e passou para o tomismo como genuína do aquinatense. A matéria. Por isso repetimos que. que regem qualquer dessas estruturas em seus aspectos específicos e nas suas possibilidades. os logoi. enquanto forma. Não se pode colocar esta matéria de outro modo. enquanto matéria prima. A individuação de um ser começa no próprio ser. há apenas questões mal colocadas. e também pela qualidade. e não precisa de nenhum princípio de individuação. segundo uma polaridade: a matéria enquanto matéria prima é fator de universalidade. que nunca foi exposta ex professo. geramos aporias. a natureza da coisa. onticamente e ontologicamente. que constituem a sua tectônica. o que prova que não é a matéria o princípio intrínseco da individuação. ontologicamente considerada. onticamente considerada. é mister considerar. deste composto. .

Se nem todos os seres poderão ser a se. hieràrquicamente. Mas.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 85 Apenas numa ou noutra passagem. A individualidade de Deus é inevitável. negar a individuação também em certos seres não materiais. Todos os seres. podem ser. Não podemos. devem conter tudo quanto está incluso no que é dividido. os quais. dos quais já tratamos. desde que os aceitemos. alguns quantos logoi. e deve incluir segundo uma razão. Verificamos. É um princípio lógico de que uma divisão é adequada e suficiente. . Portanto. conseqüentemente. é em torno da divisão dos entes. ele fala na matéria como o fator de individualidade. que é uma divisão. onde maiores têm sido as controvérsias. na verdade. um logos. a primeira divisão. podemos admitir a possibilidade de haver. do que propriamente real. o contexto alfa. que é o contexto do ente a se e dos entes ab aeterno que dele decorrem. A primeira divisão do ser não é a de substância e acidente. pode-se aceitar esta tese tomista apenas partim. o que nos permite a construção dos dois contextos. ou não. que não esteja incluído em algum dos membros divisores. já que ab nihilulm (provindo do nada) seria impossível darem-se. como mostramos anteriormente. além do ser ab alio. segundo esta determinação. a se ou ab alio. que há seres ab alio. o ser a se. e nossa experiência nô-Io mostra. O ente a se é aquele que desnecessita de outro como seu princípio e causa para firmá-Io. Ele encontra em si a razão suficiente e o princípio em si mesmo bastante para afirmar-se como tal. contudo. mais nossa. mais antropomórfica. que captamos ou concebemos. Vamos analisar as diversas divisões que obedecem a esta divisão adequada e suficiente. não totaliter. alguns considerando. que se pode fazer mateticamente. o que não o tem o ser proveniente de outro. que é o contexto do ente ab alio (não ab aeterno nem a se). mateticamente. que foram propostas pelos filósofos em uma determinada ordem. o ser ab alio. que nelas podemos captar. examinemos se todos poderiam ser ab alio. e o contexto beta. quando não se pode assinalar nada que não esteja contido no que se divide. é a entre ente a se e ente ab alio. CAPÍTULO XV DA DIVISÃO DOS ENTES Um dos temas.

Como um ente a se inclui toda espécie de perfeição de ser. porque. produzir todas as coisas que participam. então. improduzido. sim. O primeiro ente improduzido é de suma perfeição e infinito. então a divisão está completa. ele existe. e demonstrou-se que só pode ser um único. único. Se há. portanto. conseqüentemente. por sua vez. nem tampouco se pode conceber. ser possível e existir têm de coincidir. o que não há no primeiro. todas as outras perfeições de ser. porque nada pode fazer a si mesma. deixando. perfeições de ser. uma coleção de seres dependentes. Por tais razões. também toda espécie estaria sofrendo dessa indigência e dessa imperfeição. Portanto. Sendo a perfeição de ser a maior perfeição. não pode receber o ser de um indivíduo da mesma espécie. Portanto. nem é possível. sem que haja nada improduzido fora . existir. então. um ser a se. se houvesse outro. Não se dá nele a possibilidade da existência. é mister haver um ser por si mesmo.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 86 Em primeiro lugar. este é. E assim não se poderia ir in infinitum. nem tudo pode ser ab alio. mas se o tem ab alio. seria um ser ab alio. como se demonstrou na "Filosofia Concreta". portanto. haveria. de ser o ser que é apenas o ser. sem dependerem de nada. esse também seria idêntico ao primeiro. já que a espécie não o poderá receber de si mesma. todas as coisas que possuem o ser. Ora. o ser eterno terá de identificar-se. neste caso será necessário que a espécie total de tal ser tenha origem em outro ser superior. então. se houvesse dois ou mais. e ademais os indivíduos não têm outro modo co-natural de receber o ser senão o que requer a espécie. é totalmente ser. É essencialmente o que é existencialmente. Nele se dá o ser essencialmente necessário. porque a espécie só existe no indivíduo. logo. Ora. necessàriamente. pois. é apenas e meramente ser. Se possui o ser a se. ser a se e ab alio dividem adequadamente o ser. por sua vez. Portanto. e como tal deverá ser eterno. vamos analisar este tipo de ser. e por isso necessitam da eficiência de outro. em seu conjunto. porque se ele fosse apenas possível seria possível em outro e. só pode ser um. se todos os indivíduos de um conjunto são de modo que não têm um ser por si mesmos. sem mescla de qualquer deficiência ou privação de ser. estaria privado de algum ser. O ser a se é um ente improduto. não outro numericamente que o primeiro. que não haveria nos outros. podendo. em cada um. portanto. E esse ser. para recebê-Io. um ente a se. o qual. uma existência atual. ou possuem o ser. produzindo. e este. e ser possível. haveria. porque. poderosíssimo para operar. será ab alio ou a se. nem jamais se alcançaria o princípio da emanação de um ser a partir de outro. A espécie. nunca haveria o começo de emanação de um ente a partir de outro. nele. pois. neste segundo ser. esta tem de incluir. necessàriamente. deve receber o ser de um outro de outra espécie. mas. e simplesmente ser. Ele não pode ser um possível de existir. pois.

Ora. Em primeiro lugar. Incluindo. é adequada à divisão que estamos fazendo. Então teríamos. de maneira que a divisão entre ser improduzível e produzível que alguns propõem. porque seria uma impossibilidade absoluta. não pode estar limitado. e mais universal que pode existir. conseqüentemente. provou-se também na "Filosofia Concreta". que não existe outro fora dele. É infinito. que o é por essência. ainda. Vamos fazer. porque há entes ab alio. porque é contraditório que um ente necessário possa ser produzido por qualquer potência. pela negação do processo in infinitum. padece de deficiência por este aspecto. uma distinção entre improduzido e improduzível. Provaremos mais adiante que não pode estar limitado. E o ser ab alio é o ser produzido. e a se. que é a potência suprema. Daí a primeira divisão ser ainda a melhor e veremos mais adiante. indubitàvelmente. Contudo. O ser a se é um improduzível e improduto. o ser necessário convém. a melhor. aqui. porque nenhuma potência produtiva pode ser mais universal que aquela que se extende a todo produzido. existe um ente a re. tudo é produzido por ele. prova-se a priori. por exemplo. O . É imprescindível haver um ente necessário por si mesmo. que é. Mostramos. O círculo-quadrado é um ser improduzível. mesmo que fossemos a ficção de um outro ser. essencial e primàriamente. um ente a se. O Ser Supremo é improduzido. quid sit? (que é ele qüididativamente?) Provado a posteriori que é um ser absolutamente necessário e a se. Que há entes ab alio nós o sabemos pela nossa experiência. e que ele é o único ser absolutamente necessário. por que existe. concluir que um ser improduzível seja um ser a se. já que a espécie não existiria para ser a razão dos indivíduos. aqui. já que é proporcionado à sua perfeição. um ser cuja essência constituísse uma contradição formal intrínseca. e que este ente é necessário. salvo mediante esta potência. a este ente improduzido. porque prova que pode existir. como seria uma contradição formal intrínseca. e também há necessidade de o ser a se. que é de suma perfeição e infinito. porque este é improduzível. De maneira que se nós tomamos a divisão entre improduzido e produzido. porque o ser. definitivamente. O quadrado-redondo é improduzível.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 87 dele. na "Filosofia Concreta". portanto. pois nenhum ente necessário há fora do primeiro. essa divisão se encaixa. porque o alcançamos pela necessidade de haver um ser improduzido mais perfeito que os outros. e nesta classe não se incluiria o ente necessário. o Ser Supremo não estaria compreendido aí. Nós não podemos. que já mostramos ser impossível. onde respondemos a pergunta an sit (se é?) e ainda alcançamos a resposta da segunda questão. e não é um ser a se. Agora a inversa não é verdadeira. em seu poder todos os entes. O que existe pode também existir. nenhum ser produzido pode haver. um ser ab alio é um ser produzível. uma nova divisão do ser produzível e do ser improduzível.

eminentemente. tal ente é produzível. é estudado apenas sob aspectos matéticos. não faltando nenhum. como ele o é considerado mateticamente. Portanto. ao ente improduzido. A singularidade do ente necessártio a se é por essência. de natureza superior. Conter eminentemente é ter uma perfeição tal. contém. é uma realidade totalmente absoluta. e que não tem necessidade de nenhuma outra para existir. A multiplicação numérica. diz-se do que nada falta de que. porque este tem de ser necessário. O primeiro ente. porque a sua singularidade é ela mesma. Quanto ao que tem de perfeição. toda entidade. no âmbito total do ser.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 88 ser necessário convém. O Ser Supremo contém. uma relação a outra coisa. e. pode ele produzir qualquer entidade distinta de si mesmo. essência e existência se identificam. nem privativa nem negativamente. ou por relação a ela. todo ente fora dele é imperfeito e finito. A natureza. é factível. todo ente. como já vimos. porque. em seu ser. que possui o ser por si mesma. de modo eminentíssimo. e não é contraditório dizer-se que é produzível. e por ser imperfeito. e uma natureza singular não se multiplica numericamente. A perfeição pode ser virtualizada privativa ou negativamente ou. na Matese. Portanto. que não é ele. não pela forma. toda perfeição de ser. tem de conter. Conseqüentemente. a sua multiplicação é impossível a jortiori. não pode incluir. Toda entidade provém dele: portanto. tem de originar-se de outro ente mais perfeito. inclui-se. nele. há entes perfeitos em sua espécie ou gênero. Tal natureza é essencialmente singular. Ora. não pode ter mescla. porque não é um ser composto. lhe é devido para a sua integridade. nós o demonstramos. o ente improduzido não tem o ente por acidente. não há nenhum ente incriado fora dele. Portanto. o ente a se. sabemos que se faz pela matéria. Deste modo. Portanto. e só por ele. não como uma soma dos mesmos. Privativamente. o que também não é. por sua natureza. e que nas religiões é a divindade. o Ser Supremo. mas que. essencial e primàriamente. Na estrutura eidética do conceito de criatura. mas por atingir qualitativamente o grau intensista superior. porque não é apenas ser. pois a forma não multiplica. essencial e primàriamente. Ora. cujo grau contém os inferiores. Positivamente se diz daquilo no qual se encontra toda perfeição. por estar contido eminentemente nele. além da perfeição. sem que tal queira dizer que sejam absolutamente perfeitos. virtual c eminentemente. positivamente. ainda. de deficiência. sem mescla de não ser. seria contraditório haver fora do ser primeiro um ente qualquer improduzido e absolutamente necessário. nem é composto. a . do que é. Negativamente se diz daquele ente ao qual não lhe falta absolutamente nada de perfeição. Neste caso. portanto.

de modo algum. ou negatividade. A humanitas seria humanitas tantum. chegar à conclusão que se possa dar um ser infinito. quer dizer. seria infinitamente tal. O ente ou é finito ou é infinito. como acontece com conceitos como o de prudência. porque não pode haver um acidente infinito. Outra divisão proposta é a entre ser infinito e ser finito. etc. porém. não pode ser conhecido por potência finita. tomado senão potencialmente. também é impossível. No primeiro caso. pois não há o infinito quantitativo. está eminentemente no Ser Supremo. A sabedoria. Pergunta-se. o infinito é impossível por razões óbvias. de sabedoria. o que as coisas são em positividade viria do nada. Portanto. conceitos tomados in indivisibile. se o ser divide-se adequadamente também em ser infinito e ser finito. pois este tem de conter o máximo no máximo. infinitude relativa. O positivo. Este é um argumento comum que se costuma apresentar. mas é mister que se diga infinito propter quid. então. pois os acidentes não podem ser infinitos.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 89 positividade da criatura. não por razão de perfeição ou por razão de entidade. como ele é. Todo ser finito é ser privado de um grau. pois no que é especificamente. e captá-Io por referências noéticas. ao contrário. já que elas são entes ab alio. por que nós. não contém. dentro das suas possibilidades. O ser da criatura é ser deficiente. infinito qüididativamente. mesmo naquilo que nele é positivo. Ainda se propõe. Neste sentido também se pode tomar o termo infinito. mas infinita na sua qüididade. porque não temos meios cognoscitivos para alcançar a infinitude já que a nossa potência finita. escalaridade. Mas uma coisa é captarmos o infinito em sua heceidade. já que são eles dependentes. caso contrário. na Filosofia. O infinito. e todo conhecimento seráproporcionado à potência do nosso conhecimento. quando dizemos homem. de modo que a sua positividade é intensistamente sempre menor do que pode ser a sua especificidade em seu grau máximo. e não entes a se. sua privatividade. dizemos apenasmente homem. infinito segundo a qüididade. Vulgarmente se entende infinito e finito em referência à quantidade. a que se pode dar ao gênero e à espécie. se a qualidade é tomada predicamentalmente. e o infinito ultrapassa essa potência. como seria em si. Também se emprega com referência à qualidade. segundo a qüididade. apenas humanitas. chamar uma espécie de infinitude secundum quid. no segundo. Positivamente significa que está de tal maneira limitado na entidade e na perfeição. O ser finito pode ser considerado positiva e negativamente. e seres ab alio. infinita propter quid. no sentido desta ou daquela qüididade. enquanto infinito. negativamente significa que não implica em si uma perfeição infinita. não admitimos divisibilidade. . por mais que não haja contradição de que a possua por outro conceito. em sua máxima intensidade de ser. nós não podemos. não é tudo quanto especificamente pode ser.

conseqüentemente. também divide adequadamente o ente. desde esse ponto de vista. Como o ser contingente é o que exige. pois. é um ser produzido. que recebe o seu ser de outro. O ente por participação é aquele que não tem o ser a se. a sua corrupção. para existir. contingentes. Outra divisão também oferecida. e o que existe por outro. que há seres contingentes é indubitável. e não é conservado no ser por outro. Outra divisão adequada do ente é a de ente por essência. a uma série infinita. conseqüentemente. que recebem o ser de outro. porque só pode ser um. Deve haver. quer dizer. ente a se. O Ser Supremo é ente por essência. são. e que para ser. a sabedoria inclui isso. conseqüentemente. e tudo quanto é sabedoria. é. É apenas sabedoria. Seria infinitamente tal. o ser ao qual é impossível não ser. pois. Se o Ser Supremo produzisse seres necessàriamente. Um ser a se é um ser necessário. não cedível a possibilidade de não ser. por ente ab alio o ser contingente. que. Outros seres. decorre daí que há outra divisão adequada entre ente que existe por si.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 90 também tomada assim. não existirem. um ser necessário. porque. poderiam não receber e. porque o ser a se é um e único. não há necessidade da sua existência. aquele que exige uma verdadeira causalidade. que não existissem. não existindo. uma causa eficiente. é a divisão entre necessário e contingente. é o ser que não seria possível não ser. exclusivamente tal. um ser necessário. ao qual é incedível. pode ser considerada infinitamente. um ser ab alio é um ser contingente. e a de ente por participação. São os enunciados mais gerais que se podem dar ao ser necessário. um participado que seja o primeiro: o ser por essência. para ser. O ser que existe e não existe por outro. Do mesmo modo que não se pode chegar. Estes seres. pelos seres ab alio. que não têm tal grau de necessidade. por que seu ser é a se. e não é comunicado por outro. É o ser que não pode deixar de ser. necessita de outro que lhe comunique o ser. Possue o ser por si mesmo. como vimos ao estudar as causas. é. do mesmo modo que recebem o ser de outro. e o que prova que há seres contingentes é a sua caducidade. estes seriam todos necessários. tal implicaria a não possibilidade de seres contingentes. O ser contingente é o ser que existe de tal maneira que poderia não existir. o ser a se será o primeiro participado. Ora. Entende-se. que outro lhe dê existência. como é o ser ab alio. e também a sua produção. na realidade. o que já provamos. . pois são expressões equivalentes às anteriores. portanto. também não se pode chegar a ela por meio de seres por participação. ente ab alio. e em virtude de sua própria essência. porém. pois. por que. a sua transitoriedade. Se se alegasse que o Ser Supremo só opera por necessidade. não lhes é contraditório. Necessário é o ser que existe de tal maneira que não pode carecer de ser. e ainda o faremos por outros caminhos.

embora. Privação é a falta de uma perfeição determinada: negação. é criado. contingente. não como um outro modo de ser ao dele. como também ao não-ser. na privação. como vimos com o exemplo do quadrado-redondo. anlbos se identificam. porque. mas como algo que surge do próprio operar infinito no exercício de si mesmo. porém. como o pode o Ser Supremo. o segundo é. pode-se tomar negativamente. o que contém o que ainda pode vir-a-ser. o que não tem a determinação. é improduzido. e produzí-Io do nada. sem. mas que pode ser criado. o que não exige o efetivo que o atualize. como julgou Giordano Bruno. o ente ab alio. necessàriamente. Do mesmo modo que só pode haver um ente a se. O ser em plenitude de atualidade será um ser que é essencial e existencialmente ele mesmo. se tomarmos em absoluto os conceitos de produzido e improduzido. O ente potencial é o que ainda não está no pleno exercício de si mesmo. O agente pode produzir algo. De modo que o Meon não é um modo de ser. O que se exige é que algo possa ser produzido. potência ativa não lhe corresponde necessàriamente uma potência passiva. com a potência passiva. O nada. como vimos. porque ainda não foi produzido. na realidade. formalmente. da criatura. porque não é necessário que o agente opere em algo ou a partir de algo. ou do círculo-quadrado. possamos estabelecer uma distinção entre incriado e ser a se. só pode haver um ente incriado. da qual recebe o ato. já que este último pode referir-se não só ao ser. porém. é dependente. O ente a se é incriado. deve haver um ente que contém toda perfeição possível no âmbito do ser. mas como outro que é não ser de qualquer espécie. como o que é eivado de contradição formal intrínseca. e esta possibilidade está contida no próprio ato puro. Assim o infinito pode caber na negação. inclusive ao não ser negativo. O Meon é improduzido. não. criatura. Privação é ausência da perfeição. Então. Há uma adequada divisão entre um ente produzido e um ente improduzido. Deve-se distinguir a negação da privação. Ora. não cabe. em seu aspecto lato. que contém uma potência. que não pode deixar de existir. Não se deve confundir o Meon. Outra distinção adequada do ente é entre ente em ato puro e ente em potência. O primeiro é um ser improduzido. não como algo sobre o qual se opera. mas o improduzido pode ser ainda atual e não atual. estas só podem tornar-se em ato graças à eficiência de uma potência ativa. e por participação. Desse modo se vê que a divisão entre produzido e improduzido é adequada enquanto se refere ao ente. mas o não-ser. A dependência ab alio é de certo modo da essência do ser criado. o primeiro é o que exige o efetivo que o atualize.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 91 Outra divisão adequada do ente é a que se faz entre ente incriado e ente criado. A. que é sempre um ser a se. Negação . portanto. e este ser é o Ser Supremo. e que existe na plenitude de si mesmo. ao não ser que é impossível de ser. contudo. poder predicar-se-lhe o ser. o segundo é o que não é ser. enquanto nada.

também. é um ser. eu sou. porque se a negação intrínseca e inseparável de uma realidade constituisse parte de sua essência não fundar-se-ia em alguma razão positiva. não possui ser deficiente. a presença do ser seria mera presença. Diz-se presente o que está ante outro ou em relação a outro. "eu sou o ser". admitiu que o Ser Supremo não só estava neste mundo. que em grego seriam: ego eimi o on. porque nesta não está contido se é finito ou infinito. Suarez propôs que em vez de empregarmos o termo presente para o Ser Supremo. A negação intrínseca e inseparável de uma realidade tem de fundar-se em alguma razão positiva. ou finito. é absurdo. comentando esta passagem. mas é absolutamente. nem a dependência pode dar-se como existente. incluem alguma coisa mais do que o mero conceito de ente. A essência fundar-se-ia em algo negativo. o ser. que não é mero sinônimo com o ente. ser privação de uma afirmação da plenitude. portanto. compreendendo e encerrando em si tudo aquilo que é ser. Hermes Trismegistos. e adsente o que é por si mesmo. Assim infinito. Nenhum ente criado pode existir sem dependência. ou como outros traduzem. ou que é infinito. eu sou quem sou. Lembremo-nos das palavras de Jeová para Moisés. aquele atributo geral. e livremente. é um ser que é apenas ser sem mescla de não ser de qualquer deficiência. e por isso comparou-o a . CAPÍTULO XVI DO CONTEXTO ALF A E DO CONTEXTO BETA . A presença do ser do contexto alia é uma adsência. por sua vez. no contexto alfa. mas que. ou pathos ontikós. de ad sumo. a afirmação do ser. o que. e. no qual se presencia todo ser proficiente. de maneira que tais conceitos. enquanto privação é ausência de ser. conotativamente. aquele que é. Podemos dizer dele que é finito. sem algum termo. sem limite algum. um ser ao qual se nega qualquer privação. porque inclui algo que não está contido na conotação do ente. enquanto que. o ente. O Ser Supremo assim. Dionísio Pseudo-Areopagita. será adsente e no contexto beta. presente. não é privado de alguma perfeição. ego eimi. neste caso.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 92 implica ausência da privação. mas. eu sou o que é". nega-se-Ihe a deficiência. fora dele. vimos. é distinto. Um ser proficiente infinito não é privado de qualquer perfeição. Negação pode. o on. no contexto beta. nos livros que lhe são atribuídos. a negação poderia ser princípio de ser. sem limite algum. é pleno de ser. Quer dizer. diz o seguinte: "Deus não é de qualquer modo.FINITO E INFINITO Chamavam os antigos filósofos de passus entis. para indicar o ser presente por si mesmo. usássemos adsente. de ad esse. mas que conota ou inclui algo mais que a entidade da coisa. conotativamente. Negar-se a um ser qualquer deficiência é afirmá-Io como plenamente proficiente.

Ora. ou que ele é de tal modo potente que pode realizá-lo. cujo centro está em toda parte. O contraditório não é o que apenas contraria. mas o quadrado-redondo é um impossível absoluto. Conseqüentemente. que é sobretudo lógico. uma perfeita contradição. e a circunferência em nenhuma. nem todo impossível é contraditório do possível. perfeita contradição. ou para tomar o sentido universal abstrato. o que não tem fundamento. Atribuir a Deus o poder de realizar o impossível seria contradizê-lo. tem capacidade para produzir o impossível absoluto. nenhum destes dois juízos seria verdadeiro. e possíveis epimetéicos. Esta contradição é da contingência das coisas. havendo. mas o que contradiz. "o homem é animal racional". mais um aspecto importante para nós. há possíveis absolutos e possíveis relativos. porque não há potência para realizar o impossível. é um absurdo. Dizer-se que o Ser Supremo. e há impossíveis absolutos não relativos. que seria "algum S não é P". poderia realizar-se pela onipotência divina. também. e dizemos "alguns homens não são animais racionais".Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 93 uma esfera perfeita. dentro de uma hora. de realizar contra as próprias leis. aqui. afirmara Descartes. e se alguém não fôr animal racional necessàriamente não seria homem. não há potência para o contraditório. porque o quadrado-redondo é impossível. O impossível está em oposição a possível. o segundo não o seria por ser verdadeiro o primeiro. Se "homem é animal racional". Propriamente. não há potência para o contraditório formal. porque o primeiro não o seria por ser verdadeiro o segundo. contra a própria regularidade estabelecida pela sua suprema unidade. O centauro é um impossível relativo e não absoluto. porque seria afirmar que é capaz de realizar absurdos. devido a que o quadrado nega o redondo. ou advém o termo tal. e deu a idéia dessa esfera como símbolo de Deus. Deste modo. o impossível de modo absoluto. portanto. ou "os homens são animais racionais". por uma razão muito simples: se dizemos que "S é P" e opomos a este juízo outro juízo contraditório. em que o enunciado de um é necessàriamente a negação do outro. não há possibilidade do homem não ser animal racional. ou não advém. porque a definição de homem implica animalidade e racionalidade. sentado ou não estará. João estará. por ser omnipotente. que inclui em si contradição intrínseca. estaríamos em face de dois juízos. Há possíveis prometéicos. não há cabimento afirmar que o Ser Supremo é impotente porque não realiza o impossível. ou o impossível que se funda em contradição formal intrínseca. O quadrado-redondo. e dizemos que S. Estaríamos contradizendo a sua onipotência. Conseqüentemente. Também não há potência para atualizar-se o impossível. O contraditório de possível é o absolutamente impossível. Temos. Não há potência para o contraditório. contudo. porque se queremos nos referir a S. completamente. é sabermos que os futuros contingentes são contraditórios. e o que afirma o . pois podem dar-se ou não.

como entidades separadas. no não haver mateticamente potência para o impossível absoluto. Nele não pode haver nem forma nem união. ou ele o teria de alguma causa extrínseca ou da própria essência. eminentemente em seu poder constitui a sua essência. Como é simplesmente ser. eminentemente. Tudo quanto aquele contém. como a do segundo filho de Napoleão. no Ser Supremo. possível normal. e também seja distinto ontologicamente. o que é absurdo. são realizadas por nós. o Ser Supremo seria mutável. da essência divina. nem tudo quanto é logicamente separado. no Ser Supremo. Necessàriamente. Dele. os atributos que pertencem ao contexto beta. ou separado logicamente. como tal acidente poderia dar-se ou não. e. pois não seria o ser por essência. por ser aquele ser absolutamente simples. Se. um ente que depende de um ente em ato. contém. que fazemos dos atributos do Ser Supremo. Fazer nada é nada fazer.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 94 redondo nega o quadrado. Se houvesse um acidente realmente distinto de sua substância. pois qualquer potência dessa espécie não cabe ao ente a se. a perfeição suprema de ser totalmente a se. se excluem todas as deficiências. e não haveria. conseqüentemente. o que é impossível. que é um ente imperfeito. portanto. nem matéria. o ser perfectíssimo. também. o que não quer dizer que se dêem realmente no Ser Supremo. nada. enquanto o Ser Supremo. forma e matéria. no Ser Supremo. prometéico. O primeiro caso é impossível. que não podem ser dados ao ser que pertence ao contexto alfa. Quanto ao possível epimetéico é discutível também a possibilidade de efetuação. porque não inclui em si nenhuma potência receptiva. como já se demonstrou. da qual dependeria. Portanto. ou real-modalmente. afirmar-se-ia. haveria contradição se. houvesse também acidentes. o ato puríssimo do Ser Supremo contém. racionalmente. decorrentes da nossa esquemática. não tem nenhuma potência receptiva. mediante a natural emanação dela. do que é dependente. O quadrado-redondo é impossível devido a que o quadrado nega o redondo não seria redondo. ademais. e deste modo. necessário. portanto. Outrossim. nada. o próprio ser em essência. porque o que não é existente não é essência de coisa alguma. este acidente estaria in aliud. O ato do Ser Supremo é puro. é o ente necessário. A conjunção é impossível. houvesse acidentes. além de estar em potência receptiva para o acidente. e conseqüentemente não se exige poder para propor o quadrado-redondo. a mutabilidade. ou se distinguiriam realrealmente. mas ao ente ab alio. de maneira que a impossibilidade de realizar funda-se na contradição formal intrínseca. portanto. seria. . na realidade. pois haveria uma primeira causa outra que o Ser Supremo. o seja onticamente. estes se distinguiriam. no seu poder. porque se reduziria a um mero nada. nele. nada lhe falta em ser. Como esta é existente. o único ente a se. As distinções. tal eminência é existente. em suma. porque é propor nada. Só há potência para o possível. e se dimanasse dele.

já que se trata de um ente per se e necessário. seria dependente em seu operar. improduzido. mas. Uma causa será unívoca. não é ontologicamente ente. de uma forma. não seria efetuado. de quanto é feito. e adequadamente. nem todos os entes são feitos. Entre efeito e causa pode haver univocidade formal. nem todos os entes poderiam ser feitos. e o logos do fazer não teria fundamento em nenhum dos membros da coleção. como da causa segunda. o efetuado. As perfeições do efeito têm de estar de um modo mais excelente na causa principal. o nome comum a ambos não se pode dizer unlvocamente. necessàriamente. o é por outro que ele. mas nós. o do ser mesmo por essência. de um ente . não pode ser idêntica a esta. pelo menos. ou seja. naquela. ele é um só e único.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 95 Os atributos essenciais do Ser Supremo têm de guardar a mesma identidade. porque. quando o efeito iguale à virtualidade da causa. em algum predicado comum. Há. Um. e que. do contrário. produzida por outra. mas analogamente. e seja da mesma espécie. o feito. por indução. Se a coleção total das realidades fosse dependente. depender de outro. Está demonstrado que o ente essencialmente necessário é a fonte ou a causa eficiente das outras realidades. dependa de um ente que a componha. deve ter existência. são infinitamente no gênero de ente. Contudo. sabemos que há entes que são feitos. porque. não havendo. portanto. do que pertence ao contexto beta. tomado logicamente. aqui. já que o que produz deve estar em ato. que não iguala a virtualidade da causa no mesmo grau em que depende dela. necessàriamente. que depende. produziria a si mesma. à coleção total. ab alio. não tem conveniência unívoca com a mesma. Uma coisa. entes. com dependência própria. desde que o efeito não iguale à virtualidade da causa. portanto. do contrário. tomada totalmente. o ente. Ou seja. Conseqüentemente. que depende da primeira. como querem os defensores do círculo vicioso. conseqüentemente. por não haver nenhuma outra realidade fora da coleção total de causas. como depender. o mesmo logos. a mesma relação essencial. não segundo uma parte. Também uma coisa não pode ser feita pelo seu próprio efeito. Quando o efeito não iguala a virtualidade da causa. Referimo-nos. sobretudo na primeira. por exemplo. ou tudo quanto existe é feito e não é feito. pois sendo uns pelos outros não haveria de modo algum primeiro que fizesse. deveria. o que suficientemente vem corroborar as demonstrações feitas por nós anteriormente. sim. O efeito. o mais viria do menos. porque é impossível que uma coleção. deve não ser feito. pois o que se faz. o que seria impossível. então. portanto. segundo a sua totalidade. um ser a se. O que se faz é feito por outro. Partindo de tudo quanto há.

toda coleção é dependente. que são princípios matéticos. assim como basta haver um só indivíduo na espécie. Necessàriamente. porém. afirmar-se-ia que uma coleção é dependente de algo independente. já não se pode afirmar que a coleção é essencialmente dependente. só pode ser modal. diz-se de todos os indivíduos da espécie. já vimos. Infinito positivamente significa presença total perfectiva. que o conceito de infinito podemos tomá-Io opositivamente e negativamente. Não é posslvel dar-se a existência sem a sua essência. mas porque tem seu limite em outra coisa. deve haver um ser a se. o que nega. A subordinação essencial é a que mantém a relação de espécie para gênero. O que se diz essencialmente da espécie. O ser da existência é o ser posto fora do nada. Diz-se que algo é finito. que não tenha o que é essencial daquela.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 96 que esteja fora dela. Se numa coleção. sim. pois haveria contradição. a existência não pode dar-se sem a sua essência. e de termo limitativo da realidade. não havendo a primeira. portanto. acidental. o que está incluído na negação. é negação. um só membro não é dependente. afirma. não há causalidade alguma. Numa série infinita de causas subordinadas. do contrário seria contraditório. todos os seus membros são dependentes. ausência de limitação. e não real-real. O que está incluído na afirmação é afirmação. porque do contrário se negaria a sua própria dependência. o que afirma. a série infinita de causas é absolutamente falsa. mas independente. é impossível e contraditório. contradição em haver causas intermediárias subordinadas. que nela esteja contida. porque. já que não é possível a existência do branco. Porque. Nas causas subordinadas. A primeira é necessária. ou porque existe por causa de outra coisa. aliás. Como . necessàriamente. Também o que não está em nenhum indivíduo da espécie não pode estar na espécie. como já demonstramos. o que. a segunda nem sempre o é. mas a primeira. de nada. entre essência e existência. já que não se pode fixar o número de causas entre a primeira e a última. Por outro lado. total e adequadamente. nega. tem de ser independente. A subordinação pode ser essencial ou acidental. quer dizer. nos seres existentes. Como parte. a recusa da não positividade. não porque seja isto e não aquilo. Se numa coleção. negativamente. a que mantém a relação de acidente para substância. A distinção. já que não dependeria. Não há. não podemos afirmar que todos os termos são ab alio. já que alguma deve dar-se fora da coleção das causas dependentes. que já examinamos. Portanto. conseqüentemente. sem ser branco. A coleção total das causas não pode ser dependente. como. as segundas dependem da primeira. ou por que é perfectibilizado por outra coisa. para que o que falta não se possa atribuir mais essencialmente à espécie. uma coleção pode depender de outra.

ele se movimenta. já que uma potência infinita viria mais velozmente que uma finita. necessàriamente. a sucessão de um instante para outro instante. A essência é pura potência em ordem ao existir. eidética e hileticamente. também. que se houver um ser que corre. e. Antes do homem ser. é o pelo qual uma coisa se distingue. pois o corpo é limitado por superfícies. porém. por afirmar. mesmo porque é absurdo um corpo infinito. quando tomada apenas formalmente. enquanto emergência da coisa. independentemente de que haja homens. o movimento só pode ser de um móvel finito. o pelo qual mostra que é outra que outra. não finitizados num número. No caso do movimento seria instantâneo. portanto. Também os graus diferenciais intermediários poderiam ser infinitos em potência. desde os gregos. Esta concepção não é válida. seria mister que o móvel também fosse infinito. como a potência . É muitas vezes confundida com a forma. Por estas razões. e esta verdade é verdade de todo sempre. o que seria contraditório à conceituação de movimento. porque o correr é uma espécie de movimento. emprestou-lhe uma potência infinita no sentido de primeiro motor. um antes e um depois no tempo. porque sempre se pode acrescentar mais um. finito. Como é absurdo que um corpo infinito se mova. não subjetiva para ser. que é a sua estrutura hilética. quando se refere ao que constitui. é o que se chama natureza. a essência pode ser distinguida como essência física. é o pelo qual o ente é o que é. Podemos reduzí-Io a uma verdade eterna "o ser que corre movimenta-se". a coisa. existe necessàriamente. Para que o movimento durasse um tempo infinito. e com tal velocidade. esta potência não viria do não tempo. quando se refere à estrutura eidética da coisa. pelo menos não é válida na maneira como Aristóteles a expôs. e essência metafísica. que pode. substancialmente. mesmo que não houvesse seres que correm. Nós sabemos que Aristóteles. mas é válida. portanto. nunca. porque. é confundida com a substância. ao tratar do Ser Supremo. enquanto não era nenhuma potência real e positiva que exista atualmente. Ademais. sempre crescer.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 97 poderia dar-se a essência sem a existência? Ou como poderia dar-se a essência sem ser existente? Ora. qüiditativamente. então. o homem estava em potência objetiva. que implica. Como seria a essência da coisa antes da coisa ser produzida? O homem é ser racional desde todo sempre. essência. em ato. a numeração sucessiva é infinita em potência. que não se consumiria nenhum lapso de tempo. enquanto existe. Uma coisa. A essência. Tomemos este juízo: "um ser que corre se movimenta". A potência infinita do primeiro motor não poderia ser infinita. e princípio radical de sua operação. de outra. e não haveria movimento. Só os potencialmente muitos é que podem ser em número infinito. a que constitui a fisicidade da coisa.

quantitativamente infinita. em número não finitizado. ela foi produzida. só podemos predicar-Ihe os conceitos que constituem o contexto alfa. os atributos são simultâneos. a sua diferença é apenas de razão. por' força teria de ser produzida. com certo fundamento. no contexto alfa. O tempo é inseparável do movimento. Ora. na realidade. sem nunca chegar ao seu fim. o tempo e o movimento são idênticos na coisa. Vimos que. este ente incriado. a superfície um termo do volume. e de per si. como a li-nha é um termo da superfície. Há entre eles diferenças apenas formais: enquanto que os conceitos do contexto beta estão uns em relação a outros na proporção de subordinante para subordinado. Assim. Também uma realidade sucessiva não pode ser eterna. . uma série in infinitum. como decorrentes deles. conseqüentemente. como um número numerante. Os possíveis são. Uns implicam. aqueles que poderão ser predicados. Não se pode idear uma multidão de causas subordinadas. Se tratamos do ser a se. a potência de numeração sucessiva. o número numerado é o mesmo na coisa. pois se pode sempre acrescentar mais um. Seria possível uma hierarquia in infinitum. já que a infinitude quantitativa é absurda e impossível. às remotas e às causas essenciais acidentalmente subordinadas. os outros. Por outro lado. causa primeira dos outros. portanto transcendental. é que. o que constitui o contexto alfa. deste modo. pode-se chegar ao primeiro pai dos seres humanos. claramente. como o ponto é inseparável da linha. por que é um ser ab alio. os subordinantes. necessàriamente. Pode-se. não necessàriamente. e tudo que possa ser numerado no antes ou no depois. contudo. são sempre em número finito. como já tivemos oportunidade de tratar. Vão-se para nós. Ao ascenderem-se as gerações humanas. de números infinitos de números inteiros. tem de ter um número finito. porém. ao grau de intensidade de ser. necessàriamente. necessariamente deter-se-á em alguma coisa não produzida. como veremos. contudo. e alguns aspectos subordinantes implicam aspectos subordinados. como se pode idear. delineando-se. já que este é um termo da linha. assim. não determinada. deve ser por necessidade um ser existente. enquanto tais. de um par de indivíduos determinados. Oportunamente. Se a espécie humana foi produzida. não. Os subordinados implicam. que pode sempre ser aumentada. remontando das causas próximas. daremos a lista dos conceitos e dos atributos de cada contexto e. idear uma infinitude quantitativa apenas quanto ao grau de perfeição. e a se. e o que constitui o contexto beta. uma multidão infinita em ato. Mas os que são atualmente muitos. desde que essa ascenção se realize na ordem total das causas.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 98 passiva. essencialmente considerada de graus de perfectibilidade. Há uma diferença importante.

Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 99 CAPÍTULO XVII O UNIVERSAL IN RE E ANTE REM Quando um indivíduo procede de outro indivíduo da mesma espécie. È necessário que este indivíduo. a série sucessiva não pode ser infinita. Ao contrário. no qual se dá a produção. portanto. e. que não está contido na espécie. portanto. é necessário que toda espécie e o conjunto total dos indivíduos possuam o ser recebido. mas por uma causa superior. engendrado no tempo. porque a série dos homens. se um indivíduo não possui o ser por si mesmo. não é possível que um possua o ser recebido. do qual este segundo procede. Para que tivesse lugar um processo infinito. O homem deve ser engendrado por outro homem. porque quando se procede ao infinito. que a espécie concreta seja criada no primeiro indivíduo dela. na série de causas acidentalmente subordinadas. não pode ser infinita dentro da sua espécie e. nunca haveria o primeiro. É impossível o processo in infinitum nestas causas acidentalmente subordinadas. porque começa a multiplicar-se no tempo. não foi produzido pels homem. Conseqüentemente. através de todos os seus progenitores. Assim a espécie humana tem uma causa superior. nenhum indivíduo da mesma espécie terá por si um ser em absoluto. já que não possui o ser por si mesmo. e outro não. mas unicamente por outro. porque esta já se supõe em outro indivíduo. a um primeiro homem. Logo. e a sucessão das gerações não pode ser infinita a parte ante. ou da mesma essência. seria impossível ascender-se de um homem qualquer. seria mister que a espécie tivesse sido produzida desde a eternidade. mas somente de uma causa superior. não é possível chegar . necessàriamente. nesses indivíduos. Nunca esqueçamos que se ao finito se acrescentar o finito não se obtém o infinito. como já se demonstrou. terá de deter-se numa realidade em absoluta não produzida. terá recebido de um outro. não proceda de outro indivíduo da mesma espécie. aquele que. não é possível assinalar nunca. deve ter sido. independente. Numa espécie. que são diferentes ou modos de ente com distinção maior que a genérica. chega-se. mas se assim se desse in infinitllm. portanto. dentro desta ordem. e o resultado permanecerá sempre finito. Portanto. necessàriamente. engendrado no tempo. que este alcance ao infinito. da qual a espécie procede. concretamente. È mister. mas recebeu-o de uma causa agente. A geração humana exige sucessão. para que se dê a primeira produção. na realidade não é a primeira produção de tal espécie. que procedem uns dos outros. que são causas acidentalmente subordinadas. necessàriamente. Nos indivíduos da mesma espécie. Em primeiro lugar. uma causa primeira da que dimanem as outras.

assim. todas não podem ser dependentes. Esta passagem de Suarez nos mostra bem claramente o seu pensamento neste sentido. seria impossível. necessàriamente. e. até determo-nos numa causa em absoluto independente. nenhum indivíduo da mesma espécie terá. continuaríamos. virtual ou eminencialmente. Ora. pois a espécie não opera senão mediante os indivíduos. o ser absoluto independente. ainda. “Assim a espécie humana tem uma causa superior. de poder inferior. necessariamente ab alio.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 100 até o infinito na independência ou originação de um a respeito do outro. Ora. tampouco de toda espécie. então ela seria o ente incriado. Tendo os indivíduos a mesma espécie. mas unicamente por outro. até determo-nos numa causa in absolutum independente. por si mesmo é impossível. terá de receber o seu ser de outro. então ter-se-ia de investigar. Por que? Porque. neste. necessàriamente. mas recebe de uma causa agente. a causa da qual depende. mas de poder superior a ele. como poderíamos fazer de qualquer espécie de ser finito. este outro não pode ser da mesma espécie. portanto. a mesma essência. que é diferença ou modo do ente com distinção maior que a genérica. terá de deter-se numa realidade em absoluto não produzida. quer dizer. que ele. os filhos procedem de seus progenitores e. necessàriamente. mas é mister deter-se em algum que não dependa nem se origine de outro indivíduo da espécie. em vista de já estar provado que. mas se é dependente. Nenhuma espécie. ser causado. conseqüentemente. terá de deter-se numa realidade em absoluto não produzida. não se pode dizer que surgisse a espécie humana. porque. ser criado. por um ser distinto de sua espécie. que procede uns dos outros. porque a espécie não opera senão mediante os indivíduos. porque. já que não é possível proceder até o infinito. ou ser produto. e se é dependente. e chegaríamos à mesma dificuldade. a causa da qual depende. tem de ser por outro. já que não é possível proceder-se in infinitum. Ora. seria ela o ente incriado. como a humana. por uma razão muito simples. contenha. porque o ser não teria o grau de perfeição para dar-lhe. como um ser ab alio. Um ser primeiro humano. por si. ter-se-á de investigar. Citamos como exemplo a espécie humana. já que foi provado que a série de causas acidentais in infinitum é impossível. na totalidade das causas ou realidades. já que não possui o ser por si mesmo. se partimos de uma espécie. in infinitum. ainda. assim sucessivamente. não pode ser infinita dentro da sua espécie e. Se esta causa superior é absolutamente independente. Ele tem. pelo menos. Então. porque a série dos homens. desde que o indivíduo não possui o ser por si mesmo. de originar-se num ser. Então. a qual tem de ter uma causa superior. não é possível que um . outra vez. os homens procedem uns dos outros. Se esta causa superior é absolutamente independente. É necessário que ele tenha esses graus de perfeição.o grau de perfeição humana para que surgisse o homem.

Vimos que não pode pertencer à espécie o que não pertence a nenhum dos indivíduos componentes da mesma. Mas se é dependente. Os que desejam defender que o primeiro não existe. quer dizer. necessàriamente provirá de um outro. a causa da qual depende. mas é mister deter-se em algum que não dependa. um a respeito do outro. e sem princípio. porque então seria um ser a Je. poderíamos ainda. ainda. por sua vez. ou não se dá. todos eles. no conjunto total dos indivíduos. Contudo. que atinge a apoditicidade desejada pela Matese. quando é um ser ab alio. ou realidades. de certo modo. nos encontramos. nesses indivíduos. Portanto. E como a divisão é adequada entre ser a se e ser ab alio. cujos aspectos gerais expusemos em nosso "O Homem perante o Infinito". mas mostramos como. conseqüentemente. então. no qual se desenvolve e tornam muito mais sólidas as famosas cinco provas de São Tomás. e assim a série. tenha o ser recebido. um ser a se quer dizer. e terá necessàriamente de provir de outro". que há apenas a série. teremos de procurar a dependência de outro. está tudo resolvido. então. portanto. então seria ela o ser incriado. tampouco de toda espécie. que já foram feitas. no início.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 101 possua o ser recebido. pois é mais da Teologia. não pode ser dependente". não há razão suficiente de serem o que são. em vista de já estar provado que o conjunto total das causas. Necessàriamente. Se for um ser ab alio. matêticamente. o ser a se. pertencem à mesma espécie. podemos deduzir. é necessário que toda espécie. matéria da Matese. encontram a dificuldade da série infinita. pois esta não opera senão mediante os indivíduos. e outro não. não pode provir de si mesma. cuja impossibilidade foi demonstrada. já que não é possível proceder até o infinito. mas esta. É mais uma maneira de demonstrar com este tipo de argumento que foi apresentado tão brilhantemente por Scot. ter-se-á de investigar. que não está contido na espécie. Logo. até determo-nos numa causa em absoluto independente. se pode reduzir toda esta argumentação a uma fórmula matética. e como em nenhum deIes há razão suficiente de ser o que são. que acrescentando-se esta argumentação. terá recebido de um outro. Chegando ao ser a se. em face de uma argumentação. um ser ab alio. não pode provir do nada. que é. não é possível chegar até o infinito na dependência ou originação. que seria a seguinte: "um ser do contexto beta. reduzí- . não estamos dando. Portanto. por ser este impossível. ele só pode ser um ser a se ou um ser ab alio. Se esta causa superior é absolutamente independente. na série. e que foram formuladas por Scot no seu famoso livro tt De prImo princípio". eIe tem de depender e de provir em última instância de um ser a se e isto é o que. sem repetir as demonstrações. aqui. nem se origine de outro indivíduo da espécie e. Como todos estes seres estariam analogados. mateticamente. e teríamos a impossibilidade de chegar a uma série infinita. se quiséssemos. o ser ab alio exige a presença primeira de um ser a se exige.

porque estas são absolutamente válidas para todo sempre. Portanto. não como mero acidente. por exemplo. e a criada (que é produzida) sejam da mesma espécie. como um produto do seu entendimento. A essência do ente incriado é fundamentalmente singular. de maneira nenhuma. se multiplique nos indivíduos. cônscio da sua responsabilidade e de seu dever. A idéia de pessoa não pode implicar uma essência própria. em consequência contraditório possuí-Ia de outro modo. no Ser Supremo. É o papel que o homem representa. não é compreensível. Bstes grandes papéis não podem ser essencialmente distintos. além de um eu ontológico. já que à necessidade intrínseca de existir não pode convir fundamentalmente o não ser. fala-se nos seus papéis. Nós não podemos de modo algum predicar à pessoa uma essência própria. que representa. e a essência. real-realmente distintas . seríamos formados de duas entidades. e que nós podemos caracterizá-Ia pela consciência de si mesmo. possui a sua entidade atual. de sua inteligência. eus criados na empiria. é impossível que uma coisa singular. Se a pessoa tivesse em nós uma essência própria. quer mediante produção. tem de ser único. de per si. Todos nós sabemos que o Cristianismo afirma a trindade divina (além de afirmar o Deus único) as chamadas três pessoas. a pessoa humana. como demonstra Suarez nas "Disputationes Metaphysicae". porque ela é algo de algo. consciência de sua responsabilidade. porque é essencial esta única diferença. Portanto. e de todo sempre. Mas a personalidade é uma criação de Entendimento.. os três papéis do Ser Supremo. em absoluto. psicologicamente. etc. quer de qualquer outra maneira. Realmente essa diferença tão grande nas próprias essências. se predica da razão de pessoa. sendo-lhe. como sinal de sua personalidade. em consequência ao próprio atributo da onipotência. porque eles se privariam do domínio supremo e do supremo poder. mas apenas como papel. seríamos duais. em virtude de alguma produção.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 102 Ias à linguagem matética. no homem. enquanto tal. o Ser Supremo. em todas as esferas do conhecimento humano. e sem produção alguma. nos seus papéis principais. Quando se fala em pessoas. porque a distinção essencial exige essências distintas. é o papel que o homem representa. porque implicaria contradição manifesta que uma natureza essencialmente singular se multiplicasse em indivíduos. pode ter. como sabemos na Psicologia. pois uma essência é de si tal. que. é impossível que a essência incriada. É impossível dois entes improduzidos serem de diversidade apenas numérica. pois deve-se reduzir as grandes argumentações a fórmulas matéticas. uma série de eus empirológicos. e o ser humano. ademais. Ademais. unidas com identidade específica.

de nenhuma maneira. agora.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 103 uma da outra. já que atualizar é atualizar o preferido e virtualizar o preterido. há virtualizações. portanto. que sua virtude. no contexto beta. Também as processões ad intra. a idéia de essência. necessàriamente. no Ser Supremo. Portanto. ele é omnissapiente. contudo. mesmo assim não admite ela uma essência própria. desse tender para o bem. que se estudam na Teologia. essas processões se dão nele in intra. porém nem todos estarão do mesmo modo. não podem ser essencialmente distintas. realizar algo existente. tem de ter entendimento. como tende também intelectualmente para a verdade. enquanto o segundo. que também são importantes para a parte sintética da Matese. . "Quanto ao primeiro suppositum admite-se que deve estar por si mesmo unido ao paciente. Portanto. essas processões in intl'a são necessárias. Não existe esse poder estranho a ele. O ser da essência atual e o ser da existência são realmente o mesmo. porque é ele volente em relação às criaturas. como termo. não são. esteja unido ao paciente. Mesmo que tomemos a pessoa reduplicadativamente enquanto pessoa. seu poder. Por isso. são necessárias. o ser da existência. Deste modo. têm de decorrer. bastando. com efeito. mas. imediatamente. que o obrigue a realizar essas processões. como o raciocínio matético pode funcionar. livre no querer isto e não querer aquilo. e apenas parciais. De maneira que a idéia de pessoa repele. de sua própria natureza. mas por virtude. para uma mesma ação. elas não são coactas. que o coata. quando ambos são imperfeitos. Queremos mostrar. Todo agente imediato deve estar unido ao efeito. de poder. uma lei ontológica da atualidade e da virtualidade. e não por suposto. Se o Ser Supremo é omnipotente. Toda verdadeira eficiência tem. e outro com a imediação de virtude. *** Passamos. no Ser Supremo. Onde háatualizações. coligadas por um poder estranho a tal ser. desprovido desse tender para a verdade. Há. com esses exemplos.mente. o Ser Supremo está em todas as coisas imediata. Portanto. ele tende naturalmente para o bem supremo. Ele não pode ser um ente desprovido de vontade. as pessoas. Conseqüentemente. pois um ser intelectual tem de ter vontade. a analisar outros aspectos. como termo. em absoluto. o querer do Ser Supremo necessàriamente existe e é necessàriamente livre nas causas. pois não seria Deus. pois há um agente imediato com imediação de suposto. e não podem ser coagidas por um poder estranho a ele. A axistência não é o que. não seria o Ser Supremo. toda verdadeira eficiência tem. Dois agentes concorrem. desprovido. mas o pelo que a essência é. sendo o bem supremo vontade e entendimento.

A diferença. A diferença. Aliás. Portanto. como existe na realidade. Do mesmo modo que o ente o ser é análogo. essa precisão é abstração não convêm à natureza enquanto existente na realidade. ele não é um gênero. já que não expressa o conceito totalmente prescindido das diferenças. nem considerada em algum estado de possibilidade. O gênero não se predica das diferenças. na defi nição. A distinção entre o gênero e a diferença é apenas de razão. que advém ao gênero. nem em uma coisa existente. Esta é uma passagem de Suarez. mas apenas enquanto está objetivamente no Entendimento. da qual o gênero viesse a ser uma parte potencial. não possui a diferença ou a repugnância. no qual a natureza. pelo mero conhecimento. mas que podem resolver-se nos gêneros mais próximos. Ora. que têm um nome comum. Ó conhecimento por si só não dá realidade a uma coisa. e o que constitui o gênero enquanto tal não se predica per se da diferença. mas as contém. e idêntica a razão de substância expressada pelo nome. O gênero contém as espécies e as diferenças. mas inclui-se nelas. o que foi demonstrado por Aristóteles nos "Tópicos" e na "Metafísica". por si mesma. portanto. São unívocos os conceitos. que também são importantes para nós. fosse unívoco. São passagens como estas que levam os seus adversários a . mas das espécies. não lhe advém como parte a parte. não atualmente. A existência tem razão de ato em relação à essência e imita a causa formal. não poderia ser gênero. porque então ele a definiria.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 104 Há certas relações entre o gênero e a espécie. Se o ente fosse unívoco. pois seria universal. seria gênero. junto com o gênero formam unmn per se. Ademais. porque não existe em estado tal. nem tampouco lhe convêm em qualquer estado que anteceda à consideração da mente. Mesmo que o conceito de ente. A natureza. são entes reais. mas como um todo determinado e assinalado a um todo determinado e não assinalado. A repugnância para existir em muitos convém à natureza existente por razão da diferença individual. Não basta apenas conhecê-Ia para termos certeza de que ela exista. todas as razões comuns. porque. Matéria e forma. essa separação não se dá com anterioridade da mesma natureza. já que seria um em muitos e de muitos. Os predicados contingentes não podem constituir a essência de uma espécie ou gênero. potencialmente. pelo qual não se realiza uma verdadeira composição metafísica. num composto. diz Suarez. se abstraia dos indivíduos existentes. a diferença não participa do gênero. é legítimo incluir. só pode constituir a essência de alguma coisa o que é necessário. que perfeitamente expressa qual é o seu pensamento em torno dos universais. para que a natureza possa existir em muitos só consiste em ser apta para existir em muitos. mediante abstração e precisão de toda diferença individual.

porque. Eles podem dar-se e podem multiplicar-se. e pode-se dizer até que. porque o fundamento in re é um fundamento segundo nós atribuímos às coisas. esta parte é contraditória repetir-se. que se repitam. se nós admitimos a singularidade e a unidade histórica. que é apenas este e não é nenhum outro. e a nenhum outro. não como um mero nominalista. exclusivamente a este. e que podemos predicar de muitos. precisamente. na realidade. que Suarez quer rejeitar qualquer realismo ante rem. quando se fala nessa singularidade. dos indivíduos. in multis et de multis. que é a unicidade histórica dos indivíduos. com nossos comentários. então. chegaria ao conceptualismo. apesar dele não se dizer nominalista nem conceptualista. De maneira evidente não podemos impedir que haja dois Volkswagen iguais. a univocidade. a possibilidade da repetição. O que não é contraditório é possível. então. não há necessidade de que o que se predica tenha anterioridade de natureza aos mesmos indivíduos. o que pertence apenas a este. podemos interpretar este final: pelo possível de ter outros semelhantes. a singularidade. quer dizer. quer dizer. encerraremos esta parte do universal. quando é única. mas como um conceptualista. para que haja indivíduos com a mesma espécie. dentro da mesma espécie. finalmente. não é mister que exista com anterioridade na natureza. A individualidade singular e única. e dizer até que ele não defendera com o mesmo afã e com a mesma força o realismo. que haja nos indivíduos. por exemplo. que seria também este.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 105 classificá-Io. e também este outro não seria este. se houvesse um outro. será contraditória a sua repetição. claramente. nos quais reconheçamos que há. Para que se dê a multiplicação. desde que obedientes à idéia . porque haveria outro. quando muito. como mostramos de maneira clara no exemplo dos artefatos. seria contraditório tê-Ia outro. mas apenas que não haja. fala-se desse indivíduo que está aqui e agora. como seja uma lei de proporcionalidade intrínseca. que. porque repetiria o primeiro. propriedade alguma. certos aspectos. Suarez também coloca o universal na repetição. Portanto. como havia defendido o nominalismo. a singularidade. este não seria apenas este e nenhum outro. que se dá num. Dessa forma. porque o que é contraditório é terem outros semelhantes a mesma individualidade. nos indivíduos. Não é contraditório que os dois possuam. "Para que se dê a multiplicação na realidade dos indivíduos. Há uma outra passagem. algo que se repete. Portanto. em virtude da qual lhe seja contraditório ter outros semelhantes. do todo universal. Quer dizer. Ora. e se repita. O que é necessário é que haja nos indivíduos alguma coisa que não seja contraditório tê-Ia outro semelhante. o que está em muitos. fala-se singularmente." Então se vê aqui. de ser repetido naquilo que constitui a sua essência. ao qual também se pudesse dizer que era este.

Esta forma. impede a afirmativa de haver uma potência passiva pura. o qual o pitagorismo afirmava. uma entidade é. uma potência passiva pura. Terá ela estes pensamentos como alguma coisa que pode ser delineada. Negar o conhecimento dessa possibilidade de surgir o Volkswagen. que era possível inventar-se o V o/kswagen. e que pode indicar a maneira como os outros irão repetir. e que Santo Agostinho colocou com maior precisão na mente divina. em si. ou seja. Tomemos. e que pertence à ordem do ser. e na sua cinematicidade. ou seja. como em qualquer. porque veremos que a matéria absolutamente pura. de todo o sempre. mas todos os possíveis. para si. verificamos que a potência nada mais é do que certa eficácia em relação à eficienticidade. que se dá desde sempre. era da ordem do ser possível. entre os quais há os que não existirão. é impossível de haver dentro do contexto beta. é a forma que se dá ante rem. no decurso sistencial. Nas religiões. a eficienticidade. que estabeleceram a fórmula do Vo/kswagen. Em "Ontologia e Cosmologia". enquanto eficaz apenas. e que os homens podem conceber e até realizar. por exemplo. quando são por eles concebíveis e realizáveis. Ela é mortal. e são pensamentos de uma mente suprema. outro. Assim. . e para outros. era um possível de dar-se. estabelecida por seu inventor. ou na da equipe que o construiu. estão contidos dentro da ordem do Ser. Deus sabe. e em sua cinematicidade. quer inorgânicos quer orgânicos. pois todas são ativas de algum modo ou grau. CAPÍTULO XVIII DA LÓGICA E DA LOGISTICA A interatuação da potência e do ato em todos os entes. que vão existir. Este é ente ante rem. Atualidade e potencialidade de um ente devem ser consideradas segundo a sua estaticidade e em sua dinamicidade. E esse possível de dar-se estava na ordem do ser. os possíveis de existir. em sua dinamicidade. o que é importante considerar. e está sujeita a graus. sujeita a mutações intensistas várias. um juízo como "o homem é mortal". em função de suas relações com o que constitui as coordenadas ambientais.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 106 fundamental do Volkswagen. Em sua estaticidade. ou inventores. a mortalidade é da natureza do homem. e que Platão seguia. notando a impossibilidade de se estabelecer a potência como algo absolutamente passivo. Daí dizer que a potência é a eficacibilidade da eficienticidade. segundo o ambiente circunstancial. segundo as suas atualizações e virtualizações. que está na mente do seu construtor. que está na mente do construtor. e da interatuação que possa sofrer de outra. e os que não podem existir por conjunções outras. e não no exercício da eficiência. Os possíveis de existir. seria negar a Deus a sua omnissapiência. dos possíveis.

Uma só ação não procede de dois agentes totais de uma mesma ordem. que não se realize o efeito. seria uma potência nula. Operar. a eficienticidade. mas pretendem dizer que o fundamento da potência é a aptidão para poder ser. agindo ad extra ao ser. o saber na eternidade de tudo quanto sucede no tempo. consiste no operar dependente da virtude participada numa virtude superior. porque. A ação. Todas essas sentenças. enquanto meramente em estado de eficacização. Uma potência. então. mas o operar. dadas determinadas circunstâncias. assim. o para qual tende. pois. O concurso de uma certa realidade. o que é necessário. este agir ad extra seria contraditório. A presença eterna na eternidade. de ser posta no exercício do seu ser sistencial. revela a dependência de atuado ao agente. aptidão da eficienticidade. e recebida na segunda. de ser eficientizada. é. que não se dê um atuado que sofra a ação. dando a esta o seu último complemento. já é um realizar do fim. enquanto tal. a realizar um efeito concreto. determina. a potência seria a sistência com capacidade de ser prefixada de modo ex. e por influxo de alguma coisa que a efetive. procedente da causa primeira. não exige uma predeterminação física da vontade humana. em virtude de outro. porque a ação é uma modal do atuado. porque vai nos servir para as análises futuras em torno da realidade. de poder existir. essencial e imediatamente. Os agentes segundos são aqueles que são movidos. de ser fixada como ex-sistente. do contrário. Em suma. de entrar no pleno exercício de seu ser eficiente. por um agente determinado. no operar. próximo ou não. O ato. tornada eficiente pela forma. seria a eficientização da eficacidade. Se algum ente age ad extra. seja de que modo for. sendo isso ou aquilo. neste caso. impossível de ser eficientizada. que acabamos de dar. por exemplo. dependendo em sua ação do atual influxo desta. porque deixaria de ser potência. A potência.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 107 Os termos não são muito agradáveis. Este ponto também é importante. no seu gênero. indo para fora do ser. é aptidão eficaz de poder vir-a-ser. mas de poder existir. de devir. isto é. que vai determiná-Ia como isto ou aquilo. como vimos. merecem meditação. nem muito simpáticos. aptidão para entrar no pleno exercício de ser. nunca como ela é. porque servem de esteio para futuras soluções de problemas que surgem nesta matéria. O agir de qualquer ser provém da atualidade do Ser Supremo. mas nada impede que uma só idêntica ação proceda do agente primeiro e do agente segundo. É impossível que não se siga a ação. Um agente não pode operar a não ser devido a um fim. . seria a potência enquanto eficiência. não sairia do ser. porque depende de um e outro. e não realizando nada.

se fundamenta. a escada. a significabilidade das acepções. Conseqüentemente. a pragmática. é considerar que o objeto da Filosofia é apenas essa análise e os seus resultados. seria impossível a cultura. a semântica. também. Os dois primeiros degraus pode alcançá-Io o animal e. enquanto aponta outro que ele. a sintaxe e atingir a Ontologia. deste ao semântico. é a significação. incluindo a pragmática. :E o caminho da abstação. inclui a pragmática. depois ao semeiótico e ao pragmático. e o pensamento ontológico pertencem à psíque. etc. Assim a empíria leva a captar a semeiótica. . também subordinado. do sinal enquanto sinal. desta. portanto. mas os quatro últimos só um ser inteligente. vemos que esta parte pertence ao soma. Sem essa ascenção. Em nosso livro "G. Mas esta gradatividade revela que a linguagem humana é uma consequência psico-somática do homem. captar a sua semeiótica. parte do semeiótico. e daí à sintaxe. implicado. ergue a mente à semântica. do fáctico. a teoria das relações dos sinais entre si. do analogante. depois semântico. ou seja. e daí ao empírico. A sintaxe alcança-se. buscando-se a referência do ontológico ao sintáctico. dos quais o semântico é participante. é a ascenção na escada de Jacó. a relação do homem com a realidade experimentada. também. e desta podemos alcançar a fundamentação ontológica. a empíria. pragmático. sintáxico. o semeiótico e o pragmático. da semeiótica e da sintaxe. Mas o que não se justifica. pode construir a semeiótica superior. Não há dúvida que se justifica a análise linguística. A semeiótica é a teoria do seméion. Mas desce-se. do implicante. ontológico. Assim podemos de um fato da experiência. a semântica. as relações entre os sinais e os homens que as empregam. O que chamamos nós de pensamento concreto é aquele que é capaz de ascender os degraus e descê-Ios sem perda das relações que há entre eles. é impossível a comunicação entre os homens. enquanto que a semântica. e daí a sintaxe. semeiótico. a ontologicidade. imprescindível para completar esta parte introdutória da Matese sintética. subalternado. a sintaxe ou sintática. como a realizaram os antigos gramáticos especulativos. De forma que se analisarmos bem o empírico. analogado. pois. em torno desta matéria escrevemos: "Sem dúvida o empirismo moderno considera a análise linguística como único objeto da Filosofia. na simbólica matética. vindo. que implica a busca do subordinante.randezas e Misérias da Logística". como o homem.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 108 Passemos antes para um exame preliminar da semântica.. sem a qual não seria possível a comunicação das inteligências humanas. A semântica é a teoria da referência do sinal ao significado. Assim os degraus são: empírico. nesta. etc. a sintaxe. o que ao qual aponta o sinal. do subalternante. pela via ascendente. depois. e como tal. como veremos.

por que antes disso apenas há observação. como já vimos (que são gramaticalmente divididas em nomes. Em suma: é o dever da linguagem ser adequada e clara. escritas. de todo aspecto afectivo (simpatético ou antipatético) . As palavras são empregadas por homens para dirigirem-se a outros. provocar emoções. Conseqüentemente.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 109 Como o homem é portador de uma mente. ter de). distinta da mente dos animais. no sentido do afectivo. segundo este aspecto. que sua linguagem seja dessa espécie. pois. são pragmáticas (de pragma. é do dever da ciência uma linguagem clara. ao transmitir notícias despojadas. empregar sinais que apontem rectamente ao que intende. para que a notícia. As palavras que são os termos. relação entre o homem e as palavras. tanto quanto possível. Há. devem estar despojados de toda aderência afectiva. não. etc. que outro capte. expressiva e não confusa. que use. ). são apenas construcções abstrativas. em geral. do que se tem de empregar para alcançar uma finalidade. beleza. desde que compreenda nitidamente a :etica como a ciência que se dedica ao estudo do dever-ser. do dever do que faz ciência (e só há ciência quando se conhecerem as razões. gestos. Essas relações. e tenham uma intencional idade precisa. causas das coisas de que se tratam. etc. Não se pretende. corresponda o mais adequadamente ao que primeiro pre-tende expressar. do drama humano. que os sinais. desvinculada tanto quanto possível de qualquer aderência estética. provocar estados páthicos com certa harmonia. atitudes. e também os modernos. que elas formam entre si. As palavras. ou seja do que se deve (de habeo. Em suma. deve. E o único meio de comunicar-se (já que não dispõe de outros) é por meio de sinais: palavras faladas. :e. há advertência.!. há notação.. constituem a matéria da sintaxe. uma referência a algo. assim. e aqui está um aspecto ético. da ação humana). pois as palavras. como a estudavam os antigos. as palavras tendem a sugerir estados páthico. etc. tem ela. verbos. :e também uma aplicação da lei da economia (menor esfôrço-maior proveito) à linguagem. portanto. Já na ciência. A sua adequabilidade é maior na proporção em que são capazes de promover estados páthicos adequados aos estados que o artista pretende transmitir. A relação das palavras com a sua significação é o que constitui a matéria da semântica. relações que constituem o objeto da pragmática. uma significação. . cuja significabilidade está em função das outras que com elas se coordenam. e que sua referência se dirija a algo precisivo. tem de empregar meios hábeis para alcançar a conveniência da natureza do que pretende comunicar. têm um intencional idade. Na Estética. tem necessidade de comunicação com os seus semelhantes. etc) . etc. Como a sua finalidade é esta. pois. propriamente. tomadas isoladamente. e como esta consiste em comunicar.

se a pragmática implica a semântica. que não é possível é permanecer apenas aí. fala-se neste caso de duas palavras da mesma forma. foi cunhada por Charles Morris. Contudo semeiotikê era usada por Galeno para significar o diagnóstico ou a observação dos sintomas). a palavra é considerada em sua manifestação material (som. o que aliás se faz com segurança na Matemática e na Matese. que comentaremos posteriormente: apenas Mas o "Tomemos por exemplo. e constituir um conjunto de sinais aos quais. postos em distintos lugares do papel. b. etc. os logísticos podem.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 110 Uma palavra pragmática sem semântica não tem sentido. p. semântica e sintáxica. em 1938. (o que é próprio dos juízos universais afirmativos). palavra sem semântica. subentende-se que são "duas palavras. Vejamos agora. Desse modo a palavra. realmente" matéria da Logística. etc. pode-se tratar de palavras sintàxicamente sem semântica: e temos os sinais que se podem usar na Lógica. tomada concretamente. poderiam dar uma semântica. Quando. a mesma forma e a mesma significação. Restaria saber se era possível construir com rigor. é pragmática. E isto por que? Porque podemos reverter a ordem. O que não quer dizer que a forma de ambas palavras seja igual. e esta a sintaxe. como João de São Tomás o fazia em torno do ly tirili. na linguagem corrente. necessàriamente.' a sintaxe não implica a semântica." (A advertência é importantíssima para aqueles que poderiam fazer confusão aqui!) . que têm. o que passa a ser. O que se quer dizer é que a sua estrutura gráfica geral é "igual. como a. é princípio de identidade?) Ble prossegue: "Segundo a concepção semeiótica" (a palavra semeiótica. e é mister considerá-Ia sob essas suas três relações. uma série de pequenos montes de tinta sêca. Os montes que lemos ao princípio da proposição na palavra Fritz. Na semeiótica. x. "temos aqui. aproximadamente. pois se trata de dois diferentes montões de tinta. se diz "a mesma palavra". o que escreve Bochenski. é um sinal vazio. como o fôra já das gramáticas especulativas da Idade Média. sinal gráfico. como já faziam anteriormente outros. mas com sintaxe). o que não seria possível se fossem uma mesma coisa. Fundados nessa possibilidade (sobre as quais já pesquisavam os antigos. não são idênticos aos que estão no final da frase. dizem os logísticos. o simples princípio de identidade "Fritz é Fritz" (Mas isso. à semelhança da matemática. especular apenas sobre a sintaxe. posteriormente. Contudo. Para a semeiótica moderna. pelo contrário. basta examiná-Ias com uma potente lente para comprovar que não é este o caso.). tal sintaxe. ou seja um couteúdo intencional.

Mário Ferreira dos Santos

A Sabedoria da Unidade

111

Colocada a linguagem deste modo, pode-se partir da seguinte consideração. Se a palavra é pragmàticamente usada, ela implica uma semeiótica, uma expressão exterior, que aponta a uma semântica e a uma sintaxe. A concreção inclui tudo: semeiótica, pragmática, semântica, sintaxe. Como se pode tratar na ordem inversa de uma, sem considerar a outra (e isto se realiza pela capacidade humana de abstrair), conclui-se, afinal, que a palavra pode ser apenas semeiótica, e nada mais que um sinal gráfico das coisas, ou que é apenas pragmática, como algo que se emprega na linguagem, ou que é apenas semântica (tomada em sua intencionalidade), ou que é apenas sintáxica, quando tomada em suas relações com outras. Estamos tomando realseparadamente o que constitui, na verdade, uma concreção. Estamos apenas disassociando, com a mente, o que se dá junto na realidade, e estamos hipostasiando essas abstracções, transformando-as em realidades per si subsistentes. Essa ação abtractista é uma verdadeira violên. cia da mente sobre a realidade, esquecendo que são diversas nas formas, mas a mesma na realidade. Pois bem, tais erros abstractistas realizam os primeiros, com a sua concepção nominalista exJ tremada; os segundos, com o seu pragmatismo exagerado; os terceiros com um formalismo ou logicismo daudicante, e os quartos com um matematismo abstractista de quinta essência. Quatro atitudes, quatro erros, e erros, não porque se disassociaram, já que a mente pode realizar tais operações, que são mentais, mas porque julgaram que pelo simples fato de a mente ser capaz de realizar tais disassociações, essas quatro possibilidades mentais correspondam a quatro entidades reais de per si. Aí está o vício abstractista, que cometem alguns logísticos mais fracos, embora famosos, sobre cujo êrro ainda teremos muito que falar". Esta tomada de atitude dos logísticos modernos, ora valorizando a pragmática, ora a semântica, ora a semeiótica, ora somente a sintaxe, são sinais de aderências infantis. o que perturba profundamente certa filosofia chamada moderna, não é ser ela moderna, é que ela não representa realmente um salto à frente no conhecimento. Ao contrário, representa um recuo para o homem da caverna e para a mente da criança. Ao estudar-se a psicologia evolutiva, verifica-se que a mente da criança, em suas idades, varia muito, e ela tem uma concepção do mundo correspondente a cada um daqueles estágios. Verifica-se, com espanto, que essas concepções, como o racionalismo, o idealismo, o criticismo, o pragmatismo, o positivismo, o neo-positivismo, o materialismo, o agnosticismo, a rebeldia ética, tudo isso que está acontecendo, e que encontramos, modernamente, como se fossem a última palavra do pensamento humano, corresponde a fases do pensamento infantil, enquanto que o pensamento maduro, do homem já amadurecido, é um pensamento positivo e concreto. Estas "novas" concepções não representam nenhum avanço; ao contrário, representam um retrocesso no homem. São manifestações da paleofilosofia. Aliás seria melhor chamá-Ia de Eo filosofia, porque representa a aurora do pensamento filosófico, por que já deveriam ter surgido discussões desse tipo no homem da caverna, no homem primitivo, discussões muito fáceis de

Mário Ferreira dos Santos

A Sabedoria da Unidade

112

compreender dentro de uma mente que ainda não captou uma realidade no seu todo, e a capta por partes. A criança, na sua fase verbalista, que vai dos dois aos quatro anos, conhece as coisas pelo nome. Basta dizer o nome da coisa para satisfazê-Ia. Ela. não pergunta porque a coisa tem aquele nome, qual o sentido daquela coisa, o que só irá exigir quando se desenvolve a razão. Satisfaz-se apenas em nomear as coisas. O mundo, para ela, é um mundo de denominações, é um mundo de designata, posição que alguns linguísticos querem defender hoje, como um passo à frente. Prosseguimos tratando deste tema, na mesma obra, pág. 35 a 44. "Podemos formalisticamente (apenas semânticamente) realizar cálculos matemáticos, como o fazemos com a equação 4x7 = 28. Podemos considerar o oito e o dois do segundo termo da equação sintàxicamente, o primeiro em relação com o segundo, numa ordem de unidade para decimal, assim como ensina a álgebra, etc.; podemos falar na conversão simples da proposição e S-P, que pode dar e P-S, que, substituindo P e S por a e b, pode dar e (a.b)= e (b.a), ou seja na dialética concreta pela fórmula: SI e (a.b ), que afirma a conversão simples do juízo universal negativo, e estaremos, então, em pleno forma/ismo, válido sem dúvida, mas apenas enquanto tal. Mas um termo, enquanto considerado, enquanto tendo um sentido, será significativo, uma intencionalidade, ele designa o que significa, ele aponta ao que se refere. Mas esse termo será apenas o peracional, se o considerarmos do ângulo meramente sintáxico. No segundo caso, sabemos como operar com ele; no primeiro, o que significa. O primeiro sentido é o eidético. E se um termo tem tal sentido, terá, necessàriamente, o operacional. Mas a inversa não é verdadeira, porque estamos num juízo universal afirmativo, no qual (salvo nas definições, que são juízos determinativos de máxima determinação) a conversão simples é impossível e só por acidente, ou seja, numa universal afirmativa, a conversão simples é ou não possível (dependente, portanto, da espécie de determinação). Já esta última forma afirma que, por acidente, pode haver uma conversão no juízo universal afirmativo, em que o predicado, tomado como sujeito, é particular, o que será sempre válido. Deste modo, podemos operar com sinais, mas isso não basta para nos garantir que operamos com significados (que já implicam o semântico). O que alguns logísticos modernos fazem, por considerarem como real-realmente separáveis, o que é apenas real-formalmente distinto, de modo a julgarem que podemos apenas considerar a Lógica do ângulo semeiótico, ou outros, apenas do pragmático, ou outros, apenas do semântico, ou outros, apenas do sintáxico, é fazer abstratismo da pior espécie, é fazer filosofismo débil.

Mário Ferreira dos Santos

A Sabedoria da Unidade

113

Podemos construir quatro estruturas lógicas, com as quatro possibilidades, não, porém, quatro sistemas estanques, como fazem os partidários de cada posição, que atualizam um aspecto e virtualizam e desconsideram os outros. O que a dialética concreta faz é concrecionar - : a semeiótica, com seu testemunho exterior, à pragmática da expressão humana, à semântica da significabilidade (ao formalismo sem desvinculamento) à sintaxe das relações categoremáticas e sincategoremáticas. De tudo isso, e ainda mais do que não trataram os logísticos, é que se pode construir a DIALÉTICA CONCRETA que, por ser concreta, opõe-se a todo vício abstratista, a todo metafisicismo de má qualidade, a todo filosofismo da deturpação da realidade, que pretende, insidiosamente, solapar, corromper, para destruir. A essa intencional idade satânica, a nossa postulação vigorosa da afirmação. Continuemos, pois. Assim ao dizer-se, na Matemática, que a:b: :b:c (a está para b, assim como b está para c), essa fórmula tem um valor sintáxico, mas se lhe queremos dar um valor semântico, teremos de dar a, b, c, que até aqui são termos aptos a serem valorativamente determinados, como tendo determinados valores. Se são numéricos, poderíamos dizer: dois está para quatro, assim como quatro está para oito, por exemplo. Se lhes queremos dar valores semânticos outros, poderíamos dizer o círculo está para o não ter princípio nem fim, assim como o não ter princípio nem fim está para o Ser Supremo. No primeiro caso, temos uma equação proporcional na Matemática; no segundo, uma equação proporcional na Simbólica, porque o círculo pode simbolizar o Ser Supremo, por que não tendo este princípio nem fim, assim como o entendemos, também não o tem o círculo, o que permite estabelecer que há uma participação formal de um atributo por parte do círculo, que, formalmente, e em máxima perfeição, atribuímos ao Ser Supremo. Mas observamos ainda mais: é que tanto na proporção matemática, como na proporção simbólica, há algo que aqueles sinais, sintàxicamente considerados, deixaram de assinalar: um logos. Sim, porque a primeira proporção é segundo um logos, o logos da quantidade, e a segunda o é segundo outros logos, o logos da participação. Por esta razão, a nossa dialética concreta para tais casos oferece a fórmula a.:b.::b:c seg./ Log n

segundo o logos zoológico e não segundo o logos da sociologia. em francês. que. que são os predicados. c. . como o que lhe é aposto ou negado a função de predicado. . na Dialética Concreta. Agora.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 114 A está para b assim como b está para c. segundo o logos n. envolver. em latim. sem que os sinais apontem a conteúdos intencionais. despojados de sua significação determinada. . Está aqui. referimo-nos a uma característica sintática dessa língua. cheval. Assim. que leva à razão de. considerando-se apenas a sua função na proposição. Assim o conceito de S. a portuguesa por exemplo. se essa linguagem usa sinais gráficos. e não tenha regras sintáticas. Pode-se. ou idéias. tomamo-Io apenas sintaticamente. é o termo tomado enquanto em sua função material. porque analoga (de aná . em alemão e cavalo. ou de lhe recusar ou negar-lhe tais predicados. como animal. como devemos distinguir a sintaxe da semântica em nossos sinais. que faz parte da dialética concreta. se tomamos o sinal esvaziado de seu significado. Assim horse em inglês. o homem. Mas. aos sinais da língua portuguesa. assim. como nos referimos às distinções na semeiótica. Poder-se-ia dizer que se o sinal tir implica o sinal bir e este o sinal cir. Tal não quer dizer que a linguagem. como uma língua. Pferd. volver em. como sujeito. não lhe caiba uma sintaxe. . porém. enquanto o predicado comporta-se formalmente. embrulhar. construir uma linguagem na matemática.. que é o conteúdo semântico. e são semeiôticamente diferentes. Quando queremos nos referir às diferenças nas línguas humanas. bem claro. podendo ser desde O (nada) até alguma coisa em toda a gama de ser alguma coisa. distintos. incluir) exige um logos (razão) da continência. quanto aos sinais. b. esvaziada de conteúdo eidético-noético. são pragmàticamente semelhantes. em português. Assim. razão.subir . tomados apenas em sua materialidade. sem que tais sinais tenham um conteúdo significativo determinado. tomada enquanto significativa. então tir implica o sinal cir. màterialmente. pode ser substituído por qualquer letra a. . . referimo-nos às distinções pragmáticas na linguagem. mas semânticamente Pode-se considerar a linguagem apenas do ângulo sintático e temos uma visão formalista. já formalmente tomada. ) . e eis aqui o que é imprescindível: a implicância exige um logos da implicância (de im e plicare = pregar. como se vê na lógica material. Apenas que essas regras se referem. o termo que na proposição é tomado materialmente em sua função de receber a adição. sintàticamente considerado.lagos. Desse modo. ou de recusar-se a adição de que significa positivamente outro termo tem a função de sujeito. ou sílabas. quando se diz que é peculiar da língua francesa a ordem direta. pois o sujeito comporta-se no juízo. equus. d. pois. mas apenas indeterminado. ou somar-lhe determinações positivas. Tal logos é um logos analogante. que pretendem assinalar letras. está implicado na animalidade.

Contudo. realizar a hermenêutica de uma proposição. a qual se dedica ao estudo das causas. não. pode-se construir uma sintaxe sem a interpretação (hermenêutica). que podem. aferir. ou depois. Por isso o conceito de causa é um conceito metafísico. aqui ou ali. Nas fórmulas da Lógica Formal . sintaticamente considerada. em tais casos. formalmente. a esta ou aquela causa. a sintaxe deve preceder à interpretação. Assim o termo causa e o termo efeito. primeiro modo da 1º ~ figura. se lhe negasse qualquer sentido. Não se referem a esta ou àquela causa. Volvamos agora à distinção feita entre o eidético e o operacional. a causa enquanto causa. Essa fórmula. Por isso. são formas sintáticas. é a interpretação que se realiza quanto à significabilidade do sinal. mas apenas sentido sintático. A interpretação exige a sintaxe. tomada universalmente. devem ter um sentido (e esse sentido é o logos sintático). pois não se refere singularmente.P juízo universal afirmativo (premissa maior) a S – M juízo universal afirmativo(premissa menor) a S – P juízo universal afirmativo ( conclusão ) Temos o modo a a a. ou como um deles apenas como analogado e o outro como analogante. na dialética concreta. Quanto à correção de tais sentidos. porque sem ela o termo é tomado esvaziado. ser preenchidas por conteúdos signalativos (intencionais). disto ou daquilo. como as outras da Lógica Formal. e como tema filosófico pertence à Etiologia. causa. ou seja. Pode aquela ser considerada independentemente da linguagem (essa independência é relativa e não absoluta). do qual ambos os termos se analogam como analogantes ambos. Uma linguagem meramente sintática seria uma linguagem esvaziada de conteúdo semântico.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 115 O logos. Seria para nós impossível interpretar. sem conhecer a sintaxe. que são realizações da abstração de terceiro grau. não está totalmente esvaziada de semântica. é um logos analogante. uma hermenêutica sem sintaxe. A hermenêutica. para que esta se possa realizar. tais como a M . na linguagem. E isso se dá porque cabe à semântica dar o sentido (a significação. Bárbara. comprovar. a intencionalidade ) dos termos e não à sintaxe. que é uma disciplina da Ontologia Geral. cabe à Lógica. agora ou antes. semanticamente. Essa linguagem seria uma linguagem abstrata de grau mais intenso. porém. . sem que. estão esvaziados de significação ôntica. na sintaxe. posteriormente. e com identificação. Os sinais. portanto. por isso. Tem-na porém.que pertence à Lógica Menor. mas apenas se refere.

e que os sinais não têm qualquer significado semântico. Os primeiros terminaram por afirmar que só há sentido no operacional sintático. Pode-se operar com sinais sintáticos. nem a mente humana se aquieta aí. Embora não saibamos o que é. não pretende deixá-Ios separados: tem de (deve) uni-Ios. ou que esse é arbitrário. necessàriamente. quando aplicados tais cálculos terminaram por alcançar a resultados que permitem uma hermenêutica. Se tratarmos de sinais apenas sintàticamente. Mas a inversa não é verdadeira. eidética. concrecioná-los. quando um virtualiza o outro. sem conhecer o sentido eidético semântico. Mas tais exemplos apontam a validez da distinção que fizemos acima. pois um termo pode ter um sentido operacional. sem que saibamos qual o sentido eidético. não. E se nada sabemos quanto ao seu conteúdo intencional. ainda nada sabemos. Assim o sujeito opera na proposição materialmente. Terá o mesmo termo apenas um sentido operacional se somente conhecemos como deve ser empregado sintaticamente. sabemos como opera. enquanto o predicado opera formalmente. e ainda. realizando a conexio entre ambos. mas será vazio de conteúdo. Quando um exclui o outro. Assim uma operação apenas com sinais sintáticos é um cálculo. e os que julgam que basta operarmos com sinais eidéticos (semânticos). realiza abstratismo da pior espécie. definitivamente. uma intencionalidade. e não ainda uma operação com conteúdos ontológicos ou ônticos. Contudo. constrói-se apenas um sistema sobre o qual nada se afirma quanto à sua intencionalidade eidético-noética. porém. do contrário. . A dialética concreta exige o estudo separado de ambos aspectos operacionais. por que. Deste modo. com exclusão de qualquer semântica. pode ser engenhoso apenas. que não possa ter uma hermenêutica semântica. Não basta operar com tais sinais. mas. senão por alguns momentos. um sentido operacional. sem representação de alguma imagem. ou até sem que lhe emprestemos qualquer sentido eidético. E argumentam muitos com os exemplos da matemática. Se um termo tem um sentido eidético terá. é fácil compreender agora onde está o vício abstratista. e os segundos negam a validez a qualquer sistema de cálculo. um para que tal sistema de sinais se dirija. Temos dois: os que julgam que basta operarmos com sinais sintáticos. absolutamente. ou como podemos operar com ele. Exige-se um sentido.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 116 Um sinal tem uma intencionalidade(sentido)eidético quando conhecemos seu conteúdo semântico (que é a sua significação) .

Mário Ferreira dos Santos

A Sabedoria da Unidade

117

Se se partir apenas da sintaxe, poder-se-á não alcançar nada mais, permanecendo apenas no campo dos sinais operacionais. No entanto, se partirmos do pragmático, deste para o semântico e deste para o sintático, então percorreremos uma via abstrativa, sem dúvida, mas muito segura, porque não só permitirá uma hermenêutica, como dará à sintaxe um conteúdo, que ela, por si só, não o teria. Compreende-se, assim, que o ponto de partida do filosofar positivo e concreto, que é o empírico-racionalista, porque parte da experiência, oferece uma segurança muito maior que o outro, que tentando seguir o caminho inverso pode chegar, como chega, em algumas mãos inexpertas, a um vazio geral, a uma inanidade deplorável, e a resultados desalentadores, por arrastar fàcilmente o espírito humano a um cepticismo exagerado, ou então, a um arbitrarismo lógico e gnoseológico, que em nada recomendam a inteligência humana. Deste modo, de que valerão cálculos operacionais meramente sintáticos, se não alcançarem a conteúdos eidéticos-noéticos, e conseqüentemente, lógicos? Nada se concluiria. Nenhum logístico de bom senso irá filiar-se do lado daqueles que desejaram tornar a Lógica apenas um sistema de sintaxe, sem abrir ensanchas a nenhuma hermenêutica. Com isso não se quer negar o valor ao operacional sintático, já que ele oferece elementos para a construcção de uma dialética mais segura. O que se nega é que, por si só, tenha um valor, suficiente. O método operacional sintático pode facilitar um trabalho de pesquiza mais acurado, evitar certos erros que através da semântica podem ser cometidos, mas a Dialética Concreta, ensinando a operar, não só pela via ascendente, como pela via descendente, permite que se busquem adequações de um sistema e outro, o que favorece uma connexio, capaz de assegurar melhor solidez ao pensamento e às operações lógicas conseqüentemente. Em suma, a práxis humana revela que é melhor caminho para chegar ao operacional sintáxico, partir desde o pragmático e o semeiótico, com a análise segura; a concreção de todos, na verdade, tem dado melhores resultados. Muitos confundem o operacional sintático com uma linguagem artificial qualquer. E aqueles que o julgaram por si só suficiente, justificam a sua escolha devido à variância e à heterogeneidade da semântica na linguagem dos filósofos. Realmente, há certa procedência se considerarmos o que aconteceu na filosofia moderna, em que os termos filosóficos tomaram tantas acepções quantos filósofos surgiram. Mas o mesmo já não se pode acusar à escolástica, que primou sempre pelo rigor precisivo da sua terminologia.

Mário Ferreira dos Santos

A Sabedoria da Unidade

118

Quando um escolástico falava em matéria, ou forma, ou substância ou acidente, outro escolástico entendia tais palavras com o mesmo sentido. Já o mesmo não se deu na filosofia moderna, em que um termo, como idéia, para uns quer dizer forma, para outros um mero esquema, para outros uma imagem, para outros uma representação, e com matizes e colorações tão várias, que nunca se sabe se falam da mesma coisa, quando empregam as mesmas palavras. O resultado era inevitável: discutiram-se palavras às quais se emprestavam sentidos tão diversos. Mas este mal não provém dos escolásticos, cujo ideal de precisão é um dos seus pontos de honra. Os logísticos modernos, que desconhecem o que foi feito, o que acontece com a quase totalidade deles, acusaram a filosofia de um defeito que pertence a um período, e a homens determinados desse período, defeito que não podiam com sã justiça, atribuir a todos. Que se escolha uma linguagem artificial em certo sentido (e mais adiante precisaremos melhor até onde ela é valiosa e conveniente) para facilitar a Lógica, nada a objetar. O que se objeta é, porém, a atitude exagerada, que leva a negar o valor a tudo o mais que não se cinja a essa linguagem artificial. Para justificar a sua posição, alguns logísticos exemplificam com o é, ao qual se pode atribuir uma dezena de significações. Mas acaso não sabiam disso os lógicos tradicionalistas? Se julgam que não sabiam, se enganam. O que pretendiam entender como significabilidade do é era apenas a afirmação, por adição, de um predicado positivo, ou de um predicado que consiste em negar uma positividade determinada. Se se diz S é P, diz-se de S positivamente P,' se P é um indefinido não-P, diz-se que a S se prcdica uma positividade outra, a qual não pode ser classificada em P; ou seja, predica-se, indefinidamente, outra possível que P. Quando se diz que S é um ser ficcional, é não afirma existência senão ficcionaI. Na verdade, não afirma a existência rcal-real de P, mas apenas a positividade real-ficcional de P, porque não podendo o predicado ter mais realidade que o sujeito, se este for ficcional, ficcional será o predicado que se lhe atribuir positivamente. As variações de é não incriminam a regra geral, dada acima, e não era mister transformar essa heterogeneidade de sentidos num cavalo de batalha, porque nunca impediu que os bons lógicos soubessem entendê-Io, o que se verifica nas distinções, em que os escolásticos foram mestres insuperados. O conhecimento de tais providências por parte de certos logísticos evitaria caíssem em Iamentáveis afirmações, que testemunham apenas ignorância. A Matese, praticamente, se comporta na Filosofia, como uma sintaxe, não, porém, esvaziada de conteúdo. O conteúdo sintáxico é dado pelas leis, que regem as coisas. A Matese, procurando o princípio das coisas, chega a atingir os logo! arkhai, e destes os princípios, entre os quais estão as leis eternas.

Mário Ferreira dos Santos

A Sabedoria da Unidade

119

CAPÍTULO XIX DA SUBSTÂNCIA - DA PRIVAÇÃO - DO DEIXAR-DE-SER O capítulo que reproduzimos de nosso "Grandezas e Misérias da Logística" tem grande importância para a Matese, por facilitar a clara distinção entre pragmático, semeiótico, semântico e sintáxico, o que permite tomar quatro posições filosóficas, geradoras de graves erros, porque todas elas são postulações, quando tomadas isoladas, meramente abstratistas. A sintaxe pode ser usada pela Matese, e não perde o seu conteúdo, ou pelo menos não perde a sua função concreta, desde o momento que ela tenha como conteúdo as leis que regem os termos, no sentido matético, com o qual empregamos esta palavra, porque essas leis são válidas em todas as esferas sobre as quais pode o espírito humano demorar-se e construir disciplinas correspondentes. Este é o sentido em que a sintaxe pode ser perfeitamente usada. Isto não impede que, por exemplo, na Matemática se estudem e façam-se cálculos, que não tenham um couteúdo semântico. Mas poderá ter, depois, como aconteceu com o cálculo das matrizes, que, quando construído, não tinha conteúdo semântico, não tinha aplicabilidade, a qual surgiu depois com as contribuições fadlitadas pela eletrônica, como se deu também com muitos outros cálculos matemáticos também coerentes, porque se pode construir uma sintaxe coerente. Verificamos, ao estudar os conjuntos, tema matético, eque felizmente agora voltou para a Matemática, para melhor clareamento e, também, para um desenvolvimento mais didático daquela, que podemos construir diversos tipos de conjuntos; tantos quantos tipos de unidades podemos conceber, e ainda mais, de conjuntos completamente esvaziados de positividade, como se podem construir na Matemática. Tudo isso mostra a possibilidade que temos de construir a sintaxe, obediente a leis, desses conjuntos esvaziados, que obedecem a leis ontológicas, e sobretudo a leis matéticas; ou seja, as leis dos logoi arkhai, o que é de máxima. importância. É necessário, pois, salientar um ponto, que tem sido origem de lamentáveis erros. A coerência, por si só, não dá validez suficiente para afirmarmos a realidade de alguma coisa, porque a construção de um cálculo coerente não implica que este possa encontrar amanhã um conteúdo semântico; pode não tê-Io nunca, pode ser apenas uma construção coerente. Assim, quando se constrói, na Geometria, as chamadas geometrias não-euclidianas, estas são coerentes, mas o fato delas o serem não quer dizer que correspondam plenamente à realidade. Podem corresponder e podem não corresponder quando tomadas sob outro aspecto, mas a coerência não é ainda critério suficiente para nos garantir a verdàde material. Ela apenas pode

inseitas. do conceito de substância. essencialmente. portanto. uma verdade sintáxica. etc. Já vimos que. na verdade. como apontamos alguns em nosso livro "Grandezas e Misérias da Logística"... e em si. dizia que ela é a causa que faz com que uma coisa seja o que ela é. Não sabemos de nenhum logístico adversário da Lógica que a conhecesse ou soubesse empregá-Ia. Ao contrário. se nós aceitássemos essa definição para ela. como se o logos de substância fosse o que subsiste por si e em si. que significa natureza) tudo quanto existe na realidade sem a operação do entendimento. contudo não podemos ainda garantir uma verdade semântica. Agora vamos apenas tratar. Como naturalmente o acidente não pode existir por si e em si. como também a sua estrutura eidética. per se. Na linguagem clássica. então. então não surgiriam tantos problemas como vão surgir quando se empresta à idéia de substância o ser portadora de acidentes. além da que tem no mesmo entendimento. de que o logos primeiro e essencial de substância é existir por si. com o acidente. cuja unidade se dá separadamente.. De maneira que se o acidente exige. A razão primeira e essencial da substância é. porque vamos empregar muitas vezes o termo físico e a expressão real-físico para indicar o que tem realidade independente do nosso entendimento. chamou-se de físico (que vem do grego physis. Quer dizer. e em si. não conhecem. que. necessàriamente. o conceito evita uma série de problemas posteriores. . para uma coisa ser o que ela é. Se os logísticos modernos compreendessem mais concretamente a Lógica. julgando que destruíram e reduziram a pó a Lógica tradicional. perseidade e inseidade.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 120 nos oferecer uma verdade meramente formal. porque não é portador de acidentes. do modo como o precisamos para a Matese. numa unidade. as partes estão essencialmente unidas. Elas vão constituir um misto. aquele tem de existir por outro e em outro. não podemos partir de que a idéia de substância exija. por exemplo. não um acrescentamento. a substância é considerada. seus adversários cometem gravíssimos erros. o que é importante. porque aí já não se pode chamar o Ser Supremo de substância. ter perseitas. e isto é que distingue a unidade per se da unidade per accidens. ao definir a substância. não um ajuntamento. e que também possa ter aplicação pragmática. de maneira que a substância é o ser. Aristóteles. Ora. o que não se dá. Mas se ficarmos com este conceito. que sabemos dar-se na substância. esta: existir por si. . mas uma unidade per se. a substância. não só na tectônica de uma coisa. como a sua estrutura hilética. não precisavam tomar estas atitudes de espadachins de opereta contra a Lógica tradicionalista. realidade na coisa. cujo ser está na substância.

absolutamente simples. não está num outro. para Aristóteles. haja acidente. porque esta. uma essência. segundo Aristóteles. porque dizemos apenas que isso é vaso de barro. As causas intrínsecas de uma coisa. a distinção entre existência e essência é apenas modal. aí. que em grego quer dizer o ser um. da coerência. Mas daí não decorre que. Vi mos que entre essas duas unidades há uma distinção. necessàriamente. porque a unidade do henos. A existência só pode distinguir-se da essência modalmente. Não está num outro. Esta tensão. quando se lhe dá outro conteúdo. de graus intensistas vários. A existência é um ato metafísico da essência e um modo intrínseco. uma correlação. São a forma. e é mais esta. que estão analogadas. Existiria. porque propriamente. por serem partes de um todo. em que há a adesão das partes. Elas vão apresentar-se com uma heterogeneidade muito grande. as quais funcionam segundo uma normal dada pelo todo. que tem um holos de coesão. A existência atua a sua essência. porque atua esta essência. mas apenas simpliciter relativamente. mas a substância seria sempre a substância de um acidente. quer dizer. mais do que propriamente a substância segunda. A substância primeira. Se concebemos assim. que não se distingue da realidade que modifica. era pràticamente a estrutura hilética da coisa. que forma uma unidade. onde a substância esteja fora da razão e da essência da natureza subsistente. convém à substância primeira de um ente ab alio. Toda existência implica. A propriedade de subsistir. vimos que é ato de uma estrutura. enquanto que a unidade. não é simpliciter simples. necessàriamente. quando é um holos. e a . Já tivemos oportunidade de distinguir uma unidade quando ela é henoticamente considerada de quando é ela holicamente considerada. como veremos na "Teoria Geral das Tensões". que é a matéria. segundo as variações dinâmicas da coesão. a matéria não está num sujeito. É a que não está num sujeito. Portanto. ou subjacer. o acidente. será de tantas espécies quantas as espécies de unidades. e segundo o interesse deste. E uma essência para dar-se efetivamente tem de ser existente. filosofia. nem se predica de um sujeito. porque é constituído de barro. O acidente seria o acidente da substância. nas quais notemos esses aspectos. de uma coisa finita.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 121 necessàriamente. a matéria. nem se predica de um outro. Só se dá composição de natureza e de subsistência. é propriamente constituída da estrutura eidética. como vimos. pertencem ao contexto beta. porque a matéria não é um acidente. secundum quid. Quanto à tensão. da adesão. que é simpliciler simples. além de per se. é a se. para toda substância. o conceito de substância perde os aspectos aporéticos que vão ter na. de coerência. nem se predica de um sujeito.

porque como a quantidade supõe a matéria como sujeito. por ser a mais intrínseca. da qual ela está de certo modo privada. Não pode. é um acidente. uma corrupção relativa acidental. por si mesma. temos o seguinte: distintas quantidades supõem distintos sujeitos que as recebe. com a sua estrutura eidética. este ente não é aquele. aqui. e esta é o não ser relativo. porque esta. porém. portanto. como estofo hilético. pode ter a seguinte forma: ela é igual a tudo. a qual. menos tudo menos ela. que é também chamada corrupção simpliciter. mas da forma. e essas privações permitem também classificar as coisas. que se dá quando não há apenas transmutação. nenhuma outra é anterior a esta negação. é anterior a todas. porque só podem ser gerados os seres cuja tectônica seja formada de uma estrutura hilética e de uma estrutura eidética. porém. quando a corrupção é apenas acidental. Há. entitativamente e imediatamente.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 122 privação. porque qualquer coisa. assim também supõe a sua entidade individual. permanece. deixe de ser o que era para ser o que vem a ser. absoluta. o que a coisa não é. como sabemos. a entitas. a não ser que houvesse um aniquilamento absoluto. permanecendo. também. com a corrupção acidental apenas da estrutura hilética. e distintas partes da quantidade supõem partes do sujeito entitativamente distintas. as coisas finitas. ou uma parte da matéria de outra. por algo distinto a si mesma. Assim um ser pode deixar de ser o que é: I") Relativo acidentalmente. de onde se segue que uma entidade distingue-se de outra. pois. e acidente necessário material da coisa. ao corromper-se. mas que é positivo. e a qualidade à estrutura eidética. menos o todo menos ela. não pertence ao efeito formal da quantidade distinguir entitativamente uma matéria de outra. entitativamente. algum modo perfectivo de ser. uma geração. dá-se. precisamente. 2") Uma corrupção formal. pelo menos. necessidade de que aquele ser. e que a qualidade não sofra. Portanto tem de ser algum modo de ser. que vai constituir. Devemos distinguir privação de o deixar-de-ser. necessàriamente. Teríamos. a corrupção da coisa anterior. mas. ser nada. determinações quantitativas. A quantidade. Em suma. O deixar-de-ser é corrupção. Agora. é distinta de qualquer entidade semelhante. A quantidade está ligada à estrutura hilética. finitamente considerada. se trata de uma prioridade axiológica e ontológica. é algo positivo que está fora da coisa. Tal não quer dizer que a quantidade não sofra influências qualitativas. naturalmente. Se se dá a geração de alguma coisa. porque uma privação de nada é nada de privação. ou não tem. ou melhor. e nada é mais intrínseco que a própria entidade. assim como a qualidade é um acidente necessário. Como consequência. à qual se segue. a distinção entitativa. mas também transformação. e não se pode pensar noutra anterior. com a conse- .

3º) Dar-se-ia a aniquilação simples que seria aniquilação absoluta. pode ser entendida de quatro modos. Teríamos o aniquilamento absoluto. segundo: porque a existência resulta da forma como de seu princípio intrínseco. para uma nova forma. Esta nadificação simpticiter passa a ser matéria de estudo. onde analisamos as grandes contribuições de Suarez naquela matéria. o synolon. como sabemos. a qual expusemos em “Ontologia e Cosmologia”. para um novo eidos. também. diz-se ausência. como faziam os antigos. mas privativas. seria a nadificação completa do ser. CAPÍTULO XX EDUÇAO E INDUÇAO DA FORMA A forma e a matéria. há um elemento que se comporta como forma. A forma e a privação são opostas. estas mutações apresentam modos muito variados. porque a oposição entre eles é entre ens et non ens. enquanto causa da existência total. que é o terceiro caso. como apresenta a substância. meontológico. e não entre ens et ens. Neste caso. constituem. portanto. e não contrários positivos. Em todo composto. e a matéria ao que chamamos de estrutura hilética. porque quando se diz forma diz-se presença. quando se diz privação. Agora a alteração se refere ao que se mutaciona. que é o eidos da coisa. não só ontológico como. A forma corresponde ao que chamamos de estrutura eidética. mas para não serem simplesmente mais nada. o segundo a estrutura hilética.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 123 qüente geração de um outro ser. São elas que vão compor a entidade finita-material. A forma. que são assuntos a serem estudados pela teoria modalista. ou dando-se apenas nas transmutações acidentais desta. e um elemento que se comporta como matéria. na concepção aristotélica. o primeiro constitui a estrutura eidética. terceiro: porque a forma entra de modo intrínseco na . acidental. quando tanto a estrutura hilética como a eidética deixassem simplesmente de ser não apenas o que são. primeiro: porque a forma completa formalmente o receptáculo próprio da existência. nas coisas materiais. Os acidentes apresentam modalidades. permanecendo a estrutura hilética. é apenas qualitativa. mas já sobre nova disposição. É apenas uma modificação daquilo que especificamente permanece. a estrutura hilética desaparece. para um novo logos de proporcional idade intrínseca.

Toda forma. procede de fora. mas apenas unum per Passaremos daqui por diante a usar indiferentemente o termo educido por eduzido. e como vimos na "Filosofia Concreta". o eidos nesta coisa. o eidos da forma. podemos dizer que tem dimensões cronotópicas. limitadas por superfícies. a estrutura hilética. A causa formal. contudo. não procede assim. ela age junto com a estrutura hilética. não vamos constituir unum per se. como seu princípio intrínseco. quer dizer. A matéria. A forma. mas apenas um ser per accidens. mas apenas na mesma qualidade específica. São sempre formas materiais. A forma é coproduzida na matéria pressuposta. sim. formas que podem ter limites materiais. de seu eidos. porque aquele é um ser ab alio. o agente não procede para produzir a essência da forma. no composto. da forma. Nada implica que o ser unum per se tenha aspectos acidentais. Quando uma forma depende de sua causa na conservação. não é um ser á se. nos seres finitos. que não deve ser confundida com a causa formal substancial é uma causa acidental. isto é. pode ter as formas que lhe são proporcionadas. a existência desta. o que. neste caso. O tomismo afirma que a distinção específica faz-se pela forma.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 124 composição da existência da substância. Esses quatro modos são estabelecidos por Suarez. 2°) a existência resulta da forma. também dependerá da mesma na operação. 4°) porque todo ser da substância depende de alguma maneira da forma. ou. que. por modo de ato. e vamos deixar para mais adiante examiná-Ia. então. A forma acidental com o sujeito substancial não constituem um ser unum per s. conduzir para fora) da matéria pela causa eficiente 4 . 3°) porque a forma entra de modo intrínseco na composição da substância total. A estrutura hilética de um ser vivo é uma estrutura substancial e constitui o ser unum per se. ou seja. não é um ser sempre existente. as três dimensões do espaço. quarto: porque todo ser da substância depende. inducido por induzido no sentido da ação (ducere) quer seja in ou ex. que já examinamos. e a do tempo. Podemos repetí-los de modo mais claro: 1°) a forma completa formalmente o receptáculo próprio da existência. que deve ser bem distinguida daquela. A estrutura eidética não age por si só. 4 . mas cria. não cria a essência. Se tomarmos uma forma acidental puramente qualitativa e um sujeito substancial. a matéria nada mais é do que a potência enquanto apta a receber formas materiais. Então a forma. é óbvio. mas isso é matéria muito discutível. a estrutura hilética. naturalmente. em alguma maneira. a forma é educida (de educere. quando é espécie da qualidade. A estrutura eidética não coincide com a coisa na mesma realidade numérica. não age por si. será a lei de proporcional idade intrínseca desta coisa. mas age pelo composto. deve proceder de fora pelo menos. e a numérica pela quantidade.

porque. consistente na edução da forma. essa forma. tal fato seria. dar forma de ser vivo à matéria inorgânica exigiria uma indução acima da natureza desta matéria. e a ação. uma modal inseparável. entidades acidentais. porque a causa é causa do efeito. é mais uma forma acidental. corresponderia à sua natureza. Mas. que eles têm. ou ela pode ser posta em. ou seja. por exemplo. as limitações daquela são limitações desta. assim. em sua potência. que ela realiza. causa e efeito. necessàriamente. A forma pode ser inducida ou pode ser educida. portanto. a ação é ação do atuado. esta o modifica. Quando o agente age. Este atua. e educida. sobrenatural. seria aquela que é influída pelo agente no paciente. não há ação sem um paciente. Esta pertence ao paciente. Entre atuante e atuado há. aqui. o agente é o agente do agir. E se tal se desse. a forma deste é algo que. Um atuar sem paciente é um atuar vazio. o atuado é atuado na ação. esta é um modo inherente a este. Este ponto é de importância capital. pois ambos. será proporcionada. Uma indução absoluta da forma só poderia ser sobrenatural. A ação. são correlativos. e não uma forma substancial. Por isso Suarez classifica a ação como uma modal. O agir é o agir do agente. o paciente não conteria. acima e fora da natureza do paciente. No caso do vaso. ou pode ser tirada de. é unum per accidens. só podem ser causa formal. porque a forma. A ação não é uma forma do agente. e não do criador. De fato. A ação une a causa agente ao efeito. como vimos. só há causa e efeito onde haja essa correlação. Assim. mas apenas . porque não o modifica de maneira alguma. aquela que está contida potencialmente no paciente. Na edução sobrenatural. A primeira. outro sofre a ação. sem um agente. De maneira que estas formas são apenas qualitativas. como a forma da casa que o arquiteto dá aos materiais que usa. e que o agente atualiza. porém. porque sendo intrínsecas. a inducida. a argila tem e pode ser educida desta.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 125 accidens. do atuado. pois. Portanto. perguntar-se-ia: é a forma do ser vivo uma forma educida ou inducida? Abre-se. os elementos constituintes não podem jamais constituir unum per se. não extraída no sentido físico. que não é unum per se. seria a operação que se dá no paciente. uma correlação necessária. não podendo ser causa material. a criação é da criatura. a indução da vida a uma matéria apta a ela. também. porque muitas aporias filosóficas provêm de se confundir o agir do agente com a atuação do paciente. têm causação formal. o efeito é efeito da causa. absolutamente inseparável do atuado. Assim uma cadeira. ela. nulo. Contudo. mas emergida de alguma coisa. Porque unum per se só pode ser feito por uma causa formal substancial. atua segundo a sua natureza. à natureza do efeito. o outro sofre a ação. uma problemática que desafia a nossa argúcia. potencialmente.

e a alma humana não seria a forma do corpo. educida da potência subjetiva desse paciente. que tratamos no volume «A Sabedoria das Tensões» .Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 126 teria capacidade obediencial para recebê-Ia. um ser meramente material. são educidos. para os cristãos tem de ser sobrenatural. como não pode ser educida dos animais que conhecemos. que vai dar vida ao seu corpo 5 A lndução da fonna. como vimos. por ser mais acessível aos simples. sobretudo nos povos asiáticos. Neste caso. São intrínsecos e absolutos no ser material. que tem de ser simultâoeamente criado 5 . é inducida nele. totalmente distinta. mas por um poder que ultrapasse a sua natureza. subjetivamente. Mas. e. surgem deles. na concepção religiosa. que. já que. eles emergem da própria coisa. a racionalidade seria impossível. O paralelismo entre o corpo e a alma seria inevitável. Moisés descreve: Adão é feito de barro. a criação do homem. pois não há. A criação exige a indução de uma forma em outra. Em outros termos: o ser animal antecedeu o homem. teria o papel de concausa. a potência. que é a linguagem mais usada pelas religiões. Não se deve desprezar a interrogação se a criação da racionalidade se faz sobre a matéria já pré-existente. é tema da Teoria Geral das Tensões. uma potência obediencial para a racionalidade. seria feito de barro e receberia a alma insuflada inducida. para admitir que ela fosse inducida. esta forma só poderia ter como complemento ou uma potência subjetiva. Moisés. de Deus. pois no livro da "Gênese" sabemos que cabe só ao 6º dia. é pura matéria. porque não são inducidos. mas outra entidade. mesmo considerada como metáfora. empregou a alegoria. no influxo da racionalidade. A alma não é educida do barro. A forma. que é predominante na escolástica. Estaríamos em plena oposição à doutrina psíco-somático. Há apenas uma potência objetiva. cair-se-iam em aporias. Realizam-se por modo de edução. Neste caso. o pré-homem adâmico teria. porque a forma educida não é da potência subjetiva do paciente. Quer dizer. não há criação total do ente. a criação. A racionalidade do homem é considerada ainda obra da criação. ou pelo menos obediencial. eles são educidos. porque se não a tivesse. que é o dia da harmonia total. como o corpo. pelo menos. com ela. podemos estabelecer esta proposição: Adão. não se põem nele esses acidentes. já que ela não poderia ser educida de sua natureza. que é nada da criatura. Como problemática. como alegoria. para compreender a sua interatuação. por exemplo. quando lhe é dado o entendimento. em algo apto a recebê-Ia. por não poder transmitir a seus conacionais um pensamento mais filosófico. Os acidentes intrínsecos são os da quantidade e da qualidade. A experiência mostra que a forma educida consiste no resultado de uma operação realizada no paciente. que vai constituir a tensão fora da coisa. pois Adão já era de barro. que são de certo modo invencíveis. portanto. para essa concepção. que obtém a racionalidade por indução.

apta a receber formas. Adão se comportou como uma potência obediencial? Quer dizer.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 127 (porque Deus insufla vida. A Matese não pode tratar dele agora. não foi capaz de criar uma vida. apenas este se comporta obediencialmente. Posteriormente. que é o que caracteriza propriamente a matéria. vivifica aquele barro. como seja a divindade. Na escolástica. pelo menos pode ser admitida por causas próximas. todas as tentativas de realizá-Ias também malograram. Quer dizer: não é um desenvolvimento de causas sucessivas. e. algo que sobrevém de um poder superior para mera potência. espírito. que não é apta a alcançar. induz em Adão de barro a alma humana. tema que será oportunamente estudado. do corpo de Adão. pode ser aceita. De maneira que se amanhã se der o surgimento de um ser vivo em laboratório. Nesta concepção cristã. como o demonstramos em "Filosofia Concreta". mas é insuflada pelo sopro divino. De forma que restaria a pergunta. mas educida da matéria que compõe Adão. neste caso. apenas dá as fórmulas e as leis. ou seja. o que propõe elementos que vão servir para a demonstração da existência de um princípio espiritual em nós. ou foi inducida. porque a existência da alma pertence à Psicologia metafisicamente tratada. da Psicologia. A vida continua sendo um mistério a aguçar a nossa inteligência. esse . inegàvelmente. sem necessidade de buscar uma causa remotíssima. à Filosofia da Psicologia. mas o que é inducido na matéria. a forma do ser vivo é uma forma educida da matéria. mas diretamente Deus insufla. não surgiria por si mesmo do barro. singularizante por natureza no seu funcionar. As experiências de geração espontânea malograram. da matéria orgânica. Esta apenas dispôs as coisas de modo a que surjam seres vivos. direto. e o ato da criação da alma será. a doutrina da possibilidade do surgimento da vida num ser material. para receber um influxo proveniente do poder que lhe é sobrenatural. Há necessidade de um princípio suficiente para as operações. ou é uma forma inducida? Até agora o homem não foi capaz de construir um ser vivo. que poderão nos servir para conduzir a um trabalho eficiente futuro. que dá vida ao corpo). e neste caso não seria propriamente insuflada. e também da Filosofia. Cuidadosos estudos psicológicos nos mostram fàcilmente. dá a forma de vida àquele barro. de maneira definitiva e clara. que passará a ser a forma também de seu corpo. não surge naturalmente das coisas materiais. e Pasteur nos mostrou que elas são impossíveis. as formas universais. um ato sobrenatural. por si mesma. que as funções do Entendimento e da Vontade não podem ter uma razão suficiente na matéria. na análise dos grandes temas da Teologia. nem os primeiros princípios. vê-se que o ser inteligente não é algo que se eduz da própria matéria. que é a alma. Pergunta-se: pré-conteria aquele barro a forma substancial.

Mário Ferreira dos Santos

A Sabedoria da Unidade

128

surgimento da vida de modo algum porá em perigo nenhuma das teses escolásticas, porque sabemos muito bem que Tomás de Aquino e Santo Alberto chegaram a defender a geração espontânea da vida, baseados em certas experiências e na observação do surgimento de vermes etc., que julgaram exemplos de vida espontânea. E não havia nenhuma contradição filosófica, que assim fosse, dentro das normas escolásticas. Há, contudo, uma oposição filosófica quanto à formação de um ser inteligente; pois transformar a matéria bruta, de modo a que ela seja capaz de realizar atos intelectuais foi rejeitado in limine pela Escolástica, por exigir uma operação e um operador sobrenatural, de imenso poder, para que tal se realizasse, porque a vida pode ser educida, mas o Entendimento, a racionalidade, no sentido escolástico, só pode ser inducida, o que não impede que alguns confundam-na com as operações fisiológicas do sistema nervoso, que cooperam com a intelectualidade humana, porque ele funciona, em certos termos, dentro da esquemática adequada a este sistema nervoso. O ser humano, no estado em que está a sua alma, dentro deste corpo, só pode atuar dentro dos limites da esquemática deste corpo; isto é, dentro da fisiologia do sistema nervoso; está ela condicionada a esta fisiologia. Os escolásticos opunham-se energicamente à concepção da alma dos pitagóricos, e também à de Platão. Quando alguns pitagóricos afirmavam, seguidos também por Platão, de que a alma era prisioneira do corpo, julgavam esta posição como uma concepção paralelista. Ela não é paralelista, num sentido, embora o seja em outro. A nossa alma é espiritual, e assim o têm de aceitar os escolásticos. Mas as suas operações naturais e normais estão dependentes da fisiologia do sistema nervoso. Então, conseqüentemente, esta alma funciona condicionada por este sistema nervoso. Ela não funciona em toda a sua plenitude, em toda a gama de suas possibilidades, o que têm de admitir, por estar implícito no pensamento que aceitam. Ela funciona dentro dos limites do próprio corpo, do qual, depois de separado dele, vai ter um outro modo de vida, para o qual é mister uma graça, já que a alma é uma substância incompleta, embora não neguem a espiritualidade e a imortalidade dessa alma, e portanto, a sua simplicidade. Ela não é um ser composto de uma tectônica constituída de uma estrutura hilética e de uma estrutura eidética. Quando os pitagóricos e os platônicos dizem que a nossa alma, no estado em que ela está ligada ao corpo, está limitada, está condicionada, constrangida e fechada por este corpo, que ela funciona dentro dos limites marcados por este corpo, usam uma metáfora, ao dizer que ela é a prisioneira desse corpo. Prisioneiro, aqui, é apenas uma metáfora, e quer dizer que ela está de certo modo restringida por esse corpo, porque vai funcionar condicionada pela fisiologia de nosso sistema nervoso. Ela vai encontrar seus limites, ela vai ser perturbada pelo sistema nervoso, e até pelos outros sistemas que compõem o nosso corpo. Ela vai sofrer a atuação, as limitações do nosso temperamento, mas vai construir o nosso caráter pela Vontade, e a nossa personalidade pelo Entendimento.

Mário Ferreira dos Santos

A Sabedoria da Unidade

129

A Matese nos oferece, ainda, uma sequência de leis e uma sequência de adágios, que vão nos facilitar a solução desse problema, que é de máxima importância dentro do campo das religiões, e também de máxima importância para nós todos, porque o modo de nos considerarmos pessoalmente depende muito da maneira, também, de considerarmos a natureza do nosso espírito. Que essa natureza não pode ser material, dentro dos estudos da Filosofia da Psicologia comprova-se que é impossível. Esta tese é absolutamente certa, ante os atuais acontecimentos da Psicologia, e até da própria Física. Chega-se à conclusão da presença de alguma coisa em nós de um princípio ativo, que não pode ser corpóreo, porque não pode ter as características da corporeidade, que não pode ser uma potência naquele aspecto apenas, enquanto apta a receber determinações formais corp6reas. Tem de ser uma potência de outra espécie, uma potência com outras aptidões, que não meramente estas, uma potência um tanto degradada, como é a matéria. Tem de ser uma potência que revela: a não materialidade; isto é, na qual não se dão as propriedades da matéria. É, conseqüentemente, imaterial, criadora e inteligente e precisamente o ente imaterial inteligente é o que se chama espírito em Filosofia, é o ser espiritual. Ela, conseqüentemente, será espiritual como veremos oportunamente, o que não pode mais padecer dúvida ante os atuais conhecimentos, inclusive científicos. Quanto à sua inteligência, esta é da nossa experiência. Se ficar provado que há em nós um princípio imaterial, que é portador de inteligência, a prova da espiritualidade da alma está absolutamente feita. Quanto à prova filosófica, dentro dos esquemas eidéticos, esta é indubitável. Só podem discordarem os autores que não se dedicaram a estudar o assunto em profundidade, sobretudo psicólogos, que não percebam as impossibilidades de uma doutrina contrária, pois se conhecessem os trabalhos extraordinários que se realizaram através dos séculos, nestes dois últimos milênios, os comentários ao livro "Da Alma" de Aristóteles, e não só os comentários, mas, também, as questões disputadas, as controvérsias que surgiram em torno desta matéria, teriam naturalmente uma visão completamente distinta da que têm.

CAPÍTULO XXI A MATÉRIA PRIMA Na ordem das coisas concretas, para a maioria dos filósofos não há matéria sem forma, pois não concederam perfectibilidade de ser per se à matéria. Ela é sempre a matéria de alguma coisa.

Mário Ferreira dos Santos

A Sabedoria da Unidade

130

A matéria é, pois, considerada como pura potência receptiva, em ordem a um ato formal, apta a receber uma estrutura eidética. A matéria não é ato atuante; é apenas um sujeito, um subjectum para receber essa estrutura eidética, que é a forma no sentido aristotélico. Mas, também, na matéria, revela-se uma certa indiferença para diversas formas, porque ela pode receber várias; como o barro pode receber, potencialmente, inúmeras, mas atualmente uma após outra. A matéria, por si só, não cria diferença específica; ela não entra na definição da espécie, já que em toda definição só entram os aspectos eidéticos. Suarez concebe a matéria como uma potência pura, não que ela careça, porém, de um ato entitativo. Ela é uma entitas, mas carece, sim, de um ato formal. Para Aristóteles, a matéria é o primeiro sujeito do qual algo se faz. A definição aristotélica é mais sintáxica do que semântica, porque ela dá apenas o aspecto sintáxico da função. Alamannus, referindo-se ao tema da matéria, diz: "o que está de certo modo em potência para ser, ou para não ser, é a matéria; está, pois, em potência para as formas, pelas quais a coisa tem um ser, e as privações pelas quais não o tem. A matéria prima não está composta de ato e potência físicos, mas metafísicos, genéricos, e não específicos". É considerada, na Escolástica, uma substância incompleta, que se completa pela forma. Em suma, tal não quer dizer que a matéria se dê como matéria prima, uma matéria sem qualquer informação, mas se dá sempre apta a ser informada, mas pura antes, durante e depois dessa informação, porque, como matéria prima, ela é sempre pura, símbolo extraordinário, que surge nas religiões superiores. A matéria, enquanto matéria prima, é sustentante, não causadora. Se um ser material for fechado em si mesmo, sem quaisquer atuações de uma causa eficiente interna, ou externa, ele permaneceria sempre o que é. No estado em que está é o princípio da inércia, por não ter de per si nenhum poder para sair do estado em que está; portanto, a matéria prima é apenas sustentadora, no sentido escolástico, porque ela, não tendo atividade própria, permaneceria sempre no estado de inércia, e a inércia é compreendida como a presença da matéria na sua própria afirmação de matéria. A matéria prima, enquanto tal, é incorruptível, mesmo porque ela não é composta de outras coisas; ela é apenas matéria. Se é corruptível, ela seria decomponível; se é decomponível, ela seria composta; se ela é composta, seria, então, constituída de matérias primas distintas.

porque se é generável. porque a matéria prima. Embora a matéria seja informada. é real. distinta. É uma potência passiva real.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 131 Numa posição monista. é um ato entitativo para Suarez e Scot. mas desta enquanto corpórea. de certo modo. e também ingenerável. potencial não quer dizer ausência de atualidade. mas apenas aptidão para um ato outro. Neste caso. sem a qual ela não se determina. enquanto tal. porque ela. ou. a qual. A matéria prima é uma entidade. pois como poderia realmente ser receptivo de outro se não é nada? É uma real potência passiva no gênero da substância . e do ente possível. por mais que tenha o ser muito débil. e não subjetiva. A matéria pré-contém. de uma matéria prima anterior. a forma. mas recebe-a pela forma. lhe é intrínseca. distinto da forma. a matéria teria de ser necessàriamente incorruptível. Não quando ela só pode ser inducida nela. Não que a matéria seja um acidente. se. ela apenas sofre acidentes. tem alguma atualidade entitativa. Uma matéria. porque. como vimos. o que seria impossível. A quantidade não provém da matéria enquanto tal. como faz o materialismo metafísico. porque não pertence ao predicamento da quantidade. que é a forma. então. ou viria de si mesmo. Ela não é um nada. ou seja. é a matéria existente na realidade embora potência. por sua vez. inclui. em sua entidade. e estaríamos. a entidade da matéria recebe. A matéria recebe a quantidade. do modo como se concebe este ato. seria totalmente homogênea. Se é potencial. que é absurdo. necessita de alguma coisa distinta de si para distinguir-se de outra matéria. estaria somente em estado aptitudinal para receber essa forma. contudo é imitação do ser primeiro (1). no composto hilemórfico de Aristóteles. apesar de negada por alguns tomistas. desta enquanto corporeamente informada. como alguns confundem. Seria apenas uma potência obediencial. a própria existência parcial. e segue a linha aristotélica. enquanto tal. também. ela não opera. que. e teríamos de prosseguir até alcançar a matéria ingenerável. seria também generável. é um acidente próprio desta. pois há nela uma imitação da primeira forma. Logo a matéria. do contrário. outra vez. que aceitasse a matéria como primeiro princípio. ou do nada. potencialmente. enquanto é uma entidade atual. realmente distinta da forma. Mas se é real. essa composição é uma relação. Então esta seria a matéria prima. percorrendo a série in infinitum. Ela necessita de algo distinto. Ela está separada do nada. uma entitas. . na realidade. nem o ato em si perfeito e consumado. A matéria não é um ato atuante ou informante. ela não a pré-conteria. como poderia compor no composto matéria-forma. da existência parcial da forma. A matéria é capaz da quantidade. Ela é um ato entitativo. e a relação só é real se os termos são reais? Esta doutrina também é a de Tomás de Aquino. sobretudo quando ela pode ser educida dela.

a qual não tem matéria enquanto apenas matéria. mas um ato que funda uma potência. ao torná-Ia indivisa. I questão 45. 9. da substância corpórea. e circa quam. ou. mas. há certos aspectos que são apenas matéria in qua ou ex qua. como se a matéria in qua. ex qua e circa quam fossem três espécies de matéria. quando dela se deduz alguma forma. estas vão permitir que se clareie uma série de problemas filosóficos. então. a matéria ex qua é a da qual é educida a forma. o que é muito importante.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 132 enquanto tem uma forma corpórea. é a matéria da qual (ex qua) se faz fogo. (1) Essa é também a doutrina de Tomãs de Aquino. e sobre a qual (circa quam) este marceneiro vai trabalhar. é a mesma em três funções: in qua. por isso o gênero. a. deve ter mais de uma espécie». 1.. o que é evidente. que parecem agora de somenos importância. . ex qua. enquanto quantitativa. dentro do seu gênero. Entretanto. Essa doutrina também era a de Arist6teles. o:>mo se vê na Summa Theologica. que. como se fosse um possível. como se vê na Fisica. É claro. necessàriamente. A quantidade torna-se alguma coisa um. ele deduz alguma forma. sim. Quando ele é espécie especialissima não é mais gênero. portanto. quando nela se faz alguma coisa. quando tem a forma da corporeidade. O agente vai operar sobre a matéria. portanto. neste ponto. texto 82: «a matéria de um contrário tem potência para outro contrário. na qual (in qua) um marceneiro vai dar a forma da coluna. que se divide por opostas diferenças. a circa quam. Não quer dizer que há várias espécies. necessàriamente se divide em seus contrários e. de maneira que estas distinções se referem mais às diversas funções que pode ter uma mesma matéria. não puro. Não é um mero possível. ele faz alguma coisa. quando dizia que a matéria é o primeiro sujeito do qual algo se faz por si. ex qua. enquanto ela é operada por outro agente. Provém. sendo constitutivo dela. vai modelar. Toda matéria funciona nestes três aspectos. portanto. e a matéria circa quam é a sobre a qual opera o agente. e também é a razão da unidade. na matéria ex qua. é. de maneira que a quantidade também torna uma coisa una. e pode vir-a-ser com outra informação. cap. Há divisões da matéria muito importantes para nós. um ato relativo. potência para outra informação. A distinção. A matéria prima não é algo do qual se possa dizer que realmente não é nada. mas que pode ser. e na matéria circa quam. 1. que funciona apenas em um destes aspectos. deve-se notar que depois destas distinções. Os escolásticos falavam na matéria in qua. que supõe a quantidade da substância. é uma distinção entitativa e substancial. facilitaram aos escolásticos darem soluções simplesmente geniais: a madeira. A matéria in qua era a matéria na qual (in qua) se faz alguma coisa. porque a causalidade implica uma causação eficiente. por exemplo. in qua. mas algo que é.

Nenhuma transmutação poderia realizar-se se não permanecesse algo comum em outro termo da transmutação. e o que se corrompe se aniquilaria completamente. do contrário. Este sujeito é chamado causa material comum. e outra que se criaria totalmente. também. então. qua vai compor. enquanto tomada como espécie. a física é a matéria. digamos. é aquela que seria a sustentante. O que permanece é a causa material de tais coisas. um vácuo. Com esse conceito de matéria. aceita-se que esta é uma substância. pois. Teríamos. Chamam-na. tanto de um termo como de outro termo. pois. é mister haver um sustentante que não esteja em outro. que os antigos chamavam de matéria prima. em ambas. tanto a ação de um como a de outro. por sua vez. substância primeira. É mister que haja algo em comum. Seria causa material comum. se sustém em outra. o que prova que era um possível daquela. pela primeira. Se uma matéria se sustém em outra. de uma estatueta. o hi pokeímenon final. e assim sucessivamente. porque é um estante sub as coisas físicas. que é a primeira. a não ser que se quisesse afirmar que tudo que se transmuta o faz sobre o nada. sucessiva e mutuamente. a estrutura hilética dessas coisas. nessas transmutações. que permaneça nestas mutações. o sucessivo surgiria do nada. subo Mas o que sustenta outro pode estar sustentado por outro. Esta distinção é muito útil. engendrando-se umas de outras. e a sucessiva é constituída. do qual se retira uma forma e se dá outra. hilético. transmutado de vaso. uma matéria que se aniquilaria totalmente. Como vimos. de substância material. a sua estrutura atômica. Só que elas transitam de uma matéria para outra. embaixo. Pois bem. . Uma passaria totalmente para o nada. em estatueta ou em outra coisa qualquer. Esta matéria. o barro pode ser causa material comum de um vaso e. há de haver necessàriamente. uma matéria que seja a primeira. este pinheiro. termo muito usado. é uma causa intrínseca da coisa. o que está hipo. e informada. depois. o hipokeímenon dos gregos. esta. São dois termos. Assim. e assim sucessivamente. das coisas que se transmutam.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 133 A matéria metafísica é a matéria enquanto tomada como gênero. por exemplo. É mister um sujeito que sustente. e outra se faria totalmente do nada. pairando sobre um vazio absoluto. não permanecendo nada em comum. que temos de aproveitá-Ia para a Matese. hileticamente. a este sustentante final se deu o nome de matéria prima. o que é absolutamente impossível. transmutado pela causa eficiente. o que também demonstra que há entre elas algo comum que permanece por entre as transmutações. e nós já a estudamos como estôfo das coisas físicas. que seja o hipokeímenon último do que se dá. e esta é a constituinte da emergência da coisa. que se mantém sobre a matéria lenhosa. Esta causa material do barro é a causa material comum.

Só poderia haver geração acidental. apenas muda de lugar. sim. em graus menores ou maiores. Sabemos como os gregos procuraram. a segunda. A infinitude numérica dos átomos. continuamente. apenas uma. porque. mas. o número infinito seria em ato. Ora. o que caracteriza a matéria é ser receptiva da forma. Tomás de Aquino afirma que o número nasce da divisão do quantum contínuo. e aquele expunha a heterogeneidade das coisas chamadas materiais. a qual explica muito melhor as transmutações. a monista e a pluralista. e. já que Arquitas quando morreu. uma só. distantes uns dos outros. então na matéria prima todas se identificariam. pois Arquitas havia exposto muito daramente este pensamento. a geração substancial seria impossível para os atomistas adinâmicos. na natureza. Ademais. Demócrito. . de início. tanto substanciais como acidentais. na Cosmologia Especulativa. Por esta concepção. em todos os tempos e em todos os povos.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 134 Há um primeiro sujeito comum. exigiria. afirma Tomás de Aquino que quanto ao fundamento da quantidade é aquilo que pode dividir-se em coisas das quais cada uma é apta para ser determinada. os atomistas chegaram a afirmar átomos em número infinito. A quantidade é um acidente necessário da estrutura hilética de qualquer coisa. que não é original em Aristóteles. ou em potência para receber a forma. Esta dificuldade é a seguinte: como as coisas são heterogêneas pelas formas. Como as coisas iriam surgir de suas combinações meramente numéricas. sem qualquer interpenetração entre eles. as dificuldades também não seriam menores. muito antes daquele. e os pluralistas. um espaço infinito. vai formar o número aritmético. Vamos simplificar nestas duas: a primeira afirma que é um só. o que. Portanto. uns em número finito. demonstra-se ser impossível. uma dificuldade. o que também acarreta absurdos sem fim. Se esses atos fossem finitos. pela forma (1). como explicar a heterogeneidade? Por isso a concepção aristotélica funda a polaridade matéria x forma. o que traz a mudança em aparência meramente fenomênica e exterior. como Anaxágoras. mas semelhantes. Assim. segundo a matéria. muitos. não propriamente pela matéria. afirmado a existência de uma primeira matéria ou causa material de todas as coisas materiais. e outros em número infinito. a postulação de uma matéria prima exige a necessidade da postulação da forma. aqui. por sua vez. e esse primeiro sujeito comum é único ou muitos? Há várias respostas. Aristóteles tinha apenas 18 anos. nada se muda. descontinuamente. Mas surge. mas outros filósofos afirmaram que eram muitas. como constituinte intrínseco da coisa material. que são mais de um. e os átomos estavam em ato. Baseando-se em Aristóteles. do contrário. Daí ter a filosofia primitiva. o número geométrico. e apoiando-se em Aristóteles. e.

distinguir o seguinte: a verdade da coisa.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 135 Não se deve de modo algum confundir o número neste sentido. mas realmente se nota. Sabe-se que Aristóteles era extremamente vaidoso. em lato senso. e tinha suas razões. ter seus odiosinhos. enquanto em si mesma. que ele não tinha o direito de modificar. que nos interessa. enquanto ela se afirma. em toda a obra de Aristóteles. e não dá paternidade senão a coisas de somenos importância a filósofos anteriores. supervalorizar-se. do qual tratamos em nosso livro "Pitágoras e o Tema do Número". seus ressentimentos. que se funda na quantidade. O que não é justo é atribuirlhe uma exclusividade infundada. ou por algum. portanto. por alguns autores. que é a verdade real da coisa enquanto transcendentalmente considerada. suas divergências com a Academia. a verdade da coisa. Procurou. ou acrescentadas por copistas. Na verdade estas passagens da obra de Aristóteles são postas em dúvida. muito orgulhoso. e a . em que um deles é o intelecto. o suficiente para conhecer com clareza o pensamento do mestre. o conceito de verdade indica a adequação entre dois termos. discípulo. porque era homem inteligente e de valor. contudo. que inegàvelmente foi. e foi muito injusto. e a verdade que é uma adequação de um termo com outro termo. que algumas vezes desrespeita injustamente. sua ira contra Espeuslpo. Ele se considera criador de tudo. em estrito senso e em estritíssimo senso. e o arithmóI arkhê dos pitagóricos como esquema de participação. enquanto se testemunha. quanto à sua autenticidade. CAP. a preocupação constante de se apresentar como inovador. a verdade da coisa ante si mesma. como todos sabem. é aquela que se dá entre dois termos. (1) Aristóteles atribuiu a si quase a totalidade de seu pensamento. XXII DA VERDADE Os conceitos dialeticamente podem ser tomados sob quatro aspectos pelo menos: em latíssimo senso. e a verdade. onde fizemos clara distinção entre esses dois primeiros. que podemos chamar de verdade real. Temos. pois foi aluno por um tempo bastante demorado. como uma abstração de segundo grau. Devemos. para evitar as confusões freqüentes. enquanto em si mesma. sobretudo em relação aos platônicos e pitagóricos. mas devia respeitar sempre o seu mestre Platão. Podia ter lá as suas antipatias. como uma criação própria. em relação à filosofia grega. que é a verdade tomada em estrito senso. dos quais um deles é o intelecto. Tomado em latíssimo senso. são consideradas até como apócrifas. cheio de si. pois. que procurou dar muito mais valor ao mestre do que ele talvez a si mesmo desse. por não ter sido escolhido como escolarca.

então. Esta verdade é anelada por nós. é comparado ao objeto em seu ser real. será. em sua verdade real. contudo. A coisa. a de ser. mas como ela o é enquanto objeto de cognição. é uma verdade material. a qual surge da adequação do esquema intencional do sujeito à coisa. a de conhecimento e a de ser. nós estamos agora a examinar a verdade e a falsidade dentro dos esquemas clássicos. tinha endereço errado. se deve esquecer que permanece considerado como objeto. é a verdade considerada especulativamente. a verdade de significação. no operar da coisa. nas suas causas e nos seus princípios. não tinha nenhuma procedência em relação à Escolástica. em seu ser conhecido. pode o intelecto observar se o que objetivamente ele considera da coisa tem fundamento na coisa.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 136 outra. Surgem assim. porque o racionalismo e o idealismo podiam afirmar o conhecimento da coisa. O objeto. a segunda. enquanto captável por nós. Assim. o juízo verdadeiro. enquanto objetivamente considerada. que consiste em conhecer as coisas em suas propriedades e como elas se dão na realidade. e podemos dizer que pouco a Matese tem a acrescentar nesta matéria. enquanto ela se torna objeto para um sujeito: a adequação entre esse sujeito intelectual e esse objeto. Ora. Deste modo. São duas verdades: a objetiva. Nem a verdade material. Não afirmavam os antigos escolásticos. que se construir. Uma casa não é algo que seja da coisa enquanto coisa. mas jamais o afirmava a Escolástica. A verdade considerada in acto exercito. enquanto a coisa é tomada no seu próprio ato de ser. por isso. portanto. nas palavras faladas ou escritas. objetiva-se para algo. são chamadas verdadeiras. A primeira. Conhece o sujeito cognoscente que este objeto é uma casa. em si. Esta verdade é a que buscam as ciências práticas. porque a matéria cuidadosa e exata como esse tema foi estudado pelos antigos. A crítica kantiana. A verdade objetiva é relativa também ao cognoscente. acha-se nas próprias coisas que. a de conhecimento. desde o momento que se torna objeto. então objetiva-se para algo que recebe o objeto. e nos conceitos já construídos. é a verdade formal. ou seja. mas dela enquanto é conhecida como tal. Nunca. em si mesma. e o que ele capta é verificável se corresponde ao que é fundamentalmente na coisa. e que passa a ser sujeito. por exemplo. permite muito poucas contribuições novas. Contudo. que conhece e concebe as coisas. ela é tal como o sujeito a capta. e a subjetiva. a crítica kantiana poderia ter certa procedência em relação ao idealismo e ao racionalismo. pois o objeto sempre é proporcionado ao sujeito. porém. o que écomparado pelo intelecto é a cognição deste sobre o objeto que lhe é proporcionado. e a terceira. e não como a coisa o é no mundo exterior. a da coisa. está nos termos orais. O juízo. que o conhecimento objetivo nos desse a realidade da coisa como ela o é em si mesma. A verdade considerada in actu signato. nem a verdade formal são absolutamente . e nos limites em que é captável por nós. na proporção que o conhecimento objectivo se adeqúe à verdade real da coisa. considerada objetivamente o é segundo a projeção da subjetividade. três verdades: a de significação. porque uma coisa. está no entendimento.

porque esta ainda não é no pleno exercício do ser. e apenas pode fazê-Io o nosso conhecimento. mas verdadeira. mas concretamente têm de ser tomadas em sua intercorrelação. que as torna quase material e quase formal. Não nos esqueçamos que há coisas que ainda não são. é o objeto da antologia. a conformidade do entendimento com a coisa. sem necessidade que essa representação seja uma imagem da coisa totalmente expressada como é em si. Em suma. e essa conformidade não é falsa. que é a verdade ontológica. que é a verdade lógica. Assim. pois o único ser que tem é o que é objeto do entendimento. mas na conformidade imediata entre a representação da imagem e a própria coisa representada. é da nossa intenção significativa com a coisa significada. enquanto representante. E é nessa conformidade que consiste a verdade tomada in stricto sensu. Como essas três verdades guardam conveniência entre si. o conhecimento. . A verdade nos termos cabe à dialética. que se exige. o que se exige é que a representação intencional. portanto. ou da coisa com o entendimento. a da coisa com o entendimento. que formamos da coisa. como ela existe em si.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 137 ou material ou formal enquanto a nós. pois não alcançamos nem uma nem outra em sua absolutuidade. não se afirma verdadeiro porque atenda à conformidade do juízo com o objeto. a proposição é verdadeira ou falsa. mas à verdade ou conformidade do juízo com o objeto. porque essa verdade vai nos dar o logos do on/os. é a conformidade intencional com o objeto. mas numa mescla. Daí dizerem os antigos. e a verdade do ser cabe ao ontológico. como conhecimento ou juízo do entendimento. e a segunda. enquanto significada consigo mesma. note-se bem: essa adequação é sempre intencional. que a conformidade seja com a coisa em si. que a verdade real consiste em uma certa adequação. como cognitum nosso. A coisa representada inclui o que ela é em si confusamente. e a conformidade. Pelo fato da coisa ser. Neste caso. esta representação conforma-se com o objeto. o que representamos de uma coisa pode estar conforme à imagem. intencional. é essa apenas: que a sua representação se refira ao que ela é. e que em tal conformidade não se dê falsidade. A verdade não consiste na conformidade da coisa. e podemos representá-Ias. conformidade que pode ser ou do entendimento com a coisa. ou não ser. pois a visão beatifica da coisa em si não nos pertence. com propriedade. as quais constituem: a primeira. O que se exige. A adequação é. conforme-se com o que ela é. mas na imediata conformidade da palavra significativa com a coisa significada. a verdade do conhecimento cabe à Psicologia. ou conformidade entre a coisa e o entendimento. portanto. Mas. elas podem ser tomadas abstratamente em separado. pois. não com a coisa em si. São possíveis. Não se exige. tenha conformidade com a coisa conhecida e represen tada.

no De Vera Religione. ora real. nem como qualidade. como sabemos. a qualidade e a quantidade são acidentes absolutos. sem relação real. um. Resta saber se essa relação é real ou de mera razão. que surge da relação de dois termos. tampouco. uma semelhança. neste caso. Agostinho. só pode ser relação. Aqui estamos em matéria controversa na filosofia positiva. basta apenas concomitância do objeto.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 138 O conhecimento. e outro. é uma conveniência. pois do que a coisa é em si mesma. esse conhecimento é verdadeiro". uma verdade material ou ôntica. que não é um acidente absoluto. Ora. é uma imagem intencional de seu objeto. e a coisa. mas o que nos interessa é que seja conforme ela é testemunhada para n6s. Se a verdade lógica é. quando se trata do não-ser enquanto não-ser. o cógnito. Também o conhecimento não é substância. se ele é totaliter. Não se trata. é mister que o objeto se comporte de igual maneira como é representado. Portanto. portanto. se ao cognoscente. uma mera relação de razão. uma verdade lógica. Não é. No juízo: "A quimera é um ente ficcional" nele se dá verdade real. Diz Sto. se ele é exaustivo. é ela uma relação. que se comporta como é representado pelo conhecimento. como realmente é. ela seria. é uma relação real e também de razão. entende que a verdade é aquilo que manifesta o que é. A conformidade entre o entendimento representante e o não-ser é de razão. segundo a forma. ora de razão. verdade meontológica. como representante por representar a coisa. mas com um scibilis. enfim. Toda ciência tem seu scibilis. e ainda pode ser uma verdade eidética nos diversos graus de eideticidade. uma proporção. uma verdade real. o cognoscível O conhecimento não pode ser classificado nas categorias aristotélicas. porque alguns afirmam a relação real. quando se trata do ser enquanto ser. Segundo a "Filosofia Concreta". cap. a coisa representada é a perfeita adequação da sua representação. Nem. que inclui a concomitância de um objeto. Por isso. Ora. na adequação da sua representação. como objeto representado. enquanto representativo. a coisa representada é a perfeita adequação da coisa enquanto a coisa nos é conhecida. apenas conformidade. a verdade pode ser uma verdade matética como as verdades dos logoi arkhai uma verdade ontológica. o que nos interessa é saber o seguinte: se a verdade é o que manifesta o que é. tantas divisões objetivas e subjetivas. segundo a matéria. se é totalmente o que a coisa é. Não basta apenas a representação. o conhecimento. e outros apenas a de mera razão. A verdade lógica implica uma representação cognoscitiva. testemunhada por si mesma. porém. 36: "quem tem por evidente que a falsidade é aquilo em virtude do qual se estima que é o que não é. nem como quantidade. A verdade poderá tomar tantos nomes quantas as . se perguntássemos se ele esgota. pois é mister que se inclua também a referida representação.

que mostram o . quando dizemos: "o homem é branco". nem no entendimento que conhece a essência". já que esta é às vezes material. A conjunção seria impossivel. a verdade intelectual pertence àquilo que o entendimento diz. isto é. Nestes não há verdade nem falsidade.. Por isso Tomás de Aquino. como é a da ciência. Assim. porque podemos tê-la sem a necessidade dessa presença. Estas palavras de Tomás de Aquino na Summa contra Gentiles. pois. porque são dois juízos distintos. Um conceito que formássemos de quadrado-redondo. e não nas incomplexas. assim como o entendimento o diz. mas em relação a si mesmo é verdadeiro ouropel. podemos encontrar verdade ou falsidade. na realidade. e no primeiro.. não porém. e é conhecida de maneira formal. ou simples. 59 – 1º. nem o conceito simples. O que se exige é que aquilo que o entendimento ao entender diz e conhece seja adequado à coisa. num de seus postulados. o objeto enquanto dominado por ela. embora tenha a atuação da mente. por haver incompatibilidade formal na conjunção. a verdade encontra-se no entendimento que compõe e divide. Enquanto o intelecto diz que é o que é. seria fácil saber que é falso. é falso ouro. A verdade radical dá-se quando há essa conformidade no objeto material. distinguir qundo se diz "o homem é branco". tem fundamento na coisa atualmente existente. diz: "propriamente falando. A verdade lógica e a verdade formal só se dão na composição mental. neste. no sentido. e que não é o que não é. em relação ao ouro. e "é verdade que o homem é branco". pois para a verdade do entendimento não se requer que a própria intenção se adeqúe totalrmente à coisa. Estudemos algumas dessas verdades que são usadas comumente na Filosofia. No primeiro: "o homem é branco" não se conhece formalmente a verdade. A verdade formal é a atual conformidade intencional entre o intelecto e o seu objeto. já que a verdade do entendimento é uma adequação entre o entendimento e a coisa. que seja. não podemos dizer se são verdadeiras ou não as palavras incomplexas. mas a verdade radical exige a presença atual do objeto. É mister. não é mister a existência atual do objeto. Assim um conceito pode ser verdadeiro ou falso segundo uma coisa e segundo outra. Só nas palavras complexas.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 139 relações de adequação. já que. a composição é apenas direta. Na verdade formal. Assim o ouropel. revelam bem que a adequação é intencional. O segundo juízo "é verdade que o homem é branco" realiza uma composição reflexa. A verdade radical. e a intelecção é imaterial. e não tem o mesmo objeto que o segundo. porque só aquelas compõem ou dividem. cap. nem está ela naquele juízo de maneira objetiva. e não à operação com o que diz. Nós aqui sublinhamos ao repetir algumas palavras. Só pode haver uma verdade e uma falsidade numa relação. a verdade é dada objetivamente.

a coisa é às vezes material e a intelecção é imaterial. Pois bem. quer só de razão. Assim. como fazem Deus e os Anjos.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 140 pensamento do aquinatense. o que o entendimento diz da coisa seja realmente o que o entendimento pode dizer da coisa". no mesmo ato exercido (in actu exercito). então. mas porque julga que se comporta como uma forma apreendida pelo entendimento e. nem esgota de maneira clara e distinta a coisa concebida. Neste sentido. referindo-se às palavras. quer dizer que isso é certo. e. em Disputationes Metaphysicae. que o conceito de branco contém. quer com distinção real. conseqüentemente. que este pensamento de Tomás de Aquino. mas mediante uma voz significativa e enquanto significativa. exposto em Summa contra Gentiles. quer dizer. não o fazemos exteriormente. o que faz compondo ou dividindo. julgue que a coisa se comporta como uma forma que se encontra no intelecto formalmente ou por inhesão. diga e conheça que é adequado à coisa. enquanto são para nós representações naturais das coisas. para conhecê-Ia distinta e adequadamente. que a coisa se comporta . . de certo modo. Do que a coisa petmite que o entendimento capte. secção 3". comparamos in actu exercito. mediante só conceitos simples. adeqúase perfeitamente à concepção suareziana. ao entender. julga in actu exercito (no mesmo ato exercido) . em conformidade com ele. não concebe adequadamente. sendo-nos impossível levar as coisas às escolas. por exemplo. de alguma maneira. . mas o que se exige é que o entendimento. que seja. na realidade. pois afirmar que o branco está no homem. afirma in actu exercito (no mesmo ato exercido) a verdade. e por isso. ao compor. lhe atribuir vários predicados que se distinguem. mas ao mesmo tempo conhece. utilizamos termos em lugar de coisas. ou com ela mesma concebida de maneira distinta. quando afirmamos uma coisa de outra. quando o entendimento diz. quando julga que a coisa se comporta de igual maneira que a forma por ele apreendida da coisa. Por isso.. 18 -: ". se bem nossa intenção principal é afirmar uma coisa de outra. Daqui resulta que quando compomos uma coisa concebida com outra. conhece. conseqüentemente. não fazemos isso senão mediante concejitos. disse Tomás de Aquino que o entendimento conhece a conformidade que há entre ele e a coisa inteligivel. vê-se. Observemos esta passagem de Suarez. segundo expressou Aristóteles. de tal modo que quando afirmamos mentalmente uma coisa de outra. ao mesmo tempo que comparamos a mesma coisa. não porque o entendimento. em oposição ao que muitos discípulos do aquinatense alegam. assim como o entendimento diz. uma vez que concebeu de certa maneira confusa inadequada. e que muitos discípulos não compreenderam: ". pois que à verdade do entendimento não se requer que a própria intelecção se adeqúe à coisa esta. nosso conceito enquanto representativo dessa coisa. está. compondo que "o homem é branco".nosso entendimento. quando a mente afirma que o homem é branco. o homem que o representa.. a identidade ou união que há entre branco e homem. é afirmar que o conceito de branco tem alguma conformidade verdadeira com homem. Disputa VIII. isto é. formal e diretamente.

estamos ante uma proposição. Neste caso. Os logisticos. a conformidade. Dai que tanto a composição como a simples apreensão das coisas são. cujo valor de falsidade ou de verdade permaneceria em suspenso. tal juízo seria ainda incompleto. porque se diz que a verdade existe de maneira especial em nosso entendimento cognoscente. Ora. é verdadeiro ou falso. a verdade encontra-se nela da maneira especial que fica indicada". compondo ou dividindo. Aquela proposição formulada não se tornou nem verdadeira nem falsa. neste caso. pois. como ser. mediante a composição. pois se diz verdade ou se diz falsidade. mediante composição e divisão. Portanto. tornando-a tema confuso. não poupando com doestos os adversários de cujas idéias discordam. perfeitamente. não obstante. e quando representativo.: "A Terra é um planeta" é um juizo. porque a mente. separando. em "amanhã choverá" não se dá essa atualidade. quando se diz: "amanhã choverá". nada entenderam da teoria do juizo. temos proposiçóes e não juizos. o qual tão pouco afirma ou pensa propriamente a verdade da coisa que faz. está perguntando. compreende-se. Assim. mediante os conceitos simples. já que. Como proposição. constitui certa unidade com a coisa representada. Quando se diz: "é a caridade uma virtude" é um juízo. porque o predicado é afirmado como um possivel no tempo. é contingente. na Lógica. ou imparidade dos astros. faz-se uma comparação. Assim. Pois o entendimento. poderia não dar-se. se se disser: o número dos astros é par ou impar. e só tumultuaram. Assim. seria um juizo. Do contrário é uma mera proposição. Quando se diz: "serão os habitantes do planeta X brancos ou pretos" é uma proposição. .Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 141 como forma ou conceito formal. mas haveria juizo se a mente afirmasse: "o número é par. não está afirmando nem negando. comparada a composição com a simples apreensão. por ex. podemos partir do seguinte: só há juizo quando o que a mente diz. que não compreenderam esta diferença. onde muitos autores deram rédeas soltas à sua imaginação. porque o entendimento não compara a coisa representada senão enquanto concebida por ele. ao propô-Ia. é alguma coisa que virá a dar-se. poderá ser comprovada a paridade. pela impossibilidade atual e imediata de verificar se a mente diz verdade ou falsidade. em absoluto. matéria onde pairava clareza e precisão. conhecimentos diretos. não está julgando ainda. desse modo. não conhece em absoluto. Ora. porque a verdade e a falsidade se exige que se dê na atualidade do juizo. quando compõe os conceitos simples. O que pode dar-se é uma comprovação ou não do que foi dito na proposição. porque a mente nada diz de verdadeiro ou falso. em certo modo resulta ser com respeito a ela a voz reflexiva em exercício. mas que.

em tomo de tais proposições. O que se exige nesta adequação da nossa verdade é que o que nossos esquemas dizem se adeque àquilo que podemos captar esquematicamente da coisa. de certo modo. se adeqúa esquemàticamente aos nossos esquemas. tais confusões. é uma adequação do entendimento com a coisa (verdade lógica) e da coisa com o entendimento (verdade ontológica). O conhecimento humano é verdadeiro dentro da proporção que o homem conhece. na qual os autores divergem uns dos outros. Toda a análise dos antigos filósofos. que construímos ou adaptamos. Algo muito distinto sucede com a Logística. é semelhante. Em suma: a verdade. que é a nossa. adeqúa-se ao nosso esquema de ser vivo? Se afirmativamente assim se dá. se adequa à coisa. o esquema noético-eidético. Não temos um conhecimento totaliter das coisas. levou-os a saudá-Ias como algo que havia escapado à argúcia de Aristóteles. mas em matéria fundamental e principal. Este não fêz. no julgamento. própria dos seres chamados vivos. um conhecimento totalmente exaustivo delas. O que entendemos por vida? Entendemos o princípio ativo que cria. totalmente falso. e esta se processa por meio da acomodação dos nossos esquemas. Os nossos meios cognoscitivos são proporcionados à nossa adequação psíquica. que se considera uma superação daquela. pois notamos que tais autores estão freqüentemente modificando as suas afirmativas por outras que contradizem totalmente as anteriores. dos nossos instrumentos cognoscitivos. que construímos esquemàticamente neste ser.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 142 A confusão. por isso. O erro foi acusar ao homem. e da assimilação do que há nas coisas que. Este conjunto. mas esta como objeto de nosso conhecimento. o que não quer dizer que conheçamos a vida como ela é em si mesma. um ser vivo. Não há propriamente divergências. Se temos uma célula. mas sabemos que este ser é vivo. neste ponto. Portanto. em face de não conhecer totaliter (por não conhecer exaustivamente todas as coisas) que o seu conhecimento fosse. Émister lembrar-se que a Lógica Formal recebeu contribuições extraordinárias no decorrer dos séculos e dos milênios. o que o entendimento conhece não pode ser afirmado como verdadeiro ou falso. de onde principia todas aquelas fusões e propriedades do que chamamos vida. temos uma vida. não em matéria secundária. enquanto o entendimento não julga. que funda. Esta coisa diz o logos do seu ontos. por isso é uma verdade ontológica. e até quanto a si mesmos. nem poderia fazer. Nosso entendimento diz que o logos que possuímos. não à coisa em si. porque só conhecemos as coisas na proporção de nossos meios. As . podemos não saber exaustivamente o que é a vida. A verdade cognoscitiva só pode existir no juízo. que os logísticos tratam como juízos.

É o que se dá com a montanha-de-ouro. tem uma estrutura eidética. não é apenas um protocolo das coisas. aquelas que não estão marcadas pela nossa intencionalidade. dizemos dentro das nossas possibilidades de afirmação. Porque o homem não se satisfaz. mas aquilo que dizemos. pois um artefato sabemos como ele é em si mesmo. aquela que é chamada verdade radical. temos dificuldades de chegar a esta verdade. conhecemos aquilo que deu ser à coisa. as coisas da natureza. Considera a . nem o que é totaliter a vida. enquanto vaso. Não há necessidade de sabermos como é em si mesma a vida para sabermos que um ser é vivo. que é a da coisa em si mesma. porque o nosso conhecimento das coisas está condicionado ao conhecimento de todas as coisas que operam para que a coisa surja. CAPÍTULO XXIII DA VERDADE PARA O COGNOSCENTE A mente apreende algumas coisas sem julgá-Ias. naturalmente. e esta verdade é o anseio de toda ciência humana. que podemos perfeitamente delinear como delineam aqueles que o constroem. de forma que o conhecimento pelas causas é a verdadeira ciência. que há esta possibilidade de ter um fundamento real nas coisas. portanto. Sabemos que é um ser vivo. e. conseqüentemente. e não poderia ser doutro modo. também. Não é apenas uma classificação. mas aquilo que dizemos da coisa. dizemos intencionalmente. enquanto não alcançar todas as causas das coisas. aquelas que escapam à nossa criação. na qual se apreende a significação de algumas palavras. sem se afirmar a sua realidade.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 143 divergências consistem em saber apenas se aquilo que dizemos da coisa pode corresponder ao que na coisa é realmente em si mesma. não é apenas a ordenação das coisas segundo determinados esquemas. sem que essa adequação seja uma cópia fiel do que é na coisa. a pouco e pouco. na sua parte hilética e eidética. as notas que podemos captar da mesma matéria que encerraria muitos problemas. é o conhecimento realmente das coisas pelas causas. Podemos dizer que sim. isto é. conhecendo as causas. ampliando. Mas acontece que se nós quisermos alcançar as coisas como elas são em si mesmas. aquilo que a coisa é. porque só conhecendo-as é que vamos. É nesse sentido que se concebe a verdade como ela é estudada na Filosofia positiva. corresponde ao que realmente é na coisa. Sabemos que um vaso. Porque. embora não o conheçamos totali/er. aumentando o âmbito de adequação de nossa mente com a coisa e. e como também aceita a Filosofia Concreta. então. O grande desejo de todo ser humano é alcançar a verdade material. Naturalmente que esse "em si mesmo" da coisa é muito relativo.

aquela. o posterior necessário. ao dizer que tudo que está logicamente bem constituído. a sua verdade material. mas. então. e se se juntasse teríamos. é preciso outro caminho. "Deus existe" é uma verdade' lógica in actu signato. Se é verdadeiro o juízo anterior. de modo que o que dele se deduz o que nele está incluído. no significado de Deus e no significado de existir. Mas para afirmar que é verdadeiro in actu exercito. atual ou potencialmente. O resto é confusão. Mas aí não se diz que "Deus existe" in actu exercito. em suas significações. Não há dúvida de que existe uma certa base na argumentação em favor desta doutrina. perfeitissimamente constituído. montanha-de-ouro. também. Como o predicado não pode ter mais realidade que o sujeito. como fazem alguns autores modernos sobre esta matéria. como nos juizos analíticos.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 144 mente o que se realizaria se se juntasse. de maneira que estes outros juízos lógicos seriam verdadeiros in actu exercito. dependendo das condições que apresente. se lhe faltasse a perfeição de seu existir. Só se pode concluir a existência nos juízos lógicos deduzidos rigorosamente de juízos de existência já comprovados. que não o puramente lógico. deve corresponder a alguma realidade. e este podemos deduzir logicamente daquele. e estabelecer se o predicado é subordinante ou subordinado ao sujeito. De maneira que a verdade lógica não deve ser confundida com a verdade material. na realidade. isto é. Os graves erros cometidos pelos racionalistas e idealistas consistiram em julgarem que as verdades in actu signato eram sempre válidas in actu exercito. O anterior tem de ser anterior ao posterior em algum logos. então. em alguma razão. já comprovadas a sua verdade radical. será. etc. como signo e designo. isto é. ainda. Assim. comprova-se como uma verdade. também se pode verificar se o predicado decorre da própria idéia. a composição "Deus existe" é lôgicamente válida. a sua verdade fundamental. enquanto a mente não julgou se corresponde tal juizo à realidade. como se disséssemos: há em tal via um termo anterior a outro. na realidade. Se o anterior é verdadeiro. se pertinente ou não. o que tais palavras significam. que é lôgicamente verdadeiro. por exemplo. necessáriamente. no exercício do seu ato. ao prestar-se atenção sobre a união entre o predicado e o sujeito. se acidental ou substancial ao sujeito. A mente pode estabelecer uma verdade ou falsidade in actu signato. que não as meramente lógicas. na realidade. porque não é aceitável o conceito de Deus. como Scot. Deus. E mister haver um iogos que analogue esta posterioridade e esta anterioridade. como no juizo: "Deus existe". também verdadeiro. porque não só Deus teria possibilidade de existir. Esta realidade da existência de Deus já exige outras provas. a mente pode conhecer tal união. tem de existir para ser Deus. ao qual se dá a máxima perfeição. .

mas intrínseca à coisa. apesar disso. As ciências práticas são autênticas. intencionalmente. Se é verdadeiro é ente. Assim. é verdadeira. é verdadeira. elas não deixariam de ser verdadeiras. livro 11. a verdade ontológica. do mesmo modo. por esse juízo. Agostinho. acompanha o ente como atributo total deste. cap. é atributo de Deus a onipotência. não o que parece ser." A verdade está também nas coisas. daí decorre a verdade e a falsidade. que Deus existe." O ente pelo simples fato de ser ente tem aptidão para adequar-se a um conceito verdadeiro sempre que em outro exista a capacidade para entender. que se exige na verdade lógica. ou aquilo que é tal como parece. que se adeqúam à prática. mas é possível entender o ente de tal modo que não se entenda a sua inteligibilidade. aquela que pertence a todo ente. uma denominação extrínseca." Também é o que afirma Aristóteles in Metaflsica. embora o que é representado não seja idêntico ao que a coisa é em sua realidade. mas in actu signato. A verdade transcendental. nem se poderia entender o ente se não fosse ele inteligível. lI. capo 5. há princípios evidentes. é verdadeira a onipotência. O que é atributo de seu ser numa coisa é verdadeiro nela. por exemplo. porque ainda não se prova.: "é verdadeiro o que é. o que a coisa é. tal como é. se é ente. As coisas são verdadeiras em si mesmas. porém não se entende a verdade pelo fato de entender o ente. Essa é a adequação. O ente é inteligível. independentemente do entendimento. O conceito representa. diz Sto. conclusões evidentemente verdadeiras. como anotamos. inde- . Se ninguém conhecesse as coisas. mas apenas enquanto representada. onde esta coisa está ou pode estar representada. enquanto que a ciência prática é medida também pelo seu. porque nelas há verdades.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 145 A ciência especulativa é medida pelo seu objeto. Se a verdade das coisas só houvesse quando ela é apreendida pelo cognoscente. porque embora uma coisa não pareça. Uma coisa não é o que não é. Cada coisa é verdadeira de igual modo que é. nem tenha conformidade com algum conhecimento. E verdadeiro o que é. pois. que se conciliam. é verdadeiro. I: "a verdade. à que tal entidade se adeqúa. ou aquilo que é tal como parece. conformidade intencional. apesar disso. pois na idéia de Deus. Há uma verdade nas coisas que é atributo do seu ser. Encontramos estas palavras que vamos repetir do "Solilóquio". Uma coisa artificial é verdadeira. a verdade não é. e nem tenha conformidade com algum conhecimento. significa a entidade da coisa. porque é verdadeiro. porque está em conformidade com a arte. porque embora uma coisa não pareça. não o que parece ser. assim. o ente entendido é verdadeiro. Todo ente é verdadeiro. nada seria verdadeiro. conotando conhecimento e conceito intelectual. e é o que é.

e dele se distingue de alguma maneira. para o cognoscente. in Metafisica. têm aptidão para aparentar ser o que não são. o que se chama uma verdade lógica incoativa. portanto há uma verdade nas coisas. como a verdade consiste numa conformidade. pois são verdadeiramente ficções. O cognoscente tem das coisas um conhecimento. e há uma verdade para outro. 29. as imagens e os sonhos". A verdade lógica incoativa se dá quando há uma conformidade. ou. não no que eles pretendem apresentar. mas intrínseca. pois as imagens e os sonhos só são falsos na sua relação com a realidade que eles apresentam. portanto. sem sabermos qual ela é. pelo menos. ou ser de distinta classe como são. embora seja muito fácil desviar-se para a falsidade. mas pode ela ser verdadeira para outro. tanto as imagens como os sonhos têm uma intencionalidade. a falsidade não pode estar nas coisas como a verdade. porque. é um atributo que tem reciprocidade com o ente. nós somos verdadeiros para outros. por sua natureza. que é o caso do cognoscente. considerada enquanto em si. Na verdade. porque temos conhecimento de nós mesmos. Elas são verdadeiramente o que elas são. diz: "chamam-se falsas as coisas que.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 146 pendentemente do cognoscente que as conhece. realmente distinta do ente. e somos verdadeiros para nós mesmos. Assim. De maneira que o pensamento de Aristóteles não está errado. Para si mesma se daria quando a coisa tem consciência de si mesma. uma coisa é só verdade. Esta é a razão porque é difícil alcançar a verdade. Aristóteles. Esta afirmativa de Aristóteles merece reparos. quando afirma ou nega. é verdadeira de modo fundamental. não enquanto considerados em si mesmos. as imagens e os sonhos são verdadeiros enquanto ficções. de qualquer maneira. que os torna falsos enquanto reais. mas exige este reparo para evitar confusões. podem não ser verdadeiros quanto à sua representação. A entidade lógica é a entidade vizualizada pelo entendimento em conformidade atual com este. e é precisamente a não adequação da realidade com a intencionalidade. não para si. livro VII. . mas em si mesma. a falsidade vai consistir numa desconformidade. com o cognitum. porque considerados em si mesmos. Temos. embora não o sejam enquanto ficções. porque as coisas em si mesmas não podem ser falsas. por exemplo. pelo menos segundo uma razão. Assim. e é apta de ser inteligida. A verdade transcendental não é uma mera denominação extrínseca. sem que isso negue a verdade da coisa para si mesma. que pode ser verdadeiro. É um atributo do ente que não é uma mera propriedade real. então. em graus maiores ou menores. quando sabemos que há uma conformidade entre a cognição e o objeto. mas dela podemos construir muitas visões falsas. a falsidade somente pode estar no intelecto. uma conotação. A coisa. cap.

quando distinguimos. proporcionados ao cognoscente. é o que vemos. Em torno. uma mudança completa. terá de haver uma mutação qualquer. conseqüentemente. este juízo é verdadeiro. os que desejam que a verdade seja apenas a que as coisas testemunham em si mesmas. As coisas. embora ele não diga tudo de Pedro. banal e costumeira. cépticos. não esgota todas as notas cognosdveis de uma coisa. Não há necessidade de conhecermos. Não se pode. intencionalmente. é mister responder que cabe distinguir se levam sempre ao erro ou se apenas nos levam algumas vezes. por exemplo. do tema da verdade e da falsidade. porque. Mas todas as coisas têm os seus scibiles. Cristo não respondeu a pergunta de Pôncio Pilatos. o que é cognoscível nas coisas. e que é repetida através dos séculos. Portanto. e como ela não é alcançada. embora conveniente. a fim de classificar as diversas espécies de verdade. porque há muitíssimas outras. portanto. Pedro para sabermos que Pedro é homem. em que consiste propriamente ser homem. Porque aqueles que perguntam "que é a verdade?" revelam que dela nada entendem. Pilatos revelava ignorância em torno do tema da verdade. automaticamente. e verdadeiro sob outro. Bste foi um ponto de partida para as distinções. Deste modo um juízo seria verdadeiro sob um aspecto. Ora. são verdadeiras. com o que a coisa apresenta na sua radicalidade. Agora estes modos não esgotam todas as modalidades possíveis. e que são verdadeiros na proporção em que o conteúdo cognoscitivo se adeqúe.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 147 É possível passar de um contraditório para outro contraditório. também não pode ser de outro modo. os quais devem ser considerados. também. etc. negam. o que é lógico. o seu silêncio foi a melhor resposta que podia dar. Poderíamos não saber. onde captamos as verdades sob um aspecto. mateticamente. ante as sentenças que expusemos. ao ser que pode conhecê-Ios. pois já dissemos claramente em que ela consiste. porque a passagem de um contraditório para outro implica. Como dissemos. Assim a quem diz que nossos sentidos nos levam ao erro. Não pode deixar de haver uma verdade em si das coisas. se o que alega o predicado. é permanecer na confusão vulgar. porém. mas o que . é o que tínhamos a dizer por enquanto. em torno dessa matéria não temos reparos a fazer. própria de agnóstic'os. que dentro destes apresentam aspectos distintos. e sem dúvida. ao testemunharem-se como são. as coisas são verdadeiras para outros e são verdadeiras para si mesmas. São os modos delas serem verdadeiras. atual e exaustivamente. Só há falsidade quando o que se diz ou se nega que alguma coisa é ou não é. nas distinções. podendo ser falso sob outro. sem haver alguma mutação. que não era apanágio dele. Se dizemos que "Pedro é homem". Não se pode dizer que um juízo é falso. não corresponde ao que a coisa é ou não é. toda e qualquer validez aos nossos conhecimentos. Um juízo pode ser falso sob um aspecto. para as nossas futuras análises.

e neste caso ela existiria antes de existir. Não vamos. que nos dão um determinado conhecimento. e por cuja necessidade temos um meio de poder compreender as coisas contingentes. sem que seja ela motivo de confusões. e não vamos fazer confusão entre ambos. usar esta expressão sem equivocidade. daqui por diante. Na Filosofia. e poder classificá-Ios. ou para os que nos lerem. não poderia aumentar de poder. seria ab aetemo. seguindo as regras da dialética. não tem fundamento. Mas que verdade? Que desconhecemos a verdade em si das coisas naturais é indubitável. ou é feito de uma causa anterior. não há mais lugar para o agnosticismo. ao que estas chamam Deus. que há maior semelhança entre o cavalo e aquela zebra. e em nossa obra já citada. o que é outro absurdo. inevitàvel e . ou surgiu do nada. e corresponde ao que radicalmente está em Pedro. então. toda e qualquer verdade. por exemplo. corresponde. sem menosprezo. um poder que transmitiria de uns aos outros sucessivos. porque temos suficientes scibiles. podemos. o ente a se é apenas o Ser Supremo. mas que desconheçamos. o que também é absurdo. em João e Carlos. errar ao classificar Pedro de homem. terá. este acréscimo viria do nada. e o conteúdo que damos a esse conceito. por diversos caminhos. como já a demonstramos nos capítulos anteriores. podemos considerar cinco as melhores. podemos encontrar muito maior semelhança do que. entretanto. das outras. porque. porque já as estudamos na "Filosofia Concreta". então. a realidade deste ser pela necessidade que há dele. as coisas que pertencem ao contexto beta. Vamos sintetizá-Ias. Apenas faremos uma síntese para melhor facilitar a compreensão do ser a se. O ente a semetipso et ab aetemo. Primeira prova: Se partirmos da admissão da série infinita de seres finitos. o asno e o cavalo. nas religiões. que a realizou de um ser a se. portanto. de maneira alguma. portanto. essa série ou surgiu de si mesma. dentro desta concepção de verdade. e único. como propõem alguns.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 148 conhecemos sobre o homem é suficiente para distingui-Io de outros. Notamos. teria terminado seu poder. para os que nos ouvem. Segunda prova: Se nunca teve começo. quando precisivamente bem constituído. pois já não seria coisa alguma. muito embora não captemos totalmente o que neles está. entre uma árvore e uma pedra. total e absolutamente. e posteriormente. e infinitamente não poderia diminuir de poder. o que é absurdo. Na "Filosofia Concreta" provamos. que fundamenta o chamado contexto alfa. e os classificamos dentro do conceito de homem. haveria. Ora. de seres ab alio. porque este apenas quer dizer que desconhecemos a verdade. Das provas da existência deste ser a se. Encontramos muito maior semelhança entre Pedro. capaz de permitir distinguir os dois. que é um. Colocando o tema da verdade nestes termos. e aquele cavalo de cavalo. do contexto alfa. João e Carlos.

que é o seu logos. apenas ele mesmo. como o contexto delta. Se nenhum membro da série tem algo. partindo do ser ab alio. a sua razão intrínseca de ser.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 149 necessàriamente. também está fundada a validez dos outros dois. em face das provas por nós apresentadas em "O Homem perante o Infinito" e em "Filosofia Concreta". dos seres ab alio. haveria entes ficcionais. sem mescla de outro que não ele. porque um ser limitado opera por sua forma. Quarta prova: Uma série de causas acidentais não pode ser causa de si mesma em conjunto. que é ser. seria. é constituído de negatividades impossíveis de serem reais. não seria nada relativo. a necessidade do ser a se é evidente. não a tendo por si mesma. de partir de um ser que é o contrário de ab alio. porque fundada a validez destes dois contextos. Mesmo que tudo fosse uma ficção nossa. do contrário. porque não existe toda de uma vez. são válidas também. tendo como termo os entes ab alio. mas absoluto. absolutamente simples. isto é. os quatro contextos são corroborantes uns dos outros. seria apenas ser. com toda a sua conceituação de subordinantes e subordinados. que é o do nada relativo. Esta é uma totalidade. A presença e realidade do ente ab alio é de nossa experiência. O contexto gama. que comprovam que o contexto alfa. Podemos partir de sua afirmação. de ser sempre idêntico a si mesmo em poder. que possamos deduzir do nada relativo. e este também é o Deus das religiões. é nada de alguma positividade. é de uma essência infinita e o ser a se terá de ser de essência infinita. de serem positivas. e sua existência não pode padecer dúvida. um ser a se. Este teria os mesmos atributos que as religiões superiores dão ao seu Deus. e também porque suas partes são finitas e não infinitas. portanto. nenhuma seria a primeira. ou seja. sendo impossível a série infinita. que proviriam de outros. O contexto beta. já que todas recebem o ser de outra. enquanto que o contexto delta. mas a sua unidade é acidental. Se esse princípio move em tempo infinito. como também o tem o contexto beta. porque. só pode fazer por um poder infinito. Este é o ser a se. e o poder que está na virtude de atuar designa o princípio da ação. teríamos. A existência do ser a se é matêticamente indubitável. o que é importantíssimo. Esse poder. necessariamente. e rejeita a validez de positividade ao contexto . ou é parte de sua razão intrínseca de ser. tem um fundamento real e indubitável. embora seja uma unidade de ordem. Ademais não se admite a propositura de qualquer dúvida sobre este tema. necessàriamente. ao nada absoluto. O contexto de todos os atributos e de todas as leis e sentenças. Neste caso. de ser infinitamente ele mesmo. Quinta prova: Numa série de causas eficientes. que se refere ao nihilum. exige o contexto alfa. não pode tê-Io a série. e é também o Deus de que falam as religiões superiores. Eles se dão. pois. Terceira prova: O poder de infinitamente atuar não pode estar num ser limitado. Portanto. Desse modo. e outras obras. e como este tem uma referência positiva.

Nele não há a menor privação. portanto. o ser ab alio. do contrário. o nada relativo entra. Assim. os seres. positiva e negativamente. de maneira que o contexto ab alio comprova. CAPÍTULO XXIV DA CRIAÇÃO DO SER AB ALIO Demonstramos que. mas afirma. e este afastamento é sempre proporcionado ao que precisamente esses seres são. Diz Tomás de Aquino. e afasta-se deste na proporção que é ser. Ora. de todo não ser. ao se darem. que Tomás de Aquino perfeitamente compreendia a necessidade da privação para dar uma conceituação mais precisiva aos entes que constituem o contexto beta. também. Assim podemos conceber que o Ser Supremo dá à vontade um concurso fisicamente determinativo e produtivo. pode ser definido. Dando-se estes ou não. é impossível um ser ab alio. O ser ab aliol é. carece ele. de qualquer maneira. hieràrquicamente revelam maior ou menor perfeição de ser. um ser composto de ser e de nada relativo. Então podemos dizer que todo ser finito é ser na proporção que se afasta do não-ser. ele carece totalmente de todo não-ser. a validez do contexto delta. portanto. pelo que não é. na Summa contra Gentiles: "porque Deus possui todo o ser. não seria nenhuma ausência. ou que não tem. Ele. mas apenas eficaz. o contexto do nada relativo. pelo ser que tem. porque nós vemos aqui: "Deus possui todo ser. está automàtica e imediatamente afirmando a privação. não seriam. . nem um ato pode dar-se sem o concurso daquele. esta expressão é de uma riqueza extraordinária. também. que a tornam apta a escolher entre possíveis. nem especificamente os atos livres. negativamente. assim. Ora. se não fosse positivo. e teremos não só de definí-Io positivamente pelo que apresenta. porque uma coisa se afasta do não ser na medida em que é". que é correspondente ao contexto delta. A presença da realidade do que constitui o contexto beta recusa. Sua definição seria apenas positiva. que constituem o contexto beta. tal ou qual ato. também. e este. a validez do contexto delta. se esta pedra é atuada por alguém ou não. por ser um ser deficiente. precisamente. totalmente. não se subtraem ao poder do Ser Supremo. porque. sem que tal escolha signifique qualquer negação do concurso. qualquer positividade ao nihilum. mas negativamente pelo que dele se ausenta. pois esta escolha se dá no âmbito e sob a eficacidade e a eficienticidade daquele poder. Vê-se. estão de acordo com as leis naturais. sem o concurso do Ser Supremo. porque estes vêm do Ser Supremo. porque. positivamente. são seres que se afastam mais ou menos do não ser.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 150 gama. Uma coisa se afasta do não ser na medida em que é. na sua concepção. portanto. Este concurso não obsta à vontade o seu poder de atuar ou não atuar. um ou outro.

A criação. necessàriamente. entre os bens próximos.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 151 Há a presença suposital do Ser Supremo em todas as coisas. porque. O homem. também. quando é produto do ato inibitório. como a entendem os cristãos. não é possível que ela não se mova. na Disputa 22. secção 2º nº 41. mas. Nenhuma coisa ab alio pode ser causa da existência de si mesma. porque é um conhecimento na eternidade. não exige a presença de alguma potencialidade subjetiva. salvo o não fazer. não há dúvida. como expõe nas Disputationes Metaphysicae. A criação faz-se do nada da criatura. o seu livre arbítrio. de uma . dando-lhe o entendimento. não este ou aquele bem. a criação não implica intrínseca contradição. ele é o sustentáculo final de tudo quanto há. e não termo quod. que é importante para a Matese. Também não admite que basta apenas a potência obediencial. de qualquer forma. porque nos interessa penetrar agora na parte da criação. A criação simpliciter absoluta é ação que se realiza sem concurso de um sujeito. termo a quo. precisamente. e em segundo lugar. por enquanto. para que lhes dê a razão de ser.A ação do Ser Supremo é apenas permissível de que a causa atue entre extremos opostos. e essa potência já incluia uma grande potência prévia. nem plenamente em outros seres ab alio. permite-lhe que escolha. E sobre a liberdade humana. . apta a ser induzida ou eduzida. mediante alguma potência. As causas generáveis implicam. necessàriamente. ao tratar-se de ato humano livre. a produção da entidade total. porque os seres ab alio incluem. que seja possível. contraditória. a vontade humana. tem o sustentáculo no ser a se. em primeiro lugar. A determinação do ato é apanágio da vontade livre. em sua conceituação. é mister que não seja ela. O possível. Se Deus move a vontade. que é a potência que há in subjecto. Para que a criação seja possível. porque o ter sido feita do nada significa. Suarez diz que Deus não conhece no tempo. A criação implica e exige. O ser a se pode fazer o que não implique intrínseca contradição. é que o homem revela a sua liberdade. necessàriamente. ponto de partida. porque Deus quer que queira o bem. ou que ele julgue convir-lhe. Na escolha dos bens. feito de nada. O Ser Supremo dá ao homem esta capacidade de querer. A vontade criada. a presença de um ser a se. é o que vamos tratar em relação ao Ser Supremo. quer o bem. Esse conhecimento não exige uma predeterminação física da causa. apenas pré-ciência eterna de tudo quanto sucede no tempo. é o que não é contraditório. nem em si mesmos. aquele que melhor lhe convém. não especificamente este ou aquele bem. tomado positivamente. aqui. uma causa ingenerável (agénethos). o que pode ser ou fazer-se. já que eles não a têm. em último caso. Ela não é contraditória. pois o ser ab alio. sempre quer. Ora. tomado negativamente.

já estava contido o que consideramos como Meon. Porque uma coisa é possível apenas pela potência ativa. o que antes era possível pela simples potência superior e mais eficaz do agente. A criação ativa está no criador. Suarez. por não haver nenhuma razão para que nele possa haver tal limitação. Então o ser a se é a causa eficiente da criação. pergunta: "De igual maneira que produzem em ato algo. a edução pressupõe sempre um novo ser. é independente de toda causa. de nenhum sujeito anterior. o que antes era possível pela potência ativa e a passiva. ao inverso da edução. A primeira cria da potência objetiva. portanto. para operar. mas aquela potência. nem tampouco o seu poder. ambas simultâneas. e não apenas pela potência passiva. porém. A criação não é a mutação de alguma coisa pré-existente. a passiva é que está na criatura. é apenas uma potência objetiva. O Ser Supremo. portanto. na Disputa 20. e o criar. realiza a criação como modo da criatura. Ela. a criação parte do nada da criatura. pelo qual se origina. não há razão para estar limitada. a função criadora da edutora. no seu pensamento. A potência do Ser Supremo é superior à de qualquer outro ser criado. nem algo que se põe numa coisa já pré-existente. enquanto que a edução dá ser à potência subjetiva. isto é. O poder ativo determinado a operar num sujeito encontra-se muito limitado. nas Disputationes Metaphysicae. como operação ad extra. que recebe a nova forma. não é uma edução. que se torna outra. e em seu existir. dependente em seu ser. não está cingida a essa necessidade. consideradas simultâneamente. A causa eficiente é o princípio essencial extrínseco. realizase do nada. algo que seja possível pela simples potência superior e eficaz do agente?" Esta pergunta de Suarez é importantíssima e revela que. e é simultâneamente criada pelo ato criador. porque criação é dar ser à criatura e a criatura é resultado da criação. não é algo que se tira de alguma coisa. como seria o do ser a se. da causa material. Deve-se distinguir. Portanto.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 152 potência subjetiva. é o Meon objetivo. já que o poder de operar é proporcionado à essência. de nenhuma potência subjetiva anterior. portanto. . uma principiando quando a outra também principia. primacialmente. A indução e a edução da forma são opostos à criação. nº 10. pois de igual maneira que produz em ato algo. a qual é modo desta. sobre a qual ele induz a forma. Este necessita um sujeito para operar. Portanto. e a edução parte de algo subjetivamente existente. secção 1. uma ação ou uma mutação. quer dizer. Ele é ao mesmo tempo criador da potência. do próprio ato de um agente infinito. em ato. Enfim. porque esta. do Ser Supremo. e como a essência de tal ente é ato puro. também. a ação flui do operar. não se lhe deve atribuir o primeiro eidos ao Ser Supremo. porque não há de poder fazer-se. do criador. inclusive.

A criatura é dependente por dependência. necessàriamente. modal do predicamento da qualidade. na qual se dá uma forma. nesta. Não há uma razão intrínseca por parte da criatura. O conceito de eternidade pertence ao contexto alta. Ao contrário. Esse de o nada. Na criação. porque a eternidade não é da estrutura ontológica da criação. necessidade simpliciter de existir. no seu devir. no conceito de eternidade. Uma sucessão interna também é contraditória. exclui-se o de criação. antes de tal. pois. já que é feita toda no mesmo instante. que é o ser ab alio. na sua duração sucessiva. dela se exclui. de uma subjetividade. pois. Nenhuma criatura tem o ser por si mesma. nada. de uma vida interminável. exige uma conservação no ser in fieri. nem tem. também. Ora. porque então haveria sucessão. considerando este conceito no seu sentido de posse total. mas uma coisa eterna é uma coisa não criada. que é o Meon. a possibilidade da criação ab aeterno não se justifica por uma razão muito simples: porque dentro . tem de proceder do não ser absoluto e completo da coisa criada. e modal do predicamento da substância. o que não possui necessidade não é capaz de ser demonstrado como tal. à razão ou ao logos da criatura pertence o não ser eterno. A criação não pode ser eterna. não é contraditória a estrutura eidética de criação. A criação só pode ser entendida como algo que sucede. Ao contexto beta não se pode predicar a eternidade. Esse de o não indica a sucessão de alguma coisa após outra. A eternidade é entendida como indivisível e só pode ser tal. Portanto. nem extrínseca por parte do criador. simultânea e perfeita. o que determina e o que é determinado. à criação pertence o logos do ser não-eterno. porque. à potência do criador corresponde o não ser absoluto e completo da criatura. uma informação. significa. uma emanação instantânea em sua totalidade. nenhuma causa intrínseca do seu existir eterno. Há. pode ser classificada no predicamento aristotélico de ação. cuja informação seria a criação. Portanto. portanto. A criação.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 153 A criação é modo substancial quanto à criatura. portanto. Portanto. não possui. não o ato de criar. e pode coexistir com aquela. mas um modo acidental quanto ao criador. portanto. Portanto. Repugna à criação ser intrinsecamente eterna. Essa não é. se criam a forma e a matéria. logo no início do tempo. carência de causa material. só ao contexto alta. que é simultâneo. A coisa criada tem de ser. logo. e esta natureza é uma modal da mesma. segundo a famosa definição de Boécio. simultâneamente. quanto ao agente. pois. e desde então ela é sucessiva. Não se pode dizer que. e sendo a criação uma sucessão. não há uma emanação contínua. quanto à criatura. a criação é eterna. quando se diz que a criação se faz do nada.

predicar a eternidade. Disputa 5. mas Suarez admite que poderia tal coisa. porque. nº 14. existindo sempre". não haveria contradição em admití-Ias criadas desde a eternidade. já que é impossível a nihilatio total por parte das coisas finitas. a parte ante o tema permanece no terreno das suposições. e o que é intrinsecamente feito na eternidade não é mister que seja intrinsecamente imutável. num ser ab alio. da criação eterna. ou na duração infinita. na realidade. contradição que o Ser Supremo conservasse numa duração constante alguma coisa criada. então. deixada a si mesma. não pode ser da essência de uma coisa corruptível o ser eterna. também. pois a criação expressa a efetuação da coisa. e conservadas eviternamente pela potência do Ser Supremo. pois embora a criação se diga infinita. coisa que parece mais certa. Nem tampouco se poderá admitir. seu perdurar depende. o que seria contraditório. A conservação não é uma ação distinta da criação. não seria eterna. como tal não se dá. Suarez. a demonstração da eviternidade a parte post. assim. uma negação de começo na existência. não eivadas. porque então haveria contradição. ou um agente extrínseco as corrompe. Aqui não haveria contradição. ou são elas. Contudo. como tivemos oportunidade de ver sobre os seres ab alio. não se segue nenhuma infinitude real da coisa criada. Ora. Mas. mas que só se distingue por certa conotação ou negação incluída. então. afirma o que passamos a citar: "entende-se. mas a mesma. se abandonada à sua natureza. da conservação exercida por este. a predicação de eternidade. neste sentido de eternidade porém". inevitàvelmente. caso não houvesse a presença de um agente contrário. termina ele. Ora. e se recebe o seu ser do Ser Supremo. nas Disputantiones Metaphysicae. durar eviternamente. desde o movimento. senão teríamos a série infinita. Ante tal problema. contudo. mas de certa contradição. As coisas criadas não podem privar a si mesmas de seu ser. A todo ser ab alio tem de se predicar um início. realiza. enquanto carece de princípio. não se acrescenta à criatura nenhuma perfeição infinita. contudo esta é somente ou certa denominação extrínseca de coexistência com a eternidade de Deus. criadas no tempo. Esta sentença é defendida por muitos escolásticos. conclui Suarez que o intrinsecamente eterno é o intrinsecamente imutável. ou com o tempo. pois. enquanto que a . por afirmar: "não repugna à criação ser eterna. nem como possível. No nº 15 prossegue afirmando que as coisas corruptíveis permanentes poderiam ser criadas desde a eternidade.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 154 do contexto beta nós não podemos. basta que permaneça sem mutação na mesma eternidade. em que se cai na aceitação de séries infinitas. conotando que esta não existia. e que nela se concebe. Suarez. Não há. ou pela razão. portanto. de modo algum. ou. Uma coisa corruptível criada. de contradição manifesta. Se nenhum ser finito tem razão de ser em si mesmo. enquanto carece de princípio. segundo a realidade ou modo real. abandonada à sua natureza. E. então. porém. fàcilmente que. tombaremos nas mesmas e velhas aporias conhecidas.

para que venha a ser o que ele é. quer dizer nem eidética. Portanto. Isso não quer dizer que a idéia da criação seja originàriamente cristã. não tendo a razão de ser em si mesmo. nem material. e estas são as coisas finitas. porque encontramos nos judeus. Na verdade. nem hilética. remotamente. antes da criação não há tempo. como vimos e demonstramos. no pensamento hindu. não há tempo antes das coisas sucessivas. para explicar a seqüência dos seres ab alio é um pensamento positivo universal. em última análise. e. e se quisermos interpretar com justiça. não tendo uma razão suficiente nem formal. Foi o que vimos ao tratar do princípio da individuação. que não pode ser ab alio. em cada efeito. a necessidade da sustentação. porque ele não a tem em plenitude. e há necessidade de um que a tenha em plenitude. esse outro. necessita de outro para que seja. finalmente. só este poderia dar a existência e o ser aos outros. é um ser que é sustentado por suas causas. o primeiro. De maneira que a idéia cristã de criação é aquela que mateticamente melhor se adapta ao pensamento concreto. portanto. igualmente depende o efeito no instante que é realizado. ou melhor. A conservação é a criação continuada. portanto. nº 2. Não há necessidade mais de prosseguirmos aqui repetindo o que mateticamente já ficou estabelecido. nesse instante. O tempo é a duração das coisas sucessivas. A presença deste como sustentante do que é. necessita da cooperação da causa primeira. ambos são entes por participação. De forma que a necessidade do ser a se. pois. e. o ser só pode dar aquilo que tem. no instante que opera. Como a série é impossível. que é um ser a se. conotando que a coisa existia já antes. para determinar um efeito singular. A justificação do mesmo já foi por nós feita. é mister haver coisas que sucedam. por ser sempre indiferente para muitos. fonte e origem de todos os outros. necessàriamente. Ele só a tem recebida de outro. no mosaísmo. e encontramos. que é isso ou aquilo. O ser ab alio não pode dar existência. já que a potência conservadora é ainda dependente da potência criadora. Assim como a causa depende do Ser Supremo. é inevitável. Ele tem de conservar necessàriamente o que é. Logo. que tem de ser o ser criador. do Ser Supremo. 21.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 155 conservação efetua a mesma efetuação. dependem de outras. é a mesma. O ser. A conservação de um ser depende da presença de suas causas. para haver tempo. terá de ser. também exposta nas concepções pitagóricas. Elas estão dispostas na mesma obra das Disputas. como estas. vê-se que a concepção cristã da criação tem um fundamento matético no seguinte: o ser ab alio. Ora. e não ser suficientemente determinada pelo sujeito e pelas circunstâncias. 2. da criação por conotação. A conservação é distinta. as coisas criaturais. Estas palavras de Suarez vão corroborar a doutrina de Tomás de Aquino. Basta provar que há. a causa e o efeito são entes por participação. A causa segunda. o que é um pensamento .

Ou seja. os fenômenos permanecem como dados particulares e intatos em sua natureza. e até alguns autores modernos. desconhecem o que já se realizara em tal campo. Essa posição termina por invalidar até os juízos das Matemáticas. por Kant. Aristóteles e os Escolásticos. o que já demonstramos sobejamente. para. nem o que era o conceito universal para os escolásticos. depois. no qual entram a forma a priori do tempo e da percepção. e não pode ser compreendido sem aquele. Para ele.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 156 mateticamente necessário. por exemplo. não é de admirar que ele lhes provoque tanto assombro. sintetizados no Entendimento. Em tudo isso. o contexto a se. por sua vez. Kant. por meio da relação às categorias. colocados na sensibilidade. a universalidade é uma síntese ou uma unificação extrínseca de elementos que permanecem em sua particularidade concreta. os fenômenos são unificados. A unificação. Não é só esta a sua intenção. Daí a razão porque permaneceu numa situação aporética. Temos de partir do homem. É dentro desta que ela se constrói. por incrível que pareça. para Kant. por intermédio do esquematismo da imaginação. como também invalida os juízos da Física pura. a Matese é um saber per se. formas a priori. Essa unificação realiza-se por elementos subjetivos. porque não tem em si a razão suficiente do seu ser. Esta conclusão. colocados isoladamente no Entendimento. que paira acima da cogitativa. Kant termina por desagregar as regras da razão e vai tornar o Entendimento uma faculdade totalmente afastada daquela. que é contexto alfa. Para os que. Ora. Impõe-se que fixemos um paralelo entre a concepção de Platão e a de Aristóteles. CAPÍTULO XXV A ABSTRAÇÃO EM ARISTOTELES E EM PLATÃO Não podemos construir uma ciência per se se partimos do ser per accidens. e deixou em aporia todos aqueles que aceitaram a sua autoridade filosófica e puseram-se a pensar seguindo o curso de suas águas. A sensibilidade unifica. Por sua vez. orientados pela filosofia positiva. e sigam-no servilmente. alcançaram-na os gregos antigos. necessàriamente. e o homem possui o Entendimento. nunca compreendeu a teoria da abstração. o contexto ab alio implica. é extrínseca. . que eles vão receber. Tudo isso em Kant nos mostra quão pouco conhecia ele a gênese do conceito e o verdadeiro funcionar dos esquematismos. sintetiza os dados sensíveis pelas formas a priori do espaço e do tempo. decorrendo rigorosamente que a legitimidade do universal kantiano é apenas subjetivo.

enquanto que a ontologicidade é dada pelo logos". Julgavam que consistia a apháiresis apenas em despojar a coisa de sua matéria para que a forma ressaltasse em plenitude. esta forma.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 157 tirarmos algumas conclusões sobre as abstrações. Esse também foi o proceder de Boécio. e. o que é importante. que tomaram parte na famosa polêmica medievalista dos universais. naturalmente. transcender o mundo sensível pelo mundo supra-sensível das formas. nem Heráclito. Na verdade. o logos e o stokheion da coisa são inseparáveis em sua essência. Desagregandose a forma. surgiria a forma daquela. até então. e aqueles que. como princípio de universalidade. a sua essencial idade. usavam este método. a abstração era considerada no primeiro sentido. que desconcretiza uma parte daquilo que é dado conjuntamente. Há duas maneiras de entender a apháiresis. da matéria. porque. "Mas a matéria e a forma constituem a substância de uma coisa. formando-se conceitos truncados da realidade. não se realiza a apháiresis. mas apenas intenta ascender. b) A abstração implica. estudando a aptidão que tem a nossa mente de tomar o que separa mentalmente. Este é o segundo tipo de abstração. em sua onticidade e sua ontologicidade. como. em que o desconcretizado é tomado na sua universalidade. do contrário. na realidade. apenas mentalmente. Só assim haveria. mais do que no segundo. Separar uma totalidade comum de uma totalidade particular seria disassociar. o que realiza o neo-platonismo é . separando-se a matéria da coisa. Psicologicamente. poderíamos separar o amarelo desta coisa da coisa. no segundo caso. de uma desconcretização da realidade. realizaram os neoplatônicos declarados. Também não a realizavam nem Parmênides. a) que ela apenas se resume numa separação realizada pela mente daquilo que está na coisa dada concretamente. ela deve ser considerada no segundo. desconcretizar a realidade da coisa. realmente. para o particular ontológico do mundo das formas supra-sensíveis. que desconecta. como princípio de particularidade. julgavam alcançar o resultado de uma apháiresis perfeita. Em nossa "Filosofia Concreta" escrevemos: "Em Platão não há propriamente apháiresis. que é uma mera separação mental. sobretudo. e são ambas essenciais. para se dar a abstração num sentido justo. propriamente. à forma imutável que lhe corresponde. é uma mera separação mental como nós. mas o amarelo como cor seja dado na sua universalidade. quer dizer. a abstração. O termo abstração (abstractio no latim) corresponde ao termo grego apháiresis. por exemplo. nem os Escolásticos. tratava-se de uma separação mental. na linguagem dialética. no seu aspecto formal. pelo menos sob seu grau mais elevado. Ora. a segunda. Na verdade. Neste caso. de que a forma seja dada. da coisa móvel. embora não o sendo. Mas. há dois tipos de abstração: a primeira. do particular ôntico do mundo das singularidades. não o amarelo deste objeto. Então. tem de ser tomada na sua universalidade. ou melhor. isto é. de uma desagregação da realidade. Ele ascende do móvel. nem Santo Agostinho. não apenas como uma desconectação da realidade. e que não atingiria o grau que alcança a segunda abstração. mas como alguma coisa que é tomada no sentido universal. A onticidade é dada pelo stokheion da coisa. A primeira abstração seria a que se fundaria apenas no sensível. quando.

"Nisto consiste o resultado da operação. a fim de captar o que é permanente e essencial. mas algo que faz parte da constituição ôntica do ente.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 158 uma ascese de despojamento da realidade. A forma não é apenas uma participação da forma platônica. Nesta ascese de despojamento da realidade. busquemos aquilo que faz parte da sua essência. chegar-se-ia. para. exercer-se a atividade da apháiresis. de ioga. que seria plenitude de fusão. pela negação do limite. é uma forma que participa da forma extra-rei. o que é . sobre ele. O todo abstrato concebido corresponde a um todo individual e concreto. basta apenas um. a figurativa. desde que prescindamos do que é acidental da particularidade concreta. depois a forma sensitiva. depois a forma sensitiva. na sua operação. depois a racional. que é a segunda espécie de abstração. até alcançar-se. então. a seguir a intelectiva. a essência da coisa". de maneira que. é ainda incompleta. Esta era a marcha que concebia o neo-platonismo. separando-se primeiramente a matéria. Basta que ao olharmos um indivíduo. atingiríamos fàcilmente aquilo que constitui. o que tem uma certa semelhança com o budismo. também. embora de um grau mais elevado. um despreendimento ascendente em que. a um êxtase e à identificação comum. pois para Platão a forma. A apháiresis búdica consiste em afastar-se cada vez mais da individuação. pelo Nirvana. psicologicamente. de tudo quanto individualiza. após chega à forma racional. até pela negatividade. e que é fundamental para a construção da ciência Como devemos entendê-Ia. com o Ser Supremo. para Aristóteles. a seguir a forma figurativa. e alcança-se ao que se pode predicar univocamente de muitos indivíduos. Daí se atinge ao êxtase e. o desprendimento é cada vez ascendente. mas algo que toma parte na constituição ôntica do ente. pelo afastamento de tudo quanto limita. a forma não é apenas uma participação. Compreendia Aristóteles. A forma não é apenas uma participação da forma platônica. o estado búdico. que está nas coisas. mas também a sua matéria. propriamente. de tudo quanto limita. A verdadeira apháiresis aristotélica não toma separadamente a forma da matéria. de apháiresis. a ontologicidade. separa a matéria. uma estrutura eidética da tectônica do ente. então. afinal à forma intelectiva. por exclusão. de tudo quanto individualiza. "Ora. Também a apháiresis aristotélica. podemos realizar. O que se obtinha era um resultado permanente. prescindindo do que é acidental da participação concreta. portanto. que a essência de uma coisa não é apenas a sua forma. a identificação comum. e de cada um deles. primeiramente." A apháiresis aristotélica não exige que busquemos muitos indivíduos para encontrar o que eles têm em comum. to synolon. neste. por tal apháiresis truncada não se poderia alcançar a que. por exclusão de tudo quanto individualiza". Assim. é. Quer dizer. mas toma-as conjuntamente. Não é mister para alcançar-se o conceito universal muitos indivíduos. como o propõe o budismo".

dá-se uma contraposição do indivíduo. Não há ciência do particular). o Entendimento possível para ele e para Tomás de Aquino. com as suas partes ontológicas e ônticas particulares. São. portanto. Se o ser desse conhecimento é in esse. E que são. com suas partes essenciais. os seres do mundo sensível são também objetos da ciência. é alguma coisa que o espírito humano cria. . Nem no ubi. pela apháiresis. Se os primeiros atentam para os acidentes. como se dá na realidade. Para Aristóteles. conteúdo do nous. Também no campo da ciência. que é um hábito. No conceito de Aristóteles. os objetos são mutáveis. noemas (de nous. estáveis. A construção desta exigiria. outra atividade do Entendimento. cujo sujeito é. pois. conceitos noéticos.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 159 fundamental para construir a ciência. as coisas do mundo da experiência sensível eram apenas sombras da realidade. não. Sem tais conhecimentos. Sempre mantém as suas raízes na Psicologia. seu hipokeímenon. esta forma. assim. Mas esse conceito é um todo construído. sua subsistência. o qual realizará uma nova apháiresis mais precisiva. forma e matéria. não é uma substância. mas estes. também um acidente. em concreto. (A ciência só pode construir-se sobre esses universais. esta matéria. o segundo penetra na coisa até alcançar-lhe a essência. é alguma coisa que está na nossa mente. nem no quando. é um acidente da qualidade. sem. a substância dele é o entendimento. algo que é adquirido. artificial. Ainda esta conceituação é uma construção nossa. que é o todo concreto. então. mas em comum. sim. Não. Se os sentidos nos dão o que os objetos têm de particular e de móvel. matéria e forma em comum. Para Platão. sem contudo serem a ciência. Por isso seu estudo vai pertencer à Psicologia. porém. Nesse conceito deve estar o que é de sua ontologicidade e de sua onticidade: forma e matéria. de matéria e forma particulares. o Entendimento nos dá o que têm de comum e de permanente. O Entendimento constrói uma fotografia da realidade. colocá-Ios na categoria da qualidade: são qualidades. pois seria cair no realismo exagerado. e com eles se irá constituir a ciência. Os conceitos aristotélicos são materialmente das ciências. Podemos. Em que categoria vamos classificá-los? Na quantidade? Não. nem no situs. da ação da nóesis) fixos. um reflexo imperfeito das formas eternas. ademais. tomadas em comum. afastar-se dela abissalmente. é o próprio espírito. um plethos concreto. podem ser considerados imutáveis. contudo. conceito. nem no habitus. permanentes. seria impossível construir-se a ciência. esses conceitos universais? Substâncias? Para Aristóteles. também acidental. é o resultado de uma coleta através de uma representação mental do que há de estável e permanente nas coisas. do Entendimento. prescindindo do que nelas há de mutável e contingente. e um todo abstrato. conceitos psicológicos. sobretudo à Filosofia da Psicologia. o próprio entendimento. Mas a ciência já ultrapassa o campo da Psicologia. O conceito universal.

mas entre as representações. Aristóteles não pensa assim. Assim os conceitos podem ser considerados: primeiro: como produtos artificiais noéticos. portanto. mas são acidentais. ou melhor. Ora. ele trabalha sobre este material sintetizado. vemos que aquele propriamente toma uma atitude muito distinta. é apenas uma desconcretização realizada pela nossa mente sobre a realidade. elas trabalham em seu campo particular. enquanto objeto da Psicologia. Cada ciência tem seu campo particular. os quais nos dão materiais para que o Entendimento agente atuasse diretamente sobre as sensações. da fantasia e da cogitativa. que é a da relação. acidental. que são coisas. Segundo: em suas relações. Não se trata de uma mera desconectização. os chamados sentidos comuns. in essendo. objeto fundamental da Lógica e da analítica. porque tudo que está no sujeito singular é singular. e depois deixou de considerar. são qualidades. são objetos da Lógica. Mas essa ordem não é substancial. também é real. Assim como há relação entre as coisas. o que é importante. também. A sua aplicação particular cabe às ciências particulares. São qualidades reais. mas também são relações reais. comparando a sua concepção com a de Aristóteles. daí o conceito lógico. mas acidental. Mas o objeto da Lógica aristotélica não são esses conceitos. a presença da memória. mas a realidade dessas relações não é substancial. As relações concretas e particulares dos conceitos é que vão formar o objeto das ciências particulares. uma relação é real. enquanto objeto da Lógica. As relações entre os conceitos são reais. seria um erro. também. De maneira que as formas. É uma relação que se forma. mas de uma captação da forma universal.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 160 Se considerarmos outra categoria. lembremo-nos que ela implica uma ordem entre as coisas e a realidade dessa ordem. já esquematizado pelos nossos sentidos chamados interiores. mas acidental. de uma meta desconcretização. não entre as coisas. são relações. Para ele. reduzí-Ias à Lógica. há. são apenas participantes das formas que se colocam fora da nossa mente. a abstração é apenas uma desconectização. o . Kant errou ao tomar a sensibilidade como unificadora. Alcançamos. e a relação é um acidente também. e considera a abstração noutro sentido. que delas temos. mas obediente às leis gerais da Lógica. porque as que estão nas coisas são as formas já conseqüentemente singularizadas. Se todas as ciências não podem prescindir da Lógica. como relação in praedicando. contudo. No primeiro sentido. No segundo sentido. Não. que são realmente universais. sintetizadora de dados sensíveis pelas formas a priori do espaço e do tempo. e como tais. na análise da abstração em Platão. enquanto são reais os termos relacionados. mas as suas relações em geral. daquilo que uma coisa a tem de comum. que vamos captar por essa apháiresis. A Lógica estuda apenas as leis gerais que regem a ordem de tais conceitos. são objeto de estudo da Psicologia. Depois. a um logicismo universal. realizada pela nossa mente sobre a realidade. e o fundamento. entre os conceitos. logos da relação.

porque aqui estamos relacionando os conceitos uns aos outros. Assim como o espelhado é refletido proporcionadamente ao espelho. qualidades recebidas (de receptum. que significam. mas. mesmo que não se repita. porém. do verbo latino capio. por essa nossa maneira de dizer. que tem a possibilidade de dar-se em outro. na coisa in essendo estão esses universais para Aristóteles. Considerando os conceitos universais em relação uns com outros e com as coisas que representam. e só pode ser tomado singularmente. e. a deste objeto só se dá neste objeto. porque o singular é sempre. de ser comum. subreptkiamente colocado por nós. precisamente. uma vez singularizada é formalmente singularidade. in praedicando. Mais adiante veremos que também são in essendo. daquela que pode repetir-se em outros. Correspondem à realidade que representam. Há passagens na obra de ambos em que eles doutrinam deste modo. tomamos em seu sentido lógico. de onde recunceptum). eles estão in repraesentando. concebidas pela inteligência que os elabora. com ela não se identificam. que é a estrutura eidética da coisa. não são. mas que tenha a possibilidade da repetição. CAPÍTULO XXVI NOMINALISMO.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 161 que ela tem de repetível. portanto. como tal. Precisamente o que caracteriza a forma da coisa é o repetível. mas uma vez singularizada neste objeto e naquele. são seres ou entidades artificiais e acidentais. como tendo a possibilidade da repetição em outras. porque a de Pedro só se dá em Pedro. aquilo que não tomamos na sua individualidade. enquanto singular. que a forma é aquilo que o nosso entendimento vai captar nas coisas. o que podemos considerar como não individual e singular. o aspecto formal e não a singularidade. e portanto. que apontam. Em suma. que seja um pensamento peregrino. . nesta matéria. o é o conceito proporcionadamente à inteligência. refletida no espelho da inteligência. aqui. e in essendo nas coisas. a imagem exata da essência da coisa. quer dizer. para Aristóteles. e predicando uns de outros. que é a forma da coisa. Sabemos que a singularidade é incomunicável. são. nem na sua singularidade. essas expressões são usadas por Aristóteles e também por Tomás de Aquino. universais in praedicando. é uma “entitas” que se repete. é incomunicada. São uma representação mental. caído. Não. CONCEPTUALISMO E REALISMO Os conceitos universais. que a singularidade não se repete. na nossa mente. essa realidade. Pode parecer a alguns. Mas o que é repetível. é.

quando nós o temos na mente. há verbalistas. das quais foram extraídos por apháiresis. são puros conceitos. a dos que afirmavam que esses universais eram subsistentes como substâncias. Para os medievalistas. Tínhamos uma primeira posição. são aqueles que afirmam que os universais são substâncias in re. para os segundos. defendendo uma posição psicologicamente falha. são também universais. o conceptualismo e nominalismo. sem encontrarem outra posição que pudesse dar uma solução. conseqüentemente. verifica-se que a maneira de pô-Io na controvérsia das universais era uma má colocação. e o realismo exagerado. A outra posição. nem o conceptualismo. tão bem seria exposta por Tomás de Aquino . uma situação aporética insolúvel. As palavras são sinais representativos dos conceitos e das coisas. o problema coloca-se assim. como é a posição dos nomina/istas. verba. e para outros incorpóreas. outros Heinrich d' Auxerre. tomados num âmbito geral são da Lógica. sobretudo as últimas. Uma outra posição afirmava: não subsistem como substâncias. representando na mente. como afirmavam os conceptualistas. eram substâncias para uns. pelo nous. das ciências particulares. nem o nominalismo eram soluções reais para o problema. quando os atribuímos. por desconhecerem a ideogênese que. que representam. Quando estudados. já que uma mesma palavra serve para designar uma multidão de indivíduos. primeiramente. Quer dizer. que afirmavam que estes universais eram subsistentes como subtância. os predicamos de alguma coisa. quando realizamos o juízo. que eles não atingiam. Essas relações são objetos de estudo geral da Lógica em particular. consideravam uns como incorpóreos e outros como corpóreos. segundo o seu valor de verdade. in repraesentando. passam eles para o campo da crítica. Encontramos ainda hoje essas posições. São acidentes reais de relação. Também neste sentido são entidades artificiais. seriam extra-rem. A gramática é a ciência que estuda as relações entre as palavras. apenas conceitos. posteriormente. para distinguir. existiam nessas coisas. e in praedicando. à objetividade do conhecimento intelectivo. e 2) dos que afirmavam que não estavam separados das coisas sensíveis. nada mais do que palavras. Nem o realismo exagerado. in essendo. Vejamos. o que provocava. enquanto. quando os emprestamos. que são sinais dos conceitos e também das coisas. E para outros seriam palavras. eram in re. outros Roscelinos. Colocado assim o problema. conseqüentemente. e fora da coisas sensíveis. Quer dizer. existem nas coisas. em relação às coisas representadas. sendo na coisa. Para os primeiros. que afirmam que os conceitos são apenas palavras. defendidas por filósofos menores. acidentais.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 162 Então temos. porém que não estão separados das coisas. das ciências particulares. Estes dividiam-se em duas posições: 1) que estes universais estavam fora das coisas sensíveis. Ainda há nominalistas. corpóreas. que resultam da comparação efetuada pelo Entendimento. a daqueles que afirmam que os universais são subsistentes como substâncias. classificáveis na categoria da relação. também. e em particular. ou deles com as coisas. Esses. dos conceitos entre si. como esquematizavam o problema dos universais os medievalistas.

fora da mente só existem os singulares. conseqüentemente. sermones. designata das coisas. designata. A segunda posição afirma o seguinte: os universais não são coisas. reduzindo apenas ao lógico a realidade do universal. Ockam. desde as seleções da sensibilidade.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 163 e por psicólogos de envergadura. Em a posição realista. Sto. como o seguinte: estas coisas dão-se fora do singular. nesta posição. e. Dispondo apenas dos meios que a Lógica lhes oferecia. Lembremo-nos de que não dispunham os medievalistas de possibilidades para estudar o funcionamento psicológico de nossas faculdades cognoscitivas. teoria defendida por Sto. e nenhuma satisfazia. Os universais são idéias da mente divina. participadas por muitos indivíduos. não . mas apenas consistem na predicabilidade. inúmeras foram as teorias apresentadas. verba. quer dizer. Outra posição era esta: que esses universais dão-se nos singulares. nem tampouco na solução imperfeita que o conceptualismo oferecia. que nós passaremos a ver mais adiante. sem cair no realismo exagerado. contra o realismo exagerado. mas predicações de sentido lógico. os universais não são nem substâncias nem acidentes. mas apenas palavras. indevidamente chamado platônico. assim. Agostinho. e sem cair nos excessos do nominalismo. dentro de uma justa posição lógica. Temos. que chegava a certos extremos. subsistentes e separadas. Guilherme de Ockam procurou uma solução que. que poderíamos fazer sobre as coisas. nem nos indivíduos. Outros Abelardos dirão que não são apenas palavras. quer dizer. Mas elas cometiam o mesmo erro extremado e extremista. verba. o que era uma contradictio in adjectis. Esta é a posição do realismo exagerado. nem podia satisfazer. quando propriamente não o foi. apenas palavras. que teria de afirmar a existência singular do universal. nesta discussão que se dava entre realistas exagerados e por outro lado nominalistas e conceptualistas. procurou uma solução intermédia. até alcançar os graus de abstração e precisão que pode alcançar o Entendimento. não existem nem fora. são naturezas comuns. que o classificaram como nominalista. nomina. mas procurava dar uma solução intermédia. sob formas subsistentes. o que já significava a colocação do problema. Compunha-se. de certo modo. Quer dizer. já era um passo à frente. embora falhasse por não considerar a ontologicidade e a fundamentação ôntica. como também a conceptualista representavam apenas uma oposição. que a atribuia também a Platão. e muito mal exposto por alguns autores. foi muito mal compreendido. verba. que. Anselmo de Chartres. extra mentis. são res. de certo modo justa. que havia na época. não foi defendido por nenhum filósofo escolástico de valor. segundo a sua maneira de interpretar aquele. pela qual os universais nada mais seriam do que meras predicações. o quadro medieval. extra rem. o que permite duas posições: a) são substâncias incorpóreas. então. infelizmente. sermones. etc. do que se repete. em face da carência de informações sobre a matéria de que necessitavam para realizar um trabalho mais completo. b) São idéias na mente divina: é a posição do exemplarismo. Vamos sintetizar: primeira posição dos que afirmavam que os universais são coisas. às influências e aderências da imaginação. na verdade. É preciso compreender que a posição nominalista.

e o são. não só quanto ao ser. Assim. temos a mensurabilidade. nem podemos entendê-Ios sem a matéria. as proporções. São os nominalistas. ou não são substâncias nem acidentes. O segundo gênero de scibiles são entidades também não separadas. A posição de Tomás de Aquino é distinta: realiza ele um trabalho simplesmente fabuloso para resolver o problema. Estes scibiles vão constituir os objetos da Ffsica. e correspondem. à estrutura hilética e à estrutura eidética. e que exigem uma maior apháiresis da matéria. a matéria é fundamental para que se dê esse primeiro gênero de scibiles. Um matemático pode considerar a quantidade. A matéria entra. e dá caminho para uma solução definitiva. e. os vegetais. assim. Nós não podemos pensar neles sem incluir sua dependência da matéria. a numerabilidade. necessàriamente. Todos esses seres não podemos concebê-l os sem a sua dependência segundo o ser da matéria e também. como é o conceptualismo atribuído a Abelardo. São. são apenas predicações. e também segundo o intelecto. finalmente. não podemos concebê-los sem a matéria. porque podemos considerá-Ias prescindindo completamente daquela. viventes. Este scibilis depende da matéria segundo o ser. enquanto entidade acidental. os minerais. são dadas in praedicando. prescindindo da matéria. que podíamos dizer cognoscível). móveis. que podem ser considerados.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 164 existem de maneira alguma. as figuras geométricas. não existem nem fora nem nos indivíduos. da ciência natural. (particípio ativo do verbo scio. quer dizer. Para concebê-los concretamente. nós não podemos conceber como dando-se sem a matéria. porque esta quantidade não podemos entendê-Ia segundo o intelecto. diz ele. em sua composição ontológica e em sua composição lógica. conseqüentemente lhes correspondem três classes de scibiles. os entes móveis. . que pertencem ao campo genérico da Matemática. os não-viventes. é necessário que incluamos a matéria e a sua forma substancial. 6 Aos quais correspondem os três graus de abstração que examinamos em «Sabedoria dos Princípios”. Às três classes de scibiles 6 (1) correspondem três classes de scitum: 1°) o primeiro gênero de scibiles são as substâncias corpóreas. que dependem da matéria secundum esse. intelectualmente. ou melhor. na nossa linguagem. que são os animais e os não sensitivos. a quantidade. que se diversifica em várias disciplinas específicas. racionais ou não racionais. como também quanto ao intelecto. Quer dizer. compostas. mas os seres quantitativos oferecem outros aspectos reais. que é o particípio passivo do verbo saber. sei. Parte do seguinte: Há. saber. o triângulo pode ser estudado sem necessidade de ser de ferro nem de madeira. pertence ao objeto da Física. em cuja constituição entram elementos distintos. e também segundo o intelecto. Temos três gêneros de scibiles. incluindo os sensitivos. segundo o ser. que afeta as substâncias corpóreas. três gêneros de scibiles. Assim. fora do objeto da Física. que é a matéria e a forma substancial. segundo o seu ser. prescindindo-a da matéria. e que não dependem mais da matéria segundo o intelecto.

e vão constituir o ápice do entendimento. já que a assimilação que se dá não é assimilação física. o triângulo se dá em coisas sensíveis. não só quanto ao ser. o de Aristóteles. tais seres cognoscíveis por si mesmos. Sua atividade é negativa. A quantidade pode ser examinada como contínua. mas também. outra atividade do intelecto. as quais não dependem da matéria. Esses scibiles pertencem ao objeto de outras disciplinas. não precisam de um instrumento para alcançá-Ias. não só de Platão. Podemos prescindir da matéria completamente. enquanto mensurável. e não precisamos da matéria para ter uma inteligência do que seja a antecedência e a consequência. também. é pré-científica. porém. e temos o campo da Geometria. porque poderia haver uma causa não-material. Quer dizer. para entendê-Ia. estável. discontínua. uma estuda a quantidade. Chegamos agora à terceira posição com o seu terceiro gênero de scibiles. quanto ao entender. Não são perceptíveis pelos sentidos. do que lhe impede penetrar no campo da inteligibilidade. a Meontologia. prescindir dela secundum intelectum porque. São. Realizado este despojamento. e temos o campo da Aritmética. e também a Matese. Para isso é mister despojar esses objetos de sua materialidade. portanto. Podemos pensar na causa sem necessidade de incluir a matéria. pois inicia o intelecto agente por despojar o objeto do concreto. compostos de matéria e de forma substancial com seus acidentes também. na sua forma mais elevada. segundo este. porque esta não pode penetrar no conhecimento intelectivo. podemos prescindir da matéria secundum esse. nem segundo o intelecto.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 165 etc. para Tomás de Aquino. levou avante o pensamento. A apháiresis tomista. inicia-se. nem podemos construir deles um fantasma representativo. Esse terceiro gênero é constituído de seres de natureza completamente distinta das anteriores. e outra estuda a quantidade enquanto numerável. como a Metafísica. Não há incorporação da coisa. inteligíveis por si mesmos. que esta seja necessàriamente material. etc. são scibiles per se. são captados per se. a Ontologia. não podemos. a Teologia. necessária. nem precisamos. separadas. porque são objetos do Entendimento. são scibiles per se. imateriais. nem secundum esse. e não per accidens. ou seja. não precisam da intermediação dos sentidos. Como esses seres são imateriais. fórmulas e formas perfeitas. neste ponto. incorpóreas. Não necessitam de uma ciência especial. alcançar uma visão imaterial. nem é biológica. mais precisa. São entidades simples. então. A antecedência e a consequência podem ser pensadas por nós. . que é própria do Entendimento possível. imutáveis. são imóveis. como. O Entendimento agente realiza a sua atividade sobre os esquemas sensíveis dos seres corpóreos. ou como discreta. é com esse terceiro gênero de scibiles que trabalha a Metafísica. imóveis.

Primeiro podemos valer-nos da razão. que é o fantasma. e quando não o têm. assim. que não se cinge à simples percepção dos conceitos. obstinadamente. conversões. retornasse a temas medievais como estão muitos retornando hoje pela ação de maus filósofos. do discurso. os quais não podiam resolvê-Ios pela maneira como os colocavam. procurando o que melhor nos . dos nominalistas. um novo caminho. Não há mais lugar para a discussão dos erros dos verbalistas. através da imaginação e do Entendimento agente. Mas uma conclusão podemos desde já tomar. fizeram com que a Filosofia caísse outra vez. tomada em latíssimo senso. que põem sobre a mesa problemas já resolvidos. é a isenção de qualquer vínculo. ilações. A liberdade de especificação é uma liberdade que exige o entendimento. pôr em execução a nossa atividade. mas. como ainda veremos. em realizar. e a introdução de obras de filósofos menores. é aqui que se constrói a ciência. aos conceitos universais. também.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 166 Sobre o material ministrado pelos sentidos. Que o homem pode operar com liberdade. evita a situação aporética dos escolásticos medievais. um fundamento in re. entes meramente ficcionais. exige um intelecto. demonstra-se pela própria experiência. Desde as longas controvérsias dos séculos XII e XIII até chegar Tomás de Aquino. por meio de afirmações. é que o Entendimento possível vai trabalhar até alcançar a sua mais alta operação. e por que? Porque desconhecem todo este processo evolutivo. deduções. o que nos permite exercitar-nos. A liberdade de exercício é a isenção de qualquer vínculo. que deu clareza definitiva ao problema. e temas já ultrapassados. a sua solução aos problemas. num refluxo. e inaugura maiores possibilidades para a Dialética. dos realistas exagerados. CAPÍTULO XXVII DA LIBERDADE Há uma diferença entre a Liberdade de exercício e a Liberdade de especificação. porque o animal goza também de tal liberdade. negações. Outras concepções posteriores darão ainda melhor consistência à matéria. como dissemos. a nossa ou a de qualquer outro ser ativo. que surgem dos universais. Sabemos que a liberdade. A posição de Tomás de Aquino dá. dos conceptualistas. mas vai combiná-Ios em juízos e raciocínios. que ficou desconhecido por mais de um século. etc. e podemos deliberar. o não conhecimento da obra de Tomás de Aquino. que durou séculos de pesquizas. Infelizmente. Deste modo. serão meros entes de razão. inaugurando. em que não foi lida. que filósofos menores da atualidade teimam. Aqui já pode haver erro e falsidade.

O que é passível de suceder. adágios. de avaliar. A potência passiva. pois o paciente não pode transformar a si mesmo. todo castigo seria estúpido. mas o conhecimento. ante meios iguais. infere. por meio de conselhos. A potência passiva pode ser indiferente para diversos atos ou modos contrários. já que qualquer mutação implica. Ademais. uma efetuação. E. permite escolher por meio da vontade. não fazer o que nos inculcam. A liberdade nasce da inteligência. Podemos. da liberdade. em dadas circunstâncias. Há um apetite universal e indiferente. Esse poder não pode dar-se na parte passiva enquanto tal. e esta não pode não existir se a ação emana do agente. na carência de qualquer ato. ao perceber o que é melhor e ao captar os meios. ameaças de castigo. mas na ativa. exortações. apesar das exortações e castigos. isso decorre do seguinte: se a potência é de si indiferente. na operação. a criatura. Conseqüentemente. portanto. não é absolutamente necessário. provérbios. pois pode tomar outro rumo. de deliberar? A ordenação das acções humanas. leis. que participa de grau intelectual superior. contrário aos interesses do indivíduo. não procede sempre do mesmo modo.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 167 convém fazer. preceitos. . e sumamente injusto. por isso. mas exige seu poder interno para que essa potência possa determinar essa indiferença a uma das partes. ou não. já que o apetite segue o que o conhecimento indica. normas. Inclusive os que negam o livre arbítrio levam a mal quando se lhes injuriam. depois de aquilatar as vantagens ou conveniências. participa. Se o ser humano. como a liberdade decorre do conhecimento. até que seja determinada por outra. se é poder interno de determinação. algo ativo que a realize. A criatura inteligente pode aquilatar se um bem é necessário ou indiferente. Sem dúvida. necessàriamente. e não por liberdade muitas vêzes. Se não fosse assim. enquanto ativa. necessàriamente. segundo a participação da intelectualidade. A liberdade e a indiferença humana versam sobre a ação. concomitantemente. o que não haveria cabimento se só houvesse necessidade natural. o que prova que o apetite era universal ou indiferente. se queremos. não pode mudar em disposição natural. Mas. de que valeria essa capacidade de discorrer. e não enquanto passiva. a potência livre é uma potência ativa. pois. devese salientar que sobre esta matéria os homens divergem. enquanto tal. uma paixão. que seria tudo isso? Seria tudo supérfluo se o homem atuasse por necessidade natural sempre. escolhemos um pela vontade. para a liberdade não basta apenas a indiferença para vários atos. e os futuros possíveis podem ser contrários. se assim o quiser. será participação da liberdade. se não se aceita essa liberdade. permanecerá ela na indiferença. Contudo. O operar. promessas de prêmios. repreensões. sem dúvida que seu operar não é absolutamente necessário. Estas razões são objetadas por muitos que afirmam haver aí ainda necessidade.

o intelecto não é livre por si mesmo. A capacidade de ser livre é uma perfeição superior axiologicamente considerada. Para que a liberdade faculdade. O hábito não confere a liberdade. apenas dá facilidades no operar. porque livremente. a perfeição encontra-se de modo mais excelente no Ser Supremo. porque quando se faz. O livre arbítrio não é um hábito como já vimos. não quer dizer que se ficou limitado. essencial e primàriamente. sem dúvida. que a liberdade implica imperfeições. Não há liberdade de exercício sem alguma liberdade de especificação no homem. o homem tem livre arbítrio pelo simples fato de poder operar ou não operar uma vez postos todos os requisitos para a operação. A liberdade só pode dar-se numa potência que move a si mesma. porque não há aí nenhuma razão de imperfeição. O intelecto não é formalmente livre. porque. Ora. A liberdade não se radica apenas no entendimento. Aquele pode dar a esta facilitações para a sua direção. no exercício do ato. o ser criatural. o mais perfeito viria do menos perfeito. inteligente. como dela participará o homem. ou em ato primeiro. já que não pode participar de uma perfeição de que aquele careceria. que implica a liberdade. possa operar ou não por sua interna virtude ou . A indiferença da liberdade não se funda na impotência de operar. não tem liberdade de especificação. podemos operar de modo inconveniente aos nossos interesses. A liberdade dá-se apenas na eleição dos meios para alcançar o fim. As objeções já são conhecidas: a primeira consiste em negar a liberdade do homem. a liberdade. Uma causa segunda livre implica uma primeira livre. pois seria absurdo se assim não fosse. Quanto à segunda objeção. não cria. por exemplo. quanto aos meios e aos fins. já que toda perfeição vem dele. e a segunda. radica-se formalmente apenas na vontade. postas as condições pré-exigidas antecedentemente. e é participada? O Ser Supremo é perfeição por essência e a criatura o é por participação. ou de operar o oposto pela ação da vontade de um ente inteligente. porque tenha pleno uso é necessário que. jamais poderá atuar por liberdade. mas na potência de não operar. Esta objeção se funda na potencial idade de mutação. portanto. então. cuja demonstração quia e propter quid nós já fizemos. enquanto exercício do seu ato. Se o Ser Superior opera por necessidade absoluta. e o objeto formal da vontade é o bem. fazer ou não fazer. portanto. já que se pode não fazer. A primeira vai contra a evidência das ações que implicam aquela (a liberdade). O objeto formal do entendimento é a verdade.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 168 Caracteriza a liberdade o poder de operar e de não operar. Se o Ser Supremo não tem liberdade. A liberdade. não quanto à sua capacidade de operar. melhores possibilidades. O hábito facilita a liberdade pelo conhecimento. mas na vontade. porém. passamos a examiná-Ia. Mas essa razão é improcedente. A liberdade descobre-se.

A pré-determinação física repugna à liberdade. mas pré-determinada seria mera potência passiva. e não pode realizar outro. Determinada. pode aclarar a vontade. e em tal estado não há liberdade. como também ao exercício de especificação. e isto se dá porque o mal só pode acontecer per accidens e não per se. A vontade não teria poder de opor-se a realizar. 67. passiva. sua potência seria. e que fazia parte da série de obras de problemática da Filosofia Concreta. A vontade determina eficientemente o entendimento. em apêndice. salvo em virtude de uma volição anterior livre. só pode realizar um ato. assim também se segue de uma causa contingente completa. e não há liberdade onde há apenas potência passiva. por isso o homem pode resistIr a Deus. portanto. Terminamos. ao lado . Não se quer nada que não se tenha conhecido ames. se não está impedida. o que pode ou deve escolher. O ato do homem. Assim como de uma causa necessária segue-se o efeito de maneira infalível. PROBLEMÁTICA DA FILOSOFIA CONCRETA PROBLEMÁTICA DA ANALOGIA “Problemática da Analogia" foi uma obra prometida por nós. O contrário de liberdade não é necessidade. resolvemos dá-Ia. enquanto o entendimento determina finalmente a vontade. já examinados. se não fôr determinado a ele. O concurso de Deus é indiferente para agir ou não agir. Nunca seria indiferente a vários atos a sua especificação. já que o uso da liberdade estaria impedido. e revisando sua matéria. do contrário não é liberdade. do homem.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 169 não pode escolher entre possibilidades. mas. porque. O homem começa a dissentir mediante o intelecto e a consentir mediante a vontade. neste volume. Em face de nossos livros de Matese. tem a sua dependência da vontade divina. mas a acidentalidade de ser mau depende da vontade humana. enquanto ato. A liberdade exige os requisitos prévios. Nenhum juízo do entendimento determina a vontade completamente a algum ato. A vontade está em potência ativa para a especificação. que perfeitamente se encaixa na parte sintética dessa suprema instrução. É o que diz Tomás de Aquino na “Summa contra Gentiles” 1. ou não realizar o ato. contudo. a coação. cap. o agir da vontade não dependeria do poder ativo. o acidental. encerrando a parte sintética da Matese. razão 3º. mas a determinação depende da vontade humana. pois estaria determinado a atuar sem aqueles requisitos. Também não se pode permitir essa pré-determinação quanto ao exercício do ato. sim. O substancial depende de Deus. aqui. um exame rápido sobre a vontade e a liberdade.

junto aos discípulos e estranhos. não teve. é algo que se realiza à proporção que se torna exigente ante uma problemática que reclama soluções. sobretudo. E como permanecer ante a montanha de trabalhos de exegese? Impassível. não era de admirar que. inevitàvelmente. com o mesmo viso de verdade. oportunidade. quando ele em sua própria obra deixou passagens várias. fundada . as divergências que surgem na exegese de Aristóteles têm suas raízes comuns nas divergências que surgem no âmbito da filosofia escolástica. O tema fundamental da filosofia de Aristóteles é sem dúvida o das polaridades (ato e potência. que fatalmente suscitariam as suas idéias. Aristóteles. As divergências que se notam no pensamento escolástico fundam-se.. hoje. tanta divergência. fazer com que em torno dele girassem as discussões.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 170 de Problemática da Substância e do Acidente por serem matérias que servem de esteio aos exames futuros que a Matese empreenderá. não chegou até nós a solução de muitos problemas. entre os peripatéticos. tornando-se impossível. Para se conhecer Aristóteles. ou entregar-se ao desânimo em poder examiná-los? Ora. para se conhecer Aristóteles. ou se teve. essência e existência e substância e acidente. e. no intuito de. deixando obscuro seu pensamento. Ora. Mas poder-se-ia ainda afirmar. ter-se-ia de ler. Chegou-se mesmo a acusar Aristóteles de haver feito isso intencionalmente. desse modo. A razão parece engenhosa e pode ter certos visos de verdade. a imortalidade. indiferente. assegurar. na maneira de se considerarem tais polaridades. que fêz renascer os estudos sobre a sua obra. Como a obra de Aristóteles não expressa de modo definitivo tais polaridades permitiu que a exegese e a hermenêutica se desenvolvessem de tal modo que uma grande literatura surgiu. e tomar contato com tanta interpretação. E conseqüentemente. o principal é ler e reler os textos. que a precisão dos termos e dos seus conceitos.. se em vida foi chamado a resolver algumas dificuldades. forma e matéria. poder acompanhar os debates que se travam. afinal. reler e reexaminar toda a longa exegese sobre esse autor. depois. no âmbito de uma vida. e que a divergência entre os autores fosse. a precisão dos conteúdos noéticos e eidéticos. Seria ingenuidade julgar que. para citarmos apenas alguns) . Querer estabelecer qual o verdadeiro e último pensamento de Aristóteles é uma tarefa ingente. e até entre seus adversários. e tanta variedade de pontos de vista. . e sobretudo na escolástica. porém. surgisse uma problemática exigente. que são aberturas a novas possibilidades interpretativas.

varre-se para longe a famosa autoridade humana. E tal obra não necessita alguém que a faça. tanto quanto possível ou a possível. só é ele elevado e preciso quando se funda em demonstrações e provas. o que é autoridade ou não. necessàriamente. a apodítica. Se construirmos a Filosofia. Mas a filosofia concreta não procede pelos caminhos exegéticos. que a escolástica pôs sobre a mesa. A única autoridade. e tecer alguns comentários esclarecedores. em todo o saber culto. sob juizos apodíticos. dedicados totalmente. Era esse também o desejo máximo de Aristóteles. dentro da apoditicidade. a necessidade de esclarecer alguns pontos importantes da problemática filosófica. como em toda ciência. . que também afirmava que a única autoridade na Filosofia é a demonstração. uma atuação constante e a preocupação contínua de evitar que a afetividade exerça um papel deformador. porque ela não parte de fundamentos aristotélicos ou de qualquer outro grande filósofo. Tais trabalhos exigem homens que possam pôr-se alheios até a si mesmos. deve ser atribuído ao sujeito. Na filosofia concreta. Tese 1 Há oposição entre dois termos quando o conteúdo de um exclui intencionalmente o conteúdo do outro. tanto quanto nos é possível. porque já foi feita. E a maneira humana de alcançá-Ia é a demonstração apodítica. pode-se. como o fizemos na parte sintética. tal trabalho. que não repugne a tese apoditicamente demonstrada. Ela parte de fundamentos matéticos. Já está aí. Sem dúvida. consistente em alcançar o juízo de necessidade que nos afirma. que o predicado. dando-Ihes uma certa unidade. Ora.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 171 na maneira de divergir sobre o "verdadeiro" conteúdo do pensamento do peripatético. Perderíamos um tempo precioso e nada mais faríamos que repetir o trabalho já realizado por tão autores e tão famosos comentaristas. facilitaria. ao estudo que empreendem. peremptoriamente. a tomada de posição ante a obra de Aristóteles. que colaborariam apenas para concatenar opiniões várias. é a demonstração e. um tempo quase ilimitado. que nela prevalece. por sua vez. verificar o que há no pensamento humano. Que nos resta então? Que resta à filosofia concreta fazer? A esta não cabe tal tarefa. que dispensam a autoridade humana. porque necessàriamente lhe pertence. que tem apoditicidade ou não. Só a verdade ontológica e concreta dá o testemunho de si mesma. construída com grande habilidade e proficiência por homens dedicados. sobretudo. então. sem que. desta. Iríamos somente glosar os trabalhos alheios. Não só na filosofia. uma dedicação extraordinária. de uma vez por todas. ou seja o possível que não ofenda. obtivéssemos nenhum progresso para a filosofia. exige. com isso.

Assim ternos a alegria e a tristeza. Se a contradição implica a exclusão um do outro. Os conteúdos de dois termos podem ser ambos positivos e podem excluir-se dentro do mesmo gênero. como ainda veremos. só há oposição contraditória entre dois termos quando um afirma a posse e outro a privação total do mesmo conteúdo. Não há. Quando tais termos são colocados um ante outro forma-se uma relação de ob . todo index de uma determinabilidade.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 172 Mateticamente. . oposição. Há completa irredutibilidade ante tais termos. que é a referência a um modo geral de ser. e outro pela afirmação total da privação (pela recusa da mesma posse). recusa totalmente a presença. o mesmo se dá quando enunciarnos este. mas dentro do mesmo âmbito (o sentimento. que se lhe opõe. a posse de um determinado conteúdo. Não há meio termo possível entre tais extremos. pois um contradiz o outro. pois. Se um termo afirma a presença. afirmamos o esquema desse objeto e não o de chapéu. ambos positivos. e outro. porque afirmar a presença total é recusar qualquer ausência. num em afirmar tal modo de ser. dentro do mesmo âmbito. porque se a privação fôr apenas parcial a oposição será apenas privativa. Contudo ambos não são contraditórios. e outro em negá-Io. Salientar este aspecto é de máxima importância. Surge aqui um corolário importante: Portanto. que um dos termos (o afirmativo) postula a participação em algum modo de ser. ambos se excluem. Não pode haver contradição entre termos opostos que se referem a modos de ser diversos. matemáticos. Ambos conteúdos não são o outro. contradição entre o termo verbal cadeira e o termo verbal chapéu. há um ponto de encontro importante em tal oposição: é que ambos se referem a um modo de ser. Neste caso. Ainda aqui encontramos um fundamento comum. Essa oposição é chamada de contrária. Estes podem ser verbais. Verifica-se. opostos sem dúvida. contudo. pois a postulação de um é a exclusão da postulação do outro. Contudo.posição. estamos em face de uma oposição contraditória. ou seja. a contrariedade inclui a oposição positiva dos termos positivos. Quando dizemos cadeira. afirmar a ausência é recusar qualquer presença. e propõe a privação total desse conteúdo. e sua significação consiste. etc. e o outro (o negativo) recusa essa participação determinada. a afecção) . temos a chamada oposição contraditória. porque não contradizem o mesmo. Segundo o caráter dessa relação surgem as diversas classes de oposição. no mesmo ser. no primeiro caso. em tal oposição. mas outra coisa. sob o mesmo aspecto e simultâneamente. tudo quanto é capaz de ser expressado por um esquema é um termo. um pela afirmação total da posse.

a ausência de sanidade em um mesmo ser. mas refere-se a algo real. como a entre os termos são e enfermo. Observam-se. não é algo real. pois para o exame da tese que propusemos não é ainda mister tal exame. implicam. A privação. um medium. tal diástema é positivo. graus de tristeza e graus de alegria. e vice versa. Temos. Não se afirma com a privação uma simples negação. tomada em si mesma. como a que se dá entre pai e filho. mas. E poderia ser ocupado por gradações de um lado e outro dos extremos. Se teoricamente se pode propor. porque não há o diástema. na contradição. são contraditórias. ainda. Mas tal contradição é puramente especiosa. indivislvelmente. enquanto. Tal oposição chamada de privativa pelos filósofos assemelha-se à contraditória. já que. poder-se-iam estabelecer graus vetorialmente dirigidos para um extremo e outro. e embora se excluam no mesmo sujeito sob o mesmo aspecto. que não existe nele. porque são perfeitamente distintas. já que o conceito de enfermidade refere-se à privação de uma perfeição num mesmo ser. necessàriamente. o outro que se lhe opõe. já que tais termos são positivos. ambos termos apontam a extremos formais. que é o ser portador de sanidade ou de enfermidade. Assim sanidade e enfermidade. tal ponto central. estão firmando um diástema entre eles. que seria o ponto em que a tristeza deixa de ser tristeza. e a uma gama intermediária de participação de tal formalidade. Permitem assim os opostos contrários teoricamente. Ora. Ora. Com a oposição contraditória. Mas apenas assemelha-se. entre dois termos relações que implicam uma ordem mútua. e sanidade é exclusão de enfermidade. então. esta oposição implica algo em comum. tomada em si. ou seja. como afirmar que al- . quando se diz são não se diz enfermo. como a cegueira no homem. Se os conceitos se contradizem. a chamada oposição relativa (dos correlatrvos). Quando um ser é capaz de possuir uma propriedade ou um estado para que atinja a perfeição na sua espécie. só posteriormente poder-se-ia examinar se ele se dá concretamente. que há um sujeito carente de uma perfeição que deveria ter segundo a sua natureza. que é a privação daquela. Formalmente também se poderia estabelecer um centro teoricamente indiferente entre os opostos contrários. Conseqüentemente. Seja como fôr. por ora. diz-se que há privação de tal propriedade ou estado. porque quando se diz sanidade exclui-se totalmente enfermidade. tomadas formalmente. Há outra oposição como a entre um termo que afirma a posse de uma perfeição e a que afirma a ausência da mesma.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 173 Dentro de um âmbito comum (de uma esfera comum) esses dois termos significam os extremos de tal âmbito. tal gradação é impossível. no caso do ser saudável ou enfermo refere-se à presença ou à ausência de uma perfeição no mesmo ser. Mas há um aspecto importante a salientar aqui. em alguns casos. na oposição contrária. pois dizer que algum ser é pai. ou seja. sim. porque um afirma a negação do outro. os contrários mediatos. e a alegria deixa de ser alegria. há a exclusão da positividade. é dizer que há um filho.

que necessitamos estudar. aqui. se são apenas contrários mediatos ou imediatos (ambos positivos). uma terceira entidade comum a ambos opostos. mas no da antologia. coloca-nos de chofre na PROBLEMÁTICA DA ANALOGIA Podemos dizer de antemão. na Filosofia. Surgem. uma unidade entre os opostos. Ambos são exigíveis simultaneamente. ora não. verifica-se que o que foi postulado pela tese é verdadeiro e está suficientemente demonstrado. se os extremos da espécie. a privativa. ESCÓLIO Há entre os opostos algo em comum. na postulação de teses tão variadas. Não se pode negar a procedência da pergunta ante a afirmação que se faz de que os opostos de Aristóteles são polares. que a grande variedade observada na Filosofia. Se é a negação pura e simples do mesmo no mesmo. pela qual se afirma a existência particular única de um dos opostos. o que provaremos a seguir. por haver algo em comum. . posição dualista e até a pluralista. A colocação deste problema nos coloca de chofre no problema dos antepredicamentos. o homem e a mulher). Em torno dessas possibilidades tem girado a especulação filosófica. . o que veremos oportunamente. a contrária. ou a afirmação da positividade da dualidade oposicional positiva. ou se são correlativos. pois o senhor é o senhor do escravo e o escravo. se a presença ou ausência.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 174 guém é filho. Pelo exame das diversas oposições feitas até aqui. não propriamente no âmbito da Lógica. são polaridades. Ora. como não existente. Contudo. temos a oposição contraditória. se procurou a coincidentia oppositoum. sempre. São eles exigidos reciprocamente. Em suma. bem como na construção de tantos erros famosos. porém. três possibilidades pensamentais. Resta saber. a predominante é. como se vê entre os correlativos. ou seja. Também esses opostos não admitem meio. embora em vetores inversos. que é a posIção dos unitaristas. e ora admitem uma gradatividade. Pois bem. Ou se afirma a unidade dos opostos. o diástema dos opostos contrários e relativos chama-se de oposição polar ou polaridade (como os polos do globo terráqueo. o escravo do senhor). é afirmar correlativamente que há um pai (assim também senhor e escravo. que mutuamente e necessàriamente os correlacionem. que dá a característica da oposição. a que tem buscado uma harmonização dos opostos. . se a correlação. eliminando-se o outro. a relativa.

ou o equivocismo que leva ao pluralismo. sobretudo. Os limites dessa especulação já estão dados. ou seja. pode alcançar a primeira posição. pois veremos a seguir quantos erros filosóficos podem surgir da maneira errada de considerar tais antepredicamentos. mas. Estabelecida a impossibilidade absoluta do panteísmo. e como poderemos corrigir tais erros se nos conduzirmos segundo o método dialético concreto. Deste modo ficam delimitados os âmbitos especulativos. como o fizemos naquela parte. Depois do que ficou estabelecido na parte sintética de nosso "Filosofia Concreta". da maneira de considerar os antepredicamentos: univocidade. A correção de tais erros pode partir da correção dos erros metafísicos. Não é essa afirmativa algo gratuito. ficam delineadas as fronteiras do campo onde pode realizar-se uma especulação filosófica. já dispomos de . mas também a melhor compreensão da analogia pode facilitar a correção de erros filosóficos. como leva. pelo menos de um modo geral. a Metafísica. é. Temos empregado várias vêzes a expressão âmbito es pecullativo. para uma precisão mais segura. ou ao Meon. atualizada sob o aspecto da semelhança. o âmbito especulativo da equivocidade está limitado até o ponto em que evite o abismo absoluto. ou seja. o âmbito especulativo do nada restringe-se ao nada relativo. também. Outro exemplo: demonstrada a impossibilidade do dualismo principal. Uma nítida e segura posição filosófica leva fatalmente a uma nítida posição também sobre a analogia. equivocidade e analogia. Não é só o erro que surge da maneira de considerar a analogia que gera erros filosóficos. como vimos. a maneira errada de considerar a Filosofia e.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 175 decorrem. inevitàvelmente. não se pode mais negar de modo absoluto a multidão e a diversidade dos seres. Assim. pede levar ao segundo. e é nosso dever precisar a sua significação. que não admite separações absolutas. como atualizado o aspecto da diferença. a intercalação do nada absoluto parcial entre positividades. posteriormente. mister clarear a analogia que. É isso o que chamamos de âmbito especulativoo. Para evitar-se o univocismo que leva à concepção monista. Se tivermos presente as teses demonstradas na parte sintética é desde logo fácil compreender o que entendemos por âmbito especulativo. devidamente demonstrada a impossibilidade absoluta do nada absoluto (nihilum). a partilha absoluta do ser. Não é possível trabalhar aqui com a segurança desejada se não forem devidamente delineados os âmbitos especulativos que que a filosofia concreta permite estabelecer. a erros no considerar a analogia. suficiente para permitir que avancemos. pode levar.

por ora. Desta maneira é mister. e nada mais faríamos que contribuir apenas para aumentar uma especulação que já foi feita. uma série de corolários: . como procedem em geral os escolásticos. desejamos estabelecer situações téticas capazes de nos ministrarem soluções adequadas aos grandes problemas da filosofia. como os erros no considerar esta levam a erros metafísicos. Portanto. Daí decorrem. d) O dualismo principal absoluto é impossível. e proficientemente feita. pois logo veremos que os erros estão precisamente no desbordar o âmbito especulativo pela afirmação do que ultrapassa os limites ou. passarmos ao exame dos antepredicamentos. quando. por deficiência. Sem essa dúplice providência. cujo empreendimento iniciamos nesta obra. Tais teses já foram devidamente demonstradas.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 176 instrumentos dialéticos seguros. Tal conquista do pensamento nos facilitará captar os erros comuns do filosofar. na Ontologia. c) O monismo absoluto é impossível. em linhas gerais. uma demonstração da tese fundamental que poderíamos formular agora: Tese 2 Os erros no filosofar metafísico levam a erros no considerar a analogia. conseqüentemente. Entre elas ressaltaremos. como geralmente o fazem os que seguem uma linha filosófica fora de Escolástica. b) Não há rupturas abissais no ser. cuja demonstração deve preceder a daquela. seguindo o nosso método. capazes de nos oferecerem meios positivos e instrumentais para uma investigação analítica. não só na Lógica. e dar meios mais seguros para o processo analítico. do processo filosófico. temos de partir de uma série de teses dialéticas já demonstradas. todo esfôrço seria inútil. A demonstração desta tese exige previamente a demonstração de outras teses correlacionadas. E será da demonstração apodítica dessas teses que se fará a demonstração global e definitiva da primeira. as quais devem constantemente estar presentes à especulação que iniciaremos. mas. no não considerar como incluso o que realmente se dá em tais âmbitos. O que vai decorrer será. as seguintes: a) Não há meio lérmo entre ser e nada. na verdade. também. que se deverá processar dentro de âmbitos precisos.

Mário Ferreira dos Santos

A Sabedoria da Unidade

177

1) A afirmação da univocidade absoluta afirmaria o monismo absoluto. 2) A afirmativa da equivocidade absoluta afirmaria o dualismo ou o pluralismo absolutos. 3) A analogia não pode ser uma síntese da univocidade absoluta nem da pluralidade ou dualidade absolutas, porque seria contraditória em si mesma. Eses corolários, conseqüentemente, já estabelecem o âmbito especulativo que cabe ao estudo da analogia, e de antemão é como um sinal fechado que indica uma impossibilidade; ou melhor, uma repugnância ontológica à especulação que se afaste do âmbito delineado com precisão.

OS TERMOS COMUNS O nome que se predica de muitos seres, realmente distintos entre si, e cujos seres lhe são inferiores, é um nome comum, por que é comum a eles. É imprescindível que entre os seres denominados por aquele nome haja uma distinção real; em suma, que cada um seja realmente outro que o outro. Tal é examinado na Lógica. Se o nome comum se diz de muitos em sentido totalmente diverso, chama-se equívoco; se se diz de muitos, não de modo inteiramente diverso, pode dar~se o modo inteiramente idêntico, e temos o termo unívoco, ou pode dar-se não de modo inteiramente idêntico, mas com certa desigualdade, e temos o termo análogo. O termo análogo é um intermédio entre o unívoco e o equívoco, pois não se diz dos inferiores de modo inteiramente idêntico, nem inteiramente diverso; ou seja, em parte idêntico e em parte diverso. Se examinamos um termo genérico ou específico, vemos que o que tende ele a dizer de muitos é algo determinado, prescindindo, perfeitamente, porém, de suas diferenças. A esses unívocos chamaram-se de unívocos universais. Quando se emprega o termo ser para denominar muitos, em que não se prescinde perfeitamente de suas diferenças, pois toda diferença de ser é ainda ser, temos, então, os unívocos não universais; ou melhor, chamados transcendentais. Essa classificação é de Suarez e em breve a reanalisaremos. Verifica-se que o termo análogo se acha em um de modo principal, enquanto em outros por ordem ao principal. O primeiro é chamado de analogado principal, e os segundos de analogados secundários. Quando o análogo comum é atribuído ao analogado secundário, indicando uma dependência a respeito do principal, temos a analogia de atribuição, ou seja, quando atribuímos um termo a um secundário, em relação de dependência a um principal. E essa analogia pode ser ainda

Mário Ferreira dos Santos

A Sabedoria da Unidade

178

extrínseca (analogia de atribuição extrínseca) ou intrínseca. Há a primeira, quando em virtude da dependência de que falamos, atribui-se ao analogado secundário apenas o nome análogo, e há o segundo quando se aplica também o conteúdo conceitual significado por aquele. Como exemplo da primeira temos o termo são (sanidade). O analogado principal é o corpo vivo, possuidor da saúde real. Como analogados secundários, pode-se falar de um alimento são, de uma moradia sã, os quais, por sua relação com o corpo, podem receber aquela atribuição. Como exemplo da segunda forma de atribuição, temos o termo ente, que se predica do Ser Supremo como analogado principal, e das criaturas (seres dependentes daquele), como analogado secundário, pois são estes entes por dependência daquele. E como a entidade é neles, essa atribuição é intrínseca; por tanto, temos, aqui, um exemplo de analogia de atribuição intrínsJeca. Esta última analogia é também chamada de metafísica e é a que mais interessa à Filosofia. A primeira é uma figura de retórica, e deve ficar para o campo da Estética. A segunda é a que pode interessar e interessa mais diretamente à Filosofia Concreta. Na analogia intrínseca, o termo significa uma forma que se verifica própria e intrlnsecamente nos inferiores, embora de maneira muito diversa. Chamam os lógicos a atenção que ela se pode dar de dois modos: 1) que o termo signifique um conceito objetivo único, o qual prescinda das diferenças, embora imperfeitamente, em que se verifique, formal e intrinsecamente, nos inferiores, com semelhança formal, mas com diversidade essencial nascida da ordem de prioridade e posterioridade de um para o outro, como o salientam os suarezistas. Neste caso, dá-se a analogia intrlnseca de atribuição, como preferem eles chamar. Dizem intrínseca, por supor-se que a forma significada convém formalmente a todos os analogados, embora de maneira muito diverso. Diz-se de atribuição, porque se supõe também que a forma convém ao secundário por participação ou por dependência, ou por referência à forma principal. Um exemplo aclarará suficientemente: tomemos o termo ser, o qual predicamos, tanto do ente supremo como dos que lhe são dependentes, e também de todos os aspectos positivos, substanciais ou acidentais que nestes tomemos. Todo nome, que se aplique aos inferiores, própria e intrinsecamente com um só conceito objetivo, e que transcenda diferenças que acaso tenham eritre si por ordem de prioridade e de posterioridade, é um termo dessa espécie. Para Suarez e para os suarezistas esta é a única analogia intrínseca ou metafísica por eles admitida. Salientam eles que pode dar-se um segundo caso, no qual a analogia intrínseca ou metafísica consiste no termo significar uma forma, a qual se verifica nos inferiores, própria e intrinsecamente, mas de maneira absolutamente diversa, e relativamente idêntica (simpliciter diversa et secundum quid eadem). Diz-se que se verifica de maneira relativamente idêntica, porque se verifica com semelhança de proporções, e não com semelhança

Mário Ferreira dos Santos

A Sabedoria da Unidade

179

de forma significada. Assim, quando dizemos que o ente supremo é ser, não afirmamos uma coisa comum a ele e às criaturas, mas, sim, afirmamos que o habitum do ente supremo ao seu ser é semelhante ao habitum das criaturas ao seu ser. Para que procedamos a análise da analogia, estabeleçamos em síntese os conceitos principais até aqui examinados. Tomou -se claro o que se entende por termo comum, que é o que se diz: de muitos seres distintos realmente entre si. Clarearam-se os conceitos do termo equívoco, unívoco, unívoco universal e o unívoco transcendente, e o termo análogo, que é aquele que se diz de muitos, parte no mesmo sentido, e parte em sentido diverso; ou seja, em que a desigualdade provém da ordem de prioridade e posterioridade. Pode ser ele análogo com a analogia intrínseca de proporcionalidade e de atribuição, ou com analogia intrínseca de atribuição, ou de proporcionalidade. No primeiro caso, temos o termo conveniente a muitos, porque a forma significada está num formalmente, e noutros por mera semelhança proporcional a ela, sem dependência ou referência alguma causal a ela. Esta analogia não interessa à Filosofia Concreta, porque ela é meramente metafórica e cabe à Estética. O termo análogo, com analogia de atribuição extrínseca, é aquele que convém a muitos por significar uma forma que, tanto numérica como essencialmente, só está no analogado principal, o qual pode ser apenas um indivíduo ou uma classe de indivíduos. Nos outros, está apenas por referência à forma principal. Esta analogia também não interessa à Filosofia Concreta. A analogia intrínseca ou metafísica é aquela em que o termo significa uma forma e esta se verifica formal e intrinsecamente em todos os inferiores, mas ao mesmo tempo com diversidade essencial. Esta analogia pode ser de atribuição intrínseca, quando se verifica o que acima dissemos, mas a diversidade está fundada na ordem essencial de prioridade e de posterior idade. Esta analogia é a que interessa a Filosofia Concreta. Também se fala na analogia intrínseca de proporcionalidade, que é aquela em que o termo significa uma forma, que é verificada nos inferiores, formal e intr1nsecamente, não, porém, com semelhança formal que caiba num conceito objetivo único, prescindindo imperfeitamente dos inferiores, mas com semelhança de proporções, cuja semelhança cabe num conceito único, com unidade proporcional. Esta analogia não interessa à Filosofia Concreta, e foi combatida por Suarez. Diz-se que são coisas análogas, aquelas que têm um nome comum, cujo significado convém aos inferiores; parte de um modo idêntico, parte de um modo diverso. Nesse sentido, todos estão de acordo. Ora, tal conceituação afirma que a analogia é uma síntese do diferente e do semelhante.

O termo ser. Como o diverso é uma síntese do diferente absoluto e do repetido. a analogia consiste. ora menor. Como a univocidade entre termos diversos não pode ser absoluta. teríamos de encontrar. Já vimos que este é um limite do âmbito especulativo sobre a analogia. uma síntese do diferente específico e do diferente individual com algo idêntico. também é. no diferente o distinto é maior que o igual. Se no mesmo se afirmasse apenas a identidade. No semelhante. o Ser Supremo é o único que é puramente ser. deve dar-se. na diversidade. No conceito de distinto há uma síntese do diverso com o mesmo. que lhe são dependentes. aponta esta diferença absoluta. o diverso é ora superior ao mesmo. e se não admitimos esta síntese. Para dizer-se que duas coisas são as mesmas. aplicado a ele. que as outras. no mesmo. e o é absolutamente outra. Conseqüentemente. haveria um abismo e. caso tal não se desse. já apoditicamente refutado. Ao analisarmos coisas análogas. e ao mesmo tempo de algo repetido. o qual podemos predicar do ente supremo e das suas criaturas. o distinto é menor que o igual. Ela é. enquanto tal. portanto. ato puro. O mesmo teríamos de encontrar nas criaturas. nestas. Mas acaso não é a criatura tomada na sua historicidade um diferente absoluto? Sim. Se não houvesse o mesmo de certo modo nas coisas distintas. uma ruptura no ser. conseqüentemente. pois a diversidade se fosse absoluta levaria também à ruptura do ser. no Ser Supremo. sem se afirmar a univocidade absoluta.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 180 Duas coisas são diferentes quando entre elas há algo distinto e algo igual. Se examinamos o mesmo. que são analogadas secundárias. como se demonstrou na "Filosofia Concreta". numa síntese do diferente absoluto. segundo corresponda ao distinto ou ao igual. Tomemos um exemplo bem simples: o termo análogo ser. Em ser. . notaríamos que a razão significada a tais coisas. E como pode ser aplicado às criaturas. teríamos de afirmar o pluralismo. sem mescla de qualquer deficiência. Cairia por terra a analogia. ela mesma. pois do contrário não há analogia. um diferente absoluto e um idêntico. temos de afirmar uma síntese da identidade e do diferente específico e do diferente individual. parte de modo diverso. aquela síntese é imprescindível. histórica e individualmente. e outra que as outras. Ora. convém aos inferiores. Sendo a analogia a síntese acima descrita. Conseqüentemente. Por sua vez o conceito de diverso aponta para algo irredutivel de modo absoluto. parte de modo idêntico. deve haver um diferente absoluto e algo repetido. superando o primeiro ao segundo. é ele aplicado formalmente de modo proporcional a estas. do repetido e do idêntico. tal é ele um diferente absoluto de todos os outros. chegaríamos à univocidade.

Se negamos à outrance a univocidade. pela nossa solução. ao contrário. aqui. ao mesmo tempo. enquanto ser. O ser absolutamente diferente do ser finito não rompe a unidade do ser. também como diferente absoluto. negá-Ia. o diferente absoluto do Ser Supremo não implica ruptura do ser ao afirmar-se o diferente absoluto do ser finito. afirma um grau intensista de ser contido eminentemente na onipotência do Ser Supremo. Vejamos: em que ponto se univocaria um ser criatural. uma univocidade entre a criatura. simultâneamente. A afirmação da diferença absoluta desse ser criatural não implica ruptura no ser. na onipotência daquele. porque.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 181 Haveria. com o Ser Supremo enquanto ser? O ser criatural se univocaria por ser ou um modo de ser contido eminentemente na onipotência do Ser Supremo. Haveria. o que nela afirmamos é um grau intensista de ser. são perfeitamente conciliáveis. não é mister uma inclusão do ser da criatura no ser do Criador? Não implicaria. Assim. que evite a queda nestes dois extremos? Esta solução foi a que demos. uma ruptura no ser? Para que não se dê a ruptura. e a afirmação desta absolutuidade não nega a do Ser Supremo. A afirmação do ser criatural é a afirmação de um grau intensista de ser. aqui. afirmar a univocidade e. se pode encontrar. já que a ambos podemos predicar o mesmo. porque esta diferença absoluta é limitada ao âmbito da sua formalidade específica ou individual. sem perigo da firmação monista ou da pluralista é o seguinte: o diferente absoluto do ser criatural é uma possibilidade que está contida. e o Ser Supremo. uma certa univocidade. como diferente absoluto. que está contido eminentemente na onipotência do Ser Supremo. porque o diferente absoluto do Ser Supremo é ser simplesmente ser. cairemos inevitàvelmente no pluralismo. Mas. então. Como. Então. que está contido eminentemente na onipotência do Ser . não há mais necessidade de recorrer a engenhosas construções dialéticas para. as divergências que se dão entre eles. apodlticamente. sem deficiências. não como um recurso engenhoso. na onipotência de Deus. mas como aquele que. encontrar a solução. o conteúdo desse mesmo é outro. eminentemente. Mas se afirmamos a univocidade (e queremos nos referir aqui ao campo do ser) surge à frente de todos o fantasma do panteísmo. para evitar-se a ruptura e afirmar-se um dualismo absoluto entre o ser simplesmente ser sem deficiências e o ser relativamente ser com deficiência? A ruptura não se dá por uma razão bem simples como mostraremos e parece-nos não ocorreu aos escolásticos. eminentemente. que. como iremos ver mais adiante ao analisar as diversas maneiras de se colocarem os escolásticos em face desse tema. aqui. enquanto o diferente absoluto da criatura é ser com deficiência de ser. e mais ainda. porque está contida. Há uma univocidade de predicação. que temerosos de cair no panteísmo e salvar a univocidade e a analogia.

e mesmo que a univocidade fosse aceita como meramente lógica. Outros. aqui. Neste ponto. por culpa muitas vezes da deficiência de discípulos menores. e univoca-se. absolutamente. pelo seu grau específico e. de qualquer modo. fundamentalmente. ou o modo de conter eminentemente. individual de ser. naturalmente. Alguns escotistas afirmam que a univocidade deve ser entendida de duas maneiras: uma lógica e outra metafísica. que não correspondem à verdade. já que pode ser usada como termo médio num silogismo. porque se diversifica nos inferiores. preconisada por Scot. parecia-lhe pôr em risco a analogia. foram os tomistas mais enérgicos do que os suarezlstas. Mas a univocidade lógica. por diferenças que se definem pelo mesmo ser. Deste modo. que esteja presente o que expusemos na “Filosofia Concreta" sobre a eminência. por considerar um tanto ambígua a declaração de Scot. intransigentemente. foi enérgico e decisivo ao combater os escotistas que defenderam. Contudo. porque. Alcançamos. é um análogo metafísico. Sabem todos com que desconfiança. e de todo uniforme aos . a explicação alheia. não constitui a doutrina em questão. o diferente absoluto e o idêntico coincidem. fundados em textos ou exposições.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 182 Supremo. a univocidade do ser. Muitas controvérsias decorrem da má precisão do que é concebido pelos adversários e não são raras as vêzes em que certos autores falsificam. que não deixam de ser de grande importância. até pelos mais rígidos tomistas. E é evidente essa coincidência. e até com que obstinada repulsa colocaram-se tomistas e suarezistas ante a univocidade do ser. sem ruptura no ser. ANALISE DA ANALOGIA SEGUNDO OS ESCOLASTICOS Todos sabemos que. contudo prefere desprezá-la. na Escolástica. Reconhece Suarez que a univocidade lógica é admitida por todos. Toda essa nossa argumentação presume. e que têm entre si ordens de prioridade e posterioridade. na qual sobressai a verificada entre tomistas. no ser. relatam o que. pois o ser de um ser finito é diferente. fazendo mau juízo do que. ao ideal de muitos. pois Suarez tomou uma atitude benigna. constitui as razões doutrinárias de uma ou outra posição. a ponto de acusá-lo de panteísta. com o intuito de mais fàcilmente refutá-Ias. por ser esse grau um grau contido eminentemente na onipotência divina. Entre os seguidores destas correntes há divergências de pormenores. longa é a controvérsia em torno desta matéria. que era atingir a coincidentia oppositorum. escotistas e suarezistas. na realidade. propriamente. quanto ao ser. A lógica é procedente. Reconhece que o conceito de ser é inteiramente o mesmo. favorece a univocidade. também.

os tomistas preocupam-se em salvar a infinita . porque se o ser prescinde das diferenças. Ora. ele concede. observa-se que Scot. Ademais. e razão. embora pusesse de lado as outras possibilidades de considerar a analogia. Entretanto. Em suma. meras ilusões e precisamente é isto o que afirma o monismo panteísta. seriam elas irreais. para Scot. ansiosos em evitarem a univocidade. uns acusaram os outros de cair no que todos. segundo a ordem e segundo a perfeição (1º e mais perfeito grau). que é diversidade essencialíssima e com ordem de prioridade e de posterioridade. afirmaram com energia a analogia de proporcionalidade. deste modo. do contrário. quanto aos termos. na onipotência do Ser Supremo neste grau. se tais diferenças e modos não são ser. por sua vez. que vamos dar em ordem crescente: 1) univocidade segundo o nome. e apesar dos ingentes esforços realizados por conspícuos pensadores. e como todo e qualquer diferença de ser está contida. porque. cair-se-ia no monismo panteísta. Por sua vez. ela se univoca. segundo o modo de ser. são nada e prescindindo delas. o conceito de ser não seria um gênero. devido ao perigo do panteísmo. a razão e segundo o modo de ser (3º grau). o que na realidade Scot afirmou ao tratar da univocidade. temiam. é gradativa. Em oposição ao pensamento escotista. 3) segundo o nome a razão. porque se o ser prescinde perfeitamente das diferenças. desafiando a argúcia de todos os seguidores destas três principais doutrinas escolásticas. Tal doutrina é acoimada de incoerente. Como todo e qualquer ser. consiste no possuir a mesma razão. porque lhes dava alguma realidade e. a matéria permanece controversa. Afirma-se que a doutrina de Scot diz que o çonceito de ser prescinde perfeitamente de todas as diferenças e modos. e se afirmasse que têm realidade.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 183 inferiores ele nega. os tomistas. Isto não evitou que Suarez a acusasse de incoerência pelas razões que acima expusemos. ao afirmar a univocidade. de modo que o termo é unívoco segundo estes graus. por isso. Em sua razão confusa. (2º grau). estas não são realidade alguma. estas ficam fora do ser e deste modo não teriam realidade alguma. que é um com unidade imperfeita. o conceito de ser seria meramente genérico. porque abarcaria toda a realidade confusamente. abarca toda realidade dos inferiores e. 2) univocidade segundo o nome. Vê-se que a concepção da univocidade. Deste modo a equivocidade se apresenta com quatro graus. 4) segundo o nome e razão. teríamos o abismo. segundo o modo de ser e segundo a ordem. (4" grau). Pela nossa exposição. diz-se algo inconciliável com a precisão perfeita que Scot afirmou. afirmava-a da maneira como expusemos. se diversifica nos inferiores com a mesma diversidade que ele têm. eminentemente. Ademais Scot não considerou as diferenças como puro nada.

com o intuito de evitar a univocidade entre um e outro. só e apenas num conceito com unidade proporcional. enquanto que ao ser infinito o é proporcionadamente a este. Deste modo. possibilidade. e que todos os seres e todas as suas diferenças são semelhantes na razão de ser. e ainda mais: acusam-na de incoerente e apresentam várias razões. os suarezistas esta doutrina de levar ao agnosticismo e. seriam elas o único ser infinito que é possível. sem perigo da univocidade própria do panteísmo. numa semelhança proporcional. assim escreve José Hellin: "Seus fundamentos ontológicos e lógicos ou psicológicos. O infinito é essencialmente imutável e ilimitável. Comentando-a. que foi decretado como herético pela Igreja. e origem eminentíssima de todo ser que há fora de Deus e de toda a sua realidade. etc. e as consequências que deles se deduzem são indiscutíveis: Deus é o ser por essência. não cabem num único conceito. Por sua vez também a teoria coincide com a nossa. que é proporcionado à infinitude do Ser Supremo e à proporcionalidade da atribuição de ser ao ser finito. não há semelhança formal e imediata de perfeição a perfeição. ao ontologismo. por ser Deus e as criaturas. ato puro e infinito. entre Deus e as criaturas. Acusam.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 184 transcendência divina. eminentemente. porque o ser. neste caso. porque ao afirmar que a existência é algo simpliciter e infinitllm. que é a transcendência do ser infinito. que afirmamos ao ser finito. e. está contido. também. Ora. Deste modo. tão essencialmente diversos. de maneira que o ser predicado ao ser finito o é proporcionadamente a este. todas as criaturas são simpliciter serés infinitos. Só há semelhança proporcionada. sendo a existência de per se realmente infinita simpliciter. nem por sujeito algum receptor. sem atender à maneira particular como essa semelhança se verifica em cada um. por força. Se temos. o qual não representa uma razão comum. atual e imediatamente. apesar da sua obstinada preocupação. de onde. como a sabedoria. a unidade dos inferiores. Contudo. em conta que nosso entendimento pode abstrair aquilo em que convêm todos os seres. Acusam os suarezistas esta doutrina de não fugir ao panteísmo. atuatidade e. nem sequer naquelas perfeições que prescidem de imperfeição. é impossível que se limite. . porque em Deus há uma coisa qae está para sua essência. nem mesmo imperfeitamente. embora com infinita distância. assim como está alguma coisa para a essência criada. na onipotência do Ser Supremo. a bondade. essência e existência. como todas as criaturas participam do ser. ademais. poderemos abstrair um conceito de ser que. se ressaltarmos o que é fundamental na concepção dos tomistas. mas apenas indica e significa direta. esta posição coincide também com a nossa tese. nem por causa agente alguma. ainda. e que para limitá-Ia se necessita seja ela recebida numa potência realmente distinta. há de haver alguma semelhança formal e imediata entre Deus e a criatura.

o idêntico está na perfeita adequação entre a singularidade histórica do ser finito. toma-se confusamente (como o quer Suarez) todos os modos intensistas de ser. seguindo os roteiros metodológicos da Filosofia Concreta. como um grau intensista de ser. Se atentarmos para os postulados. a mesma Supremo. tudo. embora de maneira imperfeita. abarca. que apontamos no início deste tema. eminentemente. Por sua vez. O diferente absoluto é essa mesma singularidade histórica que. nem uma equivocidade absoluta total. toda diferença. mas uma razão comum tomada das criaturas. evitando o monismo panteísta. verifica-se neles coisas infinitamente distantes. a analogia tem de afirmar uma certa univocidade e uma certa equivocidade. Com esta explicação.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 185 sendo um por representar ou notificar somente uma nota simplicíssima. estaria totalmente fora. não pode haver uma univocidade absoluta total. contém a univocidade mínima secundum nominem ac rationem dos escotistas. na onipotência do Ser Supremo. que são corolários das teses já demonstradas. e possui os seus fundamentos que está contida eminentemente na onipotência do Ser . enfim. contudo. porque nosso conceito não representa Deus. e que. o qual é afirmar a analogia metafísica do ser com a analogia intrínseca de atribuição. é. direta e atualmente. toda a sua realidade. Resta-nos agora demonstrar a nossa posição. na onipotêncía do Ser Supremo. em cada ser. que seja uma entidade está contido. contidos eminentemente na Onipotência do Ser Supremo. contém a analogia de proporcionalidade intrínseca dos tomistas. o ontologismo. porisso este mesmo conceito do ser está neles de maneiras diversíssimas. salvando a transcendência do Ser Supremo. Esta tese já foi apoditícamente demonstrada na parte sintética da Filosofia Concreta. o agnosticismo. e como esta realidade é diversíssima em cada um. relativas e comparativas por excesso ou eminência. Ora. Assim nosso conceito representará algo do que há em Deus formalmente. para apropriá-Ia a Deus é necessário restringi-Ia com determinações negativas. No conceito de ser." Esta maneira de conceber a analogia também está inclusa e coincíde com a doutrina que defendemos. porque nosso conceito representa algo em que Deus e a criatura são formalmente semelhantes. que devemos encontrar em todo ser. sendo outra que outras. E se não fosse assim. salva-se a transcendência divina. o pluralismo. com o grau intensista de ser que está contido. E estas encontraram seus fundamentos no idêntico e no diferente absoluto. Toda espécie de ser. evita-se o agnosticísmo. Evita-se o ontologismo. já que ao predicar o mesmo conceito de Deus e das criaturas. contudo. eminentemente. o que seria absurdo ante as teses já demonstradas. todo modo. portanto.

que atribuímos ao Ser Supremo não representa. porque uma lógica férrea une as suas partes. É o que faremos em outros volumes que seguem a este. sem risco de cair nas aporias que ele gerou. permitir que examinemos as polaridades deste segundo pensamento com maior segurança. sem forçar os conceitos. porque se liberta das obscuridades e incoerências que as outras podiam provocar. É assim de certo modo original. é coerente. que afirma a perfeita adequação dos conteúdos noemáticos do nosso conhecimento com a verdadeira essência do Ser Supremo. finalmente. nem atentar para o que é fundamental no pensamento positivo mais seguro. segundo a metodologia dialética da filosofia concreta. a ele e. porque se apoia em princípios demonstrados apoditicamente. é simples e de simplicidade completa.Mário Ferreira dos Santos A Sabedoria da Unidade 186 nas teses demonstradas apoditicamente pela Filosofia Concreta. pois o conceito de ser. bem como permitir. como ainda veremos. é filoficamente apta. imediata e diretamente. evita o agnosticismo que o conhecimento analógico pode gerar. e também o ontologismo. uma melhor fundamentação da conciliação entre o que há de positivo no pensamento pitagórico-platônico e no aristotélico e. é fundada. realiza o ideal da coincidentia oppositorum. capaz de permitir uma análise segura. finalmente. mas resolvendo-as de um modo claro. porque salva a transcendência do Ser Supremo do univocismo panteísta. .

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful