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Nosso Lar

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Nosso Lar Francisco Cândido Xavier Ditado pelo Espírito André Luiz (1

)

Série André Luiz 1 - Nosso Lar 2 - Os Mensageiros 3 - Missionários da Luz 4 - Obreiros da Vida Eterna 5 - No Mundo Maior 6 - Agenda Cristã 7 - Libertação 8 - Entre a Terra e o Céu 9 - Nos Domínios da Mediunidade 10 - Ação e Reação 11 - Evolução em Dois Mundos 12 - Mecanismos da Mediunidade 13 - Conduta Espírita 14 - Sexo e Destino 15 - Desobsessão 16 - E a Vida Continua...

7 Nosso Lar

ÍNDICE
Novo Amigo = Página 9 Mensagem de André Luiz = Página 13

1 – Nas zonas inferiores = Página17 2 – Clarêncio = Página 21 3 – A oração coletiva = Página 26 4 – O médico espiritual = Página 31 5 – Recebendo assistência = Página 36 6 – Precioso aviso = Página 4 7 – Explicações de Lísias = Página 45 8 – Organização de serviço = Página 50 9 – Problema de alimentação = Página 54 10 – No bosque das águas = Página 59 11 – Notícias do plano = Página 64 12 – O Umbral = Página 69 13 – No gabinete do ministro = Página 74 14 – Elucidações de Clarêncio = Página 80 15 – A visita materna = Página 85 16 – Confidências = Página 90 17 – Em casa de Lísias = Página 95 18 – Amor, alimento das almas = Página 100 19 – A jovem desencarnada = Página 105 20 – Noções de lar = Página 110

8 Nosso Lar 21 Continuando a palestra = Página 115 22 – O bônus-hora = Página 120 23 – Saber ouvir = Página 126 24 – O impressionante apelo = Página 131 25 – Generoso alvitre = Página 136 26 – Nossas perspectivas = Página 141 27 – O trabalho, enfim = Página 146 28 – Em serviço = Página 152 29 – A visão de Francisco = Página 157 30 – Herança e eutanásia = Página 162 31 – Vampiro = Página 168 32 – Notícias de Veneranda = Página 175 33 – Curiosas observações = Página 180 34 – Com os recém-chegados do Umbral = Página 185 35 – Encontro singular = Página 190 36 - O sonho = Página 195 37 – A preleção da ministra = Página 200 38 – O caso Tobias = Página 207 39 – Ouvindo a senhora Laura = Página 214 40 – Quem semeia colherá = Página 219 41 – Convocados à luta = Página 225 42 – A palavra do Governador = Página 231 43 – Em conversação = Página 237 44 – As trevas = Página 242 45 – No campo da música = Página 247 46 – Sacrifício de mulher = Página 253 47 – A volta de Laura = Página 259 48 – Culto familiar = Página 264 49 – Regressando à casa = Página 270 50 – Cidadão de “Nosso Lar” = Página 276

9 Nosso Lar

Novo amigo
Os prefácios, em geral, apresentam autores, exaltando-lhes o mérito e comentando-lhes a personalidade. Aqui, porém, a situação é diferente. Embalde os companheiros encarnados procurariam o médico André Luiz nos catálogos da convenção. Por vezes, o anonimato é filho do legítimo entendimento e do verdadeiro amor. Para redimirmos o passado escabroso, modificam-se tabelas da nomenclatura usual na reencarnação. Funciona o esquecimento temporário como bênção da Divina Misericórdia. André precisou, igualmente, cerrar a cortina sobre si mesmo. É por isso que não podemos apresentar o médico terrestre e autor humano, mas sim o novo amigo e irmão na eternidade. Por trazer valiosas impressões aos companheiros do mundo, necessitou despojar-se de todas as convenções, inclusive a do próprio nome, para não ferir corações amados, envolvidos ainda nos velhos mantos da ilusão. Os que colhem as espigas maduras, não devem ofender os que plantam a distância, nem perturbar a lavoura verde, ainda em flor.

por mais respeitável que seja.. Certamente que numerosos amigos sorrirão ao contacto de determinadas passagens das narrativas. Reportamo-nos. da eletricidade. entretanto. desse modo. experiências. todavia. é justíssimo. Entretanto. causa surpresa em todos os tempos. Não comentaríamos. É mais que natural. fazer proselitismo e conquistar favores da opinião. melhorar a estatística. modalidades. aderir verbalmente. doutrinar consciências alheias. não deve o homem descurar de si mesmo. quando se lhe falasse da aviação. É filho de Deus. Milhares de criaturas interessam-se pelos seus trabalhos. envergando a roupagem . com todos os detalhes possíveis à legítima compreensão da ordem que preside o esforço dos desencarnados laboriosos e bem-intencionados. Quem não sorriria. da radiofonia? A surpresa. no plano físico. Todo leitor precisa analisar o que lê. nas esferas invisíveis ao olhar humano. O inabitual. qualquer impressão alheia. Não basta investigar fenômenos. Outras entidades já comentaram as condições da vida. anos atrás. na Terra. O homem terrestre não é um deserdado. aplicando-os. além-túmulo. É indispensável cogitar do conhecimento de nossos infinitos potenciais. a perplexidade e a dúvida são de todos os aprendizes que ainda não passaram pela lição. de há muito desejamos trazer ao nosso círculo espiritual alguém que possa transmitir a outrem o valor da experiência própria.10 Nosso Lar Reconhecemos que este livro não é único. O Espiritismo ganha expressão numérica. em trabalho construtivo. por nossa vez. tão-somente ao objetivo essencial do trabalho. Nesse campo imenso de novidades. embora intimamente ligadas ao planeta.. nos serviços do bem. pois.

e que. estacionamos no purgatório ou nos precipitamos no abismo infernal. em nosso campo doutrinário. O intercâmbio com o invisível é um movimento sagrado. mas precisa saber aproveitá-la dignamente. no lugar que ocupa pela vontade do Senhor. em função restauradora do Cristianismo puro. A luta humana é a sua oportunidade. precisamos. se descuide das necessidades próprias. mas. que a maior surpresa da morte carnal é a de nos colocar face a face com a própria consciência. onde precisa aprender a elevar-se. muito mais. em verdade. devem dirigir-se verdadeiramente ao Cristo. todavia. o seu livro. André Luiz vem contar a você. que os passos do cristão. a sua ferramenta. 3 de outubro de 1943. Ela diz bem alto que não basta à criatura apegar-se à existência humana. . Guarde a experiência dele no livro dalma. sem conhecer o preço do terrível engano a que submeteu o próprio coração. aluno de escola benemérita. e que ninguém a menosprezará. leitor amigo. EMMANUEL Pedro Leopoldo. do ESPIRITISMO e do ESPIRITUALISMO. de ESPIRITUALIDADE. vem lembrar que a Terra é oficina sagrada. onde edificamos o céu. que ninguém.11 Nosso Lar da carne. em qualquer escola religiosa.

O grande rio tem seu trajeto. no longo processo do aperfeiçoamento espiritual!. conhecer-vos detalhe a detalhe.. antes de tentar a suprema equação da Vida Eterna! É indispensável viver o vosso drama. também recebe afluentes de conhecimentos. . antes de encontrar o Oceano Eterno da Sabedoria. Oh! caminhos das almas. Copiando-lhe a expressão. A vida é fonte eterna e a morte é jogo escuro das ilusões. Cerrar os olhos carnais constitui operação demasiadamente simples. aqui e ali. avoluma-se em expressão e purifica-se em qualidade.. a alma percorre igualmente caminhos variados e etapas diversas.13 Nosso Lar Mensagem de André Luiz A vida não cessa. misteriosos caminhos do coração! É mister percorrer-vos. Seria extremamente infantil a crença de que o simples "baixar do pano" resolvesse transcendentes questões do Infinito. Permutar a roupagem física não decide o problema fundamental da iluminação. antes do mar imenso. como a troca de vestidos nada tem que ver com as soluções profundas do destino e do ser.

efetuando o curso difícil. que não podem conter ainda toda a verdade.um sopro renovador. Um século .ele só.uma aquisição. não nos interessaria. Grato. quase sempre.um dia. com os seus valores coletivos. em primeiro lugar. Não atormentaremos alguém com a idéia da eternidade.14 Nosso Lar Uma existência é um ato. nossa jornada laboriosa. quantos séculos. senão a experiência profunda. Nosso esforço pobre quer traduzir apenas uma idéia dessa verdade fundamental. recebendo lições sem cátedras visíveis e ouvindo vastas dissertações sem palavras articuladas. quantos triunfos. meus amigos! Manifestamo-nos. Um serviço . portanto. de estranha maneira . quantas mortes necessitamos ainda? E o letrado em filosofia religiosa fala de deliberações finais e posições definitivas! Ai! por toda parte. na companhia do Mestre. Que os vasos se fortaleçam. junto a vós outros. Aliás. Quantas existências. os cultos em doutrina e os analfabetos do espírito! É preciso muito esforço do homem para ingressar na academia do Evangelho do Cristo.uma experiência. Um corpo . A existência humana apresenta grande maioria de vasos frágeis.uma veste. somente. ingresso que se verifica. quantos serviços. agora. quantos corpos. Uma morte . Um triunfo . no anonimato que obedece à caridade fraternal. pois. Forneceremos. algumas ligeiras notícias ao espírito sequioso dos nossos irmãos na . Muito longa.

15 Nosso Lar senda de realização espiritual. agora. que meus agradecimentos se calem no papel. amigos. E. e que compreendem conosco que "o espírito sopra onde quer". no santuário do coração. recolhendo-se ao grande silêncio da simpatia e da gratidão. Que o Senhor nos abençoe. ANDRÉ LUIZ . a vosso respeito. Crede que guardarei semelhantes valores comigo. Atração e reconhecimento. amor e júbilo moram na alma.

a meu ver. agravando-me o assombro. Estava convicto de não mais pertencer ao número dos encarnados no mundo e. Outras vezes gargalhadas sinistras rasgavam a quietude ambiente. medo terrível senhoreando-me. Cabelos eriçados. rostos alvares. implorei piedade e clamei contra o doloroso desânimo que me subjugava o espírito. lamentos mais comovedores. de quando em quando. amargurado duende nas grades escuras do horror. A paisagem. meus pulmões respiravam a longos haustos. coração aos saltos. respondiam-me aos clamores. parecia banhada de luz alvacenta. no entanto. na verdade. prisioneiro da loucura. quando o silêncio implacável não me absorvia a voz estentórica. quando não totalmente escura. como que amortalhada . expressões animalescas surgiam.17 Nosso Lar 1 NAS ZONAS INFERIORES Eu guardava a impressão de haver perdido a idéia de tempo. A noção de espaço esvaíra-se-me de há muito. Sentia-me. muita vez gritei como louco. Formas diabólicas. Desde quando me tornara joguete de forças irresistíveis? Impossível esclarecer. que os meus. Algum companheiro desconhecido estaria. mas.

incidentes numerosos impeliam-me a considerações estonteantes. o problema religioso surgiu tão profundo a meus olhos. contudo.. conhecia as letras do Velho Testamento e muita vez folheara o Evangelho. Verificava que alguma coisa permanece acima de toda cogitação meramente intelectual. figuravam-se-me agora extremamente secundários para a vida humana. E a estranha viagem prosseguia. era forçoso reconhecer que nunca procurara as letras sagradas com a luz do coração.. tardiamente. era imprescindível fugir deles. De fato. os filhos? Perdera toda a noção de rumo. O receio do ignoto e o pavor da treva absorviam-me todas as faculdades de raciocínio. Esse algo é a fé. agora.18 Nosso Lar em neblina espessa. que os raios de Sol aquecessem de muito longe. irônicos. era tarde. as lágrimas lavavam-me incessantemente o rosto e apenas. Semelhante análise surgia. o não-ser.. a esfera diferente a erguer-se da poalha do mundo e. Os princípios puramente filosóficos. Seres monstruosos acordavam-me. Em momento algum. Com que fim? Quem o poderia dizer? Apenas sabia que fugia sempre. manifestação divina ao homem. Identificava-as . a esposa. logo que me desprendera dos últimos laços físicos. a sensação de alívio. De início. entretanto. a caminho de gloriosa destinação. Interrompia-se.. Reconhecia. Pensamentos angustiosos atritavam-me o cérebro. O medo me impelia de roldão. porém. valioso patrimônio nos planos da Terra. a meu ver. políticos e científicos. Significavam. Onde o lar. em pleno sepulcro! Atormentava-me a consciência: preferiria a ausência total da razão. bruscamente. felicitava-me a bênção do sono. Mal delineava projetos de solução. todavia. mas urgia reconhecer que a humanidade não se constitui de gerações transitórias e sim de Espíritos eternos. em minutos raros.

no desejo incontido de bem estar. conseguira filhos. Possuíra um lar que fechei a todos os que palmilhavam o deserto da angústia. A existência terrestre. Não desenvolvera os germes divinos que o Senhor da Vida colocara em minhalma. como a flor de estufa. ferozmente. nas teias rijas do egoísmo destruidor. pois. não suportava agora o clima das realidades eternas. gozara-lhe os bens. surdo a comezinhos deveres de fraternidade. colhera as bênçãos da vida. ou em pleno desacordo com as verdades essenciais. examinando atentamente a mim mesmo. compartilhara os vícios da mocidade do meu tempo. interpretava-as com o sacerdócio organizado. Enfim. Deliciara-me com os júbilos da família. Tivera pais. Noutras ocasiões. com a silenciosa acusação da consciência. sem sair jamais do círculo de contradições. algo me fazia experimentar a noção de tempo perdido. esposa e filhos que prendera. absorvera-me. no meu próprio conceito. Filho de pais talvez excessivamente generosos. que a morte transformara. Em verdade. Não adestrara órgãos para a vida nova. A filosofia do imediatismo. conquistara meus títulos universitários sem maior sacrifício. Era justo. cuja generosidade e sacrifícios por mim nunca avaliei. não fora um criminoso. esquecido de estender essa bênção divina à imensa família humana. Habitara a Terra. mas não lhe retribuíra ceitil do débito enorme. criminosamente. porém. não fora assinalada de lances diferentes da craveira comum. Sufocara-os. não pudesse . restituído ao rio infinito da eternidade. onde estacionara voluntariamente. que aí despertasse à maneira de aleijado que. mas. organizara o lar.19 Nosso Lar através da crítica de escritores menos afeitos ao sentimento e à consciência. perseguira situações estáveis que garantissem a tranqüilidade econômica do meu grupo familiar.

20 Nosso Lar acompanhar senão compulsoriamente a carreira incessante das águas. Oh! amigos da Terra! quantos de vós podereis evitar o caminho da amargura com o preparo dos campos interiores do coração? Acendei vossas luzes antes de atravessar a grande sombra. que. ou como mendigo infeliz. Suai agora para não chorardes depois. . exausto em pleno deserto. antes que a verdade vos surpreenda. Buscai a verdade. perambula à mercê de impetuosos tufões.

esmurrava o ar nos paroxismos da cólera. escorregadios na treva espessa e. aniquilavam-me a possibilidade de concatenar idéias. Comezinhos fenômenos da experiência material patenteavam-se-me aos olhos. Onde os sicários de coração empedernido? Por vezes. não é o terrível abandono a que me sentia votado. esquadrinhar razões e estabelecer novas diretrizes ao pensamento.21 Nosso Lar 2 CLARÊNCIO "Suicida! Suicida! Criminoso! Infame!" . atacava-os. porém. enxergava-os de relance. no entanto. Crescera-me a barba. Desejava ponderar maduramente a situação. Gargalhadas sarcásticas feriam-me os ouvidos. quando meu desespero atingia o auge. Em vão. na região desconhecida. mas o assédio incessante de forças perversas que me assomavam nos caminhos ermos e obscuros. A circunstância mais dolorosa. aqueles lamentos . mobilizando extremas energias. Para quem apelar? Torturava-me a fome.gritos assim. a sede me escaldava. Irritavam-me. mas aquelas vozes. a roupa começava a romper-se com os esforços da resistência. cercavam-me de todos os lados. enquanto os vultos negros desapareciam na sombra.

Firme e resoluto a princípio. suicida? . a última cena que precedera o grande sono: minha esposa ainda jovem e os três filhos contemplando-me. A quem recorrer? Por maior que fosse a cultura intelectual trazida do mundo..Que buscas. não poderia alterar.22 Nosso Lar misturados de acusações nominais. Por que a pecha de suicídio. Sentia. desnorteavam-me irremediavelmente. no curso dessas reminiscências. Eu era alguma coisa que o tufão da verdade carreava para muito longe. senti que as lágrimas longamente represadas visitavam-me com mais freqüência. por fim. os curativos dolorosos que experimentara nos dias longos que se seguiram à delicada operação dos intestinos. comecei por entregar-me a longos períodos de desânimo. no terror da eterna separação. Eu havia deixado o corpo físico a contragosto.. . o despertar na paisagem úmida e escura e a grande caminhada que parecia sem-fim. a realidade da vida.nunca! Essas increpações. e. a meu ver. sim. longe de prosseguir na fortaleza moral. Meus conhecimentos. a família e o doce convívio dos meus? O homem mais forte conhecerá limites à resistência emocional. por ignorar o próprio fim. semelhavam-se a pequenas bolhas de sabão levadas ao vento impetuoso que transforma as paisagens. quando fora compelido a abandonar a casa. Infeliz. o contacto do termômetro. suicida? Tais objurgatórias. extravasando do coração. incessantemente repetidas. enunciados na Casa de Saúde. lembrava a assistência desvelada que tivera. a situação não modificava a outra realidade do meu ser essencial. Depois. Recordava meu porfiado duelo com a morte. infeliz! Aonde vais. Perguntando . Ainda julgava ouvir os últimos pareceres médicos. o pique desagradável da agulha de injeções e. Entretanto. perturbavam-me o coração. ante o infinito. não eram procedentes. agora. mas.

em tão amargurosa emergência. sem modificação. vertendo copioso pranto. Não raro. Devorava as folhas desconhecidas. Essa idéia confortou-me. de mãos-postas. Eu. Foi quando comecei a recordar que deveria existir um Autor da Vida. Tornava-se imprescindível confessar a falência do amor-próprio. era imprescindível ocultar-me das enormes manadas de seres animalescos. a que me consagrara orgulhoso. completamente esquecido? . imitando a criança aflita? Apenas sei que a chuva das lágrimas me lavou o rosto. Médico extremamente arraigado ao negativismo da minha geração. E. colava os lábios à nascente turva. Castigava-me a fome todas as fibras. recordei o antigo pão de cada dia. impunha-se-me atitude renovadora. Muita vez suguei a lama da estrada. em torno de humildes filetes dágua a que me atirava sequioso. quais feras insaciáveis. a impelirem-me para a frente. e. Quanto tempo durou a rogativa? Quantas horas consagrei à súplica. De quando em quando. sem forças para reerguer-me. quando me senti absolutamente colado ao lodo da Terra. quando as energias me faltaram de todo. que todos os meus sentimentos se concentraram na prece dolorosa. Eram quadros de estarrecer! acentuava-se o desalento. o abatimento progressivo não me fazia cair definitivamente em absoluta exaustão. encontrava a consciência vigilante. esclarecendo-me que continuava a ser eu mesmo.23 Nosso Lar a mim mesmo se não enlouquecera. então. Estaria. experimentava agora a necessidade de conforto místico. fosse onde fosse. enquanto mo permitiam as forças irresistíveis. Persistiam as necessidades fisiológicas. que detestara as religiões no mundo. nada obstante. pedi ao Supremo Autor da Natureza me estendesse mãos paternais. com o sentimento e a cultura colhidos na experiência material. deparavam-se-me verduras que me pareciam agrestes. que passavam em bando.

reunindo todas as forças que me restavam. Um velhinho simpático me sorriu paternalmente. a humilhação. percebendo o meu esgotamento. quis traduzir meu júbilo. para entender todas as misteriosas belezas da oração. Foi nesse instante que as neblinas espessas se dissiparam e alguém surgiu. a flor tenra dos campos agrestes? Ah! é preciso haver sofrido muito. generoso emissário de Deus? O inesperado benfeitor sorriu bondoso e respondeu: . Alvo lençol foi estendido ali mesmo. generosamente.Chama-me Clarêncio. sou apenas teu irmão.Agora.Coragem. . emissário dos Céus. chamou dois companheiros que guardavam atitude de servos desvelados e ordenou: . acrescentou: . embora não cogitasse de conhecer-lhe a atividade sublime quando engolfado nas vaidades da experiência humana? Por que não me perdoaria o Eterno Pai. meu filho! O Senhor não te desampara. E. É preciso descansar para reaver energias.Prestemos ao nosso amigo os socorros de emergência. bondoso. à guisa de maca improvisada. para tomar com eficácia o sublime elixir de esperança. é necessário haver conhecido o remorso. pude apenas inquirir: . fixou nos meus os grandes olhos lúcidos. permanece calmo e silencioso. Em seguida.Quem sois. igualmente. a extrema desventura. quando providenciava ninho às aves inconscientes e protegia. Emocionado. Amargurado pranto banhava-me a alma toda. e falou: . aprestando-se ambos os cooperadores a transportarem-me. mas. comentar a consolação que me chegava. filho de Deus. Inclinou--se.24 Nosso Lar Não era.

Clarêncio meditou um instante e esclareceu.Vamos sem demora. como quem recorda inadiável obrigação: . Preciso atingir "Nosso Lar" com a presteza possível. .25 Nosso Lar Quando me alçavam. cuidadosos.

Branda claridade inundava ali todas as coisas. os condutores depuseram. Dois jovens. envergando túnicas de níveo linho. Tateando um ponto da muralha. deteve-se à frente de grande porta encravada em altos muros. através da qual penetramos. para me conduzirem cuidadosamente ao interior. então. Ao sinal de Clarêncio. situadas em extensos jardins. lobriguei o quadro confortante que se desdobrava à minha vista. silenciosos. a maca improvisada. A medida que avançávamos. ouvi o generoso ancião recomendar. A meus olhos surgiu. acorreram pressurosos ao chamado de meu benfeitor. conseguia identificar preciosas construções. que se apoiava num cajado de substância luminosa. à feição de grande hospital terreno.26 Nosso Lar 3 A ORAÇÃO COLETIVA Embora transportado à maneira de ferido comum. a porta acolhedora de alvo edifício. devagarinho. Clarêncio. cobertos de trepadeiras floridas e graciosas. Ao longe. fez-se longa abertura. gracioso foco de luz dava a idéia de um pôr do sol em tardes primaveris. carinhoso: . e quando me acomodavam num leito de emergência.

através das janelas. Enderecei-lhe um olhar de gratidão. Recordei. Semelhava-me assim ao cego venturoso. e perdi-me no curso de profundas cogitações. que abre os olhos para a Natureza sublime. esta luz confortadora e brilhante? Um deles afagou-me a fronte.Estamos nas esferas espirituais vizinhas da Terra. neste momento. fixou a luz branda que invadia o quarto. nos dias terrestres. esforcei-me por lhes dirigir a palavra. Esperam agora por mim. e o Sol que nos ilumina.27 Nosso Lar . entretanto.Guardem nosso tutelado no pavilhão da direita. A essa altura. Aquela reduzida porção de líquido reanimava-me inesperadamente. ao mesmo tempo que era conduzido a confortável aposento de amplas proporções. agora. então.Amigos. meditando na imensurável bondade dAquele que no-lo concede para o caminho eterno da vida. De que estrela me vem. Nosso Sol é a divina matriz da vida. Não saberia dizer . por quem sois. explicai-me em que novo mundo me encontro. que nunca fixara o Sol. Envolvendo os dois enfermeiros na vibração do meu reconhecimento. Amanhã cedo voltarei a vê-lo. Aqui. serviram-me caldo reconfortante. onde me ofereceram leito acolhedor. Meu ego. A estrela que o Senhor acendeu para os nossos trabalhos terrestres é mais preciosa e bela do que a supomos quando no círculo carnal. nossa percepção visual é muito mais rica. seguido de água muito fresca.. é o mesmo que nos vivificava o corpo físico.. como se fora conhecido pessoal de longo tempo e acentuou: . como que absorvido em onda de infinito respeito. depois de longos séculos de escuridão. que me pareceu portadora de fluidos divinos. ricamente mobilado. e a claridade que irradia provém do Autor da Criação. conseguindo dizer por fim: .

Voltarei logo após a oração. suplicante. se remédio salutar. Ante meu olhar indagador.esclareceu. Levantei-me vencendo dificuldades e agarrei-me ao braço fraternal que se me estendia. . Novas energias amparavam-me a alma. Mal não saíra da consoladora surpresa. Aquelas notas de maravilhosa harmonia atravessavam-me o coração.perguntei. Seguindo vacilante. o enfermeiro. bondoso: É chegado o crepúsculo em "Nosso Lar". que permanecia ao lado. Empolgou-me ansiedade súbita. fique em paz. Ninguém parecia dar conta da minha presença. Da abóbada cheia de claridade brilhante. gentil -.Está ainda fraco . profundamente recolhida. despediu-se. Em todos os núcleos desta colônia de trabalho. todavia. ao passo que mal . há ligação direta com as preces da Governadoria. consagrada ao Cristo.. . divina melodia penetrou quarto a dentro.Agora.28 Nosso Lar que espécie de sopa era aquela. cheguei a enorme salão. Minha maior emoção. todavia. atencioso: . se alimentação sedativa. E enquanto a música embalsamava o ambiente. reservava-se para instantes depois. profundas comoções vibravam-me no espírito.. formando radiosos símbolos de Espiritualidade Superior. caso sinta-se disposto. parecendo suave colmeia de sons a caminho das esferas superiores. esclareceu. pendiam delicadas e flóreas guirlandas. que vinham do teto à base.Não poderei acompanhar-vos? . onde numerosa assembléia meditava em silêncio. Aquela melodia renovava-me as energias profundas.

de sublimado reconhecimento. Todos os circunstantes. figurou-se-me tocada de mais intensa luz.Conserve-se tranqüilo. Altamente surpreendido. em tela gigantesca. um coração maravilhosamente azul (1). surgiu o cenário de templo maravilhoso. pareciam aguardar alguma coisa. que mais se assemelhava a leve sopro: .Imagem simbólica formada pelas vibrações mentais dos habitantes da colônia. quando as notas argentinas fizeram delicioso staccato. A fisionomia de Clarêncio. esclareceu em voz baixa. Sentado em lugar de destaque. Contendo a custo numerosas indagações que me esfervilhavam na mente. setenta e duas figuras pareciam acompanhá-lo em respeitoso silêncio. Pairavam no recinto misteriosas vibrações de paz e de alegria e. no círculo dos veneráveis companheiros. desenhou-se ao longe. Em plano inferior. entre os que cercavam o velhinho refulgente. em atitude de prece. Todas as residências e instituições de "Nosso Lar" estão orando com o Governador. através da audição e visão a distância. e. desenhava-se prodigioso quadro de luz quase feérica. envergando alva túnica de irradiações resplandecentes.29 Nosso Lar dissimulava eu a surpresa inexcedível. um ancião coroado de luz fixava o Alto. notei que ao fundo. Louvemos o Coração Invisível do Céu. . com estrias douradas. compreendendo ele que minhas perguntas não se fariam esperar.(Nota do Autor espiritual. repleto de indefinível beleza. Obedecendo a processos adiantados de televisão. reparei Clarêncio participando da assembléia. Cariciosa __________ (1) . O cântico celeste constituía-se de notas angelicais. Mal terminara a explicação. as setenta e duas figuras começaram a cantar harmonioso hino. Apertei o braço do enfermeiro amigo. em plano elevado. atentos.) .

experimentando eu. Entretanto. regressei ao aposento de enfermo. singular renovação de energias ao contacto das pétalas fluídicas que me balsamizavam o coração. A primeira prece coletiva. Foi aí que abundante chuva de flores azuis se derramou sobre nós. Conforto inesperado envolvia-me a alma. em seguida. o pobre coração. em "Nosso Lar". não conseguíamos detê-los nas mãos. enchera-se de novo das gotas generosas do licor da esperança. se fixávamos os miosótis celestiais. procedente talvez de esferas distantes. respondia aos louvores. à maneira de cálice muito tempo vazio. não era mais o doente grave de horas antes. saudoso e atormentado. As corolas minúsculas desfaziam-se de leve. ao tocar-nos a fronte. . Pela primeira vez. amparado pelo amigo que me atendia de perto. depois de anos consecutivos de sofrimento. operara em mim completa transformação. por minha vez. mas. Terminada a sublime oração.30 Nosso Lar música.

longe de qualquer interpelação. atenciosos. mas não o consegui e concluí que. Meu benfeitor da véspera indagou do meu estado geral. desejando-me paz. . quando se abriu a porta e vi entrar Clarêncio acompanhado por simpático desconhecido. após reparador e profundo repouso. Energias novas tocavam-me o íntimo. o apego à família que ficara distante.a saudade do lar. Numerosas interrogações pairavam-me na mente. Quis levantar-me. qual suave mensagem ao coração. prestando informações. apenas um ponto sombrio . gozar o espetáculo da Natureza cheia de brisas e de luz. experimentei a bênção radiosa do Sol amigo. sem a cooperação magnética do enfermeiro. tornava-se-me impossível deixar o leito. Acorreu o enfermeiro. inundando o recinto de cariciosa luz. Claridade reconfortante atravessava ampla janela. Tinha a impressão de sorver a alegria da vida. Na alma. Sentia-me outro. a longos haustos. Cumprimentaram-me. Não voltara a mim das surpresas consecutivas. mas tão grande era a sensação de alívio que eu sossegava o espírito.31 4 O MÉDICO ESPIRITUAL No dia imediato.

Trajado de branco. Talvez o amigo não tenha ponderado bastante.esclareceu o médico. e estes. Enquanto Clarêncio permanecia sereno. meu regresso do mundo não teve essa causa. do irmão Henrique de Luna. O organismo espiritual apresenta em si mesmo a história completa das ações praticadas no mundo. no campo da sífilis.exclamou. . captava destruidoras vibrações naqueles que o ouviam. disse..se. seu modo especial de conviver. Nunca . de algumas leviandades do meu estimado irmão. traços fisionômicos irradiando enorme simpatia. Não obstante o cabedal de gratidão que começava a acumular.Sim .asseverei. demonstrando a mesma serenidade superior -.. melindrado -. E inclinando-se. Henrique auscultou-me demoradamente. A moléstia talvez não assumisse características tão graves. Entretanto. do Serviço de Assistência Médica da colônia espiritual. .É de lamentar que tenha vindo pelo suicídio. indicava determinados pontos do meu corpo: . devido a oclusão intestinal. Tratava. mas a oclusão radicava-se em causas profundas. na Casa de Saúde. muita vez exasperado e sombrio. se o seu procedimento mental no planeta estivesse enqüadrado nos princípios da fraternidade e da temperança.Vejamos a zona intestinal .A oclusão derivava de elementos cancerosos. senti que singular assomo de revolta me borbulhava no íntimo. por sua vez. atencioso.32 Nosso Lar Sorridente. . Lutei mais de quarenta dias. Suicídio? Recordei as acusações dos seres perversos das sombras. não calei a incriminação. o velhinho amigo apresentou-me o companheiro.Creio haja engano . tentando vencer a morte. sorriu e explicou: . Sofri duas operações graves.

que lhe foi confiada pelos Maiores da Espiritualidade Superior. Aliás. em que me examinava atentamente. Como vê. que me seriam pedidas contas de episódios simples. Parecendo desconhecer a angústia que me oprimia. Meditei nos problemas dos caminhos humanos. Tal circunstância agravou. O meu amigo. de muito. foi reduzida a meras tentativas de trabalho que não se consumou. entraria na . o seu estado físico. no entanto. conseguia ajustar numerosas máscaras ao rosto. continuou: . o suicídio é incontestável. noutro tempo. refletindo nas oportunidades perdidas. segundo os preceitos da criminologia. que seu fígado foi maltratado pela sua própria ação. talhando-as conforme as situações. meu amigo. Todo acontecimento insignificante. aos quais muitas vezes ofendeu sem refletir. que os rins foram esquecidos. a inadvertência no trato com os semelhantes. Todo o aparelho gástrico foi destruído à custa de excessos de alimentação e bebidas alcoólicas. aparentemente sem importância. Depois de longa pausa. até ali. A longa tarefa. conduziam-no freqüentemente à esfera dos seres doentes e inferiores. que costumava considerar como fatos sem maior significação. segundo os desígnios do Senhor. Devorou-lhe a sífilis energias essenciais.33 Nosso Lar imaginou que a cólera fosse manancial de forças negativas para nós mesmos? A ausência de autodomínio. não poderia supor.Os órgãos do corpo somático possuem incalculáveis reservas. Conceituara. iludiu excelentes oportunidades. Na vida humana. esclarecendo: . os erros humanos. com terrível menosprezo às dádivas sagradas? Singular desapontamento invadira-me o coração. continuava o médico. estranho aos códigos. esperdiçado patrimônios preciosos da experiência física.Já observou.

Não me defrontavam tribunais de tortura. agora. Busquei-te atendendo à intercessão dos que te amam. Não havia como discordar. uma realidade torturante: era verdadeiramente um suicida. feria-me a vaidade de homem. penetravam-me fundo o espírito.Oh! meu filho.34 Nosso Lar relação de fenômenos naturais. Deparava-se-me. a bondade exuberante de Clarêncio. . reconheci a extensão de minhas leviandades de outros tempos. benfeitores sorridentes comentavam-me as fraquezas como quem cuida de uma criança desorientada. encontrasse forças para tornar a derrota menos amarga. de tridente nas mãos. Henrique de Luna falava com sobejas razões. a meu lado. perdera o ensejo precioso da experiência humana. nem me surpreendiam abismos infernais. Aquele interesse espontâneo. Talvez que. Por fim. Rosto entre as mãos. mantendo-te tranqüilo no exame das próprias faltas? Na verdade. no entanto. outro sistema de verificação das faltas cometidas. Foi então que o generoso Clarêncio. afagou-me paternalmente os cabelos e falou comovido: . a inflexão de ternura do médico.Não desejas ser grato. abafando os impulsos vaidosos. Não me dilacerava o desejo de reação. não te lastimes tanto. pus-me a soluçar com a dor que me parecia irremediável. dos planos mais altos. E chorei. Perante minha visão espiritual só existia. Todavia. sentando-se no leito. visitado por figuras diabólicas a me torturarem. a calma fraternal do enfermeiro. qual menino contrariado e infeliz. nas mesmas . A falsa noção da dignidade pessoal cedia terreno à justiça. tua posição é a do suicida inconsciente. mas é necessário reconhecer que centenas de criaturas se ausentam diariamente da Terra. Tuas lágrimas atingem seus corações. longe das vistas paternas. porém. agora. contudo. doía-me a vergonha. não passava de náufrago a quem se recolhia por caridade.

Sossega a alma perturbada. Confia no Senhor e em nossa dedicação fraternal. mergulhei a cabeça em seu colo paternal e chorei longamente. Aproveita os tesouros do arrependimento. guarda a bênção do remorso. Ante a generosidade que transbordava dessas palavras. pois. Acalma-te. porque muitos de nós outros já perambulamos igualmente nos teus caminhos. embora tardio.35 Nosso Lar mas condições. . sem esquecer que a aflição não resolve problemas.

Nas minhas condições há numerosos servidores em "Nosso Lar". . ignora a amplitude dos nossos trabalhos. Grande bolsa pendente da mão.36 Nosso Lar 5 RECEBENDO ASSISTÊNCIA .Sou Lísias. Nessa qualidade. ou providências que se refiram a enfermos recém-chegados. mostrou-se à vontade e. como quem conduzia apetrechos de assistência. enquanto precisar tratamento. endereçava-me ele sorriso acolhedor. como também assinalo necessidades de socorro.É você o tutelado de Clarêncio? A pergunta vinha de um jovem de singular e doce expressão. Ao meu sinal afirmativo. O amigo ingressou agora na colônia e. seu irmão. Meu diretor. basta lembrar que apenas aqui. . maneiras fraternas. o assistente Henrique de Luna. naturalmente.Sou visitador dos serviços de saúde. designou-me para servi-lo. acentuou: . explicou: . .indaguei. Notando-me a surpresa. Para fazer uma idéia. não só coopero na enfermagem.É enfermeiro? .

Sorrindo. . Somos felizes."Nosso Lar" não é estância de espíritos propriamente vitoriosos. e note que este é um dos menores edifícios do nosso parque hospitalar. explicando que devo esses distúrbios a mim mesmo.A zona dos seus intestinos apresenta lesões sérias com vestígios muito exatos do câncer. experimenta a desolação da paralisia. Reconhecendo o acanhamento da confissão reticenciosa.37 Nosso Lar na seção em que se encontra. prosseguiu: .Na turma de oitenta enfermos a que devo assistência diária. porque temos trabalho. o médico esclareceu ontem. por aqui. bondoso.Sim . Lísias levantou-se da poltrona a que se recolhera e começou a auscultar-me. Já pensou nisso? Sabe que o homem imprevidente. E talvez ignore que existem. . Adivinhando que minhas observações iam descambar para o elogio espontâneo. acrescentou: . a dos rins demonstra característicos de esgotamento prematuro. cinqüenta e sete se encontram nas suas condições. os mutilados. que gastou os olhos no mal. impedindo-me o agradecimento verbal. e a alegria .Tudo isso é maravilhoso! . quando não é recolhido absolutamente sem pernas? Que os pobres obsidiados nas aberrações sexuais costumam chegar em extrema loucura? Identificando-me a perplexidade natural.. interessado em utilizar o dom da locomoção fácil nos atos criminosos.exclamei. apressou-se a consolar: .. existem mais de mil doentes espirituais. a região do fígado revela dilacerações. atento.repliquei . se conferirmos ao termo sua razoável acepção.Sabe o irmão o que significa isso? . aqui comparece de órbitas vazias? Que o malfeitor.

meu amigo. mas. Notando-me a admiração. por mais alto que ascendamos. Multidões sem conta erram em todas as direções nos círculos imediatos à crosta planetária. constituídas de loucos. pode alegar ignorância nesse particular. agrava-se o capricho de cada um. Gasta-se a possibilidade nos desvios do bem. como a fixar experiências de si mesmo no painel das recordações mais íntimas. Incontável é o número dos chamados. é imprescindível voltar. elimina-se o corpo físico a golpes de irreflexão. no planeta. Não será esta região um departamento celestial dos eleitos? Lísias sorriu e explicou: . esclareça-me. E vagueando o olhar no horizonte longínquo. doentes e ignorantes. ninguém que se tenha aproximado. Em sã consciência.As religiões.Recordemos o antigo ensinamento que se refere a muitos chamados e poucos escolhidos na Terra. meu amigo. desatando algemas de ódio e . porque o Senhor não nos retirou o pão abençoado do serviço. que a morte do corpo nos conduziria a planos de milagres? Somos compelidos a trabalho áspero. Aproveitando a pausa mais longa. Resultado: milhares de criaturas retiram-se diariamente da esfera da carne em doloroso estado de incompreensão. onde os que atendem ao chamado? Com raras exceções.38 Nosso Lar habita cada recanto da colônia. exclamei sensibilizado: . porventura. para retificar. acentuou: . da noção de Deus. um dia. a massa humana prefere aceder a outro gênero de convites. convocam as criaturas ao banquete celestial.Acreditaria.Continue. lavando o rosto no suor do mundo. a serviços pesados e não basta isso. Se temos débitos no planeta. Sinto-me aliviado e tranqüilo. interrogou: .

esclareceu: . No arrependimento verdadeiro é preciso saber falar. onde abusamos. sentir-se-á forte como nos tempos mais belos da sua juventude terrena. diante de tão grandes noções de responsabilidade individual. O Senhor não esquece homem algum. aplicou-me passes magnéticos. murmurando: . é também o campo bendito onde conseguimos realizar frutuosos . para construir de novo. a causa dos seus males persistirá em si mesmo. meu caro.Como fui perverso! Contudo. todavia. creio. com as próprias mãos.Não observa o tratamento especializado da zona cancerosa? Pois note bem: toda medicina honesta é serviço de amor. raríssimos homens o recordam. antes que me alongasse noutras exclamações. Em seguida. Abanando a cabeça. entretanto. acrescentava: . até que se desfaça dos germes de perversão da saúde divina. será um dos melhores colaboradores em "Nosso Lar". Fazendo os curativos na zona intestinal. Acabrunhado com a lembrança dos próprios erros. atividade de socorro justo. Meu irmão será tratado carinhosamente.Caso dos muitos chamados. o visitador colocou a destra carinhosa em meus lábios.Cale-se! meditemos no trabalho a fazer. A carne terrestre. trabalhará muito e. que agregou ao seu corpo sutil pelo descuido moral e pelo desejo de gozar mais que os outros. mas o trabalho de cura é peculiar a cada espírito. Não seria justo impor a outrem a tarefa de mondar o campo que semeamos de espinhos. atenciosamente.39 Nosso Lar substituindo-as por laços sagrados de amor. objetei: .

Tão humildes e tão preciosas. e falou: . chorei copiosamente. na exaltação da sensibilidade. tão detestadas e tão sublimes pelo espírito de serviço.40 Nosso Lar labores de cura radical. quando permanecemos atentos ao dever justo. que nos oferecem templo à retificação. . meu amigo. Desabafe o coração. quantos milênios gastaríamos na ignorância? Assim falando. sempre constituem remédio depurador. Meditei os conceitos. ponderei a bondade divina e. contudo. com serenidade.Quando as lágrimas não se originam da revolta. E abençoemos aquelas beneméritas organizações microscópicas que são as células de carne na Terra. afagou-me carinhosamente a fronte abatida e despediu-se com um ósculo de amor. Lísias. Sem elas. terminou o tratamento do dia. Chore.

Clarêncio ouvia. Fisionomia a irradiar generosidade. enquanto os dois benfeitores se sentavam comodamente a meu lado: . Agora que posso concatenar idéias. estranhas sensações de angústia no coração. entretanto. o carinho fraterno é mal interpretado. creio que a dor me aniquilou todas as forças disponíveis. Nunca supus fosse capaz de tamanha resistência. comecei a explicar-me. Obedecendo ao velho vício. meu amigo. No mundo.. demonstrando grande interesse pelas minhas lamentações.. às vezes. após a oração do crepúsculo.Não posso negar que esteja melhor. sofro intensamente.41 Nosso Lar 6 PRECIOSO AVISO No dia imediato.Como vai? Melhorzinho? Esbocei o gesto do enfermo que se vê acariciado na Terra. abraçando-me: . amolecendo as fibras emotivas. sem o menor gesto . atencioso. Muitas dores na zona intestinal. Clarêncio me procurou em companhia do atencioso visitador. perguntou... Ah! como tem sido pesada a minha cruz!.

Que desventurado destino.. Clarêncio. a cura espiritual? Ao meu gesto afirmativo. Não sei desde quando vivo o pesadelo da distância. Em seguida. se um dia eu lhe faltasse. depois. doenças. os sofrimentos da morte do corpo. Continuadas dilacerações roubaram-me a noção do tempo. Admirável esposa! Ainda lhe sinto as lágrimas dos momentos derradeiros. Chegado a essa altura. Que terá sido feito de minha esposa..Meu amigo. continuei: . de meus filhos? Teria o meu primogênito conseguido progredir. vicissitudes. então. o vendaval da queixa me conduzira o barco mental ao oceano largo das lágrimas. No planeta. Encorajado com essa atitude. abafando escassas notas de alegria.42 Nosso Lar que denunciasse o propósito de intervir no assunto. martirizações no além-túmulo! Que será. ou nalgum recanto escuro das regiões da morte? Oh! minha dor é muito amarga! Que terrível destino o do homem penhorado no devotamento à família! Creio que raras criaturas terão padecido tanto quanto eu!. como terrível cárcere do coração. Onde estará minha pobre companheira? Chorando junto às cinzas do meu corpo. deseja você. a vida? Sucessivo desenrolar de misérias e lágrimas? Não haverá recurso à semeadura da paz? Por mais que deseje firmar-me no otimismo. desenganos. sinto que a noção de infelicidade me bloqueia o espírito.. continuou: ... generoso benfeitor!. Amainada a tormenta exterior com os socorros recebidos. segundo meu velho ideal? E as filhinhas? Minha desventurada Zélia muitas vezes afirmou que morreria de saudades. contudo.. volto agora às tempestades íntimas. levantou-se sereno e falou sem afetação: . meus sofrimentos morais são enormes e inexprimíveis.Além do mais. de fato. incompreensões e amarguras.

as vantagens naturais. na carne . Classificar o esforço necessário de imposição esmagadora. então. Além disso. atenderá aos seus parentes terrestres. Se deseja permanecer nesta casa de assistência. pelas expressões de conforto. secara-se-me o pranto e. Somente conseguiremos equilíbrio. nesta colônia. Devemos ter nosso agrupamento familiar como sagrada construção. O mesmo Pai que vela por sua pessoa. Lamentação denota enfermidade mental e enfermidade de curso laborioso e tratamento difícil. no círculo da personalidade. Quanto mais utilize o verbo por dilatar considerações dolorosas.prosseguiu Clarêncio. nem comente a própria dor. É indispensável criar pensamentos novos e disciplinar os lábios. embora envergonhado da minha fraqueza. . enquanto nós vivemos onerados de dívidas. ansioso de estender benefícios aos entes amados? Não se interessava pelas remunerações justas. bondoso -. com possibilidades de atender à família? Aqui. mais duros se tornarão os laços que o prendem a lembranças mesquinhas.43 Nosso Lar . a não falar excessivamente de si mesmo.Não disputava você. Apenas divergem . sob a Direção Divina. o programa não é diferente. aprenda a pensar com justeza. chamado a brios pelo generoso instrutor. decorrentes das boas situações? Não estimava a obtenção de recursos lícitos. nesta casa. sói identificar indesejável cegueira dalma. temos. abrindo o coração ao Sol da Divindade. oferecendo-lhe teto generoso. mas não dispomos do tempo para voltar a zonas estéreis de lamentação. considerando que a Providência desborda amor.Aprenda. o compromisso de aceitar o trabalho mais áspero como bênção de realização. mas sem esquecer que nossas famílias são seções da Família universal. assumi diversa atitude. Nesse ínterim. enxergar padecimentos onde há luta edificante. Estaremos a seu lado para resolver dificuldades presentes e estruturar projetos de futuro.

qual o pai que esquece a leviandade dos filhos para recomeçar serenamente a lição. para nós. tornou a perguntar com um belo sorriso: . Se ama. como passa? Melhor? Contente por me sentir desculpado. . porém. na movimentação do qual se preparam. significa possibilidade de enriquecer a alma. à maneira da criança que deseja aprender.44 Nosso Lar os detalhes. meu benfeitor. Nos círculos carnais.Vou bem melhor. A palavra de Clarêncio levantara-me para elucubrações mais sadias. Fez-se longa pausa. para melhor compreender a Vontade Divina. Enquanto meditava a sabedoria da valiosa advertência. a convenção e a garantia monetária. que o pranto da desesperação não edifica o bem. Dor. Ninguém lhe condena a saudade justa. a luta constitui caminho para a divina realização. em verdade. as fortes. respondi. é preciso bom ânimo para lhe ser útil. a caminho da perfeição.Então. ante o serviço. nem pretende estancar sua fonte de sentimentos sublimes. aqui. deitam-se para se queixarem aos que passam. o trabalho e as aquisições definitivas do espírito imortal. recebem o serviço como patrimônio sagrado. confortado: . a família terrena. todavia. Compreendeu a diferença? As almas débeis. Acresce notar.

me voltavam a angústia. Forrava-se o solo de vegetação. o receio do desconhecido. À medida que procurava habituar-me aos deveres novos. A pequena distância. alteavam-se graciosos edifícios.45 Nosso Lar 7 EXPLICAÇÕES DE LÍSIAS Repetiram-se as visitas periódicas de Clarêncio e a atenção diária de Lísias. substâncias mais delicadas. Deleitava-me. Grandes árvores. Notava. Diminuíram as dores e os impedimentos de locomoção fácil. contemplando os horizontes vastos. em continuidade à planície onde a colônia repousava. Nenhum sem flores à entrada. debruçado às janelas espaçosas. destacando-se algumas casinhas . encontrava mais segurança dentro de mim. a mágoa da inadaptação. Alinhavam-se a espaços regulares. Cores mais harmônicas. os aspectos da Natureza. sobretudo. sensações de desafogo me aliviavam o coração. Apesar de tudo. exibindo formas diversas. que. melhorada cópia da Terra. pomares fartos e jardins deliciosos. Quase tudo. agora. Todos os departamentos apareciam cultivados com esmero. a recordações mais fortes dos fenômenos físicos. Desenhavam-se montes coroados de luz. Impressionavam-me. porém.

lembrando lírios gigantescos. Por que. sem a visita sequer de um conhecido do mundo. não fora eu a única pessoa do meu círculo a decifrar o enigma da sepultura. adornando o verde de cambiantes variados. de quando em quando. a se erguerem retilíneas. Todo processo evolutivo implica gradação. então. enfileiradas ao fundo. num parque de saúde. aqui e ali. onde rosas diferentes desabrochavam. Aves de plumagens policromas cruzavam os ares e. Almas e sentimentos. Lísias. rumo ao céu. Das janelas largas. identificava animais domésticos. cercadas por muros de hera. o movimento do parque. entre as árvores frondosas. não regateava explicações. . Não conseguia atinar com a multiplicidade de formas análogas às do planeta. Há regiões múltiplas para os desencarnados. curioso. o companheiro amável de todos os dias. para conforto do meu coração dolorido? Bastariam alguns momentos de consolação. Extremamente surpreendido. como existem planos inúmeros e surpreendentes para as criaturas envolvidas de carne terrestre. observava. obedecem a princípios de desenvolvimento natural e hierarquia justa.46 Nosso Lar encantadoras. noutro tempo. dizia. me haviam precedido. Afinal. Preocupava-me. formas e coisas. Amigos vários. não apareciam naquele quarto de enfermidade espiritual. A morte do corpo não conduz o homem a situações miraculosas. todavia. perdia-me em indagações de toda sorte. havia muitas semanas. Meus pais me haviam antecipado na grande jornada. considerando a circunstância de me encontrar numa esfera propriamente espiritual. permanecer ali. Nas minhas lutas introspectivas. pousavam agrupadas nas torres muito alvas.

seu pranto era diferente.Meu caro Lísias.. . até agora não deu sinal de vida. se afastasse um tanto. Ela jamais desanimou. Talvez não saiba ainda que sua permanência nas esferas inferiores durou mais de oito anos consecutivos. no entanto. fez a grande viagem. quando compreendeu que tudo no Universo pertence ao Pai Sublime. É lógico que o Senhor não espera por nossas rogativas para nos amar. sempre contei com a abnegação maternal. Ignorava o número de anos que me distanciavam da gleba terrestre.47 Nosso Lar Um dia. Quando se acamou para abandonar o casulo terrestre. igualmente.No dia em que você orou com tanta alma . vaidoso. Por que não me visitam? Na Terra. entretanto. assim. acha possível.prosseguiu o enfermeiro visitador -. mas não consegui. Não sabe que há chuvas que destroem e chuvas que criam? Lágrimas há também. três anos antes do meu trespasse. com o nó de lágrimas represadas no coração. que começou a visitá-lo freqüentemente. sua mãe o tem ajudado dia e noite. Minha mãe..esclareceu Lísias -. muitas vezes. o encontro com aqueles que nos antecederam na morte do corpo físico? . Meu pai. Rogou os bons ofícios de Clarêncio. duplicou-se o interesse maternal a seu respeito. Desejei conhecer os processos de proteção imperceptível. Intercedeu. .Sim. Compreendeu? Eu tinha os olhos úmidos. .Como não? Pensa que está esquecido?. é indispensável nos colocarmos . desde a crise que antecipou sua vinda. a fim de surgir o filho dos Céus.Pois note . Minhas cordas vocais estavam entorpecidas. não pude conter-me e perguntei ao solícito visitador: . em "Nosso Lar". até que o médico da Terra. aqui. a seu favor.

encorajado pelo esclarecimento recebido. abraçá-la. e. Lísias sorriu com inteligência. ela virá. com todas as minhas forças. por certo. Anos a fio rolou. por fim. . quando mentalizou firmemente a necessidade de receber o auxílio divino. albergando o medo. habita esferas mais altas. Entendeu? Clarêncio não teve dificuldade em localizá-lo. nesse particular. ela virá. chorou de alegria.48 Nosso Lar em determinada posição receptiva. Observando meu desapontamento. Olhos brilhantes. onde trabalha não somente por você.. demorou muito a encontrar Clarêncio.. então.. afirmou ao despedir-se: . as tristezas e desilusões. atendendo aos apelos de sua carinhosa genitora da Terra.E onde está minha mãe? . E quando sua mãezinha soube que o filho havia rasgado os véus escuros com o auxílio da oração. já se encontra a caminho da realização. dilatou o padrão vibratório da mente e alcançou visão e socorro. como pluma.exclamei. Um espelho enfuscado não reflete a luz. a fim de compreender-lhe a infinita bondade. porém.. quero vê-la. antes mesmo do que pensamos. fraterno: . mas convenhamos que as penitências prestam ótimos serviços a nós mesmos. segundo me contaram. Se me é permitido.esclareceu Lísias -.. como quem previne. Desse modo. ajoelhar-me a seus pés! . generoso.. você. Tem você. acrescentou. resoluto: .. a lição do próprio caso. Quando alguém deseja algo ardentemente. o Pai não precisa de nossas penitências.Virá vê-lo.Desejarei. mas.. exclamei.Não vive em "Nosso Lar" .

. contudo. segundo. O visitador ganhou a porta de saída. por outros termos. ou. a saber: primeiro. desejar. merecer.49 Nosso Lar . sorridente. vontade ativa. enquanto eu me detinha silencioso.Convém não esquecer. que a realização nobre exige três requisitos fundamentais. trabalho persistente e merecimento justo. terceiro. a meditar no extenso programa formulado em tão poucas palavras. saber desejar. e.

Nesta zona.Estamos no local do Ministério do Auxílio. operários e outros serviçais da missão residem aqui. esclareceu solícito: . porque as vias públicas estavam repletas. ou aos que choram na Terra. estudam-se . atmosfera de profunda tranqüilidade espiritual. enfeitadas de árvores frondosas. Algumas pareciam situar a mente em lugares distantes. Orientadores.50 Nosso Lar 8 ORGANIZAÇÃO DE SERVIÇOS Decorridas algumas semanas de tratamento ativo. Ar puro. preparam-se reencarnações terrenas. Entidades numerosas iam e vinham. saí. qualquer sinal de inércia ou de ociosidade. casas residenciais. Incumbia-se o companheiro de orientar-me em face das surpresas que surgiam ininterruptas. ouvem-se rogativas. em companhia de Lísias. porém. selecionam-se preces. Vastas avenidas. atende-se a doentes. Percebendo-me as íntimas conjeturas. representa instituições e abrigos adequados à tarefa de nossa jurisdição. Tudo o que vemos. mas outras me dirigiam olhares acolhedores. organizam-se turmas de socorro aos habitantes do Umbral. Impressionou-me o espetáculo das ruas. pela primeira vez. edifícios. Não havia.

os dois últimos nos ligam ao plano superior. nos atos da prece.Sim . é um dos Ministros do Auxílio. no mundo. exclamei. da Comunicação. comovido: . O homem vulgar ignora que toda manifestação de ordem.. procede do plano superior. visto que a nossa cidade espiritual é zona de transição. orientados.Oh! nunca imaginei a possibilidade de organizações tão completas.51 Nosso Lar soluções para todos os processos que se prendem ao sofrimento. quando orientada pela mente do homem.Há. sob a orientação dos que nos presidem os destinos. do Esclarecimento. depois da morte do corpo físico!. Clarêncio. A natureza agreste transforma-se em jardim. que é essencialmente de trabalho e realização. um Ministério do Auxílio? . . o nosso chefe amigo.Como não? Nossos serviços são distribuídos numa organização que se aperfeiçoa dia a dia. quando inspirado pelas mentes que funcionam nas esferas mais altas. transforma-se em potencial criador. Nenhuma . e o pensamento humano.perguntei.esclareceu Lísias -. por doze Ministros. A colônia. o véu da ilusão é muito denso nos círculos carnais. Valendo-me da pausa natural. prosseguiu: .. os mais sublimes no da União Divina. selvagem na criatura primitiva. Os quatro primeiros nos aproximam das esferas terrestres. . em "Nosso Lar".Não tem visto. nosso Governador Espiritual cercado de setenta e dois colaboradores? Pois são os Ministros de "Nosso Lar". divide-se em seis Ministérios. . cada qual. do Auxílio. Temos os Ministérios da Regeneração. então. Os serviços mais grosseiros localizam-se no Ministério da Regeneração. Fixando em mim os olhos lúcidos. da Elevação e da União Divina.

a escravidão. partindo daqui. erguia-se um palácio de magnificente beleza. no século XVI. apenas com a diferença de que. A princípio.Mas "Nosso Lar" terá igualmente uma história. "Nosso Lar" é antiga fundação de portugueses distintos.52 Nosso Lar organização útil se materializa na crosta terrena. como há. Os planos vizinhos da esfera terráquea possuem. No centro da praça. desencarnados no Brasil. aqui. o serviço perseverante.Os fundadores da colônia começaram o esforço. Onde se congregam hoje vibrações delicadas e nobres. Prosseguiram na obra.disse o visitador. segundo consta em nossos arquivos no Ministério do Esclarecimento.Sem dúvida. a guerra. tal como nas regiões que se caracterizam pela matéria grosseira. Há substâncias ásperas nas zonas invisíveis à Terra. o amor espiritual. por lá. copiando o esforço dos europeus que chegavam à esfera material. encabeçado de torres soberanas. A essa altura. que se perdiam no céu. sem que seus raios iniciais partam de cima. . porém. igualmente. no planeta. Os fundadores não desanimaram. Aqui também existem enormes extensões de potencial inferior. atingíramos uma praça de maravilhosos contornos. natureza específica. . mesmo para os espíritos fortes. Os trabalhos primordiais foram desanimadores. Apontando o palácio. se empregava a violência. grandes tratos de natureza rude e incivilizada. misturavam-se as notas primitivas dos silvícolas do país e as construções infantis de suas mentes rudimentares. enorme e exaustiva foi a luta. continuou: . ostentando extensos jardins. e. edifícios de fino lavor. a solidariedade fraterna. como as grandes cidades planetárias? . onde se localiza a Governadoria .

53 Nosso Lar . utiliza ele a colaboração de três mil funcionários. Basta lembrar que estou aqui há quarenta anos e. evidenciando comovida reverência. ao passo que. Nos trabalhos administrativos.. Parece-me que a glória dele é o serviço perene. raramente o tenho visto em festividades públicas. mas o Governador nunca dispõe de tempo para isso. renovando energias e valorizando conhecimentos.Temos. porém. estendendo-se em forma triangular. enquanto eu a seu lado contemplava. Calara-se Lísias. comemorou-se o 114º aniversário da sua magnânima direção. Depois de longa pausa. quase nunca repousa. entretanto. comentou: . sua assistência carinhosa a tudo e a todos atinge. abrange todos os círculos de serviço. com exceção das assembléias referentes às preces coletivas. nós outros gozamos entretenimentos habituais. Todos começam da Governadoria. obriga-nos a férias periódicas. respeitoso. nesta praça.Não faz muito. é ele o trabalhador mais infatigável e mais fiel que todos nós reunidos. o ponto de convergência dos seis ministérios a que me referi.Ali vive o nosso abnegado orientador. as torres maravilhosas que pareciam cindir o firmamento.. E. mesmo no que concerne às horas de sono. o enfermeiro amigo acentuou: . . Faz questão que descansemos. respeitoso e embevecido. Seu pensamento. ele mesmo. Os Ministros costumam excursionar noutras esferas.

Rezam os anais que a colônia. formando figuras encantadoras. porém. Muitos recém-chegados ao "Nosso . lutava com extremas dificuldades para adaptar os habitantes às leis da simplicidade. . Agradável sensação de paz me felicitava o espírito. reduzidas a simples serviço de distribuição. As atividades de abastecimento ficaram.é induzido a examinar numerosos problemas. sob o controle direto da Governadoria. o atual Governador atenuar todas as expressões de vida que nos recordassem os fenômenos puramente materiais.. Aliás.54 Nosso Lar 9 PROBLEMA DE ALIMENTAÇÃO Enlevado na visão dos jardins prodigiosos. assim.Quem observa esta colmeia imensa de serviço .Antigamente . há um século. pedi ao dedicado enfermeiro para descansar alguns minutos num banco próximo.os serviços dessa natureza assumiam feição mais destacada. Lísias anuiu de bom grado.ponderei . E o abastecimento? Não tenho notícia de um Ministério da Economia. Deliberou.. a providência constitui medida das mais benéficas. Caprichosos repuxos de água colorida ziguezagueavam no ar. .explicou o paciente interlocutor .

bebidas excitantes. Prosseguiram as reuniões. dilatando velhos vícios terrenos. Apenas o Ministério da União Divina ficou imune de tais abusos. a pedido da Governadoria.55 Nosso Lar Lar" duplicavam exigências. porém. Antigos missionários. O Governador atual. Nesses períodos. a fim de espalharem novos conhecimentos. ganhando. O Governador. contudo. os opositores da redução multiplicavam acusações. nem possível. Convocava os adversários da medida a palácio e expunha-lhes. Queriam mesas lautas. O Governador. em planos mais elevados que o nosso. pelas características que lhe são próprias. assim. sem grave perigo para suas organizações espirituais. . Por mais de dez vezes. relativos à ciência da respiração e da absorção de princípios vitais da atmosfera. o Ministério do Auxílio esteve superlotado de enfermos. os projetos e finalidades do regime. todavia. no entanto. desambientar imediatamente os homens desencarnados. jamais castigou alguém. alegando que a cidade é de transição e que não seria justo. Algumas entidades eminentes chegaram a formular protestos de caráter público. providências e atividades. não desanimou. os demais viviam sobrecarregados de angustiosos problemas dessa ordem. paternalmente. Realizaram-se assembléias numerosas. facilitava aos mais rebeldes inimigos do novo processo variadas excursões de estudo. não poupou esforços. Disseram-me que. durante trinta anos consecutivos. maior número de adeptos. vieram duzentos instrutores de uma esfera muito elevada. reclamando. mediante exigências desse teor. onde se confessavam vítimas do novo sistema de alimentação deficiente. Alguns colaboradores técnicos de "Nosso Lar" manifestavam-se contrários. destacava a superioridade dos métodos de espiritualização. adotou providências justas. puseram-me ao corrente de curiosos acontecimentos. Tão logo assumiu obrigações administrativas. daqui.

O mesmo não aconteceu com o Ministério do Esclarecimento. aderiu o Ministério da Elevação. a imprudência. Ele. e jamais deixou o menor boletim de esclarecimento sem exame minucioso. onde grande número de colaboradores entretinha certo intercâmbio clandestino. que demorou muito a assumir compromisso. meu caro Lísias. porém. aproveitando brechas nos serviços de Regeneração. em virtude dos vícios de alimentação. O velho governante. atingindo. que ali trabalham. Tudo isso provocou enormes cisões nos órgãos coletivos de "Nosso Lar". solicitou audiência ao Ministério . Encorajados pela rebeldia dos cooperadores do Esclarecimento. contudo. Terríveis ameaças pairavam sobre todos.Depois de vinte e um anos de perseverantes demonstrações. imprescindíveis aos veículos físicos. que nos orientam através do Ministério da União Divina. passando a abastecer-se apenas do indispensável. os espíritos menos elevados que ali se recolhiam entregaram-se a condenáveis manifestações. Semanalmente. que tentaram invadir a cidade. Requisitou assistência de nobres mentores.56 Nosso Lar Ante pausa mais longa. por parte da Governadoria. repletas de análises e numerações. formaram-se perigosos distúrbios no antigo Departamento de Regeneração. por favor. Eram eles os mais teimosos adversários. enviavam ao Governador longas observações e advertências.Continue. em vista dos numerosos espíritos dedicados às ciências matemáticas. não cediam terreno nas concepções correspondentes daqui. o Governador não se perturbou. dando ensejo a perigoso assalto das multidões obscuras do Umbral. Enquanto argumentavam os cientistas e a Governadoria contemporizava. nunca agiu por si só. Como terminou a luta edificante? . hoje transformado em Ministério. por vezes. Mecanizados nos processos de proteínas e carboidratos. reclamei. Dado o alarme. interessado: .

Reduziu-se a . todo o serviço de alimentação obedece a inexcedível sobriedade. só existe maior suprimento de substâncias alimentícias que lembram a Terra. mandou ligar as baterias elétricas das muralhas da cidade. Presentemente. depois de ouvir o nosso mais alto Conselho. onde há sempre grande número de necessitados. A cidade voltou ao movimento normal. determinou funcionassem todos os calabouços da Regeneração. Findo o período mais agudo. a Governadoria estava vitoriosa. para emissão de dardos magnéticos a serviço da defesa comum.57 Nosso Lar da União Divina e. Não houve combate. pela primeira vez na sua administração. mandou fechar provisoriamente o Ministério da Comunicação. nesse comenos. foram reduzidos à inalação de princípios vitais da atmosfera. proibiu temporariamente os auxílios às regiões inferiores. e. o Governador chorou sensibilizado. cujas impertinências suportou mais de trinta anos consecutivos. Houve. O próprio Ministério do Esclarecimento reconheceu o erro e cooperou nos trabalhos de reajustamento. A colônia ficou. regozijo público e dizem que. O antigo Departamento da Regeneração foi convertido em Ministério. nos Ministérios da Regeneração e do Auxílio. Por mais de seis meses. mas resistência resoluta. isto é. então. através da respiração. e água misturada a elementos solares. nem ofensiva da colônia. sabendo o que vem a ser a indignação do espírito manso e justo. declarando que a compreensão geral constituía o verdadeiro prêmio ao seu coração. Nos demais há somente o indispensável. em "Nosso Lar". Desde então. os serviços de alimentação. para isolamento dos recalcitrantes. advertiu o Ministério do Esclarecimento. em meio da alegria geral. elétricos e magnéticos. todos reconhecem que a suposta impertinência do Governador representou medida de elevado alcance para nossa libertação espiritual.

58 Nosso Lar expressão física e surgiu maravilhoso coeficiente de espiritualidade. Lísias silenciou e eu me entreguei a profundos pensamentos sobre a grande lição.

59 Nosso Lar

10 NO BOSQUE DAS ÁGUAS
Dado o meu interesse crescente pelos processos de alimentação, Lísias convidou: - Vamos ao grande reservatório da colônia. Lá observará coisas interessantes. Verá que a água é quase tudo em nossa estância de transição. Curiosíssimo, acompanhei o enfermeiro sem vacilar. Chegados a extenso ângulo da praça, o generoso amigo acrescentou: - Esperemos o aeróbus. (1) Mal me refazia da surpresa, quando surgiu grande carro, suspenso do solo a uma altura de cinco metros mais ou menos e repleto de passageiros. Ao descer até nós, à maneira de um elevador terrestre, examinei-o com atenção. Não era máquina conhecida na Terra. Constituída de material muito flexível, tinha enorme comprimento, parecendo ligada a fios invisíveis, em virtude do grande número de antenas na tolda. Mais tarde, confirmei __________ (1) Carro aéreo, que seria na Terra um grande funicular.

60 Nosso Lar minhas suposições, visitando as grandes oficinas do Serviço de Trânsito e Transporte. Lísias não me deu tempo a indagações. Aboletados convenientemente no recinto confortável, seguimos Silenciosos. Experimentava a timidez natural do homem desambientado, entre desconhecidos. A velocidade era tanta que não permitia fixar os detalhes das construções escalonadas no extenso percurso. A distância não era pequena, porque só depois de quarenta minutos, incluindo ligeiras paradas de três em três quilômetros, me convidou Lísias a descer, sorridente e calmo. Deslumbrou-me o panorama de belezas sublimes. O bosque, em floração maravilhosa, embalsamava o vento fresco de inebriante perfume. Tudo em prodígio de cores e luzes cariciosas. Entre margens bordadas de grama viçosa, toda esmaltada de azulíneas flores, deslizava um rio de grandes proporções. A corrente rolava tranqüila, mas tão cristalina que parecia tonalizada em matiz celeste, em vista dos reflexos do firmamento. Estradas largas cortavam a verdura da paisagem. Plantadas a espaços regulares, árvores frondosas ofereciam sombra amiga, à maneira de pousos deliciosos, na claridade do Sol confortador. Bancos de caprichosos formatos convidavam ao descanso. Notando o meu deslumbramento, Lísias explicou: - Estamos no Bosque das Águas. Temos aqui uma das mais belas regiões de "Nosso Lar". Trata-se de um dos locais prediletos para as excursões dos amantes, que aqui vêm tecer as mais lindas promessas de amor e fidelidade, para as experiências da Terra. A observação ensejava considerações muito interessantes, mas Lísias não me deu azo a perguntas nesse particular. Indicando um edifício de enormes proporções, esclareceu:

61 Nosso Lar - Ali é o grande reservatório da colônia. Todo o volume do Rio Azul, que temos à vista, é absorvido em caixas imensas de distribuição. As águas que servem a todas as atividades da colônia partem daqui. Em seguida, reúnem-se novamente, abaixo dos serviços da Regeneração, e voltam a constituir o rio, que prossegue o curso normal, rumo ao grande oceano de substâncias invisíveis para a Terra. Percebendo-me a indagação íntima, acrescentou: - Com efeito, a água aqui tem outra densidade. Muito mais tênue, pura, quase fluídica. Notando as magníficas construções que me fronteavam, interroguei: - A que Ministério está afeto o serviço de distribuição? - Imagine - elucidou Lísias - que este é um dos raros serviços materiais do Ministério da União Divina! - Que diz? - perguntei, ignorando como conciliar uma e outra coisa. O visitador sorriu e obtemperou prazenteiro: - Na Terra quase ninguém cogita seriamente de conhecer a importância da água. Em "Nosso Lar", contudo, outros são os conhecimentos. Nos círculos religiosos do planeta, ensinam que o Senhor criou as águas. Ora, é lógico que todo serviço criado precisa de energias e braços para ser convenientemente mantido. Nesta cidade espiritual, aprendemos a agradecer ao Pai e aos seus divinos colaboradores semelhante dádiva. Conhecendo-a mais intimamente, sabemos que a água é veículo dos mais poderosos para os fluidos de qualquer natureza. Aqui, ela é empregada sobretudo como alimento e remédio. Há repartições no Ministério do Auxílio absolutamente consagradas à manipulação de água pura, com certos princípios suscetíveis de serem captados na

62 Nosso Lar luz do Sol e no magnetismo espiritual. Na maioria das regiões da extensa colônia, o sistema de alimentação tem aí suas bases. Acontece, porém, que só os Ministros da União Divina são detentores do maior padrão de Espiritualidade Superior, entre nós, cabendo-lhes a magnetização geral das águas do Rio Azul, a fim de que sirvam a todos os habitantes de "Nosso Lar", com a pureza imprescindível. Fazem eles o serviço inicial de limpeza e os institutos realizam trabalhos específicos, no suprimento de substâncias alimentares e curativas. Quando os diversos fios da corrente se reúnem de novo, no ponto longínquo, oposto a este bosque, ausenta-se o rio de nossa zona, conduzindo em seu seio nossas qualidades espirituais. Eu estava embevecido com as explicações. - No planeta - objetei -, jamais recebi elucidações desta natureza. - O homem é desatento, há muitos séculos - tornou Lísias -; o mar equilibra-lhe a moradia planetária, o elemento aquoso fornece-lhe o corpo físico, a chuva dá-lhe o pão, o rio organiza-lhe a cidade, a presença da água oferece-lhe a bênção do lar e do serviço; entretanto, ele sempre se julga o absoluto dominador do mundo, esquecendo que é filho do Altíssimo, antes de qualquer consideração. Virá tempo, contudo, em que copiará nossos serviços, encarecendo a importância dessa dádiva do Senhor. Compreenderá, então, que a água, como fluido criador, absorve, em cada lar, as características mentais de seus moradores. A água, no mundo, meu amigo, não somente carreia os resíduos dos corpos, mas também as expressões de nossa vida mental. Será nociva nas mãos perversas, útil nas mãos generosas e, quando em movimento, sua corrente não só espalhará bênção de vida, mas constituirá igualmente um veículo da Providência Divina, absorvendo amarguras, ódios e ansiedades dos

lavando-lhes a casa material e purificando-lhes a atmosfera íntima.63 Nosso Lar homens. . enquanto meus olhos fixavam a corrente tranqüila a despertar-me sublimes pensamentos. Calou-se o interlocutor em atitude reverente.

Agora. A presença de muitos passageiros não me constrangia. . que não se fez esperar. sentia-me quase à vontade. conforme vê. Esfervilhava-me o cérebro de úteis indagações.exclamou bondosamente -' pois. . Nem mesmo alguns dias de estudo oferecem ensejo à visão detalhada de um só deles. Voltamos ao ponto de passagem do aeróbus.64 Nosso Lar 11 NOTÍCIAS DO PLANO Desejaria meu generoso companheiro facultar-me observações diferentes. Não lhe faltará oportunidade. mas obrigações imperiosas chamavam-no ao posto. os Ministérios do "Nosso Lar" são enormes células de trabalho ativo. Clarêncio tem poderes para obter-lhe ingresso fácil em qualquer dependência. A experiência anterior fizera-me benefícios enormes. nos diversos bairros da colônia. Interessado em resolvê-las. porém. quando possível.Terá você ocasião de conhecer as diversas regiões dos nossos serviços . aproveitei o minuto para valer-me do companheiro. Ainda que me não seja possível acompanhá-lo.

que. os missionários da criação de "Nosso Lar" visitaram os serviços de "Alvorada Nova". Observando que o intervalo se fazia mais longo. uma das colônias espirituais mais importantes que nos circunvizinham e ali encontraram a divisão por departamentos.acrescentei. cada região e cada estabelecimento revelam traços peculiares. as criaturas se identificam pelas fontes comuns de origem e pela grandeza dos fins que devem atingir. outros agrupamentos buscam o nosso concurso para outras colônias em formação. Adotaram o processo. Cada organização. em compensação. poderá informar-me se todas as colônias espirituais são idênticas a esta? Os mesmos processos. amigo .perguntei -. mas importa considerar que cada colônia. Aqui. as mesmas características? . Todas as experiências de grupo diversificam-se entre si e "Nosso Lar" constitui uma experiência coletiva dessa natureza.Muito bem! .Lísias. mas substituíram a palavra departamento por Ministério. Segundo nossos arquivos. . imagine a multiplicidade de condições em nossos planos. . somente com o Governador atual.De modo algum. considerando que a organização em Ministérios é mais expressiva.Partiu daqui a interessante formação de Ministérios? . apresenta particularidades essenciais. conseguiram elevação. todavia. como cada entidade.65 Nosso Lar . com exceção dos serviços regeneradores. permanece em degraus diferentes na grande ascensão. Assim procederam. como definição de espiritualidade. tal como na Terra.Sim. muitas vezes os que nos antecederam buscaram inspiração nos trabalhos de abnegados trabalhadores de outras esferas. Se nas esferas materiais. interroguei: .

e raríssimos. a fim de se prepararem. E não suponha que os testemunhos sejam vagas expressões de atividade idealista.Quando os recém-chegados das zonas inferiores do Umbral se revelam aptos a receber cooperação fraterna. todos nós. para futuras tarefas planetárias. as atividades da União Divina requerem conhecimento justo e sincera aplicação do amor universal. Nenhuma condição de destaque é concedida aqui a título de favor. Já não estamos na esfera do globo. Lísias continuava: . com eficiência. no Ministério da União Divina. . Somente quatro entidades conseguiram ingressar. Comunicação e Esclarecimento. porém. os que alcançam intimidade nos trabalhos da União Divina. no que concerne à ordem e à hierarquia. a instituição é eminentemente rigorosa. quando. Enquanto eu ouvia essas informações. voltamos a reencarnar. Somente alguns conseguem atividade prolongada no Ministério da Elevação. para atividades de aperfeiçoamento.E não é tudo . decorrido longo estágio de serviço e aprendizado.prosseguiu o enfermeiro. com o correr do tempo são admitidos aos trabalhos de Auxílio. A Governadoria. Em geral. o Ministério da Elevação pede renúncia e iluminação. com responsabilidade definida. Vivemos em círculo de demonstrações ativas. justamente curioso. os campos do Esclarecimento requisitam grande capacidade de trabalho e valores intelectuais profundos.66 Nosso Lar . no curso de dez anos. os trabalhos na Comunicação exigem alta noção da responsabilidade individual. demoram no Ministério do Auxílio. As tarefas de Auxílio são laboriosas e complicadas. Se revelam proveito. atencioso -. são encaminhados ao Ministério da Regeneração. se mostram refratários. onde o desencarnado é promovido compulsoriamente a fantasma. em cada dez anos. os deveres no Ministério da Regeneração constituem testemunhos pesadíssimos.

tal qual observara à saída. para que determinados servidores não fiquem mais sobrecarregados que outros. as tardes de domingo.Somente nas ocasiões que o bem público o exige. dada a sintonia de muitos dos seus abrigados com os irmãos do Umbral. que nunca aproveita o que lhe toca. nesse terreno. A não ser em obediência a esse imperativo. de alegrias sagradas. transporte e outros. Em plena via pública. Numerosas multidões de espíritos desviados ali se encontram recolhidas. onde me aguardava o aposento confortador. depois de orar com a cidade no Grande Templo da Governadoria. Lísias explicou fraternalmente: . o de alimentação. . Notando-me a expressão indagadora. reconheceu a Governadoria que a música . como. amparando a desorientados e sofredores. No que concerne ao repouso.Mas. pois. Deixara-nos o aeróbus nas vizinhanças do hospital. trânsito. mas a lei do trabalho é também rigorosamente cumprida.interroguei. ouviam-se. em verdade. que representa a zona de "Nosso Lar" onde há maior número de perturbações. às vezes. nunca se ausenta ele do palácio? . numerosos serviços de controle direto. Após consecutivas observações. por exemplo.67 Nosso Lar por sua vez. o Governador vai semanalmente ao Ministério da Regeneração. para cooperar com os Ministros da Regeneração. a lei do descanso é rigorosamente observada.Essas músicas procedem das oficinas onde trabalham os habitantes de "Nosso Lar". Nesse mister. Aproveita ele. Aqui. . a única exceção é o próprio Governador. é sede movimentada de todos os assuntos administrativos. distribuição de energias elétricas. belas melodias atravessando o ar. priva-se. atendendo-lhes os difíceis problemas de trabalho.

chamam-no ao pavilhão da direita para serviço urgente. ninguém trabalha em "Nosso Lar". sem esse estimulo de alegria. Desde então. calmo. em todos os setores de esforço construtivo.Irmão Lísias. O companheiro afastou-se. Atencioso enfermeiro adiantou-se e notificou: . repleto de indagações íntimas. Nesse ínterim. .68 Nosso Lar intensifica o rendimento do serviço. porém. chegáramos à Portaria. enquanto eu me recolhia ao aposento particular.

69 Nosso Lar

12 O UMBRAL
Após receber tão valiosas elucidações, aguçava-se-me o desejo de intensificar a aquisição de conhecimentos relativos a diversos problemas que a palavra de Lísias sugeria. As referências a espíritos do Umbral mordiam-me a curiosidade. A ausência de preparação religiosa, no mundo, dá motivo a dolorosas perturbações. Que seria o Umbral? Conhecia, apenas, a idéia do inferno e do purgatório, através dos sermões ouvidos nas cerimônias católico-romanas a que assistira, obedecendo a preceitos protocolares. Desse Umbral, porém, nunca tivera notícias. Ao primeiro encontro com o generoso visitador, minhas perguntas não se fizeram esperar. Lísias ouviu-me, atencioso, e replicou: - Ora, ora, pois você andou detido por lá tanto tempo e não conhece a região? Recordei os sofrimentos passados, experimentando arrepios de horror. - O Umbral - continuou ele, solícito - começa na crosta terrestre. É a zona obscura de quantos no mundo

70 Nosso Lar não se resolveram a atravessar as portas dos deveres sagrados, a fim de cumpri-los, demorando-se no vale da indecisão ou no pântano dos erros numerosos. Quando o espírito reencarna, promete cumprir o programa de serviços do Pai; entretanto, ao recapitular experiências no planeta, é muito difícil fazê-lo, para só procurar o que lhe satisfaça ao egoísmo. Assim é que mantidos são o mesmo ódio aos adversários e a mesma paixão pelos amigos. Mas, nem o ódio é justiça, nem a paixão é amor. Tudo o que excede, sem aproveitamento, prejudica a economia da vida. Pois bem: todas as multidões de desequilibrados permanecem nas regiões nevoentas, que se seguem aos fluidos carnais. O dever cumprido é uma porta que atravessamos no Infinito, rumo ao continente sagrado da união com o Senhor. É natural, portanto, que o homem esquivo à obrigação justa, tenha essa bênção indefinidamente adiada. Notando-me a dificuldade para apreender todo o conteúdo do ensinamento, com vistas à minha quase total ignorância dos princípios espirituais, Lísias procurou tornar a lição mais clara: - Imagine que cada um de nós, renascendo no planeta, somos portadores de um fato sujo, para lavar no tanque da vida humana. Essa roupa imunda é o corpo causal, tecido por nossas mãos, nas experiências anteriores. Compartilhando, de novo, as bênçãos da oportunidade terrestre, esquecemos, porém, o objetivo essencial, e, ao invés de nos purificarmos pelo esforço da lavagem, manchamo-nos ainda mais, contraindo novos laços e encarcerandonos a nós mesmos em verdadeira escravidão. Ora, se ao voltarmos ao mundo procurávamos um meio de fugir à sujidade, pelo desacordo de nossa situação com o meio elevado, como regressar a esse mesmo ambiente luminoso, em piores condições? O Umbral funciona, portanto, como região destinada a esgotamento

71 Nosso Lar de resíduos mentais; uma espécie de zona purgatorial, onde se queima a prestações o material deteriorado das ilusões que a criatura adquiriu por atacado, menosprezando o sublime ensejo de uma existência terrena. A imagem não podia ser mais clara, mais convincente. Não havia como disfarçar minha justa admiração. Compreendendo o efeito benéfico que me traziam aqueles esclarecimentos, Lísias continuou: - O Umbral é região de profundo interesse para quem esteja na Terra. Concentra-se, aí, tudo o que não tem finalidade para a vida superior. E note você que a Providência Divina agiu sabiamente, permitindo se criasse tal departamento em torno do planeta. Há legiões compactas de almas irresolutas e ignorantes, que não são suficientemente perversas para serem enviadas a colônias de reparação mais dolorosa, nem bastante nobres para serem conduzidas a planos de elevação. Representam fileiras de habitantes do Umbral, companheiros imediatos dos homens encarnados, separados deles apenas por leis vibratórias. Não é de estranhar, portanto, que semelhantes lugares se caracterizem por grandes perturbações. Lá vivem, agrupam-se, os revoltados de toda espécie. Formam, igualmente, núcleos invisíveis de notável poder, pela concentração das tendências e desejos gerais. Muita gente da Terra não recorda que se desespera quando o carteiro não vem, quando o comboio não aparece? Pois o Umbral está repleto de desesperados. Por não encontrarem o Senhor à disposição dos seus caprichos, após a morte do corpo físico, e, sentindo que a coroa da vida eterna é a glória intransferível dos que trabalham com o Pai, essas criaturas se revelam e demoram em mesquinhas edificações. "Nosso Lar" tem uma sociedade espiritual, mas esses núcleos possuem infelizes,

72 Nosso Lar malfeitores e vagabundos de várias categorias. É zona de verdugos e vítimas, de exploradores e explorados. Valendo-me da pausa, que se fizera espontânea, exclamei, impressionado: - Como explicar? Então não há por lá defesa, organização? Sorriu o interlocutor, esclarecendo: - Organização é atributo dos espíritos organizados. Que quer você? A zona inferior a que nos referimos é qual a casa onde não há pão: todos gritam e ninguém tem razão. O viajante distraído perde o comboio, o agricultor que não semeou não pode colher. Uma certeza, porém, posso dar-lhe: - não obstante as sombras e angústias do Umbral, nunca faltou lá a proteção divina. Cada espírito lá permanece o tempo que se faça necessário. Para isso, meu amigo, permitiu o Senhor se erigissem muitas colônias como esta, consagradas ao trabalho e ao socorro espiritual. - Creio, então - observei -, que essa esfera se mistura quase com a esfera dos homens. - Sim - confirmou o dedicado amigo -, e é nessa zona que se estendem os fios invisíveis que ligam as mentes humanas entre si. O plano está repleto de desencarnados e de formas-pensamento dos encarnados, porque, em verdade, todo espírito, esteja onde estiver, é um núcleo irradiante de forças que criam, transformam ou destroem, exteriorizadas em vibrações que a ciência terrestre presentemente não pode compreender. Quem pensa, está fazendo alguma coisa alhures. E é pelo pensamento que os homens encontram no Umbral os companheiros que afinam com as tendências de cada um. Toda alma é um ímã poderoso. Há uma extensa humanidade invisível, que se segue à humanidade visível. As missões mais laboriosas do Ministério do Auxílio

73 Nosso Lar são constituídas por abnegados servidores, no Umbral, porque se a tarefa dos bombeiros nas grandes cidades terrenas é difícil, pelas labaredas e ondas de fumo que os defrontam, os missionários do Umbral encontram fluidos pesadíssimos emitidos, sem cessar, por milhares de mentes desequilibradas, na prática do mal, ou terrivelmente flageladas nos sofrimentos retificadores. É necessário muita coragem e muita renúncia para ajudar a quem nada compreende do auxílio que se lhe oferece. Interrompera-se Lísias. Sumamente impressionado, exclamei: - Ah! como desejo trabalhar junto dessas legiões de infelizes, levando-lhes o pão espiritual do esclarecimento! O enfermeiro amigo fixou-me bondosamente, e, depois de meditar em silêncio, por largos instantes, acentuou, ao despedir-se: - Será que você se sente com o preparo indispensável a semelhante serviço?

74 Nosso Lar

13 NO GABINETE DO MINISTRO
Com as melhoras crescentes, surgia a necessidade de movimentação e trabalho. Decorrido tanto tempo, esgotados anos difíceis de luta, volvia-me o interesse pelos afazeres que enchem o dia útil de todo homem normal, no mundo. Incontestável que havia perdido excelentes oportunidades na Terra; que muitas falhas me assinalavam o caminho. Agora, porém, recordava os quinze anos de clínica, sentindo um certo "vazio" no coração. Identificava-me a mim mesmo, como vigoroso agricultor em pleno campo, de mãos atadas e impossibilitado de atacar o trabalho. Cercado de enfermos, não podia aproximar-me, como noutros tempos, reunindo em mim o amigo, o médico e o pesquisador. Ouvindo gemidos incessantes nos apartamentos contíguos, não me era lícito nem mesmo a função de enfermeiro e colaborador nos casos de socorro urgente. Claro que não me faltava desejo. Minha posição ali, contudo, era assaz humilde para me atrever. Os médicos espirituais eram detentores de técnica diferente. No planeta, sabia que meu direito de intervir começava nos livros conhecidos e nos títulos conquistados; mas, naquele ambiente novo, a medicina

esclareceu: . Iniciando. porém. em "Nosso Lar". . Inexeqüível. minha surpresa vendo que três pessoas lá estavam aguardando Clarêncio. porém. muito cedo. as providências. Terminado o serviço urgente. Esperei ansioso o momento oportuno. exteriorizando-se em amor e cuidado fraternal. invasão de seara alheia. dois a dois. Ele pergunta sempre por sua pessoa e tudo fará a seu favor. contudo. tinha conhecimentos e possibilidades muito superiores à minha ciência. em identidade de circunstâncias! O delicado Ministro do Auxílio chegara muito antes de nós e atendia a assuntos mais importantes que a recepção de visitas e solicitações. procurei o local indicado. Qual não foi.75 Nosso Lar começava no coração. que ele aproveitava esse método para que os pareceres fornecidos a qualquer interessado servissem igualmente a outros. mais tarde. portanto. assim atendendo a necessidades de ordem geral. fui informado de que o generoso benfeitor somente poderia atender na manhã seguinte. começou a chamar-nos. Qualquer enfermeiro. Peça-lhe conselhos. Impressionou-me tal processo de audiência. por constituir. No apuro de tais dificuldades. a meu ver. Soube. dos mais simples.Por que não pedir o socorro de Clarêncio? Atendê-lo-á por certo. Consultaria o Ministro do Auxílio. Animou-me grande esperança. Lísias era o amigo indicado às minhas confidências de irmão. No dia imediato. Interpelado. no gabinete particular. qualquer tentativa de trabalho espontâneo. ganhando tempo e proveito.

O Ministro. por ordem de precedência. que seria ouvida em primeiro lugar. . Que me diz de um pai terrestre que desejasse ajudar os filhinhos..Nobre Clarêncio . cordial.76 Nosso Lar Decorridos muitos minutos. respondeu. se a irmã reconhece que os desígnios do Pai são justos e santos.Mas. no ambiente terrestre.) .Desejava . que me cabe fazer? . embora conservando intacta a energia pessoal. Nada lhe diz a consciência. mantendo-se em absoluta quietação no conforto do lar? O Pai criou o serviço e a cooperação como leis que ninguém pode trair sem prejuízo próprio. Penetrei no gabinete em companhia de uma senhora idosa. bondoso: .. sou mãe! Não consigo subtrair-me ao peso da angústia!.que me concedesse recursos para protegê-los eu mesma. em copioso pranto. dirigindo-lhe um olhar de fraternidade. .. ali mesmo. O Ministro recebeu-nos. (Nota do Autor espiritual.começou a companheira desconhecida -. venho pedir seus bons ofícios a favor de meus dois filhos. Ah! já não tolero tantas saudades e estou informada de que ambos vivem exaustos e sobrecarregados de infortúnios. chegou-me a vez.. E a pobre criatura se desfez. aflita . nas esferas do globo!. deixando-nos à vontade para discorrer.Ah! minha amiga . no entanto. Reconheço que os desígnios do Pai são justos e amorosos.replicou. neste sentido? Quantos bônus-hora (1) poderá apresentar em benefício de sua pretensão? __________ (1) Ponto relativo a cada hora de serviço.disse o benfeitor amorável -' só no espírito de humildade e de trabalho é possível a nós outros proteger alguém.

elucidou Clarêncio. depois. senão os santos? . talvez enfadada com as minhas providências. chefes ásperos.Coloquei-a. logo que se restabeleceu das lutas sofridas em região inferior. há mais de seis anos. aquela multidão de almas desviadas assombra a qualquer! . . Clarêncio continuou. indecências. só encontrei experiências exaustivas.replicou o benfeitor sem se perturbar -. a irmã se recolheu. .77 Nosso Lar A interpelada respondeu. localizei-a nos Gabinetes de Investigações e Pesquisas do Ministério do Esclarecimento e. . .É de lamentar . Era natural que não me adaptasse. contudo. entre os Irmãos da Suportação. até hoje.Pior! . impossível continuar ali .Trezentos e quatro.Era. pois aqui se hospeda. . e apenas deu à colônia.Mas quem os tolerará.inquiriu a pedinte rebelde . Palavrões.. ofereci-lhe atividade louvável na Turma de vigilância. . uma luta incessante contra entidades malfazejas.atalhou a interlocutora -. imperturbável: .fiz o possível.Não ficaram aí meus esforços . entretanto. hesitante: . também. Entretanto. .. do Ministério da Comunicação.aqueles apartamentos andam repletos de pessoas imundas. trezentos e quatro horas de trabalho. fluidos estranhos. aos Campos de Repouso.esclareceu o Ministro -.Mas aquilo por lá era serviço intolerável . nas tarefas regeneradoras.exclamou a senhora . miséria.disse a impertinente -.Reconhecendo suas dificuldades . enviei-a a cooperar na Enfermagem dos Perturbados. sorrindo -. deliberadamente.

mas importa notar que haveria de comparecer por lá. como mãe paralítica. se não souber servir e obedecer nobremente. Examinaremos depois o assunto com a devida atenção. continuou: . construindo. que saiba cada qual que o serviço útil pertence. mas. conquista os superiores. Mas. O servidor que obedece. em que o Senhor o colocou. como receber a colaboração imprescindível. E nenhum administrador intermediário poderá ser útil aos que ama. executando-lhes as determinações. faz-se necessária a interferência de muitos a quem tenhamos ajudado.esclareceu o devotado e seguro orientador -. o trabalho e a humildade são as duas margens do caminho do auxílio. é justo que procure a contribuição amorosa dos outros. Para que qualquer de nós alcance a alegria de auxiliar os amados. O operário que entende os chefes exigentes. .78 Nosso Lar . experimente-se a dificuldade. ao Doador Universal. incapaz de prestar socorro justo. por nossa vez. minha amiga . protetores e servos nossos. O camponês que cultiva a terra alcança a gratidão dos que saboreiam os frutos. precisamos de irmãos que se façam cooperadores. Isso é da lei eterna. companheiros e interessados no serviço. Fira-se o coração. e reflita. é indispensável estabelecer correntes de simpatia. Sem a cooperação é impossível atender com eficiência. amigos. se ainda não semeou. na Terra se não aprendeu ainda a suportar coisa alguma? Não duvido da sua dedicação aos filhos queridos. Antes de amparar os que amamos. Depois de pequena pausa. pois. representa o sustentáculo do lar. nem mesmo a simples simpatia? Volte aos Campos de Repouso.Pois note. Os que não cooperam não recebem cooperação. onde se abrigou ultimamente. E se minha irmã nada acumulou de seu para dar. Para ajudarmos alguém.Que fará. acima de tudo.

o Ministro fitou-me compassivamente e falou: . enxugando lágrimas copiosas. Em seguida.Aproxime-se. meu amigo! Levantei-me. . hesitante.79 Nosso Lar Sentou-se a mãe inquieta. para conversar.

mas. para com a irmã que me antecedera. arrependido de haver provocado aquela audiência. Quis desistir.80 Nosso Lar 14 ELUCIDAÇÕES DE CLARÊNCIO Pulsava-me precipite o coração. tremia dentro de mim mesmo. Não seria melhor calar. a consciência me advertia: Por que referir-se a serviço especializado? Não seria repetir os erros humanos. embora a indecisão que me dominava. como se adivinhasse meus propósitos mais íntimos. entretanto. despertara-me raciocínios novos. O Ministro do Auxílio. renunciar ao desejo da véspera e voltar ao aposento. dentro dos quais a vaidade não tolera outro gênero de atividade senão o correspondente aos preconceitos .Pronto a ouvi-lo. diante de examinadores rigorosos. era impossível. Ia solicitar instintivamente qualquer serviço médico em "Nosso Lar". Vendo aquela mulher em lágrimas e ponderando a energia serena do Ministro do Auxílio. exclamou em tom firme: . fazendo-me lembrar o aprendiz bisonho. onde permanecia como enfermo? A sinceridade de Clarêncio. aprendendo a esperar deliberações superiores? Não seria presunção descabida pedir atribuições de médico naquela casa.

lhe custeavam todas as despesas. rogar seus bons ofícios para que me reintegre no trabalho. no capítulo dos estudos. porém. . Até aí. porque seus pais. as palavras dele eram jatos de conforto e esperança. com gestos confirmativos. que às vezes o Pai nos honra com a Sua confiança e nós desvirtuamos os verdadeiros títulos de serviço. Depois de uma pausa mais longa. cometeu numerosos abusos. cercado de todas as facilidades. compelido a mobilizar relações afetivas para fazer clínica. Enquanto moço e sadio. Clarêncio fitou-me longamente. no fundo. sente falta dos seus clientes. Prosperou tão rapidamente que transformou facilidades conquistadas em carreira para a morte prematura do corpo. todavia. agora que a generosidade do "Nosso Lar" me reconduziu à bênção da harmonia orgânica. não teve sequer as dificuldades do médico pobre. Você foi médico na Terra. dentro do quadro de trabalho a que Jesus o conduziu. falei: . Ando saudoso dos meus misteres.Já sei. Logo depois de graduado. . Bastante confundido.81 Nosso Lar dos títulos nobiliárquicos. Qualquer trabalho útil me interessa. desde que me afaste da inação. o Ministro prosseguiu: . da paisagem de serviço com que o Senhor honrou sua personalidade na Terra. ou acadêmicos? Esta idéia equilibrava-me a tempo. Nunca soube o preço de um livro. do seu gabinete. que eu recebia no coração.Tomei a liberdade de vir até aqui.Convém notar. como a identificar-me as intenções mais íntimas. Verbalmente pede qualquer gênero de tarefa. mas. começou a receber proventos compensadores. generosos.

de um momento para outro. mas não é a única ciência do Universo. prefere apenas a conclusão matemática diante dos serviços de anatomia. costuma representar uma porta aberta a todos os disparates. na Terra. excluída a convenção dos setores nos quais se desdobrem. não se verificou em normas que me autorizem a endossar seus atuais desejos. ponderei: . Como reconhece agora. mas sua ação.Impulso muito nobre . Há que penetrar a alma.82 Nosso Lar Ante aquele olhar firme e bondoso ao mesmo tempo. lá dentro. Muitos profissionais da Medicina. Penetrou o templo da Medicina. estimaria obter meios de resgatar meus débitos. Respeitosamente. mas. consagrando-me sinceramente aos enfermos deste parque hospitalar. é convite do Pai para que o homem penetre os templos divinos do trabalho. quando fez questão de circunscrever observações exclusivamente à esfera do corpo físico? Não nego sua capacidade de excelente fisiologista. Como transformá-lo.Reconheço a procedência das observações. mas. para nós. Concordemos que a Matemática é respeitável. Com essa ficha. no mundo. no planeta. é simplesmente uma ficha. são . é preciso convir que toda tarefa na Terra. em médico de espíritos enfermos. o médico não pode estacionar em diagnósticos e terminologias. no quadro de Seus divinos serviços no planeta. O título. estranha perturbação apossara-se de mim. Meu irmão recebeu uma ficha de médico. sondar-lhe as profundezas. se possível. no campo das profissões. . mas o campo da vida é muito extenso. contudo.disse Clarêncio sem austeridade -. Tal princípio é aplicável a todas as atividades terrestres. Que me diz de um botânico que alinhasse definições apenas com o exame das cascas secas de algumas árvores? Grande número de médicos. o homem fica habilitado a aprender nobremente e a servir ao Senhor.

sobrepor-se a preconceitos comuns e. compreendo a lição e curvo-me à evidência. nesta colônia de realização e paz. pedi ao Ministério do Esclarecimento providenciasse a obtenção de suas notas. aguardei que o Ministro do Auxílio retomasse o fio das elucidações. não possuo apenas verdades amargas.esclareceu o Ministro -. sua mãe e outros amigos.Generoso benfeitor .Meu amigo. porque a vaidade lhes roubou a chave do cárcere. . não se preparou convenientemente para os nossos serviços aqui.83 Nosso Lar prisioneiros das salas acadêmicas. Sua posição atual não é das melhores. Incapaz de intervir.continuou ele -. a seu favor. é confortadora. Fiquei atônito. . Logo após sua vinda. inebriado de alegria.Sim . que examinei atentamente. E. respondeu: . Assombrava-me a interpretação do título acadêmico.atrevi-me a dizer -.Minha mãe? . reservam-se as zombarias do mundo e o escárnio dos companheiros. . Não pode ainda ser médico em "Nosso Lar". Não conhecia tais noções de responsabilidade profissional. . oportunamente. entretanto. Muita imprevidência. Tenho igualmente a palavra de estímulo.Conforme deduz . pelas intercessões chegadas ao Ministério do Auxílio. . Raros conseguem atravessar o pântano dos interesses inferiores. para essas exceções. reduzido à ficha de ingresso em zonas de trabalho para cooperação ativa com o Senhor Supremo. no coração dos quais você plantou a semente da simpatia.Submeto-me a qualquer trabalho. pedi. Com um profundo olhar de simpatia. mas poderá assumir o cargo de aprendiz.perguntei. humilde: . fazendo esforço por conter as lágrimas.

mas. nos quinze anos de sua clínica. veementes apelos a seu favor. Concluindo. mesmo por troça. é preciso se cale o coração no grandiloqüente silêncio divino. também proporcionou receituário gratuito a mais de seis mil necessitados. cooperará eficientemente conosco. Desses beneficiados. Pela primeira vez. Clarêncio acentuou: . quinze não o esqueceram e têm enviado. presentemente. pode verificar que. que mesmo o bem que proporcionou aos indiferentes surge aqui a seu favor. Na maioria das vezes. mas. Oh! Quem poderá entender. . chorei de alegria na colônia. preparando-se para o futuro infinito. a sorrir. na Terra. semelhante júbilo? Por vezes. as elucidações surpreendentes. até aqui. Devo esclarecer.Aprenderá lições novas em "Nosso Lar" e. no entanto. o verdadeiro bem espalha bênçãos em nossos caminhos. Sentia-me radiante. absolutamente por troça. praticou esses atos meritórios.84 Nosso Lar numerosos abusos e muita irreflexão. depois de experiências úteis.

talvez me sentisse ofendido com as observações aparentemente tão ríspidas. naquelas circunstâncias. Os fluidos carnais compelem a alma a profundas sonolências. Os benfeitores do Ministério do Auxílio eram excessivamente generosos para comigo. Se até ali não me haviam proporcionado satisfação espontânea a semelhante desejo. apenas agora reconhecia que a experiência humana. Adivinhavam-me os pensamentos. procurava reconstituir energias para recomeçar o aprendizado. reconhecia não merecer a hospitalidade de "Nosso Lar". evidenciando grandezas até então ignoradas.85 Nosso Lar 15 A VISITA MATERNA Atento às recomendações de Clarêncio. Considerando as oportunidades perdidas. em hipótese alguma. Noutro tempo. A importância da encarnação na Terra surgia-me aos olhos. grande ansiedade de rever o lar terreno. No íntimo. Abstinha-me. Passei dias entregue a profundas reflexões sobre a vida. Clarêncio tinha dobradas razões para falar-me com aquela franqueza. porém. Em verdade. lembrava meus erros antigos e sentia-me confortado. de pedir novas concessões. mas. poderia ser levada à conta de brincadeira. é que tal propósito não .

86 Nosso Lar seria oportuno. em que o homem é chamado para dentro de si mesmo.Adivinhe quem chegou à sua procura! Aquela fisionomia alegre. na areia do jardim. pela consciência profunda. não me enganavam. no meu apartamento. Beijei-a repetidas vezes.respondi. filho. o bondoso visitador penetrou.Filho! meu filho! Vem a mim. Senti-me criança. Olhos arregalados de alegria.Minha mãe! . .Estás ainda fraco. vi minha mãe entrar de braços estendidos. exclamando: . Não desperdices energias.Vamos. . Abracei-me a ela carinhoso. misturei minhas lágrimas com as suas lágrimas. e não sei quanto tempo estivemos juntos. então. querido meu! Não posso dizer o que se passou então. como no tempo em que brincava à chuva. experimentando os mais sagrados transportes da ventura espiritual. abraçados. E em vez de carregar minha adorada velhinha nos braços. Calava-me. nessa fase de recolhimento inexprimível. aqueles olhos brilhantes de Lísias. nos derradeiros tempos de sua romagem por lá. não te emociones tanto assim! A alegria também. como fazia na Terra. costuma castigar o coração. conduzindo-me ao divã. chorando de júbilo. radiante. apertei-a nos braços. pés descalços. foi ela quem me enxugou o pranto copioso. recomendando: . resignado e algo triste. foi ela quem me despertou do enlevo. contudo. Um dia. . Eu estava. filhinho. confiante. Lísias fazia o possível por alegrar-me com os seus pareceres consoladores. porém. quando excessiva. Afinal. .

e sim preciosa bênção de acréscimo da misericórdia divina. Copiando antigas exigências. cópia perfeita de um dos seus velhos trajos caseiros. Qual menino que procura detalhes. O Pai jamais nos esquece. Aqueles minutos davam-me a idéia de um sonho tecido em trama de felicidade indizível. o olhar doce e calmo de todos os dias. ajeitou-me a fronte cansada. temporariamente. Notando-lhe o vestido escuro. senti que se me reavivavam as chagas terrenas. porém. falou com serenidade: . A presença maternal constituía infinito reconforto ao meu coração. . mais forte que eu. aureolada a fios de neve. confortando-me à luz de santas recordações. que me houvesse esquecido. contemplei a cabeça pequenina. todavia. observações fraternais de Lísias. Do pranto de alegria passei às lágrimas de angústia. fixava-lhe as vestes. Não conseguia atinar que a visita não era para satisfação dos meus caprichos. para renunciar às lamentações. Mãos trêmulas de contentamento. Senti-me. Que longo tempo de separação! Não julgues. afagando-me de leve. as rugas do rosto. como que se reabriam velhas feridas. a mantilha azul. mas. sem conseguir articular uma frase. meu filho. Oh! como é difícil alijar resíduos trazidos da Terra! Como pesa a imperfeição acumulada em séculos sucessivos! Quantas vezes ouvira conselhos salutares de Clarêncio. Minha mãe. relembrando exacerbadamente os trâmites terrestres.87 Nosso Lar Sentei-me a seu lado e ela. para que aprendamos o amor divino. as meias de lã. então.Nunca saberemos agradecer a Deus tamanhas dádivas. acariciava-lhe as mãos queridas. Identificando-lhe a ternura de todos os tempos. Às vezes. em seus joelhos. a Providência separa os corações. Guardava a impressão de haver o barco de minha esperança ancorado em porto mais seguro. ao carinho maternal. o mais venturoso dos homens. cuidadosamente.

no conceito dos filhos. Não te queixes. portanto. porém. falou. . Esses gestos são perdoáveis nas esferas da carne. ao Senhor. Alguma coisa tenta operar o retrocesso de minhalma. Na mesma falsa concepção de outros tempos. não ignoro as instruções que o nosso generoso Clarêncio te ministrou. Tuas lágrimas fazem-me voltar à paisagem dos sentimentos humanos. quase sempre. aconchegando-me de quando em quando mais estreitamente ao coração. Minha mãe ouviu-me calada. pois. Também eu trabalho.88 Nosso Lar concluí erroneamente que minha genitora deveria continuar como repositório de minhas queixas e males sem-fim. ou pelas feridas que sangram em nós. nem sou a única mãe a sentir-se distante dos entes amados. filho meu. qual se foras a melhor criatura do Universo. não nos edifica pelos prantos que vertemos.Oh! filho. Não és o único homem desencarnado a reparar os próprios erros. onde aprendemos a ser filhos do Senhor. antes de tudo. Quero dar razão aos teus lamentos. não se coaduna com as novas lições da vida. é indispensável atender. mas pela porta de luz que nos oferece ao espírito. Agradeçamos ao Pai a bênção desta reaproximação. aqui. Sintamo-nos agora numa escola diferente. Nossa dor. Raros lhes entendem a dedicação antes de as perder. erigir-te um trono. deixando transparecer inexprimível melancolia. Olhos úmidos. nem sempre consegui orientar-te como convinha. carinhosa: . as mães não passam de escravas. Na Terra. presentemente. reajustando o coração. mas essa atitude. Na posição de mãe terrestre. a fim de sermos mais compreensivos e mais humanos. descambei para o terreno das confidências dolorosas. Lágrimas e úlceras constituem o processo de bendita extensão dos nossos mais puros sentimentos.

com o grande e sagrado amor divino. em que a consciência profunda me advertia solene. e trabalhemos incessantemente. mas não posso retroceder nas minhas experiências. filho. mostrando belo sorriso. Minha mãe me contemplava desvanecida. sentindo-a mais amorosa e mais bela que nunca. respeitoso. .Se é possível aproveitar estes minutos rápidos. em expansões de amor. Ergui-me. e beijei-a na fronte. Amemo-nos. minha mãe prosseguiu: . Modifica a atitude mental. Conforta-me tua confiança em meu carinho. Aquelas palavras benditas me despertaram. experimento sublime felicidade em tua ternura filial. agora.89 Nosso Lar Depois de longa pausa. Guardava a impressão de fluidos vigorosos que partiam do sentimento materno vitalizando-me o coração. por que desviá-los para a sombra das lamentações? Regozijemo-nos.

na situação em que me encontro. Inesperado e inexprimível contentamento banhava-me o espírito. sempre. que minhas palavras não representam qualquer nota de tristeza. tenho trabalhado intensamente pela nossa renovação espiritual. maior abnegação.90 Nosso Lar 16 CONFIDÊNCIAS Consolou-me a palavra maternal. Aqueles conceitos alimentavam-me de estranho modo. permanecem agarradas ao lar terrestre. a pretexto de muito amarem .exclamei comovido . Devo fazer-te sentir.deve ser maravilhosa a esfera da sua habitação! Que sublimes contemplações espirituais. Ela esboçou um sorriso significativo e obtemperou: . que ventura!. Minha mãe comentava o serviço como se fora uma bênção às dores e dificuldades. no entanto. animado e feliz. desencarnando. meu filho. Não suponhas que tua mãe permaneça em visões beatificas. requer. levando-as a crédito de alegrias e lições sublimes. mais trabalho. Sentia-me outro. É antes revelação de responsabilidade necessária.Oh! minha mãe! . a distância dos deveres justos. Muitas entidades. reorganizando-me as energias interiores. Desde que voltei da Terra. . mais alegre.A esfera elevada.

e o resultado foi achar-se tão-só na companhia das relações que cultivara irrefletidamente. Há doze anos que está numa zona de trevas compactas. Duas delas estavam mentalmente ligadas a vasta rede de entidades maléficas. ele quis reagir. arraigado ao cavalheirismo do alto comércio. e. De algum modo. a quem fizera muitas promessas. fora do nosso lar. então.perguntei . a passagem no Umbral lhe foi muito amarga. Ensinaram-me aqui. mas. Laerte. . em matéria religiosa. para transbordar em benefícios. Na Terra. pela mente e pelo coração. . precisa trabalhar sempre. portanto.E meu pai? . lutou. todavia. tão logo desencarnou o meu pobre Laerte.. A princípio. repelindo as tentações. Desde minha vinda. e ao fervor do culto externo. mas não pôde compreender que após a morte do corpo físico a alma se encontra tal qual vive intrinsecamente. nem a assistência desvelada de outros amigos nossos. a cujos quadros pertenceu até ao fim da existência. Tendo gasto muitos anos a fingir. restringira o padrão vibratório.91 Nosso Lar os que demoram no mundo carnal. que o verdadeiro amor. Os princípios da família e o amor ao nosso nome ocuparam algum tempo o seu espírito. era fraco e mantinha ligações clandestinas. no fundo. no Umbral. por falta de perseverança no bom e reto pensamento. viciara a visão espiritual. esforçando-se por encontrar-me. novamente enredado na sombra. mas caiu afinal. prendendo-o de novo nas teias da ilusão. sempre nos parecera fiel às tradições da família. porque as desventuradas criaturas.. aguardavam-no ansiosas.onde está? Por que não veio com a senhora? Minha mãe estampou singular expressão no rosto e respondeu: . não percebeu minha presença espiritual.Ah! teu pai! teu pai!. procuro esforçar-me por conquistar o direito de ajudar aqueles que tanto amamos.

de quando em quando. o pobrezinho permanece inativo em si mesmo. Solicitei o amparo de amigos em cinco núcleos diversos. para conseguir levantá-lo e abrir-lhe a visão espiritual. suspirou.. num gesto heróico de sublime renúncia. sem obter resoluções sérias. continuando: . das quais se tornou prisioneiro. Sou compelida a atender às necessidades de todos. foi meu braço forte nos trabalhos ásperos de amparo à família terrena. aquela que partiu quando eras pequenino. perguntei: .Talvez não saibas ainda que tuas irmãs Clara e Priscila vivem hoje igualmente no Umbral. não me percebe. que voltou a semana passada. depois de lutar corajosa. ainda na Terra. inclusive aqui em "Nosso Lar". Precisamos da adesão mental de Laerte. em benefício de teu pai. Ele. mas debalde. entre a indiferença e a revolta. Tento atraí-lo ao bom caminho. para que possamos desdobrar atividades no bem. que te restabeleças breve.Não há. anos a fio. a fim de reencarnar entre eles. Clarêncio quase conseguiu atraí-lo ao Ministério da Regeneração. Ultimamente. Luísa esperou-me aqui muitos anos.. Certa vez. eu o visito freqüentemente. contudo. As infelizes. Seu potencial vibratório é ainda muito baixo. No entanto. pela inspiração. .92 Nosso Lar Muitíssimo impressionado. Não é possível acender luz em candeia sem óleo e sem pavio. Espero. pois. de atividade espiritual mais elevada. porém. tão grande é a perturbação dos nossos familiares.elucidou a palavra materna -. a meu lado. porém. meios de subtrai-lo a tais abjeções? . de ti e das irmãs. retiram-no às minhas sugestões.Ah! meu filho . Venho trabalhando intensamente. Depois de longa pausa. mas apenas consigo arrancar-lhe algumas lágrimas de arrependimento. Meu único auxílio direto repousava na cooperação afetuosa de tua irmã Luísa. agarradas á crosta da Terra.

ponderou minha mãe -' dize. auxilia o papai. Espantou-me a grande manifestação de renúncia.. Alguma coisa me fazia sentir que minha mãe não se demoraria muito tempo a meu lado. Aproveitando o minuto que corria célere. Oh! minhas imensas saudades devem ser igualmente compartilhadas por eles! Como deve sofrer minha desventurada esposa com esta separação!. nossas irmãs doentes. antes. Pensei subitamente em minha família direta. Perante Clarêncio e Lísias. igualmente. Não tenho feito intercessões apenas por Laerte.A senhora. e estou convencida de haver encontrado recursos para atraí-los todos ao meu coração. Prepara-te.. nada poderá informar relativamente a Zélia e às crianças? Aguardo. meu filho. acentuou: . mas por elas também.Não deves. ansioso. interroguei: .A senhora. Que espécie de lutas seriam as dele? Não parecia sincero praticante dos preceitos religiosos. ignorantes ou infelizes. mas o olhar materno encorajava-me. perguntei: .Tenho visitado meus netos periodicamente.Não as classifiques assim . E. não obstante a ligação dele com essas mulheres infames? . São filhas de nosso Pai. Minha mãe esboçou um sorriso triste e acrescentou: . não comungava todos os domingos? Enlevado com a dedicação maternal. em primeiro lugar. Vão bem. depois de meditar alguns instantes. deliberava sempre recalcar sentimentos e calar indagações. entretanto. para . Senti o velho apego à esposa e aos filhos queridos. inquietar-te com o problema de auxílio à família. a fim de auxiliá-los. porém. que tem acompanhado o papai devotadamente.93 Nosso Lar Assombravam-me as informações referentes a meu pai. o instante de voltar a casa.

Quis insistir no assunto para colher pormenores. há questões que precisamos entregar ao Senhor. beijou-me e partiu. carinhosa. para agradecer a oportunidade desta visita. . mas minha mãe não reincidiu nele. Afagou-me então. Curioso por saber como vivia até ali. envolvendo-me em sublime conforto. A palestra estendeu-se ainda longa. delicada. Esperam-me com urgência no Ministério da Comunicação. nos gabinetes transformatórios. e disse: . em pensamento. preciso ainda avistar. Além disso. E. esquivando-se. antes de trabalhar na solução que elas requerem. ela despediu-se.94 Nosso Lar que sejamos bem sucedidos. onde serei munida de recursos fluídicos para a jornada de regresso.Não venhas. pedi permissão para acompanhá-la. deixando-me nalma duradoura impressão de felicidade. meu filho.me com o Ministro Célio. Mais tarde.

Segui-o. . Não cabia em mim de contente. Henrique de Luna deu por terminado seu tratamento. afável -. naquele instante.Tornando-se dispensável sua permanência no parque hospitalar. O enfermeiro correspondeu-me ao olhar com intenso júbilo. surpreso.Meu amigo . com exceção dos Ministérios de natureza superior. ingressando em escolas diferentes.disse. Olhei para Lísias. Recebido amavelmente pelo magnânimo benfeitor.95 Nosso Lar 17 EM CASA DE LÍSIAS Não se passaram muitos dias. agora. como irmão que devia participar da minha felicidade indizível. De alguma sorte. e é justo. Clarêncio. examinarei atentamente a possibilidade . Era o início de vida nova. a chamado do Ministro Clarêncio. esperava-lhe as ordens com enorme prazer. poderia trabalhar. aproveite o tempo observando e aprendendo. acentuou: . após a inesperada visita de minha mãe. quando Lísias me veio buscar. doravante está autorizado a fazer observações nos diversos setores de nossos serviços. que parecia perceber minha intraduzível ventura. na semana última.

veremos o que será possível fazer relativamente aos seus desejos. da Comunicação e do Esclarecimento. também lhe endereçou um olhar de aprovação. lá. . . . com ele.. Clarêncio. cercada de colorido jardim. durante um ano. eis-nos à porta de graciosa construção.96 Nosso Lar de sua localização em ambiente novo.O nosso lar. poderá ingressar nos Ministérios da Regeneração.Muito bem.Mãe! Mãe!. . com expressão carinhosa.. exclamando: . enlevado de prazer. acrescentou: . sem poder traduzir meu agradecimento. A alegria às vezes nos emudece. porém. Não perca tempo. O interstício das experiências carnais deve ser bem aproveitado. enquanto perdurar o curso de observações. . apresentando-me alegremente . Lísias deu-me o braço e saí. entregando-me pequena caderneta -. meu caro.disse-me o atencioso Ministro do Auxílio. surgiu à porta simpática matrona. Abracei o prestativo enfermeiro.Guarde este documento . Ao tinido brando da campainha no interior. por sua vez. Lísias! Jesus alegra-se conosco.este é o irmão que prometi trazer-te. cortou-lhe a palavra. Passados minutos.. Instrua-se.exclamou o delicado companheiro. minha mãe o trataria como filho. do Auxílio.É aqui .Se possível. murmurando: . E. estimaria recebê-lo em nossa casa. Consultarei alguma de nossas instituições. Lísias.gritou o enfermeiro. dentro de "Nosso Lar". Fitei o visitador num transporte de alegria.. Decorrido esse tempo. sempre que recebemos um amigo no coração.

revelando singular bom humor. E abraçando-me: . Rimo-nos todos e murmurei. no ano passado. um piano de notáveis proporções. Não te recordas como o Ministério da União Divina recebeu o pessoal da Elevação. Obrigar-me-ia a lembrar. de repente. Não sabia como agradecer a generosa hospitalidade. terá em mim uma irmã. objetos em geral.Está proibido de falar em agradecimentos. muitas frases convencionais da Terra. . carinhosa -. mas a nobre matrona. – Esta casa é sua. Ia ensaiar algumas frases. com funções maternais..97 Nosso Lar .exclamou a senhora nobremente. não faças ironia. Identificando-me a curiosidade. mas quero apenas dizer que os harpistas existem. mamãe.. e precisamos criar audição espiritual.Oh! Lísias . adiantou-se. descansando sobre ele grande harpa talhada em linhas nobres e delicadas. Não o faça.Sim. Lísias falou. quando passaram por aqui alguns embaixadores da Harmonia? . depois do sepulcro não encontrou ainda os anjos harpistas.Que o Senhor traduza meu agradecimento a todos em renovadas bênçãos de alegria e paz.Como vê. amigo! . para demonstrar minha comoção e reconhecimento.atalhou a palavra materna.Soube que sua mamãe não vive aqui. prazenteiro: . comovido: . . Quadros de sublime significação espiritual. Ambiente simples e acolhedor. Entramos.Seja bem-vindo. mas aí temos uma harpa esperando por nós mesmos. Móveis quase idênticos aos terrestres. demonstrando pequeninas variantes. adivinhando-me os pensamentos: . Nesse caso.

no que concerne à literatura. Em seguida aos conceitos obrigatórios de apresentação. nem mesmo no Ministério da Regeneração. Respirava-se.98 Nosso Lar para ouvi-los.Temos em "Nosso Lar". enlevava-me. enquanto perseveram em semelhante estado dalma. A hospitalidade. Em face do tiroteio de perguntas. Não voltara a mim da admiração que me empolgava. . que sua mãe chamava-se Laura e que. a dona da casa advertiu: . Não pude deixar de sorrir. arrancava-me ao espírito notas de profunda emoção. quando a senhora Laura convidou à oração. chamou-me Lísias para ver algumas dependências da casa. são conduzidos imediatamente para as zonas obscuras do Umbral. mas confortável. Tudo simples. Em seguida. nas páginas sob meus olhos. Iolanda exibiu-me livros maravilhosos. ali. é que os escritores de má-fé. cujas instalações interessantes me maravilharam. no aprendizado das coisas divinas. por nossa vez. demorando-me na Sala de Banho. Não conseguia disfarçar meu contentamento e enorme alegria. tinha consigo duas irmãs. com que relacionei minha procedência. Por aqui não se equilibram. vim a saber que a família de Lísias vivera em antiga cidade do Estado do Rio de Janeiro. Notando-me o interesse. uma enorme vantagem. doce e reconfortante intimidade. Iolanda e Judite. os que estimam o veneno psicológico. continuando a observar os primores da arte fotográfica. em casa. cheia de ternura. esforçando-nos. Aquele primeiro contacto com a organização doméstica na colônia.

Surgiu. sentia-me dominado de profunda e misteriosa alegria. no parque hospitalar. porém. em sublimes transportes de júbilo e reconhecimento.99 Nosso Lar Sentamo-nos. ao fundo. Era o louvor do momento crepuscular. Ligado um grande aparelho. que eu nunca me cansava de contemplar todas as tardes. senti que minhalma se ajoelhava no templo interior. E vendo o coração azul desenhado ao longe. o mesmo quadro prodigioso da Governadoria. . fez-se ouvir música suave. em torno de grande mesa. silenciosos. Naquele momento.

que as dispensam quase por completo. não quer dizer que somente nós. em "Nosso Lar". Todos os Ministérios. os funcionários do Auxílio e da Regeneração. tendo em vista os serviços pesados que as circunstâncias impõem. ouvi a senhora Laura observar com graça: . porém . Há residências. vivamos a depender de alimentos. não podemos prescindir dos concentrados fluídicos. Eminentemente surpreendido. nas zonas do Ministério do Auxílio. diferindo apenas a feição substancial. inclusive o da União Divina. Na Elevação o consumo de sucos e concentrados . que mais pareciam concentrados de fluidos deliciosos.ponderou uma das jovens -. mas. servindo caldo reconfortante e frutas perfumadas. Despendemos grande quantidade de energias.Isso. .100 Nosso Lar 18 AMOR. É necessário renovar provisões de força. ALIMENTO DAS ALMAS Terminada a oração.Afinal. chamou-nos à mesa a dona da casa. Na Comunicação e no Esclarecimento há enorme dispêndio de frutos. não os dispensam. nossas refeições aqui são muito mais agradáveis que na Terra.

acentuando: . O verme. Percebendo-me a satisfação íntima. e o processo será cada vez mais delicado. Nós outros.Nosso irmão talvez ainda ignore que o maior sustentáculo das criaturas é justamente o amor. Todo sistema de alimentação. ansioso de explicações imediatas. criaturas desencarnadas. à medida que se intensifique a ascensão individual. como no caso dos veículos terrestres. explicando: . e serve-se dele à mesa do lar. tendentes à condição fluídica. recebemos em "Nosso Lar" grandes comissões de instrutores. De quando em quando. Meu olhar indagador ia de Lísias para a Senhora Laura. Não lhe parece que o amor divino seja o cibo do Universo? Tais elucidações confortavam-me sobremaneira. necessitados de colaboração da graxa e do óleo. é simples problema de materialidade transitória.Tudo se equilibra no amor infinito de Deus. Sorriam todos da minha natural perplexidade. mas a mãe de Lísias veio ao encontro dos meus desejos. e. apenas se nutre de amor. em si. propriamente considerado. mais sutil o processo de alimentação. O homem colhe o fruto do vegetal. Quanto mais nos elevarmos no plano evolutivo da Criação. na União Divina. mesmo aqui. a exemplo da criança sugando o seio materno. que ministram ensinamentos relativos à nutrição espiritual. O alimento físico. os fenômenos de alimentação atingem o inimaginável. A alma. transformao segundo a exigência do paladar que lhe é próprio. no subsolo do planeta. tem no amor a base profunda.101 Nosso Lar não é reduzido. necessitamos de substâncias suculentas. Lísias interveio. nutre-se essencialmente de terra. quanto mais evolvido o ser criado. nas variadas esferas da vida. mais extensamente conheceremos essa verdade. O grande animal colhe na planta os elementos de manutenção. e. .

o gesto afetuoso. largamente divulgadas no mundo. no campo da fraternidade e da simpatia. reduzida. o homem e nós.E ninguém diga que o fenômeno é simplesmente sexual.aduzi. porque. mas é apenas uma expressão isolada do potencial infinito. mais tarde. A permuta magnética é o fator que estabelece ritmo necessário à . a nos alimentarmos uns aos outros. Reencarnados na Terra.patrimônios que se derivam naturalmente do amor profundo .Não se lembra do ensino evangélico do "amai-vos uns aos outros"? . comovido. experimentamos grandes limitações. Todos nos movemos nele e sem ele não teríamos existência. o interesse fraternal .Não esqueçamos. entre eles.constituem sólidos alimentos para a vida em si. a confiança mútua. O homem encarnado saberá. a realização transitória. o verme. mas. igualmente. . entretanto. voltando para cá. reconhecemos que toda a estabilidade da alegria é problema de alimentação puramente espiritual. a bondade recíproca. a senhora Laura sentenciou: . Entre os casais mais espiritualizados. que a prática do bem constitui simples dever. a luz da compreensão. Aconselhava-nos.prosseguiu a mãe de Lísias atenciosa Jesus não preceituou esses princípios objetivando tão-somente os casos de caridade. nos quais todos aprenderemos. o animal. Formam-se lares. cidades e nações em obediência a imperativos tais. o carinho e a confiança. a dedicação e o entendimento mútuos permanecem muito acima da união física. no fundo.É extraordinário! . mais dia menos dia. a questão dos veículos . O sexo é manifestação sagrada desse amor universal e divino. Recordei instintivamente as teorias do sexo. adivinhando-me talvez os pensamentos.102 Nosso Lar . vilas. dependemos absolutamente do amor. .acrescentou a senhora Laura -. todavia. que a conversação amiga.

Levantou-se o enfermeiro para atender. Almas gêmeas. a senhora Laura falou sorridente: . Valendo-se da pausa.objetou Lísias contente -. a criatura menos forte costuma sucumbir em meio da jornada. porém. de se alinharem novas considerações. . por nossa causa. até que te possa acompanhar nesses entretenimentos. Não faças Lascínia esperar tanto.disse Lísias. dirigindo-se a mim gentilmente – nossos irmãos Polidoro e Estácio." Antes.Como vê. às vezes. meu amigo . Judite acrescentou: . advertiu a palavra materna: . alegria.103 Nosso Lar manifestação da harmonia. almas irmãs. faltam companheiros. Unindo-se umas às outras. tiniu a campainha fortemente. Quando. Nosso irmão ficará em minha companhia. ainda aqui é possível relembrar o Evangelho do Cristo. conseguem equilíbrio no plano de redenção. "Nem só de pão vive o homem.Aqui tem . . Não estraguem o programa afetivo.Todos vocês trabalharam muito hoje. Para que se alimente a ventura. .Vai. porém. almas afins.Aprendemos em "Nosso Lar" que a vida terrestre se equilibra no amor. sem que a maior parte dos homens se aperceba. apenas a compreensão. Notando a preocupação de Lísias. Saudações. amparando-se mutuamente. Decorridos momentos. meu filho. Dois rapazes de fino trato entraram na sala. constituem pares e grupos numerosos. basta a presença e. Utilizaram o dia com proveito. companheiros de serviço no Ministério do Esclarecimento. Não esqueçam a excursão ao Campo da Música. abraços.

Não se incomode por mim . Saíram todos. aqui.exclamei. são mais belos e mais fortes. meu amigo. . A senhora Laura. ainda hoje. porém. A dona da casa. que voltou da Terra há poucos dias. é o pão divino das almas. Os laços afetivos. fechando a porta.Não poderei compartilhar das alegrias do Campo.Vão em busca do alimento a que nos referíamos.104 Nosso Lar . em meio do júbilo geral. O amor. o pábulo sublime dos corações. esboçou amável sorriso e respondeu . Temos em casa minha neta convalescente. instintivamente. voltou-se para mim e explicou sorridente: .

em forte sonolência. Manifestei desejo de visitar a recém-chegada do planeta. Minha neta demorou-se no Umbral quinze dias. . Demandamos um quarto confortável e muito amplo.esclareceu dona Laura -. Aqui. não trazemos à mesa qualquer pessoa que se manifeste perturbada ou desgostosa. . que se misturam automaticamente às substâncias alimentares. veio submeter-se aos meus cuidados diretos. mas.105 Nosso Lar 19 A JOVEM DESENCARNADA . alimenta-se a sós . assistida por nós. Seria muito interessante ouvi-la. a tolinha continua nervosa. A neurastenia e a inquietação emitem fluidos pesados e venenosos. abatida. Surpreendeu-se vivamente ao ver-me. Há quanto tempo estava sem notícias diretas da existência comum? A senhora Laura não se fez rogada quando lhe dei a conhecer meu desejo. Deveria ingressar nos pavilhões hospitalares. ensaiando palestra mais íntima. afinal.perguntei à dona da casa.Sua neta não vem à mesa para as refeições? . Uma jovem muito pálida repousava em cômoda poltrona.Por enquanto.

de modo algum. há pouco tempo. não conseguia conter os soluços angustiosos. embora os olhos perdidos nas fundas olheiras traduzissem grande esforço para concentrar atenção. Sabes que tua mãe não se demorará e que não podes contar com a fidelidade do noivo. Antes. Em parte. O tórax começou a arfar-lhe violentamente e.Eloísa tem estado inquieta. desposará outra e deves habituar-te a esta convicção. por minha vez. está preparado a te oferecer uma sincera dedicação espiritual na Terra.Este amigo. Estas impressões são os resultados da educação religiosa deficiente. . entretanto. Ele ainda está longe do espírito sublime do amor iluminado. Naturalmente. adiantou-se a senhora Laura. Vi a jovem arregalar os olhos muito negros. como a reter o pranto. nada mais. aflita.Tolinha! .explicou a genitora de Lísias. porém. Não seria mais duro o sofrimento? Não pagarias caro a cooperação . Cumprimentou-me. dando-me eu a conhecer.106 Nosso Lar .observei. do otimismo e da coragem. a tempo algum. não se pode prescindir. que ela respondesse.disse a meiga senhora abraçando-a . que. mas em vão. A tuberculose foi longa e deixou-lhe traços profundos. Sorrindo maternalmente. colando o lenço ao rosto. A moça fitou-me curiosa. justifica-se. forçando a lei. é um irmão nosso que voltou da esfera física. a senhora Laura acrescentou: . indicando-me -. esboçando vago sorriso.Deve estar cansada . .Admitamos que viesse. Eloísa . Nem seria justo exigir-lhe a vinda brusca. procurando subtrai-la a esforços sobreposse fatigantes: .é necessário reagir contra isso.

.Arnaldo. falando mais calma: .107 Nosso Lar que houvesses desenvolvido nesse particular? Não te faltarão amizades carinhosas. . porém.. vovó. de fato. ora. o que padeceu por minha causa o pobre noivo.. está com os seus parentes e não conheceu tempestades na grande viagem. Desencarnou há poucos dias. deves procurar harmonia para beneficiá-lo mais tarde. parecia igualmente desejosa de vê-la desembaraçar-se.Do Rio de Janeiro. não diga isso . nem colaboração fraternal. .Não imagina..interroguei. agora calada. Penalizou-me o pranto copioso da jovem. Na Terra temos sempre a ilusão de que não há dor maior que a nossa. é inenarrável. Você é muito feliz.Donde vem você.Ora. Pura cegueira: há milhões de criaturas afrontando situações verdadeiramente cruéis. Tudo isso dá que pensar . . Procurei estabelecer novo rumo à conversação. Oito meses de luta com a tuberculose. porém. comparadas às nossas experiências. não obstante os tratamentos. . ficou sem consolo. A mãe de Lísias.objetei. . Após longos instantes em que enxugava os olhos lacrimosos.. E se amas. quanto tenho sofrido. o rapaz. desesperado. para que te equilibres aqui. tua mãe não tarda a chegar. Ela pareceu reanimar-se.observou a senhora Laura a sorrir. tentando subtrai-la à crise de lágrimas.. a moça respondeu: .Mas não deve chorar assim . Além disso..acentuou contrafeita.. Além disso. Eloísa? . a mágoa de haver transmitido a moléstia a minha carinhosa mãe.

muitas vezes. vovó! . no curso da tua enfermidade. Poderás auxiliá-lo. muito meiga: . embora muito magoado. nem tentes desmentir-me. portanto.108 Nosso Lar . o teu otimismo. a impossibilidade de restabelecer-te o corpo físico.perguntou a matrona com inflexão de carinho. em nossa companhia. Reconfortar-se-á muito depressa. em caráter confidencial.Será possível? A genitora de Lísias esboçou um gesto extremamente carinhoso e falou: . notei a surpresa dolorosa de Eloísa. por quê? É preciso te habituares a considerar as necessidades alheias. Não sabia a convalescente como portar-se ante a serenidade e o bom senso da avó. Vendo que a enferma parecia tomar a atitude íntima de quem deseja provas.Não sejas teimosa. . começou a envolvê-la em vibrações mentais diferentes. não demorarão muito as resoluções novas. já o encontrarás casado com outra. Teu noivo é homem comum. por . Arnaldo.Não te recordas da Maria da Luz.Horror. Amor iluminado não é para qualquer criatura humana. Era natural que ele se comovesse tanto. vendo-te o corpo reduzido a frangalhos. quando puderes excursionar às esferas do planeta. Observei teu exnoivo. mas não está preparado para compreender um sentimento puro. Conserva. a senhora Laura insistiu. não está alertado para as belezas sublimes do amor espiritual. Ah! que horror. Admirado por minha vez.E acreditas sinceramente nessa impressão? . diversas vezes. sem dúvida. mas no que concerne à união conjugal. a colega que te levava flores todos os domingos? Pois nota: quando o médico anunciou. Agora que aqui estás. Não podes operar milagres nele.

Minha neta chegou profundamente fatigada. por agora. porém. Entretanto. todavia. chorando . mas. a mãe de Lísias convidou-me novamente à sala de estar. no propósito talvez de orientar tanto a neta quanto a mim. mais tarde. . A bondosa senhora percebeu-me a intranqüilidade e. demasiadamente.Não me conformo! .Não será. filhinha: nasce da terra inculta do nosso milenário egoísmo. aliás. .109 Nosso Lar muito que o ames. Eloísa prorrompera em soluços. é preciso entregá-lo às experiências de que necessita. o acesso ao coração dele. considerando que a doente necessitava de repouso. Isso.clamou a jovem. cautelosa: . sua mãe. Eu estava eminentemente surpreendido. o lugar dela seria em qualquer dos nossos hospitais. está a chegar. da nossa renitente vaidade humana. a vovó não te fala para ferir. sorriu e falou.justamente Maria da Luz. A rigor. Prendeu o coração. falou em tom confidencial: . entretanto. Arnaldo conhecerá mais tarde a beleza do teu idealismo. é muito do meu agrado. mais agradável confiá-lo aos cuidados de uma criatura irmã? Maria da Luz será sempre tua amiga espiritual. Um pouco de paciência e atingiremos a solução justa. ao passo que outra mulher talvez te dificultasse. Enquanto Eloísa chorava. Questão de tempo e serenidade. a amiga que sempre julguei fidelíssima. A senhora Laura. esclareceu sensatamente: . A descoberta de si mesmo é apanágio de cada um. Ao sentarmo-nos. mas para acordar. nas teias do amor-próprio. porque minha querida Teresa.Sei a causa do teu pranto. o Assistente Couceiro julgou melhor situá-la junto ao nosso carinho.

com raras exceções. e povoado de monstros do ciúme e do egoísmo. vivemos numa cidade de transição. se esforça por copiar nosso instituto doméstico. invadido pelas ervas amargosas da vaidade pessoal. em "Nosso Lar". as finalidades da colônia residem no trabalho e no aprendizado. perguntei. pela última . preparando-se para voltar ao planeta ou para ascender a esferas mais altas. aqui. As almas femininas.O lar terrestre é que.Mas a organização doméstica. de há muito. é idêntica à da Terra? A interlocutora esboçou uma facies muito significativa e acrescentou: . estão ainda a moldar o terreno dos sentimentos. curioso: . a senhora ainda tem atribuições fora de casa? . .Desempenhando tantos deveres.110 Nosso Lar 20 NOÇÕES DE LAR Desejando colher valores educativos que fluíam naturalmente da palestra da senhora Laura. Quando regressei do planeta.Sim. assumem numerosas obrigações. mas os cônjuges por lá. no entanto.

a mulher parece desesperada. Coincidiu. na linha horizontal de seus trabalhos temporais. muito versado em matemática . trazia.prosseguiu ela -. que. grande número de estudiosos das questões sociais. Importa considerar. . entretanto. O lar é o sagrado vértice onde o homem e a mulher se encontram para o entendimento indispensável. no Ministério do Esclarecimento. humilde. rumo aos planos superiores da Criação. um faz viagens mentais . que. os casais terrestres passam as horas sagradas do dia vivendo a indiferença ou o egoísmo feroz. profundas ilusões. em marcha de realizações no campo do progresso comum. nas esferas do globo. É templo. o lar é conquista sublime que os homens vão realizando vagarosamente. . Desde esse dia. na vida íntima. fez-nos sentir que o lar é como se fora um ângulo reto nas linhas do plano da evolução divina. na minha crise de orgulho ferido. porém. nova corrente de idéias mepenetrou o espírito. A reta vertical é o sentimento feminino. o verdadeiro instituto doméstico. quando a esposa se cala. nem o marido se resolve a segui-la no vôo divino de ternura e sentimento. Onde.indaguei cominteresse.O orientador. o companheiro tiraniza. Dissimulam em sociedade e. Quando o marido permanece calmo. Há na Terra. agora.Não poderia dizer-me algo das lições recebidas? . onde as criaturas devem unir-se espiritual antes que corporalmente. baseado na harmonia justa. Nem a consorte se decide a animar o esposo. com os direitos e deveres legitimamente partilhados? Na maioria. que aventam várias medidas e clamam pela regeneração da vida doméstica. Alguns chegam a asseverar que a instituição da família humana está ameaçada. fui levada a ouvir um grande instrutor.111 Nosso Lar vez. envolvido nas inspirações criadoras da vida. a rigor. como é natural. A reta horizontal é o sentimento masculino.

os mais educados respeitam-se. em tais circunstâncias. procuram-se mobilizando os máximos recursos do espírito. Daí em diante. e cai nos braços dos velhos monstros que tiranizam corações. em vão. Não há concessões recíprocas. a mente da esposa volta ao gabinete da modista.Senhora Laura. Duas linhas divergentes tentam. nem mesmo fraternidade. Por enquanto. quando os cônjuges perdem a camaradagem e o gosto de conversar. Enquanto as criaturas vulgares atravessam a florida região do noivado. É claro que..Questão de experiência. a fim de construírem um degrau na escada grandiosa da vida eterna. Não se entendem. Mas logo que recebem a bênção nupcial. E apaga-se a beleza luminosa do amor. Se a mulher fala nos fílhinhos. O assunto mais trivial assume singular encanto nas palestras mais fúteis.replicou a nobre matrona -. o ângulo divino não está devidamente traçado. quando o outro comenta o serviço que lhe seja peculiar. Esses conceitos calavam-me fundo e.. por vezes. a maioria atravessa os véus do desejo. formar o vértice sublime.112 Nosso Lar de longa distância. Ah! se conhecêssemos tudo isso lá na Terra!. se o companheiro examina qualquer dificuldade do trabalho. Perguntas e . na integração de suas forças sublimes. com todo o coração e com toda a alma. dentro de suas portas. e daí o dizer-se que todos os seres são belos quando estão verdadeiramente amando. . os mais rudes mal se suportam. sumamente impressionado. o homem e a mulher aprenderão no sofrimento e na luta. observei: . Não há tolerância e. O homem e a mulher comparecem aí. raros conhecem que o lar é instituição essencialmente divina e que se deve viver. o marido excursiona através dos negócios. que lhe diz respeito. meu amigo . essas definições suscitam um mundo de pensamentos novos.

e a mulher precisa conduzir a doçura do lar para os labores ásperos do homem. Por mais que se unam os corpos. no lar. continuou a genitora de Lísias: .As almas femininas não podem permanecer inativas aqui. sob algemas. . a indústria do fio. É claro que o movimento coevo do feminismo desesperado constituí abominável ação contra as verdadeiras atribuições do espírito feminino. A mulher não pode ir ao duelo com os homens.Que fazer. É preciso aprender a ser mãe.Tudo isso é a pura verdade! . . porém. e como espalhar-se a água da fonte sem o leito do rio? . fora dela. e esmagadora porcentagem de ligações de resgate. a atividade. não pode circunscrever-se a umas tantas lágrimas de piedade ociosa e a muitos anos de servidão. reduzidos matrimônios de almas irmãs ou afins. vivem as mentes separadas. Uma não viverá sem a outra. Dentro de casa. para as mulheres. O maior número de casais humanos é constituído de verdadeiros forçados. O homem deve aprender a carrear para o ambiente doméstico a riqueza de suas experiências. A enfermagem. meu amigo? . através de escritórios e gabinetes. porém. a inspiração. operando em rumos opostos. irmã. Procurando retomar o fio das considerações sugeridas por minha pergunta inicial. A tarefa da mulher.na fase atual evolutiva do planeta. a informação. existem na esfera carnal raríssimas uniões de almas gêmeas. o ensino. onde se reserva atividade justa ao espírito masculino. representam atividades assaz expressivas. ensina que existem nobres serviços de extensão do lar.113 Nosso Lar respostas são formuladas em vocábulos breves. missionária. Como sustentar-se o rio sem a fonte. esposa.replicou a bondosa senhora . Nossa colônia. os serviços de paciência.aduzi comovido.

A não ser minha neta convalescente. tenho meus deveres diuturnos nos trabalhos de enfermagem. com a semana de quarenta e oito horas de tarefa. Sentir-me-ia envergonhada se não o executasse também. Interrompeu-se a interlocutora por alguns momentos. minhas horas de serviço são contadas em dobro.Quando o Ministério do Auxílio me confia crianças ao lar. . Todos trabalham em nossa casa. depois de longo intervalo. continuou: . A mãe de Lísias. Entretanto. quando isso não acontece.114 Nosso Lar Não pude deixar de sorrir. Oito horas de atividade no interesse coletivo. é programa fácil a todos. ouvindo a interrogação. diariamente. o que lhe pode dar idéia da importância do serviço maternal no plano terreno... enquanto me perdia em vastas considerações. não temos qualquer pessoa da família em zonas de repouso.

Tal como se dá na Terra.A palestra.retrucou. Nossa morada . apresentando trinta mil bônushora.. sob controle da Governadoria. Não estou em condições de ensinar. o abuso. senhora Laura . porém. Nossas aquisições são feitas à base de horas de trabalho. pergunte sempre. Rimo-nos da observação e indaguei em seguida: . relevar-me-á a curiosidade. obtidos por nós mesmos.Como se encara o problema da propriedade na colônia? Esta casa. Quaisquer utilidades são adquiridas com esses cupons.exclamei com interesse -. a propriedade aqui é relativa. O bônus-hora. todavia. o que se pode conseguir com algum tempo de serviço. a custa de esforço e dedicação. sugere numerosas interrogações.115 Nosso Lar 21 CONTINUANDO A PALESTRA . pode conquistar um lar (nunca mais que um).Não diga isso . cada família espiritual. é sempre fácil informar.. por exemplo. bondosa -. é o nosso dinheiro. no fundo. pertence-lhe? Ela sorriu e esclareceu: . As construções em geral representam patrimônio comum. .

habituando-os. Iolanda e Judite reuniram-se a nós. A custa de testemunhos difíceis. aos trabalhos árduos. aumentando nossa felicidade. Recolhido ao "Nosso Lar". e cooperando no progresso efetivo dos que nos são afins. Lísias. Após ligeiro intervalo. para que o futuro se harmonizasse com a lei eterna. Quando cheguei. constituem valiosos recursos para a elevação e defesa da alma. depois de certo período de extremas perturbações. Dezoito anos estivemos separados pelos laços físicos. em que parecia meditar. por colocar-me a coberto de muitas e perigosas tentações. Com o correr do tempo. trabalhando por nossa evolução. unindo-nos cada vez mais. fruto de trabalhos. preparando-nos um ninho para o futuro. minha interlocutora prosseguiu em tom grave: . depois. O suor do corpo ou a preocupação justa. o passado chamava a contas. proporcionei aos rebentos de nossa união os valores educativos. Dada a nossa boa-vontade. nos campos de atividade honesta. Ricardo. estreamos a habitação que ele organizara com esmero. compreendeu imediatamente a necessidade do esforço ativo. não descansou. Desde então. Reencontrar Ricardo. tecer novo ninho de afetos.116 Nosso Lar foi conquistada pelo trabalho perseverante de meu esposo. que a existência laboriosa me livrara das indecisões e angústias do Umbral. Muito moça ainda. mas sempre unidos pelos elos espirituais. representava o céu para mim. Minhas lutas na viuvez haviam sido intensas. tive de enfrentar serviços rudes. de que eu podia dispor.Mas a esfera do globo nos esperava. Não podíamos pagar à Terra com bônus-hora e sim com o suor honrado. Se o presente estava cheio de alegria. muito cedo. . porém. vivemos a vida de perene ventura. Durante anos consecutivos. Compreendi. com os filhos tenros. meu esposo ministrou-me conhecimentos novos. porém. acentuando-se nossa ventura. que veio para a esfera espiritual muito antes de mim.

as lembranças vagas me causavam perturbações de vulto. nos ciclos da vida eterna. Portanto. edificando. . um aparte. Coincidiu que meu marido partilhava o mesmo estado dalma. considera-se em conta de infeliz. . quando se me aclarou a visão interior. As demais são devidamente controladas no domínio das reminiscências. sorridente -. Aquelas afirmativas causavam-me viva impressão. até agora. é indispensável nos despojarmos das impressões físicas. por obséquio. na colônia. Resolvemos ambos consultar o assistente Longobardo. antes de tudo.Mas a senhora recordou o passado de maneira natural? .respondeu bondosamente -.Senhora Laura . Perdoe a curiosidade.perguntei. no entanto. se tentam burlar esse dispositivo da lei. relativamente ao pretérito doloroso. todos temos erros clamorosos. do mesmo modo. Não estou isento dos laços físicos? Não atravessei o rio da morte? A senhora recordou o passado. e quem recorda o crime de que foi vítima. então. .exclamei. recebe tais atributos como realização espontânea. É preciso grande equilíbrio para podermos recordar. somente a alma. não raro tendem ao desequilíbrio e à loucura. Em geral. permita. A lei do rítmo exigia. logo após sua vinda.117 Nosso Lar aclarava-se-nos a visão. ou esperou o concurso do tempo? . . Quem lembra o crime cometido costuma considerar-se o mais desventurado do Universo. o assunto referente a encarnações pregressas.Explico-me .Esperei-o . e. Esse amigo. ainda não pude conhecer mais detidamente o que se relaciona com o meu passado espiritual. muito segura de si. interrompendo-a -. nossa volta. As escamas da inferioridade são muito fortes.replicou. Era a primeira vez que se feria tão fundo aos meus ouvidos.

a fim de penetrar os domínios emocionais das recordações.. Compreendemos.. Quanto a mim. Temos trabalho.118 Nosso Lar depois de minucioso exame das nossas impressões. na Terra.atalhei. onde todos nós temos anotações particulares. A genitora de Lísias meneou significativamente a cabeça e murmurou: . despertando certas energias adormecidas. .Não. declarando-nos incapazes de suportar as lembranças correspondentes a outras épocas. Ricardo partiu há três anos. . O chefe do serviço de Recordações não nos permitiu a leitura de fases anteriores. . então. abrangendo o período de três séculos. sem prejuízo de nossa tarefa do Auxílio. durante dois anos. senhores de trezentos anos de memória integral. Aconselharam-nos os técnicos daquele Ministério a ler nossas próprias memórias. . para deixá-la junto aos nossos. então.E onde está nosso irmão Ricardo? Como estimaria conhecê-lo!. Recebidos com carinho. . curioso..Em vista de nossas observações referentes ao passado.. A leitura apenas informa. Desse modo..E bastou a leitura para que se sentisse na posse das reminiscências? .exclamei sob forte impressão. quão grande é ainda o nosso débito para com as organizações do planeta!. seguirei dentro de breves dias. tivemos acesso em primeiro lugar à Seção do Arquivo. Depois de longo período de meditação para esclarecimento próprio. Os espíritos técnicos no assunto nos aplicaram passes no cérebro. Ricardo e eu ficamos. nos encaminhou aos magnetizadores do Ministério do Esclarecimento. fomos submetidos a determinadas operações psíquicas. Aguardo apenas a chegada de Teresa. muito trabalho. e como surpresas indescritíveis.. combinamos novo encontro nas esferas da crosta.

Pelo muito que sofreu não precisará dos tratamentos da Regeneração. portanto. transmitir-lhe minhas obrigações no Auxílio e partir sossegada. a senhora Laura acentuou: . em vista dos seus profundos sacrifícios. desde a infância. ao lado da filha ainda retida na Terra. como se a mente estivesse muito longe. A passagem dela através do Umbral será somente de algumas horas. . Poderei.119 Nosso Lar E de olhar vago. O Senhor não nos esquecerá.A mãe de Eloísa não tardará.

modifiquei o rumo da palestra. .Explico-me .Todos cooperam no engrandecimento do patrimônio comum e dele vivem. interrogando: . adquirem direitos justos. .Aquisitivo? .respondeu a bondosa senhora -.Não é propriamente moeda. Os que trabalham. em "Nosso Lar" a produção de vestuário e alimentação elementares pertence a todos em comum. acentuou: . porém. Ante meu gesto silencioso de espanto. a que se recolhera. mas ficha de serviço individual. O celeiro fundamental é propriedade coletiva. Há serviços centrais de distribuição na Governadoria e departamentos do mesmo trabalho nos Ministérios.120 Nosso Lar 22 O BÔNUS-HORA Notando que a senhora Laura entristecera subitamente ao recordar o marido. funcionando como valor aquisitivo. Cada habitante de "Nosso Lar" .Que me diz do bônus-hora? Trata-se de algum metal amoedado? Minha interlocutora perdeu o aspecto cismativo.perguntei abruptamente. atenciosa: . e replicou.

Sim. no que se refere ao estritamente necessário. triplicada. ou o contacto de orientadores sábios. O ocioso vestirá. no entanto. Precisamos conhecer o preço de cada nota de melhoria e elevação. compreendeu? Os inativos podem permanecer nos campos de repouso. . Os programas de trabalho. não só na administração.121 Nosso Lar recebe provisões de pão e roupa. como conciliar semelhante padrão com a natureza do serviço? O administrador ganhará oito bônus-hora na atividade normal do dia. favorecidos pela intercessão de amigos. ou nos parques de tratamento. Desse modo. porém. no mínimo. O espírito que ainda não trabalha.Todavia. as almas operosas conquistam o bônus-hora e podem gozar a companhia de irmãos queridos. por semana. os que trabalhamos. nos lugares consagrados ao entretenimento. mas os que se esforçam na obtenção do bônus-hora conseguem certas prerrogativas na comunidade social. entretanto.perguntei. deve dar. como também na obediência. às vezes. aos que desejem colaborar no trabalho comum. nas diversas escolas dos Ministérios em geral. nas vinte e quatro de que o dia se constitui. de boa-vontade. indaguei. espantado: . Lembrando as organizações terrestres. Cada um de nós. oito horas de serviço útil. e o operário do . é esse o único título de remuneração? . sem falar dos serviços sacrificiais. os que cooperem podem ter casa própria. cuja remuneração é duplicada e. . sem dúvida. mas o operário dedicado vestirá o que melhor lhe pareça. há muita gente que consegue setenta e dois bônus-hora. são numerosos e a Governadoria permite quatro horas de esforço extraordinário. poderá ser abrigado aqui.Mas. é o padrão de pagamento a todos os colaboradores da colônia.

Governos e empresas pagam a médicos que se entregam à exploração de interesses outros e a operários que matam o tempo. aí. contudo. A natureza do serviço é problema dos mais importantes. transmitindo fortunas vultosas à inconsciência e à dissipação. antes de mais nada.Tudo é relativo. exigindo abonos. Parece ainda distante . é indispensável considerar que setenta por cento dos administradores terrenos não pesam os deveres morais que lhes competem. é imprescindível fixar as remunerações terrestres com maior atenção. A maioria dos homens encarnados está simplesmente ensaiando o espírito de serviço e aprendendo a trabalhar nos diversos setores da vida humana. na própria esfera da crosta é que o assunto apresenta solução mais difícil. na orientação ou na subalternidade. Por isso mesmo. Onde. esquecer determinados prejuízos da Terra. a natureza de serviço? Há técnicos de indústria econômica. a confessar ausência do impulso vocacional. o trabalho é de sacrifício pessoal. facilidades e aposentadorias. Todo o ganho externo do mundo é lucro transitório. Creia. a expressão remunerativa é justamente multiplicada. Se.122 Nosso Lar transporte receberá a mesma coisa? Não é o trabalho do primeiro mais elevado que o do segundo? A senhora sorriu à pergunta e explicou: . Vemos trabalhadores obcecados pela questão de ganhar. recebendo embora os proventos comuns aos cargos que ocupam. Examinando. que todos pagarão muito caro a displicência. precisamos. mais detidamente a sua pergunta. porém. porém. quase todos. e que a mesma porcentagem pode ser adjudicada a quantos foram chamados à subordinação. que nunca prezaram integralmente a obrigação que lhes assiste e valem-se de leis magnânimas. à maneira de moscas venenosas no pão sagrado. outros amontoam expressões bancárias que lhes servem de martírio pessoal e de ruína à família. Por outro lado. Vivem.

No Ministério da Regeneração. no Ministério do Esclarecimento. . extensão de possibilidades. entretanto. é razoável que a documentação de trabalho revele a essência do serviço. Em geral. que nos confere direito a preciosos títulos. e assim por diante.123 Nosso Lar o tempo em que os institutos sociais poderão determinar a qualidade de serviço dos homens. Semelhantes instruções interessavam-me profundamente. Examinando esse princípio. sem a consideração dos valores morais despendidos. Poderemos gastar os bônus-hora conquistados. As aquisições fundamentais constituem-se de experiência. temos o Bônus-HoraRegeneração. é natural que o homem que empregou cinco mil horas. não se especificará teor de trabalho. o que despendeu seis mil horas de atividade. tenha efetuado esforço sublime. no Ministério do Esclarecimento. em nossa organização. a maioria prepara-se com vistas à necessidade de regresso aos círculos carnais. Ora. enriquecimento de bênçãos divinas.Poderemos. examinando o provento espiritual. gastar nossos bônus-hora a favor dos amigos? . . quase tudo. os fatores assiduidade e dedicação representam.O verdadeiro ganho da criatura é de natureza espiritual e o bônus-hora. porque. modifica-se em valor substancial. educação. a interlocutora continuou: . em nossa cidade de transição. estará mais sábio. em serviços regeneradores. Essas palavras despertavam-me para concepções novas. segundo a natureza dos nossos serviços. para o plano espiritual superior. porém.indaguei curioso. o Bônus-Hora-Esclarecimento. aqui. Percebendo-me a sede de instrução. é mais valioso ainda o registro individual da contagem de tempo de serviço útil. Nesse prisma. a benefício de si mesmo.

deixo de referir-me ao lucro maravilhoso que adquiri no capítulo da experiência. nos anos de cooperação no Ministério do Auxílio. que nada existe sem preço e que para receber é indispensável dar alguma coisa. por exemplo. pela movimentação da amizade e do estímulo fraternal.disse ela -. Ia prorromper em exclamações admirativas.respondeu a senhora Laura. . Aproxima-se o tempo do meu regresso aos planos da crosta. poderemos repartir as bênçãos de nosso esforço com quem nos aprouver. assegurando-me. é ocorrência muito significativa na existência de cada um. Tenho comigo três mil Bônus-Hora-Auxílio. Pedir. Somente poderão rogar providências e dispensar obséquio os portadores de títulos adequados. a genitora de Lis ias sorriu e observou: . aproveitar. referentes ao processo simples de ganhar. Compreendemos. aqui.Perfeitamente . minha ficha de serviço autoriza-me a interceder por ela e preparar-lhe aqui trabalho e concurso amigo. no meu quadro de economia pessoal. no entanto. Contam-se por milhares as pessoas favorecidas em "Nosso Lar". Nesse cômputo. cooperar .Quanto maior a contagem do nosso tempo de trabalho. Isto é direito inalienável do trabalhador fiel. porque esses valores serão revertidos ao patrimônio comum. maiores intercessões podemos fazer. Volto à Terra. investida de valores mais altos e demonstrando qualidades mais nobres de preparação ao êxito desejado. igualmente. Vejamos. Não posso legá-los a minha filha que está a chegar.Não temos aqui demasiadas complicações . o meu caso. permanecendo minha família apenas com o direito de herança ao lar. sorrindo.E o problema da herança? . o valioso auxílio das organizações de nossa colônia espiritual. durante minha permanência nos círculos carnais. entendeu? . portanto.124 Nosso Lar . A essa altura.inquiri de repente.

mas um brando burburinho aproximouse da casa.125 Nosso Lar e servir.Nossos queridos estão de volta. E levantou-se para atender. Antes que pudesse emitir qualquer observação. satisfeita: . a senhora Laura murmurou. . confrontando aquelas soluções com os princípios imperantes no planeta.

E. ainda não conhecia o quadro maravilhoso que a noite clara apresentava.Venha ao jardim.Olá! ainda não se recolheu? . O espetáculo apresentava-se soberbo! Habituado à reclusão hospitalar. . Os esclarecimentos da senhora Laura fortaleciam-me o coração. Lírios de neve. ali. solícito: . nos vastos quarteirões do Ministério do Auxílio Glicínias de prodigiosa beleza enfeitavam a paisagem. entre grandes árvores. Lísias entrou em casa visivelmente satisfeito. convidava-me.perguntou. A dona da casa entrava em conversação com as filhas. pois ainda não viu o luar destes sítios.126 Nosso Lar 23 SABER OUVIR Intimamente. enquanto acompanhando Lísias fui aos canteiros em flor. enquanto os jovens se despediam. sorridente. lamentei a interrupção da palestra. matizados de ligeiro azul ao fundo .

falei comovidamente: . as notas da Espiritualidade Superior e os ensinamentos elevados vivem.Sem dúvida que temos elementos para fazê-lo. pareciam taças. no ambiente doméstico o problema de nossa atualidade é essencial. sentindo que ondas de energia nova me penetravam o ser. . Respirei a longos haustos.127 Nosso Lar do cálice. em todos os Ministérios. . à maneira de nossos receptores radiofônicos. para nós outros. O companheiro sorriu e acentuou: . Dessarte. Após enlevar-me na contemplação do quadro prodigioso. entretanto.Há compromisso entre todos os habitantes equilibrados da colônia. Aguçou-se-me a curiosidade. Esforçando-me para exteriorizar a admiração que me invadia a alma. Nossas transmissões baseiam-se em forças vibratórias mais sutis que as da esfera da crosta. no sentido de não se emitirem pensamentos contrários ao bem.para recolher as emissões terrestres? .Mas não há recurso . como se estivesse bebendo a luz e a calma da noite. o esforço da maioria se transforma numa prece quase perene.indaguei . agora. voltamos ao interior onde Lísias se aproximou de pequeno aparelho postado na sala. Dai nascerem as vibrações de paz que observamos. Ao longe.. de caricioso aroma. o amigo esclareceu: . as torres da Governadoria mostravam belos efeitos de luz.Não ouviremos vozes do planeta.Nunca presenciei tamanha paz! Que noite!. não conseguia emitir impressões. Que iríamos ouvir? Mensagens da Terra? Vindo ao encontro de minhas interrogações íntimas. muito acima de qualquer cogitação terrestre. Deslumbrado.. A programação do serviço necessário.

O ex-Governador era talvez demasiadamente tolerante. Aqui. somos solidários apenas com os nossos. Ninguém suportava a ausência de notícias da parentela comum. Segundo nosso arquivo. que propriamente zona de refazimento e instrução.Já esperava essa pergunta: Nos círculos terrestres somos levados. meu amigo. Houve luta. Em família. E. Vivemos distraídos dos verdadeiros princípios de fraternidade. de quando em quando. precisamente há dois séculos. mas. Somos. porém. vivia-se em constante guerra nervosa. de pronto: . nossos filhos? . todas as moradias. ao que sabemos. por lá. chegado o momento do testemunho. A hipertrofia do sentimento é mal comum de quase todos nós. valeu-se do . ligavam-se com os núcleos de evolução terrestre. um dos generosos Ministros da União Divina compelia a Governadoria a melhorar a situação. Do Ministério da Regeneração ao da Elevação. mas. Boatos assustadores perturbavam as atividades em geral. em geral. a cidade era mais um departamento do Umbral. inquiri. muitas vezes. as notícias dos afeiçoados terrestres punham muitas famílias em polvorosa. isolamo-nos freqüentemente no cadinho do sangue e esquecemos o resto das obrigações.Será tanto assim? E os parentes que ficaram a distância? Nossos pais.128 Nosso Lar A observação era justa. que incrementou a medida. a viciar as situações. eram aqui verdadeiras calamidades públicas. habituado ao apego doméstico. A bondade desviada provoca indisciplinas e quedas. o Governador proibiu o intercâmbio generalizado. velhos prisioneiros da condição exclusivista. a medalha da vida apresenta a outra face. No início da colônia. É preciso curar nossas velhas enfermidades e sanar injustiças. Mas. quando interessassem algumas entidades em "Nosso Lar". Mas o Ministro generoso. Os desastres coletivos no mundo. Ensinamo-los a todo mundo. Amparado pela União Divina.

qual seu pai. seria interessante colher notícias dos nossos amados em trânsito na Terra.129 Nosso Lar ensinamento de Jesus que manda os mortos enterrarem seus mortos e a inovação se tornou vitoriosa em pouco tempo. porém. ainda. Por isso. de que um dos seus irmãos consangüíneos foi hoje encarcerado como criminoso. Contudo. o intercâmbio seria desejável. esperando com fé e agindo com os preceitos divinos. que a criatura alguma auxiliará com justiça. para manter a precisa serenidade. Convenhamos. indaguei: . por exemplo. Está preparado. Precisamos. você que tem um amigo encarnado.Não devemos procurar notícias dos planos inferiores . solícito . nos altos e baixos das flutuações de ordem material.Entretanto . evidenciando minha teimosia caprichosa. em sabendo que um filho de seu coração está caluniado ou caluniando? Se alguém o informasse. nem mesmo o domínio próprio e vive às tontas.senão para levar auxílios justos. . teria bastante força para conservar-se tranqüilo? Sorri. é indispensável a preparação conveniente. como interessado em me fornecer explicações mais amplas.Observe a si mesmo. antes de novos contactos com os parentes terrenos. Não daria isso mais tranqüilidade à alma? Lísias. acrescentou: . . não gostaria de comunicar-se com ele? . embora as dificuldades sentimentais.objetei -. evitar a queda nos círculos vibratórios inferiores. mas esmagadora porcentagem de encarnados não alcançou.Mas. agora. desapontado.prosseguiu. que permanecia junto ao receptor. Lísias. sem ligá-lo. experimentando desequilíbrios do sentimento e do raciocínio. Se eles oferecessem campo adequado ao amor espiritual. a fim de ver se valeria a pena.

temos o Ministério da Comunicação. enquanto me conservava em silêncio. verificando-se o mesmo. não sabendo ouvir. Não devemos esquecer. E. Calei-me vencido pelo argumento ponderoso. certas leis que mandam compreender devidamente os que se encontram nas zonas mais baixas. É tão importante saber falar como saber ouvir. que somos criaturas falíveis. Existem. . "Nosso Lar" vivia em perturbações porque. quando se trata de qualquer expressão de intercâmbio entre ele e nós. é possível descer à inferior com mais facilidade. Acresce notar que. Para esse fim. quando merecemos essa alegria. recorrer aos órgãos competentes. em campo de confusão. o enfermeiro amigo abriu o controle de recepção sob meus olhos curiosos.Sem dúvida . entretanto. visitamo-lo em sua nova forma. não podia auxiliar com êxito e a colônia transformava-se. contudo.130 Nosso Lar . Necessitamos. freqüentemente.respondeu bondosamente -. pois. da esfera superior. que determinem a oportunidade ou o merecimento exigidos.

desde os campos .. começou ele a falar: . nos círculos mais próximos da crosta. Há serviço para todos. embalando-nos em harmoniosa sonoridade. impulsionando-as a novos crimes. Lembrai-vos de que a paz necessita de trabalhadores de defesa! Colaborai conosco na medida de vossas forças!. junto aos demais que se consagram ao trabalho de higiene espiritual. Continuamos a irradiar o apelo da colônia. pedindo concurso fraterno e auxílio possível.. no gabinete de trabalho. Nosso núcleo.Emissora do Posto Dois. de "Moradia". Negras falanges da ignorância.131 Nosso Lar 24 O IMPRESSIONANTE APELO Ligado o receptor. vendo-se no espelho da televisão a figura do locutor. denuncia esses movimentos dos poderes concentrados do mal. cercam as nações européias. suave melodia derramou-se no ambiente. Daí a instantes. em benefício da paz na Terra. Ajudai-nos. depois de espalharem os fachos incendiários da guerra na Ásia. Concitamos os colaboradores de bom ânimo a congregar energias no serviço de preservação do equilíbrio moral nas esferas do globo. quantos puderem ceder algumas horas de cooperação nas zonas de trabalho que ligam as forças obscuras do Umbral à mente humana.

Lísias esclareceu: . Demonstrava ansiedade profunda nos olhos inquietos. fixando em mim os olhos brilhantes e profundos. Seus últimos sofrimentos pessoais não lhe deram tempo para ponderar sobre a angustiosa situação do mundo. estamos em agosto de 1939. sobretudo. Como sabe. tão grande dificuldade no capítulo do intercâmbio? Identificando-me as perplexidades. ouvindo-se divina música. Que o Senhor nos abençoe. no espelho da televisão. Tal como na Terra. ainda ali.indaguei. O.132 Nosso Lar da crosta às nossas portas!. novamente.. Vira-lhe a fisionomia abatida. como a lastimar em silêncio a gravidade da hora humana. Pois havia cidades de espíritos generosos. Interrompeu-se a voz. Seu mutismo constrangera-me. aterrado . E a linguagem? Ouvira-lhe nitidamente o idioma português. A inflexão do estranho convite abalara-me as fibras mais íntimas. Assombrava-me.Estamos ouvindo "Moradia". os que se afinam perfeitamente entre si podem permutar pensamentos. Havia. claro e correto. velha colônia de serviços muito ligada às zonas inferiores. Veio Lísias em meu socorro. mas posso afiançar que as nações do planeta se encontram na iminência de tremendas batalhas. suplicando socorro e cooperação? Apresentara-se a voz do locutor com entonação de verdadeiro S.. explicando: . S. Julgava que todas as colônias espirituais se intercomunicassem pelas vibrações do pensamento. a imensidade dos serviços espirituais nos planos de vida nova a que me recolhera. Pela primeira vez o enfermeiro amigo não me respondeu.Que diz? .pois não bastou o sangue da última grande guerra? Lísias sorriu. sem .Estamos ainda muito longe das regiões ideais da mente pura. .

Sem órgãos de ponderação e conselho desapaixonado. condicionados a fronteiras psíquicas. Os patrimônios nacionais e lingüísticos remanescem ainda aqui. Não seria.. no entanto. se encontram excessivamente centralizados. une-se à humanidade invisível do planeta. lutando com sacrifícios em favor da concórdia internacional.Emissora do Posto Dois. possível atingir as zonas aperfeiçoadas. Continuamos a irradiar o apelo da colônia em benefício da paz na Terra. Nesse ínterim.. que integra muitos bilhões de criaturas. Defendamos os séculos de experiência de numerosas pátrias-mães da Civilização Ocidental!. dos núcleos superiores. Calou-se o locutor e voltaram as cariciosas melodias.. oferecendo escassas possibilidades à colaboração de natureza espiritual. Nosso campo de lutas é imensurável. voltando o locutor: . logo após a morte do corpo físico. não podemos prescindir da forma. no lato sentido da expressão. caminham esses países para uma guerra de grandes proporções Oh! irmãos muito amados. Nada enganará o princípio de seqüência. mas insta considerar que a regra é sofrer-se dessas restrições. Alguns governos. nos gabinetes políticos. Forças tenebrosas do Umbral penetram em todas as direções. auxiliemos a preservação da tranqüilidade humana!. .133 Nosso Lar as barreiras idiomáticas.. imperante nas leis evolutivas. constituída de milhões de seres. de modo geral. de "Moradia". interrompia-se a música. respondendo ao apelo das tendências mesquinhas do homem. portanto. Nos mais diversos setores de nossa atividade espiritual existe elevado número de espíritos libertos de todas as limitações. Há muitos benfeitores devotados. A humanidade terrestre. Que o Senhor nos abençoe. Nevoeiros pesados amontoam-se ao longo dos céus da Europa. mas.

. que seus olhos não conseguiam conter. Rios de sangue e lágrimas ameaçam os campos das comunidades européias. todavia. que não ousei interromper. Companheiros e irmãos. A essa altura. que presidem aos destinos da América! Cooperai conosco na salvação de milenários patrimônios da evolução terrestre! Marchemos em socorro das coletividades indefesas. Após cinco minutos de harmonia repousante. porém . vinde em nosso auxílio! Somos a parte invisível da humanidade terrestre. recurso para conjurar a tremenda catástrofe? .. falou. depois de ligeira pausa -. invoquemos o amparo das poderosas Fraternidades da Luz.perguntei.134 Nosso Lar O enfermeiro permaneceu em silêncio. sensibilizado. movimentemos a resistência do bem. Proclamemos a necessidade do trabalho construtivo. Unamo-nos numa só vibração. Quanto estiver ao vosso alcance. e muitos de nós volveremos aos fluidos carnais para resgatar prístinos erros. dilatemos nossa fé. Que o Senhor nos abençoe. em dias próximos. os irmãos de "Moradia"! Tudo inútil. amparemos os corações maternais sufocados de angústia! Nossas energias estão empenhadas em vigoroso duelo com as legiões da ignorância. A humanidade encarnada é igualmente nossa família. contra a guerra do mal. a mesma voz se fez novamente ouvir: . comovido: . de "Moradia". triste. acendamos a luz. . Contra o assédio das trevas.Grandes abnegados. Num gesto expressivo. a humanidade terrestre pagará.Emissora do Posto Dois. terríveis tributos de sofrimento.acentuou. Continuamos a irradiar o apelo da colônia em benefício da paz na Terra.Não há. desligou Lísias o aparelho e vi-o enxugar discretamente uma lágrima..

Demonstrando. agora. A crise orgânica é inevitável. Lísias convidou-me a recolher.Infelizmente .acrescentou Lísias em tom grave e doloroso – a situação geral é muito crítica. vaidade e egoísmo feroz.135 Nosso Lar . a necessidade de expelir os venenos letais. mas o Ministério da União Divina esclareceu que a humanidade carnal. Nutriram-se várias nações de orgulho criminoso. Para atender às solicitações de "Moradia" e de outros núcleos que funcionam nas vizinhanças do Umbral. está nas condições do homem insaciável que devorou excesso de substâncias no banquete comum. . o propósito de não prosseguir no amarguroso assunto. reunimos aqui numerosas assembléias. entretanto. Experimentam. como personalidade coletiva.

Ao beijar o filho. por sua vez. sem encontrar palavras que definissem meu júbilo. passará por aqui. a senhora Laura encorajou-me o espírito hesitante. funcionário da Regeneração. Rafael é antiga relação de nossa família e apresentá-lo-á. em meu nome.Você. sensibilizando-me o coração. demonstrou grande alegria. ao Ministro Genésio. muito cedo. Agradeci. Não poderia explicar o contentamento que me dominou a alma.Já lhe arranjei companhia para hoje. fiz leve refeição em companhia de Lísias e familiares. rumo ao trabalho do Auxílio. Lísias. . comovido. a senhora Laura recomendou: . dizendo. a meu pedido. avise ao Ministro Clarêncio que comparecerei ao expediente. Antes que os filhos se despedissem. bem-humorada: . Abraçou-me efusivamente antes de sair. Poderá aceitar-lhe a companhia em direção ao novo Ministério. Estava radiante. Nosso amigo Rafael.136 Nosso Lar 25 GENEROSO ALVITRE No dia imediato. Lísias. logo que entregue nosso amigo aos cuidados de Rafael.

essa autorização. agora. A curiosidade. de lâmpada em lâmpada. permita-me algumas indicações para os seus novos caminhos. . Médico estudioso.É justamente neste sentido que lhe ofereço minhas sugestões humildes. mesmo sadia.respondi. nunca saberei traduzir meu reconhecimento à sua atenção. pode ser zona mental muito interessante. abandone. Creio que a colaboração maternal sempre vale alguma coisa e. Não esqueça que poderá obter valores mais preciosos e dignos que a simples análise das coisas. Não deseje personificar a mariposa. sensibilizado -.Gratíssimo . o espírito .Sei... a boa senhora acrescentou: .Sim.137 Nosso Lar Comovidíssimo. Esboçando significativa expressão fisionômica. mais tarde. . Detendo.Estou informada de que pediu trabalho há algum tempo. a necessária autorização para visitar os Ministérios que nos ligam mais fortemente à Terra. quanto lhe seja possível. .. Ficando a sós. eu não conseguia agradecer tamanha dedicação.. mas perigosa. já que sua mãezinha não reside em "Nosso Lar". Falo com o direito de experiência maior. Sei que seu espírito de pesquisa intelectual é muito forte. Sorriu a bondosa senhora. os propósitos de mera curiosidade. sim. acrescentando: . relembrando as elucidações de Clarêncio.Meu irmão. reivindico a satisfação de orientá-lo neste momento.esclareci. apaixonado de novidades e enigmas. recebendo. igualmente. Dentro dela. que não o obteve de pronto. ser-lhe-á muito fácil deslizar na posição nova. . a desvelada genitora do meu amigo dirigiu-me a palavra carinhosa: . por vezes.

Clarêncio ofereceu-lhe ingresso nos Ministérios. sem testemunhos no bem. pode ser criminoso atrevimento. É possível receber alguém dos que administram. O Ministério da Regeneração está repleto de lutas pesadas.138 Nosso Lar desassombrado e leal consegue movimentar-se em atividades nobilitantes. mas ninguém se recusará a aceitar o concurso do . começando pela Regeneração. o Maior Trabalhador é o próprio Cristo e que Ele não desdenhou o serrote pesado de uma carpintaria. Pois bem: não se limite a observar. humilhado por atender às tarefas humildes. aos que muito hão lutado e sofrido no capítulo da especialização. localizando-se ali a região mais baixa de nossa colônia espiritual. quando peça determinado gênero de atividade reservada. visitar e analisar. nas edificações do mundo. originam-se de semelhante anomalia. como servidor de bom senso. porém. raros se dispõem a realizar. gentilmente. Saem de lá todas as turmas destinadas aos serviços mais árduos. Surgindo ensejo nas tarefas da Regeneração. Muitos fracassos. em nos referindo à Terra. desde o planeta até os núcleos mais elevados das zonas superiores. medite no trabalho e atire-se a ele na primeira ocasião que se ofereça. não se preocupe em alcançar o espetáculo dos serviços nos demais Ministérios. Aprenda a construir o seu círculo de simpatias e não olvide que o espírito de investigação deve manifestar-se após o espírito de serviço. Pesquisar atividades alheias. mas pode. Todos querem observar. Somente o trabalho digno confere ao espírito o merecimento indispensável a quaisquer direitos novos. Ao invés de albergar a curiosidade. O Ministro Clarêncio autorizou-o. mas os indecisos e inexperientes podem conhecer dores amargas. sem proveito para ninguém. Não se considere. Lembro-lhe que em todas as nossas esferas. a conhecer. com justiça. converter observações em tarefa útil.

Estamos todos entrelaçados em teia de amizade secular. Lembremos. Faça desta casa a sua habitação. Aquelas palavras. como se desejasse temperar com amor os criteriosos conceitos. que ama o trabalho pelo prazer de servir. meu irmão. continuaremos sempre unidos pelo coração. caíam-me no coração como bálsamo precioso. como tecelão rústico e pobre. . Espero vê-lo animado e feliz. alvo de geral atenção em Jerusalém. A genitora de Lísias. a senhora Laura acrescentou com inflexão carinhosa: . entretanto. esperança de uma raça. um dia.Muito grata. Creio que você não veio a esta casa atendendo ao mecanismo da casualidade. ao deserto para recomeçar a experiência humana. Brevemente voltarei ao círculo da carne. o de Paulo de Tarso. fixei-lhe a expressão carinhosa. Levantei os olhos rasos dágua. contudo.139 Nosso Lar espírito de boa-vontade. Não pude mais. Meus olhos estavam úmidos. pronunciadas com meiguice maternal. murmurou: . Poucas vezes sentira na vida tanto interesse fraternal pela minha sorte. experimentei a felicidade que nasce dos afetos puros e tive impressão de conhecer minha interlocutora. Semelhante conselho calavame no fundo dalma e. Tomei-lhe as mãos como filho agradecido. nesse sentido. pela cultura e pela mocidade. Temos escassos exemplos humanos. agora de olhos fixos no horizonte. antes de minha partida.A ciência de recomeçar é das mais nobres que nosso espírito pode aprender. e cobri-as do pranto jubiloso que me inundava o coração. que voltou. São muito raros os que a compreendem nas esferas da crosta. Trabalhe e anime-se. confiando em Deus. Doutor do Sinédrio.

nesse instante. . Quis beijá-la muitas vezes. embora tentasse. Fitou-me a senhora Laura. identificar-lhe o carinho nas reminiscências mais distantes. alguém bateu à porta. com o enternecimento filial do coração. Trabalhe para o bem dos outros. pensando em Jesus. para que possa encontrar seu próprio bem.É Rafael que vem buscá-lo. mostrando indefinível ternura maternal e falou: . mas. Vá.140 Nosso Lar de velhos tempos. meu amigo. debalde.

. lançava-me curioso olhar. Em compensação. de quando em vez. Deixou-nos o aeróbus à frente de espaçoso edifício. a fim de que me não faltasse trabalho e forças para realizá-lo. agora a utilizava como valioso ponto de referência sentimental aos propósitos de serviço. contudo. Anotava. O próprio Rafael. Dava-me todo à oração. em silêncio.141 Nosso Lar 26 NOVAS PERSPECTIVAS Ponderando as sugestões carinhosas e sábias da mãe de Lísias. não às visitas de observações. rumo ao local onde me aguardava o Ministro Genésio. experimentava novo gênero de atividade mental. os magníficos aspectos da nova região. Antigamente. estranho agora ao prazer das muitas indagações. surpreso. pedindo a Jesus me auxiliasse nos caminhos novos. acompanhei Rafael. mas ao aprendizado e serviço útil. seguia Rafael. Descemos. calados. avesso às manifestações da prece. convicto de que iria. como se não devesse esperar tal atitude de minha parte.

meu lugar é aqui. Certo. . Rafael apresentou-me fraternalmente .Para servi-lo . roguei. singular energia. Genésio começou a dizer: . compreendo agora que minha passagem pelo Ministério do Auxílio se verificou por efeito da graça misericordiosa do Altíssimo. Noto.Ah! sim disse o generoso Ministro -. Genésio parecia comovido com as minhas palavras. permitindo seja convertida a minha permanência. neste Ministério. um velhinho simpático. sem nada produzir de útil. em estação de aprendizado.Tenho notificação de Laura. redundam em estágios de serviço. porém. de olhos úmidos: .respondi. Quase sempre recebemos pessoal do Ministério do Auxílio. é o nosso irmão André? . cujo semblante revelava.142 Nosso Lar Em poucos minutos. Rafael era esperado com urgência no setor de tarefas a seu cargo. valendo-me das inspirações que me inclinavam à humildade. Nesse ínterim. Fique à vontade. abraçando-me em seguida. que somente venho recebendo benefícios. Tenho mesmo suplicado às Forças Divinas que me ajudem o espírito frágil.Clarêncio falou-me a seu respeito. na sua maior parte. com interesse. achava-me diante do respeitável Genésio.Este o meu maior desejo. o companheiro aproximou-se respeitosamente e despediu-se. Compreendi a sutil alusão e obtemperei: . Fixando em mim os olhos muito lúcidos. referente à sua vinda. e. entretanto.Senhor Ministro. talvez devido a constante intercessão de minha devotada e santa mãe. em visita de observações que. .

diante do que vira e ouvira.É mesmo você o ex-médico? . notava ele. Genésio calou por momentos. Não entendia o valor do tempo. relativamente ao trabalho. E.o médico orgulhoso e respeitado. então: . dizendo. fiz enormes gastos de energia na ridícula adoração de mim mesmo!. Era sincero. punha nos lábios quanto possuía de melhor. seja transformada a concessão de visitar em possibilidade de servir. No fundo. O mesmo se dá. o Pai envia o instrutor. Se possível. Quando eu recorrera ao Ministro Clarêncio. mais que nunca.Quando o discípulo está preparado. a necessidade de regenerar meus próprios valores. O meu amigo tem recebido enormes recursos da Providência. O velhinho fitou-me. mas talvez não desejasse servir. procurava o conteúdo sublime do espírito de serviço.Louvo seus propósitos e peço igualmente ao Senhor o conserve nessa posição digna. faça.. Compreendo hoje.. encarcerado nas opiniões próprias. Satisfeito.murmurei. a sinceridade viva. como buscando resolução para o caso.Sim. era o desejo de continuar a ser o que tinha sido até então . não estava ainda bastante consciente do que pedia. surpreendido. agora. . compreendendo a responsabilidade de cada filho de Deus na obra infinita da Criação. . enfim. como que preocupado em levantar-me o ânimo e acender-me no espírito novas esperanças.. Quando o servidor está pronto.. o serviço aparece. Perdi muito tempo na vaidade inútil. acentuou: . e perguntou: . nem enxergava as bênçãos santificantes da oportunidade. por obséquio. Não me preocupava o gênero de tarefa. Queria serviço. no fundo de meu coração.143 Nosso Lar nas atividades regeneradoras. No entanto. acanhado. cego nas pretensões descabidas do egotismo em que vivia.

.É possível obter ocupações justas.. a humildade sincera.explicou Genésio. revelando a maior boa-vontade. .Estou de caminho . se deseja acompanhar-me. antes que se dirija às Câmaras de Retificação. Nos círculos carnais. falou em voz alta: . André precisa integrar-se no conhecimento mais íntimo de nossas tarefas. Por enquanto. afirmando. em tarefa de observação. o esforço próprio. E logo. compreende a responsabilidade. é preferível que visite. aqui a situação é diferente.Conduza-o . .144 Nosso Lar Está bem disposto à colaboração. . examine. Estendi-lhe a mão. Faculte-lhe toda oportunidade de que possamos dispor. . observe. Estima-se a compreensão.prosseguiu o ministro. gentil: . bem-humorado -. Não se passaram muitos minutos e assomou à porta um senhor de maneiras desembaraçadas. enquanto o desconhecido correspondia.acrescentou ele.Tobias .Perfeitamente . costumamos felicitar um homem quando ele atinge prosperidade financeira ou excelente figuração externa. concluiu: . Prontificou-se Tobias. Identificando-me a ansiedade..Às suas ordens. aqui tem um amigo que vem do Ministério do Auxílio.respondi. aceita o dever. porém. atencioso -. Tal atitude é sumamente favorável à concretização dos seus desejos.Solicito a presença de Tobias. ligando-se ao gabinete próximo. satisfeito. Creio de muito proveito para ele o contacto com as atividades das câmaras retificadoras. evidenciando grande bondade. entretanto.

explicou. Atravessamos largos quarteirões. nos primeiros tempos de moradia em "Nosso Lar". o novo amigo esclareceu: . comunicando com os pavimentos inferiores. penetramos num edifício de aspecto nobre. dá trabalho a mais de cem mil criaturas. de tecidos e artefatos em geral.disse Tobias em tom grave. solícito: . Daí a momentos. A preparação de sucos. . Depois de extensos corredores. deparou-se-nos vastíssima escadaria. Percebendo-me a silenciosa indagação. que se regeneram e se iluminam ao mesmo tempo.145 Nosso Lar O Ministro Genésio abraçou-me. Segui Tobias resolutamente.Desçamos . comovido. Servidores numerosos iam e vinham. com palavras de animação.As Câmaras de Retificação estão localizadas nas vizinhanças do Umbral. .Temos aqui as grandes fábricas de "Nosso Lar". Os necessitados que aí se reúnem não toleram as luzes. nem a atmosfera de cima. E notando minha estranheza. onde numerosos edifícios me pareceram colmeias de serviço intenso.

Tobias. que aconteceu? .esclareceu a velhinha em tom respeitoso . mãos esqueléticas. que acudiu atenciosamente: .Vejo poucos auxiliares . chamou velha servidora. Gemidos. facies monstruosas deixavam transparecer terrível miséria espiritual. nem o instituto de tratamento normal da saúde orgânica.O Ministro Flácus . ENFIM Nunca poderia imaginar o quadro que se desenhava agora aos meus olhos.. ligadas entre si e repletas de verdadeiros despojos humanos. frases dolorosas pronunciadas a esmo. soluços.. Não era bem o hospital de sangue. Rostos escaveirados.146 Nosso Lar 27 O TRABALHO. Tão angustiosas foram minhas primeiras impressões que procurei os recursos da prece para não fraquejar. Singular vozerio pairava no ar.determinou que a maioria acompanhasse . Era uma série de câmaras vastas. imperturbável.disse admirado -.

que não podia esquecer a esposa e os filhos chorosos. a correr desabaladamente. distante do lar. que era crueldade retê-lo aqui. Subtrai-lhe as forças e a motilidade.) . __________ (1) Organização de Espíritos benfeitores em "Nosso Lar". era a causa fundamental desse agravo de perturbação. então.tornou ele sereno -..estou a sufocar! Isto é mil vezes pior que a morte na Terra..Experimentou uma crise de grandes proporções . por caridade! . nas regiões do Umbral. Enquanto o generoso Tobias acariciava a fronte do enfermo. quero ar. Socorro! socorro! quero sair.. Deliberei. sair!.(Nota do Autor espiritual. mas foi impossível. como seria de desejar. Gritava que lhe exigiam a presença no lar..Irmão Tobias!.explicou a serva – e o Assistente Gonçalves esclareceu que a carga de pensamentos sombrios.. muito ar! Tobias aproximou-se. aplicar alguns passes de prostração. .. emitidos pelos parentes encarnados.Há que multiplicar energias . o pobre não tem resistido. ele se ausentou sem consentimento nosso. não temos tempo a perder.gritou um ancião. agarrado ao leito. . em benefício dele mesmo. muito cedo. a serviçal prosseguia esclarecendo: . gesticulando.Hoje.Por que teria o Ribeiro piorado tanto? .147 Nosso Lar os Samaritanos (1) para os serviços de hoje. Irmão Tobias!. Lourenço e Hermes esforçaram-se por fazê-lo voltar ao leito. . à maneira de louco ... Visto achar-se ainda muito fraco e sem ter acumulado força mental suficiente para desprender-se dos laços mais fortes do mundo. examinou-o com atenção e perguntou: .

para que nos deixe o Ribeiro em paz. com as dolorosas impressões da morte física e. conhecer-lhes a procedência e o histórico da situação. esboçou um sorriso muito triste e agradeceu com lágrimas. sob o império de baixos pensamentos. meu caro.explicou o companheiro bondosamente . encontra na vida real o que amontoou para si mesmo. mas acusava profundo alheamento de quanto se dizia a seu respeito. Ribeiro. Eu quis indagar da origem dos seus padecimentos. vou pedir providências contra a atitude da família. . oriunda. É preciso que ela receba maior bagagem de preocupações. Prometeu que iria providenciar recurso a melhoras.O pobrezinho permanece na fase de pesadelo. .148 Nosso Lar .apenas a entidades de natureza masculina.Reservam-se estas câmaras . das emanações mentais dos que ali se congregavam. Ele chamara Tobias como a criança que conhece o benfeitor. verificando a legítima expressão de um dementado. Seguimos através de numerosas filas de camas bem cuidadas. Fixei o doente procurando identificar-lhe a expressão íntima. sentindo a desagradável exalação ambiente. o novo orientador explicou: . pensativo -. Nosso Ribeiro deixou-se empolgar por numerosas ilusões. muito trêmulo. entretanto.Fez muito bem . Tobias dirigiu ao enfermo generosas palavras de otimismo e esperança. relativas à curiosidade. muita vez. e calei. que mantivesse calma em benefício próprio e que não se aborrecesse por estar preso à cama. Notando-me a admiração. em que a alma pouco mais vê e ouve que as aflições próprias. rosto ceráceo. como vim a saber mais tarde. recordei as criteriosas ponderações da mãe de Lísias.acentuou Tobias. O homem.

.Meu amigo. Esqueceram de cambiar as posses materiais em créditos espirituais. Quanto às lágrimas que vertem. . pelo menos. . oferecendo-lhes ensejos a disparates novos. descuidosos de si mesmos. que estes doentes estão atendidos.. .. Estou morrendo à fome e sede! . Não suporto mais!. já se preparam para o serviço regenerador. Supunham que o prazer criminoso. Nestes pavilhões. . Foram negociantes imprevidentes..Acreditavam que as mercadorias propriamente terrestres teriam o mesmo valor nos planos do Espírito. em que parecia surdo a tantos clamores.. interessado. irmão!.exclamava ainda outro. a revolta contra a lei e a imposição dos caprichos atravessariam as fronteiras do túmulo e vigorariam aqui também. onde tantas armadilhas aguardam os imprevidentes. o poder do dinheiro. Lembre. .gritava outro. Não aprenderam ..São contrabandistas na vida eterna.149 Nosso Lar . E depois de uma pausa. que já se retiraram do Umbral. A vida do homem estará centralizada onde centralize ele o próprio coração. Coração alanceado ante o sofrimento de tantas criaturas. acentuou: .bradava um estagiário...Tobias! Tobias.Não devemos observar aqui somente dor e desolação. recordemos que devem a si mesmos esses padecimentos. como é triste a reunião de tantos sofredores e torturados! Por que este quadro angustioso? Tobias respondeu sem se perturbar: . meu irmão. não contive a interrogação penosa: . O interlocutor sorriu e respondeu em voz firme: .Por amor de Deus!.Socorro.Como assim? .atalhei.

que fazer? Temos os milionários das sensações físicas transformados em mendigos da alma. admitiam somente o nada. solícita. Muito cuidadoso. Tobias começou a aplicar passes de fortalecimento. Trinta e dois homens de semblante patibular permaneciam inertes em leitos muito baixos.. a imobilidade e a vitória do crime. entretanto.. Chamamos-lhes crentes negativos. começaram ambos a expelir . Agora. como não tinham qualquer idéia do bem.150 Nosso Lar as mais simples operações de câmbio no mundo. Quando iam a Londres. evidenciando apenas leves movimentos de respiração. trocavam contos de réis por libras esterlinas. após distribuir conforto e esclarecimento a granel. Tobias esclareceu: . no movimento. Meu novo instrutor. a serviço da coletividade. a servidora. notificando: . Abriu-se a porta e quase cambaleei ante a surpresa angustiosa. Narcisa. acompanhava-nos. Converteram a experiência humana em constante preparação para um grande sono e. Ao invés de aceitarem o Senhor. conduziu-me a vasta câmara anexa. Realíssimo! Tobias não podia ser mais lógico. em pesadelos sinistros. no trabalho. sob meus olhos atônitos.Vejamos alguns dos infelizes semimortos.Estes sofredores padecem um sono mais pesado que outros de nossos irmãos ignorantes. não há outro recurso senão dormirem longos anos. eram vassalos intransigentes do egoísmo. Não conseguia externar meu espanto. Fazendo gesto significativo com o indicador. nem com a certeza matemática da morte carnal se animaram a adquirir os valores da espiritualidade. Finda a operação nos dois primeiros. ao invés de crerem na vida. em forma de grande enfermaria.

espécie de vômito escuro e viscoso. Narcisa fazia o possível por atender prontamente à tarefa de limpeza. .explicou Tobias. me agarrei aos petrechos de higiene e lancei-me ao trabalho com ardor. com terríveis emanações cadavéricas. e nenhum amigo do mundo poderia avaliar a alegria sublime do médico que recomeçava a educação de si mesmo. que. instintivamente. custando-me abençoado suor.São fluidos venenosos que segregam . ao passo que Tobias me dispensava olhares satisfeitos e agradecidos. muito calmo. A servidora parecia contente com o auxílio humilde do novo irmão. Foi então. Grande número deles deixava escapar a mesma substância negra e fétida.151 Nosso Lar negra substância pela boca. mas debalde. O serviço continuou por todo o dia. na enfermagem rudimentar. .

o pequenino aparelho. vim a saber que as turmas de operações dessa natureza se comunicavam com as retaguardas de tarefa. Foi possível deslocar grande multidão de infelizes. Vinte e dois em desequilíbrio mental e sete em completa inanição psíquica. Estabelecido o contacto elétrico. ao crepúsculo. Muito trabalho nos abismos da sombra. Samaritanos ao Ministério da Regeneração!. em horas convencionais.152 Nosso Lar 28 EM SERVIÇO Encerrada a prece coletiva. depois de alguns minutos de espera: .. Chegaremos . a fim de ouvir os Samaritanos em atividade no Umbral.. afinal. Nossas turmas estão organizando o transporte. Tobias ligou o receptor. sob meus olhos. começou a transmitir o recado. mas o coração entoava hinos de alegria interior. Sentia-me algo cansado pelos intensos esforços despendidos.. seqüestrando às trevas espirituais vinte e nove irmãos.. Recebera a ventura do trabalho.. Justamente curioso..Samaritanos ao Ministério da Regeneração!. E o espírito de serviço fornece tônicos de misterioso vigor.

respondeu Tobias resoluto -.. É preciso recordar.. porém. ou nos círculos do Umbral.. alojaremos os perturbados no Pavilhão 7 e os enfraquecidos na Câmara 33. Pedimos providenciar. São aves e têm asas. dirigiu-se a Narcisa.Resolveremos facilmente a questão da hospitalidade. Em seguida. como a ponderar algo muito sério. entretanto.Como assim? Por que esse transporte em massa? Não são todos espíritos? Tobias sorriu e explicou: . estamos revestidos de fluidos pesadíssimos.. Conheço o episódio de sua vinda. que a Natureza não dá saltos e que. Precisamos tomar providências imediatas.É muito grande a leva desta noite.153 Nosso Lar alguns minutos depois da meia-noite. tanto o avestruz como a andorinha. o primeiro apenas subirá às alturas se transportado.O irmão esquece que não chegou ao Ministério do Auxílio de outro modo. Notando que Narcisa e Tobias se entreolhavam fundamente admirados. na Terra. levou a destra à fronte. não pude conter a pergunta que me desbordava dos lábios: . não se dará no concernente à assistência.murmurou a serva algo pesarosa. o mesmo. .Não se aflija . Nossos auxiliares mais fortes foram requisitados para garantir os serviços da Comunicação nas esferas . enquanto a segunda corta. E deixando perceber que o momento não comportava divagações.Serão necessários muitos leitos! . as vastas regiões do céu. tão logo silenciou a estranha voz. célere. ponderando: . . e exclamou: . sempre.

Além do mais. . admirado. aceito confiante a colaboração. caso necessário. Não poderia explicar o que se passava comigo. acrescentando: . facilitando quanto possível a execução. Apesar da fadiga dos braços. durante a noite? . no entanto. Tobias endereçou-me um olhar de profunda simpatia.sinto-me disposto e forte. Narcisa e os demais companheiros ficarão também de guarda.Outros não fazem o mesmo? . em vista das nuvens de treva que ora envolvem o mundo dos encarnados. preparando roupa adequada e petrechos de enfermagem. preciso recuperar o tempo perdido. porqüanto os operários em função com os Samaritanos chegarão extremamente fatigados. Enquanto cinco servidores operavam em companhia de Narcisa. .Pois bem. mesclada de gratidão. fazendo-me experimentar cariciosa alegria íntima. para o que possa aproveitar – exclamei espontaneamente. você ou algum dos nossos me comunicará qualquer ocorrência de maior gravidade.Mas está resolvido a permanecer nas Câmaras. mandarei Venâncio e Salústio. com prazer. experimentava júbilo inexcedível no coração. . eu e Tobias movíamos pesado material no Pavilhão 7 e na Câmara 33. Abraçou-me o generoso amigo. Traçarei o plano dos trabalhos. dois irmãos de minha confiança. E descortinou-se campo enorme de providências. Não posso permanecer aqui. Precisamos de pessoal de serviço noturno.Ofereço-me.indaguei por minha vez . em vista de compromissos anteriores. .154 Nosso Lar da Crosta.perguntou. de plantão noturno.

perguntei. contudo. que atendia a todos. entretanto. em serviço ativo. A velhinha amável semelhava-se a um livro sublime de bondade e sabedoria. falou Narcisa amavelmente: . Ante a silenciosa indagação do meu olhar.Desejo a vocês muita paz de Jesus. Dentre as figuras de auxiliares presentes. boa noite e serviço útil.Sim. permaneço nas Câmaras de Retificação. às oito horas. Respondi que as determinações me enchiam de sincero contentamento. nas recompensas imediatas que me pudessem advir do esforço. A sós com o grande número de enfermeiros. Amanhã. .Preciso um endosso muito sério. Não pensava. ainda me faltam mais de três anos para realizar meus desejos. minha satisfação era profunda.Mas. a irmã aqui trabalha há muito? . Ao despedir-se. entendendo-lhe o sublime valor. reconhecendo que poderia comparecer feliz e honrado. mas estamos em circunstâncias especiais. onde a maioria procura o trabalho. a certa altura da palestra amistosa. . na compensação dos bônus-hora. passei a interessar-me pelos doentes. perante minha mãe e os benfeitores que havia encontrado no Ministério do Auxílio. Atraído pela sua generosidade. impressionou-me a bondade espontânea de Narcisa. . Não foi difícil alcançar o prazer de sua conversação carinhosa e simples. é de doze horas. há seis anos e alguns meses. com mais carinho. francamente. busquei aproximar-me com interesse. maternalmente.155 Nosso Lar Na oficina. Tobias voltou a abraçar-me e falou: . cada dia. O máximo de trabalho. servir constitui alegria suprema. você poderá descansar.

considerando demasiada a exigência. mas um dos enfermos próximos gritou: . e nossa benfeitora da Regeneração prometeu que endossaria meus propósitos no Ministério do Auxílio. mas exigiu dez anos consecutivos de trabalho aqui. E ganhei muito. aflita.Que quer dizer com isso? . roguei. Vivia perturbada. No primeiro instante. . reconheci que ela estava com a razão. Aconselharam-me.Preciso encontrar alguns espíritos amados. Ia manifestar profunda admiração. a possibilidade necessária aos meus fins.Narcisa! Narcisa! Não me cabia reter. aceitando-lhe o parecer. Por muito tempo. transformada em mãe espiritual dos sofredores. aquela irmã dedicada. em razão de meus desvios passados. para serviços de elevação em conjunto. Afinal.156 Nosso Lar . porém. em vão. para que eu possa corrigir certos desequilíbrios do sentimento. viverei com dignidade espiritual minha futura experiência na Terra. na Terra. quis recusar. recorrer a Ministra Veneranda. depois. Sinto-me mais equilibrada e mais humana e. . o conselho não visava a interesses dela e sim ao meu próprio benefício. creio.perguntei interessado. por mera curiosidade pessoal.

porém. bondosa: . compartilhando meu justo contentamento. Regressando ao contacto direto com os enfermos.157 Nosso Lar 29 A VISÃO DE FRANCISCO Enquanto Narcisa consolava o doente aflito. esquecera-me de avisá-la sobre as deliberações de serviço noturno. notei Narcisa a lutar heroicamente por acalmar um rapaz que revelava singulares distúrbios. disse. Procurei ajudá-la. Aquelas palavras encheram-me de nobres estímulos. Somente assim. fui informado de que me chamavam ao aparelho de comunicações urbanas. Pedi desculpas à minha benfeitora e forneci rápido relatório verbal da nova situação. que esta casa também lhe pertence. Ao termo de nossa ligeira conversa. atenderemos à nossa edificação eterna. a genitora de Lísias parecia exultar. De fato. Através do fio. Era a senhora Laura que pedia notícias. meu filho! apaixone-se pelo seu trabalho. Lembre. . embriague-se de serviço útil.Muito bem.

. acentuava: . que Francisco agradeceu.. veja!. mas o trabalho mais intenso cabe a você mesmo.respondia ela. Já voltou a atormentar. olhar esgazeado dos que experimentam profundas sensações de pavor. Faça de conta que a sua mente é uma esponja embebida em vinagre.dizia a irmã dos infelizes. . lá vem "ele"!.acrescentava a chorar como criança. ganhar muita serenidade e alegria. Livre-me "dele" irmã! Não quero.. O doente mostrava boa-vontade. você vai libertar-se.Acuda-me. acalmava-se enquanto ouvia os conceitos carinhosos. provocando compaixão.Confie em Jesus e esqueça o monstro .158 Nosso Lar O pobrezinho. .Este fantasma diabólico!. . de olhos perdidos no espaço. manifestando imensa alegria no olhar. gritava. vamos ao passe. piedosamente -.Calma. não quero!.. .Irmã Narcisa. repare bem.Mas.. "ele" não me deixa. medo!. E aplicou-lhe fluidos salutares e reconfortadores. É necessário expelir a substância azeda. mas depende do seu esforço. Ajudá-lo-ei a fazê-lo. . irmã. Francisco . E..pedia a companheira dos infortunados -... O fantasma fugirá de nós. cordata -. . o monstro! Sinto os vermes novamente! "Ele"! "Ele"!. por amor de Deus! Tenho medo... prorrompendo em novas exclamações. mas é indispensável que você me ajude a expulsá-lo..me! Veja.. mas volvia à mesma palidez de antes.Estou vendo-o. Francisco . espantadiço: ..

Esteve. Está. Narcisa ajeitou-lhe os travesseiros. porque fechava a zona mental a todo pensamento relativo à vida eterna. assediado por alguma sombra invisível ao meu olhar? A velha servidora das Câmaras de Retificação sorriu carinhosamente e falou: . mostrando-se disposta a iniciar-me nos sublimes segredos do serviço.indaguei.Trata-se do seu próprio cadáver.A quem se refere o doente? . ao lado dos despojos. Não valeram socorros das esferas mais altas. os que lhe foram pais na Terra possuem aqui grandes créditos espirituais e rogaram sua internação . Observando-me o sincero desejo de aprender. oriundo de pura imprudência. porventura. Amedrontava-se com a idéia de enfrentar o desconhecido e não conseguia acumular nem mesmo alguns átomos de desapego às sensações físicas. durante muitos dias. espantado. Queria firmemente levantar o corpo hirto. . . . estou mais tranqüilo.disse ele. Aquela exemplificação da enfermeira edificava-me. impressionado. mandou que uma serva lhe trouxesse água magnetizada. como o mal. tal o império da ilusão em que vivera e. O bem.O pobrezinho era excessivamente apegado ao corpo físico e veio para a esfera espiritual após um desastre. nesse triste esforço. então.Que me diz? . Narcisa aproximou-se mais. finda a operação magnética -. em toda parte estabelece misterioso contágio.tornei. em pleno sepulcro.159 Nosso Lar . a peregrinar nas zonas inferiores do Umbral. Começou. gastou muito tempo.Agora . os vermes fizeram-lhe experimentar tamanhos padecimentos que o pobre se afastou do túmulo. Por fim. tomado de horror. sem se conformar com situação diversa. no entanto.

cada vez mais espaçadas. compelido por circunstâncias de serviço. e beijou-lhe a face. está presentemente em arriscada missão. Demoraram-se bastante. em seguida. Tomou-lhe as mãos. do Ministério da Comunicação. O amigo. chorando copiosamente.A visão de Francisco . enquanto se encontrava com o nobre amigo que obtivera hospitalidade para o filho infeliz. Seu estado. entre ambos.E vem visitar o doente? . O genitor. mostrando a demência dolorosa. o pai do rapaz me pediu lhe perdoasse o gesto humano e ajoelhou-se diante do enfermo. aflito. é ainda tão grave que não poderá ausentar-se. deixando-os a sós. Tamanha é a perturbação do rapaz. Não pude conter as lágrimas e retirei-me. atenciosa -. observando-lhe o sofrimento. Não sei o que se passou. Mas. como se estivesse a transmitir vigorosos fluidos vitais. que não reconheceu o pai generoso e dedicado.perguntei. desde esse dia. A demência total reduziu-se a crises que são.esclareceu a velhinha. como pode a imagem do cadáver perseguilo? . mas notei que Francisco. quase à força. Trouxeram-no os Samaritanos. tão cedo. distante de "Nosso Lar".160 Nosso Lar na colônia. que lhe foi genitor na carne. não enxergam outra coisa.Já veio duas vezes e experimentei grande comoção. quando o Ministro Pádua se retirou. ansioso. nem vivem senão dele e para ele. . pareceu muito superior à condição humana.Como tudo isso comove! . que veio vê-lo em companhia do Ministro Pádua. Apegam-se demasiadamente ao corpo.exclamei sob forte impressão. das Câmaras de Retificação. agora. discreto. comentando a situação espiritual dos recém-chegados dos círculos carnais. melhorou bastante. . Gritava. . . Entretanto. é o pesadelo de muitos espíritos depois da morte carnal. contudo.

mas a borboleta alçará o vôo. nestes últimos anos de serviço. Sobrevêm perturbações e crises. deve preocupar-nos. Repelem quaisquer idéias de espiritualidade e lutam desesperadamente pelo conservar. Narcisa acrescentou: . A crisálida cola-se à matéria inerte. no entanto. Ah! como é profundo o sono espiritual da maioria de nossos irmãos na carne! Isto. mais ou menos longas. e. atormenta-os no imo da alma. venho aproveitando bastante. A essa altura. A flor morta volve à terra. não o abandonam.Graças ao Pai.161 Nosso Lar votando-lhe verdadeiro culto. sem que me atrevesse a interromper-lhe o silêncio. porém. como forte criação mental deles mesmos. . vindo o sopro renovador. horrorizam-se do corpo e adotam nova atitude extremista. mas não deve ferir-nos. os vermes vorazes. Não devemos esquecer estas lições. e muito sofrem até à eliminação integral do seu fantasma. a semente é quase imperceptível e. o carvalho será um gigante. e os expulsam. porém. A visão do cadáver. no entanto. Todo embrião de vida parece dormir. Notando-me a comoção. E Narcisa calou-se. mas o perfume vive no céu. Surgem.

Narcisa apresentou-a delicadamente e. apressado.Nossa irmã Paulina deseja ver o pai enfermo. algo inquieta: . julguei razoável consultá-la. perguntou.Você verá que filha dedicada! Não decorrera um minuto e Paulina estava diante de nós. no Pavilhão 5. Trajava uma túnica muito leve.Mande-a entrar sem demora. visto estar consagrando o tempo disponível em tarefa de reconciliação dos familiares. sentindo talvez que poderia confiar na minha presença. porque o doente continua em crise muito aguda. Mostrando gestos de bondade que lhe eram característicos. esbelta e linda. a enfermeira bondosa acrescentava. Ela tem permissão da Ministra. informando a Narcisa: . Antes de atender. mas os olhos denunciavam extrema preocupação.162 Nosso Lar 30 HERANÇA E EUTANÁSIA Ainda não voltara a mim da profunda surpresa. Enquanto o mensageiro se despedia. quando Salústio se aproximou. Narcisa acentuou: . dirigindo-se a mim: . tecida em seda luminosa. Angelical beleza caracterizava-lhe os traços fisionômicos.

Desapareceu a impressão de repugnância.. O velho enfermo não teve uma palavra de ternura para a filha que o saudou carinhosa.163 Nosso Lar . aclarando-se-me os raciocínios.Não diga isso. nem os outros cedem no estado mental a que se recolheram. . lábios retraídos. . Apliquei a lição a mim mesmo. lembrando as próprias deficiências.. no coração. É criminoso sem perdão. Quando examinamos a desventura de alguém.gritou o infeliz .. ministrando-me o veneno mortal!.. tinha diante de mim um velho de fisionomia desagradável.Ai!.retrucou a jovem -.. Ai!.Papai. filho do inferno!. o senhor sente-se melhor? . papai . ainda acusa desequilíbrios fortes. acima do sofredor. Como teria chegado.nunca! nunca!.. . Sempre o mesmo ódio e a mesma displicência.Um pouco melhor . minutos após. por minha vez.E papai. há sempre asilo para o amor fraterno. contudo.. Ainda o vejo a meu lado. .É lamentável . minha amiga? .esclareceu a enfermeira -. Através do olhar.. não posso descansar o pensamento.. .não posso esquecer o infame. o irmão espiritual... enviado por Deus. .perguntou com extremo carinho filial. rugas profundas. que evidenciava aspereza e revolta..Meu filho? . ao Ministério do Auxílio? Deveria ser horrível meu semblante de desesperado. semelhava-se a uma fera humana enjaulada. Olhar duro. no entanto. . inspirava mais piedade que simpatia. vencer as vibrações inferiores que me dominaram.pediu a moça delicadamente -. Narcisa nos convidou a acompanhá-la. e. cabeleira desgrenhada. nem ele. Procurei. a fim de observar. lembre-se de que Edelberto entrou em nossa casa como filho.gritou o doente em voz estentórica .

Em meio de tantas mentes desequilibradas.Perdoe Edelberto. na Criação. agora. mas o irmão necessitado de esclarecimento. em vibrações sutis. ainda hoje. Mamãe recolheu-se. em virtude dos grandes patrimônios materiais que o senhor ajuntou nas esferas da carne. Muito lutamos e padecemos. deste leito. . Ouvindo-lhe a voz muito meiga. Somos todos uma só família. A permuta de ódio e desentendimento causa ruína e sofrimento nas almas. Um quadro terrível. até adquirir o verdadeiro título de irmão. Nossos lares terrestres são cadinhos de purificação dos sentimentos ou templos de união sublime. Aliás. a fim de aprendermos a fraternidade sem mácula. . ao hospício. lá observando extremas perturbações. o doente se pôs a chorar convulsivamente. Daqui. vemo-lo em estado grave. sob a bênção providencial de um Pai único.164 Nosso Lar Paulina falava. E que . não o filho leviano. com os olhos rasos dágua. cujas sombras poderiam diminuir. mamãe louca e os filhos perturbados. faz alguns dias. que é Deus. a lição de Jesus. Atravessamos experiências consangüíneas.Ouçamos. na Terra. alcança o alvo. por mais distante que esteja. e eles lhe fazem o mesmo por idêntico modo. papai. que recomenda nos amemos uns aos outros. odiando-se entre si. Amália e Cacilda entraram em luta judicial com Edelberto e Agenor. mas o Senhor da Vida nos permite a paternidade ou a maternidade no mundo. a caminho da solidariedade universal. uma fortuna de um milhão e quinhentos mil cruzeiros. é indispensável reconhecer que só existe um Pai realmente eterno. na Terra. ralada de angústia. papai! Procure sentir nele. O pensamento. o senhor envolve todos os nossos em fluidos de amargura e incompreensão. se sua mente vigorosa não estivesse mergulhada em propósitos de vingança. Aqui. para adquirir o verdadeiro amor espiritual. Estive em nossa casa.

que saibam administrar com sabedoria.. afastamo-nos dos serviços do Pai.Nem sempre sabemos interpretar o que seja benefício. São raros os que se preocupam em ajuntar conhecimentos nobres. Agenor repudiou o estudo sério.Mas eu leguei enorme patrimônio à família . costumamos amealhar o dinheiro por espírito de vaidade e ambição. alheando-se por completo da Medicina e exercendo-a tão-somente de longe em longe . às vezes. Tal gênero de vida arruinou nossa casa. Impomos a outrem os nossos caprichos. e é justo que não prescinda da contribuição de mordomos fiéis. seu esforço seria de valiosa previdência. desejando o bem-estar de todos. busquei levar socorro espiritual ao ambiente doméstico.165 Nosso Lar vale isso.. bênçãos de compreensão. papai. não nos lembramos disso. Amália e Cacilda esqueceram o serviço útil e. Querendo viver acima dos outros. luzes de humildade. Enquanto o senhor e mamãe se sacrificavam por aumentar haveres. Debalde. Edelberto conquistou o título de médico. Paulina não o deixou terminar. encontraram ociosos que as desposaram. esquecemos a lapidação do nosso espírito.atalhou o infeliz. entregando-se a más companhias. se não há um átomo de felicidade para ninguém? . garantindo-lhes a tranqüilidade moral e o trabalho honesto. retomando a palavra: . visando a vantagens financeiras. Se o senhor assegurasse o futuro dos nossos. senão nas expressões externas da vida. como preguiçosas da banalidade social. mas ninguém será mordomo do Pai com avareza e propósitos de dominação. noutro tempo. mas. qualidades de tolerância. Ninguém nasce no planeta simplesmente para acumular moedas nos cofres ou valores nos bancos. no capítulo da riqueza transitória. rancorosamente -. É natural que a vida humana peça o concurso da previdência.

A ambição do dinheiro criou. o Edelberto. distraídos pelo dinheiro fácil e apegados à idéia de herança.se para discutir. Daí a instante. as lágrimas. mas muita tristeza no olhar afogado em justa preocupação. Voltando à intimidade. esquisitices e desavenças. empregou. a chamada "morte suave". porém. Malvado!. papai! Tenha compaixão de seu filho.. Com raras exceções.. Calou-se Paulina. Pais avarentos possuem filhos esbanjadores. vemos não só isso.. quando ainda necessitava regularizar minhas disposições testamentárias! Malvado!. são extremamente complicados. continuou a praguejar em voz alta.Maldito Edelberto! Filho criminoso e ingrato! Matou-me sem piedade. Todos arruinaram belas possibilidades espirituais. em toda a família de Paulina. ainda por alguns minutos. chamando Salústio para socorrer o doente em crise. a custo. quando o irmão. em regra. O velho.Cale-se.. Neste caso. porém. sob forte impressão. bondosa: .166 Nosso Lar à maneira do trabalhador que visita o serviço por curiosidade. no genitor quase moribundo. mas Narcisa endereçoulhe significativo olhar. acarretam enorme peso a legadores e legatários. A jovem preparava. . perdoe e esqueça!.Os casos de herança. Esforçamo-nos por . retirava-me em companhia de ambas. Narcisa disse.. As duas amigas trocaram confidências. mas também a eutanásia. despedindo-se Paulina a evidenciar muita generosidade nas frases gentis.. médico de aparência distinta. Fui a casa de nossa amiga. acariciando a fronte paterna e contendo. O enfermo tomou uma expressão de pavor e acrescentou: .

apressar o desenlace. por questões de ordem financeira.Deus criou seres e céus. mas foi tudo em vão.167 Nosso Lar o evitar. e aí temos agora a imprevidência e o resultado . de fato.o ódio e a moléstia. . O pobre rapaz desejava. criando nossos infernos individuais. Narcisa rematou: . mas nós costumamos transformar-nos em espíritos diabólicos. E com expressivo gesto.

evidenciando a condição de trabalhador . Entretanto. ali. Fiz instintivo movimento de aproximação. Era um homenzinho de semblante singular. Guarde essa emoção para mais tarde. um doente pedia alívio. Ainda não havíamos descansado. Logo após às vinte e uma horas. outro necessitava passes de reconforto. fervilhavam-me no cérebro mil interrogações. Abrira-se um mundo novo à minha pesquisa intelectual. atenciosa: . Quando fomos atender a dois enfermos.168 Nosso Lar 31 VAMPIRO Eram vinte e uma horas. a cada momento. no Pavilhão 11. Era indispensável recordar o conselho da genitora de Lísias. localizam-se ali os desequilibrados do sexo. necessária à solução de problemas espirituais. senão em momentos de palestra rápida. Não insisti. Aqui. chegou alguém dos fundos do enorme parque.disse -. O quadro seria extremamente doloroso para seus olhos.Não prossiga . para não me desviar da obrigação justa. escutei gritaria próxima. mas Narcisa deteve-me.

Filhos de Deus .Segundo as ordens que nos regem. dai-me abrigo à alma cansada! Onde está . respondeu. ordinariamente calma. .Venho participar que uma infeliz mulher está pedindo socorro. Creio tenha passado despercebida aos vigilantes das primeiras linhas. Havíamos percorrido mais de um quilômetro. o caso é muito grave. que integrava o corpo de sentinelas das Câmaras de Retificação. .revidou Narcisa.Que me diz? . . então. rosto horrendo e pernas em chaga viva. assustada. . . imperceptíveis ao meu olhar.169 Nosso Lar humilde. Curioso. Nada vi. Deparou-se-nos. Justino? Qual é a sua mensagem? O operário. agitado pelo vento caricioso.interrogou a enfermeira. via-se o arvoredo tranqüilo do parque muito extenso. porque a pobrezinha está rodeada de pontos negros. no grande portão que dá para os campos de cultura.Sim. senão o vulto da infeliz. Lado a lado.E por que não a atendeu? . senhora. coberta de andrajos. não pude fazê-lo. quando atingimos a grande cancela a que se referira o trabalhador. Narcisa recebeu-o com gentileza.bradou a mendiga ao avistar-nos -. a miserável figura da mulher que implorava socorro do outro lado. através do campo enluarado. aflito: . segui a enfermeira.Então. A distância não era pequena. O servidor fez um gesto de escrúpulo e explicou: .Que há. dado o assombro que estampou na fisionomia. perguntando: . mas Narcisa parecia divisar outros detalhes.

E. Preciso recorrer ao Vigilante-Chefe. Ele esboçou um gesto significativo e ajuntou: . Narcisa apresentou-me e notificou-lhe a ocorrência. Assim dizendo.Sua visão espiritual ainda não está suficientemente educada. Voltamos apressadamente ao interior.Não . para que eu possa fruir a paz desejada.Fez muito bem.Esta mulher.Faça o obséquio de esperar alguns minutos. em serviço. Narcisa. Trata-se de um dos mais fortes vampiros que tenho visto até hoje. . abriria imediatamente a nossa porta. aproximou-se da infeliz e informou. Chegados à cancela. . É preciso entregá-la à própria sorte. Aquela voz lamuriosa sensibilizava-me o coração. entrei em contacto com o diretor das sentinelas das Câmaras de Retificação.Não está vendo os pontos negros? . por sua vez. o Irmão Paulo. mostrava-se comovida. em tom fraterno: . por enquanto. não pode receber nosso socorro.Se estivesse em minhas mãos. depois de ligeira pausa. Dirigimo-nos os três para o local indicado. quando se trata de criaturas nestas condições.respondi. continuou: . comunicando-me o fato. mas falou em tom confidencial: . e disse: . orientador dos vigilantes. nada posso resolver por mim mesma. Vamos até lá.170 Nosso Lar o paraíso dos eleitos. mas. Pela primeira vez. examinou atentamente a recém-chegada do Umbral.

umas por golpes esmagadores. alguma coisa além dos pontos negros? Agora. outras por asfixia. Narcisa fixou o olhar na infeliz e respondeu. explorando a infelicidade de jovens inexperientes. recomendou: . O Irmão Paulo. com a paciência dos que sabem esclarecer com amor.Permitir essa providência . . Em cada mancha vejo a imagem mental de uma criancinha aniquilada. E indicando a mendiga que esperava a decisão.esclareceu ele -. Baixando o tom de voz.Já notou. que.Cinqüenta e oito.Pois vejo mais . era minha instrutora de serviço que respondia negativamente. adiantou-se suplicante: . A situação dela é pior que a dos suicidas e homicidas.Esses pontos escuros representam cinqüenta e oito crianças assassinadas ao nascerem. Narcisa. seria trair minha função de vigilante. entregava-se a crimes nefandos. Não seria faltar aos deveres cristãos abandonar aquela sofredora ao azar do caminho? Narcisa. explicou: . por vezes.171 Nosso Lar Senti-me escandalizado. . apresentam atenuantes de vulto. após alguns instantes: . a gritar impaciente. A pretexto de aliviar consciências alheias.respondeu o Vigilante-Chefe. exclamou para a enfermeira: .Conte as manchas pretas. não há um meio de acolhermos essa miserável criatura nas Câmaras? . Essa desventurada criatura foi profissional de ginecologia. Irmão Paulo.Mas. que me pareceu compartilhar da mesma impressão.

Socorro! socorro! socorro!. então.Irmão Paulo. entretanto. Demonstrando a sensibilidade das almas nobres.Não falo aqui de providências legítimas.Mas. assombrado.172 Nosso Lar Recordei.respondeu o diretor da vigilância. que todos somos espíritos endividados. o Irmão Paulo acrescentou: . também eu já errei muito no passado.ponderou acertadamente -. mas esta criatura. exclamou: . a necessidade da eliminação de nascituros para salvar o organismo materno. minha amiga . nada deseja senão perturbar quem trabalha. Para que nos serve aqui um serviço de vigilância? E.Busquemos a prova. Atendamos a esta desventurada. os processos da medicina. Os que trazem os sentimentos calejados na hipocrisia emitem forças destrutivas. do nosso concurso fraterno? . da pedinte e perguntou: . minha amiga . . que constituem aspectos das provações redentoras. Se me permite. mas. nas ocasiões perigosas. com o direito sublime da vida.Reconheço. em que muitas vezes enxergara. .. Narcisa rogou: .respondeu lacrimosa. de perto. refiro-me ao crime de assassinar os que começam a trajetória na experiência terrestre. sorrindo expressivamente.Que deseja a irmã. . O Vigilante-Chefe aproximou-se. lendo-me o pensamento. eu lhe dispensarei cuidados especiais. impressionando pela sinceridade -. temos a nosso favor o reconhecimento das próprias fraquezas e a boa-vontade de resgatar nossos débitos. por agora.. é preciso sabermos aceitar o sofrimento retificador. .

. endereçando-nos dardejante olhar de extrema cólera. junto de servidores de boa-vontade. o favor de retirar-se. acrescentou: . falou o Vigilante-Chefe com autoridade: .. nem serviço. perdeu o aspecto de enferma ambulante. Estamos numa casa de trabalho.Não lhe pedi remédio. canalha!... praticando boas obras. Estou procurando o paraíso que fiz por merecer. retirando-se a passo firme.Demônio! Feiticeiro! Sequaz de Satã!.173 Nosso Lar Por que razão tantas vezes cortou a vida a entezinhos frágeis. Creio que a irmã ainda não recebeu. reconhecendo as necessidades próprias. Não voltarei jamais!. A mendiga objetou atrevidamente: . Quando abrir sua alma às bênçãos de Deus. que iam à luta com a permissão de Deus? Ouvindo-o.. E. Estou esperando o céu que me prometeram e que espero encontrar. durante longos minutos. Fui caridosa e crente. nem mesmo o benefício do remorso. e... boa e pura.Não é isso que se observa na fotografia viva dos seus pensamentos e atos. ela exibiu terrível carantonha de ódio e bradou: . inquieta. . então..Faça. Irada. onde os doentes reconhecem o seu mal e tentam curar-se. como quem permanece absolutamente senhor de si. Empreguei a existência auxiliando a maternidade na Terra.Quem me atribui essa infâmia? Minha consciência está tranqüila. voltando-se para nós. respondeu a interlocutora: . Não temos aqui o céu que deseja. então. Assumindo atitude ainda mais firme. volte até aqui. Acompanhou-a o Irmão Paulo com o olhar.

sofre desesperadamente e alega tranqüilidade. Ante o silêncio com que lhe ouvíamos a lição. . o Vigilante-Chefe rematou: . a infeliz será atendida alhures pela Bondade Divina. Naturalmente. criou um inferno para si própria e assevera que está procurando o céu.174 Nosso Lar .Observaram o Vampiro? Exibe a condição de criminosa e declara-se inocente. na posição em que me encontro. por princípio de caridade legítima. não lhe poderia abrir nossas portas. mas. é profundamente má e afirma-se boa e pura.É imprescindível tomar cuidado com as boas ou más aparências.

A Ministra Veneranda criou planos excelentes para os nossos processos educativos. continuou esclarecendo: . .Trata-se dos "salões verdes" para serviço de educação. Periodicamente.No grande parque . Aquelas árvores acolhedoras. .não há somente caminhos para o Umbral ou apenas cultura de vegetação destinada aos sucos alimentícios. reservando-se.175 Nosso Lar 32 NOTÍCIAS DE VENERANDA Agora. Entre as grandes fileiras das árvores. porém. E observando-me a curiosidade sadia. aquelas virentes sementeiras reclamavam-me a todo momento.dizia ela . há recintos de maravilhosos contornos para as conferências dos Ministros da Regeneração. um de assinalada beleza. provocava explicações de Narcisa. que penetrara o parque banhado de luz. quando ele se digna de vir até nós. outros para Ministros visitantes e estudiosos em geral. para as conversações do Governador. experimentava singular fascinação. De maneira indireta. enunciando perguntas veladas.

Há diferença. são os que se instituíram nas escolas. inclusive o da União Divina. Surgiram deliciosos recantos em toda parte. A Ministra ideou os quadros evangélicos do tempo que assinalou a passagem do Cristo . o teto acolhedor. Todos os Ministérios pediram cooperação. . simultaneamente. a meu ver.prosseguiu a enfermeira. havia precisamente quarenta anos. Temos. dentro do qual se abrigam cinco numerosas classes de aprendizados e cinco instrutores diferentes. segundo me informaram. Soube que tal se dera. instalou a Ministra um verdadeiro castelo de vegetação. entusiasticamente -. com o qual é possível levar a efeito cinco projeções variadas. . assim. unindo no mesmo esforço o serviço proveitoso à utilidade prática e à beleza espiritual. Nos parques de educação do Esclarecimento. em forma de estrela. Essa iniciativa melhorou consideravelmente a cidade. todavia. que solicitou o concurso de Veneranda na organização de recintos dessa ordem. no Bosque das Águas.176 Nosso Lar as árvores eretas se cobrem de flores. dando idéia de pequenas torres coloridas. Variam nas formas e dimensões.Sem dúvida . aplausos francos em toda a colônia. com as bênçãos do Sol ou das estrelas distantes.E o mobiliário dos salões? Tal como dos grandes recintos terrenos? Narcisa sorriu e acentuou: . o projeto da Ministra despertou. Valendo-me da pausa natural. à maneira do cinematógrafo terrestre. no firmamento. Iniciou-se. No centro.Devem ser prodigiosos esses palácios da natureza . Os mais interessantes. então. interpelei: .acrescentei. cheias de encantos naturais. a campanha do "salão natural". funciona enorme aparelho destinado a demonstrações pela imagem.

recebendo nossos votos e visitas. identificando-me o interesse silencioso. Talvez já saiba que o Governador aqui vem. A essa altura. lagos minúsculos. por sua vez. e sugeriu recursos da própria natureza. Ali permanece longas horas. Cada "salão natural" tem bancos e poltronas esculturados na substância do solo. em razão das flores que se vão modificando em espécie. Isso imprime formosura e disposições características. A Ministra reserva o mais lindo aspecto para o mês de dezembro. em comemoração ao Natal de Jesus. conversando com os trabalhadores. forrados de relva olente e macia.O mais belo recinto do nosso Ministério é o destinado às palestras do Governador. de trinta a trinta dias. A conservação exige cuidados permanentes. examinando nossas vizinhanças com o Umbral. Cada mês do ano mostra cores diferentes. conferenciando com os Ministros da Regeneração. quase que semanalmente. mais antigo. Esse salão é nota de júbilo para os nossos Ministérios. A Ministra Veneranda descobriu que ele sempre estimou as paisagens de gosto helênico. aos domingos. mas a beleza dos quadros representa vasta compensação. interrompeu-se a bondosa enfermeira. palanquins de arvoredo e frondejante vegetação. e decorou o salão a traços especiais. Disse a organizadora que seria justo lembrar as preleções do Mestre. e dessa recordação surgiu o empreendimento do "mobiliário natural". oferecendo sugestões valiosas. prosseguiu: .177 Nosso Lar pelo mundo. quando a cidade recebe os mais formosos pensamentos e as mais vigorosas promessas dos nossos companheiros encarnados na Terra e envia. pontes graciosas. formados em pequenos canais de água fresca. ardentes afirmações de esperança e serviço às esferas superiores. e confortando . quando de suas divinas excursões junto ao Tiberíades. em homenagem ao Mestre dos mestres. mas. em plena praia.

foram por ela criados para atender aos mais infelizes. "Nosso Lar" amanheceu . Os onze Ministros. . costuma vir até aqui só no propósito de conhecer esse "palácio natural". Além disso.Você diz muito bem . relativamente a ela..continuou Narcisa. É a entidade com maior número de horas de serviço na colônia e a figura mais antiga do Governo e do Ministério. ouve música e assiste a números de arte. Um dia. adiantei: . nesta cidade.O salão da Ministra Veneranda . a Governadoria se socorre dos seus pareceres. Em numerosos processos. mas nunca comentou esse fato de sua vida espiritual e esquiva-se à menor informação a tal respeito. Permanece em tarefa ativa. Impressionado com as informações. . há quatro anos. que se hospedam em "Nosso Lar". Todo o nosso préstimo será pouco para retribuir as dedicações dessa abnegada serva de Nosso Senhor. é considerada pela Governadoria como das mais dignas.atalhou Narcisa. há mais de duzentos anos. quando pode demorar-se. em "Nosso Lar". que com ela atuam na Regeneração. a Ministra Veneranda é a única entidade. A maioria dos forasteiros.178 Nosso Lar enfermos convalescentes. em "Nosso Lar". Sua tradição de trabalho. eu experimentava um misto de alegria e curiosidade. Grande número de benefícios.Como deve ser respeitável essa benfeitora!. animadamente – é também esplêndido recinto. ouvem-na antes de tomar qualquer providência de vulto. neste Ministério. que já viu Jesus nas Esferas Resplandecentes. que acomoda confortavelmente mais de trinta mil pessoas. cuja conservação nos merece especial carinho. há outra nota interessante.. Ouvindo os interessantes informes. com reverência -. executados por jovens e crianças dos nossos educandários. em geral. Com exceção do Governador. À noitinha. é criatura das mais elevadas de nossa colônia espiritual.

Entregou. a Ministra virá ao salão.179 Nosso Lar em festa. sem reclamar e sem esmorecer.Amanhã. As Fraternidades da Luz. a Ministra Veneranda apenas chorou em silêncio.por que não se encaminharia a esferas mais altas? Narcisa baixou o tom de voz e declarou: . pelo grupo de corações bemamados que demoram na Terra. .disse eu . a fim de esclarecer alguns aprendizes sobre o pensamento. na praça maior. Soube que essa benfeitora sublime vem trabalhando. ela vive em zonas muito superiores à nossa e permanece em "Nosso Lar" por espírito de amor e sacrifício. Desistiu de todas as homenagens festivas com que se pretendia comemorar. até hoje. que regem os destinos cristãos da América. . jamais comentando a honrosa conquista. Generosa comissão veio trazer a honrosa mercê.Intimamente. e espera com paciência. homenagearam Veneranda conferindo-lhe a medalha do Mérito de Serviço. semelhante triunfo. apesar dos protestos do Governador. afirmando que não o merecia e transmitindo-o à personalidade coletiva da colônia. mas em meio do júbilo geral. reunidos a Governadoria. o acontecimento.Como poderei conhecê-la? . os Ministérios e a multidão. impressionado. sem interromper. o troféu aos arquivos da cidade.Extraordinária mulher! . explicou. em seguida. que parecia alegrar-se com o meu interesse. mais tarde.perguntei. apresentando um milhão de horas de trabalho útil. há mais de mil anos. satisfeita: . . à tardinha. Narcisa. a primeira entidade da colônia que conseguiu. após as preces.

qualquer notícia pertinente ao meu antigo lar? Minha própria mãe me aconselhara . folhas caprichosas lembrando a acácia e o pinheiro. envolvendo-me em sensações de repouso. apesar das janelas amplas. Era imprescindível observar-lhes a volta. silencioso. ponderei os acontecimentos que me sobrevieram. para tomar providências. Aquele ar embalsamado figurava-seme uma bênção. Ventos frescos agitavam-nas de manso. troncos que recordavam o carvalho vetusto da Terra. Sentindo-me só.180 Nosso Lar 33 CURIOSAS OBSERVAÇÕES Poucos minutos antes de meia-noite. omitindo. Os Samaritanos deviam estar nas vizinhanças. além. Narcisa permitiu minha ida ao grande portão das Câmaras. contudo. sob as frondes carinhosas. Onde estaria a paragem de sonho? Na Terra. não experimentara tamanha impressão de bem-estar. Com que emoção tornei ao caminho cercado de árvores frondosas e acolhedoras! Aqui. ou naquela colônia espiritual? Que teria sucedido a Zélia e aos filhinhos? Por que razão me prestavam ali tão grande esclarecimentos sobre as mais variadas questões da vida. desde o primeiro encontro com o Ministro Clarêncio. Nas Câmaras. Assim caminhava.

O vento calmo parecia sussurrar concepções grandiosas. como que desejoso de me despertar a mente para estados mais altos. Por que decisões do destino estávamos agora separados. Se minha experiência podia classificar-se como naufrágio. muito amara a companheira de lutas e. Agora que observava em "Nosso Lar" vibrações novas de trabalho intenso e construtivo. aproximei-me . Quem atravessa um campo sem organizar sementeira necessária ao pão e sem proteger a fonte que sacia a sede. Não era eu o náufrago abandonado. idéias generosas confortavam-me o íntimo. mas. Ao deixar os círculos carnais. admirava-me de haver perdido tanto tempo no mundo em frioleiras de toda sorte. e. mas.181 Nosso Lar o silêncio. sem dúvida. Tudo indicava a necessidade de esquecer os problemas carnais. Tais pensamentos instalavam-se-me no cérebro com veemência irritante. reconhecia que nada criara de sólido e útil no espírito dos meus familiares. receber de novo o beijo dos filhinhos. penetrando os recessos do ser. não devia o desastre senão a mim mesmo. encontrara as penúrias da incompreensão. examinando desapaixonadamente minha situação de esposo e pai. Torturavam-me as inquirições internas. Em verdade. Tarde verificava esse descuido. no entanto. não pode voltar com a intenção de abastecer-se. prendendo-me então aos imperativos do dever justo.. abstendo-se de qualquer informação direta. deslocados da estabilidade doméstica para as sombras da viuvez e da orfandade? Inútil interrogação. E que teria sucedido à esposa e aos filhinhos. Desejava ardentemente rever a esposa muito amada.. encontrava a saudade viva dos meus. como se eu fosse um náufrago em praia desconhecida? Simultaneamente. no sentido de renovar-me intrinsecamente. dispensara aos filhinhos ternuras incessantes.

abandonar o veículo corpóreo.182 Nosso Lar da grande cancela. mostrando bom humor -. Não se arreceie. E. como nobres iniciados da Eterna Sabedoria. transitando livremente em nossos planos. Satisfeito. Cabelos eriçados. demorei alguns minutos entre a admiração e a prece. por minha vez. Tudo luar e serenidade. Trata-se de poderosos espíritos que vivem na carne em missão redentora e podem. Os filamentos e fios que observou são singularidades que os diferenciam de nós outros. investigando além. que conseguem atingir estas paragens. e da cabeça como que se escapava um longo fio de singulares proporções. Os Samaritanos não podem tardar.Ora essa. Não suportei. encorajando-me bondosamente. meu amigo . expus a Narcisa a ocorrência. Pareciam dois homens de substância indefinível.Também eu. Tive a impressão de identificar dois autênticos fantasmas. voltei apressadamente ao interior. Instantes depois. portanto. . céu sublime e beleza silenciosa! Extasiando-me na contemplação do quadro. acentuou: . não reconheceu aquelas personagens? Fundamente desapontado. Os encarnados. Dos pés e dos braços pendiam filamentos estranhos. em outros tempos. nada consegui responder. Aqueles são os nossos próprios irmãos da Terra. são criaturas extraordinariamente espiritualizadas. divisei ao longe dois vultos enormes que me impressionaram vivamente.Vamos até lá.disse. experimentei a mesma surpresa. por fim. . notando que ela mal continha o riso. voltei com ela ao grande portão. semiluminosa. Temos quarenta minutos depois de meia-noite. através dos campos de cultura. mas Narcisa continuou: . Inquieto e amedrontado. apesar de obscuras ou humildes na Terra.

. a enorme distância. ainda. Dirigi-me. tranqüilamente.183 Nosso Lar Lobrigava-se. a grande distância. e observou: . sob a claridade branda do céu. em tarefa que não podemos conhecer. incontinenti. acima dos carros. a bondosa amiga indicou um ponto escuro no horizonte enluarado. De repente. em voz ativa. a Narcisa. A enfermeira. Devem ser dois mensageiros muito elevados na esfera carnal. que não cabe agora descrever. chamou os servos distantes. os dois vultos que se afastavam de "Nosso Lar". que voavam a curta distância.Estão envolvidos em claridade azul. Seis grandes carros. precedidos de matilhas de cães alegres e bulhentos.Lá vêm eles! Identifiquei a caravana que avançava em nossa direção. mas também verdadeiros monstros. me pareceram iguais aos muares terrestres. mesmo de longe. Mas a nota mais interessante era os grandes bandos de aves. Ali estivemos. formato diligência.interroguei. produzindo ruídos singulares. minutos longos. transmitindo avisos. eram tirados por animais que. . parados na contemplação dos campos silenciosos. enviando um deles ao interior.disse Narcisa . de corpo volumoso. perguntando: . Fixei atentamente o grupo estranho que se aproximava devagarinho. fez um gesto expressivo de reverência e exclamou: .Os cães . A enfermeira contemplou-os. onde não estacionam somente os homens desencarnados. ouvi o ladrar de cães. Em dado momento.são auxiliares preciosos nas regiões obscuras do Umbral. porém.Que é isso? . assombrado.

indaguei das razões. surpreso. E distribuindo ordens de serviço. os núcleos espirituais superiores preferem aplicar aparelhos de transição. Poderíamos construir determinadas máquinas como o submarino. e aquelas aves . .Questão de densidade da matéria.Como assim? . no momento. por devorarem as formas mentais odiosas e perversas.184 Nosso Lar . não aqui. rematando: .perguntei. onde se localizam os parques de estudo e experimentação. . são excelentes auxiliares dos Samaritanos. Narcisa fixou-me com bondosa atenção.Mas. não se pode prescindir da colaboração dos animais. O avião que fende a atmosfera do planeta não pode fazer o mesmo na massa equórea. o dever não comporta minudências informativas. aqui e acolá. os muares suportam cargas pacientemente e fornecem calor nas zonas onde se faça necessário. Sempre atenciosa. Vinha. Poderá colher valiosas lições sobre os animais. que denominamos íbis viajores. . entrando em luta franca com as trevas umbralinas.Os cães facilitam o trabalho. Além disso.acrescentou. preparava-se para receber novos doentes do espírito. mais próxima a caravana. em muitos casos. Pode você figurar um exemplo com a água e o ar. agora.Onde o aeróbus? Não seria possível utilizá-lo no Umbral? Dizendo-me que não. por espírito de compaixão pelos que sofrem. a enfermeira explicou: . mas. mas no Ministério do Esclarecimento. indicando-as no espaço -.

meu filho! Ajude-me por amor de Deus!. outros. Alguns enfermos portavam-se com humildade e resignação. cheios de amor fraternal. Aproximei-me com interesse. afastei-me do purgatório.. exclamou. conduzidas por trabalhadores de pulso firme.Cruzes! Credo! . espantada: . reclamavam em altas vozes. estávamos todos enfrentando os enormes corredores de ingresso às Câmaras de Retificação. .Tenha piedade.. Daí a minutos. Servidores movimentavam-se apressados. mas também os Samaritanos mobilizavam todas as energias no afã de socorrer.. . todavia.graças à Providência Divina. sob amparo forte. Salústio e outros companheiros se lançavam à lide. Não somente Narcisa. Alguns doentes eram levados ao interior..185 Nosso Lar 34 COM OS RECÉM-CHEGADOS DO UMBRAL Estacaram as matilhas de cães ao nosso lado. com muita dificuldade. Atacando igualmente o serviço. notei que uma velhota procurava descer do último carro. Observando-me perto.continuou benzendo-se .

Pela primeira vez. rezei incessantemente como sincera devota. quem pode com as artes de Satanás? Ao sair do mundo. percebendo o meu interesse. assim. afetei ares de profundo interesse fraternal. Talvez obedecendo mais à malícia que me era peculiar. de tão longe? Falando desse modo.Absolutamente não . enquanto estive na Terra. Fui. as sábias recomendações da mãe de Lísias. Os espíritos diabólicos. Sabe o senhor que ninguém está livre de pecar. Ajudei-a a descer. de um momento para outro. fiz muita caridade. como costumava fazer na Terra.186 Nosso Lar Ah! que malditos demônios lá me torturavam! Que inferno! Mas os Anjos do Senhor sempre chegaram. porque deixei uns dinheiros para celebração de missas mensais por meu descanso. A princípio implorei a proteção dos Arcanjos Celestes. na Terra. Mas. partidas de uma boca que me parecia calma e ajuizada. olvidando por completo. Meus escravos provocavam rixas e contendas. conservaram-me enclausurada.De grande distância. meu filho. que me arrebataram em verdadeiro torvelinho. Atendendo ao impulso vicioso de perseguir assuntos que nada tinham que ver comigo. ouvia referências ao inferno e ao purgatório. vi-me cercada de seres monstruosos.Como são interessantes as suas observações! Mas não procurou saber as razões de sua demora naquelas paragens? .respondeu. A pobre criatura. mulher de muito bons costumes.Vem. Como lhe disse. insisti: . naquele instante. interroguei: . tomado de extrema curiosidade. começou a explicar-se: . entretanto. fiz o possível por ser uma boa religiosa. Mas eu não perdia a esperança de ser libertada. e embora a fortuna me proporcionasse . persignando-se.

Minha irmã. nascidos exclusivamente para servirem a Deus no cativeiro. os escravos são seres perversos. era obrigada a vender as mães cativas. separando-as dos filhos. estava livre dessas faltas veniais. os filhinhos dos servos são iguais aos dos senhores. Não raro algum negro morria no tronco para escarmento geral. comecei a doutrinar: . sentia morder-me a consciência. recebendo a absolvição no confessionário e ingerindo a sagrada partícula. Os escravos eram igualmente nossos irmãos. Em minha fazenda nunca vieram ao terreiro das visitas. a religião nos ensinaria o contrário. Perante o Pai Eterno. nosso virtuoso sacerdote. senão para cumprir minhas ordens. Pensa. Ouvindo-me. Se assim não fora. que me poderia encher de escrúpulos no trato com essa espécie de criaturas? Não tenha dúvida. estava novamente em dia com todos os meus deveres para com o mundo e com Deus. Padre Amâncio. Os leitores eram excessivamente escrupulosos e eu não podia hesitar nas ordens de cada dia. então. quanto mais em nossas fazendas? Quem haveria de plantar a terra. porque. essa razão de paz espiritual era falsa. outras vezes. Pois se havia cativos em casa de bispos.187 Nosso Lar vida calma. disse-me na confissão que os africanos são os piores entes do mundo. irritada: . filhos de Satã! Chego a admirar-me da paciência com que tolerei . quando o padre Amâncio visitava a fazenda e. A essa altura.Isso é que não! Escravo é escravo. senão eles? E creia que sempre lhes concedi minhas senzalas como verdadeira honra!. por questões de harmonia doméstica. Nessas ocasiões. ela bateu o pé autoritariamente e falou.. depois da comunhão. mas confessava-me todos os meses. de quando em quando era necessário aplicar disciplinas. escandalizado com a exposição..

e quando padre Amâncio trouxe a nova da cidade. e a servir a gente dessa laia. sendo eu obrigada a sofrer-lhes a presença até hoje. você esqueceu que estamos providenciando alívio a doentes e perturbados? Que proveito lhe advém de semelhantes informações? Os dementes falam de maneira incessante. pode não estar menos louco.É possível que meus sobrinhos tenham esquecido de pagar as missas. libertando esses bandidos. vendo esses criminosos em liberdade? Certo. Achava-me adoentada.Em maio de 1888. A interlocutora fixou o olhar embaciado no horizonte e falou: . Aquelas palavras foram ditas com tanta bondade que corei de vergonha. eles desejariam escravizar-nos por sua vez. por me haver chocado a determinação da Princesa. . piorei de súbito. Como poderíamos ficar no mundo. mas Narcisa aproximou-se e disse-me.. bondosa: . fornecendo-lhe idéias novas de fraternidade e fé. gastando interesse espiritual.E quando veio? .exclamou a enfermeira delicadamente -. mas parece que os demônios são também africanos e viviam à espreita. Decorreram muitos anos. . sem coragem de a elas responder. e quem os ouve. havia muitos dias. E devo declarar que saí quase inesperadamente do corpo. mas lembro-me perfeitamente.André.188 Nosso Lar essa gente na Terra. atendamos aos irmãos perturbados. . convocando-lhe os raciocínios à zona superior.Não se impressione . Experimentei estranha sensação de espanto. . entretanto.perguntei. deixei a disposição em testamento. Ia responder. meu amigo. não seria melhor morrer? Recordo que me confessei com dificuldade. recebi as palavras de conforto do nosso sacerdote..

Você. para que conduza mais uma irmã aos leitos de tratamento. porém. ..Não. não digo isso. vá ao departamento feminino e chame Nemésia. Narcisa. .perguntou a velhota. sem afetação: . não imagina o que tenho sofrido. Já sei tudo que lhe ocorreu de amargo e doloroso.Não comente o mal. minha amiga. em meu nome. Zenóbio.. A pobre criatura ia continuar repetindo a mesma história. mas Narcisa.esclareceu a recém-chegada do Umbral -. atalhou: . demonstrando suas excelentes qualidades de psicóloga. E. pensando que vou atendê-la. justamente . dirigiu-se a um dos auxiliares.. no mesmo instante. Descanse.Justamente. melindrada. creio.Mas. porém. seu esforço purgatorial foi muito longo. a senhora é de opinião que estou nesse número? . torturada pelos demônios. que deve estar muito cansada.189 Nosso Lar . ensinando-me como proceder em tais circunstâncias. tomou expressão de fraternidade carinhosa e exclamou: ..

Não podia fingir naquele ambiente novo. . Quis cumprimentá-lo. Voltei-me surpreendido e reconheci. de todos os bens. o velho Silveira.190 Nosso Lar 35 ENCONTRO SINGULAR Guardavam-se petrechos da excursão e recolhiam-se animais de serviço. quando a voz de alguém se fez ouvir carinhosamente. mas a lembrança do passado paralisava-me de súbito. acrescentando: . como negociante inflexível.. onde a sinceridade transparecia de todos os semblantes. então. compreendendo a situação. veio em meu socorro.Francamente. despojara. um dia. a meu lado: .André! você aqui? Muito bem! Que agradável surpresa!. no Samaritano que assim falava. pessoa de meu conhecimento. ignorava que você tivesse deixado o corpo e estava longe de pensar que o encontraria em "Nosso Lar". corresponder ao gesto afetuoso. Foi o próprio Silveira que. a quem meu pai. Justo acanhamento dominou-me..

quebrar as normas e precedentes do seu estabelecimento comercial. quando foi a nossa casa. o quadro vivo. As necessidades não eram reduzidas e os tratamentos exigiam soma considerável. frisando. levando o lenço aos olhos. esclarecer a situação. no tocante aos débitos reconhecidos. Lembrei os olhares de simpatia que minha mãe lançou à desventurada postulante afogada em lágrimas. A pobrezinha chorava. implorava concessões justas. eu revia mentalmente o clichê do pretérito. Naquele instante. se encontravam em piores condições que o Silveira. a seu ver.191 Nosso Lar Identificando-lhe a amabilidade espontânea. Humilhava-se. porém. O marido estava acamado. como a rogar entendimento e socorro no coração de outra mulher. não via outra alternativa que a de cumprir religiosamente os dispositivos legais. Pedia mora. Meu genitor. e pediu a meu pai esquecesse os documentos assinados. dirigindo olhares doridos à minha mãe. havia muito. de novo. eu desejava pedir desculpas pelo procedimento de meu pai. mas não o consegui. A memória exibia. Recordei que minha mãe intercedeu. que ajudaria o cliente e amigo. Quis ensaiar algumas explicações relativamente ao passado. murmurando palavras de reconhecimento. de outro modo. afirmava. não podia compreender a condição do retalhista. Manteve-se irredutível. quando a pobre mulher se despediu. repreendeu . No fundo. As promissórias teriam efeito legal. comentando a situação de outros clientes que. que. Meu pai guardara profunda indiferença a todas as súplicas. atenciosa. agravando-se-lhes a penúria com a enfermidade de dois filhinhos. levando-o ao extremo de uma falência desastrosa. e. abracei-o comovido. porém. habituado a transações de vulto e favorecido pela sorte. Parecia-me ouvir ainda a senhora Silveira. abstendo-se de qualquer ação judicial. E consolava a esposa aflita. Não podia. suplicante. Declarou que lamentava as ocorrências.

o instante em que o próprio piano da senhorita Silveira foi retirado da residência para satisfazer às últimas exigências do credor implacável. até ao fim. Muito jovem ainda. também encorajara meu pai a consumar o iníquo atentado. Via.192 Nosso Lar minha mãe austeramente. E enquanto mal dissimulava o desapontamento. Não queria saber se outros sofriam. Relembrava. proibindo-lhe qualquer intromissão na esfera dos negócios comerciais. apesar do imenso desejo. aumentava o meu pejo. os Silveiras haviam procurado recanto humilde no Interior. procurou afastar-se. E. Queria desculpar-me e todavia não encontrava frases justas. Silveira identificou-me o constrangimento e apiedando-se. do meu estado íntimo. sorrindo. reconstituíra todo o passado de sombras. . porque. nada mais. certo. Essas reminiscências alinhavam-se-me no cérebro com a rapidez de segundos. considerava minha mãe excessivamente sentimentalista e induzira-o a prosseguir na ação. Abraçou-me cavalheirescamente e voltou ao trabalho ativo. os direitos de minha casa. a vaidade apossara-se de mim. Num momento. tinha sido inexorável. na ocasião. não conseguira ainda tal satisfação. a evidenciar espontâneo carinho. apenas. o Silveira. chamava-me à realidade: .Tem visitado o "velho"? Aquela pergunta. perfeitamente. Derrotados na luta. que. Nunca mais tivera noticias daquela família. Inútil qualquer argumentação materna. A pobre família houve de arcar com a ruína financeira completa. amargando o desastre financeiro em extrema penúria. Esclareci que. não conseguia enxergar as necessidades alheias. nesse ponto. talvez. nos devia odiar.

que nos renova a oportunidade de restabelecer a simpatia interrompida.Que quer dizer? . . quaisquer que sejam. procurei Narcisa. da corrente espiritual. Ela ouviu-me com paciência e observou carinhosamente: .indaguei. recompondo os elos quebrados. o belo ensejo? . não perca a oportunidade de se fazer amigo. Jesus nos concede quanto se faça necessário ao êxito. rogando perdoasse a meu pai. Tome a iniciativa. Expus-lhe a ocorrência. hoje. tornando-se mais categórica no ensinamento. identificando-se como antigo ofensor. Sei.193 Nosso Lar Muito desconcertado. meu caro. Não mais vacilei. há tempos. Recorde o Evangelho e vá buscar o tesouro da reconciliação. representa honra legítima para a alma. . Já tive a felicidade de encontrar por aqui o maior número das pessoas que ofendi no mundo. as ofensas e os erros cometidos. Aproveite o momento. Vá. Vi-me. Já que você pode examinar-se a si mesmo com bastante luz de entendimento.Aproveitou. Notando-me a indecisão. perguntou: . você.Desculpou-se com o Silveira? Olhe que é grande felicidade reconhecer os próprios erros. ansioso de conselhos. que isso é uma bênção do Senhor. e a mim. detalhando os sucessos terrenos. E. Narcisa acrescentou: .Não estranhe o fato. nas mesmas condições. Empreender ações dignas. porque o Silveira é ocupadíssimo e talvez não se ofereça tão cedo outra oportunidade.Não tema insucessos. Toda vez que oferecemos raciocínio e sentimento ao bem. Corri ao encontro de Silveira e falei-lhe abertamente. e abrace-o de outra maneira.

poderia você acreditar que vivi isento de erros? Além disso. nós estávamos cegos. benfeitores. sim. quero ter a satisfação de visitar seu pai.Não perca tempo com isso. Trabalhemos com o Senhor. os meus olhos úmidos. abençoadas lições de esforço pessoal. num dos escaninhos escuros do coração. Devemos-lhe. Pareceu-me que. meus filhos e eu. Silveira. afagou-me paternalmente e rematou: . . Breve. Abracei-o.Você compreende acentuei -. seu pai foi meu verdadeiro instrutor. não me deixou terminar: . dificilmente pode o homem afastar-se do mau caminho. Silveira. se me acendera divina luz para sempre. em silêncio. Em tal estado. que seria de nós no tocante ao progresso do espírito? Renovamos. Nossos adversários não são propriamente inimigos e.194 Nosso Lar . nada conseguíamos vislumbrar. senão o interesse próprio. todos os velhos conceitos da vida humana. emocionado. comovidíssimo. então. André. E fixando. Sem aquela atitude enérgica que nos subtraiu as possibilidades materiais. experimentando alegria nova em minhalma.Ora. Quando o dinheiro se alia à vaidade. Não se entregue a lembranças tristes. quem haverá isento de faltas? Acaso. junto de você. aqui. reconhecendo o infinito da vida.

Pela manhã.Sentimo-nos profundamente satisfeitos . . e sua estréia no trabalho é motivo de justa alegria em nosso círculo doméstico. .exclamou ele. estimulou-me com palavras animadoras. .195 Nosso Lar 36 O SONHO Prosseguiram os serviços. acompanhei-o em espírito. quando a senhora Laura e Lísias chegaram e me abraçaram. durante a noite. perturbados reclamando dedicação. André! .disse a generosa senhora. Disputei a satisfação de levar a notícia ao Ministro Clarêncio. contente . aplicando-os aos necessitados de toda sorte. Ao cair da noite. mais por generosidade que por outro motivo. que me recomendou cumprimentasse a você em nome dele. incessantemente.vou recomendá-lo ao Ministro Genésio e. Enfermos exigindo cuidado. receberá bônus em dobro. sorrindo -. regressou Tobias às Câmaras e.Muito bem. pelos serviços iniciais. já me sentia integrado no mecanismo dos passes. Ensaiava palavras de reconhecimento.

. porém.. então. Desembarquei com precipitação verdadeiramente infantil. Fui conduzido. não obstante os movimentos de ascensão.. onde alguém me chamou com especial carinho: . extasiado embora com as magnificências da paisagem. deixavame conduzir sem exclamações de qualquer natureza. Parecia-me que a embarcação seguia célere. A "proveitosa fadiga" dos que cumprem o dever não me deu ensejo a qualquer vigília desagradável. um homem silencioso sustinha o leme. abraçava minha mãe em transbordamentos de júbilo. Tobias pós à minha disposição um apartamento de repouso. por ela. Pediram-me relatório verbal de impressões e eu não cabia em mim de contente. Decorridos minutos. sensações de leveza invadiram-me a alma toda e tive a impressão de ser arrebatado em pequenino barco. Narcisa preparou-me o leito com desvelos de irmã. vi-me à frente de um porto maravilhoso. onde as flores eram dotadas de singular propriedade . reservavam-se para depois.. A meu lado.196 Nosso Lar Trocaram observações afetuosas com Tobias e Narcisa. Reconheceria aquela voz entre milhares.a . Minhas alegrias sublimes. a prodigioso bosque. e aconselhou-me algum descanso. E qual criança que não pode enumerar nem definir as belezas do caminho.André!. rumando a regiões desconhecidas. ao lado das Câmaras de Retificação. André!. sentia grande necessidade do sono. Para onde me dirigia? Impossível responder. Daí a instantes. orei ao Senhor da Vida agradecendo-lhe a bênção de ter sido útil. Recolhido ao quarto confortável e espaçoso. De fato. Nada obstante o convite amável da genitora de Lísias para que voltasse a casa por descansar. Num momento.

demoram em atitudes contraproducentes. minha mãe esclareceu bondosamente: . após deixarem a Terra. no teu primeiro dia de serviço útil. Eu sabia. formosas capacidades a simples expressões parasitárias. converter toda a oportunidade da vida em motivo de atenção a Deus. a promessa evangélica aos que vivem no desespero. Minhas impressões de felicidade e paz eram inexcedíveis. e tinha absoluta consciência daquela movimentação em plano diverso.. outros. que deixara o veículo inferior no apartamento das Câmaras de Retificação. revelando a festa permanente do perfume e da cor.Muito roguei a Jesus me permitisse a sublime satisfação de ter-te a meu lado. igualmente. meu filho. É indispensável. Alguns se dizem desencorajados pela solidão. aqui. o gesto de amor ao desiludido.197 Nosso Lar de reter a luz. são serviços divinos que nunca ficarão deslembrados na Casa de Nosso Pai. desse modo. declaram-se em desacordo com o meio a que foram chamados para servir ao Senhor. dessa maneira. sob as grandes árvores sussurrantes ao vento. meu filho. Numerosos companheiros nossos. o trabalho é tônico divino para o coração. aguardando milagres que jamais se verificarão. Como vês. Tapetes dourados e luminosos estendiam-se. A fisionomia de minha genitora estava mais bela que nunca. perfeitamente. Seus olhos de madona pareciam irradiar luminosidade . André. Nos círculos inferiores. Reduzem-se. em "Nosso Lar". o prato de sopa ao faminto. que o Senhor observa e registra a nosso favor.. A riqueza de emoções. o olhar de compreensão ao culpado. Após dirigir-me sagrados incentivos espirituais. Minhas noções de espaço e tempo eram exatas. constituem bênçãos de trabalho espiritual. afirmava-se cada vez mais intensa. o bálsamo ao leproso. como sucedia na Terra. O sonho não era propriamente qual se verifica na Terra. por sua vez. a esperança ao aflito.

O bônus . vivem almas inquietas. muito abaixo dos vermes da Terra. suas mãos transmitiam-me.O Evangelho de Jesus. que desejei aproveitar para dizer alguma coisa. a remuneração de serviço do bônus-hora. em tolerância construtiva. Ela endereçou-me carinhoso olhar. desde o mais lúcido embaixador de sua bondade. Aprendamos a concretizar semelhante princípio. sublime embora. a par de caridosas emoções.198 Nosso Lar sublime. espiritualmente. Sobretudo. como nas esferas do globo. Trabalha. na maioria das colônias espirituais. jamais esqueças dar de ti mesmo. que todos os milionários da Terra congregados no serviço. Em todas as nossas colônias espirituais. teus esforços em "Nosso Lar" e seguir as mágoas de teu pai nas zonas umbralinas. fluidos criadores de energias novas. Dá sempre. A prática do bem exterior é um ensinamento e um apelo. onde identifiquei. Minha mãe fez uma pausa. da caridade material. filho meu.Conhecemos. ansiosas de novidades e distração. em amor fraternal e divina compreensão. Sempre que possas. mas não pude. meu filho. meu André . aqui. . nos gestos de ternura. olvida o entretenimento e busca o serviço útil. lembra-nos que há maior alegria em dar que em receber. Jesus deu mais de si para o engrandecimento dos homens. compreendendo a situação e continuou: . Lágrimas de emoção embargavam-me a voz. no esforço diário a que formos conduzidos pela nossa própria felicidade. porém. Deus nos vê e acompanha a todos. à noite passada. Assim como eu. indigente como sou. em espírito. Não te envergonhes de amparar os chaguentos e esclarecer os loucos que penetrem as Câmaras de Retificação.continuou amorosamente -. posso ver. teus serviços. aos últimos seres da Criação. para que cheguemos à prática do bem interior. Nossa base de compensação une dois fatores essenciais. fazendo o bem.

há correspondência direta entre o Servidor e as Forças Divinas da Criação. na Terra e noutros mundos. no progresso comum. É por isso. perdi a consciência de mim mesmo. Minha mãe calou-se enquanto eu enxugava os olhos. mas o critério quanto ao valor da hora pertence exclusivamente a Deus. no concernente ao conteúdo espiritual da hora. Deus também. sofrem contínuas modificações todos os dias. a que o Senhor concedeu a oportunidade de cooperar nas Obras Divinas da Vida. como acontece na Terra. Qual o menino que adormece após a lição. Foi então que ela me tomou nos braços. A ninguém esquece e reserva-se o direito de entender-se com o trabalhador. todo valor de tempo interessa à personalidade eterna. em marcha para a glória de Deus. assim como concede à criatura o privilégio de ser pai ou mãe. experimentando vigorosas sensações de alegria. Toda compensação exterior afeta a personalidade em experiência. É por essa razão que o Altíssimo concede sabedoria ao que gasta tempo em aprender e dá mais vida e mais alegria aos que sabem renunciar!. ou de remunerar alguém que se encontre em nossas realizações. pagamentos. Tabelas. meu filho. que nossas atividades experimentais. por algum tempo.. é Administrador vigilante e Pai devotadíssimo. todo pai consciente está cheio de amor desvelado. são modalidades de experimentação dos administradores. quadros. a partir da esfera carnal. aquela que permanecerá sempre em nossos círculos de vida. . mas.. para despertar mais tarde nas Câmaras de Retificação.199 Nosso Lar representa a possibilidade de receber alguma coisa de nossos irmãos em luta. Na bonificação exterior pode haver muitos erros de nossa personalidade falível. Todo administrador sincero é cioso dos serviços que lhe competem. acariciando-me desveladamente. considerando nossa posição de criaturas em labores de evolução. mas. quanto ao verdadeiro proveito no tempo de serviço. André.

Desejo-lhe excelente proveito. grande era o meu interesse pela conferência da Ministra Veneranda. Os instrutores. logo após o despertar. Ciente de que necessitaria permissão. rematou: . entre servidores e abrigados dos Ministérios da Regeneração e do Auxílio. desse modo. autorizado a comparecer com os ouvintes que se contam por centenas.Essas aulas . . aqueles esclarecimentos sobre o bônus-hora me haviam suscitado certas interrogações de vulto. aqui. não podem perder tempo. A princípio. a contagem do . suas belas observações relativas à prática do bem.são ouvidas somente pelos espíritos sinceramente interessados. ou humano. Transcorreu o novo dia em serviço ativo. Num gesto afetuoso de estímulo.200 Nosso Lar 37 A PRELEÇÃO DA MINISTRA No curso de trabalhos do dia imediato. Como poderia estar a compensação da hora afeta a Deus? Não era atribuição do administrador espiritual. entendi-me com Tobias a respeito. O contacto de minha mãe. Fica você. enchiam-me o espírito de sublime conforto.disse ele .

transformam-se em celeiros de bênçãos do Eterno. Nos primeiros. brilhando à luz de belos candelabros. conforme o emprego da oportunidade. provando que gastaram tempo sem empregar dedicação espiritual. Chegada a hora destinada à preleção da Ministra. dela se retiram com a mesma incipiência da primeira hora. Na disposição comum da grande assembléia. sendo justo. Essa contribuição de esclarecimento auxiliou-me a ponderar o valor do tempo. Há servidores que. dela saem com a mesma ignorância da idade infantil. igualmente.201 Nosso Lar tempo? Tobias. dirigi-me. que se realizou após a oração vespertina. só mesmo as Forças Divinas podem determinar com exatidão. para o grande salão em plena natureza. notei que vinte entidades se assentavam em local destacado entre nós outros e a eminência florida onde se via a poltrona da instrutora. Aos administradores. depois de quarenta anos de atividade especial. onde grandes bancos de relva nos acolheram confortadoramente. em geral. ou segundo suas obras. quanto ao valor essencial do aproveitamento justo. mas.que basta lembrar as horas dos homens bons e dos maus. nos segundos. Verdadeira maravilha o recinto verde. instituírem elementos de respeito e consideração ao mérito do trabalhador. atingindo cem anos de existência. exalavam delicado perfume. Cada filho acerta contas com o Pai. Calculei a assistência em mais de mil pessoas. Flores variadas. impende a obrigação de contar o tempo de serviços. Tanto é precioso o conceito de sua mamãe . como se fossem entes malditos. assim como existem homens que.disse Tobias . em companhia de Narcisa e Salústio. em todos os sentidos. esclarecera-me a inteligência faminta de luz. em látegos de tormento e remorso. . porém.

sem base justa. como a informar-se das necessidades dominantes . com grave perda de tempo para o conjunto. .Não pode você figurar entre eles? . conforme a cultura já adquirida. sem afetação. Há.Estamos na assembléia de ouvintes. mas.aduzi. o semblante de nobre senhora na idade madura. tendo em vista o momento adequado.prosseguiu a enfermeira explicando – determinou essa medida. .O Governador . Aqueles irmãos.indaguei. o que contrastava com o nome. Veneranda espalhou. que Narcisa informou serem Ministras da Comunicação. poderão ser esclarecidos ou aproveitados.202 Nosso Lar A uma pergunta minha. por nossa vez. Mal acabara de falar e eis que a Ministra Veneranda penetrou no recinto em companhia de duas senhoras de porte distinto. posso sentar-me ali somente nas noites que a instrutora verse o tratamento dos espíritos perturbados. verdadeiramente úteis.Não. irmãos que ali permanecem no trato de várias teses. com a simples presença. porém. . companheiros que podem interpelar a Ministra. Não mostrava a fisionomia de uma velha. sim. nas aulas e palestras de todos os Ministros. que se conservam em lugar de realce. enorme alegria em todos os semblantes. Depois de palestrar ligeiramente com os vinte companheiros. são os mais adiantados na matéria de hoje. Narcisa explicou: .Muito curioso o processo . Adquiriram esse direito pela aplicação ao assunto. cheia de simplicidade. . Quaisquer dúvidas. condição que poderemos alcançar também. quaisquer pontos de vista. Por enquanto. a fim de que os trabalhos não se convertessem em desregramento da opinião pessoal.

mas aqui estou para conversar com vocês. mas não olvidemos que somos milhões de almas dentro do Universo. encontraram aqui a habitação. nas atividades terrenas. não posso aproveitar a nossa reunião para discursos de longa tiragem verbal. somente por admitir o poder do pensamento. entre nós. algo insubmissas ainda às leis universais. na carne terrestre. mas milhões de entidades a viverem nos caprichosos "mundos inferiores" do nosso "eu". nos círculos do globo. Todavia. Em geral. "Encontram-se. Não somos. Os grandes instrutores da humanidade carnal ensinam princípios divinos. comparáveis aos irmãos mais velhos e mais sábios. representa período demasiadamente curto para aspirarmos à . "Será crível que. não deve causar surpresa a ninguém. recebemos notícias dessas leis sem nos submetermos a elas. e tomamos conhecimento dessas verdades sem lhes consagrarmos nossas vidas. Não haviam aprendido que o pensamento é a linguagem universal? Não foram informados de que a criação mental é quase tudo em nossa vida? São numerosos os irmãos que formulam semelhantes perguntas. contudo. com relação ao tema da noite. até agora (referindo-nos à existência humana). algumas centenas de ouvintes que se surpreendem com a nossa esfera cheia de formas análogas às do planeta. O pensamento é a base das relações espirituais dos seres entre si. porém. ficasse o homem liberto de toda a condição inferior? Impossível! "Uma existência secular.203 Nosso Lar na assembléia em geral. Não podemos esquecer que temos vivido. em velhos círculos de antagonismo vibratório. o utensílio e a linguagem terrestres. no momento. relacionando algumas observações sobre o pensamento. começou por dizer: . próximos do Divino. por enquanto."Como sempre. expõem verdades eternas e profundas. Esta realidade.

nas mentes evolvidas. no orvalho protetor ou na chuva benéfica. Ensina a Bíblia que o próprio Senhor da Vida não estacionou no Verbo e continuou o trabalho criativo na Ação. transformam-se homens em anjos. um princípio elevado obedecerá à mesma lei. em milênios sucessivos. "O pensamento é força viva. a caminho do céu ou se fazem gênios diabólicos. a Causa e os Efeitos. nesse particular. veiculando vigorosos fluidos vitais. cada espírito é compelido a manter e nutrir as criações que lhe são peculiares. "Somos admitidos aos cursos de espiritualização nas diversas escolas religiosas do mundo. conservemo-la com os detritos da terra e fá-la-emos habitação de micróbios destruidores. entre os desencarnados e encarnados. atenderá ao dever apenas com palavras. "Apreendem vocês a importância disso? Certo. Ninguém. Informamo-nos a respeito da força mental no aprendizado mundano. Uma idéia criminosa produzirá gerações mentais da mesma natureza. nas criações mentais destrutivas ou prejudiciais a nós mesmos. tem sido empregada por nós. a água volta purificada. Nele. nas mesmas condições.204 Nosso Lar posição de cooperadores essencialmente divinos. basta o intercâmbio mental sem necessidade das formas. mas não admitimos nossa milenária viciação no desvio dessa força. Recorramos a símbolo mais simples. . a caminho do inferno. Após elevar-se às alturas. em toda parte. "Ora. é coisa sabida que um homem é obrigado a alimentar os próprios filhos. "Todos sabemos que o pensamento é força essencial. no Lar Universal. mas esquecemos que toda a nossa energia. é atmosfera criadora que envolve o Pai e os filhos. todavia. mas com freqüência agimos exclusivamente no terreno das afirmativas verbais.

nos maravilhosos planos da intuição. portanto. Sem qualquer solenidade nos gestos para evidenciar o término da conversação. Compreendamos a grandiosidade das leis do pensamento e submetamo-nos a elas. revelando amor e compreensão. findou a palestra com uma pergunta graciosa. prescindindo de forma verbalista especial. a Ministra sorriu para o auditório e perguntou: . e para que a maioria volte à Terra em serviços redentores.Quem deseja aproveitar? Logo após. porém. será sempre a do receptor. Veneranda conversou ainda por muito tempo. pensamento a pensamento. delicadeza e sabedoria." Depois de longa pausa. em núcleos insulados. Não estamos. Dentro desse princípio. Quando vi os companheiros levantarem-se para as despedidas. ao som da música habitual. que. como cidade espiritual de transição.205 Nosso Lar e é justo destacar que o pensamento em si é a base de todas as mensagens silenciosas da idéia. entre os seres de toda espécie. indaguei de Narcisa. para que alguns poucos se preparem à ascensão. e somos compelidos a prosseguir nas construções transitórias da Terra. suave música encheu o recinto de cariciosas melodias. o espírito que haja vivido exclusivamente em França poderá comunicar-se no Brasil. nesse caso. a fim de regressar aos círculos planetários com maior bagagem evolutiva. nas esferas de absoluta pureza mental. é uma bênção a nós concedida por "acréscimo de misericórdia". onde todas as criaturas têm afinidades entre si. "Nosso Lar". surpreendido: . desde hoje. Afinamo-nos uns com os outros. mas isso também exige a afinidade pura.

mas ninguém pode saber quando e como terminarão.206 Nosso Lar . Ela costuma afirmar que as preleções evangélicas começaram com Jesus. .A Ministra Veneranda é sempre assim.Que é isso? Acabou a reunião? A enfermeira bondosa esclareceu. sorridente: . Finaliza a conversação em meio do nosso maior interesse.

primaram em gentilezas. Cada casa. onde me aguardavam belos momentos de alegria e aprendizado. as glicínias e os lírios contavam-se por centenas. Logo de entrada. parecia especializar-se na cultura de determinadas flores. na residência de Tobias. as hortênsias inumeráveis desabrochavam nos verdes lençóis de violetas. fui fraternalmente levado à residência dele. examinamos volumes maravilhosos na encadernação e no conteúdo espiritual. A senhora Hilda convidou-me a visitar o jardim. alegrou-me Tobias com agradável surpresa. uma já idosa e outra bordejando a madureza.207 Nosso Lar 38 O CASO TOBIAS No terceiro dia de trabalho. apresentavam no alto . Reunidos na formosa biblioteca de Tobias. para que pudesse observar. ao entardecer. de perto. Em casa de Lísias. Findo o serviço. Belos caramanchões de árvores delicadas. afáveis e delicadas. alguns caramanchões de caprichosos formatos. em "Nosso Lar". irmã. Luciana e Hilda. de vez que outros se incumbiram da assistência noturna. apresentou-me duas senhoras. Esclareceu que esta era sua esposa e aquela. recordando o bambu ainda novo.

Encantado com o ambiente simples.Desculpe o nosso Tobias. prosseguiu num gesto de bom humor: . à guisa de enormes laços floridos. . Comentávamos a beleza da paisagem geral. formando gracioso teto. o dono da casa continuou: .Isso mesmo . não sabia como agradecer ao generoso anfitrião.murmurei extremamente confundido -. indicando as companheiras de sala..Creio nada precisar esclarecer quanto às esposas. . e. Tobias acrescentou. na verde cabeleira das árvores. Embalsamava-se a atmosfera de inebriante perfume.Aliás. sorridente: . a senhora Hilda tomou a palavra. . é ainda novato em nosso Ministério e talvez desconheça o meu caso familiar. Ele está sempre disposto a falar do passado. a bem dizer.Ah! sim . Não sabia traduzir minha admiração. A certa altura da palestra amável.respondeu tranqüilo. quer dizer que as senhoras Hilda e Luciana compartilharam das suas experiências na Terra. irmão André. Nesse ínterim. dirigindo-se a mim: . quando Luciana nos chamou ao interior. cuja especialidade é unir frondes diversas. vista daquele ângulo do Ministério da Regeneração. cheio de notas de fraternidade sincera. observando-me a silenciosa interpelação. Sorriam ao mesmo tempo as duas senhoras. temos numerosos núcleos nas mesmas condições. para leve refeição.. quando nos encontramos com alguma visita de recém-chegados da Terra..208 Nosso Lar uma trepadeira interessante. E..O meu amigo. Imagine que fui casado duas vezes.

Muitas vezes já lembrei. Os laços da alma prosseguem.objetei -. também. que ainda não nos achamos na esfera dos anjos e. com interesse. vencer o monstro do ciúme inferior. o problema interessa profundamente a todos nós. Ora. se ainda não somos nem mesmo fraternos uns com os outros? Claro que existem caminheiros de ânimo forte. Como proceder? Condenar o homem ou a mulher que se casaram mais de uma vez? Encontraríamos. bondoso -. . nos círculos do planeta. Como resolver tão alta questão afetiva. a passagem evangélica em que o Mestre nos promete a vida dos anjos. dos homens desencarnados.Muito simplesmente.aduziu Tobias bem-humorado -. pelo menos. . o caminho até o anjo representa imensa distância a percorrer. como podemos aspirar à companhia de seres angélicos.209 Nosso Lar . considerando a espiritualidade eterna? Sabemos que a morte do corpo apenas transforma sem destruir. como solucionar aqui semelhante situação? . com toda a nossa veneração ao Senhor . porém. Assim.Mas. Em .De fato . entre nós outros. Tobias sorriu e considerou: . através do Infinito. reconhecemos que entre o irracional e o homem há enorme série gradativa de posições. sim. milhões de criaturas nessas condições. que se revelam superiores a todos os obstáculos da senda.Forçoso é reconhecer.atalhou o anfitrião. mas a maioria não prescinde de pontes ou do socorro de guardiães caridosos. Há milhões de pessoas. por supremo esforço da vontade.perguntei. alguma expressão de fraternidade real? . conquistando.Pois não será motivo de júbilo . em estado de segundas núpcias. todavia. quando se referiu ao casamento na Eternidade.

porém. surda a todo esclarecimento que os amigos espirituais me enviavam. ao passo que eu me via sem forças para sufocar a própria angústia. acentuou: . que se mantinha silenciosa. como a galinha ao lado dos pintainhos.Tobias e eu nos casamos na Terra. acrescentando: . devemos ao espírito de amor e renúncia de nossa Hilda. Creio desnecessário descrever a felicidade de duas almas que se unem e se amam verdadeiramente no matrimônio. que os pequeninos reclamavam assistência maternal. Tobias chorava sem remédio.210 Nosso Lar vista dessa verdade. Buscarei sumariar nossa história. em obediência a sagradas afinidades espirituais. quando ainda muito jovens. que parecia enciumada de nossa ventura. Queria lutar. reconhecendo-se que o verdadeiro casamento é de almas e essa união ninguém poderá quebrantar. Nesse instante. indescritível. então. que tudo isso. Não tive remédio senão continuar agarrada ao marido e ao casal de filhinhos. no entanto. subtraiu-me do mundo. depois de fixar um gesto de narradora amável: . E continuou. A morte. Reconhecia que o esposo necessitava reorganizar o ambiente doméstico. por intuição. Nosso tormento foi.Calem-se. todavia. Pesados dias de Umbral abateram-se sobre mim. Minha cunhada solteira não tolerava as . por ocasião do nascimento do segundo filhinho. a fim de que nosso hóspede conheça meu doloroso aprendizado. os casos dessa natureza são resolvidos nos alicerces da fraternidade legítima. Nada de qualidades que não possuo. A senhora Tobias. Luciana. Tornava-se a situação francamente insuportável.Convém explicar. felicidade e compreensão. demonstrando humildade digna. interveio.

Desde essa época. suporta a bílis do seu marido e não pode assumir o lugar provisório de companheira de lutas. contrariando meus caprichos. em nosso antigo lar terrestre. minha pobre!. meu amigo. Ah! se soubesse como me revoltei! Semelhava-me a uma loba ferida.211 Nosso Lar crianças e a cozinheira apenas fingia dedicação. igualmente. Consagrei-me ao estudo sério. Trabalhei. desencarnada havia muitos anos. então. desposou Luciana. Mais tarde. enchendo-me de surpresa. como noutro tempo. decorrido um ano da nova situação. em lágrimas. ao melhoramento moral de mim mesma. Foi aí que Jesus me concedeu a visita providencial de minha avó materna. intensamente. Não pôde Tobias adiar a solução justa e."Que é isso. e perguntou-me lacrimosa: . então. é jardineira do seu jardim. a nossa história. funciona como criada de sua casa. que veio também ter conosco para nossa completa alegria. vindo em companhia dela para os serviços de "Nosso Lar". Minha ignorância deu até para lutar com a pobrezinha. .. busquei ajudar a todos.. sentou-se a meu lado.. que passou a me pertencer. reunindo-se a mim. pôs-me em seguida ao colo." Abracei-me. Chegou ela como quem nada desejava. E aí tem. tentando aniquilá-la. ao lado dele? É assim que o seu coração agradece os benefícios divinos e remunera aqueles que o servem? Quer você uma escrava e despreza uma irmã? Hilda! Hilda! onde está a religião do Crucificado que você aprendeu? Oh! minha pobre neta. Duas amas jovens pautavam toda a conduta pessoal pela insensatez. tive em Luciana mais uma filha. com a velhinha santa e abandonei o antigo ambiente doméstico. minha neta? Que papel é o seu na vida? Você é leoa ou alma consciente de Deus? Pois nossa irmã Luciana serve de mãe a seus filhos. Constituiu Tobias uma família nova. pelos sagrados laços espirituais. sem distinção. voltou ele.. acompanhado de Luciana.

quanto se tem sacrificado. com todas as probabilidades. de fraternidade. Aliás. foi a própria interessada que explicou: . Foi o que me custou a compreender. qual a posição de nossa irmã Luciana neste caso? Antes.E assim construímos nosso novo lar.Não disse ela. é lógico que. já devia estar certa de que. ensinando-me com exemplos. .acrescentou o dono da casa. porém. alma com alma.212 Nosso Lar Luciana. viúvo. atencioso -. embora todos sejam sagrados.Mas. desentendimento. acariciando-lhe a destra. perdoando-me.Mas como se processa o casamento aqui? . representando os demais. filha? . esqueci a lição de bom-tom e interroguei: . no dia em que Hilda me beijou. O matrimônio espiritual realiza-se. . ou então. de dever. na base da fraternidade legítima . aprendi que há casamento de amor. senti que meu coração se libertara desse monstro que é o ciúme inferior. contudo.Quando desposei Tobias. que os cônjuges espirituais respondessem. meu casamento seria uma união fraternal. tomou a palavra e observou: . graças a Jesus e a ela.Mas. para ser mais explícito -. tristeza. simples conciliações indispensáveis à solução de necessidades ou processos retificadores. porém. Aproveitando o ligeiro silêncio que se fizera.Pela combinação vibratória . se os consortes padecem inquietação. e. indaguei: . acima de tudo. de provação. Incapaz de sopitar a curiosidade. pela afinidade máxima ou completa.Que dizes. Luciana sorriu e ajuntou: . .perguntou a senhora Tobias.esclareceu Tobias.

regressando ao círculo carnal. mas não integrados no matrimônio espiritual. Nesse instante.Fique tranqüilo.213 Nosso Lar estão unidos fisicamente. No ano próximo. encerrar a palestra. não encontrava palavras que revelassem ausência de impertinente indiscrição. para atender a um caso grave nas Câmaras de Retificação. A senhora Hilda. Luciana está em pleno noivado espiritual. Tobias foi chamado à pressa. ela seguirá igualmente ao seu encontro. Queria perguntar mais alguma coisa. Seu nobre companheiro de muitas etapas terrenas precedeu-a há alguns anos. desse modo. contudo. Creio que o momento feliz será em São Paulo. Era preciso. compreendeu-me o pensamento e explicou: . Sorrimos todos alegremente. entretanto. .

não seria capaz de aborrecer tanto a minha querida Zélia e jamais aceitaria tal imposição por parte de minha esposa. . Aquelas observações da casa de Tobias torturavam-me o cérebro. Aquela casa. no dia imediato. imitando-lhe a conduta? Admitia que não. Afinal de contas. num momento de folga. Teria coragem de proceder como Tobias. preocupava-me como assunto obsidente. deliberei visitar Lísias. a quem votava confiança filial. alicerçada em princípios novos de união fraterna. em que pudesse ouvir a mãezinha de Lísias com calma e serenidade. Recebido com enormes demonstrações de alegria. Tão preocupado me senti que. também ainda me sentia senhor do lar terrestre e avaliava quão difícil para mim próprio seria semelhante situação. Não conseguia encontrar esclarecimentos justos que pudessem satisfazer-me. A meu ver. esperei o momento propício.214 Nosso Lar 39 OUVINDO A SENHORA LAURA O caso Tobias impressionara-me profundamente. ansioso de explicações da senhora Laura.

não sem natural acanhamento. a felicidade. essas coisas dão até para escandalizar. Todo problema que torture a alma pede cooperação amiga para ser resolvido. Empregamos muitos séculos para emergir das camadas inferiores. Ela sorriu. e começou a dizer: . O sexo participa do patrimônio de faculdades divinas. ali. é justo que essa animalidade não desapareça de um dia para outro. da organização doméstica que visitou ontem. sobrepor-mos a tudo os princípios de natureza espiritual. pela atmosfera de compreensão que se criou entre as personagens do drama terrestre. agora.215 Nosso Lar Depois de se ausentarem os jovens. não é verdade? .Você fez bem em trazer a questão ao nosso estudo recíproco. entretanto.indaguei. que se tenham casado . André. Não será fácil para você.Quando nos atemos aos pontos de vista propriamente humanos. E depois de ligeira pausa. . expus à generosa amiga o problema que me apoquentava. a caminho de entretenimentos habituais. meu amigo. Nem todos conseguem substituir cadeias de sombra por laços de luz em tão pouco tempo. no sentido elevado. com a grande experiência da vida. que se caracterizam pelo pensamento elevado. precisamos compreender o espírito de seqüência que rege os quadros evolutivos da vida. prosseguiu.Mas. Se atravessamos longa escala de animalidade. choca-nos o sentimento. a penetração. é muito grande. Todo homem e toda mulher. atenciosa: . entretanto. é necessário. . . presentemente.O caso Tobias é apenas um dos inumeráveis que conhecemos aqui e noutros núcleos espirituais.atalhei com interesse. Nesse sentido.Mas temos nisso uma regra geral? . que demoramos a compreender.

E que acontece. logicamente não atravessará essas fronteiras. vão fazer na experiência carnal o que não conseguiram realizar em ambiente estranho ao corpo terrestre. enquanto não entenderem a verdade. Enquanto odiarem. e vão receber. valendo-me da pausa da interlocutora . a interlocutora explicou: . assemelham-se a agulhas magnéticas sob os mais antagônicos influxos.se não são admitidas aos núcleos espirituais de aprendizado nobre. simplesmente porque se esquivam à fraternidade legítima. As regiões obscuras do Umbral estão cheias de entidades que não resistiram a semelhantes provas.Depois de padecimentos verdadeiramente infernais. Não esqueça que nossas construções vibratórias são muito mais importantes que as da Terra. não poderão penetrar as zonas de atividade superior. Daí se infere .interroguei. sem qualquer alívio espiritual. conseqüentemente. aqueles de quem se afastaram deliberadamente pelo veneno do ódio ou da incompreensão. então? . pelas criações inferiores que inventam para si mesmas redargüiu a mãe de Lísias -. Muita gente pode ter afeição e não ter compreensão. por parte das três almas interessadas na aquisição de justo entendimento. O caso Tobias é o caso de vitória da fraternidade real. sofrerão o império da mentira e. Quem não se adaptar à lei de fraternidade e compreensão. Concede-lhes a Bondade Divina o esquecimento do passado. fazendo-se acompanhar de todas as afeições que hajam conhecido? Esboçando um gesto de grande paciência. São incontáveis as criaturas que padecem longos anos.Não seja tão radicalista. . na organização física do planeta. restabelecem aqui o núcleo doméstico. É indispensável seguir devagar.216 Nosso Lar mais de uma vez. onde se localizarão as pobres almas em experiências dessa ordem? . nos laços da consangüinidade.

antes de tudo. O alvitre.217 Nosso Lar a oportunidade. finda a experiência terrena. precisa mover e remover pesados fardos de outras eras. suportando menor bagagem de preocupações. a senhora Laura silenciou. no entanto. ao ouvir a mãe de Lísias. Minha mulher fora para mim um objeto sagrado. com relação à paz da consciência. Não se resolve em conversas. nossa conversação não interessa. lembrando o meu passado de homem comum. aduziu: . mas toda experiência de sexo. que compreendemos a necessidade da iluminação com o Cristo. interessa a nós mesmos. para nós. ainda que precise voltar aos círculos da carne. por afetar profundamente a vida da alma. mas aquele que perdoa realmente. Perdoar verbalmente é questão de palavras. Há muitos espíritos que gastam séculos tentando desfazer animosidades e antipatias na existência terrestre e refazendo-as após a desencarnação. não deixei de corar. quando nos aconselha imediata reconciliação com os adversários. é imprescindível destacar. da recomendação de Jesus. que eu sobrepunha a todas as afeições.Aos espíritos ainda em simples experiência animal. A interlocutora não se surpreendeu com a afirmativa e obtemperou: . mas. meu caro André. ocorriam-me a mente as palavras antigas do Velho Testamento: - . regressando à matéria grosseira. dentro de si mesmo. não só a experiência do casamento. pode efetuar sublimes construções espirituais.A experiência do casamento é muito sagrada aos meus olhos. Ouvindo a observação. A essa altura. como quem precisava meditar na amplitude dos conceitos expendidos. Quem sabe valer-se do tempo. Aproveitando o ensejo. cada vez mais viva. O problema do perdão. com Jesus. Devemos observá-lo em proveito próprio. é problema sério.

A interlocutora. deve haver lugar para muita compreensão e muito respeito à misericórdia divina. e depois de verificar as melhoras crescentes da jovem recém-chegada do planeta. Ainda há pouco tempo ouvi um grande instrutor no Ministério da Elevação assegurar que. porém. estranhando o caso Tobias. a fim de dizer aos religiosos. ainda recolhida ao interior doméstico. mergulhado em profundas cogitações. a imponente questão da fraternidade humana. Num instante. para ser divina. . em geral. a dona da casa convidou-me a visitar Eloísa. nem o seu jumento. precisa apoiar-se na fraternidade. voltei às Câmaras de Retificação. É por isso que o entendimento fraterno precede a qualquer trabalho verdadeiramente salvacionista. sim. nem o seu servo.218 Nosso Lar "não cobiçarás a casa do teu próximo. percebeu minha perturbação íntima e continuou: . Toda experiência sexual da criatura que já recebeu alguma luz do espírito. Impressionava-me. dando a entender que não desejava explanar outras minudências sobre o assunto. que toda caridade. nem a sua serva. Nessa altura. e acontecimento de enorme importância para si mesma. nem coisa alguma que lhe pertença".Onde o esforço de consertar é tarefa de quase todos. iria materializar-se nos planos carnais. nem o seu boi. não cobiçarás a mulher do teu próximo. Agora não mais me preocupava a situação de Tobias. senti-me incapaz de prosseguir. que nos oferece tantos caminhos a retificações justas. nem as atitudes de Hilda e Luciana. se pudesse.

angustiosas exclamações. Desde que nossos pensamentos visem à prática do bem.Quando o Pai nos convoca a determinado lugar . não será difícil identificar as sugestões divinas. prontificando-se ela a satisfazer-me. Aqui e ali. No mesmo dia. Não deixe de observar este princípio em suas visitas aparentemente casuais. Falei a Narcisa. acolá. à procura de Nemésia. a enfermeira acompanhou-me. Não foi difícil encontrá-la. Nemésia. do meu desejo.disse. que mais se assemelhavam a frangalhos humanos. falou com bondade: . na vida. gemidos lancinantes. Filas de leitos muitos alvos e bem cuidados exibiam mulheres. Cada situação. tem finalidade definida... bondosa. que se caracterizava pela mesma generosidade de Narcisa. -. prestigiosa cooperadora naquele setor de serviço. . é que lá nos aguarda alguma tarefa.219 Nosso Lar 40 QUEM SEMEIA COLHERÁ Eu não sabia explicar a grande atração pela visita ao departamento feminino das Câmaras de Retificação.

em leitos separados. Estava modificada pelo sofrimento. embaciados e tristes. penetrara em nossa casa levada por velha amiga de minha mãe. a intimidade excessiva. e. enumerando observações e ensinamentos. E. dizia. Aquela mesma Elisa que conhecera nos tempos de rapaz.Narcisa.O amigo deve estar agora habituado a estes cenários. Elisa pareceu-me bastante leviana. Memória inquieta. agravando com isso a irreflexão de nossos pensamentos. de aparência original? Velhice que parecia prematura tipificava-lhe o semblante. Fiquem à vontade.220 Nosso Lar . comentava sem escrúpulo certas aventuras da sua mocidade. quando a sós comigo. Quem seria aquela mulher amargurada. não . um a um. em cujos lábios pairava um ricto. A princípio. faça o obséquio de acompanhar nosso irmão e mostrar os serviços que julgar convenientes ao aprendizado dele. Recordei o dia em que minha genitora me chamou a conselhos justos. quando fixei alguém que me despertou mais viva atenção. mas não podia ter quaisquer dúvidas. acentuou: . Aquela intimidade. No departamento masculino a situação é quase a mesma. a regular distância. quando atingimos o Pavilhão 7. humilde. em poucos instantes localizei-a no passado. Lembrei. coração oprimido. misto de ironia e resignação. o dia em que ela. Estudava eu a fisionomia das enfermas. mostravam-se defeituosos. fazendo um gesto significativo à companheira. admitindo-a para os serviços domésticos. perfeitamente. Os olhos. Localizavam-se ali algumas dezenas de mulheres. depois. nada de extraordinário. o ritmo comum. Minha amiga e eu comentávamos a vaidade humana. Era Elisa. sempre atida aos prazeres físicos. de quem abusa da faculdade de mandar e da condição de servir alguém. que aceitou as recomendações trazidas.

como alguma coisa da vida. Conheço o seu martírio moral. pelo olhar que me endereçou. mas. Considerando que a mulher generosa e cristã é sempre mãe. pedindo orientação. Narcisa. qual criança ansiosa de perdão pelas faltas cometidas. contendo o pranto. dirigi-me a Narcisa. em meu pensamento. a episódio fortuito da existência humana. Não se entregue a pensamentos destrutivos... Adivinho o epílogo da história. tão cedo atirada a doloroso capítulo de sofrimentos? Donde vinha? Ah!. A minha frente tinha Elisa. E o tempo passou. naquele caso. reduzindo o fato. confiando mais que nunca. a nossa casa. agora. estouvadamente. Entretanto. Cheguei a tremer. estava também vivo. abandonou Elisa. . mas convinha pautar nossas relações com sadio critério. Comecei a falar. é que já o considera em condições de resgatar a dívida. sem coragem de me lançar em rosto qualquer acusação. mas. não me defrontava o Silveira. agora. possivelmente. envergonhado da exumação daquelas reminiscências. Era razoável que dispensássemos à serva generosidade afetuosa. de experiência própria. minha amiga obtemperou: . Sob enorme angústia moral. se o Senhor permitiu que reencontrasse agora esta irmã. era inteiramente minha. mais tarde. levara eu muito longe a nossa camaradagem.Não precisa continuar. perto de quem pudera repartir o débito com meu pai. a certa altura da confissão penosa. vencida e humilhada! Por onde vivera a mísera criatura. o episódio. A dívida. parecia tudo compreender. Talvez nunca tivesse coragem de pedir ao Ministro Clarêncio as elucidações que pedira à mãe de Lísias e. No entanto. Entretanto. Eu mesmo me admirava da confiança que aquelas santas mulheres me inspiravam. voltei-me para a enfermeira. outra seria minha conduta naquele instante.221 Nosso Lar ficava bem. se tivesse Tobias a meu lado.

A infeliz. noto-lhe a triste característica das mães fracassadas e das mulheres de ninguém. Bem-aventurados os devedores em condições de pagar. meditou alguns momentos. Tomei a iniciativa da palavra confortadora. dando o próprio nome e prestando.Para que lembrar coisas tão tristes? . como quem concatenava idéias. Sentindo a inflexão afetuosa da pergunta.222 Nosso Lar Vendo a minha indecisão. de boa-vontade. perguntei: . outras informações. depois de beneficiá-la com êxito. Aproxime-se dela e reconforte-a. e falou: . Esta afirmativa não é frase doutrinária. e desabafou: . Isso não será difícil. para que a lição me penetrasse nalma com caracteres indeléveis. prosseguiu: . sorriu.E sua história. encontramos no caminho os frutos do bem ou do mal que semeamos. Interessado em castigar a mim mesmo. Elisa? Deve ter sofrido muito. Faça-o. Havia três meses que fora recolhida às Câmaras de Retificação. mas não se dê a conhecer. que apresentava profunda modificação moral. muito resignada.As experiências dolorosas ensinam sempre . pelo fato de continuar ela em cegueira quase completa. meu irmão. acentuou: .Não tema. Pelas forças que a envolvem.objetei. diante de Narcisa. E. Elisa identificou-se. Aproximamo-nos. Tenho colhido muito proveito de situações iguais a esta.Vamos. Todos nós. por enquanto. é realidade universal.. temporariamente. percebendo-me a resolução firme de empreender o necessário ajuste de contas.Minha experiência foi a de todas as mulheres doidivanas que trocam o pão bendito do trabalho pelo ..

por mais faltosos que tenham sido.indaguei. rolou uma lágrima de arrependimento e remorso. tenho de odiar a mim mesma. nutrindo por ele um ódio mortal. Nos tempos da mocidade distante. sem que o pudesse evitar. tanto roguei o amparo da Virgem de Nazaré. o hospital. No meu caso. em terrível desespero. Para odiá-lo. Ela sorriu tristemente e respondeu: . Esse negociante tinha um filho. as tremendas desilusões que culminaram na cegueira e na morte do corpo. o prazer. então. vali-me do emprego em casa de abastado comerciante. Comovidíssimo até às lágrimas. Aquela humildade sensibilizou-me. Conheci. Tomei-lhe a destra sobre a qual. um dia. de perto. e entreguei-me a experiências dolorosas. e depois da intimidade estabelecida entre nós. . onde a vida me impôs imensa transformação. . Errei. o conforto material e. pronunciar meu nome e de meus pais. quando toda a reação de minha parte seria inútil. esqueci criminosamente que Deus reserva o trabalho a todos os que amem a vida sã.E você o odeia? . tão jovem quanto eu. mas a irmã Nemésia modificou-me. o luxo. que mensageiros do bem me recolheram por amor ao seu nome. pois. o abandono de todos. a culpa deve ser repartida. o horror de mim mesma. muito tempo. que não preciso comentar. acabrunhado. mas. perguntei: . amaldiçoava-lhe a lembrança. como filha de um lar paupérrimo. a sífilis. recriminar ninguém.No período do meu sofrimento anterior.E ele? Como se chama o homem que a fez tão infeliz? Ouvia-a. Não devo. trazendo-me a esta casa de abençoada consolação.223 Nosso Lar fel venenoso da ilusão. em seguida.

Ouça. Conte comigo. doravante.disse Elisa.E sua voz . Nesse instante.Que Jesus o abençoe. Conte com o meu devotamento de amigo. . Mas você será aqui minha irmã do coração. maternalmente.continuei.224 Nosso Lar .falei com emoção forte -. .Como lhe sou grata! .parece a dele.há quantos anos ninguém me fala assim. comovido -. quando minhas lágrimas se fizeram mais abundantes. minha amiga .disse ela enxugando as lágrimas . e repetiu: . nesse tom familiar. não tenho propriamente uma família em "Nosso Lar".. Narcisa tomou-me as mãos. .Pois bem .. ingenuamente . Que Jesus o abençoe. dando-me o consolo da amizade sincera!. até agora. No semblante da sofredora. também eu me chamo André e preciso ajudá-la. . um grande sorriso parecia uma grande luz.

225 Nosso Lar 41 CONVOCADOS À LUTA Nos primeiros dias de setembro de 1939. sem disfarçarem o imenso terror de que se possuíam. agora. porém. ligadas à civilização americana. no campo da fraternidade e da simpatia. Além de valiosas recomendações. passam a considerar as nações agressoras . tão destruidora nos círculos da carne. Reconheci que os Espíritos superiores. Anotavam-se. Entidades numerosas comentavam os empreendimentos bélicos em perspectiva. o choque por que passaram diversas colônias espirituais. que as Grandes Fraternidades do Oriente suportavam as vibrações antagônicas da nação japonesa. "Nosso Lar" sofreu. experimentando dificuldades de vulto. Assim como os nobres círculos espirituais da velha Ásia lutavam em silêncio. Era a guerra européia. preparava-se "Nosso Lar" para o mesmo gênero de serviço. fatos curiosos de alto padrão educativo. igualmente. desde muito. quão perturbadora no plano do espírito. determinou o Governador tivéssemos cuidado na esfera do pensamento. preservando-nos de qualquer inclinação menos digna. Sabia-se. de ordem sentimental. nessas circunstâncias.

ao entardecer. Quando um país toma a iniciativa da guerra. conseqüentemente. que as zonas superiores da vida se voltam em defesa justa. enquanto os bandos escuros se apoderam da mente dos agressores.disse-me Salústio -. embriagam-se ao contacto dos elementos de perversão. . para a destruição. então. os países agressores convertem-se. nas Câmaras de Retificação. com exceção dos espíritos nobres e sábios que lhes integram os quadros de serviço. e pagará um preço terrível. junto de Tobias e Narcisa. em núcleos poderosos de centralização das forças do mal. com mais propriedade devemos lamentar o povo que olvidou a justiça. Coletividades operosas convertem-se em autômatos do crime.Infelizes dos povos que se embriaguem com o vinho do mal . Mas. que invocam das camadas sombrias.226 Nosso Lar não como inimigas. Esclareceram-me os colegas de trabalho que. contra os empreendimentos da ignorância e da sombra. Logo após os primeiros dias que assinalaram as primeiras bombas na terra polonesa. encontrava-me. Se devemos lastimar a criatura em oposição à lei do bem. . ainda que consigam vitórias temporárias. Legiões infernais precipitam-se sobre grandes oficinas do progresso comum. acentuando-lhes as derrotas fatais. encabeça a desordem da Casa do Pai. Sem se precatarem dos perigos imensos. congregados para a anarquia e. naturalmente. quando inesquecível clarim se fez ouvir por mais de um quarto de hora. esses povos. mas como desordeiras e cuja atividade criminosa é imprescindível reprimir. Observei. Profunda emoção nos invadira a todos. elas servirão somente para lhes agravar a ruína. os agrupamentos espirituais da vida nobre movimentam-se em auxílio dos agredidos. nos acontecimentos dessa natureza. transformando-as em campos de perversidade e horror.

a librarem-se no firmamento. para observar o movimento popular.Temos o sinal de que a guerra prosseguirá.227 Nosso Lar É a convocação superior aos serviços de socorro a Terra . embora a distância. em nome do Senhor. de elevada expressão hierárquica. Notei que profundo silêncio caiu sobre todo o Ministério da Regeneração. inquieto -. Tobias confiou a Narcisa certas atividades de importância junto aos enfermos e convidou-me a sair. o companheiro explicou: . de onde nos poderíamos encaminhar à Praça da Governadoria.explicou-me Narcisa. para que o apelo se grave em nossos corações.Esse clarim . onde se localizavam as vias públicas. Profundamente comovido. Regressando ao interior das Câmaras. tive a atenção atraída para enormes rumores provenientes das zonas mais altas da colônia. . A clarinada fazia-se ouvir com modulações estranhas e imponentes.disse Tobias igualmente emocionado . bondosamente. . a fim de observar o céu.exclamou Tobias. Chegados aos pavimentos superiores.Quando soa o clarim de alerta. parecendo pequenos focos resplandecentes e longínquos. Atento à minha atitude de angustiosa expectativa. toda a vida psíquica americana teve na Europa a sua origem. vi inúmeros pontos luminosos. fomos ao grande parque. Teremos grande trabalho em preservar o Novo Mundo. Tobias informou: . precisamos fazer calar os ruídos de baixo. notamos intenso movimento em todos os setores.é utilizado por espíritos vigilantes. Identificando-me o espanto natural. Quando o misterioso instrumento desferiu a última nota. com terríveis tormentos para o espírito humano .

qualquer demonstração de assombro. constituirá uma bênção. ouvi um deles perguntando: . mas é possível que a Comunicação nos forneça algum detalhe essencial. Tobias segurou-me o braço. em conversação animada.. No meu setor. de leve. só vem até nós em circunstâncias muito graves. com a Regeneração? . vinham dois senhores e quatro senhoras. Ao nosso lado. Ouçamos o que dizem outros grupos. O clarim que acaba de soar.228 Nosso Lar . ainda. e exclamou: . . a meu ver. não vejo motivo para precipitações.Adiantemo-nos um pouco. a vigilância contra as vibrações umbralinas reclama esforços incessantes. A doença é mestra da saúde. no fundo. Experimentamos justa dificuldade para atender a todos os deveres. Quanto ao mais. o movimento de súplicas tem sido extraordinário. . replicou. . Observe os transeuntes. A China está sob a metralha. o desastre dá ponderação. tudo é natural.Estes grupos enormes dirigem-se ao Ministério da Comunicação. que parecia portador de grande equilíbrio espiritual. Todos sabemos que se trata da guerra. há muito tempo.dizia uma . Aproximando-nos de dois homens.E nós. A única novidade é o acréscimo de serviço que. Estou avaliando o que virá sobre nós. e não mostrou você.De qualquer modo. Há muitos meses consecutivos.. sereno: .Imagine .o que será de nós no Auxílio.objetava o cavalheiro mais idoso – os serviços prosseguem consideravelmente aumentados. à procura de notícias.Será crivel que a calamidade nos atinja a todos? O interpelado.

ou coisa pior? Tobias. desapontado . Atendendo a novo gesto de Tobias. O outro sorriu e ponderou: . . observei três senhoras que iam na mesma direção à nossa esquerda.que ele me procure na qualidade de esposa. ao que parece. . naquele crepúsculo de inquietação. que me reclamava atenção.Receio . verificando que o pitoresco não faltava. em que observávamos a multidão espiritual. esqueçamos o "meu programa" para pensar em "nossos programas". .disse uma das companheiras -.Entretanto . não alcançará a Península.parece que serei compelido a modificar meu programa de trabalho. atingimos o Ministério da Comunicação.A questão impressiona-me sobremaneira .objetou o companheiro.comentou a companheira . porque Everardo não deve regressar do mundo agora. que aconteceria? .olvidaste que Everardo será barrado pelo Umbral. Helvécio.indagou a outra componente do trio -. sorrindo. de modo algum. . me submeteria a novas crueldades. Decorridos longos minutos.Tola que és! .Mas a guerra . informou: . Portugal está muito longe do teatro dos acontecimentos. É muito ignorante e.dizia a mais moça -. por que semelhante preocupação? Se Everardo viesse. igualmente ali.Ela teme a libertação de um marido imprudente e perverso. . Não o poderia suportar.229 Nosso Lar .esclareceu a mais jovem .Helvécio.Mas agora .

" Aquela voz clara e veemente. porém. através de numerosos alto-falantes: . . um acordo geral. toda a colônia regressava à serenidade habitual. daí a momentos ouviu-se a voz do próprio Governador. . Milhares de entidades acotovelavam-se. operou singular efeito na multidão. A aflição não constrói. Todos queriam informações e esclarecimentos. Extremamente surpreendido com o vozerio enorme. aflitamente. Impossível. atendendo-Lhe a Vontade Divina no trabalho silencioso. No curto espaço de uma hora. Saibamos ser dignos do clarim do Senhor. Serenado o barulho.É o Ministro Esperidião informou Tobias. atendendo-me a curiosidade. a ansiedade não edifica. de quem falava com autoridade e amor. far-se-ia ouvir um apelo do Governador. não vos entregueis a distúrbios do pensamento ou da palavra. anunciando que. dentro de dez minutos. vi que alguém subira a uma sacada de grande altura. reclamando a atenção popular. Era um velho de aspecto imponente."Irmãos de "Nosso Lar".230 Nosso Lar detendo-nos ante os enormes edifícios consagrados ao trabalho informativo. em nossos postos.

atacando as forças mais profundas.Como não? .determinados elementos para o serviço hospitalar urgente.Contra o medo? . .acrescentei.objetou a enfermeira.231 Nosso Lar 42 A PALAVRA DO GOVERNADOR Para o domingo imediato à visita do clarim. prometeu o Governador a realização do culto evangélico no Ministério da Regeneração. continuou: .dizia ela . como acontece a muita gente. que é tão contagioso como qualquer moléstia de perigosa propagação. a elevada porcentagem de existências humanas estranguladas simplesmente pelas vibrações destrutivas do terror. bem como exercícios adequados contra o medo.Talvez estranhe. embora o conflito se tenha manifestado tão longe. Observando-me a estranheza. . . seria a preparação de novas escolas de assistência no Auxílio e núcleos de adestramento na Regeneração. esclareceu Narcisa. . O objetivo essencial da medida. admirado. atenciosa.Precisamos organizar . Classificamos o medo como dos piores inimigos da criatura. por alojar-se na cidadela da alma.

. iniciou a festividade com o maravilhoso hino intitulado "Sempre Contigo. cantado por duas mil vozes ao mesmo tempo. canalizado em vagas de perfume. pela primeira vez. Experimentava. O Grande Coro do Templo da Governadoria. a meu lado. parecia responder às harmonias suaves. no trabalho de limpeza e ornamentação natural do grande salão consagrado ao chefe maior da colônia. o nobre condutor que merecia a veneração geral. Na véspera do grande acontecimento. Ia ver. tive a honra de integrar o quadro de cooperadores numerosos. conforme o programa estabelecido. Não me sentia sozinho em semelhante expectativa. aliando-se aos meninos cantores das escolas do Esclarecimento. porque havia inúmeros companheiros nas minhas condições. Havia permissão geral de ingresso ao enorme recinto verde. por numerosas delegações. para todos os servidores da Regeneração. A calma é garantia do êxito. Tive a impressão de que toda a vida social do nosso Ministério convergiu para o grande salão natural. então. Mais tarde. desde o raiar de domingo. quando verdadeiras caravanas de todos os departamentos regeneradores chegavam ao local.Não tenha dúvida.232 Nosso Lar . comparecendo os demais Ministérios. Não encontrei argumento de contestação para retrucar. nas atuais emergências. porque. o culto evangélico era dedicado especialmente a eles. A Governadoria. O murmúrio doce do vento. coloca o treinamento contra o medo muito acima das próprias lições de enfermagem. Outras melodias de beleza singular encheram a amplidão. ansiedade justa. compreenderá tais imperativos de serviço. Senhor Jesus".

O Governador sempre estimou as atitudes patriarcais. porque é mister que isso tudo aconteça. capítulo 24. Nunca esquecerei o vulto nobre e imponente daquele ancião de cabelos de neve. entoando o hino "A Ti. chegou o Governador acompanhado pelos doze Ministros da Regeneração. Salústio informou: .233 Nosso Lar Pela primeira vez. embora caminhasse com aprumo juvenil. A festividade excedia a tudo que eu pudesse sonhar em beleza e deslumbramento. abriu um livro luminoso que o companheiro me informou ser o Evangelho de Nosso Senhor Jesus-Cristo. mas ainda não é o fim. versículo 6. considerando que se deve administrar com amor paterno.Palavras do Mestre em Mateus."E ouvíreis falar de guerras e de rumores de guerras. olhai. que me pareceram vestidos em brilhantes claridades. apoiava-se num bordão. Nossas Vidas". tive à frente dos olhos alguns cooperadores dos Ministérios da Elevação e União Divina. ao mesmo tempo. olhos penetrantes e maravilhosamente lúcidos. seguidas de harpas caridosas. Instrumentos musicais de sublime poder vibratório embalavam de melodias a paisagem odorante. Às dez horas. depois. . leu em voz pausada: .” . magro. a ternura do santo e a serenidade do administrador consciencioso e justo. que parecia estampar na fisionomia. envergando uma túnica muito alva. não vos assusteis. Sentando-se ele na tribuna suprema. Folheou-o atento e. Em seguida. Alto. levantaram-se as vozes infantis. Senhor. Satisfazendo-me a curiosidade. constituída de milhares de assistentes. a sabedoria do velho e a energia do moço. O velhinho enérgico e amorável passeou o olhar pela assembléia compacta.

234 Nosso Lar Volume de voz consideravelmente aumentado pelas vibrações elétricas. do Esclarecimento. com mais propriedade. de maneira particular. exclamando. que dirijo meu apelo pessoal. mais ou menos nestes termos: . aos nossos irmãos cujas mentes já funcionam em zonas mais altas da vida. em meio de respeitoso silêncio. Haverá serviço para . amorosa e convincente. pois.É para vós. dirigindo-se. os representantes da União Divina. nem conveniências pessoais. Quando as forças da sombra agravam as dificuldades das esferas inferiores. na Terra. a todos os colaboradores dos trabalhos de nosso Ministério. Não me dirijo. trinta mil trabalhadores que não meçam necessidade de repouso. saudando. votando-lhes de modo particular a confiança do meu coração. com especial atenção. "Nosso Lar" precisa de trinta mil servidores adestrados no serviço defensivo. mas a vós outros. em seguida. Elevemos ao máximo nosso padrão de coragem e de espírito de serviço. Consagrei o culto de hoje a todos os servidores deste Ministério. é imprescindível acender novas luzes que dissipem. Impossível descrever a entonação doce e enérgica. dirigiu-se o Governador. o chefe da cidade orou comovidamente. que trazeis nas sandálias da recordação os sinais da poeira do mundo. muito esperando da vossa nobre dedicação. invocando as bênçãos do Cristo. as trevas densas. bem como traduzir no papel humano as considerações divinas do comentário evangélico. daquela voz inesquecível. irmãos meus. neste momento. para exalçar a tarefa gigantesca. enquanto perdurar nossa batalha com as forças desencadeadas do crime e da ignorância. Finalizando. aos servidores da Regeneração. da Elevação. cujos labores se aproximam das atividades terrestres. vazado em profundo sentimento de veneração pelas coisas sagradas. da Comunicação e do Auxílio.

Quem não sabe preservar. que precisamos defender com todas as energias do coração. neste instante. Somos. "Nosso Lar'. Lógico que a nossa tarefa essencial é de confraternização e paz. mas não podemos entregar nossa morada aos malfeitores. em missões de amor fraternal. pois. legiões de trabalhadores que operem esclarecendo e consolando. em "Nosso Lar". invocando. por amor à redenção de todos nós. repetiu a leitura do versículo de Mateus. por longo tempo. portanto. Assim continuou a discorrer. entretanto. antes de tudo. Sei que muitos de vós recordais. mas precisamos organizar. claro que interpretaremos todo mal como desperdício de energia. Seria caridade permitir a invasão de vários milhões de espíritos desordeiros? Não podemos. em nossas fronteiras vibratórias. Sim. no Umbral e nas Trevas. neste Ministério. não é digno de usufruir. que nos garanta as realizações espirituais. na Terra. entre nós e os planos inferiores. Ultimando os comentários. Todos devemos estar prontos para o sacrifício individual. mais de um milhão de criaturas devotadas aos desígnios superiores e ao melhoramento moral de nós mesmos. Jesus entregou-se à turba de amotinados e criminosos. tecendo considerações que jamais conseguiria aqui descrever. de novo. e todo crime como enfermidade dalma. Nas organizações coletivas. Preparemos. de amor e alívio aos que sofrem. porque não podemos esperar o adversário em nossa morada espiritual. mas não entregou o mundo à desordem e ao aniquilamento.235 Nosso Lar todos. as bênçãos de Jesus e as . nas regiões de limite vibratório. hesitar no que se refere à defesa do bem. é um patrimônio divino. o Grande Crucificado. uma legião especial de defesa. é forçoso considerar a medicina preventiva como medida primordial na preservação da paz interna. encarecendo providências de caráter fundamental.

Comovido e deslumbrado. que se desfaziam. talvez de muito longe. pétalas de rosas diferentes. .236 Nosso Lar energias dos ouvintes. O Governador desceu da tribuna sob vibrações de imensa esperança e foi então que brisas cariciosas começaram a soprar sobre as árvores. de leve. ao tocar nossas frontes. para que nenhum de nós recebesse dádivas em vão. trazendo. em maravilhoso azul. ouvi as crianças entoarem o hino que a Ministra Veneranda intitulara "A Grande Jerusalém". enchendo-nos o coração de intenso júbilo.

237 Nosso Lar

43 EM CONVERSAÇÃO
O Ministério da Regeneração continuou cheio de expressões festivas, não obstante se haver retirado o Governador ao seu círculo mais íntimo. Comentavam-se os acontecimentos. Centenas de companheiros se ofereciam para os trabalhos árduos da defensiva, assim correspondendo ao apelo do grande chefe espiritual. Procurei Tobias, para consultá-lo sobre a possibilidade do meu aproveitamento, mas o generoso irmão sorriu da minha ingenuidade e falou: - André, você está começando agora uma tarefa nova. Não se precipite, solicitando acréscimo de responsabilidade. Haverá serviço para todos, disse-nos, ainda agora, o Governador. Não se esqueça de que as nossas Câmaras de Retificação constituem núcleos de esforço ativo, dia e noite. Não se aflija. Recorde que trinta mil servidores vão ser convocados para a vigilância permanente. Destarte, na retaguarda, serão muito grandes os claros a preencher.

238 Nosso Lar Identificando-me o desapontamento, o bondoso companheiro, bem- humorado, acentuou depois de ligeira pausa: - Contente-se com a matrícula na escola contra o medo. Creia que isso lhe fará enorme bem. Nesse ínterim, recebi grande abraço de Lísias, que integrara, na festa, a deputação do Ministério do Auxílio. Com a licença de Tobias, retirei-me em companhia de Lísias para gozar de palestra mais íntima. - Conhece você - indagou ele - o Ministro Benevenuto, aqui na Regeneração, o mesmo que chegou anteontem da Polônia. - Não tenho esse prazer. - Vamos ao seu encontro - replicou Lísias, envolvendo-me nas vibrações do seu imenso carinho fraterno -, há muito que tenho a honra de incluí-lo no círculo das minhas relações pessoais. Daí a momentos, estávamos no grande recinto verde, consagrado aos trabalhos desse Ministro da Regeneração, que eu apenas conhecia de vista. Numerosos grupos de visitantes permutavam idéias sob a copa das grandes árvores. Lísias conduziu-me ao núcleo maior, onde Benevenuto trocava impressões com diversos amigos, apresentando-me com generosas palavras. O Ministro acolheu-me, cortês, admitindo-me na sua roda com extrema bondade. A conversação continuou nos rumos naturais e notei que se discutia a situação da esfera terrestre. - Muito doloroso o quadro que vimos - comentava Benevenuto em tom grave -; habituados ao serviço da paz na América, nenhum de nós imaginava o que fosse o trabalho de socorro espiritual nos campos da Polônia. Tudo obscuro, tudo difícil. Não se podem, ali,

239 Nosso Lar esperar claridades de fé nos agressores, tampouco na maioria das vítimas, que se entregam totalmente a pavorosas impressões. Os encarnados não nos ajudam, apenas consomem nossas forças. Desde o começo do meu Ministério, nunca vi tamanhos sofrimentos coletivos. - E a comissão demorou-se muito por lá? - perguntou um dos companheiros com interesse. - Todo o tempo disponível - ajuntou o Ministro. O chefe da expedição, nosso colega do Auxílio, julgou conveniente permanecermos exclusivamente atidos à tarefa, para enriquecermos observações e melhor aproveitar a experiência. Com efeito, as condições não poderiam ser melhores. Acredito que nossa posição está muito distante da extraordinária capacidade de resistência dos abnegados servidores espirituais que ali se encontram de serviço. Todas as tarefas de assistência imediata funcionam perfeitamente, a despeito do ar asfixiante, saturado de vibrações destruidoras. O campo de batalha, invisível aos nossos irmãos terrestres, é verdadeiro inferno de indescritíveis proporções. Nunca, como na guerra, evidencia o espírito humano a condição de alma decaída, apresentando características essencialmente diabólicas. Vi homens inteligentes e instruídos localizarem, com minuciosa atenção, determinados setores de atividade pacífica, para o a que chamam "impactos diretos”. Bombas de alto poder explosivo destroem edifícios pacientemente edificados. Aos fluidos venenosos da metralha, casam-se as emanações pestilentas do ódio e tornam quase impossível qualquer auxílio. O que mais nos contristou, porém, foi a triste condição dos militares agressores, quando algum deles abandonava as vestes carnais, compelido pelas circunstâncias. Dominados, na maioria, por forças tenebrosas, fugiam dos Espíritos missionários, chamando-lhes a todos "fantasmas da cruz".

240 Nosso Lar - E não eram recolhidos para esclarecimento justo? - inquiriu alguém, interrompendo o narrador. Benevenuto esboçou um gesto significativo e respondeu: - Será sempre possível atender aos loucos pacíficos, no lar; mas que remédio se reservará aos loucos furiosos, senão o hospício? Não havia outro recurso para tais criaturas, senão deixá-las nos precipícios das trevas, onde serão naturalmente compelidas a reajustar-se, dando ensejo a pensamentos dignos. É razoável, portanto, que as missões de auxílio recolham apenas os predispostos a receber o socorro elevado. Os espetáculos entrevistos foram, portanto, demasiadamente dolorosos, por muitas razões. Valendo-se de ligeiro intervalo, outro companheiro opinou: - É quase incrível que a Europa, com tantos patrimônios culturais, se tenha abalançado a semelhante calamidade. - Falta de preparação religiosa, meus amigos -definiu o Ministro com expressiva inflexão de voz -, não basta ao homem a inteligência apurada, é-lhe necessário iluminar raciocínios para a vida eterna. As igrejas são sempre santas em seus fundamentos e o sacerdócio será sempre divino, quando cuide essencialmente da Verdade de Deus; mas o sacerdócio político jamais atenderá a sede espiritual da civilização. Sem o sopro divino, as personalidades religiosas poderão inspirar respeito e admiração, não, porém, a fé e a confiança. - Mas, o Espiritismo? - perguntou abruptamente um dos circunstantes. Não surgiram as primeiras florações doutrinárias na América e na Europa, há mais de cinqüenta anos? Não continua esse movimento novo a serviço das verdades eternas?

241 Nosso Lar Benevenuto sorriu, esboçou um gesto extremamente significativo e acrescentou: - O Espiritismo é a nossa grande esperança e, por todos os títulos, é o Consolador da humanidade encarnada; mas a nossa marcha é ainda muito lenta. Trata-se de uma dádiva sublime, para a qual a maioria dos homens ainda não possuí "olhos de ver". Esmagadora porcentagem dos aprendizes novos aproxima-se dessa fonte divina a copiar antigos vícios religiosos. Querem receber proveitos, mas não se dispõem a dar coisa alguma de si mesmos. Invocam a verdade, mas não caminham ao encontro dela. Enquanto muitos estudiosos reduzem os médiuns a cobaias humanas, numerosos crentes procedem à maneira de certos enfermos que, embora curados, crêem mais na doença que na saúde, e nunca utilizam os próprios pés. Enfim, procuram-se, por lá, os espíritos materializados para o fenomenismo passageiro, ao passo que nós outros vivemos à procura de homens espiritualizados para o trabalho sério. O trocadilho arrancou expressões de bom humor geral, acrescentando o Ministro, gravemente: - Nossos serviços são astronômicos. Não esqueçamos, porém, que todo homem é semente da divindade. Ataquemos a execução de nossos deveres com esperança e otimismo, e estejamos sempre convictos de que, se bem fizermos a nossa parte, podemos permanecer em paz, porque o Senhor fará o resto.

no planeta. sorrindo . seus pensamentos se entrelaçam. Quando me vi a sós com o bondoso enfermeiro do Auxílio. Quem se oferece diariamente . através dos quais cada um recebe seu quinhão de alegria ou sofrimento. quando nos reunimos àqueles a quem amamos. Dia verdadeiramente maravilhoso! Sucediam-se júbilos espirituais.242 Nosso Lar 44 AS TREVAS Enriquecendo as alegrias da reunião. da vibração geral. o problema do ambiente é sempre fator ponderável no caminho de cada homem. formando núcleos de força viva. fez-nos lembrar velhas canções e melodias da Terra. Cada criatura viverá daquilo que cultiva. procurei transmitir-lhe minhas sublimes impressões. Lísias deu-me a conhecer novos valores da sua cultura e sensibilidade. É o alimento do amor.Não tenha dúvida disse. André. Quando numerosas almas se congregam no círculo de tal ou qual atividade. . como se estivéssemos em pleno paraíso. É por essa razão que. ocorre algo de confortador e construtivo em nosso íntimo. Dedilhando com maestria as cordas da cítara.

igualmente. do Umbral e das Trevas. o amor e a alegria de todos. como nos movimentos do mal. confirmando a sorrir. então. se permanecemos em desentendimento e maldade. comovido -. Lísias teve uma expressão de bom humor. numerosos desequilibrados e doentes de toda espécie. a esperança. Referirase o Governador. Observando-me a estranheza. vejo nisso. temos o inferno vivo. no início da minha experiência em "Nosso Lar". mas. concluiu: . em que predominam o egoísmo. não tinha eu.Não há nisto mistério. sairemos com a fraternidade. . vivemos na antecâmara da ventura celeste. em sombras densas.Tem razão . de esperança. e. quem enaltece a enfermidade. onde vivera. procedentes das zonas umbralinas? Recordando que Lísias me dera esclarecimentos tão valiosos da minha própria situação. que me lembrei de interpelá-lo sobre uma coisa que. Das reuniões de fraternidade. nela se movimentará. Não seria região trevosa o próprio Umbral. sofrer-lhe-á o dano.exclamei. os princípios que regem a vida nos lares humanos. sairemos envenenados com as vibrações destrutivas desses sentimentos. de algumas horas. expondo-lhe a perplexidade em que me encontrava. de toda assembléia de tendências inferiores. de amor e de alegria. mas. Ele esboçou uma fisionomia bastante significativa. me torturava a mente. confiei-lhe minhas dúvidas íntimas. por minha vez. e falou: . aos círculos da Terra. até então. a vaidade ou o crime. tanto nos esforços do bem.243 Nosso Lar à tristeza. quando nos dirigiu a palavra. Foi. qualquer notícia deste último plano. durante anos consecutivos? Não via. É lei da vida. nas Câmaras. Quando há compreensão recíproca. francamente.

Em qualquer lugar. marchando para o alvo sublime. que me diz dessas quedas? Verificam-se apenas na Terra? Somente os encarnados são suscetíveis de precipitação no despenhadeiro? Lísias pensou um minuto e respondeu: . porém. sem vacilações.Sua observação é oportuna. imprimindo-se. Temos então a multidão de almas que demoram séculos e séculos. os milhões de seres que perambulam no Umbral. ficam à mercê de inúmeras vicissitudes. visando ao objetivo essencial da jornada. que descobriram a essência divina em si mesmos. estacionando no fundo do abismo por tempo indeterminado. o espírito pode precipitar-se nas furnas do mal. aí. Outros. Compreendeu? As elucidações não poderiam ser mais claras. a queda sempre me pareceu impossível nas regiões estranhas ao corpo terreno. pela preocupação egoística que os absorve.Entretanto . porém. ponderei: . o conhecimento da verdade. perturbados no labirinto que tracejam para os próprios pés. Considere as criaturas como itinerantes da vida. São os espíritos nobilíssimos. no entanto. preferindo caminhar às escuras. Nessa movimentação. costumam cair em precipícios. Os primeiros seguem por linhas retas.244 Nosso Lar . que nas esferas superiores as defesas são mais fortes.objetei -. Classificam-se. A maioria. repetindo marchas e refazendo velhos esforços. o auxílio . . O ambiente divino. estaciona.Chamamos Trevas às regiões mais inferiores que conhecemos. com a extensão e complexidade do assunto. Assim é que muitos costumam perder-se em plena floresta da vida.Entretanto. Sensibilizado. Alguns poucos seguem resolutos. recapitulando experiências. Os segundos caminham descrevendo grandes curvas. salientando-se. conseqüentemente. mais intensidade de culpa na falta cometida.

outros exploram os mais fracos. ali.Contudo.O problema da tentação é mais complexo. onde ficará semelhante lugar de sofrimento e pavor? . muitos cometem homicídios ao luar. que desprezam a inspiração divina. Lísias. quando a Lua e as estrelas enchem o planeta de poesia divina. ouvindo elevadas revelações da verdade superior. em que me pareceu meditar profundamente. o vácuo sempre há de ser mera imagem literária. paisagens e expressões essencialmente divinas. insensíveis à profunda sugestão das estrelas.245 Nosso Lar superior figuravam-se-me antídotos infalíveis ao veneno da vaidade e da tentação. conhecimento da verdade e auxílio superior.disse ele. As palavras do enfermeiro calavam-me fundo no espírito. à noite. em geral.Há esferas de vida em toda parte . continuou: . O companheiro sorriu e esclareceu: . poderá você dar-me uma idéia da localização dessa zona de Trevas? Se o Umbral está ligado à mente humana. de batalhas destruidoras entre as árvores acolhedoras e os campos primaveris. acrescentei: . na Terra. De fato. Não faltam. de preferência. os latrocínios e homicídios são praticados. Em tudo há energias viventes e cada espécie de seres funciona em determinada zona da vida. As paisagens do planeta terrestre estão cheias de ambiente divino. os guerreiros estimam a destruição na primavera e no estio. Não são poucos os que compartem. solícito -. Renovando minha concepção referente à queda espiritual. quando a Natureza estende no solo e no firmamento maravilhas de cor. perfume e luz. A maioria dos verdugos da Humanidade constitui-se de homens eminentemente cultos. Depois de pequeno intervalo.

Você sabe. Quem estime viver exclusivamente nas sombras. pensou. Hoje. palpita na profundeza dos mares e no âmago da terra. apenas os círculos a se iniciarem da superfície do globo para cima. também o planeta traz em si expressões altas e baixas. porém. para exprimir-se. Resumindo. Não será demais. esquecido do nível para baixo. contudo. Avaliei. que há elementos no cérebro do homem que lhe presidem o senso diretivo.Qual acontece a nós outros. nas zonas mais baixas da existência. o companheiro pensou. possuidora de certas leis que nos escravizarão ou libertarão.. com que corrige o culpado e dá passagem ao triunfador para a vida eterna. É organização viva. e as que se prendem a peso considerável são meras escravas do desconhecido. e concluiu: . Percebe? Lísias. reconhece que esses elementos não são propriamente físicos e sim espirituais. A Terra não é somente o campo que podemos ferir ou menosprezar. devo lembrar que as aves livres ascendem às alturas. como médico humano. portanto. porém. você situou como região de existência. na essência.246 Nosso Lar . porque o abismo atrai o abismo e cada um de nós chegará ao local para onde esteja dirigindo os próprios passos. Como alguém que precisa ponderar bastante.Naturalmente. que trazemos em nosso íntimo o superior e o inferior. como aconteceu a nós outros. . não precisaria fazer-me esta pergunta. como se dá com os corpos materiais. que se precipite nas Trevas. há princípios de gravitação para o espírito. É claro que a alma esmagada de culpas não poderá subir à tona do lago maravilhoso da vida. Além disso. de pronto. o quadro imenso de lutas purificadoras. além da morte do corpo. a nosso bel-prazer. A vida. as que se embaraçam no cipoal sentem-se tolhidas no vôo. a desenhar-se ante meus olhos espirituais.. embotará o sentido divino da direção. segundo nossas obras.

já dedicava grande amor àquelas Câmaras. acentuou: . Lísias convidou-me para acompanhá-lo ao Campo da Música. Recebendo a solicitação. meu iniciador no trabalho anuiu. Salústio e eu aproveitávamos todos os instantes de folga para melhorar o interior. aqui e ali. André! . satisfeito: . a companhia de Narcisa. Narcisa. Não obstante a escassez dos meus dias de serviço. porém.É preciso distrair-se um pouco. Considerando a nova posição em que me encontrava. acerquei-me de Tobias. a quem o enfermeiro do Auxílio dirigiu a palavra com respeitosa intimidade.247 Nosso Lar 45 NO CAMPO DA MÚSICA À tardinha. Vendo-me relutante. Vamos! Eu. . que estimávamos de todo o coração. a camaradagem dos companheiros.disse ele. suavizando a situação dos enfermos.Falarei a Tobias. como se fossem nossos filhos. tudo isso me falava particularmente ao espírito. As visitas diárias do Ministro Genésio. observava em mim mesmo singular fenômeno. gentil. A própria Narcisa consagrou o dia de hoje ao descanso. a inspiração de Tobias.

É curioso . também por aqui. ganhamos a via pública.. intrigado . Acompanhei Lísias. bem-humorada: . no Ministério do Auxílio. Atingindo-lhe a residência. abraçando-me: . Havia mais beleza no interior doméstico. As jovens faziam-se acompanhar de Polidoro e Estácio.Finalmente. E. no círculo terrestre. na próxima semana. novas disposições no jardim.Não hesite. . Lísias. logo que deixamos o aeróbus numa das praças do Ministério da Elevação.. porém.. meu caro... reconhecidamente.Como não? Vive o amor sublime no corpo mortal. o amor é uma espécie de ouro abafado nas pedras . disse carinhoso: .Ótimo programa! André precisa conhecer o Campo da Música. Em meio da geral alegria. que deveria regressar do planeta. quando quiser.248 Nosso Lar . ainda ficarei hoje em casa.encontrarmos noivados.Então. a dona da casa me abraçou e falou. tive a satisfação de rever a senhora Laura e informar-me quanto ao regresso da abnegada mãe de Eloísa. muito breve! Não me demorarei a buscar meu alimento na Terra!. . Despedindo-nos. a quem tenho falado muitas vezes a seu respeito. Vingar-me-ei de vocês. com quem palestravam animadamente. Quanto a mim. A casa estava repleta de contentamento. a cidade terá mais um freqüentador para o Campo da Música! Tome cuidado com o coração!.. Aproveite! Volte à noite. vai você conhecer minha noiva. doravante.observei. Todos os nossos serviços estão convenientemente atendidos. ou na alma eterna? Lá. a meu lado.

explicou ele. Só é verdadeiramente livre quem aprende a obedecer. Não existem véus de ilusão a obscurecer-nos o olhar. aqui. Havíamos alcançado as cercanias do Campo da Música. a seu favor.O noivado é muito mais belo na espiritualidade. têm tido. Parece paradoxo e. . verificamos o reajustamento dos valores. Tanto o misturam os homens com as necessidades. sofrem-nos a tirania e suportam o peso das nossas imposições. ao contrário. A liberdade que as leis sociais do planeta conferem ao sexo masculino. é a expressão da verdade. todavia. as disciplinas mais rigorosas. Amiúde. Lascínia e eu fundaremos aqui. além disso. Lascínia e eu já fracassamos muitas vezes nas experiências materiais.249 Nosso Lar brutas.Contudo . Reconhecendo o efeito benéfico da explicação.indaguei -. porém. convertemo-la em resvaladouro para a animalidade. crendo que voltaremos à Terra precisamente daqui a uns trinta anos. A observação era lógica. Devo confessar que quase todos os desastres do pretérito tiveram origem na minha imprevidência e absoluta falta de autodomínio. minhas dívidas para com o planeta são ainda enormes. As mulheres. nossa casinha de felicidade. os desejos e estados inferiores. dentro em breve. pressuroso -.Nem podia ser de outro modo . Na existência passageira. prosseguiu: . Somos o que somos. ainda não foi devidamente compreendida por nós outros. que raramente se diferenciará a ganga do precioso metal. necessito enriquecer o patrimônio das experiências e. tem você em mira novos planos para os círculos carnais? . Raramente algum de nós a utiliza no mundo em serviço de espiritualização. Luzes de indescritível beleza banhavam extenso . até agora.

a arte santificada. Observando minha admiração pelas canções que se ouviam. no centro. Lis ias recomendou bem-humorado: .Mas. espero faça você as honras de cavalheiro. André? Ri-me. em torno de gracioso coreto. . considerando minha antiga posição conjugal . Notei.Lascínia sempre se faz acompanhar de duas irmãs. acrescentando: ..você deve compreender que estou ligado a Zélia. às quais. em várias direções. . .250 Nosso Lar parque. o companheiro explicou: .. dando acesso ao interior do parque. ali mesmo. no entanto. por excelência. e nada pude replicar. temos certas manifestações que atendem ao gosto pessoal de cada grupo dos que ainda não podem entender a arte sublime. Fontes luminosas traçavam quadros surpreendentes: um espetáculo absolutamente novo para mim. onde se ostentavam encantamentos de verdadeiro conto de fadas. riu a valer. Lísias.respondi. Nesse momento. Caminhos marginados de flores desenhavam-se à nossa frente. Não sabe mais ser o irmão de alguém.Nas extremidades do Campo. O enfermeiro amigo. atingimos a faixa de entrada. grande grupo de passeantes. onde um corpo orquestral de reduzidas figuras executava música ligeira. Antes que pudesse manifestar minha profunda admiração. mas. reticencioso. desconcertado. nesse instante. onde Lísias pagou gentilmente o ingresso. temos a música universal e divina. Não creio. que a união esponsalícia deva trazer o esquecimento da vida social.Era o que faltava! Ninguém quer ferir seus sentimentos de fidelidade.

Grupos de senhoras e cavalheiros entretinham-se em animada conversação. de simpatia. Na Terra. o que proporcionava tanto brilho ao quadro maravilhoso. a filosofia edificante. verificava-se o contrário. a pesquisa científica. a cultura intelectual. relativamente aos círculos carnais. . em nenhuma palestra notei o mais ligeiro laivo de malícia ou de acusação aos homens. há pequenos grupos para o culto da música fina e multidões para a música regional. depois de atravessarmos alamedas risonhas. comecei a ouvir maravilhosa harmonia dominando o céu. na colônia. Não somente os pares afetuosos demoravam nas estradas floridas. sem desperdício de adornos e sem trair a simplicidade divina. contudo. a simplicidade confundida com a beleza. valiosa e construtiva. Eu havia presenciado numerosas agregações de gente. A nata de "Nosso Lar" apresentava-se em magnífica forma. nem excesso de qualquer natureza. Não era luxo. experimentava a mensagem silenciosa. a arte pura e a vida sem artifícios. mas todos os comentários tendiam à esfera elevada do auxílio mútuo. extasiara-me ante a reunião que o nosso Ministério consagrara ao Governador. O centro do campo estava repleto. onde cada flor parecia possuir seu reinado particular. O elemento feminino aparecia na paisagem. e. Discutia-se o amor. Não obstante sentir-me sinceramente humilhado pela minha insignificância ante aquela aglomeração seletíssima. revelando extremo apuro de gosto individual. no olhar de quantos me defrontavam. Ali. iluminados e acolhedores. mas o que via agora excedia a tudo que me deslumbrara até então. Ouvia frases soltas. Era a expressão natural de tudo. sem qualquer atrito de opinião.251 Nosso Lar Com efeito. contudo. Grandes árvores. diferentes das que se conhecem na Terra. guarnecem belos recintos.

e. ao passo que os menos instruídos elevavam. está cheio de beleza e sublimidade. o que mais me impressionava era a nota de alegria reinante em todas as conversações. e os grandes compositores terrestres são. a capacidade de compreensão para absorver as dádivas do conhecimento superior. em harmonia. . Fôramos defrontados por gracioso grupo. Aquela sociedade otimista encantava-me. visíveis e invisíveis. por sua vez. todavia. no entanto. aos ouvidos humanos. recolhia referências a Jesus e ao Evangelho. na Terra. não pôde continuar. adornando os temas recebidos com o gênio que possuem. ouvi Lísias dizer: . cheio de compreensão e bondade. absorvem raios de inspiração nos planos mais altos. O Universo. André.252 Nosso Lar Observei que. transmitindo-as. o mais sábio restringia as vibrações de seu poder intelectual. Grandemente maravilhado com a música sublime. onde recebem algumas expressões melódicas. mas também consciente da energia e da vigilância necessárias à preservação da ordem e da justiça.Nossos orientadores. ali. trazidos às esferas como a nossa. tinha concretizadas as esperanças de grande número dos pensadores verdadeiramente nobres. Em palestras numerosas. O enfermeiro do Auxílio. por vezes. O facho resplendente e eterno da vida procede originariamente de Deus. Lascínia e as irmãs haviam chegado e era preciso atender aos imperativos da confraternização. Jesus era lembrado por todos como supremo orientador das organizações terrenas. quanto possível. Ninguém recordava o Mestre com as vibrações negativas da tristeza inútil. Diante dos olhos. ou do injustificável desalento.

o Ministro Clarêncio continuava a responsabilizar-se pela minha permanência na colônia. Por diversas vezes tinha defrontado o generoso Ministro do Auxílio e. A senhora Laura e o próprio Tobias não se cansavam de me lembrar esse fato. com imensa alegria para mim. com o carinho e apreço de todos os companheiros? Reconhecia. Cumpria. mantinha-se ele sempre silencioso sobre o assunto. Além disso. não contava. não obstante desdobrar atividades na Regeneração. não voltara ao lar terrestre. As vezes. no desempenho das obrigações concernentes à sua autoridade. Aprendera a ser útil. que. Até ali. de há muito teria sido encaminhado ao velho ambiente doméstico. intentava pedir concessões. encontrara o prazer do serviço. Clarêncio nunca modificava a atitude reservada.253 Nosso Lar 46 SACRIFÍCIO DE MULHER Um ano se passou em trabalhos construtivos. Aliás. ali. aguardar a palavra de ordem. pois. experimentando crescente júbilo e confiança. apesar do imenso desejo que me espicaçava o coração. no entanto. Não recebera auxílio adequado. portanto. Apenas pelo . nesse particular. se houvesse proveito. mas alguma coisa me tolhia.

embora permanecesse em círculos mais altos. Não descansara. Com efeito. A saudade doía fundo. intensificava-se-me a ansiedade de rever os meus. quando me encontrara nos festejos da Elevação. com serviço útil. cheio de bom ânimo. nos primeiros dias de setembro de 1940. sem solução de continuidade. A última vez que nos avistáramos. esperei-lhe a visita. Habituara-me a cuidar dos enfermos. Entretanto. Em compensação. depois das saudações carinhosas. sem que visse a realização de meus desejos. porém. comovera-me profundamente. comunicou-me o propósito de voltar à Terra. comovidamente. a certeza de haver preenchido todo o meu tempo nas Câmaras de Retificação. Comentara as alegrias da noite e asseverara não andar longe o dia em que me acompanharia ao ninho familiar. Aquela atitude maternal de suave conformação nos sofrimentos morais que lhe feriam a alma sensível. minha mãe veio às Câmaras e. Não perdia de vista a pobre Elisa. . ela me disse que tencionava cientificar-me de projetos novos. À medida. Agradeci. a interpretar-lhes os pensamentos. adivinhando-me as saudades da esposa e dos filhinhos. Nossas tarefas prosseguiam sempre. porém. esperando. a melhores tentames. ansioso de conhecer-lhe os planos. que nunca me abandonou à própria sorte. encaminhando-a. Confortava-me. de longe em longe era visitado por minha mãe. atingíramos setembro de 1940. tocara levemente no assunto.254 Nosso Lar Natal. Que novas resoluções teria tomado? Intrigado. de maneira indireta. que se consolidava meu equilíbrio emocional.

acaso. surpreendido e discordando de semelhante decisão. senão isso? Não . verdadeiramente.Insistiria.Não . no caminho escuro. Pensei. Não posso trazer o inferior para o superior.Não concordo. Já que poderei contar contigo aqui. sob pena de mergulhar em abismos mais fundos. No entanto.Não consideras a angustiosa condição de teu pai. mas a senhora poderá ajudá-lo mesmo daqui. André? Terias coragem de revê-lo em tal situação. no entanto. os espíritos que amam. Que me resta. se não pudéssemos estendê-la aos entes amados? Poderíamos. de novo.255 Nosso Lar Em tom afetuoso. trabalharia por auxiliá-lo. esquivando-te ao socorro justo? .Não duvido.respondi. Estudei detidamente o assunto. Não poderia persistir em semelhante posição. mas posso fazer o contrário. sem necessidade imediata? Mostrando nobre expressão de serenidade. com a senhora. Meus superiores hierárquicos foram acordes no conselho. residir num palácio relegando os filhinhos à intempérie? Não posso ficar a distância. meu filho? Há muitos anos trabalho para reerguê-lo e meus esforços têm sido improfícuos. Não seria possível. Laerte é hoje um céptico de coração envenenado. Voltar a senhora à carne? Por quê? Internar-se. Não haverá meios de evitar essa contingência? . Mas. protestei: . explicou o projeto. e redargüi: . impressionado -. não se limitam a estender as mãos de longe. . pensei. Que fazer. doravante reunir-me-ei a Luísa a fim de auxiliar teu pai a reencontrar o caminho certo. minha mãe ponderou: . De que nos valeria toda a riqueza material.Não.

256 Nosso Lar devo hesitar um minuto. quando puderes transitar entre as esferas que nos separam da crosta. preparando-lhe a reencarnação imediata sem que ele nos identificasse o auxílio direto. continuou ela. a alma pode invocar esse direito somente quando compreenda o dever e o pratique. Com a colaboração de alguns amigos. e auxilia tua mãe. é indispensável reconhecer que o devedor é escravo do compromisso assumido.Não . e. meu filho. as algemas que fundimos para nós mesmos. Entrementes. . zela por tuas irmãs. embora muito amargo. Ainda que o doente não se sinta corajoso. Relativamente à liberdade irrestrita. para jungi-lo à nova situação carnal. portanto.disse minha mãe com significativa expressão fisionômica. não o abandonam. localizei-o na Terra. Estarei novamente no mundo. pois. em trabalho ativo de purgação. nós criamos a fatalidade. onde me encontrarei com Laerte para os serviços que o Pai nos confiar. existem amigos que o ajudam a sorver o remédio santo. Quis fugir das mulheres que ainda o subjugam. e aproveitamos essa disposição.indaguei .Mas isso é possível? E a liberdade individual? Minha mãe sorriu. a semana passada. que talvez ainda se encontrem nas sombras do Umbral. Deus criou o livre-arbítrio. não fosse a Proteção Divina por . e obtemperou: . . Não te percas. Tenho em ti o amparo do futuro. É preciso quebrar.Mas . Enquanto me perdia em graves pensamentos. Quanto ao mais. retomando as anteriores observações: .Há reencarnações que funcionam como drásticos. talvez com razão.como se encontra ele com a senhora? Em espírito? .As infelizes irmãs que o perseguem. entretanto. em breves dias. algo triste.

. Identificando-lhe o espírito de renúncia. como não se pode apagar na Terra um incêndio com petróleo.. meu filho .Serão minhas filhas daqui a alguns anos. . ajoelhei-me e beijei-lhe as mãos.Essas interrogações. André! Os que descrêem perdem o rumo verdadeiro. Em futuro não distante. É preciso não esqueceres que irei ao mundo em auxílio de teu pai.Será então possível? Estamos à mercê do mal até esse ponto? Simples joguetes em mãos dos inimigos? . É indispensável amar. mergulhando no pântano. amor e união.E essas mulheres? .Deus meu! . cercada de outros afetos sacrossantos. devem pairar em nossos corações e em nossos lábios. talvez lhe subtraíssem a oportunidade da nova reencarnação. para uma grande festividade de alegria. E. Não tomes empréstimos à maldade. . Ninguém ajuda eficientemente.257 Nosso Lar intermédio de nossos guardas espirituais. intensificando as forças contrárias. .exclamei. colocarei todos eles em meu regaço materno. muito calma -. e antes de transformarmos irmãos em adversários para o caminho. rematou: . olhos brilhantes e úmidos. Teu pai é hoje um céptico e essas pobres irmãs suportam pesados fardos na lama da ignorância e da ilusão.. como se estivesse a contemplar horizontes do porvir. realizando minha nova experiência. Que será feito dessas infelizes? Minha mãe sorriu e respondeu: . peregrinando pelo deserto. quem sabe? talvez regresse a "Nosso Lar". antes de contrairmos qualquer débito..indaguei.. .esclareceu minha genitora. os que erram se desviam da estrada real..E mais tarde.

. para que eles retomassem o caminho dos filhos de Deus.258 Nosso Lar Desde aquela hora. minha mãe não era apenas minha mãe. que sabia converter verdugos em filhos do seu coração. Era muito mais que isso. Era a mensageira do Amparo.

em letras comuns. a significação espiritual da festa íntima. carinhosos. . Avisado por alguns companheiros. iam prestar à nobre matrona. os amigos mais íntimos lá permaneceram até alta noite. cumprimentavam-na. Os visitantes. por motivo de sua volta às experiências humanas.259 Nosso Lar 47 A VOLTA DE LAURA Não só minha mãe se preparava para regressar aos círculos terrenos. particularmente do Auxílio e da Regeneração. assim. prestes a regressar. ausentando-se. As flores pareciam mais belas. no entanto. aderi à demonstração de simpatia e apreço que diversos funcionários. na maioria. Povoava-se a encantadora residência de melodias e luzes. ocasião de ouvir observações curiosas e sábias. Realizou-se a homenagem afetuosa na noite em que o Departamento de Contas lhe entregou a notificação do tempo global de serviço na colônia. Numerosas famílias foram saudar a companheira. sem maiores delongas. Também a senhora Laura encontrava-se em vésperas do grande cometimento. Tive. Não é possível traduzir.

260 Nosso Lar A senhora Laura me pareceu mais circunspecta. do Esclarecimento. precisamos confiar na Proteção Divina e em nós mesmos. a genitora de Lísias explicava ao representante do Departamento: . Terminaram as aplicações do Serviço de Preparação. e que os filhos amados serão meus amigos de todo instante. mas devemos compreender que a reencarnação é sempre uma tentativa de magna importância. perante a comunidade de mais de um milhão de companheiros. Além do mais. no tocante à "distância vibratória”. Notava. E. sim.Ora essa! não se deixe levar por conjeturas . Reconheço que meu esposo me precedeu no enorme esforço. estou pronta.exclamou a dona da casa. . . É preciso quebrar os óculos escuros que nos apresentam a paisagem física como exílio amarguroso.Como vê. mais grave. entretanto. que se encontre animada para a luta. com um olhar algo triste. contudo.Espero.se-lhe o esforço para acompanhar a corrente de otimismo geral. os filhinhos constituirão seu belo estímulo à retaguarda. as probabilidades de êxito. que não estaremos tão longe.Creio não me demorar mais que dois dias.atalhou o Ministro Genésio -. O interlocutor tomou expressão de sincera fraternidade e acrescentou. seus amigos. Não pense em possibilidades de fracasso. É uma glória seguir para o mundo.. sem disfarçar a preocupação íntima -.. Milhares e milhares de horas de serviço a seu favor. O manancial da Providência é inesgotável. nas suas condições. Além disso. mentalize. é justo confiar alguma coisa em nós outros. concluía: . Repleta a sala de estar. .Tudo isso me reconforta . estimulando-a: .

.Não ignoro o que representam as sombras do campo inferior. que na satisfação de si mesma. contamos com as vibrações espirituais da maioria dos habitantes educados. Seria armar o inimigo para que nos torturasse.Não diga isso . e ainda que velhas fraquezas subam á tona de nossos pensamentos. nas luzes do Evangelho Redentor. ainda e sempre. e caminhar para diante. nossa boa intenção é como se fora bruxuleante luz num mar imenso de forças agressivas. . Ajudá-la-emos a trabalhar muito mais no bem dos outros. O grande perigo. Em verdade.tornou a interlocutora sensatamente -. as úlceras não mais me apoquentam. Sorriu a senhora Laura. no entanto. quase todos.Aqui .Tenho solicitado o socorro espiritual de todos os companheiros. parecendo mais encorajada. não dê tamanha importância às influências das zonas inferiores. meu caro Ministro.. O Ministro esboçou o gesto de quem compreendia o sentido da alegação e revidou: . Bastaria um leve arranhão. Basta recordar que o nosso Sol é o mesmo que alimenta os homens. para voltar a enfermidade..261 Nosso Lar Pense na alegria de auxiliar antigas afeições. pondere na glória imensa de ser útil. e asseverou: . encontramos defesa natural no próprio ambiente. . mas conservo as cicatrizes. tenho receio daquele olvido temporário em que nos precipitamos. Bem sei que a Terra está cheia da grandeza divina. a fim de manter-me vigilante nas lições aqui recebidas. Sinto-me qual enferma que se curou de numerosas feridas. porém. mas é indispensável coragem. O campo das idéias é igualmente campo de luta.atalhou o generoso Ministro -. Na Terra. é a demora nas tentações complexas do egoísmo.

Faltava-me essa exortação.Ah! é verdade . todavia. É necessário pensar nisso.. A senhora pareceu agora ver tudo mais claro. Genésio sorriu satisfeito e acrescentou: . cobrando novo alento: . Nutrindo os elementos do bem. lá ficará para sempre. relativamente ao sangue. de fato. Tenho tido grande preocupação. cada idéia é como se fora uma entidade à parte. agora. A essa altura. Sim. agora compreendo.. surpreendê-los no reduto a que se recolhem. porque a ventania das paixões humanas jamais apagará uma só das luzes de Deus. alimentar quaisquer elementos do mal é construir base segura para os nossos inimigos verdugos. em face dos conceitos ouvidos. progredirão eles para nossa felicidade. Ainda hoje.262 Nosso Lar Toda luz que acendermos. constituirão nossos exércitos de defesa. É verdade: nossa zona mental é campo de batalha incessante. o funcionário das Contas observou: . Precisava levantar energias. o Gabinete da Governadoria forneceu uma nota ao Ministério do Auxílio.Estou convencida. mudou radicalmente a atitude mental e falou. pedi essa providência para que não me encontre demasiadamente sujeita à lei da hereditariedade. recomendando aos cooperadores técnicos da Reencarnação o máximo cuidado no trato com os ascendentes biológicos que vão entrar em função para constituir o novo organismo de nossa irmã. sem lhes dar a importância que exigem.Dentro do nosso mundo individual. É preciso aniquilar o mal e a treva dentro de nós mesmos. .disse ela -. na Terra. de que sua visita é providencial.E não podemos esquecer que Laura volta à Terra com extraordinários créditos espirituais. .

.. terá ao seu lado inúmeros irmãos e companheiros a colaborarem no seu bem-estar. a senhora Laura disse-me em tom maternal: . solícito . . confiarei no Senhor e em todos vocês. Ricardo será trazido até aqui.Não se preocupe.263 Nosso Lar . .Amanhã à noite. cultivarei a esperança. minha amiga . às quais se unia agora a simpática e generosa Teresa. Ninguém comentou a volta à Terra. esforçando-me por ocultar as lágrimas das saudades prematuras que me despontavam no coração. Embora se encontre nos laços físicos. confortada . O Ministério da Comunicação prometeu-nos a visita de meu esposo. portanto. faltava-me ouvi-lo.Minha mãe precisava esquecer as preocupações .que o seu mérito em "Nosso Lar" é bem grande.Têm razão . André. espero igualmente por você.aduziu a dona da casa -. . alta noite. Além disso.exclamou o Ministro Genésio. para o bem. Faremos pequena reunião íntima. manifestaram alegria sincera.faltava-me ouvi-lo. amanhã estarei a despedir-me.disse a senhora Laura. Lísias e as irmãs. .comentou o abnegado enfermeiro do Auxílio -. Em seguida. afinal de contas.Graças a Deus! . não ficaremos aqui a dormir.disse o interlocutor. comovidamente. senão como bendita oportunidade de recapitular e aprender.. com o auxílio fraternal de companheiros nossos. os comentários voltaram ao plano da confiança e do otimismo.Repare . porqüanto o próprio Governador determinou medidas diretas. sorridente -. Ao despedir-me. Agradeci. Não falte.

Aos meus olhos. aproximadamente. mas observava conversações fraternas em todos os grupos. reunia-se pequena assembléia de pouco mais de trinta pessoas. na parte inferior. Achando-me ao lado de Nícolas. onde o Ministro Clarêncio assumira posição de diretor. A disposição dos móveis era a mais simples. porém. em casa de Lísias. Numerosas indagações me bailavam no cérebro. doze a doze diante do estrado. Enfileiravam-se poltronas confortáveis. cada qual tomara lugar adequado. o quadro era inédito e interessante Na espaçosa sala de estar. antigo servidor do Ministério do Auxílio e íntimo da família de Lísias. ousei . cercando-se da senhora Laura e dos filhos. envolvido. havia um grande globo cristalino. em longa série de fios que se ligavam a pequeno aparelho. da altura de dois metros presumíveis. Na sala extensa.264 Nosso Lar 48 CULTO FAMILIAR Talvez que a praticantes do Espiritismo não fosse tão surpreendente a reunião a que compareci. A distância de quatro metros. idêntico aos nossos alto-falantes.

Naturalmente. .perguntei. . E.Estamos prontos.que a nossa emotividade emite forças suscetíveis de perturbar. longo tempo de serviço. aguardamos a ordem da Comunicação.disse Nícolas. entre duas regiões. O companheiro não se fez rogado e esclareceu: . em a nova fase. .Somente agora há bastante paz no recente lar de Ricardo.. disse Nícolas em voz baixa: .É preciso lembrar . .265 NOSSO LAR perguntar alguma coisa.indaguei. Aquela pequena câmara cristalina é constituída de material isolante. Nosso irmão Ricardo está na fase da infância terrestre e não lhe será difícil desprender-se dos elos físicos.. lá na Terra. . Poder-se-ia começar o trabalho culminante da reunião. Como os pomboscorreio que vivem. por alguns instantes. Era chegado o momento.Mas virá ele até aqui? .Não poderia manifestar-se sem ele? . os pais dormem. que estávamos com quarenta minutos depois da meia-noite.Por que o globo cristalino? . e ele. no relógio de parede. não permanece inteiramente junto ao berço. . Nossas energias mentais não poderão atravessá-la. curioso. a casa descansa. indicando o aparelho à nossa frente. espíritos há que vivem por lá entre dois mundos. Verifiquei. mais fortes.Como não? . foi Lísias chamado ao fone por funcionários da Comunicação. Nesse instante.Nem todos os encarnados se agrilhoam ao solo da Terra. por vezes.Ali está a câmara que no-lo apresentará.revidou o interlocutor. contudo. Notando-me o olhar interrogativo. informou: . atenciosamente .

tomando posição junto dos instrumentos musicais. mas tentarei fazê-lo para demonstrar a riqueza das afeições nos planos de vida que se estendem para além da morte: Pai querido. com surpresa. Recebe. Fez-se grande quietude. do piano. respectivamente. da harpa e da cítara. acompanhadas de Lísias..disse . que integravam o gracioso coro familiar.. agora. levantando-se. então. Enquanto as estrelas cantam Na luz que as empalidece. composta por eles mesmos. Sentia-me arrebatado a esferas sublimes do pensamento. cariciosa e divina. abandonavam o estrado.. semelhante a gorjeio celeste. enquanto a noite Traz a benção do repouso. Vem unir à nossa prece A voz do teu coração. pai carinhoso. Judite.266 Nosso Lar Não lhe foi possível continuar. enchendo o ambiente de profundas vibrações de paz e encantamento. Iolanda e Lísias se encarregaram. a Ricardo a nossa mensagem de amor. Logo após. . enviemos. pediu homogeneidade de pensamentos e verdadeira fusão de sentimentos. Nosso afeto e devoção!.Irmão . e Clarêncio disse comovedora e singela prece. cheias de espiritualidade e beleza. Lísias se fez ouvir na cítara harmoniosa. O Ministro Clarêncio. Em seguida. Clarêncio tomou novamente a palavra: . ao lado de Teresa e Eloísa. Lísias e as irmãs cantavam maravilhosa canção. que as filhas e a neta da senhora Laura. Muito difícil frasear humanamente as estrofes significativas. As cordas afinadas casaram os ecos de branda melodia e a música elevou-se. Observei. quando vozes argentinas embalaram o interior.

pai generoso. pai. Sobe ao cume da montanha. Nossa casa não te olvida O sacrifício. Esquece. um dia. a Terra E vem sorver da água pura De consolo e de ternura Das fontes de "Nosso Lar". Vem a nós. Não temas a dor terrestre. apresentando. .267 Nosso Lar Não te perturbes na estrada De sombras do esquecimento. notei que o globo se cobria. Vem conosco orar também. Recorda a nossa aliança. Nossas almas acordadas Relembram as alvoradas Desta vida superior. de substância leitosoacinzentada. Inda que seja a sonhar. A sublime claridade De tuas lições no bem. Enquanto dormes no mundo. a carne estranha. a figura simpática de um homem na idade madura. Volveremos à alegria Do jardim do teu amor. Espera por nós que. Vence. logo em seguida. Não te doa o sofrimento. Era Ricardo. interiormente. Volta à paz do nosso ninho. Torna às luzes do caminho. Às derradeiras notas da bela composição. Jamais te firas no mal. um minuto. Atravessa a sombra espessa. Aguarda o porvir risonho. Conserva a flor da esperança Para a ventura imortal. a bondade.

que nos reencontramos para o estímulo santo. Como sou feliz! A senhora Laura chorava discretamente.Sua mãe virá ter comigo. todos ali mantinham análoga impressão.a exclamar carinhosamente: . falou comovidamente: . o caminho das esferas superiores. em breve. virão vocês.Pai querido. Lísias e as irmãs tinham os olhos marejados de pranto. fixou o olhar amigo em nós outros. que ouviu banhado em lágrimas. ouvindo. porque vi Judite abraçar-se ao globo cristalino. Quando se calaram as últimas notas. O recém-chegado. juntos. que Ricardo pousou o olhar profundo na senhora Laura e murmurou: . filhinha! Mais tarde. após falar particularmente à companheira e aos filhos. Percebi que o recém-chegado não falava com espontaneidade e não podia dispor de muito tempo entre nós.Oh! meus filhos. para ser feliz. Quando o globo começou a apresentar. igualmente! Que mais eu poderia desejar. então. diga o que precisa de nós. os mesmos tons acinzentados. pedindo fosse repetida a suave canção filial. esclareça em que poderemos ser úteis ao seu abnegado coração! Observei. de novo. senão rogar ao Mestre que nos abençoe para sempre? Todos chorávamos.268 Nosso Lar Impossível descrever a sagrada emoção da família. ainda aqui. enternecidos. dirigindo-lhe amorosas saudações. que nos aureolou o culto doméstico do Evangelho com as supremas alegrias desta noite! Nesta sala temos procurado. como é grande a bondade de Jesus. Possivelmente. ouvi Ricardo exclamando. quase a despedida: . muitas vezes recebemos o pão espiritual da vida e é.

Não será difícil a Genésio concederlhe uma semana de ausência. mas lembrei instintivamente o serviço das Câmaras. quando alguém me atalhou os passos quase junto à dona da casa. O Ministro Clarêncio orou com sentimento e a sessão foi encerrada. Aquele pedido inesperado me sensibilizou e surpreendeu ao mesmo tempo.. . chorando e rindo ao mesmo tempo..Ah! filhos meus. amanhã acompanharei nossa irmã Laura à esfera carnal. Ricardo endereçou a todos saudações carinhosas e a cortina de substância cinzenta cobriu toda a câmara. alguma coisa tenho a pedir-lhes do fundo de minhalma! roguem ao Senhor para que eu nunca disponha de facilidades na Terra.Você tem regular quantidade de horas de trabalho extraordinário a seu favor. poderá vir conosco para visitar sua família. Se lhe apraz. exprimindo-lhe de viva voz minha profunda impressão e reconhecimento. enfim.269 Nosso Lar . que me falou em tom amável: . que. o pensamento. Dirigi-me ao estrado para abraçar a senhora Laura. em seguida. Possuído de júbilo intenso. porém. deixando-nos imersos em alegria indescritível. depois do primeiro ano de cooperação ativa. Adivinhando-me.André. Ia. Não podia ser maior a surpresa. Profunda sensação de alegria me empolgou. a fim de que a luz da gratidão e do entendimento permaneça viva em meu espírito!. rever a esposa e os filhos amados. Era Clarêncio. que se ocupava a atender às numerosas felicitações dos amigos presentes. agradeci. o generoso Ministro voltou a dizer: . voltou ao aspecto normal.

Passarei aqui diariamente para revê-lo.270 Nosso Lar 49 REGRESSANDO A CASA Imitando a criança que se conduz pelos passos dos benfeitores. com a sensação indescritível do viajante que torna ao berço natal depois de longa ausência.Você tem uma semana ao seu dispor. As velhas árvores do bairro. Não me demorei a examinar pormenores. que denunciava extrema preocupação. o mesmo perfume errante. respirando o ar de outros tempos. O coração . a longos haustos. a caminho de casa. a paisagem não se modificara de maneira sensível. Embriagado de alegria. o mesmo céu. Se quiser ir a "Nosso Lar". Atravessei celeremente algumas ruas. o mar. aproveitará minha companhia. não mais notei a expressão fisionômica da senhora Laura. que seguiria adiante. e despedi-me da pequena caravana. cheguei à minha cidade. Passe bem. atento aos cuidados que devo consagrar aos problemas da reencarnação de nossa irmã. Sim. Clarêncio abraçou-me e falou: . André! Último adeus à dedicada mãe de Lísias e me vi só.

quando ouvi minha esposa suplicar. vi Zélia que saía do quarto. formávamos gracioso grupo? Alguma coisa me oprimia ansiosamente. E. respondeu. O interlocutor. perguntou ao cavalheiro alguma coisa que não pude compreender de pronto. Que teria acontecido? Comecei a cambalear de emoção. doutor. Compreendi a situação e calei-me. garbosa. acompanhando um cavalheiro que me pareceu médico. eu havia plantado no primeiro aniversário de casamento.Mas. ostentava-se. Tudo. denotava diferenças enormes. Ernesto reclama absoluto repouso. a palmeira que. Onde estariam os velhos móveis de jacarandá? E o grande retrato onde. por caridade! Peço-lhe! Oh! não suportaria uma segunda viuvez. Desabrochavam azáleas e rosas. salve-o. respeitoso: . Em frente ao pórtico. sussurrava carícias no arvoredo do pequeno parque. mas as palavras pareciam reboar pela casa sem atingir os ouvidos dos circunstantes. porém. Ébrio de felicidade. Muito atenta. como outrora. baixando a voz. à primeira vista.Só amanhã poderei diagnosticar seguramente. ansiosa: . avancei para o interior. saudando a luz primaveril. com Zélia. mas Zélia parecia totalmente insensível ao meu gesto de amor. O vento. transformada em jovem casadoura. o Dr. com o carinho da minha saudade imensa. porque a pneumonia se apresenta muito complicada.271 Nosso Lar me batia descompassado. Gritei minha alegria com toda a força dos pulmões. onde vi a filhinha mais nova. em virtude da hipertensão. à medida que me aproximava do grande portão de entrada. Dirigi-me à sala de jantar. Ernesto? Perdia-me num mar de indagações. Todo o cuidado é pouco. Quem seria aquele Dr. desapontado. quase no mesmo instante. . Abracei-me à companheira. com a esposa e os filhinhos.

onde encontrei as filhas conversando. singulares saudades do papai me atormentam o coração. Ernesto. E meu filho? Onde estaria ele? Zélia instruiu convenientemente uma velha enfermeira e veio palestrar. evidenciando melindroso estado de saúde. O Senhor me havia chamado aos ensinamentos do amor. mais calmamente. Outro homem se apossara do meu lar. depois de algumas horas de amarga observação e meditação. Verifiquei que o doente estava cercado de entidades inferiores. É uma coisa que não sei bem definir.272 Nosso Lar Zélia chorava e torcia as mãos. De pronto. entretanto. da fraternidade e do perdão. Assentei-me. Valia a pena de ter esperado tanto para colher semelhantes desilusões? Corri ao meu quarto. estava um homem de idade madura.exclamou a primogênita -.. como também porque. à sala de jantar. não só para colher notícias do Dr. Desde cedo. tive ímpetos de odiar o intruso com todas as forças. decepcionado e acabrunhado. várias vezes. demonstrando imensa angústia. mostrando-se interessadas em lhe agravar os padecimentos. não sei por que penso tanto nele. hoje. com as filhas. mamãe . A esposa me esquecera. devotadas ao mal. voltei. vendo Zélia entrar no aposento e dele sair. Sucediam-se as surpresas. No leito. . verificando que outro mobiliário existia na alcova espaçosa. três figuras negras iam e vinham. Um corisco não me fulminaria com tamanha violência. não consegui auxiliá-lo imediatamente. cambaleante.. A casa não mais me pertencia. . e. A mais velha casara-se e tinha ao colo o filhinho. mas já não era eu o mesmo homem de outros tempos. Ao lado dele.Vim vê-los. acariciando o enfermo com a ternura que me coubera noutros tempos.

terminantemente. acrescentando: . nervosa e enfadada -. a seu pai. mamãe.. minha filha? Já proibi a vocês. sob a feição de pensamentos confortadores. agora. Não se esqueça de que André está morto.Desde que a pobre mana começou a se interessar pelo maldito Espiritismo. ora . mas subjetivamente. com imensa surpresa para mim. a praticar por aí tantas loucuras. Então é crime sentir saudades de papai? Vocês também não amam. Não sabe que isso desgosta o Ernesto? Já vendi tudo quanto nos recordava aqui o passado morto.Não estou traduzindo convicções religiosas.Ora. embora continuasse chorando. que ela não registrou auditiva. seu único filho varão não andaria. Não me venha com lamúrias e lágrimas pelo passado irremediável.273 Nosso Lar Não terminou. nesta casa. Zélia. Aflitíssima como estou.tornou Zélia. murmurando palavras de encorajamento e consolação. . tolerar as suas perturbações. Lágrimas abundantes borbotavam-lhe dos olhos. Aproximei-me da filha chorosa e estanquei-lhe o pranto. Que passadismo é esse. dirigiu-se à filha autoritariamente: . A outra. e você não me pode ajudar nisso? A filha mais jovem interveio. Afinal. qualquer alusão. via-me em face de singular conjuntura! Compreendia. falou com dificuldade: . Onde já se viu tal disparate? Essa história dos mortos voltarem é o cúmulo dos absurdos. não têm sentimento? Se papai estivesse conosco. vive com essas tolices na cachola. o motivo pelo qual meus verdadeiros .Ora essa! Era o que nos faltava!.. cada qual tem a sorte que Deus lhe dá. modifiquei o aspecto das próprias paredes.

em nossos caminhos. portanto. Não tenho diretrizes novas. e pedi que me não desamparasse com o necessário auxílio. Clarêncio passou. verdadeiros milagres de felicidade e compreensão. a ouvir conceitos e a surpreender atitudes que nunca poderia ter suspeitado. absolutamente só no testemunho. não posso esquecer que aquela recomendação de Jesus para que amemos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. disse. opera sempre. Minha casa pareceu-me. em face da realidade. Nem haveres. quando seguida. então. Clarêncio sorriu e despediu-se. o meu retorno ao lar terreno. comecei a ponderar o alcance da recomendação evangélica e refleti com mais serenidade. encontrando-me na mesma situação de perplexidade. Angústias e decepções sucediam-se de tropel. me haviam proporcionado lágrimas tão amargas. À tardinha. um patrimônio que os ladrões e os vermes haviam transformado. Percebendo meu abatimento. nem afetos! Somente uma filha ali estava de sentinela ao meu velho e sincero amor. sensibilizado. nos primeiros dias de além-túmulo.Compreendo suas mágoas e rejubilo-me pela ótima oportunidade deste testemunho. meu caro. nem títulos. Qualquer conselho de minha parte. solícito: . Afinal de contas. oferecendo-me o cordial da sua palavra amiga e reta. Apenas. seria intempestivo. tanto. Chegou a noite e voltou o dia. suportado a prolongada solidão? Não teria recorrido a mil pretextos .274 Nosso Lar amigos haviam procrastinado. Agradeci. Nem os longos anos de sofrimento. acaso. por que condenar o procedimento de Zélia? E se fosse eu o viúvo na Terra? Teria. Então.

Minha família não era. sim. . uma esposa e três filhos na Terra. apenas. agora. em piores condições. à comunidade universal. constituída de centenas de enfermos nas Câmaras de Retificação e estendia-se. talvez. se Zélia não lhe houvesse aceitado a aliança afetiva? Preciso era. Jesus conduzira-me a outras fontes. Era.275 Nosso Lar para justificar novo consórcio? E o pobre enfermo? Como e por que odiá-lo? Não era também meu irmão na Casa de Nosso Pai? Não estaria o lar. pois. senti que a linfa do verdadeiro amor começava a brotar das feridas benéficas que a realidade me abrira no coração. Dominado de novos pensamentos. lutar contra o egoísmo feroz. Não podia proceder como homem da Terra.

extraindo de cada uma a substância dos bons exemplos. mas seu irmão e amigo. para adquirir o mel da sabedoria. sentia-me cansadíssimo. através do amor e do entendimento recíprocos. As meditações preciosas que a palavra de Clarêncio me sugerira. no campo das lembranças. que são as almas nobres. Compreendia. Não era dono de meus filhos e. Bastava-me a presença dos amigos queridos. companheiros de luta e realização. atravessava dias vários de serviço ativo. deve proceder como a abelha. certa feita. no treinamento de elevação a que muitos de nós se consagravam. me afirmara que toda criatura. sim. as necessidades humanas. as manifestações de afeto. no testemunho. onde os entes amados se convertiam em verdugos. davam-me certa calma ao coração. a absorção de elementos puros através do ar e da água mas ali não encontrava senão escuro campo de batalha.276 Nosso Lar 50 CIDADÃO DE "NOSSO LAR" Na segunda noite. Não era proprietário de Zélia. Começava a compreender o valor do alimento espiritual. finalmente. . sem alimentação comum. Em "Nosso Lar". acercando-se das flores da vida. Recordei que a senhora Laura.

as justas necessidades dos meus semelhantes. Não se sacrificara ela por meu pai. A Ministra Veneranda trabalhava séculos sucessivos pelo grupo espiritual que lhe estava mais particularmente ligado ao coração. de regresso ao mundo. cujo estado se agravava de momento a momento. E. E a expressão de fraternidade dos demais amigos da colônia? Clarêncio me acolhera com devotamento de pai. no meu espírito. Ernesto.277 Nosso Lar Apliquei ao meu caso o proveitoso conselho e comecei recordando minha mãe. Zélia amparava-lhe a fronte e dizia. apesar da forte dispnéia. Reconheci que Zélia e Ernesto se amavam intensamente. acima de todos os meus sentimentos pessoais. Tobias como irmão. Procurei abstrair-me das considerações aparentemente ingratas que ouvia no ambiente doméstico e deliberei colocar acima de tudo o amor divino. célere. a mãe de Lísias me recebera como filho. Roguei ao Senhor energias necessárias para manter a compreensão imprescindível e passei a interpretar os cônjuges como se fossem meus irmãos. tem pena de mim. se de fato me sentia companheiro fraternal . que se erguia. No meu cansaço. a ponto de adotar mulheres infelizes como filhas do coração? "Nosso Lar" estava repleto de exemplos edificantes. Cada companheiro de minhas novas lutas me oferecia algo de útil à construção mental diferente. Narcisa sacrificava-se nas Câmaras para obter endosso espiritual. em tarefa de auxílio.Ernesto. banhada em lágrimas: . e. procurei o apartamento do enfermo. A senhora Hilda vencera o dragão do ciúme inferior. querido! Não me deixes só! Que será de mim se me faltares? O doente acariciava-lhe as mãos e respondia com imenso afeto.

eram enormes. o que não poderia esperar. à vontade. quando me dissera: . e vim ao seu encontro. em 'Nosso Lar'. devia auxiliá-los com os recursos ao meu alcance. Era Narcisa que atendia. A mensageira do bem fixou o quadro.278 Nosso Lar de ambos. comunicava-lhe meus propósitos de auxílio e insistia para que me não desamparasse."aqui. nem todos necessitam do aeróbus para se locomoverem. mais ou menos. do processo de conversação mental.Ouvi seu apelo. . então. sorrindo: . apesar da distância". entre si. compreendeu a gravidade do momento e acrescentou: . meu amigo. Lembrei quanto me seria útil a colaboração de Narcisa e experimentei. nas vibrações da prece. quando ainda não havia retirado a mente da rogativa. Iniciei o trabalho procurando esclarecer os espíritos infelizes que se mantinham em estreita ligação com o enfermo. em pensamento. num plano de perfeita sintonia de pensamentos. minha experiência dolorosa. Passados vinte minutos. alguém me tocou de leve no ombro. Aconteceu. Nessa emergência. Minhas dificuldades. lembrei certa lição de Tobias. e nem todos precisam de aparelhos de comunicação para conversar a distância. porque os habitantes mais elevados da colônia dispõem do poder de volitação. Não cabia em mim de contentamento. Contava-lhe. Sentia-me abatidíssimo. Os que se encontrem afinados desse modo. Concentrei-me em fervorosa oração ao Pai e. dirigi-me a Narcisa encarecendo socorro. por se manterem.Não temos tempo a perder. podem dispor. porém.

na obra divina. certa substância com as emanações do eucalipto e da mangueira e. nos reinos diversos em que se subdividem. o médico observou. O enfermo experimentou melhoras sensíveis.São servidores comuns do reino vegetal. precisamos das árvores. à vista da minha surpresa. há quem ensine. acentuou: . Narcisa chamou alguém. que se afastaram como por encanto. segui-a. e ela. nada existe de inútil na Casa de Nosso Pai. Chegados a local onde se alinhavam enormes frondes.279 Nosso Lar Antes de tudo. Para o caso do nosso enfermo. durante toda a noite. O único desventurado. aplicou passes de reconforto ao doente. que me eram totalmente estranhos. extremamente surpreendido: . Pela manhã. se há quem necessite aprender. aplicamos o remédio ao enfermo. As forças naturais fazem o mesmo. isolando-o das formas escuras. Daí a momentos. rematou: . Em seguida. através da respiração comum e da absorção pelos poros. cedo. Acompanhei-a sem hesitação. oito entidades espirituais atendiamlhe ao apelo. convidou-me com decisão: . que se condenou às trevas da maldade.Como vê. notando-me a estranheza. surge a Providência. Elas nos auxiliarão eficazmente.Vamos à Natureza. e onde aparece a dificuldade. em poucos instantes. a enfermeira explicou: . silencioso. Devidamente informada pelos amigos. com expressões que eu não podia compreender. Em toda parte.Não só o homem pode receber fluidos e emiti-los. E. Narcisa manipulou. os irmãos que nos atenderam. é o espírito imprevidente. vi-a indagar da existência de mangueiras e eucaliptos. Admirado da lição nova. Imensamente surpreendido.

Instruído por Narcisa. voltei a "Nosso Lar" em companhia de Narcisa e. nas áreas de nosso domínio vibratório. regressar aos deveres justos. A luz dormente e cariciosa do crepúsculo. chegara ao termo de minha primeira licença nos serviços das Câmaras de Retificação. ganhávamos grandes distâncias. ouvi-a esclarecer: . Por minha vez. tomei o caminho de "Nosso Lar". Profundo alento e belas esperanças revigoravam-me o ser. Ao fim da semana. experimentava grande júbilo nalma. não impede que utilizemos o processo longe da cidade. Encheu-se a casa de alegria nova. que passei a estimar como irmãos. Naqueles . intensificando o tratamento de Ernesto. Essa abstenção. que vigorosos laços de inferioridade se haviam rompido dentro de mim. pois. cujas melhoras se firmaram. Clarêncio visitava-me. eu mesmo. ia da casa terrestre à cidade espiritual e vice-versa.280 Nosso Lar . diariamente. pela primeira vez. quando é preciso ganhar distância e tempo. Reconhecia. totalmente modificado. Nesse dia. Nova compreensão e novos júbilos me enriqueciam o espírito. Comunicando à enfermeira generosa minha impressão de leveza. sem dificuldade de vulto. visto a maioria não ter adquirido essa faculdade. francas e rápidas. A bandeira da alegria desfraldara-se em meu íntimo. grande parte dos companheiros poderia dispensar o aeróbus e transportar-se. Era preciso. Num momento. A alegria tornara aos cônjuges. todavia. à vontade. mas. experimentei a capacidade de volitação. para sempre. todos se abstêm de exercê-la em nossas vias públicas.Verificou-se esta noite extraordinária reação! Verdadeiro milagre da Natureza! Zélia estava radiante.Em "Nosso Lar". mostrando-se satisfeito com o meu trabalho.

281 Nosso Lar rápidos sete dias. de surpresa. aprendera preciosas lições práticas no culto vivo da compreensão e da fraternidade legítimas. Tobias. Silveira. a chorar de gratidão e de alegria. declaro-o cidadão de "Nosso Lar". Narcisa. você era meu pupilo na cidade.dizia. doravante. Com que sabedoria dispõe o Senhor todos os trabalhos e situações da vida! Com que amor atende a toda a Criação! Algo. a monologar intimamente. porém. em nome da Governadoria. Como é grande a Providência Divina! . colhido. Todos me saudavam. que o Ministro Clarêncio. André. atirei-me aos braços paternais de Clarêncio. E. então. considerando a grandeza da Bondade Divina. surgindo à frente de todos.Até hoje. Mais de duzentos companheiros vinham ao meu encontro. Por que tamanha magnanimidade se meu triunfo era tão pequenino? Não conseguia reter as lágrimas de emoção que me embargavam a voz. Salústio e numerosos cooperadores das Câmaras ali estavam. me arrancou da meditação a que me recolhera. Não sabia que atitude assumir. Lísias. assim. mas. Foi. estendeu-me a destra e falou: . adiantou-se. Fim . A tarde sublime enchia-me de magnos pensamentos. generosos e acolhedores. Lascínia.

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