‘Gente como a gente’ O conceito de homem anatomicamente moderno

Ingold, Tim. The perception of the environment. Essays on livelihood, dwelling and skill. London and New York: Routledge, 2000.

Tradução: Ciméa Barbato Bevilaqua

Nota da tradutora: Há quase meio século, em ensaio que se tornaria justamente clássico (“O impacto do conceito de cultura sobre o conceito de homem”, de 1966), Clifford Geertz criticava a noção então corrente de que a capacidade humana de produzir e transmitir cultura só emergiu depois que a evolução biológica da espécie virtualmente se completou. Com o apoio dos conhecimentos paleontológicos disponíveis à época, Geertz sustentava que a cultura, ao invés de se acrescentar a um organismo biologicamente “pronto”, foi um ingredi ente essencial no próprio processo de produção do Homo sapiens. Embora apresentasse uma perspectiva renovada sobre a “natureza humana”, o argumento reintroduzia implicitamente a própria premissa que pretendia afastar: a universalidade biológica dos seres humanos passava a ser concebida como incompletude, tendo como corolário a inelutável dependência de padrões culturais para dirigir sua existência e realizar, de formas sempre particulares, as capacidades inerentes à espécie. Em síntese, “todos os seres humanos começam (biologicamente) iguais e terminam (culturalmente) muito diferentes”. É precisamente essa ideia, mais ou menos consensual entre os antropólogos nas décadas posteriores, que Tim Ingold coloca em questão ao argumentar que as próprias diferenças culturais são, num sentido muito preciso, biológicas. Não se trata obviamente de reviver velhos dogmas racistas, mas de reconectar biologia e cultura de forma produtiva, a partir de uma sofisticada crítica à teoria evolutiva neo-darwiniana (e, no mesmo movimento, à concepção da cultura como um sistema de “planos, receitas, regras, instruções”). Como mostra Ingold, é a redução contemporânea do biológico ao genético que torna necessário, para escapar ao racismo, insistir na separação entre evolução e história, conferindo aos seres humanos um estatuto fundamentalmente ambíguo: de um lado, organismos da natureza como todos os demais seres vivos; de outro, as únicas criaturas que transcenderam de tal modo o mundo da natureza “a ponto de fazer dela um objeto de sua consciência”.

‘Gente como a gente’ O conceito de homem anatomicamente moderno[1]

voltar ao topo

Introdução:

A visão ortodoxa

Permitam-me começar com uma pergunta um tanto cômica. Por que o homem de Cro-Magnon não andava de bicicleta? Apresento em primeiro lugar a resposta que sem dúvida parece óbvia: não é que lhe faltassem os prérequisitos anatômicos para tal proeza, simplesmente ele viveu numa era muito anterior a que algo tão engenhoso e complexo como uma bicicleta tivesse sido desenvolvido. E mesmo que tivesse, considerando-se a natureza do terreno e o modo de subsistência predominante, uma bicicleta provavelmente teria sido muito pouco útil para ele. Em outras palavras, embora ele estivesse biologicamente preparado para subir no selim, as condições culturais para que andar de bicicleta fosse uma opção viável ainda estavam ausentes. Eu pretendo mostrar, entretanto, que esta resposta está seriamente equivocada, e que a busca por uma alternativa mais satisfatória obriga a uma revisão fundamental das nossas noções mais básicas de evolução, de história e mesmo da própria humanidade. Em especial, quero argumentar que a ideia de “homem anatomicamente moderno”, o pivô em torno do qual giram todas essas outras noções, é uma ficção analítica cuja principal função é encobrir uma contradição situada no cerne da biologia evolutiva moderna. O homem de Cro-Magnon, descoberto por Louis Lartet na vila de Les Eyzies, França, em 1868, adquiriu a aura de “moderno” prototípico, embora não seja de modo algum o mais antigo representante de seu tipo no registro fóssil. Comparado a seus predecessores – os Neandertais “arcaicos” e, ainda antes, o Homo erectus – esse tipo era reconhecivelmente diferente: uma espécie de homem, como escreveu William Howells, “inteiramente como nós” (1967: 240). Na paleoantropologia contemporânea, os Cro-Magnons são incluídos, juntamente com todas as populações humanas subsequentes e atuais, no táxon subespecífico único Homo sapiens sapiens. E a implicação dessa categorização é que, ao menos no que diz respeito a seus dotes biológicos, estes indivíduos do Paleolítico Superior estavam dentro do espectro de variação da subespécie. Se tivessem nascido em nosso tempo, e crescido em uma sociedade como a nossa, eles seriam sem dúvida capazes de fazer todas as coisas que nós fazemos: ler e escrever, tocar piano, dirigir, andar de bicicleta e assim por diante. Ou seja, eles tinham o potencial para fazer todas essas coisas, um potencial que, contudo, permaneceu irrealizado no decurso

de sua existência. Eu gostaria de retornar agora à caracterização de Howells dos Cro-Magnons como gente “inteiramente como nós”, com o propósito, nesta etapa do argumento, de apresentar o que acredito ser a posição ortodoxa na antropologia atual. Poder-se-ia objetar que eles não eram de modo algum como nós. Afinal de contas, não viviam em cidades, liam livros, escreviam monografias científicas, tocavam piano ou dirigiam carros. A este tipo de objeção, duas réplicas surgem imediatamente. Uma delas é salientar que a objeção se baseia numa visão estreita e etnocêntrica de quem somos “nós”, uma visão que excluiria uma grande proporção da própria humanidade contemporânea. Ao se comparar populações do Paleolítico Superior conosco, a referência deveria ser a humanidade em sua distribuição global, independentemente de variações culturais. A outra resposta é qualificar o sentido em que se diz que essas populações foram “modernas”. Este não deveria ser confundido com o uso convencional na antropologia social e cultural, em que a modernidade é geralmente associada a alguma noção de sociedade Ocidental urbano-industrial. Eles eram “como nós” biologicamente, mas não culturalmente. O que separa os humanos anatomicamente modernos de trinta mil anos atrás (e anteriores) de seus descendentes contemporâneos, de acordo com a teoria ortodoxa, é um processo não de evolução, mas de história – ou, como diriam alguns, de evolução cultural em lugar de biológica. Isto não é sugerir que com o advento dos “modernos” a evolução de nossa espécie tenha literalmente estancado. Mudanças ocorrem continuamente, mas são relativamente pequenas, nada que se compare às transformações verdadeiramente colossais das formas de vida que aconteceram – aparentemente em ritmo crescente – no curso da história humana. Se, e em que sentido, essas transformações podem ser consideradas progressivas é uma questão debatida com vigor: não obstante, parece haver uma concordância geral de que a história da cultura tem sido marcada por um incremento cumulativo na escala e complexidade de seu componente tecnológico. Contudo, o processo histórico de complexificação da esfera tecnológica da cultura não foi apenas possibilitado por uma constituição biológica estabelecida no Paelolítico Superior; ele também não afetou essa constituição. O veículo a motor é uma invenção moderna, mas o homem atrás do volante permanece uma criatura biologicamente equipada para a vida na Idade da Pedra! Desse modo, no que se refere a sua biologia básica, ciclistas não são diferentes de pedestres, e os pedestres de hoje não são diferentes de seus predecessores do Paleolítico Superior. É em geral aceito que a locomoção bipedal é uma característica humana universal, cuja evolução implicou um conjunto específico de adaptações anatômicas (Lovejoy 1988). Andar de bicicleta, em contraste, é uma habilidade adquirida, cujo aparecimento foi relativamente tardio em algumas, mas não em todas, as populações humanas. Embora seu advento tenha sido condicionado por uma longa cadeia de circunstâncias de invenção e difusão (da descoberta da roda à manufatura de tubos de aço), bem como de modificação ambiental (a construção de estradas e trilhas), ele não suscitou nenhuma reconfiguração da anatomia humana. Em

Supõe-se comumente que andar é algo “com que nascemos”. embora o bebê não exatamente aterrisse no mundo sobre dois pés. é invariavelmente mobilizada nesse empreendimento. Assim. além de uma variedade de objetos de apoio e um certo tipo de terreno (Ingold 1991: 370). que elas o fazem num período definido bastante curto. Começo lançando um novo olhar sobre o contraste entre andar e pedalar. A mesma distinção[2] é em geral invocada para explicar por que os produtores de ferramentas do Paleolítico Superior trabalhavam com pedra lascada em vez de complexos equipamentos mecânicos ou eletrônicos. ele é dotado de uma agenda interna de desenvolvimento que garante que ele irá andar ereto no devido tempo. Isto nos reconduz à resposta convencional para a pergunta do início.sua estrutura e proporções. Pode-se projetar um cenário futuro no qual as necessidades humanas de locomoção seriam inteiramente supridas por veículos sobre rodas. já competentes nessa arte. a razão é histórica. ou imaginar . Como podemos continuar sustentando que a habilidade de andar vem. Mas o fato é que crianças recém-nascidas não andam. então é igualmente absurdo postular uma progressão análoga da locomoção quadrúpede para a locomoção em duas rodas. Em resumo. e mais. não evolutiva. por assim dizer. E se é absurdo postular uma linha direta de continuidade desde as primeiras ferramentas de pedra até o maquinário moderno. e sua função mecânica essencial é converter a movimentação bipedal em rotativa. e a ajuda de pessoas mais velhas. a bicicleta foi concebida para “se ajustar” a um corpo humano que já havia evoluído para andar. Elas têm que aprender a andar. Esta última ressalva é absolutamente fundamental. voltar ao topo Andar e pedalar Creio que esta pode ser considerada uma representação justa da visão ortodoxa. afinal. a menos que incapacitadas por acidente ou doença. em outras palavras. andar é uma habilidade que emerge para cada indivíduo no curso de um processo de desenvolvimento. desde que certas condições estejam presentes em seu ambiente. sequer sobreviveriam. presume-se que a primeira é uma habilidade inata. por meio do envolvimento ativo de um agente – a criança – em um ambiente que inclui educadores qualificados. enquanto esta é adquirida. Quero mostrar agora por que eu penso que ela está errada. “pré -embalada” no biograma humano? É certo que a ampla maioria das crianças humanas aprende a andar. e esta é a razão pela qual todas a crianças que sobrevivem efetivamente andam. Crianças privadas do contato com cuidadores mais velhos não aprendem a andar – aliás. E isto porque a transição entre andar sobre quatro ou sobre dois pés pertence à evolução. enquanto andar de bicicleta é um produto da enculturação. Ou seja. enquanto a transição – se quiserem – de dois pés a duas rodas pertence à história. A razão pela qual o homem de Cro-Magnon não andava de bicicleta não tem absolutamente nada a ver com biologia.

por assim dizer. esta é uma diferença de extensão. ninguém pode aprender a pedalar sem ter uma bicicleta. Se andar é inato no sentido – e apenas no sentido – em que. deixam também suas marcas no próprio esqueleto. Contudo. no sentido em que sua emergência depende de um processo de aprendizado inscrito em contextos de interação social. sem dúvida. deixa . deve emergir no curso do desenvolvimento. então o mesmo se aplica a caminhar. “pré-fabricada” para caminhar. Ademais. não de princípio. Embora as crianças geralmente aprendam a andar antes de pedalar. então o mesmo se aplica a andar de bicicleta.a vida sob condições de ausência de gravidade no espaço cósmico. Em outras sociedades. assim como em caminhar. são propriedades do sistema de desenvolvimento constituído por essas relações. agachar-se força os joelhos. as pressões e esforços recorrentes da vida cotidiana não afetam apenas o desenvolvimento relativo de diferentes músculos. o que resulta em marcas na patela. O corpo humano não é pré-fabricado para coisa alguma. dadas certas condições. as bicicletas podem ser raras ou estar completamente ausentes. Com efeito. o bipedalismo não pode ser atribuído ao organismo humano a menos que o contexto ambiental entre na especificação do que o organismo é. portanto. passo agora de andar a pedalar. Em outras palavras. em contraste. porém. Em comparação com caminhar. e o ambiente também deve incluir ruas ou trilhas em que se possa transitar em duas rodas. As crianças só se tornam proficientes em andar de bicicleta. em que o andar desapareceria. E assim a habilidade de pedalar tem uma distibuição muito mais limitada que a de andar. sofre contínuas mudanças ao longo do ciclo de vida à medida em que é impelido ao desempenho de tarefas diversas. ao contrário. Tanto andar quanto pedalar são competências que emergem nos contextos relacionais do envolvimento da criança em seu ambiente e. as condições para o desenvolvimento da capacidade de andar de bicicleta são bem mais restritivas. Com este ponto em mente. Obviamente. e até mesmo em características anatômicas básicas. Tais cenários são reconhecidamente fantásticos. é tão errado supor que pedalar é “dado” de modo exógeno (independentemente do organismo humano) quanto supor que andar é “dado” de modo endógeno (independentemente do ambiente). Em sociedades industriais contemporâneas essas condições estão tão ubiquamente presentes que nossa tendência é pensar que é natural que crianças a partir de certa idade sejam capazes de andar de bicicleta. no sentido em que seu desenvolvimento implica modificações específicas. neurológicas e musculares. as modificações suscitadas por andar de bicicleta não são simplesmente acrescentadas a uma anatomia. mas imaginá-los serve para reforçar meu ponto de que a capacidade para a locomoção bipedal só pode ser dita inata quando se pressupõe a presença das condições ambientais necessárias para o seu desenvolvimento. Falando estritamente. essas competências são literalmente incorporadas. E se pedalar é adquirido. por meio de um processo de aprendizagem em que a assistência de adultos é em geral necessária. Transportar cargas na cabeça afeta os ossos da parte superior da coluna. assim como são capazes de caminhar. também andar de bicicleta. portanto. ou o terreno pode ser bastante impróprio para seu uso.

segue-se que um ser-humano-no-ambiente-A não pode ser a mesma espécie de criatura que um ser-humano-no-ambiente-B. se não antes (Não me preocupo aqui com os debates relativos a datação). inclusive quando aprendemos (1992: 60).vestígios. de uma evolução dos sistemas de desenvolvimento que sustentam essas capacidades. e é duvidoso que mesmo o observador mais perspicaz possa distinguir um ciclista de um não-ciclista. E uma vez que introduzimos o contexto ambiental de desenvolvimento em nossa especificação do que um organismo é. eu gostaria de examinar uma área na qual surgem questões muito próximas às suscitadas em minha comparação entre andar e pedalar. Antes de discutir essa noção de modo mais detalhado. que “nossos cérebros estão constantemente mudando em termos anatômicos”. mas que tem sido palco de controvérsias muito mais sérias: a evolução da linguagem. Mas se nenhum neófito consegue manter o equilíbrio e a coordenação numa primeira tentativa. Ele pode ter se parecido conosco geneticamente. como um paradigma da modernidade anatômica. voltar ao topo Fala e escrita Reconhece-se em geral que o homem de Cro-Magnon. em contraste. Começo com a comparação entre a fala e a escrita porque ela oferece o paralelo mais óbvio com a comparação entre andar e pedalar. a capacidade para a linguagem é um universal humano. À luz dessas considerações talvez não seja absurdo. Os ciclistas continuam podendo andar a pé. a menos que os ponha à prova. por ora é suficiente dizer que tal identificação já está implícita na noção de que cada indivíduo é dotado de sua constituição biológica no momento da concepção. afinal. situar a emergência. o homem de Cro-Magnon era de fato uma criatura muito diferente do ciclista ou motorista urbano de hoje. De acordo com a visão ortodoxa. . pelo menos na normalmente invisível arquitetura do cérebro. esta conclusão é sustentada por pesquisas neurológicas recentes que mostram. possuía uma capacidade plenamente desenvolvida para a linguagem. ninguém jamais desaprende a andar de bicicleta. como relatam Kandel e Hawkins. mas isso é outra questão. A escrita. Mas não podia ler nem escrever. é uma tecnologia da linguagem que surgiu de modo independente em várias partes do mundo como resultado de eventos específicos de invenção e difusão. De fato. Esses fatos indicam que o exercício das habilidades sensoriais e motoras necessárias para andar de bicicleta deixa uma impressão anatômica indelével. De que maneira a biologia veio a ser identificada com a genética é um problema na história das ideias ao qual voltarei mais adiante. de modo que andar de bicicleta não requer nenhum grandereajustamento da anatomia humana. Ele podia falar tão bem quanto você ou eu.[3] É claro que a bicicleta foi projetada para uma criatura já acostumada à locomoção bipedal. respectivamente. Assim. Ele não era “como nós” – nem mesmo biologicamente. algo que todos nós recebemos como parte de uma constituição biológica comum estabelecida no Paleolítico Superior. de andar e pedalar no interior do mesmo processo geral de evolução – isto é.

assim como não nascem andando. caso vivesse no século XX. As condições que devem ser preenchidas para que uma criança aprenda com sucesso a ler e escrever são. A questão a que precisamos responder. quais são essas condições é um tema de intensos debates. na época em que ele viveu. um processo que ocorre nos contextos de engajamento do aprendiz com outras pessoas e objetos diversos em seu ambiente. Com efeito. A incapacidade do Cro-Magnon de ler e escrever. muito mais restritivas. com toda a probabilidade. Ambas as capacidades. que a escrita não é “acrescentada”. nada tendo em comum além da representação gráfica de palavras. seria capaz de dominar as habilidades da escrita. a uma constituição humana biologicamente preparada para a fala. as condições necessárias para sua aquisição são. e se. em suma. e as exceções são aquelas cujo desenvolvimento é obstado por alguma outra limitação. podiam falar. envolvendo tanto uma “sintonia fina” de habilidades vocais-auditivas e manuais-visuais como as mudanças anatômicas correspondentes no cérebro. porém. Mas isto não afeta meu argumento principal. O apoio de cuidadores capazes de falar. especialmente em círculos pedagógicos. tipificados pelo homem de Neanderthal. a capacidade de ler e escrever. Sua aptidão para a linguagem se desenvolve. a incapacidade de falar desses primeiros hominídeos difere da incapacidade de ler e escrever dos caçadores-coletores do Paleolítico Superior? Para recordar uma distinção que introduzi anteriormente[4]. assim como sua incapacidade de andar de bicicleta. igualmente variáveis (Street 1984). enquanto estas são atribuídas à ausência de condições históricas? Se o homem de CroMagnon. é a seguinte: de que maneira.e que – mesmo hoje – de modo algum é compartilhada universalmente. a segunda adquirida. como podemos justificar a atribuição das primeiras a uma incapacidade inata. A primeira é considerada inata. Sem tomar partido na controvérsia sobre se os assim chamados humanos “arcaicos”. Uma vez que as habilidades e práticas de escrita são de fato extremamente diversas. por que o Homo erectus. O que ocorre é que. no contexto de uma comparação entre as capacidades técnicas de chimpanzés e as de humanos caçadores-coletores. não . pelas razões que já expus. Eu penso que esta visão é errada. não tem nada a ver com sua biologia. Em vez disso. se tivesse vivido no Paleolítico Superior. é um produto da evolução. Como essas condições estão quase invariavelmente presentes. A capacidade para a linguagem. um produto da história. há considerável acordo entre os paleoantropólogos modernos de que esta capacidade – ao menos em sua forma plenamente desenvolvida – não era compartilhada por hominídeos pré-humanos mais antigos como o Homo erectus e o Homo habilis. através de uma série de estágios razoavelmente bem definidos. a saber. e a presença no ambiente de um conjunto rico e altamente estruturado de características significativas são essenciais para o desenvolvimento normal da linguagem. tanto a habilidade de falar quanto a de escrever emergem num processo contínuo de modificação corporal. então. pela enculturação. são propriedades de sistemas de desenvolvimento. a imensa maioria das crianças aprende a falar sem dificuldade. naturalmente. Bebês humanos não nascem falando. os desenvolvimentos culturais que culminaram na invenção dos sistemas de escrita ainda não haviam seguido seu curso.

é o resultado de um processo de desenvolvimento situado no contexto peculiar da comunidade híbrida humano-animal estabelecida para os fins da pesquisa sobre a linguagem de grandes símios (Lestel 1998: 13). porque a própria questão se baseia numa falsa premissa. na floresta ou no laboratório. seja ele criado entre outros chimpanzés ou entre humanos. Esta capacidade. na mente de cada chimpanzé individual. indicam de modo convincente que chimpanzés criados em um ambiente humano. que a capacidade para a linguagem é algo cuja presença ou ausência pode ser atribuída a indivíduos de uma espécie. tal capacidade é pré-instalada.) A noção de “capacidade para a linguagem” é em si mesma profundamente problemática. Pan troglodytes. os chimpanzés não aprendem a falar. ao contrário das expectativas. não obstante é verdade que qualquer processo de desenvolvimento deve envolver um organismo em relações que atravessam as fronteiras dos agrupamentos taxonômicos convencionais. como um universal humano. graças ao legado de sua ancestralidade comum com os humanos. no convívio com cuidadores que falam. Segue-se que se é possível mostrar que uma capacidade – como a linguagem – surge como uma propriedade emergente de um sistema de desenvolvimento composto por essas relações. a saber. A competência de alguém em sua língua materna é tida como um produto da enculturação. como um dote hereditário. Mas as crianças humanas não . os chimpanzés – e. por analogia. Mas o chimpanzé-em-um-ambiente-de-outros-chimpanzés não é de forma alguma o mesmo tipo de animal que o chimpanzé-em-um-ambiente-de-humanos: a este último pode ser atribuída uma capacidade rudimentar para a linguagem que falta ao primeiro. como assinalou Dominique Lestel. A explicação ortodoxa. Criados em condições “naturais” – isto é. Pesquisas recentes. A definição biológica de espécie depende da possibilidade de uma especificação independente de contexto: um chimpanzé é um chimpanzé. a despeito dos contextos ambientais de seu desenvolvimento. contudo. E embora este contexto possa parecer deveras excepcional. sem contato significativo com humanos –. não algo dado como parte de sua constituição biológica como membro da espécie humana. então ela não pode ser atribuída a uma espécie. atribuir linguagem a espécies é automaticamente ter que recorrer a uma visão inatista que envolve alguma forma de “pré-instalação” neural que viria miraculosamente pronta. os primeiros hominídeos – têm ou tiveram uma capacidade para a linguagem.poderia ter tido o domínio da linguagem? Uma questão de certo modo comparável surge no contexto da pesquisa sobre as capacidades linguísticas dos grandes símios. como se ela estivesse programada de antemão dentro deles. aguardando simplesmente circunstâncias ambientais propícias para “vir à tona”? Penso que não. da capacidade de falar esta língua e não aquela. Com efeito. especialmente dos chimpanzés. requer que ela seja claramente distinguida. ainda que limitada? Devemos acreditar que. não faz nenhum sentido perguntar se chimpanzés ou hominídeos “têm” ou “tiveram” linguagem. são capazes de adquirir espontaneamente uma competência linguística sintática e semântica equivalente à de crianças pequenas (Savage-Rumbaugh e Rumbaugh 1993). que atribui esta capacidade aos “humanos anatomicamente modernos”. Isto prova que. (Inversamente.

por meio de um processo de desenvolvimento. também irão diferir nos aspectos de sua organização neural envolvidos na produção e interpretação de enunciados verbais. em ambientes diversos. postura corporal e assim por diante. Este processo não . E isto porque. na expressão de Mauss. o segundo provendo um conteúdo sintático e semântico específico –. contraGeertz. assim como andar. nesse sentido. “técnicas do corpo” (1979 [1934]: 97-123). Logo. E. de uma vez por todas. é reificar o que é. para o qual serviria de veículo. que somos inclinados a chamar deculturais. e com a assistência e o apoio ativo delas. em outras palavras. é uma realização do organismo humano como um todo. sejam sobrepostas a um substrato pré-constituído de universais biológicos humanos. porque é ao aprender a falar da maneira como as pesoas em seu entorno falam. Meu argumento. em vez disso. que todos nós começamos com o equipamento natural para viver milhares de espécies de vidas. Não podemos mais nos contentar com a noção superficial de que todos os seres humanos começam (biologicamente) iguais e terminam (culturalmente) muito diferentes. Não existem. é somente pela separação artificial dos aspectos mais gerais e mais particulares de um sistema total de desenvolvimento. conforme o modo como nossos corpos foram formados em e através de um processo de desenvolvimento. O corolário desta conclusão. falar é muito parecido com andar. esta formulação de Geertz: “Um dos fatos mais significativos a nosso respeito pode ser. Além disso. a presunção profundamente arraigada de que as diferenças de língua. como Esther Thelen e seus colaboradores mostraram numa série de estudos sobre o desenvolvimento motor infantil. à medida em que eles vivem suas vidas. Consequentemente. no interior do qual emergem as habilidades da fala. por exemplo. É invalidar. eles mesmos precisam ser formados num contexto de desenvolvimento que é o mesmo que aquele no qual a criança aprende a língua da sua comunidade. uma abstração analítica conveniente. o equipamento que possuem se constitui. No entanto. dois processos distintos e sucessivos – o primeiro envolvendo a préinstalação do cérebro para a linguagem. em contraposição à capacidade de falar uma língua e não outra.[5] Em suma. falar. que a “linguagem” pode ser identificada como uma capacidade universal.“nascem” com um programa inato (um dispositivo de aquisição da linguagem) para assimilar um programa adquirido (na forma de regras de sintaxe de uma língua particular). falar de “locomoção bipedal” ou de “linguagem” como atributos universais. Nós trazemos estas técnicas conosco. não existe uma “essência” do andar que possa ser isolada do desempenho da própria ação em tempo real (Thelen 1995: 83). quaisquer que sejam os dispositivos utilizados no processo de aquisição da linguagem. na melhor das hipóteses. expostos em estágios críticos de desenvolvimento a padrões distintos de estimulação acústica. não simplesmente a expressão comportamental de um mecanismo cognitivo instalado no organismo. porém. falantes de línguas diferentes. que as conexões neurológicas que garantem a competência linguística da criança são forjadas. é muito radical. Andar e falar são. Consideremos. mas terminamos por viver apenas uma espécie” (1973: 45)[6]. finalmente. distintos das múltiplas habilidades de andar e falar tal como efetivamente utilizadas na vida cotidiana de comunidades humanas. é que os seres humanos não são naturalmente pré-equipados para nenhum tipo de vida.

é senão aquele pelo qual eles adquirem as competências apropriadas para o tipo de vida particular que levam. Na biologia moderna. mas também de inúmeros outros atributos. Esse dote. é que somente as características do genótipo. trata-se de uma especificação do organismo humano independente do contexto. Em contraste. ou entre desenvolvimento e evolução. supõe-se que os humanos anatomicamente modernos sejam biologicamente dotados não apenas do bipedalismo. e não as do fenótipo. ao longo de um grande número de gerações . em sua atual roupagem neo-darwiniana. deve ser legado aos indivíduos a cada geração sucessiva. então. conferida a todo e qualquer membro da espécie no momento da concepção. Aquilo com que cada um de nós começa é. como fabricantes de ferramentas de pedra ou operadores de máquinas. evolução diz respeito à mudança gradual. é preciso recuar um passo para mostrar como biologia e cultura foram separadas. o termo técnico para tal especificação independente do contexto é genótipo. na história de vida do indivíduo. como caçadores-coletores ou citadinos. os indivíduos de hoje são “essencialmente dotados da mesma constituição biológica” de seus predecessores de trinta mil anos atrás. são transmitidas através das gerações. pois. Nesse princípio se baseia a divisão convencional entre ontogenia e filogenia. da linguagem a capacidades cognitivas e motoras sofisticadas. o genótipo inicial é “realizado” na forma concreta de um fenótipo ambientalmente específico. Segue-se que as próprias diferenças culturais – uma vez que elas emergem no processo de desenvolvimento do organismo humano em seu ambiente – são biológicas. um sistema de desenvolvimento. Em outras palavras. e assim por diante. frequentemente agrupados na rubrica geral de capacidade para a cultura. Com isso. voltar ao topo O genoma e o genótipo Como já indiquei. voltarei à reconsideração da noção de “dotes biológicos”. Permitam-me lembrar-lhes do comentário de Lieberman[7] segundo o qual. a despeito de todos os monumentos ao avanço tecnológico humano que grassam a paisagem. Uma premissa fundamental da teoria evolutiva. tal como se revela em um contexto ambiental concreto – é especificar seu fenótipo. para caracterizar a forma que o organismo efetivamente assume – em termos de sua morfologia exterior e de seu comportamento. Enquanto desenvolvimento se refere ao processo pelo qual. independentemente dos contextos ambientais diversos nos quais eles crescem como pedestres ou ciclistas. Antes de examinar as consequências dessa conclusão.

Com a descoberta do DNA. o complemento total de DNA na célula. Mais exatamente. A molécula de DNA é formada por uma cadeia muito longa de bases nucleotídicas (em torno de três bilhões nos seres humanos. são os componentes fundamentais do organismo vivo. tinha sido afinal encontrado. Figura 1 Representação esquemática da distinção ortodoxa entre evolução e desenvolvimento. P1 – P4 são os respectivos fenótipos gerados sob condições ambientais E1 – E4. cada uma das quais é de um tipo entre apenas quatro possíveis. codificaria em sua sequência de . Assim. do próprio genótipo. anunciando o início de um novo ciclo de vida. Essas proteínas. tal como um negativo fotográfico. dentro dos vinte e três cromossomos de cada célula do corpo). de comprimento da ordem de dez mil bases. ela está associada a uma cadeia complementar que. acreditou-se que tal veículo. por sua vez. G1 – G4 são genótipos sucessivos ligados em uma sequência ancestral-descendente. orientam a síntese de proteínas específicas – cuja composição é determinada pela sequência linear de bases no segmento correspondente. Em segundo lugar. Para fazer essa teoria funcionar. as setas horizontais representam processos ontogenéticos circunscritos a cada geração. Primeiro.sucessivas. há muito tempo previsto. é preciso haver um veículo que sirva para transportar os elementos da especificação formal do organismo – a saber. As setas verticais representam um percurso filogenético intergeracional. também conhecido como genoma. fornece o modelo para um processo de replicação química que resulta na síntese de novas cadeias de DNA com exatamente a mesma sequência de bases do original. os traços genéticos – de um local de desenvolvimento a outro. segmentos da molécula. Essa molécula tem duas propriedades críticas. através de um processo de variação pela seleção natural. é a frequência dos elementos constitutivos do genótipo em populações de indivíduos que sofreria mudança evolutiva.

ela não significava nada. O genoma. Entretanto. passou a girar em torno de mensagens e sua transmissão. Nesta forma física. No caso da transmissão genética. John von Neumann e Claude Shannon. texto e assim por diante numa biologia aparentemente intoxicada com a ideia do DNA como um “livro da vida”. perdeu-se inteiramente para os biólogos moleculares que. diz-se que os conceitos são representados por combinações distintas de sons (no caso da fala) ou de traços gráficos (no caso da escrita). . É uma exigência do modelo. Nos termos deles. e assistiram consternados à consagração das metáforas de mensagem. dizem. tal como reencarnado no contexto da ciência biológica. cada um dos quais é então representado. tal como desenvolvida nos anos de 1940 por Norbert Wiener.bases uma especificação completa do organismo ao qual a célula pertence. assim concebido. entretanto. o gene veio a ser concebido como a união entre um traço particular e o seu segmento correspondente da molécula de DNA. a teoria da informação. para esses teóricos. os geneticistas frequentemente recorrem à linguagem da teoria da informação (Medawar 1967: 56-7). tendo compreendido que a molécula de DNA poderia ser considerada como uma forma de informação digital no sentido técnico da teoria da informação. Mas. Na comunicação verbal. que a mensagem a ser transmitida seja primeiramente fragmentada em seus elementos constitutivos mínimos de significado. carrega uma mensagem que. por exemplo. recupera os significados originais e os combina para reconstituir a mensagem. traduzida aproximadamente. para se referir ao conteúdo semântico de mensagens trocadas entre emissores e receptores. cada um deles representado por um segmento de DNA com uma sequência de bases distinta. eles são apreendidos por um receptor que. por meio de um processo inverso de decodificação. significa “construa um organismo de tal-e-tal tipo” – isto é. que repetidamente alertaram para a confusão entre o sentido técnico de informação e seu correlato genérico. A informação. não tinha qualquer valor semântico. os elementos mínimos de significado corresponderiam a caracteres ou traços. empregava a noção de informação num sentido especializado que tem pouco a ver com o modo como o termo é comumente entendido – isto é. uma sequência aleatória de letras poderia ter o mesmo conteúdo informacional que um soneto de Shakespeare (Kay 1998: 507). de forma codificada. num meio físico apropriado. Este ponto. conforme as especificações formais do genótipo. de fato. Para explicar essa codificação. linguagem. Assim como o signo linguístico é compreendido como a união entre um conceito particular e um padrão sonoro particular. o ponto não se perdeu para os próprios teóricos da comunicação.[8] O resultado dessa confusão foi que o modelo teórico da informação. saltaram imediatamente para a conclusão de que ela se constitui como um código com um conteúdo semântico específico.

Da mesma maneira. Em outras palavras. Com efeito. mas a própria mensagem deve ser especificada de forma não ambígua. pode depender da situação. esta separação é intrínseca à própria noção de informação em seu sentido original – à ideia de que a forma é introduzida nos contextos de interação do mundo real. Deixo para mais tarde a questão de até que ponto este modelo de transmissão de informação descreve de forma adequada o que ocorre mesmo no discurso verbal ordinário. então a “mensagem” – isto é. a especificação genotípica – deve preexistir a sua representação no DNA e conectar-se a ele por meio de regras de codificação independentes do contexto. uma vez recebida. deve ser possível “ler” cada elemento do genótipo – cada traço – .Traço “Gene” → Segmento de DNA → Genótipo → Genoma Conceito “Palavra” Padrão sonoro → Representações mentais → Mundo físico Figura 2 Uma representação esquemática da analogia entre genes e palavras como signos. se devemos supor que o genoma transporta informação codificada de um contexto de desenvolvimento a outro. será interpretada. Supõe-se que a mensagem ou instrução a ser transmitida preexista na mente do emissor e seja traduzida em um meio físico a partir de um conjunto de regras de codificação inteiramente independentes dos contextos nos quais ela é emitida ou recebida. Por ora basta dizer que o modelo está fundado em uma separação ontológica entre mente e mundo. É claro que o modo como uma mensagem.

assim como uma mensagem recebida pode ser interpretada de modo diferente em circunstâncias diferentes. MENSAGEM │ Codificação independente do contexto MENTE --------------------------------------------------------------------------------------Contexto VEÍCULO INTERPRETAÇÃO (dependente do contexto) │ MUNDO GENÓTIPO │ MENTE ----------------------------------------------------------------------------Contexto GENOMA FENÓTIPO │ MUNDO . Contudo.contido em determinado segmento de DNA. independentemente das condições locais de desenvolvimento. também o genótipo será “materializado” de diferentes maneiras conforme o contexto ambiental. conduzindo às variações observadas na forma fenotípica.

muito menos organismos inteiros (ver Lewontin 1992: 33. mas um reagente. uma espécie de “inteligência” instalada no coração do organismo. ele é apenas uma molécula. esse objeto aparece como um simples veículo para um sistema interiorizado de princípios racionais. Logo. só pode haver uma resposta: “na mente do biólogo”. que são partes de organismos. “decodificação” do genoma que não seja em si mesma um processo de desenvolvimento. o DNA não é um agente. Dito de outro modo. O genótipo. Ele existe dentro de células. são convertidos em elementos . Assim como o linguista considera a fala como a aplicação de estruturas sintáticas localizadas na cabeça dos falantes. eles próprios situados em ambientes mais amplos. o DNA nunca existe em si mesmo. na forma de um sistema coerente de regras epigenéticas. o DNA não “especifica” nada. Essas regras são derivadas por abstração das características observadas no organismo. não existe uma especificação do organismo que seja independente do seu contexto de desenvolvimento. exceto quando isolado artificialmente no laboratório. É somente pressupondo tal contexto que podemos dizer “para que” é qualquer gene particular (Ingold 1991: 368). dirigindo sua atividade a partir de dentro. Assim. Não existe. abstraídos dos contextos em que eles surgem. Na realidade. Sozinhas. portanto. está a especificação formal que – de acordo com o modelo – seria importada com o genoma para o contexto de inauguração de um novo ciclo de vida. e uma molécu la consideravelmente inerte. e as reações particulares que ele põe em movimento dependem do contexto total do organismo no qual ele está situado. Em ambos os casos aspectos de forma. por abstração. como um “dote biológico”? Podemos admitir que o organismo recém -concebido vem a existir com seu complemento de DNA. em outras palavras. o biólogo considera o desenvolvimento e o comportamento do organismo como tendo sua fonte generativa em um biograma inato. de maneira análoga ao modo como um linguista derivaria as regras da sintaxe. tomado em si mesmo. é a maquinaria celular que “lê” o DNA. não existem atributos de forma que não sejam originados no interior desse processo. O problema inerente a esse tipo de explicação pode ser colocado sob a forma de uma questão simples: onde está o genótipo? Onde. ao se transferir ao objeto de estudo a exterioridade da relação do observador para com ele. o mesmo truque é aplicado: como diz Bourdieu (1977: 96). Afinal. Ademais. elas não produzem cópias de si mesmas nem constroem proteínas. a partir de uma amostra de enunciados registrados – uma analogia explicitamente reconhecida na noção de “biograma”. para uma exposição excepcionalmente lúcida deste ponto). eu diria. E é somente em virtude de sua incorporação na maquinaria viva da célula que as moléculas de DNA têm os efeitos que têm. retomando a questão proposta acima – “onde está o genótipo?” – . é o produto das tentativas dos biólogos de escrever um programa ou algoritmo do desenvolvimento do organismo. veículo e interpretação (acima) e seu análogo no domínio biológico (abaixo). porém.Figura 3 A relação entre mensagem. e essa leitura é parte integrante do próprio desenvolvimento do organismo em seu ambiente.

antes mesmo da fertilização. e é no funcionamento dinâmico desse sistema – nas interações complexas entre componentes internos ao organismo (incluindo o genoma) e situados além de seus limites – que a forma é gerada e mantida (Ho 1991: 346-7). com o DNA. De um lado.de um programa que supostamente precede e governa os processos de sua produção. refletida no espelho da natureza. em um óvulo. este bio-logos é. Segue-se que nenhum componente particular – como o DNA – pode ser privilegiado como aquele que “contém” a forma que os outros “expressam”. que o destino do próprio conceito de biologia. mas em um ambiente já estruturado. não são ilimitadas. e orquestrando sua construção. a circularidade deste argumento não requer mais nenhuma elaboração. a “biologia” veio a ser vista como uma estr utura de princípios racionais – literalmente umbio-logos – supostamente situada nos próprios organismos. “de modo muito literal. Aqui reside. Nada ilustra melhor a transferência. uma vez que a própria forma é uma propriedade emergente do sistema total que consiste nas relações entre eles. na medida em que altera os parâmetros de desenvolvimento. De outro. Ou. está equipado por meio do seu próprio desenvolvimento com os pré-requisitos essenciais para promover o crescimento futuro. como Oyama coloca sucintamente. dos princípios da relação externa do observador para com ele. para o organismo. esse óvulo não existe no vazio. as possibilidades de mudança. voltar ao topo Forma e desenvolvimento Se os organismos não recebem sua forma. Referindo-se inicialmente aos procedimentos envolvidos no estudo científico de formas orgânicas. com o genoma. porém. Para qualquer organismo particular. como um “dote biológico”. esta identificação trai um logocentrismo que a biologia compartilha com todo o empreendimento da ciência natural Ocidental: o pressuposto de que os fenômenos manifestos do mundo físico são obra da razão. Mas a razão que a ciência vê em operação neles é a sua própria. restringem-se à gama . o que é transmitido ou disponibilizado na reprodução é um genomae um segmento do mundo” (1985: 43. entre “biologia” e genética. A vida começa. Juntos eles constituem um sistema de desenvolvimento. pois. como aponta Lewontin. Como uma explicação da gênese da forma. seja no genoma ou em algum aspecto do ambiente interior ou exterior ao organismo. mas uma intrincada estrutura de maquinaria celular feita de proteínas” (Lewontin 1992: 33). pode produzir uma mudança significativa na forma. o DNA está contido em um óvulo que. Uma mudança em qualquer componente do sistema. assinalada acima. ênfase minha). o genótipo. então como explicar a estabilidade da forma através das gerações? A resposta está na observação de que a vida de qualquer organismo é inaugurada com muito mais que seu complemento de DNA. em um ambiente. pois. “Nós herdamos não apenas genes feitos de DNA. Em última análise. naturalmente. a explicação para a identificação.

estas distinções são críticas. que se permitiu que repousassem as distinções convencionais entre genótipo e fenótipo. pela constituição inata ou pelo condicionamento ambiental. com seu privilégio implícito do genoma como o verdadeiro portador da forma orgânica. Para a teoria ortodoxa. mas não como agentes da mudança evolutiva. e entre evolução e desenvolvimento. Reconhece-se. mas não são ocasionadas por populações de organismos. para explicar a evolução da forma precisamos entender como estes sistemas são constituídos e reconstituídos ao longo do tempo. Isto não é dizer que esses processos sejam concebidos como não estando relacionados. por um lado. o ambiente no qual este material está disposto. À medida em que se . é habitual se falar dos organismos como locais onde a evolução ocorre. Naturalmente. referir-se-ia a mudanças intergeracionais no genótipo. como eu argumento aqui. que essas diferenças ambientalmente induzidas revelam tão somente o potencial de variação daquilo que é essencialmente o mesmoorganismo. do genótipo no fenótipo (ver Figura 1). Da perspectiva evolutiva. É importante precisar em que esta conclusão difere daquilo que é geralmente aceito na biologia evolutiva. e sim de sistemas de desenvolvimento. Mas se a forma. A questão de saber se os organismos são determinados por sua natureza [nature] ou por seu desenvolvimento [nurture]. Evolução. Diz-se assim que as mudanças acontecem em. que as circunstâncias do desenvolvimento – na medida em que incidem na replicação genética – podem exercer uma influência na evolução e. não é o que os organismos fazem. e que apenas as diferenças atribuíveis à modificação genética atestam a mudança evolutiva do próprio organismo. Desse modo. Pressupõe-se. mas as consequências reprodutivas de sua atividade que são significativas. em cada geração. os organismos assumem aparências diferentes em ambientes diferentes. é o produto de uma complexa e contínua interação entre fatores genéticos e ambientais. Essa disposição configura relações específicas inscritas na forma em desenvolvimento. em qualquer momento de seu ciclo de vida. que é o genótipo modificado pela evolução que estabelece a programação para o desenvolvimento (Hinde 1991: 585). a explicação para a estabilidade intergeracional da forma não se encontra na fidelidade da replicação do DNA. como vimos. Por essa razão. E é precisamente nesta pressuposição. argumenta-se. não é uma propriedade dos genes. à tradução. mas nas potencialidades de auto-organização de todo o campo de relações no qual o desenvolvimento ocorre (Goodwin 1988)[9]. Mas a teoria exclui qualquer possibilidade de que a própria história de vida do organismo possa constituir uma parte intrínseca do processo evolutivo. por outro.de formas que podem ser geradas pelas propriedades da organização dinâmica do sistema. Vimos que aquilo que um organismo inicialmente recebe de seus predecessores inclui. além de sua carga de material genético. há muito foi declarada obsoleta. tendo dado lugar a uma perspectiva interacionista segundo a qual cada organismo. desenvolvimento. contudo. Considerações relativas a agência e intencionalidade não têm lugar na explicação evolutiva: são atribuídas aos mecanismos imediatamente envolvidos na efetivação de estratégias cuja lógica última já está estabelecida pela seleção natural.

mas é incorporado aos potenciais de desenvolvimento de seus sucessores. porém. Para prevenir qualquer possível mal-entendido. como resultado da mutação. desenvolvimento e evolução. A ontogênese. O que eu nego. Neste processo. transformações morfológicas e comportamentais significativas podem ocorrer sem quaisquer mudanças correspondentes no genoma. uma vez que os organismos. desempenham ou desempenharam sua parte no estabelecimento das condições para o desenvolvimento da criança. Assim. Meu ponto. que um registro de mudança genética seja em qualquer sentido equivalente a uma explicação de sua evolução. recombinação e replicação diferencial de seus segmentos constituintes através das gerações. ela irá contribuir por seu turno para as condições de desenvolvimento de seus próprios contemporâneos e sucessores. Inversamente. ao mesmo tempo produtores e produtos de sua própria evolução (Ho 1991: 338). mas como agentes ativos e criativos. o que ele faz ao longo da sua vida não é consumido na reprodução de seus genes. porém. Eu não nego a existência do genoma ou sua importância como um regulador do processo de desenvolvimento. e sem dúvida muitas outras mais. inversamente.desenvolve. mas para o desenvolvimento de outros organismos – de seu próprio tipo e de tipos diferentes – com os quais ele se relaciona. Vimos que. ou de suas capacidades para a ação e. Ele pode fazê-lo diretamente. em suas atividades. é usual falar do processo pelo qual as pessoas de cada geração conformam. através de suas ações. é que o genoma contenha uma especificação da forma essencial do organismo. à medida em que ela cresce e seus poderes de agência se expandem. ou indiretamente. E isto porque cada organismo não apenas se desenvolve num campo mais amplo de relações. por sua presença imediata no ambiente de outro. portanto. é a própria fonte a partir da qual o processo evolutivo se desdobra. Por exemplo. Também não nego que mudanças podem ocorrer e ocorrem na composição do genoma. porém. nenhuma separação entre ontogenia e filogenia. na medida em que suas ações conservam. Boa parte da mudança genética ocorre sem nenhum corolário ao nível da forma ou do comportamento. não apenas para o seu próprio desenvolvimento posterior. os organismos figuram não como os produtos passivos de um mecanismo – a variação sujeita à seleção natural – situado fora do tempo e da mudança. como também contribui através de sua atividade para a perpetuação e a transformação desse campo. deixem-me ser claro em relação ao que estou defendendo. No que se refere aos seres humanos. o organismo também contribui. portanto. por meio de suas ações. a criança humana pode crescer cercada por pais e irmãos. em uma casa construída há muito tempo por predecessores que ela nunca conhecerá. longe de ser acessória à mudança evolutiva. modificam ou transformam o ambiente da experiência de outro. é que a história humana não é senão uma parte de um processo que acontece em todo o mundo orgânico (ver Ingold 1990: 224). podem modificar as condições de desenvolvimento das gerações subsequentes. Não pode haver. sistemas de desenvolvimento – e as capaciades neles especificadas – podem continuar a evoluir sem exigir . para as condições ambientais. Contudo. como história. todas essas pessoas. os contextos nos quais seus sucessores viverão.

Em nenhum lugar isto é mais evidente que na evolução da nossa própria espécie. Ele pressupõe que a “mensagem” cultural que o indivíduo recebe de seus coespecíficos preexiste a sua representação simbólica. ao invés de serem transportadas com os genes como um dote biológico. voltar ao topo Biologia e cultura Começo retomando a comparação entre andar e pedalar. Se a capacidade de andar compete ao genótipo. o outro cultural” (1991: 9). andar de bicicleta é claramente uma habilidade que. desenvolvido pela seleção natural e introduzido com o genoma em diversos contextos de desenvolvimento. de acordo com a teoria ortodoxa. A fim de explicar como a mudança pode ocorrer na ausência de modificação genética significativa. a teoria evolutiva ortodoxa teve que conceber uma “segunda via”. A capacidade de andar de bicicleta. é transmitida de uma geração a outra. “Os seres humanos”. Contudo. Vimos. A locomoção bipedal. podem ser descartadas. Para acomodar o tipo de transmissão não-genética que parece estar em operação aqui. porém. Contudo. que a mensagem pode ser “lida” dessa representação por meio de regras de decodificação independentes do . O que fazer com a capacidade de andar de bicicleta? É pouco provável que se possa aprender alguma coisa sobre as origens e o desenvolvimento dessa capacidade por meio do exame de mudanças nas frequências de genes entre os ciclistas! Admite-se consensualmente que andar de bicicleta não faz parte do genótipo humano e. não se considera em geral que tenha evoluído no sentido biológico. Esta é a questão da qual passo a me ocupar. um genético. por essa razão. então. um segundo modo de herança opera em paralelo com a genética. então deve ser possível compreender o andar como expressão de um programa desse tipo. ser atribuída ao fenótipo. estaria compreendida em um análogo cultural do genótipo – um “culturótipo” [culture-type] (Richerson e Boyd 1978: 128) – cujos elementos ou traços constitutivos se encontrariam igualmente codificados em meios simbólicos. “estão de posse de dois grandes sistemas de informação. como afirma Durham. uma vez que os caracteres fenotípicos não são transmitidos através das gerações. que consistiria num conjunto de regras ou algoritmos capazes de gerar respostas apropriadas sob quaisquer circunstâncias ambientais. Não pode. que o genótipo é o produto dos esforços dos biólogos para atribuir as capacidades do organismo a um programa interno. propõe-se frequentemente que. em populações humanas. Este modelo de enculturação se baseia exatamente nas mesmas premissas expostas acima em relação à transmissão genética. uma vez que se reconhece que as capacidades se constituem no interior de sistemas de desenvolvimento. é parte da constituição biológica humana – ou seja. e entre evolução e história. portanto. a história da cultura. em algum sentido. podemos começar a ver como as dicotomias entre biologia e cultura. sobreposta à base de uma herança genética resultante da evolução. é tida como uma propriedade do genótipo “anatomicamente moderno”.nenhuma mudança genética.

e que essa leitura precede a aplicação do conhecimento cultural recebido nos cenários da prática. Note-se como esta divisão entre os componentes sociais e . As setas horizontais representam os processos de aprendizado individual através dos quais. análogo ao programa codificado geneticamente que supostamente assegura a competência em andar. As setas verticais representam a transmissão intergeracional da informação cultural pelo aprendizado social na sequência ancestral-descendente C1 – C4. aqui. de um corpo de conhecimentos culturais sob a forma de uma tradição. por outro lado. Desse modo. através das gerações. uma distinção clara tem que ser traçada entre a transmissão intergeracional da informação cultural e sua expressão na carreira de cada indivíduo. exatamente paralela à distinção que a teoria ortodoxa da biologia evolutiva traça entre a transmissão dos elementos que constituem o genótipo e a concretização deste último. receitas. na vida de cada organismo. e que é “concretizado” por meio da prática e da experiência em um ambiente. e o processo de aprendizado é coextensivo a sua própria vida. cada organismo aprende por si mesmo. No caso de andar de bicicleta. através da direção ambiental de um desenvolvimento que culmina no fenótipo maduro. Comparar com a Figura 1. A primeira dessas distinções tem sido feita convencionalmente por meio de um contraste entre aprendizado “individual” e “social”. Aprendizado individual. instruções” (Geertz 1973: 44)[10] – para gerá-lo. mas em um sistema de esquemas – “planos. em cada geração. regras. O aprendizado social. sob a forma do fenótipo. os esquemas culturais recebidos são traduzidos em comportamento (B 1 – B4) em condições ambientais dadas (E1 – E4). pela experiência. por exemplo. Sob este aspecto. tal como a morfologia. o que um indivíduo adquire de outros mais experientes são os elementos de um programa. refere-se ao modo como o comportamento é “adquirido”. Esta tradição consiste não no próprio comportamento.contexto. Figura 4 Aprendizado individual e social. refere-se à transmissão.

Em vez disso. a cultura. exatamente da mesma forma que o biólogo deriva o genótipo por abstração das características observadas do organismo. porque a arte de pedalar – como aliás a de andar – desafia a codificação em termos de qualquer sistema formal de regras e representações. E. são cheios de significado. fora das situações de sua aplicação. e equipada com uma máquina para pedalar. na aquisição de qualquer outra habilidade prática. como um corpo de conhecimento tradicionalmente transmitido. argumentei que. acredita-se que a estabilidade intergeracional da forma cultural reside na fidelidade com que esta informação é replicada de uma mente a outra. Em conformidade com isso. e que tal especificação está disponível para transmissão. codificado em palavras ou outros meios simbólicos. a assistência dos adultos é necessária acima de tudo para fornecer demonstração e apoio – isto é. Ela pressupõe que o que é passado adiante. não são regras e esquemas para a produção do comportamento apropriado. e novamente tal como os genes. isto é altamente artificial. não pode existir em parte alguma exceto na mente do observador antropológico. Além disso. no aprendizado. como requer o modelo de transmissão de informação. não servem. fosse capaz de adquirir a destreza do praticante competente. crescendo num mundo social. imagina-se que esta abstração esteja implantada nas mentes dos próprios atores. elas retiram seus signficados dos contextos de atividades e relações nos quais elas estão em uso[11]. descrito adequadamente como um processo de “reinvenção dirigida” (Lock 1980) no qual a contribuição dos adultos no ambiente da criança é fornecer interpretações contextualmente específicas de suas emissões vocais. O mesmo é verdadeiro no aprendizado da linguagem. assim como os genes. para alguma coisa. como a fonte geradora de suas condutas. pois. Mesmo que fosse possível criar um programa para andar de bicicleta. tomadas em si mesmas. adquirem suas próprias habilidades e disposições incorporadas. é uma especificação para o comportamento independente do contexto. e o linguista deriva uma gramática do registro de enunciados. Mas não existe nenhuma “leitura” de palavras ou atos que não seja parte da orientação prática do próprio neófito ao seu ambiente. aliás. e em qualquer situação de aprendizado o neófito irá ouvir o que as pessoas dizem e assistir ao que elas fazem. mas as condições específicas de desenvolvimento nas quais os sucessores. pelo mesmo artifício que já observamos nos campos da linguística e da biologia. é pouco provável que uma criatura dotada de tal programa. A contribuição de cada geração para a seguinte. para criar situações nas quais o aprendiz tenha oportunidade de pegar o jeito por si. Palavras ditas. Primeiro. naturalmente.individuais do aprendizado efetivamente divorcia a esfera de envolvimento do aprendiz com outrem dos contextos do seu engajamento prático no mundo. Na direção oposta. ou. independente do contexto. Ela é derivada por abstração do comportamento observado. em forma codificada. por exemplo. Desse modo. Como uma descrição do que acontece quando se aprende a andar de bicicleta. Elas não introduzem significado nos contextos de interação. quer nossa atenção se volte a andar ou . que conduzem a criança à descoberta de como as palavras podem ser usadas para exprimir significados. Palavras e atos.

que pretensamente eleva a humanidade a um nível de existência superior ao puramente biofísico. Mas o genoma. É verdade que há coisas que os seres humanos podem fazer que são aparentemente impossíveis para quaisquer outras criaturas. Por essa razão. com efeito. mas tão somente para colocá -lo além dos limites. separadamente das capacidades diversas de seres humanos que crescem em diferentes ambientes. Estes dois sentidos de progresso correspondem. é reconhecer um sentido alternativo em que as pessoas podem ser “modernas”.pedalar. dos “chimpanzés anatomicamente modernos” ou de “elefantes anatomicamente modernos”. Esta é uma distinção que. ser rastreadas em populações ancestrais. é tido pela ciência como aquilo que fornece a plataforma a partir da qual seus praticantes – que. de modo a fazer de cada um de nós um organismo de um tipo diferente. fabricar ferrramentas ou operar máquinas. mas somente como atividade intencional do organismo humano inteiro em seu ambiente. cuja emergência evolutiva teria marcado o que algumas vezes é chamado de “revolução humana”. falar ou escrever. Essas diferenças de experiências de desenvolvimento. em princípio. voltar ao topo Evolução e história Onde ficam os Cro-Magnons nisso tudo? Sua entrada em cena realmente marcou o surgimento de gente “inteiramente como nós”? É claro que não somos de modo algum perfeitos. buscaremos em vão uma capacidade para a cultura. são incorporadas anatomicamente. não há nenhum fundamento em distinguir capacidades para a ação devidas à “biologia” daquelas devidas à “cultura”. como vimos. em geral. assume-se que não pode haver mudanças cumulativas ou progressivas nas capacidades comportamentais de espécies não-humanas que não estejam ligadas a mudanças evolutivas em suas formas essenciais. não obstante – observa Howells – “não é injusto dizer que o Homo sapiens parece ter concluído o progresso humano que o Pleistoceno deixara inacabado” (1967: 242). para reiterar minha conclusão precedente. por exemplo. o progresso humano mal tinha começado. sozinho. não seria feita para qualquer outra espécie. ao que é costumeiramente distinguido como evolução e história. Em outro sentido. mesmo que tenham sido criadas em um ambiente humano. claro. contudo. específicas da espécie. o que as pessoas fazem não pode ser compreendido como expressão comportamental de um programa interno. são também seres humanos – podem lançar suas . ninguém acha necessário falar. não especifica nenhum tipo de capacidade. fundado como é em um compromisso com a supremacia da razão. E isto p orque não existe tal coisa. Em outras palavras. como algo que não interessa ao estudioso da evolução biológica humana. contudo. O processo histórico. Assim. Este segundo sentido de modernidade. como mostrei. E é razoável supor que esses potenciais não teriam emergido se não fosse por certas mudanças no genoma que poderiam. Eis a contradição a que me referi no início. Desse modo. O que o conceito de modernidade anatômica faz. está contido no próprio projeto da ciência contemporânea e sustenta sua pretensão de ser capaz de fornecer uma explicação autorizada das operações da natureza.

Em seu Systema Naturae de 1735. da superioridade do selvagem em relação ao macaco portador de um cérebro ainda menor. Em virtude de nossa singular faculdade intelectual da razão. e insistindo em que quaisquer que sejam as diferenças entre populações quanto a suas características biológicas. todos os seres humanos eram tidos como iguais em sua natureza essencial e potenciais de desenvolvimento. nos limites de um corpo que não sofreu alteração (Ingold 1986: 58-60). em princípio. remontando a um dualismo básico no pensamento do século XVIII entre natureza e razão. conforme sua forma física. não era por suas caracteristicas físicas que ele deveria ser conhecido. supunha-se que esta última havia sido singularmente dotada pelo Criador com uma consciência incorpórea que. que tipos de seres nós somos. mas supunha-se que as populações diferiam no grau em que esses potenciais haviam sido realizados na passagem da selvageria à civilização. Sucedeu-se um período de racismo desenfreado do qual a antropologia só começou a se recuperar na segunda década do século XX. somos os únicos seres que podem buscar conhecer. em uma cadeia do ser culminando na humanidade. que o homem difere essencialmente dos macacos. Com efeito. E ela o fez reafirmando a universalidade da natureza humana. As raízes da contradição precedem consideravalmente o surgimento da teoria evolutiva em sua forma moderna darwiniana. Thomas Huxley chegou ao ponto de declarar que a superioridade do europeu em relação ao selvagem portador de um cérebro supostamente pequeno não era diferente. É em sua sabedoria. sob a designação Homo. sobretudo no tamanho e complexidade do cérebro. a doutrina do potencial humano comum – ou. da “unidade psíquica da humanidade” – foi posta em questão. Enquanto todas as espécies animais eram ordenadas. não é possível escapar do racismo a menos que a variação cultural seja desconectada da biológica. quando se assume que a constituição biológica dos organismos humanos é dada como um dote genético. elas não têm nenhuma consequência para a história e para o desenvolvimento cultural. através da história. em 1871. pensava Lineu. Lineu reconheceu o estatuto do homem como uma espécie no interior do reino animal. pelos nossos próprios poderes de observação e análise. não em sua forma física. Não há cientistas entre os animais. Diferentemente de todas as outras espécies animais. Desse modo. Com efeito. Os grandes teóricos da evolução social e cultural do século XIX – homens como Edward Tylor e Lewis Henry Morgan – situaram suas narrativas do progresso humano num quadro igualmente dualista.declarações de que os humanos são apenas mais uma das espécies da natureza (Foley 1987). de The descent of man de Darwin. Com a publicação. tem avançado progressivamente sob a direção de suas próprias leis de desenvolvimento. desafiada pela ideia de que diferenças interpopulacionais na escala de civilização poderiam ser atribuídas a variações anatômicas. como era então conhecida. contudo. Claramente. e acabou optando por apresentar a distinção humana sob a forma de uma recomendação: Nosce te ipsum (“conhece por ti mesmo”). . Lineu declarou sua enorme dificuldade em encontrar qualquer critério definitivo pelo qual os seres humanos pudessem ser distinguidos anatomicamente dos grandes primatas.

porém. É verdade que. um evolutivo. é que. viram-se face a face com o significado. ao virar as costas ao dogma racista. o outro histórico. Temos assim dois continua distintos. diferentemente de Lineu. pela primeira vez. Mas humanos deste tipo reconhecivelmente “moderno” não evoluíram como cientistas. os estudiosos contemporâneos da evolução humana são capazes de apontar com alguma precisão um conjunto de características anatômicas pelas quais os seres humanos podem ser distinguidos não apenas de primatas não-humanos atualmente existentes como também de seus antepassados hominídeos pré-humanos. CULTURA HISTÓRIA -. Estas são as características diagnósticas para o reconhecimento da modernidade anatômica. conduzindo de formas pongídeas e hominídeas ancestrais até oHomo sapiens sapiens “anatomicamente moderno”. sem paralelo na história da vida. conduzindo do nosso passado presumido de caçadores-coletores até a ciência e a civilização modernas (Ingold 1998: 89-93).Cro-Magnons . Meu ponto. a teorização subsequente sobre a evolução humana reconstituiu a visão do século dezoito em todos os seus aspectos essenciais. de outro como criaturas que – de modo único entre os animais – conquistaram uma tal emancipação do mundo da natureza a ponto de fazer dela um objeto de sua consciência. A interseção desses continuaconfigura um ponto de origem. de um lado como uma espécie da natureza.não há nenhum fundamento factual para a crença raciológica de que diferenças culturais têm uma base genética. muito menos com uma teoria pré-fabricada da evolução.Cientistas ocidentais EVOLUÇÃO BIOLÓGICA -. Mais uma vez os seres humanos aparecem de forma dual. quando nossos ancestrais se encontravam no limiar da cultura e. A ciência e suas teorias são tidas amplamente como produtos de um processo cultural ou civilizacional muito distinto do processo da evolução biológica: um crescimento cumulativo do conhecimento que manteve inalterada nossa natureza básica.

Este tipo de homem. uma história que teria se desenrolado nos parâmetros de uma forma corporal essencialmente estável. a despeito de circunstâncias culturais ou históricas. diz-se que o genótipo humano – embora configurado pela seleção natural e não por intervenção divina – estabelece uma base universal para o desenvolvimento cultural. Como uma representação ideal da forma essencial da humanidade. um compêndio de capacidades universais abstraídas das múltiplas formas de vida que efetivamente apareceram na história. respectivamente. com referência à história . que todos os homens supostamente recebem como um dote biológico comum. o curso da história aparece como o desdobramento progressivo das capacidades latentes de nossos ancestrais. Tal como na doutrina da unidade psíquica do século XVIII. tinha todo o potencial biológico necessário para fazer dele um cientista: seu cérebro era tão grande.Australopitecíneos H. fixadas biologicamente na evolução ainda antes do início da história. como o de Einstein. por exemplo. Mas o tempo ainda não havia chegado.[12] Desse modo. pelas figuras contrastantes do caçador-coletor e do cientista. em sua época. no devido tempo. Distendida entre os pólos da natureza e da razão. naturalmente. Botscharow 1990: 64). desde a caça e a coleta do Paleolítico até a ciência e a civilização modernas. nada mais é. têm sido severos em sua crítica aos cientistas sociais que continuaram a usar a noção. Há certa ironia aqui. E essa forma. epitomizada. que há muito tempo cooptaram a noção de evolução para descrever o processo que Darwin havia originalmente chamado de “descendência com modificação”. encontrar-se-ia toda a história da cultura humana. e retroprojetadas no passado Paleolítico como um conjunto de potenciais de desenvolvimento geneticamente inscritos. Habilis H. Erectus Neandertais Origem dos humanos modernos Figura 5 A origem da “verdadeira humanidade”. Acredita-se que este ponto marca a emergência do que por vezes é chamado de “verdadeira humanidade” (ver. e o continuum da história da cultura. desde as formas ancestrais pongídeas e hominídeas até os humanos anatomicamente modernos. O homem de Cro-Magnon. nas palavras de Howell. da “nova espécie – nossa espécie – de homem” (1967: 242). que o genótipo do “homem moderno”. Os biólogos. em si mesmo. equipado anatomicamente para a vida como caçador-coletor. concebida como situada na interseção entre o continuum da evolução biológica. que sustentariam sua realização. ao que parece. ou a chegada. possuía uma mente que o capacitaria. a raciocinar como um cientista. e tão complexo. Ele (ou ela) é concebido como uma síntese de tudo o que um ser humano poderia ser. para que esse potencial pudesse vir à tona. o “humano moderno” é. uma criatura do pensamento Ocidental moderno.

nenhuma maneira de dizer o que um “humano anatomicamente moderno” é independentemente das múltiplas maneiras que os humanos efetivamente se tornam (Ingold 1991: 359). Essas variações de circunstância de desenvolvimento. ou entre razão e natureza. introduz uma divisão entre mente e mundo. fazem de nós organismos de tipos diferentes. É exatamente da mesma maneira que os organismos em geral fazem sua própria evolução. como um a priori ontológico. são antes geradas em e através do funcionamento dinâmico de sistemas de desenvolvimento constituídos em virtude do envolvimento dos seres humanos em seus diversos ambientes. um ponto de origem no qual a história começou. A teoria ortodoxa. portanto. podemos prescindir de uma caracterização da humanidade em termos da especificação da espécie. não porque suas diferenças são sustentadas por universais da natureza humana. Procurei mostrar que as diversas formas e capacidades que emergiram neste processo não são nem dadas de antemão como uma dotação genética. Ao reenquadrar o ser-humanoem-seu-ambiente. Vista como um processo pelo qual as pessoas. Marx escreveu que “os homens fazem sua própria história.humana. em suas atividades. Eu acredito que precisamos reformular inteiramente o modo como pensamos sobre evolução. como mostrei. assim como da oposição entre espécie e cultura. Na verdade. tomando esta condição de envolvimento como nosso ponto de partida. Mas uma tal especificação. não pode ser sustentada. esta visão da história humana como a atualização gradativa de potenciais inatos está implícita em sua própria teoria! Argumentei que a distinção entre evolução e história. não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente. legadas e transmitidas pelo passado”[13] (Marx 1963 [1869]: 15). existe somente na mente do observador e. nenhum momento de emergência da “verdadeira humanidade”. que atribui a mudança evolutiva a modificações subjacentes no genótipo. assim como para quaisquer outros organismos. mas não a fazem como querem. Desse modo. Para os humanos. com outro nome. específica da espécie. portanto. As pessoas habitam um mundo. não existe nenhuma forma essencial da humanidade. No Dezoito Brumário. A evolução humana não terminou com a chegada dos Cro-Magnons. não precisamos de uma teoria para explicar como os macacos se tornaram humanos. Não existe. não de herança genética. e de uma outra para explicar como (alguns) homens se tornaram cientistas. Logo. No entanto. tal como estabelecida na visão ortodoxa. independentemente dos contextos relacionais de seu desenvolvimento. requer que os seres humanos sejam completamente especificáveis. tal envolvimento é uma condição inescapável de existência. de um processo de evolução que está em curso em todo o mundo orgânico. em seu sentido original de desenvolvimento progressivo. modelam os contextos de desenvolvimento para seus sucessores. prosseguiu até o presente – embora agora a chamemos de história. mas porque elas estão inseridas – juntamente com outras criaturas – em um campo contínuo de . minha conclusão de que as diferenças que chamamos culturais são de fato biológicas não traz consigo nenhuma conotação racista. nem transmitidas como componentes de um corpo separado de informação cultural. a história reaparece como a continuação.

D. In What is an animal?. Botscharow. R. R. Stanford: Stanford University Press. Foley. L. Paleolithic semiotics: behavioral analogs to speech in Acheulean sites. Cambridge: Cambridge University Press. Outline of a theory of practice. Optimality theory in anthropology. trans.) 20: 222–42.C. Human universals.) 25: 583–608. Man (N. Bourdieu. A biologist looks at anthropology. Geertz.S. 1988. J. New York: McGraw Hill. The interpretation of cultures. New York: Basic Books. In The life of symbols. B. 1973. em cujos desdobramentos toda diferença é gerada. voltar ao topo Referências Botscharow. eds M. Hinde. 1991. R. Boulder. Man (N. J. The descent of man. C. Brown. London: Unwin Hyman.relações. Darwin. Goodwin. L. Coevolution: genes. 1991. T. 1977. Ingold. Nice. H. 1985. Durham. culture and human diversity.S. Foster and L. W. ed. E. P. Colorado: Westview Press. London: John Murray. 1990. Organisms and minds: the dialectics of the animal–human interface in biology. . C. 1871. and selection in relation to sex. 1991. A.

1998. and R. ed. E. Becoming persons: consciousness and sociality in human evolution. T. Lestel. science and the universe. Mankind in the making: the story of human evolution. Howells. Cultural Dynamics 4: 355–78. 31–40. Perspectives in Biology and Medicine 41: 504–28. Anthropology Today 14(3): 12– 15. L. pp. R. _____ 1990. May 28th 1992.Ho. In Evolution: society.C. Kandel. Ingold. Harmondsworth: Penguin. pp. C. Evolution of society. How chimpanzees have domesticated humans: towards an anthropology of human–animal communication. D. 1991. 1967. R. D. _____ 1998. 1998. 1986.) 25: 208–29. A book of life? How the genome became an information system and DNA a language. Scientific American 267: 53–60. _____ 1991. Cambridge: Cambridge University Press. E. Cambridge: Cambridge University Press. . Hawkins 1992. Kay. The biological basis of learning and individuality. The role of action in evolution: evolution by process and the ecological approach to perception. Cultural Dynamics 4(3): 336–54.S. Man (N. Fabian. 79–99. The New York Review. The dream of the human genome. W. 1992. Lewontin. M-W. A. Evolution and social life. An anthropologist looks at biology.

Lovejoy. Sociology and psychology: essays. Cambridge: Cambridge University Press. Eighteenth Brumaire of Louis Bonaparte. A. language and cognition in human evolution . In Tools. New York: International Publishers. Mauss. T. M. 1967. 1979. London: Academic Press. A dual inheritance model of the human evolutionary process. E. K. S. Parker. The guided reinvention of language. London: Methuen. 1988. Rumbaugh 1993. and R. Molleson. “The eloquent bonus of Abu Hureyra. Medawar. 1994. P. Boyd 1978. S. Savage-Rumbaugh. R. Marx. Journal of Social and Biological Structures 1: 127–54. and D. ‘A socio -technical model for the evolution of language’. Comment on S. Current Anthropology 26: 628. J. 1963 [1869]. Gibson and T. American 271: 60-65. The ontogeny of information: developmental systems and evolution. 1985. P.Lieberman. Scientific American 259: 82– 9. . The emergence of language. M. Lock. Ingold. O. C. T. Evolution of human walking. London: Routledge & Kegan Paul. 1985. 1980. Scientific Oyama. eds K. I: Basic postulates and a simple model. J. The art of the soluble. Cambridge: Cambridge University Press. P. Richerson.

para a grande maioria da população humana. os ossos do esqueleto só podem crescer e tomar forma num corpo ativo no mundo. Tim. são inteiramente consistentes com essa interpretação. . American [1] Ingold. Literacy in theory and practice. pp. intitulado “The dynamics of technical change” (The perception of environment. p. assim. É tentador considerar as marcas produzidas no esqueleto por essa atividade como deformidades ou anomalias (Molleson 1994: 62-3). esta é a posição usual de descanso? Ela só é percebida por nós como uma anomalia porque. Cambridge: Cambridge University Press. Contudo. E. Essays on livelihood. [2]N. não pode existir uma forma padrão do esqueleto humano. tendo crescido em uma sociedade em que é usual sentar em cadeiras.T. Theya Molleson deduziu que as mulheres residentes na aldeia passavam longas horas ajoelhadas no chão moendo grãos em um triturador manual. consideramos ter que nos agachar.: O autor faz referência neste ponto à análise desenvolvida no capítulo anterior. 1984.T. e protuberâncias nos ossos do braço e antebraço. B. development: a new synthesis. [4] N. só é possível definir o esqueleto “normal” em relação a atividades “normais”. Motor Psychologist 50: 79–95. Padrões de desgaste nos dedos grandes dos pés e nos joelhos. [3] Com base em seus estudos de restos de esqueletos provenientes da aldeia neolítica de Abu Hureyra. 1995.Street. 362-372). em particular às páginas 364-5. Capítulo 22. por qualquer lapso de tempo. 373-391. London and New York: Routledge. 2000. Thelen. nos pontos de inserção de músculos que teriam sido muito desenvolvidos. V. Logo. Por que a patela estriada que resulta do agachamento prolongado deveria ser considerada anormal quando. dwelling and skill.: Ingold se refere ao capítulo anterior (“The dynamics of technical change”). ‘People like us’. The concept of the anatomically modern human. no atual Norte da Síria. In The perception of the environment. terrivelmente cansativo.

intitulado “Speech. Esses traços seriam acrescentados ao que é popularmente conhecido como natureza humana.T. [8] A história dessa confusão. Intitulado Human universals.: Conforme indicação do autor. A PU é caracterizada por um compêndio de traços que “todas as pessoas.T. Brown. em cujo relato me baseio. é difícil ver como teriam evoluído. p. “O impacto do conceito de cultura sobre o conceito de homem” (Rio de Janeiro: Editora Guanabara. capítulo 2. song and imagination”). 397-98). 1989). p. N. language and intelligence to craft. 56.T. [10] N. “On weaving a basket”.T. todas as culturas e todas as linguagens têm em comum” (Brown 1991: 130). todas as sociedades.T.: Cf. cuja evolução é confiantemente atribuída à seleção natural. Com efeito.: Ingold se refere ao capítulo 22 de The perception of environment.: Ingold também remete o leitor neste ponto ao capítulo 18 do livro. [6] N. [9] N. o livro oferece uma descrição detalhada do que Brown chama de “Pessoa Universal” (PU). que – na verdade – é mais preponderante hoje que no excitante período em que a estrutura do DNA foi esclarecida pela primeira vez. a edição brasileira de A Interpretação das Culturas. [11] N. . [7] Citado no capítulo anterior. a edição brasileira de A Interpretação das Culturas. capítulo 2. “O impacto do conceito de cultura sobre o conceito de homem” (Rio de Janeiro: Editora Guanabara. é uma mal disfarçada versão do modelo Ocidental da pessoa. 1989). saudado amplamente como uma obra-prima nos círculos da psicologia evolutiva. Uma vez que jamais existiu nenhuma população humana remotamente parecida com a PU. writing and the modern origins of ‘language origins’”. o que Brown apresenta. este ponto é retomado no capítulo 23 (“The poetics of tool use: from technology. “The dynamics of technical change”.: Cf. 345-6 da edição em inglês. 363 da edição em inglês. p. sob a aparência de uma síntese de características universais. 409 da edição em inglês. é documentada de forma soberba por Lily Kay (1998). 57.[5] Desenvolvo este argumento no próximo capítulo (pp. p. e cujo fundamento último estaria nos genes. p. [12] Um dos exemplos mais bizarros dessa forma de pensar vem de um livro recente de Donald E.

. 1974). a edição brasileira de O 18 Brumário e Cartas a Kugelmann (Rio de Janeiro: Paz e Terra.T. 17.: Cf.[13] N. p.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful