Mahler, em 1909 escreveu a Schoenberg “… tenho dificuldade em o entender.

Lamento muito não conseguir segui-lo melhor; aguardo o dia em que me seja possível encontrar-me de novo, e portanto encontra-lo também a si”. O meu interesse particular pela música contemporânea parte um pouco desse sentimento de incompreensibilidade. A necessidade desta evolução tem sido posta em causa desde o início do século XX e as discussões sobre o que é realmente música contemporânea são vastas. Não entrarei nesse campo, porque tendo ainda dezanove anos, ainda não me sinto com conhecimento e maturidade suficiente para discutir tal assunto. E para que isso não fosse uma barreira decidi basear o meu trabalho em compositores apenas vivos, à excepção de Emanuel Nunes, falecido à pouco menos de um ano. Este trabalho foca obras gravadas em cd por uma violinista sueca, Suzanna Lidegran (minha professora do conservatório) e numa entrevista realizada esta semana. Suzanna Lidegran tem o diploma do Conservatório Real de Musica da Dinamarca e tem uma formação completamente clássica. Participou em inúmeras Master Classes, das quais salienta as de Sven Karpe, Liana Issakadze e lgor Ozim (Violino); as de Leo Berlin, Gerd Crawford, Kurt Lewin, Amalie Malling, José Ribera, Sven Karpe, Björn Sjögren, Gotlands-Kvartetten e Fresk-Kvartetten (Música de Câmara); a de Karlheinz Stockhausen (Orquestra); e a de Emmanuel Nunes (Composição). Apresentou-se a solo e em música de câmara em diversos países. O seu interesse pela música contemporânea começou a crescer em 1997, quando integrou o ensemble de música contemporânea Grupo Música Nova, dirigido pelo compositor Cândido Lima, formação com a qual tem executado primeiras audições nacionais e mundiais de várias obras para violino solo, entre outras. Destaca a sua participação no concerto "Timor Lorosae e a Esperança no Percurso da Paz" com a peça que Cândido Lima lhe dedicou, intitulada Oi in lov, a qual integra o CD. Desde 2007 é também membro do Son’Ar -te Electric Ensemble. A par da música contemporânea faz parte do Quarteto Lyra, interpretando as obras chaves da música de câmara clássica, romântica e do século vinte, incluindo as obras mais importantes de compositores Portugueses, Luís de Freitas Branco, Fernando Lopes-Graça, Claudio Carneyro, Bomtempo, Carlos Seixas, e Armando José Fernandes. Antes de apresentar a entrevista vou falar um pouco sobre as obras e compositores do cd.

Cândido Lima (1939) - Oi In Lov
Cândido Lima tem vindo a escrever de forma regular artigos na imprensa e criou séries de televisão e rádio, com o objectivo de divulgar e mostrar em primeira audição nacional obras de compositores contemporâneos. É também responsável pela vinda de alguns músicos como Xenakis, Giuseppe Englert, Jean-Baptiste Barrière, Wilfried Jentzsch e Stefano Scodanibbio ao nosso país. Em 1973 fundou o "Grupo Musica Nova" onde foi convidada a violinista de que temos vindo a falar, sendo pioneiro na divulgação de compositores clássicos e portugueses em festivais, séries, rádio,

como em muitas outras obras. interpretada pelo Ensemble Neue Musik. foi encomendada pela Fundação das Descobertas / CCB e Casa da Música / Porto 2001. Jonathan Harvey. O trabalho é dedicado a todos os amores. João Madureira (1971) . com e sem electrónica. e para os amigos que estão na origem da pontuação. Cândido Lima. de Beaumarchais) e Marcos Barbosa (Os Dias de Hoje. reais ou abstratos ("A l'amour sous toutes ses formes". Todavia. tanto as de música de câmra como as orquestrais (pela orquestra Gulbenkian. “Oi In Lov” é um anagrama de “violino” com o verso do tema dos Beatles “All you need is love”. se isso tem alguma coisa que ver com a música é outro assunto. York Höller na Hochschule für Musik Köln e com Ivan Fedele. No entanto. OrchestrUtopica. seguida por uma curva lenta e gradual decrescente para um descanso final. o violino não existe: há apenas o som. mistura-se com a angularidade da linha melódica. “Solo" (2002). Dança e Cinema. Christopher Bochmann. Miguel Azguime (1960) . Em Oi In Lov (1997).Soit Seul Sûr de Son Miguel Azguime é um compositor. Frequentou cursos e seminários de composição com Emmanuel Nunes. expressando uma breve alusão ao ato de criação musical. construída sobre várias estruturas intervalares em torno de um eixo do som. instrumentais e/ou vocais. para violino. para quinteto de sopros.À sua intensa actividade como poeta. como percussionista e como compositor com mais de 80 obras para as mais diversas formações.Solo João Madureira é discípulo de António Pinho Vargas. A sua obra inclui composições para música de câmara e instrumentos solo como Wanderung. etc. participa desde 1968 na Reforma do Ensino da Música em Portugal. As suas obras têm sido bastante tocadas por Portugal inteiro. sobretudo no domínio da Composição Musical. disse um dia Xenakis sobre Anaktoria dedicado a Sappho). de Jacinto Lucas Pires). György Ligeti. O casamento de Fígaro.). expectativas e percepção da sua natureza transitória. poeta. música electroacústica. música para Teatro. percussionista. com concertos dados no país e no estrangeiro.televisão. brica com o som onomatopaico das palavras. Franco Donatoni. dirigido por Jonathan Stockhammer entre muitos outros. fundou em 1985 com Paula Azguime o Miso Ensemble. O fluxo do tempo e harmonia. Remix essemble. o lirismo e a vitalidade do som coexistem com os objectos musicais. O sentimento emotivo. com a sua euforia. Entre a sua música para teatro conta-se a colaboração com Luís Miguel Cintra (Teatro da Cornucópia. desiludido e desolado. a polifonia virtual e os modos de produção do som. vem juntar-se uma constante dedicação na . Michael Jarrell e Magnus Lindberg. Radu Ungureau que pediu para compor a peça e a Suzanna Lidegran que a fez acabar. É uma peça curta com uma breve e conturbada ascensão melódica. Cândido Lima. Com um vasto trabalho teórico. que deu a sua primeira apresentação e que foi apresentá-lo em Portugal e em vários outros países.

Karlheinz Stockhausen ou Jonathan Harvey. Esta peça utiliza material de um único espectro harmónico e subharmónica construído sobre a mesma nota fundamental. que era composto de várias peças curtas individuais a serem realizadas pelos solistas deo Remix Ensemble. assim como várias sonoridades contemporâneas apropriados para o instrumento. do Miso Studio. Suzanna Lidegran posteriormente foi responsável por mais performances do trabalho. A peça resultou de um desafio lançado por Radu Ungureanu. Este CD por Suzanna Lidegran contém a gravação de estreia da obra. uma homenagem a Luciano Berio e ao seu "Sequenze". a peça é uma organização não-linear entre esses dois mundos harmonicamente relacionados. . Iannis Xenakis. passando pela música mista. do mundo romântico à música formal". professor de violino na Escola Superior de Música do Porto. da música profana ao mundo religioso. considerando que o desafio dizia respeito a uma área difícil. da ópera. da música acústica à música electroacústica. A estreia foi dada por Angel Gimeno no Festival de Música de Estrasburgo. "Peca X" é dividido em três momentos. que actua como uma nota pivot com um espaço supersónico e subsónico. Soit Seul Sûr de Son (2004-2006) foi encomendada pela Casa da Música a ser incluída no projeto "Consequenze". Para a maior parte. "Peca X" é uma pequena peça para violino solo composto em 1998. com características muito diferentes. recebe em . do Festival Música Viva. ou à música para exposições e instalações. Um dos objectivos da compositora foi. entre outros e usando uma diversidade de técnicas composicionais. à música de teatro ou à música de cinema. da Miso Music Portugal. encontrando inspiração na obra de Olivier Messiaen. Virgílio Melo e Álvaro Salazar. interessada pela experimentação com todos os géneros musicais – "da música solista à música de orquestra. mais recentemente do Centro de informação da Música Portuguesa e do Sond'Ar-te Electric Ensemble que fundou com Paula Azguime. passando pela música de câmara. Residente da DAAD em Berlim em 2006. O título neutro da peça surgiu num momento em que a autora se recusou a dar qualquer tipo de explicação sobre a obra através do seu título. Ângela Lopes (1972) – Peça X Ângela Lopes considera-se uma "artesã" inspirada. destacando-se a fundação da Miso Records. A obra foi dedicada a Suzanna Lidegran. Estudou com compositores como Cândido Lima. em Setembro de 2006. em 2008 o prémio Music Theatre NOW do International Theatre Institut da UNESCO pela sua obra "Itinerário do Sal" que reflecte o conceito de nova ópera que partilha com Paula Azguime e ao qual dão o nome de "New Op-Era". escrever uma peça idiomática e explorr técnicas. A peça teve sua estreia mundial no concerto da escola. realizada por um aluno finalista da classe do professor Ungureanu. Foi escrita na classe do professor Cândido Lima e pertence ao tempo académico da compositora.divulgação e fomento das novas linguagens musicais e das relações da música com a tecnologia.

Tive. O Einspielung leva todas estas células mães para o desenvolvimento máximo. Henri Pousseur. Costumo de comparar com alguém que escala montanhas. talvez com 12 ou 13 anos. tenho a sensa ção de que estou a participar na criação e que estou a evoluir. Assim também ficava cada vez mais interessada em ouvir outras composições novas. quando toco uma obra nova. O material básico emerge de uma relação rítmico / melódia principal. 2. também temos. Como e quando surgiu o seu interesse pelo trabalho na área da música contemporânea? Nalgum momento cultural particular? . como executantes. Defendeu na Sorbonne uma tese de musicologia sobre Anton Webern. durante os anos de estudo. Jaap Spek.Comecei a gostar de compor bastante cedo. Georg Heike e Karlheinz Stockhausen.Acho que."A Criação"." Eu compus uma quantidade de células-mãe. Começou os seus estudos musicais em Portugal mas. A sua obra Einspielung I pertence a uma série de peças a solo para violino. Nas três "Einspielung" todas as curiosidades técnicas e os efeitos da chamada música contemporânea estão praticamente ausentes (ao contrário do que sucede.Emanuel Nunes (1941-2012) – Einspielung I Emmanuel Nunes foi um compositor português radicado em Paris e galardoado com o Prémio Pessoa em 2000. sem perspectivas de progressão e por ser opositor do regime ditatorial. tenho muitas dúvidas se vai ser possível tocar ou não. Muitas vezes é assim quando começo a estudar uma peça nova. viola e violoncelo. 1. Aqui em Portugal o compositor Cândido Lima procurou-me em 1997 para participar num concerto com o Grupo Música Nova. Mais tarde integrei no grupo para música contemporânea “Sond’Ar-te Electric Ensemble” com o compositor Miguel Azguime. Utilizava nas suas composições as mais variadas técnicas.1983/89). Emmanuel Nunes diz. Depois disso continuou a colaboração com ele e com o grupo. "Para a série de obras. iniciado em 1978. Pierre Boulez. com base num ou dois tipos de intervalos. que vê um pico novo e fica com a curiosidade de saber se é possível subir. mas . mantendo-se próximo da linguagem tonal. prosseguiu os estudos musicais na Alemanha e na França tendo tido como mestres Francine Benoît e Fernando Lopes Graça em Portugal. a “obrigação” de ter um conhecimento mínimo de que se está a criar ao nível de música dos “ nossos dias”. que está na origem de uma família de obras . Para mim. vários colegas compositores e gostei sempre de participar nas apresentações deles. em "AURA" para flauta solo . De que forma se relaciona com a música contemporânea? . o que constitui "A Criação". Para finalizar vou apresentar a entrevista que fiz à violinista Suzanna Lidegran. As perguntas feitas foram direccionadas para a visão de uma instrumentista em relação à música de hoje e o que a faz interessar-se por ela. como vivemos neste tempo. " “Einspielung I” foi encomendado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Cada peça nova é um desafio novo. por exemplo.

o cansaço físico. Como acha que o público recebe o seu trabalho? De que forma é que o acha valorizado? . procuram novas sonoridades e efeitos. Normalmente as peças contemporâneas são muito difíceis tecnicamente. Tenho quase sempre tido experiências positivas. Nas aulas de instrumento acho importante introduzir sonoridades e expressões novas. Quais as principais dificuldades técnicas que se deparou quando começou a lidar com a nova música? -Os compositores contemporâneos tentam muitas vezes explorar o instrumento duma forma nova. 7. o que não é fácil na música nova. muitas informações ao mesmo tempo como passagens rápidas com uma nota em pp. por exemplo. inesperado e pouco ou nada natural. É claro que eu tenho a minha opinião sobre as peças que eu toco. ou quase todas. O tempo vai fazer a seleção natural e mais a frente veremos o que ainda se toca. acho que algumas resultam melhor do que outras. É mas fácil aprender o que é lógico e a música nova normalmente não é. 3.. a afinação de quartos (ou oitavos) tons. apenas com o som dos dedos esq. ter que esticar ou cruzar dedos até o limite para tocar várias vozes ao mesmo tempo. que são compostas agora. Acha importante introduzir a nova música na formação musical desde os primeiros anos. mudanças de tempo e de compasso em cada compasso. Como foi essa experiência? Como é lidar com obras de compositores ainda vivos com os quais pode trocar impressões? . 4. ritmos extremamente complicados. até para os alunos mais novos. em que direção é que vai e saber o que um futuro público achará. Acontece que pedem para ver a partitura depois dum concerto. 5. é ilógico.O público que assiste a um concerto de música contemporânea normalmente sabe o que é e está com curiosidade. por exemplo da mão esquerda ao “tocar” uma peça inteira sem o arco ou pizz. extrema rapidez de passagens com notas por exemplo muito afastadas. É uma sensação fantástica. Normalmente não desisto e quando consigo chegar ao fim é uma recompensa enorme. Há vários tipos de dificuldades que eu tive que confrontar.tenho muita curiosidade. da mesma maneira que se introduz Bach ou Mozart? -Na formação musical acho que deve ser difícil por causa da dificuldade e irregularidade dos ritmos por exemplo. gosto mais de algumas do que outras. Gravou recentemente um cd de música portuguesa contemporânea. 6. É muito difícil prever o que vai acontecer com a criação de música. mas a dificuldade é arranjar peças do nível destes alunos. As harmonias ou disharmonias da nova música também só fazem sentido conhecendo as bases clássicas. pelo contrário. Como pensa que vai ser vista no futuro a música que é composta actualmente? -Para já são tocadas todas as obras. a seguinte em ff etc e com sonoridades diferentes e ritmos complexos.

Como acha que o nosso país se tem desenvolvido nesta área em comparação com o resto do mundo? . Normalmente são abertos às sugestões ao nível técnico por exemplo. encomendas e apoios económicos entre outros. nas gravações e na edição.Acho que este país tem muitos compositores talentosos. Precisavam de ter mais oportunidades de trabalho. Quis gravar estas cinco peças porque já as tinha tocado várias vezes em concerto e não existem gravadas. Deu muito trabalho nas muitas horas de estudo. mas muitas vezes tem que se fazer pequenas mudanças para tornar passagens mais realizáveis. Infelizmente não existem apoios suficientes. O trabalho junto com os compositores é sempre muito interessante. para conseguirem dedicar-se completamente. na colaboração com os compositores.Gostei muita da experiência. 8.. Fiz isso por mim e também achei que as obras mereciam ser gravadas. Têm. as suas ideias de como as peças deveriam ser executadas. . claro.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful