A cozinha futurista

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A cozinha futurista
de Filippo Tommaso Marinetti

Introdução, tradução e notas: Maria Lúcia Manicelli

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Edição: Joana Monteleone Assistente editorial e projeto gráfico: Marília Chaves Revisão: Diagramação e capa: Marília Chaves Imagem da capa:

[2009] Todos os direitos dessa edição reservados à ALAMEDA CASA EDITORIAL Rua Iperoig, 351 - Perdizes CEP 05016-000 - São Paulo - SP Tel. (11) 3862-0850 www.alamedaeditorial.com.br

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Sumário

Introdução
Futurismo A Gastronomia na literatura: prazeres sinestésicos A cozinha Futurista

Mário de Andrade, Oswald de Andrade e a Cozinha Futurista
Mário de Andrade na Cozinha Oswald canibal de Andrade Marinetti Antropófago

A Cozinha Futurista e linguagem
O Futurismo: proposta de revolução lingüística A Cozinha Futurista e as inovações na língua Dificuldades da tradução

A Cozinha Futurista – tradução
Uma refeição que evitou um suicídio O manifesto da cozinha futurista A revolução cozinhária Os cardápios futuristas Receituário futurista Pequeno dicionário

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Conclusão Referências bibliográficas Apêndice Capas de diferentes traduções do livro A Cozinha Futurista Come se nutriva l’ardito Cozinha futurista.indd 6 7/4/2009 15:51:16 .

indd 7 7/4/2009 15:51:16 .Introdução A Cozinha Futurista S Uma refeição que evitou um suicídio Cozinha futurista.

indd 8 7/4/2009 15:51:16 .Cozinha futurista.

em 1876. convive com os simbolistas e decadentistas. 9 Cozinha futurista. Fazendo parte da elite dominadora. Aos dezessete anos descobre Paris. o futuro poeta presenciava a submissão e as condições de vida da população autóctone. Em língua francesa. aproxima-se de seus ideais.O Futurismo Em 20 de fevereiro de 1909. pôde observar a distância entre discurso e atitude. uma colônia inglesa no Egito. Quem assinou o manifesto foi Filippo Tommaso Marinetti. Educado em colégio católico. entre colonizadores e colonizados. O menino Filippo nasceu em Alexandria. quando estuda Letras na Sorbonne. Conhece toda a agitação cultural e artística daquela cidade.indd 9 7/4/2009 15:51:16 . o colégio Saint-François Xavier. fundador e o maior expoente do movimento futurista. a revolta contra o status quo social pôde então se desenvolver. o manifesto atingiria um número maior de leitores. o jornal francês Le Figaro publicou o Manifesto Futurista. Estudou em uma escola de jesuítas franceses.

do domínio do homem sobre a nature- 10 Cozinha futurista. depois tornou-se pai e esposo exemplar. uma vez satisfeito o orgulho paterno. Marinetti foi um filho afetuoso e dócil. o mesmo torna-se impraticável quando se trata de um grupo que deveria estar unido em torno (ou em busca) de um ideal estético/artístico. como forma de difundir os ideais futuristas. porém. Com o Manifesto do Futurismo Marinetti inova. eletricidade. Havia sim contradições na base do futurismo e. Máquinas. advogado. Costuma-se dizer que a história do futurismo confunde-se com a de seu idealizador. pessoa gentil no dia-a-dia. o gosto pelo escândalo e o exibicionismo eram arquitetados. velocidade revolucionaram o mundo e passaram a ser os novos ideais de beleza. O futurismo nasceu sob o signo do mundo moderno.Fillippo Tommaso Marinetti Seu pai. a não ser no banco dos réus. para entendê-las. do automóvel. Os primeiros vinte anos do século XX marcam o advento do avião. imagina para o filho uma carreira jurídica e o faz voltar à Itália para estudar Direito. é liberal. Marinetti. Se todas essas contradições podem conviver no espírito de apenas uma pessoa. A violência aparece apenas no discurso literário. mas suas filhas estudam em colégio de freiras. é indisciplinado.indd 10 7/4/2009 15:51:16 . sua ambição essencial é a de transformar a cultura e literatura italiana. rompe com todas as tradições e inaugura o estilo das vanguardas do século XX. basta verificar as contradições culturais de seu líder: Marinetti diz-se anticlerical. mas veste a farda da Academia. Marinetti se forma na Universidade de Gênova em 1899. sendo depois seguido por Dadá e pelo surrealismo. promulga-se anticlássico. mas adere e defende o fascismo. volta a Paris e nunca mais se envolve com a justiça. mas cumpre o serviço militar e participa da Primeira Guerra como voluntário. Mas se os princípios são de caráter universal e seu líder despende forças para difundir os ideais pela Europa e pelas Américas. que ele julga estagnadas.

desenrolar ininterrupto de sons e de imagens”). sempre de acordo com a atuação de Marinetti: “de 1905 a 1909. por sua vez. numa poesia febril. p. em que o princípio estético defendido é o verso livre. dessacralizadora. O futurismo italiano. até 1 2 Bernardini.”2 O crítico Luciano de Maria divide o futurismo de Marinetti em apenas duas fases: o período heróico. o mais fecundo do futurismo. defende – além das palavras em liberdade – a exaltação da intuição contra a inteligência. Aurora Fornoni. 15a. p. Vanguarda européia e Modernismo brasileiro. A literatura então procura transmitir o espírito do mundo moderno. quando se fundou o fascismo. a idolatria pela máquina. a reação contra os limites e padrões estabelecidos. 1980. o maquinismo (“a psicologia do progresso”) e a anarquia (“Stirner mais do que Bakunin”).indd 11 7/4/2009 15:51:16 . os três pilares que sustentam o Futurismo são o verso livre (“perene dinamismo do pensamento. quando se redige a maior parte dos manifestos e se luta pela imaginação sem fios e pelas palavras em liberdade. Como diz Aurora Fornoni Bernardini. um mundo de máquinas. e a de 1919 em diante. São Paulo: Perspectiva. a reivindicação da valentia e da audácia. cheia de gritos que exclamam e interrogam. Petrópolis: Vozes. O futurismo literário. instrumento multiplicador dos poderes do homem. No plano plástico. de multidões e de velocidade. a exaltação da energia e da ação.1 Na base do discurso futurista do início do movimento existe um discurso subliminar: uma solicitação antiburguesa. Podem-se estabelecer algumas datas limítrofes para o Futurismo. dividindo-o em três fases. de 1909 a 1919. 86 11 Cozinha futurista. 1999. ed. já que os artistas procuram apresentar a realidade em pleno movimento e não nas suas formas essenciais.A cozinha futurista    za. a primazia do viril ante o feminino. como se o novo precisasse da revolução para se libertar do antigo.10 Teles. e o futurismo se transforma em porta-voz oficial do partido. Gilberto Mendonça. o movimento implicou nova ruptura com a tradição.

São Paulo: Edusp/IEB. Na correspondência de Mário de Andrade a Manuel Bandeira podemos encontrar em carta datada de 14 de maio de 1926 . Organização. Eliot e outros. Correspondência. mesmo tendo esta influência sido negada pelos autores. é fato que o movimento perdeu sua força inovadora à medida que se aproximava da política. de 1920 até 1944. A influência existe. 2000. O Futurismo foi o primeiro grande movimento intelectual italiano do século e deixou marcas inconfundíveis na estética do mundo moderno ao servir de modelo para inúmeras escolas em diversos segmentos das artes. 294 a 297. “Pound reconhece que o movimento literário londrino por ele inaugurado com Joyce. 3 4 Bernardini. introdução e notas: Marcos Antonio de Moraes. 11 ANDRADE. 12 Cozinha futurista. Manuel. pp. Aurora Fornoni. e um “segundo futurismo”. Mário de & BANDEIRA. que veio fazer a gente perder quase metade do caminho andado”. não teria existido sem o futurismo”3 Entretanto. Marinetti exerceu inegável influência em todas as literaturas modernas.Fillippo Tommaso Marinetti 1920. Podemos pensar que a apropriação. Op. neste caso.indd 12 7/4/2009 15:51:16 .época da primeira visita de Marinetti ao Brasil . mas a revolução causada pela possibilidade de libertar as palavras das construções sintáticas cristalizadas impregnou de tal modo o espírito modernista brasileiro que estes não vêem nenhuma dependência do futurismo. Mário de Andrade estava já em desacordo com a postura política de Marinetti e não queria ter seu nome associado à figura do líder futurista/fascista. ou “que convém tratá-lo com a maior desimportância até com uma desimportância afetada para que ele não imagine que a gente está indo na onda” 4 Na realidade. cit.alguns comentários depreciativos em relação ao “carcamano. como no caso de alguns dos primeiros modernistas brasileiros. foi oswaldianamente antropofágica: recolhida a influência. esta foi assimilada e passou a integrar o modernismo. data da morte de Marinetti. p.

em tom de discurso inflamado e com uma certa ruptura sintática. mas mergulhar impetuosamente na vida de todos os dias. a provocação. no futurismo.indd 13 7/4/2009 15:51:16 . com adjetivos. dispondo-se livremente no papel. mas o tom. uma quantidade maior de manifestos do que de obras literárias. Pode-se verificar que há. a velha sintaxe tradicional. os modelos de comportamento do passado. gritadas.A cozinha futurista    No Manifesto Futurista. a idéia de que a arte não deve permanecer no isolamento. Ao mesmo tempo que pregavam a destruição da sintaxe. 13 Cozinha futurista. são sim entremeados por reivindicações numeradas de ordem militar. aqui reside o primeiro malogro futurista. Dentre as idéias futuristas encontramos o culto da máquina e da velocidade. revolucionando-a. ao menos é isso o que a crítica demonstra. Vêse. advérbios. a drástica ruptura com a mentalidade. a abolição da conjugação verbal. pregando ao mesmo tempo a destruição do passado e sobretudo das literaturas passadas. unidos por um repertório de idéias e valores comuns. para propor estas novas idéias. do adjetivo. modificando a sintaxe: as palavras não deveriam mais seguir a ordem lógico-sintática. do advérbio e da pontuação. Os textos. existem algumas características que são comuns a outros movimentos de vanguarda. Ora. em nome de uma visão de mundo que se apresenta como totalmente nova. que a real novidade proposta pelo futurismo não é o conteúdo. pois. o gosto. que provém de uma tradição secular. como: a vontade de apresentar-se como um grupo organizado de artistas militantes. em violento conflito com o resto da sociedade. sinais gráficos e verbos impecavelmente conjugados. A teoria futurista não pode ser facilmente aplicada à literatura. utilizavam.

Giorgio Barberi (org. autores.Fillippo Tommaso Marinetti Outra contradição presente no futurismo é a negação do passado literário. há uma exaltação da técnica que não podemos deixar de relacionar à civilização industrial no ápice de seu desenvolvimento. Gustave Kahn. contestação do presente. a arte não é mais representação de mundo. 1989. Op. Paul Adam e outros. apesar de proclamar em seus discursos a absoluta inovação de suas técnicas. oposição total ao sistema do poder constituído. o futurismo oscila: de um lado. construção de objetos novos.”6 O futurismo evoluiu (ou talvez tenha involuído) de transformador das artes a meio de comunicação servidor da moral e do fascismo. Entretanto. desmonte sistemático e polêmico do passado. com sua exaltação eletrizante da máquina como triunfo da vitalidade. Gilberto Mendonça Teles afirma que o próprio Marinetti “dá como seus precursores os nomes de Whitman. não poderia deixar de se aproximar da revolução fascista. Somente o desejo de mudar a realidade é que dá ensejo à aproximação do novo.. problemas. a contestação integral da linguagem burguesa.) decadentes e simbolistas do “fin de siècle”.indd 14 7/4/2009 15:51:16 . mas deve ser destruição. As primeiras intenções contidas no cerne do movimento são transformadas em técnica de oratória e de governo. Zola. ou então. de outro. cit. 87 Squarotti. do tom provocador.) Literatura Italiana: linhas.) como toda vanguarda. que estava solidária à grande burguesia industrial propiciadora do desenvolvimento. do topete e do desafio. Mas. São Paulo: Nova Stella/Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro/Edusp. a utopia de uma reinauguração da expressão. 5 6 Teles. (. movimento político que o transformou em instrumento de propaganda.5 Para o movimento. Verhaeren. Sabe-se que só existe revolução se há passado.. justamente por isso. p. o futurismo. Gilberto Mendonça... A temática fascista apropria-se do marinettismo e com ele da impetuosidade da linguagem.485 14 Cozinha futurista. Marinetti usa grande parte das idéias simbolistas e decadentistas para promover os seus manifestos. da velocidade. p. “(.

. A refeição também é habitual e visa à ordem e à comunicação. era necessário reunir as pessoas para que uma carne (proveniente de caça ou sacrifício) fosse melhor aproveitada. A refeição em si é um ritual presenciado em todas as culturas. O ritual do jantar. “(. o futurismo colaborou de forma incisiva para a mudança ocorrida na literatura do século XX e que. e pela repercussão e discussões que provocaram suas inovações. O ritual. No início. limitou-se a poucas e infrutíferas ações literárias. Ed. A julgar pela extensa bibliografia contida na obra A Cozinha Futurista. 1998.22 15 Cozinha futurista. este manifesto gastronômico nunca foi apreciado com o devido valor pela crítica. como lembra Margareth Visser7.. A Gastronomia na Literatura: prazeres sinestésicos A gastronomia sempre encontrou um campo fecundo na expressão estética. por exemplo.indd 15 7/4/2009 15:51:16 . já que não havia métodos para evitar que os alimentos se deteriorassem. aparece como o último grande feito marinettiano. Margareth. é difícil encontrar um romance no qual não se descreva ao menos uma refeição. com toda a cortesia ritual implícita na refeição. Rio de Janeiro. até 1920.) à volta diária dos caçadores 7 Visser. As famílias também se encontram para refeições e este costume remonta a dois milhões de anos. publicado em 1930 (época em que Marinetti já pertencia a Academia Fascista) por F. consiste numa série de ações constantemente repetidas. Marinetti e Luigi Colombo “Fillìa”. Entretanto. resumindose a difundir as idéias fascistas. p. o Manifesto da Cozinha Futurista. Comemorações marcando transições e lembranças quase sempre exigem comida. T.A cozinha futurista    Pode-se dizer que. após essa data. já exausta do cunho propagandista revelado pelos últimos anos do futurismo. Campus. Na literatura. Os dias festivos são solenes ou sagrados. sendo ao mesmo tempo o comportamento esperado e o correto. já que encontros sociais são comumente realizados em torno de uma mesa.

indd 16 7/4/2009 15:51:16 . Cada detalhe colabora para tornar mais ou menos agradável este nosso ritual diário. O sucesso alcançado pelo repasto e sua digestibilidade dependem de cada um destes fatores. cortesia. da beleza da sala de refeição ao tipo de música selecionada para acompanhá-la. 1995. mas nem sempre. Desde os alimentos até a bebida que os acompanha. somente o homem de espírito sabe comer. renovando suas forças. nem sempre este prazer caminha impune. nutrindo-a. São Paulo: Companhia das Letras. ou por escolha própria. O prazer também está diretamente ligado à gastronomia. As cenas descritivas de festas. ou seja.15 16 Cozinha futurista. Ele também pode trazer conseqüências desagradáveis. O prazer da boa mesa transportou-se para as artes. que pode ocorrer de forma compulsória – por empecilhos financeiros pessoais ou carestia em épocas de guerra e recessão econômica –.Fillippo Tommaso Marinetti e forrageadores proto-humanos para dividirem a comida com seus companheiros – aqueles que habitualmente. interesse e prazer. o homem come. a abstinência gastronômica. para certos indivíduos que digerem as substâncias de forma diferenciada. devidas à ingestão de alimentos mal escolhidos ou mal combinados. banquetes. começaram a descobrir todo o prazer que uma refeição pode oferecer. em que as pessoas encontram-se para celebrar a vida. chás ou simplesmente jantares íntimos 8 Savarin. da escolha dos comensais aos assuntos tratados durante a refeição. eles haviam decidido não devorar”. A Fisiologia do Gosto. como a obesidade. este ritual perdeu seu valor econômico e ganhou em sociabilidade.” Quando os homens perceberam que o ato de comer encerrava mais que sua simples subsistência. jejuns religiosos ou de emagrecimento. Entretanto. ou a preguiça e indolência. p. reciprocidade. Com o passar dos séculos. Como diz Brillat-Savarin8 (1755-1826): “Os animais se repastam. Brillat. nos casos de dietas auto-impostas como penitências. Outro infortúnio relacionado a este prazer é o de sua própria negação.

A cozinha futurista    permeiam a literatura, enchendo as páginas com uma sensualidade discreta. Fatos e conversas importantes desenrolam-se entre um e outro bocado, sendo este pequeno rito diário sempre um bom pretexto para a reunião das personagens, já que toda refeição familiar compartilhada num minibanquete celebra tanto a interligação quanto o autocontrole dos membros do grupo.9 Mais que acessório literário, a boa mesa tornou-se independente e, cada vez mais, podemos encontrar nas prateleiras das livrarias edições dedicadas à gastronomia. Edições sobre a história da gastronomia dividem espaço com obras sobre a cultura e a filosofia. Os livros “de receitas” evoluíram e, cada vez mais, parecem-se com os livros de arte. E o são. Livros de arte culinária. As fotografias contribuíram em muito para transformar a arte dos chefs em verdadeiras tentações para os nossos olhares. A facilidade de encontrar os ingredientes traz o sonho de uma refeição digna de reis para mais perto de outras camadas da população. As figuras enchem nossos olhos com sua beleza, nossa imaginação encarrega-se de criar o resto: o gosto, a textura, o aroma, o tilintar dos talheres nos pratos. Cinco sentidos unem-se para reproduzir o prazer que sentimos ao saborear uma nova iguaria – ou uma iguaria já conhecida, mas redescoberta a cada novo bocado. A utilização dos sentidos sempre foi importante para a literatura. Descrições sempre se tornam mais interessantes quando extrapolam o campo da visão. É importante reproduzir sons, odores, textura, temperatura, sabores. Marinetti já percebera isto ao longo de sua obra. Em 1939, o manifesto O romance sintético catalisava as tendências um pouco separadas entre os manifestos anteriores, já que este deveria ser otimista, heróico, simultâneo, dinâmico, aeropoético, aeropictórico, olfativo e tátil rumorista.10 Merece atenção o subtítulo do livro Il tamburo di fuoco: drama africano di calore, colore, rumori, odori. Con
9 Visser, Margareth. Op. cit. p.22

10 Marinetti, F.T. Teoria e Invenzione Futurista. Milão: Mondadori, 1968. p. 193

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Fillippo Tommaso Marinetti intermezzi musicali del Maestro Balilla Pratella e accompagnamento intermittente d’intonarumori Russolo. Publicado em 1922, pela Casa Editrice Sonzogno de Milão, esta obra também privilegiava os sentidos. Os manifestos lançados ao longo do movimento também refletiram esta preocupação constante: o Manifesto técnico da literatura futurista (1912) defende a introdução do rumor, do peso e do odor na literatura, já que estes representariam, respectivamente, a manifestação do dinamismo, a faculdade de vôo e a faculdade de dispersão dos elementos. O texto Palavras em liberdade (19..)diz que o poeta futurista jogará nos nervos do leitor as suas sensações visivas, auditivas e olfativas. Seria a irrupção do “vapor-emoção”. No Manifesto do teatro sintético futurista (19..) nos é apresentada a representação da nova era – entremeada de gritos, gesticulação apropriada, enfim, de detalhes emprestados dos outros campos da arte para que o Teatro Futurista seja mais abrangente. O Manifesto do tactilismo, de 1921, é de suma importância para que se possa compreender a revolução “cozinhária”11 futurista. Marinetti defende que é possível educar o tato para que possamos perceber muito mais coisas através deste sentido. Exercícios como tocar “tavole sintetiche” formadas por lixa, veludo, areia, seda, e tantas outras texturas, favoreceriam ao homem a descoberta de outros sentidos, ainda não catalogados pela ciência. Seriam eles: sentido de visão na ponta dos dedos, sentido do equilíbrio absurdo (aquele que faz um atleta, ao final de um salto imperfeito, manter-se em pé), sentido de orientação aviatória (essencial para pilotos), sentido tátil a distância (pressentimento), sentido das costas (deve ser estudado em gatos no escuro), sentido musical (ou do ritmo corporal), sentido da superfadiga-força (a força que irrompe em um estágio avançado de fadiga), sentido de velocidade,

11 O termo “cozinharia” pretende recuperar o neologismo criado por Marinetti, que chamava sua revolução de cucinaria, em vez do existente culinaria.

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A cozinha futurista    sentido de nível, sentido tato-cirúrgico (todo cirurgião é ou deveria ser dotado dele) e sentido carnal-materno. O desenvolvimento dos “17 sentidos” proporcionaria uma gama maior de possibilidades, e seria possível, através de determinados materiais táteis, induzir sensações, histórias, sentimentos nas pessoas. Marinetti também propõe a utilização dos cinco sentidos para que um prato possa ser devidamente apreciado e degustado, como na “Aerovianda com rumores e odores”. Diz Marinetti: “(...) futuristicamente comendo, opera-se com os cinco sentidos: tato, paladar, olfato, visão e audição”. O prato consiste em quatro pedaços: um quarto de erva-doce, uma azeitona, uma fruta cristalizada, e o “aparelho tátil”. Come-se a azeitona, depois a fruta cristalizada, depois a erva-doce. Ao mesmo tempo, passa-se com delicadeza as pontas dos dedos indicador e médio da mão esquerda sobre o aparelho retangular, formado por um retalho de damasco vermelho, um quadradinho de veludo preto e um pedacinho de lixa. De uma fonte sonora, cuidadosamente escondida, partem as notas de um trecho de ópera wagneriana e, simultaneamente, o mais hábil e gentil dos garçons pulveriza pelo ar um perfume. No relato de Marinetti, apenas uma pessoa permaneceu alheia ao entusiasmo que preencheu a sala durante a degustação deste prato. Questionada, descobriu-se que era canhota – esfregava portanto o aparelho tátil com a mão direita enquanto comia com a esquerda. Mas a teoria gastronômica futurista proposta por Marinetti não é exatamente inovadora, apesar de o parecer à primeira vista. Em pleno início do século XIX, Brillat-Savarin12 escreve A Fisiologia do Gosto, obra em que discute filosoficamente diversos assuntos relacionados à gastronomia. Neste livro, além de afirmar que a alimentação influi de maneira direta sobre a saúde, a felicidade e mesmo os negócios, relata

12 Savarin, Brillat. Op. cit. p.15

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Fillippo Tommaso Marinetti um de seus experimentos: um jantar em que foi usada uma de suas invenções, chamada por ele de “irrorador”. O instrumento foi apresentado, durante um jantar, à Sociedade de Estímulo à Indústria Nacional e consiste em uma fonte de compressão adaptada para perfumar ambientes internos. A idéia tão inovadora de Marinetti - perfumar os ambientes durante os jantares para promover uma apreciação mais completa - já havia sido explorada por outro curioso com um século de antecedência. Brillat-Savarin afirma ainda que “quem compareceu a um banquete suntuoso, numa sala ornada de espelhos, flores, pinturas, esculturas, aromatizadas de perfumes, enriquecida de belas mulheres, repletas dos sons de uma suave harmonia; este, afirmamos, não precisará de um grande esforço de inteligência para se convencer de que todas as ciências foram chamadas para realçar e enquadrar adequadamente os prazeres do gosto.”13 O embrião da cozinha futurista também pode ser encontrado em outros autores. Podemos encontrar a interação dos cinco sentidos na tradição simbolista francesa, desde Rimbaud, que relaciona a sonoridade das letras à música e às cores; em René Ghil (1862-1925), ao instaurar a língua-música, em que vincula certas ordens de sentimentos e idéias às ordens de sons e de timbres vocais. Diz Ghil que “(...) todo instrumento musical tem harmonias próprias: daí seu timbre, que é assim apenas uma cor particular do som”14. Marinetti afirma, no manifesto Palavras em liberdade, que o verbo no infinitivo é redondo e escorregadio como uma roda; os outros modos e tempos do verbo são triangulares, ou quadrados, ou ovais. Nas Correspondências, de Baudelaire, a fusão dos sentidos não se dá em cadeia, na seqüência temporal; pelo contrário, realiza-se num só instante, como se o perfume fosse, a um só tempo, oloroso, táctil,
13 Id. Ibid. 39 14 Moisés, Massaud. História da Literatura brasileira, vol..3 Simbolismo. São Paulo: Cultrix-Edusp, 1985. p.11

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A cozinha futurista    auditivo e visual. Já Mallarmé, em seu manifesto decadente Aux lecteurs!, de 1886, afirma que “Afinamento de apetites, de sensações, de gosto, de luxo, de prazer; nevrose, histeria, hipnotismo, morfinomania, charlatanismo científico, schopenhaurismo em excesso, tais são os pródromos da evolução social”. E sobre este manifesto, escreve Gilberto Mendonça Teles, em seu Vanguarda européia e modernismo brasileiro: “Podem-se perceber algumas idéias que vão ser levadas ao extremo pelos futuristas e dadaístas, uma vez que o movimento decadentista desapareceria três anos depois.” 15 Ainda no período decadentista, J.-K. Huysmans escreveu o livro Às avessas, em que podemos perceber a mesma intenção sinestésica no ato de comer. “De resto, cada licor correspondia, segundo ele, como gosto, ao som de um instrumento. O curaçao seco, por exemplo, à clarineta cujo canto é picante e aveludado; o kümmel, ao oboé, com seu timbre sonoro anasalado; a menta e o anisete, à flauta, a um só tempo açucarada e picante, pipilante e doce (... )”16 ou ainda “(...) ergueu-se e, melancolicamente, abriu uma caixinha de prata dourada com a tampa enfeitada de aventurinas. Estava cheia de bombons violetas; pegou um e apalpou-o, pensando nas estranhas propriedades desse bombom coberto de açúcar como geada; outrora (...)depositava um desses bombons sobre a língua, deixava-o derreter-se e subitamente surgiam, com infinita doçura, lembranças muito apagadas, muito enfraquecidas, das antigas libertinagens. Tais bombons (...) eram uma gota de perfume de sarcanthus, uma gota de essência feminina, cristalizada num torrão de açúcar; eles penetravam as papilas da boca, evocavam lembranças de água opalizada por vinagres raros, por beijos muito profundos, empapados de odores. De hábito, ele sorria, aspirando esse aroma amoroso, essa sombra de carícias que lhe punha uma ponta de nudez no cérebro

15 Teles, Gilberto Mendonça. Op. cit. pp.56-57 16 Huysmans, J.K. Às Avessas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p.78

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com os quais era possível preparar sopas e outros alimentos. p. Cedo percebemos em Oswald de Andrade o gosto pelas artes em geral. A fome só atrapalharia a degustação. brincando com as palavras e remetendo tanto ao movimento artístico quanto aos cubos de comida desidratada. perfumes e materiais de diferentes texturas. Oswald. o gosto não há muito adorado de certas mulheres.134 22 Cozinha futurista. Flores. café. não se restringindo à literatura. ao menos.indd 22 7/4/2009 15:51:17 . defendeu uma Gastro-astronomia. Estimulando o dinamismo. A combinação de elementos bastante diferenciados e o uso de condimentos inusitados. e não ciência. preferencialmente estando sem apetite. mas degustar novos pratos. um peixe cozido em folhas de eucalipto que evocava Flaubert. como sobremesa. Já em 1911. como jornalista. escrevia críticas 17 Id. A cozinha “gastro-astronomista” não tem por objetivo saciar a fome. ibid. Apollinaire manteve contato com o futurista Marinetti. temperadas com suco de limão. um filé temperado com tabaco que seria aprovado à perfeição por Brillat-Savarin. queijo temperado com noz-moscada e. por um segundo. Guillaume Apollinaire discutia a idéia de haver um “cubismo culinário”. O cardápio de um jantar “gastro-astronomista” trazia como entrada violetas frescas sem os cabos. diferentes combinações de sabores e odores.Fillippo Tommaso Marinetti e reanimava. frutas da estação. resultantes dos avanços científicos. Marinetti não recebia muito bem este apoio. aproximando-se do italiano através de cartas. Na mesma época. frutos exóticos. parecem coincidir nas duas proposições. Entre os modernistas brasileiros não foi muito diferente. mas parece ser possível reconhecer traços da rebeldia “gastro-astronomista” na cozinha futurista. que era arte. uma salada temperada com óleo de nozes e grappa.” 17 Os ingredientes utilizados nas receitas futuristas eram escolhidos para provocar a melhor experiência sensorial (seria melhor dizer sensual?) possível.

e o cardápio-programa do jantar é uma obra de “arte sinestésica”. Este gosto pelas artes não excluía a gastronomia. Para beber.16 23 Cozinha futurista.18 O futurismo já flertava com o fascismo 18 Bernardini.A cozinha futurista    de pintura. Op. além de ilustrações de Tarsila. Parfait Praliné e fruits. escritos diversos sobrepostos à lista de pratos. ou mesmo política. Aurora Fornoni. ou mesmo a de Anita Malfatti. outras musicais. Dos integrantes do primeiro grupo futurista. Em 1927. quando as polêmicas suscitadas pelo movimento já não tinham a força revolucionária de outrora. cit. p. como a do traficante de pau brasil Oswald d’Andrade e a leitura do sermão da montanha sobre Ser Mãi da Intanha. Filet de poisson Parmentier. música. enfim. caricaturas. como o trobadour Rainette Olé cantando e a pintora caipiriuschka Tarsilowska do Amaral tocando alaúde. Foi o responsável por impulsionar muitas carreiras artísticas. Jambon d’York e Salade. o casal Tarsiwald ofereceu um jantar literário ao escritor paulista Paulo Prado (1869-1943). saindo em sua defesa publicamente após a conhecida crítica de Monteiro Lobato à sua exposição em 1917. provavelmente a “Villa Fortunata” onde aconteceu o jantar. Dinde farcie. Champagne. com o bandeirante Pau lo Prato chorando sobre a trasteza do pó Lhytico no Brasil.indd 23 7/4/2009 15:51:17 . A Cozinha Futurista O Manifesto da Cozinha Futurista foi publicado em 1930. A lista de comidas traz uma reprodução gráfica de uma casa. O programa anunciava algumas intervenções: umas literárias. Charlotte Russe. que tratou como mais uma arte. como a do escultor Victor Brecheret. O jantar literário reuniria os cinco sentidos. Liqueurs e Café. escrita em francês: Potage crème de volaille. Tournedos à la Rossini. Como sobremesa. apenas Marinetti havia resistido no movimento – motivo pelo qual Paolo Angeleri chama-o de marinettismo.

A Cozinha Futurista já foi traduzida para o espanhol. No ano de 1929. como Roma. por Guido Filippi. em sua versão original ou traduzida. toda a polêmica por este suscitada na imprensa da época em diversos países.indd 24 7/4/2009 15:51:17 . em 1985 sob o nome La Cocina Futurista: una comida que evitó un suicidio. contendo o referido manifesto de 1930. buscava no totalitarismo uma possibilidade de reconquistar a auto-estima. Firenze. época em que uma Itália em guerra. Palermo. 27 cm de tamanho e 160 páginas. 19 cm. pela Editora Gedisa. Esta tradução pode ser encontrada na Biblioteca Nacional da Espanha e também na biblioteca da FFLCH – USP. entre outras e pode ainda ser encontrada em bibliotecas espalhadas pelo mundo. na Itália. e em 1998 a terceira e última edição italiana do livro. só foi reeditado em 1986 pela Longanesi. foi publicado em formato livro primeiramente em 1932. Com 267 páginas. pela coleção Il Cammeo quando ganhou formato de 21 cm e reduziu o número de páginas para 254. Giulio Onesti e Enrico Prampolini. concedeu à obra 14 páginas de ilustrações. Gênova. e apenas quatro ilustrações. destruída. Milão. Em 1986 algumas partes foram publicadas em fac-símile pela Salimbeni de Firenze. também de Milão.Fillippo Tommaso Marinetti desde 1914. com a colaboração de alguns novos integrantes: Luigi Colombo “Fillía”. pela Editora Sonzogno de Milão. Turim. Marinetti foi nomeado acadêmico da Itália e vestiu a farda da Academia e em 1930 – praticamente dez anos após o final do período glorioso e fecundo do futurismo – publicou o Manifesto da Cozinha Futurista. A obra pode ser encontrada nas bibliotecas das cidades mais importantes da Itália. feita pela Editora Marinotti. Ferrara. Bolonha. a descrição de diversos menus futuristas. esta também de Milão. O ano da adesão oficial do futurismo (resumido então a Marinetti e alguns novos adeptos) ao fascismo é 1924 –. Ravena. Outra tradução facilmente 24 Cozinha futurista. O livro A Cozinha Futurista. e publicada em Barcelona. bem como um receituário e um pequeno dicionário.

Ora. pela A. Dos manifestos que surgiram após 1920. datado de 11 de janeiro de 1921. a audácia e a rebelião. e outra pela Editora Bedford Arts. Na realidade. entre outras. Ambas as publicações do livro The Futurist Cookbook datam de 1989. Existe ainda uma tradução em alemão. encontrada na Library of Congress.M. com introdução de Andreas Viestad e publicada em Oslo pela Spartacus Forlag em 2001. Frankfurt e Hamburgo.indd 25 7/4/2009 15:51:17 . de São Francisco. O livro foi traduzido também para o norueguês com o título Futuristisk Kokebok. cujos ideais já haviam sido antecipados de certa forma no Manifesto Futurista de 1909. Marinetti apóia o regime fascista. na figura de Mussolini. na Itália. na Bélgica. o gosto pela luta. Duas forças políticas emergem no cenário mundial. pela guerra. o militarismo. Gilberto Mendonça Teles acredita ser o mais importante o já referido Manifesto do tactilismo. os regimes totalitaristas. que pode ser encontrada na British Library. Rarish: Die futuristische Küche. Esta tradução foi publicada pela Editora Klett-Cotta em 1983. feita pelo escritor Klaus M. pela coleção Cottas Bibliothek der Moderne e pode ser encontrada nas bibliotecas de Leipzig. e o regime comunista. Em inglês há duas publicações. se Marinetti e seus “discípulos” 25 Cozinha futurista. feita por Nathalie Heinich e publicada em Paris. Os manifestos do final do período heróico do futurismo (próximos a 1920) já possuem uma forte conotação sócio-política: a nação deveria reerguer-se e recuperar-se de todas as perdas resultantes da guerra. a coragem. excitado pela recente Revolução Russa. o futurismo e o fascismo condividem o nacionalismo exacerbado.A cozinha futurista    encontrada é em francês. Metailié em 1982 com o título La Cuisine Futuriste. uma pela Editora Trefoil de Londres. em 1917. pelo escritor Steiner Lorne. foram feitas a partir da tradução de Suzanne Brill e contam com uma introdução feita por Lesley Chamberlain. Esta obra pode ser encontrada na Biblioteca Nacional da França e na Biblioteca da Universidade de Leuven. as belas idéias pelas quais se morre.

Luciano. come più tardi dei surrealisti. Venezia: Marsilio Editori. que. cucina ecc. não mastigam e o trabalho de digestão é desempenhado pelo pâncreas e pelo fígado. Dentre as diversas idéias apresentadas. La nascita dell’avanguardia – saggi sul futurismo italiano. em 28 de dezembro de 1930. sonha e age de acordo com o que come e o que bebe. o único sentido que ainda faltava ser abordado era o paladar. Marinetti afirma que o homem pensa. rumores e odores (audição e olfato).19 A publicação do Manifesto da Cozinha Futurista deu-se na Gazzetta del Popolo. danza. ao comerem macarrão. politica. secondo il motto di Rimbaud. Surge então o Manifesto da Cozinha Futurista. sons. Um homem mal nutrido pensa e age mal. tactilismo (tato). P. 19 De Maria. Marinetti defendia novos hábitos alimentares. o que provoca desequilíbrio e distúrbio destes órgãos. è changer la vie. Ao propor a abolição do macarrão. cinematografo. Marinetti argumenta que este alimento contrasta com o espírito vivaz e com a alma apaixonada dos napolitanos. e non soltanto nelle condizioni esterne dell’esistenza. 1986. fotografia. Un impulso “totalitario” anima il movimento: meta dei futuristi. As pessoas. ma nel più profondo dello spirito umano. como o chamou Mário de Andrade. de Turim. 15 26 Cozinha futurista. Neste Manifesto.indd 26 7/4/2009 15:51:17 . segundo o autor. erotismo. Nas palavras do crítico italiano Luciano De Maria: Marinetti e i compagni dissero la loro su ogni argomento: letteratura. a proposição que mais choca é a de “abolir o macarrão”. O último dos sentidos fora também abordado pelo “agitador futurista”. teatro. que pretendeu revolucionar o modo pelo qual os italianos se alimentam. música (audição). trariam inúmeros benefícios ao povo italiano.Fillippo Tommaso Marinetti já haviam escrito manifestos sobre pintura e escultura (visão).

72 22 Id. presente em boa parte da alimentação de quase todos os povos.) enfraquece as fibras e mesmo a coragem dos homens”21. Em seus Aforismos. em seu livro Nunca treze à mesa. Brillat. traz uma ampla reportagem sobre o macarrão. em Palermo ( e não que tenha sido trazido da China para a Itália por Marco Polo). 20 Savarin. não apenas em festas relativas a datas comemorativas do movimento literário.. cit. ibid p. p.. mas como pratos constituintes do cardápio. o fósforo. Sem sucesso. pessimismo. informa que no início do século XX o poeta Marinetti propôs abolir o macarrão da dieta italiana.23 A revista Focus (Mondadori) de dezembro/2002. para os clientes que não desejam se aventurar nas receitas inovadoras. Brillat-Savarin afirma que “o destino das nações depende de como elas se alimentam. 27 Cozinha futurista. O exemplo dado é o do povo indiano. e entre as afirmações de que já em 1154 o macarrão era produzido na Itália. Orietta del Sole. faz uma referência ao mesmo fato: a tentativa de desvincular o macarrão dos hábitos alimentares italianos. existem dois cardápios. mas ainda hoje existe um restaurante na Itália – o Lacerba. porém tem a sensualidade despertada por certa substância ictiófaga. Op. inatividade nostálgica e neutralismo. um futurista e outro passadista. que vive quase exclusivamente do arroz e é extremamente submisso. 22 O manifesto contra o macarrão é lembrado em diferentes épocas e ocasiões.”20 e acrescenta que a fécula.indd 27 7/4/2009 15:51:17 . 94 23 Na verdade.15 21 Id. “(. Vez ou outra um restaurante promove uma noite futurista. de Milão . ibid. o escritor afirma que os povos que se alimentam de peixe são menos corajosos que os que se alimentam de carne de gado.que serve os pratos e as bebidas futuristas.A cozinha futurista    Derivariam então: fraqueza. em que as receitas são novamente executadas e degustadas. Em outra passagem do mesmo livro. p. suas origens e sua história.

O problema da importância da alimentação na formação do homem pode também ser verificado em Nietzsche. arroz e cereais. talvez. o macarrão forma a base da pirâmide alimentar defendida pelos nutricionistas. isto é. afirma Nietzsche. de ‘germânico’”25. Outro argumento utilizado contra o macarrão é de ordem econômica.”24). ou comemorativo. o que também fazem franceses e ingleses. Ecce homo. mas molda o comportamento de uma nação: “basta a mínima inércia dos intestinos – tornada depois um hábito péssimo – para fazer de um gênio algo de medíocre. a italiana.9% de gordura. A dieta mediterrânea – que inclui o macarrão . de virtude livre e de moral?” Nietzsche afirma que sempre nutriu-se mal. Friedrich.indd 28 7/4/2009 15:51:17 . 24 Nietzsche. que a alimentação atinge diretamente o caráter e o comportamento. que comem até empanturrar os intestinos (“O espírito alemão é uma indigestão. São Paulo: Martin Claret.já foi exaltada como exemplo de alimentação sadia e equilibrada em todo o mundo. de 1888. “Como deves nutrir-te para chegares ao teu máximo de força. 2000 p. no livro Ecce Homo. é a do Piemonte. 13. ibid p. 53 28 Cozinha futurista. O interesse de Marinetti é. de virtude (no significado que essa palavra se dava na Renascença). era caro e a substituição deste alimento favoreceria a indústria italiana do arroz. A melhor cozinha.4% de proteína e 3.Fillippo Tommaso Marinetti O insucesso da tentativa é sempre comentado em tom jocoso. pois o trigo. Ironia ou não. culpa dos alemães. Nietzsche julga como a melhor cozinha justamente aquela que Marinetti pretende revolucionar. Junto com o pão. 51 25 Id. importado. das quais 80% de carboidratos. não chegando nunca ao fundo de alguma coisa. portanto anterior ao futurismo. Nutricionistas defendem que o macarrão faz bem à saúde: 100 gramas de macarrão sem condimentos tem 356 calorias. O filósofo alemão também acredita que a pessoa é o que come. não só das pessoas individualmente.

A revolução gastronômica futurista não aconteceu. o manifesto não repercutiu como deveria esperar seu autor. Talvez por Marinetti estar diretamente ligado ao fascismo e defender idéias já então consideradas conservadoras e de forte conotação política. o problema da interferência da alimentação na personalidade e/ou nas atitudes das pessoas não havia passado despercebido pelos autores do século XIX e início do século XX.A cozinha futurista    portanto. a cultura italiana haveria de se fortalecer pelas modificações propostas. bastante nacionalista (seria lícito dizer fascista?). mas também político. desenvolvendo a indústria e propiciando empregos aos italianos. Após 1920. co-autor do Manifesto da cozinha futurista. embora o objetivo não tenha sido alcançado. num período de decadência – os gritos e bramidos marinettianos já não eram ouvidos com tanta atenção pelo mundo literário. Mas a importância da alimentação 29 Cozinha futurista. não só nutricional. pois as propostas futuristas verificaram-se impraticáveis. Percebe-se então o cunho político. e ainda contribui para o desenvolvimento econômico do país. melhores cidadãos. É provável que a publicação deste manifesto tenha sido uma tentativa de fazer ressurgir a importância do Movimento Futurista. Os alimentos escolhidos também deveriam fortalecer a economia nacional. de Marinetti. Pudemos observar que a tradição alimentar vem sendo questionada por inúmeros autores e em diferentes épocas. com o propósito de “melhorar a raça e a economia”. Através da correta escolha e combinação de ingredientes. Além disso. pela negação de todos os estrangeirismos. acreditavam poder fortificar a raça e tornar os homens mais competitivos e adequados à guerra. além de estarem demasiado atreladas à figura política do Duce. desde a matéria prima de certos alimentos até modas gastronômicas/culturais estrangeiras. Marinetti e seus colaboradores. em especial Fillìa. Ainda que Marinetti tenha proposto uma revolução gastronômica em seu país. o Futurismo havia entrado em crise.indd 29 7/4/2009 15:51:17 . Como já foi dito. pretenderam revolucionar a culinária italiana. A boa alimentação proporciona melhores soldados.

a alimentação italiana era mais resistente e tradicional. Entretanto. Marinetti tentou preparar. com os ingredientes do futurismo. em todos os campos das artes. mais uma prova da personalidade multifacetada de um revolucionário que se ocupou de todos os sentidos.indd 30 7/4/2009 15:51:17 . Restou-nos o manifesto.Fillippo Tommaso Marinetti para a vida das pessoas continua ganhando mais e mais importância tanto na literatura como na mídia. 30 Cozinha futurista. uma nova massa.

Oswald de Andrade e a Cozinha Futurista H Cozinha futurista.indd 31 7/4/2009 15:51:17 .Capítulo 1 Mário de Andrade.

Cozinha futurista.indd 32 7/4/2009 15:51:17 .

Mário de Andrade na cozinha A repercussão do Manifesto da Cozinha Futurista na mídia possibilitou a realização do livro A cozinha futurista. Macunaíma 33 Cozinha futurista. Partindo de apontamentos sobre algumas obras destes dois autores. deu ensejo neste trabalho a uma série de “analogias gastronômicas” entre este e parte da obra de dois escritores modernistas. e oportunamente. o mais respeitado seja aquele com maior capacidade de prover seus familiares. cuja repercussão. A preocupação com a subsistência de cada indivíduo e de toda a tribo faz com que o mais forte. tentarei estabelecer relações pertinentes entre os autores brasileiros e o “futurismo gastronômico”.indd 33 7/4/2009 15:51:17 . por sua vez. No livro Macunaíma. Espero não causar indigestão com a combinação das iguarias. Mário de Andrade e Oswald de Andrade. a alimentação é fator fundamental para o desenrolar da obra. de alguns colaboradores da Revista de Antropofagia liderada por Oswald.

As inúmeras repetições do verbo comer e seus sinônimos chamam a atenção sobre os alimentos ingeridos ao longo da saga de Macunaíma. O resultado de sua obra foi emblemático. 34 Cozinha futurista. e como a digestão – ou assimilação – destes alimentos pode ser significativa para o processo de construção do caráter “identidade” nacional brasileiro. mas o livro só veio a ser publicado em 1928. pois Mário julgou inadequados os dois que escrevera. As misturas de raças deram-se não somente no âmbito genético.pode ser considerado um dos meios de formação da identidade nacional brasileira proposta por Mário de Andrade em Macunaíma. e já que a rapsódia foi publicada no mesmo ano do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade. O processo de ingestão e digestão .indd 34 7/4/2009 15:51:17 . já que Mário de Andrade acabou por construir um “símbolo do brasileiro”. Mário de Andrade escreveu Macunaíma na semana de 16 a 23 de dezembro de 1926. pela dificuldade de sua classificação: história? romance? Acabou por ser rapsódia. conquanto não lhe falte caráter. O prefácio nunca chegou a ser publicado.Fillippo Tommaso Marinetti passa a ser respeitado pelos irmãos na medida em que se torna o principal responsável pela alimentação dos mesmos.ou assimilação . comportamental. mas as várias influências que determinaram o caráter e a formação do povo brasileiro. mas também nas áreas lingüística. musical. O caráter de um povo também poderia ser avaliado verificando-se as bases de sua alimentação. e – por que não? – gastronômica. reflexo da miscigenação de tantas culturas quantos foram os povos que aqui vive(ra)m. durante umas férias em Araraquara. Macunaíma é o famoso “herói sem nenhum caráter”. torna-se difícil não reconhecer analogias entre as duas obras. O livro provocou dúvidas desde a publicação. devido à série de modificações feitas no texto original. O “herói de nossa gente” reflete não uma.

.. encontramos em Frank Lestringant uma analogia entre um ritual antropofágico indígena e a Eucaristia: “(. se convertia em corpo de Cristo. quando da missa. Padre Antonio Vieira traz desta forma a questão da Eucaristia: “(.) a palavra despertava inextricavelmente o sentido moderno do pão eucarístico. que eram associados a uma prática antropofágica.”1 Esta antropofagia está também ligada ao amor. ainda amorfo. senão o que digere (.A cozinha futurista    A antropofagia.. aumenta. pois o que todos os fiéis desejam não é viver no amor de Cristo? Transportando-nos da cultura cristã para a indígena primitiva. Antonio. defendida por Oswald de Andrade em seu Manifesto Antropófago.) o mesmo Cristo que no Sacramento se come..) o que alimenta. nutre. 2001.. 1997.. no Rosário se digere.indd 35 7/4/2009 15:51:17 . e dá forças e vigor ao vivente. como o Sacramento católico.. em sua História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Hedra.95-96. seja de forma direta ou sublimada. Sermões. e recebe dentro de si. pp. grandeza e decadência. alimentação que pode ser uma das bases da formação do caráter nacional.. Alfredo Bosi.”2 Mário de Andrade dedica grande atenção à alimentação de seus personagens na obra Macunaíma. a transformação do tabu em totem. O padre José de Acosta empregava o termo hóstia para designar a vítima dos sacrifícios astecas. 35 Cozinha futurista. desde o nascimento e as primeiras 1 2 Vieira.(. Lestringant. pp. Brasília: Editora Universidade de Brasília. destaca que o protagonista é uma “(.34-36. que. desde os nossos ancestrais mais primitivos: entretanto ainda hoje podemos averiguar seus resquícios.) espécie de barro vital. vem sendo praticada há centenas de anos.. não é o comer que ele toma na boca. Pe..) os primeiros missionários do Novo Mundo perceberam a relação entre a antropofagia ritual e o sacramento da Eucaristia. O Canibal. Frank. a que o prazer e o medo vão mostrando os caminhos a seguir.

come tudo e todos que estão em seu caminho. mulher do irmão mas sua amante. pp. A antropofagia do livro resume-se a três episódios: no primeiro. Talvez seja ainda possível reconhecer uma ingestão fatal. 36 Cozinha futurista. 1992. o Gigante Piaimã morre em sua própria macarronada – em que “faltava queijo”. História Concisa da Literatura Brasileira. embora velada ou mascarada pelo clima de sedução... Macunaíma tem seu dedão abocanhado e engolido por Sofará. o boi morre por não poder ingerir mais nada após a sombra leprosa acocorar-se nele.Fillippo Tommaso Marinetti diabruras glutonas e sensuais”3. a ritual .indd 36 7/4/2009 15:51:17 . destaca-se aqui o gastronômico. Massaud. no segundo. em Macunaíma. moqueada. “(. são muitas as passagens em que há uma certa antropofagia. é um eufemismo utilizado por Mário de Andrade. A Literatura Brasileira através dos Textos. como a antropofágica.398-399. e no episódio final. O verbo brincar no texto tem conotação sexual. Alfredo. já que as referências à ingestão – ou ausência dela – aparecem aproximadamente 130 vezes no decorrer do livro. e aquela para o fim mesmo da alimentação. a metafórica ou sensual. logo depois de sua preguiça e de seu apetite sexual (ainda assim.seja por haver divisão de alimento pela família ou em ocasiões festivas . e o 3 4 5 Bosi. num compósito heterogêneo que é bem o reflexo do Brasil e seus habitantes. apetite).”4 Deste compósito. mordidas misturam-se a beijos. o herói come a carne da perna do Currupira. o tico-tico morre após alimentar o Chupinzão. que acarreta a morte de alguns personagens: o filho de Macunaíma e Ci morre após chupar o peito envenenado da mãe.a medicinal. 1991. Poder-se-ia estabelecer uma divisão entre os diferentes tipos de ingestão.) imbricam-se crendices de vária extração e significado. Enquanto Macunaíma brinca5 com suas mulheres. São Paulo: Cultrix. São Paulo: Cultrix. Jiguê. transformado em sombra leprosa. No entanto. Moisés. p 395. Massaud Moisés afirma que. A gula aparece como um dos primeiros adjetivos dados ao herói.

ou de negar comida à própria mãe ao perceber que ela pretende dividir o alimento com os outros irmãos. André Thévet (1516?-1592) descreve uma das cerimônias de divisão do corpo de um inimigo capturado: “as tripas são dadas aos jovens machos e todos os miúdos são distribuídos entre as jovens mulheres”8. 10 Andrade.. s. De fato.indd 37 7/4/2009 15:51:17 .. que o animal morto e comido toma o lugar da oferta sacrificial original. São Paulo: Martins Fontes. p. com freqüência. Op. em que os irmãos passam a noite “bebendo oloniti e comendo carimã com peixe”10. Macunaíma. 216 Thévet. p. de modo geral. 1998. Rio de Janeiro: Campus. e o ato sexual pode também significar a assimilação do outro: “é duro passar de pessoas que se beijam a pessoas que se comem”6 afirma Voltaire. um ser humano”9. Margaret. Frank. 279 Visser. Antropophages. p. André.25 Lestringant.23 37 Cozinha futurista. Histoire de deux voyages. O verbo comer adquire duplo sentido. somente o herói pensa individualmente. A ingestão ritual remete às sociedades indígenas – em Macunaíma estamos na tribo dos tapanhumas – em que as refeições são comunitárias e o alimento dividido entre os indivíduos da tribo segundo determinada ordem.A cozinha futurista    amor muitas vezes torna-se deglutição. A família (tribo) de Macunaíma sempre divide as obrigações para obter o alimento e prepará-lo.) o canibalismo constitui. p. Esta alimentação ritual também aparece quando da morte da mãe. Lembre-se a passagem da anta capturada por Macunaíma. 1975. uma maneira particularmente eficaz e direta de fazer unidade com o outro”7. p. Dictionnaire philosophique. que é dividida. Outro ritual importante no livro é o da macumba a 6 7 8 9 Voltaire. em Margaret Visser vemos que “Os mitos sobre sacrifício nos dizem. ou no jejum quebrado por Macunaíma quando nasce seu filho. cit. cabendo a ele as entranhas.v. O Ritual do Jantar. enquanto Frank Lestringant diz que “(. Mário de. e não hesita em comer sozinho a caça ou as frutas e raízes que encontra. 33.

teve medo de ser comido na macarronada da família). “Mas era só de brincadeira 11 Visser. engolido. que termina com todos os participantes comendo o bode que havia sido oferecido em sacrifício. após ser um comensal em sua mesa – onde comeu cará com feijão dentro. pela família de Vesceslau Pietro Pietra (o herói tinha virado torresminhos que “bubuiava” em polenta fervendo. em outro momento.. Este medo de ser ingerido. por Oibê. cozimento de broto de abacate para tuberculose.) por trás de toda regra de etiqueta da mesa está escondida a determinação de cada pessoa presente de ser um comensal e não uma iguaria. sempre através da figura de Maanape. assimilado pelo outro pode representar o medo de virar totem. salvando vidas e atenuando dores. finalmente. por Ceiuci e sua filha mais velha (as mulheres queriam comer o pato. engolir bagos de chumbo pra não ter filhos.Fillippo Tommaso Marinetti que o herói comparece para resolver seu problema com Piaimã. já na cidade. pela cabeça de Capei (que vira Lua).”11 De fato.indd 38 7/4/2009 15:51:17 . teve que fugir para não ser comido pela sombra leprosa que era Jiguê. pelo Currupira. que é feiticeiro: suco de tamarindo pra lombriga. pelo cesto do Gigante Piaimã. A ingestão medicinal ocorre algumas vezes. agüinha e reza cantada pro sarampo. Chamam ainda atenção as inúmeras vezes em que o herói tem medo de ser comido: Macunaíma teve medo de ser engolido pela cobra preta. pelo Mianiquê-Teibê (assombração medonha). pelo elevador e pelo carro. uma pacuera inteira (sem mastigar) e um côco cheio de água –. Op. p. remédios aconselhados pra erisipela. o minhocão temível. na passagem em que Macunaíma procura pouso no rancho de Oibê. uma cuia com farinha d’água. que era Macunaíma). Macunaíma teve medo de ser a iguaria. Margaret Visser afirma que “(. pelo Gigante Piaimã. chupar chave de rosário pra curar sapinho. cit.4 38 Cozinha futurista.. Margaret. e. pela surucucu.

que dera ao menino um pedaço de sua perna como isca. Macunaíma por quatro vezes fez “cosquinha na goela com o furabolo”.) vomitam. de palavras de origem indígena e outras importadas diretamente da Europa. 15 Lévi-Strauss. os personagens sentem fome todos os dias. Frank.. Tratase da identidade gastronômica nacional. p.. 184. cit. a ingestão de alimentos para matar a fome e nutrir o corpo: um fato repetitivo. o cará virou num “tartarugal mexemexendo”.) exprime o valor simbólico ligado antes de tudo à ingestão de carne humana”14. em lugar de ingerir. fruto da mistura das diversas culturas que integram o povo brasileiro. e por fim. Esta lista nutricional é relevante.. a pacuera virou num periantã (barranco flutuante) em que o herói e a princesa escaparam. 182.. que “(.A cozinha futurista    que ele [Oibê] queria comer o herói”12 Para escapar de Oibê. a alimentação como um fim em si mesma.. mas também aqueles que aparecem para saciar a fome de “outras tribos”. Macunaíma. p. marginais. 12 Andrade. Tristes Tropiques.. e vomitou as iguarias comidas: a farinha virou num areão. o feijão e a água viraram num lamedo cheio de sapos-bois. 14 Lestringant. Claude. já que aqui aparece um interminável desfile de termos regionais. o vômito “(. Macunaíma já o havia feito para escapar do Currupira. Por fim.418.indd 39 7/4/2009 15:51:17 . Mário de. que “(. Para Lestringant. Assim sendo. já que o pedaço de perna respondia ao chamado do dono. p.. e precisam saciar esta necessidade.. 39 Cozinha futurista. diário. 13 Ibid. Op. p. Mário de Andrade descreve os alimentos que fazem parte da rotina da tribo. os indivíduos detentores de forças temíveis: criminosos. estrangeiros”15.20.) estava querendo mas era comer o herói”13. enquanto Lévi-Strauss analisa a “antropoemia” das sociedades desenvolvidas. como forma de fugir de um perseguidor após comer seu alimento. O vômito não aparece somente nesta passagem.

vidros-de-perfume e caviar. a perna do Curupira. tatu-canastra. macarronada (com o chofer e seu sangue como molho). pacas. ratos chamuscados. jacu. plantas alucinógenas: ipadu. ariticuns.Fillippo Tommaso Marinetti Da cultura negra. rendas. sapotis. aves: um macuco. caças: veado-catingueiro. beiju membeca (beiju mole). mutuporanga. coquinho baguaçu. monos. pixuna. cogumelos e rãs. bagre. sapotas. queixadas. abricôs. melancias. a jaguatirica. um motor. lambaris. canguaçu. antas. churrasco. coelhos. mucajás. o torresmo e a polenta. suçuarana. ter herdado o nome utilizado pelos índios. os estradeiros. guabijus. cigarros de palha de tauari. peixes: tambiús. mutum-de-fava. abroba (gerimum). broto de abacate. jaós. farinha d’água. jundiá. pitomba. raiz de umbu. gasolina. pacova (banana). cascudo. podemos atribuir isso ao fato de grande parte da flora e fauna brasileiras. tejus. Embora os nomes indígenas prevaleçam. onça-pinima. robalos. mocororó. 40 Cozinha futurista. muçuãs. bolo de aipim. aperemas. café. mutuns (mutum-de-vargem. manga-jasmim. sanduíches. graxains. heranças do canibalismo autóctone: sopa feita com um paulista. pacu. maniveira. a papa-viado. urus. sapotilhas. cará com feijão dentro. licor. catetos. tabuí. Da cultura indígena comem-se frutas: bacuparis. um pato seco de Marajó. símios: um macaco. onças. talus. Dos europeus temos a lagosta. urumutum). em meio a muita cachaça. tamanduá. uísque. bacuris. e não porque Mário de Andrade considerasse a influência indígena mais forte que a negra ou a branca.indd 40 7/4/2009 15:51:17 . os olhos da tigre. ingere-se o bode da macumba. abacaxi. perdizes. tucunaré. moluscos: fritada de sururu de Maceió. capivara. os esplêndidos bombons Falchi. milho. miritis. cotia. fumo. macacheira. extremamente diversa da européia. presunto. picota. veado. piaçoca. a pacuera (entranhas de caças). guaribas. lontras. raízes/leguminosas e seus derivados: tacacá com tucupi. jacutinga. quiânti. “champagna”. leite da vaca Guzerá (raça bovina vinda da Índia).

dançam nele portugas. se acomodando com as circunstâncias do Brasil. desde maio de 1943 até sua morte.indd 41 7/4/2009 15:51:17 . do dendê. cheiros e influências. dentição. São Paulo. em 25 de fevereiro de 1945. 16 Andrade. acostumado com os chinfrins da pimenta. Em “Romance do Veludo”16. o folclore. após terem se lavado na cova do pezão do Sumé (São Tomé). 1ª dentição. Macunaíma. o processo de criação. no. Por mais forte e indigesta que seja a mistura. Gosto muito desses cocteils.A cozinha futurista    Assim como os três manos. Mário corroborava a opinião da confusão de valores instaurada no Brasil por sua mistura étnica. mudaram de cor e passaram a representar as três raças formadoras do povo brasileiro. 41 Cozinha futurista. Os textos foram publicados às quintas-feiras na Folha da Manhã. agosto 1928. mas com estilo completamente livre. estas também se encontram registradas por meio de suas influências gastronômicas. agosto de 1928 17 Revista de Antropofagia. Comecemos pela obra inacabada O banquete. espanhóis e já brasileiros. africanos. do tutu. atingindo até a culinária. Maanape e Jiguê. “O Romance do Veludo é um documento curioso da nossa mixórdia étnica. da caninha e outros palimpsestos que escondem a moleza nossa. 04. Mário de – Romance do Veludo – Revista de Antropofagia. em que se discutem com a mesma paixão a arte. Trata-se de crônicas musicais. 1a. única em sua variedade de cores. texto publicado em 1928.”17 Em outras obras de Mario de Andrade também é possível verificar a importância destinada à ingestão de alimentos ou aos rituais que circundam a alimentação. Quer como literatura quer como música. os elementos que entram nela afinal são todos iromuguanas e a droga é bem digerida pelo estômago brasileiro. sob o título de “Mundo musical”. hoje publicada em formato livro. A contribuição de cada povo serviu para realizar a grande festa que é a culinária brasileira. mas todas elas formadoras da identidade nacional.

Fillippo Tommaso Marinetti a situação dos músicos e das pessoas interessadas – por razões as mais diversas – em proteger a arte e os artistas nacionais. único personagem sem amarras políticas. xiii 42 Cozinha futurista.indd 42 7/4/2009 15:51:18 . Pastor Fido é um estudante. que pode dizer o que realmente pensa sem temores de que o grande objetivo do banquete pereça. Margareth. Comer é algo agressivo por natureza e os utensílios requeridos para o ato poderiam rapidamente transformarse em armas. Outro fator relevante é a possibilidade de se determinar o nível cultural de uma pessoa por meio de suas maneiras à mesa. Mário de Andrade toma a refeição como o momento propício para que assuntos importantes sejam discutidos.”18 Ora. facilitando aos convivas a explanação de suas opiniões e desobrigando-os das responsabilidades de um confronto intelectual. é bastante interessante observar o itinerário dos comes e bebes servidos durante as discussões: 18 Visser. Janjão é o músico pobre e quase anônimo. “um sistema de tabus. cinco personagens encontram-se para um banquete oferecido pela milionária americana Sarah Light com o intuito de obter proteção governamental para o jovem músico nacional Janjão. Op. o discurso adquire um tom menos formal. temos assim em qualquer refeição um cenário ideal para o desenrolar de um texto. projetado para que a violência fique fora de questão. cit. com um objetivo comum: saciar a fome e compartilhar o alimento e os prazeres advindos destes. p. À mesa. já que todos encontram-se reunidos em torno de uma mesa. no fundamental. As maneiras à mesa são. O político Félix de Cima e a virtuose Siomara Ponga são os convidados pertencentes à classe dominante (vale observar que apenas a classe dominante tem nome completo) e que auxiliaram Sarah em sua empreitada. Na fictícia cidade de Mentira. que precisa ser protegido para que possa continuar a produzir sua arte. Numa alusão ao Banquete de Platão. Além das teorias sobre música ou arte.

X). II (Encontro no Parque) e III (Jardim de Inverno) precedem a comilança por tratarem da apresentação dos personagens. dentro do maior modernismo. 2a. justamente aquele em que Mário de Andrade analisa “O Movimento Modernista”. Mario de. Tinha por pretexto o almoço dominical. vinte anos após a Semana de Arte Moderna. Doce de Coco e Frutas (cap. Seguem-se Vatapá (cap. aparecia em almoços e jantares perfeitíssimos de composição”20 Voltando ao Banquete de Mário.A cozinha futurista    os capítulos têm como subtítulos a parte do banquete a que se referem. em torno de uma refeição. Pode-se. como “o salão da Avenida Higienópolis que era o mais selecionado. Mário descreve alguns salões de vital importância para os jovens modernistas. já que os cinco textos que a compõem são intitulados: I – Aperitivo. estabelecer um paralelo com a série “Moquém”.19 Na obra Aspectos da Literatura Brasileira. Se os capítulos I (Abertura). Aqui. 04 a 08 20 Andrade. o autor comenta o que talvez tenha sido fonte de inspiração às crônicas musicais da Folha da Manhã: os salões em que se reuniam artistas e intelectuais. IX) e As Despedidas (cap. maravilha de comida lusobrasileira” ou o salão da Rua Duque de Caxias.VII). Café Pequeno (cap. 1972. a partir do capítulo IV (Aperitivo) é o ritual da refeição que dita o tom das discussões. publicada na Revista de Antropofagia entre 7 de abril e 8 de maio de 1928. São Paulo: Martins Fontes. V). onde “o culto da tradição era firme. 43 Cozinha futurista. de Oswaldo Costa. foram servidos como aperitivo Porto e “Cocktail Verde e Amarelo”. Brasília: INL. A cozinha. II – Hors d’oeuvre. encontramos um texto de fundamental importância para o modernismo brasileiro. Nesta série. IV – Sobremesa e V – Cafezinho. discutir arte e realidade brasileira. nos. dentição. para. aqui. Salada (cap. sendo este último o recomendado 19 Revista de Antropofagia. “O Movimento Modernista” in: Aspectos da Literatura Brasileira. Oswaldo discute os rumos do modernismo em forma mascarada de refeição.indd 43 7/4/2009 15:51:18 .VI) e viriam ainda. VII). III – Entradas. de cunho afrobrasileiro. O Passeio em Pássaros (cap.

O Banquete. e não se mistura com ele) e um pouco de açúcar verdadeiro (mas um pouco só. aspargo. A Cozinha Futurista. feita de caninha (em alambique de barro. 125 44 Cozinha futurista. fabricação particular). São Paulo: Duas Cidades. Tradução em português p.Fillippo Tommaso Marinetti pela anfitriã por acompanhar melhor alguns pratos fortes do Brasil que seriam servidos. 1989. a utilização de um vocabulário que remete ao utilizado por Marinetti na introdução de seu livro A Cozinha Futurista: “E brilhava de uma sua penugem açucarada excitando o esmalte dos dentes nas bocas atentas dos dois companheiros”. todos se enganaram. os sabores delicados do peixe e do camarão fresco unem-se trêmulos à tempestade dos temperos. já perceberam como é gostoso no meio da multidão a gente se encostar numa mulher…”21. tudo feito com massa de açúcar pintada. mas a carne estava miraculosa”23 Outra vez podemos estabelecer um paralelo com Marinetti: a utilização de gêneros alimentícios alternativos aos que faltavam em tempos de guerra – a polêmica proposta marinettiana de abolir o macarrão tem 21 Andrade. Mario de. 07 e 11 23 Andrade. Mario de. como nesta batida). a língua e os dentes”. além da aproximação do prazer proporcionado pela comida ao prazer sensual instigado pela mulher. Vê-se aqui. de um prato chamado “Balé do Racionamento”.. “É uma delícia da língua. começou a amorosa adoração com os lábios. No Vatapá. F. O Banquete. 22 Numa época de escassez devida à Guerra. o dendê. Está claro que ninguém comeu isso. ou “ajoelhando-se em frente. “mas em vez de batatinhas: pequenos pedaços de queijo assados na brasa. Alface. até do paladar dos dentes (…) Eu não sei como explicar… mas vocês homens. ainda. Era um Chateaubriand. O político provou do cocktail e constatou se tratar de uma legítima batida paulista. 123 22 Marinetti. p. p.. temos a descrição. Vinha um prato de salada junto.T.indd 44 7/4/2009 15:51:18 . foi muito divertido. palmito. camarão seco. em vez de cogumelos: leite coalhado em cápsulas salgadinhas. limão (que pelo menos disfarça o cheiro fatigante da caninha.

p.A cozinha futurista    sua base na elevação de preço do trigo durante a guerra -. não conseguira resistir à atração da salada e se servira de todas aquelas cores. Chegamos finalmente à Salada. Pastor Fido. tão nutrido e convicto. prato principal do banquete de Sarah Light. bravo.159 25 Andrade. Felix é descrito como um animal. seus olhos haviam engolido a salada. cozinheiros tornando-se verdadeiros artistas (neste caso. estava encantada com o furor quase mítico do prato. p. Mario de. era uma salada fria.indd 45 7/4/2009 15:51:18 . Áspero. mas uma salada colossal. “um coroamento da sua existência de comestível espiritual (desculpem).” Era o prato preferido da milionária. embora não se tivesse entregado totalmente ao prato em que havia até sorvete de creme e suco de pedregulho! 24 Andrade. que se percebia nele a paciência das enormes tradições sedimentadas. a malícia das experiências sensuais. norte-americana. que era “feioso e monótono na aparência. “Não tinha cheiro nenhum. os caminhos percorridos pelo sacrifício de centenas de gerações. Seus olhos a cheiravam. mas como era bonita e chamariz!” A descrição da salada aparece em total oposição ao prato anterior. exceto Janjão. Mario de. não fazia vista alguma com seus tons de um terra baço.. Todas as cores estão nela representadas. o moço estudante. o vatapá. e o prato foi comido. mas que cheirava. manducado por ele antes mesmo que suas mãos o tocassem.. O cheiro do vatapá vos trazia aquele sossego das coisas imutáveis”24 A salada aparece como alegoria: é norte-americana. Espalhara na sala um cheiro vigoroso que envolvera os presentes no favor das mais tropicais miragens. para suprir com a arte a falta de certos produtos).159 45 Cozinha futurista. a maior do mundo. Bravio. especialmente os verdes. O Banquete. mas já personalizada pelo tom local.”25 A essa salada. entregam-se. Mas tão cheio. “Tinha mil cores.. A salada.. que resfolegava em cima da salada. Siomara Ponga. com mentira e tudo. cuja carreira a impedia de gostar de qualquer coisa. todos. aquele cheiro. O Banquete.

Neste texto também temos uma refeição como temática central. alface muito clara e casca ralada de maçãs. embora aqui seja o prazer proporcionado pela iguaria a ser ingerida mais forte que a batalha emocional que se dá à mesa. Era um prato inteiramente novo. duas farofas. que contam cinco pessoas: ele. Um pouco anterior ao Banquete. a salada mais carcomedora do mundo. a salada mais encantatória do mundo. a mãe e a tia. em respeito aos judeus.. por causa de Gandhi. escrito entre 1938 e 1942 e publicado no livro Contos Novos. 26 Andrade. Era o prato mais odioso e ao mesmo tempo mais simpático do mundo. a carne mansa de um tecido muito tênue. Assim. um irmão. havia também pecados: leite de cabra. Mario de. perfeito.. gemas de ovo libertas da perigosa albumina e avelãs recobertas de cacau sem açúcar. incapaz de caráter”26 Este prato. a mãe poderia finalmente comer peru. Ao menos. p. O Banquete. e não apenas o que sobrava na ossada após as festas que davam enquanto o pai era vivo.Fillippo Tommaso Marinetti Entre perdiz desfiada. de acordo com os personagens respectivamente como: o prato mais lindo do mundo. foi descrito. bicho nacional dos celtas. e outra seca. o prato mais alcoolizador que havia agora no mundo. “Tinha de tudo. porco. ameixas e nozes. é o conto “O Peru de Natal”. Após a morte do pai. mas encapsulado em farinha de trigo. apenas para os familiares. a comida vence a batalha. Juca sempre foi considerado doido pela família. a salada mais sem perfume porém mais vistosa do mundo. uma gorda com os miúdos. mas já que era considerado doido. 162. 46 Cozinha futurista. o prato mais odioso e ao mesmo tempo mais simpático do mundo (e dominava a gente). não havia culpa. uma irmã. a salada mais traiçoeira do mundo. Juca pede que seja feito Peru no Natal. Juca assumia para si a culpa dos desejos de todos da casa. À mesa.indd 46 7/4/2009 15:51:18 . isso lhe dava certos privilégios de idéias inovadoras. sem caráter. o peru. todas as vitaminas salutares.

Quase a ceia de Natal é estragada pela lembrança do pai. em meio a mil maravilhas. 47 Cozinha futurista. O peru vence. destinando os pés à Rua Aurora. gozando os prazeres daquela carne macia acompanhada por cerveja. Como em Macunaíma. in: Poesias completas. Numa espécie de divisão ritual.indd 47 7/4/2009 15:51:18 . Trava-se uma luta entre os dois mortos: o pai e o peru. há uma contaminação do vocabulário referente aos prazeres gustativo e sexual. No céu marioandradino as iguarias são todas brasileiras. Todos desfrutam de uma felicidade gustativa. Mário de Andrade considera as comidas do Brasil paradisíacas. entretanto pareceram mais relevantes em três deles. quer que seus restos mortais sejam enterrados em diferentes partes da cidade. “Lenda do Céu”. Belo Horizonte: Vila Rica. constata que “tinha mandioca e açaí/ Mate cana arroz café/ muita banana e feijão/ Milho cacau … Tinha até”. Mais uma vez. com bastante manteiga. Mário de Andrade revela o destino que se deve dar ao seu corpo após a morte.A cozinha futurista    douradinha. Outras referências gastronômicas podem ser encontradas na obra poética de Mário de Andrade. com o auxílio de Juca. para um encontro amoroso. Mario de. o sexo ao Paiçandu. Mário destrincha o próprio corpo. o prazer gustativo e o prazer carnal se aproximam. a cabeça 27 Andrade. n’O Banquete e em “O Peru de Natal”. e todos passam a comer com sensualidade. este pertencente à série “Lira Paulistana”. e vai ao encontro de Rose. dividida com todos os familiares que puderam comer até se fartar. mesmo após a morte. e após essa felicidade. Juca. Em outro poema. por extensão. Numa declaração de amor à cidade de São Paulo. para que. e lá chegando. existe sensualidade no ato de ingerir a iguaria desejada há muito tempo. e essa sensualidade é reafirmada ao partir o narrador. como diz o autor. 1993. e a sombra do pai. A primeira. Juca passa à felicidade individual. com forte cunho nacionalista. em “Lenda do Céu”27. em que um menino vai ao céu levado por uma andorinha. possa continuar gozando as delícias de sua terra natal.

) Eu insulto o burguês funesto! / O indigesto feijão com toucinho. Macunaíma é fruto da mistura de tradições. é sempre um cauteloso pouco a pouco. mais consciente de sua “importância” na sociedade não goza dos mesmos privilégios de simpatia que Macunaíma. eram destinadas às crianças. o coração ao Pátio do Colégio. o esquerdo aos telégrafos.. os olhos ao Jaraguá.Fillippo Tommaso Marinetti à Lopes Chaves. aproximando-se da salada de Sarah Light. Poesias Completas. tradições 28 Lembremo-nos de que as tripas. Cauteloso porque mescla várias culturas. Mário de. o joelho à Universidade./ o burguês-burguês!/ A digestão bem-feita de São Paulo!/ O homem-curva! O homem-nádegas!/(. é índio. aparências contando mais que conteúdo moral ou cultural. 48 Cozinha futurista. e na divisão da primeira anta caçada por Macunaíma. um homem que sendo francês. em que o alimento auxilia na constituição do típico burguês. Entretanto este poema intitulado ode (teoricamente uma poesia de elogio) demostra o ódio do autor contra o burguês. sem caráter. o ouvido direito ao Correio. provavelmente por sua ingenuidade de herói emprestado de uma mitologia indígena. intelectual e física: “O burguês níquel. Macunaíma não parece em momento algum causar ódio no autor. através desta. mas absorve a cultura africana e é contaminado pela européia. italiano. dono das tradições!/(…) Come! Come-te a ti mesmo. foi a parte que coube ao malfadado herói. e. oh! gelatina pasma!/ Oh purée de batatas morais! ”29 Mario de Andrade faz o retrato da burguesia paulista da época. a língua ao alto do Ipiranga. as tripas pro Diabo “que o espírito será de Deus”.28 Podemos ainda encontrar resquícios pantagruélicos em “Ode ao Burguês”. O burguês indigesto de São Paulo é tão sem caráter quanto Macunaíma. O burguês é insultado em sua formação cultural. O burguês. brasileiro.. Não havia modo de o herói ser diferente. escrito pelo mesmo Mário de Andrade. de Macunaíma. ritualmente... o nariz aos rosais.indd 48 7/4/2009 15:51:18 . poema de 1920-1921. as mãos que ficassem “por aí”. 29 Andrade.

segundo o historiador Douglas Aprato. a quem Sardinha vinha criticando publicamente. da Universidade Federal de Alagoas.31 30 Revista de Antropofagia.A cozinha futurista    vazias de significado. como cartas de jesuítas da época. dom Pedro Fernandes de Sardinha e 90 tripulantes que naufragaram com ele na região. havia virado churrasco. a tese sobre o “banquete” encontra respaldo em documentos históricos. portanto. 49 Cozinha futurista. Data da deglutição do Bispo Sardinha. Os índios caetés devoram o primeiro bispo do Brasil. Alguns historiadores levantam a hipótese de que o bispo tenha sido assassinado por homens da guarda do então governador-geral. de sua força. 10 31 Apesar de versões que negam que o bispo Sardinha tenha sido comido pelos índios. Passemos à carne do Bispo Sardinha! Oswald canibal de Andrade Comidas O horizonte reto Metodicamente Jantou O sol (Julio Paternostro)30 16 de junho de 1556. no. Mário condena.indd 49 7/4/2009 15:51:18 . homens cheios apenas de comida insossa. Sua carne não é boa o bastante para ser comida por outrem. este burguês à autofagia. Duarte da Costa. O estrangeiro não era mais ameaça. de seu poder. Apropriam-se dele.

Para transformá-lo em totem.) Só me interessa o que não é meu. mas não os caetés nem em Alagoas. no. uma curiosidade persistia: haveria a antropofagia oswaldiana nascido num berço futurista? O Manifesto Antropófago foi publicado em 1928. Oswald de. Lei do homem. e marca o início de uma escola literária. A terrena finalidade. ainda na linha de “coincidências” entre os dois autores. (.. O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo durante o ano de 1918.) Antropofagia. a antropofagia parece ter sido a mais radical das tendências da época. “Manifesto antropófago”. com alguns amigos. de 1930. O Manifesto Antropófago surgiu em 1928..do Brasil.) A transformação permanente do Tabu em totem. 32 Andrade... “Só a antropofagia nos une. assimilando assim os valores antes temidos.Fillippo Tommaso Marinetti Oswald de Andrade prega o retorno ao homem natural .(. publicado no primeiro número da revista de Antropofagia. certamente – que se desvencilha dos inimigos ingerindo-os. 1 50 Cozinha futurista. 1a. A humana aventura. mas. uma tragédia De acordo com o historiador Moacir Soares Pereira.(.. Divergindo em sucessivas batalhas intelectuais de escritores – modernistas ou não – e de outras escolas como o VerdeAmarelo e a Escola da Anta. Lei do antropófago.. Sardinha foi devorado por índios. A diferença factual de dois anos poderia descartar a hipótese.. verificamos que ambos tem um livro relacionado de alguma forma à gastronomia anteriormente ao manifesto: Oswald de Andrade escreveu. Absorção do inimigo sacro. Socialmente.indd 50 7/4/2009 15:51:18 . ”32 Das sucessivas leituras feitas para melhor compreender a obra de Marinetti. Filosoficamente. dentição. in: Revista de Antropofagia. Na versão dele. portanto precedeu em dois anos o Manifesto da Cozinha Futurista.. Já Marinetti havia escrito Le Roi Bombance. o bispo foi alvo de tupinambás em território sergipano. Economicamente.

as aproximações são pertinentes. Oswald de. Esta garçonnière servia como ponto de encontro para amigos. Comendo assim.15 50. São Paulo: Globo. intitulado “Receitas Sentimentais”. x ao dia.33 Se faltam os ingredientes para aproximá-lo de um livro de cozinha. a marcha de seus males”.A cozinha futurista    gastronômica pantagruélica em 1905. O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo. esta mais aproximada a uma receita médica: Recipe – Eu te amei ãã Tu não me amavas Eu já não amo Tu és má 0. as almas sãs se farão robustas e as doentes susterão. à moda dos famosos salões 33 Andrade. 51 Cozinha futurista. 1992. temos a “1a. Envelheçamos devagar. com grande encanto e surpresa. O livro é um diário de uma garçonnière que Oswald mantinha na rua Líbero Badaró. receita”. – Há diversas maneiras de amar.0005 Em cápsulas. Após o texto. João de Barros explicita qual é o objetivo do caderno-livro-diário: fornecer receitas para que as almas matem sua fome de experiência e sua fome de ilusão. 67. com alguns conselhos para as almas: “amemos sempre. que ocupa quase toda uma página. Ainda que as datas neguem a influência direta em Oswald. o título da obra de Oswald compactua com esta. Criar “o cardápio perfeito para o banquete da vida. Já na primeira página. artistas e intelectuais da época. Existe uma apenas de envelhecer contente”.indd 51 7/4/2009 15:51:18 . temos um texto assinado pelo pseudônimo Dragoras. nas horas de imbecilidade.33 0.00 0. no ano de 1918-19. 3o. À página 104. andar sala 2. não faltam modos de preparo. Apesar de não se relacionar com a culinária.

p. recortes de jornais. Oswald. é possível reconhecer nesta obra um esboço do que seriam as características da obra oswaldiana – “o processo fragmentário. Na realidade.. também todos traziam e colavam cartas. produziram o livro-diário.”35 A Cozinha Futurista.Lobato. foste o cordeirinho pascal dessa farra de quaresma”. figura dominante de O perfeito Cozinheiro: Deisi. bilhetes 34 Silva Brito. apenas uma mulher. todos nele escreviam. na grafia de Oswald de Andrade) a quem chamam de Miss Cíclone. a visão de crimes e traições.Fillippo Tommaso Marinetti já citados. “Há uma espécie de paixão coletiva por Deisi. Se O Perfeito Cozinheiro é um pastiche de recortes de jornal. embaixo de uma foto que retrata muitas pessoas em volta de uma longa mesa ao ar livre. Prefácio a O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo. o gosto pelo trocadilho. em 1918. cartas. já havia praticado o que só viria a teorizar 10 anos depois. de Marinetti e Fillìa. Todos os amigos que freqüentavam o local contribuíam com o diário. os nomes grotescos ou humorísticos. o amor pelas situações insólitas e imprevistas com tons de sátira e humor. lê-se a inscrição: “. o amor visita a cozinha. Mário da. À página 194. Como observa Mario da Silva Brito. a Antropofagia. (Dasy. numa espécie de pastiche. o “príncipe de nossa prosa”. XI-XII 52 Cozinha futurista. também pode ser comparada a O Perfeito Cozinheiro na questão estrutural. de colcha de retalhos. charges da imprensa e. A tradição gastronômica de nosso país apresenta a mesma característica de assimilação das influências diversas para daí resultar em um produto original. que é amante de Oswald”34. p. Dentre eles.indd 52 7/4/2009 15:51:18 . VIII 35 Ibid. Ed Globo. ocorre até mesmo um banquete antropofágico na obra. Novamente. a que se refere um recorte de jornal colado à página 172. bilhetes. Pois foi do mesmo modo formada a cultura brasileira. Provável ironia ao almoço que havia sido oferecido a Monteiro Lobato.

os métodos de produção se eqüivalem. e pouco aproveitada em Marinetti. a polêmica por este suscitada e publicada em diferentes jornais e revistas. já que é composta da recolha de vários documentos relacionados ao Manifesto da Cozinha Futurista. que se limitou a reproduzir o conteúdo dos textos jornalísticos e dos cardápios sem todavia apresentar ao leitor a forma original. mas faltou-lhe a digestão dos elementos previamente ingeridos. A Cozinha Futurista não dista deste modelo de criação literária. traz de volta à literatura um dos pseudônimos (Miramar era Oswald) que comparecem com bastante freqüência em O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo. receitas futuristas e um pequeno dicionário que auxiliaria um leigo a compreender a obra e a revolução proposta. Pastiche também ele. as cartas de pessoas contra ou a favor do movimento. o poético antefato tragicômico –. Valendo-nos de Padre Antonio Vieira. nesta obra.. o manifesto. mas são apenas fatos corriqueiros sem nenhuma aparente relação com a antropofagia. Oswald fez sua primeira obra “antropofágica” em 1918. Esta obra gastronômica de Marinetti é composta por um texto que poderíamos considerar literário – Uma refeição que evitou um suicídio. outros cardápios futuristas criados pelos representantes do movimento.em 1930. Marinetti utilizou o mesmo processo – a colagem . 53 Cozinha futurista. A obra provocou polêmica ao mesclar poesia e prosa numa atitude inovadora para com a língua. O livro publicado por Oswald de Andrade em 1924. Diferenças existem. os cardápios apresentados nos vários banquetes futuristas que foram oferecidos por ocasião do manifesto e da inauguração do restaurante futurista de Turim (o Santopaladar). que manteve a aparência de “álbum de colagem” e a caligrafia manual. Marinetti procedeu à ingestão.indd 53 7/4/2009 15:51:18 . por certo. Temos.A cozinha futurista    etc. muito mais privilegiada na obra de Oswald. Memórias Sentimentais de João Miramar. algumas poucas referências à gastronomia. mas excetuando a forma.

Produtos que serão exportados à Europa. étnicos. O vatapá…). com os ingredientes de que dispomos. “Sem reminiscências livrescas.Fillippo Tommaso Marinetti No mesmo ano. Toda a gente está lá dentro. todos bem assimilados e digeridos. muitas são as referências a iguarias nativas. apenas frases selecionadas engenhosamente. Sem ontologia.indd 54 7/4/2009 15:51:18 . temos referências ao ananás. que resultará na publicação de Poesia Pau-Brasil. produzida no Brasil. a pepinos romãs e figos. frutos tropicais desconhecidos pelos europeus. Poesia de exportação. a cidras limões e laranjas e à cana-de-açúcar. in: Revista de Antropofagia. lingüísticos ou culinários (A cozinha. folclóricos. 1a. estabeleceu-se um paralelo entre os dois autores: as discussões para batizar o movimento artístico dos rapazes de São Paulo cogitaram o termo “futurismo”. o poema “A Roça” nos traz uma descrição da alimentação dos negros que trabalhavam nas fazendas. dentição. Sem pesquisa etimológica. Excertos de historiadores famosos.”36 Mais uma vez. em 1925 Mário de Andrade diria numa carta a Sérgio Milliet: “Essa invenção Pau brasil do nosso Oswald é uma espécie de futurismo de Marinetti. humildes. em 1925. o Manifesto Pau-Brasil funda a poesia de exportação. no. No entanto. 54 Cozinha futurista. Nesta obra. econômicos. note-se a força de trabalho destes ao final do poema: 36 Andrade. 01. que foi rejeitado enquanto “marinettismo”. “Manifesto da Poesia Pau-Brasil”. Oswald lança o Manifesto Pau-Brasil. Em “Poemas da Colonização”. como Pero Vaz de Caminha ou Fernão de Magalhães são sistematicamente recortados. Oswald de. Apesar de ser composta por ingredientes simples.” O livro Poesia Pau-Brasil começa com uma leitura pessoal feita por Oswald sobre a História do Brasil. Sem comparações de apoio. Buscando a originalidade nativa nos fatos pictóricos. adquirindo assim novo sentido ou poder de persuasão ao serem lidos aos pedaços. Em “Gandavo”.

um poema já prenuncia a antropofagia oswaldiana: DIGESTÃO A couve mineira tem gosto de bife inglês Depois do café e da pinga O gozo de acender a palha Enrolando o fumo De Barbacena ou de Goiás Cigaro cavado Conversa sentada38 Ingredientes brasileiros com gosto de comida estrangeira. e tem o “trem leiteiro/ que leva leite para todos os bebês do Rio de Janeiro”. nosso chocolate tão nacional. 37 Numa tradução tendenciosa: “Sonho de Valsa”. Entretanto. 55 Cozinha futurista. Oswald de. 2000. O estrangeiro sendo misturado ao café e à pinga.A cozinha futurista    A ROÇA Os cem negros da fazenda Comiam feijão e angu Abóbora chicória e cambuquira Pegavam uma roda de carro Nos braços Em “rp 1”. o poema “Walzertraum”37 diz que “aqui dá arroz/ feijão batata/ Leitão e patarata”. As referências gastronômicas são sempre feitas a produtos nacionais. nativos. uma mistura que revela o caráter do povo brasileiro. que o assimila as influências para transformá-las em originalidade. em “Postes da Light”. preferências nacionais. 38 Os três poemas citados estão em Andrade.indd 55 7/4/2009 15:51:18 . Pau Brasil. São Paulo: Globo.

. com ingredientes e modo de fazer ou ministrar: Tome-se duas dúzias de beijocas Acrescente-se uma dose de manteiga do desejo Adicione-se três gramas de polvilho do Ciúme Deite-se quatro colheres de açúcar da Melancolia Coloque-se dois ovos Agite-se com o braço da Fatalidade 56 Cozinha futurista. que acabara de anunciar o noivado com Tarsila. sob o título “O Amor. após alguns anos de relacionamento mal explicado à sociedade: Pegue-se 3 litros do visgo da amizade Ajunte-se 3 quilos do açúcar cristalizado da admiração Perfume-se com 5 tragos da pinga do entusiasmo Mexa-se até ficar melado bem pegajento E engula-se tudo de uma vez Como adesão do Mário de Andrade Ao almoço Pra Tarsila E Oswaldo Amém.indd 56 7/4/2009 15:51:18 . Mário de Andrade divulga em 1925 um poema em homenagem ao amigo Oswald.Poesia Futurista” . ambos aludindo a receitas.Fillippo Tommaso Marinetti Numa amigável intriga literária. A resposta de Oswald também vem em forma de poema – paródia publicada em Serafim Ponte Grande.

real em outras. a famí- 57 Cozinha futurista. (Só comiam os fortes). a carne destes é oferecida no Açougue. Poetas sem brilho. coloca o ser humano em contato com seus antepassados. vários artigos anunciam os jantares nos quais certas figuras da sociedade seriam deglutidas. hoje compilada num único volume. Ou ainda: É a comunhão adotada por todas as religiões. Até que virem totens. Além da referência gastronômica óbvia no nome da revista. teve duas dentições: a primeira teve dez números em formato revista. Às vezes. Rubens do Amaral. e foram editadas de maio de 1928 a fevereiro de 1929. sob a direção de Antonio Alcântara Machado e gerência de Raul Bopp. O catolicismo instituiu a mesma coisa. todos seriam ingeridos para reforçar o movimento antropofágico. Escreveu Oswald de Andrade que devemos “admitir a macumba e a missa do gallo. Veja só que vigor: . para que todos os que assim desejam possam participar da comunhão desses tabus. o direito de properiedade. de agosto de 1929. com a verdade de seu povo. real. por conseguinte. Tudo no fundo é a mesma coisa”. Hans Staden salvou-se porque chorou. Precisamos rever tudo – o idioma. O índio comungava a carne viva. mascarando o nosso símbolo. cedida aos antropófagos pelo editor do jornal. com as raízes.Lá vem a nossa comida pulando! E a “comida” dizia: “come essa carne porque vai sentir nela o gosto do sangue dos teus antepassados. com o primitivo e natural. com 8 páginas. O club de Antropophagia quer agregar todos os elementos sérios. intelectuais que não compreendiam os rumos da literatura modernista. publicadas semanalmente. Foram 16 páginas. de 17 de março a 1°. A antropofagia.A cozinha futurista    E dê de duas horas em duas horas marcadas No relógio de um ponteiro só! A Revista de Antropofagia. simbólica em algumas sociedades. a segunda era limitada a uma página do “Diário de São Paulo”.indd 57 7/4/2009 15:51:18 . porém acovardou-se.

3 40 Fabris. no cardápio antropofágico. 05. ou ainda: “A arte é um meio de ‘devorar’ o conteúdo trágico da vida. isto é. No decorrer dos números da Revista. no. efó – e pela negação das iguarias estrangeiras: “te dana Petit-pois/ te dana Macarrão/ te dana paté-de-fois-gras!/ Viva o caruru”. em seu poema intitulado “Bahia”. Perspectiva/ EDUSP. acarajé. 1994 P. em geral indigesto. O Futurismo Paulista.indd 58 7/4/2009 15:51:18 . Annateresa. “Há diferenças psicológicas entre a eliminação física do adversário de maneira ‘científica’ (a cadeira elétrica de Lacerba) e sua deglutição. 1979. abará. acaçá. a necessidade de divórcio -. define a tradição de sua terra através dos pratos típicos – vatapá. São Paulo. 277 41 Nunes. em valores humanos e em obras de arte”41 Outros colaboradores da revista também tinham suas preocupações gastronômicas. oxinxin. Oswald Canibal. várias vezes volta à discussão a tradição indígena. ou “Os índios não comem a carne de seus inimigos ou chefes com intenção 39 Revista de antropofagia. p. sinceridade máxima. mas a ser consumido necessariamente para criar uma nova ordem de coisas no Brasil”.40 Benedito Nunes afirma que “A antropofagia transportou para o campo das idéias políticas e sociais o espírito de insurreição artística e literária do Modernismo”. São Paulo: Perspectiva. caruru. num gesto de comunhão e de exorcismo ao mesmo tempo. talvez com um paladar um pouco mais “modernizado” que o defendido por Oswald.39 Segundo Annateresa Fabris.Fillippo Tommaso Marinetti lia. Ascenso Ferreira. sob diversos nomes (ou pseudônimos): “se há uma coisa vinculada à alma brasileira é este pequeno e inocente vício guloso que levava a velha índia convertida a pedir in extremis ao seu confessor um dedinho de curumim a chupar!” (Ubaldino de Senra). Benedito. 51 e 66 58 Cozinha futurista. transformando todos os tabus em totens. p. escrever como se fala.

A cozinha futurista    gastronômica. quasi todos. Eric Hobsbawn diz que no campo da arte. Comparemos com o Manifesto Antropófago. afirma-se que os futuristas “Sentimos além disso a necessidade de impedir que o Italiano torne-se cúbico maciço enchumbado por uma compactação opaca e cega”. propondo um novo meio de expressão. as vanguardas ocidentais trataram as culturas não ocidentais em total pé de igualdade.indd 59 7/4/2009 15:51:18 . sem dúvida. mas também no estilo telegráfico. fazendo-o acreditar que faz parte também do movimento.” Ou “Contra todos os importadores de consciência enlatada. Entretanto. procedem à desestruturação da sociedade. Talvez Marinetti tenha sabido da existência da Antropofagia e tenha resolvido imbricar-se nesta área. As idéias tomam conta. inspiraram-se preponderantemente nelas nesse período. do status quo. Ambos os autores querem modificar a mediocridade atual. Temos aqui o uso da primeira pessoa do plural – nós – que engloba o leitor. exige-se “a abolição do cotidianismo medíocre nos prazeres do palato” ou a afirma-se que “Os defensores do macarrão carregam a bola ou a ruína no estômago. (…) Seu ‘primitivismo’ era. portanto. Trazidas nas caravelas. reagem. não apenas no conteúdo transformador. na supressão da pontução e no tom provocatório: No Manifesto de Marinetti. Suprimamos as idéias e as outras paralisias. além da negação do cotidiano. a comparação faz-se inevitável. entendida por ele como culinária. queimam gente nas praças públicas. das idéias pré-concebidas. e para alcançar tal objetivo. também este anterior ao Manifesto da Cozinha Futurista. “especialmente das artes visuais. (…) Contra as sublimações antagônicas. Na verdade. Contra a verdade dos povos missionários (…) – É mentira muitas vezes repetida”. como prisioneiros ou arqueólogos”. das idéias e da língua. Comem porque pensam mastigar também o valor do comido – comidos voluntários. Talvez nunca tenham sabido da existência desses Manifestos quase “afins”.” (China) O Manifesto Antropófago é de 1928 e. sua prin- 59 Cozinha futurista. de Oswald: “Somos concretistas.

Da claridade natural contra a sombra da filosofia. Guilherme de Almeida.. os brasileiros. O sr. “A reação da paisagem contra o tempo. p. a disciplina. o escritor questionava a estrutura econômica e cultural do Brasil: País de sobremesa.”43 De tudo isso se conclui que a antropofagia é a revolta da sinceridade recalcada durante quatrocentos anos. apesar de haver herdado a cultura européia. Tudo resultado da gula. Os espíritos também. Os olhos da nossa gente melam. (…) Os brasileiros estavam começando a descobrir um certo passado. contra o estranja (de outros) ou o infinito (sem dono). Exportamos bananas. Da inferioridade do mestiço que trabalha. coco e fumo.”44 A preocupação com a metáfora gastronômica não cessaria em Oswald.”42 O Brasil. o sistema.Fillippo Tommaso Marinetti cipal atração. tinha muito de primitivo por suas raízes indígenas e africanas. verbo intransitivo. O açúcar substitui o pão das populações. Da sensação espontânea contra a moral. num artigo intitulado “O país da sobremesa”. café. enfocam a questão pelo prisma da exaltação de um lugar geográfico emblemático. cacau. Do nativo contra o importado. 265 44 Revista de Antropofagia. 2a dentição. Eric. ao contrário.120-1. contra a superioridade do ariano corroído pelo vício e pela moleza das decadências. no. Ao comparar os dois movimentos literários. Martins Fontes. Annateresa. 42 Hobsbawn. Do ingênuo contra o artificioso. Annateresa Fabris diz: “É diferente a atitude de modernistas e futuristas perante a consciência do atraso: os italianos adotam como estratégia fundamental a negação do passado. Mário de Andrade escreveu um livro que se chama Dar. 4 (editorial) 60 Cozinha futurista. no qual se enraizará sua consciência nacional. O Futurismo Paulista. País laranja! Temos Coelho Netto. A Era dos Impérios. castanhas do Pará. 1998. Rio de Janeiro: Paz e Terra.p. Da terra (que é nossa). Em 1937..indd 60 7/4/2009 15:51:18 . 43 Fabris.

tem como ingrediente literário apenas o primeiro texto: “Uma refeição que evitou um suicídio – O poético antefato tragicômico”. em 25 de março de 1950. Marinetti antropofágo O livro A Cozinha Futurista. que se suicidara em Nova Iorque. no ano 396 da deglutição do Bispo Sardinha. e como solução. Marinetti corre ao socorro do amigo. para que fosse salva a vida de seu amigo Giulio Onesti. juntamente com os futuristas Prampolini e Fillìa. a lista dos pratos: folhadinhos marcianos e canapés voadores. deu ensejo a um cardápio de criativo projeto gráfico. uma que se parece muito com a morta. transformada em “fantásticos laboratórios”. coração de abacate com crustáceos incrustados.A cozinha futurista    Encerrando grandiosamente as relações canibais em Oswald de Andrade. o mesmo Giulio recebera um telegrama de outra mulher. batida pau brasil. No verso. “mas não o suficiente”. além de uma taça antropofágica cujo conteúdo desconhecemos e cauim “selo vermelho”. além de um lugar reservado aos autógrafos. Ano também do jubileu do “Pau Brasil”. Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil. o suicídio parecia ser a melhor alternativa.indd 61 7/4/2009 15:51:19 . como já vimos. Para não trair a morta. cuja capa reproduzia cenas antropofágicas do livro de Jean de Léry – Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil45. convida todos os futuristas à cozinha. 61 Cozinha futurista. Proceder-se-ia finalmente à manducação do criador do Manifesto Antropófago. Marinetti conta como surgiu a idéia de se instaurar uma revolução na cozinha. para inventar 45 Léry. Jean de. lombinho parnasiano e virado. por diferentes ingredientes. reproduzimos o cardápio do almoço em comemoração aos 60 anos do escritor. Giulio Onesti estava deprimido e com instintos suicidas após saber da morte de sua ex-amante. Para aumentar a tensão. composto. Neste texto.

encontramos : “do banquete me aproxima. Daí advém o fato da descrição dos pratos futuristas muitas vezes ser entremeada de adjetivos atribuíveis a mulheres. em São Paulo ano de 1922. ninfa. ou “raios de mel. metafórica. lembremos que o primeiro ritual antropofágico cristão aconteceu durante a última ceia. basta lembrar de Adão. e bebemos seu sangue em forma de vinho. ou a forma dos pratos assemelhar-se a elas. destilam teus lábios. farinha de milho. leite e mel. mel e leite. 62 Cozinha futurista. Bastaria observar os pratos executados por Marinetti e seus companheiros para a “Mostra dos 22 complexos plásticos comestíveis”47: 46 Cântico dos cânticos. Cem quilos de tâmaras e de bananas. podem talvez ser um prenúncio de uma relação amorosa a ser apresentada posteriormente ao leitor. Os primeiros homens foram expulsos do paraíso porque não conseguiram refrear o impulso de comer um fruto proibido. pp. mas ingerimos o corpo de Cristo em forma de hóstia. Os ingredientes.”46 A estreita ligação que existe entre amor e comida remonta à origem do mundo.indd 62 7/4/2009 15:51:19 . e vem sendo repetido nos últimos dois mil anos./ Provei meu mel. tradução de Antonio Medina Rodrigues. farinha de amêndoas. Dentre os versos do Cântico. Marinetti aproxima os prazeres derivados pela comida ao proporcionado pelas mulheres./ E sob a língua. farinha de trigo. na Eucaristia. 25. Dez jarras de óleo. do leite já provei. “indispensáveis”: farinha de castanhas. Talvez Marinetti esteja aludindo à Semana de Arte Moderna. Estes ingredientes ao aludirem ao Cântico dos Cânticos. com 22 esculturas. pimenta vermelha./ E como aroma libanês recendem teus velamens” ou ainda “Depois de haver provado o trigo meu. chocolate em pó. farinha de centeio. açúcar e ovos./ O vinho eu já bebi. Eva e o Pecado Original. 37 e 39 47 Caberia aqui ressaltar a coincidência (ou não) de haver uma mostra.Fillippo Tommaso Marinetti esculturas comestíveis. Antropofagia indireta. por certo. Ainda no âmbito bíblico. diálogo romântico atribuído a Salomão. com bolos de mel me recupera”.

sem fazer barulho.indd 63 7/4/2009 15:51:19 . Levantou-se agilmente.massa folhada com uma leve curva especial de boca ou ventre ou quadris. a graça de todos os pezinhos femininos em uma farta e açucarada relojoaria verde de palmeiras de oásis. Apalpando e derrubando o belo palmar açucarado. E brilhava de uma sua penugem açucarada excitando o esmalte dos dentes nas bocas atentas dos dois companheiros. Escultores e escultoras dormiam. um sorriso seu de lábios. Enquanto os complexos plásticos comestíveis têm as curvas de uma mulher. Acima.suave magnetismo das mulheres mais belas. um seu modo de flutuar sensualíssimo. Todas as Curvas do Mundo e seus Segredos . a língua e os dentes. e esférica doçura de todos os seios ideais falavam em distância geométrica à cúpula do ventre mantida pelas linhas-força das coxas dinâmicas. fincou os dentes no farto coração dos corações do prazer. parece oportuno ressaltar o fato de que a ingestão de um prato assemelha-se intensamente a uma relação sexual: De improviso. com as costas suspeitosas de um ladrão. e das mais belas Áfricas sonhadas. com um tremendo torcer de rins.é de tal modo bela. percorreu com o olhar circular a sua grande sala de armas e decidido dirigiu-se ao alto complexo plástico as curvas do mundo e os seus segredos. Às três daquela noite. era a tal ponto saborosa a carne da curva que significava a síntese de todos os movimentos do quadril. começou a amorosa adoração com os lábios. convenceu-se que escultores e escultoras de vida dormiam profundamente. como uma tigresa alongada. Ajoelhandose em frente.A cozinha futurista    Complexo plástico d’Ela . Giulio girando naquele instante a cabeça para a direita e para a esquerda. Quando a sua língua deslizou sobre os longos cílios que defendiam as 63 Cozinha futurista. mordeu e comeu um suave pezinho patinador de nuvens. fascinante e carnal que pode curar qualquer desejo de suicídio. Paixão das Loiras . Ao alvorecer comeu as esferas mamais de todo leite materno.

Fillippo Tommaso Marinetti grandes jóias do olhar. se Giulio apenas se delicia com uma iguaria que enche os olhos e o estômago ou se imagina haver ali uma mulher submissa às suas glutonarias. O “Cardápio de Solteiro” tenta amenizar a solidão do rapaz com pratos que evocam louras. frutas e peixes. com a cabeça descoberta. verdadeira tortura psicológica e estomacal. Sem fim. apenas para cheirar. chocolate. O capítulo “Os Cardápios Futuristas – sugestivos e determinantes” também evoca a sensualidade que se pode obter através da alimentação. liberado. tudo coberto por pétalas de violeta. cogumelos trufados. No “Cardápio Noturno de Amor”. Intensificava-se assim o sono dos escultores e das escultoras de vida. Giulio saiu então no parque todo invadido pelos sobressaltantes encanamentos dos rumores do trovão. Este cardápio. ervas.indd 64 7/4/2009 15:51:19 .” Mas é no “Cardápio Extremista” que podemos mais uma vez observar a índole canibal latente no futurismo. lebres e perdizes cozidas em vinho com especiarias. risoto. com leite apenas ordenhado. que já não tem certeza de se tratar de um prato comestível real ou se este prato se transubstanciou em fêmea. não oferece nada para comer. Aproveitador e aproveitado. as nuvens velozmente adensadas sobre o Lago deram à luz um precipitante raio cor-de-laranja com longas pernas verdes que rompeu o canavial a poucos metros da sala das armas. 64 Cozinha futurista. vazio e transbordante. berinjelas fritas. espinafre com creme. Possessor e possuído. presunto infuso em leite e ostras com vinho Moscato devolvem os amantes às fadigas da cama. Estava ao mesmo tempo desobstruído. Talvez para se refrescar. O “Cardápio de Núpcias” promete aquecer os estômagos de todos os comensais com risoto à milanesa. Perfumes diversos são vaporizados nos comensais. Único e total. Marinetti confunde o leitor. Seguiu-se a chuva das lágrimas vãs. morenas ou uma bela desnuda: “duas coxas de frango cozidas numa bacia de cristal.

F. Re Baldoria.T. já que “la ripugnante sobrietà delle donne e la loro abituale lussuria scombussolavano già da troppo tempo le nostre idee digestive. o futuro histórico-social do mundo é reduzido a uma questão meramente gastronômica: os homens lutariam e se ocupariam incessantemente apenas para garantir sua felicidade gastro-intestinal. criada durante a greve geral de 1904 em Milão.indd 65 7/4/2009 15:51:19 . Milão: Fratelli Treves.” Os paladares famintos são então aplacados com dois perfumes de “vida carne luxúria morte”. A história se desenvolve numa era medieval fictícia. lamentando o fato de não poderem devorá-las: 48 Marinetti. – A tavola. desde o nome dos personagens até o nome da espada do rei – La Succulenta. Entretanto. 1920. Alguns homens sentem falta das mulheres. o que proporciona uma felicidade estomacal nos homens. No romance. autor de Ubu Rei. em um castelo onde tudo alude a comida. A obra é uma metáfora gastronômica rabelaisiana. Panciarguta. morre. As mulheres todas fogem. Na realidade. e as cozinhas (o poder. p. 09 65 Cozinha futurista.escrito em francês por Marinetti em 1905 e depois traduzida pelo próprio Marinetti para o italiano com o título Re Baldoria. no reino dos Citrulli. desde o início da carreira de Marinetti. simbolicamente) são então passadas a três aproveitadores. como podemos observar no romance Le Roi Bombance – tragédia satírica em quatro atos. seu inspirador. não é apenas em A Cozinha futurista que podemos observar esta abordagem antropofágica. em prosa . le loro poppe proeminenti ci nascondevano la magnificenza delle portate”48. havia uma atenção especial a este tema. primeiro cozinheiro. e um deles observa que se não lhes for oferecido nada. imploram por qualquer coisa para mastigar. “veremos as feias bocas dos machões fincarem os dentes nas carnes insípidas das nossas cinco amigas. e foi bem recebida por Alfred Jarry.A cozinha futurista    Os convidados choramingam. ainda na França. que prometem um banquete a todo o reino.

indd 66 7/4/2009 15:51:19 . vieni presto. bobo da corte. como nas tribos indígenas. fato que ocasiona a ressureição do rei e seus seguidores. De fato.Fillippo Tommaso Marinetti Le donne? …Sono vesciche. mia grossa polpetta dorata. Este já havia nomeado outros cozinheiros. Podemos.. nesta carta. mas Marinetti nos dá outra informação. p. Ibid. a ingestão do rei é considerada uma honra para o ingerido. 105 66 Cozinha futurista.. p. a leccarne senza fine.T. così.12 50 Id. lendo uma carta por ela enviada. exigindo que o rei os alimente. foi salgada e ingerida. sempre relacionada à ingestão de carne humana: 49 MARINETTI. vieni ad amarmi a tavola. tenta em vão. ad amarmi a tavola e a mangiarmi a letto!”. através do vômito. mais uma vez verificar a aproximação dos prazeres gastronômicos e sexuais: “Ah! Vieni. Quem assina é “La tua Salsetta”. pois “poderia haver um túmulo mais digno?”51. os secretários e os companheiros que por um ou outro motivo desafiavam-se na sala do banquete e perdiam a vida. sanguinacci saporitissimi. Numa orgia antropofágica. vieni a baciarmi con le tue belle labbra sugose di prelibati salmi! (…) Vieni. O Idiota. Já vimos o que simboliza o vômito em Macunaíma. de Mário de Andrade. que se fartam nas cozinhas enquanto dizem preparar o alimento para todos. p. A carne de todos os que morreram. F. 50 Os habitantes começam a se revoltar. e os convivas resolvem comer o rei. perdio. os homens devoram uns aos outros. Re Baldoria. A fome extrapola os limites. aplacar a fome dos comensais com palavras. Ibid. 33 51 Id. l’impermeabile pelle!49 O rei sente falta da sua rainha. sem mastigar bem. ma non si lasciano mangiare! E ci si annoia. mulher de estômago forte. apassionatamente. che noi empiamo del nostro sangue di porco! Diventano.

si vomitano persino le budella… talvolta lo stomaco intero!… Masticate con cura gli alimenti! Dividete la carne in tanti piccoli pezzi. salsologia. ed uno dei cardini del socialismo.”53 Segundo Luciano De Maria. Um dos personagens.indd 67 7/4/2009 15:51:19 . o mar devolve o cadáver dos náufragos… assim também o estômago dos Citrulli os havia restituído à vida. Entretanto. representante eclesiástico da história. Bebam. Um vampiro filósofo que aparece ao final da história resume o problema: “Di età in età. um dos personagens alude ao sacramento católico. este é o meu sangue (e oferece o sangue que recolhera em uma taça). la proprietà comune dei 52 Id. A antropofagia era real e metafórica ao mesmo tempo. Marinetti satiriza nesta obra a ideologia e a práxis socialista: “La sociologia si tramuta in sauçologie. os homens ressuscitados (vomitados.T.A cozinha futurista    Inoltre bisogna guardare bene dal recere le conquiste del nostro stomaco… 1°. se non volete che il corpo mangiato. ao final. p. 227 53 MARINETTI. assim como a baleia devolveu Jonas. Quel che si vomita è più forte e più vivo di ciò che si è inghiottito!…52 Em uma passagem do livro. defende que sua ingestão e ressuscitamento através do vômito seria simbólico. p. este é meu corpo! (e oferece realmente uma parte de seu corpo mutilado). indicando que a história poderá se repetir infinitas vezes. e recomeçam a lançar olhares de desejo uns aos outros. 267 67 Cozinha futurista. e que fediam muito) sentem fome novamente.. rinsaldandosi l’uno all’altro rivivano in voi per dichiararvi guerra!… 2°. e diz: Comam. Perché si vomita sempre molto più di quanto si è mangiato!…Talvolta.. Ibid. Fra Trippa. i Citrulli vanno perfezionando le loro mascelle nell’arte di divirarsi l’un l’altro con crescente agilità… Ecco il solo progresso possibile. o Santo Sepulcro devolveu Jesus Cristo. Re Baldoria. F.

una dopo l’altra. e lo condirono sì bene con viole e cannella. ridendo come un pazzo. Este romance africano traz a história de Mafarka-el-Bar . sui cuscini. Louco de dor.55 54 DE MARIA. Mafarka si gettò sulle serve che stavano sparecchiando e le possedette. che un odore caldo e squisito inebbriò voluttuosamente tutta la casa. levou Marinetti a um processo por atentado ao pudor. em sua tradução italiana. Marinetti publicou Mafarka. Pouco tempo depois. (…) Mafarka lo mangiò.indd 68 7/4/2009 15:51:19 . stuzzicante da quell’odore.o rei de Tell-el-Kibir. la sera. que renuncia ao seu trono e ao seu povo após vencer todos os inimigos. do qual o autor foi absolvido. origliavano alle porte della casa sala del convito. il Futurista quase simultaneamente em francês e em italiano.Fillippo Tommaso Marinetti mezzi di produzione.. tirano e usurpador. cruel e impetuoso. fosse no amor ou no modo de governar . para trazer à vida seu irmão mais novo. emanação pura do discurso futurista. no decorrer da obra. pensndo fosse un pesce. Mafarka. e não biológico. Magamal. “La chiave dei simboli in ‘Re Baldoria’” in: La nascita dell’avanguardia. F.. atravessa os oceanos e concebe finalmente a idéia de um filho que resultasse de um nascimento apenas cerebral. empreende uma viagem mítica ao reino dos mortos. Mais uma vez. Poi.T. p. A obra.203 55 MARINETTI. confunde-se o vocabulário referente aos prazeres carnais e estomacais: I cuochi infarcirono lo Zeb con del latte cagliato. il futurista.guerreiro feroz e implacável. le servette. facendo schioccare la lingua e stroppicciandosi le mammelle per vincerne il troppo dolce prurito.76-77 68 Cozinha futurista. diviene la socializzazione dei mezzi di produzione culinaria”54. bárbaro e sádico. um filho imortal porque nasceu sem a participação da vulva maléfica que predispõe à decrepitude e à morte. Assim nasce Gazoumah. Luciano. Pp. E. em 1910.

um livro sobre amor foi lançado por Marinetti: são alguns contos eróticos publicados sob o título Gli Amori Futuristi. Em 1918 foi publicado o livro Come si seducono le donne. de 1930. uma vez que uma grande indigestão num livro de contos eróticos pode referir-se ao abuso das “fadigas da cama”. Selecionamos alguns títulos aparentemente relevantes a este estudo. de Cremona. encontramos um conto intitulado “Come si nutriva l’Ardito”. agile e interessante autobiografia. Atenção à sexta novela. não quer dividir com ninguém. Guzzo o personagem Corajoso a que se refere o título. já destituída da cabeça. carrega numa mochila um pedaço de carne salgada. Publicado pela Edizioni d’Arte Fauno. entre disparos de metralhadora do campo inimigo. 7) Grande albergo del pericolo.A cozinha futurista    Muitos banquetes (ou orgias) acontecem no decorrer da obra e. que reproduz a capa de inúmeras obras raras ou de difícil localização. que ele havia amorosamente comido. de Roma. 6) Una favolosa indigestione. No livro de contos Novelle colle labbra tinte.it/futurismo 69 Cozinha futurista. 4) Cacce arabe. declara. a surpresa: ele carrega consigo o corpo mutilado da amante. pela Casa Editrice Ghelfa. outro livro traz o amor no título: Scatole d’Amore in Conserva. neles. 2) Consigli ad una signora scettica. que se pode mesclar com a antropofagia. por tratarem do amor. 5) Matrimonio ad aria compressa. um “studio biliografico”. algumas informações puderam ser obtidas no site L’Arengario56. a voracidade com que os personagem avançam sobre o alimento remete aos antigos antropófagos. o qual. das pernas e dos braços. 3) Cuori complicati.arengario. que devoravam os inimigos para saciar seu apetite animal. pela editora Excelsior de Milão. traz sete novelas eróticas: 1) Autoritratto. Algumas obras de Marinetti não são facilmente encontradas. bem como resenhas ou comentários sobre seu conteúdo. Em 1927. Num clima de insanidade. cujo título remete à antropofagia. durante a travessia de um rio em meio 56 www. Ao abrir a mochila. entretanto.indd 69 7/4/2009 15:51:19 . Em 1922.

ingenuo. Além disso. Ibid pp 399 e 405 70 Cozinha futurista. o rosto embrutecido. de outra cor. fazendo crer o leitor na doçura deste monstro 57 MARINETTI. mansueto s’incurva verso il lieve sognante piccolo giardino fra le cosce sensuali troncate a metà. Entretanto. Milano: Mondadori. con la tenerezza che le madri morte hanno in Paradiso!”. tremano. assim. e a mochila com os restos da mulher é então carregada pelo tenente. assimilando o resto do amor que ele traz. Marinetti pode talvez querer assim atenuar a gravidade do ato canibal. algumas imagens acabam por tornarem-se recorrentes nesta “fase antropofágica” de Marinetti.57 Guzzo morre. que havia assistido a toda a cena canibalesca. Novelle colle labbra tinta: simultaneità e programmi di vita con varianti a scelta. grandi occhi neri dolcissimi. F. Plasticamente falando. Imagina-se que ele comerá o resto do cadáver.402-3 58 Id. piccola. de outra cultura.indd 70 7/4/2009 15:51:19 .58 Guzzo é muçulmano. Guzzo conversa com o cadáver.T. assim eles se tornariam apenas um. I due tagli delle cosce sono chiusi da cuffie di seta nera aderente. que responde. ma la bocca cattiva deformata da una rasoiata alla guancia sinistra”. Num primeiro momento. dois detalhes invocam o passado ritual antropofágico. timido. temos a descrição de Guzzo: “un certo Guzzo di Trapani tutto nero. tem uma grande cicatriz.Fillippo Tommaso Marinetti à batalha. deformado. vero Saraceno magro agile scattante. Observemos como a descrição da jovem morta devorada por Guzzo assemelha-se bastante à descrição dos complexos plásticos comestíveis já citados: Un pezzo di carne di donna nuda decapitata senza braccia e senza gambe! Il tronco grazioso di una piccola donna! Sembra ceselato e imbrillantato di sale prezioso che luce. Cosi pure il collo. Mais tarde: “nelle mie vene il mio sangue ti culla. 1930. pedindo que seja ingerida. mas com olhos dulcíssimos. forse parleranno tanto più che la testa perduta lontana non parla più! Il ventre umile. Le mammelline tonde soavi vive. pp.

São os nossos estados de ânimo realizados. respondendo a uma pergunta feita por “aquela que se parece bastante mas não o suficiente”. a ingenuidade.indd 71 7/4/2009 15:51:19 . Muitas vezes nos torturamos com mil beijos gulosos na ânsia de comermos uma. Eis o que dizem: . os futuristas. diante de nossas mãos. a alvorada. o estômago. O seu coração. especialmente as mães. a chuva de todas as impaciências e de todas as denguices. mas os dentes. a única e todas encontravam-se aqui. o intestino igualmente enamorados. outros detalhes sobre o sexo feminino: 71 Cozinha futurista. através de Guzzo e seu tenente. se apertado pelo supremo prazer do amor. Nuas sempre nos pareceram tragicamente vestidas. O fascínio. O outro excerto alude ao fato comum entre os indígenas americanos (a América era o paraíso na visão de muitos europeus) de ingerir o corpo dos ancestrais mortos. o pudor. Em “Uma refeição que evitou um suicídio – O poético antefato tragicômico”. acabam por revelar sua opinião sobre as mulheres. não só o tato e relativas carícias. Todas as formas da fome que caracterizam o amor nos guiaram na criação destas obras de gênio e de língua insaciável. a graça infantil. os pruridos e as rebeliões contra a antiquíssima escravidão. pareceu-nos o fruto ideal para morder mastigar sugar. a língua. Marinetti nos revela. o furioso turbilhão do sexo.Amamos as mulheres. Em um diálogo que praticamente encerra o conto.A cozinha futurista    de cultura desconhecida. uma expressão artística tão intensa que exige não só os olhos e relativa admiração. para que assimilassem com este as qualidades atribuídas à pessoa em vida.

não pode mais escapar. Deglutir até que chegue a hora de um prato melhor. (Ou ainda: a mulher é comida). Non amo la testa della donna. le sue braccia. la mia la voglio coricata immobile… Voglio che non pensi ad altri. auxiliar a catalisar suas forças. Ti ho visto. Ora porti il resto sulle spalle.406 72 Cozinha futurista. Deglutir tudo. Perché dici sempre lo so? Cosa sai tu di me? So che hai ucciso la tua amica e che hai divorato amorosamente la sua testa. Na Revista de Antropofagia. degustada. Construir de novo. cheirada.Fillippo Tommaso Marinetti Ti piaciono le donne. ma dimmi perché? Perché una donna non deve né pensare né camminare. Vedi. comida. ajuda o homem. e no final. ma non le donne vive. Lo so. p. A mulher deixa de existir. Guzzo? Sì. ti approvo.indd 72 7/4/2009 15:51:19 . A mulher é adorada. né i suoi piedi. Nada mais oportuno que uma relação canibal: após o ato amoroso. nós 59 Id. Devem satisfazer o homem. proporcionar-lhes prazer. le sue gambe. che non veda nessuno e che non fugga mai!… Lo so. as mulheres têm tanta importância quanto a comida. visto que será assimilada pelo outro. vemos a conformidade deste pensamento de Marinetti com o movimento brasileiro. Ibid. cuja força aumenta com a carne ingerida. Um texto sob o pseudônimo Darwin afirmava que era necessário: Voltar ao estado natural. deixa de pensar. Ao chegarmos aí. Lo so. o ato antropófago. sem no entanto atrapalhar seu desenvolvimento ou sua vida. Hai risolto il più grave problema… Sei un grande filosofo!…59 Não seria absurdo pensar que para o futurista.

ocorre uma segunda cirurgia e a recuperação. para viver dele? 60 Outra obra do futurismo que tem um leve apelo antropofágico é Un Ventre di Donna. e quando se deve proceder à cirurgia.A cozinha futurista    teremos atingido o momento supremo em que a idéia se une à força. e a senhora Enif Robert. a carne humana 60 Revista de Antropofagia. a no momento de tirar o curativo e enfrentar a cicatriz. internada num hospital após uma cirurgia sem muito sucesso para a retirada dos órgãos reprodutores inflamados. nova crise nervosa. e em meio a contorsões grita: “Não! Assassinos! Açougueiros! Acorde. O primeiro cirurgião é apelidado pela senhora Robert de “Jack. Futurismo como cura. somente começa a se acelerar após a leitura do “manual terapêutico do desejo-imaginação” desenvolvido por Marinetti. p. 7 61 MARINETTI. não! A minha carne é minha!… Comando eu!… Tenho direito…”61 Neste livro. 73 Cozinha futurista. os médicos são equiparados a açougueiros. não! Cortar. até com os dentes. Boa parte da obra é escrita de maneira epistolar. lo sventratore”. apesar de não haver menção à ingestão da carne humana. dizia o poeta. A cirurgia é feita. F. no. dentição. o objeto amado. para possuí-lo. para unir-se a ele. quer fugir do hospital. Marinetti. 1a. em meio à guerra. Os pontos não cicatrizam. a senhora tem uma crise de nervos. Un ventre di donna: romanzo chirurgico.indd 73 7/4/2009 15:51:19 . tirar. numa trincheira.T. Enif. com uma doença nervosa. 1919. T. se devoram. Milano: Falcchi Editore. exaustivamente lenta. “romance cirúrgico”. e ROBERT. para que o médico não tivesse “naquele dia a sua porção de carne a cortar com método”. quiseram-se incorporar-se de todos os modos. a ciência se iguala à inspiração e o pensamento circula livremente pelo organismo Nos transportes do amor humano. quem não sabe que os amantes se comem. 59 e 81. logo. havendo uma troca de correspondências entre o futurista F. para alimentar-se.

A digestão seria difícil. e somente ingerindo. Muitas vezes. os secretários eram “açougueiros” e a carne dos “inimigos intelectuais” era sempre oferecida num açougue imaginário. Podemos assim estabelecer um vínculo sangüíneo entre os três autores.85 74 Cozinha futurista. novamente.T. preocupados em fortalecer os cidadãos e a pátria. em prol de uma modernidade almejada. A renovação de nossa literatura deve muito aos caraíbas e aos tupinambás. Todos preocuparam-se com a culinária. As pessoas e as influências importantes foram assimiladas. foi praticada por estes três autores e muitos outros em diversas culturas. os autores renegam o passado literário. teorizada por Oswald. A nacionalidade foi enfocada por cada um deles. moral. Tradução em português p. bebendo dessas fontes. A Cozinha Futurista. Na Revista de Antropofagia. física. uma receita marinettiana: “O bicarbonato de sódio a disposição constituirá o verbo no infinitivo de todos os problemas alimentares e digestivos. julgando que estão livres daquelas amarras intelectuais.Fillippo Tommaso Marinetti com a carne animal que se oferece nos açougues. seja através da ingestão e a assimilação dos ingredientes formadores da cultura. outras foram simplesmente descartadas. seja através dos alimentos oferecidos ao corpo e à alma.” 62 62 MARINETTI. F. é que se pode inovar. Foi necessário devorar nossos antepassados e nos imbuir de toda a coragem que eles um dia tiveram para que não caíssemos na mesmice literária. O repertório intelectual de uma cultura é intocável. A antropofagia.indd 74 7/4/2009 15:51:19 . intelectual ou financeiramente. Para evitar a indigestão. comendo as idéias e assimilando tudo numa digestão bem feita.

Capítulo 2 A Cozinha Futurista e a linguagem W Cozinha futurista.indd 75 7/4/2009 15:51:19 .

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tentaremos verificar quais experimentos Marinetti tentaria concretizar em suas obras e o que. Por meio da leitura de excertos destes dois manifestos. passando depois para 1912. com o Manifesto do Futurismo. documentos que já apresentavam as primeiras modificações lingüísticas sugeridas pela vanguarda artística.O futurismo: proposta de revolução lingüística Para melhor compreender as dificuldades apresentadas ao tradutor por um texto futurista.indd 77 7/4/2009 15:51:19 . na prática. devemos começar em 1909. 77 Cozinha futurista. conseguiu realizar. ano do Manifesto Técnico da Literatura Futurista.

Nessuna opera che non abbia un carattere aggressivo può essere un capolavoro. essa pure. il salto mortale. per ridurle a prostrarsi davanti all’uomo.. 78 Cozinha futurista. La poesia deve essere concepita come un violento assalto contro le forze ignote. lanciata a corsa. il passo di corsa. le belle idee per cui si muore e il disprezzo della donna. Noi affermiamo che la magnificenza del mondo si è arricchita di una bellezza nuova: la bellezza della velocità. che sembra correre sulla mitraglia. Noi viviamo già nell’assoluto. Noi vogliamo glorificare la guerra – sola igiene del mondo – il militarismo. La letteratura esaltò fino ad oggi l’immobilità pensosa. il gesto distruttore dei libertari. Noi siamo sul promontorio estremo dei secoli!. l’estasi e il sonno.. Perché dovremmo guardarci alle spalle. se vogliamo sfondare le misterioseporte dell’Impossibile? Il Tempo e lo Spazio morirono ieri. sul circuito della sua orbita. Noi vogliamo esaltare il movimento agressivo. con ardore. Il coraggio. sfarzo e munificenza. Un automobile da corsa col suo cofano adorno di grossi tubi simili a serpenti dall’alito esplosivo.. è più bello della Vittoria di Samotracia.indd 78 7/4/2009 15:51:19 . se non nella lotta. un automobile ruggente. il patriottismo. Bisogna che il poeta si prodighi. la cui asta ideale attraversa la Terra. per aumentare l’entusiastico fervore degli elementi primordiali.. Noi vogliamo inneggiare all’uomo che tiene il volante. lo schiaffo ed il pugno. l’insonnia febbrile. la ribellione. l’audacia. poiché abbiamo già creata l’eterna velocità omnipresente. saranno elementi essenziali della nostra poesia. No v’è più bellezza. l’abitudine all’energia e alla temerità.Fillippo Tommaso Marinetti Manifesto del Futurismo il 20 febbraio 1909 Noi vogliamo cantare l’amor del pericolo.

divoratrici di serpi che fumano. come enormi cavalli d’acciaio imbrigliati di tubi. traendole fuori dalla prigione del periodo latino! Questo ha naturalmente. e combattere contro il moralismo. Appena il necessario per camminare. i piroscafi avventurosi che fiutano l’orizzonte. le biblioteche. per correre un momento e fermarsi quasi subito sbuffando! Ecco che cosa mi disse l’elica turbinante. e il volo scivolante degli aeroplani. mentre filavo a duecento metri sopra i possedenti fumaiuoli di Milano. scaldato il ventre dalla testa dell’aviatore.. (. un ventre. il femminismo e contro ogni viltà opportunistica o utilitaria. le stazioni ingorde. le officine appese alle nuvole pei contorti fili dei loro fumi. che scalpitano sulle rotaie. come ogni imbecile. seduto sul cilindro della benzina. E l’elica soggiunse: 79 Cozinha futurista. balenanti al sole con um luccichio di coltelli. io sentii l’inanità ridicola della vecchia sintassi ereditata da Omero. dal piacere o dalla sommossa: canteremo le maree multicolori e polifoniche delle rivoluzioni nelle capitali moderne. Noi canteremo le grandi folle agitate dal lavoro.. la cui elica garrisce al vento come una bandiera e sembra applaudire come una folla entusiasta.indd 79 7/4/2009 15:51:19 .) Manifesto tecnico della letteratura futurista 11 maggio 1912 In aeroplano. le locomotive dall’ampio petto. ma non avrà mai due ali. canteremo il vibrante fervore notturno degli arsenali e dei cantieri incendiati da violente lune elettriche. i ponti simili a ginnasi giganti che scavalcano i fiumi. le accademie d’ogni specie.A cozinha futurista    Noi vogliamo distruggere i musei. Bisogno furioso di liberare le parole. una testa previdente. due gambe e due piedi piatti.

e i segni musicali. senza le soste assurde delle virgole e dei punti. solo.Fillippo Tommaso Marinetti Bisogna distruggere la sintassi disponendo i sostantivi a caso. il simile a. Il verbo all’infinito può. dal sostantivo a cui è legato per analogia. Per accentuare certi movimenti e indicare le loro direzioni. Ogni sostantivo deve avere il suo doppio. Essendo soppressi gli aggettivi. poiché suppone una sosta.indd 80 7/4/2009 15:51:19 . il quale. L’aggettivo avendo in sé un carattere di sfumatura. Meglio ancora. bisogna fondere direttamente l’oggetto coll’immagine che esso evoca. s’impiegheranno segni della matematica: + . gli avverbi e le congiunzioni. Si deve abolire l’aggettivo. senza congiunzione.x : = > <. perché il sostantivo nudo conservi il suo colore essenziale. è inconcepibile con la nostra visione dinamica. 80 Cozinha futurista. la percezione per analogia diventa sempre più naturale per l’uomo. piazza-imbuto. Bisogna dunque sopprimere il come. Abolire anche la punteggiatura. Siccome la velocità aerea ha molteplicato la nostra conoscenza del mondo. la punteggiatura è naturalmente annullata. folla-risacca. L’avverbio conserva alla frase una fastidiosa unità di tono. perché si adatti elasticamente al sostantivo e non lo sottoponga all’ io dello scrittore che osserva o immagina. nella continuità varia di uno stile vivo che si crea da sé. il così. vecchia fibbia che tiene unite l’una all’altra le parole. come nascono. cioè il sostantivo deve essere seguito. porta-rubinetto. donna-golfo. dando l’immagine in iscorcio mediante una sola parola essenziale. Esempio: uomo-torpediniera. una meditazione. Si deve abolire l’avverbio. dare il senso della continuità della vita e l’elasticità dell’intuizione che la percepisce. Si deve usare il verbo all’infinito.

. a una piccola macchina Morse. e cioè quasi tutto.) Bisogna dunque abolire nella lingua tutto ciò che essa contiene in fatto d’immagini stereotipate. più avanzati. Non vi sono categorie d’immagini. ognuna condensata. a una specie di fotografia. L’uomo completamente avariato dalla biblioteca e dal museo. Io lo paragono invece.. V’è in ciò una gradazione di analogie sempre più vaste.indd 81 7/4/2009 15:51:20 . eccentriche o naturali. di metafore scolorite. potrebbero paragonare quello stesso fox-terrier trepidante. Distruggere nella letteratura l’“io”. sottoposto a una logica e ad una saggezza spaventose. e 81 Cozinha futurista. cioè tutta la psicologia. (. Altri. non offre assolutamente più interesse alcuno.) Per avviluppare e cogliere tutto ciò che vi è di più fuggevole e di più inafferrabile nella materia. Per dare i movimenti sucessivi d’un oggetto bisogna dare la catena delle analogie che esso evoca. vi sono dei rapporti sempre più profondi e solidi. a un’acqua ribollente. nobili o grossolane o volgari. il che equivale ancora.) (. bisogna formare delle strette reti d’immagini o analogiem che verrano lanciate nel mare misterioso dei fenomeni. L’intuizione che le percepisce non ha né preferenze né partiti-presi. Siccome ogni specie di ordine è fatalmente un prodotto dell’inteligenza cauta e guardinga bisogna orchestrare le immagini disponendole secondo un maximum di disordine. Dunque dobbiamo abolirlo nella letteratura. Lo stile analogico è dunque padrone assoluto di tutta la materia e della sua intensa vita. raccolta in una parola essenziale.. (Hanno paragonato per esempio un fox terrier a un piccolissimo puro-sangue. Hanno paragonato per esempio l’animale all’uomo o ad un altro animale. quantunque lontanissimi. press’a poco.A cozinha futurista    Gli scrittori si sono abbandonati finora all’analogia immediata..

in letteratura.) Noi vogliamo dare. ecco iniziarsi il regno meccanico. conseguiu praticar. mas que nem ele. e quindi dalla morte stessa.indd 82 7/4/2009 15:51:20 . la qual cosa non potranno mai fare i fisici né i chimici. são muitas as regras que o futurismo impunha aos escritores que quisessem honrar a ideologia do movimento: abolir a pontuação. Como podemos observar. realçar a velocidade. Con la conoscenza e l’amicizia della materia. desde que expostos ao acaso. os avanços tecnológicos. di cui si deve afferrare l’essenza a colpi d’intuizione. usa inúmeras palavras para caracterizar os objetivos do grupo: alcançar um “movimento agressivo”.(. usar verbos no infinitivo. a agressividade. suprema difinizione dall’inteligenza logica. Il cinematografo ci offre la danza di un oggetto che si divide e si ricompone senza l’intervento umano.) Dopo il regno animale. della quale gli scienziati non possono conoscere che le reazioni fisico-chimiche. o adjetivo e o advérbio. (.. Noi lo libereremo dall’idea della morte. noi prepariamo la creazione dell’uomo meccanico dalle parti cambiabili. la vita del motore.. che l’agitarsi della tastiera di un piano forte meccanico. usar muitos substantivos.. Vejamos alguns pontos propostos por Marinetti.. “salto mortal”. A análise dos manifestos em si já demonstra a fragilidade destas proposições. per un poeta futurista. construir analogias inéditas e surpreendentes. sentem uma “necessidade furiosa” ou ouvem da “hélice turbilhonante” os preceitos 82 Cozinha futurista. nuovo animale istintivo del quale conosceremo l’istinto generale allorché avremo conosciuto gl’istinti delle diverse forze che lo compongono. Ao mesmo tempo em que propõe a abolição dos adjetivos. Nulla è più interessante. em seus manifestos. “insônia febril”.Fillippo Tommaso Marinetti sostituirlo finalmente colla materia.

A ausência da pontuação dá margem a infinitas interpretações e analogias. mas. Se em seu lugar poderiam ser utilizados símbolos matemáticos ou musicais. o uso do substantivo com seu duplo. o item 2 do Manifesto Técnico diz: “para que este se adapte elasticamente ao substantivo”. já no item 6 temos “a pontuação é naturalmente anulada”. uma texto sem advérbios ficaria mais veloz. Na teoria. Na prática. que nos parece um adjetivo “camuflado”. Teoria Lexical. 1989. “multidão-ressaca”. Ainda sobre a contraditória abolição dos adjetivos. ou ao menos diminuir a quantidade desta. Exemplificando com o próprio manifesto: “homem-torpedeira”.30 83 Cozinha futurista. que estaria assim em movimento. a certo ponto. As frases nominais também aparecem com bastante assiduidade. é caracterizada por este segundo elemento. prova de que os substantivos são as palavras com carga semântica mais importante para os futuristas. Margarida. seria mais convincente que ele mesmo deixasse de usá-los.A cozinha futurista    do movimento. Ora. se usamos dois substantivos acoplados. Abolir a pontuação é outra proposta bastante intrigante. Se Marinetti propõe a abolição dos adjetivos. O fato é que Marinetti tenta não usar a pontuação. Marinetti propõe. de qualquer modo. conquanto freqüentemente sejam precedidos de modais que indicam sua conjugação. “praça-funil”. Assim poderíamos proceder com todos os substantivos e seu respectivo duplo.indd 83 7/4/2009 15:51:20 . Apenas algumas linhas de distância. sem “a velha fivela que mantém as palavras unidas umas às outras”. separado por hífen. e eis que o ensinamento não é cumprido pelo mestre. A praça tem o formato ou a utilidade de um funil. que caracterizaria o objeto. poderíamos pensar em uma mera substituição de um símbolo por outro. Seria um substantivo composto. p. Deve-se abolir o advérbio. São Paulo: Ática. fator positivo num texto futurista. o segundo teria o objetivo de modificar ou especificar o primeiro1. mas a compreensão ficaria prejudicada 1 Basilio. Os verbos no infinitivo são a proposta com maior incidência nos manifestos.

e o “autor literário” que tende a uma linguagem mais tradicional. em 1944. fossem estas políticas ou de reciclagem de seus participantes.indd 84 7/4/2009 15:51:20 . como manuscritos inúteis. embora este já tivesse sofrido muitas transformações. Em poesia. seguido por um conjunto de regras a serem seguidas. tinha 54 anos. Quando tivermos quarenta anos. ocorrida com sua morte. 1909. nascido em 1876. Quando da publicação do Manifesto da Cozinha futurista. – Nós o desejamos! Na época desse manifesto. no entanto. contava já 33 anos. Marinetti foi o estopim do movimento. para cumprir nossa obra.Fillippo Tommaso Marinetti se esta fosse abolida por completo. na primeira década do século. outros homens mais jovens e mais válidos que nós. que perdem em clareza e inteligibilidade. Marinetti. o nome de Benito Mussolini é lembrado. a disposição dos versos no papel supre a falta de pontos ou vírgulas. Verifica-se então uma bipolaridade entre o difusor das idéias futuristas. gostaria de lembrar uma passagem do Manifesto do Futurismo que não está reproduzida acima. A cozinha futurista e as inovações na língua O Manifesto da Cozinha Futurista segue o modelo dos outros manifestos promulgados pelo movimento futurista: um pequeno texto que explica ou exemplifica o problema a ser abordado. considerava-se ainda capaz e jovem o bastante para seguir à frente do movimento futurista. Antes de partir para a análise da linguagem em A Cozinha Futurista. É oportuno ressaltar que no primeiro parágrafo deste manifesto. acerca da idade dos artistas. Marinetti deveria ter sido substituído por outros homens mais jovens e com maior agressividade. mas isto é dificultado nos textos em prosa. e permaneceria fiel a seus ideais até a consumação total da chama. atirar-nos-ão ao cesto. que se propõe um estilo original. Os mais velhos dentre nós têm trinta anos: resta-nos portanto pelo menos uma década. Julgando-o pelos seus próprios preconceitos. 84 Cozinha futurista.

o manifesto. strambo e misterioso”. e um dicionário dos novos termos. seguiu-se a publicação do livro A Cozinha Futurista. o “antefato” é já duplamente caracterizado por adjetivos. embora não seja possível precisar se ideologicamente ou para sustentar um movimento literário que estava perdendo sua capacidade de persuasão. são aqueles em que o poeta tenta . e a palavra antefato inclui um advérbio no prefixo. estes são separados por vírgula e conjunção. que reuniu documentação importante acerca da polêmica cozinhária iniciada por Marinetti. No primeiro parágrafo. 85 Cozinha futurista. situado no início do segundo capítulo. O livro. o poeta parte para a lago Trasimeno obedecendo a um telegrama “preoccupante.modificar o uso da língua. Além de utilizar três adjetivos em seqüência. Os casos que relevaremos aqui. Nos outros capítulos. O subtítulo do texto. serão objetos de estudo o texto literário – “Uma refeição que evitou um suicídio: o tragicômico poético antefato” – . indicando que este acontece anteriormente a outro fato. propondo novas construções. Lembremo-nos que desde 1926 o futurismo havia aderido ao fascismo. cardápios. no caso. São inúmeros os casos em que Marinetti segue a linguagem tradicional. Nesta breve análise. com pontuação adequada gramaticalmente. que ignora os mandamentos futuristas. de provável classificação “literária”. mais uma vez. e o Manifesto da Cozinha Futurista. por serem de interesse as inovações apresentadas e não as falhas em praticar a própria teoria. A este manifesto. seguido do manifesto e respectiva polêmica. novas palavras ou analogias diferenciadas.indd 85 7/4/2009 15:51:20 . dispondo as palavras em sintaxe convencional. que representa o primeiro capítulo do livro.e algumas vezes realmente consegue . segue o modelo de apresentação futurista: um texto.A cozinha futurista    aludindo às “batalhas artísticas políticas muitas vezes consagradas com sangue”. receitas. tragicômico e poético.

mas ainda assim é sintomático que um homem. 86 Cozinha futurista. Para caracterizar este personagem. temos a descrição de Giulio Onesti. que se abre com um parêntese. tomado de um tremor irreprimível. riempirono la conversazione parolibera che precedette il pranzo nel policromo Quisibeve della villa Outra construção que ressalta no texto é o curto diálogo entre os quatro personagens após a declaração do iminente suicídio de Giulio. o que imprime um ritmo cadenciado peculiar à frase: “Questo pseudonimo. Apesar do texto ser de autoria de Marinetti. Iniciando pela fala de Giulio Onesti. il suo intervento battagliero e creativo nelle serate futuriste di venti anni prima. “Abolir o ‘eu’ da literatura” era uma das propostas futuristas e que foi respeitada no texto. mas pela forma de expressão. Quindo mi suiciderò questa notte!” “a meno que?” – gridò Prampolini “a meno que?” ripetè Fillìa. Pode se tratar de um erro tipográfico. personagem do “antefato”. pseudônimo de um colaborador futurista. se esqueça de fechar parênteses: Lungo silenzio. apesar da sabida participação do autor nos acontecimentos. escrito todo ele em terceira pessoa. non debbo tradire la morta. la sua vita di scienza e di ricchezze accumulate al Capo di Buona Speranza.Fillippo Tommaso Marinetti Comecemos com as construções inusitadas. separados por vírgulas. Poi Giulio fu preso da un tremito convulso irrefrenabile: “(non voglio. che mascherava il suo vero nome. mas este não é fechado. la sua subitanea fuga dai centri abitati. este aparece como personagem em terceira pessoa. Marinetti utiliza quatro longos sujeitos para o verbo “riempirono” em seqüência. que chamam a atenção do leitor não só pelo argumento.indd 86 7/4/2009 15:51:20 . No quinto parágrafo do texto.

F. para criar comidas que salvassem a vida do amigo. exceto o óbvio ponto ao final do mesmo.A cozinha futurista    “a meno que?” – concluse Marinetti – a meno che tu ci conduca imediatamente nelle tue ricche e fornite cucine. ou “. Observemos como a ausência da pontuação torna o ritmo do período veloz: Atmosfera inebriante prodiga di forme colori con piani di luci taglienti e levigatissime rotondità di splendori che il ronzio di un aeroplano altissimo torniva melodiosamente. pode ser encontrada em diversas outras passagens do “antefato”. sempre seduzindo o leitor com a aparente desordem instaurada na frase. todos os companheiros futuristas lançam-se a um trabalho incessante. A cozinha futurista.”3 2 3 Marinetti.” – O diálogo segue com uma quádrupla repetição da frase: “a meno que”. p. Ibid. O período. A pontuação... buscando uma solução para o desejo de suicídio.11 87 Cozinha futurista.T. Eis alguns exemplos: “. Sempre no plano da construção. A anáfora auxilia na criação do suspense necessário para que fosse apresentado o desfecho do problema: a cozinha futurista. partindo do momento da enunciação desta solução. Este suspense também serve como preâmbulo para a ação que é então desencadeada. una lieve curva de bocca ventre o fianchi”2. una legerezza di volo che offriva alle bocche guardanti 29 argentee caviglie di donna miste di mozzi di ruote e d’ali d’eliche tutte formate con soffice pasta lievitata. porém há apenas um verbo e um único advérbio.. 1998. nas cozinhas. mistura muitos substantivos e adjetivos. proposta por Marinetti. ou melhor. bastante longo. p.indd 87 7/4/2009 15:51:20 . a falta desta.. podemos encontrar um parágrafo escrito sem utilizar nenhum sinal de pontuação. 11 Id. Milão: Marinotti.

frases nominais curtas e verbos no infinitivo. altri cic redono complicatissimi e civilizzatissimi. L’eterno femminino fuggente imprigionato nello stomaco.indd 88 7/4/2009 15:51:20 . 4 5 Id.14 Id. Passione. Nervi. Schioccar di lingua. p. mas esta. tutta leggi nuove. Ibid.. Arte mangiabile. Alle sei di pomeriggio svilupparsi in alto di dolci dune di carne e sabbia verso due grandi occhi di smeraldo. atendendo às regras do Manifesto Técnico da Literatura Futurista: Con calma riprendere la materia.. por seu caráter ambíguo. Crocifiggerla sotto chiodi acuti di volontà. La spasimante superacuta tensione delle più frenetiche lussurie finalmente appagate.Fillippo Tommaso Marinetti A velocidade imprimida à linguagem também pode ser verificada nas construções de frases curtas. Ibid. Trattenere il respiro per non guastare un sapore cesellato. 12 88 Cozinha futurista. deveria também ser degustada. Uma mostra é normalmente inaugurada. Ci giudicate selvaggi. Siamo gl’istintivi nuovi elementi della grande Macchina futura lirica plastica architettonica. p. em sua maioria nominais que culminam na afirmação de que “somos o futuro”: Arte leggera aviatoria. Gioia delle labbra.5 O substantivo que deve ser acompanhado de seu duplo. como a “nicchia-tana” (que traduzimos por concha-toca). tutta direttive nuove4 Outro trecho é todo construído mesclando substantivos soltos “ao acaso”. Tutto il cielo nelle nari. Arte temporanea. tem espelhamento num verbo acompanhado de seu duplo na proposição “inaugurare-assagiare” a mostra de escultura comestível.

indd 89 7/4/2009 15:51:20 . A escrita marinettiana tem também outra peculiaridade que vale a pena evidenciar: o gosto pela visualização. sem palavras desnecessárias. La sua architettura obliqua di curve molli inseguentisi in cielo. ne iniziò l’amorosa adorazione... Acreditamos que este tipo de construção seja privilegiado por suprimir o sujeito da frase e também uma conjunção. mais freqüentemente de gerúndio e de particípio. offriva alle bocche guardanti 29 argentee caviglie di donne... Longos parágrafos e períodos são utilizados para descrever locais.. imprigionato nello stomaco.. Giulio girando appena la testa a destra e a sinistra.Giulio Onesti. situações ou personagens. ... Marinetti. improvvisatosi scultore-cuoco. alternandosi. Inginocchiatosi davanti.. mas sempre privilegiando o “estilo analógico”.. In un alto cilindro di pasta di grano turco girante su perno. . un complesso plastico di cioccolata e torrone rappresentante le forme delle nostalgie e del passato precipitò giù con fragore e inzaccherando tutto... .. Prampolini e Fillìa... o que facilitaria muito a tarefa de construir uma linguagem concisa... Marinetti. Prampolini e Fillìa parlorono... veloccizzandosi scapigliava in tutta la camera una massa enorme di zucchero filaro d’oro... moderna.A cozinha futurista    Parece-nos importante também ressaltar a larga utilização das orações reduzidas. ... O próprio Maninetti explica esse 89 Cozinha futurista. collaborando. vi avevano inoculato il magnetismo. Observemos alguns exemplos que documentam o fenômeno: .... L’eterno femminino fuggente. alto complesso plastico di pasta sfogliata scolpita a piani degradanti di piramide...

6 Bernardini.”6 Nessas analogias. A velocidade é representada pelo automóvel. ao vôo. aeroescultores. todo um grupo de árvores. arte leve voadora. hélices esvoaçantes. que arrancam. tapete de plumas que parece viajar. encontramos. recolhida numa palavra essencial. São Paulo: Perspectiva. roda dentada. transformada em fantásticos laboratórios. equilíbrio. Um dos pratos. para máquinas.) Em alguns casos precisará juntar as imagens duas a duas. grande máquina futura lírica plástica arquitetônica O campo semântico concernente ao vôo traz aeropintores. (. partes destas ou indícios de modernidade: fantásticos laboratórios. cada uma delas condensada. oferecia às bocas observadoras 29 tornozelos prateados misturados a cubos de rodas e asas de hélice. Essa relação entre a vida cotidiana e a modernidade imposta pelas máquinas estava de acordo com os ideais do movimento. asas de hélice. aerodinamismo lírico-plástico. cilindro de massa girando em seu eixo. complexo plástico a motor. como as bolas acorrentadas. 1980. três êmbolos bem lubrificados da mesma máquina. as pessoas. aos automóveis e respectiva velocidade.indd 90 7/4/2009 15:51:20 . os lugares e mesmo as comidas são sempre relacionadas a máquinas. Assim temos os poetas que enquanto falam alternam-se como três êmbolos bem lubrificados da mesma máquina e a cozinha. Outro prato era um complexo plástico a motor comestível. volantista. que era a escultura de uma mulher. globos elétricos. zumbido de um aeroplano altivo. espirais de vento expressos em encanamentos. O Futurismo Italiano.Fillippo Tommaso Marinetti estilo: “Para dar os movimentos sucessivos de um objeto. cubos de roda. em seu vôo. A escolha do vocabulário confirma essa ideologia.. 90 Cozinha futurista. é necessário dar a cadeia de analogias que ele evoca. É grande o repertório lexical que se refere às máquinas.. tudo feito com macia massa fermentada. ou partes destas. perfeito. aeropoesias. Aurora Fornoni. Numa rápida lista de elementos referentes a cada uma destas categorias.

ou. Escolha lexical também recorrente nesta obra é a “erótico-culinária”. O ato sexual gerara um fruto. de cortesia. e finalmente livre de seus desejos suicidas. “Lei”. Marinetti usa repetidas vezes o pronome Lei (ela). cujos nomes jamais são mencionados: “Essa”. sendo que o contrário também ocorre. “a lei. “la morta”. da lei”. sua personalidade.indd 91 7/4/2009 15:51:20 .A cozinha futurista    velocidade. “nessuno vi man- 91 Cozinha futurista.. “la sopraveniente”. “quella che le rassomiglia molto ma non abbastanza”. Escrevo Mulher com maiúscula. porque não dizer. São inúmeras também as referências anafóricas a estas mulheres. “a lei”. embora importantíssimas. “lui [il complesso plastico] vincerà lei”. As esculturas representam mulheres que podem ser deglutidas. e devido a isso. outras vezes com inicial minúscula. mas que deixa o futurista Giulio Onesti feliz. “quella bocca imminente”. “bellissima donna”. “la Nuova”. como pronome de terceira pessoa referindo-se às Mulheres de Giulio Onesti. sua importância. No já citado trecho em que Giulio Onesti degusta uma das esculturas e que foi comparado a um ato sexual. síntese de todos os automóveis famosos. realizado. “metaforicamente antropofágica”. O processo de nominalização permite a transformação de qualquer vocábulo em substantivos. sugerindo tudo o que constitui o ser. “per lei”. porém impregnado de um vocabulário humano: “le nuvole partorirono un precipitante fulmine arancione a lunghe gambe verdi”. complesso plastico “di lei”. palavras lexicais de cunho afetivo. “l’altra”. faz de palavras lexicais corriqueiras e apagadas. trabalho muscularmente acelerado. “le” offriremo. metafórico. pois o pronome utilizado no lugar do substantivo em todas as referências feitas a “ela” assume um significado complexo. às vezes com inicial maiúscula. que em italiano é pronome de segunda pessoa para tratamento de respeito. podemos observar que este culmina no nascimento do sol. os adjetivos culinários são usados para mulheres. a que se suicidou e a outra que se parece muito mas não o suficiente.

Isto se dá provavelmente porque Marinetti pretendia elevar a condição da culinária ao mesmo patamar das artes plásticas não comestíveis..indd 92 7/4/2009 15:51:20 . tenacia eroica. Prepariamo una agilità di corpi italiani adatti ai leggerissimi treni di alluminio che sostituiranno gli attuali pesanti di ferro legno acciaio. agricoltori tenaci a dispetto della voluminosa pastasciutta cotidiana. Giulio promete mais tarde dizer o nome dela. A um certo ponto do antefato. p. snella trasparenza spiralica di passione. além. volontà. oratori travolgenti. e quem ela é. Giulio fica embriagado com a escultura manducada antes de fazê-lo. Comecemos com parágrafos que alternam seqüências de adjetivos sem pontuação. massiccio impiombato da una compattezza opaca e cieca. slancio. No tocante às construções sintáticas. no Manifesto da Cozinha Futurista é mais comum encontrar palavras relacionadas à arte. esses bem separados por vírgulas. 22 92 Cozinha futurista.) Per esempio. contrasta collo spirito vivace e coll’anima appassionata generosa intuitiva dei napoletani.Fillippo Tommaso Marinetti gerà”. “Lei”. 21 Id. artisti ispirati. tenerezza. claro. a escultura ou a arquitetura. os mesmo modelos são encontrados. Questi sono stati combattenti eroici. mas essa promessa não é cumprida.7 (. avvocati arguti. Ibid. Se no texto deste “antefato poético tragicômico” as referências mais importantes estão relacionadas à velocidade. às máquinas e à degustação erótica. tão idolatrado pelos futuristas.8 7 8 Id. como a pintura. Ibid. e seqüências de substantivos “ao acaso”. p.. “la donna”. das referências ao mundo moderno. como os exemplos abaixo: Sentiamo inoltre la necessità di impedire che l’Italiano diventi cubico. luce. Si arminizzi invece sempre più colll’italiana. “essa”.

troppo aceto. O 93 Cozinha futurista. O substantivo mancanza é substituído por manca..” As passagens cujos argumentos são mais “futuristas”. Perché opporre ancora il suo blocco pesante all’immensa rete di onde corte lunghe che il gfenio italiano ha lanciato sopre oceani e continenti. troppo pepe.” A última frase do manifesto também traz modificações sutis na construção da frase. Notem que não há vírgulas na passagem. logo após a crítica feroz ao alimento: La pastasciutta. que se refere também à mão esquerda. o sono proveniente desse bloco maciço em nossos estômagos. num período longo em que faltaria até mesmo fôlego para o leitor que não impusesse suas próprias pausas no texto. lega coi suoi grovigli gli italiani di oggi ai lenti telai di Penelope e ai sonnolenti velieri. na cozinha do futuro. o diferente. parecem ter a linguagem mais cuidadosamente trabalhada no sentido de alcançar também a revolução lingüística. noi affermiamo questa verità: si pensa si sogna e si agisce secondo quel che si beve e si mangia. ao dizer que indicadores químicos. al pesce. troppo dolce”. É possível que aqui o período tenha sido escrito nesse ritmo lento para acentuar o peso do macarrão nos estômagos. O trecho “Le macchine costitueranno presto un obbediente proletariato di ferro acciaio alluminio al servizio degli uomini quasi totalmente alleggeriti dal lavoro manuale” ignora a necessidade de vírgulas entre os componentes metálicos das máquinas. isto é.indd 93 7/4/2009 15:51:20 .A cozinha futurista    Ou ainda.. mas permanecem as conjunções: “. opta o poeta pela construções impessoais. corrigirão: “manca di sale. O mesmo acontece na descrição dos pratos simultâneos. relacionados de alguma forma à revolução cultural e social defendida pelo movimento. nutritivamente inferiore del 40% alla carne. ai legumi. in cerca di vento. cujas vírgulas foram abolidas: “Questi complessi plastici saporiti colorati profumati e tattili formeranno perfetti pranzi simultanei. metaforicamente o inusual. e ai paesaggi di colore forma rumore che la radio-televisione fa navigare intorno alla terra? A repetição também aparece neste texto. à força de evitar a indicação do sujeito nas frases.

A cor. melhor dizendo. além do molho que o acompanha. Desde o “antefato” até o Manifesto da Cozinha Futurista. falta uma coisa. limitar-nos-emos a relacioná-los na ordem em que aparecem 94 Cozinha futurista. como o vinagre e a pimenta. sobram outras. Sobre cada fatia uma rodelinha de limão com alcaparras. O cilindro é disposto verticalmente no centro do prato. como o intuito dos autores é de mesclar os sentidos para atingir deste modo uma gama completa de sensações. assim como o cheiro. imitando um jogo de damas. Dissemos acima que a culinária estaria. O Salmão do Alasca aos raios de sol com molho Marte deve ser cuidadosamente trabalhado de forma artística antes de ser apresentado ao comensal. forma. aparência do prato deve ser levada em conta. pepe. Entretanto.indd 94 7/4/2009 15:51:20 . A lógica lingüística diz que o último elemento também deveria ser um substantivo. também foi tratado e escolhido com cuidado por Marinetti. coberto de mel e sustentado a base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango. e o sabor. no mesmo patamar de outras artes plásticas. A observação de uma ou duas receitas propostas pelo manifesto provam que a aparência do prato conta tanto quanto (ou até mais que) o sabor deste.Fillippo Tommaso Marinetti sentido da palavra é garantido pelo contexto. podemos ver tantas referências aos sentidos que nos pareceu mais lógico separar de acordo com cada um deles. mas o autor preferiu causar este estranhamento. colocando o adjetivo doce no lugar do previsível açúcar. temos a junção dos sentidos para proporcionar o maior prazer gustativo possível. O vocabulário referente às sensações. temos uma seqüência de três: “aceto. Mais uma vez. e dolce”. Dentre os elementos que sobram. Outra invenção famosa da cozinha futurista é o Carnescultura composta por uma grande almôndega cilíndrica de carne de vitela assada recheada com onze qualidades diferentes de verduras e legumes cozidos. aos sentidos. Após grelhar o filé com sal e azeite. dispõem-se sobre as fatias alguns filetes de anchova entrelaçados. ou. para Marinetti.

o intestino igualmente enamorados. estalar de língua. O quarto é revestido de “rosso rimorso vellutato”. havia uma atmosfera “prodiga di forme colori con piani di luci taglienti e levigatissime rotondità di splendori che il ronzio di un aeroplano torniva melodiosamente”. paisagens de cores forma rumores. selecionando apenas as ocorrências em que ao menos dois sentidos são mencionados na mesma proposição. e “luceva di una sua zuccherina peluria eccitanto lo smalto dei denti nelle bocche attente dei due compagni. o eterno feminino fugitivo aprisionado no estômago. vermelhos. a língua. rosas.A cozinha futurista    nos textos. mas os dentes. conter a respiração para não estragar um sabor cinzelado. le sferiche dolcezze di tutte le ideali mammelle”. biscoitos. máquina futura lírica plástica arquitetônica. 95 Cozinha futurista. trilli d’uccelli e scricchiolii d’acque legnose in cui scoppiava in brilli dorati la laccatura verde”. vermelhos. o trabalho foi recomeçado sendo os futuristas “deliziosamente pungolati dai lunghi raggi elastici di un’aurora. os futuristas intuíam e saboreavam “ela” entre os perfumes de baunilha. Seguem-se certos sabores e certas formas. o estômago. A carne da curva era a tal ponto gostosa. violetas e lírios. complexos plásticos saborosos coloridos perfumados e táteis que formarão perfeitas refeições simultâneas. a harmonia da mesa com os sabores e cores das iguarias. Aparecem também mãos inspiradas e narinas abertas para dirigir a unha e os dentes. a invenção de complexos plásticos saborosos. pretos.indd 95 7/4/2009 15:51:20 . à cozinha eram transportados grandes pesados sacos que descarregavam piramidais montes amarelos. os amigos esculpiram tantos deliciosos odores sabores cores ou formas. Giulio inebriado beija com a língua sua obra de arte. Sopra. alegria dos lábios. todo o céu nas narinas. cuja harmonia original de formas e cores nutra os olhos e excitem a fantasia antes de tentar os lábios. não somente o tato e relativas carícias. brancos. a apreciação das obras de arte por eles produzidas exigem não somente os olhos e relativa admiração. cirri rossi.

mas é provável que isso aconteça devido ao gosto marinettiano pela descrição. entre amigos ou entre familiares. a visão continua sendo o maior atrativo disponível aos escritores. tentamos manter as inversões na ordem das frases. mas não fechado. nomes dos pratos e de pessoas foi sempre conservado como o original em Italiano. pessoa do discurso): Tu. apesar da possibilidade de ser um erro tipográfico. ter acesso às diversas edições do livro para verificar a ocorrência do problema. O uso de maiúsculas e minúsculas iniciais das palavras.indd 96 7/4/2009 15:51:20 . para evitar brincadeiras e analogias impertinentes Um problema verificado. hoje dia muito comum 96 Cozinha futurista. na primeira parte do livro – “antefato poetico tragicomico” – foi o uso da forma de tratamento entre os futuristas e “Ela”. Como sabemos. preservando tanto a construção original quanto o entendimento em português. negrito e aspas. indicaria uma pessoa incoveniente. num tratamento informal. que. aqui.Fillippo Tommaso Marinetti Observando o texto. Dificuldades da tradução Na tradução. foram mantidos ainda que alguns pudessem ser sugestivos e divertidos. se traduzido – Saiosozinho (não precisam me mandar embora) -. existem em italiano três formas de tratamento possíveis para o interlocutor (2a. bem como o posicionamento dos adjetivos. pseudônimos na realidade. bem como o uso de itálico. Seria necessário. mantendo a pontuação e a ausência da mesma. que não é bem recebida por outrem. recorrente em toda a sua obra. Esse é o caso de Escodamé. tentamos seguir os preceitos futuristas observados na língua original. temos em relação à visão o maior número de incidências. Mas não nos enveredamos por este campo. O nome dos colaboradores futuristas. Mantivemos as classes gramaticais sempre que isso não prejudicasse a compreensão em português. Apesar de defender a incorporação dos outros sentidos à literatura. Mantivemos também um parêntese que foi aberto.

o que reafirma nossa suspeita antropofágica já explicitada anteriormente. O prefixo aero. e Voi.. já que a raiz latina permite a identificação pelo leitor de língua portuguesa. pictórico. com algumas exceções nas regiões meridionais ou em língua escrita. foram pesquisados e mantidos. Os campos semânticos. a palavra volantista. quando o tratamento é formal. Esta fala é dirigida a ela. As notícias em francês foram simplesmente deixadas na língua original.. usada para motorista. escultor. publicada no jornal britânico The Herald. esse tratamento é modificado e passa a “voi”. foi mantida como volantista em português. “Lei” em italiano. da lei). dinamismo e até aos pratos servidos foi sempre mantido. Lei. confunde o leitor ao misturar os dois tratamentos formais. per lei. Há no livro algumas partes escritas em francês e em inglês.”. A reportagem em inglês. escrito em 1932. Tratase da polêmica despertada em outros países e publicada nos jornais locais. Assim. em uma única passagem. foi por esse motivo traduzida em nota ao final do capítulo. especialmente os referentes às máquinas e ao vôo. poesia e poeta. em relacionamentos profissionais e para demonstrar respeito.A cozinha futurista    entre os jovens. “Ela”. pois insere leveza e mobilidade às palavras 97 Cozinha futurista. Encontramos a passagem: “nessuno vi mangerà per ora – disse Prampolini – a meno che il magrissimo Fillìa. porém. com os mesmos dois sentidos encontrados em italiano. apresenta informações novas e apreciações críticas do movimento. mas que alude tanto ao volante do automóvel quanto ao que tem a capacidade de voar.. à Nova. é sempre tratada com esse pronome e seus correlatos (Le. quase em italiano. a lei. é pouco utilizado atualmente. pois são simples traduções dos manifestos ou de cardápios já mencionados em italiano. mas à mulher. entre pessoas que não se conhecem suficientemente. complexo escultural ou plástico. tratamento também formal se dirigido a um único interlocutor. La. acoplado a pintor. Ele não se refere às esculturas comestíveis. Dois outros trechos também foram traduzidos em nota por estarem escritos em latim vulgar. O livro.indd 97 7/4/2009 15:51:20 .

Fillippo Tommaso Marinetti e, aparentemente, às pessoas e objetos, que parecem perder o “imgombro pesante” no estômago. Culpa do macarrão, obviamente. Foram também encontrados os óbvios aeroplanos, e certos aerodinamismos lírico-plásticos, aerocumes, aerocerâmicas, aeroiguarias e aerobanquetes, que, contrariamente ao esperado, não eram servidos em pleno vôo, embora pudessem ser forjados ambientes que lembrassem a fuselagem de um avião. Ainda nos atendo ao vocabulário relativo a voar, Marinetti opta pra chamar o frango de volatile, palavra de uso comum na Itália, mas que retoma o léxico privilegiado por ele. Passemos agora do vôo à comida. O vocabulário referente à comida não oferece muitos problemas ao falante de português do Brasil, tão grande é a influência italiana em nossa culinária. Os nomes de diferente cortes de macarrão ou de massas rechadas, como ravioli, lasanha, tagliatelle, tagliarini, espaguete, trenette, foram mantidas em italiano, apenas usando a grafia aportuguesada quando esta existia. Assim, no texto em português, podemos nos deparar com tortelini in brodo ou espaguete ao sugo, sem que isso prejudique a compreensão. Uma única nota foi dispensada ao “vermicelli al pomodoro”, por se tratar de um corte não freqüente no Brasil. As palavras que designam refeição ou prato apresentaram mais dificuldades, já que em italiano “pranzo” pode designar tanto o almoço quanto uma refeição mais elaborada, em qualquer horário do dia. Optamos, por isso, às vezes, por refeição no lugar de almoço. Aparecem também palavras com tom bastante pejorativo para certas comidas, como “intrugli” ou “maledetta pietanza”; nesse caso, optamos por lavagem, que remete à comida oferecida aos porcos. “Vivanda” foi quase sempre traduzida por vianda, mantendo assim o mesmo radical latino. Outro vocábulo de difícil tradução foi “bocconi”, utilizado em alguns restaurantes aqui no Brasil, designam comidas que não precisam ser cortadas para serem comidas, têm o tamanho certo para serem intro-

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A cozinha futurista    duzidas na boca. Traduzimos uma vez por bocados, outra por prato, já que o bocado pareceria fora de contexto. O nome dos pratos, quase sempre originais, foram traduzidos literalmente. Assim, quando Marinetti propunha um “Tuttoriso”, traduzimos por Todoarroz, com a mesma forma de composição em justaposição feita em italiano. Encontramos também, raras vezes, composições por aglutinação. Aparecem, com a mesma lógica lingüística, Frangofiat, Hortotátil, Decolapaladar, Tedesejo, Carnadorada, Guerranacama, Teamareiassim, Superpaixão, Estanoiteláemcasa, e inúmeras outras contruções similares. O famoso Carnescultura em português não manteve o radical do original “carneplástico”, pois a palavra plástico aqui, embora tenha o sentido de forma, escultura preservado nas Artes Plásticas que envolvem também a pintura, remete ao derivado de petróleo e poderia afastar paladares curiosos. O plástico, em nossa culinária, é a ausência de sabor aliada a uma consistência indesejável em algo a ser ingerido. Os neologismos criados por Marinetti também foram alvo de grande atenção, e sempre que identificados, mesmo quando havia palavra bastante aproximada em português, tentamos construir uma que fosse nova, para mantermo-nos fiéis à construção original. Daí surgiu a revolução “cozinhária”, tradução do neologismo italiano “cucinaria”, usado no lugar da conhecida culinária, palavra que atende tanto o italiano quanto o português. Marinetti recusou também o conhecido “xenofilia”, inventou “esterofilia”, que traduzimos estrangeirofilia. O sentimento que faria alguns cidadãos renegarem sua pátria foi definido “antitalianità”, resultou em antitalianidade em português, bem como os vocábulos justapostos “criticomania” ou “benpensanti”, respectivamente criticomania e bempensantes. A certo ponto da leitura, encontramos um prato “sinottico-singustativo”. Como traduzir este adjetivo tão abrangente? O prato privilegia-

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Fillippo Tommaso Marinetti va diversos ingredientes, coloridos, dispostos de forma determinada e com certos sabores, que deveriam se unir mediante escolhas feitas pelos comensais. O prefixo grego sin- designa uma ação conjunta, logo, ação conjunta dos olhos e ação conjunta dos sabores. Mais uma vez optamos por não traduzir, para que o leitor, ao buscar o significado das partes das palavras, descubra ele também o que é o prato sinótico-singustativo. O cardápio extremista apresenta, entre muitos odores prazerosos ou não, duas palavras novas, ambas referentes ao barulho das rãs entre as águas podres do lago: polichiaccherio e quaccherologia. Traduzimos por policonversação a primeira, embora não reproduza bem o sentido da conversa tumultuada, barulhenta e rumorosa dos anfíbios em questão. A quaccherologia foi mais intrigante. O sufixo –logia indica estudo e quacchero se refere, de acordo com o dicionário, aos “Quakers” – quacre em português -, membros da seita protestante fundada na Inglaterra e difundida nos Estados Unidos, que não aceitam sacramento algum, não prestam juramento perante a justiça, pregam a intransigência puritana e a simplicidade de vida. Optamos pela tradução quacrelogia, ainda que o sentido pretendido pelo autor não pareça claro. Lembrando que o Futurismo é um movimento nacionalista, especialmente nos últimos anos de sua existência, por sua aproximação política com o fascismo, observamos a negação dos vocábulos de origem inglesa ou francesa na cultura – e na culinária – italiana. Marinetti propõe com essa finalidade uma modificação no léxico culinário italiano, utilizando palavras nacionais, de modo a evitar qualquer estrangeirismo. O último capítulo do livro, o “pequeno dicionário da arte cozinhária futurista”, traz opções para palavras já incorporadas ao vocabulário italiano, mas agora renegadas por Marinetti. Os franceses “Marrons Glacés” transformam-se em castanhas confeitadas, “consommé” serão consumidos, “fondants” serão apenas fundentes, “fumoir” será fumatório, “maitre d’hotel” é guiapaladar, “menu” será substituído por lista ou listadepratos, “mélange” será mistura, “flan” vira pasticho, “dessert”

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A cozinha futurista    é paraselevantar, “purée” é substituído por pasta e “bouillabaisse” restringe-se a sopa de peixe. É bastante curiosa a reflexão feita para alcançar a palavra “paraselevantar”, peralzarsi em italiano, em substituição ao francês dessert. A sobremesa é a última a ser ingerida, pois café e licores eram via de regra servidos em outra sala. Ao terminar a degustação, o movimento tão caro à idéia futurista era incluída na refeição: todos se levantam. Os ingleses também sofrem retaliação, e o “barman” vira mexedor, “cocktail” vira polibebida, “picnic” se torna um agradável almoçoaosol, “bar” é substituído por aquisebebe, “tea-room” torna-se sala de chá e o internacional “sandwich” transmuta-se em entreosdois. Um último neologismo marinettiano para encerrar as dificuldades: parolibero, usado tanto como substantivo, em “o parolibero Fillìa” quanto como adjetivo, em “uma conversação parolibera”. O processo em italiano foi a aglutinação da palavras parola + libero = parolibero. No entanto, em português parecia inviável a aglutinação de palavra + livre, pela incidência dupla do encontro consonantal “vr”. A solução encontrada foi utilizar um sinônimo de palavra, vocábulo, cuja sílaba final continha a mesma consoante da sílaba inicial de livre. Logo: vocábulo + livre = vocabulivre.

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A cozinha futurista Tradução Q Cozinha futurista.indd 103 7/4/2009 15:51:21 .

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indd 105 7/4/2009 15:51:21 .Sumário Uma refeição que evitou um suicídio O antefato poético tragicômico O manifesto da cozinha futurista Ideologias e polêmicas A revolução cozinhária Os grandes banquetes futuristas Os cardápios futuristas Sugestivos e determinantes Receituário futurista para restaurantes e “aquisebebe” Pequeno dicionário da arte cozinhária futurista 105 Cozinha futurista.

indd 106 7/4/2009 15:51:21 .Cozinha futurista.

Como em todas as artes.indd 107 7/4/2009 15:51:21 . os futuristas. os gatos e os bois. a banalidade. essa exclui o plágio e exige originalidade criativa. Salvo algumas exceções louváveis e legendárias. nobre e útil a todos de modificar radicalmente a alimentação de nossa raça. dinamizando-a e espiritualizando-a com novíssimas iguarias nas quais a experiência. a arte de se alimentar. finalmente criar uma harmonia entre o paladar dos homens e sua vida de hoje e de amanhã. a inteligência e a fantasia substituam economicamente a qualidade. isto é. parecerá louca e perigosa a alguns passadistas tremebundos: ela quer. os ratos. Esta nossa cozinha futurista. a primeira cozinha humana. fortificando-a. 107 Cozinha futurista. a repetição e o custo. Nasce conosco. ao contrário. tem o propósito alto. regulada como o motor de um hidroplano para altas velocidades. a revolução cozinhária futurista. até hoje os homens alimentaram-se como as formigas.Contrariamente às críticas lançadas e àquelas previsíveis. ilustrada neste volume.

A este pânico nós opomos uma cozinha futurista. isto é: o otimismo à mesa. 108 Cozinha futurista.indd 108 7/4/2009 15:51:21 . mas pode-se calcular o perigoso pânico deprimente.Fillippo Tommaso Marinetti Não por acaso esta obra vem publicada durante a crise econômica mundial cujo desenvolvimento parece incalculável.

Uma refeição que evitou um suicídio O poético antefato tragicômico Em onze de maio de 1930 o poeta Marinetti partia.indd 109 7/4/2009 15:51:21 . em direção ao lago Trasimeno. 109 Cozinha futurista. extravagante e misterioso telegrama: “Caríssimo uma vez que Ela partiu definitivamente fui acometido de torturante angústia PT imensa tristeza proíbe-me sobrevivência PT suplico-lhe venha rápido antes que chegue aquela que se parece muito com Ela mas não o suficiente GIULIO”. de automóvel. obedecendo a este preocupante.

a sua vida de ciência e de riquezas acumuladas no Cabo da Boa Esperança. Cirurgicamente.”- 110 Cozinha futurista. Agora. muito. À mesa. cuja grande genialidade de aeropintores pareceu-lhe adaptar-se ao caso sem dúvida gravíssimo. Marinetti! Ela se suicidou há três dias em Nova Iorque. um verdadeiro Palácio. Por outro lado. a sua repentina fuga dos centros habitados.indd 110 7/4/2009 15:51:21 . Certamente me chama. Eu recebi ontem este telegrama. a casa. você a conhece. Este pseudônimo que mascarava seu verdadeiro nome. nas margens feridas e entre os canaviais doloridos do Lago. convocou telefonicamente a presença de Enrico Prampolini e Fillìa.. diante da porta do automóvel. que alternava pinheiros umbelíferos oferecidos ao Paraíso e ciprestes diabolicamente mergulhados na tinta do Inferno. confesso-me brutalmente a vocês e a sua provada amizade: há três dias a idéia de suicídio ocupa toda a casa e também o parque.. Pois bem. O que vocês me aconselham?” Longo silêncio. por uma estranha coincidência. mais que uma casa... o volantista do automóvel procurou e encontrou.“querem saber o porquê? Eu lhes digo: Ela. O telegrama anuncia a sua iminente chegada. Giulio murmurou: .Fillippo Tommaso Marinetti Marinetti.. seu intervento belicoso e criativo nas noitadas futuristas de vinte anos antes. Na verdade.. na sala revestida de vermelho remorso aveludado.. . encheram a conversação vocabulivre que precedeu o jantar no policromático Aquisebebe da casa. intervém um fato novo e significativo. ela se escondia ao fundo do parque.“Intuo em seus paladares a chatice de um antiquíssimo hábito e a convicção de que um tal modo de se nutrir conduz ao suicídio. ainda não tive a força de entrar. Na entrada. Dir-lhes-ei outro dia o seu nome e quem é. decidido a salvar seu amigo. mas não o suficiente. que bebia por amplas janelas uma meia-lua nascente mas já imersa na morte das águas. é da outra que se parece com ela. o rosto emagrecido e a mão estendida muito branca de Giulio Onesti..

suicidar-me-ei esta noite!1 . . açúcar e ovos. Enrico Prampolini. Imediatamente os empregados começaram a transportar grandes e pesados sacos que.”Entre os cozinheiros estarrecidos e ditatorialmente desautorizados. transformavam as cozinhas em fantásticos laboratórios onde as enormes caçarolas emborcadas no chão transformavam-se em pedestais grandiosos predispostos a uma escultura imprevisível. farinha de amêndoas.A cozinha futurista    Longo silêncio. leite. farinha de milho.“a menos que ? ” – repetiu Fillìa.ordenou Giulio.”Fillìa improvisou um aerocomplexo plástico de farinha de castanhas.“a menos que ? ” – gritou Prampolini . Prampolini gritou: -“são necessários às nossas mãos geniais cem sacos dos seguintes ingredientes indispensáveis: farinha de castanhas. Então. os fogos acesos. que havia ciumentamente cercado de biombos o seu trabalho criativo. chocolate em pó.“A menos que ? ” – concluiu Marinetti – a menos que você nos conduza imediatamente às suas ricas e abastecidas cozinhas. Cem quilos de tâmaras e de bananas.(não quero. ovos. Giulio sofreu um tremor convulsivo irreprimível: . farinha de centeio. farinha de trigo. descarregando piramidais pilhas amarelas. Depois do que. -“ao trabalho – disse Marinetti – oh. brancas. não devo trair a morta. mel e leite.indd 111 7/4/2009 15:51:21 . pretas. aeropintores e aeroescultores. As minhas aeropoesias ventilarão seus cérebros como hélices esvoaçantes. vermelhas. ao primeiro alvorecer que atravessou o cintilante horizonte pela janela aberta. onde camadas atmosféricas noturnas eram intercaladas por camadas de alvoreceres acinzentados com espirais de vento expressos em encanamentos de massa podre. pimenta vermelha. gritou: 1 O parêntese não foi fechado no original. 111 Cozinha futurista. Dez jarras de óleo. chocolate.”-“você será atendido ainda nesta noite”.

a esférica doçura de todos os seios ideais falavam em distância geométrica à cúpula do ventre mantida pelas linhas-força das coxas dinâmicas. -“não se aproximem – gritou a Marinetti e a Fillìa – não a cheirem. Atmosfera inebriante pródiga de formas cores com planos de luz cortantes e lisíssimas redondezas de esplendores que o zumbido de um aeroplano altíssimo torneava melodiosamente. um cilindro de massa de milho que.” – Retomaram o trabalho deliciosamente estimulados pelos longos raios elásticos de uma aurora. girando em seu eixo. sem respirar. Às sete horas nascia do maior forno da cozinha a paixão das loiras. Afastem-se. chiados de águas lenhosas cuja laqueadura verde estourava em brilhos dourados. Idealizado por Marinetti. Venham admirá-la. fascinante e carnal que pode curar qualquer desejo de suicídio. que se improvisava cozinheiro-escultor. nuvens vermelhas. E brilhava de uma sua penugem açucarada excitando o esmalte dos dentes nas bocas atentas dos dois companheiros. Comestível.”Derrubou os biombos e apareceu o misterioso suave tremendo complexo plástico d’ela. um seu modo de flutuar sensualíssimo. Vocês têm más bocas vorazes. Vocês comeriam-na toda. ao aumentar a velocidade espalhava por todo o recinto uma massa enorme de algodão-doce de ouro. Acima. Mãos inspiradas. realizado sob o seu ditado por Giulio Onesti.Fillippo Tommaso Marinetti -“Tenho-a finalmente entre meus braços e é de tal modo bela. Era a tal ponto saborosa a carne da curva que significava a síntese de todos os movimentos do quadril. angustiadíssimo e 112 Cozinha futurista. Narinas abertas para guiar as unhas e os dentes. cada uma com uma leve curva especial de boca ventre ou quadris. No alto. cantos de pássaros. alto complexo plástico de massa folhada esculpida em camadas degradantes de pirâmide.indd 112 7/4/2009 15:51:21 . um sorriso seu de lábios.

ébria de esculpir ela também. Em uma pausa.“se a Nova chega com o crepúsculo ou com a noite. em equilíbrio sobre as pedras polidas e trementes do pensamento. Massas saborosas para transportar. esbeltíssimo “lazo” de massa podre. Giulio Onesti. Novo silêncio. síntese de todos os automóveis famosos de curvas longínquas e uma rapidez de vôo que oferecia às bocas observadoras 29 tornozelos prateados de mulheres misturados a cubos de rodas e a asas de hélice todas feitas com macia massa fermentada. remisturava. Temia a que estava por vir. Com bocas de antropófagos simpáticos. A sua boca. Giulio Onesti disse: . Prampolini e Fillìa restauravam seus estômagos de quando em quando com um saboroso pedaço de estátua.” No entanto. Entretanto. A torrente do tempo fugia-lhes sob os pés. representando as formas da nostalgia e do passado precipitou abaixo com um estrondo e enlameando tudo de líquidas trevas viscosas. de rosas violetas e cachias que no parque e na cozinha a brisa primaveril.A cozinha futurista    trêmulo. se bem que ideal. Giulio Onesti manifestava uma inquietude que não correspondia à serenidade futurista de seu cérebro. 113 Cozinha futurista. Aquela boca iminente preocupava também os três futuristas que trabalhavam. de biscoitos. Foram desenformados por Prampolini e Fillìa: uma velocidade esguia. será aquela de uma convidada qualquer. não trabalhamos para ela. No silêncio da tarde o trabalho tornou-se muscularmente acelerado. o complexo plástico foi por ele mesmo plantado sobre uma gigantesca caçarola de cobre de cabeça para baixo. Bruscamente um complexo plástico de chocolate e torrone. oferecer-lheemos uma aurora artística comestível realmente inesperada. Competiu subitamente tanto com a força dos raios solares até inebriar o escultor que infantilmente beijou sua obra com a língua. Marinetti. Intuíam-na e saboreavam-na entre os perfumes de baunilha.indd 113 7/4/2009 15:51:21 .

Tinha como título as curvas do mundo e os seus segredos. na vasta sala das armas. os futuristas Marinetti. a mostra dos 22 complexos plásticos comestíveis. Era um complexo plástico a motor comestível. Crucificá-la sob pregos agudos de vontade.” Soou mediunicamente a campainha ao fundo. Mais abaixo sentia-se a estridente felicidade dos riachos paradisíacos. para inaugurar – experimentar juntos a grande Mostra de escultura comestível já pronta. A obra-prima. Marinetti. Nervos. tinham-lhe inoculado o suave magnetismo das mulheres mais belas. no parque. Prampolini disse: . Às seis da tarde desenvolver-se no alto de doces dunas de carne e areia em direção a dois grandes olhos de esmeralda nos quais a noite já se adensava. *** À meia-noite. Estalar de língua. Alegria dos lábios. A sua arquitetura oblíqua de curvas macias perseguindo-se no céu escondia a graça de todos os pezinhos femininos em uma farta e açucarada relojoaria verde de palmeiras de oásis que mecanicamente engrenavam os seus tufos à roda dentada.“verão que ele a vencerá. colaborando. haviam sido amontoados rechaçados brutalmente como por uma mágica força sobre-humana. em rixa com dois enormes canhões de montanha. perfeito. Em um canto. resplandecia no ângulo oposto. Prampolini e Fillìa esperavam o dono da casa convidado. Paixão. 114 Cozinha futurista.indd 114 7/4/2009 15:51:21 . Sobre-humana. e das mais belas Áfricas sonhadas. Todo o céu nas narinas. montes de alabarda e feixes de carabinas. na realidade. por sua vez.Fillippo Tommaso Marinetti Com calma retomar a matéria. sob onze globos elétricos. perto de uma vidraça cheia de ácidas e doentias luzes sublacustres. Conter a respiração para não estragar um sabor cinzelado. Prampolini e Fillìa.

“Amamos as mulheres. O seu engenho me espanta. e o rosto voltado para o centro da terra.“não me julguem uma idiota – murmurou com graça lânguida – estou estonteada. Suplico-lhes que me expliquem as razões. os pensamentos que os dominaram enquanto esculpiam tantos deliciosos odores sabores cores ou formas. nas peliças e nos tapetes. porém ao som de duas vozes.A cozinha futurista    Entre todos. Para sua sorte. as intenções. pareceu-nos o fruto ideal para morder mastigar sugar. Prontos puseram-se em pé. Prampolini e Fillìa sobre um amplo tapete de plumas dinamarquesas que pela maciez madreperolada à luz elétrica parecia viajar. De bruços aos seus pés. Todas as formas da fome que caracterizam o amor nos guiaram na criação destas 115 Cozinha futurista. Disseram: . revolucionavam e acendiam as curvas pacatas e a delicada elegância minuciosa do pescoço. dos ombros e das ancas esbeltas apenas embainhadas por mohair dourado. cheios de falsa ingenuidade infantil. uma concha-toca para fera refinada. mas de uma beleza tradicional. dela. Nuas sempre nos pareceram tragicamente vestidas. Belíssima mulher. a outra feminina e agressiva.indd 115 7/4/2009 15:51:21 . ” A ela. Uma breve troca de gentilezas assombros regozijos a ela. a imobilidade e o silêncio dos cinco. nas almofadas. O seu coração. sob a curta testa inundada de ricos cabelos quase louros e quase castanhos. nuvem investida por projetores na noite. uma viril mas cansada. se apertado pelo supremo prazer do amor. Como exauridos por tanto aerodinamismo lírico-plástico. Depois. que cuidadosamente e esculturalmente escavava para o próprio corpo. Muitas vezes nos torturamos com mil beijos gulosos na ânsia de comermos uma. Prampolini e Fillìa falaram alternando-se como três êmbolos bem lubrificados da mesma máquina. os grandes olhos verdes. Giulio Onesti sonhava ou escutava. Marinetti. aquele intitulado as curvas do mundo e os seus segredos perturbava. jaziam cansadíssimos Marinetti. .

Somos os novos elementos instintivos da grande Máquina futura lírica plástica arquitetônica. Arte leve voadora. Cem moscões lilases azuis davam uma artística investida enlouquecida em direção aos altos globos elétricos. diante de nossas mãos. Prampolini e Fillìa. não só o tato e relativas carícias. toda novas leis. O fascínio. Vocês nos julgam selvagens.” Uma longa pausa de silêncio fulminou de sono Marinetti. . o furioso turbilhão do sexo.” . mas os dentes. o estômago. o intestino igualmente enamorados. incandescências a serem esculpidas a qualquer custo e o mais rapidamente elas também. Arte temporânea.“por caridade – suspirou sorrindo – moderem a sua selvageria.Fillippo Tommaso Marinetti obras de gênio e de língua insaciável.” Acrescentou Marinetti: . a chuva de todas as impaciências e de todas as denguices. de imagens e de ímpetos afinava-se com o murmúrio assobiado e metálico do canavial no Lago acariciado pela brisa noturna. Arte comestível.a menos que o macérrimo Fillìa. os pruridos e as rebeliões contra a antiquíssima escravidão.. A mulher contemplou-os por alguns minutos. a graça infantil.“neste catálogo da Mostra de escultura comestível. a alvorada. depois jogou a cabeça para trás e adormentou-se também. a única e todas encontravam-se aqui. a ingenuidade.indd 116 7/4/2009 15:51:21 . 116 Cozinha futurista. O eterno feminino fugitivo aprisionado no estômago. o pudor. O fraco murmúrio das respirações carregadas de desejo. toda novas diretrizes. A apaixonada superaguda tensão das mais frenéticas luxúrias finalmente apagadas. a língua. você poderá ler esta noite as originais bisbilhotices erótico-sentimentais que suscitaram nos artistas certos sabores e certas formas aparentemente incompreensíveis. outros nos crêem complicadíssimos e civilizadíssimos.. uma expressão artística tão intensa que exige não só os olhos e relativa admiração.“ninguém a comerá por enquanto – disse Prampolini . São os nossos estados de ânimo realizados.

Giulio saiu então para o parque todo invadido pelos sobressaltantes encanamentos dos rumores do trovão. 117 Cozinha futurista. como uma tigresa alongada. Seguiu-se a chuva das lágrimas vãs. Escultores e escultoras dormiam. Ao alvorecer comeu as esferas mamais de todo leite materno. Intensificava-se assim o sono dos escultores e das escultoras de vida. começou a amorosa adoração com os lábios. com um tremendo torcer de rins. percorreu com o olhar circular a sua grande sala de armas e decidido dirigiu-se ao alto complexo plástico as curvas do mundo e os seus segredos. sem fazer barulho. Talvez para se refrescar. com a cabeça descoberta. Sem fim. liberado. Possessor e possuído. mordeu e comeu um suave pezinho patinador de nuvens. convenceu-se que escultores e escultoras de vida dormiam profundamente. Ajoelhandose em frente. Único e total. fincou os dentes no farto coração dos corações do prazer. a língua e os dentes. Giulio girando naquele instante a cabeça para a direita e para a esquerda.A cozinha futurista    De improviso. vazio e transbordante. Apalpando e derrubando o belo palmar açucarado. Levantou-se agilmente. as nuvens velozmente adensadas sobre o Lago deram à luz um precipitante raio cor-de-laranja com longas pernas verdes que rompeu o canavial a poucos metros da sala das armas. Estava ao mesmo tempo desobstruído. com as costas suspeitosas de um ladrão. Aproveitador e aproveitado. Quando a sua língua deslizou sobre os longos cílios que defendiam as grandes jóias do olhar. Às três daquela noite.indd 117 7/4/2009 15:51:21 .

isto é. dirigido por Mario Tapparelli.Fillippo Tommaso Marinetti O manifesto da cozinha futurista Ideologia e polêmicas A refeição do “Penna d’Oca” e o manifesto da cozinha futurista Desde o início do Movimento Futurista Italiano. a urgência de uma solução impôs-se: O restaurante PENNA D’OCA de Milão. Subitamente. Isto era muito discutido entre Marinetti. em 15 de Novembro de 1930. agressiva das raças.indd 118 7/4/2009 15:51:21 . Russolo. Balla. Houve. há 23 anos (Fevereiro de 1909). Boccioni. Esta lista de pratos: ganso gordo sorvete na lua lágrimas do deus “Gavi” brodo de rosas e sol favorito do mediterrâneo zig. zug. na Itália e na França. agitou os maiores futuristas. a importância da alimentação sobre a capacidade criativa. ofereceu aos futuristas milaneses um banquete que queria ser um elogio gastronômico do futurismo. fecundadora. Sant’Elia. zag cordeiro assado ao molho de leão saladinha à aurora sangue de Baco “terra ricasoli” rodinhas pontuais de alcachofra 118 Cozinha futurista. algumas tentativas de renovação cozinhária.

Repaci. torna-nos céticos. Prampolini. Marinetti. O cozinheiro Bulgheroni foi repetidamente aclamado.“anuncio-lhes o próximo lançamento da cozinha futurista para a renovação total do sistema alimentar italiano. Ex. enfeia. Escodamè. as iguarias eram timidamente originais e ainda ligadas à tradição gastronômica. S. Pick Mangiagalli. Marinetti. Depero. a abolição do macarrão. ilude sobre sua capacidade nutritiva. A cozinha futurista será libertada da velha obsessão por volume e peso e terá. 119 Cozinha futurista. Dep. Steffenini. Giordano. Ravasio. Gerbino. Umberto Notari. Exª Fornaciari Prefeito de Milão. apesar de agradar ao paladar. e os futuristas Depero. patriótico favorecer sua substituição pelo arroz. exceto o brodo de rosas que inebriou os paladares futuristas de Marinetti. Escodamè e Gerbino. disse: . Prampolini. por outro lado. Sansanelli.” Este discurso suscitou entre os convidados aplausos enlouquecidos e pouco claras irritações. S. Dep. disposto sobre a mesa entre “rodinhas pontuais de alcachofra” e “chuva de algodão doce”. Exª. é uma comida passadista porque estufa. lentos. convidado a falar diante de um receptor da Radio. O macarrão. E era lógico porque. Chiarelli. pessimistas.A cozinha futurista    chuva de algodão doce espuma hilariante “cinzano” fruta colhida no jardim de Eva café e licores agradou muito aos convidados: S.indd 119 7/4/2009 15:51:21 . como um de seus princípios. etc. Farinacci. que deve ser adaptado o mais brevemente possível às necessidades dos novos esforços heróicos e dinâmicos impostos à raça. É. Os menos futuristas eram os que mais aplaudiam. Marinetti desafiou as ironias precisando seus pensamentos.

aos estivadores. Entre todos os movimentos artísticos literários. aos camponeses. Contra o macarrão O Futurismo foi definido pelos filósofos “misticismo da ação”. em qualquer restaurante. é o único que tem por essência a audácia temerária. na realidade. eles experimentam prudentemente o novo para obter de cada um a máxima vantagem.Fillippo Tommaso Marinetti No dia seguinte. *** No dia 28 de Dezembro de 1930. aos moleques. das senhoras aos cozinheiros. era servido macarrão.indd 120 7/4/2009 15:51:21 . não permanece prisioneiro das vitórias mundiais obtidas “em 20 anos de grandes batalhas artísticas políticas muitas vezes consagradas com sangue” como definiu Benito Mussolini. às amas de leite. fórmula da “arte120 Cozinha futurista. por nós “orgulho italiano (i)novador”. na Gazzetta del Popolo de Turim apareceu O Manifesto da cozinha futurista O Futurismo italiano. Arraigados à tradição. cantina ou casa da Itália. pai de numerosos futurismos e vanguardistas estrangeiros. Cada vez que. aos literatos. por Benedetto Croce “anti-historicismo”. dois futurismos de direita moderadíssimos e práticos. aos soldados. em todos os jornais estourou uma polêmica violentíssima da qual participaram todas as categorias sociais. O Futurismo italiano enfrenta ainda a impopularidade com um programa de renovação total da cozinha. aos astrônomos. eram entrelaçadas imediatamente intermináveis discussões. O novecentismo pictórico e o novecentismo literário são. por Graça Aranha “liberação do terror estético”.

ao contrário. Harmonize-se. imensificado a plástica com o anti-realismo. Mesmo reconhecendo que homens mal ou grosseiramente nutridos realizaram grandes coisas no passado. as nossas papilas gustativas. é para o macho e para a fêmea sempre ascendente. enquanto que para a fêmea é horizontal. julgado por todos louco. tenacidade heróica.indd 121 7/4/2009 15:51:21 . delgada transparência espiral de paixão. nós afirmamos esta verdade: pensa-se sonha-se age-se de acordo com o que se bebe e o que se come. sempre mais com a italiana. luz. “higiene espiritual”. “método da infalível criação”. as nossas secreções glandulares e entramos genialmente na química gástrica. então. o nosso paladar. Sentimos além disso a necessidade de impedir que o Italiano torne-se cúbico maciço enchumbado por uma compactação opaca e cega. “religião da velocidade”. ternura. de baixo para o alto do corpo humano. Antipraticamente. Consultamos a este respeito os nossos lábios. Preparamos uma agilidade de corpos italianos adaptados aos levíssimos trens de alumínio que substituirão os atuais pesados de ferro madeira aço. Nós futuristas sentimos que para o macho a volúpia de amar é escavadora abissal do alto para baixo. esvaziado o teatro do tédio mediante sínteses alógicas por surpresa e dramas de objetos inanimados. Convencidos de que na provável conflagração futura vencerá o povo mais ágil. ao contrário. A volúpia do palato . em leque.A cozinha futurista    vida original”. “máximo esforço da humanidade para a síntese”. 121 Cozinha futurista. nós futuristas após termos agilizado a literatura mundial com as palavras em liberdade e o estilo simultâneo. “estética da máquina”. a nossa língua. criado o esplendor geométrico arquitetônico sem decorativismo. “esplendor geométrico veloz”. ousadia. nós futuristas negligenciamos o exemplo e a exortação da tradição para inventar a qualquer custo um novo. mais impetuoso. vontade.

ao peixe. Isto leva a um desequilíbrio com distúrbio destes órgãos. à busca de vento. Estes foram combatentes heróicos. Signorelli. Este alimento amiláceo é em grande parte digerido na hora pela saliva e o trabalho de transformação é desempenhado pelo pâncreas e pelo fígado. nutritivamente inferior em 40% à carne. aos legumes. Ao comê-lo eles descobrem um típico ceticismo irônico e sentimental que trunca muitas vezes o seu entusiasmo. Convite à Química O macarrão. Recordem-se ainda que 122 Cozinha futurista. pessimismo. e às paisagens de cores formas rumores que a radio-televisão faz navegar em torno da terra? Os defensores do macarrão carregam a bola de ferro ou a ruína no estômago. o macarrão é um alimento que se engole. Dele derivam: fraqueza. advogados engenhosos. aos alemães o chucrute. Talvez beneficiem aos ingleses o bacalhau. Acreditamos antes de tudo necessário: a) a abolição do macarrão. estabelecemos agora a nutrição adequada a uma vida sempre mais aérea e veloz. liga com seus emaranhados os italianos de hoje aos lentos teares de Penélope e aos sonolentos veleiros. o toucinho defumado e o salame. o Dr. absurda religião gastronômica italiana. inatividade nostálgica e neutralismo”. artistas inspirados. oradores impetuosos. mas aos italianos o macarrão não beneficia. não se mastiga. escreve: “Diferentemente do pão e do arroz. agricultores tenazes a despeito do volumoso macarrão quotidiano. o rosbife e o pudim. aos holandeses a carne cozida com queijo.indd 122 7/4/2009 15:51:21 .Fillippo Tommaso Marinetti a cinematografia e a fotografia abstratas. Por exemplo. Porque opor ainda o seu bloco pesante à imensa rede de ondas curtas longas que o gênio italiano lançou sobre os oceanos e continentes. como prisioneiros ou arqueólogos. contrasta com o espírito vivaz e com a alma apaixonada generosa intuitiva dos napolitanos. Um inteligentíssimo professor napolitano.

c) A abolição das combinações tradicionais para a experimentação de todos as novas combinações aparentemente absurdas.A cozinha futurista    a abolição do macarrão libertará a Itália do custoso grão estrangeiro e favorecerá a indústria italiana do arroz. louças. corta-se e passa-se na grelha com pimenta. Convidamos a química ao dever de dar rapidamente ao corpo as calorias necessárias mediante equivalentes nutritivos gratuitos do Estado. permite aperfeiçoar e nobilitar as outras horas com o pensamento as artes e a pregustação de refeições perfeitas. sal e azeite até que esteja bem dourado.indd 123 7/4/2009 15:51:21 . Acrescen- 123 Cozinha futurista. Atingir-se-á assim uma real baixa do preço da vida e do salário. segundo o conselho de Jarro Maincave e outros cozinheiros futuristas. Em todas as classes as refeições serão distanciadas mas perfeitas no cotidianismo dos equivalentes nutritivos. compostos albuminosos. Hoje. com relativa redução das horas de trabalho. em pó ou pílulas. Uma harmonia original da mesa (cristais. pega-se um belo salmão do Alasca.000kw é necessário somente um operário. b) A abolição do volume e do peso no modo de conceber e valorizar a nutrição. O almoço perfeito exige: 1. As máquinas constituirão rapidamente um obediente proletariado de ferro aço alumínio a serviço dos homens quase totalmente aliviados do trabalho manual. gorduras sintéticas e vitaminas. Este. A originalidade absoluta das comidas. O “carnescultura” Exemplo: Para preparar o Salmão do Alasca aos raios do sol com molho Marte. para 2. ornamentos) com os sabores e as cores das comidas. sendo reduzido a duas ou três horas. d) A abolição do cotidianismo medíocre nos prazeres do palato.

(Fórmula de Bulgheroni. Sirva-a com este molho: meio copo de Marsala e vinho branco. cuja harmonia original de forma e cores nutra os olhos e excite a fantasia antes de tentar os lábios.Fillippo Tommaso Marinetti tam-se tomates cortados ao meio previamente cozidos sobre a grelha com salsinha e alho. manjericão. casca de laranja picadinha. pimenta. cozinhe-a em forno muito quente por quinze minutos. sal. é composta por uma grande almôndega cilíndrica de carne de vitela assada recheada de onze qualidades diferentes de verduras e legumes cozidos. um cálice de licor italiano Aurum. No momento de servir colocam-se sobre as postas de salmão alguns filetes de anchova entrelaçados (como jogo de damas).indd 124 7/4/2009 15:51:22 . cubra seu estômago com fatias de presunto e toucinho. limpe-a. interpretação sintética das paisagens italianas. Sobre cada posta uma rodelinha de limão com alcaparras. coloque-a sobre uma fatia torrada de pão quadrado ensopado com rum e conhaque e cubra-a com massa folhada. zimbro. coloque-a numa caçarola com manteiga. O molho será composto de anchovas. gemas de ovos cozidos. quatro colheres de cassis. Exemplo: O carnescultura criado pelo pintor futurista Fillìa. pegue uma bela perdiz. e será peneirado. borrifando-a com conhaque. primeiro cozinheiro do Penna d’Oca) A invenção dos complexos plásticos apetitosos. primeiro cozinheiro do Penna d’Oca) Exemplo: Para preparar a Perdiz à Monterosa molho Vênus. Coloque o molho na molheira e sirva-a muito quente. 124 Cozinha futurista. Apenas retirada da caçarola. azeite. (Fórmula de Bulgheroni. Leve novamente ao forno até que a massa esteja bem cozida. Este cilindro disposto verticalmente no centro do prato é coroado por uma camada de mel e sustentado na base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango. tudo fervido por dez minutos.

Um dado bocado poderá resumir uma 125 Cozinha futurista. No centro emerge um cone de claras de ovos batidas e solidificadas cheio de gomos de laranja como suculentas seções de sol. Cada prato deve ser precedido por um perfume que será cancelado da mesa por meio de ventiladores. Estes pratos terão na cozinha futurista a função analógica imensificante que as imagens têm na literatura. O uso dosado da poesia e da música como ingredientes inesperados para acender com a sua intensidade sensual os sabores de uma certa vianda. A apresentação rápida entre um prato e outro. sob os narizes e os olhos dos convidados. A abolição do garfo e da faca para os complexos plásticos que possam dar um prazer tátil pré-labial. vinte sabores para experimentar em poucos instantes. A criação de pequenos pratos simultâneos e cambiáveis que contenham dez. de alguns pratos que eles comerão e de outros que eles não provarão para favorecer a curiosidade. Estes complexos plásticos apetitosos coloridos perfumados e táteis formarão perfeitos almoços simultâneos.A cozinha futurista    Equador + Pólo Norte Exemplo: o complexo plástico comestível Equador + Pólo Norte criado pelo pintor futurista Enrico Prampolini é composto por um mar equatorial de gemas de ovo em sua própria casca. O uso da arte dos perfumes para favorecer a degustação. O cimo do cone será coberto por pedaços de trufas negras cortadas em forma de aviões negros para a conquista do zênite.indd 125 7/4/2009 15:51:22 . A abolição da eloquência e da política à mesa. com pimenta sal limão. a surpresa e a fantasia. 10. O uso da música limitado nos intervalos entre os pratos para que não distraia a sensibilidade da língua e do palato e sirva para aniquilar o sabor apreciado restabelecendo uma virgindade degustativa.

especiarias. etc. Entre muitos. Lombroso.) por causa das altas temperaturas. Viale. obedecem à prepotência de seus paladares. O uso destes aparelhos deverá ser científico.). excesso de doce. tornam-se mais assimiláveis. moinhos coloidais para tornar possível a pulverização de farinhas.T. jornal dirigido com grande competência e genialidade por Umberto e Delia Notari. Um conjunto de instrumentos científicos na cozinha: ozonizadores que dêem o perfume do ozônio a bebidas e comidas.Fillippo Tommaso Marinetti inteira zona de vida. Marinetti *** A “Cozinha Italiana”. Ducceschi. a boca beatamente cheia de espaguete ao vôngole. aparelhos de destilação a pressão comum e à vácuo. Esquecem os outros deveres dinâmicos da raça. defenderam o macarrão os doutores Bettazzi. etc. impedem o raquitismo nas crianças. Londono. o que provoca a destruição de substâncias ativas (vitaminas. etc. iniciou uma pesquisa enquanto enfurecia a polêmica mundial pró e contra o macarrão e pró e contra os pratos futuristas. Foà.indd 126 7/4/2009 15:51:22 . de modo a obter de um produto notável um novo produto com novas propriedades. em uma trattoria de Posillipo. extratos etc. F. excesso de vinagre. o desenvolver de uma paixão amorosa ou uma inteira viagem ao extremo Oriente. Parecem falar à mesa. e o turbilhão angustioso 126 Cozinha futurista. Não possuem a lucidez espiritual do laboratório. dializadores. etc. Pini. evitando por exemplo o erro de cozinhar as comidas em panelas a pressão. 11. Estes. eletrolisadores para decompor sucos.. pouco cientificamente. esterilizadores centrífugos. lâmpadas para a emissão de raios ultravioleta (já que muitas substâncias alimentares irradiadas com raios ultravioleta adquirem propriedades ativas. Os indicadores químicos darão conta da acidez e alcalinidade dos molhos e servirão para corrigir eventuais erros: falta de sal. excesso de pimenta. frutas secas.

Somente uma refeição futurista pode realegrá-lo. os de carne têm caráter veloz e agressivo”. Este ávido buraco é a sua incurável tristeza. 127 Cozinha futurista. devem convir que outras comidas são pelo menos tão nutritivas quanto o macarrão. são unicamente comparáveis aos excitantes. Mesmo esforçando-se para legitimar os seus prazeres bocais. enquanto são considerados por nós como atos que criam sobre o comensal um estado de ânimo otimista singularmente útil para uma boa digestão. as músicas. preparam o sereno e viril estado de ânimo indispensável para a tarde e a noite. encontrará ali dentro a triste satisfação de tapar com ele um buraco negro. mas não o tapa. E não é só: os perfumes. NICOLA PENDE (clínico). E o macarrão é antiviril porque o estômago pesado e cheio não é nunca favorável ao entusiasmo físico pela mulher nem à possibilidade de possuí-la diretamente. Na mesma pesquisa brilham entretanto as inteligências dos Médicos que dizem: “o uso habitual e exagerado do macarrão determina certo aumento de peso e exagerado volume abdominal” “os grandes consumidores de macarrão têm caráter lento e pacífico.indd 127 7/4/2009 15:51:22 . as músicas e o tato. Prof. Todos os defensores do macarrão e os obstinados inimigos da cozinha futurista são os temperamentos melancólicos. Ilude-se. Qualquer “macarroneiro” que consulte a própria consciência honestamente no momento de engolir a sua biquotidiana pirâmide de macarrão.A cozinha futurista    de esplêndidas velocidades e de violentíssimas forças contraditórias que constituem a vida moderna. etc. contentes com a melancolia e propagandistas da melancolia. Alguns destes declaram que os perfumes. que condimentam os pratos futuristas.

C. Prof. Dr. ANTONIO RIVA “o macarrão não pode ser considerado como um alimento de fácil digestão porque dilata o estômago e não sofre. GABBI (clínico) “penso que o uso do macarrão seja nocivo aos trabalhadores intelectuais. Prof. De qualquer modo. Prof. às pessoas que levam vida sedentária e sobretudo àqueles que. como o pão. Senatore U. Prof. A.indd 128 7/4/2009 15:51:22 . foram feitas pelo “Jornal de Domingo” de Roma e por outros jornais italianos. a experiência o mostra.Fillippo Tommaso Marinetti “deve-se trocar alimentos pela lei biológica: a repetição constante do mesmo alimento. uma preparação suficiente com a mastigação”. Senatore ALBERTONI “É questão de gosto e preço de mercado. possam conceder-se carne e outros pratos”. e portanto nunca exclusivamente feita de um só alimento”. O Duque 128 Cozinha futurista. TARCHETTI *** Outras pesquisas. pró e contra o macarrão. HERLITZKA (fisiologista) “o valor nutritivo do macarrão não apresenta características especiais que possam torná-lo preferível aos outros tipos de farináceos”. Prof. é prejudicial”. além da sopa. convém uma alimentação mista.

consagrando com isto a monotonia pouco atraente de Paraíso e da vida dos Anjos. publicado no “Ambrosiano” como “carta aberta a F. não comem outra coisa além de ‘vermicelli al pomodoro’12”. etc. respondendo a uma destas pesquisas. Dona Elvira etc. favoráveis ao macarrão. que não são sempre aquelas do tatilismo e das palavras em liberdade. uma vez. enquanto os inimigos da cozinha futurista contentavam-se com ironias fáceis e nostálgicas lamentações. Entre todos os artigos. e não poderia falar com mais graça de alguém que. etc. Arturo Rossato.A cozinha futurista    de Bovino. destaca-se este de Ramperti. pertenço à extrema direita do parlamento futurista. Mas. que eu. com todos os socos e bofetadas da sua dialética de assalto. tem entretanto suas idéias. os escritos de Massimo Bontempelli. Cecchino. “Giovedì”. Alfredo. a polêmica espalhava-se através de centenas de artigos. Você queria ser gentil. Paggi. Paolo Buzzi. Salvatore di Giacomo etc. T. Recordamos o número completamente dedicado à cozinha futurista do “Travaso” de Roma e as inumeráveis caricaturas que apareceram no “Guerin meschino”. Recordamos os diversos pareceres dos cozinheiros romanos Ratto. “Marc’Aurelio”. aumentavam as adesões e os entusiasmos pela luta contra o macarrão. Você é a amabilidade em pessoa. e deu-me um pequeno posto à sua 1 Massa longa. por exemplo. por serem incapazes de renovar a sua cozinha. no Paraíso. todos. “420”. 129 Cozinha futurista. Recordamos. meu caro Marinetti..indd 129 7/4/2009 15:51:22 . Marco Ramperti. temperada com molho de tomates. Angelo Frattini. Paolo Monelli. Giaquinto. sendo atento e amigo. No entanto. declarou que “os Anjos. Marinetti”: Caríssimo Lembra-se? Você escreveu. prefeito de Nápoles. parecida com o espaguete.

o mais jovem do seu regimento. o salto. como fez Esaú por um de lentilhas. reanimado. Veja como é feita. infelizmente. e. por Deus. Marinetti. Mas não renunciam ao macarrão. Então apareceu a sua insurreição convival. Por isso peço. entre os conversíveis. já se rebelam. grita-lhe o seu consenso pleno. Você vê como os italianos. 130 Cozinha futurista. para levar a bandeira desta sua última ofensiva. confesso-lhe. o macarrão voltará às mesas. e tornavam insuportáveis a minha presença na sua assembléia. deseperado. Parece-me que a revolução alimentar seja a mais cuidadosa ente quantas você tenha suscitado. o seu manifesto contra o macarrão: e eis que. predicar a barrigas cheias e corações desertos. que desta vez a batalha será fácil. E de fato parece a mais difícil. os intonarumores. oh! Marinetti. ou então de pedir a sua. Ah! Não creia. iluminado. fanático. esta nossa gente.indd 130 7/4/2009 15:51:22 . Capaz de renunciar a todos as comodidades. o passo de corrida: mas com sua porção de espaguete. reaver a primazia no mundo: dispostos. e não a um apetite. entre os passadistas sem remédio e sem direito. quem sabe por quanto tempo ainda. Aceitam o soco. a todas as vantagens. agora lhe peço. ai de mim. Mas creia-me: será necessário ter coragem. a ceder esta prioridade por um prato de macarrão. absoluto. As críticas serão muitas. o seu pálido futurista ad honorem passa de um salto da extrema direita para a extrema esquerda da sua assembléia. e entendem. tocados no epigástrio. Aceitam o tatilismo. Aceitam. muitas vezes os seus decretos-leis colocaram-me no cruel dilema de assinar a minha demissão. a honra de servir-lhe. e nós deveremos. justamente. todavia. Ainda que eu não seja. Desde aquele dia. refeito em um momento cheio de audácia fiel. enquanto poderia muito bem me deixar do lado de fora. as palavras em liberdade. tão sensíveis eram as discrepâncias.Fillippo Tommaso Marinetti direita.

velozes. chegará por fim o dia em que se convencerão que.A cozinha futurista    Não importa. à tenacidade e obstinação de certas atitudes do estômago. que é ele também uma escravidão. a não ser repensando. exceto a uma glutonaria. furibundos possíveis. vencendo tarde. limitar as próprias refeições à gota essencial e à migalha leonina. e existe o paladar do futurista. Não é a primeira vez que um povo nos ensina a saber renunciar a tudo. elétricos. que nos entope o esôfago. Que nos incha as bochechas. elasticidade e energia. Venceremos melhor. é também o menos maldito. o macarrão é precisamente o mais difundido e calamitoso. o conde de Gobineau. A nossa. Existe o calcanhar de Aquiles. se não fosse por uma salsicha com chucrute. e que nos prega à cadeira.indd 131 7/4/2009 15:51:22 . Na verdade. ativos. costumava dizer que do outro lado do Reno. O que quer dizer. ninguém saberia cometer uma vilania. é a mais conseqüente e lógica entre todas aquelas derivadas do seu manifesto cardinal de há vinte anos: e não se compreenderiam tantas resistências. no entanto. nada poderia ajudar mais do que o comer pouco e escolhido. repensando naquele Polichinelo que resistia a tudo. Já que os italianos consentiram ao princípio futurista que se façam os mais ágeis. Mas sendo o mais nefasto. Ora. exprime o seu verbo. este outro vício. mas em todo o caso deve ser 131 Cozinha futurista. esta outra abnegação? Liberemo-nos também do macarrão. como a estátuas de fontes. como em todas as boas revoluções. pode causar prazer ou vergonha. que nos liga as entranhas com os seus arames moles. É um juízo que me vem à mente. como a perus de Natal. justamente. esta sua última propaganda. e você tem cem razões para atacá-la ferozmente. E eis aqui a mola da sua revolta reparadora. com aquela sensação de inutilidade que. Este grande amor pelo macarrão é uma debilidade dos italianos. segundo o indivíduo. este outro hábito. Um francês que estimava os alemães. entre todos os alimentos estufantes e paralisantes que contradizem o seu programa de rapidez. repletos e estupefatos. estabelece a sua lei. exceto a uma porção de vermicelli. apopléticos e suspirantes. oh! Marinetti. para alcançar um tal estado de graça.

Fillippo Tommaso Marinetti detestada por quem ostente uma alma futurista. No fundo. subitamente. como em 1894 sabia-se quantas devorasse Francesco Crispi. disforme. um verdadeiro alimento italiano. um tempo. separar-se a deselegância e a imundície. 132 Cozinha futurista. meu caro Marinetti. Resumindo. cheios de chumbo. O sustento é mínimo se confrontado com o volume. o macarrão não nutre. como um tronco. naquele voluptuoso empanturrar-se. talvez para ter o direito de dizer em Genebra que também os italianos andam armados até os dentes: mas os espaguetes não foram tirados do nosso quadro folclorístico. que nós comíamos os espaguetes com as mãos: e talvez o sentido da maledicência era que não podiam. O seu gosto está todo naquele assalto com as mandíbulas tensas. naquela aderência total da massa ao paladar e às vísceras. o perigo e a desonra deste mito dos macarrões: macaroni que resultaram. E é uma imagem ofensiva: engraçada. feia. confundem-se. Depois nos concederam os garfos. O italiano das alegorias sempre tem a boca ávida arreganhada sobre um prato de tagliatelle. para uma tal gulodice. quando não é sobre vermicelli despejando molho ao longo de nossos ansiosos braços. Mas é certamente. como moedas falsas. E sentimo-nos. As palavras aglomeram-se do mesmo modo. Enche: não fortalece. Os pensamentos desfilam um dentro do outro. Mas é um gosto porco. O pouco molho que trazem aos lábios é o molho de tomate. aglomerados e amalgamados. naquele sentir-se unificado com ela. além dos Alpes. Seria necessário ensinar a vanidade deste nosso apetite. ou somente jovem e acordada. Não temos mais nem a sílaba fácil nem a imagem pronta. embaralhamse como os vermicelli absorvidos.indd 132 7/4/2009 15:51:22 . Sabe-se hoje em toda a Europa quantas porções dele come Primo Carnera. Mas é um prazer efêmero. O nosso macarrão é como a nossa retórica. sentados. os espaguetes infestam e pesam. Alguma coisa nos retém. Engolidos que são. em algumas metáforas indecorosas. que serve somente para encher a boca. ao lado de seu ímpeto bestial. voce entendeu perfeitamente. gostariam de dizer as alegorias malignas. Dizia-se.

É certo que se pensa. naquele momento. de todos os espíritos. quando não demolidos desde o princípio. O madrigal é insosso. Quanto paraíso perdido. excitar e envenenar com drogas e lavagens. que dê força e substância em pequenas 133 Cozinha futurista. É o encadeamento.A cozinha futurista    Pobre do que tiver perto. saboroso. erros de todo gênero. intervém na polêmica com esta carta a F. Eu juro que restariam imobilizados desde o primeiro movimento. a picardia é medíocre. ao tato e ao paladar.Marinetti: “Seu férvido admirador desde quando. Sabe-se que os pecados da gula são os mais rapidamente punidos pelo Senhor Deus. Parece que a preocupação de quem se ocupa de cozinha seja aquela de empanturrar. depois de uma orgia de tagliatelle.PENNINO. energético. enquanto deveria ser a de preparar um alimento sadio. se sonha. a argumentação é impossível.G. ou o exílio. rapaz. agradável à vista.T. seguia com apaixonado interesse as batalhas purificadoras que o senhor combatia entre a indiferença e a incompreensão dos italianos da época. contradições. se age de acordo com o que se bebe e se come. um interlocutor ou uma amante. Experimentem então. li com entusiasmo o manifesto da cozinha futurista. cronista-chefe da “Gazzetta del Popolo”. Aquele do macarrão expia-se no mesmo instante. conceituais ou amorosos. como é certo que – a propósito da alimentação – os homens debatem-se ainda hoje entre incertezas. partir para uma polêmica. por um momento de descuidada animalidade? Marco Ramperti *** V. interrompida como é pelos soluços do intestino. encher o ventrículo como se enche um saco. É a barriga que se incha à custa do cérebro. Ou mesmo para a arte de Vênus.indd 133 7/4/2009 15:51:22 .

Fillippo Tommaso Marinetti quantidades. por exemplo. globulinas. etc. É necessário abater outros ídolos. enfim. bendita a luta contra o funesto macarrão que com a sua cansativa digestão faz pesar o corpo e entorpecer o espírito. que o arroz é um alimento precioso.) a menos que com os absurdos cozimentos tais tesouros não sejam estupidamente destruídos e que. com o perfume de jardins tropicais e faça sonhar sem o uso de bebidas alcoólicas. é um alimento inútil que forma no estômago um bloco indigerível e deve ser substituído pelo integral perfumado e substancioso . então. de magnésio. (Olhe que sou napolitano e conheço todos os agouros deste alimento). de carne e ovos que são consumidos por aqueles que desejam 134 Cozinha futurista. que desperte a fantasia com imagens e panoramas agrestes. Bendita seja. quando a cozinha não mais for mais o reino de donas-de-casa ineptas e de cozinheiros ignorantes e envenenadores. vitaminas. a fantasia. “Mas a luta contra o macarrão não basta. a teoria das calorias e das necessidades de uma grande quantidade de albumina animal e de gorduras teve seu tempo. o gênio criador da raça alcançarão seu pleno desenvolvimento. pesado e insípido. a brisa renovadora e saneadora na pesada atmosfera das cozinhas da Itália. exterminar tradições erradas: afirmar que o pão branco. somente então a potência volitiva. e já foi demonstrado que uma pequena quantidade de alimento bem combinado segundo o conhecimento racional das necessidades do nosso organismo dá muito mais força e energia que pratos de macarrão. sais de cálcio.indd 134 7/4/2009 15:51:22 . a vivacidade. quando se conseguir criar e difundir uma alimentação que saiba conciliar a menor quantidade ao máximo de poder nutritivo explosivo dinâmico. Quando banirem das mesas da península o macarrão estufador e adormentador. mas contanto que não seja privado de suas substâncias fitínicas com o polimento . mas tornar-se-á uma forja de sábias combinações químicas e sensações estéticas. de potássio. que as verduras contêm verdadeiros tesouros para o organismo humano (ferro. fósforo.

indd 135 7/4/2009 15:51:22 . irrequieta. substanciosas podem-se criar pratos que dão aos olhos. em geral. “Assim a batalha que o senhor engajou – mesmo que se apresente duríssima. com as coisas mais simples. mas eles cometeram o erro de serem estrangeiros antes de tudo e muito caros. especialmente se o convite à química lançado pelo senhor encontrar entre os cientistas italianos boa acolhida. ao palato. Estes devem ser usados com grande parcimônia especialmente pelos trabalhadores intelectuais.A cozinha futurista    sustentar-se bem. Por outro lado. porque enquanto visa renovar um ambiente muito fortemente arraigado ao passado. ou tagliatelle à bolonhesa ou bistecas à Bismarck. Esperamos que os químicos italianos saibam fazer mais e melhor. os trabalhadores manuais e. deve ser por isso composta por três quartos dos maravilhosos produtos vegetais que nos são invejados por todo o mundo e por um quarto apenas de produtos animais. (O contrário do que acontece comumente). vulcânica. Um químico francês – o prof. enquanto os soldados. Cada povo deve ter a sua alimentação e aquela do povo italiano deve ser baseada nos produtos desta terra quente. sadias. quem desenvolve grande atividade física podem fazer maior uso deles. Mono – inventou os “alimentos concentrados” cuja eficácia experimentei. É bom que se saiba que uma cenoura crua finamente ralada com óleo e limão. junto com um pouco de nozes e um pedaço de pão preto são para a caldeira humana um combustível muito mais idôneo e rentável que os famigerados macarrão ao ragu. porque deve lutar contra tradições radicadas e tenazes. contra interesses formidáveis e contra a ignorância difusa – deverá encontrar muitos consensos na Itália de hoje. 135 Cozinha futurista. tem uma enorme importância social e econômica. à fantasia sensações bem mais intensas que os alimentos que hoje desempenham um belo papel nas melhores mesas. um prato de cebolas ou de azeitonas ou estas coisas combinadas.

mas pensei que não deveria ser-lhe desimportante – entre os muitíssimos que indubitavelmente receberá – o entusiástico consenso de um modesto estudioso dos problemas da alimentação”... que me foi sugerida pelo seu belíssimo Manifesto. afirma ainda: “necessidade de inovação. o nosso povinho está ainda numa fase primitiva. na carta direta ao jornal “A Cozinha Italiana”. Schopenhauer e o macarrão O Dr.V. recordamos os mais originais: O cozinheiro-chefe do Rei O Cavalheiro Pettini. Cozinheiro-Chefe de Sua Majestade o Rei da Itália. Angelo Vasta.. 136 Cozinha futurista. ameaçam a inteligência” e mais outros.PENNINO *** Dos muitos artigos surgidos a favor da luta futurista contra o macarrão. qualificou-o genialmente como a alimentação dos resignados.Fillippo Tommaso Marinetti “Desculpe se me permiti enviar-lhe esta apressada nota. mas justamente convém recordar o que escrevia o seu concidadão Dr. traz ao debate uma palavra precisa: “Não há dúvidas de que todos os farináceos deixam o corpo pesado e em conseqüência.indd 136 7/4/2009 15:51:22 . observando o seu alimento quotidiano. Carito em “Humanidade Artrítica”: . Não fez maiores progressos desde o tempo em que Schopenhauer. em um artigo sobre a cozinha futurista. G. que também ela deve responder aos tempos e talvez até antecedê-los”.. observa: “os napolitanos rebelaram-se. de modernismo também na cozinha.

Em tudo o que diz respeito a alimentação. quando o bom e douto rapaz natural de Rapallo curava a Papas e príncipes. em um longo artigo “Contribuição para uma arte culinária futurista” propõe algumas inovações alimentares. mas que não se submetia à digestão de grandes quantidades de “trenette” e de carvão. prelados e ministros. os tagliarinis etc. De onde a nomeada ‘indolência’ com que fomos marcados e vilipendiados nos séculos anteriores. gente dinâmica. as lasanhas. movimento.indd 137 7/4/2009 15:51:22 . sim. exercícios esportivos devemos radicalmente reformarmo-nos. Amedeo Pescio insurge contra aqueles que chamam glória e honra dos genoveses os raviólis. falando de Gênova) escreveu: “A prática em arte cirúrgica”. até as assim ditas ‘dirigentes’..A cozinha futurista    “Ai de mim! mesmo as nossas classes altas.” Um médico do século XIV contra o macarrão Em um artigo do “Século XIX” de Gênova.. a recomendação. O macarrão é de origem ostrogoda Libero Glauco Silvano. E escreve: “Giovanni de Vigo iniciou a campanha contra o macarrão no século XIV. não sabem alimentar-se bem! De onde o torpor da vida fisiológica com os seus inevitáveis reflexos nefastos na esfera psíquica.. Reproduzimos aqui parte de seu divertido artigo contra o macarrão: 137 Cozinha futurista. No IX e último livro encontrar-se-á uma advertência explícita e formal contra o abuso do macarrão. Então o grandíssimo cirurgião da nossa cidade (como ele dizia. a prescrição quase marinettiana ao muito inchado século XIV: todos os alimentos de massa devem ser usados pouquíssimas vezes “pasti alia denique et victualia paste rarissime sunt concedenda”. intelectuais.

por Deus. pergunto-me. et il bolliva- 138 Cozinha futurista. Ergo. per virtude della femina del cuoco. girava os olhos em torno como para impor respeito e reverência. na casa do pobre ou do rico. adiposas como beldades de marinheiros. havia trabalhado ultimamente para enobrecê-lo. lo quà prence affidato avealo a Rotufo. por azeite rançoso e caprino. Mesmo o nome relembrava o povo. tumultuosa e invasora: e não importa onde entrasse. idest in Ravenia. coco suo genialissimo.Fillippo Tommaso Marinetti Era tempo de acabar. Um bom cozinheiro. discípulo e êmulo de BrillatSavarin. tosco e oleoso de sujeira. ao tomate ou como mais lhe agrada. fazia-nos a figura de uma chimpanzé em um salão de damas sentimentais: e somente por um equivocado respeito à tradição continuava-se a suportar o seu fedor plebeu. Entretanto. Dieto macarono erat di spulcia (leggi spelta) et hebbe sua prima dimora in la regia del magno prence Teodarico. Teve sempre a mesma barriga.indd 138 7/4/2009 15:51:22 . confidogli la esistenzia dello nominato macarono. sob as novas aparências tinha o modo e a vulgaridade do vilão refeito e de nada lhe valia a contínua freqüência com aquele agraciado e epicúreo mestre que se chama manteiga. gli quai molto e volantieri con essolui si solaciavano. para tirar-lhe de cima aquele tango de canalhice: haviam-no persuadido a não fazê-lo acompanhar por arrogantes e desavergonhadas cebolas. em meio ao qual havia nascido: macarrão. por certos alhos pálidos e consumidos por vícios ocultos. com um alimento bárbaro que vivia como um parasita em nossa civilização: falo dos macarrões ao sugo. os seus títulos nobiliários? A “Cronaca degli Memorabilia” de Dacovio Saraceno. por sorte. como se descendesse de um lombo muito magnânimo para não dever considerar ainda menos o restante das criaturas gastronômicas. che avevasi invaghito dello ofiziale di guardia al palacio et al quale. Il conobbero gli sudditi dello rege. existe para cantar-nos vida e milagres: “lo macarono nato fue et notricato appo gli Ostragoti. Mas quais eram. mesmo entre outros igualmente bestiais. tra un baciuzzo et un baciozzo. lo amore per essolui macarono s’espanse per lo populo omne. Este prato.

em seu retorno da China. pela excessiva felicidade. diz o biógrafo. Parece-me vê-los. limpando a boca sob os bigodes. meterem-se a cavar grandes buracos na grama com as pesadas adagas e acocorar-se ao redor. cujo cultivo havia-se extendido muito desde quando o irmão Serenio. o grande escritor não conseguia digeri-los nem mesmo assim”. et leccavansi digita et grugno”1. tão arraigada era a tradição. de poder fazê-lo de outro modo. engolia o macarrão já que não devia nem mesmo passar-lhe pela mente. como comumente se afirma (confrontar a este respeito a obra definitiva de exegese histórica escrita por Valbo Scaravacio. em verdade. et il condivano cum suggo (sic) di cedriollo. Talvez porque Boccaccio. as dignas consortes.A cozinha futurista    no cum cipoglia et alio et pastonacca. de Boccaccio informa que o autor do Decamerão exigia de sua esposa que temperasse os macarrões com leite de amêndoas amargas: “mas. em angelical espera. acrescento eu. Depois. os bigodudos Ostrogodos. Foi somente na Alta Idade Média (Cordazio Camaldolese: Pietanzie in usaggio appo aliquante nostre terre et regioni et insule et peninsule et similia con spiegato lor modo di prepararle in cucina 2) que os pepinos foram substituídos por tomates. Entretanto. muitas vezes prolixo. tinha bom gosto demais para aceitar placidamente aquele prato: e. intitulada “Verdade e despropósito”). lambiam-se os dedos e a cara! Era bem adequada aos seus insensíveis paladares aquela lavagem monstruosa temperada com suco de pepinos. trouxe a preciosa semente – e não larvas de bicho-da-seda. 139 Cozinha futurista. de qualquer forma mandasse prepará-lo. de boa ou má vontade que fosse. sobre as bochechas cheias terrosas. cansadíssimas e imundas. Ah! Os gentis senhores elegantíssimos. seu paladar aristocrático o refutava. Um biográfo bastante minucioso. vinham despejar no prato improvisado a verminalha viscosa dos “macarrões” e os braços peludos mergulhavam até os cotovelos no buraco fumegante e as bocas se abriam – nhau nhau – e os olhos lacrimejavam.indd 139 7/4/2009 15:51:22 .

Que porcaria.Fillippo Tommaso Marinetti Por pouco.indd 140 7/4/2009 15:51:22 . muito difundidas. Uma última tentativa foi feita na primeira metade de século XIX pelo grande Michele Scrofetta. iniciaram uma campanha ativa para que a humanidade se libertasse dos arreios da escravidão. Somos. Puah. mesmo se quase inconscientemente engolia macarrão três vezes ao dia: manhã. naquele tempo. no último estágio do renascimento. nós filhos do século. Foram escritos inúmeros opúsculos e volumes de vários tamanhos: as gazetas. seguros de que a razão de muitos males provinha daquela alimentação. eis que o vil e barulhento Aretino recoloca-a sobre os altares: e qual melhor meio de propaganda que as suas excitantes musas em carne e osso? Os que se banquetearam à sua mesa tornaram-se férvidos defensores do macarrão. os desenhos. compôs um rosário de sonetos para o alto elogio do alimento “a que nada pode ser comparado. Ao final do século XVIII muitos nobres engenhos. para tornar-se benemérito aos olhos do digno senhor. e um destes. a maldita lavagem não foi sepultada no esquecimento. de cuja benemerência é inútil falar. as fotografias e todo acidente que os representava: e as editoras retiraram do mercado 140 Cozinha futurista. Quando já não se falava quase nunca dela. Deveria caber à nossa época a ventura de repudiar definitivamente este costume bárbaro. traziam artigos de pessoas que haviam adquirido grande autoridade nos campos das Ciências e das Letras: mas tudo foi inútil contra a abstenção das plebes também porque. o macarrão: por dizer. muito despreocupados para não mandar ao diabo macarrão e acessórios sem nem mesmo a carta de referências: e ninguém os lamentará ou espalhará ternas lágrimas. trata-se de Martone Dagorazzi e suas cem composições poéticas intitulam-se: “A ambrosia dos homens”. meio-dia e noite. nem mesmo a ambrosia”. sendo conhecido por todos: e nem mesmo o eminente cientista alcançou algo concreto. a panacéia universal. desapareceram das casas os quadros. havia-se difundido a superstição de que o macarrão fosse o antídoto para toda doença.

frescor do intelectualismo italiano”. somente de ouvir-lhe o nome – macarrão. sob uma rigorosa avaliação. Em alguns meses. é colossal: para destruir basta uma única mão que acenda um pavio. pacifistas e congestionantes argumentações do amidáceo mais ilustre do mundo. Aliás. polemiza com “as torpes. E conclui: “estou com o Maestro na violenta batalha pela saúde. mostram-se indignos de receber as graças de nossos gourmets e dos honestos pais de família e da prole estudiosíssima. Existem outros pratos que. sobre os velhos livros de receita. Elas sentem obcuramente que este ou aquele modo não estão certos. apagando sem piedade. deva-se fazer uma grande limpeza. se bem que notabilíssima. estou convencido que.indd 141 7/4/2009 15:51:22 . Batalha pela saúde. 141 Cozinha futurista.A cozinha futurista    todas as suas edições para submetê-las a uma rigorosa censura. puah – as pessoas vomitarão até os intestinos. As nossas donas-de-casa continuam a preparar os alimentos à moda antiga porque não saberiam como fazê-lo de outra forma. não nos faça dormir sobre louros. agilidade. A tarefa. Chefe da Central de Notícias de Bolonha. agilidade. Quero todavia acreditar que esta vitória. reimprimindo mesmo quando se fez necessário. mas para reconstruir são necessárias milhares e milhares de mãos. o bloco resistente do funestamente celebrado macarrão napolitano ou bolonhês”. mas ignoram a que outro santo voltar-se. E vejam que já surgiu o primeiro núcleo de estudiosos que buscam oferecer uma cozinha adequada aos tempos. frescor. do intelectualismo italiano Ferdinando Collai. no entanto.

não poderia oferecer. já que sobre sua cozinha de batalhão rolavam de vez em quando enormes barris austríacos que destruíam os fogões: Marinetti duvidou então pela primeira vez do macarrão como alimento de guerra. Isto talvez fosse verdade para os alpinos que. recebeu de um soldado ex-cozinheiro de Savini um milagroso brodo de frango: aquele sagaz e oportuno cozinheiro. na Vertoibizza. congelados e transformados pelos tiros dos esquadrões inimigos que separavam os atendentes e os cozinheiros dos combatentes. em Nervesa e em Cabo Sile estão prontos a testemunhar que sempre comeram péssimos macarrões. barracas bem aparelhadas e decoradas e sábias cozinhas. atrasados. refúgios cômodos. escaladas e avalanches. transportado a Plava de maca. entre todos os combatentes. em sua defesa ao macarrão declara-o ideal alimento para os combatentes. Quem poderia esperar um macarrão quente e “al dente”? Marinetti ferido nas Casas de Zagora na ofensiva de maio de 1917. *** Além de muitas adesões de cozinheiros.Fillippo Tommaso Marinetti O macarrão não é alimento para os combatentes Paolo Monelli. a polêmica sobre a cozinha futurista deu vida a toda uma série de artigos 142 Cozinha futurista. Para os bombardeiros de Vertoibizza. o alimento comum era chocolate sujo de lama e de vez em quando um bife de cavalo cozido em uma panelinha lavada com água de colônia. após as batalhas. sanitaristas e artistas. por mais zeloso e devoto que fosse ao simpático cliente de uma única vez. um macarrão comestível. como Marinetti. Isto não é verdade para as tropas que combatem em solo plano. em Selo. em Plava e nos reinos de Zagora e depois na Casa Dus. Os futuristas que combateram em Doberbó.indd 142 7/4/2009 15:51:22 . a improvisar equipamentos perfeitos. nem com sua maior boa vontade. são os mais prontos.

Preparons des 143 Cozinha futurista. que l’on rêve. que l’on agit selon ce que l’on boit et mange. et de s’empêtrer dans une lourdeur opaque et aveugle.Marinetti vient de lancer le manifeste de la cuisine futuriste “Le futurisme italien. au bout de vingt ans de grandes batailles artistiques et politiques souvent consacrées dans le sang. notre palais. nos papilles gustatives. alimento italiano que deve ser sempre mais propagandeado e usado. ténacité héroïque. no número de 20 de janeiro de 1931: F.indd 143 7/4/2009 15:51:22 . A opinião mundial Explodiu em Paris a polêmica sobre a cozinha futurista após a publicação do manifesto de Marinetti no jornal “Comoedia”. Tout em reconaissant que des hommes mal nourris ont créé des grandes choses dans le passé. Nous sentons la necessité d’êmpecher l’Italien de devenir cubique et poussif. élan. lumière. les sécretions de nos glandes et pénétrons génialement dans le domaine de la chimie gastronomique. nous affirmons cette verité: que l’on pense. au contraire. toujours mieux avec la transparence légère. Consultons à ce sujet nos lèvres.A cozinha futurista    e de estudos sobre a qualidade do “arroz”. faite de passion. affronte encore aujourd’hui l’impopularité avec un programme de rénovation intégrale de la cuisine.T. notre langue. Qu’il se harmonise. et spiralique de la femme italienne. tendresse. volonté.

Les machines formeront bientôt un prolétariat servile. Nous proclamons tout nécessaires: 1) L’abolition de la pastasciutta. Les défenseurs de la pâte en portent dans l’estomac des ruines. 4) L’abolition de la répétition quotidienne des plaisirs du palais. et la dégustation de repas parfaits. intuitive et passioné des Napolitains. préparons dès à present l’alimentation la mieux faite pour une existence toujours plus aérienne et rapide.Fillippo Tommaso Marinetti corps agiles pour les trains extra-légers d’aluminium de l’avenir. Nous invitons la chimie à donner au plus tôt les calories nécessaires au corps. de composés albumineux. et le reste du temps pourra être ennobli par la pensée. Le travail quotodien se réduira à deux ou trois heures. à l’âme généreuse. On fera baisser ainsi le prix de la vie et les salaires. Le repas parfait exige une harmonie original de la table (cristaux. La pâte ne fait pas de bien aux Italiens. apprêts). en poudre ou en pillules. elle fait obstacle à l’esprit vivace. avec la saveur et la coloration des mets. 2) L’abolition de poids et du volume dans l’appréciation des aliments. vaisselle. en réduisant les heures de travail. 3) L’abolition des condiments traditionnels.indd 144 7/4/2009 15:51:23 . qui remplaceront les trains pesants de fer et d’acier. au service d’hommes presque allégés de toute occupation manuelle. et de vitamines. ainsi qu’une originalité absolue de ceux-ci. comme les fuseaux rétrogrades de Pénélopes ou les voiliers somnolents en quête de vent. absurde religion gastronomique italienne. les arts. d’hydrates de carbone. comme les archéologues. Elle enserre les Italiens dans ses méandres. Convaincus que le peuple le plus agile l’emportera dans les compétitions futures. grâce à l’absortion d’équivalents nutritifs gratuits. Exemples: 144 Cozinha futurista.

Au moment de servir. posez sur les tranches des filets d’anchois croisés. Mettez la sauce dans la saucière et servez bien chaud. videz-la. Servez avec une sauce faite de vin blanc. recouvrez-la avec des tranches de jambon et de lard. chef de la Plume d’Oie). Ajoutez des tomates coupés en deux. Le repas parfait exige aussi l’invention d’ensembles plastiques savoureux. dont l’harmonie originale de forme et de couleur nourisse les yeux. que vous aurez fait cuire au gril avec ail et persil. sel.indd 145 7/4/2009 15:51:23 . on le coupe en tranches. (Recette de Bulgheroni. (Recette de Bulgheroni). remettez au tour jusqu’à complète cuisson de la pâte. posez-la sur un canapé de pain grillé. on le passe au gril. Bécasse au Monterosa en sauce Vénus Prenez une belle bécasse.A cozinha futurista    Saumon de l’Alaska aux rayons de soleil en sauce Mars On prend un beau saumon de l’Alaska. et excite l’imagination avant de tenter les lèvres. arrosée d’un petite verre de liqueur Aurum et passé au tamis. de jaunes d’oeufs durs. et sur chaque tranche un disque de citron aux câpres. et faites-la cuire au four très chaud pendant un quart d’heure. poivre et genièvre. mettez-la en casserole avec beurre. La sauce sera faite d’anchois. de quattre cuillerées de myrtilles. en l’arrosant de cognac. d’un demi-verre de marsala. de découpures d’ecorce d’orange. bouillie pendant dix minutes. de basilic. en l’assaisonnant de poivre. trempé de rhum et de cognac. et recouvrez-la d’un feuilleté. de sel et d’huile fine. jusqu’à ce qu’il soit bien doré. A peine retirée de la casserole. Exemples: 145 Cozinha futurista. d’huile d’olive.

indd 146 7/4/2009 15:51:23 . 146 Cozinha futurista. pour ne pas distraire la sensibilité de la langue et du palais. colorés. Le sommet du cône sera criblé de truffes. se dresse un cône de blancs d’oeufs montés et piqués de quartiers d’orange. découpées en forme d’aéroplanes nègres à la conquête du zenith. comme de juteuses sections de soleil. Le repas parfait exige enfin: L’abolition de la fourchette et du couteau pour les ensembles plastiques susceptibles de donner un plaisir tactile prélabial. créé par le peintre futuriste Fillìa. interprétation synthetique des paysages italiens. Au centre. on la couronne d’un chapeau de miel. On la dispose verticalement en cylindre au milieu du plat. et rôtie au four. parfumés et tactiles formeront de parfaits repas simultanéistes.Fillippo Tommaso Marinetti Le “Viandesculpté” Le Viandesculpté. est composé d’une épaule de veau roulée. qui sera chassé de la table à l’aide de ventilateurs. et on l’entoure à la base d’un anneau de saucisses posé sur trois boulettes de viande de poulet hachée et dorée au feu. farcie de onze qualités de lègumes verts. mais seulement dans les intervalles des plats. L’usage d’un art des parfums pour favoriser la dégustation. de poivre et de jus de citron. L’usage de la musique. Equateur + Pôle Nord L’ensemble plastique comestible Equateur + Pôle Nord créé par le peintre futuriste Enrico Prampolini. Chaque plat doit être précédé d’un parfum. se compose d’une mer équatoriale de jaunes d’oeufs arrosés de sel. Ces ensembles plastiques savoureux.

trop poivré. et en refaisant une virginité dégustative. moulins colloïdaux pour pulveriser les farines. en tant qu’ingrédients improvisés pour allumer la saveur d’un plat avec leur intensité sensuelle. trop salé. électrolyseurs pour décomposer les sucs et les extraits et obtenir. La présentation rapide. le cours d’une passion amoureuse.A cozinha futurista    tout en effaçant la saveur précédente. dans l’intervalle des mets. qui contiennent dix ou vingt saveurs à déguster en très peu de temps. des propriétés nouvelles. appareils de distillation à pression ordinaire et dans le vide. dans la cuisine futuriste. des appareils indicateurs enregisteront l’acidité ou l’alcalinité des sauces. L’abolition de l’éloquence et de la politique à table.T.Marinetti 147 Cozinha futurista. pour un produit nouveau. de certains plats qu’ils mangeront et d’autres qu’ils ne mangeront pas. L’usage de ces appareils devra être scientifique. et serviront à corriger les erreurs: trop fade. Enfin. L’usage tempéré de la poésie et de la musique. et l’imagination. sous les yeux et sous le nez des convives. pour exciter la curionsité.indd 147 7/4/2009 15:51:23 .” F. et dialyseurs. Une bouchée pourra résumer une tranche entière d’existence. de manière à éviter par exemple l’erreur de faire cuire les mets dans des marmites à pression. lampes à rayons ultraviolets pour rendre les substances alimentaires plus actives et assimilables. la même fonction d’annalogie amplifiante que les images en littérature. les frutis secs et les épices à un très haut degré de dispersion. la surprise. Ces bouchées auront. Une dotation d’instruments scientifiques en cuisine: ozoniseurs pour donner le parfum de l’ozone aux liquides et mets. marmites autoclaves centrifuges. ou un voyage en Extrême-Orient. La création de bouchées simultanéistes et changeantes. dont la haute température provoquerait la destruction des vitamines.

sim. como os seus paradoxos à educação estética: é preciso chacoalhar a matéria para acordar o espírito.. É toda uma moral que Marinetti desventra. isto é. “Trata-se hoje de refazer o homem italiano. Porque a sua digestão é uma ruminação traiçoeira. ao ritmo pegajoso e conciliante dos indolentes.Fillippo Tommaso Marinetti Damos a tradução do arguto artigo que o jornalista francês Audisio lançou. daquela indiferença amável.. mas duvidamos dele acima de tudo se preparado à maneira romana. e uma ação enérgica: vejam o negro. aos sonhos vazios. agora ele frustra a felicidade hipócrita da digestão. o macarrão é mesmo uma ditadura do estômago.indd 148 7/4/2009 15:51:23 . “Há um ano dizíamos que Marinetti castigava o pudor hipócrita e a mentira da inteligência. Ele se recorda sem dúvida dos belos tempos 148 Cozinha futurista. de Horácio a Panzini. lenta. sob esta nuvem cozinhária. uma decisão rápida. pois de que adianta levantar o braço numa saudação romana. daquela ironia serena. e esse é o suculento veneno que estraga o fígado para grande alegria do estômago. pela qual a Roma eterna. desafia o passo dos tempos. para ter pensamentos claros. daquela sapiência transcendental. cru. “Deve-se regá-lo sobretudo com Salerno ou Frascati para compreender a lentidão do povinho e dos prelados romanos ou napolitanos. que convida às torpes fantasias. à renúncia cética. a favor da cozinha futurista: “Sim. sob o sol. no jornal “Comoedia”. se pode repousá-lo sem esforço sobre o seu ventre gordo? O homem moderno deve ter a barriga reta. Nós não somos daqueles que o desprezam. que são também a origem do sentimento lânguido. vejam o árabe. ela traz consigo um torpor que beira a felicidade. e até o amamos. O paradoxo gastronômico de Marinetti visa à educação moral.

Outros artigos na Reinisch-Westfalische Zeitung. É significativa a entrevista do jornal Je suis partout com Marinetti e o artigo de fundo. alemães etc. de Tóquio a Sidney. Jornais de Budapeste a Tunísia.indd 149 7/4/2009 15:51:23 . americanos. comentários. e no Nieuwe Rotterdamsche Courant. according to word received yesterday in Paris. publicando também poesias polêmicas. sob o céu de Paris. O Times de Londres voltou repetidamente ao tema com escritos diversos. este artigo. 149 Cozinha futurista. que relevam a importância da batalha futurista “contra os alimentos tristemente miseráveis”.” *** À publicação em “Comoedia” seguiram-se artigos. na primeira página. No more spaghetti for the Italians. ingleses. de Essen. Knives and Forks for All are banned in Futurist Manifesto on Cooking Marinetti. caricaturas e discussões nos maiores jornais franceses. do jornal Le petit marseillais sobre a cozinha futurista. Practically everything connected with the traditional pleasures of the gourmet will be swept away. plantava a semente de uma revolução mundial dos espíritos. father of Futurist art. Longo artigo “ITALY MAY DOWN SPAGHETTI” no Chicago Tribune. esteve entre os primeiros a agitar a polêmica sobre a cozinha futurista: Spaghetti for Italians. literature and drama. Entre estes tantos. que apareceu no The Herald. No more knives and forks. has just issued from Rome a manifesto launching Futurist cooking.A cozinha futurista    violentos nos quais.

Modern science will be employed in the preparation of sauces and a device similar to litmus paper will be used in a Futuristic kitchen in order to determine the proper degree of acidity or alkalinity in any given sauce. for whith ideal rapid service. 150 Cozinha futurista. an experience such as a love affair or a journey may be suggested. Electrolysis will also be used to decompose sugar and other extracts. and increased speed. Music will be banished from the table except in rare instances when it whill be used to sustain the mood of a former course until the next can be served. published in the “Comoedia”. Among the new kitchen and dining-room instruments suggested by Marinetti is an “ozonizer” which will give to liquids the taste and perfume of the ozone. In fact. give the principal feature of the new cuisine as a rapid sucession of dishes which contain but one one mouthful or even a fraction of a mouthful. also ultra-violet lamps to render certain chemicals in the cooking more active.indd 150 7/4/2009 15:51:23 .Fillippo Tommaso Marinetti No more after-dinner speeches will be tolerated by the new cult. The first step would be the elimination of edible pastes from the diet of Italians”. the cooking of the future must conform to the ends of evolution. The new Futuristic meal will petmit a literary influence to pervade the dining-room. by means of single sucessive mouthfuls. “Since everything in modern civilization tends toward elimination of weight. in the ideal Futuristic meal. several dishes will be passed beneath the nose of the diner in order to excite his curiosity or to provide a suitable contrast. in order to vary the effects of heat. and such supplementary courses will not be eaten at all. Details of the manifesto. Also certains dishes will be cooked under high preassure. Marinetti writes.

Besides the abolition of macaroni. para o desarmamento e pela crise universal. Contra a cozinha do Grande Hotel e a estrangeirofilia Entre as cozinhas que hoje imperam. Na Itália. como em quase todos os países do mundo. não possam elucidar nada e concluir pouco depois de ter engolido tais alimentos deprimentes. M. stuffed with eleven kinds of vegetables. Marinetti advocates doing away with the ordinary condiments now in use. Marinetticalls attention to a Futuristic painting of a synthetic landscape made up of food-stuffs.indd 151 7/4/2009 15:51:23 . by Fillìa. so that when a real banquet is 3 spread it may be appreciated aesthetically. could not be attacked whith a knife and fork and cut into haphazard sections before being eaten. e os fecha a todos com um doce gelatinoso e trêmulo adequado a bocas doentes. The Futurist leader also pleads for discontinuance of daily eating for pleasure. and a consistent lightening of weight and reduction of volume of food-stuffs. submetemonos a este tipo de cozinha internacional de grande hotel unicamente 151 Cozinha futurista. The landscape is composed of a roast of veal. entristecedores e monotonizantes. É lógico que os homens políticos de todos os países que se reúnem para as grandes convenções.A cozinha futurista    As a model for the presentation of a Futuristic meal. para a revisão de tratados. This is one of the meals which. For ordinary daily nourishment he recommends scientific nourishment by means os pills and powders. placed vertically upon a plate and crowned with honey. under the new system. aquela que nós consideramos mais detestável e mais repugnante é a cozinha internacional de grandes hotéis que abrem todos os grandes banquetes oficiais com um brodo no qual bóiam 4 ou 5 bolinhas de massa real moles e insípidas.

falta de educação. A Gazzetta del Popolo de 24 de setembro de 1931 publicou este manifesto de Marinetti contra a estrangeirofilia: Contra a estrangeirofilia Manifesto futurista às senhoras e aos intelectuais “Apesar da força imperial do Fascismo. 2) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os intérpretes italianos de fama mundial (artistas do canto. estrangeirófilo. a palavra estrangeirofilia. são infelizmente mais indispensáveis a cada dia.indd 152 7/4/2009 15:51:23 . domina uma mania bestial a que chamamos estrangeirofilia. 1) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os jovens italianos que caem em um êxtase cretino diante de qualquer estrangeira também agora que a crise mundial as empobrece. inventadas por nós. e que deve ser combatida violentamente. 3) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os regentes de orquestra e o público italiano que organizam ou aplaudem 152 Cozinha futurista. antitalianidade ou feiúra) somente porque elas não falam a língua italiana e vêm de países longínquos ignorados ou pouco conhecidos.Fillippo Tommaso Marinetti porque vem do estrangeiro. Exemplo: o excelente e célebre regente Arturo Toscanini que antepôs o seu sucesso pessoal ao prestígio da sua pátria ao renegar os seus hinos nacionais por delicadeza artística e executou os estrangeiros por oportunismo. Infelizmente. concertistas e regentes de orquestra) quando se incham até esquecerem-se que o intérprete é o servo útil não necessário do gênio criador. e enamoram-se delas por esnobismo e às vezes desposam-nas absolvendo-as de todo defeito (prepotência.

privilegiam os episódios irrelevantes como Caporetto. 9) São estrangeirófilas e portanto antitalianas as assembléias que ao invés de taxar como infâmia. 6) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os históricos e os críticos militares que. preferem proclamarse filhos de inovadores franceses. definem “pecadinhos lícitos” as ofensas escritas e publicadas por literatos italianos contra a Itália. 8) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os pintores. maleducadamente. espanhóis. variada e divertida) com a esperança de parecer. da nossa grande guerra vitoriosa... 7) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os literatos ilustres que denigrem.indd 153 7/4/2009 15:51:23 .A cozinha futurista    concertos no exterior quase sem música italiana. máquinas ou aparelhos não inteiramente idealizados e construídos na Itália. Um patriotismo elementar exige pelo menos metade de música italiana moderna ou futurista em substituição àquela de Beethoven. cada um. 153 Cozinha futurista. à maneira de muitos novecentistas e de muitos racionalistas. já apreciadas. no exterior.. 4) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os públicos italianos que aplaudem ao invés de vaiar os regentes estrangeiros quando. Bach. criador da nova arquitetura. esquecem a música italiana em seus concertos na Itália. os escultores e os arquitetos italianos que. penetradas e admiradas por todos até a saciedade. criador da nova plástica e Sant’Elia. um gênio altíssimo em um povo de medíocres iletrados. contra o nosso exército e contra a nossa grande guerra vitoriosa. Le Corbusier ao invés de filhos de autênticos inovadores italianos como Boccioni. Picasso. Brahms etc. 5) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os industriais italianos que encontram mil pretextos para refutar uma batalha decisiva com a indústria estrangeira e têm orgulho de vencer disputas internacionais com produtos. suíços como Cézanne. toda a literatura italiana (hoje original.

babando-se.indd 154 7/4/2009 15:51:23 . E basta que a palavra “bar” seja substituída pela italianíssima “Aquisebebe”. Nestes encontros será premiada a melhor qualidade do vinho que as une. produtos estrangeiros com olhares céticos e pessimistas para os produtos italianos. presos pela criticomania. nós lhe rogamos a substituir o “cocktailparty” por convenções vespertinas que poderão chamar à vontade de o Asti espumante da senhora B. Exemplo: o esnobismo americano do álcool e do “cocktail-party”. vaiam sistematica- 154 Cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti 10) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os hoteleiros e negociantes que não aproveitam os rápidos e eficazes meios que têm à sua disposição para influenciar italianamente o mundo (uso da língua italiana nos cartazes. 12) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade. mas certamente nocivos à nossa raça. Consideramos portanto cafona e cretina a senhora italiana que participa orgulhosamente de um “cocktail-party” e relativa disputa alcoólica. talvez adequados à raça norte-americana. o Barbaresco da condessa C. os italianos e as italianas que saúdam romanamente e depois nos negócios pedem. enamorados pela paisagem e pelo clima da Itália. Cretina e cafona a senhora italiana que acha mais elegante dizer: “bebi quatro cocktails” do que dizer: “comi um minestrone”. logotipos e nos cardápios). 11) São estrangeirófilas e portanto culpadas de antitalianidade as senhoras italianas da aristocracia e da alta burguesia que se estusiasmam pelos costumes e esnobismos estrangeiros. ou o Capri branco da princesa D. podem também admirar e estudar a sua língua. 13) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os públicos italianos que. esquecendo-se de que os estrangeiros. A menos que ela se submeta à invejada superioridade financeira do exterior. Elegantes senhoras italianas. superioridade agora já destruída pela crise mundial..

15) São estrangeirófilos e portanto culpadas de antitalianidade as cultas senhoras e os críticos da Itália. Joyce e outros iniciamos em Londres.A cozinha futurista    mente comédias e filmes italianos favorecendo assim a invasão de medíocres comédias e filmes estrangeiros. esquecendo-se dos italianos. gritamos hoje: a) A palavra Itália deve dominar sobre a palavra: gênio. 155 Cozinha futurista. não criticadas nem ameaçadas por inimigos externos. que vinte anos atrás. não teria acontecido sem o Futurismo italiano” e esta também explícita declaração de Antoine no Journal de Paris: “Nas artes decorativas os caminhos foram há tempos abertos pela escola de Marinetti”. capazes de ensinar ao mundo. deve considerar o orgulho nacional como sua primeira lei de vida. b) A palavra Itália deve dominar sobre a palavra: inteligência. Outras Nações. cujo cérebro foi desenvelhecido e agilizado pelo Futurismo italiano. pouco populosas. Eliot. em pleno enfraquecimento parlamentar social-democrático-comunista-clerical gritávamos: “A palavra Itália deve dominar sobre a palavra Liberdade!”.indd 155 7/4/2009 15:51:23 . e que mesmo assim criticamno ou relevam-no para correr a pescar preciosamente Futurismos estrangeiros todos derivados do nosso. Antitalianamente eles esquecem por exemplo esta explícita declaração do poeta futurista inglês Ezra Pound a um jornalista americano: “O movimento que eu. pronta para explodir para realizar o seu imenso destino. cochilando sob o zumbido de complôs revolucionários que podem ser sedados. podem. considerar o orgulho nacional como um artigo de luxo. invejada e ameaçada por todos. 14) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os empresários italianos que procuram no exterior professores de teatro e cenógrafos. nós futuristas. A nossa viril feroz dinâmica e dramática península. Por isso.

T. pai da arte. ao primeiro perigo. e tive na Itália mais vaias do que aplausos e apesar disso agradeço a cada dia as forças cósmicas que me deram a alta honra de nascer italiano.indd 156 7/4/2009 15:51:23 . contra as nações estrangeiras. na inquietude de uma paz em equilíbrio. Escrevo tudo isto com a serenidade de um patriotismo adamantino. nunca contra a Itália.” F. nós. construir uma descuidada cúpula dupla de mármore em oferta ao inimigo. literatura e drama futuristas. nós brutalmente dizemos: Lembrem-se sempre desta obra-prima italiana que supera até mesmo a Divina Comédia: “Vittorio Veneto”. Facas e Garfos para Todos são banidos no Manifesto da Cozinha Futurista Marinetti. simbolizado pelos escombros do Império Austro-Húngaro que os nossos blindados tiveram que superar na estrada de Tarvisio. Que o fogo da crítica seja direto. eu que fui aplaudidíssimo no Exterior.Marinetti Espaguete para Italianos. filósofos e filósofas) que tentam hoje. Indulgência plenária na arte e na vida aos verdadeiros patriotas. Em nome desta obra-prima. No tocante aos muitos céticos e derrotistas (literatos.Fillippo Tommaso Marinetti c) A palavra Itália deve dominar sobre as palavras: cultura e estatísticas. acaba de publicar em Roma um manifesto sobre a Cozinha Futurista. d) A palavra Itália deve dominar sobre a palavra: verdade. fuzilaremos os estrangeirófilos antitalianos. isto é aos fascistas que vibram por uma autêntica paixão pela Itália e de um desmesurado orgulho italiano. se necessário. artista. segundo 156 Cozinha futurista.

diversos pratos passarão sob os narizes do comensal somente para excitar a sua curiosidade ou para promover um contraste apropriado. o cozinheiro do futuro deve adaptarse aos fins da evolução. já que estes pratos suplementares não serão ingeridos. pode sugerir experiências tais como uma viagem ou uma aventura amorosa. ou mesmo uma fração de bocado. o que. A ciência moderna será empregada na preparação dos molhos e um dispositivo semelhante ao papel de tornassol será utilizada na cozinha futurista para determinar o grau correto de acidez ou alcalinidade em um dado molho. apresentam a principal característica da nova “cuisine” como uma sucessão de pratos que contém um só bocado. por meio de sucessivos bocados únicos. e aumento da velocidade. Detalhes do manifesto. exceto em raras ocasiões em que será empregada para reter o espírito do último prato até que o próximo possa ser servido. encontram-se um ozonizador que dará aos líquidos o 157 Cozinha futurista. O primeiro passo deveria ser a eliminação das massas comestíveis da dieta dos italianos. Não mais espaguete para os italianos.indd 157 7/4/2009 15:51:23 . A nova comida futurista permitirá uma influência literária que invada o comensal. publicado no “Comoedia”.A cozinha futurista    notícias recebidas ontem de Paris. Praticamente tudo o que está relacionado aos tradicionais prazeres dos gourmets será erradicado. Não mais facas e garfos. Entre os novos instrumentos de cozinha e de sala de jantar sugeridos por Marinetti.”. escreve Marinetti. Não mais serão tolerados pelo novo culto discursos após o jantar. na refeição futurista ideal. “Desde que tudo na civilização moderna tende à eliminação de peso. somado a um serviço rápido ideal. De fato. A música será proibida à mesa.

e ser cortado em pedaços livremente antes de ser comido. Marinetti defende o fim dos temperos ordinários atualmente em uso e uma consistente diminuição e redução do volume dos alimentos. e também lâmpadas ultravioleta que tornarão mais ativas certas substâncias culinárias. Marinetti concentra a atenção em uma pintura futurista de Fillìa. Além disso. de modo a variar os efeitos da temperatura. de uma paisagem sintética feita com substâncias comestíveis. Como um modelo para a apresentação de um prato futurista. O líder futurista também sustenta que se deve abandonar o hábito de comer diariamente por prazer.Fillippo Tommaso Marinetti sabor e o perfume do ozônio. A paisagem é composta por um assado de carne de veado recheado com onze tipos diferentes de vegetais. A eletrólise também será empregada para decompor açúcares e extratos. não poderia ser atacado com garfo e faca. 158 Cozinha futurista. de acordo com o novo sistema.indd 158 7/4/2009 15:51:23 . Além da abolição do macarrão. a ponto de permitir que quando um verdadeiro banquete seja servido. Este é um dos pratos que. Para a alimentação diária normal. alguns pratos serão cozidos sob alta pressão. ele recomenda uma nutrição científica por meio de pílulas e pós. disposto verticalmente sobre um prato e coroado com mel. possa ser apreciado esteticamente.

foi escolhido pelo pintor Fillìa e pelo arquiteto Diulgheroff o proprietário de um restaurante de Turim. que era incitado à realização dos novos pratos pelos seus próprios clientes. vice-secretário geral do movimento futurista italiano à imprensa romana.indd 159 7/4/2009 15:51:23 . entre os quadros futuristas da galeria Codebó. consensos. ansiosos por transformar cozinha e ambiente. mas tenta fazê-las penetrar. Não se contenta em lançar umas idéias platônicas. um dos mais brilhantes jornalistas italianos. recebendo sempre pessoalmente. em parte entusiastas. Entre estes últimos.A cozinha futurista    A revolução cozinhária Os grandes banquetes futuristas A taberna do santopaladar O manifesto da cozinha futurista provocou numerosos congressos e comícios entre os cozinheiros e donos de restaurantes. mas também aplausos. Ercole Moggi. inclusos aqueles jornalísticos. uma batata ou outro legume. Fillìa no movimento futurista seria como o subtenente geral da esquadra em ação. Recebendo às vezes algum cabo de couve. 159 Cozinha futurista. Marinetti batizou com o nome de SANTOPALADAR o local destinado a impor pela primeira vez a cozinha futurista. encorajamentos. Angelo Giachino. a projetada manifestação: “Uma comunicação do pintor Fillìa. anunciou assim na Gazzetta del Popolo de 21 de janeiro de 1931. Enquanto se trabalhava na decoração do local. enciumados da tradição da “sora Felicetta”. do “spaghettaro” e de todas as outras gloriosas insígnias do verdadeiro gourmet. em uma matéria de capa com duas colunas. Ao final do Circuito de Poesia de Turim. sustenta-as. Em parte hostis. depois de haver coroado com o capacete de alumínio o poeta-recorde de Turim. movimentou os ambientes gastronômicos da capital. Tullio d’Albisola.

“Santopaladar” sem especulações Conseguimos achar Fillìa e não o deixamos mais escapar. além de uma idéia prática e original: a abertura de uma cozinha experimental futurista em Turim e que terá como título “Taberna do Santopaladar” na qual serão não apenas futuristicamente estudados.. Fillìa antecipou-me: 160 Cozinha futurista. quem sabe? panela em perene ebulição. cabeça de vulcão. deste modo.Fillippo Tommaso Marinetti Os adeptos do macarrão esperavam que o Manifesto da Cozinha Futurista se mantivesse apenas na teoria. Seria necessário descrevê-lo de maneira futurista: chamá-lo. motor de 200 HP. para apreciar o notável “carnescultura” na “Taberna do Santopaladar”. Declarações muito importantes deviam sair daquele cérebro vulcânico.indd 160 7/4/2009 15:51:23 . Evidentemente gosta de Turim já que tentou sempre ali as suas maiores iniciativas. o gastronômico. mas apresentados ao público os novos pratos. ou discussões polêmicas ou academia literária. Turim encaminha-se para ser o berço de um novo renascimento italiano. escreveu: “Temos a certeza que as ferrovias do Estado concederão descontos de cinqüenta por cento para que todos os italianos possam deslocar-se em massa a Turim. Assim. Não conhecem evidentemente aqueles queridos rapazes! Os futuristas preanunciam de fato uma forte ofensiva contra a velha cozinha. comentando o pronunciamento dos futuristas.. boca de fogo de nitroglicerina. Fillìa talvez seja o mais dinâmico dos futuristas italianos. Trens especiais para Turim Um renomado jornal romano entre o tom sério e o engraçado..

A nutrição por rádio No “Santopaladar” de Turim. se forem rosas. idealizadores e propulsores de uma nova teoria cozinhária. é composto por uma grande almôndega cilíndrica de carne de vitela assada recheada com onze qualidades diversas de verduras e legumes cozidos. que a nossa iniciativa e a nossa atividade para a abertura do “Santopaladar” tem fins unicamente artísticos.A cozinha futurista    . Não se trata portanto de uma especulação minha ou de Diulgheroff. mas assumirá um caráter de ambiente artístico abrindo concursos 161 Cozinha futurista.indd 161 7/4/2009 15:51:23 . tanto que – segundo vozes que correm – o prof. Fillìa dirigirá a renovação da cozinha italiana e fará aplicar e preparar os novos pratos dos artistas e cozinheiros futuristas. disposto verticalmente no centro do prato. acima de tudo. que é o novo prato futurista mais clamorosamente discutido hoje.. O local não será um simples e vulgar restaurante.. O leitor se perguntará o que é o “carnescultura”. Mas não teremos. repito. interpretação sintética das paisagens italianas. na Itália e no exterior. Como se diz. nenhum interesse no maior ou menor sucesso (nós o esperamos imenso) da iniciativa. Nós daremos simplesmente à taberna uma fachada futurista. a fazer uma laparotomia gratuita aos primeiros degustadores do “carnescultura”.Peço-lhe para relevar. Eis aqui uma descrição autorizada: “O carnescultura. Donato ter-se-ia proposto. é coroado por uma camada de mel e sustentado na base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango”. florescerão. com o objetivo de estudar. Este cilindro. A Taberna aparecerá logo em Turim. Será decorada pelo arquiteto Diulgheroff e por mim com o objetivo preciso de passar da teoria à prática na polêmica futurista. Os leitores devem saber que Fillìa é o inventor do “carnescultura”.

Agora reorganizaremos os odores. Deve-se. De resto a coisa não é lá extraordinária. 162 Cozinha futurista. por isso optamos por traduzir novela. O que há de prodigioso e que talvez tenha escapado até a Marconi. noites de poesia. mas pretendem renovar o gosto e os hábitos dos italianos. por meio do rádio. uma difusão de ondas nutrientes. havia um odor que Deus nos livre. Entre os pontos mais importantes. uma difusão de ondas nutrientes. ou de preferir um prato a outro. poderá também difundir extratos de ótimos 1 No original. para preparar os homens aos futuros alimentos químicos e talvez à não distante possibilidade de realizar.indd 162 7/4/2009 15:51:23 . per finire é algo que está sempre por acabar. notem os seguintes que reproduzo textualmente: a) “os futuristas declarando-se contra o macarrão e indicando novos desenvolvimentos da cozinha italiana. variando-se continuamente o gênero de nutrimentos e de combinações. Provavelmente trate-se de outro neologismo marinettiano. Aconteceram na vida prática do homem tais modificações mecânicas e científicas que se pode chegar mesmo a um perfeccionismo cozinhário. novelas1 etc. Não se trata simplesmente de substituir o macarrão pelo arroz. Como o rádio pode difundir ondas asfixiantes e adormentadoras (conferências. assassinar os velhos enraizados hábitos do paladar.Fillippo Tommaso Marinetti e organizando no lugar do habitual café post-prandium ou da habitual dança. mas de inventar novos pratos. porque eram diversas também as condições gerais de existência. dicção de poesia. Este primeiro capítulo dispensa comentários. odores e valores que até ontem pareceriam absurdos. a uma organização de sabores. de pintura e de moda futurista. em certos restaurantes. “per-finire”. O “Santopaladar” lançará em breve o seu preciso programa técnico. É toda uma revolução.). jazz. é a possibilidade de realizar. Por exemplo. o odor dos pratos lavados será transformado em odor de lavanda. Até hoje. por meio do rádio. não seguem somente o lado importante da economia nacional.

e sobretudo o mole e antiviril macarrão. mas tem a tendência inversa de novos horizontes culinários de renovar o gosto e o entusiasmo do comer. O nosso refinamento sensível pede ao contrário um estudo completamente “artístico” da cozinha.indd 163 7/4/2009 15:51:23 . enquanto a química não criar substâncias sintéticas que tenham a força da carne e do vinho. Um almoço no “Santopaladar” terá um preço normal. Não é verdade que os futuristas sejam inimigos do vinho e da carne. a sensibilidade”. Que paraíso então! O problema é que caminhará rumo à abolição da cozinha e portanto do “Santopaladar”. a não ser pelos doces. o lado estético. Responde-me: 163 Cozinha futurista. Outra coisa importante que apreendi é esta: que os pratos futuristas não serão caros.. Marinetti inaugurará o “Santopaladar” Fillìa ainda me fez outras importantes declarações. nenhuma base em comum com as afirmações de Marco Ramperti. O segundo capítulo também é explícito: b) A cozinha até hoje não levou em conta. O Manifesto da cozinha futurista não tem. Alcançaremos pratos ricos de diferentes qualidades.. o caráter. Combatem-se assim os lamaçais de molho. em que será estudado para cada um o prato que leve em consideração o sexo. portanto. é preciso defender a carne e o vinho de qualquer ataque.A cozinha futurista    almoços e cafés da manhã. Pergunto ao vice-secretário do movimento futurista se a inauguração do “Santopaladar” será feita com solenidade. Fillìa nos disse: “Em nosso próximo proclama para o “Santopaladar” estará bem esclarecido que. para inventar novos pratos que dêem alegria e otimismo. que multipliquem ao infinito a alegria de viver: coisa impossível de se obter com os alimentos aos quais se está “habituado”. os fragmentos desordenados de comida. a profissão.

a Aerovianda (tátil. apenas as velhas caçarolas. Até hoje o pobre consumidor não encontrava ninguém que respondesse por uma má refeição. Compreenderá os doces Reticulados do céu do escultor Mino Rosso e o Ultraviril do crítico de arte cozinheiro futurista P. salada. Senti duas lágrimas rolarem-me nas bochechas. Seremos duros.Compreenderá alguns de meus pratos e isto é: Todoarroz (com arroz. Este é evidentemente um achado útil.Pode-se saber a lista dos pratos do almoço inaugural? . não poderá ser nada menos que extraordinário. . junto à loira Albana. o conhecidíssimo Carnescultura. É evidente que o sucesso. Bastaria a invenção do prato Ultraviril. vinho e cerveja). receita que faria chorar de inveja o doutor Woronoff. sem considerar a música. E responderá à altura. poupe ao menos a “salama vecchia” da Romanha. música. que responderá a todas as críticas. No “Santopaladar” teremos um acadêmico. À inauguração intervirá também S. Ah. porque o acontecimento tem uma grande importância. os perfumes e os outros achados. A. Mas então adeus “tajadele al parsott”.E da velha cozinha – pergunto a Fillìa – o que ficará em pé? Responde-me com tom inexorável: . originalidade. achados. Fillìa.Nada. Saladin. . delícia de minha juventude voraz. seja clemente. 164 Cozinha futurista. É acompanhado no exterior. o Docelástico.indd 164 7/4/2009 15:51:24 .Fillippo Tommaso Marinetti . a venerável “salama da sugo” que. Exª Marinetti. Além disso compreenderá os pratos publicitários do arquiteto Diulgheroff e os alimentos simultâneos de Marinetti e Prampolini. com rumores e odores). Acabou-se o tempo das comidas dos Artusi.Certamente. acendia a veia poética de Giosuè Carducci e de Giovanni Pascoli”. Esta lista será completada por surpresas indispensáveis para formar a atmosfera da nova refeição e terá além de tudo perfumes.

Reproduzimos em parte a carta de resposta a um cozinheiro romano que ameaçava os raios da Academia Gastronômica Italiana contra os cozinheiros futuristas: “o protesto dos cozinheiros acadêmicos relembra estranhamente a oposição que os professores de história da arte sempre fizeram aos movimentos de renovação artística neste século e no outro. rompendo os hábitos. “não se trata. o restaurante futurista de Turim baterá sem dúvida a ciência dos velhos cozinheiros acadêmicos. porque. reproduzido em todos os jornais. é preciso preparar o paladar às futuras alimentações. Impossível também indicar somente os melhores escritos daquele período. são os primeiros exemplos de uma série que criaremos. portanto. como o meu carneplástico que foi erroneamente visto como oposição ao macarrão. criticando os pratos contidos no manifesto da cozinha futurista. E. respondendo a diversos ataques. Estamos seguros. Se os cozinheiros acadêmicos nos combatem somente pela razão técnica. a necessidade de modificar a cozinha porque se modificou o nosso sistema geral de vida. que as profecias do ilustre Membro da Academia Culinária terão o mesmo resultado que as outras: apressarão o nosso sucesso”. deu ensejo a uma infinidade de polêmicas irônicas e sarcásticas sobre os valores digestivos dos pratos futuristas. é o espírito revolucionário do manifesto que deve importar: isto é. de qualquer modo.indd 165 7/4/2009 15:51:24 . de falar de “técnica”: aqueles pratos. Para tanto. estão vencidos: sua oposição 165 Cozinha futurista. como técnica. O pintor Fillìa. teremos os pratos econômicos e os pratos de luxo – os pratos que melhor se equipararão ao macarrão e os pratos para vencer em concorrência as velhas glutonarias. Mas. no “Regime Fascista” de Cremona e na “Tribuna” de Roma a importância da iniciativa do Santopaladar. esclareceu repetidas vezes no “Lavoro” de Gênova.A cozinha futurista    Este artigo.

não se poderão renovar”. à qual aderirão os cinqüenta mil artistas inovadores e simpatizantes da Nova Itália”. alcançava uma notoriedade mundial pela anunciada realização da cozinha futurista. E as criações futuristas alcançarão perfeições técnicas. Como foram renovados os costumes. chegamos a um momento em que tudo se deve renovar.Fillippo Tommaso Marinetti de artesãos não poderá vencer nossa força de artistas. nem mesmo o macarrão teria sido inventado: e continuar-se-ia a comer como os romanos antigos. fundaremos então uma Academia Gastronômica Futurista.. Eu e o arquiteto Diulgheroff não cuidamos senão de sua inauguração e primeira orientação: estamos seguros da inteligência e da fé na modernidade que animam aqueles cozinheiros. também se chegará ao triunfo da cozinha futurista. tecnicamente perfeitos. os transportes. Mas se a Academia Gastronômica Nacional insiste em negar nosso esforço que pretende inventar pratos italianíssimos. e por conseqüência futuristas”. os trabalhos procediam e o ambiente se formava no domínio preponderante do alumínio italiano “Guinzio e Rossi”: domínio que deveria dar ao local uma atmosfera de metalicida- 166 Cozinha futurista. Entretanto. enquanto os pratos antigos. ainda antes de ser inaugurada. “segundo a cômoda teoria pacifista dos cozinheiros acadêmicos. as artes etc. No entanto. “a Taberna Santopaladar decorada pelo arquiteto Diulgheroff e por mim gerará uma atmosfera que será o resumo da vida mecânica moderna e será portanto ‘necessário’ servir pratos novos. *** A Taberna Santopaladar de Turim. “a Taberna Santopaladar tem um proprietário e cozinheiros que a dirigirão. médicos ilustres e cozinheiros sábios dão-nos razão e aderem à nossa luta.indd 166 7/4/2009 15:51:24 . E por outro lado.”. etc.

de esplendor. No corpo do alumínio.A. Piccinelli e Burdese.Saladin competiam com os cozinheiros do restaurante. onde o nosso corpo e o nosso espírito têm a necessidade de encontrar a afinação. ágil ossatura de um corpo novo. Eis a lista da primeira refeição futurista: Antepasto intuitivo (fórmula da Senhora Colombo-Fillìa) Caldo solar (fórmula Piccinelli) Todoarroz. a luz servia então como sistema arterial.indd 167 7/4/2009 15:51:24 .A cozinha futurista    de. a síntese e a tradução artística de toda a organização mecânica preponderante. tátil. assim como os materiais “nobres” do passado. indispensável ao estado de atividade do organismo ambiental. na preparação dos pratos. O alumínio é o mais adequado e o mais expressivo dos materiais. encerra estes dotes essenciais e é verdadeiramente um filho do século do qual espera glória e eternidade. Na Taberna Santopaladar delineava-se então uma pulsante estrutura de alumínio e esta não era friamente utilizada para cobrir o espaço. Tudo concorria para completar o interior: os grandes quadros publicitários. após uma febril jornada de intenso trabalho na cozinha. de leveza e também de serenidade.A. deve ser parte viva das outras formas da construção. os toldos. Isto é. com rumores e odores (fórmula Fillìa) Ultraviril (fórmula P.Saladin) 167 Cozinha futurista. com vinho e cerveja (fórmula Fillìa) Aeroprato. onde os futuristas Fillìa e P. os vidros trabalhados. completado com os ritmos da luz indireta. A primeira refeição futurista A Taberna Santopaladar foi inaugurada na noite de 8 de março de 1931. os objetos diversos. mas servia como elemento operante do interior: alumínio dominante. de elasticidade. o sentido da vida de hoje. A luz também é uma das realidades fundamentais da arquitetura moderna e deve ser “espaço”.

nos afirmamos esta verdade: pensa-se. cuja data ficará impressa na história da arte cozinhária assim. na história do mundo. pela anunciada inauguração do Santopaladar. Apresentamos integralmente a notícia sobre a noite como apareceu no jornal “La Stampa”. Ninguém a não ser um futurista. Stradella: “Ninguém ignora o interesse e as polêmicas que agitam o mundo inteiro. em um completo artigo do redator Dr. Uma notícia redigida nestes termos não pode ser nada além de maravilhosamente futurista. O acontecimento assumirá estão uma importância excepcional. da tomada da Bastilha. sonha-se e age-se segundo o que se bebe e o que se come”.Fillippo Tommaso Marinetti Carnescultura (fórmula Fillìa) Paisagem alimentar (fórmula Giachino) Mar da Itália (fórmula Fillìa) Salada mediterrânea (fórmula Burdese) 10. além de todo limite extremo. as datas do descobrimento da América. como indelevelmente foram fixadas. segue. é preciso reconhecê-lo sinceramente. Frangofiat (fórmula Diulgheroff) Equador + Pólo Norte (fórmula Prampolini) Docelástico (fórmula Fillìa) Reticulados do céu (fórmula Mino Rosso) Frutas da Itália (composição simultânea) Vinho Costa – Cerveja Metzger – Espumante Cora – Perfumes Dory. do Tratado de Viena e do Tratado de Versalhes”.indd 168 7/4/2009 15:51:24 . 168 Cozinha futurista. os pressupostos de sua doutrina. “Mesmo reconhecendo – adverte Marinetti – que os homens mal ou grosseiramente nutridos tenham realizado grandes coisas no passado.

A cozinha futurista   

Rumo ao alimento em pílulas
Não gratificados, então, pelas imensas vitórias pictóricas, literárias, artísticas que acumula há vinte anos, o Futurismo italiano visa, hoje, a uma renovação de base: esta, de fato, ousa afrontar ainda a impopularidade, com um programa de renovação total da cozinha. Omitimos que o Santopaladar, apesar da aparência um pouco blasfema para o passadismo vulgar, é uma deliciosa taberna turinesa, na qual, durante a noite passada, aconteceu lugar a primeira refeição da cozinha futurista: uma lista de quatorzes pratos, vinhos diversos, perfumes, espumantes. O leitor, ou talvez melhor, a amável leitora, desejará conhecer, a fundo, as mais recônditas razões de tal tentativa, para falar passadistamente; ou de tal realização, para falar futuristicamente. O desejo é legítimo. Quanto à satisfação deste, somos tomados por uma sensação de responsabilidade ao responder. Responderemos, em todo caso, cientificamente, exatamente, valendo-nos das mesmas palavras do Chefe dos Futuristas italianos: “Autopraticamente, nós futuristas relevamos o exemplo e as advertências da tradição para inventar a todo custo um novo, julgado por todos “loucura”, razão pela qual estabelecemos agora o nutrimento adequado a uma vida sempre mais aérea e veloz”. Por conseqüência, são abolidos tantos pratos: o macarrão, em primeiro lugar, e enquanto se espera da química o cumprimento de um preciso dever, ou seja aquele “de dar rapidamente ao corpo as calorias necessárias mediante equivalentes nutritivos (fornecidos gratuitamente pelo Estado) em pó ou pílulas” invenção única, apta a nos fazer alcançar “uma real diminuição do preço da vida e dos salários, com relativa redução das horas de trabalho”; na espera desse dia, então, poder-se-á realizar a refeição perfeita, que exige uma harmonia original da mesa (cristais, louças, ornamentos) com os sabores e as cores dos alimentos e originalidade absoluta dos próprios alimentos.

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Na taberna de alumínio
Mas agora retornamos à Taberna Santopaladar idealizada, criada e decorada pelo arquiteto Diulgheroff e pelo pintor Fillìa, e que vocês devem imaginar como uma grande caixa cúbica enxertada, de um lado, em uma outra menor: adornada por colunas semi-incolores inteiramente luminosas e por grandes olhos metálicos, também luminosos, incrustados na metade da parede; fachada, de resto, de puríssimo alumínio, do teto ao chão. Aqui, por volta da meia-noite do domingo, haviam marcado um encontro os futuristas turineses e as pessoas por eles convidadas. Ao cumprimento do ritual estavam presentes, entre outros, S. Exª. Marinetti, Felice Casorati, o pintor Peluzzi, o pintor Vellan, o escultor Alloati, o professor Guerrisi, alguns jornalistas; não faltavam várias belas senhoras, em toilettes deliciosamente passadistas. Speaker oficial, ou seja o anunciador e o ilustrador de cada um dos pratos, era e não poderia deixar de sê-lo, o pintor Fillìa. Quatorze os pratos, já dissemos. Ei-los. Primeiro: Antepasto intuitivo. Não é difícil compreender que se trata, de certo modo, de uma surpresa, e de um outro, de uma preparação para o prato seguinte. Não se pode, a este ponto, esquecer que a invenção de complexos plásticos saborosos, cuja harmonia original de forma e de cor nutre os olhos e excita a fantasia antes de tentar os lábios, seja uma norma fundamental para uma refeição perfeita. Escolheremos, então, uma grande laranja, e através de um furo, liberá-la-emos de sua polpa: o esquelético invólucro nós trataremos de modo a obter a figura de uma pequena cesta, com o cabo e a redonda cavidade. Aqui colocaremos uma fatiazinha de presunto enfiado um em pedaço de grissini, uma alcachofrinha ao azeite, um pimentinha em conserva. No interior desta última será lícito enfiar um bilhetinho enrolado, sobre o qual será precedentemente escrita uma máxima futurista, ou mesmo um elogio a um convidado. Será fácil descobrir a surpresa já que rege “a abolição do garfo e da faca para

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A cozinha futurista    os complexos plásticos que possam proporcionar um prazer tátil prélabial”. Em resumo, uma coisa finíssima.

Um prato com rumores e odores
Segunda: Aerovianda, tátil com rumores e odores (idealizada por Fillìa). Aqui há um pouquinho de complicações. Futuristicamente comendo, trabalha-se com todos os cinco sentidos: tato, paladar, olfato, visão e audição. Submetemos ao leitor algumas normas da refeição perfeita, que nos servirão para saborear completamente o sabor dos pratos vindouros: o uso da arte dos perfumes para favorecer a degustação. Cada prato será, assim, precedido por um perfume com ele afinado, que será eliminado da mesa, mediante ventiladores. Ou como o uso dosado da poesia e da música como ingredientes imprevistos para acender com a sua intensidade sensual os sabores de uma determinada vianda. O segundo prato consiste em quatro pedaços: no prato será servido um pedaço de erva-doce, uma azeitona, uma fruta cristalizada, e o “aparelho tátil”. Come-se a azeitona, depois a fruta cristalizada, depois a erva-doce. Ao mesmo tempo, passa-se com delicadeza a ponta dos dedos indicador e médio da mão esquerda sobre o aparelho retangular, formado por um retalho de damasco vermelho, um quadradinho de veludo preto e um pedacinho de lixa. De uma fonte sonora, cuidadosamente escondida, partem as notas de um trecho de ópera wagneriana e, simultaneamente, o mais hábil e gentil dos garçons pulveriza pelo ar um perfume. Resultados maravilhosos: é provar para crer.

O metal que perfuma
Terceiro prato: Caldo solar (idealizado pelo cozinheiro Ernesto Piccinelli). É um consommé no qual são embalados alguns ingredientes, da cor do sol. Excelente. Quarto prato: Todoarroz (de Fillìa). É uma

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Fillippo Tommaso Marinetti coisa muito simples: um risoto à italiana, temperado com vinho, cerveja e fondue. Muito bom. Quinta rodada: Carneplástico. Este prato é um marco miliário da cozinha futurista. Transcrevemos aqui a receita, para a alegria das nossas leitoras: “interpretação sintética das paisagens italianas, é composto de uma almôndega cilíndrica de carne de vitela assada, recheada com onze qualidades diferentes de verduras e legumes. Este cilindro, disposto verticalmente sobre a base do prato, é coroado por uma camada de mel, e sustentado na base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango”. Um prodígio de equilíbrio. Sexta: Ultraviril. Não nos demoraremos em descrições minuciosas: Basta dizer que é um prato para senhoras. Sétima: Paisagem alimentar. É o inverso dos pratos anteriores; esta é só para homens. Excelente. O mar da Itália, a Salada mediterrânea e o Frangofiat, o oitavo, o nono e o décimo pratos, servem-se juntos. Particularmente notável este último, idealizado por Diulgheroff. Pega-se um frango respeitável, e cozinha-se o mesmo em dois tempos: primeiro aferventado, depois assado. Cava-se na coluna da ave uma cavidade grande, dentro da qual colocam-se uma porção de bolinhas, das que se usam para coxim, de aço doce. Sobre a parte posterior da ave costura-se, em três fatias, uma crista de galo crua. Coloca-se no forno a escultura assim preparada, deixando-a por aproximadamente dez minutos. Quando a carne tiver absorvido bem o sabor das bolinhas de aço doce, então o frango é servido à mesa, com adorno de chantilly. Ainda foram servidos outros dois pratos, fora do programa. Um deles, oferecido exclusivamente aos jornalistas, não nos pareceu facilmente decifrável. Acreditamos ter encontrado traços de mortadela de Bolonha, de maionese, daquele tipo de doce turinês conhecido sob a denominação de creme Gianduia; mas, vinte e quatro horas depois da ingestão, após um minucioso exame de consciência, não somos mais capazes de afirmar nada. Mais simples, ao contrário, o outro prato extra,

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A cozinha futurista    que o pintor Fillìa definiu Porroniana e Marinetti: porco excitado. Um salame cozido normal veio apresentado imerso em uma solução concentrada de café expresso, e temperado com Água de Colônia. O ritual, assim, está para chegar ao fim. E na hora do espumante falaram Felice Casorati, o escultor Alloatti, o advogado Porrone, Emilio Zanzi, o pintor Peluzzi e enfim S.Exª. Marinetti, que elogiou vivamente Fillìa e Diulgheroff pelos concretos resultados atingidos. Apareceram contemporaneamente: na “Gazzetta del Popolo” um divertido artigo de Ercole Moggi A taverna futurista do santopaladar inaugurada por F.T.Marinetti; no “Regime Fascista” um entusiástico artigo de Luigi Pralavorio: Macarrão já era: Carnescultura, no “Giornale di Genova” um favorável artigo de Marcaraf, A inauguração do Santopaladar. Eram os jornalistas presentes ao almoço. Em seguida, em todos os jornais italianos e estrangeiros, foram reproduzidos os artigos de Moggi e de Stradella, com clamorosos comentários e muitas fotografias reproduzindo os locais, as formas dos pratos, etc., etc. Enquanto jornalistas e fotógrafos de Roma e de Paris chegavam à “Taverna Santopaladar”, Ercole Moggi, após nova entrevista com o pintor Fillìa, publicou na “Gazzetta del Popolo” um outro artigo: Revelados os mistérios da cozinha futurista, em que eram fornecidas as fórmulas exatas das primeiras iguarias realizadas, indicava-se o custo mínimo das refeições futuristas e anunciavam-se outras surpreendentes manifestações iminentes. Sob os títulos: “Os cozinheiros futuristas em teste”- “Isto não é nada, avançaremos muito mais”- “Fillìa contra Artusi”- “Santopaladar? Ora!” os maiores jornais do mundo difundiram, discutiram e polemizaram. De Estocolmo a Nova Iorque, de Paris a Alexandria no Egito atingiam páginas inteiras de jornais ilustrados dedicados ao assunto. A cozinha futurista havia conseguido se impor e iniciava assim o período mais intenso de suas afirmações para a renovação da alimentação.

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arquitetos.S para esta produção italiana e sublinhava como infelizmente os proprietários dos grandes restaurantes são ainda desconfiados a respeito das máquinas que. etc.P. construtores. é digno de nota também o artigo do Dr. de apresentar os alimentos e os produtos da cidade e do campo segundo o espírito dos nossos tempos. com indiscutíveis vantagens sobre os produtos importados. porque a nossa vontade de renovação expressou-se sempre claramente a favor de todos os ramos e de todas as atividades da arte e da vida. de dar um ar de modernidade às Feiras de produtos agrícolas e industriais. Pittalunga. mas são estudadas de tempos em tempos de acordo com a necessidade de aplicação e funcionamento. Muitos restaurantes adotam fogões elétricos. mas infelizmente continuam a recorrer aos estrangeiros. fornos. redator-chefe do “Giornale Vinicolo Italiano” (que inteligentemente se ocupou. ultimamente nos fazia notar a intensa propaganda da S. por exemplo. isto é. não apenas oferecem as maiores garantias.. em muitos escritos.. falam da necessidade de modificar também o interior dos locais. Portanto. da cozinha futurista) o qual aborda o problema da decoração dos locais onde se consomem vinhos e bebidas italianas. Eis os pontos principais do seu artigo: “Há tanta gente. Em um outro campo. O Eng. etc. etc.Fillippo Tommaso Marinetti As discussões sobre a cozinha futurista não deveriam naturalmente limitar-se somente ao campo alimentar. etc. fornos elétricos. No manifesto da cozinha futurista fala-se com precisão da necessidade de servir-se da eletricidade e de todas as máquinas que aperfeiçoam o trabalho dos cozinheiros.E.indd 174 7/4/2009 15:51:24 . caldeiras. que. neste mundo. esquecendo-se de que na Itália existem insuperáveis produtores de fogões. são para sublinhar as adesões dos diversos jornalistas. logo após a nossa batalha. que pode gostar das formas arquitetônicas antigas e degustar vinhos modernos (preparados nos ultramodernos estabelecimentos enológicos!) entre os muros de 174 Cozinha futurista. Alamanno Guercini.

pavilhões. explodiram na construção das enormes tinas de 80. que 175 Cozinha futurista. ou nas catacumbas estranhamente complicadas. de 4. somente 1. Por exemplo: em um estabelecimento de recente edificação. restaurantes. Se o vinho é uma bebida de tradição antiquíssima. uma aliança muito apreciável. que contém carburante-homem e carburante-motor. e após terem tentado ovalizar-se ao máximo. ensurdecidos pela música selvagem à base das “jazz-band”. publicidade.000 foram reservados aos barris de madeira. que o vinho poderia hoje procurar e encontrar na arte dos inovadores. apresentação. na genialidade dos futuristas. Até mesmo os pobres tonéis seguem o influxo do modernismo. é entretanto bebida que se renova anualmente. Nós devemos dominar as nossas predileções artísticas pessoais e percorrer aquelas vias mais úteis e prático-econômicas de propaganda vinícola que parecem dar resultados. Parece-me.A cozinha futurista    construção medieval.000 litros de capacidade. decoração. não atribuem a isso nenhuma importância.500. ou se por acaso pensam.000. Esta gente não pensa de fato que naquelas épocas remotas a uva era esmagada com os pés.indd 175 7/4/2009 15:51:24 . Provavelmente não querem nem mesmo lembrar que os barris de madeira cujos arredores são abundantemente decorados vão – ai de nós! – diminuindo de importância nas novas cantinas que adotam largamente as enormes baterias de banheiras em cimento armado em andares múltiplos. em Roma. não se negará nem se criticará qualquer outra iniciativa da arte para valorizar o vinho: apenas se solicitará que se abram as portas aos artistas de vanguarda e à sua atividade artística e publicitária. Com isto.000 litros. com respeito a todas as opiniões. que se moderniza com o progresso multiforme: é uma bebida dinâmica. no que concerne a arquitetura.

os vinicultores deveriam considerar seriamente as concepções artísticas novadoras. consumidores. E pode-se acrescentar. no campo da propaganda vinícola! E se os futuristas italianos se ocuparem com fecunda e prática atividade. As direções das feiras e das mostras poderão fazer muito. centenas de bares são em estilo futurista. E o mais moderno e mais animado era o restaurante italiano idealizado pelos arquitetos futuristas Fiorini e Prampolini. antes de construir stands. espaço. aplicados praticamente. licores. enquanto o trabalho destes artistas italianos é apreciado no exterior. Em Paris. É tempo de exaltar e propagandear o vinho com os mesmos critérios da modernidade. Muitos catálogos de vinhos franceses são publicações completamente futuristas. Em Paris. comerciantes. em Viena. Na Itália. etc. elas se aproveitarão largamente das novas formas de arte. aos numerosos valores dos locais modernos. restaurantes. Neles há higiene. eram de estilo racional. do futurismo. Deve haver lugar para todos. catálogos. de organizar a publicidade. esplendor de metais e de cristais. pouquíssimas e esporádicas foram até hoje as tentativas.Fillippo Tommaso Marinetti por muitas razões se pode imaginar bem aceita por um extenso público de produtores. Quero acreditar que em 1932. o Pavilhão de Arte Sacra é uma realização racional verdadeiramente útil. economia. numerosos pavilhões de vinhos. Nos concursos regulares dos pavilhões que tem por objeto o vinho. bela e que cumpre sua função. 176 Cozinha futurista.indd 176 7/4/2009 15:51:24 . na Mostra Colonial. especialidades. aquele da economia: que não deve ser menosprezado nestes momentos difíceis. se manifestações vinícolas acontecerem em Roma. industriais. cerveja.. da propaganda e valorização do vinho italiano. farão coisa útil e boa. Em Pádua. cartazes futuristas. em Berlim.

“Circolo Sociale” di Cúneo.indd 177 7/4/2009 15:51:24 . .Conferências futuristas em Budapeste. aos interesses vinícolas nacionais”. de fevereiro de 1931 a fevereiro de 1932. .“Institutos Fascistas de Cultura” de Brescia e Cremona.“Galleria Botti” de Florença. inaugurando a Mostra de Aeropintura Futurista. também desta forma. na abertura da Mostra pessoal dos pintores futuristas Fillìa e Zucco. Zucco.“Amici dell’Arte di Novara”. na intenção de servir. Mino Rosso.“Sala dell’Effort” em Paris. .“Circolo degli Artisti” de Trieste. Saladin. . as seguintes conferências. . . na abertura da Mostra do grupo vanguardista e futurista “Sintesi”. que todas as conferências de Marinetti eram freqüentemente seguidas por clamorosas discussões a favor e contra o macarrão. Marinetti. Diulgheroff.Turnê de propaganda em diversas cidades da Tunísia. Oriani. a propósito da cozinha futurista. Pozzo.“Galleria Vitelli” de Gênova. . nas quais exaltou e impôs à atenção do público os valores da nova cozinha: . Alimandi e Vignazia. E agora convidamos os artistas inovadores a colaborar conosco. inaugurando a Mostra dos pintores futuristas Fillìa. inaugurando a Mostra de Aeropintura Futurista. a favor e contra os novos pratos futuristas. escrevendo no “Giornale Vinicolo Italiano”. .A cozinha futurista    Eu já esperava isto há um ano. durante a Mostra de Aeropintura Futurista. fez. 177 Cozinha futurista. Conferências Cozinhárias A polêmica sobre a cozinha futurista era tão intensa e presente em cada um. em frente a imensas multidões.

O horário estabelecido para o banquete já havia passado há muito e ninguém falava em finalmente dar princípio a este convívio luculiano. A refeição futurista de Novara Durante a “Mostra de Arte Futurista” no Círculo dos Amigos da Arte de Novara. fruta simultânea. Ele me olha e sorri irônico. A lista era composta pelas seguintes novidades: Antepasto Intuitivo. por iniciativa do Dr. carnescultura. teriam antecipado mas ao contrário há a mesma espera asfixiante como em todas as refeições deste mundo burguês.realizado domingo.Fillippo Tommaso Marinetti .Conferências em Sofia e Istambul. por ocasião da Mostra dos grupos futuristas turineses e ligúrios. em Novara – ninguém tenha escrito um processo verbal estenografado consagrando ao futuro os comentários com que Fillìa preanunciava os pratos. Eis como o diretor do jornal “A Itália Jovem” descreveu em um brilhante artigo o acontecimento: “É realmente um pecado que sobre este jantar futurista . um banquete dirigido pelos futuristas Fillìa e Ermanno Libani. caro.Escute. Rosina. espumantes. 18 de abril. . aerovianda (tátil. todoarroz. foi organizado. no atraso são passadistas vocês também.“Teatro Nacional” de Savona. cervejas. eu achava que os futuristas. – Comer no futuro… que poderia haver de mais futurista? 178 Cozinha futurista. frangofiat. vinhos. mar da Itália. Presidente da Federação dos Comerciantes. docelástico. para inovar. Aproximo-me de… . com rumores e odores).indd 178 7/4/2009 15:51:24 . perfumes e músicas da Itália.

servirá apenas para tocar com a mão direita dando sensações pré-labiais que tornam saborosíssimas as iguarias. Isto também já sabíamos. uma azeitona e uma bergamota. Em relação aos odores. aquilo que Fillìa nos apresentará na mostra de arte sacra de Pádua. o garçom passa com um grande esborrifador espargindo a cabeça dos convidados (sugerimos a Fillìa servir uma outra vez tal lavagem capilar. É convicção geral que este prato será na realidade pulado completamente para ser fiel à sua definição de intuitivo: mas não. Servem-nos elegantíssimos cestinhos escavados em casca de laranja e preenchidos com tudo o que constituía o velho antepasto caro às nossas bisavós: salame de autêntico porco e picles Cirio.A cozinha futurista    O início da refeição Como Deus quer. para a incolumidade. 179 Cozinha futurista. segundo informações seguras de estudiosos do gênero. e consiste em minúsculos bilhetes encondidos dentro das azeitonas recheadas. A Aerovianda E chegamos à Aerovianda: é um prato que não aconselho aos esfomeados. as quais devem ser levadas à boca contemporaneamente com a mão esquerda. sentamo-nos à mesa: Antepasto intuitivo. eram já utilizados mesmo há vinte anos. morna.indd 179 7/4/2009 15:51:24 . dos resfriados. Há ainda um pedaço de cartolina sobre o qual estão colados. um pedaço de seda e um pedaço de lixa: não é obrigatório – explica Fillìa – comer a lixa. entenda-se o Deus dos futuristas. um pedaço de veludo. É composto por uma fatia de erva-doce. abertos e lidos em voz alta com grande deleite para os presentes: Emanuelli é o maior jornalista. um perto do outro. dos homens calvos). assinado Enrico Emanuelli. Estes bilhetes são cuspidos. Mas algo de novo existe. tudo atravessado por pequenos bastões de grissini que.

O cavalheiro Fontana me sussurra: os pratos futuristas. Um pouco da culpa é também do Grignolino quase mau-caráter. proprietário do hotel d’Itália. Sobre um prato ogival são dispostos sobre o maior raio pedaços de filé de peixe cozidos na manteiga sobre os quais são fixados em ordem decrescente com o auxílio de um palito de dentes. 2 Instrumento de ferro ou madeira.2 Arroz e feijão. rãs e salame. Os garçons servem enquanto o coaxar das rãs é reproduzido por uma “battistangola”. Aqui se corre o risco de uma indigestão! Passemos ao mar da Itália que até os passadistas poderiam sem esforço introduzir no elenco das delícias de família. Servirão um prato inventado na hora pelo cavalheiro Coppo. Mas por que não reproduziram – pergunta. e composto basicamente por arroz temperado com vinho e cerveja. uma cereja confeitada. muda-se tudo : apagam-se as luzes brancas e continuam acesas as vermelhas: semi-escuridão. precisam de muita penumbra. um pedaço de figo. entre risos. 180 Cozinha futurista. Comestibilíssimo: há até quem peça bis. alguém – também o grunhido dos porcos? Havia salame também!! . Terminado o todoarroz. ironias e sátiras. um pedaço de banana da Austrália. que emite som parecido com o coaxar das rãs. como certos versos de poetas modernos e como todos os químicos brilhantes. prossegue jubilosamente: o que deixou todos em tal estado foi o anúncio de que não haverá discursos oficiais.indd 180 7/4/2009 15:51:24 .A carnescultura – grita Fillìa – é o produto de todos os jardins da Itália. Todoarroz: um prato muito viril na forma. Ótimo.Fillippo Tommaso Marinetti A refeição. E a digestão é protegida.

A cozinha futurista    Nos dois lados do prato creme de espinafre. A fruta simultânea é composta por diversos pedaços… de fruta descascada conectados entre si: laranja. amplo salão com capacidade para mais de 100 mesas. Café. calo-me a título de protesto. em cima e no fundo molho Cirio. Para nos acalmar. o sabor da nossa melhor cozinha. Davam ao ambiente uma atmosfera simultaneamente africana e mecânica que dava esplendidamente a vontade de interpretar os motivos coloniais segundo uma sensibilidade moderna e futurista. tinha sido genialmente decorado com 8 enormes painéis do pintor futurista Enrico Prampolini: estes painéis. Fillìa tece elogios à mulher do futuro careca e de óculos: eis uma combinação de sorte.indd 181 7/4/2009 15:51:24 . O grande banquete futurista de paris Na Exposição Colonial de Paris o arquiteto futurista Fiorini realizou um audaz pavilhão que sediou o Restaurante italiano. O interior do pavilhão. as “Edições Franco-Latinas” representadas pelos senhores Bellone e Farina e pelo senhor Pequillo. representam o que de mais moderno. de mais lírico e de mais inventivo se pode realizar sobre o tema “colonial”. Sobre o frangofiat. Neste restaurante adequadíssimo. fruta seca. quiseram realizar pela primeira vez em Paris a cozinha futurista e entraram em acordo com os pintores Prampolini e Fillìa para o preparo da refeição. O aspecto de um grotesco transatlântico. mulheres calvas e frangofiat! O docelástico é formado por modestas carolinas recheadas com creme de cores berrantes. 181 Cozinha futurista. stop. É um doce elástico porque colaram sobre cada um pedaço de ameixa. maçã. por reconhecimento geral.

Les îles alimentaires (du peintre Fillìa) 8. Estavam representados os maiores jornais franceses. Vins – Mousseux – Parfums – Musiques – Bruits et chansons d’Italie. Aéromets.indd 182 7/4/2009 15:51:24 . Paradoxe printanier (du peintre Prampolini) 13.Fillippo Tommaso Marinetti A multidão que se empurrava na noite da manifestação para intervir no grande banquete era a melhor de Paris. De fato. Poulet d’acier – à surprise (du peintre Diulgheroff) Cochon excité – à surprise (d’un primitif du 2000). Préface variée (du peintre Prampolini) 6. Machine à goûter (du peintre Prampolini) 12. tactile. Gateauélastique (du peintre Fillìa) 14. bruitiste et parfumé (du peintre Fillìa). Hors d’oeuvre simultané (du peintre Fillìa) 4. Les grandes eaux (du peintre Prampolini) 2. o mero anúncio da refeição futurista havia levantado entre os compatriotas “bempensantes” uma onda de reprovações e de comentários hostis que ameaçavam uma complexa insurreição es- 182 Cozinha futurista. Excitant gastrique (du peintre Ciuffo) 5. O jornalista futurista Francesco Monarchi. entre um prato e outro. eram anunciados números de dança. Além de tudo. Carrousel d’alcool (du peintre Prampolini) 3. Viandesculptée (du peintre Fillìa) 11. 10. de canto e de música. A lista dos pratos: 1. redator-chefe da Nova Itália. Equatore + Polo-Nord (du peintre Prampolini) 9. Toutriz (du peintre Fillìa) 7. descreve assim o banquete: “Os acontecimentos que estamos para expor são de uma gravidade excepcional.

Somente as faces enigmáticas de Prampolini e Fillìa. especialmente as gastronômicas. recebiam os heróicos convidados. que. Apesar desta onda de pessimismo. S. a segurança eletrizante de S. *** Na entrada. não devem jamais ser tocadas. a inclemência do tempo e o terror do acontecimento. na realidade. transmitiram a coragem das próprias ações ao titubeantes. o Príncipe de Scalea. dos perfumes. Exª. estava à mesa de honra com alguns membros de seu 183 Cozinha futurista. dos pratos táteis. os títulos das iguarias podiam dar margem às mais negras apreensões e a complicação das músicas. Ex. daremos uma ampla lista de nomes. dos rumores e das canções representava absolutamente um pesadelo dificilmente superável. mantinham o mistério do iminente ritual. sempre sensível a qualquer manifestação italiana. muitos corajosos. idealizadores dos pratos futuristas. No entanto. já que esses passarão para a história como precursores no degustar a cozinha do futuro. porque segundo eles. enfrentando a distância. Palidíssimas de emoção (palidez que entretanto aumentava sua graça). em uma última dúvida angustiante. as duas senhoras estavam na impossibilidade absoluta de animar os temerosos. encheram o salão do Pavilhão futurista na noite da última quarta-feira. não ousavam penetrar na sala. a festosa alegria do ambiente animado pelos enormes painéis de Prampolini.indd 183 7/4/2009 15:51:25 . Por dever jornalístico devemos registrar que. Marinetti. o imponente aparato do pessoal de serviço e a branca calma tradicional das mesas postas. a senhora Belloni e a senhorita Farina. organizadoras do evento junto com as Edições Franco-Latinas. as tradições.A cozinha futurista    piritual. Contrariamente aos nossos hábitos. Estes bempensantes achavam indigno o caráter revolucionário dos pratos anunciados. reunidos na soleira.

Madame Madika. o advogado De Martino. o crítico de arte Eugenio D’Ors da Academia de Madri. Vittorio Podrecca. a senhorita Cirul. Muitas e elegantes senhoras haviam corajosamente desafiado a aventura.Fillippo Tommaso Marinetti Comissariado. Surpresa geral ao pescar em uma chocolate e queijo navegantes em Barbera3 . etc. Madame Ny-eff. Madame Van Donghen. Madame Castello. com o representante do Ministro Reynaud. Madame De Flandreysy. a senhorita Budy. o cavalheiro Gennari do Diretório. a Senhora Podrecca. Madame Massenet-Kousnezoff. Em outras mesas: o advogado Gheraldi da Sociedade dos Autores. entre os quais o Comendador Dall’Oppio e o Marquês de San Germano. a Senhora Pequillo. Algumas caretas. tanto que alguns repetiram. Madame Tohaika. o Regente do Fascio doutor Saini. sidra e bitter e de recolher na outra uma cândida cápsula envolvendo uma dose de anchova.indd 184 7/4/2009 15:51:25 . o deputado Ciarlantini. a Condessa De Fels. Uma imprevista luz verde torna ainda mais espectrais os comensais. *** Às 21h30 um soar de gongo formidável reconduz os presentes à realidade das coisas. São anunciadas as duas misturas-aperitivos criadas pelo pintor Prampolini: “As grandes águas” e “Carrossel de álcool”. Notamos: a Marquesa de San Germano. Miss Moos. Durio. 3 vinho tinto do Piemonte 184 Cozinha futurista. etc. mas primeiro resultado satisfatório. Madame Lakowsky.. o senhor Pequillo das Edições Franco-Latinas. etc. o Conde Emanuele Sarmiento. secretário administrativo do Fascio. o senhor Cartello. Madame Mola. o doutor Lakowsky. o conhecido pintor Sepo.

Nenhuma trégua: o “Todoarroz Fillìa” é anunciado como uma mistura de arroz. o “estimulante gástrico” (rodela de abacaxi com sardinha. Ao mesmo tempo. pelos risos gerais e pelos aplausos definitivos e intermináveis. o Conde Sarmiento. A “Aerovianda” é composta por frutas e legumes diversos que são comidos com a mão direita sem a ajuda de nenhum talher. anuncia a Aerovianda do pintor Fillìa. a arte moderníssima desta dançarina de exceção é dificilmente superável. figo. atum e nozes) e o “início variado” de Prampolini (manteiga. Retorna inexorável o imponente desfile de garçons que trazem agora as “ilhas alimentares” de Fillìa. salame e anchovas). azeitona. Outra interrupção e Mira Cirul inicia as suas danças que suscitam um grande e continuado entusiasmo. que se havia oferecido para ilustrar os pratos. banana. vinho. Quando começava-se a criar um certo hábito pela cozinha futurista. Primeiro intervalo: a senhorita Jole Bertacchini. O “antepasto simultâneo” de Fillìa (casca de maçã triturada. 185 Cozinha futurista. ovos. e os garçons esborrifam na nuca de cada comensal um forte perfume de cravo. cereja. tomates e confeitos). canta deliciosamente e é muito aplaudida. a orquestra entoa um barulhento e violento jazz. conquistaram rapidamente a simpatia dos paladares. Na verdade. veludo e seda. excelente união de peixe. A sala ribomba pelos gritos das senhoras violentamente aspergidas com perfume. do San Carlo de Napoli. enquanto a mão esquerda acaricia um prato tátil formado por lixa. É devorado pelos comensais que começam a modificar seu primitivo estado de ânimo.A cozinha futurista    Três antepastos servidos contemporaneamente cortaram pela raiz as polêmicas sobre os aperitivos. ovos e parmesão. se alarmaram pelas suas formas audazes. cerveja. tomates e espinafre. posto que talvez apenas ela tenha compreendido quanta beleza possa derivar de uma interpretação absolutamente nova e genial da dança.indd 185 7/4/2009 15:51:25 .

A Carnescultura de Fillìa. manifesto que suscitou uma polêmica mundial. demonstrou mais uma vez sua excepcional qualidade de voz que lhe deram fama mundial. Exª. elogiou o jantar futurista como a primeira realização em Paris do célebre manifesto da cozinha futurista.indd 186 7/4/2009 15:51:25 . cantou depois admiravelmente algumas canções napolitanas. e após ter relevado a magnífica organização da noite por parte das “Edições Franco-Latinas”.Fillippo Tommaso Marinetti (Apenas uma pessoa permanecia alheia ao entusiasmo geral: imediatamente interrogada descobriu-se que era canhota – por isso esfregava o prato tátil com a direita enquanto comia com a esquerda). O senhor Roberto Marino. Marinetti com sua 186 Cozinha futurista. O corpo do frango mecanizado pelos confeitos de coloração alumínio. Exª. Desde já a renovação da cozinha futurista havia triunfado. foram reservados a apenas dez pessoas dois pratos surpresa. em duas interpretações. Depois de ter louvado as criações gastronômicas dos pintores Prampolini e Fillìa. Outro intervalo: a Senhora Maria Kousnezoff. da Ópera e do ex-teatro imperial de São Petersburgo. apesar da audácia de formas e originalidade de conteúdo. o “Docelástico” de Fillìa. o Polo Norte + Equador de Prampolini. O “Frango de aço” de Diulgheroff e o “Porco excitado”. com mais de 2000 artigos e demonstrou o sentido de arte-vida que sempre animou as atividades futuristas. que havia participado do banquete não somente presidindo-o mas intervindo a todo momento nas discussões e na exaltação das iguarias. da Ópera de Monte-Carlo. *** S. Marinetti. acompanhada ao piano pelo Maestro Balbis. Entre os diversos pratos. foram apreciadíssimos. o “Paradoxo de primavera” e a “Máquina de degustar” de Prampolini. e o salame imerso em um molho de café e água de colônia foram declarados excelentes. S.

na verdade. uma jornada futurista. Exª.A cozinha futurista    habitual eloquência homenageou a coragem dos presentes e observou com satisfação o contentamento geral.indd 187 7/4/2009 15:51:25 . mais de 300 pessoas participaram do grande aeroalmoço realizado no Hotel Negrino: lá encontravam-se as maiores autoridades da Cidade e da Região.” O aeroalmoço futurista de chiavari O Comendador Tapparelli organizou admiravelmente em Chiavari. Marinetti. aludiu então aos números de canto e dança sobressaltando o proposital contraste da parte lírica (exclusivamente tradicional) com o futurismo integral do jantar e das danças. acompanhada pelo senhor Abbatino. Longos artigos foram dedicados ao acontecimento. A Baker recebeu a mais festiva acolhida e participou do final da excepcional noite que se fechou com danças animadíssimas. Joséphine Baker transformada subitamente no centro das atrações mais vivo e completo. Além disso. em que inaugurou-se uma Mostra de Arte Futurista. em todos os jornais lígures. T. S. no Corriere della Sera e em muitos outros jornais ita- 187 Cozinha futurista. aparece na sala Joséphine Baker. Marinetti sobre “Futurismo mundial”. *** Enquanto se renovam os aplausos ao breve e vivo discurso de Marinetti. com muito espírito. realizou-se o Circuito de Poesia (ganho pelo poeta triestino Sanzin) e uma conferência de F. a 22 de novembro de 1931. teve um papel importantíssimo no bom êxito da festa: ao seu irresistível fascínio deve-se. a definitiva superação entre os convidados de suas últimas dúvidas sobre as conseqüências da cozinha futurista.

Tâmaras surpresa O almoço. uma espécie de orgia carnescultural que se desenrolou nos salões do Hotel Negrino e que submeteu a uma dura prova o estômago de uns trezentos convidados. iniciou-se com uma Empada de aquecimento: uma espécie de antepasto talvez poético demais para ser apreciado devidamente pelo estômago que. mas a um certo temor racional. entre a mais viva expectativa dos presentes. cheias de uma surpresa quase ciclópica: elas estavam cuidadosamente recheadas de anchovas de modo que. é um bruto materialista. Damos aqui os pontos essenciais do brincalhão artigo de um redator do Corriere Mercantile: “A parte forte do dia – parte forte ao menos para o cronista ávido de divagações e desejoso de ocasiões para os assim chamados parênteses de cor – foi sem dúvida o “Primeiro aeroalmoço futurista”. ao exame dos dentes. destes abacaxis e com estas frutas africanas misturadas a peixe.Fillippo Tommaso Marinetti lianos. em meio a uma profusão de abacaxis. 188 Cozinha futurista. como se sabe. mísera e desconcertada. de nozes e de tâmaras: tâmaras que se revelaram. muitos dos quais sentiam na cavidade gástrica um certo tremor que não era de todo devido ao apetite.indd 188 7/4/2009 15:51:25 . Cada prato foi escrupulosamente preparado pelo célebre cozinheiro Bulgheroni. para romper com os seus molhos a maciça porta fechada dos ravioli e do macarrão. por uma cabeça de vitelo nadando. desabrochou uma espécie de pudim que deixou cada esôfago engasgado de admiração. especialmente vindo naquele dia de Milão a Chiavari. Era composta. esta empada. desta inocente cabeça.

enxugá-la com o guardanapo e guardá-la na carteira como recordação do almoço e como testemunho de um banquete a ser contado. De qualquer modo. Postos diante de tal obra prima da lírica brodística. acomodadas sobre aeroplanos de miolo de pão. que consiste em uma combinação discretamente diabólica. ou seja. audaciosamente com um Decolapaladar. composto por partes quase iguais de caldo de carne. Muitos dos convidados já tinham. Eletricidade atmosférica confeitada E eis que aparecem os garçons com grandes bandejas carregando o “servovoadinhas de pradaria”. porém mais de um com evidente covardia. Alimento que se vangloriava de 189 Cozinha futurista. os convidados tentaram corajosamente o experimento da deglutição. então. a esta altura. grandes pétalas de rosa. misteriosíssimas almôndegas sobre cuja composição não é belo nem útil indagar. seu aparelho digestivo em condições não de todo normais.A cozinha futurista    As rosas em brodo Prosseguiu-se. que para os iniciados deve ter extraordinárias virtudes apetitivas. renunciou a levá-lo a cabo e contentou-se apenas em tirar do prato uma pétala de rosa. “Boi na fuselagem”. de champagne e de licores: sobre esta mistura. este prato esteve entre os mais apreciados como aquele que ofereceu a muitos dos convidados o direito de saciar sua fome ao menos com pão. aos netos. vagas e frágeis. Belos os aviões.indd 189 7/4/2009 15:51:25 . Teve lugar o terceiro prato. nome que designava um brodo de natureza bastante bizarra. de modo que não se podem reprovar os que não souberam reprimir um instintivo gesto de terror no momento em que apareceu a taça contendo o “alimento conclusivo”. menos belas as almôndegas. mais tarde. onde fatias de beterraba e fatias de laranja faziam complô aliadas a azeite. nadavam. vinagre e pitadas de sal. que como nunca então pareceu um alimento precioso e divino.

assim. com admirável eloquência que lhe escapava espontânea como se ele não tivesse tocado na comida. contendo em seu interior uma massa doce formada por ingredientes que só poderiam ser precisados após uma paciente análise química. Chega-se. Ao sentar-se Marinetti. E levantou-se a falar Marinetti que. no início do banquete. infelizmente não sabemos os nomes. T. serviram na Casa do Fascio um grande Aerobanquete (cujo preço era de 20 liras por pessoa). Marinetti em 12 de dezembro de 1931. A seguir os mesmos pintores. e o salão da Casa do Fascio.Fillippo Tommaso Marinetti um nome excessivamente dinâmico: “Eletricidade atmosférica confeitada”. Devemos dizer. Dizemos infelizmente porque um tal grupo de heróis merecia. no Círculo dos Jornalistas. pelo escrúpulo de cronistas.indd 190 7/4/2009 15:51:25 . entre a maior expectativa. uma importante Mostra de Aeropintura que foi inaugurada por F. ser eternizado em uma lápide de bronze. ao menos. escolhido pelo especialíssimo desafio culinário. foi possível provar um inesquecível ensaio. recebeu ontem à noite às 21h30 ( também o horário era ligeiramente fora 190 Cozinha futurista. Estas queridas e inesquecíveis “eletricidades” tinham a forma de coloridíssimos sabonetes de mármore fingido. no confronto. que apenas uma mínima parte dos banqueteadores ousou levar este sabonete à boca: daqueles que ousaram. levantou-se o poeta Farfa. O aerobanquete futurista de bolonha Os pintores futuristas Caviglioni e Alberti organizaram em Bolonha. irrompeu em um violento sermão contra a infâmia do macarrão e o vitupério dos ravioli. ao Amarração digestiva: amarração que nem todos realizaram. que declamou com ímpeto aviador um hino quase pindárico intitulado ‘Tubulação’ ”. que foi assim narrado no Resto del Carlino: “O sucesso de curiosidade do Aerobanquete foi enorme. os pratos futuristas e particularmente as tâmaras anfíbias das quais. dado que muitos já estavam aprofundados no momento da decolagem. exaltando.

coloridas grosseiramente e entalhadas artísticamente. e uma chapa de lata polida serve como apoio de prato onde as senhoras controlam – Oh! o delicioso espelho de sorte – sua comprometida maquiagem. Outra descoberta autêntica: o pão. que veio para sancionar com o sagrado selo do Studio. senhoras e simples gourmets. mas pãezinhos propositadamente modelados. lá no fundo a cauda. elas são substituídas por batatas cruas. como costuma acontecer nos aviões autênticos). jornalistas. Ghigi. ou kipfel vienense. Pouquíssima coisa visível. Os copos são os de sempre. para nossa sorte! . 191 Cozinha futurista. Como no avião O Aerobanquete justificou o próprio nome através do cenário criado pelos organizadores. E entre as autoridades estavam o Governador da Província comendador Turchi e o Reitor magnífico da Universidade prof. (Desabitada.A cozinha futurista    dos padrões!) muitas pessoas. dando a impressão de um avião. A síntese das mesas é evidente. mais atrás dois cilindros de motocicleta. os pratos e os talheres. e é preciso confessar que a forma se presta extraordinariamente ao cozimento perfeito da massa e ao seu abiscoitamento.. o rebelde movimento de ódio ao macarrão. Nada das rosetas comuns ou bastões à moda francesa. e pior para quem não sabe distinguir entre as coisas que servem ao prazer do estômago e aquelas destinadas à alegria dos olhos. Entre as asas uma grande hélice – parada. pintores. idem idem. que na fantasia dos promotores queriam ser alumínio. entre as quais notavam-se personalidades e autoridades. que reproduzem a forma de um monomotor ou de uma hélice. promovidos pela ocasião a motores de avião.indd 191 7/4/2009 15:51:25 . As mesas foram dispostas com inclinações e ângulos. Aqui as asas – mas finas e estreitas como em um hidroplano de alta velocidade – aqui a fuselagem. mas não há absolutamente flores. No lugar das toalhas de sempre encontramos folhas de papel prateado.

O cardápio fala de “Estrondos ascensionais” mas S. … e os rumores “nutrientes” Temíamos o advento de qualquer complicação. onde o arroz é sempre aquele… o mesmo. E a laranja foi coberta com manteiga colorida rosa… Antes porém que os pareceres sobre o prato de inauguração se difundam. O risoto de laranja. enquanto o pintor Alberti. Excelência Marinetti rebatiza o prato assim: risoto de laranja. mas o molho – ah. o molho! – é a base de laranja. o prato número dois apresenta-se majestosamente entre os “oh” dos presentes. provoca certa inquietude nos escalões. mas não nos parece nada além de uma salada russa alten-styl.Observem como o barulho dos motores favorecem e nutrem o estômago… É uma espécie de massagem do apetite… 4 Relativo ao pintor futurista Fortunato Depero. diretor do refeitório. O qual se chama “aeroporto picante”. O risoto de laranjas… O aerobanquete é inaugurado de modo levemente passadista: com o antepasto.Fillippo Tommaso Marinetti Última constatação: os garçons usam um colete de celulóide de cor azul. exibe um pomposo e muito chamativo colete deperiano4 de mil cores. mas repentinamente a sala imergiu em uma diáfana luz azul e um motor começa a funcionar na sala ao lado.indd 192 7/4/2009 15:51:25 . E com pequenas fatias de laranja fritas doura-se a palidez da iguaria. O pintor Alberti anuncia gravemente – mas por que aquele senhor sorri? – que o avião voa a oito mil metros de altitude e Marinetti confirma com autoridade explicando: . 192 Cozinha futurista. com o acréscimo de uma fatia de laranja casada com uma fatia de ovo cozido e uma azeitona. sejamos sinceros.

E é um sucesso indiscutível. servido de algumas latas de óleo extradenso. as duas castanhas junto com uma lingüiça não produzem mais nenhuma impressão! Um pecado que a carne – depois do habitual giro de apresentação em volta das mesas – chegue quase fria. Trata-se na verdade de um escalope de vitelo. interrogando-o por que ousara cheirar a carne antes de experimentá-la. representante dos Aqueus. .indd 193 7/4/2009 15:51:25 . não sente nenhuma saudade. . para se dizer a verdade. – E uma homérica risada recebeu a piada. para ouvir se relinchava. (Seria necessário outro). Marinetti. O vinho em … latas. os comensais se prestam a mordiscar as asas dos aviões panificados.Justíssimo… Eu deveria tê-la encostado ao ouvido. afirmando que a oito mil metros de altitude os alimentos não possam manter-se fervendo… Pouco depois o chefe do futurismo dirige a própria ofensiva contra o pacífico doutor Magli. é futurista somente nas nuances. O prato. E o carburante nacional (vulgo vinho das nossas colinas) avança triunfalmente. para 193 Cozinha futurista. e na expectativa do prato central. e a multidão não encontra nada melhor que colocar-se a bater furiosamente sopre os pratos de lata. entre uma taça de carburante nacional e um aceno nostálgico. Isto não é valo… E Magli num reflexo: . ao contrário. promovidos assim ao posto de “entoarumores”. É o vinho em galões. o “Carnescultura com fuselagem de vitelo” – chega. aos tortellini com molho. Mas depois dos experimentos a base de laranja.Exª. aliada a uma lingüiça fina. Exª. mas em voz baixa. S. e o acompanhamento compreende duas cebolinhas e duas castanhas fritas. O Aerobanquete prosseguiu assim entre um prato e uma piada. Marinetti aumente o seu… gelo. Ele é entusiasta do simpósio e pede aliás aos cozinheiros que façam-se presentes.Queremos o carburante nacional. E não adianta que S.Isto – exclama – é passadista. Mas também o prato central – ou seja.A cozinha futurista    Finalmente se desce novamente da “estratosfera” culinária.

Fillippo Tommaso Marinetti aplaudi-los. – Venham os cozinheiros. a trincheira da massa com ovos.indd 194 7/4/2009 15:51:25 . levantou-se a falar a medalha de ouro Onida. perdoem-nos. a obesidade. Nós queremos manter a nossa antiga vitalidade goliardesca. a barriga. proclamando: . Mas os solicitados demoram a vir. é a luta contra o peso. Queremos para tanto que a cozinha italiana não se torne um museu. De fato. Temem ser satirizados e parece que dizem em seu mudo discurso: . A cozinha futurista é a realização do desejo geral de renovar a nossa alimentação. e Marinetti repete a interpelação. levantou-se Marinetti para declarar que a sua eloquência estava literalmente tampada pela suculência variada e deliciosa das aeroiguarias degustadas.Não vêm porque têm medo de nós! Mas trata-se de evidente calúnia. de onde o macarrão está definitivamente em retirada. O nosso esforço tende a militarizar todas as nossas jovens forças. enquanto um anônimo enviava um telegrama em que dizia textualmente: “Abaixo o macarrão. acolhidos pelos aplausos de Marinetti e seus sequazes. – E então uma voz clara se levanta do fundo da sala. porque. tudo bem. Mas os dois cozinheiros estão incertos. mesmo se os anos nos acenam com suas chuvas e suas neblinas.Meus senhores. o banquete encerrou-se com discursos. dois cordons bleus da Casa do Fascio fazem sua entrada. Afirmamos que a genialidade italiana é capaz de inventar outros três 194 Cozinha futurista. mas a culpa não é nossa… Abaixo a “cozinha-museu” Iniciado pelo antepasto. Os tagliatelle – diz – são agora a última trincheira dos passadistas. como por exemplo o arroz temperado com laranja. logo depois. então o doutor Magli expressou os sentimentos dos “tagliatelistas”. algumas das quais – acrescentou – são achados importantíssimos. mas os tagliatelle são outra coisa!” Por fim. Teceu então elogios à cozinha futurista.

Com uma nova explosiva saudação aos colaboradores bolonheses. Seria possível formar diversos volumes recolhendo toda a explosão de bizzarria. ( Propaganda internacional contra o macarrão) que abria vários concursos para combater a iguaria odiada e inventar novos alimentos. Marinetti concluiu o seu discurso e o Aerobanquete terminou.indd 195 7/4/2009 15:51:25 . porém mais adequados à sensibilidade modificada e às necessidades modificadas da geração contemporânea.A. igualmente bons. Novara.P. 2) Apareceu nos jornais de Gênova o comunicado da fundação de uma Sociedade chamada P. Anedotas típicas Além dos milhares de artigos nos quais eram discutidos. depreciados. invenções e humorismos sugeridos pela cozinha futurista e pela sua realização. um número incalculável de mulheres se reuniu para assinar uma solene carta-súplica a favor do macarrão. 195 Cozinha futurista. As mulheres de Áquila que nunca antes se haviam preocupado. São típicas as seguintes anedotas: 1) Em Áquila. julgaram necessária esta sublevação coletiva. 3) Houve em Nápoles cortejos populares a favor do macarrão.I. em todas as revistas ilustradas ou diretamente entre o público. S. enquanto os comensais levavam como recordação os pratos de lata. Esta carta foi dirigida a Marinetti. com a ponta de um garfo que fazia as vezes de buril”. nos quais o chefe dos futuristas foi obrigado a marcar a própria assinatura.Exª. condenados e defendidos os grandes banquetes futuristas de Torino. tão profunda era nelas a fé no macarrão.A cozinha futurista    mil pratos. Chiavari e Bolonha. nem mesmo com problemas importantíssimos. um enorme número de caricaturas e de anedotas circulava em todos os semanários. exaltados. Paris.

6) Em Bolonha. os clientes de duas trattorias italianas. chegou de improviso F. T. e aconteceu então uma clamorosa batalha pelas janelas e na rua com projéteis comestíveis e panelas. Alguns feridos. preparam outras inovações originais.Fillippo Tommaso Marinetti 4) Em São Francisco. um teatro de revista intitulado “carnescultura”. um novo sentido de otimismo e de alegria dissipou o nostálgico e cinzento hábito dos velhos jantares e os futuristas. que tentavam assim desacreditar a campanha por uma nova alimentação. declamaram-se pró e contra a cozinha futurista. enquanto alternam-se as polêmicas. para o espanto de todos. 5) Em Turim.indd 196 7/4/2009 15:51:25 . em Bolonha. situadas uma no térreo e outra no primeiro andar de uma casa popular. superando as primeiras realizações. 8) Representou-se. e aconteceram então discussões e polêmicas violentíssimas entre os dois partidos. durante um grande jantar estudantil. 9) Representou-se em Turim uma opereta de Sparacino e Dall’argine intitulada “Santopaladar”. No entanto. 7) Apareceram em algumas revistas de grande tiragem fotografias de Marinetti no ato de degustar o macarrão: eram montagens fotográficas executadas por experts adversários da cozinha futurista. Marinetti que. 196 Cozinha futurista. os mais célebres cozinheiros organizaram um congresso para decidir o mérito da cozinha futurista. comeu avidamente um prato de espaguete: somente depois os comensais perceberam que Marinetti não era nada além de um estudante habilmente maquiado. Califórnia.

espiritualizá-la e dinamizá-la. comestíveis. Coloquem. Inadequada a leitura de um livro ameno. a sugerir e determinar os indispensáveis estados de ânimo que não se poderiam sugerir e determinar de outro modo. mediante a arte de harmonizar os pratos futuristas. A cozinha futurista propõe-se ainda. de uma esposa. ao contrário. Um passeio sonhador é igualmente inadequado. em janeiro. infusa por 24 horas em um molho de leite. dos filhos ou em cartas apaixonadas. Cardápio heróico invernal Os combatentes que devem subir no caminhão às 3 da tarde. ou sair em vôo para bombardear cidades ou contra-atacar tropas inimigas.A cozinha futurista    Os cardápios futuristas sugestivos e determinantes A cozinha futurista propõe não somente uma revolução completa na alimentação da nossa raça. estes combatentes à mesa. alcaparras e pimenta vermelha. para entrar na linha de fogo às 4. PEIXE COLONIAL AO RUFAR DE TAMBOR: mugem5 aferventada. procurariam em vão uma preparação perfeita no beijo doloroso de uma mãe. licor. Combinamos programas de refeições a que nós chamamos SUGESTIVAS E DETERMINANTES. com o intuito de torná-la leve. onde será servido um “peixe colonial ao rufar de tambor” e “carne crua esquartejada pelo som de trompa”. douradas ou prateadas. No momento de servi-lo.indd 197 7/4/2009 15:51:25 . com grandes escamas arredondadas. São fusiformes. será aberto e recheado 5 Peixe da família dos mugilídeos. 197 Cozinha futurista.

com borrifadores. jasmim. Será comido sob o rufar continuado de um tambor. CARNE CRUA ESQUARTEJADA PELO SOM DE TROMPA: cortar um cubo perfeito de carne bovina. Eletrocutá-la com correntes elétricas. Enquanto estas desaparecem nas bocas. servi-la sobre um leito de pimenta vermelha. suavíssimos perfumes de rosa. conhaque e vermute branco. romãs e laranjas vermelhas. cuja doçura nostálgica e decadente será brutalmente refutada pelos combatentes. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio de verão de pintura-escultura Após um longo período de repouso. serão espargidos na sala. Extraída da mistura. serão servidos aos combatentes pratos de caqui maduro. durolíqüido constituído por uma bolota de queijo parmesão macerado em Marsala. Mastigar atentamente por um minuto cada bocado. engolirão o Explosãonagarganta. que colocarão como raios a máscara contra gás asfixiante. No momento de partir. pimenta preta e neve. separando-os uns dos outros com impetuosas notas de trompa sopradas pelo mesmo “comedor”.Fillippo Tommaso Marinetti com conserva de damasco intercalada com rodelas de banana e fatias de abacaxi. tentaria em vão excitar a própria inspiração em uma refeição suculentatradicional. No momento do Paraselevantar. 198 Cozinha futurista. madressilva e acácia. mantê-la por 24 horas em uma infusão de rum. um pintor ou um escultor que deseje retomar sua atividade criadora às 3 horas da tarde de verão.indd 198 7/4/2009 15:51:25 .

um maço de salada. terminaria por consumir a jornada fanfarronando artisticamente sem criar arte alguma. bicarbonato de sódio. Não quente. verde.A cozinha futurista    Empanturrado. Ponham a mesa então ao ar livre. vestidos de lã branca e sem jaqueta. um prato fundo cheio de mel. um prato fundo cheio de azeite. mas morno. um maço de rosas brancas com caules relativamente espinhosos.indd 199 7/4/2009 15:51:25 . um prato fundo cheio de vinagre forte. sob um caramanchão que deixe passar os dedos quentes do sol. servida uma refeição de puros elementos gastronômicos: uma sopeira de bom molho de tomate. sirva-se imediatamente um prato sinóticosingustativo de pimentões. alho. e desobedecendo continuamente aos hábitos enraizados nos nervos. não temperada e fora do prato. deveria passear para digerir e entre inquietudes e pessimismos cerebrais. uma grande polenta amarela. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio vocabulivre primaveril O atravessar de um jardim primaveril entre os doces fogos de uma aurora cheia de timidez infantil deu a três jovens. ao contrário. uma ansiedade entre o literário e o erótico que não pode ser apagada por um café da manhã normal. um grande maço de rabanetes vermelhos. eqüidistantes. pétalas de rosa. Seja-lhe. sem talheres. bananas descascadas e óleo de fígado de bacalhau. Acaso. mate a fome enquanto observa o quadro do “Jogador de Futebol” de Umberto Boccioni. Comerão tudo? Experimentarão partes? Intuirão as relações fantásticas sem sequer experimentar? À vontade! 199 Cozinha futurista.

com altivas palavras em liberdade fora de qualquer ordem lógica e diretamente expressas pelos nervos. polemizando à mesa com adjetivos iluminantes. Cada dente do alho será então cuidadosamente envolvido nas pétalas de rosa pelos mesmos dedos dos três convidados que assim se distrairão a combinar poesia e prosa. lamber. um prato de tradicionais tortellini in brodo. assobiantes. levando nos braços uma bacia cheia de morangos nadando no Grignolino bem açucarado. para que sirva o mais rápido possível. Isto fará com que o seu paladar alce súbito vôo procurando no prato sinóptico-singustativo uma indispensável nova harmonia. desmacular-se. Entra então a camponesinha jovem e gorda. Diretamente sobre as cabeças a camponesinha servirá. Põem-se eles finalmente a comer. verbos fechados entre dois pontos. O bicarbonato de sódio a disposição constituirá o verbo no infinitivo de todos os problemas alimentares e digestivos. a seguir. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti 200 Cozinha futurista. rumorismos abstratos. Mas o tédio e a monotonia poderiam nascer depois que os paladares tivessem provado o alho com rosas. Os jovens a convidarão. Provam então mergulhar o pimentão no óleo de fígado de bacalhau. gritos animalescos que seduziriam todos os animais da primavera.Fillippo Tommaso Marinetti Convenientemente comerão.indd 200 7/4/2009 15:51:25 . ruminantes. beber. ralhantes e cantantes em giro. Formarão imediatamente uma relação metafórica inusitada entre os pimentões (símbolo de força campestre) e o óleo de fígado de bacalhau (símbolo de mares nórdicos ferozes e necessidade curativa de pulmões doentes). roncantes. cochichantes.

Agosto. quatro longos apertos de mão na camponesa-cozinheira e todos para fora no escuro vento chuva do bosque. para serem olhadas e cheiradas intensamente. à esquerda dos comensais.A cozinha futurista    Cardápio musical de outono Em uma cabana de caçadores semi-escondida em um bosque verde-azul-perfumado. dois casais se sentam a uma mesa rústica formada por troncos de carvalho. doze batatinhas fritas. Depois. Depois. Depois. Esperando a camponesa-cozinheira. sete alcaparras. pela mesa ainda vazia passará. silêncio de um minuto. uma codorna assada para cada um dos convidados. Depois.indd 201 7/4/2009 15:51:25 . um silêncio de quinze minutos durante os quais as bocas continuam a mastigar o vazio. A lua a pico serve abundante leite talhado sobre a toalha. o assobio que o vento infiltra pela fechadura da porta. arrancado no quarto da esquerda pelo filho convalescente da camponesa. Depois. Duelará com aquele assobio o gemido longo mas afinado de um som de violino. um gole de vinho Barolo mantido na boca por um minuto. A morena peituda e bunduda cozinheira caprese entra carregando um enorme presunto sobre uma bandeja e diz 201 Cozinha futurista. único alimento. vinte e cinco cerejas ao licor. Depois. Depois. O rápido crepúsculo sangüíneo agoniza sob as enormes barrigas das trevas como sob chuvosos e quase líquidos cetáceos. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio noturno de amor Terraço de Capri. dois minutos de grão de bico em azeite e vinagre. Depois. Depois. sem comer.

Seguem as grandes ostras. Leite verdadeiro.Fillippo Tommaso Marinetti aos dois amantes reclinados nas duas espreguiçadeiras e incertos sobre retomarem as fadigas da cama ou iniciarem aquelas da mesa: . e Hallaua é um alimento de origem árabe. cada uma com onze gotas de Moscato de Siracusa em sua água marinha. caviar. não aquele ilusório de lua. pasta de amêndoas.indd 202 7/4/2009 15:51:25 . Para adocicá-lo entretanto e liberá-lo da aspereza e da virulência original. de origem grega. circundado de risoto ao açafrão. fascinada. A cama.” Os dois amantes devoram metade do presunto. ovos. servido com mel. 202 Cozinha futurista. uma pitada de noz moscada e um cravo: tudo liqüefeito em licor Strega. Depois o Guerranacama. 6 Lacumia é uma espécie de bolinho. Entrarão então na cama levantando no pequeno copo o bebericável Guerranacama composto de suco de abacaxi. uma pitada de pimenta vermelha. a base de gergelim. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio turístico (realizada para a Mostra circulante futurista Paris-Londres-Bruxelas-Berlim-Sofia-Istambul-Atenas-Milão) Lista dos pratos: Pré salé aux petits pois. deixei-o infuso por uma semana no leite. chocolate.“é um presunto que contém uma centena de carnes diversas de porco. Depois uma taça de Asti espumante. Roast-beef circundado por lacumias e Hallaua6. vem ao seu encontro do fundo do quarto aberto. grande e já cheia de lua. Comam abundantemente.

Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio oficial O cardápio oficial futurista evita os graves defeitos que poluem todos os banquetes oficiais: PRIMEIRO: o silêncio embaraçado que deriva da falta de harmonia preexistente entre os vizinhos da mesa. devido à etiqueta diplomática. QUINTO: o tom baixo pálido fúnebre banal dos pratos. toma a palavra. sem se levantar.A cozinha futurista    Lingüiças nadando em cerveja pulverizadas de pistaches cristalizados. Enguia marinada recheada com minestrone à milanesa gelado e com damascos recheados de anchovas. Pêssegos com o coração de vinho doce toscano fechado. Poças de mel e poças de vinho dos Castelos romanos alternados em uma planície quadrada de papa de batatas. o Esganador. que deve se desenvolver em um amplo salão adornado por enormes quadros de Fortunato Depero. QUARTO: o rancor das fronteiras. Suco de morangos para ser bebido com friturinhas ao óleo. mas escolhido entre os mais inteligentes e mais jovens parasitas da aristocracia e famoso pelo seu conhecimento total de todas as piadas obscenas. após uma distribuição rápida de polibebidas e entreosdois. convidado não-pertencente a nenhum corpo diplomático e a nenhuma política. 203 Cozinha futurista.indd 203 7/4/2009 15:51:25 . Na refeição oficial futurista. que nadem em um mar de conhaque. TERCEIRO: as caras feias produzida pelos problemas mundiais insolúveis. SEGUNDO: a reserva dos diálogos.

(Esta iguaria será saboreada enquanto um negrinho de 12 anos fará cócegas nas pernas e beliscará as nádegas das senhoras.Fillippo Tommaso Marinetti O Esganador. com base de nitroglicerina. o Diretor. repetirá suas desculpas. 2) “A Sociedade das Nações”: salaminhos negros e canudinhos de chocolate nadando em um creme feito com leite. gengibre. e temperadas mergulhando seus pedaços nas pequenas tigelas oferecidas com azeite.indd 204 7/4/2009 15:51:26 . ovos e baunilha. velho Barolo. açúcar. Seguem: 1) “Os antropófagos inscrevem-se em Genebra”: um prato de várias carnes cruas para serem cortadas à vontade. risoto de açafrão.) 3) “O tratado sólido”: castelo multicolorido de torrones com. pequeninas bombas de balestite7 que explodirão a tempo perfumando a sala com o típico odor das batalhas. apenas terão seu volume diminuído e eis que ainda na entrada. descoberto por Alfred Nobel. vinagre. que acolherão as desculpas do diretor. ele. orientando-se pelo maior ou menos grau de mau humor a combater. Uma vez generalizado de uma ponta à outra da mesa o fogo cruzado das gargalhadas dos comensais. mas sempre atrasados por impedimentos e desastres automobilísticos e por descarrilamentos ferroviários. manteiga. Usado para dar mais potência aos canhões 204 Cozinha futurista. dirá subitamente a meia voz três piadas obsceníssimas. Assim por toda uma meia hora. as ironias e as brincadeiras. mel. de uma fruta paradisíaca escolhida no Equador. Ao Paraselevantar o diretor da refeição oficial entrará e com muitas desculpas cerimoniosas pedirá para esperar a chegada há muito anunciada. dentro. será servida uma gororoba de semolina. e do sorvete desgraçadamente tanto arquitetado que caiu pouco antes na cozinha. tapioca e leite em sopeira de convento para satirizar e espantar toda diplomacia e toda reserva. Os comentários. sem abandonar-se entretanto à inconveniência. 7 Balestite é um explosivo. pimenta vermelha.

Ser-lhe-á então oferecida uma seleção dos melhores vinhos italianos. qualidade e quantidade. ao invés da fruta milagrosa. conselhos. As crianças se enchem de confetes e rolam sobre as flores de laranjeira do vestido nupcial. Logicamente pedirá para continuar bebendo. está em conserva de óleo. Ninguém pode comer nem provar as bebidas já que. econômico. o bêbedo de sempre pescado nas periferias naquela mesma noite e levado à força para a sala do banquete oficial. sob uma condição no entanto: que fale por duas horas sobre as possíveis soluções para o problema do desarmamento. bem penteado.A cozinha futurista    Então entrará. repugna-lhes estabilizar o paladar e o estômago. em conserva de vinagre. Todos desejam felicidades como se libertam raças com o medo na ponta dos dedos e da língua. O esposo. Os primos. estando todos no instável. A virgem já está nos braços dos anjos. A sogra espalha febrilmente cumprimentos. carnal. da revisão dos tratados e da crise financeira. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio de núpcias As refeições de núpcias comuns sob a sua aparente e ostentada festividade escondem mil preocupações: se o casamento será feliz ou não. pentes e grampos de inveja.indd 205 7/4/2009 15:51:26 . 205 Cozinha futurista. todas escovas. As amigas da esposa. olhadas piedosas e olhares de falsa alegria. do ponto de vista intelectual. profissional. prolífico.

amarelar o vestido nupcial como uma duna africana. Uma sopeira de magnífica sopa conhecida e amada por todos (arroz. põe-se a gritar segurando a barriga o janota habitual de todas as festas de casamento. reentrará com uma bacia. será tanto um ganho de tempo mediante um final de viagem imprevista. distante ou próxima? Pouco importa. exceto aquela venenosa. entre uma perdiz e uma lebre. O esposo se mantenha calmo: será ele que..indd 206 7/4/2009 15:51:26 . A menos que minha miopia tenha me pregado uma bela peça. equilibrada sobre a cabeça. querida?” “Temo-os menos que suas prováveis traições. Conseguirá ou não? Talvez entorne e as marcas sobre o vestido nupcial corrigirão oportunamente a insolente e pouco fortunosa brancura excessiva.Fillippo Tommaso Marinetti Reina então durante a refeição um equilíbrio que responde ao equilíbrio dos estados de ânimo. Se este prato. malvado!” Então. pede demissão porque foi ofendido 206 Cozinha futurista. Explode naturalmente uma competição heróica.. nos bosques de Pistóia ensopados de chuva. entrando enfurecido. De qualquer modo estão tão bem cozidos que lhes aconselho atacá-los audazmente. mesmo temendo a presença de alguns absolutamente mortais”. ao sair um instante. Há cogumelos de toda espécie. fígado e feijão em caldo de codorna) é conduzida no alto sobre três dedos pelo cozinheiro que salta com a perna esquerda. Todos riem. certamente um pouco cedo. Eu não hesito. cheia de risoto à milanesa com açafrão e abundantes trufas de coloração pecado. “Não tem medo. pomposamente elogiados pelo habitual caçador maníaco: .diz a esposa. “São tão bons”. Serão servidos então cogumelos trufados. O cozinheiro. Proceda-se à limpeza com a ajuda de todos. Muitos devoram os cogumelos. Fingirá sofrer ou realmente será torturado por dores de origem misteriosa.“eu mesmo os recolhi todos. ao cair também.

De uma costa a outra. que substitui o habitual sorvete inadequado. Recomeça o caçador: “.Entre todas essas perdizes. tive que descer até o fundo da torrente e subir novamente. Mas. move-se”. são servidas lebres e perdizes cozidas em vinho com especiarias. Segue um Fernet para todos. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio econômico 1) “O agreste absoluto”: maçãs assadas ao forno.” -“Para a virtude ambulante dos vermes. Frio intenso nos comensais. 207 Cozinha futurista. aos estômagos agora tão aquecidos por equilibrismos de felicidade.A cozinha futurista    mortalmente pelas suspeitas e não pelos cogumelos que são inocentísssssssimos. a maior. depois recheadas de feijões cozidos em um mar de leite. custou-me uma perseguição de dez quilômetros. Agora está finalmente parada. aquela ali. por outro lado. Entontecidos pelas palavras. no mesmo vale. Comida de caçadores. isto é.acrescenta o janota. parece viva. regando-o com vinhos Barbera e Barolo. A cada vez reconhecia as mais belas penas avermelhadas. move-se ainda talvez. sempre sob a eloquência do caçador. os convidados comem-no abundantemente. Ele mesmo preparou na cozinha esta iguaria formada com a pasta de outras perdizes quase putrefatas e maceradas com os velhos queijos robiola no rum. verificadísssssssimos. cogumelos alarmantes e perdizes dinâmicos. embriagados pelo suavíssimo perfume de cloaca suave.indd 207 7/4/2009 15:51:26 .

em ressoantes pratos ornados de sininhos. 3) A falta de carne humana viva e presente que é indispensável para manter o paladar do homem confinado na zona das carnes animais. salpicadas por feijão cozido e caramelizado. 4) “Bosque inundado ao pôr-do-sol”: endívias cozidas ao vinho. sobre uma mesa cujas quatro pernas serão constituídas por acordeões. Este menu deve ser degustado enquanto um hábil recitador faz explodir a lírica humorística do Poeta-record Nacional Farfa. são apresentados. metade formado por pesto de espinafre e metade por patê de lentilhas. 4) A inevitável aceleração do ritmo das mandíbulas que fogem do tédio.indd 208 7/4/2009 15:51:26 . os pratos-retratos: 208 Cozinha futurista. imitando sua típica voz de míope cano de escapamento. 2) O silêncio carregado de pensamentos meditativos que contamina e enchumba os pratos. Em uma sala. decorada com aeropinturas e aeroesculturas dos futuristas Tato.Fillippo Tommaso Marinetti 2) “Abominação campestre”: berinjelas cozidas em tomate. 3) “Pimentão urbanístico”: grandes pimentões vermelhos que fecharão. cada um. Benedetta. uma pasta de maçãs cozidas envoltas em folhas de alface caramelizadas. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio de solteiro A cozinha futurista propõe-se a evitar os defeitos que distinguem as refeições dos solteiros: 1) A solidão anti-humana que fatalmente absorve uma parte das forças vitais do estômago. Dottori e Mino Rosso. depois recheadas com anchovas e servidas sobre um leito.

Uma romã aberta na boca. a quarta sobre a estufa quente e relativa ciranda de plantas odoríferas raras deslizante sobre trilhos. 209 Cozinha futurista. mas serão saciados apenas de perfumes. que se abrem eletricamente mediante botões postos sob os dedos dos convidados dão: a primeira para a massa dos odores do lago. duas coxas de frango cozidas. calmo preguiçoso solitário putrefato. em uma língua de terra que divida o mais lacustre dos lagos. As portas-janela. cheia de leite apenas ordenhado. a segunda para a massa dos odores de um paiol e relativo reservatório de frutas. a terceira para a massa dos odores do mar e relativa peixaria. tudo coberto por pétalas de violeta. Será servido em uma casa de campo construída especialmente por Prampolini (a partir da concepção de Marinetti). Brincos pendurados de rabanetinhos vermelhos untados em mel. 3) “Prato-retrato da bela desnuda”: em uma pequena bacia de cristal. do mais amplo e marino dos mares.indd 209 7/4/2009 15:51:26 . 4) “Porta-retrato dos inimigos”: sete cubos de torrone de Cremona. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio extremista Para esta refeição em que não comerão. 2) “Prato-retrato do amigo moreno”: bochechas bem modeladas de massa podre – bigodes e cabelos de chocolate – grandes córneas de leite e mel – pupilas de alcaçuz. Bem engravatado com tripa ao brodo. cada um com uma poça de vinagre por cima e sobre um dos lados pendurado um grande sino. estejam os convidados em jejum há dois dias.A cozinha futurista    1) “prato-retrato louro”: um belo pedaço de vitela assada esculpido com duas grandes pupilas de alho em um ninho de repolho triturado e fervido e alface verde.

grandes artistas? Parem de enrolar ou pegamos todos vocês a chutes”. cachia8 e pimenta vermelha. Máxima intensidade dos perfumes da paisagem circundante. O neutro treme como um sismógrafo esperançoso. 5 homens e um neutro) têm um pequeno ventilador de mão cada. Os três complexos-escultura vaporizantes param de um só golpe com a irrupção na sala de três ajudantes de cozinha embainhados de seda branca e alto chapéu branco luminoso. desaparecendo e reaparecendo: 1) um complexo-escultural munido de vaporizador com a forma e o odor de um castelo de risoto à milanesa golpeado por um mar de espinafre encristados de creme. Fora.indd 210 7/4/2009 15:51:26 . Um ensurdecedor toque de sinos de 5 minutos. 3) um complexo-escultura munido de vaporizador com a forma e o odor de um lago de chocolate que circunda uma ilhota de pimentões recheados com geléia de tâmaras. mantidas fora das janelas escancaradas como as comportas de um canal. mas também imbecis. Os onze convidados (5 mulheres. 210 Cozinha futurista. No comprimento de uma mesa em forma de paralelepípedo afloram. Uma pausa de silêncio concedida à invasiva policonversação e quacrelogia das rãs lacustres que acompanharão a abertura lenta da 8 Flor da esponjeira. 2) um complexo-escultura munido de vaporizador com a forma e o odor de um navio de berinjelas fritas cobertas de baunilha. com o qual capturar à vontade o odor espargido do canto munido de um potente aspirador. que gritam: -“vocês são os chefes. Vocês se decidem ou não se decidem a comer os pratos refinadíssimos preparados por nós. deslizando automovelmente.Fillippo Tommaso Marinetti Noite de Agosto. Antes da refeição os convidados declamam “Elogio ao outono” do poeta futurista Settimelli e “Entrevista com um Caproni” do poeta futurista Mario Carli.

de velhos juncos queimados. põem-se a mastigar febrilmente o vazio. com visões de imensos golfos espumosos e tranqüilos cais verdes frescos ao amanhecer. Os dois perfumes de vida carne luxúria morte sintetizam e então apagam todos os onze paladares famintos. Entra um perfume agro-suave-pútrido-delicadíssimo de lírios civilizados que. mas selvagem. o terceiro de uva e o quarto de alfarroba) precipitam-se na sala tornada inodora. Os ventiladores de mão cancelam tudo. Os cozinheiros espiam pela porta e desaparecem. Confusão. Abre-se então a porta-janela do reservatório de frutas e quatro odores (o primeiro de maçãs. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio dinâmico 211 Cozinha futurista. veios de amoníaco e uma lembrança de ácido fênico. Todos os convidados apontam os ventiladores de mão como escudos contra a porta-janela lacustre. deixadas até agora pensativas ou atônitas. Gane o convidado neutro: -“Pelo menos doze ostras e dois dedos de Marsala”. encontra-se com o perfume idêntico.indd 211 7/4/2009 15:51:26 . Escapa um relincho do convidado neutro. ou então veremos as feias bocas dos machões fincarem os dentes nas carnes insípidas das nossas cinco amigas”. Curto assombro.A cozinha futurista    porta-janela pressionada pelos odores de ervas podres. O neutro choraminga: -“Por caridade. vindo do lago. saindo da estufa. Mas a frase é cancelada junto com o mar e relativa peixaria prateada por prepotentes perfumes de rosa de tal modo curvilíneas e carnudas que as onze bocas. o segundo de abacaxi. cozinheiros belos. tragam-nos qualquer coisa para mastigar. mas subitamente irrompe da outra porta-janela o mar com cem chispares e enguiamentos de odores salinos.

pão. Mas os mais jovens não amam as pausas e querem rir. Uns vinte oficiais. empurro brutalmente o meu companheiro da direita.Fillippo Tommaso Marinetti No romance “L’Alcova d’Acciao” F. Espirram os seus gritos. faca. marche! Depois levantando como posso pratos. Risos. capitães. eu comando: 212 Cozinha futurista. gritos. agir. prontos. Levantamno como a um peso. enrolando os espaguetes sangüíneos e fumegantes. Os longos garfos vermelhos do pôr-do-sol entrelaçavam-se com os nossos. Silêncio religioso de bocas que mastigam orações suculentas. Despencar de copos.indd 212 7/4/2009 15:51:26 .Para não empantanar a nossa sensibilidade. copos. mas o doutor bufa. O prato de macarrão entorna sobre a farda. Cabeças inclinadas sobre os pratos. digo em alta voz: . T. Fome de bombardeiros depois de uma jornada de trabalho duro. Dominando o tumulto. alvoroço. Sabem da minha fantasia fecunda em piadas e excitam-me com olhares. tenentes. grita. comia-se e bebia-se alegremente. e o bom doutor está absorvido gravemente demais no ritual do macarrão. deslocamento de dois lugares à direita. Todos empurram o doutor. espremem-no como uva. reclama. coronel Squilloni alegre e posudo na cabeceira da mesa. Marinetti descreve sua ansiedade de fugir do inevitável empantanamento da sensibilidade durante a refeição: “Na noite de primeiro de junho de 1918 na barraca dos bombardeiros desafiadoramente plantada obliquamente sobre uma cresta montanhosa do Vale do Ástico. executam o exercício. que cede de má vontade. Os jovens. Inundação de vinho. levanta tudo ele também e empurra à direita. depois me levanto e brandindo uma garfada de espaguete. Há muito silêncio à mesa. Com quatro bocados aplaco meu estômago.

Para não empantanar a nossa sensibilidade. O doutor me olha assustado. caro doutor. sacudidas. uma sífilis. ao bater na água. interromper com elasticidade futurista a sua barrigada passadista! Todos riem. Agrada muito ao coronel o jogo bizarro. uma otite. rufares e becchegiro9. esmagar o passadismo austro-húngaro. Gritos. Como poderia. Turbilhão.Deslocamento cumprido! Todos sentados! Mas problemas. sem elasticidade. Fugiu para o terraço com o seu prato de macarrão. luminoso banquete aéreo suspenso a pico na planície vêneta crepuscular. 213 Cozinha futurista. “caramba!”. não se esqueça de que a mais alta e preciosa virtude é a elasticidade. renovar integralmente a Itália depois da vitória? Imponho-lhe. todos nuvens de cristal incandescente. um calo. Como poderíamos. curar um gânglio. Somente o doutor não se diverte. “Acabem com isso!”. garrafas espumantes de ouro. pratos e copos nas mãos! Giro total da mesa em cortejo! O reboliço se torna infernal. cirros de porcelana violeta amassados. socos.A cozinha futurista    . problemas a quem ainda deixa empantanar a própria sensibilidade!. “Basta!”. Ameaçando-o burlescamente. fora. imponho: . Mas os jovens são tenazes e com força imprimem à multidão uma volta tumultuosa em torno da mesa.. de assalto! E termina-se a refeição confusamente. Onde está o doutro? Onde está? Todos o procuram.. rimos enquanto o coração chorava na retirada. Fora. tombos. Os meus amigos cantam ao redor do doutor o hino da burla futurista: Iró iró iró pic pic Iró iró iró pac pac 9 O substantivo refere-se provavelmente a um movimento ou um som semelhante ao feito por um barco em alta velocidade. sem elasticidade. debandados.indd 213 7/4/2009 15:51:26 . ou a fraqueza de certos superiores? Com elasticidade abandonamos o Carso após Caporetto. caro doutro. com grande farfalhar de risadas na risada fulva do crepúsculo. E você.

bocas abertas e mãos ameaçadoras. 3) “Colisão de automóveis”: semi esfera de anchovas prensadas conjunta a uma semi esfera de pasta de tâmaras. envoltos e embolotados em uma fatia de polenta esborrifada com água de colônia italiana. coberta de vinho moscato de Siracusa. superando janelas e terraços. um sem a cabeça. 214 Cozinha futurista. Seqüência de bocas dentes mãos. Ao escancarar da porta.indd 214 7/4/2009 15:51:26 . rum e pimenta vermelha. as mangas arregaçadas. todos se precipitarão furiosamente de assalto. Com um final de batalha gastronômica. serão mantidos fora da porta de uma sala de ginástica onde pelo chão e em pequenas pirâmides serão dispostas as comidas anunciadas. 4) “Perdendo uma roda”: quatro tordos assados com muito gengibre e sálvia. tudo enrolado em uma finíssima fatia de presunto macerada em Marsala.Fillippo Tommaso Marinetti Maa – gaa – laa Maa – gaa – laa RANRAN ZAAAF Matavam assim as nostalgias”. os lutadores não ensacam os golpes: engolem-nos. conquistar uma vintena de bolas comestíveis e. O habilíssimo entretanto será aquele que conseguir. de bocas abertas. 5) “Bombas de mão”: esfera de torrone de Cremona envolta em uma grande bisteca malpassada. *** Dinamicamente então propomos os seguintes pratos: “Passos de corrida”: composto de arroz. Comerão melhor aqueles que conseguirem manter à distância os adversários com chutes. com bocas mastigantes e mãos agarrantes. embrulhados em fatias de abacaxi e regados com Asti espumante. inspirando-se no grande quadro “O jogador de futebol” de Umberto Boccioni. Os convidados vestidos esportivamente. 2) “Em quarta”: 200 fios de algodão doce enrolados num novelo. fugir para o campo.

indd 215 7/4/2009 15:51:26 . estádios esportivos. reunidos na Direção do Movimento Futurista em Roma. sentados cada um sobre tambores (15-60-100 e 300 cm cada) não-comestíveis de macarrão comprimido. cais de portos militares. 215 Cozinha futurista. prensado. para melhor construir a casa futurista. Vinte tubos (1 metro de altura) de pasta de tâmaras. belvederes. Dez cilindros (30 cm de altura) de torrone de Cremona. Samzin. arquitetonicamente. Sete telas (60 cm de altura) de bacalhau ao leite. Pandolfo. ligados todavia por fio eletrônico. aperfeiçoamna com os dentes. subiram e comeram alternativamente. Os futuristas. Cinco blocos ovais (20 cm de altura) de pasta de bananas. Civello. Vasari e Soggetti. Bellonzi.A cozinha futurista    Fórmula do aeropoeta futurista e do aeropintor futurista Marinetti Fillìa Cardápio arquitetônico sant’elia Em honra do Poeta-Record nacional de 1931. um sobre o outro em forma de torre. Farfa (vencedor do circuito de poesia “Sant’Elia”). os poetas futuristas Escodamè. Vittorio Orazi. Maino. Rognoni. arranha-céus. com mãos de criança. isto é. os pintores Dormal. rampas de aeroportos. baterias de encouraçados. Cinco pirâmides (40 cm de altura) de minestrone frio. Burrasca. Voltolina e Degiorgio do grupo paduano e os pintores Alf Gaudenzi e verzetti do grupo futurista e vanguardista “Síntese”. Seis esferas (15 cm de diâmetro) de risoto à milanesa. pistas sobrelevadas: Trezentos cubos (3 cm de altura) de massa podre. com uma sensibilidade espacial que coloca o glorificado a 600 quilômetros dos glorificantes. Giacomo Giardina. Krimer. Gerbino. Oito paralelepípedos (10 cm de altura) de espinafre na manteiga.

entre as aeropinturas dos futuristas Marasco. timo. Os comensais. cenoura. chácaras e planícies raptadas em velocidade. comerão assim vilarejos. os comensais liberam do casco intactas 5 lagostas e cozinham-nas eletricamente na água do mar. alho. empunhando pequenos sinos de cerâmica cheios de Barolo misturados a Asti espumante. alcaparras. Oriani e Munari. Tato. entre as aeroesculturas de metais aplicados dos futuristas Mino Rosso e Thayaht. Besuntam-nas com curry em pó e devolvem-nas às suas cascas tingidas aqui e ali por azul de metileno. Recheiam-nas com uma pasta de gema de ovo.indd 216 7/4/2009 15:51:26 . casca de limão. que se ligam aos aerocumes e às nuvens do horizonte navegado a mil metros.Fillippo Tommaso Marinetti Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio aeropictórico na fuselagem Na ampla fuselagem de um grande Autoestável DeBernardi. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio aeroescultural na fuselagem Na grande fuselagem de um Trimotor. Bizarramente depois as 5 lagostas serão dispostas em desordem e distanciadas sobre uma grande aerocerâmica Tullio d’Albisola acolchoada por vinte qualidades diferentes de salada: estas geograficamente dispostas em quadrados. os comensais 216 Cozinha futurista. Benedetta. ovas e fígado de lagosta.

despenhadeiro. promontório ou ilhota.000 metros em um céu bipartido: dengoso luar de meia lua madreperolado e esverdeado e semi-esfera de meias nuvens fulguradas de longos escorpiões de ouro. Abaixo a pico um rio de solidíssima prata derrete o estuário das suas enguias frenéticas em um mar de piche adornado por níquel lunar. Os olhos fogem à direita. tomate e polpa de lagosta. A janelinha da direita: tilintar de vidro madeira tintilhões e sininhos. serão servidos sobre uma grande bandeja no centro da fuselagem. polpa de camarões. regada abundantemente com Vinho Santo toscano. Encherão onze formas (untadas e enfarinhadas) cada uma de um formato típico de montanha. cebolinhas.indd 217 7/4/2009 15:51:26 . denuncia: 20. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio aeropoético futurista Na fuselagem de um Trimotor voando a 3. pão-de-ló e biscoitos triturados. depois de liberados das formas. ovos.A cozinha futurista    prepararão uma massa de fécula de batata. À frente dos comensais. seu companheiro de refeição. Na boca responde-lhe rusticamente o sabor de uma bolota de mel.000 metros comidos. o altímetro redondo denuncia: 3. Os 11 doces. Todos serão cozidos eletricamente. através da outra janelinha. Perto dele o conta-giros. pedaços de solha.000 217 Cozinha futurista. açúcar semolado e perfumado de baunilha. frutas cristalizadas e queijo gruyère. enquanto os comensais brincarão e devorarão massas de claras em neve como faz o vento lá fora com os cimos e os cúmulos brancos. a sugar a geléia de anis branco que filtra uma nuvem. em número de três.

Um pouco mais de mel das abelhas inspiradoras de poetas gregos na boca do aeropoeta futurista. lâminas de alumínio. Prampolini e Diulgheroff. palhas de aço. feltros. Mastigar o infinito. A boca do comensal humano da direita suga um tubo de neon amarelo vermelho dourado de verão África eterna. Presença das mãos vazias. com a colaboração dos pintores futuristas Depero. tantos pijamas quantos serão os convidados: cada pijama será feito ou recoberto de materiais táteis diferentes como esponjas. todos serão levados ao salão de banquete provido de muitas pequenas mesas para duas pessoas: estupor do próprio com- 218 Cozinha futurista. cada convidado deverá escolher o próprio companheiro de mesa segundo sua inspiração tátil. Do outro lado do altímetro. escovas. cortiças. A pico sobre si mesmo. sedas. rapidamente. o velocímetro denuncia: 200 quilômetros digeridos.indd 218 7/4/2009 15:51:26 . Escolhas feitas. sem móveis: sem ver. todos serão introduzidos em uma grande sala escura. etc. veludos. Depois. deverá vestir separadamente um dos pijamas. Ronco crítico dos intestinos. Leveza.Fillippo Tommaso Marinetti giros devorados. Amor quente macio muito distante. Balla. cartões. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio tátil O dono da casa terá o cuidado de preparar. Obliqüidade da força artística. Voar. lixas. alguns minutos antes da refeição. O estômago do comensal humano central corrige com muitos ácidos vulgares a indigerível potência excitatória do licor de lua abstrato poético suicida. Cada convidado.

sem ajuda de talheres.A cozinha futurista    panheiro indicado pela sensibilidade refinadíssima dos dedos sobre as matérias táteis. já que o menu é todo baseado em prazeres táteis. Entre um prato e outro. enfiado pela metade. Todas as vezes que os convidados se afastarem dos pratos para mastigar. Será preciso segurar a tigela com a mão esquerda e agarrar com a direita as esferas misteriosas contidas no interior: Serão todas esferas de açúcar queimado. o conteúdo do prato. em frente às mesas. mas sem a ajuda das mãos. Poder-se-á experimentar a gosto estas verduras/legumes. até o esgotamento da iguaria. imergindo o rosto no prato e inspirando assim o próprio gosto no contato direto dos sabores sobre a pele das bochechas e sobre os lábios. tâmaras e uvas.indd 219 7/4/2009 15:51:26 . Cada um dos comensais usará a mão direita para levar à boca. recobertas externamente por materiais têxteis rugosos. um prato fundo de porcelana. 3) “Hortotátil”: serão postos à frente dos convidados grandes pratos contendo uma numerosa variedade de verduras/legumes crus e cozidos. sem sal. No prato: folhas de alface sem tempero. A caixa liberará assim ritmos musicais: então todos os garçons. os convidados deverão ininterruptamente nutrir seus dedos no pijama do vizinho de mesa. 2) “Vianda mágica”: servir-se-ão tigelas não muito grandes. iniciarão uma lenta dança de grandes gestos geométricos. os garçons esborrifarão em seus rostos perfumes de lavanda e água de colônia. de tal modo que os convidados não possam intuir qual sabor será introduzido na boca. 219 Cozinha futurista. mas cada uma recheada de elementos diversos (como frutas cristalizadas ou fatias finas de carne crua ou alho ou pasta de bananas ou chocolate ou pimenta). Será servida a seguinte lista de iguarias: 1) “Salada polirítmica”: às mesas aproximam-se os garçons portando para cada convidado uma caixa munida de manivela do lado esquerdo e que tem no lado direito. enquanto com a mão esquerda girará a manivela.

Proponho portanto este menu-síntese-da-Itália: Uma quadrada sala de teto azul. tingem-se as mãos com azul de metileno. Apaga-se a primeira parede e acende-se a segunda: brilham as esmeraldas dos campos e os vermelhos das fazendas que se perdem entre as terras redondas das colinas e os azuis metálicos dos lagos. Hoje podemos degustá-lo. e os pinheiros verdes. mas não nos foi possível. No início da refeição a primeira parede é iluminada por trás e ressaltam assim os perfis geométricos das montanhas brancas e morenas. fazer-nos servir de uma só vez os tantos pratos regionais. querendo provar à mesa o sabor e o perfume de todas as suas hortas. no passado. cujas paredes são formadas por enormes pinturas futuristas sobre vidro representando: uma paisagem alpina Depero – uma paisagem de planície com lagos e ao fundo colinas Dottori – uma paisagem vulcânica Balla – uma paisagem de mar meridional animado por ilhotas Prampolini. “Agreste civilizado”: bolo de arroz branco cozido sobre o qual imprimem-se largas e tenras folhas de rosa. os seus pastos e seus jardins. carne de rã desossada e ce- 220 Cozinha futurista. Aumenta a temperatura da sala. antes de comer. Na sala é regulada uma temperatura de frescura primaveril.Fillippo Tommaso Marinetti Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio síntese da itália A Itália sempre foi. Serve-se o primeiro prato “Sonho alpestre”: pequenas formas ovais de gelo envolvidas por massa de castanhas e apresentada sobre grossos discos de maçã salpicadas com nozes molhadas no vinho Freisa.indd 220 7/4/2009 15:51:26 . um apetitoso alimento para os estrangeiros. Os convidados.

A cozinha futurista    rejas muito maduras. “Sugestão do Sul”: uma grande erva-doce na qual são incrustados rabanetes e azeitonas sem caroço. Na sala. Terminada a refeição acendem-se juntas as quatro paredes e são servidos sorvetes misturados a abacaxi. Apaga-se a terceira parede e acende-se a última: esplendor das ilhotas luminosas na espuma fervente do mar. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio geográfico 1. Enquanto os convivas comem. 2. Apaga-se a segunda parede e acende-se a terceira: dinamismo atmosférico do Vesúvio incandescente. o clima é de verão. sentados em torno de uma mesa de metal com o plano horizontal em linóleo. giesta e cachia é esborrifado no ar. Uma sala de restaurante decorado com alumínio e tubos cromados. entra na sala. Quando inicia-se a refeição. caranguejos. 221 Cozinha futurista. Um violento perfume de cravos. apresentado navegando em um litro de marsala. bananas. É levado à mesa envolto em sutis fatias de cordeiro assado e imerso em vinho de Capri. As janelas redondas permitem vislumbrar misteriosas distâncias de paisagens coloniais. gomos de laranja. Os comensais. Temperatura tórrida na sala. 3. enquanto gramofones invisíveis rodam barulhentos discos negros. a garçonete-lista-de-pratos: formosa moça jovem inteiramente revestida por uma túnica branca na qual é desenhado a cores um completo mapa geográfico africano que lhe envolve todo o corpo.indd 221 7/4/2009 15:51:26 . os garçons fazem passar rapidamente sob os seus narizes um quente perfume de gerânio. ostras e alfarroba. seguida à distância pelos garçons. “Instinto colonial”: um colossal robalo recheado de tâmaras. pêras cruas e cassis. consultam grandes atlas.

Lembranças de família. Assim continuamente. o nome ZANZIBAR. cubos de laticínios de canela recheados com grãos de café torrados e pistaches. É preciso destruir os hábitos para sair da monotonia. 5. Em volta da pirâmide maior. augúrios e previsões volteiam como cópias de impressão. mas indicando no mapa a cidade ou as regiões que seduzem a fantasia turística e aventureira dos comensais.indd 222 7/4/2009 15:51:26 . recheado com chocolate e disposto sobre um fundo de carne crua finamente moída e regada com rum da Jamaica. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio de fim de ano O hábito já matou a alegria das grandes ceias de fim de ano: há muitos anos os mesmos elementos concorrem a uma alegria já muitas vezes apreciada. pelas regiões e pelas cidades. Neste caso: “Amor sobre o Nilo”. Cada um conhece com antecedência a engrenagem precisa dos acontecimentos. sobre o joelho esquerdo da garçonete-lista-de-pratos. 222 Cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti 4. Se um outro comensal aponta com o dedo. 7. um dos garçons silenciosamente se afastará e retornará em seguida trazendo o prato correspondente àquela cidade. Devem-se escolher os pratos não segundo a sua composição. Exemplo: se um comensal aponta um dedo para o seio esquerdo da Garçonete-lista-de-pratos onde está escrito CAIRO. pirâmide de tâmaras sem caroço imersa em vinho de palma. 6. o garçom lhe servirá a “Vianda Abibi”: meio coco. variando para cada refeição os mapas geográficos e as garçonetes-lista-de-pratos e não permitindo conhecer antecipadamente os pratos. Dominará portanto uma orientação alimentar inspirada pelos continentes.

à despensa. Vencido pelo silêncio. Competição violenta entre os fornos acesos. Desfilam os pratos combinados quase 223 Cozinha futurista. Vignazia. da antesala ao banheiro. após a infinita conversação de espera. Pandolfo. para tentar estabelecer uma conversação qualquer.A cozinha futurista    Existem mil maneiras para renovar este banquete: eis um deles. D’Avila. um dos presentes diz: -“Ainda não expressei meus desejos para o ano novo. uma atrás da outra. exasperada pelo torpor muito longo. Todos comem sob um silêncio imposto: o desejo de barulho e alegria é reprimido. etc. A ordem é restabelecida e cada um volta a conter a alegria desencadeada por um momento. Na sala as mesas foram eliminadas e os convidados sentaram-se em cadeiras dispostas em fila indiana. gritos e chuva de alimentos. A alegria finalmente. Serve-se o infaltável peru que os garçons distribuem em pratos de metal: o peru é recheado de tangerinas e de salame. outros descobriram o depósito dos vinhos e forma-se assim um banquete excepcional que vai da cozinha ao quarto. por nós realizado com os futurissimultaneístas de Roma: Mattia. A cozinheira e as duas garçonetes são afastadas à força e cada um se dispõe a idealizar uma variação nos pratos. Entretanto. explode e os convidados se debandam pela casa enquanto os mais audazes invadem a cozinha. Subitamente.” Todos então. levantam-se e lançam-se contra o incauto conservador de tradição. À meia-noite. que é repetidamente esbofeteado. Battistella. enquanto frigideiras e caçarolas passam de mão em mão entre risadas.indd 223 7/4/2009 15:51:26 . libera-se na sala um peru vivo que se debate assustado entre a surpresa dos homens e os gritos das mulheres que não entendem esta ressurreição da comida ingerida. Belli. como por uma palavra de ordem. anuncia-se que a refeição está pronta.

Um convidado conta à dona da casa: -“Há quinze anos.” Mas naquele momento apresentam-lhe uma tigela cheia de espumante onde navegam couves-flores.Fillippo Tommaso Marinetti pela magia. ouve-se a voz de um convidado: -“neste ano conseguiremos romper o invólucro da atmosfera e alcançar os planetas.indd 224 7/4/2009 15:51:26 .. em benefício próprio. Convido-os todos para o próximo fim de ano. nesta mesma data. Todas as suas preocupações limitam-se a ajudar o cliente quando veste o sobretudo. incapazes ou temerosos. onde finalmente provaremos comidas de sabor desconhecido ao nosso paladar e bebidas imprevisíveis. as dificuldades a vencer por uma nova alimentação são aumentadas pelos proprietários de restaurantes que. não pretendem renunciar à antiga cozinha. conforme o espírito de veloz harmonia que anima os novos cozinheiros. Se os proprietários e os funcionários dos restaurantes colaborassem. No escuro. gomos de limão e fatias de rosbife: a lembrança do passado naufraga em um presente extraordinário. enquanto três ritmos diferentes de música japonesa acompanham o serviço dinâmico.” Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio rejuvenescedor Geralmente. Estupor. Os mais jovens berram: -“sepultada a lembrança! devemos iniciar o ano de modo finalmente diferente dos banquetes anteguerra!” Três gramofones funcionam como mesa e sobre discos transformados em pratos rotatórios as senhoras atacam confeitos. A dona da casa apaga inesperadamente a luz.. para convencer das necessidades de nutrir- 224 Cozinha futurista. para um banquete na Lua. cilindros de queijo parmesão e ovos cozidos.

depois frito em manteiga.deve chegar a conceber para cada prato uma arquitetura original. TAMBÉM OBRAS DE ARTE. o garçom deveria proferir este breve e esclarecedor discurso: -“a partir de hoje a nossa cozinha elimina o macarrão. O garçom lhe servirá então este “cardápio rejuvenescedor”: arroz cozido. além de uma boa comida. Ao habitual cliente que entra e pede um prato de espaguetes. variedade. .”O italiano da nossa época veloz não deixará de sensibilizar-se ante tal argumento. A cada cozinheiro pede-se a formação de uma mentalidade que: . comprimido em pequenas esferas cruas de alface esborrifada com grappa e servido sobre uma pasta de tomates frescos e batatas cozidas.A cozinha futurista    se mais modernamente. 225 Cozinha futurista.deve compreender que a forma e a cor são tão importantes quanto o sabor. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio improvisado Estes cardápios improvisados são aconselhados com o objetivo de atingir um máximo de originalidade. empanturram adoecem inutilizam o estômago. Chegamos a essa decisão porque o macarrão é feito de silenciosos longos vermes arqueológicos que. imprevisto e alegria. possivelmente diferente para cada indivíduo de modo tal que TODAS AS PESSOAS TENHAM A SENSAÇÃO DE COMER. muitas dúvidas e muitas ironias poderiam ser superadas e os restaurantes perderiam a trivialidade dos hábitos quotidianos. Vermes brancos que o senhor não deve introduzir no corpo se não quiser deixá-lo fechado escuro e imóvel como um museu.indd 225 7/4/2009 15:51:27 . como seus irmãos que vivem no subterrâneo da história. surpresa.

Para os cardápios improvisados pode-se naturalmente discutir entre cozinheiros. garçons e Diretores sobre a atribuição das diferentes iguarias. levando em conta. portando todo tipo de alimento: simplificar-se-á assim a preparação individual porque cada um será levado a conquistar o prato preferido para si. a constituição física e os fatores psicológicos. na distribuição dos pratos. o sexo. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio declaração de amor Um tímido enamorado deseja exprimir a uma moça bela e inteligente os seus sentimentos. de certo modo.deve possivelmente chegar às refeições em movimento. Carnadorada: um grande prato feito com um brilhante espelho. por meio de tapetes-móveis que deslizam à frente das pessoas. de escolha refinadíssima. o espírito humano da aventura e do heroísmo. na noite da cidade. E a escolha será duplamente apreciada porque desenvolverá. 226 Cozinha futurista. no terraço de um grande Hotel. Com este propósito lhe fará servir. antes de preparar a refeição. Ela. mas nunca se deve levar em conta o gosto pessoal dos comensais. a idade. admirará sua imagem refletida no prato.Fillippo Tommaso Marinetti . . que o garçom fará somente admirar. filés de frango perfumados com âmbar e recobertos por uma fina camada de geléia de cerejas. enquanto Ela se contentará com pãezinhos e manteiga.deve.indd 226 7/4/2009 15:51:27 . a seguinte refeição-declaraçãode-amor: Tedesejo: antepasto composto de elementos diversos. estudar o caráter e a sensibilidade de cada um. No centro. enquanto come.

rum. gim e bitter. em proporções diversas: água mineral tingida de vermelho – vinho branco dos Castelos Romanos tingidos com azul de metileno – leite frio tingido de laranja. um de batatas embebidas em conhaque. um de ameixa. são dispostos: fatias de carne sortidas maceradas sob uma pasta de abacaxi – cebolas cruas cobertas por geléia – filés de peixe escondidos entre chantilly e zabaione – pãezinhos de manteiga untados com caviar e introduzidos em uma grande abóbora. mediante uma oportuna e humilde consulta à inspiração divina. Os eclesiásticos devem escolher sem errar. isto é. Superpaixão: um bolo de massa doce compacta.indd 227 7/4/2009 15:51:27 . um de arroz doce.A cozinha futurista    Teamareiassim: pequenos tubos de massa podre recheados de sabores diferentíssimos. enchidos com anis. Em frente aos copos. em 20 pratos de alumínio. licor de menta. etc. Ela. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa 227 Cozinha futurista. comerá todos. sem piscar. salgado por pedacinhos de ostras e gotas de água do mar. Estanoiteláemcasa: uma laranja muito madura fechada em um pimentão maior esvaziado e enfiado em um grande zabaione ao gim. Na superfície são feitos pequenos furos. é oferecida uma refeição assim composta: Sobre uma grande mesa são alinhados 20 copos iguais. onde havia pinturas de Arte Sacra futurista. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio sacro Aos eclesiásticos futuristas. mas contendo. que visitaram em Turim os apartamentos do Engenheiro Barosi e do Doutor Vernazza. um de maçãs cozidas no rum.

228 Cozinha futurista. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio desejo branco Dez negros reúnem-se à mesa em uma cidade marítima. serve-lhes vinte ovos frescos que foram furados dos dois lados para injetar em seu interior um tênue perfume de acácias: os negros aspiram o conteúdo dos ovos. Pequenos “termo”10 em forma de canetas-tinteiro repletos de chocolate quente. 10 Recipiente térmico. com uma mistura de tendências espirituais e de vontades eróticas. Livros contábeis de bolso conterão peixe comprimido. com forninho elétrico cozinhará uma sopa. Toda a sala está imersa em uma penumbra misteriosa e as lâmpadas invisíveis permitem somente uma luminosidade suficiente para ver a mesa coberta por uma camada de vidro escuro brilhante. segurando um lírio na mão. sem falar. Em um grande cachimbo de metal esmaltado de vermelho. sem quebrar a casca. para calmar. Da pasta poderão folhear cartas e faturas perfumadas com diversas intensidades. satisfazer ou excitar o apetite. invadidos por um estado de ânimo indefinido que os faz desejar a conquista dos países europeus. será confeccionado um cardápio simultâneo que lhes permitirá continuar as diversas atividades (escrever caminhar discursar) e alimentar-se ao mesmo tempo. Uma cozinheira negra.indd 228 7/4/2009 15:51:27 . impossibilitados pelo turbilhão de negócios a deter-se em um restaurante ou de voltar para casa.Fillippo Tommaso Marinetti Cardápio simultâneo Para executivos.

Amanhecerá assim em taças de cristal um brodo consumido tornado fluorescente mediante uma mínima quantidade de “fluoresceína”11. alaranjada. 11 Substância cristalina. e dos dois lados em direção ao centro. grappa ou gim. 229 Cozinha futurista. A cozinheira negra retorna ainda com uma bandeja cheia de pedaços de polpa de côco escrustrados de torrone. Todo o serviço é de cristal. A sala de jantar é toda escura. fontes luminosas graduáveis iluminarão de cem modos diferentes o plano de cristal. com fortíssima fluorescência verde-amarelada em solução. De baixo para cima. A sensibilidade dos negros se apaga no sabor-cor-odor branco dos pratos. enquanto do teto desce lentamente em direção à mesa um globo incandescente de vidro leitoso e por toda a sala se expande um perfume de jasmim. Ao mesmo tempo.indd 229 7/4/2009 15:51:27 . sob a mesa. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio astronômico A mesa é constituída por uma lâmina de cristal apoiada sobre reluzentes barras de alumínio. O estado de ânimo dos negros é quase inconscientemente sugestionado por todos os pratos brancos ou cândidos. variando intensidade e cor dependendo dos pratos. bebe-se anis puro. fechados sob uma camada de manteiga e dispostos sobre um leito de arroz cozido e chantilly. pulverulenta.A cozinha futurista    Então é trazida uma grande sopeira com leite frio no qual foram imersos pequenos cubos de mussarela e uvas moscatel. através da própria lâmina de cristal.

Entardecerá um prato feito de fatias muito finas de salmão defumado.Fillippo Tommaso Marinetti Dará meio-dia em carne crua salgada. Depois. Fórmula do futurista Dr.indd 230 7/4/2009 15:51:27 . mover-se-á lentissimamente sobre o cristal que se tronou abstrato. Sirocofran 230 Cozinha futurista. Uma bomba em forma de telescópio lançará parábolas de espumante Asti. beterrabas e laranjas. uma esfera cosmográfica de spumone (50 cm de diâmetro). único corpo iluminado. na noite da sala. mosaico de pistaches e pimenta vermelha. regados com limão e perfumados ternamente com baunilha.

feito com o Mosto. Para ser comida. sem álcool).indd 231 7/4/2009 15:51:27 . temperada com alho e defumada. e metade incrustada por esferas de carne de coelho muito cozidas ao vinho. regando cada bocado de camelo com um gole de água do Serino e cada bocado de coelho com um gole de Scirá (vinho turco. metade incrustada por quadrados de carne crua de jovem camelo. 231 Cozinha futurista.A cozinha futurista    Receitário futurista para restaurantes e aquisibebe A dosagem sumária de muitas destas fórmulas não deve preocupar mas sim excitar a fantasia inventiva dos cozinheiros futuristas cujos eventuais erros poderão freqüentemente sugerir novas invenções Decisão (polibebida do aeropoeta futurista Marinetti) ¼ de vinho quinado ¼ de rum ¼ de Barolo fervente ¼ de suco de Tangerina Inventina (polibebida do aeropoeta futurista Marinetti) 1/3 de Asti espumante 1/3 de licor de Abacaxi 1/3 de suco de Laranja gelado Vianda simultânea (fórmula do aeropoeta futurista Marinetti) Uma gelatina de frango.

uma cereja e um fragmento de figo seco. Todoarroz (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Arroz branco cozido assim disposto: uma parte no centro do prato em forma de semi esfera – uma outra parte em volta da semi esfera. fatias de banana.indd 232 7/4/2009 15:51:27 . navega meio melão com. No momento de servir à mesa. um obstáculo de pão forte de Siena. Sobre este mar verde e vermelho colocam-se complexos formados por pequenos filés de peixe fervido. aqui e ali salpicada de fragmentos de ricota.Fillippo Tommaso Marinetti Mesa vocabulivre marina (fórmula do aeropoeta futurista Marinetti) Sobre um mar de salada crespinha. em forma de coroa. Pulverizar o navio e o mar com canela ou pimenta vermelha. A poucos centímetros da proa. derramar sobre a semi esfera um molho de vinho branco quente encorpado com fécula e sobre a coroa um molho de cerveja quente. um camandantezinho esculpido em queijo holandês que dirige uma frouxa tripulação esboçada em miolos de vitelo cozidos no leite. Entre as duas fatias de pão: salame cozido. Entredois (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Duas fatias retangulares de pão: uma untada de pasta de anchovas. gemas de ovos e queijo parmesão. Mar da Itália (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Sobre um prato retangular dispõe-se uma base formada por listas geométricas de molho de tomates frescos e de espinafres. de modo a criar uma precisa decoração verde e vermelha. 232 Cozinha futurista. a bordo. a outra com pasta de casca de maçãs trituradas.

LIXA SEDA VERMELHA VELUDO PRETO 233 Cozinha futurista. os garçons esborrifam nas nucas dos comensais um comperfume de cravo enquanto vem da cozinha um violento comrumor de motor de aeroplano contemporaneamente a uma desmúsica de Bach. dos jardins e dos prados da Itália) é composto por uma grande almôndega cilíndrica (A) de carne de vitela assada recheada por onze qualidades diferentes de legumes e verduras cozidos. seda e veludo.indd 233 7/4/2009 15:51:27 . Serve-se à esquerda de quem come um retângulo formado de lixa. Aerovianda (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Serve-se à direita de quem come um prato com azeitonas pretas. Enquanto isso. corações de erva-doce e bergamotas. que se apóia sobre três esferas douradas (D) de carne de frango. Este cilindro disposto verticalmente no centro do prato. Os alimentos devem ser levados diretamente à boca com a mão direita. é coroado por uma camada de mel (C) e sustentado na base por uma anel de lingüiça (B).A cozinha futurista    Cada um desses complexos é mantido unido por um palito de dentes que sustenta verticalmente os diversos elementos. Carnescultura (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) O “carnescultura” (interpretação sintética das hortas. enquanto a mão esquerda alisa leve e repetidamente o retângulo tátil.

Promontório siciliano (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Atum maçãs azeitonas e amendoins japoneses são triturados juntos. Servi-la em abundante molho 234 Cozinha futurista. até a sua consumação. À caça no paraíso (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Cozer lentamente uma lebre em vinho espumante onde se dilui chocolate em pó.Fillippo Tommaso Marinetti Diabo em túnica negra (polibebida do aeropintor futurista Fillìa) 2/4 de suco de laranja ¼ de grappa ¼ de chocolate líqüido Imergir a gema de um ovo cozido.indd 234 7/4/2009 15:51:27 . A pasta que deriva é espalhada sobre uma omelete fria de ovos e geléia. de modo que permaneçam em pé) em Mortadela de Bolonha. de acordo com as iniciais dos seus nomes que determinarão assim a combinação dos diversos alimentos. Servem-se duas por pessoa. Alfabeto alimentar (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Todas as letras do alfabeto são recortadas (com grande espessura. em massa podre e em açúcar queimado. Trutas imortais (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Rechear as trutas com nozes trituradas e fritá-las em azeite. em queijo. Envolver as trutas em finíssimas fatias de fígado de vitelo. Então deixá-la mergulhada por um minuto em muito suco de limão.

a base de espinafre e zimbro. Docelástico (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Recheia-se uma esfera de massa podre com zabaione vermelho no qual é imersa um pedaço (3 cm. é servido em pé em um prato contendo café expresso quentíssimo misturado com muita água de colônia. As grandes águas (polibebida do aeropintor futurista Prampolini) ¼ de grappa ¼ de gim ¼ de cominho ¼ de anis Sobre o líqüido flutua um bloco de pasta de anchovas envolta cirurgicamente em uma hóstia.indd 235 7/4/2009 15:51:27 . Carrossel de álcool (polibebida do aeropintor futurista Prampolini) 2/4 de vinho Barbera ¼ de cidra ¼ de bitter Campari 235 Cozinha futurista. salpicada de confeitos prateados que lembram as balas dos caçadores.) de alcaçuz em fita. privado da pele. Porcoexcitado (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Um salame cru.A cozinha futurista    verde. Fechar a parte superior da esfera com meia ameixa seca.

Entre as bananas são escondidos ovos cozidos sem a gema. bananas sem casca. cheios de geléia de ameixa. Na base do cilindro: salame. uva passa.indd 236 7/4/2009 15:51:27 . como a vegetação de palmeiras. Discos saborosos (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Bolo de frutas variadas que se apóia sobre um disco de chocolate. Prefácio gustativo (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Um cilindro de manteiga que sustenta no alto uma azeitona verde. Paradoxo primaveril (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Um grande cilindro de sorvete de creme que traz no alto. pinhõezinhos e confeitos. um quadrado de queijo e um quadrado de chocolate. 236 Cozinha futurista. O topo do cone será bombardeado de pedaços de trufas negras cortadas em forma de aeroplanos negros à conquista do Zênite. com pimenta sal limão. Equador + Pólo Norte (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Um mar equatorial de gemas de ovos em suas cascas. No centro emerge um cone de claras batidas em neve e solidificadas. O bolo é coberto por duas camadas de papa que o dividem ao meio: a primeira feita de molho de tomates e a segunda de espinafre. enfiados em um palito de dentes.Fillippo Tommaso Marinetti No líqüido são imersos. cheio de gomos de laranja como suculentas seções de sol.

Antepasto fulgurante (fórmula do poeta futurista Luciano Folgore) Pensa que se dormes não mereces fazer um antepasto incomparável. não pega peixes 237 Cozinha futurista. Servir frio. Tâmaras ao luar (fórmula do futurista Dr. sabe-se bem. quem dorme. Escorram-no e temperem-no com finíssimo pó de rizoma de lírio. 500 gramas de ricota romana. Sirocofran) 35-40 tâmaras muito maduras e doces. peguem arroz e façam cozinhar em muito leite convenientemente salgado. procurando que os perfumes sejam variados. A polpa assim obtida é incorporada à ricota até obter uma massa bem homogênea. exaltando-os e honrando assim o nome glorioso de Mallarmé. Sirocofran) Dentro de finas bexigas coloridíssimas coloca-se uma gota de perfume. Privam-se as tâmaras do caroço e amassam-nas bem (melhor ainda se são passadas na peneira). Sirocofran) Para fundir a máxima pureza virginal com a máxima luxúria de perfume. em pequenos pratos quentes.A cozinha futurista    Arroz de Heródias (fórmula do futurista Dr. que cantou a virgem Heródias em uma verde paisagem palustre coberta de sensualíssimos lírios turquesa. Elas são enchidas e levemente esquentadas de modo a vaporizar o perfume e tornar turvo o invólucro.indd 237 7/4/2009 15:51:27 . Perfumes prisioneiros (fórmula do futurista Dr. Aproxima-se das bexigas o cigarro aceso e aspira-se o perfume que dali brota. após ter mantido o prato no refrigerador por algumas horas. São levadas à mesa junto com o café.

aliás sutil. Obtendo-os. entende-se) para desfazê-lo no óleo ao qual une-se algumas gotas de vinagre e finalmente estenda aquele leite tenro e picante sobre os arenques que triturastes já e o antepasto fino e excitante todo apetite humano despertará. limpe-os com carinho. Conta-se que um rei da Patagônia por um tal prato renunciou ao seu reino esta história é certamente uma embroma mas a bondade do prato que te ensino é tão real e alegra o apetite 238 Cozinha futurista.indd 238 7/4/2009 15:51:27 . logo os arenques a banho meterás quatro ou cinco horas sob água pura e quando houverem perdido a salgadura estenda-os na tábua que os deleita com um pouco de cebola e um ovo cozido depois com o oscilar da lamineta triture tudo finamente e faça de modo que a pasta seja macia e perfeita e por fim como condimento regue com azeite e vinagre a seu contento. depois tire o leite que colocarás a esperar os eventos em um pratinho. Feito isso pegue o leite novamente (o leite dos arenques.Fillippo Tommaso Marinetti enquanto em nosso caso é indispensável estar de tal modo desperto. para prender até peixe em barril a fim de obter (pagando preços salgados) dois arenques ao leite e não defumados.

muito mais que o açafrão. a qual – de resto – na natureza quase não é mais encontrado. 239 Cozinha futurista. asas que se jogam fora: e assim parecem um paraquedas. caldo convenientemente salgado e ao qual será agregado o suco dos alquequenjes. porque o alquequenje é dotado de asas de bom tecido como o aeroplano. Quando estiver bem quente. à parte. Voltar ao fogo: e apenas tudo esteja dourado (que a cebola não se toste) acrescentar arroz suficiente para seis pessoas. tire tudo do fogo amanteigando bem o risoto e acrescente queijo em abundância. e é velocissimamente digerível como tudo o que pertence à usina (queria dizer cozinha) futurista. após o Convite “Entendê-la não pode quem não a prova”. com cuidado o suco produzido. Risoto futurista ao alquequenje (fórmula do aeropoeta futurista Paolo Bruzzi) Preparar triturado um quilo de alquequenje separado de sua sutil membrana. a colheradas. Após vinte minutos de cozimento. tirá-la do fogo e jogar o triturado de alquequenjes (conservando o suco à parte) e o pesto de salsinha. Então. mexendo sempre até ficar cor de ouro.A cozinha futurista    que parece que Dante na Vita Nuova tenha escrito para ela. recolha-se. acrescentar.indd 239 7/4/2009 15:51:27 . É sintético porque os oito grãos contidos no bulbo ácido são como as “Marinettianas” oito almas em uma bomba. Fazer – à parte – um abundante molho de salsinha com alho e cebola em pequena dose. Colocar azeite abundante em uma caçarola. Este risoto é futurista porque o alquequenje é uma fruta quase fora de série: certo.

melhor. Mazza) Preparem um bom risoto de açafrão ou de tomate. Cubram com mais risoto e arredonde-os novamente. tendo o cuidado de tirá-lo do fogo não ao dente. passem as laranjinhas em farinha branca. (Não deve ser ao dente para que os grãos de arroz possam aderir uns aos outros). crocantes. Quando esfriar. alargando-o sem romper as paredes. mas mais cozido. faz-se uma abertura em seu dorso e completa-se o interior com zabaione vermelho sobre o qual são dispostos 200 gramas de confeitos esféricos prateados. Acrescente cubos de queijo (fontina ou mussarela. Comumanuvem (fórmula do aeropoeta futurista Giulio Onesti) Uma grande massa de chantilly dardejada por suco de laranja. Assim prontas. geléia de morango e regada delicadamente por Asti espumante. salame ou presunto cru em cubinhos. em azeite. depois em ovo batido e enfim em farinha de rosca. ou caciocavallo. pinhõezinhos e uva passa. menta. molhando as mãos em água ou. 240 Cozinha futurista. Fritem-nas em abundante azeite até que fiquem loiro-douradas e sirvam-nas quentes.indd 240 7/4/2009 15:51:27 . e recheiem-nas com carne à bolonhesa moída grossa e úmida de seu molho. e façam em cada uma delas um furo com o polegar.Fillippo Tommaso Marinetti Laranjinhas de arroz (fórmula do vocabulivre futurista Arm. Façam muitas bolotas do tamanho médio de uma laranja. e deixe-o esfriar. ou provolone fresco). Em toda a volta da abertura do dorso levantam-se cristas de galo. Frango de aço (fórmula do aeropintor futurista Diulgheroff) Assa-se um frango completamente esvaziado.

um buquê de salada radicchio. Ultraviril (Fórmula do crítico de arte futurista P. enquanto o grande pintor e vocabulivre Depero declamará a sua célebre “Jacopson”. A. nozes. cravos. atacando aqui e ali com as mãos. uma meia lua de melancia. pinhõezinhos. 5 biscoitinhos de amêndoa: todos dispostos ordenadamente sobre um grande leito de mussarela. Sorvete simultâneo (fórmula do poeta vocabulivre futurista Giuseppe Steiner) Creme de leite e quadradinhos de cebola crua gelados juntos. para ser comido. de modo que resultem 12 Vinho licoroso feito com uva passa. Cozinhar no forno.indd 241 7/4/2009 15:51:27 . um pequeno cubo de parmesão. Vitelo embriagado (fórmula do aeropoeta futurista Bruno Sanzin) Rechear a carne crua de vitelo com maçãs descascadas. Golfo de Trieste (fórmula do aeropoeta futurista Bruno Sanzin) Cozinhar um quilo de vôngole sem casca em um molho de cebola e alho acrescentando lentamente o arroz. Saladin) Sobre um prato retangular dispõem-se fatias finas de língua de vitelo fervida e cortada de comprido. Apresentar este risoto com um acompanhamento de creme de baunilha sem açúcar. 2 figos. 241 Cozinha futurista. Sobre estas sobrepõem-se duas fileiras de patas de caranguejo assadas no espeto. uma pequena esfera de gorgonzola. 8 bolinhas de caviar. Servir frio em banho de Asti espumante ou de passito12 de Lipari.A cozinha futurista    Palavras em liberdade (fórmula do aeropoeta futurista Escodamè) Três mariscos. olhos fechados.

coberta de zabaione verde. ginseng. uma de grãos e uma fatia fina de trufa coberta por ovas de lagosta. Na parte posterior da lagosta dispõem-se três ovos cozidos cortados longitudinalmente e de modo que a gema se apóie sobre as fatia de língua. A parte anterior é coroada com seis cristas de galo como divisores. ioimbe. A. damiana. A. equinácea 1 parte de licor de chá 1 parte de kirch Maismenosparaseparado (Polibebida do crítico de arte futurista P. cola. muira puama. Saladin) 3 grãos de café 1 parte de licor feito com as seguintes plantas: coca. Saltoemcarne (Polibebida do crítico de arte futurista P. enquanto completam a guarnição do prato duas fileiras de pequenos cilindros compostos por uma rodela de limão. Entre estas duas fileiras coloca-se o corpo de uma lagosta previamente descascada e desossada.indd 242 7/4/2009 15:51:27 . Saladin) 1 castanha confeitada 1 parte de licor de rosas 1 parte de licor de abacaxi 1 parte de licor de timo ou tomilho Amor alpestre (Polibebida do crítico de arte futurista P.Fillippo Tommaso Marinetti paralelas e em senso longitudinal ao eixo do prato. A. Saladin) ¼ de licor de melissa ¼ de gemas de abeto ¼ de bananas ¼ de aspérula perfumada 242 Cozinha futurista.

A. Saladin) Cobre-se o fundo de um prato redondo com fondente levemente perfumado com grappa. alcaparras.indd 243 7/4/2009 15:51:27 . azeitonas. A. corações de aipo e de erva-doce. Do lado oposto dispõem-se 3 talos de alho-porró 243 Cozinha futurista. alcachofras. A. cebolinha. duas castanhas confeitadas e serve-se um prato para cada casal. como indicado no desenho. equidistantemente entre eles e em forma de cone. A. Dispõem-se depois. Sobre um raio do prato dispõem-se. Saladin) ¼ de licor de cascas verdes de amêndoas ¼ de licor de genciana ¼ de licor de absinto ¼ de licor de genebra Homemulhermeianoite (Fórmula do crítico de arte futurista P. Parasocar (Fórmula do crítico de arte futurista P. Saladin) 1/3 de licor de artemísia 1/3 de licor de ruibarbo 1/3 de grappa Centelha (Polibebida do crítico de arte futurista P.A cozinha futurista    Desanuviante (Polibebida do crítico de arte futurista P. No meio desta dispõe-se um belo disco de cebola furado e atravessado por um galho de angélica confeitado. 3 meios pimentões vermelhos assados e recheados com uma massa de legumes composta de pontas de aspargos. Saladin) Sobre um prato redondo serve-se zabaione vermelho de modo a formar uma grande mancha.

Fillippo Tommaso Marinetti fervidos. Um arabesco de trufas raladas que parte do 2o. pimentão e termina naquele da parte externa completa o prato. Hortocubo (fórmula do crítico de arte futurista P. A. Saladin) cubinhos de aipo de verona fritos e cobertos de páprica cubinhos de cenoura fritos e cobertos de rábano ralado; ervilhas fervidas; cebolinha de Ivrea em conserva cobertas de salsinha picada; barrinhas de queijo fontina. N.B. Os cubinhos não devem ultrapassar 1 cm³. Branco e preto (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Mostra individual sobre as paredes internas do Estômago de arabescos à vontade, de chantilly pulverizado com carvão de tília. Contra a indigestão mais negra. Pró dentadura mais branca. Terra de Pozzuoli e verde veronês (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Cidras confeitadas, recheadas de sépia frita e picada. Mastigá-los bem como se fossem críticos antifuturistas. Cenouras + calças = professor (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Uma cenoura crua em pé, com a parte fina para baixo, onde serão aplicadas com um palito de dentes duas berinjelas fervidas, na função de calças roxas marchadoras. À cenoura, deixar as folhas verdes na ponta, representando a esperança da aposentadoria. Mandibular tudo sem cerimônias.

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A cozinha futurista    Cravos no espeto (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Longos finos cilindros de massa folhada. Dispor em fila sobre cada um quatro cravos: branco, rosa, vermelho, púrpura, assados em licor frio ou no Roob Coccola di Zara. Ao comê-los pensar no fenecido estilo floral. Morangomama (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Um prato rosa com duas mamas femininas eretas feitas de ricota rosada ao Campari e bicos de morango confeitado. Outros morangos frescos sobre a cobertura de ricota para morder em uma ideal multiplicação de mamas imaginárias. Cafémaná (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Café de cevada torrada, adoçado com maná. Servi-lo quentíssimo para que os comensais o esfriem assoprando em cada um as piadas mais congelantes. Senado da digestão (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Quatro comensais pedirão cada um duas conhecidas comidas ou bebidas digestivas. Ou então oito comensais, uma cada. Os outros convidados votarão secretamente contra uma ou outra. Resultará vencedora aquela que obtiver menos votos contra.

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Fillippo Tommaso Marinetti Aeroplano libanês (fórmula do piloto-aviador, poeta e aeropintor futurista Fedele Azari) Castanhas confeitadas imersas por 2 minutos em água de Colônia e depois por 3 minutos no leite, então servidas sobre uma papa (cinzelada em forma de delgado aeroplano) de bananas, maçãs, tâmaras e ervilhas. Reticulados do céu (fórmula do aeroescultor futurista Mino Rosso) A base é um disco de bala de cereja. O cilindro grande: Três folhas de massa folhada recheadas com polpa de tamarindo e cobertas por fondente de chocolate. O cilindro pequeno: coroas de merengue sobrepostos cobertas com fondente de tangerina. O centro do cilindro superior contém chantilly com polpa de tamarindo e pistaches descascados. A asa é bala de tangerina. Pouco antes de ser apresentado à mesa o doce deverá ser coberto com fios de açúcar verde. Antepasto intuitivo (fórmula Senhora Colombo-Fillìa) Esvazia-se uma laranja em forma de cestinha na qual se dispõem qualidades diferentes de salame, manteiga, cogumelos em conserva, anchovas e pimentas verdes. A cestinha perfuma de laranja os diversos elementos. Dentro das pimentas escondem-se bilhetinhos com frases de propaganda futurista ou frases surpresa (por exemplo: “O futurismo é um movimento anti-histórico”- “Viva perigosamente”- “Médicos, farmacêuticos e coveiros, com a cozinha futurista ficarão desempregados”, etc.)

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A cozinha futurista    Leite à luz verde (fórmula da senhorita Germana Colombo) Em uma grande tigela de leite frio imergem-se algumas colherinhas de mel, muitos grãos de uva preta e alguns rabanetes vermelhos. Comer enquanto uma desluz verde ilumina a tigela. Beber juntamente uma polibebida feita com água mineral, cerveja e suco de amoras. Faisão futurista (fórmula do aeropoeta Dr. Pino Masnata) Assar um faisão bem esvaziado, depois deixá-lo uma hora em banho-maria no moscato de Siracusa. Depois uma hora no leite. Recheálo com mostarda de Cremona e frutas cristalizadas. Aeroporto picante (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Uma camada de salada russa com maionese coberta de verde. Em volta medalhões variados compostos de pãezinhos recheados de laranja, clara de ovo e frutas mistas. Com manteiga tingida de vermelho e anchovas ou sardinhas formar no campo verde perfis de aeroplanos. Estrondos ascensionais (arroz com laranja) (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Risoto em branco com molho luminoso: o molho é composto de ossos de vitelo cozido em marsala e um pouco de rum, casca de laranja cortada em tirinhas finas, fervidas com gotas de vinagre. Acrescentar suco de laranja. Perfumar com “molho nacional”, que se encontra no comércio.

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Fillippo Tommaso Marinetti Fuselagem de vitelo (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni)Fatias de vitelo encostadas na fuselagem montanha composta por castanhas cozidas, cebolinhas e lingüiças. Tudo coberto de pó de chocolate. Aparições cósmicas (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Ervas-doces, beterrabas, brócolis, cenouras amarelas sobre um pastel de espinafre. Acrescentar cabelos de anjo de açúcar. Os legumes são cozidos cortados em formato de estrela, lua, etc e servidos na manteiga. Aterrissagem digestiva (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Com papa de castanhas cozidas em água com açúcar e favas de baunilha formar montanhas e planícies. Por cima, com sorvete de creme de cor azul, formar camadas de atmosfera sulcadas por aeroplanos de massa podre inclinados em direção ao chão. Mamas italianas ao sol (fórmula da aeropintora futurista Marisa Mori) Formam-se duas meias esferas cheias de pasta confeitada de amêndoas. No centro de cada uma apóia-se um morango fresco. Então se derramam na bandeja zabaione e zonas de chantilly. Pode-se cobrir tudo com pimenta-do-reino forte e guarnecer com pimentas vermelhas. Algaespuma tirrena (com guarnições de coral) (fórmula de aeroceramista futurista Tullio d’Albisola, PoetaRecord de Turim)

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lava-se e enxágua-se em abundante água corrente. Revestir o vazio com biscoito tipo inglês dando forma quadrada. A guarnição de corais será obtida com um monte de cachos de pimentas vermelhas picantes. advertindo que a pesca não tenha ocorrido nas vizinhanças de fossas ou desaguadouros porque a referida alga assimila facilmente os maus cheiros. será servido à mesa apenas pronto. desenformar e servir com uma guarnição de meios damascos com gelatina. gomos de ouriços do mar pescados sob lua cheia. deixando-a endurecer.indd 249 7/4/2009 15:51:28 . arquitetado e arabescado com arte. O centro do abacaxi é coberto por uma camada de atum sobre a qual se apóia uma meia noz.A cozinha futurista    Prende-se um maço de algas marinhas de recentíssima pesca de rede. Pulveriza-se a folha com açúcar e espuma-se com uma onda de chantilly. gomos de laranja e limões confeitados. sobre um prato redondo plano. e uma constelação de grãos de romã madura. O todo. Bomba à Marinetti (fórmula do cozinheiro futurista Alicata) Revestir uma forma de bomba com gelatina de laranja decorando a parte da cúpula com pequenos morangos. 249 Cozinha futurista. preenchendo o vazio com uma bavaroise de baunilha. Decorar os lados com angélica cândida em forma de coroa e a parte posterior com castanhas confeitadas. esfregar no suco de limão. Acordaestômago (fórmula do aeropintor futurista Ciuffo) Uma fatia de abacaxi sobre a qual dispõe-se um raio de sardinhas. Quando limpa. com brodo ondeado e coberto por uma folha de celofane azul. Congelar. Cobrir a decoração com uma camada de gelatina.. fresco.

previamente imersas em pimenta Caiena. fatias de queijo parmesão. com o interior também espalhado de mostarda. Um ritual (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Um pequeno cilindro oco de gelo coberto externamente de mel. com mostarda espalhada em sue interior. um copo contendo: vermute. anchovas. fatias de tomate. tudo regado de vermute e licor de menta. Fogonaboca (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) No fundo do copo: uísque com marascas em conserva. que comprimem bananas e anchovas. eqüidistantes: um montinho de amêndoas torradas. café torrado. Dentro: fatias de banana. de espessura) como divisor impermeável. fatias de banana. O regenerador (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Uma gema de ovo. vermute e licor Strega. No centro do pratinho. licor Strega.Fillippo Tommaso Marinetti Doceforte (fórmula da Senhora Barosi) Entreosdois formado por duas fatias de pão com manteiga. conhaque. Em seu interior e no fundo: sorvete de creme. pedaços de abacaxi. 250 Cozinha futurista. Avanvera (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Sobre um pratinho de alumínio.indd 250 7/4/2009 15:51:28 . depois amendoins de Chivasso. Sobre: leite com mel ou mel (1 cm. Sobre o mel: alquermes. Meio copo de Asti espumante.

um pedaço de banana.indd 251 7/4/2009 15:51:28 . (Introduzir-se-á o palito no copo. aparecerão no líqüido os olhos de gordura depositadas pelo presunto: neste caso a polibebida poderá ser intitulada “aquele porco que pisca os olhos”) 13 Talvez o fascio lictório. Três colherinhas de açúcar. O lictório13 (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Diferentes caules de cardo ou salsão do comprimento de 10 cm. cozidos previamente em água. O interior do cilindro recheado com carne moída. um pedaço de beterraba. Fixados: embaixo por uma semi esfera de risoto branco e em cima por um meio limão.. Tudo batido por 10 minutos. óleo sal pimenta. A tâmara assim confeitada é envolta em finas fatias de presunto cru e depois em folhas de alface. Apresentado em um copo dentro do qual se dispõe uma banana descascada e visível.A cozinha futurista    Três nozes torradas. Simultânea (polibebida do futurista Dr. Vernazza) 4/8 de vinho Vernaccia 3/8 de vermute 1/8 de aguardente Tâmara pouco madura recheada de mascarpone empastado com licor Aurum (Pescara). Tudo enfiado em um palito sobre o qual se enfilará também uma pequena pimenta vermelha em conserva recheada de queijo parmesão em pedacinhos. Sobre a semi esfera de arroz. distribuídas como estrelas: um pepino. dispostos direitos de modo a formar um cilindro vazio. emblema fascista tomado da antiga Roma 251 Cozinha futurista.

queijo e noz moscada. uma anchova coberta por uma tirinha de banana. Vernazza) Bife de vitelo cozido na manteiga e cortado em forma de encordoamento de raquete: na hora de servir.indd 252 7/4/2009 15:51:28 . cobrir com uma fina camada de massa (feita de mascarpone amassado com nozes trituradas). Bocado “squadrista”14 (fórmula do futurista Dr. Vernazza) Arroz cozido normalmente. 14 militante da causa fascista 252 Cozinha futurista. Chuleta-tênis (fórmula do futurista Dr.Fillippo Tommaso Marinetti Risoto Trinacria (fórmula do futurista Dr. Molho preparado com a fritura de pouca cebola e manteiga. Cozimento rápido para manter o forte da bebida. Temperado o risoto. ovos. Para formar o cabo da raquete. Depois bolinhas esféricas perfeitas com cereja em conserva (sem o cabinho) envoltas com massa de ricota. ao qual se acrescentará: pedacinhos de barriga de atum em conserva e tomate em mínima quantidade. Vernazza) Filé de peixe entre dois grossos discos de maçã: tudo coberto de rum e flambado no momento de servir. acrescentar e misturar algumas azeitonas verdes e guarnecer com gomos bem limpos de tangerina. sobre a qual são traçadas algumas linhas com molho de tomate misturado com rum.

A cozinha futurista    Aerovianda atlântica (fórmula do futurista Dr. Rosas diabólicas (fórmula do futurista Pascà d’Angelo) 2 ovos 100 gr. Dos dois lados desta composição que lembra esqui: discos de fruta cristalizada dentro do qual está enfiado um grissini doce. fatias de laranja embebidas em marasquino Zara. Sobre a superfície branca dispor longas fatias de banana e no centro meia tâmara recheada de licor Aurum amassado com amêndoas doces e amargas trituradas. Por cima: uma camada de chantilly. Esquiador comestível (fórmula do futurista Dr. Por cima dispor (um por comensal) aeroplanos formados por: folhadinhos de formato triangular (asas) – cenoura cortada de comprido (fuselagem) – cristas de galo cozidas em manteiga (leme) – bergamotas cortadas em discos e colocadas em pé (hélice). etc) de cor verde clara. espinafres.indd 253 7/4/2009 15:51:28 . Entre o zabaione e o chantilly. de farinha suco de meio limão uma colher de azeite 253 Cozinha futurista. Vernazza) Zabaione duro gelado em um prato fundo. Vernazza) Pasta de legumes (lentilhas. ervilhas.

e frite-as em azeite fervente como se usa para fazes alcachofras à la jedia. depois coloquem o arroz e cozinhem-no muito seco e al dente. e viva o aço! 254 Cozinha futurista. jogue lá dentro rosas vermelhas aveludadas despetaladas. Quando estiver bem deaço sirvam-no com biscoitos finos. Sirva-os à mesa quentíssimos.indd 254 7/4/2009 15:51:28 . Tirem-no fogo e. depois de ter cortado o caule na altura do cálice. (Indicadíssimos para recém-casados. despejem-no assim em uma forma. a água de flor de laranjeira. ralem dentro a casca do limão e espalhem. de água de flor de laranjeira ½ litro de leite Cozinhem no leite o café e adocem a gosto.) Doce Mafarka (fórmula do futurista Pascà d’Angelo) 50 gr. quando estiver frio.Fillippo Tommaso Marinetti Misture bem os ingredientes citados e forme assim uma massa não muito densa. de café Açúcar a vontade 100 gr. Bom apetite. – Veja a fórmula seguinte. comam à meia-noite em janeiro. misturando bem. de arroz 2 ovos Casca de limão fresco 50 gr. especialmente se vêm cobertas do doce futurista Mafarka. e levem ao gelo.

de mussarela de búfala 6 anchovas 25 gr. incorporando-o bem. 15 Pejorativo. assim preparada. 3 ou 4 alcaparras. meia anchova. e aproximadamente na metade do cozimento acrescentar a manteiga e sal suficiente. dividam-no em 10 partes.A cozinha futurista    Bombardeamento de Adrianópolis (fórmula do futurista Pascà d’Angelo) 2 ovos 100 gr. alecrim e alho. Pulo de áscaro15 (fórmula do futurista Giachino. Quando o preparado estiver bem frio. darão a forma de uma esfera. pimenta. e em cada uma destas incorporarão uma fatia de mussarela. Depois que o arroz for tirado do fogo misturem imediatamente um ovo. A cada parte. 2 ou 3 azeitonas sem o caroço. de manteiga 100 gr. 255 Cozinha futurista. e uma pitada abundante de pimenta do reino. de alcaparras 100 gr. banhem-na no outro ovo que já foi batido. proprietário do Santopaladar) Cozer uma coxa de carneiro com louro. de azeitonas 50 gr. de arroz ½ litro de leite Coloquem para cozinhar bem al dente o arroz no leite.indd 255 7/4/2009 15:51:28 . e depois passem em farinha de rosca e fritem. soldado da colônia italiana em Eritréia.

proprietário do Santopaladar) Sobre um creme de ervilhas dispor um filé de vitelo cozido em manteiga. proprietário do Santopaladar) Sobre uma larga fatia de presunto colocar salame cru. fatias de abacaxi e manteiga.Fillippo Tommaso Marinetti Cozida a coxa. alcachofrinhas. pepinos. uma fatia de presunto e uma fruta cristalizada. e acrescentar à carne tâmaras recheadas com pistaches salgados. Ovos divorciados (fórmula do futurista Giachino. Sopa zoológica (fórmula do futurista Giachino. Compenetração (fórmula do futurista Giachino. Verter sobre o filé molho de tomate e acrescentar um anel de maçã. escorrê-la. vinho branco seco e suco de limão. Aplacafome (fórmula do futurista Giachino.indd 256 7/4/2009 15:51:28 . proprietário do Santopaladar) 256 Cozinha futurista. proprietário do Santopaladar) Massa em forma de animais composta de farinha de arroz e ovos. atum. cogumelos em conserva. azeitonas. Arroz verde (fórmula do futurista Giachino. recheada com geléia e servida em um brodo de rosas quentes realçado por gotas de água de Colônia italiana. proprietário do Santopaladar) Sobre um fundo de espinfre servir arroz branco fervido e temperado com manteiga e recoberto por um denso creme de ervilhas e pistaches em pó. Unir as duas extremidades do presunto e mantê-las fechadas com filés de anchova.

Passar os nabos recheados em gema de ovo e no pão ralado e cozê-los ao forno. 257 Cozinha futurista. Dispor as gemas sobre uma pasta de batatas e as claras sobre uma pasta de cenouras. deixando cozinhar até secar. Servir com legumes. proprietário do Santopaladar) Pequenos nabos novos fervidos por 10 minutos com louro. Rosabranca (fórmula do futurista Giachino. Voltar ao fogo com meio copo de suco de ameixa. Depois acrescentam-se seis ameixas sem caroço recheadas com amêndoas. Bananas surpresa (fórmula do futurista Piccinelli. cebolas e alecrim. proprietário do Santopaladar) Misturar à medula de ossobucos dourados em manteiga farinha de rosca. Levar ao fogo em uma caçarola com manteiga e acrescentar um pouco de caldo de carne.indd 257 7/4/2009 15:51:28 . proprietário do Santopaladar) Doses diferentes de laranjada. licor Campari e anis com essência de Rosas Brancas. Boca de fogo (fórmula do futurista Giachino. Tornar novamente ao fogo com um cálice de vinho branco seco e suco de limão. nozes e uma baga de zimbro. Nabo-carteira (fórmula do futurista Giachino. cozinheiro do Santopaladar) Fazer um furo em todo o comprimento de uma banana descascada e enchê-lo com carne de frango moída.A cozinha futurista    Dividir na metade ovos cozidos extraindo intactas as gemas. Cortá-los depois como carteiras e recheá-los com anchovas banhadas em ovo e rum.

Fillippo Tommaso Marinetti Pequeno dicionário da arte cozinhária futurista Castanhas confeitadas: substitui marrons glacê Comperfume: termo que indica a afinidade olfativa de um dado perfume com o sabor de uma determinada vianda. 258 Cozinha futurista. Comtátil: termo que indica a afinidade tátil de uma dada matéria com o sabor de uma dada vianda. Exemplo: o comrumor do arroz ao molho de laranja e o motor de motocicleta ou o “despertar da cidade” do rumorista Luigi Russolo. Conmúsica: termo que indica a afinidade acústica de uma dada música com o sabor de uma dada vianda. exemplo: o comperfume da massa de batatas e a rosa. Exemplo: o comtátil da pasta de bananas e o veludo ou a carne feminina.indd 258 7/4/2009 15:51:28 . Exemplo: a conmúsica do carnescultura e o balé “HOP-FROG” do maestro futurista Franco Casavola. Comrumor: termo que indica a afinidade rumorística de um dado rumor com o sabor de uma dada vianda.

Exemplo: o desrumor do “Mar da Itália” e o chiado do óleo fritando. Destátil: termo que indica a complementaridade de uma dada matéria com o sabor de uma dada vianda. uma importante decisão. 259 Cozinha futurista.A cozinha futurista    Comluz: termo que indica a afinidade óptica de uma dada luz com o sabor de uma dada vianda. Decisão: nome genérico de polibebidas quentes-tônicas que servem para tomar. Desmúsica: termo que indica a complementaridade de uma dada música com o sabor de uma dada vianda.indd 259 7/4/2009 15:51:28 . Consumado: substitui CONSOMMÉ. Exemplo: a desmúsica das tâmaras com anchovas e a Nona Sinfonia de Beethoven. Desperfume: termo que indica a complementaridade de um dado perfume com o sabor de uma dada vianda. Desrumor: termo que indica a complementaridade de um dado rumor com o sabor de uma dada vianda. após breve mas profunda meditação. Exemplo: o destátil do “Equador + Pólo Norte” e a esponja. Exemplo: o desperfume da carne crua e o jasmim. Exemplo: a comluz do “porcoexcitado” e um relampejar vermelho. dos refrigerantes e da espuma do mar.

Mexedor: substitui BARMAN. Fondentes: substitui FONDANTS. Guiapaladar: substitui MAÎTRE D’HOTEL. Fumatório: substitui FUMOIR. Exemplo: a desluz de um sorvete de chocolate e uma luz laranja quentíssima. Lista ou Listadepratos: substitui MENU. Guerranacama: polibebida fecundadora. Mistura: substitui MÉLANGE.indd 260 7/4/2009 15:51:28 . Inventina: nome genérico de polibebidas refrescantes e levemente embriagantes que servem para encontrar fulminantemente uma idéia nova.Fillippo Tommaso Marinetti Desluz: termo que indica a complementaridade de uma dada luz com o sabor de uma dada vianda. 260 Cozinha futurista.

Polibebida: substitui COCKTAIL. Sala de chá: substitui TEA-ROOM Sganasciatore: personagem futurista que tem por tarefa alegrar os banquetes oficiais. 261 Cozinha futurista. Paraselevantar: substitui DESSERT.indd 261 7/4/2009 15:51:28 . Pasta: substitui PURÉE Almoçoaosol: substitui picnic. Pasticho: substitui FLAN. Cedonacama: polibebida aquecedora invernal.A cozinha futurista    Paznacama: polibebida sonífera. Aquisebebe: substitui BAR.

indd 262 7/4/2009 15:51:28 .Fillippo Tommaso Marinetti Entreosdois: substitui SANDWICH Sopa de peixe: substitui BOUILLABAISSE 262 Cozinha futurista.

indd 263 7/4/2009 15:51:28 .Conclusão O Cozinha futurista.

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indd 265 7/4/2009 15:51:28 . Escultura. além de outros doze polemicamente instituídos por Marinetti no manifesto de 1921. Teatro. Esta trazia. primeiro grande movimento literário do século na Itália. também à Gastronomia. O Futurismo. de Filippo Tommaso Marinetti e Luigi Colombo “Fillìa”. no início. agora. oferecia novos modos de expressão para representar a nova sociedade que se formava a partir do final do século XIX. audição. pelas máquinas. pelas 265 Cozinha futurista. tato. passando da Literatura à Pintura. olfato e paladar. a euforia dos homens pelas multidões. Cinema e. Os representantes do Futurismo procuraram se manifestar em relação a diversas esferas da arte e cultura. Arquitetura. Todos os sentidos foram privilegiados pelos manifestos: visão. embora praticamente desconhecida e ainda não publicada no Brasil: A cozinha futurista. propiciando assim um contato maior com o mundo modernizado que se lhes apresentava.O objetivo deste trabalho foi proporcionar ao leitor de língua portuguesa e aos estudiosos do Futurismo o acesso a uma obra importante do movimento.

Certas descrições. certamente mantém o bom humor à mesa. A cozinha italiana nunca mais seria a mesma. A expressão da gastronomia na literatura não é novidade: desde as antigas civilizações. a euforia e o impacto iniciais foram perdendo força na medida em que deixaram de ser novidades. O Manifesto da Cozinha Futurista aparece como grito desafiador de um movimento que não atingia mais os seus objetivos. o homem moderno alienado pela cultura de massas. A trajetória do Futurismo segue a História. a saber os manifestos do Futurismo e Técnico da Literatura Futurista.Fillippo Tommaso Marinetti indústrias. Para evidenciar o futurismo proposto. faz imaginar se alguém já teria preparado. são postos em prática pelo autor. traz inúmeras opiniões. para sustentar a tese de que “macarrão não faz bem aos italianos”. A forma dos pratos. O resultado é a estranheza de algumas construções sintáticas e a inovação do vocabulário. que muitas vezes refutam os pratos inovadores. ou pior. O receitário futurista. Os argumentos econômicos de Marinetti soam bastante convincentes: modificar os hábitos alimentares. O otimismo. A cozinha futurista é um livro intrigante. na população. Além de conter o polêmico manifesto. além de revigorar a raça. mais tarde. permeando o Renascimento e toda a literatura 266 Cozinha futurista. ingerido certas iguarias. Algumas das regras contidas no “Manual de Redação e Estilo Futurista”. se não excita o apetite. ajudaria a fortalecer a economia.indd 266 7/4/2009 15:51:28 . de pessoas inusitadas. com receitas assustadoras. Os artigos de jornais fazem transparecer o “passadismo” dos estômagos. pelos avanços científicos e pelos meios de comunicação e. revelam aos poucos a intolerância de Marinetti para com os hábitos tradicionais. ou fúria. aproximam-se da política para garantir a subsistência do movimento enquanto se afastam da vanguarda literária. Propuseram modificar o hábito mais arraigado da tradição italiana – o macarrão – para despertar interesse. passando para a Idade Média esfomeada. aparentemente incompreensíveis. com fartura em grandes banquetes. nada melhor que uma linguagem adequada.

temas e formas de composição literária. p.indd 267 7/4/2009 15:51:28 . por não refletir o exato perfil de seus participantes. Mario de.22 267 Cozinha futurista. metafórica ou não – revelam uma preocupação comum. O banquete.ingestão de carne humana. independente. Os escritores brasileiros que revolucionaram as artes no início do século chamaram-se no início de futuristas. Op. O “encontro” dos três autores propiciou o questionamento sobre as possíveis interferências da obra de um na obra do(s) outro(s). cit. metafórico e intelectual. invento pratos e creio mesmo que se tivesse nascido noutra classe. 1 Andrade. aos convites-cardápio de Oswald. e que continuou importando cultura por ainda mais cem anos. significados. desejavam fundar um movimento nacional.A cozinha futurista    subsequente. que atendesse aos anseios de um país – ex-colônia de Portugal por mais de três séculos. seria algum cozinheiro famoso. mas permitem que aproximemos e comparemos afinidades. simbologias e objetivos diferenciados. Boas surpresas foram colhidas ao longo do processo. Estas interferências .que poderiam ser chamadas de influência ou contribuição – situam-se apenas no campo da suposição. e até a um canibalismo inesperado em Marinetti. Buscou-se nos três autores trabalhados – Marinetti. desde a declaração de Mário de Andrade: “Gosto porém muito de arte culinária.”1. embora a digestão da carne humana tenha. para cada um. nome que rejeitaram pouco tempo depois. O Futurismo italiano e o Modernismo brasileiro foram aproximados neste trabalho a partir do viés culinário-antropofágico. Oswald de Andrade e Mário de Andrade – as referências à culinária em si e ao canibalismo real. Não queriam ser discípulos do movimento europeu. As coincidências culinárias . os livros trazem com bastante freqüência o prazer da mesa para suas páginas.

ou talvez outros se aventurem pela obra marinettiana.Fillippo Tommaso Marinetti O pastiche.indd 268 7/4/2009 15:51:28 . Esperamos que este livro “cozinhário” possa contribuir com os estudos feitos tanto na área gastronômica quanto na literária. e que desperte em outros estudiosos o interesse por esta figura tão contraditória e interessante do Futurismo italiano. merece mais atenção por parte dos pesquisadores. Talvez Marinetti tenha somente se servido do regime. participando da construção de uma nova sociedade para o novo século. como cantou Mário. 268 Cozinha futurista. reproduzindo-os num grande livro. Colecionando recortes de jornal e receitas de amigos. sendo praticamente reduzido aos seus manifestos. Talvez em outro trabalho possamos verificar a invasão futurista nos outros cômodos da casa. como fez Oswald. como Marinetti. De qualquer forma. Colecionando fotos e bilhetes. Colecionando histórias de índios e organizando-as num herói nacional. a verificar todos os incômodos que este suscitou. estudioso de vários campos das artes. A obra literária de Marinetti é vasta e interessante. embora os títulos sejam pouco conhecidos ou lidos. parece ser a forma de composição comum aos três autores nas obras aqui estudadas. A partir da leitura das obras literárias de Marinetti pudemos observar que o escritor é muitas vezes esquecido. colando-os num diário. um autor que analisou e criticou sua nação. Infelizmente este trabalho não pode ir além da Cozinha. a colcha de retalhos. Há uma espécie de preconceito em relação ao escritor. talvez pela idéia corrente de que teria servido ao regime fascista de Mussolini.

Referências bibliográficas K Cozinha futurista.indd 269 7/4/2009 15:51:28 .

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indd 281 7/4/2009 15:51:29 .Apêndice U Cozinha futurista.

indd 282 7/4/2009 15:51:29 .Cozinha futurista.

indd 283 7/4/2009 15:51:29 . Capa da edição em alemão 283 Cozinha futurista.Apêndice 1 Capas do livro A Cozinha Futurista em diferentes edições e traduções Capa do livro na edição espanhola Capa do livro na edição em língua inglesa Capa do livro em edição norueguesa Capa do livro na edição italiana de 1932.

Tu senti la tristezza e la noia di riprendere ancora il fucile e di costatare colla necessità di uccidere.Apêndice 2: come si nutriva l’ardito Via. senza dogmatismo disciplinare e senza rancore. Comprendo prefettamente quanto ti proccupi il dover raggiungere l’esercito al fronte. e scatenarli spesso contro il nemico da ammazzare! Mestiere difficile. Così. Bisogna spesso prenderli a pugni. in questa città di avventurieri rapaci e di operai ribelli nel rombo catarroso delle officine che hanno l’eterno ritmo asmatico? A II anni di distanza eccoci di nuovo lanciati in una nuova conflagrazione. attraverso boscaglie di pericoli. abbandonando la tua dolce amica in questa città turbulenta e caotica. Fra tre giorni ti troverai nel tuo reparto d’assalto fra quei terribili arditi verdirossi. Cozinha futurista. Sono belve indomabili ma generosissime. Affretati di conoscrle bene tutti. Come potrà vivere quella bella camelia fragile senza la calda ovatta del tuo amore. ceffi spavaldi selvaggi tracotanti e giocondi che hanno già superato in ferocia tutti I Marat e in eroismo tutti gli arditi grigio-verdi dell’ultima guerra. comandarli in guerra! Ocorre per questo avere l’anima. Fedeli come mastini. l’ineluttabile fatalità della guerra. il gesto. lo slancio e la você alta e il coraggio temerario d’un capo ardito! Un capo. ma rapidamente senza ingiustizia. l’occhio. superiore in tutto. con un passo più veloce del loro. non esagerare la tua angoscia. abbacinante di audacia eroica e di maffia insolente che sappia correre più di loro.indd 284 7/4/2009 15:51:29 . poiché ognuno ha una spiccata personalità. si può portarli contro le morti più spaventose. Questa volontà deve irrigidire I nostri nervi contro ogni viltà sentimentale. Tu li conosci bene. Bisogna sopratutto ricompensarli a tempo. Coraggio! su! la lotta sarà breve e decisiva.

Si guazza a mostrarla. Tutto è domato. cedendo a poco a poco ed incanalandosi con spintoni e risate dietro il tenente che grida: . Bruciapreti. cazzotti sfollatori. signor tenente! A lei non può piacere. Ne prende uno per il collo. è troppo amara! Tutti gli arditi circondano Guzzo con lazzi gridi ingiurie. è vero! Ho dentro lo zaino la carne salata. Spaccafucili. lasciala vedere. Ringhiano. Interviene il tenente comandante del reparto con calci e schiaffi. Con scatto viperino l’ardito si volta e morde la mano. ma la bocca cattiva deformata da una rasoiata alla guancia sinistra. Neanche un pezzettino. ruzzoloni.Fissati bene nella memoria I nomi anzi I soprannomi di quegli eroi: vampa. silenzio assoluto! Seguitemi e guardate il mio braccio destro.Tutti con me! Fate silenzio! Silenzio! Silen…zio! Silen…zio!… Quando saremo nell’acqua. vogliono vedere la carne salata. Non posso. risponde Guzzo irato. Ma la mano potente stringe meglio la gola e la belva cede. Cozinha futurista. fetenti! Mascalzone! Te la cucinerò io.indd 285 7/4/2009 15:51:29 . Il caporale dice che ho dentro un pezzo di carne salata.No! No! non voglio aprire il mio zaino. Setteferite. non la tocchiamo. Al fiume prima tappa. vero Sareceno magro agile scattante. fez rossi. la tua carne salata! Scoppia la rissa: arruffio di braccia. Scoppierà subito una lite nei ranghi: è Guzzo che grida: . minacciano gli arditi verdirossi. Guzzo. Ti raccomando un certo Guzzo di Trapani tutto nero. Assassino. Signor tenente. un pezzettino! Guzzo. Fulmine. bestemmiano. Succhiasassi. non è rubata! Me la voglio mangiare tutta io! Non mi permetto di offrirla a lei. grandi occhi neri dolcissimi. ma è mia.

Gorghi di pupille ardenti. Guzzo fruga sempre nel suo zaino. mentre la forbice tagliente formata da due proiettori si apre con lento mistero. A un metro a destra Guzzo è in ginocchio. ma è forte e conosce bene I guadi. La colonna degli arditi si ferma dietro al braccio destro del tenente. Davanti a te un ardito ammantellato. s’arricchisce di diamanti. Sopra giganteggiano i tronconi del ponte saltato. Sembrano pezzi di nave impennati che affondino. carponi. Sono due scope lunghe d’argento polverulento. nel fango. metterti in coda al reparto o prendere la testa. si incrociano. Tappeti veloci di zaffiri e smeraldi. ecco il primo fascio di luce è a due metri. pieno di ombre lunghe come cappellacci a sghimbescio sugli occhi gelati del fiume. Non ti vede. L’acqua s’infiamma di mille estasi. poi si ferma. I piedi diguazzano e flic-flaccano nel pantano. case color smeraldo. Ecco. isolotti di giaccio. striscia. Guzzo in ginocchio. implorano. forme spettrali. Non si crede veduto! Ad un tratto due proiettori si accendono sulla riva nemica. Due minuti dopo russa catarrosamente con un rumore acqueo che domina lo sciacquio del fiume. Tutti a terra nel fango e nell’acqua. Fruga dentro. Si sforza di aprirlo. svegliando miracolosamente fogliami e fusti fantastici d’argento lieve. Uno specchio d’acqua breve poi una piccola lingua di terra grigia quasi bluastra nel violaceo comosso crepuscolo. Lo apre. Corrono dei riflessi furbissimi. È preferibile camminare in testa. curvo sul suo zaino. Velluti carnali con pallori umani che vibrano. spiagge di madreperla. Se guida meglio così il proprio destino e si tien meno legata la propria vita ai fili sparsi della Fortuna. a tua scelta. a un metro da Guzzo.indd 286 7/4/2009 15:51:29 . Lo investe sfarzosamente. paesaggi d’oro liquido. tutto acceso di Cozinha futurista. Nasce la luna con gioielli rubati all’acqua bollente di risate.Tu puoi allora. Troverai fra I più arditi verdirossi Guzzo. Ha lo zaino più pesante. Siete delle ombre umane che si acqattano. urla la sua gioia bianca.

forse parleranno tanto più che la testa perduta lontana non aprla più! Il ventre umile. Spargonointorno le belle rose granate che scoppiano profumando… Bella! Cara! Mi vuoi? Mi vuoi? Oh! Sento che mi vuoi! Sento che mi desideri. è assorto. poi andremo insieme avanti. in alto sopra di noi. timido. le vesti più belle! Tutte le perle.Cara. Tu con calma guardalo bene. Si! Si! Un pezzo di carne di donna nuda decapitata senza braccia e senza gambe! Il tronco grazioso di una piccola donna! Sembra ceselato e imbrillantato di sale prezioso che luce.splendori. Umana. tremano. Musiche e splendori! Le cose più ricche. tutti I diamanti. sulla riva nemica… Tu sei l’unica mia gioia calda in questa notte gelata! Ti porterò sulle spalle senza farti male e camminerò curvo. Fischiano gli angeli di fuoco sul nostro letto. giù giù su te.indd 287 7/4/2009 15:51:29 . ingenuo. E c’è pure la musica. senza stupirti. Ora tu apri le tue braccia che non hai più e mi tendi le labbra che non hai più! Ti terrò con me sotto le mie labbra ancora un’ora. piena d’ogni speranza e di ogni benedizione!” ta ta ta ta ta ta ta ta ta tà Cozinha futurista. piccola. Le mammelline tonde soavi vive. Avvicinati! Non ti sente. nel tuo calore rovente umido succiante! Paradiso inferno iddio mio. tutti I velluti. scende risale sotto le volte della cattedrale. con te. Vedi? Tutto è bello intorno a noi. mio mio! Bevo l’infinito in te. I due tagli delle cosce sono chiusi da cuffie di seta nera aderente. Guzzo mormorava: . estrae dallo zaino qualcosa che splende più di lui. mansueto s’incurva verso il lieve sognante piccolo giardino fra le cosce sensuali troncate a metà. Cosi pure il collo. la musica che sale. carponi. sono qui con te. perché non ti bruci contro le sbarre furenti precise dei tiri di mitragliatrice… Sono capitombolato giù dal cielo disperato nero. Ha veramente fra le mani un pezzo di carne. immensa divina. squartato e rullante della mia vita morta. in te. tutte le sete. né spaventarti. Sono caduto giù dall’alto dei miei eroismi. giù! La morte ci dà quest’ultima notte di festa.

né i suoi piedi. piccola. Lo so. gli occhi. Non amo la testa della donna. Flic-flac di passi intorno. Tu devi allora appoggiare la mano sulla spalla di Guzzo e parlargli: Ti piaciono le donne. Sei a tre centimetri dalla spalla di Guzzo. la mia la voglio coricata immobile… Voglio che non pensi ad altri. Gli arditi si ammucchiano poi davanti nel guado che sognando travolge succhia mastica raggi di stelle. Un sibilo lungo. Guzzo? Sì. e tutta la tua cara testa coi capelli l’ho mangiata! Le tue gambe. Se lo carica sulle spalle e si alza. cinghia e lega allo zaino. lontano. I tuoi oiedini santi. Perché dici sempre lo so? Cosa sai tu di me? Cozinha futurista. stringe tutto in una pelle nera. Porta con te la mia carne e baciami giorno e notte. Il fascio di luce scivola lontano.indd 288 7/4/2009 15:51:29 . ta ta ta ta ta ta ta ta ta tà Poi silenzio. ma dimmi perché? Perché una donna non deve né pensare né camminare. e con você flebile di donna ripete a memoria un brano di lettera: . Piange.Ho fatto ciò che volevi! Ti ho mangiata la faccia di baci. che non veda nessuno e che non fugga mai!… Lo so.Portami con te in guerra. ssssssssss del fiume. raggomitola ciò che gli tremola luminosamente nelle mani. la fronte. Vedi. con la tenerezza che le madri morte hanno in Paradiso!”. sono tua! Tua! Poi Guzzo cambiando voce: . Guzzo si scuote. baciami. mangiami la faccia di baci. Lo so. ma non le donne vive. di splendore in splendore e si spegne. Buio.La mitragliatrice nemica punteggia queste ultime parole. divorami. tutto ho mangiato con millioni di baci! E ora sei me stesso! Nelle mie vene il mio sangue ti culla.

Sempre avanti lo stesso! Guzzo si caccerà con un balzo contro la palla che lo cercava scherzosamente pur volendolo scansare. le sue braccia. voluttuose. ti approvo. Mondadori. Hai risolto il più grave problema… Sei un grande filosofo!… Grazie. F. poi svincola il cadavere di Guzzo dalle erbacce e spingilo nella corrente che lo porterà al mare. Tu allora non esitare. In: Marinetti. stacca lo zaino e caricatelo sulle spalle. sentirai piangere vicino a te.So che hai ucciso la tua amica e che hai divorato amorosamente la sua testa. 1930. Milano. in te! Piangerà il corpo della bella di Guzzo! E il suo pianto colerà sulla tua schiena a gocce lente. amico! Se muoio prendi il mio zaino e seppelliscilo. le sue gambe. Ora porti il resto sulle spalle. Poi avanti! Mentre camminerai fra gli spudorati splendori scandalosi dei proiettori che ti cercano. su di te. Ti ho visto.indd 289 7/4/2009 15:51:29 . ta ta ta ta ta ta ta ta ta tà Accidenti alla mitragliatrice! grida Guzzo. T. Cozinha futurista. Novelle colle Labbra Tinte. Colpito cadrà nell’acqua.

indd 290 7/4/2009 15:51:29 .Cozinha futurista.

acima de tudo. Maria Augusta Fonseca. Drª. Aurora Fornoni Bernardini pelas sugestões dadas no exame de qualificação. à Carla por aturar muitos dias de mau humor. Ao Prof. Ao meu irmão Junior pela paciência na solução dos infindáveis problemas técnicos. À Vera e ao Chef Picard. Drª. por provar que sempre vale a pena lutar pela felicidade.Agradecimentos Agradeço à Profª.que. ajudando. pelo incentivo e por dividirem os segredos de suas cozinhas. À Profª. Lucia Wataghin por ter me orientado com competência. que sem saber. incentivando e. Cozinha futurista. Ao Rodrigo. Aos meus pais – Mary e Domingos .indd 291 7/4/2009 15:51:29 . embora não compreendendo os dias e noites silenciosos debruçados sobre livros. sempre disponíveis em busca de algum livro desaparecido. Aos funcionários da Biblioteca. acreditando que tudo daria certo. abriu para este trabalho os caminhos da antropofagia. À Paola pelo apoio e pelas broncas. Alain Mouzart pelas dicas na tradução. companheirismo e paciência enquanto eu me perdia entre receitas possíveis e impossíveis. Dr. apoiaram à sua maneira. que mesmo distante se fez tão presente e participante. Drª. Andrea Lombardi e à Profª. Ao Prof. suporte decisivo. à Claudia.

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