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HANS PETER WIESER

MUDANÇA LINGÜÍSTICA

Fortaleza 1998

HANS PETER WIESER

MUDANÇA LINGÜÍSTICA

Trabalho de Graduação apresentado ao Curso de Letras, Centro de Humanidades (CH), Universidade Estadual Do Ceará (UECE). Orientador: Prof. Dr. Antônio Luciano Pontes.

Fortaleza 1998

HANS PETER WIESER

MUDANÇA LINGÜÍSTICA
Monografia aprovada como requisito parcial para obtenção da licenciatura plena para o magistério de 1o e 2o graus, nos termos da Lei no 28370/50, de 12/07/50, DOU de 20/07/50, no Curso de Letras, Centro de Humanidades (CH), Universidade Estadual do Ceará (UECE), pela Comissão formada pelos professores:

Orientador:

Prof. Dr. Antônio Luciano Pontes Depto de Língua Portuguesa, UECE

Fortaleza, 18 de dezembro de 1998

........................................................................... 4......................25 A EXPLICAÇÃO ATRAVÉS DA MÃO INVISÍVEL .................. 30 EXPLICAÇÕES CAUSAIS........ 9... 76 OBSERVAÇÕES FINAIS................. iv 1. 69 A LÍNGUA INTERNA DE CHOMSKY ................... 12.. 3.. 19 O PAPEL DA LINGÜÍSTICA DIACRÔNICA ........ 11........................................................................ 18................................................................................. 46 ESTASE E DINÂMICA NAS LÍNGUAS NATURAIS . RAZÃO ...........................62 DIACRONIA OU SINCRONIA? ..... 8................... 7........ 8 MUDANÇA................... 13............................. ESSÊNCIA E GÊNESE ....... 14............................................ 4 A LÍNGUA É UM ORGANISMO OU UM MECANISMO ........... 17..... 37 AS MÁXIMAS DO COMPORTAMENTO LINGÜÍSTICO ...................... 50 A LEI DE LÜDTKE ...................... 2......... ARTE – INSTINTO VS................................................................... FINAIS E FUNCIONAIS ........ 1 PORQUE AS LÍNGUAS MUDAM? ............................... 16............................70 UM PROCESSO EVOLUCIONÁRIO.....84 ANEXO ........................................................................................................ 15.........SUMÁRIO RESUMO ....................................... 57 A TEORIA DA NATURALIDADE ............................... INTRODUÇÃO ............................................ 14 A LÍNGUA COMO UM FENÔMENO DE TERCEIRO TIPO . 5................. 10.................................................. 24 A AUTO-ORGANIZAÇÃO DAS ORDENS ESPONTÂNEAS .............93 .......................... 90 BIBLIOGRAFIA ................. 6.................... 11 NATUREZA VS......

simplesmente. um recurso dinâmico para influenciar os outros. A complexidade e a dinâmica do objeto conduzem a idéia de analisar a mudança lingüística em analogia à teoria do caos. desta maneira. como qualquer fenômeno socio-cultural. Aspiramos a uma resposta concludente que explique como e porquê as línguas naturais. contudo ultrapassamos o descritivismo tradicional e apresentamos um estudo hipotético-dedutivo que cumpre a exigência principal para a realização de uma história de uma língua. a força explicativa. Assim concluímos que a explicação através da mão invisível representa o único modelo adequado para tornar este tipo de fenômenos compreensível.RESUMO Este trabalho propõe-se a mostrar as proporções de uma teoria lingüística que ocupa-se das condições gerais que determinam a vida do seu objeto. em conseqüência dos princípios gerais do comportamento humano. um jogo de influência que se formou através de um processo de mão invisível. O modelo da criação de uma ordem espontânea serve para a explicação de um aspecto importante da natureza das línguas naturais: Interpretamos a língua como um costume. por isso. A hipótese principal deste trabalho encontra-se na afirmação que a mudança lingüística representa uma conseqüência necessária da maneira como os falantes empregam a sua língua na comunicação. Queremos mostrar uma imagem da língua que interprete seu objeto como um fenômeno complexo. a área da mera análise lingüística e mostra que a mudança da língua é um caso especial da mudança socio-cultural. isto é. dos problemas que a lingüística alemã do fim do século XIX levantou. conforme a teoria aqui apresentada. deste modo. Partimos. As línguas naturais representam. as mudanças lingüisticas como conseqüências involuntárias de ações individuais que foram realizadas sob certas condições ecológicas e conforme certas máximas de ação. alteram-se através de um processo evolucionário. Ligamos a visão orgânica desta corrente a idéias que a filosofia escocesa do século XVIII formulou a fim de correlacionar alguns dados histórico-descritivos com os tipos de ações lingüísticas cujas conseqüências elas representam. Justificamos. cujos elementos e estruturas históricos transformam-se permanentemente. um fenômeno de terceiro tipo que se formou sem planejamento ou intenção. A língua representa. Desenvolvemos nossa proposta com muitas referências a história da nossa disciplina. pois o conhecimento da história de um problema é uma condição prévia da sua compreensão. iv . em primeiro lugar. O estudo ultrapassa.

neologismo. geralmente. Notamos logo que as gramáticas históricas descrevem minuciosamente todas as transformações que o Português sofreu durante o decorrer dos séculos. Queremos mostrar como os elementos lingüísticos se formam. primeiramente. o aspecto mecanicista e os fenômenos inerentes ao sistema lingüístico. porque a interpretação psicológica que acredita encontrar o lugar da língua exclusivamente da cabeça do homem não é capaz de . A teoria histórica. temos que fazer distinções. Ambas enfatizam. Ainda assim. nos seus modelos teóricos. Nosso objeto central é a descrição da mudança lingüística e a explicação das suas causas pelo ponto de vista de uma teoria comunicativa que reflete a poli-funcionalidade da língua. contudo eles não contribuem muito para a realização de um objetivo maior da lingüística teórica. Este texto é produto de um processo de aprendizagem. tudo isto encontramos pormenorizado nas respectivas páginas. os metaplasmos. INTRODUÇÃO Começa o mundo enfim pela ignorância E tem qualquer dos bens por natureza A firmeza somente na inconstância. Gregório de Matos Este trabalho trata dos signos lingüísticos e da sua dinâmica. o mundo. mudanças gerais do mundo ou características formais do sistema lingüístico como causas para as mudanças lingüísticas. As duas correntes. respectivamente sincrônica das suas pesquisas. Nas padrões do conceito gerativista da língua e da lingüística. como mudança de normas sociais e não como mudança de sistema. Todos eles sejam agradecidos por sua crítica construtiva e suas inestimáveis dicas. uma explicação concludente que esclareça as razões destas mudanças. a analogia. funcionam e se transformam durante a comunicação humana. arcaísmo. consideram a mudança como um inevitável acontecimento exterior que provoca um distúrbio inoportuno no sistema lingüístico. por conseguinte. Ele é o resultado de um processo cumulativo. a questão da mudança lingüística nem discute-se.1. ela indicou. A lingüística histórica e o estruturalismo têm em comum que ambos se contentam. A variação e seleção das suas idéias. faltou-nos.” Correspondendo a esta regra. Todavia eles se distinguem pela perspectiva diacrônica. as mudanças morfológicas. Um antigo princípio escolástico diz: “Onde há discrepâncias. Enquanto a lingüística histórica esforçou-se a reconstruir adequadamente os dados históricos. a constituição do léxico. geralmente. com a indicação de fraquezas internas do sistema lingüístico que a mudança tentasse a vencer a fim de adaptar a “imagem” língua a seu “original”. pesquisamos as contradições de algumas correntes lingüísticas a fim de estabelecer novos conceitos que vencem antigos impasses. assim como o modelo estruturalista representam descrições adequadas das mudanças lingüísticas. O nosso interesse pelo assunto cresceu originalmente durante um estudo intensivo da história da língua portuguesa. na medida em que estudantes e professores de várias disciplinas lingüísticas da UECE participaram na discussão do assunto. compreendemos a mudança lingüística. o de fornecer explicações adequadas. As leis fonéticas. Conseqüentemente. estrangeirismo. assim como a leitura crítica da respectiva literatura (clássica e moderna) formam a principal fonte do nosso conhecimento. geralmente.

ele consegue tirar conclusões com base nos dados sensivelmente percebidos. com a intenção de levar os outros a tirar suas conclusões interpretadores. Isto significa que ela deve interpretar a estrutura da língua como conseqüência . As teorias tradicionais. sofre o infortúnio da mudança. conseqüentemente. A comunicação é um jogo de adivinhação. geralmente. não representam fenômenos previsíveis. que. ocupam-se com esta mudança apenas na medida em que ela se relaciona com a arquitetura dos signos lingüísticos. da possibilidade de compreender o estado da língua historicamente. pelo contrário. mas o de premissas para conclusões interpretadores. pois nem as mudanças do mundo. os signos lingüísticos não caem do céu (platônico) para representar nossas idéias (eternas). mas à busca dos princípios da sua formação e transformação.2 explicar a mudança lingüística como um fenômeno inerente ao seu modelo. descobrimos que a sua metáfora dominante que interpreta a comunicação como um problema de transporte não acerta o âmago do nosso objeto de pesquisa. deste modo. A final das contas. O ser humano é capaz de interpretar as coisas como signos. Para participar nele com êxito. Quanto mais ocupamo-nos com as teorias citadas. Com base neste conceito geral. Chama-se competência individual. nem as características estruturais de um sistema são necessárias ou suficientes para explicar as mudanças da língua. que esta disciplina que enfatiza o caráter heterogêneo das línguas e a pesquisa das suas variações sincrônicas também contribui menos do que se esperava para a solução do nosso problema: por mais que conhecemos os fatores lingüísticos e extra-lingüísticos que influenciam o desenvolvimento da língua. Como já foi dito. quando descobrimos. os participantes tem que conhecer as regras que definem o uso dos signos numa comunidade de fala. a comunicação representa um processo de inferências. de vez em quando. É justamente esta faculdade de que ele se aproveita quando ele quer comunicar-se. Ao nosso ver. deve refletir as formas de vida da sua comunidade de fala. os signos lingüísticos não tem o caráter de um pacote. Uma teoria da história de uma língua. ela deve relacionar a descrição dos dados históricos de uma língua com os tipos de ações lingüísticas cujas conseqüências eles representam. então. a sua mudança permanente continua realizar-se com uma necessidade misteriosa. Chomsky escreveu: “A língua finalmente não tem existência própria independente da sua representação mental” (CHOMSKY 1968/1970: 155). Eles também não são as condições prévias para nossos esforços comunicativos. a faculdade de dar aos receptores modelos de interpretação que lhes permitem adivinhar o objetivo da respectiva comunicação. Nosso estudo tentará caminhar em outra direção. mas as suas conseqüências (geralmente não intencionadas). tem milhares de alterações no mundo ou “desatinos” na língua que não provocam nenhuma mudança no sistema de uma língua. Nosso incômodo com as discrepâncias teóricas e o impasse na solução da questão da mudança intensificou-se ainda mais. As alterações lingüísticas. o despacho e o desempacotamento de mensagens sígnicas. Conseqüentemente. Comunicar significa influenciar os outros e tentar leva-los a tirar certas conclusões. pois. a comunicação constitui-se na produção de fenômenos percebíveis. mas – e isto é uma das nossas hipóteses centrais – elas são as conseqüências (involuntárias) da maneira como os falantes individuais empregam a sua língua. durante nossos estudos sociolingüísticos. e ele priva-se. começamos ver a língua como um produto relativamente estável. Nossa atenção destina-se menos à questão da arquitetura dos signos. a comunicação tem nada a ver com a embalagem.

numa nota de rodapé: “(. . Trabalhos deste tipo (com base em diferentes corpus) já existem e a maioria deles não ultrapassa o nível da mera descrição. sociais e ideológicos em que o indivíduo está imerso. Mas mesmo Travaglia não consegue se livrar dos trilhos costumeiros ao afirmar: “Embora a mudança possa ter uma instância individual. ao conceito estruturalista que os fenômenos lingüísticos representam uma realidade autônoma. mas. Em outras palavras. nesta tarefa. ele deve encaixar na sua análise os dados estruturais e os aspetos sociais. “a estruturar uma explicação (realce nosso) de porque o sentido muda” (TRAVAGLIA 1993: 51). Cabe ao leitor medir o vigor da nossa proposta. cujas conseqüências involuntárias encontramos nas mudanças lingüísticas. os pontos críticos da obra citada. a hipótese central deste trabalho é: “O estado presente do português do Brasil é o resultado involuntário de ações facultativas dos falantes e dos seus antepassados.. ao conceito gerativista que reduz a língua a um fenômeno psicológico. que nós também não queremos reinstaurar a ilusão do sujeito de ser a fonte do sentido. Contudo. vamos ocupar-nos com a tarefa de mostrar as conseqüências deste processo evolucionário para a teoria das transformações lingüísticas.” (ibid. ela só ocorrerá. antes de tudo. na verdade ele funciona como um lugar social e não como indivíduo (relace nosso). mas.” Em segundo lugar. Uma vez aceitado este caminho metodológico. ela deve mostrar quais máximas..: 61). Estamos vendo a realidade lingüística como uma realidade primordialmente histórica que é intimamente vinculada à vida cultural e social dos seus falantes. ele afirma na mesma obra. por enquanto. Vendo a necessidade de estabelecer uma teoria de mudança lingüística que tem força explicativa antes de lançar-se a um trabalho empírico. Um método adequado aos fatos reais deve. se propõe apenas a analisar um recorte muito delimitado do português sob o aspecto da criação de uma ordem espontânea. A exclusão do indivíduo intencional. onde nosso trabalho começa buscar alternativas. e. A obra citada. de uma visão da língua que opõe-se. que representa o melhor estudo do assunto em Português. restou pouca coisa do nosso projeto original de analisar as mudanças lingüísticas detectadas num corpus de gírias brasileiras a fim de indicar uma tipologia das alterações formais e de sentido. Por isso. Travaglia subestima este papel do falante individual ao reduzi-lo a um mero fator social. Partiremos. por exemplo. a obscuridade do seu conceito de sistema lingüístico e. nós resolvemos deslocar o foco do nosso estudo em direção a um trabalho teórico e deixamos nosso projeto de levantar e analisar o corpus citado para outra oportunidade. a primazia do sistema lingüístico como objeto abstrato sobre a atividade lingüística do indivíduo representam. Nosso estudo modesto. cit. sob quais condições provocam aquele comportamento dos falantes. como veremos mais adiante. cada processo de mudança lingüística tem que recorrer à instância do indivíduo para ter efeito no sistema da língua. quer dizer. com efeito. Este futuro trabalho representará a pedra-de-toque para o modelo teórico que nós colocaremos à discussão.).) O sentido resulta da ação de fatores históricos. uma “hipótese de explicação discursiva para os fatos lingüísticos da mudança de significado e da formação de palavras em que o sócio-histórico tem uma relação de interação com as formas lingüísticas” (loc. Claro. conseqüentemente. por outro lado. cit.). Portanto quando o sujeito muda de ‘atitude subjetiva’. ao nosso ver. se ratificando pelo coletivo (realce nosso)” (loc. os melhores deles reclamam que até hoje ninguém chegou. integrar a história interna e a história externa.3 involuntário de ações individuais que foram realizadas sob certas condições ecológicas e conforme certas máximas de comportamento. estabelece. especialmente. por um lado.

chhan. Rüdiger. FARACO (1991). enquanto aquele índio que ainda trazia este nome no dia anterior. . ao caso. no contexto desta hipótese. Basta lembrar. 2. 2 NEHBUSCH. também não é mais fácil para os índios. Também.nem queremos apresentar exaustivas pesquisas diacrônicas.outros autores já cumpriram este papel. quando ele perguntava onde se encontrasse um índio que no dia anterior ainda se chamava “este que está sentado no fogo”. os outros membros do tribo lhe indicaram qualquer homem que. restrições que dificultam a referência lingüística a uma terceira pessoa por causa de receios religiosos em respeito a uma obsessão iminente desta pessoa por espíritos maus. Referências ao nosso “corpus” servem apenas como ilustrações para a discussão hipotética-dedutiva de nossa teoria evolucionária. agora já se chamava “este que pesca no rio”. AITCHISON (1991). numa obra como esta. a um sacerdote. dos exemplos que Michel BRÉAL (1897/1992: 37) conta no seu Ensaio: “Os cambojanos não designam os membros do corpo nem as operações cotidianas da vida pelos mesmos termos quando se trata de um rei ou de outra pessoa qualquer. Amazonas: Uma viagem à origem do tempo. moi se diz anh. Deste modo. conforme falam de um criatura de Ormuzd ou de uma criatura de Ahriman” O aventureiro e ecologista alemão. dir-se-á pisa. têm um duplo vocabulário. PORQUE AS LÍNGUAS MUDAM ? Já foi dito. não temos a intenção de dar uma exposição sumária das diversas teorias sobre as transformações lingüísticas . a palavra será soï. cada vez que ele tentava referir-se a uma terceira pessoa que no momento da conversa estava ausente e fora do alcance de gestos demonstrativos. Por outro lado. procuramos.4 Nisso. servem-se da palavra si. que consideram o mundo dividido entre duas potências contrárias. estava. Falando a um inferior. através de rodapés recomendar ao leitor estudos relacionados com o que se apresenta. se se fala de um sacerdote ou de um rei. Palestra com projeção de slides na Universidade Técnica de Berlim (TU Berlin) no dia 28 de junho de 1994. que nenhuma regra imposta pela estrutura de uma língua é necessária ou suficiente para explicar os comportamentos lingüísticos que servem uma sociedade ordenada e zelosa para estabelecer certas distinções sociais ou morais. é difícil para nós compreendermos estes comportamentos estranhos que impõem certas restrições éticas e convencionais aos falantes de uma comunidade de fala. não queremos roer apenas os ossos velhos dos clássicos1. falando de um chefe. Rüdiger Nehbusch2. knom. expor todas as idéias que existem sobre cada aspecto da questão. sentado no fogo. nem apresentar dados que não refletem a colocação do problema à base de uma certa teoria. como. por exemplo. e LASS (1980) . cambojanos ou iranianos compreender por que um multidão de adolescentes brasileiras se dedica entusiasticamente à destruição dos seus ligamentos de joelhos depois da divulgação de uma nova moda a qual seus propagandistas deram o nome “É o Tchan”. por exemplo. a um superior. De fato. no momento da conversa. Para exprimir que um homem come. contou-nos em uma das suas palestras sobre sua vida com os índios que há uma rígida convenção ética entre os ianomâmis proibindo cada membro do tribo chamar o outro por seu nome próprio. Nehbusch descreveu os problemas que este fenômeno sociolingüístico lhe causou. 1 Uma vez que é impossível. Os seguidores de Zoroastro.

. nossas dificuldades não seriam tão fundamentais como aqueles com D. 4. Para tratar: a ladeira de S.16. A literatura portuguesa através dos textos.5 3 Os filólogos discutem.” In: MOISES.67. “serviço de arraujo de casa” e “trabalhador de raça”. “chamalote”. se lembram desta época com uma certa saudade. não poderia mais compreender seus próprios companheiros de infância”. A literatura portuguesa através dos textos. copeiro. 24a ed. “contanto que ele ainda vivesse hoje com boa saúde. até espanto ou indignação. Se nós pudéssemos viajar pelo túnel do tempo para visita-los nos anos de 1200 ou de 1300. o que. infelizmente. Massaud.1995. humilde. até hoje sobre o significado exato de um texto de Paio Soares de Taveirós. com a maior naturalidade. Traz a vasquinha de cote. que chamou. O fato que a condição da propriedade do negro. obediente e bonita figura.1995. que viveu há mais ou menos 400 anos. causa. 54” Apesar das diferenças ortográficas. neste anúncio. As línguas se transformam continuamente. é reafirmado. bolieiro”. Com Luis de Camões. todos estes exemplos esclarecem que a nossa língua nos serve também para outros objetivos do que para a simples troca de pensamentos ou a divulgação de supostas verdades sobre o mundo. Cinta de fina escarlata. que não haja ainda pessoas que. que um contemporâneo dos poetas medievais. enfrentaríamos grandes dificuldades para conversar com os ilustres trovadores. ca já moiro por vos – e ay!” In: MOISES. hoje em dias. 5 O que não quer dizer. Massaud. mas nós emperraríamos a qualquer momento e precisaríamos perguntá-lo o que significam. Pág. Dinis ou Paio Soares de Taveirós. 24a ed. O testo nas mãos de prata. sem vicio e muita fiel: bom e aceado cozinheiro. as expressões “testo”. São Paulo: Cultrix. 4 “Leva na cabeça o pote. particularmente chama a nossa atenção é o emprego das expressões “açeado cozinheiro.5 Seja como for. e é o melhor trabalhador de raça que se póde desejar. e não segura. por exemplo.3 Foi MAUTHNER (1912/1982: 7).4 Mesmo se nós voltássemos apenas cerca de 100 anos e lêssemos os anúncios de um jornal do fim do século passado. Lemos no jornal “A Província de São Paulo” do dia 18 de dezembro de 1878: “Excellente escravo Vende-se um creoulo de 22 annos. Francisco n. Algumas destas palavras caíram em desuso e soam antiquadas para nossos ouvidos. Pág. bolieiro. por exemplo. copeiro. o mais antigo escrito em língua portuguesa. . a nossa atenção para o fato. visto como um animal. D. já em 1912. descobriríamos facilmente palavras meio estranhas. Mais branca que a neve pura: Vai fermosa. Faz todo o serviço de arraujo de casa com presteza. que data de 1189: “No mundo non me sei parelha. São Paulo: Cultrix. “vasquinha” ou “de cote” que ele emprega tão engenhosamente numa pequena redondilha. mentre me for’ como me vay. Dinis (1261 – 1325) e Paio Soares de Taveirós viveram há mais ou menos trinta gerações.. Sainho de chamalote.

elas davam uma “rabissaca” num “rabo de burro” ou um “tabefe” num “trubufu” que andava “puxando fogo” e contando “lorotas” e “potocas”. com “camisa ban lon” ou “slack” e com “pantacus” não “acoxados” em cima das “ceroulas”. Vide: TURMA DA MESA 14. 6 Devemos os exemplos em seguida ao Sr. menos. por exemplo. as vezes. “tirava linha” ou “arrastava a asa” por uma “donzela” “descaída” tinha que ter “picardia”. em outras. “coquete”.).r. Em resumo.). que esta afirmação. de fato. Rapaz que “dava bola”. ela. As moças vestiam “melindrosa”. cit.b. Em algumas regiões (Minas Gerais) ou classes sociais. cit. “califon” e “anágua” e. Por que as línguas estão mudando? A nossa língua atual não está bem. nós poderíamos encontrar em qualquer revista que foi imprimida há 40 ou 50 anos. Mesmo assim. Expressões em desuso mas que guardam gostosas recordações. como ela está? Será que queremos criticar certas coisas que devem mudar? A resposta é não. a linguagem já se distingue nitidamente da atual. que viola a concordância de número conforme a NGB. com corte de cabelo. em algumas áreas. provavelmente. Agradecemos especialmente Sr. usa-la freqüentemente apenas no artigo definido. hoje em dias. Lembramos. muitas vezes. é logicamente desnecessária. dão motivo a risadas. vale mais. naquela época. já foi indicada como uma variação estável no português do Brasil (ibid. mesmo na sua variação culta. estamos dispostos a levantar mais cedo suspeitas sobre variações dialetais ou mudanças em progresso do que sobre o estado antigo de uma forma lingüística. “lambisgóia” ou “balzaquiana”. Disseonário [sic!].” (BAGNO 1997: 48) Esta regra de colocar a marca do plural apenas na primeira palavra. expressões que. vai logo se lembrar que naquele “tempo do bumba”. Quem foi buscar certas palavras lá “nos cafundó dos judas” ou quem as “arrancou do fundo do baú”. Os jovens comiam “quebra-queixo” e “doce de gelo” e seus pais ainda se lembravam onde eles tinham comprado o seu primeiro “gramofone”./ loc. Luciano que contribuiu a este capítulo com um pequeno caderno publicado por seus amigos. ela vai para a primeira palavra do grupo a ser pluralizado. Para provar isto. . Tomando banho de mar. pois. Claro./ loc. não é de admirar que a fala brasileira. “gaitadas” que “fuxicavam” nas recordações. Uma moça que sentava na janela ficava “falada” – se perdia a virgindade era porque tinham “feito mau” a ela. que pode ser um substantivo.6 Decorridos apenas 40 ou 50 anos. a serra tinha “pé” e até “suvaco”. a eliminação da marca indicadora de plural. se “dava tainha” para impressionar as moçinhas que gostavam do perfume “Royal Bryar” e do “pó Cachemere Bouquet”. Quem não gostava de ser chamado de “mufino” ou “lesado” andava vestido com um paletó “clube um”.6 Lembranças que. Maria Antonia Fernandes da Rocha Pitta. “vitrola” ou “radiola”. “espartilho”. s. Os rapazes cheios de “pabulagem”. Baú de Palavras. cujas informações foram concedidas em entrevista gravada no dia 21 de setembro de 1998. ser “prafrentex” ou “vira-mundo” para garantir o seu sucesso com a “cambada” nos “bazares” aos domingos. seriam inimagináveis no mesmo contexto. “Quando não há artigo. geralmente. “a noite tinha boca”. Antônio Luciano Fernandes e à Sra. “dernier cri” e nunca “demodé”. só usavam no cabelo “brilhantina” ou “creme rinse” e calçavam no pé “sapatos cavalo de aço” ou “fanabores” que eram. Como o uso redundante desta marca. muitos falantes do vernáculo não hesitam em menosprezar aqueles conterrâneos que “ousam” empregar a forma estigmatizada. basta conversar com pessoas que ainda têm boas lembranças dos anos 40 ou 50. modelo “escovinha”. chega a representar uma mudança em progresso (ibid. mesmo que tivesse gostado! O que nenhuma delas queria era “ficar no caritó” e ser chamada de “vitalina”.

de “confusão” para “burburinho”. pois o verbo “comunicar” significa. de “revolver” para “turbina” ou “trintoitão”. teria certas vantagens: durante épocas. “rolo” e “treta”? (SERRA E GURGEL s. que transportam multidões. eles teriam com os jovens. mesmo que todo equipamento seja computadorizado e ninguém mais roda uma alavanca qualquer. e que define a comunicação como uma atividade humana que aspira. Por que a atividade de um fotógrafo que opera uma maquina de filmar ainda pode se chamar “rodar um filme”. a nossa resposta é não. os velhos não poderiam culpar a língua pelas dificuldades de comunicação que. Este “fato” implicaria na nossa expectativa de que a língua deste povo também não teria mudado? De novo. de “corrupção” para “bolada”. É mesmo? Vamos continuar com nossa brincadeira intelectual. que nos orienta para os objetos ou fatos do mundo e que trata deles” (Pág. “trelelê” e “bololô”. com velocidade supersônica.r. Não obstante. finalmente. Hipóteses que querem desmentir este fato. “bafafá”. a tradição de costumes e saberes seria mais fácil. nossa): “Intencionalidade é aquele qualidade de muitos estados e acontecimentos racionais.15) “Quando eu explico a intencionalidade através da linguagem. de “bobo” para “paca”. mas quando elas estão em voga. a comunicação seria isenta de quaisquer dificuldades “desnecessárias”. sem dúvida. as últimas novidades parecem ser bárbaras. as supostas mudanças no meio que causaram a troca de “lindo” para “bacana”. em primeiro lugar. “chafurdo”. se nós podemos imaginar um povo que não muda a sua língua? Suponhamos que um lingüista participe em uma expedição num país desconhecido. neste fenômeno. nós podemos verificar esta afirmação. rimos sobre a versão anterior. as novidades do mundo nem são necessárias. . “pagado” ou “salvado” em vez de “gasto”. “A representação lingüística de um mundo que se transforma sem parar exige um alargamento contínuo do vocabulário de uma língua” (FLEISCHER 1971: 9). um jogo lingüístico que é universal e ilimitado. que um emissor “quer influenciar alguém através de um certa maneira” (SEARLE 1983:15)7. Suponhamos que exista um povo que viva num meio e numa cultura que nunca tenha mudado. no contexto dos aviões modernos. porque nem esta pressuposição radical justificaria a expectativa de uma língua fictícia que nunca mudou e nem mudará. Será que nós podemos imaginar uma língua que não muda nunca? Ou será que isto é uma pergunta absurda? Não é mais adequado perguntar.c. Quais são os processos extra-lingüísticos que implicaram o emprego das formas “gastado”. por acaso. “buruçu”. que a intencionalidade. primeiramente. de “roubar” para “garfar”. nem suficientes para explicar as mudanças lingüísticas. logo apareceria também uma desvantagem: A língua de um povo deve ficar na altura do desenvolvimento social. que considera a descrição inequívoca do mundo como tarefa principal da língua. por exemplo. “pago” ou “salvo”? Por que podemos tranqüilamente continuar a empregar a antiga palavra “avião”. Tais pensamentos representam apenas um aspecto da comunicação.7 Tudo isso lembra a moda de roupa: no início. No próprio Português. Provavelmente acabamos de descobrir. É óbvio. ou. Quais foram. e os teóricos da decadência iminente da língua poderiam usar seu tempo para coisas mais úteis. Ele poderia contar com uma língua que ficou invariável durante todas as épocas? Com certeza não! Mas por quê? Uma língua imutável. “bererê”. eu não quero dizer. geralmente. a intencionalidade representa a base do significado lingüístico (trad.). as vezes. que Santos Dumont já usou para seu “Bis”. O 7 Vide: SEARLE (1983): Conforme Searle. a afirmações verdadeiras sobre o mundo. tem sua origem numa interpretação ideológica da linguagem.

em seguida. conseqüentemente. Vale uma nota salientar.” (Pág. A simples afirmação que as línguas. que todos os países industrializados consumem Coca Cola. Se esta lei vale para todas as línguas naturais. não podem ser definidos substancialmente. Os lingüistas. quer dizer. até hoje só tem poucos argumentos concludentes que explicam esta observação empírica. mas para a formação de uma teoria concludente. é necessário evitar perguntas que conduzem ao engano. mas em respeito à análise lógica. nunca duvidaram do princípio universal que as línguas naturais transformam-se continuamente. 3. A explicação da mudança lingüística. nem que todas as línguas mudam e. deve ser funcionalista. se todas elas mudam permanentemente.8 essencial ou necessariamente representa um fenômeno lingü ístico. no nível macroscópico.8 sucesso social é um dos objetivos mais cobiçado do homem. então precisa-se apenas de um pequeno passo para levantar a hipótese que este fenômeno representa uma qualidade essencial das línguas naturais: “É uma qualidade essencial da língua. e influenciar os outros através do uso da linguagem é um elemento essencial da explicação do sucesso social. do que em respeito a uma baleia. que representa uma conseqüência. são mutáveis não implica que uma dada língua realmente se muda. e conhecer aquela função do jogo comunicativo que provoca a modificação da respectiva escolha lingüística. igualmente como o termo “biological fitness” de Darwin. de maneira nenhuma.” (STAM 1976: 1) As nossas dificuldades tem sua origem no fato que as percepções e os modelos teóricos que baseiam-se no vocabulário da língua corrente não são adequados aos processos contínuos de mudança. mas que elas fazem isto sem necessidade. que “sucesso social”. No entanto. pudéssemos afirmar. . que as línguas se transformam permanentemente.” (Pág. nem que ela represente um fenômeno universal e obrigatório. Numa tribo de “punks” valem outras condições para o sucesso social do que numa congregação religiosa. Ela deve começar com os motivos individuais que provocam a escolha lingüística de um falante e ela calcula. O termo “biological fitness”. implica outros critérios para o sucesso biológico. que ela está permanentemente mudando. “Our questions fix the limits of our answers. Em resumo: A comunicação é um jogo de influência à base de vários motivos que aspira simultaneamente a objetivos diversos. em conseqüência da sua arbitrariedade ou convencionalidade. geralmente.20) “A linguagem se deriva da intencionalidade e não o inverso. Saber porque um fenômeno lingüístico está mudando. feita no nível microscópico da língua. que estas mudanças se realizam necessariamente. em respeito a uma pulga. o respectivo fenômeno coletivo.20) 8 Da mesma maneira. pois a mera possibilidade da mudança nem justifica a pressuposição que esta mudança realmente acontecerá. Não há discrepância nenhuma entre a afirmação que uma coisa seja mutável e a observação que ela não mudou. E também não é uma contradição dizer. sem implicar necessariamente que isto representaria uma qualidade essencial das nações industrializadas. significa conhecer a sua finalidade.” escreveu PAUL (1880/1920: 369) em 1880. A LÍNGUA É UM ORGANISMO OU UM MECANISMO? Já vimos que não é muito simples colocar as perguntas certas em respeito à mudança de língua. daquela escolha. a linguagem se explica pela intencionalidade. Do ponto de vista pedagógico eu explico a intencionalidade através da linguagem.

de fato. Ao contrário. pra perder umas gorduras. da religiosidade. Cada lingüista já ouviu o argumento que a mudança da língua não se percebe porque ela se efetua gradualmente e bem devagar. As palavras “desenvolvimento” ou “evolução” até sugerem uma idéia inadequada sobre o conceito da evolução.”). o crescimento individual. quer dizer. mas falta um para a evolução. que pudesse servir como exemplo. se não houvesse uma alternativa equivalente para um comportamento. Percebemos o fenômeno da mudança lingüística. os argumentos ainda não foram encontrados. a maneira típica como nós percebemos as transformações lingüísticas é a sua 9 cf. processos onde uma idéia do produto já existe antes do seu acabamento. constatou LORENZ (1973: 18) para a biologia: “Se nós tentamos descrever o processo da grande evolução orgânica de uma maneira adequada.) . por sua vez.9 A mutabilidade da língua. “vocês gosta”. A razão disso.9 Há. nós não o chamaríamos de “convencional”.r. Outro exemplo encontramos na mudança brusca do significado do verbo “malhar” que passou do emprego em expressões como “malhar cereais”.c. que facilita qualquer tipo de pessimismo cultural. Estes processos contínuos de mudança que pudessem nos servir como exemplos ou se realizam devagar demais para percebe-los durante uma vida humana.” Acrescentamos a este depoimento que. O que vale para a área da lingüística. na área da cultura. estamos sempre de novo impedidos pelo fato que o vocabulário das línguas naturais se desenvolveu numa época. Exemplos percebíveis temos apenas para processos de crescimento: os processos ontogenéticos da natureza ou o trabalho manual do homem.”) ou “misturar a droga para aumentar o peso” (“O pessoal do morro tá malhando pra faturar alto. é uma conseqüência da sua convencionalidade. “nós gosta”. de fato. ou a função da partícula “se” como verdadeiro sujeito de oração em expressões como “vende-se casas”. pois. primeiramente.: SERRA E GURGEL (s. pela perspectiva da sua suposta decadência. Ambos representam processos sistemáticos. é um resultado da sua arbitrariedade que. desde sempre. na vida cotidiana. A compreensão de processos contínuos de mudanças representa. como processo de mudança (o que acontece no caso da evolução da natureza). é uma observação empírica. Temos um vocabulário para a criação e o crescimento. geralmente. não os percebemos como resultados de um processo contínuo de mudança (o que acontece no caso da moral. simplesmente. Lembramos aqui dois exemplos da fala coloquial: a simplificação das conjugações verbais em expressões como “eles gosta”. se encontra no fato que nós não conhecemos um fenômeno percebível. inumeráveis exemplos onde nós percebemos as mudanças lingüísticas. provavelmente. “malhar em ferro frio” ou “malhar o ferro enquanto está quente” para o uso no sentido de “falar mal” (“vou malhar este filho da puta”). quer dizer. mas também é óbvio que nós não percebemos as alterações individuais como elementos de um processo permanente e coletivo . foi o único tipo de desenvolvimento que o homem conhecia. a ação individual do trabalhador ou do artista foi a única maneira conhecida de descrever como se geram produtos “não naturais”. dos costumes. cara. nomeadamente. fato. da estética ou da língua). a noção que alguma coisa deve ser desembrulhada ou que alguma coisa se desdobra que na sua origem já estava pré-existente num estado embrionário. “malhar metais”. ou nós. Para a necessidade da mudança. contudo isto não é a verdade. “fazer exercícios” (“É preciso malhar. A universalidade da mudança. em que a ontogênese. Mesmo o vocabulário da linguagem corrente é influenciado por estes modelos mentais. uma dificuldade para o homem.

Na linguagem científica. Estas expressões representam abreviaturas confortáveis que não criam problemas. reíficações ou personificações. A hipótese que os próprios falantes mudam a sua língua. ambas as versões são traiçoeiras. em comparação com os meus avós. pois. Em respeito às transformações da língua podemos escolher entre duas perguntas: “Por que a língua se transforma?” ou “Por que os falantes mudam a língua?” Em nosso contexto. pois. obviamente. certamente. Ambas as versões. metáforas ou prosopopéias são tão comuns como na linguagem corrente. A língua “vive”. soa ativo demais e sugere que os homens tem uma intenção. Ambas as perguntas tem sua origem nos dois modelos citados em cima: na ontogênese e no trabalho manual. assim como a mecanicista. representa a pressuposição da versão mecanicista da nossa pergunta. E a pergunta de CHOMSKY (1981: 18) “Será que você ou eu criamos o inglês”. que houvesse um único exemplo para uma língua decaída. ela. que “criam” frentes e que “deixam se reprimir”. Elas convidem a responder de maneira inadequada. uma vontade ou um plano para mudar a língua. são traiçoeiras. por isso. as hipóstases. nunca ouvimos falar de alguém que queira lamentar a decadência da própria fala individual: “Que português corrompido eu estou falando hoje.10 noção como decadência da língua. A pergunta. os genes são “egoístas”. nos levasse a mal. a versão orgânicista. quase necessariamente. Ao nosso ver. como se a língua fosse um produto artificial do homem. a organicista. A pergunta “Por que a língua muda?” tem como pressuposição a afirmação “A língua está mudando. Claro. Deste modo.: 29). sabemos que as mudanças tem alguma coisa a ver com os seus falantes. provoca a sua subsequente animação. primeiramente. já que se fez da língua uma coisa. Por três razões. há dois mil anos estão lamentando a decadência do respectivo vernáculo. Além disso. é apenas retórica. A eletricidade está “correndo”. Analisamos. porque pelo menos os especialistas dispõem de termos técnicos que explicam os fenômenos sem metáforas. finalmente. há forças nela que “trabalham” (WEISSGERBER 1971: 9). a repreensão que ela tivesse mudado um pouquinho o nosso vernáculo. vamos chamar a primeira pergunta a “orgânicista” e a segunda a “mecanicista”. E como ela faz tudo isso muito bem. “Por que os falantes mudam a língua?”. recebe um “espírito” que “domina nela” (GRIMM 1819/1968: 6). que os diversos teóricos da decadência. sem nunca ter provado. não há razão por que ela deve ficar uma coisa morta. ela “cresce”. a nossa avó. Uma língua “procura” soluções. ambas são inadequadas para o modelo de uma língua em contínua mudança: . Ela também é traiçoeira. “envelhece” e “morre” (SCHLEICHER 1863: 6). mudanças na pressão atmosférica formam “altas” e “baixas” que “vão” e “vem”. um mecanismo que ele pode criar e modificar à vontade. ela “extingue” ela “seduz”.!” A decadência da língua é sempre a decadência da língua dos outros. Mas o que? A história da lingüística mostra que a reíficação da língua. ela “luta” para sobreviver e ela “vence” (ibid.” A particularidade desta hipóstase é que até os especialistas não dispõem de uma explicação que nós podemos aceitar no seu sentido à palavra. a técnica de comunicação da espécie biológica “homo sapiens sapiens” se transformou de repente num ser vivo e racional com vários dons esquisitos. Não é de admirar. sabemos que não é a língua portuguesa que está fazendo alguma coisa quando ela se transforma. no entanto. A pergunta “Por que a língua muda?” trata a língua como um organismo que dispõe de forças vitais.

dito melhor. A mudança da língua. Ações coletivas que se baseiam numa dada intenção quase são individuais. mas ela caracteriza a mudança lingüística apenas por negativas. ou melhor ainda. há transformações de que eles gostam. igualmente. O problema se apresenta deste modo: Nós nos comunicamos justamente como nos comunicamos. evitar ou provocá-la conscientemente10. mas. assim como a atividade manual. acabam quando o produto final está pronto. no decorrer do tempo. etc. 10 Única exceção desta regra se encontra na criação de novos termos técnicos ou no planejamento político de reformas ortográficas. quer dizer. pela escrita ou pela fala. então todas as línguas. Esta afirmação não vale para o desenvolvimento de uma língua. Há razões contingentes quando uma obra não pode ser criada por um indivíduo só. é correta. de fato. assim como a atividade manual representam processos individuais. ou. Caso contrário. então: “Por que e como nós provocamos mudanças de língua pelo uso cotidiano dela? Quais são os mecanismos desta transformação contínua?” A tradição lingüística sempre chamou a atenção ao princípio da economia na articulação. . Geralmente. eles geram a transformação contínua da língua por causa do uso permanente. A vida da língua. Isto significa que nossas afirmações não representam uma resposta positiva à questão como e porque os falantes transformam as línguas. assim como a evolução biológica. pela exclusão de certos critérios incompatíveis. o que. não acontece. como nós não nos lembramos da inflação quando fazemos compras. há outras que eles detestam ou não desejam. A questão é. Mas nem nestes casos. A ontogênese. ao contrário disso. chegamos a conclusão que os falantes mudam a sua língua sem ter uma intenção. se eles aprovam uma mudança ou não. nós não temos a intenção de provocar este atrito lingüístico. é uma história sem fim. Ao usar a sua língua milhões de vezes. os falantes a alteram permanentemente. que o resultado de uma intervenção consciente se assemelha ao objetivo intencionado. assim como o artesanato representam atividades intencionais. A ontogênese. um plano ou uma consciência disso. geralmente há nelas uma instância central que é responsável pelo planejamento e a execução da obra. de maneira formal ou informal. ESSÊNCIA E GÊNESE Se nós resumimos o então dito.11 (i) A ontogénese. ao nos comunicarmos. (ii) (iii) 4. processos que caracterizam-se pela participação de populações. mas tanto faz. geralmente. devem se tornar cada vez mais econômicas. eles não podem planejar. representam fenômenos coletivos. isto significa que o produto final é genética ou conceptualmente antecipado. A maioria dos falantes observa as mudanças lingüísticas até com desinteresse. falamos coisas importantes ou insignificantes. eles nem percebem as mudanças. há uma garantia. geralmente. Esta observação. mas se isto realmente representa o único fator que domina o desenvolvimento. nós não nos lembramos da língua. evidentemente. MUDANÇA. quer dizer.

que provoca a mudança do nosso meio de comunicação. Esta estrutura nasce. eu tenho.12 Se nós conhecêssemos os mecanismos que conduzem as mudanças lingüísticas. Uma instituição podia ter nascido para cumprir certas funções que se distinguem das funções que ela exerce hoje. nós saberíamos alguma coisa sobre a lógica da gênese da nossa língua. saberíamos por que nossa língua se transforma permanentemente pelo uso. As mudanças de amanhã são as conseqüências do nosso comportamento de hoje. A frase (ii) é a inversão da frase (i). um anel de homens que formam o público do artista. ela cresce espontaneamente. uma teoria das funções e dos princípios da nossa língua. ao mesmo tempo. a moral ou a língua. eu tenho uma boa hipótese sobre a razão da sua formação. assim como na natureza viva. por exemplo. Uma teoria sobre a origem. não são explicáveis. Quando funções antigos se tornam obsoletas. sem que houvesse qualquer planejamento ou acordo entre os participantes.. não é um problema histórico. pois. uma boa hipótese sobre o porque da sua existência. ULLMANN-MARGALIT (1978: 280) adverte ao leitor para ele não fazer conclusões precipitadas: “This relation between the functional analysis of an item and a causal-genetic account of its presence. o dinheiro. nós conheceríamos a finalidade do nosso uso da língua. ao mesmo tempo. is by no means necessary”. Esta conexão vale para toda a área das instituições sociais. ela também não quer subestimar a conexão entre a análise funcional e a teoria da gênese. estamos comunicando de uma maneira. numa praça pública bem movimentada. ela pode assumir outras funções. mas sistemático. por que este objeto existe. Se eu conheço a função do fígado. igualmente como a mudança da língua. obviamente. No entanto.). . que há processos aleatórios. chamamos tal fenômeno uma ordem espontânea. a respectiva instituição não precisa necessariamente perecer. Isto não exclui. although often close (. em volta do músico ou palhaço. Por isso. nesta ocasião. eles se mostrariam indiferentes em relação a este fato. (i) Se nós conhecêssemos a finalidade do nosso uso da língua. A teoria da mudança representa. Em nenhum dos espectadores houve a intenção de criar tal estrutura.. per definitionem. ao espetáculo de um artista de rua? Sempre cresce. O conhecimento da função de um objeto tem uma íntima ligação com o conhecimento. do fenômeno “dinheiro” implica uma teoria sobre as funções do dinheiro. A questão como o processo da mudança lingüística realiza-se. A combinação do público na forma geométrica de um anel representa a gênese de uma estrutura social. Contudo. Se eu conheço a função de uma viga na asna do telhado. mas estes. os mercados. Esta conexão encontramos também nos fenômenos e instituições sociais como o direito. saberíamos mais sobre nossa comunicação cotidiana. Pudesse ter acontecido que um método antigo de simular batalhas transformava-se num jogo chamado “xadrez”. A maioria nem notou que eles participaram ativamente na sua gênese. pois tal conexão nós encontramos nas obras artesãs. (iii) Se nós conhecêssemos as funções da nossa comunicação. Vamos tentar demonstrar este fato num exemplo: Quem não já assistiu. (ii) Se nós soubéssemos por que nossa língua se transforma permanentemente. mas caso positivo.

podem ser idênticas do ponto de vista geométrico. não ficar exposto demais. dar a um certo número de homens a possibilidade de assistir ao espetáculo da melhor maneira possível. mas.13 Observamos que não é possível entender a essência desta estrutura social sem compreender a lógica da sua gênese. Uma descrição meramente geométrica não consegue adequadamente explicar a estrutura. do mesmo modo. temos como resultado uma estrutura relativamente estável. a compreensão do modo de geração constitui a compreensão da própria estrutura. Isto não é evidente porque a função da estrutura do fenômeno não precisa necessariamente corresponder com a função do procedimento que gera o fenômeno. é essencial para a compreensão da estrutura gerada. As duas figuras geométricas. conseqüentemente. a função das ações dos indivíduos que participam na estrutura. Se as crianças de uma creche agissem somente conforme a máxima (i). Se as pessoas agissem. Uma estrutura espontânea. quer dizer. Tal estrutura instável tem as qualidades que Friedrich Engels atribuiu à história: “Cada indivíduo aspira a um objetivo que os outros querem impedir e . uma estrutura em contínua transformação. mas como fenômenos sociais elas são essencialmente diferentes. Queremos salientar que nós falamos apenas sobre as funções das ações e não sobre a função da estrutura circular. como uma ação com sua finalidade. As funções de ação citadas em (i) – (iii) geram uma estrutura relativamente estável. esta dos soldados obedientes e aquela do público espontâneo. provavelmente. Ao mesmo tempo. primeiramente. um aglomeração mais irregular. para isso. Na área dos fenômenos sociais. um aglomeração de indivíduos que rompem permanentemente a multidão a fim de chegar mais para a frente. como as crianças fizessem. provavelmente. Isto tem uma boa razão. podemos atribuir à estrutura circular. por exemplo. num sentido derivado. nasceria. exclusivamente. Sendo nosso exemplo um caso onde a função da estrutura (circular) favorece a realização da função da ação (descrita pelas máximas (i) – (iii)). Um comportamento exclusivamente à base da máxima (i) não gera uma estrutura que consegue realizar a função da ação. a mesma função de permitir o maior número possível de pessoas a assistir ao espetáculo. com sua intenção. Um objeto (no sentido mais geral) se relaciona com sua função. Exatamente nisto encontramos a causa da sua instabilidade. precisa-se compreender. Mas o exemplo das crianças mostra que há também outras possibilidades. a análise das finalidades de uma ação. Sendo a formação espontânea de um público um exemplo para uma estrutura mais ou menos estável. conforme a máxima (i). Quem quer compreender a estrutura tem que conhecer estas máximas. elas criariam uma estrutura totalmente diferente. como. ela é pouco adequada para provar a hipótese que as finalidades de uma ação facilitam também a compreensão da mudança do fenômeno. evidentemente cresce quando cada um dos homens que participam na sua gênese está escolhendo seu lugar conforme três critérios: (i) (ii) (iii) ter a melhor vista possível. pois a mesma forma geométrica poderia ser formada por um batalhão de soldados que obedeceram à ordem de colocar-se em forma de círculos com um certo diâmetro. como aquela do público na praça. um caso onde a função da estrutura (circular) não corresponde com a função do comportamento (infantil). respectivamente. pois.

Toda a teoria econômica (e acreditamos também a teoria lingüística) deve ser interpretada como uma tentativa de reconstruir o caráter de uma dada ordem através das regularidades que se encontram no comportamento individual. escreve HAYEK (1969: 150). talvez. Adam Smith já teve uma idéia clara sobre a economia como fenômeno deste tipo: “A receita anual de cada sociedade eqüivale exatamente ao valor de troca de toda a produção anual do seu trabalho econômico. e junto com a lingüística (realce nosso) ela representa. neste caso como em muitos outros. ou melhor. A exigência de separar estes dois níveis vale também para a explicação destes fenômenos como resultados de um processo que parece ser conduzido “por uma mão invisível” (SMITH 1776/1920: 235 seg. é difícil afirmar que os economistas tem uma consciência clara de que exatamente isto representa a sua tarefa.. mas não realizações do planejamento humano”14. Tal comportamento implica necessariamente que todo mundo se esforça. cada um aspira apenas a seu próprio lucro quando ele gerencia este trabalho de tal maneira que seu produto possa conseguir o maior valor possível. dentro dos seus limites. 5. cada um aumentará o da sociedade muito mais eficiente do que quando ele procurava realmente apoiar o desenvolvimento geral.” 11 12 Vide: MANDEVILLE (1732/1980) Vide: FERGUSON.14 o resultado que surge deste processo é uma coisa que ninguém quis. é a única que foi desenvolvida sistematicamente durante um longo período. Cada um pensa apenas na própria segurança quando ele prefere o trabalho do seu país ao trabalho de outro país. NATUREZA VS. Ao perseguir seu próprio interesse.” (MARX/ ENGELS 1972: 464). and nations stumble upon establishments. which are indeed the result of human action. mas. ARTE – INSTINTO VS. uma das poucas teorias que precisam de tal elaboração esmerada por causa da complexidade particular do seu objeto de pesquisa. Cada um tenta gerenciar este mesmo trabalho de uma maneira que seu produto poderá obter o maior valor possível. Contudo. RAZÃO Desde que o francês Bernard de Mandeville11 (1670 – 1733) e os filósofos escoceses Adam Ferguson12 (1723 – 1816) e Adam Smith13 (1723 – 1790) interessaramse por fenômenos que são “resultados de ações humanas. geralmente. Não obstante. até hoje. ninguém aspira a um rendimento maior do bem-estar geral e nem sabe quanto ele o faz avançar. (1767/1904: 171) : . “a teoria da economia de mercado das sociedades livres. para aumentar a receita anual da sociedade o máximo possível.” “Entre as teorias deste tipo”. but not the execution of any human design.). Todo mundo procura conseguir o melhor controle sobre o fluxo do seu capital aplicado no trabalho do seu país.. Todavia.” 13 14 SMITH (1776/ 1920) Esta descrição provem do título de um ensaio de HAYEK (1969a) .”. a noção destes fenômenos sempre foi ligado ao conhecimento que as línguas naturais também pertencem àquela área paradoxal das ações humanas onde os motivos das ações individuais e a questão dos seus efeitos sociais devem ser rigidamente separados. cada um é conduzido por uma mão invisível para que ele promover um objetivo a que ele não aspira de maneira nenhuma (realce nosso). a receita anual é este valor de troca. este desconhecimento não representa nenhuma calamidade para a sociedade.

Obedecemos aos tradições e costumes que se formaram na nossa cultura. uma que abrange as coisas naturais e outra que inclui os produtos do trabalho humano. (.15 Sem dúvida. mas nós encontramos o mesmo conceito na distinção moderna entre “leis naturais ” e “regras sociais”. MÜLLER (1862/1892: 20) escreveu: “Há duas divisões principais na ciência do homem que se chamam. Antíteses determinam os nossos pensamentos: Deus e o diabo. Neste contexto. a observação final sobre os economistas vale também para os lingüistas. é tão antiga como o pensamento ocidental. HAYEK (1983: 170) salienta no seu ensaio “A razão sobrestimada”. separamos. la seconde naturelle (physei on). jovem e velho.. bom e ruim. A pressuposição que o mundo se divide em duas áreas bem distintas. Qual é a explicação para tanta negligência? Nós vivemos numa cultura cheia de dicotomias. artifícial” tem uma paralela cognata e também enganadora: “instinto vs. ou quando nós pedimos uma cadeira e nos recusamos a comer sentado no chão. Tal pensamento encontrou sua expressão filosófica mais influente já na distinção platônica entre “physei” e “nomô” ou nos termos aristotélicos “physei” e “thesei”. la première est conventionelle (thesei on). Acontece que. A ciência física trata das obras de Deus. arte” e “instinto vs. porque quase nenhum pensador da escola escocês perdeu a oportunidade de incluir a lingüística explicitamente na sua teoria. a histórica das do homem. homem e mulher. Podemos até afirmar. Isto é ainda mais surpreendente.” E FREI (1929: 24) anotou: “La règle grammaticale ná rien de commun avec la loi linguistique. na sua grande maioria. “langue” e “parole”. são as dicotomias “natureza vs. “fatos naturais” e “fatos institucionais” ou “línguas naturais” e “línguas artificiais”.” .) A faculdade humana de agir de forma racional. quando nós preferimos antes vestir um calça do que uma saia ou vice-versa. Não obedecemos à razão nenhuma e nem ao nosso instinto quando nós construímos uma frase em Português gramaticalmente correta. mas o cumprimento das regras tradicionais que não são produtos da razão. quando nós rejeitamos o consumo de carne canina. nesta classificação precipitada. conforme seu objeto. nos omitimos a faculdade decisiva e mais específica do homem: a sua habilidade de criar tradições e costumes. quer dizer. nem tomaram conhecimento dos pensamentos dos filósofos escoceses. que os lingüistas do século XIX e XX. no nível do comportamento as ações racionais das emocionais ou instintivas. a física e a histórica. pressupõe a existência de um sistema de regras sociais. complemento nosso) que determinaram o desenvolvimento da civilização. inteligente e bem planejada. o céu e o inferno. razão”.” A dicotomia “natural vs. Entre todas estas antíteses. Como nós distinguimos no nível das coisas entre fenômenos naturais e artificiais. A verdadeira alternativa para a ‘emoção` não é a ‘razão`. a sua habilidade de determinar seu comportamento através de regras sociais.. razão” que representam os maiores obstáculos para a compreensão da cultura e da língua. que a razão e a inteligência não representam pressuposições para a criação de um sistema de regras. de fato. Respeitamos simplesmente as regras sociais da nossa sociedade. mas as suas conseqüências: “As falsas distinções dicotômicas entre ‘natural` e ‘artificial` e entre ‘emoção` e ‘razão` são responsáveis pela negligência lamentável do processo essencialmente imaterial da evolução cultural que gera as tradições morais (e a língua humana.

quer dizer. subordinar um dado problema a um tipo de problemas já conhecido. Uma vez adquiridas. nem podemos calcular o que aconteceria se nós os abolirmos ou substituirmos por outros.74). porque elas são o fundamento de qualquer justificação. Isto significa que o homem tem que ser capaz de aprender. Crianças desenvolvem ritos e agem de acordo com eles. neste caso.) onde ele explica o que significa comportamento: “Há decisões que o meio faz por iniciativa própria. representa o último e decisivo passo da evolução biológica em rumo a um comportamento onde as regras aprendidas prevalecem sobre as reações inatas. além dos comportamentos e reações já inatos. ao contrário. Vamos ler um trecho de BEEH (1981: 94 seg. de fato.” (HAYEK 1983: 165). Quem tem a faculdade de prever as coisas pode agir de maneira inteligente. Não obedecemos às regras porque sabemos que isto seja inteligente ou racional.” (WITTGENSTEIN 1907/1990: 96) É por causa desta analogia que “as regras sociais se transformam numa segunda natureza” (CICERO 1974: verso 25. O homem adquire inteligência porque ele encontra tradições que ele pode aprender. Qual é a vantagem da faculdade de aprender costumes? Observamos que os três tipos de faculdades. mas o que justifica as regras? Elas não precisam de uma justificação. mas. elas fazem parte do nosso “ego” e. “O grande prolongamento da adolescência e da juventude. pois inteligência é a habilidade de resolver problemas sem fazer experimento. A história da catequese dos índios fornece um bom exemplo para as conseqüências imprevisíveis ou catastróficas de intervenções “racionais” de supostos civilizados em costumes supostamente primitivos de supostos selvagens. Quem obedece simplesmente às regras não precisa da previsão. Basta.” . correspondem com três graus de velocidade na adaptação de um ser vivo a seu ambiente em transformação. a despeito disso. Obedecemos às regras porque os outros fazem a mesma coisa. a sua fonte (realce nosso). “Quando sigo às regras não escolho. Geralmente não conhecemos a vantagem ou a função de um certo sistema de regras ou de um dado costume. são vantajosas por um certo organismo. alguns outros. muito tempo antes que elas são capazes de agir racionalmente. a base de todas as ações racionais. Sigo às regras e ao instintos cegamente. O costume encontra-se entre o instinto e a razão. provavelmente.” (HAYEK 1983: 166). os comportamentos dos outros membros da sua comunidade. Pelo ponto de vista da filogénese. As regras justificam o nosso comportamento. se um certo comportamento é determinado por instintos inatos ou regras interiorizadas. a faculdade de decidir à base de regras precede a faculdade de agir racionalmente. à base de regras ou à base da razão. pelo menos. muitas vezes é difícil descobrir. assim como da ontogênese. A faculdade de desenvolver costumes pressupõe especialmente a faculdade de agir em situações semelhantes da mesma maneira como os outros agem ou. “Aprender um comportamento não representa um resultado da compreensão.16 Ninguém precisa ser inteligente para obedecer às regras ou para contribuir para o estabelecimento de costumes. Os indivíduos desta espécie tem que dispor de uma organização que facilita a transformação de situações desfavoráveis em situações favoráveis. O comportamento racional implica previsões. a de agir à base dos instintos. mas que. no entanto o número deste tipo de decisões é tão insignificante que apenas aquela espécie tem uma chance de sobreviver que faz o maior número possível de decisões por conta própria.

(. mas ele é altamente seguro. pagase a maior velocidade de adaptação às condições transformadas com um grau menor de confirmação. a vida numa sociedade grande precisa de outras formas de comportamento e outras regras para a convivência social. Ao contrário disso. É muito vantajoso. uma habilidade maior de fechar os olhos. HAYEK (1983: 164) escreve neste contexto: “Os instintos inatos do homem não foram criados para uma sociedade como a nossa. uma flexibilidade e uma segurança médias. Contudo. Quem quer formar comunidades maiores. neste sentido. é muito conservador. Por isso. por assim dizer. O repertório dos comportamentos convencionais também se confirmou em milhões de exemplos. Nossa espécie “aprendeu” este comportamento instintivo por um processo evolucionário que garantiu aos indivíduos uma chance maior de sobreviver ou se reproduzir. Costumes ou convenções podem bastante mudar num prazo de dez ou vinte anos. O costume é a forma original destes princípios abstratos. É óbvio. os membros individuais de uma sociedade grande podem aproveitar bens. Ele tem. fechar instintivamente as pálpebras. mas as dimensões da velocidade de mudança são completamente diferentes. tem que substituir os princípios da cooperação direta e do poder da força maior por princípios e regras sociais abstratos. Tais processos de aprendizagem precisam de muito tempo. Em comparação com pequenos grupos.17 Nossos instintos representam tal organização. com um risco cada vez maior. em tais situações. Enquanto o comportamento conduzido por instintos ou regras convencionais. sob o risco de fracassar completamente.” Em resumo: A vantagem dos sistemas de regras sociais se encontra no fato que eles facilitaram a formação das sociedades grandes. A velocidade com qual uma espécie reage geneticamente a um meio em transformação necessita de centenas de milhares de anos. Elas permitem uma adaptação total a cada nova condição. as sociedades grandes tem a vantagem que elas podem dispor de uma multiplicidade de habilidades e conhecimentos que ultrapassam a capacidade de um indivíduo por muito. Graças a esta vantagem e do princípio da divisão de trabalho. nos quais o homem se uniu durante os milênios de desenvolvimento da espécie humana. durante décadas ou séculos. orientam-se as ações racionais (num modelo idealizado) exclusivamente na lógica do problema em questão. . e não na solução que os outros propõem. por exemplo. As regras para o comportamento social também não se adaptam de um dia para outro. mas. é “aprendido” para a espécie. Os instintos foram adequados para uma vida em pequenos grupos. pois o engano total tem como condição prévia o pensamento racional. O comportamento instintivo se confirmou em milhões de exemplos durante milhares de anos.. quando uma mosca se aproxima dos nossos olhos. em cada nível do nosso modelo. quer dizer. serviços e habilidades que um indivíduo ou um membro de um grupo pequeno nunca é capaz de produzir. as ações conduzidas pela razão são altamente arriscadas. muitas vezes. Ele junta o estereotípico das ações com um grau de confiança relativamente alta. de princípio. ou que desde sempre foi aplicada. Eis a nossa resposta geral para a questão da vantagem do comportamento convencional: O comportamento conduzido por regras dá a liberdade ao ser humano de reagir aos problemas iminentes mais rápido e com mais flexibilidade do que o repertório dos comportamentos instintivos permite. se eles desenvolveram.) A sociedade extensa é o resultado do desenvolvimento de certas regras de comportamento que. apenas o ser humano pode agir de maneira completamente errada.. O que é inato para o indivíduo. ele não é flexível. Agir conforme um costume significa abstrair o caso concreto e subordina-lo a um certo tipo de comportamento. prescrevem que ele não deve fazer o que seus instintos exigem.

podemos afirmar: a comunicação através de uma língua é um caso especial da comunicação em geral. um mafioso). O mercado é a instituição que nós usamos quando queremos influenciar alguém a dá-nos uma certa coisa. Receber o que nós precisamos pode ser uma boa razão para dar ao outro em troca o que ele quer. dê-lhe uma razão para realizá-la voluntariamente. Uma das condições prévias mais importantes para o desenvolvimento de uma sociedade grande é a regulamentação da violência. comunicação significa revelar alguém os nossos desejos e opiniões. muitas vezes. de uma maneira que uma mera perspectiva instrumental simplificaria as coisas demasiadamente. Saber que alguém quer que nós façamos alguma coisa. o mercado e a língua. para a língua é a pressão” (MANDEVILLE 1980: 289). Do mesmo modo. respectivamente. um costume que cresceu entretanto a um tamanho gigantesco. Ela facilita para nos. Em analogia disso. Vamos esclarecer este fato através de uma comparação: “O jogo de xadrez é um meio convencional para colocar alguém em xeque-mate. O costume do direito serve para transferir a regulamentação do direito aos mão de uma terceira pessoa que é neutra. A língua. Comprar uma coisa com dinheiro é um caso especial de fazer negócio em geral. pode ser uma boa razão para assumir a mesma idéia. pode ser uma boa razão para realizar este desejo. há muito tempo. um cacique. A alternativa arcaica para o mercado e a língua é a violência: “para o negócio é o roubo. Ambos representam instituições que servem para influenciar os outros. O direito então é um negócio de trocas: nós transferimos nossa pretensão de vingança a um terceiro (governo. Conhecer a opinião de alguém. A comunicação e o negócio baseiam-se no mesmo princípio: Se você quer influenciar alguém a fazer uma coisa. As instituições fundamentais para substituir a violência são o direito. O indivíduo cede seu direito de defesa própria ou vingança a uma instituição que lhe oferece em troca proteção contra a defesa própria ou a vingança indevidas de um terceiro (um governo.18 A língua representa tal costume. pois o jogo de xadrez mantém com o fato de ser xeque-mate uma outra relação do que uma furadeira com buracos. aceitar a nossa opinião.” O que é engraçado nesta afirmação? A perspectiva indevidamente instrumental. A existência de buracos. se tornou independente. Dinheiro é um meio convencional para acelerar o negócio. mafioso) e recebemos em troca disso a proteção contra as ações arbitrárias dos outros. enfim. assim como a economia de dinheiro. aperfeiçoar ou. a substituição da violência por comportamentos alternativos pacíficos. mostrar ao outro o que nós queremos ou como nós queremos influenciá-lo. ou melhor. Ele facilita a nossa procura por alguém que tem o que nós precisamos. e que precisa o que nós temos porque dinheiro é uma coisa que quase todo mundo precisa. muitas vezes. a língua é a instituição que nós usamos quando queremos influenciar alguém a fazer ou a acreditar uma certa coisa. Podemos definir o termo “buraco” sem usar a palavra . A língua é um meio convencional para acelerar. O mercado e a língua servem para finalidades semelhantes. possibilitar a comunicação. é logicamente independente da existência de furadeiras. cacique. na esperança e na intenção que isto seja uma razão para o outro realizar o nosso desejo. Fazer negócio significa dar o que nós temos para receber o que nós precisamos. sob certas circunstâncias. um costume estabelecido para conseguir certas coisas de uma certa maneira. Suponhamos que alguém tem o que nós precisamos e que ele precisa o que nós temos.

Em analogia com isto. uma interpretação falsa da língua e da lingüística. uma paisagem de dunas na praia. Isto vale para uma rede de trilhas pela neve ou pelo gramado de um parque assim como para uma língua natural.ou uma língua natural como o português. que declararam que as leis lingüísticas trabalham com uma necessidade cega. não representam apenas bons instrumentos para fazer certas coisas. Na área social. geralmente. no sentido estrito. Max Müller16 e toda a escola neogramática do século XIX (Karl Brugmann17. Hermann Osthoff18. de um engano fundamental que provocou. na natureza igualmente como na cultura: a espiral de uma galáxia. as do homem. (1861-1864) 17 Vide: BRUGGMANN. pertencem à primeira corrente com sua abordagem mecanicista August Schleicher15. como as atuais línguas naturais. da mesma maneira. que somente as ações lingüísticas dos homens são capazes a provocar o desenvolvimento de uma língua. podemos também afirmar que línguas completamente desenvolvidas. Ao contrário. 6. a idéia diretriz para muitas ciências foi a pesquisa por teorias sobre o desenvolvimento histórico dos fenômenos. As obras de Deus são fenômenos naturais. A LÍNGUA COMO UM FENÓMENO DE TERCEIRO TIPO No século XIX. Quem desejou classificar a lingüística como uma ciência natural. Desde a antigüidade. . são fenômenos concomitantes de ações individuais que servem para objetivos totalmente diferentes do que o de criar uma ordem. as da cultura são resultados de expressões de vontade e. culturais. uma pista corcovada de esquiar. deste modo. 15 16 Vide: SCHLEICHER (1861.) 20 Vide: PAUL (1880) 21 Vide: MARTINET (1970/1991) . ordens que nascem sem ser premeditadas ou planejadas. podia referir-se ao fato. Berthold Delbrück19 e Hermann Paul20).19 “furadeira” na definição. apenas porque as línguas as constituem primeiramente. nesta classificação dicotômica. Esta afirmação vale também para a lingüística. Há ordens espontâneas em muitas áreas. porém. Max. que foi o maior teorizador da fonologia diacrônica estrutural neste século. há certas coisas que nós podemos realizar. (1878) 18 Vide: BRUGGMANN / OSTHOFF (1878 seg. Tertium non datur. há um conceito universal que divide. uma idéia fundamental para muitas ciências e a procura para teorias de ordens espontâneas. assim como o francês André Martinet21. e aqueles que o homem criou. quem desejou classifica-la como uma ciência humana.) 19 Vide: BRUGGMANN / DELBRÜCK (1886 seg. ordens espontâneas. a cabeça brotando de um brocoli. Os fenômenos naturais são independentes da vontade do homem. estes que Deus criou e que se chamam naturais. o mundo em dois tipos de fenômenos. durante séculos. Na lingüística histórica. graças à linguagem. Hoje em dias. Trata-se. Karl.862) Vide: MÜLLER. sem restos. referiu-se ao fato que o desenvolvimento de uma língua é independente da vontade humana. como somente o jogo de xadrez constitui a possibilidade de colocar alguém em xeque-mate. objeto das ciências humanas. quer dizer.

Nossos fenômenos do terceiro tipo representam os objetos “naturais” entre as coisas que não são naturais. entre “naturais” e “artificiais”. uma cidade que cresceu naturalmente de uma que foi planejada artificialmente na prancheta de desenho. nas coisas que não são naturais. Antoine Meillet25 e William D. 6 . O fato que nós chamamos os fenômenos do terceiro tipo “naturais” provavelmente encontra sua razão na observação que estes 22 23 Vide: HUMBOLDT (1985) Vide: WUNDT (1900) 24 Vide: BRÉAL (1897/1992) 25 Vide: MEILLET (1905) 26 Vide: WHITNEY (1875/76). há. representa exatamente um deles. Michel Bréal24. de maneira incoerente. distinguimos entre um alfabeto natural e um artificial ou entre uma língua natural e uma língua artificial. o adjetivo “natural” de maneira ambígua. 3. encontra uns dos seus representantes mais ilustres. que também representam produtos humanos ou fenômenos culturais? Nossa resposta geral é: Enquanto estes são planejados. Já observamos que nossa linguagem corrente se opõe de várias maneiras a uma representação adequada de processos evolucionários32. Pois cidades ou línguas naturais tem uma coisa em comum: ao contrário das flores. por outro lado. Benjamin Lee Whorf30 e Stephen Ullmann31. que nós distinguimos inteiramente entre dois métodos que o homem aplica na criação do mundo cultural. além dos fenômenos naturais e culturais. Wilhelm Wundt23. pág. Sobressai. cultura”. Distinguimos. A tricotomia da linguagem corrente representamos no quadro (1) na página seguinte. na linguagem corrente. fenômenos de um terceiro tipo. e.Whitney26. porém. Mas separamos. por exemplo. aqueles cresceram organicamente. Nós distinguimos. Do mesmo modo. Efetuamos esta distinção. 27 Vide: MAUTHNER (1912/1982) 28 Vide: TRIER (1931) 29 Vide: SAPIR (1921) 30 Vide: WHORF (1956) 31 Vide: ULLMANN (1957) 32 vide: cap. encontra-se no conhecimento moderno que a suposta dicotomia. “natureza vs. mas nós a efetuamos com uma terminologia dicotômica. A saída do dilema da dupla consolidação na lingüística. baseia-se numa ambigüidade desconhecida do predicado “criado pelo homem”. mas não temos um adjetivo que se referisse a fenômenos de um terceiro tipo que abrangia os fenômenos evolucionários. em Wilhelm von Humbold22. Edward Sapir29. apesar do fato. através de termos inadequados. Em outras palavras. No fundo. O fato que nós realizamos estas distinções é correto. nós realizamos até em nossa linguagem corrente uma distinção tripartida. neste desenho. nas humanas. todos pesquisadores que colocaram as mudanças lingüísticas no campo das condições sociais e psicológicas da linguagem. esta que vinculou a lingüística com a história da cultura e da sociedade.20 A segunda corrente da lingüística diacrônica. sendo resultado de um processo evolucionário. estes objetos não são naturais. Trata-se de produtos humanos ou instituições culturais. e. Como eles se distinguem dos seus equivalentes artificiais. nas ciências naturais. por um lado. que nós empregamos. Nós dispomos dos adjetivos “natural” e “artificial”. no século XX em Fritz Mauthner27. Esta observação vale. e uma língua natural. Jost Trier28. no século XIX. mas a maneira como nós designamos estes objetos é enganadora. corretamente entre flores naturais e flores artificiais.

). Vamos reconstruir a criação de tal engarrafamento num modelo simplificado.. Trata-se. C tem o mesmo problema. Freiar até exatamente 85 km/h é arriscado demais. ele também vai freiar. cidades antigas. de uma certa maneira. fenômenos do terceiro tipo como este engarrafamento. Quadro (1): A classificação dos fenômenos conforme a linguagem corrente: As coisas naturais artificiais (?) artificiais flores. cidades satélites naturais Português. como B não sabe até qual velocidade A vai freiar. à base do seu desejo legítimo de garantir uma distância segura. “C”. realmente. a língua das abelhas esperanto. As ações dos motoristas individuais destes carros o criaram. código Morse flores de papel. Eles nascem em conseqüência das ações de muitos participantes. foi criada por todos os carros anteriores (A – S). mas ninguém pode afirmar que eles tinham a intenção de parar o transito. um motorista freia por razões irrelevantes para 90 km/h. como B freia. de um fenômeno de terceiro tipo que exemplifica as qualidades típicas desta espécie. rios.. os motoristas (A – S) provocaram. todo mundo já calculou: querendo ou não. Suponhamos que numa estrada bem movimentada que dispõe apenas sobre uma faixa. provavelmente até 80 km/h. Podemos até afirmar que aqueles que provocaram o engarrafamento não encravaram-se nele. O engarrafamento que aconteceu atrás do carro S. Sua tendência de manter uma distância de segurança faz ele freiar mais do que necessário. “The things in this category resemble natural phenomena in that they are unintended and to be explained in terms of efficient causes.” (HAAKONSSEN 1981: 24). tem características de fenômenos naturais assim como de fenômenos artificiais. temos carros que andam numa distância de 30 metros numa velocidade de 100 km/h. S vai parar e todos os carros atrás dele também. Sem ter tais intenções e sem tomar conhecimento. Quando B observa as luzes do freio de A. são fenômenos coletivos. etc. O que se sucede então. Chamamos este carro de “A” e os carros seguintes de “B”. Cada um deles apenas reagiu de maneira adequada ao comportamento do respectivo carro de frente. de fato.21 fenômenos. porque ele não sabe. para manter uma distância de segurança.. Provavelmente ele vai freiar até 85 k/h. alfabeto latim Vamos analisar as características essenciais dos fenômenos de terceiro tipo através de um exemplo que todo mundo já experimentou ao dirigir no transito rodoviário: “o engarrafamento sem causas”. Como já vimos. De repente. Em seguida. Ele vai reduzir sua velocidade. uma situação muito perigosa. desta maneira. ele vai freiar um pouco mais do que A. . and they resemble artifical phenomena in that they are the result of human action (.

continua a soprar pela janela e o vizinho pode satisfazer sua curiosidade subindo na sua varanda. talvez. no entanto. a cozinheira salga a sopa em excesso. COSERIU (1958/1974: 23. de uma conseqüência não intencionada. intencionada. não podemos chamar nosso engarrafamento nem o resultado. nós chamamos esta ação “realizada”. sempre pressupondo que a ação que as provoca foi. 33 cf. claro. temos que distinguir o resultado de uma ação das suas conseqüências. pelo contrário. 95 seg. porque a diminuição da velocidade com um acréscimo de segurança é. observado por si mesmo. A uniformidade em nosso exemplo se encontra no fato que cada motorista age à base do princípio: melhor freiar um pouco mais do que fraco demais. e a maioria delas não e interessante: um garçom deixa cair um copo. então. É particular a este tipo de fenômenos não intencionados. A intenção de efetuar as conseqüências de uma ação chamamos. nem uma conseqüência das ações que o provocaram. Nenhum deles tem consciência da sua contribuição ao engarrafamento. Mas até esta denominação é enganadora. mas que provoca na sua multiplicidade certas conseqüências. o engarrafamento não representa a conseqüência não intencionada das ações individuais. de fato. ocorreu.22 sempre quando o comportamento deles mostra uma certa uniformidade que. dizemos que esta ação não foi bem sucedida. por exemplo. Conseqüentemente. a segunda intenção. pode ser irrelevante. se realizou. Os efeitos intencionados dos resultados de uma ação chamamos as conseqüências intencionadas de uma ação. na verdade. O engarrafamento representa um fenômeno concomitante da ação “enfrear com um acréscimo de segurança”. Afinal. pode ser realizada. explicações para certos fenômenos que se caracterizam por componentes causais. mas desta ação intencionada nasce um fenômeno não intencionado. Geralmente. inclusive um acréscimo de segurança. Se as conseqüências intencionadas de uma ação não se efetuam. que sua ocorrência é tão segura como o amem na igreja. Para continuar com nosso exemplo: O vento. O resultado de uma ação é o acontecimento que tem que ocorrer para poder chamar esta ação de realizada. de fato. de fato. de fato.33 É. A intenção de realizar o resultado de uma ação chamamos. É um engano se as teorias afirmam que nas ciências humanas não haja espaço para causalidades. realizada. As intenções de cada motorista se concentram no desejo de não bater contra o carro da frente. Trata-se. Uma ação. então. Para ser adequada. se o seu resultado é uma porta fechada. pois conseqüências não intencionadas de ações individuais há demais. conseqüentemente. de uma conseqüência causal dos resultados das ações dos diversos carros. a conseqüência não intencionada da totalidade de todas as respectivas ações. Fecha-se uma porta para proteger-se de uma corrente de ar ou do olhar curioso de um vizinho. mesmo sem ser bem sucedida. nós não realizamos ações por causa dos seus resultados.) . A ação de fechar uma porta. correto que os fenômenos culturais não se explicam exclusivamente como causais. Trata-se. a explicação de um fenômeno de terceiro tipo deve apresentar tal componente causal. mas há. no “engarrafamento sem causa”. mas por causa das suas conseqüências. Conforme esta terminologia. Se as ações dos motoristas (A-S) foram realizadas e a própria velocidade em relação ao carro de frente foi suficientemente diminuída. Se o resultado de uma ação. Ele é. a primeira intenção. então o engarrafamento dos carros seguintes é uma conseqüência causal do comportamento uniforme de todos. mas a conseqüência que é responsável pelo engarrafamento não é “não intencionada”.

. . acabam por definir-se numa dada direção. bilhões de tentativas. pelo menos em parte. conforme o lingüista francês. O que Bréal ainda interpreta platonicamente e muito vago como “o espírito de repartição”. porém um princípio estritamente da ordem sincrônica. É. há o microcosmos dos falantes individuais que seguem suas intenções comunicativas34 a fim de influenciar os destinatários das suas mensagens35.) o objetivo geral da linguagem. que “a liberdade está ausente” no domínio das mudanças lingüísticas e observamos que “ninguém é livre para mudar o sentido das palavras. milhões.” “Um indivíduo não somente seria incapaz. que é intencional. que é causal. Ele descreveu tal fenômeno histórico universal lingüístico como o princípio da mutabilidade lingüística. que assim dirigidas. nós definimos como resultado da colaboração 34 Vide: BRÉAL (1897/1992: 24): “(. Saussure sabia bem que o signo lingüístico muda com a evolução da língua. “que é preciso representa-la (a vontade humana. Temos que afirmar. 36 Vide: BOURDIEU (1980: 115–130) 37 Vide: SAUSSURE (1916/1969: 85 e 132): “Nunca se consulta a massa social nem o significante escolhido pela língua poderia ser substituído por outro. É óbvio que tais fenômenos assumem no processo da gênese e da transformação de uma língua um papel importante. assim aperfeiçoadas.” (BRÉAL 1897. que representa. O princípio da imutabilidade. tem que seguir às mesmas intenções. afirmou BRÉAL (1897/1992: 19). em matéria de linguagem. é a contrapartida pragmática ao princípio semântico da arbitrariedade.23 Fenômenos de terceiro tipo sempre se constituem de uma área microcósmica. que um falante emprega esta expressão a fim de referir-se a alguma coisa. Em resumo: Um fenômeno de terceiro tipo é a conseqüência causal de uma multiplicidade de ações intencionadas por indivíduos.. uma estranha força mágica. pois a criação da ordem espontânea de uma dada língua também representa um fenômeno de caráter duplo: De um lado... Do outro lado. Concluímos que “essa limitação da liberdade se deve à necessidade de ser compreendido. se quisesse.1992: 19). e uma área macrocósmica. é o de ser compreendido”. mas ele já supõe. os falantes escolhem suas palavras apenas em consideração dos custos e do lucro das suas ações36. ou representa uma abreviatura para o fato. Mesmo que o conceito saussureano de língua é um conceito estático que tenta isolar as estruturas lingüísticas da sua evolução histórica. assim corrigidas. “O objetivo. conforme a minha terminologia. de modificar em qualquer ponto a escolha feita”. muitas vezes infelizes. O comportamento dos indivíduos. Influenciar a ordem ou a estrutura do seu código está fora do alcance de cada indivíduo37 e nem pertence aos seus objetivos. há o macrocosmos dos elementos do código lingüístico que permanecem estáticos ou transformam-se dinamicamente sob o contínuo atrito que o conjunto dos seus falantes provoca. mas. com Bréal. quero dizer com o menor esforço possível.: 38)..” 35 Vide: SEARLE (1969: 46): “A afirmação que uma expressão se refere a alguma coisa . Os indivíduos que participam na criação do fenômeno formam a área microcósmica (em nosso exemplo os motoristas) e as estruturas que a área microcósmica gerou formam o macrocosmos (em nosso exemplo. nem para construir uma frase segundo uma gramática própria”. nossa) sob a forma de milhares. algumas vezes com algum sucesso. para Saussure. Bréal ainda reconhece neste atrito o resultado de uma obscura e perseverante vontade humana. que é de se fazer compreender com o mínimo de dificuldade.” (realce nosso).” (BRÉAL 1897/1992: 154). “o verdadeiro organizador ou demiurgo no processo da criação de uma linguagem” (ibid. ou não faz sentido. o engarrafamento). aspirando ao “sucesso pragmático” (SEARLE 1979: 50). obs.

muitas vezes. As alterações sonoras. 39 Os pioneiros da lingüística histórica comparativa. no fundo. eles ficaram. em oposição a uma sinfonia ou uma pintura. a complexidade do Português não foi criada com vista a um estado final.” (FARACO 1991: 15). começaram a interpretar as mudanças como um progresso que facilita a fala e alivia a memória. mas concentraram-se. quer dizer. obviamente. não devem a sua estrutura ao mero acaso. 38 A meu saber. mas os falantes normalmente não tem consciência das metamorfoses lingüísticas. O Português. muitas vezes. o que lhes bloqueia o caminho da expansão por outras variedades da língua. no estudo dos mecanismos que regem as transformações . estruturas e palavras que. Este ponto de vista atribui a lingüística diacrônica um novo papel. no início do século XIX. a estruturação da maior parte dos seus elementos38 define-se somente “no olhar retrospectivo” (DAWKINS 1986/87: 21). etc. Sua tarefa não encontra-se mais exclusivamente na reconstrução de estados passados do vernáculo 39. Só com a quebra progressiva desse estigma . foram “inventadas”. tentaram recuperar os estágios antigos das línguas. numa situação informal. ocorrem modificações em sua forma. também. O PAPEL DA LINGÜÍSTICA DIACRÔNICA As línguas não constituem realidades homogêneas e estáticas. também não constitui uma realidade homogênea e estática. ele representa mais um destes objetos cujos elementos. sintáticas e semânticas ou as substituições lexicais efetuam-se num processo tão lento e gradual que. sociais ou estilísticas explica-se pela história das suas transformações ou. na mesma tradição. deixando-as como marcas identificadoras de variedades sem prestígio social. é que as formas inovadoras adquirem condições de se expandir para outras variedades da língua. A estrutura especial do Português e de cada uma das suas variações regionais. considerando as formas passadas superiores ou melhores do que as respectivas línguas modernas. ou. Muitas permanecem socialmente estigmatizadas. mas na “reconstrução do presente pelo ponto de vista da sua evolução40. especialmente. mas sim um sistema complexo cuja configuração se altera continuamente no eixo do tempo.24 entre os níveis microscópico e macroscópico da linguagem. a única exceção deste princípio encontra-se na criação consciente de novos termos técnicos. mas nem todas as mudanças “passam necessariamente por essa escala. Mas. pelo decorrer de um jogo complexo de transformação e permanência. então. como um fenômeno de terceiro tipo. Há variações que não implicam uma mudança geral e contínua da língua.: 10). “Os grupos implementadores de mudanças têm geralmente baixo prestígio social e sua fala – inclusive aquilo que nela é inovação – costuma ser marcada de forma negativa pelos grupos mais privilegiados econômico. social e culturalmente.. geralmente. função e/ou significado. apenas os filólogos e os sociolingüístas conseguem perceber os sinais de uma mudança em progresso. como língua natural.”(FARACO 1991: 16). Os falantes. slogans. avaliam as formas inovadoras como “erradas” ou “impróprias”. pelas classes médias ou baixas e que avançam pela fala informal das classes mais privilegiadas até chegar a situações formais de fala ou escrita. Embora os neogramáticos. Mas jamais acontecem transformações lingüísticas sem a pressuposição de uma variação. melhor. Pelo contrário.” (ibid. Neste sentido.. no fim do século XIX. Notam-se. 7. Observamos estruturas e palavras “que existiam antes [e] não ocorrem mais ou estão deixando de ocorrer.

” (ibid. deste modo. O que se muda na linguagem. obrigatoriamente. I. no entanto. coletadas sobre dados do presente. são semelhantes aos fatores que operaram no passado. porém. são determinadas de fora ou reguladas inteiramente. encontrar nele tempos diferentes.). Esta única lei categórica. As variações dialetais se classificam em territoriais. 40 Um estudo de um recorte do português que se aproxima deste ponto de vista se encontra em: FARACO (1982). que “as mudanças não se dão de forma totalmente aleatória.” (ibid. começaram a descrever sincronicamente um certo estágio histórico de uma língua.: loc.). “A direção que vai ser tomada. domina as transformações lingüísticas. de princípio. representam uma hierarquia de condições laterais. como para sistemas sociais. de sexo.” (ibid. JAEGER.) As leis internas que determinam as mudanças lingüísticas não tem um caráter obrigatório. ou se nós analisamos o presente para ilustrar o passado. LABOV (1972: Cap. o caráter dinâmico e heterogêneo das línguas. todas as formas de organização são conduzidas por informações. cit. As estruturas da natureza. a metamorfose contínua segue estratégias múltiplas e um fato lingüístico pode mudar em várias direções. LABOV (1982: 17-92) e LABOV. sociais.” (FARACO 1991: 73). não é de admirar. encontramos também na teoria moderna sobre a criação de ordens espontâneas. se nós voltamos ao passado para explicar o presente. conforme Bréal. embora sua direção seja em boa parte indeterminada. que os processos de transformações lingüísticas. assim como as da sociedade. STEINER (1972).: loc. “A regularidade da linguagem se deve ao hábito. cit. então.). e não a um caráter mecânico. por necessidade. São as mudanças e o desenvolvimento destas configurações estruturais que lingüísticas. . de idade.: loc. As informações sociolingüísticas. LABOV (1976/1978). Isto vale para organismos naturais. Pelo contrário.: loc. Vide: LABOV (1971: 111-194).” (BRÉAL 1897/1992: 13). o que importa é o conhecimento. em seguida. “não se muda. cit. Mas a única lei categórica se encontra na regra que “as formas já criadas servem de modelo para formas novas. afirma BRÉAL (1897/1912: 12). O que importa são “os sentidos e estes são convencionalmente atribuídas às formas (meios exteriores). MCINTOSH e STEVENS (1974) e distingue dois tipos básicos de variedades lingüísticas: os dialetos e os registros (ou estilos). deste modo. Afinal. Os fatores lingüísticos e extra-lingüísticos41 que condicionam as atuais mudanças em progresso42. As mudanças então. composta por níveis cada vez mais complexos. 42 “Mudanças em progresso” são um dos objetos favorecidos da teoria da variação de L abov. não é a priori determinável.” (ibid. V e VII). eles interpretaram os textos arcaicos estaticamente e eliminaram. de geração e de função. cit. LABOV (1981). 41 Vide: TRAVAGLIA (1995: 41 – 58): Travaglia segue HALLIDAY. “Observar o presente”. modo (oral ou escrito) e sintonia (com informações específicas sobre o ouvinte). Por isso. que. As variações de registro são classificadas como sendo três tipos diferentes: grau de formalismo.” 8. podem ajudar a entender as mudanças ocorridas no passado. ao costume. do mesmo modo. dependendo para sua efetivação da conjunção de outros fatores contextuais (lingüísticos ou não). “implica. A AUTO-ORGANIZAÇÃO DAS ORDENS ESPONTÂNEAS Tanto faz. lembram a evolução biológica. Os estruturalistas.25 Até a pesquisa sincrônica da realidade presente pode contribuir nesta tarefa de elucidação das alterações lingüísticas em qualquer ponto da história.

A semelhança entre as reações caóticas na natureza e na sociedade justifica a transposição de conceitos e métodos das ciências naturais às pesquisas sociais e históricas. Pelo contrário. uma ordem estabelecida não se adapta a curto prazo à multiplicidade dos fenômenos. as possibilidades que cada novo desenvolvimento traz. MATURANA/ VARELA. estende o princípio da autopoiésis à crítica da sociedade consumista. uma língua natural. a língua. encontramos a idéia da auto-referencialidade incrustada na sociedade pós-industrial do Primeiro Mundo. nada muda radicalmente.26 facilitam o nosso conhecimento sobre a criação e a evolução de sistemas organizados como.” (FARACO 1991: 73). Da mesma maneira como a evolução biológica está muito delimitada pelo caráter conservadora dos programas genéticos. apenas ocupada com si mesmo. antecipou uma corrente radical do constructivismo do séc. não ocorrer nenhuma mudança. O caos é determinado por certas restrições que canalizam as alternativas. Mesmo se há fases. se estabilizam e se transformam em conseqüência de planos ou decisões racionais. Haag simula o comportamento humano a base de poucos parâmetros de tendências: caso a disposição de acomodar-se. como a língua. Seguir estratégias múltiplas não significa que qualquer coisa pode acontecer em qualquer lugar. O termo grego refere-se ao fato. por exemplo. O pós-estruturalista Baudrillard. eles auto-organizam-se à base de leis inerentes que dificilmente podem ser influenciadas e quase sempre são imunes contra intervenções planejadas. por exemplo. às quais o sistema deve reagir para garantir o seu funcionamento. “Cada sistema pode apenas ser conduzido por si mesmo”. onde ele apresenta um modelo de uma sociedade. Pelo contrário. deste modo. sem correr o perigo de deixar a mensagem incompreensível. Sem correr perigo de confundir inovações semânticas com um verdadeiro aumento de conhecimento. 43 Vide: ARNAULD (1683/1965: cap. afirma LUHMANN (1984: 208). ao mesmo tempo. também. representam também sistemas dinâmicas que não obedecem a funções lineares. XX. o sociólogo alemão HAAG (1983) um livro sobre a sociologia quantitativa. pois o complexo. Ilya Prigogine. Luhmann afirma que sistemas sociais não vivem num intercâmbio ilimitado com seu meio. mas reproduzem-se e criam-se permanentemente segundo as estruturas do sistema cultural que os gera. ela desenvolve-se quase isoladamente. isto é. um sociólogo alemão que pesquisa há 30 anos a autopoiésis43 dos organismos sociais. durante a sua reprodução contínua. ganhador do prêmio de Nobel de química em 1977 observou com razão. mantêm o mesmo equilíbrio elástico como a natureza: ela mostra uma capacidade de persistência no decorrer da sua história e ela aproveita. cujas valores não possuem justificativas fora de si. na qual duas opiniões políticas se encontram em competência. afinal. como fenômeno social. nas quais as mudanças parecem ser mais condensadas. . por exemplo. Deste modo. tem uma dinâmica específica e cria suas próprias estratégias.IV). já “porque entre as várias possibilidades está sempre presente a chamada estratégia nula.” (PRIGOGINE / STENGERS 1984: 18). que os sistemas complexos não se desenvolvem. Seu contato com o meio restringe-se a poucas antenas que registram apenas as mudanças essenciais no ambiente. biólogos e sociólogos analisam o tema da autopoiésis desde os anos 70. publicou. por exemplo. (1972). uma sociedade liberal transforma-se abruptamente numa sociedade totalitária. o resultado não é previsível. Em nosso século. Na sua obra. Fenômenos sociais. que “as idéias sobre a instabilidade e a flutuação penetram as ciências humanas. ultrapassa um certo valor. Estas alterações substanciais do mundo externo provocam variações internas. na língua. Mesmo assim. BAUDRILLARD (1976): A auto-referencialidade dos processos que são gerados por si mesmo já foi descrita na semiótica de PortRoyal que.

sua idade. acelera as mudanças lingüísticas: “A verdade é que as classes superiores da sociedade. As mudanças lingüísticas representam. BRÉAL 1897/1992: 29) descobriu na formação do inglês moderno. aproveita-se. tanto maior é o número de parâmetros que o dominam. nos sistemas sociais. está fechado. Alguns falantes vão aceitar o novo sem hesitar. A decomposição da ordem em caos. banqueiros e industriais da cidade.. etc. Suponhamos. ordem e caos um ao lado do outro. a fala dos burgueses era ridicularizada. assim como a organização do caos numa nova ordem mostram uma criatividade incalculável.. sua posição social. começa a empregar a nova variação apenas se um grande número de falantes das classes prestigiadas assume o novo. Decerto. Ora – acabamos de ver – é a parte mais culta da nação que retarda a evolução da língua.46 As línguas organizam. depende de alguns parâmetros estruturais e extra-lingüísticos. neste ponto de vista. apenas para mostrar a sua identificação com o grupo. que ela não precisa necessariamente reagir ao ambiente. se o estimulo passa por cima do limiar da excitação. os resultados dos processos de mutação causados pelo atrito da língua por seu uso diário. ao mesmo tempo.” Outro exemplo menciona BAGNO (1997: 57) que lembra as mudanças lingüísticas. por exemplo a presença de uma nova variante lingüística numa dada comunidade de fala. O sistema das variações lingüísticas. como o número dos reformadores iniciais. nobres e grandes proprietários de terra. Deste modo. Mas. . um bom exemplo. da divisão do trabalho entre a maior multiplicidade possível de elementos aparentemente secundários e a estabilização seletiva das áreas essenciais. as variantes que exigem do falante o menor esforço de pronúncia. deste modo. de um lado. ele desenvolve-se isoladamente através da sua própria dinâmica inerente: o meio não determina inevitavelmente o que acontece dentro do sistema.. ocorridas em conseqüência da Revolução Francesa: “A Revolução Francesa de 1789 tirou do poder a classe social dos aristocratas. Os falantes ou grupos de falantes especializam-se cada vez mais para satisfazer melhor as exigências complexas da vida. tinham deixado o uso do inglês para as classes populares. se ele não quer correr perigo de desintegrar-se. Caso que certos valores limites destes fatores não são ultrapassados. há. mas a nova variante começa a espalhar-se. servindo -se do francês durante vários séculos. A evolução da língua baseia-se no fato. Para dominar o imprevisto. quanto mais complexo o sistema é. A formação de uma língua em direção a uma nova complexidade é uma resposta a complexidade modificada do meio. Contanto que os fatores extra-lingüísticos não causam uma tendência contrária. porém.. Ora. tratada com desprezo pelos aristocratas. justamente na fala daqueles burgueses é que estava acontecendo com toda a liberdade o desaparecimento do ‘lhe’ para dar lugar ao ‘i’.44 A maioria dos falantes. ocupado com si mesmo.No antigo regime . refreado por certas inibições de comportamento. que ocupam o menor espaço na memória e que garantem a melhor 44 45 LABOV pesquisou tal processo numa ilha em Maryland/Estados Unidos.” 46 O termo “mercado lingüístico” foi primeiramente empregado por BOURDIEU (1980: 115 -131)..27 Este conceito da transformação relativamente rápida de um estado de organização para outro podemos aproveitar também para a descrição das transformações lingüísticas. obviamente. Eles corrigem seu comportamento lingüístico em conseqüência do refluxo de informações que eles recebem do mercado lingüístico. a dos burgueses comerciantes. No lugar deles ela colocou outra classe social. a maioria dos falantes não vai mudar seu comportamento lingüístico. porque. Quando os aristocratas se desinteressam pela língua nacional.45 Se a nova variação impõe-se na comunidade inteira ou não. A mudança de classe social também significou mudança de variedade lingüística dominante. a sua própria estruturação. essa evolução se acelera. educação. a língua. o sistema está aberto. no decorrer da sua evolução... como o desinteresse das classes prestigiadas para com a fala do povo.. porque seu equilíbrio depende da afluência de informações externas.

tem uma probabilidade maior de sobreviver na guerra lingüística. As mudanças lingüísticas. Deste modo. que não haja uma explicação coerente para estes fenômenos. de um lado. Não há regras. como as condições iniciais dificilmente podem ser reconstruídas em detalhe. Se os falantes param de usar uma certa palavra. As dificuldades começam quando nós tentamos definir as condições iniciais. pois. Cientistas de todas as disciplinas se esforçam em achar o simples dentro ou atrás do complexo.” (BRÉAL 1897/1992: 17). a língua encontra-se com outros sistemas caóticas como. porém. Neste ponto. à base da existência do resultado. de princípio.28 compreensibilidade no ouvinte. LASS (1980) exige e procura as regras no lugar errado. do outro lado. Todavia. É certo também que. na relação entre simplicidade e complexidade. Deste modo. Há até provas matemáticas que todo o comportamento futuro destes sistema pode ser exatamente calculado. mas porque a realização das condições prévias é incalculável. os anos oitenta tornaram-se a década do amadurecimento de diversas teorias do caos que abriram . É certo que não há uma regra na área do comportamento humano que determina sob quais condições os falantes evitam um de vários homônimos. mas à base de premissas desconhecidas. nós também compreendemos porque as línguas mudam no decorrer da sua história e porque elas vão continuar a transformar-se no futuro. são explicáveis à base de regras. a auto-amplificação das tendências presentes e uma dependência impressionável das condições iniciais. na sua relação especial entre a ordem e o caos e. que as premissas foram cumpridas. ordens espontâneas mostram uma surpreendente beleza. Muitas vezes. Se nós compreendemos os máximas e regras da nossa comunicação. em conseqüência disso. Geralmente nós verificamos apenas post festum. de fato. ela desaparece da língua. O comportamento destes sistemas caóticos não é indeterminado por si mesmo. Pois as mudanças de amanha são as conseqüências coletivas dos nossos atuais atos comunicativos . a análise do caos determinado não significa apenas desengano sobre predições fracassadas. O que determina as mudanças em progresso. LASS (1980) defende no seu livro “On Explaining language change” a teoria que não há explicações para as mudanças lingüísticas porque não há regras absolutas na área da língua. O comportamento dos falantes pertence às condições prévias de uma mudança lingüística. não são previsões à base de regras incertas. a previsão do português pós-postmoderno do século XXI não pertence às tarefas da lingüística histórica. É errado. porém. a previsão do comportamento de um sistema lingüístico torna-se. Mesmo assim. de princípio. não é possível prever se um certo homônimo vai desaparecer ou não. mas. nos quais a estabilidade anterior se baseou. as transformações reais não podem ser previstas. de fato. Mas ela deve contribuir na solução do problema sobre o que os falantes fazem quando eles comunicam. No entanto. são a realimentação positiva. A trivialidade desta previsão tem sua razão na força da regra subjacente. pois ao lado da suposta falta de regras. há estruturas bem ordenadas que a análise pode explicar. se conhecemos os fatores. regras. O estímulo estético destas estruturas baseia. Só podemos explicar as alterações. impossível. admitem uma predição apenas quando as condições prévias são cumpridas. se uma mudança ocorre ou não. por exemplo. não porque faltem regras. Isto não vale apenas para a biologia ou as línguas naturais. Aqui se mistura o certo com o errado. o tempo. “cada um de nos colabora com sua parte para a evolução da fala humana. Por isso não seja possível prever as transformações futuras. nós conhecemos o resultado e a regra e reconstruímos as premissas. no tempo. As previsões de tendências. quer dizer.

aquela unidade entre as ciências naturais e humanas que já foi dada . também. As condições iniciais se tornam condições laterais que canalizam o desenvolvimento. Pesquisadores de todas as ciências descobriram. se nós dispomos sobre leis que a matemática exprime de maneira exata. falando rigorosamente. deste modo. perdem-se. o decorrer de um processo pode ser prognosticado. enquanto “as formas já criadas servem de modelo para formas novas” (BRÉAL 1897/1992: 13). em comparação com seus elementos básicos. Um sistema é calculável. Isto explica porque o começo de um sistema que se auto-organiza perde-se durante a história da sua evolução. nasce.. Estas condições laterais. o que acontece. Leis que. Deste modo. A formação de um sistema complexo serve muito bem para mostrar o que significa “não ser linear”. que objetos ou fenômenos complexas representam coisas cujos elementos são estruturados de uma maneira que o mero acaso não podia provocar. as condições iniciais transformam-se continuamente. como novo tipo de ciência das estruturas. Na ciência das estruturas complexas revela-se. pois. vale afirmar que a totalidade é mais do que a soma das suas partes. mesmo se as leis sejam determinantes. os vestígios da origem. Inicia-se uma auto-organização do sistema. ela é capaz de exprimir um modelo abrangente de processos diacrônicos. A dinâmica não linear. pois a menor indeterminação inicial amplifica-se como uma avalanche. Já que os efeitos mútuos entre os elementos de um sistema complexo não são lineares. O segredo da multiplicidade encontra-se no fato que as funções que determinam o complexo não são lineares. o que entra no foco das pesquisas são as condições laterais dos processos. Em cada grau da hierarquia. muitas vezes. que os efeitos mútuos entre os elementos de um objeto complexo não são lineares. De fato. revela-se ainda em outro fenômeno muito interessante: a presença de fortes realimentações dinâmicas dentro do sistema que provocam a incerteza do seu estado final. através da colaboração dos elementos. o crescimento do complexo. através do emprego das novas gerações de supercomputadores. os adjetivos “complexo” e “calculável” são ligados através dos seus sentidos contrários. Por isso. se as condições iniciais e laterais da função são bem conhecidas. O fato. abrange também uma teoria dos sistemas complexos. Leis matemáticas determinam. eles também não somam-se por uma simples adição. uma totalidade que se caracteriza. mas. Ao penetrar no mundo do complexo. são surpreendentemente simples. aos poucos. as menores oscilações das condições iniciais podem ter um efeito gravíssimo ao estado final do respectivo sistema. Todos os estágios tornam-se imediatamente o ponto de partida de um novo desenvolvimento. Como teoria mais geral sobre acontecimentos temporais. Um mecanismo não linear causa um crescimento que ultrapassa todos os limites. não é possível prognosticar exatamente um estado futuro de um sistema complexo. ao contrário da física tradicional. no caso dos movimentos planetários. tem função de critérios seletivos: eles delimitam a multiplicidade dos processos virtualmente possíveis ao limitado número dos processos que nós realmente observamos. Devemos a esta faculdade de abstrair o nosso talento de tornar um mundo calculável que a vista não pode abranger. Como já foi dito. Deste modo. por exemplo.29 caminho para uma nova visão do mundo. mostraram-se conexões regulares que explicam o simples na multiplicidade dos fenômenos. especialmente. Nenhuma situação representa um resultado fixo. logo que processos seletivos de aperfeiçoamento se juntam ao fenômeno da realimentação do estado inicial com informações sobre o estado final da última iteração. por qualidades novas: No caso do complexo.

cada forma de organização.. outra explicação para o fenômeno que se ouve em forma de uma anedota contada aos turistas: Não suportando a poluição sonora da área. a final das contas. A primeira explicação para o barulho. aumentem o seu som ao máximo. No entanto. . Basta que qualquer uma das barracas 47 vide: cap. logicamente.. pois. ela continua a ser. então será inevitável que todas as barracas. Nós nos ocupamos. foi substituída pela hipótese bizarra que todo mundo aumenta o seu som apenas porque não agüenta o barulho dos vizinhos. conseqüentemente. cada comerciante tenta combate-la com a mesma tática: aumentar o volume do próprio som. esta que sugere que todos aumentam o seu respectivo som. vamos lá: Por que a segunda explicação é engraçada? Obviamente por causa da surpresa que ela oferece. ao máximo. há um seresteiro ou um carro com um “sonzão” no porta-malas aberto que tentam. porém. 9. possível. em Maceió.” (FARACO 1991: 74). 25. A partir daí. pág. O filósofo alemão HAYEK (1969 e 1983) referiu-se a tal modelo com a apresentação de uma “teoria da ordem espontânea e sua explicação através da mão invisível”. Há. e neste ponto de vista. as estruturas naturais e as culturais mostram-se ambas como uma hierarquia de condições laterais cada vez mais complexas47. pois. torna-la compreensível. Quem faz um passeio pela Avenida Robert Kennedy. o desenvolvimento de uma teoria das transformações lingüísticas nos moldes da teoria das ordens espontâneas era apenas uma questão de tempo. é conduzida a base de informações. impressiona-se logo com a cacofonia que o vento traz das numerosas barracas de praia. a idéia é coerente: Se cada comerciante enfrenta a situação incômoda de ser exposto ao barulho dos vizinhos com a mesma tática de aumentar o próprio som. ou pelo pequeno bairro da Praia de Iracema. A nosso saber. ilumina-la. Ele também já estimulou a adaptação da teoria da ordem espontânea pela lingüística e sociologia. chamar a atenção do público e convencer os clientes a consumir na respectiva barraca. De fato. o primeiro a exigir a exatidão explicativa para uma teoria de sintaxe foi Noam Chomsky Mas o que vale para a área restrita da sintaxe deve ser padrão para qualquer teoria empírica: Ela não pode contentar-se com a descrição de um fenômeno. a curto prazo. com a apresentação de uma teoria de sistemas complexos que explica o estado atual de uma língua como conseqüência de sua evolução histórica. Um modo certo de tirar a graça de uma anedota é analisa-la.30 como perdida. ainda que seja totalmente irracional.7. com seu som tropical. Ela afirma que as transformações lingüísticas podem ser explicadas nos moldes de uma teoria sobre as relações entre escolhas individuais e suas conseqüências involuntárias para um código lingüístico. a fim de que ninguém precise escutar o barulho dos respectivos vizinhos. em Fortaleza. O filósofo americano NOZICK (1976: 32) desenvolveu a mesma idéia sobre o caráter duplo de certos fenômenos culturais para seu conceito de uma economia nacional. mas ela tem que explicar porque este fenômeno apareceu. porque eles querem atrair clientes ou porque eles gostam mesmo de música. A EXPLICAÇÃO ATRAVÉS DA MÃO INVISÍVEL “Explicar um significado peculiar nas ciências históricas significa interpretar a mudança. A cada dez metros. como já foi dito.

Pressupondo que a premissa é correta. “como que foi conduzido por uma mão invisível” (SMITH 1776/1920: 235). então. etc. em respeito a todas estas instituições. o fato que ele engana o leigo. Antes de discutir a forma desta explicação. sem exceção. está independente da observação do nível microscópico. Nós podemos. a língua.” (ibid. por exemplo. . bem introduzido e geralmente conhecido na filosofia política e na teoria das economias nacionais. a moda. A nosso saber. Na terminologia do nosso trabalho. sem relacioná-la com nossos próprios hábitos lingüísticos. Foi o escocês Adam Smith que cunhou esta metáfora nos seus estudos sobre a economia liberal. a percepção do outro. Ela explica um fenômeno. por assim dizer. é reduzida pela vantagem que ele está. um inventor. Conforme Adam Smith falamos de explicações através da mão invisível. Uma desvantagem é que a metáfora da mão invisível. Trata-se. ao explicar como ele nasceu ou como ele pudesse ter nascido. necessariamente. sem querer e. achar graça em comprar o produto mais caro de dois artigos equivalentes e. podemos lamentar a alta taxa de inflação. a moral. A escolha deste nome tem vantagens e desvantagens.). por qualquer razão. os quais se acreditava que foram criados pelos esforços sistemáticos de um indivíduo ou um grupo. há muito tempo. o contrário está certo. ao mesmo tempo. Suas áreas características são as instituições sociais. Mas. a princípio. com ordens socioculturais.cit.. de aumentar o som ao máximo possível representa um fenômeno de terceiro tipo e a sua explicação é uma explicação através da mão invisível. na verdade. a observação do nível macroscópico. com Robert Nozick: “A explicação através da mão invisível explica alguma coisa.. vamos fazer algumas observações sobre seu nome “teoria da mão invisível”. podemos afirmar. Em resumo: No nível microscópico de uma instituição social encontramos as ações individuais que geram e mantêm as estruturas do nível macroscópico da mesma instituição.) Trata-se de um tipo de explicação genética. como. fenômenos que facilmente sugerem que eles foram intencionalmente criados por uma suprema instância de planejamento geral. Deus ou uma comissão central.: loc. não se baseia em nenhuma intenção. ao sugerir que ela se refere a um mistério. que parece como o resultado de um plano premeditado pelo homem. que são percebíveis em nível macroscópico. assim como microscópico. Elas explicam como uma estrutura complexa ou um sistema complexo. Nós somos capazes de nos queixar sobre a suposta decadência do vernáculo. no fundo. causada pelas mudanças em progresso. A teoria da mão invisível quer explicar estruturas e processos que os homens geram despercebidamente. A desvantagem do termo. de fenômenos do terceiro tipo.” Num sentido muito amplo.31 comece. o dinheiro. foram gerados e mantidos através de um processo que. nesta estória. pelo contrário. (. mais uma vez. engana leitores que ainda não conhecem o termo. o hábito. as favelas. mas a percepção de um nível do fenômeno não implica. a aumentar o seu som e todas as outras seguirão. A despeito disso. envolveu a idéia de um sistema ou uma estrutura total. mas que. a expressão “invisible hand explanation” (explicação através da mão invisível) foi primeiramente usada por NOZICK (1976: 32): “Tais explicações mostram uma certa beleza. de maneira nenhuma. por exemplo. Ela se ocupa. o resultado será inevitável.

que eles se constituem de um nível microscópico e um nível macroscópico. então. “substituições” ou “avanços”.48 Para entender um fenômeno de terceiro tipo temos que conhecer o seu processo de formação da mesma maneira que os resultados deste processo de formação. Mas eles se manifestam de maneira diferente. porque as metáforas que dominam alguns modelos da lingüística histórica afirmam que certas palavras “deslocam” ou “substituem” outras. O que nós chamamos aqui. num modelo que consegue desenvolver o segundo estrato. o fato. do nível microscópico das ações sociais dos indivíduos. It typically replaces an easily forthcoming and initially plausible explanation according to which the explanandum phenomenon is the product of intentional design with a rival account according to which it is brought about through a process involving the separate actions of many individuals who are supposed to be minding their own business unware of and a fortiori not intending to produce the ultimate overall outcome. mas episódios de processos da evolução cultural. com fenômenos artificiais. a moral atual. Tais modelos. na verdade. O modelo ideal da teoria da mão invisível. que eles têm.” Isto. o nível macroscópico da instituição. representa o outro. quem não têm um início e nem um fim determinado. alguma coisa em comum com fenômenos naturais e do outro lado.” BRÉAL (1897/1992: 34) também afirmou: “A questão lingüística é no fundo uma questão social ou nacional. é uma favela de negros. em Nova York.32 Tal independência explica. ou que elas “avançam” ou “penetram” no corpo da língua. geralmente. ULLMANN-MARGALIT (1978: 278) a caracteriza como se segue: “An invisible-hand explanation explains a well-structured social pattern or institution. compõe-se de três graus: 48 Claro que nós não negamos que motivos racistas também podem ter um importante papel na formação “orgânica” de uma favela.. não representam resultados finais de certos processos de formação. A teoria da mão invisível quer realizar exatamente isto. o fato. mas ambos simultaneamente. mas as duas favelas representam dois fenômenos que se distinguem essencialmente um do outro. à base do primeiro estrato. Uma explicação através da mão invisível deve refletir as três qualidades essenciais dos fenômenos de terceiro tipo: (i) (ii) (iii) o fato. de um lado.” Já HUMBOLDT (1836/1985: 46) escreveu a respeito da língua: “Sua verdadeira definição. que eles são de natureza processual. igualmente como Soweto na Africa do Sul. pois um fenômeno de terceiro tipo não representa apenas um dos dois itens – o processo de formação ou o seu resultado -. “resultados” – o português do Brasil. quer dizer como um fenômeno de terceiro tipo. também. a favela de Harlem – na verdade. encontra-se. vale para todos os fenômenos de terceiro tipo.. não efetuam uma ligação entre as mudanças gerais e o comportamento lingüístico dos falantes individuais que cause aqueles “deslocamentos”. um artefato dos racistas. tem que ser uma genética. Enquanto uma cresceu “organicamente”. por exemplo. Isto significa que há uma tendência na teoria lingüística de prescindir das explicações e de contentar-se com as descrições dos fatos atuais ou passados. o valor do Real. de maneira simplificada. O Harlem. conseqüentemente. . A explicação adequada de uma instituição social estratificada em dois níveis.

tem intenções semelhantes. pelo menos em parte. a definição da estrutura que estas ações individuais geraram. sua estratificação num nível microscópico e num nível macroscópico e o fato que ela contém características de um fenômeno natural. a representação do processo que explica como uma multiplicidade de ações individuais causa a estrutura em questão. intenções. num desenho do parque que mostra apenas os edifícios. (ii) (iii) Um exemplo muito simples encontramos na teoria das trilhas: Em muitos relvados dos jardins públicos podemos encontrar placas que proíbem pisar na grama. econômico e bem planejada. respectivamente. sempre há nestes lugares uma rede de trilhas que prova que os indivíduos não querem respeitar a estrutura de atalhos pavimentados. Suponhamos que o sistema de trilhas representa a conseqüência não intencionada daqueles ações intencionais e finais que definem-se pelo objetivo de chegar a certos lugares à pé. uma explicação final que é típico para explicações de produtos artificiais. assim como características de um fenômeno artificial. como solução de um problema de transito. objetivos e convicções que formam o fundamento das ações dos indivíduos que participam no respectivo fenômeno. definição das condições gerais e dos motivos. . eles não representam a menor distância entre dois pontos que os visitantes gostam de freqüentar. e a criação gradual da estrutura fixa de trilhas representa o terceiro grau do nosso modelo. ela é mais elegante. acessos. Uma explicação através da mão invisível explica seu explanandum. o fenômeno de terceiro tipo. fica óbvio que a geração do sistema de trilhas exigiu muito menos inteligência do que o planejamento da rede de atalhos pavimentados. Esta teoria contém os três graus do nosso modelo ideal: indicamos os motivos que causam as ações individuais (a escolha do trecho sob consideração da máxima de economizar energia).33 (i) a representação. seria possível antecipar onde as trilhas vão crescer. Por quê? O sistema de trilhas tem uma estrutura mais racional. ela é mais “inteligente” e. Nossa teoria da mão invisível em respeito a este fenômeno toma este fato em consideração: Nossa hipótese é que uma grande parte dos visitantes do parque prefere andar por caminhos mais curtos em vez de passear por mais compridos. mas da sua preguiça. e uma explicação causal que é típico para a explicação de fenômenos naturais. Observamos que os atalhos pavimentados não correspondem com esta tendência encurtadora porque. Seria possível predizer o sistema das trilhas com uma precisão muito maior do que qualquer presunção sobre o sistema de caminhos que os arquitetos de paisagem planejaram. Sabemos que a grama estiola em lugares que são muito freqüentados. Também fazem parte desta teoria. como uma conseqüência causal de ações intencionais de indivíduos que. instalações. É obvio que a estrutura de trilhas é mais engenhosa do que a estrutura projetada pelos arquitetos de paisagem. respectivamente. muitas vezes. inclusive as suas funções. o processo da mão invisível constitui-se na destruição paulatina do gramado nos percursos mais freqüentados. Pois a “inteligência” do sistema de trilhas não é resultado da inteligência dos seus criadores. No entanto. Isto vale também para o pequeno jardim zoológico de Fortaleza. Estas redes de trilhas sempre são construídas de uma maneira inteligente. Todavia. Esta teoria também corresponde a nossa exigência de representar as três qualidades essenciais de um fenômeno de terceiro tipo: seu caráter processual. atendendo a máxima de economizar energia e tempo. a representação. Além disso.

Se eu não gosto de som alto eu preferia antes evitar o barulho das barracas do que aumentar o barulho na minha própria. na plausibilidade da pressuposição que os homens preferem antes andar por caminhos mais curtos do que por mais compridos. No momento. inevitavelmente crescerá. o explanandum realiza-se necessariamente. Por isso. se nós temos que imaginar esta situação em Coréia da Norte ou em Japão. Temos a condição ideal para a geração de uma rede de trilhas. do mesmo modo. pois. contanto que nossa premissa seja correta. simplesmente. no entanto. da mesma maneira. se ela descreve a verdade. por um lado. geralmente. uma explicação pela mão invisível. Apesar disso. ela é. geralmente. se as leis gerais estão em vigor e se o processo da mão invisível necessariamente conduz ao seu explanandum. é até difícil predizer o nosso próprio comportamento para um prazo maior. A veracidade da teoria da mão invisível. representa uma estória cheio de suposições. independentemente da possibilidade de verificar as suas afirmações. a grama e aproveitar um . por razões técnicas ou psicológicas. “verdadeira”. se as premissas são corretas. por outro lado. em formação. eu não queria incomodar os outros com meu barulho. conforme as leis lógicasmatemáticas ou causais. estamos dispostos a pisar. é difícil observar um processo de mão invisível diretamente. no entanto. assim como na rede de veredas. sob certas circunstâncias. nem se ele vem do meu próprio som. os caminhos pavimentados enquadram a relva em forma retangular. se não por nossa cabeça. ela é. então pelo menos por um jantar. mas as sua premissa não é plausível. ou há 200 anos em Londres? Ninguém ousaria mais de apostar. as vezes. já que eles. como eu não suporto o deles. e. muitas vezes é impossível verificar.34 Apesar de nunca ter observado a criação de uma rede de trilhas acreditamos que esta explicação é correta (embora seja possível de formulá-la melhor do que nós fizemos). De onde nós tiramos esta confiança? Não é possível que ela é. quer dizer. A solidez da teoria da rede de trilhas. nós tivéssemos a coragem de apostar nisso. quer dizer. Mas podemos predizer que esta rede de fato crescerá? Caso esta situação encontra-se no Brasil ou na Alemanha. porque não temos os conhecimentos necessários para poder avaliar como as pessoas reagem ou tivessem reagido: Há regras que proíbem pisar a grama? Qual é a rigidez destas regras? Qual é a disciplina das pessoas em questão? Qual é a sua atitude em respeito a infrações? Qual é a sua atitude em respeito a proteção de relvados? De fato. se os supostos motivos para certos comportamentos são corretos ou não. se as premissas essenciais são plausíveis e se o processo da mão invisível realiza-se necessariamente. Ela é boa. na cacofonia. na conclusão lógica. mas qual seria a nossa sentença. as jaulas dos macacos e o pequeno restaurante encontra-se uma grande área gramada. as premissas e as leis. porque eu não gosto de barulho. porque ela pode ser boa ou ruim. não suportam o meu. não pode ser comprovada porque é impossível provar a veracidade das premissas essenciais. muitas vezes. se encontra. que uma rede de trilhas. Suponhamos que entre a entrada do jardim zoológico. Além disso. Tudo isso não precisa diminuir o valor de uma explicação através da mão invisível. são corretas. errada como nossa teoria da cacofonia na praia? Quando uma explicação pela mão invisível é uma boa explicação? “Boa”. Isto justifica seu valor como uma anedota surpreendente. Ser plausível e concludente são os critérios decisivos para a exatidão de uma teoria da mão invisível. A teoria da cacofonia foi concludente. se o seu explanans. Já afirmamos que em ambos os exemplos.

Caso que haja alguns pequenos sebes. “eu vi”. A razão deste fenômeno se encontra no fato que nós não podemos predizer as suas premissas. mas é impossível predizer. E segundo. como “você viu Sousa?”. “o que nós estamos fazendo. porque há pouca necessidade prática para predições lingüísticas. cercas ou canteiros de flores no meio. O que elas permitem é apenas uma extrapolação: “Se isto ou aquilo acontecerá. de modo geral. mas como elas se desenvolveram. Aliás. se ela não permite uma orientação para o futuro? O sentido de uma diagnose. por quaisquer outras razões? Tudo é possível. enquanto a atual variante normativa. Primeiro. aos poucos.35 encurtamento. Também é impossível predizer se perguntas. Não é nossa tarefa predizer a estrutura do português do século XXI. Teorias da mão invisível não tem valor prognóstico no mesmo sentido. Da mesma maneira podemos extrapolar uma tendência geral que o elenco dos pronomes da fala culta de Fortaleza continuará a distanciar-se do elenco conforme a NGB. sempre quando estamos nos comunicando?” Se nós entendêssemos as máximas e regras da nossa comunicação. gerarão esta ou aquela estrutura. hoje em dias.” Os economistas tem razão em lamentar a falta de valor prognóstico das suas teorias da mão invisível. que a essência. mas. sabemos. Será que a nossa disposição de pisar a grama crescerá nos próximos vinte anos porque nós queremos conceder à grama a mesma proteção que nós já oferecemos às flores? Ou será que ela vai diminuir. se o pronome “tu”. para sistemas mais complexas de terceiro tipo. por exemplo. Ela não explica como as coisas vão continuar. serão respondidas com frases do tipo “eu vi ele”. não é possível fazer predições particulares. predições gerais e estruturais. esta disposição pode mudar. desaparecerão. mais uma vez. no entanto. Uma teoria da mão invisível. O lei da gravidade permite predições sobre o comportamento de uma maça. Elas permitem no máximo predições hipotéticas: “Se as pessoas agem conforme esta ou aquela máxima. nós vamos observar que. ainda estão estigmatizadas. na medicina. mas. especialmente em companhia dos nossos filhos ou sob o olhar desfavorável de um guarda. em cem anos. quando muito. como suas afirmações são de pouca confiança. que ela representa a base de uma terapia. teríamos condições de compreender porque o Português transformou-se no passado. tem um valor diagnóstico. encontra-se no fato. como uma teoria física. em conseqüência destas ou daqueles condições gerais. Ninguém faz diagnoses sem qualquer intenção concreta. como por exemplo. esta ou aquela estrutura vai crescer. desaparecerá completamente e se ele será substituída pelo pronome “você” em todos os contextos. que a literatura inglesa chama “patterns predictions”. em conseqüência disso. ou o padrão culto. dependa da exatidão dos valores previstos. porque é um engano pressupor que o caráter científico. mas para a lingüística isto não representa uma deficiência. nas teorias das ciências humanas. as pessoas comportarão-se de uma ou de outra maneira e. para um sistema de trilhas. Para avaliar o valor de uma teoria diagnostica do português do Brasil temos que lembrar. As chamadas leis de mercado. mas queremos contribuir na compreensão da questão. não permitem predições sobre o vínculo empregatício do operário Sousa. por isso. no máximo.” Conhecemos este tipo de predições pela economia nacional ou pelos boletins meteorológicos. Isto mostra que as explicações através da mão invisível tem apenas um pequeno valor prognóstico. a mudança e a gênese de um fenômeno de terceiro tipo mantêm uma íntima conexão. “eu o vi”. para que serve uma diagnose. antes de mais nada. que. e porque ele continuará a . elas permitem predições sobre o desenvolvimento geral do desemprego.

neste contexto. regras ou motivos das nossas ações comunicativas que proporcionam e explicam aquele processo de mão invisível que gera as respectivas estruturas da nossa língua. A tendência crescente de usar as expressões “rapariga”. nesta tendência. há uma norma social que exige tratar as mulheres com delicadeza. “the tendency in the language that i called “praise him / blaime her”. sentido pejorativo: “meretriz” 51 “Mulher”. 52 No século XIII. Deste modo. em caso de dúvidas. Como aconteceu isto? Quem gosta de pensamentos lineares vai pressentir. à máxima “praise her”.36 transformar-se no futuro. aos poucos. 1997): “mulher moça”. a palavra “dona” ainda significa exclusivamente “proprietária”. “esposa” ou “mulher” (CUNHA. eles oferecem uma cadeira. “cachopa”. numa 49 50 Sentido original (conforme CUNHA. Mas pronunciada com o menosprezo do homem que julga-se. “uma mulher que tem autoridade ou poder sobre outras pessoas” ainda é diretamente ligado à sua origem latim. e tradicional que não entende muito bem de negócios. Todavia. em certas situações. Seu sentido básico. no atual registro formal da vida comercial. mas. a placa “senhoras”. no seu sentido à palavra. um motorista melhor. no qual cada falante sempre quer o melhor (= elogiar). faz parte deste comportamento cortês. quer dizer. a palavra facilmente assume valor pejorativo. 1997). pois as mudanças de amanha são as conseqüências do comportamento coletivo dos falantes de hoje. “melhor escolher. enquanto “mulheres” ou “elas” corresponde com o estilo de uma barraca de praia. Temem alguns vendedores. que a antiga forma de respeito hoje pode evocar a idéia que a cliente sente-se avaliada como simples “dona de casa”. Quando este jogo não é pressuposto. Este destino atingiu as palavras “rapariga”49 ou “cachopa”50 e “mulher”51 e . é considerado como uma forma inoportuna e demasiadamente familiar. sentido pejorativa: “prostituta” Sentido no século XVI (conforme CUNHA. uma certa forma de misoginia latente que leva um falante individual ao hábito de empregar tais palavras cada vez um pouco mais pejorativas. uma palavra que pertence a um nível alto demais do que baixo demais”. ainda não evoca associações negativas. o vocativo. Trata-se. Claro que a respectiva máxima vale apenas em situações onde os falantes jogam o jogo de galantaria. uma pessoa mais velha. A forma exprimiu respeito e referiu-se a uma certa posição social. nos banheiros dos melhores restaurantes. A tendência de escolher. de um fenômeno paradoxo. as vezes. Os homens abrem a porta para uma mulher. é mais conveniente dizer “sua esposa” ou “a Senhora Fulana”. “Dona Fulana”. enquanto a antiga forma neutra transforma-se numa pejorativa. mas. a ajudam a vestir o casaco ou acendemlhe o cigarro. como a brasileira. por exemplo. antes de tudo. por assim dizer. Quem já se dirigiu. transforma as respectivas palavras em formas pejorativas. a variação normal pode até transformar-se numa expressão desagradável ou ofensiva. Mas como emprega-se uma palavra cada vez mais pejorativa? GRAHAM (1975: 61) acredita em ter descoberta. . também não vai deixar escapar “dona”52 ou “senhora”. sem querer. antes uma expressão que pertence a um nível social ou estilístico mais alto do que baixo. provavelmente. que viveu numa tradição cortesã. uma tendência que transforma a próxima palavra mais elevada numa forma não marcada ou neutra. mas. “mulher” ou “dona” de maneira pejorativa não se deve à máxima “blame her”. Este comportamento cria. encontramos hoje. Numa sociedade. Vamos observar um fenômeno empírico: Expressões que se referem a mulheres sempre foram submetidas a discriminações pejorativas. 1997): “mulher moça”. Uma lingüística diacrônica que quer ultrapassar a mera descrição dos fenômenos lingüísticos deve esforçar-se para descobrir aqueles máximas. em presença de uma mulher. então. A máxima não é “blaime her”. A expressão “Como vai a sua mulher?” é considerada impertinente.

(.37 discussão conjugal. Por isso. FINAIS E FUNCIONAIS A comparação do processo que gera fenômenos lingüísticos com a criação de uma rede de trilhas não é uma novidade... a frase. cada vez que um camponês individual levanta a sua perna individual e faz um passo numa certa direção. com a cortesia geral ou com o verdadeiro estrato social...) No entanto. Pressuposto que nossa explicação para o emprego pejorativo representa uma boa explicação. Este exemplo serve também para explicar. e do outro lado. a vantagem de uma explicação através da mão invisível. Mas ela permite uma predição estrutural. . o que ela consegue finalmente explicar e o que não? Ela não presta para fazer uma predição sobre o desenvolvimento do sentido das palavras “mulher” ou “Senhora”. mostraria um cinismo sem piedade. de um tipo de inflação semântica: a repetição milionária de uma expressão provoca a sua desvalorização no mercado lingüístico. Isto significa que a escolha de palavras neste campo semântico. (.) apenas há.) empregou esta imagem no mesmo sentido com nós: “Se todos os camponeses de uma aldeia acreditam.) Neste caso. Trata-se. conforme as circunstâncias. MAUTHNER (1912/1982: 83seg. que o uso pejorativo continuará no futuro. mais uma vez. A “emancipação das Senhoras” num programa político da PT soaria tão estranho como o “alfaiate de mulheres” na revista CARAS. mas apenas camponeses. Um jornal que substitui.) Não há uma aldeia. tem nada a ver com uma alta estima ou um desprezo gerais. se chama vontade ou costume. (. (... no nível macroscópico da língua uma tendência pejorativa que parece ser conduzida por uma mão invisível. neste fenômeno. se o jogo das galantarias vai continuar. que o mais confortável caminho para a próxima igreja ou bar cruza um certo prado. numa notícia sobre as vítimas da seca. por exemplo... conhece o efeito desta cortesia desmedida.) Os mesmos fatores.. os passos dos camponeses que andam. 10. entra neste jogo um fator psicológico que. de fato.. a longo prazo. pela expressão. um valor prognóstico que cresce na medida em que os estudos lingüísticos e sócio-históricos tornam o modelo mais detalhado e sutil.. Em resumo: O motivo para o comportamento galante no nível microscópico dos falantes individuais provoca. depende de muitos fatores sociais. (.. (.. que nós não queremos analisar neste contexto.) então podemos observar.(. A nossa explicação tem. Se este jogo ainda durará por muito tempo. Nossa explicação esclarece um aspecto na nossa fala..) Todavia. podemos falar metaforicamente de uma lei natural. “Mas a Senhora sabe tudo melhor!”. EXPLICAÇÕES CAUSAIS. Já em 1912. uma das suas funções e os seus efeitos macroscópicos. enquanto um clube de futebol tem uma equipa “feminina” e o serviço social da prefeitura oferece um “lar para mulheres”.. a sua parceira com a expressão.) não há uma lei natural ativa que força a aldeia a usar o caminho mais próximo. mas com a questão. descobrimos entre aqueles movimentos do homem que são subsumidos ao termo “língua”. “Os Senhores e Senhoras morreram de fome”.. de um lado o barro pisado com mais força. um clube de tênis tem uma divisão para “Senhoras”. que eles trilham mecanicamente uma vereda onde a grama não crescerá mais. se é conveniente jogar o jogo de galantaria ou não. “Os homens e mulheres morreram de fome”. (.

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Mauthner referiu-se, neste trecho, à hipótese dos neo-gramáticos, que as leis fonéticas estejam em vigor sem exceções. Obviamente, ele conheceu bem a combinação entre momentos causais e finais que determina os processos lingüísticos. No fim do século XIX houveram ainda outros autores que já sabiam que sempre são dois fatores que colaboram no processo das mudanças lingüísticas, respectivamente, na evolução de um estado da língua: MÜLLER (1862/1892: 34) escreveu: “O processo que dá a língua uma substância fixa (...) reúne dois elementos contrários, a necessidade e a vontade livre”; e WHITNEY (1876: 283) escreveu um pouquinho mais tarde: “The process of language-making (...) works both consciously and unconsciously, as regards the further consquences of the act.” Apesar de que o conhecimento deste fato é certo e decisivo, nenhum dos lingüistas conseguiu aproveitar-se dele a fim de formular um conceito concludente de língua que implicasse a idéia da evolução lingüística. O que é mais esquisito ainda, ninguém prosseguiu na abordagem de Mauthner, Müller e Whitney e ela quase caiu em esquecimento. Em vez de analisar como a colaboração entre necessidade e vontade funciona, a lingüística começou a concentrar-se, novamente, numa questão antiga que já tinha levado várias gerações de lingüistas ao caminho errado: a pergunta, se o desenvolvimento da língua representasse ou um processo final ou um processo causal. “O tempo muda tudo, e não há uma razão, porque a língua deveria ser isenta desta lei geral”, escreveu SAUSSURE (1916/1967: 91) no seu Cours, numa franca ingenuidade; e invertindo esta explicação mecanicista, alguns lingüistas modernas, como por exemplo, AYREN (1986: 110), desenvolveram ainda mais teorias organicistas ao anotar afirmações como: “A língua vive, e quem vive transforma-se.” Entre os lingüistas contemporâneos COSERIU (1958/1974) foi, ao nosso ver, o primeiro que criticou fundamentalmente a procura para as origens causais das mudanças lingüísticas. O seu trabalho “Sincrônia, diacrônia e história”, publicado já em 1958, representa até hoje um estudo básico da teoria de mudanças lingüísticas. Nele, Coseriu escreveu: “A idéia da causalidade (...) por um lado é um resto da antiga interpretação da língua como um ‘organismo natural` e, por outro lado, ela é um resultado do sonho positivista de descobrir as supostas ‘leis` da língua (ou das línguas) e de transformar a lingüística, em analogia com as ciências naturais, numa ‘ciência exata’.” COSERIU (1958/1974: 152). Este sonho positivista, de fato, realizou-se em alguns trabalhos mais recentes. Quem procura, como Chomsky e sua escola gerativista, estruturas da língua humana que são geneticamente determinadas, encontra-se na área da biologia humana e, provavelmente, pode exigir, com razão, a aplicação do método de Galileu na sua pesquisa. Ainda assim, Coseriu afirma com razão, que as teorias causais não são adequadas à explicação das mudanças lingüísticas. Sua interpretação é correta, porque o desenvolvimento histórico das nossas línguas é independente da parte geneticamente determinada da nossa habilidade de falar. A chamada gramática universal representa apenas os limites restritivos das mudanças virtuais. Ao formular uma explicação alternativa, COSERIU (1958/1974: 166) revela, querendo ou não, que até ele ainda está preso na dicotomia traiçoeira entre natural e artificial: “Nos fenômenos naturais, sem dúvida, temos que procurar necessidade exterior ou causalidade; nos fenômenos culturais, no entanto, necessidade interior ou finalidade.” Coseriu deduz a sua hipótese sobre o caráter final da língua da premissa correta, que a língua “não é um objeto natural (...), mas sim um objeto cultural” (ibid.: 143), e

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que ela representa “um mundo criado por homens” (ibid.: 152). No entanto, sua hipótese implica também a premissa errada e dogmática que os objetos culturais, feitos pelo homem, necessariamente, tem que ser explicados por sua suposta finalidade, “pois as atividades livres do homem sempre são motivadas pela pergunta ‘para que?` e nunca pela pergunta causal ‘por quê?`” (ibid.: 142). Do mesmo modo, como os autores do século XIX (Mauthner, Müller, Whitney, etc.) que tinham se atrapalhado na dicotomia entre natural e artificial, Coseriu também sente-se incomodado por esta questão e aspira a uma saída desta bipolarização enganadora. Claro, que ele sabe bem que os falantes, geralmente, nem tem a intenção de provocar uma mudança lingüística e nem tem consciência dela. Por iss ele critica, com razão, o conceito de Henri Freis sobre a “finalité inconsciente” e ele acusa o lingüista francês de confundir os fatos ao afirmar que forças inconscientes sejam capazes a causar as mudanças lingüisticas. No entanto, nem Coseriu consegue realizar uma retificação concludente dos fatos: “Correto é apenas o fato (...), que a finalidade aparece espontânea e diretamente, sempre quando há necessidade de exprimir-se, e nunca em conseqüência de uma intenção racional de transformar o código lingüístico que vale entre os indivíduos.” (ibid.: 170). Considerando esta afirmação, em que sentido podemos ainda falar de intenção? Como já vimos, a finalidade, de fato, tem um papel importante nas mudanças lingüísticas; mas sempre em colaboração com processos causais. Sob certas circunstâncias, os resultados das ações finais, ou melhor dizer, das ações intencionais acumulam-se e provocam estruturas que não pertencem a área da finalidade das diversas ações dos indivíduos. Esta acumulação é um fenômeno causal. Deste modo, ambos os partidos, os “finalistas” assim como os “causalistas”, podem reclamar uma parte da verdade para si. Seu erro encontra-se na pretensão de exigir exclusividade para seu ponto de vista, quer dizer, na sua incapacidade de reconhecer a colaboração entre processos finais e causais. Esta incapacidade tem sua origem na unilateralidade dos dois pontos de vista. Quem percebe uma mudança lingüística pelo ponto de vista do sistema lingüístico, percebe-la como um fenômeno causal. E, com efeito, este modo de ver o processo de mudança, é certo, pois, o fato que os falantes, por qual razão que seja, mudaram, por exemplo, a sua preferência de expressão provocou, inevitavelmente, o desaparecimento da palavra “saga2” 53 no significado de “bruxa” ou “feiticeira” em favor da palavra “saga1” no sentido de “lenda” ou “narrativa histórica”54. Apesar deste tipo de conflito entre homônimos, pode também haver um conflito entre sinônimos. A decisão de uma escolha lingüística a favor ou desfavor de uma expressão mais ou menos sinônima, como, por exemplo, “doce de gelo” e “sorvete” ou “ceroula” e “cueca”, provoca a arcáização ou o sumiço de uma das formas lingüísticas em alternância, pois, se uma palavra cai em desuso, rompe-se a cadeia escalonada entre ensinar e aprender e isto provoca, com necessidade causal, o desaparecimento desta expressão numa dada língua.
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vide: CALDAS (1968: 3616): saga2: nome que os romanos davam às bruxas e feiticeiras: luda por ora a saga do inróito não passou (Castilho). saga3: ant. reçaga, retaguarda, coice. 54 Apesar do fato, que a palavra ainda encontra-se neste sentido, por exemplo, no “Dicionário de Português – Alemão” (1989) da “Porto Editora”, nós não encontramos mais um falante contemporâneo no Brasil, que ainda lembra-se da palavra no sentido de “bruxa”.

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Ao contrário disso, quem percebe uma mudança lingüística pela perspectiva dos falantes que se comunicam percebe apenas finalidade; uma finalidade, porém, que não se refere à intenção de mudar a língua, mas, exclusivamente, ao desejo de ter êxito na respectiva ação comunicativa. Quem empregou, na sua fala, a palavra “saga2” no sentido de “bruxa”, quem falou de “doce de gelo” e teve a intenção de referir -se ao seu desejo de consumir uma sobremesa, correu, a partir de um certo momento ou em certos contextos, perigo de ser mal compreendido e arriscou, deste modo, o sucesso da sua ação comunicativa. Assim, a sua escolha em detrimento da forma “saga2” (= “bruxa”) ou da expressão “doce de gelo” não foi causada pela existência de homônimos como “saga1”55 ou “saga3”56 ou de sinônimos como “doce de gelo” e “sorvete”, mas motivada pelo desejo de não ser mal compreendido. O fato de ter homônimos ou sinônimos, num corte sincrônico de uma língua, não representa a causa da mudança, mas, como Coseriu observou corretamente, uma condição prévia, que pode provocar uma predisposição entre os falantes para escolher, em certas situações, aquela alternativa entre as diversas expressões que evita o perigo der ser mal entendido. Isto significa que a mudança lingüística não representa um fenômeno final, porque ela não ocorre à base de intenções. O que tem finalidade é apenas a escolha de uma expressão alternativa em contextos equívocos. O resultado desta escolha intencional dos indivíduos é a mudança da língua. Esta é, então, uma conseqüência causal das ações comunicativas do conjunto de falantes, cujos membros têm, pelo menos em parte, a mesma intenção: evitar um mal-entendido. Observamos os dois seguintes tipos de afirmações que facilmente encontramos em muitas explicações para fenômenos lingüísticos: (i) (ii) A causa do desaparecimento de “saga2” (“bruxa”, “feiticeira”) foi a situação homonímia com “saga1” (“uma narrativa em prosa”). A palavra “saga2” desapareceu do português do Brasil, porque ela é um homônimo do palavra “saga1”.

Estas afirmações são erradas? Ou elas apenas não conseguem explicar o fenômeno de maneira adequada? Com certeza, elas não são totalmente erradas; elas até conseguem dar a impressão de que se trata de duas explicações fortes, mas, quem olha mais profundo vai logo perceber que a homonímia nem era necessária, nem suficiente para explicar o desaparecimento de “saga2”: Será que “saga2” não teria desaparecido, se ela não fosse um homônimo de outra palavra? Talvez sim, talvez não; quem sabe? “Saga2” tinha que desaparecer necessariamente por causa da homonímia? Não. Primeiro, porque
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vide: CALDAS (1968: 3616) : saga1: tradição histórica ou mitológica dos escandinavos// Espécie de xácara ou canção popular que tem por tema algumas dessas tradições: “A monarquia morreu (...) Deixemo -la na podridão silenciosa do seu transe, que, nem a lira dos bardos entoará para ela sagas épicas, nem a bôca (sic!) dos áugures há de rezar-lhe outros responsos que não sejam desdenhosas vaias por não ter sabido defender-se. (Fialho, Saibam Quantos, p.14, ed.1914).// fr. saga deriv. do ant. escand. saga.. 56 vide: CALDAS (1968: 3616): saga3: ant. reçaga, retaguarda, coice. Obs.: Esta forma, na verdade nunca entrou em conflito com os outro dois homônimos, porque ela já tinha desaparecida durante o século XVI quando a palavra “retaguarda” (= o ultimo elemento da tropa) de origem italiano (“retroguàrdia”) instalou-se no português. Os exércitos da Itália renascentista, na época foram considerados uns dos mais efetivos da Europa. A importância cultural da península, nesta época, manifesta-se em inumeráveis influências italianos nas línguas européias.

a forma que podia ter desaparecido e ter sido substituída por outra palavra poderia ser “saga1” em vez de “saga2”. evitaram o seu emprego em favor de expressões alternativas. ela não fez mais parte do léxico dos falantes. nós consideramos a relação de “porque” como transitiva. ocorria no português desde 1844 como derivado da palavra latim saga. os motivos e causas do desaparecimento da palavra “saga2” que. que é uma forma mais erudita. Analisamos. nórdicas. na melhor das hipóteses. É provável que nós temos uma disposição de aceitar tais abreviaturas como explicações. por exemplo. CUNHA (1997: 698) 59 cf. redigidas sobretudo na Islândia nos séculos XIII e XIV”59. CUNHA (1997: 698) cf. respectivamente “porquê”. A afirmação (ii) representa. porque os falantes que ainda dispuseram desta palavra. “uma saga1/2 interessante”. etc. Quem usou “saga1” não pôde evitar o risco de ser mal compreendido. . A palavra “saga2” não desapareceu porque ela manteve uma relação de homonímia com a palavra “saga1”. no Português. a uma certa altura. mas quase nunca no mesmo contexto . Este risco aumentou ainda mais. que têm por tema certas tradições históricas ou mitológicas. caiu em desuso. como. porque. porque o uso de ambas as formas homonímias pôs o sucesso da comunicação em perigo. “Saga1” correu mais freqüentemente o perigo de ser mal interpretada. Houve o risco de serem mal compreendidos. em seguida. porque ambos os homônimos pertencem a campos semântico que podem ocorrer no mesmo contexto60: “Sagas1 escandinavas não tratam de sagas2 romanas. que dão às frases (i) e (ii) a impressão de ter força explicativa. históricas ou lendárias. mas porque. “uma saga1/2 feia”. contudo esta afirmação não vale para a palavra “saga1” que. apenas ocorre desde o século XX58 como “designação comum às narrativas em prosa. “saga1”. é possível substituir o significado de “saga2” por este de “saga1” e vice-versa. teoricamente. quando ele cita dois fatos dos quais nenhum é necessário. nem suficiente para explicar a existência do outro? A razão disso encontra-se no emprego abusivo das expressões “causa”. Por que tantos lingüistas acham que afirmações do tipo (i) ou (ii) representam explicações aceitáveis? Como é possível que alguém chegue à idéia que ele dispõe de uma boa explicação. Eles evitaram “saga2”. para os homônimos “banco 1” (= “tipo de assento”} e “banco2” (= “casa bancária”) que ocorrem com alta freqüência. por exemplo. ela ocorreu provavelmente com uma freqüência maior do que “saga2”. na língua corrente. 57 58 cf. Ela não foi mais aprendida. conforme o dicionário etimológico de Cunha. -ae57. em muitos contextos. porque “saga2” é homônimo de “saga1” e porque.41 há. a forma menos freqüente. muitos homônimos que não provocam uma “fuga de homônimos”. sem que uma das duas interpretações criasse uma afirmação absurda: “uma saga1/2 medieval”. Finalmente. porque ela não foi mais aprendida neste sentido. Há a possibilidade de substituir a palavra “saga2” por vários sinônimos. como “bruxa ou “feiticeira”. Como a forma “saga1” refere-se também às canções populares. e segundo porque. Ela não fez mais parte do léxico. porque eles não quiseram correr o perigo de ser mal compreendidos. no português. CUNHA (1997: 698) 60 Esta observação não vale. porque não houve sinônimos adequados para substituir esta forma equívoca. uma abreviatura aproximativa para estes passos explicativos em forma de uma cadeia de “porquês”.” Os falantes tiveram uma disposição de evitar “saga1” ou “saga2” a favor de uma expressão alternativa. “bruxa” ou “feiticeira”. porque a língua portuguesa oferece antes uma alternativa para esta forma do que para seu homônimo “saga1”.

assim como os dados lingüísticos. por assim dizer. “B é o motivo para A”). realizaram intenções semelhantes. a nossa explicação através da mão invisível torna-se mais precisa quando distinguimos o “porque causal” do “porque final”. mas. o “porque” exprime uma relação final. Correspondem ao “porque causal” apenas as perguntas introduzidas por “por que?”. No uso coloquial. para a representação de uma razão causal: (i) (ii) Eu lhe escrevi. Na verdade. porque eu caí na água. nós usamos “porque” de um lado para a representação de um motivo intencional e. Não obstante. (“A porque B” significa. ela desdobra-se e transforma-se numa explicação das mudanças lingüísticas “através da mão invisível”. do outro lado. pois. porque eu quis dar-lhe uma alegria. Chamam-se “explicações finais” as respostas às perguntas introduzidas com “para que?”. ao contrário. com a conseqüência que o conflito virtual dos dois homônimos de repente tornou-se ativo? Quem sabe? Constatamos. As afirmações (i) e (ii) não são equivalentes. pelo menos em parte. sem ter medo de ser mal entendido. Parece que ele efetuou-se mais ou menos no começo deste século. porque nem todas as orações com “porque” podem ser transformadas em orações equivalentes que contêm a palavra “causa”. porque todos estes fatores estimulam os falantes a modificar sua fala e mudar suas preferências de expressão. Falta ainda uma explicação para o momento histórico do desaparecimento de “saga2”. o “porque” exprime uma relação causal (“A porque B” significa. neste caso. como uma explicação concludente para uma mudança lingüística. Correspondem ao “porque intencional” as perguntas introduzidas por “por que?” e “para que?”. os dois tipos de perguntas pelos termos “explicação intencional” ou “pergunta intencional”. por enquanto. as condições históricas representam fatores que podem influenciar o comportamento comunicativo dos falantes. não precisamos distinguir.42 mas quando soletramos esta abreviatura e reconstruímos o caminho entre os motivos dos indivíduos e os resultados das suas ações na área macroscópica. o “porque causal”. Na segunda frase. como todas as perguntas introduzidas com “para que?” podem ser transformadas em perguntas introduzidas com “por que?”. “B é a causa de A”). podemos então resumir. Não há um caminho direto entre os fatos históricos e os fatos lingüísticos que nós pudéssemos alegar. que a forma “saga2” é a mais antiga em português e que “saga1” começou a reprimir “saga2” apenas a partir do século XX. reconhecerá logo: O desaparecimento de “saga2” representa a conseqüência causal das ações intencionais de indivíduos que. neste caso. Explicações através da mão invisível e explicações históricas não representam formas alternativas para justificar os mesmos fenômenos. Eu estou molhado. Chamamos o primeiro “porque” o “porque intencional” e o segundo. Na primeira frase. Quem analisa nossa cadeia de “porquês” mais uma vez. mas é obvio que os fatos sociais e históricos fazem parte de uma explicação através da mão invisível. mas a explicação sempre tem que recorrer ao comportamento dos indivíduos. com razão. as condições ecológicas das ações comunicativas. . já fizemos isto em nosso exemplo acima: a impressão em negrito e itálico simboliza o “porque intencional” e a impressão apenas em negrito refere-se ao “porque causal”. Por que? Por que não mais cedo ou mais tarde? Será que de repente se falou mais sobre temas mitológicos do que sobre bruxas? Ou será que de repente se falou mais sobre as bruxas. na língua corrente. Todos estes critérios formam. entre a explicação final que se dirige para frente e a sua correspondente explicação causal que se dirige para trás.

transferir conhecimentos adquiridos ou coordenar ações coletivas. as teorias tradicionais. Os outros integrantes da comunidade adquiriram o novo hábito. Ao nosso ver. nos fenômenos culturais. num signo lingüístico. se nós perguntamos sobre a função de um sistema. houve. se queremos explicar a sua funcionalidade. Uma explicação através da mão invisível não representa apenas uma explicação do processo da gênese. porém. Quem fala das “causas” das mudanças lingüísticas ainda pode recorrer à desculpa que ele emprega a palavra “causa” no sentido coloquial e que ele se refere aos fatores que representam as razões das ações comunicativas dos falantes. inicialmente. mas a coordenação de uma caça coletiva já exige uma língua e um intelecto bem desenvolvidos. Também é obvio que os fenômenos lingüísticos exercem uma certa função.) que perguntam ‘para que os falantes mudam a sua língua’?” Já no capítulo 4. mas também. geralmente. sem dúvida. “A cooperação crescente nas comunidades humanas. uma explicação funcional. provavelmente. De fato. nós nos juntamos ao grupo dos ‘finalistas’ (. Este modelo da gênese da linguagem. um grito de alerta que se transformou. salientamos que há uma estreita ligação entre a pergunta sobre a gênese e a pergunta sobre a função. que exercem uma certa função. Günter Osche não está errado. tem duas vantagens: Primeiro. nós também saberíamos porque ela se formou e porque ela muda enquanto os seus falantes empregam-na para comunicar-se. mas como explicaremos o erro que uma teoria da mudança lingüística deve basear-se exclusivamente na intencionalidade? Uma razão para este engano encontra-se numa antiga dicotomia que já citamos várias vezes: “Nos fenômenos naturais procura-se. RONNEBERGER-SIBOLD (1980: 37) viu isto clara e distintamente: “Ao procurar a explicação das mudanças lingüísticas na satisfação das necessidades dos falantes. uma necessidade exterior ou causalidade. numa situação bem primitiva que envolve. por exemplo.. No começo. representasse uma explicação final.” (OSCHE 1987: 509). se o uso da fala não traz vantagens para . na origem da língua. são justamente feitos para assumir esta função. apenas um indivíduo. No contexto das instituições sociais. Conseqüentemente. no uso de aparelhos ou na caça coletiva exigiram uma comunicação diferenciada. Ninguém nega que a língua tem uma função para os homens. aos poucos. não conseguem explicar a situação paradoxal como um coletivo aprende a falar. que tentou usar os sinais primitivos da horda a fim de realizar seu desejo de escolher uma parceira ou de exigir sua parte da comida. mas não há unanimidade sobre a questão qual seja esta função. necessariamente. Se nós soubéssemos para que nós usamos a nossa língua. temos que nos ocupar com a questão da sua finalidade.. assim que eles representaram as vantagens que os falantes conseguiram adquirir.43 Já vimos que a explicação de um fato lingüístico nem pode ser exclusivamente intencional ou final. procura-se uma necessidade interior ou finalidade. A língua serve para trocar idéias. uma situação bem mais primitiva. A segunda razão baseia-se na pressuposição implícita que uma explicação funcional. temos que distinguir entre a pergunta sobre a função do sistema na vida social da comunidade e a pergunta sobre a função das partes do sistema dentro do próprio sistema. um indivíduo só.” (COSERIU 1958/1974: 166). o que iria ser mais lógico do que pensar que os produtos culturais. nem exclusivamente causal. A língua falada aparece como um novo meio de transporte para a corrente de informações. houve. por exemplo.

HUMBOLDT (1836/1994). ULLMANN-MARGALIT (1978: 279) descreve a formula geral de uma função assim: “A função de um (X) num sistema (S) é (F) Isto significa: O sistema (S) tem a tarefa . que a “Societé de Linguistique de Paris” proibiu em 1865. cujos membros querem trocar suas idéias. durante a evolução humana. porque não conseguem explicar. que o objetivo da comunicação é a troca de idéias. sem dúvida. que a nossa língua elaborada. qualquer palestra sobre est e assunto. por exemplo. além do problema da origem da língua. para modificar ou fortalecer as suas próprias opiniões. como se efetuou.44 um indivíduo só. ao qual ela presta seu serviço. também exerce (transferir idéias. uma idéia para um receptor? Para influenciá-lo. neste caso. pelo menos. no ano da sua fundação. As teorias tradicionais. mas trata-se nisso de funções que são derivadas da função principal. precisa-se. nossa pressuposição de uma situação bem primitiva não depende da afirmação que entre a comunicação animal e a comunicação humana houve um diferença essencial. A “Philological Society of London” seguiu este exemplo em 1873 e seu então presidente Alexander J. nossa pressuposição que o objetivo da comunicação seja o sucesso social explica porque o domínio da língua já foi uma vantagem para um único indivíduo (por exemplo na conquista de um parceiro para as relações sexuais ou na luta pelos cuidados da vida). A explicação funcionalista de uma coisa explica porque esta coisa existe. Segundo. O ponteiro está às ordens do relógio. que afirma que a língua representa. respectivamente o objetivo (O) e realizar a função (F) através de (X) é um elemento essencial da explicação do objetivo (O). de uma pequena comunidade. o salto na capacidade cognitiva que separou de vez os animais e os homens. em nossa análise. porque não havia ainda parceiros para trocar opiniões. coordenar caças coletivas. Eis alguns das obras mais interessantes sobre este assunto: LEIBNITZ (1710/1983). ROUSSEAU (1781/1981). por exemplo. etc. STEINTHAL (1851). em primeiro lugar. conseqüentemente. um meio para influenciar os outros. A horda.).” Vamos preencher este esquema num exemplo: X: os rins S : o organismo humano O: sobreviver F: filtrar o sangue 61 A discussão e a literatura sobre o problema da origem da língua já foram tão amplas e debatidas. . GRIMM (1851/1854). porque ela ainda existe ou por que ela não existe mais. O relógio está às ordens do homem. Ao contrário disso. GRICE (1979) e SEARLE (1983). geralmente. partimos. CONILLAC (1746/1977). O que significa ter uma explicação funcionalista? A função de uma coisa encontra-se na sua contribuição para o funcionamento de um sistema superior. nunca podia adquirir o hábito de falar. pois pressuposto. não lhe trouxe vantagem nenhuma. Para que comunicamos. Ellis exigiu: “We have to investigate what is!” Nem por isso.61 Concordando com as opiniões dos filósofos de linguagem que mais se destacam atualmente. partem exatamente desta segunda pressuposição e elas sempre fracassam nela. que é influenciar os outros. A aquisição da linguagem pelo primeiro falante. HERDER (1772/1978). da idéia principal destes pensadores. Não negamos as outras funções. como. nossa visão do assunto é bem menos polemico. SCHELLING (1850/ 1959).

mas se a hipótese que fazer comunicação significa influenciar alguém a fim de que esse faça alguma coisa e. a troca de idéias. (O) e (F) pelos termos adequados: X: a língua S: o homem O: o sucesso social F: a influência “O homem (S) tem o objetivo (O) de ter sucesso social. É obvio.” Consideramos a alternativa para esta formula menos concludente: X: a língua S: a sociedade O: a comunicação F: a troca de idéias “A sociedade (S) tem o objetivo (O) de comunicar. conforme nossa esquema: “O organismo humano (S) tem o objetivo (O) de sobreviver e a filtração do sangue (F) pelos rins (X) é um elemento essencial da explicação como ele sobrevive (O). É difícil explicar como o costume de falar pôde se estabelecer. ao mesmo tempo. conceitos coletivos têm que ser redutíveis a conceitos individuais. neste caso. por sua vez.” Esta frase significa. se isto não significa que os indivíduos deste coletivo têm os mesmos objetivos. . não precisamos substituir o termo “homem” pela palavra “sociedade”. representa um elemento essencial para a explicação da comunicação.” Há duas razões pelas quais esta explicação é menos concludente. mas. a nossa segunda fórmula transforma-se em uma mera banalidade assim que nós substituímos “sociedade” por “homem” (por razões já mencionadas em cima): “O homem quer comunicar e a língua lhe serve para isso. porque o conceito “troca de idéias” já é implícito à definição do termo “comunicação” como um jogo de influências. de fato. a substituição de “homem” por “sociedade” provoca um novo problema: O que significa dizer que um coletivo tem objetivos. influencialo de tal maneira que ele perceba esta intenção de atuar sobre seu comportamento é correta. a análise funcional da segunda variação do nosso esquema representa apenas uma argumentação circular. se eles querem alegar ter valor explicativo. e a influência (F) através da língua (X) é um elemento essencial da explicação do sucesso social (O). Primeiro. Neste caso. então podemos concluir que a comunicação representa um tipo especial de influência62 e a troca de idéias. e a troca de idéias (F) através da língua (X) é um elemento essencial da explicação da comunicação (O). a influência que não se dá a perceber. se a comunicação traz vantagens para a sociedade sem ter vantagens para os indivíduos.45 “A função (F) dos rins no organismo humano (S) é a filtração do sangue.” Se nós queremos compreender a função da língua ou dos elementos da língua temos que substituir as variáveis (S). representa uma forma particular de como esta influência se dá a perceber. Pressuposto que isto é certo.” 62 Chama-se manipulação. Segundo.

Mas assim que certas gírias tornam-se moda e ocorrem sem cessar elas perdem seu caráter original e. O nível microscópico representa o nível das ações dos participantes individuais. o nível macroscópico representa o nível da língua no seu sentido . Este fato nos leva à noção que há funções de uso da língua que são. ser galante e cortês no sentido da sociedade cortesã. ao lado direito. encontramos o nível microscópico. que servem todos para influenciar os outros. 11. autodestrutivas. a função de um meio de comunicação é comunicar. Claro que isto é apenas um motivo porque os falantes sentem-se estimulados a modificar ou conservar as suas preferências de expressão. mas para jogar o jogo de galantaria. quer dizer. uma das razões porque a maioria das gírias tem uma vida muito breve.46 Isto. As mudanças ou conservações lingüísticas. aos poucos. Observamos mais uma vez nosso exemplo do uso pejorativo das palavras para mulheres. um jogo que persegue vários objetivos ao mesmo tempo. Por conseguinte. a comunicação é um jogo com vários motivos. Tudo que pretende ser original pertence a esta classe. penetram. sobrevivem talvez uma geração ou mais. Como a explicação através da mão invisível analisa este jogo complexo? Ela mostra qual é a função particular que provoca a mudança. por assim dizer. Ao lado esquerdo da caixa retangular. Isto significa que nós temos que procurar uma resposta para a questão para que a comunicação serve ao homem. Já mencionamos anteriormente que a função de uma coisa encontra-se na sua contribuição para o funcionamento de um sistema s u p e r i o r. Os mesmos adolescentes que querem ser originais também querem mostrar que pertencem a um certo grupo social. Os adolescentes. Alguns itens deste vocabulário funcionam como palavraschaves. Encontramos aqui. AS MÁXIMAS DO COMPORTAMENTO LINGÜÍSTICO O quadro (2) na página seguinte representa simbolicamente a estrutura de uma explicação através da mão invisível. pois. mas. transforma-se em normalidade e. por exemplo. Nossa explicação no capítulo 7 mostrou que a palavra “Senhora” não é empregada apenas para referir-se a mulheres. neste desenho. deste modo. Nossa proposta é que a comunicação serve para alcançar o sucesso social. conhecer aquela função no jogo comunicativo que garante a conservação ou provocou a modificação da expressão. então a originalidade. E exatamente esta função provoca a depreciação. querem chamar a atenção pelo uso de expressões originais. pelo mesmo sentido trivial. também. inclusive das condições relevantes que determinam o seu comportamento. às vezes. provavelmente. é inadequada para realizar a sua função. eles vão adquirir um léxico de gírias que prova a sua qualidade de ser integrante da tribo com um certo código cultural que distingue-os dos alheios. desaparecem de novo. o vocabulário de outros grupos sociais e entram finalmente no dicionário de uma língua. Galantaria é um jogo onde originalidade é trunfo. ainda hoje. sem dúvida é certo. e não na sua contribuição para o próprio funcionamento. Podemos ver. ocorrem no entrecruzamento de diversos motivos e saber porquê um fenômeno lingüístico está mudando ou conservando-se significa saber para que ele está sendo usado. quais são os fatores que têm um papel na explicação da mudança ou da conservação de um fenômeno lingüístico. Uma explicação completa tem que tomar todos estes elementos em consideração. Mas se todo mundo faz a mesma escolha original. pois como a função de um produto de limpeza é limpar. por conseguinte. isto não significa apenas ser gentil e respeitoso num sentido geral. o nível macroscópico.

quer dizer. é possível que haja semelhanças irrelevantes. apenas um é relevante para a explicação da vereda: a estratégia de escolher o caminho mais curto. De todos os motivos. uma semelhança relevante. Sua exigência manifesta-se da melhor maneira possível numa oração imperativa. A maneira como se redige estas máximas de ação não diz nada sobre a questão como as semelhanças relevantes para a respectiva ação. ou pelo menos nenhum processo de mão invisível. sob diversos aspectos. pelo menos em um aspecto. pode ser uma conseqüência da nossa constituição biológica. o lado esquerdo do nosso modelo: Se muitas pessoas fazem quaisquer coisas dispares. de considerações racionais ou de comportamentos adquiridos pelo meio cultural. Mas uma vereda crescerá apenas se suas ações se assemelham pelo menos em um aspecto: Eles têm que fazer o melhor possível para economizar energia. além do mais. de fato. não crescerá provavelmente nenhum fenômeno interessante. semelhanças que não deixam “vestígios”. Quadro (2): A estrutura de uma explicação através da mão invisível Ações Processo de mão invisível Condições ecológicas intencionais causais Conseqüências Explanandum O fato que as ações têm que se assemelhar pelo menos em um aspecto representa uma condição prévia imprescindível para a geração de um processo de mão invisível. ou. Uma máxima de ação representa uma tendência ou uma estratégia consciente ou inconsciente de agir de uma certa maneira. Mil pessoas com dez mil intenções podem andar do ponto A para o ponto B. A tendência de andar do ponto A para o ponto B. porque estes nascem apenas quando muitas pessoas agem. em outras palavras: quando as ações de muitas pessoas mostram. Esta oração imperativa deve ser escolhida de tal maneira que o comportamento em questão aparentemente satisfaça o pedido. Explicamos. . A caixa retangular simboliza o processo cumulativo que forma a ponte entre os processos microscópico e macroscópico. mas a mera realização desta condição prévia não é suficiente para garantir a geração de um processo de mão invisível. em conformidade com o princípio de gastar o mínimo de energia. Seguindo o exemplo de GRICE (1979). de maneira semelhante. primeiramente. foram motivadas. exprimimos o aspecto da semelhança relevante entre as ações através da apresentação de máximas que nós chamamos de máximas de ação. “Ande do ponto A para o ponto B de tal maneira que o percurso escolhido seja o mais curto possível!” Isto é uma redação adequada para uma máxima que possibilita e explica a geração de uma vereda na grama.47 hipostático. razões ou intenções do seu comportamento. porque.

mas os investidores que voltam a aplicar o seu capital no Brasil não fazem isto. Um exemplo para uma política lingüística que age em analogia àquela da economia do mercado financeiro. em parte. a realidade social. exatamente isto. como. inclusive à sua antecipação da competência individual do seu parceiro de comunicação. em outra parte. tirar desta palavra a sua função discriminante. porque os fatores sociais e biológicos podem ter influências diretas na competência lingüística. do tipo de fenômeno que está em questão.) As hipóteses do falante sobre a competência do ouvinte fazem parte da competência do falante. . Uma distinção rígida entre fatores lingüísticos e extra-lingüísticos é difícil. intolerantes e racistas da maioria dominante que não poderiam mais usar a palavra “veado” no seu sentido pejorativo não teriam a intenção de mudar o significado da palavra ao omiti-la. de natureza lingüística. resumia todos estes fatores ecológicos sob o termo “causas da mudança lingüística”. também já distingiu entre causas lingüísticas e extra-lingüísticas. e ela. A lingüística histórica tradicional. que hoje os “veados” destes países usam com orgulho porque elas mudaram o sentido e simbolizam uma pequena vitoria na luta do seu movimento político pela igualdade dos homossexuais. claramente. geralmente. O número necessário de participantes ativos e a sua dimensão real depende. por exemplo. fazem coisas que ajudam a controlar a fuga do capital. nos anos 60. Sob certas circunstâncias. dados biológicos. Isto significa. chamar-se pelos antigos palavrões “gay” ou “Schwuler”. expressões. (A competência real do receptor não pertence aos fatores que influenciam as ações do falante. de natureza extralingüística. porque um nome que o injuriado usa para a própria denominação não serve mais para os objetivos discriminantes dos ofensores. na verdade. conseqüentemente. Todavia o governo que aumentou os juros fez isto com o propósito de mudar as condições econômicas no país de tal maneira que os investidores estrangeiros.48 As três setas em nosso desenho que apontam para a caixa retangular simbolizam as ações relevantes que obedecem a uma ou várias destas máximas de ação. Um fenômeno de terceiro tipo pode ser planejado. os “veados” brasileiros “roubariam” dos outros um dos seus palavrões preferidos. esclarece o verdadeiro papel que estas “causas” têm num processo de mão invisível. o mundo material e. pois. pode funcionar mais ou menos assim: Se os brasileiros homossexuais começassem chamar-se conscientemente de “veados” eles fariam uma política lingüística que teria como objetivo. é possível planejar um processo de mão invisível. mas. Claro que os negligentes. A veracidade deste pensamento já foi provado pelos homossexuais dos Estados Unidos ou da Alemanha que começaram. Nosso quadro (2) então. sem ser intencionais. sob o termo “condições ecológicas”. em nosso modelo. porque ela não lhe é acessível. Os fatores lingüísticos referem-se à competência individual do falante. também podem ser planejadas. ao usar a palavra “veado” como nome próprio ou nome de um minoria que se caracteriza por uma preferência sexual diferente. Conhecemos este fenômeno pelo planejamento da economia nacional: quem quer diminuir a fuga do capital estrangeiro pode aumentar os juros. provavelmente. de muitos fatores. eles provocariam. Aos fatores extra-lingüísticos pertencem. aos poucos. Claro que nem todos os membros de uma comunidade precisam necessariamente contribuir para a geração do fenômeno em questão. querendo ou não. entre outros. e. Os fatores ecológicos que influenciam uma escolha lingüística são. de fato. As mudanças lingüísticas. porque eles querem ajudar o governo a controlar a fuga de capital. ou dos critérios que nós resumimos. que a volta do capital ao país não representa um fenômeno intencional. de fato.

por causa de f) e g). Tentamos explicar este desaparecimento seguindo as diversas fases do nosso quadro (2). c) No começo do século XX cresceu a popularidade das narrativas lendárias através da música popular. g) O ponto f) não vale analogamente para “saga1”. nem uma qualidade estrutural. mais atenção. . as chances para um mal-entendido são quase iguais para ambas as expressões. i) Em conseqüência de a). quer dizer. Qualquer medida oficial também representaria apenas um fator (provavelmente. COSERIU (1958/1974: 169) escreve: “Não há nenhum tipo de força exterior que pode ter influência sobre a língua sem trespassar pela liberdade e inteligência dos falantes. mas não homonímico. nem uma força exterior. f) A língua portuguesa dispõe de recursos lexicais que podem substituir “saga2” por palavras com um sentido quase sinônimo. As condições ecológicas que influenciam a escolha lingüística dos falantes da época são: a) o tamanho do conjunto de fenômenos que podem ser designados com “saga1” e o do conjunto de fenômenos que podem ser designados com “saga2” foram mais ou menos iguais. Cada processo lingüístico tem que fazer a marcha comprida pelas ações dos indivíduos e ele tem que ser explicado através deste caminho. mas para “saga2” houve alternativas das quais “saga1” não dispôs. a partir dos princípios do século XX. I. um fator que pertence ao círculo esquerdo do nosso modelo. no sentido de “bruxa”. mais uma vez. como. II. mas não para “saga1”. “bruxa” ou “feiticeira”. por causa de b) ate e). a palavra “saga2” ganhou. por exemplo. h) Quem quis evitar um mal-entendido. que tenha um efeito direto sobre a língua. e) Os pontos c) e d) juntos fizeram de um possível conflito de homônimos um caso virulento. Observamos. ao mesmo tempo.” Uma máxima de ação é uma função que representa um conjunto de condições ecológicas que agem num espaço de ação. muito efetivo) da ecologia das ações dos falantes. que não há nada. de expressões alternativas para “saga2”. porque os antigos contos de fada e a cultura romana ganharam um importante papel na educação. fato que aumentou a freqüência da palavras “saga1”.49 Tais fenômenos mostram que nem mesmo um planejamento lingüístico do Ministério de Educação poderia anular o mecanismo de mão invisível. pôde dispor. nosso exemplo do desaparecimento de “saga2”. Eis as máximas que provocaram o desaparecimento de “saga2” sob as condições descritas em a) até i): (i) M1: Fale de uma maneira que seja quase impossível alguém entender errado. Por isso. d) Apesar de tratar-se de uma forma erudita. b) “Saga1” e “saga2” foram homônimos. A máxima define qual será a ação escolhida entre uma feixe de ações que serão virtualmente possíveis sob dadas condições. Afirmamos mais uma vez.

Para poder falar de mudança numa maneira que faz sentido. Por causa do uso cada vez mais raro da palavra “saga2”. Há diferentes tipos de máximas de ações que geram a estase e a dinâmica numa língua. mudaram-se as condições ecológicas para aqueles falantes que ainda dispunham da palavra. “a continuidade em escalonamento”. Se nós trocássemos simultaneamente o pau e a escova originais por outro pau e outra escova. Os falantes da próxima geração nem a aprenderam mais. alguns dos seus elementos tiveram que ficar estáveis. IV 12. Deste modo. a sua freqüência sempre foi mais baixa do que a de “saga1”. “Eu ainda uso a mesma vassoura como há dez anos. nem se as duas peças fossem as mesmas que nós trocamos um depois do outro.50 (ii) (iii) M2: Fale de uma maneira que todo mundo compreenda-lhe. é relativamente simples. ainda que o estado atual da vassoura tenha com seu estado inicial nada mais em comum do que duas vassouras diferentes. juntou-se àquela tendência de evitar a palavra ainda uma incapacidade de empregá-la. estes falantes que ainda a conheciam esqueceram dela aos poucos. LÜDTKE (1980: 4) chama este tipo de identidade diacrônica. pertence a esta classe. Vamos ver ainda. Desta maneira nasceu um efeito de realimentação positiva: quanto menos pessoas tiveram a palavra “saga2” no seu léxico. que as duas máximas fazem diferentes contribuições ao processo de mão invisível. fica difícil garantir que a identidade do objeto que mudou ainda é a mesma. Nos casos de M1 e M2. apenas uma vez eu tive que trocar o pau e uma vez eu montei uma escova nova lá em baixo. . a máxima. então não poderíamos falar da mesma vassoura. Agora eles começaram a evita-la mesmo em contextos onde não havia o perigo de serem mal entendidos. porque um malentendido não representa o contrário de compreendido. O processo de mão invisível. temos que pressupor também a estabilidade. tanto menos poderam empregá-la. ESTASE E DINÂMICA NAS LÍNGUAS NATURAIS Para afirmar a respeito de uma coisa que ela mudou. O explanandum da nossa análise representa a conseqüência causal deste processo: a palavra “saga2” desapareceu do português do Brasil. simplesmente porque a baixa freqüência e distribuição diminuiu a chance de ser bem entendido. L2: Se um receptor não conhece o significado de uma palavra. Caso contrário. III. não se trata de equivalentes. diminui a sua chance de entender o que o falante quis dizer ao empregá-la. A partir daí. Há máximas que geram homogeneidade quando o estado inicial é heterogêneo e estase quando o estado inicial é homogêneo. provocado pela omissão da palavra “saga2”.” Esta afirmação não é completamente absurda. As “leis” que provocaram este fenômeno são bastante elementares: L1: Palavras que são usadas raramente raramente são aprendidas. “Fale de uma maneira que o público lhe entenda!”. Por exemplo. Sendo uma palavra erudita. Esta observação trata dos nossos critérios para a identidade num processo diacrônico.

ainda pressupomos intenções que ele não teve. Neste caso. “comunicar” significa ter a intenção de deixar alguém abertamente compreender alguma coisa..51 Fazer comunicação significa.. então poderíamos esperar que ela fosse estável como um sistema que cumpre a sua função adequadamente. nós deixamo-lo reconhecer. geralmente. Mas as coisas ainda pioram: Pois. BEAVIN. geralmente. junto com as possibilidades de um mal-entendido total ou parcial. Por isso. há algumas intenções. provavelmente. A língua tem muitos objetivos. é melhor dizer que o receptor compreendeu o emissor quando ele reconheceu todas as intenções do falante e quando ele não lhe atribui intenções que ele não teve. então. conseqüentemente. o oposto contraditório de “compreender” é “compreender parcialmente ou mal compreender”. Como nós queremos. “Achar”. O que nós comunicamos.” Em nossa linguagem corrente. Em outras palavras: “Compreender” significa reconhecer as intenções abertas. presumably. é exatamente o que nós achamos. Um malentendido acontece quando o receptor atribui ao emissor intenções que ele não teve. for reasons totally unconnected with communicative ‘function`. conseqüentemente. quando nós comunicamos. Neste sentido. a expressão “comunicar” muitas vezes é equiparada com “dizer alguma coisa e. LASS (1980: 136) escreve: “If language is many things other than a communication system. se ele reconheceu exatamente isto. realizar várias intenções em cada ação comunicativa. quer dizer. nomeadamente naquela que afirma que seu objetivo é “facilitar a comunicação”. ao contrário. e se nós queremos salientar um. Ao contrário de COSERIU (1958/1979). JACKSON (1967/1972) . na verdade. Se “compreender” significa conhecer todas as intenções abertas de um falante. pois a comunicação está a serviço deste objetivo principal. que os participantes. querem ser entendidos. é possível. encontra-se em uma das duas premissas. achamos que esta conclusão é correta. significa ter a intenção de deixar alguém reconhecer alguma coisa. então salientemos este de influenciar os outros. Afirmamos. deste modo. nós não comunicamos todas as intenções que nós temos. então encontramos o oposto contraditório de “compreender” na expressão “não reconhecer todas as intenções abertas”. que. neste contexto. Deste modo.) com o objetivo de facilitar a comunicação entre a comunidade de falantes. as quais nós esperamos justamente que o 63 vide: WATZLAWICK. conforme nossa intenção. then change can occur. ao nosso ver. conforme Herbert Paul Grice. nomeadamente. na situação. “compreender parcialmente” e “compreender completamente”. including a form of play. que nós compreendamos e mal entendamos alguém ao mesmo tempo. na qual nós reconhecemos todas as intenções abertas de um falante e. mas o que acontece é o contrário: o sistema muda. além disso. por que o fenômeno da mudança ainda existe? “Se a língua representasse um organismo sistemático (. entre outras coisas. Se nós observamos o espectro de possibilidades que existe entre “não compreender nada”. que conceitos liberais de comunicação que chegam a conclusão final que para o ser humano é impossível não comunicar63 são indiferenciados demais para serem chamados “resultados de análises lingüísticas”. O erro. “Não compreender”. então começamos a compreender que tudo isto já é muito complexo. onde nós achamos esta citação. achar alguma coisa”. mas se o desejo de ser compreendido gera estase e homogeneidade. quando ele compreendeu uma coisa que o falante não quis dizer. significa não reconhecer nenhuma intenção aberta. há também vários graus de incompreensão. Conforme esta análise. quer dizer: “compreender parcialmente”.” (ALARCO-LIORACH 1968: 117). o outro entendeu justamente o que nós achamos.

se eles querem ter o mesmo sucesso social.52 receptor não as reconheça. é o conjunto de todas as intenções que o falante persegue ao comunica-la. geralmente. elas fazem isto. Isto significa. justificar esta hipótese. por exemplo: “A oficina da Mercedes é muito atenciosa em Fortaleza. a intenção de granjear as suas simpatias. mas nós não queremos que o receptor reconheça que nós quisemos que ele as reconhecesse. Mostre as suas intenções de uma maneira. não raramente. A máxima (i) (ii) (iii) Fale de uma maneira que os outros lhe entendam! Fale de uma maneira que os outros possam reconhecer as suas intenções. então nós queremos. ou entre o sentido de uma expressão e o sentido comunicado da mesma expressão. não é o objetivo da língua. então. significa então. em seguida.”. porque falar sobre a própria fortuna é muito indiscreto é impedir. além disso. ou “Estamos numa progressão de imposto tão cruel que nem vale mais a pena ganhar um dinheiro extra”. quer dizer. mas se nós temos. mas.” Mas quando os adultos querem gabar-se com sua vida luxuosa. a realização da nossa intenção de impressionar os ouvintes. e compreender significa reconhecer estas intenções. além disso. mas isto não representasse um método muito promissor. O sentido de uma expressão. poderíamos mais cedo esperar a estase do que a mudança (o que. na melhor das hipóteses. Talvez nós até tenhamos a intenção que ela compartilhe conosco esta nossa opinião sobre ela. Como já notamos. Se duas pessoas querem encontrar-se e nenhum delas tem a possibilidade de marcar um . consequentemente. de fato. Isto é um exemplo para uma intenção que a comunicação pode ter sem comunica-la. que nós temos que distinguir entre intenções abertas e intenções ocultas. ao mesmo tempo. que a intenção que mais nos estimulou a proferir uma expressão é exatamente esta que nós não queremos comunicar. temos a intenção que o receptor reconheça que nos somos donos de um Mercedes ou ganhamos muito dinheiro. respectivamente. mas. Acontece. E. geralmente. um objetivo (importante) entre outros. Analisemos um caso mais complexo. Alarcos Liorach observou com razão). portanto. A comunicação. eles têm que fazer isto bem discretamente. O que nós podemos fazer para mostrar aos outros a s nossas intenções? Podemos torcer para que eles as adivinhem. Vamos. enquanto o sentido comunicado de uma expressão abrange o conjunto parcial das intenções abertas.”. ou “Meu pai ganha muito dinheiro. então nós justamente não queremos que ela reconhece esta segunda intenção. Quando as crianças pequenas querem gabar-se. porque esta intenção se realiza bem apenas se fica desconhecida. que não deve ser compreendida. Se a comunicação fosse o único objetivo da língua. que os outros possam reconhecê-las. geralmente. há outras intenções as quais nós queremos que o receptor as reconheça. que ela reconheça que nós achamos que ele está muito bonita hoje. Se nós falamos assim. “comunicar” significa mostrar as suas intenções através de uma certa maneira. Se nós dizemos para uma Senhora: “Hoje a Senhora está tão bonita. não temos a intenção que o receptor perceba que nós queremos exatamente comunicá-lo esta mensagem. de forma direta: “Meu pai tem um Mercedes”.

. mas nestas ocasiões eles obedeceram à Máxima de Humboldt. Em outras palavras: “Nós vamos para onde nós achamos que os outros vão64 (quando eles querem nos encontrar). acontece uma assimilação contínua das nossas competências e uma estabilização assim que a assimilação se realizou amplamente. Como. eles falaram conosco assim. Problemas de coordenação apenas podem ser resolvidos com êxito... na verdade. como eles acharam que nós falaríamos. Vamos chamá-la de “Máxima de Humboldt”. mas esperar que ele ajude seria irracional. se eles fossem em nosso lugar. imitaríamos. a nossa máxima de comunicação deveria ser: “Fale assim. Se nós queremos deixar os outros reconhecer as nossas intenções. O único método racional para encontrar alguém sob as condições descritas acima e com uma chance maior do que aquela do mero acaso encontra-se na tentativa de ir àquele lugar. então não seria muito lógico esperar que o acaso ajudasse. Como isto é possível? Se os outros falariam conosco da mesma maneira como nós falamos com eles e se nos falaríamos com eles da mesma maneira como eles falam conosco. Como “uma força espiritual” que tem “como objetivo a compreensão”. como você acha que o outro falaria se ele estivesse no seu lugar!” Nossa hipótese. . de uma versão pouco modificada da Máxima de Humboldt – gera homogeneidade. a maneira como os outros falariam quando eles tentassem falar como nos quando nos tentássemos falar com eles como eles falariam conosco. então nós simplesmente trocaríamos as nossas maneiras de falar. então. Se nós tentássemos falar com os outros como eles falariam conosco sob as mesmas condições. “se há um sistema harmonioso de expectativas correspondentes. se o estado inicial foi heterogêneo. Nossa estratégia então deve ser: “Nós vamos para onde nós achamos que os outros vão. é que esta máxima – trata-se. ele descreve esta máxima assim: “Ninguém deve falar com o outro de maneira diferente do que este falaria com ele. se nós estivéssemos no lugar deles. se o estado inicial foi homogêneo. 64 Pedimos desculpa para a sintaxe coloquial que serve perfeitamente para o objetivo em questão.” (LEWIS 1969: 24). na verdade.” Isto é a estratégia que nós devemos escolher se nós queremos encontrar alguém sem poder marcar um compromisso. deste modo. Deste modo. se nós queremos ser compreendidos. poderiam se estabelecer a estase ou a homogeneidade? A Máxima de Humboldt funciona de maneira mais sutil: Como nós sabemos como os outros falariam se eles estivessem em nosso lugar? Porque nós nos lembramos de oportunidades quando eles falaram conosco. Parece que HUMBOLDT (1836/1907: 47) concluiu que tal estratégia (mutatis mutandis) mantém um papel central na comunicação. eles vão para onde eles acham que nós iríamos (quando nós queremos encontrá-los). O problema que nós encontramos aqui é um problema clássico de coordenação. encontramo-nos numa situação semelhante. e estase. O acaso não é excluído.53 compromisso. E para onde vão os outros? Se eles agirem racionalmente. e os outros também querem reconhecê-las.” Esta é a estratégia a qual nós devemos corresponder. Provavelmente. ao qual nós esperamos que os outros também vão quando eles querem nos encontrar. Se o único objetivo da nossa fala seria ser compreendidos.

de variações da máxima “Fale como os outros!” (Claro que “os outros” também podem ser uma minoria!). dependendo dos valores que os campos vizinhos mantêm. nós temos a tendência de falar com crianças pequenas como crianças pequenas. Cada campo tem uma determinada chance de manter sua cor ou de troca-la. respectivamente a divulgação de variações lingüísticas numa dada área. desenvolveu-se um programa de computador65 que simula uma certa interação entre as duas variações. A cada campo se atribui um certo valor. A distribuição inicial desta “área lingüística” encontrase no quadro (3) na página seguinte. respectivamente brancos. A distribuição dos valores na área total efetua-se conforme o princípio do acaso. Um campo que é cercado de 8 campos da mesma cor. poucas iterações cresce uma estrutura que lembra notavelmente um mapa de isoglossas (vide: pág. . as vezes. Trata-se da estratégia de ser compreendido. Qualquer outra estratégia de assimilação também tem efeitos estabilizadores ou homogeneizadores. O resultado é surpreendente. como a comunicação com base nas máximas: “Fale assim que você pode ser reconhecido como membro do grupo!”. Cada campo pode conservar o seu valor ou muda-lo. quantos dos 8 campos vizinhos são pretos. Cada campo. ou “Fale assim que você não chama demais a atenção!”. Um campo branco que é cercado de 4 campos brancos e 4 campos pretos terá. mas logo ela mostra-se estável 65 Trata-se de um programa chamado “autômato celular”. O programa deve simular mais ou menos a máxima “talk like the people around you!”. uma chance de 51 % de ficar branco. nós a correspondemos. relativamente. Esta estratégia é tão fundamental que. Esta estrutura se arredonda depois das iterações seguintes ainda mais. “preto” ou “branco”. O lingüista francês LEVIN (1988) simulou com a ajuda de um programa de computador a máxima “Fale como os outros no seu ambiente!” Ele conseguiu provar que tal máxima é capaz de gerar estruturas surpreendentes. A lingüística Anglo-saxã chama estes fenômenos de “baby-talk” ou “foreigner-talk”. Levin se propôs a simular a distribuição. nisso. Trata-se. por exemplo. mesmo quando não faz sentido que ajamos conforme suas regras. 92). A decisão dependerá apenas do fato. pode apenas conservar a sua cor original. Como “área” ele escolheu uma grade quadrado com um comprimento de 55 por 55 campos. quando o falante deveria ser um ideal para o aprendiz que quer melhorar sua competência. Mas graças ao fato que nós interiorizamos a Máxima de Humboldt completamente. Um campo que é cercado de 8 campos da respectiva cor complementar terá que mudar sua cor na próxima rodada. Já depois de. Por exemplo. Em seguida. que não se encontra na margem da área. na situação de ensinar e aprender. O segundo quadro na página 90 mostra o resultado depois 20 iterações. na próxima iteração do programa. conforme a função do algoritmo. tem 8 campos vizinhos (se nós contamos também os vizinhos na diagonal).54 Supomos que isto representa uma das máximas mais fundamentais da nossa comunicação. ou com estrangeiros num português rudimentar.

da economia e da fusão. Geralmente. Fale de maneira charmosa. por exemplo. a máxima dos inquilinos “Se mude quando você pertence a uma minoria na sua vizinhança!” gera distribuições semelhantes. A máxima (v) referese aos custos. or individual speakers. and the two variants real language variants. Além disso. Deste modo. gentil. nós tentamos pelo menos matar dois coelhos de uma só cajadada: assimilar-se.) be understandable on a grand scale as a kind of dynamic pattern emerging from simple and understandable interactive principles. Em conexão com outras máximas. máximas que geram homogeneidade e estase. que “language change (. Princípios interativos. cit. escreve LEVIN (1988: 6seg. e ele mostra que esta estrutura homogênea fica estável. não pode ser atribuída inequivocamente a um dos dois tipos de máximas. lisonjeira. vamos chamar as máximas que geram dinâmica máximas dinâmicas. the squares villages. Claro que tal modelo está longe de representar um modelo realista das mudanças lingüísticas. quando as áreas de comunicação se expandem.000 iterações a estrutura ainda ficou neste estado estável. . Fale assim que você não gasta energia sem necessidade!” (o ilustre princípio da economia!) Trata-se nas máximas (i) a (iv) de regras que se referem ao lucro. é responsável pela consistência da nossa língua e pelo fato.) may (. chamamos máximas estáticas. esta máxima também é responsável pelo fenômeno que certas palavras desaparecem do nosso léxico. como nós vimos no exemplo da “saga”. que. por um lado. Supomos que existem. ULLMANN MARGALIT (1978) cita o modelo de Schelling como exemplo para uma explicação através da mão invisível.”66 Não obstante. que a língua tende a expandir-se.). Pertencem a este grupo as seguintes máximas: (i) (ii) (iii) (iv) (v) Fale assim que você chama a atenção!” Fale assim que você não pode ser reconhecido como um membro do grupo!” Fale de maneira engraçada. a máxima da compreensão.C. porém. o modelo mostra que é possivel. Schelling tentou explicar a formação de um gueto com um modelo semelhante. por outro lado. A explicação desta lei universal. T. Ele mostra que a máxima em questão é capaz de gerar uma estrutura com áreas homogêneas a partir de uma distribuição aleatória inicial. 90 – 92). O desejo de ser compreendido. o modelo discutido tem implicações para os aspectos da teoria de mudanças lingüísticas que nós discutimos aqui. Mesmo depois 10. I knew better”. “I regard this is only a very primitive and abstract preliminary model that hopefully mimics linguistic inter-actions.. estes dois tipos de máximas. Em analogia a isso. divertida.. mas não queremos excluir a possibilidade que há uma outra tipologia além desta. a máxima de compreensão é até co-responsável por um certo tipo de mudança permanente que o lingüista alemão Helmut Lüdtke resumiu no seu ilustre “Lei da Mudança Lingüística” que reúne os princípios da redundância. ser compreendido. Ao falar.. economizar energia.” (ibid. nós não escolhemos nossos recursos lingüísticos apenas com base em uma máxima.). É obvio. quer dizer. etc. O 66 No seu ensaio “Models of Segregation” (1969). pelo menos. não cabe a este capítulo.: loc.55 (vide: pág. uma classificação que talvez seja mais adequada aos fenômenos observados. por exemplo. “Although my students became convinced that the grig was a territory. conforme os efeitos macroscópicos.. chamar a atenção.

como os outros jovens (que chamam esta atitude. eleitores. então. pois escassez significa intensificação da seleção. Processos de mudanças evolucionárias podemos especialmente esperar em situações onde os indivíduos são expostos a escassez. de amigos. da situação especial e do indivíduo. pois a cada inovação corre o risco de ser mal-entendido. Isto. Eles têm que falar “eternamente” sobre coisas. entre ortodoxia e inovação. deve falar de um lado. o falante deve recorrer a recursos tradicionais. Chamar a atenção. energia (luz ou alimentos) ou parceiros sexuais. também. A hipermáxima da nossa comunicação. pois a variação. O novo. a escola. também. Agir sempre significa transformar um estado relativamente menos desejável em um estado relativamente mais desejável. Como participantes da comunicação nós tempos contar com escassez de ouvintes ou leitores atenciosos. eles aumentam. na área da cultura. como muitos adultos. do grupo ou do receptor em questão. de ser criativo ou de economizar energia na articulação. dedicação pelo lado dos receptores. admiradores. o namoro. elas se contradizem. de uma maneira que é rápida e facilmente entendida pelos membros do seu grupo e que prova que ele é iniciado nos ritos lingüísticos da sua geração. a moda.56 caso que alguém quer nada mais do que simplesmente ser entendido raramente acontece. Isto vale também para as ações comunicativas. e do outro lado. deve gritar alta e claramente a palavra “Socorro!” Não faz sentido. é mais cedo uma regra do que uma exceção. escassez de simpatia. nesta situação. como a músi ca. Todos nós dispomos de estratégias que fazem parte da nossa competência lingüística e comunicativa. A fala. hoje em dia. ao contrário disso. Ainda assim. a geração dos adolescentes. A necessidade. etc. em analogia aos processos biológicos. muitas vezes. o quota das variações. mas com uma diferença importante: Os tipos de escassez que nós enfrentamos como participantes da comunicação não tem apenas efeitos seletivos. ou que se dar ares de ser desinteressado. estratégias que são mais ou menos adequadas para nós nos sairmos bem em nossas ações comunicativas. etc. Ela nasce pela criatividade humana que antecipa a seleção. Na natureza viva encontramos processos de seleção especialmente onde há escassez de espaço. com um público que é ou de verdade desinteressado. clientes. estimula a imaginação. é um jogo entre assimilação e separação. de fregueses. Nesta situação encontra-se. mas caso sim. como se sabe. apesar disso. então. de “ficar frio” ou “ficar cool”). escassez de prestígio social. A hipermáxima deve ser . de uma maneira que chama a atenção e mostra criatividade e graça. Há máximas. neste ponto de vista. o esporte. paciência. Será que. quem quer corresponder a ambas ao mesmo tempo deve fazer compromissos. é: “Fale assim que você será socialmente bem sucedido!” Mas o que vale como sucesso social sempre depende do caso particular. Quem quer ser compreendido deve agir conforme as expectativas dos receptores. um adolescente. Com este público. tempo. que entram em conflito uma com a outra. escassez de possibilidades de publicar (no sentido mais amplo). Quem corre perigo de afogar-se. nós somos também expostos à escassez nesta parte da vida que nós vencemos com a ajuda da nossa língua? Sim. escassez de tempo e energia pelo lado do falante. mas ainda querer ser compreendido. não depende do acaso como na área da natureza. representa necessariamente o menos esperado. isto é um caso típico destes conflitos de intenções.

Os recursos que nós empregamos para comunicarmos não têm uma preexistência lógica anterior a seu uso. conhecer uma mulher. comunicam sob condição de escassez de tempo e energia. que os falantes. Podemos desdobrar a hipermáxima em várias máximas secundárias. dar ares de ser inteligente. mas como uma certa técnica de comunicação do ser humano. geralmente é um dos objetivos principais ou secundários ser compreendido. nas palavras de MARTINET (1970/1991: 14). convencer alguém. Lüdtke não interpreta a língua como uma coisa. sem dúvida. A mudança lingüística. por sua vez. antigamente. etc. A máxima de economizar energia articulatória encontra-se num conflito diacrônico com a máxima de falar de uma maneira compreensível.. A LEI DE LÜDTKE A teoria de Lüdtke está comprometida com o individualismo metodológico. mas representam os resultados das nossas ações comunicativas. conquistar um público. O princípio afirma. fazer alguém rir. talvez devamos modificar a nossa hipermáxima de maneira seguinte: “Fale assim que você será socialmente bem sucedido com os menores custos possíveis!” O princípio da economia é uma prova da hipótese que a escassez provoca mudança. mas ela não se refere principalmente à realização do objetivo.. Suas explicações são explicações de baixo para cima. que diz: “Fale assim que você realiza os objetivos da sua ação comunicativa o mais cedo possível!” Os objetivos comunicativos podem ser: enganar alguém. 13. (. que. conforme a teoria de Lüdtke. mas aos “custos” desta realização. Lüdtke fala neste contexto da “negentropia . vender um carro. Ela não implica quaisquer características substanciais do sucesso social. A máxima de economia “Fale assim que você não gasta mais energia do que é necessário para realizar o seu objetivo!” provavelmente mantém um papel especial. que “as línguas modificam-se ao longo dos tempos.” Este pensamento baseia-se obviamente na pressuposição correta. muitas vezes. porém. geralmente. demasiadamente generalizada. elas têm que ser articuladas com bastante estrutura sonora. Trata-se. Por isso. aparecer como um pessoa calada. ser Antipático.. Para deixar as nossas ações comunicativas compreensíveis. Ela é apenas uma abreviatura para a outra máxima (também trivial). representa um produto inconsciente e involuntário de cooperação entre a liberdade de decidir entre alternativas lingüísticas e a ambição de aperfeiçoar as ações lingüísticas. podem ser classificadas em máximas dinâmicas e estáticas. de uma das máximas mais dinâmicas. consolar uma criança. um inventário ou um sistema de signos preexistentes. Helmut Lüdtke examinou este conflito e descreveu suas conseqüências não intencionais numa teoria de um fenômeno de mão invisível.57 interpretada no seu sentido trivial.) essencialmente para adaptarem-se da maneira mais econômica à satisfação das necessidades comunicativas dos grupos que as falam. que marca também a posição que nosso trabalho representa na teoria de conhecimento.

há um mínimo de recursos lexicais e sintáticos que pode ser violado apenas por telegramas e ordens militares. Falemos. pô. um limite superior que encontra-se na forma explícita. em outras situações. seriam péssimas sem o contexto da situação. Como já vimos.”. Vamos esclarecer isto através de um exemplo: Quando um jovem. no entanto. na teoria de informação. Lüdtke chama esta avaliação “gerenciamento da redundância”. mas. as possibilidades articulatórias têm um limite superior: Não é possível falar mais claro do que claro. aberto por dois lados. Esta redundância. Por isto. e ele dispusesse da possibilidade de articular seu “ruído” com mais estrutura sonora. quanto o receptor necessita para a identificação correta da mensagem. também é definido por fatores sociais. termo que se refere. ficasse com medo de ser mal interpretado. não há um limite tão nítido. a estratégia não deve ser falar da maneira mais econômica. começando com a forma “Tô com você. então. quer dizer no sentido do falante. geralmente. a nossa ação comunicativa fracassaria. a interpretação da mensagem pelo receptor se torna difícil.58 de sinal” (= “entropia negativa de um sinal”). Entretanto tentar acertar exatamente esta quantia seria uma estratégia arriscada. Se nosso jovem acreditasse que a forma completa “Eu estou com vocês. também não pode ser exagerada. não seria bem sucedida. quer dizer.” Falar mais claro do que claro não é possível. Para baixo. pô. No entanto. pessoal. Se o mesmo jovem. em frente de um bar. o gerenciamento da redundância está limitado por dois lados e. em conseqüência do barulho em frente do bar. conforme a máxima “Fale de uma maneira que você não gastará mais energia articulatória do que necessária. pois. pô”.” Os recursos lexicais e sintáticos não conhecem limites superiores.” Mas o que significa “necessária”? O que é necessário. ele poderia também dizer “Eu estou com vocês. o falante enfrenta um problema de coordenação: Ele tem que dosear a redundância da sua fala conforme a sua avaliação prévia das chances que o receptor tem para uma interpretação bem sucedida da mensagem. mas estes não vamos analisar neste contexto. nós trabalhamos na comunicação com redundância. Precisa-se exatamente de tanta energia articulatória. bastaria também “Tô. Por isto. responde à pergunta do seu amigo “Vamos nessa que é boa à beça?” com a expressão “Tô com’cê. “Tô comcê. Há um limite inferior da gramaticalidade lexical e . Caso a estrutura sonora seja demasiadamente reduzida. este “ruído” tivesse sido articulado com tão pouca “negentropia de sinal”. com um excesso de “negentropia de sinal” que ultrapassa a quantidade absolutamente necessária para a identificação correta da mensagem. que as suas chances de ser interpretado corretamente.” até a forma completa “Eu estou com vocês. do outro lado. pois se reduzirmos a “negentropia de sinal” apenas um pouquinho demais. pouca redundância arrisca a compreensão e redundância demais arrisca a atenção do receptor. Há. isto poderia ser feito com qualquer pronúncia mais explícita. Deste modo. pessoal. sob certas co ndições. ao mesmo tempo. ao fato que cada fonte de informação deve dispor sobre um conteúdo médio de informações. então. Não existe uma prolixidade máxima. Observemos os fatores de mera transferência de mensagem. pô!”. em parte. Em conseqüência disso. pessoal e vou entrar neste bar. por exemplo. mas falar da maneira mais econômica e tão redundante como necessária. Quem quer aumentar a redundância além dos recursos acústicos deve usar recursos lexicais.” já é uma forma muito reduzida.

neste contexto. teoricamente. Ele percebe-as como unidades particulares. Isto faz levantar duas perguntas sobre o estado ontológico da teoria de Lüdtke: . “episcopu – bispo”. qualquer dia. muitas vezes. Por causa da máxima de economizar energia articulatória acontece que antigas formas reduzidas tornam-se. por exemplo. como. de uma lei universal da mudança lingüística. “amare – amar”. Nossas gramáticas históricas são cheias de exemplos de metaplasmos por subtração (aférese. as unidades lingüísticas podem apenas ficar cada vez mais curtas. Lüdtke explica este fato através do seu princípio de fusão (vide: Quadro (3) em baixo). de fato. um limite superior da verbosidade e um limite inferior do desleixo articulatório. não aconteceu e nunca acontecerá.59 sintático e um limite superior da expressividade articulatória. pelo princípio da enriquecimento lexical e pelo princípio da fusão. O falante comum simplesmente parou de perceber a expressão “amar hei” como conexão de duas palavras distintas e começou a empregá-las como uma unidade particular. crase ou sinalefa) . deste modo a formação do futuro de presente do português com base no futuro analítico do latim vulgar: “amar habeo – amar hei – amarei”. enquanto não há. “lepore – lebre”. Explica-se. senão ser uma unidade móvel da nossa fala que aparece com alta freqüência. O ouvinte-falante não percebe mais como segmentos diferentes as unidades lingüísticas que acontecem. As palavras sofrem um atrito pelo uso quotidiano. chegaremos ao resultado que. Quadro (3) : A lei de Lüdtke Lüdtke fala. apócope. “colore – coor – cor” ou “de intro . direcionada e irreversível que é gerada pelo princípio de economizar energia. observamos uma circulação ilimitada.dentro” ( COUTINHO 1998: 148 – 149). haplologia. a mudança morfológica é programada a seguir uma certa direção: Em conseqüência do fato que a articulação tem um limite superior. pois ser uma unidade lingüística não significa outra coisa. disporemos apenas de seqüências não contínuas de formas sonoras mínimas. juntas como unidades vizinhas. em vez de unidades lexicais. “idololatria – idolatria”. Desta maneira. Se nós extrapolarmos o princípio da contração sonora e o do enriquecimento lexical. mas não conhece um inferior. formas completas que em seguida sofrerão o mesmo processo de atrito. mas isto. aos poucos. O jogo lingüístico começa de novo assim que uma nova unidade lingüística acaba de se formar pela concatenação de duas unidades antigamente vizinhas. Desta maneira. síncope.

É verdade que uma resposta positiva à pergunta (2) implicará uma resposta positiva à pergunta (1). inconscientemente. “A “drift” de uma língua nasce quando os falantes. Chamamos esta condição de “decisiva”. Se. que acredita que na área da história da língua não haja “laws of relevant type” e que escreveu: “the enterprise of seeking them is doomed to failure”. um caminho enganador. a fim de distingui-la. como três fenômenos de mão invisível são concatenados ciclicamente um atrás do outro. Propomos. por isso. Como não podemos provar a universalidade e nem a não-universalidade do processo. caso nós tenhamos que responder à segunda pergunta com “não”. conquanto elas provocam facilmente conseqüências causais. mas o fato que as pessoas falam de uma maneira que economiza energia não representa uma necessidade absoluta. as leis do transito. por exemplo. no entanto. segue-se que a primeira pergunta representa uma questão empírica que não podemos resolver. à base da universalidade de um fenômeno na área cultural. Lüdtke mostrou. quem leva a hipótese da universalidade do processo em consideração logo terá que admitir que mesmo uma prova com base em dados de várias línguas naturais representaria apenas uma gota no mar. ao nosso ver. Helmut Lüdtke. pois. que explique de onde os falantes tirariam a sua tendência de reforçar uma “drift”. Chama-se “drift”.) chamou de “drift” (corrente). a nossa pressuposição que o processo de mudanças lingüísticas não é causal se baseia na observação que os dados do seu input contêm ações humanas. dão preferência àquelas formas novas que conduzem numa certa direção”. das leis naturais e. Ao nosso ver. então. A teoria de Helmut Lüdtke. a língua desta comunidade pararia de transformar-se conforme o processo de Lüdtke. uma comunidade religiosa bastante grande começasse considerar o desleixo articulatório dos seus adeptos como um pecado mortal. porque estamos de acordo com LASS (1980: 3). consegue esclarecer que há certos princípios que provocam. deste . então. pois é verdade que uma articulação que quer economizar energia necessariamente gera a contração sonora. Lüdtke desenvolveu. todavia a condição prévia para a geração do respectivo próximo processo do ciclo é sempre que os falantes continuam agir conforme as máximas que Lüdtke pressupôs. Mesmo se nós tivéssemos (quase absolutamente) certeza que as pessoas continuariam a corresponder a estas máximas. não acontecem porque elas seguem alguns leis gerais. inferir uma lei universal. chamar a “lei de Lüdtke” uma “lei de terceiro tipo”. sob certas circunstâncias. por outro lado.60 (i) (ii) Será que tal mudança lingüística realmente representa um fenômeno universal? Será que tal mudança lingüística realmente representa um processo que se desenrola conforme uma lei? Estas duas perguntas não são equivalentes. declara Sapir ao inverter os fatos reais. vamos nos ocupar primeiramente com a segunda questão. o movimento direcionado que uma língua ou uma família de línguas mantêm durante um longo prazo. Isto significa. realizou com sua teoria o que SAPIR (1921/1961: 144seg. mas não é possível. uma “drift”. pois não há um argumento concludente. contudo não afirmamos isto. Ações humanas. com efeito. conforme Edward Sapir. elas nunca fariam isto com uma necessidade causal. se nós pressupomos que os falantes continuam a obedecê-los. Pelo contrário. porque ela representa o fator principal que consegue provocar o próximo fenômeno do ciclo. Quem quer pressupor que o processo que Lüdtke analisou é conduzido por leis gerais escolheu. por um lado. das leis planejadas como. por exemplo. concatenados de uma maneira que o output de cada processo ( independentemente de onde nós começamos) sempre representa a condição ecológica decisiva do input do processo seguinte.

Ao contrário. isto não faz deles uma lei. podemos classificar as universalidades lingüísticas em dois tipos que tem. mas será que uma “drift” pode ser inata? Claro que não. por si mesma. a “drift”. provavelmente. quer dizer. embora ele represente uma característica universal dos homens. representa tal universalidade indiretamente inata. ela mesma tem que ser explicada. além da prova empírica que. A “corrente cíclica” que Lüdtke analisou e explicou. Nosso medo de leões. são muito elementares e não são de natureza especificamente lingüística: (i) (ii) o princípio de economia: “Tente realizar os objetivos das suas ações com o mínimo de custos (de energia)”. Há. pois os princípios que Lüdtke levanta para explicar o fenômeno. Não podemos exagerar em destacar o inatismo como argumento decisivo. de objetos separáveis. a sua própria causa de origem. Obviamente. um modelo que é capaz de explicar acontecimentos históricos individuais. em grande parte. mais uma vez. de fato. pois a hipótese que uma coisa é como ela é porque Deus a criou assim sempre seduziu o homem a desistir da procura por uma explicação melhor. o princípio de redundância: “É melhor tomar um pouco demais dos recursos que você usará para alcançar os objetivos das suas ações do que um pouco de menos”. provavelmente. que todas as línguas naturais dispõem de substantivos talvez se deva ao fato que o nosso mundo compõe-se. por exemplo: “Não se meta numa luta com alguém que é mais forte do que você!” O fato.61 modo. há universalidades que são diretamente inatas. De um lado. um modelo básico para a explicação de um fenômeno lingüístico através da teoria da mão invisível. ninguém pressupõe que nosso medo de leões seja diretamente inato. não especificamente lingüísticos. No entanto. O fato que nós nos servimos do nosso aparelho fonador-auditivo para nos comunicar faz parte do equipamento genético do homem. mas não há necessidade de afirmar que há um esquema lingüístico que contém o componente “substantivo”. universalidades diretamente inatas e outras indiretamente inatas que se derivam de estratégias de comportamentos e princípios inatos mais gerais. Contudo. (iii) O fato que este princípios são tão elementares garante que eles são (provavelmente) universais e amplamente cumpridos. Ao nosso ver. Quais são os argumentos para provar tal hipótese. pois nada força os homens a comportar-se conforme a sua natureza inata. temos que admitir que um tipo de determinismo genético possibilita os homens a reconhecer objetos. cada uma. faz parte de uma estratégia mais geral para resolver problemas. foi exatamente isso. Por outro lado. não deve servir como argumento que explique mudanças lingüísticas através de afirmações do tipo “x se transformou em y porque a mudança de x para y corresponde a ‘drift’ predominante”. como. para a questão da universalidade e pressupomos que Lüdtke teve razão quando ele levantou a hipótese que o fenômeno em questão tivesse um caráter universal. o princípio de fusão: “Interprete os conjuntos de coisas que (quase) sempre ocorrem simultaneamente como unidades”. Vamos voltar. A “drift” não explica a mudança. não é realizável? O argumento mais próximo a favor de fenômenos universais na língua é sempre a hipótese que eles sejam geneticamente programados. como já . então. e o que Lüdtke fez. como já vimos.

Explicações através de máximas. Observamos em seguida um exemplo para cada um dos princípios citados.(ibid. “contigo”. quer dizer. “consigo”. por exemplo. 14. O princípio da transparência morfo-semântica diz que uma codificação conforme o princípio ”uma função – uma forma” é “melhor” do que uma codificação que impõe a uma forma várias funções. nos diferentes níveis da língua.. pressupõe se. geralmente.: loc. que a forma “sheep – sheeps” nascerá mais cedo do que a forma “boy – boy”. obviamente. princípios ou estratégias são capazes de esclarecer o até então misterioso conceito da “drift” ou “corrente” na mudança lingüística. para citar apenas alguns deles.: loc. a morfologia e a sintaxe. Em resumo: parece que a lingüística histórica terá um papel principal nas futuras pesquisas sobre os princípios nos quais as línguas baseiam-se. são empregados como sinónimos inversos: O natural e o não-marcado e o marcado e o não-natural. os graus de “iconicidade” da formação do plural na língua inglesa descobrirá que o tipo “boy – boys” tem “iconicidade” máxima. há diversos princípios que determinam a direção da mudança lingüística: “universal principals of morphological naturalness (markedness principles. que crianças formassem o plural errado “*sheeps” mais cedo do que o plural errado “*boy”. “sigo” são menos naturais do que suas formas correspondentes no português moderno “comigo”. quer dizer. preference principles)”(ibid. assim como para uma “drift” semântica. ao princípio da “iconicidade” construtiva.. então. Há um contínuo entre os polos “natural” e “marcado”. o princípio de fusão exige que os morfemas que ocorrem (quase) sempre juntos devem ser percebidos . Isto vale para uma “drift” morfológico. Corresponde. “a graded scale of maximally natural/unmarked to maximally unnatural/marked”. então. por exemplo. the principle of morphosemantic transparency. O plural “sheep”. A TEORIA DA NATURALIDADE A teoria da naturalidade tem três campos de pesquisa principais: a fonologia.) and the principle of system congruity” (ibid. que. É de esperar. Quem examina. Conforme esta regra.).62 vimos. cit. não-natural. A idéia básica da morfologia natural é: “The assumption that morfological phenomena can be evaluated by their naturalness or markedness. cit.: 226) Em seguida. é marcado. sempre conforme as mesmas máximas.” (WURZEL 1992: 225) Os termos centrais “natural” e “marcado”. as formas do português arcaico “migo”. como aquela da pejorização contínua das denominações sociais para mulheres.) Tais princípios são por exemplo: “the principle of constructional iconicity. A teoria de Lüdtke mostra que uma “drift” nasce quando os falantes reagem a estas condições ecológicas e aos problemas impostos por elas. O respectivo estado de uma língua. Como já vimos. também. e é de esperar. uma parte das nossas regras tem justamente “a tarefa” de moldar o nosso comportamento instintivo. impõe aos falantes certas condições ecológicas que podem causar-lhes problemas quando eles tentam realizar as suas ações comunicativas com êxito. o fato que a forma do plural de um substantivo (geralmente) é mais comprido do que a respectiva forma do singular. “tigo”. mas as idéias principais valem para todas as áreas citadas. A nossa representação se orientará especialmente na teoria da morfologia natural. (. o tipo “goose – geese” tem “iconicidade” mínima e o tipo “sheep – sheep” não é iconográfico. “mais coisas” são representadas iconograficamente através de “mais fonemas”.

enquanto “cruelíssimo” é apenas tolerado. ao princípio da transparência morfo-semântica. pelo menos nas áreas analisadas. podemos esperar que a forma atual. a sílaba “-go” originalmente ainda trouxe a noção da posposição latim “cum”. é direcionada. começaram a ser percebidos como unidades morfológicas. Há uma tendência. são . por exemplo. “Migo”. A mesma consoante “-c-“ antes de “e” ou “i” sonorizou-se em “-z-“. as consoantes mediais surdas latinas. de substituir as formas que não correspondem a estas características por formas que são congruentes com o sistema. então. uma diminuição da naturalidade morfológica. Como já vimos no penúltimo exemplo. transformou-se em “dizer”. algum dia. with its semiotically motivated naturalness principles. “Dicere”. No entanto. “Magríssimo”. por exemplo. forma o superlativo sintético da grande maioria dos seus adjetivos com o sufixo “-íssimo”.” (WURZEL 1992: 227). “sigo”. A consoante “-c-“ antes de “a”. consequentemente. Na forma atual. em parte. O processo para a formação dos superlativos eruditos ainda é idêntico ao do latim. “sigo”. with principles that are motivated articulatoily or perceptually. como os falantes (provavelmente) continuarão a corresponder ao princípio de fusão. de substituir as formas “arcaicas” ou “eruditas” por formas mais adequadas ao sistema da língua. em “digo”. Na raiz do verbo ocorre. alomorfia na primeira pessoa do presente do indicativo: diz + e + r vs. no português arcaico. and phonology. A morfologia natural comprovou que a mudança lingüística. sonorizaram-se em português nas suas homorgânicas. “crudelíssimo” – “cruelíssimo”. “nós dizemos” opõe-se. corresponde a tendências que. nas mudanças lingüísticas. os falantes corresponderam (inconscientemente) ao princípio da transparência morfo-semântica: Eles pressuporam que os respectivos morfemas exercessem apenas função de raízes e esqueceram simplesmente a segunda função da raíz arcaica. O desenvolvimento da naturalidade fonológico provocou. o processo da geração de formas marcadas nunca parará e a língua nunca chegará a um estado de perfeita estabilidade natural. quer dizer. consequentemente. Nesta situação. as formas “*agudíssimo”. quer dizer. Num pequeno grupo de adjetivos acrescenta-se ao seu tema os sufixos “-limo” ou “-rimo” para formar o grau superlativo. Houve então morfemas “intransparentes” que funcionaram simultaneamente como raízes e posposições. quando intervocálicas. “paupérrimo” – “pobríssimo”. “nigérrimo” – “negríssimo”. Um exemplo pode esclarecer este fenômeno ainda mais: Em conseqüência de princípios fonológicos de naturalidade. O princípio da congruência de sistema pressupõe que a morfologia de uma língua é determinada por certas características estruturais que definem o sistema lingüístico. O português. mas. deste modo. também cairá em conflito com o princípio da transparência e será percebida como unidade morfológica com função dupla. como raízes. enquanto os morfemas “migo”. “o” ou “u” sonorizou-se em “-g-“. “tigo”.63 como unidades morfológicas. “tigo” agora exercem exclusivamente a função de raiz. eles tinham que acrescentar à raiz moderna um morfema que exercesse função de preposição. No entanto. Nesta altura o ciclo deste jogo lingüístico começará de novo. É obvio que o paradigma “eu digo”. o prefixo “com” exerce esta função. dig +  +  + o. Estes exemplos mostram que há uma tendência. os diversos princípios podem entrar em conflito. desde então. no português. a da posposição latina. “pobríssimo” ou “negríssimo” já são aceitas. “*amargíssimo” ou “*nobríssimo” ainda são corrigidas como desvios da norma. “Dico” transformou-se. Mas alguns adjetivos já apresentam duas formas alternativas: “macérrimo – magríssimo”. Em conseqüência disso. Por causa de tais conflitos. Geralmente acontecem conflitos entre “morphology.

” Derivamos desta afirmação. diretamente. A teoria de naturalidade. se ele corresponde às características principais do sistema da respectiva língua. deve e pode ser explicado? A teoria de naturalidade quer explicar casos individuais de mudanças lingüísticas? Ela quer explicar. Encontramos esta tautologia bem explícita num estudo de STEIN (1990: 289): “Any departure from optimal nature stuctures is more marked and less natural. e a teoria naturalista chama este “comum” de “natural” (isto é o batismo).64 universais. porque o superlativo “magríssimo” reprimirá a forma erudita “macérrima” ou porque nossos filhos geralmente formam os particípios “dizido”. porém não se dá conta desta exigência fundamental. não representam outra coisa do que o conjunto de processos que degradam fenômenos marcados a favor de fenômenos menos marcados. pois são justamente estas tendências e o seu caráter universal que exigem uma explicação. A designação refere-se ou às estruturas lingüísticas. nesta hipótese. as características que predominam nesta língua e que são. d) muitas vezes. às regularidades diacrônicas ou aos processos comunicativos. há outra explicação da naturalidade que afirma que um fenômeno morfológico é mais natural e menos marcado. antes de aprender as formas “dito”. Mudanças “naturais”. finalmente. geralmente. Sendo “não marcado” equiparado com “natural”. as mais comuns. pois ainda não sabemos bem o que deve ser chamado “natural”. “feito” e “aberto”? Ou será que a teoria naturalista quer explicar certas tendências atuais. na verdade. o resultado de processos de mudanças lingüísticos. da recepção ou do comportamento”. como propôs STEIN (1988: 474)? Em qual nível de análise o termo deve ser aplicado: no nível das estruturas e fenômenos lingüísticos. Em analogia a esta definição tautológica. por exemplo. A interação entre estas tendências provoca conflitos que impedem o sistema lingüística chegar a um estado de repouso. A razão deste pecado de omissão se encontra. que representa o mais simples. Sendo as características que definem o sistema de uma língua. por isso. Umas das hipóteses centrais da teoria naturalista diz que um processo morfológico. no nível dos processos diacrônicos ou no nível das ações comunicativas dos indivíduos? Outra pergunta importante encontramos na questão o que o conceito de naturalidade propõe-se a explicar? O que. podemos afirmar que esta segunda explicação da naturalidade também declara apenas que o comum seja o não marcado e o não marcado seja o natural. “potential directionalities” ou . esta explicação também afirma apenas que as mudanças “naturais” conduzem de um estado “menos natural” para o estado “natural”. Trata-se. “fazido” e “abrido”. respectivamente uma estrutura morfológica. neste ponto de vista. O que dificulta a compreensão do conceito da naturalidade é. per definitionem. já no conceito da naturalidade que. é tautológico e circular: o comum representa o não marcado. Este resultado não é pouca coisa! Mas ele não contêm nenhuma parte explicativa. a obscuridade do domínio deste conceito. do batismo de uma tautologia: o comum forma-se com uma freqüência maior e desaparece com uma freqüência menor do que o desusado (isto é a tautologia). que representa o natural. c) relativamente resistente a mudanças lingüísticas e/ou. a conclusão tautológica. ou será que “naturais” são “os fatores de uma infra-estrutura pré-lingüística nas áreas da cognição. porque a palavra latim “júdice” se transformou no português em “juiz”. é natural quando ele é a) vastamente divulgado e/ou b) adquirido numa fase primária da vida e/ou. que “any departure from natural” é “less natural”. em parte. além da sua definição tautológica.

por exemplo. A versão corrigida é: 2a versão de uma explicação de uma mudança lingüística através da teoria de naturalidade: C1 L1 L2 uma seqüência [rs] [ss] é “mais fácil” para pronunciar do que [rs] Se os falantes tivessem a escolha. se opõem. No próximo passo. [rs]  [ss] E É obvio que a chamada “lei estatística” (L2) não melhora a nossa explicação nem tornou-a mais “mole”.65 “the logical gap between the tendency in the individual and the unindirectionality of tendencies in groups” (STEIN 1990: 286)? Os teóricos pressupõem que eles conseguem explicar a tendência. Sua morte confirma a estatística. num processo da assimilação da primeira consoante à segunda em [ss]. mas sim generalizações. O fato. faz parte de uma teoria de naturalidade que explica porque “persona” . podemos transformar a teoria naturalista numa teoria com força explicativa. “Singular counter-instances do not falsify probabilistic theories”. Voltamos ao exemplo que LASS (1980: 18) escolheu para provar “why naturalness does not explain anything”. afirma LASS (1980: 19). ou “reversu” se transformaram em “pessoa” ou “revesso”. na maioria dos casos. muitas vezes. ou eles acham que a tendência explica o caso individual? Para cada uma destas questões. Escolhemos um caso claro de naturalidade e tentamos transformar uma suposta explicação. gradualmente. na passagem do latim vulgar para o português. Isto tem que ser assim. que 90 % dos fumantes compulsivos morrem de câncer de pulmão não explica porque Manuel Brega. O explanandum continua a ser o que ele foi: um non sequitur. um fumante compulsivo. se nós correspondemos a certos princípios. Sua morte foi causada por processos químicos no seu pulmão e não pela estatística. mas a estatística não explica a sua morte. só para mostrar como o conceito de naturalidade ganha força explicativa. O grupo de consoantes [ rs] transformou-se. morreu de câncer de pulmão. mostraremos que a introdução de uma lei estatística também não melhoraria nossa “explicação”. mas as afirmações dos diversos autores. é muito provável. . a teoria naturalista apresenta as respectivas respostas. por exemplo. Ao nosso ver. conforme Lass. deve ser colocado da maneira seguinte: 1a versão de uma explicação de uma mudança lingüística através da teoria de naturalidade: Condição 1 Lei 1 Explanandum uma seqüência [rs] [ss] é “mais fácil” para pronunciar do que [rs] [rs]  [ss] Claro que o explanandum não representa uma conseqüência deduzida e a lei 1 não é realmente uma lei. porque leis estatísticas não representam leis que permitam conclusões. numa adequada forma explícita. Trata-se então de uma pseudoexplicação sem força explicativa. que eles preferissem uma articulação “mais fácil” do que uma “mais difícil”. Esta observação. Uma explicação desta assimilação através da teoria de naturalidade.

ele conseguirá explicar a tendência. “música” ou “sábado” se transformarão. O advérbio “geralmente”. então. mas uma comunidade de falantes com uma variação lingüística. mas ela explica as tendências. vem da condição C3. que a teoria naturalista aspirasse a uma explicação do caso individual. legitimamente. não consegue explicar o caso individual. A terceira versão corresponde aos princípios do individualismo metodológico. Mas é justamente isto. Há três diferenças principais entre a segunda e a terceira versão da nossa explicação da transformação lingüística entre [rs] e [ss]: i. A realização de [rs] através da forma [ss]. A distinção rígida entre os níveis microscópico e macroscópico permite a renúncia àquela terminologia dupla de “natural” e “marcado” que provocou a conclusão circular . porque ele pressupôs. no explanandum E. Os custos da articulação de [ss] são menores do que os de [rs]. e não nas línguas. a terceira explica a existência de uma tendência. pois. é facilmente possível inferir um explanandum flexível a partir de condições incertas. No entanto. mas sim ao comportamento humano (L1) e à lógica do conceito de convenção (L2). E Esta dedução tem duas vantagens em comparação com as anteriores: ela vale e ela tem força explicativa. em “arvre”. A teoria de naturalidade. Sob condições naturais.) ii.mas na qual não existe a respectiva tendência. na qual valem as condições C1– C3 e as leis L1– L2.) iii. como. Geralmente nasce uma modificação da convenção de [rs] para [ss]. é capaz de explicar a tendência. que o modelo naturalista não conseguiria realizar. “fosfro”. caso nós formulemos uma versão adequada. Esta explicação contém duas afirmações sobre leis que não se referem à língua.) A segunda versão tenta explicar o caso individual. geralmente. ela não é capaz de prever se as palavras da norma culta “arvore”. não prejudica os objetivos comunicativos dos falantes. “musga” e “sabo”. quer dizer. Este fato é importante. nas estruturas. Claro. pressuposto que as leis são rígidas. Claro que as respectivas leis e condições poderiam ser formuladas com mais habilidade. O caso que falsifica a hipótese de uma tendência não representará um resultado individual irregular. nos processos ou nos coletivos. por exemplo.66 Esta sentença esmagadora de Lass é correta. aos poucos. “fósforo” . Segue-se uma explicação da tendência: 3a versão de uma explicação de uma mudança lingüística através da teoria de naturalidade: C1 C2 C3 L1 L2 Existem grupos de consoantes [rs]. A terceira versão distingue rigidamente entre o nível microscópico das ações individuais e o nível macroscópico das estruturas lingüísticas. Se a maioria de uma população se afasta freqüentemente da mesma maneira de uma das suas convenções em vigor. ela provoca uma modificação desta convenção em rumo a este desvio. pelas razões já mencionadas. mas a tendência. o ponto de partida da explicação encontra-se nas ações dos indivíduos são. mas de leis incertas segue-se absolutamente nada. a transformação de “persona” em “pessoa”. os homens preferem escolher entre várias alternativas de ação aquela que promete o maior lucro subjetivo.

pois estas são as áreas onde os efeitos da “economia sábia” se mostram mais óbvios. Já no começo do século XIX. ao suposto lucro líquido subjetivo. Claro que a aspiração ao máximo lucro líquido não tem nada a ver com egoísmo ou altruísmo.67 das definições inicialmente mencionadas. Isto vale para Madre Teresa assim como para um masoquista ou um especulador de bolsa em Nova York. O homem é capaz de hierarquizar as alternativas de ação que se oferecem em respeito a um dado objetivo de ação. Ações altruístas são aquelas que são realizadas sem esperar que os outros reajam com alguma recompensa. com o desejo de economizar energia na articulação e na cognição e com o princípio dos custos mínimos (LYONS 1968: 89seg. ele escolherá a que promete dar-lhe o maior lucro líquido subjetivo. Ações egoístas são aquelas que não consideram. cresce o perigo de falar sobre a língua de uma maneira que abstrai o falante e reífica a língua. as conseqüências positivas ou negativas que uma ação tem para os outros. conseguimos. Todos eles não se distinguem na racionalidade das suas ações. sob certas condições. Nossa terceira versão da explicação representa uma explicação através da mão invisível que inclui. então. que afirmaria que os comportamentos naturais dos falantes. nossa terceira versão da explicação inclui tal pressuposição de naturalidade no lei L1. Isto significa: Se um indivíduo pode escolher entre várias alternativas para realizar o objetivo de uma ação. no seu cálculo de custos e lucros. Como durante a comunicação. Ao nosso ver. e sim empírica. os falantes não têm o . podem provocar estruturas não marcadas no nível macroscópico da língua. Tal teoria modificada de naturalidade não se opõe ao nosso postulado anterior que exige que qualquer teoria explicativa das mudanças lingüísticas deve ter a forma de uma explicação através da mão invisível. Uma ação escolhida vale como explicada. A idéia principal da teoria das escolhas racionais é a seguinte: As ações humanas são determinadas por três fatores. Tal distinção na terminologia permitiria a formulação de uma hipótese não circular. Embora a naturalidade (do comportamento humano) e a marcação (das estruturas lingüísticas) sejam relacionadas sistematicamente uma com a outra. mas na avaliação subjetiva do lucro líquido. a consciência repara o fator da economia de custos menos do que o da aspiração ao lucro máximo. na avaliação do futuro lucro líquido de uma ação. sob as condições conhecidas e no ponto de vista subjetivo. todo mundo se restringe. deste modo. Voltamos. Como ninguém conhece suficientemente todas as conseqüências das suas alternativas e todas as condições objetivas. a melhor possível. Chama-se racionalidade de ação a faculdade de classificar as alternativas conforme este critério. O critério predominante desta hierarquização é o lucro liquido subjetivo que o indivíduo espera ganhar. os objetivos de ação. a nossa teoria de naturalidade. rigorosamente falando.). A melhor motivação para a escolha de uma alternativa foi dada. Já GRIMM (1819/1968: 2) escreveu: “A língua cresce conforme a lei natural de uma economia sábia.” Nesta tradição se alinha a teoria da naturalidade. pressuposições da teoria das escolhas racionais. as possibilidades de ação e os limites de ação. e por isso as áreas da fonologia e da morfologia sempre foram consideradas o domínio principal para as tentativas de explicar as mudanças lingüísticas através de uma teoria de naturalidade. ao mesmo tempo. De fato. se o indivíduo mostrou que sua escolha era. definí-las independentemente. se a vantagem da relação entre seus custos e seu lucro são máximas. No entanto. faz sentido reservar o predicado “natural” para o nível microscópico e o predicado “(não) marcado” para o nível macroscópico. O lucro líquido de uma ação é o lucro menos os custos. os lingüistas souberam que o desenvolvimento de uma língua tem alguma coisa a ver com a economia .

Dependendo da respectiva situação inicial de cada língua.68 objetivo de diminuir os custos ao mínimo possível. os chamados “principles of human nature”. Isto já vimos na teoria de Helmut Lüdtke (cáp. 13). conforme este conceito. Os fatores de benefícios são: persuasão (por exemplo. capacidade de memória). social e informativo. o desejo de deixar uma impressão positiva no receptor não é menos natural do que o desejo de economizar energia de articulação. a escolha de uma palavra culta). a palavra precisa). O que importa na comunicação. são exatamente estes fenômenos de mudanças lingüísticas que são provocados por máximas universais de ação. pois quem aspiraria a economia total dos custos. cinco fatores de benefícios e dois fatores de custos entram no cálculo que determina a escolha dos recursos lingüísticos. mas tem que abranger também a sintaxe e a semântica. que a área de explicação da teoria de naturalidade não se limita à fonologia e morfologia . é um saldo positivo entre os custos e os benefícios. o tamanho da palavra) e custos de energia cognitiva (por exemplo. O quadro (4) representa os fatores de custos e benefícios que influenciam durante uma ação comunicativa o cálculo da escolha dos recursos lingüísticos: Quadro (4): Os fatores de custos e benefícios numa ação comunicativa. temos que admitir. DIACRONIA OU SINCRONIA? . imagem própria (por exemplo. como em todas as outras ações. cálculo benefícios custos estético social informativo energia cinética energia cognitiva imagem própria relação persuasão representação No lado dos benefícios distinguem-se o lucro estético. O lucro informativo pode referir-se à persuasão ou a representação. Com efeito. representação ( por exemplo. estes fenômenos sempre tiveram e terão diferentes efeitos nas diversas línguas. a energia de articulação. estética (por exemplo. poderia ficar calado. relação com os outros (por exemplo. por exemplo. a expressão com maior eloqüência ou melhor compreensibilidade). O lucro social pode referir-se à imagem própria ou à relação com os outros. a expressão mais elegante). Os objetos da teoria de naturalidade. 15. Se nós pressupomos que. Os fatores de custos são: os custos de energia cinética (por exemplo. a variação mais gentil). no lado dos custos distinguem-se os custos de energia cinética e os custos de energia cognitiva.

. Como se sabe. por exemplo. como se sabe. diferentes perspectivas de pesquisa. mais uma vez.” (COSERIU 1980: 144). mas. a definição citada por Bally e Sechehaye podemos afirmar: A resposta pode ser “não só . Trata-se. O “Cours” foi redigido pelos dois lingüistas suíços Charles Bally e Albert Sechehaye e ele pretende refletir os pensamentos que Saussure tinha referido num curso universitário com o mesmo nome. Mas os próprios autores não assistiram àquele seminário. favorecem a interpretação metodológico da dicotomia. e do outro lado para os autores do “Cours de linguistique générale”. de uma afirmação pelo ponto de vista sincrônico ou diacrônico? Ou numa pergunta mais geral ainda: Uma teoria sobre a mudança lingüística pertence à lingüística diacrôncia ou sincrônica? Se nós observarmos. que ela teve a seguinte forma: Sob as condições Cx – Cy (lingüísticas e extra-lingüísticas) que dominaram no decorrer do século XX. Lembramos.” (SAUSSURE 1998: 163). está incerto e controverso. o uso atual dos termos sincronia e diacronia na linguagem corrente dos lingüistas é profundamente cunhado pela versão do Cours de Bally e Sechehaye. predicados ontológicos que denominam duas maneiras de ser da língua. uma comunicação conforme as máximas M1 e M2 iniciou um processo de mão invisível que provocou. necessariamente a “extinção” da palavra “saga2”.. podemos sempre confiar na hipótese que alguma coisa . de fato. a determinação conceptual destas duas dimensões da língua devemos a Ferdinand de Saussure. A perspectiva sincrônica é uma análise de um estado de língua sob abstração da mudança. Suas fontes foram os relatórios estudantis sobre as aulas e o conhecimento lingüístico de que lingüistas da época podiam dispor. julgou: “De Saussure não se dedicou a ontologia. é empregado para duas coisas diferentes: de um lado para Ferdinand de Saussure. A compreensão geral da dicotomia saussureana e. nem outro”. Ao que Saussure se dedicou na verdade. então. naquela reconstrução do curso com base nos relatórios incompletos que por si mesmo também já tinham contido interpretações falsas. outros querem interpretá-los como predicados metodológicos que servem para denominar aspetos diferentes da análise lingüística. mas vamos.69 A teoria das máximas e seu papel no processo da mão invisível podem esclarecer a conexão entre sincronia e diacronia. a distinção entre sincronia e diacronia não pertence a teoria da linguagem. como supostas idéias saussureanas.. Coseriu. mas a teoria da lingüística. no entanto. mas entre termos sucessivos que se substituem uns aos outros no tempo. (.. Vamos observar agora. “A lingüística diacrônica não estuda mais as relações entre os termos coexistentes de um estado da língua. primeiramente. porque o nome “Saussure”. respectivamente da dinâmica. Quando uma pergunta permite duas respostas contraditórias. que algumas teorias próprias dos dois autores entraram. quer dizer. a perspectiva diacrônica é uma análise de dois ou mais estados da língua de diferentes momentos históricos. e vinculam-na com a recomendação de distinguir os dois níveis de análise nitidamente e com a tendência de atribuir a prioridade à sincronia. aqui. querendo ou não. Uns reconhecem nestes dois termos. até hoje. deste modo. Estes. no sentido de “bruxa”. parece que o significado exato daquela distinção entre sincronia e diacronia ainda está controversa. Não é de admirar. mas fez metodologia. a nossa explicação para o desaparecimento da palavra “saga2”.) Por isso. hoje em dia.. Estes. mais uma vez. a distinção é mais antiga do que a definição dos termos.. principalmente. lançar uma olhada sobre o uso destes dois termos na linguagem corrente dos lingüistas. nesta explicação. não são idênticos. em conseqüência das leis L1 e L2. mas também” ou “nem um .

sincronia. 16.. Quem compara o poder de compra do Real no momento T1 com o poder de compra do Real nos momentos T2 .” (ibid. de princípio. fica evidente que os termos “sincronia” e “diacronia” não são adequados para uma análise dos problemas de mudança. Contudo. e HAYEK (1969: 154) escreveu: “O problema da formação de tais estruturas (como. mas pelo contrário como uma criação. Parece-nos que uma explicação do tipo apresentado é adequada para cumprir a exigência que COSERIU (1980: 94) levantou em 1980 no seu ensaio “Sobre a primazia da história”. deste modo. No fundo. mas uma atividade (energeia). por exemplo. em primeiro lugar. não chegaremos a tal teoria por um método que pretende generalizar as descrições históricas do valor de compra. de termos da teoria da lingüística histórica e não da teoria da mudança. Vários autores já afirmaram que a questão da mudança lingüística não representa um problema histórico. o mercado ou a língua. ou será que os lingüistas devem abstrair os falantes e observar a língua. Aqui. Tn realizará uma pesquisa diacrônica e chegará. ele tencionou mais para a segunda resposta: “A língua não deve ser interpretada como um produto morto. a questão da mudança de uma língua – respectivamente a mudança de um fenômeno de terceiro tipo – não é um problema histórico. aconteceram apenas uma única vez. . porque ela ocupa-se com fatores de uma seqüência de ocorrências que podem. nossa) é uma questão teórica e não histórica.. a dicotomia “diacronia versus sincronia” não combina com a idéia de geração e mudança de fenômenos lingüísticos. viu na mudança lingüística “um problema racional”. “O passado é o lugar das coisas que são terminantemente acontecidas e criadas”.70 está errada com os termos. não representa uma teoria da história . como uma coisa (relativamente) autônoma? A discussão deste problema ocupa os lingüistas há séculos e a questão surge em cada geração de novo. A LÍNGUA INTERNA DE CHOMSKY Será que os lingüistas devem compreender e analisar a língua. Uma teoria da mudança lingüística. ao examiná-lo mais pormenorizadamente. por exemplo. Como sabemos. se a língua representaria mais cedo uma obra (gr.: ergon) ou uma faculdade (gr. (GARAUDY 1973: 139). mas uma teoria da dinâmica. tocamos outro problema que. a uma história do valor de compra do Real. Sua versão de abordar o problema referiu-se à pergunta. ele afirma ainda mais decidido: “A língua por si mesmo não é uma obra (ergon). Trata-se. de fato.: energeia). consequentemente. Deste modo. Coseriu pôde . no entanto quem quer explicar a redução do valor de compra num dado prazo precisará de uma teoria sobre a inflação. Como se sabe. obs. quem iniciou a discussão foi HUMBOLDT (1836/1907: 44). ser repetidas. no sentido de uma faculdade. De fato. é só o presente que é o lugar da dinâmica. COSERIU (1958/1974: 94). no fundo. em que ele convidou a criar uma “sincronia integrada” cuja tarefa será determinar a maneira como “o funcionamento da língua e a mudança da língua convergem”. mas ele não chegará a uma teoria da inflação. em primeiro lugar.T3. pois os termos “estado” e “história” são essencialmente diferentes dos termos “estase” e “dinâmica”.” Em outro trecho. assemelha-se ao problema diacronia vs. embora. Neste caso. O que pertence à história é estático.. porque estes termos servem geralmente para a caracterização de observações sobre a língua no seu sentido reíficado.: 46) Para a prática da lingüística este conhecimento quase não mostrou efeitos.

mas sim. uma gramática interna que. Não seria econômico. por exemplo. tem que adquirir esta gramática apenas em parte. e justamente estas teorias representam os dois campos onde a questão de Humboldt. que muitas vezes não se trata de uma fuga.67 Forma-se na criança. “internalized language” (IL). em seguida. o conjunto de frases que tal gramática internalizada avalia como gramaticalmente bem formadas chama-se. mas das coisas que devemos omitir. Para que serve o conhecimento que a língua. Isto acontece. uma gramática de uma língua individual ou um livro didático? Seja qual for. mas não “sempre”. A língua. então.. nos casos da teoria gerativista e da teoria sobre as mudanças lingüísticas. e o que não lhe 67 Nosso sistema de normas morais ou legais também não trata. para a maioria das análises lingüísticas. de algum modo. deve ser representada mentalmente. apesar do fato que os dados lingüísticos que uma criança geralmente recebe do seu ambiente são bastante delimitados e deficientes. mas de uma exigência que o objetivo da pesquisa levanta. conforme esta terminologia. ele disporá sobre uma representação mental do poema aprendido. e isto.” Os gerativistas acreditam que é impossível explicar sem tais pressuposições como todas as crianças deste planeta. antes de tudo. mas uma atividade. não representa um engano teórico. no entanto. quer dizer. O que importa nesta definição mostra o exemplo seguinte: Quando um homem grava na sua memória um poema. mas esta representação mental não manterá a mesma relação com o poema que a gramática IG mantém com a língua IL. uma história das línguas. à base dos princípios inatos e da experiência lingüística. impossível. O modo de ver a língua exclusivamente como um ergon representa neste momento um engano. pois a área das coisas permitidas deve ser ilimitado. Esta gramática representada chama-se. conforme a terminologia dos gerativistas. A teoria gerativista imagina. na maioria dos casos. em primeiro lugar. novamente. Chama-se gramática este conhecimento que se compõe de vários componentes interativos. não representa uma obra. praticamente.” Acreditamos. CHOMSKY (1986: 3) escreveu: “UG may be regarded as a characterization of the genetically determined language faculty. são capazes de aprender a sua respectiva língua materna num prazo relativamente curto. independentemente da sua inteligência. “Geralmente”. pois o que pertence à língua IL. quer dizer. pressupõe-se que cada falante competente dispõe de um dado conhecimento lingüístico que facilita-lhe produzir e compreender um número ilimitado de frases. entrou na discussão. a gramática internalizada (em inglês: “Internalized Grammar” = IG). Esta parte inata do conhecimento lingüístico chama-se “gramática universal” (em inglês: “universal grammar” = UG). porém. por isso. mas. na língua no sentido de ergon. para esquece-la imediatamente e para refugiar-se. quando questões da gênese ou da formação entram no primeiro plano da pesquisa. . mesmo em roupas diferentes. mas uma necessidade prática. codificar e aprender todas as coisas lícitas. pois uma parte das nossas habilidades gramaticais é inata. nesta parte inata do nosso conhecimento lingüístico. seria útil fingir que a língua representa um ergon. (. ela faz parte do nosso equipamento genético e é. Além disso. que não se trata. do tipo de língua a aprender e do ambiente social em que elas vivem.. Cada criança chega a este resultado numa idade em que ela não consegue aprender nenhuma habilidade que mostre um grau de complexidade semelhante. durante a sua adolescência. os gerativistas pressupõem que o ser humano.) as a theory of the ‘initial state` of the language faculty. em primeiro lugar. a reíficação da língua. Em outras palavras. geralmente. universal. de princípios restritivos.71 afirmar com toda razão: “Esta afirmação já foi citada muitas vezes. Conforme a teoria gerativista. de regras positivas. das coisas que são permitidas. se o lingüista quer redigir um dicionário.

enquanto a gramática exteriorizada EG representa apenas um derivado dela. Se nós chamamos ou não chamamos um fenômeno de ‘língua’ depende. o que representa o fato dado é a língua exteriorizada EL. De um lado. de fato. qualquer lingüista tradicional poderia tranqüilamente concordar.” (CHOMSKY 1986: 26) Não queremos seguir mais ainda esta linha de discussão. that is. no caso do poema. é determinado pela gramática IG. pois o que lhe importa seria nada mais do que a respectiva língua natural. pois conforme sua visão do mundo. Deste modo. E” com nosso conceito da língua como um fenômeno de terceiro tipo. you are always talking about an epiphenomon. disse CHOMSKY (1982: 108). “Grammars have to have a real existence. Esta existe independentemente do que se encontra representado na tua cabeça ou na minha. distingue-se profundamente da gramática que um homem tem na sua cabeça. deste modo. Ela representa a única coisa que realmente tem existência material. na verdade. não seria a tarefa do lingüista pesquisar o que uma criança tem na cabeça. não se trata nem de uma categoria lingüisticamente relevante. however characterized. conhecimentos sobre a organização da mente humana são interessantes por si mesmos. nenhuma pessoa empírica domina perfeitamente – neste caso. there is something in Your brain that corresponds to the grammar. “If you are talking about language”. ela representa uma coisa que não corresponde com nada. Quanto ao nosso fictício lingüista tradicional. That has got to be true. Até aqui. a todas as línguas naturais do homem. Para os representantes da gramática gerativa. representa a manifestação exterior da gramática IG. por assim dizer. you are talking about something at a further level of abstraction removed from actual physical mechanisms. aquela parte da gramática IG que é dada como inata ganha um interesse particular. pelas quais a análise dos princípios universais da nossa faculdade de falar tem uma importância maior. Nisso.” (CHOMSKY 1982: 107). A língua IL. pois é ela que é comum a todos os homens e. talvez. mas. Apesar disso. nossa). São duas as razões. na verdade. ou uma língua representa um fenômeno que alguém realmente pode dominar – neste caso a gramática EG converge com a gramática IG de um falante competente – ou a língua representa uma coisa que. vale o contrário. a gramática IG representa o verdadeiro objeto de pesquisa lingüística. por exemplo. na sua teoria lingüística. este aspira à construção de uma gramática exteriorizada (em inglês: “externalized grammar” = EG) da língua exteriorizada (em inglês: “externalized language” = EL). Afinal. pois este é logicamente precedente à sua representação mental.” Mais tarde ele afirmou: “The notion of E-language has no place in this picture (quer dizer. a gramática da língua portuguesa. de avaliações políticas ou sociológicas. because E-languages are mere artefacts. que as afirmações de Chomsky sobre a gramática IG e a sua relação com a língua IG. There is no issue of correctness with regard to E-languages. Por isso. No fundo. Um adepto de Chomsky responderia a esta colocação: “O que você chama de ‘língua portuguesa` é.72 pertence. fossem para um lingüista apenas de pouco interesse. embora concludentes. do outro lado. embora ele contra-argumentasse. obs. Ela serve para o lingüista como uma base de dados que ele usa para a reconstrução da gramática internalizada IG. um artefato bastante estranho. mas queremos relacionar a dicotomia “I vs. podemos . esta parte da gramática IG chama-se também “gramática universal”. We can define ‘Elanguage’ in one way or another or not at all since the concept appears.

) are true or false” (ibid. A organização biológica da mente humana representa uma instância adequada para fornecer tais princípios e leis gerais. De fato. ou pelo menos supérflua.: 58) Mas as crianças não conheçam a língua do seu ambiente por convenção. As crianças não aprendem a sua língua materna por costume.: 61). A competência de um falante torna-se. a lingüística. Afirmações sobre a gramática são interpretadas como “statements about structures of the brain”.. é inadequada. Diante deste fato.” (CHOMSKY 1986: 26). universal and particular grammars..: 62). Pois. a hipótese principal do nosso trabalho.” (ibid. sob este ponto de vista. esforçam-se bastante em argumentar contra a hipótese que a língua representa um sistema de convenções que se desenvolveria através de um processo da mão invisível. mas quer. conforme estes dois autores. os humanistas e sociólogos tornaram-se cientistas empíricos através da mera re-interpretação do objeto de pesquisa: “Today the distributional analysis of E-languages continues. não se trata de uma convenção que os alemães falam alemão e os franceses falam francês” (FANSELOW/ FELIX 1987: 62) (apesar do fato que é uma convenção chamar “alemão” ou “francês”. 62). porque “as crianças não têm escolha nenhuma” (ibid. O argumento que a pressuposição de um processo da mão invisível seja inadequado funciona assim: “O termo ‘convenção’. pode recorrer à esta instância. ao nosso ver. (ITKONEN 1991: 71). No entanto. but now it is called ‘analysis of genetic endowment’”. como já vimos no capítulo 9 (pág. podem ser chamados de uma convenção. A vantagem desta auto-limitação é facilmente compreensível.” (ibid. por exemplo. Os autores. um erro. obviamente. explicar. agora. usaram neste argumento o princípio de Frege “da nãodistinção do distinto” (FREGE 1966: 115). se a aquisição e o uso de uma língua. “We suggest that for H to know the language L is for H’s mind/brain to be in a certain state. implica a possibilidade geral de violar a convenção. realizar um sonho que os lingüistas cultivam há cem anos: “UG and theories of I-languages. as questões se se trata de uma convenção e se há alternativas virtuais não fazem sentido. Esta exclusividade tem apenas o efeito de uma auto-limitação voluntária e não representa um perigo. deste modo. enquanto os gerativistas não representam a maioria absoluta dos pesquisadores lingüísticos. Deste modo. mas porque seu equipamento biológico prevê isto. realce nosso). Consequentemente.73 empregá-los para explicar algumas características estruturais da nossa língua. pois: “Cada um aprende e emprega necessariamente a língua do seu ambiente. Segue-se consequentemente: “Statements about I-language (. Pois a pergunta se uma língua natural representasse completamente ou em parte um sistema de convenções é diferente da pergunta. necessariamente. uma qualidade (física?) da pessoa. de fato. 31) uma explicação que merece o seu nome. está “on a par” com as ciências exatas.. are on a par with scientific theories in other domains (. o que eles falam).” (ibid. além disso. Quem não quer apenas descrever adequadamente as regras que constituem uma língua. deve recorrer a princípios e leis gerais.” (ibid. o .) Linguists will be incorporated within the natural sciences. O engano se encontra na pressuposição que todas as possíveis afirmações certas a respeito de uma língua estão esgotadas.: 27. assim que a gramática IG de uma língua é completa e adequadamente descrita. desta maneira. O fato que os representantes da teoria gerativista declaram a gramática IG como o único e verdadeiro objeto da sua pesquisa representa. Consequentemente: “É muito duvidoso. FANSELOW/ FELIX (1987: 58-62). de princípio. se é uma convenção as crianças aprenderem a língua do seu ambiente.: 23) – no seu sentido rígido! Os gerativistas conseguiram. Conforme o ponto de vista gerativista.. porque elas são como elas são.

falar sobre uma redução parcial. não tem caráter convencional. ou será que os autores pressupõem que o objeto daquele conhecimento lingüístico que constitui a gramática IG tem um caráter convencional? No primeiro caso.” (ibid. Teoricamente.).: 60).cit. Suponhamos que um falante exprime uma frase do tipo: “*Não lhe acompanho. que todos os falantes de uma língua dispõem de uma gramática IG que é mentalmente representada e que é. não haverá redução nenhuma. Claro que um gerativista obstinado poderia dizer: “Eu não me interesso pelo aspecto da convencionalidade! Meu interesse refere-se exclusivamente à gramática universal e esta. Mas se a convenção consiste “em possuir a mesma gramática IG” (ibid.” O falante de tais frases não viola nenhum princípio da gramática universal (UG). Geralmente não é o objetivo da formação de teorias lingüísticas descrever a gramática IG de falantes esquisitos. o falante idealizado era o objeto de pesquisa. Claro que nem CHOMSKY (1986) pôde viver sem idealizações.: loc.” (ibid.). hoje ele parece ser um homem comum que teve a sorte de aprender a sua língua materna numa comunidade de falantes que é completamente idealizada. de fato. todavia. “Conforme a convenção”. realmente. fosse possível “que esta convenção. abrangeria também o objeto da convenção.” (ibid. Analisamos. podemos reduzir esta convenção completamente à gramática IG. mas não incluiria a convencionalidade do objeto. uma caracterização adequada e completa da convenção. Antigamente. ao mesmo tempo. simplesmente. porque estou muito ocupado. igual para todos os indivíduos. A validade deste argumento depende da maneira como nós resolvemos a falta de nitidez daquela pressuposição que a língua representa uma convenção. deve ser uma gramática. pois uma “especificação adequada e completa da gramática IG”.).” (ibid. mas a dos falantes “que conhecem a sua língua muito bem”.: 59). ele simplesmente não conhece a regência de alguns verbos. o que facilitaria a comunicação lingüística entre eles.” (CHOMSKY 1986: 17). Ele não se interessa pela gramática IG de qualquer pessoa. cit. O fato que elas aprendem é geneticamente determinado. pois uma especificação de uma ou várias gramáticas IG desembocará numa teoria sobre o conhecimento lingüístico dos respectivos falantes. mas apenas “the case of a person presented with uniform experience in na ideal Bloomfieldian speech community with no dialect diverity and no variation among speakers. em seguida. como CHOMSKY (1965/1969: 13) ainda escreveu em 1965. esta afirmação implicaria uma renúncia à exigência que uma explicação deve ser adequada. porém não significa “idêntico a convenção!”. per definitionem. No segundo caso. nas suas áreas centrais.74 objeto da sua aquisição de língua tem (em grande parte) um caráter convencional. cit. poderíamos. “isto significa que uma especificação completa e adequada da gramática IG representa. mas nunca numa teoria sobre a igualdade dos conhecimentos lingüísticos “nas áreas centrais”. o que não corresponderia com a condição sine qua non que os lingüistas geralmente aceitam para suas teorias. pois cada falante participa na .: loc.: loc. Para a língua desta “hipostasized speech community” vale que ela deve ser enfrentada como uma “‘pure` instance of UG. O pensamento dos dois autores se apresenta assim: Se a língua é uma convenção. se manifestasse nisso. Isto significa nada menos do que Chomsky tem exclusivamente interesse para um falante cuja gramática IG está conforme com a convenção. mas é inata. afinal das contas. “o objeto desta convenção. o argumento de FANSELOW/ FELIX (1987) que a pressuposição de um processo da mão invisível seria supérfluo. Em outras palavras: O que elas aprendem é uma convenção. Isto significa que a idealização foi deslocada. Será que o objeto da convenção é a igualdade das gramáticas IG.

é possível que até religiões representam epifenómenos. à base das experiências bem sucedidas e fracassadas. Conseqüentemente. tal limitação implica renunciar ao conceito já mencionado que afirma que a competência individual tem conformidade com as convenções. constataremos de novo que o fenômeno externo não pode ser reduzida a um ou vários fenômenos internos. da gramática interna de um falante individual. Os lingüistas devem ser conscientes dos efeitos de uma limitação voluntária que impede a realização daquele raciocínio de abstração que parte das ações individuais nos parâmetros das competências individuais e chega ao processo de mão invisível que é o resultado destas ações individuais. desapareceu do léxico externo e.75 convenção da sua língua materna. a afirmação que a palavra “saga2”. Talvez nenhuma mudança tenha ocorrido na gramática externa! . não haveria ninguém que possuísse uma gramática IG cuja “especificação adequada e completa” representasse uma especificação adequada e completa do objeto das convenções gramaticais. pois o que forma a base da aquisição da língua é. mas. mas ninguém consegue cobri-la totalmente. aquele cuja gramática IG gera uma língua IL que está de acordo com as convenções. A criança aprende filtrar a abundância do seu input lingüístico a fim de descobrir. ao mesmo tempo. como fenômeno de terceiro tipo. num sentido trivial. Em respeito à língua IL. Em primeiro lugar. Podemos distinguir. consequentemente. representa um epifenómeno daqueles ações comunicativas que geram a estase e a mudança da sua estrutura. da gramática externa do português do Brasil não implica a conclusão que esta palavra desapareceu também do léxico interno e. que na gramática externa aconteceu a mesma mudança ou uma semelhante. as estruturas que tem valor convencional na sua comunidade de fala. as trilhas e engarrafamentos citados são epifenómenos. por um lado. Por um lado. quando fizermos isto. por exemplo. muitas vezes. mas não há nada de desonroso no fato de ser um epifenómeno. Conforme as convenções. do mesmo modo. a observação que a nossa gramática interna sofreu uma mudança não implica a conclusão. chama-se um falante competente no Português. por isso. Claro. um falante competente. encontra-se num nível mais elevado de abstração do que uma língua interna IL. que ela representa um conjunto parcial daquela língua EL que é gerada pelos princípios e regras universais e convencionais de uma comunidade de falantes. a mudança “interna” da mudança “externa”. Ela impede. podemos afirmar que cada falante é. esta renúncia à abstração do raciocínio implica também a impossibilidade de analisar a mudança lingüística. os princípios inatos da gramática universal e. Queremos realçar que o ambiente do uso também age como um filtro. pois como já vimos. Em segundo lugar. Também é certo que a língua. no sentido de língua de uma comunidade da falantes. Na área cultural. no sentido de bruxa. a língua IL representa exatamente este conjunto de frases que a sua respectiva gramática IG permite gerar. um adequado conceito sobre a aquisição da linguagem. Ao contrário disso. as experiências de sucessos e fracassos comunicativos. que uma língua. entre “I” e “E”. são justamente os epifenómenos que são os mais interessantes. A inflação representa um epifenómeno das nossas ações econômicas. é justamente neste caso. Por outro lado. por outro lado. através da dicotomia de Chomsky. como as línguas naturais no seu sentido hipostático. Chomsky afirmou várias vezes que o conhecimento inato de linguagem represente um filtro para as línguas possíveis.

Apesar do incômodo que o próprio Chomsky constatou. que. os gerativistas. por enquanto. por dizer na terminologia de Chomsky. O próprio Chomsky realça isto: Enquanto nós não tivermos resolvido as questões “how we talk” e “how we act”. BAGNO (1998: 120-122) . But a legitimate answer to this question can be ‘either`or ‘both`. por exemplo. pois. também não há nada a explicar. Claro que o uso da gramática interna IG exige conhecimentos que ultrapassam os conhecimentos que constituem a gramática interna IG. sempre usou as formas com gerúndio “estou falando”. neste sentido. como o desaparecimento das respectivas formas no português de Portugal. UM PROCESSO EVOLUCIONÁRIO Neste capítulo. but insist on that. provavelmente por causa de uma pressuposição oculta que sugere: onde nada mudou. não representa nada que acontece na cabeça de um falante individual.. Camões. é bastante correto dizer “that something very important is left out (. estes “brasileirismos” já se encontram na literatura clássica. as expressões “ele chamou-me ignorante” ou “cheguei em casa”. Para as questões em respeito a mudança lingüística cabe como resposta apenas “both”. não querem levar em consideração que a língua externa EL representa uma das condições que determinam como os falantes empregam a sua gramática interna IG e como eles a adquirem e modificam. O termo “desenvolvimento lingüístico”. a mudança interna não representa nenhuma mudança lingüística e a mudança lingüística.. “estou a ir”. como herança de uma língua portuguesa que se falou há muito tempo. analisaremos a questão em que medida o desenvolvimento lingüístico representa um caso de evolução socio-cultural e como os mecanismos de tal processo evolucionário se representam. O fato.” (CHOMSKY 1980/1981: 80). e que os portugueses modernos avaliam como erros. “estou a falar”. fornecer uma explicação para a mudança lingüística significa mostrar que um fenômeno da língua externa LE represente um epifenómeno que é. enquanto as formas correspondentes do português de Portugal. por exemplo. representam uma inovação bem recente. sob certas condições históricas. inclui necessariamente estase assim como mudança. 68 cf. conservaram-se. mas ao desenvolvimento histórico das línguas. I not only agree. O desenvolvimento lingüístico. Mesmo se os portugueses são convencidos que os brasileiros cometem graves “erros”. neste contexto. ao nosso ver. 17. na fala caipira as palavras “despois”. por exemplo68. Na verdade. “escuitar” ou “entonce” e na linguagem corrente de Ceará. e a mudança externa não e necessária nem suficiente para a mudança interna. algumas formas antigas do português sobreviveram que podem ser encontradas já em escritores portugueses dos séculos XV e XVI. Os historiadores lingüistas tradicionalmente se ocuparam mais com o aspecto da mudança. um resultado necessário do uso em massa das gramáticas internas IG dos integrantes de uma comunidade de fala. por sua vez. “The distinction between I-language and E-language is useful in that it invites linguistics to ask what is the actual object of their study. no Brasil. não se refere ao surgimento da linguagem humana a partir de formas preliminares de linguagens animais. merece tanto uma explicação. não há um argumento objetivo que justificasse tal preferência.). Deste modo.76 Em outras palavras: a mudança interna não e necessária nem suficiente para a mudança externa. “estou indo”.” (HURFORD 1987: 26). Todavia.

69 citado conforme HAYEK (1983: 172) .77 A estase exige a mesma atenção porque o antigo provérbio. então. Nosso raciocínio. em que os animais e plantas valem (. se nós defendemos a opinião que uma teoria do desenvolvimento lingüístico seja uma teoria evolucionária. como cidadãos da natureza (. Não seria tão compreensível como Darwin conseguiu influenciar tanto os teórico sociológicos. não vale na área das línguas. Pois Bentham. COSERIU (1958/1974: 154) escreveu neste contexto: “Observamos o fato que as ciências humanas ainda não dispõem sobre um conceito próprio para substituir o termo incômodo e inadequado da ‘evolução’. escreveu Simon Patton69 no ano 1899. mais uma vez.. nós não concatenamos esta afirmação com a pretensão de representar uma teoria que pertença às ciências naturais. em ambos os casos nós fazemos uma escolha (geralmente inconsciente) cuja primeira alternativa é tão misteriosa como a segunda.. Se “nós não fizermos nada”. ao contrário dos objetos naturais. As afirmações de Chomsky e seus adeptos mostram que o desejo de trabalhar com o método indutivo de Galileu sobrevive também em nossa época e o sonho de chegar a mesma exatidão de resultados que marca as ciências naturais nunca acabou.. Ambas as preocupações tem suas raízes na história da ciência lingüística e merecem. Tanto faz. como todos os processos de formação na natureza..” (RÁDL 1909: 128) “No mesmo sentido. em respeito ao nosso emprego dos termos “evolução” ou “genético”. O desejo de muitos lingüistas de pertencer ao ilustre círculo dos cientistas naturais estimulou alguns a exceder-se em teorias grotescas. causa fortes suspeitas de dois lados.” Quem escreveu isto. e em outro trecho ele realçou que “a verdadeira definição da língua (. se alinha numa tradição sociológica que teve também efeitos sobre a teoria biológica. pois. como Adam Smith era o último filósofo de moral e o primeiro economista. mas é gerado pelos falantes de acordo com as necessidades de expressão. de uma maneira inadequada.: 46). tem que atribui-la. se nós não mudarmos as nossas preferências de expressão. Smith e Malthus foram os precursores da teoria darwinista: “Tratou-se de uma nova e magnífica idéia quando Darwin imaginou a natureza como uma economia. os objetos culturais são marcados pelo desenvolvimento histórico e não pela evolução.” (ibid. mas tudo ficará igual.) a formação de língua sucessivamente. há o perigo de ser confundido com um adepto do darwinismo social.. a língua desaparecerá. Apesar desta crítica de Coseriu. há o receio principal de querer exercer. mesmo pelo seu ponto de vista.. por outro lado. se nós mantemos ou mudamo-las. Por isso realçamos. Darwin era o último economista e o primeiro biólogo. A evolução na língua.. Sabe-se que Max Müller ou August Schleicher.: 246). se nós não soubéssemos que a sua própria teoria representa uma sociologia da natureza e que Darwin transferiu o então ideal do estado inglês à natureza. a estase e a dinâmica.) pode apenas ser uma genética (realce nosso)” (ibid.). uma breve resposta.” E em outro trecho ele afirma: “O sistema não se desenvolve no sentido de uma ‘evolução’. foi HUMBOLDT (1836/1907: 149). continuará tudo igual”.) como integrantes de uma sociedade. O uso do termo “evolução” nas áreas social e cultural. a um sistema evolucionário (realce nosso). nós nos encontramos. apesar da qualidade extraordinária da sua obra. muitas vezes. Por um lado.. em boa companhia: “Quem pensa (. freqüentemente foram vitimas das suas “idéias darwinistas”. deve abranger os dois tipos de fenômenos. por isso. “se nós não fizermos nada. por isso.”. uma ciência natural.

10). um processo evolucionário? Há três critérios a verificar: (i) O processo não pode ser teleológico. que eles tem que tomar uma certa direção. Aqueles filósofos que tentaram transferir a teoria de Darwin à sociedade humana eram péssimos biólogos. a realização de uma reforma ortográfica não representa um processo evolucionário. na lingüística. a teoria da evolução biológica serve-nos apenas como um modelo heurístico. assim como péssimos sociólogos. com toda razão. Isto significa que ele é geralmente gerado por populações e não por indivíduos. apenas August Schleicher empregou a metáfora da luta pela sobrevivência quando ele proclamou a vitoria das línguas indogermânicas. Esta transcrição das idéias de Darwin em um novo contexto foi possível porque eles tomaram a metáfora da luta no sentido literal a fim de provar que a guerra e a opressão ocorrem com a necessidade das leis naturais. Apesar disso. A dinâmica do processo deve se basear num jogo entre variação e seleção. ele . o de ser confundido com um adepto do darwinismo social. nossa argumentação se destaca pela aspiração de aplicar a uma análise lingüística um modelo teórico. O processo deve acumular pequenas mudanças. cuja análise crítica fecunda o pensamento análogo sem deixar-nos cair em antigos vícios. a cooperação entre variação e seleção sempre se realiza quando o jogo contem alternativas cujo grau de adequação varia em respeito a um dado objetivo ou uma dada tarefa e em respeito a um dado ambiente ou às dadas condições ecológicas. naquela época. pelo ponto de vista da lógica do sistema. A hipótese da sobrevivência do mais apto (“fittest”) foi reinterpretada no sentido da sobrevivência do mais forte. de maneira nenhuma. Por isso. Nossa tentativa de compreender o desenvolvimento lingüístico como um processo evolucionário não se caracteriza de maneira nenhuma pela aspiração de transferir um modelo teórico das ciências naturais a um objeto das ciências humanas. (ii) (iii) Analisaremos. em seguida. cumpre as três condições citadas. Quais são as condições que um desenvolvimento histórico deve cumprir. Pela perspectiva da história das ciências. isto significa que ele não pode ser realizado de maneira controlada e em respeito a um certo objetivo previamente definido. como um dos representantes daqueles objetos culturais que nós chamamos de fenômenos de terceiro tipo. mas.78 Com esta afirmação. de qual modo a língua. Abstraindo os efeitos do mero acaso. precisa-se apenas de um pequeno passo para fazer a ponte entre a teoria da mão invisível e o conceito da evolução. assim como. Ao contrario. Não se tratou. nomeadamente este da mão invisível. mesmo se ela se efetua num prazo biológico e mesmo se ela provoca sub-processos evolucionários. Isto não exclui a possibilidade que processos evolucionários podem correr numa certa direção. as idéias do darwinismo social tinham apenas um papel secundário e. Eles colocaram as metáforas de Darwin sobre “a luta pela sobrevivência” e a sobrevivência “of the fittest” ao serviço das justificações pseudo-científicos do imperialismo e do racismo. chegamos ao segundo perigo. ele não tem um objetivo previamente definido e ele não é previsível (vide: cap. do progresso da teoria sobre a evolução cultural. ad (i) O desenvolvimento das línguas naturais evidentemente não é teleológico. mas do apoio ideológico para a política colonial e racista. contudo. o processo de mudança não serve para alcançar um certo objetivo. cuja origem se encontra nas ciências culturais. No entanto. ao nosso saber. para ser chamado.

através de um processo que se chama . afirma: “As línguas. “Exemplos para um meme são: melodias. 13). As melhores formas.”(DAWKINS 1976/1978: 34). o que explica a possibilidade de extrapolar tendências. representa um processo cumulativo. “Exatidão em copiar é outra palavra para longevidade em forma de cópias. nossa). Os memes concorrem um com o outro para conquistar um espaço na memória escassa. no fundo de memes (ingl. ad (ii) O desenvolvimento lingüístico. . começou (. e elas devem a sua vitória à sua própria força inerente. Ser cumulativo é justamente uma das características decisivas dos fenômenos de terceiro tipo (vide: cap. como eles foram. cit. slogans. do que os outros. passam por um processo evolucionário.: “gen pool”. sem duvida. igualmente como genes. “Isto corresponde com a seleção natural. num trecho citado por DARWIN (1871/1893: 116): “Em cada língua. “Cada um por si mesmo. Memes geram. as mais curtas e mais fáceis sobrepõem-se incessantemente às outras. no fundo de memes. 9). a maneira como se faz louça de barro ou arcos. obs. na área da cultura. num sentido geral. obs. “Assim.. quando eles se juntaram e formaram junto com o meme “fé” uma cadeia complexa de memes. nem o meme “purgatório” tivessem sido tão bem sucedidos.” (ibid. ad (iii) O caso da terceira condição é menos óbvio. Max Müller afirmou. ele enumera uma série de analogias entre as evoluções biológica e cultural.: “mem pool”.”(loc. por assim dizer. No seu livro “O gene egoísta”. a maneira de articular uma palavra ou de formar o seu plural. 6. réplicas com um alto grau de exatidão em copiar. cit. “Ao deslocar-se de um corpo para outro. Memes são.” (ibid. pensamentos. entre os memes. através dos espermatozoides e dos óvulos.: 227). moda de roupa. a fim de aumentar suas chances de sobreviver. sem dúvidas. que os memes que geram suas próprias réplicas tinham se formado.” (DAWKINS 1986/1987: 260).”(loc. nossa) ao saltar de um cérebro para outro. imitação. os genes se multiplicam. numa certa direção (vide: cap.) seu próprio processo de evolução.” Hermann Paul escreveu em 1880 nos seus “Princípios da história de língua”: “O objetivo não tem outro papel no desenvolvimento da convenção lingüística do que aquele que Darwin lhe proporcionou no desenvolvimento da natureza orgânica: a maior ou menor utilidade dos objetos formados determina a sua chance de sobreviver ou perecer.: 229). de maneira analógica. unidades de memória que tem justamente o tamanho certo para ainda ser transmissíveis “en bloc” de uma memória para outra.: 233). ao conceito do gene e a qual ele deu o nome “meme”. da mesma maneira como os genes. Alguns memes se juntam. também representam memes.79 corre. Ele até inventou um termo que corresponde. em parte. Claro que unidades lingüísticas como palavras. há uma luta contínua entre as palavras e as formas gramaticais pela sobrevivência.” (ibid. idiomas. O ilustre biólogo contemporâneo. os memes se multiplicam. nem o meme “Deus”. Como entre os genes. e concatenam-se em cadeias complexas de memes.). há.. no fundo de genes (ingl.). Richard Dawkins. alguns que tem maior êxito. respectivamente de contagiar alguém. Não faltam observações na literatura que o mecanismo da variação e da seleção também age na língua.

pela aprendizagem. A impressão. quer dizer. não terá conseqüências para os ‘culpados`. pode ser exprimida pelo menos por cinco maneiras diferentes: (i) (ii) (iii) (iv) (v) “Isto vai acabar em nada. Sinônimos são aleles para excellence. dotados com uma mobilidade irreal. vamos observar uma coisa: As palavras e formas que lutam. mais uma vez. animais e homens) que lhes servem para a reprodução. mas. Os genes tem aleles.” Estes cinco aleles concorrem para um lugar na fala para exprimir a nossa indignação. que tem justamente o tamanho certo para deslocar-se de uma competência individual para a outra. que a próxima CPI do orçamento. que ficam num corpo durante toda a sua vida.” “Isto vai dar em nada. aleles. isto é. eles se juntam em corpos (plantas. um conjunto de todos os memes de uma comunidade de fala. quer dizer. Resta levantar a objeção: Somos produtores dos nossos memes. Continuemos com nosso pensamento: Em analogia do fundo de genes.” “Isto vai acabar em samba. protagonistas que agem num jogo de variação e seleção. são replicadores. Um gene não tem outro “desejo” do que ver-se representado no fundo de genes com a maior freqüência possível. Ao contrário disso. Ao nosso ver. de todas as unidades lingüísticas. os memes não se servem dos cérebros para reproduzir-se. Um gene “bom”. pelo ato de esquecimento. Memes lingüísticas também tem aleles. nisso. simplesmente.” “Já vi este filme antes. Esta capacidade biológica transforma o modelo de Dawkins numa versão moderna do vitalismo cultural. pela sua sobrevivência e os memes de Richard Dawkins que concorrem para uma freqüência maior no fundo dos memes tem uma coisa em comum: todos eles são personificações. tossir – tussir. ou variações de ortografia ( catorze – quatorze) e pronúncia (mendigo – mendingo. por isso. conforme Max Müller. pois genes realmente agem.: 102).80 Interrompemos aqui o jogo de analogias que o próprio Dawkins provavelmente não levou a muito sério e desenvolveremos nossas próprias idéias mais especificamente lingüísticas. mas produtores dos nossos memes. Nesta analogia a relação entre produtor e produto é colocado às avessas. então. Trata-se.: “fitter”) do que outro corpo que não contém o mesmo gene. problema – poblema) podem concorrer entre si e são. unidades lingüísticas que podem assumir a mesma função. Os falantes se infectam por uso e aceitação. eles. de um tipo de infeção70. de fato. Nós somos produtos dos nossos genes. Ao contrário dos genes. o problema para com a analogia de Dawkins se encontra no fato que seus memes são interpretados como reprodutores ativos. mas não de todos! A maioria das coisas que nós 70 SAUSSURE (1916/67: 248) fala do “contato contagioso”. do conjunto de todos os genes de uma população. podemos imaginar um fundo de memes lingüísticos. Podemos chama-los alternativas de expressão. Trata-se dos concorrentes para um espaço na fala. Ele realiza este objetivo ao colaborar na formação de um corpo que se adapta melhor às circunstâncias (ingl. . um meme lingüístico é capaz de deixar uma competência individual. Onde há um gene para olhos azuis haverá um gene para olhos castanhos.” “Isto vai acabar em pizza. Chamam-se “aleles” os concorrentes para o mesmo lugar num cromossoma. Formas gramaticais (eremitãos – eremitões – eremitães). é aquele “que forma um corpo mais eficiente” (ibid. antes de tudo.

simplificou as coisas. Primeiro. Todos os memes são bons memes do ponto de vista do possuidor. máximas e pressuposições sobre a competência individual dos outros. até formas cujo uso nós abominamos. eles. Pelo contrário. se eles conhecem as regras do emprego da palavra “cabeça”. Do ponto de vista do usuário. A competência individual contém a gramática IG de Chomsky e. Perguntado. um meme lingüístico não se aproveita do homem para multiplicar-se com êxito. Como já vimos no contexto da máxima de Humboldt. a minha competência individual nunca chega a ser grande demais.81 temos na cabeça tem sua origem na cabeça dos outros. MAUTHNER (1901/1982: 6) . Até aqui. para fazer o que nós queremos que ele faça e para sentir o que nós queremos que ele sinta. no fundo dos memes. Nossa competência também não é assim. porém. Compreender mais e melhor do que compreender menos. assim como expectativas em relação às expectativas dos outros. as vezes. A nossa competência é nossa hipótese sobre a questão. Não há duas competências individuais idênticas. a competência individual contém expectativas em relação ao comportamento dos outros. A competência individual do homem tem o caráter de uma hipótese71. depende de muitos fatores. O que é um meme bom? Por duas razões. mesmo a metáfora da infeção é correta: conhecemos palavras ou teorias que nunca planejamos aprender. Neste ponto de vista. Pode ser muito útil conhecer formas lingüísticas que nós nunca empregamos em nossa fala. O que vale como sucesso. Esta objeção é correta! É até verdade que. apesar disso. Ao contrário dos genes. Não há um recurso lingüístico adequado para cada situação. nós nem podemos nos proteger contra a “invasão” de um meme. como nós conseguiremos influenciar. por exemplo. o negócio é outro. O que importa para o gene. não tem conhecimento teórico da sua língua. esta pergunta não se responde de maneira tão inequívoca como a pergunta pelo bom gene. O mecanismo da seleção lingüística inclui dois níveis que mantêm uma relação de realimentação. Justamente esta pode ser muito indesejável para o usuário de uma unidade lingüística. Dawkins. alguns dos memes tivessem um sucesso maior do que os outros e que este fato correspondesse à seleção natural durante a evolução biológica. Não há analogia na natureza para a diferença entre posse ativa e passiva. que nós poderíamos dispor sobre um certo recurso lingüístico para um dado objetivo comunicativo que garante em qualquer contexto e com qualquer receptor o mesmo sucesso. por exemplo. é apenas a sua freqüência alta. mas há um recurso lingüístico para cada situação. muitas vezes. mais geral. Não há. num dado contexto. e isto representa a segunda razão: bons memes são aqueles cujo emprego conduz minhas ações comunicativas ao sucesso desejado. por causa da assimetria entre posse ativa e passiva. sempre pressuposto que a nossa competência é bastante rica. dois falantes que dispõem exatamente do mesmo léxico. um dado receptor para acreditar no que nós acreditamos. pois cada homem que domina uma língua dispõe de uma certa competência real ou individual (em distinção daquela competência ideal a que os lingüistas se referem quando eles querem denominar o objeto de uma gramática). geralmente. corresponde com a escolha original do recurso lingüístico. Sabe-se que os falantes. o homem se aproveita dos memes lingüísticos a fim de realizar seus objetivos comunicativos ou. O sucesso social. para conseguir sucesso social. muitas outras coisas como. 71 cf. estratégias. Eles são incapazes de formular as regras sobre o uso de expressões cotidianas. mas os invasores não me forçam a contribuir na sua multiplicação. quando ele alegou que. então.

geralmente. ao nosso problema do mecanismo da variação e seleção das línguas. e a segunda é pelo nível onde a seleção se realiza. mas não temos uma hipótese para um dado recurso lingüístico que diria em que situação nós podemos emprega-lo adequadamente. tenta realizar. ao nosso ver. Cada vez que um falante entra em contato comunicativo com outro. Como já vimos. apenas dois níveis potenciais: o nível do indivíduo e o nível de unidade lingüística. Para realizar todos os objetivos. duas perguntas: a primeira é pela instância que realiza a seleção. pedi-la em casamento. ninguém tem consciência do fato que nós realizamos permanentemente pequenos experimentos. durante a comunicação. isto é. Os diversos objetivos podem até entrar em conflito um com o outro. dois tipos de seleção conforme as suas instâncias . pode-se dizer “Eu tenho orelhas na cabeça”. Vale uma nota observar que nosso modelo comunicativo não nos obriga a pronunciar-nos sobre as diversas teorias de aquisição de linguagem. (É uma das tarefas dos lingüistas. de novo. Chegamos. na biologia. Temos. sim. porque a maioria deles é coroada de êxito. a sua competência individual. A competência individual é uma hipótese que se orienta nos problemas e não nas regras. A assimetria do nosso conhecimento lingüístico depende diretamente do seu caráter hipotético. Ser compreendido representa apenas um deles. o receptor. Não interrompemos a questão sobre qual é o tamanho da parte filogeneticamente adquirida. Claro que durante todos estes cálculos corremos risco de fazer decisões erradas. e estes que fracassam em parte ou totalmente levam os experimentadores espertos à modificação da respectiva hipótese. por assim dizer. Em respeito às instâncias da seleção natural. Os biólogos ainda não entraram num acordo total sobre o nível onde a seleção se realiza: ao nível dos genes. ler as nossas hipóteses de trás para frente: para todas as situações possíveis. Nós não conseguimos. dos coletivos ou da espécie? Para a seleção lingüística oferecem-se.82 provavelmente não se lembrariam que não se diz “Eu tenho dentes na cabeça” ou “Eu tenho um nariz na cabeça”. porque nossa competência individual é uma boa hipótese que é bem testada para as situações quotidianas. várias exigências devem ser cumpridas: temos que avaliar corretamente a situação. temos um estoque de hipóteses que dizem qual recurso lingüístico seria o mais adequado ou o mais bem sucedido para uma dada situação. Durante a comunicação quotidiana. Isto vale. de princípio. enquanto. o homem geralmente. ontogeneticamente pré-existente e qual é o tamanho da parte ontogeneticamente adquirida? Experimentos que tem êxito. vários objetivos simultaneamente. a harmonia entre os biólogos parece ser maior. dos indivíduos. simplesmente afirmam a hipótese. ele realiza um pequeno experimento social. e finalmente temos que escolher os recursos lingüísticos adequados para tudo isso. os seus conhecimentos do mudo e as suas expectativas em relação a nós. derivar as regras dos problemas). Distinguem-se. conquistar uma mulher. vender um produto ou falar numa língua estrangeira. A idéia que a competência individual tem um caráter hipotético e o seu uso um caráter experimental não inclui afirmações sobre a aquisição do nosso conhecimento lingüístico. O caráter hipotético da nossa competência individual é uma conseqüência do caráter experimental das nossas ações comunicativas. Mas há situações em que nós temos plena consciência do risco de fracasso parcial ou total: concorrer a um emprego.

Nisso. em seguida. Trata-se. O que faz o jogo tão interessante.: “survival action”) e a seleção genotípica (ingl: “reproductive selection”)72. geralmente. Brega não receberá a diagnose para o fracasso do seu experimento.83 de seleção: a seleção fenotípica (ingl. Sr. Se for necessário. Não obstante. Estes dois tipos de seleção se referem a diferentes níveis de seleção. é o fato. por exemplo. TOULMIN (1972/1978: 394 seg.) cf. pois eles também poderiam errar. Brega se esforçará a redigir sua carta da melhor maneira possível. Na área da cultura humana. Brega antecipará a seleção social dos senhores diretores e realizará a seleção lingüística dos seus recursos estilísticos com base nesta dita antecipação. Devemos os sapatos “Luis Quinze” exclusivamente à antecipação da seleção reprodutiva. cabe-lhe a análise dos seus erros. pois a resposta negativa refere-se à pessoa e não aos recursos lingüísticos da carta. Há um processo de realimentação entre os dois mecanismos de seleção. Mas é inútil. Pressupomos que o experimento fracassará: Sr. 72 73 HUXLEY (1963: XIX seg. seria melhor equipado para a vida na moita sem sua armação enorme. Obviamente. Roberto Brega concorre a um emprego no Banco do Bruzundanga74. há tipos de seleção bem parecidas com este exemplo. pois ele saberá que seu futuro dependerá muito da forma lingüística desta carta. Brega não conseguirá o emprego no Banco do Bruzundanga. Entre as alternativas de expressão que sua competência individual mantém a sua disposição. se nossas diagnoses estarão corretas. Ambas as seleções podem corresponder a tendências opostas. estamos numa espiral contínua de seleção: seleção lingüística – seleção social – seleção lingüística – etc. no próximo experimento.) 74 Devemos este nome a sátira “Os Bruzundangas” de Lima Barreto . ele não poderá contar com qualquer ajuda dos senhores diretores. é interpretada como uma parte da pessoa. assim como a modificação da sua carta antes de realizar um novo experimento. a seleção lingüística refere-se aos recursos lingüísticos. Sr. Para isto. ele terá a intenção de transmitir a idéia que ele seria o melhor candidato possível. Analisaremos um exemplo: Sr. nisso. Mesmo se nossos receptores fornecerem uma diagnose. Se ele é um experimentador esperto. A seleção exterior chama-se “seleção social” e a interior chama-se “seleção lingüística”. A instância de seleção da seleção genotípica são os parceiros da vida sexual. um veado sem armação nunca receberá a chance de legar sua forma bem adaptada a uma prole. ele escreve uma carta oficial. mas eles são ligados um ao outro73. que nós nunca saberemos se. o resultado desejado. Em conseqüência disso. que a língua. Isto significa que Sr. ele escolherá estas que prometerão. A seleção social refere-se à pessoa. podemos distinguir entre dois outros tipos de seleção: uma que vem de fora e outra que o próprio falante realiza. ele corrigirá. mas para a seleção lingüística não descobrimos ainda nenhuma razão que justificasse a distinção entre os dois tipos de seleção já mencionados. Para a seleção fenotípica. ele escolherá seus recursos lingüísticos conforme sua crença sobre a melhor maneira de impressionar os senhores diretores do Banco do Bruzundanga. na sua opinião. Um veado. a instância de seleção é o meio. as condições ecológicas serão semelhantes e que nós nunca teremos certeza. Finalmente. mas também tão arriscado. ela conduz à adaptação às condições ecológicas. a sua carta mais uma vez antes de arriscar-se num novo jogo. Isto mostra. de um experimento comunicativo. nós ainda não poderíamos ter certeza.

temos que deixar a questão em aberto. como. Brega também contribui um pouquinho na conservação e na modificação das convenções de Bruzundanga: Sr. ainda resta-nos o fato. Se esta violação das regras não teve um caráter extremamente idiossincrática. de fato. Brega violou. nós estamos o tempo todo ocupados com o estabelecimento de normas em cujas exigências nós fracassaremos mais tarde. uma coisa que é amplamente vista como um distúrbio. foi registrada em todas as línguas naturais. está sempre disposto a interpretar a mudança lingüística como um . 18. então ele.. por exemplo.). mas se referiu a uma variação que é tolerada na língua falada.84 Há outro processo de realimentação. Faltam também os argumentos para provar que tais características tem sua origem em qualidades essenciais da espécie humana. Nosso estudo teve como objetivo o desenvolvimento de uma imagem da língua a que a “mudança permanente do seu objeto não é uma idéia alheia” (PAUL 1880/1920: 369). mas (ainda) não na escrita.. não existe razão para que a língua escape a essa lei universal. a mudança também representa um fato exterior.) transformações”. se a mudança contínua das línguas representa um processo necessário ou não. Uma cosmologia da língua é a condição prévia da possibilidade de realizar uma história da língua que tem força explicativa. Não conhecemos tal qualidade! Mas mostrou-se que há certas características do nosso uso da língua que causam com necessidade a mudança contínua da nossa língua. “Uma língua (. pois tal hipótese afirmaria: Há pelo menos uma qualidade (ou um conjunto de qualidades concatenadas) das línguas naturais que causa(m) com necessidade lógica a sua mudança contínua. cujos padrões nem permitem a pergunta pela mudança lingüística de uma maneira razoável. Deste modo. provavelmente.” (loc. por toda a parte e em todas as épocas. Isto não implica a hipótese muito mais forte que a mudança contínua seja uma característica essencial e necessária das línguas naturais. por falta de argumentos concludentes. maior ainda e de natureza indireta: A colaboração de Sr. “O rio da língua corre sem interrupção”. em conseqüência disso. algumas convenções que os senhores diretores acharam incondicionalmente validas e.” (PAUL 1880/1966: 13). Como já foi dito.. Mas a prova da necessidade deste processo também lhe custou muito: “Mas em que se baseia a necessidade de mudança?” pergunta ele (ibid.. escreveu SAUSSURE (ibid. escreveu SAUSSURE (1916/1996: 163). para a compreensão desta hipótese precisa-se desenvolver um conceito de língua a que este fato não é alheio.: 118) de maneira significativa. Quem vê a língua exclusivamente como sistema de símbolos que reflete o mundo e que serve para trocar idéias. contribuiu com sua transgressão da norma culta a um processo de mão invisível que acabará numa nova convenção. Brega no processo de mão invisível! Pois Sr.). A falta de um exemplo contrário sugere tomar esta hipótese como um fato. que a mudança lingüística. Para o conceito estruturalista de língua. provavelmente. cit. ele não recebeu o emprego. OBSERVAÇÕES FINAIS Este trabalho representa o resultado do conhecimento que “a história da língua também tem de ser acompanhada duma ciência que se ocupe com as condições gerais da vida do objeto que historicamente se desenvolve (.) sofre (.. no caso do conceito de língua de Chomsky.. Mesmo se nós.: 91) e responde desamparadamente: “O tempo altera todas as coisas.

comportamentos que STEWART (1858/1971: 34) chamou “known principles of human nature”. novamente. entram logo fatores no jogo como o sucesso e o fracasso ou a importância de hipóteses apropriadas sobre o parceiro. É a hipótese principal deste trabalho. reconhecerá imediatamente que. O conhecimento da história de um problema aprofunda a compreensão da essência do problema. se o uso da língua por si é uma conseqüência da natureza humana. especialmente nos primeiros capítulos. que. Não se trata da questão o que a língua “é”. A hipótese. ligar a esta definição a pretensão de uma hegemonia conceptual. que uma língua natural represente um fenômeno de terceiro tipo e que a explicação através da mão invisível represente o único modelo adequado para tornar este tipo de fenômenos compreensível. A mudança lingüística é uma conseqüência necessária da maneira como nós empregamos nossa língua na comunicação. porque acreditamos que a pergunta pela essência da língua. no fundo. Quem começa analisar a língua por este aspecto. Evitamos conscientemente a tentativa de separar nitidamente a parte sistemática da parte histórica. analisar uma língua natural sob o aspecto de um fenômeno de terceiro tipo. deve ser formulada da seguinte maneira: Quando a lingüística interessa-se no fato da mudança lingüística e da sua explicação. (Como já foi dito. é uma pergunta ingênua. com muitas referências a história da ciência. Não tencionamos. na aplicação deste “método”. nisso. Nossa hipótese não é que a língua seja isto e não aquilo. mas como ela deve ser interpretada quando lançamos os olhos sobre certas formas interrogativas. é um caso especial da mudança socio-cultural. primeiramente. ao mesmo tempo. a imagem “língua” ao original “mundo”.85 mecanismo que serve. As perguntas sobre “a vida” e “o crescimento” das línguas que os lingüistas do século XIX tinham levantado . Interpretamos a língua como um costume de influência que se formou através de um processo de mão invisível. O modelo da criação de uma ordem espontânea serviu. trata-se. porém. Por isto desenvolvemos o problema. um fenômeno de terceiro tipo que nasceu sem planejamento ou intenção em conseqüência de comportamentos naturais do ser humano. mas ligar os problemas da gênese e da mudança de língua com a mudança e a gênese do problema. Esta hipótese ultrapassa a área da análise lingüística: não é possível compreender aspectos decisivos da cultura ou dos fenômenos socioculturais sem interpretá-los como fenômenos de terceiro tipo. as mudanças do mundo não representam argumentos suficientes ou necessários para mudanças lingüísticas. Mudança de língua. em primeiro lugar. é conveniente. sempre quando o original se afastou da sua imagem. exclusivamente de conceitos que sugerem o emprego de recursos dinâmicos para participar neste jogo de influência. vamos deixar em suspenso. no sentido de Humboldt. Desenvolvemos esta idéia partindo da teoria do caos. e que faz sentido analisá-la sob o aspecto de uma gramática interna (IG) de Chomsky. para remediar as faltas internas do sistema ou a adaptar. o objetivo e a situação. então. Não negamos que uma língua natural (também) representa um sistema de signos ou símbolos. que ela é um código ou uma energeia. isto significa que a comunicação lingüística é um método específico da nossa espécie para levar o outro a conclusões interpretadoras. pois nosso objetivo não foi escrever um ensaio historiográfico. para a explicação de um aspecto importante da natureza das línguas naturais.) Uma das teses básicas deste trabalho é que uma língua natural. representa um recurso para influenciar os outros. Vimos. conseqüentemente. na verdade.

a mudança e a permanência do sentido” (loc. que se encaixa na “teoria da variação e mudança lingüística” (BERLINCK 19989: 109). economia. nisso. que há um conceito menos exigente em respeito ao termo “explicação” e que este conceito mais tolerante tenha força explicativa e represente um conceito de explicação adequado para a lingüística. não há. Os primeiros capítulos serviram para o desenvolvimento histórico-sistemático do problema e da sua solução. obviamente. uma explicação para “o estabelecimento. Além disso. porque outras perguntas surgiram como mais urgentes. quer dizer. Mas ela é uma conseqüência do nosso conceito de língua. com este trabalho. supérstrato. idéias que especialmente a filosofia social e de linguagem dos filósofos escoceses do século XVIII formularam. por exemplo.. etc.” Quem defende a opinião de que haja outros modelos de explicação para os fenômenos de mudança lingüística (com exceção dos poucos exemplos da normalização autoritária como.). a estigmatização. Nosso trabalho levanta a hipótese que a explicação da mão invisível representa a única forma adequada para explicar a mudança lingüística. Encontra-se ainda outra estratégia para o objetivo de refutar as afirmações de Roger Lass: Há o argumento que nossas exigências sejam rígidas demais. etc. whatever their merits – and they are considerable (. LASS (1980: pág. se constitui de dois tipos de razões para o fenômenos em questão: (i) razões inerentes à língua (por exemplo: esquemas de explicações funcionalistas: ajuste do sistema lingüístico. Eles simplesmente desapareceram. No seu livro “On Explaining Language Change”. “The supposed explanations reduce either to taxonomic or descriptive schemata (which. XI) provou com bons argumentos que as explicações oferecidas na lingüística podem ser desmascaradas como pseudo-explicações sem força explicativa. Uma explicação correta. por enquanto. reforma ortográfica. mudança de nome. referem-se a esta estratégia por exemplo TRAVAGLIA (1993) ou BERLINCK (1989). tentamos. Ambos os autores reivindicam por si apresentar um “princípio teórico de força explicativa” (TRAVAGLIA 1993: 75).86 não foram resolvidos de maneira nenhuma. de fato. fuga de homônimos.) – are surely not explanations). Esta pretensão parece. or to rather desparate and logically flawed pseudo-arguments. Evidentemente. Com o fim da metáfora do “organismo” lingüístico desapareceu também o interesse na “vida” da língua. respectivamente. seguiu-se uma explicação da teoria que reclama por si resolver os problemas: a teoria dos fenômenos de terceiro tipo e o seu modelo de explicação através da mão invisível. desnecessariamente intolerante e dogmática. depois da mudança de paradigma que Saussure tinha provocado.) (ii) . Aplicamos.. razões extra-lingüísticas (por exemplo: efeitos substrato vs. outra explicação concludente.) que seja lingüisticamente correta. o prestígio de um grupo social. Eles defendem um tipo de explicação que respeita “a dimensão discursiva” (TRAVAGLIA 1993: 71). definição terminológica) deve mostrar que os argumentos de Lass não valem e que haja outros modos de explicação que realmente representem explicações. Conseqüentemente.cit. referir-nos às perguntas em cujas tradição ele está: Nosso estudo tenta retomar e resolver problemas que especialmente a lingüística alemã do fim do século XIX levantou e em que ela aferrou-se em parte.

“As consoantes iniciais”. pois pressupor isto significaria confundir a condição necessária com a suficiente. e. ao mostrar que o aparente ‘caos’ esconde um sistema delicado e engenhosamente articulado. Claro que não podemos concluir. que porventura nelas se notam. mas representa a sua conseqüência. simplesmente não se chamam “conclusões”. somente pode se tornar compreensível através de uma cosmologia”. os fatos discutidos nesse capitulo representam exemplos concretos dos pressupostos centrais da ‘teoria da variação e mudança lingüística’. Pois a adaptação do sistema não explica a mudança. Mas seu modelo de um “universo discursivo” não consegue representar aquela “ciência de princípios” ou. que Hermann Paul tinha exigido já no século passado. “A existência de estruturas a que a teoria dos fenômenos complexos aspira. COUTINHO (1998: 111). de pseudo-explicações sem força explicativa. modificação na passagem do latim para o português. em conseqüência disso. (PAUL s.: 85).”. na medida em que a mudança se dá lentamente. Ambos os estudos têm o defeito de apresentar explicações cuja plausibilidade apenas é percebível numa conclusão circular: o seu paradoxo é que elas tem apenas um valor parcial e não geral. consegue manter sua função comunicativa. portanto. “cosmologia”. novamente. quer dizer. ou decorrem da influência da analogia. na verdade. As suas “causas” explicam. TRAVAGLIA (1993). Um sistema que. VS” no Português. escreve. em regra geral.: 15). num palavra bem moderna. sentiu no seu estudo o impasse das explicações pelas “causas lingüísticas e extra-lingüísticas” e tentou levantar uma hipótese de “natureza hierarquicamente superior” (ibid. Citamos aqui apenas um exemplo para este argumentação: Sabe-se que certos fonemas sofreram alterações no decorrer da história do português e outras não. que tal “cosmologia” resolverá qualquer problema. por exemplo. foram levantadas diversas objeções contra a teoria dos fenômenos de terceiro tipo. certamente com a suposição que a incapacidade de explicar certos fenômenos de mudança provaria a invalidade da explicação através da mão invisível. exclusivamente acontece no nível coletivo.” Conclusões deste tipo que descobrem no fim da análise. cujos argumentos representam um paralogismo clássico: post hoc ergo propter hoc. simultaneamente com a lógica geral.” . ao seu ver. As alterações.d. TRAVAGLIA (1993) enumera uma lista abrangente de “causas” pela mudança lingüística que. a que se deve obedecer na verificação de cada um dos fatos. ou ainda de ter a palavra penetrado primeiro em outra língua. “O esclarecimento das condições do devir histórico dá-nos. “não sofrem. embora inerentemente mutável. apenas nos casos em que elas se confirmam e não nos casos análogos onde não houve mudança. já se tinham operado no latim. apenas os exemplos citados.87 BERLINCK (1989) escolheu como exemplo a ordenação frasal “SV vs. então. escreveu HAYEK (1969: 154) bem no sentido de Hermann Paul. os próprios pressupostos. obviamente. A conclusão vaga de BERLINCK (1989: 109) é típica para este método de análise circular: “Concluindo. Neste contexto. Seguindo GUIRAUD (1980). a base para a teoria dos métodos. Trata-se. ou da ação de algum fonema vizinho. valem todas as objeções que nós citamos já no capitulo 10. de onde foi trazida depois ao português. como um processo gradual de adaptação do sistema.

” (HERINGER 1988: 5). Porque /kr/ se tornou /gr/ enquanto. pois não dispomos sobre os conhecimentos necessários para realiza-la.). não exigem uma explicação. “I hope that this Gedankenexperiment may convince us that statements like (p  b) belong to a very specific kind of empiricism. Não tomamos em consideração que a recepção destas articulações tem pelo menos o mesmo papel importante para o processo de mudança lingüística do que a sua emissão pelos falantes. em seguida.000. uma explicação. princípo da economia. HERINGER (1988: 3) calculou a base empírica de tais afirmações. Pressupomos. enquanto justamente /t/ e /r/ ficaram inalteradas. se nós mostraremos quais máximas sob quais condições ecológicas provocaram um comportamento cuja conseqüência foi a implantação do fonema /b/ em lugares onde antigamente houve o fonema /p/. etc.88 Coutinho enumera. Isto significa que 108 falantes produziram 104 manifestações fonéticas num prazo de 7x104 dias. ripa  riba. porque eles não mudaram. porque as consoantes iniciais /p/. não explica. é o fato que Coutinho também parte da idéia que os fenômenos estáticos. O que nos interessa aqui. No seu experimento teórico. Ao nosso ver. quer dizer os fonemas sem alteração. a resultados mais convincentes? A resposta é “não”! Nós também não conhecemos as verd adeiras causas e suspeitamos de que elas dificilmente serão descobertas. Já conhecemos este método circular e também já criticamos o tipo dos seus resultados. pois. /l/.000. “Such innocent looking statements are about highly complex processes. Pressupomos que o fenômeno da mudança lingüística citada estende-se sobre um período de 200 anos. com uma explicação do tipo “por princípio”.000 manifestações fonéticas mais tarde foi articulado o fonema /b/. Analisaremos uma afirmação que pode encontrar-se em qualquer história lingüística: “(p  b)” (por exemplo: lupu  lobo. na mesma posição /tr/ ficou /tr/? Será que a explicação através da mão invisível chegaria. Neste prazo eles pronunciaram na média 2000 palavras com um comprimento médio de 5 fonemas. Quem quer saber como uma ameba se transformou num elefante deve se conter com um resposta bastante geral.000. além disso. uma lista de modificações e indica as suas “causas” através de argumentos inerentes ao sistema da língua (analogia. /m/ e /n/ sofreram alterações. nestes casos. Mas mesmo se a projeção da análise dá certo. deste modo. foi pronunciado o fonema /p/ 70. O que aprendemos com este exempo? É legítimo fazer certas afirmações descritivas sobre a historiografia de uma língua que nunca podem se tornar candidatos razoáveis para esforços explicativos. no momento t1. and therefore common historiography of language suffers from serious macroscopy. simplesmente. Então chegamos ao resultado estimado que a formula “(p  b)” significa mais ou menos isto: Onde. que 100 milhões de portugueses participaram neste processo evolucionário e que eles conversaram em média uma hora por dia. muitas vezes. A . Isto dá como resultado 7x106 manifestações fonéticas. para ficar explicável. O que significa isso? Vamos seguir um exemplo matemático de HERINGER (1988). Fenômenos lingüísticos são explicáveis na medida em que a dimensão é escolhida adequadamente. Esta regra afirma que a consoante medial /p/ se tornou /b/ na passagem do latim para o português. quer dizer.000. Coutinho. um fato histórico de uma língua deve se encontrar numa distância adequada com a base de explicação. Seria uma explicação concludente (através da mão invisível) deste fato. /k/. ficará fora do alcance. encontramos esta dimensão adequada apenas num nível estrutural que ainda pode ser correlacionado de maneira razoável com o nível das ações lingüísticas.” Vamos observar (junto com Heringer) esta macrôscopia mais de perto. capere  caber).

89

história de língua sempre se definiu essencialmente como uma ciência descritiva, por isso os dados necessários para uma história de língua que tem força explicativa nunca foram compilados ou classificados. Apesar destes fatos desanimadores, continua valer, para a lingüística histórica, o que CHOMSKY (1965/1969: 40) já exigiu há alguns anos para a teoria gramatical: “Mesmo se muitas vezes já é difícil conseguir a exatidão descritiva, a exigência fica indispensável para o desenvolvimento produtivo da teoria lingüística que ela persegue objetivos ainda muito mais altos.” Este objetivo se chama: exatidão explicativa. A teoria da história de uma língua mostra sua exatidão explicativa na medida em que ela consegue correlacionar os dados histórico-descritivos (adequadamente reconstruídos) com os tipos de ações lingüísticas cujas conseqüências eles representam. Isto significa que a teoria da história de uma língua deve justificar as mudanças lingüisticas como conseqüências involuntárias de ações individuais que foram realizadas sob certas condições ecológicas e conforme certas máximas de ação. Mesmo se os défices contingentes ao nosso conhecimento, muitas vezes, se opõem a este objetivo, acreditamos que este trabalho mostrou, que isto representa, por princípio, uma exigência que a pesquisa pode cumprir.

90

ANEXO
Distribuição e divulgação de variações numa dada área à base da norma: "Fale como os outros na sua vizinhança!"

Iteração: 0

Iteração:20

91

Distribuição e divulgação de variações numa dada área à base da norma: "Fale como os outros na sua vizinhança!"

Iteração: 80

Iteração: 500

92 Distribuição e divulgação de variações numa dada área à base da norma: "Fale como os outros na sua vizinhança!" Iteração:1000 As isoglossas de "nichts" (nada) na antiga área de divulgação da língua alemã .

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