AS PERDAS NA CONSTRUÇÃO CIVIL: CONCEITOS, CLASSIFICAÇÕES E SEU PAPEL NA MELHORIA DO SETOR Carlos T. Formoso, Engo Civil, Ph.D.

, Professor e Pesquisador do NORIE/UFRGS Cláudia M. De Cesare, Enga Civil, M.Sc., Doutoranda pela Universidade de Salford, Grã Bretanha Elvira M. V. Lantelme, Enga Civil, M.Sc., Pesquisadora do NORIE/UFRGS Lucio Soibelman, Engo Civil, M.Sc., Doutorando pelo MIT, Estados Unidos
Núcleo Orientado para a Inovação da Edificação (NORIE) Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Av. Osvaldo Aranha 99, 3o andar CEP 90035-190 Porto Alegre - RS Tel. (051) 228 1633 R. 3518 Fax (051) 227 1807 E-mail: formoso@vortex.ufrgs.br

RESUMO
Muito se discute sobre as perdas de materiais na construção civil. Os poucos estudos aprofundados sobre o tema realizados no Brasil até o momento indicam percentuais de perdas de alguns materiais bastante elevados. A divulgação de tais resultados tem provocado a reação de alguns segmentos da indústria preocupados em preservar a imagem do setor. O presente artigo tem como objetivo discutir dois pontos fundamentais relacionados ao tema. Em primeiro lugar, questiona-se o conceito de perdas tradicionalmente adotado na construção civil, fortemente focado nas chamadas atividades de conversão. Embora os desperdícios de materiais sejam a expressão mais concreta das perdas do setor, é importante encará-las segundo um enfoque mais amplo, a exemplo do que ocorre há bastante tempo na Engenharia de Produção. Em segundo lugar, discute-se a necessidade de conscientização por parte do setor sobre o papel dos indicadores de perdas no seu desenvolvimento. O esforço de medição do desempenho dos processos produtivos de forma clara, associada à identificação das causas reais dos problemas, constitui-se num dos pontos essenciais para a melhoria da qualidade e produtividade segundo as modernas filosofias gerenciais. Os conceitos e dados apresentados neste artigo foram extraídos de vários estudos desenvolvidos por pesquisadores do NORIE/UFRGS ao longo dos últimos quatro anos.

1. CONCEITO DE PERDAS
O conceito de perdas na construção civil é, com freqüência, associado unicamente aos desperdícios de materiais. No entanto, as perdas estendem-se além deste conceito e devem ser entendidas como qualquer ineficiência que se reflita no uso de equipamentos, materiais, mão de obra e capital em quantidades superiores àquelas necessárias à produção da edificação. Neste caso, as perdas englobam tanto a ocorrência de desperdícios de materiais quanto a execução de tarefas desnecessárias que geram custos adicionais e não agregam valor. Tais perdas são conseqüência de um processo de baixa qualidade, que traz como resultado não só uma elevação de custos, mas também um produto final de qualidade deficiente. Para a melhor compreensão deste conceito, deve-se conhecer a natureza das atividades que compõem o processo de produção. Um processo pode ser entendido como um fluxo de materiais e informações desde a matéria prima até o produto final. Neste fluxo, os materiais são processados, inspecionados, movimentados ou estão em espera. Assim, as atividades componentes de um processo podem ser classificadas em duas principais categorias (Figura 1.1): (a) Atividades de conversão: envolvem o processamento dos materiais em produtos acabados. (b) Atividades de fluxo: relacionam-se às tarefas de inspeção, movimento e espera dos materiais.

visar à minimização do dispêndio de quaisquer recursos que não agregam valor ao produto. ou seja. Na primeira. em média. movimento espera processamento inspeção movimento rejeitos FIGURA 1. nem toda a atividade de conversão agrega valor ao produto. como a execução de alvenaria. que engloba as atividades que não agregam valor. não são devidamente analisadas nas tarefas de orçamento e planejamento e nas iniciativas de melhorias de processo. espera e inspeção de materiais. Com este objetivo. pode-se admitir que existe um nível aceitável de perdas (perda inevitável) que só pode ser reduzido através de uma mudança significativa no patamar de desenvolvimento tecnológico e gerencial da empresa. valores da ordem de 60% dos tempos gastos em atividades que agregam valor são considerados excepcionalmente altos. CLASSIFICAÇÃO DAS PERDAS Para reduzir as perdas na construção de edificações é necessário conhecer sua natureza e identificar suas principais causas. a um terço do tempo total gasto pela mão de obra. Contudo. as perdas podem ser classificadas da seguinte forma: . Na situação desejada. a literatura internacional indica que as atividades que agregam valor correspondem. as perdas foram classificadas no presente trabalho de acordo com a possibilidade de serem controladas. podendo atingir valores da ordem de 55 a 60% apenas para algumas atividades específicas. Os critérios de classificação adotados foram adaptados dos estudos de Shingo (1981) e Skoyles (1987) para a construção civil brasileira. Em geral. quando se desenvolve uma inovação tecnológica na construção deve-se eliminar ao máximo a necessidade de atividades de transporte. As perdas segundo seu controle A Figura 2. instalação de dispositivos de segurança. sejam eles vinculados às atividades de conversão ou fluxo. mas também pela eliminação de algumas das atividades de fluxo (Koskela. Em que pese a sua importância. Por exemplo. sua natureza e sua origem.1 . controle dimensional. 1992). 2.São as atividades de conversão que normalmente agregam valor ao produto. Existem diversas atividades que não agregam valor as quais são essenciais à eficiência global dos processos. a perda total.1. isto é. e reduz-se as demais perdas. como. Por exemplo. elimina-se uma parcela das atividades que não agregam valor. por exemplo. O esforço para melhoria do desempenho na construção civil deve considerar o conceito mais amplo de perdas. transformam as matérias primas ou componentes nos produtos requeridos pelos clientes. Na construção civil. as atividades de fluxo são freqüentemente negligenciadas no processo de produção de edificações. As novas filosofias de produção indicam que a eficiência dos processos pode ser melhorada e as suas perdas reduzidas não só através da melhoria da eficiência das atividades de conversão e de fluxo. 1992) 2.1 compara duas situações de um mesmo processo. melhora-se a eficiência das atividades que agregam valor. Mesmo na indústria da transformação. É óbvio que o princípio da eliminação de atividades de fluxo não deve ser levado ao extremo. treinamento da mão de obra. a necessidade de retrabalho indica que se executou uma atividade de conversão sem agregar valor. Entretanto. Considerando este pressuposto.Etapas do processo de produção (Koskela. é elevada.

A competitividade da empresa é alcançada na medida que a organização persegue a redução de perdas continuamente. como. por exemplo. dependendo do patamar de desenvolvimento da mesma. O nível de perdas considerado inevitável pode variar de empresa para empresa e mesmo de obra para obra. no qual os recursos são empregados inadequadamente. por exemplo: produção de argamassa em quantidade superior à necessária para um dia de trabalho. adaptando-o para a construção civil. para cada material. (c) Perdas por espera: relacionadas com a sincronização e o nivelamento do fluxos de materiais e as atividades dos trabalhadores. (b) Perdas por substituição: decorrem da utilização de um material de valor ou características de desempenho superiores ao especificado. Outras perdas. um percentual único de perdas que pode ser considerado inevitável para todo o setor. .As perdas segundo seu controle 2. Podem envolver tanto perdas de mão de obra quanto de equipamentos. paradas nos serviços originadas por falta de disponibilidade de equipamentos ou de materiais. As perdas segundo sua natureza A classificação adotada neste trabalho partiu do conceito das sete perdas de Shingo (1981). Existem diversos valores. como. como.2. que é identificado quando o investimento necessário para sua redução é maior que a economia gerada. Não se pode afirmar que existe. São conseqüência de um processo de baixa qualidade. utilização de tijolos maciços no lugar de blocos cerâmicos furados. (d) Perdas por transporte: as perdas por transporte estão associadas ao manuseio excessivo ou inadequado dos materiais e componentes em função de uma má programação das atividades ou de um layout ineficiente. Nove categorias de perdas são identificadas: (a) Perdas por superprodução: refere-se às perdas que ocorrem devido à produção em quantidades superiores às necessárias. tais como: utilização de argamassa com traços de maior resistência que a especificada. quebra de materiais devido ao seu duplo manuseio ou ao uso de equipamento de transporte inadequado. excesso de espessura de lajes de concreto armado.1 . (b) Perdas evitáveis: ocorrem quando os custos de ocorrência são substancialmente maiores que os custos de prevenção. dentro de uma mesma empresa.(a) Perdas inevitáveis (ou perda natural): correspondem a um nível aceitável de perdas. por exemplo: tempo excessivo despendido em transporte devido a grandes distâncias entre estoques e o guincho. os quais dependem do nível de desenvolvimento gerencial e tecnológico da empresa. inclusive desperdício de materiais Atividades que não agregam valor Perda total (evitável e inevitável) Perda (inevitável) Atividades que agregam valor Atividades que agregam valor SITUAÇÃO ATUAL SITUAÇÃO DESEJADA FIGURA 2.

deterioração do cimento devido ao armazenamento em contato com o solo e ou em pilhas muito altas. Contudo. indicando a sua natureza. falta de equipamentos adequados.(e) Perdas no processamento em si: têm origem na própria natureza das atividades do processo ou na execução inadequada dos mesmos. vandalismo. RECURSOS HUMANOS PROJETO Recebimento Estocagem Transporte interno Produção SUPRIMENTOS PLANEJAMENTO FABRICAÇÃO DE MATERIAIS FIGURA 2. Podem resultar tanto em perdas de materiais quanto de capital. sua origem pode estar tanto no próprio processo de produção quanto nos processos que o antecedem como fabricação de materiais. como. tais como roubo. podendo gerar situações de falta de locais adequados para a deposição dos mesmos. originam-se da ausência de integração entre o projeto e a execução. São exemplos deste tipo de perdas: quebra de paredes rebocadas para viabilizar a execução das instalações. quebra manual de blocos devido à falta de meios-blocos. das deficiências do planejamento e controle do processo produtivo. descolamento de azulejos.3. suprimentos e planejamento (Figura 2. Decorrem da falta de procedimentos padronizados e ineficiências nos métodos de trabalho. etc. da utilização de materiais defeituosos e da falta de treinamento dos operários. da falta de treinamento da mão de obra ou de deficiências no detalhamento e construtividade dos projetos. etc.2). Também decorrem da falta de cuidados no armazenamento dos materiais. (h) Perdas pela elaboração de produtos defeituosos: ocorrem quando são fabricados produtos que não atendem aos requisitos de qualidade especificados. (i) Outras: existem ainda tipos de perdas de natureza diferente dos anteriores. O Quadro 2. acidentes. em função da programação inadequada na entrega dos materiais ou de erros na orçamentação. por exemplo: falhas nas impermeabilizações e pinturas. (f) Perdas nos estoques: estão associadas à existência de estoques excessivos. falta de estudo de layout do canteiro e do posto de trabalho. preparação dos recursos humanos. durante a execução das suas atividades e podem ser geradas por frentes de trabalho afastadas e de difícil acesso. como por exemplo: custo financeiro dos estoques. projeto. As perdas segundo sua origem As perdas mencionadas em geral ocorrem e podem ser identificadas durante a etapa de produção. (g) Perdas no movimento: decorrem da realização de movimentos desnecessários por parte dos trabalhadores. 2. Resultam em retrabalhos ou em redução do desempenho do produto final. Geralmente. São exemplos deste tipo de perda: tempo excessivo de movimentação entre postos de trabalho devido à falta de programação de uma seqüência adequada de atividades. origem e momento de incidência.2 . esforço excessivo do trabalhador em função de condições ergonômicas desfavoráveis.As perdas segundo seu momento de incidência e sua origem .1 apresenta um conjunto de exemplos de perdas.

Inspeção .1 . Produção planejamento de locais de estocagem Produção Planejamento: falhas no sistemas de controle Recursos Humanos: falta de treinamento dos operários Planejamento: falta de procedimentos referentes às condições adequadas de armazenamento Gerência da obra: falta de planejamento das seqüência de atividades Projeto: falhas no sistema de fôrmas utilizado Processamento Necessidade de refazer uma parede por não atender aos requisitos de controle (nível e prumo) Deterioração do cimento estocado Estoques Armazenamento Movimentos Tempo excessivo de deslocamento devido às grandes distâncias de entre postos de trabalho no andar Desníveis na estrutura Produção Elaboração de produtos defeituosos Produção. momento de incidência e origem.Exemplos de perdas segundo sua natureza. Gerência da obra: falha no Transporte. NATUREZA Superprodução EXEMPLO Produção de argamassa em quantidade superior à necessária para um dia de trabalho Utilização de tijolos à vista em paredes a serem rebocadas MOMENTO DE INCIDÊNCIA Produção ORIGEM Planejamento: falta de procedimentos de controle Suprimentos: falta do material em canteiro por falha na programação de compras Suprimentos: falha na programação de compras Substituição Produção Espera Transporte Parada na execução dos serviços por falta de material Duplo manuseio Produção Recebimento.QUADRO 2.

os quais podem ou não ser relacionados ao desperdícios de materiais. analisar as principais causas destas ocorrências e propor diretrizes para a implementação de procedimentos de controle de perdas de materiais em empresas de construção. A partir da elaboração de um planejamento. Perdas de materiais em cinco canteiros de obras em Porto Alegre O primeiro estudo realizado pelo NORIE referente às perdas na construção civil iniciou em abril de 1992. Os principais objetivos desta pesquisa foram levantar a incidência de perdas de materiais na construção de edificações. Assim. optou-se por limitar a pesquisa a um pequeno número de obras e a um conjunto limitado de materiais e de tipologias . 4. Em primeiro lugar. o conceito adotado e o método de cálculo e os critérios de medição uitilizados. Cada processo. um indicador é um instrumento indispensável para o estabelecimento de metas ao longo de um processo de melhoria contínua. os indicadores de desempenho cumprem um papel de fundamental na motivação das pessoas envolvidas no processo. indicando seus pontos fortes ou fracos ou chamando a atenção para suas disfunções.3. Existem outras finalidades. A segunda função de um indicador é o controle de um processo em relação a um padrão estabelecido. identificar as causas das perdas no setor e orientar a sua prevenção. (d) percentual de tempos improdutivos em relação ao tempo total. Uma descrição mais detalhada do mesmo pode ser encontrado no trabalho de Soibelman (1993). um projeto de melhoria visando à redução de perdas de materiais poderia inclusive ser empregado como um instrumento de marketing interno para um programa da qualidade. o SEBRAE-RS e a CIENTEC. necessita de um ou mais indicadores para ter o seu desempenho avaliado. o monitoramento de um indicador ao longo do tempo permite avaliar o desempenho do processo. o SINDUSCON-RS. de forma resumida. Quando se mede um indicador de perdas é necessário ter valores de referência ou benchmarks para avaliar o desempenho em relação a outras empresas. ao se divulgar um indicador de perdas. em geral. podem ser empregados para diferentes finalidades. Como se desejava desenvolver um estudo profundo sobre as causas das perdas. No próximo item são apresentados. deve-se explicitar claramente o seu significado. Entre os diversos indicadores de perdas na construção civil. demonstrar o desempenho atual de uma organização. O PAPEL DOS ÍNDICES DE PERDAS Os índices de perdas cumprem um importante papel de indicadores de desempenho dos processos produtivos e. indicando os setores da empresa nos quais intervenções são mais importantes ou viáveis. Este tipo de avaliação permite estabelecer prioridades em programas de melhoria da qualidade. (e) horas-homem gastas em retrabalho em relação ao consumo total. como tal. ou seja. Neste sentido. através de um convênio promovido pelo Programa de Qualidade e Produtividade da Construção Civil do Rio Grande do Sul (PQPCC/RS). além da UFRGS. identificando desvios e corrigindo a tempo as causas dos mesmos.1. um indicador pode ter a função de visibilidade. Em terceiro lugar. de forma a atuar de forma corretiva. É também necessário identificar as causas reais (não as aparentes) dos problemas que resultam em perdas. mais construtivas. Finalmente. (b) espessura média de revestimentos de argamassa. esta não é a principal função dos indicadores de desempenho. Neste sentido. (c) tempo de rotação de estoques. a incidência de perdas deve ser monitorada através de diversos indicadores. Sempre que uma melhoria está sendo implantada é importante que um ou mais indicadores de desempenho associados à mesma sejam monitorados e sua evolução amplamente divulgada na organização. alguns dos estudos desenvolvidos pelo NORIE que procuraram desenvolver métodos para coletar indicadores. que possibilitam aos mesmos contribuir de forma efetiva para o desenvolvimento do setor. ESTUDOS SOBRE PERDAS DESENVOLVIDOS NO NORIE 4. Entretanto. isto é. podem ser citados como exemplos os seguintes: (a) percentual de material adquirido em relação à quantidade teoricamente necessária. envolvendo. etc. estabelecer valores de referência. A utilização mais comum dada aos índices de perdas de materiais na construção civil tem sido apenas chamar a atenção para o baixo desempenho global do setor construção em termos de qualidade e produtividade. Este tipo de medição visa a identificar as oportunidades de melhorias e verificar o impacto de intervenções no processo. componente indispensável de um programa para melhoria da qualidade.

não teve como objetivo esgotar o assunto.00 12.64 26. Com base nestes critérios.38 35.80 76.31 17. medida no projeto.70 25. foram escolhidos os seguintes insumos para serem observados: madeiras.20 11.00 8. todas localizadas em Porto Alegre . bem como os materiais que possuem uma baixa probabilidade de ocorrência de perdas.Índices de perdas totais nas diferentes obras (%) Material Aço Cimento Concreto Areia Argamassa Bl. Os índices de perdas estão expressos pela diferença. tais como elevadores.11 1. Levando em conta que canteiros similares apresentaram diferentes níveis de perdas para os mesmos materiais.44 21.24 Média 19.00 2.00 5. 1992). Utilizou-se como critério de escolha das mesmas o emprego de tecnologias tradicionais (estrutura de concreto armado.19 73. apesar da sua grande representatividade em termos de custo.18 45. os quais somados representam aproximadamente 20% do custo total de obras construídas por processos construtivos tradicionais. Os dados apresentados confirmaram uma das hipóteses principais do estudo.13 13.00 5. ou seja.10 26.73 SKOYLES (1987) 5. mas simplesmente através de cuidados elementares no recebimento.50 27. cal ou argamassa pré-misturada e tijolos cerâmicos. É óbvio que o reduzido tamanho da amostra impede que os resultados do estudo possam ser generalizados para todo o setor. aços. areia.02 101.81 152.50 8. na utilização e na proteção dos materiais.05 40. cerâmico Tij.construtivas.85 e 8 vezes as perdas usuais admitidas. paredes com tijolos cerâmicos e revestimentos de argamassa) e a necessidade de que as mesmas se encontrassem em estágios semelhantes.28 Obra E 18.00 10.20 15.00 Ficou evidente também que melhorias podem ser obtidas sem a introdução de equipamentos caros ou avançadas técnicas gerenciais.90 45.1 . em termos percentuais.23 Obra C 23. cimento. fechaduras e outros.25 Obra B 27. Nenhuma das obras pesquisadas possuía uma política definida de administração de materiais.80 27. Tendo como objetivo identificar os insumos mais representativos em termos de custo na construção.00 Perda teórica 12. concreto pré-misturado.34 39.76 91.00 15. como na aplicação de um controle sistemático para a sua utilização. Este fato indica que a redução de . O Quadro 4.00 15.77 29. Foram selecionadas cinco obras para o levantamento dos dados. tanto em relação ao seu gerenciamento.96 20. portanto.86 0. mas pretendia constituir-se em um primeiro estudo mais aprofundado do problema. na estocagem.07 84.00 15.94 12. O fato de que não foram tomadas medidas relativamente simples de prevenção nas obras pesquisadas indica que existe uma falta de preocupação com as perdas de materiais. analizou-se a curva ABC dos insumos utilizados nos projetos de padrão normal. maciço Obra A 18. O estudo comprovou também que existe uma grande variação nos índices de perdas em diferentes obras.01 34. que as perdas de materiais na construção de edificações são efetivamente maiores do que as normalmente aceitas pela indústria da construção em suas estimativas de custo. Verificou-se que as perdas reais médias dos insumos possuem um grande intervalo de variação e situam-se entre 0. no manuseio. de quatro.75 109.30 45.31 112.94 PINTO (1989) 26. bem como as perdas comumente adotadas pelas composições de custo (perda teórica).09 103.02 Obra D 7. portas.19 33.16 42. Foram eliminados os itens referentes a mão-de-obra. Os índices de perdas encontrados no estudo são também bastante superiores aos valores apontados por Skoyles (1987) na Grã Bretanha. São também apresentados os resultados de trabalhos congêneres. oito e doze pavimentos da NBR-12721 (ABNT.00 10.91 151.05 39. A pesquisa.RS.60 10.25 27.1 apresenta uma síntese dos resultados obtidos nos cinco empreendimentos pesquisados. procurando também incentivar o desenvolvimento de outras pesquisas que pudessem contribuir na composição de dados sobre as perdas de materiais.73 87. janelas. QUADRO 4. pode-se concluir que uma parcela considerável destas perdas é possível de ser evitada. entre a quantidade de material adquirida e a quantidade teoricamente necessária.

é do mesmo nível de grandeza do valor de 6% estimado por Pinto (1989). De uma forma geral. Da mesma forma que no estudo de Skoyles (1987). 4. o NORIE criou em 1993 o Sistema de Indicadores de Qualidade e Produtividade para a Construção Civil. antes da realização do estudo. má qualidade e pelo elevado índice de perdas de materiais. Poucas empresas mantém um sistema interno de indicadores e mesmo aquelas que o fazem têm dificuldade em avaliar o seu próprio desempenho em relação ao setor. assim como estabelecer valores de referência setorial que permitam às mesmas comparar o seu desempenho com outras empresas e estabelecer metas para melhoria contínua.2. mas também em termos de outros indicadores de desempenho. na indústria da construção de outros países e em função de problemas considerados críticos para o setor no Brasil. a falta de coordenação entre os mesmos são causas de elevadas perdas de materiais. O estudo comprovou que a gerência tem mais responsabilidade pelas perdas que os operários.. A magnitude das perdas de materiais não era conhecida pelas próprias empresas. A necessidade de criação do Sistema de Indicadores surgiu a partir da carência existente na indústria da construção não somente em relação a índices de perdas. O objetivo do trabalho é orientar as empresas a introduzir procedimentos de coleta de indicadores. e não de incidentes isolados.62% (Obra E) em relação aos custos orçados das obras estudadas. O acréscimo médio de 7. . as perdas eram resultado de uma combinação de fatores. Para a determinação do custo das perdas dos materiais pesquisados. um acréscimo de 5. A pesquisa mostrou que a mudança na atitude dos envolvidos no processo construtivo é muito mais importante do que mudanças em tecnologias de construção para a obtenção de melhor desempenho das empresas no que se refere à administração de materiais. O Sistema está descrito num manual (Oliveira et al. 1995). Concluiu-se também que a falta de interesse em controlar os materiais é uma importante causa de ocorrência de perdas. Os indicadores que compõem o sistema foram selecionados a partir de uma pesquisa sobre indicadores empregados em outros setores industriais.98% na expectativa de custo total dos empreendimentos.perdas poderia ser facilmente utilizada como ponto focal em programas de melhoria da qualidade em empresas de construção. Muitas perdas originaram-se fora dos canteiros de obras. seus objetivos. O manual apresenta um conjunto de 28 indicadores. houve indicações de que a ocorrência de perdas no canteiro ocorre com mais intensidade durante a armazenagem e o manuseio dos materiais do que durante a produção propriamente dita. Entretanto. normalmente. verificado na pesquisa. utilizou-se a Curva ABC da NBR 12721 (ABNT. assim como valores de referência. critérios e planilhas de coleta. Através do estudo dos projetos das cinco obras pesquisadas foi possível concluir que deficiências nas especificações e no detalhamento e. observou-se que as deficiências no gerenciamento da obra tinham grande relação com a elevada incidência de perdas de materiais. Estes são. Sistema de indicadores de qualidade e produtividade para a construção civil Em continuidade ao estudo de perdas de materiais. É fundamental que os envolvidos conscientizem-se do alto valor dos materiais e da necessidade de aplicar medidas de prevenção com relação às perdas. 1993). o qual se encontra em sua segunda edição. As perdas dos materiais pesquisados representaram. 1992) formulada para prédios de 12 pavimentos. As quebras de tijolos causadas pela falta de meios-tijolos é um exemplo de problema gerado no setor de suprimentos. principalmente. Tais problemas foram constatados no próprio estudo de perdas de materiais e também numa pesquisa de opinião relativa às principais dificuldades enfrentadas pelos gerentes técnicos de empresas de construção de pequeno porte (Fruet & Formoso. em função da inexistência de valores de referência. principalmente devido a projetos inadequados ou compras mal efetuadas. devido à completa ausência de métodos de levantamento e contabilização de seu uso. três quartos e padrão normal de acabamento. até o momento de encerramento da coleta. Esta seleção foi realizada pela equipe de pesquisadores envolvida no projeto com a participação de um grupo de empresas de construção. considerados pelos empresários da construção como os principais responsáveis pela baixa produtividade.06% (Obra C) a 11. nas etapas que antecedem a produção.

3.1 15. QUADRO 4. Método de intervenção para redução de perdas de materiais O trabalho mais recente do NORIE na área de perdas na construção civil refere-se ao desenvolvimento de um método de intervenção para a redução de perdas e de tempos improdutivos em canteiros de obras.Mais de 50 empresas de todo país aderiram ao Sistema e enviam alguns de seus indicadores para o banco de dados que é gerenciado pelo NORIE. (d) Índice de retrabalho: número de horas-homem dispendidas em retrabalhos em relação ao total de horas gastas. .Valores de referência do sistema de indicadores Indicador Perda de aço para concreto armado (%) Perda de concreto pré-misturado (%) Perda de blocos cerâmicos furados (%) Espessura de revestimento de argamassa interno (mm) Espessura de revestimento de argamassa externo (mm) Tempos produtivos na execução de alvenaria (%) Tempos produtivos na execução de formas (%) Valor mínimo 7. Periodicamente são emitidos relatórios com os valores de referência do Sistema.8 5.3 25.0 15. Existe também uma vinculação das ações de melhoria propostas através da aplicação do método com a postura estratégica da empresa.7 27. para um determinado período.5 Valor máximo 27.2 .8 28. foi assinado um novo convênio com o SEBRAE/RS com o objetivo de aplicar o método em um grupo de empresas de pequeno porte e elaborar um manual para orientar as empresas na sua utilização. de forma que a intervenção seja coerente com os princípios e objetivos da organização. O método de intervenção proposto tem como foco o sistema de movimentação e armazenamento de materiais.0 55. a maior parte delas do Rio Grande do Sul. apresentado no item 4.4 19. São eles: (a) Perdas de materiais (aço. incluindo benchmarks. Alguns dos indicadores do Sistema estão relacionados à ocorrência de perdas. A publicação deste manual está prevista para meados de 1996 (Santos et al. cujas deficiências estão fortemente relacionadas à incidência de perdas. e também no trabalhos desenvolvidos por Pinto (1989) e Picchi (1993).0 2. Este estudo iniciou em 1994. Em 1995.0 21.2 apresenta alguns valores de referência do Sistema.. Pode-se constatar que as médias e a variabilidade encontradas para os índices de perdas até o momento têm sido do mesmo nível de grandeza dos valores encontrados no estudo das cinco obras em Porto Alegre. medidos através da técnica de amostragem do trabalho. 1996).2 20.RS.7 31.0 47.3 38.6 24.0 4.1.5 35.0 41. improdutivos e auxiliares. resultante de dados de mais de vinte empresas de construção.0 Valor médio 19.9 0.8 30.2 39.0 5. através de uma parceria envolvendo o NORIE e uma empresa de construção de porte médio de Porto Alegre .1 13.0 20. (b) Espessura média de revestimentos de argamassa internos e externos (c) Percentual de tempos produtivos. concreto e blocos cerâmicos): relação entre o material adquirido e o material teoricamente necessário.0 Benchmarks 5. O Quadro 4.

enfrentam dificuldades na consolidação de programas da qualidade. Neste sentido. sendo que as mesmas têm uma forte coerência com outros importantes trabalhos de pesquisa desenvolvidos no Brasil. Considerando que uma grande parcela das perdas são previsíveis e evitáveis através de medidas de prevenção relativamente simples. é importante que o setor mobilize-se também no sentido de reduzir as perdas existentes. é importante que o setor amplie o esforço de coleta de indicadores de qualidade e produtividade. institutos de pesquisa e empresas de consultoria. é importante que a construção civil passe a encarar as perdas sob um enfoque mais amplo. Muitas empresas passaram pelos estágios iniciais de treinamento para a gestão da qualidade. Fica claro também que não existe um único valor de perdas inevitáveis para cada material. Em primeiro lugar. sejam eles vinculados às atividades de conversão ou de fluxo.A necessidade de desenvolver o método surgiu a partir da constatação de que as empresas de construção. apontam algumas conclusões importantes. como os estudos de Pinto (1989) e Picchi (1993). O próprio conceito de perda necessita ser revisto no setor. (b) diagnóstico de um canteiro de obras da empresa. ao invés de simplesmente se preocupar com as perdas de materiais. existe uma carência de métodos e técnicas suficientemente testados e adaptáveis às peculiaridades do setor que permitam colocar em prática os conceitos relativos às modernas filosofias gerenciais. O manual a ser publicado descreve o conjunto de conceitos e técnicas relativas à elaboração de estratégia de produção. As principais etapas do método são: (a) formulação da estratégia de produção. A competitividade da empresa é alcançada na medida que a organização persegue a redução de perdas continuamente. relacionados às perdas na construção. A exemplo de outros setores industriais que têm se beneficiado intensamente dos avanços da engenharia de produção. que fazem parte do Sistema de Indicadores descrito no item 4. de baixo custo e com reduzido investimento. Em primeiro lugar. mas encontram dificuldades em definir e implementar as ações necessárias para iniciar o processo de mudança. não podendo ser apontadas médias nacionais com validade estatística. Parte-se do pressuposto que existe um grande potencial para redução de perdas através da utilização de indicadores de qualidade e produtividade e da aplicação dos princípios do total quality control (TQC). Considerações finais Os diversos trabalhos de pesquisa realizados pelo NORIE.2. o método de intervenção foi desenvolvido com o objetivo viabilizar a implantação de melhorias incrementais. Entretanto. que compõem o método de intervenção. 5. através da introdução de novos métodos e filosofias de gestão. (c) elaboração e implantação de um plano de ação. os dados sobre perdas de materiais disponíveis indicam que as mesmas são bastante elevadas. Outra dificuldade enfrentada pelas empresas refere-se à necessidade de recursos financeiros que viabilizem os investimentos em gestão e inovação tecnológica requeridos pelo processo de mudança. Levando em conta esta situação. O esforço para melhoria de processos deve visar à minimização do dispêndio de quaisquer recursos que não agregam valor ao produto. assim como apresenta procedimentos recomendados para a prevenção da ocorrência de perdas. particularmente as de pequeno porte. . apoiados pelos trabalhos que vêm sendo realizados por universidades. A realização dos diagnósticos pré e pós-intervenção envolvem a coleta de indicadores de qualidade e produtividade. diagnóstico de canteiros de obras e formulação de planos de ação. O percentual de perdas inevitáveis é definido pela relação entre o custo da prevenção e o custo da perda e depende do patamar de desenvolvimento tecnológico e gerencial de cada empresa ou obra. o número de trabalhos realizados no país é ainda insuficiente. e (d) realização do diagnóstico pós-intervenção. existindo uma grande variabilidade nos indicadores de perdas de diferentes obras.

Porto Alegre. Toquio. 1-51 KOSKELA. (a ser publicado) SHINGO. F. Porto Alegre. 33p..M. 1993. Application of the new production philosophy to construction. UFRGS. SANTOS. London. L. 1989. et al. CIFE.T. UFSCAR. 1987. UFRGS. PICCHI. 2a ed. 1992. 2º. Mitchell. As perdas de materiais na construção de edificações: sua incidência e seu controle. 1993. Tese de doutorado PINTO.P. L. Perda de materiais em processos construtivos tradicionais. Curso de Pós-graduação em Engenharia Civil.R. São Carlos. Dissertação de mestrado . Waste prevention on site. 1995. São Paulo. A study of Toyota production system from an industrial engineering viewpoint. Porto Alegre.F. E. & SKOYLES. 1993.T. pp. EUA. SEBRAE-RS. USP. 1996. 1992. SEBRAE/RS. Anais. Porto Alegre. E. Sistemas de qualidade: uso em empresas de construção. Rio de Janeiro. Stanford.6.A.GESTÃO E TECNOLOGIA. Japan Management Association. 8 e 9 junho 1993. C. Avaliação de custos unitários e preparo de orçamentos de construção para incorporação de edifício em condomínio: NBR 12721.Associação Brasileira de Normas Técnicas. A. Sistema de indicadores de qualidade e produtividade da construção civil. In: SEMINÁRIO QUALIDADE NA CONSTRUÇÃO CIVIL . M. G. LANTELME. Método de intervenção para redução de perdas na construção civil. SKOYLES. Referências bibliográficas ABNT . Manual de utilização. SOIBELMAN. Departamento de Engenharia Civil. Technical Report 72 OLIVEIRA. T. S. & FORMOSO. Escola Politécnica. Diagnóstico das dificuldades enfrentadas por gerentes técnicos de empresas de construção civil de pequeno porte. 1981. & FORMOSO. FRUET. J. Porto Alegre. C.

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