(Psychiatry On-line Brazil (4) Janeiro 1999 - http://www.polbr.med.br/arquivo/arquivo_99.

htm)

O que é científico (I) Rubem Alves
Colega aposentado com todas as credenciais e titulações. Fazia tempo que a gente não se via. Entrou no meu escritório sem bater e sem se anunciar. E nem disse bom-dia. Foi direto ao assunto. "- Rubão, estou escrevendo um livro em que conto o que aprendi através da minha vida. Mas eles dizem que o que escrevo não serve. Não é científico. Rubão: o que é científico?" Havia um ar de indignação e perplexidade na sua pergunta. Uma sabedoria de vida tinha de ser calada: não era científica. As inquisições de hoje, não é mais a igreja que faz. Não sou filósofo. Eles sabem disso e nem me convidam para seus simpósios eruditos. Se me convidassem eu não iria. Faltam-me as características essenciais. Nietzsche, bufão, fazendo caçoada, cita Stendhal sobre as características do filósofo: "Para se ser um bom filósofo é preciso ser seco, claro e sem ilusões. Um banqueiro que fez fortuna tem parte do caráter necessário para se fazer descobertas em filosofia, isto é, para ver com clareza dentro daquilo que é." Não sou filósofo porque não penso a partir de conceitos. Penso a partir de imagens. Meu pensamento se nutre do sensual. Preciso ver. Imagens são brinquedos dos sentidos. Com imagens eu construo estórias. E foi assim que, no preciso momento em que meu colega formulou sua pergunta perplexa, chamadas por aquela pergunta augusta, apareceram na minha cabeça imagens que me contaram uma estória: "Era uma vez uma aldeia às margens de um rio, rio imenso cujo lado de lá não se via, as águas passavam sem parar, ora mansas, ora furiosas, rio que fascinava e dava medo, muitos haviam morrido em suas águas misteriosas, e por medo e fascínio os aldeões haviam construido altares às suas margens, neles o fogo estava sempre aceso, e ao redor deles se ouviam as canções e os poemas que artistas haviam composto sob o encantamento do rio sem fim. O rio era morada de muitos seres misteriosos. Alguns repentinamente saltavam de suas águas, para logo depois mergulhar e desaparecer. Outros, deles só se viam os dorsos que se mostravam na superfície das águas. E havia as sombras que podiam ser vistas deslizando das profundezas, sem nunca subir à superfície. Contava-se, nas conversas à roda do fogo, que havia monstros, dragões, sereias, e iaras naquelas águas, sendo que alguns suspeitavam mesmo que o rio fosse morada de deuses. E todos se perguntavam sobre os outros seres, nunca vistos, de número indefinido, de formas impensadas, de movimentos desconhecidos, que morariam nas profundezas escuras do rio. Mas tudo eram suposições. Os moradores da aldeiam viam de longe e suspeitavam - mas nunca haviam conseguido capturar uma única criatura das que habitavam o rio: todas as suas magias, encantações, filosofias e religiões haviam sido inúteis: haviam produzido muitos livros mas não haviam conseguido capturar nenhuma das criaturas do rio. Assim foi, por gerações sem conta. Até que um dos aldeões pensou um objeto jamais pensado. (O pensamento é uma coisa existindo na imaginação antes dela se tornar real. A mente é útero. A imaginação a fecunda. Forma-se um feto: pensamento. Aí ele nasce...). Ele imaginou um objeto para pegar as criaturas do rio. Pensou e fez. Objeto estranho: uma porção de buracos amarrados por barbantes. Os buracos eram para deixar passar o que não se desejava pegar: a água. Os barbantes eram necessários para se pegar o que se deseja pegar: os peixes. Ele teceu uma rede. Todos se riram dele quando ele caminhou na direção do rio com a rede que tecera. Riram-se dos buracos dela. Ele nem ligou. Armou a rede como pode e foi dormir. No dia seguinte, ao puxar a rede, viu que nela se encontrava, presa, enroscada, uma criatura do rio: um peixe dourado.

mais sutis. Redondas. alguns séculos depois " os limites da minha linguagem denotam os limites do meu mundo". compridas. Os tipos mais variados de redes foram inventados. poesia. muita coisa mesmo. Quando o homem lhes mostrou o peixe dourado que sua rede apanhara eles fecharam os olhos e o ameaçaram com a fogueira. O mesmo acontecia se as pessoas lhes falavam de cores. outras para serem arrastadas. Qualquer coisa que não fosse peixe. no seu lugar. Havia peixes que se prestavam para ser comidos. Mas. não sabemos o que é um sabiá. por força dos seus hábitos de linguagem. isto é. aquilo que era pescado com redes e falado em ictiolalês. Cada rede pegava um tipo diferente de peixe. pescar peixes e falar sobre redes e peixes. Uns ficaram com raiva. sem sucesso. não é real. Mas uma coisa estranha aconteceu.Foi aquele alvoroço. Os pescadores-fabricantes de redes ficaram muito importantes. Para se pertencer à confraria era necessário que o postulante soubesse tecer redes e que apresentasse. que não fosse apanhado com suas redes. um peixe pescado com as redes que ele mesmo tecera. amor. Há muita coisa no mundo.. outras para ficarem à espera. Outros ficaram alegres e trataram de aprender a arte de fazer redes. no entanto.. uma linguagem apropriada às suas redes e os seus peixes. A linguagem estabelece uma ontologia. para curar doenças. A nova linguagem recebeu o nome de ictiolalês ( do grego "ichthys" = peixe + "lalia"= fala ). não há redes de barbante que as peguem. Disseram que a rede era objeto de feitiçaria. felicidade. eles recusavam e diziam: "Não é real". A fala era rejeitada com o julgamento final: " Se não foi pescado no rio com rede aprovada não é real." As redes usadas pelos membros da confraria eram boas? Muito boas. de malhas pequenas. música. Porque os peixes que eles pescavam tinham poderes maravilhosos para diminuir o sofrimento e aumentar o prazer. para tirar a dor. De tanto tecer redes. que exigem redes de outro tipo. Meu colega aposentado com todas as credenciais e titulações: mostrou para os colegas um sabiá que ele mesmo criara. os membros da confraria acabaram por esquecer a linguagem que os habitantes da aldeia haviam falado sempre e ainda falavam. São criaturas mais leves. que as redes dos membros da confraria não conseguem pegar. Os peixes pescados pelos membros da confraria eram bons? Muito bons. Tinham estado tentando pegar as criaturas do rio com fórmulas sagradas. sob pena de expulsão. como prova de sua competência. Fez o sabiá cantar para eles e eles disseram: "Não foi pego com as redes regulamentares." Sua pergunta está respondida. O meu mundo é aquilo sobre o que posso falar. Quando as pessoas lhes falavam de nuvens eles diziam: " Com que rede esse peixe foi pescado?" A pessoa respondia: "Não foi pescado. As redes usadas pelos membros da confraria se prestavam para pescar tudo o que existia no mundo? Não. mais delicadas. Essas coisas. não é peixe. que não pudesse ser falado em ictiolalês. umas para serem lançadas. E. Puseram. são absolutamente reais. Os membros da confraria. para fazer voar. sentimentos. e que tinha de ser falada por todos os seus membros. Sua arte de pescar lhes deu grande poder e prestígio e eles passaram a ser muito respeitados e invejados. Só que não nadam no rio. meu amigo: o que é científico? . passaram a pensar que somente era real aquilo sobre que eles sabiam falar. não sabemos o que é o canto de um sabiá. de malhas grandes. Os pescadores-fabricantes de redes se organizaram numa confraria." Eles punham logo fim à conversa: "Não é real". como bem disse Wittgenstein. cheiros. para fertilizar os campos e até mesmo para matar.

Lá as redes dos cientistas ficam sempre vazias. ovo. pimenta. Eles têm uma capacidade inigualável para digerir os mais diferentes tipos de comida: leite. por pobreza. pequi. A analogia entre o estômago e a mente nos permite saltar daquilo que sabemos sobre o estômago para o que não sabemos acerca da mente. É o caso dos tigres. Nietzsche se deu conta da mesma analogia e afirmou que "a mente é um estômago". manteiga. carne." Santo Agostinho. Pelo pensamento as informações são assimiladas. "Assimilar" significa. É assim: eu conheço A mas nada sei sobre B. Ele os transforma em objetos interiores. num zoológico. Outros. Um bom professor tem de ser um mestre de analogias. deixam de comer torresmo e comidas gordurosas. etc. tornam-se da mesma substância da mente. os humanos são os mais extraordinários. Os alimentos são objetos exteriores. A mente os transforma em objetos interiores. submetendo-os a uma dieta de nabos e cenouras. Ela "é o reino da palavra como. pensáveis. jiló. vegetariano convicto. azeite. Analogia é um dos mais importantes artifícios do pensamento. posso concluir. por doença. whisky. o tratador dos tigres.. no seu livro Los hijos del limo. como na famosa tela de van Gogh. pão. Quando a ciência usa as palavras "onda" e "partícula" ela está se valendo de analogias tiradas do mundo visível para dizer o universo naquilo que ele tem de invisível. café. ainda. Diante dos legumes os tigres dirão: " Isso não é comida!" . "ad" + "similis"). alface. Mas há também os céus e as matas que se enchem de cantos de sabiás.. é certo que os tigres morrerão. Por vezes essa versatilidade do estômago é submetida a restrições." A analogia nos permite caminhar do conhecido para o desconhecido. semelhantes ao corpo. Octávio Paz. adotam um cardápio vegetariano. precisamente. Da mesma forma como o alimento é trazido à boca pela ruminação. nabo.Sei. Alguns. mandioca. afirma que " a analogia torna o mundo habitável" . milho..Resposta: é aquilo que caiu nas redes reconhecidas pela confraria dos cientistas. A mente é um processador de informações. É isso que torna possível a assimilação. Eles só reconhecem carne como alimento. Outros. dada a sua versatilidade. Seus estômagos só digerem carne. estranhos ao corpo. trigo. coca-cola. banana. entretanto. Informações são objetos exteriores. Quem entende como funciona o estômago entende como funciona a cabeça. autor dessa afirmação (capítulo 14 do livro 10 das Confissões ) percebeu com clareza as relações de analogia existentes entre o ato de pensar e o ato de comer. logicamente. vinho. Cientistas são aqueles que pescam no grande rio. O que é científico?(II) Rubem Alves "Não há dúvidas de que a memória é o estômago da mente. Em grande medida é graças às analogias que o conhecimento avança e que o ensino acontece. repolho. Entre todos os estômagos. Se. reconcilia as diferenças e oposições. estranhos à mente. O pensamento estranho se torna pensamento compreendido.. tentar converter os tigres às suas convicções alimentares. acostumam-se a uma dieta de batatas. Assim. que B é análogo a A. que B deve é parecido com A. côco. por religião. Uma boa analogia é um "flash" de luz. assim as coisas são trazidas da memória pela lembrança. Há estômagos que só conseguem digerir um tipo de comida. essa ponte verbal que. sem suprimi-las. isto é. cenoura. tornar semelhante (de assimilare. O estômago é órgão processador de alimentos.

ciência. sorvetes de variados tipos. Seu olhar bovino me estará dizendo "Isso não é comida". Os estômagos das vacas. à semelhança das vacas. senso crítico. filosofia. por meio de uma disciplina alimentar única. Sem as vacas não teríamos leite. ela me olhará indiferente. quando normalmente se diz "isso não é científico" está se afirmando. A ciência é um dos nossos estômagos possíveis. criptografia. Já imaginaram o que seria da culinária se não houvesse as vacas? Assim o estômago da ciência. Não é o nosso estômago original. que sejam feitas a Deus Todo Poderoso. Estou apenas me valendo de uma analogia: é assim que o meu pensamento funciona. Se eu oferecer à ciência uma comida não apropriada ela a recusará e dirá: "Não é comida. Os estômagos das vacas só reconhecem capim como alimento. que espanta a tristeza. ela está em erro. gostosa. Leonardo da Vinci é um exemplo extraordinário desse estômago omnívoro. A ciência. na linguagem que lhe é própria: "Isso não é científico. comida boa. "Ox". como é bem sabido. arquitetura.. sabonetes. Quando se diz : "Isso não é científico" está se dizendo que aquela comida não pode ser digerida pelo estômago da ciência. Quando a vaca. As possíveis queixas. com sua modesta dieta de capim. Mas há uma diferença. capaz de digerir poesia. filé à parmegiana. para muitos outros estômagos. Ao que me consta. aquilo é comida. O CD player.. que me torna mais leve. mais inteligente. morango com leite condensado. Para o estômago das vacas. É um estômago produzido historicamente. uma estupidez) . cremes. O que vou dizer agora.mais se assemelha ao estômago das vacas que ao dos tigres.de modo que. E eu sugiro que o estômago da ciência é análogo ao estômago das vacas. engenharia. que dá vida. que me dá tanto prazer. com resultados magníficos para os seres humanos. isso não é coisa que o estômago da ciência seja capaz de processar. Sua resposta. Outros estômagos se especializaram e só são capazes de digerir um tipo de alimento. cientificamente. é a palavra inglesa para vaca. que dá sabedoria. com seus produtos infinitos. café com leite. É difícil pensar a vida humana sem a presença dos produtos que resultam dos processamentos digestivos dos estômagos das vacas sobre o capim. Resta-nos revelar a comida que o estômago da ciência é capaz de digerir. Eu teria sido mais prudente escolhendo a analogia do tigre ao invés da vaca. porque para muitos outros estômagos aquilo é comida.Não há nada que façamos com os produtos dos estômagos dos tigres.se não fosse por eles eu já estaria morto . Falta. quando a ciência diz " isso não é científico". jamais escolheira a vaca. mingau. A ESSO escolheu o tigre como seu símbolo. que aquilo não é comida para estômago algum.". implicitamente. a "Rhapsody in Blue". pintura. O tigre parece ser mais nobre. são dignos dos maiores elogios. tem um estômago especializado que só é capaz de digerir um tipo de comida. Assim. Vou logo adiantando: se não for dito em linguagem matemática a ciência diz logo: "Não é científico". Não é científico. Se eu oferecer a uma vaca um bife suculento. diante do suculento bife. existe uma única instituição de saber superior cujo nome está ligado à vaca: é a universidade de Oxford.Os estômagos das vacas só digerem capim. é preciso ter em mente que. Acontece que existe uma inclinação natural da mente em acreditar que só é real aquilo que é real para ela (o que é. música. coisa real pelos seus efeitos sobre meu corpo e minha alma. deveria ser: "Isso não é comida para o meu estômago. urbanismo. Ou. incontáveis. Alguns se parecem com os estômagos humanos e processam os mais variados tipos de informações. declara de forma definitiva que aquilo não é comida. Mas daquilo que o estômago da vaca produz os homens fazem uma série maravilhosa de produtos que contribuem para a vida e a cultura. maravilhosos . pois foi ele. queijos (quantos!). comida é só capim. Concluo que isso que estou ouvindo agora. que me deu o processador de pensamentos que tenho. de Gershwin. Há muitos tipos de mente-estômago. à sua afirmação. Vão me perguntar sobre as razões por que escolhi o estômago da vaca e não do tigre como análago ao da ciência. Mas a música a faz vomitar. sem nenhuma intenção irônica. digo-o com o maior respeito." Que é a mesma coisa. pudins. A mente é um estômago. posto que ambos os estômagos conhecem apenas um tipo de comida. . ou força análoga." Sim. o estômago da ciência digere fácil. para ser verdadeira.

.mau-mau.. As "entidades" do xadrez são as peças: peão. Sem que disso nos apercebamos. nada sabe sobre os filósofos. Você não se interessa por filosofia. todas elas. respondia: "Não é preciso bibliografia. diz sempre: " Mas isso não é nada!" . as brigas de casais. a aula ( Sim! a aula! Os professores deveriam parar para pensar no jogo que estão obrigando seus alunos a jogar! Uma das características desse jogo é que o aluno . todos eles com regras precisas e fixas. os discursos dos políticos. como nos bailes de carnaval.. Nesse momento acontece o riso. O objetivo do jogo de palavras "frescobol" é manter o outro na jogada. em certa região do Brasil.começando a seguir o relato dos seus próprios sofrimentos. O primeiro filósofo começou a filosofar não tinha atrás de si uma bibliografia filosófica. dama. é a travessia. Afinal Shakespeare desconhecia completamente a bibliografia shakespeareana. As danças. Pode ser dançada por uma única dançarina ou por um par . Essa afirmação do poeta não é científica. samba. "Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar: “divinare" : assim dia o Manoel de Barros. As entidades da valsa são um homem. Professores de filosofia têm de dominar uma tradição. marcha. depende de duas coisas precisamente definidas. Não foi produzida por um método. As regras são os movimentos possíveis das peças. cujo objetivo é ter a glória de ser aquela que "sofreu mais. frescobol." Excesso de informações perturba o pensamento. voleibol. Criança brinca com brinquedos. O objetivo do jogo de palavras "tênis" é tirar o outro da jogada. As marchas não exigem pares. cujo objetivo é provocar sentimentos de admiração em quem ouve o relato. Eles devem formar um par: dançar quase abraçados. como a dança. O bom não é a chegada. Contou-me uma paciente que. Compreendo. Os movimentos do homem e da mulher são definidos. Ejaculação precoce. descrevi dois jogos constantemente jogados por casais: o tênis e o frescobol.. truco: todos são jogos. xadrez.O que é científico? (III) Rubem Alves Quero seduzir você a jogar um jogo de palavras chamado filosofia. um ritmo. lambada. dama. Fim adiado. Vai e vem prolongado. A piada é um jogo cujo objetivo é produzir o riso. a psicanálise. buraco. A lamentação é um outro jogo. Consta de um relato de sofrimentos por que a pessoa passou. (É poeta-criança. nunca estudou filosofia. Quebra feitiços." Há uma infinidade de jogos de palavras: a poesia. poeta brinca com palavras. Mas as suas alegações simplesmente significam que você não tem condições para ser um professor de filosofia. muito antiga. Sua estrutura é fixa. No jogo existe uma "dança" entre a liberdade e a regra fixa. quando seus alunos lhe pediam uma bibliografia. a reza. O filosofar é um jeito de fazer dançar as idéias. Mudo minha pergunta inicial: "Vamos dançar?" Muitas são as danças: minueto. bispo. Há uma infinidade de jogos. os comerciais. então.) Freqüentemente os professores de filosofia pensam tanto o pensamento de outros que acabam por não ter pensamentos próprios. Ela é mágica. Jorge Luis Borges. se parecem com os jogos. ao término do relato da primeira.sendo que homem e mulher não ficam abraçados e executam evoluções por conta própria . esse é o jogo predileto das mulheres pobres. Mas o corpo deve se mover num ritmo binário. ao falar estamos fazendo jogos de palavras. por compreender que o filosofar não é conhecimento de uma tradição de pensamento. A beleza do futebol está precisamente nisso: a brincadeira da liberdade do jogador dentro de um quadro de regras fixas. Consta de um discurso que cria uma expectativa. coisa chata e complicada. tênis. Jogos têm regras fixas e precisas. É o par que deve se mover segundo o ritmo da valsa. Comecemos. um suspense. a sedução. que é repentinamente interrompido por uma rasteira seguida de um fim inesperado. Mas isso nunca acontece porque a outra pessoa. Mas note: o homem que inventou o alfabeto era analfabeto. Filosofia. bolero. uma mulher. Numa outra crônica. pôquer. Um jogo. Futebol. Cada um pode dançar sozinho. Já a dança flamenca é outra coisa. tango. Faz voar idéias plantadas. Fim rápido.

para quem não entende: por vezes um poema. Mas quero que os pescadores sejam capazes também de ouvir o canto do sabiá que nenhuma rede pode pegar.. aquele que invadiu meu escritório. Mas beleza não é científica. caçadores de vírus. começa a dançar e não para. Freqüentemente as pessoas ficam emburrecidas em decorrência das palavras que ficam grudadas na sua inteligência. Um motorista guia carros. E chato. como se ele fosse idêntico ao jogo do xadrez. Na filosofia a gente usa as palavras para entender as palavras. Um jardineiro cuida do jardim. "Fascínio" – no Latim fascitatio – que dizer "encantamento mágico". lugar do conhecimento. À medida em que dá conhecimento de um lado. sob pena de perder o emprego. que a palavra "Deus" ( vejam. Olhando para aquilo que . Porque amo muito a ciência. Um barbeiro corta cabelo e barba. Volto ao Manoel de Barros: "A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá mas não pode medir os seus encantos. Já no vôlei as burlas são praticamente impossíveis. Para que? É só perguntar a um filósofo Zen que ele vai dar a resposta. Dizem que a madrasta da Branca de Neve dançou até morrer. Nessa situação só lhe resta um recurso: a burla. fazendo com que as pessoas parem de pensar. Por vezes o canto do sabiá é mais importante que um peixe que se pesca. clonadores de ovelhas. Ou. deliciosa. um jeito de usar as palavras. Wittgenstein definiu esse jogo de palavras chamado filosofia como "uma batalha contra o feitiço da nossa inteligência por meio da linguagem". Veio em busca de socorro. viu paralisado o canto do seu sabiá. Filosofia é um jogo de linguagem. É o que comecei a fazer e irei fazendo. Com alguma freqüência o professor não quer jogar o jogo que a direção da escola e as burocracias governamentais lhe impõem: mas é obrigado a jogar.. Arca de Noé. Mas a linguagem se parece mais com o truco. por exemplo. entra em transe. É fácil identificar a pessoa cuja inteligência está enfeitiçada por uma palavra: ela só sabe dançar uma dança só. a burla. uma sonata. Futebol. ela tem um poder enfeitiçante." Daí o poder enfeitiçante-paralizante da fórmula "Isso não é científico". deliciosa. Mas.lugar do conhecimento. eu disse "a palavra" . Quero que os pescadores continuem a pescar e a preparar os peixes deliciosos que eles pescam no rio da realidade. Quem fica enfeitiçado. Lá dentro se encontram os tipos mais variados: astrônomos. E quem só sabe jogar um jogo de linguagem fica burro. o que é que ele faz? A palavra "cientista" é um bolso enorme. A lista não tem fim. são mais importantes para a vida e a alegria que artefatos de saber e tecnologia. anestesistas. Não há formas de burlar no xadrez mas a graça do truco é. ela retira conhecimento do outro. Porque a inteligência acontece precisamente nos saltos entre danças diferentes. desejável. físicos quânticos.. desejável . precisamente. uma quadro. Deus está além das palavras. geneticistas. quando essa fórmula lhe foi pronunciada pelos feiticeiros da ciência. Um cientista. Queria as palavras para quebrar o feitiço. químicos especialistas em aromas.não disse "Deus". A poesia e a literatura são a arte de burlar as regras da linguagem. Tenho notado. A burla é uma importante possibilidade presente numa grande quantidade de jogos.coisa linda. O símbolo mágico do objeto fascinante: a maçã . É preciso notar que o que enfeitiça é sempre uma coisa "fascinante". Nas aulas de português ensina-se o jogo da linguagem sem burlas. A ciência é coisa linda. eu não poderia viver sem ela. Precisamos dos dois: do conhecimento e da beleza.é obrigado a aceitar as "entidades" com que devem jogar ( disciplinas e currículos) e as "regras" do jogo que a escola impõe. está cheio de burlas. " feitiço".) é uma das palavras que mais se agarram à inteligência. é bem sabido. meteorologistas. Meu amigo.. por exemplo. O que é científico? (IV) Rubem Alves Um cozinheiro cozinha. como a maçã. As aulas de português são um jogo cujo objetivo é ensinar os alunos a jogar a jogo da linguagem de acordo com as regras oficiais: usar as palavras certas e a gramática certa.

o mais famoso filósofo da ciência do nosso século. O filósofo da ciência se parece com o gramático: ele tenta entender as regras desse jogo lingüístico que o cientista joga. Nunca havia pensado nisso. Veja. "Não sei. dentro do espelho. "Teorias" e "hipóteses": esses são os nomes que esses olhos comumente recebem.pasmem! . provavelmente. não é jogo da verdade. A "coisa" da piada. e não na vida real. As palavras são os olhos da ciência. nunca se embaralham. O seu objetivo é produzir o riso. Se não acreditar poderei provocar um desastre. livro que aparece aberto constantemente diante dos nossos olhos. Os pracinhas se põem a marchar. "Ordinário. a senhora é um assombro. e as testa passo a passo. fora delas. Esconde-se deles. Ninguém ri. prestarei atenção. E o jogo de palavras que o cientista joga? Qual o seu objetivo? As palavras do cientista têm por objetivo enunciar a verdade. qual é a primeira perna que a senhora mexe?" A Centopéia se assustou. Uma teoria é uma hipótese que ainda não foi desbancada. eles estão jogando o mesmo jogo. se encontra nas próprias palavras. senhor Gafanhoto. assim. Essa é a razão por que Popper definiu o cientista como alguém que "propõe declarações ou sistemas de declarações". é virtual. a fala . Mas não qualquer palavra. e as faz bem. No entanto. Escrevo da mesma forma como a Centopéia andava. A gente ri por causa das palavras.." É assim que Karl Popper define o que um cientista faz. Ninguém pergunta se elas enunciam a verdade. é miriápodo: milhares de regras. por exemplo.. Centopéia. nunca tropeçam. Não penso nas regras da gramática agora. um único nome é usado para todos. um dia. ao falar. só pode ser vista . O sargento berra. Na verdade. não é real. Uma ordem não é para enunciar uma verdade. Contar piada é um jogo de linguagem.não é centopéia. Só que. que quer dizer "palavra"... não temos consciência dessas regras. Ela fica envergonhada quando é vista através dos sentidos. que estou escrevendo. Encontrou-se. tantas pernas. pergunta se ela é verdadeira. todas andando ao mesmo tempo. A imagem virtual corresponde a uma coisa real. é um jogo de palavras cujo objetivo é produzir obediência. por favor me diga: quando a senhora vai andar. ao final do "strip-tease"? A gente vê uma linguagem. A ciência. Isso é verdadeiro de todos nós.com o auxílio de palavras. Eu acredito na imagem. Centopéia. Mas. complicadíssimas. As palavras do sargento não são piada. pode ser descrita como um "strip-tease" da realidade por meio de palavras. A essa "coisa" eles deram o nome de "Logos". Muitas palavras são proibidas. porque ele está escrito com sinais que . Da. Um filósofo da ciência é alguém que tenta entender o que um cientista faz. Os gramáticos tentam entender as regras da fala. Sempre andara sem precisar pensar. Quem percebeu isso em primeiro lugar foram os filósofos gregos que diziam que. marche!" Ninguém discute.. Quais são as palavras que são permitidas? Galileu responde: "O livro da filosofia é o livro da natureza.... ou sistemas de declarações." Termina a estória dizendo que desde esse dia a Centopéia ficou paralítica. E o que é que a gente vê. A ciência nasceu da desconfiança dos sentidos. A realidade. o que quer dizer que. seja um teórico ou um experimentador. propõe declarações. Ninguém. Um cientista brinca com palavras. com um gafanhoto que lhe disse: "Da. Ela acredita que a realidade é como uma mulher pudica acredita que aquilo que a gente vê não é a verdade. ao ouvir uma piada. Popper é. Freqüentemente a gente faz coisas. Piada é jogo do riso. Qual é o jogo que um cientista joga? "Um cientista. para ser vista em sua maravilhosa nudez. mas as faz de maneira tão natural e automática que nem se dá conta de como elas são feitas. Engana. Como num espelho: a imagem. Assim são as palavras do jogo que a ciência joga: elas buscam ser imagens fieis da realidade. são uma ordem.estão fazendo eles parecem pessoas que nada têm a ver umas com as outras. Tal como aconteceu com aquela centopéia. mas que poucos sabem decifrar e ler. lá no fundo de todas as coisas sensíveis se encontra algo que pode ser visto apenas com os olhos da razão. no fundo. o humor. todas a teorias não passam de são hipóteses. Mas prometo: da próxima vez que eu andar. "cientista". Dissimula. olhando para o espelho retrovisor do meu carro eu vejo o carro que vai me ultrapassar.

As redes da ciência deixam passar muito mais do que seguram. O professor verdadeiro. As redes dos cientistas feitas com palavras." Volto ao Manoel de Barros: "A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá mas não pode medir os seus encantos.. se agigantam. Mas quem está convicto não se dá conta da própria bobeira. Porque quem mente sabe que está mentindo. feita de coração. A rede só pega peixes porque os seus buracos deixar passar.. Assim. aqueles que não estão convictos de serem possuidores da verdade. Só posso ouvi-la por causa da ciência. acima de todas as coisas que ensina. Aprenderam que peixes se pescam com redes. Foi ela que. pois eles também são pescadores que pescam no rio da realidade. Assim. Daí a transformação por que passam: seus ouvidos. E o problema é que não há exorcismo que seja capaz de expulsá-las da cabeça onde se alojaram. construiu o meu computador. " Boca de forno! Forno! Furtarm um bolo! Bolo. O que é científico? (V) Rubem Alves Fico logo arrepiado quando ouço alguém afirmar: " Estou convencido de que. produziu o CD. ao invés de redes. cones e pirâmides. pela simples razão de que elas se apresentam como dádivas dos deuses. não pegaria nada... órgãos da falam. Mas um engenheiro surdo poderia ter feito isso. Por que escutar? Somente prestam atenção nas opiniões dos outros. Sem ser científico.. órgãos de audição. Elas deixam passar. Somente palavras que possam ser amarradas com nós de números. enquanto as bocas. As coisas que "não são científicas". E segura o que a ciência deixa passar. Uma lona de plástico. Quem não está convicto está pronto a escutar ." Digo logo para mim mesmo: "Cuidado! Lá vai um inquisidor em potencial!" Convicções são entidades mais perigosas que os demônios. ao cair da tarde.. do Tom Jobim. Também eles usam redes para pescar. com teorias e medições. As coisas que as redes da ciência não conseguem segurar são as coisas que a ciência não pode dizer. sabe que aquilo que está dizendo é um engano. as redes da ciência não conseguem pegar." Outra rede: o meu corpo é a outra rede. Peço perdão aos professores. um cientista que fosse também um filósofo. diferentes da própria. Isso também é parte da realidade..diferem daqueles do nosso alfabeto. traduzindo a música em entidades eletrônicas definidas. contemplaram a verdade. com teorias e medições. Não mede os encantos do sabiá. ensina a arte de desconfiar de si mesmo. Mas fica triste ao ouvi-lo. Os peixes que caem nas malhas da ciência são entidades matemáticas . sangue e emoção.do jeito mesmo como Galileu o disse. Deixa passar o que a ciência segura.é um permanente ( eu ia dizer "professor". Absolutamente certo.. Um tolo poderia dizer: "Que pena que se tenha de usar redes! Nas redes os buracos são muito maiores que as malhas! A rede deixa passar muito mais do que segura! Seria melhor se.) mestre de catecismo. usássemos lonas de plástico que não deixam passar nada. Seria necessário uma outra rede. ao declarar "Isso não é científico". círculos e esferas. Estou ouvindo "Eu não existo sem você". estaria simplesmente confessando: "Isso. Os recém-convertidos estão sempre convictos de que.." Estranho isso? Não. Contei essa parábola como analogia para o que fazem os cientistas. Pegam entidades eletrônicas quantificáveis.é um permanente aprendiz.. se atrofiam. O convicto sempre pensa que a sua bobeira é sabedoria. Foi a ciência que.". por pretender pegar tudo. Porque as redes da ciência não pegam música. Dizia Nietzsche que "as convicções são piores inimigos da verdade que as mentiras. e que são triângulos e quadrados. pegaríamos tudo!" Palavras de um tolo. finalmente.. .. Quem está convicto não tem o que aprender . Sobre elas ela tem de se calar." Com isso voltamos àquela aldeia de pescadores que aprenderam a pescar os peixes que nadavam no rio da realidade (ver a crônica do dia 31 de maio). Quem está convicto da verdade não precisa escutar.

centenas de pessoas. executando. Galileo escapou por pouco. há um dogma sobre o qual todos estão de acordo: o dogma do método. por isso. me colocava duas perguntas que me fizeram sorrir/chorar. Milan Kundera. pedindo que eu respondesse um questionário. É bem sabido o que as convicções religiosas fizeram na Idade Média. Mas os demônios das convicções tem atributos dos deuses: são onipresentes. A ciência não tem dogmas! Certo." As igrejas ditas cristãs. deixando isso de lado. Defendiam corajosamente esse caminho. Mas essa pretensão é constatada por Thomas Kuhn. . Ela. As instituições científicas são movidas pelas mesmas leis sociológicas. nos chegam sem que as pesquemos com as redes da ciência.As inquisições se fazem com pessoas convictas. Primeira pergunta: "Qual a teoria que o senhor usa para escrever suas estórias?" Segunda pergunta: "Qual o método que o senhor usa para escrever suas estórias?" Aí eu tive de contar para ela que muitas coisas nesse universo. alegavam. Emigram para a política. está absolvido. possuído pelo dogma do método. Interessa-lhe uma coisa apenas: " As idéias dessa pessoa são iguais ou diferentes das minhas?" Se forem iguais. convencidos de que eles estavam a caminho do paraíso. Pelo menos oficialmente. A mesma coisa pode ser dita dos governos dos ditadores. Diz Kuhn que. Recebi uma carta de uma jovem que estava fazendo uma tese científica sobre minhas estórias infantis. mas por entusiastas convencidos de terem descoberto o único caminho para o paraíso. Freud e Foucault. O dogma aparece quando se diz que real é somente aquilo que se pega com as redes metodológicas da ciência. baseando-se em dados históricos. "Os fins justificam os meios". mataram nas fogueiras milhares de pessoas inteligentes e boas simplesmente pelo crime de pensarem diferente: João Huss. que a ciência tem dogmas sim. portanto. A pobrezinha me escreveu uma carta. freqüentemente. autor de A estrutura das revoluções científicas. Nem mesmo a ciência. vai para a fogueira. " Aqueles que pensam que os regimes comunistas da Europa Central são obra exclusiva de criminosos deixam na sombra uma verdade fundamental: os regimes criminosos não foram feitos por criminosos. Os sacerdotes da ciência me responderão: "Peguei-te! Porque um dos dogmas centrais da ciência é que não estamos nunca de posse da verdade final. em A insustentável leveza do ser. E está certo: é preciso rede para pegar peixe. Savonarola. Ele afirma. Escorregam da religião. graças à mentira. As conclusões da ciência são sempre provisórias. Giordano Brunno. "Que pena que temos de usar a violência! Mas são eles mesmos que nos obrigam! Querem desviar o povo do caminho verdadeiro!" Nenhuma instituição está livre dos demônios das convicções. Mais tarde ficou claro que o paraíso não existia. para proteger suas verdades se valiam de meios que elas mesmas lamentavam. A igreja católica e as igrejas protestantes. políticas e psicanalíticas que movem as igrejas e os governos. Foi isso que fizeram com o meu augusto amigo: ele foi mostrar aos os seus amigos os pássaros que ele havia encantado tocando flauta e todos disseram: " Não foi pego com as redes metodológicas da ciência! Não é real! Não merece respeito!" A loucura chega ao ponto do ridículo. os entusiastas eram assassinos. Miguel Serveto. As conseqüências mortais e paralisantes das convicções se espalham por todos os campos. O que é o dogma do método? Já expliquei: o método é a rede que os cientistas usam para pegar os seus peixes. Se forem diferentes. é só com a morte desses papas que os dogmas caem do seu pedestal. convictas de serem possuidoras de verdades que lhes haviam sido diretamente reveladas por Deus. O Inquisidor não está interessado em ouvir as razões daquele que está sendo inquirido. escreveu esse parágrafo luminoso sobre a relação entre as convicções e os crimes políticos. certíssimo! A ciência não tem dogmas quanto aos seus resultados. e que. certamente nas mãos de um orientador científico. Para se entender bem as instituições científicas há de se ler Maquiavel. muitas mesmo. em sua declaração de intenções. E os seus dogmas são mantidos pelos cientistas que se agarram às suas teorias e não admitem jamais que a verdade possa ser diferente. Mas.

Na verdade ele não queria namoradas. Por vezes. Jogava o tal jogo de maneira fantástica. a música. Virou um computador ambulante. as redes voltam sempre vazias.nas palavras do Guimarães Rosa . O corpo humano. de avião.como a bola chega nas mãos do goleiro: prontinha.se torne uma convicção religiosa. jogos de fazer. Eu encontro. Inteligência é isso: a capacidade de pular de um programa para outro. Suas cartas de amor só falavam de bispos. Ele passa de um programa para outro sem pedir licença e sem pensar. a literatura. A gente vai vagabundando. jogo de namoro eram inexistentes no seu mundo. Freqüentemente o resultado do uso do método é o oposto da inteligência. jogos de prazer. de fato. Só falava sobre xadrez. Durante toda a viagem rezou o terço. Na inteligência porque ele pode produzir cegueira: só é real o que cai na rede ortodoxa. cavalos e bispos. Porque a vida não é uma coisa só. Derrotar o computador. computador de um disquete só. um dogma sobre a única via metodológica de se conhecer a realidade. sem método: o livro do Saramago. As boas idéias não são pescadas nas redes metodológicas. Mas o preço que pagou é que perdeu tudo sobre o mundo da vida.O que dizia Picasso: " Eu não procuro. muito mais inteligente que os computadores. Há sempre o perigo de que a ciência . de dançar muitas danças ao mesmo . a pintura e. O adversário são as hostes do inferno. Sabia tudo sobre o assunto. Se houvesse método para se ter idéias boas. bastaria aplicar o método que seríamos inteligentes. Deus é o rei. uns colidindo com os outros. inclusive a ciência. e de repente a estória chega . especialmente os jovens pretendentes a um lugar nos templos da ciência. E é isso que faz a inteligência. De vez em quando. aos pulos para frente. Cabeça raspada. Nada mais lhe interessava.coisa tão boa . Tornou-se um grande mestre. Mas o nosso herói. Uma coisa é certa: a estória não me chega quando estou trabalhando." As estórias são assim.. de São Paulo para Belo Horizonte. Só conversava sobre xadrez. das colisões surgindo faíscas. com uma coceira no pensador. e ele não se dá conta dos pássaros que se assentaram no seu ombro. jogos de baralho.chegou-me gratuitamente. sobre a cegueira. sabia tudo sobre o mundo do xadrez. Até mesmo quando andava jogava xadrez. Especializou-se.) No caráter porque ele pode tornar as pessoas intolerantes e inquisitoriais. Nada sabia sobre as coisas do mundo como pombas. A rainha é nossa senhora. Não conseguia ter namoradas porque seu único assunto era xadrez. era cabeça de um jogo só. O que é científico? (VI) Rubem Alves Era uma vez um jovem que amava xadrez. não será uma parábola? Vou investigar. Queria adversárias. Essas coisas como jogo de damas. A obsessão com o método entope o caminho das boas idéias. beijos e sambas. passinhos na diagonal. As pessoas normais fugiam dele porque ele era um chato. é capaz de usar muitos disquetes ao mesmo tempo. jogos de poder. jogo de peteca. jogos de brincar. entrou para uma ordem religiosa. coroinhas a serviço dos bispos. Não há método para se ter idéias boas. Só lia livros de xadrez. Jogar xadrez lhe dava grande prazer. Sua vocação era o xadrez. Simplesmente pula. Sua metafísica era quadriculada. É só ir para casa e escrever. Estudava as partidas dos grandes mestres. Eu viajei ao lado dele. Disquetes são linguagens. Queria passar a vida jogando xadrez. E é assim que acontece com a poesia. coitado.. Entenderam agora a razão para essa série de crônicas com o título O que é científico? É que eu estou preocupado com a devastação que o dogma do método pode fazer na inteligência e no caráter das pessoas. Quando era apresentado a uma pessoa sua primeira pergunta era: Você joga xadrez? Se a pessoa dizia que não ele imediatamente se despedia. quando estou procurando. E. torres e roques. O tipo está lançando suas redes. Sem método. jogos de saber. Inclusive. Uma cabeça ligada com a vida é um festival de jogos. A vida é uma multidão de jogos acontecendo ao mesmo tempo. As pessoas normais brincam com muitos jogos de linguagem: jogos de amor. fazendo nada. Não prestei atenção mas suspeito que as contas do seu terço eram peões. Sem teoria. Mas o seu sonho era ser campeão. Outras vezes. (Veio-me agora uma idéia . dois pulos para frente e um para o lado. salta.

pernas bambas. Como o xadrez. poesia. Uma vez escolhido um jogo e suas regras. O velhinho. A ciência os estuda e examina a possibilidade de que. Ou truco. Como explicar isso. No jogo do xadrez não se admite o uso das regras do jogo de damas. à medida que o seu "software" de linguagem científica se expande. O resto é irreal. E assim também são definidos os movimentos das coisas físicas do jogo da ciência. fazem guerra e fazem paz. Para ele o mundo é só aquilo que as redes da sua linguagem pegam.tempo. Mas. então a linguagem da ciência seria completa. O riso aparece no momento preciso em que a piada faz a inteligência pular de uma lógica para uma outra. Totalmente incapaz de capturar relações afetivas. Por inatividade. ela é um não-objeto que têm poder para se apossar dos homens que. que foi um evento assim que pôs fim aos dinossauros. Faz muitos anos. se o mundo fosse constituído apenas de objetos. primeiro. Não seria aceito para ser publicado numa revista científica indexada internacional. A velhinha estava linda: sorridente. trêmulo. Não pode ser dita com a linguagem da ciência. Kuhn. A inteligência do nosso herói não sabia pular. O cientista se transforma num "homem unidimensional": vista apurada para explorar a sua caverna.Mas eu mandei o senhor comer avêia três vezes por dia e o senhor comeu avéia três vezes por dia?" O riso aparece no jogo de ambiguidade entre avêia e avéia. Mas a linguagem define também uma sintaxe. prescreveu uma dieta de comidas e remédios a ser seguida por duas semanas. entidades que podem ser ditas por meio de números. Podem ser ditos com a linguagem da ciência. a forma como as suas entidades se movem. As regras do jogo da ciência definem uma linguagem. O humor se nutre desses pulos. enquanto você gasta tempo com literatura. um deles venha a colidir com a terra. há sempre um japonês trabalhando no laboratório noite adentro . As entidades que existem dentro do jogo lingüístico da ciência são. A ciência é um jogo. Acontece que os seres humanos amam. e o riso não está previsto no xadrez. diz que os cientistas fazem ciência pelos mesmos motivos que os jogadores de xadrez jogam xadrez: querem todos provar-se "grandes mestres". por causa dela se tornam heróis ou vilões. todos os demais são excluídos. Ela só marchava. Elas definem. É possível que ele esteja pesquisando o mesmo problema que você. ". O cientista que assim procede ficará com conhecimentos cada vez mais refinados na sua área de especialização: ele conhecerá cada vez mais de cada vez menos. Não é científico. eventualmente. um filósofo chamado Herbert Marcuse escreveu um livro ao qual deu o título de O homem unidimensional. denominada "área de especialização". Nem do xadrez chinês. Um jogo com suas regras precisas. O homem unidimensional é o homem que se especializou numa única linguagem e vê o mundo somente através dela. O resultado deixou o médico estupefato. apoiado na mulher. esperanças. A paixão dos homens pelos ideais não é um objeto físico. mas cego em relação a tudo o que não seja aquilo previsto pelo jogo da ciência. um caco. no seu livro Estrutura das Revoluções Científicas. "coisas-físicas". Para se atingir o nível de "grande mestre" no xadrez ou na ciência é necessária uma dedicação total. Os movimentos das peças do xadrez são definidos com rigor. os outros "softwares" vão se atrofiando. saltitante. Conselho ao cientista que pretende ser "grande mestre": lembre-se de que. voltaram. No entanto. ele. têm medo. sentem a beleza. segundo Carnap. apaixonam-se por ideais." O pretendente ao título de "grande mestre" deve se dedicar de corpo e alma ao jogo da ciência. inclusive. Esses são os objetos do léxico da ciência. depois de examiná-los. . Dizem. Meteoros são objetos físicos. isso é. Mas um projeto de pesquisa sobre a paixão dos homens pelos idéias não é admissível na linguagem da ciência. dentadura frouxa. em conversas no bar DALI. as entidades que existem dentro dele. isso é. Passadas as duas semanas. As entidades do jogo de xadrez são um tabuleiro quadriculado e as peças. será o "grande mestre. namoro. Sua linguagem é extremamente eficaz para capturar objetos físicos. Se ele publicar os resultados da pesquisa antes de você. e não você. Se não houvesse homens no mundo. O nosso herói nunca ria de piadas porque ele só conhecia a lógica do xadrez. que uma mesma receita tivesse produzido resultados tão diferentes? Depois de muito investigar o médico atinou com o acontecido. Há a piada dos dois velhinhos que foram ao gerontologista que. toda maquiada. riem.

é casa como objeto de prazer ou dor. Nesse momento. Para isso não há ciência. O alemão tem uma palavra curiosa "unheimlich". objeto físico. e se auto define como médico de casas.que prefira rock. ao contrário. escute essa música que o vovô ama. publicado na revista Mais Vida ( jan. O fato é que há casas que nos fazem sentir bem. Mesmo quando se vai só para fazer um check-up. e a casa como espaço que faz algo às pessoas que moram nela.. em todos os lugares. Sinto vontade de chorar. igual para todos.essa a pergunta com que se inicia qualquer consulta. em todas as épocas. As casas. uma doença tenha se alojado no corpo.A ciência é muito boa . que provocam a minha imaginação. podem fazer amor. Pois é assim que Rodolfo Livingston inicia suas "consultas": "Onde é que sua casa está doendo?" As casas podem doer. cheias de objetos de arte. Não basta que a casa seja feita de forma perfeita.. sem dor física alguma . eventualmente. A técnica de fazer CDs pode ser ensinada de forma científica. As paredes se esguem com fio de prumo. cegueira e. Assim. Tradução: sentimento de estar num espaço estranho. As tintas se fazem com química. me provocam um estranho sentimento de estar num espaço não humano. ricas. É um arquiteto fora do gabarito. que eu amo: "Sometimes I feel like a motherless child": por vezes eu me sinto como uma criança sem mãe. Quem sabe a ciência da construção de casas sabe construir qualquer casa. eu gostaria de viver nelas. "Heim" é lar. Mais cheia de solidão não poderia existir. mesmo que não seja dita de forma clara. Há casas que me emocionam. todas as paredes na vertical. portas e janelas. assim. "Onde é que está doendo?" . razão para o nome de "consultório" que deu ao seu escritório. E outras.e esse espaço se constitui num prolongamento do corpo. emburrecimento. a casa e a felicidade". dita. do tipo apartamento grãfino ou casa de conjunto habitacional. 97). A casa em relação às pessoas que moram nela. O que é científico? (VII) Rubem Alves Se você está planejando fazer uma reforma na sua casa.dentro dos seus precisos limites. Nas faculdades de engenharia se aprende a ciência de construir casas. Mais rica não poderia existir. especializou-se na reforma de pequenas residências. estou ouvindo um CD de Negro Spirituals. vi uma fotos da casa da Xuxa. É por isso que elas "doem". tijolos. São muito mais que estruturas de cimento. Esse CD foi produzido pela ciência. é entidade científica. de todos os tipos. E com certeza há milhares de Cds iguais a ele dando prazer a outras pessoas. Há algo errado na casa produzida em série.note que "gosto" é palavra tirada da gastronomia. "Un" é a negação. talvez pela contemplação do meu rosto. Quando a gente vai ao médico é porque alguma coisa está doendo de um jeito ou de outro. Valem para todas as casas. Formam um espaço . Quando transformada na única linguagem para se conhecer o mundo. casa que vai durar 150 anos. é possível que ela sinta o mesmo "gosto" que eu sinto. Ela é muito bonita!" E aí. todos os cálculos de viga corretos. Fiquei sabendo sobre ele através do um artigo "O homem. A casa. Isso vale para as casas. objeto físico. aqui vai o meu conselho: marque horário no "consultório de arquitetura" do arquiteto argentino Rodolfo Livingston. ferro e matemática. e outras que nos fazem sentir mal. Fiquei horrorizado. ele se refere a uma "qualidade" que não pode ser explicada. Mas o "gosto" pela música . o gosto pela música não pode ser ensinado de forma direta. ela pode produzir dogmatismo. As vigas são feitas com cimento. Se quero introduzir minha neta ao prazer dos "spirituals" eu tenho de me assentar com ela e dizer: "Fique quietinha. podem ser vistas por dois ângulos diferentes: a casa em si mesma. que não é lar. A ciência realiza feitos maravilhosos! Mas é possível que o técnico que o produziu não goste de "spirituals" . sem nenhuma dor. entretanto. a música e a letra que me comovem o deixam frio. Porque as pessoas . Os princípios científicos para a construção das casas são universais. talvez irritado.há uma dor na cabeça: medo de que. secretamente.. em si mesma.sim. Faz tempo. do ponto de vista técnico engenharial. ensinada! .

a relação do objeto comigo. o sentimento de felicidade ou infelicidade que um objeto produz numa pessoa. sobre o sofrimento e a felicidade. isso é. A ciência produz os conhecimentos de química necessários para a fabricação de tintas de todas as cores. Interessavam-lhe sentimentos. mas não pode medir os seus encantos. não perguntam para a pessoa. Pesquisas qualitativas são extremamente vulneráveis a viés de todos os tipos. portanto. Penso que os recursos da FAPESP seriam mais adequadamente utilizados em pesquisas cujos resultados sejam confiáveis.são diferentes. Elaboram projetos funcionais. Um pesquisador enviou um projeto de pesquisa à FAPESP. algo que nenhum arquiteto sabe. Mas ela nada sabe sobre as reações de sofrimento ou felicidade que uma cor pode produzir. As ciências físicas pesquisam objetos. O que me interessa são as alegações do assessor. estruturas anatômicas. falam uma linguagem que só eles entendem. Como disse o querido Manoel de Barros "a ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá. Na verdade. em mim. Essa arte é rigorosamente proibida aos cientistas. estatística. essas "coisas" escorregadias que têm a ver com o sofrimento e a felicidade dos homens.e ficar felizes". Não lhe interessavam dosagens hormonais. Transcrevo duas delas: "1. A ciência garante isso. Que pena que os cientistas proíbam a investigação das coisas que trazem sofrimento ou felicidade aos homens! O que é científico? (VIII) . nenhum decorador sabe. Não são produzidas em série." E acrescenta " Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar: divinare. e reprodutibilidade do estudo (que é o objetivo maior da investigação científica). Sofrimento e felicidade são qualidades de relações. Ela sabe receitas precisas para a reprodução de objetos. Porque sofrimento e felicidade não são objetos. A casa tem de ser a realização objetiva dos espaços que moram em minha memória poética. válidos e reprodutíveis. Hegel diria: "objetivação do espírito". Propunha uma pesquisa qualitativa." Não há maneiras de fazer uma pesquisa objetiva. Cada pessoa é única. durante a reforma. Esse trabalho dificilmente seria aceito para publicação em uma revista científica internacional. Marx diria: " espelho onde podemos nos contemplar . dificultando sobremaneira a confiabilidade. "cientificamente".. Conhecem objetos. 2." Acho que o assessor. Freud diria: "um sonho de amor tornado visível". Rodolfo Livingston dá um puxão de orelha nas faculdades de arquitetura e urbanismo. Quando compro uma lata de tinta quero ter a certeza de que ela é da mesma cor da tinta que já comprei. Os sabiás divinam. Tudo ignoram sobre qualidades. " Os estudantes nunca viram um cliente e. Para se saber sobre relações é preciso conhecer a arte de adivinhar. A alma humana não pode ser conhecida "em geral". metástases cancerosas: objetos que podem ser conhecidos quantitativamente. onde a casa dói. Há. Área médica. eles nem sabem do que se trata.. para que meu cliente se sinta bem". De que cor vou pintar a parede? Roxo? Preto? Rosa? Azul? Amarelo? Abóbora? Quando essa pergunta é feita saimos do campo da objetividade e entramos no campo da qualidade: o que a cor faz comigo. Coisa muito boa. Não há aparelhos que possam medir o sofrimento e a felicidade. Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Claro que ele está fazendo uma brincadeira. não marcaria hora no "consultório" do Rodolfo Livinston. Cada casa. Ele preferiria uma casa construída em série em algum conjunto habitacional. Elas revelam muito. validade. quem quer que tenha sido. Não sei se o projeto era bom ou não. tem de ser uma coisa única. nenhum paisagista sabe. depois de formados. Recursos para a sua pesquisa foram negados. Eu utilizo um "sofrenômetro" e um "felizômetro" para ir entendendo o que é importante e o que não é.

Se não forem iguais. A exatidão dos números torna a repetição possível. Com elas se faz a ciência. de fazer objetos iguais uns aos outros. que normalmente requerem ouvidos delicados e precisos.Rubem Alves Há os pianos. Existem para serem tocados. essa culinária precisa e útil. Tanto os pianos quanto os objetos da ciência são construídos com o auxílio de um método chamado quantitativo. A música é tão real quanto os pianos. Não pode ser medida. Um pianista não interpreta a mesma música duas vezes de forma igual. Digo que a fabricação de pianos é um ciência porque tudo. na mesma temperatura de forno. Há a música. é um critério de verdade. Na ciência. As qualidades secundárias são aquelas que se referem às . tensões. E há de se considerar a afinação. ao iniciar um concerto na cidade de Washington. O pianista Benedetto Michelangelo. no piano. A música existe mesmo se o CD está sendo tocado numa sala vazia. Assim é a ciência. com os mesmos ingredientes. Pianos são meios. É essa linguagem que torna possível fazer pianos iguais uns aos outros. que podem ser ditas e descritas na precisa linguagem científica dos números. Mesmo as afinações. Dela se diz: "Como é bela!" Dos pianos os mais famosos são os Steinway. Tudo tem de ser medido. ao ouvi-lo. tornando possível a repetição. de Bach. está submetido ao critério da medida: tamanhos. isso é. testado. Cada vez é única.o afinador pode ser surdo! . pesos. em si mesma. Coisa de culinária: se digo que uma receita de bolo é boa. É certo que a música tem uma realidade física. Os pintores pintam para dar prazer aos que olham. Uma outra pessoa. vai dizer: "Que música chata!" Desde cedo os filósofos naturais ( assim eram chamados os cientistas no passado) perceberam a diferença entre a ordem das quantidades e a ordem das qualidades. As qualidades primárias são aquelas que pertencem ao objeto. sem ninguém que a ouça. O "Concerto Italiano". dentre eles o de Campinas. Ambos são absolutamente reais. A realidade do piano se encontra em suas qualidades físicas.. o resultado deverá ser igual. O mesmo vale para a comida. a possibilidade de repetir. nas medidas exatas. A sua fabricação exige uma ciência rigorosa. preferidos dos grandes pianistas. elas podem ser ditas em linguagem matemática. parou imediatamente após os primeiros acordes: o seu ouvido percebeu que a afinação não estava certa. O concerto foi interrompido para que um afinador desse às cordas a tensão exata para produzir os sons precisos. As teclas devem ter o tamanho exato. que se vale de números. independente dos sentimentos de quem ouve. Também os amantes beijam por causa do prazer. Deles se diz: "Como são bem feitos!" A música mora no mundo das qualidades. Essa é a razão por que os fabricantes de pianos não se contentam em fabricar pianos: eles vão aos concertos ouvir a música que os pianistas tocam. devem ter reação instantânea. Pianos são máquinas grande precisão.. São eles que se encontram nos palcos dos grandes teatros do mundo. As cozinheiras cozinham para dar prazer aos que comem. põe em ordem o meu corpo e a minha alma. irrepetivel. Mas a realidade da música não é da mesma ordem que a realidade dos pianos. todas as vezes que qualquer pessoa fizer a mesma receita. A realidade da música se encontra no prazer de quem a ouve. independentemente dos nossos sentimentos. Um dos objetivos da ciência exata da fabricação de pianos é a produção de pianos absolutamente iguais. E as designaram com as expressões " qualidades primárias" e "qualidades secundárias".desde que haja um aparelho que meça o número de vibrações das cordas. O desejo do prazer move o mundo. O prazer é uma experiência qualitativa. Na ciência e na construção de pianos só é real o que pode ser medido. Os pianos moram no mundo das quantidades. Não há receitas para a sua repetição. Mas isso não é a realidade da música. o pianista não conseguirá tocar num piano em que nunca tocou. devem reagir de maneira uniforme à pressão dos dedos. Pianos não são fins em si mesmos. podem prescindir dos ouvidos dos afinadores . pesado. Ambos são absolutamente diferentes.

Tocar piano não é preciso. indizíveis. eu não fico sabendo como é a beleza da música. com boca e língua anatômica e fisiologicamente idênticas às minhas. Todos os cientistas devem adorar diante do altar desse novo ídolo: as revistas internacionais indexadas. ao falar do que sentia ao ouvir a sonata "Appassionata". Se o pianista quiser ter o grau de doutor ela terá que escrever uma tese na qual a "qualidade" que ele sabe produzir é transformada num saber quantitativo duvidoso.experiências subjetivas que temos ao "provar" o objeto. "Vivam os pianos! Mas os concertos estão proibidos!" --> . não são movidos por razões quantitativas. Nada disso é científico. inveja. ao fazer ciência. Havia. Faltam-se sutilezas. por exemplo). e fico tranqüilo. Não é capaz de dizê-la. da estética pertence ao mundo humano das "qualidades". E esse ídolo que decide sobre o destino das pesquisas e dos pesquisadores.. da beleza. de Debussy. O que comove os homens e os faz agir é sempre o qualitativo. Mas é Real. Ouço a Serenata de Schubert e tenho vontade de chorar. Não pertence ao mundo das realidades quantitativas. Ouço o estudo op. autoritarismo. Mas como dizer a beleza de uma sonata? Lênin. não passíveis de serem repetidos. A experiência estética. Inclusive a ciência. Uma outra pessoa. começaram a desprezar os pianistas. não científica. São movidos por curiosidade. no entanto. Tem havido casos de cursos de pós-graduação serem desqualificados pelo fato de seus pesquisas serem feitas no campo do qualitativo. O frango-ao-molho pardo tem uma realidade física. Oujço o Clair de Lune. na minha língua e nas minhas memórias de mineiro. As pesquisas "qualitativas" são rejeitadas sob a alegação de que seus resultados são imprecisos. Na comunidade científica somente se permite a linguagem quantitativa. que tocavam movidos por razões qualitativas. prazer. possivelmente repulsivo. A linguagem matemática da ciência não dá conta dessa experiência. O gostar de música não é científico. Mas o "gosto" só existe na minha boca. envaidecidos por sua ciência quantitativa precisa. chamado "revolucionário". Que palavras irei usar para transmitir ao leitor o gosto e o prazer do frango ao molho pardo? E. fama. ambição profissional. A ciência conhece as coisas que podem ser ditas quantitativamente. A experiência do gosto. A ciência contesta. 12. Concluíram que os pianistas eram seres de segunda classe e terminaram por proibir que eles tocassem. mas que não participe das mesmas memórias ( uma pessoa de convicções religiosas adventistas. dentro de mim." Isso não é ficção. usa palavras do vocabulário dos apaixonados. quantitativo. interstícios. com vistas a um grau de doutor em música? Resposta fácil: dando um concerto. E cunharam a frase clássica: " Fabricar pianos e preciso. Faltam-lhe palavras. espontânea. competição. de Beethoven. Ouço o Danúbio Azul e tenho vontade de dançar. Guimarães Rosa profetizou que os homens haveriam de ficar loucos em decorrência da lógica. Mas. Move corpos. Faltam-lhe. Já está acontecendo em nossas instituições de pesquisa. científicas. ao lêlas. De que maneira um pianista provaria sua competência. narcisismo. certa vez. 10 n. de Chopin. dinheiro. A ciência não sabe o que é um concerto. O que leva a soluções científicas ridículas. e por não serem aceitos para publicações em revistas internacionais. Os cientistas. qualitativa. É isso está acontecendo nos meios científicos brasileiros. O científico é fabricar pianos. essa "coisa" indizível é real. Ouço a "Ave Maria" e a oração surge. e fico agitado. se apossa do corpo: ruflam os tambores e os soldados homens para a morte. Os fabricantes de piano. sentirá um "gosto" diferente do meu. sobretudo. uma terra distante onde pianos maravilhosos eram fabricados.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful