A rosa do povo despetala-se, ou ainda conserva o pudor da alva? E um anúncio, um chamado, uma esperança embora frágil, pranto infantil no berço? Talvez apenas um ai de seresta, quem sabe. Mas há um ouvido mais fino que escuta, um peito de artista que incha, e uma rosa se abre, um segredo comunica-se, o poeta anunciou, o poeta, nas trevas, anunciou.
ISBN 85-01-02597-6

A ROSA DO POVO "Uma poesia marcada pelo momento histórico." É assim que o crítico Antônio Houaiss qualifica a poesia de Carlos Drummond de Andrade reunida em A Rosa do Povo, livro escrito durante a II Guerra Mundial, publicado em 1945 e jamais reeditado isoladamente. Se a sua repercussão na época foi imensa, quase quarenta anos depois podemos dizer que ele não perdeu o vigor da emoção poética e a atualidade nervosa. Saindo de novo a público, A Rosa do Povo propõe o mesmo debate inesgotável sobre a situação do artista no mundo e sua posição em face dos problemas políticos e sociais do seu tempo. Drummond tomou posição e manteve-se fiel a seu ideário, embora reconhecendo a falácia de ilusões que se misturavam a perenes interesses de justiça, liberdade e paz. Ao lado disso, o livro é de intenso lirismo existencial.

Este livro, publicado em 1945, embora recebesse boa acolhida do público e da crítica, não teve mais nenhuma edição autônoma. Só veio a sair, depois, incorporado a volumes de poesias completas do autor. Quis a Record fazê-lo voltar à situação primitiva, como obra que, de certa maneira, reflete um "tempo", não só individual mas coletivo no país e no mundo. Escrito durante os anos cruciais da II Guerra Mundial, as preocupações então reinantes são identificadas em muitos de seus poemas, através da consciência e do modo pessoal de ser de quem os escreveu. Algumas ilusões feneceram, mas o sentimento moral é o mesmo — e está dito o necessário. C.D.A.

OBRAS DO AUTOR NA RECORD Prosa
CONTOS DE APRENDIZ FALA, AMENDOEIRA A BOLSA & A VIDA CADEIRA DE BALANÇO CAMINHOS DE JOÃO BRANDÃO O PODER ULTRAJOVEM DE NOTÍCIAS E NÃO-NOTÍCIAS FAZ-SE A CRÔNICA OS DIAS LINDOS 70 HISTORINHAS CONTOS PLAUSÍVEIS BOCA DE LUAR O OBSERVADOR NO ESCRITÓRIO MOÇA DEITADA NA GRAMA O AVESSO DAS COISAS AUTO-RETRATO E OUTRAS CRÔNICAS SELETA EM PROSA E VERSO HISTÓRIAS PARA O REI A PALAVRA MÁGICA AS PALAVRAS QUE NINGUÉM DIZ

Poesia
FAREWELL A ROSA DO POVO CLARO ENIGMA ANTOLOGIA POÉTICA BOITEMPO I E BOITEMPO II AS IMPUREZAS DO BRANCO A PAIXÃO MEDIDA (Lição de Coisas) CORPO AMAR SE APRENDE AMANDO TEMPO VIDA POESIA POESIA ERRANTE SENTIMENTO DO MUNDO JOSÉ (Fazendeiro do Ar e Novos Poemas) O AMOR NATURAL A VIDA PASSADA A LIMPO DISCURSO DE PRIMAVERA E ALGUMAS SOMBRAS

Infantil
O ELEFANTE (Col. Abre-te, Sésamo) HISTÓRIA DE DOIS AMORES A COR DE CADA UM A SENHA DO MUNDO VÓ CAIU NA PISCINA CRIANÇA DAGORA É FOGO!

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE 21a EDIÇÃO E D I T O R A RIO DE JANEIRO • R E C O R D SÃO PAULO 2000 .

br Direitos desta edição reservados pela DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.. Impresso no Brasil pelo Sistema Cameron da Divisão Gráfica da DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S. Título. Andrade.20922-970 . I.Tel. 1902-1987 A Rosa do Povo / Carlos Drummond de Andrade-21'ed.20921-380 .Rio de Janeiro.Rio de Janeiro: Record.: 585-2000 Impresso no Brasil ISBN 85-01-02597-6 PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL Caixa Postal 23.A566r 21'ed. RJ . Poesia brasileira.carlosdrummond.A. Rua Argentina 171 . Carlos Drummond de. 1. RJ .A. Copyright by Carlos Drummond de Andrade © 1988 Grafia Drummond http://www.com. 2000.052 Rio de Janeiro.

estão com disposição e numeração semelhante às do livro impresso. como as poesias em si.) Consideração do Poema 9 Procura da Poesia 12 A Flor e a Náusea 15 Carrego Comigo 18 Anoitecer 23 O Medo 25 Nosso Tempo 29 Passagem do Ano 38 Passagem da Noite 41 Uma Hora e Mais Outra 43 Nos Áureos Tempos 48 Rola Mundo 52 Áporo 56 Ontem 58 Fragilidade 60 O Poeta Escolhe Seu Túmulo 61 Vida Menor 63 .ÍNDICE (Nota do digitalizador: Tanto o índice.

Chinês e Sono 65 Episódio 67 Nova Canção do Exílio 69 Economia dos Mares Terrestres 71 Equívoco 73 Movimento da Espada 74 Assalto 76 Anúncio da Rosa 78 Edifício São Borja 80 O Mito 84 Resíduo 92 Caso do Vestido 96 O Elefante 104 Morte do Leiteiro 108 Noite na Repartição 112 Morte no Avião 120 Desfile 125 Consolo na Praia 128 Retrato de Família 130 Interpretação de Dezembro 133 Como um Presente 137 Rua da Madrugada 141 Idade Madura 144 Versos à Boca da Noite 148 No País dos Andrades 151 Notícias 153 América 155 Cidade Prevista 161 Carta a Stalingrado 163 Telegrama de Moscou 166 Mas Viveremos 167 Visão 1944 171 Com o Russo em Berlim 176 Indicações 179 Onde Há Pouco Falávamos 182 Os Últimos Dias 186 Mário de Andrade Desce aos Infernos 191 Canto ao Homem do Povo Charlie Chaplin 196 .Campo.

se beijam. largas. não importa. Estes poetas são meus. no céu livre por vezes um desenho. são puras. de toda a precisão se incorporaram ao fatal meu lado esquerdo. autênticas. indevassáveis. que todas me convém. Uma pedra no meio do caminho ou apenas um rastro. Rimarei com a palavra carne ou qualquer outra. As palavras não nascem amarradas.CONSIDERAÇÃO DO POEMA Não rimarei a palavra sono com a incorrespondente palavra outono. elas saltam. Furto a Vinicius . De todo o orgulho. se dissolvem.

e aves de bico longo conferindo sua derrota. duras. Bebo em Murilo. . cantor sem piedade.sua mais límpida elegia. Dar tudo pela presença dos longínquos. O beijo ainda é um sinal. Adeus. Eis ai meu canto. Que Neruda me dê sua gravata chamejante. perdido embora. por que falsa mesquinhez me rasgaria? Que se depositem os beijos na face branca. secretas. e começá-la. boca tão seca. boiando em tempos sujos. E mover-se em meio a milhões e milhões de formas raras. sentir que há ecos. últimos! esperança do mar negro. mas cristal. não rocha apenas. peixes circulando sob o navio que leva esta mensagem. Estes poemas são meus. Poeta do finito e da matéria. sem frágeis lágrimas. É a lanterna em qualquer estalagem. — Há mortos? há mercados? há doenças? É tudo meu. não são jornais nem deslizar de lancha entre camélias: é toda a minha vida que joguei. sem fronteiras. da ausência de comércio. São todos meus irmãos. nas principiantes [rugas. Saber que há tudo. Essa viagem é mortal. Ser explosivo. É minha terra e é ainda mais do que ela. sim. Me perco em Apollinaire. mas ardor tão casto. Maiakovski. se ainda as há. É qualquer homem ao meio-dia em qualquer praça. e dois ou três faróis. poucos.

Como fugir ao mínimo objeto ou recusar-se ao grande? Os temas passam. meu poema. tão firme. o povo. tão fiel. o uniforme de colégio se transformam. Está na mesa aberta em livros. cartas e remédios. que repousam. Já agora te sigo a toda parte. como casa. mas tu resistes. tão natural e cheio de segredos.Ele é tão baixo que sequer o escuta ouvido rente ao chão.. me faço tão sublime. Tal uma lâmina.. e cresces como fogo. como orvalho entre dedos. eu sei que passarão. estou completo. são ondas de carinho te envolvendo. . e te desejo e te perco. Na parede infiltrou-se. a rua. te atravessa. me destino. na grama. Mas é tão alto que as pedras o absorvem. O bonde.

a vida é um sol estático. não aquece nem ilumina. tão infenso à [efusão lírica. que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem. Diante dela. Tua gota de bile. os incidentes pessoais não contam. tua careta de gozo ou de dor no escuro são indiferentes. completo e confortável corpo. Não há criação nem morte perante a poesia. os aniversários. Nem me reveles teus sentimentos. As afinidades. esse excelente. Não faças poesia com o corpo. isso ainda não é poesia. O que pensas e sentes.PROCURA DA POESIA Não faças versos sobre acontecimentos. .

Não recomponhas tua sepultada e merencória infância. é algo imprestável. teu sapato de diamante. vossos esqueletos de família desaparecem na curva do tempo. há calma e frescura na superfície intata. Para ele. Ei-los sós e mudos. Teu iate de marfim. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. rumor do mar nas ruas [junto à linha de espuma. não era poesia. Que se dissipou. Não percas tempo em mentir. Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação. O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das [casas.Não cantes tua cidade. Penetra surdamente no reino das palavras. antes de escrevê-los. deixa-a em paz. . Que se partiu. não invoques. chuva e noite. O canto não é a natureza nem os homens em sociedade. Não dramatizes. Não te aborreças. Não é música ouvida de passagem. vossas mazurcas e abusões. cristal não era. em estado de dicionário. Estão paralisados. fadiga e esperança nada significam. não indagues. mas não há desespero. Convive com teus poemas. A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objeto.

pobre ou terrível. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta. sem interesse pela resposta. se te provocam. Chega mais perto e contempla as palavras. as palavras.Tem paciência. Não forces o poema a desprender-se do limbo. Não adules o poema. Calma. Não colhas no chão o poema que se perdeu. rolam num rio difícil e se transformam em desprezo. Espera que cada um se realize e consume com seu poder de palavra e seu poder de silêncio. Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço. Ainda úmidas e impregnadas de sono. que lhe deres: Trouxeste a chave? Repara: ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite. se obscuros. .

maus poemas. . Melancolias. O tempo pobre. alucinações e espera. sem armas. revoltar-me? Olhos sujos no relógio da torre: Não. vou de branco pela rua cinzenta. o tempo não chegou de completa justiça. O tempo é ainda de fezes.A FLOR E A NÁUSEA Preso à minha classe e a algumas roupas. o poeta pobre fundem-se no mesmo impasse. Devo seguir até o enjôo? Posso. mercadorias espreitam-me.

Sob a pele das palavras há cifras e códigos. Os ferozes leiteiros do mal. Façam completo silêncio. distribuída em casa. rio de aço do tráfego. inclusive em mim. Pôr fogo em tudo. . paralisem os negócios. consideradas sem ênfase. rompe o asfalto. Nenhuma carta escrita nem recebida. Ao menino de 1918 chamavam anarquista. Crimes suaves. Vomitar esse tédio sobre a cidade. Alguns achei belos. sequer colocado. como perdoá-los? Tomei parte em muitos. Todos os homens voltam para casa. Uma flor nasceu na rua! Passem de longe.Em vão me tento explicar. Crimes da terra. Ração diária de erro. Com ele me salvo e dou a poucos uma esperança mínima. Estão menos livres mas levam jornais e soletram o mundo. ônibus. Uma flor ainda desbotada ilude a polícia. As coisas. que ajudam a viver. Quarenta anos e nenhum problema resolvido. Que tristes são as coisas. os muros são surdos. sabendo que o perdem. Porém meu ódio é o melhor de mim. garanto que uma flor nasceu. O sol consola os doentes e não os renova. foram publicados. bondes. outros escondi. Os ferozes padeiros do mal.

o tédio. o nojo e o ódio. Pequenos pontos brancos movem-se no mar. Furou o asfalto. Seu nome não está nos livros.Sua cor não se percebe. Mas é realmente uma flor. Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde e lentamente passo a mão nessa forma insegura. . Suas pétalas não se abrem. É feia. Mas é uma flor. Do lado das montanhas. nuvens maciças avolumam-se. galinhas em pânico É feia.

.CARREGO COMIGO Carrego comigo há dezenas de anos há centenas de anos o pequeno embrulho. Serão duas cartas? será uma flor? será um retrato? um lenço talvez? Já não me recordo onde o encontrei. Se foi um presente ou se foi furtado.

Ele arde nas mãos. Pronto me fascina e me deixa triste. nunca saberei. é doce ao meu tato. Como poderia tentar esse gesto? O embrulho é tão frio e também tão quente. atrás da lembrança. Guardar um segredo em si e consigo. .Se os anjos desceram trazendo-o nas mãos. Guardar um segredo de seus próprios olhos. não querer sabê-lo ou querer demais. Que coisa contém. se pairava no ar. ou se algo contém. Não ouso entreabri-lo. se boiava no rio. por baixo do sono.

fardo sutil que antes me carregas do que és carregado. Vem do mar o apelo. peito se dilata. vêm das coisas gritos. para onde me levas? . O mundo te chama: Carlos! Não respondes? Quero responder. Mas o embrulho pesa. Ai. A rua infinita vai além do mar. nem remorso.A boca experiente saúda os amigos. Mão aperta mão. Vem a tentação de jogá-lo ao fundo da primeira vala. Quero caminhar. Ou talvez queimá-lo: cinzas se dispersam e não fica sombra sequer.

. de fato. De manhã te levo para a escura fábrica de negro subúrbio. amigo secreto e evidente. És. que alivio seria! Mas ficas fechado. Se agora te abrisses e te revelasses mesmo em forma de erro. Sou um homem livre nas levo uma coisa. carga intolerável? Seguir-te submisso por tanto caminho sem saber de ti senão que te sigo.Por que não me dizes a palavra dura oculta em teu seio. Carrego-te à noite se vou para o baile. Perder-te seria perder-me a mim próprio.

.Não sei o que seja. pois anda comigo algo indescritível. Mas levo uma coisa. Eu não a escolhi. não estou sozinho. Jamais a fitei. Não estou vazio.

desta hora tenho medo.ANOITECER A Dolores É a hora em que o sino toca. trágicos. mas de há muito não há pássaros. pungentes. há somente buzinas. mas aqui não há sinos. sirenes roucas. só multidões compactas escorrendo exaustas como espesso óleo que impregna o lajedo. desta hora tenho medo. É a hora em que o pássaro volta. apitos aflitos. . uivando escuro segredo.

Hora de delicadeza. meu degredo. sim. o corpo não pede sono. Haverá disso no mundo? Ê antes a hora dos corvos. pede paz — morte — mergulho no poço mais ermo e quedo. . bicando em mim. gasalho. desta hora. sombra. silêncio. mas o descanso vem tarde. meu futuro. tenho medo. meu passado. desta hora tenho medo. depois de tanto rodar.É a hora do descanso.

. Nosso destino. Plataforma de uma geração. ditador. vermelhos rio» vadeamos. incompleto. Cheiramos flores de medo. Vestimos panos de medo.O MEDO A Antônio Cândido "Porque há para todos nós um problema sério. soldado. . Em verdade temos medo.. As existências são poucas: Carteiro. Nascemos escuro." ANTONIO CÂNDIDO. E fomos educados para o medo. De medo. Este problema é o do medo.

fazia frio em São Paulo. Estou com medo da honra.. receio de águas poluídas. doenças galopantes. De nós. e de tudo. este célebre sentimento. ventava. Por que morrer em conjunto? E se todos nós vivêssemos? Vem. e o amor faltou: chovia. Há as árvores. com sua capa. O medo. susto na noite..Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos. ó terror das estradas. fomes. Refugiamo-nos no amor. as fábricas. vem. meu companheiro moreno. nos dissimula e nos berça. harmonia do medo. de vós. Nosso caminho: traçado. Muletas . Assim nos criam burgueses. Fazia frio em São Paulo. Fiquei com medo de ti. Nevava.

com resplendores covardes.do homem só. Adeus: vamos para a frente. medrosos caules. Ajudai-nos. outras vidas. tanto produz: carcereiros. lentos poderes do láudano. este poema. recuando de olhos acesos. edifícios. Nossos filhos tão felizes. ruas só de medo e calma. Tenhamos o maior pavor. E com asas de prudência. escritores. . O medo. O medo cristalizou-os. duros tijolos de medo. Os mais velhos compreendem. Estátuas sábias. adeus. atingiremos o cimo de nossa cauta subida. se transe e cala-se Faremos casas de medo. Até a canção medrosa te parte. repuxos. com sua física.. Fiéis herdeiros do medo..

as estrelas.eles povoam a cidade. Depois da cidade. o mundo. dançando o baile do medo. Depois do mundo. .

NOSSO TEMPO A Oswaldo Alves I Este é tempo de partido. tempo de homens partidos. Meu nome é tumulto. Sapatos. Os lírios não nascem da lei. Fogo. . e escreve-se na pedra. As leis não bastam. Os homens pedem carne. Em vão percorremos volumes. A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. viajamos e nos colorimos.

As coisas talvez melhorem. Onde te ocultas. comprimidas há tanto tempo.Visito os fatos. Calo-me. são roucas e duras. II Este é tempo de divisas. não te encontro. decifro. De mãos viajando sem braços. apenas querem explodir. E o vestido vermelho vermelho cobre a nudez do amor. obscenos gestos avulsos. São tão fortes as coisas! Mas eu não sou as coisas e me revolto. penhor de meu sono. Tenho palavras em mim buscando canal. enérgicas. irritadas. Mudou-se a rua da infância. precária síntese. espero. perderam o sentido. ao relento. no vale. tempo de gente cortada. luz dormindo acesa na varanda? Miúdas certezas de empréstimo. nenhum beijo sobe ao ombro para contar-me a cidade dos homens completos. .

a sala grande conduz a quartos terríveis. e o ar da noite é o estritamente necessário para continuar. pela direita entra-se. cigarros. conduz à copa de frutas ácidas. verdade. como o do enterro que não foi feito. pérolas. mas ainda é tempo de viver e contar. lanternas. do corpo esquecido na [mesa. A escuridão estende-se mas não elimina o sucedâneo da estrela nas mãos. á água que goteja e segreda . flores? Dos laboratórios platônicos mobilizados vem um sopro que cresta as faces ç dissipa. ao claro jardim central. anéis. É tempo de muletas. Guerra. Tempo de mortos faladores e velhas paralíticas. na praia. Conheço bem esta casa. são partes mais íntimas. o ofego. a pulsação. Certas histórias não se perderam.Símbolos obscuros se multiplicam. Certas partes de nós como brilham! São unhas. pela esquerda sobe-se. as palavras. e continuamos. nostálgicas de bailado. /// E continuamos.

luto no braço.o incesto. baratas dos arquivos. [contai. poeta. fragmentos de jornal. contai. Tempo de cinco sentidos num só. aparelhos de porcelana partidos. E muitos de vós nunca se abriram. pequeno historiador [urbano. ó surdo-mudo. na memória.. cães errantes. a partida. IV É tempo de meio silêncio. colchetes no chão da [costureira. aviso na esquina. de boca gelada e murmúrio. velhos selos do imperador. velho aleijado. solidão e asco. [portas rangentes. contai. pessoas e coisas enigmáticas. ossos na rua. que contêm: papéis? crimes? moedas? ó conta. abre-te e [conta. capa de poeira dos pianos desmantelados. ó jornalista. . contai. conduz às celas fechadas. depositário de meus desfalecimentos. pombas. [animais caçados. palavra indireta. O espião janta conosco.. a bênção. velha preta. moça presa. Tudo tão difícil depois que vos calastes.

No beco. apenas um muro. esvaziam-se. sobre ele a policia. No quarto. no santo. cólera branda. V Escuta a hora formidável do almoço na cidade. de céu neutro.É tempo de cortinas pardas. Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos! Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa. olhos líquidos de câo através do vidro devoram teu osso. política na maçã. mao de papel. num passe. legumes e tortas vitaminosas. amor e desamor. irrisão e três colarinhos sujos. No céu da propaganda aves anunciam a glória. alimenta-te. olhos pintados. dentes de vidro. é tempo de [comida. no gozo. . As bocas sugam um rio de carne. Come. grotesca língua torcida. gim com água tônica. A isso chamamos: balanço. Os escritórios. braço mecânico. mais tarde será o de amor.

Multidões que o cruzam não vêem. Escuta a pequena hora noturna de compensação. no telefone. chapéu. forma [indecisa. na batalha de aviões. roupa. o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo [com flores. homem. criança. cigarro. o corpo ao lado do corpo. sentam-se. enlaçar. Escuta a hora espandongada da volta. últimos servos do negócio. evoluem. imaginam voltar para casa. numa suposta cidade. [apelo ao cassino. já noite. a falsificação das palavras pingando nos jornais. escoam-se passo a passo. e os negócios. [imaginam. refluir. errar em objetos remotos e. roupa. . roupa. homem imaginam esperar qualquer coisa. Homem depois de homem. vem na areia. homem.Lentamente os escritórios se recuperam. afinal distendido. É sem cor e sem cheiro. mulher. leituras. O esplêndido negócio insinua-se no tráfego. homem. roupa. mulher. mulher. Está dissimulado no bonde. com as calças despido-o incômodo pensamento de escravo. entre muros apagados. roupa. e se quedam mudos. confiar-se ao que-bem-me-importa do sono. Escuta o horrível emprego do dia em todos os países de fala humana. escuta o corpo ranger. passeio na praia. sob eles soterrado sem dor. por trás da brisa do sul. homem. toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.

orquídeas e opções de compra e desquite. VI Nos porões da família. A gravidez elétrica já não traz delíquios. Há uma implacável guerra às baratas. Crianças alérgicas trocam-se. A mesa reúne um copo. uma faca. o mau romance. o homem feio.os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar. reformam-se. Salva-se a honra e a herança do gado. a ma poesia. e a cama devora tua solidão. passeando de bote num sinistro crepúsculo de sábado. os frágeis que se entregam à proteção do basilisco. a constelação das formigas e usuários. de mortal feiúra. . Contam-se histórias por correspondência.

em poça amarga. E há mínimos bálsamos. há bálsamos para cada hora e dor. melancolias insubornáveis. recalcadas dores ignóbeis. e secar ao sol. Há fortes bálsamos. já tarde. do Estado. o milho ondulante. lesões que nenhum governo autoriza. vai molhar. ele embacia as luzes. de sangrenta fúria e plácido rosto. já confuso. VII O poeta declina de toda responsabilidade na marcha do mundo capitalista e com suas palavras. Há o pranto no teatro. reprovação. E dentro do pranto minha face trocista. meu olho que ri e despreza» minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado. símbolos e outras armas . vai minar nos armazéns. Há soluções. dores de classe. desgosto desse chapéu velho. se engolfa no linóleo. da rua lodosa. que polui a essência mesma dos diamantes. no palco? no público? nas poltronas? há sobretudo o pranto no teatro. não obstante doem. nos becos coloniais onde passeiam [ratos noturnos. e é o mesmo. ira. intuições.VII Ou não se salva. na roça madura.

. uma floresta.promete ajudar 8 destruí-lo como uma pedreira. um verme.

os irreparáveis uivos do lobo. rasgarás papéis. promoção. . Outros dias virão e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.PASSAGEM DO ANO O último dia do ano não é o último dia do tempo. farás viagens e tantas celebrações de aniversário. glória. na solidão. Beijarás bocas. formatura. que o tempo ficará repleto e não ouviras o clamor. doce morte com [sinfonia e coral.

Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos. o recurso da bola colorida. ordenadas. Ainda uma vez estás vivo.. Em ti mesmo muita coisa já expirou. um corpo e sua memória. O recurso de se embriagar.O último dia do tempo não é o último dia de tudo. . O corpo gasto renova-se em espuma. Teu pai morreu. teu avô também. Todos os sentidos alerta funcionam. todos eles. Fica sempre uma franja de vida onde se sentam dois homens. uma mulher e seu pé. Mereceste viver mais um ano. e nenhum resolve. Um homem e seu contrário. mas estás vivo. As coisas estão limpas. um olho e seu brilho. uma voz e seu eco. O recurso da dança e do grito.... e quem sabe até se Deus. o recurso de Kant e da poesia. e de copo na mão esperas amanhecer. Recebe com simplicidade este presente do acaso. outras espreitam a morte. Surge a manhã de um novo ano.

sub-reptícia. A vida é gorda. a calçada. . oleosa.A boca está comendo vida. mortal. A boca está entupida de vida. lambuza as mãos. A vida escorre da boca.

Sinto que nós somos noite. na pedra. Sinto que é noite no vento.PASSAGEM DA NOITE É noite. que palpitamos no escuro e em noite nos dissolvemos. E que adianta uma lâmpada? E que adianta uma voz? E noite no meu amigo. É noite no submarino. noite nas águas. fez-se desânimo. Sinto que é noite não porque a sombra descesse (bem me importa a face negra) mas porque dentro de mim. o grito se calou. . no fundo de mim.

obrigado. coisas fiéis! Saber que ainda há florestas. não é morte. Tudo que à noite perdemos se nos confia outra vez. é noite de sono espesso e sem praia. e o tempo não murchou. sinos. o essencial é viver! . o mundo se recompõe. Não é dor. dia que surge! Os corpos saltam do sono. De novo andar: as distâncias. que a terra prossegue seu giro. Chupar o gosto do dia! Clara manhã. nem paz. Que gozo na bicicleta! Existir: seja como for. é perfeitamente a noite. Mas salve. Obrigado.É noite na roça grande. não nos diluímos. olhar de alegria! E salve. as cores. Amar: mesmo nas canções. A fraterna entrega do pão. palavras. posse das ruas. É noite. é noite.

não é a da noite em que já sem luz a cabeça cobres com frio lençol antecipando outro mais gelado pano.UMA HORA E MAIS OUTRA Há uma hora triste que tu não conheces. e também não é a do nascer do sol enquanto enfastiado . Não é a da tarde quando se diria baixar meio grama na dura balança.

a falta de amor. palavras sem fogo. nem a pobre hora da evacuação: um pouco de ti . no mal dividido trabalho de muitos. não a da comida hora mais grotesca em que dente de ouro mastiga pedaços de besta caçada. vontades corruptas. não a do cinema hora vagabunda onde se compensa. nem essa hora flácida após o desgaste do corpo entrançado em outro. a falta de amor. tristeza de ser exaurido e peito deserto. gelatina humana. A FALTA DE AMOR. no pó. nem a da conversa com indiferentes ou com burros de óculos. rosa em tecnicólor. no costume. lixo tão burguês.assistes ao dia perseverar no câncer. lesmas de blackout fugindo à verdade como de um incêndio.

recusas olhá-lo: é o pior de ti? Torna-se a matéria nobre ou vil conforme se retém ou passa? Pois hora mais triste ainda se afigura. tanto te repugna. malogro. tu vives: apenas.desce pelos canos. oh! adulterado. . os dedos sem tato. furados os olhos. sem saber por que. a língua enrolada. roídos os livros. assim decomposto. já não te revoltas e nem te lamentas. ei-la. para que. sem nenhum apoio no chão ou no espaço. a hora pequena que desprevenido te colhe sozinho na rua ou no catre em qualquer república. cortadas as pontes. sem qualquer motivo de qualquer ação. tampouco procuras solução benigna de cristo ou arsênico. tu vives: cadáver. tu vives. a mente sem ordem. como.

tortos ou lanhados. brancos. Venceste o desgosto. não sabes que existe amanhã? Então um sorriso nascera no fundo de tua miséria e te destinara a melhor sentido. vago. mas todos pisando. na folhagem. . Teu passo: outros passos ao lado do teu.rotina. amanhã será outro dia. tão ausente. fracos. já teu passo avança em terra diversa. mas tudo é caminho. Para ele viajas. Vamos para ele. tu vives tu vives. pés no barro. pés que marcham muitos. pés n'água. Tantos: grossos. rubros pés. O pisar de botas. Exato. retumbantes. outros nem calçados. que pegar quisera na mão e dizer-te: Amigo. alguns se desviam. mas triste duma tal tristeza tão sem água ou carme. calcaste o indivíduo. negros.

.gravam no chão mole marcas para sempre: pois a hora mais bela surge da mais triste.

Neles penetrávamos indo aparecer já no esquerdo lado que em ferros jazia. Nisto se passava um tempo dez mil. O lado direito retinha os jardins.NOS ÁUREOS TEMPOS Nos áureos tempos a rua era tanta. . A viagem do quarto requeria apenas a chama da vela.

se o rosto fechado no livro. . espaço e miragem se multiplicando nos áureos tempos. Farto da cidade um atroz coqueiro ia para o mato. as lojas do pranto. E vinha o assassino no pó do correio. E dos subterrâneos a chave era nossa. Nos áureos tempos que eram de cobre muita noite havia com chuva soando. O espaço é pequeno. como na cascata a moça indelével se banhava em nós. os bondes do tédio. Aqui amontoados. E era bem difícil continuar menino.Que longa. Chegando ao limite dos tempos atuais. eis-nos interditos enquanto prosperam os jardins da gripe. A riqueza da África se perdia em vento.

prestes a acordar. O jeito é esperar. Não me sinto forte o quanto se pede para interpretá-los. os rios primeiros e certa confiança e extrema poesia. que se entornam. Nos áureos tempos coração-sorriso meus olhos diamante meus lábios batendo a alvura de um cântico.e de mao em mão um papel circula em branco e sigilo talvez o prospecto dos áureos tempos Nos áureos tempos que dormem no chão. tento descobrir caminhos de longe. Do arraial trocado sinto roupas novas e escuto as bandeiras pelo ar. Nos áureos tempos devolve-se a infância a troco de nada e o espaço reaberto .

. deixará passar o círculo de água refletindo o rosto. mesmo assim prendendo-a nos áureos tempos.. deixará passar o óleo das coisas. as coisas mais frágeis. uma agulha. deixará passar minha namorada. a tinta da boca. . deixará passar a relva dos sábados. a viagem. deixará passar o cão paralítico. Deixará passar a matéria fosca.deixará passar os menores homens.

e vendo. Talvez avisassem: mocidade é morta. mas a cascata caindo. . mas o choro. tudo me atormentava sob a escureza do dia. O que elas diziam o vento largava. não compreendia. logo devolvia.ROLA MUNDO Vi moças gritando numa tempestade. eu pobre de mim não via. Mas a chuva. Pávido escutava.

Vi moças dançando num baile de ar. Eu corria ao vento. na mole algidez parecia roubar para devolver-me já tarde e corrupta. Vi o sapo saltando uma altura de morro. uma velha medalha em que dorme teu eco. Era algo hediondo e meigo: veludo. era só passagem e gosto de sal. era só umidade. por dentro me desfazia. Vi os corpos brandos tornarem-se violentos e o vento os tangia. A brisa na boca me entristecia como poucos idílios jamais o lograram. Vi outros enigmas à feição de flores abertas no vácuo. e passando. de tão babujada. Vi saias errantes . consigo levava o que mais me valia.

Como pois interpretar o que os heróis não contam? Como vencer o oceano se é livre a navegação mas proibido fazer barcos? Fazer muros. Eram de ontem e de sempre.demandando corpos que em gás se perdiam. nenhum tempo. fazer versos. se acaso protestam. eu vi. Excremento de leão. tornando-se roxo. já não quero ver. não me lembra. Vi os tempos defendidos. . e assim desprovidas mais esvoaçavam. longo tempo. e devolver os cadáveres ao mar. Em calma. apenas. azul de longa espera. Vi o coração de moca esquecido numa jaula. e nesse muro pousada um pomba cega. Ainda se dispersam. negro de mar negro. inspecionar os faróis para evitar que se acendam. cunhar moedas de chuva. E o circo distante. e em cada pais havia um muro de pedra e espanto.

. rola o milhão de palavras na extrema velocidade. rola meu peito. Outras riquezas ocultas. rola-me.. se despedaçaram. rola o corpo. seu frágil bater de élitros. rola. acaba! . sua cólera zumbidora. explode. interceptadas. Pois deixa o mundo existir! Irredutível ao canto. superior à poesia.E vi minha vida toda contrair-se num inseto. rola o drama. Seu complicado instrumento de vôo e de hibernação. seu brilho de pôr de tarde e suas imundas patas. Joguei tudo no bueiro. Fragmentos de borracha e cheiro de rolha queimada: eis quanto me liga ao mundo. Depois de tantas visões já não vale concluir se o melhor é deitar fora a um tempo os olhos e os óculos. desintegra-te. os países. mundo. E se a vontade de ver também cabe ser extinta. adeus. se as visões. mundo. e tudo mais abolido. rola. rola os deuses.

Que fazer.ÁPORO Um inseto cava cava sem alarme perfurando a terra sem achar escape. exausto. em país bloqueado. enlace de noite raiz e minério? Eis que o labirinto (oh razão. mistério) presto se desata: .

.em verde. sozinha. antieuclidiana. uma orquídea forma-se.

ONTEM Até hoje perplexo ante o que murchou e não eram pétalas. Nem esta árvore balança o galho que balançava . cor ou lembrança. De como este banco não reteve forma.

Eis está gravado não no ar. . dissipo. em mim.Tudo foi breve e definitivo. que por minha vez escrevo.

a delicada modelagem de um cristal de mil suspiros límpidos e frigidos: não mais que um arabesco. e múltiplas palavras em feixe subindo. e o espírito que escolhe. apenas um arabesco abraça as coisas. Fogem nuvens de verão. navios. Não mais o desejo de explicar. passam aves. apenas um arabesco em torno do elemento essencial — inatingível. e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento. o olho que visita. a música feita de depurações e depurações. ai! já brincou. sem reduzi-las. ondas. e tudo se fez imóvel. .FRAGILIDADE Este verso. quantidades e quantidades de sono se depositam sobre a terra esfacelada.

onde houve. e um rio molha roupas largadas. onde pastam coelhos » roer o tempo. onde te despi. onde foi Helena. onde a erva cresce. . não na mais agora o ramo inclinado.O POETA ESCOLHE SEU TÚMULO Onde foi Tróia.

.eu me sinto bem e aí me sepulto para sempre e um dia.

a desnecessidade do canto. e este fundindo-se. a limpeza da cor. a fuga da fuga. o eco já não correspondendo ao apelo.VIDA MENOR A fuga do real. a mao tornando-se enorme e desaparecendo desfigurada. contudo. ainda mais longe a fuga do feérico. mais longe de tudo. Não a morte. nem braço a mover-se nem unha crescendo. todos os gestos afinal impossíveis. a perda voluntária de amor e memória. . o exílio sem água e palavra. a fuga de si mesmo. senão inúteis.

nenhum gasto de tecidos. Não o morto nem o eterno ou o divino. porque o tempo não mais se divide em seções. domado. mas me envolva. um início-.Mas a vida: captada em sua forma irredutível. o que se possa desejar de menos cruel: vida em que o ar. confusão entre manhã e tarde. sem ciência nem ironia. vida a que aspiramos como paz no cansaço (não a morte). vida mínima. essencial. um sono. menos que terra. o tempo elidido. . Isso eu procuro. não respirado. já sem dor. indiferente e solitário vivo. apenas o vivo. já sem ornato ou comentário melódico. calado. sem calor. o pequenino. ausência deles.

Há um campo cheio de sono e antigas confidencias. . Peixes são fluidos. roxo também.CAMPO. estrelas latejam. Como saber se está sonhando? O sono é perfeito. o mundo e todas as coisas têm ar de um chinês deitado e que dorme. CHINÊS E SONO A João Cabral de Melo Neto O chinês deitado no campo. O campo é azul. Há um chinês dormindo no campo. Formigas crescem. O campo. E árvores dizem qualquer coisa que não entendes.

O campo está dormindo e forma um chinês de suave rosto inclinado no vão do tempo. Ouve a terra. ouve o murmúrio do sono em marcha. .Debruça-te no ouvido. as nuvens.

. De onde vem ele se não há fazendas? Vem cheirando o tempo entre noite e rosa. teu reino.EPISÓDIO Manhã cedo passa à minha porta um boi. Alheio à polícia anterior ao tráfego ó boi. me conquistas para outro. Para à minha porta sua lenta máquina.

.Seguro teus chifres: eis-me transportado sonho e compromisso ao País Profundo.

. na palmeira. Só. O céu cintila sobre flores úmidas.NOVA CANÇÃO DO EXÍLIO A Josué Montello Um sabiá na palmeira. seria feliz: um sabiá. na noite. e o maior amor. longe. longe. Estas aves cantam um outro canto. Vozes na mata.

. na palmeira. o longe.Onde é tudo belo e fantástico. longe. (Um sabiá. seria feliz. só.) Ainda um grito de vida e voltar para onde é tudo belo e fantástico: a palmeira. o sabiá. na noite.

não arde. a queixa no vácuo lembra uma queixa menor. Dir-se-ia. a Elza .ECONOMIA DOS MARES TERRESTRES A queixa comprimida na garrafa quer escapar reunir os povos dizer a Matilde que lhe perdoa organizar a vida dos índios. aos estudantes que estudem. uma sombra. também se destrói. A queixa mínima já não pede ao vento que se cale. na chama.

.que deposite flores sobre o retrato enterrado. Limita-se à contemplação metódica da mosca fora da garrafa (mas já são outros problemas).

ergueu-se pouco a pouco. e que ri e detesta. Fiquei na praça oval aguardando a galera com fiscais que me perdoassem e me abrissem os rios. mas que fuma e que ri. . murchando sem abrir. Ressurgi para a escola. Um jardim sempre meu. tao própria de meus netos: Sou apenas um peixe. A neblina gelou-me até os nervos e as tias. e de novo adquiri a ciência de deslizar. e eram flores de velho. de funcho e de coral.EQUÍVOCO Na noite sem lua perdi o chapéu. transportando-me ao céu. O chapéu era branco e dele passarinhos saiam para a glória. indecisas no mal.

minha divida está paga. mas é doce. Já podes sorrir. Dói o ombro. Fizemos as contas. a carne sente. O sol eterno brilha de novo e seca a ferida. Cá está ele. mas limpa-se. mas sobre o ombro tua justiça resplandece. irmão vingador. Desceu a espada e cortou o braço. tua boca moldar-se em beijo de amor. Tua lâmina corta. irmão.MOVIMENTO DA ESPADA Estamos quites. estamos alegres. Beijo-te. molhado em rubro. .

e tranqüilo como olhos guardados nas pálpebras.. mas as ondas. resgata a noite. secam. como brilha o sol! Obrigado. Irmão. Tudo é precioso. serei carga jogada às ondas. Já não posso classificar os bens preciosos. ..Mutilado. puro e imparcial como um cadáver que o ar embalsamasse. e o sol brilha sempre. sobre minha cova. também elas. Rolaremos juntos pelo mar. saber que és irmão. Agasalhado em tua vingança. Sobre minha mesa.. O que perdi se multiplica e uma pobreza feita de pérolas salva o tempo. na aparência roubando-o. mas quanto movimento em mim procura ordem. na carne como nos domingos. irmão.. pelo sol que me deste.

Éramos cinco ou seis que hoje não me encontro. . clima revogado. Aqui habitei mas traças conspiram uma idade de homem cheia de vertentes.ASSALTO No quarto de hotel a mala se abre: o tempo dá-se em fragmentos. Roupas mudam tanto.

Ponho no chapéu restos desse homem encontrado morto e do nono andar jogo tudo fora. Em copo de uísque lesmas baratas acres lembranças enjôo de vida. A perna que pensa outrora voava sobre telhados. Vem a quarteira depositar a branca toalha do olvido insinuar o branco sabão da calma. . ó concha. A mala se fecha: o tempo se retrai. No quarto de hotel funcionam botões chamando mocidade fogo. canto. livro.Uma doença grave esse amor sem braços e toda a carga leve que súbito me arde.

sou eu. todas exóticas. ela é sete flores. sede permeáveis Uma só pétala resume auroras e pontilhismos. mas ele é neutro. cavalheiros. traço indeciso. diz que te amam. todas patéticas. pense uma rosa na pura ausência. filtre a paisagem. todas catárticas. beijai a rosa. Primavera não há mais doce. Por menos de oito contos vendê-la? Nunca. rosa tão meiga onde abrirá? Não. sugere estâncias. Vede o caule. Autor da rosa. no amplo vazio . não me revelo. e mesmo duvido que em outro mundo alguém se curve.ANUNCIO DA ROSA Imenso trabalho nos custa a flor. quem sou? Deus me ajudara. qual mais fragrante. todas históricas.

começo da era difícil. . e não há oito contos. venda murcha. Selarei. não. Ó fim do parnasiano. como direi. vinde. Rosa na roda. aurilavrada. Aproveitem. Por preço tão vil mas peça. pois jamais virão pedir-me.Vinde. oferecer-vos alta mercancia estelar e sofrer vossa irrisão. é cruel existir em tempo assim filaucioso. eu sei. o que de melhor se compôs [na noite. A última rosa desfolha-se. pequenas eólicas cotidianas. a burguesia apodrece. olhai o cálice. Já não vejo amadores de rosa. Injusto padecer exílio. meu comércio incompreendido. apenas rósea. rosa na máquina.

EDIFÍCIO SÃO BORJA Cólica premonitória caminho do suicídio fome de gaia-ciência São Borja Esqueléticos desajustados brigando com a vida nus surgindo à noite em fragmentos São Borja Ritmo de poeta mais forte nesta mão se inoculando projeto de fuga ao Chile à tua casa de infância ao adro da igreja tombada São Borja .

Cerveja em copo de pedra sonhos os mais obscuros na palma da mão na reuma São Borja Santo da mais pura estima nunca jamais invocado sem estrelas se desfazendo ou navios se cruzando e se saudando: boa viagem no caos na peste no espasmo Silo Borja São Borja São Borja São quatro mãos quatro facadas num peito só todo aberto e nele cabe a cidade o vento na roupa uma outra longa amazônia São Borja Edifício poço luz nome assobio no vácuo esperança de emergência São Borja São Borja .

Imolação das venezas as terras distribuídas o mar limpo a cabeça loura em ativa deleitação viajando sozinha São Borja Palavras de muita força embalsamadas explodindo na alva futuras verdades ainda sangrentas cofre a saquear. jardim de chaves fluidas São Borja Trompa de caça trombeta de final juízo improvável sinusite raiva São Borja Canoa sem fado e peixes canções jandaias madréporas anêmonas sorrimos São Borja outra vez sorrimos .

J .O tempo se despencando por trás das guerras púnicas na face dos gregos num dedo de estátua posse de anel segredo São Borja A vida povoada a morte sem aproveitadores a eternidade afinal expelida estamos todos presentes felizes calados completos Santo São Borja.

da perna. . que todo me despedaço e choro. amo Fulana tão dor. mas como eu amo Fulana. menino. Fulana jamais me vê.OMITO Sequer conheço Fulana. Amarei mesmo Fulana? ou ê ilusão de sexo? Talvez a linha do busto. choro. Amo Fulana tão forte. talvez do ombro. vejo Fulana tão curto.

Vejam Fulana dançando. Menos eu. quão acompanhada. desânimo.. plasma.. rimmel. iates. Fulana me bombardeia. gás. Fulana! Como deixar de invadir sua casa de mil fechos e sua veste arrancando Mostrá-la depois ao povo . gilete. No bar. fúria. Amor tão disparatado.Mas Fulana vai se rindo.. sustenta cinco mil pobres. que de orgulhoso me basto pensando nela.. E sequer nos compreendemos. diz marxismo. no entanto sequer me vê. Desbaratado é que é.. É dama de alta fidúcia.. No esporte ela está sozinha. Mas eu sei quanto me custa manter esse gelo digno. Pensando com unha. essa indiferença gaia e não gritar: Vem. tem latifúndios. E Fulana diz mistérios. Nunca a sentei no meu colo nem vi pela fechadura.

(Na curva do seu sapato o calcanhar rosa e puro. rara. neutra. que me maltrate.. pedindo: Dona.. Povo se rindo de mim.. eis que Fulana me roça. feita de pedra translúcida. digamos... de ausência e ruivos ornatos. Assim não. Olho: não tem mais Fulana. desculpe. intata. Mas Fulana será gente? Estará somente em ópera? Será figura de livro? Será bicho? Saberei? Não saberei? Só pegando. Vou sozinho pela rua.tal como é eu deve ser: branca. O seu vestido esconde algo? tem coxas reais? cintura? Fulana às vezes existe demais. rogar-lhe que pise em mim.. no seu banheiro? Só de pensar em seu corpo o meu se punge. Mas como será Fulana. Pois sim. Porque preciso do corpo para mendigar Fulana. até me apavora.) .

. Não sabemos se Fulana passou. Aos boiadeiros: A vistes? Dizem não os boiadeiros. doutores? Mas eles respondem: Não Pois é possível? pergunto aos jornais: todos calados. talvez fume de piteira. são onze rodas de chope. onze vezes dei a volta de minha sede. dizem os operários. talvez se banhe na Cólquida. talvez beije no Leblon. e Fulana talvez dance no cassino ou. e será mais provável. pervagando em ruas de peixe e lágrima Aos operários: a vistes? Não.E eu insonte. talvez corte figurinhas. De nada sabemos. talvez cruze a perna e beba. talvez ria. talvez se pinte no espelho do taxi. Acaso a vistes. talvez minta. E são onze horas da noite. talvez aplauda certa peça miserável num teatro barroco e louco.

. Seu grito é: socorro! e deus. e sujo. Mas não quero nada disso. somente para Fulana. Me ponho a correr na praia. Venha o mar! Venham cações! Que o farol me denuncie! Que a fortaleza me ataque! Quero morrer sufocado. para feder: de propósito. E Fulana correrá (nem se cobriu: vai chispando) talvez se atire lá do alto. já sem cabeça e sem perna. quero voltar repelido pela salsugem do largo. Abre-os todos: mas de todos eu salto. Para que chatear Fulana? Pancada na sua nuca na minha é que vai doer. E Fulana apelará para os frascos de perfume. e ofendo. quero das mortes a hedionda.Esse insuportável riso de Fulana de mil dentes (anúncio de dentifrício) é faca me escavacando. à porta do apartamento.

Camões e Capim. tem um motor na barriga. ginástica. Fulana é toda dinâmica. invasores.E daí não sou criança. tomate.. ama as flores. Sou eu. Fulana é vida. carne.. Coitado: de raça branca. nutrindo-me de Petrarca. couraçados. . Fulana estuda meu rosto. enigmas. Ronsard. Sei que jamais me perdoara matar-me para servi-la. Tadinho: tinha gravata. desinfetados. o poeta precário que fez de Fulana um mito. Fulana quer homens fortes. e lhe colo metafísicas. Já morto. se é necrófila. as artérias e as debêntures. Fulana. gravados em máquina multilite. causas primeiras. teus beijos refrigerados. como é sadia! Os enfermos somos nós. me quererá? Esconjuro. Suas unhas são elétricas. que a sei embebida em leite.

de contradições extintas. e nesse mundo instalamos os nossos irmãos vingados. . afinal nos compreendemos. recorto-lhe um traje de transparência. E colocamos os dados de um mundo sem classe e imposto. e abolimos a cidade já sem peso e nitidez. Já não sofro.. E nessa fase gloriosa. A lua fica sendo nosso esquema de um território mais justo. eu e Fulana. E vadeamos a ciência. que mais queremos? E digo a Fulana: Amiga. E lhe dou todas as faces de meu sonho que especula. queremos.. mar de hipóteses. mas somos a mesma coisa. de tirar sangue. abrasados. se tentasse construir outra Fulana que não essa de burguês sorriso e de tão burro esplendor? Mudo-lhe o nome. já perde a carência humana. e bato-a.Mas. já não brilhas.

) .(Uma coisa tão diversa da que pensava que fôssemos.

Nos olhos do rufião de ternura ficou um pouco (muito pouco). Dos gritos gagos. Da rosa ficou um pouco. Do meu medo.RESÍDUO De tudo ficou um pouco. Ficou um pouco de luz captada no chapéu. Do teu asco. .

Ficou um pouco de tudo no pires de porcelana. dragão partido. que sobem. nos anúncios de jornal. De teu áspero silêncio um pouco ficou. retrato. pouco. Pois de tudo fica um pouco. de duas folhas de grama. flor branca. ficou um pouco de ruga na vossa testa. um pouco de mim em Londres. Fica um pouco de teu queixo no queixo de tua filha. Da ponte bombardeada. no barco. . Se de tudo fica um pouco. mudas. nas folhas. ficou um pouco. Mas de tudo fica um pouco. do maço — vazio — de cigarros. mas por que não ficaria um pouco de mim? no trem que leva ao norte.pouco ficou deste pó de que teu branco sapato se cobriu. poucos véus rotos pouco. Ficaram poucas roupas. muito pouco. um pouco nos muros zangados.

meio sal e meio álcool. de ti. E de tudo fica um pouco. de tudo ficou um pouco. simplório arroto. Não muito: de uma torneira pinga esta gota absurda. alvéolo. este vidro de relógio partido em mil esperanças..um pouco de mim algures? na consoante? no poço? Um pouco fica oscilando na embocadura dos rios e os peixes não o evitam. este segredo infantil. de Abelardo. cápsula de revólver.. e minúsculos artefatos: campânula. . De tudo fica um pouco. De tudo ficou um pouco: de mim. vento nas orelhas minhas. De tudo ficou um pouco. gemido de víscera inconformada.. este pescoço de cisne. salta esta perna de rã. Cabelo na minha manga. Oh abre os vidros de loção e abafa o insuportável mau cheiro da memória. um pouco: não está nos livros. de aspirina..

Mas de tudo. e sob as ondas ritmadas e sob as nuvens e os ventos e sob as pontes e sob os túneis e sob as labaredas e sob o sarcasmo e sob a gosma e sob o vômito e sob o soluço. terrível. os asilos. Às vezes um rato. fica sempre um pouco de tudo. as igrejas triunfantes e sob tu mesmo e sob teus pés já duros e sob os gonzos da família e da classe. o esquecido e sob os espetáculos e sob a morte de escarlate e sob as bibliotecas. fica um pouco. o cárcere. Às vezes um botão. .

é o vestido de uma dona que passou. o que é aquele vestido. . boca presa. nossa mãe? Era nossa conhecida? Minhas filhas. Vosso pai evém chegando.CASO DO VESTIDO Nossa mie. naquele prego? Minhas filhas. Passou quando.

chorou no prato de carne. me deixou com vosso berço. Era uma dona de longe. mas o corpo ficou frio e não o veste. esse vestido tanta renda. . M afastou de toda vida. vosso pai enamorou-se. E ficou tão transtornado. mas a dona não ligou. está morto. bebeu. brigou. me bateu. se fechou. esse segredo! Minhas filhas. Em vão o pai implorou.Nossa mãe. Minhas filhas. Nossa m&e. escutai palavras de minha boca. dizei depressa que vestido é esse vestido. foi para a dona de longe. se perdeu tanto de nós. O vestido. sossegado. se devorou. nesse prego.

me pediu que lhe pedisse. Minhas filhas. beberia seu sobejo. lamberia seu sapato. dava carro. Disfarcemos. vosso pai chega ao pátio. Então vosso pai. .. a essa dona tão perversa. não escutamos pisar de pé no degrau. E lhe roguei que aplacasse de meu marido a vontade.Dava apólice. Nossa mãe. Eu não amo teu marido.. por que chorais? Nosso lenço vos cedemos. procurei aquela mulher do demo. irado. dava ouro. Minhas filhas. Nossa mãe. me falou ela se rindo. Mas a dona nem ligou. fazenda. que tivesse paciência e fosse dormir com ele.

. Olhei para a dona ruim. passei rio. de colo mui devassado. Sai pensando na morte. disse que sim. passei ponte. não falava. visitei vossos parentes. só pra lhe satisfazer. os olhos dele pediam. mais mostrava que escondia as partes da pecadora. . não por mim. Olhei para vosso pai. Andei pelas cinco ruas. os olhos dela gozavam O seu vestido de renda. mas a morte não chegava..Mas posso ficar com ele se a senhora fizer gosto. Eu fiz meu pelo-sinal. me curvei. não quero homem. não comia. tive uma febre terça. Was a morte não chegava.

Vosso pai sumiu no mundo. costurei. minha corrente de ouro pagou conta de farmácia. da maior humilhação. fiz doce. meus anéis se dispersaram. meus olhos. desfeita. me disse baixinho. com sua trouxa na mão. Um dia a dona soberba me aparece já sem nada. Mas te dou este vestido. O mundo é grande e pequeno. que não sei onde ele anda. mofina. fiquei de cabeça branca.Fiquei fora de perigo. pobre. não te dou vosso marido. . minhas mãos se escalavraram. perdi meus dentes. Dona. lavei. última peça de luxo que guardei como lembrança daquele dia de cobra.

. bebi fel e gasolina. me puxei pelos cabelos. me cortei de canivete. Mas então ele enjoado confessou que só gostava de mim como eu era dantes Me joguei a suas plantas. me atirei no sumidouro. Aqui trago minha roupa que recorda meu malfeito de ofender dona casada pisando no seu orgulho. ao depois amor pegou. de nada valeu: vosso marido sumiu. me lancei na correnteza. fiz toda sorte de dengo.Eu não tinha amor por ele. rezei duzentas novenas. dona. no chão rocei minha cara. Recebei esse vestido e me dai vosso perdão.

Olhei para a cara dela, quede os olhos cintilantes? quede graça de sorriso, quede colo de camélia? quede aquela cinturinha delgada como jeitosa? quede pezinhos calçados com sandálias de cetim? Olhei muito para ela, boca não disse palavra. Peguei o vestido, pus nesse prego da parede. Ela se foi de mansinho e já na ponta da estrada vosso pai aparecia. Olhou pra mim em silêncio, mal reparou no vestido e disse apenas: Mulher, põe mais um prato na mesa. Eu fiz, ele se assentou, comeu, limpou o suor, era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado e nem estava mais velho. O barulho da comida na boca me acalentava. me dava uma grande paz, um sentimento esquisito de que tudo foi um sonho, vestido não há... nem nada. Minhas filhas, eis que ouço vosso pai subindo a escada.

O ELEFANTE

Fabrico um elefante de meus poucos recursos. Um tanto de madeira tirado a velhos móveis talvez lhe dê apoio. E o encho de algodão, de paina, de doçura. A cola vai fixar suas orelhas pensas. A tromba se enovela, é a parte mais feliz de sua arquitetura. Mas há também as presas, dessa matéria pura que não sei figurar.

Tão alva essa riqueza a espojar-se nos circos sem perda ou corrupção E há por fim os olhos, onde se deposita a parte do elefante mais fluida e permanente, alheia a toda fraude. Eis meu pobre elefante pronto para sair à procura de amigos num mundo enfastiado que já não crê nos bicho e duvida das coisas. Ei-lo, massa imponente e frágil, que se abana e move lentamente a pele costurada onde há flores de pano e nuvens, alusões a um mundo mais poético onde o amor reagrupa as formas naturais. Vai o meu elefante pela rua povoada, mas não o querem ver nem mesmo para rir da cauda que ameaça deixá-lo ir sozinho. E todo graça, embora as pernas não ajudem e seu ventre balofo

e não hà na cidade alma que se disponha a recolher em si desse corpo sensível a fugitiva imagem. . Mas faminto de seres e situações patéticas. as folhas. sob a raiz das árvores ou no seio das conchas. de luzes que não cegam e brilham através dos troncos mais espessos. episódios não contados em livro. pois só ousam mostrar-se sob a paz das cortinas à pálpebra cerrada. esse passo que vai sem esmagar as plantas no campo de batalha. mas que os homens ignoram. de encontros ao luar no mais profundo oceano. o passo desastrado mas faminto e tocante. Mostra com elegância sua mínima vida. a formiga reconhecem o talhe. segredos.se arrisque a desabar ao mais leve empurrão. à procura de sítios. de que apenas o vento.

mas volta fatigado. jorra sobre o tapete. Ele não encontrou o de que carecia. caiu-lhe o vasto engenho como simples papel. as patas vacilantes se desmancham no pó. em que amo disfarçar-me. de caricia.E já tarde da noite volta meu elefante. A cola se dissolve e todo seu conteúdo de perdão. eu e meu elefante. Exausto de pesquisa. de pluma. de algodão. o de que carecemos. . Amanhã recomeço. qual mito desmontado.

. Então o moço que é leiteiro de madrugada com sua lata sai correndo e distribuindo leite bom para gente ruim. é preciso entregá-lo cedo. Há muita sede no pais. Há no país uma legenda. que ladrão se mata com tiro. é preciso entregá-lo cedo.MORTE DO LEITEIRO A Cyro Novaes Há pouco leite no país.

suas garrafas. que barulho nada resolve. morador na Rua Namur. empregado no entreposto... sabe lá o que seja impulso de humana compreensão. Sem fazer barulho. é claro. . E já que tem pressa. Na mão a garrafa branca não tem tempo de dizer as coisas que lhe atribuo nem o moço leiteiro ignaro.Sua lata. depositemos o litro. avancemos por esse beco. o corpo vai deixando à beira das casas una apenas mercadoria. e seus sapatos de borracha yão dizendo aos homens no sono que alguém acordou cedinho e veio do último subúrbio trazer o leite mais frio e mais alvo da melhor vaca para todos criarem força na luta brava da cidade. E como a porta dos fundos também escondesse gente Sue aspira ao pouco de leite disponível em nosso tempo. com 21 anos de idade. peguemos o corredor.

é tarde para saber. policia não bota a mão . Quem quiser que chame médico. ou um gato quizilento. vaso de flor no caminho. cão latindo por princípio. E há sempre um senhor que acorda. matei um inocente. se era virgem. não quis saber de mais nada. Meu Deus. se era alegre. Mas o homem perdeu o sono de todo.Meu leiteiro tão sutil. Os tiros na madrugada liquidaram meu leiteiro. não sei. e foge pra rua. É certo que algum rumor sempre se faz: passo errado. Ladrão? se pega com tiro. Mas este acordou em pânico (ladrões infestam o bairro). Bala que mata gatuno também serve pra furtar a vida de nosso irmão. de passo maneiro e leve. resmunga e torna a dormir. antes desliza que marcha. Se era noivo. O revólver da gaveta saltou para sua mão. se era bom.

suavemente se tocam.. ao relento. duas cores se procuram. A noite geral prossegue.neste filho de meu pai. sangue. Da garrafa estilhaçada.. formando um terceiro tom a que chamamos aurora. . não sei. no ladrilho já sereno escorre uma coisa espessa que é leite. amorosamente se enlaçam. mal redimidos da noite. Por entre objetos confusos. Está salva a propriedade. perdeu a pressa que tinha. mas o leiteiro estatelado. a manhã custa a chegar.

na água te bebo. detesto-te. até quando te provarei por única ambrosia? Eu te amo e tu me destróis. em papel os doces . papel.NOITE NA REPARTIÇÃO O OFICIAL ADMINISTRATIVO: Papel. preciso de ti. amo-te. O corpo de meu filho estava amortalhado em papel. abraço-te e me rasgas. em papel dormiam as roupas e brinquedos. lês em mim sem me decifrares. Até quando. papel. no sabão passas a meu corpo. beijo-te. sim. respiro-te na noite de meu quarto. papel! Ingrato.

obliviar os códigos. casas e exércitos. crescessem. que se protege atrás da porta. vilão amarelo e cardíaco! (Avança para o burocrata. Que as palavras brotassem em mim.. Quisera dizer-te nomes feios independente de tua mão.) . Dissolves-te na queixa. Homenzinho porco. e tornado incenso. viessem para fora em caracteres ásperos.. frutas. paz te sentes bem feliz enquanto eu sem consolo espero tua brutalidade sem a qual não vivo nem sou.. Em grandes pastas os rios. isto sim. Teu escravo.do casamento. Por que não sou sem ti? Por que não existo. e a diligência roda num chão fofo. [por conta própria? Sou apenas papel. tua coisa calada. e te esmagassem. quero matar o DASP. teu servo branco. e teu misterioso poder me oprime e suja. E te revoltas. bicho implacável mais que a onça o é para o galho que pisa. quero rolar em fêmeas. flor que te acarinha. Basta! Quero carne. como as árvores. quero incinerar os arquivos de amianto. halo. ao Araguaia. os caminhos se deixam viajar. Distrais-te na queixa e a mágoa que exalas é perfume que te unge. vida acesa. Quero pegar em mão de gente. Tu me fazes sofrer. ver corpo de gente. de papel escrito. formigas no tronco.. Sou um homem. moscas no ar. ir ao mercado. azul e branco. ou pelo menos quero ser um deles! O PAPEL: Tu te queixas. tapete onde passeias e compões. ao amor. falar língua de gente.

Sou o número um — o triste dos tristíssimos. bolsa. alga ou pedra. Perdi também a fé. Dói nos outros. A vida é dura. regresso à Inglaterra. me sinto viúva. Sim: é melhor pedra. vejo os funerais. . me transformar em janela de onde a virgem enfrenta a noite e suspira. simples alecrim. arruinada. e por economia irão. Sou aranha-tatanha. A outros o privilégio de embriagar-se. Uma pedra no coração. Talvez me tornem ainda gaveta de segredos. Depois de mim. os corvos não esperam. Seu ai de dentifrício americano cortará o céu e me salvará. cética. em si não. a aranha é o mais triste dos seres vivos. Discussões não adiantam. Non possumus. é óbvio. Fica quieta. me deixa subir e fazer no teto um lustre. A ARANHA: Chega! Espero que não me queiras nascer um simples vaga-lume. calça de mulher. porta é porta. O OFICIAL ADMINISTRATIVO. carteira de identidade. uma rosa. quem sabe. ouço os sinos da noite. Estou exausta.A PORTA: De tanto abrir e fechar perdi a vergonha. preciso viver.

TODOS OS ÁLCOOIS: — Me prova! me prova! É a festa do rei! É de graça! de graça! Me bebe! me bebe! O OFICIAL ADMINISTRATIVO: Mas se eu não sei beber. se pode chegar ébrio na repartição.. se pode insultar o ícone da parede. querosene. Que por motivo de força maior cobre derretido se pode sorver. . Nunca aprendi. encher de vermute o tinteiro pálido.A GARRAFA DE UÍSQUE: Mão pode? O GARRAFÃO DE CACHAÇA: Mao pode por quê? O COQUETEL. Sou seco.. cicuta. mal sabe ele que o artigo 18 autoriza porres até de absinto. como ignora que o artigo 40 manda beber fogo. Sou doce. ensopar em genebra velhos decretos e nos casos tais e em certas condições. Ele não sabe. Experimenta. O PAPEL: Ele não sabe que o artigo 14 faculta pileques de gim e conhaque.

A ARANHA: Não me interessa. O TELEFONE Amor? Através de mim os corpos se amam. Somos o cristal. Brandy anisette kümmel nuvens-azuis cascata de palavras. alguns se falam em silêncio. em nós o mundo recomeça. o poema.. ATRACA Ê uma zebra.ATRACA: Que burro.. O OFICIAL ADMINISTRATIVO: Para beber é preciso amar. o PAPEL Ele não sabe que a paixão amor segundo reza o artigo 90. o mito. o logos.. o espesso conduz ao sutil.. . Somos a essência. Sinto-me tarde para aprender. OS ÁLCOOIS: Sua alma sua palma seu tédio seu epicédio sua fraqueza sua condenação. as contradições beijam-se a boca. a estrela.

Sinto que é hora de varrer. (Põe-se a varrer furiosamente. A VASSOURA ELÉTRICA: Senhores deputados. O Oficial administrativo tira os processos da mesa da direita. aporta cai com um gemido. escorrem líquidos de oitenta cores. O mesmo revólver resolverá? Amor e morte são certidões... Como sofro! Todas as dores escorrem pelo bocal.. Inventaram-me para negócios. A ARANHA: Lavrados na minha teia. as garrafas partem-se. Nada resolve. fichas.. Jogando fora o processo de cima e colocando os demais na "tesa da esquerda. retira-os desta última e volta a . deixam apenas saliva.outros chamam e não agüentam o peso e o amargor da voz. Em seguida. casos de doença e talvez de guerra. desculpem. A TRAÇA: Despachos interlocutórios. Cuspo de amor fingindo lágrimas. A TRAÇA: Namorar na hora do expediente! 0 OFICIAL ADMINISTRATIVO: Não resolve. Mas fui derivando para o amor.

Mas só o homem te compreende. o telegrama têm suas secretas consolações. Escreve romances. Vassoura. bichos. sempre atirando fora o volume que estiver por cima. não te mates: escreve. em todo caso mancha de vida. Passar os dedos no rosto branco. Por que sofrerás sempre. traça. Não grites. Pequena aranha pessimista. beija-o. [faturas. e paira no meio da sala. não suspires. Confissões difíceis pedem folha branca. Telefone.. Acostuma-te. na superfície branca. Que [riqueza.. ergue-te. serve aos que passam. homem. exposições de [motivos. papel.depositá-los na mesa da direita. se ele te fecunda com dedos sujos mas dolorosos? Pensa na doçura das palavras. Mancha de tinta ou gordura. sei que também tens direito ao [idílio. são as bênçãos e consolações para todos. palavra de perdão. o ofício. certos livros nos possuem. Quero que vos junteis e compreendais a vida. não. Trago uma palavra quase de amor. E assim infinitamente. Preto e patético. . Porta decaída. Que febre te comunicam. Pensa no mundo das palavras. pelo papel que adoras? A carta. relatórios. calai-vos. Escreve memórias. regressai ao vosso comportamento essencial. já és poesia. homem. Pensa na dureza das palavras.) A POMBA: Papel. Que cada coisa seja uma coisa bela. coisas. fica entre as coisas. mas escreve. Certos papéis são sensíveis. cartas de suicídio. E por que desprezas o homem. Do garrafão de cachaça desprende-se uma pomba. Teu destino é o arco. banhada em luz macia. Não te rendas ao inimigo.

... de branca. A POMBA. tornando-se. surpresos: Uma coisa bela?... . Uma coisa justa. no auge do entusiasmo. rosada: Uma coisa bela! uma coisa justa! ATRACA: Precisarei adaptar-me. OS PROCESSOS. Só roerei belas caligrafias. OS CACOS DE GARRAFA. A VASSOURA. aparece de branco. O oficial administrativo soergue o busto. luminoso. CORO EM TORNO DO OFICIAL ADMINISTRATIVO: Uma coisa bela.. suas vestes cinzentas tombam. ganha subitamente a condição humana: Uma coisa bela?!. A PORTA.O PAPEL.

. É meu último dia: um dia cortado de nenhum pressentimento. que atravesso. sigo meu caminho. Sem reparar. Não morrerei agora. Um dia inteiro se desata à minha frente. Tudo funciona como sempre. Quantos passos na rua. Barbeio-me. calço-me.MORTE NO AVIÃO Acordo para a morte. Saio para a rua. visto-me. acumuladas. Muitas faces comprimem-se no caderno de notas. E quantas coisas no tempo. Um dia como é longo. Vou morrer.

Tenho pressa. vem a policia retirá-lo do que foi meu peito e está aberto? Mas não me vejo cortado e ensangüentado. claro. Os bondes cheios. Não obstante caminho para a morte. Passo nos escritórios. estivai. O telefone. nas mãos que apertam. Não olho os cafés que retinem xícaras e anedotas. aqui. Para que esse dinheiro azul se algumas horas mais. É meu último peixe em meu último garfo. Almoço. escolhe. Tenho pressa. absorve. de nada sei. Não é a morte. Nos espelhos. não temo: a morte dissimula seu bafo e sua tática. Estou na cidade grande e sou um homem na engrenagem. Compro um jornal. Para quê? Almoço um peixe em ouro e creme. Estou cansado. Peço passagem aos lentos. além. mas os preparativos. nos Estados Unidos. julga. um arrepio de violino ou vento. nos olhos míopes. Não me despeço. Vou morrer. Estou limpo. como não olho o muro do velho hospital em sombra. Faço mil coisas que criarão outras mil. É o sol. O trabalho. A fatura. nas bocas que sorriem ou simplesmente falam eu desfilo. Queria dormir. embora vá morrer. nítido. não sei. A boca distingue. O dia na sua metade já rota não me avisa que começo também a acabar.Visito o banco. A carta. Nem os cartazes. É pressa. . Passa música no doce.

Comprometo-me ao extremo, combino encontros a que nunca irei, pronuncio palavras vãs, minto dizendo: até amanhã. Pois não haverá. Declino com a tarde, minha cabeça dói, defendo-me, a mão estende um comprimido: a água afoga a menos que dor, a mosca, o zumbido... Disso não morrerei: a morte engana, como um jogador de futebol a morte engana, como os caixeiros escolhe meticulosa, entre doenças e desastres. Ainda não é a morte, é a sombra sobre edifícios fatigados, pausa entre duas corridas. Desfalece o comércio de atacado, vão repousar os engenheiros, os funcionários, os pedreiros. Mas continuam vigilantes os motoristas, os garçons, mil outras profissões noturnas. A cidade muda de mão, num golpe. Volto à casa. De novo me limpo. Que os cabelos se apresentem ordenados e as unhas não lembrem a antiga criança rebelde. A roupa sem pó. A mala sintética. Fecho meu quarto. Fecho minha vida. O elevador me fecha. Estou sereno. Pela última vez miro a cidade. Ainda posso desistir, adiar a morte, não tomar esse carro. Não seguir para. Posso voltar, dizer: amigos, esqueci um papel, não há viagem, ir ao cassino, ler um livro.

Mas tomo o carro. Indico o lugar onde algo espera. O campo. Refletores Passo entre mármores, vidro, aço cromado. Subo uma escada. Curvo-me. Penetro no interior da morte. A morte dispôs poltronas para o conforto da espera. Aqui se encontram os que vão morrer e não sabem. Jornais, café, chicletes, algodão para o ouvido, pequenos serviços cercam de delicadeza nossos corpos amarrados. Vamos morrer, já não é apenas meu fim particular e limitado, somos vinte a ser destruídos. morreremos vinte, vinte nos espatifaremos, é agora. Ou quase. Primeiro a morte particular, restrita, silenciosa, do indivíduo. Morro secretamente e sem dor, para viver apenas como pedaço de vinte, e me incorporo todos os pedaços dos que igualmente vão perecendo calados. Somos um em vinte, ramalhete de sopros robustos prestes a desfazer-se. E pairamos, frigidamente pairamos sobre os negócios e os amores da região. Ruas de brinquedo se desmancham, luzes abafam; apenas colchão de nuvens, morros se dissolvem, apenas

um tubo de frio roça meus ouvidos, um tubo que se obtura: e dentro da caixa iluminada e tépida vivemos em conforto e solidão e calma e nada. Vivo meu instante final e é como se vivesse há muitos anos antes e depois de hoje, uma continua vida irrefreável, onde não houvesse pausas, sincopes, sonos, tão macia na noite é esta máquina e tao facilmente ela corta blocos cada vez maiores de ar. Sou vinte na máquina que suavemente respira, entre placas estelares e remotos sopros de terra, sinto-me natural a milhares de metros de altura, nem ave nem mito, guardo consciência de meus poderes, e sem mistificação eu vôo, sou um corpo voante e conservo bolsos, relógios, unhas, ligado à terra pela memória e pelo costume dos músculos, carne em breve explodindo. Ó brancura, serenidade sob a violência da morte sem aviso prévio, cautelosa, não obstante irreprimível aproximação de um perigo [atmosférico, golpe vibrado no ar, lamina de vento no pescoço, raio choque estrondo fulguração rolamos pulverizados caio verticalmente e me transformo em noticia.

DESFILE

O rosto no travesseiro, escuto o tempo fluindo no mais completo silêncio. Como remédio entornado em camisa de doente; como na penugem de braço de namorada; como vento no cabelo, fluindo: fiquei mais moço. Já não tenho cicatriz. Vejo-me noutra cidade. Sem mar nem derivativo, o corpo era bem pequeno para tanta insubmissão. E tento fazer poesia, queimar casas, me esbaldar,

nada resolve: mas tudo se resolveu em dez anos (memórias do smoking preto) O tempo fluindo: passos de borracha no tapete, lamber de língua de cão na face: o tempo fluindo. Tão frágil me sinto agora. A montanha do colégio. Colunas de ar fugiam das bocas, na cerração. Estou perdido na névoa, na ausência, no ardor contido O mundo me chega em cartas. A guerra, a gripe espanhola, descoberta do dinheiro, primeira calça comprida, sulco de prata de Halley, despenhadeiro da infância. Mais longe, mais baixo, vejo uma estátua de menino ou um menino afogado. Mais nada: o tempo fluiu. No quarto em forma de túnel a luz veio sub-reptícia. Passo a mão na minha barba. Cresceu. Tenho cicatriz. E tenho mãos experientes. Tenho calças experientes. Tenho sinais combinados. Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver. Tudo foi prêmio do tempo e no tempo se converte. Pressinto que ele ainda flui. Como sangue; talvez água

tudo estará terminado. para ensaio. O rosto no travesseiro. Como planta que se alonga enquanto estamos dormindo. fecho os olhos. O tempo fluiu sem dor. . Vinte anos ou pouco mais.de rio sem correnteza.

O primeiro amor passou. Perdeste o melhor amigo. não chores. A infância está perdida. A.CONSOLO NA PRAIA Vamos. Não tentaste qualquer viagem.. Não possuis casa.. O segundo amor passou. . Mas tens um cão. terra. O terceiro amor passou. Mas o coração continua. Mas a vida não se perdeu. mocidade esta perdida. navio.

. Mas virão outros.. . e o humour? A injustiça não se resolve. Nunca. Tudo somado. Estás nu na areia. em voz mansa. Dorme. A sombra do mundo errado murmuraste um protesto tímido. nunca cicatrizam.Algumas palavras duras. te golpearam. de vez. devias precipitar-te. meu filho. Mas. no vento. nas águas.

Nas mãos dos tios não se percebem as viagens que ambos fizeram. sem memórias da monarquia.RETRATO DE FAMÍLIA Este retrato de família está um tanto empoeirado. amarela. . O rosto de Pedro é tranqüilo. usou os melhores sonhos. E João não é mais mentiroso. Já não se vê no rosto do pai quanto dinheiro ele ganhou. A avó ficou lisa. Os meninos. como estão mudados.

Esses estranhos assentados. meus parentes? Não acredito. sorrindo. Poderiam sutilizar-se no claro-escuro do salão. A moldura deste retrato em vão prende suas personagens. é um oceano de nevoa. As crianças trocam de lugar. Bastante para sugerir que um corpo é cheio de surpresas. . Se uma figura vai murchando. se propõe. As flores são placas cinzentas. Modela qualquer imagem. mas sem barulho: é um retrato. outra. No semicírculo das cadeiras nota-se certo movimento. Ficaram traços da família perdidos no jeito dos corpos. E a areia. sob pés extintos. Vinte anos é um grande tempo. saberiam — se preciso — voar. ir morar no fundo dos móveis ou no bolso de velhos coletes. São visitas se divertindo numa sala que se abre pouco.O jardim tornou-se fantástico. Estão ali voluntariamente.

Já não distingo os que se foram dos que restaram. Quem sabe a malícia das coisas. quando a matéria se aborrece? O retrato não me responde. . E no cristal se multiplicam os parentes mortos e vivos. ele me fita e se contempla nos meus olhos empoeirados. Percebo apenas a estranha idéia de família viajando através da carne. escadas compridas.A casa tem muitas gavetas e papéis.

no sertão ou na imaginação. . E o rosto judaico na estampa. talvez. Duas velas acesas no fundo do quarto. São pés caminhando na neve. O cheiro do fogão vário a cada panela.INTERPRETAÇÃO DE DEZEMBRO É talvez o menino suspenso na memória.

olhos que te pedem e não sabes dar. O bolo cheirando. E o relógio inerte. numa rua branca o vestido branco revoando ao frio. O velho dormindo na cadeira imprópria. O vento soprando. e o trem de ferro passando sobre mim tão leve: não me esmaga. A janela aberta onde se debruçam olhos caminhantes. . O cântico de missa mais do que abafado. O cão farejando. também uma roda rodando no jardim. É a carta escrita com letras difíceis. A barba andando.A boneca partida antes de brincada. O jornal rasgado. antes me recorda. posta num correio sem selo e censura.

desgosto de quinhentas bocas engolindo falsos caramelos ainda orvalhados do pranto das ruas. São casos de aranha em luta com mosquitos. a zona de pasmo na bola de som. Sono de lagartos que não ouvem o sino. É o isolamento em frente às castanhas. o livro proibido. Manchas na madeira coitada e apodrecida. o banho frustrado. o sonho do baile sobre chão de água ou aquela viagem ao sem-fim do tempo lá onde não chega a lei dos mais velhos. A cabana oca na terra sem música. O silêncio interessado no país das formigas. a mancha de vinho na toalha bêbeda. . Conversa de peixes sobre coisas líquidas.O doce escondido.

A mina de mica e esse caramujo.Usura da pedra em lento solilóquio. É o menino em nós ou fora de nós recolhendo o mito. Algo irredutível ao sopro das lendas mas incorporado ao coração do mito. A noite natural e não encantada. .

não se comemora. Já não tens roupa. Numa toalha no espaço há o jantar. tua fome não come. no escuro. nem precisas.COMO UM PRESENTE Teu aniversário. Nem procuro nos olhos estriados aquela interrogação: está chegando? . Escusa de levar-te esta gravata. mas teu jantar é silêncio. Não mais te peço a mão enrugada Para beijar-lhe as veias grossas.

um grito de teus lábios. encadeados. Como compraste calma? Não a tinhas. louvado Deus. tua pressa. me desculpe. Tua imobilidade é perfeita. uma canoa. Mas sempre amaste o duro. no rio. Não envelheces. Embora a chuva. No casarão azul vejo a fieira de quartos sem chave.. sinto em mim teu copo cheio. não se pode caçoar?" . o desconforto deste chão. o relento. que te visito. Vejo. Mas teu segredo não descubro. que sobem. e sinto os bois e sinto as tropas que levavas pela Mata e sinto as eleições (teu desprezo) e sinto a Câmara e passos na escada. O último retrato vale para sempre. Não está nos papéis do cofre. "Coronel. Em ti. e soldados que sobem. teu pigarro. És um homem cansado mas fiel: carteira de identidade. mas que não ousam. vermelhos. Nem nas casas que habitaste. guardo uma espora de tua bota. pode virar. a calma.. O frio sente-se em mim." Tua mão saca do bolso uma coisa. e armas que te vão talvez matar. a falta. Tua voz vai à frente. nela três homens. teu estrondo. Teu cavalo corta o ar. o Coronel sabe nadar? Porque esta canoa. ouço teu passo noturno. Como aceitaste a noite? Madrugavas. e sua criação nunca mais que o senhor há de encontrar. tua faca.Em verdade paraste de fazer anos. "Inda que mal pergunte.

o livro do mundo te entraria pelos olhos e te imprimiria sua [completa e clara ciência. mal se respira no sótão. . saíste pela janela — conheceu. impossível reconhecer teu rosto. neste sobrenome? Taras. das memórias. Para começar: uma dúzia de bolos! Quem disse? Entraste pela porta. da tirania familiar. dívidas. Por que ficar neste município. no pó. largar minha terra. fora melhor rompê-la. mas não descubro teu segredo. da monarquia. um doutor [confuso. Vem da névoa. Faria de ti talvez um farmacêutico ranzinza. Quisera abandonar-te. onde o pão seja outro e não haja bens de família a preservar. mas tu ganhavas o mundo e nele aprenderias tua sucinta [gramática. doenças. no sono. E tanto me falas. da eterna [agência do correio. Procurar meus parentes na Ásia. Quisera abrir um buraco. dos baús atulhados. da escravidão. É talvez um erro amarmos assim nossos parentes. fugir-te. a mão do mundo pegaria de tua mão e desenharia tua letra [firme. seu mestre? — quem quiser que conte outra. negar-te. e te sinto. [e inaugurar novos antepassados em uma nova cidade.Vejo-te mais longe. És bem frágil e a escola te engole. Ficaste pequeno. E tanto nos entendemos. no escuro. e te converso. passando por baixo de seus problemas e lavouras. A identidade do sangue age como cadeia. varar o túnel. mas sei que és tu. mas curioso: já não estás.

loucos mansos. Palavras tão poucas. [fiscais do governo. . Já não precisas guardá-lo. o gado que sumia e voltava. médicos. Perdoa a longa conversa. tios. no escuro. antes! É certo que intimidavas. sem chorar. embora a peste varresse as [fazendas. loucos agitados. Não respondes. beatas. de desatar nós. primos. é permitido sorrir. Guardavas talvez o amor em tripla cerca de espinhos. coisas: então não era segredo? E tu que me dizes tanto disso não me contas nada. Realmente não o tinhas. expulsar assombrações apenas com teu passo duro. [morte de filho.E pergunto teu segredo. [mendigos. camaradas» [caixeiros. [animais. atravessar rios a cavalo. No escuro em que fazes anos. assistir. me enganavas? Então aquele maravilhoso poder de abrir garrafas sem [saca-rolha. Não o tinhas. o domínio total sobre irmãos. padres.

dinheiro perdido. copos.RUA DA MADRUGADA A chuva pingando desenterrou meu pai. fichas. Palmeiras gigantes balouçando na praia e uma voz de sono a alisar-me o cabelo de onde escorrem músicas. pérolas . Nunca o imaginara assim sepultado ao peso dos bondes em rua de asfalto. confissões exaustas.

passarinhos. corrigir o tempo. passar-lhe o calor de um lento carinho maduro e recluso. flores. querer transportá-lo ao velho sofá da antiga fazenda. confissões exaustas e ingratidão. desejar amá-lo sem qualquer disfarce.Sabê-lo exposto a esse bafo úmido que vem dos recifes e bate na cara. brutos trapiches. mas pingos de chuva mas placas de lama sob luzes vermelhas mas tudo que existe madrugada e vento entre um peito e outro. Que pode um homem ao alvorecer — gosto de derrota na boca e no ar — ou a qualquer momento em qualquer país? . Sentir-me tão pobre de bens naturais. cobri-lo de beijos. confissões exaustas e uma paz de lã.

Vagas montanhas. música indecisa tentando criar condições de espera. o corpo se move. canção balbuciada: já nada me lembra o asfalto perfeito. mentiu ou bebeu e o mais que se oculta nas pregas do sono. confissões exaustas. rudemente. confissões exaustas.Tudo que falou. . náusea matinal. a chuva nas luzes. caminho de casa. dia pálido. Alçapões desertos. jornais já brancos. ondas esverdeando. pontas de cigarro.

Tenho todos os elementos ao alcance do braço.IDADE MADURA As lições da infância desaprendidas na idade madura. Já não quero palavras nem delas careço. Nenhum desejo débil. . Todas as frutas e consentimentos. Nem mesmo sinto falta do que me completa e é quase sempre melancólico.

Nada pude fazer. num pais extraordinário. Sou varado pela noite. freiras surdas. depois de mim outros e outros estão cantando a morte e a prisão. sufocados. absorvo epopéia e carne. rubros. Nisso vieram os pássaros. De longe vieram chamar-me. atravesso os lagos frios.Estou solto no mundo largo. nem tinha vontade. funcionários demitidos. Já não sinto piedade. e pousaram a esmo. Havia fogo na mata. a esquecer-me: durmo agora. sem canto. bebo tudo. recomeço ontem. Antes de mim outros poetas. Qualquer coisa de melodioso. não obstante mudo. torno a criar. soldados se matam no centro da cidade vencida. Todos se transformaram em pedra. . Toda a água que possuía irrigava jardins particulares de atletas retirados. Resisto e penso numa terra enfim despojada de plantas inúteis. desfaço tudo. Moças fatigadas se entregam. nu e terno. Lúcido cavalo com substância de anjo circula através de mim.

serei bonde. transmitirei recados que não se ousa dar nem receber. bem no fundo. condutos subterrâneos. procissões. futuro. igreja. massas de água salgada. há domingos. e resolvo embriagar-me. faca de pão. o palhaço. Ninguém me fará calar. embora também se acovardem em face a tanta claridade roubada ao tempo. pós-futuro. dos morros onde alguém colocou bandeiras com enigmas. regatas. ela me invade com sua maré de ciências afinal superadas. Posso desprezar ou querer os institutos. no circo. Dentro de mim. meditação e [sarcasmo. negociarei em voz baixa com os conspiradores. serei médico. . toalha. viva em mim qual um inseto. enxovia. pretérito. receitas e pés.além dos desertos onde passam tropas. há mitos proletários. apontarei os desanimados. serei as coisas mais ordinárias e humanas. loja de calçados. janelas em febre. Já não dirão que estou resignado e perdi os melhores dias. descobri na pele certos sinais que aos vinte anos não via. as lendas. barco. remédio. e também as [excepcionais: tudo depende da hora e de certa inclinação feérica. Eles dizem o caminho. há reservas colossais de tempo. gritarei sempre que se abafe um prazer. serei. Idade madura em olhos.

transito no canto do homem ou da máquina que roda. cada vez menos solitário. e ganho. aborreço-me de tanta riqueza. .Mas eu sigo. em ruas extremamente dispersas. jogo-a toda por um número de [casa.

. Rugas. Hoje estou só.. Ainda criança.VERSOS À BOCA DA NOITE Sinto que o tempo sobre mim abate sua mão pesada. Nenhum menino salta de minha vida. Uma aceitação maior de tudo. Escreverei sonetos de madureza? Darei aos outros a ilusão de calma? Serei sempre louco? sempre mentiroso? Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo? Há muito suspeitei o velho em mim. dentes. já me atormentava. e o medo de novas descobertas. para restaurá-la. calva..

entre ídolos de rosto carregado. como os objetos perdidos na rua. furtos. no espaço. (Um homem se contempla sem amor. altas solidões. se despe sem qualquer curiosidade.Mas se eu pudesse recomeçar o dia! Usar de novo minha adoração. amada e repelida. e tanta indecisão entre dois mares. meu grito. da guerra. ficaste. Vejo tudo impossível e nítido. e te penetra dentro de um cinema. duas roupas. do paletó. As experiências se multiplicaram: viagens. A busca de pupila que as reflita . do arco-íris. o desespero.. E as memórias escorrem do pescoço. Vem a recordação. zona de desejo selada por arbustos agressivos. Lá onde não chegou minha ironia. e fica inerte. a melancolia. enroscam-se no sono e te perseguem.) Mas vêm o tempo t a idéia de passado visitar-te na curva de um jardim.. entre duas mulheres. explicação de minha vida. agora cristal frio. subitamente. minha fome. Toda essa mão para fazer um gesto que de tão frágil nunca se modela.

fatigado. em País-do-riso e em tua ama preta. dissolvidos no atlas. Que confusão de coisas ao crepúsculo! Que riqueza! sem préstimo. estará no Acre? na Argentina? em ti? que palavra escutaste. te recuses e não saibas se a vida é ou foi. . sem esforço. E já não era o furor dos vinte anos nem a renúncia às coisas que elegeu. em rugas e cabelo. um mergulho em piscina. que miras de passagem. uma luz. quando? seria indiferente ou solidária? Um pedaço de ti rompe a neblina. posto que sensível: uma ordem. voa talvez para a Bahia e deixa outros pedaços. é verdade. Esta casa. até que.E depois das memórias vem o tempo trazer novo sortimento de memórias. Bom seria captá-las e compô-las num todo sábio. um achado sem dor. tal uma inteligência do universo comprada em sal. mas a penetração do lenho dócil. uma fusão. uma alegria baixando sobre o peito despojado. e onde.

mas só acho formigas. sem embargo tácitas. onde o chão é forrado pelo cobertor vermelho de meu pai. já não distingo porteiras. a guerra e o mercado. lá onde não há cartazes e as ordens são peremptórias. agudo e suspeitoso. No país dos Andrades. . certas rudes pastagens plantadas no ano zero e transmitidas no sangue. No país dos Andrades. bem como outros distritos. indago um objeto desaparecido há trinta anos. solidão das vertentes. Eis que me vejo tonto. divisas. que não sei se furtaram. somem agora os sinais Que fixavam a fazenda.NO PAIS DOS ANDRADES No país dos Andrades.

secreto latifúndio. . vermelho (viajarei) cobertor de meu pai. mas o escuro soprou.Será outro país? O governo o pilhou? O tempo o corrompeu? No país dos Andrades. e ninguém me [secunda. a tudo pergunto e invoco. Adeus.

os telegramas vêm comigo.NOTICIAS Entre mim e os mortos há o mar e os telegramas. Há anos que nenhum navio parte nem chega. Na Praia. e sem poder sair. Mas sempre os telegramas frios. duros. sem conforto. . Não se calam. a casa é pequena para um homem e tantas notícias. Volto.

na superfície macia das coisas sem raiva. recados furtivos. No pão. Os telegramas vieram no vento. estou paralisado. Mas no escuro nos visitamos. silêncio. quanta renúncia atravessaram! Todo homem sozinho devia fazer uma canoa e remar para onde os telegramas estão chamando 154 . de mim para ti. De ti para mim.Vejo-te no escuro. irmãos sombrios. cidade enigmática. no couro. apelos. Quanto sertão. sinto vozes amigas. mensagens em código. Escuto vocês todos. Chamas com urgência.

América? É muito difícil. Sei apenas que é noite porque me chamam de casa. Suspiro brando. que pelos ares vai se exalando. A mão escreveu tanto. Um homem pequenino à beira de um rio. Vejo as águas que passam e não as compreendo. só suspirando. Ai. Os olhos sabem — e calam-se. O rosto denuncia certa experiência. América. . Passo a mão na cabeça que vai embranquecer.AMÉRICA Sou apenas um homem. Como poderia compreender-te. Vi que amanheceu porque os gaios cantaram. e não sabe contar! A boca também não sabe.

Sei que há países roxos. o caminho da roça. não era fácil voltar. que vai dar no meu coração. muitas vezes viajei nas tuas tintas. o mundo de todas as [cores. do mineral e da folha. os nomes gravam-se em amarelo. Nada conto do ar e da água. no [mundo escuro. dois ou três bois. neste momento de tímida conversa de amor. alguns rostos que contemplei. o simples tempo dispersaram esses velhos amigos em pequenos cemitérios do [interior. Sempre me perdia. no fundo cinza da [infância. em preto. América. as doenças. meus tios. por que tocar em cordilheiras e oceanos! Sou tão pequeno (sou apenas um homem) e verdadeiramente só conheço minha terra natal. ignoro profundamente a natureza humana e acho que não devia falar nessas coisas. a preta que me criou. ilhas brancas. ficou apenas o tom escuro. promontórios azuis. Passa também uma escola — o mapa —. América. em vermelho.Lembro alguns homens que me acompanhavam e hoje não [acompanham. por trás de cordilheiras ou dentro do mar. Ah. Uma rua começa em Itabira. Nessa rua passam meus pais. Inútil chamá-los: o vento. Como rodava! As cores foram murchando. Eles me ajudariam. . O navio estava na sala. alguns versos que li há tempos. A terra é mais colorida do que redonda.

não havia nada. Seus passos urgentes ressoam na pedra. negros. que vai dar em qualquer ponto da [terra. ressoam em mim. alma entreaberta. [uruguaios. índios. certo cheiro de erva. mexicanos. e elas cantam melhor do que eu. não havia lanterna e nem diamante. dentes cerrados. era cobra e onça. humilde caminho da América. Há o indistinto mover de lábios no galpão. turcos. pedir que sejam felizes? Sou apenas uma rua na cidadezinha de Minas. Canta uma canção de viola ou banjo. há sobretudo [silencio. Ainda bem que a noite baixou: é mais simples conversar [á noite Muitas palavras já nem precisam ser ditas. Pisado por todos. como sorrir. Só o primeiro cão. violas sobem até á lua.Uma ma começa em Itabira. Nessa rua passam chineses. em frente do homem . menos dureza nas coisas. descanta a memória do tempo mais fundo quando não havia nem casa nem rês e tudo era rio.

Entretanto a vida elege semblante. Canta uma canção no ermo continente. como as mãos são duras.. se julgam. tem mil anos. quando a forma hesita em consubstanciar-se. Nenhuma. baixo.cheirando o futuro.. Quem a viu nascer? O sono dos homens após tanto esforço tem frio de morte. não te exaltes. negras de cansaço. se é que estão dormindo. Canta os elementos em busca de forma. se pesam. reza ao deus do milho. Olho ao pé do fogo homens agachados esperando comida. Como a barba cresce. mergulha no sonho anterior às artes. que pena: nem sempre são as mais lindas. E as mais novas. Olha: uma cidade. . porém. Canta a esteia maia. Não vás acordá-los. e o carinho mudo corta a solidão. Tantas cidades no mapa. Os dois se reparam.

a pequena fábrica de chapéus.. animais confusos ainda não completamente [ determinados. a professora que tinha sardas. Certos homens vão de pais em pais procurando um metal raro [ou distribuindo palavras.Como fazer uma cidade? Com que elementos tecê-la? Quantos [fogos terá? Nunca se sabe. e o barranqueiro do Rio São Francisco . O ouro as forma e dissolve. Esses pedaços de ti. Ver tudo isso do alto: a ponte onde passam soldados (que vão esmagar a última revolução). cabogramas. Que barulho na noite. Ermo e cidade grande se [espreitando. o pouso onde trocar de animal. Contaram-me que também há desertos. que solidão! Esta solidão da América. vitrolas e tiros. Certas mulheres são tão desesperadamente formosas que é [impossível não comer-lhes os retratos e não proclamá-las [demônios Há vozes no rádio e no interior das árvores. A criança espantada não sabe juntá-los. América. Vozes do tempo colonial irrompem -as modernas canções.. a cruz marcando o encontro [dos valentes. as cidades crescem. restam navetas de ouro. tornam a aparecer. partiram-se na minha mão... mergulham no campo. E plantas tristes.

— esse homem silencioso. do espaço e da morte. Esses homens estão silenciosos mas sorriem de tanto [sofrimento dominado. sono que custa a chegar porque na cadeira elétrica um homem (que não conhecemos) [morreu. O sentimento da mata e da ilha perdura em meus filhos que ainda não amanheceram de todo e têm medo da noite. na última luz da tarde. carta posta no correio. Mas de cada peito nasce um vacilante. Não é mais um crime. de avião ou barco. América. desejo de ajudar. junto à cabeça majestosa do cavalo de proa imobilizado contempla num pedaço de jornal a iara vulcânica da [Broadway. o desencanto das coisas. nas minas. Portanto. Solidão de milhões de corpos nas casas. Sou apenas o sorriso na face de um homem calado. pálido amor. no ar. solidão é palavra de amor. . um vicio. torná-la meio [de conhecimento. [percorrem teus caminhos. Portanto. procura desajeitada de mão. Ela fixa no tempo a memória ou o pressentimento ou a ânsia de outros homens que a pé. a cavalo. é possível distribuir minha solidão.

O que eu escrevi não conta. vagos cantores tupis. fazei o canto ardoroso. O que desejei é tudo. meus bens. recolhei meu pobre acervo. minha inquietação. Retomai minhas palavras. alongai meu sentimento. Poetas de Minas Gerais e bardos do Alto Araguaia. Cantai esse verso puro. . cheio de antigo mistério mas límpido e resplendente.CIDADE PREVISTA Guardei-me para a epopéia que jamais escreverei.

não tenho pressa. um país de riso e glória como nunca houve nenhum.. a multiplicidade toda que há dentro de cada um. Uma cidade sem portas. Este país não é meu nem vosso ainda. um jeito só de viver. poetas. uma terra sem bandeiras. uma pátria sem fronteiras. mas virá um dia. no colégio. sem ouro. na vila X. Mas ele será um dia o país de todo homem. sem febre. Irmãos. na oficina. sem leis e regulamentos.que se ouvirá no Amazonas. no mato. talvez mais.. sem dor. . dentro em mil anos. cantai esse mundo que não verei. território de homens livres que será nosso país e será pátria de todos. na choça do sertanejo e no subúrbio carioca. sem igrejas nem quartéis. Um mundo enfim ordenado. mas nesse jeito a variedade. de casas sem armadilha.

Depois de Madri e de Londres. Os telegramas cantam um mundo novo que nós. A poesia fugiu dos livros.. Stalingrado. ignorávamos. ainda há grandes cidades. na escuridão. agora está nos jornais.CARTA A STALINGRADO Stalingrado. se elevam. vingadores. seus peitos que estalam e caem enquanto outros. .. a face negra de pó e de pólvora. Os telegramas de Moscou repetem Homero. e o hálito selvagem da liberdade dilata os seus peitos. pois que entre as ruínas outros homens surgem. Mas Homero é velho. O mundo não acabou.

uma bacia de criança. Débeis em face do teu pavoroso poder. nossas prevenções e nossos confusos [pensamentos distantes dá um enorme alento à alma desesperada e ao coração que duvida. sobre nossas cabeças. Que quando abrirmos o jornal pela manhã teu nome (em ouro [oculto) estará firme no alto da página. Terá custado milhares de homens. entregues [sem luta. aprendem contigo o gesto de fogo. as pobres e prudentes cidades. cidade destruída. tanques e aviões. Saber que vigias. resistes. mas valeu [a pena. Que enquanto dormimos. Stalingrado. outrora gloriosas. . a torneira. Saber que resistes. no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas. mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não [profanados. na tua fria vontade de resistir. que cristais e músicas o teu nome nos derrama! Que felicidade brota de tuas casas! De umas apenas resta a escada cheia de corpos.Fomos encontrá-lo em ti. Stalingrado. de outras o cano de gás. quantas esperanças! Que flores. na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas. entretanto [resplandecente! As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e [silêncio. Também elas podem esperar. miserável monte de escombros. Stalingrado. comemos e trabalhamos.

a fome. 6 minha louca Stalingrado! A tamanha distância procuro. os últimos defendem pedaços [negros de parede. cheiro destroços [sangrentos. a noite. Stalingrado! Penso na vitória das cidades. apalpo as formas desmanteladas de teu corpo. estropiaram-se. Stalingrado. As cidades podem vencer. sinto-te como uma criatura humana. contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura [combate. e vence.Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem [trabalho nas fábricas. todos morreram. [senão isto? Uma criatura que não quer morrer e combate. a criatura combate. e que és tu. contra o céu. que se amarão e se defenderão [contra tudo Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres. o metal. caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e [relógios partidos. indago. a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem. . contra o frio. contra a morte a criatura [combate. que por enquanto é apenas uma [fumaça subindo do Volga Penso no colar de cidades. mas a vida em ti e prodigiosa e pulula como insetos ao sol. a água.

A neve baixou. Casa e mais casa se cobrirá o chão. Mas o assombro. . Sobraram apenas algumas árvores com cicatrizes. como soldados. Começaremos pela estação da estrada de ferro e pela usina de energia elétrica. Outros homens. cobrindo as feridas. O vento varreu a dura lembrança. Aqui se chamava e se chamará sempre Stalingrado. — Stalingrado: o tempo responde. em outras casas. Rua e mais rua o trânsito ressurgirá. a fábula gravam no ar o fantasma da antiga cidade que peneirará o corpo da nova.TELEGRAMA DE MOSCOU Pedra por pedra reconstruiremos a cidade. continuarão a mesma certeza.

Já não olharei sobre o oceano para decifrar no céu noturno uma estrela vermelha.MAS VIVEREMOS Já não há mãos dadas no mundo. . Elas agora viajarão sozinhas. dormir a teu lado. Sem o fogo dos velhos contatos. que ardia por dentro e dava coragem. Desfeito o abraço que me permitia. homem da roça. e seus raios de glória e de esperança. mexicano ou báltico. percorrer a estepe. pura e trágica. irmãos chinês. sentir o negro.

este frio. Mas um livro. de longe. Há mais de vinte anos caminhávamos sem nos vermos. consolava.. este presídio. no pátio negro. mais completa. e teu retrato. uni-vos. Era apenas. esta confiança.. desprezar e ter amor. No mar estava escrita uma cidade. no campo ela crescia. em tudo onde pisasse alguém. era súbito um beijo. Muitas vezes julgamos ver a aurora e sua rosa de fogo à nossa frente. este insulto. Pois às vezes nem isso. uma paz sobre o corpo se alastrando. na lagoa. na noite. uma cadeia. a combater.Já não distinguirei na voz do vento (Trabalhadores. mais noite. Voltava a noite. E que dificuldade de falar! Nem palavras nem códigos: apenas montanhas e montanhas e montanhas. uma fogueira. outro homem. oceanos e oceanos e oceanos. por baixo do colchão. a calar. amigo. disfarçados mas a um grito. no escuro.) a mensagem que ensinava a esperar. este cuspo. esta ilha. se desenhava tua imagem. outra certeza. Nada tínhamos a não ser estas chagas pelas pernas. respondia outro grito. .

do bar. como os outros. Já não cultivamos amargura nem sabemos sofrer. já nos vemos em plena força de homens libertados. A dor foi esquecida nos combates de rua. . Já não sei vossos nomes nem vos olho na boca. Já dominamos essa matéria escura. da nossa rua: prisioneiros de uma cidade estreita e sem ventanas. Mas viveremos. ele viaja o mundo. flores. Eu. somos muitos e sós. teu império e teu sangue e teu bafo e tua pálpebra. em vozes de protesto. onde a palavra se calou. temos de agir na linha do gasômetro. Era inútil queimar-te. estrela: cada um te possuía. Pouco importa que dedos se desliguem e não se escrevam cartas nem se façam sinais da praia ao rubro couraçado. Ele chegará. Em toda parte. Voltamos a viver na solidão. cintilavas. beijo de moça. Hoje quedamos sós. E ganhará enfim todos os portos. tuas pontas. trigo e sol nascendo. Toda melancolia dissipou-se em sol.teu brilho. entre destroços. crianças estudando. em sangue. petróleo. avião sem bombas entre Natal e China.

Ele viaja sempre. esse canto. essa rosa. entrará nas casas. abolirá os mortos.Ele caminhará nas avenidas. essa palavra. . esse navio.

. ou as unhas brotando em dedos frios.VISÃO 1944 Meus olhos são pequenos para ver a massa de silêncio concentrada por sobre a onda severa. fascinados. Meus olhos são pequenos para ver o general com seu capote cinza escolhendo no mapa uma cidade que amanhã será pó e pus no arame. Meus olhos são pequenos para ver luzir na sombra a foice da invasão e os olhos no relógio. piso oceânico esperando a passagem dos soldados.

. sem talher. catre. levadas para longe. Meus olhos são pequenos para ver a distância da casa na Alemanha a uma ponte na Rússia. sem cadeira. de bandagens para um porto da Itália onde se morre.Meus olhos são pequenos para ver a bateria de rádio prevenindo vultos a rastejar na praia obscura aonde chegam pedaços de navios. assoalho. Meus olhos são pequenos para ver o transporte de caixas de comida. Meus olhos são pequenos para ver o corpo pegajento das mulheres que foram lindas. lampião. funcionando com fúria e com carinho. o amor e uma canção. dedos de pé bóiam em sangue. cartas. onde retratos. Meus olhos são pequenos para ver uma casa sem fogo e sem janela sem meninos em roda. Meus olhos são pequenos para ver as fábricas tiradas do lugar. Meus olhos são pequenos para ver os milhares de casas invisíveis na planície de neve onde se erguia uma cidade. beijo cancelado na produção de tanques e granadas. de remédios. num tapete. de roupas.

Meus olhos são pequenos para ver todos os mortos. prontos a seguir para perto do muro — e o muro é branco. Meus olhos são pequenos para ver os coqueiros rasgados e tombados entre latas. . Meus olhos são pequenos para ver essa fila de carne em qualquer parte. na areia. feias e vorazes. sal ou de esperança que fugiu dos mercados deste tempo. Meus olhos são pequenos para ver o deslizar do peixe sob as minas. corpos repartidos. todos os feridos. e sua convivência silenciosa com os que afundam. entre formigas incompreensivas. às ciganas. e este sinal no queixo de uma velha Que não pôde esperar a voz dos sinos. de barba negra. fita o espelho e se desfolhará no céu de outono.Meus olhos são pequenos para ver na blusa do aviador esse botão que balança no corpo. de querosene. aos passarinhos. Meus olhos são pequenos para ver a gente do Pará e de Quebec sem noticia dos seus e perguntando ao sonho. Meus olhos são pequenos para ver a fila de judeus de roupa negra.

Meus olhos são pequenos para ver essa mensagem franca pelos mares. e os poderes ilimitados mais que todo exército. essa imagem calada. Meus olhos são pequenos para ver toda essa força aguda e martelante.Meus olhos são pequenos para ver países mutilados como troncos. todas ofertadas. na tua palma. ó povo! que no mundo te dispersas. proibidos de viver. Meus olhos são pequenos para ver tuas sonhadas ruas. entre coisas outrora envilecidas e agora a todos. . os gritos roucos. teus objetos. Meus olhos são pequenos para ver tudo que uma hora tem. mas em que a vida lateja subterrânea e vingadora. quando madura. tudo que cabe em ti. a rebentar do chão e das vidraças. Meus olhos são pequenos para ver as mãos que se hão de erguer. vai pastoreando sonos e trabalhos). atrás de outras derrotas. os rios desatados. em forma e profusão. que se aviva. e uma ordem consentida (puro canto. que ganha em cor. Meus olhos são pequenos para ver atrás da guerra. ou do ar. das ruas cheias e dos becos.

baixam deslumbrados. . outro mundo que brota. pasmam. qual nelumbo — mas vêem.Meus olhos são pequenos para ver o mundo que se esvai em sujo e sangue.

Minha boca fechada se crispava.COM O RUSSO EM BERLIM Esperei (tanta espera). Como lutar. nem cansaço nem dor. penetrando com o russo em Berlim? . ponta de lança. Um dia chegarei. no telhado. Espera em casa. Ai tempo de ódio e mãos descompassadas. No curral. com o russo em Berlim. mas agora. na oficina: um dia entrar com o russo em Berlim. sem armas. Na rua. Estou tranqüilo. O tempo que esperei não foi em vão.

Cidades que perdi. a carga mais preciosa: para entrar com o russo em Berlim. lendo o jornal. . em Tobruk e nas Ardenas para chegar. e a carga se perdendo. pois também a palavra era proibida. horas queimando na pele e na visão: meus homens mortos. graves.Só palavras a dar. As bocas não diziam. Nas camadas marítimas. O campo. Eu esperei na China e em todo canto em Paris. sobretudo o campo espalhado no mundo: prisioneiros entre cordas e moscas. no mapa. colheita devastada. tão melhor com o russo em Berlim. Oh. de um ponto em Stalingrado. que ressurge com o russo em Berlim. Eu esperei com esperança fria. Só os olhos com o russo em Berlim. desfazendo-se com o russo em Berlim. calei meu sentimento e ele ressurge pisado de cavalos e de rádios com o russo em Berlim. os peixes me devorando. só pensamentos ou nem isso: calados num café. com o russo em Berlim. Só os olhos no retrato. o campo.

reuni-vos para esmagá-la. E não cairá tão cedo. Nós que tanto esperamos.Essa batalha no ar. e tão pequeno e volto triste à casa: por que não com o russo em Berlim?) Muitos de mim saíram pelo mar. boca de negócio. Nunca assim tão forte. olha a certeza. com o russo em Berlim. Uma cidade existe poderosa a conquistar. Mas que não pare aí. já treme com o russo em Berlim. irretratável. com o russo em Berlim. Não chega o termo. nós a temos com o russo em Berlim. Olha a esperança à frente dos exércitos. Este vento que passa. vós que penetrais com o russo em Berlim. ajuntamento estúpido. Em mim o que é melhor está lutando. Uma cidade atroz. . pernas de escravos. Colar de chamas forma-se a enlaçá-la. com o russo em Berlim. ventre metálico. varre a vida. trabalhadores do mundo. Um vento varre o mundo. que me traspassa (mas estou no cinema. Essa cidade oculta em mil cidades. Possa também chegar. recompensado.

a tinta imortal. desejo de voltar mais cedo para casa. que trouxe o correio. São fiéis. se a madeira. Certas manchas na mesa. Recusas-te a trocá-la pela que encerra o último segredo químico. não ardente. se o pó trouxeram consigo. que não sabes se o tempo. e elas compreendem.INDICAÇÕES Talvez uma sensibilidade maior ao frio. . as coisas do teu escritório. Ou pelo menos supões que sim. Indecisão: irei ao cinema? Dos três empregos de tua noite escolherás: nenhum. que pousas nas coisas. Talvez certo olhar. Certa demora em abrir o pacote de livros esperado. mais sério. A caneta velha.

a cor de cada face dos objetos familiares. e o espaço entre o armário e a parede onde se deposita certa porção de silêncio. Da dura substância. e no livro municipal se cancela um registro. e pára um caminhão e descem carregadores. E são portas. É a mesa volante. as palavras que achaste e juntaste. soma de linhas. e espera. embrulhos esquecidos. camas. Cartas. Não. e insiste. traças e poeira que de longe em longe se remove. A família é pois uma arrumação de móveis. De novo aqui... miúdo território civil. do calmo. de suas gavetas saltam papéis escuros. superfícies. A estrada voltando. longamente espera tua volta sem som. enfim os libertados [segredos sobre a terra metálica se espalham. pratos. não a toqueis. artigos. olhas fundamente o risco de cada coisa. e nela viajas em ares de paciência. também um corredor. distribuindo-as. Certamente faltam muitas explicações. Como pressentindo que um dia se esvaziam os quartos. A mão passa na aspereza. seria difícil compreender. se limpam as paredes. É a árvore que regressa. sem sonhos. se amortalham e calam-se. Minas que espreita. O verniz que se foi. Olhai a mesa que foge.Bem a conheces. poemas saíram dela. por que [um gesto . resignação. tua mesa. chaves. mesmo ao cabo de longo tempo. da floresta partida elas vieram. de ti. acordo. volumes. A mesa se torna leve.

na pausa da noite. cai. perderam a força. desaparecem. tantos esboçados. os dentes caem. é liso. Entretanto. caem. o calor. caem. e tudo imóvel. gravatas puem. tudo absorvendo. os braços caem. embeberam degraus. e tudo é liso. as coisas caem. e o chão está limpo. salvo teu rosto sobre a mesa curvado. Pessoas deitam-se. Lençóis amarelecem. Como saber? A princípio parece deserto. e um rio corresse por tua casa. outro se frustrou. . invadiram canos. devem estar em alguma parte: acumularam-se. ao jantar.se abriu. outras na [argila do sono. informaram velhos papéis. existem hoje em subterrâneos. a barba cresce. umas na memória. são transportadas. como se nada ficasse. todas as vozes ouvidas na casa durante quinze anos. um ano. caem partículas de comida de um garfo hesitante. e outros e outros. depois outro. como seria impossível guardar todas as vozes ouvidas ao almoço.

morta em outro século. mas recusa raivoso filtrar o mínimo acorde. foi de alguma avó.ONDE HÁ POUCO FALÁVAMOS É um antigo piano. E ele toca e ele chora e ele canta sozinho. . se o fere mão de moça presente.

Nossa vontade é amar. O dia perdoa.Ai piano enguiçado. e ao vacilante ajuda. embora rouco: ele estronda. Uma parede marca a rua e a casa. e cessa o seu lamento. É toda proteção. Canta. Respeitemos seus fantasmas. o medo imemorial. seu destino cumprido. dedos se acumularam no verniz roído. Pobre piano. ignóbeis. cruel. paz aos velhos. Mas esquecemos. piano. Amor aos velhos. Do outro lado é a noite. Floresta de dedos. circulam por entre a matéria sarcástica. ao tonto. seu prazer sepultado. e se resigna. olhamos apavorados a forma escura. os vulpinos. os caçadores. montes de música e valsas e murmúrios e sandálias de outro mundo em chãos nublados. em hora espessa de sono. . A poeira profusa salta. o piano cabe em nosso amor. os inspetores da penitenciária. É um rato? O vento? Descemos a escada. Assim nosso carinho encontra nele o fel. Jesus! Sua gente está morta. irredutível. Uma parede se encosta em nós. o tempo aqui passou. e uma tecla põe-se a bater. docilidade. afago. e aranhas. ao cego. seres de asa e pus.

por baixo da zona sensível. profunda confidencia. irritação de não ser mais um piano. afinadores. Ora. experimento de jovens. ante o poético sentido da palavra. As coisas plácidas e confiantes. brilho fácil de rapsódia. o liso. golpes de ar. o reumatismo de noites imperiais. mas e esse piano? Está no fundo da casa. Confio em cada tábua. modo de dobrar o Unho. madeira bichada. animais. busto e humour. antipatias e inclinações infalíveis: uma família. cartas. Uma dolência rígida. bem sei. gosto de usar este raio de sol e não aquele.Mas a casa é um amor. jeito de olhar. como explicar? Pessoas. o tapete. mas faltam-lhe palavras. a coleção de retratos. viagens. Uma cadeira se renova ao meu desejo. muito por baixo do sangue. sucede que um incubo perturba nossa modesta. Uma família. A lã. certo copo e não outro. outra vez mudanças. costumes. A casa vive. objetos. e tudo que deixam mudanças. É irmão do corvo. tudo que é morte de piano e o faz sinistro. Que paz nos móveis. . meio grotesco também. feitio de cabeça. nada piedoso. também alguns livros. inadaptável.

tamanho peso de angústia e você. girafa.Está por cima do teto. Cortaremos o piano em mil fragmentos de unha? Sepultaremos o piano no jardim? Como Aníbal o jogaremos ao mar? Piano. mais alto que a cólera. nesta sala onde ainda há pouco falávamos. sem música na fria mansão.) . a astúcia. Sempre imperará? (É um antigo piano. deixa de amofinar! No mundo. vingativo. mais alto que a palmeira. tentando. um resto de cova. Resta-nos a esperança (como na insônia temos a de amanhecer) que um dia se mude. escarninho. que nos abandone e deserto fique esse lugar de sombra onde hoje impera. piano. Um pedaço de velha. meu Deus. pesado. mais alto que o terraço. sem noticia. clandestino. hoje sem dedos. sem queixo. foi de alguma dona. o alarme.

pare um momento. . Sinta frio. cansaço. para o oficio e a posse. Ainda se mova. E veja alguns sítios antigos. outros inéditos. Mas não coma já. calor.OS ÚLTIMOS DIAS Que a terra há de comer. continue.

Descubra em seu movimento forças não sabidas. prazer de vôo. . que pegue. O tempo de conhecer mais algumas pessoas. de aprender como vivem. certas cores: como se desfazem. de ajudá-las. Irredutível prazer dos olhos. ficar inerte. e desfazendo-se numa sombra maior. sobre papel deixar que a mão deslize. a sombra da árvore. O prazer de estender-se. que imagine e grave. Prazer de ouvir música. alongando-se com o sol. Prazer de balanço. diferentes a uma luz nova. o de enrolar-se. parada um instante. Que ainda sinta cheiro de fruta. que lembre. de terra na chuva. de estrada sem trânsito. De ver passar este conto: o vento balançando a folha. certos objetos. como aderem. contatos.

não importa o mármore. e cada homem é diferente. . e somos todos iguais. tão morna. Em minha falta de recursos para dominar o fim. mas não seja logo. Tem na certa um cheiro. No mesmo ventre o escuro inicial. E cada instante é diferente. tamanho de criança. prolonga para trás meu sopro. que se produzirá ao infinito. e cada folha é uma diferente.E de olhar esta folha. e a raiz da vida ficou mais forte e os naufrágios não cortaram essa ligação subterrânea entre homens e coisas: que os objetos continuam. Um desenho. outras solidões derrubem ou acalentem meu peito. Tão seca. completa-me. que somos todos irmãos. insisto. Na queda retê-la. entretanto me sinta grande. particular entre mil. na mesma terra o silêncio global. Antes dele outros silêncios penetrem. ficar parado em frente desta estátua: é um torso de mil anos. igual a mim na calma. tamanho de [torre. se cai. e a trepidação incessante não desfigurou o rosto dos homens. O tempo de saber que alguns erros caíram. recebe minha visita.

fraco pavio. E a tristeza de deixar os irmãos me faça desejar partida menos imediata. mas venha também na noite de chuva. que lute lealmente com sua presa. mas tudo é nosso irmão. no amor. noite em seguida a noite. que ela não possa chegar até aquele ponto do homem onde tudo se explica. no ódio. tudo. e reconheça o dia entrando em explosões de confiança. mas que essa luz basta. faísca. esquecimento. Ah. na incompreensão e no sublime cotidiano. pequena ampola fulgurante. lanterna. A doença não me intimide. mas do fato de alguém resistir-lhe. a vida é bastante. podeis rir também. outra discute. irmãos. Uma parte de mim sofre. não da dissolução. fogo na mata. como posso ser triste? A tristeza não me liquide. estrelas reunidas. sou todas as comunicações. pois somos todos irmãos. sol no mar. . que o tempo é boa medida. outra viaja. de outros virem depois. no bar fechando-se. facho. amor.tamanho da hora. uma última trabalha. vivamos o tempo. que se vai acumulando século após século e [causa vertigem tamanho de qualquer João. O tempo de despedir-me e contar que não espero outra luz além da que nos envolveu dia após dia. outra pede amor. ao fim da batalha perdida. na estrada lamacenta. de todos sermos irmãos.

Será rígida. submissão ou cálculo. adeus. mas não a quero negando as outras horas nem as palavras ditas antes com voz firme. E a matéria se veja acabar: adeus. . lívido suor de remorso. o diamante dos sábados. sature a sala. objetos de uso pessoal. e não outro. minha presença. composição que um dia se chamou Carlos Drummond de Andrade. um elemento de dor rói sua base. dedos torcidos. [idéia de justiça. a luz de quinta. deserta. vida aos outros legada. Bem sei.Este tempo. os atos que atrás de si deixaram situações. E todo o mel dos domingos se tire. minha sombra no muro. meus sulcos no travesseiro. e a sombra da cama calcária não a encha de súplicas. sinistra. no tempo. essa parte secreta de cada um de nós. a rosa de terça. nos pratos se insinue: com sórdido ou potente [clarão. manchada de medo. os pensamentos maduramente pensados. nos bolsos. a mágica de horas matinais. meu olhar e minhas veias grossas. sinal meu no rosto. olhos míopes. E que a hora esperada não seja vil. que nós mesmos elegemos para nossa pessoal despesa. Que o riso sem boca não a aterrorize. revolta e sono. Adeus. banhe os livros.

feito da impureza do minuto e de vozes em febre. confundidas.MARIO DE ANDRADE DESCE AOS INFERNOS I Daqui a vinte anos farei teu poema e te cantarei com tal suspiro que as flores pasmarão. no chão. e as abelhas. ziguezagueante. esvairão seu mel. . rouco. Daqui a vinte anos: poderei tanto esperar o preço da poesia? É preciso tirar da boca urgente o canto rápido. que golpeiam esta viola desatinada no chão.

cabia numa só carta. entre cacos. e já um poste depois . Porque é outro amigo. Outro sorriso. A explosiva descoberta ainda me atordoa. Arranco os olhos e [vejo. mas preciso. preciso. mas preciso tocar pele de homem. ver a cor. Furo as paredes e vejo. que goteja. me aproximo. que não estou sozinho. esperava-me na esquina. é outro amigo. Estou escuro. Estou cego e vejo. Minucioso. preciso. Através do mar sangüíneo vejo. preciso aceitar e compor. esqueço que sou um poeta. conhecer um novo amigo e nele me derramar. minhas medidas partiram-se. São outros dentes. Não quero. pulverizado. ver o silêncio. avaliar o frio. III O meu amigo era tão de tal modo extraordinário. estou vazio. Rastejando. estou rigorosamente noturno. Outra palavra. implacável.II No chão me deito à maneira dos desesperados. sereno.

quadros. na serrania mineira. nas regiões inventadas.. nas trevas. tinha coletes de música. um segredo comunica-se. a gente de pé-no-chão. IV A rosa do povo despetala-se. Mas há um ouvido mais fino que escuta. Portinari aqui esteve. mas certos. uma esperança embora frágil. inelutáveis. um chamado. ou ainda conserva o pudor da alva? É um anúncio. anunciou. terra de João invencível. e uma rosa se abre. entre cantares de amigo pairava na renda fina dos Sete Saltos. os cantadores. e quadros. no mangue. países a que aspiramos. o poeta. no seringal. um peito de artista [que incha. a rosa do povo aberta. nos mais diversos brasis. Aqui Cézanne e Picasso. os primitivos.. fantásticos.ia descendo o Amazonas. o poeta anunciou. quem sabe. Mais perto. . e para além dos brasis. Mais perto. e uma lâmpada. deixou sua garra. [pranto infantil no berço? Talvez apenas um ai de seresta.

uma [nuvem pejada. navio de São Paulo no céu nacional vai colhendo amigos de Minas e Rio Grande do Sul. Mas como o chão sabe a forma dos pés e é liso e beija! Todas as brisas da saudade balançam a casa. gente de Pernambuco e Pará. Silêncio em Lopes Chaves. embala. esta é a Rua Lopes Chaves. Telefones retinem. pastoreia. calma nos vidros.) Súbito a barba deixou de crescer. todas as confidencias a casa recolhe. os fetiches. Aqui tudo se acumulou. as religiões.. paz nas escadas. Casas ancoradas saúdam-na fraternas: Vai.. amiga. Daqui vinha a palavra esperada na dúvida e no cacto. Aqui nunca pisei. amiga! Não te vás. (Um homem se dá no Brasil mas conserva-se intato. Para aqui muitas vezes voou meu pensamento..a voz que vem do Nordeste. todos os apertos de mão. 546. empurram a casa. . outrora 108. Telegramas irrompem.. Os que entram e os que saem se cruzam na imensidão [dos corredores. uma notícia postal. preso a uma casa e dócil a seus companheiros esparsos. os bichos. e ela viaja como um lento pássaro.

Muitos procuram São Paulo no ar e se concentram. aura secreta na respiração da cidade. penetra os túneis seculares onde o amigo marcou seus traços funerários. um rictus o desejo de não conversar. algo nos jornais. um véu baixando. Mas tua sombra robusta desprende-se e avança.Agora percebo que estamos amputados e frios. . não sou um homem destroçado vagueando na praia. É sobretudo uma pausa oca e além de todo vinagre. Não tenho voz de queixa pessoal. somente um retrato. o dia estragado como uma fruta. desliza na água salobra. É um retrato. e ficam tuas palavras (superamos a morte. na lembrança. e a palma triunfa) tuas palavras carbúnculo e carinhosos diamantes. Desce o rio.

de ritmos elementares. não dos maiores. vindo da cidadezinha do interior onde nem sempre se usa gravatas mas todos são extremamente [polidos e a opressão é detestada. girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver como na poética e essencial atmosfera dos sonhos lúcidos. se bem que o heroísmo se banhe em [ironia. .CANTO AO HOMEM DO POVO CHARLIE CHAPLIN I Era preciso que um poeta brasileiro. porém dos mais expostos à galhofa. era preciso que esse pequeno cantor teimoso.

prolongam o amor como um segredo dito no ouvido de um homem do povo [caído na rua.era preciso que um antigo rapaz de vinte anos. sapatos compridos. e entre tantas palavras que como carros percorrem as ruas. sobcolor de poema. Barbeiro. Não é a saudação dos devotos nem dos partidários que te ofereço. nas ruas tortas com tabuletas: Fábrica. e costumas dormir enquanto os veementes inauguram estátua. homem maduro. mas a de homens comuns. nossa gente se parece com qualquer gente do mundo — inclusive os pequenos judeus de bengalinha e chapéu-coco. mas zombam e vivem nos filmes. como em tudo mais. só as mais humildes. viesse recompô-los e. preso à tua pantomima por filamentos de ternura e riso [dispersos no tempo. Para dizer-te como os brasileiros te amam e que nisso. te visitasse para dizer-te algumas coisas. [Polícia. e vencem a fome. olhos [melancólicos. acalanto burguês. iludem a brutalidade. eles não existem. numa cidade comum. não te envaidece. de xingamento ou beijo. nem faço muita questão da matéria de meu canto ora em [torno de ti como um ramo de flores absurdas mandado por via postal ao [inventor dos jardins. vagabundos que o mundo repeliu. te penetram. Bem sei que o discurso. .

Falam por mim os que estavam sujos de tristeza e feroz [desgosto de tudo, que entraram no cinema com a aflição de ratos fugindo da vida, são duras horas de anestesia, ouçamos um pouco de música, visitemos no escuro as imagens - e te descobriram e salvaram-se. Falam por mim os abandonados da justiça, os simples de [coração, os párias, os falidos, os mutilados, os deficientes, os [recalcados, os oprimidos, os solitários, os indecisos, os líricos, os [cismaremos, os irresponsáveis, os pueris, os caridosos, os loucos e os [patéticos. E falam as flores que tanto amas quando pisadas, falam os tocos de vela, que comes na extrema penúria, falam [a mesa, os botões, os instrumentos do oficio e as mil coisas aparentemente [fechadas, cada troço, cada objeto do sótão, quanto mais obscuros mais [falam.

II A noite banha tua roupa. Mal a disfarças no colete mosqueado, no gelado peitilho de baile, de um impossível baile sem orquídeas.

És condenado ao negro. Tuas calças confundem-se com a treva. Teus sapatos inchados, no escuro do beco, são cogumelos noturnos. A quase cartola, sol negro, cobre tudo isto, sem raios. Assim, noturno cidadão de uma república enlutada, surges a nossos olhos pessimistas, que te inspecionam e meditam: Eis o tenebroso, o viúvo, o inconsolado, o corvo, o nunca-mais, o chegado muito tarde a um mundo muito velho. E a lua pousa em teu rosto. Branco, de morte caiado, que sepulcros evoca mas que hastes submarinas e álgidas e espelhos e lírios que o tirano decepou, e faces amortalhadas em farinha. O bigode negro cresce em ti como um aviso e logo se interrompe. É negro, curto, espesso. O rosto branco, de lunar matéria, face cortada em lençol, risco na parede, caderno de infância, apenas imagem entretanto os olhos são profundos e a boca vem de longe, sozinha, experiente, calada vem a boca sorrir, aurora, para todos. E já não sentimos a noite, e a morte nos evita, e diminuímos como se ao contato de tua bengala mágica voltássemos ao pais secreto onde dormem meninos. Já não é o escritório de mil fichas, nem a garagem, a universidade, o alarme, é realmente a rua abolida, lojas repletas,

e vamos contigo arrebentar vidraças, e vamos jogar o guarda no chão, e na pessoa humana vamos redescobrir aquele lugar — cuidado! — que atrai os pontapés: sentenças de uma justiça não oficial.

III Cheio de sugestões alimentícias, matas a fome dos que não foram chamados à ceia celeste ou industrial. Há ossos, há pudins de gelatina e cereja e chocolate e nuvens nas dobras de teu casaco. Estão guardados para uma criança ou um cão. Pois bem conheces a importância da comida, o gosto da carne, o cheiro da sopa, a maciez amarela da batata, e sabes a arte sutil de transformar em macarrão o humilde cordão de teus sapatos. Mais uma vez jantaste: a vida é boa. Cabe um cigarro: e o tiras da lata de sardinhas. Não há muitos jantares no mundo, já sabias, e os mais belos frangos são protegidos em pratos chineses por vidros espessos. Há sempre o vidro, e não se quebra, há o aço, o amianto, a lei, há milícias inteiras protegendo o frango, e há uma fome que vem do Canadá, um vento, uma voz glacial, um sopro de inverno, uma folha baila indecisa e pousa em teu ombro: mensagem pálida que mal decifras. Entre o frango e a fome,

o cristal infrangível. Entre a mão e a fome, os valos da lei, as léguas. Então te transformas tu mesmo no grande frango assado que flutua sobre todas as fomes, no ar; frango de ouro e chama, comida geral para o dia geral, que tarda.

IV O próprio ano novo tarda. E com ele as amadas. No festim solitário teus dons se aguçam. És espiritual e dançarino e fluido, mas ninguém virá aqui saber como amas com fervor de diamante e delicadeza de alva, como, por tua mão, a cabana se faz lua. Mundo de neve e sal, de gramofones roucos urrando longe o gozo de que não participas. Mundo fechado, que aprisiona as amadas e todo desejo, na noite, de comunicação. Teu palácio se esvai, lambe-te o sono, ninguém te quis, todos possuem, tudo buscaste dar, não te tomaram. Então caminhas no gelo e rondas o grito Mas não tens gula de festa, nem orgulho nem ferida nem raiva nem malícia. És o próprio ano-bom, que te deténs. A casa passa correndo, os copos voam, os corpos saltam rápido, as amadas te procuram na noite... e não te vêem, tu pequeno, tu simples, tu qualquer.

anjos desleais. maquinismos. convenções do branco. em álcool. gesto. em mundo assim pulverizado. telegramas em série. é teu amigo e lúcido repele tua riqueza. Ficaste apenas um operário comandado pela voz colérica do megafone. sem palavra. Recolho teus pedaços: ainda vibram. proibições. e ter braços enormes sobre as casas. V Uma cega te ama. A confusão é nossa. que não sabemos. a russo. a maranhense. de sopro e de inocência no fundo de cada um de nós. Os olhos abrem-se.Ser tão sozinho em meio a tantos ombros. franzino. de todos. auroras. lagarto mutilado. a negro: ser um só. sem filtro. arquejos poéticos acadêmicos. andar aos mil num corpo só. Não. azul e roxo. Mas. És parafuso. cofres redondos. e fábricas e fábricas e fábricas de lâmpadas. . que esquecemos o que há de água. não te ama. esgar. ó mitos que cultuamos. sem opala: há uma cidade em ti. ter um pé em Guerrero e outro no Texas. terrestres. falsos: flores pardas. Unidade estranha é a tua. falar assim a chinês. Colo teus pedaços. Um rico.

o amigo que desejaríamos reter na chuva. cheiras a peça desmontada: as molas unem-se. Estranho relojoeiro. no espelho. a estrada fugindo. mal retemos em ti o mesmo homem. aprendiz bombeiro caixeiro doceiro emigrante forçado maquinista noivo patinador soldado músico peregrino artista de circo marquês marinheiro carregador de piano apenas sempre entretanto tu mesmo. na memória e todavia perdemos. o incapaz de propriedade. . o pé errante. Penso no oficio a que te entregas. VI Já não penso em ti. o que não está de acordo e é meigo.E nós. que a cada passo nos cobrimos e nos despimos e nos mascaramos.

livros se animam. anotavas com lápis secreto a morte de mil. e tudo libertado se resolve numa efusão de amor sem paga. cimento. produtos de ar e lágrimas. e a esquina faça de ti outro homem. mas caprichoso. vagabundo entre dois horários. e sol. o pé insiste em levar-te pelo mundo. Há o trabalho em ti. das roupas riscadas. Foi bom que te calasses. bombas. no fiar. onde os amigos fazendo roda viajam pelo tempo. é o oficio que assim te põe no meio de nós todos. a boca sangrenta de mil. das cercas de arame. no cortar. e dele surgem artes não burguesas. os braços cruzados de mil. invectivas. das correntes. e a lógica te afaste de seus frios privilégios. . pedras. mas benigno. e ao compasso de Brahms fazes a barba neste salão desmemoriado no centro do mundo oprimido onde ao fim de tanto silêncio e oco te recobramos. Varres a rua. Não importa que o desejo de partir te roa. a mão pega a ferramenta: é uma navalha.o tempo anda. juntavas palavras duras. e trens e navios sem aço. quadros se conversam. indumentos que nos dão asa ou pétalas. mão sabida no bater. e riso. no rebocar. Meditavas na sombra das chaves. O oficio. És vidraceiro.

ditas de novo. árvore irritada. crispacão do ser humano. E as palavras subindo. entretanto salvas. meu e nosso amigo. aberta em ira justa e amor profundo. . teus sapatos e teu bigode [caminham numa estrada de pó e esperança. ó palavras desmoralizadas.E nada dizias. E um bolo. ó Carlito. contra a miséria e a [fúria dos ditadores. Dignidade da boca. Poder da voz humana inventando novos vocábulos e dando [sopro aos exaustos. um engulho formando-se.

DRUMMOND VIDA E OBRA .

Livraria José Olympio Editora. 1980 A paixão medida (Desenhos de Emeric Marcier. 1990. 1978. Novos poemas. Livraria José Olympio Editora. Escola de Belas-Artes. 1978 O marginal Clorindo Gato — Rio de Janeiro. Edições Hipocampo (incluído em Claro enigma). 1957 Ciclo — Recife. 1934 Brejo das almas — Belo Horizonte. Serviço de Documentação do MEC. Livraria José Olympio Editora. 1969 Reunião — Rio de Janeiro. 1977 Discurso de primavera e algumas sombras — Rio de Janeiro. 1948 Novos poemas — Publicada em Poesia até agora e em José & outros. 1952 Viola de bolso — Rio de Janeiro. 1955 A vida passada a limpo— Publicado em Poemas (e demais volumes de Poesia Reunida e em José & outros). Livraria José Olympio Editora. Viola de bolso II) — Rio de Janeiro. 1980 — Rio de Janeiro. 1968 Boitempo & A falta que ama — Rio de Janeiro. Viola de bolso novamente encordoada — Rio de Janeiro. Livraria José Olympio Editora.. Livraria José Olympio Editora. 2a ed. 1951 Claro enigma — Rio de Janeiro. 1942 José — Publicada em Poesias (1942) e em José & outros (1967). . Philobiblion (incluído em Viola de bolso novamente encordoada). Nova edição aumentada. Livraria José Olympio Editora (incluído. ed. em Nova reunião). O Gráfico Amador (incluído em A vida passada a limpo e em José & outros). aumentada. para bibliófilos) — Rio de Janeiro. edição de 643 exs. Edições Alumbramento.. Record. em seleção. 1940 Sentimento do mundo — Rio de Janeiro. Livraria José Olympio Editora. Os Amigos do Livro.. 1962 Lição de coisas — Rio de Janeiro. 1984. 1979 Esquecer para lembrar (Boitempo III) — Rio de Janeiro. Record. 1945 A rosa do povo — Rio de Janeiro. 1967 José & outros (Contendo José. 1973 As impurezas do branco — Rio de Janeiro. Livraria José Olympio Editora. Livraria José Olympio Editora. Record. 1968 Nudez— Recife. 1979. 1991. 1967 Versiprosa (Crônicas em verso) — Rio de Janeiro. 1955. 4 poemas. Irmãos Pongetti. Fazendeiro do ar. 3a ed. Edições Pindorama.. A vidapassada a limpo. 1967. Sabiá. Mindlin (incluído em A paixão medida). 1951 A mesa — Niterói. 3a ed. 2a ed.. 1978 — Rio de Janeiro. 1980.Bibliografia I — POESIA 1930 Alguma poesia — Belo Horizonte. 3a ed. Avenir (incluído em A paixão medida). Record. Record. Livraria José Olympio Editora. 1977 A visita (Fotos de Maureen Bisilliat) — São Paulo. 1973 Menino antigo (Boitempo II) — Rio de Janeiro. José E. 1954 Fazendeiro do ar — Publicado em Fazendeiro do ar & poesia até agora (e demais volumes de Poesia Reunida) e em José & outros. 1964 Viola de bolso II — Publicado em Obra completa (1964 com suplemento inédito) e em José & outros. 1955 Soneto da buquinagem — Rio de Janeiro. Livraria José Olympio Editora. 1994. 2a ed.

Algumas sombras) — co-edição com o INL-MEC. Livraria José Olympio Editora. Fazendeiro do ar. amores (Desenhos de Carlos Leão) — Rio de Janeiro. A vida passada a limpo. José). Brejo das almas. Novos poemas.. A rosa do povo. 1983 Nova reunião — Rio de Janeiro. seleção de Viola de bolso.. A paixão medida. Sésamo) — Rio de Janeiro.. Record. Record. Brejo das almas. Boitempo I. Sentimento do mundo. Novos poemas). Record. Record. Boitempo III.1982 — Rio de Janeiro. 1959 Poemas (Contendo: Alguma poesia. José. Claro enigma. A vida passada a limpo). 1988 Poesia errante — Rio de Janeiro. Fazendeiro do ar. Novos poemas. Antologias Poéticas 1956 50 poemas escolhidos pelo autor — Rio de Janeiro. Lição de coisas. Fazendeiro do ar. Boitempo II. 1948 Poesia até agora (Contendo: Alguma poesia. Sentimento do mundo. José. José. Brejo das almas. Tradução para o latim de Silva Bélkior — Rio de Janeiro. Salamandra. Edições de Poesia Reunida 1942 Poesias (Contendo: Alguma poesia. 1954 Fazendeiro do ar & poesia até agora (Contendo: Alguma poesia. 15a ed. com notas do Prof. Brejo das almas. 1955. Record. Record.desenhos de LuizTrimano. 1987 Boitempo I e Boitempo II — Rio de Janeiro. Claro enigma. A rosa do povo. Fazendeiro doar). A vida passada a limpo.2*ed. . Record. Livraria José Olympio Editora — 1993 — Rio de Janeiro. Lição de coisas). 1965 Antologia poética (Seleção e prefácio de Massaud Moisés) — Lisboa. 1978. Portugália Editora. Record. A rosa do povo. Claro enigma. Introdução de Antônio Houaiss (Contendo: Alguma poesia. 1989. A falta que ama. Brejo das almas. José. 1983 Nova reunião (19 livros de poesia) (Contendo: Alguma pões ia. As impurezas do branco. 1992 O amor natural — Rio de Janeiro. Record. 1962 Antologia poética — Rio de Janeiro. Sentimento do mundo. Livraria José Olympio Editora. 10a ed. 1984 Corpo — Rio de Janeiro. Editora do Autor. 5a ed. Versiprosa. Sentimento do mundo. Serviço de Documentação do MEC. 1985 Nova reunião — 2a edição. Sentimento do mundo. Novos poemas. Gilberto Mendonça Teles) — Rio de Janeiro. Livraria José Olympio Editora. Brejo das almas. 1985 História de dois amores — Rio de Janeiro. 1985.. Infantis 1983 O elefante (Coleção Abre-te. Editora Alumbramento. Novos poemas. 1985 Amar se aprende amando — Rio de Janeiro. 1971 Seleta em prosa e verso (Textos de CDA escolhidos por ele mesmo. 1969 Reunião (10 livros de poesia). 1982 Carmina drummondiana. Record. José. Sentimento do mundo. A rosa do povo. 1981 — Rio de Janeiro. Discurso de primavera. A rosa do povo. 1975 Amor. Claro enigma. 1981.

Record. Livraria José Olympio Editora. amendoeira (Crônicas) — Rio de Janeiro. 1967 Uma pedra no meio do caminho (Biografia de um poema. 1982 — Rio de Janeiro. revista. 1951 Contos de aprendiz — Rio de Janeiro. 1992. de Manuel Bandeira (Seleção e coordenação de textos por CDA) — Rio de Janeiro. 5a ed. Record. Record. Editora do Autor.. Record. 1985 O observador no escritório (Diário) — Rio de Janeiro. Livraria José Olympio Editora. 2a ed. 1972 O poder ultrajovem e mais 79 textos em prosa e verso — Rio de Janeiro. . Livraria José Olympio Editora. 1966 Andorinha. Livraria José Olympio Editora. 2a ed. Record. 1989 Auto-retrato e outras crônicas (Crônicas) — Rio de Janeiro. Livraria José Olympio Editora. 1975 — RJO de Janeiro. Americ-Edit. 1979. 1981. 1979 — Rio de Janeiro. 1978. 1985. aumentada. 1981 Contos plausíveis (Ilustrações de Irene Peixoto e Mareia Cabral) — Rio de Janeiro. Livraria José Olympio Editora. Record. 6a ed. Livraria José Olympio Editora. 4a ed. Record. Livraria José Olympio Editora. Organização Simões. Livraria José Olympio Editora. 2a ed... Record. 13a ed. III — CONJUNTO DE OBRA IV — ANTOLOGIAS DIVERSAS 1965 Rio de Janeiro em prosa & verso (Em colaboração com Manuel Bandeira) — Rio de Janeiro. 8a ed. 1957 Fala. Com estudo de Arnaldo Saraiva) — Rio de Janeiro. Livraria José Olympio Editora. Record. Record. Livraria José Olympio Editora. 1974 De notícias & não-notícias faz-se a crônica (Crônicas) —Rio de Janeiro.. Record. 1984. 1987 Moça deitada na grama (Crônicas) — Rio de Janeiro. Aguilar. Record. 1987. 1985. 1979.. Record. 1977 Os dias lindos (Crônicas) — Rio de Janeiro.. 1978 70 historinhas — Rio de Janeiro. Livraria José Olympio Editora. 1952 Passeios na ilha (Artigos e crônicas) — Rio de Janeiro. 1964 Obra completa (com estudo de Emanuel de Moraes) — Rio de Janeiro.II — PROSA 1944 Confissões de Minas (Artigos e crônicas) — Rio de Janeiro.. 1986 Tempo vida poesia — Rio de Janeiro. 1976. Editora JB. 1982 — Rio de Janeiro. Livraria José Olympio Editora. com estudo da Profa Angela Vaz Leão. 1984 Boca de luar — Rio de Janeiro. Edições Horizonte (incluído em Contos de aprendiz). 1988 O avesso das coisas (Aforismos) — Rio de Janeiro. 1978.. 1958. 1985. 1994.. 1986. Editora Nova Aguilar. 1966 Cadeira de balanço (Crônicas) — Rio de Janeiro. Editora do Autor. Editora do Autor. 1970 Caminhos de João Brandão (Crônicas em prosa e verso) — Rio de Janeiro.. 1992. Record. 1987. 1978. 19a ed. 1945 O gerente (Conto) — Rio de Janeiro. andorinha (prosa). 2a ed. 2a ed. Livraria José Olympio Editora. 8a ed. 1962 A bolsa & a vida (Crônicas em prosa e verso) — Rio de Janeiro. Record. Record. 1967 Minas Gerais — RIO de Janeiro.

1981 O pipoqueiro da esquina (Texto de CDA. 7a ed. onde conhece Gustavo Capanema e Afonso Arinos de Melo Franco. Manuel Bandeira e Vinicius de Moraes) — Rio de Janeiro.. 1916. Editora do Autor. Heitor de Sousa e João Pinheiro Filho. Fenando Sabino. 1965 Vozes da cidade (Crônicas — com Cecillia Meirelles. nono filho do fazendeiro Carlos de Paula Andrade e de D. de seus primeiros trabalhos. publica o seu poema em prosa "Onda". 1919. que publica seus trabalhos. A&M. no Rio de Janeiro. Distribuidora Record. diretor do Diário de Minas. em Belo Horizonte. Aníbal Machado. 1963 Quadrante II (Crônicas — com os mesmos autores) — Rio de Janeiro. Mário Casassanta. 4a ed. que o estimula na inclinação literária. em provas parciais denominadas "certames literários". 1977 Para gostar de ler (com Fernando Sabino. 1979 O melhor da poesia brasileira I (com João Cabral de Mello Neto. 2. 1921. 1917. 1982 A lição do amigo (Cartas de Mário de Andrade a CDA. Paulo Mendes Campos e Rubem Braga — Vol. Inicia o curso primário no Grupo Escolar Dr. colabora na Aurora Colegial e alcança. por problemas de saúde. Genolino Amado. Aluno interno do Colégio Anchieta. Abgar Renault. desenhos de Ziraldo) — Rio de Janeiro. Trabalha alguns meses como caixeiro na casa comercial de Randolfo Martins da Costa. Em concurso da Novela Mineira. Cecilia Meirelles e Manuel Bandeira) — Rio de Janeiro. lhe oferece um corte de casimira. vols.1978-1979 — São Paulo. 1979 — Rio de Janeiro. em conseqüência de incidente com o professor de Português. e obtém a publicação. em retribuição a seus serviços. Maluh de Ouro Preto.V — OBRAS EM COLABORAÇÃO 1962 Quadrante (Crônicas — com Cecília Meireilles. Editora Ática. freqüentadores da Livraria Alves e do Café Estrela. 1989. 1910. Alberto Campos. . Livraria José Olympio Editora. Pedro Nava.. Mata Atlântica (Poesia de CDA. Aluno interno do Colégio Arnaldo. Torna-se amigo de Milton Campos. Fernando Sabino. Paulo Mendes Campos. Nasce em Itabira do Mato Dentro. em Itabira. 1920. da Companhia de Jesus. diretor de Para Todos e Ilustração Brasileira. para onde se transferiu sua família. Batista Santiago.. Dinah Silveira de Queiroz. 1984 Quatro vozes (com Rachel de Queiroz. anotadas pelo destinatário) — Rio de Janeiro. Aulas particulares com o professor Emílio Magalhães. 1922. — No número único do jornalzinho Maio. Fontana. 3 e 4. os postos de "coronel" e "general". Estado de Minas Gerais. Manuel Bandeira. Editora Sabiá. Manuel Bandeira e Rachel de Queiroz) — Rio de Janeiro. aparecido em Itabira. — Escreve a Álvaro Moreyra. Codecri. que. obtém o prêmio de 50 mil-réis pelo conto "Joaquim do Telhado". Julieta Augusta Drummond de Andrade. 1918. Interrompe os estudos no segundo período escolar. Diagraphis. Record. Henrique Pongetti. 1915. 1972 Don Quixote (Poemas-glosas a 21 desenhos de Cândido Portinari) — Rio de Janeiro. Carvalho Brito. seu irmão Altivo. 1). em Nova Friburgo. 1971 Elenco de cronistas modernos (com Clarice Lispector. na seção "Sociais". Livraria José Olympio Editora.. Record. Expulso do colégio ao findar o ano letivo. Rachel de Queiroz e Rubem Braga) — Rio de Janeiro. Emílio Moura. Cronologia da Vida e da Obra 1902. Manuel Bandeira. fotos de Luis Cláudio Màrigo) — Rio de Janeiro.. 1978 — Rio de Janeiro. da Congregação do Verbo Divino. Livraria José Olympio Editora. Gabriel Passos. Editora do Autor. João Alphonsus. Procura José Oswaldo de Araújo. Passa a residir em Belo Horizonte. Paulo Mendes Campos e Rubem Braga) — Rio de Janeiro.

a primeira a custear a publicação . — Villa-Lobos. de que tirará grande proveito para sua orientação literária. e não se adaptando à vida de fazendeiro. — Colabora no suplemente literário de A Manhã. como chefe de gabinete de Gustavo Capanema. 1937. Emílio Moura e Gregoriano Canedo. — Auxiliar de gabinete de Cristiano Machado. Redator de A Tribuna. 1925. volta para Belo Horizonte como redator e depois redator-chefe do Diário de Minas. lv)42. enviando-lhe recortes de artigos e manifestando cerimoniosamente sua admiração ao poeta. dirigido por Múcio Leão e mais tarde por 1 irge Lacerda. Minas Gerais. Casa-se com a senhorita Dolores Dutra de Morais. distribuindo entre amigos e escritores os 150 exemplares da tiragem. Responde pelo expediente da Diretoria-Geral de Educação e é membro da Comissão de Eficiência do Ministério da Educação.1923. — Conhece. Amigos oferecem-lhe um jantar comemorativo. compõe uma seresta sobre o poema "Cantiga de viúvo". quando seu amigo Gustavo Capanema substitui Cristiano Machado. redator. Publica na Revista de Antropofagia. — Com Martins de Almeida. Nasce e vive alguns instantes seu filho Carlos Flávio. mas. Diário da Tarde. sem mesa e cadeira para ocupar. 1935. fundai Revista. 1928. o poema "No meio do caminho". diário de vida curta. Presta exame vestibular e matricula-se na Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte. Publica Sentimento do mundo. O Estado de Minas. — Publica Brejo das almas (200 exemplares) pela cooperativa Os Amigos do Livro. Falece seu pai aos 70 anos. Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. no Grande Hotel de Belo Horizonte. — Acompanha Gustavo Capanema. que regressam de excursão às cidades históricas de Minas Gerais. — Transfere-se para o Rio. nos três meses em que este foi interventor federal em Minas. secretário do Interior. Sem interesse pela profissão de farmacêutico. que se torna pedra de escândalo literário. — Conclui o curso de Farmácia e é designado à última hora orador da turma. 1927. órgão modernista do qual saem três números. órgão oficial do estado. 1924. criado por Eduardo Frieiro. A edição é facilitada pela Imprensa Oficial do Estado. Mário de Andrade. de Andrade. no impedimento de um colega. Carta a Manuel Bandeira. Colabora na Revista Acadêmica. 1930. de Murilo Miranda. a seção "Conversa de Livraria". e inicia. como auxiliar de redação e. Deixa o Diário de Minas para trabalhar no Minas Gerais. na Editora José Olympio. 1926. 1931. ao irromper a Revolução de Outubro. passa a oficial de gabinete. Issinada por "O Observador Literário". sob a direção de Abílio Machado e José Maria Alkmim. sem conhecê-lo. longa correspondência com Mário de Andrade. por sugestão de Mário Casassanta torna-se auxiliar de redação da Revista do Ensino. é convidado por Francisco Campos a trabalhar na Secretaria de Educação. — Nasce sua filha Maria Julieta. F. Aparecimento de Poesias. em que é saudado por Milton Campos. — Por iniciativa de Alberto Campos. na mesma Secretaria. simultaneamente. de São Paulo. Volta às bancas de redação. Mantém na revista Euclides. pouco depois. algum tempo depois. 1941. 1933. leciona Geografia e Português no Ginásio Sul-Americano de Itabira. novo ministro da Educação e Saúde Pública. que transforma aquela paragem burocrática em centro de operações militares. — Por sugestão de seu amigo Rodrigo M. 1929. VubYicz Alguma poesia (500 exemplares). sob o selo imaginário de Edições Pindorama. Blaise Cendrars. 1940. 1934. de Simões dos Reis. mediante desconto na folha de vencimentos do funcionário.

— Acompanha o enterro de sua mãe. de Odylo Costa. em Itabira. — O "mercador de livros" Carlos Ribeiro faz publicar Soneto da buquinagem como presente aos amigos. do Círculo Independente de Críticos Teatrais. — Deixa a chefia do gabinete de Capanema. — A convite de Américo Facó. a série de palestras "Quase Memórias". — Colabora em Política e Letras. com os demais companheiros. É publicada a sua tradução de Thérése Desqueyroux. . — E levada à cena e publicada a sua tradução de Dona Rosita Ia soltera. juntamente com Pedro Mota Lima. — Aparece a sua tradução de Les Paysans. a convite de Luís Carlos Prestes. de Descourtilz. e em companhia de Gastão Cruls e Prudente de Moraes Neto. composto sobre o seu poema "Viagem na família". na Divisão de Estudos e Tombamento. 1952. Publica Fazendeiro do ar & poesia até agora. — Realiza na Rádio Ministério da Educação. 1959. 1954. Carlos Manuel. 1957. de Garcia Lorca. Publica Confissões de Minas. Afasta-se do jornal. então fundado. desliga-se da sociedade. sob o título Uma gota de veneno. — Participa do movimento pela escolha de uma diretoria apolítica na Associação Brasileira de Escritores. de Balzac. pela impossibilidade de entendimento com o grupo esquerdista. ao ser estabilizada sua situação de funcionário da DPHAN. de Andrade chama-o para trabalhar na Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. 1956. de François Mauriac. 1949. É publicada a sua tradução de Les Liaisons Dangereuses. pela qual recebe o Prêmio Padre Ventura. 1960. 1958. é executado o Poema de Itabira. Publicai rosa do povo e O gerente. 1945. antigo DIP 1946. Álvaro Moreyra. amendoeira e Ciclo. Tribuna Popular. Publica Claro Enigma. Publica 50 Poemas escolhidos pelo autor. — Vai a Buenos Aires ao nascer o seu neto Luis Mauricio. — Rodrigo M. 1948. Publica Viola de bolso novamente encordoada. onde mais tarde se tornará chefe da Seção de História. Publica Poemas. trabalha na frustrada remodelação do Departamento Nacional de Informações. 1950. Exonera-se do cargo de redator do Minas Gerais. de Proust. — Aparece a sua tradução àeAlbertine Disparue. sem qualquer atrito com este. 1953. 1951. em diálogo com Lya Cavalcanti. — Sua filha Maria Julieta casa-se com o escritor e advogado argentino Manuel Grana Etcheverry e passa a residir em Buenos Aires. por iniciativa de Álvaro Lins. Publica-se em Buenos Aires pequena seleção de seus poemas. Filho. A Biblioteca Nacional publica a sua tradução de Oiseaux-Mouches Ormthorynques du Brèsil. 1947. e. — Aparece em Madri o volume Poemas. Contos de aprendiz eA mesa. Aydano do Couto Ferraz e Dalcídio Jurandir. Volta a escrever no Minas Gerais. Recebe da Sociedade Felipe d'Oliveira o Prêmio de Conjunto de Obra. de Choderlos de Laclos. meses depois. à hora em que. 1943. — Colabora no suplemento literário do Correio da Manhã e na Folha Carioca. mantida até 1969. figura como diretor do^ diário comunista.de seus livros. de Villa-Lobos. por discordar de sua orientação. Vitoriosa a chapa de que fazia parte. 1944. Publica Passeios na ilha e Viola de bolso.F. 1955. — Inicia no Correio da Manhã a série de crônicas "Imagens". na coleção Poetas dei siglo veinte. Publica Fala. ou La Fugitive. no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Publica Poesia até agora. — Aparece em Buenos Aires o volume Dos poemas. Vai a Buenos Aires ao nascer seu primeiro neto.

instituído por Murilo Miranda. de Knut Hamsun. 1972. Publica Caminhos de João Brandão. — Colabora em Pulso. — Aparecem as traduções de LOiseau Bleu. Discurso de primavera e Os dias lindos. Deixa o Correio da Manhã e passa a colaborar no Jornal do Brasil. — Publica Reunião (10 livros de poesia num volume). Publicação de Antologia poética (Portugal). — Falece seu irmão Altivo. — Recebe os prêmios Fernando Chinaglia. pela Editora Nova Aguilar. é nomeado membro da Comissão de Literatura do Conselho Nacional de Cultura. 1975. 1968. In the middle ofthe road (Estados Unidos). Terra & Alma). Publica Poesia eprosa. em edição Aguilar. Publica Amor. 1965. instituído por Murilo Miranda. Recebe o Prêmio de Poesia da Associação Paulista de Críticos Literários. na Rádio Roquette Pinto. 1979. 1978. Publica O poder ultrajovem. que o Tablado leva à cena. de poesia. — Recebe o Prêmio Nacional Walmap de Literatura e recusa. — O Jornal do Brasil (Rio). na Rua Joaquim Nabuco. 81. Publicação de A paixão medida (Edições Alumbramento). Aparece a sua tradução de Sult (Fome). na Rádio Ministério da Educação. Passa a residir em apartamento. Publica Contos plausíveis (edição não-comercial) e O pipoqueiro da esquina (com . Publicação de Cadeira de balanço e de Natten och Rosen (Suécia).— Colabora em Mundo Ilustrado. No Brasil: Rio de Janeiro em prosa & verso. Publica Seleta em prosa e verso. 1961. de jornalismo. 1981. em Buenos Aires. por motivo de consciência. após 35 anos de serviço público. La bolsa y Ia vida (Buenos Aires) e Réunion (Paris). recebendo carta de louvor do ministro da Educação Oliveira Brito. 1963. — Aposenta-se como Chefe de Seção da DPHAN. e inicia o programa Cadeira de Balanço. do PEN Clube do Brasil. em colaboração com Manuel Bandeira. Publica Lição de coisas. e Les Fourberies. 1970. 1974. vasto mundo (Buenos Aires) e Fyzika Strachu (Praga). — Publica 70 historinhas e O marginal Clorindo Gato. Publica Versiprosajosé & outros. da Rádio Ministério da Educação. O Estado de S. 1964. 1967. 1973. Recebe os prêmios Estácio de Sá. A Livraria José Olympio Editora publica a 2a edição (corrigida e aumentada) de Discurso de primavera e Algumas sombras. e Luísa Cláudio de Souza. 1980. de Maeterlinck. — Por ato do presidente Jânio Quadros. Minas Gerais (Brasil. o Prêmio Brasília de Literatura. recebe novamente o Prêmio Padre Ventura. 1971. por esta segunda. Aparecimento de Obra Completa. Menino antigo. Colabora no programa Quadrante. 1977. — Edição búlgara de Sentimento do mundo (antologia). da Fundação Cultural do Distrito Federal. 5a edição revista e atualizada. pelo livro Lição de coisas. O Estado de Minas (Belo Horizonte) e O Correio do Povo (Porto Alegre) publicam suplementos comemorativos do 70° aniversário de seu nascimento. — Demolida a casa onde viveu vinte e um anos. amores (Edições Alumbramento). — Colabora no programa Vozes da Cidade. de Scapin. En RostatFolket (Suécia). Publica As impurezas do branco. 1966. The minas sign (EUA) e Poemas (Holanda). 1962. Umapedra no meio do caminho. Antologia poética. da União Brasileira de Escritores. Publica Esquecer para lembrar. — Edição de Poemas em Cuba. A bolsa & a vida. Mundo. — Edições argentinas: Amar-amargo e El poder ultrajoven. Publica Boitempo & A falta que ama. 1969. Publicai visita. mas afasta-se do órgão nas primeiras reuniões. Poesie (Alemanha). Paulo. — Nascimento de seu neto Pedro Augusto. e Morgado Mateus (Portugal).

Publicai lição do amigo.org. vítima de câncer. pela Editora Record. pela escola de samba carioca Estação Primeira de Mangueira. Poesia errante (1988). falece D. na França. Completa 80 anos. 1988. pela Giulio Einaudi Editore./ibase. No dia 2 de julho. 1996. São realizadas exposições comemorativas na Biblioteca Nacional e na Casa de Rui Barbosa. a vida inteira. Lançamento comercial de Contos plausíveis. Comemorados os 60 anos da publicação do livro "Alguma Poesia"cm homenagem no Centro Cultural Banco do Brasil. organizada e publicada por Edições Alumbramento com o título Bandeira. 12 dias depois. 1993. Prêmio Jabuti pelo livro "Farewell". Publicados na Itália os livros "Un chiaro enigma"pe\z Lusitânia Libri e "Sentimento. Edição inglesa de The minus sign. sinal estranho (edição de arte). publicado pela Fundação Raimundo Ottoni de Castro Maya.Ziraldo). 1987. aos 94 anos. História de dois amores (infantil) eAmor. viúva do poeta. Fica internado durante 14 dias no hospital com insuficiência cardíaca. da antologia "Poésie pela Editora Gallimard. Drummond". e "Álbum para Maria Julieta" pela Edições Alumbramento. Prêmio Jabuti de Poesia pelo livro "O amor natural". com o samba-enredo O reino das palavras. Publicação de "O amor natural". 1992. No dia 5 de agosto morre sua filha Maria Julieta. falece o poeta.htm) . 1982. Moça deitada na grama. 1989. Lançamento da home page "Carlos Drummond de Andrade—Alguma Poesia" na Internet. 1990. CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE ALGUMA POESIA (http://www. Cervantes. Assina contrato com a Editora Record após 41 anos na José Olympio. 1983. Dolores Morais Drummond de Andrade. 1985. Reedição do livro "D. Publicação de "Drummond Frente e Verso". Declina do troféu Jucá Pato. O observador no escritório. campeã do carnaval de 87. O amor natural (ainda publicadas neste mesmo ano) e Farewell. Recebe o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Edição holandesa de "O amor natural". a 17 de agosto. Edição inglesa de Travelling in thefamily. Quixote. fotobiografia do autor. Publicação de Fran Oxen Tide (Suécia). 1986. 1997. Publica Amar se aprende amando. 1987. Portinari. Encerra sua carreira de cronista regular após 64 anos dedicados ao jornalismo.br/~ondaalta/carlos. É homenageado. deixando cinco obras inéditas: O avesso das coisas. Publicação mexicana de "Historia de dos amores" pela editora Libros dei Rincón. Publicação de "Arte em exposição" pela Editora Salamandra. dei mondo". Escreve 21 poemas para a edição do centenário de Manuel Bandeira. Edição mexicana de Poemas. Estréia na nova Editora com Boca de luar e Corpo. Publica Tempo vida poesia. 1984. 1994. Publica Nova reunião e O elefante (infantil). 1995. Publicação. Primeiro prêmio para a home page "Carlos Drummond de Andrade—Alguma Poesia” no concurso WWW Brasil — Best 95. . publicado pela AP Uitgeverij Arbeiderspers.

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