UMA “GÊNESE” DO VIOLINO NO BRASIL: A ESCOLA FRANCO-BELGA E O

DESENVOLVIMENTO DO VIOLINO COMO INSTRUMENTO AUTÔNOMO

Camila Frésca
ECA – USP / camilavf@terra.com.br

Resumo O presente texto é um relato do atual estágio de nossa pesquisa de doutorado, que pretende mostrar que o desenvolvimento do violino como instrumento autônomo no Brasil se dá concomitantemente à inserção dos ensinamentos da escola franco-belga de violino no país, a partir de meados do século XIX. Entre esse período e as primeiras décadas do século XX aparecem as primeiras obras nas quais o violino é tratado com destaque, como sonatas para violino e piano, concertos para violino e ainda peças solo para o instrumento. Palavras-chave: violino, música brasileira, escola franco-belga A violin genre in Brazil: the Franco-Belgian school and the development of the violin as an autonomous instrument Abstract The text is a report of the present stage of a doctoral research, which aims to show that the development of the violin as an autonomous instrument in Brazil occurs at the same time of the insertion of Franco-Belgian school of violin in the country, from the mid 19th century. In the late 19th and early 20th century, appear in Brazil the first works in which the violin is treated prominently, as sonatas for violin and piano, violin concertos and solo violin pieces. Keywords: violin, Brazilian music, Franco-Belgian school

1. Introdução: presença do violino na música brasileira Desde século XVIII existem informações concretas da presença do violino no Brasil, tanto no Nordeste como, sobretudo, em Minas Gerais, que conheceu um surto de expansão econômica derivado da exploração de jazidas de pedras preciosas. Este ciclo de prosperidade econômica foi seguido por um florescimento cultural e, no campo musical, Minas Gerais setecentista foi palco de uma das maiores aglutinações de músicos jamais vista em toda América Latina colonial. Não só eram muitos como também de alto gabarito, conforme atestam os registros de viajantes europeus que, passando pela região durante o século XVIII, ficaram espantados e encantados com o talento dos artistas e a qualidade da música que ouviram. A atividade musical englobava tanto a música composta na Europa como a escrita pelos músicos da região. O repertório era predominantemente religioso, mas havia também música em alguns atos públicos e nas casas das famílias mais abastadas, além da música militar.

como Henrique Alves de Mesquita. despendendo todos os esforços para que ela se torne similar à congênere lisboeta. D. Francisco Braga e Carlos Gomes. que passou a ser praticado no Rio de Janeiro após a chegada da corte. com a fundação do Conservatório de Música. Mas tem uma importância histórica para a música brasileira por ser o autor dos Duetos concertantes para violino (CASTAGNA. atuando como violinista e professor. A obra reflete também um novo estilo musical. músicos experientes davam aulas particulares aos meninos que começavam a se interessar pela arte.Certamente que o violino estava presente em grande parte dessas execuções. . Sua importância para a música brasileira reside no fato dele ter publicado em Milão. em 1926. O violinista italiano Francesco Ignácio Ansaldi foi o primeiro violino da Capela Real a partir de 1810 e teve como um de seus alunos Gabriel Fernandes da Trindade (1800-1854). bem como o dos demais instrumentos. em pequenos grupos de câmara. Além de violinista. era tradicionalmente transmitido de uma geração a outra. como instrumento acompanhador. desde 1844 violinista da Capela Real. É também a partir de meados do século XIX que o ensino formal de música é iniciado no país. o livro Storia della musica nel brasile – dai tempi coloniali sino ai nostri giorni. desloca-se para o Rio de Janeiro. Rivero era. numa relação mestre/aprendiz que se dava fora de instituições. Trindade foi um destacado autor de modinhas. em 1889. O centro das atividades musicais. Trata-se de um registro importantíssimo das atividades musicais do país. Seu aprendizado. Entre os diversos alunos que passaram pelo Conservatório destacam-se alguns dos mais importantes músicos brasileiros do século XIX. Com enorme apreço pela música. Um de seus alunos foi Vincenzo Cernicchiaro (SALLES. Como era violinista. cortesão. Trata-se dos mais antigos exemplares de música de câmara de autor brasileiro – além da obra mais antiga para violino “solista”. principalmente do século XIX. Assim. e lecionou violino até sua morte. músico italiano que viveu por muitos anos no Rio de Janeiro. 1986). Este panorama começa a se modificar com a instalação da corte portuguesa no Brasil em 1808. já que até meados do século XIX não existia no país um estudo regularizado de música. O primeiro professor de violino da instituição foi o argentino Demétrio Rivero. João VI logo cria a Capela Real. 2007). Cernicchiaro dedicou atenção especial a essa categoria e portanto o livro é uma fonte importante para nossa pesquisa. até então localizado em Minas Gerais.

Rode e Kreutzer lançaram um método de violino em 1802 que incorporou os mais modernos recursos técnicos do instrumento. portanto. o destino preferido dos instrumentistas era Paris e alguns centros musicais da Itália. Isso se intensifica durante o século XIX e. Baillot. Influência da escola franco-belga no Brasil e as primeiras obras solistas para o violino O violino. A publicação sistematizou o estilo e a técnica violinística praticada no Conservatório e foi rapidamente difundida pela Europa. ela seria adotada pelo principal professor de violino da instituição. foram violinistas que estudaram diretamente em Bruxelas ou que reconheciam-se como pertencentes à tradição franco-belga que deram as mais significativas contribuições no campo da composição para o instrumento. Os três haviam tido como mentor o compositor e virtuose italiano Giovanni Battista Viotti (1755-1824). e já naquela época não era incomum que músicos brasileiros fossem se aprimorar na Europa. Juntos. dando início por sua vez ao que ficou conhecido como escola franco-belga. No entanto. sendo por isso considerado o pai da moderna escola francesa de violino. Charles-Auguste de Bériot (1802-1870).2. Vivendo na França entre 1782 e 1792. Viotti deu aulas e agrupou em torno de si um grupo de violinistas talentosos e idealistas que fundariam o Conservatório de Paris. e que originaria violinistas famosos como Henry Vieuxtemps e Eugène Ysaÿe (PAULINYI. O fato de terem sido pioneiros em alguns gêneros musicais teria algo a ver com sua ligação com a escola franco-belga? E o fato de terem absorvido essa tradição se refletiria em sua produção? . essa tendência vai progressivamente se modificando. No Real Conservatório de Bruxelas. Conservatórios: Rio de Janeiro. no caso do violino. e a Bélgica se torna um dos principais destinos dos violinistas brasileiros em busca de aperfeiçoamento nas últimas décadas do século XIX. Pierre Rode (1774-1830) e Rodolphe Kreutzer (17661831). Curiosamente. que teria um impacto definitivo na forma como o ensino de música era transmitido. 3. Paris e Bruxelas O Conservatório de Música. inicia suas atividades praticamente 50 anos após a fundação do Conservatório de Paris (em 1795). 2010). a área do violino ficou a cargo de notáveis instrumentistas-compositores: Pierre Baillot (1771-1842). era cultivado no Brasil desde a colonização. Nesta escola. sendo adotada em vários países. no Rio de Janeiro.

ao mesmo tempo em que crescia sua atividade como compositor. É muito provável que ele tenha começado a escrevê-las durante o seu primeiro período de estudos na Bélgica. 1996). não apenas inaugurando o gênero entre nós como também sendo. nem mesmo o Concerto nº 6. provavelmente. A abertura da obra foi apresentada em 1910 naquele país. poemas sinfônicos e a ópera Tiradentes. promissor prodígio do violino. Dois músicos que viveram na mesma época. apenas o Concerto nº 6 encontra-se atualmente localizado. permanecendo por muitos anos e retornando ao Brasil já no final da vida. o músico voltou ao Brasil e foi nomeado por D. Enquanto Macedo. para variadas formações e gêneros. No campo do violino. sob regência de Alberto Nepomuceno (NEPOMUCENO. como sonatas. Segundo informações (VALE. Macedo obteve uma bolsa do governo brasileiro para orquestrá-la na Bélgica. . regente e ao que tudo indica um dos maiores virtuoses brasileiros do violino no século XIX. acredita-se que Manuel Joaquim de Macedo tenha escrito oito concertos para o instrumento. o compositor brasileiro que mais escreveu concertos para violino e orquestra. A partir dessa época. Macedo chegou a tocar como spalla do Covent Garden. aproximadamente entre 1863 e 1871.Há dois compositores de formação violinística centrais nessa discussão. pode-se localizar o nascimento dos concertos para violino no Brasil na segunda metade do século XIX – não sabemos a data em que foram compostas as obras de Macedo. em redução para violino e piano (CARDOSO. que decidiu-se tardiamente pela música. para onde voltou em 1908. e acredita-se ainda que tenha se aperfeiçoado com Joseph Joachim e Charles de Bériot. quando sua atenção estava mais voltada para o violino e ele ainda atuava como intérprete. Destas obras. Manuel Joaquim de Macedo foi compositor. nunca tornou-se um compositor reconhecido e morreu pobre e esquecido. Após nove anos na Europa. Estudou no Real Conservatório de Bruxelas com Hubert Leonard e Henri Vieuxtemps. por indicação de Vieuxtemps. 2005). ambos nascidos no estado do Rio de Janeiro: Manuel Joaquim de Macedo (1847-1925) e Leopoldo Miguéz (1850-1902). em Londres. 1948). receberam sólida instrução musical mas tiveram destinos bem diferentes. Assim. fantasias. Deixou quase 300 obras (embora pouquíssimas estejam localizadas). Miguéz. Pedro II mestre da Capela Imperial. parece diminuir seu interesse pela performance. revelou-se uma das figuras mais importantes da música brasileira nas últimas décadas do século XIX.

aos sete. ao Rio Grande do Sul. tendo aulas de violino com Nicolau Medina Ribas. para Portugal. por aqueles que se ocuparam de Manuel Joaquim de Macedo. de autoria de Leopoldo Miguéz (CAVAZOTTI. Após dois anos na Europa. No Rio de Janeiro. 14 (não sabemos ainda se já no Brasil ou ainda na Europa). Ribas. “Paulina d'Ambrosio formou mais gerações de bons violinistas que qualquer outro professor do instrumento no Brasil . 1956). da mesma forma. “instalou-se em Bruxelas. Lembremos ainda que ambos os compositores se iniciaram na música pelo violino e escreveram obras importantes para o instrumento. vários dos professores do Instituto Nacional de Música estudaram naquela instituição. um dos principais professores de violino do Brasil na atualidade. 2001). Miguéz nasceu em Niterói em 1850 mas aos dois anos de idade mudou-se para a Espanha (país natal de seu pai) e. Miguéz retorna ao Brasil e escreve sua Sonata para violino e piano op. célebre compositor português pertencente a uma família de músicos. mas sim por sua atuação como intérpretes e professores) também beberam diretamente na fonte da escola franco-belga. Um deles foi Paulina d'Ambrosio (1890-1976). característica que todos os críticos de sua música notariam posteriormente. onde pode realizar o sonho de sua infância: estudar nessa cidade” (AZEVEDO. Retorna também profundamente influenciado pela obra de Wagner. Miguéz foi para a Europa (em 1882) aperfeiçoar-se e. Mais tarde. Para Paulo Bosisio. após uma passagem por Paris. Segundo Luiz Heitor Corrêa de Azevedo (AZEVEDO. certamente bastante influenciado pelos ensinamentos que acabara de absorver. o que acabou não acontecendo. dando aulas por mais de 40 anos. 1956). De Belém do Pará.É também na segunda metade do século XIX que é composta a primeira sonata brasileira para violino e piano. há notícias de violinistas que estiveram no Real Conservatório de Bruxelas. Gerações posteriores de violinistas brasileiros (que no entanto não se notabilizaram pela composição. Retornou ao Brasil em 1907 e logo voltou sua atenção para o ensino. porém não se caracterizaram como “compositores de violino”. em Bruxelas. A influência wagneriana foi apontada. que aos 15 anos foi para Bruxelas. mas ampliaram seu campo de atuação. Na cidade do Porto iniciou-se na música. por sua vez. interessando-se sobretudo pela formação orquestral. no norte do país. Miguéz tencionou ir para Bruxelas em 1863 para aperfeiçoar-se no violino. foi aluno de Charles de Bériot e violinista do Teatro La Monnaie. onde estudou com César Thompson. já vivendo no Brasil e quando finalmente conseguiu dedicar-se somente à música.

1996). o violinista Eugène Ysaÿe. Quanto à bibliografia sobre violino e violinistas.) implantando de forma definitiva a escola franco-belga no país”. Duas peças de compositores brasileiros serão confrontadas com outros representantes da escola franco-belga.. Um terceiro viés desta pesquisa tem sido a realização de entrevistas com alguns dos principais representantes do violino no Brasil. Uma parte importante dela apoia-se em fontes primárias como artigos de jornal. além de pesquisadores experientes. A coleta desse material vem sendo feita em arquivos de instituições públicas e privadas no Brasil e pretende se estender a arquivos internacionais. e a alternativa é recorrer a publicações estrangeiras. que ainda não foi analisado. (BOSISIO. 6 de Manoel Joaquim de Macedo será analisado à luz das principais características encontradas nos concertos da escola francesa e franco-belga. 4. O mesmo Bosísio. como definir de fato a importância da escola franco-belga na escrita de músicos brasileiros para o violino? A estratégia que queremos abordar – mas que ainda não foi colocada em prática – é a de analisar e comparar obras. em 1886. Ainda assim. uma de suas obras mais conhecidas e que foi composta sob influência dos ensinamentos da escola-franco belga – Franck escreveu a obra para dar de presente de casamento a seu amigo. Já a Sonata para violino de Leopoldo Miguéz será confrontada com a Sonata para violino e piano de César Franck..(. não é fácil encontrar material bibliográfico específico sobre a escola-franco belga de violino e só recentemente localizamos material relacionado ao assunto. em . que guardam na memória preciosas informações sobre épocas passadas. O Concerto para violino n. Há muitos dados biográficos dos compositores em questão que só poderão ser esclarecidos com a visita a arquivos internacionais. Mas. Alguns pesquisadores brasileiros. Estas iniciativas nos dão embasamento para desenvolver o texto em seus aspectos históricos. apontam semelhanças entre as duas obras. como o já citado Paulo Bosísio. sendo que a Sonata de Miguéz foi escrita dois anos antes (1884) do que a de Franck. documentos da época abordada e partituras. especialmente de Bruxelas e de seu conservatório. Desenvolvimento da pesquisa: metodologia Esta é uma pesquisa em andamento e que está se desenvolvendo de diversas maneiras. ela é extremamente escassa no Brasil.

questões conceituais precisam ser melhor trabalhadas. . até esta altura do projeto. a partir de meados do século XIX – parece ter fundamento. acreditamos que. Da mesma forma. a tese inicial – de que o desenvolvimento do violino como instrumento autônomo / solista no Brasil se dá concomitantemente à inserção dos ensinamentos da escola franco-belga de violino no país. Ainda assim. de outro. suas obras de fato inauguram os gêneros “concerto” e “sonata” para violino no país. afirmou ainda que a Sonata de Miguéz teria sido estreada em Bruxelas – fato ainda não averiguado. Conclusão Há ainda um longo caminho de pesquisa e análise para que as ideias e hipóteses levantadas até o momento possam ser averiguadas. as pesquisas em torno de Manoel Joaquim de Macedo e Leopoldo Miguéz têm confirmado sua ligação com a escola franco-belga e. De um lado.entrevista recente. 5.

2005. 1986. Rio de Janeiro. André. Flausino Vale e Marcos Salles: influências da escola francobelga em obras brasileiras para violino solo. Dissertação de mestrado. Livraria José Olympio Editora. Luiz Heitor Correia de. p. 1956. 150 anos de música no Brasil (1800-1950). Rio de Janeiro. A música na Capela Real e Imperial do Rio de Janeiro. Universidade de Brasília. 2007. Juiz de Fora. As sonatas brasileiras para violino e piano: classificação dos elementos técnico-violinísticos in Anais do XII Encontro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música. SALLES. Arquivo Vivo Musical. CAVAZOTTI. 64-111. Paulo. BOSÍSIO. CARDOSO. 2010. Paulina D’Ambrósio e a modernidade violinística no Brasil. “Gabriel Fernandes da Trindade: Duetos concertantes” In Anais do Encontro de Musicologia Histórica. André. CASTAGNA. Dissertação de mestrado. Fratelli Riccioni. PAULINYI. Vincenzo. 1996. Brasília. 2001. The french violin school: Viotti. Thesaurus. 2005. Marena Isdebski. Academia Brasileira de Música. UNIRIO. Baillot and their contemporaries. Centro Cultural Pró-Música. Rio de Janeiro. Kreutzer. Bruce R. Brasília. CERNICCHIARO. Texas. 1926.   SCHUENEMAN. Storia della musica nel Brasile: dai tempi coloniali sino ai nostri giorni (1547-1925). Milano.Referências AZEVEDO. Paulo. Zoltan. Rode. . The Lyre of Orpheus Press.

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