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Essencia Do Evangelho de Paulo

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  • AUTORIA, DATA E DESTINATÁRIOS
  • Aspectos Introdutórios
  • CONTRIBUIÇÃO PARA A DOUTRINA CRISTÃ
  • sua singularidade
  • sua independência
  • as virtudes espirituais
  • notas

A essência do Evangelho de Paulo

A essência do Evangelho de Paulo

Marcos Granconato

São Paulo / 2009

salvo indicação em contrário.arteeditorial. © 2001. 2008 160 p.br .com. Todos os direitos reservados.São Paulo .br www. Rua Parapuã.Dados Internacionais de Catalogação na Publicação CIP-Brasil.com.SP editora@arteeditorial.: 14X21 cm ISBN: 978-85-98172-38-5 1. Coordenação editorial e projeto gráfico: Magno Paganelli Revisão: Marcelo Smeets 1ª Edição: janeiro / 2009 Publicado no Brasil por Arte Editorial Todas as citações bíblicas foram extraídas da Nova Versão Internacional (NVI). 574 .Itaberaba 02831-000 . Marcos A essência do evangelho de Paulo/Marcos Granconato São Paulo: Arte Editorial. Evangelho 2. Titulo 226 CDD Copyright © 2009 por Arte Editorial. publicada pela Editora Vida. Catalogação na fonte G7624e Granconato. Carta de Paulo I.

. . . . .O EVANGELHO VERDADEIRO E SUA SINGULARIDADE. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55 A maldição da lei. . . . . . . 17 A ameaça de um outro evangelho. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .14 1 . . . . . .12 Contribuição para a doutrina cristã. . . . . . . . . . . . . .42 3 . . . . . . 25 2 . . . . .SUMÁRIO Prefácio. 20 A origem divina do evangelho. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .11 Autoria. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17 Saudações iniciais. . . . . . . . . . . . . . . . .11 Ocasião e propósito. . 63 . . . . . . . . . . . 35 A simulação de Pedro. . . . . . . . 35 A unidade apostólica. . 49 A inutilidade do zelo legalista. . . . . . . . . . .O EVANGELHO VERDADEIRO E SEU PODER. . 59 A harmonia entre a promessa e a lei. . 49 A bênção que vem da fé. . . . . . . . . . . . . . data e destinatários.O EVANGELHO VERDADEIRO E SUA INDEPENDÊNCIA. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9 Aspectos Introdutórios. . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 99 Uma corrida interrompida. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137 APÊNDICE . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .99 Prejuízos do legalismo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129 Cuidando dos outros e de si mesmo. . 73 O fim da escravidão. . . . . . . . . . . .O EVANGELHO VERDADEIRO E AS VIRTUDES ESPIRITUAIS. . . . . . . . . . . . . . 143 NOTAS. . . . . . . . . . . . 7 5 . . . . . 115 6 . . . . . . . . . 106 O amor é o cumprimento da lei. . . . . 129 A colheita futura. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . lembranças e anseios. .O CURSO POSTERIOR DO LEGALISMO JUDAICO-CRISTÃO. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81 O contraste entre Sara e Hagar. . . . . . . . 151 . 133 O que realmente importa. 73 O perigo de uma nova escravidão. . . . . . 113 A vida sob o controle do Espírito. . . . . . . . . . . .O EVANGELHO VERDADEIRO E OS DEVERES CRISTÃOS. . 78 Apelos. . . . . . . . . . . . .O EVANGELHO VERDADEIRO E A LIBERDADE. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .6 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO 4 . . .

reconheçam-no os teus. Amém. De Trinitate) . e perdoem-me os teus.“Senhor Deus único. perdoame Senhor. Deus Trindade. de teu. o que neles disse de meu. o que disse nestes livros.” (Agostinho de Hipona.

.

trazia a marca de alguém que fez da cátedra um púlpito. o que apresento. mesmo os mais inexperientes e desavisados. . A Essência do Evangelho de Paulo.prefácio Quando comecei a estudar teologia. como eu. Legalismos de diversos matizes e matrizes ameaçam roubar à igreja brasileira a singeleza de sua fé. Tenney ensinava seus leitores. traz a marca de alguém que faz do púlpito uma cátedra – que. percebo que a Igreja não aproveitou o suficiente daquela histórica publicação. Tratava-se do comentário de Merrill C. infelizmente. por alguns que “mercadejam a Palavra de Deus” por todos os meios que a (pós-) modernidade oferece. a ler a Bíblia com método e objetividade. Além de trazer uma significativa contribuição à defesa da suficiência e exclusividade da graça. ainda acredita que uma igreja forte tem um púlpito onde o ensino da Palavra filtra e corrige as cosmovisões oferecidas à igreja pela mídia secular e. Quarenta anos depois. um livro foi muito importante para mim. Tenney sobre a carta de Paulo aos Gálatas. O que me influenciou. quatro décadas atrás. oferecendo outros (e falsos) evangelhos. em tal situação. como eu. apelando à mesma insensatez que atacou os gálatas de outrora. a alegria e a honra de apresentar à Igreja brasileira um novo comentário sobre a carta aos Gálatas. Tenho.

preconceituosos. Carlos Osvaldo Cardoso Pinto Professor. tanto em seu preparo para a aula quanto para o sermão. sem deixar de lado a erudição. assim. Professores e pastores usarão com proveito este livro. e teólogo . Opiniões divergentes terão de lidar com os argumentos apresentados neste livro. A Essência do Evangelho de Paulo desafia o leitor a desfrutar da aventura da graça – aventura que.10 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO Marcos Granconato refuta tais idéias de maneira persuasiva e simples. cuja vinda é a bendita esperança da Igreja. oferece eterna segurança com base exclusiva e suficiente nos méritos de Jesus Cristo. embora não isenta de perigos. nosso grande Deus e Salvador. autor. sob pena de ignorarem evidência relevante e parecerem.

o que logicamente esvazia de propósito a autoria de outra pessoa qualquer. Ainda que um pequeno grupo de críticos tenha levantado objeções contra a origem paulina. A falta de menção das decisões do concílio. são características próprias de um missionário e líder zeloso.C. o que reforça o argumento em prol de Paulo. Paulo faz alusão às conclusões conciliares de Atos 15. que se vê no dever de cuidar daqueles que são fruto de seu trabalho. o calor e a autoridade com que a epístola trata do problema dos falsos mestres. em 2.C. é prova cabal em favor da data mencionada..Aspectos Introdutórios AUTORIA. DATA E DESTINATÁRIOS A Epístola aos Gálatas foi escrita pelo apóstolo Paulo. as quais seriam tão úteis aos propósitos da epístola. considerando-os uma terrível ameaça contra o evangelho e contra a própria igreja.1).13). Na verdade. um pouco antes do Concílio de Jerusalém.1-10. ainda que haja quem situe a composição em 57 ou 58 d. entendendo que. 1.13–2. as evidências internas apontam claramente para Paulo como o autor dessa carta (Cf. Frisese ainda que uma porção proporcionalmente grande da carta é autobiográfica (1.1 . ocorrido no mesmo ano (At 15). Paulo escreveu aos gálatas no ano 48 d.

coloca a composição da carta. 5. aparentemente melhor fundamentada. . Listra. Quanto aos destinatários. tentavam desacreditar o apóstolo Paulo (4. depois dele e Barnabé terem visitado pela segunda vez o sul da Galácia (At 14. entende que os destinatários eram pessoas de várias raças que ocupavam a região sul da Galácia.46-52). para obterem sucesso em seus objetivos. A primeira entende que Paulo escreveu aos gálatas étnicos que viviam no norte da província.10-11.21-23). de precisar. As igrejas dessas cidades. De fato. Porém. parece certo que o apóstolo jamais visitou essa região.2). num período após o fim da primeira viagem missionária de Paulo (At 13-14). Conforme se depreende da epístola. se aceita. teria escrito sua carta aos crentes de Antioquia da Pisídia (próxima à fronteira da Galácia).2 O local em que Paulo escreveu é difícil.1213) que. portanto. aqueles crentes viram certo atrativo na mensagem dos mestres legalistas. conforme veremos.1).3 Paulo. senão impossível.17). OCASIÃO E PROPÓSITO O que foi dito acima acerca dos destinatários fornece os elementos do cenário que motivou Paulo a escrever sua epístola.12 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO A data mais antiga. revelando forte atração por um sistema religioso cuja essência não ultrapassava o dever de cumprimento de meras exigências externas (4. fica claro em toda a carta que os crentes da Galácia estavam acolhendo os ensinos de mestres judaizantes que afirmavam a necessidade dos cristãos se submeterem à lei judaica. At 13. Icônio e Derbe. visitada por Paulo em sua primeira viagem missionária (At 13-14). muita tinta tem sido gasta na defesa de duas opiniões distintas. A segundo opinião. Mesmo sendo provavelmente em sua maioria gentios (Cf. estavam sofrendo influência de mestres judaizantes (6. os gálatas se tornaram vulneráveis a esses ataques (3.

de modo algum.21).4).1.10).ASPECTOS INTRODUTÓRIOS 13 Quem eram. Parece certo. At 15.2324). 5. bem como na guarda da Lei Mosaica (4.7.1 vemos que alguns desses cristãos judeus eram propagadores ativos do evangelho legalista.17. Esses ataques também eram dirigidos contra a mensagem paulina.10. os preceitos mosaicos não fossem rigidamente observados (5. 2. visitando crentes gentios de outras cidades a fim de convencê-los a se submeter à Lei Mosaica (veja tb. os proponentes dessa soteriologia legalista. abrangiam ataques contra a autoridade apostólica de Paulo. confundindo-o com um judaísmo alterado por certos acréscimos. Segundo eles.6-7). levando-o a se defender (1. que Paulo se refere a essas pessoas quando escreve aos gálatas. 9. Aliás. segundo parece. 6.1-3.1213). Em Atos 15.11). sequer . 5. Ademais.8). Também em seus discursos os mestres do evangelho legalista insistiam na necessidade da circuncisão (5. a justificação não seria possível caso. conforme se depreende da epístola. acusando-a de incentivadora de uma vida desregrada.10. 4. 15. 19-21. é possível que alguns crentes da Galácia tenham de fato visto a mensagem do evangelho da graça como uma licença para a libertinagem (5.6-9. tudo isso descaracterizava o evangelho a tal ponto que seu produto não podia. os mestres judaizantes acusavam Paulo de apresentar uma mensagem vacilante que pregava a circuncisão quando isso era conveniente (1. Pelo modo como Paulo se refere a eles.11-12. Para ele. sendo procedentes de fora (veja 1. Para Paulo. portanto. Os discursos dos mestres judaizantes.5). parece que não pertenciam às igrejas destinatárias.2-6. ser chamado de evangelho (1. afinal. aqueles mestres? Tudo indica que eram cristãos judeus com uma compreensão defeituosa do evangelho.13. além da fé em Cristo. onde encontramos judeus cristãos com uma compreensão do evangelho que parece idêntica à dos falsos mestres sobre quem Paulo escreve (At 11. Talvez viessem da Judéia.11). 6.

Não se pode. para ensinar que a maturidade cristã autêntica não pode ser construída através da obediência mecânica a um conjunto de regras (Gl 3. mas também. a saber. fica fácil concluir que o propósito de Paulo nessa epístola é protestar contra a distorção do evangelho em seu ponto essencial. Na verdade. ainda que sincero. A partir da observação do contexto que subjaz e dá motivo à composição da carta.8-9). por seu esforço pessoal. demonstrando que o aperfeiçoamento do caráter do crente só ocorre por obra do Espírito Santo na vida daqueles que. 22-26). mostrando que o homem. Paulo afirma a liberdade do crente em relação à Lei não somente para realçar a justificação unicamente pela fé. salvos pela fé. defendendo assim a mensagem e a liberdade cristãs diante dos ataques do legalismo. dizer que esse propósito era a meta final e única que o apóstolo tinha em mente ao escrever sua primeira epístola. posto que eram dignos de ser amaldiçoados (1. Sob a esfera. De fato. submetem-se ao seu domínio. CONTRIBUIÇÃO PARA A DOUTRINA CRISTÃ Gálatas resume a essência do evangelho pregado por Paulo aos gentios. a meta teológica supra mencionada era também um instrumento para a consecução de um alvo vivencial. não pode jamais resolver o problema da culpa que lhe foi . e talvez principalmente.16-18. o homem justificado é capacitado a viver aquela real santidade que o simples esforço pessoal. Antes é alcançada por meio da obra do Espírito Santo na vida de quem foi redimido pela fé. jamais será capaz de produzir (Gl 5.3). influência e controle do Espírito. a justificação unicamente pela fé.14 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO deveriam ser considerados crentes. Assim um segundo propósito igualmente importante em Gálatas é desmascarar o falso conceito que reduz a vida cristã à mera obediência estéril de normas exteriores. porém.

Gálatas mostra que essa fé que justifica. não apenas leva o crente a desfrutar de um novo status diante de Deus. . não se pode deixar passar em branco a contribuição de 3. mas sim. além de mostrar a profundidade do abismo a que Cristo desceu para nos buscar. Além disso. Finalmente.4) e o capacita a andar sob a influência e controle do Senhor que agora habita nele (2. restando-lhe apenas a fé em Cristo como meio de justificação (2.16-26).ASPECTOS INTRODUTÓRIOS 15 imposta e que o separa de Deus. Nela aprendemos que a liberdade do crente não é liberdade sem fronteiras. uma liberdade limitada pelo amor (5. Ele nos substituiu até o ponto de se fazer “maldição em nosso lugar”.13) e pela influência do Espírito Santo (5. o que aponta para o estado deplorável em que nos encontrávamos antes de conhecer a salvação.20). mas também o livra do viver vazio e corrupto próprio dos homens deste mundo (1. Assim a ética cristã também recebe forte contribuição da Carta aos Gálatas.16).13 para a compreensão dos limites da morte substitutiva de Cristo.

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. A vocês.. nem mesmo dos apóstolos de Jerusalém. a quem seja a glória para todo o sempre. que se entregou a si mesmo por nossos pecados a fim de nos resgatar desta presente era perversa. mas por Jesus Cristo e por Deus Pai. O autor da carta. SAUDAÇÕES INICIAIS GÁLATAS 1. não da parte de homens nem por meio de pessoa alguma. apresenta-se logo no início como “apóstolo enviado. 5. Paulo. graça e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo. mas por Jesus Cristo e por Deus Pai. o evangelho verdadeiro e sua singularidade Após se apresentar como apóstolo de Cristo.” (1). Amém. que o ressuscitou dos mortos.1. segundo a vontade de nosso Deus e Pai. Paulo repudia vigorosamente qualquer evangelho que não se harmonize com o que tem pregado. e todos os irmãos que estão comigo. Paulo. realçando que o aprendera do próprio Cristo. não da parte de homens nem por meio de pessoa alguma. sem mediação de ninguém. às igrejas da Galácia: 3. apóstolo enviado. 2. 4..1-5 1.

movidos apenas pelo desejo de se destacar entre os crentes comuns e. Deus Pai é mencionado como aquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos. a fim de que sua epístola não fosse recebida como uma carta qualquer. alguém que recebeu essa função do Filho de Deus e do próprio Pai. A menção da ressurreição de Cristo é importante aqui porque foi o Cristo ressurreto quem diretamente investiu Paulo no ofício apostólico (Rm 1. a ênfase na ressurreição era sempre conveniente numa época em que os homens estavam tão familiarizados com o pensamento grego que. fosse de pronto desprezada.2. 1.5). nem de que cidade eram os irmãos que tinha em sua companhia. já em seu tempo. a ponto de mais tarde. assim.18).18 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO Conforme visto no estudo sobre os aspectos introdutórios. Por isso. enfatiza aos seus leitores que o que têm em mãos são ensinos procedentes de um apóstolo verdadeiro. Sem dúvida o objetivo disso era sensibilizar os destinatários ao mostrar-lhes que os apelos ali constantes não eram fruto das preocupações de uma mente isolada. fazendo com ele um coro. Paulo vinha sofrendo ataques de falsos mestres que.13. assim. se autodenominavam apóstolos. negar a encarnação do Filho (1Jo 4. Hb 2. 2Tm 2. enganá-los (2Co 11. Paulo estava na companhia de um grupo de irmãos. Nisto. diziam que ele não tinha a mesma posição e autoridade dos apóstolos de Jerusalém. entre outras coisas. portanto. No v. Ao escrever a Carta aos Gálatas.2). de antemão. Seja como for.14) e a ressurreição física (1Co 15. mas que essas preocupações eram compartilhadas por irmãos na fé sinceros. . Ap 2. em algumas de suas manifestações. Ademais. vazia de credibilidade e poder e. considerava a matéria má.12. Não sabemos onde o Apóstolo estava quando escreveu essa epístola e. Paulo faz alusão a eles como se fossem participantes da composição da carta (2). que se uniam a Paulo em suas exortações. dentro de uma roupagem cristã. ele se diferenciava daqueles que. Paulo. atuando entre as igrejas da Galácia.

4. A graça é o favor de Deus ministrado aos homens quando estes nada fizeram para merecê-lo. ou seja. fascinados com a idéia de que a observância da Lei Mosaica poderia salvá-los. no v. Ao sofrer a morte que era a punição pelos nossos pecados.2. bem como o seu sentido teológico. Paulo focaliza Cristo. Para os gálatas. Como é seu costume. apontando-o como aquele que “se entregou a si mesmo por nossos pecados”. por um lado. dando assim maior força às suas mensagens e mostrando aos que estão no erro a reprovação unânime do povo de Deus. ao mencionar novamente as duas Pessoas. ele conseqüentemente nos resgatou “desta presente era perversa” ´ e também (4). Paulo deseja que seus destinatários desfrutem da graça e da paz que vem de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo (3). 4. A morte voluntária de Cristo é afirmada aqui (Jo 10. para Paulo.21). A fonte de tudo isso. De fato. Buscar satisfazer a justiça divina através de obras humanas seria o mesmo que afirmar a insuficiência da cruz (Gl 2. era crucial que Paulo frisasse que somente a morte de Cristo pôde satisfazer as exigências de Deus. é Deus. A paz é a ausência de intrigas nas relações entre as pessoas e também a serenidade interior experimentada por quem desfruta de saúde e do suprimento das necessidades em geral. O verbo traduzido como “resgatar” é exairew significa livrar ou libertar do poder de outra pessoa. Cristo não somente teve como alvo nos substituir no castigo a nós devido.O EVANGELHO VERDADEIRO E SUA SINGULARIDADE 19 Eis aqui uma forma produtiva de como a igreja deve demonstrar unidade: aliando-se aos ministros em seus apelos e exortações.10). nada encoraja mais os rebeldes do que a consciência de que há crentes que não concordam com as reprovações que lhes são dirigidas. o fato de sua morte ser a satisfação pelos nossos pecados (1Jo 2. Há aqui um breve lampejo do tema “liberdade cristã”. Ao tirar-nos dentre os condenados à morte.17-18). Se. o Pai foi descrito como quem ressuscitou Jesus dentre os mortos (1). presente em toda .

Como já dissemos. que seja amaldiçoado! 9.6-10 6. Por isso é natural que a seção termine com o apóstolo atribuindo e ele “a glória para todo o sempre. para seguirem outro evangelho 7. Rm 3. agora repito: Se alguém lhes anuncia um evangelho diferente daquele que já receberam.11).20 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO a epístola. . Cristo sofreu a nossa condenação e. não é o evangelho. A AMEAÇA DE UM OUTRO EVANGELHO GÁLATAS 1.10). nos libertou deste mundo condenado. 8. por isso. O que ocorre é que algumas pessoas os estão perturbando. Acaso busco eu agora a aprovação dos homens ou a de Deus? Ou estou tentando agradar a homens? Se eu ainda estivesse procurando agradar a homens.18). Os 11. Trata-se de um sistema que rejeita Deus e. querendo perverter o evangelho de Cristo. crenças e apelos. Não somos mais participantes do seu destino e também não devemos mais ser participantes de suas práticas e modo de pensar. Fomos tirados de uma Sodoma que em breve conhecerá o fogo do juízo e. Paulo conclui dizendo que todo esse livramento aconteceu pela vontade do Pai (Ef 1. É ele quem parte em busca do homem (Gn 3. que. é perverso e merecedor de justo castigo.” (5).1-2). que seja amaldiçoado! 10. Lc 19.1-2.5. não devermos adotar seu estilo de vida (Rm 12.40. Tg 1. Mas ainda que nós ou um anjo dos céus pregue um evangelho diferente daquele que lhes pregamos. não seria servo de Cristo. não sendo mais seus cidadãos. Admiro-me de que vocês estejam abandonando tão rapidamente aquele que os chamou pela graça de Cristo.9. assim. A origem da salvação está sempre em Deus. na realidade. A “presente era” da qual Cristo nos resgatou é o atual sistema cultural com seus valores. Amém. O contrário nunca acontece (Jo 5.

Nota-se aqui que é ele quem chama (tb.1-23). Mais uma vez a origem da salvação é colocada em Deus (Veja v. Isso se torna ainda mais grave quando lembramos que Deus é “aquele que os chamou pela graça de Cristo”. Paulo demonstra-se admirado com o desvio tão rápido dos gálatas (6). estavam dando as costas para o Deus que havia realizado tudo isso em seu favor. Assim. os gálatas começaram a abandonar o verdadeiro evangelho tão logo Paulo os deixou.O EVANGELHO VERDADEIRO E SUA SINGULARIDADE 21 Depois das palavras iniciais de saudação.30. guardando a Lei Mosaica em todos os seus aspectos. a crença de que para ser salvo e prosseguir na vida como um cristão modelo é necessário ser um bom prosélito do judaísmo. 15). 1Pe 2. Ef 2. quatro igrejas. é possível agora ter acesso ao Pai (2Co 5. 1Ts 2. No v. ao abandonarem o evangelho.18-19.9-10a).12. ocorrido quando mal ele virara as costas. pela graça de Cristo dada a nós desde os tempos eternos e revelada em sua manifestação.11-12. Esse abandono de Deus se expressava na disposição para seguir “outro evangelho que. Paulo entra diretamente no assunto principal que o motivou a escrever a epístola: o desvio dos crentes da Galácia para as sendas do “evangelho” legalista. como já vimos.9). 6 o apóstolo demonstra que abandonar o evangelho equivale a abandonar o próprio Deus. v. 3. Paulo trata aqui da apostasia de. Hb 10. na realidade. 4).13-14. não é o evangelho” . Lembremos que o problema na Galácia não dizia respeito ao desvio relativamente comum de alguns novos convertidos que com certa freqüência retornam para o mundo (Mt 13. Esse chamamento é viabilizado pela graça de Cristo (2Tm 1. De fato. Isso causava espanto no apóstolo. Os gálatas. quando Paulo visitou a Galácia (At 13–14) e o Concílio de Jerusalém (At 15).17-18. Deus chama o pecador porque. isto é.19-20). 2Ts 2. a carta em análise foi escrita entre o fim da Primeira Viagem Missionária. sendo essa uma convocação cujo atendimento implica ser resgatado (Rm 8. pelo menos.

11. os crentes da Galácia tinham. tumultuar ou criar confusão. ser chamado de evangelho. Diz ele: “O que ocorre é que algumas pessoas os estão perturbando. o conteúdo dominante do “outro evangelho” combatido por Paulo na Carta aos Gálatas.16.10. Na busca de agradar a Deus por meio da Lei. perverte o evangelho verdadeiro e deve ser de pronto rejeitado por nós como ímpio e profano. Em Atos 15. pelo pouco decurso do tempo. onde a Sã Doutrina. pela insistente proclamação do erro. 4. 3. seguindo uma mensagem que não era dele. Daqui se depreende duas preciosas lições. Esse efeito da mentira é útil aos falsos mestres porque a mente confusa é vacilante e. um evangelho tão desfigurado que não podia. 6-7). assimilada e firmemente incorporada. 21). É evidente que Paulo está se referindo aos mestres legalistas que.24.26. ainda não foi digerida. 6. onde o mesmo verbo tarassw aparece. . de modo algum. possivelmente vindos de Jerusalém (Veja “Aspectos Introdutórios”). de fato. aos poucos. aprendemos que essa perturbação ´ consistia especificamente em transtornar ou confundir a mente dos crentes com discursos heréticos. é alvo fácil dessa estratégia. Essa perversão do evangelho trazia perturbação às igrejas. Paulo aponta para a causa daquele desvio tão rápido.12-13) e guardasse toda a Lei (2. onde as igrejas haviam acabado de nascer. querendo perverter o evangelho de Cristo. Tal era. A mente dos novos crentes. Os falsos mestres sabiam disso e usaram com maestria o repugnante artifício na Galácia. anunciavam que para ser justificado diante de Deus era necessário que o cristão fosse circuncidado (5. “Perturbar” aqui significa agitar. Segunda: qualquer acréscimo à mensagem de salvação que esvazia a obra de Cristo de suficiência. termina por ceder aos apelos da heresia. na verdade. promover distúrbios.22 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO (vv. abandonado o Senhor.” (7). Primeira: quem quer aproximar-se de Deus à parte do único evangelho acaba por distanciar-se ainda mais dele.

17).2 Dificilmente. cheios de questões e dúvidas. o apóstolo se refere a si próprio.O EVANGELHO VERDADEIRO E SUA SINGULARIDADE 23 Por outro lado. 2Pe 1. enganar os homens é vislumbrada em 2 Coríntios 11.12. ainda que a hipótese do próprio Paulo pregar um falso evangelho fosse praticamente impossível. 8. portanto. assim. o leitor se vê diante de uma hipótese ainda mais incrível. que seja amaldiçoado!” (8). para frustrá-las.1 O que Paulo diz no v. onde Paulo diz que o próprio Satanás se disfarça de anjo de luz. Tanto que. inclusive. que essa mesma mente vacilante seja encontrada em crentes antigos é inadmissível.14. O pronunciamento de Paulo em face da atuação dos mestres judaizantes se constitui num dos mais impetuosos de todo o Novo Testamento. Parece que falsificações desse tipo aconteceram nessa época no ministério de Paulo (2Ts 2. para prevenir os crentes contra heresias ensinadas em seu nome. A possibilidade de um ser angelical maligno apresentar-se como um mensageiro de Deus e. Por outro lado. Desta vez é um anjo celeste que Paulo apresenta como eventual proponente de um evangelho diferente daquele que fora pregado aos gálatas. ao ponto de não poderem mais ficar confusos ou perturbados. Dessa forma ele pretende levar a hipótese ao absurdo a fim de mostrar com que grau de firmeza o crente deve comprometer-se com o evangelho genuíno. Ele afirma com rigor: “Mas ainda que nós ou um anjo dos céus pregue um evangelho diferente daquele que lhes pregamos. havia a real possibilidade de alguém ensinar mentiras por meio de cartas e assiná-las fraudulentamente com o nome do apóstolo. pois neles se espera que a verdade esteja claramente delineada e solidamente fixada. Ainda no v. Com o pronome “nós”.12).1-2). 8. serviria. ele assinava suas epístolas de próprio punho (2Ts 3. quando doutrinas estranhas lhes são propostas (Cl 4. contudo. Sua intenção era apenas expressar quão fortemente os crentes devem se . Paulo estava receoso disso realmente acontecer com os crentes da Galácia.

A força do texto em análise. com ligeiras modificações. a reação do crente deve ser uma só: considerar o tal mensageiro. seja ele quem for. que lhes pregamos” por “evangelho.22. Paulo substitui a expressão “evangelho. um termo amplo que lógica e propositalmente inclui os falsos mestres que perturbavam os gálatas. Paulo traz à lembrança dos seus leitores o compromisso que assumiram com essa mesma mensagem.17-18. Antes usa a palavra “alguém”. Aqui ele não fala de “nós ou um anjo vindo dos céus”. contudo. 8. ao anular qualquer possibilidade de que às suas . ou seja. onde esse é claramente o sentido em que a palavra “amaldiçoado” deve ser entendida). há muito veríamos nossas igrejas livres do estranho evangelho que é pregado em nossos dias. 2Co 11.3 e 1Co 16. uma vez que mensageiros mentirosos existem desde os primórdios da igreja (Rm 16. É a repetição que naturalmente dá ênfase ao que é dito. maldito.34) e podem ser encontrados em qualquer lugar. Por meio da repetição. Com a primeira fórmula Paulo evoca a fonte da mensagem pregada inicialmente na Galácia.11-12). Nos dois casos ele quer estimular as igrejas da Galácia a reafirmar sua fidelidade ao evangelho puro. Paulo realça e assume plenamente o que afirma.. 9 repete o que foi dito no 8. Com a segunda. Se essa postura rígida fosse adotada pelos cristãos modernos..24 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO opor a qualquer pessoa que se aproxima deles com uma mensagem que tira da cruz de Cristo a sua suficiência. que já receberam”. Na prática isso não significa que o crente tenha que pronunciar maldições contra o falso mestre. Diante das duas hipóteses levantadas por Paulo no v.. Essa orientação tem que sempre estar presente na mente dos crentes de todas as épocas. mostrando coragem.3 O v.. um apóstolo enviado pelo próprio Deus (1. Rm 9. Além disso. convicção e clareza. não está em suas pequenas variações. O que Paulo ensina é que o cristão deve considerar quem anuncia um evangelho falso como estando debaixo da ira de Deus (Cf.

. Paulo agora destaca a falsidade delas. 12. quero que saibam que o evangelho por mim anunciado não é de origem humana. 10 parece a princípio apresentar uma rápida digressão. quando isso lhe era conveniente (Veja-se 5. Ademais.2021). A tentativa de esvaziar o trabalho de Cristo dessa dimensão incômoda tem levado muitos pastores a abandonar o ensino escriturístico para pregar e fazer o que agrada as mentes carnais. Na verdade. contudo.O EVANGELHO VERDADEIRO E SUA SINGULARIDADE 25 palavras seja dada uma interpretação mais branda. De fato. 8-9 são uma prova clara de que não tem receio de desagradar quem quer que seja. ele afirma e repete que o proponente de um outro evangelho deve ser considerado maldito! O v. procurando destruí-la. 13. Nele Paulo rejeita terminantemente a idéia de ser um ministro que no exercício de suas funções se preocupa em agradar a homens. não é propriamente um desvio do assunto. Parece que para Paulo uma coisa exclui a outra e esse fato deveria ser levado em conta por todos quantos se dizem chamados para o ministério. o que o apóstolo diz nos vv. eu o recebi de Jesus Cristo por revelação. A ORIGEM DIVINA DO EVANGELHO GÁLATAS 1. seria impossível ser servo de Cristo e ao mesmo tempo buscar o aplauso humano. Não o recebi de pessoa alguma nem me foi ele ensinado. Vocês ouviram qual foi o meu procedimento no judaísmo. Irmãos. Segundo ele. como perseguia com violência a igreja de Deus. demonstrada muitas vezes na sua prática evangelística. ao contrário. A sensibilidade de Paulo aos escrúpulos dos judeus incrédulos. é possível que na Galácia fermentassem comentários maldosos (estimulados pelos mestres judaizantes) de que ele pregava a necessidade da guarda da Lei.11).11-24 11. O que ocorre aqui. pode ter servido de base para essas falsas acusações (1Co 9.

não consultei pessoa alguma. Apenas ouviam dizer: “Aquele que antes nos perseguia. 20. Tampouco subi a Jerusalém para ver os que já eram apóstolos antes de mim. Quanto ao que lhes escrevo. 18. e estive com ele quinze dias. 23. 21. e era extremamente zeloso das tradições dos meus antepassados. agora está anunciando a fé que outrora procurava destruir”. mas de imediato parti para a Arábia. irmão do Senhor. 24. subi a Jerusalém para conhecer Pedro pessoalmente. Depois de três anos. eu superava a maioria dos judeus da minha idade. Seu propósito é claramente oferecer elementos históricos que comprovem a sua autoridade apostólica que. 19. E glorificavam a Deus por minha causa. como se sabe. estava sendo atacada pelos falsos mestres que atuavam dentro das igrejas da Galácia. afirmo diante de Deus que não minto. fui para as regiões da Síria e da Cilícia. Mas Deus me separou desde o ventre materno e me chamou por sua graça. revelar o seu Filho em mim para que eu o anunciasse entre os gentios. Eu não era pessoalmente conhecido pelas igrejas da Judéia que estão em Cristo. O texto que passamos agora a analisar compõe uma grande seção autobiográfica em que Paulo narra parte de sua trajetória tanto dentro do judaísmo quanto do cristianismo. 17. e voltei outra vez a Damasco. Quando lhe agradou 16. a não ser Tiago. . No judaísmo.26 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO 14. A seguir. Há. Paulo inicia esclarecendo que o evangelho que pregava não era de origem humana (11). 15. 22. É evidente que sua intenção ao alertar os gálatas acerca disso era criar em suas mentes uma idéia de contraste entre o que lhes anunciara no princípio e o que eles estavam agora ouvindo dos mestres judaizantes. Não vi nenhum dos outros apóstolos.

1-2.3). Essa mensagem lhe era dada diretamente pelo Cristo ressurreto (1. Assim foi com os demais apóstolos e profetas do período neotestamentário (Ef 3. o seguinte fato sobre a verdadeira religião deve enraizar-se fortemente em nosso coração: a religião genuína é dada. ensinos. 12 com a declaração aberta de que recebeu o evangelho do próprio Jesus Cristo “por revelação”. Primeiramente afirma que não o recebeu de ninguém e que nenhuma pessoa o ensinou. 12. Esse é o motivo pelo qual não podemos fazer alterações no cristianismo.5) e . Se quisermos recebê-lo.13).O EVANGELHO VERDADEIRO E SUA SINGULARIDADE 27 portanto. Esse é um dos principais pontos de distinção entre os apóstolos de Cristo e os crentes comuns. Essa também é uma das razões pelas quais podemos afirmar que não existem mais apóstolos hoje. rituais e práticas são apenas produto da fértil imaginação de seus fundadores e líderes. temos de aceitá-lo como ele é. não temos o direito de alterá-lo.1. Paulo completa o v. aqui a acusação implícita de que a mensagem dos legalistas não passava de algo criado por eles mesmos. É Deus quem a revela. 1Co 11. uma revelação (Ef 3.2-4).23ss). portanto. não construída. Do que foi dito acima.4 No v. facilmente se depreende uma característica típica das falsas religiões: suas crenças.1. não é o homem que a inventa. uma vez que ninguém mais pode alegar com sã consciência que aprendeu o evangelho sem a mediação humana. já que estes recebem ou aprendem o evangelho de um outro cristão que se dispõe a pregar (1Co 15. Paulo o recebera por meio de uma manifestação especial de Deus. 4. Enquanto os gálatas tinham recebido o evangelho pela pregação (3. Paulo desenvolve ainda mais o ensino de que o evangelho que pregava não se originou em homens. Não fomos nós que o criamos e. Nessas palavras pode-se vislumbrar um dos traços do verdadeiro apostolado que Paulo reivindicava de modo tão veemente: o apóstolo de Cristo não aprendia a mensagem que pregava com outros homens. Em contrapartida.

Ele quer demonstrar com a exposição desses fatos o grande impacto que o evangelho que pregava causou em sua própria história.1-3. entre os quais Paulo um dia foi contado. 22. 13.9-13). e a própria história comprova. o anseio de destruir a igreja.18. .811). todas as ações dos cristãos devem ser avaliadas à luz do tipo de impacto que elas porventura causarão sobre a igreja de Deus. No v. Algumas informações sobre a ferocidade com que Saulo de Tarso investia contra os crentes podem ser deduzidas de Atos 8. O apóstolo passa agora a narrar a mudança dramática que se operou em sua vida após ter conhecido a Cristo. É sabido. deve preocupar o crente no sentido de evitar agir também nessa direção. é nitidamente destruir a igreja. associados ao versículo em análise. É evidente que uma transformação tão profunda não podia ser procedente de uma mensagem que o próprio apóstolo houvesse dolosamente inventado.45. 1Pe 5. 1Co 2. De fato. procurando destruí-la”. Na verdade. ele mesmo era a prova viva da origem sobrenatural da mensagem que anunciava. 1 Coríntios 15. Não por nutrirem medo de que a igreja um dia seja aniquilada. que isso é impossível (Mt 16. 13-14. uma vez que nos torna cooperadores dos adversários da família de Deus.9. Para Paulo.15-16.9-11. só uma mensagem oriunda de fontes celestes poderia transformar o mais cruel dos inimigos da igreja no apóstolo dos gentios. e 1 Timóteo 1. Qualquer ação ou omissão que a enfraqueça deve causar-nos pavor. Esses textos.28 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO Paulo realçava essa experiência a fim de defender a sua autoridade apostólica (1. 9. talvez o maior cristão que já pisou neste mundo. mostram que o objetivo maior dos inimigos da fé. “como perseguia com violência a igreja de Deus. típico dos inimigos de Cristo. Paulo afirma que os gálatas ouviram acerca do seu procedimento no judaísmo.1-2. Essa verdade deve preocupar os crentes. 26. Contudo.13-16.

exigindo que os crentes se submetessem ao jugo judaico e acusando Paulo de ter uma mente apegada ao desregramento. o apóstolo mostra que ele sim havia sido um real observador da Lei. zelando extremamente pelas tradições de seus antepassados. sou autoridade no caminho novo do evangelho de Cristo. tinha como alvo purgar a religião de seus antepassados dos “desvios” anunciados pelos cristãos. Por isso. de outro era também severo no cuidado pelo judaísmo (14). Saulo amava o judaísmo e queria livrá-lo de supostas contaminações (1Tm 1.6). como se sabe. A menção desse zelo anterior de Paulo pelo judaísmo é extremamente útil para os seus propósitos na Carta aos Gálatas. creiam-me: não há relação alguma entre o evangelho de Cristo . A fim de expor a loucura que tudo isso representava. não via o cristianismo como uma religião autônoma. incapaz de salvar.7 O apóstolo quer com isso.13). portanto. Na verdade. Toda a minha trajetória mostra o quanto fui zeloso dessas coisas que hoje atraem tanto vocês. Assim. Isso porque. mas como alguém indisposto a tolerar qualquer sombra que nublasse o centro de suas convicções religiosas. Paulo afirma que foi um observador da Lei sem igual entre os judeus de sua idade. indiretamente dizer: “Eu já percorri com todo o empenho o caminho no qual vocês e esses tais mestres estão agora engatinhando e sei que é um caminho inútil. não do tipo que tentava ser amigo dos cristãos (como os falsos mestres). como apóstolo. o cristianismo era apenas o judaísmo “corrompido” pela idéia de que Jesus era o Messias prometido nas páginas do AT. A perseguição promovida por Saulo. os falsos mestres que atuavam na Galácia se apresentavam como grandes observadores da Lei Mosaica6. De fato.O EVANGELHO VERDADEIRO E SUA SINGULARIDADE 29 Se de um lado Paulo era severo na perseguição do cristianismo. juntamente com as autoridades judaicas e romanas. sua perseguição era fruto de zelo religioso extremado (Fp 3.5 Para eles. Saulo de Tarso. Fui autoridade nisso tudo e agora.

1). Jr 1. Evidentemente a meta de Paulo ao mencioná-los é demonstrar a origem sobrenatural de seu chamado e assim neutralizar os ataques que os falsos mestres faziam contra a autenticidade de seu apostolado. foi unicamente pela graça de Deus que alcançou o privilégio de ser contado entre os ministros do evangelho.4-9. 15. golpeia o ensino dos falsos mestres no próprio coração. não em virtude de seu zelo pregresso na prática do judaísmo. Paulo contrasta a vida que tinha no judaísmo com uma nova e gloriosa etapa. Sei que aquele é poderoso para salvar e que o último só escraviza”. ao dizer que Deus o chamou por sua graça. Conheço muito bem o primeiro e conheci muito bem o último. . Rm 1. também eleva seu ministério ao nível dos mais eminentes servos de Deus do Antigo Testamento (Is 49. e a de que a prática da Lei era fundamental para a obtenção do favor divino. serviço esse marcado por prontidão em obedecê-lo (16) e independência dos líderes de Jerusalém (17).30 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO e o legalismo judaico. Ademais. Paulo destrói as duas principais mentiras que emanavam da boca dos judaizantes: a de que Paulo era um falso apóstolo. o apóstolo cita apenas de passagem a causa primária que o lançou nesse ministério. ao dizer que Deus o separou desde o ventre materno. A menção desses mistérios é muito propícia neste ponto.4-5). além de ensinar num breve lampejo a predeterminação divina.1. Na verdade. Uma linha semelhante de pensamento pode ser vislumbrada em Filipenses 3. Deus chamou Paulo por sua graça. uma etapa de serviço a Cristo. pois está com isso dizendo que seu zelo pela Lei e tradições judaicas. Ao iniciar esse assunto. Resumindo. o que deveria inspirar temor e honra nos gálatas que estavam vacilantes quanto à sua opinião acerca de seu pai espiritual (Ver tb. Assim. o próprio Deus o separou desde o ventre materno e o chamou por sua graça. Segundo ele. De fato. No v. com uma linha apenas. em nada influiu na obtenção do favor com que foi aquinhoado pelo Senhor.

provavelmente nas regiões da Arábia mencionada no v.1. É pouco provável. e dele são os recursos ao tornar seu servo pronto para o serviço.5. Certamente alude a outra ocasião em que o Senhor revelouse a ele de forma visível e gloriosa. pois.O EVANGELHO VERDADEIRO E SUA SINGULARIDADE 31 O v. 17. Ef 3. que o apóstolo esteja se referindo aqui à sua experiência no caminho de Damasco. 14). Nem tampouco acrescentaram algo a ela ou tiveram que corrigi-la . também lhe revelou seu Filho. Nem mesmo os apóstolos de Jerusalém lhe haviam transmitido essa mensagem. vv.7. 11-12. que ao tempo do seu chamado não subiu a Jerusalém para ver os que já eram apóstolos antes dele. e coragem advinda da certeza de que é o Chefe Onipotente quem nos capacita.8 Tal revelação. Aliás. no v. Sua intenção aqui é reforçar ainda mais a alegação de que não aprendeu a mensagem que pregava com homem algum (cf. Tanto que. foi especialmente feita com o propósito de habilitar Paulo como pregador aos gentios. Dele é o plano ao escolher. Paulo prossegue afirmando. 17. dele é a voz ao chamar. Houve um momento que o Deus que separou Paulo antes dele nascer e o chamou por sua graça. prontidão por saber que é o próprio Deus quem chama. Tais foram as disposições presentes no apóstolo.2-3) e incumbindo-o da pregação aos povos de todo o mundo (Rm 1. 16 termina o pensamento que a má divisão dos versículos deixou incompleto no verso anterior.9 Aqui vemos. não consultou “pessoa alguma”. portanto. conforme se depreende do texto. desvendando-lhe os mistérios que deveria anunciar e escrever (Ver vv. 2Co 12. ao ver-se encarregado dos grandes mistérios e deveres dados por Deus. um importante processo: O Deus que separa e chama é também o Deus que capacita para a obra. 11-12). pois o resultado de sua assimilação será gratidão por ser contado entre aqueles que o Senhor preparou. essa verdade deve ser gravada de forma indelével na mente de todo o que trabalha em prol do Reino de Cristo.

o que. partiu para a Arábia e depois voltou outra vez para Damasco. onde poderia finalmente conhecer Pedro. se for aceito. Certamente isolou-se naquelas regiões a fim de refletir sobre tudo o que lhe acontecera e também para receber capacitação de Deus para a pregação.32 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO em algum ponto. Então. Paulo chegou a Pedro e permaneceu com ele apenas quinze dias.25) até Suez. Paulo foi para algum lugar dentro desses limites e depois voltou para Damasco. Diz ainda o apóstolo que. alguém que recebeu sua mensagem diretamente do Cristo ressurreto. fugiu (At 9. mas é provável que se situe entre os versículos 19 e 20 de Atos 9.32) que abrangia as regiões a leste de Damasco. como ocorrera . Paulo insiste em sua defesa contra os falsos mestres alegando que é um apóstolo genuíno. o que seria insuficiente se tivesse ido ali para receber qualquer treinamento nas funções que desempenhava. como não pudesse mais permanecer ali sem correr grave perigo. ou seja. em vez de consultar os líderes de Jerusalém. Antes.26-27). 2Co 11. 18 o apóstolo diz que foi a Jerusalém somente três anos depois dos eventos narrados. Talvez ele tenha passado todo esse tempo pregando em Damasco (Veja em At 9. estendendo-se em direção ao sul sobre a Transjordânia e abarcando toda a Península do Sinai (4. acrescenta sob juramento (20) que não viu nenhum dos outros apóstolos. coloca a ida à Arábia antes do início de seu ministério como pregador.23 a expressão “decorridos muitos dias”). No v. exceto Tiago. Além disso. quando da sua vocação. A Arábia era o reino de Aretas (2Co 11.2325.10 Assim. Com a ajuda de Barnabé (At 9. irmão do Senhor.32-33) e aproveitou a oportunidade para seguir até a Palestina. Essa ida de Paulo para as regiões da Arábia não é mencionada no livro de Atos. sem qualquer mediação humana. mais uma vez Paulo destaca que não era um apóstolo de “segunda categoria” como diziam seus oponentes.

Qualquer grupo que se apresente como igreja de Cristo.3). ser sensível à sua mensagem proclamada na Escritura. O que Paulo diz nos vv. Nesse texto aprendemos que em Jerusalém Paulo corria perigo e. havia recebido o múnus apostólico diretamente de Jesus Cristo ressurreto (1Co 9. de modo que.39. diziam: “Aquele que antes nos perseguia. enviou ambos para a Primeira Viagem Missionária (At 11. saindo à sua procura. perplexas. foi enviado para a Cilícia (sudeste da atual Turquia). e buscar a sua presença atuante em seu meio. Ao afirmar isso. mais tarde. Aqui é importante destacar que não são todas as igrejas da atualidade que podem ser qualificadas desse modo. Seu objetivo é dar provas ainda mais fortes de que seu contato com a área de influência dos apóstolos de Jerusalém foi praticamente inexistente. por isso. sua cidade natal (At 21. o encontrou.22-26. Foi nessa cidade que. 13. É somente com esses traços que uma igreja pode dizer que está em Cristo. Depois de ter estado em Jerusalém. finalmente. o grande apóstolo mostra como ele.29-30. Ele então levou-o até a recém formada igreja de Antioquia que. Paulo foi para a Síria e Cilícia (21). mais especificamente para Tarso. Assim. e louvavam a Deus por causa dele. mesmo não tendo visitado aquelas igrejas. passou a inspirar . Barnabé. sendo certo que sua “formação” apostólica não dependeu de Pedro ou de qualquer outro líder influente de Jerusalém. 22. que inspirava terror. agora está anunciando a fé que outrora procurava destruir” (23).O EVANGELHO VERDADEIRO E SUA SINGULARIDADE 33 com os seus colegas de Jerusalém.1-2). para que honre esse título deve curvar-se ao senhorio de Jesus.1-2). refere-se às igrejas da Judéia como estando “em Cristo”. o que significa estar sob a autoridade e sob a esfera de influência do Senhor ressurreto. sua fama corria entre elas. 22-24 mostra que ele não visitou as igrejas da Judéia. Paulo destaca que. A descrição desses fatos encaixa-se na narrativa de Atos 9.

Com isso Paulo quer mostrar que mesmo igrejas que não o conheciam pessoalmente. ao menos reconheciam sua conversão e trabalho e com isso se alegravam. já que o conheciam de perto e eram fruto do seu próprio empenho! . passou a estimular orações de gratidão. Quanto mais não deveriam os gálatas também honrá-lo.34 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO louvor. que arrancava gemidos de angústia. como ele.

para não correr ou ter corrido inutilmente. . que estava comigo. 2. não estava em conflito com a mensagem dos demais apóstolos. Catorze anos depois. para que a verdade do evangelho permanecesse com vocês. 4. 5. apesar de ser grego.1-10 1. porém. Essa questão foi levantada porque alguns falsos irmãos infiltraram-se em nosso meio para espionar a liberdade que temos em Cristo Jesus e nos reduzir à escravidão. em particular aos que pareciam mais influentes. A UNIDADE APOSTÓLICA GÁLATAS 2. o evangelho verdadeiro e sua independência A mensagem pregada por Paulo. Fui para lá por causa de uma revelação e expus diante deles o evangelho que prego entre os gentios. a qual não impunha a circuncisão aos crentes gentios. subi novamente a Jerusalém. dessa vez com Barnabé. Mas nem mesmo Tito. Paulo repreendera Pedro por haver tratado os crentes gentios com desprezo em Antioquia a fim de agradar os defensores da circuncisão vindos da igreja de Jerusalém. foi obrigado a circuncidar-se. fazendo-o. Não nos submetemos a eles nem por um instante.2. 3. levando também Tito comigo. Aliás.

Pedro e João. No v. 9. tidos como colunas. Tiago. 2). 7. Eles concordaram em que devíamos nos dirigir aos gentios. O apóstolo prossegue dizendo que a visita foi motivada por uma revelação e que. Deus não julga pela aparência tais homens influentes não me acrescentaram nada. um gentio convertido também os acompanhou. e eles. Somente pediram que nos lembrássemos dos pobres. ele foi novamente a Jerusalém. Pode-se contá-los tanto a partir de sua primeira visita àquela cidade (1. 13. O capítulo começa com a afirmação que. 8. Ao contrário. 1 Paulo diz que foi a Jerusalém acompanhado de Barnabé. que operou por meio de Pedro como apóstolo aos circuncisos.25-26. como a partir de sua conversão. 10. Paulo diz que Tito. No capítulo 2. graças a ela. passados quatorze anos.1) e certamente partiram dali para Jerusalém. estenderam a mão direita a mim e a Barnabé em sinal de comunhão. aos circuncisos. Reconhecendo a graça que me fora concedida. reconheceram que a mim havia sido confiada a pregação do evangelho aos incircuncisos.36 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO 6. Sabe-se que ambos por esse tempo eram líderes na igreja de Antioquia (Atos 11. Pois Deus. assim como a Pedro. o que me esforcei por fazer. aos circuncisos. É difícil detectar o ponto de partida para a contagem desses quatorze anos. Quanto aos que pareciam influentes o que eram então não faz diferença para mim.18-20). A revelação de que Paulo fala é descrita em Atos 11. Paulo continua a narrativa. Esses detalhes se encaixam perfeitamente na narrativa de Atos.27- . sendo esta última hipótese a mais provável. teve a oportunidade de expor o evangelho que pregava aos homens influentes da principal igreja da Judéia (v. sempre com o propósito de defender sua autoridade apostólica e a liberdade cristã. também operou por meu intermédio para com os gentios.

O EVANGELHO VERDADEIRO E SUA INDEPENDÊNCIA 37 30 e diz respeito a uma profecia de Ágabo que predisse uma grande fome que assolaria o mundo romano. A fim de manter em mente o lugar que esses episódios ocupam na cronologia de Atos. Como narrado em Gálatas.2 Isso faria com que seus esforços não fossem inúteis. evitaria as divisões e até apostasias que as disputas entre mestres invariavelmente trazem sobre a igreja do Senhor e que tornam o trabalho de alguns uma corrida vã. mas também aproveitou a oportunidade para expor aos líderes da igreja em Jerusalém a mensagem que pregava aos gentios. é bom lembrar que tudo isso aconteceu antes da Primeira Viagem Missionária a qual redundou na implantação das igrejas da Galácia (At 13-14) e antes do Concílio de Jerusalém (At 15. dos mestres e dos que são realmente influentes na igreja torna o trabalho uma corrida inútil. quão importante é que quem trabalha na obra de Cristo nutra a unidade não só com os crentes comuns. que fez a exposição de sua mensagem “aos que pareciam mais influentes”. mas está em desacordo com os homens que Deus . Paulo realça. Isso tudo significa que Paulo se preocupava em manter clara a harmonia entre seus ensinos e os dos demais apóstolos. Trabalha. nessa ocasião Paulo não só realizou a entrega da oferta.C. ocorrido em 48 d. ainda no v. 2 mostra. pois. O v. 2. portanto. mas principalmente com aqueles que desempenham na igreja uma função de alta responsabilidade. Além disso.25). Ter a aprovação somente dos que não ocupam lugar de destaque dado por Deus.1-30). ou seja. deixa claro que agiu assim para não correr inutilmente. uma vez que só produzirá divisões e discórdias. destinada ao fracasso. Paulo foi enviado com Barnabé a Jerusalém a fim de entregar uma oferta levantada em Antioquia para os crentes da Judéia (Veja tb. em vão o obreiro que arranca os aplausos do povo. com desprezo em relação ao parecer dos líderes.1 Em virtude dessa revelação. At 12.

Nos vv. pois dava provas de que os apóstolos de Jerusalém. muito perigosas (2Co 11. Ele narra que em sua segunda visita a Jerusalém. É claro que isso atingia diretamente os mestres judaizantes que estavam ensinando nas igrejas da Galácia. não foi obrigado a circuncidar-se (3). Paulo. assim. ao contrário do que aqueles falsos mestres diziam. Fp 3. Paulo mostra que os ataques que estava enfrentando por parte dos falsos mestres da Galácia não lhe eram novidade. Tito3. Esse fato tinha especial importância para o enfraquecimento das acusações dos mestres judaizantes. É comum incrédulos fingirem-se de crentes para cumprirem os desígnios de Satanás no meio do povo de Deus. Assim. A questão da necessidade da circuncisão de Tito. portanto. conforme Paulo narra. Isso corrobora a tese de que é um verdadeiro apóstolo e destrói a acusação de que pregava um cristianismo modificado por seus caprichos. Em primeiro lugar. buscou cuidadosamente e para o bem da Causa estar em harmonia com eles.38 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO constituiu como colunas na sua igreja. foi levantada na ocasião por falsos irmãos (4). Aqui Paulo diz abertamente que quem defende a justificação pela prática da Lei não é crente. O alvo claro de Paulo em toda essa sessão é desmascarar esses homens. Tais pessoas são.2-3) e o crente precisa de discernimento para detectá-las. comprova ainda mais a harmonia entre seu evangelho e o dos apóstolos da Judéia. ainda que não estivesse sob a autoridade dos apóstolos de Jerusalém. Paulo deixa claro que os falsos irmãos .26. cada crente deve estar alerta para o fato de que nem todos os que estão na igreja são irmãos de verdade. 4. não exigiam a circuncisão de convertidos gentios4. Uma das formas pelas quais podemos detectar essas pessoas encontra-se ainda no v. apesar de ser grego. 4 mostra uma das estratégias de Satanás no uso de seus ministros para destruir a obra de Cristo. Paulo sabia disso e. O v. 3-5. eles se infiltram em nosso meio.

os “espiões” procuravam encontrar dentro da igreja fraquezas na compreensão da liberdade conquistada por Cristo para os crentes. .15). além da liberdade. luta contra essas coisas. são a alegria (Jo 7. assim.14-16). de onde seus ataques podem ser feitos com maior eficácia (3Jo 9-10). Em Jerusalém. Sempre que alguém no meio da igreja milita contra algo que Cristo conquistou para nós na cruz.O EVANGELHO VERDADEIRO E SUA INDEPENDÊNCIA 39 se introduziram na igreja para “espionar” a liberdade dos crentes. 4. de fato. Espionar é atividade própria de estrangeiros inimigos. cumprir os planos de Satanás. O verbo sugere a idéia de espiar um território. Exemplos do que Cristo conquistou para nós no Calvário. É. 5 deixa implícito que os falsos irmãos. Sempre que alguém. Com isso ele buscava preservar a verdade do evangelho.12-13).10-11. O apóstolo. certamente tal pessoa é um servo de Satanás a serviço de seu senhor no meio do povo de Deus. O v. além de tentar destruir o que Cristo conquistou para o seu povo também tentam se impor sobre o rebanho. o acesso a Deus (Hb 10. 2Co 5. Fazendo pressões sobre esses pontos de maior fragilidade eles tinham como alvo destruir a liberdade cristã e tornar os crentes escravos da Lei.38). dentro da igreja. Paulo dá a entender que os legalistas de Jerusalém queriam que ele e todos os crentes se sujeitassem às suas idéias (o paralelo com os legalistas que estavam na Galácia é óbvio.19-20) e o poder para uma vida de consagração (Rm 6. 6. traço típico dos falsos irmãos tentar ocupar posições de influência.17. tal pessoa deve ser olhada com suspeita como um falso irmão infiltrado em nosso meio para destruir a obra do Mestre e. a comunhão pacífica (Ef 2.11. A verdade que o apóstolo tem em mente aqui é a consubstanciada em 3. cf.5 Toda essa estratégia usada pelos maus nos ajuda a detectar os inimigos de Cristo infiltrados entre os irmãos. porém. em nenhum momento se sujeitou a eles. Assim o espião é sempre um inimigo disfarçado que procura os pontos fracos do seu alvo a fim de cooperar com sua destruição.

Paulo observa que a grandeza deles naquela igreja não o impressionava. sabendo que o justo Juiz julga de acordo com critérios que vão além das nossas possibilidades (1Sm 16. o principal alvo de Pedro era os judeus. pouco conhecidos por ele. e com sua incapacidade de aceitar qualquer autoridade sobre si. o que também deveria nos conduzir a um cuidado maior com o que realmente somos e com o modo como tratamos as pessoas (Jo 7. não se deixava levar pelo aspecto externo das coisas. é comum na igreja vermos pessoas se destacando. mas não passar de uma figura desprezível aos olhos de Deus.16.1-5).6-7. Paulo prossegue dizendo que a liderança da igreja em Jerusalém reconheceu seu apostolado como estando no mesmo nível do apostolado de Pedro. dando a todos a impressão de que são “grandes” e cheios de autoridade entre os crentes. conforme lembra. De fato. Tg 2. com sua preocupação em passar uma falsa imagem de santidade e zelo (Mt 6. . era fundamental para Paulo na defesa de seu apostolado (1. obtendo um lugar de proeminência no meio da irmandade. o apóstolo de maior destaque entre os Doze (7).11-12). Ao mencionar tais homens e sua aparente autoridade. Isso. Por isso. A diferença entre ambos era apenas no tocante ao alvo de cada ministério. “Deus não julga pela aparência”. Is 11. Alguém assim pode impressionar os homens.14). Paulo dá a entender que tem em mente outros líderes.1-10). alguém que até mesmo muito o aborrece com seus ares de orgulhoso.24. além dos apóstolos. os apóstolos que ali estavam nada lhe acrescentaram (6). 2Tm 3. Por isso insiste em dizer que em sua segunda visita a Jerusalém.40 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO Demonstrar que sua mensagem não lhe fora entregue por homem algum. pois. Com a expressão “quanto aos que pareciam influentes”. Paulo sabia que muitas vezes as aparências não correspondem aos fatos. tornando-se conhecidas e influentes. mas sim pelo próprio Cristo. O principal alvo de Paulo era os gentios.

11.O EVANGELHO VERDADEIRO E SUA INDEPENDÊNCIA 41 evidentemente. abrir o coração de incrédulos para a sua mensagem (At 2. Aqui. 15. Ef 3. ou que Pedro não deveria evangelizar gentios. consistiu em manifestar seu Filho a eles depois de ressurreto (Jo 20.13.7).7). Na verdade. 2Pe 3. o que lembra o dever dos que estão à frente de sustentar a igreja com força e firmeza inabalável (2Tm 1. os judeus eram os primeiros que Paulo tentava conduzir à fé nas cidades por onde passava (At 13.16-28). 1Co 9.1).17-20. e realizar milagres jamais vistos como prova de que sua mensagem vinha de Deus (2Co 12.37-41. incumbi-los pessoalmente da missão de proclamar o evangelho (Jo 20.7).13. Paulo ensina no v. e Pedro foi personagem fundamental no “processo de inclusão” dos gentios na igreja (At 10. 28. Pedro e João.23-29). é-nos ensinado acerca da ênfase do trabalho de cada um (Rm 11. razão alguma para que Paulo fosse considerado um falso apóstolo ou um apóstolo de categoria inferior como pretendiam os mestres legalistas. estando em acordo quanto às diferentes esferas de atuação missionária (9). um sinal de harmonia e amizade. Não havia. A despeito de atuarem em esferas diferentes.15-18.4548. Paulo conclui o relato sobre sua segunda visita a Jerusalém falando que os líderes da igreja ali reconheceram a legitimidade de seu ministério e estenderam a mão a ele e a Barnabé.5-6.17).3-4).21. . É bom ressaltar que os líderes aqui.2-6. pois.19-20. 16. no entanto.14) revelarlhes verdades doutrinárias até então desconhecidas (2Co 12.12. não significava que Paulo não deveria pregar aos judeus (At 9. dar-lhes singular intrepidez e sabedoria ao pregar (Mt 10. 14.1.1. Hb 2. 2Co 10.7. Tiago.15). 18. 1Co 9. At 4.3-5. 8 que nem mesmo o próprio Deus fazia essa distinção.1-2). 1Tm 2. são chamados de colunas. A operação de Deus por meio de Pedro e Paulo como apóstolos. a igualdade entre o apostolado de Paulo e o de Pedro estava no fato de que Deus operara da mesma maneira por meio de ambos (8). At 26.

Tal pedido. Mesmo assim. temendo os que eram da circuncisão. por sua atitude condenável. por meio da Lei eu morri para a Lei. A SIMULAÇÃO DE PEDRO GÁLATAS 2. 10 revela que os líderes de Jerusalém somente pediram que Paulo e Barnabé se lembrassem dos pobres. antes de chegarem alguns da parte de Tiago. porém.42 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO O v. Assim. Quando. enfrentei-o face a face. será Cristo então ministro do pecado? De modo algum! 18.1-4). Portanto.25-26. provo que sou transgressor. Pois. de modo que até Barnabé se deixou levar. Quando.11-21 11.27-30. Pedro veio a Antioquia. o cuidado com os carentes foi uma marca presente ao longo de todo o ministério de Paulo (Rm 15. não refletia qualquer autoridade dos apóstolos de Jerusalém sobre Paulo. ele se esforçou para atendê-lo. porque pela prática da Lei ninguém será justificado. “Se. 14. 17. considerando que a visita tinha sido motivada pela profecia de Atos 11. diante de todos: “Você é judeu. Quando vi que não estavam andando de acordo com a verdade do evangelho. sabemos que ninguém é justificado pela prática da Lei. porém. Os demais judeus também se uniram a ele nessa hipocrisia. 19. Pois. afastou-se e separou-se dos gentios. nós também cremos em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo. 16. 12. como pode obrigar gentios a viverem como judeus? 15. e não pela prática da Lei. mas vive como gentio e não como judeu. Se reconstruo o que destruí. eles chegaram. De fato. judeus de nascimento e não ‘gentios pecadores’. mas mediante a fé em Jesus Cristo. 1Co 16. Isso fazia sentido. ele comia com os gentios. porém. a fim de viver para Deus. “Nós. procurando ser justificados em Cristo descobrimos que nós mesmos somos pecadores. . porém. declarei a Pedro. 13.

situar a visita de Pedro a Antioquia entre sua extraordinária libertação e o Concílio de Jerusalém. A seção se inicia com a menção de uma visita de Pedro a Antioquia (11). vivo-a pela fé no filho de Deus. 12. bem como defender a salvação unicamente pela fé. Essa atitude é descrita no v. Presume-se. Paulo pretende alcançar o propósito de mostrar que não era em nada inferior aos apóstolos de Jerusalém (já que repreendeu o maior dentre eles). a igreja de Jerusalém. mas Cristo vive em mim. pois. Fui crucificado com Cristo. afastou-se dos irmãos gentios. Pedro foi a Antioquia. Depois disso. antes do concílio mencionado em Atos 15. Pedro só aparece novamente na narrativa em Atos 15. Em Atos é dito apenas que ele se ausentou indo “para outro lugar” (At 12. depois de ter sido milagrosamente libertado da prisão em que Herodes o havia lançado. Assim. ao reproduzir as palavras que dirigiu a Pedro. no Concílio de Jerusalém (At 15.O EVANGELHO VERDADEIRO E SUA INDEPENDÊNCIA 43 20. Nele aprendemos que Pedro comia com os gentios até a chegada de uma delegação de crentes judeus. É possível. para passar-lhes uma boa impressão. portanto. O Livro de Atos não faz nenhuma referência a esse fato. ele ficou receoso de ser reprovado pelos legalistas e. Porém. a partir dos eventos narrados em Atos12.17). predominantemente judaica. Paulo afirma que por aquele tempo teve de enfrentá-lo “face a face. Com a menção desse episódio.7). 21. com a chegada dessa delegação a Antioquia. enviados por Tiago. Cristo morreu inutilmente!” A presente etapa da narrativa de Paulo refere-se a uma severa repreensão que ele dirigiu a Pedro quando este visitou Antioquia. já não sou eu quem vive. vindos de Jerusalém. se a justiça vem pela Lei. De fato. que. Não anulo a graça de Deus. A vida que agora vivo no corpo. por sua atitude condenável”. que me amou e se entregou por mim. tinha em aberto a .

covardia e desobediência. Rm 3. uma vez que já havia aprendido do próprio Senhor a não desprezar os crentes não judeus (At 10. 11. 13. era inadmissível que um judeu comesse com um gentio (At 11.2628). essa conduta vacilante e reprovável influenciou outros crentes judeus que a imitaram. o principal responsável por toda aquela farsa. preocupando-se mais com a aprovação dos homens do que com a de Deus. .1-3).44 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO questão de como receber os gentios em sua comunhão. 34-35. passando a andar em desarmonia com elas.1. Paulo entendeu que Pedro e os demais judeus não estavam andando “de acordo com a verdade do evangelho” (14). assim. Segundo o v. o Filho de Deus rompeu a barreira de separação que estava entre os dois e criou de ambos um novo homem. fazendo a paz (Ef 2. Paulo admirou-se do fato de que o próprio Barnabé.8-9. 5). era como se negassem todas essas verdades. diante dos irmãos judeus.3637. não há distinção entre judeus e gentios (At 15. que em sua morte.27-28. Ele também demonstrou desprezo pela sã doutrina. De fato. tamanha falta não poderia passar em branco e Paulo tomou em suas mãos a tarefa de admoestar Pedro. exemplo máximo de piedade (At 4. sendo necessária também a circuncisão e a guarda da Lei Mosaica (At 15.11-19). Gl 3. Com isso ele demonstrou hipocrisia.1-17). Pedro. estabelece também que em Cristo. além de ensinar que a salvação é pela fé somente (16. Para esse grupo. Quando Pedro e seus companheiros se afastaram dos irmãos gentios. e que os gentios são coparticipantes da graça de Deus dada em Cristo (Ef 3.28). rompeu a comunhão com eles. ficou com medo de ser reprovado em sua associação com crentes incircuncisos e.5-6). Não estando esse problema ainda formalmente solucionado. Não faltavam os que viam o cristianismo como um simples ramo do judaísmo e diziam que a fé não era suficiente para que um gentio fosse aceito como irmão. 11.22-24). a verdade do evangelho. Evidentemente. também tivesse se deixado levar.

Esse princípio tão resistido pelos homens em todas as eras já havia sido descoberto por judeus agora convertidos.4). mas vive como gentio e não como judeu. 15-16. era agora capaz de sutil e dissimuladamente impor sua observância aos gentios? Se. sendo judeus de nascimento. Como podemos . Primeiro. mas eles próprios não se dispõem a carregar esses mesmos fardos (Mt 23. com todos os privilégios espirituais que tinham. os fariseus legalistas têm o hábito de impor fardos sobre os outros. sua conduta exterior é uma farsa. alguém que. Como então Pedro. os judeus haviam falhado e recorrido à fé.1-3). que viu quão severamente o Senhor. em seu ministério terreno. Portanto.O EVANGELHO VERDADEIRO E SUA INDEPENDÊNCIA 45 A repreensão de Paulo destacou inicialmente a incoerência do procedimento de Pedro: “Você é judeu. como poderiam agora impor o fardo da Lei a povos que jamais tiveram privilégio algum? É. pois. já haviam descoberto “que ninguém é justificado pela prática da Lei. Paulo toca na ferida do farisaísmo. com todo o favor que recebemos. Em segundo lugar. portadores de privilégios e conhecimentos espirituais que os colocavam em vantagem em relação a qualquer pagão ignorante (Rm 9. Os legalistas têm uma vida dupla: diante dos homens apresentam-se como zelosos da Lei.23-28). reprovou a conduta farisaica (Mt 23. reconhecendo ser esta a única saída. como pode obrigar gentios a viverem como judeus?” (14). já tinha experimentado a impotência da Lei. descobrimos ser impossível alguém salvar-se pela Lei. tenha incorrido em tão grave erro. Nelas vemos implícitos os dois erros principais cometidos por todos os que querem viver sob a Lei. mas longe dos olhos alheios vivem conforme outros padrões (Mt 23. os quais outrora tinham tentado ser justificados pela prática da Lei e haviam falhado. mas mediante a fé em Jesus Cristo”. Nesses versículos Paulo conta ter trazido à lembrança de Pedro que mesmo eles. como um desses judeus.1-5). como se Paulo dissesse: “Nós judeus. A reprodução da repreensão dirigida por Paulo a Pedro prossegue nos vv. É assustador que Pedro. Com essas palavras.

isso será o mesmo que. Seria como se dissesse: “Mesmo tendo encontrado a justificação pela fé em Cristo. 17. 21). tiveram que crer em Cristo para ser justificados. No v. repugnante blasfêmia atribuir ainda que só uma parte da justificação à observância da Lei. Nesse caso. . direitos e prerrogativas. ninguém. mas sim manteria nossas almas sob a culpa do pecado que não pôde remover. o ministério do Senhor. considerando Cristo como alguém que o conservara preso aos seus pecados. ou seja. Para Paulo. isso não me é suficiente. estando em Cristo. não nos livraria. Cristo seria assim. Sendo já justificado em Cristo.46 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO esperar agora que os pobres gentios consigam essa façanha?”. já que com essa prática era como se dissesse que o Senhor não o livrara da culpa. era como se dissesse que ainda estava em busca da salvação. pode ser considerado justo aos olhos de Deus. porventura ainda buscar a justificação pela Lei. Paulo conclui o v. seu ensino e obra. O procedimento de Pedro em Antioquia trazia em si todas essas horríveis implicações. 16 realçando que. agindo assim. pois considero-me ainda um pecador não justificado”. mesmo eles. ainda o mantinha em triste escravidão. nem mesmo o povo da Aliança com todo o seu conhecimento. mas como ministro do pecado. de fato. Assim. De fato. a qual exige uma obediência perfeita. ele se apresentara diante dos judeus de Jerusalém como alguém que buscava a justificação pela prática da Lei e. judeus com vantagens sobre todos os povos. blasfemava. essa hipótese é absurda. Ora. já que isso implica afirmar que Cristo não é suficiente para salvar e que a simples fé nele ainda nos mantém enredados em culpa e condenação (veja o v. já que pela observância da Lei. Paulo sugere que se o homem justificado pela fé em Cristo. considerar-se ainda preso ao pecado. isso significaria que crer em Cristo nos manteria ainda sob o pecado. É. um ministro que ainda nos deixaria no pecado.

passaram a viver em outra casa. Então. ou seja. quando creram em Cristo. quão incapaz era de livrar do pecado. provo que sou transgressor”. Isso acontecera por meio da própria Lei que lhe mostrara. tinham posto ao chão todas as paredes de confiança que se alicerçavam sua observância. No v. haviam como que “destruído” sua antiga confiança nas obras da Lei. 18. única edificação que oferece real segurança. Num dos versículos mais tocantes de todo o . Eles tinham chegado à conclusão de que a Lei não era capaz de fornecer abrigo contra a culpa do pecado e. Pedro e seus companheiros estavam agindo como se voltassem a viver sob o teto da Lei. O apóstolo explica o significado da expressão “viver para Deus” no v. Era como se estivessem edificando novamente as paredes de confiança nas obras que eles próprios haviam destruído quando creram no Senhor. Paulo. foi a própria Lei que encorajou Paulo a abandonar a confiança nela. havia se libertado totalmente do seu domínio (Rm 7. 19. ressaltando o absurdo da hipótese prevista no v. quando ainda o tinha sob seu domínio. Ele havia morrido para ela.4-6). por isso.O EVANGELHO VERDADEIRO E SUA INDEPENDÊNCIA 47 Dando seqüência à sua argumentação. provavelmente ainda reproduzindo sua censura a Pedro. livre de seus fardos. dada a nossa malícia. Pedro e os demais crentes judeus. Era o mesmo que afirmar que cometeram grave transgressão quando depositaram somente em Cristo a esperança de justificação. Nesse sentido. Paulo passou a “viver para Deus”. Ele afirma que “se reconstruo o que destruí. Paulo mostra quão impossível era para ele qualquer reconstrução da confiança na Lei. dessa forma. 20. Agora. Morto para os preceitos legais e. Ora.7-14). porém. até o estimulava ainda mais (Rm 7. O significado disso é simples: Paulo. faz uso de uma figura tirada do contexto da construção civil (18). posto que tão somente o realçava e. a casa da fé em Cristo. isso era o mesmo que reconhecer que erraram quando deixaram de confiar na Lei.

revelara um modelo diferente de vida. com seu procedimento. Não há espaço nela para a confiança nas obras pessoais.24). “Já não sou eu quem vive. assim. além de estar morto para o antigo estilo de vida baseado na confiança na Lei. 19). . como Pedro dera a entender. Lembremos que essas palavras provavelmente ainda compõem a admoestação dirigida a Pedro que. Ele diz que. inundado por uma onda de caráter transformado e santo (5. tem agora seu “eu” totalmente dominado por Cristo. Aliás. de tal forma que o indivíduo desapareça. seria o mesmo que anular a graça de Deus e afirmar a inutilidade do sacrifício de Cristo (21). como ensinavam os mestres legalistas da Galácia. essa vida que consiste na construção do viver de Cristo em nós. o sentido da expressão “viver para Deus” (v. mas Cristo vive em mim”. ainda no v. admitir.48 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO NT. Essa é uma forma viva de dizer que morreu para a Lei ao apropriar-se dos benefícios da morte de Cristo. que a justiça vem pela Lei. Essa vida que implica morte para padrões antigos e inúteis. Paulo diz que morreu para a Lei ao unir-se a Cristo em sua crucificação. Aqui reside o “segredo” de toda a piedade cristã. 20. estar crucificado com Cristo é prender-se à cruz pela fé e. mas sim de um deixar-se dominar totalmente por Cristo. Assim.14). morrer para a velha vida com seus padrões e crenças vãs (6. Paulo prossegue explicando. essa vida que implica a renúncia de si próprio. só é possível “pela fé no Filho de Deus”. Esta não consiste de obediência exterior a regras.

1-5 1. e é por obra do Espírito Santo que participa das bênçãos da vida cristã. Ó gálatas insensatos! Quem os enfeitiçou? Não foi diante dos seus olhos que Jesus Cristo foi exposto como crucificado? 2. De fato. Gostaria de saber apenas uma coisa: foi pela prática da Lei que vocês receberam o Espírito. A INUTILIDADE DO ZELO LEGALISTA GÁLATAS 3. sendo a Lei incapaz de realizar qualquer uma dessas coisas. ou pela fé naquilo que ouviram? 3. conforme se vê no relato bíblico acerca de Abraão. Será que vocês são tão insensatos que. o evangelho e seu poder É mediante a fé que o homem é justificado. Será que foi inútil sofrerem tantas coisas? Se é que foi inútil! 5. Aquele que lhes dá o seu Espírito e opera milagres entre vocês realiza essas coisas pela prática da Lei ou pela fé com a qual receberam a palavra? .3. querem agora se aperfeiçoar pelo esforço próprio? 4. tendo começado pelo Espírito. em quem desaparecem as barreiras entre os homens. a Lei não foi dada para salvar. mas para dar limites ao mal e conduzir o pecador a Cristo.

Paulo quer claramente despertar seus leitores de forma que tornem à sensatez. nublando sua mente e impedindo-o de andar à luz das verdades mais elementares do evangelho.15). conduzi-las à apostasia. sente-se atraído pela aparência de piedade que acompanha o zelo pelas tradições e pelas regras religiosas. Com elas. mas não tem poder para fazer o indivíduo andar um centímetro sequer no rumo da santidade (Cl 2. que busca a salvação por meio da obediência externa a regras. enfim. busca cegamente a aprovação e admiração dos homens que mostram-se sempre impressionados com a religiosidade exterior. Há.50 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO No capítulo 3 de Gálatas. é a mais absurda loucura. A partir do v. após entorpecer suas mentes. fica encantado com o que tem ares de grandeza e seriedade. Paulo passa a tecer diversos argumentos em defesa da fé como instrumento de justificação e ação especial de Deus em detrimento da observância da Lei. Aqui.23). escreve o apóstolo. Sua sabedoria se expressa na fé em Cristo (2Tm 3. O homem sábio é. assim. portanto. O homem fica fascinado com a idéia de ser capaz de produzir sua própria justificação. basicamente. Também um conceito mais amplo de sabedoria advém disso: o homem sábio é aquele que reconheceu a impotência dos seus esforços pessoais e lançou-se pela fé. nos braços do Salvador. . 1 também se deduz que o legalismo exerce um notável fascínio sobre a natureza humana. “Ó gálatas insensatos! Quem os enfeitiçou?” (1). sem reservas. Paulo toca num dos fatores que fazem do legalismo uma das mais perigosas armadilhas: o fato dele fascinar as pessoas e. Daí se depreende em primeiro lugar que abandonar a confiança exclusiva em Cristo e se estribar numa justiça própria imaginária. sabedoria na fé.4). ao abandono da fé na suficiência de Cristo (5. o homem que crê. A seção se inicia com fortes palavras de censura que expõem a triste condição dos gálatas. É como se enfeitiçasse o homem.

a dirigir-lhes perguntas cujas respostas são fáceis e óbvias. aqueles cristãos deixaram-se levar pelos encantos da doutrina da justificação pelas obras. Paulo lhes apresentara o sacrifício do Senhor e o significado de sua obra com tamanha vivacidade que era como se eles tivessem sido testemunhas oculares da crucificação (1Co 1. 2. A despeito disso. com seu zelo aparentemente piedoso e glórias transitórias. sendo seduzidos pelos contornos de um sistema religioso centrado no esforço humano. fica ainda mais patente a insensatez dos gálatas.23. mas verdadeira e surpreendente estupidez. 20-21).1. De fato.O EVANGELHO E SEU PODER 51 A insensatez dos crentes da Galácia ganhava contornos ainda mais fortes quando se considerava que o evangelho fora exposto a eles com clareza indescritível. 48. tão óbvias são as respostas que tais perguntas requerem que. 2. Paulo dirige aos seus leitores.2). 14. Portanto. os relatos da conversão dos crentes da Galácia constantes do Livro de Atos mostram que tais conversões não foram acompanhadas de nenhuma manifestação externa de dons espirituais (At 13. Aliás. a seguinte pergunta: “foi pela prática da Lei que vocês receberam o Espírito. 2. no v. a partir do v. por meio delas. ou pela fé naquilo que ouviram?” Daqui se depreende tanto que os gálatas haviam recebido o Espírito Santo quanto que tinham plena consciência disso. A fim de despertar os crentes da Galácia do sono da insensatez. a consciência de que tinham o Espírito estava presente nos gálatas em virtude de uma obra interna do .43.1 A suficiência da obra de Cristo no Calvário fora apresentada a eles de forma tão enfática que nenhum espaço restara para a confiança nas obras da Lei. Isso reforça o fato de que o problema dos gálatas não fora ingenuidade ou ignorância. Aqui é preciso deixar claro que essa consciência não era decorrente de nenhuma evidência sobrenatural externa. Paulo passa. o que mostra quão poderosa pode se tornar a influência de falsos mestres no seio da igreja.

15-16). mais uma vez. já que.16. 5. 1Co 2.5.14. 1Co 2.52) e agora se manifestava num testemunho interior que lhes dava a certeza de que eram filhos de Deus (Rm 8. Chegam mesmo a dizer que só recebe o Espírito o crente que durante um período indeterminado se dedica a jejuns e orações. 2 .37-39. sendo certo que a ausência do Espírito em alguém. ninguém é capaz de cumpri-la de fato. como se sabe. Ora. Que essa dádiva nos advém pela fé em Cristo é fato que também compõe o ensino bíblico (Jo 7. Além disso. submetendo-se ainda a outras regras impostas pela igreja.19. faz uso dessa verdade para.21-22. 2Co 1. o propósito da própria pergunta do v. 2 é realçar algo óbvio. certos de que tinham o Espírito. sendo a Lei incapaz de conceder-lhes tal privilégio. Jd 19). assim.5).13). 3.52 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO próprio Espírito em seus corações. Ef 1. Ele mostra dessa forma que somente a fé os introduzira no rol dos homens habitados por Deus. Paulo. é prova de que tal pessoa não é salva (Rm 8. mostrar a superioridade da fé em relação à prática do legalismo. 2 reveste-se de uma importância singular nos dias modernos. isso equivale a dizer que o Espírito é dado por meio das obras e não pela fé. a qual consistira a princípio de enchê-los com uma alegria especial num ambiente que lhes era hostil (At 13. 6.9. aqueles crentes não eram ignorantes ao ponto de crer que tal dádiva lhes fora concedida por meio da observância da Lei mosaica. que o Espírito de Deus passara a habitar neles a partir do momento em que creram na mensagem anunciada por Paulo e não pelo fato de terem cumprido a Lei. A pergunta que Paulo faz no v. Isso porque na atualidade existem igrejas evangélicas que incentivam seus membros a buscar o batismo do Espírito Santo por meio de certas práticas cultuais ou de zelo religioso. O ensino da habitação do Espírito Santo no crente é parte integrante do Novo Testamento (Rm 5. Ora. ou seja.12. É justamente esse pensamento que o v.

Paulo. nada restando à Lei que faça dela fonte de benefícios espirituais.4-5. diminuir a obra de Deus e exaltar a obra do homem é o resultado final desse desvio doutrinário. 3. o cristão que confia meramente em seus esforços pessoais. se voltarem para si mesmos. e não pela prática da Lei (At 13.29. Agora ele os faz lembrar que também a habitação de Deus no homem advém somente da fé em Cristo.18.8. 8. Na Galácia. além de reduzir a real amplitude da obra de Deus na salvação humana. Essa crença é herética porque. Ef 3. desde o início. não progride um centímetro sequer. Fp 1. 2Co 3.39). É nele que encontramos o início de toda a nossa carreira espiritual como filhos de Deus (Jo 16. ele mostra quão absurda tolice é terem iniciado a carreira cristã pela atuação do Espírito Santo e. Paulo prossegue demonstrando a insensatez dos crentes da Galácia. 6.13. Agora. como se ele tivesse poderes para obtê-la.2). sem ela.16. porém.11.O EVANGELHO E SEU PODER 53 rejeita.6) e. Ef 1. crendo que em si encontrarão recursos para serem aperfeiçoados. 2Ts 2. Em seu ensino. 1Pe 1. os crentes não assimilaram essas verdades indo ainda muito além em seu erro. Paulo rejeita tudo isso. depois de conhecerem a incomparável força transformadora dele. Portanto. Aqui Paulo deixa claro primeiramente que é pela atuação sobrenatural do Espírito de Cristo que nos tornamos cristãos.13. O papel do Espírito. a consagração a Deus depende da obra . então. Eles acreditavam que pela atuação do Espírito neles. na transformação do homem não pára aí. De fato. Sua obra no crente continua (Rm 5. 1Co 2. porém. estavam confiando no esforço pessoal legalista não somente para servir a Deus. mas também para de alguma forma obter o que criam ser a justificação completa. Rm 2. no v. havia ensinado aos gálatas que a justificação é pela fé.13.5. no fim das contas coloca sobre os ombros do homem a responsabilidade por sua própria salvação. a obra de justificação havia apenas se iniciado e que agora dependia deles a conclusão dessa obra.

Paulo faz os crentes da Galácia recordarem um pouco de sua história. Aliás. É como se dissesse: “prefiro. 4.5).22). homens que confiavam na justiça de Lei que. Agora. Ao encerrar o v. Assim receberiam os aplausos daqueles que os perseguiram e não teriam passado inutilmente por tantas provas. “Teria sido desnecessário todo aquele sofrimento?” pergunta Paulo. Que terrível prejuízo ter sofrido por algo que.6) e. 8-10). foi por terem abraçado uma mensagem que desprezava o legalismo judaico que os crentes da Galácia haviam sofrido tanto. foram precisamente os judeus.3. A isso ele acrescenta. como pareciam agora crer. ainda acreditar que vocês não consideram inútil tudo pelo que passaram”. respondendo aos apelos dos falsos mestres. 14. mas é . valendo-se ainda de perguntas inquietantes. 4 com a frase “se é que foi inútil”.4951. Dessa maneira. 2) de que a dádiva do Espírito vem pela fé e não pela prática da Lei. Quando eles receberam o evangelho da salvação pela fé. contudo. porém. que a operação de milagres entre os gálatas era resultado da fé e não do zelo legalista. eles estavam se voltando precisamente para o legalismo judaico.3. nenhuma confiança pode ser depositada no esforço humano para a obtenção da justiça de Deus (Fp 3. Paulo termina o parágrafo reforçando o ensino já exposto (v.19-20).54 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO do Espírito (Rm 7. Talvez tenha em mente os que ele próprio realizou na Galácia (At 14. se insurgiram contra Paulo na Galácia (At 13. não tinha valor algum! Antes tivessem permanecido na Lei. rompendo muitos deles com o antigo sistema judaico. Tt 3. 5. além disso.4-5. Evidentemente essa perseguição atingiu também os que creram na pregação de Paulo (At 14. Paulo faz transparecer que duvida da hipótese que levantou. No v. Não se sabe de que milagres ele fala aqui. Com o v. vendo suas crenças serem ameaçadas.2. cuja rejeição lhes havia custado preço tão alto. essa decisão lhes trouxe inúmeros dissabores.

Prevendo a Escritura que Deus justificaria os gentios pela fé. 8. Seja como for. independentemente das obras da Lei Mosaica. Paulo repisa a tese de que a justificação é pela fé. mostrando que a tinha como palavra final nas questões que estava discutindo. Paulo deixa de argumentar a partir da lógica exposta em perguntas retóricas e passa a fazer uso de argumentos escriturísticos. Considerem o exemplo de Abraão: “Ele creu em Deus. É bom destacar que o largo uso de citações bíblicas feito por Paulo demonstra como o apóstolo tinha em alta conta a Sagrada Escritura. Com elas. portanto. recorre a ela muito mais do que ao raciocínio lógico. A BÊNÇÃO QUE VEM DA FÉ GÁLATAS 3. anunciou primeiro as boas novas a Abraão: “Por meio de você todas as nações serão abençoadas”. 6. de que os que são da fé.O EVANGELHO E SEU PODER 55 possível que outras manifestações especiais do Espírito fossem testemunhadas por aqueles cristãos. 9.2 o que redunda em tristes prejuízos doutrinários e morais. quando deseja provar a veracidade de seu ensino. 7. Se assim fosse. Paulo quer aqui tão-somente frisar que a graça operante de Deus é resultado da fé e não um pagamento pelas obras. estes é que são filhos de Abraão. homem de fé. e isso lhe foi creditado como justiça”. Estejam certos. Apelar para o que o texto sagrado diz na hora de dirimir . não poderia mais ser chamada de graça. Inúmeras citações do Antigo Testamento são feitas a partir do v. Essa visão da Bíblia como fonte última de autoridade tem sido abandonada pelos cristãos modernos. considerando que tais operações eram muito comuns nos dias apostólicos. De fato. os que são da fé são abençoados junto com Abraão. Assim. Nesse novo parágrafo.6-9 6.

Parecem.6.4-6). Hb 9. 2Pe 3. 9-10. então.56 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO questões de fé e conduta é prática que deve ser resgatada pelos crentes de hoje. 13). especialmente nos vv. aparentemente. esse exemplo de Abraão foi citado por Paulo com o mesmo objetivo cerca de nove anos mais tarde. por sua vez. o texto de Gênesis ensina que foi a fé que Abraão teve e não a sujeição a regras4 que o levou a ser considerado justo diante de Deus. Como. portanto. bem distintos os contornos que caracterizam a fé de Abraão e a fé dos crentes em Cristo. o apóstolo expõe de modo ainda mais completo o fato do grande patriarca da nação judaica ter sido justificado somente por ter crido em Deus e ainda antes de ser circuncidado (Rm 4.25). Ali. na Epístola aos Romanos. o patriarca creu no que Deus prometeu (Hb 11. Paulo pôde compará-las? A resposta a essa questão pode ser obtida observando-se Romanos 4. depositando nele sua confiança para a vida eterna.13.23. Esse fato tinha relevância especial no combate aos ensinos dos falsos mestres da Galácia que impunham aos crentes a necessidade da circuncisão caso quisessem ser salvos (5. 20-21. Nesse texto.18-22. 6. esse uso reiterado que Paulo faz de Gênesis 15. Além disso. Paulo deixa claro de que modo a fé de Abraão se identifica com a dos cristãos.3 De fato. 10. tem um foco distinto. o objeto da fé de Abraão não foi idêntico ao objeto da fé cristã. portanto.1. Paulo. 1Jo 2.1-3. citando Gênesis 15. Aliás. introduz o exemplo de Abraão como prova bíblica de que a justificação é pela fé.6 pode levantar objeções.12-13). Isso porque. mesmo sendo já velho e não tendo nenhum filho. Por ela o crente crê que Jesus Cristo é o Filho de Deus que morreu e ressuscitou pelos nossos pecados. A fé cristã. À luz desse texto. creu na promessa de que Deus faria uma grande nação a partir de um descendente seu (Gn 15. Entretanto. 6. Abraão. No v.15.2-6.11) e os cristãos fazem o mesmo ao crerem nas promessas que Deus fez em seu Filho (2Tm 1. Abraão creu .

. Gl 3.11). Paulo leva o leitor à implicação do que foi dito no versículo anterior: se Abraão foi justificado pela fé.21).16. judeus e gentios são um só. ou seja. independentemente de sua origem racial. 11.3). 9. 9. 3. portanto. basicamente.8-12 cp. que a justiça só é creditada ao homem que tem fé. No v. Cl 3.32).12-13. A igreja não surgiu para substituí-lo.1-2). A resposta à velha pergunta do coração de Jó (Jó 9.5-6). não havendo diferença entre ambos (1Co 12. Fp 3. Ora. Mas no aspecto externo. Nesse aspecto. quando creram em Cristo passaram a desfrutar das bênçãos espirituais prometidas a Israel (Rm 15. ocupando espaços diversos na visão e nos decretos de Deus.O EVANGELHO E SEU PODER 57 que Deus era poderoso para cumprir sua promessa. 4. É. que os crentes. O ensino de que os crentes são descendentes de Abraão aparece algumas vezes. direta ou indiretamente.6) e expandida no Novo Testamento pela pena do apóstolo Paulo.1-5. a igreja não se confunde com Israel. 25-29).1-2. 7.27. os verdadeiros filhos dele são aqueles que crêem. O fato de Abraão ter uma descendência espiritual não implica a desconsideração de sua descendência física.11-12. também os cristãos. errado dizer que a igreja agora é o novo Israel (1Co 10. no Novo Testamento (Rm 2. Esse ensino realça. Aqui é necessário fazer uma ressalva. Gl 6. mas sim para entrar na sua herança (Rm 11. sendo sob esse ângulo que Paulo traça um paralelo entre elas.11-16. É claro que dentro da igreja. foi dada pela Escritura na história da Abraão (Gn 15.1718. Ef 2. sendo ambos distintos.13. quando crêem na promessa de que em Cristo receberão o dom da vida eterna não duvidam que Deus é poderoso para cumprir sua Palavra (Fp 3. O Israel “segundo a carne” obviamente ainda existe e ocupa um lugar no plano de Deus (Rm 3.1-2. 11. Ef 2. O que não se pode perder de vista aqui é o ponto central que Paulo quer realçar. Hb 8.2829.15).26-28. a fé de Abraão e a dos cristãos se harmonizam plenamente.

não vira bezerro. dizendo que elas são simbólicas e não devem ser entendidas literalmente. portanto. muitos intérpretes da Bíblia tentam aplicar essas promessas aos crentes de hoje. Para que evitemos. Essas duas vertentes estão erradas e as conclusões falhas de ambas. Dessa forma. a saber. Decididamente. O povo judeu recebeu de Deus promessas de saúde e prosperidade caso fosse obediente. pessoas de todo o mundo e das mais diversas famílias. em Cristo. o ensino do v.5 Um outro grupo. devendo também temer maldições que afetem suas finanças e seu corpo. 7 é que os que crêem em Cristo adquirem o status de herdeiros de Abraão. caso fosse rebelde (Dt 28). não nos torna substitutos de Israel. esses erros. como herdeiros daquela patriarca. participamos das promessas feitas a Israel. ensinando que os crentes. podem desfrutar daquelas promessas de riqueza e saúde num sentido real e concreto. ainda que distintas. Nessa tentativa. Entendendo erradamente que a igreja é o “novo Israel de Deus”.58 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO Um dos benefícios oriundos dessa visão se relaciona com o modo como o crente entende as promessas de bênçãos materiais feitas a Israel no Antigo Testamento. mantenhamos nítida em nossa mente a seguinte verdade: como crentes procedentes dos gentios somos considerados descendência de Abraão porque. nem toma o seu lugar. porém. mesmo não descendendo fisicamente dele. Também recebeu promessas de castigo. Conforme se vê. apóiam-se no mesmo falso pressuposto. podem participar das promessas feitas ao velho patriarca e serem . cai na chamada Teologia da Prosperidade. que continua ocupando um lugar de importância nos propósitos do Senhor. por meio da fé. Também o cãozinho maroto que bebe o leite da vaca. fugindo da alegorização. que a igreja é o Israel moderno. Isso. alguns espiritualizam aquelas promessas. o estranho que participa da herança por meio de um testamento não anula com isso os direitos dos herdeiros naturais. sendo o novo Israel.

mas não ocupa seu lugar nem se confunde com ela (Rm 15. A distinção essencial entre os dois povos permanece e Deus trata a ambos de modo distinto. elas participam da promessa da herança. é claramente isso o que o apóstolo diz nos vv. A MALDIÇÃO DA LEI GÁLATAS 3. mas não se torna Israel. 12.13) A descendência espiritual de Abrão.27. não exclui do plano de Deus sua descendência física. É evidente que diante de Deus ninguém é justificado pela Lei. Já os que se apóiam na prática da Lei estão debaixo de maldição. para que recebêssemos a promessa do Espírito mediante a fé. 3. Cristo nos redimiu da maldição da Lei quando se tornou maldição em nosso lugar. pois “o justo viverá pela fé”.1213. pois está escrito: “Maldito todo aquele que não persiste em praticar todas as coisas escritas no livro da Lei”. Na verdade. a igreja se sub-roga em alguns direitos de Israel. reservando um lugar diferente em seu plano para cada um deles. “por meio de você todas as nações serão abençoadas”. . “quem praticar estas coisas. feita a Abraão. A Lei não é baseada na fé. 11. ao contrário. porém. Neles as palavras de Gênesis 12. Ef 2. 8 e 9.5-6). De fato. por elas viverá”. A igreja não substitui Israel. pois está escrito: “Maldito todo aquele que for pendurado num madeiro”. a saber. Isso para que em Cristo Jesus a bênção de Abraão chegasse também aos gentios. independentemente de sua origem racial. desfruta junto com ele da promessa que lhe foi feita de ser herdeiro do mundo (Rm 4.10-14 10. 13. Crendo em Cristo. Ela desfruta das bênçãos prometidas à nação judaica. significam que quem crê como Abraão.3.O EVANGELHO E SEU PODER 59 abençoadas com ele. 14.

26. Antes. 9). como se vê. No texto usado por Paulo. assim. Paulo mais uma vez recorre à Sagrada Escritura. Cabe a esta altura levantar a seguinte questão: em que consiste. considerando que o apóstolo trata aqui do meio pelo qual alguém é liberto da condenação eterna.60 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO No v. At 15. 10. Paulo aponta para o contraste existente entre a condição espiritual dos que “são da fé” e a condição espiritual dos que “se apóiam na prática da Lei”. como “os que são das obras da Lei”. Deuteronômio 27. . a maldição decorrente da transgressão da Lei apresenta conseqüências marcantemente materiais. Para provar a existência de maldição sobre os mestres legalistas e sobre todos os que buscavam ser justificados pela prática da Lei. Logo.10). a expressão aponta para a atitude de quem põe a confiança em sua própria justiça para a salvação da alma. Paulo. Paulo se refere a estes. Agora.15ss). 9. tornam-se objeto de sua terrível maldição. porém. todos os que se colocam sob o seu jugo fatalmente a transgridem e.26). o apóstolo dos gentios ensinou que “os que são da fé são abençoados junto com Abraão. palavra final em qualquer discussão de ordem doutrinária. os que são da fé são abençoados (v. homem de fé”. literalmente. no v. Paulo tem em mente aqui um pressuposto claro: ninguém jamais conseguiu guardar a Lei (6. Citando. exatamente. a maldição da Lei? À luz do texto citado por Paulo (Dt 27. estende o seu significado para abranger a punição de Deus sobre os que não crêem. bem como sujeito ao seu terrível e certo castigo (Dt 28. não fixa o olhar nesse aspecto do castigo. Se por um lado.13. Isso realça o contraste com “os que são da fé” e. a maldição consiste em estar sob a reprovação e ira de Deus. demonstra que é maldito todo aquele que não pratica a totalidade dos preceitos legais. especialmente aqueles que. os que buscam sua justificação através da observância dos preceitos da Lei Mosaica estão debaixo de maldição. a princípio.

Nos dias modernos. quando ele cita a própria Lei e amplia o seu sentido. 1. mas para os que são da Lei ela é pronunciada por Paulo de forma especial e aberta. 13-14). O uso do testemunho da Escritura como prova cabal da veracidade de seus argumentos continua a ser feito por Paulo no v.12-13. excluído da bênção da justificação pela fé e aguardando o castigo iminente. Agora ele cita Habacuque 2. põem sua confiança nas obras que realizam.O EVANGELHO E SEU PODER 61 procurando estabelecer uma justiça própria. o justo será preservado por sua fé. Em resumo. Paulo detectou o princípio presente nas palavras de Habacuque de que somente a fé . recaem indiscriminadamente sobre crentes e incrédulos. Tais pessoas estão sob a ira de Deus e sujeitas a um castigo futuro que. estar sob a maldição da Lei é estar em inimizade com Deus. enquanto isso não acontece. Nada disso. e que. cf. segundo eles. A única maldição que paira sobre a humanidade perdida é a maldição da Lei.4.6 Sob essa maldição toda a humanidade sem Deus se encontra. Esse texto traz a resposta de Deus a uma questão levantada pelo profeta que via a Babilônia levantar-se como instrumento do juízo de Deus para destruir Judá: “Como um Deus santo e justo pode usar os ímpios como seu instrumento de castigo sem agir para refreá-los?” (Hc 1.5-6). como se sabe. Tais grupos realizam correntes de oração.9). Tal maldição só recai sobre os incrédulos e somente pela fé em Cristo alguém pode ser colocado fora do seu alcance (vv. não ser herdeiro de Deus.16-17). a maldição de não ser justificado pela fé e. cultos de libertação e outras práticas supersticiosas para libertar os homens de supostas maldições hereditárias ou coisas semelhantes. vários grupos evangélicos têm pregado a existência dos mais diversos tipos de maldição que. porém. 11. pois um dia o ímpio será castigado (Hc 2. tem amparo bíblico. assim. A resposta de Deus é que essa situação não perdurará para sempre. ultrapassa os revezes da presente vida (2Ts 1. ou seja.

não se baseia na fé (v. 11). Ademais. o apóstolo se recorda da cruz do Calvário . A Lei. sob a Lei o homem só viverá se observá-la. um motivo para rejeitá-lo. porém. baseando-se apenas em expressões externas e na mecânica observância de regras. não a tomando por base. Paulo enxerga esse sentido da morte de Cristo na forma como ele foi executado. Essa é a situação dos que buscam ser justificados pela prática dos preceitos mosaicos: a maldição da Lei é para eles um problema perene cuja solução nem mesmo a própria Lei oferece. Esta sequer exigia uma nova disposição interior para com Deus. se o justo viverá pela fé e a Lei a dispensa. Uma terceira citação do Antigo Testamento é feita por Paulo no v. tanto que o apóstolo o repete em Romanos 1. sendo ela o traço distintivo do justo. Aqui o contraste entre a fé e as obras da Lei é notável. é como se dissesse: “A Lei traz maldição sobre quem a desobedece (v. O único modo de se livrar do castigo é pela fé (v.17.62 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO pode livrar o homem do castigo. 12. 12). logo os que são da Lei não viverão! O que Paulo disse nos vv. e aqui reside a questão principal.23. a maldição sobre os que são da Lei permanece”. 13). 10). por si só. 11). É pela obra de Cristo na cruz que o homem é redimido da maldição da Lei (v. A falta de importância dada à fé no sistema legalista já seria. Logo. Esse princípio é o núcleo da doutrina da justificação pela fé. Se de um lado. Resumindo. Cristo nos substituiu. quando novamente quer ensinar essas verdades. o justo viverá pela fé (v. sem que necessariamente tenha fé no coração.5. Paulo mostra assim a superioridade do seu evangelho comparado com a mensagem dos falsos mestres. tomando o nosso lugar como maldito criminoso e sofrendo as conseqüências daquela maldição. Olhando para Deuteronômio 21. Trata-se de Levítico 18. 10). 11-12 tem como objetivo reforçar o ensino de que os que se apóiam na prática da Lei estão sob maldição (v. conforme mostra o profeta Habacuque.

uma bênção que a prática da Lei jamais poderia obter (Gl 3. se tivesse sido dada uma lei que pudesse conceder vida. 16. porém. passassem a desfrutar da bênção prometida a Abraão (Gn 12. que veio quatrocentos e trinta anos depois. Pois. tornando-se habitação dele. o mediador representa mais de um. Cristo. mas: “Ao seu descendente”. humanamente falando. Qual era então o propósito da Lei? Foi acrescentada por causa das transgressões. 20. pela mão de um mediador. isto é. concedeu-a gratuitamente a Abraão mediante promessa. . Assim também as promessas foram feitas a Abraão e ao seu descendente. como se falando de muitos. Contudo.3.7 O v. porém. se a herança depende da Lei.O EVANGELHO E SEU PODER 63 e vê ali o Senhor sendo considerado transgressor em nosso lugar. e foi promulgada por meio de anjos. mediante a fé. Deus. 19. é um.13-16). até que viesse o Descendente a quem se referia a promessa. Deus. nem acrescentar-lhe algo. Rm 4. a Lei opõe-se às promessas de Deus? De maneira nenhuma! Pois. Cristo provou a maldição de Moisés para que os crentes provassem a bênção de Abraão. 18. Então. ninguém pode anular um testamento depois de ratificado.8 A HARMONIA ENTRE A PROMESSA E A LEI GÁLATAS 3. em vez de sofrer seus castigos. Assim. dando a entender que se trata de um só. 17. Irmãos. não anula a aliança previamente estabelecida por Deus. E não somente isso. Quero dizer isto: A Lei. 21.2). de modo que venha a invalidar a promessa. colocando-se assim sob a maldição da Lei. homens de todas as famílias da terra se livrassem da maldição da Lei e.15-29 15. 14 explica que essa obra substitutiva de Cristo foi realizada para que. A Escritura não diz: “E aos seus descendentes”. certamente a justiça viria da lei. Por meio dessa fé o homem recebe o Espírito Santo. já não depende de promessa.

são descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa. a fim de que a promessa. que é pela fé em Jesus Cristo. Paulo prossegue enfatizando sua natureza pactual. não pode ser alterado. 15. ou seja. de Cristo se revestiram. o apóstolo usa a ilustração da aliança para explicar em que consistiram as promessas feitas a Abraão. 25. Não há judeu nem grego. já não estamos mais sob o controle do tutor. 27. tendo chegado a fé. Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus. introduzido o tema relativo à promessa feita a Abraão. uma vez confirmado e concluído. homem nem mulher. muito menos podem ser acrescentadas a ele exigências inexistentes ao tempo de sua celebração. 28. que um contrato9. Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado. E.64 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO 22. Assim. Antes que viesse essa fé. apontando para a figura de um instrumento jurídico comum também em nossos dias. nela encerrados. Ele diz. mostrando que tal promessa não pode depender de exigências (como as normas da Lei Mosaica) impostas posteriormente. pois todos são um em Cristo Jesus. pois os que em Cristo foram batizados. Agora. o que é verdade no tocante a acordos feitos formalmente entre os homens. para que fôssemos justificados pela fé. fosse dada aos que crêem. No parágrafo anterior. a Lei foi o nosso tutor até Cristo. até que a fé que haveria de vir fosse revelada. estávamos sob a custódia da Lei. 26. depois de ratificado. portanto. escravo nem livre. Assim. 23. no v. Tendo agora. porém. aplica-se às promessas feitas . se vocês são de Cristo. Ora. 24. 29. Paulo ressaltou que. pessoas de todos os grupos étnicos (e não somente os judeus) podem desfrutar da bênção prometida a Abraão (14). mediante a fé em Cristo.

De fato. Cabe ainda nesta altura ressaltar o modo como Paulo faz uso do texto bíblico. vê algo mais aqui. a presença desse termo no texto hebraico significa apenas que a promessa de Deus não se limitaria ao tempo de vida de Abraão. mas se estenderia ao longo das eras. se revestiram dele e a ele pertencem (vv. pela fé.10 O v. Deus não poderia se comprometer a abençoar Abraão e o seu descendente de forma incondicional (cf. . A implicação disso é que as promessas não seriam restritas aos que descendem fisicamente de Abraão. fixando sua atenção em aspectos gramaticais e mostrando sua relevância para a construção da Sã Doutrina. hão de herdar o mundo. o uso do singular conduz ao entendimento de que a “semente” se refere a um descendente só. mas a todos. Se assim fosse. tanto judeus como gentios que.13). contudo. A princípio. “mudar as regras do jogo”. 24. homens do mundo inteiro tornam-se beneficiários das promessas feitas a esse descendente de Abraão e. O apóstolo se detém sobre um detalhe presente no texto de Gênesis em que a referência à descendência de Abraão é feita por meio de uma palavra no singular. incluindo exigências novas a um contrato já concluído. ou seja. É fácil concluir onde Paulo quer chegar: a Lei não se constitui numa exigência necessária para que alguém se beneficie da promessa feita a Abraão.O EVANGELHO E SEU PODER 65 a Abraão e ao seu descendente (16). Ele observa que o uso do singular em Gênesis não é acidental e que o termo “semente” também não deve ser entendido de modo coletivo. Para o apóstolo.15. É notável a atenção que o apóstolo dá a detalhes. 16 apresenta uma breve nota hermenêutica esclarecedora de um ponto que é essencial para o ensino de Paulo.13) e. alcançando inúmeras gerações procedentes do grande patriarca. ou seja. Cristo. conforme estabelece o pacto de Deus com Abraão (Rm 4. 27-29). portanto.7. Rm 4. depois de algum tempo. se encontram “em Cristo”. Paulo. a palavra “semente” (Gn 12. Deus teria agido de modo injusto. 13. ou seja. juntamente com ele. estando em Cristo.7).

Isso faria com que a dádiva da herança passasse a depender do preenchimento dos novos requisitos e não mais da promessa gratuita de Deus (18). demonstrar essa verdade a nós mesmos e encerrar o homem sob a desobediência. conseqüentemente. A verdade.5. então qual é a sua razão de ser? Para que ela foi dada? Com que objetivo foi imposta? No v.11 A intenção de Paulo ao usar a ilustração do testamento ou do contrato (15) é exposta claramente no v.7. Do que Paulo disse até aqui. 26-29) mediante uma promessa. sendo a promessa feita mediante uma aliança já ratificada.66 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO Essa busca de sentido baseada não na imaginação ou na criatividade do intérprete. é que a herança foi concedida a Abraão e ao seu descendente (Cristo e. 4. cf. e 7. impor requisitos para que o homem desfrutasse dessa mesma herança. os que são dele. 19 o apóstolo explica que as normas estabelecidas no Sinai foram promulgadas “por causa das transgressões”. porém. 17. dada séculos depois. não haveria como a Lei. Ademais. Nesses textos aprendemos que a Lei de Moisés torna o homem consciente do seu pecado12. por causa dela. invalidá-la. a Lei foi dada para realçar o fato de que somos maus. Deus não poderia se comprometer a dar gratuitamente uma herança e. 22-23).15.20. depois de selado o compromisso. deve servir como padrão para todos os intérpretes da Bíblia na modernidade. O significado disso pode-se deduzir a partir de Romanos 3.13 .20. É isso o que Paulo quer dizer quando afirma que a Lei foi dada “por causa das transgressões”. independentemente de qualquer exigência prévia ou posterior como a Lei Mosaica. uma vez que ressalta a sua desobediência. Ela veio para realçar o pecado e demonstrar que somos pecadores. surge naturalmente uma questão: se a Lei não é um requisito para o desfrute da promessa. mas na gramática e na análise objetiva. Vê-se ali que. Assim. todos são colocados sob a condição de transgressores (vv. 5. De fato. vv.

ou seja. no verso 20. Tendo cumprido seu objetivo. vigorou “até que viesse o Descendente a quem se referia a promessa” (19). a saber. Ef 2. é Cristo.14 O v. sua obra pôs fim ao império da Lei (4.10). ou seja. Na verdade. mas realçar seu pecado e. Prosseguindo em sua apologia da gratuidade da promessa. A presença dos anjos na entrega da Lei é vista também em Deuteronômio 33. A seguir.38. não é justificar o homem. O pacto da Lei teve um mediador que representava o . por fim. a Lei deixou de vigorar. Isso significa que ao longo de séculos a Lei Mosaica demonstrou satisfatoriamente.14-15). como descrito acima. Vd tb. o qual. Rm 8. Cl 2. 16. Cristo.2.5.31). Paulo.7-10.53 e Hebreus 2. especialmente na história de Israel. há um contraste entre aquela aliança e a feita anteriormente com Abraão.12. como vimos. Rm 10.4). deu lugar à solução para essa mesma desobediência. Atos 7.17. a Lei. se manifestou neste mundo.4).2.O EVANGELHO E SEU PODER 67 O propósito da Lei. expondo a deplorável condição do ser humano. serviu para conduzi-lo a Cristo.16-17. a pecaminosidade humana (Rm 9. Hb 7. conduzi-lo à busca de socorro em Cristo. como será visto adiante. 19 termina dizendo que a Antiga Aliança veio por meio de um mediador. porém. Ainda que o Senhor tenha nascido sob a Lei (4. a Cruz (Jo 1.3-4. longe de desprezar a Lei. Paulo menciona esse detalhe para afastar qualquer acusação de desprezo pela santidade da Lei. distorcendo suas palavras e acusando-o de tratar a Lei de Deus com desprezo inaceitável. pois ao ensinar que a mesma não tinha utilidade para justificar o pecador. 2Co 3. Moisés. tendo atingido seu propósito de realçar a desobediência. 9. 24. em quem encontra a solução para sua tão terrível situação (v. 8. mui facilmente seus inimigos poderiam apegar-se a isso. Isso aconteceu tão logo a solução para a transgressão do homem demonstrada na Lei. tão somente mostra o objetivo distinto dela que. segundo o v.13. Paulo acrescenta que a Lei foi “promulgada por meio de anjos”. Esta.

a promessa da herança e a promulgação da Lei estariam em clara harmonia. No Pacto Abraâmico nenhum mediador havia. O apóstolo ensina que se Moisés tivesse trazido aos judeus uma lei que pudesse levar à vida eterna. então a justificação seria oriunda da Lei. mas só Deus se comprometeu. O v. Dessa maneira. . Na Aliança Abraâmica também havia duas partes. Deus e o homem. e os judeus. constituiriamse um povo livre da culpa do pecado e pronto a receber a herança prometida. então. pode ser entendido da seguinte maneira: no caso da Lei houve um mediador que representava a obrigação de muitos. uma importante questão: há contradição em Deus? Como ele pode fazer uma promessa e depois estabelecer preceitos que em nada cooperam com o cumprimento dela? Como ele pode prometer uma herança e. nada impondo ao homem. o mediador. sendo uma delas (a parte humana) representada por Moisés. ao observá-la. em seguida. Surge.68 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO povo colocando-se sob as disposições legais impostas por Deus. pois nele somente Deus se obrigou. estabelecer regras que afastam ainda mais o homem do gozo dessa herança? Como ele pode prometer que o homem será bendito e justo e então criar um sistema de normas que o tornam maldito e culpado? Acaso a Lei não se opõe às promessas de Deus? (21). 20. Deus. Na Aliança Mosaica havia duas partes entrando numa relação em que ambas tinham deveres. portanto. sem impor nada a Abraão que servisse como condição para que ele cumprisse sua promessa de abençoá-lo juntamente com seu Descendente. A resposta de Paulo a essa pergunta é um enfático “não”. já no caso da promessa somente Deus figurou como a parte comprometida. Paulo aponta esse contraste para fortalecer sua tese acerca da gratuidade da promessa e desmantelar o ensino dos falsos mestres que teimavam em dizer que a herança de Deus poderia ser obtida pelo cumprimento de preceitos legais.

assim. então. Portanto. torna a conduta humana virtuosa e protege a sociedade da degradação total. Crendo. estar sob semelhante tutela implica também redução da liberdade. Antes que o evangelho fosse revelado. Seu plano consistiu em fazer da Lei um meio de colocar todos sob o pecado15. ainda que seja incapaz de produzir a justificação. o homem estava debaixo da Lei Mosaica (23). pondo o homem debaixo do pecado. mostrando que a salvação é simplesmente a inserção do homem nos benefícios desse pacto. deixa unicamente a fé em Jesus Cristo como solução para a sua culpa e. a saber. a de que a promessa feita a Abraão é dada somente aos que crêem em Jesus Cristo.O EVANGELHO E SEU PODER 69 porém. Por outro lado. o Descendente de Abraão. Paulo estende os efeitos do Pacto Abraâmico até os nossos dias. mostrando que é pela fé em Cristo que alguém pode tornar-se herdeiro da promessa abraâmica. A linguagem de Paulo traz a idéia de estar sob a tutela de um guarda que tem a função de proteger. o homem torna-se participante da promessa. o estimula a crer. a Lei dada no Sinai se constitui na perfeição da justiça e o esforço do homem em conformar a sua vida aos seus preceitos. Antes. . E para que essa inserção ocorra é preciso tão somente que o homem creia em Cristo. Enquanto abraçar a fé em Cristo liga o homem a Abraão e faz dele mais um herdeiro. É importante que o certo grau de complexidade de raciocínio presente no texto não venha nublar a principal e claríssima lição que o apóstolo quer incutir nos seus leitores. a Lei é útil para mostrar que a fé em Cristo é o único caminho para as bênçãos da promessa. um preço muito alto quando se considera que a obediência da Lei não nos faz merecedores da herança prometida. a Lei não vai contra a promessa de Deus. De fato. Dessa forma. É assim que ela não se opõe às promessas de Deus. decidiu harmonizá-las de forma diferente. a fim de conceder pela fé a herança prometida (22). O apóstolo quer deixar claro que abraçar a Lei liga o homem a Moisés e faz dele mais um transgressor.

entre outras coisas. enquanto exercia sobre ele alguma influência moral. desse modo. No constante propósito de desmontar a idéia de que é possível entrar na posse da herança prometida a Abraão por meio da guarda da Lei. 19). aprendeu da sua pecaminosidade e miséria. Não é mais preciso a custódia do tutor. na língua grega. É a esse evangelho que Paulo se refere com a expressão “a fé que haveria de vir” (23). obviamente. especialmente porque. . o homem teve sua conduta controlada e.17). de modo que só por meio dela pode-se chegar à herança (Rm 8. “pedagogo”). A palavra traduzida no português por “tutor” (NVI) ou “aio” (ARA) é. Paulo realça que a fé à qual fomos conduzidos nos tornou filhos de Deus (26). o único meio pelo qual o homem pode ser justificado diante de Deus. o apóstolo demonstra que é a fé em Cristo que nos torna filhos de Deus. o termo usado para designar a pessoa que cuidava de uma criança (paidagwgoj ´ . portanto. a Lei tomou o homem pela mão e. pode-se dizer que a criança está agora com o Mestre.70 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO Dentro do claustro da Lei. em vez de se opor às promessas de Deus. Dessa forma a Lei foi útil. é essencial quando se fala em direito de herança. tendo realizado plenamente sua função. como já visto (v. O exercício dessas funções atribuídas ao código mosaico. o tutor torna-se agora uma figura desnecessária (25). também mostrava que a perfeita obediência era impossível e. Aproveitando a figura usada por Paulo. contudo. mostrou que o único caminho para recebê-las é a fé (vv. Lit. A idéia de filiação. A conclusão lógica a que se chega disso tudo é que a Lei realizou a tarefa de um tutor que nos levou até Cristo (24). a tarefa de escoltá-la na sua ida à escola. realizando. já prometido nos escritos proféticos (Rm 1. Assim. deveria perdurar somente até o advento do evangelho de Cristo.1-2). Evidentemente. 21-22). o conduzia à fé em Cristo.

Que Paulo não via o batismo com água como necessário à salvação.3738. 8.12-13. É como se Cristo fosse um manto que cobrisse e envolvesse o crente de tal forma que ambos se tornam como um só.17. Aliás.11). mas à realidade espiritual da inserção do crente no corpo de Cristo e na sua esfera de atuação e influência especiais (1Co 12.21). já que essas duas coisas aconteciam quase que ao mesmo tempo na prática da igreja primitiva (At 2. Dessa forma ele se reveste de Cristo. Segundo o texto. Isso prova ser correto dizer que o crente é filho de Deus “em Cristo Jesus”. recebendo a adoção decorrente da . deduz-se facilmente de 1 Coríntios 1. vê antes Cristo nele do que ele próprio. ou seja. Por isso. todas as distinções entre as pessoas tornam-se irrelevantes (28). o homem passa a desfrutar do status de filho de Deus quando se une ao Salvador pela fé (Jo 1. É o chamado batismo do Espírito Santo. é bem provável que esse seja o sentido pretendido no texto em análise. È também fora de dúvida que muitas vezes Paulo usa a palavra “batismo” não para se referir à ordenança observada com água. Cl 3. o homem batizado em Cristo.3-4. reveste-se do Filho de Deus. 16. Segundo os vv. Nessa união. Pedro faz o mesmo em 1Pe 3. Cl 2.14-17. o Filho de Deus como que “contagia” aquele que crê com sua filiação.33). sua união com o Senhor é tamanha que Deus. ao olhá-lo. algumas vezes Paulo refere-se à experiência de conversão usando a figura do batismo (Rm 6.15). 27 nos é dito.13).41. no que consiste o processo pelo qual alguém é inserido na esfera de filiação mencionada no versículo anterior. Cl 3.12.12). Nos tempos neotestamentários havia forte conexão entre crer e ser batizado. Ser batizado em Cristo significa simplesmente unir-se a ele pela fé. Contudo. A união com o Senhor faz de todos um só corpo (1Co 10.O EVANGELHO E SEU PODER 71 No v. 26-27. com mais detalhes. 12.14-16. o efeito principal da fé é que. Sob a vestimenta de Cristo. anulando as desigualdades e desencorajando qualquer forma de inimizade e discriminação (Ef 2. portanto.

passa a ter direito à herança prometida ao grande patriarca (29). o homem se torna um descendente de Abraão tal como o seu Senhor e.72 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO união com Jesus. . conseqüentemente.

porque vocês são filhos. Deus também o tornou herdeiro. Deus enviou o Espírito de seu Filho ao coração de vocês. mas sim rejeitá-los. acolher os falsos mestres e seu ensino escravizante. e. e ele clama: “Aba.1-7 1. enquanto o herdeiro é menor de idade. em nada difere de um escravo. Digo porém que. E. nascido debaixo da Lei. Assim também nós. tornaram-se filhos e herdeiros de Deus. Assim. estávamos escravizados aos princípios elementares do mundo. No entanto. quando éramos menores. o evangelho verdadeiro e a liberdade Os crentes da Galácia. da mesma forma como Sara rejeitou a escrava Hagar e o filho dela. a fim de redimir os que estavam sob a Lei. para que recebêssemos a adoção de filhos. portanto. Deus enviou seu Filho. mas filho. embora seja dono de tudo. . por ser filho. não devendo. quando chegou a plenitude do tempo. 2. ele está sujeito a guardiões e administradores até o tempo determinado por seu pai. 7. O FIM DA ESCRAVIDÃO GÁLATAS 4. Mas. tendo sido libertos de todo tipo de jugo legalista. Pai”. nascido de mulher. 5. você já não é mais escravo. 4. 3. 6.4.

o herdeiro em nada difere do escravo. mas todos os seres humanos. Tendo chegado esse tempo. fala da condição prévia de todos os homens. então. estendendo-se essa situação até o tempo que ao pai aprouver. 8). não somente quem estava sob o sistema judaico vivia curvado em sujeição. Paulo tem agora a humanidade inteira em mente (Veja-se v. ao longo da sua história. Precisamente nesse ponto. tanto judeus quanto gentios. o apóstolo diz que. ao longo do período de menoridade.2 Paulo quer mostrar. transporte essa figura para a experiência humana comum. com a figura constante dos vv. Paulo deixa de falar somente da Lei Mosaica como fator opressor. A figura pretende ilustrar o fato de que aqueles que Deus haveria de salvar estiveram sujeitos a sistemas morais e religiosos diversos até o tempo em que Cristo se manifestou. É já nos vv. no texto agora em análise. desfrutem plenamente do status de herdeiro. que o ser humano teve. No afã de realçar sua condição de sujeição. 1-2. não há mais porque submeter-se a tais sistemas. o seu tempo de menoridade.29 dá ensejo a que Paulo. no início do capítulo 4. a maioridade para que. . sob tutela. que Deus haveria de salvar. A expressão “rudimentos do mundo” (stoiceia tou kosmou ´ ) aponta aqui para as regras e crenças elementares que estão presentes nas diversas expressões da religiosidade humana. Foi o tempo em que esteve sujeito de modo servil aos “rudimentos do mundo” (3). a fim de acrescentar outras verdades àquelas que já enunciou ao longo da carta até este ponto. O jugo dessa Lei era sentido apenas pelos judeus. Segundo ele. Tais pessoas são comparadas a filhos menores que aguardam. estando sob o controle e as ordens de tutores e curadores1. uma vez que se encontravam debaixo do jugo dos “rudimentos do mundo”. O apóstolo. 1-2 que Paulo apresenta a figura do herdeiro menor.74 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO A menção da figura do herdeiro em 3.

deve-se notar que a expressão “plenitude do tempo” corresponde ao “tempo determinado pelo pai” mencionado na ilustração constante dos vv. A frase também implica a pré-existência de Cristo. julgou por bem enviar seu Filho ao mundo. pelos quais a Deus aprouve revelá-lo ao tempo que o fez. Deus determinou que chegasse ao fim a fase da história em que as pessoas deveriam ser regidas em sua religiosidade por normas oriundas da Lei Mosaica (no caso dos judeus) ou da consciência humana (no caso dos gentios). estão guardados em sua mente. segundo o apóstolo. havendo a possibilidade de certo grau de conhecimento dele por meio das escrituras proféticas (Rm 16.4 Somente nos é dito que o evangelho foi guardado como um mistério. Deus antes o enviou para que então nascesse de . denominadas também ali como “rudimentos do mundo” (Cl 2. sendo impossível conhecê-los. escravizavam tanto quanto a Lei de Moisés.8. 20-23).O EVANGELHO VERDADEIRO E A LIBERDADE 75 Nos vv. Plenitude do tempo é. 4. Os motivos específicos. porém. Não nos é revelado na Sagrada Escritura as razões pelas quais o Senhor não enviou Cristo antes.17-18). 1-2.5 O que vem a seguir no versículo 4 é de extremo valor para a cristologia.25-27). perdeu sua razão de ser com o advento de Cristo. portanto. A frase “Deus enviou seu Filho”. 9-10 vemos exemplos desses “rudimentos”. em sua soberania. implica a divindade de Cristo. Então ele enviou seu Filho (4). na qual Paulo combate especialmente o protognosticismo asceta. O tempo de submissão a tais preceitos. contudo. mantendo os homens em trevas durante milênios. pode-se ter um vislumbre da natureza dessas regras impostas aos homens. os quais. Falando especificamente sobre o v. pois sendo Filho de Deus ele é igual a Deus (Jo 5. Em sua soberania. pondo fim ao tempo de tutela das leis. Também na Epístola aos Colossenses. a fim de livrar da escravidão os que estavam sob qualquer fardo legal3 e fazer deles membros de sua família (5). a fase da história em que Deus.

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mulher. Sua geração no ventre de Maria, portanto, não deu origem à sua existência. Ele já existia antes da encarnação (Jo 1.1-3; 8.58; 12.41 [cf. Is 6.1]; 17.5; Cl 1.16-17). É notável ainda que Paulo se refira a Cristo como “nascido de mulher”. Isso, acrescido da verdade de que ele é o Filho de Deus, desemboca na doutrina das duas naturezas de Cristo. Ele é Deus-homem. É o Filho de Deus e o Filho do Homem (Jo 5.26-27). Todo o Novo Testamento afirma a realidade tanto da natureza humana quanto da natureza divina em Cristo, ainda que não esclareça o modo como elas se relacionam (Jo 1.14; At 20.28; Rm 9.5; Hb 2.14). A união das duas naturezas na pessoa singular e única de Cristo é chamada tecnicamente de União Hipostática.6 O v. 4 termina com a afirmação de que Cristo nasceu “sob a Lei”, ou seja, Cristo colocou-se debaixo da Lei, sujeitandose a ela. Sua humilhação não se manifestou apenas no fato de fazer-se carne, mas também no fato de fazer-se servo obediente (Fp 2.5-8). Assim como assumiu nossa humanidade, porém sem pecado (1Jo 3.5), também assumiu nossa escravidão, porém sem desobediência (Mt 5.17; Rm 5.19). Qual foi a intenção do apóstolo ao mencionar esses aspectos relativos ao advento de Cristo. Por que dizer que Cristo nasceu de mulher e sob a Lei? O apóstolo quer, sem dúvida, mostrar Cristo como o substituto perfeito do homem. Paulo apresenta Jesus como um homem verdadeiro debaixo de um jugo verdadeiro. Como tal, Cristo pôde participar do drama humano e substituir perfeitamente o homem ao morrer sob a Lei, submetendo-se inclusive à maldição que ela impõe aos que a desobedecem (3.13). Portanto, a plena substituição é o que Paulo tem em mente aqui. Foi essa perfeita substituição que tornou possível o resgate dos que estavam sob a lei (5). A destruição da heresia gálata dependia da demonstração de que o Filho de Deus, fazendo-se homem, colocou-se sob a Lei de Moisés até o ponto de provar o castigo aplicável aos

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desobedientes. Essa sua obra, tendo um caráter substitutivo (3.13), libertou o homem do jugo legal, não havendo mais qualquer razão para que as igrejas da Galácia novamente o tomassem sobre os ombros. O Filho de Deus fez-se homem e nasceu sob a Lei a fim de “resgatar os que estavam sob a lei” (5). Nessa condição estavam todos os homens, tanto judeus, debaixo da Lei Mosaica, quanto os gentios, debaixo dos rudimentos do mundo (vv. 3, 8-9). Paulo afirma que a encarnação e auto-sujeição de Cristo tiveram por propósito resgatar o ser humano dessa situação. Resgatar é livrar mediante o pagamento de um determinado preço. Ora, é sabido que o preço pago para o livramento do homem foi o sangue do próprio Filho de Deus (At 20.28; 1Pe 1.18-19; Ap 5.9). Assim, nos vv. 4-5, o apóstolo faz alusão à encarnação de Cristo, ao seu ministério terreno e à sua morte e explica que o alvo disso tudo foi libertar o homem da escravidão. Que grande absurdo seria agora os próprios crentes em Cristo se sujeitarem aos ditames de leis estéreis! Segundo o v. 5, a obra de resgate não é o estágio final na salvação do ser humano. Ao contrário, o resgate é o caminho para a realização de um bem ainda maior: Deus livra o escravo para adotá-lo como filho! Ele não somente o desobriga dos deveres da escravidão, não somente tira-lhe dos ombros o jugo da servidão, mas vai além e o recebe em sua casa, incluindo-o em sua própria família. Tira-lhe as correntes, mas não o despede. Antes, abre-lhe as portas, cobre-o com finas vestes, põe-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés (Lc 15.22). Por serem filhos de Deus, os crentes recebem o Espírito Santo (6). Paulo mostra aqui que a adoção implica a habitação (Rm 8.9). No v. 6 o Espírito Santo é chamado “Espírito do seu Filho” porque o Apóstolo quer realçar a intensidade da filiação do crente. O cristão é filho de Deus num sentido tão amplo que a ele é dado o Espírito do verdadeiro Filho, o Espírito do único Filho que é consubstancial ao Pai. O efeito disso é que o

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A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO

crente “se sente” filho. Ele não tem a sensação de ser um estranho na casa do Pai; não se sente inadequado e sem liberdade para se achegar a ele e desfrutar de sua intimidade. Em vez disso, movido pelo Espírito do Filho que nele habita, aproxima-se do Senhor e clama: “Aba7, Pai!”, expressão que denota relacionamento íntimo e afinidade com Deus. Esse mesmo ensino é encontrado também em Romanos 8.1416. Nesse texto vemos que a habitação do Espírito, além de estimular a intimidade com o Senhor, faz com que o crente viva sob a direção da Terceira Pessoa da Trindade, livre do domínio da carne e do medo. Além disso, por meio dessa habitação, o crente recebe o testemunho interno do Espírito que lhe traz a certeza de ser alguém que pertence à família de Deus.8 O v. 7 encerra o desfecho do pensamento de Paulo nesse parágrafo: o crente não é mais escravo. Agora é filho! Para os gálatas essa afirmação tinha o propósito assumido de varrer de suas mentes qualquer forma de doutrina que refletisse ainda que a menor sombra de escravidão. Abraçar uma doutrina assim seria andar em desconformidade com a própria posição a que, pela obra do Filho de Deus, o crente foi alçado. Tendo ficado para trás o tempo de escravidão, e desfrutando agora, aquele que crê, da posição de filho de Deus, os benefícios de que desfruta não se limitam à presente era. Sendo filho ele é herdeiro (7). Pelo próprio Deus foi elevado a essa condição. Como filho que é, desfruta agora da liberdade e amanhã se regozijará na herança (Gl 3.29; Rm 8.17).

O PERIGO DE UMA NOVA ESCRAVIDÃO GÁLATAS 4.8-11
8. Antes, quando vocês não conheciam a Deus, eram escravos daqueles que, por natureza, não são deuses. 9. Mas agora, conhecendo a Deus, ou melhor, sendo por ele conhecidos, como é que estão voltando àqueles mesmos

ao tempo da sua incredulidade. o v. é impossível que o homem tenha acesso a Deus e ande com ele. De fato. 6-7. de modo que o crente deve fugir de qualquer forma de idolatria (1Co 10. ocasiões específicas e anos! 11. Por outro lado. Paulo adverte que o culto a eles prestado é dirigido a demônios (1Co 10. A menção do elevado status atual dos crentes da Galácia. 1Jo 5. 8 descreve o que havia acontecido outrora. Se o v. Ao receber o .14.2). não importa quão religioso seja. meses. Vocês estão observando dias especiais. Temo que os meus esforços por vocês tenham sido inúteis. Na verdade. foi a idolatria.O EVANGELHO VERDADEIRO E A LIBERDADE 79 princípios elementares. os gálatas haviam sido escravos de falsos deuses. a palavra admite o sentido de estar ligado a uma pessoa. relacionandose com ela. a saber.4-6.4. ou seja. De acordo com Paulo. Jesus Cristo. A escravidão aos ídolos.9 No v. Decorre disso a verdade de que à parte do evangelho. Paulo desenvolve mais esse ensino em 1 Coríntios 8. 8 há uma forte ênfase no fato de não serem deuses aqueles que os pagãos serviam. seu Filho. O verbo usado aqui (oida ) sugere mais do que o mero conhecimento de dados sobre alguém. 9 fala do “agora”.21). à qual os gálatas estiveram sujeitos. 12.19-20)10. ainda que os ídolos não passem de objetos inanimados (1Co 8. antes eles “não conheciam a Deus” (8). onde diz que ainda que muitos tomem para si o nome de “deuses”. constante dos vv. só há um Deus. conduz o pensamento do apóstolo ao chocante contraste existente entre essa gloriosa situação e a condição na qual os crentes da Galácia viviam anteriormente. o Pai. O modo como o desconhecimento de Deus se manifestara na vida dos crentes da Galácia. havia acabado. e um só Senhor. fracos e sem poder? Querem ser escravizados por eles outra vez? 10.

realçar aqui a conexão dos tais “princípios” com a escravidão da idolatria. Deve-se. aqueles conjuntos de regras predominantemente religiosas carentes de qualquer força contra o pecado (Cl 2. ou seja. Na verdade. 10. As perguntas de Paulo no v. Depois de terem sido objeto de tão grande graça que os libertou.11). por mais incrível que pudesse parecer. no entanto. Vêem-se assim. Esse fato tornava os gálatas ainda mais culpados. a melhor maneira de descrever seu privilégio era afirmando que eles eram conhecidos de Deus. fracos e sem poder? Querem ser escravizados por eles outra vez?” (9). Foi o próprio Deus quem se antecipou na busca de um relacionamento com aqueles irmãos. os destinatários de Paulo tornaram-se conhecedores de Deus. era exatamente esse retorno que os crentes da Galácia haviam empreendido. Voltando para o mesmo . Já foi visto o que são os “princípios elementares” (veja o comentário ao v. Paulo diz que eles agora estavam voltando novamente ao seu procedimento anterior. No entanto. 9 evocam o absurdo de um retorno do cristão à escravidão debaixo de qualquer sistema legalista. quando eles ainda se encontravam na mais mísera condição. De fato. exemplos do modo de agir daqueles cristãos que revelavam sua retomada do fardo típico de quem adora deuses falsos. Isso significa que a vida sob a escravidão dos falsos deuses era caracterizada pela observância dos princípios elementares. no v. 3). já que eram escravos absolutamente incapazes de dar um passo sequer na direção da verdade (Rm 3.20-23). seu relacionamento com o Senhor não foi o resultado de empenho ou iniciativa próprios.80 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO evangelho. de quão grave erro não seriam autores caso voltassem novamente a um viver curvado sob o jugo da escravidão? São esses os pensamentos que Paulo quer despertar em seus leitores ao perguntar “como é que estão voltando àqueles mesmos princípios elementares. ou seja. depois de afirmar que os seus leitores haviam se libertado da escravidão dos falsos deuses.

O EVANGELHO VERDADEIRO E A LIBERDADE 81 estilo de vida que caracterizara seus tempos no paganismo.11 Ora. que se tornem como eu. sendo certo que Paulo. os conduzira pelo caminho da liberdade que há em Cristo. 15. receberam-me como se eu fosse um anjo de Deus. ao anunciar o evangelho aos gálatas. É claro que todas essas observâncias tinham conotações judaicas. irmãos. Assim. vendo-os novamente agrilhoados a normas inúteis. Que aconteceu com a alegria de vocês? Tenho certeza que. ocasiões específicas e anos”. LEMBRANÇAS E ANSEIOS GÁLATAS 4. foi por causa de uma doença que lhes preguei o evangelho pela primeira vez. Eu lhes suplico. suspeitasse que todo o seu trabalho entre eles tivesse sido vão (11). De fato. sobre si mesmos atam fardos pesados. O novo cuidado da Lei judaica conduzia os homens de volta à velha prisão pagã. No entanto. vocês teriam arrancado os próprios olhos para dá-los a mim. Embora a minha doença lhes tenha sido uma provação. em última análise.12-20 12. Tornei-me inimigo de vocês por lhes dizer a verdade? . como sabem. impossíveis de carregar. como o próprio Cristo Jesus. APELOS. era óbvio que. eles estavam observando “dias especiais. 13. Em nada vocês me ofenderam. observar preceitos judaicos resultava no mesmo cativeiro em que se encontravam os adoradores de falsos deuses. ao contrário. seu efeito escravizador era o mesmo produzido pelo paganismo em que antes haviam vivido. fruto do trabalho dos mestres da Lei Mosaica infiltrados nas igrejas da Galácia. meses. inútil é o evangelho libertador para aqueles que. deliberadamente. pois eu me tornei como vocês. vocês não me trataram com desprezo ou desdém. assim como também vã é a luz para aqueles que teimam em ficar de olhos fechados. 14. se fosse possível. 16.

19) estavam se distanciando dele mais e mais (vv. não os ofendendo. Os que fazem tanto esforço para agradá-los não agem bem. até que Cristo seja formado em vocês. Depois de expressar seu inconformismo com as práticas legalistas a que os gálatas estavam novamente se submetendo. o apóstolo passa agora a dirigir-lhes um apelo emocionado. . É bom sempre ser zeloso pelo bem. 17). ele se assemelhava aos gálatas em seu modo de tratá-los. 20. também deviam imitá-lo. uma vez que. 12b) e ele se refere a isso quando diz “também eu sou como vós”. por sua vez. empenhando-se em reconstruir os laços de comunhão afrouxados pela influência dos inimigos hipócritas (v. o apóstolo sentia que os seus filhos na fé (v. Por outro lado. Essas palavras significam o seguinte: os crentes da Galácia nunca haviam ofendido Paulo (v. 19. O apelo de Paulo se consubstancia inicialmente nas palavras “sede qual eu sou. Eu gostaria de estar com vocês agora e mudar o meu tom de voz.82 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO 17. pois também eu sou como vós” (ARA). Assim como o apóstolo os imitava. 18. Meus filhos. mas querem isolá-los a fim de que vocês também mostrem zelo por eles. lembrando-lhes alguns momentos de amizade e labor que haviam partilhado juntos e que revelavam o profundo afeto que um dia os unira. e não apenas quando estou presente. 15-17). Sua intenção é claramente despertar novamente aqueles afetos. pois estou perplexo quanto a vocês. enquanto ele próprio procurava desesperadamente uma reaproximação. o trabalho dos falsos mestres infiltrados nas igrejas estava logrando êxito em afastar de Paulo o coração dos seus queridos filhos na fé (Ver vv. 16-17). É nesse aspecto que Paulo suplica humildemente que os crentes da Galácia sejam como ele. à luz do texto. os gálatas. Portanto. apesar da dificuldade do momento. novamente estou sofrendo dores de parto por sua causa. jamais os agredindo ou sendo grosseiro.

despertar o desejo de revivê-los. assim. . o que aconteceu foi exatamente o contrário. sempre que as armadilhas do mundo e do diabo fizerem os crentes se distanciar dos seus irmãos. esteve entre os irmãos a quem escreve. um grande estímulo à unidade dos crentes no presente é procedente das recordações das batalhas que juntos travaram no passado. um bom impulso ao retorno é a memória dos momentos mais sublimes que marcaram a sua jornada em comum (Hb 10. Só os corações terrivelmente endurecidos pelo pecado são capazes de se manter insensíveis ao se lembrarem dos momentos mais tocantes de sua própria história. Portanto.O EVANGELHO VERDADEIRO E A LIBERDADE 83 Paulo lembra. Isso significa que receber o missionário doente gerou-lhes um grau considerável de incômodo. que essa comunhão ora abalada tinha nascido num momento tão sublime e atingido tamanha intensidade que era inaceitável que fosse agora destruída pelo trabalho de pessoas mal intencionadas e por expoentes de erros doutrinários tão grosseiros.1414. o que seria motivo para que o apóstolo fosse tratado com manifestações de impaciência e desprezo. O apóstolo quer trazerlhes à memória os tempos de união e. Nem desprezo nem aversão os gálatas revelaram naquelas circunstâncias. A narrativa de Atos sobre a visita missionária de Paulo à Galácia (At 13. a primeira vez que pregou o evangelho na Galácia foi por causa de uma doença de que foi acometido. a partir do v.21) não faz menção dessa enfermidade12 e não há como saber qual foi exatamente o mal físico de que sofreu o apóstolo.32-34). fragilizado em sua saúde. A enfermidade de Paulo. se constituiu numa prova para os gálatas (14). 13. Contudo. Paulo foi recebido como “um anjo de Deus” e até mesmo “como o próprio Cristo Jesus”. De fato. Segundo ele.14 Antes. segundo seu parecer. não pairam dúvidas sobre os propósitos de Paulo ao relembrar o tempo que.13 Seja como for.

Paulo ensina indiretamente que é como anjos e como o próprio Cristo que os ministros do evangelho devem ser recebidos e tratados pelos cristãos em geral.84 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO Ao descrever nesses termos (e com aprovação) a atitude que os crentes da Galácia tiveram outrora para com ele. 3. 18. 14). Mesmo estando Paulo enfermo. Por outro lado. Após lembrar com saudades do amor demonstrado pelos gálatas. A consciência disso faria com que os púlpitos de nossas igrejas deixassem de ser palco de fanfarronadas e passassem a se constituir na maior força transformadora do tempo presente.20). A frase indica tão somente que. se possível fora. Paulo pergunta com tristeza: “Que aconteceu com a alegria de vocês?” (15. conforme sugerem alguns intérpretes (vide nota 2). 15 mostra claramente que aquela alegria que os crentes da Galácia haviam demonstrado por ter Paulo junto de si havia acabado. Além disso. Essa linguagem. há aqui também uma forte indicação da responsabilidade que paira sobre os pastores. uma vez que são mensageiros de Deus (Ml 2. a escritura chama os mestres da verdade de anjos. os proclamadores do evangelho são embaixadores de Cristo.7-9). NVI).16. 2Co 5. Estes têm o dever de zelar pela mensagem de Deus como se fossem anjos celestes ou mesmo genuínos arautos de Cristo a pregar (Tt 1. Aliás. o prazer deles com a presença de Paulo era tanto que o apóstolo tinha plena consciência de que outrora aqueles irmãos. Lc 10.12.1. 8.1. 7. atuando em seu lugar como porta-vozes. Agora eles não . É bom também frisar que não há aqui nenhum sinal de que a doença de Paulo fosse nos olhos.7. teriam “arrancado os próprios olhos” para auxiliá-lo. Ap 2. de forma que desprezá-los corresponde a rejeitar aquele que eles representam (Mt 10. evidentemente é figurada. De fato. os gálatas haviam manifestado intensa alegria em recebê-lo. A pergunta constante do v. em outros tempos.40. os gálatas não mediriam esforços para beneficiar aquele que tinha sido um hóspede tão querido.

nem mesmo com a possibilidade de ter o apóstolo por perto. Com a pergunta do v. Nesse versículo. passasse a ser considerada seu mais detestável inimigo! Ainda que perplexo (v. 17. Esse fato é apontado por meio da pergunta retórica do v. 20).O EVANGELHO VERDADEIRO E A LIBERDADE 85 sentiam satisfação alguma. Que grande mudança em seus afetos! Era como se a pessoa mais amada daquelas igrejas. Aqueles cristãos estavam aceitando a mentira dos falsos mestres e. mesmo quando isso é feito de modo brando e amoroso. Os legalistas se . é difícil imaginar maior estupidez do que se tornar inimigo de um irmão precisamente porque ele nos beneficiou. Ele quer incomodar suas consciências fazendo-os ver de quão grande impiedade eram culpados ao abandonar a mais terna comunhão. Paulo revela seu desejo de trazer os gálatas de volta para junto de si. por isso. 16. Tal estratégia consistia em demonstrar cuidado. Paulo sabia a causa de mudança tão radical. e sem nenhuma justificativa. Ministros fiéis também devem ter isso em mente. De fato. vê-se que ao anunciar o evangelho genuíno e denunciar o desvio dos mestres enganadores. A estratégia usada pelos falsos mestres para difundir sua doutrina perversa dentro das igrejas da Galácia transparece no v. a verdade dita pelo apóstolo lhes causava aversão. Muitas vezes a inimizade é o preço pago pela proclamação da verdade. não porque tivessem sido ofendidos. 16. num breve período de tempo. Esse fato que tomou lugar na experiência de igrejas neotestamentárias deve despertar a atenção das igrejas atuais. mas porque tinham sido instruídos na Palavra da verdade. preocupação e interesse pelos crentes. Que seja lembrado que abrir os braços para doutrinas novas e estranhas faz com que igrejas inteiras desenvolvam rancores e até construam barreiras contra os verdadeiros expoentes da Palavra de Deus. Paulo havia despertado real antipatia nas jovens igrejas corrompidas doutrinariamente.

mesmo nos momentos que se vê. 14-15). ou seja. então. uma vez que na Galácia esse erro era cometido por igrejas recém-formadas. Nota-se aqui que os ardis de outrora são usados ainda hoje pelos falsos pastores. enquanto hoje o desvio se dá na vida de crentes que conhecem o evangelho há dezenas de anos. Para Paulo era preocupante que aquelas igrejas se mantivessem fiéis a ele e. conseqüentemente. com a alma repleta de afeição. os falsos mestres. Aqui o apóstolo ensina que era lamentável que aquele interesse tão tocante só existisse quando ele estava por perto. Estes sempre trabalham em três direções: conquista da simpatia da igreja.86 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO apresentavam como pastores “zelosos”.3. longe da benéfica influência dos proponentes da sã doutrina. alerta seus leitores dizendo que aquele cuidado não era bom. 18. são obrigados a se ausentar delas. afastamento dos irmãos dos pregadores verdadeiros. pois tinha como objetivo isolar os crentes. Jd 16). o singelo ideal da igreja de Deus ser continuamente zelosa pelo bem. é comum também as igrejas de hoje se desviarem da verdade quando os ministros de Deus. Paulo expressa. no entanto. O quadro moderno. obter daquelas igrejas o mesmo cuidado e afeto que antes haviam dispensado ao apóstolo (vv. aos seus ensinos tão somente em sua presença. e obtenção do serviço e cuidado dos crentes em seu favor (2Pe 2. Paulo se volta novamente para o cuidado que os gálatas haviam demonstrado por ele no passado. como se sabe. O coração de Paulo se enternece ao ver os crentes naquela situação. Dirigindo-se aos seus leitores de forma carinhosa. tratava-se de um zelo indigno de aprovação. Paulo. é pior. por uma razão ou outra. 18. No v. porém.15 Segundo Paulo. sem sinceridade. Infelizmente. movidos por diversas necessidades. com sua demonstração hipócrita de estima. queriam distanciar dele os seus leitores e reuni-los em torno de si para. ele os chama de “filhos” (19)16 . no v.

etc. tanto na esfera doutrinária quanto moral. manifesta o desejo que tinha de estar com eles naquelas horas. Ele também queria vê-los porque cria que isso lhe traria algum alívio. Que marcante diferença havia entre esse alvo de Paulo e as intenções dos mestres legalistas (v. A metáfora pode ser simplificada da seguinte maneira: Paulo se apresenta como uma mãe que sofre dores de parto para dar à luz filhos que tivessem a aparência de Cristo.4. Na busca desse ideal. 20. 15-16. Paulo acreditava que.9-11. novamente sentia as dores de parto até que Cristo fosse formado em suas vidas. o apóstolo diz que gostaria de estar entre eles para poder falar com “outro tom de voz”.1-5. um caráter marcado pelo zelo por aquilo que é bom. 3. a Epístola aos Gálatas tem trechos severos (1. 12. De fato. 17). por causa deles. Paulo. Este será simplesmente o homem que não mede esforços no sentido de fazer com que as pessoas que o Senhor lhe confiou se tornem mais parecidas com Jesus (Ef 4. 4. E quão útil ferramenta o crente tem nesse texto. O significado óbvio é que em seu ministério o apóstolo trabalhava por gerar pequenos cristos (Rm 8.29). Aqui aprendemos também que o verdadeiro pai espiritual é aquele que trabalha e sofre na busca incessante de criar em alguém o caráter de Cristo. que mostra indiretamente como identificar o verdadeiro pastor. isto é. Sabendo que sua ausência era. pessoas que tivessem em si os traços do caráter de Jesus. estando presente. não precisaria usar daquela severidade.11-13).).O EVANGELHO VERDADEIRO E A LIBERDADE 87 e diz que. O versículo dá a entender que essa possibilidade não existia naquele momento. a causa do desvio dos gálatas. Paulo sofria com freqüência e intensidade. em parte. Ele é um pai espiritual e aqui aprendemos que na esfera espiritual tanto pais como mães sofrem dores para dar à luz.6-9. A razão que o impulsionava a desejar um contato mais direto não era apenas o impacto mais forte que uma visita pessoal teria. uma vez . 7-9. Mesmo assim. pois confiava que diante dele os gálatas se submeteriam. no v. 5.

Uma aliança procede do monte Sinai e gera filhos para a escravidão: esta é Hagar. Mas a Jerusalém do alto é livre. irmãos.porque mais são os filhos da mulher abandonada do que os daquela que tem marido”. 25. Ele acreditava que uma visita seria útil para clarear suas idéias e mostrar como proceder de maneira eficaz. 27. irmãos. Pois está escrito:”Regozije-se.grite de alegria. Digam-me vocês. O termo usado por Paulo (aporew ´ ) denota desespero e dúvida. mas da livre. 28. mas o filho da livre nasceu mediante promessa. Mas o que diz a Escritura? “Mande embora a escrava e o seu filho. O filho da escrava nasceu de modo natural. os que querem estar debaixo da Lei: Acaso vocês não ouvem a Lei? 22. 29.você que nunca teve um filho.você que nunca esteve em trabalho de parto. 24.88 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO que estava “perplexo” quanto aos crentes da Galácia. estas mulheres representam duas alianças. Vocês. Hagar representa o monte Sinai. O mesmo acontece agora. ó estéril. 26. o filho nascido de modo natural perseguiu o filho nascido segundo o Espírito. na Arábia. Naquele tempo. . como Isaque. e corresponde à atual cidade de Jerusalém. 23. 30. não somos filhos da escrava. O CONTRASTE ENTRE SARA E HAGAR GÁLATAS 4. um da escrava e outro da livre. que está escravizada com os seus filhos. Pois está escrito que Abraão teve dois filhos. refletindo sobre que medidas tomar para remediar o problema. 31. Paulo indica que aquela situação o deixara um tanto sem rumo. Isto é usado aqui como uma ilustração. Portanto. porque o filho da escrava jamais será herdeiro com o filho da livre”. e é a nossa mãe.21-31 21. são filhos da promessa. A idéia de estar desnorteado se encaixa bem aqui.

aquele pretendido pelo autor sagrado. popularizado já na igreja antiga especialmente por Orígenes de Alexandria (185-253 d. mais profundo do que aquele que se obtém a partir de uma leitura natural.15. Uma das marcas desse modelo hermenêutico é sua forte ênfase no sentido literal do texto escriturístico. impedindo-o de atribuir ao texto significados oriundos da sua imaginação ou que atendam aos seus interesses e opiniões pessoais. as palavras da Bíblia têm apenas um significado. ou seja. Até mesmo em face das figuras de linguagem. entende que há nele um sentido espiritual.C) e que consiste. Isso porque o modo como Paulo interpreta a história de Sara e Hagar (Gn 16. quando logicamente as palavras adquirem duplo sentido.17 É por adotarem esse método hermenêutico que muitos expositores católicos e também evangélicos sentemse à vontade para fazer as interpretações mais extravagantes e absurdas da Bíblia. Para os defensores desse método de interpretação. A tarefa do exegeta é descobrir esse sentido que transcende as palavras e até mesmo a intenção do autor inspirado. 21. ainda que não despreze o sentido literal do texto bíblico. os proponentes desse método entendem que a intenção autoral deve ser preservada como um fator que impõe limites ao intérprete. na busca de um significado oculto por trás da letra. A seção da Carta aos Gálatas colocada agora sob análise se constitui num grande desafio para os defensores do método histórico-gramatical. grosso modo.O EVANGELHO VERDADEIRO E A LIBERDADE 89 O método de interpretação da Bíblia usado pelos evangélicos atuais que seguem na esteira dos reformadores do século XVI é eventualmente denominado método histórico-gramatical. O método alegórico.1-10) . praticado largamente pelo catolicismo romano. Esse método tão defendido nos séculos IV e V pelos teólogos da Escola de Antioquia e distintivo dos protestantes ao longo da história está em franca oposição ao chamado método alegórico.

Antes. e o conflito entre a velha e a nova aliança) e realça o que ambas têm em comum. cria um sentido que considera adequado. De fato. mergulhar no texto bíblico à busca de sentidos ocultos. pela qual se explica o método hermenêutico de Paulo nesse texto em particular consiste na afirmação de que o apóstolo está fazendo uso momentâneo de um método . sendo certo que só podem ser reconhecidos quando a própria Bíblia os aponta. a palavra “alegoria” ´ (allhgoumena ) presente no v. também revestida de alto grau de plausibilidade. o uso de tipos é comum nas Escrituras (e. dessa forma. Mais do que inventar sentidos. Diferente dos alegoristas. Seria esse modo como Paulo lê a narrativa um “sinal verde” para o método alegórico? Pode o intérprete cristão moderno. teria um sentido pouco preciso. portanto.18 Segundo esse entender. É esse o caso em Gálatas 4. É o caso. A segunda maneira. não podendo corroborar o método alegórico de interpretação. unicamente a partir dele. o sacerdote Melquisedeque. ele não trabalha com o texto isolado e. 24. Paulo compara fatos e.90 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO parece ser marcantemente alegórico. seguindo o exemplo do Apóstolo. no afã de descobrir verdades jamais sonhadas sequer pelos seus autores? Os defensores do método histórico-gramatical têm explicado o procedimento de Paulo na texto em questão de três diferentes maneiras. A primeira é a afirmação de que ali o apóstolo não estava “alegorizando”. mas sim traçando um paralelo entre o que aconteceu na história do povo de Israel e o que acontecia agora na igreja de seus dias.21-31. vê nas duas mulheres tipos ou figuras das duas alianças agora em franca oposição. Ora. já que se afasta flagrantemente da intenção autoral e dá ao texto de Gênesis um sentido a que é impossível chegar pela via da leitura natural. o cordeiro pascal. o argumento de Paulo no texto em análise é marcantemente comparativo..g. o Tabernáculo). de tipologia e não de alegoria. apresenta duas realidades (o conflito entre Sara e Hagar.

É a eles e aos simpatizantes de seus ensinos que o apóstolo se dirige diretamente agora. Ef 3. mais recente que o primeiro. ao adotá-lo em suas leituras e estudos. O fim do período apostólico. Cl 1.26-27). os que se . já no primeiro século da Era Cristã. atribuir sentidos ao texto bíblico jamais pretendidos pelos escritores sagrados e. se constitui realmente numa excelente hipótese.7. há o entendimento de que Paulo.53. ou seja. Como apóstolo. após lamentar o afeto que tinha perdido por parte dos gálatas e expressar seu desejo de estar perto deles a fim de corrigi-los de maneira mais eficaz (vv. Paulo foi um instrumento de Deus para revelação de seus mistérios (1Co 2. todas são aceitáveis para o estudante honesto da Bíblia. sob o risco de. Esse entendimento. implica o fato de que ninguém mais tem autoridade para interpretar textos bíblicos da mesma forma que Paulo o fez em Gálatas 4. agia com uma capacitação especial dada pelo Espírito Santo.3-9. referindo-se a essas pessoas como “os que querem estar debaixo da Lei” (21[NVI]).21-31. 12-20).1. 19 Finalmente. desse modo. 20 Das três linhas de argumentação acima expostas. Assim.O EVANGELHO VERDADEIRO E A LIBERDADE 91 muito familiar para grande parte dos judeus que compunham o número de seus leitores. Com isso ele quer apenas usar mais um recurso para reforçar sua mensagem e não demonstrar como Gênesis deve ser lido. passar a seguir e defender idéias que sejam meros frutos de sua criatividade. Paulo retoma a estratégia de ataque contra os mestres legalistas. ele os registrou em suas cartas que hoje compõem o Novo Testamento. sendo certo que. por meio do processo de inspiração das Escrituras. Este deve tão somente abster-se a todo custo do malfadado método alegórico. ao associar Sara e Hagar aos conflitos teológicos de seu tempo. Foi no exercício desse dom apostólico que Paulo pôde vislumbrar o liame existente entre a história das duas mulheres e o conflito entre os “filhos” das duas alianças.

17). que nasceu de Sara. eram incapazes de captar as verdades profundas da Palavra e não estavam qualificados para apresentar mistérios antes desconhecidos. 23. 22 Paulo expõe o que tem em mente quando fala sobre a capacidade de ouvir a Lei. A pergunta de Paulo deixa claro que especialmente aqueles mestres. que o apóstolo pretende ressaltar a superioridade daquela que gera filhos livres sobre aquela que gera filhos escravos. Ef 3. A partir do v. Prosseguindo. “segundo a carne”). . com isso. a escrava (Gn 16. então. Cl 1. transmitia. uma mulher livre (Gn 21. com sua suposta autoridade espiritual. Num tom provocativo.7. duas realidades opostas. tão defendida por eles. desde o início. só possível graças à intervenção poderosa de Deus que o traz ao mundo por causa de uma promessa que fez. de outro. tivessem uma percepção mais clara da mensagem que a própria Lei.26-27).1. Têmse.3-9. Paulo lhes pergunta: “Acaso vocês não ouvem a Lei?” Há aqui a sugestão de que era de se esperar que os mestres legalistas.4). o nascimento de um homem livre.92 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO submetiam à Lei Mosaica crendo que. impossíveis de se harmonizar. o nascimento de um escravo que passa a existir a partir de processos humanos comuns. Paulo reforça o contraste entre as duas mulheres no v.21 O contraste na condição das duas mulheres (uma escrava e outra livre) é fundamental para o raciocínio que Paulo quer construir. afinal. recordando que o grande patriarca teve dois filhos: Ismael. Ele menciona porções da história de Abraão. como os apóstolos de Cristo tinham autoridade para fazer (1Co 2. ao chamar a atenção para o fato de que o filho da escrava nasceu de modo natural (literalmente. diferentemente dele. Percebe-se. enquanto o filho de Sara nasceu de forma extraordinária.116). De um lado. e Isaque. que nasceu de Hagar. em cumprimento à promessa de Deus. poderiam obter a justificação (5.

impondo aos homens um peso que jamais podiam carregar (At 15. é bem provável que os mestres judaizantes que estavam atuando de forma tão perniciosa junto aos cristãos da Galácia fossem procedentes de Jerusalém (At 15. Ademais.11-16). Paulo menciona especificamente a cidade de Jerusalém porque nela se focalizava o culto israelita.1.29-32.13-14). estabelecida no Monte Sinai (Ex 34. os que buscavam a justificação pela fé em Cristo obtinham liberdade do jugo da Lei. Por outro lado. Jerusalém era a grande fortaleza em que a lei de Moisés era protegida com um zelo que chegava às raias do fanatismo. firmado ao tempo do êxodo de Israel. “essas coisas são uma alegoria”). na Arábia”. diz Paulo (25). De fato. a todos os que têm a fé de Abraão (Rm 4. No v. Desses versículos se depreende de antemão que os mestres legalistas e seus discípulos da Galácia eram escravos e existiam como tais não como resultado da atuação milagrosa de Deus em suas vidas. ou seja. Essa aliança. tão cara aos mestres legalistas e aos cristãos da Galácia.22 Além disso. tinha como marca distintiva a exigência de sujeição a regras e normas de diversas naturezas. eram livres e existiam como resultado da obra poderosa de Deus que fez a promessa de dar a bênção de Abraão. mas sim em virtude de esforços humanos carnais.46. 24.10) e gerando. a justificação e a herança. ou seja. cujo povo permanecia debaixo do jugo da Lei Mosaica. sendo que Sara e Hagar representam duas alianças. querendo com isso demonstrar o paralelo entre a serva de Abraão e o pacto da lei. sendo também ali o centro do judaísmo com sua ênfase na guarda da lei em seus mínimos detalhes. escravos.O EVANGELHO VERDADEIRO E A LIBERDADE 93 Vê-se desde já onde Paulo pretende chegar. dessa forma. o apóstolo esclarece finalmente que aqueles fatos narrados em Gênesis têm um sentido figurado (Lit. Lv 26. “Hagar é o monte Sinai. o apóstolo esclarece que Hagar também é uma figura da Jerusalém dos seus dias. a aliança da lei. . A escrava é uma figura da Aliança Mosaica. Ne 9.

2Co 3.1. Ap 21.20). seus filhos.1). homens livres cuja liberdade lhes advém do Pacto da Cruz. em vez de criar novos israelitas. Antes são. Paulo recorda mais uma vez que. Citando Isaías 54. é mãe de escravos. na verdade. nos céus (Hb 11. ainda que se encontrem por um tempo neste mundo. o sistema mosaico. há a Jerusalém celestial que. De fato é nossa mãe.6. também ambos nasceram por causa do milagre realizado por Deus.25. Paulo se refere à Nova Aliança (1Co 11. Hb 9.15) como “a Jerusalém lá de cima” porque seus filhos são gerados pelo poder do alto e. 31.11. 12. além de ambos serem gerados em liberdade. homens tão meticulosos no tocante às determinações da antiga aliança. ou seja. Na verdade. A pátria deles está.10. não têm aqui nenhuma cidade sagrada em que se concentrem (Hb 13. seus cidadãos e todos os que adotavam seus princípios. 1Pe 2. como Sara. Talvez eles até se aproveitassem do fato de terem vindo de Jerusalém para afirmar sua autoridade. é livre (26). Essa Jerusalém também é mãe. ou seja. cidadãos celestes (Fp 3.2).94 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO 23-24) e se gloriassem no radicalismo daquela maravilhosa cidade. mãe dos crentes. pois. pode-se entender porque Paulo mostra a real condição da metrópole de que tanto se jactavam. aqueles que são livres da Lei mediante a fé em Cristo (v. estavam sob escravidão. considerando o destaque que aquela cidade tinha como reconhecido núcleo religioso.6). o apóstolo aponta para o fato de que o .14). o filho de Sara.20). mas a liberdade que têm como cidadãos do alto já é desfrutada aqui (5. Rm 7. Para Paulo. oprimidos sob o fardo de uma religiosidade exterior incapaz de tornar o homem livre e justo diante de Deus (Rm 3. 16. Mantendo viva a comparação entre os filhos da Nova Aliança e Isaque.22.40). sendo serva como Hagar. no qual Deus se compromete a dar a vida eterna aos que tão somente crêem em seu Filho (Jo 6. criava novos ismaelitas! Em contraste com a Jerusalém terrena que. Sendo esse o caso. portanto.

com prisões. Assim. A princípio. É interessante notar que o assédio dos falsos mestres à igreja.8-9). é tido pelo apóstolo como verdadeira perseguição. ao final se mostrará como tendo sido eficaz na vida de uma multidão redimida ao longo dos séculos (Ap 5. do Novo Pacto. De fato. mortes. Ele conclui que os crentes são como Isaque por serem também filhos da promessa. e Paulo vê nisso um paralelo com o que acontecia na Galácia. 9. nascidos graças à atuação milagrosa de Deus. por causa da promessa e do poder de Deus terá numerosos filhos (27).O EVANGELHO VERDADEIRO E A LIBERDADE 95 profeta se refere à Jerusalém restaurada como uma mulher que tinha sido estéril. e torturas.16-17.14. ou seja. Ocorre.23 Paulo. porém.8). 22. tentando impor sobre ela o fardo das exigências legais. que da mesma maneira que o filho da escrava perseguia o filho da livre. filhos naturais da Aliança Mosaica e escravos da Lei. não se deve conceber o ataque contra os santos apenas sob a forma de oposição sangrenta. a graça de Deus. mas que. estende seu sentido para ensinar que os filhos da Jerusalém celeste. nascido sem qualquer intervenção especial de Deus. movido pelo Espírito Santo. De fato. perseguiam os crentes. 28 inicia o desfecho de toda a analogia de Paulo entre as duas mulheres de Abraão e as duas alianças. como Isaque”.14). atormentava o menino nascido de forma sobrenatural (Gn 21. 7. 9). ainda que a cada geração alcance um número comparativamente reduzido de pessoas (Mt 7. mestres que não haviam nascido de Deus. Ali. A perseguição contra o povo santo também acontece quando . filhos livres da Nova Aliança. são obra sobrenatural do Senhor e também realçar o grande número de cidadãos dessa pátria gloriosa. O v. 9-10. A história de Gênesis mostra que o filho de Hagar. É por isso que o apóstolo os descreve como “filhos da promessa. o texto se refere à restauração da Jerusalém exilada em Babilônia. porém. assim é também agora (29). neles é cumprida a promessa de que Abraão teria uma grande descendência (Rm 4.

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A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO

pregadores da mentira tentam seduzi-lo, conduzindo-o pelos caminhos tortuosos de um evangelho adulterado. Na Galácia os “perseguidores” eram mestres judaizantes que, com sorrisos e agrados, colocavam sobre os crentes a carga insuportável da guarda da Lei. Hoje esse tipo de perseguição ainda existe. Aliás, sempre que alguém se aproxima de um crente e o exorta ou ensina a se submeter a regras, dizendo que é assim que se vive o cristianismo autêntico. Tal pessoa atua como verdadeiro perseguidor, um escravo ismaelita perturbando os filhos livres da Jerusalém celeste.24 Como terminará a história do embate entre os filhos da escrava e os filhos da livre? Paulo recorre novamente à história de Gênesis e sugere o modo como os crentes devem por um fim à oposição dos legalistas que pervertem o evangelho genuíno. Ali, Sara diz a Abraão: “Mande embora a escrava e o seu filho” (30). Parece clara aqui a sugestão de Paulo de que os gálatas deveriam rejeitar não somente o ensino dos mestres judaizantes, mas também eles próprios. A citação de Gênesis 21.10 parece indicar que os crentes da Galácia deveriam mandar embora aqueles que lhes estavam ensinando a justificação pela guarda da Lei. Como Sara, aqueles crentes não podiam tolerar os ataques ousados e maldosos dos escravos contra os filhos da promessa, devendo adotar uma postura firme contra eles, eliminando qualquer grau de influência que tivessem e até afastando-os do seu convívio.25 O versículo 30, por outro lado, tem um sentido que suplanta a orientação dada aos crentes de rejeitar os legalistas. O sentido dominante no texto aponta para a certeza de que, num dia futuro, os que confiam na justiça própria mediante a guarda de leis serão expulsos do convívio dos herdeiros de Deus. Aqui Paulo confere às palavras da esposa de Abraão um sentido profético e é para realçar a autoridade de tais palavras que o apóstolo as atribui à Escritura e não diretamente a Sara.

O EVANGELHO VERDADEIRO E A LIBERDADE

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De Gênesis 21.10, Paulo aduz, portanto, o destino escatológico dos filhos das diferentes alianças. Aqueles que insistem na justificação pela guarda da Lei e oprimem os crentes impondo fardos sobre eles serão um dia afastados para sempre, e os salvos, de posse da herança, se verão livres de sua presença e perseguição. Do texto citado depreende-se também facilmente que os legalistas não receberão a herança devida aos crentes que foram gerados livres pelo evangelho da graça (Rm 4.14). De fato, o apóstolo ensina claramente aqui que os que confiam na guarda da Lei estão perdidos, não têm parte na herança de Deus e serão finalmente banidos da congregação dos santos. A força desse texto esvazia de qualquer esperança aqueles que buscam ser salvos pela observância dos mandamentos mosaicos. O v. 31 tão somente reforça a identidade dos crentes como filhos livres, como Paulo ressaltou em versículos anteriores (vv. 26, 28).

que está obrigado a cumprir toda a Lei. estar livre da Lei não deve conduzir à vida desregrada. que procuram ser justificados pela Lei.5. Paulo. o evangelho verdadeiro e as virtudes espirituais A busca da justificação pelo cumprimento da Lei é condenável. PREJUÍZOS DO LEGALISMO GÁLATAS 5. mas sim a fé que atua pelo amor. . que é a nossa esperança. 5. permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão. lhes digo: Caso se deixem circuncidar. separaramse de Cristo. Vocês.1-6 1. Portanto. Pois é mediante o Espírito que nós aguardamos pela fé a justiça. Contudo. 3. 6. 4. 2. posto que implica afastamento de Cristo em quem a justiça é obtida pela fé. Ouçam bem o que eu. Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. caíram da graça. uma vez que a liberdade cristã é vivida dentro dos limites do amor e sob a influência do Espírito que produz virtudes no crente. De novo declaro a todo homem que se deixa circuncidar. Porque em Cristo Jesus nem circuncisão nem incircuncisão têm efeito algum. Cristo de nada lhes servirá.

Em vista disso. a resposta positiva ao apelo dos falsos mestres implicava.8-11). sem qualquer reflexo no modo como vivemos. ao redimir-nos Cristo almejou que realmente desfrutássemos da liberdade e não a tivéssemos apenas como um conceito abstrato. Paulo prossegue deixando claro que deixar-se levar pela mensagem dos judaizantes. basicamente. O apóstolo usa a expressão “de novo” (palin ´ ). livres (1). pendia para o lado da escravidão sob a força do vento de um evangelho falso (1. como uma estaca solta. ou seja. Assim. Antes. sendo gentios. sua obra libertadora deveria ser desfrutada pelos crentes. os crentes da Galácia revelavam uma fé vacilante e um modo de viver que. para Paulo. porque ainda que seus leitores. Na prática. os crentes modernos devem estar atentos contra os ataques de alguns pregadores atuais que ensinam a necessidade de retorno aos deveres da religião mosaica até mesmo em seus aspectos cerimoniais. tinham sido escravos de sistemas religiosos pagãos marcados por inúmeras e severas exigências (4. representava um retrocesso.6-7). não tivessem vivido sob o jugo da Lei Mosaica. 1 advertindo os gálatas a permanecerem firmes. a jugo de escravidão” (ARA). ao demonstrar simpatia pelos ensinos legalistas. conseqüentemente. de fato. como os gálatas já estavam fazendo (4. quem hoje promove a observância . portanto que aqueles crentes se apeguem com maior tenacidade ao evangelho verdadeiro e. ao desfrute da liberdade obtida por Cristo. sem vacilar.100 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO O capítulo 5 de Gálatas inicia-se com a afirmação de que Cristo nos libertou para sermos. na verdade. um retorno ao modo de vida que os gálatas tinham experimentado no paganismo. uma forma de paganizá-la. Paulo prossegue ainda no v. A partir daí é fácil concluir que “judaizar” a igreja é.10-11). da liberdade que Cristo conquistou. significava submeter-se “de novo. Desse modo. O apóstolo ordena. ou seja. Firmeza aqui implica fixar-se na verdade pregada por Paulo e usufruir. De fato.

3. aquele que mais insistiam que os gálatas observassem: a circuncisão. Paulo deixa transparecer o aspecto da Lei que os mestres judaizantes tinham em mais alta conta e. Paulo vê nessa prática uma declaração de falta de confiança na suficiência da Cruz. Que Paulo entendia a circuncisão como um sinal de adesão completa à Lei depreende-se facilmente do v. 2. Para eles.1. assim como não pode um homem colocar-se debaixo das responsabilidades de meio casamento. sendo aquele rito judaico uma evidência de submissão plena às normas mosaicas. a circuncisão era o sinal externo de adesão à Lei. tornando sem valor a liberdade obtida pelo Deus-Homem fixado no madeiro. fazendo-se necessárias as obras da Lei. A circuncisão seria talvez a principal dessas obras. Por isso. Cl 2.14).O EVANGELHO VERDADEIRO E AS VIRTUDES ESPIRITUAIS 101 das normas do judaísmo. uma afirmação de que ela não tem nenhum valor à parte do rito legal judaico. Não poderia alguém submeter-se a meia aliança. não seria coerente circuncidar-se e. certamente. se os gentios não recebessem essa marca em sua carne. dedicar-se ao cumprimento de apenas algumas determinações da Antiga Aliança.5).14-15.21). então. os falsos mestres da Galácia apontavam um caminho para a justificação no qual a fé em Cristo não era suficiente. A circuncisão implicava comprometimento integral do homem com as normas do Sinai. O apóstolo mostra aqui que.1 Assim. Ademais. conduz os homens ao estilo de vida próprio do paganismo. aderir à Lei por meio daquele sinal no corpo seria o mesmo que tornar sem proveito a obra libertadora que Cristo completou no Calvário (2. No v. Ora. . não poderiam ser salvos (At 15. escolhidas ao bel prazer. De fato. Cristo se manifestou especialmente para livrar o homem do jugo insustentável da Lei Mosaica (Ef 2. pela circuncisão os crentes da Galácia estariam assumindo o compromisso de se colocarem sob a escravidão das normas esculpidas na pedra. Logo.

Eles queriam somar as obras à fé e obter a justificação como produto dessa operação. não poderiam manter-se unidos a Cristo (4).10). O comprometimento com a Lei a que os crentes da Galácia eram impelidos por força da influência dos falsos mestres era. eles haviam se “desligado” de Cristo. mas um fardo completo que homem nenhum na história humana jamais pôde suportar (Jo 7.46. De fato. At 15. A conclusão a que se chega é que o ensino dos falsos mestres da Galácia implicava não só a adoção completa da Lei. como se sabe.19. ao buscarem a justificação pela Lei. Ao adotarem um “cristianismo judaizado”. É assim que. nada mais que um arranjo doutrinário no qual predominava a busca de justificação pelo esforço próprio. romper com alguém. Paulo mostra. mas também o dever de uma obediência perfeita. ou o homem fica absolutamente livre da Lei pela fé em Cristo ou fica absolutamente livre de Cristo pela adesão à Lei. para fazer qualquer sentido. Para o apóstolo.102 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO Eis o perigo a que se expunham os legalistas. Acrescente-se a isso a verdade de que quem quer viver debaixo da Lei deve antes entendê-la como um bloco monolítico que não pode ser partido num ponto sem que tudo o mais se perca (Tg 2. requer o abandono total do outro. que na busca da salvação é impossível andar de mãos dadas ao mesmo tempo com a Lei e com Cristo. 1Jo 3. O ensino de Paulo nessa passagem deixa claro que mesmo o comprometimento com uma parte ínfima da Lei implica necessariamente a nulidade do compromisso com o Senhor. Não há como manter liames com ambos. Hb 4. ao agirem daquela forma. daquele tipo que só o Filho de Deus foi capaz de praticar (Jo 8. O verbo usado por Paulo é katargew ´ e significa ser liberto de. A mais tênue ligação com um só. . dirigindo-se especificamente aos falsos mestres e aos seus mais leais seguidores.10). ele afirma que.5). porém.15. punham sobre os próprios ombros e dos seus discípulos não só alguns pesos selecionados pela vontade livre.

total separação dele. esse tipo de comprometimento com o Salvador é nulo e implica. 1Pe 1. É manter uma união parcial com Cristo. em 2. Como se vê. Rm 8. 1Ts 5. está equivocado. caído da graça.O EVANGELHO VERDADEIRO E AS VIRTUDES ESPIRITUAIS 103 Os legalistas já tinham feito a sua opção! Aderindo à Lei na busca da justificação. tal pessoa não perde a graça que obteve. 4 a um grupo de pessoas específico que havia nas igrejas da Galácia. Assim. cair da graça (Lit. dessa forma. mesmo porque o ensino de que a salvação não se perde é amplamente fundamentado nas páginas do Novo Testamento (Jo 10. Paulo chama pessoas assim de “falsos irmãos”. tinham abandonado a possibilidade de desfrutar do favor gratuito de Deus oferecido em seu Filho. Esse entendimento. . Tratava-se de legalistas que nunca tinham realmente se convertido.3-5. É deixar para trás a possibilidade de ser salvo gratuitamente. A busca da justificação pelo esforço próprio faz com que o indivíduo deposite a confiança na força do seu braço e. assim.4.23-24. uma vez que viaja rumo ao território da lei e das obras. É notável que. Assim. conclui-se que desligar-se de Cristo é buscar inutilmente a salvação nele e em algo além dele. porém. ou seja. mas perde a possibilidade de desfrutar a graça que é oferecida. Paulo dirige as palavras do v. vire as costas para a salvação gratuita que Deus oferece em seu Filho. dividindo a confiança da salvação entre ele e algo mais. Para Paulo. É comum no meio evangélico o entendimento de que as expressões “desligar-se de Cristo” e “cair da graça” apontam para a possibilidade da perda da salvação. etc.30-39. onde a referida graça não habita.27-29. Da mesma forma.). tinham se separado de Cristo e. considerando o ensino bíblico em geral e os fatores distintivos que permeiam o texto em análise. na verdade.2 É afastar-se do domínio em que o perdão de Deus é dado independentemente de méritos. desprezando a sua suficiência. “cair para fora”) significa colocar-se fora da esfera dos benefícios da graça.

Após dirigir suas palavras a alvos alternados.3 O apóstolo inicia o v. enquanto a esperança de justificação pela fé é obra sobrenatural de Deus no coração do homem. não eram crentes. o v. 5 é que a confiança na Lei é mera intuição da mente carnal. onde o Espírito atua. 5 com uma conjunção (gar que significa pois) que expressa aqui o intento de explicar o que foi dito no v. na verdade. uma vez que buscavam a salvação no reino do esforço próprio. tinham sido banidos do “território da graça”.6-9. 3-4. Isso porque. era nulo. conforme visto acima. ainda não tinham se submetido aos rigores do legalismo que os falsos mestres estavam propondo. Paulo passa agora a falar de um terceiro grupo no qual ele se inclui. Além do mais. A segura esperança de ser justificado pela fé advém ao homem pela atuação do Espírito. Ali. firmemente e pela atuação do Espírito. descambado para além das suas fronteiras.104 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO Os vv. 1-4 apresentam um deslocamento no público alvo a quem Paulo dirige suas palavras. não resta espaço para a confiança na carne. Esse grupo é o que. o apóstolo fala aos crentes que. Paulo se dirige “a todo homem que se deixa circuncidar”. 1-2. A ausência dessa esperança em alguém e a conseqüente tentativa de ser justificado pelas obras revelam que esse alguém não foi objeto do salutar ministério do Consolador. ou seja. O contraste básico que transparece no v. 4. Esta só persiste no coração ainda não tocado pela graça. Assim. Observe-se que nos vv. Estes. mesmo vacilantes. Eram pessoas separadas de Cristo. 5 é útil para esclarecer que os que buscavam a justificação mediante a Lei fracassaram porque seu intento não tinha qualquer relação com a obra do Espírito Santo. aguarda a justiça pela fé (5). realçando ainda mais fortemente o . Já nos vv. Acrescente-se a isso o ensino de Paulo em 2 Coríntios 3. vivendo em meio à fantasia de um relacionamento com ele que. já que não o consideravam um salvador suficiente. àqueles que “procuram ser justificados pela Lei”.

Submeter-se a esse rito não o fará ganhar nada. Para o crente. poderiam forçar as portas do céu. Concluindo o parágrafo. que. sem mérito algum.13). é exclusivamente mediante a atuação do Espírito Santo que alguém pode nutrir a esperança de ser justificado somente pela fé. ser circuncidado ou não é algo absolutamente sem importância. à luz do v.3. desenvolva essa esperança. e deixar de . É por isso que as palavras terríveis do v.O EVANGELHO VERDADEIRO E AS VIRTUDES ESPIRITUAIS 105 contraste entre o ministério da Lei e o ministério do Espírito. Os legalistas da Galácia demonstravam. Resumindo: os homens que confiam no mérito pessoal para serem salvos estão. Considerando que tal homem desfruta das bênçãos dessa posição. Nunca é demais ressaltar nos dias atuais. Ela é obra de Deus. com sua suposta obediência à Lei. de si mesmo e por si mesmo. Sua conexão com o Espírito. tão marcados pela visão otimista acerca do homem. os legalistas estavam sob o ministério da letra. o apóstolo ensina que aquele mata e traz condenação. não há para esse indivíduo utilidade alguma na circuncisão (6). sem ela. Logo. sendo a justificação a principal delas. portanto. Paulo faz alusão ao fato de que o homem que creu e foi justificado está em Cristo. que não tinham sido objeto dessa obra do Espírito que opera a justificação pela fé somente. 5. Faltava-lhes a ministração do Consolador e. perdidos. leva o homem a desistir de si mesmo e o conduz à justificação convencendo-o a confiar unicamente em Cristo. Não se pode esperar que o homem. Isso porque essa confiança é mera inclinação da mente degenerada e não obra do Espírito Santo. não existia. viviam na ilusão de que. já que este. enquanto este vivifica e traz justificação.29. realizada naqueles que. 1Co 12. dentro de sua esfera de influência e benefícios. portanto. na verdade. ou seja. não havia como serem justificados. são contemplados por sua graça (Rm 2. 4 se ajustavam tão perfeitamente a eles. na realidade. Ora. 2Ts 2.

durante . no v. Aquele que os perturba. por que continuo sendo perseguido? Nesse caso. está longe de ser a que vem de Deus e. Tal persuasão não provém daquele que os chama.” 10. Paulo ensina que o modo como a fé salvadora se movimenta. o escândalo da cruz foi removido. 11. 12. Irmãos. não pode salvar ninguém. 4. 14. seja quem for. quem dera que se castrassem! Nos primeiros dias de sua jornada como cristãos. a genuína fé salvadora que é dádiva de Deus (Ef 2. Não há. Eis o fator que faz toda a diferença.4 UMA CORRIDA INTERROMPIDA GÁLATAS 5. espaço no cristianismo para uma fé meramente conceitual e abstrata. O que faz o homem ganhar ou perder no âmbito espiritual é a fé.10. é por meio de atos de amor (1Jo 3.14-17). Estou convencido no Senhor de que vocês não pensarão de nenhum outro modo.7-12 7. Paulo os compara. a atletas que. 7.8) e que tem Cristo como autor (Hb 12. Vocês corriam bem. A fé tem no amor o seu rosto. tornando-se perceptível. Quem os impediu de continuar obedecendo à verdade? 8. se ainda estou pregando a circuncisão. portanto. porém.2). sofrerá a condenação. os gálatas tinham demonstrado boa disposição e realizado notáveis avanços. sendo nos atos de amor que ela se corporifica e mostra que é real. A face da fé é o amor.106 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO submeter-se não o fará perder nada (1Co 7. ou seja. Note-se. que a fé de que Paulo fala aqui. A fé salvadora é viva e atuante.18-19). é uma fé que se evidencia no mundo dos fatos. “Um pouco de fermento leveda toda a massa. 9. Quanto a esses que os perturbam. por isso. Carente dessa dimensão palpável a fé é morta (Tg 2.7-8).

De fato. A causa da interrupção da corrida na pista da verdade por parte das igrejas da Galácia era uma “persuasão” (8). 7 se depreende que correr bem a carreira cristã não é só enfrentar as perseguições que geralmente advêm aos santos.6. querendo dizer com isso que o trabalho e a mensagem dos falsos mestres infiltrados nas igrejas não estavam em harmonia com a vontade e os planos de Deus para o seu povo. No v. aconteceu.1 e 4. com sua doutrina legalista.13-14) e respondeu positivamente a essa santa vocação. haviam seguido a verdade do evangelho com força e vontade.6 Fica claro no texto o que Paulo tem em mente com essa comparação: os crentes da Galácia. Paulo se refere a Deus como “aquele que os chama” (NVI). Estendendo essa figura. Do v. Essa designação é cheia de significado. todo crente que abandona a Sã Doutrina e dá ouvidos a tais pregadores é como um atleta que parou de correr. 2Ts 2. para Paulo o crente é alguém que foi chamado à fé em Cristo por meio da pregação do evangelho (Gl 1. Adversários os alcançaram e impediram que avançassem. alastram-se como uma epidemia.5 Algo. Que os judaizantes faziam uso de atrativos para fascinar e induzir os crentes à desobediência da verdade fica claro em 3. Paulo afirma que a origem dessa persuasão não era o Senhor.O EVANGELHO VERDADEIRO E AS VIRTUDES ESPIRITUAIS 107 uma corrida. De acordo com a figura de Paulo. porém. . sem deixar-se levar pelos convites dos pregadores mentirosos que. Note-se. Eles permaneceram firmes nessa fé até que os falsos mestres. O termo usado pelo apóstolo (peismonh) sugere o uso de falácias sedutoras empregadas com o objetivo de convencer os gálatas a abandonar o caminho que estavam seguindo. pode-se perguntar: “que utilidade têm tais atletas? Que prêmio receberão?”. fizeram-nos parar e dar ouvidos a uma mensagem que apresentava a justificação mediante a guarda da Lei Mosaica.17. 8. apresentam um bom desempenho. mas também sustentar a fé na verdade. no início. especialmente nos dias atuais.

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porém, que o particípio grego usado no texto está no tempo presente (kalountoj), apontando para uma ação atual de Deus. É provável, portanto, que Paulo tenha em mente aqui um convite de Deus dirigido continuamente aos que já atenderam ao chamado para a fé.7 À luz de outras passagens, esse chamado contínuo consiste num apelo para que os crentes sejam santos (Rm 1.7) e vivam em paz com Deus (2Co 5.20). Assim, ao falar de Deus como “aquele que os chama”, o apóstolo talvez pretenda despertar a consciência dos seus leitores para o fato de que o Senhor, vendo seus filhos se distanciar mais e mais de si, em virtude da persuasão dos falsos mestres (1.6), continuamente os convoca para que retornem a ele, rejeitando definitivamente o falso evangelho. Se de um lado os mestres da mentira convidavam os gálatas para que seguissem suas invenções, de outro o Senhor os chamava docemente para que retornassem à sobriedade e à fé na verdade. Por impedirem os gálatas de obedecer a verdade, atendendo assim ao chamado de Deus, os falsos mestres se constituíam numa influência maligna que, aos poucos e num tempo breve, poderia corromper completamente as igrejas da Galácia. Paulo alerta os seus leitores para isso citando o conhecido brocardo: “Um pouco de fermento leveda toda a massa” (9). O apóstolo usaria o mesmo adágio mais tarde, ao escrever aos coríntios (c. 55 d.C.), para ensinar a necessidade de expulsar um homem imoral da igreja (1Co 5.6-8). Ali, assim como no texto em análise, o “fermento” é símbolo da “maldade e da perversidade” (1Co 5.8). A diferença é que, em Corinto, a maldade e a perversidade manifestaram-se, entre outras coisas, por meio de um chocante desregramento sexual, enquanto na Galácia revelaram-se por meio do rápido e aberto desvio doutrinário.8 Da consideração de ambos os casos, pode-se concluir que tanto a conduta errada quanto o ensino errado, quando admitidos na igreja, são capazes de, lentamente e de várias maneiras, afetar todos os seus membros.

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Para que continue, portanto, a existir como igreja verdadeira, a comunidade que se coloca sob esse título não pode tolerar o erro nem de conduta nem de doutrina, impondo-se a necessidade de corrigir e, se preciso for, até expulsar aqueles que se sujeitam a quaisquer desses desvios (1Co 5.2,13). A figura do fermento mostra que disso depende a pureza e a saúde de toda a igreja. Por isso, ainda que medidas severas sejam muitas vezes necessárias para extirpar a influência má e crescente, deve-se lembrar que dessas medidas depende a sobrevivência do próprio grupo eclesiástico. De fato, a experiência mostra que a tolerância adotada muitas vezes em nome de uma noção errada de amor ou por causa do medo de ser taxado de “radical” tem, no fim das contas, um preço alto. Basta observar que igrejas que no passado deram pouca importância a pequenos desvios práticos e teológicos, considerando-os inofensivos, hoje se vêem marcadas por um quase irremediável ambiente mundano e também por grosseiras heresias instaladas nas mentes de seus membros. Eis o efeito do fermento! Sua ação silenciosa e lenta faz com que os danos que produz se alastrem por sobre tudo e sejam percebidos tarde demais. Daí a necessidade de lançá-lo fora com urgência (1Co 5.7), por mais que isso gere dissabores e desgaste emocional. Paulo sabia que a doutrina dos falsos mestres judaizantes tinha o potencial de corromper por completo as igrejas da Galácia. Isso, porém, ainda não tinha acontecido (5.1-2), e o apóstolo estava confiante que seu ensino prevaleceria sobre as falácias dos legalistas (10). Sabendo que escrevia a crentes genuínos, Paulo acreditava no arrependimento dos gálatas e no seu retorno à Sã Doutrina. Essa sua confiança era fundamentada “no Senhor”. Isso significa que Paulo cria que o arrependimento dos seus leitores seria, em última análise, obra de Deus no coração deles. O apóstolo tinha plena certeza em seu íntimo que o Senhor não deixaria seus filhos vagando pelas sendas da mentira.

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Ainda no v. 10, Paulo afirma: “Aquele que os perturba,9 seja quem for, sofrerá a condenação”. O uso do singular não significa que havia somente um falso mestre atuando entre as igrejas. Em 1.7, 4.17, 5.12 e 6.12, Paulo deixa claro que havia um grupo presente ali. Certamente, portanto, o singular foi usado para referir-se ao líder desse grupo ou ao mais influente entre os legalistas. Sem dúvida, esse indivíduo se apresentava como detentor de grande autoridade doutrinária, um rabino acima da média que, com seus ares de grande intelectual, associados às suas técnicas de bajulação, havia conquistado uma posição de alto prestígio entre os irmãos. Paulo mostra, no entanto, que, independentemente da posição que ocupava, aquele homem seria castigado. A expressão “seja ele quem for” indica que sua suposta autoridade não teria valor algum diante do Deus que o condenaria por desviar as igrejas da verdade. ´ ) tem aqui o A palavra traduzida por “condenação” (krima sentido de punição. No versículo sob análise, o termo aparece ´ , associado a um verbo cujo significado é “carregar” (bastazw também usado em 6.2,17).? É possível, portanto, que Paulo esteja dizendo que Deus lançaria um grande fardo sobre a vida daquele homem, desconsiderando totalmente a sua posição de preeminência. Isso porque, para Deus, o bom ministro não é necessariamente o que se destaca, mas sim o que é fiel (1Co 4.1-2). Não se pode deixar impune o homem que, aproveitando-se de sua posição privilegiada, conduziu o povo santo para longe da verdade, causando prejuízos incalculáveis para a causa do Reino (1Co 3.17). Concluindo o parágrafo em análise, Paulo deixa transparecer uma das acusações que os falsos mestres dirigiam contra ele, a saber, a de que ele pregava a circuncisão quando isso era conveniente. Ao que tudo indica, os judaizantes diziam que a mensagem de Paulo era oscilante, pendendo para este ou aquele lado, dependendo das

19-20). Por que estes o perseguiam se sua mensagem se ajustava às suas convicções? Ora. quando as igrejas a quem escreve foram fundadas. especificamente. A perseguição que o apóstolo sofria era evidência de que não era esse o caso. 11 ele diz: “Irmãos.10. Contudo. esse modo de agir estava muito longe de ser uma forma de anunciar a necessidade da circuncisão como os falsos mestres diziam que Paulo estava fazendo. .O EVANGELHO VERDADEIRO E AS VIRTUDES ESPIRITUAIS 111 circunstâncias e sempre com o intuito de evitar oposição e cair no agrado de todos. a perseguição dirigida contra ele pelos adeptos do judaísmo. o “escândalo da cruz” cessaria. na própria região da Galácia. É óbvio que Paulo tem em mente aqui. assim. pois se sua mensagem incluísse a salvação pela guarda da Lei. Agora ele o faz novamente. Como agora podiam crer que ele era um pregador que mudava o conteúdo do seu discurso a fim de evitar problemas com os supostos seguidores de Moisés? É verdade que Paulo tinha grande disposição em evitar ferir os escrúpulos dos judeus e. 14. os próprios gálatas tinham sido testemunhas da perseguição que Paulo sofrera quando anunciou pela primeira vez o evangelho entre eles (At 14. a perseguição contra Paulo por parte dos judeus era um fato inegável. por que continuo sendo perseguido?”. ao tempo da Primeira Viagem Missionária. Paulo já se defendera dessa acusação em 1. Logo. criar barreiras desnecessárias ao anúncio do evangelho (At 16. Assim. e puderam perceber o quanto sua mensagem incomodava os adeptos do judaísmo. o apóstolo encontrou terríveis obstáculos entre os seus compatriotas exatamente porque sua pregação contradizia a expectativa reinante entre eles de que o homem pudesse ser justificado pelas obras da Lei.49-50. se ainda estou pregando a circuncisão. desta vez demonstrando o quanto ela ia contra as mais claras evidências. e enfatizava unicamente a necessidade da fé em Cristo (At 13.1-2). Aliás. no v.1-3).

Sendo assim. acusações tão absurdas contra Paulo geravam em seu íntimo a mais intensa indignação. um outro verbo é usado (anastatow ´ ). com mordaz ironia.10. Naturalmente.17).15-16). De fato.23). a tal ponto que incitava sua oposição (1Co 1. os mestres judaizantes já foram descritos como pessoas que perturbam. ´ armadilha. a indignação que a mensagem da cruz gera. o sentido se estende a ponto de abranger qualquer coisa que cause repulsa ou reprovação. Por isso. ele termina o parágrafo insurgindo-se abertamente contra seus covardes caluniadores (12).23. literalmente. Eis aí. a constante inimizade dos judeus contra Paulo era a prova de que isso jamais tinha acontecido. Esse é o sentido adotado no v. essa repulsa deixaria de existir. ironicamente faz votos de que aqueles homens que eram tão radicalmente afeiçoados à circuncisão. portanto. 1Pe 3. A partir desse significado básico. Em 1. até o ponto de conduzir a igreja à rebeldia. cujo sentido é semelhante. No entanto. Rm 16. Se Paulo pregasse a circuncisão. ainda que deva predominar a mansidão no coração dos seus expoentes (2Tm 2. a circuncisão que Paulo prega! Que os mentirosos agora façam uso dela. há situações que exigem a tomada de atitudes mais . Agora.7. essa mensagem causava repugnância como algo que induzia os outros ao erro.112 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO “Escândalo” ( skandalon ) significa. para o judeu. 11. Paulo sugere que os mestres legalistas eram instigadores de tumulto.24-25. 18. O apóstolo se refere a eles como pessoas que provocam tumulto e agitação. De fato. “Escândalo da cruz” é. Ora. o escândalo cessaria e com ele a perseguição.7 e 5. aprendemos na Escritura que na defesa da verdade. e se castrassem de uma vez por todas!10 Diziam que ele pregava a circuncisão. também fossem radicais na realização do ritual. portanto. É uma palavra usada no NT para fazer referência ao incitamento ao pecado (Mt 16. A reação de Paulo diante da mentira que tentava corromper o evangelho e também sua própria reputação pode parecer demasiadamente severa.

15. nesta altura. essa liberdade deve conduzir a uma forma nova de escravidão: a escravidão do amor. 3Jo 9-10).16).1). sendo certo . Mas não usem a liberdade para dar ocasião à vontade da carne. Contudo. tb.1-3. o crente deve usá-la para servir amorosamente aos seus irmãos (13. a pureza e a sã doutrina são fortemente ameaçadas. então. o apóstolo vê. É preciso. compreender que a pureza e o amor são as cercas da liberdade do crente. Mas se vocês se mordem e se devoram uns aos outros.13). 5. colocando a igreja em constante e real risco de destruição (1Co 3. do pecado e da perdição.O EVANGELHO VERDADEIRO E AS VIRTUDES ESPIRITUAIS 113 rígidas.4. passa a ensinar que a liberdade a que o crente foi chamado não implica uma vida em que são dadas asas às inclinações naturais (1Pe 2. 1Co 8. mas também do fardo que a Lei Mosaica impõe aos que tentam viver sob suas determinações (5.13. Irmãos. Tt 1.1ss. que em vez de usar a liberdade cristã para servir suas próprias paixões. 14. vocês foram chamados para a liberdade. ao contrário. É somente dentro desses limites que a liberdade se mantém saudável e verdadeira. Assim. O AMOR É O CUMPRIMENTO DA LEI GÁLATAS 5. O convite para crer em Cristo é uma vocação para ser livre não só do mundo. sirvam uns aos outros mediante o amor. Essa é a lição que Paulo repisa em toda a Carta aos Gálatas.13-15 13. Antes. Nos escritores do NT essa rigidez aflora sempre que a paz. Paulo ensina. a necessidade de apresentar um contrapeso. Toda a Lei se resume num só mandamento: “Ame o seu próximo como a si mesmo”. certamente em virtude das acusações que lhe estavam sendo dirigidas de pregar uma mensagem que induzia os crentes ao desregramento.9. 2Pe 2. Vd. Tg 4. cuidado para não se destruírem mutuamente.10-13. portanto.

gritos e confusão.114 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO que ao ultrapassar tais fronteiras. Na verdade.11 É óbvio que a menção da Lei aqui não é despropositada. também demonstra que o dever de amar consta da própria Lei como uma ordem que resume todos os demais mandamentos (14). Paulo deixa transparecer com isso o fato de que os crentes da Galácia não tinham apenas problemas doutrinários.19-21.26. ela se desfigura.34. ele não tem recebido a atenção devida da parte de vocês. É claro que a figura sugerida por Paulo tem um toque de exagero. percebe-se o grau de atrito que havia entre os ´ crentes da Galácia. é fácil concluir que o ministério dos mestres legalistas. Ao usar os verbos “morder” (daknw )e “devorar” (katesqiw ´ ). A partir disso tudo. 15. No v. Por isso.2. Paulo. além de mostrar que a liberdade que Cristo dá deve conduzir ao amor que se dispõe ao serviço dos santos. que se apresentam como zelosos cumpridores das determinações de Moisés!”. considerando a lista das “obras da carne” constante de 5. 2Pe. o apóstolo sugere a figura de animais selvagens brigando ferozmente entre si. é como se dissesse: “Vocês realmente querem cumprir a Lei? Muito bem. Então amem-se uns outros. parece certo que nas igrejas da Galácia existiam chocantes problemas de inimizade. bem como a exortação de 5. pois toda a Lei se resume nesse mandamento e. transformandose em escravidão ao pecado (Jo 8. No entanto. A ênfase sobre o amor aos irmãos é notável no parágrafo em análise.17-19). havendo terríveis atritos entre os crentes. com o intuito de dar maior impacto à admoestação. Paulo está escrevendo a pessoas que diziam ter os preceitos mosaicos em alta conta. conduzia os homens ao apego a . em meio à completa balbúrdia. Eles também tinham sérios problemas de relacionamento. Fica evidente no texto que na Galácia as igrejas acolhiam falsos mestres e feriam verdadeiros irmãos. com sua ênfase sobre uma religião mecânica e cerimonialista. curiosamente. cada qual tentando brutalmente estraçalhar e destruir o outro.

19.16-26 16. não deixando espaço para o cuidado da espiritualidade interna. Eu os advirto. 18. ciúmes. e de modo nenhum satisfarão os desejos da carne. orgias e coisas semelhantes. Por isso digo: Vivam pelo Espírito. Mas. quando se descuida do coração. paz. Pois a carne deseja o que é contrário ao Espírito. 17. fidelidade. ou seja. Paulo alerta que esse estado de coisas. as obras da carne são manifestas: imoralidade sexual. idolatria e feitiçaria. amabilidade. é curioso perceber na atualidade. se vocês são guiados pelo Espírito.35). 20. como antes já os adverti: Aqueles que praticam essas coisas não herdarão o Reino de Deus. discórdia. com as brigas que gera. Assim. fatalmente conduz à destruição de todos. embriaguez. A religiosidade puramente externa consome totalmente o tempo e a atenção. egoísmo. alegria. A VIDA SOB O CONTROLE DO ESPÍRITO GÁLATAS 5. impureza e libertinagem. Mas o fruto do Espírito é amor. tal como na Galácia. bondade. a feridas incuráveis em indivíduos e ao fim da igreja como um núcleo cristão de comunhão e testemunho (Jo 13. Aliás. igrejas apegadas a um sem número de regras são verdadeiros palcos de intrigas. ele passa a produzir espinhos que cedo ferem os que se aproximam. ódio. e o Espírito. facções 21. O resultado era a divisão e a discórdia. ira. pois os vícios da alma de uma pessoa fatalmente são sentidos por aqueles que estão ao seu redor. Eles estão em conflito um com o outro. o que é contrário à carne. Ora. Esse fato pode ser verificado em qualquer grupo social. de modo que vocês não fazem o que desejam. provocações e calúnias.O EVANGELHO VERDADEIRO E AS VIRTUDES ESPIRITUAIS 115 meras formalidades exteriores. que. paciência. não estão debaixo da Lei. os crentes não davam atenção às virtudes espirituais e jamais as cultivavam. dissensões. e inveja. Ora. 22. .

9. O que vem em decorrência do andar no Espírito é uma conduta em que a carne. 24. O apóstolo descreve essa maneira de viver como “andar ´ no Espírito’ (pneumati peripateite).14). As palavras “por isso digo” (legw está para ser dito é a solução para o problema descrito no v. é um caminhar em que o indivíduo permite que o Espírito de Deus controle suas reações e guie a sua vontade (Veja tb. Se vivemos pelo Espírito.8). Os que pertencem a Cristo Jesus crucificaram a carne. o única meio de superar aquela forte inimizade que havia entre os crentes da Galácia era a submissão à influência do Espírito Santo. mansidão e domínio próprio. provocando uns aos outros e tendo inveja uns dos outros. Antes. 18). ou seja. em que o crente tem sua personalidade anulada. Deve também ficar claro que andar no Espírito não é uma experiência mística. a inclinação pecaminosa do . Assim. O significado básico dessa expressão. como já sugerido. v. 26. ´) indicam que o que ´ de 16. sabendo que não existe outra maneira pela qual seja possível viver o cristianismo de modo real e satisfatório (Rm 8. Contra essas coisas não há lei. trata-se de um estilo de vida a que o cristão se submete voluntária e conscientemente.12 O homem que se dispõe a isso diz “não” para suas inclinações pessoais (Lc 9. segundo Paulo. apontando-lhes o modo de proceder (Rm 8.23) e “sim” para as orientações do Espírito de Deus (Rm 8. vivendo como que num êxtase. O remédio para os graves conflitos interpessoais que agitavam as igrejas da Galácia é apresentado por Paulo no v.5). Não sejamos presunçosos. 25.116 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO 23. andemos também pelo Espírito. 15. Frise-se que só os cristãos podem dispor dessa maneira de viver. com as suas paixões e os seus desejos. uma vez que somente neles o Espírito Santo habita.

mas também não são capazes de tomar as rédeas de sua vida e ditar-lhe a conduta.12-14). mas isso nunca até o ponto de estabelecer-se no centro de sua vida. reinando soberano (Rm 6. Porém. de modo que vocês não fazem o que desejam” (NVI). Antes. parece certo dizer que. Antes. é claro. De acordo com o ensino do apóstolo. Paulo diz que essa batalha.13). não é satisfeita. a vontade moral . sempre resultam ou dos impulsos carnais ou da obra do Espírito de Deus. não desaparecem num crente assim. o pecado mostra-se presente. A própria experiência de Paulo mostra que esse ideal é impossível neste mundo (Rm 7. no que diz respeito ao cristão.15-25). Deve ficar claro que. Estas. Dando seguimento ao seu ensino. enquanto de outro lado há a atuação do Espírito que insiste em guiar a vida daqueles que pertencem a Deus (17). Paulo não está dizendo que o crente não tem vontade própria.O EVANGELHO VERDADEIRO E AS VIRTUDES ESPIRITUAIS 117 individuo. ou seja. Com isso o apóstolo resvala num tema da teologia cristã que tem sido objeto de calorosos debates: a vontade livre. a frase aponta para o fato de que a vontade moral do cristão sempre sofre influências determinantes. entristecendo-o e contrariando sua vontade. perturbando-o. Ainda que esse assunto tenha inúmeras ramificações. É claro que o apóstolo não está dizendo aqui que o submeter-se ao controle de Deus levará o crente a uma vida sem pecado. tal tendência é como que mortificada (Rm 8. de um lado há as inclinações naturais tentando determinar a conduta do homem já regenerado. Paulo destaca que há no íntimo do cristão uma verdadeira batalha entre sua natureza pecaminosa e as orientações do Espírito Santo que nele habita. travada no âmbito da vontade. No cristão que vive pelo Espírito. faz que as decisões morais dos crentes nunca sejam absolutamente livres. com a frase “. à luz do texto em análise... é fora de discussão que o crente que se sujeita às orientações e influência do Espírito Santo não vive sob o domínio de suas inclinações naturais.

118 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO sempre reage aos impulsos de uma entre duas forças.23. não importa o rumo que tome. seu querer sempre será contrariado. e as orientações do Espírito. pois o bem que ele aprova e no qual tem prazer não será alcançado. isso significava também que. terá de fazê-lo dizendo “não” para si mesmo. se o Espírito de Deus quer .19. ou o faz sob a direção do Espírito. nos termos como é geralmente entendida. Se. Assim. optar pelo bem.23). portanto. de fato. Por isso. seu senhor não poderia ser a Lei (18). Isso tudo conduz o apóstolo a uma implicação óbvia: se era ao Espírito que os gálatas deviam sujeição. sentir-se-á frustrado. Paulo sabia que as discórdias existentes nas igrejas da Galácia (vv. Nesse ponto. Assim. opondo-se às suas inclinações carnais. o cristão jamais poderá dizer que desfruta de plena liberdade em suas decisões morais. Fp 2. a vontade é um misto de bem e mal. sua vontade própria sempre se expressa no campo da ética respondendo a fatores que a contrariam. para aquilo que seu coração naturalmente deseja (Lc 9. 1Co 9.27). no crente. atua em vocês. 13-15) eram o resultado indesejado daquela batalha entre os impulsos da carne a que aqueles crentes estavam dando vazão. como argumenta em toda a carta. é como se o apóstolo estivesse dizendo: “Essas brigas que há entre vocês são reflexos do domínio da carne em suas vidas e só poderão desaparecer se houver submissão às orientações do Espírito Santo. Se optar pelo mal. isto é.13). mas que fatalmente a conduzem nesta ou naquela direção (Rm 7. Sobre eles recaía. ou seja. Em todo caso. O fato é que. refreando a natureza pecaminosa e submetendo seus desejos aos ensinos do Espírito. não encontra suporte para sustentação no ensino paulino. enquanto o pecado estiver em seus membros (Rm 7. Ora. parece que a liberdade plena da vontade. o dever de administrar corretamente essas inclinações. ou o crente toma decisões induzido por suas paixões carnais. Esse Espírito. por outro lado.

O termo traduzido por “imoralidade sexual” (porneia ´ ) abrange todos os tipos de relação sexual ilícita. Debaixo dela. Porém. 19-21.4). as más intenções na área sexual ainda que também signifique imoralidade de um modo geral. O primeiro deles abrange os pecados de natureza sexual. De tudo isso se depreende o seguinte: há três influências sob as quais é possível que um crente se coloque. O termo traduzido na NVI por “manifestas” (fanera) indica que tais obras são praticadas sem qualquer discrição. 8. é óbvio que sua obediência deve ser a ele e não às normas da Lei Mosaica. desde a ´ ) sugere fornicação até a prostituição. a força da carne é neutralizada e o cristão é capacitado sobrenaturalmente a cumprir as justas exigências da Lei.6. Fica claro aqui. como os mestres judaicos têm lhes ensinado”.13 Sob as duas primeiras.O EVANGELHO VERDADEIRO E AS VIRTUDES ESPIRITUAIS 119 controlar sua vida. sendo expostas diante de todos numa chocante demonstração de ausência de escrúpulos. o apóstolo apresenta uma lista da qual constam quinze “obras da carne” específicas. impureza e libertinagem (19). o . antes de tudo. Paulo pretende mostrar vividamente o modo como as inclinações na natureza pecaminosa se manifestam no dia-a-dia das pessoas que se deixam dominar por ela. Essas três influências são: a Lei. a carne e o Espírito. 16). que a carne induz à realização de certas obras e que essas obras são facilmente identificáveis. era exatamente a essas duas que os gálatas se sujeitavam. A lista de obras da carne pode ser dividida em quatro grupos distintos de pecados. 8. Já a “impureza” (akaqarsia a idéia de podridão no íntimo.8) e. Nos vv. Já a terceira influência. para desespero de Paulo. da forma como Deus requer (Rm 7. Estes são: imoralidade sexual. ARA) ou “sensualidade”. permanece a única sob a qual o crente pode realmente fazer a vontade do Senhor (v. o cristão jamais conseguirá agradar a Deus (Rm 7. a do Espírito.9. ou seja. Quanto à “libertinagem” (aselgeia ) a palavra poderia ser ´ traduzida como “lascívia” (cf.

no v. . Como é sabido. Assim. impudico e dissoluto de viver. 20. ao definir toda essa conduta como carnal. Portanto.14 Quanto à feitiçaria. Assim. nesse ponto. Porém. a palavra sugere inicialmente a prática da magia que faz uso de drogas e poções (a partir do termo grego temos. Antes. num sentido amplo. do costume ou da tradição. A prática popular de “simpatias” insere-se perfeitamente no conceito que Paulo repugna aqui. É curioso notar que a natureza pecaminosa também inclina o homem para a religião falsa e para a superstição. O segundo grupo de obras da carne mencionado pelo apóstolo pode ser classificado como composto de pecados de natureza religiosa. refletem o caráter reprovado de quem se envolve com elas. A primeira é a ´ ) e a feitiçaria (farmakeia (eidwlolatria adoração de ídolos ou imagens de falsos deuses. Paulo incita seus leitores a não adotarem o comportamento próprio da sociedade que os cercava. em português. a palavra “farmácia”). um caráter em que a natureza pecaminosa reina governando a mente e as ações do indivíduo. pois no contexto em que viviam os gálatas. a idolatria ´ ). Essa é a “psicologia da religião” ensinada por Paulo. os atos cultuais realizados pelos adeptos de qualquer seita idólatra e as crendices populares não são meros frutos da ignorância. seu ensino assume um caráter vívido. não faltavam exemplos das coisas até aqui mencionadas. “feitiçaria” é qualquer arte de bruxaria. próprio daquele que se entrega à licenciosidade. não há dúvida de que. os leitores da epístola estavam familiarizados com as formas de comportamento referidas pelo apóstolo. a sociedade pagã do primeiro século da Era Cristã era caracterizada tanto por um baixo nível moral quanto pelo desvio religioso e. Assim também o uso de drogas no preparo do indivíduo para exercícios mentais próprios das religiões orientais. assumindo um modo devasso. Paulo menciona. sem dúvida.120 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO termo pode denotar um comportamento realmente ousado. magia ou encantamentos.

14-16). O homem carnal reage de modo agressivo bem depressa e por muito pouco. constantemente construindo barreiras entre si e os outros.11. ameaças e ofensas. Na igreja. Quanto ao ciúme (zhloj.9) e provocações (Fp 1.28-29). dissensões. Daí a palavra “zelo”. Discussões verbais (1Co 1. Paulo tem em mente aqui as explosões de cólera. — ecqrai ) não é aqui um mero ´ sentimento. O homem carnal considera-se inimigo de certas pessoas e age como tal. egoísmo. “iras”. em português). cedo ou tarde. certamente porque era exatamente na esfera da convivência que os gálatas tinham mais problemas (vv.O EVANGELHO VERDADEIRO E AS VIRTUDES ESPIRITUAIS 121 Depois de listar os pecados na área da religião. facções e inveja (20-21). Trata-se do homem que tem uma forte inclinação para arrumar encrencas e geralmente é bem sucedido nesse propósito. seu significado aqui é o sentimento de inveja. Esse grupo concentra o maior número de pecados (oito. Tt 3. Gr. é o crente que sempre está “de mal” com alguém. ´ ) denota a rivalidade que O vocábulo “discórdia” (erij aflora em contendas. raiva e furor (Lc 4. qumoi Significa. aqueles que normalmente se insinuam no âmbito do convívio social. 1415. alimentando suas hostilidades. O ódio (Lit. ira. o incômodo que nasce no coração de alguém quando vê o sucesso. Gr. discórdia. basicamente. Paulo prossegue enumerando os pecados de natureza relacional. o destaque ou o simples bem estar de outrem (At 5. ciúmes. É por isso que Tiago coloca a inveja na raiz de todas as confusões e coisas ruins que surgem na igreja e em qualquer outro grupo de pessoas (Tg 3.15) são manifestações desse tipo de pecado. Trata-se da manutenção de inimizades. O invejoso não se conforma com as conquistas de outra pessoa e. São eles ódio.17). destruindo os relacionamentos interpessoais. Ele também se . ao todo). “ódios”. isto é. ´). esse seu inconformismo se expressa em maledicência e oposição. sempre acompanhadas de gritos. 26). A palavra que vem a seguir é “ira” (Lit.

Para ele o cuidado e a promoção de si mesmo estão acima de tudo e de todos (Fp 2. mais especificamente entre os pecados .17). 1Tm 3. O vocábulo denota a ambição egoísta.13-14) e não como uma doença pela qual o homem não pode ser responsabilizado.1. 1Tm 5. O quarto e último grupo de obras da carne abrange os pecados de desregramento que Paulo especifica mencionando a embriaguez e as orgias (21).3-10. Assim.14-16 como a causa de tudo o que é ruim nas relações entre os homens. Is 5.8.3).3-4). empreendeu contra seus semelhantes nesta ou naquela ocasião. A última palavra pertencente à terceira classe de pecados ´ ).22. também mencionada em Tiago 3. em detrimento dos interesses e bem estar dos outros. são as divisões e Quanto às dissensões (dixostasiai partidos que muitas vezes se insinuam até mesmo dentro das ´ igrejas (Rm 16. referem-se a conflitos de opinião (1Co 11. Seu alistados por Paulo é traduzida por “inveja” (fqonoi significado é.1112. Da palavra grega que aparece aqui surgiu o termo “heresia”. que no texto também aparece no plural (eriqeia). a Bíblia refere-se à embriaguez como um pecado que impõe a quem o pratica a necessidade de arrependimento (Rm 13. O cristianismo não ensina a abstinência total do álcool (Jo 2. chegando mesmo a desrespeitá-los (v. Diferentemente da concepção moderna. 26). Paulo alista a bebedice entre as obras da carne.23)15. mas reprova a bebedice (Pv 20. usado para descrever conceitos doutrinários que causam cisma dentro da igreja. O próximo item na lista de Paulo é “egoísmo”.2-3. cheio de ira. Já as facções (aireseis ).19). ´ ). o mesmo atribuído a zhloj (Veja acima). Tt 2.122 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO orgulha por ser assim e até mesmo gaba-se dos ataques que. O indivíduo que pratica esse pecado é aquele que faz as coisas visando a glória pessoal. ´ A embriaguez (meqai ) é o uso abusivo da bebida alcoólica. basicamente.

Isso significa que as pessoas que vivem sob o domínio das obras da carne revelam sua verdadeira condição espiritual de incrédulos perdidos. A palavra usada por Paulo aqui (kwmoi) denota um banquete festivo em que as pessoas se entregam à glutonaria e a todos os tipos de prazer corporal. Pv 31. provavelmente ao tempo de sua visita àquela região (At 14. Ele também lembra que já havia falado sobre essas coisas com os gálatas numa outra ocasião.7. inegavelmente. Ainda que muitos se apresentem como cristãos.18). assim como agora. vendo-a como um reflexo da busca egoísta e irresponsável pelo prazer que.3).6-7). o resultado dessa busca descontrolada é a escravidão ao vício. No ambiente pagão do século 1º. essas festas devassas eram comuns (1Pe 4. busca a todo custo o prazer do corpo e o alívio da mente. fazendo parte. inclusive. ao final. Naquela oportunidade. Além disso. na bebida. a bebida traz tanto ao paladar quanto aos sentimentos (Sl 104. A orgia sexual compõe o quadro que a palavra sugere. a miséria (Pv 21. receberá o galardão do pecado (Ap 22.O EVANGELHO VERDADEIRO E AS VIRTUDES ESPIRITUAIS 123 de desregramento.14-15). mostra que nunca foi liberto do pecado e. invariavelmente.1-23). Ef 5. dos cultos devidos aos deuses. O beberrão é reprovado por Deus porque atende aos impulsos de sua natureza pecaminosa que. Paulo indica que a lista de obras da carne aqui apresentada não é exaustiva. A mesma busca desenfreada pelo prazer dos sentidos que move o escravo da bebida também está presente naqueles que se entregam às orgias. A verdade é que quem vive no pecado. o fato é que uma vida onde o pecado reina jamais experimentou realmente a redenção que Cristo dá.16 Com a expressão “coisas semelhantes”. o apóstolo advertira a todos que “aqueles que praticam essas coisas não herdarão o Reino de Deus”.14-15. .17) e a degradação do indivíduo (Is 28. num discurso que revela conhecimento das principais doutrinas bíblicas e até certo envolvimento com a igreja de Deus.

6). já que o convívio entre eles era marcado por terríveis discórdias (5. Assim. e os gálatas precisavam crescer nessa virtude. como uma coisa só.20. Ele queria simplesmente afirmar que a obra do Espírito no crente resulta num produto e que esse produto se manifesta em virtudes variadas. 5. que chega ao ponto do sacrifício. Paulo apresenta o “fruto do Espírito” (22). 26). Paulo não tinha nenhuma lição oculta no uso do singular.13). mesmo porque seria muito improvável que uma lição tão importante e surpreendente fosse transmitida por ele de forma meramente implícita.4). A virtude que encabeça a lista de Paulo é o amor (agaph termo usado para descrever uma disposição favorável em relação ao outro. basicamente.17 O amor é a forma como a fé verdadeira se expressa (5. Isso. a própria experiência cristã mostra que as virtudes espirituais nem sempre se desenvolvem simultaneamente na vida do indivíduo. para beneficiá-lo (2. Paulo prossegue mencionando a alegria (xara) que é. Desse conceito se depreende que o invejoso é carente de alegria. posto que se sente frustrado por não ter o que é do outro. Curiosamente. se preciso for. Ademais.26). Esse era o caso dos gálatas (5. dificilmente estava na mente do apóstolo. na vida do homem espiritual.14-15. Há quem diga que a palavra fruto (kartoj) aparece no singular porque Paulo queria ensinar que as virtudes que vêm alistadas a seguir surgem todas juntas. porém. Paulo menciona a alegria mais do que em qualquer outro lugar. Na Epístola aos Filipenses.124 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO Em contraste com as obras da carne. ´ ). A lição principal que Paulo dirige aos gálatas com a menção do fruto do Espírito é que o caráter cristão nasce como resultado da obra sobrenatural de Deus e não em decorrência de uma rígida disciplina moral e legalista (Rm 8. ele escreveu . a doce satisfação que existe em quem tem os anseios realizados.

O quinto traço do homem que vive no Espírito é a ´ benignidade (xrhstothj ). bondade ´ ) é quase um sinônimo de benignidade. Exteriormente se expressa em harmonia entre as pessoas (Rm 12. No afã de manter mais nítida essa ´ distinção. enquanto a segunda denota uma carga maior de ação. De fato.15b). (agaqwsunh é bem provável que o apóstolo concebesse alguma distinção entre as duas palavras. a NVI traduziu xrhstothj por “amabilidade”. ou ainda alguém que faz o bem.33). livre de qualquer aspereza. sendo generosa em seus atos de benevolência. qualquer que seja o rumo das coisas. Contudo.18) e ausência de desordem (1Co 14. as duas virtudes juntas descreveriam o homem dócil que também é pródigo em seus atos de bondade.9) que nos chamou para vivermos em paz (1Co 7.7). a postura de quem trata os outros com docilidade. considerada em seu aspecto interior. Paz. o que demonstra que a alegria que advém da obra do Espírito é uma satisfação decorrente da consciência de que Deus está atuando e que.4). há o consenso de que a primeira palavra se refere mais à atitude de alguém. ou seja. A terceira virtude alistada como fruto do Espírito é a paz (åéñçíç).17). Longânimo é Longanimidade (makroqumia aquele que permanece firme. é serenidade mental (Fp 4. ´ ) vem a seguir. 20-21. .O EVANGELHO VERDADEIRO E AS VIRTUDES ESPIRITUAIS 125 essa carta quando estava em prisão domiciliar em Roma. termo usado a princípio para descrever a pessoa que faz o bem. conceito que contrasta com oito obras da carne mencionadas por Paulo nos vv.2). O termo que vem a seguir. e sendo paciente diante das provocações dos homens (2Tm 4. pois pode-se encontrar alguém amável que não faz o bem. Assim. perseverando mesmo em face dos mais severos ataques da vida. Essas distinções são relevantes. sua bondade boa e santa sempre estará por trás de tudo (Fp 2. Deus é um Deus de paz (Fp 4. mas não é amável. A alegria cristã também consiste em ter na pessoa e obra de Deus a principal fonte de vibração e entusiasmo (Fp 4.

Andando em mansidão. Por isso. Paulo.14-16). a palavra pistij é usada para descrever a pessoa ´ comprometida e leal (Rm 3. dificilmente Paulo. Fé em Deus é raiz. numa branda ironia. se quisessem viver sem quebrar a Lei. 4. enfraquecendo o império das obras da carne dentro da igreja. Literalmente a palavra aponta para o ato de agarrar ou segurar o eu. Pondo fim à sua bela lista. no presente contexto. o modelo maior. se apresenta como manso (Mt 11.29). recorda que ninguém transgride os mandamentos ao praticar as virtudes que ele alistou (23 in fine). incluiria a fé em Deus na lista em pauta. ainda que sejam notórias as suas eventuais manifestações severas de reprovação (Mt 21. incapaz de trair a verdade (especialmente a doutrinária) e fiel nas suas relações com as pessoas. aliás. 23. O vocábulo mansidão (prauthj ) inicia o v. Considerando. e fé (pistij ) é a palavra que vem a seguir. Manso é o ´ homem brando.9-10). Gl 3. De fato. Não se trata de alguém que nunca se irrita. certamente Paulo quer ensinar que o homem espiritual é alguém confiável. o que requer do crente certo grau de empenho (2Pe 1. Ensinar essa virtude produz grandes incômodos nos homens que vivem dando plena expressão aos seus instintos naturais (At 24. aquele que não é dominado pela ira. 23. uma tradução perfeitamente possível.126 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO ´ A lista de Paulo prossegue. constituindo-se no fator que possibilita o início da vida cristã (Rm 5. Os crentes da Galácia não tinham essa virtude (1.2). porém.33).12-13. o apóstolo menciona o domínio ´ próprio (egkrateia ) que é o controle das inclinações naturais.5-6). Evocando o zelo das igrejas da Galácia pela Lei. parece correto entender o termo usado por Paulo como “fidelidade”. O domínio próprio se constitui no avesso do modo de vida dos incrédulos. que a fé é um elemento básico nas relações do homem com Deus. Assim.25).6.3. Assim.1-2. mas da pessoa que não tem o rancor e a agressividade como marcas distintivas. o crente desestimula a discórdia. não fruto. os gálatas : . Cristo. Tt 2.

devendo agora andar como ele determina. ao crente são dadas condições de viver de tal modo que a iniqüidade não ocupe mais o trono de sua vida (Rm 6. quando passa a pertencer a Cristo. o que não nos advém como num passe de mágica. Essas condições advêm da habitação do Espírito Santo nele. mas sim que. em outro lugar. quando passamos a pertencer a Cristo fomos inseridos na esfera de atuação do Espírito de Deus. pela conversão. Resta ao crente agora ser zeloso e submeter-se ao controle do Espírito que nele está (v. Ele realça que para se livrar do domínio das inclinações do pecado é preciso. assim também o homem que. pertencer a Cristo (24).20 Isso é fato consumado. o homem experimenta a neutralização do poder da carne que. como um homem crucificado.18 Isso não significa que no crente o pecado está morto. Assim. Em resumo. é preciso andar no Espírito (24). De fato. ou seja. crescendo no fruto que esse mesmo Espírito produz. essa harmonização entre viver no Espírito e andar no Espírito ocorreria quando os crentes deixassem de . Paulo ensina que o crente que vive segundo o Espírito tem um procedimento no qual se percebe o cumprimento substancial das justas exigências da Lei (Rm 8.19 É claro que aquele que pertence a Cristo ainda comete pecados (1Jo 1. o cristão tem o dever de ajustar sua vida à nova realidade em que agora se encontra. antes de tudo. mas antes implica o dever de acolher suas orientações com perseverança e responsabilidade.12-14).4). 16). Já vivemos no Espírito. Contudo. O apóstolo insiste que não é a prática legalista que santifica o homem. Tal como o homem que entrou para o casamento deve conformar sua vida à realidade de alguém casado. Na Galácia. se vê despojada de sua força. entrou para a vida no Espírito deve andar como alguém controlado por esse mesmo Espírito.O EVANGELHO VERDADEIRO E AS VIRTUDES ESPIRITUAIS 127 tinham que se colocar sob o domínio e influência do Espírito Santo. porém. o crente já está no Espírito.8-10). Agora.

para andar no Espírito. as provocações mútuas e as invejas.128 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO lado o orgulho. é necessária consciente e perseverante sujeição. o que reforça o ensino de que. .

e então poderá orgulhar-se de si mesmo. deverão restaurá-lo com mansidão. CUIDANDO DOS OUTROS E DE SI MESMO GÁLATAS 6. busca apenas a aprovação do mundo. se alguém for surpreendido em algum pecado. Irmãos. Levem os fardos pesados uns dos outros e. A partir da análise do Fruto do Espírito. pois cada um deverá levar a própria carga. na submissão ao controle do Espírito e na prática do bem. assim. 5. descobre-se que a vida cristã tem uma . cada um para que também não seja tentado. engana-se a si mesmo. não sendo nada. porém.6. ao contrário. Se alguém se considera alguma coisa. o evangelho verdadeiro e os deveres cristãos A verdadeira prática da vida cristã se manifesta na dócil disposição de restaurar o irmão que caiu. Cuide-se. na análise honesta de si mesmo. em contraste com as obras da carne. sem se comparar com ninguém.1-5 1. no cuidado em face da tentação. O legalismo. cumpram a lei de Cristo. 3. vocês. algo que o crente despreza por ter na cruz de Cristo todo o seu prazer. que são espirituais. 4. Cada um examine os próprios atos. 2.

130 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO dimensão marcantemente relacional. aponta fortemente para o sentido de pegar de surpresa. contudo. Desse modo. ao longo da jornada. o apóstolo aponta com maior clareza a quem se dirigem as orientações que está prestes a transmitir. Assim. Há também. àqueles que partilhavam com ele da genuína fé cristã. É provável que essas palavras vislumbrem a possibilidade de.4). apontando agora a forma correta de lidar com o irmão que cai no erro. Diante de um irmão nessas condições. nas orientações constantes do início do capítulo 6. Paulo se dirige aos “irmãos”. da sua própria fraqueza ou do peso das circunstâncias. caindo repentinamente. Paulo ainda mantém o foco nesse aspecto da vida de quem anda no Espírito. Antes. desliza e cai para o lado. tropeça em virtude do cansaço. ou seja. a possibilidade da hipótese referir-se a alguém que foi pego de surpresa pelo próprio pecado. o ´ ) traduzido nas bíblias verbo que Paulo usa aqui (prolambanw em português por “surpreender”. O homem espiritual apresenta marcas de caráter que se manifestam especialmente no trato com as pessoas ao seu redor. No versículo 1. A palavra que Paulo usa aqui para se referir ao pecado ´ (paraptwma ) significa “passo em falso”.1 Seja qual for o caso que Paulo tinha em mente. De fato. ou seja. tudo indica que Paulo não está tratando aqui do pecador contumaz ou do homem obstinado na prática do mal. acontecer de um irmão flagrar outro praticando uma das “obras da carne”. Como se sabe. o fato é que a questão que levanta se refere a alguém que cometeu uma falta. numa caminhada. nem todos nas igrejas da Galácia podiam ser classificados desse modo (5. os que são “espirituais” (pneumatikoi). os que vivem no Espírito . O parágrafo começa com uma hipótese: “se alguém for surpreendido em algum pecado” (NVI). tem os olhos voltados para o crente sincero que. Por isso. na dinâmica dos relacionamentos entre os crentes. Denota a situação de quem.

o crente ´ ). No v. têm o dever de corrigi-lo (katartizw isto é.23. uma outra lei: a Lei de Cristo. lembremos que Paulo se dirige exatamente a esses aqui). De fato.O EVANGELHO VERDADEIRO E OS DEVERES CRISTÃOS 131 e andam no Espírito (5. os crentes. os lugares e as áreas em que a tentação pode surgir para. caiu e sofreu graves danos. não devem se expor ao perigo. atuar como restauradores de sua vida prejudicada por conta da má conduta. Paulo ensina que esse trabalho de recuperação deve ser feito com espírito de brandura. não são pessoas livres do perigo da queda. oferece a eles. a esses irmãos. detectar os momentos. mantendo-se debaixo de sua ´ ). O contexto aqui aponta para os fardos que um irmão carrega em decorrência de sua fraqueza moral e do pecado em que caiu. então.26). detectando as fontes de tentação e fugindo delas. ao dar um passo em falso. orientando-os no sentido de evitar qualquer tentação que os leve à prática do mal. ou seja. influência e controle2. difícil de carregar e capaz de prostrar quem está sob ele. deixavam de lado o cuidado fraternal (5. Carga (baroj ) sugere um peso excessivo. o Senhor enunciou aos seus discípulos um novo mandamento.25). que tanto valorizam a Lei. Os crentes “espirituais”. mesmo os mais maduros (aliás. Paulo. Ele disse: “Um : . Por isso. De fato. A vigilância é o preço que se paga pela pureza. Evocando ainda as virtudes do Fruto do Espírito. então.15. o que mostra que um dos deveres mais nobres do crente maduro é recuperar um irmão que. Os gálatas. anda no v. 1. ficar atento. muitas vidas não teriam se arruinado se tivessem sido mais cautelosas. 2 Paulo ensina que na igreja as pessoas devem levar ´ as cargas umas das outras. Segundo Paulo. preocupados em observar aspectos exteriores da Lei Mosaica. os responsáveis pela recuperação de um irmão que pecou. corrigir aqui tem o sentido de reparar algo quebrado3. observar cuidadosamente deve vigiar (skopew as circunstâncias ao seu redor e. evitá-la. Assim. ou seja. Aliás. ´ com a mansidão (prauthj ) que mencionou em 5. Paulo se dirige. dessa forma.

de modo que.12-13). dizendo que o indivíduo que tem uma visão muito elevada de si mesmo dentro da igreja.34. Jo 15. o apóstolo mostra aqui que uma forma de obedecer ao novo mandamento de Cristo é tomar sobre si uma parte do peso do irmão que sofre em virtude da falta que cometeu. achando-se maiores do que ele e pensando pertencer a uma elite espiritual dentro da igreja. o cumprimento dessa ordem transcende o mero sentimento de simpatia e afeto. o que. posto que todos estamos sujeitos à queda. Como eu os amei. a contradição é apenas aparente. infelizmente. vocês devem amar-se uns aos outros. uma vez que não é nada. está se enganando. negamse a se humilhar na prática de servir um irmão fraco.13) e. 3. tanto que instigavam os gálatas a se circuncidarem justamente para que fossem aplaudidos pelo mundo e se gloriassem no seu sucesso em conquistar prosélitos (6. abrange socorrer os irmãos feridos. sentem-se superiores e se tornam rígidos e cruéis no trato com quem caiu.132 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. requer a atitude humilde de um servo (5. Antes. Para Paulo. O v. 4 que se alguém quiser gloriar-se deve fazê-lo ao dar provas de seu próprio empenho na vida cristã. ou seja. É a esse grupo de crentes que Paulo se refere no v.12. Paulo diz a essas pessoas no v. No v. Levar essas cargas. Veja-se tb. de sua parte não fazem nada para recuperá-lo. Os falsos mestres tinham a atitude soberba descrita acima. 5 parece entrar em choque com o v. porém. Pessoas com essa postura. Por isso.” (Jo 13. jamais se colocam no mesmo nível do irmão que tropeçou.17). Ademais. 2 Paulo fala sobre o dever de ajudar o . Cumpri-la implica fazer algo. 2. aliás. muitos crentes pensam de si mais do que convém. notando-o apenas com o propósito de se gloriar por não ter agido de forma semelhante. mostram-se orgulhosos. Porém. movidos por essa ilusão. Tratam o que caiu com desprezo e se gloriam por não terem sido fracos como ele. não está acima de ninguém.

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irmão que está curvado sob o peso de dificuldades excessivas, as quais lhe sobrevieram por causa de um desvio moral. Já no v. 5 ele lembra aqueles que se apresentam como superiores e nada fazem, que cada um tem seu fardo, ou seja, seu conjunto de fraquezas pelas quais é pessoalmente responsável. Em vez de observar as dos outros e se gloriar nelas, o crente deve cuidar das suas, posto que é por estas e não por aquelas que há de responder um dia diante de Deus. Basicamente, portanto, as cargas mencionadas no v. 2 são os problemas de um irmão decorrentes do seu tropeço, enquanto que o fardo mencionado no v. 5 são as fraquezas que cada um tem em sua vida e com as quais tem o dever intransferível de lutar.

A COLHEITA FUTURA GÁLATAS 6.6-10
6. O que está sendo instruído na palavra partilhe todas as coisas boas com aquele que o instrui. 7. Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear, isso também colherá. 8. Quem semeia para a sua carne, da carne colherá destruição; mas quem semeia para o Espírito, do Espírito colherá a vida eterna. 9. E não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desanimarmos. 10. Portanto, enquanto temos oportunidade, façamos o bem a todos, especialmente aos da família da fé.

A benignidade dos crentes não deve ser direcionada unicamente àqueles que são vítimas quebrantadas do seu próprio pecado. Paulo sabia que a religiosidade mecânica e exterior do legalismo tinha esfriado não só o afeto dos crentes nas suas relações entre si, mas também o amor pelo próprio apóstolo, seu verdadeiro instrutor espiritual (4.12-16). Para piorar a situação, os falsos mestres infiltrados naquelas igrejas

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A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO

trabalhavam intensamente para colocar os gálatas contra Paulo (4.17). Incitado por esses fatos tão preocupantes, no v. 6 o apóstolo exorta os crentes acerca do dever da generosa benevolência em prol dos verdadeiros mestres da Palavra. ´ O texto ensina que os que são ensinados (kathxoumenoj ) na Palavra devem compartilhar todas as coisas boas com ´ ). Aquilo que é bom aqueles que os instruem (kathxew ´ (agaqoj), a que Paulo se refere aqui, tem um sentido tanto moral quanto material. Ele quer, portanto, que os gálatas aprendam a oferecer aos mestres da Palavra sua amizade, hospitalidade e simpatia, bem como recursos para o sustento físico que possibilitem um envolvimento maior com o ensino da igreja (1Co 9.7-14; 1Tm 5.17-18).4 Toda a exortação de Paulo referente ao dever de praticar o bem, tanto em face dos irmãos comuns quanto dos ministros da Palavra, deve ser acolhida porque os atos dos homens se assemelham a uma semeadura (7). A tendência das pessoas é acreditar que suas ações são estéreis, que o que fazem não é capaz de gerar nada mais tarde. Paulo sabia que o coração humano facilmente se convence de que as coisas que o homem realiza não terão implicações futuras. Por isso diz: “Não se deixem enganar!” De fato, até mesmo a experiência humana mostra em certa medida que nossos atos são como sementes boas ou más, sendo tolice pensar que, ao lançá-los ao solo, nada poderão produzir. Cair nesse engano é zombar de Deus. Isso porque foi o próprio Senhor quem estabeleceu uma lei moral no universo, de acordo com a qual a conduta ética é capaz de gerar resultados bons ou maus para o próprio ser humano que a adota. Essa “lei” mostra o quanto Deus é justo e o quanto se inclina a recompensar o bem e punir o erro.5 Assim, quando alguém despreza essa verdade, está com isso dizendo que o modo como Deus diz que administra a história, na realidade não funciona, ou que essa

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administração nem mesmo existe, sendo perfeitamente possível praticar o mal e viver para sempre desfrutando de paz e segurança. É essa atitude que Paulo descreve como zombar de Deus, enfatizando em seguida que o homem colherá sim o que, ao longo de sua vida, plantou. Paulo prossegue apontando o perigo que existe para quem “semeia para a sua carne” (8). Evidentemente, semear para a carne consiste em cultivar na vida os pecados próprios da natureza pecaminosa, os quais foram alistados em 5.19-21. Aqueles que, no dia-a-dia, “plantam” os atos que suas próprias paixões estimulam, são os que semeiam para a carne. O apóstolo adverte no sentido de que a corrupção será o fruto ´) colhido por essas pessoas. A palavra que usa aqui (fqora significa ruína e destruição e é usada no Novo Testamento tanto para se referir à vida de decadência que caminha para a morte em meio à desolação temporal (Rm 8.20-21; 2Pe 2.12), quanto para descrever a degradação moral (2Pe 1.4; 2.19). Paulo está dizendo, portanto, que quem cultiva as obras da carne arruinará sua vida e entrará em acelerado declínio moral. Por outro lado, “quem semeia para o Espírito”, ou seja, quem cultiva as virtudes mencionadas em 5.22-23, as quais são reconhecidas como obras do Espírito Santo na vida dos salvos, desse mesmo Espírito “colherá a vida eterna”. Uma interpretação apressada diria que, à luz desse texto, a salvação é mediante o cultivo do fruto do Espírito e não unicamente pela fé. Esse entendimento, porém, iria de encontro ao ensino principal de Paulo na própria Epístola aos Gálatas (3.22). Na verdade, é bem possível que o apóstolo esteja falando aqui sobre o desfrute presente das alegrias da eternidade. Se for esse o caso, o texto diz que quem plantar atos de retidão e bondade colherá, desde já, as bênçãos da vida feliz que aguarda o crente no céu. Que a vida eterna pode ser experimentada em certa medida mesmo agora, depreende-se também de João 4.14; 5.24; 17.3; e 1 Timóteo 6.12.

perseveremos na prática do bem. 10 uma nota de urgência: “enquanto temos oportunidade”. desde que. . Diante do tribunal divino não teremos mais como semear. e o seu fim é a vida eterna. oposição e poucos resultados. não resta dúvida de que o homem que se preocupa em produzir em seu dia-adia os traços do genuíno caráter cristão experimentará desde já um vislumbre da alegria celeste e. a vida santa não é a causa de se chegar lá. Ele afirma ainda. A certeza de que nossos atos produzirão resultados bons ou maus para nós mesmos deve estimular o crente a não se cansar de fazer o bem (9). ainda que não saibamos ao certo o seu tempo. Os crentes fatalmente colherão os resultados dos seus atos no dia futuro. Essa libertação do pecado pela fé. o desfrute dos galardões de Deus depende daquilo que o crente faz por meio do seu corpo (2Co 5.” De acordo com esse texto. sendo esses traços uma prova de que é redimido pela fé. Seja como for. É inegável que a ceifa a que Paulo se refere aqui tem uma conotação escatológica. neste mundo.1). especialmente quando há ingratidão. Paulo sabia que o tempo de plantar é hoje. De fato. É por isso que há no v. Isso mostra que. 8. Talvez Paulo tivesse isso em mente ao escrever o v. contudo. Lá somente ceifaremos. é pela fé (Rm 5.22. o fruto que colhem leva à santidade. Porém. produzirá santidade e o fim de tudo será o céu. como se sabe. e só receberão coisas boas se não desistirem.136 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO Uma outra possibilidade é considerar o texto em análise sob a luz de Romanos 6. recorda seus leitores de que a colheita é inevitável. que ceifaremos se não desfalecermos. quando estiverem diante de Deus. ainda que a vida eterna seja dada pela fé.10). a prática da virtude pode produzir fadiga e desânimo. que diz: “Mas agora que vocês foram libertados do pecado e se tornaram escravos de Deus. Paulo. a vida santa chegará à eterna felicidade. entrará afinal para o descanso eterno na cidade de Deus. com o propósito de encorajar seus leitores. A causa é a libertação do pecado que. falta de reconhecimento.

alterar em um grau ou outro o que fosse ditado (11). e eu para o mundo. que ninguém me perturbe. 10 termina enfatizando que todos devem ser alvo dos gestos de bondade dos crentes. 14. priorizar os irmãos no socorro dos necessitados e em outros gestos de amor mostra ao mundo a nossa unidade e faz com que sejamos conhecidos como discípulos de Jesus (Jo 13. mas de forma especial os irmãos na fé. 15. 16. tentando obrigá-los a se circuncidarem. Paz e misericórdia estejam sobre todos os que andam conforme essa regra. no entanto. Ele considera tão . 13. Amém. e também sobre o Israel de Deus. Vejam com que letras grandes estou lhes escrevendo de próprio punho! 12. A importância de tudo o que Paulo diz às igrejas da Galácia se reflete no tamanho das letras que escreve6 e no fato de compor a carta de próprio punho. sem o auxílio de um secretário que poderia. pois trago em meu corpo as marcas de Jesus.O EVANGELHO VERDADEIRO E OS DEVERES CRISTÃOS 137 O v. isto é. 18. Quanto a mim. Sem mais. O QUE REALMENTE IMPORTA GÁLATAS 6. conscientemente ou não. Nem mesmo os que são circuncidados cumprem a Lei.35). a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo. Os que desejam causar boa impressão exteriormente. O que importa é ser uma nova criação. por meio da qual o mundo foi crucificado para mim. 17. De nada vale ser circuncidado ou não. De fato. querem.11-18 11. Irmãos. que eu jamais me glorie. agem desse modo apenas para não serem perseguidos por causa da cruz de Cristo. que vocês sejam circuncidados a fim de se gloriarem no corpo de vocês. que a graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com o espírito de vocês.

38-39). que procuravam obter a aprovação dos outros por meio da ostentação de sinais exteriores.11). faz uso de uma caligrafia clara e evita intermediários. Por isso. um louvor decorrente do fato de terem induzido gentios a se submeterem a práticas judaicas. Gl 5. isto sim. Sabe-se que ao tempo do surgimento do cristianismo. circuncidando-os e recebendo depois o louvor dos israelitas. por sua vez. interessados em agradálos. Não é. mas sim da fé no Cristo crucificado (At 13. nenhum legalista.138 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO sério o problema dos gálatas que não quer correr o risco de transmitir com pouca precisão o que tem em mente. a perseguição (12). assim. Ora. tinha essas intenções mui longe de sua mente (14). Paulo. Ele também revela seu cuidado chamando a atenção de seus leitores para o fato de que os falsos mestres eram pessoas interesseiras.7 A real intenção deles ao induzir os gentios da Galácia a se circuncidarem era receber o aplauso dos judeus. evitando. Ele não buscava satisfação e alegria na . Segundo Paulo. Estavam. somente na forma que Paulo compõe sua carta que ele demonstra quão preocupado está com os crentes da Galácia. Uma das razões disso era a pregação liberal dos apóstolos que insistiam em afirmar que a justificação não depende da observância dos preceitos mosaicos. jamais conseguiu guardá-la (At 15.10). mas sim da sua própria comodidade. porém. esses eram os reais motivos pelos quais defendiam tanto a circuncisão. Aliás. mais especificamente a circuncisão. os judeus foram seus primeiros perseguidores. os mestres judaizantes que atuavam entre os gálatas não estavam dispostos a sofrer a oposição dos seus compatriotas que se escandalizavam com a pregação da cruz (1Co 1.23. A maior prova disso era que eles próprios não guardavam a Lei (13). nem mesmo o mais sincero. O discurso dos mestres da Galácia era apenas uma tentativa de obter prosélitos entre os gentios. Na verdade eles não eram zelosos da Lei.

De fato. outrora glorioso.3-4). onde ele estabelece um forte contraste entre o Evangelho. assim também. Contudo.8] e “ministério da justiça” [2Co 3. “já não resplandece” diante da glória do Novo Pacto (2Co 3. ao criar . O mundo.O EVANGELHO VERDADEIRO E OS DEVERES CRISTÃOS 139 aprovação dos homens (1. havia o fato de que a circuncisão não tem qualquer relevância dentro da aliança do evangelho. a transformação que advém da fé em Cristo incluíra mudanças no modo de Paulo considerar a realidade ao seu redor e relacionar-se com ela (2. Na mensagem dada pelo Espírito. Para que essa condição espiritual seja alterada é preciso um ato criador de Deus. por sua palavra. “ministério da morte” [2Co 3.10). Sendo alguém que pouco se importava com o aplauso do mundo em geral e dos seus compatriotas em particular. o pacto mosaico. fez brilhar a luz ao tempo da criação do universo.9]) e a Lei Mosaica (também chamada de “letra” [2Co 3. via Paulo da mesma forma.6]. Ademais.24). Paulo e o mundo estavam crucificados um para o outro.7].6. 5. pois na cruz há provisão para que o homem seja justificado.10).14-16) e Satanás cega os homens em geral (2Co 4. Agora o apóstolo via o mundo como algo desprezível e repugnante.3).13). graças aos benefícios oriundos da obra de Cristo na cruz. em 2 Coríntios 4. Paulo ensina que da mesma forma como Deus. Assim. (também chamado de “nova aliança” [2Co 3. “ministério da condenação” [2Co 3. bem como o fato da nova criação em Cristo. As diferenças entre o Antigo e o Novo Pacto.20-21.14]). Segundo Paulo. um rompimento ocorreu.6]. Paulo não impunha a necessidade da circuncisão aos convertidos do seu ministério. Era na cruz de Cristo que tinha a base da sua exaltação e da sua exultação (Fp 3. o que importa é fazer parte da nova criação de Deus (15).9] e “antiga aliança” [2Co 3. por sua vez. Além disso. o brilho do evangelho não pode ser percebido por todos porque um véu foi posto no coração dos judeus (2Co 3. são mais amplamente tratados por Paulo em 2 Coríntios 3 e 4. “ministério do Espírito” [2Co 3. já que nela Cristo se fez maldição em nosso lugar (3.

um povo para o qual Deus tem reservado uma herança (Rm 11. Antes. Gl 5. Desse aqui (kanwn modo. a circuncisão é absolutamente irrelevante (Rm 2. De fato. assim. considerando suas perturbações internas (5.140 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO agora um novo homem.3-5.1-3) e orava . Dentro da Nova aliança.10.19. o fato de rejeitar a circuncisão como requisito para a justificação não significava desprezo pela nação israelita.28). como faziam os falsos mestres da Galácia. Israel também carecia dessas bênçãos. portanto.6). Se a igreja precisava de paz e misericórdia. Paulo. O desejo de Paulo de que Deus abençoe os homens com paz e misericórdia não se estende apenas aos que conheceram a realidade da nova criação. Ef 3. chama o crente de nova criação (Veja-se tb. 2Co 5.3). 1Co 7. gloriando-se nisso e não em rituais exteriores. o apóstolo deseja paz e misericórdia às pessoas que adotam como princípio ou padrão de conduta a verdade de que tudo o que importa é ser nova criação. A palavra usada ´ ) tem o sentido de “padrão” ou “limite”. o apóstolo estava longe de menosprezar seu próprio povo. Ele pede as mesmas bênçãos para todo o Israel de Deus (16 in fine). Só o livramento das trevas. Refere-se. De fato. aliás.15) e os perigos externos (6.25-27. em Gálatas 6.12). e não buscam glórias além dessa fronteira (Fp 3. ele faz com que sua luz brilhe nas trevas dos corações humanos. 11. Deus diz “haja luz!” É por causa desse paralelo que o apóstolo. àqueles que encontram motivo de exaltação e base para o comportamento dentro dos limites da verdade de que são nova criação.17).6). Por isso. sofria em face da sua incredulidade (Rm 9. expressa o desejo de que a paz e a misericórdia de Deus estejam sobre todos os que andarem conforme essa “regra” (16). tanto para criar quanto para salvar. capacitando as pessoas a ver a glória de Deus que está em Cristo. com o conseqüente surgimento de um novo homem é que importa. Paulo via os judeus em geral como o povo de Deus (Rm 9.28-29.15.

Paulo as chamava de “marcas de Jesus” porque entendia que o sofrimento dos servos do Senhor em prol do seu trabalho é uma espécie de complemento das torturas do próprio Senhor. O fato de chamá-los de irmãos realça que se sente fraternalmente unido a eles e que tem consciência de que escreve a pessoas que pertencem à família da fé. Uma vez que os mestres legalistas da Galácia tanto prezavam a marca corporal da circuncisão e só deixavam em paz quem a recebia.24). com acusações de mudar sua mensagem de acordo com as circunstâncias (1. Fp 3.17.8-10).5. 2Tm 3.O EVANGELHO VERDADEIRO E OS DEVERES CRISTÃOS 141 continuamente. Concluindo. de modo que deveriam parar de molestá-lo.10. Cl 1. .10. Ele tinha as marcas de Cristo: cicatrizes adquiridas no trabalho missionário e que os gálatas conheciam muito bem (At 14. das discórdias e das inclinações carnais que reinavam entre eles. 2Co 1. o Messias já vindo. em especial a circuncisão (5.2). Ele encerra a epístola suplicando aos gálatas que experimentem a graça de Cristo em seu espírito (18).11).11) e com denúncias de anunciar um evangelho liberal que encorajava a vida desregrada (5. era nessa esfera que a graça deveria atuar a fim de livrar os crentes da mentira. Paulo expressa o desejo de que deixem de perturbá-lo (17). dada a união que há entre Cristo e seu povo (Rm 8. desejando que ele conhecesse a paz e a misericórdia de Deus que podem ser provadas pela fé em Cristo. com essas breves palavras de docilidade e simpatia. O apóstolo estava sendo incomodado com questionamentos referentes à sua autoridade apostólica (1.19.13. De fato.1. 2.16) e tirava dos adoradores de Deus as suas obrigações ritualistas. 5. espera criar nos crentes da Galácia uma disposição favorável ao acolhimento das verdades consubstanciadas nessa magnífica carta. Paulo afirma ter marcas no corpo muito superiores. Sem dúvida.

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Eles passaram a ensinar ali que se os gentios que receberam o evangelho não recebessem também a circuncisão. Paulo e Barnabé se opuseram a eles e. naquele mesmo ano. De fato. não sendo possível resolver a questão. Em meio às manifestações de um forte partido legalista presente na própria igreja de Jerusalém.1). a liderança se reuniu para examinar a questão (At 15.4-6). mais especificamente com a circuncisão. for a data aceita para a composição da Carta aos Gálatas.D. foram até Jerusalém para discutir o assunto com os apóstolos e presbíteros (At 15.apêndice O CURSO POSTERIOR DO LEGALISMO JUDAICO-CRISTÃO Se 48 A. o capítulo 15 de Atos narra como.2). então. reuniu-se um concílio em Jerusalém para tratar exatamente da relação dos crentes gentios com a Lei Mosaica. Ao longo dos debates foi decisiva a participação de Pedro que narrou sua experiência . a luta de Paulo contra o legalismo estava apenas começando. ao escrevê-la. não poderiam ser salvos (At 15. A causa direta da convocação do concílio foi a visita desautorizada de alguns judeus convertidos de Jerusalém à igreja de Antioquia da Síria.

A carta foi escrita e endereçada aos irmãos de Antioquia. destacado líder da igreja em Jerusalém. O legalismo judaico-cristão recebera seu primeiro golpe.6-11). Tiago. manifestou seu parecer contrário à visão legalista. Os relatos das maravilhas que Deus tinha feito entre os gentios ao longo da Primeira Viagem Missionária foram expostos por Paulo e Barnabé à igreja atenta (At 15.30-31). Quando terminaram de falar. apesar do legalismo não figurar entre os terríveis problemas da igreja coríntia. Síria e Cilícia (At 15. com alegria. datada de 58 AD e. não puseram fim definitivo ao ensino de que a observância da Lei Mosaica é fator essencial à salvação. Uma delegação foi nomeada para fazê-la chegar às mãos dos crentes gentios que. em cerca de 61 AD.12).1-6). 7.22).144 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO como o apóstolo que Deus usou para abrir a porta do evangelho aos gentios.7-11).23-29). As decisões do concílio. Paulo ainda demonstrava sua preocupação em afirmar que os crentes estavam livres da Antiga Aliança (2Co 3. à época. Paulo escreveu. a de maior conteúdo teológico. o apóstolo se viu obrigado a corrigir distorções relativas a essa matéria que. O parecer de Tiago foi acolhido por todos (At 15. porém. Também em sua Carta aos Romanos. Quando escreveu 2 Coríntios. poderiam ferir os escrúpulos dos judeus não crentes. sem obrigá-los a se submeter a nenhum fardo legal (At 15.16). Ao tempo que esteve em prisão domiciliar em Roma (At 28. dentre todas. irmão do Senhor. as famosas . a receberam (At 15.9-15. em 57 AD. mesmo sendo de segunda importância.13-21). Ele sugeriu que uma carta fosse escrita aos crentes gentios de Antioquia livrando-os de qualquer obrigação com a Lei Mosaica e orientando-os a tãosomente evitar certas práticas que. ainda eram correntes e afirmar a desnecessidade da circuncisão e da guarda da Lei para a justificação do homem perdido (Rm 4. impedindo-os de receber a genuína fé (At 15.

19.16. Na carta à igreja de Éfeso.11-12. Na Carta aos Colossenses. O legalismo judaico-cristão ainda estava vivo na fase final do ministério de Paulo. pouco antes do seu martírio. o escritor realçou a transitoriedade da Lei Mosaica (Hb 7. Ensinos distorcidos acerca da Lei e práticas legalistas que proibiam o casamento e certos tipos de alimento preocupavam Paulo quando escreveu sua primeira carta a Timóteo. Tendo que lidar com o perigo da apostasia que cercava os crentes hebreus que se viam diante das aparentes grandezas do judaísmo.8.14. por sua vez.14).11. É possível que em sua última carta (2 Timóteo). Já na Epístola aos Filipenses. .18.5) e recebeu instruções no tocante ao modo como deveria agir em face de debates inúteis sobre a Lei (Tt 3.4-9). ao longo de seu trabalho em Creta foi relembrado por Paulo de que a salvação independe do esforço humano (Tt 3. chamando seus partidários de “cães”. Filipenses.2-3) e passando.1415).1-5). “maus obreiros” e “falsa circuncisão” (Fp 3.APÊNDICE 145 “Epístolas da Prisão” (Efésios. já que a justiça não procede da Lei (Fp 3.28. Nos últimos anos da década de 60 foi escrita a Epístola aos Hebreus. Paulo se refira a questões acerca da Lei em 2. 4. em seguida. escritas entre 63 e 66 AD.9). 3.5-11. de autor desconhecido. escrita em 66 AD. Paulo combate uma forma embrionária de gnosticismo que reunia elementos da Lei Mosaica (Cl 2. 23. Ele o combate nas “Epistolas Pastorais”. a dizer que considerava toda a sua trajetória dentro do judaísmo como repugnante refugo. Colossenses e Filemom). Paulo dirige severos ataques contra o ainda atuante grupo dos judaizantes.20-23). o apóstolo toca apenas superficialmente na questão do livramento da Lei (Ef 2. cujo ministério então estava centralizado em Éfeso (1Tm 1. A resposta do apóstolo inclui a afirmação de que Cristo cancelou as ordenanças que nos eram prejudiciais ao morrer na cruz do Calvário (2. Tito.11) e outros fatores oriundos da filosofia grega e do paganismo asceta (Cl 2.

já tinham sido prevenidos pelo Senhor acerca desses fatos (Mt 23. Esses fatos redundaram num notável recrudescimento do movimento judaizante cristão e do legalismo que o . Os chefes da igreja decidiram então transportá-la para Pela.146 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO 8. o movimento cristão. em 70 AD. Pouco tempo depois. Graças à fuga para Pela. dado o status notável da comunidade eclesiástica a que pertenciam. um outro irmão do Senhor que logo também sofreu o martírio. 10. Outra causa da fuga foi a nítida oposição dos romanos ao crescente sentimento nacionalista judaico. os cristãos que. tendo deflagrado a revolta. no ano 70 AD. Mestres judaizantes procedentes da Judéia eram recebidos com respeito e submissão pelos crentes gentios de todas as partes.13. mesmo em suas expressões cerimoniais. o general Tito a sufocou. saíram de Jerusalém. aliás. Parte da força do legalismo era decorrente da instintiva supremacia da igreja de Jerusalém sobre as demais. sendo seu cargo ocupado por Simeão. com o martírio de Tiago.37-39. quando a rebelião judaica estava prestes a eclodir.). Lc 21. dirigido pelos parentes de um descendente de Davi que se dizia rei.9. De fato. provavelmente nenhum cristão pereceu no massacre. ainda estava viva dentro da igreja pouco antes da destruição do templo de Jerusalém. etc. em 62 AD. o que indica que a ameaça da sujeição aos preceitos judaicos. os romanos perceberam os sinais de uma revolta em Jerusalém e.6-7. destruindo a cidade. a igreja de Jerusalém começou a perder sua hegemonia. pois era natural que se apresentassem e fossem vistos como detentores de autoridade. ateando fogo ao Templo e matando cerca de um milhão de judeus. evidentemente. preocupava muito as autoridades e fazia da igreja um alvo especial de opressão. uma cidade além dos Jordão. Porém. O grande líder que era irmão de Jesus foi apedrejado. uma vez que pertenciam à singular igreja dos apóstolos.20-24). Por isso. onde a segurança certamente seria maior. Isso facilitava a disseminação de suas idéias.

como se sabe. era um grupo de cristãos separatistas de pequena importância. poucos séculos mais tarde. Um dos grupos de judeus cristãos que perseverou na prática dos costumes de seus ancestrais. desenvolveu costumes e doutrinas que nunca foram acolhidos pelo cristianismo oficial. ficou conhecido como “nazarenos”. Esse grupo adotava a observância da Lei Mosaica. finalmente. Seu nome vem da palavra hebraica ebion. eram em sua maioria pessoas de baixa condição social. Antes. que significa “pobre”. considerando que muitas prescrições da Lei deviam ser realizadas dentro do santuário erguido em Jerusalém. Bem diferente dos nazarenos eram os ebionitas. talvez uma designação a princípio dada maldosamente a todos os cristãos que. não eram críticos do apóstolo Paulo e não condenavam os crentes gentios por não observarem a Lei. também de origem judaica. Na verdade. Com a queda do judaísmo. talvez porque esse fosse o nome dado pelos judeus a todos os seguidores de Jesus de Nazaré. escrito em hebraico. mesmo em seu aspecto ritual. enquanto as formas nitidamente judaicas de cristianismo caiam no esquecimento. isolouse das demais igrejas e. a igreja judaica refugiada em Pela jamais recuperou o prestígio dos tempos de Pedro e Tiago. em contato com diferentes seitas. entrou na obscuridade. mesmo depois da queda de Jerusalém. A própria destruição do Templo anunciava que a Antiga Aliança perdera a possibilidade de ser vivida. Estes eram muito mais numerosos e foram os verdadeiros sucessores dos falsos mestres combatidos por Paulo na Epístola aos Gálatas. e também cria em Jesus como o Messias divino. os escritos de Paulo que ensinavam a independência do cristão em relação aos preceitos mosaicos ganharam força e uma crescente “paulinização” da igreja começou a ocorrer.APÊNDICE 147 caracterizava. desaparecendo. Há indícios . É um exagero dizer que fossem hereges. Ademais. Eles usavam o Evangelho de Mateus.

mas era possível encontrar também gentios entre eles. devendo todas as suas epístolas ser rejeitadas.10). 8. Ainda que o ebionismo apresentasse certas variações. O fim do ebionismo não fez com que o legalismo cristão deixasse definitivamente de existir1. impondo sobre os homens fardos desnecessários. Em sua maioria. abraçara o judaísmo por razões escusas e depois tornara-se apóstata e herege. e a intensa antipatia nutrida contra o apóstolo Paulo. impossíveis de serem carregados (At 15. vivem agora debaixo da influência santificadora do Espírito Santo (Rm 7. a exaltação da Lei Mosaica sempre se insinuou dentro do cristianismo ao longo da história.16- . O velho erro infelizmente permanece. obviamente.4. Os ebionitas se espalharam pela Palestina e arredores. seu ramo principal cria que Jesus era o Messias prometido. Essa seita perdurou até o século IV. a defesa da validade perpétua e universal da Lei Mosaica.6. Ele ainda grita suas ordens. não havendo mais indícios dela no século seguinte. negligenciando o precioso ensino de que a salvação é pela graça somente (Gl 2. mas sim naqueles que.16) e de que a Lei se cumpre não naqueles que vivem sob o seu jugo. segundo seu entender. Seja por meio de seitas como o Adventismo do Sétimo Dia ou de modelos teológicos protestantes que defendem a absoluta irrevogabilidade da Lei. mas rejeitava sua divindade e nascimento virginal. Gl 5. 2Co 3. tendo recebido a Cristo. Ásia Menor e Roma. Para eles a circuncisão e a observância da totalidade da Lei eram indispensáveis para a salvação de todos os homens. tinha nascido no paganismo. Suas marcas características eram a redução do cristianismo ao nível do judaísmo. O espírito do legalismo combatido por Paulo permanece vivo. eram judeus. Chegaram a Chipre. O personagem que mais odiavam era Paulo que. Sob diferentes formas.148 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO de que os ebionitas surgiram entre os cristãos que fugiram para Pela ao tempo da invasão de Jerusalém.3.

Cabe a ela ensinar que essa salvação não somente vem pela fé. mas também por meio dela se desenvolve. cabe à igreja ainda hoje defender a mensagem cristã contra os ataques de dentro e de fora que põem em risco a compreensão da genuína dinâmica da salvação.APÊNDICE 149 18). Por isso. mas como fruto do Espírito que habita em todo o que crê. . não como o resultado da sujeição a preceitos legais.

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Como já dito.1. exatamente como os falsos mestres da Galácia.1-10 como uma passagem que se refere à visita de Paulo a Jerusalém. e o Adventismo que.13-14. 2 3 1.27-30.16. que ensina a salvação pelas obras. 4. segundo parece. essa viagem abrangeu a região sul da Galácia. 2.notas Aspectos Introdutórios 1 Os que situam a produção da carta em 48 d. Essas aplicações são cabíveis. o Catolicismo Romano. Na Epístola aos Gálatas. 2 Coríntios 11. com certeza o próprio Smith inventou aquela história e a levou adiante a fim de atingir propósitos egoístas e escusos.9. O Evangelho Verdadeiro e sua Singularidade 1 As duas cartas de Paulo aos tessalonicenses foram escritas por volta do ano 50 AD. e não ao Concílio de Jerusalém que. Pelas informações que temos acerca de sua vida e caráter. crê que o homem é salvo pela prática da Lei (Gl 2.13). ou seja. ainda que dificilmente Smith tenha realmente tido contato com algum espírito. Os destinatários. segundo essa corrente.14 e Gálatas 1. mencionada em Atos 11.C. Nos dias modernos alguns exemplos de falsos evangelhos são: a Teologia da Prosperidade.8 geralmente são textos usados contra o mormonismo cujos adeptos afirmam que sua religião foi revelada a Joseph Smith por um anjo chamado Moroni. conheciam Barnabé. 2 3 . estava ainda prestes a acontecer quando a epístola foi escrita. bem pouco tempo depois que ele escreveu aos crentes da Galácia (48 AD).10-11). Paulo faz alusão ao seu trabalho naquelas regiões em 4. cuja salvação proposta consiste apenas no livramento de doenças e de problemas financeiros. o companheiro de Paulo em sua primeira viagem missionária (Cf. vêem 2.

7. é possível entender o termo “apóstolo” num sentido não técnico.C. Gl 1. Contudo.2-6) e o poder de realizar milagres (2Co 12. 1998.12).152 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO Todos os mestres desses movimentos devem ser considerados malditos pelos crentes genuínos. Aparentemente ele é incluído aqui entre os apóstolos em virtude de sua posição de preeminência na igreja de Jerusalém (At 12. Jesus censurou severamente a prática de colocá-las acima da Palavra de Deus (Mt 15. Essas tradições eram comentários e aplicações da Lei de Moisés à vida diária que. João. Deve ser admitido. a partir do Exílio Babilônico (605 aC – 535 aC) eram transmitidos oralmente pelos judeus às gerações que se sucediam. Doutrinas como a da imaculada conceição de Maria. mas não abrangeu o Império inteiro. São Paulo: Parácletos. A expressão “em mim” transmite a idéia de que a revelação foi dada a Paulo de modo pessoal e íntimo. 42).9. porém. Somente a partir da destruição de Jerusalém pelo General Tito. não era um dos Doze. bem como por sua relação singular de parentesco com o próprio Senhor. Ef 3. entre 46 e 48 d. ou seja. Gl 2. da intercessão dos santos. São antes mitos inventados por mentes corrompidas. O Evangelho Verdadeiro e sua Independência 1 A fome mencionada em Atos aconteceu.1). em 70 DC. Coisas do gênero devem ser rejeitadas com todo o vigor pelos cristãos genuínos. as revelações dos mistérios divinos a serem anunciados (2Co 12. da canonização de pessoas mortas.1-6). da infalibilidade papal.7). 5 6 7 8 9 10 2. p. quando aplicado a Tiago. entre inúmeras outras. 21.16-20. o cristianismo passou a revelar sua autonomia como modelo religioso independente. Ademais. Gálatas. apenas como um “mensageiro de Cristo” (Esse uso é aplicado a Barnabé em At 14. não têm nenhum amparo na Sagrada Escritura. 6.14). que a incumbência de pregar lhe fora dada já no caminho de Damasco (At 26. além do fato de ter visto Cristo ressurreto (1Co 15.1-2).13.. Tiago. da transubstanciação. aqueles dias foram marcados por fomes freqüentes que sobrevieram a diferentes regiões de todo o Império. .15-18). 4 No Catolicismo Romano encontramos a mais rica fonte de invenções humanas associadas ao termo “cristianismo”. Calvino sugere que a tradução “a mim” é possível (CALVINO.17-18. o meio irmão do Senhor.12-13. Gl 1. sendo a Judéia o seu cenário. cf.13ss.17. Sabe-se que para ser apóstolo no sentido que Paulo aplicava o termo a si próprio era preciso não só ver Cristo ressurreto (1Co 9. 15. Essa imagem passada pelos mestres judaizantes era flagrantemente falsa. provavelmente.11-12.12). Lc 6. mas também receber diretamente dele a função de mensageiro (Mt 28. da adoração da virgem.

Era permitido que o cadáver ficasse 2 3 4 5 6 7 . Gl 3. como se verá. Como se sabe.9-10. 13. A atividade e ensino dos judaizantes de Jerusalém num tempo posterior mas muito próximo da composição da Epístola aos Gálatas podem ser vistos em Atos 15. se foi assim que os homens movidos por Deus interpretaram as palavras da Escritura.11-13. 114).17. O Evangelho e seu Poder 1 A figura implícita aqui sugere a apresentação do evangelho por meio de algum recurso visual como uma pintura em um quadro (CALVINO.17).1-2. Contudo. o que era comum na antiguidade (GUTHRIE. Tito foi.10-12. É de pregadores assim que a igreja moderna precisa. por sua vez.6.12-13. veja-se Jo 10. 6. 15.NOTAS 153 2 Isso era especialmente importante porque. p. mas suas palavras tinham fluído de tal forma que era como se tivessem desenhado na consciência dos gálatas os pontos centrais da mensagem cristã.17. 6. João. Veja 5. Tiago pensa na justificação como comprovação visível da fé. Gálatas.2-4.16-17. 82) ou um cartaz de notícias colocado num lugar público. os judaizantes entendiam que a circuncisão era fundamental para que o homem fosse justificado. Jr 11. também contribui para a formulação do conceito de maldição que Paulo tem em mente. etc.12-13. Lm 2. Tiago 2.35. Daí a importância que confere às obras. Obviamente. A prática prevista em Deuteronômio envolvia a morte do transgressor e a posterior colocação do seu corpo num madeiro. Dn 9.13. delegado de Paulo com a missão de administrar a crise em Corinto (2Co2. como se sabe. os falsos mestres da Galácia estavam dizendo que o ensino de Paulo era contrário à doutrina dos apóstolos de Jerusalém.20-21. São Paulo: Paracletos. Mesmo uma leitura superficial de seus escritos revelará que os profetas entendiam literalmente tais promessas (2Rs 18. Para o ensino acerca da autoridade da Sagrada Escritura. O v. 2Tm 3. 1998. Gálatas: introdução e comentário.5-7).20-24 usa o mesmo exemplo de Abraão para ensinar que a justificação é pelas obras.5).24.6-8. Note-se que ao tempo de Abraão a Lei sequer havia sido dada (Rm 4. usa o termo no sentido de “livramento de culpa”. Um dos problemas com esse método de interpretação é que ele não se harmoniza com o modo como os profetas do AT entenderam as promessas de bênção e maldição feitas a Israel. Donald. 1984. 17. o qual decorre da fé somente. Is 24. 1Co 2. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão. Daquele versículo se depreende que ser maldito é também ser merecedor da pena de morte. é também assim que devemos entendê-las. Zc 1. Paulo não havia usado esses recursos. 7.). posteriormente. 32.5-6. 2Pe 1.5. p. Ele também coordenou as igrejas de Creta (Tt 1. Paulo. 3 4 5 3.

31. A consciência de pecado existe mesmo naqueles que jamais conheceram a Lei de Moisés (Rm 2. a declaração de última vontade. por transgredir a Lei (Dt 21. A palavra usada por Paulo pode significar “testamento”.9-19). Assim. o mandamento seria dado para produzir vida (Rm 7. figurava como responsável pela criança até os 14 anos.7. 1Tm 1. Ali aprendemos que a Lei. estimula o pecado na humanidade carnal.14-15).4.8.9. 41-45 vê-se que nosso Senhor também dava especial atenção a aspectos gramaticais do texto bíblico. ela é muito limitada. Em Mateus 22. justa e boa. portanto. 7. No versículo em análise trata-se de uma declaração da vontade feita por Deus na qual somente ele se obrigou. É também possível (e mais provável) que o apóstolo queria apenas realçar o papel do pai como aquele que está no controle da situação. que a cobiça é pecado (Rm 7. idealmente. Por exemplo: não se sabe. Porém.12-13. 8 A habitação do Espírito no crente é uma bênção singular porque lhe confere segurança de um dia ser plenamente resgatado (Ef 1. Deve-se lembrar que. na lei romana. O Evangelho Verdadeiro e a Liberdade 1 O tutor. 2 . Outros textos em que Paulo mostra apreço pela Lei são Romanos 3. A frase “a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado” significa que o Antigo Testamento declarou a transgressão de todos (Rm 3. 8. 1Co 15. Seu objetivo real e prático. mas familiar aos seus leitores originais. É verdade que.14. era atingida aos 25 anos de idade. O curador respondia pelo jovem até que completasse 25. demonstrando que a Lei que foi dada a Moisés era incapaz de justificar e conceder vida. sem nada impor ao homem. por meio da mera “lei interior”. Não estava.12.17. apesar de santa.13-14) e enche sua vida de satisfação (Jo 7. contudo. ao arbítrio do pai o tempo de sua duração.13-14). também prova e testifica que ele pertence a Deus (Rm 8. 9 10 11 12 13 14 15 4.10). 15-16). Há ainda quem entenda que o tutor cuidava da pessoa.38-39). foi outro. capacita-o a viver em santidade (Rm 8. a Lei só veio 430 anos depois de estabelecida a aliança com Abraão. à luz do v. O ensino de que a Lei Mosaica foi dada com o propósito de refrear as transgressões parece encontrar obstáculos no que Paulo ensina em Romanos 7.7-14. na lei romana. isto é.56).154 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO pendurado até o fim do dia como um sinal de que ali estava alguém que havia morrido sob a maldição de Deus. Também tem o sentido de contrato ou aliança.31-32.7). a saber: dar maior força ao pecado (Rm 7. Esse entendimento se harmoniza melhor com as intenções do autor bíblico ao usar a presente ilustração. A maioridade. enquanto o curador administrava seus bens. é possível que Paulo tinha em mente aqui um outro sistema jurídico desconhecido de nós.22-23).

e ela é a garantia de que somos “propriedade” de Deus (Ef 1.18-19). ela se constitui numa das bases para a pureza sexual do cristão (1Co 6. Roger. especialmente. apesar de não haver dúvidas de que Deus usou o ambiente instalado no século 1º para favorecer a expansão da fé. 2. Aba é o termo aramaico para Pai. todos os crentes desfrutam dela (1Co 12. O proto-gnosticismo. Portanto. 1984. haviam se manifestado aos homens apresentandose como deuses e dando origem às múltiplas formas de adoração pagã.NOTAS 155 3 A ausência de artigo antes da palavra “lei” no v. Para conhecer melhor os contornos dessa matéria.13-14).13). O tempo em que tudo estava pronto seria entendido como a “plenitude dos tempos”. Outras verdades sobre a habitação do Espírito Santo são as seguintes: ela é dada aos que crêem (Jo 7. essência ou natureza substancial. é que a expressão diz respeito apenas ao tempo em que soberanamente Deus julgou necessário livrar o homem do jugo da lei.38-39. acolhia com prontidão diversos preceitos judaicos (Cl 2. Deus. Todos esses milênios compõem o período chamado de “tempos da ignorância” (At 17.30). 16). a Definição de Calcedônia. à luz inclusive do v. Na Igreja Antiga era pacífico o entendimento de que foram os demônios que. O entendimento mais natural e simples. Uma leitura esclarecedora é OLSON. 29-36) afirma que a “plenitude dos tempos” em Gálatas 4. determinando que o período de “tutela” não devia mais se prolongar. Hipóstase.8. p. em tempos remotos. contudo. intelectual e religioso para que o advento do Messias ocorresse num contexto que favorecesse a sua divulgação.2).4. 2001. é muito difícil que isso se relacione com o sentido da expressão “plenitude dos tempos” pretendido por Paulo em Gálatas 4. Na discussão cristológica. Earle E. ao longo dos séculos. é fundamental que sejam estudados os quatro concílios ecumênicos da igreja antiga e. em O cristianismo através dos séculos (São Paulo: Vida Nova. em grego. o retorno à Lei também poderia ser facilmente interpretado como a adoção de sistemas filosóficos pagãos. Em 1 Tessalonicenses 4. foi preparando o ambiente político. Gl 3. sugere que Paulo não tinha em mente aqui somente e Lei Mosaica. filosofia pagã que ameaçou o cristianismo nascente. Paulo ensina que quem não conhece a Deus também é escravo de desejos lascivos. mas qualquer conjunto de normas imposto ao homem. No entanto. 4 5 6 7 8 9 10 11 12 ´ É possível traduzir a palavra proteron (próteron: “a primeira vez”) como . História da Teologia Cristã. São Paulo: Vida. esse termo é usado predominantemente com o sentido de “pessoa”. Cairns. 5. De acordo com esse entendimento. significa.5.4 diz respeito à preparação do cenário mundial de tal forma que contribuísse para que a mensagem de Cristo tivesse o maior impacto possível.

e SILVA. Essa linguagem denota nojo. ficar claro que. o apóstolo inclui até mesmo o livro de Gênesis e não apenas disposições cerimoniais constantes do Pentateuco. para Paulo. Calvino. 2004. nem o “cuspiram fora”. o que pode sugerir que a doença de Paulo provocava certa repugnância. em seu conceito de Lei. talvez Paulo tenha empreendido o retorno de sua Primeira Viagem movido pelas imposições de uma doença da qual se tem muito pouca informação.2. Essa alternativa encontra-se em KAISER Jr. por exemplo. São Paulo: Cultura Cristã. Introdução à hermenêutica bíblica: Como ouvir a Palavra de Deus apesar dos ruídos de nossa época. Essa interpretação. não é conclusiva. mui dificilmente se ajusta com a restante da passagem que indica claramente que Paulo está falando de uma debilidade em sua saúde. a distinção entre lei cerimonial e moral inexiste. 12. Para um maior aprofundamento nesse tema. Moisés. pode-se entender que Paulo está falando aqui do fim da primeira viagem missionária.120-121. essa divisão às vezes conduz a conclusões erradas como. Deve.18). 13 Alguns entendem. em outras 14 15 16 17 18 19 20 21 .. ele diz que os gálatas não o trataram com desdém. 28. Essa opinião.) é usada somente aqui por Paulo. Augustus Nicodemus. quando seus olhos foram cobertos por algo semelhante a escamas (At 9. 14. Se for este o caso. Ademais. a doutrina adventista de que fomos libertos apenas da lei cerimonial. Se aceitarmos essa tradução. Veja esse argumento em LOPES. à luz de 4. Cit. estando ainda sujeitos aos Dez Mandamentos.15. Essa expressão tão comum nos escritos do carinhoso apóstolo João (1Jo 2. Segundo esse ponto de vista. Ainda que seja útil para fins didáticos. etc. A Bíblia e seus intérpretes: uma breve história da interpretação. 18. quando voltou para Listra. porém. que se tratava de uma doença nos olhos. São Paulo: Cultura Cristã.22.156 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO “anteriormente”. veja-se LOPES. porém.21). Walter C. Literalmente. 2002. Esse é o argumento de Calvino constante de seu comentário a Gálatas 4. Veja o contraste entre esse zelo interesseiro e o zelo do apóstolo mencionado em 2 Coríntios 11. Nesse ponto Paulo usa verbos enfáticos para descrever a atitude dos seus destinatários.. por sua vez. por exemplo. Ao longo da história tem sido comum os teólogos apresentarem a Lei de Moisés sob duas grandes divisões: a lei cerimonial (relativa especialmente aos serviços no templo) e a lei moral (apresentada especialmente nos Dez Mandamentos). ou seja. ausência de pompa ou grandeza. o suposto problema de visão do apóstolo teve início em sua experiência de conversão. p. Icônio e Antioquia fortalecendo as igrejas (At 14.11.1. entende que a palavra “enfermidade” significa aqui simplesmente “vilipêndio”. Esse entendimento também tenta explicar as “grandes letras” a que Paulo alude em 6. O próprio texto em questão mostra que. Op.

Para a presença do legalismo na igreja nascente daquela cidade. ´ Trata-se de um termo militar que descreve um exército que impede o avanço 3 4 5 6 . Veja-se a mesma orientação dada de forma expressa em Romanos 16. 22 Veja-se o legalismo de Jerusalém em face do ministério de Jesus em Mateus 23. Marcos 7. 4.18.4). Ap 20.14). 12. 9.20-21. Daqui se conclui que os cristãos só devem obedecer aos Dez Mandamentos na medida em que eles são “reaproveitados” no ensino do Novo Testamento. mas sim uma forte A esperança de que fala o v.16. Isaías 54 também evoca as glórias de Jerusalém no Reino Milenar de Cristo (Lc 1. o crente será recebido como justo. com a norma referente à guarda do sábado ou de um outro dia qualquer. 15. por exemplo. Paulo não cita leis cerimoniais. Seja qual for o caso. a pessoas que por razões políticas ou por outros motivos. inclusive. 23 25 25 5. pode-se vêla também na atuação de indivíduos que. significa impedir. 2 ´ O verbo traduzido aqui por “cair” (ekpiptw ) é usado nos escritos clássicos para referir-se. mas alude às chamadas normas morais (Rm 7.32-33.6-7.1-3. ao argumentar contra o legalismo. ou seja. ou seja.7-11.10. O verbo usado por Paulo.17-18 e 2 João 9-11. até simpática contra os cristãos é empreendida hoje especialmente pelos adventistas do sétimo dia que procuram intensamente fazer prosélitos entre os crentes. 2Timóteo 2.16.4-5. mesmo aquela obediência deve ser resultado de uma vida sob o controle do Espírito e não do apego carnal a regras (Rm 8. exigem que os crentes se submetam a regras oriundas de costumes antigos. aplicando-a a si mesmo. dizendo que a glória desse ministério se desvaneceu (2Co 3. Gl 3. Veja tb. o que não acontece.4-6).NOTAS 157 ocasiões. Cl 2.23-25. o dia em que. Porém. Note-se também que o versículo evoca uma expectativa futura. Ademais.2. Veja-se também Filipenses 2. longe dos privilégios de seu país. Essa perseguição branda e. 5 (elpij certeza. o Decálogo.5. esse alguém se torna um perseguidor da igreja e pode ser identificado como real inimigo dos santos (Veja-se 2. Veja-se exemplos da fé falsa em Mateus 13.42-43.1-4. dentro das igrejas. etc. foram enviadas para o exílio. veja-se Atos 11. Ef 2. obstruir ou deter. ´ ) não é mero desejo. João 2.1-8. Paulo usa a metáfora da corrida também em 2.3-4).15) e chega até a ensinar com notável clareza que o crente está livre do “ministério gravado com letras em pedras”. sempre que alguém tenta vergar os ombros dos cristãos com o peso de normas. O Evangelho Verdadeiro e as Virtudes Espirituais 1 A forma condicional como Paulo constrói a frase dá a entender que os gálatas ainda não estavam praticando o antigo rito. João 5. às vezes.7. diante de Deus. egkoptw .

de acordo com o que ensina Paulo em Romanos 14. reconhecer que o uso do particípio.35-40). anda. o crente cheio do Espírito.1). Paulo descreve detalhadamente o amor genuíno em 1 Coríntios 13. No paganismo dos dias de Paulo. Com essa rica figura. implica muitas vezes num sentido indefinido. mas sim pelo Espírito. existiam rituais grotescos cujo ápice era atingido quando os adoradores se emasculavam. 13 Veja-se essas três influências mencionadas explicitamente em Romanos 7. também usado aqui. Por outro lado. fala e age da forma como o Senhor determina. 7. 14 Veja-se o relato de Atos 14. também conhecido por Baco. 8.13). os crentes são apresentados como pessoas que.18. Lc 12. 7 É preciso. como consta no v.7 sobre o verbo perturbar.6. pode-se concluir que para ele a circuncisão não tinha mais significado do que as repugnantes práticas religiosas dos gentios.26. Se o apóstolo tinha esses rituais em mente. da mesma maneira. ao ouvirem o evangelho. foram chamadas à liberdade (5. Também no ensino de Jesus a figura do fermento é usada para se referir a doutrinas e práticas reprováveis (Mt 16. em que muitos irmãos na fé se escandalizam quando vêem um crente bebendo qualquer bebida alcoólica. em Gálatas. Veja o comentário em 1. sendo também possível que Paulo tenha em mente aqui o chamado de Deus ocorrido ao tempo da conversão (1Co 1.158 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO do inimigo destruindo uma estrada e levantando obstáculos. 12.15-21. como ébrio de Deus. Se for esse o caso. contudo. Mc 8. Usada na figura de uma corrida. atrasando-o de alguma forma ou até mesmo tirando-o da prova. O convertido é 15 16 17 18 . num país como o nosso. é interessante notar que.1-7.33. o apóstolo realça que. Bebedices e orgias eram associadas ao culto de Dionísio. é melhor que haja abstinência total.11-13 para uma noção do grau de idolatria reinante na Galácia. Observe-se que há aqui um eco do ensino de Jesus que disse que toda a Lei e os Profetas se sustentam em apenas dois preceitos: amar a Deus e amar ao próximo (Mt 22.18). onde Paulo exorta os crentes a que não se deixem dominar pelo vinho. assim como o homem embriagado é totalmente dominado pela bebida em sua forma de falar. Note-se aqui a conversão descrita como “pertencer a Cristo”. a palavra sugere a ação de um atleta que tenta prejudicar o desempenho de outro. seus adoradores se entregavam à bebida e comiam carne com sangue para participar da vida do deus. Há uma exceção em Mateus 13. Nesses banquetes.9-10. eram levados ao êxtase e à orgia sexual. Considerado o deus do vinho e da vida animal e vegetal. 8 9 10 11 12 Observe o mesmo ensino em Efésios 5.4-6. andar e reagir. em meio a danças sagradas.15. os participantes. como é o caso aqui. O mesmo ensino encontra-se em Romanos 13.

se violadas. em que o autor. advertem os crentes a não se corromperem com práticas ou discursos judaicos. por exemplo. em sua vida. 8-10) e a endereçada à igreja de Filadélfia (Cap. pode-se ver em diversos escritos da época. Veja-se em 3.29 há mais uma indicação de que a circuncisão promovia o louvor decorrente dos homens. cedo ou tarde colhe o mal.. 4. Tem sempre o sentido de restabelecer algo danificado ao seu estado anterior. a dirigida aos magnésios (Caps. é puramente especulativa. desde a sua experiência na estrada de Damasco. O oposto dessa figura é o crente carnal (1Co 3. reconhecendo que ele próprio fixou na história a norma irrevogável de que quem faz o mal. 120).5.14). para a qual Paulo escreveu uma carta cheia de gratidão. mas também morais. (Fp 4. mas também o mundo com seus atrativos e apelos (6.D. Preocupação semelhante se verifica na Carta a Diogneto (c. não precisa mais viver sob o jugo da Lei. um dos primeiros apologistas . passou a ter problemas de visão. 19 Paulo tinha experiência própria desse fato (2. o sábio é aquele que tem temor do Senhor (Pv 1.NOTAS 159 realmente como um escravo adquirido por Cristo. Esse verbo é usado para se referir à correção de ossos deslocados e ao conserto de redes de pesca.7). nos trarão prejuízos. revela claramente o propósito do autor em demonstrar as distinções entre os aspectos exteriores da religião do VT e a “nova lei” do cristianismo. Logo. Note-se ainda que. Especialmente duas de suas epístolas. tão caro aos falsos mestres. as quais.6.20).14. 20 6. 6). na Macedônia. cit.1-3). refletem esse fato. o que pode indicar que a ameaça do legalismo judaico ainda vigorava nos dias em que essa carta foi composta. O entendimento mais natural é que Paulo escreveu com letras grandes para dar ênfase ao que dizia. datada de cerca de 135. em 61 A.2. 4 5 6 7 Apêndice 1 Que a ameaça do judaísmo persistiu ainda no século II com força suficiente para preocupar os mestres cristãos. Uma igreja que mais tarde se destacou nesse aspecto foi a de Filipos. 175. Também a Epístola de Barnabé. O Evangelho Verdadeiro e os Deveres Cristãos 1 2 3 Assim entende CALVINO. e 5. op. Em Romanos 2. O Livro de Provérbios ensina que o sábio é aquele que reconhece que vivemos num universo regido não somente por leis físicas.5 os fenômenos próprios dessa realidade. As cartas de Inácio de Antioquia. Tendo agora um novo senhor. escritas por volta do ano 107. A sugestão de que Paulo escreveu com letras grandes porque.10-19). não somente o próprio eu carnal havia sido crucificado.

160 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO cristãos (Quadrato?). se dedica a refutar o culto judaico e todas as suas práticas rituais. . inclusive a circuncisão (Caps. 3-4).

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