MORALIDADES BRASÍLICAS Deleites sexuais e linguagem erótica na sociedade escravista* Ronaldo Vainfas 1.

Sexualidades coloniais e vida privada Tratar da temática das moralidades coloniais numa época em que se operava, na Europa, o processo de individuação e de privatização das sociabilidades exigiria, para evitar anacronismos e transposições precipitadas, atentar para as especificidades do viver em colônias. Neste sentido, convém lembrar, antes de tudo, o que há tempos não constitui novidade: a colonização do Brasil inscreve-se muito mais nesse processo de expansão marítima e comercial européia do que nas transformações que levariam, no Velho Mundo, ao individualismo e ao familismo de tipo burguês. Motivava-a, fundamentalmente, a exploração do território para o enriquecimento da metrópole, não obstante a cruzada espiritual levada a cabo pelos agentes eclesiásticos da colonização, à frente dos quais os jesuítas. Não quer isto dizer que devamos adotar o estereótipo de um Brasil ocupado por degredados, entendidos como malfeitores que, tão logo desembarcavam, só tratavam de enriquecer, enquanto se uniam com várias índias ao mesmo tempo, adotando sem demora a poligamia indígena. Avessos ao casamento, errantes, aventureiros. Tampouco se deve esposar, como modelo único, o paradigma da casa-grande, celebrizado antes de tudo por Gilberto Freyre1. A idéia da casa-grande como espaço inclusivo, núcleo de numerosa família de parentes, agregados e escravos, exemplo de um “privatismo” patriarcal que a tudo senhoreava, confundindo-se com o público, tudo isto tem sido fartamente discutido, com boas provas, desde os anos 1970. Diversos pesquisadores demonstraram, com efeito, que no Brasil Colônia não foi desprezível a importância quantitativa de domicílios conjugais e até de domicílios chefiados por mulheres, quer em áreas periféricas, quer em regiões diretamente vinculadas à economia exportadora2. Demonstrou-se, também, que no

*Originalmente

publicado em Laura de Mello e Souza (org). História da Vida Privada no Brasil. Sào Paulo, Companhia das Letras, 1997, vol.1. 1- Freyre, Gilberto. Casa-Grande e Senzala. 16a.ed.Rio de Janeiro, José OLympio, 1973. 2- Ver, por exemplo: Marcílio, M.Luiza. A cidade de São Paulo: povoamento e população (1750-1850). São Paulo, Pioneira/EDUSP, 1974; Samara, Eni de M. As mulheres, o poder e a

próprio seio da população negra, africana e crioula, tornou-se viável a constituição de famílias à moda cristã, o que por muito tempo se julgou impossível, dada a predominância de homens no tráfico negreiro e a má vontade senhorial no tocante aos matrimônios entre cativos3. Mas se é necessário evitar estereótipos e generalizações apressadas, a exemplo do modelo exposto em Casa-Grande e senzala, não convém, por outro lado, cair no pólo oposto por vezes sugerido pela pesquisa recente, sob o risco de supor uma sociedade quase européia em terra de hibridismos culturais e contrastes regionais acentuados. É certo que, de todo modo, os agentes eclesiásticos da colonização tentaram, por todos os meios a seu alcance, transformar o Brasil numa parte legítima da cristandade romana, o que implicava, entre outras coisas, difundir o modelo matrimonial cristão: uniões sacramentadas, família conjugal, continência e austeridade. Tentaram-no com os índios, depois com os africanos; tentaram-no desde sempre com os reinóis que aqui chegavam em busca de aventuras. Viram-se frustrados, no entanto, pelos interesses mercantis da colonização, pelo escravismo, pelo hibridismo cultural que a colônia brasílica possuía por vocação. Se a existência de espaços e de uma sociabilidade privada já era difícil de ocorrer na Europa dos séculos XVI e XVII, mais complicado era vê-los surgir na precária colônia portuguesa da América. Bastaria referir, para confirmá-lo, o padrão das casas, dos espaços domiciliares, a começar pelo da tradicional casagrande nordestina. Um encarte da obra de Freyre traz a planta do Engenho Noruega, antigo Engenho dos Bois, em Pernambuco, e nela vemos a total falta de privacidade que caracterizava as habitações senhoriais do passado. Vê-se ali uma mansão de dois andares cujo interior expõe espaços divididos e múltiplos, várias salas e quartos, oratórios e capelas, uma grande cozinha, quintal e pomar, a senzala contígua, dispensas. À frente da mansão, a casa de purgar, a roda do engenho, partes do complexo manufatureiro do açúcar tão bem descrito por Andreoni em Cultura e Opulência do Brasil, (1711).
família. São Paulo, século XIX. São Paulo, Marco Zero, 1989; Costa, Iraci del Nero. Vila Rica: população (1719-1826). São Paulo, IPES/USP, 1982. 3 - Ver, por exemplo: Schwartz, Stuart. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial. São Paulo, Companhia das Letras, 1988; Venâncio, Renato P. Infância sem destino: o abandono das crianças no Rio de Janeiro no século XVIII. Dissertação de Mestrado apresentada à USP, São Paulo, mimeo, 1988; Faria, Sheila de Castro. A colônia em movimento. Rio de Janeiro, Nova FRonteira, 1998.

O que mais chama atenção, porém, não é a possível grandeza do espaço, mas a numerosa população que ali habitava ou nele permanecia por algum tempo. A família senhorial, seus agregados e parentes, convivia com os escravos, uns comiam ou dormiam, outros trabalhavam, e se é verdade que a gravura mostra estarem as pessoas circunscritas aos vários compartimentos da mansão, separados aliás por portas, a imagem sugere movimento, burburinho, comunicabilidade intensa entre os espaços interdependentes4. A casa-grande configurava, decididamente, um espaço onde o morar e o produzir eram, a rigor, inseparáveis. É verdade que devemos desconfiar _ e muito _ da imponência das casas-grandes erigidas nos primeiros séculos coloniais, como adverte Stuart Schwartz em seu estudo sobre a Bahia. Muitas das imagens que delas temos hoje são herdeiras das mansões aristocráticas baianas do século XIX, e não espelham as casas senhoriais mais remotas no tempo. Eram comuns as construções de taipa com telhados de sapé, e somente a partir do século XVII começaram a surgir casarões mais sólidos, a confiarmos na pinturas de Frans Post para o período holandês em Pernambuco5. Predominavam, assim, casas-grandes rústicas no período colonial, além de pouco mobiliadas, segundo reconhece o próprio Gilberto Freyre, apoiado nas Voyages de Dampier ao Brasil, em 16996. Rústicas ou requintadas, tudo parece indicar, porém, que as casas senhoriais de outrora ensejavam pouquíssimas condições de vivências privadas. Analisando inventários post-mortem relativos à região açucareira de Campos dos Goitacazes no século XVIII, Sheila de Castro Faria demonstrou que as expressões “casas de vivenda” ou “casas de morada” _ usadas no plural, aliás, até o século XIX _, indicavam um conjunto composto de moradias e oficinas, além de oratórios, casas de beneficiamento do açúcar e até habitações de escravos. O volume da documentação compulsada pela autora não deixa dúvidas a esse respeito: as casas de vivenda ou morada conformavam um espaço que extrapolava a idéia de “casadormitório” ou “casa-descanso” e, mais ainda, a idéia de “casa como um local exclusivamente privado”7.

4 5

- Freyre, G. Op.cit., ver encarte. - Schwartz, S. Op.cit., p.187. 6 - Freyre, G. Op.cit., p.239. 7 - Faria, Sheila de C. “Fontes textuais e vida material: observações preliminares sobre casas de moradias nos Campos dos Goitacazes, sécs.XVIII e XIX”. Anais do Museu Paulista (Nova Série), São Paulo,n.1: 107-130, 1993.

Devassada no topo da hierarquia social da Colônia, a casa o seria ainda mais entre os pobres, os trabalhadores urbanos, os lavradores de roça, os excluídos que as autoriadades coloniais chamavam de vadios e desclassificados. Examinando documentação de fins do período colonial, Maria Beatriz Nizza da Silva afirmou que a casa térrea era a mais comum de norte a sul do Brasil, e o domicílio rural não raro se assemelhava à maloca indígena, espaços indivisos, ausência de portas, o fogo a arder e cozinhar no interior da habitação. Num deles, observado no agro de Minas Gerais, o espaço era indiviso, fogueira no centro, e nele habitavam cerca de 30 pessoas, homens, mulheres e crianças à moda indígena. Noutro caso, na cidade de Rio Grande, extremo-sul da Colônia, a casa se compunha de uma sala virada para a rua - com o quarto no interior, sem divisão _, e da cozinha ao ar livre. No mais, ausência de janelas envidraçadas ou mesmo de rótulas de madeira, o que reduzia a privacidade a rigorosamente nada8. O mesmo se pode constatar para as casas dos pobres mineiros no século XVIII: “cafuas miseráveis espalhadas pelas encostas dos morros ou dependuradas sobre despenhadeiros, cobertas com capim e com folhas de palmeiras, e tendo por piso o solo de terra esburacada”9. Vizinhança de parede-meia na cidade, casas devassadas no meio rural, promiscuidade, assim transcorria o dia-a-dia da Colônia, ao que se deve acrescentar a escassez da população e a baixa densidade demográfica dos povoados e vilas. Afinal, mesmo na povoada capitania de Minas Gerais do século XVIII, a população mal chegava a 320 mil indivíduos, em 1776, enquanto que Vila Rica, a inícios do século XIX, contava com apenas 8.864 moradores. As condições histórico-sociais do “viver em colônias” (Vilhena) conspirava, pois, contra a ocorrência de qualquer privacidade no Brasil dos primeiros séculos, a confirmar as palavras do “Boca do Inferno”, o baiano Gregório de Mattos: “Em cada porta um frequentado olheiro/Que a vida do vizinho e da vizinha/Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha/Para levar à Praça, e ao Terreiro”. Faz-se necessário, portanto, divorciar, no caso do Brasil Colônia, a idéia de privacidade da idéia de domesticidade. As casas coloniais, fossem grandes ou pequenas, estavam abertas aos olhares e ouvidos alheios, e os assuntos particulares eram ou podiam ser, com frequência, assuntos de conhecimento geral.
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- Silva, Maria B.NIzza da. Vida privada e quotidiano no Brasil na época de D.Maria I e D.João VI. Lisboa, Referência/Estampa, 1993,pp.205-217. 9 - Souza, Laura de Mello e. Desclassificados do ouro. Rio de Janeiro, Graal, 1983, p.144.

As fontes da Igreja e da Inquisição mostram-se. a exemplo da linguagem escolástica que lhes dá forma. sem contar os encontros amorosos. branca ou mestiça. Não por acaso. Possuem. algumas fortes limitações. quer nas visitas episcopais. à porta das igrejas. tribunal que além de cuidar dos erros de fé propriamente ditos. aqui. riquíssimas para aproximar o historiador das intimidades vividas no passado. Insisto. é certo. Em ambos os casos. Eram os visitadores da Igreja ou os arautos do Santo Ofício que anunciavam. as principais fontes que permitem conhecer. especialmente pela justiça eclesiástica ou inquisitorial. por medo do Poder ou dele cúmplice. Destas limitações tratarei no devido momento. desafetos. nas pequenas comunidades ou engenhos da Colônia. para usar uma expressão coeva. a matéria-prima dos documentos reside na denúncia da população contra os que se desviavam dos comportamentos sexuais e morais considerados lícitos. assim sendo. o território da sexualidade era bem menos privado do que se poderia supor. vale dizer. Refiro-me. quer na ação inquisitorial. que. sem falar na correspondência jesuítica. e da própria situação constrangedora que envolvia os depoimentos. quais condutas deviam ser delatadas às autoridades. acorria a delatar vizinhos. com alguma sistemática. Mas era a população colonial. livre ou escrava. o universo das intimidades sexuais na Colônia são as fontes produzidas pelo poder. pois todos sabiam “quem andava com quem”. dimensão da vida privada que se mostra minimamente decifrável para o historiador. dos filtros antepostos pelos juízes inquiridores. portanto. nos domingos e dias santificados. murmurando sobre a vida alheia. Fazia-o _ e isto é o que mais importa frisar _. mexericando sobre o que viam ou ouviam. seja os dos que confessavam seus desvios por temerem os castigos do Céu e da Terra. imiscuiu-se também no território de certos atos sexuais assimilados a heresias. rivais. por ora. nas possibilidades que semelhante documentação abre para o estudo das intimidades. rica ou desvalida. às visitas diocesanas e aos processos do Santo Ofício. distanciando-se largamente dos padrões supostamente vigentes nos dias de hoje.Não resta dúvida de que. Ao longo deste capítulo ver-se-á que até os gemidos de amantes ardorosos não raro podiam ser escutados por ouvidos indiscretos. parentes. tratados de religiosos e sermões. porque todos estavam sempre a se vigiar mutuamente. seja os dos que delatavam por exigência das autoridades. ainda que este deva observar “por sobre os ombros . favorecidos pela escassa privacidade que caracterizava a vida íntima de cada um. as mancebias.

sem repeti-las. E ao encontro com as índias ter-se-ia seguido o enlace com as negras. acrescenta Freyre. quando não da falta absoluta. Carlo. lançando-se a elas com volúpia tão logo desembarcavam nas praias. a tendência portuguesa à miscibilidade. 11. p. do que pela “circunstância da escassez. na atração incontida que os primeiros colonizadores pareceram sentir pelas índias. criticando-se-o por adocicar os rigores da escravidão colonial. “O Inquisidor como antropólogo”. porém pacíficas.92. 2. as doenças e tudo o mais. Miscigenação. . Freyre considera que esta predisposição lusitana ao encontro e mistura com outras etnias revelar-se-ia.Freyre. por generalizar os padrões familiais da casa-grande ao conjunto da sociedade colonial. seguindo suas pegadas. Revista Brasileira de História. a alimentação deficiente.6. Ao ímpeto lusitano as índias teriam correspondido plenamente. Relações hierarquizadas. n.21. como alguns disseram. que se Freyre tem razão ao insistir na importância da miscigenação étnica para o povoamento do território luso-brasileiro. afetivas e fortemente sexualizadas. compensando-se a precariedade da vida no trópico. segundo Freyre. estigmas e hierarquias sociais É bastante conhecida a posição de Gilberto Freyre acerca do papel fundamental que a miscigenação étnica representou no povoamento da Colônia. por negar o preconceito racial dos portugueses. etc. bem como o afrouxamento dos preconceitos raciais. 12 . isto nada deveu a uma suposta propensão lusa à “miscibilidade com outras raças”. Valeria acrescentar. sua “indecisão étnica e cultural entre a Europa e a África”11.cit.dos juízes. posto que balizadas pela escravidão. de mulher branca”12. Op.Idem. fruto da bicontinentalidade histórica de Portugal. porém. pelo adocicamento das relações entre as diferentes culturas. p. São críticas justas que convém endossar. no plano sexual. G. quando não a falta deles. Afirma Freyre que ao enlace com as nativas da terra os portugueses já estariam predispostos por sua própria formação híbrida. esperando (assim como eles provavelmente esperavam) que o réu fosse bastante loquaz” sobre o que fazia ou sentia10. mas a um 10- Ginzburg. Decorreria disto.. e talvez o tenham feito menos por razões priápicas. p. São Paulo. ao contrário do ocorrido com os colonizadores anglo-saxões da América. antes de tudo. depois com as mulatas.12. e assim se formaria o povo brasileiro. Muito já se disse acerca deste “modelo freyriano”. insiste Freyre.

Hucitec. por exemplo. De Ceuta a Timor. no tempo de Afonso de Albuquerque. de todo modo.V. _ e não deixa de sugerir. deixando de lado a recíproca atração sexual que Freyre atribui ao encontro dos portugueses com as índias. com base no trabalho escravo. Mas vale dizer que tal política não prosperou além das primeiras décadas do século XVI. Projeto que não se podia efetivar com base na imigração reinol. “As influências do cristianismo na organização política do reino do Congo”. um fato incontestável. Não obstante sua fragilidade enquanto modelo explicativo geral. Universidade do Porto. quer dos índios. 1994. nas regiões do império português onde predominou o interesse comercial e o estilo “feitorial de ocupação”. assim. António Custódio.13 Em contrapartida. das instituições de governo lusitanas. Difel. ao dizer que “uma espécie de sadismo do branco e de masoquismo da índia ou da negra terá 13- Novais. onde os portugueses se mantiveram sempre “sitiados”pelos mouros em fortalezas-empórios até o desasastre final de Alcácer-Quibir.projeto português de ocupação e exploração territorial até certo ponto definidos.Em Goa.523-540. etc. . vol. preferencialmente. dos africanos. 14 . à sua moda. 1979. No Congo. de maneira mais estrita. seja a África Negra. contrariando as motivações do mesmo autor. Lisboa. Gonçalves. do escravismo e do tráfico negreiro no Brasil Colonial. reino africano que se “aportuguesou” notavelmente no reinado de Afonso I (primeira metade do século XVI)_ incluindo a adoção do catolicismo. implantar a exploração agrária voltada para o mercado atlântico _ o que se faria. sobretudo o capítulo II. a exemplo da Índia ou da África. In: Actas do Congresso Internacional Bartolomeu Dias e sua época. Por outro. onde o autor discorre sobre a implantação da agricultura comercial. pp. quer. no limite. não resta dúvida de que tal encontro implicou relações de poder que não excluíam a violência física e. Ver. especialmente quanto aos primórdios da colonização. chegou a desenvolver-se. O mesmo vale para a África. Luís Filipe. e que procuraria.92-105. conforme indica Thomaz. Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808). por exemplo. A “falta de mulher branca” é. seja a do norte. onde o grande interesse sempre foi o tráfico de escravos. estabeleciam-se definitivamente na terra e recebiam terras agricultáveis confiscadas à aristocracia muçulmana). pp. a obra de Freyre acerta ao relacionar o impulso à miscigenação. como se fez. Fernando. O próprio Freyre acaba por reconhecê-lo. o estupro. consideradas as limitações demográficas do pequeno Portugal.. uma política de casamentos mistos visando a estabelecer “uma ponte sociológica entre os novos senhores e a população local” _ política que resultaria no surgimento dos casados (portugueses que desposavam nativas. ao padrão esmagadoramente masculino da imigração portuguesa para o Brasil. nenhuma miscigenação expressiva de fato ocorreu14. tanto no primeiro como nos demais séculos coloniais. um certo ânimo racista dos portugueses ao qual voltarei posteriormente. _ a miscigenação entre portugueses e nativos foi praticamente nula. 1992. São Paulo. por exemplo.

isto é. . Tais uniões iluminam um quadro extremamente complexo. na Bahia. como se tudo não passasse de encontros episódicos e de busca da satisfação imediata por parte de homens esfaimados de sexo. para sobreviver. São Paulo. homens que vivenciaram uma autêntica aculturação às avessas. por parte dos índios.cit. reduzindo ao campo do sado-masoquismo ou somente a contatos físicos as relações sexuais entre portugueses e índias ou negras.Prado. Processo de aculturação em que a dominação portuguesa sobre os índios não excluía a hipótese da “inidianização” de colonos. 17 .Bosi. a várias esposas à moda tupinambá.F. de braços dados com o processo de aculturação de mão dupla deflagrado no século XVI. p. Alfredo. Emblema maior da parceria entre sexualidade luso-indígena e confronto15 16 . mas é igualmente certo que ao lado deles conviveram. e o de João Ramalho.. ao discorrer sobre o assunto. o Caramuru. sem deixar. Primeiros povoadores do Brasil (1500-1530).50. O processo se complicou consideravelmente com o avanço da colonização. constituindo vastíssima prole de mestiços. no entanto. O furor femeeiro do português se terá exercido sobre vítimas nem sempre confraternizantes no gozo. de elementos da cultura colonizadora. Op. na medida em que se exercia quase sempre em uma só dimensão. diversos usos e costumes indígenas. 1992. G. 1966. Dialética da colonização. uniões estáveis e duradouras entre portugueses e índias. muitas vezes. em São Vicente. nem a adoção seletiva. e afirmou que a libido do conquistador “teria sido antes falocrática do que democrática. a passagem das índias recém batizadas para os núcleos de povoamento português.. posto que submersos nos padrões culturais do colonizado. Companhia das Letras. dando-se muitas vezes o processo contrário ao dos primeiros acordes coloniais.Freyre.ed. atuaram como valentes guerreiros e fizeram jus. sobretudo no tocante à trajetória dos primeiros degredados lançados na costa. Companhia Editora Nacional. p. de colaborar posteriormente com a expansão portuguesa17. J. São Paulo.predominado nas relações sexuais como nas sociais do europeu com as mulheres das raças submetidas ao seu domínio. Mas não convém exagerar. de Almeida. . fugazes e violentos. encontros sexuais rápidos. É verdade que não faltaram aventuras deste tipo. a do contacto físico”16. 4a.”15.. Os casos mais célebres são os de Diogo Álvares. Alfredo Bosi foi além.28. portanto. homens que assumiram. por isso mesmo. A sexualidade pluriétnica determinada pelo estilo da colonização portuguesa andou.

entre os índios: sempre nus. Foi a custo que reconheceram a existência. pp. Refiro-me. São Paulo. Os documentos do Santo Ofício. poligâmicos. embora nem sempre a informação dos depoentes seja precisa a este respeito.intercâmbio cultural. Nas aldeias tinham várias mulheres indígenas. estando no sertão. por vezes.141 e segs. aparecem com grande frequência uniões pluriétnicas sob a forma matrimonial. nas vilas coloniais. sendo raríssima a união entre mamelucos e mulheres brancas. passando ao litoral. empenhados em promover matrimônios in facie ecclesiae. aliás. permitem constatar com alguma precisão a tendência predominante nas relações que geravam mamelucos: uniões entre homens portugueses ou mamelucos e mulheres índias ou mamelucas. do clima e da falta de recursos. sempre queixosos das dificuldades da catequese. que contêm várias centenas de depoimentos iniciados com a identificação das testemunhas. e mesmo este julgavam inaceitável. A heresia dos índios. o frenesi sexual campeava. andavam nús. tornando-se apresadores de escravos índios e protagonistas das expedições ao sertão em busca de metais preciosos. tomados aqui como documentos seriados de relações entre sexos. guerreavam à moda nativa e até praticavam o canibalismo mas. que depois se bandeavam para o lado dos conquistadores. aos agentes eclesiásticos da colonização. encontrâmo-lo nos mamelucos originados dessas uniões mistas. Aos olhos dos jesuítas. pelo menos do casamento na “lei natural” entre os nativos. Companhia das Letras. incestuosos. sobretudo. casados na forma da igreja e não raro com mamelucas como eles18. que o concubinato grassava solto. antes de tudo. aos homens por vezes criados entre os índios e perfeitamente conhecedores da língua e do modus vivendi nativo. acusados ou confitentes. esposa à moda cristã. Encontra-se uma multidão deles nos papéis da Primeira Visitação do Santo Ofício ao Brasil. dado que não 18- Vainfas. e totalmente ausente a união entre índios e mulheres brancas ou mesmo mamelucas. possuíam. Sabe-se. Ronaldo. já que possuiam a destreza dos guerreiros necessária para a aquisição de esposas entre os tupinambá. Nos papéis da Visitação quinhentista do Santo Ofício. . mamelucos bilíngues que. alargando assim as áreas de colonização. 1995. porém. a desesperar os padres inacianos. vestiam-se como os portugueses e os auxiliavam na empresa colonizadora. como convinha. com Anchieta.

. por conseguinte. não hesitavam em seguir o exemplo do pai. O que dizia de Ramalho e dos primeiros colonos. 1886.pp. Novas Cartas jesuíticas. como petra sacandali da colônia e emblema do desconsolo de Nóbrega: “ a esta terra. lançavamse às livres. não vieram senão desterrados da mais vil e perversa gente do Reino. também em relação aos primeiros colonos. dos mulatos e mulatas “desinquetas”. Companhia Editora Nacional. as normas da Igreja. 20. (org). não satisfeitos em fazer suas escravas de mancebas. Manuel da. unindo-se a várias mulheres. sem cuidar se eram irmãs ou parentas. a começar por Nóbrega em sua vasta correspondência. fruto dos amores entre os senhores ou homens livres brancos e suas escravas ou forras negras É claro que o concubinato extravazou _ e muito _ a esfera do sexo pluriétnico ou as relações entre livres e escravos acentuadas até aqui. Rio de Janeiro. Sua vida. “A evitar pecados (este clero) não veio.Nóbrega. tido como o exemplo-mor do que faziam os portugueses no Brasil. diria desalentado. nem o poderia. Imprensa Nacional.observava. Nóbrega estenderia ao próprio clero secular. e os meninos de Ramalho. pois. pedindo-as aos índios por mulheres. corria solta à moda dos índios. Mas. João Ramalho foi visto. Pesquisas realizadas nos últimos dez anos sobre as visitas diocesanas realizadas em Minas. os padres do hábito de Cristo: useiros em dar mau exemplo. boa parte delas envolvendo forros e pobres que 19- Leite. Cartas do Brasil (1549-1560). ameaçados e até perseguidos pelos escandalosos colonos. Quase todos.40 e 60. Nóbrega carregava nas tintas especialmente contra João Ramalho.. na Bahia e até no Mato Grosso. E se os padres ousassem admoestá-los para que se casassem com uma só índia. dizia. e. como Deus mandava.. rodeado de mulheres e da filharada que estas lhe davam. têm revelado uma gama muitíssimo variada de relações amorosas classificáveis como concubinato. exceto pela participação cada vez maior dos negros _ africanos e crioulos _.19. fornicários. vituperava Nóbrega.pp. amancebados com as índias. que não se embarcasse sacerdote “sem ser sua vida muito aprovada”20. nem se evitarão nunca”. eram ofendidos. mal atingiam a puberdade. Este padrão concubinário nas relações sexuais e amorosas da Colônia não iria mudar nos séulos XVII e XVIII. não faltaram palavras reprobatórias. e contrariava os impedimentos de parentesco consanguíneo até o quarto grau. Serafim. para usar a expressão de Antonil. melhor que não viessem. São Paulo.77 e 84. 1940.

Mott. no queixume dos religiosos. São Paulo. gays escravos nas garras da Inquisição. Ícone. colocavamna na prostituição. Acostumados a ver nos escravos bens pessoais.entre si se uniam ou “andavam juntos”21. incansáveis em denunciar os usos e abusos sexuais da escravidão _ usos e abusos heterossexuais. as práticas concubinárias entre senhor e escrava pareciam igualmente difundidas no seio da população modesta. No entanto. sobretudo dos jesuítas _ sempre eles _. homossexualidade e demonologia. “Os pecados da família na Bahia de Todos os Santos (1813). porque do “pecado nefando” jamais falaram. que por vezes eram surpreendentemente afetuosas. “O sexo cativo: alternativas eróticas dos africanos e seus descndentes no Brasil escravista”. utilização homossexual de cativos. de chamegos entre amos e cativas. nada disso falta à documentação judiciária relacionada à Colônia. conforme os depoentes contavam aos visitadores da Igreja. das quais tinham filhos. São Paulo. Laura de M. Isto sem falar.17-74. Anais do Museu Paulista. tomo XXXIII:65-73. pp. dando escândalo público de seus atos. Londoño. . paixões ou violências que pontuavam. Enlaces entre senhores e escravas. a aumentar suas rendas. por vezes. havendo casos em que humildes donos de uma só escrava mantinham com ela amancebamento e visando. no mundo sexual. Luiz. E longe de circunscrever-se ao círculo estreito dos grandes senhores do nordeste ou das Minas Gerais. vale frisar. 1984. jesuíta do 21- Ver. Luiz. porque deles não se podia mesmo falar. 1988. não obstante casados. os senhores. In: Escravidão. e por vezes em relações homossexuais com os cativos. Souza. Fernando. segundo indica Luiz Mott em estudo sobre a sodomia entre senhores e escravos22. as relações entre o mundo dos senhores e o da senzala. não resta dúvida de que o concubinato guardou íntimo parentesco com a escravidão. 1988. 1987. por exemplo: Mott. quer a indígena. não obstante a escravidão. “As devassas eclesiásticas da Arquidiocese de Mariana: fonte primária para a história das mentalidades. quer a negra. pp. uma vez mais. In: O sexo proibido: virgens. de maneira que não seria exagero dizer que a escravidão não raro implicava a possibilidade do concubinato. seja a inquisitorial. mimeo. “El crímen del amor: el amor ilicito en una visita pastoral del siglo XVIII”. Relações. seja a das visitas diocesanas. São Paulo. mesmo que pobres. A documentação das mesmas visitas contém numerosos exemplos de senhores que.49-85. 22. mas via de regra não dispensavam a violência e a coação típicas do sistema. Papirus. estas últimas. Um dos que mais se dedicou a condenar as “solturas” de senhores e escravas da colônia foi o italiano Jorge Benci. estendiam seu senhorio à esfera sexual. possuíam nas escravas amantes habituais. São Paulo.e.

que considerava como prova de concubinato o fato de um homem manter em casa alguma mulher que dele engravidasse. 1977. capitania cujos índices de legitimidade eram baixíssimos até para a população livre. com plena liberdade. no século XVIII. presenteando-as e até prometendo-lhes a alforria em troca de deleites para grande humilhação de suas legítimas esposas23. concubinato. como se vê nas Constituições do Sínodo baiano de 1707..83-124. de modo algum quer isto dizer. título XXII. Livro V. logrou atingir consideráveis índices de legitimidade. contudo. São Paulo. a própria Igreja colonial vergar-se-ia a este costume. Reconhecia-se.. Typografia Dois de Dezembro 1853.Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia (1707). não sendo com ela casado e desde que a mesma fosse livre24. os patriarcas faziam valer com frequência seus interesses econômicos ao casarem suas filhas. A bem da verdade. escravidão. É certo que entre as famílias bem aquinhoadas do Brasil Colônia. São Paulo. o direito dos senhores engravidarem. demonstraram ter sido o matrimônio cristão bem mais difundido na sociedade colonial do que se supunha tradicionalmente. Grijalbo. que o matrimônio legal difundiu-se muito além do estreito círculo dos “homens bons” da Colônia. 24. Esta conclusão valeria até mesmo para a população escrava. cuja prole. pesquisadas as listas paroquiais de batismo de várias partes da Colônia. É o que nos mostra Iraci Del Nero Costa. eis um tripé fundamental das relações sexuais na Colônia. Mas é igualmente certo. tacitamente. como se afirmou muito tempo em nossa historiografia. as quais aderiam ao matrimônio cristão para chancelar uniões conjugais com interesses patrimoniais. assim.. impotentes diante da parceria concubinato-escravidão consagrada pelo uso. estudando a população de Vila Rica entre 1719 e 1826:. Refiro-me aos famosos casamentos arranjados e concertados entre clãs poderosos de que nossos antigos historiadores dão conta. sobretudo o Discurso II. Sexo pluriétnico. . obstinado em condenar os senhores que cortejavam suas negras. as escravas da casa. conforme a historiografia dos últimos anos tem indicado.século XVII. Os inacianos pregavam no deserto. que o casamento legal era raro na Colônia e somente restrito às famílias de elite. foi possível registrar a ocorrência de casamentos envolvendo escravos e forras. pp. embora muito menos frequentes que o casamento 23- Benci. Mesmo em Minas Gerais. Particularmente os estudiosos da família com base em fontes paroquiais _ os mesmos aliás que criticaram a família patriarcal como modelo exclusivo de organização familial no Brasil _. Economia cristã dos senhores no governo dos escravos (1700). No entanto. Jorge. parágrafo 998.

no entanto. Paris. Augustin (org). Ronaldo. com especial destaque para as uniões entre homens e mulheres libertos25. “O número de consórcios entre escravos e forros parece-nos altamente significativo”. nestes casos. necessariamente. Interessante observar que. sem contar as denúncias que o Santo Ofício preferiu não apurar e arquivou sem formar autos. a bigamia tornou-se corriqueira. exceto a falta da benção sacerdotal à união. Bernard Vincent associou exatamente à grande mobilidade da população a acentuada tendência à bigamia na Espanha do Antigo Regime (e domínios coloniais). em boa parte. Ver “Discussion”. Rio de Janeiro. matrimônios irregulares em que os contraentes bígamos eram majoritariamente homens. faz-se necessário reler o lugar que o concubinato ocupava na sociedade colonial.34-35. a bem dizer. Amours Légitimes. como tal. desvinculndo-o de vez da idéia de que era ele. Trópico dos pecados. “viviam como se fossem casados”. em vários casos. Op. pp.97-100. É verdade que os estudos calcados nas visitas diocesanas indicam que. escravos e pardos livres.07% envolveram ambos os contraentes forros. Os casos de bigamia luso-brasileiros o indicam à farta. nos impérios coloniais de Espanha e Portugal. cujos processos chegaram a mais de uma centena entre os séculos XVI e XVIII. não foram raros os matrimônios envolvendo forros. do que resultavam novos casamentos alhures. 26. Baseado em fontes distintas. está-se diante de uma autêntica conjugalidade que nada devia ao legítimo casamento. Amours Illégitimes en Espagne. Entre os bígamos e bígamas da Colônia predominavam os de condição social humilde ou subalterna. cit.44% dos casamentos pesquisados envolveram homem e mulher escravos e 22. a confirmar a popularização do casamento naquele tempo26. A valorização e difusão social do casamento cristão não deve conduzir. .entre brancos livres. In: Redondo. pp. tinham e criavam filhos. expus. com centenas de exemplos de separação de casais e supressão de contatos entre esposos por anos a fio. afirma o autor. indicando que 9. incluindo escravos. 1985. uma conjugalidade de fato que. uma falta 25-Costa.Vainfas. à conclusão de que a importância do concubinato foi exagerada pelos historiadores que dele trataram.161-162. Não resta dúvida de que. É o caso da documentação inquisitorial relativa aos bígamos. os amantes “viviam de portas adentro”. Publications de la Sorbonne. em outro trabalho. Campus. podia substituir o casamento legítimo. por causa do deslocamento constante de indivíduos entre a Península e as possessões ultramarinas. caracterizando a bigamia como prática de imigrantes e/ou vagabundos..pp. convicção similar à dos historiadores-demógrafos acerca da ampla difusão do casamento na sociedade colonial. uma espécie de casamento informal. A bem da verdade. Iraci del Nero. 1989. Não era.

ensejando. e toda uma plêiade de relações amorosas. no caso dos exemplos mencionados. Está-se diante de relações que podiam conviver com o matrimônio _ embora fraudando o voto de fidelidade que lhe era inerente _ ou conviver mesmo com o estado clerical _ em prejuízo. Convém distinguir. deixando os amores e deleites para o mundo dos “tratos ilícitos”. O termo visitação era utilizado para designar as inquirições itinerantes que o Santo Ofício de Lisboa enviou ao ultramar para averiguar a ocorrência de heresias ou delitos a elas assimiláveis. todas indicativas de um estigma social. no caso. não sendo comum naquele tempo a ocorrência de casamentos entre nubentes de posições sociais díspares. Lacérdina. Casavam-se todos “dentro da mesma igualha”. já que tais casais de “portas adentro” eram apontados como concubinários ao visitador eclesiático. os chamados “tratos ilícitos” em nada lembravam uma situação conjugal. ao menos quanto à cor e à fortuna.. o concubinato moldava as relações extraconjugais da Colônia. “costumavam andar juntos”. duradouras ou fugazes. não fosse a presença do visitador da Igreja. as de 1591-1595 (Bahia e Pernambuco).75-92. os concubinatos de clérigos. pp. futricas e murmurações sem maiores consequências. “mantinham conversações desonestas”. Mas nem de longe as deleitações interétnicas e a 27- Vainfas.. em 12 de junho de 1707. senhores e escravas. ou quase. que a comunidade não hesitava em classificar como concubinato ao atender o chamado do visitador. do voto de castidade que faziam os clérigos _. a propósito.. as relações de adultério que muitas vezes terminavam em sangue. embora estimulado por elas27. R.. Noutros casos. os tais casais seriam deixados em paz. qualquer forma de conjugalidade socialmente reconhecida.desprezível aos olhos da comunidade. Rival e cúplice do casamento a um só tempo _ e por vezes enlaçado com o estado clerical _. Neles despontavam os inúmeros amancebamentos entre senhores e escravas. 1618-1621 (Bahia) e 1763-1767 (Pará). Feitas e ordenadas pelo Ilustríssimo e Reverendíssimo Senhor D. Era. fosse legítima. obviamente.Sebastião Monteiro da Vide. se utilizava para designar as devassas do Juízo Eclesiástico (devassas gerais). Trópico. O vocabulário popular possuía expressões bem próprias para descrever semelhantes situações: “eram vistos entrar um na casa do outro”. em meio às deleitações de portugueses e índias. . quando muito. para o Brasil. pois. Mas é presumível que. Vide Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia. padres e suas mucamas que se ia processando a miscigenação e o povoamento da colônia. Estigma independente da ocorrência das visitas. São Paulo. Já o termo visita. como que a seguir o conselho dos moralistas. 1853. sem que isso implicasse. relações em boa medida pluriétnicas. sendo documentadas. as visitações das visitas. fosse informal. porém.

com o escravismo colonial. se de um lado demonstra a anterioridade e autonomia dos 2829- Boxer. Afinal. a rigor. mas também os mouros e sobretudo os judeus. índio _ que se fundiu com a sociedade européia e a transcendeu”29. . ao menos do ponto de vista jurídico. p. que este último adensou. negro.242. modelo que valorizava o fidalgo cristão velho e aviltava o cristão novo com variados estigmas que nada tinham que ver . S. pois supõe uma identificação quase absoluta entre preconceito racial e preconceito de cor. p. “Limpeza de sangue”. criando-se. o principal alvo da ação inquisitorial portuguesa por mais de duzentos anos e os mais estigmatizados. Schwartz. quer na documentação oficial. Edições 70. quer na correspondência privada. “um sistema alternativo de estados _ branco. o problema dos cristãos novos nos é particularmente caro. sendo que os estigmas propriamente raciais provinham de Portugal.os negros. durante séculos os portugueses puseram enorme tônica em conceitos como “limpeza” ou “pureza de sangue”. eis o modelo de sociedade que foi transplantado para o Brasil. Sociedade hierárquica moldada pelo tomismo. O império colonial português (1415-1825). nas palavras de Stuart Schwartz. pela obsessão com a “pureza de sangue” que grassava em Portugal. no fundo. matizou e complicou os esquemas sócio-raciais que a Colônia herdou do reino. Lisboa. Não resta dúvida de que ambos andaram juntos e de que o escravismo ajudou a uni-los a ponto de quase confundi-los na Colônia. “raças infectas”. até o último quartel do século XVIII28. repito. preconceitos de natureza distinta. pardo.213. como nos lembra Charles Boxer. utilizando fartamente expressões como “raças infectas”. surgindo antes e independentemente do colonialismo escravocrata. No entanto. nos estatutos de “limpeza de sangue” que inabilitavam para os cargos e honrarias do Estado os descendentes das chamadas “raças infectas” . é verdade. Mas eram.miscigenação que delas resultava poderiam comprovar ausência de preconceito racial nos tempos da Colônia. Op.cit. o uso de tais expressões pelos portugueses no período colonial poderia sugerir _ como de fato sugeriu a vários estudiosos do Brasil Colônia _ que os preconceitos raciais emergentes naquele tempo se ancoravam na escravidão de negros e índios. Os chamados cristãos novos ou judeus convertidos ao catolicismo foram. mulatos e índios. Charles. Seja como for. a idéia de que o preconceito racial decorreu do escravismo é. obviamente.. na verdade. Percebemo-los. dado que. por exemplo. uma simplificação errônea.1981. Não resta dúvida.

1972. por exemplo: Novinsky. 31. os estigmas raciais herdados do reino. Mello. neste padrão de relações. Refiro-me. que com elas efetivamente casavam in facie ecclesiae. Portanto. logo. a origem do velho ditado: “branca pra casar. especialmente às uniões entre homens cristãos velhos e mulheres cristãs novas. mulatas e índias. Cristãos Novos na Bahia. não hesitava em degradá-las. que “a negra e a mulata são “sujas de sangue por definição”. OP. em terra brasílica. Os preconceitos de cor. os concubinatos. pareciam suplantar. p. 32. os termos “mulata” e “negra” podem significar puta. . Se é verdade que os casamentos entre brancos e negras ou pardas não era uma impossibilidade total _ o que as pesquisas histórico-demográficas demonstram com números _.Adolfo. poeta francamente empenhado em louvar as belezas das mulatas baianas. mulata pra foder.Apud Freyre. J. estes sim derivados do colonialismo escravista. às mulheres egressas do mundo da escravidão e da miscigenação nela ancorada. 1989. de outro lado permite recolocar a importância dos preconceitos de cor no plano das relações sexuais e na consecução de uniões conjugais na sociedade colonial. Provavelmente radica. São Paulo. independentemente de outra qualificação”32. e que vitimavam sobretudo as negras. São Paulo. e possivelmente “bem dotadas”.cit. não obstante o “sangue judeu” das mulheres. o mesmo não ocorreria em relação às negras ou mulatas. 1989. a descendência do casal. aqui.Hansen. nivelando-as por vezes à execrada negra. Evaldo Cabral de. as mulheres cristãs novas podiam ser desejadas como esposas pelos pobres fidalgos do reino. Companhia das Letras. os colonos de nosso primeiro século. Anita. O que pensava e recitava Gregório de Matos na Bahia seiscentista era o que já diziam. à relativa frequência dos casamentos mistos envolvendo famílias de cristãos velhos e cristãos novos. egressas não raro de clãs endinheirados de senhores de engenho ou mercadores30. sem métrica ou rima. se a escassez de mulher branca na Colônia contribuiria para o afrouxamento dos preconceitos raciais no âmbito do antisemitismo. A sátira e o engenho. indelevelmente. Por serem brancas. O nome e o sangue. São Paulo. p. as aventuras fugazes de que as visitas diocesanas dão mostra.. negra pra trabalhar”.preconceitos raciais lusitanos em relação ao colonialismo e à escravidão. não é menos verdade que prevaleceram nestas relações os “tratos ilícitos”. G.333. segundo Hansen.10. A sátira de Gregório sugere. Companhia das Letras. Perspectiva. Confirmam-no as falas dos acusados na Visitação do Santo Ofício por “defenderem 30- Ver. sangue que marcaria. por extensão semântica. E até mesmo um Gregório de Matos. palavrório recorrente entre os homens daquele tempo31.

pp. mulheres que. . usos e costumes 3334- Vainfas. as “negras da terra” as recorrentemente assimiladas a prostitutas e “mulheres públicas”. Não faltou.. Em contrapartida. Eros colonial: fontes.49-68. os recebiam com doçura.cit. nefando. em 1707. malgrado o empenho de Gilberto Freyre em adocicá-las. os brancos às mulatas de “mil tentações”. considerou a sodomia “tão péssimo e horrendo crime”. aí sim. O sínodo reunido em Salvador.. uns e outros se punham a falar de aventuras amorosas e sexuais. tudo se transformaria em grave ofensa a Deus. Misoginia e racismo. Nefandus: o que não pode ser dito. no caso dos apreciadores dos deleites nefandos34. “Negras d’aldeia” viviam daquilo. enquanto os ouvintes se abriam em gargalhadas e comentários chulos. Os tais “fornicários” diziam isto em meio a conversas cotidianas e informais quando. traços esenciais do colonialismo escravocrata e das práticas de poder no Antigo Regime. os estigmas raciais de todo tipo. neste caso. os homens se lançando às índias que.a fornicação simples”. que o diga Gregório de Matos. op. tratando de assuntos variados. em troca de uma camisa ou qualquer coisa. eis o tempero das relações pluriétnicas da colonização lusitana no Brasil. E. não faltaram também a humilhação das mulheres. enfim. combinada à exploração da miséria. por isso mesmo. que “era indigno de ser nomeado” e. mas se fosse a fornicação com mulheres “brancas e honradas”. tão contrário à lei da natureza. fiel às hierarquias. diziam uns. R. a obsessão com a descendência sem nódoa no sangue. que isso não ofendia a Deus. ainda que casadas. dizendo não haver nela pecado mortal. os “fornicários” mais desbocados pareciam concordar que só não havia pecado em “dormir com índias” ou “mulheres públicas” _ o que para eles dava no mesmo. por vezes. pois “ninguém ia ao inferno por isso”. podiam ser fornicadas à vontade. A tais enlaces sexuais não faltaram ardor e mesmo afeto. quando não os cativos.. diziam outros: “que farte”. Pecado nefando era expressão correntemente utilizada pelos inquisidores para à sodomia. “negras da terra” eram mesmo para fornicar. Trópico. condenando suas pobres almas à danação eterna33. a violência física. sobretudo donzelas ou casadas. Mas ao padrão pluriétnico da sexualidade colonial. eram as índias. os senhores a cobiçar e galantear suas escravas. vulgarizada no dia-a-dia por meio de palavrões. ao contrário do que pregava a moral católica ortodoxa.. 3.

A razão disto é simples e radica nos interesses da Inquisição que. se assim posso chamá-la. Espelham. as enormes diferenças que há entre a cultura material e os estilos sexuais vigentes nos séculos XVI ou XVII e os dias de hoje. atualmente consideradas “extravagantes” ou mesmo “aberrantes”. No caso das fontes inquisitoriais. para provar a culpa convicta de um sodomita. retendo. aquilo que se encaixava nos modelos da moral católica ou que dela se afastava. são traiçoeiras e enganosas. o caso da sodomia. ao ouvir os depoentes amendontrados. Depara-se então o historiador com inquisidores e escrivães a distorcer fatos. precisava saber quão habitué era o acusado em tais práticas e. Além de menos numerosas do que o desejável. assimilado pela Inquisição portuguesa ao crime de heresia. diz respeito às fontes. enfim. Nos processos de sodomia masculina. narrativas fortemente apegadas ao número de cópulas e de parceiros. embora sejam elas as mais privilegiadas para esse olhar microscópico da sociedade.Se já não é fácil dimensionar a vida privada na colônia. coloca-se a distância temporal e. consequentemente. os filtros dos inquisidores se faziam tão presentes como nos casos de heresia. não o que de fato ocorria ou podia ocorrer entre parceiros sexuais. A segunda grande limitação. resvalando por isso no domínio da heresia. pueris ou simplórias aos olhos de hoje. podiam conter boa dose de erotismo. podiam ser corriqueiras naquele tempo. e sim o que os agentes do poder que produzia as fontes achavam por bem registrar. Em matéria de intimidades sexuais o historiador deve redobrar sua prudência. prevalece. comportamento sexual que. omitindo alguns gestos que talvez fossem essenciais. acautelar-se mais que nunca contra o risco da subjetividade e do anacronismo. mais difícil é decifrar os aspectos específicos da sexualidade na esfera estrita da privacidade. sobretudo. à genitalidade e à ocorrência ou não da ejaculação. por exemplo. Pois se é certo que o encontro sexual de corpos pode guardar algumas invariantes que chegam a ser a-históricas. Veja-se. não obstante contenham relatos riquíssimos em vários sentidos. se havia . no tocante às relações sexuais. feitiçaria e outros erros de fé. da intimidade dos casais e amantes. rendeu várias centenas de processos que permitem ao historiador aproximar-se do encontro de corpos _ embora predominem os processos sobre homossexualismo masculino. sobrevalorizando outros quiçá irrelevantes. A contrariar ou mesmo distorcer essa atitude quase voyeurista do historiador. igualmente poderosa. inúmeras vezes. sendo pouquíssimos os de relações entre mulheres e mais raros ainda os relacionados a cópulas heterossexuais. ao passo que outras. muitas atitudes do passado.

carentes de narrativas sexuais mais detalhadas.274-284. em 1646. A própria nomenclatura escolástica contribuía para esta dúvida. Ver também. mais diversificados e cuidadosos no registro de atos sexuais. o que pode ser no mínimo discutível35. exceto na Visitação ao Brasil. 36.. toda ela incluída na visitação inquisitorial ao Brasil no século XVI. 1986. arte. A coisa obscura: mulher.Vainfas. op. 1989. pois são documentos que mais espelham um modelo oficial de cópula. sem prelúdios nem variações. conforme rezava a moral escolástica. os documentos indicam que todos ocorriam. do que exprimem o enlace de corpos femininos _ corpo feminino que o inquisidor ignorava muitíssimo36. No caso da Inquisição. se tomados ao pé da letra. Sérgio (org). Lígia. negras e mestiças em circunstâncias as mais variadas. O conjunto de processos de sodomia entre homens. Grijalbo. ao definir sodomia perfeita como a penetração anal entre pessoas do mesmo gênero (ou seja. No tocante à documentação sobre as relações homoeróticas entre mulheres. relacionei o desinteresse do Visitador em aprofundar a arguição das mulheres ao desconhecimento do corpo feminino. Bellini. Laerte. O Santo Ofício Português jamais elucidaria o assunto e retiraria de seu foro. pênis e penetrações anais. no tocante aos atos sexuais _ a grande obsessão do inquisidor ao examinar tais casos _.p. As mulheres “agentes” colocavam-se por cima e as “pacientes” por baixo. Registre-se o grande contraste entre os processos destas mulheres.penetração anal com emissão de sêmen _ ato que. A Inquisição Portuguesa praticamente não julgou casos de sodomia feminina nos quase trezentos anos de sua existência. o crime nefando praticado entre mulheres. Impossível crer na informação desses documentos. homens) e sodomia imperfeita como a penetração anal heterossexual. e tudo isto envolvendo brancas. São Paulo. p. Trópico. de maneira uniforme. e ainda por cima heterossexual.. caracterizava a sodomia perfeitíssima. Em Trópico dos Pecados. ao menos de modo absoluto. Serge Gruzinsky discutiu o assunto em “Las cenizas del deseo: homosexuales novohispanos a mediados del siglo XVII”. sodomia Inquisição no Brasil Colonial. Barcelona. jogos sexuais entre moças e crianças. Os papéis do Santo Ofício dizem respeito a relações entre mulheres de idade e condição étnico-social díspare. etc)da época. antes de tudo.. sem exceção. apresenta indivíduos fundamentalmente preocupados com sexo. Há relações entre mulheres adultas. . presente aliás em outros domínios (medicina. o problema é ainda mais grave. entre 1591 e 1595. 1985.255-281. uma vez que a sodomia era pensada. pairava a dúvida sobre se as mulheres podiam de fato cometê-la “umas com as outras”. e os processos dos sodomitas. Brasiliense. pp. como um ato sexual (a penetração fálica no ânus seguida de ejaculação). R. Entretanto. In: Ortega.. índias.114. México. brincadeiras eróticas de meninas. 35-O mesmo apontou Raphael Carrasco em Inquisición y repressión sexual en Valencia: historia de los sodomitas (1585-1785).cit. e ambas uniam seus “vasos naturais” até obter deleitação. De la santidad a la perversión.

A par do problema dos filtros. Luiz. com base nesses documentos.. os diálogos ocorridos na intimidade. a alcova ou o que fazia as vezes dela. “fornicação simples” e muitas outras que. Op. vale lembrar. O próprio Gilberto Freyre. nem mesmo os inquisidores sabiam do que exatamente se tratava. . p. “mulier super virum” (posição sexual em que a mulher se coloca por cima do homem). não passava de um eufemismo indicativo de várias formas de priapismo37. 1985. ao dizer que a fórmula “beijos e abraços”. as fontes inquisitoriais têm muito a oferecer ao historiador. molícies (relações sexuais sem cópula. jargões e clichês de inspiração escolástica. Acrescente-se aos jargões em português a plêiade de latinismos e mais fórmulas escolásticas.323. habilita-se a lançar um olhar indiscreto sobre o encontro dos corpos. em certos casos. sodomia imperfeita (relações anais entre homens e mulheres). O sexo entre o profano e o sagrado 3738- Freyre. Palavras que mais escondem do que iluminam as intimidades do passado. as deleitações. mas com “emissão de sêmen”).A lista seria extensíssima. dos gestos eróticos. Mott.38. E muitas vezes o documento registra as palavras vulgares.. No último caso. G. Com. apresentada na International Conference on Lesbian and Gay HIstory. Apesar de tudo. Toronto. “sodomia foeminarum” (relações sexuais entre mulheres). fornicação qualificada (todas as cópulas!. a exemplo de “tratos ilícitos”. por vezes tão crédulo em face dos documentos que utiliza. a profusão de fórmulas. “vas naturalis” (vagina). advertiu sobre o perigo deste palavrório formal presente nas fontes. fortuna do historiador que. “conatos e acessos nefandos”. a descrição de partes genitais. “vas preposterum” (ânus).. 4. e veja-se em que indigência pode ficar o historiador preocupado em resgatar as intimidades sexuais de outrora: “membrum virile” (pênis).. sendo anatomicamente desprovida de pênis. dos atos sexuais. Reconstituem os ambientes do encontro amoroso. É frequente. contornadas as armadilhas que apresentam. quase infindável. os amantes sequer conheciam de ouvida.cit. encontra-se o da linguagem. indecisos sobre se a mulher podia cometer o pecado da sodomia. presente nas fontes inquisitoriais e noutros documentos oficiais. as circunstâncias dos enlaces. com certeza. “conversações desonestas”. “Da fogueira ao fogo do Inferno: a alforria do lesbianismo em Portugal. por vezes o tipo físico dos parceiros. exceto as praticadas entre homens e mulheres solteiros). 1646”. expressão recorrente nos papéis do Santo Ofício. Descuido dos notários..

“ao pé da cama”. misturavam-se admiravelmente. considerava a sexualidade matéria de sua alçada. nem precisam os amantes comunicar-se com o Além a propósito de suas relações sexuais. coisa que as Ordenações do Reino autorizavam (aos maridos traídos).Dir-se-ia hoje que o sexo é algo que diz respeito ao indivíduo. Nos tempos coloniais o assunto era. mas a bem da verdade nenhum depoente vira as tais cópulas sacrílegas. inclusive a de nossa Colônia. porém. ao tempo em que era casado. Deus e o Diabo. evidentemente. e disso não cuidava o Santo Ofício. Cópulas e orações. colocar um crucifixo embaixo da cama. Pois se a Igreja esforçava-se por separar. denunciado à Visitação quinhentista na Bahia39. beijos e liturgias. o aspecto de um rito religioso. o sagrado do profano. É quase pueril dizer que. aproximando este último do diabólico. trocando o crucifixo pelo retábulo de Nossa Senhora e dizendo que Salvador se punha de pé sobre o retábulo ao copular com a mulher Em alguns relatos. em outras copulavam de pé sobre o retábulo. neste sentido _ e exceto pelas posições das Igrejas e seitas religiosas. possivelmente seria hoje visto 39- ANTT. ou embaixo da mulher. mas por ter o costume de. homem já velho que matara sua mulher por culpa de adultério. Começemos com o exemplo de Salvador da Maia. enfim. Salvador e a esposa mantinham relações deitados sobre o crucifixo. as populações da cristandade. agiam em sentido contrário. Denunciado não pelo assassinato da esposa. Pouco importa. Alguns introduziram nas acusações um outro fato. pois eram comuns as denúncias com base no “ouvir dizer”. o que por vezes conferia às relações sexuais. vivenciado de forma muito distinta. de sorte que estes fatos tanto podem ter sido invencionice de desafetos do acusado para incriminá-lo como podem ter se originado da própria boca de Salvador da Maia. Inquisição de Lisboa. processo 2320. hoje minoritárias _. enquanto mantinham relações sexuais. a seus sentimentos e inclinações. a vida sexual não depende de Deus ou do Diabo. ao menos em parte. em todos os níveis. independentemente da posição social dos indivíduos _. elevando à categoria do sagrado o sexo conjugal voltado para procriação e lançando tudo o mais no domínio diabólico ou mesmo herético. No campo das moralidades populares _ e refiro-me aqui aos costumes e estilos sexuais concretamente vivenciados. jactante de suas cópulas em dias mais felizes. assunto de foro íntimo e absolutamente privado. daí as acusações ao visitador. O que na época era ou podia ser considerado sacrílego e herético. . A própria Igreja. a “espiritualização” do sexo era ainda mais radical. os depoimentos variam.

E muitos outros. em Pernambuco. da Virgem ou dos santos. nas imagens de Cristo. mais do que mero sacrilégio e nem de longe alguma espécie de perversão. etc. “Maria. por exemplo. os sentimentos individuais. Ática. houve quem o fosse por nele depositar diretamente suas excrescências41. 4041- ANTT. “corno”. Não resta dúvida de que. e estaríamos diante de uma afronta específica e consciente da minoria de judeus conversos. Siqueira. que por acaso era cristão novo. conforme outros acusadores. imprecar contra eles e outras irreverências. E muitos cristãos novos foram acusados de também profanarem a cruz de outros modos. Cristãos velhos ou novos.... Cristo e o próprio Deus.. E se João Nunes foi acusado de manter um crucifixo perto de onde fazia suas necessidades. São Paulo. idem. é que os fatos narrados nas acusações são perfeitamente verossímeis. O que importa frisar. também cuspia nele. pois não faltam atitudes similares às de Salvador da Maia nos documentos da Inquisição e outros. A Virgem Maria. agredi-los fisicamente. Erotização do sagrado ou. processos 1491 e 885. 42-Mott.cit. muitos confessaram ou foram delatados por cuspir no crucifixo. que nada tinham de cristãos novos. por insultá-los com palavras chulas. eis o traço de mentalidade que parece emergir de tais atitudes. É verdade que Salvador da Maia era cristão novo. conforme a ocasião. “é putana e sudumítica” (sic). In: Virgens. quem sabe revoltados contra o estigma que se lhes lançavam e contra a perseguição iminente de que eram vítimas no mundo ibérico. 1978. também não eram poupados de atributos humanos ligados ao sexo: “cornudo”. seu Pai.42. dirigiam à Virgem. mais amplamente. p. O poeta Bento Teixeira. Inquisição Portuguesa e sociedade colonial. a exemplo do rico mercador João Nunes. era também especialmente sexualizada. pp. costumava jurar “pelo pentelho da Virgem”.como extravagância ou perversão. Luiz. É possível que os cristãos novos predominassem entre os que erotizavam a cruz ou outros símbolos sagrados _ o que só uma avaliação estatística podria indicar _. palavras injuriosas: “é má mulher”. acusado de manter um crucifixo junto a um “servidor onde fazia suas necessidades corporais”40. morador em Pernambuco. op. Virgem ou não? Quatro séculos de contestação no Brasil”. quando não cobiçada. porém. homem que além de presumidamente copular em cima do crucifixo. fosse esta uma atitude exclusiva de cristãos novos. mas tais atitudes não lhes era exclusiva. . alvo de extrema devoção no Brasil Colônia e no conjunto do mundo católico.170.131-185. Sônia. mistura do sagrado com o íntimo. os fluxos do corpo. “esta puta não tem poder nenhum na trovoada”.

a Virgem “mulher e puta”. de dizer-se as palavras da consagração da hóstia em meio aos atos sexuais. que proferir em latim. que submetida à mesma intempérie. muito difundido em Portugal e no Brasil do século XVI. que é coisa pertencente ao homem e não a Deus”43.. Prova admirável do que tenho dito encontra-se em certo costume. impedi-la de tratar mal a quem proferisse as palavras da sacra em pleno ato sexual (evitar as humilhações e maus-tratos que os homens impingiam 43- Souza. “fanchono”. provido de pênis das Visitações quinhentistas estaria ainda muito próximo da religiosidade européia medieval. assim. O Diabo e a Terra de Santa Cruz. ao Cristo macho e fálico a distância era curta. Acreditava-se. no último. Laura de Mello e. Em vão. Cristo “mijador e fálico”. o sexo podia invadir o Céu sem grande cerimônia. bradou: “bendito sea el carajo de mi señor Jesu Christo que agora mija sobre mi”. Nos papéis da Visitação quinhentista. Seria inútil. como já disse. fálico. encontra-se uma que. Sob irreverência aparente. conferindo-se atributos eróticos às figuras divinas. nas moralidades populares. Tratados como “maridos traídos”. Do Cristo humanizado. p. as palavras com que os padres diziam estar o corpo de Cristo contido na hóstia. corno ou fanchono. devo dizer. debaixo de um temporal. no terceiro.. eram as mulheres que mais se destacaram por tais dizeres. que Salvador da Maia copulasse com sua mulher em cima de um crucifixo. na boca do parceiro sexual. e menos literal.108. então. onde o havia. tornando verossímil. nos dois primeiros adjetivos. podia ter grandes resultados: manter a pessoa amada sempre junto a si (prendê-la. .“somítigo”. e outra. São Paulo. 1986. Companhia das Letras. e com isso adotar a própria leitura da Igreja no tocante à religiosidade popular. e os colóquios entre amantes. em que era tão difícil separar práticas cristãs e pagãs. “o Deus mijador. e curiosamente. o visitador do Santo Ofício admoestou uma destas mulheres dizendo que “Deus não mija. que as coisas do sagrado invadissem o leito conjugal. acusados como praticantes de homossexualismo. exclamou que “Deus mijava sobre ela e que a queria afogar”. ver em tais atitudes uma simples manifestação sacrílega. Não é de admirar. e de serem efeminados. repito. estava quem sabe um desejo efetivo de humanizar Deus e torná-lo mais próximo44. fazê-la querer-lhe bem ( e neste caso conquistá-la). de língua espanhola. Em perspectiva diversa. 44Idem. portanto).

A heresia. pois disso foram chamadas. pelo Santo Ofício. A clássica Celestina. o hoc est enim corpus meum. Antônia. de autênticas expressões da religiosidade popular. das crenças e ritos que por vezes foram assimilados à feitiçaria e relacionados. O Diabo. op. acusadas de vender as “cartas” e divulgar outras magias eróticas. Na Visitação quinhentista deparamonos com várias bruxas. “consagrando” os maridos e amantes. ao proferimento das palavras da sacra na boca dos amantes ou amados. a exemplo de Maria Arde-lhe-o rabo. Souza. no caso. de Rojas. Mas feitiçarias e Inquisição à parte. entre gemidos e sussuros. d’alcunha “a Boca Torta”.. Eram as mulheres. o sagrado invadia o profano e pode-se mesmo imaginar o quão peculiar devia ser o enlace de corpos naqueles tempos. por vezes contidos em “bolsas de mandinga” para “fechar o corpo”. mas papéis. “carta” que servia para as mulheres tocarem em homens desejados sexualmente.. p.cit. que mais utilizavam este expediente. Seja como for. Práticas similares. a intimidade temperada pelo ritual da missa. pp.op. com a erotização de palavras eucarísticas. à ocorrência de pactos diabólicos. Laura de M. está-se diante. flagramos uma certa Agueda Maria que tinha um papel com algumas palavras e cruzes. trazem à luz diversos artifícios então utilizados que poderíamos chamar de magia erótica. os amantes ou casais proferindo. No Brasil não se utilizaram favas. em meio aos prazeres da carne. seria capaz de seduzi-la46.92. as “cartas de tocar”. magia ibérica que se fazia através de um objeto gravado com o nome da pessoa amada e/ou outras palavras. quando queriam conquistar e seduzir.228-230 .com frequência às mulheres). de práticas mágicas que Laura de Mello e Souza relacionou. que servia para fechar o corpo e 4546- Vainfas. uma vez mais. portanto.e. Adentramos... No Recife era um certo Antônio Barreto quem portava um papel com signo salmão e credo às avessas.. No século XVIII mineiro. encostado na dita pessoa. utilizava favas para facilitar mulheres a homens. Mas não era impossível que os próprios homens se valessem deste recurso. “a Nóbrega” e outras. As fontes inquisitoriais relativas ao vasto período do século XVI ao XVIII em várias partes da Colônia. o vasto terreno das magias amorosas. bastando nelas gravar o nome das mulheres cobiçadas e depois encostar o fetiche nas moças. o qual. por sinal. Isabel. tal qual hóstias. do que dá prova a documentação inquisitorial45... à preservação da afetividade.cit. R. Antes de tudo.

às orações amatórias. e me ames mais que todas as mulheres” Não tão melodiosa quanto a oração da Nóbrega era a que fazia Maria Joana. e vires por onde quer que estiveres. também aqui. que aparece referido diretamente. Bastava fazer isto e. o líquido seminal). multiplicar os exemplos de rezas com fins eróticos que aludiam às almas. E neles. p.231-233 . enchesse os buracos abertos com pelos de todo o corpo. em casa estares. no entender da bruxa. seduzir e apaixonar A já citada “Nóbrega”. pusesse tudo no vinho do marido. Fulano. Sortilégios e filtros para “fazer querer bem”. sobretudo o nome de Deus”. que tu para baixo vires. acrescentasse a isto uma unha do dedo mínimo da própria bruxa e. seduzir.230. unhas. Outro artifício que a mesma 47- Idem. raspaduras da sola dos pés. nem beber. com dois te vejo. com dez te amarro. reter a pessoa amada. com idênticos propósitos. o sangue te bebo. feita a mistura. às estrelas. Ao “lançá-los por baixo” _ presumo que de maneira “escatológica”_. mas que não dispensava o conjuro dos demônios47. ao leite da Virgem. Poder-se-ia. diferentemente das cartas de tocar ou das orações amatórias. ao domínio dos sortilégios que. porém. no Pará setecentista _ reza que a moça proferia fazendo cruzes com os dedos: “Fulano. Tudo com o mesmo fim de conquistar. o coração te parto. e com o mouro encantador que tu te não apartes de mim. engolisse tudo.. aos anjos e demônios. muito comuns na Colônia e prática universalmente conhecida. mandava rezar junto ao amado: “João eu te encanto e rencanto com o lenho da vera cruz.facilitar mulheres: “qualquer mulher que tocasse a sujeitaria à sua vontade”. a exemplo das orações. recorria-se também. a “Nóbrega” da Bahia mandou que a mulher furtasse três avelãs. as coisas passariam a correr bem. são reveladores de um amálgama religioso cristão e pagão.. Além das cartas de tocar. Seriam inúmeros os exemplos. e com os anjos filósofos que são trinta e seis. juro-te por esta cruz de Deus que tu andarás atrás de mim assim como a alma anda atrás da luz. sendo que os exemplos seguintes encontram-se às pp. nem sossegar sem comigo vires estar e falar”. bruxa baiana do século XVI. a Cristo. Ensinando a uma de suas clientes um bom modo de viver bem com seu marido. irrigados no Brasil pelo fluxo de ingredientes culturais indígenas e africanos. quando não tocado e usado (as partes genitais. pontifica o baixo corporal. “Um ramo da magia ritual em que era irresistível o poder de determinadas palavras e. nem dormir. e me digas quanto souberes e me dês quanto tiveres. aos santos. não poderás comer. Passemos. com cinco te mando.

no copo de vinho do parceiro. o sono foi sendo transferido para o fundo da vida social. a mulher retirar de sua própria vagina o sêmen do homem e colocá-lo.128. inclusive a cópula sobre o crucifixo que tanto agradava a Salvador da Maia. Norbert Elias ajuizou: “o quarto de dormir tornou-se uma das áreas mais ‘privadas’ e ‘íntimas’ da vida humana. Do ponto de vista dos que vivenciavam essas experiências significava outra coisa: “a zona do baixo corporal..Nóbrega ensinava envolvia o sêmen do homem amado.136-137. a renovação. op. R. e nem tanto como oposição ao “espiritual” da cultura letrada da Igreja _ que em Bakhtin beira a irreligiosidade. 1987.. 5. o uso de palavras eucarísticas em meio a gemidos de prazer. Por essa razão. O uso de objetos sagrados na cópula. arrolar muitas dezenas de exemplos. Tal como a maior parte das demais funções corporais. também neste domínio. depois. as orações. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. a erotização de Cristo e da Virgem. o imbricamento entre sagrado e profano no uso da sexualidade. assim sendo. Hucitec. quer no domínio dos atos. do apego aos fluxos do corpo.. o bem-estar”49. sendo do próprio a quem se quer”48. Mikhail.. a fecundidade. O quadro descrito. lembra o que escreveu Bakhtin sobre a cultura popular do século XVI a propósito da obra de Rabelais. Não é de admirar que. consumado o ato sexual. as imagens da urina e dos excrementos conservam uma relação substancial com o nascimento. tudo aponta para uma aproximação entre o baixo corporal e as coisas do espírito. Nóbrega garantia: beber sêmen “fazia querer grande bem. a zona dos orgãos genitais é o baixo que fecunda e dá a luz. Do ponto de vista da Igreja tratava-se de uma inversão sacrílega.cit. pp. Bakhtin. Lembra a cultura popular no sentido “positivo” da renovação ensejada pelo corpo. Consistia em. . ou seja. Trópico. quer nos prelúdios da conquista e sedução. Poderíamos. diz Bakhtin.. p. o sêmen no vinho. Lembra Bakhtin no sentido da valorização do baixo corporal. São Paulo. os prazeres da carne estivessem tão próximos de Deus. Os lugares do prazer Escrevendo nos anos 1930 sobre a vida privada no Ocidente. quando não herética.Suas paredes invisíveis 4849- Vainfas. Mas creio que bastam esses para fundamentar o que se disse no início deste ítem.

1983. 1990. e até em camas. Norbert. apesar das fortes mutações culturais ocorridas nas últimas décadas. desde o século XIX. haveria espaços específicos para fins fundamentalmente sexuais. da noção contemporânea da privacidade relacionada à sexualidade. eis o tripé. Casa. Sexualidades ocidentais. padres e homens casados iam ter com suas cortesãs preferidas. reside exatamente na inespecificidade e na visibilidade dos espaços eróticos Poder-se-ia alegar que. da França. e sobretudo da Itália com sua civilità puttanesca. A casa ainda hoje é um refúgio. à vista de outras pessoas”50. nem sempre era fácil distinguir entre bordéis e simples 5051- Elias. O processo civilizador. nas palavras de Archillo Olivieri51. . compartimentos específicos no interior da casa. e o quarto um santuário onde se pode extravazar quase tudo.”Erotismo e grupos sociais em Veneza no século XVI: a cortesã”. Ph. O mesmo se poderia aplicar _ e com mais razão. do sono ao sexo. o senhor com seus serviçais. conforme apontei no início deste capítulo. adverte-nos o historiador da prostituição francesa no século XV. Olivieri. o que se poderia estender certamente à esfera da sexualidade. vol.164. Na mesma página citada.I p. Itália celebrizada por suas casas de banho e termas onde celibatários. o traço característico maior da sexualidade colonial.. porém. Elias comenta que. que muitos amantes ou casais se relacionassem sexualmente no interior das casas. A afirmação de Elias nos soa familiar. e Béjin (orgs). Contexto. em outras classes mesmo homens e mulheres no mesmo quarto e não raro hóspedes que iam passar a noite ali”. a dona da casa com sua dama ou damas de companhia. herdeiro. In: Aries. Sem negar. “Na classe alta.. irrepreensivelmente ‘animais’ da existência humana. ao nível do espaço. é mais estranho do que esta descrição se pensarmos no mundo dos séculos XVI ou XVII. Rio de Janeiro. neste ponto. excetuando-se as necessidades para as quais a modernidade contemporânea criou. era comum as pessoas passarem a noite no mesmo quarto. grosso modo _ à sociedade colonial: ausência de privacidade no viver. Jorge Zahar Ed. da sociedade medieval. onde as cidades de certa importância possuíam seu prostibulum autorizado pela municipalidade _ é o caso da Espanha. Nada. obviamente. presumo. quanto aos “lugares do prazer”. ‘íntimos’. p93. Lisboa. a exemplo do que ocorria na Europa. quarto e cama.vedam os aspectos mais ‘privados’. pelo menos no tocante à prostituição. Archillo. Mas mesmo na Europa. na Idade Média _ e isto vale para o nosso período _.

terra rústica de poucas cidades. preferindo retomá-los noutro contexto. não pôde haver nem civilità puttanesca. que o Brasil “parece ter-se sifilizado antes de se haver civilizado”54. Evitarei esmiuçar exemplos específicos das relações sodomíticas.Freyre. 53.op. viscejavam a alcovitagem e as casas de alcouce. No Brasil Colonial. Se nas casas coloniais havia camas _ e há registro de que as havia _. a lembrar as casas senhoriais mencionadas por Elias.cit. destacando a exiguidade de espaço.. e a multiplicidade de moradores. as tabernas. No mais. Com razão Gilberto Freyre afirmou. Op.. que não raro alcovitavam as próprias mulheres e filhas. hóspedes e circunstantes.. a documentação inquisitorial que. Luciano. nem sequer bordéis. G. assim era o Brasil Colônia. com os administradores do negócio de secos e molhados fazendo as vezes de alcoviteiros ou rufiões. sexualidade. mas não posso deixar de 52- Rossiaud. presentes em qualquer pequena vila. Em compensação. num de seus rompantes. com o próprio chão e sobretudo com as redes.47. 54. no Brasil Colonial. E tudo isto sem os bordéis que tanto afamavam a Europa. forras ou escravas daquele tempo. no caso das casas-grandes. nenhuma privacidade para a prática do sexo combinada a uma significativa visibilidade das relações. segundo nos conta Luciano Figueiredo. Confirma-o. p. especialmente as cafuas dos pobres. alude aos atos sexuais. Ao Brasil Colônia faltaram bordéis. Para citar um só exemplo deste quadro.cit. é verdade. Casas de alcouce eram ou podiam ser os próprios “domicílios de mulheres pobres e forras. remeto ao caso da urbanizada Minas Gerais setecentista. . Edunb/José OLympio. mas a colônia toda era ou podia ser um grande prostibulum. p186. e mais raramente. a exemplo das “defesas da fornicação” e sobretudo da sodomia. nas cidades maiores ou até nos precaríssimos caminhos e estradas. Jacques. pp.casas de alcouce. “vagabundas atraídas pelos grandes trabalhos agrícolas sazonais.. ou entre meretrizes profissionais e prostitutas de ocasião. O avesso da memória. as passagens dos príncipes ou as festas”52. 1993. de um modo ou de outro. rivalizavam com esteiras. “Prostituição. sociedade nas cidades francesas do século XV”. Das casas coloniais já tratei anteriormente. por influência indígena. uma vez mais. In: Sexualidades ocidentais. o que bem mostra a vulnerabilidade das mulheres pobres. Sociedade onde a prostituição funcionava sem o tradicional prostibulum. Rio de Janeiro. as feiras. um “leito” muito utilizado.Figueiredo. salvo as exeções de sempre. Casas de alcouce eram as vendas. senzalas de escravos”53.88-90. no caso das habitações humildes.

público. Poder-se-ia dizer que assim era no caso das relações pecaminosas. A hipótese não é má e. para a prática sexual. pôs a orelha e aplicou o sentido”. Os sodomitas. Afinal. ouvindo um certo Balthasar da Lomba e um índio ofegarem “como que estavam no trabalho nefando”55. sobretudo. quão numerosos são os casos em que os amantes foram pegos em flagrante. foram pegos em navios. Grande paradoxo: um espaço. havendo mesmo denunciantes que reproduziram os gemidos dos amantes nas suas delações (“ui. nos engenhos. o que não deixa de ser até certo ponto surpreendente. são principalmente essas relações que chegam ao conhecimento do historiador. porém. oferecessem a privacidade desejável. cafuas ou casas-grandes. mameluca casada com o ex-alfaite Pero Dominguez que. em Pernambuco. de rapazes e homens sendo vistos e ouvidos em pleno ato sexual. por exemplo. quero crer que. as condições materiais para tanto _ as casas precárias. como era o mato ou a beira do rio. processo 6366. perseguidas e por isso documentadas. o Brasil teria nos matos (“em cima das ervas”) um espaço de deleitações. em tese. Limito-me a dar o exemplo de Maria Grega. por assim dizer. amiúde. parece ter sido espaço muitíssimo frequentado pelos amantes ilícitos ou eventuais. nesta altura. esburacadas. a casa longe estava de ser o espaço privilegiado para as relações sexuais. que tais casas. ui”). . No dia-a-dia do pecado nefando não faltam exemplos deste tipo.registrar. faltavam-lhes. podia ser mais apto à privacidade exigida por intimidades secretas do que as próprias casas de paredemeia ou cheias de frestas. Seja como for. como no caso de um denunciante do século XVI. sendo também muito referido nos casos heterossexuais dos colonos que copulavam com índias. Alguns foram mesmo vistos em pleno ato sexual. insisto. seja pelo fato da precariedade das casas permitir olhares e ouvidos bisbilhoteiros. no mato. sobretudo se fossem relações ilícitas. Inquisição de Lisboa. na visitação 55- ANTT. Colônia de poucas cidades e casas devassadas. nas oficinas de trabalho. no caso de relações proibidas. quiçá heréticas. de todo modo. tratando-se a sodomia de crime gravíssimo. com efeito. No entanto. por mais precárias ou promíscuas que fossem. seja por se unirem em lugares devassados. presumo que os casais se uniam sexualmente nas próprias casas. O mato. por mais que esses homens procurassem esconder seus atos. devassadas. cuja pena ordinária podia ser a morte na fogueira. posto que vigiadas. que “por uma abertura da porta. Duvido. ui.

no fundo. inclusive na igreja.297 (há nova ediçõ da Companhia das Letras. Lugares privados do prazer sexual eram poucos na Colônia. tempo em que a estrutura 56- ANTT. Em contraste com a cama e mesmo com o simples catre de madeira. teria visto a cena várias vezes. 1957. que morava na mesma casa. proibindo a entrada nas igrejas de “pessoas casadas que estiverem ausentes de seus consortes” _ documento do século XVIII. delatou o marido por possui-la sexualmente apenas pelo “vaso traseiro”. Cf. idem. exceto os atos nefandos. Nenhuma autoridade cuidava deles. Compreende-se assim o por quê de uma carta pastoral como a de D.. de algum modo. que se iniciavam muitos flertes e namoros. E talvez nem mesmo os casais se importassem que outros os ouvissem. segundo Gilberto Freyre. das festas religiosas. Era ali. Neste sentido. Caminhos e fronteiras.. Refiro-me às próprias igrejas paroquiais. como atestam as queixas de religiosos. Sérgio Buarque apresenta magnífica interpretação para o uso da rede. pela margem. que faziam o pecado numa rede. à guisa de cama. “por que não têm outra cama”. as relações sexuais ditas ilícitas iluminam. processo 2525.56. e que sua irmã.Alexandre Marques. p. em meio às missas e ofícios divinos. aqui. foram mais importantes na formação brasileira do que as paroquiais. convertidas em espaço para namoricos. apenas às capelas de engenho que. então. o santuário do catolicismo. quando não adultérios. é porque eles podiam ocorrer à vontade. José OLympio. datada de 1732. foram bons refúgios para a sedução e até para a consecução de amores profanos. As capelas. governadas. marcação de encontros proibidos. E não é de admirar que assim ocorresse.do século XVI. E não me refiro. que se os gemidos íntimos dos casais raramente chegam ao conhecimento indiscreto do historiador. em suma. Quer-me parecer. o sexo podia ser buscado e praticado em muitíssimos lugares. Mas. traições conjugais. e que simbolizam o repouso e a reclusão doméstica. no período colonial: “ A importância da rede assume para nossa população colonial prende-se. o grau de visibilidade que as relações sexuais podiam atingir na Colônia. 1994) . sendo a igreja o espaço por excelência das sociabilidades. à própria mobilidade dessa população. Afirmou. Rio de Janeiro. e até alguns documentos da Inquisição. pelos todo-poderosos senhores. afora a difícil privacidade. à morada da vila como ao sertão remoto e rude”. trastes sedentários por natureza. ela pertence tanto ao recesso do lar quanto ao tumulto da praça pública. o que mais uma vez confirma a confusão entre o sagrado e o profano nas moralidades populares. do encontro dominical das famílias.

. O avesso da confissão: o crime de solicitação no Brasil Colonial. um espaço privado que por vezes nem os casais logravam usufruir em suas casas. lugar público. por isso mesmo. Lana Lage da G. Abrigo de amantes.(org). Nas igrejas. e instando para que a população denunciasse os transgressores do sacramento58. brotavam romances. 1991.eclesiástica colonial se apresentava um pouco mais articulada do que fora até então. em 1677. pp.Lima. continha as perguntas: “a cópula tida entre os casais na igreja tem especial malícia de sacrilégio? Ainda que se faça ocultamente?”. R. constituindo. Isto sem falar nos amores homoeróticos ocorridos em mosteiros e abadias de que temos notícia pela ação inquisitorial contra o pecado nefando. Tese de doutorado apresentada à USP.1986. considerando-as crime de solicitação ad turpia asssimilável à heresia. os quais envolviam nada menos que os próprios confessores. instituição que recebia filhas de famílias ricas da Bahia. fundado em Salvador. num dos raros espaços privados de conversações amorosas e jogos eróticos. Mas no tocante aos conventos _ e os houve em pequeno número no Brasil Colonial _ historiadoras recentes têm mostrado que podiam ser. protegido pelo sigilo do sacramento da penitência. a igreja logrou converter-se.89- 106. os conventos de freiras e os recolhimentos onde maridos e pais “depositavam” esposas e filhas temporária ou permanentemente. 58. não um refúgio espiritual. Não por acaso um manual português de 1681. E nelas.Christovam de Aguirre. Lugar de culto. mas um espaço de liberdade para as filhas de patriarcas que. E tudo isto. moças que lá se abrigavam inclusive com 57-In: Vainfas. Os desejos que muitos regulares ou clérigos não conseguiam conter acabariam invadindo as casas religiosas. ficariam sujeitas à tirania dos pais e depois à dos maridos. a igreja seria também um lugar de sedução e de prazer. ocorria em absoluto segredo. Das seduções perpetradas pelos padres no refúgio do confessionário só sabemos porque a Inquisição incumbiu-se de perseguilas. muitas vezes. História e sexualidade no Brasil. justificando o delicioso título de um artigo que sobre isto se escreveu: “Deus dá licença ao diabo”57. vale dizer. Graal. É o caso do Convento de Santa Clara do Desterro. portanto. pois o dote a ser pago não era pequeno. em certas circunstâncias. Rio de Janeiro. se abrigavam os amantes _ o que longe estava de ser um originalidade colonial. havendo registros desses fatos em Portugal e noutros países europeus desde a Idade Média. o de D. de outro modo.

1994. . adentrando-o sorrateiramente pelo alçapão da igreja. que ali buscavam desviar-se dos múltiplos olhares indiscretos. acrescentando: “Por que com frades dormis aos pares/ e tendes ódio dos seculares?”. capelas e igrejas. Palavras de amor e tratos ilícitos nos recolhimentos.251. Ver também. dos enlaces eróticos em capelas de engenho aos deleites no claustro dos conventos ou na vida pretensamente austera dos recolhimentos. 1993. Só para citar um caso. além de tratos desonestos e de pedir ósculos”61. abrigava toda a sorte de enlaces sexuais e casos de paixão. Leila M. pp. Rio de Janeiro. Secretaria de Educação e Cultura.54(2):209232. apesar da clausura imposta às freiras. foram refúgio banal de amantes. conventos. p. A Igreja. Por outro lado.A expressão é de Araújo. acabaria flagrado com uma jovem noviça no dormitório das moças. Em ambos os casos. de “putinhas franciscanas”. expressão da sacralidade oficial. Coisa similar ocorreria nos recolhimentos. com a irreverência habitual. os matagais da terra brasílica. José Olympio/Edunb. cartas e conversações ilícitas com as reclusas. Susan. quando o capelão do convento. Rio de Janeiro.246-270. a exemplo de um caso ocorrido em meados do século XVIII.Algranti. no entanto. Gregório de Matos as chamava. A mesma Igreja que controlava e punia não era capaz de guardar seus próprios templos. O teatro dos vícios: transgressão e transigência na sociedade urbana colonial. “The social and economic role of the convent: women and nuns in Colonial Bahia. porém _ e a igreja e o mato exprimem situações-limite _ o público cedia lugar ao 59- Ver. 1993. e que no fundo faziam às vezes de conventos. Honradas e devotas: mulheres da Colônia.1974. deparamo-nos com paradoxos consideráveis. não permitia evitar. estes sim mais numerosos na Colônia. foram acusados de “trocar palavras de amor. em Minas Gerais.234. O convento das clarissas acabaria. Anna Amélia V. 60. fronteira aberta aos expansionismos. Nascimento. E assim. Hispanic American Historical Review. 1677-1890. v. devassadas como a colonização. dos namoros e flertes na missa dominical às seduções ad turpia nos confessionários. p. 61. celebrizado também pelos amores que lá tiveram lugar.escravas a seu dispor59. Patriciado e religião: as enclausuradas clarissas do Convento do Desterro da Bahia. 1677-1800”. Olhares que o estilo das casas. tratando dos “lugares do prazer” na Colônia. Salvador. José Olimpio/Edunb. por exemplo: Soeiro. os amores das “alegres freirinhas”60 eram muito comentados à época. menciono o ocorrido em 1781. Sátiras à parte. ano em que oito padres confessores do recolhimento das Macaúbas. oferecendo-os como o espaço talvez mais nitidamente privado para as intimidades na sociedade colonial. Emanuel.

Op. op. impressão discutível. inconsolável por vê-los nus nos ofícios divinos e revoltado com a excitação que as índias causavam nos portugueses62. Julgava indispensável cobrir o corpo dos nativos. desde dar-lhes a roupa sobressalente dos padres até obrigá-los a fiar seus próprios vestidos de algodão. Mas no final da Idade Média. a relação que mantinha o índio com o próprio corpo: o canibalismo. “parece ter sido prática muito comum.. da domesticidade. etc. Mas é realmente discutível. Cartas do Brasil. bem como alguns relatos de leigos. sem duvida. Não se trata de negar o que já se afirmou no início deste capítulo a propósito do sexo pluriétnico. a exemplo de Gabriel Soares. diz Norbert Elias. pelas reformas católica e protestante.49-59 N. E mesmo nas casas senhoriais. da escassez de mulher branca. . o uso da sexualidade andava longe da privacidade e podia divorciar-se.164-165. sendo comum famílias inteiras banharem-se despidas. e mesmo nos quinhentos. se nos transportamos para o mundo do século XVI. com êxito lento. 62- 63-Elias. dos enlaces entre lusos e índias. 6. pelo menos nas cidades. despiam-se inteiramente63. associar diretamente a nudez e o erotismo. costume que seria de fato combatido. em banhos públicos e rios. no verão.privado ou. pp. mais ainda. despir-se em casa antes de ir para a casa de banhos”. havendo mesmo uma tendência a considerar-se a nudez de índios e índias a principal causa de tantos pecados que grassavam na colônia nascente. para dizer o mínimo. como já disse antes. Nóbrega tudo fez para vesti-los tão logo chegou à Bahia. a menos que adotemos o rigorismo moral dos jesuítas sobre a matéria.cit. as “que não dormiam vestidas. pp. a luxúria e a nudez. Sedução e sujeição Um dos aspectos que mais chamou a atenção dos jesuítas no século XVI foi. onde várias pessoas dormiam no mesmo quarto.cit. Na própria Europa da época a nudez não era tão estigmatizada como veio a ser posteriormente. quase orgiástico. A correspondência inaciana. Os dois últimos traços apareceram certamente ligados nas queixas e vitupérios inacianos contra os costumes do que chamavam gentio. dá-nos a nítida impressão de um Brasil profundamente erótico.

os homens que bailavam para a corte francesa _ entraram em cena completamente nus..18 e 34. .. porque o “baixo” das negras era coberto pelas saias. um combate entre tupis e tabajaras. talvez. ao menos no litoral _ e nisto pesaram a cruzada jesuítica e o próprio desaparacimento dos índios na costa _ a semi-nudez da negra atravessou os séculos. expressa na multiplicação de trajes. p. Op. Protagonizaram a festa cinquenta índios recém-capturados no Brasil e um grupo de marinheiros franceses que imitava os índios _ falando bem a língua e gesticulando como os “selvagens”: todos. 1850.Elias. religiosos e viajantes europeus demonstrariam. por longa duração. Paris. erotizando-a. por exemplo. Histoire de la pudeur. N. 65- Ferdinand. A mesma estranheza erotizante que os jesuítas demonstraram no século XVI face à nudez indígena.cit. “Une fête brésilienne célebrée à Rouen en 1550”. estigmatizando-a. e nela simulou-se. o que dizer do Brasil? É preciso. pp. acautelar-se ao ler a correspondência inaciana quinhentista que.64 A Europa convivia bem com a nudez. nas fortes interdições à exibição do corpo nu e até na restrição aos banhos65. Techener. Se a nudez era relativamente banalizada na Europa quinhentista. e teria que esperar os séculos seguintes para ver triunfar a “moderna era do pudor”. sem exceção _ e eram dezenas. Catarina de Médicis e toda a corte. se a nudez da índia desapareceu com o tempo. J-C. presenciada por Henrique II. os quadris e as 64-Denis.Na França de 1550. com a exposição do corpo despido. ao insistir na nudez. nos séculos seguintes. na invenção das roupas íntimas. Paris. 66. como espetáculo. “sendo muito mais devagar nas classes baixas”66. como bem indicou Jean-Claude Bologne. pode exprimir antes o seu malestar face à exibição do corpo nativo.165. e sobretudo diante das negras com os seios à mostra. Comentando os batuques e lundus no Rio de Janeiro no início do século passado. De qualquer modo. 1986. no mínimo. Mas o processo transcorreu lentamente e teve impacto desigual na sociedade. exibindo-se os seios nus. sendo ela um traço cultural dos índios em terras tropicais e sendo eles a maioria da população em terra brasílica. Digo isto porque. e não um quadro real de frenesi sexual. pois. “uma estratégia de sedução que valorizará. OLivier Orban. Glorificavam. Bologne. disto derivando. entre outras coisas.. Mary Del Priore afirmou que os movimentos glorificavam o que ocorrria “da cintura para baixo”. em relação aos africanos. celebrou-se uma grande festa em Rouen. e não necessariamente ligada a erotismo e práticas lascivas. os colonos teriam mesmo que conviver com a nudez.

3-45. as que provocavam o desejo e a excitação nos homens. sobretudo entre índios(as) e negros (as).ed. Dois POntos. O amor em Portugal no século XVIII.A. Neste caso. a sua absoluta esterilidade”(vide as imagens de “beco”. que a palavra bunda raramente foi usada nas poucas fontes que resgatam o vocabulário “popular” no Brasil Colonial.345-346. corrente em Portugal. etc). limitando-se a fungar à maneira de gente resfriada.. ou quase nu. a glorificação brasílica da “bunda”. Ática.nádegas das brasileiras”67. Gregório de Matos. . da G. Os riscos do anacronismo e de supervalorizar o ânimo de documentos inspirados pela Igreja parecem ser. 1986.Observe-se. costume luso-brasileiro dos séculos XVII e XVIII. na primeira metade do século XVIII.. Porto. pp. “come-em-vão”. Azevedo. no qual o “enamorado” punha-se embaixo da janela da moça e não dizia nada.68 Seja como for. o importante é não supor o corpo nu. em Gregório de Matos.25 e segs. Frisando o caráter moralizante da sátira gregoriana. o que por si só ilumina as relações entre a erotização das nádegas e a cultura negra (bantu. “o que determina a abominação da sodomia é. recorreu várias vezes às palavras portuguesas“cu”. Mary del. 2a. adúlteros e padres. 67- Priore. Chardron. por exemplo. ao que se poderia seguir. 68. basicamente. Por outro lado. Lana L. eram as partes cobertas. Mulheres. por uma cadeia de tosses. muito altos. Thales de. ao menos nas cidades. 69 Ver. se tem razão a autora. que podia ser cotidianamente exibido na Colônia. como prova de uma excitação sexual permanente ou de uma Colônia fortemente erotizada. por exemplo: Dantas. mencionou-a uma vez (até onde sei. há registro de estratégias de sedução que soariam pouco familiares ou mesmo pueris aos olhos de hoje. em contrapartida. v. mormente as traseiras. e deslocando nossa atenção para o “mundo dos brancos”. J. 1917. Op. que não hesitava em utilizar vocábulos chulos em suas sátiras. p90. e não as desnudas.(org). Mas vale dizer que o vocábulo bunda é corruptela da palavra quimbundo (bantu) mbunda. sobre o que já muito se escreveu. no caso) na etnohistória da sexualidade brasileira. etc. aqui. quem sabe. In: Lima. fosse a “declaração correspondida”. suspirantes. “Mulher e sentimento na iconografia do século XIX”. É o caso do “namoro do escarrinho”. Consistia em passarem os homens a distribuir piscadelas d’olhos e a fazerem gestos sutis com as mãos ou boca para as mulheres que se postavam à janela. o que justificaria.Hansen afirmou que. É o caso do “namoro do bufarinheiro” descrito por Júlio Dantas. porém. assoar de narizes e até cuspadelas69. fazendo-o quase sempre para reprovar e estigmatizar a sodomia e o próprio “vaso prepóstero”. As regras do namoro à moda antiga. o que pode ser revelador de uma presença ainda modesta do vocabulário quimbundo na Bahia seiscentista). pp. “rabo”. São Paulo. e talvez no Brasil.I. como se fossem eles bufarinheiros a anunciar seus produtos.cit. em dias de procissão religiosa. Júlio. Rio de Janeiro. pp.

.Escapa-nos. E antes de concluirmos.cit. sobre atos sexuais praticados por casais através de colchas. Refiro-me. mas registro que. não se despem completamente. L. “abaixam calções” “arriam fraldas”. e um simples “escarrinho” conter mensagens de sedução.cit. 7071 Apud Algranti. apesar de imprecisa. vale registrar para o leitor: “Houve exageros verdadeiramente mórbidos de discrição ou pudor (na vida sexual do brasileiro antigo). o namoro à janela das moças não desapareceu de todo.. em certas confissões. e não da norma. inexiste menção a roupas. p. para não deixar de fora. A primeira observação diz respeito à relação entre nudez e atos sexuais. as “freirinhas alegres” que se penduravam nas grades dos conventos (que por isso mesmo soíam ter ferros pontiagudos na perpendicular. enfim. Por outro lado.p. antes de tudo. lembremos do ditado “Mulher janeleira. de parte a parte. A saída é refugiar-se nas fontes em série. a propósito. processando-se entre eles o ato sexual vedado por uma colcha com orifício no meio: evitava-se assim não só o contato direto do corpo como a revelação da nudez”. que nunca se viram despidos na intimidade das alcovas. Os indivíduos “levantam a camisa”. mas sabe-se que. esmiuçar exemplos específicos. Ao que se poderia acrescentar “gradeira”. inclusive os raros do século XVI envolvendo mulheres. sem trocadilho. . sem falar nas variações de tempo e espaço. aos processos relativos à sodomia.402.). no interior do Brasil. por exemplo. portanto. são capazes de sugerir um olhar microscópico sobre as intimidades do passado. auscultar os sentimentos e os apelos eróticos da sociedade colonial sendo as fontes tão pouco numerosas e. sobretudo distorcidas. . que este distanciamento entre namorados poderia sugerir recato ou pudor. “levantam saias”. também aqui. É-nos muito difícil. totalmente. o apelo sedutor que os tais “escarrinhos” poderiam ter naquele tempo. Cônjuges. mas a profusão de relatos em que só parte da roupa é removida parece suficiente para sustentar a hipótese de relações sexuais sem nudez total71.230. apressadamente.. Op. prevalece a relação sexual sem nudez. Evitarei. até hoje. OP. M. namorada ou rameira”70. conforme sugerimos.. informação que.Gilberto Freyre informa. se a nudez cotidiana podia não ser excitante. no conjunto dos casos (do século XVI ao XVIII). que mesmo tratando de situações criminalizadas. É verdade que. pois há fortes indícios de que não era incomum as pessoas se conservarem semi-vestidas enquanto mantinham intimidades. está-se diante de uma alteridade radical que desconcerta o historiador. nos documentos da Inquisição. o que pode sugerir que os amantes estivessem despidos nestas ocasiões.

à genitalidade. isto é. O mesmo se pode dizer dos atos sexuais. onde não faltam alusões a “palavras de requebros e amores”. e nem poderiam. as fontes da Inquisição que tratam de relações sexuais devem ser analisadas com a máxima cautela porque. não mencionavam roupa alguma. que raros desses homens descreveram atos sexuais para o inquisidor. Mas os casos de sodomia são. É o caso das próprias relações homoeróticas. Seja como for. O fato de os inquisidores não darem grande atenção a esses atos _ e até minorarem as culpas nefandas quando prevaleciam as “molícies” no lugar da “consumada penetração _ não significa que fossem eles irrelevantes nas intimidades vivenciadas73. porque as índias andavam mesmo nuas72.No entanto. é preciso não esquecer que tais casos referem-se à sodomia. implicando a erotização das mãos e da boca. por assim dizer. mas incluíam toques e outros afagos. Mas se lidas nas entrelinhas. relação altamente perigosa para os amantes. uma vez instados a falar sobre seus atos com índias. mas que obviamente não dizem respeito à dita “norma”. passível de ser flagrada por um olheiro pronto a denunciá-la ao Santo Ofício. são fontes que. seja entre homens. homens que. os resultados podem ser diferentes. voltada sem delongas para a satisfação dos deleites. se atentarmos para os meandros das confissões e denúncias exigidas pelos inquisidores. 73-Molície era uma expressão alusiva a atos sexuais contra natura que não envolvessem cópula anal ou vaginal. Especialmente nos casos de sodomia. o que nos pode sugerir prelúdios eróticos e carícias entre os amantes. posto que a matéria fundamental da arguição residia na maneira pela qual eles haviam dito que a fornicação não era pecado mortal e o que pensavam sobre o assunto. seja entre mulheres. da cunilíngua. executada às pressas. . elas se direcionam fortemente para os atos de cópula. como já disse antes. que não se limitavam às penetrações. Impossível ajuizar 72- Vale dizer. aos “beijos e abraços”. A contrastar com as relações de sodomia. a exemplo da felação. etc. lembro os casos dos “fornicários” do século XVI. insuficientes para qualquer generalização sobre as vivências sexuais na sociedade colonial. podem sugerir uma vivência sexual muito crua. da masturbação solitária ou a dois. não raro com um mínimo de privacidade. penetração e ejaculação. vivência pouco erotizada e muito ligada. a meu ver. às relações heterossexuais. Antes de tudo porque a imensa maioria dos casos diz respeito a relações de homossexualismo masculino _ relações muito importantes e vivenciadas. atitudes que mais interessavam aos inquisidores no exame das culpas. porém. se lidas superficialmente.

com alguma razão. Seja como for. ao “solicitar”. . no corpo das mulheres. perguntavam até sobre o tamanho do pênis dos maridos. ou seja. Costumavam fazê-lo ao ouvirem confissões sobre pecados de lúxuria. salvo por esta última ressalva. da parte dos homens. E outro que. e passando das palavras aos gestos. que a chamada solicitação também configura uma situação-limite. No entanto. ao que parece.565-578. de “palavras em 74-Ver Lima. os exemplos dos solicitantes iluminam um território de sedução onde salta à vista a ocorrência. estimulando-os a perguntar sobre o que ouviam pondo a mão. beijá-las.da G. Houve um que. prevalecia. agiam.sobre o que podiam ser as intimidades entre homens e mulheres a partir do que faziam os homens entre si. Todos os exemplos são do século XVIII. se os homens envolvidos eram sacerdotes _ homens especiais que inclusive usavam seu poder de confessores para conquistar mulheres _. por vezes. e longe de expressar qualquer “norma”. Lana L. ouvindo confissão de uma menina de doze anos. o uso de expressões chulas. Os melhores casos que a Inquisição oferece. sem grande cerimônia. cit. “meteu-lhe a língua na boca” e pediu que “lhe desse a língua para chupar”74. No tocante à linguagem. nas seduções de mulheres ocorridas no confessionário. como simples leigos em busca de prazer sexual. ninguém pôde testemunhar ter visto ou ouvido um padre tentar seduzir uma mulher em confissão. a solicitação tem a seu favor. como campo de investigação. não hesitou em perguntar se ela “ainda tinha o seu cabaço”. na fala sedutora dos solicitantes. agarrá-las. Na documentação inquisitorial não faltam exemplos de homens _ que de padres só tinham a batina _ useiros em apalpar os seios das mulheres. meter suas mãos por debaixo das saias. se tinham “vaso grande ou pequeno” e. reconheça-se que. Examinando estes casos.. ouvindo confissões de mulheres casadas. Op. a invectiva direta: aconselhavam às mulheres que se masturbassem. perguntavam-lhes se queriam pecar com eles. se tinham elas “comoção nas partes pudendas” e se porventura as “poluíam”. Mesmo na devassada Colônia. talvez residam nos exemplos de solicitação. o fato de que envolvia relações entre homens e mulheres na situação a mais privada e secreta possível. neste sentido. pp. E. É verdade. o que pelo visto excitava-os. por outro lado. desejoso de uma penitente. Lana Lage observou que não era incomum. Poder-se-ia dizer. constituía uma intolerável transgressão ao sacramento da penitência. de uma linguagem e de uma gestualidade que hoje consideraríamos chula e despudorada.

enfim.. mandavam as moças denunciarem os transgressores à Inquisição _ o que sugere que os gestos e palavras obscenas dos solicitantes podiam mesmo constrangê-las. se tomarmos Gregório de Matos como porta-voz da “linguagem da rua”. Ao sul do corpo: condição feminina. nas falas populares que davam pênis a Cristo ou sexualizavam a Virgem de forma desabrida e espontânea. etc. ao tomarem conhecimento do que faziam certos colegas de ofício. maternidades e mentalidades no Brasil Colônia. que tais casos de sedução referem-se a promessas de casamento não cumpridas. Examinando “casos de sedução” em São Paulo. Mary del. sendo totalmente incomuns os clichês assépticos que predominam nas fontes oficiais dos letrados da Igreja. N. verbal ou gestual. “meu coração”. que o uso de palavrões era bem difundido. também. de termos. tanto é que acabavam denunciando os ousados confessores ao Santo Ofício. .187. Era menor a vergonha associada à sexualidade”75. Padres zelosos que. Os próprios solicitantes podiam ser mais cortezes do que o habitual.português” para aludir às partes genitais. p. Mas cabe perguntar: ficavam chocadas com os gestos obscenos e com as palavras chulas ou com o fato de serem padres os que agiam e falavam desse modo? Difícil responder. Rio de Janeiro. Já vimos ocorrer algo similar em outra parte deste capítulo. “meu benzinho da minh’alma”. que naquele tempo “as pessoas falavam em geral com mais franqueza sobre os vários aspectos da vida instintiva e cediam mais livremente aos seus próprios impulsos em atos e palavras. o padrão chulo na linguagem sedutora não parece ter reinado exclusiva e absolutamente na sociedade colonial. José Olimpio/Edunb. porém. É claro que muitas mulheres ficavam chocadas ao ouvirem tais gestos e palavras. que hoje chamaríamos de palavrões. porque várias mulheres insistiam nisso ao acusarem os solicitantes. baseada em Norbert Elias. Já vimos. tocando levemente na palma da mão 7576- Elias. pp. embora só saibamos de tais “excessos” de linguagem erótica.72-73. no século XVIII. cit. Priore. homens que tinham relações pré-nupciais com mulheres e depois desistiam de esposá-las. Del Priore arrolou inúmeras expressões de carinho e mimo que podiam ser ditas às mulheres: “eu hei de casar com você”. Cabe lembrar.573-574. tudo acompanhado de presentinhos como corações de ouro. Seja como for. fitinhas. 1993. “laranjas e palmitos” e mais coisas que sinalizavam dádiva amorosa naquele tempo e lugar76. fazendo-o não raro por instância de outros confessores menos afoitos e cobiçosos. sendo que o questionamento de Lana Lage acha-se às pp. Lana Lage nos adverte. isto é. Op. Por outro lado.

Apaixonou-se por um de seus alunos e lhe mandava bilhetes. a escravidão e o racismo de que tratamos anteriormente.cit. desafiando a Inquisição78. do juízo de Luiz Mott sobre o assunto.. Op. etc77. um rapaz que ensinava latim e linguagem para os filhos dos moradores de uma freguezia em São João del Rei. Bilhetes amorosos. Luiz. Luiz. biografado por Luiz Mott. meu amorzinho. passando raminhos por entre as grades do confessionário.. para quem “a clandestinidade.. e com isso perder de vista as linhas de força do colonialismo que. In: Virgens. no século XVIII. 79. Antes de tudo. reiterando. Afasto-me. Cadernos de Pesquisa. pp.cit. “Relações raciais entre homossexuais no Brasil Colonial”.. palavras enamoradas. Não é o que se pode ver no comportamento de diversos senhores que coagiam seus escravos a práticas sodomíticas variadas.cit. 80. num dos quais dizia: “Luiz. Mas não nos deixemos levar pelas tentações do olhar microscópico. tabaqueiro na Bahia seiscentista. com certeza. abraçava-o.. presenteava-o e penteava-lhe os cabelos à vista dos vizinhos. mesmo nos processos de sodomia masculina... p. 1990.das moças.594 e 599.75-130. oferecendo flores.35. . É o que se vê no caso de um certo Luiz Delgado. São Paulo. relações que nada tinham de “libertárias”. minha vidinha! Vinde para o bananal que eu já lá vou com a garrafinha de aguardente. Luiz. São Paulo. manifestações expressivas de carinho e afeto entre os amantes do mesmo sexo. Lana L. sem dispensar 7778- Lima. inclusive nas relações de homossexualismo masculino. pp.Mott. “Cupido na sala de aula: pedofilia e pederastia no Brasil antigo”. Op. Fundação Carlos Chagas..Mott. segredo e discrição a que deviam se submeter os homossexuais forçava-os a uma certa coalescência e cumplicidade que neutralizava as barreiras de raça e mesmo de hierarquia social”80. imprimiram sua marca nas relações amorosas do passado. “Desventuras de um sodomita português no Brasil seiscentista” In: O sexo proibido.”79.. op. tudo isto conviveu com o palavreado chulo e com os gestos obscenos no dia-a-dia das seduções e deleites sexuais da Colônia. para escandâlo destes. neste ponto. com absoluta nitidez no conjunto das vivências amorosas e sexuais de outrora. escapam. documentos tão fortemente “sexualizados” pelas obssessões inquisitoriais.. É também o caso de um certo João de Carvalho.. homem que andava “ombro a ombro” com seu criado e amante. Enfim. Vê-se-os. Mott. no conjunto. os princípios de hierarquia e os padrões discriminatórios da socidade colonial. aqui e ali.

na documentação inquisitorial. Rio de Janeiro. Brasiliense. Op. Maria B. penetrando-as “pelo vaso traseiro” por estar bêbado82. prevaleceu nestas relações.C. mas houve mesmo um padre. no Pará do século XVIII. a dar abrigo a andarilhos sem pousada. relações sexuais com meninas de seis ou sete anos.159-175.Aries. não havia o sentimento de infância. como de resto não o havia sequer no Ocidente.151-194. Op. na sociedade colonial. a leitura históricoantropológica até aqui adotada. 8182- Vainfas. portanto. . In: Bruschini. Assim. a prometerem dádivas que não cumpriam. como se vê nos processos de divórcio84 e na obsessão das esposas em “acalmar” seus maridos por meio de magias. a violência deste padre não pode causar senão horror. et alii. mulheres sumariamente assassinadas por mera suspeita de adultério. a meu ver. no século XVIII. segundo bem demonstrou Aries em seu livro pioneiro83. Vivência. p. 84..cit. pp. eis o que. em troca de favores sexuais. “O divórcio na capitania de São Paulo”.cit. Observe-se que o único crime admitido pelo padre é o de sodomia _ e somente este. M. no caso. 83. promessas de casamento não cumpridas. Zahar. R. violentados por homens maduros sem nenhum drama de consciência.A. Ph.Nizza da. por apenas um instante. por exemplo: Silva. real ou simbólica. como no processo de Francisco Serrão de Castro. 1980. no caso. São Paulo.. interessava ao visitador ouvir. E o que dizer de um certo Frei Luís de Nazaré. História social da criança e da família. era o ato nefando.. marcadas antes de tudo pela misoginia: maus-tratos de todo tipo. Exemplo maior de como a violência podia temperar as relações sexuais na Colônia encontra-se. convidando-os depois ao pecado nefando81. no estupro de crianças. Dir-se-á que. a meu ver. fiéis à hierarquia social erigida no trópico: homens a violentar seus escravos e os alheios.Para este assunto ver. Abuso sexual de cativos e exploração da miséria. em duas ocasiões.. Araújo. homem de 46 anos. se poderia estender. sete e oito anos aparecem. Jácome de Queiróz. carmelita da Bahia que.pp. Mas se deixarmos de lado. 1981. seria anacrônico falar em violação de crianças quando a única transgressão reconhecida.217. às relações heterossexuais. E. Trópico. É verdade. que confessou ao visitador quinhentista ter mantido. O mais das vezes são senhores sodomizando molequinhos de tenra idade.a violência física e por vezes levando à morte dezenas de escravos que não passavam de meninos. A mesma violência. Meninos e meninas de seis.

86. onde o sexo praticado nas redes podia implicar afetos ou violências. para as quais reservavam galanteios e palavras amorosas86. depois. diziam que as índias e negras eram mulheres sem honra e por isso passíveis de fornicação sem culpa. Acrescente-se à manipulação da “rudeza” atribuída às mulheres (pelos homens) o tradicional racismo que. mas também.Lima. eram dirigidos às negras forras. Afinal. seus gestos mais desabridos.. De igual modo.. o ajuizamento do historiador depende do ponto de observação. Op. . Sedução e sujeição: assim intitulamos este último ítem do capítulo.”85.. por exemplo. e. por meio dele. Op. Inferno. Afinal. Laura de M. 85-Souza. “O padre e as feiticeiras: notas sobre sexualidade no Brasil Colonial”. e delas exigia segredo porque “o remédio” era bom e vinha de Deus ? Defendendo-se. Lana Lage. paixão dos “mistérios dolorosos”. pregando aos escravos no século XVII. retornando ao olhar macro-histórico com que iniciamos o capítulo. foi mesmo entre a sujeição do mundo dos engenhos _ trapiches ou monjolos _ e a doçura das redes.e pouco secretas _ lograram escapar. cit. Vieira que o diga. que se forjaram as intimidades coloniais. como sugere Sérgio Buarque. Mescla concreta. o olhar de conjunto não dá margem a ilusões: os afagos e deleites cedem lugar às tensões e conflitos de que nem as “moralidades secretas” .cit.ancorado em seus supostos poderes de exorcista. e quase nunca às mulheres brancas. pensavam os solicitantes _ e eram padres! -. matos ou catres estreitos.. na conversa dos “fornicários” que. desde o século XVI. ao que tudo indica. “curava” mulheres doentes mantendo com elas cópulas ou mesmo violentando-as. às pardas e às mulheres pobres. In: História e sexualidade. Racismo expresso. campeou em toda parte.9-18. p. do processo que lhe moveu a Inquisição. procurando resumir. porém doce.. como o “mel das abelhas” e os “mistérios gloriosos” da ressurreição.. em nosso caso..595. E com isso se pode concluir. a mobilidade típica de uma população de fronteira _ múltiplas fronteiras. pois chegou a chamar o engenho de “doce inferno”. E. pp. pois seus convites diretos. Mescla que podia ser também barroca. Frei Luís não hesitou em dizer que não fazia aquilo por heresia e justificou-se dizendo que as mulheres do Brasil “eram rudes e simples”. as linhas de força do colonialismo mescladas à vida íntima e erótica de nosso passado colonial. apesar de Gilberto Freyre. e da escala em que a sociedade é observada. “e facilmente se enganam com qualquer cousa que lhes dizem.

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