LUÍS ALONSO SCHÖKEL

I

B ÍB L IA D O P E R E G R IN O NOVO TESTAMENTO

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Titulo original
Biblia d e l peregrino
-

Nuevo Testamento

-

Edición de <■ ■ ■ ti i<1¡. ■

Ega - Mensajero - Verbo Divino © Luís Alonso Schoke!, 1996 Colaborador para a edigáo espanhola (1-2Cor)
José M aría Pérez Escobar

Edigáo brasileira
Tradugáo do texto bíblico
José B ortolini e ivo Stornioio

Tradugáo do vocabuiário, introdugóes e notas
José Raim undo Vidigal

Revisáo literária
José D ias G ouiart

Revisáo técnica e tradugáo dos acréscimos ás notas dos evitm
José B ortolini

Revisáo tipográfica
Jeam Carlos Lopes

Capa
Cláudio Pastro

Com aprovagáo eclesiástica Carta protocolar ns 0403/99

© PAULUS - 2000 Rua Francisco Cruz, 229 04117-091 Säo Paulo (Brasil) Fax (0...11) 570-3627 Tel. (0...11) 5084-3066 http://www.paulus.org.br dir.editorial@paulus.org.br ISBN 85-349-1598-9 (encadernada) ISBN 85-349-1632-2 (brochura)

ÍNDICE

4brrviaturas l'it'fácio à ediqáo brasileira Prólogo Viinibulário de notas tem áticas do N ovo Testamento ^ nitf’elho segundo M ateus t vmi^clho segundo M arcos > vini)',dho segundo Lucas ( Viiii);clho segundo Joáo Alus dos Apóstalos i mía aos Romanos hlnicira carta aos Corintios •si finida carta aos Corintios i min aos Gálatas t mía aos Efésios i mía aos Filipenses i mía aos Colossenses l't in ir ira carta aos Tessalonicenses •»numida carta aos Tessalonicenses hlnicira carta a Timoteo fci.^imda carta a Timoteo I mia a Tito i mia a Filemon i mía aos Hebreus i mía de Tiago l'ilinnia carta de Pedro ti*.pínula carta de Pedro hlini'iia carta de Joáo carta de Joáo |n , n ía carta de Joáo I mía de Judas A|im alipse
A l’iilcstina no tempo de Jesús A > i Viagens de Sáo Paulo

ABREVIATURAS
G é n e sis............................... ..............Gn E xodo.................................. ...............Ex L evítico............................... ...............Lv N ú m e ro s............................ .............Nm D euteronòm io................... ...............Dt Josué ................................... ................ Js J u íz e s .................................. ................ Jz R ute...................................... ................Rt S a m u e l................................ .. lSm , 2Sm R e is...................................... .... 1Rs, 2Rs ('ro ñ ic a s .................................. ICr, 2Cr Esdras ................................. ............. Esd N eem ias..............................................Ne Tobias.................................. ................Tb Judite................................... .................Jd E ste r.................................... ...............Est M acabeus........................... lM c, 2Mc .................Jó S a lm o s ................................ ............... SI Provérbios.......................... .................Pr Ecl C àntico.................................................Ct S ab ed o ria........................... ................Sb Eclesiástico (Ben S irac)............... Eclo Isaías ................................... .................Is Je re m ía s............................. .................Jr L am entagóes..................... ...............Lm B aruc.................................. ................Br E zeq u iel.......... .................. ................Ez Daniel ................................ ............... Dn O s é ia s ................................ ................Os Jo e !................................. A m os............................. A b d ia s........................... J o ñ a s ............................. M iq u éia s....................... Naum ............................ Habacuc ........................ ..... S o fo n ias........................ A g e u ............................. Z acarías......................... Malaquias ....................

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E m ordern alfabética: Ab Ag Am Ap At Br Abdias Ageu Amos Apocalipse Atos dos Apóstolos Baruc IC r 2Cr Ct Dn Dt Ecl Eclo Ef Esd Primeiro livro das Crónicas Segundo livro das Crónicas Càntico dos Cánticos Daniel Deuteronòmio Eclesiastes Eclesiástico (Ben Sirac) Efésios Esdras

C1 Colossenses ICor Prim eira carta aos Corintios 2Cor Segunda carta aos Corintios

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ABREVIATURAS

M líster h lixodo h 1 /cquiel II l ’il ¡penses hn l'ilemon Hl ( ¡álatas (Im (¡Cnesis IM' 1 labacuc III' 1 lebreus

MI Mq Mt Na Ne Nm Os

M alaquias M iquéias Evangelho de Sáo M ateus Naum N eem ias Números Oséias

Isaías Carta de Sao Judas Joel Joñas Jó Evangelho de Sao Joáo Primeira carta de Sao Joáo Segunda carta de Sao Joáo Terceira carta de Sáo Joáo Jeremías Livro de Josué Judite Livro dos Juízes

lP d Primeira carta de Sáo Pedro 2Pd Segunda carta de Sáo Pedro Pr Provérbios Rm Carta aos Romanos IR s Primeiro livro dos Reis 2 Rs Segundo livro dos Reis Rt Rute Sb Sf SI ISm 2Sm Sabedoria Sofonias Salmos Primeiro livro de Samuel Segundo livro de Samuel

iil II In Jó Jo II» »'Jo Uo Jr Is Jt Jz

Ix Evangelho de Sáo Lucas Lm Lamentagóes l.v Levítico Mc Evangelho de Sáo Marcos IMc Primeiro livro dos M acabeus ,’Mc Segundo livro dos M acabeus

Tb Tobías Tg Carta de Sáo Tiago lT m Prim eira carta a Timoteo 2Tm Segunda carta a Timoteo lT s Primeira carta aosTessalonicenses 2Ts Segunda carta aosTessalonicenses Tt Carta a Tito Zc Zacarías

A s citaqóes sao feita s do seguinte m odo: A vírgula separa capítulo de versículo. Exem plo: Gn 3,1 (livro do Génesis, capítulo 3, versículo 1); o ponto I'ejvírgula separa capítulos e livros. Exemplo: Gn 5,1-7; 6 ,8 ; Ex 2,3 (livro do Génesis, capítulo 5, versículos de 1 a 7; capítulo 6 , versículo 8 ; livro do Éxodo, capítulo 2, versículo 3); o ponto separa versículo de versículo, quando nao seguidos. Exempio: 2Mc 3,2.5.7-9 (segundo livro dos Macabeus, capítulo 3, versículos 2, 5 e de 7 a 9); o hífen indica seqüéncia de capítulos (— ) ou de versículos (-). Exemplo: Jo 3— 5; 2Tm 2,1-6; Mt 1,5-12,9 (evangelho segundo Sao Joáo, capítulos de 3 a 5; segunda carta a Timoteo, capítulo 2, versículos de 1 a 6 ; evangelho de Sao Mateus, do capítulo 1, versículo 5 ao capítulo 12, versículo 9).

O utras abreviaturas: a.C. Antes de Cristo cap. (caps.) Capitulo(s) d.C. Depois de Cristo LXX Versäo dos Setenta (Septuaginta) ms. par. s (ss) v. (vv.) M anuscrito(s) paralelo(s) Seguinte(s) Versiculo(s)

O B SE R V A L E S

N otas

As notas de rodapé foram escritas com dupla intengáo: exegética e teológico pastoral. Assim, pois, partindo da com preensáo exegética, que esclarece a com preensáo do texto, tais notas se abrem á in terp retad o teológico-pastoral, na qual nao falta o eco do Antigo Testamento, as vezes para ilustrar o tema e outras pau contras tá-lot As alternativas de tradugáo se encontram ñas próprias notas. Paralelos I lá lugares paralelos de perícope (entre paréntesis depois de cada título ou segin i do texto) ou de versículo (incluidos ñas notas de rodapé).

PREFACIO A EDIQAO BRASILEIRA
l)uas frases de Isaías ajudam a enI¡‘líder p o r que aparece no Brasil mais nina versáo da Biblia, nascida da comIniéncia do saadoso Luís Alonso Schókel (1020-1998). A prim eira fra se o profelu a endereqa aJerusalém que está para ilar à luz multidóes: “A um ente o espa­ do de sua tenda, ligeira estenda a lona, estique as cordas, fin q u e as estacas, ¡>orque voce vai se estender para a di­ mita e para a esquerda... ” (Is 54,2-3a). Aumentar o espago da tenda e estenilcr-se para todos os lados como resul­ tado da fecundidade que vem de Deus: cis a prim eira razáo. A segunda frase dirige-se a todos os que se consideram filh o s e filh a s d eJerusalém: “Voces poderáo ornamentar­ se nela até ficarem satisfeitos com a consolagao que eia tem; sugaráo com satisfagao a abundancia do seu seio ” (Is 66,11). A Biblia é nossa m áe comum, e quanto mais a conhecemos, mais dela nos alimentamos e vivemos. E o segun­ do motivo. D e fato, ainda nao havia aparecido em nosso país um texto bíbli­ co com tal quantidade de notas, realqando a riqueza da Sagrada Escritura. Por isso PAULUS E ditora decidiu publicar a presente versáo, a fim de que mais pessoas aumentem sua fam iliaridade com a Palavra de Deus, à semeIhanqa da fam iliaridade que Pe. A lonso tinha com eia. D e fato, a Biblia do pe­ regrino amadureceu após 25 anos de traballio, estudo e contemplagáo. Nela se encontra sua alma de poeta, místico e sabio. N esse m anancial se alimentaram várias geraqóes, e muitas outras “sugaráo com satisfaqáo a abundáncia ” dessa sabedoria contemplativa. Quando decidiu-se publicar no Bra­ sil essa versáo, Pe. Alonso já havia pre­ parado muitos acréscimos as notas dos evangelhos (quase um tergo a mais em relagáo as notas da prim eira edigáo es­ p a n tó la ). Na presente versáo já incor­ poram os esses acréscimos. Na traduqáo, sempre quepossível con­ servam os o estilo e as opgdes textuais do Pe. Alonso, introduzindo mudangas som ente quando estritamente necessárias. Na revisáo técnica, sempre que possível harm onizam os notas e texto bíblico. A medida que os anos iam passando, Pe. Alonso foiperdendo a visáo. Longe de se lamentar, fo i aprendendo, como dizia, a “ler menos e a contemplar mais E com essa proposta que a Biblia do peregrino chega ás máos do leitor brasileiro: como làmpada para os pés e luz para o caminho (cf. SI 119,105) ; náo somente o caminho do corpo, mas, igual­ mente, para o caminho da alma, pois eia também é peregrina e nos ensilla a desejar: “Como a corqa bramindo por águas correntes, assim minha alma está bramindo p o r ti, ó meu D eus! M inha alma tem sede de Deus, do Deus vivo: quando voltarei a ver a fa ce de Deus ? ” (SI 42,2-3). Os Editores

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PRÓLOGO
/ u. comentário vem singelam ente , ni'iii um lugar num trem que há temjhi t'••hi ululando. N ao é m uito volutno«ii /h >n¡ue nao desenvolve as explica•ii \ < • está redigido em estilo conciso. i i'ln ar equivale a des-dobrar: um len11/«’stlabrado ocupa mais centímetros ifuiiilnidos que um dobrado. E eu deitii no leitor o trabalho de desdobrar. i luíais comentadores dispdem de mais ri/mqo e podem discutir opinióes e es, Iniecer sem pressa. D estinaram -m e ¡mucaspáginas: tenho de oferecer ma1 . 1 mi abundante sem desenvolvé-lo, , iiniiciar muitas opinióes sem discuti1 .1s Digo o mesmo do estilo. H oje em ilui as pessoas do Primeiro M undo se \ubmetem quase obsessivam ente a tral,tinentos ou dietas para emagrecer. Eu i mitrolei minha natureza e a subm eti a nina dieta rigorosa de palavras. D esse modo, o comentário vem a ser como um disquete de alta densidade, como um ( I) no qual cabem várias sinfonías de Hruckner. Sem dúvida, isso dificulta a tarefa do leitor; mas este livro nao ép a ra um lei­ tor, é para um estudante ou estudioso. I. urna ediqao de estudo. N ao é livro de leitura; oferece material abundante a quem quiser trabalhar. Também é livro de consulta, ao menos deprim eira con­ sulta. Apresenta o texto bíblico com o comentário, de modo que avancem p or trilhos paralelos: desde a Genealogía de Jesús Cristo até o Vem, Senhor Je­ sús do Apocalipse. Também é livro de meditaqáo: ao leitor fie l oferece sua ressonancia pessoal, am plifica suas sugestóes, compóe variagóes sobre seus temas. D iga m o s algo do conteúdo. Urna grande quantidade, e m esm o a maioria dos dados deste comentário, épa rtilhada. Os exegetas de profissao habitam o territorio nacional, p elo que
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discorrem sem demarcar propriedades privadas. Poderáo variar a seleçâo de dados, a ênfase ou acento e a form ulaçâo. Sem terem entrado em acordo, m uitos comentários coincidem, porque os autores já estavam de acordo antes de escrever. O meu comentário avança com a corrente geral, no rumo já tra­ gado p o r muitos. Concretamente, por urna regido mediana ou moderada. O m eu mentor, colocando-se no lugar de um leitor médio, recomendou-me evi­ tar hipóteses mais audazes ou chocan­ tes. Confesso-o, para tranqiiilidade de m uitos leitores, porém e m ais ainda para nao desautorizar outros comenta­ dores que aceitam o risco das hipóte­ ses com o desejo de progredir na compreensáo. Nao sendo especialista do N T nem de qualquer um de seus livros, eu m e senti mais independente de outros comentadores nos conteúdos, embora livre na formulaçâo. Essa minha limitaçâo confessa é o que define o perfil deste comentário. Sou e tenho sido po r muitos anos espe­ cialista do AT, professor de teología bíblica, quer dizer, de temas sintéticos; e autor de ampios comentários a m ui­ tos livros do AT. Como habitante espi­ ritual do AT, reli amplamente, meditei e estudei o NT; e creio ter encontrado nele algumas ressonáncias nao apontadas p o r outros: padróes ou estruturas, imagens e símbolos, instituiçôes, conceitos, expressóes semíticas. M eu pressuposto hermenêutico é que os autores do N T tinham como pátria espiritual os livros que nós chamamos A ntigo Testamento, e que eles denominavam Escritura ou L ei e Profetas ou designavam com o nom e de Moisés, D avi etc. A s citaçôes expressas sâo a m anifestaçâo palpável dessa nacionalidade bíblica. N a constituiçâo conci­ liar Dei Verbum descreve-se o Antigo

PRÓLOGO

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Testamento como preparando, profecía e prefiguraqáo. A s citaqóes do A T no N ovo demonstram com que amplidüo de critérios os autores consideravam a profecía e a prefiguraqño. Essa liberdade nos orienta, ensina e nos convida a ampliar o raio de correspondencias. O que elesfaziam inspirados, nós o fazem os com modèstia e confianqa. Nao menos importante é a linguagem na qual tomam form a com unicável o anuncio e a reflexao sobre o acontecimento de Jesús Cristo, sua pessoa, obra e doutrina. Entre as “preparaqóes ” do AT, urna bastante importante fo i p re­ parar a linguagem para expressar a nova revelaqào. Pois bem, um escritor em geral náo está refletidamente cons­ ciente de influxos ou reminiscencias. O que ele assimilou, ao longo de sua vida e carreira, pode emergir a certa altura sem que ele se de conta. N ós Ihe perguntamos ao encontrá-lo: — E vocepensou nisto quando escrevia essa p á g i­ na ? — Náo. M as eu o conhecia, e agora que voce me aponía isto, creio que tem razáo: fo i a reminiscencia que agiu. Para escutar esse tim bre ou acento particular, do A n tig o Testamento no Novo, épreciso ter fam iliaridade e treinamento: é o que eu quis trazer. Outros se fixam m ais na mediaqáo das versóes parafrásticas — targuns — ou nos com entários midráxicos. E le­ gítimo, porém os autores do N T citam diretamente da versào grega corrente — os Setenta — e alguns mostram conhecer o o rig in a l hebraico. O utros comentadores dúo grande destaque a paralelos da comunidade de Qumrñ, de escritos rabínicos e gregos, inclusive do gnosticism o incipiente. E útil tudo quanto possa esclarecer, embora náo

haja dependencia. P i\n ,ir . n.i paqo m ais am pio para cuín i ,u ■V contexto doAT: ás vezes ¡un ....... h, .1 outras para ilustrar ou />.//., ■ tar. O que nao posso é subita 1.7 1 .i.hj caso a urna análise, nem aduzir o texto integral da \ /ni ,.■. aludidas. Essa deve ser utnii ,1........ fa s do usuàrio, com a (¡mil ir ,1 .1...... brindo pessoalm ente a un ida .............. dos dois testamentos, a cuhmn,, ¡ A ntigo no Novo. A s introduqóes a cada obra ■ . /,j tivamente ampias: servem ¡ni 1,1 car aproximadamente cada tun.i ......... contexto histórico; ou para n< nll i. >m bre ele algumas hipóteses pcrhtn ■ ■ ■ Conservei nesta ediqüo o Voc m Im iI h i de notas temáticas, como instruía, m para ir conhecendo a mentalidn,!. linguagem dos autores bíblicos Q uanto ao m odo m ais freqiicith i. expor, comeqo com urna visüo 1 da perícope ou seqáo, na qual timi > . orientaqào substancial. Dentro th unidade menor me detenho quamh ». 1/ gum versículo requer urna explica^, 1,■ particular ou quando nos oferecc ul substancioso em que nos deter. Quun do o leitor desliza o olhar pela pagi ti, 1 essas linhas concisas Ihe servem ,1, advertencia: “ preste atenqáo ao que < li este versículo”, e certamente o lettm agradece porque o ajudaram a detcr se. E o que importa nao é a linha < /<> comentário, mas sim a frase bíblica que a nota aponta. O mom ento melhor do comentário < • quando o leitor o deixa na parte inferii n da página, para fica r a sos com o ten to. E a hora da verdade e da vida. L uís A lonso Schókel

VOCABULARIO d e n o t a s t e m á t ic a s DO n o v o t e s t a m e n t o
I -,ic vocabulário náo é urna concordancia: cita passagens escolhidas e signifi> iiiv.r,, tam pouco é um dicionário com pleto de teología do NT. Está concebido iiiiin u om panhar a leitura do texto com o prim eira orientagáo sum ária e para t¡ *indar passagens im portantes sobre alguns tem as seletos. O estilo é ágil, qua(i te legráfico. Para m aior inform agáo, será bom recorrer aos tratados ou dicioiiiii ios am pios de Teología Bíblica. | ( ) si nal — » rem ete á palavra que o acom panha). anjos a Cristo (Mt 28,9-17). A outros deuses é idolatria (At 7,43); à fera ou à sua estátua (Ap 13). Com freqüéncia trata-se de simples prostra­ l o expressando profundo respeito. — » Deus. — » Veneragáo. A dultèrio. Jesus confirm a o m anda­ mento (M t 5,27), o estende ao desejo (M t 5,28). Perdoa a adúltera incul­ cando a conversáo (Jo 8,1-8). — * M a­ trimonio. Agricultor. Sáo freqüentes as imagens agrícolas no NT: semeadura (Mt 13), colheita (Jo 4), semente (Jo 12,24), eomparagáo (IC or 15,37), colheita (Mt 13,41), vindima (Ap 14,10), braceiros (M t 20,1), arrendatários (M t 21,33). _ Deus agricultor (Jo 15,1). — » Traballio. Agua. Objeto ou instrumento de m ila­ gres (Mt 8,23-27; Jo 5, a piscina). De ablugóes rituais (Jo 2,1-11; 3,25); polèm ica (M e 7,1-4). Do batismo: como purificagáo (ICor 6,11; Ef 5,26s); de corpo e de espirito (Hb 10,22); comparado ao dilùvio (lP d 3,20). Sím­ bolo do — » Espirito (Jo 7,38 e 19,34; cf. Jo 5,6); no relato da Samaritana (Jo 4). — * Mar, oceano. — » Manancial. — » Nuvem. Alegría. Imagens: banquete, bodas, tesouro. Dom messiànico: junta a saudagáo grega chaire com a tradigáo profètica. De Cristo: pela revelagáo do Pai (Le 10,21 par.); por Lázaro (Jo 11,15). Pelo Messias: de A braáo (Jo

A
Aliraao. Falam da sua descendencia natural (Mt 3,9 e Jo 8,39). Modelo de lé sem -» obras (Rm 4), de fé = espelanga (Hb 11,8-19), de obras inspira­ das pela fé (Tg 2,21-23). “Seio de...” é um lugar privilegiado no banquete celeste, junto a (segundo o costume de comer reclinados em divas). Adáo. Le 3,38 faz subir a genealogía de Jesús até Adáo. Ef 5,25ss apresenta a figura de Adáo e Eva na simbologia matrimonial de Cristo e da Igreja. Rm 5 apresenta Adáo como tipo de Cristo por oposicáo. C1 1,15 alude talvez ao primeiro homem no título “primogé­ nito”. A expressáo literalista “filho do homem” parece decalque do sem i­ tismo ben ’adam = filho de Adáo (se­ gundo Ezequiel). — » Homem. — » Eva. Admiragáo, estupor, assombro, maravilha, estranheza. Sobretudo nos Evangelhos, reagáo freqüente diante do grandioso, do sobre-humano ou ines­ perado. Sujeito: Jesús (Mt 8,10; Le 7.9), geralm ente as pessoas, o povo. Objeto: os — * milagres, o ensinamento, a conduta. Estranheza (Jo 4,27; lJo 3,13). Adogáo. — » Filho. Adoragáo. No sentido estrito só a Deus (M t 4,10, cf. IC or 14,25). Náo a homens (At 10,26, a Paulo; Ap 19,10; 22.9). A Cristo (F1 2,10s; Hb 1,6); os

NOTAS TEMÁTICAS DO NT

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(anaphero Le 24,51 duvidoso; analambano At 2,2-11; hypolam bano At 1.9). Cristo aos seus (paralambano Jo 14,2). Também se usa subir (Jo 20,17; E f 4,8-10, citando SI 68,19); por isso, a ascensáo a Jerusalém é seu co m eto (Le 9,51). Joáo emprega ir, partir (poreuo , hypago 8,14; 13, 33; 14,2; 16,5). H ebreus em prega atravessar, entrar no céu, através do véu ou cortina 4,14; 6,20. — » Paixáo. — » Gloria. -» Céu. Astros. Segundo concepgoes antigas, os astros celestes determinam ou revelam os destinos humanos. O Messias tem seu astro, que os magos reconhecem (At 2,2.10). Uma constelacao de sete estrelas sao os anjos das sete igrejas (Ap 1,20). Na projegáo celeste do Ap, muitos astros celestes sao arrastados pela cauda do dragao (Ap 12,4), enquanto que a mulher é coroada de uma consteladlo nova de doze estrelas. A queda dos astros é um dado da escatologia (Mt 24,29). Astro matutino é o Messias glorificado, que se opóe á arrogancia do homem de Is 14,12. Autoridade. Humana, do centuriáo (Mt 8.9); de Herodes, jurisdiqáo (Le 23, 7). De Jesús: no seu ensinamento (Mt 7,29), para perdoar pecados (Mt 9,6), sobre os demonios (M e 3,15), para julgar (Jo 5,27), para entregar e reto­ m ar a vida (Jo 10,18). Recebida do Pai (M t 28,18) e transm itida aos dis­ cípulos (Mt 10,1). Das — > trevas (odio e morte) (Le 22,53; C1 1,13). A utoridades. (Le 12,11; Rm 13,1-3). Lista: rei — * Herodes, govem ador (ou procurador) Pilatos, Festo; — » César (= Im perador), com andos militares. — » Sum o sacerd o te, -» C onselho (Sinédrio), — » anciáos (= senadores, chefes do povo). Autoridade moral, com petencia reconhecida: fariseus, _ letrados ou juristas. A zim os. Pao e outros alim entos sem levedura. A levedura é principio de fermentagáo e por isso de corrupgáo. Exclui-se durante a semana da Páscoa. Daí Paulo tira sua ¡magem de uma vida crista sem levedura de corrupcáo (IC o r 5,5ss).

li B abilonia. Ap aprese............ •• Iònia, capital e m b lin u ii' > i IhÍ{ contra Deus e contra o ( •■ > ■ i seus, e descreve a qu< .l.i i i. m déla (Ap 18). No m esni" ...... i a Roma o nome de Bal ni...... ■>I 5.13). — > Satanás. Balaáo. Seguindo lendas Ini •11■ > i.mí que o texto bíblico, Bala-m I como modelo de doutrin.i i ii . i citagáo ao mal (2Pd 2 ,l(> M n , 2.14). B andeira, estandarte. Mt 2’l . '(> | , velmente se refere ao esimi. I m. i Jesús Cristo em sua partisi.i . ,... do uma tradigáo, a cruz. Banquete. Une no caráterfestivo h j«t» tilha social. Por isso Jesus oí ' n , banquetes rituais (páscoa) c;im iu m convites de amigos (Le 10, I ‘i m esm o de pecadores (Mt ‘1,1 o i 19,2-10). Como símbolo: o su pn do banquete no reino (Le 14,1 i escatològico das virgens ( M t ■ 1111 o do céu (Ap 3,20). Batismo. É uma imersáo ritual. De 1*. > e de Jesús, de água e do Espirilo. •l> arrependimento e perdào e de ren i cimento. Simbolismo: de ablugao » purificagáo (IC or 6,11; Ef5,26ss); 11. renascer (Jo 3,3-8; Tt 3,5; lP d I i 23); de m orrer e ressuscitar. B elzebù. Um dos nom es do diabo ou chefe dos demonios (Le 11,15-1')) insultando Jesús (Mt 10,25). De um ori ginal B a a l Zebul, deform ado mali ciosamente em Bel-zebub. — * Satanás Bem-aventuranga (= macarismo). For ma literária tradicional de felicitagao Parte substancial do manifesto de Cris to (Mt 5 e Le 6 , valores, felicidades, em vez de mandamentos ou proibi gòes). Estendida aos que créem (Jo 20,29), aos que esperam (Mt 24,46). Maria e Isabel (Le 1,45-46), a máe de Jesús (Le 11,27). Ocasióes: a provagáo (Tg 1,12); a paixáo (lP d 3,14); o banquete escatològico (Le 14,15); o casamento do Cordeiro (Ap 19,9). Béngáo. De Deus ao homem: é eficaz, ou torga dons e poderes (Ef 1,3; Mt

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IjpV M; lPd 3,9). De Cristo aos discí! M ili*is, de despedida (Le 24,50-53). .■ jtr Jesús ao Pai, sobre os páes (Mt »(4,19; Le 24,30). Do homem a Deus: ■lupressa louvor ou agradecim ento t|M e 14,16; Rm 1,25; Tg 3,9). Do íhnvo ao M essias, aclam agáo (Mt i ¡11,39, Ramos). De um homem a ou• lio, desejando-lhe um bem ou feliciImiuIo-o (Hb 7,1-7; Le 2,34, Simeáo); ; mis p erseg u id o re s (L e 6,28; Rm | I 14). — » Perdáo.

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(nlamidade. — * Praga. (Jftlice. Segundo a tradigáo do AT, pode í ser de ira ou de béngáo. De ira (Mt li 26,39; Jo 18,11); Babilonia (Ap 16, 19). De béngáo: eucarística (M e 14, I 23; IC or ll,2 5 s s , antes desse bebei se um prim eiro cálice na ceia pascal, Le 22,14-18). Oferecido aos ídolos = demonios (IC o r 10,21). Caminho. M etáfora comum (AT) de conduta, proceder. A vida nova dos cristáos cham a-se sim plesm ente O Caminho em At 9,2; 19,2; etc. Como processo rumo á meta, Cristo é o ca­ minho para o Pai (Jo 14,6); para a vida (M t 7,14); para a salvagáo (At 16,17). Os cam inhos de D eus sao seus designios, métodos e estilo (Rm 11,33). — * Mediador. Canto. Sao escassas no NT as referen­ cias musicais. De instrumentos: a alusáo a brinquedos infantis (M t 11,17), ao toque de trombeta hiperbólico (Mt 6,2), á trom beta escatológica (IC o r 15,52; lT s 4,15). Mais generoso Ap, com as sete trom betas (A p 8 ), as cítaras (Ap 5,8) e os cantos (Ap 5,9). Carisma. Dom gratuito e extraordinário, variado, repartido pelo Espirito para o bem da com unidade. Texto básico (IC o r 12-14) com enumeragao e descrigáo de alguns. Mengóes freqüentes e dispersas em At. Podemse agrupar: de conhecimento, de palavra, de agáo. Carne. É difícil determ inar conceitos na antropología semítica, que o NT em boa parte retoma. Carne (sarx,

basar) significa muitas vezes aspec­ tos de urna realidade unitaria ou pre­ dom inio de um aspecto ou dimensáo do homem. Sublinha a corporeidade, o realism o — nao fantasma — (Le 24.39); fator de relagáo: “urna carne” (Gn 2,23ss); de descendéncia “car­ nal” (Rm 1,3); da en-car-nagáo (Jo 1,14); u n iversalidade, toda carne. M uitas vezes indica a debilidade ou caducidade do homem. Pode deter­ m inar seu significado por polarizagao: sarx = o material/so/na = o or­ gánico; carne/espírito, carne/Deus, carne/redengáo (Rm 7-8; G1 5); carne/coragáo (Rm 2,28). O puramente humano: critérios, valores, interesses, o instintivo (2Cor 5,16; F1 1,6; títu­ los humanos (2Cor 11,18). — » • Corpo. — * Sangue. — ■ *Alma. Castigo. -* Retribuigáo. Cegueira. Jesús cura (Le 11,14; Jo 9). M etáfora de incapacidade ou resisténcia a crer ou com preender (Le 6.39); guias cegos (M t 23,16; Rm 2,19). -* Visáo. César. Nome próprio do primeiro ditador romano (Calígula), que se trans­ m ite e passa a significar imperador. Le 2,1 m enciona César A ugusto a propósito do recenseam ento; Jesús responde á pergunta sobre o tributo imperial (Le 20,22-25); Pilatos arris­ ca perder sua am izade (Jo 19,12); Paulo apela a seu tribunal (At 25, lls s ) . — > Autoridade. Céu. Im agina-se com o o lugar onde Deus habita; depois se usa para nao pronunciar o nome de Deus (cf. “cas­ tigo do céu”). Como destino final fe­ liz, expressa-se com diversos com ­ ponentes e imagens, como lugar ou estado, com o prémio ou dom. Festa (M t 25,21); banquete (Le 13,29), posse do reino (Mt 25,34); alegría (lP d 4.13); gloria e paz (Rm 2,6.10); assento (E f 2,6; Ap 3,21); coroa (lP d 4.13); paraíso (Le 23,43); seio de A braáo (Le 16,23). Em Ap se apresenta como cidade com a presenga e com panhia de Deus. — » Terra. Circuncisáo. Jesús observa a Lei (Le 2,21), e Paulo diz de si (F13,5). Quan-

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do os pagaos se incorporam aos crentes, surge urna disputa sobre a necessidade da circuncisáo, que se debate e se resolve no concilio de Jerusalém (At 15). Paulo a relativiza e apela a urna circuncisáo metafórica do espi­ rito. O batismo substituí a circunci­ sáo (C1 2,11). Ciúme. Inveja(Rm 13,13;T g3,14) dos judeus frente aos cristáos (At 5,17; 17,5). Paulo os provoca, buscando sua conversáo (Rm 10,10; 11,11). Ciúmes amorosos (2Cor 11,2). — » M a­ trimonio. Coleta. — * Esmola. Confianza. — * Esperanza. — * Fé. Conhecer, reconhecer, tratar: sáo tres significados do verbo grego, prolon­ gando a tradigáo do AT. Seu objetivo pode ser urna pessoa, urna verdade, um mistério, vontade etc. Positivo: dom do Espirito (IC o r 12,8); ilumi­ n a d o (2Cor 4,6). Negativo: acaba-se (1 Cor 13,8ss), incha (1 Cor 8 ,1), o amor o limita (IC or 13,2ss). Objeto: Deus (2Cor 4,6); Cristo (F1 3,8; Ef 4,13), “Eu sou” (Jo 8,28); a verdade (IT m 2,4). O - » F i l h o e o - P a i (Mt 11,27). Consagragáo. E a dedicaqáo de obje­ tos e pessoas á divindade, pela qual passam á esfera sagrada. Nao por dedicagáo externa, mas pela aceitagao de Deus e a transformagáo reali­ zada por Cristo (Jo 17,19) e pelo Es­ pirito (IC o r 3,16). — * Santidade. C on sciencia. P sicológica: expressa como coragáo ou — * espirito (kardia, pneum d). Ética e religiosa: em cons­ ciencia (Rm 13,5), boa (At 23,1; Hb 13,18), tranqüila (lJ o 3,20-23), pessoal e alheia (IC o r 10,29); testemunho da consciencia (Rm 2,15; 9,1; 2Cor 1,12); exam e de consciencia (IC o r 11,18). Conselho. — * Sinédrio. C o rag ao . Com o no AT, representa a interioridade consciente e responsável do homem (Rm 2,15), sede da fé (Rm 10,9-10), nele habita Cristo (Ef 3,17), origem da conduta ética (Mt 15,19-20). Cordeiro. Nome ou título emblemático aplicado a Jesús Cristo, no qual conver-

gem o uso cúltico, »pa-.icu. orificios, e a imagem di l .i 29.36; At 8,32; lP d 1,1**). N.. v calipse,degoladoou m o iio | \i ■ vencedor (Ap 17,14), núpLi.r. i \ | . i 7.9); cordeiro e — » pastor ( /\ | • i i Na imagem do pastor (Jo .’i I •i Coroa. Premio por urna viltm.i i h >. 9,25; Ap 2,10); sinal de nii|> i . > (Ap 4,4). Corpo. Como organismo unil.u.......i ferenciado em membros e .......... em prega-se como imagem da l n 11 cuja cabega é o Messias (1 Coi I ’ ( ■ 12,5). Crer. — » Fé. Criagáo. O NT trata da criagáo m < im que o AT. A novidade que introdu apresentar C risto com o agenii ih criagáo (Jo 1,1-3; C1 1,16; Hb I . ’ i ■ modelo e fim de toda a criagáo (< i 1,17). Por isso os cristáos sáo mu > criagáo, ou humanidade (2Cor 5,1 / ) 0 mundo criado pode revelar o ( m dor (Rm l,19ss). — » Novo. Cristáo. Adjetivo derivado do gu r.. christos = ungido, equivale a “me. sianista”: em concreto designa .0 guém que reconhece Jesús de Na/an como o M essias esperado por Israel e enviado a todo o mundo. O adjci i vo é cunhado em Antioquia (At 11 26). Usa-se sem mais em At 26,28 e 1Pd 4,16. O sintagma grego en chris to equivale às vezes a cristáo. — » San tidade. Cristo. (Urna exposigáo sobre Jesús Cristo equivaleria a resum ir o N I inteiro.) O termo significa Ungido = M essias. Primeiro, é um adjetivo de título, que se substantiva com o arti go: o Ungido por antonomàsia, o rei messiànico. Mais tarde torna-se nome pròprio de Jesus, só ou especialm en­ te em form as com postas. Os dois em pregos sáo bastante claros em muitos casos (com artigo, em credenciais), sào duvidosos em muitos outros. (Faga-se a prova lendo Messias onde està Cristo.) Cronologia. A partir dos Evangelhos é impossível reconstruir urna cronolo­ gia nem sequer relativa da vida de

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li mi1 ,. em aixá-la em dados externos iniiic apmximagóes. A d a ta d o de iiiiv.n ría (por Dionisio o Pequeño) é i i i Aikm (llero d es morre no ano 4 n< ) t mi /. Suplicio oriental, usado pelos mili.unís como pena extrem a a náoniiiMiios por crimes graves. Os rela­ to'. ila paixáo supóem conhecido o mudo do suplicio. Paulo usa o termo i niño equivalente de paixáo. O cristiio i leve carregar sua cruz (Le 9,23); • i m il ¡car sua carne = instintos (G1 ■•..'•I); Paulo está crucificado para o mundo (G1 6,14). Se a mensagem da i n i/ é um escándalo, é também urna lott,a (IC o r l,18ss). 1 tillo. Jesús participa regularmente do i tillo judaico tradicional: festas, ritos, sacrificios, templo e sinagogas. Inslaura um novo culto formulado em lo 4,21, instituido na eucaristía como banquete e memoria. M encionam-se eelebragóes das primeiras com unida­ des (At 20,7). Paulo descreve e dá normas (IC o r 11; 14). At desenvolve amplamente o tema. — » Sábado. -* Sacrificio. — » Templo. ( umprir, completar, aperfeiqoar, con­ sumar, encher. Cumprir urna ordem ou — » mandato = observar, guardar. Cumprir-se urna — » profecía: cítagóes freqüentes do AT. Plenificar: Deus plenifica tudo; Cristo está ple­ no e plenifica tudo (E f 1,10; 4,10; Cl 2,9); plenifica o universo (E f 1,23), a Igreja (id.); os fiéis se enchem de Cristo (Cl 2,10; Ef 4,13); de Deus (Ef 3,19). Plenitude = totalidade: de Is­ rael (Rm 11,12), dos pagáos (Rm 11,25). C om pletar, arrem atar (Mt 5,17); o com plem ento (Jo 16,24), cumpre-se o — * tempo ou prazo (G1 4,4). L evar á perfeiqáo, arrematar, consumar ( teleioo)\ Cristo sua tarefa (Jo 4,34; 5,36; 17,4); por sua morte e ressurreigáo (Hb 2,6); para outros (Hb 5,9); os seus (Jo 17, 4). Os cristáos: com o o Pai (Mt 5,48); como chamado (Mt 19,21); como ideal e meta (F1 3,12.15); na escatologia (E f 4,13). A lei e o culto sáo incapazes (Hb 7,19; 9,9; 10,1.14).

D
Davi. M enciona-se como destinatàrio da promessa dinástica (2Sm 7), como antepassado do Messias (M t 22,45; Rm 1,3); tanto que Filho de Davi é título messiànico (Mt 21,9). Aparece também como autor inspirado da Es­ critura (M e 12,35ss; At 1,16). A cha­ ve de Davi é sua autoridade real con­ sumada no Messias (Ap 3,7). D em onios, espíritos im undos, maus. Os Evangelhos os apresentam segun­ do as crenqas da época. Geralmente produzem — » enfermidades ou possessáo; adivinhagáo (At 16,16). Náo induzem ao pecado nem levam à con­ d e n a d o ; mas podem levar a perder a fé ( 1Tm 4,1 ; 1Jo 4,6). Aparecem perso­ nificados: reconhecem, falam, pedem, habitam, saem. Jesus e os apóstolos tém poder sobre eles. Identificados com os ídolos (IC or 1 0 ,2 0 ). Deserto. Seguindo a tradigáo do AT, desempenha urna fu n d o importante: o Batista ai se retira (com o Elias), Jesus passa quarenta dias submetido à te n ta d o (como Moisés, os israelitas e Elias); retira-se para orar (Me 1,35); para ensinar (Mt 14,13); é refugio na p e rse g u id o (Ap 1 2 ,6 ). Designio, plano, projeto. A sa lv a d o ¿ concebida em seu conjunto com o projeto de Deus elaborado de antemáo, que se cumpre com a aqáo da liberdade humana. Estáo definidos os tempos, as personagens, os acontecimentos, os destinos. Uns se anunciam com grande antecedéncia, outros quando já sucederam. Dai as fórm u­ las freqüentes “assim se cum priu” e “tinha que”. Exemplos: Ef 1,11; Rm 8,29ss. Destino, -j* Designio. Deus. a) E o mesmo do AT (m onoteís­ m o): D eus dos Pais (A t 3,13), de Abraáo-Isaac-Jacó (Mt 22,32), de Is­ rael (Mt 15,31). Conserva seus aspec­ tos duros e exigentes (M t 11,21; 12, 41): parábola do adm inistrador (Mt 18,23-33, julgam ento Mt 25). b) A face nova no NT é de Pai: primeiro de Jesús, que na terceira pessoa pode

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usar sinónimos, na segunda pessoa o chama Pai (exceto na citagáo do SI 22). A paternidade se estende a outros (M t 5,45). Dai os aspectos de bondade, com paixáo, gratu id ad e, amor (1 Jo 4,8). As vezes Deus é subs­ tituido por Céus ou pelo passivo teo­ lógico. — » Trindade. Diabo, Satanás, Belzebù, o Forte, Ser­ pente prim ordial, Dragáo, Fera do mar e da terra. Ap 20,2 identifica vários nomes. É chefe de um bando (Ap 12,7ss; M e 3,22-27); nao se manteve na verdade e caiu, é hom icida e m en­ tiroso (Jo 8,44); é deus e chefe deste mundo (2Cor 4,8; Jo 12,31); senhor da m orte (Hb 2,14). A ge contra a Igreja: rouba a semente (M t 13,19); semeia o joio (M t 13,28); entra em Judas (Le 22,3); estorva o apóstolo (lT s 2,18; 2Cor 12,7). Mas com permissáo de Deus (Jó 1-2; Le 22,3; Ap 12,13), luta com Cristo (M t 4 par.) e é vencido (Le 10,18), é expulso (Jo 12,31), o mais forte o vence (Me 3,27; Rm 16,2; lJ o 3,8). A ele é permitido atacar os cristáos para prova e vitóría (E f 6,10s; lP d 5,8). Diáconos. Sobre a sua instituicáo (At 6,1-4). Em sentido genérico, sao os ministros com fungóes especiáis na Igreja; em particular, os apóstolos. Divorcio. — » M atrimonio. Dor. -» Paixáo.

E
Edificar. M etáfora para expressar a pluralidade de elementos na unidade e estabilidade. Ligada com a m etáfo­ ra do corpo, introduz o aspecto de vitalidade. Cristo ressuscitado, novo templo (M e 14,58); pedra angular, da Igreja (12,10). Pedro (Mt 16,18), os apóstolos, fundam entos (Ef 2,20), os cristáos pedras (lP d 2,5), os pagáos (E f 2,22). O sujeito é Deus (At 20, 32), Cristo (M t 16), o apóstolo (Rm 15,20), o cristáo (Rm 15,2). Eleigáo. Ato livre e soberano de Deus (Rm 9,14-33); é eterna (E f 1,4), pode parecer paradoxal (IC o r l,27s). Je­ sus é o Eleito por antonomàsia (Le

9,35;Jo 1,34, comarlifii» , -nii„ beranam ente os apóstolo' ii i m par.; Jo 15,16). Os apósiol.. t.. i gam a atividade de escolln i i a m i Í ) Os cristáos podem levai m„i i eleitos (Rm 8,33; 2Tm MU i t * * urna fungáo e impóe suas < |«J (C1 3,12). Elias. Várias passagens dos mim.m. ,,, em conexáo com o Batista, .n, i m, ¡ expectativa dos judeus pela voli.t > Elias (M t 11,14; 17,lis ) . A t , .. tran sfig u rad o representando i r i fecia. Tg 5,17 o apresenta comíi m délo de — * intercessáo. Enfermidade. Menciona-se quasc >m pre como ocasiáo de m ilagre. de nascenga ou contraídas, cm.i- • i. naturalmente ou incuráveis; algiini.t causam impureza legal, como enl, i midades da pele, hemorragias; onli . sáo atribuidas á agáo de — » denumh , ou espíritos. Podem c o n sid e ra -, como um castigo, efeito do -» peca. I., (Jo 5,14). Tg 5,15 menciona a — » un gáo dos enfermos. Erro. A verdade de Jesús e do seu evtin gelho tem que defender-se do erro o da mentira. Jesús denuncia o erro do , seus rivais (Mt 22,29) e previne con tra o fermento dos fariseus (Le 12,1) e contra os falsos profetas dos últi mos tempos (M t 24,5.11). Os aposto los redobram as advertencias: contra os falsos doutores (lT m 1,4), engana dos e engañadores (2Tm 3,13; 2Pd 2 ,ls), o espirito do erro (lJo 4,6), o sedutor (Ap 12,9). — » Verdade. — » Pro­ feta. Escándalo, armadilha, tropero. Provo­ cado por Deus: por seu plano estranho, paradoxal (Le 2,34), pelos ante­ cedentes de Jesús (M e 6,3), inclusive pelas curas (Mt 11,6), pela cruz (IC or 1,21). Provocado pelos hom ens (Le 17,1; Me 9,42), pelo — * A nticristo (2Ts 2,9s). Escándalo como impulso ao pecado (Me 9,43-47). — * Provagáo. Escravo, servo, empregado, operário. A escravidáo na Grécia geralmente náo era cruel; o escravo podia ser de confianza, desem penhar tarefas deli­ cadas; os trabalhos manuais e arte-

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NOTAS TEMÁTICAS DO NT

Htyiuis muitas vezes eram entregues a Bfcravos = empregados. Aparente neufctlidade frente à escravidáo (IC o r l p , 2 1 ss), com inversáo de papéis na B rd e m espiritual; igualdade em rela« A o a Cristo (G13,28; C13,11). A eles B e reeomenda a obediéncia (Ef 6,5B ; carta a Filemon). Uso metafórico: [pllulo de M aria (Le 1,38), de apósto!alo, Cristo escravo (F12,7) torna livres ■ (C l 5,1) e am igos (Jo 15,15). — » Li1 bcrdade. {■ K ritura. — * Inspiraçâo. [lim ó la . M uito estimada em círculos ■ lapienciais e autores tardíos. Louva■ ge em At 9,36; Paulo a organiza em ■ forma de coleta a favor da Igreja pobre de Jerusalém (2Cor 8— 9). DeveI' se evitar a ostentaçâo (M t 6,2ss). Je■ sus radicaliza a esmola na renuncia I (Mt 19,21 par.). Espada. O termo grego (machaira ) de| signa a espada militar, o sabre e a faca de uso pessoal — nao se usavam talheres — (Le 22,8; Jo 18,10); uso militar no Getsêmani (Le 22,49s), em tentativa de suicidio (At 16,27), ins­ trum ento de execuçâo capital (A t 12,2). Metáfora ou emblema de guer­ ra (Mt 10,34), no combate espiritual (Ef 6,17), o m artirio (Rm 13,4). No castigo escatológico (Ap 6,4; 13,14). Esperança, confiança, expectativa. Os Evangelhos, sem usar o termo, trazem urna mensagem de esperança e mostram a espera do reinado de Deus. Entre as très virtudes (IC o r 13,13), assemelhada à fé em Hb 11; seu ob­ jeto é o que náo se vê (Rm 8,24s). Géra constância, paciéncia, perseverança (lP d 1,21; Rm 5,4; 15,4), — » Promessa. Espinho. A coroa de espinhos náo é instrumento de tortura (espinhos que se cravam), mas de zombaria: coroa real de um presum ido rei feita de material desprezível (cf. Jz 9,14). O espinho na carne de 2Cor 12,7 é provavelm ente urna enferm idade ou a perseguiçâo. — * Reino. Espirito, a) Do homem: alentó, princi­ pio vital (At 17,25; Hb 4,12); princi­ pio de vida consciente (Rm 12,11; Ef

4,23). b) O Espirito divino em Cris­ to; na concepgáo (Le 1,35), batismo (Le 3,21), ministério (Le 4,1), milagres (Le 11,20), cruz (Hb 9,14), ressurreiqáo (Rm 8,11), poder (Rm 1,4), euca­ ristia (Jo 6,36), prega ás almas (lP d 3,18ss). c) O Espirito e os apóstelos: pentecostes, na ressurreigáo (Jo 7, 37ss; Jo 20,22); recorda e faz compreender (Jo 14,25s; 15,18.25s), ins­ pira os que falam (At 4,8), confirma o testem unho (At 5,32), guia (At 20, 22). d) O Espirito e a Igreja: pente­ costes, a Igreja local (At 4,31), anima o corpo (IC o r 12,13), consagra um templo (IC o r 3,16), imposigáo das máos (At 8,17). e) Agáo nos crentes: consagra (lP d 1,2), regenera (Jo 3,36 ), dá a filiagáo (Gl 4,6), habita (Rm 8.9), dá esperanza (Rm 15,13), de am or fraterno (Rm 5,5; 2Cor 6 , 6 ), é penhor (2Cor 1,22), sela a nova alian­ za (2Cor 3,6), dá liberdade (2Cor 3, 17), transforma (2Cor 3,18), fonte de carism as (IC o r 12), cria unidade (E f 4,3s), dá solidariedade (F12,1), dá tes­ tem unho ( lJ o 5,6), pede com a es­ posa (Ap 22,17). — » Trindade. — » Deus. E tern id ad e, perpetuidade. C onvém distinguir entre perpétuo-indefinidosem termo e definitivo-sem remédio (urna destruigáo definitiva corta a p e r d u r a lo do sujeito destruido). A perpetuidade ou p e rd u r a lo pode ser absoluta, sem limite, ou respeito a um parám etro, p. ex. vitalicio, por toda a vida. N o N T os significados de aion, aionios nem sempre se distinguem com precisáo. Exemplos: vitalicio (Rm 8,13). Definitivo: com negagáo, nun­ ca: juízo final (Hb 6,2), perdigáo (2Ts 1.9). Indefinido, perpètuo: a vida em Joáo, seu contràrio é a cólera (Rm 2.7). M enciona um torm ento inde­ finido (Ap 20,10, reinado); opóem vida e fogo (Mt 18,8-19,16 e Jd 721). — » Tempo. E ucaristía. Instituigáo (Le 22,15-22 par.); celebragáo (At 20,11); teolo­ gia (Jo 6 e IC o r 11); alianza (M e 14,22-24); sacrificio pascal (IC o r 5.7); com unháo com Cristo (IC o r 10,14-22).

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Eva. Além das referencias explícitas á criagáo (lT m 2,13) e ao pecado (2Cor 11,3), poderiam aludir por contraste á M adalena no jardim no dia da ressurreigáo (Jo 20) e á m ulher celeste de Ap 12. — * Adáo. Evangelho. — * Introdugáo aos Evangelhos. Exem plo. Oferece-se á imitagáo: Deus Pai na sua perfeigáo (M t 5,48); Jesús no seu sacrificio por am or (Jo 13, 15.34; lP d 2,21); Paulo (IC o r 11,1). Expiagáo. É pagamento ou compensagao por um reato ou culpa; pode ser ato cúltico. A ela se refere Hb 9,22s; parecem aludir 2Cor 7,1; lJo 1,7.9. — » Sacrificio. — * Perdáo.

F
Familia, a) Dos deveres fam iliares se fala em poucas ocasióes: dever de sustentar (nao só honrar) os país (M t 7,8-11 par.). Em séries: C1 3,18— 4,6 (os escravos, ou seja, em pregados e operários tom avam parte na ordenagao familiar); lT m 5,4; Tt 2,4s. b) Je­ sús im póe lim ites ao am or familiar, subordinando-o á fidelidade á sua pessoa (M t 10,21): estabelece urna nova familia, cujo vinculo é cumprir a vontade do Pai (M t 12,46-50). c) As relagóes fam iliares sao tomadas como sím bolo para expressar o mistério: paternidade de Deus, fraternidade dos cristáos, m atem idade de Ap 12 (Sinagoga ou Igreja). Fariseus. Herdeiros dos hasidim (lM c 1) que se distanciam de Joáo Hircano (135-104 a.C.) e de sua política mun­ dana; organizam -se e conseguem a hegemonía espiritual cerca do ano 70; dominam o judaism o posterior, sao leigos, entre eles há especialistas da lei (g ra m m a teis - letrados); nem colaboracionistas nem rebeldes; afer­ rados as suas tradigóes. Esperam o Messias, créem na — » ressurreigáo, na justiga pelas — * obras. Méritos: sen­ tido religioso, fidelidade, ter salva­ do o judaism o. Críticas: juridicism o, form alism o, particularismo. — * Saduceus.

Fé. a) Crer em: Deus que ...... i. i. i. , cumpre em Cristo; ñas |>ai > <n . t Jesús; em Joáo, sinònimo il. . ■mmi achegar-se a, receber. I>) < mi m Deus e em Jesús Cristo qm • i ■ i por causa de e em seus mil.u i• iM 9,2); falta fé (M e 6,5s). c) I . radical, decisiva (Me 9,42; M i i "i, por eia se obtém a justiga (Km t| , processo (Rm 10,14-17). Ti.ulii# » * em — » obras (Tg 2,14-26): ...... In vida (Jo 20,31; lJ o 5,13). lili 11 i.ii de urna fé que equivale a — * e\|.. i.., ga. — * Pregagáo. Fecundidade. E a bèngào primai ia ii .. 1,22), suprem a em M aria, mai .1 Messias (Le 1,42). A cadeia da In un didade conduz desde A dào ate I<- n (Le 3,23-38). M etaforicamente, l'an lo é màe (Gl 4,19) e pai (IC or 4.1 ■ i — » Genealogia. Felicidade. — » Bem-aventuranga. Festa. C alendários do AT (Lv t , Dt 16). Filho (hyios, país). Como em hebraii. . em sentido estrito e ampio, deseen dente, discípulo, membro. Senii< !• ■ pròprio (Le 11,12). Filho de Deus a ) Sentido limitado, equivale a homi m de Deus (M t 14,33). b) Título me:, siànico: nos sinóticos Jesus nào o u s a em Joáo aparece cinco vezes. c) Sen tido transcendente (At 13,33); por sua atividade, expulsando dem onios e perdoando pecados; título — » Senhoi e— » M essias (At 2,36); enviado por Deus (Rm 8,3; Gl 4,4); Filho em sen tido pieno (CI 1,13; Hb 1,2 — contra posto aos profetas — ); tem um -* conhecimento intimo e ùnico do — » Pai, possui o Espirito, realiza a filiagào de Israel (M t 2,15, citando Os 11,1). Fi­ lho ùnico e herdeiro, em intimidade com o Pai. Ñas cartas se m ostra sua natureza divina, origem divina, po­ der divino. O tem a predom ina no evangelho de Joáo. O Filho concede a filiagào, é o m ediador ùnico. O tí­ tulo Filho de Deus é no N T soteriológico com implicagòes metafísicas. — * Trindade. Filhos de Deus. Texto básico: Rm 8 . De escravos feitos livres pela adogào

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M ()l 4,5ss), portanto livres, co-herdei»fiw, com direito à imortalidade; cha■Blnmos Deus de Abba e somos real» flim te filhos de D eus (lJ o 3 ,ls s ), * ¡rmáos de Jesus primogènito e parti9 elpantes da natureza divina (2Pd 1,4); ■ (liiscidos pela fé (Jo 1,12s) e pelo — » ba1 llsmo (Gl 3,26s). j Pode ser teofánico (Hb 12,19, Sinai). Parece ter caráter de prova: P paixáo? (Le 12,49), s a lg a d o (M e I' M,49). Tem f u n d o judicial: no batisi mo (?) (M t 3 ,l i s ; IC or 3,13). Signi' fica a c o n d e n a d o definitiva (M t 18, 8 ), eterna (Hb 10,27; 2Pd 3,7), geena (Mt 5,22; Ap 8,7ss; 11,5), -> inferno 1 (Ap 20,10.14). franqueza, liberdade, audàcia (par1 resia). Jesús anunciando sua paixáo (Me 8,32), subindo para a festa (Jo 7,10), ensinando (Jo 16,25-29); na sua vitória (C1 2,15). O apóstolo na sua p re g a d o a judeus e pagaos (At 4, 13.29; 2Cor 3,12). O cristáo para apro­ xim arse de Cristo (Ef 3 ,lis ); unida à esperanza (Hb 3,6). — * Verdade.

G
Galiléia. Regiáo setentrional da Pales­ tina. Ai Jesús com eta seu ministério, antes de subir a Jerusalém e marca encontro com seus discípulos para depois da ressurreigao. Genealogia. Segundo o costume do AT, dois evangelistas compóem urna ge­ nealogia estilizada de Jesús. Mt 1,117 vai descendo de Abraáo a Jesus em très etapas de catorze nomes; Le 3,23-28 vai subindo até Adáo e Deus, numa visào mais universal: Jesus é filho de Adáo (ben ’adarri). Glòria, a) Na esfera da honra, presti­ gio (IC or 10,31; FI 2,11); dar, reconhecer a glòria (Le 17,18), a confissào (Jo 9,24). A sua fo rm u la d o constituí as doxologias. b) Na esfera da rique­ za, fausto, é pouco freqüente. c) Na imagem de esplendor, brilho: dos astros (IC o r 15,40; Le 2,9; 2 C o r3 ,7 4,6, ex p lan ad o importante), na trans­ fig u rad o (Le 9,32); elemento da es­ catologia (Mt 24,30; 25,31); revela-se

(Jo 1,14). As vezes substituí Deus ou é redundante (At 7,55). Os crentes a esperam (C11,27), como estado e náo lugar (Rm 8,21); assemelham-se a ela (F1 3,21). Glossolalia. Forma particular de linguagem, mais expressáo que inform ado, porque a sua articu la d o náo corres­ ponde a urna língua comum, partilhada. Tem, antes, f u n d o monológica. E ininteligível, se náo se interpreta, supondo-se que contenha in form ado (IC o r 14). Urna língua m ilagrosa­ m ente entendida por pessoas de muitas línguas (At 2). — * Carisma. Graga. a) De quem a possui, é o atrativo e seu efeito, a ce itad o , popularidade (At 2,47; 4,33); ganhar o favor (At 24,27). b) De quem a dá, é o favor: gratuito (Rm 3,24), dilatado e abun­ dante (Rm 5), náo pelas obras (Rm 11,16); é ativo e eficaz (IC o r 15,10; 2Cor 6,1), salva (E f 2,5), é suficiente (2Cor 12,9). N áo se deve receber em váo (2Cor 6,1), sob pena de perdé-la = cair em desgrana (G1 5,4). Guerra. Um dos sinais escatológicos (M t 24,6). Uso freqüente como m e­ táfora: Apocalipse contempla a batalha celeste de M iguel contra o Dragáo (A p 12,7) e a guerra da Fera contra os consagrados (Ap 13,7; Ef 6 , 1 2 ); fala de urna luta contra pode­ res malignos. Mais freqüente é o tema da vitória: Jesús venceu o mundo (Jo 16,33; Ap 3,21), como leáo (Ap 5,5), com o cavaleiro (Ap 19,11); á sua im ita d o , os cristáos sáo convidados a vencer (Ap 3,5; 21,7) pelo sangue do Cordeiro (Ap 12,11), pela fé (lJo 5,4). Da guerra se tomam as imagens de — » espada e — * armadura.

H
Heranga. É conseqüéncia da filia d o de Cristo (Mt 21,3; Hb 1,2) e se estende aos co-herdeiros (Rm 8,17); outorga-se pela — * alianqa = testam en­ to (Hb 9,15); seu penhor é o Espirito (E f l,13s). Náo basta ser filhos carnais de Abraáo (Rm 4); abre-se aos pagáos (E f 3,6; G13,28s). Seu objeto

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é a vida eterna (Mt 19,29), o — » reino (IC o r 15,50), a -* bénSáo (lP d 3,9). Herodes, o G rande (Le 1,5; M t 2,112); Antipas, o do Batista e da pai­ xáo; Agripa, o de Paulo (At 25— 26). Hipocrisia. Do grego hypokrites = co­ mediante, histriáo. O hipócrita repre­ senta um papel externo, faz teatro para parecer ao público o que náo é: religioso, devoto, exem plar; assim perverte com má in te n s o a boa acáo; é um ferm ento que corrom pe (Le 12,1). Em Mateus e Lucas, sáo acusa­ dos de hipócritas os fariseus e outros. H oniem . A visáo física do homem no NT náo segue o modelo grego, mas o semítico do AT (com a e x c e d o pla­ tónica de Hb 4,2): predom ina a unidade, embora se com ponha de carne (sarx ) e alentó alma-espirito (psyche pneuma). O c o ra d o (mente) é a sede da vida consciente, recordagóes, pensamentos, desejos, decisóes; os rins, sede de paixóes; a cabega, sede da responsabilidade (At 18,6); os olhos, da estim ativa (M t 6,22s). O corpo (som a) é organism o com posto de membros e órgáos. Sendo imagem de Deus (IC o r 11,7; cf. C1 3,10), o ho­ mem fornece imagens = sím bolos ou antropomorfismos para falar de Deus. Mas com m uita freqüéncia o homem se contrapóe a Deus: em sua aQáo (Me 6,9), em seu ser (Jo 10,33), na obe­ diencia devida (At 5,4.29), na sua re­ c la m a d o (Rm 9,20), no saber (IC o r 2), na palavra (IT s 2,13). O homem é mortal (At 14,14; Hb 9,27), lim ita­ do em seu conhecim ento (Mt 16,23), critérios (IC o r 3,3), alcances (2Cor 12,4). O Filho de Deus se faz homem (Jo 1,1-16; F1 2,7) e sublinha sua humanidade comum, apropriando-se do semitismo “filho de A dáo” (hyios anthropou, ben ’adam), como os demais homens (Hb 2,11.17; Rm 8,3). Para renovar a imagem de Deus no homem (C1 3,10), para salvar todos os ho­ mens (lT m 2,4), para uma nova hum anidade = c r ia d o (2Cor 5,17). A ordem nova da redengáo se expressa em várias oposiQÓes: interior/exterior (Rm 7,22; 2C or 4,16), novo/velho

(Rm 6 ,6 ; E f 4,24). 1-11li< ■ .i • decalque literal de um .sen nii .,. 11 ’adam, bar ñas) que di .............. i, divíduo (singular) da culi 11>, ' ..i Adáo = homem (como hi /i \i ■ ¡ i significa um israelita). A:, mui “ 1 p. ex., em Is 51,12; 52,1 I M M 45,3; etc.; em Ezequiel eqim il........i antitítulo “filho de Adáo” (m ...... . ■ > quer um). Dn 7,13 fala de “ lim i . i, m ana” contraposta às qualn> I. i . precedentes: essa figura sol" ..... ■ nuvem ao céu (náo desee no i> n|. i em 7,27 identifica-se essa figm .........| “o povo dos santos do Altissimo Uma tradugáo literal ou decaIqiu ■ i. ,, o grego hyios (tou) anthropou , > !• >< p>, I parece derivar a especulado sol ......... ser misterioso, celeste, que cli -.i. 11 numa nuvem. Tal especulad* • cnIm atestada no “Livro das Semelham r de Henoc etiópico (1 Hen(et) 37 111 finge um ser angélico, nao humano destinado a julgar os homens no hm (esse texto é provavelmente posici < >u ao NT). Nos Evangelhos só Jesús, qu costuma evitar títulos, o usa; os n.n radores, que náo temem os títulos, nao o usam. As vezes, onde um evangel i ,i.i usa a expressáo, o paralelo póe pn> nome, p. ex., Le 6,22/Mt 5,11; Le 1 2 ,K / Mt 10,2; Mt 16,13/Lc 9,18; Me 8,31/ Mt 16,21. Falta a expressáo em texto capitais como Mt 17,1-8 (transfigura d o ) e Mt 28,18-20 (plenitude de po der), que o empregam no plural signi ficando “homens” (Me 3,28 e Ef 3,5). Falta totalmente em Paulo, inclusive onde se podia esperar, como em ITs 1,10; lTm 2,6. Inácio deAntioquia (El 20,2) o justifica “por ser filho de Da­ vi”, Barnabé o opóe a “filho de Deus" Náo se sabe quando entra na comunidade cristá a especu lad o citada. Por isso optam os por um a soluqáo in­ termèdia nesta trad u d o : geralmente traduzimos “o/este Homem”; em con­ textos claramente escatológicos recor­ remos á fórmula “o Filho do Homem”. Hora. — » Tempo. Hum ildade. Virtude capital e doutrina central no NT: figura no manifesto de Jesús (bem-aventurangas), como

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l ili i mk i;¡1(Le 6 ), como atitude (Mt 5); iiloi r.mo (Mt 23,12). Jesús dá exem|i|n iimsua en carn ad o (F12,8), no seu i iiilu tic vida, inclusive no triunfo (Mi .’1,2); presta especial atengáo aos humildes (Me 9,41; 10,31). O crisi,ii> em r e la d o a Deus (Le 17,7-10; l<in ',27); em r e la d o aosoutros (Me •J.' Rm 12,16). — » Orgulho. I liluliilria. Culto de falsos deuses ou ilc- suas imagens. Sao nulidade, nada ( l( or 8,4), inertes (IC o r 12,2); sao demonios (IC o r 10,19). A avareza é unía idolatría (C.l 3,5. Cf. Mt 6,24). lyicja. Neologismo calcado do grego i kklesía, que significa assembléia de i idadáos e traduz o hebraico qahul e '(•da. Sem m encionar a palavra, a realidade está presente nos Evangelhos, t|uando mostram o plano e execugáo tic Jesús ao form ar um grupo estável e recomendar-lhe a continuidade. A palavra aparece em Mt 16,18 onde Jesús se declara fundador da Igreja, e em Mt 18,17, onde já aparece numa l'undo judicial. O livro dos Atos descreve a expansáo e aplica o termo as igrejas locáis, das quais é máe e chefe a de Jerusalém , e entre as quais adquire logo um lugar especial a de Antioquia. Cada igreja tem sua organizacáo e seus funcionários: episkapoi = vigilantes, presbyteroi = anciáos, diakonoi = servidores. Paulo prolon­ ga a idéia e introduz várias imagens. Efésios e Colossenses se destacam por sua visáo de uma Igreja univer­ sal. Apocalipse volta á idéia das igre­ jas locáis, mas contem pla também a Igreja universal na imagem da Nova Jerusalém, a noiva do Cordeiro. Im a­ gens: corpo, cuja cabega é Jesús Cris­ to (IC o r 12; Ef l,22ss; C1 1,18), es­ posa do M essias (E f 5; Ap 21,11), cidade (Ef 2,19), edificio e templo (M t 16,18; lP d 2,5). Imagem. Cristo de Deus (2Cor 4,4; C1 1,15; Hb 1,3). O homem de Deus (C1 3,10). O homem de Cristo (IC o r 15, 49); por agáo do Espirito (2Cor 3,18).

Im ortalidad e ou incorruptibilidade (aphtharsia ). É título de Deus (Rm 1,23; lT m 1,17); do hom em pela ressurreigáo (IC o r 15,50), o cristáo o é em potencia (2Tm 1,10), porque traz urna semente imortal (lP d 1,23). — » Vida. Inferno. Sinónimos: Hades, Abismo, Geena, Morte. Ao xeol do AT, lugar dos m ortos e nao de castigo, pode corresponder Hades e Abismo. Imagina-se com o lugar subterráneo ao qual se desee (M t 11,23), com portas (M t 16,28) e habitantes, com o um cárcere (lP d 3,19). Pode aparecer personificado, acompanhado ou nao de thanatos (Ap 6 , 8 ; 20,13s). Como lugar de castigo costum a cham ar­ se Geena, lugar de — » fogo, vermes, — » trevas, dor e raiva. Jd 4 e 2Pd 2,4 falam de cárcere tem poral à espera do — » julgam ento. Ap 9 ,ls fala do Pogo, do qual sobe a Fera (Ap 11,7). De uma d e stru id o final ou p e rd id o (apoleia ) falam F1 3,19; 2Pd 3,7 e Ap 20,14. I n s p ir a lo . Agáo do Espirito sugerindo palavras ou prom ovendo agóes. Palavras: citando o AT, p. ex., Davi (M t 22,43; At 1,16); sobre a Escritu­ ra em geral (2Tm 3,15s e 2Pd 1,1921); no testem unho dos cristáos (Mt 10,20; At 6,10; IC or 12,3); a glosso­ lalia (IC o r 14,14). Oferece um orá­ culo (At 13,2; 19,1). Impele (Mt 4,1; At 11,12). — » Palavra. -* Carisma. — » Escritura. Instinto. * Carne. Intercessáo. Cristo intercede por Pedro (Le 22,3 ls), pelos que o confessam (Mt 10,32s); pelos crentes (Jo 17,1126); Cristo ressuscitado (Rm 8,34; Hb 7,25; lJo 2,1). O Espirito Santo (Jo 14,16; Rm 8,26). O apóstolo: fre­ quente ñas cartas (Rm 1,9; F11,3). O cristáo (E f l,17ss; 3,16ss; Tg 5,16). — » Oracáo. In terp reta d o . O NT interpreta com freqüencia o Antigo. Citando textos e acrescentando ás vezes “assim se cum priu”, com o argum entos numa discussáo; explorando símbolos, co­ mo esposo, água, luz (Jo); lendo co-

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mo sím bolos instituig 6 es_(Hb); usan­ do modelos, p. ex., do Éxodo, Pen­ tateuco, M ateus; caso especial é o Apocalipse. A chave é cristológica, a técnica muitas vezes — * targúmica ou — » midráxica. Ira. Persiste o conceito do AT. A ira de Deus abarca toda a hum anidade pe­ cadora (E f 5,6), da qual Jesús nos livra (lT s 1,10); a ira escatológica ou condenagáo afetará os impenitentes (Rm 2,4s). Também Jesús é capaz de mostrar ira ou indignagáo (M e 3,5) e de apresentá-la ñas parábolas (Le 12,46). O cristáo náo deve ceder á ira (Mt 5,22; Rm 12,19). Pode designar condenagáo. — » Julgamento. Irmáo. — * Familia.

J
Jejum . Nega o valor ou a oportunidade (M e 2,18-22); relativiza-o (C1 2, 16; Rm 14,17); aprova-o (M e 9,29); pratica-o (At 10,30). Por analogía, a continencia (lC o r 7,5). Jerusalém . a) Empírica: a ela váo os magos (M t 2), Aria espera a liberta­ d o de Jerusalém (Le 2,38); ai se con­ sumará a paixáo (M t 16,21); Lucas constrói a grande subida de Jesús a Jerusalém que comega em 9,51. Re­ cebe Jesús com festa (Ramos), mas logo o rejeita (Mt 23,38) e sofrerá o castigo (Le 19,44). M as nela comega a Igreja (Pentecostes) e déla parte a pregagáo apostólica (Le 24,47). b) A celeste é a — » Igreja (Hb 12,22; Ap 21-22). — * Galiléia. Judeus. Ñas passagens polémicas de Joáo (Jo 5; 8 ; 19 etc.) costuma desig­ nar as autoridades; a apresentagáo dos judeus em vários textos está condi­ cionada pelas polém icas em curso na primeira geragáo, que culm inam na ruptura do sínodo de Jám nia = Yabné (por volta de 85 d.C.). Paulo tem como norma dirigir-se primeiro aos judeus (At); sobre a vocagáo deles reflete em Rm 9— 11. Julgam ento. É im inente com a chegada do — » reinado de Deus: o Batista o anuncia, várias parábolas o pro-

póem (Mt 23,31); antecipa-se (Jo 3,18); consuma-se na paixáo (Jo 12,31s). Fica pendente um julgam ento futuro e fi­ nal: de Deus (Rm 2,16; 2Tm 4,1); de Cristo (Mt 25; At 17,31). — * Ira. — » Testemunho. Juram ento. R ecom endam náo jurar (M t 5,33-36 e Tg 5,12), denuncia a casuística do jurar (M t 23,16-22). Pe­ dro jura falso (M e 14,71). Aceita-se o juram ento: Jesús no processo (Mt 26,36s; 2Cor 1,23; Hb 7,20s.28) fala do juram ento de Deus, que confirma a promessa. Justina. Com urna só raiz, dikai-, se expressam m uitos significados man tendo certa unidade de contexto men tal. Para orientar-se, é útil dispor ticum repertorio de distingóes com suax oposicóes. A ntes de tudo, honradez/ justiga/inocéncia. a) Honradez: em relagáo a urna norm a/em relagáo ii um a pessoa: a D eus/aos homeni, oposto: m aldade, perversáo. b) N.i ordem jurídica: justiga, direito naln ral/positivo, mérito; oposto: injiiMl ga, prejuízo, ofensa, c) Na ordem |ii dicial: inocencia; oposto: culpa, rrulit Em segundo lugar, deve-se distinguí' ajustiga do soberano, legal, que | castigar ou indultar; a do jui/, n til butiva, que deve absolver ou <omi­ nar; a das partes, comutativa. Cuiii" iw antigüidade o soberano era lamltfHi juiz, a primeira e a segunda (h m Im h sobrepor-se e também conliitulli Em terceiro lugar, deve-sc con .iilcH> a passagem do negativo ao ..... ...... da maldade á honradez, por intnl«» ga de atitudee de condula, d.i m|n«u ga = divida á justiga, poi mi ■ compensagáo, ajuste; da i ul|"i i in céncia, por expiagao, «■imi|iiimt>HM total da pena, indulto mi > ■ i .i. i 'i. • exemplos ilustra rao ov.»-. di^iirtihf» M ateus op 6 eájustii.;.i I.ni -h . .. I i (til e objetiva, a nova limu nl< * >iiÍM exigente em conleiido i inI■n"ii h k (M t 5,20; 6,33). lo Ir, i....... ti M na o julgam ento do l piin ■(■ < M do uma inocencia, nina <mI|-< •'«tj condenagáo. Al Id. >'• | | > it#j sin tese: vcncrai, h < (/■* /* • “• ■ !

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NOTAS TEMÁTICAS DO NT

com Deus; justiga (dikaiosyne ) para com os hom ens. Paulo utiliza com abundancia e fluidez as im agens e vocabulàrio dessa justiga. Rm 1,17: Deus revela sua justiga-inocència-direito de soberano, fazendo passar da culpa à inocència pelo indulto; Rm 3,5: nas relagóes do hom em com Deus, opóe com clareza o direito-inocència (dikaiosyne ) de Deus e a nossa culpa = nao direito (adikia); Rm 3,21 fala de urna honradez-justiga obtida nào pela lei, mas pela fé; Rm 5,20 contrapòe: pela lei, o delito e a culpa; pela graga-indulto, a vida; Rm 6,13.19: fala dos mem bros como ins­ trumentos da nova honradez. Ef 4,24: fala do hom em novo criado em esta­ do de inocència-honradez (dikaiosy­ ne). O verbo dikaioo também tem urna gama de significados. Mt 11,19: a Sabedoria (sophia ) se acredita; Le 7,29: c reconhecer que D eus tem razào, direito; Le 10,19: apresenta urna ten­ tativa de justificar-se-desculpar-se pela casuística; Le 18,14: contrapòe a sentenga de Deus absolvendo o pei ador contrito e condenando o supos10 honrado, m érito/demérito; Rm 2, I ? e 3,20: sobre a fungào da lei e da Ir; Rm 3,26: Deus possui a justiga e l’i-rdoando pode outorgá-la ao peca11 «ir. O adjetivo dikaios. Honradez (Mt I 19); de ju stig a co m u tativ a (M t 'o,4); o soldo (CI 4,1); inocència: un',ue inocente (M t 23,35); Jesus Inocente (Le 23,47); julgam ento (Le ■ (1.2 0 ).

L
• niii|i.iilu. Opòe-se à luz, com o subs........ menor na noite ou nas trevas ■ i l ,S;Ap 18,23). Comparagàoem i " il»> I;is (M t 25,1-8); o Batista em > ■lm;iiii i luz do Messias (Jo 5,35); a i 'i ivi.i profètica (2Pd 1,19); o olho «pi llili i fornece luz (M t 6,22). Nào lei i il., ( ssária na Jerusalém celeste H i t ' '. ’)■ -* Luz. < ,io. Pena para blasfem os (Jo 1 1 II H) e adúlteras (Jo 8,3-11). l i lièvi"• morre lapidado, acusado de

blasfêm ia (At 6,57-60), Paulo nâo chega a morrer (At 14,18). Leáo. Título de Cristo (Ap 5,5) e figu­ ra dos viventes (Ap 4,7). Imagem do Diabo (lP d 5,8). Lei. Como instituigáo humana, é copia­ da ou imitada de outras culturas; depois canonizada como torá = instrugáo = ordenagáo de Deus, vinculada à alianga; duplicada no Deuteronómio; com entada e recoberta por le­ trados e rabinos, com tendência a absolutizá-la, a tom á-ia universal. O N T reconhece sua origem mosaica (G13,20) e divina (Rm 2,27). Seu conteúdo é bom (Rm 7,12); mas a submete a urna crítica geral que abrange todos os seus campos, o ético, o ju rí­ dico, o ritual. O termo nomos qualificado equivale às vezes a regime: do pecado (Rm 7,22), de pecado e mor­ te (Rm 8,2), do Espirito de vida, i. é, de Cristo (G1 6,2), da fé (Rm 3,27). Jesús e a Lei: sua atitude, conduta e principios sem com plexos. Aceita, mas relativiza e limita: sobre o tem ­ plo (M t 5,24), a oferenda (M e 7,9), o sábado, as norm as de pureza (M t 7,14-23). Radicaliza o ético na série de antíteses (Mt 5,21-48). Reduz tudo ao duplo preceito (Mt 22,34-40). Se­ gundo Paulo, a Lei nao outorga a ju s­ tiga aos judeus: prova-o pela Escri­ tura, pela experiéncia universal e pessoal, “é a força do pecado” (IC or 15,56). Nâo obriga os pagaos conver­ tidos: At 15,2; 2Cor 3; E f 2,15; C1 2, 14. Agora Cristo é a lei: ocupa o lu­ gar da torá rabínica em símbolos ti­ rados do AT. Lepra. O termo hebraico designa genericam ente urna enfermidade da pele, em muitos casos curável; é muito duvidosa a existéncia da lepra na Pa­ lestina antiga. Nos Evangelhos sublinha-se o aspecto de impureza legal. Letrados, juristas (gram m ateis, nomikoi). Na m aioria eram — » fariseus. Faziam estudos especiáis da — * Lei (tora), recebiam urna espécie de títu­ lo e podiam ensinar; eram consulta­ dos em matérias legáis (halaká). Em geral sâo hostis a Jesús, embora um

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tente segui-lo (M t 8,19) e outro nao esteja longe do reino (M e 12,28-34). Liberdade. a) Psicológica: é afirmada ou pressuposta no aceitar ou rechaçar a mensagem, mas fica condicionada e lim itada pelo — » m undo (lJ o 2,15) e pelo instinto (Rm 7; 8,7). b) Política: nao im porta tanto, reconhece-se o pagamento do tributo (Mt 22,2): também importa m enos a liberdade so­ cial (IC o r 7,21-24). c) Crista: é con­ cedida pela verdade (Jo 8,32), por Cristo (Jo 8,36), pelo Espirito (2Cor 3,17); é liberdade do pecado (Rm 7,14; 6,14.18), da — » morte (Cl 2,12-14), que é o último inimigo (IC o r 15,26), de — » Satanás (Ap 20,3.10), do instinto (Rm 8,13), da — » lei ou regime legal (Gl, Rm 6 ). Mas nao há de ser pre­ texto para o mal (IC or 8,9; lP d 2,16). — * Roma. — ► César. — » Franqueza. Línguas m isteriosas. — » Glossolalia. Luz. Sentido próprio (M t 10,27; Jo 3 ,2 0 ), e le m e n to da te o fa n ia na transfiguraçâo (Mt 17,2). Como sím­ bolo: Deus é luz (lJo 1,5); Cristo é luz (Jo 1,4; 8,12); o discípulo deve sélo (M t 5,14.16; E f 5,8s; lJ o 2,9-11). — » Trevas.

M
M aldiçâo. Nao se deve m aldizer ao próximo nem ao inimigo (Le 6,28; Rm 12,14; T g 3,9s); os judeus se am aldiçoam no processo de Cristo (Mt 27,25). Jesús amaldiçoa a figueira (Mt 21,8); tornou-se maldiçâo (sofreu as conseqüéncias), pelos homens (Gl 3,13). Paulo amaldiçoa o falso pregador (Gl 1,8) e o incestuoso para converté-lo (IC o r 5,3-5). — » Bênçâo. M anifestaçâo. — » Revelaçâo. — * Parusia. M âos, im posiçâo das. Gesto eficaz de cura (Me 16,18), de bênçâo (M e 10, 16) ou rito de nomeaçâo (2Tm 1,6), que costum a incluir o dom específi­ co do Espirito (At 8,17). Maria. Très figuras principáis têm esse nome no evangelho: a máe de Jesús, a M adalena e a de Betánia (as duas nMimas se confundem ás vezes na tra-

digào ocidental). M aria a máe de Je­ sus: domina a etapa da infancia (Mt 1,18-25; Le 1-2). Nos sinóticos rea­ parece em Mt 12,46-50 par. Joáo a apresenta em momentos decisivos e entrelazados: em Caná, primeiro sinal, e junto à cruz, onde é nomeada máe de Joáo; depois da ressurreiqáo está em Jerusalém acom panhando os apóstelos (At 1,14). Maria Madalena: é uma das mulheres curadas que acompanham Jesús (Le 8,1-3); presente no Calvàrio (M t 27,36); diante do sepul­ cro (Mt 27,61); vai ao sepulcro (MI 28,1); segundo Jo 20,1-18, é a primeira testemunha e anunciadora da ressurreiqáo. M aria de Betánia, irmá de Marta, aparece hospedando e escu tando Jesús (Le 10,38-41), o unge (Jo 12,1-8). — Mulher. M atrimonio. Jesús corrige a legislarán mosaica, apelando para a instituidlo que refere Gn 2; Me 10,1-9 par. H it alguma excegáo? Mt 5,32 e 19,9 silo textos discutidos (porneia ). Instili góes sobre o matrimonio (IC o r 7; I I 5,22-33; lP d 3,7). O matrimònio, símbolo da uniáo do Messias coni « Igreja (E f 5; Jo 3,29; 2Cor 11,2; A|21,2.9; 22,17.20). -» Virgindade M ediador. Gl 3,19 refere a Moni'* Agora Jesús Cristo é o único Mnllit dor entre os homens e Deus, cuino Filho, profeta, servo (lT m 2,5; I M iN ,(i 9,15ss; 12,24). Por sua relagño mili * com o Pai (M t 11,27), porque vni un Pai (Jo 14,6). M elquisedec. Hb 5,1-10 e 7,1 « ploram a figura de Melquiseilo mi Gn 14 e SI 110. M em oria. Em forma implícita •■ •Jil |n» sente como exigencia em toil.i ,i mil sáo de Jesús. Explicitamenle i ' IM mii a recomendagáo de Jo I5,.’0 i ii In» tituigáo form al da memonn "ion rística (IC o r 11,25). llm.i |ni>ll^4t produz seu efeito de recniiliri loieiih quando é recordada ao ciuii|nli Pedro (Mt 26,65), os ¡mino. (Mi H 63), os cristáos (2IM M-uimi corda os fatos da inlam i.i ( I ■ ' l" ') | M em oria judicial dir. ili Iti,«« 18,5).

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M enino. M encionam -se suas brincadeiras (Mt 11,16), Jésus os acolhe (Mt 19,13) e eles o aclamam (M t 21,15). Jésus os apresenta com o modelo de atitude espiritual humilde e recepti­ va (Mt 18,2-5). Sentido negativo de infantilismo (ÍC o r 14,20). M ateus e Lucas se interessam pela infância de Jésus. M essias. — * Cristo. M estre (didaskalos , rabbi). Título corrente de alguns judeus e de Jésus (Mt 17,24; 26,18), reconhecido por Nicodemos como enviado por Deus (Jo 3,2), o título está implícito em toda a sua tarefa de ensinar. Na Igreja aparecem cargo e título ñas listas (IC o r 12,28s; Ef 4,11); mas nao se deve cobiçar essa funçâo (Tg 3,1). M idraxe. Tipo de com entário rabínico i Biblia: náo crítico, mas relacionan­ do textos, explorando seu potencial • imbólico, am pliando relatos para explicá-los (hagadá ), tirando conse(|iiências para a conduta (halaká ). < orno técnica e estilo presente no NT. * Interpretaçâo. Milagres. Sinónimos: prodigios, pori' utos, sinais (thaumasia, terata, semcia, dynameis). As vezes acumul.un-se os termos (segundo a tradiçâo ■ l'>AT). Os termos sugerem o maraillioso, extraordinário, sobre-humaiii) da açâo ( p l\ thaumasiorí) ou ini" im sua funçâo. Sua funçâo é: fazer .... Iiem extraordinário, provar um I»»1er; sáo parte integrante da mism u* de Jesús e dos apóstalos. Histoii' Hlade: há nos Evangelhos certa tenilfii' ni a aumentar, duplicar; o efeito ""l«ivoe nos rivais abona uma histoH' i l ule básica. M uitos sáo sinais e ......... ilagres em sentido metafísico. i i' iio nos rivais (M t 21,15); como «i urna força saísse dele (M e 5,30; I ■ '■ l‘>); resumo em A t 2,22. Paulo, ■ i' dro, os realiza (At; Rm 15,19). ^ | i i t i ' os — » carism as (IC o r 12,28). " pi. l. ir. pedem a Jesús um sinal que fc iH|,nnr sua missâo (M t 12,38; Jo ' Ml' i' us o oferece (Jo 2,11; 4,54), fc i» ii' ' o povo (Jo 2,23) e a Nicot ■ i lo 3,2); transm ite seu poder.

Misericordia, a) Jesús dá mostras cons­ tantes de m isericordia em sentim en­ to e em obras: à multidáo (Me 6,34), aos enfermos (Mt 14,14), à viúva (Le 7,13); preocupa-se, com padece-se (Hb 4,15); assim se revela o perfil do seu Pai. b) Deus é rico em misericor­ dia (E f 2,4. Cf. Ex 34,6), pela qual nos salva (Tt 3,5), nos regenera (1 Pd 1,3); na parábola do filho pródigo (Le 15,20), com os pagaos (Rm 15,9), o leva com o título (2Cor 1,3); pelo que o hom em deve im itá-lo (Le 6,36). c) O cristáo: tem uma bem-aventuranga (Mt 5,7), o bom samaritano (Le 10, 33), o mau administrador (Mt 18,33); sentim entos (C1 3,12); vale mais que o sacrificio (M t 9,13) e que as obser­ vancias (M t 23,23). — » Compaixáo. — » Ira. M isterio. O grego mysterion pode sig­ nificar símbolo, segredo, mistério que se revela. Símbolo (E f 5,32; Ap 1,20; 17,7). Segredo que se comunica ou explica: ñas parábolas do reino (Mt 13,11). M istério que se revela, pro­ jeto secreto: antes escondido (IC or 2,7; E f 3,9) e agora revelado (E f 1,9; C 11,26). Seu conteúdo: o evangelho (E f 6,19); a obstinagáo dos judeus (Rm 11,25), a vocacáo dos pagaos: frequente. Há tam bém um “mistério da iniqüidade”, um poder do mal que atua em segredo (2Ts 2,7). Em lT m 3,16 equivale a um prontuàrio ou cre­ do da fé e da piedade. M oisés. Referencia simples ao AT (Mt 8,4; 19,7; At 7). Em paralelo antité­ tico (M t 5; 2Cor 3; Jo 1,17; Jo 6,32); na boca dos rivais (Jo 9,28s). Tipo de Cristo: do batismo (IC or 10,2), na fidelidade (Hb 3,2). Comparece na tran sfig u rad o , canta-se seu càntico novo (Ap 15,3). M orte. Ap 2,11 distingue uma primeira e uma segunda morte. A primeira seria a condigáo do homem, ao mesmo tempo mortal (cf. Eclo 17,15; Hb 9,27) e destinado à imortalidade (Sb 2,23). O pecado frustra esse destino e fecha a saída à morte primeira (bio­ lógica); o pecado consolida a morte primeira na morte segunda (Rm 5,12;

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6,16; Tg 1,15 — paradoxo— ).A m orte segunda é o último inimigo a ser vencido (IC o r 15,26). Cristo o reali­ za, nâo de fora, mas entrando como “m ais forte” na casa controlada pelo “forte” (Le 11,21s). Jesús passa pela morte prim eira dando-lhe saída para a vida; assim vence definitivamente a morte (IC o r 15,14; cf. Is 25,8; Os 13,14); passa ao reino onde nâo existe a m orte (Ap 21,4). Entâo a m orte pode glorificar a Deus: de Pedro (Jo 21,19), de Paulo (F1 1,20). Entâo o hom em pode configurar (sym m orphos) sua morte à de Cristo (FI 3,10) fazendo déla urna passagem para a vida, inclusive antecipa essa passagem (U o 3,14). Vencendo a morte, Cristo vence tam bém o m edo que escraviza (Hb 2,15). — * Inferno — » Ressurreiçào. M ulher. Jésu s lhes dedica especial atençâo: admite-as em sua companhia (Le 8,2), em sua am izade (Jo 11), dedica-lhes milagres, perdoa a adúl­ tera (Jo 8,11), adm ite a unçâo (Le 7,36-50). Sâo protagonistas na sepul­ tura e nos prim eiros m om entos da ressurreiçâo. Figuram nas saudaçôes das cartas. Sâo iguais no batism o (G1 3,12s) e na esperança (lP d 3,7). Sua funçâo é subordinada (nâo se consi­ dera indignidade ser súdito) na fam i­ lia (lT m 2,15) e no culto (IC o r 11,3); pode falar usando o véu (IC o r 11,5); nâo deve falar (IC o r 14,34; lT m 2,12). Sobre as — » viúvas (lT m 5,310). — » Maria. M undo, a) Sentido cronológico: o uni­ verso criado, que com eça (M t 24,21) com a criaçâo (E f 1,4) e terminará (Mt 13,40). O mundo dos homens (Le 12,30). Os “elem entos do m undo” parecem ser realidades ou forças cós­ micas que dominam ou submetem o homem. b) Sentido teológico. Contraposto a Deus (IC o r 1,20-28; 2,12); hostil a Deus e a Jesús Cristo (IC o r 2,8). Idéia central em Joâo, que leva ao extremo a oposiçâo, até considéra­ los irreconciliáveis (Jo 17,9); é julgado e condenado com seu chefe (Jo 12,31s), porque Cristo venceu o mun­

do (Jo 16,33). c) Em outro sentido, o m undo pode ser redimido: Deus o reconcilia consigo (2Cor 5,19); Cristo vem salvá-lo (lT m 1,15), é sua luz (Jo 8,12). Deus o ama (Jo 3,16s). d) O cristáo nao é do mundo (Jo 15,19), nao deve amá-lo (lJo 2,15; Tg 4,4), deve vencé-lo (lJo 5,4s), relativizálo (IC o r 7,31); mas há de permane­ cer nele (Jo 17,15) e pregar nele e a ele o evangelho (Me 16,15).

N
Nome. O vocábulo grego (onoma ) con­ serva os significados do hebraico shem: nome-título-fama. Como em portu­ gués, é decisivo o uso das preposi qóes: imposiqáo + e x p lic a d o (MI 1.21), mudanza de nome, Pedro (Mi' 3,16), novo (Ap 2,17). Em nome de (en onomati ): representando, com h autoridade de (Mt 7,22; Le 10,7), du Pai (Jo 5,43; 10,25; IC or 5,4). IVI.i nome (hyper o. dia o.) por causa tli (At 21,13), por causa do nome <|in invocam, por serem cristáos; odiadnn (Mt 10,22). Em atencao a (epi o.) (M > 9,37.41). Invocando, mencionando alegando: o bendizer (M e 11,'), Ai 4 ,1 7 s), a le g a n d o na petigáo (I" 14,13); alegar o título falsamente (Mi 24,5). Para, em honra de (eis o ) lii vocando e consagrando: batismo (Mi 28,19; IC o r 1,13.15), u n c a o | Id 5,14), congregagáo (Mt 18,20) 11 1 » lo: sublim e, suprem o (Fl .’. MI, | l 1.21). At 2,21 póe o nome di lew* Cristo ao citar J1 3,5. Novo. O adjetivo define em I> l<> «o IM a nova alianza, o Novo Ii sIuihi nhi Embora seja continuadlo do miit-iM algo novo se instaura, deixando hhM q u ad o o o u tro , completando. im I» » * # ve abolindo o antigo iiunni form al, ultrapassanclo a i f o m id superando a imaginario. I ln imm *11 gao nova (2Cor 5,17), mu Ii>iihm| novo (E f 4,24), novos cii'»ím>iimcNÍ® (M t 13,52). O homem d n » h|i|IM á novidade (Mt 9 ,17) c vlvn iiM i* (I da nova (Rm 6,4), pcln movIiIkmÉ j| Espirito (Rm 7,6). Min ll> > i

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NOTAS TEMÁTICAS DO NT

te a última novidade, que Jesús anun­ cia (M t 26,29), do universo (2Pd 3,13; Ap 21,5). — * Criagáo. Números. Valor sim bólico de sete e de doze no Apocalipse; de letras: os 153 peixes e o en igm ático 6 6 6 de Ap 13,18. Nuvem. O motivo clássico da nuvem teofánica aparece na — * transfigura­ do, — * ascensáo e — * parusia: indica a presenta, velando a figura.
O

Obediencia. Jesús obedece á — » lei: práticas litúrgicas, o imposto do tem ­ plo (Mt 17,24ss), nasce sob a lei (G1 4,4). Obedece ao Pai (Le 2,49; 4,43); até á cruz (F1 2,8; Hb 10,5-10, citan­ do SI 40); é sua com ida (Jo 3,34). A obediencia do cristáo: inculcada em l ,c 17,7-10; no Pai nosso. A fé como i ibediéncia ou resposta positiva (Rm 1,5; 10,16; 15,18). Na vida familiar: mulher, filhos e servos (E f 6 ). <M u as, tarefa. a) De Deus: atuou na ■i uiqáo, que é obra sua (Hb 1,10; 2,7; l l citando o AT), na historia salilica (Hb 3,9), na redengáo (Jo 9,3), ■ continua atuando (Jo 5,17). Jesús " 11 be do Pai sua tarefa, a ser reali"l.i até o fim: idéia freqüente em 1 • "> (Jo 1,32-38; 17,4). b) O homem. i a nin lado, as obras nao dáo — * jus'' a, 11fio dáo direitos diante de Deus: ' u doutrina de Paulo em Gálatas e • ‘Mii.mos. Por outro lado, urna — * fé ■1 1 niica e vital produz frutos de boas Ljtliia-.. como explica Tiago; por isso ■ ■i mvadas (Mt 5,16); recomenda1 ■ i ’( or 9,8); Deus as leva em con1 \p \2 );p o re la sju lg a rá(R m 2 ,6 ). 1 1 "iiin m i o Diabo realiza suas obras " i • t.K). •Mr.i i 1 i se para iluminar e perfumar 1 • , 16), é m edicinal (Le 10,34); |ii|n> i' i se no rito da — * unijáo (Hb * 1 Ir >,14). I ***1 1 "ino órgáo da visáo percebe lp|t* na ebe a luz e a fornece a to* "i po (o corpo inteiro vé pelos ■ i • "mu cuna lampada (Mt 6,22). ti como sede da estim ati­

va aprecia e define valores: daí o semitismo “olho m au” = tacanho, invejoso (M t 6,23; Mt 20,15; Me 5,2) e correlativam ente “olho bom/simples” = generoso (Mt 6,22); cobiga de bens (lJ o 2,16). — » Ver. — > Visáo. Oragáo. a) De Jesús. Oracáo ritual: alu­ de as 18 bén§áos e cita o “Ouve, Is­ rael”, dá grabas ao partir o páo e re­ cita o grande H allel (M e 14,26). Ora§áo pessoal: é freqüente, no batismo (Le 3,21), ao escolher os Doze (Le 6,12), na eonfissáo de Pedro (Le 9,18). Oraqáo ao Pai (Mt ll,1 5 s; Jo 11,41; Jo 17), no Getsémani, na cruz, b) Do cristáo. Cristo nos ensina a orar (Mt 6,9-13; Le 11,2-5) sem m ultipli­ car palavras. O cristáo deve orar com confianza (Mt 18,19), com perseve­ rancia (Le 18,1), sem titubear (Tg 1,58 ), com sinceridade interna (M t 6 ,6 ), em com panhia (M t 18,19), com humildade (Le 18,9-14). Orgulho. O hom em nao deve gloriar­ se: de suas qualidades e dons (iC o r 4,7), da lei (Rm 2,23), das obras como méritos (E f 2,9; Rm 3,27), por razóes hum anas (2Cor 11,18), por cima dos outros (Rm 11,18), de valores hum a­ nos (lC o r 3,21), diante de Deus ale­ gando m éritos-direitos (IC or 1,29). Mas pode e deve gloriar-se: de Deus (Rm 5,11), de Jesús Cristo (F1 3,3), da cruz (G16,14), das tr ib u ía le s (G1 5,3) e fraquezas (2Cor 12,5-9), da esperanza (Rm 5,2); o apóstolo por urna comunidade (2Ts 1,4; 2Cor 7,4). — » Humildade.

Paciéncia. De Deus, adiando (Rm 2,5); de Cristo (At 8,32), como exemplo (2Ts 3,5); do cristáo (Rm 5,3), ñas provagóes (Tg 1,2-4). — > Paixáo. Pagaos, gentíos, nagóes. Subsiste no NT a ambigüidade do hebraico goyim = pagáos/nagoes, como mostra Mt 25. O principio é que a redengáo do M es­ sias é universal e anula as diferenijas (Rm 5,18). A prática da incorporado pode-se apreciar, p. ex., em A t 1011. A s cartas explicam a doutrina

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(Rm 12,13; E f 4,4-6). Essa vocaçâo universal é revelada agora (Rm 16, 26). — » Prosélito. Pai. — * Deus. — » Trindade. Paixáo. a) Os relatos alcançam, já na tradiçâo oral, urna form a estável e orgánica, distinguem -se pela ordem e concentraçao, com variantes signi­ ficativas. b) Teología. Faz parte de um designio, “tem que, há d e”, é anunciada très vezes (M e 8,31; 9,31; 10,33s) e referida outras vezes, ex­ plicada depois (Le 24,25); prefigu­ rada em Is 53 e SI 22 entre outros; pregada sem rodeios pelos apóstolos em Atos. É resgate (Mt 20,28 par.). Jesús trata déla conscientem ente (Mt 26; Jo 13,lss), querendo (M e 14,42). Paulo prefere o termo cruz; é prova de — » am or (2Cor 5,14), revela — * sabedoria e força (IC o r 1,18), opera a redençâo (Rm 3); é fundamento do — * culto (F12,11), do — » batismo (Rm 6 ) e da eucaristía (IC o r 10). Joáo a apresenta como exaltaçâo (3,14; 8,28; 12,32); é ato de — » solidariedade (Hb 2,18; 5,8) e exemplo (lP d l,21ss). c) O cristao deve aceitá-la e imitá-la (Mt 10; 16,24 par.; F1 l,29s); o apóstolo (At 9,16) se gloria (2Cor 12); participaçâo física na tribulaçâo ( thlipsis) e m ística no batismo. Palavra. a) De Deus: por primeiro é citado o AT (Rm 13,9; A p 17,17). É a boa noticia proclam ada (At 4,29; F1 1,4); a m ensagem da verdade (E f 1,13), da vida (F1 2,16), auténtica (lT s 2,13), é força (IC o r 1,18), é li­ vre (2Tm 2,9) e julga (Hb 4,12). b) Jesús é a Palavra (Jo 1,1.14; lJo 1,1; Ap 19,13); sua palavra soa com autoridade (Mt 7,29), é do Pai (Jo 6 ,6 8 ), é de Deus (Hb 1,2). Pao. O m ilagre dos pâes se conta nos quatro Evangelhos, duas vezes em Mt e em Me (M t 14 e 15; Me 6 e 8 ). O sentido do pao eucarístico se explica em Jo 6 : Jesús é o pao do céu que dá vida. Parábola. Traduz sem definir o he­ braico mashal, que é aforismo, comp araçâo, fáb u la, relato exem plar. <'orno tal, costuma ter um plano im a­

ginativo, quase sempre de agáo, e um plano de significado transcendente. Com freqiiència se referem à iminència ou presenta do reinado definiti­ vo (escatològico) de Deus. Algumas incorporam a ex p lic ad o posterior da comunidade, ou melhor, sao texto e leitura. Sobre sua compreensào (Mt 13,14s). Paráclito. E o advogado ou valedor. Sua funcjào é exortar, defender, con­ solar. Título de Jesús Cristo (1 Jo 2,1); do Espirito (Jo 14,16). Parusia. Significa, em geral, presenqa/ visita, em particular a visita festivi! de um monarca. Em sentido técnico é a segunda e definitiva vinda de Je sus Cristo, com gloria, para julgar r instaurar o reino definitivo do Pai Textos básicos: Mt 24 e 1— 2 Ts; on tras referéncias (IC or 15,23; Tg 5, /, 2Pd 1,16; 3,4-12; lJo 2,18). Sem us.n o termo, referem-se a ele com sinA nim os: m a n ife sta d o ( epiphaiifin ) dia do Senhor, vinda de Cristo, ni contro. O modo será terrível e In,II vo: com gloria, acompanhado de un jo s (céu), com aparato cósmic o, u todos os homens. Sobre o tempo, luí duas versóes: será repentina/pievi* ta, im inente/adiada; segundo lottn está acontecendo agora, é espiiiliml escondida, nao espetacular; o Apoi h lipse a faz coincidir com a quedii di Roma = Babilonia. Páscoa. Jesús celebra a tradicional i l . 2,41; Jo 2,23), a última sua (Mi par.). E a nova páscoa (1 Coi '■>,/) mi cificado na hora de matai o • i m deiro (Jo 19,14). — ► Sacri I n io Pastor. Como imagem: l<-xt<> • • Im IM *4K (Jo 10,21 e lPd). Paz. Saudaqáo hebraica, ctr.i.i • .i|«« tólica; é eficaz (Mt IO. I ') Aimink se no nascimento (I c I 11. • ** na entrada em Jernsalcin (I • I ' 1 s*l é saudagáo do Ressuseiludo (I ■ ' j 36), dom do Espirilo (l'ui Mii j j 5,22). Incluí a paz com I mi * | M 5,1); na Igreja (I l ’ Il I / ) dos (Mt 5,9; I Ib I I I ) • 'l.-iié . Pecado. Termo í n n d a m . nini /i.tmdfÉ sinónimos: unomni ( ■• ni l> o

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NOTAS TEMÁTICAS DO NT

(injusticia), paraptom a e parabasis (transgressáo); outros sao específicos. Metáforas: divida, mancha, carga. Em relagáo com uma norma, com urna pessoa, Deus ou Cristo: afastar-se, abandonar, negar. Personifica-se. A presenga e a doutrina do pecado sao fundam entáis e constantes no NT, como fundo de contraste para a mensagem positiva da boa noticia. Para orientar-se na complexidade, sao úteis algumas distingóes: a) como ato responsável, individual ou coletivo, como condiqáo humana, radical e univer­ sal; interior ao homem e concebido como exterior a ele, hamartia perso­ nificada; b) como infragáo de uma norma objetiva, lei ou mandamento, como ruptura com uma pessoa, Deus ou Cristo; c) daí se seguem as consec|iiéncias: culpa-reato, ira-condenacao, castigo-m orte; d) o pecado co­ metido se anula pelo perdáo, que é l' iacja de Deus por meio de Jesús Cris­ ti > ; seu poder se detém pela — * graga; c) o pecado se relaciona com o ins­ tinto (sarx ), com o — * Diabo, com o * mundo (segundo Joáo). Há peca> l' > s que acarretam a morte ( lJ o 5, I lis). Textos mais significativos: Rm < ■ Jo 12,17; lJo . Jesús nao comete l" i ido (Jo 8,46) e vem para ocupar■ iln pecado (Rm 8,3; 2Cor 5,21). ■ ■ i<lor. Em sentido técnico, costumav i i i i i chamar de pecador quem levavii uma vida pública depravada ou lo >iiicava uma profissáo pecaminosa, ■ni.. |n o stitu ta se -» publícanos (Mt '< lambém quem nao cum pria a 1 . i iiisaica (Jo 7,49), inclusive os ■ | h ,.d..', (Mt 26,45). • i. i (> NT distingue entre pedra Un/i,.,) , rocha (petra ) na linha da b> i. anidan hebraica entre ’eben e gur. 1 ............i os termos (Mt 16,18). Je*n» . i |M-iira angular (Mt 21,42; Ef f 'i IIM 2,7) e a pedra de tropero n ni Rm 9,32, citando SI 118, * l 16). Os cristáos sao pedras . lilicagáo da Igreja (lP d * II .’I). * 1 1 ■ 11 \ Deus com pete perdoar ■ i' ' i N I 130). Jesús perdoa — » pe­

cados (Mt 9,2ss), pede perdáo pelos algozes (Le 23,34), concede o poder aos apóstolos (Jo 20,21-23), que o exercem normalmente (At 5,31). b) O perdáo se obtém pelo batismo de Joáo (M e 1,4), pela fé (At 10,43), pelo am or (Le 7,47), pela súplica da Igreja (Tg 5,13s); do perdáo se ex­ cluí o pecado contra o Espirito Santo (Me 3,28s). c) O cristáo deve perdoar os irmáos e os inimigos (M t 18,2135; Le 17,3). Perseguirá0- Jesús é perseguido (Jo 13,18) e o seráo seus discípulos (Jo 15,20); Jesús o anuncia (Jo 16,1-4). Paulo, antes perseguidor, é persegui­ do (At 9) como os outros apóstolos (At 4). É parte da vida cristá ( 1Ts 3,3); deve ser enfrentada com paciencia (Mt 10,22) e até com gozo (Mt 5,1112; lP d 4,12); rezar pelos persegui­ dores (Rm 12,14). Pescador. Como imagem (Mt 4,19 par.). Pobreza. E uma bem-aventuranga (Mt 5,3; Le 6,20; explanagáo em Tg 1,911; 2,1-13); duas classes de pobreza (Ap 3,17s); a viúva pobre e generosa (Le 21,1-4). Cristo se fez pobre (2Cor 8,9); pobreza do apóstolo (Mt 10,9; 19,21-25). — » Riqueza. Pomba. Exemplo de sim plicidade sem duplicidade nem mescla (M t 10,16). Imagem na qual se manifesta o Espi­ rito, aludindo talvez ao Càntico dos Cánticos e revelando o amor. Pragas. A palavra grega plege é tradugáo do hebraico makka. Significa primeiro golpe, chaga (At 16,23-33; Ap 13,3). Dai passa a significar uma des­ grana ou calamidade grave e coletiva. Tomando como modelo ou inspi­ r a d o o relato de Exodo, Apocalipse descreve o suceder-se de diversas pragas mais ou menos fantásticas. Pregagáo, proclamar (kerysso ). E anúncio oficial, em virtude de um cargo ou m issáo, oral e público. Funcjáo prim ària do Batista, de Jesús, dos apóstolos. Seu conteúdo básico é o evangelho ou boa noticia, o reinado/ reino de Deus, a pessoa e obra e mensagem de Jesús Cristo. Deve ser uni­ versal e será acompanhada de sinais

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e dotada de força superior. Convida à conversâo e à fé. Os Evangelhos e os Atos a apresentam em açâo. Primicias, primogénito, a) Cristo é o primogénito do Pai (Hb 1,6), de muitos irmâos, da criaçào (Cl 1,15), dos mortos por ser o prim eiro ressuscitado (IC o r 15,20.23; Cl 1,18; Ap 1,5). b) O cristâo; é prim icias (2Ts 2,13; Tg 1,18; Ap 14,4), em bora cronoló­ gicamente se possam chamar prim i­ cias os judeus (Rm 1,16); o primeiro convertido de uma regiâo (Rm 16,5). Possuir com o prim icias o Espirito (Rm 8,23). Profano. Em teoria há dois sistemas de oposiçôes: sagrado/profano e puro/ im puro-contam inado; na prática se sobrepóem. O profano pode ser con­ sagrado, o impuro pode ser purifica­ do por abluçôes ou açôes rituais. Os tabus, alimentos e relaçôes nao admitem mudança. Profeta. Os do AT sao citados ou a eles se fazem alusóes. Os do NT: existéncia (At 13,1; 21,10; talvez Ef 3,5); nomeaçâo (E f 4,11), profetisas (At 21.9). Jesús é profeta (Le 4,24), tido como tal (M t 21,46), o profeta (Jo 6,14). A profecía é um carisma (IC or 12,28ss; 14,32; !Ts5,20). O A ^ c a lip se se apresenta com o profecía (1,3; 22 . 10). Promessa. O AT é em boa parte promessa, em sua dinám ica interior his­ tórica e em seu m ovim ento para o futuro. O NT vem cum prir e trans­ bordar todas as prom essas do AT no dom de Jesús e do Espirito, a) Jesús é o sim = realizaçâo das promessas (2Cor 1,20); faz múltiplas promessas aos seus: bem -aventuranças (Mt 5,112), apoio na missáo (M t 28,20); re­ sume-as na vida eterna (Jo 3,16). b) O Espirito é a promessa do Pai (At 1,4; G1 3,14). c) O cristâo é herdeiro das prom essas (E f 3,6), continua es­ perando o cum prim ento da promes­ sa final (Hb 10,26). — » Esperança. Prosélito = adventicio. Distinguiain-se os plenam ente convertidos ao juda­ ismo e circuncidados (Mt 23,15), pre­ sentes (At 2,11; 6,5); e os simpati­

zantes, homens rclij'.ioM r.. /•/1. i> ,< noi (At 10) ou \ehom cn,‘i t u i t| — » Pagaos. Ppovérbios, aforismos, si ni'ii. , das formas do mashal. ! ■ " .... i . generosamente o género m i ........ a namento e pregagáo. ......................... pilar um repertorio ou aniel.., ¡ . i les, como um texto sapiem i.il .i • 1 P ublicano. Cobrador tic itn| > •■ n servigode Roma; iam acomp mh . i e protegidos por policiais 11 ■ -i.■ i tipos de impostos: o geral (/■ ■" phoros) e o da alfándega ou Im in dor ( telos ). O sistema se pn i . . abusos: o cobrador, e mar. .mi.I. chefe, se enriqueciam á cusía .la p pulagáo, por isso eram mal vra.i cham ados de pecadores. Coi ive 11. ... se Levi-M ateus e Zaqueu. O ía ......I publicano (Le 18,9-14). Pureza legal. A legislagao do 1 < m e do Deuteronómio e mais ainda a m terpretagáo rígida dos fariscir. abolidas por Jesús (Mt 15,1 ls:.) < ¡i. insiste na pureza interior, que 6 i.... bem-aventuranga (Mt 5,8). — * Prolan.

R
Rabí, rabino. Pela etimología é ti 11■ I•■ honorífico, na prática era título bi­ mestre. O Batista e com freqüéiu i.i Jesús o recebem. As vezes se tradu, por didaskalos = mestre ou epistat. , R econciliagáo. Texto básico 2Coi > 18ss: Deus reconcilia consigo o ho mem, por meio de Cristo. Pregá-la e o m in istério apostólico prim ário Reconciliam -se judeus com pagao;. (E f 2,16), o céu com a térra (C11,20). — * Perdáo. — » Pecado. Redengáo. O NT prolonga o uso do; verbos hebraicos pdh e g 7. No sen l i do genérico de libertar (Le 1,68; 2,38. 24,21); de uma conduta (Tt 2,14; Hb 9,15; lP d 1,18). Com o matiz de com prar, resgatar uma propriedade alie nada (IC o r 6,20; 7,23; G1 3,13; 4,5; Ap 5,9); para adquirir (E f 1,14) por um prego (lP d 1,18; Rm 3,24). Com o matiz de resgatar de uma escravi dáo (Rm 8,23; E f 4,30).

NOTAS TEMÁTICAS DO NT

I

llno, reinado. Como territorio e posÉe, com o exercício do poder real. Mantém-se certa ambigüidade de sig­ nificado. O reinado se aproxima, chega, com eta, no reino a pessoa entra e le incorpora. Termo ( basileia ) típico dos sinóticos. O Batista e Jesús o «nunciam. É transcendente e presen­ te, futuro e atual. Está para chegar (Me 1,15), já chegou (Mt 12,28), está no meio (Le 17,20s). E dom de Deus (Le 12,32; 21,29), nao depende da raga (Mt 8,12), mas da conversáo (Me I,15) e obediencia a Deus (M t 7, 21ss). As parábolas do reino propóem ou sugerem essa tensáo entre o pre­ sente escondido e o futuro manifesto (Mt 13 e 21). Reino — » reinado de Cristo (Le 23,42; Ef 5,5; 2Tm 4,1). lessurrei^áo. Admitida pelos fariseus, ao contràrio dos saduceus (M t 22,23; At 24,15); afirma-a no sentido de “levantar-se” para com parecer a julgamento. (Em Jo 5,29, a palavra grega ' significa levantar-se: de quem jaz, do sono, da morte, seguindo o hebraico qum.) Ressurrei^áo de Cristo. Os relatos se distinguem pela variedade nos Evangelhos; nao há urna sèrie e urna ordem estáveis; sublinham a identidade do Ressuscitado; comegam a expli­ car o sentido e acrescentam instrucóes eclesiais. Dar testem unho da ressurreigáo de Jesus é missáo primordial do apóstolo (At 1,21; 2,32 etc.). Doutrina: Jesus é a ressurreigáo (Jo 11,25); texto básico (IC o r 15). Dos cristáos (Rm 8,11; 2Cor 5,4; IC or 6,14); Je­ sus os ressuscita (Jo 6,39.44.53). — » Vi­ da. — » Morte. — * Eternidade. Ressuscitar. No sentido transitivo: em Naim (Le 7,11.17), a filha de Jairo (Mt 9,18-26), Lázaro (Jo 11). Dorcas (At 9,36-43), Éutico (At 20,9-12). Resto. Como no AT. R etrib u id o . Castigo : os maus vinhateiros (M t 2 1 ,3 3 -4 6 ), im postores (2Cor 11,15). Por abuso da eucaris­ tia (IC o r 11,30). Por nao crer (Le 20,17-28), por nao converter-se (Mt II,20-24). Da Babilonia sim bólica (Ap 18). Prèm io : já na terra (M t 10,

30s), escatológica (M t 25; Rm 2,6; Ap 2,23; 20,12s). Segundo as obras (2Tm 4,14; Hb 11,6; Ap 22,12); sem proporqáo com os sofrimentos (Rm 8,18); a heranqa (C1 3,24) ou a vida eterna (M t 25,46). — » Obras. Revelagáo. Descobrir o oculto. Informar sobre dados ou manifestar em a d o . O Pai revela a Pedro (Mt 16,17), o Pai nos revela o Filho (G1 1,16). Je­ sús revela o Pai (Mt ll,2 5 ss; Jo 1,18; 14,9); revelar-se-á na parusia (2Ts 1,7). O Espirito revela a intimidade de Deus (IC o r 2,10), revela progressivamente (Jo 16,13). A c o n d id o ple­ na de filhos de Deus se revelará (Rm 8,19; lJo 3,2). Rocha. -» Pedra. Roma. Em 63 a.C. a Judéia é incorpo­ rada á provincia romana da Siria; é governada por um procurador ou governador romano ou por reis e etnarcas sob a tutela de Roma. Os romanos se reservam várias competencias ju ­ rídicas, respeitam a religiáo e costumes locáis. Cobram impostos (por meio de cobradores locáis, publicanos), m antém tropas de o c u p a d o . Aceitos pelos saduceus, tolerados pe­ los fariseus, odiados por grande par­ te do povo. A s duas revoltas armadas contra Roma, nos anos 70 e 135, terminam trágicamente com a destrui­ d o do templo e a d e v a sta d o de Jerusalém e da Judéia. — » Babilonia.

s
Sábado. Jesús polemiza contra a inter­ p re ta d o exagerada e casuística do preceito bíblico; relativiza seu valor, subordinando-o ao homem (Mt 22, 27), coloca-o sob sua autoridade (Me 2,28). Por outro lado, ensina no sába­ do ñas sinagogas (M e 1,21; 6,2); o mesmo fará Paulo (At 13,14). Os cris­ táos logo abandonaram a observan­ cia do sábado e celebraram o “primeiro dia” como dia do Senhor (kyriakos ) (IC o r 16,2; A t 20,7). Sabedoria. A sabedoria-sensatez-habilidade era urna qualidade e atividade humana, internacional, transmitida e

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aprendida em diversos am bientes. Em tempos posteriores, os “sábios” (jhakamim ) se concentram no estudo e na explicacáo da torà. Jesus reto­ ma em seu enfoque e estilo a tradigáo antiga (parábolas, aforismos), su­ perando a estreiteza dos m estres, seu legalismo, e ensinando com autoridade. a) Deus é sábio em seus planos secretos (IC o r 2,7), é o único sábio (Rm 16,27), profundo (Rm 11,33), múltiplo (E f 3,10). b) Jesus é a sabedoria de Deus (IC o r 1,27), encerra todos os tesouros de sabedoria (C1 2,3), progride na sabedoria (formagáo hum ana) (Le 2,40.52), propóe coisas novas e antigas (M t 13,52). c) Sabedoria humana e divina, distingao e polèmica. Texto básico (IC o r 1-2) cam al/espiritual (2Cor 1,12/C1 1,9); do alto/terrena (Tg 1,15); humanam undana/divina (IC o r 2,13; 3,19/ 1,21). A Sabedoria de Deus se acre­ dita (Le 7,35), a hum ana se confun­ de (Rm 1,22); Deus esconde sua revelagáo aos doutos (Mt 11,25). d) O homem pode adquirir essa nova sa­ bedoria com o dom de Deus (Tg 1,5), como carisma do Espirito (IC o r 12,8; Ef 1,17), assim poderá ensinar aos outros (C1 1,28). Sacerdotes. Judeus (M t 8,4) converti­ dos (A t 6,7). Jesús Cristo na exposigáo de H ebreus. Os cristáos (lP d 2,5.9; A p 1,6; 5,10; 20,6). Nao no sentido diferenciado atual. — » Culto. Sacrificio, a) Jesús, em bora admita o culto (M t 21,13), relativiza seu va­ lor: é preciso antes reconciliar-se com o irmáo (M t 5,23); mais vale a m ise­ ricordia (Mt 9,13). Estabelsce uma nova alianga (Le 22,20), um novo modo de culto (Jo 4,21-24), apresenta-se com o novo tem plo (Jo 2,21) e anuncia a destruigáo do antigo (Mt 24, ls). b) A morte de Jesus como sa­ crificio: anunciado em Mt 20,28, afir­ mado em Ef 5,2; figurado: no san­ gue da nova alianga (IC o r 11,25), no cordeiro pascal im olado (IC o r 5,7), atribui-se ao sangue derram ado a redengào e expiagáo (Rm 3,25). H e­ breus desenvolve o tema. Joáo o cha­

ma cordeiro que tira o pecado (Jo 1,29), considera-o cordeiro pascal (Jo 19,14), atribui a seu sangue o perdáo dos pecados (Jo 1,7; 3,5). c) O cristáo oferece sua vida crista como sa­ crificio (Rm 12,1). Saduceus. Provavelm ente vinculam seu nome a Sadoc, sumo sacerdote de D avi e Salom áo. Form am uma espécie de seita religiosa e partido político: ricos, influentes, mas nao tanto sobre o povo, amigos dos ro­ manos, rivais dos — » fariseus. Ape gam-se à Escritura sem as adigóes dos fariseus; nao aceitam a ressurreigáo (M t 22,23-34) nem anjos nem espiri tos (At 23,6-8). Sào hostis a Jesús. Salvagáo. Tem dois componentes, sal var de, salvar para; é total, o homem todo; e universal, todos os homens; < é gratuita, a) Salvar: do pecado (Mi 1.21), da — » ira (Rm 5,9), da -* mot te (Tg 5,20). Salvar para a vida (I I 2.5), para o reino celeste (2Tm 4 ,1H| b) E total como mostram as curas (Mi 9.21), na tempestade (M t 14,30); di'" cer da cruz (M e 15,30), mesmo il« morte (Jo 11,12). Seu contràrio í " perdigáo ou destruigáo (Tg 4,12), I universal (lT m 2,4) e gratuiti! (I 1 2.5), pela fé (At 16,31). — H » dengáo. Salvador. Título de Deus (Tt 1,'), il> Jesús Cristo (At 5,31). S a m a ritan o s. Por suas origens e iieii gas, eram considerados pelos ¡míen como cismáticos, quase pagaon; i» m tinham relacionamento. Admilinm • o Pentateuco como Escritura i> h«! sideravam o m onte Gari/.im «M W único lugar legítimo de cullo Imp« rábola Jesus apresenta como muti** um samaritano (Le 10,30-37), verte uma mulher e toda i i i i i m |W j* lagáo (Jo 4), só um samaritano V m (i para lhe agradecer (Le 17,11«I#» Enquanto ele vivia, os apóNlolit» » * ■ devem pregar na Samaria; dé|tn(|rf ressurreigáo, sim (Mt 10.S; Al 1,1) Sangue. De — * sacrificio iIh Hi* 1 -* alianga (Le 22,20; 1III I UlIJ. * expiagao (Rm 3,25; Hl> V lli|, idte do resgate (lP d 1,19), ponimi it» (*

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NOTAS TEMÁTICAS DO NT

com Deus (C1 1,20; Ap 5,9). Sangue eucaristico: é verdadeira bebida (con­ tra o uso e sentimento hebraicos). O de C risto pede urna vinganga que consiste no perdáo (Hb 12,24). Santidade. Condigáo especial e exclu­ siva da divindade, à qual o homem acede pela consagragao. Sugere transcendéncia total e absoluta perfeigáo moral. A dupla oposigáo sagrado/pro­ fano e santo/pecador as vezes se sobrepóe. E próxima da perfeigáo. Deus é santo (Ap 4,8): assim o Filho o cha­ ma (Jo 17,11) e o cristao há de fazélo na oragáo (M t 6,9). Jesús é santo, consagrado pelo Espirito (Le 1,35; Me 1,24). O E spirito é Santo (Jo 20,22) e consagra (Rm 15,16). Con­ sagrados (ihagioi ) é título frequente dos cristáos; pode ter um componente ético (C1 3,12; E f 5,27). — » Cumprir. Santuàrio, tabernáculo. E sua origem a tenda móvel que serve de recinto sa­ grado, depois todo o recinto do tem­ plo ou o edificio dentro dele. Referi­ do como tipo do céu (Hb 8,2.5; 9 ,lis ) e da Jerusalém celeste (Ap 21,3). Satanás. — » Diabo. Segredo m essiànico. Jesus proíbe di­ vulgar que é ele o Messias: aos de­ monios (M e 1,25), aos curados (Me 1,44), aos apóstolos (M e 8,30). Vio. Serve para fechar algo com ga­ rantía: o sepulcro (Mt 27,66), o livro (Ap 5,2; 6,1), o Abism o (Ap 20,1). Serve para deixar a marca de garanlia e protegáo (Ap 7,2; 9,4); o selo ou marca do Espirito (Ef 1,13; 4,30). '«rnhor. Tradugáo de ’adonay - Yhwh. Título e nome de Deus (Le 1,38; At ¡ 17,24). Título de Cristo (Mt 21,3; Le /, 13; 11,39) em Joáo depois da resurreigáo (Jo 20,18); o mesmo em At ',26, na invocagáo maraña tha (IC or l(>,2 2 ), inserido na fórm ula nosso Srnhor Jesús Cristo. E o título supreI Ido de F1 2,11, e dà nome ao dominI |¡n = dies dominica, kyriakos (Ap 1 , 1 III). Título do Espirito (2Cor 3,17). t»i |iente. E xem plo de astucia (M t I lii.l 6), temível por seu veneno e usa! l i romo injuria (Mt 23,33). Cristo na ■ mu / é antítipo da serpente benéfica

de M oisés (Jo 3,14). Referència à serpente primordial (Gn 3) em 2Cor 11,3; Ap 12,9; 20,2. Servo. O apóstolo é servo de Cristo (Rm 1,1; Tg 1,1). Os cristáos fiéis (Ap 1,1). — * Escravo. Setenta (= LXX). É a tradugáo grega oficial da Biblia Hebraica, à qual se acrescentam os livros deuterocanónicos (alguns escritos originalmente em grego). E o texto citado norm al­ m ente no NT, embora nem sempre corresponda ao hebraico original. Sím bolos. — » Interpretagáo. Sinagoga. Edificio local de culto. Gover­ n a lo por um chefe ou arqui-sinagogo (M e 5,22), com um em pregado ou sacristáo (Le 4,20). A celebragáo cos­ tuma seguir uma ordem fixa: oxem a (“Ouve, Israel” Dt 6 ) com outras oragóes, leituras da torà e profetas, ho­ m ilía, béngào. Jesus aproveita a instituigáo para ensinar (Le 4; Jo 6 ), com o tam bém os apóstolos (At 3). Expulsar da sinagoga é uma espécie de excomunháo (Le 6,22; Jo 9,22.34). Sinal. — » Milagre. Sinèdrio. G rande Conselho, senado ( gerousia ). Supremo corpo de gover­ no e judicial. C om preende: sum os sacerdotes (familias sacerdotais do­ minantes), chefes de familia da aristo­ cracia (anciáos, senadores), letrados. Sao setenta, mais o sumo sacerdote que o preside. Julgam e condenam Jesús (M t 26,57-68); reuniáo delibe­ rativa prèvia (Jo 11,45-52); julgam os apóstolos (At 4— 6) e Paulo (At 22-23). — » Autoridade. Sinóticos. Sao os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, que eoloeam proble­ mas com suas coincidèncias e discre­ pancias: em cada perícope, ñas seqüéncias, na tendencia. A comparagáo permite agrupar perícopes que figu­ rarli na tradigáo tripla (Mt-Mc-Lc), tradigáo dupla (Mt-Lc), simples no res­ to. T ém sido elaboradas diversas teorías para explicar os fatos: a) uma teoria documental que póe como base Me + uma fonte que se reconstrói (Q). b) Interdependencia complexa, c) Tra­ digáo oral, na qual váo tomando for-

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ma relatos e seqüéncias, de acordo com formas relativam ente estáveis, que os evangelistas empregam como materiais para sua composigáo pessoal. Hoje se estudam de preferencia as formas comuns da tradicào oral e o pròprio de cada evangelista: crítica das formas-géneros e da redagáo. Sofrimento. — » Paixáo. Sol. Além do uso ordinàrio, é dom de Deus sem distingóes (Mt 5,45). Escurece na paixáo (Le 23,45), em pentecostes (At 2,20), na -* parusia (Mt 24,29; náo será necessàrio no céu (Ap 21,23; 22,5). Solidariedade e conceitos associados. Participar = partilhar recebendo urna parte com outros; partilhar dando do pròprio, solidariedade como espirito de ambos, a) Partilhar, tomar parte: negativo (At 8,2), positivo (C1 1,12). Jesús Cristo compartilha nossa carne e sangue (Hb 2,14), Pedro com Jesús (Jo 13,8). Da vocagáo (Hb 3,1), da ressurreigáo (Ap 20,2), da mesa euca­ ristica (IC o r 10,17), do Espirito (Hb 6,4). Compartilhar urna culpa é cumplicidade e solidariedade no mal (2Jo 11; lT m 5,22). b) Partilhar o pròprio (Gl 6,6; Rm 12,13; 15,16). Solidarie­ dade (At 2,42; 2Cor 9,13; Hb 13,16). - » Amor. Sonho, m eio de revelagáo (M t 1,24; 2,12s), pesadelo (M t 27,19), fantasia (Jd 8). Sono, Jesus na barca (Mt 8,24), os apóstolos (M t 26,40), os guardas (M t 28, 13, ter sono (At 20,9). Uso m etafóri­ co: preguiga (E f 5,14), m orte (Jo 11,11; At 7,60; 1Ts 5,10). Sumo sacerdote. Antes vitalicio, tom a­ se cargo anual desde Herodes M ag­ no. E a autoridade religiosa suprema, preside o Conselho ou sinèdrio, a ele se deve um respeito sagrado (At 23,4). Segundo Hebreus, Jesús Cristo é o novo sumo sacerdote.

T
Talento. O riginalm ente unidade m áxi­ ma ile prego; segundo peso, náo cunliada, é de prata quando se náo se

diz que é de ouro. Equivale a sessenta m inas ou a seis mil denários (o denário è o salàrio de um dia). U sa­ do em parábolas para indicar uma quantidade muito grande. Targum. Tradugáo parafrástica e ex­ plicativa das leituras bíblicas que se liam em hebraico. Transmitidas em tradigáo oral e recolhidas mais tarde por escrito. Influíram no uso que o NT faz do AT, como se reconhece cada vez mais. — » Interpretagáo. Temor. A raiz grega phobeo (como a hebraica y r ’) pode significar: o temor ou o m edo, a rev e rè n d a devida a Deus, a intimidagáo diante do mistério. a) Medo: dos hom ens (M t 10, 26.28; 2Cor 7,5), do castigo de Deus (Hb 10,27,31). Medo de náo fazei algo perfeitamente, ou de esquecei detalhes (2Cor 7,15; F1 2,12). b) In timidagáo diante da aparigáo de an jos (Le l,12s.29s), diante de milagro (Mt 9,8; Le 7,16), diante da transí i guragáo (M t 17,6). c) E tradicional c freqüente a fórmula “náo temas, nim tem áis” ao apresentar-se o Senlmi (Mt 28,5; Me 5,36; Jo 6,20). A vilo ria sobre o tem or é atitude básica di< cristáo (Rm 8,15; lJo 4,18). Templo. -» Culto. Tempo. Vocabulário: o genérico chin nos, semelhante ao nosso; aion i ni. etapa, século; kairos = sazáo, or* .... . siáo, conjuntura; anos, dias, 1 instante. Urna sèrie (Ap 9,15), mui dupla (lT s 5,1). d) Aion = idailr, culo = passado (apo) (At 15,1H). iim » mcrial ( ek ) (Jo 9,32), futuro (II If tem comego e fim (IC or 2,7), ¡iliM plesmente por toda a vida (»•/*) 1In 8,35). Sécalos dos séculos dcNi^il* i perpetuidade. Deus projeta < • <nuil# laasid ad es(E f3 ,ll; lTm 1,1 /) l'lÁjjJ da graga (jubilar) (Le 4,1 *> ) * 14) do Senhor, de Cristo é a * |i,inn(* f dia escatològico, último (Jn (i,fw pode significar o tempo <ln m Jesús (Jo 8,56), dia do * to (lJ o 4,17), da — > ira ( Km I ') É salvagáo (2Cor 6,2), do lil» iIpiv4h(B 4,30). Hora: de Jesús (.lo ,',4 i,Jm chega (Jo 12,23; 17,1 ), u iilHiiit(lN

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NOTAS TEMÁTICAS DO NT

2,18). Sazáo (kairos ) um tempo pre­ definido que se oferece como ocasiáo talvez única, talvez últim a (Le 19, 44s; 2Ts 2,6); é preciso aproveitá-la (Ef 5,16). Tempo; de p re p a ra d o (Hb 1,1), da paciencia de Deus (Rm 3,26), de s a lv a d o (Rm 3,25). O tempo in­ dicado (G1 4,4). — » Eternidade. T en tad o. Deve-se distinguir a prova­ d o que se deve superar para moderar-se e acreditar-se, e a te n ta d o que é induzir positivam ente ao mal. Por á prova nao é induzir ao mal; ser ten­ tado pode ser uma p ro v a d o . a) As de Cristo sao provas em que se con­ fronta o designio do Pai com o oposto (sentido etim ológico de sata); Je­ sús vence e se acredita, b) O cristao deve suportar provacóes (Tg 1,3; lP d 1,7; IC o r 11,19), é tentado pela con­ cupiscencia (Tg 1,13-15) e pelo Diabo que é o tentador (lT s 3,4s). ierra, a) Como no AT, compóe com o cóu o universo (M t 28,18), passará com ele (M e 13,31), dando lugar a < nitros novos (Ap 21,1). Com valor imbólico se opóe ao céu como o pui miente humano ao divino (Mt 6,10. I9; Le 2,14; Jo 3,31). b) A térra habii nía, universal (Ap 8,13; 13,3; Mt 1 1 >34). A térra cultivada (Hb 6,7; Tg '■ . IK). c) O solo (Mt 10,29; Le 22,44). \ morada subterránea dos m ortos (Mi 12,40; E f 4,9). d) Símbolo do t- <uio (M t 5,4). I' i m iento. E o significado original ili ■ i'.iego diatheke, que passa a signili' H lecnicamente alianza. Com os ■ ‘(♦'•i sentidos jo g a Hb 9,16s e G1 I U>v Pode-se considerar bén^áo .........icntária a de Jesús na ascenI> •■ (I > ; 24,50-52); o discurso da ceia 11" i I 17) é discurso testamentário, I i'mulo m odelos do AT e de apó-

Filho (lJ o 5,10), sobre o homem (At 15,8). Jesús com suas obras (Jo 10, 25), diante de Pilatos (Jo 18,37; lT m 6,13); sobre o Pai (Jo 7,7). A Escritu­ ra dá testem unho (At 10,43; Rm 3.21). O Batista (Jo 1,7.15), Paulo (At 23,11), os apóstolos (At 1,8). Tim o­ teo (2Tm 1,8). c) Sentido técnico de martirio (Ap 2,13; 17,6). Trabalho. O exemplo de Jesús na sua vida oculta o recomenda (M e 6,3; Mt 13,55); dos que ele escolhe como dis­ cípulos (M t 4,18s); referencia ñas parábolas; como termo de comparagao com a tarefa apostólica (M t 9,37; Jo 4,38); Paulo o pratica (At 20,34; IC or 4,12) e o inculca (2Ts 3,6). Tra­ balho mais importante sào a obra de Deus (Jo 6,28s) e a tarefa apostólica. Tradigáo. A transmissáo sucessiva da mensagem evangélica é essencial. Conteúdos concretos: a eucaristia (IC or 11,23), o Creio (IC o r 15,3), os ensinamentos e normas (2Ts 2,15; 3,16). Opóem -se ás tradigóes dos fariseus, que obscurecem e invalidam a lei de Moisés (M t 15,2-6) e outras tradigóes m eram ente humanas (C1 2,8). T ran sfigu rad ». Suprema m anifesta­ d o da gloria de Jesús em vida: pro­ longa a m a n ife sta d o aos pastores (Le 2), a do batism o, e antecipa a ressu rreid o . Descreve-se acumulan­ do motivos simbólicos: — » gloria (Le 24, 26), luz (IC o r 15,40-44; lJo 5,1), -* nuvem (Mt 26,64; lT s 4,17), brancura (M e 16,5; Mt 28,3), as teji­ das da presenta, o — » testemunho da Lei e dos Profetas e o do Pai. Vincula-se à — » Paixáo (Le 9,31). Textos (Le 9, 28-36 par.; 2Pd 1,16). O cristáo participa dessa gloria (2Cor 3; F1 3.21). Trevas. Em sentido m etafórico, é o mundo sem Deus (lJo 1,5), do peca­ * ... a) Pode ter o sentido judo (Jo 12,35), do demonio (Ef 6,12), II iilii i nico, p. ex., no processo de do òdio (lJ o 2,11), do castigo defini­ í 1 ni (MI 18,16). b) Geralmente sigtivo (Mt 22,13). Deus é luz sem tre­ vas (1 Jo 1,5), das trevas tira luz (2Cor i-1' i ■ unía d e c la ra d o formal e pú4,6), transforma as trevas em — » • luz |t i mi (|ual alguém se compromei ■111 1a I no pensamento de Joao. (E f 5,8). Trindade. O texto de Mt 28,19 cor­ í ' ■ i i c o s : Jo 5,31-39; 8,13-18; responde a uma fórm ula batism al l 'cus dá testemunho sobre o

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posterior; é interpolagáo tardia (lJ o 5.7). Em outras passagens há mengóes trinitárias nao convertidas em fórmulas: no batism o a voz do Pai, o Filho e o Espirito; Jesús S enhor(lC or 12,3-6), o mesmo Espirito, o raeim o Deus (E f 5,18-20; lP d 1 ,3 .1 U 4 ): a despedida de 2Cor 13,13 é talvez urna fórm ula litúrgica. Term inología: é obvio que o Pai é Deus; Jesús Cristo é Deus (Jo 1,1.18), um com o Pai (Jo 10,30.33); Tomé o confessa (Jo 20, 18; lJo 5,20; talvez Rm 9,5); embora nao se diga expressamente que o Espirito é Deus, deduz-se claram en­ te por sua agáo e atributos, é cham a­ do kyrios em 2Cor 3,17; figura como pessoa em At 15,28. — * Deus. Trono. Assento e símbolo de autoridade real ou judicial. Sentado no trono ou entronizado é título de Deus, rei supremo, no Apocalipse. Deus tem um tribunal especial, nao para con­ denar, mas para perdoar, conceder graga (Hb 4,16). Jesús herda o do tro­ no real de Davi (Le 1,32; Hb 1,8) e terá um trono para julgar (Mt 25,31). Os apóstolos teráo tronos para julgar/ governar (M t 19,28). Também Sata­ nás tem um trono em Pérgamo, onde reina (Ap 2,12). Trováo. Voz de Deus em Joáo (cf. SI 29); elemento de teofania em A poca­ lipse; talvez a “grande voz” de Mt 27,50 aluda á teofania (qol gadol).

V
Vento. Além de pneum a, relacionado com o Espirito, o NT fala de anemos como força destruidora (M t 7,25), que Jesús controla (Me 4,39), e os quatro anjos de Ap 7,1. Também ser­ ve para indicar falta de orientaçâo, movimento sem rota (Ef 4,14). Verdade. Seguindo a tradiçâo hebraica, o NT apresenta os dois significados de verdade (objetivo) e sinceridade (subjetivo); aparentado com eles está o sentido de fiel, de fiar-se. Contrários: falso, mentiroso, desleal, a) Sen­ tido normal: a mulher confessa toda a verdade (Me 5,33). Sinceridade (Fl 1,18; ITm 2,7; Tt 1,13). Dai, fiar-sc (Rm 3,4); testemunho fidedigno (Jo 5,31; 8,13s; Ap 3,14). b) Auténtico, contràrio a falso, à imitaçâo: o Deus verdadeiro-auténtico (lJo 5,2), comi da e bebida (Jo 6,55), videira (Jo 15,1), oposto à imagem (Hb 9,24). i ) Equivale à revelaçâo de Deus em i por Jesús (Jo 14,6; 8,32); a palavi n do Pai (Jo 17,17), o Espirito (I ln 14,17; 15,26); o evangelho (2Cor lP d 1,22). Vestido. Basicamente consistía num i peça interior, espécie de bragas mi calçâo, urna túnica talar e um mmiln Usar urna segunda túnica sobri-pnMt era ostentaçâo; ter urna de rcsi'i' i indicava certo bem-estar. O pesi'it'lm trabalha sem a túnica (Jo 21,/). tt» soldados nao rasgam a tùnica un imi sùtil (Jo 19,24). Metàfora ilo in mili a nova condiçâo crista ou >i li »i> (2Cor 5,2-4). — * Batismo. Vida, a) Esta vida (Le 16,25; A i l '1 1’ IC or 15,19); os autores pu l. mu » palavra psyché, b) A ouïra: . ,i iiiilirt tic a ( lT m 6,19),nova(Rinfi.l II |n* sente e futura (ITm 4,8), n.i n «#i reiçâo (Jo 5,29), é o termo ( Km M mas jà està presente (2( 'm I Ht) Jésus é a vida (Jo 11,25), ,i ...... *til 5,26), a dá (Jo 6,33; I <),.1 ,* ¡> l condiçâo exige a fé ( lo '.I • 1«) cumprimento dos mamlami nltti 5,29). e) C om posto1 , ioni 'h i genitivo: árvore (Ap .’./). i mm

u
Ungáo. a) Como os aromas e esséncias se dissolviam em óleos, ungir = per­ fum ar pode ter sentido festivo (M t 6.7), de agrado (Le 7,38-46; Jo 12,18); há um perfum e de festa (Hb 1,9, citando SI 45). b) Pelas propriedades do óleo há urna ungáo m edici­ nal (suaviza, protege) (Le 10,34), e se usará na ungáo ritual dos enfer­ mos (Tg 5,14). c) Penetrando, o óleo tonifica, robustece, e se usa na con­ s a g ra d o : do M essias (Le 4,18, cita­ d o de Is 61,1; At 10,38); do cristáo l" lo Espirito Santo (2Cor 1,21; lJo ' 'o /)

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NOTAS TEMÁTICAS DO NT

2,10), livro (Ap 2,5), manancial (Ap 7,17), palavra (F1 2,16). Videira, vinho. a) Israel era a videira que fracassou; Jesús é a videira au­ téntica, que merece fé, única, da qual os cristáos sao ramos (Jo 15,lss). b) Além do uso normal do vinho, devese notar: o vinho eucarístico, m en­ cionado como cálice, o vinho m ila­ groso de Caná, o vinho drogado e letárgico da cruz (M e 15,23), o vi­ nho novo no reino (Mt 26,29). Vinganga. — »Ira. Virgindade. Doutrina em IC o r 7. M a­ ría é virgem (Le 1) e também Jesús (cf. Mt 19,10). Em sentido m etafóri­ co, oposta á idolatria com o fornica­ d o (Ap 14,4). — > M atrimonio. Visáo. Além do uso norm al de ver, pode-se considerar no contexto da revelagáo. a) Como recurso conven­ cional da época, especialm ente de m jos (Le 1,11). Recurso freqüente do

gènero apocalíptico, b) A visáo pro­ priam ente dita com o ato supranormal da imaginagáo ou dos sentidos: Pedro (At 10,16), Paulo as menciona em IC or 12,lss. c) Símbolo da visáo escatològica de Deus (Mt 5,8; IC or 13,12; 1Jo 3,2). — »Céu. — » Revelagáo. Vitoria. — » Guerra. Viúva. Estado social e econòmico mais que familiar. E tradicional o cuidado das viúvas geralmente sem recursos (At 6,1; Tg 1,27); IT m 5,3-16 descreve uma organizacáo que parece atribuir alguma fungáo particular ás viúvas na com unidade e as conside­ ra com direito a um subsidio. Vocagáo. — » Eleigáo. Vontade. — * Designio.

z
Zelo. Diligència, fervor (IC o r 12,31; Gl 4,18; lP d 3,13).

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EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
INTRODUgAO
D urante certo tempo, a comunidade judaica se reparte em tendencias e gru­ pos, que em alguns casos se poderiam chamar de seitas. Quatro parecem ser us m ais im portantes: saduceus, fariseus, essénios e zelotes. Com o dentro de alguns grupos se podem form ar es­ colas, é legítimo fa la r de pluralismo. i onvivem entre tensoes, tolerancia, in•liferenga. Em certa época, os que re•< mhecem Jesús como M essias sao um . 1,7 upo a mais, olhado p o r outros gru/'('.v com suspeita ou tolerancia. N ao liiltam ameagas e esbogos de persegui­ do. Em 70 sobrevém a catástrofe de rusalém e Judéia. D as ruinas mate1litis e da crise espiritual emerge um 1upo fariseu que unifica poderosant,’ o judaism o normativo, excluin1 ••iualquer pluralismo. A rejeigáo aos 'i /nos, ou “nazarenos”, v a ise intenlindo até tornar-se oficial no sínodo '• 1m inia (entre os anos 85 e 90). Os Ihilen i ristáos sao excluidos form al|t. ule da sinagoga. P or seu lado, que ■ luí, ilo espiritual, sentimental e de con|hm eiuirdam em relagao a suas raízes fiilllICtIS? I l'iiiii i’ssas com unidades parece esI 11 1 l ’i iruanamente Mateus. Nao pre)hi‘ \¡>licar usos e tradigóes judaii Ir os respeita, estima e explora, a continuidade e a novidade, H ’ mu dono de casa que tira de || i' i" usa coisas novas e v elhas” ' ('i mtinuidade, porque em Je•iiii > Mi ■ ssias, se cumprem aspro• ii I d atinge sua perfeigáo; só un .bordando as expectativas. •hlii-com freqüéncia textos do H .h • \< ssenta) que se cumprem " • iln vida de Jesús. Sua geahi ientonta a A braáo, “nosso l P ' i . h \ so, apresenta Jesús como antítipo de M oisés e superior a ele. Já nos relatos da infancia nos fa z obser­ var o paralelismo. M uito mais como le­ gislador — nao mero m ediador — e mestre. N este evangelho Jesús aprova e recomenda os m andamentos da lei ju d a i­ ca; e os corrige, propondo “bem-aventuraneas ” e acrescentando: “eu porém vos d ig o ... ” D iante da conduta de ad­ versarios típicos, pronuncia em tom polém ico seus ais. D urante seu ministério lim ita-se ao Israel de entáo; ex­ cepcionalmente concede algum milagre a pagaos, olhando com suspeita seus concidadáos. Depois do momento escatológico, investido de plenos poderes com a ressurreigao, lega o seu ensinamento como mandamento. Em lugar da convergencia das nagóes, anunciada pelos profetas, ordena a dispersao p o r todo o mundo. Em lugar da circuncisáo, instaura o batismo. M ateus chama de “igreja ” a com u­ nidade crista, e a considera continua­ dora legítima do Israel histórico. E o Israel auténtico, que já entrou na eta­ pa final. Jesús anunciou a iminéncia do “reinado de D eus ” e realizou o ato de­ cisivo com sua m orte e ressurreigao. A comunidade nao deve ter saudade do passado, nem renegá-lo. A tingiu um presente glorioso, nao imaginado. A g o ­ ra se aglutina em sua lealdade a Jesús, M essias e Mestre, novo M oisés e filho de Davi. E urna comunidade conscien­ te e organizada: vño se fx a n d o normas de conduta, p rá ticas sacram entais e litúrgicas, até urna instituigao ju d i­ cial; urna comunidade que se abre para proclam ar a sua mensagem a judeus e pagaos. Jesús a tinha preparado, escolhendo, instruindo e prevenindo seus após tolos.

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INTRODUgÁO

munidade (18), discurso escatológico Sinopse (24— 25). Segue-se como desenlace a O evangelho de M ateus se distingue paixáo, calcada sobre o Salm o 22 e p ela clareza da composiqáo e exposioutros textos doAT. gáo. O tom é didático e o estilo é so ­ brio. A grande introdugao da infancia Autor e data (1-2) tem val'. rd e relato programático A tradigáo antiga atribuiu este evan­ que se inspira em M oisés no Egito e gelho a M ateus apóstolo; tal atribuiem anúncios proféticos. O corpo se re­ gdo considera-se hoje bastante duvidoparte geográficam ente entre o mitiissa. A noticia de Pápias, recolhida por tério na Galiléia (4— 13) e em Jerusalém Eusébio, segundo a qual M ateus com(14-26). A fora outros blocos e conepilou oráculos em hebraico (ou araxóes, sobressaem nele os fam osos cin­ maico), nao merece crédito. O autor co discursos — como novo Pentateuco. deste evangelho deve ter sido um juO serm ño da montanha (5— 7), antítipo deu helenista, que cita o AT, os LXX. da lei do Sinai; a missáo presente dos Data provável: a década de 80-90. L u­ apóstolos (10), que prefigura a futura; gar provável: alguma cidade da Siria, as parábolas (13), que explicam como p. ex. Antioquia. é o reinado de Deus; instrugóes á co-

MAT E IIS
G enealogia (Le 3,23-38) — ‘G e­ nealogia de Jesus Cristo, da linhagem de Davi, da linhagem de Abraäo: 2A braao gerou Isaac, Isaac gerou Jacó, Jacó gerou Juda e seus irmäos. 3De Tamar, Juda gerou Farés e Zara; l'arés gerou Esrom, Esrom gerou Aram. 4A ram gerou Aminadab, Aminadab gerou Naasson, Naasson gerou Salmon. ^De Raab, Salm on gerou Booz; de Rute, Booz gerou Obed, Obed gerou lessé. hJessé gerou o rei Davi. Da mulher 'li' Urias, Davi gerou Salomäo. Salomào gerou Roboäo, Roboäo ge1 1 m Abias, Abias gerou Asaf. ’ Asaf gerou Josafä, Josafä gerou Joi i'i. Jorào gerou Ozias. ’<)/.ias gerou Joatäo, Joatäo gerou V i/., Acaz gerou Ezequias. "Iv.equias gerou Manassés, Manas1 . i’ .itou Amon, Amon gerou Josias.

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n Josias gerou Jeconias e seus irmáos, por ocasiáo da deportagáo para B abi­ lonia. 12Depois da deportagáo para Babilo­ nia, Jeconias gerou Salatiel, Salatiel ge­ rou Zorobabel. 13Zorobabel gerou Abiud, Abiud ge­ rou Eliacim, Eliacim gerou Azor. 14A zor gerou Sadoc, Sadoc gerou Aquim, Aquim gerou Eliud. Eliud gerou Eleazar, Eleazar gerou Mata, Mata gerou Jacó. 16Jacó gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesús, chamado Messias*. 17Portanto, as geragóes deA braáo até Davi sao catorze; de Davi até a depor­ tagáo para Babilonia, catorze; da depor­ tagáo para Babilonia até o Messias, ca­ torze. Anúncio a José (Le 2,1-7) — lsO nasci­ mento de Jesús o Messias aconteceu ascondeu os espioes (Js 2), Rute, a estrangeira moabita, e Betsabéia, a adúltera mae de Salomào (2Sm 11); a quinta é María. Nao chama María esposa de José, mas sim o contràrio, José esposo de Maria (Gl 4,4 diz “nascido de mulher”). Pode-se comparar esta genealogia com a de Lucas 3,23-38, que é ascendente e remonta a Adáo. 1,1 Gn 11; lC r 1-3. 1,16 *Ou: cujo título é o Messias. 1,18-25 A sèrie precedente desemboca no fato individual, que nao é um a mais, porém único e extraordinàrio. Mateus se apóia na promessa/profecia de Is 7,14, lida num sentido específico já pela tradi§ao judaica. O hebraico ‘Imh significa de modo indiferenciado “moga, jovem nubil”. Isaías o refere provavelmente à esposa de Acaz, a mae de Ezequias. Os judeus de lingua grega tinham especificado o sentido traduzindoparthenos = virgem. Mateus segue essa tradigáo e autentica-a no seu relato. É possível que tivesse intengáo apologética

• I 17 Mateuscomeça sua historia imi>genealogías do Génesis (5; 10; 36) ..... cas. Mas troca o tradicional plural ' ii oes” pelo singular (que o grego usa >1ln .’,4 e 5,1), porque vai concentrariiiima geraçâo especial, culminante, a l> .ir., apresentado com seu título de PMltr. A bênçâo genesíaca, que era ex« i h. “crescei e multiplicai-vos”, aqui * "i ' linear, em progressâo ininterrupta i i•!. nilude histórica do Messias. i i i i l.iro e explícito o seu desejo de il h i rrie, pela divisâo em très segIielo número de dois setenarios H*1 i 1' ' l ipa. Com tal artificio, o nascí1 li .us fica inserido e enquadralll i i" luna da humanidade, na historia HIHi r" 1 1 Abraáo é o pai dos crentes, I tt limitador de uma dinastía real; i- i n. lu í,trios de promessas divii illm da historia humana e da ■.ir ma. Mencionam-se quatro ► r i ....... hu .i de Judá que o engana e H •' " ; l. Kaab, a prostituta que es-

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1,19

2,15

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22Tudo isso aconteceu para que se sim: Sua máe, M aria, estava prom etida cumprisse o que o Senhor havia anun­ a José, e antes dr m atrim ònio engraciado por meio do profeta: 23Ve, a virgem vidou por obra do Espirito Santo. Jo ­ está grávida, dará à luz um filho que será sé, seu esposo, que era honrado e náo chamado Emanuel (que significa Deusquería difam á-la*, decidiu repudiá-la conosco). 24Quando despertou do sono, privadam ente. 20Já o tinha decidido, José fez o que o anjo do Senhor lhe ha­ quando um anjo do Senhor lhe aparevia ordenado, e acolheu sua esposa.25Poceu em sonhos e lhe disse: — José, filho de Davi, náo tenhas rém náo teve relagóes com ela, até que deu à luz um filho, a quem chamou Jesús. medo de acolher Maria como tua espo­ sa, pois o que eia concebeu é obra do 2 Homenagem dos m agos — ‘Jesús Espirito Santo. 21Dará à luz um filho, a nasceu em Belém de Judá, quando quem tu cham arás Jesús, porque ele Herodes reinava. Aconteceu que uns salvará seu povo de seus pecados. mostrar que em Jesús cumprem-se as pro­ contra boatos que comegavam a difundir­ fecías. Dá-nos como equivalentes o nomc se sobre o nascimento de Jesús. No senti­ de Jesús e o de Emanuel. do de “virgem” foi recebido no texto e transmitido pela Igreja. 2,1-12 O episodio está centrado no tem;i O relato mostra com toda a clareza que da realeza. Herodes, chamado o Grande a maternidade de Maria nao é obra de José, (37-4 a.C.), é rei da Judéia, um reí estran mas do Espirito Santo, fato que é afirma­ geiro, idumeu, nomeado e protegido pelo do duas vezes no breve relato. José, inter­ senado romano; é visto como ilegítimo poi pelado enfaticamente como “filho de Da­ parte da populaçâo (cf. Dt 17,15). Jesiw vi”, garante a linhagem dinástica de Jesús, nasce na cidade de Davi, como descendí'n que receberá esse título. Celebraram-se, te de Davi, potencialmente sucessor lcgl segundo o costume, os esponsais, náo o timo (cf. Am 9,11; Ez 37,24; Jr 30,«), casamento, e náo há coabitatilo preceden­ 33,15). Para Herodes é um rival perigosu, do o nascimento. (Pode-se comparar com a ser eliminado. Concordam com Heroilm outros nascimentos extraordinários: Gn 21; cortesáos e vizinhos complacentes da cu 25,23-26; Jz 13,3-5.) pital; “toda Jerusalém” é enfático e inti n Aqui se diz que José era “honrado”. O cional, antecipando uma oposiçâo. termo poderia significar que era “inocen­ Uns “magos” orientais (astronomie í te” no assunto que comegava a se mani­ astrologia nao estavam separadas enlfliit festar, mas que nao queria repudiá-la. veja-se Dn 2,2.10 em grego), que o niih (Veja-se a legislagáo em Dt 22,23-24.) rador supóe conhecedores de tradignril “Privadamente” com o mínimo de testeprediçôes judaicas (talvez o oráculo «lf munhas, sem processo ou agáo pública. A Balaáo, Nm 24,17 sobre a estrela de luid visáo em sonhos recorda os sonhos de ouque avança), acorrem a render homciinuHl tro José e os supera. O menino será real­ ao presumido herdeiro, tratando-o mini mente “filho” de María. Se José impóe o título de “Rei dos judeus” (será o lilulnt|( nome é porque age como pai legal (comcruz, 27,11.29.37). A astucia malien« til pare-se com Zacarías, Le 1,13). O nome Herodes é vencida pelo milagro da r'iliijí do menino (o mesmo que Josué e pareci­ e pela fidelidade dos visitantes. ( > •. mugit do com Oséias) enuncia e anuncia o desti­ trazem o tributo dos pagaos ao rei uiliM no: se um rei deve “salvar” seu povo, tam(Is 60,6; Z c8,20-22; SI 72,10-15; H'.'.11 bém o descendente de Davi nasce para Omitem-se as descriçôes, já couln>i<|fl salvar seu povo dos pecados. Salvagáo te­ em textos do AT. ológica, náo política. Mateus emprega o A profecía de Miquéias (5,1) sonho como meio de revelagáo fidedigna humilde aldeia de Belém as prt-i (cf. Eclo 34,1-8). de Jerusalém. A mesma oposir.m " 0#1 1,19 *Ou: era inocente, mas nao queria... presente relato. Só que para Mali u» |4 M 1,22-23 Abraáo, o patriarca, Davi, o rei, é humilde, mas gloriosa por caira > l> « y ■ .ir,,,., I ..lías, o profeta. Mateus gosta de

magos* do Oriente se apresentaram em Jerusalém, 2perguntando: — Onde está o rei dos judeus recémnascido? Vimos surgir seu astro e viemos render-lhe homenagem. 3Ao ouvir isso, o rei Herodes comegou a tremer, e toda Jerusalém com ele. 4Entáo, reunindo todos os sum os sacer­ dotes e doutores do povo, perguntoulhes onde deveria nascer o M essias. ^Responderam-lhe: — Em Belém de Judá, como está es­ crito pelo profeta: 6Tu, Belém, no terri­ torio de Judá, em nada és o m enor dos povoados de Judá, pois de ti sairá um chefe, o pastor do m eu po vo Israel. 7Entáo Herodes, chamando secreta­ mente os magos, perguntou-lhes o tem ­ ilo exato em que havia aparecido o as­ ini; 8depois os enviou a Belém com a fi'iomendagáo: Averiguai com exatidáo o que se n l« re ao menino. Quando o encontrar•l. ., informai-me, para que eu também a prestar-lhe homenagem. T endo ouvido a recom endagáo do ■i Ilartiram. Imediatamente o astro que 1" lilhos. De Belém saiu Davi e sairá i, ./, scendente esperado (cf. 2Sm 5,2 .....o Iítulo de pastor). A tradígáo leu neste ri■ * imIio a epifania ou m an ifestalo do ■ i i, I' a aos pagaos, ligando com o anún' I' 1¡n 49,10: “Nao se afastará de Judá •■■i.....em o bastáo de comando do meio , ir. n»rlhos, até que lhe tragam tributo • i"" iis lhe rendam homenagem”. 1 I 'i> u: astrólogos. I * ( >ru go anatole significa o “levan» i ni i.ilico = oriente, ou o levante ou fctif!" 1 .......astro. Aqui vale o segundo sig­ uí" i i" i > ■ . magos dizem “seu astro”, com )IHi ' .ivo que o dá por conhecido. B * i ..........ador mostra Herodes conhe■ i, i " iinga messiànica dos judeus. ■NI 1 .... ns doutores interpretando a M ii i n o Messias anunciado e es■ É 1 i i 'a n u o s sacerdotes costumavano * <1 ............ os doutores, fariseus. M'i i .’Sin 5,2. • ¡A i' mi. i M u- homenagem”: reconhei »ii.i 'iirmil.ule superior. Mas na boca p *» (M ili ' piessáo de ironía perver­ tii# 1 «li i ’i lar os visitantes.

haviam visto surgir avangava á frente deles, até deter-se sobre o lugar em que estava o menino. 10Ao ver o astro, encheram-se de ¡mensa alegría. 1!Entraram na casa, viram o menino com sua máe Maria, e, prostrando-se, prestaramlhe homenagem. Depois abriram seus cofres e lhe ofereceram como dons ouro, incensó e mirra. I2Em seguida, avi­ sados por um sonho que náo voltassem á casa de Herodes, regressaram para sua térra por outro caminho. Fuga para o Egito e matanga de ino­ centes — 13Depois que partiram, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e lhe disse: — Levanta-te, pega o menino e a máe, foge para o Egito e fica ai até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo. 14Levantou-se, pegou o menino e a máe, ainda de noite, e se refugiou no Egito, 15onde residiu até a morte de He­ rodes. Assim se cumpriu o que o Senhor anunciou pelo profeta: Chamei meu fiIho que estava no Egito. 2.10 Amengáo enfática da alegría náo é uma simples nota psicológica, mas recolhe uma longa tradigáo do AT. 2.11 Entram na casa (de José), náo numa gruta usada como dormitorio. Náo men­ ciona José. Na tradigáo bíblica, tem papel preponderante a máe do rei ou do herdei­ ro (cf. SI 45,10). “A máe com o menino”: pode aludir a Mq 5,2: “até que a máe dé á luz”. A máe com o menino será uma imagem favorita da iconografía crístá. 2,13-15 José continua em seu papel de confidente sofrido e eficiente: é ele quem enfrenta os problemas domésticos e transcendentais, e os resolve, executando ordens divinas. A citagáo de Oséias (11,1) é adaptada oportunamente ao episodio, e sugere que Jesús está refazendo concen­ tradamente a sorte histórica do seu povo. (Veja-se também Nm 27,8). Oséias se re­ fere ao éxodo e apresenta Israel como menino que o Senhor chama “meu filho”. A aplicagáo a Jesús confere ao título outra dimensáo. Pode-se comparar com a sorte de Moisés: salvo (Ex 2,1-9), perseguido para ser morto

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16Entáo Herodes, vendo-se enganado pelos magos, enfureceu-se e mandou m atar todos os m eninos m enores de dois anos em Belém e seus arredores, de acordo com o tempo que tinha ave­ riguado com os magos. 17Entáo se cumpriu o que anunciou o profeta Jeremías: lH Escuta-se uma voz em Ramá: pranto e soluqos copiosos. É Raquel que cho­ ra seusfilhos e recusa consolagao, p o r­ que já nao vivem. 19Quando Herodes morreu, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José no Egito, 20e lhe recomendou: — Levanta-te, toma o menino e a máe e dirige-te para Israel, pois morreram os que atentavam contra a vida do m e­ nino.

21Levantou-se, pegou o menino e a máe e se dirigiu para Israel. 22Mas, ao ouvir que Arquelau sucederá a seu pai Herodes como rei de Judá, temeu dirigir-se para lá. E avisado em sonhos, partiu para a provincia da Galiléia 23e foi m orar num povoado chamado Nazaré. Assim se cumpriu o que foi anunciado pelo profeta: Será chamado Nazareno.

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Joño Batista (Me 1,2-8; Le 3,1-18; Jo 1,19-28) — ‘Por esse tempo apresentou-se Joáo Batista no deserto da Judéia, proclamando: — 2Arrependei-vos, pois está próxi­ mo o reinado de Deus. 3E o que havia anunciado o profeta Isaías: Uma voz clama no deserto: Pre-

(2,15), em marcha com a familia (4,20 as fórmulas). Egíto foi também tradicional lugar de refugio e asilo (IRs 11,40; Jr 43). 2,16-23 Outras fontes falam da suspeita doentia e da crueldade desapiedada de Herodes, inclusive contra a sua própria fa­ milia. O narrador apresenta um modelo definitivo de violéncia contra vítimas ino­ centes, por ambigao de poder. Anossa tradigáo captou e salientou isso ao chamar os meninos de “inocentes” por antono­ masia. O episodio refaz em nova chave a matanza dos meninos no Egito (Ex 1,1522). Sobre o assanhamento contra crianzas pode-se ver 2Rs 8,12; Is 13,16.18; Os 14,1. Menores de dois anos equivale a lactantes. Acitagáo de Jr 31,15 parece referír-se, em seu contexto original, á tribo de Benjamim como representante do reino setentrional; o narrador adapta livremente a citagáo, fixando-se no pranto da matriarca. O narrador procura pontuar cada episodio com uma citagáo do AT, vista como predi<jáo ou prefiguragáo. Mas ainda nao se conseguiu identificar o texto a que se re­ fere o v. 23 sobre o título de “nazareu”. Pensa-se na figura de Sansáo nazireu (Jz 13,5-7) ou no “rebento” (Is 11,1, mais provável). Polémicamente os judeus chamaram os cristáos de “nazarenos”. Alguns comentaristas suspeitam de uma alusáo ao sinónimo hebraico “broto” (Jr 23,5; 33,15). 2,20-21 A morte de Herodes (4 a.C.) eostuma ser tomada para datar com pro-

babilidade o nascimento de Cristo. É si),', nificativa a fórmula repetida “o menino c a máe” pela ordem e pelo que nao diz. 2,22 Dados históricos sobre Arquelaii justificam esse temor de José. 3,1-12 Com uma fórmula temporal geni rica, o narrador introduz em cena Joan com seu título pròprio “o Batista”. E a lipii gao entre os profetas e Jesús: o que os pin fetas viram e entreviram como futuro, Jt»(» o mostra presente. Escolhe urna citaban il" profeta do retorno (Is40,3 segundo a |nul tuagáo do grego): ou seja, do sennini» éxodo, que se atualiza agora no deíinillvH O deserto recorda a viagem dos isiarlilii»* simboliza a nova peregrinado. A | uim4 gem pela agua recorda a passagem do mtj Vermelho e do Jordáo (veja-se l< < n lllj sobre a passagem do mar como bulinimi Joáo tem um aspecto de a s e r i a (. uNtf Elias, 2Rs 1,8). Prega a fariseus e -..hIih «t» com acento profètico, embora m ui . «|»l( citar pecados. Exige o arrepem I.....n i* » 8,6), a confissáo pública (Nc ')). ■'1 sao como fruto (SI 50,23; 5 I, l ‘.| I • «M U sinal de purificado, o balismo 3.2 Reinado de Deus (“do\ i c n * , («tjj evitar mencionar Deus) se u-.anl •-» « U H leitmotiv do evangelho. ( > :. Vilnitm <tfe| 98 anunciam a viuda tío SciiIioi 1|<h» fÉ vernar o mundo”. O reinado ........iti® celeste se apresenlara na | .. . .• t .1. i 3.3 Is 40,3; 2Ks 1,8.

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parai o caminho para o Senhor, aplainai sua estrada. Esse Joào usava urna veste de pèlos de camelo, cingia-se com cinturaci de couro e se alim entava de gafanhotos e mel silvestre. 5Iam a eie de Jerusalém, de toda a Judéia e da regiào do Jordào, 6e se faziam batizar por eie no Jordào, confessando seus peca­ dos. 7Ao ver que m uitos fariseus e saduceus iam para que os batizasse, disse-lhes: — Raga de víboras! Quem vos ensinou a fugir da c o n d e n a d o que se apro­ xima? 8Dai frutos válidos de arrependimento, 9e nào penseis que basta dizer a si mesmos: N osso p a i é Abrado. Pois vos digo que dessas pedras Deus pode hiar filhos para Abraào. 10O machado l i està posto à raiz da árvore; a àrvore <|iie nao produz frutos bons será córta­ la langada ao fogo. n Eu vos batizo iun agua em sinai de arrependimento. i pois de mim, vem alguém com mais "iioridade do que eu, e eu nào tenho

direito de tirar-lhe as sandálias. Ele vos batizará com Espirito Santo e com fogo. 12Já em punha o a pá para lim par sua eirá: o trigo o recolherá no celeiro, e queim ará a palha num fogo que nao se apaga. Batismo de Jesús (Me 1,9-11; Le 3,21s; Jo 1,29-34) — 13Por esse tempo, foi Je­ sús da Galiléia ao Jordáo e se apresentou a Joáo para que o batizasse. 14Joáo o impedia, dizendo: — Sou eu quem precisa ser batizado por ti, e tu vens a mim? 15Jesus lhe respondeu: — Deixa por ora, pois desse modo convém que realizemos toda a justiga. Diante disso, consentiu. 16Jesus foi batizado, saiu da água e logo o céu se abriu, e ele viu o Espirito de Deus que descia como urna pom ba e pousava so­ bre ele; 17ouviu-se urna voz do céu que dizia: Este é o meu Filho querido, o meu predileto.

reduz o tema a urna expressáo ética de ' >Acorrem de Jerusalém, como se o humildade. mii|>lo e seu culto nao satisfizessem o 3,12 Is 66,24. ii li icio da penitència e a p reparalo para 3,13-17 O batismo é a segunda epifanía ■lii'i’ada do reinado anunciado. ou manifestado de Jesús: aosjudeus pre­ ,1 / s O tom e o apelido fazem suspeitar sentes e á comunidade crista que escuta o i 1 I iriseus e saduceus nào acorriam com evangelho. Jesús se incorpora ao povo na ■ n '1i ulade, com boa disposigào (cf. Is cerimónia, mas no diálogo mostra o senti­ 1,111) l<a§a de víboras: 12,34; 23,33 (cf. do diferente da sua a§á°: o que para ouI l i "') Aconversáo é fruto do arrepentros era sinal de arrependimento, para ele .......ilo Acondcnaqào (orge) é a sentené plenitude de justicia: é enfrentar seu des­ 1 « 'I' i paragào definitiva no julgamento tino (batismo/morte) e é conferir ao batis­ i« iinloj’ico (12). mo cristáo o poder de tornar justos. ' 1In-. ocar os patriarcas era recurso na O testemunho celeste deixa perceber M m■ ■ '■ ao (p. ex. Ex 32,13; cf. Jo 8,33). In. imi' ito hebraico se poderiajogar com urna estrutura trinitária: voz do Pai, repouso do Espirito e título de Filho. Deve■l'H ii. io de “filhos” e “pedras” (banim se unir ao batismo final (28,19). A figura M ....... I 51,1-2 apresenta Abraào e da pomba talvez aluda simbólicamente á • iocha e pedreira”. esposa do Cántico dos Cánticos (cf. Jo 1, Lj* 1 1 1 l'i iino de plantas inúteis (Is 27,11; | f l < I /) 32). A filiagáo atestada pelo próprio Pai deve ser relacionada com a filiagáo hu­ il n-.ao às sandálias parece refemana de Mt 1,1-17 (vejam-se combina­ tt ■ miiiolo matrimoniai do levirato dos SI 2,7, o rei como filho e Is 42,1, o ser­ ■* 1 l'i 25,5-10 e Rt 4). Os quatro vo preferido). Recebendo o Espirito, está pi« li«i i i At 13 asmencionam; o simungido e declara-se sua missáo messiáiai.. r na versào do evangelho nica. i imi. mga tradigáo transmite essa 3,16 Os céus se abriram, como na visáo . i., i. ológica das sandálias, ao inaugural de Ezequiel 1,2. ......... a uadigào, também antiga,

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4,1

Jesús posto á prava (M e l,12s; Le 4,1-13) — 1Entáo Jesús, movido pelo Espirito, retirou-se ao deserto para ser posto á prova pelo Diabo. 2Jejuou quarenta dias e quarenta noites, e no fim sentiu fome. 3A proxim ou-se o tentador e lhe disse: — Se és filho de Deus, ordena que estas pedras se transformem em pao. 4Ele respondeu: — Está escrito que nao som ente de pao vive o homem, m as de toda palavra que sai da boca de Deus. 5Entáo o Diabo o levou á Cidade San­ ta, colocou-o no beiral do templo, 6e lhe disse: — Se és filho de Deus, langa-te para baixo, pois está escrito que ele deu ordens a seus anjos a teu respeito, e eles te levaráo ñas palm as das máos, para que teu p é nao tropece na pedra. 7Jesus replicou: — Também está escrito: N ao poras á prova o Senhor teu Deus.

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8Novamente o Diabo o levou a urna m ontanha altíssima e lhe mostrou to­ dos os reinos do mundo em seu esplen­ dor, 9e lhe disse: — Tudo isso te darei se prostrado me prestares homenagem. 10Entáo Jesús lhe replicou: — Vai-te, Satanás! Pois está escrito: A o Senhor teu D eus adorarás, e som en­ te a ele prestarás culto. n No mesmo instante o Diabo o deixou e anjos vieram servi-lo. Na Galiléia (M e l,14s; Le 4,14s) —■ 12Ao saber que Joáo fora preso, Jesús se retirou para a Galiléia, l5saiu de Nazaré e se estabeleceu em Cafamaum, junto ao lago, no territorio de Zabulón e Neftalí. Assim se cumpriu o que foi anunciado pelo profeta Isaías: ^Terri­ torio de Zabulón e territorio de Neftalí, caminho do mar, do outro lado doJor • dáo, Galiléia dos pagaos. leO povo qui habitava em trevas viu urna luz inte/U quando lhe pede pao (Mt 7,9). Ver tam < bém Sb 2,18 e o contexto. 4.6 Os anjos a servido do homem, (tf filho, contra poderes nefastos. Citacjáo dt um salmo de confianza (SI 91,11-12). | 4.7 Dt 6,16. 4.8 O monte da visáo parece reminl cencía do de Abraáo, quando se detéin país de Canaá (Gn 13) e do monte de O I Moisés contemplou a térra antes de ti rer (Dt 34; cf. Ez 40,2); opóe-se ao m < da transfigurado (Mt 17,1). Os reine mundo com seu esplendor se opftcffl reino dos céus com sua gloria. Sol homenagem, ver Dn 3,5.10.15. 4,10 Vai-te: compare-se com 16,2.1, tagáo de Dt 6 em termos de monotd estrito. Ele está acima dos anjos (III» 4,12-17 Cafamaum, junto ao lugo, sua cidade (9,1). Galiléia, a comaren ti ra paga e paganizada, será ceníírio ilu lagáo luminosa, como no grande itl de Is 8,23-9,1 messianicamente liil presenta do menino dos títulos xultl A mensagem abreviada de J como a do Batista (3,2). Só i|iin personifica, e o arrependimcnlo < | é para receber o evangelho (4,,’ t,

4,1-11 Deve-se evitar chamá-las de tentaçôes, porque sâo provaçôes. Como o povo de Israel, passado o mar Vermelho e guiado por Moisés, é posto à prova repeti­ das vezes no deserto, assim Jesús, depois do batismo, é guiado pelo Espirito e en­ frenta provaçâo no deserto. O povo falhou várias vezes, Moisés urna vez. Jesús su­ pera todas as provas. O evangelho encena dramáticamente o grande confronto, en­ tre o projeto salvador do Pai e o antiprojeto apresentado pelo rival (diabolos, o Satâ do AT; cf. Jó 1-2). O mílagre fácil e injustificado, o espetáculo gratuito abu­ sando dos anjos, e sobretudo o poderío universal, submetendo-se às regras do jogo impostas pelo pretenso soberano do mundo. Contra isso, très citaçôes tiradas do contexto do éxodo: Dt 8,3; 6,16; 6,13 (cf. Ex 17,1-7 e Nm 20,7-13). 4.1 Levado pelo Espirito: como Ezequiel (3,12; 11,1). O Espirito, pelo quai foi con­ cebido e que desceu sobre ele no batismo. 4.2 Jejuou: como Moisés (Ex 34,28) e sentiu fome como o povo. 4.3 A prova da filiaçâo: No contexto de Dt 8,3 fala-se de Deus como pai que edu— nao dá a seu filho urna pedra

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sa, para os que habitavam em sombras de m orte Ihes am anheceu a luz. 17A partir disso começou Jesus a proclamar: — A rrependei-vos, pois está próxi­ mo o reinado de Deus. Chama os prim eiros discípulos (Me 1 , 1 6 - 2 0 ; Le 5 , 1 - 1 1 ) — 18Enquanto caminhava junto ao lago da Galiléia, viu dois irmâos — Simâo, apelidado Pedro, e André seu irm âo — que lançavam urna rede na água, pois eram pescadores. |(,Disse-lhes: — Vinde comigo e vos farei pesca­ dores de homens. 20Im ediatam ente deixaram as redes e 0 seguiram. 21Um pouco mais adiante viu outros dois irmâos — Tiago de Ze1 >cdeu e Joâo seu irmâo — na barca com in pai Zebedeu, consertando as redes.

C ham ou-os, 22e eles ¡m ediatam ente, deixando a barca e o pai, o seguiram. 23Jesus percorria toda a Galiléia ensinando ñas sinagogas, proclamando a boa noticia do reino e curando todo tipo de enferm idades e doengas entre o povo. 24Sua fama se espalhou por toda a Siria, de modo que lhe traziam todos os que padeciam diversas enfermidades ou tinham doengas: endemoninhados, lu­ náticos, paralíticos. Ele os curou. 25Seguia-o urna grande m ultidáo da Galiléia, Decápole, Jerusalém, Judéia e Transjordania.

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Sermáo da montanha: as bem-aventurancas (Le 6,20-23) — 'Vendo a m ultidáo, subiu ao m onte. Sentou-se e os discípulos se aproximaram. 2Abriu a boca e os instruiu nestes termos:

n inado de Deus é centro da sua pregagao, "y.iindo Mateus. I 18-22 O chamado é categórico, a respi'.ia c imediata e incondicional. O oficio miniano, “pescadores”, é assumido e trans>ihlido: o pescador vive em contato com .....lemento potencialmente hostil e nao tem c-n.iniido o éxito de sua tarefa (a imagem "in valor negativo em Hab 1,14-17). Se­ nni..... ir atrás: expressáo freqüente no Dt i.... nullificar a fidelidade ao Senhor; ver o ► Ii i i i i i . k Io de Eliseu (IRs 1 9 ,1 9 - 2 1 ) . Dai ........i i spiritualidade crista do “seguimen• - ili nina pessoa, Jesús. Desde o comego, * luí encabeza a sèrie dos discípulos. • ' ' .’ .5 Resumo narrativo. Aatividade * •' ir imita e unifica ensinamento(7,28• 1 i ' proclam ado da boa noticia ou «M |)i Ilio (10,7; 24,14) e curas (8,16-17). «h I imi.i se difunde e atrai urna afluencia »■ " i" ■ i-nta todo o Israel histórico, com • < l> ni eomo capital. < ‘ 11 ..... a profecía de Is 41,27; ♦f* i' 1,1 i 'i I l . i sorte de enfermidades: propMl'lii. III DI 7,15. * 11 -elmao da montanha” é como «ihmi. ,in do novo povo de Deus, o •i-, ii.i nova alianza, o manifesto do tu» mi ulcir. Deve ser lido com o M‘-i i . ao fundo, para apreciar

correspondências e contrastes. Jesús se dirige a todos os que o escutam (4,25), à multidáo. Dirige-se à nova comunidade ou povo seu. O seu discurso é exigéncia incondicional, convite a urna constante superaçâo de si mesmo, denuncia de mesquinhezas e infidelidades, oferta da mise­ ricordia de Deus. Através dessa comuni­ dade limitada, dirige-se à comunidade humana, fermento para urna transformaçâo da historia. No ampio discurso ou instruçâo, compos­ to de material heterogéneo, podem-se dis­ tinguir algumas unidades menores. As bemaventuranças com o contraste entre lei antiga e nova (5,1-16.17-48); très obras de justiça ou fidelidade: esmola, oraçâo e jejum (6,1-4.5-15.16-18). Seguem-se outros temas, como a confiança em Deus e a mi­ sericordia com o próximo (6,19-7,12) e um esclarecimento sobre os dois camínhos e os falsos profetas. Encerra o discurso a comparaçâo das duas construçôes (7,7-29). 5,1-12 Depois do solene inicio, “abriu a boca” (cf. Is 53,7; Ez 3,27; SI 78,2), encabeçam o discurso as oito bem-aventuranças, como cerne do manifesto. O géne­ ro (em hebraico ashrë) é mais freqüente nos salmos e na poesia sapiencial. Sao enunciados de valor, nao mandamentos (como o decálogo do Sinai). Revelam urna

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3Felizes os pobres de coragáo, porque o reinado de Deus lhes pertence. 4Felizes os afligidos, porque seráo consolados. 5Felizes os despossuídos, porque herdaráo a térra. fiFelizes os que tém fome e sede de justiga, porque seráo saciados. “felicidade” humana paradoxal, que vin­ cula promessas de bens excelentes a exi­ gencias extraordinárias. Mateus insiste em atitudes mais do que em situagóes. Mais do que espiritualizar, vai à raiz; pretende mais o alcance que a precisáo. Tal como estao formuladas, a felicidade nao está no exercício, mas em suas conseqiiéncias; mas nao se exclui que a conseqüéncia acóntela já no exercício. A mesma pro­ messa toca à primeira e à oitava, em inclusào; a quarta e a oitava referem-se à justiga. 5.3 O tema dos pobres é corrente no AT e seu sentido é claro; ver como exemplo o cántico de Ana (ISm 2,8 e SI 72,4.13 lido em chave messiànica). O difícil é precisar o sentido da restrigáo toi pneumati (que o paralelo de Le 6 nao traz). Indica a interioridade consciente: em sentido inte­ lectual? ou seja, reconhecem sua pobreza diante de Deus, sabem que sao pobres; em sentido volitivo? ou seja, aceitam a pobre­ za e renunciam à cobiga. O portugués “de coragáo” respeita a ambigüidade do origi­ nal. O reinado de Deus vem para eles. 5.4 Os afligidos: freqüente nos salmos, como argumento para mover e comover a Deus; também nos dois éxodos (Ex 3,17; Is 48,10; 61,1-3). O consolo é típico de anuncios proféticos (Is 40,1 par.). É fre­ quente 1er no AT unidos “pobre e afligi­ do”; náo é raro que o segundo esteja uni­ do com “oprimido ou marginalizado”, e até se confundam por sua semelhanga fo­ nética. Sob esse pano de fundo as trés primeiras bem-aventurangas poderiam ser tratadas unitariamente: pobres e afligidos e oprimidos seráo consolados com a terra e o céu. 5.5 Citagáo do SI 37,11, acrescentando o artigo; salmo dedicado aos injustamente despossuídos (e que tem outros contatos

7Felizes os misericordiosos, porque os trataráo com misericordia. 8Felizes os limpos de coragáo, porque veráo a Deus. 9Felizes o que procurara a paz, porque se chamaráo filhos de Deus. 10Felizes os perseguidos por causa da justiga, porque o reinado de Deus lhes pertence.

"Felizes vós quando vos injuriarem e vos perseguirem e vos caluniarem de tudo por minha causa. 12Ficai contentes e alegres, pois vosso premio no céu é abundante*. Da mesma forma persegui­ rán! aos profetas que vos precederam. Sal e luz (Me 9,50; Le 14,34s; Me 4,21; Le 8,16; 11,33) — 13Vós sois o sal da térra: se o sal perde o gosto, com que o salgaráo? Serve somente para ser jogado fora e para que as pessoas o pisem. 14Vós sois a luz do mundo. Náo se pode esconder uma cidade construida sobre um monte. 15Náo se acende um lamparina para tapá-la com uma vasilha, mas para colocá-la no candelabro, a fim de que ilumine todos os que estáo na casa. 16Brilhe vossa luz diante dos ho­ mens, de modo que, ao ver vossas boas obras, glorifiquen! vosso Pai do céu.

com várias dessas bem-aventurangas). O salmo se reza no contexto da partilha ideal da terra (Js 12-21) e do injusto agambarcamento. Aqui nao se deve logo espiritua­ lizar. 5.6 Fome e sede sáo metáfora freqüente de desejo intenso, de necessidade sentida, e seu objeto pode ser inclusive Deus (p. ex. SI 42,2; 63,2). O objeto aqui é a justi­ ga, tomada em seu sentido mais ampio. Varios textos do “sermáo do monte” es­ clarecen! o alcance transcendente de tal justiga: 5,20; 6,1.25.31.33. É a justiga que 5,11-12 Passando á segunda pessoa ver­ corresponde ao reinado de Deus. “Seráo bal, acrescenta essa ampliagáo da oitava; saciados”: Eclo 4,28 diz: “Até a morte luta supóe as perseguigóes dos primeiros crispela justiga, e o Senhor combaterá em teu táos, aos quais anima. Um bom comentário pode ser lido em lPd 4,4.12-19; 2Cr favor”. 5.7 A misericordia ou piedade é um dos 36,16. A chave está na cláusula “por cau­ atributos máximos de Deus (Ex 34,6 par.). sa de mim” (cf. SI 44,23 por tua causa, e Também é aconselhada ao homem (Pr 74,22). Os profetas predecessores sáo 14,21), inclusive como “bem-aventuranga” Elias, Amos, Jeremías e outros. (SI 41,2). O passivo é teológico, tem Deus 5,12 *Ou: porque Deus vos premiará como agente. Compare-se com Pr 14,31 c com abundancia. 5,13-16 O sal comunica e reparte seu 19,17. 5.8 Ou, sinceros, com Deus e com os sabor e conserva alimentos, mas pode se homens (vejam-se as fórmulas de SI 24,4 desvirtuar; a luz ilumina todos, mas pode e Pr 22,11). Essa pureza que procede du ser escondida. Assim há de ser a comunidentro opóe-se à pureza somente extern« dade cristá: ativamente, náo por vaidade, ou ritualista (Mt 23,25-28). Ver a Deus i mas para louvor do Pai. A cidade irradian­ desejo e esperanga suprema (SI 11,7; 17,15; do luz do alto é como a Jerusalém que, em 63,3), que Moisés nao alcangou (Ex 33,20 meio as trevas, ilumina como farol os povos, na visáo de Is 60,1-3; sua luz é soe a alusáo de Jo 1,14). 5.9 A paz faz parte do anúncio mes inente reflexo do amanhecer do Senhor. siánico (Is 2,2-5 em chave escatológicii 5,14 Is 60,1-3. cf. Pr 12,20). A forma grega fala de agflo 5.17-48 Depois de propor “felicidades” ni lugar de “mandamentos”, Jesús expóe em favor da paz e da concordia (Eclo 2.V ■ na posigáo diante da lei tradicional, a torá. 1-2 em àmbito doméstico). Filhos de Deus ■ é título honorífico que se le em Dt 14,1 I’iimeiro em termos genéricos, incluindo Os 2,1. A tradigào aplicou a Jesús o título luda a Escritura na fórmula consagrada “lei profetas”; depois numa série de contrade Isaías 9, “príncipe da paz”. 5.10 Os perseguidos: 10,23; 23,34. “I'w posigóes agudamente perfiladas. causa da justiga”: por serem justos, comí' 5.17-20 O AT, especialmente na sua quaulade de lei, que também os profetas invítimas inocentes: ver Sb 2.

Jesus e a lei — 17Náo penseis que vim abolir a lei ou os profetas. Nao vim abo­ lir, mas cumprir. 18Asseguro-vos que, enquanto durarem o céu e a terra, nem um i ou til da lei deixará de se realizar. 19Portanto, quem violar o mínimo desses preceitos e ensinar outros a fazé-lo, será considerado mínimo no Reino de Deus. Mas quem o cumprir e o ensinar será considerado grande no reino de Deus. 20Pois eu vos digo: se vossa justi­ ga náo superar a dos letrados e fariseus, náo entrareis no Reino de Deus. 21O uvistes que foi dito aos antigos: N áo matarás-, o homicida responderá perante o tribunal. 22Pois eu vos digo: todo aquele que se encher de cólera contra seu irmáo responderá perante o tribunal. Quem chamar seu irmáo de inútil responderá perante o Conselho. Quem o cham ar de louco incorrerà na

euleam (e as vezes corrigem), receberá sua plenitude de sentido no cumprimento da nova economia. A lei se articula em múl­ tiplos preceitos, que se cumprem quando sao postos em pràtica. As profecias, como predigóes, cumprem-se quando o anuncia­ do acontece. “Nào penseis”, diz, como que adiantando-se a uma dedugáo precipitada dos ouvintes (da Igreja). Refere-se a “preceitos” contidos na Escritura, náo a tradigóes ou interpretagóes acrescentadas. O i (yod) é a menor letra do alfabeto hebraico. Jesús fala com uma autoridade que está acima da legislagáo antiga. Sua interpretagáo é autén­ tica. A dos letrados e fariseus: ou porque náo cumpriam o que ensinavam, ou porque invalidavam a lei com sua casuística, ou porque se fixavam na letra sem penetrar no espirito. Jesus cumpre lei e profetas em seu sentido profundo. O reino de Deus é visto como um territòrio no qual se entra, ou como uma instituigáo á qual alguém se incorpora. Os membros do novo rei­ no tém de superar os doutores, imitando Jesús. 5,21-26 Na forma reiterada “foi dito/eu vos digo” Jesus se apresenta como autori­ dade soberana. Aqui há alguém maior que Moisés. A primeira antítese compreende

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pena do fogo. 23Se enquanto levas tua oferenda ao altar te recordas de que teu irmào tem queixa contra ti, 24deixa tua oferenda diante do aitar, vai primeiro reconciliar-te com teu irmào e depois vai levar tua oferenda. -^Procura rapidamen­ te um acordo com aquele que pleiteia contigo, enquanto estás a caminho com eie. Do contràrio, teu rival te entregará ao juiz, o juiz ao oficial de justiga, e te colocarào no cárcere. 26Asseguro-te que nào sairás enquanto nào tiveres pago o último centavo. 27Ouvistes que foi dito: Nào cometerás adultèrio. 28Pois eu vos digo: quem olha urna mulher desejando-a, jà cometeu adultèrio com eia em seu coragào. 29Se teu olho direito te leva a pecar, arranca-o e atira-o para longe. É melhor perder um membro do que ser duas partes: sobre o homicidio, sobre a reconciliagáo. a) O mandamento de nao matar (Ex 20,13; Dt 5,17; Lv 24,17) radicaliza-se na atitude interior (cf. Lv 19, 17-18), — de onde brota o homicidio (Gn 4,1-7; 37,4.8) — , e se estende a ofensas menores. “Inútil e louco” sao insultos gra­ ves que negam ao outro a capacidade de compreender: expressam desprezo e taivez rancor, inveja, e podem conduzir a agóes graves. O castigo está escalona­ do: o tribunal local, o Conselho nacio­ nal, o pròprio Deus. O “fogo” é o do cas­ tigo escatològico, localizado na Geena (cf. Is 66,15.16.24), lugar associado a sacrificios humanos de criangas (Jr 7, 31). b) O preceito negativo “nào matar” estende-se à exigencia positiva da reconciliagáo, posta para dar mais ènfase em relagáo com o culto. O ensinamento de Jesús poderia citar textos afins do AT (como Is 1,10-20; 58,1-12; Jr 7; Eclo 34, 18-22). 5,27 Ex 20,14. 5,27-30 Segunda antítese. Sobre o adul­ tèrio. A proibigáo do decálogo (Ex 20,14; Dt 5,18), sob pena de morte (Lv 20,10), radicaliza-se até a atitude interior, o desejo consentido que induz ao ato (cf. Pr 6,25.27; Jó 31,1; Eclo 9,5). Também abar­ ca os sentidos, pois pela visáo entra o desejo (cf. Davi em 2Sm 11,2 e o episodio de Susana em Dn 14), ao passo que a máo é o membro do tato e da agào. A expressáo

jogado inteiro no forno. 3üSe tua máo direita te leva a pecar, corta-a e atira-a para longe. É melhor perder um mem ­ bro do que ser jogado inteiro no forno. 31Foi dito: Quem repudia sua mulher Ihe dé urna ata de divorcio. 32Pois eu vos digo: quem repudia sua mulher— exceto em caso de concubinato — a induz a adulterar, e quem se casa com urna di­ vorciada comete adultèrio. 33Também ouvistes que foi dito aos antigos: Nao perjurareis e cumprirás teus juramentos ao Senhor. 34Pois eu vos di­ go: nao juréis de modo algum: nem pelo céu, que é trono de Deus; 35nem pela ter­ ra, que é estrado de seus pés; nem por Jerusalém, que é a capital do Soberano; 36nem por tua cabega, pois nao podes tornar branco ou preto um cábelo. Seja é hiperbólica. O “forno” sugere o castigo escatològico. 5,31-32Terceira antítese. Sobre o divói cío, exigido pela lei (Dt 24,1) para afastai do lar a imoralidade e a infamia, concedi do pelos rabinos ao homem, sem muil:i dificuldade. Jesus se opóe à lei e à sua ju risprudència. Sobre a cláusula de excegào continua-se discutindo gragas à polissetnia do o termo grego pornéia, que nào sigili fica adultèrio nem permissào genèrica refere-se à uniào ilegal que nào é verdn deiro matrimònio?, as comunidades jiulrii cristas admitiam urna excegào? A letra Ia vorece a segunda hipótese, a interpretaran tradicional, a primeira. 5,31 Dt 24,1. 5,33-37 Quarta antítese. Sobre o ..... i (Lv 19,12; Nm 30,2). Entre cristàos, ;i sin ceridade deve ser tal que torne inúlil Imln juramento (Tg 5,12). O jurameiilu n i procedimento legai e pràtica religiosa ni mitidos e respeitados. No fundo, o r n i l a u h i residuo de desconfianga na simple', pulii vra humana, e procura respalda l a i m i n urna instància superior. Nào se ( I r v i in., ter Deus nisso nem substituir ...........un com seus atributos ou símbolos <'mini H trono, que è o céu (Is 66,1), oii i . n|iiu|| que è Jerusalém (SI 48,2). () sim r u ilM concentran) as formas elementan-, .la " li tenga gramatical e lógica; veja m i • *|»ti sigào de Paulo (2Cor 1,17-2(1) 5,34 Is 66,1; SI 48,2.

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vossa linguagem sim, sim, nào, nâo. 0 que passa disso procede do Maligno. 38Ouvistes que foi dito: Olito por olho, dente po r dente. 39Pois eu vos digo: nâo résistais ao malvado. Pelo contràrio, se alguém te dá uma bofetada na face direita, oferece-lhe a esquerda. 40Ao que pleitear contigo para tirar-te a túnica, deixa-lhe também o manto. 41Se alguém te força a caminhar mil passos, caminha com ele dois mil. 42Dá a quem te pede, e nâo rejeites quem te pede emprestado. 43Ouvistes que foi dito: Am arás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. 44Pois c u vos digo: Amai vossos inimigos, rezai pelos que vos perseguem. 45Assim sereis lilhos de vosso Pai do céu, que faz sur­ gir seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos. 46Se amais ■órnente os que vos amam, que prèmio merecéis? Também os coletores de im5,38-42 Quinta antítese. Trata-se da lei ■ lo taliäo (Ex 21,24; Lv 24,20; Dt 19,21), i"' na sua origem tentava por um freio à ■ 111ral da violencia (o grito de Lamec, Gn I 23-24); o principio da equivalencia rege iimilos textos do AT, até salmos em que o "uiiile apela a Deus para que lhe faga jusM ',.1 () freio que Cristo propòe é vencer o m.il rom o bem (cf. SI 35,11-13). Os très i » .i propostos representam muitos ou" " uà ordem do sofrer, possuir e execu" I ùnica e manto sao as duas pegas do Vi h i . ilio normal (cf. Dt 24,13). Sobre a H i 'i.....idade pode-se ver Pr 3,27s; sobre li i incrostar veja-se a instrugào de Ben mi' (líelo 29,1-13). ■ i ■ 18 Sexta antítese. Sobre o òdio ao liilinir.o nao conhecemos nenhum texto (Hi i" no do AT. Aproximam-se a boa dis­ tili 11 '»I 139,22: “Eu odeio, Senhor, os que 1 * ttli i un”; Pr 29,27 “o criminoso é de­ li’ i ni" | irlos justos”. O preceito de Jesus fi ■H i '.ngestöes do AT (como Ex 23,4• i> i ' 1 I 7-18; Jr 15,15) e as faz culmili "■ ■ i. ns,io e no motivo: nada menos li ...... Lu mi de Deus Pai. Enfaticamen' ' il ."I”, porque Deus controla suas ..............in favor dos homens, sem disiij ■ . .. il é fonte de bens, luz e calor. ' i I'*,2 e outros textos convidam * ..miidade” de Deus. Jesus fala | 1, i ii'ii.n.i" e a centra no amor.

postos fazem isso. 47Se amais somente os vossos irmàos, que fazeis de extraor­ dinàrio? Também os pagaos fazem isso. 48Sede, portanto, perfeitos como vosso Pai do céu é perfeito. EsmoIa, ora^ao e jejum (Le 11,24) — 1Guardai-vos de praticar as boas obras em público para serdes admirados. Caso contràrio nao vos recompensará vosso Pai do céu. 2Quando deres esmola, nao fagas tocar a trombeta à frente, como fazem os hipócritas* ñas sinago­ gas e nas ruas, para que o povo os louve. Asseguro-vos que já receberam seu pagamento. 3Quando deres esmola, nào saiba a esquerda o que faz a direita. ‘ Des­ se modo tua esmola ficará oculta, e teu Pai, que ve o escondido, te pagará. 5Quando rezardes, nao faqais como os hipócritas, que gostam de rezar em

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6.1 O principio geral se prende à inten­ d o ou finalidade, que pode ser raiz ou motor das obras, modelando-as qualitati­ vamente. Contradiz a norma de 5,16? Nao, porque tal norma fala de conseqiiéncia, nao de finalidade, e o resultado é o louvor de Deus, nao do homem. Orientadas para o Pai celeste, nossas obras recebem dele uma recompensa. 6.2-18 Normas sobre esmola, oragáo e jejum, tres práticas tradicionalmente reco­ mendadas. 6.2 *Ou: comediantes. 6.2-4 A esmola é muito recomendada no AT, especialmente em textos tardios. Sobressai o livro de Tobias, que a converte quase em leitmotiv ; ver também Is 58,10; Pr 3,27; SI 112,3.5 etc. Subordinar a esmola, que é altruismo, ao interesse pessoal, que é egoísmo, é esvaziá-la de senti­ do (pode-se pensar em patrocinadores publicitarios). Deve-se salientar o aforismo do v. 3, no qual esquerda e direita poderiam sugerir a oposta valorizado tradi­ cional. “Quem se compadece do pobre em­ presta ao Senhor” (Pr 19,17). Ben Sirac nos oferece uma instrugáo sobre o mesquinho e o generoso (Eclo 14,2-19). 6.5-15 Sobre a oragáo: em particular, de poucas palavras, o Pai-nosso. 6.5-6 Nào se refere à oracíto comunità­ ria, que é necessariamente pública; mui-

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pé nas sinagogas e nas esquinas para se exibirem ao povo. Asseguro-vos que jà receberam seu pagamento. 6Quando fo­ res rezar, entra no teu quarto, fecha a porta e reza a teu Pai em segredo. E teu Pai, que vê o escondido, te pagará. 7Quando rezardes, nâo sejais faladores como os pagâos, que pensam que à força de palavras serâo ouvidos. 8Nâo os imitéis,

pois vosso Pai sabe do que nécessitais, antes que o peçais. 9Rezai assim: Pai nosso do céu! Seja respeitada a santidade do teu nome, 10venha teu rei­ nado, cumpra-se teu designio na terra como no céu; n dá-nos hoje o pao de amanhá*, 12perdoa nossas ofensas co­ mo também nós perdoamos aos que nos ofendem; 13náo nos deixes sucumbir à

6.10 O reinado de Deus é o exercício do tos salmos concluem com o louvor a Deus seu poder. Vir é símbolo espacial que se “perante a assembléia”, mas falam tamresolve na realizagáo histórica final (SI bém de orar na cama (SI 4,5; 77,2-5), de 98,8-9). Este pedido corresponde ao anún súplica de doentes (SI 6; 38). Jésus fala, ció primordial da boa nova, por obra do antes, da oraçâo em particular. Nâo se deve Batista e de Jesús. convertê-la em espetáculo. Que contra­ Cumprir o designio equivale ao anterioi, senso louvar a Deus para glòria propria! a exercer o reinado. O designio é concreto Deus nâo está confinado no templo, mas e diferenciado. O pedido náo é fatalismo presente em toda parte, embora oculto (Is nem resignado inerte. Este pedido resson 45,15). ao longo do evangelho (7,21; 12,50) e no 6,6 2Rs 4,33. momento dramático do Getsémani (26,4.’) 6,7-8 Nao condena a freqiiéncia (Le *Ou: de cada dia. 18,1) nem a assiduidade, mas a proli6.11 Sendo duvidoso o significado iln xidade (cf. Tg 1,26; nao frear a lingua; epiousion (a Vulgata traduz de forma ilili Eclo 7,17). Antes de pedi-lo: Is 65,24; rente a mesma palavra em Mt supersnl>\ SI 139,4. tantialem e em Le quotidianuni), propoem 6,9-13 Nós a chamamos “oraçâo do­ se duas interpretares. O pao empinni minical” porque foi ensinada por nosso cotidiano, “que dá pao a todo vívente" IM Senhor, e por isso tem um lugar privile­ 136,25); o pao do amanhá escatol(V.n o: giado. No contexto se apresenta como celeste, antecipado na eucaristía (Jo l>) <1 compendio oposto à prolixidade (poly segundo parece um pouco mais provnvi'1 logia). E fazer-lhe justiça multiplicá-lo? (ver Ex 16,19-25 sobre o alimento p.u ■ <" Nâo será melhor saboreá-lo ou ruminá-lo? dia de descanso), a náo ser que prcvalcyi» Contém urna invocaçâo e sete pedidos, bivalencia, e no sustento diário tía vnln • très em honra de Deus, quatro a favor do vislumbre a vida perdurável, o dia elnllrt homem. Várias sintetizam a dimensáo em­ 6.12 O perdáo: o texto usa a imafrm pírica com a transcendente: Pai/céu, reidivida, que abarca qualquer caso Nmi no/venha, terra/céu, perdoamos/perdoa. 6,9 Invocaçâo a Deus Pai (SI 89,27 o tenhais dividas com ninguém, a nao i I do amor mutuo” (Rm 13,8), como na jm rei; Eclo 51,10 um particular). Lucas esrábola dos devedores (Mt IX,.’/ Mi ^ creve só “Pai”; talvez se trate da fórmula eondigáo do perdáo mutuo está |a . iihm original ou primitiva. Pai equivale ao novo ciada e comentada em Eclo . ’ X , I / •'* * nome de Deus que implica a consciéncia doa a ofensa a teu próximo e, !•■r da filiaçâo, testemunhada pelo Espirito; é dires, teus pecados seráo perdoinln«1 a primeira palavra do cristào (cf. Rm 8,156.13 Aprovagáo é condieao <tn IminniH 16; Gl 4,6-7). em particular do homem ii li;-n■■ • ti > 1 Santificar nâo é dar, mas reconhecer. Q 2,1-5) e do cristáo; náo pedimo |mi>i ■ fi nome pode ser também o título e a fama. nos livres de provagóes; com l<un mi ■ ■¡ Náo mostrar a santidade de Deus foi o de­ negativa pedimos para sii| h i a la M M i lito de Moisés (Nm 27,14). Is 29,23 o anuncia para a salvaçâo escatològica. Ez 26,41). O maligno é o tentadoi. ........ i i........ 36,23 o estende aos pagáos. O contràrio é tenta provocar a queda; « o ‘«ai i . i profaná-lo: abusando dele, manipulanserpente. do-o, trivializando-o.

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prova e livra-nos do m aligno. 14Pois se perdoais aos hom ens as ofensas, vosso Pai do eéu vos perdoará, 15mas se nao perdoais aos hom ens, tam pouco vosso Pai vos perdoará vossas ofensas. 16Quando jejuardes, nao fagais um rosto sombrío com o os hipócritas, que desfiguram o rosto para fazer o povo ver que estáo jejuando. A sseguro-vos que j á receberam seu pagam ento. 17Quando jejuares, perfum a a cabera, lava o rosto, 18de m odo que os homens nao percebam teu jejum , mas somente teu l’ai, que está escondido; e teu Pai, que ve o escondido, te pagará. Sobre o possuir — 19Náo acumuléis t iquezas na térra, onde roem a traga e o

caruncho, onde os ladróes arrombam e roubam. 20A cum ulai riquezas no céu, onde nao roem traça nem caruncho, onde ladróes nao arrombam nem rou­ bam. 21Pois onde está tua riqueza, ai estará teu coraçâo. 220 olho fom ece luz a todo o corpo: portanto, se teu olhar é generoso, todo o teu corpo será luminoso; 23porém, se teu olhar é m esquinho, todo teu corpo será tenebroso. E se tua fonte de luz está ás escuras, que terrível escuridáo! 24N inguém pode estar a serviço de dois senhores, pois ou odeia um e ama o outro, ou agradará a um e desprezará o outro. Nao podéis estar a serviço de Deus e do Dinheiro. ^ P o r isso vos re­ com endó que nao andéis angustiados

31,13.23-24; 37,11; cf. Mt 20,15). Esse uso No Pai-nosso ressoa a experiencia de é atestado também na literatura rabínica. i niel no processo de sua libertagáo: proOphthalmosponeros nunca significa olho vngóes no deserto, o maná cotidiano, a doente; haplous significa generoso (2Cor onlade de Deus promulgada como lei, a 8,2; Tg 1,5). O jogo consiste em sobre•niilidade cúltica do nome revelado a por os dois sentidos: o olho simples vé lo isc s , o reinado de Deus pela alianga na bem, ilumina toda a pessoa = o generoso luna entregue. é luminoso (“espléndido” em portugués). < • I(>-18 Havia jejuns prescritos e volunO olho mau, tacanho ou invejoso, deixa 1u i' ■ . públicos por alguma calamidade (J1 ás escuras. Assim se enquadram esses vv. i I i 2,12), e privados para respaldar a na presente perícope sobre o possuir. So­ "pin •i (2Sm 12,16). Compare-se o jejum bre mesquinho e generoso disserta Eclo ......i ilo dia da expiagáo (Lv 16,29-31) 14,3-16. um ,i crítica cómica e indignada de Is 6,24 Mamón é o deus do dinheiro, da "i i / Sobre o jejum dos discípulos: Mt y,H I > cobiga: rival inconciliável do Deus verdadeiro, que é doador generoso (SI 21,5; (i !'» 14 Quatro recomendagóes sobre 37,4; 136,25 etc.) e ensina a dar. A cobiga i* * * * * ' ilc bens, comentando o espirito de é idolatría, diz C13,5. O cobigoso nao posittilii. .i da primeira bem-aventuranga. sui, mas é possuído por seus bens e suas < > i' * .’I Tesouros no céu. Profetas e Snsias. Quevedo sentenciava: Poderoso «■i■ * ■ni mis condenam transformar as ricavaleiro é Dom Dinheiro. .......... ni ponto de apoio para a existén6,24-34 Bens terrenos e confianga em l ui* ■ SI 62,11 no contexto). Um modo Deus. Condena o afá excessivo de segu......... de nao acumular é a esmola, ranga, a falta de confianga em Deus, típi­ I «tu Tni.i l’r 19,17 eexplicaEclo29,10cos de urna mentalidade paga. Já Ben Sirac t* * >** i* * > i* *líelo 3,14-15, a esmola que o denunciava essa preocupagáo “que acaba ni i ....... seu valor em favor do ficom a saúde” (Eclo 31,1-2). Recomenda A ii i.,» SI 39,12; o ladráo: Ex 22,1. a concentragáo nos valores do reino e a i .< nerosidade e mesquinhez. Há |f* mu i- '.i, palavras intraduzível. Para confianga em Deus Pai. Devem-se enten­ der ligados os dois correlativos, para nao p tu-* . u*i, i* olho é o órgáo da visáo e excluir a previsáo económica razoável. “O t ■ I * I i* nlilade estimativa (cf. “aos reinado de Deus e sua justiga” buscam 1 m ’) i illio bom/olho mau, sobretambém urna ordem justa entre os homens. I «t* .it*.t|". .i*> significa generoso/mesAs imagens tiradas da natureza, embora a il h I ■'), l>r 22,9; Eclo 14,3.10;

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6,26

pela comida e bebida para conservar a vida ou pela roupa para cobrir o corpo. Nao vale m ais a vida do que o susten­ to, o corpo m ais do que a roupa? 260 b servai as aves do céu: nao semeiam nem colhem nem ajuntam em celeiros e, no entanto, vosso Pai do céu as sustenta. Nao valéis vós mais do que elas? 27Quem de vós pode, à força de se preocupar, prolongar um pouco a vida? 28Por que vos angustiais pela roupa? O bservai como crescem os lirios silvestres, sem trabalhar nem fiar. 29A sseguro-vos que nem Salomào, com todo o seu esplen­ dor, se vestiu com o um deles. 30Pois se à erva do cam po, que hoje cresce e amanhâ a lançam ao forno, Deus veste assim, nâo vestirá melhor a vós, des­ confiados? 31Em conclusâo, nâo vos angustiéis, pensando: o que com ere­ mos, o que beberem os, o que vestire­ mos. 32Tudo isso procuram os pagaos. E vosso Pai do céu sabe que tendes necessidade de tudo isso. 33Buscai antes de tudo o reinado de Deus e sua justiservigo do ensinamento, revelam algo da sensibilidade contemplativa de Jesús, que prolonga textos do AT (p. ex. SI 36,7; 104,27-28). Sobre Salomáo, IRs 10. A perícope se encerra com um aforismo la­ pidar. O texto é paradoxal: sob urna su­ perficie agradável circula uma exigéncia dramática. Náo ensina a despreocupar-se, mas a mudar o objeto da preocupagáo. De fato, se o afá humano buscasse o auténti­ co reinado de Deus, seguir-se-ia um tran­ quilo e simples bem-estar. Ideal que náo poucos cristáos viveram. 7,1-5 Comega aqui uma série de breves instrugóes e exortagóes. A primeira é con­ tra o julgamento arrogante, “hipócrita”, que despreza e condena. Recordemos nossa imagem do “telhado de vidro”. Mas náo se excluí a admoestagáo e mesmo o julga­ mento em casos extremos (cf. 18,15-17). Os rabinos usavam a proporgáo (v. 2) como norma positiva do julgamento; Jesús a cita para proibir o julgamento. Paulo aplica o ensinamento á comunidade crista, a pro­ pósito de consciéncia escrupulosa e for­ mada (Rm 14). O ensinamento encerra

ga, e o resto vos daráo por acréscimo. 34Portanto, náo vos preocupéis com o amanhá, pois o amanhá se ocupará con­ sigo mesmo. A cada dia basta o seu pro­ blema. Avisos diversos — 'N áo julgueis e náo sereis ju lgados. 2Com o julgardes vos julgaráo. A medida que usardes para m edir será usada para convosco. 3Por que observas a felpa no olho de teu irmáo, e náo reparas a viga do teu? 4Como te atreves a dizer a teu ir­ máo: deixa-me tirar a felpa do olho, enquanto levas uma viga no teu? h i p ó ­ crita! Tira primeiro a viga de teu olho, e entáo poderás distinguir para tirar a felpa do olho de teu irmáo. hNáo jogueis o que é santo aos caes, náo jogueis vossas pérolas aos porcos, para que náo as pisoteiem e depois se voltem para destrogar-vos. 7Pedi e vos daráo, buscai e encon trareis, batei e vos abriráo; 8pois quem pede recebe, quem busca encontra, ii

7

uma observagáo psicológica correta: ii homem esforga-se por náo ver seus de Id tos, para assim conviver com eles. O pro feta tem de inventar uma personagem fii tícia para denunciar o rei ou o povo (2Nm 12; Is 5). 7,6 Interrompe o contexto. Cáes e pur eos eram animais desprezíveis ou inipil ros. Para comer das oferendas ou saniti cios do culto a pessoa deve estar puní N flil inculca o esoterismo, mas a devida cI i ni il gáo no uso dos tesouros cristáos. 1 ’mU na-se o santo e os indignos náo se heimtl ciam. Ben Sirac diz em chave sapirm 1 * 1 que “ensinar um néscio é pegar enlnlhir (Eclo 22,9). 7,7-11 Orar confiando em Dem l'»l complementa ou comenta o Pai-mr.in Al tres frases sáo variagóes que rel< > ii.uii* « ensinamento; a forma passiva lem I Mrt como sujeito. O pròprio Deus ennvlil» I pedir e promete dar (SI 2,8; 27,1 pH 'IH I procurar). Ele pròprio convida a pnn til# e se deixa encontrar (Is 55,(i; li "> llj Sois maus: pelo egoísmo radimi i|it» # entanto é vencido pelo afeto palei im 1UÈ é mais pai que qualquer pai ..............|H<f

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quem bate lhe abrem. 9Quem de vós, se seu filho lhe pede pao, lhe dá urna pedra? 10ou se lhe pede peixe, lhe dá urna cobra? n Pois se vós, sendo táo maus, sabéis dar coisas boas a vossos filhos, quanto mais dará vosso Pai do céu coisas boas aos que lhe pedirem! 12Tratai os outros assim como quereis que vos tratem. Nisso consistem a lei e os profetas. A conduta correta — 13Entrai pela porta estreita; porque é larga a porta e espacioso o cam inho que leva á perdicao, e sao muitos os que por ela entram. '''Quáo estreita é a porta, quáo apertado o cam inho que leva á vida, e sao poucos os que a encontram! 15Guardaivos dos falsos profetas, que se aproxiiiKim de vós disfam ados de ovelhas, e I> < > r dentro sao lobos ferozes. 16Por seus

frutos os reconhecereis. Colhem-se uvas das sargas ou figos dos cardos? 17Uma árvore sadia dá frutos bons, urna árvore prejudicada dá frutos ruins. 18Uma árvore sadia nao pode dar frutos ruins, nem urna árvore prejudicada pode dar frutos bons. 19A árvore que nao der fru­ tos bons será cortada e lancada ao fogo. 20Assim, pois, pelos frutos os reconhe­ cereis. 21Nem todo aquele que me disser: Senhor, Senhor! entrará no reino de Deus, mas aquele que cum prir a vontade de meu Pai do céu. 22Quando chegar aquele dia, muitos me diráo: Senhor, Senhor! Nao profetizamos em teu nome?, nao expulsam os demonios em teu no­ me?, nao fizemos milagres em teu no­ me? 23E eu entáo lhes declararei: Nun­ ca vos conheci; apartai-vos de mim, malfeitores.

lucí patemidade imita a Deus. Precisamen| por seu amor paterno, quer dar “coisas .... nao satisfazer caprichos prejudii i i s . Ver em 2Cor 12,8-9 um caso em que 11' i i s nega um pedido de Paulo; outras ■vi s por causa da má disp o silo dos que ..... .. a ele, se nega a responder (Ez 14). /.II) SI 37,4. M A regra de ouro, suma de toda a I ■iiiura, se encontra, na sua formulagào ■c a iva, em outras culturas, também em II I, I i. Sua aplicagào abarca desde o coii li ni" ite o heroico. É outra formulagào ....i..... ao próximo: “como a si mesmo” •Mmi.i vertente ativa. 1 i .17 O cristao há de tomar decisóes • 'umiliar entre dificuldades e ambigiiipil> le .us o previne e lhe oferece eritè­ m i i•n i distinguir, usando e renovando • . ns tradicionais do caminho, da ■ ■ il i construgào. A insistencia do ' l ' i indica o sentido pràtico da insin in li l as sete vezes de “fazer” no poM» I» I n . neo de Is 5,1-7). * | * i l i 11adicional a imagem dos dois — • i|i ex. Pr 4,10-19), inclusive està ii ili ' l i Ii novo o critèrio de largueza • •• " . a (ciimparar com o caminho larb » • 'il 11'>.-15 ou 18,37). O proprio Je......... . corno caminho e como porl i ' ' ' i 10,7.9).

7,15 Os falsos profetas foram o pesadelo dos auténticos (cf. Jr 23 e Ez 13 entre outros). Elogiam e nào denunciam (Is 30,10); prometem falsamente a paz (Jr 6,14; 8,11). Nào faltarào falsos profetas ñas comunidades cristas (Mt 24,11.24; IJo 2 fala de anticristos), nem mestres que “elogiem os ouvidos” (2Tm 4,3). 7,16-20 Também é tradicional a imagem do fruto (Eclo 27,6; Pr 1,31; 11,30; 31,3); ver também a parábola de Joatáo em Jz 9, a de Isaías em Is 5 e Tg 3,12. Os frutos podem ser suas agóes ou os efeitos da sua pregacào (cf. Jr 8,11; Ez 13,10). 7,21-23 Esses vv. tragam um horizonte escatològico que todo o sermáo da montanha adotará. Porque nele está a “vontade do Pai” (6,10; cf. SI 143,10) a ser cumprida, é o caminho que leva à vida. “Em nome de” significa: como enviados, repre­ sentando ou invocando o Senhor; também o fazem os falsos profetas (segundo Jr 27,15). Tampouco bastará a atividade carismàtica de profetizar ou fazer milagres. “Aquele dia” refere-se à parusia, o mo­ mento de prestar contas. Invocar Jesús como Senhor é profissào solene de fé, mas nao basta. A admoestacào é grave: a últi­ ma frase é urna sentenza definitiva de con­ denado, adaptagao do SI 6,9, súplica de um doente.

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7,24

24Assim, pois, quem escuta estas minhas palavras e as póe em prática parece-se com um hom em prudente que construiu a casa sobre rocha. 25Caiu a chuva, cresceram os ríos, sopraram os ventos e se abateram so­ bre a casa; mas nao a derrubaram por­ que estava alicergada na rocha. 2f,Quem escuta estas m inhas palavras e nao as póe em prática parece-se com um ho­ mem sem juízo que construiu a casa sobre areia. 7,24-27 Podc-se 1er a comparagáo so­ bre o paño de fundo de Ez 13,10-14, que fala da construyo fraca que é derrubada pelo aguaceiro. Jesús apresenta com autoridade a sua mensagem como terreno fir­ me sobre o qual se pode construir urna vida frente á furia dos elementos. Os dois tipos sao qualificados de prudente e sem juízo, termos sapienciais (cf. Mt 11,19; ICor 1,30); o manifestó de Jesús oferece ao ho­ mem que o cumpre a sabedoria auténtica, para que seja realmente homo sapiens. 7,28 A autoridade de Jesús nao se apóia em citagóes de doutores, nao progride por casuística sutil; expóe com limpidez e exi­ ge sem concessóes. 8— 9 Formam um bloco de dez curas (contando as duas separadas de endemoninhados), interrompidas por urna viagem marítima com milagre e duas vocagóes. Dez é o número de totalidade, que se arti­ cula em varios campos da saúde e integridade do homem. Outra contagem possível: nove curas humanas mais um milagre cósmico. Como paño de fundo, devemos ter presentes os anúncios proféticos de curas: p. ex. Is 35 na caravana que volta do desterro anuncia a cura de cegos, surdos, mudos e coxos; pode-se acrescentar alguns milagros dos profetas taumaturgos, Elias e Eliseu, o “leproso” Naamá, o me­ nino morto. Quanto aos beneficiarios, sao dignos de atengáo: um doente crónico ex­ cluido da sociedade, um pagao, urna mulher em estado impuro e endemoninhados. O valor de sinal das curas está confirma­ do na mensagem ao Batista (11,5). Mas as curas nao sao prova extrínseca e hetero­ génea de urna doutrina e missáo, mas já sao realizagáo parcial e concreta: ao cu-

27Caiu a chuva, cresceram os rios, sopraram os ventos, golpearan) a casa e ela desmoronou. Foi um desmoronamento terrível. 28Quando Jesús terminou seu discur­ so, a m ultidáo estava maravilhada com seu ensinamento; porque ele a ensinava com autoridade, nao como os letrados. Curas (M e 1,40-45; Le 5,12-16; 7,2-10; Jo 4,43-54; Me 1,29-34; Le 4,38-41) — 'Q uando descia do monte,

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rar, Jesús está introduzindo o reinado de Deus, que deseja salvar o homem todo, inclusive do poder da morte. Os relatos de cura seguem com grande liberdade um esquema básico, no qual costumam-se destacar o diálogo com o doen­ te ou a pessoa encarregada e o efeito nos que presenciam ou ouvem falar. No primeiro plano se aprecia a necessidade de crer e confiar em Jesús para dispor-se a receber a cura. 8,1-4 O texto grego fala de “lepra”, de “limpar”, e da “oferta” estabelecida pela leí. Estamos, pois, no ámbito de Lv 13— 14: urna elaborada sintomatologia de doengas da pele, de gravidade variada, que contagiam por contato e podem excluir do culto. Nao é certo, é muito duvidoso que se trate no evangelho de lepra em sentido clínico; é que a versáo grega traduziu por lepra um termo hebraico genérico que en­ globa muitas lesóes da pele (nenhuma identificável como lepra). Aquí se trataría da forma extrema, incurável. Os sacerdo­ tes examinavam, diagnosticavam e em certos casos confinavam ou excluíam da vida civil. Exemplo interessante dessa exclusáo pode ser lido no relato de 2Rs 7. Outros casos: María, irmá de Moisés (Nm 12), o rei Ozias (2Cr 26,16-21). Jesús cura, limpa, restituí á vida da comunidade. ( ■ ' muito expressivo o diálogo conciso: “se queres, podes”: eré no poder, conta com o querer. Jesús quer, pois para isso tem o poder. Se Jesús evita a publicidade, quei que, pelo cumprimento de um preceito, a classe sacerdotal se dé conta de sua ali vidade. Os sacerdotes deviam diagnosli car, nao podiam curar, mesmo que o qui sessem.

8,17

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urna grande m ultidáo o seguía. 2Um leproso se aproxim ou dele, prostrou-se diante dele e lhe disse: — Senhor, se queres, podes curar-me. 3Ele estendeu a máo e o tocou, dizendo: — Quero, fica curado. No mesmo instante curou-se da le­ pra. 4Jesus lhe disse: — Nao o digas a ninguém; vai apresentar-te ao sacerdote e, para que lhes conste, leva a oferta estabelecida por Moisés. 5Ao entrar em Cafarnaum, um centuriáo se aproximou dele e lhe suplicou: — 6Senhor, meu criado está em casa deitado com paralisia, e sofre terrivelmente. 7Disse-lhe: — Eu irei curá-lo. 8M as o centuriáo lhe replicou: — Senhor, nao sou digno de que en­ tres sob mea teto. Basta que pronuncies urna palavra e meu criado ficará cura­ do. ‘Tam bém eu tenho um superior e soldados as minhas ordens. Se digo a este

que vá, ele vai; a outro que venha, ele vem; ao servo que faga isso, ele o faz. 10Ao ouvi-lo, Jesús se admirou e dis­ se aos que o seguiam: — Eu vos asseguro: fé sem elhante nao en co n trei em nenhum israelita. u Digo-vos que m uitos víráo do Orien­ te e Ocidente e sentaráo com Abraáo, Isaac e Jaco no reino de Deus. 12Ao passo que os cidadáos do reino seráo expulsos para as trovas exteriores. Ai haverá pranto e ranger de denles. 13Ao centuriáo Jesús disse: — Vai e acó n tela como acreditaste. Nesse instante o criado ficou curado. 14Entrando Jesús na casa de Pedro, viu a sogra dele deitada com febre. 15Tom ou-a pela máo, e a febre passou; ela se levantou e se pos a servi-los. 16Ao entardecer, lhe trouxeram muitos endem oninhados. Ele, com urna pala­ vra, expulsava os dem onios, e todos os enferm os se curavam . 17Assim se cumpriu o anunciado pelo profeta Isaías: E le assum iu nossas fraquezas e carregou nossas enfermidades.

8,2 2Rs 5. 8,4 Lv 4,12. 8,5-13 Nao por ser doente, mas por ser pagáo, o centuriáo fica fora da comunidade de Israel; um judeu observante náo po­ día entrar na sua casa. Além disso, repre•.entava o poder estrangeiro de Roma. Mas pela sua fé entra na nova comunidade e eresce como figura exemplar: denúncia ilo s que resislem a crer, anuncio de muilos que creráo. Percebe-se a polémica da i omunidade crista frente ao judaismo ofii i¡il: os obstáculos legáis náo sao impediinento para a agáo benéfica de Jesús. () centuriáo expóe com simplieidade a i’iavidade da situagáo. Jesús o entende • "ino pedido discreto e se oferece para 1 1 11< ■ rvir pessoalmente. Mas o centuriáo «Hiende o poder de Jesús em termos mitíi ni-, da sua experiencia pessoal. Imagina i ii', como subordinado a um poder su­ perior e as doengas como subordinados il.lt cis? i iis remonta-se aos patriarcas, saltan1 " i ilianqa mosaica. O simples caso de

um paralítico, doenc;a incurável, se amplia como anuncio missionário de alcance uni­ versal (cf. Is 2,2-5; Mq 4,1-5; SI 87 etc.). A expressáo de SI 107,3 se enche de novo sentido. “Sentaráo” á mesa, no banquete do reino, imagem freqüente, inspirada taivez pela promessa escatológica de Is 25,
6- 8 .

8,14-15 Pode-se inferir a ¡ntercessáo de Pedro ou se supóe que Mateus sublinhe a iniciativa espontánea de Jesús. O gesto de tomar pela máo é atribuido a Deus no AT: Is 42,6 o servo; 45,1 Ciro; Jr 31,32 o povo etc. A cura capacita a mulher para o servi­ do (ver em contraste SI 41,4.11). 8,16-17 Duas coisas chamam a atengáo neste resumo. Primeiro, o paralelismo que identifica “demonios” com “doengas”. Segundo, a citaijáo livremente adaptada de Is 53,4 (podia ter citado Is 29,18 ou 35,56). Diz que o Messias toma sobre si o sofrimento para poupá-lo a outros: é salva­ dor á sua custa, por amor. As curas sao muito mais que sinais apologéticos. Nelas “aparece a bondade do nosso Deus e

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Seguim ento (Le 9,57-62) — 18Vendo Jesus a multidào que o rodeava, deu ordem de atravessar o lago. 19Entào aproximou-se um letrado e lhe disse: — Mestre, eu te seguirei aonde fores. 20Jesus lhe respondeu: — As raposas tèm tocas, os pássaros tèm ninhos, mas este Homem nào tem onde recostar a cabe$a. 21Outro discípulo lhe disse: — Senhor, deixa-me ir prim eiro en­ terrar meu pai. 22Jesus lhe respondeu: — Segue-me, e deixa que os m ortos enterrem seus mortos. A tem pestade acalm ada (Me 4,35-41; Le 8,22-25) — 23Quando subia à bar-

ca, os discípulos o seguiram . •'1 1m. . i,. tamente levantou-se tal tempcsi i.l. > u| lago, que as ondas cobriam a em lun i qáo; enguanto isso, ele continua' i i , mindo.-"’Aproximaram-se e o de | ■.i i ram, dizendo: — Senhor, salva-nos, pois c s ta m n i afundando. 26Disse-lhes: — Como sois covardes e desconI I <>1 Levantou-se e ordenou aos ventos < n lago, e sobreveio urna calma perlc ii i 27Os homens diziam assombrados: — Que tipo de individuo é es.s< quem até os ventos e o lago obedeo 111 Os endem oninhados (M e 5,1-20 i 8,26-39) — 28Ao chegar á outra m u

Salvador e seu amor pelos homens” (Tt 3,4). 8,18-22 O entusiasmo suscitado pelo ensinamento e pelos milagres nao deve ilu­ dir, pois o seguimento de Jesús é exigen­ te. Os dois casos sao complementares e exemplares: um é um letrado que quer fazer-se discípulo, e Jesús o enfrenta com a dificuldade; outro é discípulo, e Jesús náo lhe permite distrair-se. Apresenta a pobre­ za quotidiana do pregador itinerante. As raposas: SI 63,11; Ez 13,4; as aves: SI 104,12.17. Pr 27,8 compara o “vagabun­ do longe do lar” com o “pássaro que fugiu do ninho”. Sobre o fundo de Jr 16,5-7 ressalta a exigéncia radical de Jesús, numa fórmula paradoxal, especialmente porque enterrar os pais era dever sagrado, como se lé nos relatos patríarcais, ou com insisténcia no livro de Tobías (Tb 4,3-4; 14,12): os que confinam seu horizonte a esta vida mortal que se ocupem de enterrar; eles por sua vez seráo enterrados. Jesús chama a urna vida nova, à vida. Nem sequer basta a atividade exemplar de Tobit enterrando mortos (cf. Tb 2,3-8; 14,10). 8,23-27 O mar na sua realidade empírica pode ser força destruidora, incontrolável para o homem (cf. SI 69,3.16; 107,23-30). Até ai os pescadores do lago seriam um caso a mais. Porém o mar apresenta outro as­ pecto no AT: é a potencia levantina, caóti­ ca, que Deus submete e apazigua (SI 93; 104,6-7; etc.). Jesús “dormia” como Joñas

(1,5). Levanta-se e repreende: como o Si nhor á maré dos povos (Is 17,13), o m.u (Na 1,4) ou o mar Vermelho (SI 106,'>) Assim se revela dominador dos elemut tos cósmicos (como Deus em SI 104,7 (> ) Os presentes entrevéem nele um poder su bre-humano superior aos ventos (SI 104,1) 8,28-34 Segundo a concepgáo da época, o mundo dos espíritos perniciosos ou ma lévolos se associa com o contaminado que mancha, também o territorio pagáo, com o doente que contagia (Lv 11,7; SI 91,6), com o mundo infernal que devora (Jó 18,13). Os demonios sentem a presenta de Jesús, re conhecem-no e o confessam Filho de Deus, ou Messias. Confissáo pesarosa e fon¿ad;i como a dos inimigos derrotados no AT, “e saberáo que eu sou o Senhor” (freqiien te em Ez). Confissáo de impotencia e medo, que náo vale: “Também os demonios créem e tremem de medo” (Tg 2,19). Com sua presenta e agáo, Jesús vai des­ terrando o poder demoníaco: empurrandoo ao reino do impuro (porcos, Is 66,3.17), ao abismo da perdigáo (precipicio, mar). Os vizinhos náo demonstram apreciar tal libertagáo, e sua atitude contrasta com a admiragáo de outros ante o poder de Je­ sús. Está bem libertar de demonios dois ho­ mens e de sustos a populagáo, mas nego­ cio é negocio. Embora a regiáo seja pagá, náo se diz que os personagens o sejam. “Antes do tempo” é antes da derrota final.

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r Hti inii.n no territorio de gadarenos, tendido numa maca. Ao ver a fé que ti•mi tin lln ao encontro dois endemonham, Jesús disse ao paralítico: ■ iiili nli > •., saídos dos sepulcros; eram — Animo, filho! Teus pecados estáo i >ii denlos, que ninguém se atrevía a perdoados. r i " .n |x>i aquele caminho. 29Imedia3Entáo alguns letrados pensaram: uim nir |)iiseram-se a gritar: — Esse blasfema. I 11lio de Deus! Que tens conos- 4Jesus, lendo seus pensamentos, disse: ,n " Vu sté antes do tempo para nos — Por que pensáis mal? sO que é H t. m iiu-iitar? mais fácil: dizer teus pecados estáo per­ \ i i i ta distancia havia urna grande doados, ou dizer levanta-te e caminha? ni iii.kI.i de porcos fugando. 31Os demó6Pois, para que saibais que este Homem iit*■ * . Ilic suplicaram: tem autoridade na térra para perdoar pe­ Se nos expulsas, envia-nos á macados — dirigindo-se ao paralítico, dísii.nl,i de porcos. se-lhe: 1 Disse-lhes: — Levanta-te, toma a maca e vai para casa. Ide. l ies saíram e entraram nos porcos. A 7Ele se levantou e foi para sua casa. n i , n i . ida em massa se langou ao lago por 8Ao ver isso, a multidáo ficou espanta­ iini.i encosta e se afogou na água. Os da, e dava gloria a Deus por ter dado |M’.lores fugiram, chegaram ao povoatal autoridade aos homens. iln e contaram o que havia acontecido . mu os endemoninhados. 340 povoado Chama M ateus (M e 2,13-17; Le 5,27m u i massa saiu ao encontro de Jesús e, 32) — 9Seguindo adiante, Jesús viu um .ni vé-lo, lhe suplicaram que se retirashomem (chamado Mateus) sentado dian­ nr de seu territorio. te da mesa dos impostos. Disse-lhe: — Segue-me. Cura um paralítico (Me 2,2-12; Le Ele se levantou e o seguiu. 10Estando 5,17-26) — 'Subiu a uma barca, atraJesús na casa, sentado á mesa, m uitos vessou á outra margem e chegou á sua coletores e pecadores chegaram e se sentaram com Jesús e seus discípulos. eidade. 2Levaram-lhe um paralítico es-

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8,29 *Ou: que queres de nós? (IR s 1,18). 9,1-8 O paralítico é doente incurável, está morto em vida. Os carregadores ma­ lcriáis sao também portadores espirituais, pela fé. Jesús conduz a atengáo para a relagáo, tradicionalmente sentida, entre doenga e pecado. Vejam-se salmos de doentes, p. ex. 38,4.6 “por causa do teu furor, por causa de meus pecados, por causa de minha insensatez”; e 41,5: “Cura minha vida, pois pequei contra ti”; um eco em Tg 5,14-15. Perdoando, Jesús nao blasfe­ ma, pois veio libertar do pecado (Mt 1,21). Como “homem”, recebeu poder de perdoar e curar; o povo se admira de que tal poder tenha sido concedido “aos homens”. A expressáo grega ho hyios tou anthropou designa um individuo da coletividade hu­ mana (semitismo: compare-se com o títu­ lo de Ezequiel “filho de Adáo”), e com o

artigo, a um individualmente; somente assim se explica a admiragáo expressa pelo povo (homem/homens); nao se admiram de que um personagem sobre-humano te­ nha recebido tal poder. “O perdáo é coisa tua”, diz SI 130,4 (cf. Is 55,7 rico em perdáo); os mediadores do AT nao perdoam, só intercedem pedindo perdáo para os outros (Ex 32; Nm 14; 2Sm 12 etc.). O máximo que fazem é oferecer sacrificios de expiagáo (Lv 4). Deus confere sua autoridade a Jesús “na terra”j cumprindo assim a profecía de Jr 31,34. É mais fácil perdoar que curar? E mais atraente, mais convincente para os objetores da cura; mas a cura física deve remeter á cura espiritual, que segundo SI 51,12 equivale a uma criagáo. 9,9-13 Nao somente perdoa pecados, mas transforma o pecador: de um explo­ rador, com uma palavra, faz um discípulo. O sistema de arrecadagáo de impostos, por

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“ Vendo isso, os fariseus disseram aos discípulos: — Por que vosso mestre come com coletores e pecadores? 12Ele ouviu e respondeu: — Os sadios nao tém necessidade de médico, e sim os doentes. !3Ide estudar o que significa misericordia quero e nao sacrificios. Nao vim chamar justos, mas pecadores. 14Entáo aproxim aram -se dele os dis­ cípulos de Joáo e lhe perguntaram: -— Por que nós e os fariseus jejuamos, ao passo que teus discípulos nao jejuam ? 15Jesus lhes respondeu: — Podem os convidados ao casamen­ to fazer luto enquanto o noivo está com eles? Chegará um dia em que o noivo lhes será tirado, e entáo jejuaráo. 16Nin-

guém póe um remendó de pane n.mi numa roupa velha; pois o a cresi, m i>i i repuxa a roupa e faz um rasgo pi ■ l7Nem se póe vinho novo em odi <■ ■\ < lhos, pois os odres arrebentariam, •■ ■ nho se derramaría e os odres se .-sii gariam. Vinho novo se coloca e m u.li novos, e ambos se conservan!. Duas curas (Me 5,21-43; Le 8, lo i — 18Enquanto lhes explicava isso, .i|•> .. ximou-se um funcionário, prostituí e lhe disse: — M inha fílha acaba de morrer. M.i vem, póe a máo sobre ela, e recohnu a vida. 19Jesus levantou-se e o seguiu coiii seus discípulos. 20Entretanto, urna m u lher que estava há doze anos sofiviM. de hemorragias, aproximou-se por (i.r.,

intermediários a serviço dos romanos ou do governador regional, prestava-se a abu­ sos, favorecía e tornava odiosos esses profissionais (5,46; 18,17; 21,21); os cobra­ dores pertenciam à categoría formal de “pecadores”. O chamado soberano de Je­ sús transiere da escravidao do dinheiro à iiberdade do seguimento (cf. 6,24). “Cha­ mado Mateus”: o narrador identifica o apóstolo com Levi (Me 2,14). Os fariseus se sentern guardas da separaçào que garante a pureza e com ela a santidade ou eonsagraçâo do povo; entre as separaçôes, a mais importante é entre “justos e pecadores” (SI 139,19-22; Pr 29,27). A força de observancias, nao entendem a Escritura; consideram-se sâos e santos. Supóem insanável a situaçâo que Jesús veio sanar (cf. Eclo 38,1-15). Mas o primeiro passo para a cura é reconhecer a doença. A citaçâo de Os 6,6 se adapta bem à situaçâo, e será repetida em 12,7, poís seu alcance é geral. 9,14-17 Veja-se em Zc 7 urna consulta sobre um jejum particular. Por detrás da instruçâo sobre o jejum se entrevé o sím­ bolo do Messias esposo (cf. Mt 22,1-14; 25, 1-13), próprio do NT. Os discípulos de Joáo estáo ainda fechados na velha mentalidade, como que centrados na peniténcia, e nâo descobrem a festa que já começou; leia-se o convite do esposo: “Companhei-

ros, comei e bebei, e embriagai-vos, un ir, amigos” (Ct 5,1). Joáo nao é o esposo nem o Messias (cf. Jo 3,28-29). Jesús procm i suavemente, com imagens, abrir-lhes < v . olhos. Ao mesmo tempo, deixa entrevi i i> desenlace trágico, “lhes será tirado o noi vo”, como “arrebataram” o Servo (Is 53,S) Soa aquí a reflexáo posterior da comum dade. Com o símbolo concordam as ima gens da veste e do vinho (Is 61,10; Ct I), embora seu alcance transborde o contexl" atual: a economía antiga náo se corrige com remendos; a nova economía náo cabe em recipientes vcihos (cf. Mt 26,29 sobre o vinho escatológico). 9,15 Refere-se propriamente ao lugai onde se celebra a festa de casamento, que contém o quarto nupcial. 9,18-26 Como nos paralelos, o relato de um milagre (20-22) se encaixa no relato de outro (16-19.23-26) com o recurso do caminho, o primeiro milagre realizado pre­ para o segundo, a cura de urna doenga in curável, a ressurreicáo de urna defunta. Em ambos os casos, é decisiva a fé e o contato de Jesús. A ressurreigáo deve ser lida sobre o paño de fundo dos milagres de Elias e Eliseu (IRs 17,17-24; 2Rs 4,32-37), com inversáo de sexos. Se o sono é imagem da morte (Jr 51,39; SI 13,4; Jó 3,13), urna morte náo definitiva assemelha-se a um sono,

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i (m uti a orla do manto dele. 21Pois di­ t i « mu mu locarseu manto,ficarei cura.!■ « 1 li m i s voltou-se e, ao vè-la, disse: Animo, filha! Tua fé te curou. Nn mcsmo instante a m ulher ficou ni iil i ' 'Jesus entrou na casa do funcionili li i c ao ver os flautistas e o barulho li (Mule, -'disse: Kclirai-vos, a menina nao está mor­ bi, nía-, adormecida. I<min se dele. 25Mas, quando retirami n us pessoas, ele entrou, tomou-a pela mitii, e a menina se levantou. 2sO fato -i «livnlgou por toda a regiáo. I ni as: os cegos e o mudo (Le ll,1 4 s ) línquanto Jesús seguía adiante, ,li ns cegos o seguiam gritando: — Filho •li I )avi! Tem piedade de nós. "()uando entrou em casa, os cegos ■ H .iproximaram, e Jesus lhes disse: Credes que posso fazè-lo?

Responderam: — Sim, Senhor. 29Ele lhes tocou os olhos, dizendo: — Que aconteqa como crestes. 30Seus olhos se abriram, e Jesús os admoestou: — Cuidado, que ninguém fique sabendo! 31Eles, porém, se foram e divulgaram sua fam a por toda a regiáo. 32Enquanto saíam, levaram -lhe um m udo endemoninhado. 33Ele expulsou o dem onio, e o mudo comeqou a falar. A multidáo comentava assombrada: — Nunca se viu tal coisa em Israel. 34M as os fariseus diziam: — Ele expulsa os demonios com o poder do chefe dos demonios. Escolha e missáo dos do/.e (Me 3,13-19; 6,34; Le 6,12-16; 10,2) — 35Jesus percorria todas as cidades e aldeias, ensi-

pma despertar (Jo 11,4.11-13). O ceticisiiin do povo faz ressaltar a fé do funcionái hi e o poder de Jesus. Pela primeira vez, mostra que seu poder atinge até a morte, romo o de Deus (Tb 13,2). Aquele que ilevoive a vida nao se contamina tocando imi cadáver. A cura tem algo parecido, já que ser to­ cado por urna mulher com hemorragias contamina. Através do contato mediato do manto, acontece o contato profundo com Jesus pela fé. Esse é o contato que cura. 9.23 Cerimónias fúnebres: Jr 9,16-20. 9.24 “Riam-se”: como Sara estéril ao ouvir o anuncio da sua fecundidade (Gn 18,12-15). 9.27-31 O detalhe da casa indica que o milagre se realiza em particular, e prepara u proibiçâo do v. 30; esta por sua vez des­ taca a força de propagaçâo dos milagres. O diálogo solicita e obtém formalmente a fé, como condiçâo para serem curados. Pela fé os cegos já estavam vendo mais além: Filho de Davi é título messiànico ( 1, 1.20 ). 9.27-34 Essas duas curas soam como duplicados: os cegos, do cegó de Jericó, com notáveis coincidéncias verbais (20, 29-34); o mudo, do mudo que provoca a controvèrsia sobre Belzebù (12,22-29). As

versóes variantes estariam aqui para com­ pletar o número de dez curas. Também para preparar a declarado de 11,5. 9,32-34 Este relato está reduzido a es­ quema, para que ressaltem a atitude favorável do povo e maliciosa dos fariseus. 9.35-11,1 A sèrie das dez curas foi in­ terrompida duas vezes com um relato de seguimento e outro de vocaqáo. Agora aborda formalmente o grande tema da es­ colha e missáo dos doze. O episodio tem alcance imediato durante a vida de Jesús que prepara, com o trato assiduo, as testemunhas da ressurreigáo. Por eia se passa­ re á missáo apostólica das novas comuni­ dades, em movimento de expansáo. Pela segunda etapa, o texto chega até nós como síntese exemplar e autorizada da paixáo e gloria do apostolado. A unidade se abre e termina sobre a atividade missionària de Jesus, percorrendo cidades, pregando, proclamando, ensinando e curando (35-36 e 11,1). No centro enuncia o grande principio da semelhan§a: o discípulo como o mestre. Por isso a atividade de Jesús emoldura toda a instru­ y o aos discípulos. 9.35-38 A sinagoga era lugar de culto e também de ensino ou catequese. Jesús

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nando em suas sinagogas, proclam an­ seu irmáo, Tiago de Zebedeu c ■u li do a boa noticia do Reino e curando máo Joáo, 3Filipe e Bartolomeu i.... e Mateus, o coletor, Tiago de All ■ todo tipo de enferm idades e doencas. 36Vendo a m ultidáo, com oveu-se por Tadeu, 4Simáo o zelota* e Judas n u ii eles, porque andavam m altratados e dor. 5Jesus enviou esses doze com o seguintes instruçôes: prostrados, como ovelhas sem pastor. 37Entáo disse aos discípulos: — Nâo vos dirijáis a países dt p. — A messe é abundante, os tra b a ja ­ gâos, nâo entreis em cidades de M irini rítanos; 6antes, dirigi-vos ás ovtlh i dores sao poucos. 38Rogai ao dono da mes­ se que envie trabalhadores á sua messe. desgarradas da Casa de Israel. 7I pi i caminho proclam ai que o reinado ■ ! Deus está próximo. ®Curai enfermo 'E chamando seus doze discípu­ ressuscitai mortos, purificai lepro.o los, conferiu-lhes poder sobre es­ expulsai demonios. De graça o ro í pirites ¡mundos, para expulsá-los e pa­ bestes, dai-o de graça. 9Nâo leveis m ra curar todo tipo de enferm idades e cinturáo ouro nem prata nem cobo doencas. 10nem alforje para o caminho, nem diu 2Nom es dos doze apóstelos: O pritúnicas, nem sandálias, nem basino meiro Simáo, apelidado Pedro, e André, se o destino de Judas. A lista vem a • .<i programática. Comega aquí um tema qm terminará ñas últimas páginas do Apo calipse, na Jerusalém celeste, com “dozi pedras de alicerce que trazem os nomr dos doze apóstolos” (Ap 21,14). 10.4 *Ou: fundamentalista. 10,5-15 A mensagem que pregarem sera a de Jesús, o reinado de Deus que se apa1 senta (4,17). Váo munidos de poda taumatúrgico, á semelhanga do mostrado por Jesús e recebido gratuitamente; nao devem aproveitar-se dele por cobiga. Ve jam-se o gesto e as palavras de Pedro ao fazer o milagre, “aquilo que tenho te dou' (At 3,5). Sua área de operagáo é por ora restrita e mostra a preferencia cronológi­ ca por Israel, citado com seu nome tradi cional; como Jesús (15,24). No fim, náo terá limites (28,19). 10.5 Os samaritanos náo sao o Israel 1 0 ,1-4 Os escolhidos, chamados, sao auténtico, estáo a meio caminho entre os doze, como as tribos de Israel (19,28), judeus e os pagaos (2Rs 17,29-34). Ben como a familia do novo Israel. AntecipaSirac diz deles: “a terceira já náo é povo’’ se o título futuro de apóstolos, ou seja, (Eclo 50,26). mensagciros; o Mestre comunica-lhes seus 10.6 As ovelhas dispersas, por culpa dos poderes messiánicos (7,29). Encabega-os pastores: “meu povo era um rebanho per­ Pedro com seu novo nome de oficio. Sao dido” (Jr 50,6). de origem e mentalidade diversa: nomes 10,8 O quarteto abraga tudo, até o po­ hebraicos e gregos, pescadores, um publider sobre a morte. A lepra é mencionada á cano, um zelota..., e Jesús será seu centro parte porque contamina. Sao os poderes de unidade. A tradigáo identificou Natanael exercídos por Jesús na série precedente. (Jo 1,44) com Bartolomeu, Levi (Me 2,13; 10,9-10 Levar duas túnicas era consi­ Le 5,27) com Mateus (Mt 9,9). Antecipaderado um luxo. O salário era pago por escolhe esse lugar de reuniáo para seu anuncio pessoal: a boa noticia do reino (4,23). O éxito de Jesús aumenta o trabalho, para o qual reúne colaboradores ínti­ mos que, agindo, aprenderáo junto dele. Á imagem da pesca (4,19) se acrescentam a clássica do pastor (Jr 23; Ez 34; SI 23; 80) e a do ceifador (mencionada em SI 126). Sao as duas atividades básicas daquela cul­ tura, que contínuaráo a ser usadas para se descrever o apostolado na Igreja. Oficios que seráo encargo recebido, nao iniciativa própria. A multidáo tinha seus chefes: sa­ cerdotes e doutores; no entanto, Jesús se comove ao vé-los, como Moisés quando lhe anunciam a morte próxima (Nm 27,17); como via o povo um profeta na presenta de dois reis (IRs 22,17). Jesús assume o oficio de um bom pastor e deixará a seus discípulos a tarefa de colher (Jo 4,37-38).

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ful« mii| mi ,111o tcm direito ao sustento. parecer diante de govem adores e reis por minha causa, para que deis testemu­ 1 (imiiiln enlrardes num a cidade ou alnho diante deles e dos pagaos. 19Quaniri,i i'i i^untai por alguma pessoa res, . 11.1t 1 I, c hospedai-vos com ela até do vos entregarem, nao vos preocupéis com o que iréis dizer; 20pois nao sereis ,111111 li •• ' 'Ao entrardes na casa, saui,ii 1 1 1'se cía merece, nela entrará vosvós que falareis, mas o Espirito de vosso Pai falando por vós. 21Um irm áo .* 1.,1 se nao a merece, vossa paz vol­ entregará á morte o seu irmáo, um pai átil ii vos. l lSe alguém nao vos receber, a seu filho; filhos se revoltaráo contra .»•M i 1 sentar vossa mensagem , ao sair pais e os mataráo. 22Sereis odiados de !,ii|in l,i casa ou cidade, sacudí o pó dos 1 Asseguro-vos que no día do jul- todos por minha causa. Quem resistir até o fim se salvará. 23Quando vos per(Oiiienlo a sorte de Sodom a e Gomorra seguirem numa cidade, fugi para outra; «M iu niais leve que a daquela cidade. eu vos asseguro que náo tereis percor"'Vede, eu vos envió como ovelhas rido todas as cidades de Israel antes que 1 tilie lobos: sede prudentes como servenha este Homem*. Itrilles, cándidos como pombas. 17Cui240 discípulo náo está acima do mes,I111I1>com as pessoas! Poís vos entretre nem o servo acima do senhor. 25Ao |,,ii,u> aos tribunais e vos agoitaráo em discípulo basta-lhe ser como seu mes■ 11,is sinagogas. 18Eles vos faráo com-

1II1 1 (por isso se chama diària, do latim ,humus), o trabalhador era diarista (Lv l'J. 13; Dt 24,15). É como dizer que os envimlos nao acumularáo dinheiro, viveráo iln scu salàrio devido dia por dia, confian­ do era Deus segundo o ensinamento do Mestre (6,25-33). 10,11-15 Levam a paz do Messias, que ns amantes da paz saberáo reconhecer e ne disporào a receber (SI 120; 122; Mt 5,9). Mas a rejeicjáo será fatal (cf. Le 19,42): nearretará o castigo exemplar das cidades que violaram a hospitalidade (Gn 18— 19; Sb 19,17). 10,16-36 Fortaleza ñas perseguigóes. liscutamos a mensagem de Jesus e sua ressonáncia ñas primeiras comunidades cristas. Urna equagáo de quatro animais (16) simboliza seu destino: cordeiros e lobos, nao pacificados (Is 11,6; Jr 5,6); estranha conduta de um pastor. A serpente cauta e sinuosa (Gn 3,1), a pomba que voa em linha reta (Is 60,8). As perseguigóes seráo internas, “sina­ gogas”, e externas, “reis”. Comparecendo como acusados (18), atuaráo como testemunhas (como Jeremías no seu julgamento, Jr 26; e Paulo, At 23,11). Por isso seu testemunho se compara (19-20) à palavra profètica; dai a veneraejáo primitiva aos mártires e a conservado devota das atas de martirio. O Apocalipse chama Jesús de

“testemunha fiel” e a sua mensagem de “testemunho” (Ap 1,2-5). O mais doloroso é que a p erseguilo venha de familiares e amigos (21-22), como a de Jeremías: “também teus irmáos e tua familia te sao desleais” (Jr 12,6 par.), de alguns salmos: “mas eras tu, meu ca­ marada, meu amigo e confidente, a quem me unia doce intimidade” (55,13-15; 69,9; Jó 19). O motivo (22), “por minha causa”, e o exemplo do mestre (24-25) os fortale­ cerá, até a parusia: a perseverarne é virtude fundamental. O horizonte é eclesial e escatològico. 10.23 A fuga nem sempre é resultado de covardia; pelo contràrio, pode ser exi­ gida pela prudencia; o apóstolo deve poupar-se para sua missáo. Em alguns casos pode servir à expansáo missionària, como documentarli os Atos dos Apóstolos. O anúncio parece referir-se à parusia, como em textos semelhantes (embora alguns os fagam referir-se à ressurreigao). Supóe a situaejáo da comunidade crista, que aguar­ da com expectativa a vinda sempre iminente do Senhor glorificado. 10.23 *Ou: o Filho do Homem. 10,24-25 Grande principio da relagào do apóstolo com Jesus: nunca deixará de ser servo e discípulo. Aprende para servir e servindo aprende. Màxima blasfemia é atribuir ao diabo a agào de Deus (Mt 12,27).

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tre, e ao servo corno seu senhor. Se cham aram de Belzebù ao dono da casa, quanto m ais a seus empregados. 26Portanto, nao os temáis. Nada há de encoberto que nao se descubra, nem escon­ dido que nao se divulgue. 270 que vos digo de noite, dizei-o em pleno dia*; o que escutais no ouvido, apregoai dos terrados. 28Náo temáis os que matam o corpo e nao podem matar a alma; temei antes àquele que pode acabar coni cor­ po e alma no fogo. 29Nào se vendem dois pardais por alguns centavos? Mas nenhum deles cai no cháo sem licenza de vosso Pai. 30Quanto a vos, até os cá­ belos da cabega estáo contados. 31Portanto, nao os temáis, pois vós valéis mais que m uitos pardais. 32Aquele que me confessar diante dos homens, eu o confessarci diante do meu Pai do céu. 33A quele que m e renegar diante dos

homens, eu o renegarei diante do nni| Pai do céu. 34Náo penseis que vim trazer p.i/ | térra. Nao vim trazer paz, mas es¡ . 1.i . 35Vim tomar inimigo um homem com 1 pai, urna filha com sua mae, urna //, >( com sua sogra; 36e os inimigos d e ..... pessoa sao os de sua casa. 37Quem anmi seu pai ou sua máe mais que a min: m é digno de mim; quem amar seu I1II1 ou sua filha mais que a mim, nao t ln no de mim. 38Quem nao tomar sua a u, para seguir-me, nao é digno de nnm 39Quem se agarrar á vida irá per de ti quem a perder por mim a conservan 4°Quem vos recebe a mim recebe; quem me recebe recebe aquele que me envii 111 41Quem recebe um profeta por sua con digáo de profeta, terá recompensa 11 . profeta; quem recebe um justo por sun condicao de justo terá recompensa do

10,26-27 A mensagem de Jesús nao é esotérica, embora por enquanto se comu­ nique a um círculo escolhido; o medo nao deve induzir a escondé-lo (Jr 1,8.17). Tampouco é propriedade exclusiva. Em­ bora se aprenda privadamente, está desti­ nado aos outros. Como diz Ben Sirac: “Fa­ rei brilhar minha doutrina como a aurora para que ilumine as distancias” (Eclo 24,32). A comparadlo indica o caráter ex­ pansivo da mensagem. 10,27 *Ou: trevas... na luz. 10,28-29 Nao introduz a distingáo grega de alma e corpo, mas distingue entre urna vida simplesmente biológica e a vi­ da plena e transcendente. De ambas Deus se ocupa paternalmente: um filho de Deus é mais que qualquer animal (cf. a distinqáo de SI 36,7-10). O fogo é símbolo do castigo escatològico, definitivo (fi­ nal de Is). 10,30 Os cábelos da cabera sao exemplo proverbial de algo incontável (SI 40,13; 69,5). Tudo está ñas máos de Deus (SI 31,6.16). 10,32-33 Gravidade suma da missáo apostólica c da vida crista, conduzidas a seu desenlace no julgamento definiti­ vo de Deus. Ai caberá a Jesús, como testemunha, reconhecer como seus ou como estranhos (cf. 25,12). Nao admite a neu-

tralidade nem as concessoes, afirma a re ciprocidade. 10,34-37 O profeta Miquéias (7,6) de nunciava a desordem social. Mateus o apli ca à comoçào que a opçâo crista vai pro vocar. Porque a lealdade a Jésus há de superar qualquer outra, mesmo familial será a única incondicional. Nâo é que Je sus provoque ou declare a guerra, mas ;i sua mensagem provoca a hostilidade dos que a rejeitam: “eu sou pela paz, eles pela guerra” (SI 120,7); sâo estes que empunham a espada (cf. Ex 5,21, Moisés ao Faraô). 10,38-39 Como Isaac levando “a lenha para o holocausto” (Gn 22,6). Como Jé­ sus que vai adiante com seu exemplo, e por Jésus. Mas, paradoxalmente, sua cruz e morte sâo fonte de vida. M istério prefigurado pelo Servo (Is 53). 10,40-42 Vejam-se os exemplos de Elias e Eliseu, acolhidos como “profeta santo” (IR s 17,9-24; 2Rs 4,8-37). O apóstolo enviado representará Jesús que o envia, como Jesús representa o Pai que o enviou: “Como o Pai me enviou, eu vos envío” (Jo 20,21). Os très casos alegados oferecem um progresso inesperado. Primeiro o pro­ feta, com a dignidade da sua missáo; depois o justo, com a recomendaçâo da sua conduta; finalmente o pequeño, com o tí­ tulo da preferencia divina.

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dos, surdos ouvem, mortos ressuscitam, pobres recebem a boa noticia; 6e feliz aquele que nao tropeca por minha causa. 7Quando partiram, Jesús pós-se a fa­ lar de Joáo á multidáo: — sO que saístes para contemplar no | 1 <»liando Jesús terminou de dar I mslrugóes aos doze discípulos, deserto? Um canigo sacudido pelo ven­ to? O que saístes para ver? Um homem ,m u i dali para ensinar e pregar por vestido elegantem ente? Vede: os que l,e. cidades. se vestem elegantemente habitam nos palácios reais. 9Entáo, o que saístes para M ilu < ■Joño Batista (Le 7,18-35)— 2Na ver? Um profeta? Eu vos digo que sim, ini ni, Joáo ouviu falar da atividade de e mais que profeta. I0A este se refere i, M e, c Ihe enviou esta mensagem por aquele texto da Escritura: Eu envió odian­ mi i" de seus discípulos: te meu mensageiro para que me prepa­ ’Es tu aquele que devia vir, ou re o caminho. !1Eu vos asseguro: dos •la vemos esperar outro? nascidos de mulher aínda nao surgiu um ' Irsus respondeu: maior que Joáo Batista. No entanto, o Ide informar a Joáo sobre o que último no reino de Deus é maior do que Hiivis e vedes: 5Cegos recobram a visáo, ele. 12Desde os dias de Joáo Batista até i. isi is caminham, leprosos sao purifica-

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' i )in-m dcr de beber um copo de ipil.! lii-.i ;i a um destes pequeños por ...........lu,;ao de discípulo, eu vos asse...... que nao perderá sua recompensa.

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11,1 V. de enlace, como 7,28, que enifiia, em forma de inclusáo, a instruyo |uo:edente. 11.1-19 Em algumas comunidades priniilivas foi preocupante a questáo sobre o luj’ar de Joáo Batista com referencia a Jem i s . Algo disso se reflete nesta perícope. V.iinos dividi-la em duas partes: Jesús res|iiindc a Joáo e seus discípulos definindo ■ .na identidade messiánica (1-6); Jesús detine a missáo do Batista e explica a reagáo ilosjudeus (7-15.16-19). 11.2-3 A pergunta de Joáo é sincera ou retórica? Alguns pensam que Joáo faz a pergunta simplesmente para que seus dis­ cípulos recebam a resposta. Muitos pen­ sam, por causa do contexto e da atitude ambigua dos discípulos, que Joáo pergunle desiludido ou desconcertado. A pergunla é nada menos que sobre o Messias es­ perado, futuro, “aquele que há de vir” (MI 3,1). Joáo o esperava como o juiz escatológico, armado de pá e fogo (3,11-12), e sua imagem se fundamenta na Escritura (p. ex. Is 66,5-6.15-16); as noticias que recebe falam de um Jesús benéfico, acolhedor, disposto a perdoar. 11,4-6 Jesús responde primeiro sobre sua pessoa e missáo, apontando para urna ima­ gem da Escritura alternativa. Aponta os milagres realizados (8-9), nos quais ressoa um eco de profecías (is 35,5-6; 61,1). Em ou-

tras palavras, o cumprimento de profecías messiánicas confirma sua missáo. A bemaventuranca, traduzida em forma positiva, felicita a quem o recebe como Messias. Tro­ pezar é sentir-se defraudado por ele e náo reconhecé-lo como Messias. Esta mensagem é em primeiro lugar para judeus, em segun­ da instancia estende-se a pagaos converti­ dos. A imagem de alguém que se faz Mes­ sias condiciona a esperanza e a acolhida. 11,7-15 Em seguida Jesús define a mis­ sáo de Joáo. Por sua conduta ascética, é como o primeiro dos profetas, Elias, que se retirava ao deserto e enfrentava o rei e sua corte (IRs 17-18). Por seu estilo de vida atraiu o povo, e náo por um luxo os­ tensivo ou por volubilidade caprichosa. Pela sua atividade, devidamente reconhecida, Joáo é o Elias anunciado (MI 3,1; Eclo 48,10-11). Até ele chegou a velha economía; ele se apresenta á nova, anun­ ciando a presenta do reino e do Messias. Sua atividade supera todos os anúncios proféticos, mas náo se iguala a pertencer ao novo reino (compare-se com a segunda parte do Benedictas, Le 1,76-79). Todavía, muitos sáo hostis ao reino, ou olham-no indiferentes, sem entrar no jogo. 11,6 Is 61,1. 11,10 MI 3,1. 11,12 Discute-se o sentido de “os vio­ lentos”. a) Os inimigos do reino que se

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agora o reino de Deus sofre violencia, e pessoas violentas o arrebatam . 13Até Joáo todos os profetas e a lei eram pro­ fecía. 14E, se estáis dispostos a recebélo, ele é o Elias que devia vir. 15Quem tiver ouvidos, escute. 16A quem com pararei esta geragáo? Sao como criangas sentadas na praga, que gritam a outras: 17Tocamos a flauta e nao dangastes, cantamos lamentagóes e nao fizestes luto. 18Veio Joáo, que nao com ia nem be­ bía, e dizem : está endem o n in h ad o . 19Veio este Homem que come e bebe, e dízem: vede que comiláo e beberráo, amigo de coletores e pecadores. M as a sensatez* é acreditada por seus efeitos. Recrimina as cidades da G aliléia (Le 10,13-15) — 20Entáo pós-se a recrim i­

nar as cidades em que havia reali ni a maioria de seus milagres sem que n» arrependessem: — 21Ai de ti, Corazim, ai de ti, 11 «i saida! Pois, se em Tiro e Sidònia ti sem sido feitos os milagres reali/.i< i. • em vos, há tempo teriam feito pemil n eia com pano de saco e cinza. 22Pois <u vos digo que o dia do julgam ento scrii mais leve para Tiro e Sidònia que pani vós. 23E tu, Cafarnaum, pretendes < 7, var-te até o céu ? M as cairás até o a h i \ mo. Pois se em Sodoma tivessem sul. feitos os milagres realizados em ti, - l ■ subsistida até hoje. 24Pois eu vos dipi que o dia do julgam ento será mais lev< para Sodoma que para ti. O Pai e o Filho (Le 10,21s) — 25Ness;i ocasiào Jesus tomou a palavra e disse. — Dou-te gragas, Pai, Senhor do céu e da terra! Porque, ocultando estas coi

opóem com violencia a seus mensageiros. Heredes, prendendo o Batista, e seus par­ tidarios querem “arrebatá-lo” (13,19). b) Os seguidores de Jesús, confundidos com um proletariado violento, mas que de fato se apoderam do reino. 11.13 Porque tudo apontava para um futuro novo. E grave declarar que a lei era profecia, pois equivale a subordiná-la em sua fungáo. No culto das sinagogas, a pro­ fecia se subordinava á lei ou tora. 11.14 MI 3,23; Eclo 48,10. 11.15 Ver Jr 5,21; Ez 12,2. 11,16-19 Em lugar de parábola, cita urn fragmento de brincadeira infantil, no qual reconhecemos o caprichoso “entáo nao vou brincar”. Suas duas metades se repartem entre Joáo, o penitente austero, e Je­ sús, o liberado feliz (cf. 9,14). Entre os ouvintes há os que nao querem brincar nem com este nem com aquele, e criticam tudo como criangas caprichosas. * Mas a sabedoria ou sensatez de Je­ sús e de Deus vai demonstrar seu acertó nos resultados: as obras ou os filhos = dis­ cípulos (segundo alguns manuscritos, har­ monizados talvez com Le 7,35). Em livros sapienciais, Sabedoria personificada encarece suas obras (Pr 3; 8; Eclo 24; Sb 7 etc.).

11,20-24 Esta perícope pertence ao ge nero profètico de oráculos contra nagóes pagas, com sua exclamagáo. “Ai de ti! Concretamente deve-se 1er esse julgamen to comparativo sobre o pano de fundo de Ez 16,46-48, que compara Judá com Sa maria e Sodoma: “superaste-as em condut i depravada”. O julgamento final será uni julgamento comparativo aduzindo agra­ vantes. Tiro e Sidònia representam o po derio comercial dos fenicios (Is 23; Ez 2628; Zc 9,2-4); além disso, Sid-ò nia, como Bet-saida, traz no nome urna referencia à pesca. Sodoma é a principal cidade da Pentápole, destruida pelo fogo por causa de seu delito contra a hospitalidade (Gn 19; Sb 19,13-17). Mas sào também sim­ bolo de outras cidades, como indica a citagáo hiperbólica de Is 14,13-15. Assim também Corazim e Cafarnaum represen­ tam as cidades que recusaram a ocasiào oferecida de arrepender-se; pois os milagres eram sinais que induziam ao arrependímento como preparagáo para acolher o anuncio evangélico. 11,25-30 Diante da soberba e arrogan­ cia das cidades amaldigoadas desprendese no contexto esta exaltagáo do humilde e simples. “Deus revela os segredos aos humildes” (Eclo 3,20). Destaca-se como

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..i .11 r, entendidos, tu as revelaste aos l|'lll > i .mies. "Sun, Pai, essa foi tua escolha. 27Meu l‘ ii me confiou tudo: ninguém conheii o Filho, senáo o Pai; ninguém coiilu i c o Pai, senáo o Filho e aquele a i|iniii ii Filho decidir revelá-lo*. 28Vin•ir ,i mim, vos que andais cansados e i ni vados, e eu vos aliviarei. 29Tomai 1111*11 jugo e aprendei de mim, que sou ii ilerante e humilde, e vos sentiréis alir nulos. 30Pois meu jugo é suave e mi111 1:i carga é leve. imi cimo, estreito e altissimo, esta efusáo ila espiritualidade íntima de Jesús; testeiiiunho da predilegáo do Pai, do seu senti­ mento filial e da missáo soberana que rerebeu. Como em Is 29,14, os prodigios ile Deus confunden! a sabedoria dos sábios: “Eu continuarci prodigando prodi­ gios. .., confundirei a sabedoria dos sábios”. ( ) prodigio presente é o envió e presenta de scu Filho, mistério que os “ignorantes” humildes compreendem, pois nao viveni satisfeitos com seus preconceitos; ao pas­ so que os doutores que se créem suficien­ tes olhando nao véem (cf. Is 42,20). A fé pascal dos cristàos acolhe e proclama essa revelagáo. Arelagáo filial de Jesús com seu Pai, o Deus criador do universo, é única. Do Pai recebe, como mediador único, a missáo de revelar e salvar. O evangelho e a primeira carta de Joáo sao o niellior co­ mentario a esta breve e densa perícope. 11,25 ICor 1,26-29. 11,27 *Ou: um Filho... um Pai. Jo 1,18; 10,15. 11,28-30 Nao só os animais, também os homens carregam o jugo como sinai e exercício de escravidáo. Era um jugo cur­ vo de madeira, apoiado com almofadas sobre os ombros, que servia para transpor­ tar cargas equilibradas. A imagem é freqüente no AT: pode referir-se à lei (Jr 2,20; 5,5 etc.), à tiranía estrangeira (Is 10,27; Jr 27,8 etc.) e também à sabedoria, em prin­ cipio jugo, no firn jóia (Eclo 6,24.30 no contexto 18-31). A escravidáo no Egito se definía pelas “cargas” (Ex 6,6). O jugo que Jesús impóe, aceito com amor e le­ vado com sua ajuda, é leve, particular­ mente se comparado com as cargas dos fariseus (23,4).

O sábado (Me 2,23-28; Le 6,1-5; M c 3 ,l-6 ; L e 6,6-11) — 'P o re sse tempo, num sábado, Jesús atravessava plantagóes. Seus discípulos, famintos, puseram-se a arrancar espigas e comé-las. 2Os fariseus Ihe disseram: — Ve, teus discípulos estáo fazendo urna coisa proibida no sábado. 3Ele lhes respondeu: — Náo lestes o que fez Davi com seu pessoal quando estavam famintos? 4Entrou na casa de Deus e comeu os páes 12 Neste capítulo o autor descreve a crescente hostilidade dos fariseus contra Jesús. As controvérsias resultantes servem para esclarecer aspectos da missáo e agáo de Jesús. Trata-se do sábado, da origem do seu poder de taumaturgo, da exigencia de um sinal que comprove sua missáo. 12,1-15a Dois episodios sobre o sába­ do: um caso de fome e um de doenga. Os fariseus acusam Jesús de permitir que seus discípulos violcm o sábado, preceito do decálogo (Ex 20,10), tido em má­ xima estima depois do exilio. Recordese o episodio dos fugitivos que se deixam matar por náo se defenderem em dia de sábado (lM c 2,31-38). Segundo a lei, violá-lo merecía pena de morte: o delito foi cortar lenha em dia de sábado (Nm 15,32-36; cf. Ez 20,13). Mas urna ca­ suística minuciosa, no seu afá de defendé-lo contra perigos e tentagoes, havia estreitado os limites mínimos dessa violagáo. Jesús responde no estilo da halaká, ale­ gando um relato sobre Davi e seus sol­ dados (ISm 21,2-7), que aparentemen­ te violam a proibigáo de Lv 24,5-9. Se o sábado é dia consagrado ao Senhor, também aquele páo era alimento con­ sagrado ao Senhor. A necessidade anula a proibigáo e o páo consagrado náo se profana. Náo se atreveráo os fariseus a criticar o rei Davi. A crescenta outra disposiqáo legal (Nm 28,9-10). A Escri­ tura, tomada como norma de conduta, desacredita a casuística sobreposta. O homem náo deve escravizar-se a urna instituigáo legal ou a suas in te rp re ta res casuísticas.

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apresentados, que só aos sacerdotes é perm itido comer, nao a ele nem a seu pessoal. 5Náo lestes na lei que, no tem­ plo e no sábado, os sacerdotes violam o repouso sem incorrer em culpa? 6Pois eu vos digo que aqui está alguém maior que o templo. 'Se compreendésseis o que significa misericordia quero e nao sacri­ ficios, nao condenaríeis os inocentes. 8Porque o hom em é senhor do sábado. 9Dirigiu-se a outro lugar e entrou em sua sinagoga. 10Havia ai um homem que tinha urna das máos paralisada. Perguntaram-lhe, com intencao de acusá-lo, se era lícito curar no sábado. n Ele respondeu: — Suponhamos que um de vós tenha urna ovelha e num sábado ela caia num buraco: nao a agarrará e a tirará? 12Quanto mais que urna ovelha vale um homem! Portanto, é permitido no sá­ bado fazer o bem. 12,6-7 Completa-o apelando à sensatez ou capacidade de compreender urna palavra profètica em todo o seu alcance (Os 6,6). A citagao de Oséias adapta-se à situagáo, já que sacrificio é fazer sagrado, consagrar, ao passo que dar de comer ao faminto é misericordia. Portanto, Jesús de­ clara “inocentes” seus discípulos. Está em jogo o valor do homem acima da institui­ d o . Concluí com um aforismo lapidar, ao qual Me 2,27 dará urna formulagáo nao menos incisiva. 12,9-15a O segundo caso acontece numa sinagoga, que é o centro onde se lè e se co­ menta a lei. Aquilo que o templo é no espa­ go, ámbito demarcado e consagrado a Deus, é o sábado no tempo, dia separado em honra de Deus. Ben Sirac diz que a distintilo pro­ cede de Deus (Eclo 33,7-9). No sábado o homem participa ou se associa ao descanso genesíaco do Criador (Ex 20,8-11). Seus rivais se adiantam com urna pergunta capcio­ sa, que supóe algum antecedente, p. ex., a cura anterior. Jesús responde com um ar­ gumento a minore ad maius, apelando ao senso comum, e nao à Escritura e talvez polemizando com interpretacoes de doutores. O sábado nao proíbe fazer o bem. E Je­ sus faz o bem publicamente, provocando. Deus “descansou” depois de fazè-lo intera­ mente bom, mas nao cessou de fazer o bem.

13Entáo disse ao homem: — Estende a máo. Ele a estendeu e ela ficou táo sácoinn a outra. 14Os fariseus saíram e deliU raram com o acabar com ele. 15Mas li sus percebeu e partiu dali. Muitos o si» guiam; ele curava todos 16e insistía <|in nao o divulgassem. 17Assim se cumpi ni o que o profeta Isaías anunciou: 18Vív/. o meu servo, a quem sustento; meu ela to, a quem prefiro. Sobre ele porei meu Espirito para que anuncie o direito aos pagaos. 1 9 N áo gritará, nao discutirá nao levantará a voz pelas rúas. 20N i i <i quebrará o caniqo rachado, nño apa gará o pavio vacilante. Promoverá efi cazmente o direito. 2lEm seu nome es perarao os pagaos. Jesús e Satanás (Me 3,20-30; Le 11,14 23) — 22Entáo levaram-lhe um endemo ninhado cegó e mudo. Ele o curou, de Fazer o bem nào se opóe ao descanso; náo 6 descanso deixar de fazer o bem. Seus rivais fícam sem resposta, mas decidem fazer o mal àquele que consideram já um perigo pú­ blico. No relato de Mateus, é este o momen­ to (cf. 27,1), em que se decide o desenlace. 12,15b-21 Jesús retira-se seguido de urna multidào e continua fazendo o bem. Se proí­ be que sua atividade seja divulgada, ele o pode fazer para nao provocar indevidamente os doutores ou entáo porque nao quer que seus “sinais” degenerem em espetáculo ou em busca imediata sem sentido transcen­ dente (cf. Jo 6,26). Diante da deliberacáo dos fariseus, o narrador pronuncia um ve­ redicto que consiste em aplicar a Jesús um texto profètico, aquele que chamamos de “primeiro càntico do Servo”. Colocado ai, servirá também de contraste para a contro­ vèrsia que se segue, na qual os rivais o denunciam como servo do diabo. O texto pro­ fètico define o título, a missáo também para os pagaos, o estilo nao violento de sua ati­ vidade. Temos aqui urna leitura “cristológica” do AT, que transborda o momento histórico em que está inserida. É reflexáo teológica madura, mais que crónica de acontecimentos. 12,18 Is 42,1-4. 12,22-32 Controvèrsia sobre a origem do seu poder. Completa-se nos vv. 43-45.

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gou até vós o reinado de Deus. 29Como I I I i m I i i i|iic rccobrou a visào e a fala. 23A iHiillldao assombrada comentava: poderá alguém entrar na casa de um Nao será este o filho de Davi? hom em forte e levar seus bens, se pri­ HM:is os fariseus ao ouvir isso dis­ m eiro nao o am arra? D epois poderá saquear a casa. 30Quem nao está cotillili: m igo está contra mim. Quem nao reú­ I sto expulsa demonios com o po­ ne com igo dispersa. 31Por isso eu vos lle i de Belzebù, chefe dos demonios. digo que qualquer pecado ou blasfe­ 'Y ,le, lendo seus pensam entos, rem ia pode ser perdoado aos homens, (llli'oii: m as a blasfem ia contra o Espirito nao Um reino dividido internam ente tem perdáo. viti para a ruina; urna cidade ou casa dividida internam ente nào se m antém 32A quem disser algo contra este Ho­ m em pode-se perdoar; a quem o dis­ ile pé. 26Se Satanás expulsa Satanás, co­ ser contra o Espirito Santo, nao se lhe nni seu reino se m anterá? 27Se eu ex­ perdoará nem no presente nem no fu­ pulso dem onios com o poder de Bel­ turo. zebù, com que poder vossos discípulos 33Plantai urna árvore boa, e ela dará ns expulsam? Por isso, eles vos julgafruto bom; plantai urna árvore prejudii no. “ M as, se eu expulso os dem onios cada, e ela dará frutos prejudicados. i imi o Espirito de Deus, é porque che-

( ) doente neste caso está quase incomunirlível (nao se diz que fosse surdo): sofre com duas das quatro doenças citadas em Is 35,5-6. Diante do milagre, o povo se pcrgunta se Jesús nao seria o Messias. Os fariseus, nao podendo negar o fato evidenIc, acusam Jesús de ser agente da divindade pagâ Baal Zebul (cf. 2Rs 1, onde o nome se deforma maliciosamente em Baal Zebub = Senhor das Moscas), identificado como príncipe ou soberano dos espíritos malig­ nos. Jesús responde utilizando imaginati­ vamente crenças e representaçôes popu­ lares sobre o reino dos espíritos. Todo esse mundo cederá, retirando-se ante o poder de Jesus, e assim o reinado de Deus avançarà e irá se manifestando. Toda a controvèrsia se desenvolve sob o signo do Espirito, que Jesús, como ser­ vo do Senhor, recebeu (12,18). Adiante se encontra o mundo dos demonios ou “es­ píritos imundos”, seres malignos, mem­ bres de um reino sob um chefe, que procu­ raci manter seu dominio sobre as pessoas. Jesús o reprime e expulsa com a força do Espirito: assim recebe e dá um testemunho messiànico. 12,23 Jr 30,9. 12,25 Jesús responde com très argumen­ tos. O primeiro é de lógica: é a comparaçào com a discordia doméstica ou a guerra ci­ vil. Nao tem sentido afirmar que Sata­ nás delegue poderes para que sejam ex-

pulsos seus agentes. Seria voltar-se con­ tra si pròprio. 12.27 O segundo argumento supoe o exercício profissionai dos exorcismos. Esses discípulos se sentiriam englobados a pari na acusagáo dos fariseus, e reagiriam julgando os acusadores. 12.28 O Espirito de Deus è mais pode­ roso que todos os espíritos malignos, e com sua agáo atesta a presenta do reinado de Deus no seu Messias. 12.29 O terceiro argumento é reminis­ cencia de Is 49,24: “E possível tirar a pre­ sa a um soldado, escapa um prisioneiro de seu tirano?” 12.30 O aforismo é complementar ao de Me 9,40 e Le 9,50. Frente ao Messias nao cabe neutralidade. 12.31 A blasfemia contra Deus se con­ siderava delito gravissimo (Ex 22,27; Lv 24, 11-16 pena de lapidagáo; Eclo 23,12 palavras que merecem a morte). Jesus argumen­ ta ad hominem : blasfemar contra o Espiri­ to é negar ou denegrir a agáo manifesta de Deus. O homem se fecha totalmente a essa agáo, corta o galho em que está apoiado. 12,33-37 Agora cabe a Jesús julgar seus julgadores maliciosos, tomando-os na palavra, pois “o fruto mostra o cultivo da árvore; a palavra, a mente do homem” (Eclo 27,6 e Mt 7,16-20). Sobre a palavra como expressáo: Jó 7,11; 32,18-19. Responsabilidade das palavras: Lv 5,4.

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Pois, pelo fruto conhecereis a árvore. 34Ninhada de víboras! Como podéis dizer palavras boas se sois maus? A boca fala do que enche o coraçâo. 350 homem bom tira coisas boas de seu bom tesouro; o homem mau tira coisas más de seu mau tesouro. 36Eu vos digo que no dia do julgam ento o homem presta­ rá contas de qualquer palavra incon­ siderada que tenha dito. 37Por tuas pa­ lavras te absolveráo, por tuas palavras te condenaráo. O sinal de Joñas (M e 8 ,l i s ; Le 11,2932) — 38Entáo alguns letrados e fariseus lhe disseram: — Mestre, querem os ver-te fazendo algum prodigio. 39Ele lhes respondeu: — Urna geraçâo m alvada e adúlte­ ra reivindica um prodigio, e nao lhe será concedido outro prodigio, a nao ser o do profeta Joñas. i0A ssim como esteve Joñas no ventre do monstro marinho très dias e très noites, assim es­ tará este H om em ñas entranhas da ter­ ra très dias e très noites. 4lD urante o julgam ento, os ninivitas se levantaráo com esta geraçâo e a condenaráo, por­ que eles se arrependeram com a pregaçâo de Joñas, e aqui há alguém maior que Joñas. 42A rainha do sul se levan-

tará no julgam ento com esta geri>,.m e a condenará, porque eia veio el«>• * tremo da terra para escutar o sabii .!■ Salom ào, e aqui há alguém maioi qu. Salomáo. 43Quando um espirito im undo sai .1. um homem, percorre lugares áridos bu . cando domicilio, e nao o encontra. "l n táo diz: Volto para a casa de onde s . i i Ao voltar, encontra-a desabitada, v.u rida e arrumada. 45Entáo vai, reúne ou tros sete espíritos piores que ele, e -.o póe a habitar ai. E o final desse homi-m toma-se pior que o comego. Assim acou tecerá a esta gera^áo malvada. A m àe e os irmáos de Jesus (Me ' 31-35; Le 8,19-21) — 46A inda estav.i falando à m ultidào quando se apresen taram fora sua màe e seus irm àos, de sejosos de falar com e ie .47A lguém lhr disse: — Vè, tua màe e teus irmáos estao ai fora e desejam falar contigo. 48Ele respondeu àquele que falava: — Quem é minha màe? Quem sào m eus irmàos? 49E, apontando com a mào os discípulos, disse: — A i estao minha màe e m eus ir­ màos. 50Quem cum prir a vontade de meu Pai do céu, esse é meu irmào, m i­ nha irmà e minha màe.

12,38-42 Pelo contexto, o que pedem a Jesús é um sinal ou prodigio que garanta sua missáo. Há sinais que garantem antecipadamente (Jz 6,36-40), outros confir­ man! o já sucedido (cf. Ex 3,12). O relato de Joñas é polivalente e recebeu diver­ sas explicagoes: morte e ressurreigáo (Jn 2,1), pregagáo aos pagaos e sua conversáo (Jn 3-4). Essa conversáo de um gran­ de inimigo tradicional de Israel se vol­ tare no juízo final contra os impenitentes que nao creram na ressurreigáo. O caso dos ninivitas atrai por semelhanca o exemplo da rainha de Sabá (IR s 10,1-10). Jesús é mais que um profeta, mesmo o mais eficiente, e mais que um rei, até o mais sábio. 12,39 Jn 1,17. 12,41 Jn 3,5.8; IRs 10,1-10.

12,43-45 Retorna á imagem dos espí­ ritos, preveníndo contra a recaída. Como ilustragáo da imagem, ver Is 34,13-15; SI 102,7; o deserto é sua morada, como a de Azazel (Lv 16,10.21), ou de Asmodeu (Tb 8,3). 12,46-50 Este episodio parece fora de contexto, como se fosse acrescentado para nao se perder, antes de comeqar a grande série de parábolas. A rigor, deveria ser lido com o cap. 10, que trata dos discípulos. Nao sao só discípulos e apóstolos, mas também sua nova familia, núcleo inicial de urna familia mais extensa e unida, por­ que ele será centro e vínculo. O termo “ir­ máos” abrange, em linguagem bíblica, também os parentes. Quanto á máe, ninguém como María cumpriu a vontade do Pai: sua maternidade se identifica com um

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"> Parábolas (Me 4,1-20.30-34; Le » ' H.4-15; 13,18-21)— ’Naqueledia. Im níi*. saiu de casa e sentou-se junto ao l»U" 'Kciiniu-se junto a ele urna gran­ ito inullidáo; por isso ele subiu a urna liiiiru c sentou, enquanto a m ultidáo mlnva de pé na margem. 3Explicou-lhes umitas coisas com parábolas. 1 11m sem eador saiu a semear. Ao seinriir, algum as sem entes caíram junto Hn caminho, vieram os pássaros e as Minieram. 5O utras caíram em terreno

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pedregoso com pouca terra. Faltando-lhes profundidade, brotaram logo; 6m as, ao sair o sol, elas se abrasaram e, com o nao tinham raízes, secaram. 7O utras caíram entre espinheiros: os espinheiros cresceram e as sufocaram. 8O utras caíram em terra fértil e deram fruto: algum as cem, outras sessenta, outras trinta. 9Quem tiver ouvidos, es­ cute. 10Os discípulos se aproximaram e lhe perguntaram:

13.1-3 Faz do lago cenário e da barca pùlpito; a sinagoga nao lhe basta. 13.1-9 e 18-23 A primeira parábola des13 Parábolas, provérbios, refróes sao creve o dinamismo da palavra proclama­ da, as dificuldades que encontra em seu luiduçôes diversas do hebraico meshadesenvolvimento, o éxito final (cf. Is 55, llm, eonceito pouco diferenciado. (Do 10-11, nao tornará a mim vazia). A comInlim parabola deriva nosso vocábulo paragáo é vegetal, para mostrar de forma "palavra”.) Básicamente sao compara­ global a vitalidade do anúncio evangéli­ r e s que revelam ou ilustram aspectos lia vida. Podem ter forma descritiva ou co, condicionado pelo modo de recebé-lo. Da parte de Jesús, é dom; da parte dos narrativa, podem ser simples ou desen­ ouvintes é responsabilidade. Acomunidavolvidas. Sao antes de tudo os Sapiende acrescentou à comparagáo do Mestre eiais que as usam (Provérbios e Ecle­ urna explicagáo por alegoría, isto é, des­ siástico), também o Saltério (49; 78) e membrando suas partes e atribuindo um os profetas (Is 28,23-29; Ez 15). A comsignificado particular a cada membro. paraçâo pode também encobrir, desper­ Compare-se com a breve comparagáo do tando a curiosidade, desafiando o engrao que morre e dá fruto (Jo 12,24). A genho, incitando a descobrir. Assim o explicagáo alegórica permite descrever mashal se aproxima do hida ou adiviobstáculos diversos, que a vida opóe ao nhaçâo (SI 49,5; 78,2). crescimento da mensagem nos cristàos. A As duas funçôes, descobrir e encobrir, correspondéncia nao é exata, pois iden­ se atribuem ás parábolas de Jesús. Mateus tifica a semente (nao o terreno) com o re­ reúne, neste capítulo, sete em dois blocos: ceptor. Mateus recolhe no evangelho uma quatro para o povo em geral, das quais versáo primitiva da parábola de Jesus e duas sao explicadas aos apóstolos em par­ uma explicagào homilética para a comuticular; e très para os discípulos: semennidade crista. te, joio, mostarda, fermento, tesouro, pé13,10-17 Entre exposigào e comentário rola, rede; agricultura e pesca, comércio e se insere uma reflexao sobre a fungáo das trabalho doméstico. parábolas. O texto de Isaías (6,9-10) preO tema das parábolas é o reinado de diz o fracasso do profeta por culpa dos Deus, nao como teoria, mas como proclaouvintes. Dada a dureza dos ouvintes, a maçâo que para ser compreendida exige pregacao profètica os irrita e endurece, e resposta. Como se um arauto anunciasse Ihes agrava a culpa (Isaías fala de sua exo inicio do reinado de um soberano, exiperiéncia em 30,9-11). Mesmo prevendo gindo aceitaçao e obediéncia dos súditos. o resultado negativo, o profeta nao pode Quem nao quer aceitar, se nega a comprecalar-se, pois é Deus que o envia, e a de­ ender. Entrevê-se a resistencia de uns e a nùncia tem uma intengáo salvadora. Maindecisáo de outros, enquanto que os dis­ teus muda o “para que/de modo que” de cípulos sao iniciados no mistério: comMarcos em “porque”: a atitude condiciopreendendo e aceitando estáo entrando no nou a compreensáo. reino de Deus.

tlaixar fazer: “faça-se em m im ...” (Le

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— Por que lhes falas contando pará­ bolas? n Ele lhes respondeu: — Porque a vós é concedido conhecer os segredos do reinado de Deus, a eles nao é concedido. 12Aquele que tem, Ihe será dado e lhe sobrará; ao que nao tem lhe tiraráo inclusive o que tem. 13Por isso lhes falo contando parábolas: por­ que olham e nao véem; escutam e nao ouvem nem com preendem . I4Cumprese neles aquela profecía de Isaías: Por m ais que escuteis, nao compreendereis; p o r mais que olheis, riño vereis. 1 5 A men­ te deste povo se em botou; tornaram-se duros de ouvido, taparam os olhos. Nao acontega que vejam com os olhos, ougam com os ouvidos, entendam com a mente, e se convertam, e eu os cure. 16Felizes vossos olhos que véem e vossos ouvidos que ouvem. 17Eu vos asseguro que muitos profetas e justos ansiaram ver o que vós vedes, e nao viram, e ouvir o que vós ouvis, e nao ouviram. 18Escutai a explicagáo da parábola do semeador. 19Se alguém escuta o discurso sobre o reino e nao o entende, vem o m alig­ no e lhe arrebata o que foi semeado em sua m ente. Essa é a sem ente sem eada junto ao caminho. 20A que foi semeada em terreno pedregoso é aquele que

escuta o discurso e logo o acolín ... alegría; 21m as nao langa raiz e toiu* se efém ero. Chega a tribulagáo ou |» i seguigáo pela m ensagem , e sucumi» 22A que foi sem eada entre espinhnm é aquele que escuta o discurso; mas n| preocupagóes m undanas e a sedue.i" da riqueza o sufocam , e nao dá fruto 23A que foi sem eada em térra fértil ■ aquele que escuta o discurso e o m tende. Este dá fruto: cem ou sessi. M ii ou trinta. 24Contou-lhes outra parábola. O re i nado de Deus é como um homem que sem eou sem ente boa em seu campo 25Enquanto as pessoas dorm iam , sen inimigo foi e semeou joio no meio do trigo, e foi embora. 26Quando as haste. cresceram e comegaram a granar, descobriu-se o joio. 27Os servos foram e disseram ao dono: Senhor, nao seme aste semente boa em teu campo? D e onde vem o joio? 28Respondeu-lhes: Um inimigo fez isso. Os servos lhe dis seram: Queres que o recolhamos? 29Res pondeu-lhes: Nao; pois, ao recolhé-lo, arrancareis com ele o trigo. 30Deixai que cresgam juntos até a ceifa. Quando chegar a ceifa, direi aos ceifadores: Recolhei primeiro o joio, atai-o em feixes e langai-o ao fogo; o trigo colocai-o em meu celeiro.

13.11 1Cor 4,1; Ef 3,3s. 13.12 Afrase se repete quase literalmen­ te em 25,29. Trata-se de urna fórmula paradoxal que admite aplicagóes diversas, contanto que se mantenha o paradoxo. Trata-se de dinamismo e colaboragáo, numa espécie de processo dialético que implica as duas partes. 13,14 Is 6,9s; Is 42,18. 13,16-17 Ver o Messias, ouvir sua men­ sagem, era a ánsia oculta dos antigos. Compare-se Is 42,18 “Olhavas muito sem deduzir nada” com 52,8 “vem cara a cara o Senhor que retoma a Siáo” e 62,11 “Olha teu Salvador chegando”. Da parábola se passa á pessoa de Jesús presente na histo­ ria, porque nele já se realiza o reinado de Deus. Esse é o grande segredo do reinado de Deus que se dá a conhecer aos que aco-

lhem Jesús como o Messias desojado e esperado. 13,22 lTm 6,9s. 13,24-30 A imagem do joio no meio do trigo tornou-se proverbial em nossos tem­ pos, a tal ponto que a parábola evangélica nos é transparente. Duas coisas nao se tornaram proverbiáis e temos de destacá-las: Que há poderes empenhados em malograr a boa colheita, que se aproveitam dos mo­ mentos de descuido ou descanso legítimo (cf. SI 127,2). Que é preciso levar em conta o joio com paciencia e lucidez. Isso se deve entender no contexto social da Igreja, de sorte que é lido como um capítulo de eclesiologia em germe. “Saíram do meio de nós, mas náo eram dos nossos” (lJo 2,19). O final alude ao julgamento escatológico (cf. Is 27,11). A explica«;fio é dada mais adiante.

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"< ontou-lhes outra parábola. O reillinli) de Deus se parece com um gráo

ih' mostarda que um homem tom a e wmeia em seu campo. 32É a m enor de Inilas as sem entes; contudo, quando i irsee, é mais alta que outras hortaliyi ., torna-se urna árvore, vém os pás­ anos e se aninham em seus ramos. "Contou-lhes outra parábola. O reiimtlo de Deus se parece com o fermenlo: Urna mulher o toma, o mistura com luis medidas de massa, até que tudo Icnnente. "Tudo isso Jesus explicou à multiilao com parábolas; e sem parábolas nao llics explicou nada. 35Assim se cumpriu ii que anunciou o profeta: Vou abrir a boca pronunciando parábolas, profe­ ríndo coisas ocultas desde a criagáo do mundo. 36D epois, despedindo a m ultidáo, entrou em casa. Os discípulos foram e llie pediram: — Explica-nos a parábola do joio. 37Respondeu-lhes: — Aquele que semeou a semente boa é este Homem; 38o cam po é o m undo; a boa semente sao os cidadáos do reino; o joio sao os súditos do maligno; 39o inimigo que o semeia é o Diabo; a cei13,31-32 Também esta parábola de imagem vegeta! descreve o dinamismo da mensagem evangélica. Mas a desproporgáo e a reminiscéncia de Ez 17,23 e de Dn 4,8-9.18, os pássaros voando rías hortali­ zas, alargam o alcance da imagem inicial e sugerem a entrada de muitos povos no reino. 13,33 É urna variante doméstica da an­ terior. Também essa imagem se tornou pro­ verbial. A imagem sugere o ocultamento de urna minoría na massa e o contraste entre tamanho e eficácia. 13,34-35 Chama de profeta o salmista (SI 78,2), inaugurando urna tradigáo inter­ pretativa que os Santos Padres repetiráo. Unido a 11,13, considera grande parte do AT como profecía: lei, profetas, salmos. E citagáo de um salmo que repassa teológi­ camente a historia de Israel desde o éxodo até Davi. A aplicagáo parte de Jesús e visa ao futuro.

fa é o fim do mundo; os ceifadores sao os anjos. 40Assim como se recolhe o joio e se langa ao fogo, assim aconte­ cerá no fim do mundo: 4iEste Homem enviará seus anjos para que recolham em seu reino todos os escándalos e os m alfeitores; 42e os langaráo no forno de fogo. Ai haverá pranto e ranger de dentes. 43Entáo, no reino de seu Pai, os ju s­ tos brilharáo como o sol. Quem tiver ouvidos, escute. 440 reinado de Deus se parece com um tesouro escondido num campo: um homem o descobre, volta a escondé-lo e, todo contente, vende todas as suas posses para com prar esse campo. 450 reinado de Deus se parece com um co­ merciante em busca de pérolas finas: 46ao descobrir uma de grande valor, ele vai, vende todas as suas posses e a com ­ pra. 470 reinado de Deus se parece com uma rede langada ao mar, que apanha peixes de toda espécie. 48Quando está cheia, puxam -na para a margem, sentam-se, reúnem os bons em cestas e jogam fora os que nao prestam. 49Assim acontecerá no fim do mundo: separaráo os maus dos bons 5(le os iangaráo no forno de fogo. A i haverá pranto e ranger de dentes. 13,36-43 Nessa explicagáo da imagem do joio podemos apreciar exemplarmente o trabalho alegórico dos pregadores pos­ teriores. A imagem intensa e eficaz se con­ verte num rosário de correspondéncias menores. Várias alusóes ou semelhangas do AT enriquecem a explicado: sobre o fogo para os malfeitores (Jr 29,22; Dn 3,6), sobre os justos, que brilham como o sol (Dn 12,3). A perspectiva escatológica do reino passa para o primeiro plano. 13,44-50 Outras duas parábolas encare­ cen! o valor do reino, pelo qual é preciso sacrificar os demais valores. Cabe ao ho­ mem descobrir o tesouro escondido. A terceira parábola se traslada ao desenlace, que separa para sempre os destinos. O fogo acaba com o joio e com os peixes maus. Com uma imagem de pesca, comegou o chamado dos discípulos (4,19). 13,44 Pr 2,4. 13,50 Dn 3,6.

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51Entendestes tudo isso? Responderam que sim, 52e ele lhes disse: — Pois bem, um letrado experiente no reinado de Deus parece-se com um dono de casa que tira de sua despensa coisas novas e velhas. 53Quando Jesús terminou essas pará­ bolas, partiu daí, 54dirigiu-se á sua cidade e se pos a ensinar-lhes em sua sina­ goga. Eles perguntavam assombrados: — De onde tira ele seu saber e seus milagres? 55Náo é ele o filho do artesao? Nao se chama sua máe M aria e seus irmáosTiago, José, Simáo e Judas? 5A Seus irmáos nao vivem entre nos? De onde tira tudo isso? 57E o sentiam como um obstáculo. Jesús lhes disse: — Um profeta é desprezado somente em sua pátria e em sua casa.

58E, por causa da incredulidad!.- di les, nào fez ai muitos milagres. 1

Morte de Joáo B atista (Mi < > 14-29; Le 9,7-9) — ^ a q u . li tempo o tetrarca Herodes ouviu a fam i de Jesus 2e disse a seus cortesàos: — Esse é Joào Batista, e por isso <1 poder milagroso atua por meio dele. 3Herodes fizera prender Joáo, acorrentá-lo e colocá-lo na prisáo por insii gagáo de Herodíades, esposa de seu ii m áo Filipe. 4Joào lhe dizia que nao Hu­ era lícito té-la. 5Herodes quería matá-lo, porém temia o povo, que considerav i Joáo como profeta. 6Chegou o anivei sário de Herodes, e a filha de Herodía­ des dangou no meio de todos. Herodes gostou tanto, 7que jurou dar-lhe o qmpedisse. 8Ela, induzida por sua máe, pediu:

13,51-52 Propondo parábolas, Jesus se apresenta como doutor sapiencial (ver o programa de Pr 1,2-7 e a descrigäo de Eclo 39,1-11). Há “letrados” que sao doutores na lei (torá); Jesus é doutor no reinado de Deus. Esta é a sua especialidade. Ele a conhece como o dono de casa conhece seus depósitos. Pode tirar e oferecer produtos novos e velhos (cf. Ct 7,14). Também aquele que entende, o discípulo, pode converter-se em intérprete e catequista de outros, repetindo, renovando, acrescentando. “Quando o inteligente ouve uma máxima, louva-a e acrescenta outra” (Eclo 21,15). 13.53-58 O que se propóe ñas parábo­ las continua cumprindo-se na vida de Je­ sus. Seus concidadáos julgam conhecer sua origem, “filho do artesáo”; na realidade o ignoram (1,18-25). Em nome de uma ori­ gem modesta, rejeitam o mérito evidente. Mas ao recha§á-lo, tropegam e fracassam. E sabido que na tradigáo bíblica “irmáo” pode designar também um párente (o tio em Gn 13, o concidadáo em Dt 15 etc.).

cípulos sao testemunhas do seu poder e o reconhecem como Messias. Pedro ocupa um lugar relevante e a colaborado dos discípulos com o Senhor aumenta.

13 .54-14 ,36 Depois do discurso sobre as parábolas, o autor oferece uma segáo narrativa. Por um lado, crescem a resis­ tencia e a hostilidade ä missäo de Jesus e ä do Batista; por outro, as multidöes o seguem por causa de seus milagres, e os dis-

14 ,1-12 Como em Me 6, o relato da de­ capitado do Batista entra retrospectivamen­ te, no mais-que-perfeito, como recordado inquietante suscitada por fatos presentes. Um Joáo redivivo cabe na imaginado po­ pular e na má consciencia de Herodes. Mateus abrevia o relato de Marcos (6,1429), conservando o essencial. O suficiente para construir um drama: paixáo e vinganga, medo e complacencia, danga fatal e uma vida humana servida em bandeja num ban­ quete. A morte do Batista é historia com aura de lenda. Muitos artistas sentiram o fascínio do relato e o recriaram a seu modo e com seus recursos. Se a missáo do Batis­ ta está vinculada á de Jesús (3,2; 4,15; 11,18-19), sua morte violenta e a sepultura podem prefigurar as de Jesús (17,11-13). 14,2 Um ressuscitado vem do outro mundo, adquiriu poderes sobre-humanos. Diríamos que Herodes atribuí os milagres de Jesús a poderes adquiridos no reino dos mortos. 14,4 Segundo a lei contra o incesto de Lv 18,16; 20,21. O Batista, qual novo pro­ feta Nata, enfrenta o rei (2Sm 12).

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I > .i me aqui, num a bandeja, a ca- 16Jesus lhes respondeu: — Nao precisam ir; dai-lhes vós de ttn» di- loáo Batista. "i l n i se entristeceu; mas, por causa comer. > ln | iii mnento e dos convidados, ordenou l7Responderam: tjM i1ii rnlregassem; 10e mandou degolar — Aqui nao temos m ais que cinco fuiti i na prisáo. 11A cabega foi trazida páes e dois peixes. mimu bandeja e entregue á jovem; ela a 18EIe disse-lhes: Htlne.mi & sua máe. l2Seus discípulos — Trazei-os aqui. huitín, recolheram o cadáver e o sepul19Depois mandou a multidáo sentar­ M l i i i i i ; depois foram contar isso a Jesús. se na grama, tomou os cinco páes e os dois peixes, levantou os olhos ao céu, |)A «lo comer a cinco mil hom ens (Me deu gragas, partiu o pao e o deu a seus #„ll) 44; Le 9,10-17; Jo 6,1-14) — lbAo discípulos; eles o deram as pessoas. «lie i disso, Jesús partiu daí numa bar2 H Todos comeram, ficaram satisfeitos, i ii, sozinho, para um lugar despovoarecolheram as sobras e encheram doze iln Mas a m ultidáo ficou sabendo discestos. 21Os que comeram eram cinco iii i v o seguiu a pé desde os povoados. mil homens, sem contar mulheres e cri­ "Jesús desembarcou e, ao ver a grande anzas. 22Em seguida m andou que os multidáo, sentiu com paixáo e curou os discípulos embarcassem e passassem á tMilcrmos. 15Ao entardecer, os discípu­ frente para a outra margem, enquanto los foram dizer-lhe: ele despedía a multidáo. — O lugar é despovoado e a hora é avanzada; despede as pessoas para que Cam inha sobre a água (M e 6,45-52; VÍio as aldeias com prar alimento. Jo 6,15-21) — 23Depois de despedi-la, 14,9 Num fundo remoto vislumbra-se mitro juramento insensato e a danga fatal o inocente de filha de Jefté (Jz 11). 14,10-11 Com quanta frieza distante in­ forma o narrador. Como se a cabera numa bandeja fosse troféu militar (cf. Jt 13,15) 0 U sobremesa de um banquete. 14,12 Compare-se com ISm 31,12 a respeito de Saúl. 14,13-21 A partilha do alimento maraviIhoso, comumente chamada multiplicagáo dos páes, é narrada nos quatro evangelhos, e duas vezes em Mt e Me. Deve ser lida sobre o pano de fundo dos relatos de Ex e Nm sobre o maná (como explica Jo 6) e de um relato profètico menor (Eliseu em 2Rs 4,42-44). Jesús age como um novo Moisés e como profeta. Ántecipa, outrossim, o ali­ mento eucaristico. Assim a interpretou a tradigáo, apoiada ñas fórmulas litúrgicas do v. 19, tomadas da pràtica litúrgica primiti­ va: a agáo de gragas, a fragáo do pao, a distribuigáo pelos discípulos. Jesús recusou um milagre fácil e cómo­ do para satisfazer sua pròpria fome no de­ serto (4,4), porque ele vive da palavra de Deus; agora reparte ao povo essa palavra e recorre ao milagre para dar-lhe também o pao. O simbolismo se sustenta no realismo. O diálogo com os discípulos os con­ verte em testemunhas do milagre e em modestos colaboradores, que primeiro tém de apreciar a insuficiéncia dos seus próprios meios e depois desprender-se do pouco que tém (cf. IRs 17,9-13). Para ouvir Jesús, o povo abandona suas aldeias e pa­ rece esquecer-se do sustento: “nao fome de pao, mas de ouvir a palavra do Senhor” (Am 8,11-12). O número dos cestos pare­ ce significar as doze tribos. Deus é doador por exceléncia (SI 104, 27-28; 136,25 “dá pao a todo ser vivo”; 145,15-16 “tu lhes dás o alimento a seu tem­ po”), que agora dá por meio do seu enviado. A génerosidade faz parte do seu reinado. 14,23-34 Na escuridáo da noite, na agitagáo de um mar turbulento, Jesús apare­ ce a seus discípulos. Podemos chamar isso de cristofania e compará-lo com os rela­ tos da transfiguragáo e da páscoa. Jesús domina os elementos (SI 77,20), infunde paz e confianga com sua presenga (fórmula clássica, p. ex. Is 41,10; 43,5), com sua palavra, com o contato da sua máo (cf. SI 53,9; 73,23; 80,18). 14,23 Os evangelistas náo nos informam o conteúdo dessa oragáo (como faráo antes da paixáo). Só nos dizem o lugar, a monta-

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subiu sozinho à montanha para orar. Ao anoitecer ele estava sozinho ali. 24A bar­ ca já estava a boa distância da costa, batida pelas ondas, porque havia vento contrário. ^P ela quarta vigilia da noite, aproximou-se deles caminhando sobre o lago.26Ao vé-lo caminhar sobre o lago, os discípulos se assustaram e disseram: — E um fantasma. E gritaram de medo. -^m ediatam en­ te Jesús lhes disse: — Animo! Sou eu, nao temáis. 28Pedro lhe respondeu: — Senhor, se és tu, manda-m e ir pela água ao teu encontre. 29Disse-lhe: — Vem. Pedro saltou da barca e pôs-se a cami­ nhar pela água, aproximando-se de Je­ sús; porém, ao sentir a força do vento, teve medo, começou a afundar, e gritou: nha e a solidáo. O importante para o nar­ rador é apresentar a oragáo de Jesus, solità­ ria e elevada, como ponto de partida de sua manifestado. Os discípulos aparecem em contraste: montanha/mar, oragáo/agitagáo. 14.25 A quarta vigilia ou turno de guar­ da é a última, próxima ao amanhecer. “Caminha sobre o dorso do mar” (Jó 9,8). 14.26 O fantasma era uma aparigáo noturna, como a de Elífaz (Jó 4,12-16). 14.27 Jesús se identifica. Mas a fórmu­ la “Sou eu” desperta sem querer ressonáncias do nome divino (Ex 3,14, mais evi­ dentes em Joáo). 14.28 Sem secar as águas, como no mar Vermelho e no Jordáo. 14,30 Nào teme porque se afunda, mas se afunda porque teme (cf. SI 69,2-3). A atuagáo de Pedro é pròpria de Mateus, que quer mostrar o itineràrio espiritual do primeiro apóstolo: quando Jesus se identifica, o reconhece; solicita seu chamado e o se­ gue com audàcia confiante; titubeia e falha no perigo, mas é salvo por Jesus. Figura exemplar para a Igreja. Aimagem da “barca da Igreja” se tomará corrente e tradicional. 14.32 Ver SI 107,29. 14.33 O título tem alcance messiànico.

— Socorro, Senhor! 31Im ediatam ente Jesús estendi -u .. máo, o agarrou e lhe disse: — Desconfiado! Por que duvid.r.ii 32Quando subiram á barca, o voii. cessou. 33Os da barca se prostr.n m diante dele, dizendo: — Certamente és filho de Deus 34Terminaram a travessia e atracaum em Genesaré. 35Os hom ens do lupii souberam disso e difundiram a notíclh por toda a regiáo. Levaram -lhe todn os doentes 36e lhe rogavam que Ili> permitisse simplesmente tocar a orla il> seu manto. Os que o tocavam ficav.mi curados. A tra d ig á o ( M c 7 ,1 -2 3 )— ‘I n táo alguns fariseus e alguns l> trados de Jerusalém se aproximaran! di Jesús e lhe perguntaram:

Um texto sapiencial de ámbito doméstico reflete a prática da tradigáo: “Escutai, ti lhos..., ensino-vos uma boa doutrina... En também fui filho de meu pai... ele me ins truía assim...” (Pr 4,1-4). Nem todos o fariseus eram letrados (ou doutores, rabi nos). Os letrados eram os guardas e trans missores da tradigáo; os fariseus eram zclosos de seu cumprimcnto. O movimento farisaico tinha seu centro em Jerusalém c estava ligado ao templo. Se uma parte d;i lei regulava a pureza dos alimentos (tabus alimentares de Lv 11 e Dt 14), a tradigáo oral tinha refinado as distingóes. A pureza legal pretendía medir o valor de uma dou­ trina e conduta. De Jerusalém, com um en­ cargo quase oficial, os guardas da tradigáo interrogam o novo pregador itinerante. Jesús converte o interrogatorio em controvérsia, e aproveita para expor com clareza desafiadora o seu ensinamento. Anatureza e os alimentos nao se dividem radicalmen­ te em dois compartimentos estanques, do puro e do impuro, que sáo distingóes introduzidas pelo homem. Há outra pureza auténtica, que brota da intimidade do ho­ mem e define seu valor moral e religioso. Ao cuidado da pureza legal pertencem também as ablugóes (Ex 30; Lv 15 etc.) e 15,1 -20 Relagào de Jesus com a tradi- lavatorios em diversas circunstancias. gào, ou seja, a tradigào oral que acompa15,1-9 A controvérsia está centrada na nha o texto oficial sem fazer parte dele. pergunta inicial sobre as “tradigoes” de

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,** ■ ‘Por que teus discípulos violam a IfHillgáo dos antepassados? Pois nao llVtim as máos antes de comer. 'Ele respondeu-lhes: I< — • E por que vos violáis o preceito de us em nome de vossa tradigáo? *Pois U S mandou: Sustenta teu p a i e tua fíe . Aquele que abandona seu p a i ou mu máe é réu de morte. 5Vós, ao conKdrio, dizeis: Se alguém declara a seu l ou a sua máe que o socorro que lhe vía é oferenda sagrada, 6 já nao tem que «intentar seu pai ou sua máe. E assim Invalidáis o preceito de Deus em nome de vossa tradigáo. 7Hipócritas! Bem profctizou sobre vós Isaías quando disse: 'Estepovo me honra com os lábios, mas «.’« coragño está longe de m im ;9o culto que m e prestam é inútil, pois a doutrina que ensinam sao preceitos humanos. 1 0 E chamando a multidáo, disse-lhes: , — Escutai e entendei. u Náo conta­ mina o homem o que entra pela boca, mas o que sai da boca: isso contamina p homem. ,, 12Entáo aproximaram -se dele os dis­ cípulos e lhe disseram: * — Sabes que os fariseus se escanda­ lizaran! ao ouvir o que disseste? í 13Ele respondeu:

É

E

— Toda planta que meu Pai do céu náo plantou será arrancada. 14Deixai-os: sáo cegos e guias de cegos. E, se um ce­ gó guia a outro cegó, os dois cairáo num buraco. 15Pedro respondeu: — Explica-nos essa comparagáo. 16Ele Ihes disse: — Também vós continuáis sem en­ tender? 17Náo percebeis que o que entra pela boca passa para o ventre e é ex­ pulso na latrina? 18Ao contràrio, o que sai da boca brota do coragáo; e isso sim contam ina o homem. 19Pois do coragáo saem pensam entos malvados, assassinatos, adultérios, fornicagáo, roubos, perjurios, blasfemias. 20Isso sim conta­ mina o homem. Mas comer sem lavar as máos náo contam ina o homem. A m ulher cananéia (M e 7,24-30) — 21Daí partiu para a regiáo de Tiro e Sidónia. 22Um a m ulher cananéia da re­ giáo saiu gritando: \ >— Tem com paixáo de mim, Senhor, filho de Davi! Minha filha é m altrata­ da por um demonio. Ele náo respondeu urna palavra. Os ' discípulos se aproximaram e lhe supli­ caran! : plicagáo particular para os discípulos. O principio náo só anula as tradigóes, mas também equivale a abolir urna lei (Lv 11,25-47 e Dt 14,11-21). Jesús devolve to­ dos os alimentos ao processo fisiológi­ co normal. O coragáo (consciencia) é a raiz das agóes éticas do homem; por isso faz falta “um coragáo novo” (SI 51,12). Na série de sete ou seis vicios entram quatro preceitos do Decálogo (comparar com a lista de Jr 7,9 no discurso sobre o templo). 15,13 SI 52,7. 15,21-28 Este episodio sobressai em continuagáo e contraste com o anterior. Também entre os homens e os povos exis­ tia urna separagáo de pureza legal: judeus e pagáos. Os judeus náo podiam comer com os pagáos para náo se contaminar. Jesús vem abolir tal distingáo, tornando acessível a qualquer um o dom de Deus, pela fé em sua pessoa. O diálogo com os

doutores respeitados, cujas interpretaçôes faziam lei. As abluçôes rituais eram um caso particular: serviam para inculcar e recordar ao povo sua consagraçâo ao Senhor. Jesús responde ad hominem, subindo a um principio e denuncia geral: com as tradiçôes os letrados invalidam a lei. O exemplo escolhido é o primeiro pre­ ceito positivo do Decálogo (Ex 20,12; 21,17), que usa os verbos antitéticos kbd e qll. Ambos se estendem ao campo da honra e do sustento, “honrar/sustentar os pais”. A discussáo se centra no sustento, que é subtraído a pais necessitados sob pretexto de oferecé-lo a Deus no culto. Nao é esse o culto que Deus quer. A citaçao do profeta (Is 29,13) se encaixa bem na situaçâo: enlaça culto com doutrina: opóe làbios/coraçâo, qualifica de preceitos hu­ manos. 15,10-20 Da controvérsia passa ao ensinamento geral para a multidáo e à ex-

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— Despede-a, pois vem gritando atrás de nós. 24Ele respondeu: — Fui enviado somente as ovelhas desgarradas da Casa de Israel! ^P orém ela se aproximou e se prostrou diante dele, dizendo: -— Senhor, ajuda-me! 26Ele respondeu: — Nao é certo tirar o pao dos filhos para jogá-lo aos cachorrinhos. 27Ela replicou: — É verdade, Senhor; mas tam bém os cachorrinhos com em as m igalhas que caem da mesa de seus donos. ^E n táo Jesús lhe respondeu: — Mulher, que fé táo grande tens. Que teus desejos se cumpram. E a fílha ficou curada nesse momento. 29Daí se dirigiu ao lago da Galiléia, subiu a um monte e se sentou. 30Acorreu grande multidáo levando consigo coxos, mutilados, cegos, mudos e muitos outros doentes. Colocavam-nos a seus pés e ele os curava. 31De modo que a multi­ dáo estava admirada vendo mudos falar, mutilados sarar, coxos caminhando, discípulos e com a mulher esclarece emo­ tivamente atitudes e normas. Já o profeta Elias havia outorgado seus milagres a uma mulher fenicia (IRs 17). Canaá se opóe tradicionalmente a Israel (desde Gn 10 e 15 em diante). Os títulos que a mulher dá a Jesús, lidos em contex­ to cristáo, equivalem a urna profissào: Fi­ llio de Davi (= Messias) e Senhor. Pela fé, essa mulher se apresenta como tipo dos pagaos que crerao; que crèem quando o evangelho está sendo escrito. No projeto genérico de Deus primeiro vem os direitos e necessidades do povo escolhido (Jr 50,17); mas a fé da mulher paga e a bondade de Jesus superam qualquer privilègio. O silencio de Jesus póe à prova e depu­ ra a fé da mulher. Mais ainda a compara­ l o com os cachorros (ao que parece, já domesticados). A posigáo de Jesus é por exclusao: tirar de uns para dar a outros; semelhante posigáo pode ter ressurgido nas comunidades primitivas. Mas Jesus nào tem riquezas para todos? A mulher aceita humildemente o papel e retorce a respos-

cegos com visâo. E glorificavam o I > •h de Israel. Dá de comer a quatro mil (Me 8 i 10) — 32Jesus chamou os discípulo > lhes disse: — Tenho compaixâo dessa m ultidi.. pois hà très dias estâo com igo, e n.m têm o que comer. Nao quero despoli los em jejum , para que nâo desmaicm pelo caminho. 33Os discípulos lhe disseram: — Onde poderemos em lugar despo voado prover-nos de pâes suficiente, para saciar tal multidáo? 34Jesus lhes perguntou: — Quantos pâes tendes? Responderam: — Sete e alguns peixinhos. 35Ele ordenou ao povo que sentassi no châo. 36Tomou os sete pâes e os peixinhos, deu graças, partiu o pâo e o deu aos discípulos; estes os deram ii multidáo. 37Todos com eram até ficai satisfeitos; e com os restos encherani sete cestas. 38Os que haviam comido eram quatro mil homens, sem contar mu ta: umas migalhas da mesa de Jésus valem o pâo todo, e com elas a mulher se contenta. 15,29-31 Sumário de curas que parece dar um marco coletivo ao milagre indivi­ dual precedente. Menciona quatro tipos de enfermidade, como expressâo de totalidade (cf. Is 35,5-6). A multidáo reconhece nos milagres a bondade e o poder daquele que chamam Deus de Israël (SI 72,18; 106,48). 15,32-39 Aquela que era chamada “se­ gunda multiplicaçâo dos pâes” é um du­ plicado do relato anterior (14,13-21) com algumas variantes significativas: o atrativo da sua pessoa e a tenacidade do povo que já há très dias está com ele e esgotou as provisoes; a fraqueza para fazer o ca­ minho de volta (cf. IRs 19,7); os núme­ ros, a fórmula eucarística simplificada. É resultado da compaixâo do Senhor, e nâo exibiçâo de poder: “nâo passaráo fome porque aquele que se compadece deles os conduz” (Is 49,10.13). Ver o milagre de Eliseu em 2Rs 4,42-44.

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— Atengáo! A bstende-vos do fer­ mento dos fariseus e saduceus. 7Eles comentavam: — Ele se refere a nao termos trazido pao. IJin sinal celeste (M e 8,11-13; I ,c 12,54-56) — 'Aproximaram- 8Percebendo isso, Jesús lhes disse: — O que andais com entando, des­ w ii'. fariseus e os saduceus e, para confiados? Que nao tendes pao? 9Aini « ii Iii Id, pediram que lhes mostrasse um da nao entendeis? Nao vos lembrais dos .iiml no céu. 2Ele respondeu-lhes: cinco páes para os cinco mil, e quantos Ao entardecer dizeis: tempo bom; cestos sobraram? 10Ou dos sete páes ii u#ti está vermelho. 3Pela manhá dizeis: para os quatro mil, e quantas cestas so­ Imjr rhove; o céu está vermelho escuro. braram? "C o m o nao entendeis que eu Hiiin-is distinguir o aspecto do céu e nao nao me referia aos páes? Abstende-vos ilhlinguis os sinais da historia. 4Esta do fermento dos fariseus e saduceus. Utuugáo perversa e adúltera reivindica 12Entáo entenderam que nao falava mu sinal; e nao lhe será dado outro side abster-se do fermento do pao, mas iml, a nao ser o de Joñas. do ensinamento de fariseus e saduceus. I )eixou-os e partiu. ’Ao atravessar para a outra margem, Confissáo de Pedro (M e 8,27-30; Le u n discípulos se esqueceram de levar 9,18-27) — 13Quando Jesús chegou á jifto. f’Jesus lhes disse:

ilimn r i i mugas. 39Ele despediu a mulniliiii nuliiu á barca e se dirigiu ao terilMlln ile Magadá.

16 ,1-4 Discute-se a autenticidade de 2bI (que fazem sentido no contexto). Desta vez, os fariseus estáo acompanhados dos miduceus, que, embora um pouco ra­ cionalistas, exigem um sinal celeste (cf. Is 7,11) como legitimagáo daquele que se «presenta como Messias. Ao reí Acaz é oferecida a opgáo de um sinal no abismo ou no céu (Is 7,11). Jesús responde com um argumento engenhoso: eles interpre­ tan! sem dificuldade os sinais atmosféri­ cos naturais do céu; mas nao sabem inter­ pretar os sinais terrestres, as conjunturas decisivas da historia, que em Jesús sao evidentes. Pois que se atenham ao sinal definitivo de Joñas (morte ou abismo e ressurreigáo). 16,5-12 Da preocupadlo material os dis­ cípulos devem passar á confianza, instrui­ dos pelos milagres dos páes. Da compreensáo material devem passar a urna espiritual e a urna atitude de vigilancia. A levedura faz fermentar (13,33), mas também póe a perder e é excluida durante a páscoa (Ex 12,15; ICor 5,7-8). Que vivam prevenidos contra o influxo dos ensinamentos ou tradigóes judaicos, tal como os propóem as duas escolas extremas e opostas: os saduceus e os fariseus. As comuni­ dades cristas se distanciam de ensinamentos judaicos que poderiam desvirtuá-las.

16,13 Daqui até o final do cap. 18 Jesús vai dedicar-se a seus discípulos para ir for­ mando a comunidade. Ña confissáo de Pedro e na transfigurado culmina a composigáo de Mateus sobre o mínistério de Jesús. Ambas as cenas apontam para a res­ surreigáo. 16,13-20 O texto de Mateus é muito denso e elaborado. Apresenta um fato tal como a comunidade o entendeu e viveu. Note-se o paralelismo das identífícagóes: o povo diz que o Filho do Homem é Joáo, Elias, Jeremías, profeta vós dizeis que eu sou... Pedro diz que tu és o Messias Filho de Deus Jesús diz que tu és Pedro Trata-se de identificar o ser da pessoa de Jesús (náo de um ser transcendente e misterioso); “o Filho do Homem” e “eu” sáo o mesmo sujeito que busca um pre­ dicado. O povo náo hostil, que presenciou a atividade de Jesús, considera-o algum envia­ do especialíssimo de Deus para preparar a era messiànica; inclusive alguém poupado da morte (Eclo 48,1) ou morto e redi­ vivo para ter maior autoridade (Le 16,30). Simáo, que pela carne e sangue é filho de Joñas, declara que Jesús é o Messias es­ perado; e Jesús o ratifica, declarando que

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regiáo de Cesaréia de Filipe, interrogou os discípulos: — Quem dizem os homens que é este Hornera? 14Responderam: — Uns que é Joáo Batista; outros, Elias; outros, Jeremías ou algum outro profeta. t5Disse-lhes: — E vós, quem dizeis que eu sou? 16Respondeu Simáo Pedro: — Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo. 17Jesus lhe replicou: — Feliz és tu, Simáo, filho de Joñas! Porque isso nao te foi revelado por alguém de carne e sangue, e sim meu Pai do céu. 18Pois eu te digo que tu és Pedro e sobre esta Pedra construirei minha igreja, e o império da morte nao a vencerá. 19A ti darei as chaves do reino de Deus: o que atares na térra ficará atado no céu; o que desatares na térra ficará desatado no céu.

20Entáo lhes ordenou que nao di ■ sem a ninguém que o M essias n i <l. Prim eiro anuncio da paixáo e iw .m reigáo (Me 8,31-9,1; Le 9,22-27) 'A partir daí comegou a explicar aos di* cípulos que haveria de ir a Jerus.il. m padecer muito por causa dos senado res, sumos sacerdotes e letrados, s>> 1 1•. a morte e ao terceiro dia ressuscilo 22Pedro o levou á parte e se p<V . a repreendé-lo: — Deus te livre, Senhor! Tal coi i nao te acontecerá. 23Ele se voltou e disse a Pedro: — Retira-te, Satanás! Queres fazer un cair. Pensas de modo humano, nao di acordo com Deus. 24Entáo Jesús disse aos discípulos: — Quem quiser seguir-me, negué .i si mesmo, carregue sua cruz e me siga 25Quem se empenha em salvar a vida

a confissáo procede de urna revelagáo do Pai (cf. 11,27), pela qual Pedro tem urna bem-aventuranga particular. Dito isso, prossegue estabelecendo e de­ clarando a fungáo específica de Simáo. Je­ sús se propóe “construir” um templo, que é urna comunidade nova, na qual Pedro será urna “pedra” fundamental. O grego petros designa uma pedra ou pedregulho, algo que se pode pegar e langar. Ao passo que petra designa um silhar ou penha ou rocha onde se assenta um edificio. O edificio ou comu­ nidade é obra e dominio de Jesús, “minha igreja”, que substituí a comunidade sagra­ da qahal Yhwh ou qahal Yisrael (Dt 23,2; IRs 8,22 etc.). Pedro terá nela uma fungáo medianeira central: por sua adesáo ou aderéncia a Cristo, participará da solidez da rocha. Contra a igreja de Jesús nada poderá o poder da morte, que abre suas portas para prender e fecha para nao soltar. A obra de Jesús é ¡mortal (talvez sugira a ressurreigáo e a vida eterna dos seus membros). Pedro terá as chaves de acesso ao reino de Deus (de acordo com as bem-aventurangas, 5,3.10) e terá o poder de julgar, perdoar e condenar, ratificado por Deus. Diante de doutores e fariseus que “atam fardos pesados” (23,2) e “fecham o aces­ so ao reino de Deus” (23,13).

Paralelos: V. 14:14,2. V. 16: 3,17; 11,27, 14,33. V. 17: 13,11-17. V. 18 edificar so bre rocha: 7,24; império da morte = poi tas do abismo Is 38,10; Jó 38,17; Sb 16,13 V. 19 poderes do mordomo: Is 22,22; Jo 20,23; sobre Jeremías pode-se ver o sonho de Judas Macabeu (2Mc 15,12-16). 16,21-23 “A partir daí” significa um corte narrativo, um novo comego, o caminho para a paixáo e morte (balizado em 17,22 e 20,17). Mateus e sua comunidade antecipam o anuncio, iluminados pela páscoa. Jesús vai ao encontro do seu des­ tino, segundo a vontade do Pai plenamen­ te aceita. Contudo, apesar do corte, esta perícopc se une por contraste com a precedente: Pedro recebe o título de Satá, nao é inspi­ rado pelo Pai, mas pelo inimigo, o rival que tem um projeto oposto ao do Pai (4,10), a Pedra se transforma em tropego (cf. Is 8,14-15). Pedro nao aceita a paixáo de seu mestre porque náo compreende o valor fecundo que ela tem. 16,24-27 O exemplo do Mestre define as condigóes para ser discípulo. Repete o ensinamento sobre o valor e o sentido da vida (10,39). Náo há prego humano para assegurá-la (SI 49,8-10). Negar a si mes­ mo é a vitória sobre o egoísmo, na qual

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(p u lcra; quem perder a vida por mim, I mee mirará. 26Que aproveita ao ho■ m i mi c.anhar o m undo inteiro às custas ili mia vida? Que prego pagará por sua vliln? 'O Filho do Homem hà de vir wim a glòria de seu Pai e acompanhatlti ile scus anjos. Entào pagará a cada imi con forme a sua conduta. 28Eu vos lordura: há alguns dos que estào aqui ijiii' nao sofreráo a morte antes de ver rilegar o Filho do Homem como rei. fl Transfiguragào (Me 9,2-13; Le A / 9,28-36) — 'S eis dias m ais tar­ ili', Jesus tomou Pedro, Tiago e seu iriiinoJoáo e os levou à parte a urna monlitnlia elevada. 2E transfigurou-se diante ili'lcs: seu rosto resplandecía como o •ni, suas vestes se tornaram brancas
miAa máxima afirmaçâo. Pode-se perder il villa por algo, alguém que valha mais, e i-niào a perda é ganho: “pois tua lealdade Ville mais que a vida” (SI 63,4). 16.27 A referêneia explicita à parusia «conseilla aquí a traduçâo “Filho do Homern” como título. Vira como rei para julC .ar e retribuir (SI 62,12; Eclo 35,24). No ultimo v. se percebe a expectativa da comunidade pela vinda próxima do Senhor glorioso. 16.28 SI 62,12; Eclo 35,24.

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como a luz. 3A pareceram-lhe M oisés e Elias conversando com ele. 4Pedro to­ m ou a palavra e disse a Jesús: — Senhor, como se está bem aqui! Se te parece bem, armarei très tendas: urna para ti, outra para M oisés e outra para Elias. 5A inda estava falando quando urna nuvem lum inosa lhes fez sombra, e da nuvem saiu urna voz que dizia: — Este é o meu Filho amado, o meu predileto. Escutai-o. 6Ao ouvir isso, os discípulos caíram de brucjos, tremendo de medo. 7Jesus se aproximou, tocou-os e lhes disse: — Levantai-vos, náo temáis! 8Levantando os olhos, viram somente Jesús. 9Enquanto desciam da montanha, Jesús lhes ordenou: elusive a nuvem, que vela e revela, é lu­ minosa (Jó 37,15; IRs 8,10-12). É de den­ tro que lhe brota a luz, náo lhe vem de fora como a de Moisés (Ex 33-34). A gloria de Jesus atrai Moisés e Elias (os dois arrebatados por Deus?), o media­ dor da alianza e o primeiro dos profetas; outrora representantes da leí e dos profe­ tas, agora testemunhas e interlocutores de Jesús. O Antigo Testamento testemunha a favor de Jesus Messias. A gloria parece abolir o tempo ou atualizar o passado. A nuvem é companheira ordinària de teofanias (freqüente em Ex e Nm), também na liturgia (Lv 16,2; Is 6,4). Da nuvem soa a voz de Deus (Dt 5,22; SI 99,7). Aqui é a voz do Pai dando testemunho de seu Fi­ lho: combinando citagóes de Is 42,1; SI 2,7 e Dt 18,15; ou seja, do Servo, do rei, do pro­ feta futuro. “O Pai conhece o Filho” e o re­ vela (Mt 11,27). Escutai-o: também quan­ do anuncia a paixào e pede seguimento. A intervengáo de Pedro expressa o gozo da visáo e poderia aludir à festa das Tendas. Como ele identifica Moisés e Elias, o narrador náo diz. E a terceira intervengo de Pedro, e parece expressar um desejo de ficar no mistério glorioso. O silencio im­ posto por Jesús ao descer une a transfigu­ ra d o passageira com a glorificado defi­ nitiva. Pelo que viram e ouviram, os tres poderiam repetir: “Contemplamos sua glo­ ria, gloria de Filho único do Pai” (Jo 1,14; cf. Is 35,2; 40,5).

17,1-8 A manifestaçâo da gloria de Cris­ to é um momento culminante, que antecipa a ressurreiçâo e está escrito à luz da páscoa. Situa-se entre dois anuncios da paixáo, justificando o projeto do Pai e o destino de Jesús. O texto deve ser lido so­ bre o paño de fundo de Ex 24,1-18, que fornece vários motivos: os très acompanhantes, o monte, a nuvem, os seis dias, a obediencia, a manifestaçâo luminosa, a visáo de Deus. Aidentificaçâo com o mon­ te Tabor náo tem fundamento exegético. A transformaçâo é luminosa. Segundo urna tradiçâo constante no AT, a Gloria se faz visível em forma luminosa (p. ex. SI 57,6.12; Eclo 42,16). O rosto de Jesús briIha como o sol (Eclo 17,31); em alguns salmos pede-se ao Senhor que “faça briIhar seu rosto/mostre seu rosto radiante” (SI 31,17; 67,2; 80,4); também suas ves­ tes: a luz é a veste de Deus (SI 104,2); in-

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17,10

— N ao contéis a ninguém o que vis­ tes, até que este Hom em ressuscite da morte. l0Os discípulos lhe perguntaram: — Por que dizem os letrados que primeiro deve vir Elias? n Ele respondeu: — Elias deve vir para restaurar tudo. 12Mas eu vos asseguro que Elias já veio e nao o reconheceram e o trataram ar­ bitrariam ente. O m esm o tanto há de sofrer este Homem por causa deles. 13Entáo os discípulos com preenderam que ele se referia a Joáo Batista. O m enino epilético (M e 9,14-29; Le 9,37-43)— l4Quando voltaram para jun­ to do povo, um homem se adiantou, se ajoelhou diante dele 15e lhe disse: — Senhor, tem com paixáo de meu filho que é lunático e sofre muito. Muitas vezes cai no fogo ou na agua. l6Eu o trouxe aos teus discípulos e nao conseguiram curá-lo. -— l7Jesus respondeu: — Que gera^áo incrédula e perver­ sa! Até quando terei de estar convosco e agüentar-vos? Trazei-o aqui. Jesús deu urna ordem, o demonio saiu dele e o menino ficou curado a par­ tir desse momento. 17,10-13 A pergunta surge atraída pela visáo de Elias. Os discípulos se tornam eco da crenga popular, ensinada pelos doutores (segundo MI 3,23-24 e Eclo 48,10): se Elias ainda nao voltou, Jesús nao é o Messias. Já voltou, diz Jesus, e cumpriu sua tarefa de preparar o povo. Mas nao o re­ conheceram (no plural, nao só Herodes). A paixáo de Joáo, à mercè do “capricho” deles, prefigura a de Jesus, e essa é outra preparatilo mais profunda. 17,14-21 Afunqáo desse relato é instruir sobre a fé, a partir de um fato concreto. Tomou-se proverbial “urna fé que move montanhas” (ICor 13,2), pela qual o ho­ mem repete a agáo de Deus (Jó 9,6). Mas nao seria fé se agisse por capricho ou por espetáculo. Jesus cura por compaixáo e cumprindo sua missáo libertadora. Agua e fogo é um merismo que abarca qualquer perigo (Is 43,2; SI 124,3-4).

19Entáo os discípulos se aproximaram de Jesús era particular e lhe perguntaram: — Por que nós nao pudemos expulsá-lo? 20Ele respondeu: — Por vossa pouca fé. Eu vos asse­ guro: se tivésseis fé como um grao de mostarda, diríeis áquele monte que se deslocasse dali, e ele se deslocaria. E na­ da seria impossível para vós. [“' Mas esse tipo só se expulsa com oragáo e jejum]*. 22E nquanto passeavam juntos pela Galiléia, Jesús lhes disse: — Este Hom em será entregue em máos de homens 23que o mataráo. Ao terceiro dia ressuscitará. Eles se entristecerán! profundamente. O im posto do tem plo — 24Quando chegaram a Cafarnaum, os que coleta vam o im posto das duas dracm as se aproximaram de Pedro e lhe disseram; — Vosso m estre nao paga as duas dracmas? 25Ele respondeu: — Sim. Quando entrou em casa, Jesús se ¡m tecipou e perguntou: — Que te parece, Simáo? De qm ni os reis do mundo cobram impostos: < 1 « " filhos ou dos estranhos? Jesús se queixa com palavras que ....... cendem o contexto preciso. Queixa • .< ■• pressando cansado acumulado; conio u > * ► Moisés, tarto de suportar o povo (Nm l i l i 15); como o cansado de Deus na et.i|"i a deserto (SI 95,10; Is 43,14). O delito < i. i geraqáo é a falta de fé: eia se deli...... •* neficència e no maravilhoso. Mas o . pulos tèm de robustecer a fé para culi* i m «< o que se aproxima. A confissali ili !'■ili" > a transfigurarán hào de guià-lns. Alguns manuscritos acrescenliiin h v tf tomado de Me 9,29. 17.21 *Falta em muitos códii i 17,22-23 Segundo anuncio ih pinh(16,21-23; 20,18-19). A resposi.i. i "'•« za do grupo. Pedro já náoopoi i. ,i ..... . 17,24 Ex 30,12; 38,26. 17,24-27 Trata-se do iiiip*• * templo, cobrado localmente Mi m li'»*# por Neemias (Ne 10,33), tal vi . , niiin lf§

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26Respondeu que dos estranhos, e Jesus lhe disse: — Portanto, os filhos estào isentos. 27Mas, para náo dar m otivo de escán­ dalo, vai ao lago, atira um anzol, e o primeiro peixe que fisgar, pega-o, abrelhe a boca e encontrarás urna moeda. Toma-a e paga por mim e por ti. In stru c à o c o m u n ità ria (M e 9, 33-37.42-48; Le 9,46-48; 17,1 s) — ’Naquele tempo os discípulos se aproximaram de Jesus e lhe perguntaram: — Quem é o maior no Reino de Deus? 2Ele chamou um menino, colocou-a no meio deles 3e disse: cagáo de urna lei (Ex 30,11-16). O inci­ dente, no qual se misturam tragos maraviIhosos, serve tambem de instrugáo aos dis­ cípulos, e provavelmente á comunidade judeu-cristá, enquanto aínda existia o tom­ illo. Mais tarde a comunidade crista o apli‘ .irá a tributos com finalidade religiosa impostas pelo imperador. Se o templo é a i isa de Deus, seu Filho nao deve pagar iiibuto; nem mesmo seus outros filhos. i'.i);á-lo é concessáo, nao obrigagáo. O i pisódio do peixe nao é contado segundo ii íorma clássica do milagro; sua interpre­ ndió c duvidosa. Segundo SI 8, o homem i.mibém senhor dos peixes do mar.

— Eu vos asseguro: se nao vos converterdes e náo vos tornardes como as crianzas, náo entrareis no reino de Deus. 4Quem se humilha como esta crianza é o maior no reino de Deus. 5E aquele que acolhe urna destas criangas em atenqáo a mim, a mim acolhe. '’Porém, quem escandaliza um destes pequeños que créem em mim, seria m elhor que lhe pendurassem no pescoqo urna pedra de m oinho e o atirassem ao fundo do mar. 7 Ai do m undo por causa dos escánda­ los! É inevitável que aconteqam escán­ dalos. Contudo, ai do homem median­ te o qual vem o escándalo! 8Se tua máo ou teu pé é para ti ocasiáo de queda,

d eclarares do AT sobre exaltagao e humilhagáo (p. ex. o cántico de Ana, ISm 2; SI 113 etc.). Especialmente interessante é Eclo 3,17-20. O termo grego paidion, além da idade, pode denotar o oficio: menino, crianga, ou criado, servente. SI 8,3 e 131,2 falam de “menino” como modelo de louvor e como exemplo de saber contentar­ se. O menino colocado por Jesús no cen­ tro é urna presenga simbólica: no reino celeste todos seráo pequeños, filhos de Deus, e essa será sua grandeza. Acolher o menino é conseqíióncia do que precede (cf. Gn 21,20): pode-se en­ tender em seniido próprio ou metafórico. Deve-se fazé-lo “em atengáo a Jesús”. IS Mateus reúne aqui varias instruyóos 18,6-9 Escandalizar é em sentido pró­ |*in i .i comunidade. Tema central é a atenprio por tropegos, provocar a queda. AsV I“1 devida aos pequeños, necessitados, sim soa a proibigáo legal: “Náo porás tro«i- ir.ores, extraviados; é o valor da humilpegos ao cegó” (Lv 19,14). O escándalo il nli da compreensáo, do perdáo mutuo e pode provir de outrem ou de sí mesmo il'i n i "nciliagáo. “Menino e pequeños” (12,29-30). Aqui se refere a tropegar e faM | h ti se em 1.14, “irmáo” em 15.21.35. lhar na fó; daí a gravidade do delito (comI . viro dos “discursos” de Jesús (com pare-se com o “tropego” ou “resvaláo” de U tli.....inte, 5— 7 e o das parábolas, 13), o SI 73,2). A perda do seduzido seria mais M iiiin. i .mtes de partir para a Judéia (19,1). grave que a morte do sedutor. Alude ao • '■ i 5 O protocolo da época era escru- moinho caseiro, manual. Dada a condigáo É . . i . ni designar precedencias e definir do homem na sociedade, pela maldade de ■ M « 1 ()s discípulos podem contagiar-se uns ou a fraqueza de outros, é inevitável ÉNH........ . (23,8-12). Como será no que haja tropegos ou caídas. ■ ||i" tío Dous, que ó a nova comunidade Dcpois passa a órgáos corporais que ■ t ...... Imiensáo transcendente? A quespodem vir a ser perigosos em sua fungao: I h i'i.ivi1 , devido ao afa em busca de ria máo, sede da agáo; o pé, da conduta (caI ' i. uperar-se e de superar, ao mo­ minho); o olho, da faculdade estimativa. lí- i i i • iuna alheia. A resposta de Jesús O fogo definitivo que consomé (Is 35,9■o l .inbora contraste com preten10; 66,24; Dn 7,11) se contrapóe á vida 1' ■l.... i, está na linha de múltiplas que dura.

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corta-o e joga-o fora. É m elhor entrar na vida manco ou coxo do que com duas m áo ou dois pés ser atirado ao fogo eterno. 9Se teu olho te é oeasiá 9 de queda, arranca-o e joga-o fora. É m elhor para ti entrar na vida zarolho do que com dois olhos ser atirado no forno de fogo. A ovelha perdida (Le 15,3-7) — 10Cuidado para nao desprezar um destes pe­ queños. Pois eu vos digo que seus anjos no céu contem plam continuam ente o rosto do meu Pai do céu*. 12Que vos parece? Suponham os que um homem tenha cem ovelhas e urna se extravie: nao deixará as noventa e nove ñas encostas para ir buscar a extraviada? 13E se chega a encontrá-la, eu vos asseguro que se alegrará mais por ela do que pelas noventa e nove nao extraviadas. Do m esm o modo, vosso Pai do céu nao quer que se perca sequer um des­ tes pequeños. Perdáo das ofensas (Le 17,3) — 15Se teu irmáo te ofende*, vai e admoesta-o 18,10-14 Se por qualquer causa um membro se extraviou, a comunidade deve esforgar-se por recuperá-lo. Acomparagáo da ovelha pode estar inspirada em Ez 34,11-12.16; poderia haver urna reminis­ cencia de Davi pastor (ISm 17,34). 18.10 Seus anjos: enviados de Deus que cuidam dos pequeninos (segundo SI 91,1112), servidores que tém acesso á presenta dele (como os que Jaco viu, Gn 28,12). 18.11 *Alguns manuscritos acrescentam o v. 11, tomado de Le 19,10. 18.14 O principio de Ez 18,32 se aplica de modo especial aos pequeños. 18.15 *Outros códices: se teu irmáo peca. 18,15-18 Na comunidade deve reinar a paz. Ou porque nao há ofensas, ou porque se busca a reconciliaqáo. Embora os testemunhos dos manuscritos se equilibrem, a pergunta de Pedro (21) nos faz preferir a leitura (ou explicagáo) “peca contra ti” = te ofende, em lugar do simples “peca”. A primeira instancia é totalmente privada: o ofendido, fazendo o irmáo refletir e recon-

tu e ele a sós. 16Se nao te dá atengan faze-te acompanhar de um ou dois,/«».! que o assunto se resolva p o r duas mi très testemunhcis. 17Se nao lhes dá atençâo, informa a com unidade. E se nao dá atençâo à co munidade, considera-o um pagáo ou um coletor. 18Eu vos asseguro que o que ligardes na terra ficará ligado no céu, o que desligardes na terra ficará desliga do no céu*. 19Eu vos digo também que. se dois de vos na terra se póem de acor do para pedir alguma coisa, meu Pai do céu a concederá. 20Pois onde há dois ou très reunidos em meu nome, ai es tou eu, no meio deles. 21Entáo Pedro aproxim ou-se e per guntou: — Senhor, se meu irmáo me ofende, quantas vezes devo perdoá-lo? Até sete vezes? 22Jesus lhe responde: — Eu te digo que nao sete vezes, mas setenta e sete. 23Pois bem, o reino de Deus se parece com um rei que decidiu ajustar contas com seus criados, ^ m e ­ diatam ente apresentaram -lhe um que ciliar-se, “ganha-o”. A segunda instancia é privada, com testemunhas (Dt 19,15), que serviráo de mediadores. A última ins­ tancia é o julgamento da comunidade. Alguém que, em última instancia, se negasse a reconciliar-se, já nao faz parte da comunidade; deve ser sancionada a sua separagáo. Os responsáveis pela comunidade tém o direito de excluir ou excomungar (ver o exemplo de Paulo, ICor 5,5-6). 18,18 É complemento de 16,19-20 (cf. Jo 20,23). * Ou: o que proibirdes, o que permitirdes. 18,19-20 Pode-se 1er de várias maneiras: o acordo se deve manifestar também na oragáo; ou entáo: também para orar deve haver acordo (cf. Eclo 34,24). A ora<¿áo comunitaria é corrente no saltério; agora adquire novo sentido pela presenta de Cristo. Entende-se a presenta real de Cristo glorificado, nao mera presenta men­ tal. Os rabinos exigiam o mínimo de dez para o culto; Jesús o reduz a dois ou trés. 18,21-35 A pergunta “matemática” de Pedro, Jesús responde no mesmo terreno,

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IIh ilcvia dez mil talentos. 25Com o nao llnlin com que pagar, o patráo mandou < |ui- vcndessem sua mulher, seus filhos y ludas as suas posses para saldar a di­ vida. ’"O criado se prostrou diante dele, «ii|ilicando-lhe: Tem paciencia comigo, ii rti te pagarei tudo. -’Compadecido, o jiiilrao daquele criado o deixou ir e lhe (ii'idoou a divida.28Ao sair, aquele criailn cncontrou outro criado que lhe devin ccm denários. Agarrou-o e o sufoi ava, dizendo: Paga o que me deves. “'( aindo a seus pés, o companheiro lhe nuplicava: Tem paciencia comigo, e eu le pagarei. 30Mas o outro negou e o pos mi prisáo até que pagasse a divida.3 Ao ver o que acontecerá, os outros criados »altando de um número generoso a outro Indefinido. E o explica com urna parábola que se compraz em contrastes extremos. Ofensa e divida sao dois símbolos que expressam a situagáo negativa do homem iliante de Deus. Como no Pai-nosso, adota aqui a imagem da divida, que permite i|uantificar a explicagáo. Cem denários é o salário de cem dias de trabalho de dia­ rista; dez mil talentos (um talento = uns 35 kg) é urna quantidade fantástica, cem milhóes de denários. O relato náo explica como o funcionário pode endividar-se a tal ponto; imaginemos um governador de provincia corrupto. Este nao se recusa a pagar, só pede paciencia (Eclo 29,1-13); o patráo responde cheio de compaixáo (taivez pense que o outro náo poderá pagar), e perdoa. Já perdoado, deveria imitar, em escala reduzida, o exemplo do rei. O homem, destinatário da imensa mise­ ricordia de Deus (SI 86,5), deve aprender a exercer sua pequeña misericordia com o próximo devedor. Ver no SI 112 a passagem do v. 4 ao 5; também a conseqüéncia que tira Sb 12,18-19; e tantos textos que recomendam a piedade e a compaixáo (Pr 14,21; 19,17; SI 37,21.26 etc.). 19,1-30 Geográficamente, comega urna etapa nova, o caminho de Jerusalém e da paixáo. Temáticamente, continuam as instrugóes do capítulo precedente, falando sobre o matrimonio e os bens da fortuita. O público é agora a multidáo que o segue. Daqui em diante, náo abandonará a Judéia,

ficaram muito tristes e foram contar ao patráo tudo o que havia acontecido. 32Entáo o patráo o chamou e lhe disse: C riado perverso! Eu te perdoei toda aquela divida porque me suplicaste; 33náo devias também tu ter compaixáo de teu companheiro como eu tive de ti? 34E indignado o entregou aos tortura­ dores até que pagasse totalmente a di­ vida. 35Assim vos tratará meu Pai do céu, se náo perdoais de coragáo cada um a seu irmáo. O d iv ó r c io (M e 1 0 ,l-1 2 s ) — 'Q uando Jesus term inou esse discurso, transferiu-se da Galiléia para a Judéia, do outro lado do Jordáo. 2Seembora por algum tempo se mantenha afastado da capital. 19,1-12 Matrimonio e celibato pertencem de cheio à nova comunidade. O as­ sunto é apresentado pelos fariseus como pergunta capciosa sobre o divorcio. Para eles, ponto de partida é a lei de Dt 24, 1-4, que, para proteger a mulher, ordena entregar-lhe urna ata de divorcio. Ao in­ terpretar os motivos válidos para o divor­ cio, que é decisáo do marido, divergiam o rigoroso Shammai e o liberal Hilel. O texto da lei dizia: “porque descobre nela algo de vergonhoso”. Isso explica a expressáo “por qualquer motivo”. A intengáo capciosa consiste em fazer a pergunta para conduzir Jesus a declarar-se contra a lei, como tinha feito anteriormente (5,31-32), ou a enfrentar urna das escolas de interpretagáo. Jesús sobe de urna lei positiva, concessáo mais que imposigáo, para a ordem pri­ mordial estabelecida por Deus (Gn 1,27; 2,24; 5,2), náo como lei positiva, mas como constituigáo do homem como casal, “homem e mulher os criou”. O “caráter inflexível” é a dureza de coragáo ou men­ tal, a resistència em submeter-se à vontade de Deus (Dt 10,16; Jr 9,25). Na nova comunidade que é sua igreja, o matrimo­ nio terá um lugar, segundo a ordem fun­ dacional de Deus (ICor 7,10-11). Porém, o texto admite uma excegáo, o caso de porneia, sobre cujo sentido se continua discutindo (ver 5,32). Uma opiniáo razoável interpreta o caso como matrimonio ile-

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guia-o urna m ultidào imensa, e ai eie os curava. 3Aproxim aram-se alguns fariseus e, para o porem à prova, lhe perguntaram: — Pode alguém repudiar sua mulher por qualquer motivo? 4Ele respondeu: — Nao lestes que no principio o Cria­ dor os fe z homem e m ulher? 5E disse: p o r isso, um homem deixa seus pais, junta-se à sua mulher e os dois se tornam urna so carne. 6De modo que já nào sào dois, mas urna só carne. Por­ tanto, o que Deus uniu, o homem nào separe. 'Replicaram-lhe: — Entào, por que M oisés mandou dar-lhe ata de divorcio ao repudià-la? 8Respondeu-lhes: — Por vosso caráter inflexível, M oi­ sés vos permitiu repudiar vossas mulheres. Mas no principio nào era assim. 9Eu vos digo que quem repudia sua mulher — se nào for em caso de con­ cubinato — e se casa com outra, com e­ te adultèrio, e aquele que se casa com a divorciada comete adultèrio. gitimo, invàlido, concubinato ou consangiiinidade em grau proibido. Os discípulos se assustam diante da exi­ gencia de um vínculo indissolúvel (os fariseus já nào intervèm). Jesus nào retira o que disse, antes, dà mais um passo, propon­ do outra situatilo que terá um lugar na sua comunidade: o celibato voluntariamente aceito, como dom de Deus e motivado por (a pregagào de) o reinado de Deus. O AT registra apenas o caso de Jeremías (Jr 16). Em Israel, os eunucos eram excluidos do oficio sacerdotal (segundo Lv 21,20), da assembléia do Senhor (segundo Dt 23,2), mas podem figurar como funcionários (2Rs 8,6; 9,32); em época posterior abre-se a passagem para urna avalia§ào positiva (Is 56,3-5; Sb 3,14); entre os monges de Qumrà alguns praticavam o celibato. So­ bre o caráter voluntário, ICor 7,7. 19,11 “Essa solugào”: pelo termo grego usado, logon e pela colocagào, a referen­ cia fica ambigua: o projeto originàrio de Deus?, o estado de solteiro? Dado que fala de dom (de Deus), parece referir-se ao re-

10Os discípulos lhe dizem: — Se essa é a condigào do maini., com a mulher, é melhor nào casar se. "E ie lhes disse: — Nem todos aceitam essa so lu ti., a nào ser os que recebem tal dom. 12Pois há eunucos que sào assim .1. nascenga; há os castrados pelos hom nr. e há os que se castraram pelo reinad.. de Deus. Aquele que pode com isso, quo o aceite. A ben$oa algum as cria n za s (M e 10 13-16; Le 18,15-17)— 13Entào levaram lhe algumas criangas para que pusess. as máos sobre elas e pronunciasse urna oragáo. Os discípulos as repreendiam. 14M as Jesus disse: — Deixai as crianzas e nào as impe qais de se aproximarem de mim, pois o reino de Deus pertence aos que sào como elas. 15Pòs as máos sobre elas e partiu. O jovem rico (Me 10,17-31; Le 18,1830) — 16Entào aproximou-se alguém e lhe disse: gime exigente do “reino” e ao caso extraordinàrio dos “eunucos pelo reino”. 19,13-15 As crianzas pertencem também à familia e com eia farào parte da comuni­ dade (cf. Js 8,35). Inclusive serviráo de mo­ delo (18,3). A mào sobre elas: corno no SI 139,5. 19.16-30 Um caso particular dará ocasiào a Jesus para expor seu ensinamento sobre a posse de bens dentro da sua comunidade. 19.16-22 O caso. Apresenta-se “alguém” (16), que depois se caracteriza como “jo­ vem” (20) e no firn como “rico” (22). Talvez seja intencional a gradacjào, pois a pergunta pode ser feita por “qualquer um”, na contraposigào entra a adolescencia, e a recusa é provocada pela riqueza. A contra­ posigào neaniskos/teleios pode denotar a idade, jovem/adulto, ou a condigào ado­ lescente/maduro. O jovem se informa so­ bre urna espiritualidade de obras que assegure urna vida perpètua: “Praticai o que o Senhor ordenou... e vivereis, e tudo vos correrá bem e prolongareis a vida” (Dt 5, 33). Jesus o chama ao seguimento pessoal,

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Mestre, que obras boas devo fa##i para alcanzar vida perdurável? ''Kespondeu-lhe: Ciuarda os m andam entos. '"I’erguntou-lhe: • Quais? Jesus lhe disse: —-Nao matarás, nao cometerás adul­ tèrio, nao roubarás, nao perjurarás, ''‘honra o p a i e a màe, e am arás o pró\ Imo como a ti mesmo. ll)0 jovem lhe disse: • — Cumpri tudo isso. O que m e resta lit/.or? ’’Jesús lhe respondeu: — Se queres ser perfeito, vai, vende leus bens, dá aos pobres, e terás um te«ouro no céu; depois segue-me. 22Ao ouvir isso, o jovem partiu tris­ te, pois era muito rico. ^Jesus disse a seus discípulos: — Eu vos asseguro: um rico difícil­ mente entrará no reino de Deus. 24Eu removido o impedimento da riqueza. A perfeigáo é mais do que a pura observan­ cia do Decálogo (5,48): nao cumprimento, mas seguimento. 19,18-19 É a segunda parte do Decálogo (Ex 20,12-16 com Lv 19,18; cf. Rm 13,9). 19.21 Tesouro no céu pode equivaler a um tesouro em Deus: Deus será, ou Deus te reservará (cf. Jó 22,24-25). O distintivo é o seguimento. Nao é simples evitar as preocupares de que fala Ben Sirac (Eclo 31,1-2) ou o perigo de perversáo (Eclo 31,8-12). Nao é um estilo de vida estoico. O seguimento é convite superior: apósta­ los (4,20), o voluntário (8,22); Zaqueu nao é convidado ao seguimento. 19.22 SI 62,11; lTm 6,17. 19,23-24 Com urna comparagáo hiper­ bólica e enérgica, bem conhecida na épo­ ca (cf. Eclo 31,1-11) Jesús comenta a covardia do jovem. Nao se deve embotar a hipérbole, mas canalizá-la à agáo de Deus que, em seu reino, torna possível o huma­ namente impossível. 19.23 Pr 11,28. 19,25-30 O novo susto dos discípulos serve para introduzir o ensinamento de Jesús. Como o celibato significava aceitar um dom de Deus, assim a pobreza volun-

vos repito: é mais fácil um camelo pas­ sar pelo buraco de urna agulha que um rico entrar no reino de Deus. 25Ao ouvir isso, os discípulos fícaram espantados e disseram: — Entáo, quem poderá salvar-se? 2601hando para eles, Jesus lhes disse: — Para os homens isso é impossível, para Deus tudo é possível. 27Entáo Pedro lhe respondeu: — Ve, nós deixamos tudo e te segui­ mos. Que será de nós? 28Jesus lhes disse: — Eu vos asseguro que vos, que me tendes seguido, no m undo renovado, quando o Filho do Hom em sentar em seu trono de gloria, tam bém vos senta­ reis em doze tronos para reger as doze tribos de Israel. 29E todo aquele que por mim deixar casas, irmáos ou irmás, pai ou máe, mulher ou filhos, ou cam­ pos, receberá cem vezes mais e herdará vida perpètua. 30M as m uitos prim eitária faz as contas com a generosidade e o poder de Deus (Gn 18,14; Is 59,1; Zc 8,6). Primeiro se dirige aos Doze (10,2-4) com urna promessa escatológica. Apaliggenesia é a nova criagáo (Is 65,17; 66,22). Quando Jesús glorificado ocupar seu trono real (SI 110,1) como rei e juiz, também os doze apóstolos atuaráo como juízes, julgando as tribos de Israel que nao tiverem aceito Je­ sús como Messias. Outros interpretan! co­ mo govemo dos apóstolos na Igreja, o novo Israel, em que Jesús glorificado é o rei. Depois se dirige a todos, prometendolhes que “receberáo o céntuplo e herdaráo a vida eterna”. É apenas promessa? Em tal caso, o céntuplo chegará na consumacáo. Mateus distingue dois tempos como Mar­ cos? Entáo o céntuplo já se dá neste mun­ do, na vida da Igreja. No contexto de urna comunidade de seguidores em grau diver­ so, de casados e célibes, podem embaraIhar-se as classes, e cabe a Deus designar os lugares. A frase aparece um tanto altera­ da em 20,16 e Le 13,30. Outros o interpretam em relagáo aos judeus, que ficam pos­ tergados, e dos pagáos que se adiantam. 19,30-20,16 Experimentemos 1er a perícope com esses limites: o primeiro v.

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ros seráo últim os, e últim os seráo prim eiros. Os diaristas da vinha — 'O rei­ nado de Deus se parece com um proprietário que saiu de manhá para contratar trabalhadores para a sua v i­ nha. 2Combinou com eles um denário ao dia e os enviou para a sua vinha. 3Voltou a sair no m eio da manhá, viu outros ociosos na praga 4e lhes disse: Ide também vós para a m inha vinha, e vos pagarei o que for justo. 5Eles foram. Voltou a sair ao meio-dia e no meio da tarde e fez o mesmo. 6Ao cair da tar­ de, saiu, encontrou outros parados e lhes disse: O que fazeis aqui parados todo o dia sem trabalhar? 7Respondemlhe: Ninguém nos contratou. E ele lhes diz: Ide também vós para a minha vi­ nha. 8A o anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz: Reúne os trabalhado­ res e paga-lhes sua diária, comegando pelos últimos e acabando pelos primeiros. 9Passaram os do entardecer e receberam um denário. 10Quando chegaram anuncia e o último explica, em perfeita inclusáo. No comego anuncia-se urna inversáo de valores que no final desemboca numa igualdade. A relagáo correta do homem com Deus decide-se no trabalho. Quer proceder em regime de obras, por via de justiga? Farà um contrato com Deus, trabalhará pelo salàrio, o pedirá em justi­ ga e o receberá. Mas náo ficará satisfeito ao contemplar a sorte do companheiro: protesta e insinua injustiga em Deus; por­ que tem urna idéia da justiga distributiva que exige proporgáo matemática de traba­ lho e salàrio. Sua idéia de méritos e direitos gera inveja e mesquinhez. Quer o outro trabalhar em regime de necessidade pròpria e generosidade do patráo? Entáo nao terá que postular a proporgáo, mas aceitar agradecido a desproporgáo. Deus náo é injusto ao ser generoso. Jesús, como capataz, vem repartir. Cabe ao homem pro­ curar o regime favorável. O último náo tinha trabalho nem encontrava patráo. Existe melhor patráo do que Deus? Contanto que a pessoa náo queira submetè-lo ao regime da justiga comutativa.

os primeiros, esperavam receber mar, no entanto, também eles receberam um denário. n Ao recebé-lo, protestai.m > contra o proprietário: 12Estes último trabalharam urna hora e os igualaste .1 nós, que suportamos a fadiga e o calih do dia. 13Ele respondeu a um deles: A 1111 go, nao te faço injustiça; nao combina mos um denário? 14Portanto, toma o <|iu' é teu e vai-te. Eu quero dar ao último o mesmo que a t i . 15A caso nao posso dis por de meus bens como me agrada? Ou tens de ser mesquinho por eu ser geni roso? 16Assim, serào prim eiros os últi mos e últimos os primeiros. Novo anùncio da m orte e ressurrci çâo (M e 10,32-34; Le 18,31-34) 17Quando Jesus subia para Jerusalém tom ou à parte os doze e pelo caminho lhes disse: — 18Vede, subim os a Jerusalém , e este Homem será entregue aos sumos sacerdotes e letrados, que o condenarâo à morte. 19Eles o entregarâo aos pa gâos para que o injuriem, o açoitem e o

20.1 Começa uma série de très parábo­ las sobre a vinha. Vinha ou videira é imagem tradicional de Israel (Is 5; SI 80 etc.), e se aplicam depois à Igreja. 20.2 A jomada costumava ser de sol a sol e pagava-se diariamente (diària = diurnalis). 20,6-7 Deduz-se que os últimos fossem gente necessitada, sem trabalho e sem diària. 20,8 Segundo o costume de Lv 19,13; Dt 24,15; Jó 7,2. Ainversáo da ordem nor­ mal é significativa. 20.15 Semitismo: mesquinho, invejoso. Veja-se a engenhosa instruçâo de Eclo 14,3-10. 20.16 A sentença final é aberta. Aplica­ se à relagáo dos judeus e pagâos em relaçâo ao reino, aplica-se dentro da Igreja em diversas circunstâncias. Os primeiros refugiam-se em suas prestaçôes de serviço, os últimos na generosidade de Deus. 20,17-19 Terceiro anúncio da paixâo (16,21; 17,22), ao empreender a última viagem para Jerusalém. Essa subida é como uma peregrinaçâo pascal, em dire-

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i tinil i<|ucm. No terceiro dia ressusillniii. I'm i Ira a ambigáo (M e 10,35-45) — "I niao se aproxim ou a máe dos Zebei I i m i s a u n seus filhos e se prostrou para Iti/er um pedido. 21Ele lhe perguntou: Que desejas? Kcspondeu: Ordena que, quando reinares, esli s dois filhos meus sentem um á tua iliicitu e outro á tua esquerda. "Jesús lhe respondeu: Nao sabéis o que pedis. Sois capa/i\s de beber a taga que eu vou beber? Respondem: — Podemos. ^'Diz-lhes: — Bebereis m inha taga, mas sentar á ininha direita e esquerda nao cabe a mim i'onceder; será para aqueles a quem meu l’ai destinou. 24Quando os outros dez ouviram isso, l'icaram indignados com os dois irmáos. 25Mas Jesús os cham ou e lhes disse: — Sabéis que entre os pagaos os govemantes submetem os súditos, e os po­ derosos impóem sua autoridade. 26Náo çâo à nova páscoa. Segundo o texto, a sentença de morte procede das autoridades judaicas, a execuçâo cabe aos pagaos. 20,20-28 Continua o tema de grandes e pequeños, desta vez no plano do poder. O episodio acontece no círculo dos doze e mostra como os apóstolos entenderam mal o ensinamento do Mestre. Do fato concre­ to Jesús sobe ao principio geral, válido para a sua comunidade. O pedido da máe pode recordar as ma­ nobras de Betsabéia em favor de seu filho Salomáo (IRs 1,15-21) e se enlaça com a promessa dos doze tronos (19,28): entre os doze haverá dois privilegiados, os ¡me­ diatos do rei. Jesús mostrou preferencia por eles, como antes por Pedro (4,21; 17,1). Pretendem os irmáos superar ou anteciparse a Pedro, passar de segundos a primeiros? A “taça” é a da paixáo (Jr 25,15-29; Ez 23,32-34; Is 51,17-23; SI 75,9). A máe dos Zebedeus assistirá um dia à paixâo e mor­ te de Jesús (Mt 27,55-56). Quando Mateus escreve, a prediçâo já se cumpriu em Tiago

será assim entre vós; pelo contràrio, quem quiser ser grande entre vós, que se torne vosso servidor; 27e quem qui­ ser ser o primeiro que se torne o vosso escravo. 28Da mesma form a que este Homem nao veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida como resgate por todos. Cura dois cegos (M e 10,46-52; Le 18, 35-43) — 29Quando partiram de Jericó, urna grande m ultidáo o seguía. 30Dois cegos, que estavam sentados à beira do cam inho, quando ouviram que Jesús passava, puseram-se a gritar: — Senhor, filho de Davi, tem compaixáo de nós! 31A multidáo os repreendia para que calassem. Mas eles gritavam mais forte: — Senhor, filho de Davi, tem compaixáo de nós! 32Jesus se deteve e lhes falou: — Que quereis que vos faga? 33Responderam : — Senhor, que nossos olhos se abram. 34Compadecido, Jesús lhes tocou os olhos, e no mesmo instante recobraram a visáo e o seguiram. pelo martirio (At 12,2), nao em Joáo. Mas também existe paixáo sem chegar ao mar­ tirio. Aqui temos outro exemplo de que nem tudo o que pedimos nos é concedido: “ainda que náo saibamos pedir como é devido” (Rm 8,26). Um modo de exercer o poder no mundo civil é autoritario e tiránico: náo pode ser­ vir de modelo para a comunidade de Je­ sus. Nela haverá autoridade, mas vai ser exercida náo por alarde de poder, mas com espirito de servigo. (Ver como o expoe Pedro, lPd 5,1-4.) Tal é a grandeza e a primazia no reino. Jesús é o exemplo su­ premo (cf. Is 53,12; lTm 2,6). O símbolo do “resgate”, com termos aparentados, aparece em outros textos: Rm 3,24; ICor 1,30; Ef 1,7.14. Segundo SI 48,8-10, ninguém pode entregar o resgate de sua vida, para viver sempre. 20,29-34 O episodio dos cegos se encontra a meio caminho. Prolonga as instrugóes aos discípulos com o tema do se­ guimento; antecipa o triunfo de Jerusalém

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E ntrada triu n fal em J eru sa ­ lem (Me 11,1-11; Le 19,28-38; Jo 12,12-19) — 1Ao chegar perto de Jerusalém, entraram em Betfagé, ju n ­ to ao m onte das O liveiras. Entáo Je­ sus enviou dois discípulos, 2encarregando-os: — Ide á aldeia em frente e logo en­ contrareis um a jum entinha amarrada e urna cria junto a ela. Soltai-a e trazei-a. 3Se alguém disser algo, lhe diréis que o Senhor precisa deles. Dizendo isso os enviou. 4Isso aconteceu para que se cumprisse o que fora com a confissáo dos cegos (cf. 21,9.15). É urna cura messiànica (cf. Is 29,18). A cegueira corporal é compensada por sua agudeza espiritual: reconhecem Jesús como descendente davidico, o Messias; tres vezes invocam-no como Senhor; refugiam-se em sua compaixáo. Ao toque de Jesus recuperam a visáo (cf. Is 35,5) e se tomam seguidores ou discípulos. O seu grito passou à liturgia na forma: “Senhor, tende piedade de nós”.

anunciado pelo profeta: 5Dizei à cid.i de de Siâo: Vé o teu rei que está cIk gando: humilde, cavalgando um asno uma cria, filho de uma jum enta. ' <» discípulos foram e, seguindo as instiu çoes de Jesus, 7levaram-lhe a jumentil e o jum entinho. Puseram os manto, sobre eles e o Senhor montou. 8Um.i grande multidáo forrava o caminho con seus mantos. 9A multidáo na frente o atrás dele clamava: — Hosana ao filho de D avi! Bendilo aquele que vem em nome do Senhoi Hosana ao Altissim o! de galileus peregrinando a Jerusalém pan a Páscoa se transforma em entrada reve ladora, acompanhada pelo fervor popula i Deve-se 1er sobre o pano de fundo das acia magóes na entrada de um rei: Saloman (IRs 1,38-40), Jeú (2Rs 9,13.30). O epi sòdio está iluminado por très citaçôes coni binadas e adaptadas: chegada do Salvadoi (Is 62,11), entrada humilde do Messias (Ze 9,9), hosana de súplica e aclamagáo (SI 118,25-26). Jesus é recebido como o rei messiànico: ele o aceita, mas salientando o caráter pacífico, sem aparato militar ou cortesáo (nao alarma os romanos). Nao monta um espetáculo: inclusive o jumen­ tinho está à sua disposigáo, por designio superior. Jesús age como diretor de cena sapiente e dominador. 21,5 Cita a primeira frase: os ouvintes ou leitores conheciam o contexto, que anuncia a chegada de “teu Salvador”. O texto grego de Zacarías tem très adjetivos: justo, salvador, humilde (o hebraico diz “vitorioso” em segundo lugar). Mateus retém só o terceiro adjetivo, que nao contradiz as bem-aventuranças. O jumentinho era cavalgadura pacífica e mansa (Jz 5,10); a mula podia ser cavalgadura règia (IRs 1,38.44); para a guerra serviam muías e cavalos (Jz 5,22; 2Sm 18,9). O contexto de Zacarías anuncia a destruiçâo do apa­ rato bélico. 21,9 O grito Hosana é antes um grito de socorro (2Rs 6,26-27). Depois se conver­ te em aclamagáo e se tornou familiar por causa do Salmo 118, recitado na festa das Tendas. O ato de bendizer admite duas leituras: a) “Em nome do Senhor” ligado com “bendito”, bendiz invocando o Senhor

21-25 Formam um bloco compacto e estilizado, que Mateus compòe para mos­ trar a tensáo crescente entre Jesus e as autoridades judaicas, e para preparar o de­ senlace na paixáo e morte. As fortes tens5es entre judaismo e cristianismo na épo­ ca da composigáo do evangelho influem na redagáo acentuando o tom e os detalhes polémicos. Entre o Jesús histórico e a igreja do autor se dá uma correlagáo que configura o relato. Deve ser lido olhando as duas vertentes. A interpretaqáo precisa levar em conta o gènero literário da con­ trovèrsia, presente entre escolas filosófi­ cas ou entre seitas de uma religiáo. Pode ter havido também influéncia de alguns modelos de violenta denuncia profètica e de polèmica com falsos profetas, inclusi­ ve no debate de Jó com os amigos nao faltam palavras injuriosas. As discussoes com as autoridades judaicas combinam com os ensinamentos para a comunidade. 21 , 1-11 A cena faz o papel de pórtico para o que se segue; realiza a mudanga de cenário e oferece um fundo de contraste. O que pode ter sido uma simples caravana

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•••Uiiando entrou em Jerusalém, toda i Hiliule perguntava agitada: t» Uuem é esse? a multidáo respondía: liste é o profeta Jesús, de Nazaré •t (laliléia.
Purifica o tem plo (M e 11,15-19; Le

iíl4í-48; Jo 2,13-22) — 12Jesus entrou Icmplo e expulsou todos os que venlllm e compravam no templo, virou as •HVNns dos cam bistas e as cadeiras dos iU |Cvendiam pom bas. 13Disse-lhes: t»- Está escrito que minha casa será H M Dde oragao, ao passo que vos a confirlestes em covil de ladróes.

14No templo aproxim aram -se cegos e coxos, e ele os curou. 15Quando os sum os sacerdotes e letrados viram os milagres que fazia e as crianzas no tem ­ plo gritando Hosana ao filho de Davi!, ficaram indignados 16e lhe disseram: — Ouves o que estáo dizendo? Jesús lhes respondeu: — Sim; nunca ouvistes que tirarei um louvor da boca de bebés e crianzas de peito? 17Deixando-os, saiu da cidade e se dirigiu a Betánia, onde passou a noite. A figueira seca (M e 11,12-14.20-24) — 18De manhá, a caminho da cidade,

momo diz o original hebraico; ver o texto iilíssico de Nm 6,24-26). b) “Vem em mime do Senhor”, como seu representanII, “Filho de Davi” é título messiànico (20,29.31). 21.10 Compare-se essa agitacelo com a ile 2,3, pelo nascimento do descendente de Olivi. 21.11 A expressáo “o profeta” poderia despertar a recordagáo de Dt 18,15. De Nuzaré: 2,23. 21,12-17 Apurificagáo do templo é con«cqüéncia do que precede: entra na capi­ tili, dirige-se ao templo para purificá-lo, como anunciara Malaquias: “Logo entra­ rá no santuàrio o mensageiro da alianza que procuráis” (MI 3,2). O templo fora centro religioso e também político, dir-selu centro de gravidade de residentes e da diàspora. Mais do que urna purificalo sis­ temática, o gesto de Jesús é agáo simbóli­ ca: em àmbito restrito, dá urna licjáo com nutoridade. O que era o comércio de gado c de moedas no pàtio maior do recinto do templo se pode deduzir de testemunhos da época: centenas ou milhares de caberas de gado e de aves, càmbio de moeda de muitos países. Se a operagáo era necessària, prestava-se a múltiplos abusos, tolerados pela autoridade. Desfigurava o sentido e a t'unqáo do templo. Jesús rubrica seu gesto com duas citaQÓes proféticas combinadas. A primeira (Is 56,7) se lè no principio da terceira parte do livro de Isaías, numa importante mudanga da legislado. A segunda (Jr 7,11) é

tomada do discurso de Jeremías contra o abuso no templo (como talismá mecáni­ co), que quase lhe custa a vida. O covil é o lugar onde os bandidos abrigam sua impunidade. As palavras de Jesús apontam mais além dos comerciantes e cambistas. Pode-se acrescentar o final de Zacarias (Zc 14,21): “Já nao haverá vendedores no templo”. 21.14 Sobre cegos e coxos, ver Lv 21,18, que legisla sobre os sacerdotes, e 2Sm 5,8, que recolhe um dito proverbial: “Nem coxo nem cegó entre no templo”. O tem­ plo é lugar para acolher os necessitados e fazer o bem. 21.15 As autoridades cultuais e doutrinárias consideram profanado do templo essas curas e a aclamagáo messiánica das criangas (recorde-se o incidente entre Amos e Amasias, Am 7,10-15). Jesús res­ ponde citando SI 8,3, que equivale a dizer: a aclamagáo messiánica á minha pessoa é louvor provocado por Deus. 21,18-22 Cena á primeira vista incon­ gruente. Os profetas praticaram a agáo sim­ bólica, explicada depois, como forma de predican. Jesús age aqui como profeta. A figueira pode representar Israel: “Como figo temporáo na figueira descobri vossos pais” (Os 9,10); Miquéias identifica os fru­ tos com homens leáis e honrados (Mq 7,12); Jeremías, os que recusam converter-se (Jr 8,13). Pelo fato de nao dar o fruto es­ perado (cf. Is 5,1-7, na imagem da vinha), Jesús a amaldicoa (compare-se por con­ traste com SI 1,3-4; 129,8; Is 65,8). O Is-

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sentiu Come; 19vendo urna figueira ju n ­ to ao caminho, aproxim ou-se, mas encontrou apenas folhas. Disse-lhe: — Jam ais voltes a dar fruto. Imediatamente a figueira secou. 2 1 1 Ao ver isso os discípulos diziam assombrados: — Como Coi que a figueira secou de repente? Jesus !hes respondeu: — Eu vos asseguro que, se tivésseis fé sem vacilar, nao só faríeis o que aconteceu à figueira, mas diríeis a este monte que saia dai e se lance ao mar, e ele o faria. 22E tudo o que pedirdes com fé o recebereis. A autoridade de Jesus (M e 11,27-33; Le 20,1-8) — 23Entrou no tempio e se pòs a ensinar. Aproxim aram -se os su­ mos sacerdotes e senadores do povo e lhe perguntaram: — Com que autoridade fazes isso? Quem te deu tal autoridade? 24Jesus lhes respondeu: — De minila parte vos farei urna pergunta. Se a responderdes, vos direi com que autoridade fago isso. 25Q batismo rael que nao dá fruto será rejeitado (mas complete-se eom a reflexáo de Rm 9— 11). Mais tarde poderá ser aplicada a membros da eomunidade crista (Mt 7,19). A explicadlo nao encaixa e encaixa. Nao encaixa porque do destino da figueira = po­ vo salta para a fé operadora de milagres (17,2; ICor 13,2). Encaixa porque a fé é o primeiro fruto que se exige ou a seiva da árvore. 21,23-27 O discurso do templo (Jr 7 e 26) custou a Jeremías um processo no qual confirmou sua missáo profética. A atuagáo de Jesús no templo o conduz a urna espécie de interrogatorio oficial, ante au­ toridades religiosas e civis; já intervieram os doutores. Na autoridade de ensinar e fazer milagres está comprometida toda a missáo e identidade de Jesús. Ele trans­ forma o interrogatorio em controvérsia de estilo rabínico: responde perguntando. E lógico que os sacerdotes indaguem sobre a fonte de urna autoridade exercida em seus dominios; nao é justo que de ante­

de Joño, de onde procedía: de Deus dos homens? Eles discutiam aquestáo: Se di/em de Deus, ele nos perguntará por que n¡ii( eremos nele; 2hse dizemos dos honw " o povo nos assusta, pois todos tém I* como profeta. 27Por isso responderán! a Jesús: — Nao sabemos. Ele lhes replicou: — Tampouco eu vos digo com t|in autoridade lago isso. O s dois filhos — 28Que vos paro i ) Um homem tinha dois filhos. Dirigm se ao primeiro: Filho, vai hoje tralu Ihar na minha vinha. 29Respondeu-lhe: Sim, senhor. Mal nao foi. 3l)Depois foi dizer o mesmo .m segundo. Este respondeu: Nao quei" M as logo se arrependeu e foi. 3*Qual dos dois cum priu a vontade de sen pai? Dizem-lhe: — O último. E Jesús lhes diz: — Eu vos asseguro que os coletore e as prostitutas entraráo antes de viV máo déem por condenada a resposta vei dadeira. Condenar antecipadamente nao é julgar. Jesús foge de urna resposta que nao estáo dispostos a aceitar. Por sua parte, ja o povo e um centuriáo romano haviam reeonheeido sua autoridade superior (7,29; 8,9; 9,6-8). No batismo de Joáo está im­ plicada sua missáo de mostrar que o Messias está presente. Além disso, Joáo é como um esbogo de Jesús. A controvérsia se prolonga em tres pa­ rábolas de grande alcance: os dois filhos, os vinhateiros, os convidados ao casamen to. As trés contém um elemento de condenagáo e um de salvagáo. 21,28-32 A parábola dos dois filhos está reduzida a um esquema, que é o dizer e o agir em resposta á vontade de Deus. Os dois filhos podem representar diversos personagens: o povo do Israel histórico que disse sim (Ex 19,8) e nao cumpriu (p. ex. Jr 2,20); a geragáo do momento, com respeito á pregagáo do Batista (cf. 3,7) e de Jesús. O outro filho representa qualquer

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i ii ino ile Deus. 32Porque veio Joào, min.nulo o cam inho da honradez, e tu i ii sies nele, ao passo que os coleut»* i' as prostitutas creram . E vós, i I m i i i o ilepois de ver isso, nào vos ar. (ii'iulestes nem crestes nele. 12,1-12; Le 20,9-19) "l .scutai outra paràbola. Um proprie'H1*1 plantou urna vinha, rodeou-a com xii.i eerca, cavou um lagar e construiu nini lorre; a seguir arrendou-a para llallis agricultores e partiu. 34Quando hrtfou a colheita, enviou seus servos i*iiin recolher dos agricultores o fruto |iii Ihe cabia. 35Eles agarraram os ser­ ví is: espancaram um, mataram outro e i|ieilrejaram o terceiro. 36Enviou outros mi vos, mais num erosos que os primeiii is, e os trataram da mesma forma. 37Fiimlinente lhes enviou seu filho, nensan.1 * 1(|ue respeitariam seu filho. 3hMas os ip.i ¡cultores, ao ver o filho, comentaram:
11 »vlnhuteiros (Me

E o herdeiro. Vamos matá-lo e ficar com a heranga. 39Agarrando-o, langaram-no fora da vinha e o mataram. 40Quando voltar o dono da vinha, como tratará aqueles agricultores? 41Respondem-lhe: — Certamente destruirá aqueles mal­ vados e arrendará a vinha a outros agri­ cultores que Ihe entreguem seu fruto na colheita. 42Jesus lhes diz: — Nunca lestes na Escritura: A p e ­ dra que os arquitetos desprezaram ago­ ra é a pedra angular; é o Senhor quem fe z isso e nos parece uní m ilagrel Por isso vos digo que vos tiraráo o reino de Deus e o daríto a um povo que dé os frutos devidos. [44Quem tropezar nessa pedra se despedazará; aquele sobre o qual ela cair ficará esm agado]*. '5Quando os sumos sacerdotes e os fariseus ouviram suas parábolas, compreenderam que falava deles. 46Tenta-

38), Azarias, lapidado no àtrio do templo mu que se arrependa: as duas categorías por ordem do rei (2Cr 24,20-21). i|»c recebiam entáo o qualificativo de 21.38 No AT pode-se falar da terra como pecadores” (9,10-11; 11,19) e que aceiherdade-heran§a do povo, também do luram o convite do Batista para o arrepovo como heranga do Senhor: IRs 8,51; l*cndimento (3,2.6.8); também o povo Jr 12,8 etc. No salmo messianico (SI 2,8), •los pagaos que se arrepende e crê (cm Deus oferece ao rei, “seu filho”: “PedeIcsus). O caminho da honradez: Pr 8,20; me, e te darei as nagóes como heranya”. O 12,28. Filho de Deus é agora o herdeiro, e seus 21,33-43 Pela imagem da vinha, por alrivais pretendem eliminá-lo para ficar com nuns traços descritivos e pela pergunta a heranc;a. ilirigida ao público tomado como urna es21.39 É fora da cidade que Jesús morre pécie de júri, a perícope recorda Is 5,1-7, que os ouvintes conheciam muito bem e (Hb 13,12). 21,41 É a resposta do júri. Pode-se com­ termina com a identificaçâo “a vinha é a parar com Ct 8,11. Casa de Israel”. E notável na versáo de 21,42-43 Com a citagáo de SI 118,22Mateus a importáncia atribuida aos “fru­ 23, insinua a ressurreigáo como agao do tos” (vv. 34.41.43). Mais importantes sao Pai, que ratifica e revela a dignidade trans­ as diferenças, que sintetizam o drama da cendente do seu Filho. De fato, matando o historia da salvaçâo, como a compreende Filho nao conseguiram seu objetivo: ina comunidade de Mateus: missáo reitera­ correram em culpa grave, ao passo que o da e frustrada dos profetas, envió do Fi­ Filho volta a viver para receber a heranga. lho, sua morte violenta, vocaçâo dos pa­ Exercerá sua autoridade no “povo” novo, gaos. O dono conserva a propriedade, que aberto aos pagaos, nao fechado aos judeus. arrenda, e cobra urna parte dos frutos; os Dará fruto (7,21-23). colonos querem apropriar-se do que é ape­ 21,44 *Falta em vários manuscritos. nas emprestado. 21,35 P. ex. Elias perseguido (IRs 19), Parece tomado de Le 20,18 e acrescentado aqui. Jeremías, julgado e atirado à cisterna para 21,46 O medo do povo, como em 14,5. morrer, conduzido ao Egito à força (Jr 26;

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ram prendé-Io, mas tiveram medo da multidáo, que o tinha com o profeta. O banquete de casam ento (Le 14,15-24) — 'Jesús tomou de novo a palavra e lhes falou usando parábolas. 20 reino de Deus se parece com um rei que celebrava o casamento de seu filho. 3Enviou seus servos para chamar os convidados ao casam ento, mas estes nao quiseram ir. 4Entáo enviou outros servos, recom endando que dissessem aos convidados: Meu banquete está pre­ parado, os touros e anim ais cevados foram degolados e tudo está pronto. Vinde ao casamento. 5M as eles se desculparam: um foi para seu campo, outro para seu negocio; 6outros agarraram os servos, os m altrataram e mataram. 70 rei se enfureceu e, enviando suas tropas, acabou com aqueles assassinos e incendiou sua cidade. 8Depois disse a 22,1-14 A perícope se compóe de dois trechos. A parábola dos convidados ao ca­ samento (1-10), a adigáo parabólica sobre o traje para o banquete (11-14). Na primeira parte cresce, como cunha, um epi­ sodio bélico. Segundo alguns, a primeira parte se refere ao destino do povo judeu e á vocagáo dos pagáos, isto é, repete o es­ quema da parábola precedente; a segunda se dirige á comunidade cristá. Outros co­ mentaristas propóem urna interpretado mais diferenciada. Os empregados repre­ sentan! os missionários cristáos que pregam aos judeus até a destruido de Jerusalém; vem a seguir a pregagáo aos pagáos, que se encerra com urna visáo escatológica. A parábola é contada e lida no tem­ po da Igreja, apesar de colocada na etapa final de Jesús. A introducto deixa aparecer um símbo­ lo de grande alcance, que se mantém como fundo do relato: o convite visa sempre a um casamento. É o símbolo do Messias esposo, próprio do NT (Jo 1-3; 2Cor 11,2; Ef 5; Ap 19 e 22 etc.), prefigurado no sím­ bolo nupcial entre Yhwh e Jerusalém ou a comunidade (Os 2; Is 1,21-26; 49; 54 etc.). O rei pai representa obviamente Deus, e Jesús é seu filho, príncipe herdeiro (náo pode ser sucessor; cf. SI 45). Náo se men­ ciona a noiva (cf. 25,1-13), cujo lugar, com

seus servos: O banquete nupcial esta preparado, mas os convidados náo o mereciam. 9Portanto, ide as encruzilhadas e convidai para o casamento todos os que encontrardes. 10Os servos saíram pelos caminhos e reuniram todos os que encontraram , maus e bons. O saláo se encheu de convidados. u Quan do o rei entrou para ver os convidados, observou um que náo usava traje apropriado. 12Disse-lhe: Amigo, como entras­ te sem traje apropriado? Ele emudeceu. 13Entáo o rei ordenou aos serventes: Atai-lhe pés e máos e langai-o fora ñas trevas. A i haverá pranto e ranger de dentes. 14Pois sao m uitos os convida­ dos e poucos os escolhidos. O tributo a César (M e 12,13-17; Le 20,20-26) — 15Entáo os fariseus foram deliberar um modo de enredá-lo com suas palavras. 16Enviaram -lhe alguns menor coeréncia, os convidados ocupam (o autor precisa de um plural). O banque­ te expressa o gozo do casamento: repre­ senta a participado da Igreja e aponta para a consumagáo escatológicá (cf. Is 25,6-8; Mt 26,29; Ap 19,9). Os enviados sáo os profetas e, no horizonte eclesial de Mateus, os pregadores do evangelho. 22,6-7 Este episodio, concisamente re­ ferido, rompe a lógica do relato: introduz a violencia náo justificada dos convidados (em lugar da desculpa), reúne os culpados numa cidade, menciona uma expedigáo militar. Nesses vv. se vislumbra a destrui­ d o histórica de Jerusalém no ano 70. 22,10 Maus e bons: entende-se, em sua conduta precedente (Pr 15,3). A nova cha­ mada náo se baseia em méritos adquiri­ dos. Esse dado serve para enganchar a cena acrescentada. 22,11-14 Náo obstante, o salto é violen­ to e exige do leitor colocar-se na situagáo da Igreja. O traje vai simbolizar sua con­ duta de acordo com o chamado e a fungáo (cf. Ap 15,6; Is 61,10). A exclusáo do rei­ no, fato negativo, é representada pela imagem das trevas, que podem ser as da morte (Jó 10); o pranto é a reaejáo do excluido, contraposta ao gozo da festa. 22,15-44 Quatro perguntas e respostas mostram a crescente tensáo com as auto-

22,23

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discípulos seus, acompanhados de herodianos, que lhe disseram: — Mestre, consta-nos que és veraz, que ensinas sinceramente o caminho de Deus e nao te importa ninguém, porque nao fazes distingáo de pessoas. ,7Dizenos tua opiniáo: E lícito pagar tributo a César ou nao? 18Jesus, adivinhando sua má intengao, Ihes disse: — Por que me tentáis, hipócritas? l9M ostrai-me a moeda do tributo. Apresentaram-lhe um denário. 20E ele lhes diz:

— De quem é esta imagem e esta inscriçâo? 21Respondem: — De César. Entáo lhes disse: — Pois dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. 22Ao ouvir isso, se surpreenderam, o deixaram e se foram. A ressurreiçâo (Me 12,18-27; Le 20, 27-40) — 23Naquela ocasiáo aproximaram -se alguns saduceus (que negam a ressurreiçâo) e lhe disseram:

ridades judaicas; refletem também a atitude de comunidades cristas quando Mateus escreve. Très vezes Jesus é interrogado, a quarta pergunta é ele que faz e deixa sem resposta. As perguntas e os interlocutores váo mudando: a primeira, sobre o tributo, perguntam fariseus por meio de discípu­ los unidos a seguidores de Herodes; a se­ gunda, sobre a ressurreiçâo, perguntam os saduceus; a terceira, sobre o preceito má­ ximo, pergunta um fariseu com título de letrado doutor (segundo alguns manuscri­ tos e Le 10,25); a quarta, sobre o filho de Davi, Jesus interroga os fariseus. Podemos classificar aproximadamente: a primeira é política, a segunda teológica, a terceira ética, a quarta messiànica. 22,15-22 O primeiro, diz Mateus, é urna conspiraçâo premeditada. Os discípulos de fariseus podem perguntar fingindo curiosidade inocente e antecipando um elogio; os herodianos sao dependentes de um po­ der estabelecido ou respaldado pelos ro­ manos. Os fariseus em geral nao simpatizavam com Herodes. A pergunta tenta conduzir Jesus a um ter­ reno extremamente perigoso. É a vertente económica da política, na qual entram em jogo a lealdade e a submissáo ao poder im­ perial. Pode ter conotaçâo religiosa porque a inscriçào da moeda reza: Tiberius Caesar divi Augusti filius Augustus. Os publícanos andavam ás vezes acompanhados por sol­ dados romanos. A resposta de Jesús é habilíssima: delata a má intençâo ou “hipocrisia”, rompe os fios da rede que lhe lançam e levanta seu ensinamento a um ni­ vel superior, de maior alcance.

Se reconhecem o curso legal da moeda, pois a exibem, é porque entraram no siste­ ma económico, e devem aceitar suas conseqüéncias. Mas, acima de qualquer po­ der humano está Deus, e o homem é a imagem de Deus. A missáo de Jesús nao é uma libertado política; ele veio libertar o homem restabelecendo sua rclacjao com Deus. O principio, em sua form ulado la­ pidar, tem sido fonte de inspirado e de interpretares ou aplicagóes diversas, nem sempre acertadas; porque as comunidades cristas vivem dentro de instituidas políti­ cas. A resposta de Jesús, inesperada em sua segunda parte, mostra que a pergunta foi mal colocada (bom ensinamento hermenéutico para o intérprete da Biblia). 22,23-33 Sobre os saduceus e a ressurreigáo, Lucas nos oferece uma divertida ilus­ trad o (At 23,6-10). Vem a propósito por­ que, nesse ponto, os saduceus eram inimigos dos fariseus. Para o leitor cristáo, é inevitável a recordado de ICor 15,12-14: “Ora, se se proclama que Cristo ressuscitou da morte, como dizem alguns de vós que nao há ressurreigáo de morios? Se nao há ressurreigáo de morios, tampouco Cristo ressus­ citou; e se Cristo nao ressuscitou, é vá nossa proclamado, é vá nossa fé”. Os saduceus nao se dáo conta de que estáo abordando o grande tema messiánico (cf. Jo 10,10). Os saduceus baseiam seu caso na lei do levirato, em virtude da qual o cunhado deve tomar a viúva do irmáo sem filhos para dar-lhe um filho e perpetuar o nome do defunto (Dt 25,5-10; Rt 4). Aapresentagáo do caso é burlesca, como de quem se sente seguro e pode ironizar.

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22 , 2.1

— ^M estre, Moisés ordenou que quan­ do alguém morre sem filhos, seu irmào case com a viúva, p a ra dar descen ­ dencia ao irmào defunto. 25Pois bem, havia em nossa com unidade sete irmàos. O primeiro casou, morreu sem descen­ dencia e deixou a mulher a seu irmào. 2óO mesmo aconteceu com o segundo e o terceiro, até o sétimo. 27Depois de todos morreu a mulher. 28Quando ressuscitarem , de qual dos sete será a m u­ lher? Pois todos foram maridos dela. 29Jesus lhes respondeu: — Estáis enganados, porque nào entendeis as Escrituras nem o poder de Deus. 30Quando ressuscitarem, os homens e as mulheres nào se casarào, mas seráo no céu como anjos de Deus. 31E a propòsito da ressurreicíio, nao lestes o que Deus vos diz? 32Eu sou o D eus de Abrado, o Deus de Isaac, oD eusdeJacó. Nào é um Deus de mortos, mas de vivos. 33Ao ouvi-lo, o povo ficava assombrado com seu ensinamento. 34Os fariseus, ao saber que havia fe­ chado a boca dos saduceus, reuniramse num lugar. 35E um deles* lhe perguntou capciosamente: Jesus responde de frente. A colocagào é distorcida, porque supoe que a outra vida seja repetigào e prolongamento da presen­ te. A vida do ressuscitado é obra do “po­ der de Deus”, que estabelece a nova con­ d i l o humana (cf. ICor 25,35-53). Depois cita um texto do Pentateuco (que os sadu­ ceus reconhecem), no qual o pròprio Deus se apresenta e se define (Ex 3,6): o Deus da Escritura nào é um deus infernal (cf. SI 49,15; Is 28,15), mas vivo, da vida, dos vivos. Quando os judeus invocam o “Deus de nossos pais/patriarcas”, nào invocam um soberano de mortos. 22,34-40 A pergunta se explica, porque os fariseus contavam 613 preceitos na lei, 365 proibigóes e 248 mandamentos. Era mister sabè-los e praticá-los todos. Era necessàrio estabelecer urna hierarquia para casos conflitivos e também porque o pri­ meiro devia reger todos os demais. Miquéias sintetiza todas as obrigagóes na lealdade com o próximo, a humildade com Deus (Mq 6,8). Jesús responde combinan-

— 36Mestre, qual é o preceito mais importante na lei? 37Respondeu-lhe: — Am arás o Senhor teu D eus de todo o coragáo, com toda a alma, com toda a mente. 38Este é o preceito m ais im ­ portante; 39porém, o segundo é equiva­ lente: Amarás o próxim o como a ti m es­ mo. 40Esses dois preceitos sustentam a lei inteira e os profetas. O M essias e Davi (M e 12,35-40; Le 20,41-44) — 41Estando reunidos os fa­ riseus, Jesús propós urna questáo: — 420 que pensáis sobre o Messias? De quem é filho? Respondem-lhe: — De Davi. 43Ele lhes diz: — Entáo, como Davi, inspirado, o chama Senhor, dizendo: 44D isse o Se­ nhor a meu Senhor: Senta-te à minha direita até que eu faga de teus inimigos estrado de teus p é s i 45Pois se Davi o chama Senhor, como pode ser seu filho? Ninguém podia responder-lhe, e dai em diante ninguém se atreveu a fazerlhe perguntas. do Dt 6,5 com Lv 19,18. A integragáo dos dois amores, de Deus e do próximo, é seu ensinamento fundamental. A lei e os pro­ fetas é toda a Escritura (Mt 7,12). Pela colocagáo no contexto, esse ensinamento de Jesús tem algo de testamentàrio. 22,35 *Alguns manuscritos acrescen tam: um doutor da lei... 22,41-46 Supóe a atribuigáo tradicional do Salmo 110 a Davi e sua interpretagào messiànica, ambas comumente aceitas na época. O título messiànico Filho de Davi aplica-se reiteradamente a Jesús (8 vezes em Mt). O texto grego do salmo repete o vocábulo Kyrios: o texto hebraico distingue Yhwh e ’adony (o primeiro divino, o segundo nào). Dada a invocagáo de Jesús como Kyrios na comunidade cristà, a frase recebe urna luz obliqua. Se Davi fala “inspirado”, Deus ga­ rante o que ele diz. A conclusáo seria que o Messias é mais que simples descendente de Davi, conclusáo que os interlocutores nào parecem dispostos a aceitar. 22,44 SI 110,1.

23,14

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In vectiv a co n tra os fa riseu s (Le 11,37-54) — ^ n tá o Jesús, ilirigindo-se á multidáo e aos discípu­ los, 2disse: — Na cátedra de Moisés sentaram-se os letrados e fariseus. 3Praticai o que vos ordenarem, mas nao imitéis o que fazem; pois dizem e nao cumprem. Amarrara lardos pesados e os póem nos ombros das pessoas, enquanto eles se negam a mové-los eom um dedo. 5Fazem tudo para exibir-se as pessoas: carregam faixas largas e borlas grandes. 6Gostam de ocupar os primeiros lugares nos banque­ tes e os primeiros assentos ñas sinago­

gas; 7de serem saudados pelas pessoas na rúa e serem chamados mestres. 8Náo vos faga is chamar de mestres, pois um só é o vosso mestre, ao passo que todos vos sois irmáos. 9Na térra a ninguém chaméis pai, pois um só é o vosso Pai, o do céu. 10Nem vos chaméis instrutores, pois vosso instrutor é um só, o Messias. O maior de vós seja vosso servidor. ,2Quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado. 13A i de vós, letrados e fariseus hipó­ critas, que fecháis aos homens o reino de D e u s!14Vós náo entráis nem deixais entrar os que o tentam*.

23.1 -36 Aquí culmina a polèmica da comunidade crista com as autoridades reli­ giosas judaicas. A redagáo provavelmente reflete a época em que os cristáos já tinham sido excluidos da comunidade judaica. O gènero de polèmica explica indubitáveis exageras ou sim plificares ao descrever o contràrio; alguns tragos sào mais caricatu­ ra que retrato. Léem-se coisas semelhantes em escritos filosóficos polémicos da épo­ ca. O texto se apresenta condicionado pe­ las circunstancias e pelo gènero. A descrigào e caracterizado de letrados e fariseus náo concorda em tudo com o que sabemos desses grupos através de outras fontes. Por outro lado, é possível e conveniente tomar o texto como descric;fio de tipos que se podem encontrar em outros grupos religiosos, inclusive a pròpria comunidade. O hipócri­ ta, como tipo humano, fica desmascarado. Compoe-se de sete ais, gènero que já se encontra em séries em textos proféticos (Is 5,8-23; Hab 2,7-20). O número 7 parece in­ tencional. Predomina neles acontradigáo da conduta e a hipocrisia. Grande afa proselitista, mas resisténcia ativa contra o reino, o pequeño e o grande, o interior e o exterior, agressáo em vida e honras após a morte. 23.1 A introducilo faz o texto soar como de­ nùncia pública; ao mesmo tempo dá a enten­ der que oferece algo especial para os discípulos 23.2 Escritos rabinos descrevem Moisés sentado numa “cátedra” para ensinar, como fundador de urna tradigáo oral que os doutores dizem conservar e transmitir (Jesús também se senta para ensinar, Mt 13,2; 26,55). Significa o ensinamento autorizado de Moisés para as geragóes sucessivas (Dt 4,2; 32,46).

23.3 Para fazer concordar este aviso com outros precedentes (p. ex. as antíteses do cap. 5) seria preciso restringir seu alcan­ ce: o que vos disserem de acordo com Moisés. A citagáo de Dt 4,2 proíbe acrescentar ou suprimir. Denuncia urna contradigáo radical, dizer e náo fazer. Jesús fez e ensinou, ordenou e deu exemplo. 23.4 Os fardos pesados parecem ser as múltiplas observancias. Jesús impóe um jugo leve (cf. 11,29-30). 23.5 Segundo a lei de Nm 15,38-39; Dt 6,8-9 materialmente entendida, sem respeitar sua fungáo, que era “recordar os mandamentos do Senhor e ajudar a cumpri-los”. 23.6 Vejam-se os conselhos de Pr 25,67; Eclo 13,8-9 e a parábola de Le 14,7-10. 23,8-11 Aqui vemos como Jesús (como Mateus) dirige palavras polémicas aos seus. Também Tiago tem urna preocupagáo semelhante (Tg 3,1). Mestre é o Se­ nhor (Is 48,17), e agora Jesús (Mt 8,19; Jo 13,14 etc.). “Pai” parece tomado aqui co­ mo título honorífico, sem referéncia á paternidade física (veja-se, p. ex., Jz 17,10; Is 9,5). A irmandade de todos na comuni­ dade fica fortemente destacada. 23.11 Segundo 20,26-27 par. 23.12 Aforismo de alcance geral (Jó 22,29; Pr 15,33; 29,23) e de aplicagáo es­ pecial na comunidade cristá. 23.13 Primeiro ai. Refere-se á hostilidade do judaismo contra a pregagáo do evangelho documentada, p. ex., em vários episodios dos Atos. 23.14 *Alguns manuscritos acrescentam o v. 14, tirado de Le 20,47: 1 4 A¿ de vós, letrados e fariseus hipócritas, que devoráis

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15A i de vós, letrados e fariseus hipó­ critas, pois percorreis mar e terra para ganhar um prosélito, e quando o conse­ guís, o tornáis m erecedor do fogo duas vezes mais que vós! lfiAi de vós, guias cegos, que dizeis: Quem jura pelo templo nao se com pro­ mete; quem jura pelo ouro do tempio fica comprometido! ’’Insensatos e ce­ gos, o que é mais importante: o ouro ou o templo que consagra o ouro? 18Dizeis: Quem jura pelo altar nao se com pro­ mete, quem jura pelo dom que há so­ bre o altar fica comprometido. 19Cegos! O que é mais importante: o dom ou o altar que consagra o dom? 20Com efeito, quem jura pelo altar jura por ele e por tudo o que há sobre ele; -'e quem jura pelo templo jura por ele e por quem o habita; 22e quem jura pelo céu jura pelo trono de Deus e por aquele que nele está sentado. 23Ai de vós, letrados e fariseus hipó­ critas, que pagais o dízimo da menta, do anis e do cominho, e descuidáis o mais grave da lei: a justiga, a misericordia e a lealdade. Isso é o que se deve obseros bens das viúvas com o pretexto de fazer longas oragoes. Por isso tereis urna sentenga mais severa! 23,15 Prosélito quer dizer convertido ao judaismo e circuncidado. Por varios sácu­ los os judeus desenvolvcram grande atividade proselitista com notáveis resultados. Como a circuncisáo o obriga a cumprir toda a lei, o expóe ao castigo do descuinprimento. Merecedores do fogo é literal­ mente “filhos da Geena” (13,42), em oposigáo a “filhos do reino” (13,34). 23,16-21 Ridiculariza a interpretado casuística sobre o juramento: nao conde­ na o juramento (comparar com 5,35-37). Normalmente o juramento era feito por Deus; substituindo o nome de Deus, invocava-se o céu ou o templo ou o altar. “Guias cegos”: como em 15,14; Rm 2,19. 23,23-24 Interpretado da lei dos dízimos (Nm 18,11-13; Dt 14,22-23). Em no­ me de coisas pequeñas sacrificam o im­ portante, também exigido pela lei e pelos profetas (Mq 6,8; Am 5,24; Is 1,17; Jr 22, 15; Pr 21,21). Nao é preciso esforgar-se

var, sem descuidar o resto. 24Gma <DI gos, que filtráis o m osquito e bcbaltfl camelo! 25Ai de vós, letrados e fariseus lii|> critas, que limpais por fora a taga ■ . prato, quando por dentro estáo clicm de roubos e devassidáo. 26Fariseu o-p Limpa primeiro por dentro a taca, e nu sim ficará limpa por fora. 27Ai de vós, letrados e fariseus hipoi ii tas, que pareceis sepulcros caiados ¡"» fora sao form osos, por dentro esi i cheios de ossos de mortos e de todo li¡» de impureza. 28Dessa forma, por I o n pareceis justos diante das pessoas, pnij dentro estáis cheios de hipocrisia e inl qüidade. 29Ai de vós, letrados e fariseus hipo critas, que construís mausoléus para o» profetas e monumentos para os justi > • , -°comentando: Se tivéssemos vivido n < tempo de nossos antepassados, nao ir riamos participado do assassinato doprofetas. 31Com isso reconheceis que sois descendentes dos que mataram oí. profetas. 32Portanto, enchei a medida do:, vossos antepassados. 33Serpentes, ninha para ver aqui a descrido de um tipo hu mano. 23,25-26 Refere-se a prescrigóes de pu reza (Lv 6,21; 11,33; Mt 15,11), das quais passa metafóricamente á pureza interior Também aqui identificamos um tipo hu mano. 23,27-28 Cadáveres e sepulcros produziam por contato a máxima contaminagáo e deviam ser evitados (Lv 21,11; Nm 6,6; 19,11-21; Eclo 34,25); por isso se pintavam com cal os sepulcros para serem evi­ tados. Por outro lado eram ornamentados para honra dos defuntos. A comparado dos hipócritas com o mundo da morte é violenta, quase macabra. Alguém conclui­ ría que eram extremamente abomináveis. 23,29-32 O costume de erigir mausoléus ou monumentos funerários está documen­ tado (de Raquel Gn 35,20; de Sobna Is 22,16; do poderoso Jó 21,32). Completam a medida (cf. Gn 15,16), matando o últi­ mo profeta (Dt 18,15), Jesús. 23,33 Comega urna espécie de conclusáo violenta. Víboras: 3,7; 12,34; Is 14,29; 59,5.

H

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li ili víboras! Como evitareis a condeM iii.ii'1 ao logo? 34Vede, para isso vos hh ii 11 uofetas, doutores e letrados: a uns •intinis c crucificáis, a outros agoitais em ...... sinagogas e os perseguís de ciilitilr em cidade. 35Assim recairá sobre ni', ludo o sangue inocente derramado m i ii i i a, desde o sangue do justo Abel iilí o sangue de Zacarías, filho de Barai|iii.is, que matastes entre o àtrio e o al111 M ,liu vos asseguro que tudo recairá inilne esta geragáo. I imientacao p o r Je ru sa lé m (Le 13, l-ls) — 37Jerusalém, Jerusalém, que ma­

tas os profetas e apedrejas os enviados, quantas vezes tentei reunir teus filhos como a galinha reúne a ninhada debaixo de suas asas, e vós resististes. 38Pois bem, vossa casaficará deserta. 39Eu vos digo que a partir de agora nao voltareis a ver-me até que digáis: Bendito aquele que vem em nome do Senhor. Discurso escatológico: Destruigáo do templo (Me 13,1-23; Le 21,5-24) — ‘Jesús saiu do templo e, enquanto caminhava, aproximaram-se os discípulos e lhe mostraram as constru­ y e s do templo. 2Ele lhes respondeu:

Mateus: porque muitos eventos eram fu­ turos e desconhecidos em seus detalhes, e porque se sobrepóem ás perspectivas. No pano de fundo estáo, por um lado, o anúncio de Ezequiel sobre o final trágico e iminente (Ez 7); por outro lado, as escatologias e apocalipses bíblicos e extrabíblicos (como Is 24— 27; 65-66; Zc 14; Dn), com suas fórmulas estereotipadas, suas descrigóes fantásticas, o acompanhamento cósmico, alguns dados temporais, o estilo vago e alusivo. Os apóstolos parecem fundir e confun­ dir duas coisas: a destruigáo do templo e o fim do mundo, quando virá o Messias. Pedem sinais exatos para elaborarem um calendàrio seguro e razoavelmente exato. Acuriosidade se mistura com o temor. Em sua resposta, Jesus recusa toda determinagáo temporal, nao apura a distin­ t o dos dois planos: transforma a infor­ m a lo em exortagáo à vigilancia diante de enganos, á fortaleza frente a trib u íales certas, à expectativa do inesperado diante da desatengáo. Para orientar-nos na leitura, podemos prestar atengáo a temas repetidos: falsos messias e profetas (4-5.11.23-26); catás­ 24-25 Formam o último grande discur­ trofes sociais, políticas (7-8) e cósmicas so de Jesús, dirigido a seus discípulos, so­ (8,29.37-38). Outro recurso de orientagao bre os acontecimentos fináis (escatologia: é distinguir quatro blocos. Dois no centro: do grego eschaton = último). Divide-se em a destruigáo de Jerusalém, prefigurando o très partes: urna descritiva de eventos futu­ juízo final (15-28 e 29-31). Ñas extremi­ ros, outra parenética sobre a vigilancia, e dades uma descrigáo geral e urna exortaa terceira, o quadro do juízo final. gáo à vigilancia (4-14 e 32-44). 24,1-2 Mateus imagina Jesús saindo do 24,1 -44 Este é provavelmente o texto templo e voltando a contemplá-lo a certa mais difícil de interpretar no evangelho de 23,34 Profetas: Zc 1,4; doutores sao os ilicstres sapienciais; letrados, os de Me I ,!,35. Très grupos de pregadores do evan(¡rllio perseguidos violentamente; como o fivro dos Atos pode ilustrar, e já se anunríava no discurso sobre o apostolado (10, 1 /.23). A violéncia homicida começa com o Iralricídio de Caim (Gn 4,8), espécie de pei ido original do odio, passa pelo profeta Zacarías (2Cr 24,20-21) e chega até ao tem­ po em que Mateus escreve. 23,37-39 A lamentaçâo por Jerusalém c sentida. Em Jerusalém concentra-se urna historia de infidelidades (compare-se com o quadro esquemático de Ez 20 e a descri­ ólo da Cidade Sangüinária em Ez 22). Embora haja culpa em seus chefes (cf. Is 1,21-22), a cidade continua sendo amada (Is54,10). Antecedentes de tais sentimentos podem ser os Salmos (SI 74; 79; 102,15) e as Lamentaçôes, que choram culpas e desgraças. Como a galinha: cf. Is 31,5; deserta: Jr 7,14. Conclui com a invocaçâo do SI 118,26, citada também na entrada em Je­ rusalém (21,9). A referencia é escatológica.

m ateus

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24.1

• — Vedes tudo isso? Pois eu vos asseguro que desmoronará, sem que fi­ que pedra sobre pedra. 3Estando sentado no monte das Oli­ veiras, os discípulos se aproximaram em particular, e lhe perguntaram: — Dize-nos quando acontecerá isso e qual é o sinal de tua chegada e do fim do mundo. 4Jesus lhes respondeu: — Cuidado para que ninguém vos engane. 5Pois muitos se apresentaráo alegando meu título, dizendo que sao o Messias, e enganaráo a muitos. 6Ouvireis falar de guerras e noticias de guer­ ras. Atengáo! Nao vos alarméis. Tudo isso acontecerá, mas ainda nao é o fi­ nal. 7Povo se levantará contra povo, reino contra reino. Haverá carestías e terremotos em diversos lugares. 8Tudo isso é o comeqo das dores do parto.

9Entregar-vos-áo para vos torturar c matar; todos os povos vos odiaráo poi causa do meu nome. 10Entáo muitos fa­ lharáo, se trairáo e se odiaráo mutua mente. n Surgiráo muitos falsos profetas que enganaráo a muitos. 12E, ao crescer a iniqüidade, o amor de muitos se esfriará. 13Mas quem agüentar até o fim se salvará. I4A boa noticia do Reino será proclam ada a todas as nagóes, e entáo chegará o fim. A grande tribulagáo (Me 13,14-23; Le 21,20-24) — 15Quando virdes entroni­ zado no lugar sagrado o ídolo abominável anunciado pelo profeta Daniel (o leitor que o entenda), l6entáo os que vivem na Judéia escapem para os mon­ tes; 17quem estiver no terrago náo desga para recolher as coisas da sua casa; 18quem se encontrar no campo náo volte

distancia. Essa imaginagáo tem valor sim­ bólico: Jesús sai do templo, pela última vez, deixa-o definitivamente para trás. E se reúne com seus discípulos, a nova comunidade. O templo magnífico, de gigan­ tescos silhares, construido por Heredes Magno, é o trampolini para saltar ao tema do discurso. Tornou-se proverbial a expressáo “nao ficará pedra sobre pedra”. Pode recordar a destruigáo do templo salo­ mónico, em 586 a.C. (cf. Lm 2,6-7; 4,11). 24,3 Os discípulos perguntam duas coi­ sas sem definir a sua relagáo. “Isso”: a destruigáo do templo. “Tua chegada” é a parusia, o comparecimento do rei em visi­ ta oficial, a vinda gloriosa de Jesús Senhor, que coincide com o fim do mundo (os dis­ cípulos perguntam representando a comunidade crista). 24,4-14 Urna sèrie de acontecimentos tremendos precederá o final, mas nao se podem ordenar num calendàrio. Prevaleceráo a anarquía interior, as guerras entre povos, as catástrofes naturais, a purificagao pelas perseguigóes. Ao juntarem-se a pressáo externa com a crise interna, mui­ tos “falharáo” na fé e na caridade. Tudo junto sao as dores de parto da nova e defi­ nitiva era (8). Portanto, é preciso agüentar e esperar: pois a causa enobrecerá o sofrimento (9), o evangelho será pregado a to-

dos (14), os fiéis se salvaráo (13). A imagem do parto e o anúncio de urna salvagáo sao motivos de esperanza na prova. 24.5 Como houve falsos profetas (Jr 23; Ez 13 etc.), haverá falsos messias (cf. At 5,35-39); Joáo os chamará de anticristos (lJo 2,18). Pode-se 1er a intervengáo de Gamaliel diante do Conselho (At 5,35-37). 24.6 Náo vos alarméis: Jr 30,5. 24.7 Povo contra povo: Is 19,2; 2Cr5,6. 24.8 Dores de parto: Jo 16,21-22; Ap 12,2. Um parto fecundo. Pode-se compa­ rar com as imagens de Is 26,7, escatologia, e 42,14, volta do exilio. 24.9 Perseguigáo: já anunciada em Mt 10,17.23. 24.11 Falsos profetas: Dt 13. 24.12 O amor: Ap 2,4. 24.13 Agüentar: Mt 10,22. 24.14 É como se a atividade missionària (28,19) estivesse retardando o final; a tarefa encomendada náo está terminada. Con­ tinuará para a frente em meio a contradigòes e apesar de resisténcias. Sobre a dilagáo do fim: Ez 7. 24,15-28 Costuma-se denominar “a grande tribulagáo” aquela que precede ¡mediatamente a vinda do Messias. Temas e fórmulas procedem em boa parte da lite­ ratura escatològica e apocalíptica, e em parte ressoam como recordagáo da destrui-

24,29

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para pegar o manto. 19A i das grávidas c das que derem ä luz naqueles dias! •'■"Orai para que a fuga nao acóntela no invernó ou no sábado. 2lHaverá urna tribulagäo täo grande como näo houve des­ de o comego do mundo até agora, nem liaverá no futuro. 22Se nao fosse abre­ viado aquele tem po, ninguém se salvaria. Contudo, em atengáo aos escoIhidos, aquele tem po será abreviado. 23Entáo, se alguém vos diz que o M es­ sias está aqui ou ali, näo lhe deis atengäo. 24Surgiräo falsos m essias e falsos profetas, que faräo portentos e prodi­ gios, a ponto de enganar, se fosse pos-

sível, inclusive os escolhidos. 25Vede que eu vos preveni. 26Se vos dizem: Vede, está no deserto, nao saiais; ou vede, está na despensa, nao deis atengao. 27Pois, como o relámpago aparece no levante e brilha até o poente, assim será a chegada do Filho do Homem. 28Onde está o cadáver os abutres se reuniráo. A parusia (M e 13,24-27; Le 21,25-28) — 29Im ediatam ente depois dessa tribulagáo, o sol se escurecerá, a lúa nao irra­ diará seu esplendor; as estrelas cairao do céu e os exércitos celestes tremeráo.

gao de Jerusalém. Está claro que os tragos nao se podem tomar ao pé da letra para construir urna crònica antecipada dos eventos. Mas, admitindo o sentido simbó­ lico ou alegórico, perguntamos se a visáo corresponde a eventos históricos (a queda de Jerusalém no ano 70) ou a eventos fu­ turos (o ato final antes do desenlace). É possível também que, na contraluz da ca­ tástrofe de Jerusalém, se vislumbre o final dos tempos. Urna situagáo ameagadora e grave que aconselha a fuga rápida náo é desconhecida: a fuga de Ló (Gn 19,17); “aquele dia” de Jeremías (Jr 30,5-10.23-24; 51,6.45-47; Ez 7,16). Em escala menor a espiritualidade a propóe (SI 11,1; 55,7-10). O texto ci­ tado de Daniel (a famosa “abominagáo da desolagáo”, Dn 9,27) refere-se ao ídolo que Antioco IV mandou colocar no templo de Jerusalém (167 a.C.; cf. lM c 1,54); o con­ texto fala de “assassinato do Ungido”, de “guerra e destruigào”, de cidade e templo arrasados. Seria o texto urna atualizagáo composta e difundida nos dias turbulen­ tos da represália romana dos anos 66-70? As citagóes indicadas e as outras (Dn 12,1; J12,2) fomecem imagens abertas, aplicáveis a muitas situagóes. Dn 12,1 já estava fora do seu contexto histórico restrito; J1 2,2 é urna transposigáo simbólica de urna praga agrària, e também fica disponível. Por outro lado, o texto de Mateus desemboca na exortagáo à cautela e à vigilancia. É provável que este fragmento se dirija à comunidade crista sobre o tema da parusia, prefigurada na destruigào de Jerusalém.

24,20 Ver o episodio do sábado em lM c 2,31-40. 24,25-26 Os dois lugares onde, segun­ do crengas da época, poderia aparecer o Messias: em campo aberto e despovoado, em lugar habitado e escondido. 24.27 Do relámpago se assinalam o re­ pentino e o evidente. Pode ser sinal teofánico (SI 18,8-16). 24.28 Soa como provèrbio de duvidosa interpretagáo. Talvez se refira aos falsos messias que se aproveitam da turbuléncia (cf. as raposas de Ez 13,4). Ou sinal da catástrofe (como em Ez 39,17-20). Se se coloca no final de segào, nào é para uni-lo com o v. precedente, mas como aforismo conclusivo. E urna pincelada macabra, de aves necrófagas aproveitando-se da matanga; recorda a visáo de Abráo (Gn 15,11) e o episodio de Resfa (2Sm 21,10). Algum comentarista tomou-o como valor positi­ vo: o Senhor reunirá seus mortos. 24,29-32 A chegada final do Messias é construida com tragos proféticos e apoca­ lípticos. O colossal aparato estelar proce­ de de Is 13,10, e se lé com variantes em outros textos como “luto da natureza” por urna catástrofe (Is 24,23 escatologia; J1 2,10; Ez 32,7-8). A tradigáo iconográfica crista identificou o “estandarte” (o sinal) com a cruz. No texto de Mateus “o sinal” pode ser a mesma aparigáo gloriosa do Messias, o sinal de Joñas (12,39; 16,1-4). Ao pranto celeste responde o terrestre, numa citagao adaptada de Zc 12,9-14. Em Dn 7,13 “urna figura humana” (náo mais um animal feroz) sobe à presenga do

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24,30

30Entào a p a re c e rá no céu o estandarte do Filho do H o m e m . Todas as ragas do mundo fardo l u t o e verào o Filho do Homem ch eta r / 1 & ^ nuvcns do ( C U , corri glòria e poder. 31E n v ia rá seus anjos para reunir, com um g r a n d e toque de trombeta, os eleitos d ° s quat™ ventos> de um extremo a o u t r o do céu. O dia e a h o ra fN Íc 13,32-37, Le 17,2630.34-36)__32y^prendei o exemplo da figueira: quan d o o s ram os se tornam tenros e brotam a s [olhas, sabéis que a primavera está p ró x im a . Também vós, quando virdes q u e acontece tudo isso, sabei que o fim e s tá próxim o, às por­ tas. 34E u vos a sse g u ro que esta geracáo nào passará a n te s que acóntela tudo isso.35Céu e te rra passaráo, m inhas palavras nào p assafáo- 6Quanto ao dia e à hora, ninguém o s conhece, nem os an­ jos do céu nem o F ilh o , só o Pai os co­ nhece. 37Como e o 1 tem pos de Noé, assim será a chegada do Filho do Homem. 38Nos dias antes d o dilùvio, as pessoas comiam, bebiam 6 se casavam , até que Noé entrou na arca- E eles nao perceAltissimo para r e c e b e r poder universal e perpètuo. O texto está adaptado para ser aplicado ao momento seguirne e final, a parusia. A reuniáo dos eleitos é também um trago escatológico (c^' 27,13). 24.32-44 Quando do fato se passa à data, a resposta é evasiva e as perspectivas se sobrepóem: a do evento histórico, aproxi­ madamente p r e v i s í v e l , e a do fim do mun­ do, de data imprevis*vc^ De tal modo que o drama do primeiro prefigura e simboli­ za o segundo; e este fica sempre distante e iminente, inspirador de esperanga e expec­ tativa. Contudo, o fim_ iminente poderia referir-se à r e s s u r r e i g à o de Cristo, que inaugura a nova era- Cabe outra explicagào, diacronica. Um breve texto correspon­ dente à vida de J e s u s anunciava a ressur­ reigào do Messias e a queda da Cidade Santa. Depois da ressurreigào o texto se adapta à expectativa da parusia para qualquer geragào. 24.32-35 A p lic a -s e melhor ao fato his­ tórico, na p e rsp e c tiv a de Jesus. O mundo vegetai fornece a imagem da estagào ou

beram, até que veio o dilùvio e levou a todos. A ssim será a chegada do Filho do Homem. 4tlDoishomens estaráo num campo: um será levado e outro será deixado; 41duas mulheres estaráo moendo: urna será levada e outra deixada. 42Assim, pois, vigiai, porque nao sabéis o dia em que chegará vosso Senhor. 43E sabéis que, se o dono da casa soubesse a que hora da noite vai chegar o ladráo, estaría vigiando para que nao abram um buraco na parede. 44Portanto, estai preparados, porque este H om em chegará quando m enos pensardes. V igilancia (M e 13,33-36; Le 12,41-48) — 45Quem é o servo fiel e prudente, encarregado pelo dono de casa de re­ partir em suas horas a comida para os empregados? 46Feliz o servo a quem o dono de casa, ao chegar, encontrar atuando assim. 47Eu vos asseguro que o encarregará de todos os seus bens. 48Ao contràrio, se um servo mau, pensando que o dono de casa tardará, comegar a espancar os companheiros, a com er e sazâo (cf. Is 18,5). A garantía é a palavra do Senhor (cf. Is 65,17): sua palavra se cumprirà (cf. Is 40,8). 24,36 Também a ignorancia do Filho se enquadra melhor no tempo anterior à ressurreiçâo. Contradiz o que foi dito em 11,27? Talvez a soluçào seja referi-lo à condiçào humana e missâo histórica de Jésus. 24,37-43 Os exemplos ilustram a incer­ teza: quando? a quem caberá? No tempo de Noé (Gn 6,9-12), a vida continuava quando sobreveio a catástrofe; assim sào as catástrofes naturais. Outras desgraças chegam em plena vida e atividade sem dar razóes. Enquanto o homem dorme, o la­ dráo vigia (cf. Jó 24,15-16; 27,20). A in­ certeza é a única certeza. 24,44 Portanto, urna só conclusâo: em lugar de curiosidade, vigilâneia (cf. lTs 5,2; 2Pd 3,10; Ap 3,3; 16,15). Ilustra-o a seguir com très parábolas: o servo fiel, as dez moças, os très administradores. 24,45-51 O objetivo que a parábola visa é a vigilâneia na incerteza; mas de passa-

25,14

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ii beber com os bébados, 5uo patráo desse servo virá em dia e hora que menos imagina 51e o despedazará, dando-lhe o destino dos hipócritas. A i haverá pranlo e ranger de dentes. ’Entáo o reinado de D eus será como dez mogas que saíram com suas lamparinas para receber o noivo. ■Cinco eram insensatas e cinco pruden­ tes. 3As insensatas pegaram as lampariñas, porém nao levaram azeite. As prudentes levaram frascos de azeite com as lamparinas. 5Como o noivo tardasse, todas cochilaram e dorm iram .6A meia-noite ouviu-se um grito: Aqui está o noivo, sai para recebé-lo! 7Todas as

mogas despertaram e se puseram a pre­ parar as lamparinas. 8As insensatas pediram as prudentes: Dai-nos um pouco do vosso azeite, pois nossas lamparinas se apagam. 9As prudentes responderam: Talvez nao baste para todas; é melhor ir com prá-lo no armazém. 10Enquanto iam comprá-lo, chegou o noivo. As que estavam preparadas entraram com ele na sala de casamento, e a porta foi fe­ chada. 1 1Mais tarde chegaram as outras mogas, dizendo: Senhor, Senhor! A bre­ nos! 12Ele respondeu: Eu vos asseguro que nao vos conhego. 13Portanto, vigiai, porque nao conheceis o dia nem a hora. 14E como um homem que partia para o estrangeiro; antes chamou seus ser-

gem revela aos homens sua condigáo de servos e administradores, responsáveis pe­ rente o patráo. O servo fiel merece a qua­ lific a lo de prudente, sensato. Pode referir-se aos chefes judeus e nao menos a chefes da comunidade crista. Critèrio de julgamento será a conduta com os outros servos ou companheiros de servigo. O cas­ tigo encarece a gravidade da culpa e suas conseqüéncias; hipócritas sao os mal­ vados que fingiram bondade (8,12; 13, 42.50).

vros como Pr e Eclo. Sao adjetivos de enor­ me peso, a ponto de as qualidades aparecerem personificadas como Sensatez e Senhora Insensatez (Pr 9). Na parábola, por sua sensatez ou necedade, está em jogo o sentido último da vida. As lámpadas e o óleo que as alimenta sao expressáo da vigilancia noturna (Pr 31,18; Jr 25,10 Ap 18,22). Ao mesmo tem­ po servem para inculcar a responsabilidade pessoal: aqui nao vale descuidar-se fiando-se no oütro. Mais ainda, essa noite mágica nao é noite para dormir (cf. Ct 5,225 ,1-13 Circunstancias de um casamen­ 6; Is 51,17; 52,1). Esta parábola é exclusi­ va de Mateus e é a terceira referencia ao to sao transformadas e rodeadas de um tema nupcial (9,14-15; 22,1). halo misterioso. Nao há quem conduza a 25,14-30 Da cena nupcial Mateus nos noiva (SI 45,14-15; Gn 2,22), mas é o noi­ transporta ao mundo da economia, que vo que está para chegar (Ct 2,8; 5,2). A também vale para explicar o mistério do noiva é substituida por dois grupos conreinado de Deus. A simples expectativa e trapostos de mogas, o que introduz o tema vigilancia se convertem e culminam aqui do julgamento e da eleigáo (cf. SI 45,15em responsabilidade para a agáo no mun­ 16). O banquete é celebrado à meia-noite, do. A responsabilidade é proporcional ao e assim se introduz o tema da vigilancia “talento” recebido para o servigo. Premio (cf. Ct 3,1; 5,2); entra-se no casamento ou e castigo pela administragáo se orientam festa nupcial (Ct 1,4; 2,4). As reminiscen­ para o julgamento definitivo. O relato se cias do Càntico dos Cánticos se acumucentra no servigo ao patráo, dono único do lam e conferem certo ar de realismo à cena. dinheiro, e nao fala expressamente do ser­ Ao mesmo tempo se sobrepóem outros tra­ vigo aos outros. Ele reparte livremente e gos que geram urna atmosfera irreal. Nao nao de modo arbitràrio seu dinheiro, le­ esquegamos que o Apocalipse (a Biblia) vando em conta “a capacidade de cada termina com a espera ansiosa da esposa/ um”; em grego dynamis, dinamismo, ca­ comunidade pela vinda do esposo. pacidade de fazer. Só que também essa As mogas sao classificadas em pruden­ capacidade é dom (cf. Dt 8,17-18). Um tes, ou sensatas, e néscias. Duas catego­ talento equivale a cerca de 35 quilos. rías contrapostas de sólida tradigáo em li-

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vos e lhes confiou seus bens. 15A um deu cinco milhôes, a outro dois, a outro um; a cada um segundo sua capacidade. E partiu. Im ediatam ente 16o que havia recebido cinco m ilhôes negociou com eles e ganhou outros cinco. 17Da mesma forma aquele que havia recebi­ do dois milhôes, ganhou outros dois. 18Aquele que havia recebido um milhâo foi, fez um buraco no châo, e escondeu o dinheiro do patrào. 19Passado muito tempo, o patrào dos servos apresentouse para pedir-lhes contas. 20Aproximouse o que havia recebido cinco milhôes e lhe apresentou outros cinco, dizendo: Senhor, deste-m e cinco m ilhôes; vê, ganhei outros cinco. 2,0 patrào lhe dis­ se: Muito bem, servo fiel e cumpridor; foste confiâvel no pouco, eu te ponho à frente do importante. Entra na festa de teu patrào. "A proxim ou-se aquele que havia recebido dois m ilhôes e disse: Senhor, deste-me dois milhôes; vê, ga­ nhei outros dois. 230 patrào lhe disse:

Muito bem, servo fiel e cumpridor, l<n te confiável no pouco, eu te poiilm i frente do importante. Entra na festa dt teu patráo. “4A proxim ou-se tamlx m aquele que havia recebido um milháo o disse: Senhor, eu sabia que és exigen te, que colhes onde náo semeaste e ie colhes onde náo espalhaste. 25Como i i nha medo, enterrei teu milháo; aqui ten-, o que é teu. 2fiO patráo lhe responden: Servo indigno e preguigoso. Já que sa bias que colho onde náo semeei e reco lho onde náo espalhei, 27devias ter dep< > sitado o dinheiro num banco, para que, ao chegar, eu o retirasse com ju ro s.2 Ti rai-lhe o milháo e dai-o para aquele qu< tem dez. 29Pois a quem tem se lhe dará e sobrará; a quem náo tem se lhe tirara inclusive o que tem. 30Expulsai o servo inútil para as trevas de fora. A i havera pranto e ranger de dentes. O julgam ento das na^óes — 31Quan do chegar o Filho do H om em com vas tende a crescer; mas a preguiga deixao inerte, e o preguigoso fica de máos vazias. A quem aproveita o dinheiro enterrado? O provèrbio final, com sua formulagáo paradoxal (13,12), expressa felizmente o duplo movimento: do mais ao sempre mais, do menos até o nada. Premio e castigo sáo de cunho escato­ lògico. Prèmio: participar do banquete escatològico do Senhor. Castigo: a expulsáo e as trevas da morte (8,12; 22,13). 25,31-46 A agáo do homem e das socie­ dades em suas relagöes mútuas tem urna dimensáo transcendente que Deus conhece e sanciona. Essa idéia ou mistério se dramatiza na linguagem de um grande jul­ gamento público e universal. Como ante­ cedentes literários podem-se recordar: o rito de Js 8,32-35 completado com Dt 27,12-28,14; a nota escatològica de Is 24,21-22; os destinos opostos de Is 65,1315; Dn 12,2 o indica ou implica; Sb 4,205,16 o descreve a seu modo. Em primeiro lugar o texto propöe um problema de dupla identificagáo: a) fala de “todas as nagóes” pagas ou de todas sem distingáo? b) os “irmáos menores” de Jesus sáo os cristáos ou todos os ne-

O patráo se ausenta (15, final de Lucas) e tardará em voltar. Já náo menciona urna chegada iminente (19, escatologia adia­ da, 2Ts 2,2). Quando volta pede contas da administragáo, numa espécie de julgamento, no qual o patráo qualifica a conduta e retribui. Os dois primeiros sao: cumpridor, ou seja, bom em seu oficio, e fiel ou fiável (é o título de Moisés segun­ do Nm 12,7); o terceiro é malvado ou mau em seu oficio preguigoso, um adjetivo substantivado como tipo em Pr. O prè­ mio supera qualquer previsáo: perto dele os milhóes eram nada; de urna possessáo administrada sobe-se à convivencia como patráo. O terceiro procura defender-se, pondo a culpa no patráo exigente. Realmente o medo do risco paralisa (Ecl 11,10), a inércia se afirma na preguiga. Mas o dinheiro náo é urna semente que se enterra e cresce por si só; é o homem que imprime nele seu dinamismo para fazè-lo crescer. A colaboragáo humana está fortemente sublinhada. O diálogo com o terceiro criado mostra a outra face do dinamismo do traballio humano. O dinheiro confiado a máos ati-

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acompanhado de todos os •••ii'. .mjos, sentará em seu trono de glóHn 'c compareceráo diante dele todas na iingócs. Ele separará uns de outros, t>nmo um pastor separa as ovelhas das im iIhas. "C olocará as ovelhas á sua diii'li.i e as cabras á sua esquerda. 34Enllln o re i dirá aos da direita: Vinde, ben­ ditos de meu Pai, para herdar o reino jiirparado para vós desde a criagáo do mundo. 35Porque tive fome e me destes •le comer, tive sede e me destes de be­ ber, era migrante e me acolhestes, 36esIwva nu e me vestistes, estava enfermo r me visitastes, estava encarcerado e instes ver-me. 37Os justos lhe responilcrao: Senhor, quando te vimos faminto r le alimentamos, sedento e te demos ilc beber, 38migrante e te acolhemos, nu r le vestimos; 39quando te vim os enfer­

mo ou encarcerado e fomos visitar-te? 40O rei lhes responderá: Eu vos asseguro: o que fizestes a estes meus irmáos menores, a mim o fizestes. 41Depois dirá aos da esquerda: Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o Diabo e seus anjos. 42Porque tive fome e nao me destes de comer, tive sede e nao me destes de beber, 43era migrante e nao me acolhestes, estava nu e nao me vestistes, estava enfermo e encarcerado e nao me visitastes. 44Eles replicaráo: Senhor, quando te vimos faminto ou se­ dento, migrante ou nu, enfermo ou en­ carcerado e nao te socorremos? 45Ele res­ ponderá: Eu vos asseguro: o que nao fizestes a um destes mais pequeños, nao o fizestes a mim. 46Estes iráo para o cas­ tigo perpétuo, e os justos para a vida perpétua.

icssitados? Urna interpretado minimalisla diria que os pagaos sao julgados de ncordo como tratarem os cristaos. Resposta: a) segundo a tradigáo bíblica, a expressáo designa os pagaos. O texto o comprova, pois os cristaos nao podem alegar ignorancia, os pagaos sim. Mas antes disse que “será pregada a boa noti­ cia a todas as nagóes” (24,14). b) Embora Jesús tenha limitado sua missáo “as ovelhas perdidas da casa de Israel” (15, 24), compadeceu-se também dos pagaos necessitados e proclama urna mensagem universal. Pois bem, se num momento teve a parábola um alcance limitado, em seu estado atual parece exigir um alcan­ ce universal: os que creram em Jesús, pe­ lo cumprimento de seu mandato serao julgados; os que nao o conheceram, seráo julgados pela fidelidade a seus va­ lores. O juiz é Jesús. O “filho do rei”, na ocasiáo do casamento (22,2), é no julgamento o rei (cf. SI 72,1) que chega acompa­ nhado da sua corte e toma assento no seu tribunal (cf. Dn 7,9-10; Dt 33,2; Zc 14,5). Perante ele comparecem “todas as na­ d e s ”. Inspirados em J1 4,11-12, alguns quiseram tomar a parábola como descri­ d o realista e até localizaram a cena no “vale de Josafá”.

O julgamento será de separado (aphorizo): verbo de grande trad¡d° no culto e na legislado (ver especialmente Dt 20,26; Is 56,3); seu complemento sao osbons, que sao “separados” dos maus. Compará-los com ovelhas e cabras pode ser sugestáo de Ez 34,17, que distingue entre ovelhas e machos; ao passo que a ceia pascal admi­ te sem distingáo “cordeiro e cabrito” (Ex 12,5). O valor da direita e da esquerda é transcultural (cf. Dt 27,12-13), segundo a posido geográfica relativa). O critèrio de separado sao as obras de misericordia, que se podem ilustrar com textos do AT e do NT (p. ex. Is 58,7; Pr 19,17; Mt 5,7; 9,13; 12,7; 23,23). Servem para especificar o preceito capital do amor ao próximo. Jesús fez-se próximo do necessitado e irmáo dos pequeños. Como em Dt 27-28, a sentenza é pro­ nunciada em forma de b en d o e maldido: benditos (SI 115,15; Is 65,23), malditos (Jr 17,5; SI 37,22). A sangao será “herdar o reino” (ICor 6,9; 15,50; Gl 5,21) ou ser lanzados no “fogo eterno” (Is 66,24; Dn 7,11; Ap 20,10). A cena nos faz compreender que muitos, sem conhecer a pessoa de Jesús, se ajustam aos valores dele, na esfera do amor ao próximo. E isso decide o destino deles. 25,41 Is 66,24.

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Compió para m atar Jesús (Me 14,ls; Le 22,ls ; Jo 11,45-53) — ’Quando terminou este discurso, Jesús disse a seus discípulos: — 2Sabeis que dentro de dois dias se celebra a Páscoa e este Hom em será entregue para ser crucificado. 3Entáo se reuniram os sumos sacer­ dotes e senadores do povo na casa do sumo sacerdote Caifás, 4e se puseram de acordo para, com um estratagema, apoderar-se de Jesús e matá-lo. 5Mas acrescentaram que nao devia ser duran­ te as festas, para que o povo nao se amotinasse. Ungáo em B etánia (M e 14,3-6; Jo 12,1-8) — 6Estando Jesús em Betánia, em casa de Simáo o leproso, 7aproxim ou-se dele urna m ulher com um fras­ co de alabastro cheio de um perfume de mirra caríssimo, e o derramou na ca­ b e ra enquanto estava á mesa. 8A o ver

isso, os discípulos disseram in d in a dos: Para que esse desperdicio? "I'n dia ser vendido a alto prego para d a i.. produto aos pobres. ’°Jesus percebod e lhes disse: — Por que aborrecéis esta mulher? I I. fez uma agáo boa para comigo. "Ti n des os pobres sempre por perto. A mil» nem sempre tendes. 12Ao derramar o perfume sobre mni corpo, ela estava preparando minha s<pultura. 13Eu vos asseguro que em qiul quer parte do mundo onde se procla mar a boa noticia, será mencionado o que ela fez. 14Entáo um dos doze, chamado Jud;r. Iscariotes, dirigiu-se aos sumos sacer­ dotes 15e lhes propós: —- O que me daréis se eu vo-lo en tregar? Eles concordaram em trinta denários 16Desde esse momento ele procurava uma ocasiáo para entregá-lo.

2 6 ,1-5 Acabaram-se os discursos, resta um momento para uma profecía sucinta. Chega a hora de sofrer em silencio. Mas Jesús conserva a iniciativa: vai ao encon­ tró da paixáo com plena consciéncia e acei­ ta d o voluntária. “Será entregue”: uma forma passiva que no mínimo sugere a agáo de Deus e faz eco ao destino do Ser­ vo (ls 53,6 com o mesmo verbo em grego). O Filho náo conhece a hora do fim do mundo (24,36), mas sabe que a sua hora chega com a Páscoa, que as duas váo jun­ tas, e faz saber isso aos discípulos. Só “entáo” se reúnem o brago religioso e secular para decidir a prisáo e a execugáo de Jesús. Pensam poder marcar a data, em oposigáo ao dito de Jesús. A Páscoa devia ser celebrada em paz, e um tumulto popular podía provocar os romanos. O medo supóe que “o povo” e “os chefes do povo” náo estavam de acordo. Caifás foi sumo sacerdote de 19 a 36. 26.6-16 Em duas personagens se opóem a homenagem amorosa e a traigáo interesseira, o esbanjamento e a cobiga. 26.6-13 Mateus náo dá o nome da mu­ lher; Jo 12 a identifica com Maria, irmá de Lázaro. O perfume na cabega de Jesús náo é uncáo (cf. ISm 10,1; 2Rs 9,6), mas

espléndido e público gesto de estima (cf. SI 23,5; 141,5). Os discípulos o qualificam de esbanjamento; podia ser mais bem empregado em beneficio dos pobres (19, 21). Jesús os corrige publicamente, inter­ pretando o significado profundo do gesto. Também Jesús é pobre neste momento, com a pobreza total da morte. Além disso, a ajuda cristá aos pobres será feita em nome de Cristo. Em primeiro lugar, o gesto expressa o afeto á sua pessoa, “comigo”. No contex­ to do texto aludido (cf. Dt 15,1-11) se diz que, pelo egoísmo de uns, haverá pobreza em Israel; enquanto que a mulher mostra a generosidade do amor (6,22-23). Segun­ do, o gesto é uma ungáo sepulcral antecipada; como tal, Jesús o recebe em vida, consciente da sua morte próxima. Terceiro, o gesto conservará para sempre um valor eclesial: sua lembranga será exemplar e testemunho de ressurreigáo (Pr 22,9). 26,14-16 Atraigáo de Judas está pontuada com uma alusáo a Zc 11,12; o prego irrisorio de um escravo morto (Ex 21,320), de uma vida, que deveria ser muito alto (cf. SI 49,9). O verbo “entregar” é dos anúncios da paixáo (17,22; 20,19; 26,2); o mesmo que Jesús acaba de pronunciar.

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i'íiruii c E u c a ristía (M e 14,12-26; Le ¡11 .’O; Jo 13,21-30; IC or 11,23-25) — 'Ñu primeiro dia dos ázimos os discí,•iiliif. se aproxim aram de Jesús e lhe iwlÜlintaram: . Onde queres que te preparemos a ^lii ilc Páscoa? '"Kespondeu-lhes: «• Ide á cidade, a um tal, e dizei-lhe: < Unía m ensagem do M estre: M inha lintii está próxima; em tua casa celebrai f l i i l’áscoa com meus discípulos. '“Os discípulos prepararam a ceia de (•Incoa seguindo as instrugoes de Jesús. ■"A n entardecer, ele se pos á mesa com u«diize, 2le enquanto comiam disse-lhes: ■ Eu vos asseguro que um de vós vtil me entregar. “ Consternados, comei,liram a perguntar-lhe um por um: — Sou eu, Senhor? J,Respondeu: ■ — Aquele que pos comigo a máo na Havessa, esse m e entregará. 24Este Ho-

mem vai, com o está escrito sobre ele; mas ai daquele pelo qual este Homem será entregue. Seria melhor para esse homem nao ter nascido. 25 Disse-lhe Judas, o traidor: — Sou eu, Mestre? Diz-lhe: — Tu o disseste. 26Enquanto ceavam, Jesús tomou um pao, pronunciou a béngáo, o partiu e o deu a seus discípulos, dizendo: — Tomai, comei, isto é o meu corpo. 27Tomando a taca, pronunciou a acao de graqas e deu-a, dizendo: — 28Bebei todos déla, porque este é o meu sangue da alianza, que se derra­ ma por todos para o perdáo dos peca­ dos. 29Eu vos digo que daqui em diante nao beberei deste produto da videira até o dia em que o beberei convosco no reino de meu Pai. 30Cantaram o hiño e saíram para o monte das Oliveiras.

A figura de Judas atraiu a atenedlo de es­ critores que tentaram analisar ou imagi­ nar seu processo interno. 26.17-30 Vários detalhes do relato aponlam para urna ceia ritual da Páscoa: os pre­ parativos (17.18.19), o roteiro com a béni;A o (26) e os hinos (30). Mas nao se menciona o cordeiro (imolado no templo), c a cronologia de Joáo exclui que se trate de ceia pascal. Portanto, ou Jesus anteci­ pa por conta pròpria o rito, ou segue outro calendàrio, ou a celebragáo crista da nova Páscoa (ICor 5,7) influí na redagáo do re­ lato. 26.17-19 Como na entrada festiva em Jerusalém (21,1-4), Jesus conhece e con­ trola a situagáo. Pode dar ordens aos dis­ cípulos e ao anfitriào. Ele a chama de “mi­ nha hora”, apropríando-se da celebragáo tradicional (Ex 12,3-5). Ao escurecer comega o novo dia e treze é um número aceitável de comensais, segundo o direito. Só que “os doze” tém um sentido no­ vo (10,1): o novo Israel celebra a nova Páscoa. 26,20-25 O anúncio precedente se faz mais preciso, porque Jesús quer revelar detalhes pessoais. A lembranga da traigáo passa pela reagao da Igreja primitiva, pois

para ela Judas se converte em tipo de trai­ dor, e assim seu nome para nossos idio­ mas; e a resposta pessoal de Jesús pode dirigir-se de novo a novos traidores da sua pessoa. Judas nao o chama de Senhor, mas rabi, mestre. O ai do narrador nao é somente compaixáo por Jesús, mas dor pelo fato de que entre os doze haja um traidor (lJo 2,19). Um par de alusóes á Escritura dáo re­ levo ao relato: a traigáo do amigo (SI 41,9), o “ir embora” da morte (Is 53 e SI
22 ).

26,26-30 Jesús celebra e institui sua eu­ caristía e manda celebrá-Ia em sua memo­ ria. As primeiras comunidades o cumprem, celebrando o rito (At 2,42.46; 20,7.11; ICor 10,16; 11,20). Essa prática influi na redagáo do fato fundacional, produzindo duas variantes básicas: a de Paulo e Lucas, a de Marcos e Mateus. Os gestos que o narrador detalha sao ob­ vios: tomar e partir um pao como entáo era cozido, ou pronunciar as costumeiras béngáo sobre o pao e agáo de gragas sobre o vinho e distribuí-los. Mas esses gestos estáo carregados de sentido superior: Je­ sús nao come, mas se entrega; ele o parte para repartir e para que partilhem. O dom

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31Entáo Jesus lhes diz: — Nesta noite todos vós tropezareis por minha causa, corno está escrito: f e ­ rirei o pastor e as ovelhas do rebanho se dispersarào. 32M as quando eu ressuscitar, irei à vossa frente para a Galiléia. 33Pedro lhe respondeu: — A inda que todos tropecem esta noite, eu nao tropeqarei. 34Jesus lhe respondeu: — Eu te asseguro que nesta noite, antes que o galo cante, me terás nega­ do tres vezes. 35Pedro lhe replica:

— M esmo que tenha de morrer n m tigo, náo te negarei. Os outros discípulos diziam o mesnn Oragáo no horto (M e 14,34-42; i 22,39-46) — 36Entáo Jesús foi com e I. a um lugar chamado Getsémani, e di-, se a seus discípulos: — Sentai-vos aqui, enquanto vou ali orar. 37Tomou Pedro e os dois Zebedeus i comegou a sentir tristeza e angúslu 38Disse-lhes: — Sinto uma tristeza m ortal; fiem aqui vigiando comigo.

indica a morte, e o partilhar é a uniáo com ele. Ao passar o cálice de vinho, explica com mais riqueza e precisáo seu sentido supe­ rior. O vinho é o sangue, que indica a morte como entrega; é o sacrificio da nova alian­ za (Ex 24,8), que expia os pecados. Bebendo, os discípulos se unem ao sacri­ ficio, partilham o sangue, sede da vida (comparar com a proibigáo de Lv 3,17; 7,26-27 etc.), e selam a alianga que cons­ tituí o povo novo. Jesús une esse banquete com o do céu onde reina seu Pai; a esse banquete des­ de agora seus discípulos estáo convida­ dos (22,2-10): “convosco”. Nele se ser­ virá um vinho novo, como corresponde ao mundo novo (Ap 21,1-3). O canto do hiño costumava compreender os Salmos 113-118. 26,31-35 Segundo anuncio trágico: os discípulos váo tropegar na grande prova (cf. 6,13), se dispersaráo como ovelhas (citagáo de Zc 13,7); mas sua queda náo será definitiva, porque o pastor, ressuscitado, voltará a reuní-los na Galiléia (in­ sinuado, cf. Jr 32,37; Ez 34,13). O pro­ testo de Pedro é presungáo, que agrava a queda. “Eu pensava muito seguro: jamais vacilarei” (SI 30,7). Sempre haverá na Igreja uma Galiléia onde os que se dispersam voltaráo a reunir-se com o Pastor. 26,36-46 Nesta cena, o narrador quer revelar-nos algo da espiritualidade de Je­ sús; por isso, deveríamos lé-la junto com a confissáo de 11,15-27. Pelo que tem de

prova e luta, forma díptico com a cena da-, provaçôes no deserto (4,1-11). Como fun do de contraste, podemos pensar eni Jeremías (Jr 15 e 20); como acompanha mento, a terceira Lamentaçâo. Aqui se expressa a angustia humana de Jesús, como em tantos salmos de súplica (p. ex. SI 42-43; 55,2-6 etc.); ouvimo-lo reiterar a súplica (Hb 5,7); na luta, triun fa a entrega plena e confiante à vontade do Pai (Hb 10,9). Dois pedidos do Pai nosso ressoam na cena: seja feita a tua vontade, náo nos deixes sucumbir na provaçâo. Mateus nos mostra além disso o homem angustiado que busca companhia: “com eles” (36), “comigo” (38.40), e náo a encontra (cf. SI 38,12; Jó 19,13-19.21; Lm 1,16). O sono inconsciente dos très íntimos o faz sentir ainda mais a solidáo. No meio da tempestade ele dormía na barca. O cálice está cheio da ira do Senhor contra o pecado (Jr 25,15-29; Ez 23,33): o Pai lho oferece, Jesus deve esgotá-Io. Espirito e carne se opóem como o forte e o fraco (Is 31,3). O espirito “decidido” deve ser acompanhado de um espirito generoso (diz SI 51,12-14). As palavras de Jesús, através dos très apóstolos, sao dirigidas à Igreja, a todos os cristáos. 26.37 Sao os très que assistiram à transfiguraçâo. 26.38 O Salmo 8 8 expressa com imagens intensas essa tristeza mortal: cova, confinamento, trevas abismais, escolhos, incèndio, espanto...

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,uAili¡intou-se um pouco e, prostra|h coiii o rosto no chao, orou assim: I’ai, se é possível, que se afaste de iHlm esta taga. M as nao se faga a mililm vontade, e sim a tua. 4llVoltou aonde estavam os discípu­ lo l 'ncontra-os adorm ecidos e diz a
pdro:

Nao fostes capazes de vigiar urna
llura comigo. 41Vigiai e orai para nao

iiuumbirdes na prova. O espirito é de­ cidido, a carne é fraca. ■ '■ ’I’eía segunda vez se distanciou para unir: Pai, se esta taga nao pode passar «¡ni que eu a beba, que se cumpra tua vontade. * 'Voltou de novo e os encontrou ador­ mecidos, pois seus olhos estavam pe­ didos. 44Deixou-os e se afastou pela teri'eira vez, repetindo a mesma oragáo. * ’l)epois se aproxima dos discípulos e llies diz: — Ainda adorm ecidos e descansan­ do! Aproxim a-se a hora em que este I lomem será entregue em poder dos pe­ cadores. 46 Levan tai-vos, vamos! Aproxima-se o traidor. A prisáo (M e 14,43-52; Le 22,47-53; Jo 18,3-12) — 47Ainda estava falando,

quando chegou Judas, um dos doze, acom panhado de urna multidáo arm a­ da de espadas e paus, enviada pelos sumos sacerdotes e pelos senadores do povo. 480 traidor Ihes havia dado urna senha: Aquele que eu beijar, é ele. Prendei-o. 49Em seguida, aproxim ando-se de Jesús, disse-lhe: — Salve, Mestre! E lhe deu um beijo. 50Jesus lhe disse: — Amigo, para que vieste? Entáo se aproxim aram , agarraram Jesús e o prenderam. 51Um dos que es­ tavam com Jesús pegou a espada, a desem bainhou e com um golpe cortou um a orelha do servo do sumo sacerdo­ te. 52Jesus lhe diz: — Embainha a espada: quem empunha a espada, pela espada morrerá. Crés que nao posso pedir ao Pai que me en­ víe ¡mediatamente mais de doze legióes de anjos? 54Mas entáo, como se cumprirá o escrito, que isso deve acontecer? 55Entáo Jesús disse á multidáo: — Saístes armados de espadas e paus para capturar-me, como se fosse um ban­ dido. Diariamente me sentava no templo para ensinar, e náo me prendestes. 56Mas tudo isso acontece para que se cumpram as profecías.

26,45 Aproxima-se a hora: Jo 12,23; 13,1; 17,1. 26,47-56 Em toda a cena da prisáo, se­ gundo Mateus, Jesús domina a situaçâo, como o Servo do Senhor (Is 42,3-4). Repri­ me a violéncia, mesmo defensiva, de um dos seus; aceita o beijo do traidor (cf. SI 55,1315); sem opor resisténcia denuncia a vio­ léncia injustificada da multidáo. Nào é um bandido perigoso, mas um mestre público e pacífico. Poderia convocar forças superio­ res (2Rs 6,16-18); mas sua força está em aceitar o designio do Pai: assim foi anuncia­ do na Escritura, assim tem que acontecer. 26.47 O pelotáo é enviado pela autoridade religiosa e pela civil (ver 26,3), e vem armado com as espadas e paus da polícia do templo. 26.48 “O beijo do inimigo é falaz” (Pr 27,6), mas Jesús o chama de amigo. So-

bre amigos e inimigos disserta Ben Sirac (Eclo 6,5-17; 12,8-18). 26,51 Espada: a palavra grega pode de­ signar um punhal ou navalha de uso pessoal e pacífico. 26,52-54 O episodio serve de admoestagáo para a Igreja em tempo de perse­ g u id o . Morrer por Cristo, náo matar por Cristo, é seu heroísmo (cf. 5,10-11.3941). Jesús concentra trés argumentos: Primeiro o provèrbio que penetrou como refráo: nele ressoa a lei do taliáo ou a dialética da violéncia; quem a desata torna-se vítima déla. Segundo, o auxilio ce­ leste milagroso. Terceiro, a vontade do Pai. 26.55 Os capítulos 21-24, especialmen­ te 21,23. 26.56 Segundo o anunciado antes (Zc 13,7).

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26,57

Entao todos os discípulos o abandonaram e fugiram. Jesús diante do Conselho (M e 14,5365; Le 22,54s.63-71; Jo 18,13s.l9-24) — 57Aqueles que o haviam preso o conduziram á casa do sumo sacerdote Caifás, onde se tinham reunido os letrados e os senadores. 58Pedro o foi seguindo á distancia até o palácio* do sumo sacerdote. Entrou e sentou-se com os criados para ver em que acabaría isso. 59Os sum os sacerdo­ tes e todo o Conselho procuravam um falso testemunho contra Jesús que per-

m itisse condená-lo à morte. 60E, embo ra se apresentassem muitas testemunhas falsas, nao o encontraram. Finalmente se apresentaram duas, 61alegando: Ele disse: Posso destruir o templo de Deus e reconstruí-Io em tres dias. 620 sumo sacerdote se pòs de pé e lhe disse: — Nao respondes ao que estes alegam contra ti? 63Mas Jesus continuava calado. O su­ mo sacerdote lhe disse: — Pelo Deus vivo, eu te conjuro que nos digas se és o Messias, o filho de Deus. 64Jesus lhe responde:

26,57-68 No relato de Mateus, o pro­ cesso, ou instrugáo do processo, de Jesús díante do Grande Conselho corre com flui­ dez e coeréneia. Mas nao pensemos que seja a redagáo pontual de um taquígrafo. Até que ponto a primitiva tradigáo cris­ ta modela o relato? Até que ponto Mateus estiliza os fatos para salientar certos aspectos? Há razóes para pensar que houve um interrogatorio noturno perante Caifás (ou Anás, Jo 18,12.24) e que o Con­ selho se reuniu de manhá cedo. Mateus os concentra em um, de noite, para obter o contraste entre a confissáo de Jesus e a negacáo de Pedro (que foi noturna). Dirse-ia que coloca com intengáo polémica as zombarias como conseqüéncia da sentenga. Também parece indicar intengáo po­ lémica o dizer que buscavam testemunhas “falsas”. Contudo, algo se destaca e se perfila no processo ou interrogatorio. Descartados outros motivos duvidosos, a questáo se centra no messianismo transcendente de Jesús. Nao o messianismo político que uma parte do povo espera, nem o messia­ nismo simples de um rei descendente de Davi, mas sim o de quem tem um trono à direita de Deus (SI 110,1; Mt 22,41-45) e recebe do Altissimo o poder supremo e universal (Dn 7,13, segundo a interpretagao individual secundária). Se Jesús sem fundamento se arroga semelhante título, é blasfemo e merece a morte. Se o possui realmente, é ele quem, julgado, julga (recorde-se a palavra de Deus em Jeremías que, julgada, julga a Joaquim, Jr 36). Je-

sus, conjurado pelo sumo sacerdote do momento, pronuncia um testemunho (cf. lTm 6,13, diante de Pilatos) que o leva á morte: testemunha e mártir. 26.57 O Grande Conselho consta de 72 membros (cf. Nm 11), entre os quais há peritos na lei, senadores ou anciáos do povo e sacerdotes. Preside-o o sumo sa­ cerdote. 26.58 O dado sobre Pedro deixa um gan­ cho pendente, para que nao se desprenda a cena seguinte. *Ou: o patio. 26.59 Como no caso de Nabot (IRs 21,10-13). O narrador insinúa que todo o procedimento está viciado desde o inicio. 26.60 Número mínimo requerido pela lei (Dt 17,6; 19,15). Sobre falsas testemu­ nhas: Pr 19,28; 21,28. Pouco vale o acordo de dois na falsidade. 26.61 A famosa frase sobre o templo corre em muitas versóes (Me 15,29 par.; Mt 24,7; 27,40; Jo 2,19; At 6,14). Atentar contra o templo era delito grave (recordese o caso de Jeremías, Jr 7 e 26 “este homem merece a morte”). Mateus suaviza a acusagáo: “posso”. 26,62-63 Tais acusagóes nao merecem resposta; Jesús se cala como o Servo “nao abria a boca” (Is 53,7). Por isso, para rom­ per seu siléncio, o sumo sacerdote recorre ao último expediente. Com sua autoridade e invocando a Deus, faz Jesús jurar, e centra a questáo. Na boca de Caifás “filho de Deus” é título messiánico, de acordo com os Salmos 2 e 89. 26,64 Na boca de Jesús, o que Caifás disse tem alcance superior. A confissáo

27,4

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— É o que disseste. E eu vos digo (|ue desde agora vereis o Filho do Hornem sentado á direita do Todo-pode­ roso e chegando ñas nuvens do céu. 65Entáo o sumo sacerdote, rasgando a veste, disse: — Blasfemaste! Que falta nos fazem as testem unhas? A cabais de ouvir a blasfemia. 66Qual é o vosso veredito? Responderam: — Réu de morte. 67Entáo lhe cuspiram no rosto, deram-lhe bofetadas e o golpeavam , 68dizendo: — Messias, adivinha quem te bateu. Nega§5es de Pedro (M e 14,66-72; Le 22,56-62; Jo 18,15-18.25-27) — 69Pedro estava sentado fora, no pátio. Aproximou-se urna criada e lhe disse: — Tu também estavas com Jesús, o galileu. 70Ele o negou diante de todos: — Nao sei o que dizes. 71Saiu para o pórtico, outra criada o viu, e disse aos que estavam ai: — Este estava com Jesús, o N aza­ reno.

72De novo o negou, jurando que nao conhecia esse homem. 73Pouco tempo depois aproximaram-se os que estavam ai e disseram a Pedro: — Tu és realmente um deles, pois o sotaque te denuncia. 74Entào começou a lançar maldiçôes e a jurar que nâo o conhecia. Imediatamente o galo cantou 75e Pedro recordou o que Jésus dissera: Antes que o galo cante, me terás negado très vezes. E saindo, chorou amargamente. C onduzido a Pilatos (Me 15,1; Le 23,1s; Jo 18,28-32) — 'N a manhá seguinte, os sumos sacerdotes e os senadores do povo deliberaram para condenar Jésus à morte. 2Amarraram-no, conduziram -no e o entregaram a Pila­ tos, o governador. M orte de Judas (At 1,18s) — 3Entào Judas, o traidor, vendo que o haviam condenado, arrependeu-se e devolveu os trinta denários aos sumos sacerdo­ tes e senadores, 4dizendo: — Pequei, entregando à morte um inocente.

cia. E se arrepende logo e profundamente. combina urna frase do SI 110,1 com outra Um galo lhe recorda a predigáo de Jesús de Dn 7,13: supóe-nas bem conhecidas e as (e se reveste de lenda na tradigáo). Pedro, aplica a si. Desde agora: com sua confissáo como a Igreja, é chamado e perdoado. comega a se manifestar seu poder. Quando ressuscitar, esse poder celeste se estenderá. 27,1-2 A deliberagáo matutina serve 26,65 A blasfemia é punida com a mor­ para pronunciar ou ratificar a pena e en­ te (Lv 24,16). tregar assim o réu ao governador. O relato 26,67 Ver o terceiro càntico do Servo discorre em base ao verbo entregar: anún(Is 50,6). A zombaria supóe que o Messias cios 17,22; 20,28-29; 26,2; Judas 26,15. é profeta e possui o dom de adivinhar. 16.21. 23.24.25.46.48; 27,3.4; os chefes a 26,69-75 Os quatro evangelhos, que rePilatos 27,2; Pilatos a eles 27,26. Era com­ conhecem a primazia indiscutível de petencia romana permitir a execugáo de Pedro, narram sem dissimulagáo seu pe­ condenagóes á morte. Como se verá de­ cado e arrependimento. Sem dúvida, o pois, as autoridades judaicas buscam algo consideram urna dor de Jesus e um ensimais: um processo civil por rebeliáo, ter­ namento para a Igreja. Colocado aqui o reno no qual eles nao sao competentes. relato, a negagáo contrasta fortemente com Pilatos representava o poder militar de o testemunho de Jesus e com seu testemuRoma na regiáo. Náo é estranho que se nho em Cesaréia (Mt 16,15-17). encontre em Jerusalém durante a festa e Mateus o gradua em intensidade crescen­ aglomeragáo da Páscoa. te: nega, jura, langa maldigóes; os inter­ 27,3-10 O episodio da morte de Judas locutores váo mudando, mas coincidem em interrompe estranhamente o curso do re­ ressaltar a origem galilaica de Jesus e Pedro. lato, como se a entrega de Jesús ao goverO apóstolo nega por medo, nào por arrogàn-

m a t eu s

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27,5

Responderam-lhe: — O que tem os a ver com isso? O problema é teu! 5Jogou o dinheiro no templo, foi-se e se enforcou. 6Os sum os sacerdotes, recolhendo o dinheiro, disseram: — Nao é lícito pó-lo na arca, pois é prego de urna vida. 7É, depois de deliberar, compraram o campo do oleiro para sepultura de estrangeiros. 8Por isso, até hoje aquele campo se chama Campo de Sangue*. 9Assim se cumpriu o que profetizou Jeremías: 7omaram as trinta moedas, prego do que. foi taxado, do que os israelitas taxaram, 1 0 e com isso pagaram o campo do oleiro, conforme as instrugoes do Senhor.

Jesus diante de Pilatos (M e 15,2-15; Le 23,2-5.13.25; Jo 18,28-19,1) — “ Je­ sus compareceu diante do governador, que o interrogou: — Es tu o rei dos judeus? Jesús respondeu: — E o que tu dizes. 12Mas, quando o acusavam os sumos sacerdotes e os senadores, ele nada res­ pondía. 13Entáo lhe diz Pilatos: — Nao ouves de quantas coisas te acusam? 14Mas nao respondeu urna palavra, com grande admiracao do governador. 15Pela Páscoa o governador costu­ mava soltar um prisioneiro, aquele que o povo quisesse. 16Havia entáo um pri-

nador ultrapassasse suas previsóes. Sabe­ mos que a figura de Judas alimentou des­ de cedo fantasías legendárias. Lucas dá urna versáo diferente (At 1,18-20). A morte violenta do perseguidor ou culpado é mo­ tivo literario conhecido (p. ex. Absaláo 2Sm 18; Antíoco Epífanes, 2Mc 9; em versáo poética vários oráculos proféticos, p. ex. Is 14; Ez 28). Antes de morrer, Judas acrescenta seu testemunho sobre a inocéncia de Jesús. Confessa o pecado, mas de­ sespera do perdáo. Deixando de lado os casos militares de Saúl e Abimelec, o AT só registra um sui­ cidio, o de Aquitofel (2Sm 17,23). Fica ambiguo o significado do novo nome do campo, Campo de Sangue: campo de ho­ micidio ou campo de mortos = cemitério. A citado é uma com binado artificiosa de Jr 32,6-9 e Z c 11,12-13. 27,8 *Ou: Cemitério. 27,11-26 Depois da intcrrupgáo do epi­ sodio precedente, continua o processo diante de Pilatos, até seu desenlace fatal. Mateus prossegue acumulando testemunhos sobre a inocéncia de Jesús: a resis­ tencia e manobras de Pilatos, sua declara­ d o aparatosa, o sonho da sua mulher. Correlativamente, carrega a máo sobre a responsabilidade das autoridades judaicas e “o povo” ali reunido. Na súplica final os chama de “todo o povo” (kol ha ‘am em pontos-chaves: Ex 19,11 alianza; Js 24 re­ novado da alianga; ISm 10,24 Saúl rei; IRs 8,38 súplica numa calamidade). Nes-

ta am pliado da responsabilidade parece refletir-se a ruptura consumada entre ju­ daismo e cristianismo e a exclusáo dos cristáos oficializada pela autoridade judai­ ca. Como na historia de Jeremías diante de Sedecias e sua corte (Jr 37-39), acon­ tece aqui um jogo de resistencias, pressóes e concessóes até a sentenza final. Pilatos tem de zelar pelos interesses de Roma na regiáo. Segundo o costume ro­ mano, interroga diretamente o réu. Sua pergunta está entre o terreno político e o religioso, e admite diversas interpretadles: desde sonhos religiosos peculiares até a rebeliáo formal contra o impèrio. A seqiiéncia mostra que Pilatos náo o toma no sentido mais grave. Também é um tanto ambigua a resposta de Jesús: é exatamente como tu dizes, isso é o que tu dizes; sim, com reservas. O diálogo termina ai (compare-se com a versáo extensa de Joáo). 27,12-14 Entáo intervém os acusadores judeus, sem que o narrador especifique suas acusaQoes. Jesús náo responde a elas (Is 53,7J) nem mesmo incitado pelo procu­ rador. E surpreendente o silencio de um réu, a quem dá ocasiáo de se defender (cf. SI 38,14; 39,10): Pilatos náo está acostumado a tal atitude. Aqui entra o episodio de Barrabás (a quem alguns manuscritos dáo como nome pròprio Jesus: ofensivo para Jesus de Nazaré? histórico e acerta­ do para marcar o contraste?). 27,15-18 Pilatos descobre no assunto divisóes e rivalidades internas entre os ju-

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sioneiro fam oso cham ado B arrabás. l7Quando estavam reunidos, perguntouIhes Pilatos: — Quem quereis que eu vos solté? Barrabás, ou Jesús chamado o Messias? 18Pois sabia que o haviam entregue por inveja. 19Estando ele sentado no tribu­ nal, sua mulher lhe mandou um recado: — Nao te metas com esse inocente, porque esta noite, em sonhos, sofri muito por sua causa. Entretanto, os sumos sacerdotes e os senadores persuadiram a m ultidáo para que pedisse a liberdade de Barra­ bás e a condenagáo de Jesús. 210 govemador tomou a palavra: — Q ual dos dois quereis que vos solté? Responderam: — Barrabás. 22Responde Pilatos: — O que fago com Jesús, cham ado o Messias? Todos respondem: -— Crucifica-o. 23Ele lhes disse: deus, sem culpas verdadeiras. Em lugar de encerrar o assunto com sua autoridade (recorde-se o episodio de At 23,1-10), busca urna escapatoria, o privilègio do indulto de Páscoa: enfrenta os judeus com urna escolha comprometida. Barrabás pode re­ presentar a violencia contra o poder estrangeiro (era “famoso”: quer dizer que era urna espécie de herói popular?); Jesús se apresenta como o Messias pacífico (5,9; 7,38-42; 12,18-21; 26,52), sem reivindicagóes políticas. As autoridades judaicas intervèm rapidamente para inclinar o ple­ biscito contra Jesús. 27,19-23 Nesse ponto intervèm a mu­ lher de Pilatos. Concedia-se aos sonhos, especialmente em conjunturas graves, va­ lor premonitorio (cf. Eclo 34,6). Ao me­ nos infundiam respeito. Pilatos conhecia provavelmente a popularidade de Jesus, dava como certa a resposta a favor. Por isso, fica desconcertado com a resposta popular. A crucifixao era pena comum de escravos e rebeldes a Roma: os acusadores abandonam a visao de um Messias transcendente, em favor de

— M as que mal ele fez? Eles porém continuavam gritando: — Crucifica-o. 24Vendo Pilatos que nao conseguía nada, ao contràrio, estavam se amoti­ nando, pediu água e lavou as máos di­ ante da multidáo, dizendo: — Nao sou responsável pela morte deste inocente. E problema vosso. 250 povo respondeu: — Nos e nossos filhos somos responsáveis por sua morte. 26Entáo soltou-lhes Barrabás, m an­ dou agoitar Jesus e o entregou para que o crucificassem. A zom baria dos soldados (M e 15,1620; Jo 19,2s) — 27Entáo os soldados do governador conduziram Jesús ao preto­ rio* e reuniram em torno dele toda a companhia. 28Tiraram-lhe a roupa, envolveram -no num manto escaríate, 29trangaram urna coroa de espinhos e a puseram em sua cabega, e um canigo na máo direita. Depois, zombando, ajoelhavamse diante dele e diziam: um messias político e violento. Nesse ter­ reno deve ser condenado por Pilatos. A cena teatral serve para repartir respon­ sabilidades. Pilatos declina toda responsabilidade, faz o gesto simbólico de lavar as máos como prova de inocencia (cf. SI 26,6; 73,13). Mas nao pode prová-la, e seu gesto se torna proverbial em nossas cultu­ ras. O povo em massa assume a responsabilidade, com a fórmula consagrada (cf. Dt 19,10; Js 2,19; Jz 9,57; 2Sm 1,16; 3,2829; IRs 2,33.44; Ez 33,4). Ao julgaressas palavras, nao devemos esquecer o testemunho de Paulo (ICor 2,8). 27,27-31 As zombarias da soldadesca se concentram no título presumido de rei dos judeus. O manto escaríate serve de manto régio. A coroa é infamante, feita de sar­ gas, mas nao torturadora (como mostra a iconografía); o texto nao fala de cravar, mas de colocar. Também é cómica a cana a modo de cetro real. As cuspidas substituem o beijo, e os golpes com a cana substituem a saudagáo. 27,27 *Ou: residencia do pretor ou ma­ gistrado.

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27 ,3(1

Salve, rei d o s ju d e u s! Cuspiam-lhe, p e g a v a m o c a n ic o e 3 jlarT 1 eom e le em su a c a b e ra . Terminada a zo m b a ria , tiraram -lhe manto e lh e p u s e ra m su a s v e s te s . ePois o lev a ra m para cru cificar.

Suarda.

Nlorte de Jesús (M e 15,21-41; Le 23, "49; Jo 19,17-30)— 32A saída enconaram um homem de Cirene, chamado 33Í?a°’ e 0 forgaram a carregar a cruz. Uiegaram a um lugar chamado GólS°ta (isto é, Caveira), 34e lhe deram a eber vinho m isturado eom fel. Ele o Jje0 v°u, mas nao quis beber. 35Depois crucificá-lo, repartiram por sorte suas estes 36e se sentaram ali, montando

. Acima da cabecja puseram um le. lr° eom a causa da condenagáo: Este c esus, reí dos judeus. 38Com ele esta-

vam crucificados dois bandidos, um à direita e outro à esquerda. 39Os que pas savam o insultavam balançando a ca beça 40e dizendo: — Aquele que destrói o tem plo e o reconstrói em très dias, que se salve; se é filho de Deus, que desça da cruz. 41Por sua vez, os sumos sacerdotes com os letrados e senadores zombavam, dizendo: — 42A outros salvou, a si mesmo nao pode salvar. Se é rei de Israel, desça agora da cruz e creremos nele. 43Confiou em Deus: que o livre, se é que o ama. Pois disse que é filho de Deus. 44Também os bandidos crucificados com ele o injuriavam. 45A partir do meio-dia, todo o territo­ rio se escureceu até a metade da tarde. 46À m etade da tarde Jésus gritou com voz potente:

nh ^'49 O narrador avança com estra­ te .S Q ^r'C (Jadc, como sentindo-se distan‘ °ntenta-se com traços rápidos sem ^ntário, sem explorar o dramatismo ou ^ etismo da cena. Em compensaçâo, esU c um tecido de citaçoes ou alusôes, esPecialmente dos Salmos 2 2 e 69. ’32 Provavelmente o travessâo hori, tal> que os condenados eram obriga11 S ->aCarrc8 ar’ uma <<car8 a leve”? (Mt dos rl 6 "Carregai os far. Qos outros e assim curnprireis a lei de Cristo”.) ^>33 A lenda o identificou com o seP cro de Adâo ou com o lugar do sacrifi­ c e Isaac. ’34 Acostumeira bebida letárgica serplic° narrac* or Para aludir ao SI 69,22, súnha3 Um * nocente perseguido: “na mi« ...?ec* e me deram vinagre”. Nâo é este o 2 ^Ce clue 0 Pa* lhe oferece. d ’35 Fazia parte do pagamento do verpan°’ Serve Para a'udir ao SI 22,19: “Re|l. minhas vestes, sorteiam entre si noh túnica”. Sao os últimos despojos, a ,reza total (cf. Mq 2,8), a vergonhosa "U g 2 (cf. Is 20,2-4). • ’37 O letreiro declara a causa civil, que 27 esse l’P0 de execuçâo capital. .>38 Como se fossem a escolta do presurtUdo rei. Pode aludir a Is 53,12: “foi

contado entre os pecadores”. Também a esses designou o Pai os lugares á direita e á esquerda? (Mt 20,21). 27.39 Gesto de zombaria, como em SI 2 2 ,8 : “fazem caretas, meneiam a cabega” e Lm 2,15. 27.40 Asegunda parte é alusáo a SI 22,8; veja-se também o discurso dos malvados sobre o justo em Sb 2,13.18. 27,41-43 As autoridades amplificam a zombaria. E o sarcasmo naquilo que mais dói, a relagáo com o Pai. O “salvar” pode ser zombaria do nome; mas deve-se recor­ dar o título de Salvador que os cristáos davam a Jesús. Mudam o título em “rei de Israel”, que corresponde melhor ao título de Messias (cf. Jo 1,49; 12,13). Alude ao SI 22,9: “Acorreu ao Senhor, que o salve; que o liberte se o ama” (cf. Sb 2,18.20). 27.44 Mateus nao faz distingáo entre os bandidos. 27.45 Sao trevas anormais: “Farei o sol se por ao meio-dia, em pleno dia escurecerei a térra” (cf. Am 8,9); podem ser de julgamento (Is 13,10; J1 2,2; Sf 1,15). Pa­ rece que Mateus as considera teofánicas, como o “grande grito” (qol gadol Dt 5,22; Is 29,6) dos vv. 46 e 50. 27.46 Cita o comego de SI 22. Sugere com isso que recitou o salmo todo? Tal pode ser o valor de citar um cometo. Os

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-— Eli, Eli, lema sabactani (ou seja: Deus meu, D eus meu, p o r que m e aban­ donaste?). 47Alguns dos presentes, ao ouvi-lo, comentavam: — Este cham a Elias. 48Imediatamente um deles correu, tomou uma esponja em papada em vina­ gre, e com um can ijo Ihe deu de beber. Os outros disseram: — Espera, vejam os se Elias vem salvá-lo. 50Jesus, lanzando outro grito, expirou. 510 véu do tem plo se rasgou em dois, de cima a baixo, a térra tremeu, as pedras racharam, 52os sepulcros se abriram e muitos cadáveres de santos ressuscitaram. E, quando ele ressuscitou, 53saíram dos sepulcros e apareceram a muitos na cidade santa. 54Ao ver o ter­ remoto e o que acontecía, o capitáo e a

tropa que m ontavam guarda a Jesús diziam espantados: — Realmente este era filho de Deus. 55Estavam ali olhando de longe muitas m ulheres que haviam acompanhado e servido a Jesús desde a Galíléia. 56Entre elas estavam Maria Madalena, M aría máe de Tiago e José, e a máe dos Zebedeus. Sepultam ento de Jesús (M e 15,42-47; Le 23,50-56; Jo 19,38-42) — 57Ao entardecer chegou um hom em rico de A rimatéia, chamado José, que também tinha sido discípulo de Jesús. 58Apresentando-se a Pilatos, pediu-lhe o ca­ dáver de Jesús. Pilatos m andou que o entregassem. 59José o tomou, envolveuo num lengol de linho limpo, “ e o depositou num sepulcro novo que havia cavado na rocha; depois fez rodar uma

hebreus usavam o começo como título do livro. Os evangelistas levaram muito em conta o SI 22 ao narrar a paixáo. 27.48 É uma bebida refrescante, que serve também para aludir a SI 69,22 (pa­ ralelo de “veneno na comida”). 27.49 Gracejo cruel jogando com o nome de Elias e recordando que o profeta deve voltar a serviço do Messias (MI 3,23). 27,51-53 Expirou = expulsou o alentó/ espirito. A bivaléncía da palavra grega pneuma permitiu a alguns escutar uma ve­ lada alusáo ao dom do Espirito. Com très traços simbólicos, Mateus comenta o sig­ nificado dessa morte, sem esclarecer sufi­ cientemente sua intençâo. O véu do templo (Ex 26,31-35): significa o final do culto antigo?, o acesso a Deus aberto a todos, sem segredos? tem alguma dimensáo cósmica? O terremoto é muitas vezes teofánico, como reaçâo da térra na presença do seu Criador (SI 18,8; 77,19 etc.). Quanto aos sepulcros abertos, Cristo morto conquista o reino dos mortos e os faz reviver (cf. Dt 32,39; ISm 2,6; Tb 13,2; SI 30,4); pode conter uma alusâo à grande visáo de Ez 37,1-14, dos ossos que revivem. Cristo ressuscitado transmite sua vida aos “santos”, que entram na cidade novamente “santa” (cf. Is 26,2) e se manifestam como testemunhas da ressurreiçâo do Senhor.

27,54 Com a confissâo dos soldados pa­ gaos Mateus quer mostrar a força reveladora da morte de Jesús e sua força de atraçào sobre os pagaos. A perspectiva é eclesial. De passagem, propóe um contraste: os judeus recusam, os pagaos confessam. 27,55-56A noticia sobre as mulheres ser­ ve de ponte para os relatos da ressurreiçâo. Sua presença até o final contrasta com a ausencia covarde dos discípulos. Desde o começo alegre na Galiléia, até o final do­ loroso, elas o acompanharam e serviram. Outro ensinamento para a comunidade. 27,57-61 A sepultura de um homem era extremamente importante entre os israe­ litas (Is 22,16). O último reconhecimento da pessoa. Ver-se privado déla era a igno­ minia final (cf. Is 14,18-20; Jr 22,18-19). Um justiçado devia ser removido para nao contaminar o terreno (Dt 21,22-23); era destinado à vala comum. José quer oferecer sua homenagem postuma ao Mestre e se une assim à homenagem antecipada da mulher que o ungiu para a sepultura (26,13). Mateus dá importáncia aos detalhes do sepulcro. Ao ato do sepultamento assistem como testemunhas duas dentre as mulheres citadas anteriormente. A sepul­ tura e o sepulcro testemunham a morte de Jesús, sua descida à cova, ao xeol, ao rei­ no dos mortos.

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grande pedra na entrada do sepulcro e foi enibora. 61Estavam ai M aría Madalena e a outra María, sentadas diante

do^sepulcro.
_. No día seguinte, o que segue á vígília, os sumos sacerdotes se reuniram com os faríseus e foram a Pilatos 63dizer-lhe: ~ Recordamos que, quando aínda vivía, aquele impostor disse que ressuscitariano terceiro día. 64M anda que vigiem o sepulcro até o terceiro dia, para que seus discípulos nao roubem o ca­ dáver e digam ao povo que ele ressus-

citou da morte. A última impostura se­ ria pior que a primeira. Respondeu-lhes Pilatos: — A i tendes uma guarda. Ide e vigiaio, como entendeis. 66Eles vigiaram o sepulcro, pondo lacres na pedra e postando a guarda. R essurreigáo (M e 16,1-8; Le 24,1-12; Jo 20,1-10) — ‘Passado o sábado, ao despontar a aurora do primeiro dia da semana, M aria Madalena com a outra M aria foram exami­ nar o sepulcro. 2Sobreveio um forte tre-

dade, sua manifestaçâo certa, seu trato com os discípulos, a personalidade de diversas testemunhas. Saltando o intermèdio de 11-15, Mateus estiliza seu breve relato em très momentos: a mensagem do anjo às mulheres, a apariçâo de Jesús a elas, a missâo dos discípulos. 28.1-10 O primeiro dia é o domingo (dominicus), como o chamaráo os cristáos em memoria do Senhor. Nada mais? Ma­ teus nos acostumou à concentraçâo e densidade de alusóes. Num horizonte mais largo esse dia poderia ser o primeiro de uma nova semana, da nova era, na qual, após as trevas da morte, amanhece a luz da glorificaçào (cf. SI 57,6.12). Para os judeus terminou o descanso Pilatos nao retrata a concessáo a José, sabático, e é lícito caminhar e trabalhar. mas cede ao pedido das autoridades, taiAs mulheres vâo fazer uma visita de afeto vez suspeitando um fundo religioso mis­ ou de inspeçâo; dessa forma tornam-se tes­ terioso no assunto que para ele está liqui­ temunhas de que o “sepulcro” foi simples dado. Para Mateus, os “lacres” sáo uma lugar de passagem. garantía involuntariamente acrescentada: 28.2-4 Aqui o narrador monta uma cena todas as precauçôes humanas fracassaráo dramática cheia de ressonâneias e contras­ diante do poder de Deus. tes com a morte. O tremor é de teofania, como o tremor na morte; o anjo é mensa28 Se no relato da paixáo os très si- geiro de Deus, pois Deus náo abandonou nóticos seguem trilhos paralelos, nos re­ seu Filho; seu aspecto é de outro mundo, latos da ressurreiçâo apresentam divergénsua força, sobre-humana; parece refletir a cias impressionantes. O momento e o gloria de Deus e do ressuscitado. Náo vem modo da ressurreiçâo, ninguém tenta des­ abrir a porta do sepulcro para que saia o crever: transcende a experiência sensivel. morto (Jo 11,39.44), mas para mostrar que Nem sequer nos dâo um relato paralelo à náo está mais ai; os guardas tremem ante transfigura,^ Afirmam o fato triunfal­ a apariçâo sobrenatural. Como mortos, no mente e o confirmant com relatos diver­ reino a que pertencem. sos. Nestes se encontra o núcleo essencial: 28,2 Pode referir-se a “um anjo” ou “o a identificaçgo d 0 aparecido, sua identianjo do Senhor”, segundo o costume da dade cotn o Jésus de antes, sua corporeiEscritura (m al’ak Yhwh).

27,62-66 Com esta noticia, e com sua conseqiiéneía de 28,11-15, M ateus quer responder a rum ores m alicio so s que os judeus ¡am difundindo co ntra o s cristáo s e contra a ressurreiçâo de Jesús. A intençào do narrador é polém ica, e nem todos os detalhes sáo v erossím eis. É plausível que queíram se o p o r ao gesto de Pilatos de entregar a José o cadáver. T am bém que consideren! Jesús com o “ im postor” , quer dizer, faiso profeta e falso M essias. É improvável que tenham n oticia de que Jesús tinha predito sua ressurreiçâo, e dir-se-ia urna projeçâo da situaçâo posterior, quan­ do o evangelho é escrito. C hegam o s fariseus, que haviam p edido u m sinal (12,40): ai tém o sinal de Joñas.

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mor, pois um anjo do Senhor, deseendo do céu, chegou e fez rodar a pedra, sentando-se em cima. 3Seu aspecto era de relámpago e sua veste branca como a neve. 4Os que m ontavam guarda comegaram a tremer de medo e ficaram como mortos. sO anjo disse as mulheres: — Nao temáis. Sei que buscáis a Je­ sús, o crucificado. 6Náo está aqui; ressuscitou com o havia dito. Aproxim ai-vos para ver o lugar em que jazia. 7Depois, ide correndo anunciar aos discípulos que ele ressuscitou e irá á frente para a Galiléia; lá o vereis. Esta é minha m en­ sagem. ®Afastaram-se depressa do sepulcro, cheias de medo e alegría, e correram para dar a noticia aos discípulos. 9Jesus saiu ao seu encontro e lhes disse: — Salve. Elas se aproximaram, abracaram seus pés e se prostraram diante dele. 10Jesus lhes disse:

— Náo temáis; ide avisar meus irmáos que se dirijam á Galiléia, onde me veráo. n Enquanto elas caminhavam, alguns da guarda foram á cidade e contaram aos sumos sacerdotes tudo o que acon­ tecerá. 12Estes se reuniram para delibe­ rar com os senadores e ofereceram aos soldados urna boa soma, 13recomendando-lhes: — Dizei que de noite, enquanto dormíeis, os discípulos chegaram e roubaram o cadáver. 14Se a noticia chegar aos ouvidos do governador, nos o tranqui­ lizaremos para que náo vos castigue. 15Eles aceitaram o dinheiro e seguiram as instrugoes recebidas. Assim se espalhou esse boato entre os judeus até hoje. M issáo dos discípulos (M e 16,14-18; Le 24,36-49; Jo 20,19-23; At 1,9-11) — 16Os onze discípulos foram á Galiléia,

28,5-7 É preciso, antes de tudo, vencer o temor com a expressáo clássica do AT: “nao temáis”. O medo fecha e paralisa, e o Ressuscitado vem vencer o medo últi­ mo e radical (cf. Hb 2,15). A mensagem é densa: primeiro, elas (as primeiras) háo de escutar a grande noticia, depois háo de comprová-la indiretamente, em seguida háo de comunicá-la: testemunhas de ouvido e de visáo. Jesús tem como título, já náo infamante, “o Crucificado”. Cumpriu o que havia predito (12,40; 16,21; 17,23; 20,19). Jesús marca encontro com os seus na Galiléia, e vai á frente. Desse modo, duas mulheres sáo as primeiras portado­ ras da mensagem pascal, sáo duas teste­ munhas fidedignas. 28,8 É um trago psicológico essa mistu­ ra de medo e gozo; corresponde á polaridade do numinoso (cf. SI 65,9). 28,9-10 Jesús sai ao seu encontro, comprovando a mensagem com sua presenga, dissipando o medo com sua saudagáo: elas o véem, tocam e ouvem. Tém que identificá-lo. Dar aos discípulos o título de “irmáos”, esquecendo e perdoando, faz par­ te da mensagem pascal (cf. 12,48). 28,11-15 Completa o narrado em 27,626 6 . A versáo de roubo do cadáver circula-

va já no tempo de Mateus, está atestada no século seguinte e reaparece ao longo da historia. Mateus náo se assusta em oferecer esse trago inverossímil, as famosas “testemunhas adormecidas”; ou o diz iró­ nicamente? Implícitamente reconhecem que o túmulo está vazio. Resistencia con­ tumaz ao “sinal de Joñas”. A intengáo de encobrir o fato contrasta com a difusáo por parte das mulheres. É que tudo se apóia na ressurreigáo. Paulo diz que se Cristo náo ressuscitou, nossa fé é vá (ICor 15, 14.17). 28,16-20 Para concluir, Mateus compóe uma cena magistral. No espago de cinco vv. condensa o substancial da sua cristologia e eclesiologia. Váo á Galiléia, como que voltando ao comego e abandonando Jerusalém, aonde foi só para morrer. Sobe a um monte, em ascensáo simbólica, como quando langou seu manifestó (5-7) ou se transfigurou (17). Os Onze daquele momento representam toda a Igreja; por isso náo falta quem duvide, como no lago (8,26; 14,30-41). Véem o ressuscitado e háo de ser suas testemunhas. Jesús toma a palavra, afirmando sua ple­ na autoridade recebida de Deus (aludindo a Dn 7,14; Mt 9,6). Em virtude desta, en-

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28,17

ao monte que Jesús Ihes havia indica­ do. I7Ao vé-lo, prostraram -se, mas alguns duvidaram. 18Jesus se aproximou e lhes falou: — Concederam -m e plena autoridade no céu e na térra. 19Portanto, ide fa-

zer discípulos entre todos os povos, batizai-os consagrando-os ao Pai, ao Filho e ao Espirito Santo, 20e ensinailhes a cum prir tudo o que vos mandei. Eu estarei convosco sempre, até o fim do mundo.

vía seus discípulos para a missáo univer­ sal, nao mais limitada aos judeus (10,6; 15,24). Nao háo de ensinar para serem mestres de muitos discípulos (23,8), mas para “fazer discípulos” de Jesús. Como rito de consagragáo administraráo o batismo, com a invocagáo trinitária explícita (compare-se com a fórmula de At 2,38; 8,16; ICor 1,13; G1 3,27). Como conseqüéncia,

a vida de acordo com o ensinamento de Jesús. Inaugura-se o tempo da Igreja, cujo fim nao é ¡mínente. É preciso viver e agir nesse tempo com a certeza de que Jesús, nao obstante ir-se embora, fica com eles. Emanuel era Deus Conosco na historia do povo eleito. Agora é Jesús glorificado com sua Igreja para sempre.

EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
INTRODUQAO
Como a nuvem noAT, M arcos em seu rvangelho joga com o velar e o desve­ lar. Seu tema é a pessoa de Jesús, mais aínda que seu ensinamento e milagres, r a reaqáo do povo á sua pessoa. O m is­ terio de Jesús, o Jesús misterioso. M ar­ cos possui a luz da ressurreiqao, mas no longo do seu relato nao abusa dessa luz esplendorosa; ao contrario, apresenta os homens cegados e deslum bra­ dos, mais que iluminados. Já no principio, declara que Jesús é “ filho de Deus ” e que o relato sobre ele é “boa noticia ”. ¡mediatamente soa urna declaraqao solene do Pai, um impulso do Espirito, urna vitória fulgurante so­ bre Sata e urna pacificaqáo cósmica (com asferas). Jesús anuncia a chegada ¡mí­ nente do “reinado de D eus ”, M arcos se limita a contar seu “comeqo O fa to estava anunciado e era espe­ rado, mas sua novidade (2,21) provoca a confrontaqao dramática. Para os es­ pectadores, a luz fica velada. N ao o compreende a sua fam ilia (3,21) nem seus concidadáos (6,1), tampouco seus discípulos chegam a compreender; fa riseus — poder religioso — e herodianos — poder político —- decidem eliminá-lo (3,6). Contudo, alguns pagaos reconhecem seu p o d er (7,24). Os dis­ cípulos estáo cegos, nao aceitam o anun­ cio da paixáo: m as Jesús p ode curar os cegos (8,22). D iríam os que Jesús, p o r seu lado, nao facilita a compreensáo; manifesta seu poder milagroso, e impóe silencio: aos demonios, as testemunhas, aos dis­ cípulos. M ais de urna vez tenta escon­ d e rse , com éxito escasso (7,24 e 9,3). R e v e la se na transfiguraqño, e impóe reserva até a ressurreiqao. Q uase um terqo do livro está dedicado ao ciclo inteiro da paixáo em Jerusalém. M arcos evoca urna figura desconcer­ tante ante um auditorio desconcerta­ do: nao seria parecida a situaqáo his­ tórica ? Jesús é o M essias que há de padecer: no extremo aguarda a morte ignominiosa; p elo caminho o acompanham incom preensño e hostilidade. Quando chega o triunfo final, Marcos volta a ser conciso: a cortina do tem ­ plo rasgada e a confissáo do centuriáo pagáo contrastam com o silencio m e­ droso das mulheres ao ouvirem o anun­ cio categórico do jovem vestido de bran­ co. A nte a morte o pagáo confessa, ante a ressurreiqao as discípulos se assustam. M arcos é mestre de urna escritura “a duas vo zes”. D etém -se numa cena, seleciona dados certeiros que dáo impressáo de realismo, explora o dramatismo. M as cena e traqos tém na pena de M ar­ cos um alcance superior, sao expressóes simbólicas do mistério. Bom exemplo é a confissáo do centuriáo: com um alcance na boca do personagem nar­ rativo pagáo, e outro alcance na pena do autor. Ou entáo as cenas conjugadas da incompreensáo dos fam iliares e a apresentaqáo da nova fam ilia de erentes. Ou a enigmática noticia do jovem q u efo g e nu da paixáo, resolvida no jo ­ vem vestido de branco que anuncia a ressurreiqao. M arcos se presta a urna leitura fácil, de superficie, como urna m elodia simples; mas é preciso esforqar-se para ouvir o contraponto.

Composigáo
Numa primeira parte sucedem-se velozes: batismo, deserto, discípulos, primeiros milagres e controvérsias, 1— 3. Segue se o mínistério na Galiléia 4,1— 7,23. D epois de um intermèdio na Fenicia e Cesaréia, 7,23-8,26, acontece a mudan-

MARCOS

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INTRODUíJÁO

ga decisiva, com a confissáo de Pedro, transfiguragao e anuncio da paixao, e a cam inhada para Jerusalém, 8,27— 10,52. Em Jerusalém: acolhida, controvérsias, discurso escatológico, 11— 13; paixao e ressurreigáo, 14,1-16,8. (Alguém acrescentou um apéndice, 16,920, ao fin a l desconcertante do autor).

gao tem fundam ento pouco firme. Nao teria sido mais eficaz apresentar aos vacilantes uns discípulos de Jesús fir­ mes e valentes na fé ? Além disso, nao é legítimo negar ao autor a vontade de escrever urna obra de maior alcance, para além de urna estreita conjuntura local e temporal.

Autor
D esde sempre, este evangelho se chamou “segundo M arco s”. Urna velha tradigáo ou lenda, transmitida de se­ gunda máo, fa z do autor um discípulo de Pedro, de quem teria recolhido a informagáo sobre Jesús. Outros tentaram identificar o autor com a personagem de nome Marcos, que figura nos A tos (12,12; 13,5.13) e envia saudagóes e m C l4 ,1 0 e 1P d 5,13, mas, sendo M ar­ cos um nome corrente na época, a identificagáo é incerta. Os destinatários sao em boa parte convertidos de língua grega, a quem é preciso explicar term os e costumes ju ­ daicos. Escreve M arcos para urna comunidade definida ou para todos os que desejarem saber a respeito de Jesús? A partir de dados dispersos no evange­ lho, alguns tentam reconstruir o perfil da comunidade, supondo que M arcos escreve sua obra para responder a seus problem as específicos. Seria urna co­ munidade pobre e perseguida, vacilan­ te na fé, que se reflete na conduta dos discípulos do evangelho. Tal reconstru-

Data
N ao parece que M arcos se refira à destruigáo de Jerusalém como já acon­ tecida. E m fungáo de urna reconstrugào coe­ rente, a maioria dos comentaristas co­ loca a composigáo na época turbulen­ ta das revoltas contra o im pèrio de Roma antes da conquista da capital; com isso pretendem deixar o espago de urna geragào para a form agño e cristalizagáo de tradigóes oráis. É urna hipótese, baseada em dados internos , que nem todos compartilham. O certo é que seu evangelho fala a qualquer grupo e geragáo, estabelecendo alguns fatos fundamentáis, irrefutáveis, po r entre incompreensóes e fraquezas. Sem o evangelho de Marcos, a imagem de Jesús seria mais simples e mais pobre. Jesus é “ filh o de D e u s”: isso diz o narrador, duas vezes o Pai, os demonios, o centuriào. E “o Messias ”, o “ungido Pedro o proclama, e J e ­ sus manda que se guarde segredo (8,2730). Um cegó e a multidáo o reconhecem como “filho de D avi ”.

MARCOS
Jo á o B a tista (Mt 3,1-12; Le 3,19.15-17; Jo 1,19-28) — ‘Com eto da boa noticia de Jesús Cristo, Filho de Deus. 2Tal como está escrito na profecía de Isaías: Vé, eu envió á frente meu mensageiro para que te prepare o caminho. 3Urna voz grita no deserto: Preparai o caminho para o Senhor, aplainai suas veredas. 4A pareceu Joáo no deserto batizando e pregando um batism o de penitencia para o perdáo dos pecados. Toda a populagáo da Judéia e de Jeru-

I

salém acorría para que os batizasse no rio Jordáo, confessando seus pecados. fiJoáo vestía um traje de pele de cam e­ lo, cingia-se com um cinto de couro e com ia gafanhotos e mel silvestre. 7E pregava assim: — Depois de mim vem alguém com mais autoridade do que eu, e eu nao tenho direito de agachar-me para soltarlhe a correia das sandálias. Eu vos batizo com água, ele vos batizará com Espirito Santo. ritos de expiagáo do templo. Prega um “batismo de arrependimento” (metanoia ), que se expressa na confissáo pública dos pecados: “propus confessar ao Senhor meus delitos” (SI 32,5), para obter o per­ dáo de Deus: “e tu perdoaste minha cul­ pa e meu pecado” (ídem), e na imersáo na água purificadora (cf. Ez 36,25). O batismo é o rito que representa e sela a reconciliagáo. Dessa maneira, refazem os judeus a viagem dos israelitas pelo deserto e a passagem do Jordáo (Js 3-4); náo só como recordagáo, mas inaugurando urna era. Com isso se preparam, náo para entrar na térra prometida, mas para receber o Se­ nhor que chega (cf. Js 5,14; SI 96 e 98). Esse Senhor (Kyrios Yhwh) é agora o Messias. Essa é a “proclamagáo” ou pregáo (.kerysso ) do arauto. A chegada do outro com mais autoridade: a frase das sandá­ lias com o gesto de agachar-se é provável alusáo ao esposo da lei do levirato (Dt 25,1-5; Rt 4), como que sugerindo que ele náo vai suplantar o Messias. “O que vem” ou há de vir, o vindouro (equivale ao nosso futuro) podia ser título do Mes­ sias esperado. E ele que traz o auténtico batismo: náo de água que limpa, mas do Espirito Santo que vivifica e consagra; náo água de rio, mas vento ou “alentó” que desee do céu e transforma o deserto em jardim (cf. Is 32,15).

1,1 “Comego”: cora ressonáncias do Génesis (Gn 1,1); como a palavra de Deus dirigida a Oséias (Os 1,2). Só que se trata da “boa noticia”: a que o arauto anuncia aos exilados (Is 40,9; 52,7). É de Jesús Cristo, porque ele a traz da parte de Deus, e mais aínda porque versa sobre ele, por­ que é ele o objeto da mensagem. Jesús Cristo sintetiza nome c título: Jesús Messias. Alguns manuscritos acrescentam “Fi­ lho de Deus” (cf. 15,39). O comego é um título que abarca e orienta tudo: o livro inteiro de Marcos deve ser ouvido como boa noticia sobre Jesús Cristo. Por que este Jesús = salvador, este Cristo = Messias, este evangelho = boa noticia desconcertam? 1,2-8 A boa noticia estava anunciada pelos profetas e agora Joáo Batista a pre­ para. Marcos o identifica como o anjo prometido no éxodo: “Eu envío meu anjo diante de ti” (Ex 33,2), como o arauto de Is 40,3 (pontuado, segundo o grego, para destacar o deserto) e como o Elias que retorna (MI 3,1). No vestuário e na austeridade, imita Elias (2Rs 1,8; Zc 13,4). Prega no “deserto”, lugar do caminho de volta para Deus: “escuta-se ñas dunas pranto suplicante dos israelitas... Aqui estamos, viemos a ti” (Jr 3,21-22; cf. Os 2,16 etc.). Lá acorrem, atraídos por sua fama, os que na Judéia e em Jerusalém nao acham resposta, os que nao se satisfazem com as liturgias penitenciáis e os

M a rc o s

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1,9

Batismo de Jesú s (Mt 3,13-17; Le 3,2ls) — 9Por esse tem po foi Jesús de Nazaré da Galiléia e se fez batizar por Joáo no Jordáo. 10E nquanto saía da agua, viu o céu aberto e o Espirito des­ ando sobre ele com o urna pom ba. Ouviu-se urna voz do céu: Tu és o meu F'lho querido, o meu predileto. A prova (Mt 4,1-11; Le 4,1-13)— 12Imediatamente o Espirito o levou ao deser­ to» 1 3 onde passou quarenta dias, posto á prova por Satanás. Vivia com as feras e os anjos o serviam. 1,9-11 Efetivamente, chega o persona­ s e nao mencionado: um homem que vem do norte, nativo de Nazaré na Galiléia. Reeebe de Joáo o batismo, com outro sentido: seu “submergir” e “subir” (para os ouvintes e leitores de Marcos) pode apontar em imagem para sua morte e ressurreigáo. Pois acontece uma grande revelagáo. Ele vé “os ceus se abrir” (o que pediam os israelitas cm Is 64,1); o Espirito desee até ele (como anuncia Is 11,1). E se escuta uma voz ce­ leste, de Deus, que pronuncia seu testemunho definitivo sobre Jesús: é mais que o rei (Si 2,7), mais que o servo (Is 42,1), é o Filho querido (cf. 12,6). O título Filho de Deus (1,1) fica definido e exaltado. O testemunho do Pai se pronuncia des­ de a primeira aparigáo de Jesús e deve ilu­ minar quanto segue. Tal é a riqueza da “boa noticia”. Escute-se seu eco na voz do centuriáo pagáo (15,39). Forma quase uma inclusgo de todo o evangelho. 1>12-13 O Espirito, do qual está reple­ to» o impele para o deserto; o Filho de Deus se deixa levar pelo Espirito (cf. o corre­ lativo; “Todos os que se deixam levar pelo Espirito de Deus sao filhos de Deus”, Rm 8’14). o deserto é lugar de encontro com Deus (1,35), como os israelitas (Ex 19), e também de submeter-se á prova (Dt 8). Os quarenta dias correspondem aos dias dos exploradores e aos anos do povo (Nm 14), aos quarenta dias de Moisés e Elias (Ex 34,28; IRs 19,8), e sáo tomados como base de nossa quaresma litúrgica. Satanás é o rival, que procura frustrar ou desvirtuar o projeto de Deus. Jesús supera a prova (cf. Jó 1-2); antes de comegar sua atividade messianica tem de ser provado e compro-

Prega^áo na G aliléia (M t 4,12-17; Le 4,14s) — 14Q uando prenderam Joáo, Jesús se dirigiu á Galiléia para procla­ mar a boa noticia de Deus. 15Dizia: — Cumpriu-se o prazo e está próxi­ mo o reinado de Deus: arrependei-vos e crede na boa noticia. Chama os primeiros discípulos (Mi 4,18-22; Le 5,1-11) — 16Cam inhando junto ao lago da Galiléia, viu Simáo e seu irmáo André que lan§avam as re­ des ao mar, pois eram pescadores. 17Jesus lhes disse: vado. Convive pacificamente com animais selvagens (Gn 2; Is 11,6-9; SI 8), os anjos estáo a seu servigo (SI 91,11-12; IRs 19,78): como se dissesse que os anjos de Deus estáo a servigo do Filho de Deus. Hb 1,414 ilustra teológicamente a relagáo dos anjos com Jesús Cristo. 1,14-15 O desenlace da prisáo de Joáo se conta em 6,14-29. Colocada aqui, a no­ ticia estende uma nuvem agourenta. Do deserto Jesús volta á Galiléia para comegar ai o seu ministério de proclamar a boa noticia. Um versículo resume o conteúdo num fato e sua conseqüéncia. Está próxi­ mo o reinado efetivo de Deus, o exercício de seu poder real na historia (cf. SI 96,1314 e 98,8-9). Tal é a boa noticia. Em Jesús já está atuando e por ele se oferece. Só pede a ruptura do arrependimento e a fé: ele­ mentos que perduram na pregagáo poste­ rior do evangelho. 1,16-20 Como pilares para dois arcos de uma ponte, podemos considerar: o chama­ do dos discípulos aqui, a eleigáo dos Doze (3,13-19), a missáo dos Doze (6,6-13; ver a adigáo do epílogo em 16,15-18). O cha­ mado é soberano; o seguimento, imediato e incondicional; compare-se com o cha­ mado de Eliseu por parte de Elias (cf. IRs 19,19-22): é modelo de toda vocagáo cristá e apostólica. O oficio desses pescado­ res (cf. Jr 16,16; Ez 47,10; Hab 2,15-16), realidade cotidiana e empírica, serve para fazer compreender o novo oficio transcen­ dente: é um caso da subida constante do empírico ao transcendente por via simbó­ lica. E a estrutura das parábolas, as comparagdes, as agóes simbólicas. O núcleo do novo regime de vida é “vinde comi-

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MARCOS

— Vinde comigo e vos farei pesca­ dores de homens. 18Imediatamente, deixando as redes, o seguiram. 19Um pouco adiante viu Tiago de Zebedeu e seu irmáo Joáo, que consertavam as redes na barca. 20Chamou-os. Eles, deixando seu pai Zebe­ deu na barca com os diaristas, foram com ele. O endemoninhado de Cafarnaum (Le 4,31-37) — 21Entraram em Cafarnaum, e no sábado seguinte entrou na sinagoga para ensinar. O povo se assombrava com seu ensinamento, pois os ensinava com autoridade, nao com o os le­ trados. 23Nessa sinagoga havia um homem possuído por um espirito imundo, 24que gritou: — O que tens a ver conosco, Jesús de Nazaré? Vieste para nos destruir? Sei quem és: o Consagrado por Deus. go”, a companhia e trato pessoal, o conhecer mediatamente, o assimilar por familiaridade. “Foram com ele”: até onde chegará o seguimento? 1.21-28 O curso do relato tem sido até agora veloz. Curiosamente, nesse episo­ dio se remanseia, como se Marcos lhe atribuísse um valor particular. Efetivamente, nessa primeira atuagáo de Jesús se unem ensinamento e milagre. Aqui se apresenta, na linguagem e na mentalidade da épo­ ca, a confrontagáo primeira e a vitória de Jesús sobre os poderes do mal que escravizam o homem. O povo, ao ver e ouvir, comega a admirá-lo. Formam o círculo ampio, em torno dos seguidores íntimos. 1.21-22 Por algum tempo, Cafarnaum será seu centro de operagóes. Respeita as instituigóes religiosas e se aproveita délas para sua atividade. Ensina, nao como repetidor de tradigóes (7,3), mas como fonte autorizada de doutrina. “Farei brilhar meu ensinamento como a aurora, para que ilu­ mine as distancias” (Eclo 24,31). O povo sem querer comega a fazer comparagóes. Quando léem esse evangelho, os cristáos repetem a comparagáo entre tradigóes hu­ manas e a autoridade do seu Mestre. 1,23-26 É chamado de “espirito imun­ do”, qualidade incompatível com o sagra-

25Jesus o repreendeu: — Cala-te e sai dele. 260 espirito imundo o sacudiu, deu um forte grito e saiu dele. 27Todos se encheram de estupor e se perguntavam: — O que significa isso? E um ensi­ namento novo, com autoridade. Dá ordens inclusive aos espíritos imundos, e lhe obedecem. 28Sua fama espalhou-se rápidamente por todas as partes, em toda a regiáo da Galiléia. C uras (M t 8,14-17; Le 4,38-41) — 29Depois saiu da sinagoga, e com Tiago e Joáo dirigiu-se á casa de Simáo e An~ dré. 30A sogra de Simáo estava de cama com febre, e pediram por ela. 31Ele se aproximou, tom ou-a pela máo e a levantou. A febre passou e ela se pos a servi-los.32Ao entardecer, quando o sol do ou santo (= consagrado, título que dáo a Jesús). Os dois poderes estáo frente a frente: o diálogo ñas intervengóes de cada um esclarece o sentido misterioso. O es­ pirito pronuncia nomes e títulos de Jesús para sujeitar seu poder ou o reconhece, a contragosto, como o vencido ao vencedor; como os pagaos em vários oráculos de Ezequiel, como Antíoco Epífanes (2Mc 9,12). Jesús nao dá explicagóes, dá ordens que os rivais tém de cumprir. 1,27 Na pergunta do povo se ouve a pergunta com a resposta da comunidade crista. O fato de ter ouvido muitas vezes o relato nao deve embotar nossa estupefagao. O ám­ bito é ainda restrito, a regiáo setentrional. 1,29-31 A sogra de Pedro é a primeira beneficiária do poder curador de Jesús, transmitido pelo contato da sua máo (SI 62,9; “tua direita me sustenta”, SI 73,23). Urna vez curada, póe-se a seu servigo. O fato acontece durante o sábado e na casa de Simáo. Dos parentes nao se volta a falar nos evangelhos; Paulo faz alusáo ao ma­ trimonio de Pedro (ICor 9,5). 1,32-38 Ao por do sol, termina o sába­ do, e o povo acorre atraído por sua fama; a uniáo de enfermidade e possessáo será urna constante. O dia seguinte é “pro­ gramático”: comega com um momento de

m a rco s

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se pos, levavam-lhe toda espécie de enfermos e endem oninhados. 33Toda a populacáo se aglom erava junto á por­ ta- 34Ele curou m uitos enferm os de vánas doengas, expulsou m uitos dem o­ nios e nao lhes perm itía falar, pois o conheciam. ^5Bem de m adrugada levantou-se, saiu e se dirigiu a um lugar despovoado, e ai esteve orando. 36Sim áo e seus companheiros saíram atrás dele e 37quando 0 alcancaram, lhe disseram: — Todos te procuram. 38Respondeu-lhes: — Vamos as aldeias vizinhas, para pregar também ai, pois vim para isso. E foi pregando e expulsando dem o­ nios em suas sinagogas por toda a Gal'léia. tu r a um leproso (Mt 8,1-4; Le 5,12-16) 4 (1 Aproxima-se um leproso e [ajoeIhando-se] suplica-lhe: °raçâo na solidao (tema reiterado em Lc)„ de onde sai para declarar sua missáo primà­ ria de pregar. Diante da sua palavra e dos seus milagres vai se retirando o dominio satánico e avança o reinado de Deus. Mar­ cos o propoe como modelo a seus leitores. 1.38 E urna espécie de sumário da atividade de Jesús: excursóes, ensinamento, curas, expulsáo de demonios, oraçâo. 1,40-45 Nâo é certo que se tratasse de le­ pra em sentido clínico estrito. Em todo caso, era urna enfermidade grave da pele, que pro­ vocava impureza legal e excluía a pessoa da comunidade. Acura tinha de ser testemunhada oficialmente (Lv 14,2-32); os sacerdotes diagnosticavam, nao curavam. Jesús toca nele: nao se contamina com ele, mas cura 011 “limpa” o enfermo; o termo “limpar” implica o aspecto cúltico da enfermidade. No desenlace assistimos a essa tensâo na nussào de Jesus: procura retirar-se e ocultar-se, mas irradia urna força superior de atraçào. Como o Deus de Is 45,14-15, “es­ condido” e atraente, mesmo para pagaos. 1,40 *Ou: limpar-me, por causa da im­ pureza legai. 1-3,6 Formam um bioco de cinco epi­ sodios, nos quais Jesus enfrenta represen-

— Se queres, podes curar-me*. 41Ele se compadeceu, estendeu a máo, tocou nele e lhe disse: — Quero, fica curado. 42Imediatamente a lepra desapareceu e ficou curado. 43Depois o admoestou e o despediu, 44recomendando-lhe: — Nao o digas a ninguém. Vai apresentar-te ao sacerdote e, para que lhe conste, leva a oferenda estabelecida por M oisés pela tua cura. 45Porém ele saiu e se pos a anunciálo e a divulgar o fato, de modo que Je­ sús nao podia apresentar-se em públi­ co em nenhuma cidade, mas ficava fora, no despovoado. E de todos os lugares acorriam a ele.

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Cura um paralítico (Mt 9,1-8; Le 5,17-26) — ’Depois de alguns dias, voltou a Cafarnaum e correu a noticia de que estava em casa. 2Reuniram-se tantos, que nao havia espago junto á tantos autorizados do judaismo, a saber, fariseus e letrados. Já venceu Satanás e um espirito imundo; agora toca-lhe outro tipo de resisténcia. Fariseu designa um tipo de mentalidade e conduta, letrado denota algo de profissáo; as duas categorías se sobrepóem parcialmente. As situagoes sao di­ versas: duas curas, um banquete, um jejum, um dia de fome: a saúde e a comida fornecem o suporte realista á manifestagáo. A tensáo vai crescendo até desembo­ car na decisáo de eliminá-lo; o relato aponta para a paixáo. Também varia o tema: perdao dos pecados, trato com os pecado­ res, sábado. E estranho que a palavra libertadora, a boa noticia em agáo provo­ que tal resisténcia e hostilidade. Cada cena culmina numa sentenga que a retoma em forma de principio ou ensi­ namento. Jesús, escondido e apertado pela multidáo, se apresenta para enfrentar os guias espirituais e distanciar-se deles com autoridade. Marcos pensa em sua comu­ nidade e em futuros leitores, ao compor essa seqüéncia polémica. 2,1-12 Um paralítico é um doente gra­ ve, morto em vida. Segundo a concepgáo antiga, a doenga está intimamente vincu-

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porta. Ele lhes expunha a mensagem. Chegaram alguns levando um paralí­ tico, carregado por quatro; 4e, como nao conseguissem aproximá-lo por causa da multidáo, ergueram o teto sobre o lu­ gar onde estava Jesús, abriram um bu­ raco e desceram o leito em que jazia o paralítico. 5Vendo Jesús a fé que eles tinham, disse ao paralítico: — Filho, teus pecados sao perdoados. 6Estavam ai sentados alguns letrados que refletiam em seu íntimo: — 7Com o pode falar assim? Quem pode perdoar pecados, a nao ser sonrien­ te Deus? 8Jesus, adivinhando o que pensavam, disse-lhes: lada ao pecado: talvez como efeito da sua causa, ou como sintoma de um mal in­ terior. Podem-se conferir os salmos dos enfermos (p. ex. 32; 38; 41). Em sua instrugáo sobre a enfermidade Ben Sirac recomenda: “reza a Deus e ele te fará curar... l limpa teu coragáo de todo pecado” (Eclo 38,9-10). Os carregadores, talvez familia­ res, querem a cura física do doente. Jesús desvia a atengáo para o mais importante e grave da sua tnissáo: vencer o pecado com o perdáo. A enfermidade pode ser situagáo de humildade e ocasiáo de arrependimento: “Outras vezes corrige-o no leito de dor” (Jó 33,19). Embora o passivo “sao perdoados” possa ser teológico (Deus, agente da passi¡ va), os letrados atribuem a sentenga a Je­ sús, e ele se mostra de acordo. Ai surge a opositólo. Os letrados, com a tradigáo, defendem que perdoar pecados é competen­ cia exclusiva de Deus (SI 130,4: “O per­ dáo é coisa tua”; 51,6 no contexto, e outros salmos penitenciáis, Is 43,25). Jesús rei­ vindica esse poder na térra, também como homem; entende-se, recebido de Deus. Veja-se a promessa da nova alianza: “Eu perdóo suas culpas e esquego seus peca­ dos” (Jr 31,34). E o prova com urna agáo que empírica­ mente se considera mais difícil. Pois, para expiar pecados, o culto oferecia recursos institucionais; para curar milagrosamen­ te, nao. A cura prova o poder, já que Deus náo escutaria um blasfemo. A cura exter­ na expressa e revela a interna.

— Por que pensáis isso? 90 que é mais fácil? Dizer ao paralítico que os pecados estáo perdoados, ou dizer-lhe que carregue o leito e com ece a andar? “’Pois bem, para que saibais que este Homem tem autoridade na térra para perdoar pecados — diz ao paralítico — : “ Falo contigo, levanta-te, toma teu leito e vai para casa. 12Levantou-se imediatamente, tomou o leito e saiu diante de todos. De modo que todos se assombraram e glorificavam a Deus: Nunca vimos coisa semelhante. C ham a Levi (Mt 9,9-13; Le 5,27-32) — 13Saiu novamente á margem do lago. Todo o povo acorría a ele, e ele os ensi­ Jesús se apropria da expressáo “filho do homem” (ho hyios tou anthropou = ben 'adatn, título corrente em Ezequiel), que por um lado afirma sua condigáo humana, correlativo de “filho de Deus”, e por outro lado está associada com a “figura hu­ mana” de Daniel (7,14). Isso pode ser fonte de ambigüidade, conforme pretenda Jesús afirmar sua condigáo humana exemplar ou queira aludir á sua parusia gloriosa. (Pro­ curo diferenciar a tradugáo segundo os casos.) A cena comega com urna descrigáo pre­ cisa, ao gosto de Marcos, e termina com a glorificagáo coral de Deus, no estilo de muitos salmos. 2,1-2 Uma casa com terrago é cenário funcional do fato. Abrir um buraco para entrar era operagáo de ladróes (Ex 22,12); fazem isso “á luz do dia”, destruindo sem consideragóes, abrindo uma passagem do tamanho de um homem, numa ostentagao de criatividade e decisáo. Jesús reconhece, na agáo, a fé. 2,5 O título “filho” é carinhoso, como de superior a inferior, de mestre a discípulo. 2.7 Blasfema: em sentido ampio, por­ que se arroga um privilégio exclusivo de Deus. A pena da blasfemia é a lapidagao. 2.8 Penetrar os pensamentos é próprio de Deus (Pr 15,11). 2,11 O Senhor... afofará o leito de sua enfermidade (SI 41,4). 2,13-17 Levi era coletor de impostos, oficio que acarretava a seus titulares o qualificativo formal de “pecadores”, por-

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nava. 14Ao passar, viu Levi de Alfeu, sen­ tado junto á mesa de impostas, e lhe diz: — Segue-me. Levantou-se e o seguiu. 15Era convidado na casa dele, e muitos coletores e pecadores estavam á mesa com Jesús e seus discípulos. Pois muitos eram seus seguidores. 16Os le­ trados do partido farisaico, vendo-o co­ m er com pecadores e coletores, disseram aos discípulos: — Por que come com coletores e pe­ cadores? 17Jesus os ouviu e respondeu: — Os saos nao tém necessidade de médico, mas os doentes sim. Nao vim cham ar justos, m as pecadores. que tratavam com nao judeus e abusavam do cargo, provocando o odio do povo, pois exploravam e estavam a servido dos ro­ manos. O cargo era recebido em arrendamento. O chamado soberano de Jesús prescinde de preconceitos e convengóes e vence a possível resistencia da cobiga. Também a cobiga é uma forma de idola­ tría (Ef 5,5) e o deus do dinheiro, Mamón, é rival de Deus (Mt 6,24). Como os pesca­ dores, Levi deixa tudo e “segue” a Jesús; porque a renuncia está em fungáo do seguimento, que dá sentido á renúncia. Mar­ cos é conciso: o longo e difícil processo de conversáo (veja-se o episodio do jovem rico, 10,17-31) resolve-se num imperativo de Jesús, como uma palavra criadora: “Cria em mim um coragáo novo” (SI 51,12). Na oportunidade se oferece um banquete aos colegas de profissáo (ou da casta): “na casa dele”. De quem? O grego é ambiguo. O mais natural é que seja Levi quem ofe­ rece o banquete (de despedida), e o convi­ dado principal é o seu novo chefe. Gra­ maticalmente é possível que o anfitriáo seja o próprio Jesús, na sua casa de Cafarnaum. Em tal caso, o convite seria enor­ memente significativo, quase um ato de solidariedade religiosa. Seja como for, compartilhar a mesa com “pecadores” é pecaminoso e escandaloso, pois ser co­ mensal (co-mens-al) é um ato significati­ vo de relagáo amistosa, selada pela béngáo sobre os alimentos. Os guardas da legalidade protestam: nao seráo pecado­ res também Jesús e seus companheiros?

O jejum (Mt 9,14-17; Le 5,33-39) — 180s discípulos de Joáo e os fariseus estavam de jejum . Váo e lhe dizem: — Por que os discípulos de Joáo e os dos fariseus jejuam e teus discípulos nao jejuam? 1 9 Respondeu-lhes Jesús: — Podem os companheiros do noivo jejuar enquanto o noivo está com eles? Enquanto tém o noivo com eles, nao podem jejuar. "°Chegará um dia em que lhes arreba­ tarlo o noivo, e nesse dia jejuaráo. 2lNinguém póe remendó de paño novo numa roupa velha; pois o acrescentado repuxa a roupa e faz um rasgo pior. 22Ninguém póe vinho novo em odres velhos, pois o vinho arrebenta os odres, Jesús responde com a autoridade de um anfitriáo ou do convidado especial que preside (cf. Eclo 32,1); responde com um refráo. Quem se considera sadio nao pro­ cura o médico (cf. Eclo 38,1-15), e Jesús veio como médico, ostentando o título que o AT costuma atribuir a Deus: “Eu sou o Senhor, que te cura” (Ex 15,26; Dt 32,39; Is 19,22). Do refráo salta para a definigáo de sua missáo: Jesús “veio”, é aquele que devia vir, com a missáo de um chamado universal: pecadores sáo todos, mesmo os que nao querem reconhecé-lo: “porque ninguém está livre de pecado” (IRs 8,46). 2,18-22 Após o banquete, urna contro­ vèrsia sobre o jejum: a coeréncia narrativa é notável. O jejum era tradicionalmente praticado por lei ou por devogáo, como expressáo de arrependimento, humildade ou luto (Zc 7,3-5; a crítica de Is 58). Também o círculo de Joáo Batista se surpreende dian­ te do estilo de vida de Jesus e seus discípu­ los. A uma pergunta responde outra, bem no estilo rabínico. Jesús levanta a questáo até outro plano. Ele é o Messias esposo e seus discípulos desfrutam por ora a sua pre­ senta festiva: “companheiros, cornei e bebei” (Jr 33,11; Ct 5,1). Antes a esposa de Yhwh jejuava por sua infidelidade; agora celebra-se o casamento de fidelidade (cf. Os 2,21-22). “Será tirado deles”: alude em surdina à morte violenta (cf. Is 53,8), já acontecida quando Marcos escreve. 2,21-22 Soa o refráo como explicagáo, “pelo contràrio”, em forma rítmica. Poderia ser assim formulado: Náo ponhas re-

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e se perdem odres e vinho. Para vinho novo, odres novos. Arrancando espigas no sábado (Mt 12,1-8; Le 6,1-5) — 23Um sábado atravessava plantagóes, e os discípulos, pe­ lo caminho, puseram-se a arrancar es­ pigas. 24Os fariseus lhe disseram: — Vé o que fazem no sábado: é proibido. Responde-Ihes: — 2^Nào lestes o que fez Davi quan­ do passava necessidade, e estavam famintos eie e seus com panheiros? 26Entrou na casa de Deus, sendo sumo sacerdote Abiatar, e comeu os pàes apresentados (que somente os sacerdotes podem co­ mer) e repartiu com seus companheiros.

27E acrescentou: — O sábado foi feito para o homem, náo o homem para o sábado. 28De sorte que este Homem é senhor também do sábado. 0 homem da máo atrofiada (Mt 12,9-14; Le 6,6-11) — !Entrou ou­ tra vez na sinagoga, onde havia um ho­ mem com a máo atrofiada. 2Vigiavamno para ver se o curava no sábado, com intençao de acusá-lo. 3Diz ao homem da máo atrofiada: — P5e-te no centro. 4E pergunta a eles: — O que é permitido no sábado? Fazer o bem ou o mal? Salvar a vida ou matar?

3

mendo novo em paño velho, nao ponhas vinho novo em odres velhos. Tém relagáo com o anterior? Talvez enquanto o casa­ mento inaugura urna vida nova, e nao é um emplastro para solteiro; é vinho novo que nao pode ser perdido. A mensagem de Jesús nao é um remen­ dó para consertar o paño gasto (SI 102,27; Jr 13,7; Jó 13,28); é um vinho que as velhas instituyóos nao podem conter. Também essa discussáo se encerra com um refráo. Jesús nao é um letrado a mais no grupo ou na série. Ele traz algo novo que tornará antiquado o precedente: “o antigo passou, chegou o novo” (2Cor 5,17; Hb 8,13). 2,23-28 Aqui a questáo é a observáncia do sábado, prescrita pelo decálogo (Ex 20,8). Ben Sirac o considera instituido da “sabedoria divina” (Eclo 33,8); era questáo capital na prática religiosa judaica. Arran­ car espigas, a lei permite (Dt 23,26); debuIhá-las no sábado, a jurisprudencia rabínica proíbe. A intervengo dos fariseus se apresenta náo como simples chamada de atengáo, mas como acusagáo. Jesús responde, no estilo da halaká, com um exemplo bí­ blico do rei mais ilustre, Davi, o qual mostra que em caso de necessidade suspende-se a obrigagáo da lei (ISm 21,1-6). Se é sagra­ do o sábado, tempo consagrado a Deus, náo o eram menos os páes oferecidos a Deus (Lv 24,5-9). Davi náo sente escrúpulos, e o sa­ cerdote colabora com ele. Os objetantes se atreveriam a censurar a conduta do rei Davi?

A cena se concluí com um provèrbio incisivo, que alarga sua vigencia a muitos casos equivalentes. O provèrbio geral se aplica de modo especial a Jesús, o Homem pleno e autèntico. 3,1-6 Nesta quinta cena, culmina a tensáo e se consuma a ruptura. O tema è o sábado, e a ocasiào è ofereeida na sinago­ ga por um doente que tem a máo, órgáo de agáo, atrofiada (cf. SI 137,5). Acontece na sinagoga, lugar de reuniáo para orar e ex­ plicar a Escritura. Os rivais (Marcos náo diz quem) vigiam ou espiam Jesús com má intengáo: “as palavras do malvado sáo armadilhas mortais” (Pr 12,9; cf. Jr 20,10; SI 59,4), quer dizer, náo procuram discu­ tir e resolver urna questáo debatida, mas desacreditar aquele que propóe uma doutrina e conduta diversas. Jesús aprecia a intengáo e a converte em desafio, no qual ele toma a iniciativa, e coloca a questáo na aresta aguda da decisáo ética, o bem e o mal (Dt 30,15, “hoje ponho diante de ti a vida e o bem, a morte e o mal”). Inclusive o mal por omissáo do bem. A pergunta pode atingir também os rivais, que proíbem o bem da cura e se permitem o mal da intengáo perversa e que, acusando Jesús, sacrificam a saúde de um infeliz. A decisáo ética se concretiza na ajuda ao próximo necessitado: exigencia superior a instituyóos religiosas humanas (mesmo que se digam divinas), e mais ain-

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3,5

Eles calavam. 5Repassando sobre eles um olhar de indignagáo, embora dolo­ rido por sua obstinagáo, diz ao homem: — Estende a máo. Ele a estendeu e a máo ficou restabelecida. 6Os fariseus saíram ¡m ediata­ mente e deliberaram com os herodianos como acabar com ele. Curas junto ao lago —- 7Jesus se retirou com seus discípulos para junto do lago. Seguia-o urna m ultidáo da G aliléia, Judéia, 8Jerusalém , Iduméia, Transjordánia e do territorio de Tiro e Sidónia. da, superior á sua interpretagáo rigorosa e inumana. Os rivais pensam que se deve sacrificar o homem á instituidlo. Jesús se indigna, porque póe a instituigáo ao servi­ do do homem. (Compare-se com o caso de consciencia de lM c 2,32-40.) 3.5 A linguagem exige nossa atengáo. Jesús parece unir urna cólera divina (tema freqüente no AT) com urna compaixáo humana. A máo “restabelecida” indica um inicio de atividade normal: “fortalecei as máos iracas” (Is 35,2). 3.6 Areagáo dos rivais ao ensinamento de Jesús os leva á obstinagáo (Dt 29,18; Jr 3,17 par.). E déla passam á alianga com os partidários ou empregados de Heredes, á decisáo de eliminar o perigoso Jesús, a planejar o modo de realizá-la. Marcos tem pressa no seu relato. No bloco dos cinco episodios com sua culminagáo, domina a intengáo nar­ rativa, estilizada as expensas da cronología. 3,7-12 Novo sumário que sintetiza e prefigura acontecimentos. Jesús é um cen­ tro de atragáo, diríamos irresistível. O en­ tusiasmo da multidáo contrasta com a obs­ tinado dos fariseus. Vém da Galiléia, que é seu terreno de operagócs no momento; da Judéia com a capital: já náo é Jerusalém o centro de atragáo (SI 84 e 122), mas Jesús. Também da Transjordánia a leste, incluindo o semipagáo Edom ao sul. E o territo­ rio pagáo de Tiro e Sidónia a noroeste. Em­ bora limitadas na sua extensáo real, as regióes representam em escala reduzida o que um dia será a igreja (cf. SI 87). Marcos sugere essa visáo, sem sacrificar tragos descritivos realistas: o detalhe da barca, a multidáo atraída pelos milagres, a urgencia de tocar o taumaturgo, a pressáo física da multidáo. Os poderes do mal re-

Uma multidáo, ao ouvir o que fazia, acor­ ría a ele. 9Disse aos discípulos que tivessem de prontidáo urna barca, para que a m ultidáo náo o apertasse. 10Pois, visto que curava a muitos, os que sofriam enfermidades lancavam-se sobre ele para to c á -lo .1 1Os espíritos imundos, ao vé-lo, langavam-se sobre ele, gritando: Tu és o filho de Deus. 12Ele os repreendia severamente para que náo o descobrissem. Escolhe os Doze (M t 10,1-4; Le 6,1216) — 13Subiu á montanha, foi chaman-

conhecem a presenga do poder divino que os vencerá, mas Jesús náo quer aceitar um testemunho suspeito, que pode turvar a sua missáo: “Também os demonios créem e tremem de medo” (Tg 2,19). 3.13-31 No restante do capítulo, antes do discurso das parábolas, soa outra terrível confrontagáo, colocada entre duas ce­ nas dedicadas á nova comunidade. Da massa do povo destacam-se os discípulos que o seguiráo. 3.13-19 Aprimeira cena é a eleigáo dos doze, que se articula significativamente em dois tempos. Chamado espontáneo e livre de Jesús, “os que ele quis” (cf. SI 115, 3; Jo 15,16); nomeagáo de um grupo restrito de doze (muitos manuscritos acrescentam o título de apóstolos). Os doze enquanto grupo sáo “feitura” de Jesús, se­ gundo a linguagem grega. Os doze representam globalmente as doze tribos do Israel tradicional (náo urna a urna, já que vários sáo galileus). Seráo como os patriarcas do novo povo. Por oficio e mentalidade sáo de origem diversa: honra­ dos pescadores e coletor suspeito, gente pacífica e o extremista Simáo (zelota, cf. lM c 2,26-27.50; 2Mc 4,2). Judas projeta já uma sombra premonitoria, com o verbo “entregar” como palavra-chave no livro. Para eles e por ora, o importante é “conviver” com Jesús; daí partirá a missáo, que prolongará com autoridade delegada a ati­ vidade de Jesús. Um fato táo obvio como estar com outra pessoa comega a ter uma transcendencia incalculável, já que o “es­ tar com” é recíproco. 3,13 “A montanha” (com artigo) tem valor simbólico: subida e convergencia, lugar de encontro com Deus.

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do os que quis, e foram cora ele. 14Nomeou doze [a quem chamou apóstalos] para que convivessem com ele e para enviá-los a pregar 15com poder para ex­ pulsar demonios. 16[Nomeou, pois, os doze]. A Simáo chamou Pedro; 17a Tiago de Zebedeu e a seu irmáo Joáo chamou Boanerges (que significa Trovejantes), 18André e Filipe, Bartolom eu e M ateus, Tomé, Tiago de Alfeu, Tadeu, Simáo o zelota 19e Judas Iscariotes, que o entregou. Jesús e Belzebu (M t 12,22-32; Le 11, 14-23; 12,10) — 20Entrou em casa, e se reuniu tal m ultidáo que nao podiam sequer comer. 21Seus familiares, quando o souberam, saíram para dominá-lo, pois diziam que estava fora de si. 22Os letrados que haviam descido de Jerusalém diziam:

— Tem Belzebu dentro de si e ex­ pulsa os dem onios pelo chefe dos de­ monios. 23Ele os exortava com c o m p a ra re s : — Como pode Satanás expulsar Sa­ tanás? 24Um reino dividido internamen­ te nao pode subsistir. 25Uma casa divi­ dida internamente nao pode manter-se. 26Se Satanás se levanta contra si e se divide, nao pode subsistir, mas perece. 27Ninguém pode entrar na casa de um homem forte e levar seus bens, se pri­ meiro nao o amarra. Depois poderá sa­ quear a casa. 28Eu vos asseguro que aos homens seráo perdoados todos os pe­ cados e blasfem ias que pronunciarem. 29M as aquele que blasfem ar contra o Espirito Santo jam ais terá perdáo; é réu de um delito perdurável. 30É porque diziam que tinha dentro de si um espirito impuro.

3,17 Ainda nao se esclareceu a etimolo­ gía do apelido; alguns o ¡nterpretam com Filhos do Trováo ou Trovejantes. 3,20-21 A resistencia se infiltra entre seus familiares ou parentes próximos (cf. Zc 13,3), embora seja mais incompreensáo que hostilidade. Quem sao? Parece que nao possam ser identificados com os do versí­ culo 31, que acorrem com um recado pa­ cífico. Sao provavelmente achegados que o conheceram num estilo de vida corrente, e nao conseguem integrar sua nova fi­ gura. Como se para eles fosse urna personagem nova. Procuram dominá-lo, impedir sua atividade; julgam que delira ou que nao sabe conter-se e eventualmente temem por ele (a interpretado é duvidosa). 3,22 O fato de serem letrados e descerem de Jerusalém confere-lhes certo caráter oficial ou ao menos oficioso; como os enviados do templo pata interrogar o Ba­ tista (Jo 1,19). Com sua brevidade, Mar­ cos cria a impressáo de que os letrados trazem já confeccionada a sentenga. Belzebu é um dos nomes tradicionais do Diabo (to­ mado do deus de Acarón, 2Rs 1). A quem liberta os possessos declaram o primeiro possesso, aliado subdoloso do chefe dos demonios. Zebul significa provavelmente príncipe; aludiría ao forte da casa que será preciso amarrar.

3,23-30 Acusagao gravissima que visa a desacreditar pela base toda a atividade de Jesús, declarando-o agente do rival (= Sata) de Deus. (Pode-se recordar a con­ frontado inicial de Moisés com os magos egipcios, Ex 7,11-12.) E urna a cu sa d 0 absurda em simples lógica e se voltará contra os que a pronunciam. Agora Jesús se dirige ao povo presente, rebatendo aos acusadores com dupla comparado. Rei­ no pode ser a povoagáo (Is 19,2), e casa, a grande familia. Satanás tem seus agentes (o Apocalipse explica isso), seus instrumentos, sua mo­ rada e servidores, certa liberdade de agáo; insinua-se a oposigao ao reino de Deus e à casa ou familia de Deus. Jesús já defrontou com ele (1,13) e o venceu. Nao é que urna faegáo do reino de Satanás este­ ja lutando contra outra; todos formam um reino compacto. O ataque vem de fora, de um que é mais forte que ele, e o atará e sa­ queará seu dominio (cf. Ab 5-6). Quan­ do ele for atado (15,1), também o domi­ nio da morte o será — podem pensar os leitores de Marcos (cf. Le 10,Í8; Hb 2,14). Atribuir a Satanás o que é agao de Deus é blasfemar contra o Espirito de Deus. Ora, quem se obstina diante dos sinais evidentes, fecha-se à agáo de Deus, tam-

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3,31

A máe e os irmáos de Jesús (Mt 12,4650; Le 8,19-21) -— 31Sua máe e seus irmáos foram, se detiveram fora e enviaram um recado cham ando-o. 32As pessoas estavam sentadas em tomo dele e lhe dizem: — Vé, tua máe e teus irm áos [e irmás] estáo fora e te procuram. 33Ele lhes respondeu: -— Quem é minha máe e meus irmáos? 34E olhando os que estavam sentados em círculo ao redor dele, diz: — Vede minha máe e meus irmáos. 35Pois, quem cumpre a vontade de meu Pai do céu, esse é meu irmáo, irmá e máe. bém ao perdáo, pelo qual vencería Sata­ nás. Quem recusa o perdáo, nao pode recebé-lo. 3,31-35 Marcos descreve a cena com traços significativos. Jesús no meio, o povo sentado ao redor, fora desse círculo os fa­ miliares. E preciso notar que nao se men­ ciona o pai; Jesús adulto deveria ser o chefe da familia. Quer dizer, os seguidores relegaram a segundo lugar a familia, separan­ do Jesús dos seus. Quem tem mais direito? A familia quer romper o círculo, reclama seu parente famoso. Cabe a Jesús decidir a questâo, e ele o faz com autoridade. Os vínculos familiares sao coisa grande; por isso Jesús, que tem um Pai no céu (Le 2,4152), está criando uma nova familia, defi­ nida pelo cumprimento da vontade de Deus: era normal na familia que todos acatassem a autoridade do pai (e quem a cumpriu melhor que Maria?). 4,1-34 As parábolas discorrem entre comparaçâo e adivinhaçâo, e podem assumir forma narrativa: velam e desvelam segundo a capacidade e disposiçâo do ouvinte; por isso, a parábola se aparenta com o “enigma” ou adivinhaçâo (SI 49,5; 78,2). Por isso, sao palavra ativa, que interpela e exige resposta, provocando a separaçâo dos ouvintes em dois campos. O tema cen­ tral é o reinado de Deus, que chega e vai se afirmando. O fato transcendente se tor­ na de algum modo inteligível pela mediaçâo de símbolos. Marcos reúne num discurso très pará­ bolas agrárias, a explicaçâo de uma, a funçâo de todas e algumas sentenças.

Parábola do sem eador (Mt 13,123; Le 8,4-15) — ’Em outra ocasiâo começou a ensinar junto ao lago. Reuniu-se junto a ele tal multidáo, que teve de subir numa barca que estava na água; sentou-se, ao passo que a multidâo es­ tava na terra, junto ao lago. 2Ensinavalhes muitas coisas com parábolas, e lhes dizia instruindo-os: 3Atençâo! Um semeador saiu para semear. 4Ao semear, algumas sementescairam junto ao caminho; vieram os pássaros e as comeram; 5outras cairam em terreno pedregoso, com pouca terra; faltando-lhes profundidade, brotaram lo-

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É significativa a preferêneia por imagens végétais, ou melhor, agrárias. Nelas se conjugam os fatores da sementé, do terre­ no e também do trabalho do homem. Elas fazem compreender a vitalidade, o dina­ mismo condicionado do reinado de Deus e do seu anuncio. Se por um ladosugerem a vitalidade da mensagem, por outro indicam que a sua força nâo é a eficácia, mas a fecundidade, e que esta tem suas leis e seus tempos. Nâo é de estranhar que pro­ fetas e sapienciais tenham recorrido com freqiiência à imagem agrária (para citar alguns, Pr 11,18 e 22,8 o que semeia, 12,11 e 20,4 o trabalho de cultivar, 31,16 o ter­ reno etc.). 4,1-2 De novo apreciamos o gosto de Marcos pelo traço descritivo como cenário: a barca serve de púlpito; da praia o povo contempla Jesús como vindo das águas; por contraste, escutam uma linguagem agrícola que poderia refletir condiçôes e costumes galileus. As parábolas ou comparaçôes sâo meio de instruçâo (SI 49,5; 78,2; cf. Eclo 39,2-3). 4,3-9 A primeira é quase uma metalinguagem que explica o sentido e a funçâo da tal linguagem (como Is 55,10-11 ou Jr 23,24): é palavra acerca da palavra. Para os detalhes, aqui váo alguns paralelos: o sol que abrasa (Eclo 43,3-4), os espinheiros (Pr 24,31). Protagonista é a semente, essa pequenez prodigiosa, que se deixa tomar e espalhar e ¡mediatamente inicia sua atividade. E a primeira página do Gé­ nesis observa e destaca a semente de ervas e árvores, como agentes de fertilidade (Gn 1,11-12). O desenvolvimento se pa­

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go; 6mas, ao sair o sol, se abrasaram e, como nao tinham raízes, secaram. 7Outras caíram entre espinheiros: os espinheiros cresceram e as sufocaram, e nao deram fruto. 8O utras caíram na térra fértil e deram fruto, brotaram , cresce­ ram e produziram urnas trinta, outras sessenta, outras cem. 9E acrescentou: Quem tiver ouvidos, escute. í 10Quando ficou sozinho, os acompanhantes com os doze Ihe perguntaram sobre as parábolas. n Ele lhes dizia: — A vós é com unicado o segredo do reinado de Deus; aos de fora tudo é proposto em parábolas 12de modo que p o r mais que olhem nao vejam, por mais que ougam nao entendam; nao acontega que se convertam e sejam perdoados*. 13E acrescentou-lhes: — Se nao entendeis esta parábola, como entendereis as restantes? 14Aquele que semeia, semeia a palavra. l5Uns sao os que estáo junto ao ca-

m inho onde se semeia a palavra; enquanto escutam, chega Satanás e leva a palavra semeada. lflOutros sao como o que foi semeado em terreno pedrego­ so: quando escutam a palavra, acolhemna com alegría; 17mas nao tém raízes, sao inconstantes. Acontece urna tribu­ í a l o ou perseguiqáo pela palavra, ¡me­ diatam ente sucum bem . ‘8O utros sao semeados entre espinheiros: escutam a palavra, 19mas as p re o c u p a re s m un­ danas, a seducjáo das riquezas e o afá por tudo o mais os penetram, os sufocam e os deixam sem fruto. 20Os ou­ tros sao o semeado em térra fértil: es­ cutam a palavra, acolhem-na e dáo fruto de trinta ou sessenta ou cem. Outras parábolas e comparagóes (Le 8,16-18; Mt 13,31-35; Le 13,18s; Mt 13,34s) — 21Dizia-lhes: — A cende-se urna lam parina para colocá-la debaixo de urna vasilha ou tempo da Igreja, aponta para a rejeigáo e para a ruptura consumadas. 4.12 *Qu: a nao ser que se convertam... 4,13-20 A explicagáo alegorizante, por correspondèncias membro a membro, é da comunidade que medita e aplica a si o ensinamento (compare-se com o símbolo conciso da semente que morre e germina, de Jo 12,24-25). Também a comunidade se reconhece na parábola e formula alguns perigos e ameacas entre os quais lhe cabe viver e agir. No primeiro caso a palavra fica na su­ perficie, nao penetrando no íntimo. No segundo caso penetra, mas nao se enraíza. No terceiro caso penetra, enraíza-se, mas nao vence a concorréncia de outra ger­ m inado hostil. Dito ao contràrio, a pala­ vra precisa ser recebida, acolhida, assimilada, protegida. É um mistério “vital”. 4.13 Entender a primeira é condigáo para entender as seguintes: a primeira é progra­ mática. 4,21-25 A sentenza, refráo ou aforismo é um gènero diferente, embora aparenta­ do com a parábola (em hebraico tém o mesmo nome). Costumam ser autónomas e elásticas para amoldar-se a diversas si­ tu a re s . Marcos reúne aqui quatro e, ao

rece ao de alguns provérbios do tipo très + um quarto: très fracassos e um éxito des­ tacado. Também os espinheiros sao vege­ táis, dotados de urna vitalidade ameaçadora; ao passo que os pássaros exploram sua liberdade de vôo. Ou seja, a semente jaz ameaçada. 4,10-12 Intermèdio sobre a funçâo das parábolas, dedicado aos doze, porque a eles caberá explicar as parábolas do Mes­ tre. Entender seu segredo é dom celeste, nao conquista humana. Os de fora sâo os que nao entram ou nâo querem entrar no reino de Deus; ficam voluntariamente fora. O tema das parábolas é o reinado de Deus como mistério (Sb 2,22; 6,22): presente ou iminente, mas oculto; e a parábola tem muito de enigma. Quem se fecha a esse mistério olha sem ver, ouve sem escutar. Nele se cumpre o destino fatal anunciado a Isaías: “tém olhos cegados e nao véem, a mente, e nao entendem” (6,9-10; 44,1819). Acontece o endurecimento numa espécie de processo dialético, e o oráculo antecipa o desenlace. Outros traduzem a última cláusula: “a nao ser que se conver­ tam”; tiram a força do paradoxo. No tempo de Jesus, a frase alude à resisténcia contumaz das autoridades; no

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4,22

debaixo da cama? Nao se póe no candeeiro? 22Náo há nada oculto que nao se descubra, nada encoberto que nao se divulgue. 23Quem tiver ouvidos, es­ cute. 24Dizia-lhes também: — Cuidado com o que ouvis: a m e­ dida com que m edirdes usaráo convosco e com acréscimos. 25A quem tem, será dado; a quem nao tem lhe será ti­ rado o que tem. 26Dizia-lhes: — O reinado de Deus é com o um homem que semeou um campo: 27de noite se deita, de dia se levanta, e a semente germina e cresce sem que ele saiba co­ mo. térra por si m esm a produz fru­ to: primeiro o caule, depois a espiga,

depois a espiga cheio de graos. 29E quan­ do o trigo está maduro, passa a foice, pois chegou a ceifa. 30Dizia também: — Com que compararemos o reina­ do de Deus? Com que parábola o ex­ plicarem os? 31Com uma semente de mostarda: quando é semeada na terra, é a menor das sementes; 3 2 depois de semeada, cresce e se torna a maior de todas as hortaliças, e lança ramos tao grandes que as aves podem se aninhar em sua sombra. 33Com muitas parábolas semelhantes lhes expunha a mensagem, adaptada à sua capacidade. 34Sem parábolas nao lhes expunha nada; mas em particular, explicava tudo a seus discípulos.

colocá-las nesse contexto particular, faz com que o iluminem e se iluminem recipro­ camente com ele. O leitor pode ensaiar relagóes paralelas e oblíquas. P. ex., duas sobre o divulgar e duas sobre o corres­ ponder. Aos discípulos foi explicado o segredo, nao para o guardarem consigo, mas para difundi-lo, como uma luz (cf. Eclo 24,3234). O ocultamento presente, de Jesús e seu segredo, nao é definitivo; tem uma fu n d o e se ordena á futura manifestado (também a semente se esconde sob a tér­ ra). “E gloria de Deus ocultar um assunto” (Pr 25,1). A resposta á mensagem é uma medida que será desbordada pela fecundidade do grao: “Ensina o sábio, e será mais sábio” (Pr 9,9). Cabe outra interpretado: se ensinais generosamente, aprendereis e compreendereis mais; “Aprendi sem malicia, reparto sem inveja e nao guardo para mim suas riquezas” (Sb 7,13). O grao que nao dá fruto apodrece, e o terreno perde até o que tinha. Mas as sentengas podem desprender-se de qualquer contexto para suscitar novo sentido. A última é um paradoxo que nao se deve embotar com explicagóes razoáveis (em termos sapienciais, sobre o pru­ dente e o néscio, é feliz a descrido de Eclo 21,12-15). 4,26-29 Embora o homem ceda o terre­ no e o trabalho de lavrar, a vitalidade se

encerra na semente, onde Deus a inseriu (Gn 1,11-12). Essa vitalidade se processará segundo seu pròprio ritmo, porque Deus continua agindo: “eu plantei, Apolo regou, mas era Deus quem fazia crescer” (ICor 3,6-7; cf. SI 65,10-12)para além do trabalho humano: “Deus o concede a seus amigos enquanto dormem” (cf. SI 127,2). O reinado de Deus nao crescerà por puro esforço humano, nem se estende com a violéncia; é preciso deixá-lo crescer; sua força é misteriosa. E um convite à esperança (ao passo que Tg 5,7 convida à pa­ ciencia). Passa a foice (cf. J14,13). 4,30-32 Se a parábola precedente se fixava no ritmo do crescimento, a presente sublinha a desproporçâo entre o tamanho de uma semente e a planta na qual se con­ verte. Começa com uma semente concre­ ta, miúda; mas quando se pôe a descre­ ver a pianta, a paràbola se deixa levar pelas reminiscéncias de Ez 17,23; 31,6 e Dn 4,12-21, para sugerir a largueza acolhedora de uma àrvore frondosa, do rei­ no de Deus. 4,33-34 Conclusào do discurso das pa­ rábolas. A “capacidade” nào é puramente intelectual, já que inclui a disposiçâo do ouvinte para aceitar o ensinamento; quem tem prevençâo contra é “incapaz” de en­ tender. “Explicava tudo a seus discípulos”: é uma antecipaçâo colocada aqui por Mar­ cos para arredondar o discurso. Além dis­ so, aponta ao tempo da Igreja.

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Acalma a tempestade (Mt 8,23-27; Le 8,2225)—35No entardecer desse dia lhes disse: — Passemos á outra margem. 36Despedindo a multidáo, o recolheram tal co­ mo estava na barca; outras barcas o acompanhavam. 37Levantou-se um vento de furacáo, as ondas se arremessavam con­ tra a barca, que estava a ponto de afundar. 38Ele dormia na popa sobre um travesseiro. Despertam-no e lhe dizem: — Mestre, nao te importa que naufra­ guemos? 39Levantou-se, ameaqou ao vento e ordenou ao mar: 4.35-6,6 Do discurso passamos á agáo. Mas o esquema de velar e desvelar o mistério continua. Se para captar a palavra é preciso saber escutar, para perceber a agáo é mister saber olhar. Jesús manifesta seu poder enfrentando os grandes poderes ad­ versos: o océano que representa o caos, o diabo que se apodera de um homem, a doenga invencível, a morte. Quatro poten­ cias nefastas, aparentadas na mentalidade bíblica. Também a agáo prodigiosa de Jesús con­ serva um caráter bivalente, pois exige a fé para ser compreendida e provoca a resis­ tencia dos que nao estáo dispostos a acei­ tar suas conseqiiéncias. Assim, apesar dos prodigios, vai crescendo a oposigáo que culmina na rejeigáo dos seus concidadáos de Nazaré. Os discípulos tém fé? (4,40). Os gerasenos nao acolhem Jesús (5,17), outros se riem (5,40), o pai deve crer (5, 36), urna mulher mostra grande fé (5,34), seus conterráneos surpreendem pela incredulidade (6,6). Nesses episodios Marcos nao condensa, antes, se deixa levar pelo gosto de contar, com grande senso dos valores dramáticos. 4.35-41 O lago de Genesaré, cenário agradável de ensinamento, desempenha agora o papel de inimigo rebelde. Aceña tem tragos realistas que ajudam a imaginagáo do leitor e permitem aos exegetas alongar-se sobre as tormentas súbitas e violentas desse lago, que os pescadores conhecem por repetidas experiencias. Pois bem, o realismo serve para susten­ tar o sentido transcendente. O mar é a criatura que se revolve e se encrespa per­ turbando a ordem da criagáo, é herdeiro

— Cala-te, emudece! O vento cessou e sobreveio urna cal­ ma perfeita. ^ E lhes disse: — Por que sois táo covardes? Ainda nao tendes fé? 41Cheios de medo diziam entre si: — Quem é este, que até o vento e o lago obedecem? 0 endem oninhado de Gerasa (Mt 8,28-34; Le 8,26-39) — ‘Passaram á outra m argem do lago, no territorio dos gerasenos.

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de monstros mitológicos: “saía impetuo­ so do seio materno... aqui cessará a arrogáncia de tuas ondas” (Jó 38,7.11; SI 93,3-4; 65,8; Is 17,12). Jesús se póe de pé, sem vacilar pelas sacudidas (SI 107, 25-26), ameaga o mar com urna ordem decisiva, réplica do tradicional “bufido” do Senhor em textos poéticos: “a teu bra­ mido fugiram” (Is 17,13; Na 1,4; SI 18,16; 104,7), as vezes aludindo ao mar Vermelho (SI 68,31; 106,9). O vento e o mar lhe obedecem (Jn 1). Enquanto ele dorme serenamente (Jn 1,56; cf. SI 4,9), seus acompanhantes temem, faltos de fé, e o despertam (Is 51,12). Quando sobrevém a calma, se interrogam sem chegar a compreender. Embora o sucedido seja urna libertagáo, ao narrador interessa a manifestagáo de Jesús. Como a libertagáo do perigo do mar é um dos casos mais típi­ cos (SI 69; 124), o relato pronuncia urna palavra de ánimo para a Igreja ñas perseguigóes; a tradigáo posterior comparará a Igreja a uma barca no mar (cf. SI 107,23). 4,35-36 Jesús dá a ordem, pondo-se e pondo-os no perigo. As outras barcas serviráo de testemunhas. 4.39 Dirige a mesma ordem aos demo­ nios (1,24). “Apaziguou a tormenta em suave brisa e emudeceu o bramido das ondas” (SI 107,29). 4.40 Se o medo é lógico, a fé deve ven­ cer o medo: “Sé valente, tem ánimo, espe­ ra no Senhor” (SI 27,14). 5,1-20 Ninguém contou este episodio com tanto detalhe e viveza como Marcos. O poder inimigo, desta vez, é o demonía­ co no homem.

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2Ao desembarcar, um homem possuído por um espirito imundo saiu-lhe ao encontro do meio dos sepulcros. 3Habitava nos sepulcros. Nem com cadeias alguém podia dominá-lo; 4pois muitas vezes o dom inavam com correntes e grilhóes, e ele fazia saltar as correntes e rompia os grilhóes, e ninguém podia com ele. 5Passava as noites e os dias nos sepulcros ou pelos montes, dando gritos e golpeando-se com pedras. 6Ao ver Jesús de longe, pós-se a correr, prostrou-se diante dele 7e, dando um gran­ de grito, disse: — Que tens comigo, filho do Deus Altíssimo? Eu te conjuro por Deus que nao me atormentes.

8(Pois lhe dizia: Espirito imundo, sai desse homem.) 9Perguntou-lhe: — Como te chamas? Ele respondeu: — Chamo-me Legiáo, porque somos muitos. 10E lhe suplicava cominsistencia que nao o expulsasse da regiáo. n Havia ali, na ladeira, urna grande manada de porcos fugando. 12Suplicavam-lhe: — Envia-nos aos porcos para que entremos neles. 13Ele o permitiu. Entáo os espirites imundos saíram e entraram nos porcos. A manada, de uns dois mil, lançou-se ao lago por um precipicio, e se afogaram na água. 14Os pastores fugiram, e o con-

O relato, que se pode 1er como texto rea­ lista, mostra sua coerència significativa, se o enquadramos ñas crengas da época. Je­ sus se adentra em territorio pagáo, impuro (ISm 26,19; 2Rs 5,17), onde se apascentam animais impuros (Dt 14,8; Lv 11,7); ai encontra um homem possuído de um espirito imundo, que habita em sepulcros (ou camaras mortuárias), lugares impuros que contaminam. Um texto de Isaías ilus­ tra a conexáo desses elementos: “habitava nos sepulcros e pernottava ñas grutas, comía carne de porco, pondo nos seus pratos caldo abominàvel’ (Is 65,4). O homem é libertado, e toda a impureza se afunda no abismo do mar. Os vizinhos nao agradecem a operagáo de limpeza do forasteiro. O homem libertado nao é admitido como discípulo, mas recebe um cargo cir­ cunscrito aos seus, que ele executa alar­ gando o pròprio alcance. As crengas da época pertencem também os ritos e textos de exorcismos, bem do­ cumentados. O possesso ou seu demonio se volta contra o exorcista, pronuncia seu nome para dominá-ló, inclusive tenta conjurá-lo. Sentindo-se impotente, pede urna concessào: um alojamento alternativo (ani­ mal ou terreno), nao ser expulso para o deserto (Is 13,21; 34,14; Br 4,35; Tb 8,3), ficar no territòrio para exercer ai seu do­ minio. Esses tragos influem na forma do relato de Marcos e a explicam. 5,2 Os sepulcros sugerem a vinculagáo da possessáo ao reino dos mortos (cf. Is

28,15; 65,4). Sai-lhe ao encontro, como saído do reino da morte. Jesus aceita o encontro, nâo teme contaminar-se porque vem libertar purificando. 5,3-4 A força descomunal do energú­ meno é um traço realista (essa é a etimolo­ gia de “energúmeno” = acionado de den­ tro por um demonio). Sua força rompe as correntes (cf. Is 45,14; SI 149,8); mas nao pode com as outras que o prendem; será necessària a força maior de Jesús. 5,5 Também é realista o ferir-se com pedras. Mostra o caráter autodestrutivo e anti-humano da possessáo. 5,7-12 O diálogo dramatiza a resistèn­ z a até a concessào, para dar relevo à superioridade de Jesús. Os demonios nao querem nada com ele: chamam-no de fi­ lho do Deus Altíssimo, título divino opor­ tuno em boca pagà. E em nome de Deus, tentam conjurá-lo. Se o demonio conhece o nome e título de Jesús, Jesús pergunta pelo nome, como se o ignorasse. Ou para que declare que nâo tem nome, mas nú­ mero. Chama a atençâo no texto grego o uso do termo latino “legiáo”, tipicamente romano e militar. 5,13 Entrados na vara, mostram seu nú­ mero de legiáo e sua violencia destrutiva. Mas a concessào de Jesus é sua ruina: afundam-se no caos do mar. 5,15-18 O endemoninhado recobrou sua dignidade humana, individual e social. Mas os vizinhos pagáos, embora libertos de urna presença demoníaca, ainda nao

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taram na cidade e nos campos; e foram ver o que tinha acontecido. Aproximaram-se de Jesús e viram o endemoninhado que tivera dentro de si urna legiáo, sentado, vestido e em perfeito juízo; e se assustaram. 16Os que haviam presen­ ciado explicavam -lhes o que acontece­ rá ao endem oninhado e aos porcos. n E comegaram a suplicar-lhe que partisse de seu territorio. 18Quando embarcava, o endemoninhado suplicava que lhe permitisse acompanhá-lo. 19Náo o permitiu, mas lhe disse: — Vai para tua casa e aos teus, e conta-lhes tudo o que o Senhor, por sua misericordia, fez contigo. 20Ele foi e pós-se a apregoar pela Decápole o que o Senhor havia feito por ele, e todos se maravilhavam. aceitam Jesús. Assustam-se com seu po­ der que vem perturbar seu modo de vida: pesa mais a perda do rebanho que a cura de um possesso. Contudo, a noticia do possesso libertado contrapóe-se de algum modo á noticia dos pastores; ao menos consegue difundir o espanto pelo sucedido. 5,19 Jesús nao o aceita em seu seguimento. Deixa-o em territorio pagáo como testemunha e mensageiro. O Senhor, na bo­ ca de Jesús, é o Deus verdadeiro, o dos judeus. O fato foi obra de sua misericordia. 5,21-49 Dois relatos de cura, um encaixado no outro, como a tradigáo oral o trans­ mite. A distribuigáo dos trechos é: 2124.25-34.35-43. O recurso do caminho permite integrar fluentemente os dois ca­ sos. Mais ainda, acrescenta o progresso fatal da enfermidade grave da moga, o atra­ so no caminho, a noticia da sua morte. Como se dissesse que, curando urna, deixou morrer a outra; e para responder que assim o milagre será maior. Em ambos os casos é fundamental a fé, que pode con­ trastar com o ceticismo zombeteiro de alguns presentes. Ambos os casos se relacionam com a vida e a fecundidade: a mulher padece “na fonte do sangue” (Lv 12,7; 20,18), a moga completou doze anos, aca­ ba de tornar-se nubil. As duas estáo afastadas da vida social: a moga obviamente por sua doenga e morte, a mulher por uma doenga que a mantém durante anos em estado constante de impureza. As duas se

Duas curas (Mt 9,18-26; Le 8,40-56) — 21Jesus atravessou novam ente, de barca, para a outra margem, e reuniuse a ele grande multidáo. Estando ju n ­ to ao lago, 22chega um chefe de sina­ goga, chamado Jairo, e ao vê-lo se lança a seus pés. 23E lhe suplica insistente­ mente: — M inha filhinha está ñas últimas. Vem e pôe as máos sobre eia, para que se cure e conserve a vida. 24Foi com ele. Seguia-o grande m ul­ tidáo que o apertava. 25Havia uma mulher que há doze anos sofría de hemorragias; 26sofrera muito ñas m áos de m édicos, tinha gastado tudo sem melhorar, pelo contràrio, só piorando. 27O uvindo falar de Jesús, m isturou-se com a multidáo, e por trás incorporam plenamente à sociedade: a moga andando e comendo, a mulher con­ fessando publicamente o que fez ás ocul­ tas (segundo o provèrbio de 4,22). A cura da mulher nao tem antecedentes no AT, a ressurreigáo da moga se destaca sobre os milagres de Elias e Eliseu (IRs 17 e 2Rs 4). 5,21-22 De novo em territorio nativo e com a multidáo conhecida ao redor. O chefe da sinagoga dirigía as cerimónias do culto, era uma personagem importante e respeitada na comunidade. Seu nome pode significar “Yhwh ilumine” ou “Yhwh sus­ cite” (conforme se leia com ’alef ou com ‘ayrí). O gesto de prostrar-se expressa um extraordinàrio respeito. 5,23 O pai supoe que as máos de Jesús transmitam força vital de cura, até numa moribunda. O pedido soa em grego “se salve e viva”: de duplo sentido, segundo a entende aquele homem e segundo soa aos ouvidos da comunidade crista: “O Senhor é minha luz e minha salvagáo... baluarte de minha vida” (SI 27,1). Jesus atende. 5,25-26 A doenga da mulher a excluí de toda celebragáo festiva, pois contamina com seu contato mediato ou imediato (Lv 15,25-31). O detalhe do fracasso dos médi­ cos (cf. Eclo 38,1-15), embora verossímil, serve para exaltar por contraste o poder de Jesús, verdadeiro médico por virtude divina. 5,27-28 Embora soubesse que seu con­ tato contaminava, a mulher, seguindo

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5,28

tocou-lhe o manto. 28Pois pensava: Bas­ ta tocar seu manto e ficarei curada. 29No mesmo instante a hemorragia estancou, e sentiu no corpo que estava curada da doença. 30Jesus, consciente de que urna força tinha saído dele, voltou-se entre as pessoas e perguntou: — Quem tocou no meu manto? 31Os discípulos lhe diziam: — Vês que a multidáo te comprime e perguntas quem tocou em ti? 32Ele olhava ao redor para descobrir aquela que o havia feito. 33A mulher, assustada e tremendo, pois sabia o que lhe ha­ via acontecido, aproximou-se, prostrouse diante dele e lhe confessou toda a verdade. 34Ele lhe disse: — Filha, tua fé te curou. Vai em paz e fica curada de tua doença. 35Ainda estava falando, quando chegaram os enviados do chefe da sinago­ ga para dizer-lhe: — Tua filha morreu. Nao im portu­ nes o Mestre.

36Jesus, ouvindoo que falavam, dis se ao chcfe da sinagoga: — Nao temas, basta que tenhas fé. 37Náopermitiu queninguém o acompanhasse, exceto Pedio, Tiago e seu irmáo Joáo. 38Chegam á casa do chefe da sinagoga, vé o alvoroqo e os que choravam e gritavam sem parar. 39Entra e lhes diz: — Para que esse alvoroqo e esses prantos? Amenina nao está morta, mas adormecida. 40Riam-se dele. M as ele, expulsando todos, pegou o pai, a máe e seus companheiros, e entrón onde estava a me­ nina. 4IPegando a menina pela máo, dizlhe: Talitha qum (que significa: Menina, eu te digo: Levanta-te!). 42No mesmo instante a menina se levantou e se pos a caminhar. (Tinha doze anos.) Ficaram fora de si pelo assombro. 43Recomendou-lhes encarecidamente que ninguém o soubesse e ordenou que lhe dessem de comer.

crenças populares, considera Jesús como carregado de um fluido terapéutico, descarregado e transm itido por contato, mesmo que seja mediato (cf. At 19,12). O narrador se coloca na mente do personagem. 5,30-34 Agora se sucedem as duas reaçôes: de Jesús, ressaltada pela observaçâo dos discípulos, e da mulher. Devem ser lidas como correlativas, em funçâo do que revelam. Jesús pergunta como surpreso: quem foi? onde está? como se lhe houvessem roubado algo ás ocultas. Constata e confirma que urna força prodigiosa brotou dele; mas acrescenta que foi a fé da mulher que a extraiu. E a chama carinhosamente de filha. Ela se assusta com o atrevimento (que fez!). Violou as leis de pureza, misturando-se com as pessoas e tocando Jesús; na presença de um chefe de sinagoga que deve zelar pela pureza ri­ tual. Prostrada e humilde, confessa. Sua crença no fundo era fé: pode ir em paz. A fórmula usual de despedida carrega-se de novo sentido. 5,35-36 Entretanto, a moça morreu e trazem a noticia a Jairo. Nao há nada que fa-

zer: a doenqa pode-se curar, para a morte nao há remédio. A resposta de Jesús serve de contraste. Há remédio, sim: a fé. 5,37 Enquanto isso, o tradicional pranto fúnebre comegou (Jr 9,16-17). Jesús se rodeia de poucas testemunhas: os pais da moga e tres discípulos. Pronuncia urna fra­ se carregada de sentido. É conhecida a relagáo sono-morte em muitas culturas, também no AT: osono eterno (Jr 51,39.57), o sono da morte (SI 13,4), sem despertar (Jó 14,12). Jesús joga com a ambigüidade (como no caso de Lázaro, Jo 11,11-12). Os presentes nao captam a alusáo; riemse porque nao conhecem um poder supe­ rior á morte, nao conhecem o poder de Jesús. A comunidade crista que lé capta seu sentido mais profundo: Jesús é a vida, vencedor da morte. Na versáo grega de Paulo: “Onde está, ó morte, tua vitória?” (ICor 15,55). 5,41 Devolve-lhe a vida pelo contato: “tomas minha máo direita” (cf. SI 63,9; 73,23) e por uma ordem soberana. A tradigáo conservou a lembranga da frase em aramaico (o tradutor grego se excedeu um pouco ao explicar o vocativo).

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Na sinagoga de Nazaré (Mt 13,5358; Le 4,16-30) — 'Saindo daí, dirigiu-se a sua cidade, acompanhado de seus discípulos. 2Num sábado, pós-se a ensinar na sinagoga. A multidáo que o escutava com entava assombrada: De onde ele tira tudo isso? Que tipo de sa­ ber lhe foi dado para que realize tais milagres com suas maos? 3Esse nao é o carpinteiro, o filho de Maria, irmáo de Tiago e Joset, Judas e Simáo? Suas irmás nao vivem aqui entre nós? E sentiam isso como um obstáculo.

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4Jesus lhes dizia: -— Um profeta é desprezado somente em sua pàtria, entre seus parentes e em sua casa. 5E náo podia fazer ai nenhum milagre, exceto uns poucos en­ fermos a quem impós as máos e curou. 6E estranhou a incredulidade deles. Depois percorria as aldeias da redondeza ensillando. M issáodos doze(M t 10,1.5-15; Le 9,16) — 7Cham ou os doze e os foi envian­ do dois a dois, conferindo-lhes poder 6,4 A resposta de Jesús é um refráo am­ pliado (cf. Jr 11,18-23). Entre nós se diz: Ninguém é profeta em sua pàtria. A pàtria é a cidade de nascimento, os parentes, o círculo intermèdio, a casa é a familia. Náo pòde fazer milagres porque lhes faltava a fé para receber e reconhecer o dom. 6,7-13 Vocagào e missào (ou chamado e envió) sao dois momentos complemen­ tares (Is 6; Jr 1,5-8.17; Ez 2-3). Assim o presente envio é complemento de 3,13-16. A redagào tem caráter de sumario. Os apóstolos saem em duplas: “Melhor dois juntos que um sozinho, sua fadiga terà boa paga” (cf. Ecl 4,9), como testemunhas (Dt 17,6): do anuncio e também do juizo de condenagào em caso de rejeigáo. Váo revestidos de poder para ampliar ou pro­ longar a atividade de Jesus, a saber, pre­ gar, curar e expulsar demonios. A missào tem urna fungáo histórica, du­ rante a vida de Jesus. Mais tarde se oferece como exemplo da condigào missionària da Igreja e de alguns membros em parti­ cular. O estilo desses missionários pode estar condicionado históricamente nos detalhes (corrigidos em Mt e Le); mantém sua va­ lidez na substancia: simplicidade e desa­ pego. Nada que tenha sabor de interesse e possa desacreditar a mensagem. Aboa no­ ticia náo chega a cavaio da riqueza. Náo devem levar dinheiro nem provisóes de reserva, porque viveráo da diària e da hospitalidade generosa. Náo podem levar o bastáo de andarilho (cf. Gn 32,11). Duas túnicas considerava-se luxo. Na pers­ pectiva da comunidade e de Marcos, o tex­ to combina dois aspectos da mensagem: desapego dos missionários, apoio das co-

6.1-6 Na realidade, os quatro episodios precedentes podem ter acontecido em lu­ gares e tempos diversos. Na construqáo narrativa de Marcos, desembocam na ines­ perada reagáo negativa dos seus conter­ ráneos. O ciclo se encerra numa sinagoga, onde Jesús le e comenta o texto bíblico (Mar­ cos nao especifica qual, cf. Le 4). O povo do lugar conhece suas curas de ouvido e talvez de vista, e escuta maravilhado seu ensinamento. Mas se nega a tirar a conseqüéncia necessária. Sua imagem do Messias ou do Profeta (Dt 18,15) nao é compatível com os an­ tecedentes familiares e profissionais de Jesús: Nazaré é urna aldeia sem impor­ tancia (cf. Jo 1,46). Depreciativamente o chamam “esse”. Nao estudou — deu-lhe Deus sabedoria? (Cf. Sb 8,21). Suas “maos” sao de artesáo, agora sao instrumento de poder. Admiram-se, perguntam, mas re­ sisten! em responder, porque “tropegam” na humildade. “Como se tornará sábio o que maneja o arado..., igualmente o arte­ sáo..., e o ferreiro..., igualmente o olciro...?”, assim Ben Sirac contrapóe o artesanato ao cultivo da sabedoria (Eclo 38, 24-39,11). 6.2-3 A primeira pergunta é genérica: “tudo isso”. A segunda é sobre o poder taumatúrgico: vem de Deus?, ou do dia­ bo, como dizem os fariseus? (3,22). E sua sabedoria: vem de Deus? (segundo Is 11,1-2; cf. Eclo 39,6-10), ou do diabo? “Essa nao é sabedoria que desee do céu, mas terrena, animal, demoníaca”? (Cf.Tg3,15-16). Seguem-se algumas perguntas para afirmar que sabem tudo de Jesús e de sua familia. Os quatro irináos tém nomes patriarcais.

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6,8

sobre os espiritas ¡mundos. 8Recomendou-lhes que levassem somente um bastáo; nem pao, nem sacóla, nem dinheiro no cinto, 9que calqassem sandálias, mas que nao levassem duas túnicas. l0Dizia-lhes: — Guando entrardes numa casa, ficai ai até partir. 1 1Se um lugar nao vos re­ cebe nem escuta, sai de lá e sacudi o pó dos pés, para que lhes conste. 12Foram-se e pregavam para que se arrependessem ; 13expulsavam m uitos demonios, ungiam com óleo muitos en­ fermos e os curavam. M orte de Joáo Batista (Mt 14,1-12; Le 9,7-9) — 140 rei Herodes ficou sa~ bendo, porque a fam a de Jesús se di­ fundía, e pensava que Joáo Batista hou-

vesse ressuscitado da norte e por isso atuava nele o poder milagroso. 15Outros porém diziam quesra Elias, e outros que era um profeta tomo os clássicos. 16Herodes ouviu edisse: — Joáo, a quem fiz degolar, ressuscitou. 17Herodes tinha mandado prender Jo­ áo e o mantinha encarcerado por insti­ g a d o de Herodíades, esposa de seu irmáo Filipe, com a qualcasara. K S Joáo dizia a Herodes que náoera lícito ter a mulher do próprio irmáo.1 ',Herodíades tinha rancor dele e queriimatá-lo, mas náo conseguía, 20porque Herodes respeitava Joáo, sabendo que era homem honrado e santo, protegii-o, fazia mui tas coisas aconselhado p or ele e o ouvia com prazer. 21A oportunidade chegou

munidades, subordinados naturalmente á missáo e poderes recebidos de Jesús. 6,11 Trata-se de uma a§áo simbólica que toma o pó como sinal (2Rs 5,17): que nada do terreno culposo se apegue aos pregadores. Aboa noticia se converte em juízo e condenagáo de quantos a recusam (At 13,51). 6,13 Aungáo pode ser remedio terapéu­ tico (Le 10,34) e também símbolo da cura (Tg 5,14). 6,14-16 Quem é este?, perguntavam os discípulos (4,41); e o povo fazia a mesma pergunta. Era preciso identificar o mestre cativador e taumaturgo generoso. Para os familiares era simplesmente seu conter­ ráneo, artesáo iletrado, cujos familiares moravam em Nazaré. Algumas autorida­ des o consideraram blasfemador e agente de Satanás. Para outros era o profeta Elias, cuja volta fora anunciada (MI 3,23-24; Eclo 48,10-11). Outros o consideravam um profeta como os de outra época, ou talvez como o prometido por Moisés: “um pro­ feta como eu ... o Senhor suscitará para ti” (Dt 18,15). Porque há tempo a profecía havia cessado e se esperava que voltasse: “até que surgisse um profeta fidedigno” (lM c 14,41). As noticias sobre a atividade de Jesús e os rumores do povo chegam aos ouvidos do rei, que também precisa identificar a surpreendente personagem. E propóe sua teoría. Ninguém o identifica como o Messias.

A tradigáo bíblica apresentava Elias como taumaturgo: se voltasse á térra, ló­ gicamente chegaria com poderes cclcstiais. Náo tinha tal fama o Balisla; portanto, os novos poderes teriam sido concedidos a ele na sua ressurreigáo c nova missáo. O narrador aproveita o comentario de He­ rodes para narrar um fato precedente, em técnica retrospectiva. 6,17-29 Com grande maestría literaria, Marcos nos conta o martirio do Batista. Comega descrevendo a situaqáo na corte: a relagáo ilegítima de Herodes (Lv 18,16), a ascendencia de Joáo, sua admoestagáo franca (como a do profeta Nata a Davi, 2Sm 12), o rancor passional de Herodía­ des. Bons ingredientes paraum drama. No fundo, podemos escutar o drama do fraco rei Acab, a consorte Jezabcl que o incita ao crime e o profeta Elias perseguido á morte (modelo do Batista, IRs 18— 19). Marcos segue a técnica narrativa bíblica: reprime suas emogdes, como se narrasse a frió, e deixa que os fatos comovam o leitor. Muitos escritores e músicos exploraram o potencial dramático desse relato. 6,20 Respeitava: ou temía. Talvez um temor reverencial por sua condigáo “sa­ grada”. Compare-se com a atitude do rei de Israel diante do profeta (IRs 22,8 e con­ texto). 6,21-23 Celebra-se o aniversario do rei, em clima de festa. E a ocasiáo de fazer

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quando, no seu aniversário, Herodes ofereceu um banquete a seus magnatas, seus com andantes e às grandes perso­ nalidades da Galiléia. “ A filha de Herodiades entrou, dangou e agradou a Herodes e aos convidados. O rei disse à jovem: — Pede-me o que quiseres, e eu te darei. 23E jurou: — Ainda que me pegas a metade do meu reino, eu te darei. 24Ela saiu e perguntou à sua màe: — O que lhe pego? Respondeu-lhe: — A cabera de Joào Batista. ^E ntrou logo, aproximou-se do rei e lhe pediu: — Quero que me dés imediatamente numa bandeja a cabega de Joào Batista. 2fiO rei se entristeceu; mas, por causa do juram ento e dos convidados, nao

quis decepcioná-la. 27E mandou imedia­ tamente um guarda com ordem de trazer a cabera. Este foi, degolou-o na prisáo, 28levou numa bandeja a cabega e a entregou á jovem ; ela a entregou á sua máe. -ySeus discípulos, ao tomar conhecimento, foram recolher o cadáver e o depuseram num sepulcro. Dá de com er a cinco mil (Mt 14,13-21; Le 9,10-17; Jo 6,1-14) — 30Os apósta­ los se reuniram com Jesús e Ihe contaram tudo o que haviam feito e ensinado. 31Ele Ihes diz: — Vinde vos, sozinhos, a um lugar despovoado, para descansar um pouco. Pois os que iam e vinham era tantos, que nao tinham tempo nem para comer. 32E assim foram sozinhos de barca a um lugar despovoado. 33Mas muitos os viram partir, e se deram conta. De todos os povoados foram correndo a pé até

beneficios e conceder perdáo. A princesa faz o papel de bailarina (cf. Ct 7,1-7) num solo de exibigáo oferecido a um público masculino. O aplauso e geral, e o rei, num alarde de esplendidez, promete dar-lhe quanto pedir, e o jura com urna fórmula hiperbólica (Est 5,3.6; 7,2). 6,24 A expressáo “pedir a cabega de N” tomou-sc proverbial. 6,25-27 Herodíades aproveita a ocasiáo propicia. A inesperada petigao da prince­ sa coloca o rei numa postura comprometi­ da: dividido entre sua estima pelo Batista e o juramento pronunciado diante dos con­ vidados. O pedido invalida sem mais o juramento. Um juramento nao pode justi­ ficar um crime de assassinato. Mas o rei cede à sensualidade e aos compromissos de corte. A festa tem um final macabro. O quadro denuncia sem afetagáo a imoralidade e corrupgáo dos dirigentes. 6,28-29 A moga levando a bandeja com a cabera cortada tem acendido a fantasia de leitores e artistas e convertido Joáo e Salomé em figuras arquetípicas. Mas Joao está prefigurando antes de tudo a morte de Jesus e também sua sepultura. Urna cena semelhante, embora de signo contrà­ rio, é Judite levando e mostrando a cabega de Holofernes.

6,29 Ver ISm 31,11-13. 6,30-33 Depois da interrupgáo retros­ pectiva sobre o Batista, continua o relato com o regresso dos apóstolos da sua missao. Também esta cena tem clara intengáo eclesial para as comunidades cristas. Os apóstolos prestam contas da sua atividade (cf. At 11,1-18; 14,27-28), Jesús os convi­ da à solidáo e ao descanso. Pela seqüéncia de informagóes, dá-nos a impressao de que a afluencia se deve à atividade missio­ nària dos enviados. A partir daqui até 8,26 assistiremos aos movimentos correlativos de Jesús: generosamente unido a seus dis­ cípulos, distancia-se dos guias do povo e abre sua atividade aos pagaos. É um es­ quema eclesial. 6,34 Mesmo no despovoado, as multidóes que nao encontram guias auténticos o seguem. O oficio de pastor é feito de cuidado e compaixáo: “Que nao fique a comunidade do Senhor como rebanho sem pastor” (Nm 27,17; IRs 22,17; Zc 10,12). 6,35-44 O milagre comumente cha­ mado de “multiplicagáo dos pàes”, ou a refeigáo milagrosa, lé-se nos quatro evangelhos, por duplicado e com fungáo com­ plementar em Mt e Me. Neste evangelho é a terceira refeigáo (precedem 1,31 e 2, 15-17); é a última refeigáo na Galiléia,

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lá, e chegaram antes d eles.34Ao desem ­ barcar, viu urna grande multidáo, e sentiu pena, porque eram como ovelhas sem pastor. E se pos a ensinar-lhes muitas coisas. 35Como se tornasse tarde, os discípulos foram dizer-lhe: — O lugar é despovoado e a hora avanzada; 3f’despede-os, para que váo aos campos e as aldeias dos arredores para comprar o que comer. 37Ele lhes respondeu: — Dai-lhes vós de comer. Replicaram: — Devemos ir com prar duzentos denários de pao para dar-lhes de comer? 38Respondeu-lhes: — Quantos páes tendes? Ide ver. Averiguaram e lhe disseram: -— Cinco, e dois peixes. 39Ordenou que os fizessem sentar em grupos sobre a gram a verde. como banquete festivo de urna comunidade em formagao. A refeicáo tem algo de sacramental, apesar da falta de vinho neste banquete. Temos de enquadrar o relato presente entre os antecedentes do AT e o conseqiiente do NT, ou seja, da pràtica eclesial. No AT temos de considerar: O pastor que dá descanso e comida as ovelhas (SI 23), sugerido no contexto de Me. A comida do maná no deserto (Ex 16 par.): nao usado aqui, apontado em Me 8,1-9 (explorado em Jo 6). Os milagres de alimento de Elias e Eliseu (IRs 17; 2Rs 4,1-7); de maneira especial 2Rs 4,42-44, que serve quase de guia ao relato de Marcos; só que Jesús faz muito mais. No NT contamos com a eucaristia, que fomece algumas fórmulas ao relato (v. 41) e o levanta a outro plano de sentido trans­ cendental. Marcos redige um texto breve e essencial, com tragos realistas e alusóes veladas. 6,35-38 O diálogo de Jesús com os dis­ cípulos serve para marcar o contraste: a visáo empírica e calculadora deles frente à soberanía pródiga do Mestre. Duzentos denários náo é muito para cinco mil (um para cada vinte e cinco), é o bastante para quem deve desembolsá-lo (o salàrio de duzentos dias). Os peixes do lago acompanham o pao numa refeigáo modesta.

40Sentaram-se emgrupos de cem e de cinqüenta. 41Tomou os cinco páes e os dois peixes, levantou os olhos ao céu, deu grabas e partiu os páes e os foi dan­ do aos discípulos para que os servissem; e repartiu os peixes entre todos. 42Todos comeram e ficaram sastifeitos. 43Recolheram as sobras dos páes e dos pei­ xes e encheram doze cestos. 44Os que comeram eram cinco mil homens. Cam inha sobreaágua (Mt 14,22-33; Jo 6,15-21) — 4 5 Em seguida, obrigou seus discípulos a embarcar e ir adiante, à outra margem, para Betsaida, enquanto ele despedia a multidáo. 46Depois de despedir-se, subiu ao monte para orar. 47Anoitecia, e a barca estava no meio do lago, e ele sozinho na costa. 48Vendoos cansados de remar, porque tinham vento contràrio, pela quarta vigilia da 6,39-44 A distribuito recorda a ordem do acampamento de Israel no deserto (Ex 18,21.25). “Sentar” é postura de convida­ dos a um banquete, e “grama verde” pode aludir as “verdes pastagens” do SI 23,2. 6,41 O gesto de olhar para o céu equi­ vale a invocagáo e súplica, a béngáo con­ sagra o páo, infunde-lhe urna espécie de vitalidade e fecundidade, o partir serve ao repartir. Ao comprovar o fato milagroso, pelo número de comensais, porque todos ficam satisfeitos e pelo que sobra (mais do que havia no principio), revela-se a generosidade de Deus por meio de Jesús: “Ele dá alimento a todo ser vivo” (SI 136,25); “...que a seu tempo lhes des o alimento” (SI 104,27). Os doze cestos podem aludir às doze tribos, a todo Israel. Acapacidade do homem nunca esgota o dom de Deus. O episodio é urna epifania de Jesús: poderíamos chamá-Io de cristofania. Como em outras do AT, Moisés e Elias, o realis­ mo cede lugar ao mistério, velado e suge­ rido com alusóes simbólicas. 6,45-52 Sob pretexto de despedir o povo, Jesús “obriga” seus discípulos a embarcar e zarpar. Coloca-os no mar e ai os deixa a sós, a noite toda até a aurora, enquanto ele fica sozinho no monte do encontro com Deus para orar (como Moisés e Elias): a oragáo faz parte da sua

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noite aproxim a-se deles cam inhando sobre a água, tentando ultrapassá-los. 49Ao vé-lo cam inhar sobre o lago, creram que fosse um fantasm a, e deram um grito. 50Pois todos o viram e se espantaram. Ele, porém , imediatamente lhes falou e disse: — Ánimo! Sou eu, nao temáis. 51Subiu á barca com eles, e o vento cessou. Eles nao cabiam em si de es­ panto; 52pois nao haviam entendido na­ da a respeito dos páes, pois tinham a mente obcecada. Curas em G enesaré (M t 14,34-36) — 53Term inada a travessia, alcanqaram

térra em Genesaré e atracaram. 54Quando desem barcaram , o reconheceram . 55Percorrendo toda a regiáo, foram le­ vando a ele em m acas todos os doentes, onde ouviam que se encontrasse. 56Em qualquer aldeia ou cidade aonde ia, colocavam os enferm os na praqa e lhe rogavam que os deixasse tocar ao menos a orla do manto. E os que o tocavam ficavam curados. A tradigáo (M t 15,1-20) — 'Reu niram-se junto a ele os fariseus e alguns letrados vindos de Jerusalém. 2Viram que alguns de seus discípulos tomavam alim entos com máos impu-

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missáo, pode preparar um acontecimento especialmente importante. Moisés e Elias assistiram a urna teofania, Jesus farà sua m anifestalo, em a§ào e palavra: cristofania. Os discípulos tèm que experimen­ tar a oposigào dos elementos, água e ven­ to, e mais ainda a ausència do Senhor: “o Senhor nào estava no vento” (IRs 19,11). Quando se aproxima a aurora, hora do auxilio divino (Ex 14,24.27; 2Rs 19,35; SI 90,14), Jesus “caminha sobre a água”: “caminha sobre o dorso do mar” (Jó 9,8); “teu caminho pelo m ar... e nào ficava ras­ tro de tuas pegadas” (SI 77,20). Mas se­ gue adiante, oferecendo as costas ao olhar (Ex 33,21-23; IRs 19,11). Eles estào cegos e nào sào capazes de reconhecè-lo; só sentem pavor ante o inexplicàvel. Tèm de passar por esta última experiencia antes da revelagáo em palavras. Jesús se identifica, “Sou eu” — é a clàs­ sica frase da autoapresentagào de Deus Yhwh (Ex 3,24; Dt 32,39; Is 41,4; 43,10). E pronuncia a clàssica frase de salvagáo: “nào temáis”. Apesar dessa m anifestalo e da precedente dos páes, os discípulos continuam sem entender (cf. SI 28,5; Jó 23,8). Só depois da ressurreiQáo entenderáo. Como os israelitas em Moab: “Mas o Senhor náo vos deu inteligencia para en­ tender até hoje” (Dt 29,3). Porém Mar­ cos, que ilumina com luz pascal a agáo de Jesus, nào a concede aos discípulos na conjuntura do relato. Em todo o seu evan­ gelio sublinha antes a incompreensáo hu­ mana.

6,48 A noite dividida em quatro turnos de vigilia ao estilo romano. 6,53-56 Novo sumário (como 3,7-12), com o detalhe novo dos leitos e da orla do manto. O manto de um profeta pode ser sinal de sua profissâo (2Rs 2,13). 7.1-23 Este é um capítulo central do pre­ sente evangelho, no qual a controvèrsia já em ato (2,23-28; 3,1-6) cristaliza-se em declaraçôes de principio. Oferece ocasiáo o escándalo de uns fariseus ao verem que os discípulos omitem urna observância. A reaçâo de Jesús se dá em très fases: discussào polémica com os rivais (5-13), instruçào ao povo (14-16), instruçâo aos dis­ cípulos (17-23). O texto, apesar de refletir tensôes entre o judaismo e o cristianismo já na época em que se escreve, contém ensinamentos capitais sobre o fundamen­ to da moral crista. 7.1-13 Os que se reúnem sáo membros do grupo ou partido farisaico e, com eles ou entre eles, alguns letrados ou doutores, intérpretes oficiáis da lei. Vêm de Je­ rusalém, onde o partido fariseu é mais forte e com a auréola e autoridade que a capital acrescenta (o texto grego náo diz claramente se todos vêm de Jerusalém). Os doutores preservam a doutrina, os fa­ riseus promovem a pràtica, nao só da lei de Moisés, mas especialmente da muralha de observâncias que a concretizam e defendem. E urna norma fundamental: “Santificaivos e sede santos, porque eu, o Senhor

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7,3

ras, isto é, sem lavá-las. 3(Sabe-se que os fariseus e os j udeus em geral nao comem sem antes lavar as máos esfregando-as, seguindo a tradigáo dos anciáos; 4quando voltam do mercado, nao comem sem antes lavar-se; e observam muitas outras regras tradicionais, lavagem de tagas, jarras e panelas.) 5De modo que os fariseus e letrados lhe perguntaram: — Por que teus discípulos nao seguem a tradicáo dos anciáos, mas comem com máos impuras? 6Respondeu-lhes: — Quáo bem profetizou Isaías sobre vossa hipocrisia quando escreveu: Este p ovo m e honra com os labios, mas seu coragáo está longe de mim; 7o culto que m e prestam é inútil, pois a doutrina que

ensinam sao preceitos humanos, d e s ­ cuidáis o mandato de Deus e mantendes a tradito dos homens.
E acrescentou:

~ Quanto desprezais o mandamen­ to de Deus para observar vossa tradi­ sco. '0pois Moisés disse: Sustenta teu poi e tua máe, e também: quem aban­ dona seu pai ou sua m áe é réu de m or­ te. "Vos, ao contràrio, dizeis: Se alguém declara a seu pai ou sua máe que o socorro que lhe devia é corban (isto e, oferenda sagrada), 12náo lhe deixais cjue faga nada por seu pai ou sua máe. E assim invalidáis o preceito de Deus em nome de vossa tradicáo. E como estas, fazeis muitas outras coisas. Chamando de novo a multidáo, dizia-lhes:

vosso Deus, sou santo” (Lv 20,7; 19,1). Essa consagrado funda a identidade do povo. Com o louvável propósito de for­ mar um povo observante da lei e santo ou consagrado ao Senhor (como os sacer­ dotes dedicados ao culto), os dirigentes fariseus tinham acumulado prescrigóes vinculantes. As conseqüéncias pernicio­ sas das observancias acumuladas eram várias: impunham ao povo urna carga insuportável na vida cotidiana, apelando ilegítimamente para a vontade de Deus; em alguns casos a interpretado anulava o sentido da lei; favorecía urna religiáo ritualista e externa; favorecía o orgulho dos observantes que desprezavam os demais (Jo 7,49). O movimento farisaico era urna realidade perigosa para os cristáos no tempo de Marcos. Mas os aquí descritos continuam sendo um tipo que pode afetar qualquer pessoa sinceramente religiosa. Nao seria justo condená-los e imitá-los: “ao julgar o outro, te condenas, porque tu, que julgas, cometes as mesmas coisas” (Rm
2, 1).

Entre as muitas observancias, algumas se referem a lavatorios e ablugóes; sao cotidianas e dáo na vista, e os doutores lhes atribuíam grande importancia (cf. Jt 12,89). Baseiam-se em leis cúlticas, sacerdotais (Ex 40; Lv 15; Nm 19), que os fariseus levam ao extremo e tentam impor ao povo

todo. Ex 40,12 refere-se ao banho ritual dos sacerdotes: 40,31-32 incluí Moisés e prescreve ablugóes de pés e máos antes de aceder á tenda do encontro ou ao altar. Lv 15 enumera coisas que contaminam e pres­ creve banhos de purifica«;áo. Nm 19 legisla sobre aguas lustráis e purificares. Nao se trata de higiene sem mais, e sím de pureza ritual. 7,5 Nao apelam a Moisés e á torá, mas á “tradiqáo dos anciáos”. 7,6-8 Aprimeira réplica brande a profe­ cía contra a suposta prescribió. O texto de Isaías (29,13) denuncia duas coisas: o de­ sacordó entre o interior e o exterior, coragao e labios; o preferir os preceitos huma­ nos aos divinos. O primeiro ponto define a hipocrisia objetiva (nem sempre cons­ ciente e pretendida; hypokrites é o ator tea­ tral). 0 segundo ponto é o decisivo na controvérsía. 7,9-13 Asegunda réplica é ad hominem. O exemplo escolhido serve bem para os que vieram de Jerusalém. Refere-se aos preceitos de Ex 20,12 e 21,17, nos quais a antítese kbd/qll abarca o campo da honra (preferido por Eclo 3,1-16 e na nossa for­ m ulado corrente, “honrar pai e máe”) e o campo económico, preferido aqui. Em nome do culto, abandonam e náo sustentam os pai$ necessitados. Deus náo preci­ sa desses dons, os país sím. Veja-se tam­ bém Pr 20,20.

7,30

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— Escutai todos e compreendei. 15Náo há nada fora do hom em que, ao entrar nele, possa contaminá-lo. O que sai do homem é que contamina o homem*. 17Quando se afastou da m ultidáo e entrou em casa, os discípulos lhe perguntaram o sentido da comparagáo. 18E ele lhes diz: — Também vós continuáis sem en­ tender? Nao com preendeis que o que entra no homem, vindo de fora, nao po­ de contaminá-lo, 19porque nao lhe en­ tra no coraqao, mas no ventre e depois é expulso na latrina? (Com isso declarava puros todos os alimentos.) 2U E acrescentava: — O que sai do hom em é o que contam ina o homem. 21De dentro, do coragáo do homem, saem os maus pensam entos, fornicaqáo, roubos, assassinatos, 22adultérios, cobiqa, malicia, fraude, devassidáo, inveja, calúnia, ar­ rogancia, desatino. 23Todas essas m al­ dades saem de dentro e contam inam o homem. 7,15 *Alguns manuscritos inserem aqui: 16Quem tem ouvidos ouga. 7,14-23 Já nao se trata de interpretagao e observancia, mas da própria lei, ou seja, dos tabus alimentares rituais (Lv 11; Dt 14). Na tora diz Deus: “Separai o puro do impuro” (Lv 10,10) e: “Separai tam­ bém vós os animais puros dos impuros... e nao vos contaminéis com animais, aves ou répteis que eu separei como impuros. Sede para mim santos, porque eu, o Senhor, sou santo...” (20,25). O que Jesús diz equivale á aboligáo formal dessa lei (v. 20). 7,17-23 O que se segue é, para os discí­ pulos, um comentário ao novo principio. A expressáo “o que sai do homem” pode soar com duplo sentido (excremento, cf. Dt 23,13-15), o que induz á explicagáo do v. 19. O coragáo, a consciencia livre, é a fonte da vida moral. A lista de doze peca­ dos, embora seletiva, quer abarcar os cam­ pos principáis ou mais freqüentes; alguns pertencem ao decálogo. Compreender isso é difícil para os dis­ cípulos e também para os chefes da igreja primitiva (At 10).

A m ulher cananéia (M t 15,21-28) — 24Saindo dai, dirigiu-se ao territòrio de Tiro. Entrou num a casa com intençâo de passar despercebido, porém nào conseguiu ocultar-se. 25Uma mulher, que tinha sua filha possuida por um espirito im undo, inteirou-se de sua chegada, acorreu e se prostrou a seus pés. 26A m ulher era paga, naturai da Fe­ nicia siria. Pedia-lhe que expulsasse de sua filha o demònio. ~7Respondeu-lhe: — Deixa que se saciem primeiro os filhos. Nào fica bem tirar o pào dos fiIhos para joga-lo aos cachorrinhos. 28Ela replicou: — Senhor, também os cachorrinhos debaixo da mesa comem as migalhas das crianças. 29Disse-lhe: -— Por causa do que disseste, vai, que o demònio saiu de tua filha. 30Ela voltou para casa, e encontrou a filha deitada na cama; o demònio havia saido. 7,24-30 É significativo que, depois de romper com as tradi§óes, Jesús se dirija a territorio pagao. A Galiléia confina ao nor­ te com a Fenicia. Como que afastando-se da multidáo, buscando ocultagáo; na realidade, para oferecer aos pagaos seu po­ der e bondade sem fronteiras. Em outra clave, está refazendo a viagem do profeta Elias á Fenicia (IRs 17). Á luz do desenlace vé-se que a ocultagáo serve para dar relevo á irradiagáo e á dis­ tancia dos pagaos, “cachorrinhos”, para mostrar que Jesús nao é monopolio de Is­ rael, “os filhos”. E certo que Elias proveu de sustento a mulher Fenicia enquanto seus concidadáos de Israel passavam fome; depois ressuscitou o filho da viúva (IRs 17,9-24). Quem deu de comer a cinco mil homens nao terá pao também para urna paga infeliz? O relato supoe que a fama de Jesús tenha ultrapassado as fronteiras (3,7). A preferencia de Israel é cronológi­ ca e a riqueza do Messias nao está circuns­ crita; a comunidade de Marcos já o expe­ rimenta. Por outro lado, observamos que o poder do demonio tampouco respeita fronteiras.

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1 5 0

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O surdo-mudo — 31Depois, saiu do ter­ ritorio de Tiro, passou por Sidônia, e se dirigiu ao lago da Galiléia, atravessando os m ontes da Decápole. 32Levaram-lhe um homem surdo e tartamudo e lhe suplicavam que impusesse a mao. 33Tomou-o, afastou-o da multidáo e, so­ zinho, pós-lhe os dedos nos ouvidos; depois tocou-lhe a lingua com saliva; 34levantou os olhos ao céu, gemeu e lhe disse: — Effatha (que significa abre-te). 35Imediatamente se lhe abriram os ou­ vidos, soltou-se-lhe o im pedim ento da lingua e falava normalmente. 36Mandou-lhes que nâo contassem a ninguém; mas, quanto mais o mandava, m ais o anunciavam. 37Estavam estupefactos e comentavam: Fez tudo bem: faz ouvir os surdos e falar os mudos. Dá de com er a quatro m il (Mt 15,32-39) — 'N essa ocasiáo reuniuse outra vez muita gente e nao tinham

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o que comer. Chama os discípulos e lhes diz: — 2Tenho com paixâo dessa m ulti­ dáo, pois faz très dias que estáo comigo e nâo tém o que comer. 3Se os despeço em jejum para casa, desfaleceráo no caminho; e alguns vieram de longe. 4Os discípulos lhe responderam: — A quí, no despovoado, onde alguém encontrará páo para alimentá-los? 5Pergunta-lhes: — Quantos páes tendes? Responderam: — Sete. 6Ordenou à multidáo que sentasse no cháo. Tomou os sete páes, deu graças, partiu-os e os deu aos discípulos para que os servissem. E serviram à m ulti­ dáo. 7Tinham também uns poucos pei­ xes. Deu graças e m andou que os ser­ vissem. 8Comeram até ficar satisfeitos, e recolheram as sobras em sete cestos. 9Eram uns quatro mil. Despediu-os 10e em seguida embarcou com os discípuO tema do páo (7,24-30 e 8,14-21); Cura de um mudo/cego (7,31-37 e 8,22-26). Conteúdos e desenvolvimentos diferem bastante e se prestariam a um estudo com­ parativo. 8,1-10 Como em Mt, o milagre da co­ mida se conta uma segunda vez. Segue-se urna viagem por mar e, a pouca distancia, um diálogo sobre o significado do mila­ gre. Mudam alguns detalhes, como os nú­ meros; simplifica-se a cena. Inicio e im­ pulso é a compaixáo: “É hora de piedade, chegou o prazo” (SI 102,14); “náo passaráo fome nem sede... porque os conduz aquele que se compadece deles” (Is 49,10). Permanece o substancial: a comida abun­ dante até ficarem satisfeitos e sobrar, a fór­ mula eucarística de béngáo. Marcos faz o leitor imaginar que o fato acontece em ter­ ritorio pagáo, pois náo indica mudanza de localidade. O milagre forma assim um tríptico jun­ to com os dois precedentes: da menina endemoninhada e do surdo-mudo. (Náo sao migalhas o que cabe aos comensais da cena presente.) “Ele faz bem” também isto: dar de comer ao faminto: “cumulou de bens os famintos” (SI 107,9; 146,7; Ne 9,15).

7,31-37 O itineràrio que Marcos traça medianamente coloca Jesús outra vez no territorio pagáo a leste do lago (5,1-20). Nao explica quem sao “eles” ou “o povo”: judeus ou pagaos? O doente está incomunicável em grande parte. Ao surdo fala primeiro com gestos corporais, comprometendo o tato. O dedo transmite poder e é sinal dele (Ex 8,15); penetra e abre o ouvido (cf. SÌ 40,7 texto hebraico). Os antigos atribuíam à saliva virtudes terapéuti­ cas: a de Jesús é milagrosa. Erguendo os olhos ao céu indica “de onde vem o auxi­ lio” (SI 121,1 e 123,1); o gemido funcio­ na como súplica (cf. Rm 8,26). Depois pronuncia o mandato peremptório que “abre” e “desata”. Os presentes, assombradíssimos, prorrompem numa exclamaçao que recorda a açào criadora de Gn 1 e a profecía de Is 35,5-6. O Criador fez tudo bem, o Redentor restaura a bondade. 8,1-26 Este bloco, antes da confissáo de Pedro, repete aproximadamente e abre­ viando a seqüéncia de 6,32— 7,37. De acordo com a seguinte correspondéncia: Dá de comer a 5000/4000 (6,32-44 e 8,1-9); Cruza o lago (6,45-56 e 8,10); Discussáocom fariseus (7,1-23 e 8,11-13);

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los, e se dirigiu ao territorio de Dalmanuta. O sinal no céu (M t 16,1-4) — n Os fariseus saíram e se puseram a discutir com ele, pedindo, para tentá-lo, um sinal do céu. 12Suspirou profundamente e disse: — Para que esta geragáo pede um sinal? Eu vos asseguro que nao será dado um sinal para esta geragáo. 13Deixando-os, embarcou de novo e passou para a outra margem. 14Tinhamse esquecido de prover-se de pao, e levavam na barca só um pao. ’^Ele lhes dava instrugoes: — Atengáo! A bstende-vos do fer­ mento dos fariseus e do de Herodes. 16Discutiam entre si porque náo tinham pao. 17Percebendo, Jesús lhes diz: — Por que discutis que é por náo terdes pao? A inda náo entendeis nem

compreendeis? Tendes a mente em bo­ tada? 18Tendes olhos e näo vedes? Tendes ouvidos e näo ouvis?N äo vos lembrais? 19Quando repartí os cinco páes entre os cinco mil, quantos cestos cheios de sobras recolhestes? Respondem-lhe: — Doze. — 20E quando repartí os sete entre quatro mil, quantos cestos de sobras re­ colhestes? Respondem: — Sete. 21Disse-lhes: — Ainda náo compreendeis? O cegó de Betsaida — 22Quando chegaram a Betsaida, levaram-lhe um cegó e pediram -lhe que o tocasse. 23Tomando o cegó pela máo, tirou-o da aldeia, ungi-lhe com saliva os olhos, impos-lhe as máos e lhe perguntou: — Ves algo?

Ainda náo se conseguiu localizar a mis­ teriosa “Dalmanuta”. 8,11-12 Os fariseus querem “compro­ var” a missáo de Jesus: profètica, messià­ nica? Marcos náo o diz. Como legitima­ d o de sua atividade (talvez o narrador se refira a 7,19), pedem-lhe um sinal outorgado por Deus (= céu, cf. a atitude do rei Acaz, Is 7,11 e o pedido de Gedeáo, Jz 6,36-40). O suspiro expressa a comogáo interior. “Gcracáo malvada e perversa... geragáo depravada, filhos desleais” (Dt 32,5.20). Com um juramento assegura que “nao lhe será dado” (passivo teológico, o agente é Deus). Ñas entrelinhas lemos que o moti­ vo é a incredulidade. Para quem náo quer crer, nenhum sinal vale. 8,13-21 “Povo néscio e sem juízo”. Numa travessia do lago, Marcos coloca este diálogo áspero e enigmático. Em plano superficial, está a preocupagáo dos discí­ pulos por náo terem levado provisóes. A essa omissáo pode responder o convite a confiar em Jesus, subindo a um plano su­ perior. Mas essa náo é a substáncia do diá­ logo, que náo é ínstrugáo, mas aviso e repreensáo dura, sem condescendencia. O problema de fundo é a incredulidade, a

incapacidade de compreender a revelagáo da pessoa e da missáo de Jesús. Os discípulos sáo ainda como o povo que Jeremías e Ezequiel fustigam (Jr 5,21; Ez 12,2). Esta é a levedura que corrompe (IC or 5,7-8) e se contrapóe ao fermento do reinado de Deus (Mt 13,33). Fermento dos fariseus é a tradigáo humana de ob­ servancias; fermento de Herodes é o po­ der sem moral. A imagem que Marcos apresenta é pessimista até o final. Foi tal­ vez assim a atitude dominante dos discí­ pulos durante a vida de Jesús: contemplam milagres e náo véem sinais, ouvem palavras e náo escutam uma mensagem, “tém olhos para ver e náo véem, tém ouvidos para ouvir e náo ouvem, pois sáo casa re­ belde” (Jr 5,21; Ez 12,2). Em semelhante atitude, náo se projeta ainda a luz da ressurreigáo. Mas Jesús fez um surdo ouvir e um cegó ver. 8,22-26 A cura do cegó é muito pareci­ da, em estrutura e gestos, com a precedente do surdo-mudo. Com o mesmo afá de apartar-se e a com unicado pelo tato. Novo e único é o processo da cura em duas etapas. Náo era cegó de nascenga, pois soube iden­ tificar as figuras como árvores. Com esta cura, completa a profecía de Is 35,5-6.

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24Ele foi recobrando a visáo e disse: — Vejo homens. Vejo-os com o árvores, mas caminhando. 25Novamente impós-lhes as máos nos olhos. Olhou atentamente, ficou cura­ do e distinguía tudo perfeitamente. 26Jesus o enviou para casa e lhe disse: — Nao entres na aldeia! Confissáo de Pedro (Mt 16,13-20; Le 9,18-21) — 27Jesus empreendeu viagem com seus discípulos para as aldeias de Cesaréia de Filipe. No caminho perguntava aos discípulos:

— Quem dizem os homens que eu sou? 28Responderam-lhe: — Joâo Batista; outras, Elias; outros, um dos profetas. 29Ele Ihes perguntou: — E vós, quem dizeis que eu sou? Pedro respondeu: — Tu és o Messias. 3U Entáo os admoestou para que a ninguém falassem disso. Prediz a m orte e ressurreiçâo (Mt 16,21-28; Le 9 ,2 2 -2 7 )-31E começou a explicar-lhes que esse Homem devia

8,27-30 Em contraste com a cegueira e a incompreensáo de antes, soa clara a con­ fissáo de Pedro, que se apresenta recorta­ da pela reagáo violenta que se segue ¡me­ diatamente. Por ora, é Pedro quem toma a palavra em nome de todos: indica-se seu lugar principal, mas nao recebe um encar­ go específico (como em Mt 16). Pode-se tomar a perícope como conclusáo do que precede. Em tal caso, seria um final positivo antes de abordar a segunda parte do evangelho. Mas sua estreita uniáo e articulagáo com os episodios que se seguem aconselham lé-lo como comego da segunda parte do evangelho e do bloco que termina com o cap. 10. Nele Jesús dedica­ rá bastante espago à ínstrugáo de seus dis­ cípulos. Como o evangelho comega com a figura do Batista anunciando aquele que há de vir, assim a segunda parte comega com a confissáo do Messias anunciando o que há de vir. Eia servirá de fundo, bem sombrío, em diregáo à cruz. Como no batismo de Jesus o Pai pronunciava seu testemunho acerca do seu Filho, assim suce­ de na transfiguragáo, novo ponto de referencia, que aponta para a ressurreigáo. 8,27 Esta Cesaréia encontra-se ao nor­ te, junto ás fontes do Jordáo, nao muito distante de Betsaida. E a residéncia do tetrarca Filipe e proclama em seu novo nome urna homenagem ao imperador Tibério. Sugestivo cenário para a confis­ sáo messiànica. Jesus toma a iniciativa, primeiro com urna pergunta indireta, pre­ paratòria: a opiniào do povo. A resposta jà ouvimos (6,14-15). Entáo interpela os dis­ cípulos com urna pergunta que, despren-

dida do seu contexto ¡mediato, se dirige a qualquer pessoa: “quem dizeis que eu sou?” 8,29-30 Que sentido Pedro dá ao título Messias no relato de Marcos? (Se nos vem à mente a versâo de Mateus, seja para ob­ servar o que falta aqui.) Se o narrador cita a pergunta como iniciativa de Jesús, é que ele quer provocar a confissáo formal. Se depois manda nao divulgá-lo, é porque a confissáo deve orientar apenas os discípu­ los, já que o povo haveria de desvirtuar seu sentido auténtico. 0 Messias é mais que qualquer profeta, pois todos os profe­ tas e o Batista estáo em funçào dele. En­ táo, como entender a cegueira de Pedro e a duríssima repreensáo de Jesús? Marcos nâo oferece uma seqiiéncia cronológica, mas uma visáo teológica dominada pela polaridade, pelas tensóes. Todo o seu evan­ gelho tem esse caráter, com predominio da incompreensáo. 8.31-9,1 Très prediçôes da paixáo balizam o relato da viagem de Jesús para Jerusalém (8,31; 9,31; 10,32-34). Náo tem que sofrer ele só, mas também todos os que quiserem segui-lo. As très prediçôes introduzem instruçôes para a comunidade: sobre a abnegaçâo, a humildade, con­ tra a ambiçâo. 8.31-33 Como em outras passagens, substituí o pronome pessoal de antes (27.29) pela expressáo semítica que denota um individuo da espécie “homem” (ben ’adam, bar ’enosh) calcado no grego com hyios tou anthropou. As vezes, em con­ textos escatológicos, a expressâo se car-

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padecer muito, ser reprovado pelos se­ nadores, sum os sacerdotes e letrados, sofrer a m orte e depois de tres dias ressuscitar. 32Falava-lhes com franqueza. Pedro o levou á parte e se pos a intimálo. 33M as ele se voltou e, vendo os dis­ cípulos, diz a Pedro: — Retira-te, Satanás! Pensas de mo­ do humano, nao segundo Deus. 34E cham ando a multidáo com os dis­ cípulos, disse-lhes: — Quem quiser seguir-me, negue a si mesmo, carregue sua cruz e me siga. 35Quem se empenha em salvar a vida a perderá; quem perder a vida por mim e pela boa noticia a salvará. 36Que aproveita ao hom em ganhar o mundo intei-

ro às custas da pròpria vida? 37Que pre­ go pagará o homem por sua vida? 38Se alguém se envergonhar de mim e de m inhas palavras, diante desta geragáo adúltera e pecadora, o Filho do Homem se envergonhará dele quando vier com a gloria de seu Pai e acompanhado de seus santos anjos. 'E lhes acrescentou: — Eu vos asseguro que estáo aqui presentes alguns que nao sofreráo a m orte antes de ver chegar o reinado de Deus com poder. A transfiguradlo (Mt 17,1-13; Le 9, 28-36) — 2Seis dias depois, Jesús to-

rega com a ressonáncia de determinadas leituras de Dn 7,14. O Messias é homem e como homem padecerá. Na linguagem do anúncio parece ressoar o poema do Servo (Is 53). O plano de Deus para o Messias conduz pela paixáo á gloria. O plano rival (Sata = rival) excluí a paixáo e só aceita o triunfo do Messias. Pedro se coloca contra, com olhar e mentalidade “humanos”, e se atre­ ve a repreender Jesús; mas Jesús pensa “como Deus” e “repreende” Pedro. “Por meio dele o plano do Senhor triunfará” (Is 53,10). “Ser reprovado”: cf. SI 118,22-23. 8.34-38 Uma série de sentengas graves sobre o seguimento, dirigidas aos discípu­ los e ao povo que o escuta. E dessa forma que Marcos as propóe á comunidade cris­ ta, também tentada de aceitar é venerar somente um Messias triunfante. O PedroSatá é uma admoestagáo para todos. 8,34 Negar-se é vencer o egoísmo. O condenado á crucifixáo tinha de carregar a trave transversal da sua cruz, instrumen­ to de sua execugáo, e percorrer assim o último trecho do caminho da vida (cf. 15,21). A imagem diz que o seguimento de Jesús é grave e exigente; mas diz tam­ bém que é possível levar a própria cruz seguindo a Jesús. 8.35-36 O instinto de conservado a todo custo volta-se contra o homem. A vida sem sentido nao se salva. Há valores superio­ res que dáo sentido á vida: a pessoa de Jesús e o anúncio da sua mensagem.

8.37 Coloca a questáo do ser e do possuir: “é táo caro o preço da vida, que nao lhes bastará” (cf. SI 49,7-10). “Vida” tem aqui um sentido inclusivo, pleno. 8.38 A última sentença projeta o segui­ mento até o julgamento da parusia. O des­ tino final, ante esse Homem como juiz glo­ rioso (Zc 14,5), decide-se pela atitude presente diante desse Homem humilhado. O adjetivo “adúltera” é tradicional: deno­ ta os que veneram outros deuses, violan­ do a fidelidade devida ao Deus único e ciumento. Portanto, é a geraçâo de Jesús que o rejeita e é qualquer outra geraçâo. 9,1 Eco da expectativa da comunidade por uma parusia iminente: ver lTs 4,1517. O reinado de Deus já chegava em e com Jesús; mas ainda nao chega “com poder”, mas sim submetido à paixáo (cf. Rm 1,4 que o vincula à ressurreiçâo). 9,2-8 Atransfiguraçâo é um fato capital na vida de Jésus, um desvelar-se proviso­ rio do mistério, para très testemunhas pri­ vilegiadas, uma antecipaçâo da ressurrei­ çâo. Sua narraçâo insere-se entre duas prediçôes da paixâo. Os très sinôticos a registram, menciona-a enfáticamente 2Pd 1,16: “nâo nos guiávamos por fábulas engenhosas, mas tínhamos sido testemunhas de sua grandeza”; Joáo alude à “gloria” (Jo 1,14). Vários dados nos fazem olhar para Ex 24,9-18: o monte, os seis días, os très acompanhantes, o esplendor, a vísáo, a nuvem. Era a descriçâo de uma teofania:

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mou Pedro, Tiago e Joáo e os levou a uma elevada m ontanha. N a presença deles transfigurou-se: 3suas vestes se tornaram de um a brancura resplandecente com o nenhum tintureiro deste mundo consegue alvejar. 4Apareceramlhes M oisés e Elias falando com Jesús. 5Pedro tomou a palavra e disse a Jesús: — Mestre, com o se está bem aqui! Vamos armar très tendas: um a para ti, uma para Moisés e um a para Elias. 6(Náo sabia o que dizia, pois estavam cheios de medo.) 7Veio um a nuvem e lhes fez sombra, e da nuvem saiu uma voz: — Este é o meu Filho querido. Escutai-o. 8De repente olharam ao redor e viram Jesús sozinho com eles. 9Enquan-

to desciam da montanha, recomendoulhes que nao contassem a ninguém o que haviam visto, a nao ser quando esse Homem ressuscitasse da morte. 10Eles observaram essa recomendado e discutiam o que significava ressuscitar da morte. n E lhe perguntavam: — Por que os letrados dizem que primeiro deve vir Elias? 12Respondeu-lhes: — Elias virá primeiro e restaurará tudo. Mas, por que está escrito que este Homem há de padecer muito e ser desprezado? 13Pois eu vos digo que Elias já veio e o trataram arbitrariamente, como estava escrito a respeito dele.

estavam os discípulos, viram grande multidáo e alguns letrados discutindo com eles. 15Q uando a m ultidáo o viu, ficaram estupefactos e correram para saudá-lo. lftEle lhes perguntou: — Sobre o que estáis discutindo? ,7Alguém da multidáo lhe respondeu: — Mestre, eu te trouxe meu filho possuido por um espirito que o deixa mudo. 18Cada vez que o ataca, ele o atira ao cháo; ele solta espuma, range os dentes e fica rijo. Disse aos teus discípulos que o expulsassem, mas nao o conseguiram. 19Ele lhes respondeu: -— Que gera 5 áo incrédula! A té quan­ do terei de estar convosco? A té quando O menino epilético (Mt 17,14-20; Le terei de suportar-vos? Trazei-o a mim. 9,37-43) — l4Quando voltaram aonde 20Levaram-no; e, quando o espirito o viu, sacudiu-o, o rapaz caiu por terra e

se revolvía espumando. 21Perguntou ao pai: — Quanto tempo faz que lhe aconte­ ce isso? Respondeu: — D esde crianza. 22E muitas vezes o atirava na água ou no fogo para acabar com ele. M as se podes algum a coisa, tem piedade de nós e ajuda-nos. 23Jesus lhe respondeu: — Se posso? Tudo é possível para quem eré. 24Im ediatam ente o pai do m enino gritou: — Creio; socorre minha falta de fé. 25Vendo Jesús que a multidáo se aglomerava em torno deles, intimou o espi­ rito imundo: — Espirito surdo e mudo, eu te orde­ no, sai dele e náo voltes a entrar nele.

“Viram o Deus de Israel... puderam con­ templar a Deus... a gloria do Senhor apareceu”. Assim podemos apreciar as diferengas. E o pròprio Jesus quem mostra sua gloria, no esplendor das vestes (cf. SI 104,2; Ap 3,5; 19,8). Moisés e Elias, alianza e profe­ cía, tinham recebido revelagóes extraordinárias de Deus (Ex 34,5-7; 12; IRs 19, 11-13). Agora se apresentam como testemunhas da gloria de Jesús. O que para a velha instituigáo era futuro esperado, é agora presente que atrai o passado e centra a historia. Porque para o futuro estáo as tres testemunhas, cheias de gozo e de surpresa. 9.2 A tradigáo situou a cena no monte Tabor. Teologicamente é o novo Horeb ou Sinai de Moisés e Elias. Transfigurou-se: ao verbo grego corresponde estritamente em portugués trans-formar. A importancia da “forma” é mais bem compreendida a partir de F1 2,6-7, que opóe à morfe de Deus a do escravo: “mostrando-se em fi­ gura humana, humilhou-se”. 9.3 Brancura resplandecente: incomparável. Isaías comparava a neve à là (Is 1,18). 9.4 Conta-se que Moisés conversava com Deus (Ex 33,9; 34,29; Nm 12,8). Elias fez isso brevemente na montanha (IRs 19). 9,5-7 Tendas e nuvem parecem aludir ao acampamento no deserto, à tenda do

encontro e à nuvem no caminho. Pedro queria perpetuar a experiéncia. Sobre a esperanza escatològica da nuvem: “ver-seá a gloria do Senhor e a nuvem que apare­ cía no tempo de Moisés” (2Mc 2,8). 9,7 O mais importante de tudo é o testemunho do Pai, que referenda o do batismo (1,11; cf. Jo 12,27-28). Versa sobre a pessoa em quem se deve crer, e o ensinamento que é preciso cumprir. 9,9 Náo devem contá-lo, porque náo saberiam explicá-lo agora, nem o povo poderia entendè-lo. A luz plena da ressurreigáo, brilhará a luz provisoria da transfiguragào: “Tua luz nos faz ver a luz” (SI 36.10). 9,11-13 Dado que muitos judeus esperavam a ressurreigáo, o que os discípulos náo entendem é concretamente a ressurreigác anunciada do seu Mestre, implican­ do a morte. Assim surge a pergunta ou a objegáo: Se Elias há de vir primeiro para por tudo em ordem (MI 3,1.23; Eclo 48.10), que lugar resta para a paixáo do Messias? — E que Elias já veio (o Batis­ ta) e o rejeitaram, como faráo com o Mes­ sias. Jesús fala como intérprete autoriza­ do da profecía. A carreira de Elias náo foi triunfal, mas dolorosa: perseguido de mor­ te, sentindo o tèdio de semelhante vida e, finalmente, arrebatado por Deus. 9,14-29 Como no caso do endemoninhado de Gerasa (5,1-20), Marcos se dei-

diabólica. O pai recorría a Jesus e tropexa levar aqui pelo seu talento narrativo e gou na impoténcia dos discípulos (póde­ compóe uma cena de grande vivacidade, se recordar o fracasso de Giezi, servo do a serviço de um ensinamento superior. profeta Eliseu, 2Rs 4,31). Também um bom relato pode ser uma boa 9.19 Incrédula, porque busca só milanoticia. Além disso, situa-se após a transgres e náo chega a crer na pessoa (cf. Dt figuraçâo e entre anuncios da paixáo. O 32,5.20). Jesus tem de agir no meio da in­ Messias glorioso e paciente é também o compreensáo, sem deixar-se vencer por eia. Messias compassivo, que empregará seu 9.20 O exorcismo é apresentado de for­ poder para salvar a outros, náo a si próma dramática. Ao apresentar-se Jesús, o prio. Jesús presta ajuda ao menino doen“espirito” provoca uma reagáo violenta e te, à fé vacilante do pai, à ignorancia dos agrava os síntomas. discípulos. Vários detalhes conjugados 9,21-24 No diálogo com o pai, Marcos convidam a localizar a cena na Galiléia, nos oferece um exemplo. O pai apela titu­ perto de Cafamaum. beante á compaixáo: “se podes, tem pie­ 9,14-16 A introduçào é elíptica. Jesús dade”. Jesús responde apelando à fé como com os très desceu da montanha e se apro­ condigáo para curar-se. O pai pede mais xima do resto dos discípulos. Encontra-os fé. A fé é consciente de seu desamparo e discutindo com uns letrados ou doutores e de seu dinamismo, e procura apoio em Je­ cercados de gente que acorre surpresa e sus. Uma sèrie de detalhes ressalta a gran­ alvoroçada. Sobre o que discutem? Póde­ deza do milagre, como a duragáo da dose suspeitar que seja sobre alguma interenga, seus efeitos aterradores, a resistencia. pretaçào da lei ou sobre a pessoa e missáo 9,22 Perigos clássicos que representam de Jesús; ou entáo sobre exorcismos, se as a totalidade (Is 43,2). palavras do pai sáo a resposta à pergunta 9,25-26 O exorcismo de Jesús consiste de Jesús. Pelo visto os discípulos ensaianuma ordem soberana, eficaz e duradouram um exorcismo, sem resultado, apesar ra. O povo, ao ver o menino “como mor­ de terem recebido poder sobre espíritos to”, duvida: Quem venceu no exorcismo, ¡mundos (6,7). o demonio ou Jesus, a morte ou a vida? 9,17-18 A doença do menino é descrita Porém Jesus acrescenta à palavra um ges­ primeiramente pelo pai e a seguir em açâo. to; o toque de sua máo que ergue, como Os síntomas que descreve sáo típicos da se ressuscitasse um morto. Repete os gesepilepsia. O povo a atribuía à possessáo

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32Eles, embora nao entendessem o — Mestre, vim os alguém que expulassunto, nao se atreviam a fazer-lhe sava demonios em teu nome, e o im pe­ díamos, pois nao anda conosco. perguntas. 39Jesus respondeu: Instrugào com unitària(M t 18,1-9; Le — Nao o impegais. Alguém que faga m milagre em meu nome nao pode em se­ 9,46-50; 17,ls)—33Chegaram a Cafar- u guida falar mal de mim. 40Quem nao está naum e, já em casa, lhes perguntava: — Sobre o que discutíeis no caminho? contra nós, está a nosso favor. 41Quem 34Ficaram calados, pois no caminho vos der de beber um copo de água por iam discutindo sobre quem era o maior. serdes cristáos, eu vos asseguro que nao 35Ele sentou, chamou os doze e lhes perderá sua recompensa. 42Se alguém es­ candalizar um desses pequeños que crédisse: — Se alguém deseja ser o primeiro, cm, seria melhor que lhe pusessem uma Prediz de novo a morte e ressurreipedra de moinho ao pescogo e o atirasseja o último e servidor de todos. çâo (M t 17,22-23; Le 9,43-45)— 30Dai 3ílDepois chamou urna crianga, colo- sem ao mar. 43Se tua máo te faz cair, cor­ foram percorrendo a Galiléia, e ele nâo cou-a no meio deles, acariciou-a e lhes ta-a. E melhor entrar na vida com uma só quería que ninguém o soubesse. 31Aos máo, do que com as duas ir parar no fordisse: discípulos explicava: — 37Quem acolher urna destas crian- no, no fogo inextinguível*. Se teu pé te — Este Homem vai ser entregue em gas em atengáo a mim, a mim acolhe. m âos de homens, que o matarào; deQuem acolhe a mim, nao é a mim que fissionais (At 19,13-14) que, ao verem o pois de morrer, ao final de très dias, acolhe, mas sim àquele que me enviou. éxito de Jesus, póem o nome dele nos ressuscitarâ. 38Joáo lhe disse: conjuros. O provèrbio final prega a tole­ rancia: o nome de Jesús nao é monopolio da comunidade (ICor 12,3). Deve ser lido tos com que ressuscitou a filha de Jairo ocasiáo. Naturalmente, urna moldura in­ com seu complementar de Mt 12,30, ob­ (5,41-42). tencionada: os discípulos continuam sem servando a diferenga “conosco/comigo”. E preciso refletir sobre a reagáo dos di­ compreender a mensagem de Jesus e o Um bom antecedente encontra-se nos dois versos personagens. O poder soberano de seguem com a bagagem de seus critérios que recebem espirito fora da cerimònia, Jesus, “eu te ordeno” (em nome pròprio), humanos. A instruçào é dirigida à comu- na reagáo ciumenta de Josué e a resposta a fé trabalhosa do pai, o estupor e a innidade crista, também em suas relaçôes magnànima de Moisés (Nm 11,26-29). Ver compreensào do povo, a frustralo dos dis­ para fora (41). também a atitude generosa de Paulo con­ cípulos. Um milagre de Jesus é urna pedra 9.34 Se nao se atrevem a responder é forme F1 1,15-18. que move as águas e provoca um movi­ 9,41 Enlace verbal, “em nome de, em porque se envergonham diante de Jesus por mento. atengáo a”. Enlace temático, a motivagáo. causa da conversa. A confissào de Pedro 9,29 Entende-se, a oragào com fé e por (9,29) e o tratamento especial com os très “Cristáos” = de Cristo (2Cor 3,23); é lógi­ mais fé. (Alguns manuscritos acrescentam co concluir que os que fazem tal favor nao (8,2) valeriam como ocasiáo. “e jejum”, corno pràtica que acompanha a sao cristáos. A expressào é hiperbólica, 9.35 Provèrbio de formulaçâo parado­ oragào.) mesmo levando em conta o valor da água xal: o último será preferido (cf. Mt 20,8; 9,31-32 O grego emprega o perfeito, Le 13,30). Seria contradizé-lo submeternessa regiáo. “ficou entregue”, como se fosse um fato 9,43 *Os vv. 44 e 46 sao repetigáo do 48. se ao último lugar com a finalidade de alaceito por Jesus, incompreensivel para os 9,42-48 Escándalo é algo gue faz trope­ cangar o primeiro. A adigáo do servigo é discípulos (cf. Dt 29,3). zar e cair. O assunto é a fé. E agravante o um principio capital para a comunidade 9,33-50 Marcos reúne numa instrugào crista. fato de as vítimas serem “os pequeños que urna sèrie de sentengas de Jesus, conser­ crèem”. Isso explica a gravidade da pena. 9,36-37 O menino serve como exemplo vadas e transmitidas pela tradigào e uni­ Mas o tropego pode proceder da pròpria de último, a quem Jesús dedica a sua pre­ das por conexóes temáticas ou verbais: pessoa: de órgáos em si bons que se des­ ferencia (compare-se com Mt 25,35). Ade­ “em atengào a/em meu nome” (37.38. mandan! pelo objeto ou pela inclinagáo do máis, o menino pode representar Jesús, 39.41) e “escandalizar/fazer cair” (42.43. homem. O olho que olha cobigando, a máo como Jesús representa o Pai. A título de 45.47). Predomina o tema da humildade, que pega o proibido (Gn 3,6), o pé que ilustragâo, veja-se a imagem de Is 66,12ou seja, a dignidade e a grandeza do pe­ anda no mau caminho. O extremo do cas­ 13: “Sereis levados nos braços e sobre os queño. O narrador coloca no discurso tigo e das mutilagóes preventivas serve joelhos sereis acariciados”. urna moldura: o cenário, na casa de Cafarpara inculcar a gravidade de perder a fé 9,38-40 A intervengáo de Joáo é recur­ naum, a casa é como urna escola de após­ ou de induzir outra pessoa a fazer o messo narrativo, que se enlaça com a cena pre­ telos; e a pergunta aos discípulos como mo, O forno è a Geena onde se ofereciam cedente. Podia tratar-se de exorcistas pro-

26Dando um grito e sacudindo-o, saiu. O menino ficou como um cadáver, de modo que muitos diziam que estava morto. 27Porém Jesús, tomando-o pela máo, levantou-o, e o menino se pos de pé. 28Quando Jesús entrou em casa, os dis­ cípulos lhe perguntavam em particular: — Por que nós nao conseguim os expulsá-lo? 29Respondeu: — Essa espécie só sai à força de oraçâo.

faz cair, corta-o. É melhor entrar coxo na vida, do que com os dois pés ser langado no forno. 47Se teu olho te faz cair, arrancao. E melhor para ti entrar zarolho no reino de Deus, do que com os dois olhos ser lan­ gado no forno, ^onde o verme nào morre e o fogo nao se apaga. 49Todos seráo tem­ perados no fogo. 50O sai é bom; mas se o sai se toma insosso, com que o temperarào? Tende sai e vivei em paz com outros. Sobre o divorcio (M t 19,1-12) — *Dai se dirigiu ao territòrio da Judéia, do outro lado do Jordáo. Novam ente o povo acorreu a eie e, segun­ do seu costume, os ensinava. 2Aproxim aram-se alguns fariseus e, para pò-lo à prova, lhe perguntaram: sacrificios humanos (Jr 7,32; 19,6). Acrescenta uma citagào de Is 66,24, que nao muda de sentido ao ser citada. Fala de ca­ dáveres langados a uma fossa, onde apodrecem comidos por vermes, ou sao in­ cinerados até consumir-se. O verme nao morre, o fogo nao se apaga antes de con­ cluir sua tarefa aniquiladora. 9,49-50 Enlace verbal, “o fogo”. O pro­ vèrbio é enigmático: alude a gráticas cúlticas? (Lv 2,13-16; Ez 43,24). É o fogo a prova que conserva (como na salmoura) aquele que resiste? Quem supera a prova do fogo nao será arremessado ao forno. Enlace verbal, “o sal”. Explica-se bem à luz de Mt 5,13, sobre os discípulos como sal da terra. O sal se empregava em aliangas; partilhar o sal era sinal de amizade.

10 1-11,45 Antes da entrada em Jerusalém, Marcos propóe quatro instrugóes básicas destinadas as comunidades cristas que vivem no meio do mundo. As questóes tratadas sao: o matrimonio, as criangas, a cobiga e a ambigáo. Nos quatro ca­ sos Jesús se póe do lado dos fracos. Sao quatro ensinamentos encenados, ou me­ lhor, cenas que dáo ocasiáo a ensinamen­ tos transcendentes. As quatro cenas tém um desenvolvimento dramático.
10.1-12 Alei de Moisés (Dt 24,1-3) ten­ tava proteger os direitos da mulher, mes­ mo concedendo vantagem ao homem. A teoria fisiológica da época favorecía a

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— Pode um hom em rep u d iar sua mulher? 3Respondeu-lhes: — Que vos m andou Moisés? 4Responderam: — M oisés permitiu escrever a ata de divorcio e repudiá-la. 5Jesus lhes disse: — Porque sois obstinados, Moisés escreveu semelhante preceito. 6Mas no principio da criagào D eus os fe z homem e mulher, 1e p o r isso um homem aban­ dona seu pai e sua máe, une-se à sua mulher, 8e os dois se tornam urna car­ ne. D e m odo que já nao sao dois, mas urna só carne. 9Portanto, o que Deus juntou, o homem nao separe.

10Entrando em casa, perguntaram-lhe de novo os discípulos sobre o assunto. nEle lhes diz: — Quem repudia sua mulher e casa com outra, comete adultèrio contra a primeira. 1 2 Se eia se divorcia do mari­ do e casa com outro, comete adultèrio.

A bengoaalgumas crianzas (Mt 19,1315; Le 18,15-17) — 1 3Traziam-lhe crian­ zas para que as tocasse, e os discípulos as repreendiam. 14A o ver isso, Jesus indignou-se e disse: — Deixai que as crianzas se aproxi­ men! de mim; nao as im peláis, porque o reino de Deus pertence aos que sao como elas. 15Eu vos asseguro que quem

parcialidade em favor do homem: desconhecia a fungáo do óvulo e imaginava o sémen como portador de novo ser. A leí do divorcio era urna concessao em regime de mesquinhez, que muitas vezes se inter­ pretava com perigosa leviandade ao defi­ nir essa “coisa vergonhosa” de que fala a lei. Os fariseus querem “por à prova” Je­ sus num assunto tào central como o matri­ monio (e que pode alarmar os maridos, cf. Est 1,16-18). Apresentam a questáo partindo da lei de Moisés, supondo que Je­ sus, mais do que propor uma interpretagao alternativa, invalide a lei. Marcos imagina uma discussào pública, na presen­ ta da multidào, visto que o matrimònio interessa a todos. Jesus aceita o desafio no terreno da to­ rà, refazendo-se ao Deuteronòmio e ao Génesis. Contrapóe à lei de Moisés o projeto originai de Deus (Gn 1,27; 2,24; 5,2), que busca a igualdade dos cónjuges, a en­ trega total e duradoura que unifica. Na versào do evangelho mais antigo, nào hà excegào. Em alguns manuscritos nào aparecem os fariseus, como se a pergunta fosse feita pelo povo: mas o “tentá-lo” é tàtica fa­ risaica. A pergunta de Jesus diz “mandou”, a resposta diz “permitiu”: para os fariseus é o bastante. Obstinagào: Jr 18,12 par.; SI 81,13. 10,6 A expressao “no principio” pode também ser lida como título do livro, “no Génesis”.

10.9 A raíz grega significa unir sob um jugo, “con-jugar”. A citagào de Gn 1,27; 2,24 diz “apegar-se, aderir-se”, como ten­ dencia da natureza. O provèrbio opòe en­ faticamente Deus ao homem, talvez aludindo ao Deus de Gn 1 e ao Moisés de Dt 24; só que Moisés se apresenta corno porta-voz de Deus. 10.10 A explicagào é para os discípulos em particular. Consiste em tirar a conseqiiència do que foi dito. A última cláusula supóe uma legislagào mais igualitària. 10,13-16 Ao contexto geral do matrimò­ nio pertencem também as criangas. Eram desejadas e estimadas como prolongamento de uma vida limitada; eram bem trata­ das. Todavia, até a maturidade responsàvel nào gozavam de piena consideragào. Nào sendo capazes de acumular méritos com as observancias, nào podiam aspirar ao reino futuro. Exatamente essa capacidade de merecer as mantém capazes de receber gratuitamente, que é a condigào para entrar no reino que Jesus anuncia. Marcos transforma uma ou várias sentengas de Jesus sobre as criangas numa cena que conjuga gestos com ensinamento. A atitude dos discípulos serve de contraste. Poderia representar uma tendencia na comunidade; alguns suspeitam de uma referència ao batismo de criangas. As criangas sào merecedoras de respeito e carinho; tèm livre acesso a Jesus, e ninguém deve impedi-las. Sào, além disso, exemplo de co­ mo acolher o reino de Deus. Por qual

1 (1,23

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mio receber o reino de Deus com o urna ■nanga nao entrará nele. 1 6 Acariciava-as e as abengoava, pon­ ilo as máos sobre elas. Ohom em rico(M t 19,16-30; Le 18,1810) — 17Quando se pos a caminho, chenou alguém correndo, ajoelhou-se diulte dele e lhe perguntou: -— Bom Mestre, o que devo fazer para lierdar a vida eterna? 1 8 Jesus lhe respondeu: — Por que me cham as bom? Ninguém é bom, a nao ser Deus. lw Conheces os mandamentos: N ao matarás, nao cometerás adulterio, nao roubarás, nao i|ualidade? Talvez pela simplicidade sem |>reconceitos; ou pelo abandono confiante (SI 131), contraposto à auto-suficiência; ou sobretudo pelo espirito filial que se re­ vela sobretudo na criança (tratando-se de um adulto, nao reparamos na filiaçâo). As caricias e a bênçâo de Jesús sao já um iieolhé-los no reino. 10.17-31 Seguem-se très ensinamentos sobre o possuir: a vocaçâo de um rico (1722), o impedimento da riqueza (23-27), o galardáo da pobreza (28-31). O tema da “vida eterna” abre e fecha a perícope (17 C 30). O tema do “reino de Deus” centrali­ za-a (23.24.25). 10.17-22 Com poucos vv. o narrador compóe urna cena intensa e convincente. Vemos o homem entusiasta e decidido, que vem correndo (quer chegar por primeiro?), saúda com título elogioso, propóe sem mais a sua pergunta, afirma satisfeito sua grande prestaçâo — começou o quanto antes — (cf. Pr 22,6). E vemos Jesús corrigindo e temperando o título, remetendo o demandante ao já sabido; só depois lhe mostra seu carinho. Nesse ponto invertese dramáticamente o movimento. Vejamos como. O homem propóe sua consulta em ter­ mos tradicionais: o que é preciso fazer para conseguir, visando o mais alto (cf. Dt 4,1; S,33; 8,1; 30,19). No Deuteronómio Deus l>romete vida ao povo na terra prometida; o jovem refere-se à vida perdurável na era definitiva. Todavía conserva a mesma esliiritualidade de obras. A essa colocaçâo icsponde suficientemente o decálogo, ci-

perjurarás, nao defraudarás, honra teu p a i e tua müe. 2üEle lhe respondeu: — Mestre, tudo isso eu cumpri des­ de a adolescencia. 21Jesus o olhou com carinho e lhe disse: —■Urna coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois, vem comigo. 22A essas palavras, o outro franziu a testa e partiu triste, pois era muito rico. 23Jesus olhou ao redor e disse a seus dis­ cípulos: — Como é difícil para os ricos entrar no reino de Deus! tado nos deveres para com o próximo (Ex 20,12-16; Dt 5,16-20). Pois bem, cumprir tudo isso é a plataforma para seguir mais adiante, mudando mentalidade. Falta o mais importante, que é renunciar á rique­ za, embora legítima: “e se prospera vossa fortuna, nao lhe entregueis o coragáo” (SI 62,11; 112,9) para seguir Jesús. Se nao é capaz de renunciar á riqueza, ama a Deus de todo coragáo? Ou tem o coragáo divi­ dido? Terá cumprido todos os mandamen­ tos exceto o primeiro, de amar a Deus. A companhia ou seguimento de Jesús justi­ fica a exigencia; mas nao se propóe como condigáo para “herdar a vida eterna”, em­ bora receba em troca um tesouro celeste (ou de Deus). A esmola, táo estimada na espiritualidade bíblica, nao é a renuncia total que Jesús lhe pede. 10,18 Bom é título corrente de Deus e bondade é seu atributo (SI 25,8; 34,9; 54,8 etc.). Jesús nao procura sua honra pessoal, mas a de Deus. 10,22 O homem nao deu o passo para seguir adiante, ao invés, “partiu triste”: por causa do custo da exigencia, por sentir-se sem animo para a renúncia. Nada se diz do destino final desse homem, que fica com seus mandamentos e suas riquezas. E um caso típico que admitirá diversas aplicagóes, e que no momento dá ocasiáo á reflexáo de Jesús. 10,23-25 E comum no AT a denúncia contra os que confiam, ou seja, apóiam sua existencia na riqueza (p. ex. SI 49,7-8; 62,11: “se vossa riqueza prospera, nao ponhais nela o vosso coragáo”; Jr 17,10;

marcas

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10,24

24(\ discípulos se assom braram com aquile) qUe dizia. M as Jesús insistiu: — Como é difícil entrar no reino de Deus! 25É m ais fácil para um camelo passai pelo buraco de uma agulha, do que p3ra um rico entrar no reino de Deus. "6Eles ficaram espantados e comentavarnentre si: ~ intáo, quem pode salvar-se? "’Jesus ficou olhando para eles, e lhes disse: — Para os homens é impossível, nao para DÍUS; tudo é possível para Deus. 28Peijro entáo lhe disse: — ^è: nos deixamos tudo e te se­ guimos, “JJesiiS respondeu: — Todo aquele que deixar casa ou irmáosou irmás ou máe ou pai ou filhos oucampos por causa de mim e por causa da boa noticia, 30há de receber nesta v¡da cem vezes mais em casas e irmáos e irm às e máes e filhos e camJó 30,24-25). Jesús acrescenta ao ensinamento tradicional a confrontagáo com o “reino de Deus” (cf. 4,19), e o reforja com uma coniparagáo hiperbólica (alguns ma­ nuscritos acrescentam em 24 o sujeito “os que confiam na riqueza”). A espiritualidade dos pobres, marginalizados ou despossuídos prepara esta visáo do reino: “deixareiem ti um povo pobre e humilde que se refugiará no Senhor” (Sf 3,12; SI 37). Paul« a desenvolve com energia numa serie de opositóos (IC or 1,22.26-29). Tiago o refor§a: “nao escolheu Deus os pobres de bens mundanos e ricos de fé como hercleiros do reino que prometeu aos que o amam?” (Tg 2,5). 10,26-27 Ao espanto dos discípulos res­ ponde con, uma palavra de alentó: segun­ do a trad¡Qj0; a confianza em Deus se opóe à confian^ na riqueza. E Deus é todo-po­ deroso. 10,28-30 Dir-se-ia que a terceira frase recai na e¡¡piritualidade interesseira, de remunerasào. inclusive exacerbada pela distingáo “nesta vida/no mundo futuro”. E verdade que a resposta se presta a uma interpretado que fomenta o interesse e o escapismo. Mas, notemos que nao se fala

pos, com perseguiçôes, e no mundo fu turo vida eterna. 31Masmuitos primei ros seráo últimos, e muitos últimos, primeiros. N ovam ente anuncia a morte e ressurreiçâo (M t 20,17-19; Le 18,31-34) — 32Caminhavam, subindo para Jerusa lém. Jesús se adiantou, e eles se sur preendiam; os que seguiam, iam com medo. Ele reuniu outra vez os doze e se pôs a anunciar-lhes o que lhe iría acontecer: — 33Vede: estamos subindo para Jerusalém. Este Homem será entregue aos sumos sacerdotes e aos letrados, o condenarâo à morte e o entregarâo aos pagâos, 34que caçoarâo dele, cuspiráo nele, o açoitarâo e o matarâo, e ao fim de très dias ressuscitará. C o n tra a am biçâo (Mt 20,20-28) — 35Aproximaram-se dele os filhos de Zebedeu, Tiago e Joáo, e lhe disseram: de finalidade (“para” v. 17), mas de conseqüéncia da generosidade de Deus, “cem vezes mais”; que o bem desta vida é a nova familia crista (3,34-35) e nela nao faltaráo perseguigóes; que a “vida eterna” é sempre o “tesouro” reservado por Deus. A vida presente nao o pode esgotar. 10,31 Anuncia uma inversáo de catego­ rías, como a do cántico de Ana (ISm 2) ou a de Maria no Magníficat. 10,32-34 Terceiro anuncio da paixáo, desta vez a caminho de Jerusalém. Mar­ cos sublinha a uniáo dos dois dados: Jesús comega a “subida”, adianta-se, o Mestre caminha á frente; os outros o seguem surpresos, medrosos. O nome de Jerusalém soa finalmente como termo da viagem e unido ao anúncio da paixáo. Uma tensáo emotiva faz vibrar a predigáo. A formulagao é da comunidade, posterior á Páscoa, embora o texto a refira aos “doze”. A descrigáo é detalhada, dominada pela repetigáo de “ser entregue”. Depois do anúncio, já nao há comentário. A nao ser que tome­ mos a cena seguinte como a incrível e in­ crédula resposta dos discípulos. 10,35-45 Aceña é semelhante á discussáo pelo primeiro lugar (9,33-37). O reía-

10,46

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— Mestre, querem os que nos conce­ das o que te pedirmos. 36Perguntou-lhes: — O que quereis que vos faga? 37Responderam: — Concede-nos sentar-nos em tua gloria, um á tua direita e outro a tua esquerda. 3xJesus replicou: -— Nao sabéis o que pedis. Sois capazes de beber a taga que eu vou beber, ou batizar-vos com o batismo que vou receber? 39Responderam: — Podemos. Porém Jesús lhes disse: — Bebereis a taga que vou beber e recebereis o batism o que vou receber; 40mas sentar-vos a minha direita e á

minha esquerda náo cabe a mim concedè-lo, mas é para quem está reservado. 41Quando os outros ouviram isso, indignaram -se com Tiago e Joño. 42Mas Jesús os chamou e lhes disse: — Sabéis que, entre os pagaos, os que sao tidos como chefes submetem os súditos, e os poderosos impóem sua autoridade. 43N§o será assim entre vós; ao contràrio, quem quiser entre vós ser grande, que se faga vosso servidor, 44e quem quiser ser o primeiro, que se faga vosso escravo. 45Pois este Homem náo veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida como resgate por todos. O cegó de Jericó (Mt 20,29-34; Le 18, 35-43) — 46Chegam a Jericó. E quan­ do saia de Jericó com seus discípulos e

to supóc nos irmaos urna concepgáo polí­ tica do messianismo: um dia Jesús triun­ fará e ocupará o trono de “gloria”. Eles, a quern o Messias tratou como favoritos (1,19-20; 5,37), querem assegurar para si nessa hora os dois primeiros postos de mando e de honra. Outros comentaristas o interpretam em relagao aos dois melhores lugares no banquete celeste. Do banquete passa-se á taga, que náo é a do banquete. Para isso estáo dispostos a enfrentar as lutas e sofrimentos com seu chefe. Fazem o pedido em dois tempos, para conquistar a benevolencia. Assim os apresenta Marcos. Náo entenderam o elementar. O destino do Messias é esgotar o cálice da ira (Jr 25,15-29; Is 51,17); é submergir-se na tor­ rente da paixáo (SI 42,8; 69,2.16; 124,4). Um dia, quando o tiverem compreendido, os dois irmaos compartilharáo sua sorte, até o martirio (de Tiago, At 12,1-2). Isso náo garante os primeiros lugares no reino trans­ cendente. Somente Deus reserva os lugares e os reserva como quer. Mais ainda, ambi­ cionar os primeiros lugares excluí deles. Porque a comunidade do Messias regese por principios opostos aos do mundo. Nela, a ambigáo será substituida pelo es­ pirito de servigo. Náo é que o servigo seja meio para conseguir o primeiro lugar, mas que no servigo reside a dignidade. Náo em virtude de um oráculo individual (como em Gn 25,23), nem por desordem social

(como diz Ecl 9,6-7); mas pelo preceito e pelo exemplo de Jesús (visto como o ser­ vo de Is 53,10), Na mengáo do cálice e da imersáo, o cristáo pode 1er ñas entrelinhas urna alusáo ao batismo e á eucaristía como participagáo na paixáo de Cristo (Rm 6,3-4; ICor 11,26). 10.45 O máximo servigo de Jesús será dar a vida como resgate. O AT menciona diversos tipos de resgate: Judá escravo pela liberdade de Benjamim (Gn 43), um es­ cravo por dinheiro (Lv 25,47-48), os levi­ tas pelos primogénitos, um animal por um homem etc. Jesús chega ao extremo, oferecendo sua vida (Rm 3,24; ICor 1,30). 10.46 Para “subir” (10,32) a Jerusalém partindo da Transjordánia, Jesús tem de atravessar o Jordáo e passar pela cidade das palmeiras, Jericó, refazendo de certo modo o itinerário dos israelitas (Js 3-6). O episodio de Jericó, pelo grito do cegó, prepara ¡mediatamente a entrada em Jeru­ salém e se integra assim num bloco de quatro atos significativos de Jesús: cura do cegó (10,46-52), acolhida triunfal (11,111), maldigáo da figueira (1,12-14), purificagáo do templo (11,15-19). A esses atos seguiráo as controvérsias com as autori­ dades e uma instrugáo para os discípulos sobre o futuro e o final. O primeiro bloco compóe-se de duas vertentes. A primeira, positiva, mostra Je-

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urna multidáo considerável, Bartimeu (filho de Timeu), um mendigo cegó, estava sentado à beira do caminho. 47Ouvindo que era Jesus de Nazaré, pós-se a gritar: — Jesús, filho de Davi, tem piedade de mim! 48Muitos o repreendiam para que se calasse. Mas ele gritava mais forte: — Filho de Davi, tem piedade de mim! 49Jesus se deteve e disse: — Chamai-o. Chamaram o cegó, dizendo-lhe: — Animo! Levanta-te, pois te chama. 50Ele tirou o manto, pòs-se de pé e se aproximou de Jesús. 51Jesus Ihe dirigiu a palavra: -— Que queres que te faga? O cegó respondeu: — Mestre, que eu recobre a visáo. 52Jesus lhe disse: — Vai, tua fé te salvou. No mesmo instante recobrou a visáo e o seguia pelo caminho. sus poderoso em milagres e aclamado. A segunda, negativa, mostra-o rejeitando o uso que fazem do tempio e repelindo o povo numa agio simbòlica. Narrativamen­ te as pegas estào ligadas por indicagòes topográficas: Jericó, Jerusalém, Betània, o tempio. 10,46-52 A cura do cegó pouco se pare­ ce com a anterior (8,22-26). Através do realismo narrativo da cena impóe-se o paradoxo da situagáo. O cegó, condenado por sua doenga e reprimido pelo povo, perce­ be o que os outros nao vèem. Ouve men­ cionar Jesus de Nazaré, invoca o “filho de Davi”. A sua fé, embora imperfeita, é um órgào mais penetrante: “nào tendo olhos vè”. Por eia receberà de Jesus o dom da visáo recobrada. Nele cumprem-se as pro­ fecías: “verào a glòria do Senhor... abrirse-áo os olhos dos cegos” (Is 35,5; 42,7. 18). ¡mediatamente “segue” a Jesus, que o mandara “chamar”. Um itineràrio exem­ plar, de fé e iluminagào, chamado e segui­ mento. O seu grito é urna confissào messiànica. Jesus é um descendente legítimo de Davi, anunciado e esperado (Jr 23,5; 33,15; Zc

Entrada triunfal em Jerusalem (Mt 21,1-11; 1x19,28-40; Jo 12, 12-19) — g u a n d o seaproximavam de Jerusalém por BetfagéeBetánia, junto ao monte das Oliveiras, ele enviou dois discípulos, 2encarregando-os: — Ide á aldeia que está á nossa fren­ te, e logo ao entrar encontrareis um burrinho amarrado, que ninguémainda montou. Soltai-o e trazei-o. Esealguém vos perguntar por que fazeis isso, diréis que o Senhor precisa dele e que logo o de­ volverá. 4Foram e encontraram o burrinho amarrado junto a urna porta, por fora, contra o portáo. Soltaram-no. 5Alguns dos que ai estavam lhesperguntaram: — Por que soltáis o burrinho? 6Responderam conforme Jesús lhes havia recomendado, e eles permitiram. 7Levam o burrinho a Jesús, colocam so­ bre ele seus mantos, e Jesús montou. 8Muitos forravam com seus mantos o caminho, outros com ramos cortados no campo. ''Os que iam á frente e atrás gritavam:

U

3,8). O povo o repreende porque grita, pelo que grita. Jesús aceita a confissáo, além de confirmá-la como brotada da fé. 11, 1-11 Pela Páscoa confluem a Jeru­ salém rios de peregrinos: “para lá sobem as tribos, as tribos do Senhor” (SI 122,4). Jesús náo é um a mais, perdido no caudal anónimo. Vem a Jerusalém cumprir seu destino. Vaí “ser entregue”; mas antes planeja com previsáo milagrosa e executa com precisáo soberana: “se o Senhor dos Exércitos decide, quem o impedirá?” (Is 47,27). A sua entrada é para os contempo­ ráneos um ato significativo: aclamam o herói popular com imprecisos sonhos messiánicos, pronunciando versos litúrgicos. Num plano superior, a entrada é significa­ tiva para a comunidade crista crente. Mar­ cos, que é seu intérprete e guia, dá a en­ tender isso discretamente em seu relato. 11,2-7 Em proporgáo, os preparativos ocupam muito espago. Jesús planeja urna entrada solene, em montaría régia, mas hu­ milde, náo belicosa. A alusáo a Zc 9,9: “olha teu rei que está chegando... cavalgando um burro”, define o caráter pacífico e mostra

11,19

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— Hosana! Bendito o que vem em no­ me do Senhor. wBendito o reino de nosso pai D avi que chega. Hosana aoA ltis­ simo! 1 1 Entrou em Jerusalém e se dirigiu ao templo. Depois de inspecioná-lo inteiramente, visto que era tarde, voltou com os doze para Betánia. Amaldigoa a figueira (M t 21,18-19) — 12N o dia seguinte, quando saíam de Betánia, sentiu fome. Í3A o ver de Ionge urna figueira frondosa, aproximouse para ver se encontrava alguma coisa; mas encontrou somente folhas, pois nao era época de figos. 14Entào lhe disse: — Jamais alguém com a teus frutos. Os discípulos o ouviam. que o plano de Jesús está cumprindo o va­ ticinio. É um jumentinho que ninguém montou: como se disséssemos urnas primicias de montaría, como as pedras nao talhadas para um altar (Ex 20,25), como as árvores frutíferas até a quinta colheita (Lv 19,2325), como o sepulcro novo. Salomáo, recém ungido rei, havia entrado na capital “montado em muía do rei” (IRs 1,44). Além disso, Jesús usa o título de Senhor. 11,8 É urna homenagem honrosa (cf. 2Rs 9,13, Jeú proclamado rei); nao consta que as palmas fossem usadas para cobrir o chao (cf. SI 118,27). A vegetagáo somase á homenagem. 11,9-10 Aprimeira parte é citagáo do SI 118,25-26. “Hosana”, que antes fora sú­ plica de auxilio (como nosso “socorro”, cf. 2Rs 6,26; 19,19), mais tarde se converteu em simples aclamagáo (e assim passou á nossa língua). O salmo era cantado na festa dasTendas e outras ocasióes. Louva-se invocando o Senhor (cf. Nm 6,2427); mas os leitores posteriores uniram “vem em nome do Senhor”, como descri­ b o posterior do Messias. Marcos acrescenta em paralelo uma se­ gunda aclamagao, que identifica o Mes­ sias como o rei descendente de Davi (Jr 33,17.21; Ez 37,24), e dá a este o inusita­ do título de “nosso Pai”, colocando-o en­ tre os patriarcas. 11,11 ¡mediatamente faz uma visita de inspegáo ao templo, com a qual Marcos prepara a cena do dia seguinte. Devemos

Purifica o templo (Mt 21,12-17; Le 19, 45-48; Jo 2,13-22) — 15Chegaram a Jerusalém e, entrando no templo, pósse a expulsar os que vendiam e compravam no templo, virou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas, 16enáo deixava ninguém trans­ portar objetos pelo templo. E lhes explicou: — Está escrito: minha casa será casa de oraçâo, mas vós a convertestes em covil de bandidos. 18Os sumos sacerdotes e letrados ouviram isso e procuravam com o aca­ bar com ele; m as o tem iam , porque todo o povo adm irava seu ensinam ento. 19Q uando anoiteceu, ele saiu da cidade. recordar que o cuidado do templo era competéncia do rei desde a sua construçâo. 11,12-14 O que se segue é a primeira parte de uma açâo simbólica, como faziam os antigos profetas em tempos críticos, sobretudo Jeremías e Ezequiel. A açâo simbólica é uma espécie de parábola em forma de mímica. O gesto, embora descon­ certante, pode ser fator expressivo. Por­ tante, nao estranhemos se nos parece estranha a açâo de Jesús. A figueira, como outras árvores, pode representar o povo escolhido (Jr 8,13; Os 9,10); os figos re­ presentan} os judeus (Jr 24,1-8); agora a figueira representa o povo incrédulo, que tem folhagem de aparêneias e nao dá fru­ to. A imagem dos frutos é convencional à força de repetiçâo (Is 37,31; Ez 17,8-9.23). O texto nào parece distinguir entre a estaçâo das bêberas e a dos figos (que o hebraico distingue com dois termos; “bêbera” é quase igual a “primogénita”); o mês de abril nào é estaçâo de figos, mas quando muito de bêberas (Ct 2,13). 11,15-19 Também a chamada “purificaçâo” do templo é uma açâo simbólica de Jésus. Na esplanada do templo, no átrio acessível aos pagâos, montava-se para a Páscoa um verdadeiro mercado de animais para o sacrificio e bancas de câmbio para o imposto do templo (Ex 30,12-16); tudo era tolerado pelas autoridades. Esse é um dado realista. A intervençâo de Jésus deve ter sido limitada quanto à extensâo; um gesto, mais que uma operaçâo sistemâti-

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11,20

A figueira seca (M t 21,20-22) — 20De manha, passando junto à figueira, observouque havia secado pela raiz. 2lPedro lernbrou-se e lhe diz: — Mestre, olha: a figueira que amaldicoaste secou. 22Jesus lhe respondeu: — Tende fé em Deus. 23Eu vos asseguro que se alguém, sem duvidar por dentro, mas crendo que se cumprirà o que diz, disser a esse monte que saia dai e se ca. Très detalhes representam a totalidade: pombas (oferta da populaçâo pobre), cambistas, o átrio como caminho para o transporte de mercadorias. Sao as palavras que explicam e ampliam o alcance do gesto. Sao urna citaçâo com­ binada de Is 56,7 e Jr 7,11. Comecemos pela segunda: Jeremías denuncia o abuso do templo por parte dos judeus, que o convertem em refúgio para continuar pecan­ do impunemente (como fazem os bandi­ dos em seus covis); a citaçâo aumenta a gravidade do abuso. A primeira se Ié no começo da terceira parte de Isaías: é urna profecía para o futuro, com aboliçâo de uma lei precedente. Duas coisas sao essenciais no versículo: a funçâo do tem­ plo, casa de Deus, casa de oraçào, e a aber­ tura aos pagaos. A citaçâo transborda a situaçâo ¡mediata e projeta a visâo para o futuro, para o novo templo, casa de Deus, aberto a todos. Os leitores de Marcos captam o alcance. De algum modo também as autoridades judaicas, que querem eli­ minar Jesús pelo que fez e disse: “o ouviram”. Aaçâo de Jesús, como Marcos apresenta, nao é violenta: nao há resistencia. Nao tem alcance político: náo alarmou os romanos, nem é citada no processo. 11,20-26 Um dia Jeremías esmigalhou um jarro de louça e explicou aos presen­ tes que dessa forma o Senhor quebraría o povo e a cidade, “como se quebra uma vasilha de louça e nao é possível recompóla” (Jr 18,1-2.10-11). Aquilo que o pro­ feta fez com as máos, Jesús o faz com a palavra: amaldiçoa e deixa estéril a árvore simbólica. O desenlace, a figueira seca, completa a açâo simbólica, a maldiçâo: entre as maldiçôes de Dt 28 e Lv 26, várias se referem a árvores frutíferas. Para a comunidade crista o sentido é claro. Para a

atire ao mar, isso acontecerá. 24Portanto, eu vos digo que, quando orardes pedindo alguma coisa, ~crede que o recebestes, e acontecerá para vós. 2 f’Quando orardes, perdoai o que tiverdes con­ tra outros, e o Pai do céu perdoará vossas culpas. Autoridade de Jesús (Mt 21,23-27; Le 20,1-8) — 27Voltaram a Jerusalém e, enquanto passeava pelo templo, aproinstrugáo ¡mediata dos discípulos Jesús loma um dado particular e dá a seu comen­ tario uma diregáo inesperada. Náo fala da rejeigáo dos incrédulos (SI 37,22), mas da oragáo dos fiéis. Com isso prolonga uma frase pronunciada antes no templo, “casa de oragáo”. Como deve ser a oragáo? Tendo em Deus uma fé que confia em seu poder e quer escutar, “que pega com confianza e sem du­ vidar” (Tg 1,6). O exemplo é uma hipér­ bole expressiva, talvez proverbial (cita-o ICor 13,2). Falando de oragáo, por associagáo, é atraído o tema do perdáo no PaiDosso (que Marcos náo cita). A instrugao de Jesús a seus discípulos encerra-se com areferencia ao “Pai do céu”. 11 ,27— 12,40 A discussáo com as auto­ ridades judaicas desenrola-se em seis atos que o narrador quis agrupar aqui. No cam­ po doutrinal, mostram como se desprendem e se apartam de Jesús. No campo nar­ rativo, preparam o desenlace violento da paixáo. Os interlocutores mudam o sufi­ ciente para representar a totalidade: fariseus e saduceus, senadores e herodianos, sumos sacerdotes e letrados. O povo e os discípulos fazem o papel de público. Tam­ bém o tema varia, provavelmente dado pela tradigáo. Poderíamos articulá-lo assiin, mas sem pretensóes: sobre a autori­ dade de Jesús, e correlativamente á de Davi, autoridade de César nos impostos, autoridade de Deus em seus enviados e em seus mandamentos. 11,27-33 A pergunta “fazes isso” é vaga e genérica. Pelo contexto próximo, poderiaümitar-se á purificagáo do templo; pelo contexto mais ampio, parece abranger o conjunto de sua atividade, inclusive os miiagres e o ensinamento. Os falsos pro-

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ximam-se dele os sumos sacerdotes, os letrados e os senadores 28e lhe dizem: -— Com que autoridade fazes isso? Quem te deu tal autoridade para faze-lo? 29Jesus respondeu: — Eu vos farei urna pergunta: res­ pondedm e, e vos direi com que autori­ dade fago isso. 30O batism o de Joáo procedía de Deus ou dos homens? Respondei-me. 31Eles discutiam entre si: Se dissermos: de Deus, nos dirá: por que nao crefetas arrogavam-se a autoridade de envia­ dos de Deus; e “inventavam profecías... seguindo sua inspiragáo... Dizíeis orá­ culo do Senhor quando o Senhor nao vos enviava... quando o Senhor nao falava”. De modo semelhante as falsas profetisas arrogavam-se a autoridade para “destinar à vida ou à morte” (Ez 13,6.7.17). As autoridades tém direito de pedir credenciais a quem se apresenta como Jesús o faz: os interlocutores representam o bra­ go eclesiástico (sacerdotes), o brago civil (senadores), a autoridade doutrinal (letra­ dos). Porém, de onde lhes vem a autorida­ de?, responde a parábola seguinte. A per­ gunta aponta para a autoridade messiànica de Jesús, que os interlocutores negam de antemáo. Para eles, incrédulos, se Jesús se arroga essa autoridade, é impostor, come­ te delito. Impossível convencer a quem se nega a crer, depois de tudo o que viu e ouviu. Por isso Jesus responde, no estilo rabínico, com outra pergunta, que transie­ re o assunto para a autoridade de Joáo Batista, a fim de desarmar seus opositores com um dilema. No batismo de Joáo, to­ mado em seu conjunto, está implícita a justificagáo: porque preparava a vinda do Messias, porque dera ocasiáo ao testemunho do Pai. O batismo e Joáo estavam em fungáo de Jesús Messias. Esse dilema fun­ ciona a fortiori com Jesús, em quem eles tampouco créem, mas temem o povo.

mos nele; 32vam os dizer: dos homens? (Tinham medo do povo, pois todos tinham Joáo com profeta auténtico.) 33Entáo responderam: — Nao sabemos. E Jesús lhes disse: — Tampouco eu vos digo com que autoridade faço isso. Os vin hateiros (M t 21,33-46; Le 20,9-19) — ‘Pôs-se a falarlhes em parábolas:

em fungáo do sentido. O movimento se estiliza em très mais um. A heranga de Deus é o povo (Dt 4,20; 32,9; IRs 8,51.53; Jr 50,11; SI 79,1 etc.); ele dará sua heranga ao “Filho querido” (1,11; 9,7). Também Deus é heranga do levita (Dt 10,9; 18,2; Ez 44,28). Os diri­ gentes, meros arrendatários, querem ficar com a heranga como propriedade sua, ar­ rendada, eliminando o herdeiro, o filho. O sentido é superficialmente transparente: refere-se aos profetas, aos chefes; e eles o entendem. Mas nao querem entender a força da interpelaçâo, o chamado à fé. Antes, se endurecem em sua resisténcia. “Desde que vossos pais saíram do Egito vos enviei meus servos, os profetas, dia após dia, e nao os escutastes” (Jr 7,25; 25,4; 26,5; 29,19; 35,15; 44,4). A violéncia contra os profetas está documentada no caso de Jeremías; sem violéncia física, Is 30 e Am 7. Os chefes recebem de Deus nada mais do que a administraçâo, e perante Deus sáo responsáveis, como apare­ ce em muitos textos (até Sb 6,1-11). So­ bre o envío do filho recorde-se a historia de José, enviado por Jacó. A vinha náo é arrasada, como em Is 5, mas confiada a outros administradores. Pode-se 1er a parábola em chave davídica: o futuro Messias, “filho de Davi”, é herdeiro legítimo do reino, da realeza; eli­ minando o Messias que nao reconhecem, pensam em ficar com a herança, o povo 12 ,1-12 Jesus toma de Is 5,1-7 o texto que eles dominam (pode-se ampliar com dados do SI 2, sobre filiaçâo e herança). do comego e o tema final, ou seja, a imaA citaçâo do SI 118,22-23, que canta a gem conhecida da vinha (SI 80) e o desen­ reviravolta inesperada provocada por Deus lace, “em vez de justiga (= frutos), assas­ em favor do inocente perseguido, faz ple­ sinato”. Muda o resto, dirigindo a parábola, no sentido aplicada a Jesús. Os arquitetos nao ao povo, mas aos dirigentes. Urna pa­ guias do povo excluem Jesús como impresrábola pode digerir detalhes inverossímeis

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— Um homem plantou unía vinha, a rodeou com urna cerca, cavou um la­ gar e construiu urna torre; arrendou-a para uns agricultores e partiu. 2Na colheita, enviou um servo aos agriculto­ res para cobrar sua parte do fruto da vinha. 3Eles o agarraram, o espancaram e o despediram sem nada. 4Enviou-lhes um segundo servo; feriram-no na cabeça e o injuriaram. 5Enviou um terceiro, e o mataram. Enviou muitos outros: a uns espancaram, a outros mataram. 6Sobrava-lhe um, o seu filho querido, e o enviou por último, pensando que respeitariam seu filho. 'M as os agriculto­ res disseram entre si: é o herdeiro. Va­ mos matá-lo, e a herança será nossa. 8Entáo o mataram e o jogaram fora da vinha. 9Pois bem: que fará o dono da vinha? Virá, acabará com os agriculto­ res e entregará a vinha a outros. 10Náo lestes aquele texto da Escritura: A pedra que os arquitetos rejeitaram se tornoua pedra angular ; 1 1é o Senhor quem o fe z e nos parece um milagrel 12Tentaram prendê-lo, pois compreenderam que a parábola era sobre eles. Mas, com o temiam o povo, deixaramno e se foram. tável para a sua construgáo; mas ele se con­ verte em base da nova construgáo (por sua ressurreigáo). Será a agao clara de Deus. 12,13-17 A pergunta é urna armadilha para desacreditar Jesús como colabora­ cionista, ou denunciá-lo como revoltoso. Armadilha em forma de dilema, “o ho­ mem que adula seu companheiro estende urna rede a seus passos” (Pr 28,23; 29,5). Mas a armadilha está dissimulada, recoberta de corteses adulagoes: “verniz que co_ bre a louca sao os lábios que adulam com má intengáo” (26,23). Dada a má inten­ gáo, os louvores soam como hipocrisia. Os fariseus aceitavam resignados o im­ pèrio e seus tributos como castigo divino que cessaria por agao do Messias. Os partidários de Herodes aceitavam o status quo. Fariseus e herodianos náo costumavam concordar entre si; só se unem contra o inimigo comum (3,6). O partidarismo se condena e cega no julgamento (Pr 24,23; Jó 13,8.10; 32,21). O tributo a César sig­

O trib u to a C é sa r (M t 22,15-22; Le 20,20-26) — 13A seguir, enviaram-lhe alguns fariseus e herodianos para apanhá-lo ñas palavras. 14A proxim am -se e lhe dizem: — Mestre, consta-nos que és veraz e nao fazes preferencias, pois náo és par­ cial; pelo contràrio, ensinas sinceramen­ te o caminho de Deus. E lícito pagar tributo a César ou náo? Pagam os ou nao? 15A divinhando sua hipocrisia, disse-lhes: — Por que me tentáis? Trazei-me um denário, para que o veja. 16Levaram-no, e pergunta-lhes: — De quem sao esta imagem e esta inscrigáo? Respondem-lhe: — De César. 17E Jesús replicou: — Entáo devolvei a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. E ficaram surpresos com sua resposta. Sobre a ressurreigáo (M t 22,23-33; Le 20,27-40) — 18Aproximaram-se alguns saduceus (que negam a ressurreigáo) e lhe disseram: nificava no campo económico a submissáo política ao imperador. A imagem de César na moeda cunhada multiplicava sua presenga e circulava na vida econòmica cotidiana do país. Além disso, a moeda ostentava símbolos do culto imperial. A efigie de Tibério trazia uma inscrigáo que o identifi­ cava como “divi Augusti filius”. A imagem de Deus estava terminantemente proibida, e a imagem de reis judeus tradicionais nun­ ca foi usada em moeda (foi usada pelos Asmoneus e pela familia de Herodes). A única imagem de Deus é o homem. Eles disseram “pagar”, Jesús responde “devolver”. A frase de Jesus, por sua for­ ma lapidar e por sua amplidáo indiferenciada, tornou-se proverbial e aplicável a múltiplas situagóes. 12,18-27 Os saduceus se baseiam na legislagáo (Dt 25,5) para propor um caso di­ vertido que ponha em ridículo a crenga na ressurreigáo. Sao eles que caem no ridí­ culo (Pr 29,9), ao mostrarem que náo en-

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— 19M estre, Moisés nos deixou es­ crito que quando alguém morrer sem fdhos, seu irmáo case com a viúva, para dar descendencia ao irm áo defunto. 20Havia sete irmáos: o prim eiro casou e morreu sem descendencia; 21o segun­ do tomou a viúva e morreu sem des­ cendencia; a mesma coisa o terceiro. 22Nenhum dos sete deixou descenden­ cia. Por último morreu a mulher. 23Na ressurreigao [quando ressuscitarem], de qual deles ela será mulher? Pois os sete casaram com ela. 24Jesus lhes respondeu: . -— Estáis enganados, pois nao entendeis a Escritura nem o poder de Deus. ^Q uando ressuscitarem da m orte, homens e m ulheres nao casaráo, mas seráo no céu como anjos. 26E a propósito de que os mortos ressuscitaráo, nao les­ tes no livro de M oisés o episodio da tendem as coisas mais elementares acerca de Deus, do destino humano, da Escritura. Os saduceus, seguindo a velha tradicao, nao admitiam outra vida (Jó 14,19 e outros); nem a liam na Escritura nem aceitavam urna tradicao oral. Nisso eram con­ servadores. Os fariseus, seguindo a nova tradigáo (Dn 12,1; e o testemunho de 2Mc 7) acreditavam em outra vida e na ressurreigáo, e imaginavam-na como um retor­ no á vida em condigóes de total bem-estar. O caso está artificial e engenhosamente construido sobre a base da lei do levirato, que procurava assegurar a descendéncia de um defunto sem filhos e, com isso, acolher uma viúva. Se os sete irmáos ressuscitam, voltará a mulher ao primeiro para dar-lhe um filho e conservar seu nome? Os outros tém garantida a descendéncia? A conclusáo é que a lei do levirato desa­ credita, ridiculariza a idéia da ressurreigáo e aos que créem nela, também a Jesús. Jesús afirma a ressurreigáo, baseada no poder e na fidelidade de Deus (Ex 3,6.1516). Náo apela a uma imortalidade natural da alma, mas ao poder vivificante de Deus. Mas náo consistirá num prolongamento ou repetigáo da vida terrena. Visto que já náo morrem, náo fará falta a geragáo para per­ petuar o nome. Pela comparagáo com os anjos e o lugar celeste, está claro que Je­ sús fala da ressurreigáo gloriosa dos justos.

sarça? Deus lhe diz: Eu sou o D eus de Abraáo, o D eus de Isaac, o D eus de J a ­ co. 27Náo é um Deus de mortos, mas de vivos. Estais muito enganados. O preceito mais im portante (M t 22, 34-40; Le 10,25-28) — 28Um letrado que ouviu a discussáo e apreciou o acer­ tó da resposta, aproximou-se e lhe perguntou: — Quai é o mandamento mais im ­ portante? 29Jesus respondeu: — O mais importante é: Escuta, Israel, o Senhor nosso Deus é um só. 30Amarás o Senhor teu Deus com todo o coraçâo, com toda a alma, com toda a men­ te, com todas as tuas forças. 310 segun­ do é: A m a rá s o p ró xim o com o a ti mesmo. Náo há mandamento maior do que estes. O argumento da Escritura tinha força para aqueles ouvintes. A frase final con­ cluí lapidarmente. Vejamos o correlativo. Os israelitas podiam chamar Yhwh de “nosso Deus”, porque era “seu Deus”; tam­ bém o individuo no singular. Mas os mor­ tos nao podiam invocar o “nosso Deus” (p. ex. SI 88,11-13); náo era o Deus deles. Em contraste com a crença geral se léem os vislumbres de SI 16,11; 17,15; 73,2328. Em outras culturas circundantes, imaginavam a existéncia de deuses do reino dos mortos (Nergal, Plutáo etc.). O Pai de Jesús é Deus de mortos só para que cessem de estar mortos. 12,28-34 A este letrado, provavelmente do partido farisaico, agradou a vitória de sua crença na defesa de Jesús. Aborda-o bem disposto. No AT há decálogos, dodecálogos, listas de preceitos, códigos le­ gáis, decisóes de jurisprudéncia. Regulavam a conduta do israelita observante. A tradiçâo rabínica contou até 613 preceitos, 365 proibiçôes e 248 mandatos. Era pre­ ciso sabé-los todos para cumprir todos? Podiam ser sintetizados e reduzidos a poucos capítulos? A um só? Essa pode ser a força de “o primeiro”, que engloba tudo. Em vez de um, Jesús propôe dois, com­ binando Dt 6,5 com Lv 19,18. O primeiro é recitado pelos judeus diariamente várias vezes; o segundo deve ser sujeitado forte-

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12,32

320 letrado lhe respondeu: — Muito bem, Mestre; o que dizes é verdade: ele é um só, e nao há outro fora dele. 33Amá-lo com todo o coraçâo, com toda a inteligéncia e com to­ das as forças, e amar o próximo como a si mesmo vale mais do que todos os holocaustos e sacrificios. 34Vendo que havia respondido com sensatez, Jesús lhe disse: — Nâo estás longe do reino de Deus. E ninguém mais se atreve u a fazerlhe perguntas. 35Quando ensinava no templo, Jesús tomou a palavra e disse: — Com o dizem os letrados que o M essias é filho de Davi? 36Se o pròprio Davi disse, inspirado pelo Espirito San­ to: Disse o Senhor ao meu Senhor: Senmente ao primeiro, para que nao se des­ cuide. Ao acrescentar que “nao há outro maior”, implica que qualquer preceito deve submeter-se aos dois primarios. Joáo dis­ serta sobre a vinculagáo de ambos (lJo 3,11-24; 4,20-21). Quem os cumpriu a nao ser Jesús? Quem os cumpriu como Jesús? O letrado está de acordo e alude a outros textos da Escritura (talvez Dt 4,35 ou Is 45, 21). Na escala de valores, substituí “preceitos” por “holocaustos e sacrificios”, quer dizer, a pràtica do culto. Doutrina frequente no AT (p. ex. Is 1,10-20; SI 50; Eclo 34-35). O letrado, que aceitou a soberanía de Deus na velha legislado, agora se abre ao reinado de Deus, que se faz presente em Jesus. Desse modo, afasta-se dos letrados incrédulos. Para a comunidade de Marcos, esse letrado judeu se incorpora à igreja, e pode representar outros. 12,35-40 Desta vez, Jesús pergunta so­ bre a descendencia davidica do Messias, apoiada na Escritura, aceita pelos expertos, identificada em Jesus pelo cegó e pela multidáo (10,47-48; 11,10). “Chegam dias... em que darei a Davi um rebento legítimo” (Jr 23,5; 33,15); “meu servo Davi será seu rei” (Ez 37,24). Acrescenta-se a leitura messiànica de textos como Is 11,1-10; Am 9,11; SI 45 e outros. Jesús quer introduzir em sentido superi­ or e transcendente a expressáo “Senhor” (cf. SI 110,1. O grego diz ho Kyrios toi kyrioi mou; o hebraico Yhwh la’adony). Para isso

ta-te à minha direita, aléque eu faça ■ de teus inimigos estrado de teus pés. 370 próprio Davi o chama Senhor: co­ mo pode ser filho dele? A numerosa multidáo oescutava com prazer. 38E ele, instruindo-os, disse: — Cuidado com os letrados. Gostam de passear com largas túnicas, que os saúdem pela rúa, 39dos primeiros assentos ñas sinagogas e dos melhores luga­ res nos banquetes. 40Com pretexto de . longas oraçôes, devoram as propriedades das viúvas. Receberâo sentença mais severa. A oferta da viúva (Le 21,14) — 41Sentado diante do cofre do templo, observava como as pessoas punham moedinhas no cofre. M uitos ricos punham conta com a opiniáo común de que Davi seja o autor do salmo e que fale inspirado, com autoridade divina. A comunidade cris­ ta deu a Cristo o título de Kyrios. Dada a tendéncia do evangelista, temmuita força o que a aprovaçâo do povo apresenta, em contraste com a atitude das autoridades. 12,38-40 A maneira de conclusáo, o narrador reúne algumas críticas contra autoridades corruptas. É o que fizeram os profetas reiteradamente (p. ex. Jr 21-23; Mq 2-3). Os letrados e doutores arrogavam-se urna autoridade superior e exerciam urna influéncia dominante entre o povo. Daí a gravidade da denuncia. O primeiro capítulo de acusaçâo é a vaidade, parente da soberba, fustigada pelos Sapienciais e pelos profetas (Pr 8,13; Is 2,12). O segundo é a exploraçâo de classes indefesas (as viúvas, segundo ampia tradiçâo, Is 1,17.23) sob pretexto de oraçôes que resultam viciadas; abusam ao mesmo tem­ po das viúvas e do culto. De modo bem dife­ rente os profetas Elias e Eliseu socorriam as viúvas e os órfüos (IRs 17; 2Rs 4 e 8). Pelo tema da oraçào, esta série se prende ao capítulo anterior (11,17.26). 12,42-44 Atraída pela palavra “viúva”, entra aqui esta narraçâo: episodio sucedido ou parábola em açào. Colocada nesse con­ texto próximo, irradia reflexos de contras­ te. Seu desprendimento total ante a cobiça dos outros; o último lugar ante a busca dos primeiros; seu conceito puro do culto, vivi-

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inuito. 42Chegou urna viúva pobre e pos dois centavos. 43Jesus chamou os dis­ cípulos e lhes disse: — Eu vos asseguro que essa pobre viúva pôs no cofre mais que todos os outros. 44Com efeito, todos puseram daquilo que lhes sobrava; esta, em sua do como sacrificio da pessoa. Podemos re­ cordar a viúva fenicia que partilhou com Elias a última comida sua e do filho (IRs 17). Sobre o cofre do templo, ver 2Rs 12,5; no tempo de Jesús se haviam diversificado os cofres, segundo o destino do dinheiro. Com essas palavras, termina o ministério público de Jesús no evangelho de Mar­ cos. Quis conservar para todas as geragóes (onde se pregar o evangelho) a figura dessa viúva pobre e anónima: urna ligào e urna denùncia. Nào precisava conhecer os 613 preceitos para cumpri-los; sabia dar a Deus o que é de Deus, quer dizer, em forma de duas moedinhas, toda a sua vida.

indigència, pós tudo quanto tinha para viver. D iscu rso escatològico: R uina do tem plo (Mt 24,1-14; Le 21,524) — !Quando saia do templo, um de seus discípulos lhe diz:

se a profecía de teor semelhante em Miquéias. Descreve urna situagáo de turbu­ lencias sociais e é vítima de perseguigao, até mesmo dos parentes, por seu ministério profètico. Indica um termo aproxima­ do (em números redondos, 29,10); previne contra falsos profetas (29,8-9); apresentase diante de reis nativos (21— 22) e de chefes nativos ou estrangeiros (26; 40,2-5). Usa a imagem da parturiente (4,31). Eze­ quiel anuncia o fim próximo (7,1-12), a destruigao da cidade e do templo (cap. 9); denuncia os falsos profetas (13,1-16). Nào vale objetar que os textos de Jr e de Ez sao elaboragáo posterior, porque nao é de todo certo, e porque agora nos interes13 Chegamos ao capítulo mais difícil sam os textos que os contemporáneos de desse evangelho, o chamado discurso es­ Jesús liam. catològico. Difícil, porque fala de aconted) Aos profetas sucedeu em sáculos pos­ cimentos futuros mal conhecidos em seu teriores a literatura escatològica e apoca­ desenvolvimento, dos quais salta audaciolíptica, criadoras de um mundo particular de samente ao final, sem distinguir com rigor as imagens. Podemos citar o bloco de Is 24— 27 perspectivas. Difícil, porque se refere a tem­ e o livro de Daniel, canteiro de alegorías pos de crise, confusos por natureza, e tame incitador de especulagóes cronológicas. bém porque emprega imagens e urna linguae) A isso se deveria acrescentar a litera­ gem marcada pelas alusóes enigmáticas, tura apócrifa da época, que testemunha a reticencias enunciadas, ocultagáo tática. atualidade da literatura bíblica citada em Para interpretá-lo no seu conjunto, tetempos de crise. nhamos em conta algumas observagóes. f) Toda essa literatura se presta a interprea) Embora contenha alguma predigao for­ tagóes e aplicagóes variadas. Assim, pois, mal, quer dizer, de um fato individual, a inresulta verossímil e provável urna instrutencáo primeira nao é satisfazer a curiosidade gáo de Jesus a seus discípulos para a crise de agoureiros e de seus clientes crédulos que se avizinha e para o futuro. Deve-se contar com urna atualizagáo das suas ins(como fazem alguns adivinhos profissionais da Babilonia, “que observam as estrelas e trugóes para o tempo de composigáo do prognosticain a cada mes o que vai aconte­ evangelho. Costuma-se dividir o discurso nestas cer” (Is 47,14) e seus imitadores sem conta. segóes: 1-2 destruigao do templo; 3-13 a b) A formagao de atitudes é muito mais crise; 14-23 a grande tribulagáo; 24-27 a importante do que a mera informagao. Por parusia; 28-37 o dia e a hora. isso, devem-se destacar as admoestagóes Composto de pegas diversas e colocado à cautela e à vigilancia. Atitudes especial­ neste lugar como um testamento de Jesús, mente necessárias em tempos de crise. como os de Jacó (Gn 49), Moisés (Dt 33), c) Já na literatura profètica se léem anúnTobit (Tb 13). O moribundo anuncia o fu­ cios desse tipo. Especialmente em Jeremías turo e dá conselhos. e Ezequiel, profetas da grande crise do 13,1-2 A introdugáo póe em cena a preexilio. Jeremías anuncia a destruigao do digáo. O monte das Oliveiras ocupa um templo (7,14); no processo seguinte, cita-

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13,2

— Mestre, olha que pedras e que construgoes! 2Jesus lhe respondeu: — Ves esses grandes edificios? Pois desmoronaráo, sem que fique pedra so­ bre pedra. 3Estava sentado no monte das Olivei­ ras, diante do templo. Pedro, Tiago, Joáo e André lhe perguntaram em particular: — 4Quando acontecerá tudo isso? Qual é o sinal de que tudo está para acabar? 5Jesus comecou a dizer-lhes: — Cuidado! Que ninguém vos engane. 6Muitos se apresentaráo alegando meu título e dizendo que sou eu, e enganaráo a muitos. 7Quando ouvirdes ru­ mores de guerras e noticias de guerras, nao vos alarméis. Tudo isso deverá acon­ tecer, mas ainda nao é o fim. 8Pois se levantará povo contra povo, reino contra reino. Haverá terrem otos em diversos lugares, haverá carestías. É o comego das

dores de parto. 9Ficai de sobreaviso. Eles vos entregaráo aos tribuíais, vos espancaráo ñas sinagogas, couparecereis diante de magistrados e reispor minha causa, para dar testemunh# diante de­ les. 10Em todas as nagóesdeverá ser anunciada antes a boa noticia. nQuando vos conduzirem para eíregar-vos, nao vos preocupéis com oque haveis de dizer; diréis naquele momento aquilo que Deus vos inspirar. Poisnao sereis vos que falareis, mas o Espirito Santo. 12Um irmáo entregará seu irnao á morte, um pai a seu filho; filhosse levantaráo contra pais e os mataría. 1 3 Sereis odiados de todos por causado meu nome. Aquele que agüentar atéofim se sal­ vará. A grande tribulagáo (Mt 24,15-28; Le 21,20-24) — 14Quando virdes o ídolo abominável erigido onde nio se deve

lugar importante na escatologia de Zaca­ rías (Zc 14,4). Fala-se do templo cons­ truido por Herodes, o Grande, cujos res­ tos ainda hoje nos impressionam. Superior ao faustoso de Salomáo (IR s 7— 8), ao modesto da volta do exilio (Ag 2,2-4; Zc 4,7; 6,13). A admiragáo do discípulo (um pescador galileu?) provoca a predigao (compare-se SI 48,13-14 com a predigao de Jr 7,14; 26,6.18). “Pedra sobre pedra” é modismo hiperbólico, cuja literalidade é desmentida pelo que hoje vemos. O tem­ plo foi destruido no ano 70 pelo fogo. Porém, a destruigáo do templo é anunciada como algo mais do que um acontecimento histórico particular: tantos templos foram destruidos! A presenga de Deus bre­ vemente vai mudar de lugar. 13,3-13 Muda o cenário e limita-se o número de interlocutores. A pergunta é dupla e pressupóe urna pluralidade de fatos: “essas coisas, tudo isso”; transborda a predigao sobre o templo. Os interlocutores querem conhecer a data e um sinal imediato que avise da sua iminéncia. O verbo grego pode significar cumprir-se ou acabar-se, levar a cabo (syntelesthai). A crise incluirá: aparigáo de falsos messias, calamidades históricas e naturais, perseguigóes. Incluirá também fatores po-

sitivos: as penalidades sao as dores de um grande parto; a perseguigáo servirá para estender a pregagáo a todo o m undo; dian­ te dos tribunais, o Espirito Santo falará por vossa boca. Vejamos alguns pontos para ilustrá-lo. 13,6 Como surgem falsos profetas, exatamente em tempos de crise Jr 23; como raposas entre ruinas (Ez 13,4; Mq2,ll; 3,5). 13,7-8 Guerras: nao devem temé-las (Jr 30,10; Is 19,2; 2Cr 15,5-7), nem esperar que délas surja a libertagáo, como pensavam os zelotas. Terremotos e carestías: Am 8,8; Ag 2,7; At 11,28; o terremoto escatológico: Zc 14, 4-5. As dores de parto: de urna nova era: Os 13,13; Jo 16,21-22; Ap 12,2. 13,9-10 Perseguigóes (2Cor 11,24-25), documentadas nos Atos; anúncio univer­ sal (Mt 28,19). 13.11 Como Estéváo diante do tribunal (At 7). 13.12 Discordias (Mq 7,6); desfazendo a concordia anunciada por MI 3,24-25. 13,14-23 A grande tribulagáo está introduzida por urna alusáo verbal a Dn 9,27; 11,31 e 12,11, textos que se aclaram em lM c 1,54: profanagáo do altar com urna ara estranha ou com um ídolo por ordem de Antíoco Epífanes. O texto acrescenta

13,27

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(o leitor que o entenda), entáo os que viverem na Judéia escapem para os montes. 15Aquele que estiver no terra­ do nao desga nem entre em casa para recolher alguma coisa; 16aquele que se encontrar no campo, nao volte para re­ colher o manto. 17Ai das grávidas e das que amamentam naqueles dias! 18Rezai para que nao acóntela no invernó. 1 9 N aqueles dias haverá urna tribulaqáo táo grande co­ mo nunca houve desde que D eus criou o mundo até hoje, nem haverá. 20Se o Senhor nao abreviasse aquela etapa, ninguém se salvaría. Mas, em atengáo aos que escolheu, será abreviada. 2,Entáo, se alguém vos disser que o Messias

está aquí ou ali, nao lhe deis atengáo. 22Pois surgiráo falsos messias e falsos profetas, que faráo sinais e prodigios, a ponto de enganar, se fosse possível, os escolhidos. 23Quanto a vos, estai atentos, pois vos preveni. A parusia (Mt 24,29-31; Le 21,25-28) — 24Naqueles días, depois dessa tribulacáo, o sol escurecerá, a lúa nao irra­ diará seu esplendor, 25as estrelas cairáo do céu e os exércitos celestes tremeráo. 26Entáo veráo chegar o Filho do Homem numa nuvem, com grande poder e majestade. 27Entáo enviará os anjos e reunirá os escolhidos dos quatro ven-

quase um aviso, urna chamada de atengáo ao leitor, para que o entenda em código. Quer dizer-lhe que nao tome ao pé da le­ tra a citagao? ou que a veja cumprida num acontecimento próximo? ou num futuro indefinido? A referencia à Judéia parece definir o cenário, a nao ser que equivalha à imagem de territorio povoado. Hoje nao temos dados para averiguar a que se refe­ ría o discurso primitivo: o que a tradigáo transmitía, ou o que Marcos recolheu. Costuma-se aduzir à tentativa do impera­ dor Calígula de instalar sua estátua no tem­ plo de Jerusalém (ano 39/40). A fuga em tempo de perigo extremo nós a conhecemos por textos de gènero dife­ rente (Is 48,20; Jr 4,29; SI 11,1; 55,8-9), e a fuga no tempo dos Macabeus (lM c 2,28; 2Mc 5,27). “As grávidas e as que amamentam”: pela difículdade da fuga e pela an­ gùstia acrescentada; nao porque expostas à sanha do inimigo (2Rs 15,16; Os 14,1). “Como nunca houve nem haverá” é hi­ pérbole proverbial (cf. Dn 12,1). O tema da abreviagáo do tempo se lé em apocalipses nao canónicos. Por outro lado, a salvagáo em atengáo aos escolhidos já está presente no grande diálogo de Abraáo com Deus: “Longe de ti fazer tal coisa! Matar o inocente com o culpado” (Gn 18,23-33). 13,21-23 Retoma, variando, o tema do v. 5, formando assím urna inclusilo de to­ dos os preparativos antes da parusia. Em lugar de oferecer-lhes um sinal indubitável, os previne dos enganos que seráo muitos

(cf. Dn 13,1-3). A incerteza deve alimen­ tar a vigiláncía. 13.24-27 O fato da parusia ou vinda do Messias se afirma de modo transparen­ te; todo o resto é opaco. Primeiro a da­ ta. Marcos, que gosta tanto da ligagáo “lo­ go” (euthys), usa aquí um vago “naqueles días”, fórmula corrente nos profetas para indicar um futuro indefinido. Os outros sao motivos próprios da apocalíptica e textos afins. 13.24-25 Comegando pela perturbagáo estelar (Is 13,10; 24,23; 34,4), que se pode considerar como testemunho cósmico do fato. As estrelas sao o exército celeste que cumpre as ordens do Senhor (cf. Eclo 43, 9-10). 13.26 A “figura humana” que sobe ao céu numa nuvem (em Dn 7,13-14), desee agora entre nuvens, ostentando o poder universal e perpétuo recebido do Altíssimo. O texto de Daniel identifica depois a “figura humana” com “o povo dos san­ tos do Altíssimo” (7,18-27), ou seja, a comunidade judaica fiel. O NT e a tradigáo crista a identifican! com o Messias Jesús. 13.27 A reuniáo dos eleitos se lé na escatologia de Isaías (Is 27,12-13; cf. Zc 2, 6.10; Dt 30,4). Em conclusáo, a parusia se propóe como fato cósmico, histórico (naqueles días), transcendente (poder, majestade), univer­ sal. A tradigáo crista é unánime em espe­ rar a “vinda” de Jesús Cristo e afirma que será “gloriosa”.

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13,28

tos, de um extremo da terra a um extre­ mo do céu. O dia e a hora (Mt 24,32-44; Le 21,2933) — 28Aprende¡ o exemplo da figueira: quando os ramos ficam tenros e as folhas brotam, sabéis que a primavera está próxima. 29Também vos, quando virdes acontecer isso, sabei que está pró­ ximo, ás portas. 30Eu vos asseguro que nao passará esta geracáo antes que aconteca tudo isso. 31Céu e terra passaráo, minhas palavras nao passaráo. 32Quanto ao dia e à hora, ninguém os conhece. Nem os anjos no céu, nem o Filho; só o Pai os conhece. 33Aten<jáo! Estai des13,28-37 Sobre a data dos acontecimentos futuros, a última segáo nos deixa na incerteza. Partimos da repetigáo, forman­ do inclusáo marcada, de “essas coisas” e “tudo isso” (13,4). Todas essas coisas sao os fatos que precedem a parusia e indicam sua proximidade. O problema é que “tudo isso”, inclusive a grande tribulagáo, sao descricóes bastante genéricas, modeladas por citagnes e alusóes. A comparagáo ve­ getal sugere um processo imánente da his­ toria; sugere também que a parusia traz urna primavera como o parto doloroso traz urna nova vida? Compare-se com o orá­ culo de Is 18,5: “Pois que antes da colheita, ao chegar o fim da florada, quando a flor se transforma em uva verde...”. E um tempo concreto, mas nao rigorosamente preciso. Ezequiel anunciara a iminéncia da desgraga: “o fim chega, chega o fim, espreita-te, está chegando” (Ez 7,5 no contexto); e o povo cagoava da demora: “passam dias e dias e nao se cumpre a visáo” (12,22). 13.30 Este v. parece refletir a atitude da comunidade que espera uma parusia pró­ xima; atitude própria da primeira geragáo crista (documentada p. ex. em 2Ts). 13.31 A expressáo enfática equivale á concessiva, “ainda que passem...” (como em Is 54,10; Jr 31,35-36). Um salmo fala do céu e da térra: “eles pereceráo, tu per­ maneces” (SI 102,27), ao passo que Is 40,8 garante que “a palavra de Deus se cumpre sempre”. 13,32-37 Como se quisesse corrigir o que precede, ou ao menos evitar interpretagóes demasiado precisas e confiadas. A

pertos, poijue nao conheceis o día nem a hora! 'i como um homem que, ao ausentarle sua casa, a confiou a seus servos, reprtindo as tarefas, e encarregou o porttiro de vigiar. 35Assim, pois, vigiai, potjue nao sabéis quando vai chegar o dio da casa: ao anoitecer, ou à meia-noí;, 0u ao canto do galo ou de manhá; 3 6 pja que, ao chegar de repen­ te, nao vossirpreenda adormecidos. 370 que vos d ig o , eu o digo a todos: Vigiai! Conpiò para matar Jesús (Mt 26,1-5; Le 22,ls; 11,45-53)— 'Faltavam doisfas para a Páscoa. Os sumos sacerdotes t os letrados procuravam fórmula “aq«;ie dia” é típica de anuncios profé ticos, entre os quais sobressai Sf 1,15 (“dies irae dksH la”); Zc 14,7 diz que “será conhecído deYhwh”. “O Filho” é o Messias em sua ctndígáo humana e sua missào histórica delimitada. Contudo, a formulagao correlativa 0 Filho-o Pai, é extraor­ dinària. Conclusàode tudo é um convite a vigiar como atitude básica do cristáo. A breve pa­ rábola procun sublinhá-lo com os detaIhes gráficos do porteiro sonolento: “guar­ das caídos, amigos do sono” (cf. Is 56,10). Servos, patráce casa apontam para a co­ munidade crisa. A nova páscoa inaugura para o cristáo uma noite de vigilia (Ex 12,42), até queimanhega o dia da parusia.

14— 15 Paraler e interpretar estes capí­ tulos, serviráo algumas observagóes. a) Os discípulos quiseram conservar a recordagáo de um fato, à primeira vista inespera­ do e inexplicável, mas que nao se deve esquecer como se fosse episodio vergonhoso: “algo qje nao pode ser descrito, algo inaudito” (is 53,3); “loucura e semsentido era aos olhos dos pagaos” (cf. ICor 1,23). b) A paixáo de Jesús responde a predigóes ou figuras do AT, em particular a figura do inocente perseguido, que culminam em Is 53 e SI 22. c) Dai se segue cer­ to interesse apologético, isto é, de repartir responsabilidades para afirmar a inocen­ cia do acusado, como em salmos de súpli­ ca (7; 17 etc.) d) O sentido teológico da paixáo é táo importante quanto o fato: é preciso inserir a paixáo no plano do Pai

14,5

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upoderar-se dele com algum estratage­ ma e m atá-lo. 2M as diziam que nao devia ser durante as festas, para que o povo nao se amotinasse. Ungáo em Betánia (Mt 26,6-13; Jo 12, 1-8) — 3Estando ele em Betánia, con­ vidado em casa de Simáo, o leproso, para que adquira sentido. A comunidade medita para compreender o sentido de um fato táo misterioso: “eu meditava para entendc-lo, mas era-me muito difícil, até que entrei no mistério de Deus” (SI 73,1617), para ir elaborando sua cristologia e cclesiologia, para configurar a liturgia. Esforgo que se cristaliza tanto nos relatos evangélicos como na proclam ado primi­ tiva e ñas exposigóes doutrinárias das car­ tas. A elaboragáo narrativa, com a seqüéncia de episodios, precede em boa parte os evangelhos escritos. Dado o estilo despojado dos relatos, deve-se prestar atencáo em qualquer detalhe, que pode ser intencional e significativo. Em particular, quando lemos o relato de Marcos, temos de tomar precaugóes. Es­ tamos acostumados a 1er o relato da paixáo nos quatro evangelhos, dos quatro tiramos um relato unificado. Depois descarregamos os materiais do conjunto em cada evangelho. Estamos por demais habituados a 1er obras que amplificam o relato, bus­ cando a coeréncia dos dados, analisando os motivos das acóes, entrando na psicología dos personagens, preenchendo lacunas. Isto que temos lido o temos meditado e assimilado. Aconseqiiéncia é que nao consegui­ mos 1er com atitude aberta e disponível o relato individual. Faz falta, portanto, um esforgo para apreciar separadamente cada relato da paixáo. Isso nao tira o valor das reconstrugóes do conjunto histórico ou das meditagóes guiadas pela fé. 14,1-2 Sobre a data exata, a crítica nao chegou aínda a uma solucáo comumente aceita. A expressáo grega pode significar também “no segundo dia”, ou seja, “no dia seguinte” (cf. 8,31). Tomam a iniciativa dois grupos restritos, os mesmos de 10,33 e 11,18. O narrador tem o cuidado de separá-los do “povo”, que poderia alvorogar-se ou amotinar-se com o fato (provo-

chegou uma mulher com um frasco de perfume de nardo puro, muito caro. Quebrou o frasco e o derramou na cabera dele. 4Alguns comentavam indignados: — Para que esse desperdicio de per­ fume? 50 perfum e poderia ser vendido por trezentos denários, para dá-los aos pobres. cando a guarnigáo romana). A Páscoa era tempo de grande aglomeragáo em Jerusalém e ás vezes de exaltagao popular. A intengáo dos chefes vai esmagar-se contra os planos de Deus, que já fixou a data de uma nova páscoa. O relato continua logicamente com a oferta de Judas (10-11). No meio se insere uma cena de contraste. 14,3-11 Simáo, o leproso, quer dizer, curado de uma doenga notoria da pele; seria um personagem conhecido na comu­ nidade que transmite o fato. Uma mulher, aquí anónima, irrompe na sala do banque­ te, contra as normas vigentes. Embora o perfume acompanhe de ordinàrio os ban­ quetes (Am 6,6), o que a mulher oferece é exorbitante: com sua homenagem quer expressar o quanto aprecia o hospede. Para entender o protesto de alguns comensais e a defesa de Jesús, vamos remon­ tar-nos ao livro de Tobias, no qual se recomenda reiteradamente a esmola e se póe em primeiro plano o enterrar os mortos. A mulher tomou parte, à sua maneira e por antecipagáo, no sepultamento de Jesús; para a esmola haverá tempo. “Nao faltaráo pobres”, diz Dt 15,11, e o contexto o explica; por vossa mesquinhez, por náo cumprirdes o mandamento de Deus; se o cumprísseis, nao haveria pobres (15,1). Jesús afirma seu conhecimento da pai­ xáo e morte próxima e da pregagáo futura na Igreja. O obséquio prestado à pessoa de Jesus e a fama divulgada dos que lhe sao fiéis seráo norma pràtica da comuni­ dade. 14,5 Trezentos denários é o salàrio de trezentos dias de um operário. E preciso comparar essa generosidade com o paradoxal desperdicio da viúva pobre (12, 41-44). O perfume de nardo em contexto amoroso (Ct 1,12). Rompendo o frasco expressa o dom total, sem reservas, como é o amor.

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14,6

E a repreendiam. 6M as Jesús disse: — Deixai-a. Por que a aborrecéis? Ela fez urna boa obra para comigo. 7Pobres sem pre tereis entre vós e podéis socorré-los quando quiserdes; a mim nem sem pre tereis. 8Ela fez o que po­ día: antecipou-se para ungir meu corpo para a sepultura. 9Eu vos asseguro que, em qualquer lugar do m undo onde for proclamada a boa noticia, será men­ cionado tam bém o que ela fez. l0Judas Iscariot, um dos doze, dirigiuse aos sum os sacerdotes para entregálo. n Ao ouvir isso, eles se alegraram e prom eteram dar-lhe dinheiro. E ele comegou a procurar urna oportunidade para entregá-lo. Páscoa e Eucaristía (Mt 26,17-35; Le 22,7-20.31-34; Jo 13,21-30.36-38) — 12No primeiro dia dos ázimos, quando se im olava a vítima pascal, os discípu­ los lhe dizem: — Onde queres que vamos preparar para ti a ceia da Páscoa? 13Ele enviou dois discípulos, encarregando-os: 14,6-7 Jesús póe-se do lado da mulher insultada pelos comensais. Marginaliza dessa forma os pobres? Nao. Se os comensais tivessem a mesma atitude da mulher, os pobres receberiam ajuda. O texto alu­ dido (Dt 5,1-11) denuncia a mesquinhez. 14,10-11 Em forte contraste, a traigáo de Judas. Insinua-se o motivo do dinhei­ ro; mas o que impressiona o narrador é que seja “um dos doze”. A traigao do amigo é particularmente odiosa e dolorosa (SI 55,13-15; Eclo 6,8-13). 14,12-16 De novo tropegamos no pro­ blema da data: temos de seguir os sinóticos, que situam a cena na noite da Pás­ coa (14 de Nisá), ou Joáo, que faz coincidir a morte de Jesus com a hora em que se sacrificavam no templo os cordeiros pascais? A solugáo afeta o caráter ordinàrio ou pascal da cena. Por ora nao temos resposta certa nem convergencia de opinioes. Como em 11,1-6, Jesus conhece e diri­ ge tudo de antemáo. Como o Senhor na pregagáo do Isaías do exilio: “De antemáo eu anuncio o futuro, antecipadamente, o

— Ide á cidade e vos sairá ao encon­ tró um homem carregando um cántaro de água. Segui-o, 14e onde ele entrar, dizei ao dono da casa: 0 Mestre pergunta onde está a sala em que vai co­ m er a ceia da Páscoa com seus discípu­ los. 15Ele vos mostrará um saláo no piso superior, preparado com divas. Preparai-a para nós nesse lugar. 16Os discípulos saíram, dirigiram-se á cidade, encontraram o que lhes havia dito, e prepararam a ceia da Páscoa. 17Ao entardecer, chegou com os doze. 18Puseram-se á mesa e, enquanto com iam, Jesús disse: — Eu vos asseguro que um de vós vai me entregar, um que come comigo. 19Consternados, comegaram a perguntar-lhe um por um: — Sou eu? 20Respondeu: — Um dos doze, que molha o pao comigo na travessa. 2‘Este Homem se vai, como está escrito sobre ele; mas ai daquele por quem este Homem será entregue! Seria melhor esse homem nao ter nascido. que nao aconteceu. Digo: meu designio se cumprirá, realizo minha vontade” (Is 46,10; cf. 41,27; 42,9; 43,12; 44,7-8; 45, 21). O carregador de água (um escravo?), confere realismo á cena; sem sabé-lo ser­ ve de guia, guiado de longe por Jesús. O “dono da casa”, que reconhece Jesús como o Mestre, já tinha preparado a sala. O res­ tante sao os discípulos que preparam, se­ gundo o costume (o narrador supóe que os detalhes sejam conhecidos). 14,17-21 De novo transparece o saber e o dominio tranquilo de Jesús. Ele conhece a traigáo e o traidor: admite-o á mesa con­ sigo, deixa-o molhar o pao no mesmo prato; denuncia o fato, revela o culpado, co­ loca a agáo no plano mais ampio, citando um versículo da Escritura, que soa assim: “Até meu amigo, em quem eu confiava e partilhava do meu pao, sobressai em trairme” (SI 41,9, súplica de um pobre doente perseguido e atraigoado); partilhar o ali­ mento cria e expressa familiaridade (“companheiro” deriva de “cum-pane”). Tam­ bém está anunciada a sua morte (talvez em

14,32

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i 22Enquanto ceavam, tomou um pao, pronunciou a bèngào, o partiu e o deu, dizendo: — Tomai, isto é o meu corpo. | 23E tom ando a taga, pronunciou a agáo de gracas, deu-a, e todos beberam déla. 24Disse-lhes: i — Este é o meu sangue da alianga que se derrama por todos. 25Eu vos asseguro que nao voltarei a beber do produto da videira até o dia em que o be­ ber de novo no reino de Deus. 26Cantaram o hiño e saíram para o monte das Oliveiras. 27Jesus lhes diz: — Todos tropezareis, como está es­ crito: Ferirei o p astor e as ovelhas se

dispersaráo. 28Mas quando ressuscitar, irei diante de vós para a Galiléia. 29Pedro lhe respondeu: — Ainda que todos tropecem, eu náo. 30Jesus lhe diz: — Eu te asseguro que hoje mesmo, nesta noite, antes que o galo cante duas vezes, me terás negado très. 31Ele insistía: — Ainda que deva m orrer contigo, náo te negarei. O mesmo diziam os outros. Oraçâo no horto (Mt 26,36-46; Le 22,3946) — 32Chegando ao lugar chamado Getsémani, ele diz a seus discípulos:

Is 53); “está escrito a meu respeito que deverei cumprir tua vontade” (SI 40,4-5). O “ai” é forma típica da literatura profèti­ ca (cf. Is 1,4, “filhos degenerados”). Melhor nao ter nascido: é urna forma corren­ te para detalhe extremo: “desejarás nào ter nascido, amaldigoarás o dia em que viste a luz” (Eclo 23,14; cf. em outro sentido Jó 3; Jr 20). Apesar de tudo, Deus lhe concedeu existència e liberdade, mas o engajou em seu designio. 14,25-26 Discute-se, sem chegar a um acordo, se a ceia foi ou nao pasca! em sen­ tido estrito. A favor estào a tríplice mengáo de “páscoa”, o contexto próximo e o canto do hiño no final. O problema da data e a ausencia completa do cordeiro fazem duvidar. Diríamos que Marcos despojou o relato para deixá-lo no que considera essencial. “Enquanto ceavam” indica novo comego (talvez relato indepcndente em sua origem). Tomar pao, abengoar e partir sao gestos comuns, que competem ao pai de familia ou a quem preside. Jesus nao come, ele reparte; e explica o gesto com urna palavra inaudita. Dá-lhes seu corpo em forma de pào, e pelo pao do seu corpo ele os in-corpor-a. A segunda parte é comum no gesto, é mais explícita e náo menos inaudita na explicagào. Meu sangue: sede e portador da vida: “o sangue é a vida” (Dt 12,23); vai ser derramado na morte por todos, náo somente pelos judeus (Is 53,12), e agora se dá como bebida aos presentes; e todos menos ele bebem do mesmo cáli-

ce. Com esse sangue sacrificai, sela-se a nova alianga (Ex 24,8 e Jr 31,31-33), san­ gue do Homem, náo de um animal; os apóstolos comegam a constituir o povo da nova alianga. Pào e vinho, alimento dessa nova juventude (Zc 9,11). O banquete presente prefigura o celes­ te, portanto a morte nào será o firn. “O Senhor oferece neste monte a todos os povos um banquete de manjares suculen­ tos, um festim de vinhos envelhecidos” (Is 25,6). Ao ler as breves linhas de Marcos, contemplamos a comunidade que nos transmite o fato com suas próprias palavras e sua celebragào. 14,27-31 Depois do anúncio da traigào, o anúncio da desergào. Todos vào tropegar e cair, porque nào entendem o mistério. Mas é certa a ressurreigào, e entáo o pastor guiará suas ovelhas para a Galiléia (16,7). A citagào de Zc 13,11 ilumina a situagào com a imagem rica do pastor. Os comensais no banquete falharào no perigo (cf. Eclo 12,9; 37,4). Pedro pretende ser excepcional, e a presungào agravará a defecgào: “Eu dizia tranqiiilo: jamais vacilarei” (SI 30,7). 14,32-42 Desta vez Marcos deixa assomar algo da intimidade de Jesus. Na oragáo “derrama o coragào” (SI 62,9; 142,3). Soam dois pedidos e a invocagào do Painosso: faga-se tua vontade e náo sucum­ bir na prova. Em meio à solidào e ao aban­ dono, dominado pela angùstia mortai, Jesus fala com o Pai. Suplica, insiste, en­ trega sua vontade. Teríamos de reunir

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14,33

— Sentai-vos aqui, enquanto fago oracao. 33Toma consigo Pedro, Tiago e Joao e comeqou a sentir tristeza e angustia. 34Ele lhes diz: — Sinto urna tristeza mortal; ficai aqui vigiando. 35Adiantou-se um pouco, prostrou-se por térra e orava para que, se fosse possível, se afastasse dele aquela hora. 36Dizia: — A ba (Pai), tu podes tudo, afasta de mim essa taga. Mas nao se faga a minha vontade, e sim a tua. 37Voltou, encontrou-os adormecidos, e diz a Pedro: — Simáo, dorm es? Nao foste capaz de vigiar urna hora? 38Vigiai e orai para nao sucum birdes na prova. O espirito é decidido, a carne é fraca. 39Voltou outra vez e orou repetindo as mesmas palavras.40Ao voltar, encon-

trou-os outra vez adomecidos, porque tinham os olhos pesaos; e nao souberam o que responder,1 1 Voltou pela ter­ ceira vez e lhes diz: — Ainda adormecías e descansan­ do! Basta! Chegou ahora. Vede, este Homem será entregue™ poder dos pe­ cadores. 42Levantai-vos! Vamos! Aproxima-se o traidor. A prisáo (M t 26,47-56; Le 22,47-53; Jo 18,3-12) — 43Aiiüa estava ta la n ­ do quando se apresenta Judas, um dos doze, e com ele um ¡jupo armado de espadas e paus, enviado pelos sumos sacerdotes, pelos letrados e pelos sena­ dores. 440 traidor lheshavia dado urna senha: Aquele que eubeijar, é ele; prendei-o e conduzi-o comcautela. 45A se­ guir aproximou-se, disse-lhe “Mestre!”, e lhe deu um beijo. 4í0s outros o agarraram e o prenderam.4Um dos presen-

fragmentos de salmos para imaginarmos essa ¡ntimidade. Getsêmani é o momento escolhido, porque na cruz (segundo Me) Jesús pronunciará só urna palavra. Para a solidáo, SI 38,12; Jó 19,13-19: “meus irmáos se afastam de mim”; para a angustia SI 38,10-11; 55,2-6: “agito-me na minha ansiedade... sobre mim caem terro­ res mortais; medo e tremor me invadem, e um calafrio me envolve”; a luta interior no estribilho do SI 4 2 ^ 3 : “Por que te acabrunhas, alma minha, por que te pertur­ bas?”; a entrega ao Pai: SI 31,16 “minha sorte está em tua máo” e 55,23: “descarrega teu fardo em Yhwh”. Pode-se com­ parar também com a oraçâo de Moisés em Nra 11,11-12 e com a terceira Lamentaçâo, pronunciada por urna pessoa: “Olha mi­ nha afliçâo e minha amargura... estou aba­ tido. .. E bom esperar em silencio a salvaçâo do Senhor...” (Lm 3,19-20). 14,33 Sâo as très testemunhas de um milagre de ressurreiçào e de transfiguraçâo (5,37; 9,2). 14,34-36 Veja-se a expressáo de Joñas diante do fracasso (Jn 4,9). 14,35 Nao é corrente chamar isso de “a hora”; o termo é típico de Joao (que o usa muitas vezes, Jo 7,30; 8,20; 12,23.27; 13,1; 17,1); ver também a hora trágica de Is 13,22:

“Está para chegar sua hora, seu prazo nao demora”; e a famosa série de Ecl 3,2-8. 14,36 É o cálice da iraeda amargura (Jr 25,15-29; SI 75,9; Lm 4,21). É o cálice devido a Samaria e a Judá e a todos os pecadores (leiam-se as violentas expressóes de Ez 23,31-34). 14,37-38 Ver a breve parábola e admoestaçào de 13,34-36. Amaneira de pro­ vèrbio. Para a oposiçüode carne e espiri­ to, veja-se Is 31,3. 14,41 -42 À luz do que se segue, nao faz sentido 1er os dois verbos como imperati­ vos, convidando ao descanso. Em máos dos pecadores: compare-se com as súpli­ cas: as garras do mastim (SI 22,21), do inimigo (SI 31,9; 106,10), do malvado (SI 37,33; 71,4). 14,43-52 Aceña da prisáo acontece com toda a rapidez até o v. 46, com seu mo­ mento mais intenso no beijo traidor (Pr 27,6; 2Sm 20,9, beijo traidor de Joab). Depois seguem-se très momentos que amplificam a cena. Os très grupos que compóem o Sinedrio ou Grande Conselho enviam um pelotáo armado. 14,47 A fútil tentativa de defesa por parte de um dos presentes é atestada pelos qua­ tre evangelistas e serve de contraste ao segundo momento, a alocuçâo de Jesús.

14,55

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tes desembainhou a espada e de um gol­ pe cortou urna orelha do servo do sumo sacerdote. 48Jesus se dirigiu a eles: — Saístes armados de espadas e paus para capturar-me, como se fosse um ban­ dido. 49Diariamente eu estava convosco ensinando no templo e nao me prendestes. Mas va¡ cumprir-se a Escritura. 50Todos o abandonaram e fugiram. 51Seguia-o também um jovem, vestido ape­ nas com um lengol. Agarraram-no; 52mas ele, soltando o lengol, nu escapou deles.

Je su s d ia n te do C onselho (Mt 26,5763; Le 22,54s.63-71; Jo 18,13s.l9-24) — 53Conduziram Jesús á casa do sumo sacerdote e se reuniram todos os sumos sacerdotes com os senadores e os letra­ dos. 54Pedro o foi seguindo á distancia, até entrar no palácio do sumo sacerdo­ te. Ficou sentado com os criados, esquentando-se ao fogo. 550 sumo sacer­ dote e todo o Conselho procuravam um testemunho contra Jesús, que permitisse condená-lo á morte, e nao o encontra-

14,48-49 Sao palavras de dominio e repreensáo; sugerem má consciencia nos exccutores ou ilegal idade no modo da exeeugáo. Bandido: como qualquer zelota revoltoso; os zclotas nao ensinam pacifi­ camente no templo. Sem pretendé-lo, o grupo armado está cumprindo a Escritura: se se refere a um texto em particular, seria o canto do servo (Is 53,7-8). 14,51-52 O terceiro momento é um enig­ ma. Como simples fato ilustra o ambiente noturno, a suspeita e confusáo do momen­ to. Se o narrador o oferece como contras­ te, o seguimento se opóe á fuga dos discí­ pulos, sua fuga á entrega de Jesús. A cena de José, deixando o manto ñas máos da mulher de Putifar, oferece uma semelhanga casual. O que mais intriga os críticos sao as coincidencias na descrigáo desse jovem e do outro na ressurreigáo (16,5): as conseqüéncias que daí se tiram nao passam de conjecturas. Se nos referirmos a Am 2,14-16, a fuga desse jovem selaria a debandada geral, pois é o sétimo e último na enumeragáo; o veloz, o forte, o solda­ do, o arqueiro, o ágil, o ginete e o soldado mais valente. 14,53-65 De alguns mártires se conservaram as atas do processo ou notas taquigráficas. Dos dois processos de Je­ sús, o religioso e o civil, nao se conserva senáo o relato dos evangelistas, os quais, embora desejem conservar alguns fatos históricos, se ocupam mais dos aspectos ético e teológico. Jesús é inocente e é con­ denado porque se arroga o título de Messias transcendente. E inocente e é conde­ nado porque se faz rei e se rebela contra Roma. Tiveram razáo os judeus, condenan­ do um falso Messias? Entáo a sua culpa l'oi nao crer. Teve razao Pilatos condenan-

do-o por delito de rebeldía? Entáo sua cul­ pa foi ceder por cálculo. As razóes e as culpas dos processos continuam sendo debatidas e, por mais que se esforcem os investigadores, suas posturas religiosas afetam o estudo. Alguns chegam a negar que tenha havido um processo re­ ligioso, ou o reduzem a um veredicto sem valor forense. Talvez seja parte do destino humano de Jesús que a sua condenagáo e execugáo continuem sem se esclarecer to­ talmente e solicitem a atitude profunda de leitores e examinadores. Para os discípu­ los, a condenagáo ficou incompreensível; mas a ressurreigáo justificou plenamente o inocente. Para os cristáos, a ressurrei­ gáo reconhecida ajudou a compreender a condenagáo. Para os nao crentes, a conde­ nagáo continuará sendo um enigma histó­ rico, e a justificagáo se imporá na parusia. Com essas ressalvas, escutemos Marcos contando o processo religioso. Celebra-se ante o Grande Conselho completo. Depois de tenteios infrutíferos pela via dos testemunhos, o sumo sacerdote centra a questáo no messianismo. A partir da sua posigáo, a pergunta é capciosa: se Jesús nega, se desqualifica; se afirma, se comprome­ te. Jesús responde com um ato paradoxal: confessando, ele se acusa, se entrega; ci­ tando dois textos combinados da Escritu­ ra (Dn 7,13 e SI 110,1) e apropriando-se deles, anuncia o triunfo posterior. 14,53-54 Marcos narra um processo ou interrogatorio diante do Conselho em ple­ na noite (contra a posterior lei mishnaica). Pedro entra em cena para um papel de con­ traste. 14,55-56 Marcos dá a entender que a sentenga de condenagáo está de antemáo decidida e que as testemunhas procuram

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14,56

vam, 5f’pois embora muitos testemunhassem falso contra ele, seus testem unhos nao concordavam. 57A lguns se levan­ taran! e testemunharam falso contra ele: — 58Nós o ouvimos dizer: Destruirei este templo, construido por maos hu­ manas, e em très días construirei outro, nao feito com maos humanas. 59Mas tampouco nesse ponto o testem unho deles concordava. 60E ntáo o sumo sacerdote se pos em pé no centro e perguntou a Jesús: — Nada respondes ao que estes alegam contra ti? 6IEle continuava calado, sem respon­ der nada. De novo o sumo sacerdote lhe perguntou: — Tu és o Messias, o filho do Bendito? 62Jesus respondeu: — Eu o sou. Vereis o Filho do Homem sentado à direita da Majestade e chegando entre nuvens do céu.

630 sumo sacerdote, rasgando as ves­ tes, diz: — Que necessidade tem os de teste­ munhas? “ Ouvistes a blasfemia. Que vos parece? Todos sentenciaram que era réu de morte. 65Alguns com egaram a cuspir nele, a tapar-lhe os olhos e dar-lhe bo­ fetadas, dizendo: — Adivinha! Também os criados lhe davam bofe­ tadas. Nega^óes de Pedro (M t 26,69-75; Le 22,56-62; Jo 18,15-18.25-27) — “ Pe­ dro estava embaixo, no pátio, quando urna criada do sumo sacerdote, 67vendo Pedro que se aquecia, ficou olhando para ele e lhe disse: — Tu também estavas com o N aza­ reno, com Jesús. 68Ele o negou:

justificá-la. Segundo a lei: “Somonte pelo depoimento de duas ou tres testemunhas é que se procederá á execuqáo do réu” (Dt 17,6; 19,15). Sobre testemunhos falsos pode-se recordar o episodio de Jezabel e Nabot (1 Rs 21) e os conselhos sapienciais (Pr 6,19; 12,17; 14,5; 19,28). 14,58-59 Parece incluir dois delitos: atentado contra o templo (Jr 26) e magia ou trato com poderes ocultos. Da frase acerca do templo diferem as formulagóes (Mt 26,61; Jo 2,19; At 6,14). Na boca da falsa testemunha Marcos póe urna afirmagao que resulta verdadeira num plano su­ perior (cf. ICor 3,11.16); no novo templo ele será a pedra-ehave e será obra de Deus, nao de máos humanas. 14,60-61 O silencio recorda a figura do servo: “nao abria a boca... como ovelha muda diante do tosquiador” (Is 53,7) e ser­ ve para provocar a pergunta do presiden­ te. O “Bendito” é Deus (evitando mencioná-lo); Filho de Deus é título que se pode dar ao Messias davídico, de acordo com 2Sm 7,14 e SI 2,7; 89,27-28. 14,62-63 No contexto, “eu sou” é a resposta afirmativa. Em círculos cristáos a fórmula Eu sou (ego eimi, reiterado em Joáo) faz ressoar a revelagáo de Ex 3,14. IVI.i referencia escatológica, traduzimos

aqui “Filho do Homem”, para que se entenda a condigáo transcendente que mais tarde se atribuiu á “figura humana” de Daniel. O trono de majestade e a vinda celeste (SI 110,1; Dn 7) implicam o poder judicial, ameaga velada para os seus juízes. Para quem nao eré, as palavras de Jesús sao blasfemia, punida com pena de morte (Lv 24,16). 14,65 Marcos traslada a este ponto afrontas e ultrajes sucedidos em outros momentos da paixáo. Apresenta assim a figura do servo paciente: “Ofereci as cos­ tas aos que me batiam, a face aos que me arrancavam a barba, nao escondí o rosto diante dos ultrajes e cuspidas” (Is 50,5), “que entregue a face a quem o fere e se sacie de opróbrios” (Lm 3,30). 14,66-72 A negagáo de Pedro, prepara­ da no v. 54, é um sofrimento a mais para Jesús, e ao mesmo tempo é cumprimento da sua predigáo. Com o testemunho valente de Jesús diante do Conselho, con­ trasta a covardia de Pedro diante dos servos. Marcos gradúa hábilmente a cena; primeiro Pedro se faz de desentendido, ante a insistencia nega, atemorizado pelo grupo jura. “Nao o conhego” pode sci semitismo, equivalente a “nao tenho trato com ele” (cf. Jó 19,13). Um incidente li i
i

15,9

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— Nao sei nem entendo o que dizes. Saiu para o saguáo [e um galo cantou]. 69A criada o viu, e comegou outra vez a dizer aos presentes: — Este é um deles. 70De novo o negou. Pouco tempo depois, tam bém os presentes diziam a Pedro: — Realmente és um deles, pois és galileu. 71Entáo comegou a proferir maldiijóes e a jurar que nao conhecia o homem de quem falavam . 72No m esm o instante cantou o galo pela segunda vez. Pedro recordou o que lhe havia dito Jesús: Antes que o galo cante duas vezes, me terás negado tres. E comeQou a chorar. Jesús diante de Pilatos (M t 27. l s . l l -14; Le 23,1-5; Jo 18,28-38) — ’Logo ao amanhecer, todo o Conse-

lho, sum os sacerdotes, senadores e le­ trados puseram-se a deliberar. Amarra ram Jesús, o conduziram e o entrega­ ran! a Pilatos. 2Pilatos o interrogou: — És tu o rei dos judeus? Respondeu: — E o que dizes. 3Os sumos sacerdotes o acusavam de muitas coisas. 4Pilatos o interrogou de novo: — Nao respondes nada? Vé de quantas coisas te acusam. 5Mas Jesús nao lhe respondeu, com grande admiragáo de Pilatos. A Pela festa costum ava deixar-lhes livre um pre­ so, aquele que pedissem. 7Um tal Bar­ rabás estava preso com os amotinados que numa revolta haviam cometido um homicidio. 8A multidáo subiu e come<jou a pedir-lhe o costumeiro. 9Pilatos lhes respondeu:

vial, o canto matutino de um galo, com a lembranga da predigáo de Jesús, e Pedro passa do abismo da negagáo á libertario do arrependimento. “Que se desfagam em lágrimas nossos olhos e destilem água nossas pálpebras” (Jr 9,17). Nazareno para Jesús e galileu para Pedro se encaixam bem no contexto narrativo. Quando Marcos escreve, os judeus já chamavam os cristáos de “nazarenos”. 15,1-2 “Puseram-se a deliberar” pode dar a impressáo de outra sessáo privada. Outros léem e traduzem: “prepararam a conclusáo do acordo”, ou “chegaram á dei-isáo”. Amarram-no, como a um malfeilor perigoso, e o “entregam”. Esse verbo vem carregado de sentido: ñas predigóes (9,31; 10,33), referido a Judas (3,19; 14,10. 11.18.21.42.44). Um dos doze “o entrega” fts autoridades judaicas; representantes de Israel (as doze tribos) o “entregam” á auloridade romana; Pilatos “o entrega” para mt crucificado (15,15). Entregue pelos lie fes ao procurador romano, é como se losse excluido e expulso do povo judeu. 15,3-5 Marcos é conciso, reserva dados pura o episodio de Barrabás. Do tema relii'loso passa-se ao político, ambos unidos i" l.i idéia de um Messias rei. Segundo o * ■ lume romano, Pilatos interroga primei-

ro o acusado. Centra a questáo na realeza, como ele a entende; subentende-se que foi essa a acusagáo apresentada pelas autori­ dades judaicas. Jesús entende de outro modo, e por isso responde afirmativamen­ te, com alguma reserva: tu o dizes, é o que tu dizes. Propriamente o título messiànico é Rei de Israel. 15,6-15 O que se segue sao mais acusa­ r e s que Marcos nao especifica e as quais Jesús nao responde. Falou o bastante e enfrenta seu destino. O rei humilde e pacífico (Zc 9,9-10) que dá a vida (5,37-43) é contraposto a um homicida. Marcos quer indicar responsa­ bilidades. Os judeus o entregaram por inveja: de seu éxito, de sua influencia sobre o povo, talvez de seus milagres. Mas, se a acusagáo nao tem fundamento, Pilatos é culpado de condenar um inocente. Ambos sao culpados, pecadores, assim Jesús o predizia: “será entregue aos pecadores” (14,41). Sublevada pelos chefes, a multidáo se volta contra Jesús: única vez no evangelho de Marcos. Recorde-se o caso de Jeremías, acusado “por sacerdotes e pro­ fetas” de profetizar contra o templo: “o povo se amotinou contra Jeremías” (Jr 26). Provavelmente era urna multidáo restrita e local, náo galileus. O fanatismo estala

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15,10

— Quereis que vos solté o rei dos judeus? 10Pois ele sabia que os sumos sacer­ dotes o haviam entregue por inveja. n M as os sumos sacerdotes incitaram o povo para que, ao contràrio, pedissem a liberdade de Barrabás. 12Pilatos respondeu outra vez: — O que fago com aquele [que cham ais] rei dos judeus? 13Gritaram: — Crucifica-o! 14M as Pilatos disse: — M as o que ele fez de mal? Eles gritavam mais forte: — Crucifica-o! 15Pilatos, decidido a satisfazer a multidáo, soltou-lhes Barrabás, e, quanto a Jesús, o entregou para que o agoitassem e o crucificassem. A zom barla dos soldados (M t 27,2731; Jo 19,2s) — 16Os soldados o levaram para dentro do palácio, no pretorio, num grito repetido que pede morte e infa­ mia (cf. Nm 14,10). A Pilatos nao custava muito condenar um judeu para “satisfazer” a uns tantos judeus. O gesto é ambiguo: cede por fraqueza e covardia? (como o rei Sedecias em relacào a Jeremías.) Ou concede a petigào com compiacente sarcasmo? A flagelagáo costumava preceder a crucifixáo. 15,16-20 Aceña dos soldados pretende zombar, nao torturar, e está centralizada no título de rei. É urna parodia grotesca e humilhante. A coroa real é de sargas, o cetro é urna cana (implícito), o manto imita a cor da realeza. Segue-se a saudagáo e aclamagáo. Depois se anima a zombaria e passam aos golpes e ultrajes (cf. Jr 20,7; SI 44,14). Abrutalidade anula a compaixáo. 15,21-32 Os narradores da crucifixáo e morte langaram máo de textos do AT, com preferencia o Salmo 22, a grande súplica do inocente perseguido. O estilo de Mar­ cos neste último trecho é sobrio, diríamos insensível; como se deixasse todo o senti­ mento ao leitor. 15,21 Na trave horizontal da cruz se fixavam ou atavam os bragos para igá-la sobre a trave vertical, já fincada na terra.

e convocaram todaacompanhia. 17Vestiram -no de púrpura, trancaram urna coroa de espinhos e a colocaram. 18E comegaram a saudá-lo: Salve, rei dos judeus! Batiam-lhe com o canigo na cabega, 19cuspiam-lhe e dobrando o joelho lhe prestavamhomenagem. 20Terminada a zombaria, tiraram-lhe a púr­ pura, vestiram-no comsuas vestes e o levaram para crucificar. M orte de Jesús (Mt 27,32-56; Le 23, 26-49; Jo 19,17-30) — 21Passava por a i, voltando do campo, um certo Simáo de Cirene (pai de Alexandre e Rufo), e o fo rg a ra m a carregar a cruz. 22Conduzira m -n o ao Gòlgota (que sig n ific a Lu­ g a r d a Caveira). 2 3 0fereceram-lhe v inho co m m irra, mas ele nao o tom ou.
24Crucificaram-noerepartiram sua roupa, tiran d o sortes sobre o que to caría a ca d a um .

25Eram nove horas quando o crucifi­ caran!. 26A causa dacondenagáo na insSimáo e seus fílhos deviam ser conhecidos em alguma comunidade primitiva. Seu nome gentílico (Cireneu, de Cirene) passou a designar urna obra de caridade, por­ que leva o peso de outrem (cf. Lm 1,14). Além disso, é o primeiro seguidor de Je­ sús, de acordo com a norma de 8,34. 15.22 Deixando de lado fantasías — identificagáo com o monte de Abraáo e Isaac, com a sepultura de Adáo — , o lugar devia servir para execugóes públicas. Ficava fora da cidade (Hb 13,12). 15.23 A bebida oferecida entorpecía e atenuava o tormento. 0 narrador parece aludir ao cumprimento de urna profecía (SI 69,21; cf. ISm 15,32). “Dai vinho ao aflito: que beba e esqueja o sofrimento” (Pr 31,6). 15.24 As vestes do condenado eram a paga dos verdugos; mas o texto alude a SI 22,18. 15.25 A hora náo coincide com a de Jo 19,14. Talvez Marcos atribua um sentido especial á hora terceira. 15.26 Segundo o ponto de vista, o título assume significados diversos: infamia do condenado, zombaria do fracassado, glo­ ria do humilhado.

15,40

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criçâo dizia: “O rei dos judeus”. 27Com ele crucificaram dois bandidos, um à direita e outro à esquerda*. 2gOs que passavam o insultavam balançando a cabeça e dizendo: — Aquele que derruba o templo e o reconstrói em très dias, 30que se salve, descendo da cruz. 31Por sua vez os sum os sacerdotes, zombando, com entavam com os letra­ dos: — Salvou outros, a si m esm o nao pode salvar. 320 M essias, o rei de Isra­ el, desça da cruz para que o vejam os e creíamos. Os que estavam crucificados com ele o injuriavam. 33Ao meio-dia toda a regiao escureceu até a metade da tarde. 34No meio da tarde, Jesús gritou com voz potente:

— Eloi, Eloi, lemá sabachtáni (que significa: D eus meu, Deus meu, p o r que m e abandonaste?). 35Alguns dos presentes, ao ouvir isso, comentavam: — Vé. Ele chama Elias. 36Alguém empapou urna esponja em vinagre, prendeu-a num canigo e lhe ofereceu de beber, dizendo: — Quietos! Vejamos se Elias vem para libertá-lo. 37M as Jesús, lanzando um grito, expirou. 380 véu do templo se rasgou em dois de cima a baixo. 390 centuriáo, que estava em frente, ao ver como expirou, disse: — Realmente este homem era filho de Deus. 40Estavam ai olhando á distancia algumas mulheres, entre elas M aria Ma-

15.27 Talvez a noticia dos dois bandi­ dos aluda a Is 53,12, citado expressamente em alguns manuscritos. Estáo ai como se fossem urna escolta burlesca do rei. 15,28-30 Os gestos de zombaria, como em SI 22,7; 109,25. Como se fosse um pretenso mago. Talvez jogando zombeteiramente com o nome de Jesús (= o Senhor salva) dizem “que se salve”. 15,31-32 A observado dos sumos sa­ cerdotes encerra urna verdade profunda e paradoxal. Jesús nao pode mudar o desig­ nio do Pai (14,35, “se é possível”). Também o título de Messias tem duplo sentido: zombaria na boca dos inimigos, confissáo na boca dos fiéis. Rei de Israel é o título correto; dito da dinastía davídica (2Sm 5,12; 12,7). Pedem urna legitimagáo in extremis, sabendo que nao chegará. O desafio coincide com o dos ímpios: “Gloria-se de ter Deus por pai... Se o justo é filho de Deus, ele o ajudará” (Sb 2,16.18). 15,33 As trevas nao sao naturais, mas teofánicas (Am 8,9; Ez 32,7). Todo o ter­ ritorio ou toda a térra. 15.27 *Alguns manuscritos acrescentam: 2S £ se cumpriu a Escritura que diz: “e foi contado entre os malfeitores ” (Is 53,12). 15,34-35 E o primeiro versículo do Sal­ mo 22, que a tradigáo conservou em aramaico. Pode sugerir que Jesús recitou

por inteiro o salmo. Pertence ás lendas de Elias o ser considerado como protetor de necessitados. 15,36 Na bebida refrescante se lé urna alusáo ao SI 69,21. Pelo comentário de quem oferece a bebida, parece que procu­ ra prolongar a vida do moribundo para dar tempo a Elias (cagoando?). 15,37-38 Um grito potente ñas condigóes em que se encontra o moribundo, extenuado e sufocando-se, nao é realista. Provavelmente, para o narrador é a “voz” da teofania (p. ex. ISm 7,10; Is 29,6), ou de uma súplica intensa. O simbolismo do véu do templo é am­ biguo (Ex 26,31-35). Diz que o culto antigo, com seus compartimentos e segredos, terminou. Ou que o acesso a Deus é agora patente. Recorde-se Ef 2,14 “derrubou o muro de separagáo”, e também “pelo san­ gue de Jesus, irmáos, temos acesso ao san­ tuàrio” (Hb 10,19; cf. 9,8). 15,39 Este é um ponto culminante. Muitos o viram e náo o compreenderam. O centuriáo representa Roma, o poder pagáo, que pela cruz alcanna a fé. O simples centuriáo é agora mais que o procurador. Sua confissáo é como a resposta à voz do Pai (1,11; 9,7). “Meu servo terá éxito... por seu intermèdio triunfará o plano do Senhor” (Is 52,13; 53,10). Primicias dos pagáos convertidos.

MARCOS

182
qoI

15,41

dalena, M aria máe de Tiago o menor e de Joset, e Salomé, 41as quais, quando ele estava na Galiléia, o tinham seguido e servido; e muitas outras que haviam subido com ele para Jerusalém. Sepultam ento de Jesús (Mt 27,57-61 ; Le 23,50-56; Jo 19,38-42) — 42Já anoitecia; e com o era o dia da preparagáo, véspera de sábado, 43José de Arimatéia, conselheiro respeitado, que esperava o reinado de Deus, teve a ousadia de apresentar-se a Pilatos para pedir-lhe o cor­ po de Jesús. 44Pilatos estranhou que já houvesse morrido. Chamou o centuriao e lhe perguntou se já havia morrido. 45Inform ado pelo centuriao, coneedeu o corpo a José. 46Este com prou um lenqol, desceu-o da cruz, envolveu-o no len-

e o colocou nsm sepulcro escavado na rocha. Depois, fez rodar urna pedra na boca dosepulcro. 47Maria Madalena e Maria de Josel observavam onde o colocava. Ressurrei;áo (Mt 28,1-8; Le 24, 1-12; Jo 20,1-10) — ‘Quando passou o sábado, Maria Madalena, Maria, de Tiago e Salomé, compraram perfu­ mes para ir ungi-b. 2No primeiro dia da semana, bem cedo, ao raiar o sol, chegam ao sepulcro, 3Diziam entre si: — Quem rolar» para nos a pedra da boca do sepulcro? 4Ergueram os olhos e observaram que a pedra estava rolada. Era muito gran­ de. 5Entrando no sepulcro, viram um jovem vestido com um traje branco,

O contraste da inteireza e da fidelidade das mulheres, colocado no final, é impres­ sionante. “Tinham-no seguido e servido” e náo o abandonam. 15,42-47 Da morte de Jesús se fazem testemunhas José, o centuriao e Pilatos. Receber sepultura num sepulcro era muito importante para os israelitas; ficar sem ele era desgrana e infamia. Numerosos tex­ tos o ilustram (compare-se Is 22,16 com Jr 22,19). No caso de Jesus tem importáncia redobrada, como sinal da ressurreigáo. Ao justigado cabia a fossa comum. A va­ lentia de José o evita. É importante notar que José era mem­ bro estimado do Conselho e “esperava o reinado de Deus”, de acordo com a pregagao de Jesús. Deduzimos que nem todos no Conselho consentiram na condenagáo. E que um importante chefe judeu faz companhia ao centuriao romano. A morte do Mestre infunde-lhe ousadia diante de outros chefes ou de Pilatos, e quer oferecer sua homenagem postuma, completando a agáo da mulher anónima (14,8, nao se diz que José o embalsamou). O centuriao con­ firma a morte de Jesús. O lengol é normal, pois os judeus náo usavam caixóes; era recém-comprado (novo). O sepulcro, no estilo de muitos da regiáo. Como a lei mandava que náo ficassem pendurados os corpos dos justiciados (Dt 21,22-23) e por outro lado estava iminen-

te o novo dia, que comegava ao pór-dosol, José apressa aoperagáo. Duas mulhe­ res o observam: seráo testemunhas. 16,l-8Aconclusáo original do evangelho de Marcos é surpreendente, desconcer­ tante, a ponto de es escritores posteriores terem acrescentado um epílogo, respal­ dado como canónico pela autoridade da Igreja. Um mensageiro celeste pronuncia o pregáo da ressurreigáo, e as mulheres que o escutam o calam. Vamos propor duas hipóteses para explicar o texto. As mulheres, que sáo as de 15,40, váo ao sepulcro de Jesús para embalsamar o cadáver, coisa que José náo pode fazer porque o sábado estava iminente. Encontram a pedra corrida e o sepulcro vazio. Apavoradas pelo desaparecimento do defunto e sem poder explicá-lo, se refu­ gian! no silencio. Depois vém as aparigóes, que explicam o mistério do túmulo vazio. Finalmente se projeta o anúncio numa cena transcendente no mesmo se­ pulcro e no dia primeiro. Os que acrescentaram o epílogo amplificaran! a segunda fase. As mulheres recebem nessa hora e ai mesmo o anúncio e o encargo. Seu medo é a intimidagáo diante do sobrenatural. Seu silencio reflete a ambigüidade das atitudes diante da mensagem central da ressur reigáo (cf. ICor 15,12). Mas o fato foi pro-

16,20

183

MARCOS

sentado á direita; e ficaram espantadas. ''Disse-lhes: — Nao vos espanteis. Procuráis Jesús Nazareno, o crucificado. Ressuscitou, nao está aqui. Vede o lugar onde o haviam posto. Mas ide dizer a seus discípulos e a Pedro que irá á frente deles para a Galiléia. Lá o veráo, como lhes havia dito. 8Saíram fugindo do sepulcro, tremen­ do e fora de si. E por puro medo, nada disseram a ninguém. Epílogo (M t 28,9s; Le 24,13-35; Jo 20,11 -18) — 9No primeiro día da sem a­ na, pela manhá, Jesús ressuscitou e apareceu a Maria Madalena, da qual tinha expulsado sete demonios. 10Ela foi contá-lo aos seus, que estavam chorando e de luto. n Eles, ao ouvir que estava vivo e que havia aparecido, nao lhe deram crédi­ to. 12Depois apareceu disfanjado a dois deles que iam passeando pelo campo.

13Eles foram contá-lo aos outros, que tampouco creram neles. 14Por último, apareceu aos onze quando estavam á mesa. Repreendeu-lhes sua incredulidade e o b s tin a d o por nao terem crido nos que o haviam visto ressuscitado da morte. 15E lhes disse; — Ide por todo o mundo, proclaman­ do a boa noticia a toda a humanidade. 16Quem crer e for batizado se salvará; quem nao crer se condenará. 17Estes sinais acompanharáo os que crerem: em meu nome expulsaráo demonios, falaráo línguas novas, 18pegaráo serpentes; se beberem algum veneno, nao lhes cau­ sará daño. Poráo as máos sobre os doentes, e ficaráo curados. lsO Senhor Jesús, depois de falar com eles, foi levado ao céu e sentou á direi­ ta de Deus. 20Eles saíram para pregar por todos os lugares, e o Senhor cooperava e confirmava a m ensagem com os sinais que a acompanhavam.

clamado por urna voz celeste, e Marcos lhe dá a ressonáneia do seu evangelho. Em qualquer hipótese o mais importan­ te é a mensagem. O Nazareno, o homem com quem tendes tratado, o crucificado de modo injusto e incompreensível, ressus­ citou (na voz passiva). O sepulcro vazio o confirma. Essas duas paiavras “o crucifi­ cado ressuscitou” sao como um querigma primordial, de urgencia. Como outrora ele se apresentou e chamou discípulos, assim agora vai reunir os seus no lugar dos comegos e se deixará ver por eles. Será o novo comego, consumagao do primeiro; porque aqueles que o virem, terao de dar testemunho disso. Era isso que as mulheres deviam ter comuni­ cado aos discípulos com Pedro à frente. E nao é necessàrio dizer mais. Marcos póe ponto final no seu relato. 16,9-20 Outros membros da comunidade pensaram que aínda havia muito a di-

zer. Lançando mao de várías tradiçôes, acrescentaram os vv. 9 a 20. A María Madalena: Le 8,2; Jo 20,1118. Com a reaçâo de incredulidade dos discípulos. Aos dois discípulos a caminho de Emaús: Le 24,13-35. Nova incredulidade. Aos onze: Le 24,36-43. A missáo universal: Mt 28,16-20; Le 24,46-49; lTm 3,16. O nao crer se enten­ de como resisténcia positiva à mensagem do evangelho. Ascensáo e exaltaçâo: Le 24,50-53; SI 110,1 (cf. 2Rs 2,11; Eclo 48,12). Cumprimento da missâo: é o tempo da Igreja, dos Atos e do que vem depois. Outro final apócrifo soa assim: “Elas comunicaram o anuncio inteiro aos que estavam com Pedro. Depois, por meio de­ les, Jesús enviou do Oriente ao Ocidente o pregáo santo e incorruptível da salvaçâo eterna. Amém ”.

EVANGELHO SEGUNDO LUCAS
IN T R O D U Ç Â O

O livro de Lucas, ou sua prim eira parte, é, sem dúvida, evangelho, e tem muitas coisas em comum com Marcos e M ateus. Contado, a obra de Lucas é bem diferente. Em prim eiro lugar, p o r seu caráter grego. Usa a língua grega melhor que os outros, embora nao elimine todos os semitismos tradicionais, em grande par­ te devidos ao influxo doAT. Dirige-se a leitores desligados de questóes judai­ cas. Oferece urna mensagem mais m e ­ diatamente acessível a leitores pagaos. Em segundo lugar, apresenta-se co­ m o historiador de estilo grego: cuida­ doso ao consultar suas fon tes e apurar os fatos, curtido em viagens, especial­ m ente marítimas. M enciona um círcu­ lo de testem unhas oculares: depois, um grupo de narradores (que poderiam ser os mesmos). P or detrás, vem ele para recolher e ordenar. Sem deixar de pro­ clamar a fé, querfazer obra de historia­ dor. N a hora de compor suas cenas, nao é puram ente grego: depende de tradiqóes evangélicas escritas e talvez oráis, e segue a grande tradiqáo narrativa hebraica. Em terceiro lugar, porque seu evan­ gelho é nada mais que a prim eira p a r­ te de urna obra maior, que continua nos A tos dos Apóstolos. Com essa operagao, o evangelho passa a ocupar urna posiqáo intermédia, a metade dos tem ­ p os: entre o anuncio e preparaqáo do AT, que se estende até o Batismo, e o tempo da Igreja, que comeqa em Pentecostes. A preparaqáo da antiga eco­ nomía é essencial para compreender a m issáo de Jesús. Os personagens da infancia, especialmente Simeáo, encarnam essa tensáo do passado para o m om ento culminante que chegou. N áo m enos im portante é a continuaqáo, a

expansüi) da Igreja. Como o A T profe­ tiza e prtfigura Jesús, assim Jesús pro­ fetiza e prefigura a missáo dos A pósto­ los. Forna-os a seu lado, os instruí, os previne, iá-lhes o seu Espirito. Depois, ao contar seus “atos”, o autor se compraz em tstabelecer paralelos de situaÇào e tanbém verbais. O modelo de Je­ sús continua atuando. Tamben há um centro espacial, que é Jérusalem. A i comeqa o relato e ai se concluí o itinerario de Jesús, até que retorne ao céu. D aí parte a expansüo até os confuís do mundo. Lucas entrelaqa seu relato com da­ tas da historiografía profana, com sen tido encamacionista. Por seus olhos, uma comunidade autónoma e consoli­ dada voltaoolhar para repassar as próprias origens, que sáo a vida de Jesús desde a infancia. Urna comunidade, já curada de aguardar urna parusia iminente, toma consciéncia do seu ser e da sua vocaqáo histórica, no seio da ordenaqáo política do seu tempo.

Perfil

do

evangelho

A) Quanto à com posiçâo. Embora em boa parte esteja condicionado pelo mo­ delo de Marcos, inclusive na ordem de varias perícopes, epor materiais que compartilha com Mateus, Lucas compôe a seu gosto. b¡o bloco da infáncia constrói um díptico de correspondéncias ri­ gorosas, entre Isabel e Maria, Joâo e Je­ sús. Estabelecida a simetría de base, pode efetuar deslocamentos significa­ tivos. Très hinos, em estilo bíblico, balizam o relato. O que mais sobressai no livro, segun­ do opiniáo comum, é o relato da gran­ de viagem ascensional: para Jerusalém (9,51) arrastando os discípulos; para

INTRODUÇÂO

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LUCAS

cruz, até o céu. Só Lucas descreve a iixcensáo. Cenas program áticas: P o­ demos seiecionar duas, na sinagoga ile Nazaré e a caminho de Emaús. Na primeira Jesús se identifica como cum ­ plimento da profecía, prega a graga, iibre-se aos pagaos, provoca a oposi(rio e a tentativa de m atá-lo, atraves­ ad e prossegue seu caminho. N a segun­ da, de viagem, propóe a chave pascal do cumprimento e a sela com urna eu­ caristía. b) Quanto á sua visáo particular. D es­ taca a universalidade: a genealogía re­ monta aAdao; sua pregaqáo se abre aos l>agños. Inclusive procura deixar bem conceituadas várias personagens roma­ nas, ao passo que registra a oposigáo crescente de autoridades judaicas. J e ­ sús traz urna mensagem de m isericor­ dia e perdáo, de acolhida aos p ecado­ res e busca dos extraviados, de ajuda aos pobres e necessitados. As mulheres desem penham p a p e l saliente no ministério de Jesús. O cham ado dos apóstolos é gradual e delicado. O E s­ pirito comega a agir, preparando sua agáo dominante em Atos.
,1

Composigáo
D upla introduqáo, notável p o r sua construgáo em blocas paralelos: infan­ cia de Jodo e de Jesús (1— 2), batismo e tentagóes (3). M inistério na Galiléia: abre-se com a auto-apresentagáo pro­ gramática de Nazaré (4,16-30); concluise com a confissüo-anúncio da paixáo; transfiguragáo (9,18-50). A grande viagem de subida a Jerusalém como quadro nar­ rativo (9,51-19,28). Em Jerusalém: con­ fronto, paixáo, ressurreiqáo e ascensáo.

Autor e data
A tradiqáo intitulou este evangelho “se­ gundo Lucas O nome aparece em Fm 24 e 2Tm 4,11, como em C14,14.A identificaqáo nao é improvável. Pelo contrà­ rio, a identificagáo com Lucio (Loukios) de A t 13,1 e Rm 16,21 é pouco provável. O autor tem noticia da destruigao de Je ­ rusalém, mas nao da perseguigño deDomiciano; parece viver a tensáo crescente e a rejeigáo próxima por parte da sinago­ ga. Esses dados sugerem como data de composigáo a década 80-90.

LUCAS
Prólogo — ‘Visto que muitos em preenderam a tarefa de contar os fatos que nos aconteceram, 2tal como nos transm itiram as prim eiras testem unhas oculares, postas a servido da palavra, 3também eu pensei, ilustre Teófilo, escrever-te tudo em ordem e exatamente, comegando desde o principio; 4assim compreenderás com certeza os ensinamentos que recebeste.

1

Anuncia-se o nascimento de Joáo 5No tempo de Herodes, rei da Judi i.i havia um sacerdote chamado Zacarías, do tumo de Abias; sua mulher era de. cendente de Aaráo e se chamava Isabel 6Os dois eram retos diante de Deus e agi am irrepreensivelmente, de acordo com os mandamentos e preceitos do Senhoi 7Náo tinham filhos, porque Isabel era es téril, e os dois eram de idade avanzada

1,1-4 Lucas compoe com grande cui­ dado um prólogo no estilo retórico da épo­ ca, para justificar ou explicar o novo rela­ to de fatos já contados, o método de estudo e exposigáo, a finalidade do livro. Nao sen­ do ele testemunha ocular, atém-se à tradigáo dos que assistiram e que estiveram a servido da palavra, da mensagem evangé­ lica. Seu relato remontará aos comegos e estará exposto com ordem (nao necessa­ riamente cronológica). Nos acontecimentos se cumpriu um designio; contá-lo dá garantía a um ensinamento. Lucas está consciente de ter composto urna obra li­ teraria. 1,5— 2,52 O chamado “evangelho da in­ fancia” ocupa dois longos capítulos e é c o n trib u ito pròpria de Lucas, que pode contar com informagóes oráis ou com do­ cum entado já elaborada. Ele nos conta que o Espirito preenchia ou guiava ou ins­ pirava as principáis personagens. Num mundo de relajóos familiares e de políti­ ca imperial irrompe e age urna presenta celeste. Lucas projeta nestas páginas a deslumbrante e depurada luz da ressurreigáo. O estilo do relato semítico é mais mar­ cado nestes capítulos: sao abundantes as expressóes de cunho hebraico, claras re­ miniscencias do Antigo Testamento, pa­ ralelismos de ascendencia poética, padróes narrativos: tres hinos transformam o rela­ to em oragáo.

Lucas compóe em quadros paralelos duas anunciagóes angélicas, dois nasci mentos, dois hinos de agáo de grabas, a máe estéril e a máe virgem; o encontni das duas máes, que é encontro pré-natal de Joáo e Jesús. Estas as duas persona gens principáis: Joáo precede no tempo, Jesús na dignidade. A relagáo se proion gará no capítulo 3. A composigáo para lela faz ressaltar a categoría excepcio nal de María e Jesús. Nao há paralelismo entre Zacarías e José, que atua em según do plano. 1,5-25 Era o tempo do chamado He rodes o Grande (37-4 a.C.). Os país tém algo de patriarcas, embora ele seja um sacerdote que profetiza e o filho venha a ser grande profeta, como os sacerdotes profetas Jeremías e Ezequiel. Seu sacer­ docio tem a legitimagáo da estirpe (Abias, lC r 24,10); ela é descendente de Aaráo. Seu nome significa O-Senhor-lembra, o déla Meu-Deus-jura ou promete. Hero­ des nao tem tal legitim ado. Isabel é es­ téril: náo por castigo (Micol, esposa de Davi, 2Sm 6,23), mas como outras mulheres ilustres, Sara, Rebeca e Raquel (Gn 11,30; 17,16-17; 25,21; 29,31), e sobre tudo como Ana, a máe do profeta Samuel (ISm 1-2), que consagrou Daví. Os país sáo ademais exemplares segundo a religiosidade tradicional (Jó 1,1; Tb 1,3; Ez 36,27): sua justiga aceita por Deus con­ siste no cumprimento exato de todos os preceitos.

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LUCAS

"('cria vez, quando oficiava diante de com os do seu turno, 9conforme ii ritual sacerdotal, coube-lhe entrar no Mutuario para oferecer incensó. 10Enuiinnto isso, a multidáo do povo ficava fura, orando durante a oferta do incen«i, “ Apareceu-lhe um anjo do Senhor, do pé á direita do altar do incensó. 12Ao vi lo, Zacarías se assustou, tomado de li'inor. 130 anjo lhe disse: — Nao temas, Zacarías, pois teu pe­ dido foi ouvido, e tua m ulher Isabel te ilurá um filho, a quem chamarás Joáo. Hlile te encherá de gozo e alegria, e imiitos se alegraráo com o seu nascimento. 15Será grande diante do Senhor; M ltObeberá vinho nem licor. Estará cheio de Espirito Santo desde o ventre materDciis

no 16e converterá muitos israelitas ao Se­ nhor seu Deus. 17Irá à frente, com o espi­ rito e o poder de Elias, para reconciliar pais com filhos, rebeldes com o modo de ver dos honrados; assim preparará para o Senhor um povo bem disposto. 18Zacarias respondeu ao anjo: — Q ue garantía me dás disso? Pois sou anciáo, e minha m ulher de idade avanzada. 190 anjo lhe replicou: — Eu sou Gabriel, e sirvo na presen­ t a de Deus: enviaram-me para falar-te, para dar-te esta boa noticia. 20M as olha: Ficarás mudo e sem poder falar, até que isso se cumpra, por nao teres crido em m inhas palavras, que se cum priráo em seu devido tempo. 14; 25,21). O nome Joáo significa O-Senhor-se-compadece. Logicamente, o filho será uma alegria para o pai, que assim terá um sucessor (Jr 20,15; e Sara em Gn 21,6). A alegria será partilhada por muitos aos quais a missáo da crianza afetará (Gn 30, 13; Is 9,2; 66,10). 1,15-17 Segue a breve descrido de seu destino. Será grande na apreciado decisi­ va do Senhor: “o maior até agora entre os nascidos de mulher”. Como os nazireus, se absterá de vinho (Nm 6,3; Jz 13,4). Cheio do Espirito, como Josué (Dt 34,9) e nisso consistirá sua grandeza. Ou como Elias (cf. 2Rs 9,15), com o qual exercerá a f u n d o profètica de “converter” (Jr 3,12.14; 15,19; 18,11; Dn 12,3 “brilharáo como estrelas”), e a fu n d o específica de “reconciliar”. Do texto bíblico (MI 3,2324) suprime a segunda parte, “converter os filhos aos pais” (como já tinha feito Eclo 48,10), talvez porque o movimento é ago­ ra todo para o futuro, náo para o passado. A cláusula paralela traga o perfil ético da reconciliado, como que evitando m alen ­ tendidos. Assim prepara para o Senhor um povo (cf. Is 43,21) bem disposto a receber a novidade que se aproxima (cf. Am 4,12). 1,18-20 Duvida como Abraáo e Sara (Gn 17,16; 18,11), pede um sinal como Gedeáo (Jz 6,36-40). A objegáo serve ao narrador para encarecer o puro dom de Deus, o milagre da fecundidade (cf. Is 66,9). O anjo está a servigo de Deus, assiste à corte divi­ na, segundo representagóes tradicionais.

1,8-10 Os sacerdotes oficiavam por tur­ nos de permanencia, e oferecer o incenso ora privilègio nao repetido. O rito era feiId no altar especial do incenso (Ex 30,7.34,18; SI 141,2), no interior do templo, en­ guanto o povo esperava no àtrio exterior. A revelagao acontecerá em contexto cúbi­ co, como a de Isaías (Is 6 ). 1.11-20 A aparigáo angélica imita mo­ delos tradicionais, como os de Gedeáo e Sansáo (Jz 6,12; 13,3), e se ordena ao orá­ culo de anunciado, segundo os cánones do gènero. Sao tópicos da cena: a apariSfio inesperada, o susto, a objegáo, o sinal. 0 oráculo costuma anunciar a concepgáo, o nascimento, o nome e o futuro do meni­ no; às vezes acrescenta prescrigóes die­ téticas (Gn 16,11-12; Jz 13,3-5; Is 7,14-16). 1.11-14 O grego é decalque do hebraico (mal’ak Yhwh): com a expressáo “anjo do Senhor” designa uma m anifestado, às vezes visual, do Senhor. (No v. 19 identifica-se com o nome pròprio.) Provoca o temor numinoso ou intimidado da presen­ ta do divino ou do sobre-humano (Dn 10,7 no ouvi-lo, Hab 3,18). 1,13-14 O oráculo é pormenorizado. Cometa com a fórmula clàssica: “nao te­ mas”, que serve para conter o pavor ini­ cial: a divindade chega com intendo pa­ cífica. Além disso serve para dispor o ànimo á recepgáo da mensagem. A seguir vem o anúncio: o nascimento de um filho, que será dom especial de Deus, respondendo ao pedido do sacerdote (Gn 18,10.

LUCAS

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210 povo aguardava Zacarías e estranhava que demorasse no santuàrio. 22Quando saiu, nào podía falar, e eles adivinharam que tivera urna visáo no santuàrio. Ele lhes fazia sinais e conti­ nuava mudo. 23Quando term inou o tempo do seu servido, voltou para casa. 24Algum tem­ po depois, sua mulher Isabel concebeu, e ficou escondida cinco meses, comen­ tando: — 25A ssim tratou-me o Senhor quan­ do providenciou rem over minha humiIhagáo pública. Seu nome significa For§a-de-Deus (e é o quarto nome significativo no relato). Só em época tardía se impóe o costume de dar nome a alguns seres celestes, se sao inves­ tidos de alguma missáo especial (Dn 8,16; 9,21). Vem como mensageiro de urna boa noticia (Is 40,9). A mudez e a incomuni­ cad o , além de castigo, serviráo de sinal, como aconteceu a Ezequiel (3,26-27; 24,27; 33,21-22). Nao poderá comunicar a boa noticia. Quando recuperar a fala, o sacerdo­ te será profeta. Assim comega urna etapa de incomunicado e escondimento para a familia enquanto amadurece urna vida nova. 1 ,2 1 - 2 2 O povo esperava talvez a béngáo sacerdotal (cf. Nm 6,23-26), que o mudo nao podía pronunciar. O povo adivinha algo sobrenatural (cf. Dn 10,7-8). 1,24-25 É um ocultamento precursor, até que María o rompa com sua visita. A “humilhado” pública da esterilidade, como a de Raquel ou de Jerusalém (Gn 30, 23; Is 54,4). Tratou-me/fez-me (perfeito grego): intervendo de Deus e fato consumado. 1,26-38 Segundo quadro do primeiro díptico. Se o esquema literario é semelhante, as diferengas ressaltam mais: protago­ nista nao é o pai, mas a máe (ambos em Jz 13); a o bjedo nao é a esterilidade, mas a virgindade; fé diante da desconfianza; nao é resposta a um pedido, mas pura iniciati­ va divina; a concepgáo será obra prodi­ giosa de Deus e do seu Espirito; a “gran­ deza” do menino será a sua condido de sucessor de Davi, rei Messias, mais que profeta (ela será máe do rei herdeiro, com título de rainha, segundo a tradido do AT). Encenagóes com anjos e diálogos pertenciam as convendes literárias da época.

A nuncia-se o nascim ento de Jesús 26No sexto mès, Deus enviou o anjo ( ín briel a urna cidade da Galiléia cham.i da Nazaré, 27a urna virgem prometida i um homem chamado José, da familia < l> Davi; a virgem se chamava Maria. • <¡ anjo entrou onde eia estava e lhe dis'.r — Alegra-te, favorecida, o Senhor < ■ • . tá contigo. 29Ao ouvir isso, eia se perturbou < refletia que tipo de saudaqao era ess.i 30O anjo lhe disse: — Näo temas, Maria, pois gozas < ■ favor de Deus. 31Ve: Conceberás e da 1,26-27 Gabriel anuncia os aconto cimentas fináis (Dn 8,16). A Galiléia ci.i zona limítrofe, longe de Jerusalém; Nazari um lugar sem importancia (cf. Jo 1,40, 7,52), perto da importante cidade de Séfori:. Maria estava “prometida”, com o vín culo legal dos esponsais, mas sem ter cele­ brado ainda o casamento, começo da co habitado. (Veja-se a legislado em Di 22,23-28; Ex 22,15.) José era descenden te de Davi, de nobreza decadente; mai tarde Lucas nos dará a árvore genealógica (3,23-38; cf. lC r 3,1-24). 1,28-29 A saudaçâo corrente grega (ichaire) soa com os harmónicos de urna rica tradido bíblica, em contextos de re­ n ovado ou restaurado (p. ex. Jz 2,21; SI 3,16; Is 49,13; 65,18). “Favorecida” é um daqueles participios passivos, quase títu­ los, que conhecemos pela literatura profe­ tica (Compadecida, Os 2,3; Preferida, ls 62,4). Atribui-se a figura emblemática, nao a urna pessoa em particular. O Senhor está contigo; “Deus conosco” ( ‘immanu’el) é o nome do anunciado em Is 7,14-15 e é expressáo pròpria de momentos importan­ tes (Ex 3,12; Jz 6,12; Jr 1,19. Aconcentraçâo dos très elementos é suficiente para surpreender e perturbar Maria). 1,31-33 Agora o anunciado se chamará Jesús (= o Senhor salva), equivalente a Jo­ sué e Isaías (explicado provavelmente em Is 12,2-3). É o descendente de Davi (2Sm 7; Is 11,1), herdeiro legítimo do trono (Jr 23,5); levará o título de Filho do Altissimo (Deus, segundo 2Sm 7,14; SI 2,7; 89,27-28), e terá um reinado perpètuo (Is 9,6; SI 72,5; 89,37; Mq 4,7). Ou seja, será um cumprimento no qual convergem várias profecías.

1 ,4 2
tA K ít luz um filho, a quem chamarás Ir,sus. 32Ele será grande, levará o título ilo h’ilho do A ltíssim o; o Senhor Deus llic dará o trono de D avi seu pai, 33para i|hc reine sobre a C asa de Jaco para «■mpre, e seu reinado nao tenha fim. wMaria respondeu ao anjo: — Como acontecerá isso, se eu nao convivo com um homem? •I50 anjo lhe respondeu: — O Espirito Santo virá sobre ti e o po­ der do Altíssimo te fará sombra; por isso a consagrado que nascer levará o título ilc Filho de Deus. 36Vé: Também tua pá­ rente Isabel concebeu em sua velhice, e a

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que era considerada estéril já está de seis meses.37Pois nada é impossívelpara Deus. 38M aria respondeu: — A qui tens a escrava do Senhor. Que sua palavra se cumpra em mim. O anjo a deixou e se foi. M aria visita Isabel — 39Entáo Maria se levantou e se dirigiu apressadamente à serra, a um povoado da Judéia. 40Entrou em casa de Zacarías e saudou Isa­ bel. 41Quando Isabel ouviu a saudaçao de Maria, a criatura deu um salto em seu ventre; Isabel, cheia de Espirito Santo, 42exclamou com voz forte: final, confessa: “nenhum plano é irrealizável para ti” (Jó 42,2). 1.38 Maria nao usa um verbo ativo na primeira pessoa, “cumprirei” (Ex 19,8), mas um intransitivo “aconteça”: o que dis­ se o anjo, ou seja, a açâo divina e sua conseqüência (como um novo Génesis). Deixar Deus agir é a suprema humildade e grandeza de Maria (1,49). A tradiçâo entendeu o consentimento de Maria como pronunciado em nome da humanidade. 1.39-56Areclusáo de Isabel se abre para receber a visita de sua prima. As duas linhas paralelas se cruzam numa intersecçâo transcendental. O novo episodio, o encon­ tro de duas parentes em sua primeira gra­ videz, se polariza para o encontro misterio­ so de Jesus e Joáo e para o hiño de Maria. Joâo, o anunciado, é chamado antes de nascer: “Antes de formar-te no ventre, eu te escolhi; antes de saíres do ventre te consagrei” (Jr 1,5; Is 49,1). 1.39 De Nazaré a um povoado (desconhecido) da Judéia seriam uns dois dias de caminhada. Podemos supor que o sa­ cerdote Zacarias nao morava longe de Jerusalém e do templo. A tradiçâo localizouo em Ain Karim. 1.40-41A saudaçao de Maria é medianeira de gozo e de inspiraçâo celeste. A criatura expressa seu gozo inconsciente (de sinal con­ tràrio os gémeos de Gn 25,22). Isabel fala profetizando. Alguém quis ver Maria como a arca da aliança, com base em 2Sm 6 . 1,42 A interpretaçâo profètica mencio­ na très elementos conjugados: a fé, a matemidade, o Messias. Bendita: embora pos­ sa recordar mulheres ilustres (Jael, Jz 5,24;

1,34 Da objeçâo autores antigos e mo­ dernos deduziram um voto virginal de Ma­ ría; todavía, o presumido voto nao concor­ da com os dados do contexto. Urna objeçâo do destinatàrio é corrente no género anuneiaçâo; a presente serve para que o narrador lublinhe a concepçâo sem intervençâo do varáo. Podemos, sim, afirmar, por força do contexto, que Maria se pusera à inteira disposiçâo de Deus, incluida sua capacidade maternal, que é bênçâo genesíaca. 1,35-37 Num parágrafo breve, recebemos pela voz do anjo um resumo de cristologia. A maternidade será obra do Espirito (cf. Jo 3,5); o “poder” de Deus agirá como som­ bra que fecunda (cf. SI 91,1; 121,5). Espi­ rito e poder ou força formam um para­ lelismo, porque o Espirito é o dinamismo de Deus criador e recriador. Ñas fórmulas “vir sobre” e “cobrir com a sombra” alguns Icram urna sutil alusao nupcial. Outros au­ tores o relacionaram com a sombra da nuvem, segundo Ex 40,34: “A nuvem cobriu a tenda do encontro e a gloria de Yhwh encheu o santuàrio”. E uma explicaçâo su­ gestiva: Maria coberta pelo Espirito e cheia da gloria de Deus. Nascendo de mulher, nasce homem. Sendo concebido pela açâo do Espirito nascerà consagrado, “san­ to” por exceléncia (4,34; cf. o título divino “Santo de Israel” em Is 5,19.24; 37,23 etc.). E será Filho de Deus de modo especial, nao simplesmente como Adáo (3,21). A maternidade de Isabel serve de sinal náo solicitado do que foi anunciado, do poder divino. “Há algo difícil para Deus?”, diz o Senhor anunciando ao cético Abraáo a maternidade de Sara (Gn 18,14); Jó, no

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1,43

— Bendita és tu entre as m ulheres e bendito o fruto do teu ventre. 43Quem sou eu para que me visite a máe de meu Senhor? ^V é: Quando tua saudaqáo chegou aos meus ouvidos, a criatura deu um salto de alegría em meu ventre. ^ F e ­ liz és tu que creste, porque se cum prirá o que o Senhor te anunciou. “ "’María disse: M inha alma proclam a a grandeza do Senhor, 47meu espirito festeja a Deus, meu salvador, 48porque olhou a hum ildade de sua escrava Judite, Jt 13,18; Abigail, ISm 25,33), o con­ texto próximo nos convida a pensar na béngáo genesíaca da fecundidade (Gn 1, 28; 9,1; 17,16; Dt 28,4). Nenhuma maternidade da historia pode ser comparada com a de María; a ela estavam direcionadas muitas maternidades precedentes. 1,43 Chama o filho de Maria de “meu Senhor”, como que reconhecendo o Messias. Nao sabemos se o autor alude a SI 110,1. Na pluma e boca cristas, Senhor é título divino de Jesús Cristo. A béngáo acrescenta a felicitagáo (macarismo), a primeira de urna série sem fim: a fé é mérito principal: crendo, tomou possível o cumprimento. 1,46-55 Maria dirige o louvor para Deus, que fez tudo, ao passo que ela deixou fazer. Na passagem prodigiosa da virgindade a maternidade ela descobre o estilo e o esquema da agáo renovadora de Deus, manifestada também na esfera política e na económica (ISm 2,4-8; SI 113,6-9): nao para mudar os lugares, deixando as coisas como estáo, mas sim no espirito messiánico das bem-aventurangas (felicidades, ven­ turas). A ela felicitaráo (Gn 30,13; Ct 6,9) todos os que reconhecerem esses valores. Ela é a “serva” que representa Israel, “ser­ vo” desvalido e socorrido por Deus (e tam­ bém a igreja das bem-aventurangas). O hiño é de puro estilo bíblico, cheio de citagóes e reminiscencias do AT. O cántico está composto em estilo de hiño, com temas tradicionais. Divide-se em duas secóes, com o corte final do ver­ sículo 50. Parece enlacar-se a Israel, o povo escolhido; no tempo, parte de Abraáo e continua sem fim. Náo menciona expres-

e daqui para a frente me felicitaráo todas as geracoes. 49Porque o Poderoso fez proezas, seu nome é sagrado. 50Sua misericordia com seus fiéis continua de geraqáo em geraqáo. 5'Seu poder é exercido com seu brago: dispersa os soberbos em seus planos: 52derruba do trono os potentados e exalta os humildes: 53cumula de bens os famintos e despede vazios os ricos. 54Socorre Israel seu servo, recordando a lealdade, samente a maternidade, implícita no con­ texto próximo. Nao é improvável que Lu­ cas tenha adaptado um hiño já existente. Do càntico de Ana e seu contexto (ISm 1— 2) toma: o tema básico da maternidade (2,5), as duplas poderosos/humildes, ricos/pobres (2 ,5.7.8), a reviravolta da situagáo, o gozo da celebragáo (2,1), a santidade de Deus ( 2 ,2 ), a atengào para a humildade ou humilhagáo (1,11), o Deus de Israel (1,17). 1.46 A grandeza: SI 34,4; 69,31. 1.47 O hinoé alegre, festivo. A “alegria” irrompeu pela saudagáo de Gabriel, e agora toma a palavra na boca de Maria. Meu sal­ vador: 2Sm 22,3; Is 43,3. 1.48 Humildade e humilhagáo: Maria pertence ao “povo pobre e humilde” que o Senhor conservou (Sf 3,12). Me felicita­ ráo: como as vizinhas de Lia por causa do nascimento de Aser ( = Félix, Gn 30,13), mas projetado para um futuro sem fim. Profecia que vem se cumprindo na igreja. 1.49 Poderoso: Sf 3,17. Gabriel mencionava o “poder” do Altissimo. Proezas: SI 126,2-3; J1 2,20-21. Santidade: o triságio de SI 99; Is 57,15; Gabriel havia apelado ao Espirito Santo e ao futuro menino san­ to ou consagrado. 1.50 Misericordia: SI 103,17; e o estribilho litúrgico do Salmo 136. 1,51-52 Exerce o poder: SI 118,15-16. O brago: Ex 15,16; Is 51,5.9. Desbarata, derruba: SI 89,10-11 (davidico); Jó 5,11-12; 12,19. 1.53 SI 57,9 e as mudanzas de SI 107,3341. Vazios: Dt 15,13. 1.54 Seu servo: Is 41,8. Se a misericor­ dia é pura iniciativa, a lealdade supóe um compromisso: SI 25,6; 98,3.

1,69

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55prom etida a nossos antepassados, em favor de Abraáo e sua descendência para sempre. 56M aria ficou com eia très meses, e depois voltou para casa. Nascimento de Joäo — 57Quando se completou para Isabel o tempo do par­ to, deu à luz um filho. 58Os vizinhos e parentes, ao saber que o Senhor a trata­ ra com tanta m isericordia, congratularam-se com eia. 59No oitavo dia foram circuncidá-lo e o cham avam como seu pai, Zacarías. 60Mas a máe interveio: — Näo; será chamado Joäo. 61 O bservavam -lhe que ninguém en­ tre os parentes levava esse nome. 62Perguntaram por sinais ao pai que nome 1,55 Mq 7,20. 1,57-66 O nascimento de Joâo, pelas circunstâncias, apresenta-se como acontecimento maravilhoso: a ancià estéril e mâe, o nome inesperado, a fala recobrada. Quando chegou o tempo: a formula pode recordar Rebeca (Gn 25,24) e a promessa feita a Abraào (Gn 18,10). Os festejos co­ mo na tradiçâo patriarcal (Gn 30,13). Aprocura do nome, como Rt 4,17. A maternidade da anciâ e o parto feliz foram um ato insigne da “misericordia” de Deus. Com a discussâo sobre o nome o narrador sublinha sua importancia: Piedoso é, precisa­ mente, um dos títulos clássicos de Deus (Ex 34,6; J1 2,13; Jn 4,2; SI 86,15 etc.). 1,64-65 Aquele que emudeceu por nâo crer recobra a fala, quando tudo se cumpriu, para dar graças e profetizar. Também isso é para todos um sinal (Ez 24,27; 33,22) que provoca o temor numinoso. 1 , 6 6 E a versào teológica de nossa frase “uma criança que promete”, porém é Deus quem promete. A mâo de Deus: Is 41,20; Ez 1,3; SI 80,18. ! 1,67 O autor apresenta esse hiño como profecía inspirada. Alguns sacerdotes fo­ ram também profetas de profissâo, como Jeremías e Ezequiel. Zacarías o é numa sô ocasiâo (2Sm 23,2). 1,68-79 O cántico divide-se em duas partes desiguais: na primeira (68-75) re­ corda a açâo de Deus até esse momento; na segunda (76-79) anuncia o destino do menino. Com esse recurso, a missáo de

queria dar-lhe. 63Pediu uma tabuinha e escreveu: Seu nome é Joâo. Todos se assombraram. 64lm ediatamente a boca e a lingua se soltaram e se pôs a falar bendizendo a Deus. f,5Todos os vizinhos ficaram espantados: o fato foi contado por toda a serra de Judá 66e os que o ouviam refletiam, dizendo: — O que este menino irá ser? Pois a m âo do Senhor o acom panhava. 67Seu pai Zacarías, cheio de Espirito Santo, profetizou: 68Bendito o Senhor, D eus de Israel, porque se preocupou em resgatar seu povo. 69 Suscitou-nos uma eminéncia salvadora na Casa de Davi, seu servo, Joâo fica inserida na historia do povo eleito. Está composto em puro estilo bíblico repleto de citaçôes e reminiscéncias, como síntese teológica. 1,68-75 No principio houve a promessa feita com juramento a Abraáo (73): Deus se compromete com ele, e a historia vai sendo cumprimento progressivo. Depois, a promessa se materializa na forma jurídi­ ca de um pacto mùtuo (72) “com nossos pais”; pela lealdade do Senhor, o povo nao foi aniquilado por seus inimigos (71.74). Um dia essa promessa se concretiza na promessa feita a Davi de fundar-lhe uma dinastia ou “casa” (69). A dinastia, apa­ rentemente interrompida, renasce, porque Deus “suscita” nela uma força salvadora (69). O Messias restaura a dinastia davidi­ ca, renova a aliança sinaitica, cumpre a promessa patriarcal. 1.68 Começa com aclamaçâo litúrgica “Bendito Yhwh” e variantes, que consti­ tuent fórmula clàssica, também para começar (Gn 9,26; 24,27 etc.); a formula inteira (ISm 25,32; IRs 1,48 etc.); e fechando a primeira coleçâo de salmos (SI 41,14). O Senhor vem “resgatar” novamente o seu povo, segundo sua funçâo tradicional (Ex 6 ,6 ; Is 43,1; Jr 31,11; SI 77,16). Tratando-se de homens, é resgate de alguma escravidâo, se corresponde ao hebraico pedut (Is 50,2; SI 119,9; 130,7). 1.69 “Eminencia”: Na linguagem bíbli­ ca do chifre, símbolo de poder (SI 75,11; 89,18.25 davidico; 112,9). “Salvadora”:

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1,70

70como havia prometido desde tempos antigos por boca de seus santos profetas: 71salvagáo diante de nossos inimigos, do poder de quantos nos odeiam, 72tratando com lealdade nossos pais e recordando sua alianca sagrada, 73aquilo que jurou a nosso pai Abraáo, que nos concedería, 74libertados do poder inimigo, servi-lo sem temor em sua presenta, 75com santidade e justiqa por toda a vida. 7 E a ti, menino, te cham aráo profeta do Altíssimo, pois cam inharás á frente do Senhor preparando-lhe o caminho; competía ao rei salvar (Saúl, ISm 10,27; um rei de Israel (2Rs 7,26s). Davi tem o título de “servo” (2Sm 3,18; 7,8; SI 89,4.21). 1.70 Sem dar nomes, supóe que vários profetas anunciaram o Messias. 1.71 Tema freqüente nos salmos (p. ex. 18,1; 31,16; 106,10.45). 1.72 Deus “se recorda”, leva em conta a sua alianga, é coerente com seu compromisso (Ex 20,6; SI 18,15; SI 105,8). 1.73 Promessa com juramento, alianga em forma de compromisso unilateral. 1,74-75 Traduz as promessas patriarcaís em termos de servido auténtico. Livrará do “temor” (74) e do pecado (77). Para urna vida “a servigo”, tambcm cúltico, do Senhor. 1,76-79 O destino de Joáo é sua missáo, de abrir caminho para outro, para o “Se­ nhor” (76). Abre caminho como arauto, “anunciando a salvagáo” (77) e dispondo o povo para o perdáo pelo arrependimento (77). Assim ele poderá chegar: o esperado, a luz no caminho da vida e da historia. 1.76 Será o precursor, segundo MI 3,1 e Is 40,3. 1.77 A experiencia da salvagáo pelo per­ dáo dos pecados (Jr 31,34; 33,8; SI 130,4). 1.78 Entranhável: título clássico de Deus (Ex 34,6; Dt 4,31; SI 103,8). Pelo contex­ to, o grego anatolé parece significar, nao broto, mas o levante, o levantar-se da luz que assoma e ilumina; mas nao vem do oriente, e sim “do alto”, do céu: “sobre ti amanhecerá o Senhor” (cf. Is 60,1-2). 1.79 Alusáo a Is 9,1; 42,7. O caminho da paz: Is 59,8.

77anunciando a seu povo a salvagáo pelo perdáo dos pecados. 78Pela entranhável misericordia do nosso Deus, nos visitará do alto um amanhecer 79que ilumina os que habitam em trevas e em sombras de morte, que encaminha nossos passos por um caminho de paz. 80E o menino crescia, fortalecia-se espiritualmente, e viveu no deserto até o dia em que se apresentou a Israel.

2

Nascimento de Jesús (Mt 1,18-25) — 'N esse tempo promulgou-se um decreto do imperador Augusto, que or-

1,80 Como Sansáo (Jz 13,24-25); como o menino Samuel (ISm 2,21). Mora no deserto como Elias (IRs 17); no seu caso, esse retiro significa afastar-se do templo e do culto. A sua atividade fica pendente até o capítulo 3. 2,1-7 Segundo quadro do segundo díptico: nascimento de Jesús. Posto junto ao nascimento de Joáo, ressalta pela diferenga. Para o quadro histórico, Lucas nao poupa dados; para o nascimento do Sal vador, elege a brevidade e a simplicidade. O Messias nasce como qualquer homem “No ventre materno foi esculpida minha carne... também eu respirei o ar comum. e ao cair na térra que todos pisam estreei minha voz chorando, como todos” (Sb 7,36 ; G14,4), mais pobremente que a maioria (9,58): “por vós fez-se pobre para enriquecer-vos com sua pobreza” (2Cor 8,9). Mas os planos humanos de poder c dominio, o recenseamento, se subordinam ao plano divino, anunciado pelo profeta: o Messias, como descendente de Davi — José o ga­ rante — , há de nascer em Belém (ISm 16,1; Mq 5,1). Séculos antes, o recensea­ mento de Davi provocou um castigo divi­ no (2Sm 24). Nasce como súdito do im­ perador do mundo de entáo, Augusto (30 a.C.— 14 d.C.); que Deus guia como ins­ trumento (cf. Is 10,5). Hoje se considera como data mais provável o ano 6/5 a.C. “Primogénito” diz que é o primeiro, sem supor que haja outros, pois indica uma qualidade legal (Ex 13,2; Dt 21,15-17). Em

2,15

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denava ao mundo inteiro inscrever-se no censo. 2Este foi o primeiro censo, reali­ zado quando Quirino era govemador da Siria. Todos iam inscrever-se, cada um em sua cidade. 4José subiu de Nazaré, cidade da Galiléia, á cidade de Davi, na Judéia, chamada Belém — pois ele pertencia á Casa e familia de Davi — 5para inscrever-se com María, sua esposa, que estava grávida. 6Estando eles ai, cumpriuse a hora do parto, 7e deu á luz o seu filho primogénito. Envolveu-o em panos e o deitou numa manjedoura, pois nao haviam encontrado lugar na pousada. 8Havia na regiáo uns pastores que vigiavam por turnos o rebanho a céu aberto. 9Um anjo do Senhor se lhes apreoutros sentidos o chamaráo “primogénito de muitos irmáos” (Rm 8,29), “de toda a criagáo” (C11,15), “dos mortos” (Ap 1,5). 2.1 Nesse tempo: pode valer simplesmente para ligar o relato á historia impe­ rial, e também como fórmula clássica de cumprimento escatológico. 2.2 Para explicar discrepancias históri­ cas alguns traduzem: “este recenseamento foi precedente/anterior ao governo de Quirino na Siria”. 2,4 Sobe-se á Judéia e a Jerusalém: primeira subida para nascer; chegará outra para morrer (9,51). Belém, cidade de origem de Davi, nao de reinado (ISm 16; Mq 5,2). 2,5-6 Grávida: como na grande pere­ grinado do Norte a Siáo (Jr 31,8). Cumpriu-se: como para a matriarca Rebeca (Gn 25,24). 2,7 “Criaram-me com mimo, entre fraldas” (Sb 7,4). Manjedoura: Além das representagóes tradicionais, podia tratar-se de urna casa semi-escavada na rocha ou de uma gruta adaptada como moradia, com urna habitagáo familiar e um recinto con­ tiguo como estábulo. 2,8-20 Gloria, luz e alegría formam a constelaqáo inicial de Is 8,23-9,6 (na disposigáo atual do texto hebraico), com a paz no título glorioso. E a razáo culminante de tudo isso é que “nasceu-nos um meni­ no”. Gloria luminosa e gozo e paz pelo nascimento de um salvador dominam o anuncio evangélico. Também o final de Barue está dominado pelos termos gloria, esplendor, gozo e paz. Pronuncia-o um (ou

sentou. A gloria do Senhor os envolveu de resplendor e eles se aterroriza­ ran!. 10O anjo lhes disse: — Nao temáis. Vede: Dou-vos uma boa noticia, uma grande alegría para todo o povo: u Hoje nasceu para vos na cidade de Davi o Salvador, o Messias e Senhor. 12Isto vos servirá de sinal: En­ contrareis um menino envolto em pa­ nos e deitado numa manjedoura. l3N esse instante juntou-se ao anjo uma m ultidáo do exército celeste, que louvavam a Deus, dizendo: — 14Glória a Deus no alto, e na terra paz aos homens que ele ama! 15Q uando os anjos partiram para o céu, os pastores diziam: o) anjo do Senhor (m al’ak Yhwh), ao qual se junta “a multidáo do exército celeste”, ou seja, os astros como anjos, ou ao con­ tràrio (cf. Jó 38,7 e o título Yhwh dos Exércitos, siderais); “que todos os anjos o adorem” (Hb 1,6; cf. Ap 5,11-12). Os fa­ vorecidos sáo uns pastores, em harmonía com o oficio primitivo de Davi por aquela regiáo (ISm 16,11; 17; SI 78,70; cf. Ez 34,23 sobre o futuro Davi como pastor); gente simples e sem preconceitos, recep­ tiva para a mensagem; tudo se passa á margem da corte e das autoridades. O sinal oferecido é estranho: um menino na pobreza e humildade. Estavam vigiando (ao contràrio dos de Is 56,10-11). Vencido o temor diante do sobrenatural, aceitam conciliar a humildade da aparéncia com a sublimidade do título; o “Messias” espe­ rado, o “Senhor”. Alguém comparou essa cena com a ressurreigáo. Certamente con­ cordarti vários temas: os seres celestes que “aparecem”, o resplendor, o anuncio, o sinal, o título “Senhor”. 2,10 A boa noticia = eu-aggelion. O anjo é evangelista (Is 52,7, com paz e salvagao). Salvador é título dos antigos juízes e raramente de Jesús (At 5,31; 13,23). 2,14 Gloria no céu e paz aos homens, como no principio e no final do salmo 29. Para os que sáo objeto da “benevoléncia” divina (náo por boa vontade humana, mas por iniciativa de Deus, cf. Is49,8; SI 30,6; 89,18). 2,15-20 A segunda parte procede num movimento de recolhimento e difusáo em contrastes alternados. Os pastores váo com-

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oferenda que manda a lei do Senlim um p a r de rolas ou dois pom binhos H avia em Jerusalém um homem chamado Sim eáo, hom em honrado ■ piedoso, que esperava a consolagáo tl> Israel e se guiava pelo Espirito Sani" 26Comunicara-lhe o Espirito Santo qu< náo morreria sem antes ter visto o M<sias do Senhor*. 27M ovido, pois, pel" Espirito, dirigiu-se ao templo. Quando os pais introduziam o menino Jesus pani cumprir com ele o que a lei mandava, 28Simeáo tomou-o nos bragos e bendi:, se a Deus, dizendo: — 29Agora, Senhor meu, segundo tu.i palavra, deixas livre e em paz teu sci vo; 30porque meus olhos viram teu Sal vador, 31que dispuseste diante de todo os povos 32como luz revelada aos pa gaos e como gloria de teu povo Israel 330 pai e a máe estavam admirado com o que dizia do menino. 34Simeáo os abengoou e disse a Maria, a máe: — Ve: Este está posto de forma qui todos em Israel ou caiam ou se levan

— Atravessemos em diregáo a Belém para ver o que aconteceu, o que Senhor nos comunicou. 16Foram apressadamente e encontraram Maria, José e o menino deitado na manjedoura. 1 7 Ao ver isso, contaram o que lhes haviam dito do menino. 18E todos os que ouviram isso assombravam-se com o que os pastores contavam. 19Maria, porém, conservava isso e meditava tudo em seu íntimo. 20Os pastores voltaram glori­ ficando e louvando a Deus por tudo o que ouviram e viram, tal como lhes havia sido anunciado. Circuncisáo e apresentagáo — 21 No oitavo dia, tempo de circuncidà-lo, puseramlhe o nome de Jesus, como o anjo o havia chamado antes que fosse concebido. 22 E, quando chegou o dia de sua purificacao, 23de acordo com a lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém para apresentàlo ao Senhor, como a lei do Senhor m an­ da: Todo prim ogènito homem será con­ sagrado ao Senhor; 24e para fazer a

provar a mensagem: serao testemunhas que chega. A esperanza alimentou sua vida, oculares como o foram escutando, “o que a expectativa alimenta sua velhice, náo o haviam visto e ouvido” (cf. Is 43,10. 12; deixando morrer. A esperanza funda-se em 44,8). Os fatos comprovam as palavras, e muitas profecías, na expectativa de unni estas revelam o sentido dos fatos. Primeipromessa pessoal do Espirito Santo. No ro é o grupo reduzido (17); depois vem a AT, “ver a salvagáo” pode significar sim divulgagáo (18); segue-se a interiorizagáo plesmente assistir a urna agáo salvadora de Maria, que guarda tudo na memoria e o de Deus; pode equivaler a desfrutar déla. medita (talvez Lucas aponte para Maria Em Simeáo se acumulam os significados: como fonte última de informagáo). Maria ver é ter nos bragos, desfrutar, porque a é modelo da Igreja que contempla os missalvagáo é o Salvador. Certo de um futuro térios da vida de Cristo. espléndido (32) que comega, pode morrer 2,21 A circuncisáo é sinal da promessa tranqüilo; como se fosse a alforria de um crida (Gn 17,12) e é lei para Israel (Lv escravo(Ex 21,26-27; Dt 15,13). Penetrou 12,3). Jesús nasce sob a lei (G1 4,4); mas no NT antes de morrer. náo é a lei que salva, e sim ele, como o diz 2.25 Trata-se do consolo escatologico, seu nome, imposto por Deus, para marcar messiànico (Is 40,1); “o Senhor consola o seu destino (cf. Is 12,2). seu povo” (49,13; SI 94,19). 2,22-24 “Nascido sob a lei” (G1 4,3). 2.26 *Ou: O Ungido do Senhor (cf. ISm Segundo a legislagáo (Lv 12,8; Ex 13,2. 24,7; SI 84,10; 89,39.52; Lm 4,20). Aqui 12.15). Embora já tenha nascido “consa­ em sentido messiànico estrito. grado” (1,35). Vemos que “primogénito” 2.30 Viram: Is 40,5; “um rei em seu es­ é qualidade que náo diz nada do que veplendor” (Is 33,17). nha ou náo depois. A lei de Moisés con2.31 Todos os povos: Is 52,10; SI 98,2. duz o Filho do Altíssimo á casa do Pai. 2.32 “Fago de ti luz das nagóes” (Is 42,6; 2,25-32 O velho e o menino. Em Simeáo 49,6). se alonga o AT para se unir com o Novo; 2,34-35 A béngáo é provavelmente sa­ estica o pescogo para ver a personagem cerdotal (como em ISm 2,20). Destino

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mil; será uma bandeira disputada, e as­ olili l icaráo evidentes os pensamentos de nulos. '“ ’Quanto a ti, uma espada te atra­ vesará. "'listava ai a profetisa Ana, filha de I limici, da tribo de Aser. Era de idade «migada, vivera com o marido sete anos ilqiois do casam ento 37e permaneceu viuva até os oitenta e quatro. Nao se afasiiiva do templo, servindo noite e dia com magües e jejuns. 38Apresentou-se nesse momento, dando gragas a Deus e falanlo ilo menino a todos os que aguardavmn o resgate de Jerusalém. Iiiimático do Messias e de sua máe. Como Imido, pode-se 1er a profecía de MI 3,1: mitrada do Senhor no santuàrio e grande iiiirificagáo. A profecía está formulada em imagens ou com tragos bélicos: o sinal ou ^Mandarte (SI 74,4.9), o tomar partido (cf. 12,51), o cair e levantar-se (Is 8,14; SI 20,9), ii espada como emblema (Ex 33,2; Am 9,4). 2,35 A primeira frase está entre parénii'ses em vários manuscritos. Caso tradu­ ci um semitismo, equivale: a “a espada ,ilravessará o pescogo” (cf. Jr 4,10). Ouuos procuram antecedentes em Ez 14,17; /,c 12,10; 13,7. Os pensamentos: Dt 8,2. 2,36-38 Segundo seu costume, Lucas poe uma mulher ao lado de um homem. Ana procede de uma tribo setentrional, é viúva c anciá, como Judite (Jt 16,22-23), profetisa romo Débora (Jz 4— 5), ou Huida (2Rs 22,14). Segundo Joel (3,2) nos últimos tem­ pos profetizaráo homens e mulheres, jovens < ■anciáos. Ana se une a Simeáo: para o narrador a coincidencia nao é casual. O "resgate de Jerusalém” é expressáo única (cf. Is 52,9): poderia sugerir o resgate da cscrava. Dirigindo-se á matrona Jerusalém, o Senhor lhe atribuí o título “teu Reden­ tor” (Is 49,26; 54,5; 60,16). 2,39-40 Semelhante a 1,80, só que sem ictirar-se ao deserto. Lucas se detém na i|ualidade sapiencial que inclui conheciinentos, juízo sáo, sensatez. Náo o recebe de uma vez (como poderia sugerir Is 11,2), mas por maturagáo lenta; como o apresenlam os mestres sapienciais. Vejam-se os paralelismos com o menino Samuel (ISm 2,21.26; 3,19). Na sua pregagáo Jesús adolará o estilo sapiencial com mais freqiièneia que o profètico.

39Cum pridos todos os preceitos da leí do Senhor, voltaram á Galiléia, à sua cidade de Nazaré. 40O menino crescia e se fortalecía, enchendo-se de saber; e o favor de Deus o acompanhava. O m enino Jesús no templo — 41Por ocasiáo da festa da Páscoa, seus pais iam a Jerusalém todos os anos. 42Quando cumpriu doze anos, subiram à festa se­ gundo o costum e.43Ao terminar a festa, enquanto eles voltavam, o menino Je­ sus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem. ^Pensando que esti2,41-52 Jesús completa a idade em que assume suas obrigagóes legáis: a marca inicial da circuncisáo desemboca na en­ trega da lei. Esta submete agora com mais autoridade que o pàtrio poder. Cheio de sabedoria e graga, dà uma ligáo dolorosa a seus pais, contrastando duas paternidades. Dá também uma ligáo aos doutores da lei no templo de Jerusalém. Jesús é filho carnal de Maria, pela qual está ligado fisicamente á humanidade. Está ligado a eia por afeto e submissáo filial. Mas essa relagáo fica relativizada e submetida a outra superior. Jesús é filho legal de José, pelo qual fica registrado ofi­ cialmente como descendente de Davi. Mas também a sua relagáo com José fica relati­ vizada e submetida á relagáo de Jesús com o Pai. O adolescente está cortando muitos vín­ culos com um só gesto, que por isso se torna espetacular e dramático, como agáo simbólica. Náo pede permissáo, porque recebe ordens diretamente do Pai. Maria e José ficam implicados, tém que contribuir, com sua angùstia e dor, para a trama: no final, esses atores náo compreenderam completamente. O relato de Lucas pòe em primeiro plano a relagáo suprema e miste­ riosa de Jesus com o Pai. 2.41 Segundo Dt 16,1-8. Veja-se o pa­ ralelo de ISm 1,3.7.21; 2,19. 2.42 É a segunda viagem explícita de Jesus a Jerusalém e ao templo, como uma visita ao Pai. 2.43 É a primeira iniciativa independente e consciente de Jesus. 2.44 Supóe que a caravana se repartía em vários grupos. Tampouco entre “pa-

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2,4,

vesse na caravana, fizeram um dia de viagem e começaram a procurá-lo entre parentes e conhecidos. 45Náo o encon­ trando, voltaram a Jerusalém à procura dele. 46Após très dias, o encontraram no templo, sentado em meio aos doutores, escutando-os e fazendo-lhes perguntas. 47E todos os que o ouviam estavam ató­ nitos com sua inteligência e suas respostas . 48Ao vé-lo, ficaram desconcertados, e sua mâe lhe disse: — Filho, por que nos fizeste isso? Vê: teu pai e eu te procurávamos angus­ tiados. 49Ele replicou: — Por que me procuráveis? Nao sabíeis que eu tenho de estar na casa do meu Pai? rentes e conhecidos” encontra-se agora Jesús: numa breve demonstragáo cortou lagos. 2,46 “Sé íntimo dos doutos, partilha teus pensamentos com o prudente e teus segredos com os entendidos” (Eclo 9,14-15). É como urna antecípagáo das futuras discussdes no templo (cap. 2 0 ). 2.48 Na pergunta é descarregada a an­ gustia acumulada da máe, a forma da per­ gunta pertence como acusagáo ao pleito ou querela. A referencia a “teu pai” con­ trasta com a resposta “meu Pai” (Jo 15,28). 2.49 Outros traduzem: nos assuntos, Je­ sus “tem que” por urna obrigagáo superior (4,43; 9,22; 24,7 etc.). Um dia “terá que” deixar a todos para voltar a “seu Pai”. 2.50 O mistério de Jesús é profundo e ainda nao está totalmente revelado. 2.51 Ver o comentário de Eclo 3,1-16. 2.52 Como ISm 2,26; Pr 3,4. O crescimento faz parte da sua humanidade. 3,1-20 O aparecimento do Batista é de um profeta. Definem-se as coordenadas históricas: o imperador do mundo, seu re­ presentante na Judéia, as autoridades dos lugares afetados pela pregagáo, a autoridade sacerdotal. Joáo é introduzido com a fórmula profètica tradicional (dbr Yhwh hyh /-) “a palavra do Senhor foi dirigida a N.”; mas náo é narrada a vocagáo por­ que é suficiente a predigáo do anjo e o salto no ventre materno. Como profetas

50Eles náo entenderam o que lhes disse. 51Desceu com eles, foi a Nazaré < continuou sob sua autoridade. Sua mac guardava tudo isso em seu íntimo. 52Je sus progredia em saber, em estatura c no favor de Deus e dos homens. Pregagáo de Joáo Batista (Mt 3,1 12; Me 1,1-8; Jo 1,19-28) — 'No ano quinze do reinado do imperador Tibério, sendo Póncio Pilatos govema dor da Judéia, Herodes tetrarca da Galiléia, seu irmáo Filipe tetrarca da Itu réia e da Traconítide, e Lisánias tetrarca da Abilene, 2sob o sumo sacerdocio de Anás e Caifás, a palavra do Senhor foi dirigida a Joáo, filho de Zacarías, no de­ serto. 3Percorreu toda a bacía do Jordáo

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precedentes, denuncia pecados e propóe emendas específicas. Mas é um profeta único: náo um na série anunciada (Dt 18,15), mas o anunciado por Is 40,3-5. Sua visáo do Messias que chega é tremen­ da: juiz implacável que sentencia e executa; aventa a palha e queima-a em seu fogo, empunha o machado para cortar as árvores inúteis e prejudiciais. Resta urna saída: arrependimento e emenda. Aos que acorrem, Joáo náo lhes pede que se retirem do mundo (como a comunidade de Qumrá), mas que cumpram com justiga seu respectivo oficio: náo abusar, náo extorquir, compartilhar. 3.1 Tibério (14-37 d.C.), Pilatos (26-36), Herodes Antipas (4 a.C.-39 d.C.), Filipe (4 a.C.-34 d.C.), Lisánias (morre antes de 37 d.C.), Anás (6-15), Caifás (18-36). Veja­ se a introdugáo histórica de Os 1,1 e Jr 1,1-3. 3.2 No deserto: 1,80. Alguns autores pensam que Joáo viveu algum tempo na comunidade de Qumrá, onde teria recebido a missáo. Do texto decorre que náo recebeu o chamado no templo (como Isaías) nem em ambiente doméstico (como Jeremías). 3.3 O rito de imersáo na água corrente sela o perdáo de Deus alcangado pelo arrependímento. Náo é um dos muitos ritos de purificagáo que se praticavam no tem­ plo ou em casa. A água corrente simboliza melhor o perdáo na imagem de “lavar” (SI 51,4; Is 1,16-17; Jr 4,14), melhor que o hissopo (Si 51,9); arrastando as impure­ zas do delito, deixa limpo o homem.

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pregando um batismo de arrependimenlo para o perdáo dos pecados, 4como está escrito no livro do profeta Isaías: Urna voz grita no deserto: Preparai o caminlio para o Senhor, aplainai suas vere­ das. 5Todo vale será preenchido, montes < • colinas seráo abaixados, o torto será endireitado e o escabroso será nivelado V todo mortal verá a salvando de Deus. 'B dizia as multidóes que tinham ido ao seu encontro para que as batizasse: — Ninhada de víboras! Q uem vos ensinou a fugir da condenaqáo que se aproxima? 8Produzi fruto digno de arrependimento e náo com eceis a dizer: N ossopai éA braáo; pois vos digo que dessas pedras Deus pode tirar filhos para Abraáo. yO machado já está posto ¡í raiz da árvore: árvore que náo produ­ cir bons frutos será cortada e jogada no logo.

10Entáo a m ultidáo lhe perguntava: — O que devem os fazer? n Respondia-lhes: — Quem tiver duas túnicas dé urna a quem náo tem; o m esm o faeja quem ti­ ver comida. 12Foram também batizar-se alguns coletores, e lhe perguntavam: — Mestre, o que devem os fazer? 13Ele Ihes respondeu: — Náo exijáis m ais do que está esti­ pulado. 14Também os policiais lhe pergun­ tavam: — E nós, o que devem os fazer? Respondeu-lhes: — Náo m altratéis nem denunciéis ninguém e contentai-vos com vosso pa­ gamento. 15Visto que o povo estava na expec­ tativa e todos perguntavam a si pró-

3,4-6 Do profeta do exilio, Lucas cita significativamente Is 40,3-5: a preparagáo do caminho comunica seu valor simbóli­ co e desemboca na grande revelagáo: “todo mortal verá a salvaqáo de Deus”. Salvaqáo será o salvador. Seu caminho ou estra­ da percorre as consciencias das pessoas; veja-se o inicio da terceira parte do livro de Isaías: “Praticai a justiga, pois minha salvagáo está para chegar” (Is 56,1). No deserto comegará urna restaurado dolorosa ou amorosa (Ez 20,35-38; Os 2,16). 3.7 O tom do discurso é violento; como Isaías (Is 1,10) náo pretende captar a be­ nevolencia. Raga de víboras: venenosos que envenenam a outros (Is 14,29; 59,5; cf. SI 58). Acondenagáo é também “a ira” de Deus (Sf 1,14; Is 34,2). Náo é fácil fu­ gir (Am 5,19). 3.8 A náo ser pela emenda, que é fruto maduro do arrependimento, náo basta a descendencia carnal de Abraáo (Jo 8,39; cf. Ex 32,13); é como apelar para a eleic;áo, repetidas vezes declarada insuficien­ te (Jr 11,13-17). Se Abraáo era a pedreira (Is 51,1-2) por dom divino, Deus pode uti­ lizar outras pedras (em hebraico filhos e pedras fazem assonáncia banim ’abanim). 3.9 No fogo: Is 27,11; Ez 15,6-7. Sím­ bolo de castigo escatológico ou definiti­ vo, que destrói ou aniquila.

3.10 Corretamente os penitentes perguntam sobre a emenda (cf. SI 51,15; 25,4). 3.11 A primeira emenda é partilhar. Naquele tempo, era difícil obter vestes, e ter duas túnicas era considerado luxo; o ali­ mento podia faltar ou escassear (23,34; 16,21). Compare-se com o programa pe­ nitencial de Is 58,7: “partir teu pao com o faminto..., vestir o que ves n u...” 3,12-13 O regime de arrendamento da cobranza de impostos prestava-se a conti­ nuos abusos. 3.14 Alguns pensam em soldados estrangeiros mercenários. E mais provável que fossem judeus a servido do tetrarca ou dos cobradores de impostos. 3,15-17 Aborda a grande questáo: a relagao do Batista com o Messias (questáo que preocupou sobretudo o evangelista Joáo). O Batista se identifica por oposigáo. O Messias vem depois, com maior autoridade e direito; é o esposo que náo cede seu direito (Dt 25,9, levirato e rito da sandália). Seu batismo será de fogo purificador (Is 4,4; MI 3,3) e de Espirito vivificador. Será vento de aventar (cf. Jr 4,11). 3.15 Poderia aludir a expectativas messiánicas da época, polarizadas pelo éxi­ to aureolado de Joáo. O “povo” é Israel.

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prios se Joáo nao seria o Messias, I6Joáo dirigiu-se a todos: — Eu vos batizo com água; mas está para chegar aquele que tem mais autoridade que eu, e eu náo tenho direito de desam arrar-lhe a correia das sandálias. Ele vos batizará com Espirito Santo e com fogo. 17Já em punha a pá para peneirar sua eirá: recolherá o trigo no celeiro, queim ará a palha num fogo que náo se apaga. 18Com muitas outras exortagóes anunciava ao povo a boa noticia. 190 tetrarca Herodes, repreendido por Joáo por causa do assunto de Herodíades, sua cunhada, e pelos dem ais crim es com etidos, 20acrescentou a to­ dos o de prender Joáo no cárcere. Batismo de Jesús (Mt 3,13-17; Me 1,911) — 21Enquanto todo o povo se batizava, tam bém Jesús se batizou; e enquanto orava, o céu se abriu, 22desceu sobre ele o Espirito Santo em figura 3,18 Além de profeta, Joáo é arauto de boas noticias (cf. Is 40,9), por suas últi­ mas palavras, anunciando a proximídade do Messias. 3,19-20 Esse anúncio é a última palavra pública de Joáo. Herodes o encarcera por­ que o profeta se tinha atrevido a denun­ ciar o pecado do tetrarca; destino semelhante ao de Jeremías, preso para que náo falasse. 3,21-22 Mas antes do aprisionamento aconteceu este grande episodio: novo en­ contró de Joáo com Jesús, já adultos. O batismo de Jesús, sumariamente registra­ do por Lucas, apresenta-se quase como agáo simbólica: humilhagáo que provoca a exaltagáo (cf. F12,8-10). Misturado com os pecadores sem o ser, Jesús recebe o duplo testemunho do Espirito e do Pai. Testemunho, por autoridade e conteúdo, muito superior ao do Batista. O Espirito se manifesta em imagens (a pomba da arca, Gn 8,12, ou do amor, Ct 2,10), o Pai na voz (Jo 12,28.30). O testemunho do Pai sobre o Filho há de orientar e iluminar toda a narragáo seguinte. Adescida do Espirito é como a consagragáo ou ungáo do Mes­ sias para seu ministério.

corpórea de pomba e ouviu-se um;i vi< do céu: — Tu és o meu Filho querido, o inm predileto.
Sfclr i' i• V

Genealogía de Jesús (M t 1,1-17) 23Q uando Jesús começou seu minisU' rio, tinha trinta anos e passava por h lho de José, que o era de Eli, 24o de Mil tat, o de Levi, o de Melqui, o de Janai o de José, 25o de Matatías, o de Amos, o de Naum, o de Esli, o de Nagai, ' o de Maat, o de Matatías, o de Semeín, o de Josec, o de Jodá, 27o de Joaná, o di Ressa, o de Zorobabel, o de Salatiel, o de Neri, 28o de Melqui, o de Adi, o de Cosá, o de Elmadá, o de Her, 29o de .!< • sus, o de Eliezer, o de Jorim, o de Matul, o de Levi, 30o de Simeáo, o de Judá, o de José, o de Joná, o de Eliacim, 31o di Meléia, o de Mená, o de Matatá, o de Natá, o de Davi, 32o de Jessé, o de Obed o de Booz, o de Salá, o de Naasson, 33o de Aminadab, o de Admin, o de Arni, o 3.21 Como em outras ocasióes, Lucas registra o fato da oragáo sem informar so­ bre o conteúdo. Pode-se conjecturar que pega o que se cumprirá ¡mediatamente. O céu se abre para revelar um mistério (Is 63,19; Ez 1,1). 3.22 A voz do Pai se dirige em segunda pessoa a Jesús: “tu és” (SI 2,7). No segun­ do predicado soa um eco do canto an­ gélico, eudokia. A expressáo “em figura corpórea” é enfática e própria de Lucas. 3,23-38 Este Filho de Deus é também Filho da humanidade, ben ’adam. Paulo remonta a Davi (Rm 1,3), Mateus sobe até Abraáo, Lucas até Adáo e Deus. Em últi­ ma análise, todos nós homens somos “fiIho-de-Adáo”. Nesta lista náo figura nenhuma máe; compensa-o o relevo de Maria. As genealogías sáo listas introduzidas no Génesis (Gn 5; 10; 36), amplamente exploradas em lC r 1— 4. Lucas escolhe a disposiçâo ascendente, menos usada. Embora menos que Mateus, Lucas es­ tiliza sua lista em 77 nomes, onze setenários: très até o exilio, très até Davi, dois até Isaac, très até Adáo. Algumas personagens importantes ocupam o lugar inicial

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t|t> r.sron, o de Farés, o de Judà, 34o de o de Isaac, o de Abraáo, o de Taré, il tic Naeor, 35o de Seruc, o de Ragau, o iIm l'aleg, o de Éber, o de Salá, 36o de l nina, o de Arfaxad, o de Sem, o de NnO, o de Lamec, 37o de M atusalém, o i Im IIciioc, o de Jared, o de M alaleel, o il» ( ainâ, 38o de Enós, o de Set, o de Aliño, o de Deus. A prova de Jésus (M t 4,1-11; Me 1,12s) — ^esu s, cheio de Espirito Nunto, afastou-se do Jordâo e deixoum * levar pelo Espirito ao deserto, 2duiiinle quarenta dias, enquanto o Diabo o punha à prova. Nesse tem po nào comtui nada, e no fim sentiu fome. 30 DiaIm Ihe disse:

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— Se és Filho de Deus, diz a essa pedra que se transforme em pao. 4Replicou-lhe Jesús: — Está escrito que o homem nao vive som ente de pao. 5Depois o levou a uma altura e lhe m ostrou num instante todos os reinos do mundo. óO Diabo lhe disse: — Eu te darei todo esse poder e sua gloria, porque o deram a mim, e o dou a quem quero. ;Portanto, se te prostrares diante de mim, tudo será teu. 8 Replicou-lhe Jesús: — E stá escrito: A dora rá s o Senhor teu Deus, e som ente a ele prestarás culto. 9Entáo o conduziu a Jerusalém, colocou-o no beiral do templo e lhe disse:

nu final de um setenário: Davi, Abraâo, llcnoc. Com Jésus começa a duodécima «lapa. Nela culmina a bênçâo genesiaca (Un 1,27). 4.1-13 Antes de começar seu ministérlo, Jésus é submetido à prova (cf. Eclo ,¡,1-3; Tg 1,2-4). Cheio do Espirito e mo­ vido por ele (Rm 8,13), vai repetir a expe­ riencia de Moisés e do povo no deserto (Hx 16,35; 24,18; Nm 14,33), e de certa forma a de Adâo no paraíso. Nem Adâo nom o povo superaram a prova, pois nâo estavam repletos do Espirito Santo. E pos­ to à_prova pelo “Diabo” — que nâo figura no Exodo — (compare-se 2Sm 24,1 com h versâo do mesmo fato em lC r 2 1 , 1 e veja-se Jó 1— 2). O Diabo apresenta e re­ presenta um projeto de açâo oposto ao do Pai. Como Mt, Lucas seleciona très pro­ vas exemplares, e se afasta de Mt ao colo­ car a culminante no centro. A cena repre­ senta em forma dramática, num cenário despojado, a oposiçâo dos planos huma­ nos, “diabólicos”, ao plano divino de salvaçâo; encerram urna “sensatez terrena, animal, demoníaca” (Tg 3,15). Paulo descreverá a luta no interior do homem (Rm 7,15-22). 4.2-4 A prova da fome está mencionada e explicada em Dt 8,3, da quai cita sô uma parte; no original continua: “mas de tudo o que sai da boca de Deus”. O jejum de quarenta dias é como o de Moisés (Ex

34,28) ou de Elias (IRs 19,8). O Diabo apela ao título proclamado no batismo: “se és Filho de Deus”; supondo que esse títu­ lo outorgue autoridade e poder para trans­ mutar os elementos em proveito próprio (cf. Sb 19,18-22). Precisamente enquanto Filho, Jesús deve depender confiadamente do Pai (Le 12,22-31). 4,5-8 Olhar mais ampio que a visáo de Abraáo (Gn 13,14-15) ou de Moisés (Dt 34,1-4). O Diabo pretende ser senhor do mundo e dispor dele á vontade (ver 2Cr 4.4), talvez alusáo ao culto imperial. E um poder que compete só a Deus: “O Altíssimo é senhor dos reinos humanos e dá o poder a quem ele quer” (Dn 4,22; Jr 27,7). A condigáo do Diabo é prostrar-se (como em Dn 3.5), reconhecendo seu dominio e suas leis para triunfar. Na proposta, descobrimos o diabólico da ambigáo, do poder incontrastado. Jesús responde concisamente, ci­ tando um texto fundamental e muito conhecido (Dt 6,13). Ele receberá o poder do Pai (Le 10,22), náo do Diabo, e executando o plano do Pai; e náo pretenderá a “gloria” mundana, e sim a do Pai. 4,9-12 A terceira prova discorre a gol­ pes de “argumentos da Escritura”. O Dia­ bo apela de novo ao título de Filho de Deus, em virtude do qual e com um gesto inútil e suicida poderá provocar a inter­ v en g o divina prometida. Como confirma­ d o , cita um grande salmo de confianza (91,11); acaba sendo irónico que esse sal-

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— Se és F ilho de Deus, lanqa-te para baixo, wp o is está escrito que deu ordens a seu s an jo s para que te guardem n e te levaráo em suas palmas, para que teu p é nao tropece na pedra. l2 R eplicou-lhe Jesús: — Está dito que nao porás á prova o Senhor teu D eus. 13C oncluída a prova, o Diabo afastou-se dele até outra ocasiáo. Na sinagoga de Nazaré (Mt 13,53-58; Me 6,1-6) — 14Impulsionado pelo Espi­ rito, Jesús voltou á Galiléia, e sua fama estendeu-se p o r toda a regiáo. 15Ensimo cante o poder sobre as forças demonía­ cas. Jesús cita Dt 6,16. Pôr Deus à prova é pedir-lhe ou exigir dele milagres injusti­ ficados; como no exemplo clássico de Massa e Meriba (Ex 17,1-7; Nm 20,1213; SI 95,8). 4,13 Termina a prova (Hb 4,15), até ou­ tra ocasiáo: a do poder das trevas (22,53) ou quando o Diabo entrar em Judas (22,3). 4,14-15 Entre dois sumários ( 14-15 e 4044), Lucas coloca duas cenas importantes: a declaraçâo na sinagoga de Nazaré, a cura do endemoninhado na sinagoga de Cafarnaum; mais um milagre doméstico. A primeira parte do seu ministério se desenvolve na Galiléia, a principio com éxito. Age sozinho, pois na composiçâo de Lucas aín­ da náo chamou os discípulos. Os sumá­ rios têm funçâo de marco, pois a cena de Nazaré funciona como a auto-apresentaçào pública. Superada a prova, o Espirito continua guiando-o: do deserto ao cenário da primeira atividade. Ñas sinagogas, lugar de oraçâo e catequese, começa a ressoar a voz do Messias: apesar de respeitado, ainda náo reconhecido como tal. 4,16-30 Lucas captou e plasmou um momento culminante na historia da humanidade. Foi registrando detalhes para au­ mentar a curiosidade dos presentes e a expectativa dos leitores. Fez soar a noti­ cia sensacional e deixou que provocasse estupor, tensáo, luta dramática. Aceña vem a ser programática: síntese e modelo da pregaçâo de Jesús. Apresenta-se como Mes­ sias, provoca um entusiasmo passageiro, segue-se a dúvida e a rejeiçâo e a tentativa

nava em suas sinagogas, respeitado por todos. 16Foi a Nazaré, onde se criara, e se­ gundo seu costume entrou no sábado na sinagoga e se pds de pé para fazer a leitura. n Entregaram-lhe o rolo do pro­ feta Isaías. Desenrolou-o e encontrou o texto que diz: 1 8 0 Espirito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para que dé a boa noticia aos pobres; enviou-m e a anunciar a liberdade aos cativos e a vis&o aos cegos, para por em liberdade os oprimidos, 1 9 para pro­ clam ar o ano de graqa do Senhor. 2í)Enrolou-o, entregou-o ao servente e sende homicidio. Sucede com os camponeses da terra natal, sucederá com o povo ao qual pertence. 4,16-17 Jesus segue o rito habitual. No culto semanal da sinagoga se ora e se can­ ta, se le urna perícope da Lei (Torà) e de­ pois outra dos profetas. Ambas estáo es­ critas em rolos de pergaminho, que se conservam na sinagoga, e um funcionário apresenta e guarda. Acrescenta-se um comentário. Qualquer assistente adulto pode solicitar o privilègio de 1er e comentar. Lé­ se de pé e se comenta sentado. Jesús se adapta ao ritual e lè a perícope indicada: Is 61,1-2, citada por Lucas segundo a versáo grega, que substitui um versículo por 58,6 e suprime a frase final. 4,18-19 Dois verbos do texto original adquirem nova ressonáncia: trazer urna boa noticia e proclamar ou apregoar. Aboa noticia leva como denominador comum a liberta§áo de qualquer espécie de opressáo: física, os cegos; económica, os pobres; política, os cativos. Esse é o ano jubilar anunciado, assim definido e proclamado em nome do Senhor (náo importa que seja o ano quinze do imperador Tiberio, 3,l). No texto, um profeta anònimo fala na primeira pessoa: quem o pronuncia? Con­ forme o eu que o pronuncie, assim será o alcance real das palavras. Muitos leram os versículos, e o seu sentido sempre ficava a meio caminho. Até que chegue o eu que o pronuncia autenticamente: quando este o pronunciar, o texto se terá cumprido, estará “cheio” de sentido. É isso que acon­ tece, “hoje”, na presenta de um grupo pri­ vilegiado. Jesús náo le apenas um texto

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lou. A sinagoga inteira tinha os olhos Iixos nele. 21Ele comegou dizendo-lhes: — Hoje, em vossa p resenta, cumpriu-se esta Escritura. 22Todos o aprovavam, admirados com i-ssas palavras sobre a gra§a* que saiam ile sua boca. E diziam: — Mas nao é este o filho de José? 23Ele lhes respondeu: — Sem dúvida me diréis aquele rel'ráo: médico, cura-te a ti mesmo. O que ouvimos que aconteceu em Cafarnaum, laze-o aqui, em tua cidade. 24E acrescentou: — Asseguro-vos que nenhum profe­ ta é aceito em sua pàtria. “ Certam ente, vos digo, havia muitas viúvas em Israel no tempo de Elias, quando o céu este-

ve fechado tres anos e meio e houve grande carestía em todo o país. 26A nenhum a délas foi enviado Elias, a náo ser á viúva de Sarepta, na Sidónia. 27Havia m uitos leprosos em Israel no tem ­ po do profeta Eliseu; ninguém ficou curado a náo ser o sirio Naamá. 28Ao ouvir isso, todos na sinagoga se indignaran!. 29Levantando-se, expulsaram -no para fora da cidade e o levaram a um precipicio do monte sobre o qual estava construida a cidade, com intengáo de precipitá-lo de lá. 30Ele, porém, passando entre eles, foi-se embora. O e n d em o n in h ad o (M e 1,21-28) — 31Desceu a Cafarnaum, cidade da Gali­ léia, e aos sábados ensinava o povo.

casual da Escritura. Lè o seu texto, é eie que lhe dà sentido. Declara-se ungido pelo Espirito, e a un§ào tem aqui sentido mes­ siànico (SI 2,7). E o ungido por antono­ màsia, o Messias. Suprime urna cláusula, que podía soar (especialmente na Galiléia) em tom nacio­ nalista: “o dia da desforra do nosso Deus”. A mensagem de Deus é inteiram ente libertadora, e náo coincide com a visáo tre­ menda do Batista (3,7-17). 4,22 *Ou palavras atraentes. A reagáo do povo está exposta em termos ambiguos. Testemunhar, segundo o contexto, o obje­ to ou a construgáo, pode ser a favor ou contra; o mesmo vale para admirar-se. Caberia traduzir: “declaravam-se contra... estranhavam...”; é mais freqüente e provável o sentido positivo (com dativo, como cm At 10,43; 13,22; 15,8). Segundo ele, acontece urna reagáo ¡mediata, de aprovagáo e admiragáo pelo seu comentário so­ bre “a graga” do texto lido. Recebem como “boa noticia” a chegada do suspirado e esperado momento da libertagáo. Mas que seja Jesús o Messias profetizado, isso é outro assunto. A seguir, essa impressáo espontánea se opóe aos antecedentes conhecidos do jovem nazareno, e se impóe a dúvida: pode o filho de José ser o Mes­ sias? “Filho de José” é a crenga do povo; Lucas está mais a par. A dúvida pede pro­ vas: um milagre como os que se contam. A incredulidade vence.

4,23-27 A incredulidade provoca o ensinamento polémico de Jesús, antecipando a objeçâo ou adivinhaçâo dos pensamentos: “Náo chegou a palavra à boca, e já a sabes toda” (SI 139,4). Cita Elias e Eliseu como taumaturgos a serviço dos pagaos (IRs 17,1-7; 2Rs 5,1-27). O Messias será como eles e mais ainda: aponta-se para a missáo aberta da Igreja. Como se aplica o refráo? (Cf. 23,35). — Cura a ti e aos teus; ou entáo: curar teus conterráneos será tua cura, para que sejas acreditado. Ou é um insulto: começa curando-te, pois precisas. E acrescenta a frase que se tomou proverbial na fórmula “ninguém é profeta em sua pátria”. 4,28-29A isso responde a indignaçâo dos conterráneos. Se Jesús náo confirma sua pretensáo com um milagre, é usurpador do título messiánico e merece a morte. A Bi­ blia nada fala do precipitar no abismo como forma de execuçâo. Acaba sendo macabro que o suposto lugar do nascimento (ou in­ fancia) seja o da execuçâo capital. A tenta­ tiva falha, porque náo chegou a sua hora. Lucas antecipou os fatos numa composiçào dramática. 4,31-32 Repete-se o esquema do ensinamento e a reaçâo favorável do povo. Fala com autoridade própria, náo citando fontes alheias. Nem ratina nem imposiçâo; a autoridade brota de uma plenitude. A sua palavra transmite força de convicçâo e náo precisa de reforços alheios. A seguir se acrescenta o milagre.

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32Estavam assom brados com seu ensipor eia. 39Ele se inclinou sobre eia. n namento, pois falava com autoridade. preendeu a febre, e eia passou. Imcdm 33Havia na sinagoga um homem postamente levantou-se e se pòs a servi li > ■ suido pelo espirito de um demonio ¡mun­ 40Ao pór-do-sol, todos os que tinham do, que comegou a gritar: doentes atingidos de diversos males i • — 34 Ah! que tens comigo, Jesús de levavam a ele. Ele punha as máos su Nazaré? Vieste para nos arruinar? Sei bre cada um e os curava. quem és: o consagrado de Deus. 41De muitos saíam demonios, gritan 35Jesus o repreendeu: do: Tu és o filho de Deus. Ele os repie — Cala e sai dele. endia e nào os deixava falar, pois sa O dem onio o arremessou no meio e biam que ele era o Messias. saiu dele sem causar-lhe daño. 42De manhá saiu e se dirigiu a um 36Ficaram todos estupefatos e comenlugar despovoado. O povo o procui.i tavam entre si: va, e quando o alcangaram, o seguía — O que significa isso? M anda com vam para que nao fosse embora. 43M;i autoridade e poder nos espíritos ¡mun­ ele lhes disse: dos, e saem. — Tenho que levar tam bém ás de 37Sua fam a se espalhou por toda a mais cidades a boa noticia do reinado regiáo. de Deus, pois para isso fui enviado. 44E pregava ñas sinagogas da Judéin C uras e pregagáo (M t 8,14-17; Me 1,29-39) — 38Saiu da sinagoga e entrou C ham a os prim eiros discípulo-. em casa de Simáo. A sogra de Pedro (M t 4,18-22; Me 1,16-20; Jo 1,35 estava com febre alta, e lhe suplicaram 51) — 'A multidáo se com prim ia ao

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4,33-37 Segundo a mentalidade da épo­ ca, a doenga é atribuida a um poder ma­ ligno personificado; a cura é exorcismo. Nao contamina um demonio ¡mundo o re­ cinto religioso da sinagoga? Pelo menos é inconciliável com a presenga “santa” de Jesús: “Que concordia tem Cristo com Belial?” (2Cor 6,15). O demonio pronun­ cia nome e títulos do exorcista, quer para neutralizá-lo, quer por despeito da derro­ ta. O título “consagrado”, santo de Deus, parece ter aqui alcance messiànico (simplesmente sacerdotal em SI 106,16). O demonio teme pelos do seu grupo, “nós”. Jesús pronuncia duas ordens categóricas. “Cala”: que nao diga seu nome e título; “sai”: de teus dominios ilegítimos. Real­ mente Jesús vem “acabar com eles”. “Re­ preendeu” é o verbo que se diz de Deus debelando rebeldías (Zc 3,2 a Sata; SI 68,31; 106,9). O povo, que admirou a “autorida­ de” do seu ensinamento, admira agora “a autoridade do seu poder sobre o demonio”. 4,38-39 Lucas menciona Simáo, que ele ainda nào apresentou: a comunidade (e o leitor) sabia de quem se tratava. A doente jaz sobre urna esteira e Jesus, de pé, a do­ mina de cima. Nào lhe fala; dirige-se à

febre como antes ao demònio (v. 35, vei bo epitimaó). Eia fica curada de ¡mediati > e táo perfeitamente, que se pòe a servir os hospedes. E um milagre doméstico, fami liar, realizado de forma rápida. 4,40-41 Sumário de curas, ñas quais doenca e possessáo se misturam. O tato corporal realiza e expressa a transmissáo do poder curador a cada um dos doentes Ao invés, aos demonios ele “conjura” (o mesmo verbo do v. 35), e náo aceita deles o título messiànico “filho de Deus”. 4,42-44 Sumário de viagern apostólica. O afà de Jesus pelo retiro acaba sendo váo: sinal da popularidade que vai alcanzando. Náo pode confinar-se num lugar, porque a sua missáo é difundir “a boa nova” (3,18; 4,18) do reino de Deus. É curioso que no sumário o autor salta da Galiléia á Judéia, antecipando os acontecimentos, a fim dealargar o sumário. Como se dissesse que o acontecido na Galiléia era exemplar. Je­ sús se considera “enviado” — pelo Pai — e guiado pelo Espirito. Desta “missáo” partem as outras. 5,1-6,16 Nova segáo. Lucas nos apre­ sentou a ungào messiànica de Jesús no

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uilui dele para escutar a palavra de I •• II-., enquanto ele estava á beira do de (íenesaré. 2Viu duas barcas junln ,i margem, pois os pescadores hai iiiin descido e estavam lavando as reih'ii 'Subindo a urna das barcas, a de ' . i m i . i o , pediu-lhe que se afastasse um |inm < > da térra. Sentou-se e, da barca, iiiincgou a ensinar o povo. 4Quando ii iininou de falar, disse a Simáo: Rema lago adentro ejo g a as redes |nii;i pescar. Keplicou-lhe Simáo: Mestre, labutam os a noite inteira «»•ni nada conseguir; porém, já que o ili/.cs, jogarei as redes. ' Tizeram isso e apanharam tamanha i|ii;intidade de peixes que as redes se Imlismo, a prova no deserto, a auto-aprennilagáo em Nazaré. Cotn algum fato par­ ticular e com visóes panorámicas nos mosnou o cometo de um ministerio de Jesús i iim tendencia expansiva. Para realizar a i'xpansáo, Jesús cerca-se de colaboradoi i - s , tema que domina essa segáo. Está cuidadosamente composta de sete pegas (!). A primeira, a quarta e a sétima sao vocagóes: dos pescadores ( 1 ), do coletor (4), dos doze (7). De ambos os la­ tios da central: duas curas em atengáo á fé (2 e 3); duas controvérsias sobre observáncia pela rejeigáo dos fariseus. 5,1-11 No relato de Lucas, até agora Jesozinho, no territorio da Galiléia. [Jai para a frente vai alargar seu campo de ngáo e rodear-se de colaboradores. Lucas náo se contenta em contar sucin­ tamente chamado e resposta; mas narra-o de modo que aparega como projegáo anlecipada do que será a missáo apostólica da Igreja. Como agáo simbólica explicada por Jesús, como antecipagáo do dom ge­ neroso. 5,1 O primeiro chamado tem como cenário as multidóes; no entanto, Jesús se afasta para expor-lhes “a palavra de Deus”, fórmula que a liturgia popularizou e que designa a mensagem evangélica. As duas posturas de Jesús definem sua atitude: de pé, comprimido pelo povo, ensinando sen­ tado. Em seguida, sobre o fundo realista de pescadores em agáo, toma forma o renus age

rompiam. 7Fizeram sinais aos socios da outra barca para que fossem ajudá-los. Chegaram e encheram as duas barcas, que quase afundavam . 8Ao ver isso, Simáo Pedro caiu aos pés de Jesús e disse: — Afasta-te de mim, Senhor, pois sou um pecador. 9Pois o espanto se havia apoderado dele e de todos os seus companheiros por causa da quantidade de peixes que havia pescado. 10O mesmo acontecía com Joáo e Tiago, que eram socios de Simáo. Jesús disse a Simáo: — Náo tem as, daqui para a frente pescarás homens. n Entáo, atracando as barcas á térra, deixaram tudo e o seguiram. lato teológico do chamado, claramente concentrado na pessoa de Pedro. 5,3 O oficio empírico será o objeto do prodigio e a imagem do novo oficio (em outro sentido Jr 16,16 e Hab 1,14). O pes­ cador oferece sua barca como plataforma ou tribuna para o Mestre. 5,4-7 Pedro vai experimentar seu fracasso humano, seu éxito ao obedecer a Jesús; suas palavras, entre reticentes e con­ fiadas, expressam estima e respeito: “já que o dizes”. Efetivamente, a ordem de Jesús compensa fadigas e transborda em expectativas. 5,8-10 Mais importante, Pedro tem de descobrir sua condigáo pecadora revelada pela presenga e atuagáo de Jesús, o Santo, e como paño de fundo do chamado: de modo semelhante a Isaías, “eu, homem de lábios impuros” (Is 6,5); como o salmista: “Puseste nossas culpas diante de ti, nossos segredos á luz do teu olhar” (SI 90,8). Como pecador, sente que Jesús deve afastar-se do seu contato; mas o chamado pede mais, como que urna reconciliagáo. 5,10-11 Pescar é imagem de apostolado, como será depois o pastoreio; o pescador vive em mais contato com a natureza, está mais exposto aos azares dos elementos e á sorte da faina. A abundáncia da pesca pode simbolizar para a comunidade a expansáo da Igreja. Simáo é o primeiro; quando “cai aos pés” de Jesús, já tem o nome oficial de Simáo Pedro. Ao final da cena se acrescentam os dois irmáos que formaráo o trio

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C u ra um leproso (M t 8,1-4; Me 1,4045) — 12Encontrava-se num povoado em que havia um leproso; este, vendo Jesús, caiu com o rosto por térra e lhe suplicava: — Senhor, se queres podes curar-me*. 13Estendeu a máo e o tocou, dizendo: — Quero, fica curado. Imediatamente a lepra desapareceu. 14E Jesús lhe ordenou: — Nao o contes a ninguém. Vai apresentar-te ao sacerdote e, para que lhe dos íntimos. Ao chamado respondem com o seguimento ¡mediato e incondicional. 5.12-26 Em duas curas revela-se o po­ der de Jesus. Em comum tèm a gravidade da doenga e a atitude de fé. Estáo dispos­ tas em pregressa«: por ser mais grave a paralisia, pela passagem ao perdáo dos pecados e pela oposigáo nascente dos fariseus e dos letrados. 5,12 *Ou: limpar-me. 5.12-14 Embora nao se trate de lepra em sentido clínico, o homem sofría de urna gra­ ve doenga da pele que o afastava do convi­ vio social e do culto (Lv 13,45-46; cf. Lm 4,15). Já curado, tinha de apresentar-se ao sacerdote para que este confirmasse ofi­ cialmente a “limpeza” legal e para levar urna oferenda de a§áo de gragas (Lv 14). O doente eré no poder de Jesus. A prostratilo e o título Senhor soam no evangelho com acento cristáo. Jesús nao teme contagiar-se tocando o impuro, antes, cura-o com seu contato. Os sacerdotes diagnosticam, Jesús cura. Pode-se contrastar este breve relato com o milagre da água do Jordáo, dirigido por Eliseu (2Rs 5). 5,15-16 Lucas considera importante a no­ ticia e a insere entre as duas curas: o desejo de solidáo e oraqáo de Jesus. É um dado que nao se presta a descrigáo dramática nem a encenagáo (cf. Eclo 39,9-10). A sobriedade do narrador responde á discrigáo do Mestre. (Compete ao leitor deter-se res­ petosamente.) 5,17-26 Até agora Jesus curou corpos e expulsou demonios. Pois bem, a missáo primària do Messias é perdoar pecados (Mt 1,21; cf. Le 1,77; 3,3). Fá-lo-á num caso exemplar. Na espiritualidade do Antigo Testamento aparecem, em diversas conexóes, doenija e pecado e hostilidade. Um

conste, leva a oferendade tua cura estabelecida por Moisés. 15Sua fama se difundía, de sorte que grandes multidôes acorriam para escutá-lo e para serem curadas de suas enfermidades. 16Mas e le se retirava a lugares solitários para arar. C u ra um paralítico(Mi 9,1-8; Me 2,112) — 17Certo dia, quando estava ensinando, assistiam sentados alguns fari­ seus e jurisconsultos* que vieram de exemplo importante éoferecido pelo Sal­ mo 38; interessa tambémo Salmo 41, pela mençâo do leito. Os trèsmotivos funcionam neste caso, com umarepartiçâo e um desenlace diferente: doença/cura, pecado/ perdâo, hostilidade/demonstraçâo. Apresentam-lhe um doente incurável, e Jesús vai direto à raiz, o petado; de modo provocatorio, desafiante, Este milagre é especial, porque se realiza como prova de um poder: inferior numsentido, “mais fá­ cil”, superior em outro sentido: “quem, exceto Deus”. Esse “filho de Adáo”, Ho­ mem por antonomàsia, recebeu entre seus poderes o de perdoar pecados. O enfermo é simplesmente “homem" (18.20). Judeus observantes eperitos na interpretaçâo da lei acorreram inclusive da Judéia e da capital, talvez coma finalidade de inspecionar. Lucas am plia a concorréncia para dar a impressáo deumconfronto glo­ bal. Na mentalidade da época, a doença estava ligada ao pecado, como efeito ou como síntoma. Os queempregam seu engenho e esforço para apresentar-lhe o en­ fermo buscam a saúde corporal. Jesus vai ao fundo, percebe a fé (também do doen­ te) e sua boa disposiçâo, epronuncia urna fórmula de absolviçâo(navoz passiva, cf. SI 32,1-2). Jamais um profeta ou sacerdo­ te pronunciaram palavras semelhantes; perdoar pecados é competência de Deus (Is 43,25; SI 130,4). 0 verbo slh sempre tem Deus por sujeito, e na voz passiva é conseqüência da expiaçâo ritual. Quem se arroga tal autoridade, blasfema (Lv 24,1116). Assim, o primeiro confronto de Jésus com seus rivais acontece na frente mais avançada: a libertaçâo do pecado. Embora a forma passiva “sâo perdoados” pudesse ser entendida como teologi-

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todas as aldeias da Galiléia e Judéia e também de Jerusalém. Ele tinha força do Senhor para curar. 18Uns homens, que levavam um paralítico num a maca, tentavam introduzi-lo e colocá-lo diante de Jésus. 19Nào encontrando modo de fazê-lo, por causa da multidâo, subiram ao terraço e, entre as telhas, o descerara com a maca, no centro, diante de Jé­ sus. 20Vendo a fé deles, disse-lhe: — Homem, teus pecados estâo perdoados. 21Os fariseus e os letrados começaram a pensar: — Quem é esse que diz blasfêm ias? Quem, exceto Deus, pode perdoar pe­ cados? 22Jesus, lendo seus pensamentos, respondeu-lhes: — 230 que é mais fácil? Dizer: teus pecados estâo perdoados, ou dizer levanta-te e anda ? 24Pois para que saibais que este homem tem autoridade na ter­ ra para perdoar pecados — disse ao pa­ ralítico— , falo contigo: levanta-te, carrega tua maca e vai para casa. [mediatamente se levantou diante de todos, carregou o que havia sido seu ca, com Deus como agente da passiva, Je­ sús náo se refugia nessa possível interpretaçâo, antes aguça a controvérsia. Na ter­ ra e como homem, ele mesmo tem esse poder e veio exercé-lo. 5,17 A força do Senhor: Jr 10,6; SI 66,7; Jó 12,13. *Ou doutores da Lei. 5.25 O paralítico entoa urna espécie de liturgia de louvor a Deus, e a multidâo se une ao louvor. É o ritmo clássico dos salmos. 5.26 Coisas incríveis sáo a cura de uma doença incurável, que fazia do doente um morto vivo. Também o poder de Homem para perdoar pecados. Para a comunidade de Lucas e para seus leitores, a purificaçâo do impuro e o perdáo dos pecados tém ressonáncias batismais (cf. lPd 3,21). 5,27-32Aceña tem duas partes. Pela primeira se enlaça com o chamado (5,1-11); pela segunda continua o processo dos confrontos. O coletor é tido como “pecador”. Toma seu oficio por arrendamento da autorida-

leito e foi para casa, dando gloria a Deus. 26Cheios de espanto, diziam: — Hoje vimos coisas incríveis. C h a m a Levi (Mt 9,9-13; M e 2,13-17) — 27Pouco depois saiu e viu um coletor, chamado Levi, sentado diante da mesa dos impostos. Disse-lhe: — Segue-me. 2SDeixando tudo, levantou-se e o seguiu. 29Levi Ihe ofereceu grande banque­ te em sua casa. Havia grande número de coletores e outras pessoas sentados à mesa com eles. 30Os fariseus e letra­ dos murm uravam e perguntavam aos discípulos: — Como é que coméis e bebeis com coletores e pecadores? 31Jesus lhes replicou: — Os sadios náo tém necessidade de m édico, e sim os doentes. 32Náo vim cham ar justos, mas pecadores para que se arrependam. S obre o je ju m (M t 9,14-17; M e 2,1822) — 33Eles lhe disseram: — Os discípulos de Joáo jejuam com freqtiência e fazem suas oraçôes, bem de romana e aproveita-se dele para enriquecer-se à custa do povo. Ladrâo e cola­ boracionista. Sáo esses os antecedentes. Chamado e resposta, na brevidade despo­ jada com que se apresentam, mostram toda a sua força. A segunda parte é o banquete de despedida e de homenagem ao novo senhor. A objeçâo dos rivais (cf. SI 104,2122; Pr 29,27) Jesús responde irónicamen­ te com um aforismo: há doentes que, por se considerarem sáos, recusam o médico e se tomam incuráveis (cf. Eclo 38,1-15). A dor é um mecanismo que delata a doen­ ça; por isso acorrem tantos doentes a Je­ sús. Em troca, nem todos sentem a dor pelo pecado. A espiritualidade de observáncias chega a suprimir semelhante dor. Levi é modelo do pecador arrependido e perdoado que se converte em apóstolo. 5,33-35 Terceiro momento de confron­ to: a propósito de jejuns voluntários como prática ascética de determinados grupos religiosos. O Messias se apresenta como esposo: título reiterado de Yhwh no AT (Os

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como os dos fariseus; os teus, ao con­ tràrio, comem e bebem. 34Jesus lhes respondeu: — Podéis fazer jejuar os convidados ao casamento, enquanto o noivo está com eles? 35Chegará o dia em que o noi­ vo lhes será arrebatado; entáo jejuaráo. 36E lhes propòs urna comparagáo: — Ninguém rasga um retalho de um manto novo para rem endar um velho. Pois seria rasgar o novo, e o remendó do novo náo cai bem no velho. 37Ninguém póe vinho novo em odres velhos; pois o vinho novo arrebentaria os odres, se derramaría e os odres se estragariam. 38 Deve-se por o vinho novo em odres novos. 39Ninguém que tenha bebido o velho deseja o novo, pois diz: bom é o velho.

0 sáb a d o (M t 12,1-14; Me 2,23 28; 3,1-16) — *Num sábado em que atravessava algumas plantagóes, seus discípulos arrancavam espigas, as debulhavam com as máos e comiam os gráos. 2Alguns fariseus lhes disseram: — Por que fazeis urna coisa proibida no sábado? 3Jesus lhes respondeu: — Náo lestes o que fez Davi com seu pessoal quando estavam famintos? 4En trou na casa de Deus, tomou páes apresentados — que só aos sacerdotes é permitido comer — , comeu e repartiu com os seus. 5E acrescentou: — Este Homem é senhor do sábado. 6Noutro sábado, entrou na sinagoga para ensinar. Havia ai um homem que

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2; Is 49; 54; 62; Ez 16 etc.), aplicado a Jesús no NT (Ef 5,22-32). O casamento é tempo de alegría compartilhada (Jr 16,89; Ct 3,11; 5,1; SI 45). De “comer e be­ ber” (5,30). Mas Lucas conhece já o tem­ po em que Jesús lhes foi arrebatado (Is 53,8): o tempo da Igreja. 5,36-39 Com a imagem do casamento podem-se conciliar a da roupa e do vinho. Ambas tém associagóes nupciais (p. ex. Is 52,1; 61,10; SI 45,9; Ct 2,4; 8,2) e servem para explicar a “novidade” (“renovando seu amor” diz Sf 3,17, e o portugués “noi­ vo” vem de novum). “Antigo”, velho, é o adjetivo que Paulo aplica á alianqa de Is­ rael (2Cor 3,14). A imagem dos odres (Jó 32,19). Ambas as imagens sao muito expressivas, como se disséssemos: o Messias náo vem para por remendos em panos gastos, traz um vinho que fermenta vida nova. 5,39 Náo se refere ao antigo, de melhor qualidade, mas ao costumeiro, o de sempre. 6,1-5 Quarto momento de confronto. O primeiro versículo da cena apresenta um grupo itinerante, necessitado, sem um sus­ tento cotidiano garantido. Para eles náo há milagre. Os detalhes descritivos tém urna fungáo na controvérsia. Segundo a interpretagáo rabínica do descanso sabático, os discípulos fazem urna agáo proibida, náo como roubo, mas como trabalho (ef. Dt

23,26). Segundo Ex 34,21, o descanso sa­ bático obriga também “na semeadura e na ceifa” (sobre o maná e o sábado, Ex 16,1930). Jesús argumenta a pari com um caso da historia de Davi (ISm 21,1-6), no qual urna lei cultual (Lv 24,5-9) fica suspensa por necessidade maior; Davi o fez “na casa de Deus” com aprovagáo do sacerdote. Aquilo que é o templo no espado é o sába­ do no tempo (cf. Ex 31,12-18). A linguagem parece enfática: “tomou, comeu, re­ partiu”. Passando por cima da Escritura, Jesús apela ao poder recebido, que se sobrepóe também á veneranda instituigáo do sábado (Ex 20,8; Is 58,13; Jr 17; Ne 13,1520). Mas náo apela para a sua dignidade messiànica como descendente de Davi, e sim á sua condigáo humana excepcional. Náo só a interpretado dos doutores, mas também a pròpria lei fica em segundo pla­ no; e na igreja o sábado será substituido pelo “dia do Senhor” (kyriaké, dominica, Ap 1,10). 6,6-11 Quinto momento do confronto. O progresso está marcado, porque dessa vez Jesus se adianta a desafiar os rivais e pelo desenlace ominoso. A sinagoga é o lugar do ensinamento de Jesús, que é mais importante ainda que a cura, porque por meio da controvérsia eleva a principio o caso particular. Ensina com a palavra e dá urna liQáo com o milagre explicado. Lucas atribui a letrados e fariseus uma intengáo

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linha urna máo paralisada. 7Os letrados os fariseus o espiavam para ver se eurava no sábado, para ter algo de que acusá-lo. 8 Ele, lendo seus pensamentos, disse ao hom em da máo paralisada: — Levanta-te e póe-te de pé no meio. Ele se pos de pé. 9Depois se dirigiu a cíes: — Eu vos pergunto o que é perm iti­ do no sábado: fazer o bem ou o mal, salvar urna vida ou destruí-la. 10Depois, olhando todos á sua volta, disse ao homem: — Estende a máo. Ele o fez e a máo ficou restabelecida. M Eles ficaram enfurecidos e deliberavam o que fazer com Jesús.
c

Escolhe os doze (M t 10,1-4; M e 3,1319) — 12Naquele tempo, subiu a urna m ontanha para orar e passou a noite orando a Deus. 13Quando se fez dia, chamou os discípulos, escolheu entre eles doze e os chamou apóstolos: 14Simáo, a quem chamou Pedro, André, seu irmáo, Tiago e Joáo, Filipe e Bartolo­ meu, 15M ateus e Tomé, Tiago de Alfeu e Simáo o zelota, Judas de Tiago 16e Judas Iscariot, o traidor. S erm áo na planicie (Mt 4,23-25; 5,112) — 17Desceu com eles e se deteve numa planicie. Havia grande número de discípulos e grande multidáo do povo, vindos de toda a Judéia, de Jerusalém,

má: espiam em silencio: “homens cruéis me espreitam emboscados” (SI 59,4) para acusá-lo diante da autoridade suprema (ver o caso de Daniel, Dn 6,12). Na doenga se antecipa a morte (SI 30,34; 41; 88,2-7); por isso, curar é fazer o bem, arrancar ou afastar da morte. Omitir o so­ corro possível em tais circunstáncias é fa­ zer um mal. O doente centraliza e concen­ tra a atenqáo. Pois bem, a vida é mais importante que o sábado (comparar com IMc 2,32-41). Jesús leva a questáo ao ter­ reno do bem e do mal, da vida e da morte, como fizera Moisés: “Hoje ponho diante de ti a vida e o bem, a morte e o mal” (Dt 30,15.19). Jesús provoca e desafia os de­ suníanos intérpretes da lei, “que ditam in­ justicias invocando a lei” (SI 94,20), e eles por falta de razóes reagem com o rancor. Em resumo escalonado: defender a própria autoridade, defender a autoridade da lei, defender a vida humana. 6,12 Com énfase e acumulando detalhes Lucas registra a oragáo de Jesús. Sai da massa entusiasta e dos rivais hostis, sobe á “montanha”, lugar do encontro com Deus (IRs 19), “passa a noite” (SI 1,2; 42,4; 119, 55) “orando”. Sobre o conteúdo da oragáo de Jesús, os sinóticos sáo muito sobrios: uma efusáo (10,21-22), Getsémani (22,3946); Joáo é mais explícito. No contexto, cssa oragáo prepara a eleicáo dos doze e o grande discurso da planicie. 6,13-16 terceiro texto de eleigáo. Nesse texto com seu contexto já aparece uma

estrutura da comunidade. Em círculos con­ céntricos situam-se o povo, os discípulos, os doze. Pedro figura sempre em primeiro lugar e Judas Iscariot no último. O grupo é heterogéneo: há dois nomes gregos, um ex-colaboracionista (identificando Mateus com Levi), um ex-simpatizante dos extre­ mistas zelotas, e até um traidor. Jesus tem a iniciativa da eleigáo (no AT Yhwh: ISm 10,24; SI 78,68.70); impóe o título de “apóstolos”, que se aceita sem discussáo (ICor 12,28; Ef 2,20), título que define a fungáo e muda o nome de Simáo. O nome implica nomeagáo. Significa en­ viado em geral e legado em particular. Sáo doze, como as tribos que formam o Israel clàssico. Sáo doze como corpo ou colégio. No tempo da Igreja, embora os doze tenham um lugar único, o título se esten­ de e se aplica com maior facilidade; e for­ ma derivados, como apostólico, aposto­ lado etc. 6,17-19 O novo sumário, de ensinamento e curas, serve de fundo ao discurso que se segue. Como Moisés, Jesús desee da montanha para dirigir-se ao povo. O nar­ rador insiste na multidáo de discípulos e de povo. Amplia o àmbito da proceden­ cia: da capital e da sua provincia (náo se menciona a Galiléia) até a costa pagá de Tiro e Sidónia (10,13-14). Essa afluéncia significa primeiro uma reuniáo da diàs­ pora; num segundo tempo simboliza a igre­ ja de judeus e pagáos. Jesus atrai por seu ensinamento (11,31); é um dado que pre-

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6.18
21 Felizes os que agora passais fomc, porque vos saciareis. Felizes os que agora choráis, porque rireis. 22Felizes quando os homens vos odiarem, vos desterrarem, vos insultarem, denegrirem vosso nome por causa deste Homem. 23Saltai entáo de alegría, por­ que vosso prêmio no céu é abundante * Assim vossos pais trataram os profetas.

da costa de Tiro e Sidônia, 18para escutà-lo e curar-se de suas enfermidades. Os atormentados por espiritos imundos ficavam curados, 19e toda a m ultidào tentava tocar nele, porque dele saia urna força que curava a todos. 20Dirigindo o olhar aos discípulos, dizia-lhes: — Felizes os pobres, porque o reina­ do de Deus lhes pertence. para o próximo discurso; e por seu poder curador, que se transmite por contato. Po­ demos fular do poder de Deus encarnado em corpo humano, do poder vivificante que “nossas màos tocam” (lJo 1,1). Dos possessos se diz que “eram curados”. 6.20-49 Como nâo houve mudança de lugar, o autor parece ater-se à noticia que acaba de dar: “numa planicie”; com o que o “sermáo da montanha” em Mateus muda de nome em Lucas. O discurso se divide em très partes: as bem-aventuranças e malaventuranças (20-26), o preceito do amor (27-38), parábolas e comparaçôes (39-49). 6.20-26 A proclamaçâo programática de Lucas distingue-se marcadamente da de Mateus. Pela composiçâo: divide-se em duas estrofes paralelas e antitéticas, que correspondem a dois géneros literários. Cada estrofe articula-se em très peças concisas e urna desenvolvida. Pelo conteúdo: as très equivalem a variaçôes ou mostram aspec­ tos da mesma realidade. Náo há atitudes po­ sitivas (como beneficencia, trabalho pela paz). A pobreza nao está qualificada pela interioridade. Talvez a versáo de Lucas es­ teja mais próxima da forma original. Os dois géneros literários estáo bem estabelecidos no AT. A bem-aventurança (macarismo, ’ sry) é freqüente sobretudo nos salmos e sapienciais. A mal-aventurança (Ai de!, hoy) é profètica (ou fúne­ bre). Lêem-se séries de ais em Is 5,8-23; Hab 3,6-19; Eclo 2,12-14. Com outros géneros literários formam-se as séries con­ trapostas de bênçâos e maldiçôes de Dt 2728. Jesús une-as num díptico essencial de dita e desdita, bem e mal do homem. Revelaçâo escatològica que abre caminho pelo paradoxo (náo fruto de urna árvore proibida). Anuncio que confronta e divide a humanidade, que introduz e difunde o reinado de Deus na historia humana.

Mateus e Lucas coincidem em acrescentar suas próprias motivaçôes, “porque, vede, pois”; isto parece deslocar a ventu­ ra da situaçâo para suas conseqüências, que se resumem no “reinado de Deus”. Essa primeira parte dirige-se “aos discí­ pulos”. 6,20-21 Como très aspectos de uma si­ tuaçâo, representam qualquer classe de necessitados, indigentes, desvalidos, marginalizados, oprimidos etc. O Deus do AT, pela legislaçao e pela profecía, mostrou seu especial cuidado deles (p. ex. Is 29,19 salvaçâo escatológica; 57,15 e o citado 61,1; como ocupaçâo do rei, SI 72). O reinado de Deus vem para libertá-los e mudar sua sorte, já na historia, embora sem excluir a consumaçâo. 6.20 Pobres: mesmo limitando-nos ao termo ‘ebyôn, nós os encontramos na legislaçâo e nos sapienciais, muitas vezes nos profetas e nos salmos (cf. Dt 15,1-11; Is 29,19; SI 74,21). 6.21 Os famintos sáo uma categoría mais limitada (Is 58,7; SI 107,9; J1 2,26). Os que choram têm seu precedente na ca­ tegoría freqüente do “afligido”; em senti­ do próprio vale o “enxugar as lágrimas” (Is 25,8 escatológico; 30,19; SI 56,9 na vida; 126,5-6). 6,22-23 A perseguiçâo por causa de Je­ sús Cristo. No AT os profetas foram per­ seguidos por cum prirem sua missáo (11,47; 2Cr 36,16): desde Elias por Jezabel (IRs 19) até a figura exemplar de Jeremías, “o profeta queimado”, passando por Amos (Am 7). A perseguiçâo por Jesús e seu evangelho é uma constante da Igreja des­ de a época dos A tos dos Apóstolos e tem lugar importante no Apocalipse. Ver IPd 4,14. 6,23 *Ou: porque Deus vos recompen­ sará com abundancia.

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'Mas ai de vos, ricos, porque rece­ béis vosso consolo; "■ai de vós, que agora estáis saciados, porque passareis fome; ai de vós que .ij’ora rides, porque chorareis e fareis luto; -'’ai de vós quando todos falarem bem tic vós. Assim vossos pais trataram os lalsos profetas. 6,24-25 O trio forma urna unidadc e ilcve ser entendido em oposigáo ao antelior. O tipo humano tem antecedentes no AT: na série de ais de Isaías (Is 5,10-23), a injustiga acompanha o luxo; parecida é a descrigáo de Sodoma (segundo Ez 16,49); enérgica é a descrigáo do luxo em Amos (Am 6,1-9; cf. Tg 5,1). Ao reinado de Deus, que comunica seu consolo (Is 40,1; 49,13; 51,12), opoe-se o consolo humano efémero e váo (cf. Jó 21,34). 6,26 Sobre os falsos profetas, é muito expressivo Miqucias (2,11; 3,5.11); tamliém J r 2 3 e E z l 3 e o grande confronto de 1Rs 22. 6,27-38 O amor ao próximo, em parti­ cular aos inimigos, ocupa boa parte do dis­ curso programático de Jesús. Dirige-se a todos os que escutam. Embora esteja for­ mulado em imperativos, náo deve ser en­ tendido como novo código legal para re­ gular urna conduta em determinados casos, mas como expressáo de um espirito que anima de dentro toda a vida cristá. A motivagáo náo deve ser interesseira; busca precisamente refrear o egoísmo interesseiro. A motivagáo é o exemplo de Deus Pai, que seu Filho vem revelar, para devolver sua imagem aos homens. No centro soa a regra de ouro, que outros textos e culturas formularam em ter­ mos negativos (“náo fagas...” Tb 4,15; Eclo 31,15 num campo muito restrito) e Jesús exprime em forma positiva, muito mais exigente: “fazer”; porque o amor in­ culcado náo se esgota em sentimentos (cf. Is 5,1-7). Aqui se vai á raiz da ética: fa­ zer o bem/fazer o mal ñas relagóes recí­ procas com os outros. Por serem recípro­ cas, permitem tragar um quadro ou pauta para distinguir casos típicos, que se poderiam ilustrar com exemplos ou textos bíblicos:

27A vós que escutais eu vos digo: Amai vossos inimigos, tratai bem os que vos odeiam; 28bendizei os que vos maldizem, rezai pelos que vos injuriam. 29 A quem te bater numa face, oferecelhe a outra, a quem te tirar o manto náo lhe negues a túnica; 3 < lao que te pede, dá, e ao que te tira algo, náo o reclames. 3‘Como quereis que os hom ens vos trafazer mal a outrem sem razáo: do que se queixa o salmista (35,7; 6,5); nial por mal: pode ser castigo legal ou vingança legítima; mal por bem: máximo agravante (SI 35,12; 38,21; Pr 17,13; Jr 18,20); bem sem razáo: por compaixáo, por generosidade; Ex 23,4-5 exorta à compai­ xáo pelo asno do inimigo e pelo inimigo; bem por bem: se recebido, é agradecimento; náo tem mérito especial, segundo vv. 32-33; cf. lPd 2,19-23; se esperado, é interesseiro: contra isto adverte o v. 34; bem por mal\ ISm 24,18; Pr 25,21-22; é o tema central da exortagáo. Paulo o for­ mula assim: Nao te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem (Rm 12,21). O estilo é aforístico: de frases concisas, incisivas; ligadas ou articuladas em para­ lelismos e agrupadas em unidades menores. 6,27-28 Convém tomar juntos os qua­ tre verbos, que rcúnem e articulam: o afeto ou atitude, “amai”; as obras, “tratai bem”; as palavras, “bendizei”; a oragáo, “rezai”. Sobre o último podem-se recordar: Moisés intercedendo pelo Faraó (Ex 8,25; 9,2829), Jeremías por seus perseguidores (15, 15). Pela oragáo o ofendido recomenda a Deus o ofensor, e isso é grande beneficio; ao mesmo tempo olha o ofensor numa perspectiva superior. A oragáo favorece os très atos precedentes. 6,29-30 Capacidade de suportar a injustiga no corpo ou ñas posses. Como um manifestó de náo violéncia. O dar e em­ prestar a fundo perdido, como o aconselha Dt 15,1-11; comparar com as salva­ guardas de Eclo 29,1-13. 6,31 Se alguém procura instintivamen­ te o próprio bem, pense que também os outros o procuram. Se duvida como tratar o próximo, consulte seus próprios desejos. Náo somente tratar como o tratam, mas

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tem, tratai vos a eles. 32Se amais os que vos amam, que mérito tendes? Também os pecadores amam seus amigos. Se fazeis o bem aos que vos fazem o bem, que mérito tendes? Também os pecadores fazem isso. 34Se emprestáis quando esperáis cobrar, que mérito tendes? Também os pecadores emprestam para recuperar outro tanto. 35A ntes, amai vossos inimigos, fazei o bem sem esperar nada em troca. Assim vossa re­ compensa será grande e sereis filhos do Altíssimo, que é generoso com ingra­ tos e maus. 36Sede compassivos, como vosso Pai é compassivo. 37Náo julgueis

e náo sereis julgados; nao condeneis e náo sereis condenados. Perdoai e vos perdoaráo. 38Dai e vos daráo: recebereis urna medida generosa, calcada, sacudi­ da e transbordante. A medida que usardes será usada para vos. 39E acrescentou urna comparacáo: — Poderá um cegó guiar outro cegó? Náo cairáo ambos num buraco? “ “ O dis­ cípulo náo é mais que o mestre; embora, uma vez instruido, venha a ser como seu mestre. 41Por que reparas no cisco do olho do teu irmáo, e náo reparas na viga que tens no teu? 42Como podes dizer ao teu irmáo: Irmáo, deixa-me tirar o cisco do

como desejaria que o tratassem. Para tan­ to promove a iniciativa de fazer o bem. Pór-se na situaçao do outro, adivinhar seus desejos, sentindo os próprios. Em outro contexto, Ben Sirac aconselha: “Pensa que teu vizinho é como tu” (Eclo 31,15). Como seria urna sociedade regida por esse prin­ cipio? 6,32-35a Répété très normas: amar, fa­ zer o bem, emprestar. Très coisas que os homens honestos praticam, só que em li­ mites estreitos e pensando no intéressé. O que Jesús propoe é superior porque derra­ ba os limites da reciprocidade e o motor do intéressé. 6,35b A recom pensa virá de Deus: “Quem se compadece do pobre empresta ao Senhor” (Pr 19,17). Filho do Altíssimo: o título é usado pelo Eclesiástico (Eclo 4,10), encerrando urna instruçâo sobre esmola e beneficência a pobres e oprimidos, órfáos e viúvas, “e Deus te chamará filho”. O título pode ser lido no Salmo 82,6, num contexto de administraçâo da justiça em favor do necessitado. Nós diríamos que o filho puxa o pai. 6,36 “Compassivo” é um dos títulos clássicos do Senhor, que se repete em fór­ mulas litúrgicas: Ex 34,6; Dt 4,31; J12,13; Jn 4,2; SI 86,15; 103,8; 145,8. Agora o tri­ buto pertence a “vosso Pai”: “Como um pai se enternece com seus filhos...” (SI 103,13). 6,37-38 Seguem-se quatro sentenças paralelas, duas negativas e duas positivas, cinzeladas por formas correspondentes. Embora a formulaçâo de très seja forense,

seu alcance se estende a qualquer campo da vida. O cristáo náo deve erigir-se em juiz do próximo, náo deve condenar sem razáo, ser indulgente. Isto náo suspende o juízo de valores que é parte integrante do sentido moral. A imagem da recompensa refere-se a um recipiente de medir cereais, que ao ser sa­ cudido contení mais, e ao qual depois náo se passa a rasoura. Deus é compassivo e generoso (Pr 19,17). 6,39-45 O autor anuncia aqui uma pará­ bola, como se pretendesse ilustrar o ensinamento precedente. A rigor nos achamos perante várias sentcncas em forma de com­ parado, de aforismo comentado, de vinheta polémica, de pergunta didática. A conexáo temática com o que precede náo é manifesta. 6.39 O lugar original desta vinheta ou comparagáo é a polémica com os letrados, intérpretes da lei (Mt 23,16). Dirigida aqui aos discípulos, mostra que o farisaísmo é atitude típica que também pode ocorrer na comunidade. Sáo cegos os que náo véem com os olhos de Jesús. Sem a metáfora da cegueira, Is 3,12. 6.40 O lugar deste aforismo é a instru(¿áo aos discípulos sobre os sofrimentos da missáo (Mt 10,24-25). Aqui o Mestre é Cristo: o discípulo náo pode aspirar a superá-lo; por outro lado, deve procurar transmitir o que dele recebeu. 6,41-42 Outra vinheta feliz, hiperbólica, que nos legou as expressóes “o cisco e a trave”. Quem corrige a outros que se cor­ rija. A trave é como uma cegueira para os

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teu olho, quando nao ves a viga do teu? Hipócrita! Tira primeiro a viga de teu olho, e depois poderás distinguir para tirar o cisco do olho de teu irmáo. 43Náo há árvore sadia que dé fruto podre, nem árvore podre que dé fruto sadio. 44Pelos frutos distinguís cada ár­ vore. Náo se colhem figos das sargas nem se colhem uvas dos espinheiros. 450 homem bom tira coisas boas do seu bom tesouro interior; o mau tira o mal de seu mau tesouro. A boca fala do que está cheio o coragáo. 46Por que me invocáis: Senhor! Senhor!, se náo fazeis o que vos digo? 47Aquele que vem a mim escuta minhas palavras e as póe em prática. Vou próprios defeitos. Atengáo aos censores que se créem exemplares. 6.43-49 Para concluir o discurso, urna comparagáo agrària e outra urbana, na combinagáo clàssica daquela cultura (cf. Jr 1,10); entre as duas, uma comparagáo doméstica. Nelas sintetiza a importancia decisiva da interioridade e a necessidade de traduzir o ensinamento em conduta. 6.43-44 Cada árvore dá fruto segundo sua espécie e qualidade. Pelo fruto identi­ ficamos a árvore (Tg 3,12). 6.45 Imagem doméstica: o tesouro pode ser o depósito, a adega ou a despensa. No homem é a intimidade, o coragáo como sede da vida consciente e livre. Ao cingir-se à bo­ ca, á palavra, o provèrbio se aplica a quem ensina; mas seu alcance é mais ampio. Segue-se a necessidade de ir assimilando e acumulando coisas boas para partilhálas com outros no momento oportuno. 6.46 No plano da imagem, “senhor” é o patráo: pouco vale que o criado diga “sim, senhor”, se depois náo cumpre as ordens (MI 1,3). No tempo em que Lucas escreve, Senhor é título de Jesús; era muito im­ portante reconhecè-lo e confessá-lo (Rm 10,9), o que supóe a assistència do Espiri­ to Santo (lC or 12,3). Contudo, a invoca­ d o pode esvaziar-se de sentido, se náo conduz a cumprir seus ensinamentos. 6,47-49 A comparagáo concluí todo o discurso á maneira de peroragáo. Todo o ensinamento de Jesus é para a vida; se fica na simples informagáo, sem se traduzir em obras, carecerá de fundamento para ele.

explicar-vos com quem se parece. 48Parece-se com alguém que ia construir urna casa: cavou, afundou e colocou um alicerce sobre a rocha. Veio uma en­ dien te, a torrente se chocou contra a casa, mas náo pode sacudi-la, porque estava bem construida. 49Ao contràrio, aquele que ouve sem por em prática parece-se com alguém que construiu a casa sobre a terra, sem alicerce. A tor­ rente se chocou e a casa desmoronou. E foi um a ruina colossal. C ura o servo do centuriáo (Mt 8,5-13; Jo 4,43-54) — ‘Quando terminou seu discurso ao povo, entrou em

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Também insinúa que a construgáo da vida cristá estará ameagada de fora. Se o edifi­ cio é valioso, sua ruina será terrível. 7.1-17 Ao discurso seguem-se dois milagres insignes. Um é a cura á distáncia, a favor de um pagáo doente que está ñas últimas. O outro é a ressurreigáo do filho de uma viúva. Indubitavelmente, Lucas dá importancia á condigáo dos beneficiários. 7.1-10 A figura do centuriáo está toda descrita com tragos significativos. E um pagáo, simpatizante da religiáo e das práticas judaicas, as quais tem dedicado par­ te da sua fortuna (ou autoridade) construindo (ou mandando construir) uma sinagoga. Reconhece a dignidade especial de Jesús: aproxima-se dele por intermediários e náo se atreve a hospedá-lo (náo apresenta como motivo a proibigáo judaica de entrar em casa de pagáos, mas a dignida­ de pessoal de Jesús). O que mais importa é que eré no poder sobrenatural de Jesús. Enquanto o povo procura tocá-lo para receber dele seu fluido curador (6,19), o centuriáo reconhece que basta uma ordem de Jesús para que acontega a cura. Sua experiencia militar é imagem para expressar esse poder. Mas, curiosamente, o nar­ rador náo menciona essa palavra de Jesús, mas diz apenas que se póe a caminho com ele. O relato está bem graduado em dois encontros e desemboca, náo na admiragáo do povo, como outros (4,36), mas na ad­ miragáo de Jesús diante da fé do pagáo.

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, '

Cafarnaum. 2Um centuriáo tinha um servo a quem estim ava m uito, que estava doente a ponto de morrer. 3Tendo ouvido falar de Jesús, enviou-lhe uns notáveis judeus para pedir-lhe que fosse curar seu servo. 4 A presentaram -se a Jesús e lhe rogavam insistentem ente, alegando que ele merecía esse favor. — 5Ama nossa nagáo e ele próprio nos construiu a sinagoga. 6Jesus partiu com eles. N ao eslava longe da casa, quando o centuriáo lhe enviou alguns amigos para dizer-lhe: — Senhor, nao te incomodes; nao sou digno de que entres sob meu teto. 7Por isso, nem sequer me considerei digno de aproximar-me de ti. Pronuncia urna palavra, e meu servo ficará curado. 8Também eu tenho um superior e soldados as minhas ordens. Se digo a este que vá, ele vai; a outro que venha, ele vem; ao servo que faga isso, ele o faz.

yAo ouvir isso, Jesus admirou-se e voi tando-se disse à multidáo que o segui;i — Nem sequer em Israel encontrei fé semelhante. lüQuando os enviados voltaram para casa, encontraram o servo curado. R essuscita o filho d a viúva — "Pros seguindo, dirigiu-se a urna cidade cha mada Naim, acompanhado pelos discí pulos e grande multidáo. 12Justamenti quando se aproximava da porta da cida­ de, levavam para fora um morto, filho único de urna viúva; acompanhava-a um grupo considerável de vizinhos. 13Ao vè-la, sentiu compaixáo e lhe disse: — Náo chores. 14Aproximou-se, tocou o féretro, e os carregadores pararam. Entáo disse: — Jovem, falo contigo, levanta-te. 150 morto se levantou e comeqou a falar. Jesus o entregou a sua máe. 16To

Fé no poder e na misericordia de Jesús, na palavra que penetra no tecido da vida hu­ mana. A cura do moribundo pode-se co­ mentar com o Salmo 30. Para a igreja de Lucas, a fé do pagáo é exemplar e consoladora. 7,2 “Se tens somente um servo, trata-o como a ti mesmo... considera-o um irmáo” (Eclo 33,31). 7,3-4 Exemplo de um pagáo que recla­ ma a mediagáo dos judeus. De acordo com predi§oes proféticas (Zc 8,23). 7,6 A liturgia cristá recolheu a frase do centuriáo no contexto da eucaristia. “Quem ousaría aproximar-se de mim?”, pergunta Deus (Jr 30,21). 7,7-8 Um modo de fazer, próprio de so­ beranos e autoridades, é por meio da palavra, ou seja, dando ordens: é fazer fazer. Dessa condi§áo sao as ordens criadores de Deus (Gn 1 ; SI 33). O centuriáo o experimentou dentro do regime e da hierarquia militar. Em várias ocasióes os evangelistas citam palavras soberanas de Jesús, pronun­ ciadas sobre o criado para melhorá-lo ou restaurá-lo. 7,11-17 Naim é urna aldeia, na estrada de Cafarnaum á Samaria. Desta vez toca a urna viúva e ao órfáo defunto. Como nos casos famosos de Elias e Eliseu (IR s 17,

17-24 e 2Rs 4,32-37). Viúvas e órfáos sáo categorías necessitadas que no AT recia mam atemjáo especial (Eclo 4,10) e aparecem aínda no NT (Tg 1,27). Deus mes­ mo se ocupa deles: “pai de órfáos, protetor de viúvas” (SI 6 8 ,6 ). Jesús, portador de vida, vai ao encontro da comitiva fúnebre; náo é casual a sincronia. Sai ao encontro da dor humana com toda a compaixáo, e esta mobiliza o poder. E o poder máximo, da vida sobre a morte: por isso atualiza ditos antigos: “tu tens poder sobre a vida e a morte” (Dt 32,39; Tb 13,2; Sb 16,13); e á luz da Páscoa, prefigura a ressurreigáo; porque mostra que a morte náo será o caminho sem retorno. O comentário do povo evoca a promessa de Dt 18,15; reconhecem-lhe de ¡mediato o título de profeta. A luz da simbologia dos profetas, essa viúva sem filhos pode representar a comunidade de Israel, da qual o Senhor se compa­ dece (cf. Is 51,18-19; 54,4.8). 7,14 Féretro ou lengol mortuàrio, con­ forme o uso de entáo. Jesús une a aqáo à palavra. O toque de sua máo é um toque de vida que detém o caminho de regresso ao pó. 7,16 O comentário do povo evoca a pro­ messa de Dt 18,15; reconhecem-lhe o tí­ tulo de profeta, nada mais. Preocupa-se ou

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líos ficaram espantados e davam gloria ii Deus, dizendo: — Um grande profeta surgiu entre nos; Deus se preocupou com seu povo. 1 'A noticia do que havia feito se divulgou por toda a regiáo e pela Judéia. Sobre Jo á o B atista (M t 11,2-19) — '"Os discípulos de Joáo o informaram ile todos esses fatos. Joáo chamou dois «le seus discípulos 19e os enviou ao Senhor para perguntar-lhe: — Es tu aquele que deveria vir, ou Icmos de esperar outro? 2l)Os hom ens se apresentaram a ele e lite disseram:

— Joáo Batista nos enviou para perguntar-te se és tu aquele que deveria vir, ou se tem os de esperar outro. 21Entáo Jesús curou muitos de doengas, enfermidades e espíritos maus; e devolveu a visáo a muitos cegos. 22Depois lhes respondeu: — Ide informar a Joáo sobre o que vistes e ouvistes: cegos recuperam a vi­ sáo, coxos caminham, leprosos ficam limpos, surdos ouvem, mortos ressuscitam, pobres recebem a boa noticia. ^ E feliz aquele que náo tropera por minha causa. 24Q uando os m ensageiros de Joáo partiram, ele come^ou a falar de Joáo á multidáo:

visita: anunciado no Benedictus (1,68.78); segundo expressáo corrente no AT (Ex 1,16; ISm 2,21; SI 8,5); é o verbo usado por Tiago referíndo-se a órfáos e viúvas (Tg 1,27). 7.18-35 O autor dedica à figura de Joáo Batista urna longa passagem, dividida em 1res segmentos. Embaixada de Joáo e resposta de Jesús (vv. 18-23), juízo de Jesús sobre Joáo (vv. 24-30), uma parábola (vv. i 1-35). Em tudo isso se propóe a relaçâo ile Joáo com Jesus, sua funçâo como pre­ cursor do Messias. O estilo exibe urna gra­ ia variedade e força de interpelaçâo. 7.18-23 Joáo está preso, mas pode receher visitas de seus discípulos, leáis ao mestre. Agora depende de informaçôes oráis. Os discípulos lhe falam do ensinamento e dos milagres de Jesús. Corres­ ponden! as informaçôes à expectativa mes­ siànica do AT? Correspondent à sua visáo do Messias? Ele o descrevera empunhando o machado para cortar, a pà para peneiiar, manejando o fogo para queimar. Apresenta-se assim? 7,18 Profetas e escatólogos haviam cul­ li vado entre os judeus a esperança numa Iutura libertaçào e num futuro libertador; particularmente como rei da dinastia davidica (Am 9,11; Jr 23,5; 33,17; Ez 34, .’4); devia vir, era o “vindouro” (Zc 9,9; MI 3,1). 7.19-20 A pergunta de Joáo beneficia seus discípulos e também a si pròprio, para ilissipar suas dúvídas e perplexidades. Pre­ cisa que sua missáo seja confirmada e que

se defina o destino de seus discípulos. A pergunta é exata e transcendental: trata-se de identificar a missáo de Jesús. Apergunta se desprende do contexto: é preciso espe­ rar üm Messias, outro Messias? Joáo os envia “ao Senhor”, como se exprime o narrador. 7,21-23 Jesús se identifica como o Mes­ sias vindouro em aqáo e ao mesmo tempo descreve o Messias auténtico. Náo vem para dar a Israel uma independencia nacio­ nal e o dominio pacífico sobre outros povos, segundo esperanzas nacionalistas, mas para curar enfermos, libertar possessos e proclamar a boa noticia aos po­ bres (6,20). Quem náo alimentar ilusóes triunfalistas náo se frustrará com ele. Suas agóes, com duas alusóes bíblicas, respondem á pergunta de Joáo e de quantos a repetirem sinceramente. 7,22 Os dois discípulos seráo as duas testemunhas (Dt 19,15) de tudo o que Je­ sús realizou na presenta da multidáo. As palavras aludem a Is 35,5-6 e 61,1. Jesús as aplica a si, como na sinagoga de Nazaré (4,17-20). Náo ficar frustrado é expressáo corrente na espiritualidade bíblica (p. ex. SI 25,2.20; 31,18; 71,1). 7,24-30 Joáo perguntava: Quem é Jesús? Jesús responde quem ele é e quem é Joáo, como num testemunho recíproco. A figu­ ra de Joáo é de um asceta que atrai o povo por sua austeridade de vida. Retirado ao deserto, vive longe da corte e dos seus prazeres (cf. Ecl 2,1-3). Acrescenta a inteireza da sua pregagáo (cf. a figura do servo

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— O que saístes para contem plar no deserto? Um can ijo sacudido pelo ven­ to? que saístes para ver? Um homem elegantem ente vestido? Ora, os que se vestem com elegancia e desfrutam de com odidades habitam em palácios reais. 26Entáo, o que saístes para ver? Um profeta? Eu vos digo que sim, e mais que profeta. 27A este se refere aquele texto da Escritura: E u envió á fren te meu m ensageiro para que m e prepare o caminho. 28Eu vos digo que entre os nascidos de m ulher ninguém é maior que Joáo. Todavia, o último no reino de Deus é m aior que ele. 29(Todo o povo que escutou e os coletores deram razáo a Deus, aceitando o batismo

de Joáo; 30ao contràrio, os fariseus « jurisconsultos rejeitaram o que Dt u quería deles, por nao deixar-se bati/.n por ele.) 31Com quem compararei os homcir desta geragáo? Com quem se parecí- m 32Sáo como crianzas sentadas na pi.i ga, que gritam ás outras: Tocamos flan ta e nao danqastes, cantamos lamen taqòes e nào fizestes luto. 33Veio Joan Batista, que nao comia pao nem beln,i vinho, e dizeis: Está endemoninhadu 34Veio este Homem que come e bebe, c dizeis: Vede que comiláo e beberráo, amigo de coletores e pecadores. 35Mas a Sensatez é acreditada por seus discí pulos.

segundo Is 42,4); nada se diz de milagres. Esses valores podem atrair o povo sadio e criterioso. Por tais cuidados receberam Joáo como profeta, depois do siléncio de séculos (cf. lM c 14,41). 7,24-25 No deserto ou páramo o vento balança os caniços: é um espetáculo atra­ ente, digno de urna viagem? Na corte há desfiles e banquetes suntuosos: podem ser espetáculo atraente. O povo nao procurou isso. A figura ascética e a voz profètica foram a atraçâo. Todavia, há alguém maior que Joáo. Jesús tampouco habita um palácio real, rodeado de comodidades. 7,26-28 E pouco esse título. Moisés anunciou o envió de um profeta como ele (Dt 18,15). O último dos profetas, Malaquias, encerrou a série predizendo a chegada daquele que prepararía o caminho para a vinda do Senhor (MI 3,1; Ex 23,20). Ou seja, na cadeia profètica de prediçôes o último anel nao prediz, mas assinala o cumprimento. Este é o Batista e esta a sua grandeza: mais que profeta. Contudo, exis­ te algo superior: qualquer um que pertença à nova comunidade de Jesus, na qual o pròprio Deus reina (SI 145,13), é maior que Joào (cf. 1,15). 7,29-30 Estes dois w . soam como inserçâo, talvez comentário antecipado da parà­ bola seguinte. O batismo de Joáo operou urna divisào clara. Os que confessaram arrependidos seus pecados, gente do povo e até publícanos, “deram razáo” a Deus, reconhecendo sua justiça. Segundo o clás-

sicoesquema penitencial: “És inocente., e nos somos culpados”, “tu, Senhor, és justo/inocente, nos oprime a vergonh;i (do pecado)” (Ne 9,33; Dn 9,7; SI 51,6) Os fariseus e letrados, que se tinham poi justos (18,9-14), recusaram o batismo diJoáo, desprezando o designio de Deus. Deus queria que se dispusessem a recebci o Messias, mas para isso teriam primeiramente de reconhecer-se pecadores e arrepender-se. O batismo de Joáo exigia séria revisáo e mudanza de vida e de mentalidade. 7,31-35 Depois do que precede, a “geraqáo” náo ficaria definida pela cronologia, mas pela atitude no que tem de típico. A parábola generaliza seu alcance, embora náo sejamos capazes de reconstruir exatamente o jogo. Crianzas que, convidadas a brinquedos diversos, replicam com o clássico “náo vou brincar”; seres capricho­ sos a quem nada satisfaz e buscam pretex­ tos para justificar sua reserva. Náo sabemos quando disseram que Joáo estava endemoninhado. As expressoes co­ miláo e beberráo encontram ressonáncia em Dt 21,20. 7,35 A Sabedoria ou Sensatez aparece muitas vezes personificada em Pr e Eclo. Pode dirigir-se a seus alunos, chamándo­ os de “filhos” (Pr 8,32; Eclo 15,2). Enquanto uns a desprezaram, outros se abriram ao ensinamento do sábio designio de Deus e acreditaram na sua sabedoria, re­ velada na missáo do Batista e de Jesús.

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41 Disse-lhe: — Um credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentos denários, e outro cinqüenta. 42Visto que náo podiam pagar, perdoou a ambos a divida. Qual dos dois lhe terá mais afeto? 43Simáo respondeu: — Suponho que aquele a quem per­ doou mais. Replicou-lhe: — Julgaste corretamente. 44E voltando-se para a mulher, disse a Simáo: — Ves esta mulher? Quando entrei em tua casa, náo me deste água para lavar os pés; ela os banhou em lágri­ mas e os secou com seu cábelo. Tu náo me deste um beijo; desde que en­ trei ela náo parou de beijar-me os pés. 46Tu náo me ungiste a cabega com per-

l'i'i'tloa a pecadora (M t 26,6-13; Me M, l -9; Jo 12,1-8) — 36Um fariseu o «mvidou a comer. Jesús entrou na casa iln luriseu e se reclinou á mesa. 37Nisso nina mulher pecadora pública, sabeniln i|iic estava á m esa na casa do fariseu, Vilo com um frasco de perfum e de mirin, wcolocou-se por trás, a seus pés, e «'llorando se pos a banhar-lhe os pés i iun lágrimas e a secá-los com o cábe­ lo; beijava-lhe os pés e os ungia com a mirra. 39Ao ver isso, o fariseu que o lluvia convidado com eqou a pensar: Se PNsd fosse profeta, saberia quem e que llpo de mulher o está tocando, pois é luna pecadora. 40Jesus tomou a palavra o Ihe disse: — Simáo, tenho algo a dizer-te. Respondeu: — Fala, mestre.

sem hesita§áo e com insistència. E Jesus a 7.36-50 Por que Lucas inseriu aqui a deixa fazer sem rejeitá-la nem opor resis­ •ua historia da pecadora perdoada? Por­ tènza. que se enlaça com o que precede em vá7.39 Com razáo se escandaliza o anfi­ rlos particulares: a pecadora corresponde triáo (e náo seria o único); por cortesia se nos “publicanos” do v. 29; seria urna das abstém de manifestá-lo em voz alta. Pro­ «rrependidas e batizadas por Joáo; o julnuncia um juízo mental. Se Jesús náo adiK¡ir e condenar o próximo (6,37); dar ravinha o oficio da mulher, náo possui a cla/.íio a Deus com o arrependimento (v. 29); rividència pròpria de um profeta (náo Jesús come e bebe, amigo de pecadores pensa na outra parte: se conhece o oficio é (v. 34). 7,36 Jesús aceita dos fariseus convites culpado por omissáo, por deixar fazer; a omissáo seria mais grave que a ignoran­ para refeiçôes (11,37; 14,1), e aproveita a cia). Mas Jesus adivinha o pensamento ocasiáo para ensinar. O anfitriáo é correto dele, com o que rebate o juízo sobre ele, e c cortés, náo é cordial: náo presta deferen­ lhe responde em voz alta, corrigindo ascias extraordinárias (vv. 44-46; cf. Gn sim o seu juízo sobre a mulher. 18,4; SI 23,5). Pretende também provar 7.40 O recurso é contar urna parábo­ Jesús em sua conduta e doutrina? la para distanciar e ao mesmo tempo com­ 7.37-38 Nisto urna pecadora pública, prometer o fariseu: terá de julgar o ca­ provavelmente urna prostituta, irrompe na so, como mentalmente a julgou. No fim, sala (cf. Os 1,2; 3,1). Os comensais estáo o juiz será julgado. Como Davi (2Sm reclinados em almofadas, com a cabeça 1 2 ) ou o jurado na cangáo da vinha (Is para a frente e os pés para fora. Embora a sala do banquete estivesse aberta, era mui5,1-7). 7,41-43 A parábola é descarnada e a soto pouco decoroso que tal mulher entrasse lugáo é obvia. O “suponho” pode expri­ na casa de tal anfitriáo; os fariseus eram mir cortés modèstia. O fariseu entrou no muito cautelosos nesses assuntos. O que jogo e náo pode evitar a aplicagáo. Abre­ cía faz depois com Jesús é táo afetuoso se outro julgamento sobre a mulher no quanto escandaloso: soltar os cábelos na qual, por comparará«, o fariseu está im­ presença de homens, enxugar com eles os plicado. pés banhados em suas lágrimas, o esban7,44-46 O triplo contraste serve para jamento do perfume, embora náo o derra­ dar relevo as mostras de um afeto intenme na cabeça, como era costume). Tudo

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7,47

fume; eia me ungiu os pés com mirra. 47Por isso te digo que lhe foram perdoados muitos pecados, já que sente tanto afeto. Aquele a quem se pcrdoa pouco, sente pouco afeto. 48E disse a eia: — Teus pecados estáo perdoados. 49Os convidados comegaram a dizer entre si: -— Quem é esse que até perdoa pe­ cados? 50Ele disse à mulher: — Tua fé te salvou. Vai em paz. so e incontido. Lavar os pés ao hospede foi costume patriarcal (Gn 18,4; 19,2; 24,32; e posterior ISm 25,41). Ungir (a cabera) também era costume (SI 23,5; 141,5). 7,47 Na parábola e na sua aplicagáo, todos os intérpretes e muitos leitores tém observado urna estranha incoeréncia, que podemos resumir assim: ama muito, por­ que lhe perdoaram muito (parábola); foilhe perdoado muito, porque amou muito (aplicagáo). Note-se que “amar” pode equivaler a “agradecer” (que em hebraico se exprime com o verbo brk). Substitui-se o “porque” por “posto que, sinal que” de manifestagáo. No Salmo 116 o orante pro­ nuncia: “Amo” (1), “acreditei” (10) e pergunta: “Como pagarei ao Senhor todo o bem que me fez?” ( 1 2 ), mas náo fala de arrependimento. Talvez a explicagáo se obtenha consi­ derando as duas realidades, amor e perdáo, como correlativas, que se implicam mutuamente. Tentemos explicá-lo breve­ mente. Alguém pode arrepender-se de ter violado urna norma objetiva (respeito pela ordem), ou porque vé sua indignidade (vergonha de si), ou por ter ofendido outra pessoa sem razáo. O terceiro caso implica estima (um aspecto do amor) por tal pes­ soa. Quem pede e espera obter perdáo, estima o ofendido, sente-se atraído por ele (amor e fé confiante). Obtido o perdáo, a boa relagáo se restabelece, o perdoado sente o afeto do agradecimento, o amor se desenvolve sem peias. Outra questáo é o perdáo. A passiva (teológica) indica que Deus perdoou, provavelmente pela atuagáo do Batista. Entáo, por que agradecer a Jesús? — Por-

Mulheres com Jesús — 'Em segui­ da, foi percorrendo cidades e aldeias proclamando a boa noticia do reinado de Deus. 2Acompanhavam-no os doze e algumas m ulheres que havia curado de espíritos imundos e de enfermidades. María Madalena, da qual tinham saído sete demonios; 3Joana, mulher de Cuza, mordomo de Herodes; Suzana e muitas outras, que os atendiam com seus bens. Parábola do sem eador (M t 13,1-23; Me 4,1-20) — 4 Reuniu-se grande mulque é ele quem dá sentido ao batismo de Joáo. Jesús insinúa que os fariseus tinham pouco de que ser perdoados? Em termos de lei e observancias, talvez. Mas a religiosidade deles é mesquinha, calculista, náo entra de cheio na dimensáo do amor, j Quem entrou no reino recebeu o perdáo por pura graga e tem de viver em puro agra­ decimento. 7,48-50 Jesús pronuncia a fórmula de absolvigáo, sancionando a reconciliagáo (SI 103,3). Isso provoca o segundo escán­ dalo dos convidados, mais grave que o primeiro, porque tem como motivo a missáo e a revelagáo de Jesús. A fórmula convencional de despedida, “vai em paz”, carrega-se aqui de sentido transcendente e passou para a prática cris­ ta da penitencia e da eucaristía. 8,1-3 O sumário acrescenta elementos que o eoloeam como complemento da eleigáo dos doze (6,12-16). Ao grupo de se­ guidores juntou-se um grupo de mulheres, contra os costumes dos rabinos. Urnas, agradecidas por urna libertagáo recebida de Jesús; outras, simpatizantes que prestam servidos, inclusive económicos. A tradigáo evangélica conservou o nome de algumas e sua atuagáo em momentos capitais. O texto tem valor exemplar para as comuni­ dades cristas. 8,4-18 A colegáo de parábolas está reduzida na versáo de Lucas (ela se comple­ tará com outras próprias de Lucas, distri­ buidas em outros lugares). A parábola principal é para o povo todo; a explicagao, com outra parábola menor, é para os discípulos.

8.1-1

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ti(J:n >e aumentavam os que acorriam a ck- (le urna cidade após outra. Entáo llu p r o p o s urna parábola: Saiu o sem eador a sem ear a se­ mentó. Ao semear, alguns graos caíram junio ao caminho; foram pisados e os pássaros os comeram. 6Outros caíram sol He podras; brotaram e secaram por falla de umidade. 7Outros caíram entre es| imheiros e, ao crescer os espinheiros coi n oles, os sufocaram. 8Outros caíram em Ierra fértil e deram fruto centupli­ cado. Tendo dito isso, exclamou: - Quem tem ouvidos, escute. '’Os discípulos perguntaram-lhe o sen­ tido da parábola, u)e ele lhes respondeu:

— A vós é concedido conhecer os segredos do reinado de Deus; aos dem ais se fala em parábolas, para que vendo náo vejam e ouvindo náo ouqam. n O sentido da parábola é o seguinte: a semente é a palavra de Deus. 12A que caiu junto ao caminho sáo os que escutam; mas logo vem o Diabo e lhes ar­ ranca do coraqáo a palavra, para que náo creiam e se salvem. I3A que caíu entre pedras sáo os que, ao escutar, acolhem com alegría a palavra, mas náo langam raízes; esses créem por um tem­ po, mas, ao chegar a prova, desistem. 14A que caiu entre espinheiros sáo os que escutam; mas, com as preocupa­ r e s , a riqueza e os prazeres da vida,

8,5-8 Urna parábola agrària se le num contexto profètico (Is 28,23-29). Embora Jesús náo tenha sido lavrador por profissáo, cresceu numa cultura dominada pela agricultura, tanto que Adáo e Cairn se apresentam como lavradores. Lucas simplifi­ ca o resultado final sem graduar a fertilidade da semente, multiplicando-a pela cifra fantástica ou emblemática de cem (cf. Gn 24,12). A parábola segue o esquema de très mais um: très ameaças e um bom resultado. Os animais (aves), as plantas (espinheiros), os minerais (pedras) podem ser hostis à colheita, a semente exige proteçâo permanente. A exclamaçâo final de Jesus è como um aparte do narrador, que apresenta seu re­ lato como interpelaçâo. Escutar náo pode ser urna recepçào passiva. A exclamaçâo é como urna versào ainda mais grave do grito profètico “escutai!” (Is 1,2.10; 46,3 etc.). Poderíamos parafrasear a exclama­ çâo: Quem tiver entendimento, entenda. 8 ,10a O segredo do reinado de Deus é sua presença em Jesus; é que está chegando e avançando. Entendè-lo è dom de Deus, “a vós foi dado” (cf. Dt 29,3.20; cf. Le 10,21-22). 8,10b Completa o dito no v. 8 . Ao náo escutarem as parábolas, como era devido, cumpre-se neles a maldiçâo de Isaías (6,9-10; 42,20). Quem náo escuta como de­ ve, quem náo sintoniza, náo fica sem compreender, mas se endurece progressiva­ mente.

8,11-15 Supde-se que a explicaçâo ale­ górica, membro a membro, seja obra da tradiçâo posterior. Nela podemos notar váríos pontos: a) Areciprocidade: a semente é a palavra, porque a palavra de Deus é semente vital e fecunda, que cresce e se multiplica, b) Essa palavra deve ser semeada pela pregaçâo do evangelho, que é por antonomàsia palavra de Deus. c) A semente está ameaçada por forças externas e in­ ternas, com as quais é preciso contar. Essas forças sáo (em nossa terminología de catecismo): o demonio (v. 1 2 ), o mundo e a carne (v. 14); a elas acrescentamos a “su­ perficial idade” e falta de convicçâo (v. 13). 8,16-18 Nesta série apreciamos o paren­ tesco da parábola com o refráo ou provèr­ bio. Em fórmula concisa encerram um potencial de significados. O oculto se deve comunicar, o oculto se saberá. Escutando, aprende-se a escutar; assimilando, alarga­ se a capacidade; quem julga saber e possuir tudo, irá ficando sem nada... 8.12 A fé responde à palavra, e da fé segue-se a salvaçâo. O Maligno procura impedir o processo porque procura a perdiçâo. 8.13 A prova é inevitável e de duplo efeito: consolida o firme, destrói o fraco. “A raiz do honrado náo se arranca” (Pr 12,3). 8.14 Um profeta pregava: “Lavrai os campos e náo semeeis espinheiros” (Jr 4,3). Já Adáo teve de lutar com os espinheiros (Gn 3,18); e em contexto escatològico brotam espinheiros da vinha (Is 27,4).

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váo se sufocando e nao amadurecem. 15A que cai em térra fértil sao os que com excelente disposigáo escutam a palavra, a retém e dáo fruto com perseveranga. 16Ninguém acende urna lamparina e a cobre com urna vasilha ou a póe debaixo da cama, mas a coloca no cande­ labro para que os que entram vejam a luz. 'P o i s nao há nada oculto que nao se descubra, ou escondido que nao se divulgue e se manifeste. 18Atengáo, por­ tante, como escutais, pois a quem tem se lhe dará, e a quem nao tem se lhe tirará até mesmo o que parece ter. A m áe e os irm áo s (M t 12,46-50; Me 3,31-35) — 19Apresentaram-se sua máe

e seus irmáos, mas náo conseguiam api (i ximar-se por causa da multidáo. 20Avi saram-no: — Tua máe e teus irmáos estáo for.i e querem ver-te. 21Ele lhes replicou: — M inha máe e m eus irm áos sao os que ouvem a palavra de Deus e ;i cumprem. Acalm a a tempestade (Mt 8,23-27; Mi 4,35-41) — 22Num desses dias ele su biu a uma barca com os discípulos e lhes disse: — Vamos atravessar para a outra mar gem do lago. Zarparam 23e, enquanto navegavani, ele ficou dormindo. Um furacáo se pre

8.15 Se cada planta dá fruto segundo sua espécie (Gn 1,11-12), também a palavra de Deus dará fruto segundo sua espécie. A perseverancia é virtude inculcada com freqüéncia (Le 21,19; Rm 2,7; 2Cor 6,4 etc.). 8.16 Esta parábola minúscula fica en­ globada na explicagáo para os discípulos. Daí brota seu sentido contextual: com a explicagáo de Jesús os discípulos foram iluminados. Náo devem guardar para si o ensinamento, como um saber esotérico para iniciados, mas devem difundi-lo: “Farei brilhar meu ensinamento como a auro­ ra, para que ilumine as distancias” (cf. Eclo 24,32; 37,22-26). 8.17 Também este aforismo fica envol­ vido pelo contexto. O mistério do reinado e tudo o que os discípulos estáo aprendendo em particular está destinado a manifestar-se. E um aviso para eles e para as futu­ ras comunidades. 8.18 Para o novo aforismo, dispomos de urna frase que o sitúa: trata-se da arte de escutar. O aforismo é um paradoxo, que admite explicares, mas náo tolera uma mudanza de form ulado. Sugere o dina­ mismo do receber e produzir. O que “se­ guramos” sem produzir apodrece, “nos é tirado”. 8,19-21 Vimos a eleigáo dos doze (6,1216) e a incorporado de umas mulheres ao grupo (8,2-3). Cabe agora á familia? Pa­ rece que só querem vé-lo, saudá-lo. Lucas dedicou a Maria um lugar predominante

na etapa da infáncia; agora aparece em público. Os irmáos sáo mencionados aquí e em At 1,14. Pois bem, com perfis áspe ros, o vínculo familiar é usado como sím­ bolo para expressar o mistério da nova fa­ milia que Jesús está fundando, na qual se sublimam as relaçôes naturais. A palavra de Deus contém e comunica fecundidade, maternidade. A palavra de Deus plenamente aceita tomou Maria máe. Ao crescer a familia, a palavra cria e mantém o espirito de fraternidade. Jesús suspendeu o vínculo paterno humano, para atender à casa ou ás coisas do Pai (2,4149); seguindo seu exemplo, é possível fazer parte da nova casa do Pai. Toda comunidade cristá deve ser materna e fraterna. 8.22-39 Os dois milagres relatados formam um díptico que devemos contemplar primeiro no seu conjunto. Jesús enfrenta e debela as poténcias adversas: a força mí­ tica do océano, os poderes diabólicos que escravizam o homem. O primeiro com uma ordem soberana, o segundo com um exor­ cismo graduado. Também pesa a reaçâo dos assistentes: medo, falta de fé, estupor dos discípulos; medo e terror dos gerasenos, proclamaçâo do possesso curado. 8.22-25 Para 1er o episodio é oportuno por como paño de fundo o primeiro quadro da historia de Joñas: o profeta embar­ cado, adormecido, vento e água na tem­ pestade. A diferença é que, agora, na barca vai Jesús, que náo está fugindo e é mais

1,111

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itlpllou sobre o lago, a barca se enchia iln ugna e eles corriam perigo. 24Entáo fumín despertá-lo e lhe disseram: Mestre, estamos afundando. lile despertou e ameacou o vento e as nmlas; cessaram e sobreveio a calma. '’Disse-lhes; Onde está vossa fé? Iíspantados de estupor, diziam entre si: Quem é esse que dá ordens ao vento i<íl Agua, e lhe obedecem? O endemoninhado de G erasa (Mt 8 , ,(H-34; Me 5,1-20) — 26Navegaram até 0 territòrio dos gerasenos, que fica em 1 rente à Galiléia. 27Ao por os pés em

terra, saiu-lhe ao encontro um homem da cidade, endemoninhado. Havia muito tempo que nao vestía urna túnica e nao vivia em casa, mas nos túmulos. 28Ao ver Jesús, deu um grito, langouse diante dele e disse gritando: — Que tens comigo, filho do Deus A ltíssim o? Eu te suplico que nao me atormentes. 29É que estava mandando o espirito imundo sair daquele homem; pois muítas vezes se apoderava dele; embora o atassem com correntes e grilhóes, rom­ pía as correntes e o dem onio o impelía a lugares despovoados. 30Jesus lhe perguntou:

i|iic profeta. O lago quase doméstico de ( lenesaré, mesmo com suas tormentas pro­ verbiáis, representa agora papel dramáti­ co do oceano levantino ou monstro mari­ nilo. Embora o narrador nao cite um texto cin particular, a sua linguagem o prende a niuitos textos do AT. Escolhemos para a ligua SI 65,8; 93,3-4; e 103,4.7 como re­ presentado de muitos outros. Para os ven­ ios, Eclo 39,28: “Há ventos... que com sua fùria desfazem as montanhas”; e SI 48,8: "Como vento sufocante que faz naufragar os navios de Társis”. Vento e água sao os elementos peculiares dos pescadores. Jesús dá ordem de zarpar: cometa o denafio. Póe-se a dormir (como Joñas, 1,5), dando vantagem ao adversário. O mar mobiliza sua fùria: como em SI 107,25 ou Jn 1,4 em chave realista, como em SI 18,5 em chave simbólica. Os discípulos sao testemunhas da potencia destruidora das águas (SI 107,26-27) e da pròpria falta de fé. Despertou (SI 78,65) e “ameagou” (3,35.39.41): é o verbo do “bufido” de Deus reprimindo o oceano ou o exército inimigo (Is 17,13; 50,2; Na 1,4; SI 104,7; 106,9). Jesús é Senhor dos elementos. Lucas descreverá urna cena medianamente parecida na navegagào e naufràgio de Pau­ lo (At 27). 8,26-39 A segunda c o n fro n talo está contada com amplidào e riqueza de detalhes, de acordo com as crenchas da época e as práticas do exorcismo. O demonio culpável apoderou-se de um homem e o seqüestrou (Ex 21,16). Excluin-

do-o da sociedade, leva-o ao deserto (Jó 6,18; 30,3-7; Dt 32,10) e o faz inquilino e companheiro do mundo dos mortos, que o contamina (Nm 19; Jó 17,13), torna-o intratável, dotado de força sobre-humana. O demonio comparece ao julgamento do exorcismo: reconhece um título transcen­ dente de Jesús, identifica-se com seu no­ me, que é nome de multidáo, sofre a tortu­ ra do processo. Suplica náo ser condenado à pena máxima, porém a urna pena limita­ da, em sua terra, passando do mundo hu­ mano ao mundo animal. Mas sua maldade volta-se contra ele: os porcos endemoninhados despencam os demonios no abis­ mo marinho. Vários traços dessa cena sao conhecidos por documentos contemporá­ neos de exorcismos. 8.26 E territorio pagáo, idólatra. Convém recordar que já Paulo identificava os ídolos com os demonios (ICor 10,20-21). 8.27 Nu: Saúl em transe ISm 19,24; Jó 24,7.10. Em sepulturas, muitas vezes es­ cavadas ou aproveitando cavernas. Is 65,4 reúne alguns dados denunciando o povo “que se sentava nos sepulcros e pernoitava ñas grutas, que comia carne de porco, que dizia: Retira-te!” Jesús nao denuncia, compadece-se. 8.28 Título messiànico e gesto de homenagem; a seu pesar. O demonio e Jesús sao inconciliáveis. 8,30 Legiáo: palavra latina no texto; unidade militar de uns seis mil homens. Je­ sus sozinho contra tantos (Lv 26,8; Dt 32, 30; Is 30,17; SI 55,19).

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— Como te chamas? Respondeu: — Legiáo (porque haviam entrado nele m uitos demonios). 31Eles lhe rogavam que nao os mandasse para o abismo. 32Havia ali, na Iadeira, urna grande manada de porcos fugando. Rogavam que lhes permitisse entrar nos porcos. Ele o concedeu; 33e os demonios, saindo do homem, entraram nos porcos. A manada se precipitou por um despenhadeiro e se afogou. 34Ao ver o que havia acontecido, os pas­ tores fugiram e o contaram na cidade e nos campos. 35Os vizinhos saíram para ver o que havia acontecido e, chegando onde estava Jesús, encontraram o homem de quem haviam saído os de­ monios, vestido e sentado, aos pés de Jesús e em perfeito juízo. E se assustaram. 36Os que o haviam visto lhes con-

taram como tinha sido libertado o em Ir moninhado. 37Entáo todos os vizinhim da regiáo dos gerasenos rogaram c|u> ele fosse embora; pois eram presa do terror. Jesús embarcou de volta. 380 ho mem, do qual haviam saído os denio nios, pediu para ficar com ele. Mas Je sus o despediu, dizendo: — 39Volta para tua casa e conta o que Deus te fez. Ele foi por toda a cidade proclaman do o que Jesús havia feito. Duas curas (Mt 9,18-26; M e 5,21-43) — 40Quando Jesús voltou, a multidáo o recebeu, pois todos o estavam espe rando. 41Nisso se aproxim ou um ho mem, chamado Jairo, chefe da sinago­ ga. Caindo aos pés de Jesús, rogava-lhe que entrasse em sua casa, 42pois sua fi Iha única, de doze anos, estava á mor

8,31 O Abismo (Xeol) como cárcere de demonios: 2Pd 2,4; Ap 20,1-2. Quando Joñas ora “no fundo do mar”, no ventre do monstro marinho, diz “do ventre do Xeol”. Nesta perspectiva, o destino dos demo­ nios é irònico, cumprindo seu pedido. 8,32-33 Em chave de idolatria deve-se comparar cSm a queda de Dagon (ISm 5,15), dos deuses da Babilonia (Is 46,1-2). 8,34-39 As reagòes pelo ocorrido se entremeiam. Os pastores logicamente váo contando por todo lado o que aconteceu aos porcos (v. 34), ou seja, a desgrana eco­ nómica; e os vizinhos, perplexos entre a surpresa pelo poder de Jesus e o medo de outras perdas, rogam ao forasteiro que abandone o territorio (v. 37). Simbolizam a reagáo dos pagaos que preferem manter sua idolatria. Outros contam o ocorrido, como libertagáo, aos que contemplam ago­ ra o possesso curado (vv. 35-36). O benefi­ ciàrio recobrou a normalidade e dignidade humana: a razáo; como Nabucodonosor, convertido em fera e de novo em homem (Dn 4). O endemoninhado recupera a serenidade, as relacóes sociais; e pede para ficar com Jesús. Simboliza o pagáo con­ vertido que reconhece Jesus e propaga seu nome e fama. Nao contente de contá-lo a seus familiares, divulga-o por todo o povoado (SI 22,23; 26,7).

8,40-56 Podemos considerá-lo como terceiro confronto: Jesús diante do poder da doenga e da morte; ou entáo como outra dupla de milagres. Mas nao podemos chamá-lo díptico, porque um relato está inserido dentro do outro, como aconteci­ do pelo caminho. As duas beneficiadas sao mulheres. Urna sofre de enfermidade incurável que a ar­ ruina e afasta da sociedade porque conta­ mina (Lv 14,25-27), afeta a fonte da vida (compare-se Lv 12,7 com 20,18). A outra é urna jovem apenas núbil, filha única (como a filha de Jefté, Jz 11,34-39), mori­ bunda e morta. Jesús vai ao encontro dos dois poderes aliados, doenga incurável e morte. O poder de Jesús náo é mágico, embora atue pela corporeidade, descarregando-se no contato ¡mediato. Para recebó­ lo, náo basta o contato da máo, é preciso o mais profundo e tenaz toque da fé (“adesáo” vem de adhaerere , apegar-se, em hebraico dbq). 8.40 Expulso pelos pagáos, é acolhido pelo povo que o espera. 8.41 Jairo é um representante do judais­ mo oficial, que distribuí seus centros ñas sinagogas locáis. 8.42 Se morre aos doze anos, náo amadurece na matemidade. A data é particu­ larmente trágica.

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lt> I ju|uanto caminhava, a multidâo o H jM ’i'Iava. 4'Uma m ulher que há doze anos patlivia de hemorragias e que gastara com mi'dicos toda a sua fortuna sem que M i’iihum a curasse, 44aproximou-se dele iiur trás e tocou-lhe a orla do manto. No mesmo instante estancou-se a he­ morragia. 45Jesus perguntou: — Quem me tocou? H, como todos o negassem , Pedro illsse: — Mestre, a multidâo de cerca e te H|>crta. •'’Porém Jésus replicou: • — Alguém me tocou, pois eu senti mna força sair de mim. ^Vendo-se descoberta, a m ulher se nproximou tremendo, prostrou-se dianIc dele e explicou diante de todos por tute o havia tocado e como ficara cura­ da ¡mediatamente. 48Jesus lhe disse: — Filha, tua fé te salvou. Vai em paz. 4 ,'Ainda estava falando, quando chega alguém da casa do chefe da sinago­ ga e lhe anuncia: 8,43-44 Os detalhes servem para real­ zar o contraste: doze anos/no mesmo ins­ tante, ninguém a pudera curar/parou, gaslou a fortuna/tocou-lhe a orla. A açao da mulher tem algo de furtivo, como se roubasse às escondidas. A açâo de Jésus é efi­ caz, ¡mediata, gratuita. 8.45 Com a pergunta Jésus nào preten­ de descobrir um culpado, mas manifes­ tar um exemplo de crente. Pedro oferece uma explicaçâo tâo razoável quanto ob­ tusa: há tocar e tocar. “Aquilo que nossas màos apalparam ... a Palavra de vida” (Uo 1 , 1 ). 8.46 E a força de Deus que a fé conseguiu extrair (4,36; 5,17). 8.47 Faz uma dupla confissâo “diante de todos”: da sua culpa cometida tocando cm estado de impureza, e do milagre rea­ lizado por Jesús. 8.48 Se houve culpa legal, fica absolvida e curada, por sua fé. 8,49-50 Como se dissesse: nao há nada a fazer (Jó 10,21; 14,12); contra a morte, o Mestre nao tem poder. E assim ressalta a resposta: contra a morte a fé tem poder.

— Tua filha morreu, nao aborregas o Mestre. 50Jesus ouviu e respondeu: — Nao temas; basta que creías, e ela se salvará. 5 E n tran d o na casa, nao deixou que entrassem com ele senáo Pedro, Joáo, Tiago e os pais da menina. 52Todos choravam, fazendo luto por ela. Ele, porém, disse: — Nao choréis, porque nao está morta, mas adormecida. 53Riam dele, pois sabiam que estava m orta. 54 Ele, porém, pegando-a pela máo, ordenou-lhe: — M enina, levanta-te. 55 Voltou-lhe a respiragáo e logo se pos de pé. Ele mandou que lhe dessem de comer. 56Seus pais ficaram estupefatos e ele lhes ordenou que nao contassem a ninguém o que havia aconte­ cido. M issáo dos doze (Mt 10,5-15; Me 6,7-13) — ^ o n v o c o u os doze e lhes conferiu poder e autoridade sobre

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8,52a Refere-se aos ritos fúnebres costumeiros (cf. Jr 9,16-17). 8,52b-53 O sono como imagem da morte é clássico (SI 13,4; Jr 51,39.57 “sono eter­ no, definitivo”); invertem-se os termos: nao sendo definitiva a morte da jovem, equivale a um sono. Para ela é um voltar á vida, ainda nao é glorificagáo. Mas sim­ boliza de antemáo a futura ressurreigáo: usa o mesmo verbo grego (18,23; 24,7). Riso e pranto denotam o mesmo desespe­ ro do homem frente á morte. 8,54 Compare-se com 2Rs 4,12-36. 9,1-6 A missáo dos doze continua de modo ideal a eleigao (6,12-16). “Apóstolos” quer dizer enviados; era o título que lhes havia imposto. Sao os doze, como corpo ou colégio compacto. Jesús foi en­ viado (4,18.43), agora ele envia (cf. Jo 20,21). O poder que ele possui (4,36), ele o comunica. Confia-lhes a própria tarefa de “proclamar a boa noticia do reina­ do de Deus” (8,1). Assim se estende seu raio de agáo, sem que ele deixe de ocu­ par o centro. Sendo assim, esta m issáo

lu^

AS _ 0 o s os dem onios e para curar doen2E os enviou para proclam ar o rei^ \ A o de D eus e curar enfermos. 3 Disna3 hes: se^ _ N ao leveis nada para o caminho: z n bastáo, nem sacóla, nem pao, nem heiro, nem duas túnicas. 4Na casa que entrardes, perm anecei até pare.ir* 5Se nao vos receberem, ao sair da tl.I\ ^ d e sacudí o pó dos pés com o prova elCU t r a eles. co<í^3 uando saíram , percorreram as al- ^is anunciando a boa noticia e curan^>or toda parte. p ó d e s e J o á o (M t 14,1-12; M e 6,14fV ~ — 7H erodes ficou sabendo de tudo í* u e h avia acontecido e estava em ° , ^ i d a ; porque uns diziam que era Joáo ^ u sc ita d o da m orte, 8outros que era que tinha aparecido, outros que

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havia surgido um dos antigos profetas 9Herodes comentava: — Eu mandei degolar Joáo; quem s< rá esse de quem ougo tais coisas? I desejava vé-lo. Dá de com er a cinco mil (M t 1 4 , 1 l 21; M e 6,30-44; Jo 6,1-14) — 10O-, apóstalos voltaram e Ihe contaram tudo o que haviam feito. Ele os tomou á pai te e se retirou a urna cidade chamad, i Betsaida. u M as a multidáo ficou sabendo e o seguiu. Ele os acolheu e lhes falava do reinado de Deus, curando os que tinha m necessidade. 12Como caísse a tarde, os doze se aproximaran! para dizer-lhe: — Despede a multidáo para que váo as aldeias e campos dos arredores pro curar hospedagem e comida, pois aquí estam os no despovoado.

-figura a definitiva, antes da ascensáo p? r! , 48). v . s instrucóes servem para inculcar o .jprendimento e a confianza em Deus e que experimentem a hospitalidade da P gente. Sao dois fatores correlativos: o koíV,rendimento e a confianza em Deus ^ í,m que o povo lhes dé crédito e confie \&s- P°de-se recordar a hospitalidade ^tada a Eliseu por urna mulher: “Vé, Pr® que sempre vem á casa é um profeta esSt o ...” (2Rs 4,8-10). Também isso é sarIjpamento para os futuros missionários ® ^vangelho, como o experimentará por jiiplo Paulo (At 16,15) e Joáo o recoexíljd a (3Jo 3-8). A mensagem dos após ^ é á K aq n n t ip io ñ o ra n c m iA a a rp/^AhArr $ boa noticia para os que recebem tole* uízo de condenagáo para os que a re? e ,,rn. Os apóstalos seráo testemunhas de Jel ^a§áo, e o sacudir a poeira é um gesto aclJ o atesta. Nada da cidade incrédula apegar-se a seus pés; assim o fará p jo (At 13,51). Cantou-o o profeta do ,ijo: “Que belos sao sobre os montes os exl Jo arauto que anuncia a paz, que traz noticia..., que diz a Siáo: Teu Deus •' f&l ' ■ Ia a 7-9 Esta breve noticia serve aqui para ’ficher o tempo da missáo apostólica. Pre ¿>des faz a si mesmo a pergunta funda„tal: quem é esse Jesús? Conhece, de
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ouvido, respostas: o povo precisa enquadrá-lo; identifica-o com o Batista ressuscitado ou com algum profeta redivivo ou com Elias que nao morreu e há de voltar (Eclo 48,10). No enquadramento nao há um vazio para o messias esperado. Herodes Antipas náo eré em tais boatos, quer vé-lo pessoalmente (23,8). Bastaría vé-lo sem ter fé? Náo se esclarece seu mistério simplesmente com urna inspec§áo. Alembrantja de Herodes, nesse ponto, durante a atividade dos doze, projeta urna sombra agourenta. 9,10 Náo especifica o que contaram: se foi éxito ou fracasso a primeira expedirán apostólica. Considera mais significativo o retiro de Jesús com seus estreitos colabo­ radores. Para descansar dos trabalhos ou para afastar-se de um perigo. E também ensinamento para futuros pregadores: ter­ minada a tarefa, voltar a sós com Jesús. 9,11-17 Jesús é o anfitriáo generoso e prodigioso (ver SI 23,5; 136,25; 145,1516). No fundo, temos de colocar a atuaqáo de Moisés e de Eliseu (Ex 16; 2Rs 4,4244). No extremo oposto, a eucaristía (22, 19). Os dois quadros emprestam tragos e vocabulário ao milagre de Jesús. O breve diálogo com os doze serve para mostrar a impoténcia humana diante da emergéncia, para que assim ressalte o po­ der de Jesús. A solugáo dos doze é despe-

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1'Kespondeu-lhes:

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Dai-lhes vós de comer. Keplicaram: Nao temos senáo cinco páes e dois («•ixt-s; a nao ser que vamos nós com|iiiu comida para toda essa gente. "(Os homens eram uns cinco mil.) I le disse aos discípulos: •• • Fazei-os sentar em grupos de cini|llenta. r'Assim o fizeram e todos sentaram. '"I iitáo tomou os cinco páes e os dois pt'ixes, levantou os olhos ao céu, aben(¿oou-os, partiu-os e os foi dando aos discípulos para que os servissem á mul­ lidla). 17Todos comeram e ficaram sai’indos, e recolheram em doze cestos os podados que sobraram. ( 'onfissáo de Pedro (M t 16,13-19; Me K,27-29) — 18E stando ele certa vez dir o povo. Afastar-se de Jesús seria a soluidlo? A de Jesus se mostra em agáo. O povo há de (literalmente) “reclinar­ le”, como comensais num banquete. Em "grupos de cinqiienta”, como os israelitas no deserto (Ex 18,25). A massa do povo volta a ser um povo organizado como em mitros tempos e co mega a ser o povo do novo reino, que celebra seu banquete co­ munitàrio. Este encerra solenemente urna clapa do ministério de Jesús na Galiléia. O olhar ao céu é de petigáo e confianza (SI 123,1). A bèngào é dada sobre qualquer alimento, em especial o eucaristico (24,30; ICor 10,16). Abengoar é transmi­ tir fecundidade: cresceí e multiplicai-vos. O “partir” supóe páes grandes e dà nome it eucaristía, “a fragáo do pao” (At 2,42). O servir, comer e ficar satisfeitos e sobrar podem estar influenciados pela linguagem do citado 2Rs 4. Doze cestos: é o número das tribos, dos apóstolos 9,18-50 Segue-se urna sèrie de seis pegas que devem ser lidas como unidade maior. (’omega a confissáo messiànica de Pedro: depois, entre duas predigóes da paixáo, a Iransfiguragào e a cura do epilético; fecham a sèrie urnas breves instruyóos. Ou seja: Jesús é Messias; Messias sim, porém pa­ ciente; Messias paciente, porém glorioso; glorioso e também benfeitor; Messias ben-

orando a sós, os discípulos se aproxi­ maran! e ele os interrogou: — Quem diz o povo que eu sou? 19Responderam: — Uns, Joáo Batista; outros, Elias; outros dizem que surgiu um dos antigos profetas. 20 Perguntou-lhes: — E vós, quem dizeis que eu sou? Pedro respondeu: — Tu és o M essias de Deus. Prediz a m orte e ressurreicáo (M t 16,20-25; M e 8 ,3 0 -9 ,1 ) — 2lEle os admoestou, ordenando-lhes que nao o dissessem a ninguém. 22E acrescentou: — Este Hom em tem de sofrer muito, ser rejeitado pelos senadores, sumos sacerdotes e letrados, tem de ser con­ denado á morte e ressuscitar ao terceiro dia. feitor e, no entanto, odiado; por isso, aprendei. E agora, a caminho! 9,18-20 A versào lucana chama a atengào por sua brevidade e também pelo con­ texto de oragao em que se coloca. A oragáo de Jesús é o contexto da confissáo dos apóstolos por0 meio de Pedro. Como a in­ dicar que além da confissáo esconde-se urna profundidade insondável. Jesús pergunta numa espécie de resumo de sua atividade até agora e apresentando o futuro. Propoe a pergunta fundamental, “quem sou eu”, em dois tempos, para que a resposta dos discípulos se destaque sobre as opinides do povo. A pergunta é desafiadora (nao simples curiosidade ou má disposigáo, como as de Herodes), e se dirige a todos. Cada um tem de dar sua resposta. O povo, com todo o seu entusiasmo, nào ultrapas­ sa o nivel profètico ou o nivel de Joáo. Na cena evangélica, Pedro responde como cabera de todos. A eles foi dado conhecer o segredo do reinado de Deus. O Messias de Deus é o Ungido de Deus: primeiro tí­ tulo de Saul, depois do monarca descen­ dente de Davi (SI 2,2.6; 18,51; 132,17; Lm 4,20). Na boca de Pedro, significa o Mes­ sias esperado. Por ora, nào deve divulgálo, para evitar interpretagoes equivocadas. 9,21-27 Messias paciente. Imediatamente depois da confissáo messiànica de Pe-

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23E dizia a todos: — Quem quiser seguir-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e venha comigo. 24Quem se empenha em salvar a vida, a perderá; quem perder a vida por mim, a salvará. 25Que aproveita ao hom em ganhar o m undo inteiro, se se perde ou malogra? 26Se alguém se envergonhar de mim e de m inhas palavras, este Homem se envergonhará dele quando vier com sua gloria, a de seu Pai e de seus santos anjos. 27Eu vos asseguro que alguns dos que estáo aqui presentes nao sofreráo a morte antes de ver o reinado de Deus. Transfigúratelo (Mt 17,1-8; Me 9,2-8) — 28Oito dias depois dessas palavras, dro, Jesús pronuncia, como Homem, a primeira das très prediçôes da paixáo (vv. 4445; 18,31-34). O designio de Deus para seu Messias o conduz à gloria através da paixâo e morte. Daí se seguem conseqüéncias para os apóstolos e discípulos de Jesús. A aceitaçao e seguimento desse caminho decidirao o destino último do ho­ mem. Acruz fica implantada no seguimen­ to, também a cruz cotidiana, que consiste em ir superando o egoísmo que arruina o homem. 9.22 Os très grupos mencionados formam o grande Conselho (22,66), que é representaçâo e guia do povo. A reprovaçâo está vista como ato oficial; o termo pode aludir à “pedra rejeitada pelos construtores” (SI 118,22). Outras frases e o processo aludem ao poema do Servo (Is 53); assim completa o texto citado e assumido na auto-apresentaçâo em Nazaré (4,16-30). A ressurreiçâo segue-se à morte na primi­ tiva proclamaçâo (kerygma). 9.23 Alarga-se o círculo de destinatários. Portanto, “seguir” abrange a vida de qualquer cristáo. A cruz é a trave vertical que o condenado tinha de levar no último trecho da vida. O discípulo há de fazé-lo “em companhia” de Jesús, por ele tem de estar disposto ao martirio. Só que o marti­ rio, fato final, nao anula o ritmo paciente de cada dia. 9.24 Note-se a assimetria: “salvar/per­ der por mim”. Esse motivo, referido à pessoa do Messias, dá sentido ao perder a vida

tomou Pedro, Joâo e Tiago e subiu a mu monte para orar. 29Enquanto orava, sen rosto mudou de aspecto e suas vesii resplandeciam de brancura. 30Dois lio mens falavam com ele: eram Moisés c Elias, 31que apareceram gloriosos e co< mentavam o éxodo que iria se consumai em Jerusalém. 32Pedro e seus comp;i nheiros estavam pesados de sono. An despertar, viram sua gloria e os dois ho mens que estavam com ele. 33Quamlo estes se retiraram, Pedro disse a Jesús: — M estre, como se está bem aqui' Arm em os très tendas: urna para ti, um.i para M oisés e urna para Elias. (Nao sabia o que dizia.) 34A inda fala va, quando veio urna nuvem que lhes fe/ sombra. Ao entrar na nuvem, assusta e, pela perda, dá sentido à vida. Uma vid.i que apenas se esgota em conservá-la níio tem sentido, se arruina. O destino de Je sus, traçado pelo Pai e estendido exemplar mente aos homens, é paradoxal; parte do mistério do reinado de Deus. 9.25 Variaçâo aclaratoria (cf. SI 49), delineada na oposiçâo do ser e do possuir. O demonio ofereceu a Jesús o dominio do mundo inteiro: era o projeto oposto ao do Pai. E volta a tentar apoiando-se no ins tinto de conservaçao do homem. 9.26 Projeta a situaçào presente até ;i parusia, a hora da verdade definitiva, a vinda “gloriosa” do Messias acompanha do de seu séquito (Zc 14,5). Envergonhar se: SI 69,7-8; 119,46. 9.27 A interpretaçâo é duvidosa. Se Lucas recolhe sem mais um dito transmi­ tido pela tradiçâo, o versículo seria testemunho da expectativa das primeiras co­ munidades (da qual fala 2Ts); ele a teria recolhido aqui por associaçâo temática. Se Lucas pretende dar à frase um sentido adaptado à sua época, “ver o reinado de Deus” seria reconhecé-lo na ressurreiçâo de Jesús. 9,28-36 Messias paciente, porém glorio­ so. Imaginemos os pensamentos de “aquele Homem” (= Filho de Adâo). A partir de sua apresentaçâo em Nazaré (4,18), atravessou entusiasmos, incompreensôes e hostilidades dos chefes. Para o povo, que conhece a Escritura (Torá e Profetas), o Messias tinha de ser reconhecível, identi-

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iiiin-se. 35Da nuvem veio urna voz, que tli/.ia: — Este é o meu Filho escolhido. Esi'iilai-o. u'Ao ressoar a voz, Jesús se achava mi/.inho. Eles guardaram silencio e por

enquanto nâo contaram a ninguém o que haviam visto. O menino epilético (Mt 17,14-18; Me 9,14-27) — 37No dia seguinte, ao descer do monte, saiu-lhes ao encontro grancompreender a morte de Jesús como o grande “éxodo” (também eles sofreram hostilidade e perseguiçào). Segundo Lucas, os apóstolos dormiam no momento crítico e nâo puderam ver a transformaçâo em ato, só véem o resulta­ do. (Outro tanto acontecerá com a ressurreiçào.) Pedro pretende fixar e perpetuar o momento, como numa festa nao imagi­ nada das Tendas, ou como uma presença cultual em “tendas da reuniáo” (Ex 33,711). Nâo sabe o que diz, porque a revelaçâo é um momento maravilhoso e fugaz, um indicador que aponta para a certeza da ressurreiçâo. E tampouco a ressurreiçâo poderá estar presa a uma tenda terrestre: o último éxodo será a ascensáo. Vem a nuvem, sinal da presença velada de Deus (Ex 14,20; IRs 8,10-12; 2Mc2,8); nela penetram os apóstolos (Ex 24,18). Da nuvem soa a voz do Pai, o testemunho su­ premo, a revelaçâo mais alta, com palavras tomadas de Is 42,1 e talvez apontando ao contexto. Por ora háo de guardá-la ciosamente para si. 9,37-43 Moisés glorioso e benéfico. Ao descer do monte, como outro Moisés, com os très apóstolos, Jesús encontra uma situaçâo desalentadora: um menino ator­ mentado pelo demonio, uns discípulos impotentes por falta de fé, a massa incré­ dula só atenta a milagres, e nessa massa uma situaçâo que provoca piedade: um pai aflito por seu filho único, os sofrimentos do menino. Os síntomas sáo claramente de epilepsia, que Lucas descreve em processo e com exatidáo e que os antigos atribuíam à possessâo diabólica. A primeira reaçâo de Jesús é de queixa, como as palavras de Deus no chamado cántico de Moisés (Dt 32,5), como as queixas “até quando continuará essa comunidade mal­ vada protestando contra mim ?” (Nm 14,27). Mas a compaixâo tem mais força: como Filho do Pai compreende a dor de um pai por seu filho. Além disso, urge a necessidade de enfrentar os poderes ma-

lleável: corresponde Jesus à imagem bí­ blica? Até os discípulos tém pouca fé. À trente apresenta-se cada vez mais claro e próximo o trágico destino: é este o desig­ nio do Pai? A confissilo de Pedro acresccnta-se a do Pai, que a faz transbordar. E •onia-se o testemunho da Escritura, repre«entada por Moisés e Elias. O caminho da pnixáo vai iluminar-se com o esplendor, iintecipado e provisorio, da transfiguraçào. Lucas, como outras vezes, dispóe um contexto de oraçâo e um monte como ce­ llàrio (cf. Ex 3; 19,1; IRs 19): Jesus a sós com seu Pai, em sublime contemplaçâo. Sobe para orar e seu orar é subida. Exposlo ao esplendor da gloria de Deus, o rosto de Moisés tornava-se “radiante” (Ex 34,29-35); um salmo convida: “contemplai-o e ficareis radiantes” (SI 34,6). En­ quanto Jesus ora, a gloria de Deus o pene­ tra e lhe transfigura luminosamente o rosto c as vestes (SI 104,2), como se a matèria se convertesse em energia luminosa. Costuma-se conceber ou representar a gloria de Deus em termos de esplendor: “O resplendor que o envolvía... era a aparéncia visível da gloria do Senhor” (Ez 1,28; cf. Ex 16,10; 24,10; Jó 37,22). A apariçâo de urna grande personagem já morta nós a conhecemos por um texto tardio (Jeremías, 2Mc 15,12-16). De Elias se contava a lenda do rapto celeste (2Rs 2; Eclo 48,9-10); de Moisés, há um ligeiro apoio em Dt 34,6. Nao surgem como Sa­ muel das profundezas da terra (ISm 28), mas se apresentam como duas testemunhas celestes (Dt 19,15), ao passo que os très apóstolos seráo testemunhas terrestres no momento oportuno. Ademáis, Moisés, como vimos, havia refletido a gloria de Deus. Agora, Moisés participa com Elias da gloria de Jesús. Os dois falam da morte (partida, éxodo) de Jesús em Jerusalém: aponta-se o movimento para a capital, que Lucas vai tomar como itinerario do desti­ no de Jesús (9,51; 13,22; 17,11; 18,31; 19,11). Lei e Profetas estáo de acordo em

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de multidáo. 38Um homem da multidáo gritou: -— Mestre, rogo-te que des atengáo a meu filho, que é único. 39Um espirito o agarra, de repente grita, o contorce e o faz espumar, e difícilm ente se afasta, deixando-o moído. 40Pedi aos teus dis­ cípulos que o expulsassem , mas nao foram capazes. 41Jesus respondeu: — Que geraqáo incrédula e perver­ sa! A té quando terei de estar convosco e vos agüentar? Traze aqui o teu filho. 42Ainda se aproximava, quando o de­ monio o arremessou e o retorceu. Jesús ameagou o espirito im undo, curou o menino e o entregou a seu pai. 43E todos se maravilharam da grandeza de Deus. Nova predigáo da m orte e ressurreigáo(M t 17,21-23; M e 9,30-32) — Visto que todos se adm iravam do que fazia, disse a seus discípulos: — “ ^Prestai atengáo a estas palavras: Este Homem será entregue em máos de homens. léficos. “Ameaija” como em outras ocasióes. Por fim, entrega ao pai o filho cura­ do (cf. IRs 17,23; 2Rs 4,36). O povo reconhece no milagre a “grandeza” de Deus (Dt 3,24; 9,26; SI 150,2). 9,44-45 Benéfico e, no entanto, odiado. Enquanto o povo continua maravilhado, Jesús se dirige aos discípulos. Na segunda predigáo da paixáo, nao menciona a ressurreigáo. A tragédia da paixáo se consu­ mará entre irmáos: este Homem (filho de Adáo) será entregue a outros homens (co­ mo Abel e Caim em outra escala). Os dis­ cípulos entendem a frase gramatical e, porque a entendem, nao compreendem seu sentido. Esse destino anunciado nao se enquadra com o que eles esperam de Je­ sús; nao conseguem conciliar poder com fraqueza, que o dominador de espíritos malignos caia em poder de homens. As palavras sao obscuras para quem nao está disposto a compreender. 9,46-48 Ao verem o éxito do exorcis­ mo, todos tinham admirado “a grandeza” de Deus. Pois bem, á grandeza se acede pela pequenez do menino, pela humilda-

45Mas eles nâo entendiam essa lin guagem; seu sentido era-lhes oculto e ininteligível; mas nâo se atreviam a per guntar a respeito disso. D iversas instruçôes (Mt 18,1-5; M < 9,33-40) — 46Surgiu um a discussáo entre eles sobre quem era o maior. 47 Jesus, sabendo o que pensavam, aproximou uma criança, colocou-a jun­ to a si 48e Ihes disse: — Quem acolhe esta criança em atençâo a mim, a mim acolhe; e quem mr acolhe, acolhe aquele que me enviou. O menor de todos vós é o maior. 49Joáo lhe disse: — Mestre, vim os alguém que expul sava demonios em teu nome e o impe­ dimos, pois nâo anda conosco. 50Jesus replicou: — Nao o impeçais. Quem nao está contra vós está a vosso favor. Cam inho para Jerusalém — 51Quando ia se cum prindo o tempo para que o levassem*, enfrentou decidido a viade de Jesús. E freqüente no AT essa prefe­ rencia de Deus pelo pequeño (p. ex. ISm 16,5-13; cf. o menino de Is 11,6). Os dis­ cípulos náo compreenderam, continuam com mentalidade e critérios humanos, dis­ putando o primeiro lugar. Talvez à frente dos très preferidos ou em lugar de Pedro. Um menino, que por si só náo se vale, que náo conta na sociedade, é colocado no lu­ gar mais próximo de Jesús. Pelo serviço ao menino, em atençâo a Jesús, serve-se a Jesús; servindo a Jesús serve-se ao Pai. 9,49-50 Refere-se a exorcistas profissionais, talvez itinerantes, que, conhecida a fama de Jesús, invocam seu nome nos exorcismos. Aos discípulos isso parece um abuso (como por num produto uma marca famosa). Jesús responde com uma declaraçâo de tolerancia, que se há de comple­ tar com a de 11,23. O caso é semelhante ao de Josué e Moisés, narrado em Nm 11: con­ trastan! os ciúmes exclusivistas de Josué com a magnanimidade de Moisés. Veja-se também a reaçâo de Paulo (F1 1,15-18). 9,51 Neste versículo começa a segunda parte do evangelho de Lucas: é a subida

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gern para Jerusalém, 52e enviou ä frente ílguns mensageiros. Eles foram e enIrnram numa aldeia de samaritanos para prcpará-la. 53Mas estes nao o recebernm, porque se dirigia a Jerusalém. 54Ao ver isso, seus discípulos Joäo e Tiago ilísseram: — Senhor, queres que mandemos que tiuia um raio do céu e acabe com eles? 55Ele se voltou e os repreendeu. 56E purtiram para outra aldeia. Seguimento (Mt 8,19-22)— 57Enquanlo caminhavam, alguém lhe disse: lie Jesús para Jerusalém, para a cruz, para o céu. Partindo um pouco antes, o inicio do ministério na Judéia repete esquemáti­ camente o comego do ministério na Galiléia: batismo e transfíguragáo; confronto com o demonio no deserto e com um endemoninhado no vale; rejeigáo em Nazaré e na Samaría; escolha dos apóstelos e dos discípulos. O comego é um ato consciente c decidido de Jesús: “enfrentou”, literal­ mente “endureceu a face”. Como o Servo: "por isso nao me acovardava, por isso en­ durecí o rosto como pedra” (Is 50,7), como ¡i dureza de Jeremías: “coluna de ferro, muralha de bronze” (Jr 1,18), como Ezequiel: “parti decidido e inflamado” (Ez 2,6). O substantivo usado (analempsis) corres­ ponde ao verbo de arrebatamento de Elias: “o Senhor vai levar hoje” (2Rs 2,3.5, soli­ citado em 19,4). O significado original é “tomar, levar” (como o latim assumere); lógicamente, se aquele que toma está no alto, no céu, tomar é levantar (como ex­ plica o v. l i e Eclo 48,9). O matiz de le­ vantar, como símbolo, adere-se ao termo (At 1,2.11.22; lTm 3,16). A viagem está balizada por referencias, sem muita preocupado com a geografía (9,52; 17,11; 18,35; 19,1.28). Pelo caminho váo sucedendo-se ensinamentos, pa­ rábolas, milagres, controvérsias. *Ou: de sua assungáo. 9,52-53 A viagem cometa solenemente, enviando á frente quem prepare caminho e aloj amento (como o Batista na primeira parte). Logo tropera em resistencia. Desta vez sao os antigos rancores dos sa­ maritanos contra os judeus, radicados na conquista pela Assíria (2Rs 17,24-41), ran-

— Eu te seguirei para onde fores. 58Jesus lhe respondeu: — As raposas tém tocas, as aves tém ninhos, mas este Homem nao tem onde reclinar a cabeça. 59A outro disse: — Segue-me. Respondeu-lhe: — Senhor, deixa-me ir primeiro en­ terrar meu pai. “ Replicou-lhe: — Deixa que os mortos enterrem seus mortos; quanto a ti, vai anunciar o rei­ nado de Deus. cores esses manifestados no tempo de Esdras. Os samaritanos tinham seu tem­ plo no monte Garizim e nao reconheciam o de Jerusalém. 9,54-56 A reaçâo dos discípulos é de cunho profètico, como a de Elias: “Se sou um profeta, que caia um raio e queime a ti e a teus homens” (2Rs 1,10.12), e parece justificada pela ofensa feita àquele que é mais que profeta. Nao entenderam o pro­ grama de Jesus nem sabem para onde ele se dirige. Sacudir o pó dos pés nao é fulminar com fogo celeste (9,5). Alguns manuscritos acrescentam: “Nao sabéis de que espirito sois. Este Homem nao veio para destruir vidas humanas, mas para salvá-las”. 9.57-62 Très cenas de seguimento ilustram o começo da marcha de Jesús. Sao personagens anónimas, típicas. A primeira e a terceira tomam a iniciativa sem se­ reni chamadas, a segunda é Jesus quem a chama. Nos très casos, é decisiva a prontidáo, o desprendimento de outros víncu­ los, a disposiçâo de enfrentar o descon­ forto. Tudo isso dominado pelo desejo de seguir em companhia do Senhor. 9.57-58 O salmo da criaçâo canta, entre outras coisas, as habitaçôes de aves e ani­ mais (104,12.17-18). Jesus se parece com Jacó na paisagem pedregosa de Betel: “pegou urna pedra do lugar, colocou-a como travesseiro e deitou-se naquele lugar” (Gn 28,11). Seguir Jesus è caminhar sem pà­ tria nem lar (cf. Pr 27,8). Ben Sirac consi­ dera desonroso e desgraçado viver de esmola (Eclo 40,28-30). 9,59-60 Enterrar os pais é dever sagra­ do (Gn 35,29; Tb 14,10-13). Jesús respon-

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61Outro lhe disse: — Eu te seguirei, Senhor, m as primeiro deixa despedir-me de minha fa­ milia. 62Jesus lhe replicou: — Quem póe a mao ao arado e olha para trás nao é apto para o reinado de Deus. M issáo dos seten ta e d ois — 'U m pouco depois, o Senhor designou outros setenta [e dois] e os enviou à frente, de dois a dois, a todas as cidades e lugares onde pensava ir. 2 Dizia-lhes: de com um provèrbio paradoxal. Quem só conta com esta vida, recebe ao final hon­ ras fúnebres; Jesus vem trazer uma vida nova. O que acabou, acabou (cf. Hb 8,13). 9,61-62 Comparar com o chamado de Eliseu (IRs 19,20). Quem ara, segura com a máo a rabila, olha para frente e traga um sulco reto. Olhar para trás foi a fatalidade da mulher de Ló (Gn 19,26).

— A messe é muita, os operários pou eos; pedi ao dono da messe que envíe operários à sua messe. 3 Ide, eu vos en­ vió como ovelhas entre lobos. 4Náo io veis nem bolsa nem sacóla nem sanda lias. Pelo caminho nao saudeis ninguém, 5Quando entrardes numa casa, dizei pii meiro: Paz a esta casa. 6Se houver ai gente de paz, descansará sobre eia a vossa paz. Do contràrio, voltará a vos. 7Ficai nessa casa, comendo e bebendo o que houver; pois o operário tem di reito à sua diària. Nào passeis de casa em casa. 8Se entrardes numa cidade e vos receberem, cornei do que vos ser

19,15). Háo de confiar na generosidad^ que sua mensagem provocará, sem abusar dela para deixar-se hospedar. 10.2 Ametáfora da colheita é correlativa com a tomada da semeadura (8,5-8; cf. Jo 4,35-37). Colheita abundante é informagáo otimista. Supòe a béngáo de Deus. A colheita toda, e náo só as primicias (Dt 26) deve ser oferecida ao dono, Deus. Os se­ tenta devem pedir generosamente que au­ 10 ,1-16 Assim como houve uma mis- mente seu número, sem fechar-se em prisao dos doze na Galiléia (9,1-6), assim se vilégios. narra agora a missáo de setenta (setenta e 10.3 O “eu vos envió” é aqui enfático e dois, em alguns manuscritos) na Judéia. por isso a comparagáo se torna paradoxal: Assim, temos um segundo círculo em exé bom pastor aquele que póe suas ovelhas pansáo, que pode refletir a intengáo de num bando de lobos? E realista e garante Lucas dirigindo-se a comunidades cristas. seu apoio. Pobres, indefesos e ameagados Sáo setenta, como os povos de que se comiráo cumprindo sua missáo. póe a humanidade (segundo Gn 10) ou, 10.4 Refere-se á saudagáo demorada e antes, como os auxiliares de Moisés, par­ efusiva que, as vezes, incluía desviar-se do ticipantes do seu espirito (Nm 11,16-30). caminho para saudar (cf. 2Rs 10,13; 4,29). O verbo da missáo é o mesmo usado para 10,5-6 A paz é a saudagáo hebraica (SI os apóstalos. Envia-os “à sua frente”, co­ 122) e é saudagáo messiànica (2,14). Desmo o Batista (1,76; 7,27 citando MI 3,1). creve-se como personificada, móvel, com Preparar-lhe a chegada será sempre o sen­ “filho” (semitismo). Dois textos ilustram tido de todo o apostolado da Igreja: a geo­ as duas respostas à mensagem de paz: grafía se alarga, o esquema permanece. “Como sao belos os pés do arauto que As condigóes sáo gerais: renúncia a seanuncia a paz” (Is 52,7) e “eu sou pela gurangas e comodidades, para dar crédito paz... eles pela guerra” (SI 120,7). e apresentar ao vivo a mensagem. Leva10.7 Ir de casa em casa pode significar ráo a paz com mansidáo (3): náo a da sauum espirito interesseiro e pode ofender o dagáo convencional e apressada, mas a paz primeiro anfitriáo. A diària: é um princi­ messiànica, eficaz quando bem recebida, pio legal que se aplica á atividade do premas que se converte em condenagáo se é gador (IC or 9,8-14; lTm 5,18; cf. Ez rejeitada. A tarefa deles, como a de Jesús, 29,20). será anunciar a boa noticia do reinado de 10.8 Sem escrúpulos legáis de moradia Deus (9,11) e curar doentes em nome dele. ou alimentos. O único requisito é que reIráo dois a dois, como testemunhas (Dt cebam em paz a paz messiànica.

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vlrrni. ‘'Curai os enferm os que houver, p tli/ci-lhes: O reinado de Deus chegou iili' vós. 10Se entrardes num a cidade e Hilo vos receberem, sai às rúas e dizei: 1 1 Ale o pó desta cidade, que se pegou cni nossos pés, o sacudimos e devolve­ m os a vós. Apesar de tudo, sabei que o trinado de Deus chegou. 12Eu vos digo i|iic naquele dia a sorte de Sodoma será milis branda que a dessa cidade.
«(■crimina as cidades da Galiiéia (Mt 11,20-24) — 13Ai de Ti, Corazim! Ai de II, Betsaida! Porque, se em Tiro e Siilónia tivessem sido feitos os milagres u-nlizados em vós, há tempo teriam feilo penitencia sentados na cinza com pano de saco. 14E assim, a sorte de Tiro o Sidónia no julgamento será mais bran­ da que a vossa. 15E tu, Cafarnaum, preIendes elevar-te até o céu? M as cairás aló o abismo.

16Quem vos escuta, escuta a mim; quem vos despreza, despreza a mim; quem me despreza, despreza aquele que me enviou. Voltam os setenta e dois — 17Voltaram os setenta [e dois] muito contentes e disseram: — Senhor, em teu nome até os de­ m onios se submetiam a nós. 18Respondeu-lhes: — Eu via Satanás cair do céu como um raio. 19Vede: Eu vos dei poder para pisar serpentes e escorpiôes e sobre toda a força do inimigo, e nada vos fará mal. 20Contudo, nâo vos alegreis porque os espíritos se submetem a vós, e sim porque vossos nomes estáo registrados no céu. O Pai e o Filho (Mt 11,25-27; 13,16-17) — 21Naquela ocasiáo, com o júbilo do Espirito Santo, disse:

1 0 , 1 0 - 1 1 É urna açao simbólica expli­ cada em palavras, como faziam os profe­ tas. Esse pó está contaminado e é preciso sacudi-lo dos pés antes de voltar a pisar o pó sagrado (cf. SI 102,15). 10,12 A sorte da Pentápole, exemplo de castigo definitivo ou escatológico (Gn 19,24-25; Ez 16,49.56). A instruçâo con­ tinua no v. 16. 10,13-15 Atraída pela figura das cidades fechadas à mensagem, soa aquí esta maldiçâo contra povoados da Galiiéia onde Jesús tinha pregado e feito milagres. O es­ tilo é o dos ais pronunciados por profetas contra naçôes ou impérios pagaos. Isaías e Ezequiel pronunciam seus oráculos con­ tra Tiro e Sidónia (Is 23; Ez 26-28). Mas as très cidades costeiras, em ordem crescente haviam recebido um tratamento preferencial por parte de Jesús. Preferidas a Jerusalém, a cidade preferida de Yhwh em outros tempos. Translada-se a um julga­ mento definitivo e comparativo. A má resposta à graça abundante é agravante; por isso sua condenaçâo será mais grave. Cafarnaum, cidade de Jesús ou centro de suas operaçôes, atrai o oráculo contra Babi­ lonia (Is 14). Nâo é sem ironia dizer de urna cidade costeira que ela tenta elevar­ se até o céu.

10,16 Com o principio clássico da repre­ sentado, concluí a instrugáo antes da missáo (cf. Nm 12,6-8); a cadeia que desee do Pai a Jesús e aos apóstolos, e sobe de volta. 10,17-20 É curioso o relato dos setenta pelo que selecionam e pelo que excluem. O que mais lhes satisfaz é a eficácia dos exorcismos em nome de Jesús. Nao o conseguiam com o menino no vale (9,37-43). E nao dizem nada da resposta das cidades á boa nova. Jesús levanta a mira. Satá (= fiscal ou rival) comparece á cor­ te celeste para acusar os homens (Zc 3,1-2; Jó 1-2) e exerceu no mundo um poder daquele que alardeia: “o deram a mim, e o dou a quem quero” (4,6). Agora foi derrubado do seu lugar, como o imperador emblemático de Babilonia, “caído do céu, abatido até o abismo” (Is 14,12.14) pela vítória de Jesús (4,1-12). Graqas a isso, os discípulos submeteráo as potencias do mal (SI 91,13). Mas nao basta submeter o inimi­ go de baixo; mais importante é pertencer ao reino de cima, estar inscrito em seu regis­ tro: “O Senhor escreverá no registro dos povos: Este nasceu ali” (Ex 32,32; SI 87,6). 10,21-24 Junto com a transfigurado, este é um momento culminante do evangelho. Um gozo sobre-humano, infundído pelo Espirito Santo, brota incontível e

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10,.’

— Dou-te grabas, Pai, Senhor do céu e da térra! Porque, ocultando essas coísas aos entendidos, tu as revelaste aos igno­ rantes. Sim, Pai, essa foi a tua escolha. 22Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece quem é o Filho, a nao ser o Pai, e quem é o Pai, a nao ser o Filho e aquele a quem o Filho decida revelá-lo. 23 Voltando-se para os discípulos, disse-lhes em particular: — Felizes os olhos que véem o que vedes! 24Eu vos digo que muitos profe­ tas e reis quiseram ver o que vós vedes, e nao viram, escutar o que vós escutais, e nao escutaram. O bom sa m a rita n o — 25Nisso um ju ­ rista se levantou e, para pó-lo á prova, lhe perguntou: se expressa nesta confissáo. Com estas palavras Jesús se transfigura e irradia luz de revelagào. Sugestóes ou vislumbres do AT parecem convergir neste ponto, espe­ cialmente da Sabedoria personificada (Pr 8,22-31; Eclo 24). A oposi§áo entendidos e ignorantes é clàssica na literatura sapiencial (Eclo 21, 12-24 e outros) Aqui invertem-se os valo­ res em virtude de urna revelagáo superior e em paralelo com outras inversóes (cf. o Magnificat, 1,51-53). Os entendidos sáo aqui os chefes judeus; os ignorantes sáo os discípulos (compare-se com a fungao da lei, que “instruí o ignorante”, no SI 19,8); mas o enunciado transborda o hori­ zonte temporal (cf. ICor 1-2). O Pai re­ vela antes de tudo a filiagáo única de Je­ sus (3,22; 9,35). Jesus é o Filho, revelador do Pai (Joào desenvolverá essa teologia). 10,23-24 Esta é urna bem-aventuran§a (macarismo) para o ver e o ouvir penetran­ do, em termos de encarnaqào; ver e ouvir no e pelo Filho ao Pai (cf. lJo 1,1-2). Os discípulos sáo testemunhas privilegiadas dessa revelagào, que se estenderà a todos os cristáos. Profetas, que vislumbravam o futuro, e reis, que prolongavam a dinas­ tia: pode-se aduzir a petigào do povo (Is 63,19), a mengáo de reis (Is 52,15 e 60,3) e também Davi, rei-profeta, como suposto autor dos salmos. 10,23 Ver Eclo 48,11 referido à volta de Elias: “Ditoso quem te ve antes de mor-

— Mestre, que devo fazer para het dar vida eterna? 26 Respondeu-lhe: — O que está escrito na Lei? O que c que les? 27 Replicou: — A m arás o Sen h o r teu D eus di todo o coragáo, com toda a alma, com toda a m ente e ao próxim o como a li mesmo. 28 Respondeu-lhe: — Respondeste corretamente: fazi isso e viverás. 29Ele, querendo justificar-se, pergun tou a Jesús: — E quem é meu próximo? 30Jesus lhe respondeu: — Um homem descia de Jerusalém para Jericó. Deu de cara com assaltan rer”; compare-se com Simeáo “meus olhos viram” (2,29-30). 10.25-37 O diálogo com um letrado ou jurista serve a Lucas para introduzir a pa­ rábola do “bom samaritano”, que somen te ele nos conservou. 10.25-28 O letrado coloca a pergunta em termos de religiosidade deuteronomista: para viver é preciso cumprir (Dt 4,1; 5,33; 8,1; 16,20; 30,16); muda o horizonte, que é agora uma vida perpétua no mundo novo. “Herdar” é termo técnico no AT e seu obje­ to é a térra. A pergunta tem sua resposta explícita na “lei”, por isso Jesús faz aquele que pergunta responder; ele nao legisla, mas urge o cumprimento. O letrado responde sintetizando todos os preceitos (seiscentos e treze na conta dos rabinos) em dois, o amor a Deus e o amor ao próximo (Dt 6,5 e Lv 19,18; síntese que Jesús faz segundo Mt 12,28 e 22,27-29). O homem consegue a plenitude da vida saindo de si: para Deus e para o próximo como termos correlativos. A resposta, diz Jesús, é correta, a síntese está bem feita; seguindo a religiosidade da lei, é preciso cumprir o que foi dito. Os dois mandamentos sáo nao somente síntese, mas também alma de todos os outros: somente o amor dá sentido e justifica a lei. 10,29 O letrado o escuta como repreensao e busca uma escapatoria na casuística: o simples e claro se problematiza, neutra­ lizando sua validez. Pelo visto, identificar Deus náo era problema; identificar o próxi-

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It'N i|ue lhe tiraram a roupa, o cobriram ili' j'.olpes e foram embora deixando-o nrmimorto. 3,Coincidiu que descia por else caminho um sacerdote e, ao vè-lo, (uissou longe. 320 m esmo fez um levi­ li! : chegou ao lugar, viu-o e passou lonHr. ” Um samaritano que ia de viagem, rlicgou onde estava, viu-o e se compadoccu. 34Pòs azeite e vinho nas feridas i ;is atou. A seguir, m ontando-o em sua t avalgadura, o conduziu a urna pousada e cuidou dele. 35No dia seguinte, ti­ nnì dois denàrios, deu-os ao dono da

pousada e lhe recomendou: Cuida dele, e o que gastares eu te pagarei na volta. 36Qual dos tres te parece que se portou com o próximo daquele que deu de cara com os assaltantes? 37 Respondeu: — Aquele que o tratou com m iseri­ cordia. E Jesus lhe disse: — Vai e faze tu o mesmo. M a rta e M a ria — 38Prosseguindo via­ gem, Jesus entrou numa aldeia. Urna

mi), sim. Próximo, no contexto do LevíIico, é o israelita; o Deuteronómio reserva 0 título de “irmáos” para os israelitas. A príitica dos doutores podia excluir peca­ dores e nao observantes. Em última insIfincia eles decidem quem é e quem nao é próximo. Para Jesús, nao há escapatoria. 1,m lugar de discutir e teorizar, propóe urna parábola exemplar: um espelho nao para justificar a própria conduta, mas para criticá-la e corrigi-la. 10,30-37 Podemos observar as personagens e estudar sua relagáo. “Um homcm” qualquer, anónimo, sem indicagáo de pa­ tria nem oficio, vítima indefesa de saltea­ dores; jaz meio morto num caminho de curvas e abismos. Um “samaritano”, quer dizer, meio pagáo; gentílico que é quase um insulto para um judeu (Jo 8,48). Mas “compassivo”, solícito, generoso, tanto que a tradigáo o distinguiu com o título de “Bom Samaritano”. Um “sacerdote” e um “levita” (clérigo de ordem inferior), ou seja, funcionarios do culto, atentos as prescrigóes de pureza ritual. A tensáo entre culto e ajuda ao próximo, justiga social, é urna constante no AT, profetas, sapienciais, salmos (Is 1,10-20; Jr 7; SI 50; Eclo 34,1835,10). Os dois clérigos da parábola separaram compaixáo e culto. A relagáo de “próximo”. O termo grego (plesíon ) corresponde a um hebraico, que significa vizinho (Pr 25,17; 27,14) ou ami­ go (Pr 27,9; 17,17; Eclo 37,1-6). É conceito de relagáo recíproca, que inclui dois correlativos: um considera e trata o outro como próximo = amigo. Isto explica o deslocamento da resposta com relagáo á pergunta: quem é meu próximo? quem se

comportou como próximo? É preciso to­ mar a iniciativa, é preciso tornar-se próxi­ mo do necessitado. A resposta de Jesus nao é teòrica: sua palavra quer educar na arte de tomar-se próximo. Num segundo tempo, a comunidade viu Jesus na figura do bom samaritano e o desenvolveu em detalhe. O mais vàlido e sugestivo deles é o que desee, se aproxi­ ma e ajuda o homcm necessitado. 10,34 O azeite suaviza e protege a ferida (Is 1,6), o àlcool do vinho desinfeta. Am­ bos se prestam a explicagóes alegóricas. 10,37 Ver Is 61,1; Pr 14,21. 10,38-42 Aqui temos urna casa que re­ cebe e hospeda o pregador. Como em outros tempos urna mulher toma a iniciativa para hospedar o profeta Eliseu (2Rs 4,810; cf. At 16,14-15). Também desta vez é urna dona de casa que hospeda Jesus. Como o honra? Alguém que fala ou escreve deseja sobretudo ser ouvido ou lido: é vaidade? ou é aprego pelo que eie oferece? Entáo que é mais importante, dar ou receber? (At 20,35), servir ou escutar? Os doutores desse tempo nào explicavam a lei às mulheres. No caso de Jesus, eie veio para dar vida e ensinamento. Essa vida é o ùnico necessàrio; sua doutrina há de ser ouvida. Se o sustento é necessàrio, para viver é mais importante “o que sai da boca” de Jesus, seu ensinamento. Como as preocupagóes podem abafar a semente (8,14), assim o afá pode impedir a escuta. A tradigào, simplificando um pouco e esquematizando, fez das duas irmàs sím­ bolos da vida ativa e contemplativa, como formas diversas e complementares da exis­ tencia cristá.

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mulher cham ada M arta o recebeu em sua casa. 39Tinha urna irmá chamada Maria que, sentada aos pés do Senhor, escutava suas palavras, enquanto Mar­ ta se agitava em múltiplos servidos. Até que parou e disse: — Mestre, nao te importa que minha irmá me deixe sozinha nos trabalhos? Dize-lhe que me ajude. 410 Senhor lhe replicou: — Marta, Marta, tu te preocupas e te inquietas com m uitas coisas, 42quando urna só é necessària. M aria escolheu a melhor parte, que náo lhe será tirada.

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— Senhor, ensina-nos a orar, como Joáo ensinou seus discípulos. 2 Respondeu-lhes: — Quando orardes, dizei: “Pai, seja respeitada a santidade tic teu nome, venha teu reinado; 3 dá-no-. hoje o pao do amanhá*; 4 perdoa-mv. nossos pecados, como também nós per doamos os que nos ofendem; náo nos deixes sucumbir na prova”. 5E acrescentou: — Suponhamos que alguém tem um amigo que acorre a ele à meia-noite e lhe pede: Amigo, empresta-me trés páes, pois chegou de viagem um amigo meu e náo tenho o que oferecer-lhe. O ou A oragáo (Mt 6,9-15; 7,7-11) — tro de dentro lhe responde: Nao me ]Certa vez, estava num lugar oran­ importunes; estamos deitados eu e meus do. Quando term inou, um dos discípu­ los lhe pediu: filhos; náo posso levantar-me para da Deus seja efetivamente quem rege a his tória dos homens (cf. SI 82,8; 98). Pede se porque é um processo: chegou em Je­ sús e está para chegar em nós. 11,3: *0u: de cada dia. É duvidoso o significado do adjetivo do pao: se é coti diano, refere-se à nossa vida aqui (cf. SI 136,25); como a vida, também o sustento é dom de Deus. Se é o pao do amanhá, refere-se ao escatològico, o que alimenta a vida eterna na casa do Pai. É possível que o autor queira abarcar tudo. 11,4 Sobre o perdáo: “Perdoa a teu pró­ ximo a ofensa, e te seráo perdoados os pecados quando pedires” (Eclo 28,1-7; Le 6,37). O perdáo é dom excelso. Sobre a prova: Eclo 2,1; 33,1; Sb 3,5. 11.5-13 As duas imagens, do amigo e do pai, ilustram na oragáo o caráter de relagáo pessoal. 11.5-8 Aprimeira parábola pode descon­ certar o leitor: um Deus que atende aos pedidos para que o deixem em paz? Jesús conhece o Pai (11,22) e pode permitir-se esse ato de condescendencia, ou seja, pode humanizar ao máximo a situagáo. Por con­ traste, pode-se recordar a cagoada que Elias faz dos profetas de Baal que importunam um deus surdo (IRs 18,27). A pa­ rábola supoe urna situagáo de emergencia e que o pedinte seja movido por obriga(¿áo de hospitalidade. Náo é por capricho ou por puro interesse pessoal. Desenvolve-se em regime de amizade, ñas condi-

11.1 A oragáo responde á palavra escutada. E agora as duas coisas se fundem porque os discípulos “escutam” como se deve “orar”. Orar é atividade integrante de toda a vida religiosa e pode ser mais im­ portante que os sacrificios: “Todos os povos chamaráo minha casa de Casa de Oragáo” (Is 56,7). Para orar, o AT nos oferece textos abundantes e variados: o Saltério inteiro e muitas oragóes dispersas em tex­ tos narrativos, proféticos e sapienciais. Nao basta? Jesús dá exemplo freqüente de oraqáo (3,21; 5,16; 6,12; 9,29); algo tcm a ensinar, como Joáo e outros mestres. 11,2-4 Jesús responde ao pedido, pro­ pondo urna oraqáo muito breve, inclusive mais breve (e talvez mais próxima do tex­ to original) que a de Mateus, cinco pedi­ dos ao invés de sete (Mt 6,9-13). 11.2 A invocagáo “Pai” orienta o resto. Substituí as do AT, Yhwh = “Senhor”, ou “meu Deus”. O individuo náo chama a Deus de Pai, exceto o rei (SI 89,27) e um par de textos tardíos (Eclo 23,1; 51,10). Seja respeitada ou reconhecida a tua santidade, nao seja profanado o teu nome (cf. o triságio de Is 6,3 e SI 99). Também com a conduta pode-se profanar o nome santo, especialmente diante dos pagaos: “Ao chegar as nacóes profanaram meu nome... Mostrarei a santidade do meu nome... profanado entre os pagaos” (Ez 36,20-23). Venha o teu reinado: responde em for­ ma de petigáo ao anúncio da boa nova; que

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li ri "l ili vos digo que, se nao se levan­ t i |i;ira dà-los por amizade, se levaniiti .1 por seu aborrecim ento para dar-lhe ■ i que necessita. 9E eu vos digo: Pedi e ni', ilarao, buscai e encontrareis, batei i. vos abriráo; 10pois quem pede receIm\ i|iiem busca encontra, a quem bate U n abrem. "Q uem de vós, se seu filho 11ir pede pao, lhe dà urna pedra? Ou se U n pede peixe, lhe dà urna cobra? 12Ou m pede um ovo, lhe dà um escorpiào? "l’ortanto, se vós, sendo táo maus, saliris dar coisas boas a vossos filhos, i|inmto m ais vosso Pai do céu dará o I 'spirito Santo àqueles que lhe pedirem. Jesus e B elzebù (Mt 12,22-30.43-48; Me 3,20-27) — 14Estava expulsando um

dem ónio [que era] mudo. Q uando o dem onio saiu, o mudo falou; e a multidáo ficou admirada. 15Mas alguns disseram: — Ele expulsa os demonios com o poder de Belzebu, chefe dos demonios. 1''Outros, para pó-lo á prova, pediamlhe um sinal celeste. 17Ele, lendo seus pensam entos, lhes disse: — Um reino dividido internamente vai á ruina e desmorona casa sobre casa. 18Se Satanás está dividido internamen­ te, com o seu reino se manterá? Pois dizeis que eu expulso os demonios com o poder de Belzebu. 19Se eu expulso os demonios com o poder de Belzebu, com que poder os expulsam vossos filhos? Por isso, eles vos julgaráo. 20 Mas, se

i .iH's culturáis da época: o pao é assado em i lisa a cada dia, todos dormem num ùnico nimodo, a porta está trancada com urna Imrra. Um breve salmo repete quatro ve/rs “Até quando?” (SI 13). 11,9-10 Em forma de aforismo recolhe ii ordinamento. Isto é o contràrio de urna icsignagào fatalista aos acontecimentos, ramo se fossem vontade de Deus. A iniriativa de Deus, em imperativos, quer pro­ vocar a iniciativa do homem: “estarào ainila Calando e eu os terei escutado” (Is 55,6; (iS,24). Quem pede confessa-se necessitado, quem insiste nao procura outro reméilio, bate à porta de quem sabe que irá res­ ponder. 11,11-13 A imagem do pai é mais expressiva. Jesus “quer revelar-nos” o Pai e nos revela também o Espirito Santo (10, 22). Os homens, mesmo os pais, sao egoís­ tas; contudo, o amor paterno se sobrepóe. I leus é o dador (SI 136,25; 144,10; 146,7), scu dom máximo é o Espirito Santo (Jo 14,17; At 2,33; 5,32; Ef 1,17). 11,14-26 Um exorcismo público serve para introduzir em contraste a adm irado popular e as reservas de alguns em dois pontos: a origem do poder de Jesus (vv. 17-26), a necessidade de um sinai parti­ cular (vv. 29-32). A mudez é atribuida à possessào diabòlica que impede a comu­ nicado. A de Ezequiel foi induzida por Deus como sinai, a de Zacarías foi castigo por sua falta de fé. Jesus expulsa o demó-

nio, liberta o mudo e o restituì à comunidade humana normal. A admiragào dos presentes é desenlace freqüente nos mílagres, e ainda nao signi­ fica fé messiànica. Alguns, para desacre­ ditar Jesus ou para justificar sua rejeido, atribuem o éxito do exorcismo a um pacto com o “chefe dos demonios”. Dáo-lhe o nome de Belzebu, o deus de Acarón, a quem Ocozias queria consultar (2Rs 1,2). Isaías fala de um pacto com a divindade infernal Xeol (Is 28,15). Outros pensam que o éxito do exorcismo nao basta para acreditar o Messias, pois outros exorcistas tém poderes semelhantes. Um sinal celes­ te, nos astros ou nos meteoros, será urna garantía (para o limite máximo dos sinais, ver Is 7,11). O julgamento é puro preconceito: Será verdade que Jesús exibe poder sobre um demonio? — E poder delegado do chefe dos demonios. Seu poder pode ser auténtico? — Nao nos é suficiente. Exigimos um sinal celeste. 11,17-20 A primeira objedo, Jesús res­ ponde com um argumento de congruencia e outro de semelhanga. Os demonios lutam contra outros, nao entre si. Se dizem que Jesús é agente de Belzebu, tém de dizer o mesmo dos filhos deles, e estes se voltaráo para condená-los. A conseqüéncia é que na a d o de Deus se mostra “o dedo de Deus” (Ex 8,10): o confronto de Moisés com os magos do Egito é atraído mentalmente por tal expressáo: quando

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eu expulso os dem ñnios com o dedo de Deus, é porque chegou a vós o reinado de Deus. 21Enquanto um hom em forte e armado guarda sua morada, tudo o que possui está seguro. 22Se chega um mais forte e o vence, tira-lhe as armas em que confiava e reparte os despojos. 23Quem náo está comigo está contra mim; quem nao recolhe com igo dispersa. 24Quando um espirito imundo sai de um ho­ mem, percorre lugares áridos buscan­ do domicilio, e náo o encontra. Entáo diz: Voltarei à minha casa de onde sai. 25Ao voltar, a encontra varrida e arru­ mada. 26Entáo vai, toma consigo outros sete espiritos piores que eie, e passam a habitar ai. E o final desse hom em torna-se pior que o comedo. 27Quando dizia isso, urna m ulher da multidáo levantou a voz e disse: — Feliz o ventre que te carregou e os peitos que te amamentaram!

28Ele replicou: -— Felizes, antes, os que escutani palavra de Deus e a cumprem. O sinal de J o ñ a s (M t 12,38-42; Mi 8,12) — 29A multidáo se aglomerava | ele comeQou a dizer-lhes: — Esta geragáo é má: exige um sin.il e náo lhe será concedido outro sin;i 1 .i náo ser o de Joñas. 30Com o Joñas lm um sinal para os ninivitas, assim o sei.i este Homem para esta geraqáo. 31A raí nha do Sul se levantará no julgamente contra esta geragáo e a condenará; poi que ela veio do extrem o da térra pai.i escutar o saber de Salomáo, e aqui esla alguém maior que Salomáo. 32Os nini vitas se levantaráo no julgam ento con tra esta geragáo e a condenaráo; porque eles se arrependeram com a pregadlo de Joñas, e aqui está alguém maior que Joñas.

pela terceira vez suas artes mágicas frade realista maternidade, faz eco à felicita cassaram, tiveram de reconhecer a açâo da gao de Isabel e à predigào de Maria (1,45. divindade. 48). Pode emprestar sua voz a urna huma 11,21-26 A luta com Satanás é travada nidade que felicita Maria que escutou e desde o principio (Gn 3,15). Com suas ar­ cumpriu, ou deixou cumprir-se, a palavra mas domina os homens, despojo conquis­ de Deus. tado, e está seguro: “Mas podc-se tirar a 11,29-32 Esta geragáo, contemporàne i presa de um soldado? Escapa um prisiode Jesús, é malvada por sua incredulida neiro de um tirano?” (Is 49,24-25). Sim, de. Reclama sinais, mas desqualifica os porque Jesús é mais forte, como o veio de­ que lhe sao dados. Joñas níio fez milagros monstrando, e está tirando-lhe as armas em em Nínive; a presenta e p re g a lo de um que confiava. Seu despojo sao os homens profeta israelita na metrópole paga foi si libertados (cf. Is 53,11-12). Portanto, os nal suficiente para o arrependimento e o que foram libertados desse poder nao deperdáo. A geragáo ninivita de adultos e de vem abdicar da vigilancia, porque a hosticrianzas suscitou a cornpaixáo divina. Ora, lidade continua e o inimigo pode retornar o sinal está ai: a pessoa, os ensinamentos com mais força e maior prejuízo que antes. e os milagres de Jesús. Mas, como náo 11.23 Complemento de 9,50, também querem aceitá-lo, em lugar de sinal se conem contexto de exorcismo, mas na primeivocaráo duas testemunhas de acusaqáo, ra pessoa do singular. que no dia final das contas deporáo num 11.24 Como sugerem as descriçôes de juízo comparativo de agravantes (Ez 16, Is 13,21; 34,13-15. 46-52). “Compareceráo assustados por 11,26 A frase admoesta gravemente o ocasiào do inventàrio de seus pecados., cristáo convertido que apostata e se entre­ aquele dia o justo estará de pé sem temor” ga novamente ao poder diabólico. Seu de­ (Sb 4,20-5,1). As testemunhas seráo: o lito tem urna agravante e o desenlace pode profeta Joñas com os ninivitas arrepenser definitivo. didos e a rainha de Sabá, paga, que fez urna 11,27-28 Esta mulher do povo, talvez longuíssima viagem para ouvir o sábio máe, representa o sentir popular. Pelo fiSalomáo (IRs 10). Os pagaos acusaráo lho louva a máe e vice-versa. Em termos os judeus incrédulos que rejeitaram Je-

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(.(u t ro sid a d e (M t 5,15; 6,22s) — " N.ii >se acende urna lamparina para tèl,i i M-ondida [ou sob urna vasilha], mas ..... se no candelabro, para que os que . iili,un vejam a luz. 340 olho fomece In/ para todo o corpo*. Se teu olhar é (¿rncroso, o corpo inteiro será lum ino­ s i , porém, se é m esquinho*, todo o teu i mpo será tenebroso. 35Procura que tua Imite de luz nao fique escura. 36Assim, |niitanto, se o corpo todo é luminoso, in ni mistura de escuridáo, será inteiranii iite lum inoso, com o quando urna luinparina te ilum ina com seu brilho.

Invectiva contra os fariseus (Mt 23,136; Me 12,38-40)— 37Enquanto falava, um fariseu o convidou a comer em sua casa. Apenas entrou, reclinou-se à m e­ sa. 380 fariseu, vendo-o, estranhou que nâo se lavasse antes de comer. 39Mas o Senhor lhe disse: — Vos, fariseus, limpais por fora a taça e o prato, mas por dentro estais cheios de roubo e malicia. 40Insensatos! Aquele que fez a parte de fora nâo fez tam bém a de dentro? 41Dai, antes, o interior em esmola, e tereis tudo limpo. 42Ai de vós, fariseus, que pagais o

, mais que profeta e mais que mestre ili- sabios. 11,33-36 A explicaçâo utiliza um jogo ili- palavras baseado num semitismo inliiiduzivel. Em hebraico “olho bom/simjilcs” significa generoso, “olho mau” sig­ nifica tacanho ou avaro e invejoso, nunca 'lignifica doente (Pr 22,9; 23,6; 28,22; Dt I S,9; Eclo 14,3.10; 31,13). O olho é o ór} ',.!< > da visao e sede da estimativa (cf. o semitismo “bom aos olhos de”). O olho, i|iie capta a luz, fornece-a a todo o corpo, o corpo inteiro vè pelo olho; se o órgào nfio funciona, o homem inteiro fica às eseuras; em pieno meio-dia um cego se move em trevas. Na ordem moral, a generosidaile, olho simples, irradia: “Se dás teu pao ¡io faminto... surgirá tua luz nas trevas” (Is 58,10); a tacanhez, olho mau, torna tudo opaco e tenebroso. Para “simples = gene­ roso”, ver Rm 12,8; 2Cor 9,11.13; Tg 1,5. 11,34 *Ou: é a làmpada; *Ou: tacanho. 11,37-53 A ocasiào, pouco propicia, de um convite a urna refeiçâo serve para introduzir o tema das abluçoes. Dai se passa ;i urna invectiva violenta contra determi­ nadas condutas e atitudes, típicas de fa­ riseus e letrados. Lucas divide o discurso em duas seçôes: contra os fariseus, contra os letrados (juristas). Emprega, em duas series de très, a forma profètica do Ai! (Is 5,11.18.20-22; Ez 13,3.18). Neste capítulo, mais que em outros, soa a polémica entre judaismo estabelecido e cristianismo emergente; o texto é provavelmente posterior à excomunhâo oficial dos cristáos, “nazarenos” pelas autorida­ des de Jámnia (85-90 de nossa era). Por
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outro lado, nao engloba a classe inteira, a cada individuo, mas toma fariseus e letra­ dos mais como tipos. Ai entra também a autoridade que se arrogam enquanto mestres e juízes de outros e sua influéncia e ascendencia sobre o povo. Quando no ano 70 o estado judaico foi destruido, foram os fariseus que salvaram a continuidade. O cristao que le esta página deve examinar-se antes de atirar a primeira pedra. 11,37-38 Marcos explica essas práticas com certo detalhe (Me 7,2). Nao se tratava de práticas simplesmente higiénicas, mas de pureza legal e cúltica. Em teoria, limpos para receber o sustento como dom de Deus. 11,39-41 Resulta estranho e talvez sig­ nificativo o modo de juntar pegas que apa­ rentemente nao se correspondem. O ex­ terior do copo e do prato/o interior do homem/o interior (do prato e do copo) dado em esmola. Apesar da montagem, o sentido se entende: Deus busca a intimidade responsável do homem, a qual se expressa ñas obras de caridade. A esmola é muito recomendada em livros tardíos (Tb 4,7.11; 12,9; Eclo 4,1). O exterior é o que se vé, porém provavelmente o que mais se suja seja o interior. Deus fez o homem do barro e lhe insuflou o alentó vital, cons­ ciente e livre. Deus vé e julga. Talvez o que enche o prato seja abuso do oficio (roubo); dado em esmola, ficará limpa a vasilha. Néscios! é a antítese de doutos, entendi­ dos; o néscio nao tem direito de ensinar. 11,42 Sobre dízimos, Lv 27,30. Ajusti5 a se refere ao próximo, de modo que a frase equivale a urna síntese completa. E

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dízimo da hortelá, da arruda e de todo tipo de verduras, e descuidáis a justiga e o amor de Deus. Isso é o que se deve observar, sem descuidar as outras coi­ sas. 43Ai de vos, fariseus, que desejais os assentos de honra ñas sinagogas e as saudagóes pela rú a.44Ai de vos, que sois como sepulcros nao assinalados, que os homens pisam sem dar-se conta. 45Um jurista tomou a palavra e lhe respondeu: — Mestre, ao dizer isso nos ofendes. 46 Replicou: — Ai de vos também, juristas, que carregais os homens com cargas insuportáveis, enquanto vos nao tocáis essas cargas sequer com um dedo. 47Ai de vos, que construís m ausoléus para os profetas que vossos antepassados assassinaram . 48A ssim vos tor-

nais testem unhas e cúm plices do qm vossos antepassados fizeram; pois ele os m ataram e vos construís os man soléus. 49Por isso diz a Sabedoria Deus: Eu lhes enviarei profetas e apir, tolos; alguns eles mataráo e perseguí rao; 50assim se pedirá conta a esta ge ragáo de todo o sangue de profetas derramado desde a criagáo do mundo 51desde o sangue de Abel até o de Za carias, assassinado entre o altar e o san tuário. Sim, eu vos digo, seráo pedidas contas a esta geragáo. 52Ai de vos, ju ristas, que ficastes com a chave do sa ber: vós nao entrastes, e fechastes ti passagem aos que entravam. 53Quando saiu daí os letrados e os fariseus comegaram a atacá-lo violen tam ente e a fazer-lhe perguntas insidio sas, 54para apanhá-lo em suas palavras

preciso salvar a hierarquia dos preceitos segundo o conteúdo. O fato de estar orde­ nado é um dado formal, pede cumprimento. Mas o que conta é o conteúdo. Pode acontecer que, por força de observar ninharias, se descuide do substancial. 11.44 Os sepulcros enterrados eram marcados com cal, para evitar que os tran­ seúntes os pisassem e se contaminassem. A imagem é muito forte pelo que sugere: o mundo da morte escondido entre os vi­ vos; a corrupçâo e a impureza dissimula­ das no meio do povo. 11.45 Nem todos os fariseus eram letra­ dos e vice-versa; mas os fariseus respeitavam o corpo dos letrados e se esforçavam por executar e fazer cumprir as decisóes destes. Por isso, a invectiva de Jesús recai sobre os estudiosos competentes, que se sentem ofendidos. 11.46 Diante da objeçâo, Jesús nao re­ trocede, mas muda de objetivo. Denuncia a quantidade acumulada de observancias, que torna insuportável o cumprimento da lei. Impóem obrigaçôes e nâo ajudam a cumpri-las. Ao passo que eles, com agu­ dezas casuísticas, eximem-se de cumprilas. A imagem das cargas traz a recordaçâo das cargas do Egito (Ex 1,11; 2,11) ou as de Salomáo e Roboáo (IRs 12). 11,47-51 O esquema é simples. O pro­ feta que denuncia crimes e anuncia des-

grabas é eliminado (IRs 22; Is 30,10-11; Jr 26; 38); depois se erige a ele um man soléu como homenagem postuma (cf. 2 Rs 23,17-18). Profeta morto nao fala. O es­ quema pode abarcar várias geragóes: urna elimina o profeta, outra lhe dedica o mausoléu. Todas sao membros da mesma fa­ milia. Remontando-se a Abel, nao o convertc em profeta, mas denuncia os assassinos de profetas como fratricidas; herdeiros do pe­ cado original contra a fraternidade. Zaca­ rías (= Azarias) encerra a série histórica (2Cr 24,20-21) com a agravante do lugar onde se cometeu o assassinato. Falta aín­ da na série Jesús, mas sua sorte fica apontada de sobra para os leitores de Lucas. 11,52 O “saber” é provavelmente a compreensáo da Escritura. Os letrados se arrogam o monopolio da sua compreensáo; eles possuem a chave, e ninguém mais. Por esse caminho eles penetram o verdadeiro sentido da Escritura (cf. 2Cor 3,14), e nao permitem a outros entendé-lo. O “entra” poderia sugerir também o reino de Deus, para o qual a Escritura conduz. 11,53-54 A batalha próxima escolhe como campo a dialética, na qual os letra­ dos se sentem fortes. Se o cagam em alguma palavra delituosa (como a um suposto profeta), apresentaráo outra batalha mais grave.

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aquele que, depois de matar, tem poder 1 Nesse momento, milhares de pespara lancar ao fogo. Sim, eu vos repito, soas se comprimiam, pisando-se tem ei a este. 6Náo se vendem cinco inims as outras. Ele se dirigiu primeiro pardais por dois centavos? Pois Deus ddk discípulos: Atengáo com o fermento (ou seja, náo se esquece de nenhum deles. 7Até os cábelos de vossa cabera estáo todos it hipocrisia) dos fariseus. 2Náo há nada contados. Náo tenhais medo, pois valéis ciicoberto que nao se descubra, nada mais que m uitos pardais. oculto que nao se divulgue. 3 Pois, o que 8Eu vos digo que quem me confessar illNserdes de noite se escutará em pleno diante dos homens, o Filho do Homem illa; o que disserdes ao ouvido no poo confessará diante dos anjos de Deus. iQo será proclam ado nos terrados. 9Quem m e negar diante dos homens será negado diante dos anjos de Deus. ( onfessar sem tem or (Mt 10,28-33) 10Quem disser uma palavra contra este 4A vos, m eus amigos, eu digo que Homem será perdoado; aquele que blas­ »(lo temáis os que m atam o corpo e defemar contra o Espirito Santo náo será piiis nada m ais podem fazer. Eu vos perdoado. ¡ndicarei a quem deveis temer: temei

12,1 Mudando de cenário, Lucas faz rom que a peroratilo seja ouvida por todo ii mundo; ou seja, a massa submissa aos luriseus, que agora escuta Jesús como mostre e profeta. Hipocrisia pretende ser «intese das atitudes denunciadas; é dissi­ mular o interior com o exterior, é inverter il escala de valores, é confundir ao invés de esclarecer. Mais que um delito especí­ fico é um arbitrio, um fermento que pene­ tra e corrompe toda a massa (Ex 12,15; ICor 5,7). 12,2-3 Diante da simulagáo e da hipo­ crisia, recomenda-se a sinceridade, tendo etn conta o desenlace (cf. Eclo 24,21.24). É convite e advertencia. Convite a partilliar o bem aprendido; advertencia de que um dia serào arrancadas máscara e disíurce. 12.4-12 Essa instrugáo dirige-se aos "amigos”, provavelmente aos discípulos (Jo 15,15). Exorta à coragem de confessar publicamente Jesús. Na boca de Jesús sao palavras proféticas, na pena de Lucas rel'letem perseguigóes já experimentadas (morte de Estèvào e de Tiago e processos diversos). 12.4-5 A primeira é nao temer. A frase clàssica de encorajamento “nao temáis” lem aqui urna explicagáo. Ver a vocagáo de Jeremías: “Nao tenhas medo deles, caso contràrio, eu te farei ter medo deles” (Jr 1,17-18), o encargo de Isaías (Is 8,12-13), a vocagáo de Ezequiel: “Náo tenhas medo deles... ainda que te rodeiem espinhos e

te sentes sobre escorpióes” (Ez 2,6). O fogo aniquila o que a morte deixa; mata­ se e depois se queima totalmente: “mataram a fera, esquartejaram-na e a atiraram ao fogo” (Is 66,24; Dn 7,11). Equivale a dizer que náo alcanzará a vida futura (cf. Ap 19,20; 20,14-15; 21,8). 12,6-7 Correlativo de náo temer é con­ fiar. Curioso é que seja a mesma personagem a que pode ditar sentencia de conde­ n a d o e a que cuida dos desvalidos como de pássaros indefesos. Do paradoxo seguese que o que se deve realmente temer é fazer-se merecedor da condenagáo; em outras palavras, a pessoa teme a si mes­ ma, náo os outros, cujo poder alcanza só esta vida, náo a “segunda morte” (Ap 21,8). O Salmo 36 mostra o cuidado de Deus por “homens e animais”, em geral e em particular; o Salmo 104 o desenvolve. 12,8-9 O medo deve ser vencido em ordem ao testemunho público e arriscado em favor de Jesús. O horizonte antes indica­ do do juízo final (fogo) coloca-se em pri­ meiro plano. Entáo, ante a corte celeste, “os anjos de Deus” (cf. Dn 7,10), cada um será reconhecido ou reprovado. O texto grego se desloca do “eu” presente, ao “Fi­ lho do Homem” da parusia e ao passivo (teológico) da rejeigáo. Em resumo, a atitude presente e pública diante de Deus decidirá o destino último do homem. 12,10 Blasfemia contra o Espirito San­ to, nesse contexto, parece significar o rejeitar obstinadamente o seu testemunho a

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12,11

1 g u a n d o vos conduzirem as sinago­ g a s , chefes ou autoridades, nao vos preo­ c u p é is de com o vos defendereis ou o a u e diréis; 12o Espirito Santo vos ensi­ l a r á nesse m om ento o que será preciso d iz e r.

C o n t r a a c o b ija — ,3Alguém da multi¿ á o disse: .— M estre, dize a meu irmáo que re­ p a r ta com igo a heranga. l4 Respondeu-lhe: — Hom em , quem me nom eou juiz 0 u árbitro entre vos? 15E lhes disse; — Atengao! A bstende-vos de qual¿juer co b ija, porque, por mais rico que ^ lg u é m seja, a vida nao depende dos t>ens.

16E lhes propos urna parábola: -— As terras de um hom em denun grande colheita. 17Ele disse a si mesm<> Que farei?, pois nâo tenho onde coin car toda a colheita. 18E disse: Farei o seguinte: derrubarei os celeiros e con>, truirei outros maiores, nos quais cola carei meu trigo e minhas posses. 19Dc pois direi a mim mesmo: Querido, tenacumulados muitos bens para muitos anos; descansa, come e bebe, desfruta 20Mas Deus lhe disse: Insensato! Nesln noite te pedirâo a vida. Aquilo que prcparaste, para quem será? 21A ssim < • aquele que acumula para si e nâo é rico para Deus. 22Disse a seus discípulos: — Por isso eu vos digo: Nâo andéis angustiados pela comida para conser-

favor de Jesús, pelo quai a pessoa se fecha -jo perdáo que Jesús oferece. Como se disgéssemos: a pessoa corta o galho sobre o qual está sentada. 12,11-12 Outro conselho para o momen­ to da confissâo, que o próprio Espirito su­ gerirá (ICor 12,3). O confessor fala nesse fiiomento como profeta inspirado: “O Es­ pirito do Senhor fala por mim, sua palavra está em minha língua” (cf. 2Sm 23,2). O próprio Lucas mostrará o exemplo de pstêvâo discutindo e testemunhando (At 6,10; 7,35). 12,13-15 A intervençâo de alguém da multidáo amplia o ámbito dos ouvintes. Tinha razáo talvez aquele homem, ao re­ clamar o que lhe era devido (cf. Gn 21,10; Jz 11,2); é razoável supó-lo. Naquela cul­ tura, herdar era assunto importante, nâo somente para o herdeiro, mas também para a continuidade da familia. O Eclesiástico instruí sobre testamentos (Eclo 32,20-24). Pois bem, Jesús nâo veio dirimir pleitos de intéressés pecuniários. Ele ensina a dar mais do que a reclamar. Vai à raíz que vi­ cia as relaçôes humanas e escraviza a vida as posses. A riqueza nâo é seguro de vida (SI 49). 12,16-21 O rico do relato é um bom exemplo de confiança nas riquezas (SI 49,7.19; 52,9; Pr 11,28). Se nâo está ins­ pirado em Eclo 11,18-28, faz bom para­ lelo com ele: “Quando diz: Agora posso

descansar, agora comerei de minhas pos ses, nâo sabe o que acontecerá até que o deixe a outro e morra”. Num monólogo interior se denuncia. Seu ideal de vida c comer e beber e desfrutar (cf. Jr 22,15; Ecl 2,24; 3,13; 8,15); espera “muitos anos” de vida; trabalhou e agora pode “descan­ sar”; acumulou e pode viver de rendas. Seu horizonte é imánente: esta vida (cf. Sb 2,1-9). Ao monólogo responde o próprio Deus: essa filosofía de vida é “insensata” (Sb 2 , 1 .2 1 -2 2 ). O rico tem a vida como empréstimo e está vencendo o prazo de restituí-la. A morte sempre iminente devolve sua dimensâo e pode devolver seu sentido à vida. Rico para Deus é quem com o que é seu ajuda o próximo: “Quem se compa­ dece do próximo empresta a Deus” (Pr 19,17; Eclo 29,8-13). 12,22-34 De novo se dirige a seus dis­ cípulos; o ensinamento, portanto, é para quem vai dedicar-se a pregar o evangelho. O estado de preocupaçâo e ansiedade atrapalha gravemente no ministério; a cura nâo é psicológica, mas teológica. Acima de tudo, devem por o reinado de Deus, que é o tema da boa noticia (v. 31). Para pregá-lo, tém de estar libertados: nâo só de riquezas que atam e travam, mas também de preocupaçôes que afogam e desalentam. Das riquezas, é possível libertar-se repartindo aos pobres (v. 33);

H H

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h i villa ou pela veste para cobrir o ■ «> i| X i ' 'A vida vale mais que o sustenit 1 1 h corpo mais que a veste. 240 bserII u s corvos: nào semeiam nem co­ lin m i, nao têm celeiros nem despensas, ■I > i us os sustenta. Quanto mais que as ■ ni s valéis vós. 25Quem de vós pode, à i.ni,.i de preocupaçôes, prolongar um l«meo a vida? 2hPois, se nâo podéis o minimo, por que vos preocupáis com o h .in? 27Qbservai como crescem os li­ ni is, scm trabalhar nem fiar; porém, eu vus digo que nem Saiomáo, com todo h se h esplendor, se vestiu como um de­ li s 2K Portanto, se Deus veste assim a i iva do campo, que hoje cresce e ama-

nhâ é lançada no forno, quanto mais a vós, desconfiados. 29Nâo andéis bus­ cando o que comer ou o que beber; nao fiqueis pendentes disso. 3 (5 Tudo isso sao coisas que as pessoas do mundo procuram. Quanto a vós, vosso Pai sabe que elas vos fazem falta. 3lBasta que bus­ quéis o reinado dele, e o resto vos será dado por acréscimo. 32Náo temas, pequenino rebanho, porque vosso Pai decidiu dar-vos o reino. 33Vendei vossos bens e dai esmola. Fazei bolsas que nâo envelheçam, um tesouro inesgotável no céu, onde os ladróes nâo chegam nem a traça os rói. 34Porque, onde está o vos­ so tesouro, ai estará o vosso coraçâo.

iliis preocupaçôes, a pessoa só se liberta ■ini l iando no cuidado “paternal” de Deus (vv. 30.32). A argumentaçâo procede em duas fases. I* i iineira: a vida 6 mais importante que os lucios para conservá-la e protegé-la, co­ mida e roupa (vv. 22-23); pois, se Deus mida de vossa vida, quanto mais dos meios para conservá-la. Segunda fase, argumenIn a minore ad maius: Deus alimenta as iives e veste de luxo as flores; quanto mais liirá por vós. Ele é “Deus” dos animais, é Tai” vosso. O importante é vencer a preueupaçào angustiada. O espirito filial é o icmédio. Os pagaos que só contam com esta vida l¿m que dedicar-se a conservá-la, até o ponto de desviver para continuar vivendo. Vós tendes outro horizonte: o reino que o Pai quer dar-vos (v. 32), o tesouro celes­ te que ele tem reservado para vós. Com vossas forças trabalhais difundindo o rei­ nado de Deus, vosso coraçâo já se adiantou a viver no céu, onde está o vosso te­ souro. As pinceladas da natureza animal e ve­ getal favorecem o efeito de serenidade e eonfiança que o discurso busca e denuneiam de alguma forma a sensibilidade de Jesús diante da natureza. 12,24 O corvo é animal impuro (Lv 11,15; Dt 14,14), mas Deus o alimenta: “que dá seu alimento ao gado, ás crias do corvo que grasnam ” (SI 147,9; Jó 38,41), e ele leva alimento a Elias (IR s 17,4-6).

12,25 Outros traduzem: acrescentar um còvado à estatura; o homem nao controla sua dimensáo no espago e no tempo. 12.27 Alude a IRs 10,4-7 e à ficgáo “salomónica” de Ecl 2,4-10. 12.28 Para outra comparado: SI 9,5-6; Is 40,8. Deus é visto e apresentado em ple­ na atividade, como se continuasse atarefado com suas criaturas. Nao há criatura minúscula que Deus abandone. Os filóso­ fos o chamam conservado e concurso; o evangelho sugere urna atengáo afetuosa: “Amas todos os seres e nao rejeitas nada do que fizeste” (Sb 11,24). 12.31 O reinado de Deus é o primeiro tema da pregagáo, é um pedido do Pai-nosso, é tarefa prioritària dos dis­ cípulos. 12.32 Pequenino rebanho pelo número durante a vida de Jesus; mais tarde, pe­ queño pela humildade. Por mais que cres­ ca o número ou idade, sempre será filho de Deus. O reino do Pai será para esse pe­ queño rebanho. 12.33 Ben Sirac recomenda com certa agudeza: “Guarda esmolas em tua despen­ sa”. Dar é guardar? (Eclo 29,12; cf. SI 62,11; Jó 31,24-25). 12.34 O provèrbio passou para nossa lingua. O coragao na Biblia é visto como o centro da vida consciente e livre: aquilo que alguém declara seu tesouro pola­ riza seu interesse e alimenta sua ativi­ dade. Jesús convida a por nosso tesouro num lugar que transcenda o limite desta vida.

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Vigiláncia (M t 24,45-51) — 35Tende a cintura cingida e as lamparinas acesas. 36Imitai os que aguardam que o dono volte de um casam ento, para abrir-lhe quando chegar e chamar. 37Felizes os servos que o dono, ao chegar, encon­ trar vigiando: eu vos asseguro que se cingirá, os fará reclinar-se á mesa e os irá servindo. 38E se chegar ao segundo ou terceiro turno de vigilia e os encon­ trar assim, felizes deles. 39Sabeis que, se o dono de casa soubesse a que hora chegaria o ladráo, nao deixaria que arrombasse sua casa. 40Estai preparados, pois quando menos pensardes, chegará este Homem. 41Pedro lhe perguntou: — Senhor, dizes esta parábola para nós ou para todos? 420 Senhor respondeu: — Quem é o administrador fiel e pru­ dente, ao qual o dono porá á frente do

seu pessoal, para que lhes reparta .r raqóes a seu tempo? 43Feliz aquele soi vo que o dono, de regresso, enconti.u agindo assim. 44Eu vos asseguro que o encarregará de todas as suas posseit 45 Mas, se aquele servo, pensando que o dono tarda em chegar, come§ar a bu ter em criados e criadas, a comer, be­ ber e embriagar-se, 46chegará o dono do servo em dia e hora que m enos espeni e o partirá ao meio, dando-lhe o desli no dos desleais. 470 servo que, conhicendo a vontade do dono, nao dispóe s nao executa o que o dono quer, recebe rá muitos golpes; 48aquele que, nao a conhecendo, comete agoes dignas de cas tigo, receberá poucos golpes. A quem muito se deu, muito se pedirá; a quem muito se confiou, mais se exigirá. Sinais do tem po (Mt 16,2s) — 49Vim por fogo á térra, e o que mais quero se

12.35-48 Exorta à vigiláncia com urna montagem de tres parábolas: servo e pa­ tráo, dono e ladráo, administrador. O ho­ rizonte se alarga para a Igreja, que espera a parusia ou retorno do Senhor. Embora a exortacjao valha para todos, há diversos graus de responsabilidade. As parábolas tém como horizonte a parusia e sua apli­ c a d o no tempo da Igreja. 12.35-38 O israelita se cinge e prende a túnica talar para trabalhar ou caminhar ou para brigar (Ex 12,11; IRs 20,11). Estar cingido é estar disponível. As lamparinas indicam que a cena acontece de noite (cf. Pr 31,17-18). Lucas nao apresenta o patráo como noivo, mas como convidado a um casamento anónimo. A reagáo do patráo é inverossímil, desorbitada, e nisso está a graga: o patráo age como servo (22,27) e con­ vida os criados a um banquete (Ap 3,20). E o banquete do céu, que só com hipérbole se pode esbogar (Mt 26,29; Is 25,6). Duas vezes chama “felizes” (macarismo) os cria­ dos que vigiam. 12,39 Os ladróes escolhem a noite: “de noite ronda o ladráo, penetra ás escuras ñas casas” (Jó 24,14.16), e utilizam o procedi­ mento de abrir um buraco; a surpresa é seu principal recurso (Ex 22,1). Embora a vigi­ lancia seja coletiva, aplica-se a cada pessoa.

12,42-46 Ver a figura de José (Gn 41,3744). O administrador da parábola está en carregado de outros criados; ocupa um posto intermèdio, ocupa-se de pessoas, nao de bens. Aaplicagáo imediata aponta pani os discípulos que recebem cargo media dor. As condutas opostas sao: um servigo organizado para os outros servos ou um aproveitar-se licensiosamente da situagáo. A demora do patráo a vir responde à geragáo de Lucas, que já nao espera urna paru­ sia iminente. Contudo, o espirito de vigi­ láncia deve permanecer, porque a demora nao desmente o fato (Ez 7,1-12; 12,21-28). E como o fato é certo, a incerteza da hora incita à vigiláncia. Sem cessar é iminente o que pode acontecer a qualquer momento. 12,47-48a A ignorancia de ordens con­ cretas do patráo é atenuante, mas nao exi­ me da responsabilidade genérica. O conhecimento é agravante; e os discípulos as conhecem. 12,48b Referido aos governantes em Sb 6,1-8: “Os elevados seráo julgados implacavelm ente... os fortes sofreráo dura pena”. 12,49-50 Fogo e água podem resumir qualquer tipo de perigo (Is 43,2). Será que as duas imagens se referem aqui ao mesmo fato, a paixáo próxima? Em 3,16 fala-

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|A fsiá aceso!* 50Tenho de passar por «nu batismo, e com o me impaciento até i|iic se realize. 51Pensais que vim trazer pu/ à terra? Nâo paz, eu vos digo, mas illvisâo. 52Daqui para a frente haverá Mimo numa familia, divididos: très conlin dois, dois contra très. 53Opor-se-âo | iih a filho e filho a pai, màe a filha e filha il màe, sogra a nora e nora a sogra. v,Disse ao povo: ■ - Quando vedes levantar-se uma niivem no poente, dizeis logo que haveríi chuva, e assim acontece. 5ÍQuaniln sopra o vento sul, dizeis que haverá nuirmaço, e assim acontece. Ï 6 Hipôcriliis! Sabéis interpretar o aspecto da ter­ ni e do céu, e nâo sabéis interpretar a

co n ju n tu ra presente? 57Por que náo julgais por vossa conta o que é justo? 58Quando fores com teu rival ao juiz, procura pelo caminho um acertó com ele; náo acontega que te arraste até ao juiz, o juiz te entregue ao guarda e o guarda te coloque no cárcere. 59Eu te digo que náo sairás daí enquanto náo pagares até o últim o centavo. A rrependim ento — 'N aquela ocasiáo se apresentaram alguns inform ando-o sobre uns galileus cujo sangue Pilatos havia misturado com o dos sacrificios deles. 2Ele respondeu: — Pensáis que esses galileus, dado que sofreram isso, eram mais pecado-

»c de um batismo “com Espirito Santo e fugo”, fogo de julgamento e purificagáo; Is 4,4 fala de uma purificagáo com “venlo” (pneuma) de julgamento: aniquila ou purifica e limpa. A pregagáo de Jesús já iieendeu esse fogo (cf. Is 1,25; 9,17; Zc 13,9). Cabe referir os versículos á paixáo, como julgamento que vai separar. O balismo é a grande prova, que alude à paixáo (cf. SI 42,8; 124,4). Outros distinguem: o butismo é a paixáo, o fogo é Pentecostes; Jesús anseia que chegue o Espirito purificador, mas se aflige diante da proximidailc da paixáo. E o cristáo tem de seguir a mesma trajetória. 12,49 *Ou: e como desejaria que já es­ tivasse aceso. 12,51-53 Esses versículos que seguem apóiam a interpretado do fogo em chave do julgamento. Diante de Jesús as pessoas teráo de tomar partido, como Simeáo anunciou (2,34-35), passando por cima dos la(¡os familiares. Recorde-se a tremenda cena de Ex 32, o grito de Moisés: “A mim os do Senhor!” e a matanza dos culpados, sem perdoar “irmáo, parente ou vizinho”. A divisáo que Jesús provocará atravessará grupos humanos naturais. A citacjáo é de Mq 7,6. A expectativa da paz messiànica (Is 2,2-5; 11,1-10) náo pode ignorá-lo. 12,54-59 De fato, o momento da decisáo está chegando e os sinais o anunciam. No correr do tempo uniforme há estacóos agrárias que o lavrador distingue. No de­ correr do tempo histórico há ocasióes e

conjunturas prenhes de conseqiiéncias. O mais importante é saber distingui-las. Os que sabem interrogar o aspecto da atmos­ fera para suas tarefas agrícolas nao sabem interpretar a época da historia para o des­ tino transcendente. Sua conduta é uma far­ sa (significado de hypokrités). Enquanto Jesús está com eles, é tempo de possível reconciliaçâo; quando chegar a hora do julgamento, será tarde demais.

13 ,1-5 No relato de Lucas, Jesús acaba de falar sobre o sentido e urgéncia da con­ juntura histórica. O que lhe contam pode assinalar o significado do presente. Embora náo valha a aplicaçâo mecánica do principio da retribuiçâo (o grande proble­ ma do livro de Jó), as desgraças alheias podem conservar sua força de admoestaçào. O que para uns é desgraça, seja para outros advertência. Sobre a força da admoestaçâo em cabeça alheia dissertou Ezequiel em seu julgamento comparativo: se Ooliba nâo se corrigiu, pelo contràrio, “viciou-se mais que sua irmâ”, quando eia sofrer o castigo exemplar, “serâo admoestadas todas as mulheres” (Ez 23,11.48). Sobre admoestaçôes vâs, em cabeça prò­ pria, prega Amós (Am 4,6-13). Quem nâo aproveita o tempo para arrepender-se, náo se livrarà da desgraça (SI 7,13; 50,22). Sobre esse aviso gravita o peso da exortaçâo à vigilâneia: “Nâo demores em voltar a ele nem te delongues de um dia para outro” (cf. Eclo 5,5-7).

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reSn„ . • ^ --a lile u s? 3Eu vos digo > e os demais | | arrependerdes, J n a o ;m a s ,s e n ^ 4Q u aJ ueles de_ jareis are,s como e J desm or¿ nou a tor. °'to sobre os qu 3 ^ ^ o u , pensáis que eram rede Siloé Haio°“! JC j ° S m íl^ o resto dos habitanN se nao vos ^ « p e n d e r d e s , acaba­ os como eles. 6E 1 h es propos a seguin^ rfí,olí?' _ tinha urna figueira PUÜh,Hm h° mel^ í n h a . Foi buscar fru'« n e í e náo e Í c o n t r ° u - 7DÍSSe 3 0 Nhateiro: Há t r ^ anos venh° bu*car l « s p o „ d « u : Senhor, deiv, ■a ano; cavarei ao re/'Xa-a aínda est*^ c . dnr • j u p a ra ver se da fruto, o 5 porei adubo, ^ j. , no ano que vem. °e nao, a c o rta r» ^ 1 Ci„.„ .if r e r encurvada — l0V r U^ aj m ^ t a va ensinando numa ^um sabado, e&1 , Slt,agoga, “ q uan ^ 0 .s e apresentou urna / - , ^ o ito anos padecía de *»uih, V r s p lr ito .A n c J ^ 3 encurvada, sen, i-, , ... a s e n ta como parábola o Q h» Lucas ap f ¡ ¿ áo simbólica. nos outros sin ^ • o tema é tamhém o temP° ultlmo Para afrtn f » ,-■ ,c ira pode ser símbolo de Isn se- Afigu 0 1 (V . Mq Mn 7 1V Fruto Fnito é 9,10; 7,1). é

p oder en d ireitar-se com pletam enti * 2A o vè-la, Jesus a chamou e lhe dissi —- Mulher, estás livre de tua doenci 13 Im pós-lhe as m áos, e no mesmn instante eia se endireitou e dava glo ria a Deus. 140 chefe da sinagoga, iu dignado porque Jesús havia curadn no sábado, interveio para dizer à muí tidáo: — Há seis dias em que se deve tr;i balhar: vinde nesses dias para curar vos, e nao no sábado. lsO Senhor lhe replicou: — Hipócritas! Quem de vós no sá­ bado nao solta da manjedoura o boi ou o asno para levá-lo a beber? 16Quanto ;i esta filha de Abraáo, que Satanás amarrou por dezoito anos, nao era necessá rio soltar-lhe as amarras no sábado? 17Ao dizer isso, seus adversários sen tiam-se confundidos, enquanto a muí tidáo se alegrava com os portentos que realizava. M ostarda e ferm ento (Mt 13,31-33; Me 4,30-32) — lsDizia-lhes:

» intercessa« do tór¡a Como as suces. siv * raPe _m ¿ e Amos, escutas, .vas mtercessoes «7;1_9; 6 1duas _3) Embora ,lt ' recusas (Ani moratória, cada árvore 11 1n n t «\V ° de Jesus náo e so de Mmòestacào mas também de 0 salva?aomoestagao, ma chega momen. * 0 . Precisamente ^ sábad° 6 numa S‘na' ^R oThos de t° dos' 0de drama é vivi" ga , aòs aos ol “filha Abraáo” (Is Si P°J.uma mu , simbolizar todo o povo U - 2 ), que pode s de um <<espf_ fitn”6 A C° H h ° ,-ncurvada’ sem Poder er" ¿ o t íolhos hos a a o 3far - no sábado, P°derá os oumais? Jesús J.le í que proíbe c«■ A obje?ao do > ue vem curar oSu

chefe da sinagoga soa razoável e pode apoiar-se na lei: “Durante seis dias traba­ lla e faz tuas tarefas; mas o sétimo dia c um dia de descanso dedicado ao Senhor teu Deus” (Ex 20,8-10); nao é preciso pro­ fanar o sábado. Jesús chama isso de lega­ lismo hipócrita. Nem sequer um dia se deve esperar para cumprir o que diz o sal­ mo: “endireita os curvados” (145,14; 146, 8 ). Ele está a caminho e tem que repartir seus bens, mesmo que seja no sábado. O encontro da mulher com Jesús andarilho é sua conjuntura. “Procurai o Senhor enquan­ to se deixa encontrar” (Is 55,6). Podemos notar a terminologia de atar e desatar, que aponta para o nivel de pecado e perdáo. 13,17 A a<¿áo de Jesús já está operando a divisáo do que falou antes (12,52), entre o povo e os dirigentes. 13,18-21 Duas parábolas concisas, com­ p a ra re s sem armagáo narrativa, ilustram o dinamismo do reinado de Deus e do seu anuncio na boa noticia. A primeira se exal­ ta com uma alusáo hiperbólica ao “cedro magnífico no qual, à sombra de sua ramagem, aninharáo as aves” (Ez 17,23). A se-

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Com que se parece o reinado de Iti'iis? A que o com pararei? 19Parece iM itn um grao de m ostarda que um hotlirni pega e semeia em sua horta; cresi> < t. lorna-se arbusto e as aves se aniilhnm em seus ramos. ■"'Acrescentou: Com que com pararei o reinado de Dcm i? 21 Parece com o fermento que uma imilher toma e m istura com très meditltis de massa, até que tudo fermente. \ porta estreita (Mt 7,13s.21-23) — ,J( 'aminhando para Jerusalém, percoriIh cidades e aldeias ensinando. 23Al(judm Ihe perguntou: — Senhor, sâo poucos os que se salvam? Respondeu-lhes: — 24Lutai para entrar pela porta eslicila, porque vos digo que m uitos ten-

taräo e näo conseguiráo. 25Logo que se levantar o dono de casa e fechar a por­ ta, ficareis de fora batendo na porta e dizendo: Senhor, abre-nos! Ele vos res­ ponderá: Näo sei de onde vindes. 26Entáo diréis: Comemos e bebemos contigo, ensinaste em nossas rúas. 27Replicará: Eu vos digo que näo sei de onde vindes. A partai-vos de mim, malfeitores. 28Ali haverá pranto e ranger de dentes, quando virdes Abraäo, Isaac e Jacó e todos os profetas no reino de Deus, ao passo que vós sois expulsos. 29Viráo do Orien­ te e do Ocidente, do Norte e do Sul, e se reclinaräo ä mesa no reino do Se­ nhor. 30Vede: Há últimos que seráo primeiros, e primeiros que seráo últimos. L a m e n ta g á o p o r J e r u sa lé m (M t 23,37-39) — 31N aquele m om ento se

gimda é doméstica. Nâo conta a quantidatlc de matéria, mas a energia. Nas duas parábolas intervêm um homem e uma mullier, ao sabor de Lucas. As duas parábo­ las oferecem uma mensagem de paciência e esperança. 13,22-30 A pequenez do reino de Deus suscita a pergunta sobre o número dos que sc salvam. Soa na pergunta a concepçâo clássica do resto, que se salva e assegura a enntinuidade do povo. Aqui se trataría do resto que passará à nova e definitiva era, que entrará no reino de Deus. E importante advertir que a pergunta se faz “a caminho de Jerusalém”. A resposta de Jesús é inlencionalmente bivalente: salvam-se pou­ cos e muitos (se lemos a parábola até o v. 30, ou seja, até a mudança de interlocutor). A pergunta pode ser colocada em termos étnicos: salvar-se-áo todos os judeus, todo Israel? A profecía de Daniel parece ambi­ gua: “teu povo... se salvará, todos os ins­ critos no livro. Muitos dos que dormem no pó despertarâo: uns... outros” (Dn 12,1-2). 13,24 A primeira resposta salta da curiosidade à admoestaçâo com o vigoroso im­ perativo “lutai” (cf. 22,24). A porta é es­ treita e é preciso abrir passagem à força para entrar na casa. Que muitos nao possam nao excluí que também muitos possam. As pastorais se referem à luta apostólica (lTm 6,12; 2Tm 4,7-8).

13,25-27 Segue-se a imagem da porta de entrada que o dono da casa controla (recorde-se a cena de Gn 19,1-11). Nao bas­ tava ter convivido fisicamente com Jesus para ter salvo-conduto assegurado; nem bastava uma neutralidade cortés. Era pre­ ciso tomar partido (12,8-9). E verdade que conviveram com Jesus, pois eie escolheu conviver com eles. Todavia, passou o tem­ po em que ao que bate à porta será aberto (11,9). Chama os excluidos de “malfeitores”. 13,28-29 Alarga-se a visào escatològica. Fora da casa, do reino, ficam judeus ex­ cluidos, que desesperados e de fora verào o grande banquete do reino (Is 25,6-8). Como os hedonistas do livro da Sabedoria ao comparecer ao julgamento: “Ao vé­ lo, estremeceráo de pavor, atónitos diante da salvagáo inesperada; diráo... entre solugos de angustia... nós insensatos...” (Sb 5,2-4). Os convidados seráo os patriarcas, os profetas e muitos pagaos das quatro partes do mundo: “todos os resgatados do Senhor” (SI 107,3). 13,30 Entáo alguns que foram chamados primeiro seráo os últimos (e nao entraráo); outros chamados na última hora se adiantaráo aos primeiros lugares. O provèrbio é de aplicagáo múltipla já nos evangelhos. 13,31-33 A noticia nao se encaixa bem na viagem a Jerusalém. A intengao dos fariseus náo é patente: pretendem intimi-

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aproxim aram alguns fariseus para dizer-lhe: — Sai daqui, pois Herodes procura matar-te. 32 Respondeu-lhes: — Ide dizer a esse raposo: Vé: hoje e amanhá expulso dem onios e realizo curas; depois de am anhá term inarei. 33 Contudo, hoje, amanhá e depois, devo prosseguir minha viagem, porque nao convém que um profeta morra fora de Jerusalém. 34Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os envia­ dar Jesús? Buscam descarregar a culpa em outro? Jesús nao admite intimidaçôes em seu caminho. Embora detenha o poder, Herodes é um animalejo sem importáncia (cf. Ez 13,4; Ne 3,35). Esta vez nao é como a do outro Herodes e as crianças inocen­ tes. Jesús tem ainda tarefa clara. Morrerá quando chegar sua hora, nao antes; em Jerusalém, nao fora. Cabe a Deus fixar os prazos (SI 75,3). Os poderes humanos podem executar, mesmo sem pretendé-lo nem sabé-lo, o plano decidido por Deus; nao podem interferir nem impedi-lo. O esquema dos très dias pode ter sido toma­ do de Os 6,2 e adaptado como enigma à situaçâo presente. 13,34-35 O Senhor quis proteger seu povo “à sombra das suas asas” (SI 36,8; 63,8) e a capital com sua presença no tem­ plo (Is 31,5; 37,33-35), exigindo ao mes­ mo tempo a conversáo (Jr 7). Ela, em vez de receber “profetas e enviados”, os ma­ tou (Ne 9,26; At 7,52), “resistiu” ao cha­ mado de Deus. Leia-se a terrível descriçâo da “Cidade Sangüinária” traçada por Ezequiel, profeta da catástrofe: “Cidade que se encaminha para seu fim” (Ez 22,2). Agora vem Jesús, novo enviado de Deus, para cumprir a mesma missáo; e vai sofrer o destino dos profetas. Ora, como já aconteceu urna vez (Lm 1,8.14.18 etc.), a casa habitada ficará deserta, seja o tem­ plo, seja a cidade (IRs 9,7-9; Jr 12,7). Mas chegará um dia, quando o veráo voltar, e o receberáo com a saudaçâo do salmo (118,26). Anuncio de conversáo? (cf. Rm 11,25-26).

dos: Quantas vezes eu quis reunir teir filhos como a galinha reúne a ninhmln sob suas asas; e vos resististes. 35Poi bem, vossa casa ficará deserta. Eu vo . digo que nao me vereis até o momeniii em que diréis: Bendito o que vem em nome do Senhor!

Cura um hidrópico— 'Numa ocasiáo em que entrou no sá­ bado para comer na casa de um chelo de fariseus, eles o vigiavam. 2Pós-si diante dele um hidrópico. 3Jesus tomón

ñas que servem de instruyóos. Numa espi; cié de “simposio” evangélico. Dos conso lhos particulares sobe á visáo escatològici Por ora Jesús é o convidado e correspondí com seu ensinamento; no fim convidará o Pai. A instrugáo de Ben Sirac sobre ban quetes e convidados pode servir de fundo empírico, sapiencial (Eclo 31,12-32,13). 14,1 O convite a um banquete no sába do oferece ocasiáo para vários ensinamen tos reunidos. Imaginemos que Jesús, se­ gundo o costume, leu e comentou numa sinagoga e, ao terminar, um dos chefes o convida à ceia solene do sábado. Outros colegas fariseus participam da ceia. Jesús náo recusa esses convites nem desperdiga tais ocasioes, mesmo sabendo que o vigiam (cf. 7,36-50; 11,17-53). Lucas reúne qua­ tro pegas numa espécie de simpòsio ao estilo grego. O banquete oferece a ocasiáo e o tema central, que se desenvolve com variedade de aspectos e interlocutores. Nesse banquete se prefigura a refeigáo eucaristica e se anuncia o banquete celes­ te. Os fariseus convidados o vigiam para avaliá-lo com o critèrio das observancias (cf. SI 37,32). 14,2-6 O primeiro episodio reitera o tema da cura no sábado (13,10-17). Acomparagáo do filho ou do boi caídos num pogo (cf. Ex 21,33-34) torna mais aguda a situagáo. O interesse pelo animal ou o de­ ver paterno se sobrepòem à prescrigáo, e esses sentimentos náo faltam a Jesús. Pergunta desafiando e comenta argumentan­ do. Sua pergunta náo proíbe, mas permite o repouso sabático. Se um homem normal socorre de sábado a um filho ou animal, 14,1 -24 Com a situaçâo comum de co­ “Deus socorre homens e animais” (SI mida ou convite, Lucas reúne quatro ce36,10). Calam-se diante da pergunta por-

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h pnlavra

e perguntou a juristas e fallNrus: É permitido curar no sábado ou
n ílo ?

4liles se calaram. Icsus tomou o doente, o curou e o ile\pediu. 5Depois lhes disse: -—Quem de vós, se seu filho ou boi i nlr num pogo, nao o tirará logo no sállHdo? f’l: nao podiam responder-lhe a isso. O convidado — 7O bservando como PHColhiam os lugares de honra, disse aos convidados a seguinte parábola: • —8Quando alguém te convidar para iim casamento, nao ocupes o primeiro lugar; nao acóntela que haja outro con­ vidado mais importante que tu, 9e aqueIr que convidou os dois vá dizer-te para ccder o lugar a outro. Entáo, envergonhado, terás de ocupar o último lugar. "'Quando te convidarem , vai e ocupa o ultimo lugar. Assim, quando chegar quem i|ue dáo por descontada a resposta. Nào rcspondem ao argumento porque nao tém rcsposta. 14,7-11 Num banquete de casamento o protocolo designa rigorosamente os luga­ res. A parábola fala de conseqüéncia, nao ile finalidade. Pois, se alguém se dirige ao último lugar para provocar a honra de ser chamado ao primeiro, está incorrendo na mesma vaidade, inclusive mais refinada. “É melhor ouvir: suba para cá do que ser humilhado diante de um nobre” (Pr 25,6-7). 1 4 ,1 1 Aforismo de valor geral, que pode ilesprender-se do contexto (Ez 17,24; Pr 15.33). Um provèrbio formula-o assim: “A frente da gloria caminha a humildade” (Pr 15.33). Exemplo máximo é o pròprio Je­ sus, como o expoe Paulo (F1 2,6-11). 14,12-14 Sobre a generosidade desinleressada. E o ensinamento de 6,32-33 e é tradicional (Is 58,7-12; SI 112,9; Eclo 7,3233). A novidade está no modelo de convi­ dados e na recompensa escatològica. Os convites mutuos, como costume social, criam e afiangam um círculo de bem-estar, do qual sao excluidos os mais necessitados. Acaridade que Jesús prega e pratica rompe esse círculo a favor dos indigentes

te convidou, te dirá: Amigo, sobe a um posto superior. E ficarás honrado na presenga de todos os convidados. n Pois, quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado. 12Disse a quem o havia convidado: — Quando ofereceres um almogo ou jantar, nao convides teus amigos ou irmáos ou parentes ou os vizinhos ricos; porque eles, por sua vez, te convidaráo e ficarás pago. 13Quando deres um ban­ quete, convida pobres, mutilados, coxos e cegos. 14Feliz de ti, porque nao podem pagar-te; pois te pagaráo quan­ do ressuscitarem os justos. Parábola dos convidados ao banque­ te (Mt 22,1-10) — 15Ao ouvi-lo, um dos convidados disse: — Feliz quem com er no reino de Deus! 16Replicou-lhe: — Um homem dava um grande ban­ quete, para o qual convidou muitos. 17Na e também em proveito de quem é caritati­ vo. O convite interesseiro atinge seu pa­ gamento neste mundo e nesta vida. A caridade desinteressada tem pagamento transcendente. A “ressurreicjáo dos justos” é a glorificado a exemplo e pelo dom de Jesús Cristo. 14,15 Com a frase final, “a ressurreigao dos justos”, se liga a exclamado do fariseu. Ele se considera incluido entre esses justos e sonha com a dita de participar do banquete com que o Messias inaugura­ rá seu reinado (Is 25,7-9; 65,13-14). O Apocalipse dá novo sentido á frase “Felizes os convidados as nupcias do Cordeiro” (Ap 19,9). 14,16-24 Jesús responde com uma pa­ rábola que freia e desvia semelhante espe­ ranza ou presundo. O banquete é grande pelo número de convidados e a qualidade dos manjares. Muitos foram convidados e aceitaram. Chega a hora, com o banquete preparado, e os convidados recebem o se­ gundo convite. Nesse momento se desdizem com várias desculpas. E faltar á palavra e ofender gravemente o anfitriao. Suas desculpas recordam os “espinheiros” da parábola do semeador (8,14). Negocios, tra-

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hora do banquete, enviou seu servo avi­ sar os convidados: Vinde, já está pre­ parado. 18Um após o outro, todos fo­ rarci se desculpando. O prim eiro disse: Comprei um terreno e preciso ir examiná-lo; por favor, aceita m inhas descul­ pas. 190 segundo disse: Comprei urna junta de bois e vou prová-los; por fa­ vor, aceita minhas desculpas. 2Í)0 terceiro disse: Acabo de casar e nao posso ir. 210 servo voltou para inform ar o senhor. O dono de casa, irritado, disse ao servo: Sai depressa até as pravas e rúas da cidade, e traze pobres, m utilados, cegos e coxos. 220 servo lhe disse: Senhor, foi feito o que ordenaste, e aín­ da sobra lugar. 23Ó senhor disse ao ser­ vo: Sai pelos cam inhos e veredas e obriga-os a entrar, até que se encha a casa. 24De fato, eu vos digo que nenhum

daqueles convidados provará o nun banquete.

Odiscípulo (Mt 10,37-38) — 25Seguu o grande multidáo. Ele se voltou e III' disse: — 26Se alguém vem a mim e nao | »it em segundo lugar seu pai e sua m;n sua mulher e seus filhos, seus irmáos p irmás, e até sua pròpria vida, nao podi ser meu discípulo. 2'Quem nao leva su# cruz e nao me segue nao pode ser mai discípulo. 28Se um de vos pretende coir. truir urna torre, nao senta primeiro pai .i calcular os gastos e ver se tem com qui terminá-la? 29Náo acóntela que, tendí i lanzado os alicerces e nao podendo com pletá-la, todos os que veem p < > nham-se a cagoar dele, 3°dizendo: Este comegou a construir e nao pode con
tam com o chamado de Jesús. Por isso o seguidor ou discípulo de Jesús tem que rejeitar, “odiar” esses impedimentos (cf. E.\ 33,9). Se nao está disposto a isso, náo rcú ne as condigóes para rematar o projeto. 14,26-27 Vínculos familiares: Na bén gao a Levi, Moisés pronuncia estas frases “Disse a seus país: Nao fago caso de vos. a seus irmáos: Náo vos reconhego; a seus filhos: Náo vos conhego”, porque antepu seram o mandato de Deus (Dt 33,9, referido a Ex 32,26-29). A vida e a cruz: 9,23-24. 14,28-32 As duas parábolas insistem no conhecimento das condigóes e na plena consciéncia com que se deve tomar a de cisáo de seguir a Jesús. Diferente parece o caso dos pescadores e de Levi, a quem urna palavra soberana de Jesús ilumina e moví­ as,1-11.27-28); ou o caso de Paulo, cega do e iluminado (At 9). Talvez se inspireni ñas normas de prudencia que a sensatez ordena: “Com sensatez constrói-se urna casa... Com estratagemas ganha-se a guer ra” (Pr 24,3.6). Contém um paradoxo na aplicagáo: se para construir ou fazer guer ra é preciso contar com meios, para seguir a Jesús, o essencial é náo possuí-los. 14,28 Pode tratar-se de urna dessas tor res que se construíam nos pomares para vigiar ou como abrigo contra o mau tem po (Is 5,2), mais sólidas e cómodas que uma cabana (Is 1,8).

balho, familia, embora sejam atividades honestas, impedem realmente de compa­ recer a um banquete? O anfitriáo nao renuncia á festa nem quer que se percam os manjares prepara­ dos. Como se exultasse presenteando, hos­ pedando. Sua generosidade nao é condi­ cionada pelo interesse ou pela qualidade dos hospedes. Faz um duplo convite. Pri­ meiro na cidade as categorías de antes (v. 13); depois aos arredores, aos que encontrarem. Como estes resistiráo, envergonhados ou incrédulos, será preciso trazé-los e forgá-los amistosamente. Esses acorrem e enchem a casa. Os outros ficam definiti­ vamente excluidos. Deus dá a todos. E o ser humano quem recusa aceitar. Quem recusa o dom ofende o doador. A parábola pode se aplicar a judeus que resistiram e a pagaos que responderam. Também é aplicável dentro da Igreja, pela sua dimensáo escatológica (cf. ICor 1,2629). Os primeiros foram escolhidos por vontade do anfitriáo, os outros sao convi­ dados em sua condigáo de marginalizados. 14,25-27 Sobre o seguimento de Jesús. Pode-se unir com o trio de 9,57-62. Jesús caminha para Jerusalém a fim de padecer e morrer. Nesse contexto soam as condi­ góes para o seguimento. Os vínculos pu­ ramente humanos de familia, o interesse pessoal, interferem muitas vezes e contras-

tM .II)

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i Iiiii. uSe um reí vai travar batalha com millo, nao senta prim eiro para avaliar *t' poderá resistir com dez mil a quem veni atacá-lo com vinte mil? 32Se nao piule, quando o outro ainda está longe, ii|ivia-lhe urna delegagao para pedir-lhe 1 1 pa/. 33Assim é para qualquer de vos: (Jiicm nao renunciar a seus bens, nao pode ser meu discípulo. M0 sal é bom; mas, se o sal se torna Insosso, com que o tem perarlo? 35Náo *i>rve nem para o campo nem para a pxlerqueira; deve ser jogado fora. Quem llver ouvidos para ouvir, escute. A o v elh a e a m oeda p erd id a — ’Todos os coletores e os pe­ didores se aproxim avam para ouvir. 'Os fariseus murmuravam: — Este recebe pecadores e come com des. 3Ele lhes respondeu com a seguinte parábola: 14,34-35 Parece dirigido ao discípulo. Terá que desfazer-se para comunicar seu sabor e para conservar alimentos: se o perde, será rejeitado. 15,1-2 Começa urna segunda série de parábolas, mais ampia que a do cap. 8 . Nesta seçâo reúnem-se as très parábolas chamadas “da misericordia” e outras duas sobre o uso dos bens. As très primeiras cstáo construidas com cálculo: sobre urna dupla paralela se levanta a figura domi­ nante. As paralelas sao: um homem no campo e sua ovelha extraviada; urna muIher em casa e sua moeda perdida. A terceira costumamos chamar “do filho pró­ digo”, porém melhor seria chamá-la “do pai amoroso”. Segundo a introduçâo, as très se dirigem a “coletores e pecadores”, para os quais sâo verdaderamente boa noticia, e eles acorrem ansiosos para escutá-la. Em contraste, ressalta o desgosto dos fariseus, apresentados como tipo, e que reapareceráo na figura do irmáo mais velho. As très falam do perdáo de Deus para o pecador; por isso podemos encabeçà-las com o texto clássico: “Deus nâo quer a morte do pecador, mas que se converta e viva” (Ez 18,23.32). Predomi|

— 4Se algum de vós tem cem oveIhas e perde urna, nao deixa as noventa e nove no deserto e vai atrás da ex­ traviada até encontrá-la? 5 Sim, ao encontrá-la, a coloca nos ombros contente, 'Vai para casa, cham a amigos e vizinhos e lhes diz: A legrai-vos comigo, porque encontrei a ovelha perdida. 7Eu vos digo que da m esma forma haverá no céu m ais festa por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que nao precisam arrepender-se. 8Se urna m ulher tem dez dracm as e perde urna, nao acende urna lamparina, varre a casa e procura diligente­ mente até encontrá-la? 9Ao encontrála, chama as amigas e vizinhas e lhes diz: Alegrai-vos comigo, porque encon­ trei a dracma perdida. ’“Eu vos digo que da mesma forma se alegrarlo os anjos de Deus por um pecador que se arrepende.

nam nas très os sentimentos, e entre eles, a alegria; é a vantagem de falar com rela­ tos, e nâo com teorias. Como a ovelha e a dracma, assim o homem, apesar de peca­ dor, é propriedade de Deus: “Perdoas a todos porque sáo teus, Senhor, amigo da vida” (Sb 11,26). 15,3-7 A primeira toma a imagem de uma atividade muito sensível na tradiçâo bíblica: compare-se a figura do rei pastor que vai à luta para resgatar uma ovelha (ISm 17,34-36) e a grande exposiçâo de Ezequiel (em particular Ez 34,11-16). As noventa e nove fieam em lugar seguro. Leva a ovelha nos ombros (como em Is 40,11). É um por centro da sua proprieda­ de; no entanto, alegra-se com um gozo comunicativo, incontido, como se tivesse uma relaçâo pessoal e náo só económica com a ovelha (cf. 2Sm 12,1-4). É a alegria que sobe até o céu. A frase é audaz: no céu se festeja o acontecimento. 15,8-10 O segundo caso parece mais modesto à primeira vista. Mas a mulher é mais pobre e perdeu um décimo de seus haveres. Proporcionalmente a alegria é a mesma e só em parte a aplicaçâo: nâo se fala de alegria comparativa. Contudo, a alegria acusa um sofrimento precedente:

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15.1 1

O filho p ró d ig o — “ Acrescentou: — Um hom em tinha dois filhos. 120 m enor disse ao pai: Pai, dá-me a parte da fortuna que me cabe. Ele repartiu os bens entre eles. 13Em poucos dias o filho m enor reuniu tudo e em igrou para um país distante, onde esbanjou sua fortu­ na vivendo como um libertino. , 4Quando gastou tudo, sobreveio grave cares­ tia naquele país, e ele comegou a passar necessidade. 15Foi e se comprometeu com um fazendeiro do país, que o enviou a seus cam pos para cuidar de porcos. 16Desejava encher o estómago com os frutos da azinheira que os porcos a perda dói. Um pecador convertido é algo valioso que os anjos de Deus recuperam. 15,11-32 Poderíamos partir de dois tex­ tos clássicos que revelam o aspecto emo­ tivo e entranhado da paternidade de Deus (Os 11 e Jr 31,18-20). Mais em concreto, um salmo nos fala do Deus pai que, como um pai por seu filho, enterncce-se e perdoa (103,13). A “rainha das parábolas” é transparente em seu desenvolvimento: a partida, a dissipagáo libertina, a queda humilhante, as privagóes, a saudade da casa paterna, o retomo á nova vida, o abrago sem recriminagóes, a festa. Contudo, vale a pena observar mais de perto alguns detalhes. 15.11 Ao passar da ovelha e da moeda ao filho, a exposigáo se torna mais pro­ funda e reveladora. Aqui Jesús está cumprindo algo do que disse ( 1 0 ,2 2 ): está re­ velando o Pai. A paternidade humana é reflexo de Deus, e por isso serve para fazélo compreender. O dramático relato de José, com desfecho feliz, nos fala de amor paternal; e dois momentos trágicos na vida de Da vi: o primeiro filho de Betsabéia, e Absaláo morto (2Sm 12,15-25; 19,1-9). 15.12 A parte que corresponde ao mais novo é um tergo dos bens movéis (Dt 21,17). Ben Sirac recomenda nao ceder a heranga em vida: seria dar poder a outros e submeter-se e estar á mercé deles (Eclo 33,20-24). 15.13 Distante significa longe da pre­ senta paterna, rium desterro voluntário, buscando a liberdade. Uma libertinagem que o leva logo á miséria: “porque bebe­ dores e comilóes se arruinaráo” (Pr 23,21); “quem se junta com prostitutas dissipa sua

com iam , mas ninguém lhe perm iiu 17Entáo, caindo em si, pensou: Aqu;m tos diaristas de meu pai sobra pao, en quanto eu morro de fome. 18Voltarci .i casa de meu pai e lhe direi: Pequei con» tra Deus e te ofendi; 19já nao merci;« chamar-me teu filho. Trata-m e comí) um de teus diaristas. 20E se pòs a cairn nho da casa de seu pai. Estava ainil.i longe, quando seu pai o avistou e so comoveu. Correndo, langou-se ao sen pescoso e o beijou. 2lO filho lhe dissi Pai, pequei contra Deus e te ofendi. J.i nao merego chamar-me teu filho. 22M;i o pai disse aos servos: Rápido, trazei « fortuna” (29,3; Eclo 18,30-19,2). Fome o miséria nao sao castigo extrínseco, ma conseqüencia de urna conduta, sangáo imánente. 15,15 Submetido como escravo a um patráo pagáo (Le 25,27); “a fome do día rista trabalha por ele, porque sua boca o estimula” (Pr 16,25). Oficio humilhanti para qualquer um, mais ainda para um ju deu, forgado a ficar entre animais impu ros (Lv 11,17). Como se nao bastasse, es ses animais gozam de melhor sorte que ele. 15,17 O narrador entra na mente do jovem para revelar suas reagoes. A necessi dade faz refletir, aínda em termos de inte­ resse pròprio: “naquela ocasiáo era mais feliz do que agora” (Os 2,9; Jr 2,19). 15,18-19 Superando o interesse pròprio, descobre a dimensáo transcendente: O pecado vai contra Deus (José, Gn 39,9; o Faraó, Ex 10,16; o povo, Dt 1,41; Davi, 2Sm 12,13; SI 51,8). O jovem, mesmo que só mentalmente, impòe a pena a si mes­ mo: perder todos os direitos de filho (cf. Gn 43,9). 15,20 O pai nào leva o assunto por via legal (Dt 21,20), mas se deixa levar pelo afeto paternal: “minhas entranhas se comovem e cedo à compaixáo” (Jr 31,20); “meu coragào se contorce dentro de mim, minhas entranhas se comovem” (Os 11,8); identifica-o de longe, sai correndo a seu encontro. O abrago sela a reconciliagáo, antes que o filho pronuncie a confissáo: “Volta, Israel apóstata, pois nao estou ira­ do... nao guardo eterno rancor” (Jr 3,12). E recebido como filho: traje e anel serao os sinais externos.

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mlimi veste e vesti-o; colocai-lhe um m i mi dedo e sandalias nos pés. 23Tra. I o bezerro cevado e matai-o. Cele■ im iiio s um banquete. 24Porque este •ini li Ilio estava morto e reviveu. Tinha. pi ulido e foi encontrado. E comega■ iin .1 lesta. O fiIho m aior estava no campo. ' inundo se aproximava de casa, ouviu .ni .u a e dan tas 26e chamou um dos iiiulos para informar-se do que estava i. iinlecendo. 27Respondeu-lhe: É que i h i teu irmào, e teu pai matou o be• i m i cevado, pois o recuperou sào e ulivo. 28Irritado, eie se negava a entrar, irti pai saiu para exortá-lo. 29Mas eie ii’tpondeu a seu pai: Ve: há tantos anos

eu te sirvo, sem desobedecer a urna ordem tua, e nunca me deste um cabrito para eu com er com meus amigos. 30Porém, quando chegou esse teu filho, que devorou tua fortuna com prostitutas, mataste para ele o bezerro cevado. 31Respondeu-lhe: Filho, tu estás sempre co­ migo, e tudo o que é meu é teu. 32Era necessàrio fazer festa, porque esse teu irmào estava morto e reviveu, tinha-se perdido e foi encontrado. Parábola do adm inistrador — 'D izia aos discípulos: — Um homem rico tinha um admi­ nistrador. Chegaram-lhe queixas de que estava esbanjando seus bens. 2 Chamou-

15,24 É um reviver; nào a simples vol­ ici, mas o arrependimento e o perdào (Jr i, II; cf. Eclo 32,5s). Urna vida nova men re ser festejada. 15,25-32 A parábola tem urna segunda luirle porque nem todos se alegram com o ■Irsonlace. Há quem nao aceita nem comjiicende a fraqueza do pai. Jonas é um , «empio admirável: nào quer ser profeta ili* um deus “compassivo e clemente, pa­ ciente e misericordioso” (Jn 4,2), capaz de ilrixar mal seu profeta por perdoar os inimigos. O irmào mais velho, que regressa ilo traballio no campo, discorre em termos ili! retribuido comparativa, protesta con­ ila o irmào e o pai. E o pai, no mesmo Irrreno, o faz ver que está bem pago con­ vivendo com ele. O irmào mais velho tem ile aceitar a misericòrdia do pai e reconci­ liarse com seu irmào arrependido. Paternidade gera fraternidade. 15,27 O criado se fixa apenas no aspec­ to externo: “recuperou-o sào e salvo”. Se nlhasse em profundidade, diria: “arrependido e transformado”. O pai diz: “vol­ imi à vida”. 15,29 O filho mais velho designa sua vida dizendo “te sirvo”; o pai replica: “estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu”. No contexto da vida de Jesus, o irmào mais velho pode representar o fariseu como tipo. No contexto posterior, seu al­ i-ance é universal. Demos grabas a Lucas i|iie contribuiu com essa jóia para a litera­ tura universal.

16,1 As duas parábolas que se seguem tém como tema comum o uso dos bens. Os do patráo no caso do administrador (16,1-13), os próprios no caso do rico (16, 19-31). Ambas abrem passagem para suas próprias instrugóes medianamente ligadas, a primeira aos fariseus (16,14-18), a se­ gunda aos discípulos (17,1-10). A primeira dirige-se aos discípulos; a segunda, por náo haver urna segunda mudanza, dirigese aos fariseus. 16,1-9 A parábola do administrador pode soar desconcertante. Porque se diz clara­ mente que ele era desonesto, o patráo o louva, e Jesús no-lo apresenta como mo­ delo. De que? Que urna parábola intrigue náo é desconcertante, mas saudável. É o administrador de um rico abastado. Acusam-no de má administrado, e pela a§áo do amo deve-se deduzir que a acusa­ d o foi comprovada. O castigo lógico é demiti-lo imediatamente. Assim, ele que vivia folgadamente enfrenta urna emergen­ cia. Este dado é capital. Como homem entendido em negocios se detém a calcu­ lar e buscar saídas para a emergéncia, den­ tro do sistema económico em que se move e conhece por dentro. Descarta duas saí­ das razoáveis, que ele náo é capaz de en­ frentar, e planeja outra astuta: criar interesses, buscando cúmplices. Em outros termos, dos devedores do patráo fazer devedores de favores seus. Alguns comen­ tadores dizem que o tanto por centro perdoado cabia a ele; mas o relato náo parece

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o e Ihe disse: O que é isso que me contam de ti? Presta-me contas de tua administraçâo, pois nâo poderás continuar no cargo. 30 adm inistrador pensou: O que vou fazer, agora que o patrâo me tira o cargo? Nâo tenho forças para ca­ var; pedir esmolas me dá vergonha. 4Jà sei o que vou fazer para que, quando me despedirem, alguém me receba em sua casa. 5Foi chamando um por um os devedores de seu patrâo, e disse ao primeiro: Quanto deves ao m eu patrâo? 6Ele respondeu: Cem barris de azeite. Disse-lhe: Pega o recibo, senta-te rápi­ do, e escreve cinqüenta. 7Ao segundo disse: E tu, quanto deves? Respondeu: Cem medidas de trigo. Disse-lhe: Pega teu recibo e escreve oitenta. sO patrâo louvou o adm inistrador desonesto pela

astucia com que havia agido. Por. < < ■ cidadáos deste m undo sao m ais ¡isin tos com seus colegas do que os cidadflu» da luz. 9E eu vos digo que com o dinlii i ro sujo ganheis amigos, de modo qm quando acabar, eles vos recebani ih morada eterna. 10Aquele que é c o h I m vel no pouco, é confiável no muii" quem é desonesto no pouco, é desoiio» to no muito. n Pois, se com o dinluii. sujo nao fostes confiáveis, quem vm confiará o legítimo? 12Se no alheio nau fostes confiáveis, quem vos confiara ■ vosso? 13Um em pregado nao pode estai i servigo de dois patróes: pois odiará mu e amará o outro, ou apreciará um e di prezará o outro. Nao podéis estar a su vigo de Deus e do dinheiro.

apoiar isso. Afinal de contas, o patráo era rico e a perda global de uns mil denários nao era excessiva para ele. Maior prejuízo tinha sido a má administrado precedente. O recurso é táo engenhoso quanto de­ sonesto; e o patráo admira o engenho (cf. Pr 22,3; 27,12). É inegável que esse ad­ ministrador era homem de recursos. Devemos acrescentar por nossa conta a apli­ cad o ? Os bens nos foram confiados por Deus para os administrarmos. Sobrevém uma situado de emergéncia, e eles váo acabar. Com esse dinheiro ao qual se prendem tantas injustigas grandes ou peque­ ñas, é preciso fazer amigos o quanto an­ tes; perdoando dividas, fazendo favores a outros mais necessitados. Conclusáo nao menos desconcertante: o próprio Deus, o patráo “defraudado”, nos recebe em sua “morada eterna”. “Quem se compadece do pobre empresta ao Senhor” (Pr 19,17). A parábola se quebra no final. Porque há uma prudéncia crista que é insensatez aos olhos do mundo, mas á luz do evangelho é su­ prema, prudéncia paradoxal. 16,3 Ben Sirac disserta sobre a mendicáncia: “É melhor morrer que andar mendi­ gando; quem depende da mesa alheia tem de saber que nao vive” (Eclo 40,28-30). 16,8 Chama os discípulos de “cidadáos (filhos) da luz”: ver lTs 5,5; Ef 5,8. No novo reino da luz e segundo seu regime deveriam desdobrar iniciativa e engenho

na administrado dos bens recebidos. T.i lento e engenho também sao dons recebi dos que administramos. 16,9 “A esmola liberta da morte e expm o pecado; os que dáo esmolas se saciaran de vida” (Tb 12,9). “Dinheiro” em grego se diz Mamón, deus da fortuna. 16,10-11 Seguem-se algumas sentenga’. aparentadas com o tema. Ver a parábol.i parecida de 19,17-26. O que se requer do administrador é que seja fiel (ICor 4,2) O primeiro aforismo é geral: o “pouco” r o “muito” admitem muitas identificadas No contexto presente, o pouco sáo os beir. deste mundo, o muito sáo os bens do ccu ou do reino de Deus. 16.12 Mais difícil é o segundo aforismo (alguns manuscritos léem “nosso”). Alheio\ ao homem (ou a Deus) sáo os bens que ficam fora e passam; “vosso”, próprios, sáo os bens que Deus entrega ao fiel. Os bens de dentro orientam e regulam o uso dos bens de fora. 16.13 O terceiro é aplicagáo do primeiro mandamento: o Deus verdadeiro nao ad mite rivais. Mamón, deus das riquezas, quci ser servido como rival ou competidor do Deus (cf. Is 65,11). O dinheiro é para sci administrado como meio de fazer o bem, nao como sujeigáo a ele (Mt 6,24). “Quem ama o dinheiro será por ele extraviado... Feliz o homem que se conserva íntegro 0 nao se perverte com a riqueza” (Eclo 31,5.8)

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^ leí b ti boa noticia (M t ll,1 2 s ) — 'Mluviiim tudo isso os fariseus, muito «Hilaos do dinheiro, e cacjoavam dele, ''(tic Ibes disse: * Vós passais por justos diante dos Hrtlticns, mas D eus vos conhece por ijllitn). Pois o que os hom ens exaltam, llmis detesta. lei e os profetas duniiain até Joáo. A partir daí anuncia-se n Iti i» noticia do reinado de Deus, e to16.14 Em lugar de objegáo ou comentáiln, como é seu costume outras vezes, I m as faz intervir a zombaria dos fariseus, típula vez como tipos de amor ao dinheiro, * por isso identificáveis com muitos oulliin, Segundo eles, a riqueza é béngáo de Ih’iis, premio pela observancia. E sem limito preocupar-se, introduz o autor urnas Imitas sentencias heterogéneas. 16.15 Outra forma de cobija: acumular ultras de observancia pensando que com iilns se adquirem direitos sobre Deus, ou illicito á recompensa de Deus e á estima ilns homens. O alto é a altivez, que Deus detesta: “O Senhor detesta o arrogante” (Pr 10,5; Is 2,9-18). Conhece o coragáo (Pr 15,11; 16,5). 16,16-17 O regime antigo, leis e profe­ tas, terminou com o Batista. Com Jesús romega o regime novo, o reinado de Deus. E preciso esforgo e luta para incorporar­ ía a ele, ou ceder a seu convite premente. (luiros o interpretam em relagáo á violen­ cia externa a que se vé submetido. Contu­ llo, a substancia da lei continuará em vi­ gor; ou a lei do novo reino de Deus (cf. SI 102,26s). Se a lei era a vontade de Deus for­ mulada para os homens, ao chegar o reiliudo de Deus, cumpre-se perfeitamente. 16.16 *Ou: usam de violencia contra ele. 16,18 Precisamente neste ponto do divórcio, Jesús anula a lei de Dt 24,1. Ver a oxplicagáo de Me 10,11-12 e ICor 7,10-11. 16,19-31 A segunda parábola costuma Ncr chamada do “rico Epuláo e Lázaro”, lazendo do latim epulo = comiláo, um nome próprio. O rico da parábola nao tem nome, o pobre se chama Lázaro = Eleazar « Deus auxilia. As avaliagóes correlativas de bem-aventurangas e mal-aventurangas (6,20.24) se cumprem neste relato; nele se realiza a reviravolta que Ana e Maria cantam (ISm 2; Le 1,52-53). Nao nesta vida,

dos querem fo rja r o acesso*. I7Mas é m ais fácil que passem céu e terra do que cair um acento da lei. 18Quem re­ pudia sua m ulher e casa com outra, co­ m ete adultèrio; quem casa com uma repudiada, com ete adultèrio. O rico e L ázaro — 19Havia um homem rico que vestía púrpura e linho e banqueteava espléndidamente cada dia. 20E mas num além imaginado e descrito se­ gundo algumas crengas da época. A parábola é clara na colocagáo (cf. Pr 22,2), desenvolvimento e desenlace. Em busca de clareza, corremos o perigo de nao tomá-la como parábola, mas como manual de novíssimos. Ora, se a tomamos como descrigáo realista, muitas coisas estranhas se deduzem: que no céu os eleitos se banqueteiam reclinados sobre almofadas, com Ábraáo no lugar principal; que céu e in­ ferno sao dois lugares ao alcance da vista e da palavra, separados por uma espécie de abismo ou desfiladeiro; que do inferno se pode interceder pelos vivos. Será pre­ ciso tomar uma metade em sentido realis­ ta e outra metade em sentido metafórico? Segundo o profeta Ezequiel, “este foi o pecado de Sodoma: soberba, fartura de páo e bem-estar aprazível... mas nao deu uma máo ao infeliz e pobre” (Ez 16,49). E qual foi seu castigo? “Do céu o Senhor fez chover fogo e enxofre sobre Sodoma e Go­ morra, e arrasou aquelas cidades” (Gn 19,24-25). A parábola se coloca no terreno das posses, na oposigáo entre riqueza e pobreza. Apresenta um rico pecador e um pobre que supóe justo. Afirma que haverá castigo e prèmio transcendentes depois da morte. O pecado é exposto com dados do rico e de seus irmáos. Consiste em entregar-se à boa vida sem preocupar-se com os necessitados (Is 22,13; Ez 16,49; Am 6,4-6; Sb 2). Uma riqueza empregada assim é injusta. Acrescenta-se o náo fazer caso da Escritura, Moisés e profetas; fórmula que é todo um tratado de rebeldía. Na Escritu­ ra está bem clara e reiterada a exigencia de socorrer o pobre (p. ex., Dt 15,1-11; Is 58). De Lázaro se contam os sofrimentos, náo as virtudes. Estas se deduzem do fato de ele ser levado pelos anjos ao céu. Náo

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havia um pobre, cham ado Lázaro, coberto de chagas, e deitado á porta do rico. 21Queria saciar-se com o que caía da mesa do rico. Até os caes iam lamber-lhe as chagas. 220 pobre morreu e os anjos o levaram para junto de Abraáo. O rico também morreu e o sepultaram. 23Estando no Hades, em meio a tormentos, levantou os olhos e avistou Abraáo com Lá­ zaro a seu lado. 24Chamou-o e lhe disse: Pai Abraáo, tem piedade de mim, e envia Lázaro, para que molhe a ponta do dedo na água e me refresque a língua, pois estas cham as me torturam. ~5A bralo respondeu: Filho, recorda que em vida recebeste bens, e Lázaro, por sua vez, desgranas. A gora ele é conso­ lado, e tu, atormentado. 26A lém disso, entre vós e nós há um abism o imenso; de modo que, ainda que se queira, náo é possível atravessar daqui até vós, nem passar daí até nós. 27Insistiu: Entáo, por

favor, manda-o à casa de meu pai, •’“< ut de tenho cinco irmàos, para que os m i m oeste a firn de que náo venham i.im bém eles parar neste lugar de tornimi. 29A braáo lhe disse: Eles tèm Moisc, n os profetas: que os escutem. 30Repl io m Náo, pai Abraáo; se um morto os vi i ta, eles se arrependeráo. 31Disse-lhe: S i) náo escutam M oisés nem os profeti' m esm o que um morto ressuscite, n .i> lhe farào caso. "I ^ Instru^óes aos discípulos (M i A / 18,6s.21s; Me 9,4) — ’Disse n seus discípulos: — E inevitável que haja escàndalir, mas ai de quem os provoca! 2Seria nir lhor que lhe encaixassem no p e s a »,.1 urna pedra de m oinho e o atirassem ;i. mar, antes de escandalizar a um dessepequeños. 3Ficai atentos: Se teu irmüti pecar, repreende-o; se se arrependn perdoa-o. 4Se sete vezes ao dia te ofen 16,26 Nesta vida convivem ricos e pii bres, malvados e honrados. Na vida futu ra a se p a ra lo è definitiva e insuperável 16,31 A frase se abre para sugerir a res surreiglo de Jesus e a resistencia dos in crédulos. Segue-se urna nova sèrie de ins truyoes heterogéneas.

consegue afugentar os caes que lhe lambem a umidade das chagas. Imagina-se já cumprido o anùncio de Daniel: “Muitos dos que dormem no pó despertarlo: uns para a vida eterna, outros para a vergonha perpètua” (Dn 12,2). Com variantes: o rico “è sepultado”, o pobre nao, pelo contràrio, è levado ao céu, onde o primeiro patriarca ocupa o lugar de honra. 16.23 Salvo rarissimas excegòes (Jó 14, 22), o Xeol do AT náo è lugar de tormen­ tos e sim de existencia sem vida. A parà­ bola segue represen tagóes que conhecemos por apócrifos (4Esd), com fogo do forno instalado no vale de Hinon (Geena). Lázaro está reclinado ao lado direito de Abraáo, em cuja almofada se apóia com o cotovelo esquerdo. 16.24 O fogo como tormento náo è tra­ dicional. É o elemento divino, o inacessivel, em Is 33,14, o aniquilador em SI 68,3. 16.25 A resposta de Abraáo desmente urna teoria da retribuirlo nesta vida. Po­ breza e riqueza estao em correlalo . A ri­ queza de um, desfrutada com egoismo, provocou e conservou a pobreza do outro. As vítimas inocentes que choram “serio consoladas”.

17,1 -2 Escándalo è o que faz tropezar c cair (SI 73,2); de ordinàrio se refere à fé. E um agravante que as vítimas sejam os pequeños: “Náo amaldigoarás o surdo neni porás troperos ao cegó” (Lv 19,14). San inevitáveis, porque brotam como reaglo .i exigencias do evangelho, e também di estilos de vida socialmente aceitos e am piamente divulgados. Os pequeños, os fra eos e necessitados, os que passam por eri ses, estío mais expostos. Paulo tira urna aplicadlo: “Comendo, nlo destruas al guém pelo qual o Messias morreu... Poi um alimento nlo destruas a obra de Deus” (Rm 14,15.20). 17,3-4 Lucas fala primeiro de pecado em geral e recomenda a repreenslo ou admoestaglo, para que o pecador se dè conta e se corrija. É urna espécie de denuncia profe­ tica em formato menor. Ora, perdoar o irmáo supóe que ele nos ofendeu (Gn 50,

tf,l I

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tal u sete vezes voltar a ti dizendo que * * tirrepende, perdoa-o. '( )s apóstolos disseram ao Senhor: Aumenta-nos a fé. *<) Senhor disse: r - Se tivésseis fé corno um grào de iiliiNlurda, dirieis a essa amoreira: Arilllcu-te pela raiz e planta-te no mar, •In vos obedecería. ’Ouem de vós, se tem um servo aran­ ci ou pastoreando, quando voltar do .■«tupo, lhe dirá que sente depressa à rtM K U ? 8Pelo contràrio, lhe dirà: Prepa•ii-nic de corner, cinge-te e serve-me i'iiquanto como e bebo; depois comerás ■beberás tu. 9Terá de agradecer ao ser­ vii por ter feito o que mandou? 10Assim Minbém vós: Quando tiverdes feito tudo

o que vos mandaram, dizei: Somos servos inúteis, cumprimos nosso dever. Cura dez leprosos — "Cam inhando para Jerusalém , atravessava a Galiléia e Sam aría. 12A o entrar num a aldeia, saíram a seu encontro dez leprosos que pararam a certa distáncia 13e, levantan­ do a voz, disseram: — Jesús, Senhor, tem piedade de nós. 14Ao vé-los, disse-lhes: — Ide apresentar-vos aos sacerdotes. Enquanto iam, ficaram curados. 15Um deles, vendo-se curado, voltou glorifi­ cando a Deus em voz alta, 16e caiu de brujos a seus pés, dando-lhe gracas. Era samaritano. ''Jesú s tomou a palavra e disse:

15-21; Eclo 28,1-6). Segundo a doutrina i!» Levítico (Lv 19,17). O culpado seja idpido em arrepender-se, humilde em pe> llr perdáo; o ofendido esteja sempre dis­ inolo a que, pelo perdâo, triunfe a paz. IriiiA o é o israelita no AT, é o cristâo no NT. 17,5-6 A força da fé náo depende da grimdeza, mas sim do seu ponto de apoio que é a promessa de Jésus. Pedir que Je*118 a faça crescer já é expressâo de fé, esllllia do seu valor, consciência da pròpria impotencia. A pitoresca imagem da amo­ llira é pròpria de Lucas; é uma imagem hiperbólica empregada para encarecer o poder sobre-humano da fé. 17,7-10 A parábola, com toda a dureza ilii cena descrita, vem sublinhar a relaçâo de serviço do discípulo. Náo pode alegar ilireitos nem exigir remuneraçâo. O que lite compete é simplesmente estar sempre il serviço de Jesus, com a humildade de ipiem reconhece a desproporçâo entre sua prestaçào e a tarefa encomendada. 17,11-19 Embora nao se trate de lepra cm sentido clínico, trata-se de uma doen1 ,'a grave e contagiosa da pele, que impede h participaçâo no culto e na vida civil or­ dinària. O Levítico regula a conduta des­ des doentes, pensando mais em proteger os outros do contàgio do que em prestar iijuda aos necessitados. Também regula a conduta em caso de cura: cabe aos sacer­ dotes examinar, opinar e dar a permissâo para a reincorporaçâo plena à sociedade

(Lv 13,45-46; 14,2). Um caso parecido, embora menor, se conta de Maria, irmá de Moisés, confinada sete dias fora do acam­ pamento (Nm 12,9-16); é clàssico o caso do sirio Naamá, curado ñas águas do Jordáo e convertido ao culto do Deus de Is­ rael (2Rs 5); muito curiosa é a atua<¿áo dos quatro leprosos durante o cerco de Samaria (2Rs 7). Os doentes incuráveis se movem em grupos. Quando chega Jesus, ficam a certa distáncia, para náo contaminarem: “Afasta-te, estou impuro, afasta-te, náo me toquéis!” (Lm 4,15); e dai gritam pedindo ajuda. Aordem que Jesús dá implica o pro­ cesso de cura, pois adianta o final, o testemunho oficial dos sacerdotes. Ao obede­ cer a Jesús, os leprosos já demonstram confianza, pois do contràrio evitariam o diagnóstico oficial. Pelo caminho de ida descobrem que estáo curados, sem necessidade de ablugóes, banhos e vários ritos, e entáo um volta sem mais para agrade­ cer, enquanto os outros, cumprindo o man­ dato de Jesús, preocupam-se com o aspecto jurídico, ou seja, o ser oficialmente decla­ rados curados. É frequente no Saltèrio que o homem curado ou libertado acorra a dar graejas a Deus na presenta de uma assembléia (SI 31,22-25). Aqui um dos curados, adiando o requisito legal, retoma, dá gloria a Deus em alta voz, dá gragas a Jesus e se prostra a seus pés: uma síntese significativa. Este

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— Nao foram curados os dez? 18Náo houve quem voltasse para dar gloria a Deus, a nao ser este estrangeiro? 19E lhe disse: — Levanta-te, vai, tua fé te salvou. A chegada do reinado de Deus (Mt 24,23-28.37-41) — 20Os fariseus lhe perguntaram quando iria chegar o rei­ nado de Deus, e ele lhes respondeu: — A chegada do reinado de Deus nao está sujeita a cálculos; 21nem diráo: Eilo aqui! Ei-lo ali! Porque está entre vós. 22Depois disse aos discípulos: — Chegaráo dias em que desej aréis ver um dos dias deste Homem, e náo o gesto do samaritano (meio pagáo) p5e em relevo a ingratidáo dos nove judeus, que parecem esquecer-se de deveres elemen­ tares ou náo reconhecer a mediagáo de Jesús. A gratidáo a Jesús pela salvagáo é componente essencial da vida cristá. 17,19 Tua fé te salvou: e os outros nove? curou-os, apesar de náo terem fé? ou a salvaqáo de que fala abrange mais que a sim­ ples cura? 17.20-37 Como em outras ocasióes, Lucas reparte urna instrucjáo em duas seqóes, urna para os discípulos, outra para os demais. Desta vez responde primeiro aos fariseus sobre o tempo do reinado de Deus e depois instrui os discípulos sobre a vinda do Messias. A segunda parte é como urna antecipagáo do grande discur­ so escatológico do cap. 2 1 . 17.20-21 A expressáo “reino/reinado de Deus” é quase exclusiva de Jesús. Mas um conteúdo semelhante, com outros aspec­ tos, era conhecido, esperado e objeto de esp ecu lares. Dois salmos anunciam a chegada de Yhwh como rei (96,13-14 e 98,8-9). Muitos judeus esperavam a restauragáo política de Israel. Como Jesús anunciou repetidas vezes a chegada do rei­ nado de Deus, os fariseus o identificam com sua expectativa e lhe perguntam pela data exata. Jesús evita uma resposta em termos de cronología. O reinado de Deus já está pre­ sente e ativo entre eles, na pessoa e a§áo de Jesús: proclamou-o na sinagoga de Nazaré (4,16). Só falta que o queiram reconhecer. A resposta conserva e aumenta sua vigén-

vereis. ^ S e vos disserem: Ei-lo :u|m Ei-lo ali ! náo saiais nem os sigáis . 2 ‘l’oi como o relámpago brilha de um limi zonte a outro, assim será o Filho il> H om em [quando chegar o seu di.i| 25M as primeiro deve padecer muilo i ser reprovado por esta geragáo. 260 <|m aconteceu no tempo de Noé acontecí rá no tempo do Filho do Homem: 27('o miam, bebiam, casavam-se, até que N(i| entrou na arca, veio o diluvio e acaboii com todos. 28Ou como aconteceu n tempo de Ló: Comiam, bebiam, com pravam, vendiam, plantavam, consliu íam. 29Mas, quando Ló saiu de Sodonin choveu fogo e enxofre do céu e acabuu eia no tempo da igreja pela presenta di Ressuscitado, “eu estou convosco”. 17,22 Depois se dirige aos discípulo para exortá-los à vigilancia. O texto dis tingue “dias” e “o dia”. Segundo o ensi namento tradicional, há dias de Yhwh noquais o Senhor intervém de forma extrn ordinària na historia; há também o dia dicisivo de Yhwh, num futuro indefinido Exemplo clàssico de ambos é o livro d| Joel: a praga dos gafanhotos e a libertario sao um dia de interven§áo divina (caps 1— 2 ); nos capítulos seguintes anuncia-so “o dia do Senhor, grande e terrível” (9,4) Também a “figura humana” de Dn 7 tem seus tempos (Dn 9,2.24-26 e 12,11-12 se ocupam de cómputos e suscitaram espe­ c u lares). Os discípulos quereráo assistii a alguns desses dias (2 2 ) e náo o obteráo, em troca, devem esperar “o dia” (vv. 3(1 31). Tempo e lugar náo sao previsíveis; sri é certo que antes há de suceder a paixáo do Senhor (cf. a pergunta de 19,11). Di/ isso caminhando para Jerusalém. 17,26-30 Será como no tempo do dilú vio (Gn 6 - 8 ) ou da catástrofe da Pentápolr (Gn 19). Enquanto o povo está ocupado com os assuntos da vida e despreocupado de assuntos transcendentes, sobrevém o julgamento. É interessante a síntese des critiva da vida cotidiana: sustento e fami lia, comprar e vender (economia), piantili (agricultura), construir (vida urbana). O julgamento se dará pela água ou pelo fogo (cf. 2Pd 3,5-7 numa interpretado peen liar). Será juízo de separagáo (vv. 34-35), como o anuncia urna escatologia: “meus

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LUCAS 37 Perguntaram-lhe: — Onde, Senhor? Respondeu-lhes: — Onde está o cadáver se reúnem os abutres.

un lodos. 30A ssira será o dia em que «icvelar o Filho do Homem. 31Nesse 'id, se alguém estiver no terrado e seus u h m Iío s em casa, nao desga para reillic-los; o mesmo se alguém estiver .1 1 campo, nao volte atrás. 32 Lembraitit ila mulher de Ló. 33Quem se em pe­ llí! cm conservar a vida a perderá, iM p i i i a perder a conservará. Eu vos iign: nessa noite estaráo dois numa caim : nm será arrebatado, o outro deixado; Imverá duas mulheres moendo juntas: •iiiii será arrebatada, a outra deixada*. .¡ivos cantaráo de pura alegría e vós gri­ lléis de pura dor” (Is 65,13-15), como su. ilcra já no Egito (Ex 8,19; 9,4.7). 17,31-33 Nesses momentos de crise nin, 111-ni deve fiar-se de falsas referencias, i.iiis a vinda será celeste e visível para toIiin, como relámpago que alumia toda a .imliada celeste e deslumbra a térra (cf. SI > 1,19). Entáo será preciso arriscar tudo, .ii' a vida, para salvar-se (v. 33), sem deter'< • cm recolher pertences que já náo ser­ ení (v. 31), sem voltar atrás como a mullicr de Ló (Gn 19,17.26; Sb 10,7). Noé |.ícparou-se para salvar-se na arca, Ló fuiilu precipitadamente. Há momentos ur­ inales em que atarefar-se com medidas de icguranga é entregar-se á catástrofe, ao iiiis s o que arriscar tudo é salvagáo. O hebraico o afirma assim (literalmente): lomarei minha carne cm meus dentes, |iiirei minha alma em minha palma” (Jó 11,14). Podemos resumir: um tempo próximo iln paixáo, um tempo de espera da Igreja, uní dia final de julgamento. 17,35 Refere-se ao moinho de máo do­ mestico, acionado por duas mulheres de nina só vez (Jr 25,10). *Alguns manuscri­ bís acrescentam (segundo Mt 24,40):36Dois estaráo no campo: um será tomado, o ouin>será deixado. 17,37 Os discípulos perguntam pelo lu­ nar do julgamento, talvez por referencia mi “vale de Josafá” (J1 4,2). A resposta de Icsns continua sendo evasiva. A imagem |iarece ser eco de Ez 39: a grande matanga iln inimigo invasor atrai as aves do céu: I )ize a todas as aves e as feras selvagens: Itcnni-vos e congregaí-vos, vinde ao ban­ quete que vos preparei”.

P arábola do ju iz e a v iú v a — ’Para inculcar-lhes que é neces­ sàrio orar sem pre sem se cansar, contou-lhes urna parábola: — 2Havia num a cidade um juiz que nao tem ía a Deus nem respeitava os homens. 3Na m esma cidade havia urna 18,1 Lucas adianta a intengáo didática da parábola e a enquadra assim na sua ex­ plicado. Náo longas oragóes, mas sim rei­ teradas e prementes. Para que venha o Se­ nhor fazer justiga. 18,2-8 As víúvas eram um grupo espe­ cial particularmente exposto a abusos le­ gáis e judiciais, entre outras razóes, por­ que náo podiam subornar nem pagar (Is 1,17.23; Pr 15,25; SI 94,6). O juiz em fungáo era “iniquo”: náo temía a Deus nem respeitava as pessoas. É significativa a associagáo: respeitar a Deus e as pessoas; implicam-se mutuamente (cf. SI 14 e, em forma positiva, as parteiras egipcias, Ex 1,17). Os julgamentos costumavam cele­ brarse à porta da cidade ou em outro lu­ gar público, de modo que a viúva tinha acesso e podia reclamar publicamente. A mulher nao desespera nem se resigna, in­ siste tenazmente. E sua única arma; resig­ narse seria fazer o jogo da injusticia. Até que o juiz ceda e se ocupe dela por puro egoísmo: para que náo me encha (diría­ mos em linguagem popular). É audaz sobrepor a Deus a imagem do juiz injusto e egoísta. Quando Deus tolera o malvado e deixa sofrer suas vítimas, é injusto? (Jr 15,15). A surpresa nos faz fixar-nos mais no ponto central: Deus farà justiga, e sem demora. O salmista repete “até quando?” (SI 13). Muitos acontecimentos históricos induzem os homens a duvidar da justiga de Deus. Deus náo se desentende nem desatende os eleitos: “Há um Deus que faz justiga na terra” (SI 9,9; 58,12; 94,2). Virá fazer justiga; mas náo basta: o eleito deve conservar a fé para continuar orando e para receber o que vem. A fé e a esperanga num Deus, justo juiz,

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viúva que recom a a ele para dizer-lhe: Faze-me justiga contra meu rival. 4Por um tempo ele se negou, porém, mais tarde pensou: Em bora eu nao tema a Deus nem respeite os homens, 5visto que esta viúva está m e im portunando, eu lhe farei justiga, para que nao me esbofeteie. sO Senhor acrescentou: — Atengao ao que diz o juiz injusto. 7E Deus, nao farà justiga a seus escolhidos se gritam a ele dia e noite? Ele os farà esperar? 8Eu vos digo que lhes farà justiga logo. Porém, quando o Fi­ llio do Homem chegar, encontrará essa fé na terra? O fariseu e o coletor — 9Para alguns que confiavam em sua pròpria honra­ dez e desprezavam os demais, contoulhes esta parábola: — 10Dois homens subiram ao tem ­ plo para orar: um era fariseu, o outro coletor. 110 fariseu, de pé, orava assim em voz baixa: O Deus, eu te dou gra-

gas porque náo sou como o resto d homens, ladróes, injustos, adúlteros, iJ como esse coletor. 12Jejuo duas v c / m por semana e pago dízimos de tudn que possuo. 130 coletor, de pé e à di táncia, nem sequer levantava os olí»* ao céu, mas batia no peito, dizendo: ó Deus, tem piedade deste pecador. I vos digo que este voltou para cas;i alt solvido, o outro náo. Pois, quem m exalta será humilhado, e quem se hu milha será exaltado. Aben coa algumas criangas (Mt 19,1 15; Me 10,13-16) — 15Aproximaram lhe tam bém algumas criangas para qu. as tocasse. Ao ver isso, os discípulo as repreendiam. lfiMas Jesús chamou as, dizendo: — Deixai que as criangas se apro\i mem de mim e náo as impegais, poi'. ,| elas pertence o reino de Deus. 17Eu viu asseguro que quem náo receber o reiim de Deus como urna crianga, náo enti.i rá nele.

deve animar a Igreja até o firn de seu iti­ neràrio terrestre. 18,9-14 Esta parábola é extremamente importante. Descreve satiricamente um tipo de religiosidade falsa e contrapóe-lhe afetuosamente um tipo autèntico. O fariseu é um personagem do relato, figura típica que se pode encontrar em todas as latitu­ des. O personagem está satisfeito de si e despreza os demais: a conexáo é signifi­ cativa. A agáo de gragas recita-se no AT pelos beneficios recebidos de Deus; o fariseu a perverte dando gragas a Deus por sua pròpria bondade, a de suas obras e observancias (Dt 14,22). Também o coletor é personagem típico. Os judeus qualificavam tais pessoas de pecadoras. Diantc de Deus, o publicano nao rejeita o título de pecador; assume-o no arrependimento: “Declarei-te meu pe­ cado, náo te encobri meu delito” (SI 32,5). Só pede piedade (SI 51,3-11; 41,5). Obtém o perdáo e comega a ser justo, a estar em paz com Deus: “Feliz o homem a quem o Senhor náo aponía o delito e cuja cons­ ciencia nao é turva” (SI 32,1-2).

A sentenga conclusiva é mais ampia qm a parábola, mas nos ensina que o arrepcn dimento e a confissáo do pecado sao uin.i forma egrègia de humildade (Ez 17,24). A parábola se dirige de cheio à Igreja. I assim ninguém poderá orgulhar-se dianli de Deus” (ICor 1,29). 18,15-17 No contexto histórico, a cena das criangas mostra a atitude bondosa r náo convencional de Jesús; o toque di suas máos valerá como urna béngáo. Em ambos circula urna mùtua corrente de simpatia. Jesus vè refletida nelas sua li liagào e as aproxima, ultrapassando siu inconsciència. No contexto literario, equi vale a urna agào simbòlica: as crianga: encarnam espontáneamente a atitude fun damental para entrar no reino de Deus, Náo tèm de confessar pecados como o coletor, mas náo alegam méritos como fariseu; sua fraqueza as leva á confianza e ao abandono (SI 131,2) e ao louvor singelo (SI 8,2). No contexto da eomunidade, os críticos questionam se o relato tc ria algo a ver com a questào do batismn das criangas.

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Olmitiem rico (Mt 19,16-30; Me 10,17i|) l8Um dos chefes lhe perguntou: Bom Mestre, que devo fazer para li(t|ilar vida eterna? ''Mcsus lhe respondeu: Por que me cham as bom? NinM iirm é bom, a nao ser somente Deus. '( onheces os mandamentos: N ao comiii’rás adultèrio, nao matarás, riño multarás, nao perjurarás, honra teupai . mu máe. 'Respondeu-lhe: Cumpri tudo desde a adolescencia. "Ao ouvir isso, Jesus lhe disse; - Falta-te urna coisa: Vende o que ii lis, reparte-o com os pobres e terás mu tesouro no céu; depois, segue-me.

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ouvir isso, entristeceu-se, pois era muito rico. 24Vendo isso, Jesus disse: — Como é difícil para os que possuem riquezas entrar no reino de Deus! 25Um cam elo entrará pelo váo de urna agulha mais facilmente que um rico no reino de Deus. 26Os que o ouviam disseram: — Entao, quem poderá salvar-se? 27Ele respondeu: — O que é im possível para os homens é possível para Deus. 28Entáo Pedro disse: — Vè: nós deixamos o que é nosso e te seguimos. 29 Respondeu-lhe:

18.18-30 Segue-se urna sèrie sobre a ri­ queza e a pobreza dos discípulos: riqueza c seguimento (vv. 18-23), riqueza e reino ile Deus (vv. 24-27), pobreza dos segui­ dores (vv. 28-30). 18.18-23 Um chefe, nao sabemos se da unagoga ou do conselho. Lucas nao diz que na jovem. Podemos notar o tema da bonilade, e a tensáo tudo/falta algo. Talvez seja (ucciso uni-los e ver a bondade como urna |ilenitude que só se dá em Deus (cf. SI 16,2). liste homem tem boa disposigáo básica: eumpriu tudo, como o inculca o Deute­ ronòmio, e aspira à vida transcendente e sem fim. O Deuteronòmio promete vida longa para os cumpridores, prolongar a vida, continuidade do povo na terra (Dt 1,40; 5,16; 6,2 etc.). O chefe aspira mais. Cometa com o título cortés e desusado, lalvez de cultura grega, e Jesús se aproveita disso para elevar-se á origem de tudo, mostrando dessa forma ser um “bom mesIre”. Deus mostrou “toda a sua bondade” ii Moisés (Ex 33,19) e os salmos a cantam (25,7; 27,13; 31,20; 145,7). Em sentido ple­ no, só Deus é bom, como é sábio (segun­ do Eclo 1,8). O chefe fez a pergunta clàssica da espiritualidade da lei: obras para ganhar/herdar a vida eterna. A tal colocacáo responde su­ ficientemente a lei, o decálogo (Ex 20,1316); Jesús enumera preceitos da “segunda líibua” e náo menciona as observancias. O homem se sente satisfeito (sem desprezar os outros): com suas obras garantiu para si

a vida eterna. “Ensinaste-me, Senhor, des­ de a juventude” (SI 71,17). Cumpriu “tudo”. 18,22-23 Nesse ponto, Jesús intervém: náo tudo, falta algo, o mais importante. Livrar-se das riquezas em favor dos pobres (cf. SI 112,9; Eclo 29,11) e seguir pessoalmente a Jesús. O chefe rico se entris­ tece: quereria seguir em companhia de Je­ sús sem abandonar suas posses. Doravante ficará com elas e com seus mandamentos. Valeu mais Mamón, rival de Deus. Um te­ souro no céu, reservado por Deus para a outra vida: “Quáo grande bondade reser­ vas a teus fiéis” (SI 31,20), ou, será Deus = céus, o teu tesouro. 18,24-27 O fato provoca uma reflexáo geral de Jesús. É muito difícil, e inclusive “humanamente impossível” conciliar rique­ zas e reinado de Deus. Explica-o com uma com parado que faz sentido como hipér­ bole. A razáo sao as atitudes que a riqueza costuma induzir: confianza nela e descuido dos pobres, como mostrou a parábola de Lázaro (16,19-31; cf. Eclo 13,3.20); e além do mais, porque o reino de Deus é dos po­ bres (6,20). Contudo, Deus pode mover o coragáo de modo que os homens anteponham o reinado dele as posses. “Feliz o homem que se conserva íntegro e náo se perverte pela riqueza... fez algo admirável em seu povo” (Eclo 31,8-9); “a máo do Senhor náo fica curta para salvar” (Is 59,1). 18,28-30 Entáo, adianta-se Pedro como o próximo da fila: se o chefe cumpriu “to­ dos” os mandamentos, nós fizemos “tudo

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— Eu vos asseguro que ninguém que tenha deixado casa ou mulher ou irmáos ou parentes ou filhos pelo reino de Deus, 30deixará de receber muito mais nesta vida e vida eterna na era futura. Novo anuncio da m orte e ressurrei$áo (M t 20,17-19; M e 10,32-34) — 31Levando os doze á parte, disse-lhes: — Vede: Subim os a Jerusalém e se cumprirá neste Homem tudo o que os profetas escreveram . 32Será entregue aos pagaos: cacoaráo dele, o insultaráo, cuspiráo nele, 33o agoitaráo e o matarao; e no terceiro dia ressuscitará. 34Eles nao entenderam nada, o assunto lhes era obscuro, e nao compreendiam o que ele dizia. O cegó de Jericó (M t 20,29-34; Me 10,46-52) — 35Quando se aproximava de Jericó, um cegó eslava sentado ju n ­ to ao cam inho pedindo esmola. 36Ao ouvir que passava a multidáo, perguntou o que estava acontecendo. Disseo que faltava”. É verdade, diz Jesús: eles e todos os que no futuro forem como eles seráo recompensados com outros bens já nesta vida e receberáo a vida eterna, que o chefe rico procurava. 18,31-34 Só para os doze prediz de novo (9,21-22.44-45) o fato e alguns detalhes da sua paixáo e morte, e também sua ressurreigáo. Eles continúan! incapazes de entender o mistério da paixáo (Is 53,1; cf. Dt 29,3), nao obstante os profetas já o terem anunciado (entre os quais incluí taivez Davi, SI 22); apesar de estar acostumados a escutar os livros proféticos e a recitar os salmos. Ou soja, tudo será cumprido, nao só a vertente triunfal; essa se cumprirá, mas através da paixao. 18,35 Dois episodios em Jericó respon­ den) de algum modo ao que vai sendo nar­ rado. Este cegó que reconhece o Messias contrasta com a cegueira mental dos doze. Este rico que se converte revela o que é possível para Deus. O cegó, sem ver, já conhece o Filho de Davi; Zaqueu procura ver e chega a conhecer o Senhor. 18,35-43 Se é importante e significati­ va a cura que Jesús efetua (Is 35,5-6), nao

ram-lhe que Jesús de Nazaré estava pa-, sando. 3SEle gritou: — Jesus, filho de Davi, tem pied;u l. de mim! 39Os que iam à frente o repreendiani para que calasse. Mas ele gritava mam forte: — Filho de Davi, tem piedade ili mim! 40Jesus parou e mandou que o bu-, cassem. Quando o teve próximo, peí guntou-lhe: — 41Que queres que eu te faga? Respondeu: — Senhor, que eu recupere a visáo. 42Jesus lhe disse: — Recupera a visáo, tua fé te salvou 43No mesmo instante recuperou a vi sáo e o seguía glorificando a Deus; e o povo, ao ver isso, louvava a Deus. J esu s e Z aqueu — 'E ntrando em Jericó, atravessava a cidadi2quando um homem chamado Zaqueu chefe de coletores e muito rico, 3tentava

o é menos no relato a con fissáo do cegó em très tempos. Primeiro reconhece-u como Messias sucessor de Davi (Jr 33,15; Ez 34,23-24; 37,24), depois chama-o de Senhor (cf. F1 2,11), finalmente dá gloria a Deus e segue a Jesús. E um itinerario para todos os que se convertem: podemo-. recordar que o batismo se chamou “ilumi naçâo” (cf. Hb 6,4; 10,32); estes a fé salva. 18,35 Jericó impóe urna descida profund antes da subida definitiva para Jerusalém. 18,37 O povo o identifica com seus dado civis, nome e naturalidade, Jesús de Nazaré. 18,38-39 O cegó, que nao aprecia a dis­ tancia, grita, por mais que o repreendam. É o grito genérico “tem piedade” (SI 57,2; 123,3). 18,40-41 Jesús manda que ele se aproxi me para dialogar e lhe pede que especifi­ que a petiçâo. Jesús nos pede que lhe peça mos, com fé. Uma esmola já seria piedade (SI 112,5); será muito pouco para a generosidade de Jesús.

19 ,1-10 Pelo relato e por textos parale los, compreendemos que a riqueza de Zaqueu procede do seu oficio, desempe

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tu ijiicin era Jesus; porém, nao o conseliiit.i por causa da multidào, pois era bai­ ti ule estatura. 4Adiantou-se correndo e ini mi a um sicómoro para vè-lo, pois iria iüiv .,11 por ali. 5Quando Jesús chegou ao myiii, levantou os olhos e lhe disse: Zaqueu, desee depressa, pois hoje idilio de hospedar-me em tua casa. ' I le desceu apressadamente e o rece­ lan muito contente. 7Ao ver isso, todos niiirmuravam, dizendo que fora hos|u ilar-se em casa de um pecador. 8Mas /.nqueu se pòs de pé e disse ao Senhor:

— Ve, Senhor: dou a metade de meus bens aos pobres, e a quem defraudei restituo quatro vezes mais. 9Jesus lhe disse; — Hoje chegou a salvaqáo a esta casa, pois também ele é filho de Abraáo. l(lPorque este Homem veio procurar e salvar o que estava perdido. Parábola dos em pregados (M t 25,1430) — "C om o a m ultidao o escutasse, acrescentou urna parábola, pois estavam perto de Jerusalém e eles criam que

iiliado sem escrúpulos. Os romanos davam ■ ni arrendamento a cobranza de impostos irin exigir outra coisa senáo o pagamento limpestivo da quantidade estipulada. Um . líele de coletores, como intermediário su|ierior, tinha mais ocasióes para enriquei er-se “defraudando”: nao o fisco, mas os pobres cidadáos. Zaqueu deseja ver Jesús, rM ía curiosidade náo parece simplesmenic superficial. De alguma maneira, também ele se pergunta quem é (como Herodes e melhor que ele, 9,9). Jesús se adianta (SI V), 11; 79,8), sai ao seu encontro, pede pous.ula a um pecador. Talvez seja irónica a vinheta do homem muito rico e muito baininho, que sobe numa árvore. A cena ganlia com isso interesse, já que Jesús tem t|iie falar-lhe olhando para cima. Jesús o eliama pelo nome, como se o conhecesse, como se houvesse descido expressamente liara visitá-lo. Zaqueu obedece contente: que Jesús se hospede em sua casa é urna honra: como a urca na casa de Obed-Edom e de Davi (2Sm (i), como pede o autor de um salmo: “Quanilo virás á minha casa?” (101,2). Mas o lato provoca urna reaqáo contrastada, em triángulo: os presentes, Zaqueu, Jesús. Os presentes se escandalizam, pois o importante é observar as normas da pure/.a legal. Zaqueu faz uma devoluqáo gene­ rosa, acima do duplo que a lei exige (Ex 22,1-4), mesmo segundo o cálculo de Davi, “quatro vezes” (2Sm 12,6). Á mancira de expiado, reparte a metade da sua fortuna com os pobres e fica com o resto. Náo se desprende de tudo para seguir Je­ sús, pois náo foi chamado. Jesús faz a de­ clarado final: como a um “filho de Abraáo”

(13,6), cabe a ele e á sua casa a promessa de salvado. Um profeta, sem definir data, anunciava: “Praticai a justiqa, pois minha salv ad o está para chegar”. Jesús decla­ ra: Hoje chegou, porque ele é o Salvador que veio buscar o que estava perdido (Ez 34,7). 19,11 -27 É uma montagem hábil de duas pegas: a do pretendente a rei e a do dinheiro a juros. Aprimeirase inspira provavelmente em algum fato histórico, quando os roma­ nos dcpunham e nomeavam reis locáis, embora possa recordar antecedentes bíblicos (ISm 10,27; 11,12). Asegunda é uma exortagáo a trabalhar com os dons recebidos. 19,11A introdudo esclarece a dupla pa­ rábola. Jesús vai subindo a Jerusalém: para padecer e ser glorificado. Vai caminhar para receber do Pai o poder real (cf. SI 72,1-2; 110,1). Os discípulos pensam que vai proclamar ¡mediatamente, em Jerusa­ lém, o reinado de Deus prometido e anun­ ciado, sem passar pela paixáo. “Diante do Senhor, que está chegando, já está chegando para reger a térra” (SI 96,13; 98,9). Náo é assim: para receber o poder real, primeiro terá que morrer. Entáo voltará com po­ der, como rei, mas náo imediatamente. Vai demorar, e enquanto isso eles teráo de ocupar-se com as tarefas determinadas. Se o fizerem devidamente, participaráo afinal do governo no reino celeste, ao passo que os que resistiram ativamente á sua missáo seráo condenados e executados. A segun­ da parábola ensina que os dons náo sáo propriedade, mas depósito encomendado, e que o homem tem de colaborar para que rendam. Deus náo “o dá enquanto dormem” (SI 127,2).

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o reinado de Deus iria revelar-se de um m omento para outro. 12Disse entáo: — Um hom em nobre partiu para um país distante para ser nom eado rei e voltar. 13Cham ou dez empregados seus, entregou-lhes mil denários e recomendou: negociai até que eu volte. 14Seus concidadáos, que o odiavam, enviaram atrás dele esta embaixada: Nao quere­ mos que esse seja nosso rei. 15Nomeado rei, voltou e chamou os em prega­ dos aos quais havia entregue o dinheiro, para ver com o cada um havia negocia­ do. 16A presentou-se o primeiro e disse: Senhor, teu dinheiro produziu dez vezes mais. 17Respondeu-lhe: Muito bem, empregado diligente; por teres sido fiel no pouco, adm inistrarás dez cidades. 18A presentou-se o segundo e disse: Se­ nhor, teu dinheiro produziu cinco vezes mais. 19Respondeu-lhe: Tu adminis­ trarás cinco cidades. 20A presentou-se o terceiro e disse: A qui tens teu dinheiro, que guardei num len<jo. 21Tinha medo

porque és rigoroso: retiras o que n.m depositaste, colhes o que nao semc.i te. 22Respondeu-lhe: Por tua boca I» condeno, empregado negligente. Sabia* que sou rigoroso, que retiro o que nao depositei e colho o que nao sem en 23Por que nao puseste meu dinheiio num banco para que, ao voltar, o reai perasse com juros? 24Depois ordenoii aos presentes: Tirai-lhe o dinheiro e dai o áquele que conseguiu dez vezes mai'. PR eplicaram -lhe: Senhor, já tem de/ vezes mais.] 26Eu vos digo que será da do a quem tem, e a quem nao tem sera tirado inclusive o que tem. 27Quanto a esses inimigos que nao queriam que cu fosse seu rei, trazei-os aqui e degolai-os na minha presenta. 28Dito isso, prosseguiu adiante, su bindo para Jerusalém. Entrada triunfal em Jerusalém (Mt 2 1, 1-11; Me 11,1-11; Jo 12,12-19)— »Quan do se aproximavam de Betfagé e Be

19.12 Um salmo lido em chave messià­ nica começa assim: “Ó Deus, confia teu julgamento ao rei, tua justiça a um filho de rei” (SI 72,1). 19.13 Aqui menciona dez, depois só très vâo agir. O dinheiro entregue se chama “mina”: em Atenas equivalía a cem dracmas, na Palestina a cinqüenta siclos de prata; urna quantidade moderada, que con­ trasta com a enormidade da recompensa. 19.14 Supôe-se que os cidadâos o odeiem sem razâo e se oponham a um direito. No contexto do evangelho, os conterráneos ou concidadâos sâo os judeus em relaçâo a Jésus (cf. Jo 18,35). 19.15 Investido com o poder supremo, estabelece a hora de prestar contas. Alusâo à parusia. 19,17 A formula é rigorosa: “teu dinheiro”. Um provèrbio diz: “Mâo diligente mandará, mâo negligente servirá” (Pr 12, 24; 17,2). 19,21 A idéia que esse empregado tem do patrâo è contrària à realidade: o patrào foi razoável ao emprestar e muito genero­ so ao remunerar. O acomodado e covarde quer descarregar sua culpa no patrâo, e a si mesmo se condena (Pr 12,27), descreve

o patrâo como déspota implacável, como o Faraó (Ex 5). 19,23 Teoricamente o depositado pode ficar intacto, como uma jóia num banco O Senhor quer que o depositado funcionecorno semeado, que cresce e se multipli­ ca. O diligente demonstrou sua capacidade de tirar partido do dinheiro confiado. 19,26 O aforismo é um paradoxo, e como tal deve ser tratado. Ao interpreta­ lo cabem diversas aplicaçoes, p. ex. o ter­ ceiro tem (confiado) e nao tem (pròprio); tirar-lhe-âo o que tem sem possuí-lo; ou­ tra explicaçâo: os dotes que tem e as realizaçôes que náo tem. 19,28 Foi o último ensinamento duran­ te a caminhada e está pensado para o futuro 19.29-48 Très cenas apresentam a che gada do rei messiànico: a entrada festiva na cidade, o choro pela cidade rebelde, a purificaçâo do templo. Nada se diz do pa lácio nem do pretorio. 19.29-40 A entrada em Jerusalém pode ser como a de outras vezes, ou ele se mis­ tura com os peregrinos que acorriam para a Páscoa. Desta vez, a última, quando se aproxima sua “subida”, Jesús quer entrar como rei.

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ISiilii. junto llivlmi dois

ao m onte das O liveiras, discípulos, 30recomendan-

ili> llies: kle á aldeia que está á frente; ao Hiitnir, enco n trareis um ju m en tin h o amurrado, no qual até agora ninguém liitmlou. Desam arrai-o e trazei-o. 31Se vos perguntar por que o desanmirais, dizei-lhe que o Senhor neces•llu dele. '•’Os enviados foram e o encontraram mino lhes havia dito. 33Enquanto o demimarravam, os donos lhes disseram: - Por que desamarrais o jumentinho? M Responderam: - Porque o Senhor precisa dele. "Levaram -no a Jesús, puseram seus Minutos sobre o jum entinho e o fizeram montar. 36Enquanto avangava, a multiitfto forrava o caminho com seus mantos.

37Quando se aproximavam da encosta do monte das Oliveiras, os discípulos em massa e alegres comegaram a louvar a Deus em voz alta por todos os milagres que haviam presenciado. 38Diziam: — B endito o que vem como rei em nome do Senhor. P az no céu, gloria ao A ltissim o! 39Alguns fariseus da multidáo lhe dis­ seram: — Mestre, repreende teus discípulos. 40 Replicou: — Digo-vos que, se estes se calarem, as pedras gritaráo. Lamentagáo por Jerusalém — 41Ao aproximar-se e avistar a cidade, disse chorando por eia: — 42Se também tu reconhecesses hoje aquele que conduz à paz. Mas agora

19,30-34 Dirige os preparativos com sua presciencia e dominio: envia os discípu­ los para que lhe procurem a cavalgadura lldequada. Um jogo de palavras destaca o dominio: os “donos” perguntam, o Senhor o reclama (kyrioi/kyrios). Nao é cavalgadura militar (SI 20,8; 147, 10), e sim a anunciada por Zacarías: “teu rei está chegando... humilde, cavalgando mn jumento...” (Zc 9,9). Mas, trata-se de primicias de cavalgadura, já que ninguém lité agora a montou: táo nobre será seu primeiro servido (cf. para outros destinos Nm 19,2; Dt 21,3). Estendendo seus mantos sobre o jumento, à maneira de gualdrapa, os discípulos “fazem Jesús montar”; como quando Salomáo foi ungido rei e subiu para sentar-se no trono de Davi: “ordenou que conduzissem Salomáo montado na inula do rei... Subiram em clima de festa, a cidade está alvorogada” (IRs 1,33-35.4445). Também o atapetar recorda a aclama­ d o de Jeú como rei (2Rs 9,13). 19,37-38 Comega o desfile jubiloso em que se louva a Deus e se aclama o Messias. A saudagáo clàssica do salmo (118,26) Lucas acrescenta “o rei”. O versículo do salmo citado continua ressoando e orien­ tando para a parusia (Le 13,35). A segun­ da parte da aclamagáo recorda o càntico de Natal (2,14), com a “paz” trasladada ao céu (ou a Deus), em paralelo com a

“gloria”. Talvez soe na palavra “paz” urna alusáo velada ao nome de Jerusalém, onde ainda náo reina a paz, como veremos a seguir. 19,39-40a O protesto dos fariseus pode significar oposigáo tenaz a Jesús ou medo dos romanos. Dáo-lhe o título de Mestre. Mas este episodio náo se menciona nem no processo religioso nem no civil. A resposta de Jesus soa como provèrbio. Seu sentido preciso depende do paralelo que lhe indicamos; se é Is 52,9, o grito das pedras será triunfal: “Prorrompei a cantar em coro, ruinas de Jerusalém, pois o Se­ nhor consola seu povo, resgata Jerusalém”; se é Hab 2,11, o grito é de acusagáo: “As pedras das paredes reclamaráo”. O primeiro se harmoniza melhor com o que prece­ de, o segundo com o que se segue. 19,41-42 Para os ouvidos do povo, Je­ rusalém leva impressa no seu nome, como um destino, a paz. Os peregrinos a saúdam com a paz (SI 122), o arauto lhe anun­ cia a chegada do rei e da paz (Is 52,7 e no citado Zc 9,9-10). Jerusalém náo aceita a saudagáo (10,5-6), náo recebe a visita (1, 6 8 ). Em conseqiiència, a cidade “compac­ ta” será destruida. Este pranto por Jerusa­ lém faz eco aos da outra destruigáo (Jr 9,19-20; 13,17; Lm 1,2.16; 3,48-51). 19,41 Jesús chora ao pronunciar sua trá­ gica predigáo. Náo a pronuncia irado e com

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2(y 2

19,11

está oculto a teus olhos. 43Chegarj urn dia em que teus inim igos te rodeado de trincheiras, te sitiaráo e te cercaráo por todos os lados. 44Derrubar§o p0r térra a ti e a teus filhos dentro de tj e nao te deixaráo pedra sobre pedra;pQr_ que nao reconheceste o tempo da visita divina. Purifica o templo (Mt 21,12-17 Me 11,15-19; Jo 2,13-22) — 45Depoisen_ trou no templo e comegou a expuisar os m ercadores, 46dizendo-lhes: — Está escrito que minha casa écasa de oraqáo, e vos a transformastes em covil de bandidos.

47D iariam ente ensinava no tempi" Os sum os sacerdotes, os letrados e o» chefes do povo tentavam acabar corti ele; 48mas nao encontravam como faze lo, pois o povo em massa estava pi n dente de suas palavras. Autoridade de Jesús (Mt 21,? i 27; Me 11,27-33)— ‘Certodia,, ii quanto ensinava no templo e anuncu va ab o a noticia ao povo, apresentarain se os sumos sacerdotes e os letrado: com os senadores 2e lhe disseram: — Com que autoridade fazes isso? Q uem te deu essa autoridade? 3 Respondeu-lhes:

sentimentos de vinganga. Pode repet¡r corn o salmo: “Teus servos amam suaspe[|ras dói-lhes até o pó” (SI 102,15); e chota corrí Jeremías: “Meus olhos se desfazem em lágrimas, dia e noite sem cessar, pc]a tcr_ rível desgrana da capital de meu pov0 DOr sua fenda incurável” (Jr 14,17). 19.43 Como o assèdio e o arrasatnent0 antigos: Isaías o prediz de longe e ¡ntr0_ duz como sujeito o Senhor (Is 29 3 ) Ezequiel está próximo e tem de gravá-lo em reboco, esbogo da tragèdia (E2 4 2 )um salmo o recorda como já acontecido SI 137,9). 19.44 Ver a lamentadlo de SI 79 j _2 g a última ocasiáo oferecida por Deu$- compare-se com a vigorosa imagetn ije Os 13,13. 19,45-46 O cuidado do templo era res. ponsabilidade do rei (2Cr 29,4.12; 29 6 11 ; 34,8). Jesús, que entrou na cidad¿ como rei messiànico, dirige-se ao templ0 para purificá-lo. Numa espécie de agáo simbó­ lica, que dois textos bíblicos expljCam q primeiro define a fungáo do templ0 como casa de oragáo, e sua abertura aos pagaos (Is 56,7 citado em parte), o seguncj0 ^g. nuncia o abuso do templo, como se«uro de impunidade para continuar pecando: “Credes que é urna cova de bandicjos este templo que traz meu nome?” (Jr 7 m ' 19,47-48 Agora o templo serve de ca¡xa de ressonància para o ensinamento jg j e_ sus; como quando Amos pregava em Betel (Am 7,13). Neste ponto se apartar^ e con. trapóem a hostilidade das autorida,jes (5 1

86,14) e a avidez do povo em escutai. A noticia introduz os discursos que se segueni 20,1 Começa no templo a controvérsin que vai ocupar o capítulo. Jesús ensilla, como tantos outros, mas acrescenta algo pessoal: “anunciar a boa noticia” (Is 40,9). Sabemos que o tema é o reinado de Deus, com o qual estáo ligadas sua missáo e an toridade. Comp5e-se de cinco unidade-, mais uma invectiva final, e segue de perto a tradiçao sinótica. Lucas gosta de ir variando os interlo cu tores ou destinatários, e aqui pode se guir seus modelos. Começam as autorida des em bloco: sumos sacerdotes, letrados e senadores (do povo) investigando a ori gem da sua autoridade. Depois Jesús tom;i a iniciativa dirigindo-se ao povo acerca das autoridades. Em terceiro lugar, contra-ata cam os sumos sacerdotes e letrados seni aparecer: indagam sobre a autoridade de César. Insistem os saduceus, num intento de ridicularizar a fé na ressurreiçâo; deles se distanciam os letrados. Por último, Je sus contra-ataca com uma pergunta sobre a autoridade de Davi. Supóe-se desde o primeiro versículo que o povo assiste às discussóes. O tema da autoridade domina a discussáo: de Jesús, dos fariseus, de César, de Davi. 20,2-8 A pergunta é legítima. Os très grupos citados representam de algum modo o Grande Conselho e podem exigir garantías, credenciais, de Jesús, ¡mediata mente por sua atuaçâo no templo, contra a

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I ai também vos farei urna perguntase ausentou por bastante tempo. 10No tem po oportuno, enviou um servo aos Ii> ii.i que me respondáis: 40 batism o de agricultores para que lhe entregassem In.io vinha de Deus ou dos homens? o fruto que lhe correspondía. Mas os T Ics discutiam entre si: Se dissermos agricultores bateram nele e o despediili* I )cus, ele nos responderá por que nao ram de máos vazias. n Enviou outro ser­ i ir utos nele; 6se dissermos dos homens, vo. Mas eles bateram nele, o insulta­ ii povo em massa nos apedrejará, pois ran, e o despedirán, de m áos vazias. i'h!;io convencidos de que Joáo era pro­ 12Enviou um terceiro, e eles o feriram li 1.1. 7Entào responderam que nao sa­ e lanqaram fora. 13Entáo disse o dono ín.un de onde vinha. 8E Jesus lhes reda vinha: Que farei? Enviarei o meu fi­ plicou: Tampouco eu vos digo com que lho predileto; talvez o respeitem. 14Mas, ao vé-lo, os agricultores deliberavam iiiiloridade fago isso. entre si: E o herdeiro; vam os matá-lo para ficar com a heranga. 15Lan 5 aramOs vinhateiros (Mt 21,33-46; Me 12,1no fora da vinha e o mataram. Pois bem, I.’) — 9Contou ao povo a seguinte pa­ que fará com eles o dono da vinha? tibola: — Um homem plantou urna vinha, 16Irá, acabará com esses agricultores e entregará a vinha a outros. iirrendou-a para alguns agricultores e

permissáo da autoridade e sem contar com Ha. Mas a pergunta se estende á atividade ilc Jesús e ao título messiánico que lhe eslilo dando. Jesús, que recebeu do Pai a auInridade (9,35), responde com um dilema, |mra eles sem saída, sobre a autoridade de loáo Batista. Este, na qualidade de profeta, linha atestado a missáo de Jesús. Náo respondendo, Jesús responde. Porque o dile­ ma, por transparencia, ajusta-se a Jesús: se sua autoridade vem de Deus, como o ateslain os milagres, por que náo créem nele? Se dizem que vem dos homens, teráo de enfrentar a opiniáo e o entusiasmo popu­ lares. O salto ao contra-ataque é lógico. 20,9-18 Que autoridade tém os chefes? como a exercem? Urna parábola o diz. A vinha é imagem tradicional de Israel (Is S, 1-7; 27,2-3; SI 80), cujo dono é o Senhor (.Ir 12,10). Os chefes a receberam como iiilministradores; tratam-na como donos e pretenden, ficar com ela como herdeiros, diminando o filho, herdeiro legítimo, depois de ter maltratado os servos. A pará­ bola é transparente para o povo, para os interessados e para o leitor de Lucas. A vinha é o povo, os servos sáo os profetas, o filho é Jesús. No cometo a vinha figura como proprieilade de quem a plantou. Depois é definida como heranqa, que caberá ao único herileiro. Na falta deste, os arrendatários se apossam da propriedade ou heranga.

Abraáo se lamenta de que seu criado será herdeiro (Gn 15,2). Na correspondencia: Jesús é o Filho único e herdeiro legítimo. Os chefes judeus querem eliminar Jesús para continuar controlando a instituigáo, fechada aos pagáos. Numa reflexáo pos­ terior: Jesús ressuscitado herdará em sua pessoa instituigóes e símbolos do Antigo Testamento, e herdará também as nagóes (SI 2,8), e nomeará novos administrado­ res de sua nova vinha, a Igreja. Neste pon­ to náo podemos esquecer que a igreja-máe de Jerusalém era formada por judeus. 20.9 Acabada a libertaqáo, saída do Egito e entrada em Canaá, Deus parece afastarse e agir por meio de seus encarregados. 20.10 Cf. Ct 8,11. 20.13 É o título prenunciado em 3,22 (cf. Me 9,7). 20 .14 Ucrania do Senhor é seu povo (Dt 4,20; J1 4,2). Ele promete urna heranga ao rei “seu filho” (SI 2,8). Os leitores da comunidade de Lucas dáo á frase um grande alcance: com Jesús Messias termina a veIha economía; seria necessário eliminar Jesús para que continuasse como eles a entendem e controlam. 20.15 Assim, “langar fora” pode soar como excomungar (cf. Jo 9,22), e também pode significar a morte fora da cidade (Hb 13,13). 20.16 A vinha comega a ser aqui a Igre­ ja, confiada aos apóstolos. “Deus nos li-

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Ao ouvir isso, disseram: — Deus nos livre! 17Ele, olhando-os fixamente, disse-lhes: — Entao, o que significa isso que está escrito: A pedra que os arquitetos rejeitaram é agora a pedra angular. 18Quem tropeçar nessa pedra se despedaçarà, e aquele sobre quem eia cair, eia o esmagarál 19Os letrados e sumos sacerdotes tentaram pegá-lo nesse momento, pois haviam com peendido que a parábola era para eles; mas temeram o povo. O tributo a César (M t 22,15-22; Me 12,13-17) — 20Assim pois, espreitando, enviaram-lhe alguns agentes, fingindo ser gente de bem, para apanhá-lo em suas

palavras e poder entregá-lo á autorid.i de e jurisdiqáo do governador. 2 IPerguntaram-lhe: — Mestre, consta-nos que falas e eiv.i ñas retamente, que nao és parcial, nía» ensinas sinceramente o caminho de Den 22E lícito pagar tributo a César ou nao'.’ 23Adivinhando sua má intengáo, dr. se-lhes: — 24M ostrai-me o denário. De qu> m traz a imagem e a in scrib o ? Respondem-lhe: — De César. 25E ele lhes disse: — Pois dai a César o que é de Césai e a Deus o que é de Deus. 26E nao conseguíram apanhá-lo em suas palavras diante do povo. Ao con

vre”: nao está claro se é o povo ou as au­ toridades que o dizem. 20,17-18 Aeitagáo é tomada do Salmo 118, o mesmo da aclamagáo do hosana. Com mudanga violenta de imagem, vem dizer que a morte do herdeiro nao será o final; muito ao contràrio, desdenhado como inservível pelos construtores, será a base do futuro edificio. 20.18 Para os rebeldes Yhwh se converte em pedra de tropego (Is 8,14); urna pedra, desprendida da montanha sem ajuda de máo humana, esmaga e tritura os reinos (Dn 2,44-45). 20.19 Como em 19,48, separam-se povo e autoridades. 20,20-26 Numa contra-ofensiva e com um estratagema, os rivais propòem a Je­ sus um dilema do qual nao possa escapar. Posto entre a espada e a parede, terá que fazer urna declaragáo que o comprometa gravemente ante as autoridades romanas. De fato, o tema do tributo soará no pro­ cesso perante Pilatos (23,2). O dilema da autoridade imperial romana se coloca no terreno económico, que todos sentem e nao deixa saída. A adulagáo serve de entrada (Pr 6,24; 26,28). Podem insinuar que Jesus se apre­ sente imparcial entre o povo judeu e o po­ der romano. Essa imparcialidade lhe permi­ te decidir num caso concreto “o caminho de Deus”. Recorde-se a postura polèmica de Jeremías, profeta do Senhor, no assun-

to da submissáo a Nabucodonosor (Jr 27) Jesús encontra urna saída engenhosa: pedíque lhe mostrem a moeda do tributo. Ele-, levam na bolsa a moeda com a imagem em que há atributos divinos do odiado imperador Tibério. Usam-na; logo, rea > nhecem sua validez; guardam-na; portan to aceitam o regime que representa. Que tirem as conseqüéncias. Com isso lhes la pou a boca (SI 63,12). Mas nao basta, i preciso responder ao que nao perguntani á pergunta realmente importante, porque é o homem que leva a imagem de Deus e i ele pertence. O problema e a respost:i orientam as primeiras comunidades cris tas em sua vida dentro do império e acu­ sadas pelos judeus (At 17,7; 18,12-13). A frase final soltou-se do contexto e a usa mos como moeda corrente. 20,27-40 Nesta questáo, os saduceus dis cordam acérrimamente dos fariseus, como ilustra o episodio de Paulo (At 23,8), e tém do seu lado quase toda a tradigáo preceden te. Tal como a imaginam, a suposta ressui reigáo consiste em prolongar ou repetir i vida presente. Vigoram as mesmas leis, nao obstante surjam novas situagóes. É fácil r¡ dicularizar essa doutrina, e agora váo di vertir-se á custa de Jesús. O caso que in ventam se baseia na chamada lei do levirato (Dt 25,5; Gn 38,8; Rt 4). Jesús comega corrigindo a falsa ima gem: a ressurreigáo verdadeira consiste em passar a uma categoría nova, comparável

Ml.-I /
o.iiid ,

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adm irados com a resposta, calni.iiti-se.

\ n ssu rre ig á o (M t 22,23-33; Me 12, |H ¡7) — 27Entáo se aproximaran! al|iiiiis saduceus — que negam a ressurh H.ao — e lhe perguntaram: — 2K Mestre, M oisés nos ordenou que mu homem casado morre sem filhos, n ii irmao case com a viúva, para dar ilrscendéncia ao irmao defunto. 29Pois lirm, eram sete irmáos. O primeiro ca.i> ni e m orreu sem deixar filhos. 30As11111 o segundo 3le o terceiro casaram i uní ela; e assim os sete, que morreram mui deixar filhos. 32Depois morreu a iiiulher. 33Quando ressuscitarem, de quem .i inulher será esposa? Os sete foram maridos déla. l4Jesus lhes respondeu: Os que vivem neste mundo tomam marido ou mulher. 35Os que forem dig­ nos da vida futura e da ressurrei^áo da morte nao tom aráo m arido nem mullicr; 36porque nao podem m orrer e sao como anjos; e, tendo ressuscitado, sao lilhos de Deus. 37E que os mortos ressnscitam tam bém M oisés o indica, na l>assagem da sarga, quando ao Senhor ele cham a Deus de A braáo, Deus de

Isaac e Deus de Jacó. 38Náo é Deus de m ortos, m as de vivos, pois para ele to­ dos vivem . 39Intervieram alguns letrados; — M estre, como falaste bem. 40E nao se atreveram a fazer-lhe mais perguntas. O M essias e Davi (Mt 22,41-46; Me 12,35-37) —- 41Entáo ele lhes disse: — Como dizem que o Messias é filho de Davi? 42Se o pròprio Davi diz no livro dos Salmos: Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha direita, 43até que eu faga de teus inimigos es­ trado de teus pés. 44Se Davi o chama senhor, como pode ser seu filho? Invectiva contra os letrados (Mt 23,136; M e 12,38-40; Le 11,37-54) — 45Na presen ta de todo o povo, disse aos dis­ cípulos: — 46Cuidado com os letrados, que gostam de passear com largas túnicas, apreciam as saudagóes na rúa e os primeiros lugares ñas sinagogas e banque­ tes; 47que devoram a fortuna das viúvas com pretexto de longas oraijóes. Sua sentenza será mais severa.

nos “filhos de Deus” da tradigáo (SI 29,1; K 2 ,6 ), ou seja, os anjos. O matrimònio, em seu aspecto de fecundidade, é lei da vida e ila morte. Acabada a morte (ICor 15,26), mìo se geram filhos. Jesús se refere ao matrimònio em sua fun§áo de procriar, segundo a exposigáo do caso, náo enquanlo relagáo pessoal amorosa. O segundo é mu argumento da Escritura no estilo da época (Ex 3,2.6). O Senhor nao pode aduzir sua identidade como Deus dos mor­ ios; seria absurdo imaginá-lo como divinilade infernal (cf. Is 28,15; SI 49,15). Os que vivem, vivem para o Senhor (Rm 14,8) e os que sáo do Senhor vivem. Jesús afir­ ma a ressurreigáo, náo a sobrevivéncia da cloutrina grega. Essa ressurreigáo, a exemplo e como dom do Senhor glorificado, é transmitida como artigo da fé cristá. 20,41-44 O salmo citado (110,1) distin­ gue entre Yhwh e ’adony (meu senhor); o

grego repete o substantivo kyrios. Suposta a leitura messiànica, corrente entáo, o salmista (Davi) chama o Messias de meu Senhor, o que implica reconhecer-se súdito ou vassalo. Logo, o Messias náo pode ser simples descendente de Davi. Jesus temiina com urna pergunta: responda quem puder e quiser. Paulo nos dá urna respos­ ta autorizada: “nascido físicamente da linhagem de Davi, a partir da ressurreiijáo estabelecido pelo Espirito Santo Filho de Deus com poder” (Rm 1,3-4). O texto de Davi inclui urna promessa e urna amea§a: que o Messias submeterá todos os seus ini­ migos. 20,45-47 O discurso concluí com urna acusagáo grave e pública contra os letra­ dos, intérpretes oficiáis da Lei. Acusa-os de vaidade e cobija. Se a vaidade pode ser inofensiva, a cobiija se volta contra o povo pobre e vicia o culto.

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A oferta da viúva (Me 12,4144) — 'L evantando os olhos, observou alguns ricos que punham seus donativos na arca do templo. 2Observou também urna viúva pobre que punha dois centavos; 3disse: — Eu vos asseguro que essa viúva pobre pos mais que todos. 4Porque to­ dos esses puseram donativos do que lhes sobrava; esta, em bora necessitada, pos tudo o que tinha para viver. 21,1-4 Colocada aqui, a breve cena, quase parábola em agáo, redobra seu signifi­ cado. Qucr dizer, depois de purificar o tem­ plo para que seja casa de oragáo, depois de denunciar a cobiga dos fariseus que se aproveitam das viúvas, depois de afirmar sua autoridade transcendente. Havia no átrio do templo cofres para os impostos do culto e as contríbuigóes voluntárias. Nao importa o detalhe inverossímil do relato. Essa viúva é como aquela da histo­ ria de Elias (IRs 17), que repartiu com o profeta a última comida sua e do filho. No reino do espirito, a medida nao é a quantidade. Dando tudo ao Senhor, confia no Deus que se ocupa das viúvas (SI 6 8 ,6 ; Pr 15,25). 21,5-36 O discurso escatológico de Lucas comega como os outros, anuncian­ do a destruidlo do templo (vv. 5-9) e a estende depois á capital (vv. 20-24); em bre­ ve apéndice anuncia a parusia (vv. 25-28) e seus sinais (vv. 29-33), e concluí convi­ dando á vigilancia (vv. 34-38). Resta urna pega (vv. 10-19) que pelo tema encaixa em duas partes. Diríamos que o discurso se propóe de­ finir etapas e tempos, pois sao freqiientes as indicacóes temporais: v. 9 quando... aín­ da nao; v. 1 2 antes disso...; vv. 2 0 - 2 1 quan­ do... entáo; v. 24 até que; v. 27 entáo; v. 28 quando comegar; w . 30-31 quando... está próximo; v. 32 esta geragáo; v. 34 de re­ pente. A seqüéncia temporal pode se esquematizar assim: a) tempo precedente (v. 1 2 ) de sedugóes (v. 8 ) e perseguigóes (vv. 12-13.16), conduta aconselhada (vv. 14-15.19); b) sinais antes da destruigao de Jerusalém (vv. 9-11.20), medidas para salvar-se (v. 21), a catástrofe (vv. 22-24); c) sinais antes da parusia (vv. 25-26), condu­ ta ou parusia (vv. 27-28), parusia. Há um

D iscurso escatológico (M t 24,1 ’ l Me 13,1-19) — 5Para alguns que a.l m iravam as form osas pedras do km pío e a beleza de sua ornamental,; ,m disse: — 6Chegará o dia em que tudo o qu. contempláis será derrubado, sem dei xar pedra sobre pedra. 7 Perguntaram-lhe: — Mestre, quando acontecerá isso, o qual é o sinal de que está para acontece i 1 dado orientador: onde Marcos fala do “íd<■ lo abominável” na grande tríbulagau Lucas fala do assédio de Jerusalém. Es\,i será a grande tribulagáo próxima. Predi gao de Jesús ou composigáo de Lucas? Um profeta que pelo ano 30 fosse d i nunciar os pecados e ameagar o castigo d< Jerusalém, encontraría na tradigáo b í b l i e . i quase todo o material que lemos aqui: iu pregagáo e relatos do livro de Jeremía1 ñas visóes de Ezequiel, em algum salmo, ñas Lamentagóes. Cada versículo de Luca poderia receber a anotagáo de vários pa ralelos. Nem todos: as perseguigóes (v. 1 17) se ilustram abundantemente com tes tos dos Atos dos Apóstolos. O curioso (• que, escrevendo depois da queda de Jeru salém (70 d.C), Lucas nao tenha ofereci do urna descrigáo mais realista, mesmo d e ouvir dizer. Quanto á parusia, futuro indefinido, imagens e linguagem, dependem em gran de parte de escatologias e apocalipses bi blicos ou apócrifos. Náo desaparecem de todo as ambigüidades. Sinais cósmicos semelhantes (vv. 11.25) podem induzir a confusáo; alguns sinais anunciaráo a parusia próxima (vv. 29-30), mas chegara de repente (v. 34). 21.5 O templo construido por Herodes, de cuja magnificencia restam mostras ou vestigios até hoje. Um salmo canta a bele za do monte Siáo, onde se ergue o templo salomónico (SI 48). Ageu e Zacarías ocu pam-se com a reconstrugáo por agáo de Zorobabel. 21.6 O mesmo que no ano 586 a.C. “O Senhor repudiou seu altar, desfez seü san tuário... estendeu o prumo e náo retirou a máo que derrubava” (Lm 2,5-9; cf. SI 74). Náo deixar pedra sobre pedra é fórmula estereotipada.

Il

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LUCAS

"Kespondeu: Atengáo! Nào vos deixeis engaiiiii l'ois muitos se apresentarào alegan> lii mai título e dizendo: Sou eu; chegou ■ i hora. Nao saiais atrás deles. 9Quando Hiivirdes falar de guerras e revolugóes, Mito entréis em pànico. Primeiro deveiì\ acontecer tudo isso, mas nào será lo(IIio l'im. '"Ivntào lhes disse: Há de se levantar povo contra |nivo, reino contra reino; "haverà gran­ ili". terremotos, fom es e pestes em di­ versas regióes, e sinais grandes e terrivi’is no céu. 12Mas antes de tudo isso vos prenderào, perseguirào, levarào às sinagogas e às prisóes, conduzirào diaule de reis e m agistrados por causa do mai nome, 13dando-vos oportunidade ilo dar testemunho. 14Tomai a decisào

de náo preparar a defesa; 15eu vos darei urna eloqüéncia e urna prudencia as quais nenhum adversário poderá resis­ tir nem retrucar. l6Até vossos pais e irmáos, parentes e amigos, vos entregarao e mataráo alguns de vós; 17e todos vos odiaráo por causa do meu nome. 18Contudo, náo perdereis nem um fio de cábelo da cabeca. iyCom vossa cons­ tancia ganhareis vossas vidas. A grande tribula^áo (Mt 24,15-21; Me 13,14-19) — 20Q uando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei que sua d e s tru id o é iminente. 21Entáo, os que estiverem na Judéia fujam para os mon­ tes; os que estiverem dentro da cidade saiam para os campos; os que estive­ rem no cam po náo voltem á cidade. 22Porque é o dia da vinganca, quando

21.8 A pergunta enlaga-se á destruigáo ilo templo; a resposta afasta enormemente o horizonte, até o tempo da Igreja. Em tem­ po de crise surgem os exaltados e se aprovcilam os astutos (Dt 13,2-6), p. ex., os ca> .iis de Teudas e Judas, referidos por Lucas (Al 5,36-37). Sou eu, subentende-se o Messias. Chega a hora: Ezequiel martela o lema de forma obsessiva (Ez 7,1-12; cf. I)n 7,22). 21.9 Em tempo de crise, que náo se deixcm vencer pelo pánico (Jr 30,10). O avi­ no precedente deverá ressoar em cada siluagáo semelhante. 21.10 Sáo antes sinais genéricos: fome, peste e espada sáo quase tópicos (Is 19,21; Jr 21,9-10). 21,12-13 Segundo os Atos, os Apósta­ los, Paulo em particular (F11,12-13), com­ parecen, diante de tribunais religiosos e eivis, dáo testemunho de Jesús e anunciam 0 evangelho diante deles; Estéváo e Tiago morrem mártires. Ora, o que é historia para 1,ucas se converte em anúncio e exorta<,'áo para os sucessores que lerem seu evangelho. 21,14-15 Equivale a um carisma de sahedoria superior: “Observando a sensatez de Pedro e Joáo, e constatando que eram liomens simples e iletrados, admiravamsc...” (At 4,13; 6,10; cf. Jó 32,13); como Moisés ou Salomáo: “Ve, eu estarei em

tua boca e te ensinarei o que terás de dizer” (Ex 4,11; IRs 5,14). 21,16-17 A traiqáo dos parentes: Mq 7,6; Jr 12,6; Jó 6,15. 21.18 E xpressáo proverbial (IS m 14,45). Também os Atos registram episo­ dios de libertagáo milagrosa. 21.19 Do anúncio passa á exortagáo, que vale para os cristáos de qualquer época. A constancia é virtude capital (Rm 2,7; 2Cor
12,12; Q 1,11).

21.20 É o assèdio pelas tropas de Tito no ano 70 d.C. A tragèdia passada se repete e as predigóes proféticas, como se náo tivessem esgotado seu sentido, recuperam atualidade. Nos tempos de Jeremías e Eze­ quiel foram as tropas da Babilonia, agora sáo as legióes romanas. Na base se encontra a teimosia pecadora da cidade, náo somente um jogo político humano. Lucas acrescenta conselhos para os que conside­ ra inocentes. Já Isaías anunciara um assè­ dio frustrado (cf. Is 29,1-3; 2Rs 25,1). 21.21 A cidade amuralhada já náo oferece seguranza; os montes oferecem gua­ ridas recónditas (lM c 2; SI 11,1), como na primeira fuga de Matatías (1 Me 2). Em tais circunstancias o deserto inóspito pode oferecer refúgio (55,7-9; Jr 50,8; 51,45). 21,22-23 Dia de vinganqa ou de justiga vindicativa, dia de ira ou de sentenza de condenaqáo (Jr 46,10; 51,6; SI 79,10; Ez

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se c u m p lir á tudo o que está escrito. “ Ai das gráv id a s e das que am am entam naquele d i^ -' Sobre o país virá urna gran­ de desg< aQa’ e sobre este povo