RESENHA DO LIVRO A CRECHE EM BUSCA DE IDENTIDADE

Ericka Marcelle Barbosa de Oliveira1 A obra “A Creche em Busca de Identidade” apresenta de forma valiosa as perspectivas e os conflitos na construção coletiva de um projeto educativo da creche, entre os anos 1984 e 1986 no município de São Paulo. O livro é fruto da Dissertação de Mestrado da autora Lenira Haddad, Psicóloga, Doutora em Educação pela Universidade de São Paulo e professora adjunta do Centro de Educação da Universidade Federal de Alagoas, e que à época era diretora da creche. Para o conhecimento da obra serão enfatizadas a perspectiva histórica da creche e da educação infantil, a perspectiva teórico-metodológica que orientou a realização da pesquisa na creche, os conflitos na relação creche-família, as concepções originárias da creche e a construção de uma identidade profissional das pajens. A creche da Vila Alba é o cenário que dá vida ao livro. Este cenário não é estático, sem movimento, pois ele adquire o sentido de estar todo em transformação. Trata-se de uma minicreche ligada à Secretaria do Bem-Estar Social (SEBES), com capacidade de atendimento a setenta crianças na faixa etária de 0 a 3 anos e 11 meses. Haddad explica que ao completar os quatro anos de idade as crianças atendidas pela creche seriam encaminhadas às Escolas Municipais de Educação Infantil (EMEIs). No entanto, não existiam locais próprios para atendimento da criança que completasse a idade limite de atendimento e nem a creche atuava de forma completa. Havia vagas ociosas e baixo número de profissionais trabalhando. Tal problemática aponta questões cruciais e históricas que marcam a trajetória história da creche em âmbito mundial. Em um trabalho publicado em 20072, Haddad aponta que a trajetória da Educação Infantil se delineia no Brasil e no mundo em quatro ciclos: o surgimento das instituições de cuidado e educação infantil, no Primeiro Ciclo; a Guerra Fria e a cisão entre cuidado e educação, no Segundo Ciclo; a revolução cultural ocidental e a expansão das políticas de atendimento à infância, no Terceiro Ciclo; a globalização e o retorno aos programas compensatórios, no Quarto Ciclo. Podemos identificar que os trabalhos de intervenção na

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Estudante do Mestrado em Educação do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Universidade Federal de Alagoas. 2 HADDAD, Lenira. A trajetória da educação infantil em quatro ciclos. In: XAVIER, Maria Elizabete. Questões de Educação. Campinas, SP: Alínea, 2007.

viúvas ou abandonadas. caracterizado pelo Segundo Ciclo. marcado por uma revolução de perspectivas de atendimento e cuidado da criança pequena nas creches. Numa perspectiva histórica. Com a virada cultural nas décadas de 1960 e 1970. a autora em “A creche em busca de identidade” aponta que a origem das instituições de educação e cuidado da criança pequena tem ligação com a função de combate à pobreza e à mortalidade infantil.creche se deparam com elementos que refletem ainda algumas perspectivas presentes nos três primeiros ciclos. podendo gerar personalidades delinquentes e psicopatas. A creche tinha a função de guardar a criança e de orientar as mães sobre os cuidados com os filhos e filhas. Ganham destaque os estudos empíricos sobre interações entre crianças. Haddad evidencia que surgem propostas de creche decorrentes das lutas dos movimentos sociais em várias partes do mundo. Discursos psicológicos defendiam a relação próxima entre a mãe e a criança como elemento fundamental para o seu desenvolvimento emocional. físico. com fórmulas higienistas delineadas ainda no final do século XIX. uma ideologia que privilegiava a vivência em família. mental e social. destacando o importante papel da maternidade. a promoção de um modelo único de relação entre mãe e criança colocava a creche em uma posição de substituta materna. que se tem o questionamento da responsabilidade entre a família e o Estado na educação da criança pequena. e que a ausência dessa relação na infância acarretaria perdas irreversíveis. os questionamentos sobre os modelos educacionais adotados para a educação das crianças. É nesse período. Esse período compreende o Terceiro Ciclo da trajetória da Educação Infantil. O objetivo da creche era atender às crianças filhas de mães trabalhadoras. que desvaloriza o trabalho profissional da creche e a posicionava como um mal menor e não como um local específico de educação da criança. mas a perspectiva que predominava era a de reforçar o papel da mulher no lar cuidando das crianças. a . A autora aponta duas questões principais dessa concepção: a centralidade na relação entre mãe e criança para um desenvolvimento saudável desconsiderava propostas que reconheciam o benefício da amplitude de relações propiciadas em um ambiente de coletividade. Haddad destaca que o período pós-guerra é também marcante para o desenvolvimento de concepções voltadas ao atendimento infantil em creches. que faziam filantropia por não terem alternativas a não ser trabalhar no atendimento de crianças filhas de “mães incompetentes”. Esses aspectos pertencem ao Primeiro Ciclo da trajetória da Educação Infantil. as reivindicações e a conquista da creche enquanto espaço de direito da criança e das mulheres trabalhadoras. Destacam-se também associações e organizações religiosas e filantrópicas comandadas por mulheres de classes abastadas.

de estudos comparativos e de questões ideológicas nas metodologias e objetivos adotados nas pesquisas. ou se a creche resultaria no prejuízo do desenvolvimento cognitivo e afetivo infantil. Haddad. e a legitimação da Educação Infantil enquanto direito constitucional no Brasil só acontece no final da década. em 1988. Por meio da pesquisa-ação. A autora destaca que a creche sempre foi objeto de variados tipos de discriminação. a creche tampouco era campo legítimo de pesquisa 3. Haddad destaca que nas pesquisas da época de 1960 e 1970 sobre creches predominava os temas que objetivavam investigar o papel da creche no enfraquecimento do apego entre a mãe e a criança. no sentido em que as concepções históricas originárias da creche e de sua negação identitária eram fortemente estabelecidas institucionalmente. seria necessário a desconstrução teórica de vários mitos sobre a creche. Este último aspecto possibilitou uma perspectiva de futuro para a creche. a autora desconstrói e reconstrói paradigmas vigentes na creche. confronta perspectivas estáticas difundidas na creche e leva novas possibilidades para o campo de pesquisa. . a partir de um referencial teórico. em 1988. afirmar a identidade da creche era atitude ousada. Demorou quase vinte anos para que as pesquisas finalmente evidenciassem que a creche não enfraquece o vínculo afetivo com a mãe ou ameaça o desenvolvimento da criança. principalmente a partir da reflexão do objeto de estudo. Isso é o que a autora faz. como assinala Haddad. A autora evidencia assim a urgência de pesquisas que objetivem contribuir com propostas educacionais para a creche. que se traduzia em desafios e incertezas. do controle de variáveis. Havia o predomínio do empirismo. em específico no Brasil.inclusão da creche no sistema educativo do Estado. Terra de ninguém. considerando o método de 3 Cabe destacar que o contexto dessa pesquisa se insere na primeira metade da década de 1980. não sendo reconhecida como área legítima de educação e desenvolvimento infantil. Para tanto. Em contraponto a esses procedimentos de pesquisa. na Constituição brasileira e seguiu um rumo para a superação do caráter assistencialista que compunha a Educação Infantil. que visem o desenvolvimento da criança em seus variados aspectos. É a partir dessas perspectivas que os trabalhos na creche Vila Alba se desenvolvem no sentido de conferir legitimação à creche enquanto espaço de educação e desenvolvimento de crianças pequenas. mas não os desmerecendo. Haddad demonstra que a aplicação do modelo de creche substituta materna proposto por diversas correntes da psicologia do desenvolvimento infantil era impossível e impraticável. Tais pesquisas apontavam como premissas que o cuidado no lar seria sempre melhor para a criança. O atendimento em creches e préescolas foi legitimado posteriormente. principalmente com a formulação de políticas nacionais voltadas para a EI. Ao mesmo tempo.

está mais direcionada para a compreensão do problema e de seu contexto do que para testar hipóteses. este era apenas um aspecto da complexidade da creche. Por parte da creche. Esses instrumentos apontavam a influência da psicologia na concepção do modelo de creche como substituta materna. resfriados ou machucados. Já as famílias reclamavam sobre roupas que se perdidas. A partir da pesquisa-ação a autora realizou desconstruções teóricas fundamentais para os trabalhos na creche. relacionadas à insatisfação com a higiene e saúde da criança. Sentindo-se injustiçadas. e trabalhar para que a instituição ganhe tal identidade. o modelo da creche substituta materna. A autora descreve que esses são fatores do distanciamento entre a creche e a família. as pajens diziam que as mães não eram competentes para cuidar de suas crianças. Este era um campo até então pouco explorado na época nas pesquisas sobre creches. Os conflitos na relação creche-família constituíram-se de grande preocupação por parte da autora.importância fundamental para trilhar o caminho da intervenção. É um trabalho conjunto entre o pesquisador e os sujeitos do contexto da ação. Os conflitos na relação entre creche-família experimentados pelas profissionais da Vila Alba eram em muitos parecidos com os apresentados nos instrumentais teóricos utilizados por Haddad. que evidenciava o porquê de as mães se sentirem culpadas por “abandonar” suas crianças e a relação de rivalidade entre essas mães e as pajens. caracterizada pela preocupação restrita e excessiva com a saúde e higiene da criança. a vertente hospitalar. e também uma excelente oportunidade de atuação nele. Havia muita vigilância sobre o trabalho das pajens por parte das mães. A diferença fundamental entre o método adotado pela autora e os então praticados em outras pesquisas sobre creches compreende dois aspectos: a pesquisa-ação possibilita não apenas a análise de problemas sociais. Segundo a autora. que precisava ser superado aproximando . a autora passa então a conceber a creche enquanto equipamento educacional. inadequado para o desenvolvimento infantil. junto aos demais profissionais. superar fatores como: a vertente assistencialista da creche. mas principalmente a reflexão e ação direta para a superação de uma determinada problemática. as reclamações giravam em torno de a criança vir suja de sua casa ou com piolhos. pois acarretava dependência do adulto e espera prolongada da criança que tinha que dividir a atenção das pajens com outras crianças. Em lugar da creche como substituta da mãe e da família. considerando em seu lugar a função educativa. Existam reclamações por parte da creche e das mães das crianças atendidas. no qual a interação favorece a aprendizagem mútua entre os envolvidos. que muitas vezes inventavam acusações de maus tratos sobre as profissionais da creche. A partir desses estudos e da observação da rotina da creche foi possível. que aumentava à medida que a pesquisadora se aprofundava nos estudos teóricos.

A autora questiona junto às profissionais o ímpeto de retrocesso à “ordem” anteriormente estabelecida. com a visita periódica das mães à creche para conhecer os trabalhos da instituição. O desafio era então como fazer essa aproximação. já que a abertura tinha trazido ganhos para ambos os lados. Aos poucos vão surgindo propostas de reuniões entre mães e pajens. as novas práticas baseadas nas propostas construídas coletivamente sobre a entrada das mães na creche apresentaram reclamações e retrocessos.os dois polos dessa relação. Os resultados da dinâmica propiciada no Encontro foram muito favoráveis e deu início ao processo de “arrumação da casa”. a autora ajuda-as a refletir sobre os problemas existentes na relação entre as profissionais e as mães. Além disso. ao se efetivarem. No entanto. Foi preciso a adoção de medidas que superassem o caráter doméstico da creche. que compreende a definição de regras básicas de organização da creche. que. após férias coletivas a equipe da creche organizou um Encontro de funcionários para discussão das sugestões e propostas apresentadas nos questionários. Algumas tinham impressões errôneas sobre a creche. oportunizaram o desenvolvimento de um contato mais direto entre si. de que as crianças ficavam de castigo ou que passavam muito tempo com a fralda molhada. como enfatiza Haddad. principalmente capacitações de funcionários para que cada um compreenda sua função dentro do espaço educativo que se delineia. Nas reuniões com as pajens. Novas bases organizações foram adotadas e foi possível dar início ao processo de reflexão sobre as práticas das pajens. Com base nessas informações. Aos poucos a aproximação entre pajens e família foi retomada. o que progressivamente possibilitou avanços dos trabalhos pedagógicos da creche. Foi aplicado então um Questionário de Avaliação do Trabalho da Creche para as funcionárias e uma Entrevista de Rematrícula para as mães cujas crianças permaneceriam na creche no ano seguinte. da equipe de limpeza. e como poderiam atuar para resolvê-los. Houve queixas também por parte das profissionais sobre a equipe dirigente da creche e desconhecimento das tarefas desenvolvidas pela equipe. Ao conhecerem a rotina na creche as mães se mostraram . o descontentamento das pajens por não haver reconhecimento das famílias sobre o seu trabalho era evidente e causava mágoas nas profissionais. Um aspecto comum encontrado nas opiniões das mães e das funcionárias referia-se a baixa ou pouco proveitosa tanto as reuniões entre família e creche como a participação das famílias no trabalho da instituição. das cozinheiras. com vistas a dar início a um plano de metas e um plano de ações a serem desenvolvidos durante o ano. Os resultados das análises dos questionários e das entrevistas foram positivos e oportunizaram o conhecimento das impressões que mães e funcionárias têm sobre a creche. ao longo do desenvolvimento da rotina da creche.

Tinha início a experimentação real do trabalho construído pela autora e os/as profissionais da creche. talvez. também a identidade das profissionais que educam e cuidam da criança deve ser construída. com padrões maternais tidos como ideais para as crianças. após o contato da equipe da Vila Alba com a experiência bem sucedida de outra creche municipal. algumas até se oferecendo a ajudá-las. têm-se a ideia da creche como uma substituta da família. o que facilitava também o trabalho das pajens. Historicamente. e permite recuperar as qualidades que a creche pode oferecer para o atendimento educativo da criança. implantar de forma efetiva elementos reguladores da relação adulto-criança. As concepções originárias da creche apresentam características que seriam incompatíveis com o modelo de família contemporânea. Haddad destaca também que creche e família são instituições complementares. que ao conhecerem-no mais de perto se solidarizaram com as pajens. No lugar desta perspectiva de ambiente educativo. mas que privilegiassem o desenvolvimento infantil. a construção da identidade da creche prevê uma revisão sistemática dos conceitos de infância. retirando da creche sua importância educativa no processo de desenvolvimento da criança pequena. A autora observa que. Haddad nos mostra como esse percurso é fundamental e primordial para a compreensão da função da creche e do seu trabalho educativo. Para tanto. sadias e felizes. Partindo deste sentido. e assim devem ser compreendidas. dos cuidados pela mãe dentro do lar.surpresas e satisfeitas com o trabalho educativo proporcionado aos seus filhos e filhas. que oportunizasse também a construção da identidade profissional das pajens. família e sociedade. assim como afirma Haddad. Se a creche precisa buscar sua identidade. O trabalho das pajens também foi reconhecido pelas mães. Isso se traduzia em crianças bem cuidadas e alimentadas. As salas visavam dar mais autonomia à criança. tidas na creche como auxiliares. assistentes das crianças. foi preciso também encaminhar mudanças operacionais. reforçada e valorizada. Era urgente a necessidade da busca de modelos ou referenciais que pudessem subsidiar a construção de uma proposta educativa para a creche. com características próprias. de funções e idades variadas. a responsabilidade pela educação e cuidado da criança pequena foi vista como tarefa exclusiva da família. A autora evidencia que o caminho para a construção da identidade da creche enquanto uma coletividade de adultos e crianças seria. durante o século XX. a influência desse modelo padrão de família acabou por conferir a negação da identidade da creche enquanto espaço coletivo caracterizado por pessoas de ambos os sexos. educação. com a exaltação da relação família-criança. Foram implantadas na creche salas ambientes. A autora procurava .

é preciso reconhecer a creche como um contexto de relações peculiares. as pajens passaram também a compreender e valorizar os progressos das crianças. fica mais que comprovada a grande relevância do trabalho de Haddad evidenciado na obra “A creche em busca de identidade”. Incentivar a independência e autonomia da criança.também refletir junto às profissionais a importância de se recuperar os princípios e objetivos em que se pautava a experiência das salas. por vezes tão duros. A observação das capacidades e potencialidades da criança oportunizava que as pajens auxiliassem o desenvolvimento das crianças com mais entusiasmo e menos desgaste. Com o desenvolvimento dos trabalhos na creche inspirados pelo “modelo novo”. a criança tinha direito de optar sobre quando e o que fazer. a partir de questões como “quem sou. muitas vezes as pajens se mostravam descontentes com o próprio trabalho e o das colegas. que se traduz em um referencial teórico para os estudos sobre as creches no contexto contemporâneo. respeitar sua individualidade e facilitar a realização dos projetos infantis são características fundamentais para a construção da identidade do profissional da creche. quem fui até agora e quem posso ser”. Haddad afirma que no modelo antigo de organização da creche. de sua prática pedagógica e do desenvolvimento da criança. Além disso. No novo modelo. o adulto seria auxiliar da criança no desenvolvimento de suas capacidades e a pajem seria educadora. as pajens salientaram que a criança era atendida de forma assistencialista. A autora destaca que no desenrolar desse processo de mudança as pajens demonstraram grande e valiosa reflexão sobre seu papel profissional. A autora então inicia um trabalho de ampliação do referencial prático das funcionárias. Serve também de aporte teórico para o trabalho de educadoras e educadores da área da educação. com estágios em outras creches. Crises nos berçários eram evidenciadas. È importante destacar ainda que a Educação Infantil e sobretudo a creche ainda vivem momentos de afirmação de sua identidade. trabalho com audiovisuais com propostas pedagógicas alternativas. diferente do âmbito familiar. por meio de reclamações e protestos das pajens. uma colaboradora da mãe. de luta pela garantia de seu lugar legitimado nos sistemas educacionais. No início da pesquisa. . destaca Haddad. Tais reflexões possibilitaram a abertura de caminhos para a busca processual de uma identidade profissional. as pajens passam também a construir novas visões acerca do seu papel profissional. por se tratar de um modelo real de que é possível transformar os paradigmas da realidade educacional brasileira. e não sua substituta. Por todos os aspectos destacados. A partir de mudanças estruturais na creche.

Lenira. 1991. São Paulo: Edições Loyola.REFERÊNCIA HADDAD. A creche em busca de identidade. .