SOCIEDADE

LIVRO. EDITOR JUNTOU EPISÓDIOS MAIS LOUCOS

Estados Unidos da Paranóia
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TÂNIA PEREIRINHA

L

ocal: Tyler, uma pequena cidade do Texas, com 97 mil habitantes. Data: Outubro de 2001, menos de um mês depois dos ataques em que morreram mais de três mil pessoas nos Estados Unidos. Nunca se soubedeondepartiuo alerta: acaixadecorreio de uma família tinha sido armadilhadacomumcomplicadoengenho,cheiode fios, fitaadesivaverdeepilhas. Só podia serumabomba. Apolíciamunicipalchegou num instante. Os agentes do FBI e os especialistas da brigada de minas e armadilhas deumalocalidadepróxima também. Os vizinhos foram retirados. Foi aí que se percebeu: o “engenho explosivo” eraafinalalanternaqueofilhode 8 anos tinhafeitonaauladeciências. Mesmoassim,as autoridades confiscaramoob-

jecto. Não passou pela cabeça de ninguém que,depois doWorldTradeCenteredoPentágono, a casa desta família não deveria ser propriamente o próximo alvo. Esta é apenas uma das muitas histórias contadas por Jesse Walker, editor da Reason, uma “revista mensal libertária”, em UnitedStatesofParanoia,livrolançadonofim de Agosto nos EUA. ÀSÁBADO, o autor explicou que os americanos são paranóicos e atreitos a teorias da conspiração desde afundação do país. E que estes medos não se manifestam apenas nas franjas marginais da sociedade. “A

‘paranóia das elites’ existe e é a mais perigosa. As pessoas poderosas, por definição, têm maispoderparafazercoisas,eissoincluiprovocar mais danos”. Como limitar liberdades ou provocar guerras, escreve Walker.

Um homem tinha um pacote suspeito. Afinal eram umas cuecas e uma carta de amor

Os cinco inimigos
O AUTOR DE UNITED STATES OF PARANOIA IDENTIFICOU CINCO TIPOLOGIAS DE MEDO

EXTERIOR. “Medo que os colonos tinham
de conspirações dos nativos americanos.”

INTERIOR. “A alegada conspiração
das bruxas de Salem, Massachusetts.”

ACIMA. “Esconde-se no topo da pirâmide
social. As histórias sobre governos secretos cabem nesta categoria.”

ABAIXO. “Receios dos senhores face
a conspirações revolucionárias por parte dos seus escravos.”

CONSPIRAÇÃO BENEVOLENTE. “Não é
um inimigo, mas a crença de que existe uma força secreta que melhora a vida das pessoas. Porexemplo: Extraterrestres benignos ou anjos.”
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EM SETEMBRO de 2005, em Nova Orleães, chegouatemer-senãoumaguerra,mas pelo menos algumas batalhas. Hoje sabe-se que grande parte das notícias postas a circular foram fabricadas. Mas na altura, no pânico pós-passagemdofuracãoKatrina,as elites da região acreditaram em tudo: havia dezenas decadáveres empilhados numcentrodeconvenções onde os desalojados procuravamabrigo, homens armados estavam a disparar contraos helicópteros desalvamento e alguns sobreviventes, esfaimados, tinham-se tornado canibais. Consequência das noO autor diz tícias falsas: aterrorizados, os que podiam que todos os ajudaros mais pobres não o fizeram e o núamericanos mero de baixas aumentou. são Apesar de estar sempre latente, o medo paranóicos. acordaquando algo de mau acontece, expliE sublinha caWalkerno livro. Porisso, desdeos atentaque entre as dos de 11 de Setembro, os casos multiplicaelites, esta ram-se: “Há uma tendência para as pessoas tendência é dizerem‘primeiro foio WorldTradeCenter, mais perigosa depois oPentágono,agoravaiacontecerperto de mim.” FoiporissoqueoAeroportoInternacional deBaltimore-Washingtonfechouquandoalguém confundiu creme de café em pó com antraz; e que um avião para Nova Jérsia foi desviado do curso depois de um grupo de passageiros ter levantado suspeitas sobre dois homens que iam na últimafilaafalar umalínguaestrangeira– eram judeus, a rezar, soube-se mais tarde. Maior vergonha só mesmo a que passou um homem do estado do Nevada, que chamou a polícia após receber um “pacote suspeito”. Foram as autoridades que abriram o pacote. Ládentroestavaumpardecuecas de renda e uma carta de amor.

| Então, não cumprimenta? Extraordinário! Grande ordinário... |
CARMONA RODRIGUES, CANDIDATO DO PSD À CÂMARA DE LISBOA, NO FIM DE UM DEBATE NA SIC NOTÍCIAS, DIRIGINDO-SE AO SOCIALISTA MANUEL MARIA CARRILHO. SETEMBRO DE 2005

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