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SVSNHid aNd guia | ROXIMA-SE 0 General Inverno que até ajudo a vencer Napoledo, como se aprende.na escola. O ARTISTA PRECISA DE UM CACHECOL. © cachecot do Artista, eufemismo simbélico que passamos a explicar, so varios, .pode mesmo afirmar-se para cade Artista seu cachecol. igual coisa acontece com 0 comuin dax pessoas porque, logrados pelo dito do dé Deus 0 frio conforme a roupa, jd muita gentinha tem morrido de {rio, pobre- zinhos! Assim, 0 mais seguro ainda € usar um bom cachecol. Ha ‘varios: ha o8 que se refugiam no seio da familia, “home sweet home”, cache- col-cadinho das mais santas virtudes. Para outros, é um ciyarro ou um gole de Alcool, desde | precioso uisqui a0, corriqueirggliigaco, mata-bicho, popularissimo dois tintos. Ainda alguns e algui ‘9 Amor que os aquece, sobretudo nas zonas erdgenas, e excelente cachecol é 0 Amor, dis- trai os individucs e perpetua a espécie, prestando-se a mil fantasias daima- ginacdo e dos corpos, em estudadas posi¢des e comubios que 85 quem 14 anda é que sabe..., alegrias da Libertinagem, por ora basto perigosas ci no Pais, como o dr. Manso achou de sua obrigagdo prevenir-me, Ha tam- bém os herdis da Amizade ¢ hd os obcecados para quem um livro é com- burente de primeira qualidade, ardem de pura chama espiritual; e outros ainda, do chamado Partido da Indignagdo (fundado por Zola), a quem a Jeitura dum jornal eleva ao rubro para as vinte e quatro horas seguintes. Ha, pois duvidam ?!..., muitos que gostariam de possulr um cachecol a valer, leve € peludo, quentinho, em la alema. E muitas, muitas mais espécies de cachecdis se conhecem ainda: uni Fapaz amigo, sl eu que com os dinheiros ganhos numa pera infantil com- fou um sofd era aquele o seu cachecol! Outro, sempre por esta quadra testiva muda de casa e de mulher, lé tera suas razdes, qualquer cachecol novo em perspectiva...¢ mesmo (é 0 meu conselho) isto de mutheres, ou a gente vai mudando deles com frequéncia ou sdo elas que, inevitavel- mente, acabam por nos mudar a nds. Um automével € cachecol que faz miexer muitas criaturas e um surrealista conyicto (que muito estimo) abju- rout do Breton por causa das prestacdes do frigoritico, e refrescando a cer ¥eja mato pudim, “aquecla-se” depois, ao pensar no seu orcamento, men- Da novissima fornada de plasticos, 0 cachecol super-cobicado & uma bolsa, qué em Paris é que a Pintura €'bela! Sei de madamas Teguladas ¢ espertinas para quem o C. D. Calculator Patented é um cachecol de esti- macio, trazem-no sempre na mala, ao lado do baton; e pais de prole nu- merosa que sonham durante o dia ‘com uma posta de bacalhau e batatinhas cavonde, por nent em conhios se atreverem a meter o dente num andar (pro- jectado) do sr. Branca Lucas. Ha os misticos que invocam o Ser supremo (como quem dissesse: 0 Cacheco! Eterno) e depois de mortos inda espe- ram que Ele thes aqueca a carca a. Ouvi falar, mas isto muito em segredo, de politicos (vethotes quase loucos) que nfo se arriscam fora da toca sem um bom cachecol bem blindago @ roda —e quem nos garante que nao ser por timidez?... Etc, a Estilo poi dos mortais, o que fara entdo para o Artista, frigil cigarra toda enlevada yer a importincia que tem um cachecol para a maioria no préprio canto!... lundtico cagalume que um maravilhoso mas dramd~ tico destino acorrenta!... Quando chega 0 Inverno, ¢ 0 frio ea chuya 0 tolhem de surprese, quem Ihe pode valer? onde arranjar um cackecol ? ‘Trabathador infatigavel, em regime full time; sem hordrio de servico, sem férias, sem feriados, domingos ou dias de guarda, nao recebendo horas extraor porque nele todas as horas de criago so extraordinérias eas outras, mesmo as do sono, acumulam ¢ elaboram materieis para essa Criagto, experiéncias e conhecimento, saber do mundo e das coisas, de si (© seu maior mistério é ele) nele nade se perde ¢ tudo se transforma, tudo se transfigura, nessa exaltacdo criadora. Vive no tempo, mas nao ‘conta com 0 tempo, nao cria propositadamente para o seu tempo, nem faz render ‘0 seu tempo € isto se distingue do artesdo, larva ou sucedaneo do autén- tico criador, estabelecido na rotina e no ccnformismo, que funciona pra zenteiro servindo a clientela sob a lei da oferte e da procura. Pelo contra- tio, o Artista ndo poupa tempo nem esforgos, nfo se poupa em nada, exer- Cita e excita as suas foreas, droga-se por muitos processos para as muitiplicar, estoira os nervos & os miolos (dai a longa teoria de bebedos, Toucos, tisicos, toxicémanos, miseraveis farrapos humanos que constelam, gloriosamente, o Olimpo das Artes), queima todas as suas energias, no se precipita nem improvisa, a gravidade da sua mirstio (condicdo) obriga-o a hima pericia permanente, e nisto se distingue do amader, que na melhor das hipoteses € um talentoso com pontaria ou sorte. Mas ao Artista exigem-se outras qualidades, melhor : é ele que de si as e-ige, como sejam a indepen déncia do cardcter, o desprezo pelos chamados respeitos bumanos, a humil- dade (que geraimente falece ao amador), ¢ a insatisfacdo (com @ qual o Artesdo no saberia vier), Une poses de cebolinismo.E acima de tudo orgu- iho. E mais acima ainda liberdade, rosto do Homem. Convenhamos que o mundo ficaria bem mals pobre e mal vazio sem Artista. Nenhuma classe, porém, estd entre nds tio desprotegida. E’ certo que, geralmente depois de morto, o Artista beneficia de certas compen- sagdes... € falado, lido e relido, comentado, antologiado, imitado, entra no patriménio nacional, Donde se poderd entiio concluir que o costumedo confronto com a cigarra é adioso e injusto, que da cigarre pouco fica para 0 set semelhante e os vindouros, mes do Artista fica muito em relacuo do que deixa a maioria dos seus contempordncos, que € caca. Denunciemos com toda'a energia a férmala, hipdcrita e falsamente optimist: que amanha ¢ dos loucos de hoje (e, Pesson, que pos a correr em ‘Verso esse lugar-comum, 0 exibe melhor que ninguém: o “louco” era ele € 08 “de julzo", os sensatos esperialhdes, é que descobriram ume mina na sua obra). Quando se vé que as videirinhas foriigas tomam conta, cedo ou tarde, do canto da cigarra para se alambazarem & sua custa, em boa-fé somos levados a admitir que o canto sempre vale alguma coisa e sendo assim a propria cigarra, como vivento, vale alguma coisa e justo sera que seja cla, antes de ninguém, @ lucrar com isso, eo menos ; ara nao morrer de fome e frio, tiritando a dancar no Inverno, comu quer a labula. Ex formiga, claro !, para seu gozo e proveito, ‘Meus Scnhores, estimados Amigos, preclaros Confrades: esta situa- go ¢ ignobil e ridicula, e para quem a sotre é pior, porque é atroz. Inibi- foria para o Artista, vestatdria para a sociedade. Nao deve contivuar, e tem- =se mantido um poico também por distraceao, passividade dos principais interessados. A minha tose é esta pelo respeito que nos merecem ot /ouene de ontem temos de ser hoje te loacos como eles, on mais, sabido que cadn Gpoca tem sea lipo e rau de loueura eriadora, & mercar, desde j4, a nossa reserva € 0 nosso desdém pelos sensatos espertalhGes qu2 nos querem Comer as papas na cabegn, como parasitas do Artista que sdo ¢ ugem. Que nav contem com a nossi cumpiicidade! que nao apostem na nossa doce