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Dicionário de Política - Norberto Bobbio

Dicionário de Política - Norberto Bobbio

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I. AS FONTES DO CARÁTER UNITÁRIO DA CULTURA
EUROPÉIA. — O processo de unificação em curso na
Europa tem uma profunda conexão com o passado
histórico, em primeiro lugar com a Idade Média
quando, sobre as ruínas do Império Romano,
desenvolveu-se uma nova civilização que unificou, na
base da tradição comum greco-latina, todos os homens
da Europa sob o signo do cristianismo. Na Europa
medieval, pertencer ao cristianismo tornou-se vínculo
social fundamental que uniu os homens através de um
espírito de fraternidade mais forte e mais profundo do
que qualquer vínculo de classe, de caráter étnico e
político. Como membros da Igreja, os homens
pertenciam a uma comunidade livre, de iguais.

Esta tradição cristã conferiu à história da Europa
uma tensão permanente, dirigida para a realização de
valores de liberdade e de igualdade entre todos os
homens e que, na sua versão moderna, confluiu para
as ideologias liberal, democrática e socialista. Estas
últimas caracterizam-se por uma forte inspiração
internacionalista. A razão impede, de fato, de pensar
os valores de que estas ideologias são portadoras como
alguma coisa limitada somente a um espaço nacional.
De outra parte, o fator de divisão, que tem sua própria
base na organização da Europa em Estados soberanos,
cuja formação deu-se após a ruptura da unidade
medieval, sempre ameaçou o caráter unitário da
cultura européia, mas nunca conseguiu prevalecer.

O problema da Unificação européia nos seus
termos atuais liga-se aos problemas decorrentes da
Revolução Francesa e que não foram resolvidos com
a revolução russa, ou seja, pela afirmação dos
princípios de liberdade, de democracia e do
socialismo, que transformaram a estrutura interna dos
Estados, enquanto o povo e os trabalhadores
continuaram a ser excluídos do controle da política
internacional, que permaneceu terreno exclusivo das
relações de força.

Infelizmente, o internacionalismo liberal,
democrático, socialista e comunista confiou sempre

na possibilidade de resolver o problema da paz com a
simples colaboração internacional, sem que entrasse em
discussão a soberania nacional. Num mundo dividido
em Estados soberanos, no qual a política internacional
apóia-se no uso da força ou na ameaça de recorrer a
ela e não no direito, o antagonismo acabou por
prevalecer sobre a colaboração entre os Estados. As
correntes revolucionárias que transformaram os
regimes políticos de toda a Europa, condicionadas
pela luta pelo poder no âmbito de cada Estado e pela
defesa deste poder num mundo de Estados em luta
entre si, viram-se obrigadas a sacrificar aos egoísmos
nacionais sua inspiração internacionalista.
Apesar de todas as correntes políticas se terem
dobrado à ideologia que representa como "inimigos" e
"estrangeiros" todos os indivíduos que pertençam a
outras nações, suprimindo assim na consciência do
povo a certeza de pertencer ao gênero humano, o
NACIONALISMO (V.) foi derrotado com a Segunda
Guerra Mundial.
Por outro lado, o FEDERALISMO (v.) parece oferecer
os instrumentos institucionais para superar os limites
do internacionalismo. Assim, a luta para unificar a
Europa coincide com a luta para submeter ao controle
democrático aquele setor da vida política que esteve,
até então, abandonado ao embate diplomático e
militar entre os Estados. A perspectiva da unificação
federal, hoje, na ordem do dia na Europa, permite criar
condições para garantir, na base de suas instituições
políticas e, portanto, com o apoio do poder, a unidade
na diversidade, afirmada pela cultura, mas nunca
plenamente realizada.
Com referência aos meios para resolver este
problema, vale lembrar que a procura da unidade,
através da hegemonia do Estado mais forte sobre os
outros Estados, nunca teve sucesso. A união,
conseguida através de uma escolha democrática das
comunidades que decidiram aderir ao movimento,
transformou em realidade o sonho dos precursores do
federalismo europeu e tornou-se atual, após a eleição,
com base no sufrágio universal, do Parlamento
europeu.

II. A CRISE DO ESTADO NACIONAL. — A Unificação
européia tornou-se um objetivo político

1270

UNIFICAÇÃO EUROPÉIA

concretamente realizável somente a partir da Segunda
Guerra Mundial, isto é, desde o fim daquele período
histórico que começou no início do século, no curso
do qual os Estados europeus foram conturbados por
perturbações políticas e sociais tão profundas como a
crise econômica e a afirmação do nazifascismo, que
podem ser interpretadas como sinais da decadência do
papel histórico da fórmula política do Estado
nacional, ou seja, da impossibilidade de a sociedade
européia continuar a viver sob o regime de Estados
nacionais, cuja dimensão e estrutura tinham se
tornado incompatíveis com um mínimo de equilíbrio e
de ordem internacional, de desenvolvimento
econômico e de estabilidade democrática.

Quando se fala no conceito de crise do Estado
nacional faz-se referência a uma dupla contradição
que domina a história da Europa contemporânea: que
existe entre o Estado nacional e o desenvolvimento
das forças produtivas e a verificada entre Estado
nacional e ordem internacional. De um lado, o Estado
nacional representa um obstáculo à internacionalização
do processo produtivo. Esta contradição, que começa a
manifestar-se aproximadamente no final do século
XIX, tem suas raízes na divisão política da Europa e
no antagonismo entre os Estados que se opunham à
formação de uma sociedade, de uma economia e de um
poder político em nível europeu, que permitiria
competir com as potências de dimensões continentais
e continuar a desenvolver um papel importante no
quadro político mundial. Por esta razão, a tendência das
forças produtivas para organizarem-se em grandes
espaços, enquanto não encontravam obstáculos nos
Estados de dimensões continentais como o russo e o
norte-americano, e os conduzia para o cume da
hierarquia do poder mundial, agravava as tensões entre
os Estados do sistema europeu, os impelia a procurar
"o espaço vital" além de suas fronteiras com o
imperialismo e condenava a fórmula política do Estado
nacional a uma fatal decadência.

De outra parte, a fusão do Estado e da nação,
expressão da maior centralização do poder político e
da mais profunda divisão internacional que a Europa
jamais conheceu na história moderna, eliminou os
limites internos e internacionais que, no passado,
freavam o embate entre os Estados e criou condições
para as guerras mundiais. Assim, a transformação dos
Estados em grupos fechados, centralizados, hostis e
belicosos determinou a crise do sistema de equilíbrio
que no curso da história moderna tinha garantido
longos períodos de paz na Europa, permitindo assim
conciliar a política de potência e as guerras periódicas

com o progresso político e social de cada Estado e da
civilização européia no seu conjunto.

Apesar das primeiras manifestações da crise do
Estado nacional começarem a dar sinais no período
final do século passado, o problema da Unificação
européia apareceu em termos de um programa
operativo, no terreno político, somente durante a
Segunda Guerra Mundial. Com efeito, antes desta
época a história era um obstáculo para a unificação da
Europa, porque, devido ao isolacionismo das duas
grandes potências de dimensões continentais, os
Estados Unidos e a União Soviética, o sistema europeu
dos Estados continuava, apesar de sua decadência, a
exercer uma influência determinante nos negócios
políticos mundiais.

III. CARACTERES ESSENCIAIS DO PROCESSO DE
UNIFICAÇÃO EUROPÉIA. — A ordem internacional,
formada na base do resultado da Segunda Guerra
Mundial, apóia-se no predomínio dos Estados Unidos e
da União Soviética, que governam o sistema mundial
dos Estados surgidos das ruínas do velho sistema
europeu. Os Estados europeus, perdida a sua posição
dominante, degradaram-se a ponto de tornarem-se
satélites das superpotências. Por conseqüência, o
problema da defesa coloca-se em lermos radicalmente
novos. A linha máxima de tensão que divide os
Estados não é mais aquela que contrapõe a França à
Alemanha (pois ambas estão do mesmo lado), mas
aquela que separa os Estados Unidos da União
Soviética, ambas na direção dos respectivos blocos. O
problema da defesa tende agora a unir a Europa
ocidental, no quadro da chamada Aliança Atlântica, sob
o protetorado americano na confrontação com a ameaça
da União Soviética. A necessidade de colaboração, no
terreno militar, entre os Estados da Europa ocidental
constitui a condição política da colaboração no plano
econômico. Esta permite à economia adquirir
progressivamente uma dimensão continental,
favorecendo assim a tendência para internacionalizar
o processo produtivo, o que representa a tendência
básica da história contemporânea.
A Unificação européia tornou-se assim, no segundo
pós-guerra, a forma mais adequada de orientação
fundamental da política externa dos Estados da
Europa ocidental. Esta marca também o início de uma
nova fase da crise do Estado nacional (a última),
caracterizada pela prevalência da necessidade de
colaboração política e econômica entre os Governos, em
relação às divisões nacionais. Trata-se de uma
verdadeira inversão das tendências básicas da história
européia tal como estas se delinearam no fim do
século XV e se mantiveram até o fim da Segunda
Guerra

UNIFICAÇÃO EUROPÉIA

1271

Mundial. A base desta mudança de direção histórica
encontra-se na incapacidade dos Estados nacionais de
assegurarem sozinhos, tanto a defesa do país, quanto o
desenvolvimento econômico a seus cidadãos.
A contradição, que começa a manifestar-se desde o
início do processo da Unificação européia e que tende
a agravar-se a cada fase evolutiva do processo,
consiste na progressiva extensão do número de
problemas que não mais podem ser resolvidos no
âmbito nacional e que exigem, portanto, soluções
européias, que correspondem à dimensão nacional da
organização do poder político (Governos, Parlamentos,
partidos). Ao mesmo tempo, a Comunidade européia
torna-se progressivamente uma potência econômica
(após a criação do Mercado Comum Europeu, é a
primeira potência comercial e a segunda potência
industrial do mundo) e tende cada vez mais a colocar
em discussão a hegemonia americana sobre o mundo
ocidental e a ordem internacional, que havia
assegurado a convergência das razões de Estado na
Europa ocidental no quadro da dependência político-
militar e econômico-monetária dos Estados Unidos. Por
conseqüência, vem-se criando uma tensão sempre mais
forte entre as necessidades de mudança, presentes em
todos os setores da sociedade, que exigem graus
crescentes de unidade e independência da Europa, e o
obstáculo que encontram nas instituições políticas do
Estado nacional com a sua centralização e a sua
impotência com relação aos centros de poder político e
econômico internacionais aos quais são subordinados.
O processo da Unificação européia tem um caráter
eminentemente contraditório. De um lado, os Governos
opõem uma resistência estrutural a qualquer
transferência de poderes dos Estados para a
Comunidade européia. De outro lado, porém, a
dimensão européia dos principais problemas políticos,
econômicos e sociais excluem a idéia de que os
Governos estejam em condições de enfrentar sozinhos
estes problemas, levando-os então a colaborar para
sobreviver.

A Unificação européia é, portanto, um processo
que tem características ambíguas: constitui, ao mesmo
tempo, a última fase da crise do Estado nacional e a
primeira fase de sua superação. De fato, a Segunda
Guerra Mundial, o Estado nacional, mesmo mantendo,
apenas formalmente, todos os atributos da própria
soberania, não deve mais, para sobreviver, procurar
enfraquecer seus vizinhos, mas, ao contrário, deve
colaborar com eles, a ponto de criar instituições
européias que permitam a tomada de decisões comuns.
Ao mesmo tempo, esta colaboração tende a provocar
o nascimento de uma sociedade e de uma economia
européias, isto é, a infra-estrutura de um Estado
europeu e das instituições (as Comunidades européias)
, às quais é confiada a tarefa de gerir a transição dos
Estados-membros da Comunidade, desde a divisão até

a sua unidade. Finalmente, esta colaboração cria as
condições para destruir as soberanias nacionais
exclusivas.

Podemos, portanto, definir a Unificação européia
como o processo histórico no curso do qual a
sociedade civil perde seu caráter exclusivamente
nacional e adquire, juntamente com o caráter
nacional, um caráter europeu, tendendo assim a
tornar-se uma sociedade federal. Em outros termos, é
o processo de formação de uma nova realidade
popular, a unidade pluralista das nações européias.
Deste modo, podemos definir a Comunidade européia
como uma instituição de transição, que tende a evoluir
incessantemente devido à pressão da necessidade dos
Governos tomarem decisões comuns e de levá-los,
através da unificação, até chegarem ao Estado de
federação.

Estas observações são suficientes para mostrar
como devem ser atribuídas à Unificação européia
todas as transformações mais positivas que vêm se
processando desde o segundo pós-guerra. Trata-se,
realmente, de um processo que permitiu superar os mais
graves aspectos degenerativos da vida política,
econômica e social, que caracterizaram a crise do
Estado nacional no período entre as duas guerras: a
colaboração entre os Estados, em vez do nacionalismo
e do imperialismo, a expansão das forças produtivas no
mercado comum, em vez da estagnação econômica,
do protecionismo e da autarquia, e a democracia, em
vez do fascismo.

IV. A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA
UNIFICAÇÃO EUROPÉIA. — Para dar uma
descrição mais precisa do processo da Unificação
européia é necessário procurar individualizar suas fases
evolutivas. Com esta finalidade utilizaremos a
periodização proposta por M. Albertini, que distingue
uma fase psicológica, uma fase econômica e uma fase
política.

A primeira fase marca o início de relações
radicalmente novas entre os Estados da Europa
ocidental, os quais substituem pelo antagonismo
militar e pelo protecionismo a colaboração política e
econômica através da hegemonia dos Estados Unidos.
Com o início da guerra fria, afirmou-se nos Estados
Unidos a certeza de que a Unificação européia
representaria a garantia mais sólida de segurança do
mundo ocidental no embate contra o bloco guiado
pela União Soviética.

1272

UNIFICAÇÃO EUROPÉIA

A idéia original, que inspirou o Plano Marshall,
consistia na proposta de um programa de ajuda para a
reconstrução da Europa em termos unitários. Mesmo
que este objetivo não tenha sido alcançado
integralmente por não terem sido concedidos poderes
suficientes ao OECE, organismo criado para distribuir
as ajudas americanas, o Plano Marshall desencadeou o
processo da cooperação econômica européia. O início
da Unificação européia deve, portanto, ser atribuído
ao impulso determinante provavelmente dos Estados
Unidos. É muito significativa a simultaneidade de dois
acontecimentos: a instituição da NATO e do Conselho
da Europa. Enquanto a primeira marca a subordinação
da Europa ocidental aos Estados Unidos, o segundo foi
o símbolo da aspiração dos europeus para recuperar a
independência através da unidade. Esta foi a grande
relevância psicológica desta instituição, mesmo se a sua
extensão geográfica, a heterogeneidade dos interesses
dos Estados-membros e a falta de poderes a tenham
privado de uma efetiva capacidade de ação.
A segunda fase corresponde ao Mercado Comum e
à instituição das Comunidades européias: primeiro a
Comunidade Européia do Carvão e do Aço (1953),
depois a Comunidade Econômica Européia e a
Comunidade Européia da Energia Atômica (1958). O
impulso a esta segunda etapa da Unificação européia
está ligado ao problema posto pelos Estados Unidos e
pela Grã-Bretanha, sob a pressão da guerra fria, da
restituição à Alemanha ocidental da plena soberania
econômica e militar. Diante da possibilidade do
renascimento do nacionalismo e do militarismo
alemão, os Governos europeus aceitaram a alternativa
proposta por Jean Monnet de colocar sob a autoridade
européia os dois tradicionais pilares da potência da
Alemanha: a indústria do carvão e da siderurgia e o
exército. Assim, criou-se a CECA e iniciou-se a
construção de um exército europeu que, porém, não
foi levada a bom termo pelo voto contrário da
Assembléia Nacional da França.

Vale lembrar que no curso das negociações para a
constituição do exército europeu surgiu o problema
do controle político sobre este exército. Foi então
atribuída à Assembléia mais ampliada da CECA a
tarefa de elaborar o Estatuto da Comunidade Política
Européia, que tinha características estatais. Nele
previa-se, de fato, a instituição de um Parlamento,
sendo que uma parte dele deveria ser eleita por
sufrágio universal direto.

Apesar da falência desta primeira tentativa de
chegar-se à unificação política, a segunda etapa da
Unificação européia é caracterizada por duas
importantes aquisições. A primeira foi o nascimento
da Plataforma dos Seis, isto é, daquele grupo de
países nos quais a crise do Estado se mostrava mais
profunda e que, por conseqüência, poderiam ser a base
de ulteriores progressos visando a uma união mais

estreita. A segunda foi a criação de instituições capazes
de permitir aos Governos, reunidos no Conselho de
Ministros, tomarem decisões no âmbito europeu, com o
auxílio de um Parlamento, de uma Alta Autoridade
(depois Comissão) e de uma Corte de Justiça que
prefiguram os órgãos legislativos, executivos e
judiciários de um Estado. Enquanto de um lado a
essência do poder se encontra no Conselho dos
Ministros, a Comunidade pode, todavia, ser definida
como embrião de uma estrutura federal, se
considerarmos que os tratados instituidores das três
Comunidades previam, após uma fase transitória, a
eleição direta do Parlamento europeu. Por outro lado,
podemos afirmar que a Comunidade era, mesmo antes
da eleição européia, alguma coisa mais do que uma
CONFEDERAÇÃO (V.) . De fato, de um lado, ela geria
com recursos próprios uma união alfandegária, um
mercado agrícola comum e encaminhava-se para
desenvolver políticas comuns em numerosos setores de
grande relevância, como a política regional, industrial,
social e assim por diante. Por outro lado, no plano
interno e em áreas bem delimitadas, as suas decisões
(regulamentos) eram impostas diretamente aos setores
a ela sujeitos e, no plano internacional, tinha o poder
de estipular acordos. Pode-se assim concluir que este
sistema apresenta todos os elementos do FEDERALISMO
(v.) no seu estado latente.
A fase política da Unificação européia atualiza o
problema da transformação da Comunidade européia
num Estado federal. A passagem para esta terceira fase
é o resultado do sucesso do Mercado Comum, que se
manifestou na ascensão da Comunidade até o grau de
primeira potência comercial e de segunda potência
industrial do mundo, quando a Comunidade européia
se ampliou, anexando ao seu contexto a Grã-Bretanha,
Dinamarca e Irlanda (1973) e a Grécia (1981). Ao
fortalecimento da Comunidade européia corresponde a
decadência da hegemonia americana sobre a Europa;
desagrega-se, porém, o quadro político que tinha
sustentado a Unificação européia. O conflito no plano
político-militar, que culmina com a saída da França da
NATO (1966) e que, no plano comercial e monetário,
se manifesta por uma competividade maior da
economia européia sobre o mercado internacional,
assim como o aparecimento de um crescente passivo da
balança de pagamentos dos Estados Unidos, faz com
que diminua o poder integrador da potência-guia do
mundo ocidental.

UNIFICAÇÃO EUROPÉIA

1273

De uma parte, a desordem monetária internacional
que se seguiu à decisão do Governo dos Estados
Unidos de declarar não-conversível o dólar em ouro
(1971) trouxe como conseqüência a queda do regime
de paridade fixa entre as moedas, tornou incertas as
condições do comércio internacional, mesmo no
interior da Comunidade européia, e anulou um fator
determinante do sucesso do Mercado Comum. De
outra parte, a crise energética (1973), que é a
expressão do fortalecimento do Terceiro Mundo e da
decadência da ordem mundial herdada do pós-guerra,
evidencia a ausência de uma política energética da
Comunidade. Finalmente, o agravamento da desordem
internacional e a crise da distensão vêem a
Comunidade européia impotente para desenvolver um
papel internacional autônomo.
A sobrevivência do Mercado Comum, sacudido nos
seus alicerces pela flutuação dos câmbios, e o retorno
a uma ordem monetária internacional, fundada nas
paridades fixas, exigem a criação de uma moeda
européia. O Sistema Monetário Europeu (1979),
criando uma área de estabilidade monetária,
representa o primeiro passo para conseguir este
objetivo. Infelizmente, porém, sem um Governo
europeu não se poderá fazer nem uma política
econômica, nem uma política exterior comuns.

Este é o problema que. se apresenta na atual fase
de desenvolvimento da Unificação européia, ao qual
os Governos procuraram, de alguma maneira, dar uma
resposta. Em primeiro lugar, em 1974, constituíram o
Conselho Europeu dos Chefes de Estado ou de
Governo, que se reúne ao menos três vezes por ano.
Trata-se de um órgão não-previsto nos tratados,
instituído para fazer frente aos novos problemas que
surgiram pela necessidade de gerir, em nível de máxima
responsabilidade, a cooperação política entre os
Estados. Desde sua criação tomou decisões de grande
relevância, como a criação do SME (Sistema
Monetário Europeu) e a eleição direta do Parlamento
europeu. O limite do Conselho europeu, todavia, está
no fato de tratar-se de um órgão de cooperação
intergovernativa que decide sempre por unanimidade.

Com a eleição européia, em 1979, a organização da
Comunidade deu um passo decisivo para superar
determinados limites e para alcançar a sua
transformação numa federação. Todas as uniões de
Estado que se baseiam no voto são, de fato,
federações. Pode-se, portanto, afirmar que, após o voto
europeu, a Comunidade já seja uma federação, mesmo
se ainda não for dotada de todas as prerrogativas
constitucionais. Na Comunidade se tratará, em
primeiro lugar, de reforçar

seus poderes em matéria de balanço, fiscalização de
moeda e, sucessivamente, de transferir, também no
plano europeu, a soberania militar, que permitiria a ela
ter uma política exterior independente e, ao mesmo
tempo, de efetuar uma reforma institucional que
desenvolva completamente as potencialidades
federais da Comunidade.
Quarenta anos após a deflagração da Segunda
Guerra Mundial, os europeus, ao elegerem o
Parlamento europeu por sufrágio universal direto,
parece que aprenderam a lição da história. O
crescente poder destruidor das guerras os obrigou a
seguir o caminho da construção de um Governo
democrático europeu. Com a extensão da democracia
do plano nacional para o plano internacional, o povo
poderá submeter ao seu controle aquele setor da vida
política que até hoje se constitui em domínio
exclusivo de diplomatas e militares e que foi o terreno
das relações de força entre os Estados.
A primeira afirmação da democracia internacional
com a união européia configura, portanto, um novo
modo de organizar as relações entre os Estados. Ela
representa não somente uma etapa importante na luta
para que prevaleça, na vida política, a democracia e a
razão sobre a força, mas também um modelo válido
para o mundo todo, que permitirá à humanidade
enfrentar, em termos unitários, os problemas
determinantes para o seu porvir.

V. CONFEDERALISMO, FUNCIONALISMO E
FEDERALISMO. — Esquematicamente, pode-se
individualizar três correntes que mantiveram de pé o
movimento de Unificação européia: o confederalismo,
o funcionalismo e o federalismo.
A primeira, de inspiração governativa, baseia sua
ação nos equilíbrios políticos, assim como nas
instituições existentes e concebe a Unificação européia
em termos de convergência entre as políticas exteriores
dos Estados e de colaboração intergovernamental,
excluindo, porém, toda transferência de soberania dos
Estados para a Comunidade européia.
As outras duas correntes baseiam sua ação no poder
de iniciativa, que demonstrou ser capaz, especialmente
em determinados momentos de crise, de forçar os
Governos a tomarem as decisões que determinam os
principais desenvolvimentos do processo de
Unificação européia e que os Governos sozinhos não
teriam condições de tomar. Ao mesmo tempo que os
Governos dispõem da força, mas não podem utilizá-la
para alcançar objetivos mais avançados da colaboração
confederai entre os Estados, os centros

1274

UNIFICAÇÃO EUROPÉIA

federalistas e funcionalistas de iniciativa não dispõem
da força, mas têm o poder de iniciativa que se
demonstrou decisivo em todas as etapas fundamentais
da construção da unidade européia.

Enquanto os funcionalistas se propuseram a confiar
a gestão de alguns de seus interesses comuns nos
setores econômico (CECA, CEE, Euratom) ou militar
(CED) a uma adequada administração européia, sem
enfrentar diretamente o problema da transferência da
soberania para as instituições européias (este
problema tem sido posto sucessivamente como
conseqüência da cristalização em torno das
instituições comunitárias de interesses mais
concretos), os federalistas centraram sua ação no
esforço para alcançar um objetivo constitucional e
constituinte, que seria obtido através da transferência
de poderes substanciais de decisão dos Estados para a
Comunidade européia e do reconhecimento da
soberania do povo europeu.

Finalmente, o movimento da Unificação européia
foi o resultado da unidade dialética de dois elementos:
de um lado, os Governos; do outro, os centros
funcionalistas e federalistas de iniciativa. Acontece,
porém, que o método funcionalista, que permitiu
encaminhar o processo de Unificação européia,
revelou-se incapaz de levá-lo até a sua conclusão
política. Com a realização da união alfandegária
(1968), viu-se claramente que a passagem definitiva
para a unificação política não poderia ser automática.
Não somente os progressos de unificação econômica
não

conseguiram

determinar

progressos
correspondentes no plano político, mas a própria
unificação econômica não poderá realizar-se até o
ponto da total união econômica e monetária sem antes
chegar-se a um Governo europeu. Assim, uma política
externa e militar européia não é possível sem um
Governo europeu.

A tese federalista demonstrou sua superioridade
teórica, na medida em que defende, de conformidade
com os fatos, que a concessão do direito de voto no
plano europeu, a criação de uma moeda européia e de
um exército europeu são poderes que não podem ser
transferidos gradualmente pelos Estados à
Comunidade européia, mas devem sê-lo de uma vez,
embora possam ser transferidos separada e
sucessivamente. A eleição direta do Parlamento
europeu, enquanto abre a possibilidade de atribuir a
esta Assembléia um papel constituinte, permite
enfrentar o problema da criação do Estado europeu de
maneira gradual, através da transferência, em
primeiro lugar, dos poderes relativos à política
econômica externa

e militar através de uma progressiva transformação
institucional da Comunidade em sentido federal.

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