CONFIGURAÇÕES DE CULTURA∗ Ruth Benedict

Nos últimos vinte e cinco anos, o fato de maior importância em Antropologia tem sido, sem dúvida, a acumulação de monografias completas de povos primitivos. Agora, é com dificuldade que se rememora a época anterior, em que a reconstrução de um quadro mais ou menos passável, de tribo primitiva, teria sido feita apenas com referência a duas ou três regiões, cada uma das quais cercada de dificuldades. Os melhores relatos de que se dispunha não eram o produto de qualquer inquérito propositado feito por estudiosos do costume, mas sim dos acasos felizes que punham lado a lado um bom observador e uma cultura digna de nota, como por exemplo no caso de Sahagun, ou de Codrington na Melanésia. O vasto acervo de dados antropológicos disponíveis ou era francamente anedótico como nos relatos de viajantes, ou esquematicamente dissecado e tabulado, como nos de muitos etnólogos. Nessas circunstâncias, o procedimento antropológico necessariamente recorria, como no tempo de Tylor, ao método comparativo, que é, por definição, anedótico e esquemático. Coligindo grandes séries de observações destacadas dos contextos de que fazem parte, procurava esse método descobrir a mente primitiva, ou o desenvolvimento da religião, ou a história do casamento. Das necessidades criadas pela mesma situação, floresceram também as escolas dos estritos difusionistas que tiravam vantagens dos limitados materiais de que dispunham, e atuavam somente com traços isolados, sem levarem em consideração a sua colocação, ou função, na cultura de que provinham. Embora a crescente insatisfação com estes dois approaches dominantes do que bem podemos chamar de “período anedótico” da Etnologia, esteja explícita no ensinamento de Boas, que sempre insistiu sobre a necessidade do estudo exaustivo de qualquer cultura primitiva, é ela mais claramente expressa por Malinowski. Sua crítica foi mais contra o grupo difusionista do que contra os Frazers e os Westermarcks, que

Título original: “Configurations of Culture in North América”, American Anthropologist, Vol. 34, N.° 1, (janeiro-março, 1932), pp. 1-27. Reproduzido de: Donald Pierson (org.), Estudos de Organização Social; SP, Martins, 1970 – Capítulo XVIII; p.312-347.

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empregaram o método comparativo, mas na sua própria obra ele insiste sempre em que a teoria antropológica deve levar em consideração, não itens culturais isolados, mas culturas como todos orgânicos e funcionais. Ele quer fazer-nos compreender que, por exemplo, depois de se instalar em um museu uma coleção de objetos Niam-Niam, ou de ser publicada uma monografia sobre estes objetos, ainda exatamente nada sabemos destes, a menos que conheçamos o modo por que cada traço cultural - o arranjo da casa, os artigos de vestuário, as regras de abstenção ou de casamento, as idéias do sobrenatural, etc., - é empregado na vida cotidiana dos Niam-Niam. Malinowski, de um modo que desaponta um tanto, não prossegue no exame desses todos culturais, mas contenta-se em concluir seu argumento salientando que cada traço tem a sua função no complexo cultural total, conclusão que parece mais um começo de inquérito do que sua terminação. Pois é esta uma posição que leva a investigar em que espécie de todo esses traços estão funcionando, e que referência tem eles para com a cultura total. Até que ponto os traços realizam uma inter-relação orgânica? São muitos ou poucos os Leitmotive pelos quais eles podem integrar-se? Estas perguntas os funcionalistas não fazem. Ora, o fato que se torna cada vez mais evidente à medida que relatos completos de povos primitivos são publicados, é que essas culturas, embora sejam quase completamente constituídas de elementos díspares fortuitamente reunidos trazidos de todas as direções pela difusão, são também, repetidas vezes, em diferentes tribos, integradas segundo padrões bastante diferentes e individuais. A ordem alcançada não é apenas o reflexo do fato de ter cada traço uma função pragmática a desempenhar - o que muito se assemelha à “grande” descoberta em Fisiologia de que o olho normal vê e de que a mão com músculos normais agarra, ou ainda mais exatamente, a descoberta de que nada existe na vida humana que a humanidade não tenha adotado e racionalizado. A ordem é antes devida à circunstância de que, nessas sociedades, foi estabelecido um princípio de acordo com o qual os elementos culturais reunidos são reorganizados em padrões coerentes, segundo certas necessidades interiores que se desenvolveram dentro do grupo. Estas sínteses são de várias espécies. Para algumas temos terminologia adequada e para outras não temos. Constituem elas, porém, em cada caso, a integração mais ou menos bem sucedida de comportamento, realização que é a mais digna de nota para o antropólogo por conhecer ele os elementos esparsos e híbridos com os quais se realizou a integração.
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A proposição de que as culturas precisam ser estudadas desse ponto de vista e de que ele é indispensável para a compreensão mesmo da nossa própria história cultural, foi sugerida por certos pensadores alemães liderados por Wilhelm Dilthey e popularmente representada nos países de língua inglesa por Oswald Spengler, na sua obra Untergang des AbendIanes. Para estes estudiosos, a História é uma sucessão de filosofias de vida culturalmente organizadas, e a Filosofia é o estudo dessas grandes interpretações de vida. Para Dilthey é apenas secundariamente e mesmo acidentalmente que a própria configuração da cultura exprime essas diversas interpretações de vida. O que ele acentua principalmente é que essas grandes interpretações expressam a variedade de existência; nega ele a suposição de que qualquer uma delas possa ser final. Ele argumenta vigorosamente que as configurações essenciais na Filosofia são incomensuráveis e que suas categorias fundamentais não se podem resolver uma na outra. O mais sistemático de seus estudos, Einleitung in die Geisteswissenchaften, é, de modo manifesto, historicamente descritivo. Quando ele se torna sistemático, seus agrupamentos não são configurações, mas tipos de personalidade em filosofia; ele agrupa Demócrito, Epicuro, Hobbes e os enciclopedistas franceses para exemplificar seu tipo “materialista-positivista”, ao qual contrapõe o idealista objetivo e o idealista da liberdade, ambos ecleticamente selecionados de diferentes nações e épocas. Nos seus ensaios menos sistemáticos, contudo, ele caracterizou bem certas atitudes culturais significativas no período de Frederico, o Grande, e no período medieval, e faz uso, muitas vezes, de pontos culturais. Ao passo que a elaboração de tipos de E. Spranger1 é apriorística e subjetiva, e não provém do estudo da história. Seus tipos são o homem teórico, o homem econômico, o homem esteta, o homem gregário, o homem que quer o poder, o homem religioso. Spengler, contudo, elaborou o aspecto cultural desta filosofia. Evitou a tentativa de outros partidários desse ponto de vista no sentido de definir e limitar os tipos que podem ocorrer. Para ele, as “idéias de destino” quaisquer que sejam, que evolvem dentro de uma cultura e lhe dão individualidade, representam aquilo que é dinâmico e estimulamente na vida humana. Estas “idéias” tem diferido profundamente umas das outras e condicionam seus portadores de modo que certas crenças e certas cegueiras lhes

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Eduard Spranger, Types of Men. Tradução inglesa por Paul J. W. Pigors, Halle, 1928.

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mais estimulante e provocativo do que convincente. é o que é significativo nessa época cultural. é apenas uma das descrições integradas que podem ser legitimamente traçadas para o homem moderno. desenvolveu crenças e instituições até o ponto em que estas expressem a sua orientação fundamental. O estudo de Spengler produz uma impressão confusa dado o seu caráter digressivo e as complexidades não resolvidas das civilizações de que ele trata.são inevitáveis. é em Spengler bastante clara. em certos tipos selecionados de comportamento e afastando o comportamento dos seus contrários. Toda grande cultura tomou certa direção que lhe é exclusiva. espaço e tempo. que o próprio Dilthey largamente evitou acentuando antes de tudo as tendências dominantes em filosofia ao invés de em cultura. e a identificação dessas diferentes “idéias de destino” faustianas em matemática. Sua descrição. Destes. A dificuldade. 4 . à necessária análise. que estas se tornam incomensuráveis. que de tal modo padronizam a existência e condicionam as reações emocionais e cognitivas de seus portadores. a sua mais ou menos mística consideração de quantidades. em nosso presente estado de conhecimento histórico. filosofia e moral. a crítica fundamental ao seu trabalho é quanto a tratar a civilização estratificada moderna como se ela tivesse a homogeneidade de uma cultura primitiva. especializando-se cada uma. Precisa ser contrabalançada por uma descrição de um Babbitt ou de um Roosevelt. Do ponto de vista antropológico. Umas das justificações filosóficas para o estudo dos povos primitivos é que os dados etnológicos podem tornar claros fatos sociais fundamentais. e a plena atuação desta atitude sui generis e altamente individualizada para com a vida. de pintura. os dados históricos da Europa ocidental são demasiado complexos e a estratificação cultural demasiado completa para se submeter. especialmente da moderna filosofia do mundo a que ele chama faustiana. finanças. O princípio fundamental da filosofia de Dilthey e seus partidários permaneceu. na sua aplicação à civilização da Europa ocidental. por exemplo. nenhum me parece mais importante do que as configurações fundamentais e distintivas em cultura. faz com que a sua definição de tipos se torne confusa. difícil de compreender. Mesmo assim. que de outro modo são confusos e não passíveis de demonstração. de arquitetura. de música. de vontade.

portanto. International Congress of Americanists. o tipo contrario de Nietzsche. a iniciativa e a autoridade individuais quanto aos assuntos sociais. 573. deste ponto de vista. e não o resultado de um isolamento devido ao ambiente físico. a orgia. de seus vizinhos contíguos. é uma resistência cultural. dois tipos de cultura representados no Sudoeste dos Estados Unidos. como demonstrei no artigo acima referido. nem desertos intransponíveis. nem mesmo muitas milhas a separá-los de seus vizinhos.Examinei recentemente. na cultura. pelo cultivo de excessos emocionais e psíquicos e pela embriaguez. Os Pueblo são uma civilização claramente delimitada. É um isolamento cultural realizado quase que apesar das condições geográficas. A situação no Sudoeste oferece uma oportunidade excepcionalmente boa para o estudo da extensão a que os conjuntos psicológicos contrastantes desta espécie. cif. e desconfiança quanto ao excesso e à orgia. e transe. uma vez institucionalizados. A resistência que manteve afastados dos Pueblo 3 traços culturais tais como o espírito guardião e a visão. o uso cultural de intoxicantes. de terem eles uma cultura complexa. Os Pueblo orientais iam regularmente às planícies para a caça ao búfalo e o centro da região dos Pima fica a um dia de viagem a pé dos Hopi e Zuñi.2 a dos Pueblo. é uma elaboração completa e institucionalizada do tema de sobriedade e de moderação no comportamento. Por outro lado. Mas. de experiência dolorosas e perigosas. as idéias de perigo místico associadas ao sexo. aos fatos do ambiente físico. torna a situação clara. podem moldar as culturas resultantes. a tortura. Valorizase o excesso como fuga para uma existência além da dos cinco sentidos. colocada como uma ilha entre culturas altamente divergentes. o xamã. O fato. 1928. em contraste com a de vários povos das circunvizinhanças. é abundantemente ilustrado em todas as culturas circunjacentes. A cultura dos Pueblo de Sudoeste. Dei ao ethos dos Pueblo a qualificação de apolíneo no sentido em que Nietzsche usou o termo. moderação. este isolamento de sua cultura não pode ser atribuído. 23: 572-581. 5 . Não há cadeias de montanhas.. 3 Op. como na Oceania. o que se expressa pela criação. para representar a sua sobriedade. Este tema dominante efetivamente evitou o desenvolvimento daquelas típicas situações dionisíacas que a maioria das tribos norte-americanas Elabora com 2 “Psychological Types in the Cultures of the Southwest”. de muito considerável antigüidade. tão flagrantemente destacada como qualquer outra na América do Norte. o dionisíaco. sonhos. e seg.

Mas faz tudo isso com um anonimato que dificilmente encontra similar em outras culturas. isto e. A sanção para todos os atos vem sempre da estrutura social formal. Tomará a si patrocinar as danças kachina de calendário. não plantará uma “vara de prece” a não ser nas épocas institucionalmente prescritas. um centro de referência no planejamento do programa comunal. Ele pode curar. ocasiões ambivalentes carregadas de perigo e de força. e fazendo do nascimento. não porque saiba como fazê-lo ou porque tenha obtido sanção de algum encontro pessoal com o sobrenatural. assim como toda a autoridade que usualmente deriva do contato pessoal com o sobrenatural. o xamanismo. o uso de drogas em cerimonias. entregar-se a excessos da carne. atuou para evitar o impulso humano para o exercício da autoridade. e a visão inspiradora. de acordo com os seus recursos. do assassinato e de outras crises da vida. construindo para isso nova casa e pagando a sua parte das despesas da cerimônia. de modo semelhante. cultivando os excessos emocionais e a submissão completa aos impulsos. não do indivíduo. na sociedade guerreira organizada. o ethos Pueblo conta também o desejo do poder. Ele recusou. portanto.o que envolve festejos e despesa considerável. Mesmo que seja o sacerdote principal. Ele não pode matar. de acordo com o ponto principal das histórias em que se reconta esta situação. de fato o está.referência a todas as fases da vida. assim como ele atuou para evitar a auto-tortura. Esse tema abomina os impulsos desagregadores do indivíduo estou usando uma linguagem abreviada animística querendo dizer que seu bias cultural opõe-se e finalmente reduz a um mínimo os impulsos humanos para ter visões e para descarregar energias. considerar-se-á que está praticando feitiçaria. O indivíduo devota-se. Entre esses impulsos desagregadores. não muito mais do que isso. 6 . da adolescência. a menos que tenha o poder de escalpar ou esteja planejando ser iniciado nisso .isto é. e. Seguramente. como. mas porque alcançou a posição mais alta nas sociedades que exercem a cura. traços das culturas circunvizinhas. mas mesmo aí a cultura já afastou da posição que ele tem que ocupar tudo que se aproxime da autoridade pessoal no nosso sentido. da menstruação. Não empreende esses atos como meios de aumentar o prestígio pessoal. tais como a auto-tortura. se o fizer. aumentará o número de máscaras possuídas em Zuñi conseguindo que seja feita uma para si mesmo . mantê-las-á durante a grande dança de inverno. o cargo continua sendo uma posição de confiança. Seu homem ideal evita a autoridade no lar ou na função pública. Toma parte em toda atividade do culto. da morte. Confiam-lhe afinal um cargo. às formas constituídas de sua sociedade.

4 são ritos não eróticos. Nunca é violento. como. Necessitamos de muito mais dados provindos do campo de pesquisas. para todas as situações. o “homem bom” nunca se eleva acima do vizinho pelo exercício da autoridade. É uma expressão apolínea de dança completamente característica. pelo menos. 1916. ao passo que conosco. sem mudanças em detalhes. embora sejam o tema principal da religião desses índios. O que importa é o background emocional diante do qual tem lugar o ato nas duas culturas. Discutirei depois como os seus ritos de luto são completamente destinados a este mesmo fim. 4 H. pólos separados. 7 . não conseguimos ver esse background emocional mesmo em traços onde ele se torna de importância primordial. somos. com a nossa reação emocional à serpente. a dança não pode manter-se a esse nível. tão universalmente associados em outras culturas ao excesso e à orgia. dificilmente se sente repulsão pela serpente. talvez. K. toda a ação é como se fosse uma dança com águias ou com gatinhos. E ainda muitas vezes. sua significação emocional e sua função na cultura se invertem. American Anthropological Association. por exemplo. uma vez removido o veneno das cascavéis. Eles não têm um tremor fisiológico de repugnância ao tocar o seu corpo. para avaliar o background emocional. não dá ocasião para ofensa. nem se deixa dominar pelas emoções. não fogem diante de uma aversão e horror profundos. Haeberlin The Idea of Fertilization in the Culture of the Pueblo Indians. e a isto relacionados. emocionalmente. embora nos coloquemos meticulosamente no padrão de seu comportamento. Sem que se mude um item do comportamento externo da dança. Para eles. Tais configurações de cultura. n°1. Quando nos identificamos com eles. Todo o interesse da cultura é dirigido no sentido de prover.Socialmente. Traços objetivamente semelhantes o geneticamente aliados podem ser utilizados em configurações diferentes. baseados em analogia e magia por simpatia. conjuntos de regras e práticas por meio dos quais se vive sem recorrer à violência e a outros excessos em que a cultura não deposita confiança. Deixa todos à vontade. no sentimento para com o cadáver. Mesmo os ritos de fertilidade. fala muito. erigidas em torno de certos traços humanos selecionados e operando para destruir outros são de primordial importância para se compreender o fenômeno da cultura. nas monografias etnográficas. Podemos ilustrar isso imaginando a dança Pueblo da serpente no ambiente da nossa própria sociedade. Entre os Pueblo ocidentais. Memoirs 3. na cerimônia.

Uma esposa ou filha podia permanecer à beira da sepultura. À beira da sepultura eram mortos os cavalos prediletos do homem e. só pode ser adequadamente descrita quando há uma quantidade muito maior de dados colhidos em campo e apresentados deste ponto de vista. a fim de estabelecer a validade do argumento que estou apresentando. das monografias existentes.A situação que mais ocorre é aquela em que o traço cultural é elaborado de novo para exprimir a padronização emocional diferente. e não só da América. decepavam os dedos. as pernas. Já me referi aos ritos de morte. Entre os índios das Planícies ocidentais era uma violenta expressão de perda e de transtorno. A situação de pesar é caracteristicamente tratada nas culturas dionisíaca e apolínea de acordo com os bias respectivos. e não o removiam. lamentando-se e recusando-se a comer. Esta reelaboração de traços de comportamento muito difundidos. A completa submissão aos impulsos tomava a forma de automutilação. jogavam-se ao chão todas as coisas da cabana. e quando há uma concordância muito maior por parte dos antropólogos quanto às padronizações pertinentes. nem talvez principalmente daí. tanto os homens quanto as mulheres. O comportamento dionisíaco para aquele que sofreu a perda de alguém tem encontrado diversas expressões na região da América do Norte que estamos discutindo. Contudo. até que os parentes a 8 . para que ninguém que não fosse parente ficasse com alguma coisa. A cabana era derrubada e dada a outrem. especialmente para as mulheres. Quando o corpo era tirado para o enterramento. Elas golpeavam as cabeças. Logo todas as coisas se iam e à viúva só restava o cobertor que a cobria. a situação de pesar. por vinte e quatro horas. por morte de alguém e de outro. em configurações diferentes de cultura. as pernas nuas sangrando. vou limitar-me aos traços difundidos na América do Norte e discutir apenas traços culturais norte-americanos bem conhecidos e o modo pelo qual foram moldados pela forças dominantes de certas culturas contrastantes. Longas filas de mulheres marchavam pelo campo após a morte de uma pessoa importante. lamentavam o morto. característica da cultura que o adotou. se tornaram claras certas configurações de cultura. Há dois aspectos envolvidos nessas práticas que considerarei separadamente: de um lado. Deixavam secar o sangue nas pernas e na cabeça. a situação do indivíduo que matou outro. Contudo.

que é a mais inflexivelmente inevitável das ocasiões trágicas da vida. entre os Assiniboine: “Se uma pessoa ofendesse o progenitor durante esse tempo. Repugna-lhe o exagero em sentimentos e. o ponto de que se trata é apenas de que nessa região o comportamento institucionalizado nesta crise é moldado de acordo com o livre curso dado às emoções. cada um trazendo uma vela para o morto. ele e seus auxiliares “alimentam” o morto ritualmente com a mão esquerda ― associados aos espíritos ― e fazem um altar na sala. elas choravam pelo morto. dá-se livre curso ao pesar. está provida de regras pelas quais proscreve a violência e os estados de espírito agressivos de qualquer espécie. Bureau of American Ethnology. Elas têm em comum padrões sociais fundamentais de pesar violento e não inibido. sendo ambas as coisas indiferentes para ele nesse estado. De acordo com Denig.5 Por ocasião da morte de crianças. pois o homem que está em pesar profundo procura alguma coisa em que descarregar sua vingança. aquilo em que eles mais se empenham é conseguir uma rotina para continuar a vida com o menor transtorno possível. Denig. indo logo para a guerra. e então o “Mãe-Milho” reza e manda todos embora de novo. Apenas uma vez mais durante todo esse ritual dedicado ao morto são os parentes admitidos na sala e isto quando o sacerdote apronta um pequeno fogo com os cabelos que saíram da cabeça do morto quando escovados. Yale University Press 1923. mesmo na morte. 46: 573. The Assiniboine. Reports. Numa cultura típica apolínea como a do pueblo de Isleta. 2:162. Após isso. especialmente.arrancassem daí. escovando-lhe o cabelo e lavando e pintando-lhe a face com marcas de identificação para indicar a afiliação social do morto. a morte dessa pessoa certamente se seguiria. com a questão de se saber se esta é a emoção despertada em todos aqueles que participam dos ritos. Algumas vezes um ou outro dos pais recorre ao suicídio. um sacerdote conhecido por Mãe-Milho Prêto e que é funcionário de uma das quatro divisões “milho” dos Pueblo. Depois que estes saem. É imediatamente chamado e prepara o cadáver. The Cheyenne Indians. entram os parentes. 9 .”6 Tais descrições são características do luto dos índios das Planícies. como qualquer outra sociedade apolínea. passando pela sepultura. mesmo vinte anos depois de ocorrida uma morte. Em Isleta. De vez em quando. Isto nada tem a ver. Os 5 6 George Bird Grinnel. por outro lado. oficia por ocasião da morte. naturalmente. o luto como se dá entre os índios das Planícies é inconcebível. para matar ou ser morto. Isleta.

depois de terminar tudo. na verdade. os índios do Sudoeste e os das Planícies são semelhantes no sentido de não darem ênfase a idéias de poluição e medo. 10 . contudo. Pode dispor assim quando não é compelido a exercê-lo. Os parentes retornam aos seus lares. Os quatro dias foram como quatro anos para ele e. acentua-se só o esquecimento imediato. ninguém golpeia o corpo. As duas descrições são naturalmente tipos conhecidos de comportamento contrastado e são aqui institucionalizadas por duas culturas contrastantes. quebram o pote em que levaram a água e a escova de cabelo usada para preparar o corpo para o funeral e na volta marcam o seu caminho com profunda incisão feita com uma faca de sílex. nem mesmo se faz a sua distribuição. Dirigem-se para fora da aldeia para este fim e. o que se pode dar. em posição de contraste com um terceiro tipo. é à primeira vista um tanto bizarro agrupá-los e colocá-los. Nos seus contextos diferentes. O enterramento tem lugar no dia seguinte. A casa enche-se de pessoas que esperam a volta dele. nem corta o cabelo. e o “Mãe-Milho Preto” faz-lhes um sermão dizendo que esta é a última vez em que tem de temer a volta do morto. mas os companheiros de casa observam os tabus ordinários para pureza ritual por mais oito dias. recebendo do sacerdote certas abluções rituais.7 Não há aqui submissão franca e institucionalizada ao pesar . O “Mãe-Milho Preto” dirige-se ao cacique e devolve-lhe o poder que dele recebeu e que precisa sempre receber dele para todas as mortes. As formalidades que mais aproximadamente correspondem ao enterramento em outras regiões são levadas a efeito quando do enterramento de alimentos para o morto no quarto dia. depois do que está tudo acabado. não se destrói a riqueza. Isto não quer dizer que o temor da contaminação ou do perigoso poder dos mortos nunca 7 Vide o estudo de Esther Schiff Goldfrank sobre Isleta. portanto. aqueles que ficaram serão os mais prontos a esquecer. mas a família e os parentes permanecem ritualmente tabu por quatro dias ficando retirados na casa do morto.ninguém decepa os dedos. como se fossem um tipo só. Este é um traço apolíneo característico. do qual. de longe.que foram atingidos pela perda respiram a fumaça disto e cessarão por este modo de entristecer-se pelo morto. E. para o lugar onde enterraram alimento para ele. Põem-se à escuta e ouvem o morto vir. e muito comum entre os índios do sudoeste dos Estados Unidos. Em face da oposição evidente destes dois tipos institucionalizados de comportamento. Em lugar da insistência sobre o luto prolongado por parte dos mais estreitamente atingidos pela perda.

9 Excluí em toda esta exposição os Sioux de Sul. o chefe do clã. Nem fazem uso eles deste tema comum para moldar uma situação de perigo. sendo-lhe uma ou outra coisa indiferente” no seu sofrimento. pois não estão preocupados nem com a contaminação do cadáver. contudo. o que é tão comumente um estratagema para evitar a inveja do morto.8 Quebram a sua escova de cabelos e não os ossos de suas pernas. contudo. An Ethnologic Dictionary of the Navajo Language. em lugar de elaborarem romanticamente a situação relativa ao perigo. e que estes eram mortos à beira da sepultura. 454. Arizona. Não foi poluído pela função que desempenhou. Em Isleta. são a verdadeira base da cerimônia do luto nas regiões circunvizinhas.se possa descobrir nessas regiões. nem com a maldade do espírito do morto para com aqueles que continuam a aproveitá-los. isto é. seu único pensamento é passá-los adiante. 1910. Mas a cultura não lhes dá ênfase. porque aquilo que simbolizam é o fim da vida desse homem e não precauções a respeito de sua inveja e vingança. ele deixa de lado suas prerrogativas oficiais de encarregado de lidar com o morto. mas de todo preocupados com a contaminação. Os Navaho de modo algum são exemplos extremos. p. certas atitudes da “dança do escalpo” estão explicitamente associadas à viúva e ao viúvo. Vide adiante. nos tempos mais antigos. Não destroem. Não é raro acharem-se ritos mortuários não dirigidos para a situação de perda. ou partir “para matar ou ser morto. De modo semelhante. estas duas se assemelham por voltarem de um modo realista o seu comportamento na direção da situação relativa à perda. nas Planícies 9 a distribuição de riquezas e a degradação da aparência pessoal. oficiando em ocasião de morte não tem de ser purificado. por exemplo. são atitudes potenciais humanas e talvez não haja cultura hermeticamente fechada a elas. Nem tem o fogo feito com os cabelos do morto para os parentes respirarem a finalidade de colocá-los fora do alcance da vingança do morto. Michael’s. Em contraste com as tribos não Pueblo de Sudoeste. 10 11 . o tema do temor e ódio da pessoa que usou o poder sobrenatural para causar aquela morte. St. como deixaria sua estola. empregavam-se escravos para preparar e transportar o corpo. Agora são os membros da família que precisam expor-se a 8 Em Zuñi. tais como retirar-se sozinho para as planícies para lamentar-se. Os padres franciscanos 10 contaram-nos que. e o anátema do contato com o morto é dele removido uma vez cessados os ritos. vem a ser apenas um gesto de pesar e associado com outras manifestações de esquecimento de si próprio e da rotina de todos os dias. o tipi e todos os cavalos do morto. mas sim a de fazê-los esquecer depressa. Ao contrário. Estes temas.

Os Algonquinos do Centro crêem firmemente que os mortos tem que vencer. antagonistas cruéis. tem os Navaho um forte temor também da volta do espírito. é fundamental nas práticas mortuárias. de modo que ele pudesse matar animais que encontrasse no seu caminho e seus parentes nesse mundo fossem favorecidos de modo semelhante. Homens e mulheres despem-se até ficarem só com uma tanga. e em outras partes do mundo. uma para levar o cavalo predileto que deve ser morto à beira da sepultura do dono. de modo que nem mesmo a tira que o prende possa ficar exposta. a temida disposição para a vingança que tem o espírito do morto. É um tema que para Crawley. 12 . Entre os Winnebago. Para os Navaho seria inconcebível qualquer tipo de comportamento dos que estivemos descrevendo. para executar a tarefa. não são tão populares na América do Norte na elaboração da situação de horror quanto o são na América do Sul. isto mostrará ao morto o caminho de volta e o espírito prejudicará o criminoso. ao longo do seu caminho. não podem evitar esse dever. Acompanham o corpo apenas aqueles que. Reichard Social Life of the Navajo Indians. Este mal-estar dos vivos diante dos mortos é quase universal. Quatro pessoas são necessárias. Todos os membros da família jejuam por quatro dias e durante este tempo um guarda adverte os que chegam para que se afastem do caminho entre a cabana e a sepultura a fim de evitarem o perigo. dado o seu parentesco chegado. Se uma mulher deixa de jejuar ou quebra o silêncio. de um machado 11 Gladys A. Journal of American Folklore. embora assuma muito diferentes proporções nas diferentes culturas. na sepultura. e sua malevolência para com aqueles que foram poupados pela morte. e é de admirar que deva desempenhar na América do Norte um papel tão secundário. queima-se completamente a cabana em que ocorreu a morte. Contributions to Anthropology 7:142. Por outro lado. 22:312. Mas Jones registra que entre os Fox era freqüente pedirem os moribundos para serem munidos. e deixam o cabelo solto. guardam os enlutados silêncio absoluto. também. Nesse meio tempo. Columbia University. por exemplo. duas para carregarem o corpo. e outra para avisar os passantes ao longo do caminho de que devem desviar-se e livrar-se da contaminação. 12 os machados de guerra eram enterrados com o morto.11 Além do temor dominante da poluição. Um dos exemplos mais claros neste continente é dado pelos índios Fox. Para se protegerem. 12 Paul Radin.tal contaminação. e o costume de enterrar armas com o corpo visava possibilitar-lhe a defesa contra eles.

a perda é tomada como perda. disse um Mohave de 80 anos. Nunca houve suposição de que fosse costume de um médico-feiceiro usar veneno ou faca. Ele podia segurar uma vara diante de um homem e dizer: “Matei seu pai”.14 Quando se atribui a culpa a um médico-feiticeiro. Um vidente era empregado para visitar a terra dos mortos após uma morte. a fim de se protegerem contra o Quebra-Caveiras. assim como é da natureza dos falcões matarem passarinhos para viver”. quando da verdadeira morte pouca atenção se dá à possibilidade de sua cumplicidade. situação mais comum na África do que entre as tribos da América do Norte. Em Zuñi a situação de pesar relativa à perda de uma pessoa não se transforma numa situação de feitiçaria e de vingança tomada pela feitiçaria. quero mandar num bando maior do que esse”. Um homem. Bulletin 78:778. Bourke. o qual está sempre presente entre os Pueblo. 1889. Ou podia vir e dizer a um doente: “Você não sabe que sou eu que o estou matando?” “Será que eu preciso agarrar você e despachá-lo por minhas mãos antes que você tente matar-me?”15 O que importa é que isto é matar por meio do sobrenatural. “Matei apenas dois. John J. Kroeber. Trata-se de uma situação de culpa e terror aberta e declarada. “É da natureza desses médicos-feiticeiros matarem pessoas dessa maneira. 2:175. davam muita importância ao temor e à culpa do médico-feiticeiro que. International Congress of Americanists.13 Os Mohave. quando a morte se torna uma ameaça pública.de guerra. Quando morrer. causara a morte. qualquer pessoa pode tomar a si matá-lo. é que a teoria do feitiço entra em ação. 15:266. conquanto seja claramente acentuado o fato de que se deve acabar com a situação logo que possível. ficava-se sabendo que o médico-feiticeiro que o assistira era culpado. por meios sobrenaturais. Handbook of the Indians of California. rico continuava rico no outro mundo e todos aqueles que um médico-feiticeiro matou ficavam sob sua chefia. E aí se trata de uma 13 14 15 William Jones. Journal of American Folklore. que tira de cada um uma colherada de cérebro. 13 . por outro lado. mas isso os vivos não faziam por serem os mortos temidos e era de se desejar ficassem eles desarmados. Portanto. O médico-feiticeiro confessava abertamente sua cumplicidade. Se o morto aí não estivesse. Bureau of American Ethnology. A. L. Convém comparar esta atitude Mohave com as teorias de feitiçaria dos Pueblo. Apesar do grande medo a respeito de feiticeiros. eles ficavam impotentes diante do Quebra-Caveiras. Somente numa epidemia. E ele desejava um grande bando de ricos.

as crises da vida e uma grande série de atos são encarados de um modo realista. Mesmo a existência de todas as idéias essenciais entre os Pueblo . ninguém desafia outra pessoa diante de um morto ou de um moribundo. é tão flagrante como aquele entre os tipos apolíneo e dionisíaco. As mais ricas coleções de dados primitivos sobre a “situação de perigo” são. A morte não é dramatizada como se fosse um duelo entre um xamã. Há outros temas sobre os quais situações de perigo podem ser e têm sido desenvolvidas em torno da morte. virtude de seus poderes médicos. Nunca é o médicofeiticeiro aquele que. e não de uma situação dionisíaca dependente.é interessante que elas são em grande parte européias nos seus pormenores não leva a esta interpretação dionisíaca da morte. é uma configuração de cultura particular. também traz a morte e encerra em sua única pessoa os duplos aspectos de poder dionisíacos característicos. e sua vítima. eu chamarei “culturas realistas”. certamente. e da atitude ambivalente do grupo para com esse poder. e culturas estas em que isto é institucionalizado. e o que ele interpreta como uma tendência universal na sociedade humana. e aquelas que não o fazem. em diferentes culturas.neurose de medo por parte da comunidade. Às culturas do tipo oposto eu chamarei simplesmente “não realistas”. em. a culpa. tais como a contaminação. Este foi o assunto mais proeminente em toda a sua obra. e configurações contrastantes desenvolvem seus comportamentos contrastantes. O ponto de que precisamos para a nossa exposição é que a submissão dionisíaca à emoção por ocasião morte pode ser institucionalizada em torno do pesar verdadeiro quando da perda de um membro da comunidade. Duvido que alguém em Zuñi possua quaisquer técnicas de feitiço que realmente pratique. ou em torno de várias idéias. Trata-se. A antítese de William James sobre o indivíduo de “mente rija” (tough-minded) e o de “mente débil” (tender-minded) aproxima-se 14 . como a dos Mohave. e a disposição à vingança por parte dos mortos. Às culturas em que os contatos humanos. Admito que isto seja terminologia inadequada. os vários trabalhos de Crawley. O contraste entre culturas que se entregam a idéias de perigo desta espécie em toda situação da vida. considerado como uma ave de rapina. naturalmente. e especialmente sem a metamorfose por que passam em conseqüência dos padrões de medo e contaminação que estivemos discutindo. do exercício da vontade do xamã para o poder sobrenatural. mas apesar de sua ampla distribuição. de uma tendência que é comum no comportamento institucional.

e certamente este tipo não se acha na região que estamos considerando. seria necessário primeiro diferenciar seu comportamento institucional do dos Pueblo apolíneos e então do romantismo que se tece a seu respeito. Serem as situações principais da vida tão poucas vezes interpretadas culturalmente nesta maneira direta e realista é. é impossível retornar aos seus começos ou discutir as atitudes que lhes deram origem. As duas categorias operam em nível diferente e se intecruzam. o matar como sucesso numa luta. e assim por diante. como ele faz. As culturas realistas. por toda a sua história. penso eu. os Shoshone.é outra. mas de seu simples espectro . as 15 . os Shoshone.também da distinção que desejo fazer. em certas noções não realistas. um dos fatos mais flagrantes da Antropologia. são dionisíacas entre os índios das Planícies e apolíneas entre os Pueblo. embora as unem de um modo mais realista do que outras culturas. o que se encontra apenas localmente. como é óbvio. contrastam fortemente com aquelas que vivem numa “caverna de Aladino” onde tudo é algo além. mas. substituir estas expressões por mentalidade “sadia” e “enferma”. Estas noções parecem ter condicionado a espécie humana desde o princípio e. realistas como são. institucionalizando. e levando os índios não Pueblo de Sudoeste. e os da Costa Noroeste. É difícil. Na região de que estamos tratando. A cultura humana em geral tem se baseado. não se desfizeram delas. as instituições realistas aquelas que pareceriam ter sido menos completamente consideradas. Mesmo os índios das Planícies. É impossível dizer tudo aqui a respeito da consistência desta configuração realista entre os índios das Planícies ocidentais. contudo. os índios das Planícies o excesso e a submissão completa aos impulsos sem elaborarem situações de perigo. das quais o animismo e o incesto são aquelas que ocorrem a todo antropólogo. a adolescência como o fato do indivíduo tornarse adulto. Temos de contentar-nos em dizer.não de sua inimizade ou disposição à vingança. O temor do espírito de um morto . de modo semelhante. traz uma implicação que desejo evitar. de fato. São. precisamos aceitá-las como temos de aceitar o fato de possuirmos cinco dedos. imaginar uma cultura apolínea baseando-se em padrões de perigo fundamentais. essas situações de perigo a extremos. Para os fins desta exposição. Em se tratando do povo diretamente a oeste. as culturas dionisíacas são intercruzadas por esta antítese realista-não realista. que as culturas que institucionalizam a morte como perda. por certo. o casamento como escolha sexual.

poderíamos francamente referir-nos à atitude que é constatemente encontrada desde a Colúmbia Britânica até os Pima. precisa recair sobre este ato o mesmo castigo como se se tratasse de ter tirado a vida de um homem. Formas atenuadas da couvade são a regra para os Shoshone. O nascimento e a mulher em menstruação foram dois dos grandes pontos de partida para a elaboração de “mente débil” quanto ao horror e ao inexplicável.19 por exemplo. Lowie salienta o fato. Em qualquer outra parte do mundo que não a América do Norte. 145.diferenças de comportamento que desejo acentuar já foram apontadas por Lowie. os povos do Plateau. Stephen Powers. como os Pueblo ainda. Entre os índios das Planícies. University of California Publications of American Archeology and Ethnology. De um modo mais notável do que todos. Usam o poder sobrenatural para levar avante os seus próprios feitos como guerreiros. Ele dá notícia da mudança em aspecto emocional nos tabus menstruais17 e do desaparecimento dos costumes a isso pertinentes. de que os das Planícies. contrastam com os grupos ocidentais quanto ao fato de ignorarem o traço não realista de ficar o marido também recolhido por ocasião do nascimento do filho.1877. A mesma desinclinação é evidente na atitude contrastante para com o nome. Ainda mais. A couvade não é um traço das Planícies.. ibid. É uma ficção alheia às Planícies. como os Pueblo. salienta Lowie que entre os índios das Planícies ocidentais a vingança contra o médico-feiticeiro é atípica. 3:33. não se acha o traço. são denominações realistas em muito do nosso próprio sentido. Acredito que isto pode ser afirmado ainda com mais força. Entre os Karok. 17 18 19 Ibid. como feitiçaria. Há. p. talvez. Lowie. também. em contraste com as do oeste e sul (Navaho e Pima). os da Califórnia. 20: 145-156. e não para 16 “The Cultural Connection of California and Plateau Shoshonean Tribes”. Os das Planícies simplesmente não fazem nada deste padrão.18 Os nomes nas Planícies não constituem uma parte mística da personalidade de alguém. portanto. 149. não é uma questão de vida e de morte usar o nome de uma pessoa depois de sua morte. 16 .. “Tribes of California” Contributions to North American Ethnology. e ao assassínio do xamã como vingança tomada contra o feiticeiro. ao passo que é assinalada entre os Shoshone e os índios da Califórnia central.16. são características para sua cultura. Não constitui insulto pesado pedir o nome de alguém. um considerável número de razões para se pensar que a atitude que notamos nas cerimônias de luto nas Planícies.

Na fileira da frente estavam aqueles que tinham.. porém. e talvez para continuarem nessa dança por dois dias e duas noites. Mas se o guerreiro que tinha sido morto tivesse escalpado um inimigo antes de morrer. uma contemplação satisfeita do inimigo que foi morto. Velhos e velhas entoavam cânticos em que se mencionavam os nomes. é um triunfo sem inibições. Se membros do grupo guerreiro tivessem sido mortos.. dando tiros com suas espingardas e brandindo os paus onde estavam os escalpos arrancados. mesmo tristeza. será preferível. 6-22.. ilustrar as configurações que vimos de discutir por meio de outra situação: a situação do homem que matou outro. e não encontra lugar desde os Blackfoot até os Cheyenne. 22. A feitiçaria é a principal institucionalização do temor do mundo que tem o neurótico. ou para onde morava seu pai. Não há idéia do poder temível do escalpo.. op. O povo estava excitado e saudava-os com gritos.20. mas não por via de idéias de horror ou contaminação ligadas ao cadáver. Antes de se porem a caminho da guerra. e aí se dançava em sua honra. quando voltavam os guerreiros. na volta com os escalpos. ibid.. tudo é solenidade e devoção. Preparavam-se para dançar toda a noite. escalpos. As mulheres entoavam cânticos de vitória..21 Grinnell refere-se especialmente ao fato de que não se reconhecia por meio de cerimônias o sacerdote ou os seus serviços. Os parentes daqueles que se tinham colocado na primeira fileira. Tudo era alegria. para fins de clareza. uma festa de triunfo. A “dança do escalpo” dos Cheyenne é característica da configuração das Planícies. Tudo muda. não havia 20 21 Powers. Grinnell. Isto põe em relevo as atitudes que estivemos discutindo... Tremenda exaltação dionisíaca é atingida. a fim de obter a piedade do sobrenatural. O escalpo era emblema de vitória e motivo de regozijo. É uma ocasião de completa alegria... Antes de continuarmos com outros exemplos de práticas de luto em outras configurações. Os guerreiros invadem de surpresa o próprio acampamento pela madrugada. as faces sujas em triunfo “.. Aquele que faz o escalpamento não está sujeito a uma maldição que a dança tenha por função remover. Algumas lançavam os braços ao pescoço dos guerreiros vitoriosos. a hora preferida para o ataque índio. e a resposta a uma prece feita entre lágrimas. Toda a multidão se dirigia para onde morava algum homem valente. jogavam-se fora os escalpos e não havia a “dança do escalpo”. 17 .. testemunhavam a sua alegria dando presentes aos amigos ou às pessoas pobres. cit.fazer ameaças.

num pequeno buraco no chão. Há anos atrás. Seqüestrava o matador no mato. e prosseguia a celebração. e os “bravos”. mas. 18 . cada matador precisava retirar-se durante vinte dias de purificação ritual. mãos e pés ligados. o pai dá-lhe alimento na extremidade de uma longa vara. Gaillard. O fim da cerimônia Papago é o rito de lançar ao rio o matador. as inflexíveis cerimônias de purificação dos Pima quase anularam a sua utilidade às tropas do governo como aliados. tão grande era a honra. Isto fazia parte de todo o seu temor de “mente débil” diante de forças obscuras e inexplicáveis. Os velhos e velhas apareciam como palhaços. dando de quatro em quatro dias um mergulho no rio. após o que ele fica livre dos seus liames.23 Sua esposa tem que observar tabu semelhante em sua própria casa. Entre os Papago. Este comportamento das Planícies era inconcebível para os índios de grande parte do continente. e. American Anthropologist (série antiga). fosse qual fosse o tempo.ocasião para tristeza. Este pai tinha também matado e passado pelas cerimônias de purificação.a atitude oposta atinge o máximo. Na faixa sul dos Estados Unidos. 7: 293. o mudando aí ligeiramente as regras do jejum. 22. quando da luta armada do governo contra os Apache. Ele escolhia um “pai ritual” que cuidava dele e desempenhava os ritos. como se faltasse algo para acentuar a ausência entre os Cheyenne do terror e perigo relativos ao inimigo aniquilado. No décimo-sexto dia tem lugar a dança. diz Grinnell que alguns desses estavam vestidos de modo a representar os próprios guerreiros cujos escalpos eram o centro da cerimônia. O matador senta-se de novo em um pequeno buraco no centro do círculo de dança. homens que foram qualificados como guerreiros. Todo mundo participava da “dança do escalpo” De acordo com o seu caráter social ela estava a cargo de berdaches. Sua lealdade e bravura estavam fora de dúvida. que eram aqui os casamenteiros e constituíam “boa companhia” e que tomavam o lugar do parente do sexo feminino que usualmente tem papel tão saliente. dançam para ele. uma cavidade que lhe permite apenas a posição mais encolhida. dos Natchez até os Mohave ― com exclusão dos Pueblo.296. 22 23 Ibid. 3944. Sobre toda esta área o ponto essencial da “dança do escalpo” era o grande e perigoso poder sobrenatural do escalpo e a maldição que precisava ser removida do matador. D. 1894. Eles dirigiam por palavras as danças e traziam os escalpos. D. por enquanto . onde ele ficava jejuando por dezesseis dias. da vitória com os escalpos. depois da morte de um inimigo.

tem responsabilidades especiais. Ele abraça a bolsa. William Lloyd.24. Um pouco de cabelo do homem que ele matou é colocado pelo seu “pai” numa bolsa de pele de veado juntamente com uma pena de coruja para garantir a sua “cegueira” e uma pena de falcão para “matá-lo” e a cerimônia torna este remédio sujeito à sua vontade. Em Zuñi dizem que a mulher sobre a qual este ato recai é livre da maldição porque ela chega ao ponto de “agir como um animal”. ms. 8: 290. que são. Bureau of American Ethnology. 25 26 Kroeber. o qual foi aceito entre os Pueblo sem a reconstrução que seria necessária para pô-lo de par com as suas atitudes dominantes.de um lado. Aceito este fato. Em primeiro lugar.física e espiritualmente. New Jersey. Reports: 26: 204. 19 . podemos examinar a “dança do escalpo” dos Zuñi. chama-a “filha” e usa-a daí por diante para trazer chuva. The Pima Indians. Handbook. e é exemplo de um traço cultural difundido. de outro. e tornar o poder benéfico. como entre os Pima e Papago. o que tem poder . A cerimônia toda tem por fim anular um perigoso poder e livrar o matador da maldição. uma dramatização de atitudes ambivalentes para com o sagrado . Franz Boas “Keres Texts”. de modo que esta não é mais. o que polue. J. É absorvida no seu padrão de fornecer organizações fraternais formais para tratarem de todas as situações. 90. de que há notícias em Laguna 26 e Zuñi. a “dança do escalpo”. eles modificaram a libertação da maldição. A “dança do escalpo” dos Zuñi é uma iniciação à sociedade policiadora do sacerdócio do arco. Publications of the American Ethonological Society.mas é como qualquer retiro que se faz para se conseguir ser membro de uma sociedade. não há em Zuñi traço cultural que apresente tantas semelhanças com as instituições fora dos Pueblo como a “dança do escalpo”. Um destes é o ato de morder o escalpo. Westfield. 1911: e Benedict. Aw-awtan Indian Nights. E um reconhecimento quase suigeneris nesta cultura do estado de êxtase. A organização do sacerdócio do arco é complicada. bem conhecidos da região central da América do Norte. 24 Russell. contudo.25 Como salientei numa discussão anterior sobre o Sudoeste. e tinha que se incensar oito vezes por dia. Este ato é desempenhado em face de um forte sentimento de que o escalpo contamina. 752. Os Mohave tiveram uma cerimônia da qual temos menos pormenores. para ver em que direções ela se modificou nas suas mãos. Só o mestre de cerimônias podia tocar o escalpo durante as cerimônias de quatro dias. Do ponto de vista das atitudes Pueblo ela apresenta elementos flagrantemente atípicos.

De modo semelhante. Um lindo dia. um batismo em água pura. a limpeza do escalpo. Embora vivesse de destroços. Todos os filhos do Sacerdote do Milho Entoando os cânticos dos antepassados Dançarão para ele. Embora não tivesse valor. E quando os seus dias tiverem passado.) Embora o inimigo Quando vivo Fosse dado à falsidade.durante toda a vida. (Assim ele cresceu em importância. lambendo-se as gostas frescas de sangue. na “cerimônia do escalpo”.. Sua atitude é especialmente clara nas preces da “dança do escalpo”: Pois é certo que o inimigo. Como serão os dias. A maldição que recai sobre o matador e a libertação da mesma tomam lugar secundário com referência ao padrão de iniciação. Esse rito deve ser executado não só por ocasião da adoção. A idéia que fundamenta o ato entre os Zuñi é a da adoção de uma influência nova e benéfica no “status” tribal . Um bom dia. 20 . De muita alegria. Era um ser-das-águas E um ser-do-grão. Chegou à maturidade Graças à chuva caída pelas invocações dos Sacerdotes do Milho. o que é feito pelas irmãs do pai para dar “status” no clã. Então um bom dia. como do casamento e. de como as configurações Pueblo enfraquecem os comportamentos mais violentos.. Quando em água pura Vós tiverdes banhado o inimigo (escalpo) Quando na piscina do Sacerdote do Milho Ele tiver sido preparado. Vós esperareis com impaciência os seus dias (a “dança do escalpo”). Desejando as águas do inimigo. até se tornarem novo conjunto de funções sociais. seguramente. que em culturas mais dionisíacas é feita com a língua. Um dia de muito alarido.um exemplo claro. é para os Zuñi um rito de adoção. como vimos. Cobiçando os seus grãos E sua riqueza. Agora se tornou capaz de augurar Como será o mundo.

. deu-lhes a morte. seus auto-rebaixamentos não são..... Ethnology of the Kwakiutl...... Vou escolher arbitrariamente uma outra configuração contrastante.... eu.... 21 .... Bureau of American Ethnology Reports....... Franz Boas. Num grau menor. como entre as tribos do golfo da Geórgia. que encontra expressão em linhas como estas. Zuñi Ritual Poetry............ A busca de engrandecimento pessoal na Costa Noroeste é de tal maneira levada a efeito..27 Não é o terror.. está ausente em auto-glorificações tais como um discurso público Kwakiutl... que somos vossos filhos.. de modo patente...... que talvez em nenhuma outra parte do mundo seja tão bem ilustrada como na América do Norte...... Tanto a situação de perda de alguém por morte como a situação de assassinato mostram.. só o meu nome. Nosso chefe faz as pessoas cobrirem as faces pelo que ele está sempre fazendo neste mundo Dando sempre festas de óleo para todas as tribos. o grande Propulsor do mundo.... Bem feito! Bem feito!29 É francamente acentuada a competição num jogo de elevar o próprio “Status” e de proteger-se pela humilhação dos companheiros.... Pelo contrário.. fazendo-se o contraste com a sua beneficência presente quanto à chuva e as colheitas.. Bureau of American Ethnology.... mas equivalentes das auto-glorificações tão comuns entre os Kwakiutl. 1381.......Conosco... e quando se exerce a censura. fortes contrastes nas três configurações culturais norte-americanas que estivemos considerando...... Ibid.. nem o horror...... Bem feito! Bem feito! Eu vim rio-abaixo pondo fogo às tribos com minha tocha Bem feito! Bem feito! Meu nome. A censura sobre a qual se insiste em civilizações como a nossa.. que se aproxima de uma institucionalização do tipo megalomaníaco de personalidade. 35: 1291................. a atenção é voltada de um modo realista para a existência mortal sem relevo do inimigo... Reports: 43.. portanto..... Nosso chefe traz inveja às faces. Eu comecei no mais alto das tribos. expressões de humildade. Qualquer uma de suas canções serve para ilustrar o teor comum: Eu sou o grande chefe que faz as pessoas se envergonharem Eu sou o grande chefe que faz as pessoas se envergonharem Nosso chefe traz vergonha às faces..... 28 . Vós passareis...... esta busca de 27 28 29 Ruth Bunzel........

mas primordialmente como promovendo. não é como um fato na vida sexual da menina que ele figura na cultura deles. a morte.prestígio é característica dos índios das Planícies. ou júbilo igualmente violento. de acordo com o seu padrão. A puberdade de uma menina é um acontecimento para o qual seu pai acumulou riquezas durante dez anos a fim de demonstrar sua grandeza por meio de uma vasta distribuição de riqueza. o chefe. ou à quebra de tabu. todas do mesmo modo. podem ser afastados pela distribuição de riquezas. O sexo. Se não puderem ser. a resposta é perfeitamente característica: o amor-próprio é ferido e o homem retira-se para a sua cama por semanas. em outras regiões. São ocasiões para a requerida luta por prestígio. tira a própria vida. É uma simples birra o comportamento de uma pessoa cujo amor-próprio é tudo o que ela tem e que foi ferida no seu orgulho. provavelmente. a competição pelo insulto. mas como um degrau na escalada de seu pai para posição social mais alta. Uma vez que. Mas o quadro é agudamente contrastante. Não se preocupam em descobrir insultos em toda situação. O complexo de inferioridade. toda riqueza que é distribuída precisa ser devolvida com usura (do contrário aquele que recebe perderá inteiramente o prestígio) fazer-se alguém pobre é o primeiro ato na aquisição da riqueza. menos paranóides. Mas. nesta região. como o golpe dado por um machado ou o virar de uma canoa. pois isso envolve a distribuição de toda a sua riqueza. ocasiões para livre gasto de energia de diferentes modos. São tudo. constituem todos matéria-prima quase equivalente para padronização cultural a este fim. Este extremo de sentimento próprio negativo está bem distanciado das manifestações de vergonha devidas a exibições indecentes. nunca foi institucionalizado com tanto alarde. até dos vigamentos de sua casa. ou talvez. não como ocasiões para pesar violento. Mesmo uma briga com a esposa é coisa que só um grande homem se pode permitir. a guerra. Os índios das Planícies não institucionalizam o complexo de inferioridade e suas compensações. o ciclo de vida. Mas é em termos desses determinados conjuntos psicológicos que a busca de engrandecimento pessoal é levada a efeito na cultura da costa do Pacífico Norte. e. Todos esses acontecimentos ameaçam a segurança do ego dos membros dessa civilização de tipo paranóide. se tem bastante riqueza para 22 . Todas as circunstâncias da vida são consideradas na Costa Noroeste. Encara-se como insultos a maior amplitude de atos. não somente atos pessoais depreciativos mas todos os acontecimentos infelizes. portanto para ela própria também.

“eles lutam” também. ele reuniu os guerreiros. mas por doença ou acidente. A morte de um parente. um ano depois da morte e no qual era distribuída esta riqueza. A pessoa que sofreu a perda era perigosa na maneira por que o é qualquer homem que tenha ficado deploravelmente envergonhado. a morte era usada.atividade sem dúvida que se refere a idéias de propriedade e prestígio e de cerimonial de inverno entre os Haida. De modo semelhante. nesta região. ou porque seu barco virara ou porque beberam uísque ruim.esta distribuição de propriedade. era uma afronta a ser apagada pela morte de uma pessoa de outra tribo. saudará a ocasião. Entre os Haida31 o grande potlutch fúnebre. 23 . Esta reinterpretação da situação de perda por morte em termos da “luta com a riqueza” é. cit. op. com um funeral. aos membros da fratria do hospedeiro por parte dos membros da fratria dos hóspedes. justamente como a ocasião da primeira menstruação da menina ou a de uma disputa doméstica. e não à perda envolvida na morte. mas o serviço da fratria oposta significando o seu tributo à grandeza do morto. 30 31 Boas. John R. e o fato de que os parentes do falecido podem recompensá-los. Mesmo o corte de cabelo por luto tornou-se não um ato de pesar por parte dos parentes próximos. organizava-se em torno da transferência da qualidade de membro da sociedade hibernal de dança. Como dizem os Kwakiutl “eles lutam com a riqueza” ― isto é.30 Isto aparece claramente na reinterpretação da situação de pesar por morte. como retribuição à riqueza que estava sendo distribuída a eles . Swanton. é também outro passo para cima na busca de prestígio e aquisição de riqueza. 5: 176. 179. Todos os serviços para o morto são executados de modo semelhante. Jesup Expedition Report. Quando a irmã do chefe Neqapenkem e sua filha não voltaram de Victoria. O que a sociedade acentua por ocasião de morte é a distribuição de riquezas por parte da fratria enlutada para a fratria oposta encarregada dos ritos. não apenas numa guerra. apenas uma parte do padrão de comportamento da Costa Noroeste. Sem referência ao seu caráter de situação de perda ou de perigo. para demonstrar a boa situação econômica do grupo familiar e para rebaixar os pretendentes rivais à riqueza semelhante. como um degrau na escada da ascensão. The Haida. contudo. para alcançar e manter status baseado na riqueza e nas prerrogativas herdadas. portanto. As pessoas ficavam envergonhadas até que se tivessem acertado as contas. da mesma maneira que faz quando da puberdade da filha. diziam as pessoas. Está acomodado também ao padrão de preocupação com o insulto. nem mesmo ao perigo associado ao cadáver ou ao espírito.. 1359.

os enlutados. Neste pequeno esboço acentuei os aspectos diferenciados do luto na Costa Noroeste e omiti a forte institucionalização da morte como impureza. à medida que se elaborou na configuração da Costa Noroeste. E assim eles mataram o anfitrião e sua esposa. quem irá lamentar? Irei eu. isto se tornou. Cit. O traço original sobre o qual é construída é preservado entre as tribos ao sul.33 Trata-se aí de pura caça de cabeças. A “dança da vitória” tornou-se permanente. ela constitui uma das organizações de prestígio mais elaboradas de que temos notícia. Começaram então com ritos guerreiros completos para “fazer afundar” o Saneteh pelos parentes mortos do chefe. Isto é institucionalizado de diversos modos em diferentes tribos. Aqui a morte é institucionalizada em práticas tais como esta. as mulheres ao darem. Meu príncipe morreu hoje e você irá com ele. voltou contar-lhe as novas. Depois de terem comido.34 Tanto a preocupação com prestígio como a preocupação com insultos. op. Isto não se chama guerra. Chefe.. à luz.” E Qaselas e seu bando sentiram-se bem quando chegaram a Sebaa pela tardinha . op. Primeiro era uma “dança de vitória” com a cabeça do inimigo segura nos dentes. 24 . sendo este traço comum a regiões que discutimos. Foram recebidos por Nengemalis na primeira parada que fizeram. este. Encontraram sete homens e duas crianças adormecidos e mataram-nos com exceção de uma menina que conservaram cativa. 1363. a dança 32 33 34 Boas. Não há área que tenha levado mais além a idéia de impureza . as mulheres em menstruação. todos são impuros. homens e mulheres após relações sexuais. fundamentam também o comportamento centralizado em torno do assassinato de um inimigo.“Agora. tendo morrido o filho do chefe Qaselas. nesta região. cit. 1385. Eles levantaram o bastão de guerra e os outros se adiantaram dizendo: “Viemos aqui pedirlhe para ir à guerra. pois qualquer outro pode fazer as lamentações pela morte de nossa irmã”. tribos. seu irmão e seu tio saíram para apagar a nódoa.. Como mostrou o Professor Boas. deixe isto para algum outro das tribos”. pergunto a vocês.. institucionalizando as sociedades as prerrogativas mais ferozmente guardadas dessas tribos. uma versão paranóide do sentimento de perda por morte. que permanece quase único na América do Norte. na medida em que entra em conflito com os mecanismos de prestígio. disse Qaselas: “Então Chefe. ou algum outro?” O principal respondeu: “Você não. Boas. como o principal exemplo dos incontáveis acontecimentos infortunados da vida que perturbam o orgulho de um homem e são tratados como insultos.32 Ainda mais.. mas “morrer com aqueles que estão mortos”.

de modo que se uma pessoa foi morta pelas minhas mãos. porque ele pagou para não ser morto em troca. British Association for the Advancememt of Science. que atuam normalmente apenas durante a estação hibernal. Isto. não se tinha por certo que a nódoa sobre o nome do grupo local do chefe morto tivesse sido 35 12th and Final _Report on the North-Western Tribes. então seu grupo local teria sido desonrado. e a forma final na Costa Noroeste da idéia original da “dança da vitória” é. sempre funcionam numa época de guerra. de um lado. Ele não pagou. não só pela morte de parentes. o padrão levou à institucionalização da caça de cabeças com todas as suas regras rígidas de procedimento. 1898. A situação do que mata não é. e a configuração de vida para eles necessariamente difere. Só pagam aqueles que são fracos de espírito”. portanto. mas pela de uma vítima. rigidamente prescritas das quais a qualidade de membro estabelece e valida o status social. e foi morto em vingança.36 Sendo a força dominante a competição por prerrogativas. essas sociedades secretas constituem as grandes confirmações de prestígio e de riqueza pela distribuição de posse. portanto. Meled matou o chefe do grupo local Gexsem. “Se ele (Meled) tivesse pago uma moeda ou se tivesse dado sua filha em casamento ao irmão mais velho daquele que ele atirou. particularmente. É óbvio. de outro. é uma situação de distribuição de grandes quantidades de riqueza para validar os privilégios que ele tomou por violência no momento em que (incidentalmente. 36 25 . Precisamos compreender. a despeito da morte de Meled. pela natureza do caso. mas o que aconteceu constituía uma desgraça para o grupo local dela e. e as sociedades. Uma grande parte da tribo não constitui mais do que a assistência desses atores principais. a de sociedades secretas enormemente elaboradas. é o tirar a vida perde importância diante do imenso edifício do comportamento próprio à configuração da Costa Noroeste. A mãe desse chefe pagou ao vingador um escravo. Ora. que este jogo de prestígio da Costa Noroeste pode ser desempenhado apenas por membros selecionados da comunidade. seja qual for a estação. e. quanto a comportamento institucional) tomou também a vida do proprietário. daqueles que constituem a assistência. eu posso reclamar suas prerrogativas. diferente se torna a situação da pessoa que matou outra. Mas o homem que o matou à primeira vista não era membro do grupo local do chefe cuja morte estava vingando.canibal35 e o padrão das sociedades secretas. a de burlar uma aterrorizante maldição ou de celebrar um triunfo de bravura pessoal. 51. Podem-se obter prerrogativas. Tal como na situação de perda por morte. de acordo com a idéia deles. Os dançarinos das sociedades secretas Kwakuitl são ainda considerados “guerreiros”. essas culturas de “fãs” e as atitudes psicológicas características dos atores.

26 . da Sibéria. como não se pode facilmente encontrar em outras regiões. em cada área. 1360. por exemplo. Ele descreve as obrigações recíprocas de gente do mar e de terra. de marido e esposa e de outros determinados parentes em reciprocidade e daí deduz que “tradição” é uma palavra fraca invocada pelo antropólogo para encobrir a nossa ignorância daquilo que realmente mantém coesa a “sociedade”. Radin. mas não extensivo à toda a cultura primitiva. especialmente de cultura material. entre os nossos exemplos mais importantes de primitivos. A este se permite iniciativa institucionalmente garantida em sua vida. altamente incaracterístico. p. Primitive Man as Philosopher. Mas esta organização da sociedade aqui é de um tipo definido. quanto à iniciativa pessoal muito grande. op. e todos os homens teriam deixado de falar sobre isso.. então não teria havido desonra para o seu grupo. é um fato de primordial importância entre os Winnebago e os índios das Planícies ocidentais. Trata-se de uma atitude a ser estudada. digamos.. O mesmo é verdade também da descrição de Malinowski do modo pelo qual os Trobriandeses os povos da Melanésia em geral. Basta comparar esses índios com os Pueblo. independentemente.apagada. que são independentes de muitos dos fins e virtudes que uma sociedade pode fazer para si mesma. sustentou de modo muito convincente. Não quer dizer que a sorte do arco enrolado com tendões de animais dependerá do fato de ser a cultura dionisíaca ou apolínea.fizeram da reciprocidade um traço básico de comportamento na sua cultura. função que é desempenhada pela reciprocidade. para se compreender que a hipótese de Radin. a grande importância da individualidade e da iniciativa individual “entre os primitivos”. 32 e seg. antes de tudo. cit. Mas o âmbito de aplicação do ponto que estou apresentando é contudo maior do que geralmente se supõe. portanto. Há naturalmente aspectos de cultura. É absorvida na configuração característica desta região e feita para servir as tendências dominantes na sua cultura. baseado no material Winnebago.38 Ora. grande valorização cultural ao indivíduo. os índios das Planícies e os Winnebago dão. segundo todos os observadores. e fundamental em 37 38 Boas. 37 A morte na Costa do Pacífico Norte é. uma situação de insulto e uma ocasião para a validação de prerrogativas. “Se outro homem do grupo local Gexsem tivesse matado Meled. de chefe e subordinados. das duas divisões da casa. bem podemos acrescentar .

é que isto põe de lado o ponto crucial. Leipzig. As configurações culturais estão. 1916. para o tipo ciclóide e para o tipo esquizóide. mas do ponto de vista do indivíduo no limiar dessa sociedade. Reconhecese que. Como dissemos.qualquer descrição da Melanésia. é esta escolha da sociedade que constitui o ponto crucial do processo. ou as sociedades secretas como devidas ao caráter exclusivo dos grupos de idade e de sexo. É provável que haja potencialmente mais ou menos a mesma amplitude de temperamentos e dotes individuais. com proporções gigantescas e uma longa duração de vida. O fato central é que a história de cada traço é compreensível exatamente em termos de ter passado pelo crivo da aceitação social. naturalmente. O grau de integração que pode ser alcançado é. na compreensão ou mesmo na mera descrição do comportamento individual. ainda está por definir. as culturas são projeções ampliadas da Psicologia Individual. Science. 63: 193-201. é 39 40 William Stern. aquele que diz respeito ao ajustamento do indivíduo à sua sociedade. No campo psicológico não se dá mais ao comportamento a mesma interpretação. é ponto crucial. certos desses traços para se constituir. A fórmula é sempre sem valor diante da situação oposta. mas a escolha social que elegeu a sua institucionalização nessa cultura. é ainda mais imperativo na Psicologia Social. Esta é uma interpretação de Psicologia Cultural tirada da Psicologia Individual. onde são sobrepujadas as limitações de tempo e de conformidade. Die menschliche Personlichkeit. nessa região. Isto envolve um outro aspecto do problema de configurações culturais. digamos. 27 . o qual não é a ocorrência do traço. onde a diferenciação individual tem sempre que ser limitada pelas formas culturais e pela curta duração de uma vida humana. Deste ponto de vista. para a compreensão do comportamento de grupo. Johann Ambrosius Barth.40 A dificuldade de se interpretarem as prerrogativas do marido como devidas ao ciúme. e certos outros para por de lado. Na interpretação das configurações culturais tal como apresentei nesta discussão. a organização da personalidade total.39 Se isto é verdadeiro na Psicologia Individual. maior do que o que sempre se pode achar na Psicologia Individual. mas não está sujeita às objeções que sempre se tem que opor a versões tais como as de Frazer ou Lévy-Bruhl. Vide Clark Wissler. na relação em que os tipos de personalidade estão para a compreensão do comportamento individual. 1919. De que modo ela está ligada às atitudes fundamentais. cada cultura já escolheu. sem comparação.

ele se inclinou tanto para uma delas. os dionisíacos que nasceram entre os índios norte-americanos que não os Pueblo. Mas o grupo já fez sua escolha daqueles dotes e peculiaridades humanos que irá usar. o apolíneo. ou de 28 . os que são sujeitos a “ilusões de referência” que nasceram na Costa Noroeste. ou que são o resultado de condicionamentos feitos bem cedo na família. a fará inclinar-se ainda mais. que manipulação alguma pode mudar agora sua direção. os apolíneos que nasceram entre os Pueblo. mal ajustada é a pessoa cujo tipo de disposição não é acentuado pela sua cultura. Pode-se supor sempre. Na medida em que sua cultura se encaminha numa direção que lhe é alheia. com toda a probalidade. será ele que sofrerá. A pessoa que é muito sensível a referência pessoal em qualquer situação da vida. a pessoa que tende a entregar-se violentamente ao pesar está culturalmente bem aparelhada entre os Cheyenne.os de tendências realistas que nasceram entre os índios das Planícies ocidentais. ou de sobriedade. que uma boa maioria de qualquer população será completamente assimilada aos padrões de sua cultura . Na situação particular que estivemos discutindo. aquela que teme a expressão violenta e que deseja recobrar-se da situação penosa com um mínimo de expressão. mesmo na morte. é afastado da atividade social enquanto não pode aprender a tomar para si o comportamento institucionalizado local. portanto. na Califórnia. A compreensão inteligente da relação do indivíduo para com sua sociedade. em Isleta. A pessoa que não interpreta prontamente os acontecimentos externos como insultos. sem contestação.provável que mais ou menos a mesma amplitude de temperamentos individuais seja encontrada em qualquer grupo. apenas com extrema dificuldade pode ter função entre os índios da Costa do Pacífico Norte ou do noroeste da Califórnia. encontra suas tendências paranóides bem canalizadas entre os Kwakiutl De modo contrário. envolve sempre a compreensão dos tipos de motivações e capacidades humanas acentuados em sua sociedade e a coerência ou incoerência destes com aqueles que são inatos no indivíduo em questão.aprenderá a ver a vida em termos de violência. São mais afortunados aqueles cujas disposições inatas estão de acordo com a cultura em que acontece terem nascido . É claro que não há qualquer descrição generalizada possível do tipo divergente ele representa aquele conjunto de capacidades humanas que não é acentuado na sua cultura. O dionisíaco que nasceu entre os Pueblo precisa reeducar-se ou então nada será na sua cultura. De modo semelhante. Das pequenas tendências nesta ou naquela direção. A maioria das pessoas que nascem na cultura tomará a tendência desta e.

Mas a pessoa que nada é na sua sociedade. Algumas sociedades puseram toda esta matéria-prima em harmonia notória com este impulso dominante. e o luto. mais facilmente podemos ver que a variabilidade quase infinita de qualquer traço cultural. Uma outra força maior esteve em ação. mesmo o enumerá-las deste modo torna forçosamente claro o quanto é difícil encontrar tais exemplos. É verdade que tem havido instituições humanas que mostram esta correspondência direta com emoções humanas simples: as práticas mortuárias que expressam pesar. o casamento usualmente expressa outras coisas mais flagrantemente que não a preferência sexual. força que usou as situações recorrentes de casamento. a agricultura e a vida econômica em geral estabelecem-se usualmente outros fins que não a satisfação da procura de alimento. Temos em demasia o hábito de estudar religião. Quanto mais intimamente conhecemos a ação interior de diferentes culturas. como se o fato fundamental sobre eles fosse uma reação humana universal: como o temor. na sua 29 . de modo notório. quase que como matéria-prima. morte. aprovisionamento.41 Muitas não o fizeram. e elaborou-as para expressar seu próprio intento. Sapir sustenta que uma coerência própria legítima que proscreve as pretensões hipócritas é a marca de uma “cultura autêntica”. a pessoa inaproveitável. não é um tipo a ser especificado e descrito na base de uma psicologia anormal universalmente válida. conforme o caso. Parece-me que as culturas podem ser sólida e harmoniosamente construídas sobre fantasias. não é a manifestação das variabilidades de alguma simples reação humana subjacente. quando o acompanhamos pelo mundo. ou o “instinto da aquisição” dos quais derivam. Contudo. ou os complexos de propriedade.insultos. os costumes de casamento que expressam preferência sexual. por exemplo. ou complexos de inferioridade. Na verdade. A pessoa que tem uma tendência inextirpável para encarar os fatos e evitar a hipocrisia pode ser proscrita de uma cultura que é contudo. e entregar-se ao máximo em hipocrisia e pretensões. Esta força que inclina as ocasiões para seus objetivos e as amolda a si podemos chamar o “impulso dominante” dessa sociedade. e o resto. as práticas agrícolas que começam e terminam com o suprimento da tribo. Tudo isto tem um significado muito importante quanto à formação e ao funcionamento dos traços culturais. apenas representa o tipo não acentuado pela sociedade em que nasceu. sociedades estas a que Sapir. digamos. aprioristicamente teria permitido chamar de “culturas autênticas”. não traduz o pesar. padrões de medo.

eles podem ter recebido demasiadas influências contraditórias de diferentes fontes externas e sido incapazes de reduzi-las a um denominador comum. o desenvolvimento de um estilo de arte. Mas a configuração da cultura contudo. a realidade de tais “configurações de cultura” que está em questão. Em ambos. Muitas culturas nunca atingiram esta harmonia completa. podemos sem dúvida traçar a influência de indivíduos dotados que inclinaram a cultura na direção de suas próprias capacidades. não torna desnecessário estudar a cultura deste ponto de vista. 30 . 41 E. ou se em algumas regiões há muitos desses pertencentes a uma só área cultural definida de acordo com traços mais visíveis. As descrições de cultura deste ponto de vista precisam incluir muita coisa que o trabalho de campo mais antigo ignorou. artísticos. os traços que não tem afinidade com ela. sempre transcende os elementos individuais que entraram na sua formação. Há povos que parecem oscilar entre diferentes tipos de comportamento. todas as nossas proposições são puro romancear. se tivermos os dados disponíveis. por exemplo. se tivermos os dados.própria base. 1924. pondo de lado. e outros que solidificam sua atitude e a fazem explícita. como nenhum indivíduo pode fazer. contudo. podemos ver a integração gradual de elementos e a dominância crescente de alguns poucos impulsos estilísticos. É. Porque uma configuração é bem definida não quer dizer que seja honesta. Em ambos. Estamos ainda demasiado impossibilitados pela falta de descrições de cultura relativas a tais fatos. A configuração cultural se constrói por gerações. Ela toma para si modos de expressão rituais. Eu não acho que o desenvolvimento de tais configurações em diferentes sociedades seja mais místico ou difícil de entender do que. Estes impulsos dominantes são tão característicos de áreas particulares quanto o são as formas das casas ou as regulamentações da herança. 29: 401-417. e sem o trabalho de campo pertinente. Como a nossa própria civilização. Mas. American Journal of Sociology. para sabermos se as distribuições de impulsos são coincidentes com a distribuição da cultura material. Genuine and Spurious”. assim como o fato de lerem algumas línguas oscilado entre diferentes artifícios gramaticais fundamentais na formação do plural ou na designação do tempo. o fato de que certos povos assim não fizeram. Sapir “Culture. não torna desnecessário estudar as formas gramaticais. simétrica e harmoniosa.