Edgar Allan Poe e a Síndrome de Cotard.

Também conhecida como Delírio de Negação, trata-se de uma raríssima patologia neuropsiquiátrica na qual o paciente acredita estar morto e putrefato, podendo chegar a sentir até mesmo o cheiro do próprio corpo em decomposição e vermes rastejando sobre ele. Além de dizer-se desprovido de sangue e órgãos internos, o paciente também consegue descrever em detalhes a hora e a situação de sua morte. Apresentada à Société Médico-psychologique de Paris em 1880 pelo neurologista francês Jules Cotard, foi considerada uma nova espécie de depressão grave e psicótica E, realmente, a síndrome de Cotard consiste em um estado de melancolia e ansiedade com paroxismos de uma agitação maníaca. O delírio tende a surgir em pacientes com histórico de esquizofrenia e transtorno bipolar; seu conteúdo explicitamente niilista, estabelece relações com um profundo estágio de depressão e também com a Síndrome de Capgras (na qual o paciente tem certeza de que todos à sua volta são clones impostores). O paciente perde a capacidade de compreensão e exercício da fala, passando a negar não apenas seus órgãos internos, mas também a sua própria imagem refletida no espelho - que é descrita como "apagada e esmaecida". Por acreditar-se morto, o paciente deixa de se alimentar, higienizar e relacionar com as outras pessoas. E, se alguém tentar lhe dizer que não está morto, ele provavelmente responderá que o outro também está cadavérico, mas ainda não sabe disso. Enquanto que em estágios avançados o doente nega a existência do mundo e a sua própria, em casos mais leves pode manifestar-se um sentimento de angústia e desespero durante um quadro passageiro de transtorno depressivo unipolar. Mas, de uma maneira geral, a analgesia (completa ausência de dor física) e a automutilação são características presentes e, embora raramente consiga consumar o ato devido ao seu total desequilíbrio, são inúmeras as tentativas de suicídio. Cotard relatou o caso de um homem que, nas raras vezes em que conseguia dizer algumas palavras - e ainda assim com péssima dicção -, repetia que todo o seu corpo havia sido destruído e que restaram-lhe apenas os seus olhos - e que, portanto, não podia ouvir, falar ou mover-se. Há ainda uma outra mulher que vestiu-se com um sudário, pediu à família para que a enterrasse e, não tendo atendido o seu pedido, permaneceu deitada em seu caixão até que realmente veio a falecer. Outro caso famoso foi de um motoqueiro que se acidentou e depois de ficar muito tempo no hospital, acabou sendo transferido para outro país. E quando ganhou alta, começou a pensar que estava no inferno e que tinha morrido. Ele teve que ser tratado, pois dentro de sua mente a vida tinha acabado e ele nada mais era que um morto. Outro caso foi de um menino, que sofria dessa síndrome de maneira esporádica. As vezes ele agia como uma pessoa normal, mas em alguma épocas acreditava estar morto. Além disso, ele enxergava todas as coisas a sua volta como mortos, não conversava com as pessoas durante as crises e seu organismo ficava todo descontrolado. Até as tentativas de criar situações prazerosas eram ignoradas, pois ele se sentia excluído do mundo dos vivos. Alguns biógrafos afirmam que Edgar Allan Poe, eminente poeta/escritor de terror norte-americano no século XIX, apresentava sintomas da Síndrome de Cotard em seus últimos meses de vida.

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