REAL, SIMBÓLICO E IMAGINÁRIO, EM LACAN

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Thaïs Machado Moraes Correia**

Resumo: Partindo da concepção cartesiana do dualismo corpo-mente, a autora aborda uma nova lógica que, na psicanálise de orientação lacaniana, é chamada de trilogia por amarrar três registros inseparáveis entre si: real, simbólico e imaginário. Assim, ao elucidar o modo pelo qual a experiência psicanalítica visa expor a singularidade do sujeito – via sintoma e outras formações – , este trabalho aponta para novas possibilidades de se pensar a subjetividade no mundo hiper-moderno. Palavras-chave: Psicanálise. Topologia psíquica. Trilogia lacaniana. Real, simbólico e imaginário (RSI). Lacan, Jacques. Abstract: Starting from Cartesian conception of body-mind dualism, the author handles a new logical approach that, in lacanian-oriented psychoanalysis, is considered a trilogy for bonding three inseparable features: real, symbolic and imagianary. Thus, by elucidating the way psychoanalysis exposes the subject´s singularity - by synthom and other formations -, this work indicates new possibilities of thinking about the subjectivity in the hypermodern world. Keywords: Psychoanalysis. Psychic topology. Lacanian trilogy. Real, symbolic and imaginary (RSI). Lacan, Jacques.

* Texto apresentado durante a XIV SEMANA DE FILOSOFIA – UFMA: ESTADOS MENTAIS, na mesa-redonda Abordagens lógicas e simbólicas para os estados mentais. São Luís / MA, 09.12.2004 **Psicanalista; psicóloga (UGF-RJ); pós-graduada em Psicofisiologia do Comportamento (UFMA); especialista em psicoterapia infanto-juvenil (UFRJ);especialista em filosofia contemporânea(UFMA); professora assistente do DEFIL-UFMA; membro aderente e coordenadora da Escola Brasileira de Psicanálise (Delegação MA). E-mail: thais@elo.com.br .
Ciências Humanas em Revista - São Luís, v. 3, número especial , junho 2005

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Não vamos aqui passar uma borracha na desavença irredutível que opõe a psicanálise à filosofia. O corpo não se confunde aí com o organismo. Corpo imaginário. das certezas. Cabe à psicanálise e não à filosofia elaborar uma teoria do sujeito adequada à experiência freudiana. mas devemos colocar questões acerca do fato de que a psicanálise não pode rejeitar a filosofia e fazer a ressalva de que a filosofia pode e deve retomar a idéia do inconsciente. a impossibilidade que o define é a da relação sexual. claudica e que se distingue como o que escapa às idéias. de “desamarramento”. de produção do novo. ao invés deste dualismo cartesiano. Como diz Lacan. em Lacan. portanto o impensável. a razão está ligada à consciência. como o que interpreta cada sujeito ao habitá-lo. daquilo que manca. Pensemos antes numa “amarração”. da busca da coerência de pensamentos. o imaginário). Para isso. Simbólico e Imaginário. o corpo real ou real do corpo.A tripartição lacaniana real. à simbolização. pois. Lacan construiu um inconsciente sem profundidade – estruturado como uma linguagem e não por forças obscuras ou representações imperceptíveis. Se para a filosofia. é relativo ao gozo. de 98 Real. depositário das mazelas do sujeito. sem que esta a ele se restrinja jamais. oposto assim ao do inconsciente – neste repousam as possibilidades de criação de significantes. O campo do sentido é um campo “fechado”. às palavras. o corpo imaginário. simbólico e imaginário constitui a base da contribuição de Lacan à psicanálise. O corpo e a mente são duas categorias consagradas a partir da modernidade com Descartes e entranha todo o senso-comum. simbólico e imaginário. Há. A psicanálise. Freud esteve à frente de seu tempo ao dizer que o eu é corporal – uma massa de representações: idéias. ou em âncoras para esta subjetividade que se erige. “Freud nem sempre é freudiano”. com tudo que ela implica. psicologia e saberes vizinhos. sentido. mas também. ela própria manifestada pela angústia de castração. portanto. isto é. Este equivale ao que Freud diz do corpo como sendo o eu (o eu é. pois ela oferece alcance e inteligibilidade aos grandes segmentos da obra de Freud. é o fundamento de toda a ciência contemporânea a exemplo da medicina. trabalha com a trilogia: Real. e principalmente. ao sentido. porque necessariamente estava preso ao discurso de sua época. relativo ao sentido (que é produto do entrelaçamento do imaginário e do simbólico). é. O corpo é eu. a ponto das sintomatologias histéricas desrespeitarem qualquer estudo de neurologia. Estamos aí no registro do real onde Lacan sublinha sua prevalência assumida na psicanálise. Então. o que o sujeito do organismo interpretou. que demonstra que o “eu não é senhor em sua própria casa”. é preciso nos perguntarmos acerca da razão que está em jogo na filosofia e na psicanálise. aquilo que serve de apoio à estruturação da subjetividade. como se prefere dizer. pois. em Lacan . a partir de Lacan. é. qual seria então a lógica do inconsciente? Em oposição a uma concepção romântica do inconsciente como baú.

quanto a todo o universo. Há a Mãe. paralisa. depositado em um semelhante. 1). Lacan nos diz que a letra mata: ela mata o real que havia antes da linguagem. p.] é um tipo de tecido interno. 44): [. no gozo do sintoma. É a esta falta que o sujeito oferece-se para completar. ele será. p. o corpo é assimilado como autônomo e o que chamamos de gozo diz respeito aos furos do corpo”. R I a S Podemos pensar um tempo anterior à linguagem. A este Outro é atribuído um corpo. Segundo Bruce Fink (1998. e a este corpo uma falta. na pulsão. Ocorre que este Outro do simbólico é imaginarizado pelo sujeito. Ciências Humanas em Revista . v. entrelaçado de forma a ser completo em todos os lugares não havendo espaço entre os fios que são sua matéria. como primeiro Outro encarnado. a lógica do significante (simbólico) e o gozo (real). junho 2005 99 .. ele é encarnado. às palavras. No texto Corpo furado. É um tipo de superfície ou espaço plano e sem emenda que se aplica tanto ao corpo de uma criança antes da entrada na ordem simbólica.. número especial . O real de Lacan é sem zonas ou subdivisões. Demos a ele um nome: real. por exemplo. onde podemos buscar referência no estádio do espelho que trata da erogeneização do corpo próprio. conforme a subjetividade e não de acordo com a lógica anátomo-patológica. há o tesouro de significantes. que coincide com o erigir de uma subjetividade. indiferenciado. onde esta se presentifica como furo na imagem). 3. presente no gozo sexual. Assim encarnado. identificação do S1) e ideal do eu (registro do imaginário.São Luís.anatomia ou fisiologia… Ele dói. Do ponto de vista espacial. na fala) que está na base de sustentação do eu. assim encontramos: “O corpo é apreendido como comportando furos. E no simbólico? Aí há uma referência de Lacan ao corpo do Outro. Isto é. tem disfunções. da falta não especularizável. O eu constituindo-se sustentado por 2 pilares freudianos (registro simbólico. com um interior e um exterior. isto é. onde pode de fato vir o saber. Abordaremos esses três registros em seus aspectos mais fundamentais: o estádio do espelho (imaginário). aquele que sabe. o corpo de significantes. Toda falicização do corpo na identidade primordial equivale a uma satisfação (gozo fálico. ao estruturar-se como sujeito. tórico do psicanalista Jairo Gerbase (1998.

nunca suga tudo do real para dentro da ordem simbólica. na impossibilidade da relação sexual. Ele existe fora ou separado da nossa realidade. a linguagem sem dúvida nunca transforma completamente o real. A existência é um produto da linguagem: a linguagem cria coisas que não tinham existência antes de serem cifradas. ser pensado e falado. não estamos interessados em um resto qualquer – mas.Ao neutralizar o real. Ele se situará como ex-sistente – fora do campo demarcável. E quando se traz à baila o imaginário. Na análise. simbolizadas ou verbalizadas.12. portanto. na organização do estádio do espelho. resta a ser simbolizado ou resiste à simbolização. e o real. É no sintoma que identificamos o que produz no campo do real. Inibição. O que não pode ser dito na sua linguagem não é parte da realidade desse grupo. pois “este menor que se imagine” traz à baila o imaginário. Lacan diz. simbólico e imaginário. O real. têm um sentido. Lacan (1974/175. Esse real se definirá precisamente como o impossível. ele se articulará numa representação borromeana com os vazios constitutivos do simbólico e do imaginário. p. São três sentidos diferentes. Na medida em que lhe é conferido o estatuto de um vazio. mas reencontrado.1974. na cadeia significante. ela própria manifestada pela angústia de castração. Cada um desses domínios encontra um fundamento na estrutura originaria do aparelho psíquico. uma vez que isso faria da análise um processo verdadeiramente infinito. diz Lacan. a nos veicular com palavras. Quando começamos. têm-se todas as chances de se atolar. O real talvez seja melhor compreendido como aquilo que ainda não foi simbolizado. em Lacan . o simbólico. Se pensarmos o real como tudo que ainda não foi simbolizado. o simbólico cria a realidade entendida como aquilo que é nomeado pela linguagem e pode. Ele ex-siste. É possível pensar o real como simbolizado progressivamente durante a vida de um sujeito. A ex-sistência do real como impossível difere-se da realidade. uma vez que ele precede a linguagem. A impossibilidade que o define é a da própria relação sexual. Podemos dizer que o real é o que é estritamente impensável. então. mas concentrar-se naqueles fragmentos do real que podem ser considerados como tendo sido traumáticos. que essas três palavras: real. O imaginário. 3) assim se expressa: 100 Real. A construção social da realidade implica em um mundo que pode ser designado e falado com as palavras fornecidas pela linguagem de um grupo social. fica sempre um resto. naquela experiência residual que se tornou um obstáculo para o paciente. simbólico e imaginário. O sintoma é efeito do simbólico no real. diz Lacan. no seu seminário de 10. O real não é encontrado. não existe. a rigor. O objetivo da análise não é simbolizar à exaustão cada última gota do real. vemo-nos logo em armadilhas. não existe. sintoma e angústia são heterogêneos entre si com os termos RSI.

em maio de 1955. “O que é imaginário? Há algo que faz com que o ser falante se mostre destinado à debilidade mental”. Esta é a menor das suposições que o corpo implica. Se a consciência supõe que haja antecipação de sentido. seríamos luas – é esse registro que lhe dá consistência. número especial . Se o corpo não fosse imaginário. Quando afirmamos que o registro do imaginário dá consistência ao corpo – portanto ao eu. mas é para reduzir este sentido que vocês operam. Lacan havia dito que “não há meio de compreender o que quer que seja na dialética analítica se não afirmarmos que o eu é uma construção imaginária”. inseparável da idéia do aparecimento de algo novo. E isso resulta tão somente da noção do imaginário. Lacan vai dizer que há frustração imaginária de um objeto real. sustenta Lacan neste seminário. e onde sua representação nada mais é que o reflexo do seu organismo. é diferente do Simbólico. lembro-me de alunos de filosofia que perguntaram a Lacan como alguém podia sair de sua consciência. que nos surpreende. castração simbólica de um objeto imaginário e privação real de um objeto simbólico1. É que. Ciências Humanas em Revista . no que diz respeito à prática analítica. Aqui cito de memória que. O sentido é aquilo porque alguma coisa responde. pois é daí que vocês operam. no inconsciente esse sentido é inantecipável. Em 1956. v. e esta alguma coisa não há meio de suportá-la se não a partir do Imaginário. O equívoco não é o sentido. no Seminário das Relações do objeto. Lacan respondeu: “esfolando-o”. junho 2005 101 .O que é o sentido? […]. […]. portanto.São Luís. não seríamos homens. que tem como referência o corpo. 3.

Já na psicanálise. O sintoma para psicanálise não é a mesma coisa para a medicina. Para os animais. encontramos sujeitos que se vêem melhor do que são. O que fazer “com” e “de” seu corpo. por constituição. alguém possuir um corpo magro e achá-lo gordo (anorexia) ou escutar sem ouvir. Pode-se. Lacan uma vez o disse: o homem “tem um corpo” e não “é um corpo”. que é um saber sobre como a palavra modelou o corpo de cada um de nós. está aí o exemplo do sonho ou dos lapsos para verificá-lo. Atualmente. Vemos que o corpo humano é originalmente perturbado – até mesmo por sermos portadores de uma sexualidade. por exemplo. Na prática. passando da preocupação orgânica para a estrutura significante do sintoma. ora com o funcionamento de um organismo. então. com o ego inchado atrapalhando suas relações com o mundo ou o contrário disso. Já o sujeito não pode identificar-se com o seu corpo. por não se tratar de uma psicogênese. ele é. A psicanálise. O sujeito não sabe os pensamentos que o determinam. como sinais de uma inadequação do sujeito a si mesmo. olhar sem ver. Um dos objetivos desse trabalho é levantar esse questionamento para que possamos refletir sobre o que é o corpo para a psicanálise e de que trata a visão fisicalista que a neurociência e a medicina utilizam para pensar o corpo. está às voltas com um saber. o corpo passa a ser objeto de manipulações as 102 Real. deduzir daí que a clínica da psicanálise é uma clínica do ouvir enquanto que a clínica médica é uma clínica do olhar. cada órgão tem uma função e há uma certa causalidade linear sustentando esse modelo funcionalista. manipulá-lo e tratá-lo. é possível. ora com sua imagem. há uma disjunção entre órgão e função. essa equivalência entre ser o corpo é plausível. Aprendemos a vida através de um corpo. etc. Jacques Alain Miller afirma que hoje já se pode falar em ditadura da higiene. da alimentação. funcional. O corpo não é. Ao analista cabe ouvir o efeito que as palavras tiveram e tem sobre aquele determinado sujeito.Assim nos diz Gérard Miller (1989. desarmônico. como gostaríamos. do esporte. A história do movimento freudiano manifesta a evidência de que as palavras têm efeito sobre nossos corpos. Na medicina. p. possuímos um corpo habitado por uma linguagem e aí está toda a diferença. sucede também que o inconsciente perturba a ilusão de uma transparência do pensamento a ele mesmo. o que torna o corpo do homem um problema para ele. mas também o sintoma ou a inibição. Mas. de cada ser falante. simbólico e imaginário. é uma pergunta que a ciência tenta responder direcionando atitudes. etc. 12): O sujeito freudiano se caracteriza por uma fratura devido ao inconsciente. vemos o corpo confundido. hábitos e novas formas de convívio do sujeito consigo mesmo. em Lacan . Como a realidade é psíquica.

vemos que não há disjunção entre corpo e saber. Ao invés da oposição entre corpo e mente. O discurso analítico. A psicanálise busca romper com essa visão cartesiana propondo uma certa unidade: temos um corpo que fala.mais diversas. na publicação de seu livro Inteligência Emocional. então. a palavra vã. O sintoma para o médico é indicativo de uma doença. O pensamento dominante na nossa cultura baseia-se nessa dualidade e manifesta-se da seguinte forma: “minha cabeça diz que devo esquecê-lo. uma possibilidade de enquadramento do paciente numa das classificações já consagradas. há na ciência moderna uma oposição entre corpo e mente. Mas qual vem ser o estatuto do corpo na psicanálise? A partir de Descartes. ordena um dizer: não qualquer coisa. de que algo não funciona. pois. uma metáfora que representa a pulsão e diz da relação do sujeito com a linguagem. precária. há outra visão entre GOZO (todo corpo goza) e linguagem que é condição do inconsciente. com a psicanálise. adquirindo nesse mesmo movimento. Para a psicanálise. se transformará em uma pergunta acerca desse sofrimento. É muito mais que a materialidade orgânica que o suporta e que o torna espécie de máquina sujeita ao olhar prescritivo da neurociência. isso implica num dizer especial – implica que a causa de desejo seja o agente do discurso.São Luís. v. aparecer a hipótese de duas mentes: a emocional e a racional. utiliza o sintoma (analítico) como substituto da doença. o sintoma é sinal de doença. não vai bem. 3. quando foi proposta por Goleman a existência de dois tipos diferentes de inteligência. Ao contrário do que se costuma pensar. O que isso quer dizer? Pergunta-se atônito o sujeito que. e nem o relega a segundo plano. Segundo Gerbase (1998). nesse final de século. O discurso analisante aí se inicia – quando o sujeito começa a construir um saber sobre o não sabido. defender que temos um só corpo posto que “o ser fala antes de pensar e só pensa porque fala”. o sintoma é constitutivo do sujeito. o sintoma é uma formação do inconsciente. a psicanálise não se esquece do corpo. sanada. inclusive. podem estar a serviço de uma ideologia de aperfeiçoamento humano. mas a única que pode garantir um certo equilíbrio. uma ordem ao sujeito. Para a psicanálise. o corpo é mais que uma imagem. nos lembra Collette Soler (1997). é preciso refutar a idéia de qualquer “mentismo” e. Há. momentânea. da genética e suas técnicas. Quando falamos então de corpo na psicanálise. passível de um deciframento. o valor de um artefato de mercado. Para a medicina. junho 2005 103 . Vimos. O sintoma aí é visto como falha a ser corrigida. O sintoma é. mas meu corpo se recusa a fazê-lo”. é uma saída de saúde. número especial . com uma mudança de eixo. É isso que traz alguém à análise: um sofrimento sob forma de paixão que. o perigo eugênico que advém do fato de que o avanço surpreendente da biologia. Há um saber do corpo que deve ser entendido como um Ciências Humanas em Revista . produz um enigma. O sintoma é. na maioria das vezes. Para a psicanálise. não a tagarelice.

talvez um pouco tarde. Aqui devo referir-me ao trabalho do professor Newton da Costa.. seja porque incomoda o sujeito obsessivo. seres que agrupados ocupam um determinado espaço e são um determinado número de pessoas. tal como escreve Lacan. ele dizia em tom jocoso: os homens são deterministas. Daniel Matet no livro organizado por Gérard Miller (1989.] conhecer o seu sintoma significa saber o que fazer dele. Poderíamos pensar que estamos num nível místico.saber no corpo. Sabemos que é impossível dizer tudo. Trata-se de um saber próprio da articulação significante. A cura do acréscimo é produto de uma análise. ao admitir a inconsistência na lógica matemática. etc. em seu texto Psicanálise e Lógica: Chamamos de sujeito da Psicanálise o termo que designa o que visamos o nosso trabalho e não um homem. um “não quero saber de nada disso”. Lendo lógica matemática comecei a perceber. uma pessoa. ele o grita por todos os poros. a contradição. Para se entender o sujeito na Psicanálise. algo é possível de ser dito. O fim do tratamento provocando uma modificação do registro do gozo do sujeito.[…]. Dessa forma não se pode entender como o que não existe pode operar. que. seja porque é lugar privilegiado do sintoma histérico. 77): [. mas. Há uma certa adversividade do sujeito a seus sintomas que nos faz pensar: mas. ao contrário do que se pensa. um indivíduo. que pode ser visto como um casamento com o sofrimento no qual o pedido de divórcio é visto com reservas. Dessa forma. com a paraconsistência. É por isso que podemos dizer que por trás de cada sintoma está o sujeito. podemos afirmar que a cura. sobretudo quando se fecha as portas a singularidades. não significa necessariamente que o sintoma seja eliminado. diferentemente da lógica clássica. procura demonstrar aquilo com que a psicanálise sempre se ocupou: a diferença sexual. mas as mulheres aleatórias… Ou seja. Alain Miller. Isso demonstra que o corpo faz questão cotidianamente. quando o conheci. Para trabalhar isso nossa época é necessária a lógica matemática. […]. que muitas vezes preferiria não ter que se ver com seu próprio corpo – daí colocar seu sofrimento no pensamento. simbólico e imaginário. este funciona sem estar lá. […]. em Lacan . Em um Encontro da Escola Brasileira de Psicanálise. pois os lógicos têm muita relação com os místicos. nos leva a pensar que coisas estranhas acontecem no mundo da lógica. que vivia no Brasil 104 Real. nas ruminações. O discurso inconsciente admite. e só assim podemos imaginar a maneira como desembaraçar-se do sintoma. A psicanálise nos mostra que aquilo que o sujeito não pode dizer. saber esclarecê-lo. Como fala J. o sujeito barrado. em psicanálise. reduz o sintoma na sua determinação pelo fantasma que o causa. por que as pessoas relutam em se livrar de seus sintomas? Ao longo de uma análise um sujeito se depara com uma paixão da ignorância. Ela se traduz simplesmente na possibilidade de com este conviver. p.. se isso o faz sofrer tanto.

São Luís. uma ligação entre a inconsistência e o inconsciente. sendo que a Psicanálise acostumando o homem a seu inconsciente. nem à efetividade. Verificam-se efeitos científicos. à magia.exatamente o lógico que eu estava esperando. poderia até dizer. que escreveram O erro de Descartes. que não corresponde a nada de sensível na experiência humana. querem justificar Freud – pretensão – querem biologizar o desejo. cifram as aparências. defeitos. no livro Psicanálise ou Psicoterapia: é importante ressituar que o conflito do homem com o mundo não é um defeito. 3. Eles participam. clínicos. número especial . expoentes como Damasio e Solms. O inconsciente é a marca desse desacerto e o desejo é seu produto. pensam fazer ciência. em 1994. tampouco são almas ou. Como nos diz Jorge Forbes. é um sujeito que pode ser chamado de matemático. com repercussões diversas. que levava a fundo os paradoxos da lógica. O doutor Lacan adorava citar como exemplo a gravitação. junho 2005 105 . este que não conhece a contradição. Quais seriam então os erros de Damasio e Solms? Depois do neuronal. Com Damásio. a idéia de que “a mente tem que passar de um cognitivo não físico para o domínio do Ciências Humanas em Revista . há. (FORBES. 142). O sujeito da psicanálise não é a individualidade do corpo vivo com qualidades. da comunicação ou da informação. Pretendemos aqui debater criticamente tanto os fundamentos desse novo arcabouço intelectual como suas conseqüências. avaliar o campo. 1997. querem decretar a morte da psicanálise. 1997. o sujeito da representação. querem agora o homem digital. o que pareceu impossível de ser entendido pelos cartesianos que achavam que estariam voltando ao ocultismo. (MILLER. p. mas base de sua constituição. possibilita menos tropeços nos atavares de seu desejo. Há. supõe uma ação à distância de massas enormes e minúsculas. portanto. esforçando-se por modificá-los a ponto de convirem à lógica clássica dando um lugar civil a esses fenômenos. junto com outros especialistas de um núcleo que propõe a construção de “um novo arcabouço intelectual na Psiquiatria”. Não está ligado à experiência sensível. v. como na filosofia idealista. enfim. para a psicologia e pelos meios de comunicação. vêem o que não existe. que se difundiu para a psiquiatria. Inserem-se em um movimento mais amplo da neurocientificização. um erro. para legalizá-los. Fazendo misticismo. pretende-se estudar o projeto de investigação dos “fundamentos neurais da razão”. epistemológicos e éticos. contracapa). ou ainda. Assim como Lacan propôs com a trilogia RSI uma nova inteligibilidade. a possibilidade de “compreensão cabal da mente humana”. nas neurociências.

FINK. As neurociências não poderão legitimar a psicanálise. Jacques-Alain. ou. Rio de Janeiro: Zahar. É impossível reconciliar neurologia. Le Seminaire. integrar a neurologia e a psicanálise em uma nova disciplina: a neuropsicanálise. campo da fala e do gozo. resultam em nova modalidade de reducionismo e no retorno ao dualismo sob outras roupagens. que é a referência que Lacan faz à teoria dos conjuntos foi exigida pela formalização progressiva da noção do outro. ser considerado com um conjunto. criado por Lacan. 1997. Jairo. Introdução à leitura de Lacan. Para se operar sobre o inconsciente é necessário um analista – da mesma forma que para acessar a internet se faz uso de um provedor. VII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano. Dicionário Enciclopédico de Psicanálise – O legado de Freud e Lacan. Gérard. MILLER. 1998. 1987. podemos encontrar uma breve introdução à topologia. RSI. Rio de Janeiro. Referências: DOR. Jorge (Org. Pierre. O inconsciente é atópico (ver topologia lacaniana)2 e atemporal.tecido biológico”. Colette. Jorge (Org. Não são as pessoas mais autorizadas para emitir opinião sobre a junção dessas áreas. 2 No Dicionário Enciclopédico de Psicanálise. Esses empreendimentos. diferentemente do registro RSI. avançado a razão de Freud. dito de outra forma. que poderia. Campinas (SP): Papirus. simbólico e imaginário. A intenção integradora dessas três disciplinas resulta em uma anulação da invenção freudiana e dos traços diferenciais do campo psicanalítico. afastando de nosso vocabulário toda espécie de ‘mentismo’”. Psicanálise ou Psicoterapia. GERBASE. 84). Joël.). O inconsciente freudiano não é equivalente ao neurológico. Corpo furado. SOLER.). pois. Rio de Janeiro: Zahar Editora. 1997. Rio de Janeiro: Zahar. Campinas (SP): Papirus. Notas: 1 Esquema encontra em Introdução à Leitura de Lacan de Jöel D’or (1989. 1998. Bruce. Lacan. Psicanálise ou Psicoterapia. como também a hipótese de “representação neural do eu”. nesta não há mentismo. tórico. FORBES. 1997. 106 Real. O sujeito lacaniano: entre a linguagem e o gozo. Os neurocientistas não têm experiência em psicanálise. Lacan Elucidado: palestras no Brasil. psiquiatria e psicanálise em uma teoria unificada. 1974/1975. Porto Alegre: Artes Médicas. LACAN. em Lacan . Gerbase afirma que “nossa aposta é que tenhamos. 1989. O Intratável. KAUFMAN. In: FORBES. Jacques. MILLER. enquanto tesouro do significante. Rio de Janeiro: Zahar. 1996. p. no final do século.

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