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Oscar Calavia - Esse Obscuro Objeto Da Pesquisa

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Oscar Calavia - Esse Obscuro Objeto Da Pesquisa
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Se algo é ou não é um objeto de pesquisa, isso pode ser melhor
diagnosticado pelo olho do pesquisador já experiente. Mas o
orientando pode se evitar muita tentativa inútil e muita marcação de
encontro com seu orientador preocupando-se em comprovar que seu
objeto possa ser formulado nesses termos adversativos: segundo nosso
melhor conhecimento, as coisas são de tal modo, porém sei que... Pode
acontecer que isso que parece indício de algo novo já esteja
perfeitamente integrado no já sabido; pode ser que o seu interesse seja
muito reduzido. Mas o que é seguro é que se o objeto de pesquisa não
pode se organizar em torno desse porém é porque ele não é ainda um
objeto de pesquisa.

Problemas de pesquisa, questões norteadoras, hipóteses, etc.

Em algumas academias é possível que em lugar de falar, como aqui
se faz, de objeto de pesquisa, se fale em outras coisas, como problema
de pesquisa, hipóteses, questões norteadoras, etc. Isso indica variações

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Oscar Calavia Sáez

menores na concepção da pesquisa, mas quanto ao que aqui importa
não se trata de opções diferentes, mas de um deslocamento do tipo
fundo/forma (a zebra é um animal claro com raias pretas ou um
animal preto com raias brancas?)
O problema da pesquisa é esse mesmo enunciado organizado com
um ponto-e-vírgula ou uma adversativa no meio. A diferença com o
objeto de pesquisa está em que “objeto de pesquisa” remete a uma
pesquisa de teor mais descritivo e histórico, enquanto problema aponta
para solução. Quando falamos em problema de pesquisa, é que
esperamos um resultado centrado na formulação que demos ao
problema; quando falamos em objeto de pesquisa deixamos uma
abertura maior para o resultado, que pode acabar girando em torno de
um eixo diferente.

Do problema de pesquisa pode se dizer quase todo o mesmo que se
disse do objeto. Em particular, deve se fazer notar que um problema de
antropologia social, evidentemente, não é o mesmo que um problema
social. O alcoolismo dos homens, por exemplo, é um problema social,
mas não é um problema teórico. É, no máximo, aquilo que antes
chamávamos um tema de pesquisa. Mas pode dar lugar a um
problema teórico numa formulação deste tipo:

“Na sociedade X o alcoolismo masculino é visto como um
problema de saúde pública que começa já na adolescência;
no entanto, todas as políticas dedicadas a ele estão focadas
nos homens adultos”.

Ou deste:

“Os grupos de skinheads são vistos como uma reação das
classes baixas e medias-baixas urbanas à inmigração; no
entanto, eles tem uma presença marcante na cidade de X,
onde a imigração é praticamente inexistente”

É claro também que um problema de pesquisa não precisa tomar
como tema um “problema social”. A palavra grega “problema”
significa, aproximadamente, “obstáculo”, algo que foi lançado diante
de nós, a estorvar o passo –da teoria consagrada- tanto faz se ele produz
ou não dores de cabeça aos administradores:

“A mímese como valor é vista habitualmente como uma
peculiaridade da arte figurativa ocidental; no entanto, os
artistas da tribo X, que produzem obras aparentemente
abstratas, consideram o “parecido” como o critério principal
de qualidade de seu trabalho”.

Uma questão norteadora vem a ser algo assim como a
transformação do problema teórico em interrogação: o quê suscita o
surgimento de skinheads numa cidade com uma taxa de imigração
insignificante? Por quê as políticas públicas contra o alcoolismo são
dirigidas apenas aos homens em idade adulta? Como a arte dos artistas
da tribo X pode dar lugar a critérios de “parecido” que não são
obviamente os da arte ocidental?

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Esse obscuro objeto da pesquisa

É claro que para enunciar esse tipo de perguntas deveremos
formular antes o problema.

Uma hipótese já é algo diferente, e não se apresenta sozinha, mas
como um termo dependente de um problema teórico formulado
previamente. É uma aposta –todo o fundamentada que for possível,
porém aposta- sobre a solução ao problema proposto. Formular
hipóteses é imprescindível para uma pesquisa de laboratório: não
podemos ficar brincando com as cobaias só para ver o que acontece, as
experimentações devem estar dirigidas a comprovar ou descartar
hipóteses.

Mas formular hipóteses numa pesquisa baseada em trabalho de
campo não sempre será útil, e às vezes pode resultar excessivo.

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