Terra Brasilis (Nova Série

)
2  (2000) Geografia e Pensamento Social Brasileiro
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Manoel Fernandes de Sousa Neto

As outras histórias
Ou da necessidade delas
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Referência eletrônica Manoel Fernandes de Sousa Neto, « As outras histórias », Terra Brasilis [Online], 2 | 2000, posto online no dia 05 Novembro 2012, consultado o 18 Dezembro 2012. URL : http://terrabrasilis.revues.org/321 Editor: Rede Brasileira de História da Geografia e Geografia Histórica http://terrabrasilis.revues.org http://www.revues.org Documento acessível online em: http://terrabrasilis.revues.org/321 Documento gerado automaticamente no dia 18 Dezembro 2012. © Rede Brasileira de História da Geografia e Geografia Histórica

participar impunemente de urna comunidade científica sem fazer opções por círculos de afinidade. uma crença. Frases na ordem inversa. tendem a ser muitas. pelo que já disse até aqui. Acredita-se em vertentes epistemológicas hegemônicas como se fossem as únicas. sem nenhum pesar. esta. os Annales de Géographie. certamente abandonaríamos os fatos ou suas interpretações oficiais à própria sorte e dispensaríamos. Isto criou situações constrangedoras. Depois. ao multiplicar as cabeças-de-ponte da geografia nova não somente em Paris como também na província. 10). mas produto de uma série de opções interpretativas dos mesmos fatos que foram jogados no esquecimento. risível. " (1992: 33) 6 E as crenças. 1979: 10). palavras raras. A história de uma ciência se faz necessária ao próprio processo de fazer ciência. creio. Por outro lado a História. 1979. simplesmente. refere-se à importância acadêmica e política da história de urna ciência para o conjunto daqueles que a fazem. Queremos a coisa séria. também multiplicam nos anos 20 e 30. preside em 1921 a criação do Comitê Nacional de Geografia e lhe confiam a organização do Congresso Internacional de Paris em 1931 pela União Geográfica Internacional . 2 3 4 5 A primeira. harmoniosas como se sua emergência não houvesse resultado de conflitos vários. acusado de mero piadista. como já dissera Berdoulay. em sã consciência.A História em Migalhas . Por isso sempre haverá pessoas. a história de uma ciência ou disciplina científica não é resultado apenas de processos estritamente científicos. talvez a mais urgente entre as coisas a dizer. ultimadas como se não houvesse mais o que discutir sobre elas. como sujeitos de e sujeitados a certos processos. é preciso dizer que ciência nenhuma sobrevive de crendices ou profissões de fé.. além de dotados de uma revista que se toma orgão oficial. "De Martonne foi o organizador desse enquadramento [de monografias regionais] vidaliano.quando fala de Emmanuel De Martone. Gaba seu inimitável jeito piadístico. mas este texto é. Explico. para muitos. no mínimo. do gerno de Vidal de la Blache. Isto se dá porque. não fazerem política e ainda desejarem que os outros acreditem nisso. Caso aceitássemos deixar as coisas tal como quiseram nos fazer acreditar nelas. desde 1891. E todos sabemos bem que ninguém declararia publicamente. consegue a abertura do Instituto de Geografia de Paris em 1923. 2 | 2000 . abrir mão. nos ajuda a compreender nossa identidade. mas na hora das coisas 'culturais' mergulha num escafandro greco-romano" ( GOMES. nas nossas ações presentes e não perdida no passado. E assim. defendendo que deixemos os mortos descansar em paz. E embora a ciência seja. Estranha gente. como membros participantes de uma comunidade científica. verdadeiramente morto em suas verdades e com sua lápide muito bem cimentada. o concurso da História na apreensão do presente. as revistas de geografia regional para prolongar seus estudos monográficos. Por outro Lado. quando não se faz a história de uma ciência. que substituiu o sogro na Sorbonne em 1909.As outras histórias 2 Manoel Fernandes de Sousa Neto As outras histórias 1 Ou da necessidade delas Os sérios de plantão que me perdoem. ainda que muitos neguem ou finjam. como as fúteis críticas sérias a Oswald de Andrade. estabelecendo politicamente programas para a ciência e fazendo ciência mediante certas concepções políticas. porque seria um sacrilégio revirar o presente tumular. de algum modo. diante de certas questões só "nos ocorre reagir com o riso" (Gomes. quando diz: "Embora tenhamos urna imensa mitologia construída em cima de nosso jeito piadístico. Os geógrafos. muitas. metaforicamente Terra Brasilis (Nova Série). para si mesmos. olvidada por nosso temor de dar vida aos velhos fantasmas ou relembrada para um exercício meramente cclebrativo da memória. no momento de pensar não admitimos piada. De Martonnne funda a Associação dos Geógrafos Franceses. comprometendo a si e aos outros.. Um bom exemplo disso está no livro de François Dosse . citações latinas . logo é um imperativo e não algo de que se possa. É que estou de acordo com as idéias de Roberto Gomes em seu livro Crítica da Razão Tupiniquim. Essa importância está inscrita.e é impossível qualquer piada em latim.

desarrumar o sólido estado da obra de arte. artesanalmente. a característica de especialização disciplinar e difundir. na luta contra essa barbárie. bem melhor. E essa luta é meio desigual porque as traças estão décadas. entre nós. digamos assim. que apenas os civilizados fizeram e fazem ciência e. Moral desse pequeno conto ocidental: para alguns colonizados só é possível uma história da ciência onde houve ciência. não podemos mais é permitir que se faça qualquer história da ciência. Entretanto não podemos. cá entre nós. a questão das fontes é ainda mais dramática. não raras vezes. de muitos acharem que fazer uma história da ciência é fazer uma história das instituições. baseada apenas no restrito campo das suas respectivas ciências e. nesse caso. E o acesso às fontes é sempre mais difícil quando elas não foram. à nossa frente. Quase ninguém parece querer contar as histórias que foram colocadas fora da História. E essa necessidade se dá porque é preciso começar a rir. Essa dificuldade com as fontes. Muitas delas estão não em instituições de pesquisa ou bibliotecas públicas. Não por acaso aqueles que não fazem parte do nosso pequenino mundo disciplinar. E se faz necessário que não apenas saibamos quais são as fontes. Fenômeno esse que acabou por reforçar. logo. E entre nós. para que continuem a fazer qualquer coisa em nome da ciência. quando muitos pensaram e pensam. fazem apenas história. entre nós. por exemplo. É por isso que sacudir livros ou documentos empoeirados causa. Sintoma disso é que boa parte das nossas melhores fontes nessa área estão na Europa. pessoas. que sozinho. consideradas como coisas importantes. em história da ciência. ao sabor das brisas. aqueles que se arriscaram a tal empreitada. 2 | 2000 . deram certo. muitas delas. é necessário reconstituir as fontes. costumam ser olhados com estrangeira desconfiança e tidos como uma ameaça a nossa integridade corporativa. Idéia. parafraseando Marx. a ação particular e abnegada de um ou outro herói. só havia e há uma história da ciência possível. o mais distantes possível de uma contextualização histórica das sociedades daqueles presentes históricos. deliberadamente favorável às traças. Em história ela ciência também é preciso que haja um trabalho sério e abnegado. acervos interessantíssimos. mas onde encontrá-las e os modos de fazê-lo é preciso. do velho estigma de que. digamos assim. mas dispersas pelas casas de um sem número de importantes anônimos que montaram. fizeram. fazer história da ciência é como seguir fielmente o exemplo cristão e quebrar o estabelecido conjunto de bancas dos mercadores do templo. fizeram sucesso. por deleite ou como apêndice de uma área que exige trabalho sério e abnegado. como fontes. desdenhosamente. as vezes séculos. o acesso às fontes. a prática do nós conosco. é evidente. Essa característica é ainda mais presente quando se trata de Terra Brasilis (Nova Série). escolas e idéias que. a deles. uma difícil tarefa: lutar contra as traças e seus aliados mais inconfessos. problemas respiratórios e complicações alérgicas de toda ordem. portanto. vai. aqueles que fazem a história da sua ciência. não fazem mais ciência. o acesso à certas fontes se dá por pura obra e arte do divino espírito santo. Meritórias por certo. Para alguns seria melhor. Na realidade o foco é outro . cristão ou ateu. em nenhuma hipótese. foram adiante. dos civilizadores. balizado por certas práticas e referenciada por métodos amplamente discutidos. Já no Brasil. deriva em muito. Infelizmente não basta. não continue a ser obra de aventuras pessoais. nós precisamos também de políticas que permitam a todos e não apenas às nossas pequeninas leitoras. as vezes. No caso da história da ciência em países colonizados. ou não são. em muitos casos. mas muito distantes de uma tessitura coletiva articulada e profunda.As outras histórias 3 7 8 9 10 11 12 13 14 15 falando. para que a história da ciência. por conta própria. estabelecido a partir de um programa coletivo de investigação. em tanta gente. em muito. entregar em definitivo os vocábulos envelhecidos. Então a gente não pode se armar só de boas intenções passageiras. permitir que as traças saibam mais das coisas que nós. achá-las. É preciso pois. uma sólida política de pesquisa na área. ainda. como produto dessa concepção. à critica destruidora das traças. não é importante saber quem foram os carpinteiros do cavalo de Tróia mas. quase familiar. uma história internalista. O que de certa forma coloca para os que fazem história da ciência. por fim a essa idéia de que se deve fazer história da ciência de quando em vez. de modo quixotesco. recuperá-las. Por isso. onde nós falamos para nós mesmos e fechamos os ouvidos para o mundo exterior. aqueles carpinteiros eram geniais.

algo que se fazia quando havia uma necessidade emergencial ou para nutrir uma luta política institucional. por exemplo. Ab'Saber e Chistofoletti. nos sentíamos estrangeiros em nossa pequena aldeia. O que permite. uma história descontextualizada. A história aqui. Terra Brasilis (Nova Série). uma tradição seletiva com fortíssima inércia. E como não podia deixar de ser diferente. ela acabou por proporcionar uma História fora da História. muitas vezes. no Encontro da AGB. artesanal. linear do ponto de vista da abordagem histórica e não raro. a aceitação. dentro e fora das universidade. o ano de 1934. Esse temor revela uma certa inconsistência interna. quase uma história pátria ou santificada da disciplina científica. Entretanto. a muitos. Estas coisas todas que disse se aplicam à tardia ciência geográfica em um país de capitalismo tardio. um certo processo de maturação. para que coubesse uma discussão sobre história do pensamento geográfico. dialogamos mais com historiadores. muitas vezes puramente hagiográfica. espaço para discutir dentro do fechado circuito dos eventos ou publicações da área. coisa necessária à consolidação da alteridade. essa construção só ocorre na rnedida em que se entra em contato com o outro. Lia Osório Machado. história ela ciência geográfica. a permanência de uma história do pensamento geográfico no Brasil. Além disso é enorme o preconceito enfrentado. dentre outros. caso isso aconteça em países de passado colonial. veio beber na perspectiva externalista ou trabalhar com as estratégias institucionais das comunidades científicas de que fala Capel. mas. pelo menos grandemente falha. mesmo entre os pares. somente depois da década de oitenta do nosso século e de modo bem acanhado. filósofos. por exemplo. diria assim. boa parte dos trabalhos que conhecemos sobre pensamento geográfico no Brasil têm. casual. sociólogos. o medo do outro passa a ser ainda maior. pior que isso. daqueles que vêem essa área como um perigo manifesto para situações já. em que se busca primeiro saber quem é para depois saber quem são os outros. Preconceito daqueles que lutam contra toda forma de historicisrno. para não dizer de muito má qualidade. não é Geografia. 2 | 2000 . Outro desdobramento dessa nossa tradição é. em que só conversamos entre nós e nunca com os outros. ainda. longinquamente consolidadas. Romper essa tradição exige um imenso esforço. conseguir financiamento para pesquisa. Não por acaso. em 1996. Não por acaso. factual. Esse isolamento. Há alguns trabalhos mais conhecidos. Claro que há desdobramentos com relação a isso. os poucos que a produziram. nos interstícios. no concernente à ciência ou pensamento geográfico. Uma das explicações para isso é que a área de história do pensamento geográfico ou história social da ciência geográfica. como é o Brasil.As outras histórias 4 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 ciências em processo de consolidação institucional e. matemáticos do que com geógrafos. proferir uma história estereotipada da Geografia no Brasil e pronunciar muitas verdades que não resistiriam ao resultado preliminar de algumas investigações. para muitos. mas quase todos de restrita circulação no meio geográfico acadêmico. Geografias Impuras. meio isolados em termos de interlocução. Por isso não podemos fazer de uma disciplina científica uma espécie de conversa cifrada. daqueles que trabalham com urna espécie de Geografia aplicada. por outro lado tomar pares os antigos bárbaros. Uma história geralmente internalista. Geralmente circulamos mais nas outras áreas do que em Geografia. quando ela existe. por um bom tempo. à produção de uma história internalista. essa forma de fazer história da ciência acabou por reforçar o isolamento e disseminar a desconfiança nos estrangeiros. como data recorte para periodização. Por um lado é preciso convencer os próprios pares. porque. criaram um eixo temático chamado Geografias Puras. biólogos. como os escritos por José Veríssimo. no caso de algumas ciências levou. baseada na ciência que deu certo. da validade da investigação. Por isso mesmo sempre se fazia uma história. em que há uma relação. naquele sentido mesmo ele construir talvez uma espécie de memória disciplinar. Exemplo dessa realidade é o pouco que se conhece da história do pensamento geográfico no Brasil anterior a 1930. sempre funcionou como segunda opção para os pesquisadores de outras áreas da Geografia. É difícil.

que tudo não passava de mais uma boa piada brasileira. Como somos poucos e desconhecidos. das mais diferentes instituições e das diferentes linhas de investigação. Crítica da Razão Tupiniquim. Mémoires de La Section de Géographie. nos parece. 3ª ed. pareceu a muitos que a proposta não vingaria ou. sentimos a necessidade de estabelecer um programa de trabalho. realizou-se um I Encontro Nacional de História do Pensamento Geográfico e. Para citar este artigo Referência eletrónica Manoel Fernandes de Sousa Neto. Terra Brasilis [Online]. foi feita uma espécie de censo dos pesquisadores em História do Pensamento Geográfico no Brasil. Em bem pouco tempo. DOSSE. tem abraçado essa idéia e dado vitalidade àquilo que é uma necessidade da comunidade geográfica em particular e da comunidade científica como um todo.As outras histórias 5 26 27 28 Por isso. ainda. que se há uma imensa lacuna nessa área. Nesse caso.org/321 Autor Manoel Fernandes de Sousa Neto Professor do departamento de geografia da Universidade Federal do Ceará Direitos de autor © Rede Brasileira de História da Geografia e Geografia Histórica Terra Brasilis (Nova Série). Foi por essa razão que a proposta de um programa de trabalho ganhou e ganha densidade. Paris. agora. estabeleceu-se com estudiosos de história da ciência e elas idéias um contato muito profícuo. ______. (1983). E está claro. (1981): La Formation de L'École Française de Géographie (1870-1914). Barcelona: Barcanova. Bibliothéque Nationale. não mais que dois anos. não por acaso. (1994). publicase uma revista temática nomeada de Terra Brasilis. Vincent. Campinas: Ensaio/Editora Unicamp. Bibliografia BERDOULAY. há também um desejo muito forte de preenche-la. (1979). 2 | 2000. « As outras histórias ». consultado o 18 Dezembro 2012. Roberto. mediante as tarefas colocadas. Porto Alegre: Movimento. Horacio. Nesse sentido as pessoas. URL : http:// terrabrasilis. ainda que risível. 2º ed. (1977). A História em Migalhas. 2 | 2000 . ganha corpo uma proposta muito séria. Entretanto ocorreu contrário. posto online no dia 05 Novembro 2012. ele lutar contra os silêncios do passado para falar com mais consistência do presente.revues. GOMES. n. Barcelona: Barcanova.. atrai pessoas e delineia um conjunto muito interessante de possibilidades. François. CAPEL. Institucionalización de la Geografia y Estrategias de la Comunidad Científica de los Geógrafos. 11. 3ª. Filosofia y Ciencia en la Geografia Contemporánea.

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