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TEORIA DO DISCURSO
Fundamentos Semióticos

Lourdes Sola (Ciências Sociais) Prof. Dr.: 3091-3728/ 3091-3796 Humanitas – distribuição Rua do Lago. Luciano Gualberto. Elias Thomé Saliba (História) Profa.usp. Carlos Alberto Ribeiro de Moura (Filosofia) Profa. 315 — Cid.UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO Reitor. LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS Diretor: Prof. Francis Henrik Aubert Vice-Diretor: Prof. 717 05508-900 — São Paulo — SP – Brasil Telefax: 3091-4589 e-mail: pubfflch@edu. Dra. Dr. Beth Brait detras) Vendas Livrarias Humanitas-Discurso Av.br http//www. Adolpho José Melfi Vice-Reitor: Prof. Prof.fflch. Dr. Dra. Renato da Silva Queiroz CONSELHO EDITORIAL DA HUMANITAS Presidente Prof. Dr.USP .FACULDADE DE FILOSOFIA. Milton Meira do Nascimento (Filosofia) Membros Profa. Dra. Universitária 05508-900 — São Paulo — SP — Brasil Tel.br/hunianitas Humanitas FFLCH/USP março 2002 . hélio Nogueira da Cruz FFLCH . Dr. Dr..usp. Sueli Angelo Furlan (Geografia) Prof.

2002 UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO • FACULDADE DE FILOSOFIA. TEORIA DO DISCURSO Fundamentos Semióticos 3ª. edição São Paulo. LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS .Diana Luz Pessoa de Barros.

2001 172p. sem autorização prévia dos detentores do Copyright. 28. ed. Lingüística 3. Rodrigues — MTb n.br Telefax: 309 1-4593 Editor Responsável Prof. Serviço de Biblioteca e Documentação da FFLCH/USP Ficha catalográfica: Márcia Elisa Garcia de Grandi — CRB 3608 ____________________________________________________________ B276 Barros. ISBN 85-7506-059-7 1. Dr. – São Paulo : Humanitas / FLLCH / USP.Copyright 2002 da Humanitas FFLCH/USP É proibida a reprodução parcial ou integral.840 Composição Diarte Composição e Arte Gráfica Emendas Selma Mª. — 3. Diana Luz Pessoa de Teoria do discurso: Fundamentos semióticos / Diana Luz pessoa de Barros.usp.839 Capa Diana Oliveira dos Santos Revisão de emendas Simone D’Alevedo [página 4] . I Título CDD 410 HUMANITAS FFLCH/USP e-mail: editflch@edu. 28. Consoli Jacintho — MTb n. Milton Meira do Nascimento Coordenação Editorial Mª. Semiótica 1. Helena G. Análise do discurso 2.

....................... 10 A gramática sêmio-narrativa ............................. 14 Percurso gerativo ..................................................... 29 Sintagma elementar: programa narrativo ....................................................................................................................................................................................................................... 7 Estruturas sintático-semânticas subjacentes ........................................................................................... 15 Gramática fundamental ............................................ 8 Análise estrutural da narrativa .......... 7 Considerações iniciais ............................................................. 28 Sintaxe narrativa ............................................................................................SUMÁRIO INTRODUÇÃO . 14 Análise imanente .. 73 Desembreagem e embreagem actancial e teorias do foco narrativo ......................................................... 27 Gramática narrativa .................................................................................................................................................... 70 II — DISCURSO: A ASSUNÇÃO DE VALORES ......................... 8 A gramática de casos de Fillmore ............................................................................. 49 Paixões e apaixonados ......................................................................................................................... 44 Semântica narrativa ........ 13 Análise interna ........................ 60 Notas ......... 1 Plano do livro ....................................................................... 43 Intencionalidade narrativa ................................................. 6 I — NARRATIVIDADE: À PROCURA DE VALORES ...................................................................................... 72 Considerações iniciais ................................................................................................ 28 Enunciado elementar ........ 31 Percurso narrativo ........................ 74 Temporalização e espacialização ................. 24 Conversão das estruturas fundamentais em estruturas narrativas ............................ 73 Projeções da enunciação .................. 20 Sintaxe fundamental ...... 72 Sintaxe discursiva ..................................................................................... 35 Esquema narrativo canônico ............................. 41 Estratégia narrativa ........................... 12 Uma proposta semiótica .............................................................................................. 1 Teoria do discurso .................................. 88 ..................................................................................................... 45 Modalização e modalidades ....... 20 Semântica fundamental .....................................................

............................................. 113 Elementos de semântica estrutural ............................................... 146 Discurso e ideologia .......................................................................... 142 Discurso e classes sociais .......... À Flávia que aprende a falar............. 137 Tema de produção ................................................. 113 Tematização e figurativização ....................................................................................................................................................... 95 Semântica discursiva .......................................................................... 139 Intertextual idade .......................................... 92 Contrato de veridicção e verdade discursiva ............................................................................................................................................................................................................................................................. 136 Tema de comunicação ........................ 155 BIBLIOGRAFIA .... 131 Notas ..... 135 Considerações iniciais ............................................. 135 Estruturas narrativas e discursivas da enunciação .................................................................................. 157 ÍNDICE ANALÍTICO ............................................................................................................................. 152 Notas .................................. 148 Texto e problemas de expressão ......................... 165 À Mariana que descobre a escrita............................................. ... 132 III — ENUNCIAÇÃO: A MANIPULAÇÃO DE VALORES .................. 92 Argumentação .................................Relações entre enunciador e enunciatário .............................................................................................................. 115 Isotopia ..... 124 Coerência textual ...................................................................

em um mesmo quadro teórico. os objetivos e interesses deste trabalho. apresentada e defendida na Universidade de São Paulo. com a teoria distribucional. outros ainda reconheceram a necessidade de se ir além da frase. a partir de Saussure e. a sim. em 1985. Teoria do discurso e análise de redações de vestibulandos. e a aceitação do fato de o texto não ser. A lingüística. sobretudo. Alguns lingüistas estabeleceram claramente esse limite. no contexto das atuais preocupações lingüísticas. tencionou-se contribuir para o desenvolvimento da teoria. toma a língua como seu objeto. tornou necessária uma lingüística do texto ou do discurso. deu-se destaque ao objetivo de conciliar as análises externa e interna do texto.INTRODUÇÃO Este livro retoma. quase sempre sem ultrapassar a dimensão da frase. . outros não o determinaram com igual clareza. como primeiro passo. TEORIA DO DISCURSO Situemos. de cujo projeto temos participado de vários modos. Em segundo lugar. como já se sabe há muito. Finalmente. costurar e dar forma a um texto que apresentasse uma visão de conjunto da teoria semiótica de análise do discurso e que servisse a pós-graduandos de lingüística e a todos os que pelo discurso se interessam. com algumas adaptações. mas não o puderam ou souberam fazer. no trabalho.[página 1] ples soma de frases. principalmente com o desenvolvimento dos estudos de semântica. a primeira parte da tese de livre-docência A festa do discurso. O interesse pelo texto como um todo. Propôs-se.

limitaram. Ao deixar a proteção das limitações de uma lingüística pura e lançarse no caos do extralingüístico. p. a Igreja. dizem alguns. acreditam terceiros —. relegando ao extralingüístico a fala — “acessória e mais ou menos acidental. para estabelecer seu objeto. por necessidade do momento histórico em que se transformavam os estudos da linguagem. O ponto de interseção pode ser encontrado na remissão que diferentes teóricos da linguagem fazem à enunciação ou às condições de produção do discurso. Harris (1969). de reconhecida importância para situar a lingüística entre as ciências humanas. e muito usado em textos sobre a linguagem. essencial. 22) — e suas relações com a “etimologia”. E preciso distinguir. que sugerem a sua leitura do discurso. assim. Estabelecidas. ato individual de vontade e inteligência” (p. ou por razões ideológicas. tenta derrubar a primeira barreira. ora é confrontada com ofertas diversas. reconhece-se que. 1976. bastante polissêmico. afirmam outros. 19). sem fugir dos pressupostos epistemológicos da teoria distribucional.” (p. Slakta. consideradas as condições de produção do texto de Saussure. [página 2] A primeira preocupação é a de estabelecer um denominador comum às varias definições do termo discurso. p. segundo Maingueneau (1976. dos fatores sóciohistóricos que a envolvem.As tão discutidas dicotomias saussurianas. ou melhor. 21) —. com a clareza possível. lingüístico e extralingüístico fizeram da lingüística a ciência da língua — “social. Ducrot. quando se examina o discurso. do historiador. do psicólogo. não é fácil delimitar o que é da alçada da lingüística. o campo de possível interesse do lingüista. Constata-se. A lingüística do discurso pode ser. preocupado em ser objetivo em suas abordagens. facilmente. a necessidade e as pretensões de uma lingüística do discurso. a escola. Verón. com “instituições de toda espécie. com a “história política”. do sociólogo. por exemplo. sente-se a lingüística um tanto atordoada. as variadas . Língua e fala. 1969. Já outros lingüistas do texto. p. nesse projeto. propondo um processo de estruturação global do texto pela integração das frases em unidades maiores. sua localização na encruzilhada entre preocupações da lingüística e das demais ciências humanas (MAINGUENEAU. 29). pois ora se vê fortemente solicitada por aqueles que exigem que ela lhes ensine a ler textos como meio de acesso ao homem. 7). por outro lado — por má interpretação do mestre. etc. tesouro depositado pela prática da fala em todos os indivíduos pertencentes à mesma comunidade” (SAUSSURE. considerada como uma tentativa de ruptura de duas barreiras: a que impede a passagem da frase ao discurso e a que separa a língua da fala. estão mais interessados em vencer a segunda fronteira e retomar ao extralingüístico elementos situacionais indispensáveis à construção do sentido do texto lingüístico. em grandes linhas. como Pêcheux.

A segunda forma de abordar a questão está bem colocada por Robin. reunidas. denominou subjetividade na língua. como elemento comum. Ducrot ou Greimas acatam as dicotomias social vs. ao mesmo tempo. o discurso constituído sobre estruturas narrativas que o sustentam. por exemplo. Para Benveniste (1966. que não aceita a liberdade discursiva . individual. O autor caracteriza o discurso pelas relações que se estabelecem entre indicadores de pessoa. enunciação é a instância de mediação que produz o discurso. Outros autores poderiam ser aqui arrolados. espaço do enunciado e a instância de sua enunciação. 253-66) é no discurso que a língua. podem ser a ela referidas. ou seja. Para Benveniste. coexistem no discurso o sistema da língua e as marcas da opção individual de sua realização que. que realiza a passagem das estruturas semióticas narrativas às estruturas discursivas (GREIMAS & COURTÉS. das citações transcritas. retórico. que englobam o mecanismo de colocação dos protagonistas e do objeto do discurso e as características múltiplas de uma situação concreta. cabendo à enunciação transformar o texto em discurso e por ele se responsabilizar. de qualquer tipo de discurso. pretendese tomá-las. é assumida por uma instância individual. fala. que. Ducrot (1980) distingue o texto. mas. se dispersar em infinitas falas particulares. p. competência vs. a articulação entre narrativa e discurso. Guespin (1971) considera que um olhar lançado a um texto do ponto de vista de sua estruturação em língua faz dele um enunciado e que o estudo das suas condições de produção o torna um discurso. sistema social. muito apropriadamente. porém. do social e do individual. realizado. algumas observações devem ser feitas sobre o caráter individual e social do discurso. isto é. sem. entendidas como suporte sintático-semântico das estruturas discursivas. do discurso. performance. caracterizador do discurso nas várias abordagens. [página 3] Antes de se focalizar a questão central da enunciação. As estruturas narrativas. s. se extraem já três pontos decisivos para a concepção de discurso e sua análise: a relação do discurso com a enunciação e com as condições de produção e de recepção. 11). abstrato. de Pêcheux. serão examinadas no capítulo 1. p. Lingüistas como Benveniste. Mesmo assim. lingüístico vs. por sua vez relacionadas a condições de produção específicas (PECHEUX & FUCHS.). tempo. o discurso como lugar. as formações discursivas são componentes de formações ideológicas. mesmo não recobrindo a oposição língua vs. Segundo Greimas. enunciação e condições de produção. Há dois modos distintos de encarar o problema.colocações a respeito das relações mantidas pelo discurso com seu quadro enunciativo ou com as condições de sua produção.d. 1975. Para a análise automática do discurso.

que se fala” (1977. 25). e naquela de um sujeito sem determinações sócio-ideológicas (uma Filosofia de antes de Marx)” (p. Essas reflexões. ocorre pouco a pouco na reflexão lingüística que. quando afirma que cabe à análise lingüística. mas também as variáveis sócio-históricas ou condições de produção. Harris é um deles. genericamente. por conseguinte. A articulação do discurso com a formação social não é. dar instruções. porém. de alguma forma. p. graças ao problema da enunciação. os projetos da pragmática conversacional de Grice e da teoria dos atos de linguagem de Austin e Searle. o problema da co-presença do social e do individual no discurso. concordar com Ducrot. Poucos são os teóricos do discurso que deixam de reconhecer a estreita vinculação existente entre discurso e enunciação. prescinde do conteúdo na análise do discurso. nessa perspectiva.individual do sujeito “sem inconsciente. coexistem a invariável sistêmica social e as variáveis. como propuseram Barthes (1964 e 1966) e Greimas (1966). sem ideologia. que. Se a significação nasce da variação. atualmente. nele. pois se reconhecem as dificuldades de apreendê-lo todo. 41). p. sem o que deixarão de lado muitos aspectos da significação do discurso ou estarão até mesmo impossibilitados de construí-la. afirmando que. Afirma a autora que “esta liberdade atribuída ao domínio da fala inscrevia-se numa Filosofia do sujeito neutro. forjadas pelas determinações sócio-ideológicas. Rotulam-se assim orientações diversas como a teoria semântica intencional de Ducrot. mais lingüísticas em sentido restrito. Não se pretende invalidar análises realizadas de fatias do sentido. fornecer pistas. também sociais. que fala. de realização. Cabe retomar. as propostas para uma teoria da argumentação e os esforços da semiótica de Greimas na construção de uma sintaxe e de uma semântica da enunciação. que engendram. se vêem obrigados a recuperar elementos da enunciação. se pode denominar semântica da enunciação. E preciso. Os estudiosos. é da relação entre a invariante do sistema e a variação social que surge o sentido do discurso. pois. portanto. fortuita e ocasional ou secundária e acessória. ser uma fonte de hipóteses pala os analistas do discurso (1980. sem pertencer a uma classe. 12). [página 4] A mudança de objete dos estudos lingüísticos. . seu objeto-resultante. o sentido do discurso. com as lingüísticas. transparente a si próprio (uma Filosofia de antes da descoberta freudiana). Distinguem-se. consideram apenas a enunciação pressuposta no discurso. atentam para o sentido. de orientações que tentam recuperar para a análise do discurso não apenas os elementos da instância enunciativa implícita. com método puramente formal.

serão lembradas e mais bem sentidas no decorrer do trabalho. espaço na proposta semiótica. que serão examinados nos capítulos 1 e 2. há muito. das organizações discursivas. Não se pode esquecer o caráter fronteiriço do discurso. em que o texto se insere e de que. PLANO DO LIVRO O livro divide-se em três capítulos: o primeiro. a hipótese. uma abordagem interna do texto. sem incoerências teóricas ou contradições. satisfatoriamente. mas tampouco se pode desconhecer o princípio de que não se somam técnicas ignorando as teorias que implicam. parte-se da teoria semiótica desenvolvida pelo grupo de investigações sêmio-lingüísticas. Tenta-se. com ênfase no caráter modal da sintaxe e na definição passional da semântica. ajudem a construir o sentido do discurso. no momento atual. cobra sentido. de que essas relações podem e devem ser estabelecidas pela mediação lingüística da enunciação. por meio da enunciação. no quadro epistemo-metodológico da semiótica. com a análise externa do contexto sócio-histórico. por razões que. o segundo. Tenciona-se. neste trabalho. conciliatória entre os dois grupos. definir enunciação pelo duplo papel de mediação ao converter as estruturas narrativas em estruturas discursivas e ao relacionar o texto com as condições sócio-históricas de sua produção e de sua recepção. para estudo das estruturas narrativas. acredita-se que. indispensável para que se reconheçam os mecanismos e regras de engendramento do discurso. sob a direção de Greimas. [página 5] das relações entre discurso e contexto. . embora a semiótica não tenha tratado ainda. Em síntese.Reconhecendo a pertinência da dimensão histórica para a análise do discurso. entre as ciências humanas. No primeiro capítulo serão examinados os princípios fundamentais da teoria semiótica e a sintaxe e a semântica narrativas. são três os motivos da escolha: a teoria sêmio-lingüística de análise do discurso está suficientemente avançada para oferecer princípios. mas também as muitas dificuldades encontradas na determinação das relações entre formações sócio-ideológicas e formações discursivas. o projeto avance nessa direção. encontrou. ela constitui. recorrendo sempre que possível e necessário a outras propostas e estudos que. tal qual foi aqui entendido. métodos e técnicas adequados de análise interna do discurso. sem contradições teóricas. embora aqui resumidas. da enunciação e das relações intertextuais. promover a conciliação complementar das análises interna e externa do texto. Para tanto. assim. dessa forma. propõe-se. e o terceiro. mediadora entre formações sociais e discursivas. um dos poucos e mais completos modelos de abordagem das estruturas narrativas. O objetivo é integrar. já que a enunciação. apreendido em níveis diferentes de geração e de abstração. em última instância.

pressuposição e atos de linguagem. efeitos de verdade do discurso. interno e externo. a partir daí. Caberá ao terceiro capítulo a tarefa de rever a enunciação como articuladora entre formações discursivas e sociais e de efetuar a integração das análises interna e externa.O segundo capítulo será dedicado à sintaxe e à semântica do discurso. A inserção contextual será considerada a partir das relações de intertextualidade e serão distinguidos os contextos situacional. No exame da semântica serão abordados os aspectos de tematização e figurativização do discurso. A sintaxe tratará das relações que se estabelecem entre a instância da enunciação e o discurso enunciado e para sua elaboração serão retomadas as teorias do foco narrativo e os estudos de semântica da enunciação sobre questões de argumentação. conciliação apontada como a finalidade principal deste trabalho. [página 6] . Tenciona-se verificar quais os procedimentos discursivos que se empregam para criar ilusões de enunciação e de realidade e.

tanto na análise lingüística da frase quanto no exame de discursos. de maneira sistemática. considerados imprescindíveis para a explicação da narratividade. neste capítulo. e apresentar.I — NARRATIVIDADE: À PROCURA DE VALORES CONSIDERAÇÕES INICIAIS Duas razões levaram-nos a tratar a narratividade. Em seguida. a necessidade de dar atenção às estruturas sintático-semânticas narrativas. de forma sucinta. [página 7] . tratou-se de firmar posição em certos pontos da semiótica narrativa. e restringiu-se a exposição a uma apreciação de conjunto da teoria. seríamos obrigados a reconhecer que os modelos de descrição e explicação da narrativa são marcos fundamentais na história da análise do discurso. algumas propostas precursoras. ainda que não pretendêssemos atribuir papel privilegiado à organização narrativa na teoria do discurso. Em segundo lugar. A primeira delas foi a concepção de discurso assumida e apresentada na Introdução: o discurso caracteriza-se por estruturas sintático-semânticas narrativas que o sustentam e organizam. Procurou-se ressaltar inicialmente. Optou-se por não apresentar exaustivamente a teoria greimasiana de análise narrativa. neste trabalho. a respeito de que há muitos textos publicados.

explicitamente. o que nem sempre aceitam as teorias lingüísticas. um seguidor da teoria gerativa. no componente de base. capaz de explicar os recortes semânticos culturais. dessa forma. a lingüística pratica. em resposta a uma serie de criticas e de sugestões feitas à gramática de casos. como “João joga bola”. A análise semântica da frase. Um deles é a concepção do sentido relativizado em cenas ou. formam um conjunto de conceitos universais. A principal divergência entre eles consiste no fato de Chomsky desenvolver uma gramática de “sujeito-predicado”. apresentamos e discutimos a gramática de casos. para muitos mais ingênua. um suporte sintático-semântico subjacente à organização da frase. ou casos. que João manifesta o caso agentivo e bola o objetivo e. as elaborações da gramática de casos de Fillmore (1968). ao lado das semânticas lógicas. [página 8] Em 1977. preocupadas com os valores de verdade e de falsidade das proposições. definir suas funções de sujeito e de objeto direto. de Propp ou dos formalistas russos. num modelo gerador de frases. a existência de estruturas profundas mais distanciadas da estrutura de superfície. O reconhecimento da dimensão . só após transformações e já em nível intermediário entre estrutura profunda e de superfície. das semânticas formais. enquanto Fillmore exclui do componente de base as noções funcionais de sujeito e de objeto direto e propõe colocar em seu lugar as relações casuais. concebidas como relações sintáticas. já que Fillmore se declarava então. O autor reconhece. já implícitos em seus textos anteriores. assim concebida. semanticamente relevantes. da dos contos populares e da dos textos em geral. Em nossa tese de doutoramento (1976). As relações casuais. aproxima-se da dos mitos. em um espetáculo. bastando pensar nas propostas de Lévi-Strauss. onde firma dois pontos fundamentais da teoria. tentando pôr em evidência sobretudo as diferenças básicas encontradas entre o modelo de Fillmore e o de Chomsky. uma semântica de caráter antropológico. para o nível da frase. importa determinar. provavelmente inatos e correspondentes a certos julgamentos que os homens fazem sobre os acontecimentos: Quem fez isso? Com o quê? A quem isso aconteceu? Em que lugar? Na análise de uma frase. no quadro da semântica gerativa. que envolvem os nomes e as estruturas que os contêm. Essas observações têm a finalidade de mostrar que. em que se definem papéis sintático-semânticos. como preferimos. mas fazer ver que é forçoso reconhecer. Não interessa retomar a proposta de Fillmore em sua totalidade.ESTRUTURAS SINTÁTICO-SEMÂNTICAS SUBJACENTES A gramática de casos de Fillmore1 Examinaram-se. Fillmore publica ‘The case for case reopened’.

tornando-se necessário examinar a gramática em que tal instância se insere. Apreendida a organização sintático-semântica profunda. manifestada pelas distinções de modo. que permitem caracterizar recortes culturais e sócio-históricos da língua e de seu uso. estrutura da transitividade). marcada sobretudo pela entoação. organizações “narrativas” e fazem a ponte entre as estruturas oracionais e as textuais. As demais funções acrescentam à [página 9] proposta de Fillmore variáveis da instância da enunciação função interpessoal. constituem. que simulam o espetáculo do homem no mundo. e julga que. de Fillmore quanto à gramática em que são reconhecidos os papéis sintático-semânticos. a experiência que o falante tem do mundo. no texto. Os papéis sintático-semânticos casuais. uma teoria que examina os papéis sintático-semânticos oracionais precisa pressupor uma teoria do texto. das quais derivam as estruturas constitutivas da oração: função ideacional (vs. para este trabalho. apesar do nome. As objeções que podem ser feitas à gramática de casos não se aplicam ao nível geral de interesses e objetivos em que aqui nos colocamos. estrutura do modo) e função textual (vs. 1971b e 1974) discordam. O segundo esclarecimento do texto de 1977 é o de que a gramática de casos. o espetáculo do homem agindo no mundo. o discurso e seu verdadeiro campo de aplicação.espetacular da sintaxe (ou da sintaxe-semântica). não é um modelo de gramática e sim uma proposta de descrição e explicação sintático-semântica de um nível da geração da oração. A primeira das funções compara-se facilmente com o nível sintático-semântico dos casos. através do sistema da transitividade. que ocorre também em Tesnière (1959). O único reparo que faz a gramática de casos deve-se ao fato de ela não levar em . ao mesmo tempo. função interpessoal (vs. no nível da oração. de topicalização — e da organização textual — função textual. já no nível da frase. Slakta interessa-se pela gramática de casos porque tal teoria pensa. ou seja. Halliday parte da hipótese de que o funcionamento social da língua está refletido na estrutura lingüística e determina três funções. estrutura temática e. Uma única observação é cabível: como a gramática de casos procura explicar. o autor desenvolve jogos de perspectivas e pontos de vista sobre a cena. estrutura da informação). ou narrativas propriamente ditas. 1976) e Slakta (l971a. vem corroborar as convergências acima apontadas e constitui a maior atração de sua teoria. não deve esquecer que tal espetáculo é visto. indiretamente. no interior da qual encontre seu lugar. pois expressa o sentido cognitivo. de certa forma. embora Fillmore não o reconheça. através da língua. Halliday (1974. A intenção do autor é localizá-la na gramática gerativa. sintaxe e semântica.

Escolher se o da gramática narrativa estrutural. e as abordagens das mitologias. principal fonte da semiótica narratológica. de um lado. sobretudo sobre o folclore. Prevê a análise do discurso em três níveis: o nível teórico-abstrato. explicitamente o nível da oração. ambos. e os trabalhos de Propp. além de terem aos poucos alargado suas perspectivas. ainda que preencha as condições mínimas necessárias seu caráter sintático-semântico — para atingir tais objetivos mais amplos. no entanto. a competência ideológica e para cuja explicação recorre a teoria das ideologias de Althusser. Os textos precursores dos formalistas russos trouxeram para a análise narrativa a preocupação. Não cremos. com a análise imanente do texto. diferentes caminhos podem ser seguidos. não chegaram nunca a eliminar os falos sociais da compreensão lingüística. como a de Fillmore. do outro. como foi proposta. as relações do texto com os elementos sóciohistóricos de produção e de recepção. atualmente. ou melhor. que prescindem de todo um trabalho de adaptação de propostas localizadas. e nesse ponto discordamos de Slakta. Tanto Slakta quanto Halliday consideram a gramática de casos como uma das etapas da análise do discurso ou da frase — instância de explicação sintático-semântica a que devem ser somados níveis que examinem. além de herdar da lingüística. no mínimo um engano não reconhecer que os formalistas.conta o social.[página 10] gem bem marcados: os estudos dos formalistas russos. .2 A gramática narrativa. que dizem respeito. entre outras. Deixam de ter sentido as objeções que. que a gramática de casos. e que serão examinados nos próximos itens. essencialmente na perspectiva de Lévi-Strauss. as relações entre discurso e enunciação. de outro ponto de vista e com novos elementos. seja o modelo mais adequado. Análise estrutural da narrativa Para a análise da narrativa propriamente dita. entre texto e contexto. modelos mais desenvolvidos de análise narrativa. que explicita regras especificamente lingüísticas por meio da gramática de casos. ao mostrarem a necessidade de compreender as estruturas objetivas da obra. a de Halliday ou a de Slakta. dois veios de ori. em primeiro lugar. a respeito de contexto. desde que a concebamos como uma etapa no interior de proposta mais ampla. Seria. Schnaiderman chama consciência semiótica ou estrutural. se podem fazer a gramática de casos. Há. para explicar o suporte sintáticosemântico narrativo do texto. mais especificamente da semântica. o nível das realizações concretas e o nível retórico. interrogada em si mesma. para o texto.

levantou muitos problemas. Essa distinção teve larga aceitação entre os estudiosos da narrativa. sem sombra de dúvida. A vinculação entre os formalistas e os atuais semioticistas russos é . que foram desenvolvidas por Bremond (1966. não basta para a construção do sentido do texto. Entre os trabalhos sobre a narratividade. não podem ser ignoradas as contribuições de Bremond. A unidade sintagmática da função. ainda bastante presas à etnoliteratura. posteriormente. os não-figurativos. no campo dos estudos literários. sendo necessário considerar também as relações que inte. Distingue assim. Aos esforços precursores dos formalistas russos e dos antropólogos seguem-se.[página 11] gram níveis hierarquicamente diferentes. Propp revelou as regularidades subjacentes à variedade dos contos maravilhosos russos. de Lévi-Strauss sobretudo. caracterizado pela relação entre actantes. em sua maioria já resolvidos. e dos semioticistas da Escola de Tartu4. a partir de Benveniste (1974). como os indícios e os informantes. o doador do objeto mágico do pássaro que oferece uma pena ao herói. desenvolver as pesquisas taxionômicas. O texto instigante de Barthes. representada. Os métodos e técnicas propostos foram. e funções integrativas. como as funções e as esferas de ação. por exemplo. ou relação de mesmo nível. Este. Barthes e Greimas. foi reformulada em termos de enunciado narrativo. como por exemplo a descrição das terminologias do parentesco. uma das obras sobre as quais repousa a análise estrutural da narrativa. Ao conceber invariantes narrativas. Se Propp apreendeu unidades sintagmáticas constantes sob a diversidade do texto. pelos estudos do folclore e. 1973). de Barthes. ao deduzir regras dos possíveis narrativos. não pertenceu ao grupo dos formalistas. Todorov. como os discursos políticos e científicos. de 1966. como a ‘Introdução à análise estrutural da narrativa’. principalmente na França. distinguindo. folclorista e etnólogo. mas seus trabalhos têm muito em comum com os estudos dos elementos dessa escola. o que permitiu a construção de uma sintaxe narrativa. por exemplo. estendidos a outros tipos de textos3: os da “grande literatura”. pela primeira vez. pelos trabalhos de Bremond.Propp. de visão estrutural. nos Estados Unidos. funções distribucionais. A elaboração metodológica das etnotaxionomias e as análises paradigmáticas. os não-verbais. trabalhos que marcaram época nos estudos da narratividade. procuraram explicar as regularidades estruturais subjacentes e são comparáveis ao modelo lógico-conceptual constituído por Greimas para a representação das estruturas profundas. pelas pesquisas que a ele se seguiram. reconhece níveis de descrição lingüística e mostra que a distribuição. na França. ao menos provisoriamente. do peixe que lhe dá uma escama ou do velho que lhe cede um bastão que bate. A morfologia do conto de Propp é. coube à antropologia. de Todorov.

a ruptura é completa. em primeiro lugar. sem abandonar a análise do texto.motivo de controvérsias. as unidades sintagmáticas constantes ou invariantes narrativas de Propp. à concepção de discurso que. ressaltar a necessidade de explicar a estrutura sintáticosemântica subjacente ao texto. seja no quadro da frase. as regularidades paradigmáticas subjacentes da antropologia estrutural. para outros. 1979. conforme foi [página 12] apresentado na Introdução. pela mediação da enunciação. fazer o projeto avançar nessa direção. com os mesmos princípios epistemo-metodológicos. atualmente. São principalmente os textos de semiótica da literatura que fazem a ponte entre os formalistas. ao tratar da gramática narrativa estrutural. pretendeu-se. Enquanto alguns estabelecem uma relação de continuidade direta entre formalistas (período de 1914 a 1930) e semioticistas (a partir de 1960). lingüistas e cibernéticos. tem já lugar na proposta semiótica. é. finalmente. A GRAMÁTICA SÊMIO-NARRATIVA A opção feita neste trabalho pela abordagem sêmio-lingüística5 do discurso deve-se. poetas em sua maioria. sem contradições teóricas. seja na instância do discurso. discutimos e fizemos nossa: tal enfoque descreve e explica satisfatoriamente o componente narrativo do discurso. Schnaiderman não acredita em nenhuma das colocações extremistas e mostra “marcos essenciais no desenvolvimento de uma consciência semiótica” na URSS — um dos quais seria o formalismo —. a semiótica deu já os primeiros passos para a construção de um modelo que. de análise interna e imanente do texto. que tal modelo permita. Ao conceber um sistema de regras capaz de explicar. essencialmente. que se tomará como elemento mediador entre formações discursivas e sociais. A apresentação que se acabou de fazer teve por objetivo. tanto as estruturas narrativas quanto as discursivas. as relações distribucionais e integrativas e a questão dos níveis de descrição textual — cuja contribuição foi inegável para a elaboração de uma teoria semiótica da narratividade. Em segundo lugar. a proposta mais desenvolvida. portanto. Uma proposta semiótica . p. Pretende-se. expor alguns elementos — a ênfase formalista na análise interna e imanente do texto. pois a enunciação. examine também sua inserção no contexto. responsáveis pelo aparecimento da semiótica de Tartu (SCHNAIDERMAN. a partir de vários autores. sem dúvida alguma. 26). acredita-se. e os semioticistas. como Lévi-Strauss. articular o discurso com suas condições de produção.

ou melhor. Uma grandeza semiótica qualquer é. A crença na necessidade de análise interna. propor uma análise imanente. que vai do mais simples e abstrato ao mais complexo e concreto.A semiótica. 7). não se acredita. em que cada nível de profundidade é passível de descrições autônomas. pois a significação decorre da relação. A teoria semiótica caracteriza-se por: a) b) c) construir métodos e técnicas adequadas de análise interna. e anterior a ela. na lingüística. uma rede de relações e nunca um termo isolado. Herdeira de Saussure e de Hjelmslev. mas vai do texto à cultura. da imanência à aparência. como o texto diz o que diz (GROUPE D’ENTREVERNES. Falar da significação é falar do sentido negativo decorrente do postulado saussuriano da “diferença”. da frase ou do discurso. entender o percurso gerativo como um percurso do conteúdo. 1979. ao mesmo tempo que dela depende. por conseguinte. procurando chegar ao sujeito por meio do texto. [página 13] d) Análise interna O enfoque semiótico procura organizar o texto como uma totalidade de sentido e determinar o modo de produção desse sentido. Como foi bem salientado na Introdução. p. como um percurso gerativo. produção que não se fecha no texto. a semiótica tem-se esforçado por elaborar procedimentos operatórios e por construir modelos adequados à análise interna. não toma a linguagem como sistema de signos e sim como sistema de significações. poucos são os enfoques que não distinguem a imanência da aparência. de relações. constitui uma das razões da escolha teórica feita. Para atingir tais objetivos. ou estruturas profundas de . porém. lingüística ou não. Pretende-se. ou seja. Análise imanente Hoje. isto é. independente da manifestação. tenta determinar as condições em que um objeto se torna objeto significante para o homem. de descrição e explicação dos mecanismos e regras que engendram o texto. que termine aí a construção do sentido do discurso. sob a qual é preciso procurar as leis que regem o discurso. assim. ao reconhecer o objeto textual como uma máscara. como a vê Greimas. cobrar da semiótica a explicação dos mecanismos de produção do sentido. considerar o trabalho de construção do sentido.

mais claramente. s.d. é uma ilusão — referencial e enunciativa — e. em decorrência. Construções metalingüísticas. com seus papéis sintático-semânticos ou casos. estrutura profunda e estrutura de superfície designam os pontos de partida e de chegada de uma cadeia de transformações (GREIMAS & COURTÉS. da imanência à aparência. Depois de cumpridos os procedimentos de abstração. Em semiótica. para ser explicado. ou melhor.d. da perspectiva adotada. é “mais profunda” que a estrutura profunda em Chomsky. O texto. Sob a aparência. determinam-se etapas entre a imanência e a aparência e elaboram-se descrições autônomas de cada um dos patamares de profundidade estabelecidos no percurso gerativo. 206). podem-se comparar as concepções de estrutura profunda em Fillmore e em Chomsky: a estrutura profunda em Fillmore. portanto. portanto.estruturas de superfície. o trabalho de construção do sentido. A noção de percurso gerativo é fundamental para a teoria semiótica. . as leis que o produzem. em Fillmore. resultam da concepção de discurso e de construção de sentido assumidas e serão percebidas. 352). na explicação de cada patamar. por se encon. sob a máscara. p. como um percurso gerativo. já que novas articulações são introduzidas em cada etapa do percurso e a significação nada mais é que articulação. as estruturas aparentes da manifestação. do mais abstrato ao mais concreto” (GREIMAS & COURTÉS. busca-se a imanência do discurso. o que dificulta ou mesmo impede a tarefa de precisar o que são instância profunda e instância de superfície.. as estruturas profundas são as estruturas mais simples que geram as estruturas mais complexas. As razões que levaram à escolha de certas etapas e não de outras. que podem ser comparadas. objeto da enunciação. resultantes de transformações ao menos de subjetivação e objetivação. tendo assim caráter puramente operatório. s. Percurso gerativo O discurso é encarado pela semiótica como uma superposição de níveis de profundidade diferente. precisa ser desbastado dos efeitos de sentido aparentes. p. Imanência e aparência são níveis diferentes de abstração e dependem. está mais distante da manifestação. Considera-se. A maior complexidade deve ser entendida também como uma “complementação” ou um “enriquecimento” do sentido. São as estruturas intermediárias. igualmente possíveis. a partir de estruturas imanentes. é necessário efetuar o percurso inverso e reconstruir.[página 14] trarem no mesmo nível de descrição. que se articulam segundo um percurso “que vai do mais simples ao mais complexo. A título de exemplo. Prevê-se a apreensão do texto em diferentes instâncias de abstração e.. ou ainda macroestruturas de estruturas textuais. com a estrutura profunda em Chomsky.

e a semântica. que pedem a construção.) aparente. e geral (GREIMAS & COURTÉS. e a das estruturas discursivas.O nível propriamente semiótico. No nível das estruturas fundamentais. 431 e 396). na etapa mais superficial das estruturas discursivas. uma sintaxe regulamenta o fazer — simulacro do fazer do homem no mundo e das suas relações com os outros homens — e uma semântica atribui estatuto de valor aos objetos do fazer. assim. de três gramáticas — fundamental. mais próximas da manifestação textual. em que são determinadas as estruturas elementares do discurso. em que as relações. compreende o percurso gerativo todo e distingue-se do nível lingüístico (ou pictórico. uma semân. ou seja. na instância das estruturas narrativas. sujeito do fazer. e não apenas taxionômica. s. gestual. cada qual com dois componentes..[página 15] tica gerativa — ‘concebida sob a forma de investimentos sucessivos. uma sintaxe explica as primeiras articulações da substância semântica e das operações sobre elas efetuadas e uma semântica surge como um inventário de categorias sêmicas com representação sintagmática assegurada pela sintaxe. que se situa fora do percurso gerativo e em que se reconhecem as estruturas textuais. dos mais abstratos aos mais concretos e figurativos” —. do lógico-conceptual ao narrativo graças à ação do homem. p. O nível semiótico comporta três etapas julgadas necessárias para a clareza da explicação do percurso: a das estruturas fundamentais. no interior da gramática semiótica. são significantes. nível sintático-semântico intermediário. e do narrativo ao discursivo pela intervenção do sujeito da enunciação.d. ainda que reconhecidamente abstratas. sintagmática. narrativa e discursiva —. A sintaxe semiótica deve ser considerada uma sintaxe conceptual. Passa-se. . instância mais profunda. imanente. São lugares diferentes de articulação do sentido. uma sintaxe organiza as relações entre enunciação e discurso e uma semântica estabelece percursos temáticos e reveste figurativamente os conteúdos da semântica narrativa. etc. uma sintaxe e uma semântica. A sintaxe e a semântica complementam-se na gramática semiótica. a das estruturas narrativas.

roupa lavada estendida. O vento no canavial Não se vê no canavial nenhuma planta com nome. planta com nome de homem. É solta sua simetria: como a das ondas na areia ou as ondas da multidão lutando na praça cheia. papel em branco de escrita. . em análise de rápidas pinceladas. ou há finos desenhos nas pedras da praça vazia. pode-se entender melhor a noção de percurso gerativo. ou como de um avião a paisagem se organiza. é da praça cheia que o canavial é a imagem: vêem-se as mesmas correntes que se fazem e desfazem. é como um mar sem navios. nenhuma planta maria. [página 16] É como um grande lençol sem dobras e sem bainha.Texto da imagem: Gramática semiótica Gramática fundamental (lógico-conceptual) Gramática narrativa (antropomórfica) Gramática discursiva (da enunciação) Sintaxe Semântica Sintaxe fundamental Semântica fundamental Sintaxe narrativa Sintaxe discursiva Semântica narrativa Semântica discursiva Tomando-se o texto de João Cabral de Melo Neto ‘O vento no canavial’. É anônimo o canavial. Então. penugem de moça ao sol. Contudo há no canavial oculta fisionomia: como em pulso de relógio há possível melodia. como a campina. Se venta no canavial estendido sob o sol seu tecido inanimado faz-se sensível lençol. sem feições.

Lembrando a lição da semântica de que o sentido nasce da descontinuidade. Ainda no patamar das estruturas fundamentais.se muda em bandeira viva. mudança—transformação/ ou /ordem vs. como têm as pedras. redemoinhos iguais. Não lembra o canavial então. da continuidade ou. 2 e 3) podem ser reconhecidas no texto: . disciplina de milícias. com estrelas verdes que no verde nascem. Escrito/. (MELO NETO. da percepção da diferença. As operações lógicas de negação e de asserção determinam os seguintes percursos: 1 continuidade morte (sem-sentido) estaticidade (conservação) 2 descontinuidade não-morte não-estaticidade 3 ruptura vida (sentido) dinamicidade cujas etapas (1. p. descontínuo/. cabe explicação das operações sintáticas que põem em movimento as [página 17] relações acima estabelecidas. “bandeira viva”. nesse rápido exercício. primeira etapa na geração do sentido. /sem feições vs. as categorias semânticas /anônimo vs. entre o sentido da vida (“sensível lençol”. da diluição. 148-9) Os conceitos empregados. “no verde nascem”) e o sem-sentido da morte (“tecido inanimado”)6. estarão arroladas as categorias semânticas sobre as quais se constrói o poema. do nome. dinamicidade/ ou /conservação—manutenção vs. voragens que se desatam. /em branco vs. desordem/ e. muito provavelmente. estarão mais bem desenvolvidos no corpo do trabalho. 1975. de cor verde sobre verde. com nome/. em última instância. Acrescente-se a relação de /estaticidade vs. do traço e a ausência de significação do anonimato. da ruptura. Não serão distinguidos. da feição. No nível das estruturas fundamentais. as praças vazias: não tem. Marcado/ ou /continuo vs. estrelas iguais àquelas que o povo na praça faz. com nitidez. se perdem. tem-se a oposição entre a significação da marca. podem-se reduzir à relação fundamental /não marcado vs. com cara/. os fatos sintáticos dos semânticos.

não lembra as praças vazias. A terceira e última etapa do percurso gerativo. pois. sabe ou pode fazer. finalmente. que conduz o discurso. que lhe dá voz e vez. etc.) e que seja claro o jogo de veridicção entre o ser e o parecer: o canavial mente. age (“correntes que se fazem e desfazem”. Exa. Destinador é aquele que determina a competência e os valores do sujeito que age. que aspira às mudanças (faz “estrelas”). No poema. coloca-se como sujeito operador das mudanças de estado e como sujeito “apaixonado”. portanto. papel em branco de escrita. que não se conforma e se revolta. portanto.[página 18] mina-se o texto como resultado da enunciação. é preciso reconhecer sujeitos humanos que realizam as mudanças descritas como operações lógicas. transformase a competência do sujeito para a ação: o sujeito sem nome. graças ao vento. o destinador aparece sob a figura do vento que muda o canavial. destinador. no poema. O texto trata. do surgimento da vida. sem feições. um observador. sensível lençol. pois parece. que nada quer. lençol sem dobras e sem bainha. torna-se um sujeito determinado ou “qualificado”. mar sem navios. O observador. possível melodia. “que o povo na praça faz”).1: 2: 3: anônimo. O sujeito responsável pela alteração das qualidades do sujeito da ação é denominado. na teoria semiótica. que confia e desconfia. da ruptura ou do aparecimento da tensão entre estados de distensão e de relaxamento. voragens que se desatam. mas não é estático e sem feições. “o canavial é a imagem”. a mais próxima da manifestação. que nesse texto a dimensão do saber esteja figurativizada pela visão (“não se vê no canavial”. finos desenhos nas pedras da praça vazia. o das estruturas narrativas. a paisagem se organiza. estrelas verdes que no verde nascem. tem “fisionomia”. há um sujeito que transforma estados. embora não pareça. aquele que. ao assumir diferentes posições e perspectivas. O canavial. no nível fundamental. que altera a relação de outros sujeitos com os objetos-valor. como discurso. que espera. não tem disciplina de milícias. mesmas correntes que se fazem e desfazem. oculta fisionomia. “oculta fisionomia”. é capaz de operálas e. redemoinhos que o povo na praça faz. é a das estruturas discursivas. tecido inanimado. do movimento. Nada mais justo. ao fazer variar o . em suma. da transformação. e esconde segredos. Retomam-se as estruturas narrativas na perspectiva da instância de enunciação que as assume. praça cheia. No texto em exame. ondas da multidão. sujeito cognitivo delegado do sujeito da enunciação. que “filtra”. Instala-se. que se desilude e se aflige. Nesse caso específico. No segundo patamar do percurso gerativo. enfim. feições ou marcas. estabelece as regras do jogo. ou seja.

ao nascimento ou às lutas na praça cheia. como percursos temáticos e figurativos. rapidamente. A descontinuidade aspectual rompe a duratividade do “papel em branco”. pode mudar-se em “bandeira viva”. submetido às injunções da política econômica e à natureza e com ela confundido. o herói. meio e fim. sem dúvida. Em ‘O vento no canavial’. o homem confundem-se com o canavial. aparecem fortes recursos de aspectualização. a do vento que mexe com o canavial. sem que isso signifique deixar de reconhecer a implicação mútua que os define. a melodia possível. valores e paixões narrativas. Percorridas. várias linhas temático-figurativas podem ser estabelecidas. conhece ou reconhece as voragens ocultas. mas que. leitura sócio-econômica do anonimato e do conformismo do homem do Nordeste. a partir de Hjelmslev. No caso da manifestação .ponto de vista. Outras são possíveis e não se pensa em esgotálas aqui: a) leitura sócio-política das transformações sociais. as etapas de geração do sentido propostas pela semiótica. as marcas estilísticas. na leitura vertical. independente de sua manifestação e anterior a ela. A manifestação tem implicações diversas. a possibilidade de considerar o texto nas suas relações com o significante — lingüístico. os movimentos da cana balançada pelo vento [página 19] equivalem. portanto. resta. visual. —. já retomadas como transformações. de que a semiótica não se ocupa. o líder. As relações e operações elementares do nível fundamental. a escolha lexical. etc. se soprar o “vento forte”. Também no nível do discurso. no nível discursivo. leitura existencial e cíclica da vida. o Nordeste. como a linearidade e a organização no espaço. da “campina” ou do “grande lençol” e o aspecto incoativo da mudança dá início a uma nova duratividade. já fora do percurso gerativo. Uma primeira leitura é. que garantem a passagem das transformações narrativas a processos com começo. da fecundação e do nas cimento. ainda. como um percurso do conteúdo. apresentam-se. a semiótica examina os temas e as figuras que os recobrem. b) c) A apreensão vertical dessas linhas temáticas (e figurativas) cria metáforas: o povo. Cabe lembrar que. Entende-se o percurso gerativo. os redemoinhos escondidos. o fecundador misturam-se com o vento. muito bem reconhecido pelos antropólogos). Sendo o observador (e não o narrador) o condutor do discurso. com a presença de elemento desencadeador das mudanças operadas pelo povo “lutando na praça” (não se pode esquecer do papel transformador da praça. a semiótica condiciona a construção de uma metalinguagem descritiva à separação dos planos da expressão e do conteúdo.

1980. os termos do subcomponente taxionômico são interseções ou redes de relações e as operações do subcomponente sintático.verbal. Tal estrutura necessita.. por sua vez. 432-3).. a instância ab quo do percurso de geração do sentido de um discurso (GREIMAS & COURTÉS. O quadrado semiótico foi concebido como a representação lógica. p. ou melhor.[página 20] MAS. “atos que estabelecem relações” (GREIMAS & COURTÉS. . devendo a relação manifestar sua dupla natureza de conjunção e de disjunção. da estrutura elementar7. stricto sensu. estudadas pela lingüística. s. 6). “tão simples quanto possível” (RICOEUR. O subcomponente taxionômico ou morfológico descreve e explica o modo de existência da significação como um microssistema relacional não orientado. p. p 44). Em decorrência do caráter relacional da sintaxe semiótica. como estrutura elementar. 1981a. em instância das estruturas de superfície e instância das estruturas profundas. ser precisada e interpretada por um modelo lógico que traduza bem suas relações em oposições de contradição. procurou-se dotar a semiótica de uma definição de estrutura capai de incluir relações que “constituem o essencial da herança Sobre a qual repousa o cálculo lingüístico desde 1827” (GREI.d. a estrutura elementar definese. Com a noção de estrutura elementar.d. Sintaxe fundamental A sintaxe fundamental articula-se nos subcomponentes taxionômico ou morfológico e operacional ou sintático. Organização estrutural mínima. GRAMÁTICA FUNDAMENTAL A sintaxe e a semântica fundamentais constituem o nível profundo da gramática sêmio-narrativa. porém. e que a torne operatória. s. em primeiro lugar. p. contrariedade e complementaridade. o nível textual desdobra-se. 433). corno a relação que se estabelece entre dois termosobjetos — um só termo não significa —. no plano metodológico.

no interior de um mesmo eixo semântico. como ilustração. seu contraditório (s 1 e s 2). por uma operação de negação. e podem. o texto ‘O vento no canavial’. Só é possível pensar em estrutura elementar quando s1 e s2 forem termos polares de uma mesma categoria semântica.S 1 S 2 S2 S1 relação de contrariedade relação de contradição relação de complementaridade Os termos da categoria elementar s1 e s2. tem-se: . já utilizado no item sobre o percurso gerativo. Investindo o quadrado semiótico com as categorias semânticas do poema citado. mantêm entre si relação de oposição por contraste. projetar. para melhor situar os conceitos da gramática fundamental. cada um deles. um novo termo. Retoma-se.

s 1 vs. /morte vs. Os metatermos contraditórios são dois . O quadrado semiótico permite ainda uma segunda geração. vida/. /estaticidade vs. graças às operações de negação e asserção. s1 e s 2 vs.Texto da imagem: S1 continuidade morte estaticidade S2 ruptura vida dinamicidade S 2 não-ruptura não-vida não-dinamicidade [página 21] S 1 descontinuidade não-morte não-estaticidade Percebe-se facilmente que /continuidade vs. s1 são complementares). s2. existencial e de movimento. e uma terceira geração que produz os termos complexo e neutro. s1 vs. s 1 são contrários. o modelo acima define seis dimensões: dois eixos: s1 + s2 e s 1 + s 2 dois esquemas: s1 + s 1 e s2 + s duas dêixis: s1+ s 2 e s2 + s 1 2 Os termos categoriais (s1. s 1. s 2 são contraditórios. Além das relações categoriais (s1 vs. e s 2) resultam de urna primeira geração de termos. s 1 e s2 vs. respectivamente. dinamicidade/ são termos de uma mesma categoria semântica: temporal. em que são obtidos os metatermos contraditórios e contrários. ruptura/. s2 e s 2 vs.

respectivamente s 1 e s 2. produz seus contraditórios. p. O quadrado semiótico. s1 e s2. 1981a. Com esse modelo. efetuada sobre s1 ou sobre s2. duas dêixis (s1 + s 2 e s2 + s 1) que mantêm entre si relação de contrariedade (como a mentira e o segredo. responde também pela representação dinâmica da estrutura elementar. Enquanto o subcomponente morfológico ocupa-se do modo de existência da significação. Os termos complexo e neutro caracterizam-se.esquemas (s1 + s 1 e s2 + s 2) que contraem relação de contradição (por exemplo. [página 22] asserção * asserção ** ** * (texto da imagem: * asserção. a operação de asserção aplica-se aos termos s 1 e s 2 e faz aparecer os termos primitivos afirmativos. respectivamente. a taxionomia do subcomponente morfológico. A operação de negação. pela reunião dos termos do eixo dos contrários (S (sexualidade) = s1 (macho) + s2 (fêmea)) e dos termos do eixo dos subcontrários (S (assexualidade) = s 1 (não-macho) + s 2 (nãofêmea)). considerados como termos primitivos. . por meio da reformulação das ralações em operações. cabe ao subcomponente operatório ou sintático descrever e explicar o seu modo de funcionamento. 42-6). Reúnem-se aí — relações da estrutura elementar da significação e seqüência ordenada de operações sintáticas — as condições mínimas de ou discurso (GREIMAS. traduz-se estaticamente a organização relacional do conteúdo. no mesmo quadrado das modalidades veridictórias). A orientação rias relações é a primeira condição da narratividade e pressupõe já um sujeito produtor do sentido. A dinamização do modelo taxionômico da estrutura elementar — as relações são tratadas como operações orientadas — permite passar ao ponto de vista sintático. ** negação) As operações são de dois tipos: a negação e a asserção. no quadrado das modalidades veridictórias)8 e os metatermos contrários. imanência e manifestação.

serão analisadas algumas reformulações possíveis. lingüístico ou não. ainda. passível de narrativização. Duas tarefas. que de certa forma incluiria a primeira. No item sobre a semântica fundamental. Foram apresentados apenas os elementos de consenso entre os estudiosos da semiótica. [página 23] Resumiu-se. a segunda. sobretudo a partir do trabalho de Zilberberg (1981). em grandes linhas. enquanto modelo de previsibilidade. Ressalte-se.As operações realizadas no quadrado semiótico negam um conteúdo e afirmam outro. ** negação) Nega-se a /continuidade/. como vimos. a eficácia heurística do quadrado. a sintaxe fundamental. foram confiadas ao modelo quaternário que acabamos de definir: a primeira é a de modelo constitucional. qualquer que seja a tarefa cumprida. com a sintaxe fundamental. O quadrado semiótico pertence ao nível metalingüístico da semiótica. a /vida/. o ponto inicial da geração do discurso. a /morte/ e a /estaticidade/ e afirma-se a /ruptura/. entre outras. a dinamização das relações fundamentais em percursos orientados resulta no esquema abaixo: s1 continuidade morte estaticidade s2 ruptura vida dinamicidade s 1 descontinuidade não-morte não-estaticidade ** asserção * (texto da imagem: * asserção. engendrando a significação e tornando-a. No poema de Cabral que se está usando como exemplo. Semântica fundamental A semântica fundamental define-se por seu caráter abstrato e constitui. em qualquer etapa de descrição. a /dinamicidade/. é a de representar as relações semânticas em sua dimensão paradigmática e propiciar-lhes a sintagmatização pelas operações orientadas. ponto de partida do percurso de geração de todo discurso. .

da disforia à euforia. representadas pelo quadrado semiótico. sobre o quadrado que as articula.” (GREIMAS. muito sumariamente. se tornam operatórias e adquirem estatuto lógico-semântico (GREIMAS. da /dinamicidade/. Em ‘O vento no canavial’. A atualização só ocorre na instância superior da semântica narrativa. 9).Todo semantismo articula-se em categorias semânticas que. 1979b. Esse inventário ou taxionomia de categorias semânticas é sintagmatizado pelas operações sintáticas descritas. Eufórica é a relação de conformidade do ser vivo com o meio ambiente. a /morte/ e a /estaticidade/ são disfóricas e opõem-se à euforia da /ruptura/. uma única categoria é suficiente para produzir um microuniverso semântico. sua não-conformidade. considerado o ser vivo como ‘um sistema de atrações e repulsões’. Em princípio. ou seja. Os termos da categoria semântica assim investidos são ditos valores axiológicos. em texto euforizante. As categorias semânticas podem ser axiologizadas na instância das estruturas fundamentais pela projeção. inscrito em um contexto. [página 24] Texto da imagem: . Passa-se. portanto. em sua geração. e disfórica. o modo como todo ser vivo. as categorias semânticas geradoras do poema são axiologizadas: a /continuidade/. em relação à semântica narrativa. com a qual se procura formular. p. categorias hierarquizadas. 9). e não apenas valores descritivos. da categoria tímica /euforia/ X /disforia/. e surgem. “Trata-se de uma categoria ‘primitiva’. p. ‘se sente’ e reage a seu meio. mas prevêem-se também. da /vida/. não relacionados ainda a um sujeito. dita também proprioceptiva. l979b. como valores virtuais. quando tais valores são assumidos por um sujeito.

/reduzido/ do modelo fonológico acústico. ou melhor. além de constituírem sistemas de valores virtuais a serem explorados pelo sujeito da enunciação. melhor ainda e segundo a bela expressão de Valéry. instalar nessa continuidade uma ‘descontinuidade sistêmica’. p. as articulações modo-passionais que regem as relações entre os sujeitos e os objetos. ao mesmo tempo. se o sema é mantido. está por detrás. por baixo das organizações modais que definem as paixões. Cada sema tem. 6).” (ZILBERBERG. e que instalaria a descontinuidade na unidade contínua do sema. mas. para satisfazer o princípio da continuidade. nessa perspectiva. /disforia/. dupla definição. . o escavará. de forma geral mantido neste trabalho. mas serão retomados alguns pontos de sua proposta que se acredita poderem contribuir para melhor explicar o modo de produção do sentido. como compacto ou contínuo. na instância narrativa. roerá sua substância para conservar-lhe apenas a forma ou. 1981. de acordo com a metáfora do percurso gerativo. ‘a figura da forma’. o sema varia entre um estado tenso e outro relaxado. o esvaziará. têm especial interesse para explicarem-se.disforia s1 continuidade morte estaticidade s2 ruptura vida dinamicidade s 1 descontinuidade não-morte não-estaticidade euforia não-disforia A aplicação do tímico sobre o descritivo e os valores axiológicos resultantes. O ponto de partida das inovações de Zilberberg é a categoria /tensão/ vs. correspondente à oposição /elevado/ vs. em relaxamento e em tensão. Esta última manterá o sema como unidade. para satisfazer agora o princípio da descontinuidade. Zilberberg (1981) sugere mudanças nas relações entre o tímico e o passional e alterações no próprio percurso gerativo “clássico”. para Greimas (1979b). ou seja. Não se discutirão aqui o interesse e o alcance de todas as sugestões de Zilberberg. é preciso. “Em outras palavras. /relaxamento/. apresentada como oposição-matriz. A categoria tímica /euforia/ vs.

Os percursos de tensão e de relaxamento são denominados modalidades tensivas. pretende-se empregar a categoria da tensividade. engloba tanto o ou tenso das oposições quanto o ou relaxado das analogias. ambos termos tensos que se separam por “qualidade semântica”. de timia para foria. /disforia/. maléfico (dis-)/. A euforia define-se. como foi visto. no nível das estruturas fundamentais. /relaxado/. responsável. A troca de nomes. A categoria da tensividade poderá levar a melhor caracterizar a categoria tímica /euforia/ vs. ao contrário do que ocorre com avareza e prodigalidade. 22-3). Se as modalidades tensivas subjazem a toda unidade de sentido. pela axiologização das categorias semânticas fundamentais. papel que Greimas atribui à categoria tímica. articulada em tensão e relaxamento. como uma tensão . Neste trabalho. os universos semânticos também se determinam pela tensividade: o de Baudelaire. relaxado (ZILBERBERG. explicita o caráter articulador da categoria. 1981. p. tenso. mas também pela relação de /tenso/ vs. a partir daí. o de Verlaine. podem ser consideradas como termos de uma categoria que modaliza as categorias semânticas. A categoria tímica será redefinida como categoria fá rica. por exemplo. mesmo sem acompanhar as demais contribuições de Zilberberg à semiótica. /mal. a ser entendida. em La Rochefoucauld. não só pela oposição tímica de /bem. assim. a distinção entre avareza e economia é uma variação de intensidade e não de qualidade. [página 25] Texto da imagem: tensão (t) relaxamento (r) intensão (r ) (t ) distensão Zilberberg ilustra bastante bem sua proposta: o operador ou. benéfico (eu-)/ vs.

quaisquer que sejam eles. na sintaxe narrativa e graças ao sujeito do fazer. como Zilberberg. O problema colocado pela passagem de um nível a outro. . do encontro do ser vivo com o não-vivo. Sabe-se. Pode-se concluir que a tensividade. um papel a cumprir na instância fundamental do percurso de geração do sentido. é uma propriedade do ser vivo ou. concepção que lhe permite homologar a forja ao princípio do prazer de Freud. O reconhecimento dos procedimentos de conversão e o estabelecimento de suas regras estão apenas começando. ao mesmo tempo que a estrutura se torna mais complexa e o sentido mais “rico”. substitui as operações lógicas da sintaxe fundamental por sujeitos do fazer e define sujeitos de estado pela junção com objetos-valor. Há semioticistas. a variação e a conservação tensiva organizam os conteúdos no nível das estruturas fundamentais e correspondem à metacategoria semântica. não encontrou ainda real solução. portanto. é possível reconhecer certos elementos. uma vez mais e indiretamente. a categoria tímica. tímica ou fórica. em que a sintaxe narrativa. inegavelmente. tal qual a propôs Greimas. além de iluminar um pouco as obscuras regras de passagem de um nível semiótico a outro. Quanto à passagem específica do nível fundamental ao narrativo. que. introduzindo a continuidade na descontinuidade das etapas. no momento. etapa imediatamente superior no percurso gerativo. como aumento de tensão e diminuição de relaxamento.[página 26] rias semânticas ou relação sintática responsável pela organização. mais exatamente.decrescente e um relaxamento crescente. formulando. como prefere Zilberberg. que a conversão9 diz respeito à manutenção e não à ruptura. conservação ou redução das diferenças semânticas. em enunciados do fazer que regem enunciados de estado. As operações da sintaxe fundamental convertem-se. para Zilberberg. Conversão das estruturas fundamentais em estruturas narrativas Caracterizada a gramática Fundamental. de caráter antropomórfico. que determina o descritivo e o torna valor axiológico. a tensividade tem. ou melhor. A equivalência ao modelo inicial deve ser mantida. como a categoria que articula as reações do ser vivo a seu contexto. Pode-se dizer que a conversão das operações lógicas em transformações narrativas é uma antropomorfização. a disforia. em lugar de definirem a narrativa pela antropomorfização das operações lógicas fundamentais. Retoma-se. A tensividade. à pulsão. a relação básica do homem com o mundo. Cumpre tratar da conversão das estruturas profundas em estruturas narrativas. Metacategoria definidora das catego. sintaticamente.

que age no e sobre o mundo em busca de certos valores investidos objetos.preferem determiná-la pela intencionalidade. de narrativas diferentes. GRAMÁTICA NARRATIVA A gramática narrativa descreve e explica o modo de existência e de funcionamento das estruturas narrativas ou superficiais que constituem a etapa imediatamente superior. Para tanto. Parte-se de duas concepções complementares de narratividade: narratividade como transformação de estados. portanto. ainda não assumidos por uru sujeito na instância fundamental. narratividade como sucessão de . a análise narrativa procura utilizar o quadro geral e rigoroso da teoria semiótica. que se tornam objetos-valor. são selecionados e atualizados na instância narrativa. buscando mostrar e analisar a especificidade de cada texto e não. a partir de seleção no interior dos sistemas axiológicos. só tem sentido se tais modelos forem entendidos como instrumentos de análise e de previsão. que serão vistos em seguida. em descrever e explicar as relações e funções do espetáculo. Enquanto instrumentos de previsão. Os valores axiológicos virtuais conver[página 27] tem-se. entendidos como valores assumidos por um sujeito. A proposição de modelos de enunciados narrativos. assim como em determinar seus participantes. no percurso de geração do sentido. como acreditam alguns criar uma camisa-de-força. de programas. permitem reconhecer. A atualização realiza-se em duas etapas: inscrição dos valores em objetos. a intencionalidade narrativa decorre da aspectualização10 da variação e da conservação tensiva das estruturas fundamentais. à das estruturas fundamentais. Em outras palavras. de situações. Sintaxe narrativa Retomando a concepção espetacular da sintaxe. de percursos e mesmo de um esquema narrativo canônico. elementos narrativos implícitos. Desvendar a organização narrativa consiste. por exemplo. dessa forma. isto é. uma fôrma. Pela conversão semântica. os valores virtuais. Entende-se a intencionalidade como a tensividade fundamental com um começo e um fim. em valores ideológicos. em que devam obrigatoriamente entrar os mais diversos discursos. e junção dos objetos-valor com os sujeitos. operada pelo fazer transformador de um sujeito. por catálise — explicitação dos pressupostos —. entende-se a sintaxe narrativa como o simulacro do fazer do homem que transforma o mundo. que facilitam a decomposição do discurso e a explicação coerente das transformações e dos estados e que possibilitam a comparação.

deve-se rever a noção de actante de Tesnière. Em outros termos. o homem foi ocultando o . Função está sendo tomada no sentido lógico-matemático de relação entre duas variáveis. Esperava todas as manhãs pelo ovo de ouro — clara. A Galinha dos ovos de ouro Era uma vez um homem que tinha uma Galinha. num esforço de reportagem. também. Ouro! Outro dia. de que decorrem a comunicação e os conflitos entre sujeitos e a circulação de objetos-valor. Investimentos semânticos complementares à relação de transitividade permitem estabelecer distinção entre duas diferentes funções. querendo saber detalhes de como acontecera o espantoso acontecimento.estabelecimentos e de rupturas de contratos entre um destinador e um destinatário.: E não só multidões. Subitamente. a Galinha pôs um ovo de ouro. a relação-função é constitutiva dos actantes. são o actante sujeito e o actante objeto. em dia inesperado. jornais. E a Galinha. Rádios. Outro ovo de ouro! O homem mal podia dormir. actante é o termo-resultante da relaçãofunção ou. pedindo-lhe impressões. a Galinha deixou de botar ovos de ouro. microfones. Certa vez até. a junção e a transformação. Porém o tempo passou e muito antes que o homem conseguisse ficar rico. em outras palavras. seus funtivos. da procura de sentido. que antigamente poderia passar despercebido. A relação que caracteriza o enunciado elementar é a de transitividade — relação que comporta um investimento semântico mínimo —. A fábula ‘A Galinha dos ovos de ouro’. outro ovo. gema. e os actantes. tudo entrevistava o homem. na data de hoje atraía verdadeiras multidões. ia dando aqui e ali seus shows diante dos jornais. e aos poucos o ia guindando ao milionarismo. as estruturas narrativas simulam a história da busca de valores. tudo de ouro! — que o tirava da miséria aos poucos. câmaras. Desesperado. definidos por tal relação. para a semiótica. será utilizada para ilustrar os diferentes tipos de enunciados e outros conceitos da gramática narrativa. A relação transitiva entre sujeito e objeto dá-lhes existência. O fato. gala. e entre duas formas canônicas de enunciados elementares. conseguiu pôr um ovo diante da câmara da TV Tupi. Com base nessa concepção de sintaxe relacional. pois. [página 28] Enunciado elementar O enunciado elementar da sintaxe narrativa será definido pela relação-função entre pelo menos dois actantes. de Millôr Fernandes. televisão.

um enunciado de estado. não se contendo mais.. Na fábula. certo dia. Para sua decepção não havia mais nenhum. Se a relação que os liga for de disjunção. F junção (S.: “Subitamente. são: enunciado de estado.. até que.fato. F transformação (S. Os enunciados de fazer operam a passagem de uni estado a outro. Anteriormente à junção. ou seja. os sujeitos serão virtuais... Articula-se em conjunção e disjunção: enunciado de estado conjuntivo.: “Era uma vez um homem que tinha uma Galinha” enunciado de fazer. E isso lhe deu muito mais dinheiro do que a Galinha propriamente dita. ao matar a galinha (enunciado de fazer) o sujeito do fazer “homem” muda seu estado de conjunção com o objeto “galinha e ovos de ouro” em estado de disjunção... de um estado conjuntivo a um estado disjuntivo e vice-versa.serão ditos realizados.O) Ex.. serão chamados de sujeitos (e objetos) atualizados. definidas pelas funções de junção e de transformação. [página 29] Então o homem — espírito bem moderno — resolveu explorar o nome que lhe ficara do acontecimento e abriu um enorme restaurante. Retomando a definição de actantes. a Galinha pôs um ovo de ouro”. portanto. A junção é a relação que determina o “estado” do sujeito em relação a um objeto qualquer. 1975.. MORAL: CRIA GALINHAS E DEITA-TE NO NINHO.. 99) As duas formas canônicas de enunciados elementares. com o sugestivo nome de Aos Ovos de Ouro.: O homem não tinha mais a Galinha dos ovos de ouro. A .O) Ex. pode-se dizer que o sujeito não existe nem semântica nem semioticamente se não for determinado pela relação transitiva com um objeto. se de conjunção.: O homem tinha a Galinha dos ovos de ouro.S ⋂ O Ex. O objeto da transformação e.S ⋃ O Ex. enunciado de estado disjuntivo. abriu a galinha para apanhar os ovos que ela tivesse lá dentro. (FERNANDES.. em dia inesperado. p...

fama e prestígio). que define a relação entre actantes. . cujo reconhecimento e distinção constituem o primeiro trabalho da análise narrativa. que a sintaxe narrativa não é uma sintaxe de sujeitopredicado. não mantém relação juntiva com o objeto). como as da gramática gerativa ou da sintaxe distribucional. Tais investimentos fazem do objeto um objetovalor. Conclui-se. de sujeitos e objetos [página 30] do lazer. a partir do qual se pode reconstituir o estado inicial. sendo as mudanças ocasionadas por transformações (enunciados de fazer): a galinha começa a botar ovos de ouro. torna-se um objeto-valor. seguem-se estados de disjunção e de conjunção do sujeito com o objeto-valor (ovos de ouro. a partir da apresentação das duas formas de enunciados elementares. responsável. ora como sujeito realizado (quando “sua” galinha põe ovos de ouro. [página 31] No programa narrativo abaixo representado. No texto-exemplo. dinheiro). enquanto objeto sintático. O programa narrativo constitui-se de um enunciado de fazer que rege um enunciado de estado.. mas uma sintaxe semelhante à de Tesnière ou Fillmore.d. em que o núcleo é o “verbo”. o enunciado de estado é o enunciado resultante da transformação. dinheiro). a galinha deixa de pôr ovos de ouro e é morta.natureza da função constitutiva do enunciado permite. A narratividade deve ser entendida como a sucessão de estados e de transformações. O sujeito apresenta-se ora como sujeito virtual (antes de a galinha botar ovos de ouro. deve ser considerado a unidade operatória elementar da sintaxe narrativa. Em ‘A Galinha dos ovos de ouro’. caracteriza-se como uma posição actancial que pode receber investimentos de projetos do sujeito (objeto do fazer) e de suas determinações (objeto do estado) (GREIMAS & COURTÉS. O objeto. investido pelos projetos e pelas determinações do sujeito (em busca de dinheiro. nessa instância. 313). o sujeito passa a estar em conjunção com o objeto). o programa narrativo. que. o homem abre um restaurante que lhe dá muito dinheiro. Ao integrar os estados e as transformações. p. o sujeito se relaciona por disjunção com o objeto). s. o sujeito (homem) define-se pela relação transitiva com o objeto (ovos de ouro. pela produção do sentido. e não o enunciado. Sintagma elementar: programa narrativo O sintagma elementar da sintaxe narrativa é denominado programa narrativo. ainda. ora como sujeito atualizado (quando a galinha deixa de botar ovos de ouro e é morta. Os dois tipos de enunciados marcam no discurso a diferença entre estado e transformação. distinguir sujeitos e objetos do estado.

em que o sujeito (homem) obtém os objetos que valem dinheiro e prestigio. que determina programas de aquisição ou de privação de objetosvalor (Os PN1 e PN4. programas de privação. que “modaliza” o enunciado de estado descritivo. são programas de aquisição de objeto-valor. os enunciados de estado também podem ser enunciados modais. o afeta. e o regido. portanto. São programas narrativos. em que o sujeito perde tais valores. . o sujeito do fazer altera a junção do sujeito do estado com os valores e. como se verá adiante. um enunciado descritivo. (homem) ⋂ Ov (restaurante-dinheiro.F = função → = transformação S1 = sujeito do fazer S2 = sujeito do estado ⋂ = conjunção ⋃ = disjunção Ov = objeto-valor PN = F[S1 → (S2 ⋂ OV)] F[S1 → (S2 ⋃ OV)] Pelo fato de transformar estados.(S. prestígio))] PN2 = F (deixar de botar) [S1 (galinha) — (S2 (homem) ⋃ Ov (ovos de ouro-dinheiro. o enunciado de fazer é um enunciado modal. lembrar que. prestígio))] Todo enunciado que rege outro enunciado é um enunciado modal. No programa narrativo. Há vários tipos de programas narrativos. segundo: a) a natureza da junção — conjunção ou disjunção —. porém. E preciso. e os PN2 e PN3. prestígio))] PN3 = F (abrir a galinha) [S1 (homem) (S2 (homem) ⋃ Ov (ovos de ouro-dinheiro. por exemplo: PN1 = F (botar ovos de ouro) [S1 (galinha) — (S2 (homem) ⋂ Ov (ovos de ouro-dinheiro. prestígio))] PN4 = F (abrir um restaurante) [S1 (homem) .).

apresentando-se os demais programas como programas de uso que levam à realização do programa de base. do fazer (S1) e do estado (S2). de privação transitiva ou por espoliação (opera-se a disjunção e o sujeito do fazer é diferente do sujeito de estado). podem ser assumidos por um único ator ou por dois atores diferentes. denominados programas narrativos de uso e cujo número depende da maior ou menor complexidade da tarefa a ser executada.). prestígio. de privação reflexiva ou por renuncia (opera-se a disjunção e o sujeito do fazer é igual ao sujeito de . (Nos PN1 e PN2 acima.b) c) o valor investido no objeto — modal ou descritivo —. no primeiro caso. em geral. a complexidade do programa narrativo — simples ou complexo — e a relação entre os programas que o constituem (Os programas são. fama) investidos nos objetos são descritivos.) d) Combinados os critérios a e d. jornais e televisão. complexos. Os valores (dinheiro. das entrevistas com rádios. actantes narrativos. hierarquizados: um programa narrativo de base. programas de transformação de competência e de alteração de estados passionais.). de aquisição reflexiva ou por apropriação (opera-se a conjunção e o sujeito do fazer é igual ao sujeito de estado). ocorrem programas de aquisição transitiva ou por doação (opera-se a conjunção e o sujeito do fazer é diferente do sujeito de estado). a relação entre os sujeitos. pressupostos. e os atores discursivos12: os dois sujeitos. o sujeito do fazer S1 é realizado pelo ator “galinha”. Em ‘O [página 32] vento no canavial’ tem-se um bom exemplo de programa de competência: o sujeito do fazer (vento) dota o sujeito de estado (canavial) do valor-modal do poder-fazer (PN = F (“ventar”) [S1 (vento) → (S2 (canavial) ⋂ Ov (poder-fazer))]. E o caso. enquanto o sujeito do estado S2 é manifestado pelo ator “homem”. Nos PN3 e PN4. O programa de uso pode ser realizado pelo mesmo sujeito que cumpre o programa principal ou por um sujeito do fazer delegado. e no segundo. por exemplo. o programa de base é o de aquisição dos valores de dinheiro e prestígio. do estado e do fazer. constituídos por mais de um programa. são assumidos por um mesmo ator “homem”. programas de performance. Na fábula. que define. que exige a realização prévia de outros programas. desde que cumpridas também as condições do item d (Os programas acima são programas de performance11. os dois sujeitos.

O desdobramento e a correlação de programas levam a ler a transformação de estados como transferência de objetos-valor e como comunicação de objetos entre dois sujeitos que. o programa de aquisição (ou de produção) de valores descritivos em que o sujeito do fazer e o sujeito do estado estão sincretizados em um único ator (aquisição por apropriação correlata à privação por espoliação). o PN3. confunde-se com a própria definição de programa. ao programa de renúncia. espolia o homem e apropria. de espoliação. de renuncia. em outra perspectiva. A performance. definem-se dois tipos fundamentais de programas narrativos. o PN4. Todo programa narrativo projeta um programa correlato. de apropriação. o Programa de doação corresponde. Opõe-se à competência. constitui um tipo de programa narrativo. em sentido lato. ao botar e doar os ovos de ouro. da mesma forma que o programa de apropriação é concomitante ao programa de espoliação. o homem abriu-a “para apanhar os ovos que ela tivesse lá dentro”. ao parar de pôr ovos. está a eles renunciando. Em sentido restrito. Assim. o PN2. ou seja.estado). PN1 = F (botar ovos de ouro) [S1 (galinha) → (S2 (homem) ⋂ Ov (ovos de ouro))] DOAÇÃO PN1 correlato = F (botar ovos de ouro) [S1 (galinha) → (S2 (galinha) ⋃ Ov (ovos de ouro))] RENÚNCIA PN2 = F (deixar de pôr ovos de ouro) [S1 (galinha) → (S2 (homem) ⋃ Ov (ovos de ouro))] ESPOLIAÇÃO PN2 correlato = F (deixar de pôr ovos de ouro) [S1 (galinha) → (S2 (galinha) ⋂ Ov (ovos de ouro))] APROPRIAÇÃO Acreditando na apropriação pela galinha. definida como programa de aquisição de valores modais em que o sujeito do fazer e o sujeito do estado são realizados por atores diferentes (aquisição por doação). Estabelecese a comunicação do objeto “ovos de ouro” entre os sujeitos “galinha” e “homem”. a competência e a performance. [página 33] A galinha.se dos ovos. por meio deles. se relacionam. Com base nos critérios levantados. O PN1 é um programa de doação. em F[S1a → (S2a ⋂ Ovd)] .

entendida como as condições necessárias à realização da performance. na performance. A competência. O primeiro tipo de performance pode ser exemplificado. Em F[S1a → (S2b ⋂ Ovm)] Ex. da representação sintático-semântica do ato. Descrever e explicar a organização dos programas narrativos. constitui o segundo passo da análise narrativa. representado pela figura da Galinha-dos-ovos-de-ouro. Caracteriza-se como uma organização hierárquica de modalidades ou de valores modais: o querer-fazer e/ou o dever-fazer regem o poder-fazer e/ou o saber-fazer.: F(botar ovos) [S1a (galinha) → (S2b (homem) ⋂ Ovm (poder-fazer))] transcreve-se a competência: S1 ≠ S2 (os índices a e b representam a diferença actorial) e o valor é modal. e performances de construção de objetos ainda inexistentes. o dinheiro. entre homens. O problema das modalidades será examinado em item à parte. o segundo. em que a Galinha-dos-ovos-de-ouro circula entre o Gigante e Joãozinho. do fazer-ser. já existem e circulam entre sujeitos. as performances do sujeito “homem” são performances de aquisição de objetos-valor já existentes e em circulação entre sujeitos: os ovos de ouro. . e. constrói enfim o objeto em que o valor irá se inscrever. mói. nos contos infantis. amassa. é sempre um programa de uso em relação ao programa da performance.: F(abrir restaurante) [S1a (homem) → (S2a (homem) ⋂ Ovd (dinheiro))] tem-se a representação da performance: S1 = S2 (o índice a marca o sincretismo actorial dos sujeitos) e o valor é descritivo. em luta pelo objetovalor. no primeiro caso. planta o trigo. Quanto à performance. Trata-se. com a história de Joãozinho e o pé de feijão. quando os objetos. faz e assa o pão. nos moldes propostos. entre a galinha e o homem. no segundo. com a história da Galinha Ruiva que. Se. da doação de valores modais [página 34] ao sujeito do estado.Ex. em que os valores desejados estão investidos. para serem lugares de investimento dos valores visados. ou seja. opõem-se um sujeito que faz — a Galinha Ruiva — e outro que não faz — os amiguinhos da Galinha Ruiva. na competência. a partir do valor gustativo desejado. que há performances de aquisição de valores. de passagem. há conflito entre dois sujeitos de fazer. dissemos acima. tornando-o apto para agir ou para “viver paixões”. No texto de Millôr que está sendo utilizado como exemplo.

Percurso narrativo “Um percurso narrativo é uma seqüência hipotáxica de programas narrativos (abreviados em PN). simples ou complexos. sujeitos realizadores — e da natureza dos objetos-valor. cuja explicação pode ser . que participam da formulação do enunciado elementar e do programa narrativo. torna-se sujeito competente para um dado fazer ou performance e executao.d. pressuponente. objeto. e do programa da performance. assim como o encadeamento dos dois programas.. o do destinadormanipulador e o do destinado julgador. simplesmente. Os papéis actanciais variam segundo o progresso narrativo. o conjunto dos papéis actanciais de um percurso define o chamado actante funcional ou actante. sujeito do fazer-objeto) Unidade do esquema narrativo. O percurso do sujeito é constituído pelo encadeamento lógico do programa da competência. ou seja. facilitando-lhes a referência. sujeito do fazer. ou o programa de que fazem parte. o actante funcional esta sendo chamado aqui para denominar os percursos que assume. sujeitos do saber. Na última etapa da hierarquia das unidades sintáticas. então. mas tem apenas a determinação mínima dada pelo percurso. p. Unidades sintáticas Esquema narrativo Percurso narrativo Programa narrativo (e enunciado elementar) Actantes Actante funcional (sujeito. pressuposto. passando a sujeito realizador. objeto — . cujos papéis engloba. um encadeamento lógico em que cada PN é pressuposto por um outro PN” (GREIMAS & COURTÉS. Os papéis actanciais dependem da posição que os actantes sintáticos. sujeitos competentes. 300). s. com os quais estão em junção — distinguem-se. caracterizam diferentes percursos do sujeito. no interior dos percursos narrativos. Há três percursos distintos: o do sujeito. O actante funcional não se caracteriza de uma vez por todas. Os diversos tipos de competência e de performance. o sujeito adquire competência modal e semântica. isto é. são redefinidos. como papéis actanciais. sujeito do querer) Actante sintático (sujeito do estado. sujeitos do querer. destinatário) Papel actancial (Ex. ocupam no percur[página 35] so — existem. Os actantes sintáticos — sujeito do estado. assim.: sujeito competente. destinador.

O percurso do destinador-manipulador é. graças a um fazer persuasivo. sujeito realizador. Tal manipulação consiste na doação de valores modais. finalmente. o que permite falar em contrato fiduciário. creia ser verdadeiro o objeto apresentado. sujeito do saber. a confiança ou a crença nas coisas e no mundo. O destinador-manipulador é a fonte dos valores. são pontos de vista diferentes sobre o programa de aquisição por doação. A atribuição de competência modal ao sujeito. sabe e pode lazer). percurso do destinador-manipulador ou percurso da manipulação e percurso do destinador-julgador ou percurso da sanção. com os ovos de ouro. a do sujeito do estado que “recebe” os valores modais. através da galinha. portanto. adota-se a perspectiva do sujeito do fazer. da ação do sujeito: o sujeito. qualificado para a performance de adquirir dinheiro e prestígio. pelos critérios vistos. enquadram o percurso do sujeito. lhe dá o poder-fazer. o destinador-manipulador ocorre sob a forma da sociedade. sujeito do poder. ao modificar suas . e executa tal fazer. e por meio da “modernidade”. pela definição acima. em que o destinador. Na fábulaexemplo. Manipulação e competência são correlativos. e simula a ação do homem sobre as coisas do mundo. transformando o estado de sujeito sem dinheiro em estado de sujeito com dinheiro. constitui a manipulação propriamente dita e pressupõe o contrato fiduciário acima referido. que. Os outros dois percursos. busca a adesão do destinatário. faz ser. que leva o sujeito a querer-fazer (adquirir dinheiro e prestígio). para levá-lo a fazer. ao exercer o fazer interpretativo que lhe cabe. Em ‘A Galinha dos ovos de ouro’ o Sujeito (funcional) “homem” torna-se sujeito competente (quer. A confiança entre os homens fundamenta a confiança nas palavras deles sobre as coisas e o mundo e. na competência. que será sujeito do fazer. A dotação de competência semântica ou manipulação cognitiva tem todas as características do programa de competência e deve ser entendida como um contrato fiduciário. pela performance. formado por um programa. de doação de competência semântica e modal ao destinatário. o manipulador transforma o sujeito. altera estados. em geral complexo. Há estreita vinculação entre a confiança e a crença. Pretende fazer com que o destinatário. cuja organização determina a competência do sujeito. ou [página 36] melhor é quem determina os valores que serão visados pelo sujeito ou o valor dos valores — competência semântica do sujeito — e quem dota o sujeito dos valores modais necessários ao fazer — competência modal do sujeito. o discurso do outro e o próprio destinador. diferentes papéis actanciais: sujeito do querer. ou seja. Assume.considerada o terceiro passo da análise narrativa. sujeito competente. Na manipulação. que lhe lega o saber-fazer (explorar o nome e abrir um restaurante). A manipulação do destinador distingue-se.

e. Percurso do destinador-manipulador Contrato fiduciário Manipulação propriamente dita: Aceitação ou reproposição do contrato. A manipulação tem a estrutura contratual da comunicação. negativo. como um fazer-saber. em que é estabelecido um mínimo de confiança. por conta do destinatário. e o fazer interpretativo. O destinatário é levado a efetuar uma es. Na tentação e na intimidação. O julgamento da competência é. presentes. ou seja. e representa a ação do homem sobre o homem. precisa recusar a representação lisonjeira que dele foi feita ou deixar-se manipular. portanto. o que sabe de sua competência. o espaço cognitivo da persuasão e da interpretação. que passa a querer ou a dever- .[página 37] colha forçada. como um ato epistêmico que leva a crer. para tanto. a aceitação ou recusa do contrato. Na provocação e na sedução. a tentação e a intimidação. para que ele faça o esperado. provocando e seduzindo. deve escolher entre aceitar a imagem desfavorável que dele foi apresentada ou fazer o que o manipulador pretende. segundo dois critérios de classificação: o da competência do manipulador para o fazer persuasivo e o da alteração modal operada na competência do sujeito manipulado. de forma clara ou implícita. na sedução. No primeiro caso. faz-fazer. secundariamente. na provocação. o destinador diz ao destinatário. Em resumo. respectivamente positivo (dinheiro. positivo. a provocação. a sedução. em posição de falta de liberdade ou de não poder não aceitar o contrato proposto. durante a comunicação. a persuasão. colocando-o em posição de escolha forçada. articulada no fazer persuasivo que exerce e no fazer interpretativo. tentando e intimidando. o destinador-manipulador persuade pelo saber. objetos de valor cultural. Há quatro grandes tipos de figuras da manipulação. O destinador-manipulador transforma a competência modal do destinatário ao colocá-lo. O segundo critério aplica-se à transformação da competência modal do sujeito manipulado. como o crer. vantagens) e negativo (ameaças). ou pelo poder. Na provocação. na sedução. o percurso do destinador-manipulador pode ser desmembrado em três etapas: o contrato fiduciário. ou melhor. O fazer persuasivo define-se como um fazer-crer e. persuasão cusa do contrato e interpretação Uma tipologia da manipulação foi esboçada na semiótica13.determinações semânticas e modais. o manipulador mostra poder e propõe ao manipulado. O destinador emprega.

O terceiro percurso narrativo proposto é o do destinador-julgador ou percurso da sanção15. a proposição de outro sistema de valores14. o da relação de interpretação entre o sujeito e o destinador-julgador. não muito desenvolvido. O bom funcionamento da manipulação pressupõe uma certa cumplicidade entre manipulador e manipulado. o dever-fazer. no saloon.fazer. [página 38] Acrescente-se. constitui. quanto como sanção pragmática: “E isso lhe deu muito mais dinheiro do que a Galinha propriamente dita”. Escapar da manipulação. se o homem-motorista não fizer questão de confirmar sua imagem de força e competência frente à mulher. em geral complexos. que modificam o ser do sujeito. Assim. que culmina na retribuição. responsável pela sanção cognitiva. [página 39] A operação cognitiva de sanção é uma interpretação que se cumpre em duas etapas. tanto pelo desenvolvimento dos programas narrativos do percurso do sujeito. quanto pelas correlações que se estabelecem entre manipulação e sanção. como programas de doação de valores. combinados e confundidos em estruturas de manipulação complexas. Instala-se. encaixando-o entre dois momentos do sistema do destinador. que a manipulação só será bem sucedida se o sistema de valores que esta por deitas dela for compartilhado pelo manipulado. a provocação e a intimidação. que leva ao reconhecimento do “herói” e ao desmascaramento do “vilão”. se o guarda rodoviário não se interessar por dinheiro ou se prevalecerem nele outros valores. No texto de Millôr. encarregado da sanção pragmática. A sanção faz eco à manipulação e ambas delimitam o percurso do sujeito. consiste no encadeamento lógico de programas narrativos. percurso que lhe cabe encerrar. Os diferentes tipos de manipulação manifestam-se. O percurso do destinador-julgador. O querer-fazer caracteriza a sedução e a tentação. aparece tanto como sanção cognitiva. que se explicam pela organização e encadeamento dos programas no percurso do destinador-manipulador. em geral. modais e descritivos. ele não se deixará seduzir pela “fragilidade” da jovem que está com o pneu do carro furado. a de reconhecimento e a de integração do sujeito e de seu . sob a forma de recompensa ou punição. de dois tipos: o primeiro. não será ele levado pela tentação do suborno. o segundo. da mesma forma que a manipulação. A sanção a última fase do algoritmo narrativo e apresenta-se como um fim necessário. um outro ponto de vista na narrativa. ao duelo. o percurso da sanção. agora. no reconhecimento do “espírito moderno” do sujeito e na moral “Cria galinhas e deita-te no ninho”. ele não será levado. A sanção pragmática pressupõe a cognitiva e caracterizam-se. além de significar a recusa em participar do jogo. além do econômico. Volta-se à questão do contrato fiduciário. também. ambas. com a sanção. se o destinatário provocado não se importar de ser chamado de covarde.

definindo-os como verdadeiros (que parecem e são). 1982). se faz em nome de uma ideologia. sob a forma de recompensa. Pode-se exemplificar. por sua conformidade ou não com o sistema de valores que representa e. e sanção. Recategorizado como objeto. em seguida. também. para adquirir sentido. o sujeito é. determinado pelas modalidades epistêmicas da certeza ou da dúvida: afirmado ou recusado. recebe a retribuição sob a forma da galinha-dos-ovosde-ouro. última etapa da sanção. admitido ou posto em dúvida.percurso no sistema de valores do destinador. reconhecido e considerado cumpridor do contrato que assumiu. em primeiro lugar. que os pune. O sujeito. Conclui-se que toda interpretação. uma vez mais. integra o percurso narrativo por ele realizado no sistema de valores de que. em suma. falsos (que não parecem e não são). Joãozinho. passível de interpretação. Na sanção. A Galinha Ruiva propõe acordo ao rato. o percurso do sujeito as transformações e os estados resultantes — torna-se suporte de valores descritivos e modais. comendo o pão sozinha. cumprido o com. o destinador julga a conduta do sujeito e os estados obtidos pelas operações. de quem o príncipe se enamora. da qual depende. No reconhecimento. O sujeito. além de reconhecer o sujeito. a “objetivação” do percurso narrativo realizado pelo sujeito (PANIER. após ser reconhecida como a verdadeira princesa. mentirosos (que parecem e não são) ou secretos (que não parecem e são). casa-se com ele. é julgado positivamente e recebe uma retribuição. o sentido do percurso narrativo realizado. é guardião.[página 40] trato implícito de coragem e esperteza. o destinador. Ou seja. como destinador. Como eles não assumem o compromisso. sua apreensão como objeto do saber a ser interpretado. Para isso é necessária. ao mesmo tempo que o desmascaramento do vilão ocorre pela passagem do mentiroso ao falso. O destinador interpreta os estados resultantes do fazer do sujeito. Uma última possibilidade é a de o sujeito . precisa ser retomado e lido pelo destinadorjulgador. ao pato e ao porco. para que a ajudem a fazer o pão. caracterizado essencialmente pelo fazer e pelos valores com os quais se relaciona. em relação aos valores implicitados ou explicitados no contrato inicial com o destinadormanipulador. A retribuição faz parte da estrutura contratual inicial e restabelece o equilíbrio narrativo. com a literatura infantil: a Gata Borralheira. após julgamento negativo. Cabe-lhe verificar se o sujeito cumpriu o compromisso assumido quando da sua instauração como sujeito da performance. No conto popular. as modalidades veridictórias e epistêmicas sobredeterminam o ser do sujeito. em geral. são reconhecidos preguiçosos pela galinha. o reconhecimento do herói dá-se pela transformação do secreto em verdadeiro. Veridictoriamente modalizado. O inverso também ocorre e a não-obediência ao contrato conduz à punição.

o sujeito que cumpriu o contrato será julgado negativamente e vice-versa. a da transitividade. Muitas mudanças . simplesmente. a partir do qual são calculados os desvios. retoma as contribuições de Propp. as expansões e as variações narrativas. Nesse caso. constitutivos do esquema. enquanto projeto. desmembrada em destinador e destinatário. o percurso da manipulação ou do destinador-manipulador.ser sancionado por um destinador-julgador que encarne valores contrários ou contraditórios aos do destinador-manipulador. realização e destino (GREIMAS & COURTÉS. s. das provas proppianas — qualificante. localizado tanto na dimensão pragmática (encadeamento de atos somático-gestuais).. é o que ocorre na punição do anti-sujeito. passando pelo percurso. A sanção realiza. e estabelecidas as comparações entre narrativas diferentes. ao estabelecer a regularidade sintagmática da organização narrativa. duas operações. Só pode ser entendido no topo da estrutura sintática hierárquica que se está examinando. pelos papéis actanciais que englobam e definem-se por duas categorias. o da ação ou do sujeito e o da sanção ou do destinador-julgador. p. e a pragmática. ao definir-se como modelo hipotético de uma organização geral da narratividade que procura mostrar as formas pelas quais o sujeito concebe sua vida. de interpretação reconhecimento do sujeito e integração de seu percurso no sistema de valores de ambos os destinadores —. de retribuição. portanto. no nível do esquema. quanto na cognitiva (sucessão de atos de linguagem). 298). articulada em sujeito e objeto. O esquema narrativo canônico compreende os três percursos descritos. Os percursos da manipulação e da sanção situam-se na dimensão cognitiva e enquadram o da ação. enquanto modelo canônico. principal e glorificante. Visualiza-se o esquema narrativo na representação abaixo: Percurso do destinador-manipulador Dor — Dário Percurso do sujeito S—O Percurso do destinador-julgador Dor — Dário [página 41] Os actantes funcionais ou actantes. a cognitiva. deve ser tomado como referência. O esquema narrativo.d. Esquema narrativo canônico A hierarquia sintática da narrativa vai do programa ao esquema. e a da comunicação ou factitividade. O esquema narrativo. Podem-se aproximar os três percursos. Em geral. caracterizam-se.

adotou a perspectiva do sujeito e de seu fazer. No entanto. que executa. em geral após a ruptura da ordem estabelecida. depois da transgressão de contratos sociais implícitos ou explícitos. a problemática mais geral — peculiar ao conjunto das ciências sociais — no interior da qual se opõem duas concepções quase inconciliáveis da sociabilidade: a vida social. enquanto luta (de classes) e competição. p. Os objetos-valor circulam em um espaço fechado e a aquisição de . e a sociedade fundada na troca e na coesão social. ao reconhecimento dos dispositivos modais da narrativa que permitem reinterpretar a sintaxe narrativa em termos de sintaxe modal. em todas as etapas hierarquizadas. graças. ou seja. A leitura da estrutura contratual da narrativa mostra o estabelecimento de um acordo entre o destinador-manipulador e o destinatário-sujeito. assim. escolheu o ponto de vista das relações entre destinador e destinatáriosujeito. ao mesmo tempo. o cumprimento. a do homem e a da galinha — obriga-nos a desdobrar.. é preciso não esquecer que a organização contratual da intersubjetividade articula-se em dois pólos opostos. Que se pense na semiótica da manipulação e da sanção e na determinação da competência e da existência modais do sujeito. O programa narrativo de aquisição reflexiva por apropriação. pelo sujeito. a semiótica conserva ainda. é concomitante ao programa narrativo de privação transitiva por desapropriação. da mesma forma que a doação ocorre simultaneamente à renúncia. o das estruturas polêmicas ou conflituais e o das estruturas contratuais. desse tipo de estruturas. a atribuição de recompensa ao sujeito fiel a suas obrigações. “O reconhecimento. Se a estrutura contratual parece dominar o conjunto do esquema narrativo. Retomando as duas definições propostas de narratividade. com maior precisão. em sentido restrito. a da sucessão de estabelecimentos e de rupturas de obrigações contratuais. na sua definição de esquema narrativo.ocorreram a partir do trabalho precursor de Propp. a organização sintática da narrativa. pelo destinador-julgador. na fábula da Galinha dos ovos de ouro. pode-se agora perceber que a primeira. a de sucessão de estados e de transformações.” (GREIMAS & COURTÉS. cio compromisso assumido. s. que caracteriza a performance. sobretudo. sua parte no contrato. permite-nos articular e formular. na semiótica.) [página 42] O reconhecimento da estrutura polêmica na narratividade — no conto da Branca de Neve. a história da Branca de Neve e a da madrasta. há. e a segunda. por exemplo. o ponto de vista de Propp ao atribuir às regularidades narrativas o estatuto ideológico de um projeto de vida.d. 341.

. cabem algumas observações sobre a intencionalidade. Estratégia narrativa O esquema narrativo. a composição dos programas complexos. por troca ou por luta. que remetem.[página 43] tica e cognitiva. e não só no do destinadormanipulador —. o tipo de aquisição de valores. a forma do desdobramento polêmico. como conseqüência. Intencionalidade narrativa Antes de se abordar a semântica narrativa. assim como as demais instâncias hierárquicas da sintaxe narrativa. pois ambos representam sistemas de valores contrários ou contraditórios. com os sujeitos delegados. elaborar os esquemas narrativos. Cabe à estratégia narrativa. Os esquemas resultantes da estratégia narrativa constituem a instancia sêmionarrativa a partir da qual os discursos são gerados. ao sujeito da enunciação. o desdobramento dos percursos: percurso do sujeito e percurso do antisujeito. por apropriação ou por construção de objetos. diretamente relacionadas ao sujeito da enunciação. O sentido narrativo depende das opções feitas. as passagens entre as dimensões pragmá. como traço definidor da narratividade. já repetidas vezes proposta.um objeto por um sujeito corresponde à sua privação para outro sujeito. A estratégia narrativa não se confunde com as estratégias discursivas e textuais. Os percursos narrativos do sujeito e do anti-sujeito caracterizamse pela oposição e pelo fato de os dois sujeitos estarem interessados no mesmo objeto-valor. oferece muitas oportunidades de variações e combinações que dão caráter único e específico às narrativas-ocorrências. última instância da organização narrativa. a forma de sociabilidade. no interior do percurso do sujeito. O antidestinador manipula e sanciona o anti-sujeito e opõe-se ao destinador do sujeito. em ultima instância. por exemplo. no âmbito da semiótica. quem sabe — do discurso. Aquisição e privação opõem-se paradigmaticamente e pressupõem-se reciprocamente. No nível do percurso narrativo. o emprego recursivo de programas e de percursos — um percurso de manipulação pode ser encontrado. As muitas relações e combinações devidas à estrutura polêmica da narrativa tornam a organização sintática bastante complexa e possibilitam um sem-número de variações. percurso do destinador-manipulador e percurso do antidestinadormanipulador. determinando: a articulação dos percursos narrativos. mas constitui o patamar narrativo mais próximo — a meio caminho. as tarefas do sujeito e do anti-sujeito na busca de valores. percurso do destinador-julgador e percurso do antidestinadorjulgador. a dupla implicação que liga os programas de aquisição e privação tem.

nem com a finalidade. nesse caso. “uma relação que se estabelece entre o trajeto a percorrer e seu ponto de chegada” — (GREIMAS. distinguem-se duas interpretações do termo sens em francês. convertidas. mas as engloba. distinta da intenção. entre sujeito e objeto. ou seja. As mesmas operações tensivas. como uma relação orientada. que correspondem. rumo (a intencionalidade. ler a intencionalidade narrativa como a procura do prazer e da estabilidade do Nirvana freudiano. Esse sintagma define-se como um projeto cultural. 63). o Novo Dicionário Aurélio define sentido tanto como significação. /relaxamento/. significado (a relação entre expressão e conteúdo). quanto como orientação. Dessa forma. Uma narrativa determinada pela intenção restringiria sua produção e desenvolvimento a atos voluntários e conscientes. Não seria possível. de 1968 (GREIMAS. nem considerar as determinações sócio-históricas. A variação tensiva e sua conservação organizam sintaticamente as [página 44] categorias semânticas discretas. concebe o nível fundamental do percurso gerativo do sentido a partir da noção de tensividade. pois são buscas inconscientes. A intencionalidade. a virtualidade e a realização. é possível conceber as transformações narrativas como uma tensão entre dois modos de existência. A segunda acepção de sentido permite conceber o desenrolar narrativo como um sintagma programado entre a posição incoativa e a posição terminativa do sujeito. que negam a liberdade e o caráter voluntário do discurso. transitiva. com um começo e um fim. p. no nível das estruturas narrativas. muito de perto. pela intencionalidade. 1970). direção. Nesse artigo. articulada em /tensão/ vs. respondem. 1970. Zilberberg (1981). Entende-se intencionalidade como a tensividade aspectualizada. A definição acima e o papel central da intencionalidade aparecem em texto fundamental da semiótica. em português. nem com a motivação. para Greimas. às acepções de sentido. Com efeito. não se identifica.Intencionalidade diferencia-se de intenção. conforme exposto. Sintaxe fundamental conservação tensiva variação tensiva Sintaxe narrativa aspectualização aspectualização intencionalidade recursiva intencionalidade diretiva .

representam-se como no esquema abaixo: . portanto. em que o valor é investido no objeto e relacionado. Passa-se da taxionomia à axiologia. muito embora um tanto camuflada pela ênfase dada ao caráter antropomórfico das organizações narrativas. /disforia/ ou em /tensão/ vs. /relaxamento/. o valor se torna 1eghel e faz do objeto um objeto-valor. Há. determinam tipos diversos de narrativa e delimitam melhor o entendimento semiótico de conservação e progresso narrativos. podem tornar-se valores axiológicos virtuais desde que sobre elas se projete a categoria articulada em /euforia/ vs. na instância narrativa. por disjunção ou conjunção. graças aos dois elementos definidores do valor axiológico. A conservação e a variação tensiva. no percurso gerativo. Só assim. no enunciado de estado. mas sim de concebê-la num nível de abstração maior. Semântica narrativa A semântica narrativa é.[página 45] jeito. inscrito na estrutura sintática. ligada à de narratividade. articulados nos quadrados semióticos. dois momentos essenciais na passagem da semântica fundamental à semântica narrativa: a seleção dos valores. na semiótica. são. mediante inscrição em um ou mais objetos em junção com sujeitos. A escolha de valores corresponde a uma primeira decisão do sujeito da enunciação. selecionados e convertidos em valores atuais (ou valores. aspectualizadas e tornadas intencionalidade. quanto ao discurso que será produzido. desmembradas. A atualização dos valores ocorre. axiologizados como valores virtuais. Conforme foi examinado em itens anteriores. com o su. o que permite uma generalização crescente e facilita a tarefa de análise narrativa da música ou da gestualidade. a instância de atualização dos valores. e a relação com os sujeitos. A noção de intencionalidade esteve sempre. por exemplo. resultantes da articulação de categorias semânticas e. simplesmente). Não se trata de negar agora que a narratividade é função do sujeito. como visto. as primeiras articulações do sentido em categorias semânticas. pela projeção da categoria tímicofórica. ainda no nível das estruturas fundamentais. As conversões do nível profundo ao nível narrativo.Barthes define narrativas conservadoras pela intencionalidade recorrente e narrativas reformadoras ou revolucionárias pela intencionalidade diretiva. Os termos do nível fundamental.

dinamicidade) [página 46] Depois (la transformação: S (canavial/povo) ⋂ Ov (ruptura. estaticidade) Os valores acima são valores descritivos. dinamicidade) S (canavial/povo) ⋃ Ov (continuidade. classificam-se em valores objetivos (consumíveis e armazenáveis) e em valores subjetivos (prazeres. morte. Em ‘O vento no canavial’16. etc. vida. vs. o poder. encontram-se as categorias semânticas fundamentais continuidade morte estaticidade vs.). nos objetos relacionados com os sujeitos: Antes da transformação: S (canavial/povo) ⋂ Ov (continuidade’. Depende da categoria semântica convertida a subdivisão dos valores narrativos em valores descritivos e valores modais (o saber. Os valores descritivos. . na instância das estruturas narrativas. que “modificam” as relações entre sujeito e objeto valor ideológico (ideologia) ou valor assumido por um sujeito O primeiro aspecto da conversão é a inscrição de elementos semânticos no objeto. por sua vez. atribui-lhe existência semântica. A transformação é operada pelo sujeito do fazer(canavial/povo). no interior de enunciados de estado + categoria tímico/fórica = valor axiológico virtual (axiologia) Semântica narrativa traços modais. vs. que se tornou competente para tal fazer graças ao destinador(vento). estaticidade) S (canavial/povo) ⋃ Ov (ruptura.categoria Semântica semântica fundamental (taxionomia) traços semânticos inscritos nos objetos. vida. ruptura vida dinamicidade Esses traços semânticos inscrevem-se. morte. estados de alma). conforme foi analisado. o investimento de traços semânticos no objeto em junção com o sujeito. Se a relação do sujeito com o objeto lhe dá existência semiótica.

E de frescura. as categorias mo. e de mocidade.. dinamicidade))] Em “Epílogo”.[página 47] dais modificam as relações do sujeito com os valores. há. As categorias fundamentais vida vs. Enquanto a categoria tímico-fórica corresponde. E o meu tinha a morta morta-cor Da senilidade e da amargura.. 42). Quando o acabei — a diferença que havia! O de Schumann é um poema cheio de amor. as categorias semânticas vida vs. O segundo quadro do esquema mostra a conversão da categoria tímico-fórica em categoria modal. como Schumann. Em outras palavras. na estrutura fundamental.PN de competência: F (“ventar”) [S1 (vento) → (S2 (canavial/povo) ⋂ Ov (poder-fazer)] PN de performace: F (“balançar/lutar”) S (canavial/povo) → (S2 (canavial/povo) ⋂ Ov (ruptura. A conversão da categoria tímico-fórica em categorias modais diferenciadas e interdefinidas . velhice ocorrem como traços semânticos descritivos nos objetos dos enunciados narrativos S1 (Schumann) ⋂ Ov (vida.. mocidade) S2 (Eu) ⋂ Ov (morte. — O meu Carnaval sem nenhuma alegria!... compor Um carnaval todo subjetivo: Um carnaval em que o só motivo Fosse o meu próprio ser interior. p. as categorias modais ou modalidades determinam... vida. no nível das estruturas fundamentais. velhice). morte e mocidade vs. às relações de tensão e de relaxamento cio ser vivo com seu contexto. morte e mocidade vs. as relações que ligam o sujeito ao objeto-valor. velhice: Epílogo Eu quis um dia. poema de Bandeira (1961.. na instância narrativa.

a categoria tímico-fórica converte-se em categoria modal. entre outras: 1 — [S (canavial) ⋂ O querer. ruptura. (DISFORIA-TENSÃO) (morte. ruptura)] No primeiro exemplo. Dessa forma. em ‘O vento no canavial’. (EUFORIA-RELAXAMENTO) (vida. o estado resultante de transformação da existência modal do sujeito. conforme as aspirações expressas no primeiro exemplo. que passa de indesejável e impossível a desejável e possível. as categorias semânticas dos dois textos em exame. dinamicidade/. a ruptura e a dinamicidade. velhice) vs. operada pelo destinador (vento). no poema. representa-se a competência do sujeito (canavial/povo) para transformar (pelo movimento e pela luta) sua relação com a vida. A categoria tímico-fórica determina. mocidade)] . O vento muda a relação do sujeito (canavial/povo) com o objetovalor.resulta de novas articulações significantes responsáveis pelo enriquecimento semântico das etapas do percurso gerativo do sentido. No segundo exemplo. continuidade. dinamicidade) no de Bandeira. na instância fundamental. a quem atribui o poder-fazer. desejável e possível: [página 48] 3 — [S1 (Eu) ⋂ querer. investidos no objeto. a relação do sujeito (Eu) com o objeto-valor (vida. No poema de João Cabral tem-se (DISFORIA-TENSÃO) (morte. estaticidade) vs. mocidade) é desejável e impossível e a do sujeito (Schumann). O destinador (vento) é o responsável também pela modificação da competência do sujeito. modificadora da relação do sujeito com o objeto-valor. lutar) (S1 (canavial) → (S2 (canavial) ⋂ O vida. (EUFORIA-RELAXAMENTO) (vida. não-poder] [S1 (Eu) ⋂ O (vida. ruptura] 2 — [S (canavial) ⋂ O poder] [F (balançar. ruptura. poder] [S (canavial) ⋂ O vida. o sujeito de estado (canavial/povo) quer e pode estar em relação de conjunção com os valores /vida. com os mesmos valores. mocidade) No nível narrativo. tal como indica o exemplo acima. obtêm-se as categorias modais do querer-ser e do poder-ser (exemplo 1) e do poder-fazer (exemplo 2). No poema ‘Epílogo’. Esse é.

investidos no objeto. que caracterizam estados passionais. qualificando-o para o fazer. em certos momentos. pragmática converciacional. . seus estudos estão por detrás dos resultados das investigações que aqui se apresentam. Brunot. com o qual mantêm uma relação modal qualquer. são casos de modalização do ser. as existenciais ou modalidades do ser e as intencionais ou modalidades do fazer (GREIMAS. algumas diferenças de perspectiva17. A modalização do fazer é responsável pela competência modal do sujeito do fazer. a não ser para estabelecer. no texto de Bandeira. e os enunciados são de dois tipos. por sua vez. Os trabalhos precursores de Bally. impossíveis. entendendo-se a amargura como o efeito passional de /querer-ser/. da mesma forma que os traços /vida e mocidade/. No último quadro do esquema das conversões. possíveis. Os traços descritivos /vida. não se pretende retomar as relações. A semiótica utiliza também aquisições da lingüística para o tratamento das modalidades.[S2 (Schumann) ⋂ querer. valores axiológicos virtuais convertem-se em valores ideológicos. desejados pelo sujeito e.[página 49] güística . ou seja. influências e convergências entre lógica e semiótica ou lingüística. tristeza e amor. acima. Como a modalização diz respeito às relações constitutivas dos enunciados. /crer-ser/. No poema ‘Epílogo’. para ele. mostraram-se as paixões de amargura. no poema de João Cabral. para ele. não-crer-ser/ e /sabernão-poder-ser/ e definindo-se o amor pela organização das modalidades do /querer-ser/. /saber-poder-ser/ e /querer-fazer-bem/ ao destinador que tornou possível a conjunção. ilustra a modalização do fazer. Os exemplos 1 e 3. de mudanças na existência modal do sujeito.teoria dos atos de linguagem. ruptura e dinamicidade/. determinam-se duas classes de modalidades. Modalização e modalidades A lógica foi o primeiro campo de reflexão sobre as modalidades e. Os valores ideológicos são valores atualizados e assumidos por um sujeito. O exemplo 2. poder] [S2 (Schumann) ⋂ O (vida. mocidade)] Daí a amargura e a falta de alegria de S1 e o amor de S2. A modalização do ser dá existência modal ao sujeito do estado. Benveniste e Jakobson e os mais recentes de Pottier e de toda a chamada pragmática lin. são valores ideológicos. Mesmo assim. sem dúvida. semântica da enunciação de Ducrot — atestam a grande produção lingüística sobre modalidades e modalização. desejados pelo sujeito e. 1979). modificando o estatuto dos objetos que estão em relação com o sujeito e definindo estados passionais. alegria. quando se altera a competência modal do sujeito.

por sua vez. p. operação já examinada no item anterior. assim. indiferentemente. e alteram. 6). texto da imagem: . na lingüística.Para Darrault (1976. A natureza do enunciado modalizado é um primeiro critério de classificação das modalidades. Na perspectiva da semiótica. O enunciado modal pode ser tanto um enunciado de estado quanto um enunciado de fazer. em modalidades de fazer e de ser. sua determinação taxionômica18. A modalização. a semiótica obteve. e modalizar enunciados de estado ou de fazer. deve ser entendida como a determinação sintática de enunciados: um enunciado. distinguidas. as relações do sujeito com os valores. a formulação sintática das modalidades e. na lógica. as modalidades resultam da conversão da categoria tímico-fórica fundamental. modifica um enunciado dito descritivo. que será denominado modal. na instância narrativa.

o destinador (vento) faz o destinatário-sujeito (canavial/povo) fazer. criando a predisposição para o fazer. que o tornam competente para realizar o fazer- . isto é. o modalizador precisa. O modalizador realiza. na verdade. na verdade. Para fazer-fazer. Em ‘O vento no canavial’. O destinador. A relação entre o primeiro fazer (o do manipulador) e o segundo (a performance do sujeito) é sempre indireta. transferindo-lhe. indiretamente.Enunciado modal MODALIDADES DE FAZER Enunciado descritivo Enunciado modal enunciado de estado enunciado de fazer ser-fazer enunciado de fazer MODALIDADES DE SER fazer-fazer enunciado de estado enunciado de fazer enunciado de estado ser-ser fazer-ser As modalidades do fazer são de dois tipos: fazer-fizer e ser-fazer. tem-se a modalidade factitiva. o percurso do sujeito e modaliza a performance. pois. portanto. cada um desses fazeres representa. atribui ao destinatário-sujeito os valores modais do querer e do poder-fazer. estabelece. só assim. com sua ação. o percurso do sujeito. alterar a competência do sujeito e. seu percurso. todo um percurso e não um enunciado apenas. definida como uma estrutura modal constituída por dois enun. organizações sintáticas bem mais complexas que a do enunciado. no fundo. o manipulador faz-ser. Pode-se dizer que. em primeiro lugar. como se viu na descrição dos percursos narrativos. se decompõe em competência e performance. com sujeitos diferentes. transforma o estado modal do sujeito do estado. no fazer-fazer. e o fazer modalizado. não há sincretismo actorial entre os sujeitos do fazer.[página 50] ciados do fazer. por doação. como é sabido. visando ao estabelecimento do percurso do sujeito que. valores modais que o levam a fazer. isto e. o percurso do destinador-manipulador. de natureza cognitiva. mediatizada pela transformação da competência modal do sujeito. No primeiro caso. O fazer modalizador é. Essa definição e insuficiente.

O segundo tipo de modalidade do fazer.d. livre e feliz. 100) organiza-as pelo modo de existência que as modalizações atribuem ao sujeito e pelos sincretismos actoriais dos sujeitos dos enunciados modal e descritivo. Todo dia pôr ovos. quanto o fazer (enunciados de fazer) e interdefinem-se e classificam-se segundo diferentes critérios. no quadro a seguir. enunciados de estado que modalizam o fazer. Há já seis meses que não choco e há uma semana que não ponho ovo. Pode estar certo de que vou levar uma vida de galo. inventário estabelecido a partir da experiência de análise de discursos e das descrições de algumas línguas européias19: o querer. o ser-fazer. 23) Todo ovo que eu choco me toco de novo Todo ovo é a cara Mas fiquei bloqueada e agora de noite só sonho gemada . continuidade e estaticidade ao de vida. 1975. todo semestre chocar ovos.transformador: passar do estado de morte. 283. Greimas (GREIMAS & COURTÉS. posso estar satisfeita? Não posso.. E preciso distinguir a constituição da competência. p. não. entendida como o “ser do fazer”. isto é. violão! (FERNANDES. 1976b. que depende da comunicação de valores modais pelo destinador ao destinatário-sujeito. A patroa se quiser que arranje outra para esses ofícios. s. A semiótica trabalha essencialmente com quatro modalidades. caracteriza a competência do sujeito. de que se reproduzem pequenos trechos: Mas eu. fêmea da espécie. o poder e o saber. Tais valores modais determinam tanto o ser (enunciados de estado). galinha. GREIMAS. criar pintos. que se aplica tanto à modalização do fazer quanto à do ser. p. p. ruptura e dinamicidade. Comigo. isso é vida? Mas agora a coisa vai mudar. [página 51] virtualizantes dever querer atualizantes poder saber realizantes fazer ser MODALIDADES exotáxicas endotáxicas Pode-se ilustrar o quadro com duas histórias de galinha. o dever. da organização modal da competência.

se na organização modal de sua competência incluem-se também o saber e/ou o poder-fazer. é a patroa. O sujeito não age.) Na fábula de Millôr.é a clara do vovô A escassa produção alarma o patrão. o sujeito galinha também deve botar (imposição do patrão) e. Só o fazer o torna sujeito realizado.d.. Uma modalidade é chamada exotáxica ou extrínseca quando. das modalidades endotáxicas. qualificado para fazer. e de modalidade virtualizante. como o dever. portanto. um querer do destinador. e endotáxica ou intrínseca quando os dois sujeitos estiverem sincretizados no mesmo ator. O querer é modalidade virtualizante. e o sujeito modalizado. a galinha. das exotáxicas. Trata-se de modalidade exotáxica. assim. mas não-quer botar. O sujeito definido pelo dever ou pelo querer-fazer é chamado sujeito virtual. (BUARQUE. apresentam-se como: . as condições para pôr ovos). da natureza das galinhas. 117). o que impede a ação do suspeito. O sujeito galinha deve. quer botar. As modalidades virtualizantes do querer-fazer e do dever-fazer dão ao sujeito as condições mínimas para o fazer e. Há incompatibilidade entre as modalidades virtualizantes do querer e do dever-fazer e a modalidade atualizante do não-poder-fazer. s. que impõe o dever. o sujeito galinha deve botar ovos. p. na estrutura modal de que faz parte. a galinha é sujeito virtual para o fazer de pôr ovos. mas não-pode mais botar: o bloqueio psicológico da rotina ou a velhice modalizam-na para não-poder botar. ao contrário da galinha da fábula. em que o sujeito modalizador. e de “objetividade” ou “sociabilidade”. tem-se um sujeito atualizado ou competente. um dever autodestinado. e poder recebido da patroa.d. s. com casa e comida. mas não está atualizada. projetadas no quadrado semiótico (GREIMAS & COURTÉS. Decorrem daí os efeitos de sentido de “subjetividade” ou de “individualidade”. Na canção de Chico Buarque. e modalidade endotáxica: o sujeito modalizador e o modalizado estão sincretizados no mesmo ator “galinha”. Nesse caso. que lhe assegura. o sujeito modalizador for diferente do sujeito modalizado. por existir conflito entre as modalidades virtualizantes do querer e do deverfazer. O dever-fazer é. sabe e pode botar (saber inato.. [página 52] As modalidades virtualizantes instauram o sujeito e as atualizantes o qualificam para ação posterior. que dá à galinha o estatuto de sujeito. pois lhe falta o poderfazer. e o querer-fazer.

Uma das diferenças entre as abordagens lógica e semiótica das modalidades reside no fato de que a semiótica define sintaticamente as denominações da lógica.texto da imagem: querer-fazer (vontade ou volição) não-querer-não-fazer (vontade passiva) dever-fazer (prescrição) não-dever-não-fazer (permissividade) querer-não-fazer (abulia) não-querer-fazer (má vontade ou nolição) dever-não-fazer (interdição) não-dever-fazer (facultatividade) Cada termo modal. inscrito nos objetos e circulando entre sujeitos. bastante precárias e arbitrárias. As denominações. articulado no quadrado. e como um valor modal. definida sintaticamente pela relação entre enunciados. cumprem o papel de condensar os dois predicados em um valor modal e de facilitar seu emprego nas línguas naturais. As modalidades atualizantes do poder-fazer e do saber-fazer estruturam-se de forma taxionômica no quadrado semiótico como: . pode ser tratado como uma estrutura modal.

alguns exemplos. entendido como a competência cognitiva para organizar os programas narrativos. A obediência (nãopoder-não-fazer). sobre as modalidades. como competência cognitiva e não no emprego semiótico de organização modal. Utilizou-se a denominação de competência. Relacionam-se elas. ainda nos domínios das modalizações do fazer. há compatibilidade entre o dever-fazer e o saber-fazer e incompatibilidade entre o dever-fazer e o não-saber-fazer. o serfazer e a organização modal sintagmática da competência do sujeito operador. Da mesma forma. Há muitas afinidades entre as estruturas modais do poder-fazer e do dever-fazer. p. enquanto o dever-fazer e o não-querer-fazer não se harmonizam e caracterizam a resistência passiva (exemplo da galinha de Millôr). não basta. de que o saber-fazer é apenas uma das modalidades. porém. Extraíram-se do artigo de Greimas (1976b. As combinações . para buscar os valores desejados. no seu sentido usual no português a competência em Chomsky.texto da imagem: poder-fazer (liberdade) não-poder-não-fazer (obediência) poder-não-fazer (independência) não-poder-fazer (impotência) saber-fazer (competência) não-saber-não-fazer (inabilidade) saber-não-fazer (habilidade) não-saber-fazer (incompetência) [página 53] Teve-se dificuldade em denominar o saber-fazer. em geral não distinguidas na lógica. respectivamente. por implicação. implica a prescrição (dever-fazer). apenas para melhor localizar a questão. vê-se que uma primeira composição é a da combinação de modalidades virtualizantes e atualizantes que. pois a modalidade atualizante do poder pressupõe a modalidade virtualizante do dever. por exemplo. por exemplo —. do ponto de vista semiótico. Esse esboço de organização. O dever-fazer e o querer-fazer são compatíveis e constituem a obediência ativa (exemplo da galinha de Chico Buarque). instauram e qualificam o sujeito. Retomando. é preciso ainda confrontar as várias modalidades e determinar suas compatibilidades e incompatibilidades. 102-6).

o doador do objeto mágico. /parecer/. como categoria modal. em /ser/ vs. é o fato de que o destinador de valores modais da competência do sujeito pode ser realizado por um único ator ou por vários deles. importa saber que ela tem sido investigada de forma mais sistemática nos últimos anos e que seus resultados representam um avanço considerável da semiótica em uma direção que parecia não ser a sua. Abre-se caminho para o tratamento das relações intersubjetivas. e outro para o destinador das modalidades virtualizantes. na teoria da comunicação. 115). caracterizador da performance do sujeito. uma das estruturas de base da organização do esquema narrativo. tal como foi considerada. . A modalização do ser. há até bem pouco tempo. Observe-se ainda que a modalização do fazer. graças às organizações modais da competência. atualmente alcançados.compatíveis ou incompatíveis estabelecem-se entre duas ou mais modalidades e determinam tipos diferentes de narrativa. [página 54] A integração da modalização do fazer na sintaxe narrativa. que supre o sujeito do poder e/ou do saber-fazer. que atribui o querer ou o dever-fazer ao herói. qual seja a da abordagem das paixões. Se o fazer-ser. mais especificamente no percurso do destinador-manipulador. Passando à modalização do ser. Um último ponto a ser lembrado. ocorre obrigatoriamente no percurso do sujeito. p. permitiram à semiótica enveredar pelos meandros das paixões. pode ser explicada de forma mais satisfatória. no percurso do destinador-julgador. ou do enunciado de estado. manipulando-o por tentação ou intimidação. incide especialmente sobre o sujeito do fazer. persuadindo-o por sedução ou provocação. de se retomarem estudos de caracteres e de temperamentos. por sujeitos dotados de “competência modal variável” (GREIMAS. afastou sempre a lingüística e a semiótica desse ângulo da análise do discurso. o ser-ser determina a sanção. contratuais ou polêmicas. O amadurecimento e a segurança. levou a se substituírem as casas vazias ou neutras da emissão e da recepção. O risco do “psicologismo”. 1983. Os contos maravilhosos analisados por Propp têm um ator para o destinador das modalidades virtualizantes. como nas histórias das galinhas. na modalização do fazer. em geral o rei. A confrontação polêmico-contratual. sem medo de perder um espaço duramente alcançado ou de voltar caminho. resulta da regência tanto por um enunciado do fazer — fazer-ser — quanto por um enunciado de estado — ser-ser. O ser que modaliza o ser é chamado modalidade veridictória e articula-se.

o diz verdadeiro. **imanência) [página 55] Da modalização do enunciado de estado por um outro enunciado de estado resultam a verdade ou a falsidade das relações juntivas que ligam sujeito e objeto. Para modalizar veridictoriamente o enunciado de estado parte-se da manifestação — parecer ou não-parecer — e infere-se a . 488) (texto da imagem: *manifestação.verdade ser segredo * m ife an s o çã ta parecer ima nên cia mentira ** não-parecer falsidade não ser (GREIMAS & COURTÉS. p. Substitui-se.d. s. o problema da verdade pelo da veridicção ou do dizer verdadeiro: um estado é considerado verdadeiro quando um outro sujeito. As modalidades veridictórias aplicam-se à função-junção e determinam-lhe a vaidade. dessa forma. que não o modalizado..

mentirosos ou secretos — são sobredeterminados pelas modalidades epistêmicas do crer. Conforme foi visto anteriormente. Começa pela manifestação — o canavial parece estático. descontínuo e vivo. contínuo.. Ou. Realiza. de criar verdades. instalado no poema. em situação de comunicação manipuladora. como falso (não parece e não é). provavelmente verdadeiro (não- . (.. corno destinador-julgador. portanto.) Contudo há no canavial/ oculta fisionomia: (. As modalidades epistêmicas organizam-se em categoria modal representada no quadrado semiótico como: crer-ser (certeza) não-crer-não-ser (probabilidade) crer-não-ser (impossibilidade/exclusão) não-crer-ser (incerteza) O enunciado de estado interpretado é chamado. como verdadeiro (parece e é). falsos. e seu estado de ruptura e vida como secreto (não parece e é) e. Não se trata de produzir. ou seja.. ou seja. Este é o momento de retomar e explicar melhor o fazer interpretativo. diz ser verdadeiro ou não o estado do canavial: “Não se vê no canavial/ nenhuma planta com nome. mas sim efeitos de verdade. O sujeito do fazer persuasivo quer levar seu destinatário a crer que o estado que apresenta parece e é verdadeiro (ou falso. O observador. morto. Nesse caso. morto — e chega à imanência — o canavial não é estático. contínuo. O fazer persuasivo procura fazer-crer por meio do fazer-parecer-verdadeiro.imanência — ser ou não-ser. O fazer interpretativo é. também. interpreta o estado de estaticidade e morte do canavial como mentiroso (parece mas não é) e. O observador determina veridictoriamente o enunciado de estado do canavial. realiza um fazer interpretativo. sofrem julgamento epistêmico. em seguida.). O observador. O destinador-julgador. ao dizer verdadeiro ou falso ou mentiroso.)“. etc. um fazer cognitivo e consiste em modalizar um enunciado pelo parecer e pelo ser e em estabelecer a correlação entre os dois planos da manifestação e da imanência. o destinador realiza um fazer persuasivo que tem sua resposta no fazer interpretativo do destinatário. o destinatário é colocado em posição de falta de liberdade. a que se tem referido com freqüência neste trabalho. uma performance cognitiva. por conseguinte. a partir daí. Os enunciados já modalizados veridic.. certamente verdadeiro (crer-ser e parecer). o canavial não-parece dinâmico. em posição de não-poder-não-aceitar o contrato proposto. mas o é (“oculta fisionomia”).[página 56] toriamente — denominados verdadeiros. Um exemplo claro de fazer interpretativo encontra-se em ‘O vento no canavial’.

pois a galinha crê que a obrigação e a punição. A fábula de Millôr. (FERNANDES. caso não bote. MORAL: UM TRABALHO POR JORNADA MANTÉM A FACA AFASTADA.crer-não-ser e não-crer-não-parecer). Ela julga o estado resultante da ação ou da falta de ação da galinha: “galinha que não choca nem põe ovos só serve mesmo é pra . ou seja. pode ilustrar o fazer interpretativo e a sobredeterminação epistêmica: A galinha reivindicativa ou The he’s liberation Em certo dia de data incerta. A patroa se quiser que arranje outra para esses ofícios. realiza também. isso é vida? Mas agora a coisa vai mudar. posso estar satisfeita? Não posso. p. Pode estar certo de que vou levar uma vida de galo. porém. Todo dia pôr ovos. esperava calmamente o fim de seus dias. todo semestre chocar ovos. entre uma bicada e outra. por sua vez. pois é galo. ela interpreta como mentiroso o estado apresentado pela patroa e pelo galo e crê na sua interpretação. “A galinha reivindicativa”. A patroa. quando a cozinheira. passou a mão no pescoço da doidivanas e saiu com ela esperneando. Há já seis meses que não choco e há uma semana que não ponho ovo. um galo velho e uma galinha nova encontraram-se no fundo de um quintal e. e assim por diante. 23) [página 57] Na fábula. velho e cansado. não é bem sucedida. trocaram impressões sobre como o mundo estava mudado. tivera muitas galinhas em sua vida sentimental e agora. O galo. 1975. porém. — Ainda bem que você está satisfeito — disse a galinha. além do fazer persuasivo. galinha. dizendo bem alto: “A patroa tem razão: galinha que não choca nem põe ovo só serve mesmo é pra panela”. um fazer interpretativo. — E tem razão de estar. criar pintos. mas não são verdadeiras. fez questão de frisar que sempre vivera bem. livre e feliz. Mas eu. A manipulação. o sujeito galinha é manipulado pela patroa e por sua condição de “fêmea” para pôr ovos e chocá-los: ela deve botar (intimidação pressuposta no texto). não. certamente falso (crer-não-ser e nãoparecer). parecem. violão! O velho galo ia ponderar filosoficamente que galo é galo e galinha é galinha e que cada ser tem sua função específica na vida. sorrateiramente. Comigo. fêmea da espécie.

sabe. Interpretar. a patroa interpreta a galinha como verdadeiramente improdutiva (parece e é) e nisso passa a acreditar. Afirma-se. que envolve sobretudo o crer. Trata-se de verificar a adequação do novo e desconhecido ao velho e já sabido. poder e saber. Se a modalização veridictória e a sobremodalização epistêmica explicam o ser do ser e julgam a verdade ou a falsidade das relações juntivas estabelecidas entre sujeitos e objetos. mas não quer botar ovos (dever. 1983. Distinguir a adesão “fiduciária”. em relação ao objeto-valor “liberdade”. do fazer e do estado. confrontar a proposta recebida com seu universo do saber e do crer. o caráter ideológico da interpretação. enquanto a modalização veridictória assegura a existência veridictória dos sujeitos. por excelência. Para haver transformação. ao determinar a existência modal dos objetos. no ato de interpretar. para o sujeito. Além disso. O julgamento ou ato epistêmico é uma transformação de um estado de crença em outro. quanto à existência modal. A modalização do ser é responsável. que consiste em comparar e identificar o que lhe é apresentado pelo sujeito do fazer persuasivo com o que ele já sabe ou com aquilo em que crê. na verdade ou na falsidade da certeza. que recorre ao saber. portanto. falsos. como sujeito que deve. Enquanto a veridicção diz respeito à [página 58] relação de junção caracterizadora do enunciado. a galinha define-se. Comparando a atitude da galinha com aquilo que já conhece. o sujeito não cumpridor do contrato de “domesticidade da galinha” é sancionado negativamente: reconhecido como “má galinha” e punido com a panela. A verdade e a falsidade constituem efeitos de sentido do julgamento epistêmico: o crer precede o saber e pertencem. que. Competência modal e existência modal são complementares na definição do sujeito.panela”. é. é separar tipos de racionalidade. saber. pelo dever. se misturam e se confundem na certeza ou na dúvida da verdade. a “um único e mesmo universo cognitivo” (GREIMAS. com isso. ou melhor. Tendo sido a adequação reconhecida ou rejeitada. as modalidades do dever. poder e saber incidem sobre o objeto-valor ou. no seu “reconhecimento da verdade”. p. pode. ditos verdadeiros. o sujeito aceita ou recusa o que lhe é proposto. mentirosos ou secretos. com os sistemas de valores que atribuem sentido aos fazeres e aos estados. como sujeito que quer. do ponto de vista da competência modal. poder e saber regem também enunciados de estado. querer. o sujeito que interpreta e julga realiza uma operação de reconhecimento da verdade. a modalização do ser. a um fragmento do universo cognitivo de quem julga. sobre o valor que nele se encontra investido20. as modalidades do dever. mais especificamente. pela existência modal do sujeito do estado. ambos. da adesão “lógica”. querer. poder e não-querer-fazer) e. respectivamente. constitui a existência modal dos sujeitos. querer. Na fábula da galinha reivindicativa. Como decorrência. 133). mas .

no segundo sujeito do estado. p.não pode. 1979. As quatro categorias modais que modificam os enunciados de estado estão abaixo representadas no quadrado semiótico (GREIMAS. 15): texto da imagem: querer-ser (desejável) não-querer-não-ser (não prejudicial) dever-se (indispensável) não-dever-não-ser (realizável) poder-ser (possível) não-poder-não-ser (imprescindível. No primeiro caso a galinha é sujeito do fazer. ocasional) poder-não-ser (prescindível ou evitável) não-poder-ser (impossível) . não-poder-ser e não-saber-ser). nem sabe ser (querer-ser. inevitável) querer-não-ser (prejudicial ou nocivo) não-querer-ser (indesejável) dever-não-ser (irrealizável) não-dever-ser (fortuito.

a galinha é o sujeito do fazer que altera a existência modal do sujeito de estado homem. indispensável. No item Semântica narrativa. da mesma forma que a competência modal. O objeto-valor passa de desejável e impossível a desejável e possível. examinou-se a conversão da categoria tímico-fórica em categorias modais. que modificam os valores descritivos dinheiro e prestígio. pois são dispositivos permanentes e independentes de investimento semântico. no nível narrativo. a qualquer momento. é possível reconhecê-los como “amor”. A existência modal do sujeito é passível de alteração. desejável. Paixões e apaixonados22 .saber-ser (verdadeiro) não-saber-não-ser (?) saber-não-ser (ilusório) não-saber-ser (?) As denominações. já nos domínios da paixão. além do mínimo semântico já determinado na conversão das estruturas fundamentais em estruturas narrativas. resulta. descritivos e modais. o sujeito homem tem sua existência modal definida pelo querer-ser e pelo nâo-poder-ser. assim. formada por uma grandeza sêmica (traços semânticos resultantes da conversão de categorias semânticas fundamentais) e por uma organização de modalidades21 (procedentes da categoria tímico-fórica). por meio de transformações operadas por um sujeito do fazer. Atentando-se para os efeitos de sentido dos dispositivos modais da existência. quando começa a botar ovos de ouro. os traços semânticos descritivos e exemplificaram-se a conversão e a modalização em ‘O vento no canavial’ e em ‘Epílogo’. O valor. mostrou-se que as categorias modais determinam. possível. assunto do próximo item. Um novo exemplo pode ser obtido na fábula de Millôr. foram escolhidas para caracterizar os objetos: um objeto-valor será. portanto. poder e saber-ser. de um fazer. verdadeiro. ‘A Galinha dos ovos de ouro’. Antes de a galinha começar a pôr ovos de ouro. a que se aplicam as observações e restrições feitas às modalidades do fazer. executado por um sujeito transformador. [página 59] Essas estruturas modais modificam quaisquer valores. Greimas (1979) reescreve o valor corno uma estrutura modal. “medo” ou “ambição”. Na fábula de Millôr. assim caracterizado — estrutura modal que determina a grandeza sêmica —‘ inscreve-se em objetos que se tornam desejáveis e impossíveis. quando seu valor for determinado pelo querer. A existência modal. dever.

As paixões. passa-se à descrição das organizações sintagmáticas e sintáticas passionais e às tentativas de denominação de tais estruturas e de estabelecimento das relações paradigmáticas do sistema das paixões. Dois caminhos apresentam-se para a colocação do problema: o primeiro estabelece a relação entre a organização modal narrativodiscursiva e as categorias semânticas da estrutura fundamental que estão por detrás das paixões. As relações verticais foram abordadas em vários momentos deste capítulo. relação de produção e de transformação do sujeito com o objeto. partiu da ação. de uma certa forma. que resultou na semiótica das paixões. de análises de paixões . relação intersubjetiva de comunicação entre o destinador e o destinatário. para explicitar. que as modalidades que se aplicam ao fazer e os enunciados modais que regem enunciados do fazer tenham sido os primeiros a serem examinados. o caminho inverso e procurou. indiretamente. assim. devem. a semiótica levantou. ou seja. foi ao menos discutida. Quando considerou que a comunicação não se reduzia ao fazer informativo do destinador e ao fazer receptivo do destinatário. e chegou à manipulação. horizontalmente. Parte-se. Julgando que a questão da “origem” gerativa das modalidades e. preocupa-se com a relação vertical e de conversão entre dois níveis do percurso gerativo. mais especificamente na conversão da categoria tímico-fórica em categoria modal. ser entendidas como efeitos de sentido de qualificações modais que modificam o sujeito do estado. e sobretudo. o fazer persuasivo do destinador e o fazer interpretativo do destinatário. as relações sintagmáticas modais que caracterizam as paixões. o segundo tenta determinar. também. que constituem “sistemas de paixões”. em primeiro lugar. já antes pressentida na [página 60] definição da competência do sujeito operador. enveredou a semiótica pelo caminho da modalização. inicialmente. Para abordar as configurações passionais. e. os estudos existentes. sobretudo na lógica e na psicanálise. se não foi resolvida. Tomou. Na prática. das paixões. e na descrição das organizações modais que caracterizam a existência do sujeito do estado. no exame das estruturas narrativas. a partir de configurações discursivas. tentou-se dar às paixões-lexemas e a suas expressões discursivas definições sintáticas. neste trabalho. o processo.A semiótica. com as possibilidades teóricas do momento. mas incluía também. no exame das conversões das estruturas fundamentais em narrativas. portanto. por conseguinte. neste trabalho. Natural. Nada mais previsível que o passo seguinte tenha sido a abordagem da modalização do ser. e constatou terem todos preocupações taxionômicas. portanto. a “origem” gerativa das paixões. suas relações paradigmáticas.

[página 61] deira. mantém laços afetivos ou passionais com o destinador. O sujeito do estado. crer-ser. em ‘Epílogo’. Distinguem-se. recorrer às relações actanciais. O sujeito do estado é o lugar privilegiado da confluência das duas relações: enquanto sujeito. l98lb). de Ban. relações transitivas. as relações entre actantes são de dois tipos. que produz o efeito de sentido ‘afetivo’ ou “passional” de amargura. paixões simples ou paixões de objetos. enquanto destinatário. determinada pela relação sintática entre sujeito e objeto (definição topológica de narrativa como lugar de circulação de valores). o sujeito do estado. é preciso. o sujeito segue um percurso. a combinação das modalidades de /querer-ser. Da mesma forma. existência modal. em que várias organizações de modalidades constituem. posto de lado durante bom tempo. por conseguinte. a organização sintagmática de /querer-ser. saberpoder-ser e querer-fazer (bem)/ causa o efeito passional de amor. que ligam o sujeito ao objeto. Há três formas de definição da existência do sujeito: existência semiótica. em termos de sintaxe modal. ou seja. em primeiro lugar. 1980). entendido como uma sucessão de estados passionais. de paixões complexas. 1984). que ocorrem entre o destinador e o destinatário. que o torna sujeito. de caráter modal. na instância do discurso. não-crer-ser e saber-não-poderser/ é uma estrutura patêmica ou passional. a que está relacionado por conjunção ou por disjunção. e com o objeto. uma configuração patêmica e desenvolvem percursos. Como se sabe.lexicalizadas — da cólera (GREIMAS. está em conjunção ou em disjunção com o objeto-valor. O estudo das paixões reabilita. papel assumido pelo fato de a junção resultar de um fazer comunicativo. Assim. no poema. A regra é a complexidade narrativa e percursos passionais complexos. relaciona-se com o destinador. quase exclusivamente. da indiferença (MARSCIANI. o destinador a quem o sujeito passional quer fazer bem. A descrição das paixões se faz. portanto. o sujeito em que outro sujeito crê. de relações modais e de suas combinações sintagmáticas. e comunicativas. tensosdisfóricos ou relaxados-eufóricos. Só assim se podem determinar o sujeito que quer ser. caracterizada pela relação do sujeito com o valor (narrativa como sintaxe de comunicação entre sujeitos). resultantes de um arranjo modal da relação sujeito-objeto. o objeto de seu desejo. [página 62] . aos programas e percursos narrativos. Para explicar as paixões. em que o sujeito se define pela modalização do seu ser e assume papéis patêmicos (narrativa como sintaxe modal). do desespero (FONTANILLE. existência semântica. no seio da semiótica. Os “estados de alma” estão relacionados à existência modal do sujeito. ou seja. As paixões simples decorrem da modalização pelo /querer-ser/.

violento. sem. o sujeito do estado deseja que a conjunção se realize. ou de transformar a disjunção em conjunção. como a avareza. distinta das paixões “de ação”. mais propriamente narrativos. não marcado na inveja ou no anseio. na cupidez e na avareza. 11). Pode-se representar a espera pelo programa narrativo abaixo: S1 querer [S2 → (S1 ⋂ Ov)] S1: sujeito do estado (que sofre a paixão) S2: sujeito do fazer . os valores desejados estão em conjunção com outro sujeito —. no entanto. sôfrego. em uma ou outra situação passional: a esganação é sinônimo tanto de avareza quanto de avidez. mais dois critérios de diferenciação das paixões de objeto: a maior ou menor intensidade do querer — desejo ardente. intenções de conservar o estado de conjunção. pelas definições analisadas do Novo Dicionário Aurélio. 1981b. Na espera simples o sujeito deseja estar em conjunção ou em disjunção com um objeto-valor. como na avareza. isto é. as oposições encontradas entre as paixões anulam-se e certos termos empregam-se. cognitivo na curiosidade. Muitas vezes. p. veemente. Outros elementos de classificação das paixões simples. As paixões complexas têm um estado inicial que Greimas (1981b) denomina espera. Na espera. descritivo e modal na ambição. o /querer-ser/ implica querer que o outro não seja. nada fazer para isso. podem ser lembrados: explicitação do desdobramento polêmico — na inveja. A espera pode ser simples e fiduciária. como na ambição. excessivo. por exemplo (GREIMAS. no português. indiferentemente. irreprimível — e os tipos de valores desejados — pragmático descritivo na cobiça. Trata-se de uma paixão de “ser acionado”. mas não quer ser o sujeito do fazer responsável pela transformação./querer ser/ desejo anseio ambição cupidez avidez curiosidade /não-querernão-ser/ avareza mesquinhez usura sovinice /querer-não-ser/ desprendimento generosidade liberalidade prodigalidade /não-querer-ser/ repulsa medo aversão desinteresse Percebem-se.

[página 63] Na espera fiduciária, o sujeito do estado mantém com o sujeito do fazer urna relação fundamentada na confiança. O sujeito do estado pensa poder contar com o sujeito do fazer para realizar suas esperanças ou direitos, ou seja, atribui ao sujeito do fazer um /dever-fazer/. Não se trata, na maior parte das vezes, de contrato verdadeiro e sim de contrato de confiança, um pseudocontrato ou contrato imaginário. Dessa forma, o sujeito do fazer não se sente obrigado a fazer, já que sua modalização deôntica não passa de produto da imaginação do sujeito do estado. No ensaio citado, Greimas, com muita felicidade, denominou o fazer cognitivo contratual cio sujeito de estado construção de simulacros. Os simulacros são objetos imaginários, que não têm fundamento intersubjetivo, mas, mesmo assim, determinam as relações intersubjetivas. O sujeito do estado estabelece urna relação fiduciária — de confiança, de /crer/ — com o simulacro que constrói. A espera fiduciária acrescenta ao programa da espera simples o programa narrativo abaixo representado: S1 crer [S2 dever → (S1 ⋂ Ov)] A contrapartida da espera são a satisfação e a confiança ou a insatisfação e a decepção, que decorrem da conjunção ou da disjunção do sujeito com o objeto-valor desejado e da conservação ou da perda da confiança investida no contrato simulado. Reservam-se os nomes satisfação e insatisfação para os efeitos de sentido de bem-estar ou de malestar, resultantes da relação com o objeto-valor, e empregam-se confiança e decepção para os casos de manutenção ou de ruptura das relações fiduciárias entre sujeitos. A espera é um estado tenso-disfórico de disjunção; a satisfação e a confiança, estados relaxados e eufóricos de conjunção; a insatisfação e a decepção, estados intensos e não-eufóricos de não-conjunção. E possível prever também estados de espera relaxada. A esperança é um dos efeitos de sentido da espera relaxada; a insegurança, que gera a aflição, decorre da espera tensa.
aflição e insegurança (espera tensa) esperança e segurança (espera paciente) satisfação e confiança

disjunção e tensão querer-ser crer-não-ser saber-poder-não-ser

não-disjunção e tensão querer-ser não-crer-não-ser saber-não-poder-não-ser

conjunção e relaxamento ser querer-ser crer-ser saber-poder-ser

[página 64]
satisfação e confiança (espera relaxada) insatisfação e decepção aflição e insegurança da falta

conjunção e relaxamento querer-ser crer-não-ser saber-poder-não-ser

não-conjunção e intensão querer-ser não-crer-não-ser saber-não-poder-não-ser

disjunção e tenção não-ser querer-ser crer-ser saber-poder-ser

A insatisfação e a decepção podem ser determinadas aspectualmente pela duração e prolongar-se em novos efeitos passionais: a mágoa que perdura ou a resignação, por exemplo. Outra possibilidade é a da insatisfação e da decepção conduzirem ao sentimento de falta, definido pelo /querer-ser/ em conflito com o /saber-não-ser/ e com o /crer-não-ser/ e característico da crise de confiança. Os efeitos passionais da insatisfação e da decepção são interrompidos e seguidos pela falta que dá lugar a um programa de liquidação da falta. A insatisfação e a decepção assumem o papel de termos intermediários entre o estado relaxado de crença no contrato imaginado e a situação tensa final de falta. Há dois tipos de falta, conforme resulte da insatisfação ou da decepção (que pressupõe a insatisfação), quais sejam, a falta de objetovalor e a falta fiduciária ou falta de confiança. A liquidação da falta toma, portanto, duas direções, na tentativa de suprir a falta de objeto ou de resolver a crise de confiança, e produz, nesses percursos, novos efeitos passionais. Passa-se, agora, a denominar e explicar as configurações passionais previstas a partir do estado inicial da espera: a) a insatisfação e/ou a decepção que não conduzem, de forma obrigatória, à liquidação da falta e que se prolongam ou não, durativamente, definem três grupos de paixões, exemplificadas respectivamente por amargura ou mágoa, decepção ou desilusão e frustração ou tristeza; a satisfação e/ou a confiança determinam duas classes de efeitos passionais, lexicalizados como esperança ou crença e alegria ou felicidade; a insatisfação e a decepção que geram um programa narrativo de liquidação da falta caracterizam, por exemplo, paixões de cólera ou rancor.

b) c)

O grupo a engloba paixões, lexicalizadas, que não se resolvem na falta a ser liquidada, mas se prolongam temporalmente. Seus três subtipos correspondem: um, aos efeitos passionais da insatisfação e da decepção — amargura, azedume, acrimônia, desagrado, amargor, desprazer; outro, aos da decepção apenas — desilusão, decepção, ressentimento, desen- [página 65] gano, desapontamento; e o último, aos da insatisfação sozinha — frustração, tristeza. O grupo b contém os efeitos passionais de satisfação e confiança. A subdivisão no grupo b faz-se entre as paixões de confiança — crença, esperança — e da satisfação — alegria, felicidade. Não se descobriram, no português, paixões decorrentes, simultaneamente, da satisfação e da confiança. Trata-se de problema de lexicalização, pois, do ponto de vista da estrutura das paixões, nada impede o surgimento de paixões em que se combinem a confiança e a satisfação. As paixões do grupo a são intensivas e podem ser chamadas paixões de ausência (ZILBERBERG, 1981, p. 25-6), diferentes das paixões tensas de falta do grupo c. A falta resolve-se de duas formas diferentes: pela reparação, graças a um sujeito do fazer instaurado, em geral em sincretismo com o sujeito que sofre a falta e a quem cabe realizar um programa para liquidá-la, ou pela resignação e conformação. O programa reparador liquida ora a falta de objeto — efetuam-se novas tentativas de conjunção — ora a falta de confiança. A falta de confiança faz-se acompanhar de malevolência, assim como a confiança é seguida de benevolência (GREIMAS, 1981b, p. 18). A malevolência e a benevolência interpretam, para Greimas, a hostilidade e a atração de paixões definidas pelo /querer-fazer/, bem ou mal, a alguém. O /querer-fazer/ é a modalização que dá início à competência do sujeito reparador da falta. A instauração desse sujeito é um dos três caminhos para o relaxamento da situação tensa de falta fiduciária. Os outros dois são voltar a acreditar — /crer-não-ser → não-crer-não-ser → crer-ser/ — ou prolongar a aflição na “paixão” distensa da resignação. O /querer-fazer/, que instala o sujeito, define-se pela intencionalidade, ou seja, dirige-se para outro sujeito, considerado responsável pela falta. O sujeito que desperta a hostilidade do sujeito do estado pode, segundo Greimas, no ensaio citado, ser entendido como destinador ou como anti-sujeito. “— o sujeito que provocou o ‘sentimento de malevolência’ pode ser o actante Destinador: o querer-fazer do sujeito se integrará então no PN de revolta, comportando a rejeição do Destinador e a busca de uma nova axiologia. — o sujeito que inspirou a malevolência pode

ser o actante Anti-sujeito: o querer-fazer servirá, então, de ponto de partida ao PN de vingança” (GREIMAS, 1981b, p. 19). [página 66] As relações entre sujeito e anti-sujeito e entre destinador destinatário-sujeito são as duas posições de conflito possíveis na organização narrativa. Nesse contexto, entende-se a vingança como o programa de liquidação da falta causada, na perspectiva do sujeito, pelo anti-sujeito. O sujeito e o anti-sujeito, como é sabido, confrontam-se na narrativa, pois estão em busca dos mesmos valores. Na vingança, o sujeito “ofendido” assume o papel de destinador-julgador e sanciona negativamente o antisujeito que não cumpriu o esperado ou que exerceu um fazer contrário e prejudicial aos seus projetos. Já na revolta, programa de reparação da falta provocada pelo destinador, o sujeito do estado exerce um fazer prejudicial ao destinador que faltou à palavra dada, mesmo que se trate de compromisso imaginário. O sujeito coloca-se corno destinatário que cumpriu sua parte no contrato e que espera do destinador a sanção positiva que lhe e devida, sob a forma de reconhecimento e de recompensa. Quando o destinador não o sanciona ou, além do mais, o julga negativamente, o sujeito se decepciona, se torna inseguro e aflito e se revolta23. O desejo de vingança ou de revolta, causado pela violência da ofensa, representa-se, na estrutura modal, pelo /poder-fazer/ (GREIMAS, 1981b, p. 21). O sujeito do estado torna-se, portanto, sujeito competente para o fazer, isto é, instaurado pelo /querer-fazer/ e atualizado pelo /poderfazer/. O querer fazer mal a alguém tem, assim, a possibilidade (poderfazer) de transformar-se em vingança ou revolta. O /poder-fazer/ e a forma de o sujeito ofendido auto-afirmar-se, graças à possibilidade de destruição do ofensor. Os termos que exprimem as paixões de malquerença organizam-se em dois grupos distintos: as de malquerença propriamente dita, isto é, paixões definidas pelo /querer-fazer/, e as que marcam o sentimento de honra ofendida, instalando também o /poder-fazer/. A hostilidade, por exemplo, caracteriza-se pelo /querer-fazer/, já o ódio, além do /quererfazer/, conta, em sua definição, com o /poder-fazer/ do desejo de vingança ou de revolta. Assim como a insatisfação e a decepção levam à malquerença da hostilidade e da agressividade, a satisfação e a confiança conduzem à benquerença da afeição. A benevolência, interpretada como /querer-fazer/ bem ao outro, tem também a possibilidade teórica de ser definida pelo /poder-fazer/, que torna o sujeito competente para o fazer da recompensa. No [página 67] entanto, ao menos pelas definições de dicionário, não há paixões “benevolentes” do poder-fazer/. Enquanto o ódio é entendido como

paixão que impele a causar ou desejar mal a alguém e a ira como desejo de vingança, o amor caracteriza-se como sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem ou de alguma coisa. Entende-se por isso que, embora seja “ponto de honra” recompensar alguém que corresponde às expectativas, essa questão não tem a mesma força, entre as relações intersubjetivas, que a punição do ofensor. Os arranjos sintagmáticos que definem as paixões podem ser apreendidos como organizações paradigmáticas. Retornam-se, no esquema adiante, as relações básicas de uma taxionomia das paixões, tal qual foram aqui examinadas. Diferenciam-se, num primeiro momento, paixões simples de paixões complexas. As paixões simples definem-se pela relação do sujeito com o objeto e, ao contrário das complexas, não pressupõem um percurso modal e passional anterior. a) paixão simples [querer-ser] ex.: avareza, ambição. vs. paixões complexas [querer-ser + ...] ex.: cólera, ressentimento, vingança, alívio

O segundo critério é o tipo de sujeito, que distingue paixões de ação de paixões de ser acionado. Nas primeiras, o sujeito faz alguma coisa para estar em conjunção com o objeto-valor desejado; nas demais, espera que outro aja em seu lugar, a partir de um contrato. b) paixões de ação
S1 querer [S1 → (S1 ⋂ Ov)]

vs.

Paixões de ser acionado
S1 querer [S2 → (S1 ⋂ Ov)]

ex.: avareza, vingança

ex.: espera, decepção

O terceiro elemento de classificação, que não foi, praticamente, examinado neste trabalho, é a oposição entre as modalidades virtualizantes do querer e do dever-ser. Descreveram-se, em princípio, apenas as paixões de querer-ser. c) paixões de [querer-ser] ex.: cólera, avareza vs. Paixões de [dever-ser] ex.: amor, ódio (na tipologia de Parret, 1982)

Os demais critérios classificatórios aplicam-se apenas às paixões complexas e definem as etapas do percurso do sujeito como estados passionais. Organizam-se de forma hierárquica, embora haja muitas vezes

superposição de critérios, caracterizando a recursividade dos percursos. [página 68] PAIXÕES COMPLEXAS Paixões de falta lato sensu Paixões de falta sirictu sensu Paixões de liquidação de falta (fiduciária) Outras paixões complexas Paixões de objeto ex.: alegria, satisfação, tristeza Paixões de benquerença ex.: amor

Paixões fiduciárias

Paixões fiduciárias ex.: insegurança

Paixões de objeto ex.: aflição ansiedade

Paixões de confiança ex.: confiança decepção desilusão Paixões De virtualização e de atualização paixões de realização ex.: revolta, vingança

Paixões /querer-fazer/ ex.: antipatia

Paixões de /poder-fazer/ ex.: cólera, rancor

A classificação de paixões proposta obedeceu a critérios apenas de organização modal que, conforme foi visto, define estados passionais. A paixão do rancor, por exemplo, determina vários estados passionais do sujeito: estado de espera e de confiança, estado de decepção, estado de falta ou de insegurança e aflição, estado de malevolência e estado de rancor. O

a falta tensa. da cultura. sem que se alterem. desenvolvidos com vistas a análise de um objeto. Outra possibilidade seria a gramática ou lingüística textual. da literatura. 2. como a teoria localística de Anderson (1971). mas pode também ser sopitado ou reprimido. A extensão da analise narrativa a outros domínios só se fez graças a investigações serias no campo da manipulação. que atribuíram. das artes figurativas e da cultura. a outros. Outras gramáticas de casos foram desenvolvidas. das artes — foram escolhidos e apresentados por Lotman e Uspenski. a musica. chegou-se já a alguns fatos imprescindíveis para se fazer a revisão da sintaxe narrativa como uma sintaxe modal e garantir à semântica seu caráter passional. da modalização e das estruturas passionais. comumente entendida como a utilização inconseqüente de princípios e métodos. No estágio atual das pesquisas sobre as paixões. 4. o italiano e o francês. a gestualidade e o código de trânsito. os princípios básicos aqui discutidos. 3. entretanto. sobretudo a ala que conta com pesquisadores como Janos S. Tivemos acesso à semiótica da Escola de Tartu (onde. do cinema e do teatro.rancor permite ainda a passagem ao fazer reparador. A primeira foi organizada por Schnaiderman e reúne dezenove textos variados de semiótica da cultura. á sintaxe narrativa caráter de sintaxe modal. graças a três coletâneas de textos traduzidos para o português. alem de trabalhos sobre outros sistemas de significação. O percurso é marcado por variações tensivas: a espera é relaxada. em seguida há a distensão da constituição da competência e o relaxamento final do fazer. para a edição francesa. Não se trata de generalização apressada. Finalmente. . Petöfi. enfim. na verdade. os textos — de semiótica geral. van Dijk e que sustenta a tese de que a coerência do texto não se define apenas no nível superficial das concatenações frásicas e da organização argumentativa. a decepção intensa. [página 69] NOTAS 1. mas também no nível macroestrutural ou narrativo subjacente. como a cartomancia. sob a responsabilidade de Faccani e Eco. para os quais são inadequados. trabalha Lotman). a etiqueta. contém textos de semiótica da literatura. Jens Ihwe e Teun A. A publicação italiana.

p. 14. no capítulo 2. Sobre aspectualização. “Bendita a morte.5. p. veja-se espacialização. O mesmo acontece com o PN2. com mais freqüência. por meio dos ovos de ouro. Para actante e ator. o verbete sobre manipulação no Dicionário de semiótica (GREIMAS & COURTÉS. vejam-se Nef (1976) e Landowski (1981 b). p. 11. [página 70] Para unia primeira tipologia das figuras de manipulação ver. 1 15-33) e a um trabalho de Panier (1982. 9. Para Greimas. 8. o poder-fazer. principalmente. p. a teoria do mito de Lévi-Strauss ou as oposições binárias fonológicas de Jakobson. s. 1977). trata-se. que é o fim de todos os milagres” (BANDEIRA. 219). 269-71) e nosso artigo publicado em Le Bulletin n. Para a apresentação da teoria sêmio-lingüística recorreu-se a textos de semioticistas diversos e. em 12. 15. no item Modalização e modalidades Hjelmslev emprega o termo conversão para as transformações nãodiacrônicas. O quadrado das modalidades veridictórias pode ser encontrado neste mesmo capítulo. veja-se o item Tematização e figurativização. 12-24). . assim como sua filiação ao enfoque lingüístico de Brøndal. 184). p. isto é. no capítulo 2. 13. recorreu-se a um ensaio de Greimas sobre o saber e o crer (1983. 10. 1961. mais especificamente. 1 (BARROS.d. de outro código de honra (1983. o PN1 revela-se um programa de competência: o sujeito do fazer “galinha” transforma a competência do sujeito “homem” ao lhe atribuir. além de utilizar OS textos de semiótica já citados. Para abordar a sanção. ao Dicionário de semiótica de Greimas e Courtés. o item Temporalização e 6. Mais bem analisado. No dizer de outro poeta. 7.. o poder adquirir dinheiro e prestigio. Sobre o quadrado semiótico e suas relações com o quadrado lógico de Apuleio ou com o hexágono de Blanché.

J). 17. sobre o assunto. Fontanille (1980) afirma que a revolta decorre do desespero e que o sujeito desesperado rejeita o destinador. quanto ao local de incidência no enunciado: modalização do enunciado. 20. Exemplifica com a análise cio texto de Aragon. modalização do objeto. como nas modalizações veridictórias e epistêmicas. 22. de Bandeira. que repercute no sujeito do estado e se representa pelo querer. em “alguma coisa de transcendente”. portanto. em que os soldados de Luís XVIII. no caso do querer. a que já se recorreu em outros momentos. e o poema Epílogo’. poder e saber-fazer. dever. que reuniu lógicos. o fato de a semiótica trabalhar com um inventário de modalidades e não propriamente com uma paradigmática das modalidades. Este item foi bastante reduzido na passagem da tese ao livro.33) critica. como as do fazer. o número já citado de Langages. Para ilustrar os conceitos da semântica narrativa serão usados o texto de Cabral ‘O vento no canavial’. o ensaio de Greimas (1979) sobre a modalização do ser. dever. poder e saber-ser. Remetam-se. 23. 1982) dedicados às modalidades e às paixões. com razão. 21. e obedecem também a critérios de compatibilidade e incompatibilidade. Ver. os trabalhos de Coquet e Parret e a revista Langages 43. empregaram-se. 16. reiterada. Para esta breve exposição a respeito de modalização e modalidades. As modalizações do ser combinam-se. 18. O desespero e a revolta surgem do conflito entre a perda de confiança no outro e em si mesmo e a confiança. sobretudo. que recai sobre o predicado. à tese os que se interessarem pela explicação detalhada das relações sintagmáticas modais que caracterizam as diferentes paixões. .que o autor procura situar a sanção nu conjunto ria teoria sêmionarrativa. lingüistas e semioticistas em torno da questão das modalidades. Zilberberg (1981. 19. Há três tipos diferentes de modalização. inteiramente dedicado ao assunto. modalização do sujeito do fazer. mas não os valores que o destinador representa. o trabalho de Zilberberg (1981) a respeito das modalidades tensivas e os textos de Parret (1976.

da monarquia. mantêm sua adesão aos valores monárquicos. [página 71] . de fato e de direito. embora não mais aceitem os representantes.abandonados pelo rei na fronteira da Bélgica.

sempre pressuposta. A mediação entre estruturas narrativas e estruturas discursivas é tarefa da enunciação: os esquemas narrativos são assumidos pelo sujeito da enunciação. como uma sintaxe modal. como organização passional. de teoria semiótica. Os exercícios de análise da instância narrativa multiplicam-se e a recategorização da sintaxe narrativa. a cobertura figurativa dos conteúdos narrativos abstratos. mas retoma aspectos que foram deixados de lado: as projeções da enunciação no enunciado. que a elas. Atribuiu-se especial importância às estruturas discursivas por serem consideradas o lugar. Dessa forma. A análise discursiva opera sobre os mesmos elementos que a análise narrativa. no . rende cada vez mais frutos. o exame da sintaxe e da semântica do discurso permite reconstruir e recuperar a instância da enunciação. A semiótica. porém. As estruturas discursivas. em nível imediatamente superior ao das estruturas narrativas examinadas. [página 72] foram pouco ou mal tratadas pela semiótica.II — DISCURSO: A ASSUNÇÃO DE VALORES CONSIDERAÇÕES INICIAIS Neste capítulo abordam-se os vários aspectos da sintaxe e da semântica discursivas. desenvolveu bastante bem a sintaxe e a semântica narrativa. de desvelamento da enunciação e de manifestação dos valores sobre os quais está assentado o texto. e da semântica. que os converte em discurso e nele deixa “marcas”. por excelência. os recursos de persuasão utilizados pelo enunciador para manipular o enunciatário. como se espera ter mostrado no capítulo anterior. sozinhas. muito comumente rotuladas.

pensou-se nas diferentes colocações da semântica da enunciação — da argumentação. percorrer e completar. distinguir as diversas formas de projeção da enunciação — actancial. como procedimentos utilizados pelo enunciador para levar o enunciatário a crer e a fazer. em última instância. os procedimentos de sintaxe discursiva desenvolvidos pela semiótica e. pelo tratamento dado às formas da composição ou do discurso e pela preocupação com os procedimentos de argumentação e persuasão. que é preciso seguir. assim. dessa forma. a partir daí. que se fará da instância discursiva. na verdade. lembrar e sugerir. Para a semântica. alguns caminhos iniciados. principalmente quando aprecia questões de foco narrativo. e também o fato de procurar em outras propostas teóricas ou em práticas experimentadas subsídios para explicar as organizações sintáticas e semânticas do discurso. tem dedicado seus mais recentes esforços. a estilística. da pressuposição. pretende-se examinar. ao menos. SINTAXE DISCURSIVA Serão analisados dois aspectos da sintaxe discursiva: o das projeções da instância da enunciação no discurso-enunciado e o das relações. alguns elementos dos estudos literários do foco narrativo. confundem-se muitas vezes e as diferentes projeções da enunciação explicam-se. em seguida. temporal e espacial — e os mecanismos de delegação do saber. e quem sabe até mais criativa. a retórica e a poética. ou. e relacionar o discurso. Projeções da enunciação Serão examinados. além das teorias semânticas desenvolvidas pela lingüística. em primeiro lugar. dos atos de fala —‘ na teoria do texto literário. Há. Para a elaboração da sintaxe. alguns percursos inacabados. algumas direções indicadas. a exposição menos segura. na estilística e na retórica. pois.entanto. entre enunciador e enunciatário. A separação dos dois tipos de mecanismos sintáticos não pode ser entendida como ausência de ligação entre eles. A intenção é determinar as relações entre enunciação e discurso. sobretudo argumentativas. Explica-se. [página 73] . com as condições de sua produção.

no discurso-enunciado. as categorias da pessoa. ao mesmo tempo. /não-pessoa (ele)/. enunciados que resultam da projeção do eu/tu e enunciados decorrentes da projeção do ele. a projeção de um não-eu do enunciado. Deve-se evitar confundir a enunciação pressuposta com a enunciação-enunciada24. ao mesmo tempo.Desembreagem e embreagem actancial e teorias do foco narrativo A enumeração produz o discurso e. dos actantes do discurso-enunciado e de suas coordenadas espáciotemporais instaura o discurso e constitui o sujeito da enunciação pelo que ele não é. Fala-se. assim. em /pessoa (eu-tu)/ vs. para os enunciados com ele. espacial e temporal do enunciado.d. em desembreagem enunciativa. articula-se. Obtêm-se. assim.. s. 147). o tempo e o espaço da enunciação e a representação actancial/actorial. Em certo dia de data incerta. o sujeito.) [página 74] . nunca manifestado. A operação e os procedimentos pelos quais a enunciação realiza a projeção mencionada denominam-se desembreagem. está sempre implícito e pressuposto. seu simulacro e um tipo de enunciado. p. é semióticamente vazio e semanticamente cheio. do espaço e do tempo. A enunciação explora. instaura o sujeito da enunciação. A projeção. para fora dessa instância. O eu e o ele projetados são actantes e atores do enunciado. em desembreagem enunciativa e. para os enunciados com eu. Observe. respectivamente.se que o sujeito da enunciação. segundo Benveniste (1966).. Todo ovo que eu choco me toco de novo (BUARQUE. A desembreagem actancial é. segundo Greimas e Courtés (s. As duas histórias de galinhas. explorada na desembreagem actancial. que se tem usado como exemplo.d. Com a desembreagem criam-se.. empregam recursos diferentes de desembreagem. como um depósito de sentido. O lugar da enunciação (eu/aqui/agora). um galo velho e uma galinha nova encontraram-se no fundo de um quintal. na desembreagem. os dois grandes tipos de unidades discursivas. A categoria da pessoa. distintos dos da enunciação. a enunciação-enunciada e o enunciado propriamente dito. instaurado por tais procedimentos. (FERNANDES. distinto do eu da enunciação. surgem. 1975). dessas diferentes desembreagens.

no sentido que lhes atribui Benveniste. narratário. como efeitos criados pelas diferentes relações que os tipos de enunciado mantêm com a enunciação. Além disso. o poema de Chico Buarque é uma enunciaçãoenunciada. e o tu. em geral. DE 2º GRAU ENUNCIADOR NARRADOR INTERLUTOR OBJ ETO INTERLOCUTÁRIO NARRATÁRIO ENUNCIATÁRIO [página 75] . o sujeito que diz eu denomina-se narrador. além dos laços metonímicos. considerados “subjetivos”. resultante de desembreagem enunciva.Na fábula de Millôr. A enunciação-enunciada. O esquema abaixo representa as várias relações: IMPLÍCITOS (ENUNCIAÇÃO PRESSUPOSTA) DESEMB. A subjetividade e a objetividade entendem-se. Já o enunciado propriamente dito caracteriza os discursos em terceira pessoa. julgados “objetivos”. que decorre de desembreagem enunciativa. simulacros discursivos do enunciador e do enunciatário implícitos. em relação de parte a todo. estabelece também ligação metafórica que se funda na similaridade. Na enunciação-enunciada. que instalam os interlocutores do diálogo. por ele instalado. Os discursos em primeira pessoa servem de exemplo de enunciação-enunciada e são. na equivalência que o simulacro mantém com a enunciação pressuposta. O enunciado propriamente dito liga-se metonimicamente à enunciação. são ainda possíveis desembreagens de segundo e de terceiro graus. DE 1º GRAU-ATORES EXPLÍCITAMENTE INSTALADOS DESEMB. tem-se um enunciado.

] A mãe é a narradora que instala “o senhor” como narratário e que cede a palavra a vários sujeitos. No texto ‘Militares — Linha Secreta Mistério na morte dos três Sargentos’ (Veja. [. bigodão. viúva do sargento Luiz Élvio. O bigodão resmungou: Tá legal. as reportagens. em grande medida. afirma Hilário Moretto. desembreados em segundo grau como interlocutores (barbudo vs. Então nada feito outra vez.. pelas desembreagens internas (segundo. mas eu não sei escrever. Fazem-se referências à falta de esclarecimentos sobre a causa das mortes e dá-se a palavra a familiares dos sargentos: [. Reginaldo.] “Tudo é inexplicável”. 32). são de dois tipos: efeitos de referente ou de realidade e efeitos de enunciação. A verdade ou a falsidade de um discurso ligam-se à comprovação referencial ou à proximidade e autoridade da enunciação. 87.. tio do sargento Ronaldo. mãe).. contando o senhor não acredita. p. O efeito de realidade é produzido. Meu filho é artista de televisão.. ao menos na nossa cultura. 24 anos. a 290 quilômetros de Porto Alegre. 14 jan.] . 1 97. terceiro graus) que criam a ilusão de situação “real” do diálogo. Os diferentes tipos de desembreagem e as subdelegações de voz definem unidades discursivas e produzem efeitos de sentido diferenciados.] Um cara que estava escutando falou assim: A senhora vai jogar fora esses 50 mangos? E daí? respondi pra ele [. bigodão.. no passado vs.. pra eu assinar nelas todas. principalmente. a cabeça não dá... o procedimento é utilizado com sucesso. p. de Passo Fundo.]“A partir dessa premissa. “Podem até dizer que acidentes com militares são fatos normais”. o bigodão respondeu. “O que não se concebe é a divulgação de tantas informações desconexas” [. afirma Hilário Moretto. diz Neuza Muller de Souza. Aí eu disse: O senhor me desculpe. [. um barbudo que passava disse assim pro bigodão: Paga a ela. 324) ilustra bem as desembreagens internas. Verifique-se o exemplo acima e. cara que escutava vs. ficaram com pena de mim.] Ai eles me viram chorando. e me deu um papel passado em três folhas iguais. que empregam a referencialização obtida através de procedimentos de desembreagem interna como recurso na criação de efeitos de verdade e como meio de passar a responsabilidade do que é dito àquele que se cita em discurso direto...A crônica ‘Glória’ de Drummond (ANDRADE. mãe..[. é evidente que estão mentindo”.. Os efeitos de sentido. com os quais se obtêm efeitos de verdade.

na análise de discursos. de enunciação e de verdade também as ilusões contrárias: pode-se pretender obter efeitos de mentira ou de falsidade. portanto.. de ideologia para ideologia. criadoras dos efeitos de sentido mencionados. distanciado do sujeito da enunciação. O discurso da imprensa. Trata-se. em geral. [página 77] Para melhor sistematização das relações instauradas entre enunciação e enunciado. Os efeitos de enunciação são. Incluem-se como efeitos de realidade. procura conseguir esse efeito. A enunciação finge recuperar as formas que projetou fora de si. Além disso. empregando os recursos de desembreagem enunciativa (eu/você) e de embreagem enunciva (a mamãe). as historias infantis que começam com “Era uma vez. Ao se propor a fazer uma ‘leitura dramática demonstrada’. Nega-se o enunciado e procurase produzir o efeito de suspensão da oposição entre os atores. de irrealidade ou de ficção. criados pela escolha da desembreagem enunciva ou enunciativa e por um procedimento oposto à desembreagem.”. e o tio de um dos sargentos ou a mulher de outro que. Um bom exemplo é o da mãe que diz à filha “a mamãe amarra o sapato para você”. ou melhor. de irrealidade ou de ficção. Os exemplos são muitos: as histórias contadas com a indicação de “histórias de pescador”. de grupo para grupo.. o espaço e o tempo do enunciado e os da enunciação. que cita e recria discursos diretos que não foram ditos. denominado embreagem. de distanciamento da enunciação. Xacuntalá reconhecida26. o grupo pretende deixar visível que esta construindo no palco um simulacro de uma realidade distante no tempo e no espaço e da qual está sendo apenas o ‘portavoz’”. se devem reconhecer os procedimentos utilizados para a obtenção de efeitos de sentido. “verdade” às manifestações de estranheza em [página 76] relação às mortes. nesse caso. Outro exemplo é o da montagem da peça de Kálidása. de efeito de enunciação. de distanciamento da enunciação. Todas elas produzem efeitos de mentira. pensamos em . que variam de cultura para cultura. recriminam e criticam o Comando Militar. A embreagem apresenta-se como uma operação de retorno de formas já desembreadas à enunciação e cria a ilusão de identificação com a instância da enunciação. diretamente. as fábulas que se dizem sempre fábulas. Para se negar a enunciação e se obter a ilusão de objetividade. como uma “leitura dramática demonstrada” e assim explicada no programa: “O texto nas mãos dos atores não quer dizer apenas segurança na interpretação. coloca-se o sujeito do enunciado como um simples locutor2.A atribuição de voz à família dos sargentos dá “realidade” e. Conclui-se que.

há muito tempo já. desde que obtenha o resultado esperado. os trabalhos de Kayser (1970) e de Booth (1970). anos de pesquisa e de trabalho. de que se retomaram apenas as questões gerais. o da confusão entre narrador e autor. acentuado principalmente quando se tratava de discurso em primeira pessoa. como máscara do autor. p. Se James é contra a narrativa em primeira [página 78] pessoa. examinaram-se alguns textos básicos para o estudo do ponto de vista27. Um primeiro equívoco se desfez assim. durante muito tempo. preconizando o “melhor foco narrativo”. autor e narrador. Friedman (1967) e Mendilow (1972) consideram a terceira pessoa dramatizada como a visão narrativa mais eficaz para o romance e não admitem a intervenção do autor. 21) aceita que o romancista mude seu ponto de vista. que. O romance ideal seria aquele em que o narrador quase não se mostrasse. ser estendidos a outros domínios. por exemplo. cujos resultados podem. Forster (1969. também. em parte. Vejam-se. e contribuir para a teoria do discurso. Estamos cada Vez mais convencidos de que muitos dos fatos julgados específicos do objeto literário encontram-se também em outros tipos de discursos figurativos e até mesmo nos não-figurativos. Neste trabalho. mas não admite certas interferências do autor: “Pode o escritor fazer confidências ao leitor sobre suas personagens? Melhor não fazê-lo. contra as interferências. Na esteira de James (1948). São. em grande parte. a esse respeito. que destrói a “ilusão de realidade”. permitiu certas conclusões um tanto apressadas. O abandono em que se encontravam os estudos das diferentes manifestações discursivas. portanto. leva . A teoria literária distingue. prendem-se ao fato de reconhecermos que. Lubbock (1976) sobretudo e. com seus prefácios escritos no fim do século XIX. As razões que nos levaram a procurar tais textos. em oposição ao sempre grande desenvolvimento da teoria e análise literárias. a teoria do foco narrativo pôs fim ao conflito instaurado entre os que atribuíam à teoria um caráter normativo. cru geral considerados de interesse e responsabilidade da Teoria Literária. dando a impressão de que a historia se conta a si mesma. a crítica e a teoria literária preocupavam-se com o texto como um todo e com o sentido do discurso. enquanto a lingüística não ia além da frase. marcou o início da teoria do foco narrativo tal como hoje é concebida. em geral. de que o narrador não está lá. e menosprezando os demais. contra a variação de ponto de vista. Ao reconhecer que as visões narrativas são diferentes máscaras ou projeções do autor.recorrer a trabalhos sobre foco narrativo. que acabam mesmo por concluir não haver diferença fundamental entre o romance em primeira e em terceira pessoa. além do literário. E perigoso e. o mais apropriado ao romance. já que ambos comportam um narrador. comentários e avaliações do autor e.

a uma queda de temperatura. a um afrouxamento emocional e intelectual e. de espaço. A noção de autor-implícito é precursora da de sujeito da enunciação. O autor-implícito. diz Booth. Hoje. permite que se deixe de lado o autor e que se pensem as visões narrativas a partir das relações estabelecidas entre o autor-implícito (instância e sujeito da enunciação) e o narrador (sujeito do enunciado). que o romance em primeira pessoa não é uma forma menos poética que as outras e que não se pode estabelecer. E inevitável fazê-lo. pela escrita. qual seja a confusão entre o autor. já que representam apenas formas diferentes de o autor se colocar no texto. a um certo tom de jocosidade”. em sua segunda grande contribuição ao tópico do foco narrativo. mas é preciso. entre autor e narrador e entre autor e autor-implícito. uma versão superior de si mesmo (1970. entre os teóricos do ponto de vista. caso o autor-implícito seja considerado. Sendo porém a valorização uma questão “externa”. A concepção normativa. isto é. ao determinar que o autor de que o texto fala. tomar consciência da relatividade cultural e histórica dos juízos de valor. de antemão. de História. sobretudo com as mudanças sofridas pelo romance. O mérito e o alcance da proposta de Booth anulam-se. Kayser antecipa as colocações lingüísticas e semióticas sobre a ilusão de enunciação e sobre a questão da “neutralidade” do sujeito da enunciação em relação ao discurso. questão de estilo. pior ainda. é sempre diferente do homem real e cria. As variações de pessoa. ao mesmo tempo que sua obra. apenas uma etapa intermediária entre o autor e o narrador e não a instância produtora do discurso. e o autor “de carne e osso”. que trata de mostrar. a que se referiu. ou aquele que se mascara no narrador e se projeta em primeira ou em terceira pessoa. não é o ser de carne e osso. Para fazê-los. pressuposto pelo discurso-enunciado. é preciso antecipar certos elementos de semântica discursiva28e da formalização narratológica da enunciação29 e . de época. 6). não passa pela cabeça de ninguém a possibilidade de valorizar uma perspectiva narrativa em detrimento de outra. a noção de narrador merece alguns reparos. segundo ele. Foi Booth. está presa a um segundo equívoco. [página 79] O estabelecimento das duas distinções. ser ficcional. mas um autor-implícito. como fazem alguns. então. acaba-se sempre por atribuir maior importância a certas “técnicas” de organização das visões que a outras. A essas considerações normativas opõem-se as de Kayser. quem trouxe algum esclarecimento à questão. de cultura. ontologicamente definido. porém. Na perspectiva da semiótica. são. p. caracterizado e criado a partir do texto. o que é mais ou menos poético e sim o que é mais adequado aos efeitos de sentido buscados.

distinguir, com clareza, os actantes dos atores e, entre os actantes, os actantes narrativos dos actantes discursivos. A noção de actante foi examinada no capítulo 1, dedicado à narrativa, O actante pertence à sintaxe e define-se pelos papéis actanciais que engloba: o actante Sujeito subsume, entre outros, os papéis de sujeito do querer, de sujeito competente, de sujeito realizador. Na instância do discurso, o actante converte-se em ator, ao receber investimento semântico, temático e/ou figurativo. O ator resulta, assim, da combinação de papéis da sintaxe narrativa com um recheio temático e/ou figurativo da semântica do discurso. O actante Sujeito, em ‘A galinha reivindicativa’ de Millôr, ocorre, no nível discursivo, como o ator galinha, com as decorrências temáticas de “ser galinha” e com as determinações figurativas da galinha em questão (nova, etc.). Da mesma forma, o actante Destinador do dever torna-se o ator patroa, e o Destinador do saber, o ator galo velho. Há diferentes modos de relacionamento entre os actantes e os atores, sendo comuns os casos de sincretismo. Os actantes são, por conseguinte, concebidos como entidades narrativas. Só é possível pensar em actantes do discurso se uma perspectiva narratológica for adotada no exame da enunciação, ou seja, se a enunciação for abordada do ponto de vista de sua organização narrativa ou espetacular. Deve-se, então, distinguir, entre os actantes, os actantes narrativos, propriamente ditos, dos actantes discursivos, que são também narrativos, mas pertencem à estrutura narrativa da enunciação. Os actantes do discurso instalam-se como projeções da enunciação e simulam os papéis actanciais assumidos pelo sujeito da enunciação (sujeito e destinador/destinatário). Na crônica ‘Glória’ de Drummond (ver p. 76), a mãe-narradora é um ator que investe, no nível do discurso, os actantes discursivos Sujeito do fazer discursivo e Destinador do saber, en- [página 80] quanto o ator mãe “no passado” realiza o actante narrativo Sujeito da performance de cobrar o cachê do filho. Bem esclarecidas as noções de actante e ator e de actante narrativo e actante discursivo, volta-se à questão do narrador. Há, do ponto de vista da semiótica, duas definições possíveis de narrador. Pode-se considerar o narrador como o resultado da projeção da instância da enunciação, fundadora do discurso, tendo o narrador manifestação explícita ou implícita no discurso-enunciado. Narrador seria, então, qualquer máscara da enunciação, e até seu desaparecimento ou seu esfacelamento seriam tomados como “tipos de narrador”. A outra possibilidade, pela qual se optou, é a de reservar o termo narrador apenas para os casos de explicitação do sujeito que assume a palavra no discurso. Pela primeira caracterização, o narrador estaria identificado com os actantes discursivos Sujeito e Destinador, papéis actanciais de nível discursivo, que marcam as relações entre enunciador e enunciado e entre enunciador e enunciatário,

respectivamente. Na segunda concepção, o narrador é entendido como um ator que engloba os papéis actanciais de Sujeito e Destinador discursivos e os papéis temáticos da “narração”, também discursivos. A cobertura semântico-temática do discurso define, nessa perspectiva, o ator-narrador. Não havendo investimento temático, não há ator e não há narrador. Nesse caso, outros mecanismos sintáticos e semânticos são encontrados para marcar os actantes do discurso. Em ‘O vento no canavial’, tem-se um exemplo desses possíveis procedimentos: o fio discursivo está a cargo do observador e não do narrador. Há muitas propostas de classificação dos focos narrativos e as confusões terminológicas são bastante freqüentes. Parece provável que isso se deva à variação de critérios e de perspectivas dos vários teóricos, nem sempre explicitadas. As comparações resultam, portanto, em geral, pouco produtivas. Há um certo consenso, porém, em torno de dois pontos, além dos que já foram levantados: o foco narrativo é um recurso discursivo — diríamos sintático — ligado a um sentido determinado, mas não se pode estabelecer de uma vez por todas os efeitos de sentido resultantes da variação de ponto de vista. Delineiam-se, no entanto, certas tendências na consideração do papel discursivo do foco narrativo e dos tipos de efeitos que cria. Kayser afirma que o foco narrativo é só aparentemente uma questão de forma e que o sentido do discurso muda, segundo variem os pontos de vista. Para Booth, não se pode julgar um recurso técnico, como o ponto de vista, senão em relação às noções mais gerais de sentido e de efeito a que [página 81] tal recurso está destinado a servir. Há discrepâncias entre OS autores quanto aos efeitos que se procura obter com a escolha de determinado foco narrativo. A maior parte dos teóricos consultados, James, Lubbock e, sobretudo, Friedman, vê como objetivo primeiro do ponto de vista, e do romance no seu todo, o de produzir a ilusão completa de realidade, o maior grau possível de “realismo”. A questão da escolha do foco narrativo liga-se, dessa forma, ao tipo de ilusão de realidade que se quer criar. Explica-se assim o caráter normativo de suas considerações, anteriormente mencionadas. Já segundo Booth, a finalidade do romance não é tanto produzir uma ilusão, quanto fazer passar certos valores. A transmissão dos valores, para o autor, é um problema de retórica. Retoma ele uma concepção de retórica que estava desaparecida, sufocada pela retórica clássica das figuras de linguagem, qual seja a retórica como conjunto das técnicas e meios utilizados pelo romancista para comunicar-se com seus leitores, para controlá-los, de modo a fazê-los participar de seu sistema de valores. O problema da retórica da ficção não é o das ligações do narrador com a história que conta, nem apenas o das estruturas internas, mas, sobretudo, o da relação do “autor” com seu “leitor”.

Enquanto Friedman atribui ao foco narrativo o efeito de realidade ou de referente, Booth desloca o problema para o efeito de verdade, para o contrato de veridicção estabelecido entre enunciador e enunciatário e para o jogo da manipulação entre o fazer persuasivo do enunciador e o fazer interpretativo do enunciatário. A questão das relações entre enunciador e enunciatário, apontada por Booth, foi, neste trabalho, separada, um tanto artificialmente, da abordagem dos procedimentos de projeção da enunciação e será examinada no próximo item. Resta retomar o problema relativo à ilusão de realidade, sem dúvida uma das principais razões de escolha do foco narrativo. Não se trata de acreditar, como James, Lubbock ou Friedman, que o romance deva gerar “ilusão de realidade”, mas de entender o jogo dos efeitos de sentido de realidade que o sujeito da enunciação procura obter com as opções e variações de ponto de vista, pois pode tanto querer criar o efeito de realidade quanto o de irrealidade. As ilusões engendradas pelo discurso, assim como a relação entre o procedimento sintático do foco narrativo e os efeitos criados, dependem de vários fatores, tanto de organização narrativodiscursivo-textual, quanto de variação sócio-cultural e histórica. O caráter relativo e contextual da correlação entre foco narrativo e efeitos de sentido não impede, porém, que se bus- [página 82] quem algumas indicações de percursos possíveis, traços e pistas de direções a seguir, sobretudo a partir das classificações mais conhecidas de foco narrativo. Lubbock (1976) distingue dois tipos de apresentação do texto, a cônica e a panorâmica. Na apresentação cênica o narrador restringe-se a momentos particulares, a uma determinada cena frente à qual o leitor é colocado, enquanto na panorâmica sua visão é ampla e geral. As apresentações sofrem dois diferentes tipos de tratamento, ligados à oposição entre o “narrar”e o “mostrar”: o pictórico, em que os fatos são vistos através do narrador que descreve, que “pinta” a história, e o dramático, em que o narrador desaparece e dá lugar à visão “direta” das coisas, ou seja, os fatos visíveis e audíveis contam a história. Friedman (1967) organiza os focos narrativos em oito tipos distintos, que serão apresentados na ordem que vai da onisciência total — o narrador tudo sabe e em tudo se intromete — ao apagamento do narrador.

para /presença do narrador/ + mão-onisciência/ e para /ausência do narrador/ + /onisciência/. Modo dramático: os atos e palavras dos protagonistas contam a história (predomina o discurso direto). predomina o discurso indireto livre). que aproxima a experiência vivida do romance — do modo de compreensão da realidade surge o ponto de vista —. Onisciência do narrador neutro: o narrador tudo sabe. não-narrador + onisciência 6. Narrador-testemunha ou observador (em primeira pessoa): o narrador. não-narrador + não-onisciência 8. como personagem principal. Onisciência multisseletiva: o narrador desaparece e a história é “filtrada” através dos personagens (em geral. propõe três visões: visão com. 7. Pouillon (1974). não participa diretamente dos acontecimentos. em que o narrador se limita a descrever os acontecimentos. narrador + não-onisciência 4. visão por trás. como um observador. em que o narrador é onisciente.1. 5. narrador + onisciência 2. 3. Passou-se dos traços de /presença do narrador/ + /onisciência/. Narrador-protagonista: o narrador participa dos acontecimentos. chegando-se a /ausência do narrador/ + /não-onisciência/30. Onisciência seletiva: não há narrador e a história é filtrada através de um personagem (predomina o discurso indireto livre). Booth (1970) prega a necessidade de uma classificação mais rica das vozes do autor e considera insuficientes as oposições entre primeira e . visão de fora. comenta e avalia. mas se abstém de comentários gerais (3º pessoa e estilo indireto). Onisciência do narrador organizador: o narrador tudo sabe. em que o narrador vê e sabe com a personagem. [página 83] Forster (1969) agrupa os focos narrativos segundo dois critérios: caráter exterior ou interior (onisciência) do ponto de vista ou posição ocupada pelo narrador na história (personagem ou não). Câmera: uma fatia de vida é como que apanhada arbitrária e mecanicamente por uma câmera.

não-declarados (os “refletores”.terceira pessoa ou entre “contar” e “mostrar”. só ganharão em serem diferenciados: a delegação de “voz”. em relação à instância da enunciação. ilusão de realidade. sem dúvida. narradores oniscientes vs. Espera-se que a revisão das tipologias arroladas. a nosso ver. um problema de delegação de “voz”. que os dota de “voz”. Em termos de sintaxe. enquanto escritores) vs. conforme foi visto. que os qualifica. . instala um ou mais sujeitos delegados. O fazer modalizador pode repetir-se no discurso. a organização do saber e a relação entre os papéis do discurso e os da narrativa. devem ser redefinidas no interior desse quadro. O foco narrativo é. nos pontos de vista. ao ato de instauração e modalização do enunciado e de seu sujeito. aos quais atribui o /dever-fazer/. que. O sujeito da enunciação projeta o discurso como uma meto. contribua para a explicação dos mecanismos sintáticos do discurso. e o /poder-fazer/ ou poder falar por ele. através de desembreagens de segundo ou terceiro graus que produzem. não-representados (não-explicitados). Distingue. narradores que são personagens centrais vs. Unidades do discurso. e os narradores nãoconscientes. Distinguem-se três diferentes aspectos da questão do ponto de vista. As diferenças de pessoa. em terceira pessoa) ou como urna metáfora (a enunciação-enunciada. obtendo com isso diferentes efeitos de sentido que tendem. • • A multiplicidade de critérios pouco explicitados dificulta o confronto das diferentes classificações dos focos narrativos e causa desentendimentos31. organiza os narradores em: • • narradores representados (explicitados) vs. narradores não-oniscientes. em primeira pessoa).[página 84] nímia da instância da enunciação (o enunciado propriamente dito. respectivamente. na perspectiva da sêmio-lingüística (outras são possíveis). que os instaura como sujeitos. em geral. em primeira pessoa). relacionam-se. Considera-se a delegação de voz como resultante da operação de desembreagem ou de projeção da instância da enunciação no discurso. pode-se afirmar que o sujeito da enunciação. em primeiro lugar. portanto. narradores que não são personagens centrais (observadores e os que têm alguma influência sobre o curso dos acontecimentos). para a ilusão de ausência de enunciação ou de distância em relação a ela (“objetividade”) e para a de anulação da distância entre enunciação e enunciado. narradores representados declarados (conscientes de si mesmos. em seguida. autor-implícito e narrador e. para construir seu objeto. como o diálogo. em terceira pessoa.

A oposição entre o “narrar” e o “mostrar”. concreta. sujeitos iludidos e sujeitos desenganados. que fundamenta a maioria das propostas de classificação dos focos narrativos. não escolástica das formas sintáticas” (1981. desenvolve trabalho sobre estilo direto. preocupado com os esquemas lingüísticos de discurso citado. antes de mais nada. explica-se essencialmente pela modalização do /poder-fazer/. como categoria. entre a difusão (onisciência multisseletiva) ou a concentração do saber. o sujeito da enunciação atribui ao sujeito do enunciado o /poder-conduzir/ o discurso de diferentes modos. saber sobre os fazeres. M. caracterizado. p. saber sobre as paixões — fornece outros elementos para se organizarem as perspectivas do narrador. Enquanto a enunciação como um todo permanecer terra incógnita para o lingüista. o saber define su. ou seja. ou seja.e organizadas coerentemente. está fora de questão falar de uma compreensão real. O sujeito do discurso. indireto e indireto livre e afirma que “um estudo fecundo das formas sintáticas só é possível no quadro da elaboração de uma teoria da enunciação. O autor não disse apenas que tal concepção de sintaxe só tem sentido no bojo de uma teoria do discurso. Entende-se o saber delegado como um /saber-ser/. entre narrador consciente de seu papel de narrador e narrador inconsciente. em /saber-ser/ e /saber-não-ser/. competente para narrar e existente pelas relações com objetos do saber. Articulado. Bakhtin. formas diferentes de sua realização como sujeito. O /saber-ser! é necessário. pois o /saber-fazer/ não é imprescindível ao narrador. O segundo aspecto posto em destaque na organização dos pontos de vista é a questão da delegação do saber. 140). definindolhes a competência modal para o narrar — sujeitos que devem e podem assumir a palavra — e a existência modal — sujeitos que sabem ser. As intrusões e a “neutralidade” do narrador constituem. como sujeito que deve e pode narrar.[página 85] jeitos (e narradores) que sabem e sujeitos ignorantes. Grande parte das distinções de foco narrativo resultam das diferentes combinações dessas modalizações. cumpre o fazer para o qual foi determinado e narra.32 Em resumo. por exemplo. enquanto a variação de seu objeto — saber sobre competência própria ou dos outros. A explicação sintática das unidades do discurso faz-se ainda desejar. A delegação do saber tem sido o critério classificatório mais explorado nas distinções entre narrador onisciente e não-onisciente. realiza-se de modos diversos. uma vez que a competência atribuída ao sujeito o torna sujeito de um fazer informativo ou de comunicação do saber. o sujeito da enunciação instaura narradores. .

Sobre o narrador. No quadro a seguir apresentam-se as diferentes possibilidades . no poema. bastante acentuados. por exemplo. o modo dramático e a câmera de Friedman. “o canavial é a imagem”. são destinadores-manipuladores.dores do discurso. quando a história parece contar-se sozinha. “cor verde”. No primeiro caso. nas páginas anteriores. o observador realiza seu fazer receptivo e interpretativo e é o grande responsável pela discursivização da narrativa. isto é. destinadores-julgadores. Em ‘O vento no canavial’ é o observador que conduz o discurso. assim. Manifesta-se claramente no discurso ou ocorre de forma implícita. em geral. da “campina” ou do “grande lençol”). e assumem apenas os encargos de narrador e/ou de observador. o observador assume o fio condutor do discurso. Na segunda situação. sendo a principal delas a transformação do fazer do sujeito narrativo em processo. há sempre marcas do observador no discurso. sujeitos delegados da narrativa. Explicitado e. é também um sujeito cognitivo. com nitidez. Está marcado. Qualquer que seja o modo de manifestação. pela indeterminação actorial (“não se vê”) e pelos recursos. entre os actantes do discurso e os actantes e papéis actanciais da narrativa. Os actantes discursivos e os narrativos manifestam-se ora por meio de atores diferentes. sujeitos. dura ou termina só é possível pelo fazer do observador. principais ou secundárias. “de um avião a paisagem se organiza”). ou seja. em geral sobressai o papel do observador.O último elemento enfatizado nas propostas sobre as visões narrativas é o das relações entre o narrador e as personagens. graças às categorias aspectuais. narradores que. quando os actantes discursivos e os narrativos não estão sincretizados nos mesmos atores. por exemplo) ou assumindo o modo do implícito. Dizer que uma ação começa. os papéis discursivos da “narração” dos papéis narrativos da “história narrada”. já se falou. de aspectualização (a descontinuidade aspectual [página 86] do movimento interrompe a duratividade do “papel em branco”. isto é. Um único ator ocupa os postos de narrador e/ou de observador e preenche os encargos de “personagens”. anti-sujeitos. “oculta fisionomia”. Há. os actantes discursivos aparecem como sujeitos cognitivos. ora através dos mesmos atores. não mais se distinguem. que se prefere distinguir do narrador. além de sujeitos e destina. em sincretismo com o narrador (narrador-testemunha. Na diluição do ator narrador. No discurso dito “sem narrador”. principalmente pelas figuras visuais (“não se vê”. instalados no discurso pelo sujeito da enunciação. O observador. Vejam-se. como sujeito responsável pela interpretação da narrativa do vento e do canavial. o fazerinterpretativo no discurso. quando os actantes discursivos e os narrativos realizam-se por meio dos mesmos atores. sujeitos de programas de uso. muitas vezes. ao qual cabe o fazer-receptivo e.

) Tipo 4: . narrador ≠ actante narrativo 4. narrador = actante narrativo 6. Causa dum bezerro: um bezerro branco. Tiros que o senhor ouviu foram de briga do homem não. erroso os olhos de nem ser — se viu —. narrador ≠ actante narrativo observador ≠ ≠ actante narrativo observador = observador ≠ actante narrativo observador ≠ = ≠ observador = actante narrativo observador = actante narrativo ≠ [página 87] Os tipos mais comuns são o 2 e o 4. ed.de sincretismo. ausência de sincretismo. Alvejei mira em árvore. no quintal. narrador = actante narrativo 2. 1. narrador = actante narrativo 3. O sinal “=“ indica sincretismo actorial e o sinal “≠”. gosto. p. 9. no baixo do córrego. em que narrador (no sentido restrito de narrador explicitado) e observador estão sincretizados em um mesmo ator. narrador ≠ actante narrativo 5. desde mal em minha mocidade. Por meu acerto. 7. Deus esteja. J. Rio de Janeiro. Olympio. Daí. e com máscara de cachorro. Podem ser exemplificados com trechos de Guimarães Rosa: Tipo 2: Nonada. 1970. vieram me chamar. (Grande sertão: veredas. Todo dia isso faço.

Os programas narrativos são localizados temporalmente e espacialmente. para fora da instância da enunciação. de maneira geral. 127). o tempo e o espaço determinam-se pela categoria topológica da /concomitância vs. por pressuposição. anteriores ou posteriores ao aqui ou ao lá. ao agora ou ao então. Os trechos abaixo. a referência se faz ao então (“manhã quente de dezembro”) e ao lá (“rua São Clemente”). assim. Há. 126-31). do agora e do aqui do discurso. A ação narrativa é localizada no tempo anterior ao agora e no espaço do aqui do narrador. 38. o agora e o aqui da enunciação. extraídos do conto ‘Livro de ocorrências’. In: Tutaméia — Terceiras estórias. 1979. programas concomitantes. não-concomitância/ e a /não-concomitância/ articula-se. o segundo sistema retoma metonimicamente o tempo e o espaço da enunciação e parte do então e do lá do enunciado. Rio de Janeiro. 5. ilustram os dois sistemas de referência: [página 88] O investigador Miro trouxe a mulher à minha presença (p. no tempo passado.Do narrador a seus ouvintes: — Jó Joaquim. O tempo e o espaço resultantes são ditos. A desembreagem temporal e a espacial definem-se como a projeção. remete-se ao aqui e ao agora do enunciado. posterioridade/. rua São Clemente. às considerações expostas sobre as relações do sujeito da enunciação com o discurso-enunciado. aos procedimentos de desembreagem e embreagem de tempo e de espaço. p. as observações já feitas sobre as projeções de actantes no discurso. Temporalização e espacialização Aplicam-se. respectivamente. respeitado. No primeiro exemplo. ed. Manhã quente de dezembro. O sujeito da enunciação instala o tempo e o espaço do enunciado segundo dois sistemas de referência: o primeiro sistema simula metaforicamente o tempo e o espaço da enunciação e tem como ponto de remissão o aqui e o agora do enunciado. Quaisquer que sejam os sistemas de referência. (‘Desenredo’. bom como o cheiro de cerveja. Um ônibus atropelou um menino de dez anos (p. de Rubem Fonseca (1979. subjetivos e objetivos. Olympio.) É preciso acrescentar. J. em /anterioridade vs. 129). as projeções do tempo e do espaço. por sua vez. cliente era quieto. Das diversas escolhas de perspectiva temporal e . o que institui. No segundo texto. em relação a qualquer dos sistemas de referência. p. Tinha o para não ser célebre.

primeiro andar. Os enunciados de estado são situados no tempo e no espaço e os do fazer interpretados como passagens de um espaço a outro. p. liberdade para reorganizar a cronologia. e convertido em eixo das consecuções (GREIMAS & COURTÉS. Em ”Conto retroativo”. Ele esta no banheiro. 130). na esperança de que ela chegaria no último minuto. a partir das duas posições temporais e espaciais “zero”. A programação temporal realiza a sintagmatização dos tempos e estabelece uma cronologia.d. Beijaram-se. 119-21).se e também gritou. “Sandra!”. a temporalização e a espacialização discursiva respondem pela programação espácio-temporal. Ele que tinha vindo para o aeroporto meio sonso no táxi. já apontados. corredor. desconsolado. banheiro. A programação espacial organiza o encadeamento linear dos espaços parciais já localizados. depois que ela entrou correndo no saguão do aeroporto gritando: “Mário! Mário!”. Ao seu lado um menino magro.. e constituem-se unidades de discurso. sala. de boca aberta. percebem-se bem as diferenças entre a programação temporal do discurso e a programação textual. depois de ter tomado três cafezinhos para fazer tempo. Veríssimo (1982. A ordem temporal substitui a ordem lógica e a organização narrativa transforma-se em historia. 355). Cheguei ao sobrado na rua da Cancela e o guarda que estava na porta disse: primeiro andar. de L. p. ele virou. que representa a ordem lógica dos programas narrativos. respirando com dificuldade. E ele. dar tempo a ela de se decidir se embarcaria com ele ou não. meio encolhido. triste porque passara no apartamento para uma última olhada e ficara andando do quarto para a sala e da sala para o . Em resumo. que já se preparava para embarcar. O eixo das pressuposições. de um intervalo temporal a outro. No texto a seguir. p. Subi. Na sala uma mulher com os olhos vermelhos me olhou em silêncio. em geral compatibilizadas com os pontos de vista actanciais. finalmente. as operações de desembreagem e embreagem criam o quadro de referência para a localização espácio-temporal dos programas narrativos. por exemplo.espacial. 1979. F. Além dos procedimentos de localização. Reproduziram-se abaixo o meio e o fim do conto. s. resultam os efeitos de sentido. O banheiro? Ela me apontou um corredor escuro (FONSECA. veja-se o encadeamento dos espaços: porta. A programação espácio-temporal do discurso é diferente da [página 89] programação textual em que o sujeito da enunciação tem.

no ultimo encontro. o processo é apreendido pela sobredeterminação . ela entra no saguão.] — Antes que alguém me denuncie. lá. ela diz. e um sujeito cognitivo. Justifica-se assim a definição. Na segunda leitura. passagem mas não ia. ele passa no apartamento e relembra os momentos felizes. apos a apresentação na galeria. praticamente. ele vai para o aeroporto. ele se prepara para embarcar. um doido. lembrando tudo. beijam.quarto. em processo. A aspectualização mantém relativa independência da enunciação. eles embarcam juntos. os semas de duratividade.. diz que não vai mais. o cheiro dela. não queria se amarrar. A organização cronológica ou programação temporal do conto é. O efeito de sentido decorrente da aspectualização liga-se apenas indiretamente à instância da enunciação. eles se conhecem na exposição de Mário. conserva-se o caráter retroativo da programação textual. e ela era muito moça e. quanto que. — Alô. amam-se durante dois meses. que não vai mais. ele a convida para ir com ele para a Europa.. embarcam juntos. A última frase “E embarcaram juntos” é ambí[página 90] gua tanto pode significar que Mário e Sandra partiram para a Europa. pontualidade e outros e transformar. inverte a ordem cronológica. Já a programação textual organiza de outra forma o tempo e. voltando no tempo. — O meu é Sandra. em geral atribuída a aspecto. toma três cafezinhos e prepara-se para embarcar. no componente temporal da sintaxe discursiva. no fazer do sujeito.. ele toma três cafezinhos. Embora temporal. a risada. eu mesmo confesso: sou o pintor. que faz. E embarcaram juntos. pois esta desembreia um sujeito do fazer. ela aceita. graças ao observador colocado no discurso enunciado. à exceção do último parágrafo: beijam-se no aeroporto. passaram a viver juntos. a aspectualização33. a ação em processo. ele passa pelo apartamento e relembra os momentos felizes. que estava com passaporte. Meu nome e Mário. a marca do jeans apertado nas suas coxas lembrando que na última vez ela dissera que não ia mais com ele. [. mas. Inclui-se. de “um ponto de vista sobre a ação”.. A aspectualização transforma as funções narrativas. antes de partir. de tipo lógico. na véspera da partida. Observar é ler.. era uma loucura. ele vai para o aeroporto. a seguinte: Mário e Sandra se conhecem na galeria em que Mário expõe.se. ele a convida para ir para a Europa. dessa forma. aproximadamente. os momentos na cama. — Alô. ela entra correndo no aeroporto. que observa. ele era um obsessivo.

As categorias aspectuais. p. pontualidade incoatividade vs. Retoma-se. Antes de terminar a discussão dos problemas de tempo e de espaço. a sugestão de Geninasca (1979. importa lembrar que. terminatividade (aspecto (aspecto incoativo) terminativo) O arranjo sintagmático dos semas aspectuais. além de se definirem em relação à instância da enunciação e aos actantes do discurso. podem ser relacionados com os actantes narrativos. os procedimentos de aspectualização são imprescindíveis para a caracterização das configurações passionais. Os trabalhos de Propp fizeram-se nessa direção.aspectual. 10) para o espaço: [página 91] ESPAÇO TÓPICO Espaço Espaço Espaço paratópico utópico paratópico PERFORMANCES Estado inicial Deslocamento 1 Performance Deslocamento 2 principal Estado final Espaço heterotópico Espaço heterotópico O espaço tópico é aquele em que as coisas acontecem ou espaço das transformações narrativas. a respeito disso. continuidade (aspecto (aspecto iterativo) durativo) vs. tanto um quanto o outro. distinguem-se os espaços paratópicos. em oposição ao espaço heterotópico ou espaço dos estados narrativos. em que nada ocorre. capaz de explicar um processo. toma a forma de: Incoativo (pontual) → durativo → (descontinuo ou continuo) terminativo (pontual) Conforme foi discutido no capítulo anterior. entendidos como espaços de . caracterizam os aspectos discursivos: Duratividade descontinuidade vs. No interior do espaço tópico. organizadas em sistemas.

intitulado ‘Literatura e personagem’. O fazer interpretativo do enunciatário. Relações entre enunciador e enunciatário Contrato de veridicção e verdade discursiva Examinaram-se. por conseguinte. em alguns casos mais minuciosamente — actancialização —. foi a citação comentada de Alice Berend em Os noivos de Babette Bomberling: “Bem cedo ela começava a enfeitar a árvore. a relação de manipulação estabelecida entre enunciador e enunciatário. levou-nos a reconsiderar. os procedimentos de correção de textos. que responde ao fazer persuasivo do enunciador. Rosenfeld (1968). fez-nos retomar. neste trabalho. Resta agora. seu destinatário. recorrer à análise do texto. ocorre também no discurso-enunciado. em primeiro lugar. se apreendem. ainda que o fazer pretendido pelo enunciador não se realize. tratar das diferentes relações entre enunciador e enunciatário. os diversos aspectos das relações entre instância da enunciação e enunciado. com maior clareza. Será analisada. que as relações entre enunciador e enunciatário mais se expõem e. para completar o desenvolvimento da sintaxe do discurso. do espaço utópico da performance principal do sujeito. cumpre os papéis de destinatário-sujeito. Amanhã era Natal” (p. um bonito recurso de temporalização no texto poético. o enunciador coloca-se como destinador-manipulador. enquanto professora. nos seus vários aspectos: os . O trecho do ensaio. e a perceber. Há alguns anos. A ligação de “amanhã” com “era”.aquisição de competência e de sanção. desencadeador desse movimento. 24). O fazer manipulador rea. responsável pelos valores do discurso e capaz de levar o enunciatário. com maior facilidade. Enunciador e enunciatário são desdobramentos do Sujeito da enunciação que cumprem os papéis actanciais de destinador e de destinatário do objeto-discurso. precisa-se.[página 92] liza-se no e pelo discurso. os procedimentos sintáticos que explicam as relações entre enunciação e discurso. um erro de muitas cruzes em redação de aluno. a leitura do texto de A. no entanto. manipulado cognitiva e pragmaticamente pelo enunciador. a crer e a fazer. Para conhecer o fazer persuasivo do enunciador e o interpretativo do enunciatário. como um fazer persuasivo. Dessa forma. O enunciatário. E certamente no nível das estruturas discursivas. por sua vez. o desconhecimento dos alunos (e dos mestres) sobre as estruturas discursivas. em outros de forma mais geral — temporalização e espacialização —. em todas as instâncias propostas.

19) sobre a relatividade da verdade e sua dependência do tipo de discurso: “Quando chamamos ‘falsos’ um romance trivial ou uma fita medíocre fazemo-lo. decorrentes de outros contratos de veridicção. Mas ninguém pensaria em chamar de falso um autêntico conto de fadas. apesar de o seu mundo imaginário corresponder muito menos à realidade empírica do que o de qualquer romance de entretenimento”. para que o enunciatário encontre as marcas de veridicção do discurso e as compare com seus conhecimentos e convicções. Grande parte do capítulo anterior foi ocupada pela explicação da manipulação. por exemplo. a partir dos quais o enunciatário pode reconhecer as marcas da veridicção que. e creia. que o reconhecimento do dizer-verdadeiro liga-se a urna serie de contratos de veridicção anteriores. permeiam o discurso. ao texto literário.contratos propostos e assumidos. ou seja. dentro de um sistema de valores. da aceitação do contrato fiduciário e. em que são decididos os valores dos objetos a serem comunicados ou trocados. como um dispositivo veridictório. o contrato fiduciário é um contrato de veridicção. O contrato de veridicção determina as condições para o discurso ser considerado verdadeiro. assim. estabelece os parâmetros. de discurso e de seus tipos... Cita-se. No nível do discurso. sem dúvida. isto é. [. por exemplo. em primeiro lugar. que o enunciador propõe um contrato. em segundo lugar. Esta prevê um primeiro contrato fiduciário. próprios de uma cultura. e o que se coloca para um discurso religioso na China não tem o mesmo valor no Brasil. da cultura e da sociedade.[página 93] ciatário deve interpretar a verdade do discurso. por exemplo. Os mesmos padrões que funcionam muito bem no mundo mágicodemoníaco do conto de fadas revelam-se falsos e caricatos quando aplicados à representação do universo profano da nossa sociedade atual. da persuasão do enunciador. falso. os meios empregados para a persuasão e a interpretação e os diferentes fazeres pretendidos. abaixo. de uma formação ideológica e da concepção. que estipula como o enun. porque percebemos que neles se aplicam padrões do conto da carochinha a situações que pretendem representar a realidade cotidiana..] É esta incoerência que é falsa’. A interpretação depende. Rosenfeld (1968. que determina o estatuto veridictório do discurso. mentiroso ou secreto. assuma as posições cognitivas formuladas pelo enunciador. pois o que vale para uma entrevista política não se aplica. A verdade ou a falsidade do discurso dependem do tipo de discurso. p. As duas conclusões possíveis são. .

distinguem-se dois fazeres possíveis e dois tipos de manipulador. até agora. No segundo grupo.parecer verdadeiro do enunciador. Dessa concepção de verdade discursiva decorre que a verdade ou a falsidade de um discurso não servem de critério para diferenciar-se o discurso da História do da ficção. Todos elaboram sua verdade e. mas constrói discursos que criam efeitos de sentido de verdade ou de falsidade. como a receita de cozinha e os folhetos de explicação de uso de uma máquina. Discutiu-se. o discurso político do da fábula ou do conto de fadas. ou melhor. quando diz que “a verdade da personagem depende. levando-o a querer ou a dever-fazer. a concepção de verdade discursiva dai advinda. no confronto com discursos contrários ou contraditórios. Na operação de manipulação propriamente dita. a partir do contrato de veridicção assumido. na mesma direção. que parecem verdadeiros. A maior parte dos discursos pertence ao primeiro grupo. o do contrato de veridicção. não da sua comparação com o mundo” (1968. podem-se perceber os procedimentos graças aos quais o enunciador o fez parecer verdadeiro e. O enunciador não produz discursos verdadeiros ou falsos. chega-se a aceitá-lo ou a recusa-lo. encontram-se os discursos programadores. mas porque são convincentes” (1969. o primeiro momento das relações entre enunciador e enunciatário. previamente modalizado. em que o enunciador não se preocupa em transmitir ao enunciatário as modalidades do querer ou do dever-fazer. e que “o aspecto mais importante para o estudo do romance é o que resulta da análise da sua composição. Evita-se o já mencionado equívoco de caracterizar a verdade do discurso pela adequação ao referente. a respeito disso. os recursos utilizados para dotar o discurso das . ao menos. por essa razão. o didático. e contenta-se em lhe comunicar o saber ou o poder-fazer. antes do mais. Só quando um discurso é inserido no contexto de outros textos. da função que exerce na estrutura do romance de modo a concluirmos que é mais um problema de organização interna que de equivalência à realidade exterior”. O parecer verdadeiro é interpretado como ser verdadeiro. [página 94] localizados em formações ideológicas contrárias ou contraditórias. a não ser que sejam mal construídos. p. e o que faz o sujeito atual. Há o manipulador que instaura o sujeito virtual. p. o político ou o texto literário. Antônio Cândido.O discurso constrói sua própria verdade e. e. prefere-se falar em “dizer-verdadeiro” e não em verdade discursiva. pela atribuição do saber e do poder-fazer. são ditos verdadeiros ou. isoladamente. como o discurso da propaganda. que parecem verdadeiros. sem dúvida por reconhecer o enunciatário como um sujeito virtual. 48). Resta agora explicar alguns dos procedimentos do fazer. Forster. 75). também. afirma que as personagens “são reais não por serem como nós. Cita-se.

a sintaxe é formal e a semântica trabalha com as condições de verdade ou satisfação do enunciado e responde pelas implicações lógicas. constroem-se os demais sentidos. parcialmente. pela recuperação de uma parte do “caos” da fala e pela consideração de certas condições [página 95] de uso da língua. fazer votar ou de fazer crer. dependentes. que têm porém em comum o fato de estarem procurando aumentar a fatia da linguagem que cabe. Entre os estudiosos que reconhecem os fatos pragmáticos como fatos de língua. consideram a pragmática um componente autônomo da gramática da competência. Para alguns. ou seja. fazer cognitivo. aos estudos lingüísticos. semanticamente. por exemplo. como na publicidade ou no discurso político. de fatores . Não eliminam a oposição entre competência e performance. muito provavelmente. encontram-se dois grupos. Sobre esse sentido literal. Argumentação O fazer persuasivo do enunciador é diferente segundo o jogo de imagens que constrói de si mesmo e do enunciatário34 — e que o leva à sedução. Trata-se de fazer consumir. então. sem a indicação de seu emprego argumentativo ou sem a intervenção de alguns elementos de sua enunciação. cujos mecanismos fazem parte das regras que o falante domina para usar a língua. à tentação. Podem ser aqui agrupadas teorias diferentes. Outros. que explicam alguns dos implícitos da linguagem. as relações pragmáticas devem ser explicadas por uma teoria semântica.mente. sujeito a pressões sociais. como fenômenos sistemáticos e não fortuitos e ocasionais. isolado pela semântica. e ressalta que certos enunciados não podem ser descritos. à provocação ou à intimidação — e segundo também o tipo de fazer a que pretende persuadir o enunciatário — fazer pragmático. em suma. como Grice ou Searle.marcas de veridicção e para levar o enunciatário a reconhecê-las. como fatos de língua ou de competência. ou seja. tanto pelo fazer-fazer (votar ou assumir certos comportamentos). examinar o fazer persuasivo do enunciador. como no texto científico ou literário. Neste caso. cabendo a uma teoria da performance explicar o comportamento lingüístico real. isto é. ao lado dos componentes sintático e semântico. psicológicas. Definem todas elas também os fatos pragmáticos. como Ducrot. a questão do fazer persuasivo do enunciador. de memória e outras. O autor não concebe uma semântica que não tenha por objetivo explicar o sentido. O discurso político e o pedagógico caracterizam-se. de interação social do homem na e pela linguagem. quanto pelo fazer-crer (reconhecer o fazer do político e do professor). a significação em situação. É preciso. Muitas das teorias da linguagem explicam estruturas e mecanismos que recobrem. tradicional.

pragmáticos. Compete, assim, à pragmática tratar das implicaturas conversacionais e da força ilocucional que se associa ao conteúdo proposicional semântico. Adotou-se o ponto de vista de Ducrot, de que a gramática da língua tem dois componentes, o sintático e o semântico, em que cabem também as regras pragmáticas, pois muitas são as dificuldades encontradas na separação entre fatos semânticos e pragmáticos, sobretudo se não mais se definir a semântica pelas condições de verdade ou pelas implicações lógicas de uma semântica frásica. Quatro tipos de abordagem dos fatos de enunciação foram consultados para este trabalho: a) os textos precursores de Jakobson (sobretudo ‘Les embrayeurs, les catégories verbales et le verbe russe’ — 1963, p. 176-96) e de Benveniste (principalmente a parte sobre o homem na língua — 1966, p. 22-276), que recolocam a questão da enunciação entre as preocupações lingüísticas; os trabalhos de Ducrot, que desenvolve uma teoria semântica da enunciação ou semântica intencional, ao conside- [página 96] ra que os problemas da situação dos enunciados e os elementos relativos à intenção do locutor participam do objeto da semântica (Ducrot distingue, no interior da semântica, dois componentes, um componente lingüístico e um componente retórico, fazendo-se a passagem da significação lingüística ao sentido retórico por meio da enunciação. Para explicar o sentido, assim concebido, formula três leis do discurso: a da informatividade — o falante deve dizer ao ouvinte o que supõe que o ouvinte desconheça —, a da exaustividade — o locutor deve dar as informações mais fortes que tiver sobre o tema em questão — e a da lítotes — o locutor leva o ouvinte a interpretar o enunciado como dizendo mais do que sua significação literal. Com esse modelo, o autor desenvolve, sobretudo, o tratamento dos implícitos da linguagem, pressupostos e subentendidos, e das estruturas argumentativas, e mostra que a linguagem, por sua própria natureza, é um instrumento de argumentação.); A teoria dos atos de linguagem ou pragmática ilocucional que, a partir de Austin (1970) e desenvolvida

b)

c)

principalmente por Searle (1972), vê a linguagem como ação, ou melhor, considera como parte do sentido lingüístico as ações que se realizam quando se diz e pelo dizer (Austin tratou inicialmente dos performativos — eu lhe prometo, eu declaro aberta a sessão — em que o dizer é já um fazer. O exame dos performativos, embora casos muito específicos de fórmulas quase estereotipadas, constitui a primeira etapa para o reconhecimento das ações lingüísticas, pondo em xeque a tese saussuriana de identificação da atividade lingüística com a iniciativa individual. As convenções sociais determinam não apenas o sentido dos enunciados, mas também o valor dos atos de enunciação. Austin desenvolveu, em seguida, uma teoria dos atos de linguagem, em que mostrou que, ao falarmos, realizamos três atos diferentes: um ato de locução — atividades de ordem fonética, gramatical e semântica, independentes da situação do discurso —, um ato de ilocução — produzido pelo falar — e um ato de perlocução — decorrente do dizer, como resultado visado. A ilocução e a perlocução identificam-se a partir das variáveis situacionais. A atividade lingüística, dessa forma, não mais se coloca como uma exceção na língua, sendo os performativos um caso particular e espetacular de ilocução. Os atos ilocucionais e perlocucionais são determinados por regras específicas do discurso, como condições requeridas de sua realização. Graças à teoria dos atos de [página 97] linguagem, os lingüistas deixaram de ver a língua como lugar apenas de representação de significados objetivos, para considerála também como meio convencional de agir no mundo; d) a pragmática conversacional, que elabora máximas conversacionais, como regras gerais de direção do comportamento lingüístico e de formulação das relações vigentes entre locutor e ouvinte. (Grice (1982) estabelece um princípio geral de cooperação e quatro máximas: da quantidade — faça sua contribuição tão informativa quanto requerida e possível —, da qualidade — procure dar uma contribuição que seja verdadeira ou sincera —, da relação — seja relevante — e do modo — seja claro, nítido, não ambíguo, breve, ordenado.)

O aproveitamento das contribuições variadas de teorias lingüísticas que levam em conta a enunciação e as relações entre enunciador e enunciatário faz-se, neste trabalho, no quadro da sintaxe discursiva, buscando, por meio delas, descrever e explicar melhor o fazer persuasivo do enunciador e o fazer interpretativo do enunciatário. Mostra-se, apenas, como essas propostas se integram na sintaxe discursiva, tal qual a semiótica a concebeu, sem se desenvolverem as muitas possibilidades que tais teorias oferecem, pois, para tanto, seria necessário rever e discutir longamente as várias pragmáticas. Um trabalho que gostaríamos, ou gostaremos, de fazer, mas, de toda forma, um outro trabalho. A pragmática tem como objeto de estudo as relações sociais do homem na e pela linguagem, ou melhor, as relações que se estabelecem entre enunciador e enunciatário. As teorias pragmáticas mencionadas procuram explicar aspectos diversos dessa interação. Por isso mesmo, complementam-se, em lugar de se excluírem, e cada qual, sozinha, não é capaz de responder à questão colocada. Usa-se, neste trabalho, o rótulo de teoria da argumentação para aproximá-las e envolvê-las no quadro de análise semiótica da sintaxe do discurso. Uma teoria da argumentação, assim concebida, deve ocupar-se dos diversos aspectos do discurso relacionados à intenção do enunciador, aos efeitos a que este visa, ao produzir seu discurso, e à manipulação que pretende exercer sobre seu enunciatário. É preciso fazer, de antemão, um reparo ao fato de as teorias pragmáticas se preocuparem, em geral, com as marcas, numa dada língua, das estruturas argumentativas, e não com a determinação dessas estruturas. A semiótica, ao pretender, no percurso gerativo, fazer abstração da manifestação, interessa-se antes por estabelecer os recursos e mecanismos ge- [página 98] rais de argumentação, por meio dos quais o enunciador persuade o enunciatário. Partindo das propostas teóricas apresentadas, podem-se extrair três dos principais procedimentos utilizados pelo enunciador para influenciar, de alguma forma, o enunciatário: o recurso de implicitar ou de explicitar conteúdos; a prática de certos atos lingüísticos (ilocucionais), para atingir determinados fins (perlocucionais); a argumentação, em sentido restrito, já que os dois primeiros são também recursos argumentativos lato sensu. Embora os três tipos de procedimentos não se apresentem isolados e sim confundidos no fazer persuasivo do enunciador, serão examinados separadamente, por razões apenas de clareza de exposição. Ao enunciador é oferecida a possibilidade lingüística de jogar com conteúdos implícitos ou explícitos, para fazer passar os valores e deles convencer o enunciatário. Há diferentes modos de implicitar conteúdos. Ducrot (1969, 1977), em seus primeiros trabalhos sobre o assunto,

etc. Existe um grande número de trabalhos a respeito. segundo Ducrot (1977. a pressuposição modifica a fala do interlocutor. em primeiro lugar. . porque a sua conservação é uma das leis definidoras do . No outro.. De um lado. a pressuposição. 59-60). o dos pressupostos e o dos subentendidos. Define-se. a interrogação ou a ordem” (DUCROT. do mesmo modo que a afirmação. desejos e interesses do enunciatário. para que a afirmação “João é gordo” se realize e a informação passe. “O que reteríamos então da filosofia analítica inglesa seria sobretudo uma concepção de conjunto. ao mesmo tempo que se coloca contra a concepção de pressuposição.distingue dois grandes grupos. a idéia de que a língua constitui algo assim como um gênero teatral particular. a teoria dos atos de fala. 77).). especialmente na filosofia analítica inglesa.. 59). 1977. cuja possibilidade está inscrita na língua (da mesma forma que a ordem. prometer. e com grandes traços. pressuposição “como um ato de fala particular. para explicar a pressuposição. como “um dos tipos de relações humanas. a promessa. mas. mas de alterar seu direito de falar.. Já Ducrot julga que dois atos de linguagem foram efetuados: o de afirmar a gordura atual de João e o de pressupor sua gordura anterior. Enquanto ato. conforme será mostrado adiante.)” (DUCROT. estão os que vêem os pressupostos como condições de emprego. os adeptos da noção de pressuposição como condição de emprego dizem que “João era [página 99] gordo antes” é condição de verdade (emprego lógico) ou condição para que o enunciado atinja o fim pretendido. p. como parte integrante do sentido... com Ducrot. p. p. O autor utiliza. a seu ver restritiva. que oferece ao sujeito falante um certo número de empregos institucionais estereotipados (ordenar. 1977. reviu essa posição. por eles adotada. p. 34). Não se trata de influir nas crenças. A escolha dos pressupostos limita a liberdade do destinatário. Em “João continua gordo”. desenvolvida pelos filósofos de Oxford. em lugar de considerar os pressupostos como condições a preencher para que esses papéis possam ser representados. 1977. afirmar. Concebe-se a noção de pressuposição. gostaríamos de fazer da pressuposição em si mesma um papel — talvez o mais permanente — na grande comédia da fala” (DUCROT. consideram os pressupostos como elementos de conteúdo. entre lingüistas e sobretudo entre filósofos da linguagem. Veja-se. lógico ou não. a que se remetem os interessados. agrupam-se os que. Posteriormente. de duas formas distintas. nessa acepção. etc. Descrever a pressuposição como um ato de fala equivale a introduzir o implícito entre o enunciador e o enunciatário.

além disso. Resumindo as considerações feitas. O pressuposto é apresentado “como comum aos dois personagens do diálogo. para não caracterizar intrusão. no cinema”. 36). o conteúdo explicitado. 1969. Se o enunciatário recusa o pressuposto. Se. Pode-se discutir. Se o destinatário quer prosseguir o discurso iniciado. que. o discurso não poderá prosseguir. por definição constituído de crenças e conhecimentos presumidos comuns ao enunciador e ao enunciatário. o direito do enunciador de organizar o seu discurso da forma que melhor lhe convém. pois não se coloca como assunto do discurso que vem a seguir. com a recusa. aprisiona o [página 100] enunciatário num universo intelectual que ele não escolheu e que. enquanto o progresso discursivo se faz no nível do conteúdo posto. no dizer de Ducrot. indiscrição ou mesmo injúria. emprego retórico. O conteúdo pressuposto garante-lhe a coerência. porém. negar. mulher e filha. assegura-lhe a necessária redundância. não pode negar ou dele duvidar. encontrei-me com Pedro. o discurso não pode prosseguir e cria-se uma situação polêmica. O ato de pressupor um conteúdo consiste em situá-lo como já conhecido do enunciatário e em apresentá-lo como fundo comum. muitas vezes. mas as faz passar de qualquer forma. o enunciador determina sua aceitação como condição de manutenção do “diálogo”. A pressuposição. A pressuposição tem. precisa tomar os pressupostos como quadro de referência de sua própria fala. Está sendo colocado em dúvida. Age assim a Mariazinha quando diz à amiga. o direito de fala do enunciatário e estabelecendo os limites do que pode ou não ser dito para que o discurso continue. por tais critérios. antes das derrotas na Copa. como objeto de uma cumplicidade fundamental que liga entre si os participantes do ato de comunicação” (DUCROT. direito esse que faz parte das regulamentações lingüísticas da interação social. os paulistanos queriam Telê. Opõem-se. for negado o pressuposto de que. O pressuposto. A . ao pressupor um conteúdo. atingindo. Quando os jornais dizem que “os paulistanos ainda preferem Telê”. ao mesmo tempo. no interior do qual o discurso deve prosseguir. satisfazem às condições de progresso e de coerência do discurso. não é objeto de discussão. pois estarão sendo discutidos o direito do enunciador de organizar o seu próprio discurso e suas qualificações para a tarefa. p. vê-se que. ainda assim. todo o discurso. portanto. enamorada de Pedro: “Ontem.discurso. conteúdos postos e conteúdos pressupostos. O enunciador pode colocar como conteúdo pressuposto. juntos. não aceitar o posto. sem recusar. Evita dizê-las diretamente. nunca o pressuposto. certas informações que ele sabe não serem compartilhadas com o enunciatário. é possível não aceitar o posto e retrucar que a pesquisa foi mal feita e que os paulistanos preferem agora Mineli. pois isso equivale a desqualificar o enunciador e a impedir o prosseguimento do discurso.

como uma tática argumentativa. se a pressuposição é um ato ilocucional. No componente lingüístico. Ducrot opunha pressupostos a subentendidos. Essa definição de subentendido indica que a pressuposição e demais atos . que precisa ser caracterizada de outra forma. já mencionada. que resultam da intervenção da enunciação. o mesmo não acontece com o subentendido. é a de que ela se encontrou com Pedro e família. a partir de tal conteúdo. pois. entidade abstrata. os pressupostos (e todos os atos ilocucionais) ligam-se apenas à frase. já pressuposto. A partir de l976. de antemão. no componente retórico. no componente lingüístico. a noção de ato de linguagem permite separá-los. o emprego retórico da pressuposição não é. o ato de pressupor mostra-se. de argumentar enfim. no componente retórico. Antes passar por “destruidora de lares” que por “idiota enganada”. Sabendo. Um dos pressupostos. porém. A distinção entre implícito da frase e implícito da enunciação não garante. independentemente de qualquer determinação contextual. O subentendido é uma opção de organização do discurso. de reconhe. de ser considerada “faladeira” ou de envergonhar a amiga que pôde fazer como se. que deveria ser. inclusive de pressuposição. Foi dito aqui que. comum às duas é o fato de Pedro ter mulher e filha. portanto. preocupa-se com o enunciado. impor a adesão do enunciatário. o conteúdo posto. e com seu sentido efetivo numa dada situação. realmente. Pode-se considerar o subentendido como efeito de sentido que surge na interpretação e que resulta do reconhecimento das razões do enunciador em dizer o que disse. Recurso de grande eficácia. dois tipos de implícitos. ao reconhecer que há atos ilocucionais. e que leva o enunciatário a interpretar o discurso da forma que o enunciador pretende. portanto. e assinala sua significação. de alguma forma. Mariazinha. forneceu-lhe a informação como algo já conhecido.[página 101] cer dois componentes semânticos. seu único uso persuasivo-argumentativo. o semanticista explica a frase.informação nova. entidade concreta. Nesse quadro teórico. O ato de pressupor ocorre tanto no componente lingüístico quanto no retórico. O enunciador obriga o enunciatário a admitir o conteúdo pressuposto. de que isso aconteceu ontem e no cinema. e não lhe dá o direito de discutir. sem o que o discurso não prossegue. Na definição de Ducrot. cabendo ao subentendido a função de “implícito da enunciação”. num primeiro momento. A enunciação encarrega-se de transformar a frase em enunciado. a oposição encontrada entre pressupostos e subentendidos. Todo ato de pressupor implica presumir e.35 Ducrot revê a questão. Além disso. enquanto o subentendido só aparece ligado à enunciação e ao componente retórico. que a amiga ignorava ser o namorado casado e pai de família. Essa distinção ligase a proposta. claramente. soubesse do caso e não se importasse. assim. um lingüístico e outro retórico. mesmo assim. Deixou. que se oferece ao enunciador.

que a introdução é boa. Grice [página 102] (1982). A grande astúcia do subentendido é fazer com que o enunciatário diga o que o enunciador pretende dizer. mas nega a existência de um ato de pressupor específico. ao menos. enquanto o enunciador da asserção “pressuposta” é a comunidade lingüística. No caso da pressuposição. em geral de ordem social. cada ato de afirmar deve ser atribuído a um enunciador diferente. a afirmação de que João atualmente não fuma cabe ao enunciador-locutor e a de que João fumava antes. a forma implícita de dizer faz a responsabilidade recair sobre o enunciatário. à voz do povo. podendo o enunciador afirmar. embora realizadas por um Único locutor. ao conhecimento de um grupo. 87). sem o dizer. Em “João parou de fumar”. que não achou bom o livro. que nos pergunta o que achamos de seu livro. mas que. O conhecimento dessa “regra de cooperação discursiva” permite ao enunciador subentender. segundo a qual o locutor deve dar as informações mais fortes que tiver sobre o tema em questão. p. pois sabe que o enunciatário. em qualquer tempo. assim irá interpretá-lo. não deve dizer. ou. mas o outro quem assim interpretou. dizer. no do subentendido. A distinção de Ducrot entre os pares enunciador/enunciatário e locutor/alocutário tem várias conseqüências na sua teoria semântica e é um dos pontos mais . ou seja. passando a vê-lo como uma asserção. a fatos conhecidos de todos e pelos quais ninguém responde. alterando apenas alguns ângulos da questão. por razões diversas. Ducrot (1980) retomou o problema da pressuposição em outra perspectiva. pois deixamos de cumprir a lei da exaustividade de Ducrot. O enunciador da asserção “posta” confunde-se com o locutor. comum ao ato de pressupor e aos procedimentos que envolvem os subentendidos. o enunciador pode sempre atribuir o conteúdo pressuposto ao “senso comum”. Outra característica entre eles partilhada é a possibilidade de o enunciador escapar da responsabilidade do dizer. subentendemos que o livro não nos agradou. que regulamentam a interpretação dos subentendidos e mostram o caráter social e lingüístico do seu reconhecimento. que não foi ele quem disse. Mantém a definição de pressuposição como ato ilocucional. Procurou-se enfatizar o caráter manipulador dos implícitos. ou a máxima da quantidade de Grice: “Faça com que sua contribuição seja tão informativa quanto requerido (para o propósito corrente da conversação)” (1982. as implicaturas conversacionais37. ao saber comum aos dois elementos envolvidos na comunicação.ilocucionais apresentam-se no componente retórico sob a forma de subentendidos36. a voz do povo. Ducrot (1977) estabelece leis do discurso. exemplo apresentado. Ao responder ao autor. Mais recentemente. A diferença entre a asserção “posta” e a “pressuposta” num discurso está no fato de que. também ciente das máximas. em que se misturam locutor e alocutário. Para determinar os subentendidos e construir o sentido do discurso. ou melhor.

A multiplicidade de vozes sugerida para a definição de pressuposição faz parte de um projeto mais amplo do autor. 56). entre outras. essencial. como procedimentos de persuasão. Ducrot explica que se trata. incontestável. no discurso de um mesmo locutor. entendidos como práticas para atingir certos fins perlocucionais. Valeria a pena conhecer tais mecanismos e compará-los aos implícitos da linguagem. três vozes estão sendo atribuídas ao discurso: a do narrador que assevera o conteúdo explícito. além de desembrear sujeitos discursivos diferentes. Esse enunciador caracteriza-se pela polifonia. nesse caso. se combinam pontos de vista diferentes. . observam-se dois fatos. A segunda observação diz respeito à comparação possível de locutor/alocutário com narrador/narratário. As conseqüências daí advindas são muitas e aparecem na nova postura da lingüística. O segundo grupo de procedimentos empregados para a persuasão do enunciatário é o dos atos ilocucionais. as “vozes discursivas” confirmam a concepção de Ducrot de língua como um instrumento intrinsecamente polêmico e mostram que. sobre a concepção enunciativa do sentido. acredita-se que quaisquer sistemas de significação empregam procedimentos para a obtenção de mesmos efeitos de sentido. O narrador. O discurso é. por exemplo.instigantes de sua exposição. ou seja. projetado pela enunciação. ao interpretar. cada vez mais voltada para os fatos pragmáticos. mas como forma de nele agir. as da enunciação (1980. fundamentalmente. pelo menos ao narratário e a ele (pressuposto). anteriormente examinado. realiza. A teoria dos atos de linguagem teve o mérito. pode ainda atribuir a cada um deles várias vozes. Ao considerar o sentido como representação da enunciação. das relações entre enunciação e enunciado. portanto. Em primeiro lugar. graças ao recurso de colocar sua afirmação como um bem comum. de fazer ouvir a voz de diversos enunciadores que se dirigem a diversos enunciatários e de identificar esses papéis ilocucionais com personagens que podem ser.[página 103] mente polifônico. de obrigar a ver a linguagem não apenas como instrumento de dizer o mundo. A polifonia faz reconsiderarem-se as relações entre enunciação e enunciado e. Volta-se ao problema. a do narratário que. e o ato de afirmar sem ficar como o único responsável pelo que diz. p. A enunciação projeta-se numa pluralidade de vozes que realizam diferentes atos ilocucionais. afirma o conteúdo subentendido e a do grupo social que garante o pressuposto e o caráter polêmico do discurso38. sobre a questão. Muito embora os trabalhos conhecidos digam respeito a procedimentos lingüísticos. Pode ainda o narrador optar pelos mecanismos do subentendido e. o ato de afirmar e assumir a responsabilidade pela asserção que faz (o posto). Foi apontado que o narrador assume a palavra em nome de um enunciador pressuposto. no quadro teórico da análise do discurso.

fazê-lo tomar consciência)” (1972.[página 104] ca à sua enunciação. os efeitos que os atos ilocucionais “têm sobre as ações. O exame e a explicação dos atos ilocucionais do sujeito da enunciação e de suas condições de realização. dos ouvintes. dessa forma. A determinação da ilocução permite caracterizar o sujeito da enunciação por seus atos de linguagem. são. pelo verbo impressionar. nos discursos pragmáticos. posso levá-lo a fazer o que solicito. como uma qualificação do sujeito da enunciação. embora não desenvolva o estudo da perlocução. essencialmente pelos resultados da ação discursiva no ouvinte. Essas considerações levam-no à proposta de “determinar os atos ilocucionários de um discurso somente após a determinação dos atos perlocucionários” (p. e que essa obrigação decorra diretamente da fala pronunciada. p. Um terceiro tipo. Searle. p. representados. a partir de Searle. sobretudo ao caracterizar o comportamento dos interlocutores no “agenciamento do discurso”. Todo ato ilocucional apresenta-se.O ato ilocucional é definido por Ducrot “como um ato jurídico realizado pela fala . Acrescente-se ainda que o emprego dos atos ilocucionais tem por objetivo atingir certos fins e que decorre daí a inserção da teoria dos atos de linguagem no quadro da manipulação.. 53) destaca o papel dos atos perlocucionais na análise discursiva. Uma promessa só pode [. p. 88-9). em geral ligado aos atos de persuadir e convencer.1 ser descrita como ato ilocucional na medida em que crie uma obrigação para seu autor. seria o do ato de informar. Afirma ainda que um enunciado tem valor ilocucional quando comporta a atribuição de uma certa eficiência jurídi. o segundo. Osakabe (1979. inspirá-lo. pelos verbos persuadir e convencer. nos não-pragmáticos. condições que a análise discursiva deve preencher. Organiza.. se lhe peço alguma coisa. dois grandes grupos de atos perlocucionais.. Se. o primeiro. se lhe forneço uma informação. os pensamentos ou as crenças. posso convencê-lo (esclarecê-lo. 62). etc. sustento um argumento. assim como da distribuição polifônica de tais atos no discurso. cuja escolha é bastante marcada do ponto de vista sócio-cultural. posso persuadir ou convencer meu interlocutor. por exemplo. define os atos perlocucionais como as conseqüências. . Os demais atos enquadram-se na classificação apresentada. e não de um efeito prévio” (1977. se lhe faço uma advertência. Nesse sentido. posso atemorizá-lo ou inquietá-lo. sem dúvida.

ameaçar ou jurar. ou tomá-la como o ato ilocucional por excelência. p. uma espécie de sinônimo de fazer persuasivo ou fazer-crer. em geral ligado ao ato perlocucional de persuadir ou convencer. ou seja. considerar neste trabalho que as relações entre ilocução e perlocução definem o enunciador e o enunciatário e explicam o sentido do discurso. escapando das certezas do cálculo lógico40. Perelman e Olbrechts-Tyteca (1970). que. neste trabalho. mesmo reconhecendo a oposição entre demonstração e argumentação. Da mesma forma. Neste caso. por exemplo. Em lugar de afirmar. procuram recuperar a retórica aristotélica. de que se retiraram alguns poucos elementos a serem aqui comentados.se sobretudo aos trabalhos de Perelman. prefere-se. realizado pelo enunciador e. Os autores do tratado. a demonstração se torna um procedimento de argumentação. Pode-se considerá-la como um ato ilocucional. uma promessa ou uma ameaça. que tem por contraparte o fazer interpretativo do enunciatário. que os atos ilocucionais caracterizam a enunciação. e os vários atos perlocucionais empregam-se como meios para se atingir a persuasão final — chorar ou informar. no seu tratado de argumentação que tem como subtítulo A nova retórica. enfatizam. se não forem feitas especificações e examinado o espectro de variação da argumentação. Definem uma teoria da argumentação como o “estudo das técnicas discursivas que permitem provocar ou aumentar a adesão dos espíritos às teses apresentadas à sua aprovação” (1970. convencer ou impressionar o enunciatário. os demais atos ilocucionais. que se liga à experiência e à dedução lógica e utiliza provas analíticas. no entanto. por exemplo. no decorrer do texto. isto é.56). o risco de se tornar excessiva e vazia. as ameaças. os juramentos qualificam o enunciador como sujeito operador dos atos de prometer. . que emprega provas dialéticas e diz respeito ao verossímil. desde que se leve em conta a adesão dos espíritos. [página 105] O terceiro e último grupo de procedimentos de persuasão. 5). segundo os autores. ao provável. por três séculos de cartesianismo. a segunda hipótese. a de considerar a argumentação como o ato ilocucional do enunciador39. distinguem a demonstração. pelas razões apontadas. Duas são as saídas possíveis para definir a argumentação. ao plausível. é o da argumentação. Se as promessas. A generalização corre. como Ducrot. entre outros. que se passe do ponto de vista formal ao ponto de vista argumentativo. proposto neste rápido exame das teorias pragmáticas. Remete. Para melhor localizar a questão. da argumentação. dessa forma. constituem também recursos que emprega para persuadir. os atos perlocucionais de persuadir ou convencer assumem papel especial entre as perlocuções. são recursos utilizados na argumentação e mantêm relação hierárquica com o ato de argumentar. abafada. para convencer — ou como tipos de atos de persuadir. Prefere-se.

Toda argumentação visa a adesão dos espíritos. entendido não apenas no sentido restrito de “público do orador. da relação entre o argumentador e seu “público”. mas principalmente na concepção alargada de enunciatário41 de qualquer tipo de discurso. restringindo-se às técnicas utilizadas pela linguagem para persuadir ou convencer e descartando. para passar-se ao exame da força persuasiva das provas” (p. porque houve um distanciamento das condições puramente formais da demonstração. não é mais possível negligenciar completamente. por isso mesmo. pois os mecanismos de argumentação dependem. em qualquer situação. que a compreensão de certas demonstrações matemáticas difere segundo a maneira pela qual se apresenta a figura que as ilustra. nesse caso. Com a noção de auditório. reunido na praça”. As variantes não [página 106] são mais equivalentes. Os autores consideram insustentáveis o realismo e o nominalismo lingüístico.“É assim que Werthermer mostrou. Nesse quadro. 680). por meio de experiências interessantes. gira em torno da concepção social da linguagem. e. São condições prévias da argumentação e caracterizam o “contato dos espíritos”: a língua comum a enunciador e enunciatário. Perelman e Olbrechts-Tyteca instalam também a de contrato. em primeiro lugar. “Quando se trata de argumentar. supõe a existência de um contrato intelectual” (p 18). que vêem a linguagem como reflexo do real ou como criação arbitrária de um indivíduo e se esquecem de seu aspecto social. Importa esclarecer também que Perelman e Olbrechts-Tyteca (1970. por exemplo. A teoria da argumentação. 11) mostram os meios discursivos de se obter a adesão dos espíritos. 649-50). em concepção bastante próxima à de contrato fiduciário. o desejo do enunciador de entrar em . ou melhor. já mencionado. A mudança de auditório leva à alteração de certos elementos da argumentação. p. as provas extratécnicas de Aristóteles. desenvolvida no tratado citado como uma nova retórica. “instrumento de comunicação e de ação sobre o outro” (p. o fato de manterem relações sociais. nada mais justo que conservem da retórica antiga e desenvolvam como fundamental a uma teoria da argumentação a idéia de auditório. as condições psíquicas e sociais sem as quais a argumentação não teria objetivo ou efeito. de influenciar por meio do discurso a intensidade de adesão de um auditório a certas teses. considerando-as irrelevantes. de que todo discurso é dirigido a um auditório.

por conseguinte. destinado a um auditório determinado” (p. separam fundo e forma. As diferentes formas de argumentar resultam. da evidência irrecusável e da vontade enganadora. Tanto uma concepção como a outra. tradicionalmente aceitas. em oposição à demonstração. Justificam-se as citações por situarem bem o quadro de uma teoria da argumentação passível de ser retomada no seio de uma sintaxe discursiva. O papel principal atribuído às relações entre enunciação e discurso e entre enunciador e enunciatário. . pensamos que uma teoria da argumentação não deve nem procurar um método conforme à natureza das coisas. complementares. desdobrado em enunciador e enunciatário. 676). que os absolutismos de toda espécie nos apresentam: dualismos da razão e da imaginação. No caso da dedução formal. fundadas em oposições filosóficas. essencialmente.comunicação e. [página 107] pela assunção do discurso por uma instância enunciadora. no texto já citado. 672). da realidade que se impõe a todos e dos valores puramente individuais” (p. na teoria da argumentação. As condições da argumentação dizem respeito à competência do sujeito da enunciação. as intenções e os fins ganham importância” (p. esquecem que a argumentação é um todo. de todos os mecanismos descritos na sintaxe discursiva. à medida que o contexto. o papel do orador é reduzido ao mínimo. da interação entre sujeito da enunciação e discurso e entre enunciador e enunciatário. 426). “Essa interação entre orador e discurso seria mesmo a característica da argumentação. agrupa essas condições no seu “princípio de cooperação”. nem encarar o discurso como uma obra que encontre nela mesma sua estrutura. da objetividade universalmente admitida e da subjetividade incomunicável. ele aumenta à medida que a linguagem utilizada se afasta da univocidade. “Combatemos as oposições filosóficas. da ciência e da opinião. “Quanto a nós. em resposta. leva Perelman e Olbrechts-Tyteca a rechaçarem certas posições extremadas na forma de considerar a argumentação. a atenção e o interesse do enunciatário. Grice. A argumentação caracteriza-se. categóricas e irredutíveis. ou seja.

39). 59). “A finalidade de toda argumentação. cada indivíduo tem sua própria concepção de auditório universal e particular e. definidos . de verdadeiro. e acordos com o auditório particular. verdades e presunções. do auditório representado pela enunciação e liga-se aos dois tipos de manipulação descritos. A argumentação apresentada a um auditório particular procura persuadir o ouvinte a realizar uma ação imediata ou futura. mas representações ou construções do sujeito da enunciação. pelo próprio sujeito desdobrado em enunciador e enunciatário. a partir das observações feitas. uma disposição para a ação. A retórica mais eficaz é aquela que emprega apenas provas lógicas (demonstração). neles. portanto. e. conforme foi mostrado. A distinção de convencer e persuadir depende. variam as concepções de real. O auditório universal é “constituído pela humanidade toda ou ao menos por todos os homens adultos e normais” (p.Em lugar das “oposições filosóficas” acima arroladas e bastante difundidas. não se faz com rigidez. ou ao menos a criar. desenrolando-se essencialmente no plano prático. posição compartilhada com os autores do tratado. Concebem-se de modo relativo os fatos e as verdades. efeitos de sentido diversificados. o auditório particular e o auditório universal. é provocar ou aumentar a adesão dos espíritos às teses apresentadas à sua aprovação: uma argumentação eficaz é a que consegue aumentar a intensidade de adesão de modo a provocar nos ouvintes a ação pretendida (ação positiva ou abstenção). embora não se possa esquecer que. portanto. de que resultam.[página 108] cia. pois /fazer-crer/ é condição da ação pretendida. sobre fatos. Convencer é /fazer-crer/ e persuadir é /fazer-fazer/. no curso da história. que se manifestará no momento oportuno” (p. Na nova retórica tais contratos são especificados como acordos sobre as premissas da argumentação e divididos em acordos com o auditório universal. faz variar a argumentação. de válido e de evidência. a partir dela. colocados como condições da eficácia do fazer argumentativo. como dissemos. de mecanismos diferentes de argumentação. Essa separação. A universalidade e a particularidade do auditório não são fatos experimentalmente provados. em última instân. Cada cultura. a cognitiva e a pragmática. sobre valores. o auditório particular é formado apenas pelo interlocutor ao qual o locutor se dirige ou. também. cada classe social. Perelman e Olbrechts-Tyteca propõem a distinção de dois tipos de auditórios. que a argumentação depende de acordos entre enunciador e enunciatário. Entende-se. A argumentação dirigida a um auditório universal procura convencer o enunciatário da evidência das razões apresentadas e de sua independência de contingências locais ou históricas.

também. ressaltar sobretudo as convergências entre teoria da argumentação e semiótica. A superposição ou combinação dos argumentos leva em conta a sua força argumentativa. para a interação sócio-historicamente definida.se reservar o termo argumentação para os meios sintáticos. que. A semiótica. também. localização precisa da cidade e relação com o morto — produzem. Por isso mesmo. já que a argumentação se caracteriza pela interação constante e sobre vários planos dos elementos esquematizados. que todas as opções feitas pela enunciação na produção do discurso são argumentativas. Os esquemas argumentativos propostos mostram a riqueza e a variação dos procedimentos de argumentação. Pretendeu-se. de Passo Fundo. mas são os mecanismos sintáticos do discurso que promovem a relação entre enunciador e enunciatário. sobre a morte misteriosa de três sargentos. Conclui-se. assim como o alcance de cada recurso. Os dados a respeito da mulher — nome próprio. 14 jan. distinguindo melhor mecanismos e efeitos. empregam-se os dois tipos de procedimentos: “‘Tudo é inexplicável’. 32). esquemas de argumentos. tipos de valores. lugar de moradia. por exemplo. a ilusão de realidade necessária para a . o estabelecimento de acordos sobre os sistemas de valores é condição para o exercício da argumentação e determina critérios de seleção e de apresentação dos dados e. do ponto de vista da busca da adesão. Nessa revisão superficial. pela ancoragem de ator e de espaço.pela adesão do auditório universal. ainda. embora enfatizem o caráter arbitrário desse estudo. no nível discursivo. “presunções” e “valores” como valores. uma vez mais. p. Perelman e Olbrechts-Tyteca estabelecem. depende dos auditórios e da finalidade da argumentação. a determinação dos valores e enfatizam a relatividade discursiva do real e do verdadeiro. nos vários níveis do percurso gerativo. engloba “fatos”. gostaríamos de propor outras formas de organização dos procedimentos argumentativos. cria efeitos de realidade que ajudam a persuadir e a convencer. assim como o interesse em se reverem certas “figuras da linguagem”. Para ambas. e distingue. No texto de reportagem já utilizado como exemplo. exaustivamente. recursos propriamente sintáticos de procedimentos mais especificamente semânticos. também convencida do caráter relativo da verdade. diz Neusa Muller de Souza. “verdades”. algumas das possibilidades. [página 109] Ambas deslocam para a relação entre enunciador e enunciatário. por critérios sintáticos e semânticos. Neste trabalho serão apenas esboçadas. viúva do sargento Luiz Élvio” (Veja. em primeiro lugar. 24 anos. distinguem-se. as formas de manipulação. em grandes linhas. idade. a 290 quilômetros de Porto Alegre. ao investir figurativamente os conteúdos. Prefere. com essa exposição. A semântica discursiva. a analogia ou a metáfora. 87.

fabricação de efeitos de [página 110] verdade. em argumentativos e narrativos. 171) — ou com as constantes remissões no discurso jornalístico —“ ‘Isso está gerando um novo tipo de criminalidade’. porém. Em segundo lugar. já que a família deveria conhecer as causas da morte de um de seus membros. que utiliza atos e opiniões de uma pessoa ou de um grupo como prova em favor de uma tese. Sua fala funciona como um argumento em favor do “mistério” da morte dos sargentos. o de mostrar a necessidade de mudança na legislação. Pode ser ilustrado com as citações dos discursos científicos — “Escrevendo entre 1973 e 74. dos procedimentos sintáticos de delegação de voz. formulado em termos actanciais na sintaxe narrativa. Nos discursos “argumentativos” — discursos científicos. tendo em vista o programa de base do enunciador do texto. colocou-se como questão . embora não pensasse nela” (Coelho. A analise de Greimas (1983) de um prefácio de Dumezil oferece um bom exemplo da posição semiótica frente à argumentação. citado na reportagem como autoridade em criminalidade. direção seguida no texto. 1970. opõem-se recursos discursivos a recursos narrativos. Roland Barthes estabelece uma distinção entre ‘nouveau’ e ‘neuf’ (entre novo e recém-feito. 33). 1986. p. assim. Roland Barthes é o adjuvante que dota o sujeito de competência (poder e saber-fazer) para explicar o pós-moderno. 14 jan. ser revisto em termos de estruturação narrativa de programas narrativos de busca ou de construção do saber ou de procura de adesão e de confiança. p. O argumento de autoridade. recente) expressiva para a pósmodernidade. realiza programa de uso. A exposição sobre a argumentação apresentou problemas e caminhos mais do que propriamente soluções. Veja. afirma o advogado carioca Marcelo Cerqueira” (reportagem sobre estupro. 87. reconhecida. mas para nada dizer de novo. Esses recursos diferenciamse. deve ser considerado como a convocação de auxiliares do sujeito ou do anti-sujeito — adjuvantes ou oponentes — para que cumpram programas narrativos de uso: atribuam competência ao sujeito ou realizem. não pode mais ser efetuada a partir do critério de existência ou não de narratividade subjacente e desloca-se para a instância da semântica discursiva. dessa forma. Muitos dos esquemas argumentativos apresentados no tratado explicam-se narrativamente. políticos. do ponto de vista da informação. em seu lugar. Nela. p. fazeres necessários ao programa de base. A organização narrativa dos discursos argumentativos é. entre outros — muito do que sempre se considerou como argumentação deve. por exemplo. 410-1). O advogado. [página 111] onde se diferenciam discursos temáticos e discursos figurativos. Basta pensar-se no argumento de autoridade. É a mulher quem fala. Seu alcance dependerá do prestígio da autoridade invocada (PERELMAN & OLBRECHTS-TYTECA. A separação dos discursos.

No dizer de Ducrot [página 112] “a lingüística ajudar (a compreender um discurso). colocadas no seu devido lugar. marcados na própria estrutura do enunciado. realização de atos de linguagem. caracterizada pela comparação do novo e desconhecido ao já sabido ou acreditado. na perspectiva semiótica. completam. desde que inscritos na língua. Essa concepção dos fatos pragmáticos não é suficiente para explicar satisfatoriamente a organização argumentativa do discurso. e essa foi a direção que este trabalho procurou indicar. A adequação cognitiva não se confunde com a adequação à realidade referencial. em resumo. explica as relações entre enunciação e enunciado — modalização virtualizante do sujeito do enunciado. com o exame das estruturas textuais. a análise do texto empreendida. no nível discursivo. cotejam-se os valores e os procedimentos sintáticos utilizados pelo enunciatário. a reconstruir os debates de que o discurso e o lugar” (DUCROT. instauração do tempo e do espaço do discurso e entre enunciador e enunciatário — implicitação de conteúdos. Ducrot (1973) define a argumentação como a tentativa do locutor de levar o interlocutor a transformar suas opiniões. A teoria da argumentação assenta-se sobre a idéia de reconhecimento. e oferecem pistas para sua explicação. as frases então. mas. as contribuições da pragmática mudam os objetivos dos estudos lingüísticos e. significações que obrigam. os estudos pragmáticos de superfície apontam para organizações argumentativas imanentes. graças a princípios que reconhece. delegação do saber. A sintaxe discursiva. Para examinar a sintaxe discursiva. Tais teorias reconhecem os conflitos entre sujeitos. Retoma-se a questão da interpretação. ou seja. p. para se deixarem transformar em sentido. relações entre actantes e atores discursivos e actantes narrativos. Na argumentação. recorreu-se a várias teorias pragmáticas e procurou-se retomar seus princípios e métodos na abordagem da instância discursiva. .fundamental a dos acordos entre enunciador e enunciatário sobre os valores. Além disso. 1980. determinados por sua inserção na sociedade e na história. na medida em que dá às palavras. 56). procedimentos argumentativos — como recursos discursivos para comunicar valores e convencer e persuadir o enunciatário. o de análise das estruturas especificamente lingüísticas no nível textual.

O semema reúne as duas dimensões fundamentais da linguagem. Os semas interoceptivos denominam-se classemas e os exteroceptivos. O núcleo sêmico de pé contém. A relação entre a linguagem e o mundo. relação de natureza diferente com o mundo natural44. O mundo natural é responsável. vertical/. táteis. /horizontal vs. da expressão do mundo. pois as categorias classemáticas formam uma rede capaz de organizar as figuras nucleares e os sememas em classes de /animados/. que assim provê seu discurso de coerência semântica e cria efeitos de realidade. por definição. da categoria metassêmica articulada em /exteroceptividade/ vs. constituem o núcleo sêmico ou a figura nuclear do semema e os classemas. dos classe. e a figurativa. que se combinam em bases classemáticas. como um mínimo sêmico permanente. Os classemas. assim como da noção de isotopia. unidade de manifestação do plano de conteúdo. apenas os julgados imprescindíveis para a explicação da tematização e da figurativização. organizados hierarquicamente. explica-se como uma rede de correlações entre duas semióticas. A primeira é a função classificatória. /interoceptividade/43. entendido como realidade-significante. 1970. azedo/. sua base classemática. Inverte-se a direção da seta na relação entre língua e mundo. nas línguas naturais. A disseminação discursiva dos temas e a figurativização são tarefas do sujeito da enunciação. sobre elas. dos semas. p.SEMÂNTICA DISCURSIVA A semântica discursiva descreve e explica a conversão dos percursos narrativos em percursos temáticos e seu posterior revestimento figurativo. por exemplo. ou seja. auditivas. . As duas dimensões mantêm. dois tipos de categorias semânticas. garantindo a relação entre mundo e discurso. tornam-se semas exteroceptivos nas línguas naturais. 52). Os semas. O núcleo sêmico marca “sensorialmente” sua relação com o mundo natural e apresenta-se como a porção invariante do semema. frio/. cumprem duas funções. Já a dimensão abstrata da língua responde pela organização [página 113] abstrata da realidade significante. definidas pela projeção. na organização do semema42. pela dimensão figurativa. Distinguem-se. semas propriamente ditos. As figuras sensoriais visuais.mas. Elementos de semântica estrutural É preciso retomar alguns elementos de semântica estrutural. os semas /extremidade/ e /inferioridade/. a semiótica das línguas naturais e a semiótica do mundo natural (GREIMAS. /doce vs. como as categorias /quente vs. as unidades elementares da forma da expressão do mundo natural constituem parte da forma do conteúdo das línguas naturais. Dessa articulação dos semas decorrem as duas dimensões fundamentais da linguagem: a dimensão abstrata.

semas contextuais e asseguram a coesão sintagmática do discurso. Para encerrar essa rápida incursão na semântica estrutural. excetuado o mínimo invariante nu semema. e como sujeito competente. Os valores disseminam-se. graças a essa junção. Os classemas são. percursos semêmicos diversos. unidade de expressão e de conteúdo que manifesta o semema. caracterizase por sua relação com muitos sememas. . também. o caráter contextual do semema e suas relações com o lexema./humanos/ e outras. O lexema é uma unidade de significação virtual que. A semântica discursiva recupera a oposição entre as duas dimensões da linguagem. cabendo à figurativização o acréscimo de sentido previsto na conversão. resta ressaltar que o semema. A segunda função diz respeito ao papel que o classema assume. em percursos temáticos e recebem investimento figurativo. alteram-se contextualmente. Resta acrescentar que a variação semêmica no interior das unidades lexemáticas não se deve apenas aos classemas. O tratamento dos temas é garantia de manutenção semântica. “Ela tem uma língua que dá medo” e assim por diante. que mantêm entre si algum tipo de ligação e que determinam. passional. quando da realização do lexema. Também os semas nucleares. na passagem do narrativo ao discursivo. mais específicas e mais complexas e “enriquecidas” que as estruturas narrativas e fundamentais. de denominador comum a toda uma classe de contextos. no nível discursivo. e. A concordância sêmica garantida pelos classemas foi denominada isotopia classemática. [página 114] Tematização e figurativização Examinaram-se na semântica narrativa (ver esse item) os valores assumidos por um sujeito que. ao mesmo tempo. depende essencialmente do contexto e não pode ser determinado de uma vez por todas. no interior do semema. As estruturas discursivas são. por exemplo. “A língua portuguesa tem sua origem na língua latina”. em contexto. estabelecendo compatibilidades e incompatibilidades entre figuras sêmicas. assim definido. assume um ou mais sememas. Um lexema como língua. “Joana fala várias línguas”. se define como sujeito existente. define-se por diferentes percursos semêmicos em contextos variados como “Comi língua ensopada no jantar”. sob a forma de temas. segundo os contextos. sob a forma de percursos. O lexema. conciliadas mas não identificadas no semema. portanto. Tem-se então a polissememia (e não a polissemia).

sexual (relação homem-mulher) e político (relação entre estado e subversão da ordem). por exemplo. como os discursos científicos.nível das estruturas discursivas + específico + complexo (+ “rico”) nível das estruturas narrativas nível das estruturas fundamentais + geral (noção de extenção lógica) + simples (noção de intenção. obter-se mais de um percurso temático. em que assumem relevância as leituras temáticas. Os discursos literários. a abstrata e a figurativa. a partir de um mesmo valor. no nível do discurso. denominados figu. que não há discursos não-figurativos e sim discursos de figuração esparsa. na lógica Temas e figuras. e os científicos. porém. considerados não-figurativos. pensar em discursos puramente temáticos ou não-figurativos.[página 115] rativos. diferenciam-se. a conciliação e a diferenciação das duas dimensões da linguagem. O objeto-valor do /poder-fazer/ e do /poder-ser/ da dominação ocorre. tal como se viu ocorrer no semema. entre outros (BARROS. relacionados. repetem. a serem examinados nos procedimentos de figurativização semântica. na instância discursiva. Tematização é a formulação abstrata dos valores. no poema infantil A galinha. e sua disseminação em percursos. então. sob a forma de tema sócioeconômico (relação patrão-operário). O exercício da análise textual tem mostrado. na verdade. A tematização assegura a conversão da semântica narrativa em semântica discursiva e poder-se-ia. de Chico Buarque. 1985). por graus de figurativização. Nos discursos temáticos. . Ê possível.

ou morfemas de Martinet. e diversamente interligados. ocorre com investimento figurativo esparso. Os discursos temáticos. constituído por combinações apenas classemáticas e pertencente só à dimensão abstrata da língua. As configurações temáticas.mente classemático. Tais sememas formam um sistema segundo em relação aos demais. especificam-se sob a forma de figuras espaciais e temporais do tipo de nos tempos atuais. eu ou ele. tornam-se ações de explorar. O sujeito da enunciação emprega certos procedimentos para figurativizar o discurso. já aspectualizados. classificar e organizar a realidade significante. contar. representa-se pelos atores pesquisador. Os elementos da sintaxe narrativa — ao menos um papel actancial — e da sintaxe discursiva — resultantes da regulamentação da distância em relação à enunciação — especificam-se por meio de um ou mais papéis temáticos. necessário para se tornarem atores. coelho curioso ou criança perdida. assumindo papel metalingüístico. povo de Deus. para investir os temas discursivos. graças ao papel temático de pesquisador. A figurativização constitui um novo investimento semântico. A partir daí. segundo os discursos. “recobrindo-o”. uma dimensão segunda. São investimentos figurativos diferentes para a mesma busca narrativa do saber. diferentes. isto é. também eles. A narrativa da busca do saber.[página 116] do: os processos. Os morfolexemas têm caráter essencial. na exploração do Tibete em maio e . na da revelação pela palavra divina no trecho bíblico de Moisés e os Dez Mandamentos ou na da visita à Dona Coruja que dá bons conselhos. o tempo e o espaço. têm por objetivo. relacionam-se a um tipo particular de semema. ou gramemas de Pottier. em relação aos discursos figurativos. metalingüística. Constituem. encontram-se configurações temáticas que se comparam com os morfolexemas de Greimas. converte-se em ator. por exemplo. o sujeito. pela instalação de figuras do conteúdo que se acrescentam. Nos discursos temáticos. no caso do discurso científico. já marcado como um actante do discurso. da voz e da presença reveladora de Deus ou da fala da coruja. ao nível abstrato dos temas. portanto. escrever.feitas as ressalvas acima. estabelecendo relações e dependências temáticas. determinados em relação à enunciação pelos procedimentos de desembreagem. todo o percurso do sujeito encontra-se figurativiza. da mesma forma que os morfolexemas. Moisés. que é determinado como um ele enuncivo pela sintaxe discursiva. em lugar de “representar o mundo” ou de causar esse efeito. escutar. em que o objeto-valor /saber/ aparece sob a figura do manuscrito. na história da procura de um manuscrito perdido. explorador. em que se realizam um ou mais percursos temáticos de uma configuração. O sujeito que busca o saber na instância narrativa. abrigam apenas percursos narrativos e temáticos. ou totalmente recoberta de figuras. os actantes recebem o investimento semântico mínimo.

a verdade do discurso.[página 117] tura e a fotografia que produz. pois se instala. retomar a discussão da relação entre língua (ou discurso) e realidade. Denomina-se figuração a instalação pura e simples das figuras semióticas. no tempo bíblico do Antigo Testamento. povo de Deus. Floch (1982a) mostra que o enunciador tenta fazer o enunciatário achar semelhante ou não ao “mundo real” a pin. floresta. “. procura fazer-crer no caráter icônico delas. no tempo em que os bichos falavam ou no da fantasia do “Era uma vez. seu revestimento exaustivo com a finalidade de produzir ilusão referencial. ou seja. aí proposta. definiram-se as figuras nucleares pela exteroceptividade. mais do que outros. entre mundo e discurso. pela conversão de certos elementos da expressão do mundo natural em traços do conteúdo das línguas naturais. Na rápida incursão pela semântica estrutural. a mediação da enunciação. de tal forma que um produza e o outro interprete os efeitos de realidade. neste texto. sobretudo os textos de Floch e Thürlemann. da figurativização. tempo em que os animais falavam —. O discurso não é a reprodução do real. isto é. colocam bastante bem o problema. e iconização.. criança. por meio.junho de 1951. maio e junho de 1951. na floresta encantada. quanto da semântica discursiva. trabalho esse representado sob a forma do percurso gerativo. que a criação de efeitos de sentido de realidade é um trabalho tanto da sintaxe discursiva (ver item Desembreagem e embreagem actancial e teorias do foco narrativo) — sobretudo na desembreagem de segundo e de terceiro graus —. já que. que particularizam e concretizam os discursos abstratos. de qualquer forma. O enunciatário. mas a criação de efeitos de realidade. a partir daí. Os trabalhos da chamada semiótica do visual. crêverdadeiro (ou falso ou mentiroso ou secreto). para fazer o enunciatário reconhecer “imagens do mundo” e. graças ao reconhecimento de . ou seja. estão às voltas com a divisão. O procedimento de figurativização discursiva tem a ver com a definição. tradicionalmente aceita. Mostrou-se já. O discurso figurativizado resulta da construção do sentido efetuada pelo sujeito da enunciação. por sua vez. ou com a iconicidade da fotografia — “cópia-do-real”. A questão da relação entre discurso e referente desloca-se para a do contrato entre enunciador e enunciatário. pois são figuras do conteúdo. ou seja. determinadas por traços “sensoriais”. de figuras. a passagem do tema à figura. O enunciador utiliza as figuras do discurso para fazer-crer. principalmente. Os exemplos mostram níveis diferentes de especificação. outros mais específicos — Moisés. alguns antropônimos. entre pintura abstrata e pintura figurativa.. A relação intersemiótica — mundo e língua — não deve ser entendida como a instauração de laços analógicos entre realidade e discurso ou de confusão entre imagens do mundo e figuras discursivas. topônimos e cronônimos mais genéricos — explorador. Falar de figuras discursivas é. Tibete.

” (MARTINET. então. Uma pintura será considerada figurativa e uma fotografia. em que não se determinam leituras figurativas completas.. um contrato fiduciário de veridicção. ficam restritos ao âmbito da sintaxe discursiva. A verdade discursiva decorre. No primeiro caso. No quadro da semiótica geral. nesses textos. 1982. ou duradouro e espalhar-se pelo discurso todo.se. encontram-se. em que um ou mais investimentos figurativos recobrem o discurso inteiro. O investimento figurativo pode ser esporádico e não recobrir totalmente os percursos temáticos.figuras do mundo natural. graças aos recursos de figurativização. que regulamenta o reconhecimento das figuras. Esses discursos. temporal e espacial —. Os procedimentos de ancoragem histórica — actorial. produzem. o espectador ri do absurdo. à abstração. os dois pontos extremos do reconhecimento. comumente utilizados para se obter efeito de realidade. Parecer real ou irreal são ilusões construídas e que dependem de fatores de contextualização. os textos literários e históricos. entre outros. em certas situações. a ilusão contrária. denominados figurativo e abstrato no campo das artes plásticas. com figurativização que não atinge as dimensões do discurso. Veja. as isotopias temáticas e sobressaem os efeitos de sentido de enunciação. quando o enunciatário nelas reconhecer “imagens do mundo”. No filme A vida de Brian.. O fazer-crer e o crer pressupõem. X — os grifos são nossos). Cristo pregou no deserto. em detrimento [página 118] dos de realidade. aplicam-se às diferentes maneiras de figurativizar o discurso. Da mesma maneira. os discursos científicos e políticos. Com o acordo de reconhecimento. o trecho transcrito de um prefácio de Martinet. icônica. p. que. conforme foi visto. em sentido contrário. marcas e efeitos alcançados —‘ que das de realidade. Reforçam-se. mais das ilusões enunciativas — presença ou ausência de enunciação. “No entanto o ensino de Saussure só frutificou verdadeiramente uma vez enxertado noutros rebentos e os vários movimentos estruturalistas tiveram de eliminar. quando forem interpretadas como tal. criam efeitos de realidade ou de irrealidade e percorrem o caminho que vai da figuração à iconização. O segundo tipo de procedimento para tornar os discursos figurativos caracteriza. por exemplo. que se organiza em isotopias figurativas. A mesma definição aplica-se. assume-se a relatividade cultural da distinção entre figurativo e abstrato nas artes plásticas e define-se a iconicidade como um efeito de sentido resultante do contrato de veridicção. entre outros. embora não desapareçam totalmente. graças ao contrato de veridicção e a partir dos efeitos de realidade que o enunciador produziu. às três horas da tarde. quando se diz que no dia 5 de agosto. a .

logo depois da vitória do Brasil na copa de 70 — a taça erguida. . Os esquemas abaixo mostram melhor a comparação efetuada. A presença (ou a ausência) e a qualificação do enunciador somam-se à ilusão de referente. as bandeiras verde-amarelas sacudidas —. tem enfatizado. na projeção de Pra frente Brasil. os efeitos de enunciação. Comparando a composição do semema e a relação entre semema e lexema com a organização semântica do discurso. por exemplo. na figura nuclear. tortura e morte. além dos narrativos. há um mínimo sêmico invariante.se efeitos de sentido de realidade (ou de irrealidade) e de enunciação. para um mesmo le. Nos textos em que o investimento figurativo goza de certa autonomia e ocupa as dimensões do discurso. de fato ocorrido e experimentado. que subsume vários percursos figurativos e temáticos. nos últimos anos. quanto de classemas “abstratos”. A literatura. é a do estádio de futebol. sobre a qual se lê “Este é um filme de ficção”. As possibilidades de combinação dos dois recursos são muitas e caracterizam momentos e lugares históricos.[página 119] xema. que fazem prever percursos semêmicos. quando tudo se fez para obter tal efeito. na constituição da verdade discursiva. No semema. contextualmente diferentes. provoca risos nervosos da platéia. podem-se explicar mais minuciosamente as configurações e os percursos figurativos e destacar o papel e a importância da figura. para as relações entre texto e contexto. equilibram. após tantas de perseguição.negação no discurso de seu caráter de reprodução do real. e variação contextual tanto de traços figurativos. A última cena do filme. Define-se configuração discursiva como uma espécie de “lexema do discurso”. e conta com algumas figuras invariantes.

Na Branca de Neve. embora não se tenha retomado totalmente sua organização da configuração discursiva. o desejo de ter urna filha branca como a neve que cai e com os lábios vermelhos como o sangue . Formula.núcleo sêmico (invariante) Figura nuclear variação figurativa Lexema classema 1 Base classemática classema 2 classema 3 sema 1 sema 2 sema 3 figura comum Núcleo figurativo Configuração discursiva Variação temático-narrativa percursos temáticos percursos narrativos variação Figurativa (invariante) percurso figurativo 1 percurso figurativo 2 percurso figurativo 3 percurso temático 1 percurso temático 2 percurso temático 3 percurso narrativo 1 percurso narrativo 2 percurso narrativo 3 Courtés (1980a) serviu de inspiração para os esquemas. antes de ela nascer. no conto da Branca de Neve e no da [página 120] Bela Adormecida. ao lado da porção permanente de figuras que permitem a identificação da configuração. enfatizando apenas as diferentes possibilidades temáticas e narrativas de uma configuração. então. segundo o contexto. mostrar também as mudanças contextuais figurativas. Pode-se ilustrar a questão. num dia de inverno. está bordando e fura o dedo com a agulha. por exemplo. A principal diferença está no fato de que Courtés não considera a variação figurativa. procurou-se reconhecer percursos figurativos diferentes. a mãe da princesa. no quadro acima. muito rapidamente. que ocorre. Os motivos da etnoliteratura são bons exemplos de configuração discursiva ‘. com o motivo do dedo furado por objeto pontiagudo. Tentou-se. ou seja.

a princesa. Na Bela Adormecida. mulher que faz uso do instrumento de trabalho manual. e que permitem identificá-la: o dedo furado. seja figurativa. nos dois textos.de seu dedo. por causa da maldição. dorme cem anos. O esquema proposto mostra uma análise mais minuciosa da variação contextual no interior da configuração: Configuração discursiva do “dedo furado”: texto da imagem: . por causa de uma maldição. ao completar quinze anos. a variação na configuração. por outro lado. está sendo utilizado pela fada má. o objeto de ponta que serve para bordar. Pode-se perceber. O instrumento em que a princesa se fere. só sendo acordada pelo beijo de um príncipe apaixonado. fura o dedo num fuso e. disfarçada de velha. temática ou narrativa. que fora banido do reino. e com seu barulho atrai a princesinha curiosa. a roca. costurar ou tecer. A configuração discursiva em exame tem figuras que permanecem. a “ação entre mulheres” — mulher que fura o dedo. também.

branco • temporalidade posterior: previsão do futuro [página 121] . duro vs. mole) Percurso figurativo na Branca de Neve • espacialidade: espaço aberto e contato com o exterior • cor: contraste vermelho vs. objeto perfurado — parte do corpo N Figura comum Ú ou invariante C L E O F I G U R A T I V O Variação Figurativa Percurso figurativo na Bela Adormecida • espacialidade: espaço fechado e escondido som: ruído da roca • temporalidade anterior: realização de previsão do passado • Traços sensoriais visuais e táteis: da espacialidade (penetração de espaço interior e preenchimento de espaço pela trama do bordado ou do tecido). táteis (pontiagudo. ação de perfurar.• Figura de perfuração: instrumento pontiagudo. longo. sujeito perfurador humano.

texto da imagem: criação na Branca de Neve informação Percursos temáticos na Bela curiosidade e traição Adormecida (que levam à morte) • sacrifício materno de dar a vida • produzir o belo V A R I A Ç Ã O • previsão de acontecimentos ruins T E M Á T I C O N A R Percursos R narrativos A T I V A na Branca de neve doação de competência e de existência modal e semântica (Destinador vs. Destinatário-sujeito) na bela privação do objeto de valor “vida” Adormecida (Sujeito vs. Anti-sujeito) .

(No exemplo da Branca de Neve. o príncipe. num dos temas ao menos. e maldição do passado. mais tarde. nesse discurso. na Branca de Neve. na Bela Adormecida —. encontram-se apenas os percursos. Já na análise da Bela Adormecida. na Bela Adormecida. Já na Bela Adormecida. de informação antecipada de acontecimentos ruins. de uma mesma configuração. propuseram-se. é virtual e se realiza sob a forma de percursos figurativos. por meio de oposições espaciais — espaço aberto para o exterior. a variação figurativa ocorre. [página 122] A rápida e incompleta análise de uma configuração pretendeu apenas mostrar como elas se organizam. o crime enfim.). mostra. três percursos temáticos. dar a vida e produzir o belo. e fechado.Há diferentes percursos figurativos. dois claramente englobados como “criação”. temáticos e narrativos na configuração do “dedo furado”. que só se deixa apreender quando se relaciona mais de um discurso (A configuração.se o nascimento. enquanto na Branca de Neve. é aviso. contrastam e combinam-se o vermelho e o branco. opõem-se o ruído da roca e o silêncio do sono. pode-se dizer do ponto de vista narrativo que. A mãe é o destinador. Ressaltou-se que: a) na análise de um determinado discurso. Finalmente. o tema de desapropriação da vida. é beleza. estabelecer a relação entre os vários tipos de percurso. e. sobretudo. na Branca de Neve. quanto à transgressão das regras pela princesa curiosa. o destinatário-sujeito.). Muito resumidamente. em que a fada má desapropria (disjunção transitiva) a princesa do objeto-valor “vida”. na Bela Adormecida manifestase a morte ocasionada pelo outro. a figurativização é a camada mais superficial sob a qual se acham percursos temáticos e narrativos (Cabe. Assim. e um terceiro. da mesma forma que o lexema. temporais — previsão do futuro. na Branca de Neve. o surgimento da vida pela doação do sangue. na Bela Adormecida — e de cor e de som — na Branca de Neve. A fada má é o anti-sujeito que. A gota de sangue é vida. tem-se o percurso do destinador que dota o destinatário-sujeito de competência — qualidades que têm importância para o fazer futuro do sujeito — e de existência modal — instaura o sujeito. e Branca de Neve. a relação entre b) c) . enfrenta o sujeito. graças tanto a seu fazer persuasivo “sonoro”. na geração do sentido. ou seja. percursos figurativos e percursos temáticos mantêm relações variadas. encontra-se o momento da falta. para o mesmo percurso figurativo de “furar o dedo com a agulha de bordar”. um ou mais. O dedo furado concretiza.

a partir de que o sujeito da enunciação especifica e concretiza os temas abstratos e reveste semanticamente a narrativa.[página 123] positivos de figuras. sobretudo. do ponto de vista sintático. A enunciação. como instância de produção do discurso. ou seja. O depósito forma-se no tempo e no espaço. foi proposto por Greimas. As figuras são. embora bastante vagas. a noção de recorrência. e o discurso figurativizado. a madrasta faz a princesa dormir com a maçã envenenada — há uma nítida leitura figurativa gustativa —.percurso figurativo e percurso temático é de um para um. na Semântica estrutural (1966). relacionam-se com o ‘‘extradiscursivo’’ e constitui-se ideologicamente. Na Branca de Neve. graças a seu dis. a escolha de figuras de mulher que borda e que se sacrifica. na última etapa da geração do sentido. com precisão. na perspectiva semântica. historicamente. O conceito de isotopia. quando ocupam a dimensão total do discurso. Duas limitações aparecem nas colocações iniciais: em primeiro lugar. de um mesmo tema especificar-se em figuras diversas. Comparem-se. táteis e sonoras. as figurativizações diferentes. Não se examinou a perspectiva contrária. Os temas disseminam-se pelo texto em percursos. por excelência. pelas relações do discurso com a enunciação. o lugar do ideológico no discurso46. assim como o termo. da beleza e do conhecimento intuitivo. As primeiras definições de isotopia. portanto. na Branca de Neve e na Bela Adormecida. as figuras recobrem os temas. por exemplo. para o mesmo percurso temático de “tirar a vida”. marcam já. Não é ingênua. de que ao menos duas unidades são precisas para sua determinação. nos exemplos vistos. na Bela Adormecida. e pela organização de temas e de figuras. Isotopia As estruturas discursivas foram explicadas. ligadas ao tema da maternidade. foi examinada através de suas projeções no enunciado e está sendo retomada como uma espécie de depósito de figuras. só se examinam as isotopias classemáticas — a isotopia resulta da redundância de uma mesma categoria classemática ou da . denominam-se isotopia. A reiteração discursiva dos temas e a redundância das figuras. ou seja. para concretizar temas de nascimento e morte. ou a de espaços abertos e fechados.) Os exemplos propostos e o reconhecimento da variação fazem desembocar na questão do papel das figuras na relação entre texto e contexto. a fada má leva a jovem ao sono ao lhe furar o dedo — há figuras.

Não muito tempo depois. para explicar a coerência figurativa do discurso. Os desenvolvimentos da teoria semiótica. A isotopia temática surge da recorrência de unidades semânticas abstratas em um mesmo percurso temático. a que já se fizeram muitas referências. o elemento comum temático da busca do saber. por exemplo. Assim recuperada. pelo visto. esse denominador comum. a coerência figurativa do discurso. objetos a serem pesquisados ou objetos de informação. Se a disseminação de temas e a dispersão de figuras em percursos correspondem à sintagmatização das configurações. a cada passo. essa homogeneidade obtida mesmo às custas de perda de especificidade discursiva. não mais confundida com relações frásicas ou interfrásicas e capaz de mostrar a organização abstrata do discurso. Na leitura ingênua de um texto qualquer. a associação de figuras aparentadas atribui ao discurso uma imagem organizada e completa de realidade ou cria a ilusão total do irreal. e retomam. sobretudo quanto à distinção de níveis de análise e à concepção de percurso gerativo. Assegura-se. em que se dissemina o valor /saber/. A redundância de traços figurativos. permitem que o conceito de isotopia seja reinterpretado no quadro de uma teoria geral do discurso. substitui-se.se. A isotopia classemática. informante. assim. a recorrência de traços abstratos e figurativos propicia abordagens paradigmáticas do sentido do . é função de isotopias temáticas e figurativas ou de uma isotopia temática. Um discurso. de uma escultura. inicialmente proposta. de um quadro. A isotopia figurativa caracteriza os discursos que se deixam recobrir totalmente por um ou mais percursos figurativos. em segundo lugar. mais precisamente. pode ter atores como pesquisador. ao menos. que fala do desaparecimento da vida. segundo as unidades semânticas reiteradas: isotopia temática e isotopia figurativa. Rastier (1976) retoma algumas das observações marginais na Semântica estrutural e estabelece a noção de isotopia figurativa. que desenvolvem um ou mais percursos temáticos. ligados à mesma configuração. Diz-se de um livro que ele trata de questões de liberdade. Só podemos fazer essas generalizações pelo reconhecimento da isotopia temática. procura. que dá forma ao amor. informado. ações de pesquisa ou de informação. as definições encontram-se ainda muito presas às questões de coerência interfrásica ou mesmo frásica. redundância que assegura a linha sintagmática do discurso e responde por sua coerência semântica. Distinguem-se dois tipos de isotopia. [página 124] na instância do discurso. em geral. a noção de isotopia conserva a idéia de recorrência de elementos lingüísticos. entre outros.repetição de um ou de vários classemas — e. pela isotopia temática. A coerência semântica do discurso. de um poema. do seu componente semântico. que pinta a velhice.

220). mesmo realizados em um contexto. os percursos figurativos da configuração de “furar o dedo”. como também a determinação das relações vigentes entre as várias isotopias. na verdade. A análise das linhas isotópicas se faz. p. não têm sintaxe própria — é a sintaxe narrativa que os sustenta — e devem. antes de mais nada. mas como figuras de discurso. puderam-se opor. diz-se que a conexão se faz por homonímia.discurso. a mais importante delas sendo a possibilidade de se tomarem metáfora e metonímia não mais como figuras de palavras ou de frases. pois são lexemas ou sintagmas da instância de manifestação textual que abrigam. sonoros. a outro nível de análise. de organizá-los e de reconhecer seu caráter iterativo. cada qual pressupondo uma isotopia temática. São. As figuras de palavras ou de frases podem ser. [página 125] na Branca de Neve e na Bela Adormecida. na realidade. no item Tematização e figurativização. Considerase que um elemento desencadeia uma isotopia quando não pode ser . colocados em percursos isotópicos diferentes. sua organização. As relações entre isotopias são denominadas metafóricas ou metonímicas. que não constituem isotopias. a partir essencialmente de traços visuais cromáticos. que se estendem pelo discurso. duas observações precisam ser feitas. A metáfora é. A respeito disso. dos percursos e das configurações virtuais. um dos recursos práticos de determinação das isotopias discursivas. com métodos e técnicas da semântica estrutural. já que se trata de determinar traços semânticos figurativos e abstratos. Os conectores diferem dos desencadeadores de isotopias. a partir das reiterações semânticas. entre isotopias figurativas. Distinguem-se tipos de conectores de isotopias a partir das relações entre os sememas englobados pelo mesmo lexema: se têm semas comuns. A leitura de um texto implica não só a construção. então. Os conectores de isotopias pertencem. Os percursos figurativos e temáticos. Dessa forma. a reformulação da maneira de abordar as “figuras de retórica” tem várias conseqüências. por exemplo. espaciais e temporais. com que mantém laços. conforme sejam ligadas por similaridade ou por contigüidade de conteúdos. portanto. fala-se em conexão segundo a polissemia. se não há traços compartilhados. muito embora liguem também percursos figurativos parciais. em grande parte. Os conectores lêem-se nos dois planos isotópicos e fazem a passagem de uma isotopia a outra. a relação de similaridade entre figuras que recobrem temas. às associações próprias do paradigma. Em segundo lugar. portanto. Em primeiro lugar. vários sememas. consideradas como conectores de isotopias. Reconhece-se a definição de Jakobson de função poética como “projeção do princípio de equivalência do eixo da seleção sobre o eixo da combinação” (1963. as relações metafóricas e metonímicas estabelecem-se.

(dis)curso. (dis)corria. curso. Salvo a grandiloqüência de uma cheia lhe impondo interina outra linguagem. e muda porque com nenhuma comunica. água. estanque no poço dela mesma. mas a enfrasada no curso ou no discurso do rio. então frase e frase. e a da palavra. porque cortou-se a sintaxe desse rio.integrado a uma dada leitura já reconhecida. o tomar a . no dicionário. corta. seu discurso-rio. estancada. no discurso. a da água. O curso de um rio. lê-se a história dos rios do Nordeste. muda. 23). corta-se de vez o discurso-rio de água que ele fazia. o fio de água por que ele discorria. a propor-se um novo plano isotópico. muda. até a sentença-rio do discurso único em que se tem voz a seca ele combate. Os resíduos de isotopias obrigam. a água se quebra em pedaços. estanque. não a parada. [página 126] Rios sem discurso Quando um rio corta. assim. Escolheu-se para exemplificar a conexão de isotopias o lexema discurso no poema de J. em água paralítica. cortado. de um para outro poço. um rio precisa de muita água em fios para que todos os poços se enfrasem: se reatando. em frases curtas. não a guardada. água em fios. poços. um rio precisa de muito fio de água para refazer o fio antigo que o fez. O lexema discurso conecta duas isotopias figurativas. cheia. Em situação de poço. estancada no poço. seca. C. e mais: porque assim estancada. Na leitura figurativa da palavra. encontra-se o fazer discursivo. interrompidos pela seca e em luta contínua para se refazerem: rios. mas a em fio. chega raramente a se reatar de vez. a água equivale a uma palavra em situação dicionária: isolada. de Melo Neto ‘Rios sem discurso’ (1975. em poços de água. estancada. fio de água. p. e porque assim estanque. com nenhuma comunica. reatar. Na isotopia da água.

as oposições de: continuidade (correr. que se reconheça ser indispensável. confundidos e combinados na poesia. porém. com muitas dificuldades. do grupo contribui para a descoberta das isotopias. sintaxe. encontra-se em ‘Os remos do amarelo’ ou em ‘O mar e o canavial’. frases curtas. realmente. em situação dicionária. voz. num trabalho miúdo e sem parada da natureza. às vezes mais em uma que em outra. tridimensiorialidade (do poço ou da cheia) no espaço. com nenhuma comunica. C. muda. pela natureza ou pelo homem. caracteriza muitos dos poemas de J. da palavra dicionária) no tempo. grandiloqüência) vs. sentença. isolada. a água se quebra. no mesmo fazer cuidadoso e continuado. estancada). movimento vs. O lexema combate desencadeia a isotopia figurativa de luta. ao discurso. da época. por exemplo. frase e frase. o conector. enfrasem. Além dos dois recursos textuais de reconhecimento de isotopias. bidimensionalidade (do fio) vs. discorria. Pensa-se sobretudo na intertextualidade. Os exemplos propostos não podem ser considerados. a outra linguagem imposta. de forças em oposição. a palavra emudecida. comunica. o discurso: discurso. do grupo ou do período. discorrer. som (voz. linearidade (do discurso [página 127] e do curso do rio em fio) vs. de Meio Neto. estaticidade (paralítica. que introduz um terceiro par de isotopias temáticas e figurativas. que não impedem. ao fornecerem tais textos uma espécie de “dicionário das metáforas e das metonímias” do autor. entre outros. nas duas leituras. exercícios de explicação das linhas isotópicas do poema. a explicação dos procedimentos de coerência semântica. em pedaços. O conhecimento de outros textos do autor. Cada uma das isotopias figurativas prende-se a pelo menos uma isotopia temática: a água recobre o tema da produção da vida. da opressão e da repressão e atribuem papel social ao fazer criador do homem. Relê-se o discurso nesse novo plano isotópico que engloba os demais: a água estancada. As relações que se instauram entre a água-vida e a palavra-criação definem metáforas. linguagem. encontra-se um exemplo de elemento desencadeador de isotopia. para a construção do sentido do discurso. cortou-se a sintaxe). A análise das isotopias enfrenta ainda muitas dificuldades. grandiloqüência. o rio cortado. na verdade. Os traços figurativos asseguram. silêncio (muda). A oposição entre a criação do homem e a da natureza. circularidade (da água em poço. o . Determinaram-se três mudos práticos de descoberta das isotopias.palavra para com ela adquirir voz e constituir. descontinuidade (corta-se o discurso-rio. Além de aparecer em ‘Rios sem discurso’. falam do autoritarismo. relacionada à leitura temática sócioeconômica e política. no reatamento da voz e da vez. água estancada. o curso e o discurso interrompidos. No último verso do poema. fio) vs. outros procedimentos facilitam sua apreensão e exame. e a palavra investe o tema da criação operada pelo homem. o tema da criação. E sempre.

e do Grupo µ (DUBOIS. Há quatro possibilidades diferentes de pluriisotopia: a primeira e mais freqüente é a de se encontrarem várias isotopias figurativas que pressupõem. de diferentes maneiras — todas se relacionam com todas. fundamento da retórica. 1967. Barthes. como ocorre sobretudo nos trabalhos de Barthes (1970). O ressurgimento da retórica. Segundo o lingüista. p. O primeiro tipo de pluriisotopia é o único que Greimas assim denomina. na acepção de estudo das figuras. Para tanto podem-se convocar recursos dos estudos de retórica. uma das primeiras tentativas de explicação de figuras de discurso. Todorov (1967.[página 128] cos é preciso explicá-los e relacioná-los uns com os outros e com os planos temáticos e narrativos. à luz da lingüística geral. a metonímica. de Lausberg (1966. estabelecer-se a existência de diferentes planos isotópi. em que se estabelecem relações entre diferentes isotopias temáticas. em três volumes. Jakobson (1963. sem dúvida. sobretudo nos discursos pluriisotópicos. o campo de preocupações da retórica e as descrições que propôs de um grande número de fatos lingüísticos merecem ser recuperados. entre si. e as que a retomam e reequacionam. Se a oposição entre linguagem natural e figurada. Nesse sentido. uma é mais abrangente e domina as demais. 1974). 1968). finalmente. em geral. as que são ou tratam de retórica clássica. Foi. No que concerne à retórica. critérios que. no realismo. como a reedição parcial de Fontanier (1968) ou o manual. tem muito a ver com a retomada dos estudos sincrônicos e dos problemas semânticos no quadro da lingüística. reavaliando e reinterpretando essa rica tradição de trabalho com a linguagem. pois não se acredita mais no grau zero da escritura ou na inocência da linguagem. 43-67) exerceu papel de importância ao utilizar as noções de metáfora e de metonímia para caracterizar diferentes tipos de discurso.desencadeador e a relação intertextual. contribuiu. auxiliam bastante na tarefa. têm-se à disposição dois tipos de obras. para sua morte. como quer Todorov. de estilística e de poética. a segunda possibilidade é dada por diferentes isotopias figurativas ligadas a uma mesma isotopia temática. a última possibilidade é a dos discursos temáticos. no romantismo e no simbolismo predomina a linguagem metafórica. e assim por diante. em geral. um mesmo e único discurso. 1977). no terceiro tipo. o . Não basta. no entanto. e não apenas de palavra ou de frase. Todorov e principalmente o Grupo µ procuram repensar a retórica em termos estruturais. uma única isotopia figurativa relaciona-se a várias isotopias temáticas. já no contexto da semântica. cada qual. a estilística e a teoria literária podem fazer avançar a análise semiótica das relações entre percursos semânticos. já que as outras possibilidades de relações [página 129] entre isotopias não caracterizam. O poema Rios sem discurso’ exemplifica bem esse tipo de pluriisotopia. uma isotopia temática e que se relacionam. A retórica.

Nas análises apresentadas da Branca de Neve e da Bela Adormecida. [página 130] Coerência textual No último item deste capítulo. pela identificação do velho com o sobrinho. conforme foi visto. é figurativizado de formas diversas: pelo corpo que serve de adubo. No segundo caso. Quase nada se disse das relações entre percursos narrativos e percursos semânticos discursivos. Ilustra-se a ambigüidade narrativa com o conto de Lígia Fagundes Telles. O tema do renascimento. e a do assassinato. pelo milagre. A terceira possibilidade apresenta-se nos motivos etnoliterários que se manifestam. em que uma categoria classemática (humano vs. O segundo tipo de pluriisotopia pode ser ilustrado com o conjunto de contos de Léguas da promissão. duas isotopias figurativas. O último caso previsto. de produção do belo e de privação de vida. à chamada isotopia complexa. uma privação transitiva ou espoliação. Pode-se pensar também em dois tipos de ambigüidades semióticas: a discursiva. ‘O jardim selvagem’. em ‘Simoa’. procura-se inserir a questão da isotopia semântica no contexto mais amplo da coerência textual. Para produzir o efeito da ambigüidade narrativa. muito doente. relacionadas.) se manifesta com seus dois termos na seqüência do sintagma. o sujeito seria Daniela. Nesse conto. abordada sob a forma de pluriisotopia. da passagem da morte à vida. na instância da sintaxe discursiva. o marido de Daniela. pela lembrança que faz reviver. uma privação reflexiva ou renúncia. em ‘Túmulo das aves’. correlacionados a temas diferenciados. a da água e a da palavra. sob a forma de percursos figurativos semelhantes. cultural. a configuração do “dedo furado” abriga os temas de doação de vida. animal. o das relações entre isotopias temáticas. de Adonias Filho. Rastier (1971. Há aí. em geral. em textos diferentes. morre por causa de um tiro de revólver. em ‘Imboti’. Duas organizações narrativas são possíveis: a do suicídio. em ‘O pai’. que já havia antes matado seu cachorro doente.se porque. 289) distingue duas espécies de ambigüidades lingüísticas: a lexical (um mesmo lexema pode recobrir vários sememas) e a sintática (uma mesma seqüência de morfemas pode recobrir várias estruturas profundas diferentes). os procedimentos de desembreagem impedem que se opte por uma das possibilidades. e a narrativa. A ambigüidade sustenta. respectivamente. aos temas da produção da vida e da criação operada pelo homem. etc. corresponde. Os estudiosos do texto. p. natural vs. organizações narrativas diferentes devem ser manifestadas por um mesmo arranjo discursivo ou textual.mais comum no texto literário. preocupados em determinar o que faz de um texto um .

Excetuada a coesão textual. 277). localizando-se as estruturas narrativas e as argumentativas em etapas diferentes do percurso de produção de sentido. o das estruturas narrativas. isto é. p. destacamos quatro pontos de vista diferentes sobre o assunto: o da coesão textual. é o ultimo dos fatores de coerência apresentados. a conjunção e a coesão lexical —. de coerência. Todo discurso é narrativo e argumentativo. 1985. portanto. A narratividade e a argumentatividade são. a substituição. fatores de coerência. Reconhece-se aqui a importância da coesão textual para a coerência do texto. uma unidade específica e não uma soma de frases. mas não se aceita considerá-la como sua única ou principal garantia. do percurso gerativo do sentido. Coloca-se fora. As estruturas narrativas pertencem a nível semiótico mais profundo que as argumentativas. as diferentes concatenações frásicas lineares que. na perspectiva deste trabalho. apenas referida na apresentação da gramática textual. definidas no momento discursivo da relação entre enunciador e enunciatário. uma teoria geral que englobe “com os mesmos procedimentos metodológicos e a mesma metalinguagem descritiva. que não se distinguem. como critério definidor. subjacentes ao nível superficial das relações interfrásicas. dependem de cinco categorias diferentes de procedimentos — a referência. A coesão textual. têm também muito a dizer sobre a questão. A organização discursiva e a narrativa. no capítulo anterior. Afirmou-se. os demais aspectos da organização do texto foram bastante desenvolvidos neste trabalho. portanto. ao nível mais superficial da análise do texto. embora cada procedimento destacado seja condição de aparecimento do texto. O fio narrativo e a finalidade discursiva da argumentação costuram o discurso e tornam o texto coerente. discursos argumentativos e discursos narrativos. um tanto vaga. isto é. o das estruturas propriamente textuais. sozinhos. situando-os em níveis diferentes de análise e explicação e indicando as relações complementares que mantêm na construção do sentido” (BARROS. As diferentes teorias do texto e do discurso concebem também diversamente a coerência textual. têm proposto a noção. pertence. ambas. E preciso. enfaticamente. A coerência semântica das isotopias. não bastam. Em ‘La cohérence textuelle’ (1985). sobre a qual se discorreu no item anterior. segundo Halliday e Hasan (1976). . [página 131] Retomaram-se as concepções mais usuais de coerência textual para mostrai que. o das estruturas argumentativas e o da isotopia semântica.texto. situados em níveis diferentes de descrição e explicação do discurso. na perspectiva semiótica. a elipse. os diferentes fatores de coerência.

a coerência do texto está na dependência também de suas relações com o contexto sócio-histórico. Este. Além dos autores citados no decorrer da exposição sobre foco narrativo. Para a distinção entre enunciador e locutor. sobretudo. veja-se Ducrot (1980). uma sua possível máscara” (BOSI. neste capítulo. 1977. é o assunto do próximo capítulo. Sem dúvida alguma. promoção do Curso de Língua e Literatura Sânscritas. No capitulo 3. na Universidade de São Paulo. NOTAS 24 “o eu que escreve sabe que não é exatamente aquele eu que aparece como sujeito gramatical do texto. [página 132] ‘‘Se há disparidades no entendimento de um mesmo conceito. será examinada a estrutura narrativa da enunciação. A peça foi montada pelo Grupo BHÃRATANÃTYA DARPANA e apresentada em abril de 1985. em outros termos: o eu-autor sabe que o eu. Exemplos analisados dos focos narrativos propostos por Friedman podem ser encontrados em Leite (1985).A semiótica pode ser essa teoria geral. ocorrre a mesma 25 26 27 28 29 30 31 . explicaram-se e situaram-se as diferentes condições de coerência previstas: • nível das estruturas narrativas: coerência narrativa • nível das estruturas discursivas: • sintaxe discursiva: coerência argumentativa • semântica discursiva: coerência semântica das isotopias • nível das estruturas textuais: coesão interfrásica. porém. durante a Semana da Índia. Nesses dois capítulos. como se apontou a propósito da dicotomia inside-outside ou internal-external. contribuíram para esta visão geral do assunto os textos de Rossum-Guyon (1970) e Leite (1985). p.narrador é apenas uma sua variante possível. Veja-se. o item Tematização e figurativização do discurso. 12).

p. o enunciador não quer ou finge não querer que o desenvolvimento do discurso. Para o jogo de imagens. Essa revisão foi iniciada em curso ministrado na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais. o pressuposto subentendido de que manter-se magro é sinal de força de vontade e João tem força de vontade.. em certas situações. Os pressupostos “lingüísticos” ou da frase mantêm-se quando a frase é negada ou interrogada: em “João continua gordo”. por exemplo) pode ser feito. em geral de caráter argumentativo. e aparece nas publicações de Ducrot a partir de 1977. Segundo Greimas & Courtés (s. em 1976 e 1977. os de Landowski (1981a. Já os pressupostos “subentendidos” ou do enunciado só se identificam pelo encadeamento. Encadeia-se sempre sobre o posto. O que é subjetivo e onisciente para Friedman. nunca sobre o pressuposto. porque sobre ele nenhum prolongamento discursivo argumentativo (“João não tem força de vontade”. “João continua magro” tem. classicamente utilizados na determinação dos pressupostos. o pressuposto de que antes João era gordo conserva-se em “João não continua gordo” ou em “João continua gordo?”. Esse pressuposto não se conserva na negação “João não continua magro”. p.32 33 34 35 36 37 situação quanto às diferentes acepções conferidas a iguais termos. Assim. torna-se.d. p. para Tomachevski. até o momento. sob pena de recusa de todo o discurso. F. mas. . mas pode ser identificado pelo critério de encadeamento. Veja-se Guimarães (1979) para uma aproximação das propostas de Ducrot e de Grice. só a aspectualização do tempo foi examinada. 1983). o procedimento de aspectualização caracteriza também a espacialização e a actancialização. A crônica ‘Brincadeira’ de L. Veríssimo (1981. vejam-se o trabalho de Pêcheux (1969) e. 10) mostra um bom trabalho com a categoria do /saber-ser/. 29). O critério de encadeamento está bem de acordo com a definição de pressuposto. na lingüística e na semiótica. 30). pelo de encadeamento. objetivo e onisciente” (DAL FARRA. pois. Outra conseqüência é a substituição dos critérios de negação e de interrogação. conforme foi apontado. recaia sobre os pressupostos. no quadro teórico da semiótica. 1978.

Para o caráter ideológico das figuras. O argumento apenas motiva o interlocutor. [página 134] . Vejam-se Greimas (1970. subentendido: O Governo não dará apoio aos bancos. Ducrot (l973) separa prova e argumento. Segundo o autor. o receptor ou órgão sensorial excitado por estímulos internos. Osakabe (1979. 15 mar. na vida de todos os dias. como realidade significante e não como realidade-coisa. 49-91) e Blikstein (1983). sem termos provas. de exercer papéis narrativos e temáticos variados. pressuposto: Os bancos esperavam (e esperam) medidas de apoio do Governo. 1986). lidamos com argumentos. e interoceptor.38 Exemplificam-se as três vozes do discurso com ‘Governo deixa os bancos à espera de medidas de apoio’ (Folha de S. [página 133] O termo enunciatário não é de Perelman. p. que torna necessária a admissão da conclusão. ao mesmo tempo. em que atribui o caráter migratório do motivo sobretudo à sua capacidade de conservar a identidade figurativa e. O mundo natural está sendo concebido como sistema de significação. veja-se Fiorin (1983). Para semema. p. Na psicologia. A prova seria um tipo particular de argumento. núcleo sêmico. Courtés (1980a) tem desenvolvido pesquisas sobre os motivos. 9). 39 40 41 42 43 44 45 46 Em texto sobre a argumentação no discurso político. mas a idéia sim (P. veja-se Greimas (1966). exteroceptor é o receptor ou órgão sensorial estimulado por agentes externos ao organismo. Paulo. o argumento decisivo. Os bancos vão mal e precisam do apoio do Governo. em que se tem: posto: Governo protelou as medidas de apoio aos bancos. segundo o contexto de emprego. para que aceite a conclusão. aqui rapidamente apresentados. classema e demais elementos da semântica estrutural. 81) apresenta proposta semelhante.

.

a análise interna e imanente do texto. de forma satisfatória. ao menos pistas que permitam avançar em bom caminho48. no momento. Procuraremos fazer avançar o projeto de explicação dos vínculos que prendem o discurso a suas condições sócio-históricas de produção e de recepção. [página 135] . mas em discutir o quadro epistemo-metodológico em que. Conhecer um pouco mais a enunciação foi a forma encontrada de abordar o assunto. sem resvalar para as superposições de teorias contraditórias. pelos motivos já sobejamente apontados de propiciar. ENUNCIAÇÃO: A MANIPULAÇÃO DE VALORES CONSIDERAÇÕES INICIAIS Neste capítulo examinaremos a questão central de nosso trabalho. considerado como pretexto do contexto — uma abordagem externa. nossa contribuição não reside no reconhecimento do caráter indispensável dessa conciliação. é possível fazê-lo. Apostamos na teoria semiótica. se não as soluções. Conforme foi apontado na Introdução. com o exame da inserção contextual do texto. de explicar com os mesmos princípios as estruturas narrativas e as discursivas e de examinar a enunciação. pela análise mais acurada da enunciação. pois todo trabalho de construção do sentido conduz sempre à posição privilegiada e misteriosa do sujeito da enunciação. a do desenvolvimento de uma teoria do discurso capaz de conciliar a análise do texto. já por outros avançada47. como sistema de regras explicativas de sua organização imanente — uma abordagem interna —. Acabou-se acreditando poder obter ali.III.

ESTRUTURAS NARRATIVAS E DISCURSIVAS DA ENUNCIAÇÃO Para o exame da enunciação. temático Da comunicação P. sincretismo de enunciador e de enunciatário. como os actantes e os papéis actanciais. o da comunicação.d. Os papéis temáticos de enunciador e de enunciatário constituem. O tema da produção é o da ação do homem sobre as coisas. A duplicidade de percursos temáticos permite. determinar a correlação entre o nível discursivo. 67).. Reservam-se os papéis de enunciador e enunciatário para o percurso temático de comunicação (quem comunica e quem recebe e interpreta a comunicação) e emprega-se o de sujeito da enunciação. na verdade. considerar a enunciação como a atividade humana por excelência. no percurso de produção (quem produz). em seguida. s. uma espécie de neutralização de dois diferentes percursos temáticos. e as distinções apontadas entre unidades narrativas. Com esses elementos. sob os quais são reconhecidos papéis actanciais e actantes narrativos. da análise narrativa e discursiva. ao mesmo tempo produção e comunicação. “criadora das relações intersubjetivas. do destinatário-sujeito e do destinador-julgador. Reconhecido o caráter discursivo-temático da enunciação e sua manifestação em dois percursos temáticos distintos. fundadoras da sociedade” (GREIMAS & COURTÉS. o da ação do homem sobre os outros homens. temático Da produção . certamente. p. e as estruturas narrativas. essencialmente a concepção de esquema canônico da narratividade. transformando-as ou construindo-as. consideram-se o enunciador e o enunciatário papéis temáticos discursivos. toma-se. Apresenta-se o resultado no quadro abaixo: DestinadorManipulador ENUNCIADOR DestinatárioSujeito ENUNCIATÁRIO SUJEITO DA ENUNCIAÇÃO DestinadorJulgador (ENUNCIADOR)49 Estrutura Narrativa Estrutura Discursiva P. e os papéis temáticos e figurativos da instância discursiva. assim desdobrado. da mesma configuração de “enunciação”: o de produção e o de comunicação. deve-se. organizado pelos percursos do destinador-manipulador.

os percursos passionais do sujeito. no e pelo discurso. e. sem dúvida. que instalam. conforme foi examinado na análise das estruturas narrativas e discursivas. Se as primeiras reações do ser vivo ao seu contexto. o jogo de manipulação entre destinadores e antidestinadores. O enunciatário. responsável pelos valores em jogo e capaz de levar o destinatário-sujeito. é. pretenderam mostrar como efetuar essa análise e os motivos por que se deve realizá-la na forma indicada. na instância discursiva. precisa-se proceder à análise interna e imanente do texto. e as relações ideológicas dos sujeitos com os objetos-valor ou com outros sujeitos podem ser consideradas marcas. deve realizar o fazer interpretativo. no interior do discurso. dedicados às estruturas sêmio-narrativas e discursivas.sujeito. para conhecer e explicar tais fazeres e por meio deles apreender a instância da enunciação. de euforia e relaxamento ou de disforia e tensão. mas a interpretação.[página 137] veu a . em resposta ao fazer persuasivo do enunciador. no nível das estruturas discursivas que enunciador e enunciatário mais se expõem. em que o enunciador se coloca como destinatário-manipulador. o conflito ideológico. quando investidos nos objetos e assumidos pelo sujeito. o esquema narrativo canônico funciona como modelo de previsibilidade e obriga a que se tente preencher as casas vazias. manipulado cognitiva e pragmaticamente pelo enunciador. que mostram suas relações com os objetos e com outros sujeitos e que o inserem numa formação social e num sistema de valores. Arrolam-se aqui esses momentos fortes do enunciador e do enunciatário. Foram também destacados. [página 136] Tema de comunicação Na primeira leitura proposta. deve cumprir os papéis de destinatário. quando se desenvol.Conforme foi apontado no capítulo 1. crer e fazer o que dele se espera. ou seja. conclui-se que. No nível das estruturas fundamentais. por sua vez. seu enunciatário. a crer e a fazer. salienta-se a projeção axiologizante da categoria tímico-fórica sobre as primeiras articulações de sentido. no percurso proposto. já enfatizados no capítulo anterior. operada pelo enunciatário e que o instaura como sujeito. a enunciação é manifestada pelo percurso temático de comunicação. O fazer persuasivo do enunciador realiza-se. ocorre também no discurso-enunciado. como decorrência. Os capítulos 1 e 2. e bastante nítidas. Na instância das organizações narrativas. três pontos merecem especial referência: a conversão dos valores virtuais em valores ideológicos. os aspectos que mais fortemente marcaram a relação do discurso com a enunciação pressuposta50. O fazer pretendido nem sempre se realiza. da enunciação. Se tanto o fazer persuasivo do enunciador quanto o interpretativo do enunciatário se realizam no e pelo discurso.

valores ideológicos do sujeito. o enunciador caracteriza-se pelo exercício do fazer persuasivo. no discurso literário. neste item. que empregam esquemas argumentativos distintos. ou seja. Na semântica discursiva. a enunciação e as formações ideológicas que a sustentam mostram-se na escolha dos percursos figurativos e temáticos e nas relações metafóricas e metonímicas que unem as várias isotopias. está-se de posse de certas características do enunciador e do enunciatário do discurso. nos três níveis de descrição: valores virtuais axiológicos. entendida como comunicação. regulamentação da relação entre enunciação e enunciado e exercício do fazer argumentativo. Diferenciaram-se. entre enunciador e enunciatário. pela forma como faz passar os valores. como objeto de persuasão. ou seja. como faz crer. O segundo fato é o de que a leitura da enunciação como comunicação se faz a partir do discurso. tentação. segundo a classe de manipulação empregada — sedução. conforme o valor modal utilizado para determinar o enunciatário — querer-fazer. a intencionalidade narrativa e a finalidade argumentativo-discursiva falam do sentido do sentido e impedem qualquer idéia de neutralidade do discurso. dirigidas para a . agrupar os fatos dispersos de enunciação. O primeiro deles é o caráter manipulador do discurso comunicado. Efetuada a análise das estruturas narrativas e discursivas. ao contrário. pragmático ou cognitivo. provocação ou intimidação — ou de acordo com o fazer pretendido. no religioso ou no científico. Na sintaxe do discurso. figuras do mundo e temas.análise da sintaxe e da semântica discursiva. conseqüentemente. já no capítulo anterior. que criam diferentes ilusões de enunciação. reforçando. O enunciador determina-se como um tipo específico de manipulador. Subdivisões mais afinadas podem ser obtidas com critérios sobretudo da sintaxe do discurso: enunciadores que dizem eu ou ele. imerso em paixões. para fazer-fazer. que desembreiam diálogos internos. dever-fazer. Em segundo lugar. pela distribuição diferenciada de voz e de saber. a partir. em primeiro lugar. dos valores que atualiza no discurso e que podem ser apreendidos no componente semântico. como instância de mediação entre estruturas sêmio-narrativas e discursivas. de enunciatário. destacando-se dois aspectos da questão. sua concepção direcional-ideológica. portanto. A direção das operações fundamentais. por meio de analise sêmio-narrativa discursiva do texto. saber e poder-fazer nos discursos tecnológicos —. responsável pelas diferentes opções do discurso. a máscara praticamente se revela como tal. Pretendeu-se. as marcas são freqüentemente lidas como sinais da presença ou da ausência da enunciação no enunciado (efeitos de enunciação): diferentes perspectivas discursivas. em que estão inscritos o fazer emissivo e [página 138] persuasivo do enunciador e o fazer receptivo e interpretativo do enunciatário. A enunciação esta sendo concebida. tipos de enunciador e.

além disso. O discurso.valor cognitivo. conforme foi apontado no capítulo 1. São modos diferentes de o sujeito adquirir e manipular valores. de se colocar corno lugar desse fazer ou como o próprio fazer engendrante. Na receita de cozinha. apresenta a ambigüidade fundamental de resultar do fazer [página 139] construtor do sujeito da enunciação e. Os programas narrativos de realização. O sujeito da enunciação pode ser considerado um sujeito realizador de programa de construção de objeto. ou seja. Tal empreendimento procura satisfazer a uma necessidade do sujeito ou proporcionar.manipulação do enunciatário. um sujeito que fabrica o objeto-discurso como lugar de investimento de valores. a partir do discurso. figurativizado pelo pudim.lhe prazer. em parte. que proporcionará ao cozinheiro ou a seus convidados um prazer estético de ordem gustativa (GREIMAS. ao mesmo tempo que a definem. se faz por doação. e não pragmático como os objetosvalor gustativos das figuras do pudim ou do bolo. portanto. A competência do sujeito da enunciação assim como sua performance refazem-se. 157-70) ou lhes matará a fome. lêem-se como sujeitos produtores do discurso-objeto. que só lhe interessam como lugares de investimento de valores. Essa concepção de enunciação tem sido aceita e desenvolvida pela teoria semiótica e pelas diversas pragmáticas. pois o objeto fabricado traz sempre marcas de seu fabricante e de sua fabricação. por apropriação ou por troca. Nos programas de construção de sujeitos. O sincretismo destaca o fato de o enunciador e o enunciatário compartirem a responsabilidade da construção do sentido do discurso. em que o enunciador e o enunciatário. semiótica e semanticamente. através dos objetos. Tema de produção A enunciação realiza-se também segundo o percurso temático de produção. 1983. sincretizados no sujeito da enunciação. Os procedimentos de sintaxe do discurso já analisados permitem reconstruir a competência e a existência modal do sujeito da enunciação. são de duas espécies distintas: programas de construção de sujeitos e programas de construção de objetos. ao mesmo tempo. O objeto é fabricado. Já nos programas de construção de objetos. As escolhas feitas e os efeitos de sentido obtidos decorrem da enunciação. a aquisição do objeto-valor. que “constrói” o sujeito. p. O objeto-discurso construído é um objeto. As figuras semânticas do discurso acrescentam novos elementos à caracterização do . para vir a ser a cobertura de um ou mais valores com os quais o sujeito quer ou deve estar em conjunção. a execução correta das indicações conduz à construção de um objeto. por exemplo. um objeto é produzido como suporte de valores que o sujeito operador ou algum outro sujeito deseje ou de que necessite.

o sentido. Determinar os destinadores do sujeito da enunciação corresponde a inserir o texto no contexto de uma ou mais formações ideológicas. papel temático do destinador-julgador. ao deixarem entrever. 1987). como se sabe pelo esquema narrativo. O produtor é o destinador-manipulador responsável pela competência do sujeito da enunciação e origem de seus valo. para a do destinador-julgador: Estruturas Narrativas Estruturas Discursivas Tema da Produção DestinadorManipulador PRODUTOR DestinatárioSujeito SUJEITO DA ENUNCIAÇÃO DestinadorJulgador RECEPTORINTERPRETANTE A intenção dessa proposta é criar possibilidades de descrever. no fim das contas. Necessária e capaz de recompor a competência modal e a performance do sujeito da enunciação e de fornecer indicações sobre os valores. as chamadas condições de produção e de recepção do texto. o papel temático do produtor para ocupar a casa discursiva do destinador-manipulador narrativo. julga e sanciona o fazer do sujeito da enunciação. O receptor-interpretante. de maiores informações sobre o destinadormanipulador. que lhe atribuem. Deve ser entendido como destinador sócio-histórico (ou psico-sociohistórico). Tais valores. com princípios e métodos da Semiótica. os valores que o objeto. Em outras palavras. A enunciação começa a se mostrar como estrutura de mediação entre o discurso e o contexto. realmente. são comunicados ao sujeito da enunciação por um destinador-manipulador.[página 140] res.discurso deve suportar e veicular. com base no contrato passado entre destinador-produtor e sujeito. é provável que o preenchimento das casas vazias no quadro das relações entre estruturas discursivas e narrativas contribua para esclarecer melhor a questão da enunciação produtora do discurso. a análise interna do texto não é suficiente para determinar. portanto. . O sujeito da enunciação constrói o discurso enquanto delegado do destinador-produtor. sendo os valores determinados de antemão pelo destinador sócio-histórico. ou boa parte delas. os valores para que se constrói o discurso. o que lhe dá autonomia apenas da ordem do fazer. de que provêm. e o do receptor-interpretante. A definição dos valores parece depender. Propôs-se. em outros trabalhos (1985.sujeito empreendida. quando examinadas como pontos de intersecção entre texto e contexto.

depende de um código cultural implícito. A crítica desfavorável ou a boa aceitação de público decorrem das relações conflituosas entre os destina. não se deve esquecer. sempre. porém. e não apenas por contrariedade. . pode-se dizer que os contextos do produtor e do receptor opõem-se por contradição. em geral interpretada como precisão e questão econômica. Cabe esclarecer. interesse econômico e prazer estético. Quer se diga que o discurso foi engendrado apenas como veículo de prazer. Não se trata. o discurso é fabricado como decorrência de necessidade /dever-ser/ do receptor ou de seu desejo /querer-ser/ de certos valores. mas não recobrem a oposição do social ao individual. Os objetos são construídos com duas finalidades: suprir as carências ou responder aos anseios do receptor. o aparecimento de antidestinadores. uma ou mais formações ideológicas que apagam o caráter categórico da separação entre prazer e comprometimento social e que é preciso determinar. o caso mais freqüente dos discursos conservadores. Carências e anseios são determinados pelo destinador. Na análise da enunciação. em narrativa do fazer do sujeito e em narrativa do fazer do anti-sujeito. como alguns poderiam supor. e com o objetivo de se constituir em lugar de inscrição. Revê-se o problema do contexto em termos de relações intertextuais. o modo como se concebe tal estudo. A necessidade. Assim. há. Há. do mesmo modo que a feijoada é preparada para atender à exigência de alimentação ou ao prazer gustativo daqueles a quem será servida. prevê. manipulação e veiculação desses valores.dores. de analisar o ser ontológico. Pretende-se refazer os caminhos narrativos do destinador-manipulador e do destinador-julgador. a duplicação de percursos e de programas permite situar e esclarecer os confrontos sociais em que se assentam os discursos. oriundas da sociedade o prazer estético do texto. quer se aceite o seu compromisso como meio de transformação do mundo. No ensinamento de Verón51. segundo a interpretação do destinador. Ambos. nos textos “engajados”. como ocorre com os discursos reformadores. assim como os percursos temáticos de produtor e de receptor-interpretante. dizem respeito a grupos sócio-historicamente determinados e [página 141] atendem a diferentes necessidades do homem. por detrás dele. correlativamente. pelo recurso aos textos que formam o contexto do discurso em questão. e o prazer estético do texto distinguem-se. cujos valores opõem-se aos dos destinadores. em que os destinadores não entram em conflito e o receptor interpreta o discurso no mesmo quadro de valores de sua produção. também. Foi com essa intenção que se propôs o exame do produtor e do receptor-interpretante sócio-históricos. o texto revolucionário provoca ruptura entre condições de produção e de recepção. na “arte pela arte”.O desdobramento polêmico da narrativa. produtores e interpretantes do discurso. Na perspectiva aqui adotada.

para a abordagem da segunda leitura temática e apontou-se uma saída. dessa forma. conforme foi apontado. Não se tem a pretensão de reconstruir o macrotexto cultural. uma Semiótica da cultura que estabeleça os papéis narrativo-discursivos devidos a cada texto no macrotexto da cultura. Recorreu-se. assim. pela caracterização sóciohistórica do sujeito da enunciação. a partir das relações intertextuais. o segundo. nesse caso. julgada. E antes considerado como um texto maior. Recorta-se.discurso produzido. entre as estruturas sêmio-narrativas e as estruturas discursivas e entre o discurso e o contexto sócio-histórico. Essa concepção de contexto faz supor. a partir de elementos externos ao texto em questão. A análise de outros . o de comunicação e o de produção. Há. pela determinação do enunciador e do enunciatário. e pela definição do sujeito construtor do discurso. Os critérios e os motivos empregados para proceder aos recortes e delineamentos serão discutidos no próximo item. propôs-se examiná-la com base no aparato conceitual e metodológico da Semiótica. graças aos procedimentos narrativos e discursivos empregados na manipulação. à análise interna do texto. reconheceu-se que ao menos dois percursos temáticos se abrigam na configuração da enunciação. para o exame do primeiro tema e de suas ligações com a organização narrativa. por meio da explicação da instância enunciadora. a determinação de suas interações contextuais. porém. sua dupla tarefa de mediação. ou seja. sobre intertextualidade. a totalidade do texto-contexto. graças às suas relações com o texto em exame. que pareceu adequada. dois meios de acesso à instância da enunciação: o primeiro. para a análise semiótica de um texto qualquer.Assim entendido. a da intertextualidade contextual. as análises interna e externa do texto. uma totalidade de significação. Confirmam-se as expectativas iniciais sobre o lugar de destaque da enunciação na questão das relações entre texto e contexto e espera-se poder conciliar. e relacionaram-se os papéis te. mas se julga imprescindível.[página 142] máticos de cada percurso aos actantes e papéis narrativos subjacentes. a insuficiência da análise interna. O sentido do texto depende do sentido do texto-contexto em que se integra. A enunciação assume. Ressaltou-se. no interior do qual cada texto cobra sentido. satisfatória. em última instância. mesmo sabendo-a necessária. o contexto não se confunde com o “mundo das coisas”. com base no objeto. INTERTEXTUALIDADE Partindo da hipótese de que a enunciação é o conceito-chave para explicação do discurso e de suas relações com as condições sócio-históricas de produção e de recepção.

até o momento. no tempo e no espaço. o sujeito da enunciação. Pode-se exemplificar o contexto situacional com as cartas em que um dado autor fala de sua obra. em número. com proposições de produção textual (“Faça uma redação sobre. antes ou depois de sua produção. três tipos de contexto. dependendo do texto a que pertença. cumprir uma obrigação acadêmica. da mesma forma que a frase propicia várias leituras. destinadores do sujeito da enunciação. mostrar altos objetivos patrióticos ou preocupação com o desenvolvimento da ciência e assim por diante. ainda. do enunciatário.”). com as entrevistas com escritores. também o texto pode ser inserido em contextos variados. ser aprovado no vestibular. no entanto. de alguma forma limitado.. Esse tipo de contexto caracteriza a situação de enunciação espacial e temporalmente. como objeto de uma metalinguagem natural ou científica. a história. permite alcançar os fatores sócio-históricos constitutivos da enunciação. A distinção adotada pela Lingüística entre contexto e situação e entre contexto lingüístico e contexto extralingüístico pode ser útil na análise do discurso. muitas vezes contraditórios. pois os [página 143] textos fornecem pistas para sua inserção contextual. foram denominados produtor e receptor-interpretante. Certamente recortes diferentes podem ser obtidos e um mesmo discurso pode ser lido em contextos diversos. O primeiro. Há uma seleção a ser feita. os pontos de cruzamento de variáveis de textos distintos. de tradução. no macrotexto da cultura ou na diversidade de teorias e métodos. de alguma forma. inadvertidamente. Determina o que o enunciador pensa de seu discurso. que formam o contexto do discurso em exame.. neste trabalho. mas não infinitas. Tomam-no. O primeiro passo. dos objetivos da produção. para a definição de produtor e de receptor é o de delimitar o contexto. porém. é constituído por textos claramente metalingüísticos. sem a qual a análise do texto se revelaria impossível. assim como as razões que levaram à fabricação do texto — realizar uma tarefa escolar. introduções. o produtor e o receptor e. com prefácios. ser reconhecido pela crítica. a partir daí. fonte e destino dos valores do discurso. Destacaram-se. ou melhor. do ato de produzir. Diferenciam-se.textos. E muito difícil. Não se fez referência. não haver intersecção entre os recortes. portanto. portanto. Há sempre o risco de o analista se perder. conclusões e com todos os demais textos que. Além disso. em relação ao texto que contextualizam. as justificativas teóricas e a necessidade prática de se considerar o contexto na tarefa de construção do sentido do discurso. com textos de crítica. As resultantes de análises contextuais. de comentários. a ideologia. com estudos sobre a visão da criança a respeito da redação na escola. . mais imediato e que será chamado contexto situacional. às muitas dificuldades de delimitação do contexto a ser examinado. que se dispõem a explicar a sociedade. servindo para localizar.

muitas subclassificações devem ser efetuadas: avaliar o texto antes ou depois da produção. de tempo e de espaço em “a literatura brasileira no início do século”. finalmente. categoria ou camada. o único obrigatório da definição de produtor e de receptor. além disso. em “o romance da década de 70”. simulam ou atacam outros discursos. [página 144] A terceira espécie de contexto. A classe social é. um traço imprescindível e. de espaço em “a literatura no Nordeste”. ou seja. Não basta afirmar que um discurso aborda o tema do romantismo ou da liberdade. sobretudo na explicação da argumentação e da figurativização. de época. Sem dúvida. faz-se necessário encontrar um denominador comum que permita caracterizar o produtor e o receptor do ponto de vista sócio-histórico e a que venham se acrescentar as demais determinações contextuais. deve. finalmente. A extensão desse contexto é grande e fronteiras são estabelecidas com critérios diversificados: de tempo. de cultura. muito provavelmente. Pode-se ilustrar a noção de contexto interno com as relações mantidas por um conto com os demais de um mesmo livro ou no interior da obra de um único autor. é preciso saber de que romantismo e de que liberdade se trata e só a especificação sócio-histórica permite dizê-lo. interno e externo —. organizando-se os demais elementos contextuais em diferentes arranjos necessários mas de composição variável e facultativa.regulamentam as condições de avaliação do discurso. de tema. Nas palavras de Singer (1981. Há. pistas seguras nos discursos que repetem. o estatuto de valor. leva. a inserir os valores resultantes da análise interna ou mesmo contextual do discurso na formação ideológica. de grupo profissional e muitos outros. Essa convicção baseia-se no fato de que a classe social. chamada contexto externo. que lhes atribui. Quaisquer que sejam os contextos considerados — situacional. 17). localizar o produtor no tempo ou espaço. tratar de produção ou de recepção e outras. . p. Da mesma forma que é difícil separar idioleto (normas individuais) de socioleto (normas sociais)52. a que pertençam o produtor e o receptor. a análise do discurso fornece várias indicações deles. Acredita-se que se possa obter esse resultado pela definição da classe social ou da fração. assim concebida. políticas e ideológicas. Reconhecida a variação contextual e seus papéis diferenciados na determinação do sentido do discurso. determina os elementos ideológicos e lingüísticos que caracterizam o produtor e o sujeito da enunciação. reconstitui o caráter idioletal do texto. responder pelos valores que produtor e receptor manipulam. também são fluidos os limites entre contexto interno e contexto externo. que será denominado contexto interno. de grupo. sejam eles de classe. em última instância. determinada por um sistema de relações econômicas. O segundo tipo de contexto.

mesmo aqueles que não as aceitam totalmente. [página 145] Expõem-se. Para este trabalho não interessam as concepções economicistas de classe social.“o pressuposto teórico aqui é que as classes são os verdadeiros atores do drama que se desenrola no cenário histórico. poucos. DISCURSO E CLASSES SOCIAIS Não se tenciona participar das discussões sobre os vários conceitos de classe social. mesmo que preenchêssemos as condições exigidas. constituem também o seu discurso. Com Giannotti. parece mais adequada aos propósitos da análise discursiva. dos conflitos entre órgãos de representação. políticas e ideológicas. e. de cuja luta resultam as grandes transformações sociais e econômicas que constituem a própria história do país”. p. aceita-se que “a posição de um indivíduo. mas suficientes para os objetivos deste trabalho e para esclarecimento da proposta apresentada. Em outros termos. desenvolvendo-as. Pretende-se apenas recorrer aos sociólogos. ou seja. aquelas que consideram as classes sociais determinadas apenas pelas relações econômicas. determina uma condição necessária para sua inserção numa classe. alguns elementos de uma teoria das classes sociais. no processo produtivo. 291). no próximo item. do entrechocar de ideologias é a oposição entre diferentes classes. Os autores consultados sobre a questão da classe social reportam-se todos às propostas de Marx. E. mais especificamente. . em segundo lugar porque. cientistas políticos e economistas. para a constituição do produtor e do receptorinterpretante do sujeito da enunciação. A definição de classe social proposta por Poulantzas. este trabalho não seria o lugar de um debate desse tipo. reconhecem ser impossível realizar um estudo sobre as classes sociais sem recorrer a tal bibliografia. interpretando-as. por ser essa definição de classe muito pobre para caracterizar o produtor e o receptor do discurso. como o resultado do conjunto das estruturas econômicas. em primeiro lugar por nos faltar competência para assumir posições no terreno do sociólogo. embora não chegue a formular-lhe uma condição suficiente” (1983. o que se encontra por detrás dos embates entre partidos e correntes de opinião. em busca de subsídios para a análise do discurso. por que não o dizer.

e pode pois ser localizada em relação a uma instância particular. Uma classe social pode ser identificada quer ao nível econômico. se fundem e se tornam frações ou categorias sociais de outras classes54. Em outros termos. Uma formação social caracteriza-se pela superposição de vários modos de produção. 64-5). 1971. Na prática. que a define. da situação histórica da classe”. No entanto.. tem interesse para a teoria do discurso. É preciso. O modo de presença e as combinações das classes no interior de uma formação social são sempre diferentes e variáveis. muitas são as decorrências dessa definição mais completa. p. p. hierarquizados. ou seja. nestas rápidas observações. 22). como por exemplo não poder caracterizar as classes sociais apenas pelo critério de rendimento. pois as classes se dissolvem. Singer (1981. Segundo Lukács (1960. efetivamente. Igualmente. a definição de urna classe enquanto tal e a sua conceptualização [página 146] reporta-se ao conjunto dos níveis dos quais ela constitui o efeito” (POULANTZAS. Realmente. entendida como “o sentido. quer ao nível político. tampouco interessam a este trabalho as concepções apenas políticas ou ideológicas de classe. 99) é a consciência de classe. quando. mas também as p0. ou as interpretações “sobrepolitizantes” de classe social. efetuadas apenas pelo prestígio da ocupação. de modo semelhante. lembrar ainda um aspecto da questão das classes sociais: o do número e das combinações das classes sociais numa formação social. no nível político. mas um conjunto de interesses que .. pois tal critério não determina a forma de sua participação nas relações de produção. em que um dos modos de produção domina os demais. isto é. p. afirma que “o que caracteriza as classes não é apenas a posição relativa no processo de produção. tudo se passa como se as classes sociais fossem o efeito de um conjunto de estruturas e de suas relações. graças à aquisição da consciência de classe5. as relações de produção dessa classe se refletem no nível político e no ideológico. tornado consciente. Para Poulantzas (1971. nem mesmo os “economicistas” julgam a renda suficiente para definir a inserção do indivíduo na classe. só uma concepção de classe social em que são consideradas as relações de produção. quer ao nível ideológico. uma classe é autônoma quando constitui uma força social. numa dada formação social. no caso concreto 1? — do nível econômico. Justiça seja feita. 2? — do nível político e 3? — do nível ideológico. marcadamente ideológicas. não se sustentam divisões em classes.líticas e ideológicas. 82). p. em que as classes só existem.“.

1971. como criação de ilusão ou como ocultamento da realidade social. Não se ignora. As considerações a respeito da condição ideológica do discurso suscitam duas questões. embora apresentem certos “efeitos” particulares e constituam. pelo recurso à intertextualidade.define um ‘projeto de classe’. Ideologia está sendo entendida como visão de mundo. determinam as [página 147] classes dominadas (classes dominadas do modo de produção dominante ou classes do modo de produção dominado). o produtor e c receptor do sujeito da enunciação como suportes da teia de relações econômicas. As classes dominantes. p. está bastante bem apresentado em O que é ideologia. isto é. um modelo objetivo e global de organização da vida social”. como pressupostos ou como decorrências delas: a da concepção de ideologia adotada e a das relações entre linguagem e ideologia. a outra concepção. As classes. 69) vem justificar a proposta deste trabalho de que. força social. conceberam-se. políticas e ideológicas. que compõem forças sociais ou que têm consciência de classe ou que são dotadas de um projeto de classe. para conhecer a dimensão sócio-histórica do discurso. mesmo dominadas. que. Ela é. portanto. A definição de classes sociais como “efeitos da estrutura global no domínio das relações sociais” (POULANTZAS. o que devem sentir e como devem sentir. nas páginas anteriores. do modo de produção dominante. uma vez mais. que a apreensão das relações sociais das estruturas que as definem faz-se por meio de textos. ou seja. de ideologia. é preciso determinar os “efeitos” de classe. de Marilena Chauí: “A ideologia é um conjunto lógico. Com essa intenção. igualmente fundamental. como falsa consciência. Observe-se. Este conceito de ideologia. sistemático e coerente de representações (idéias e valores) e de normas ou regras (de conduta) que indicam e preservam aos membros da sociedade o que devem pensar e como devem pensar. de tradição marxista. não desenvolvem uma organização política independente. em geral. cuja determinação permite inscrever o discurso no contexto sócio-histórico de produção e de recepção. o que devem valorizar e como devem valorizar. um corpo explicativo (representações) e prático . nem formam uma ideologia própria. DISCURSO E IDEOLOGIA Este trabalho está sendo desenvolvido a partir da convicção de que o discurso é sempre ideológico. organizam-se a partir de relações de dominação. o que devem fazer e como devem fazer. porém.

para que ela possa servir de instrumento de dominação de classe. embora o façam cada qual da maneira que lhe é própria. regulador. Todos os aparelhos ideológicos. sobretudo da separação entre trabalho manual. mais especificamente. Althusser distingue o aparelho repressivo do Estado. os diferentes partidos políticos. a partir das divisões na esfera da produção. Essa concepção de ideologia decorre: da divisão social do trabalho.(normas. que funciona. dos aparelhos ideológicos do Estado. pois. o Exército. políticas e [página 148] culturais. a Humanidade. os meios de comunicação. realizado pelos que “não sabem pensar”. 113-4). eles dependem da ideologia dominante. que é a ideologia da classe dominante. devidas a vestígios das antigas classes dominantes e a afrontamentos com as classes dominadas. sem jamais atribuir tais diferenças à divisão da sociedade em classes. normativo. da dominação e da exploração de uma classe sobre as outras. segundo o autor. como por exemplo. que as idéias e ilusões da classe dominante se convertam em representações coletivas.d. A pluralidade dos aparelhos ideológicos não impede. pela violência e compreende o Governo. a Igualdade. a Polícia. do fenômeno da alienação. é preciso que a dominação e a exploração e até mesmo a divisão em classes sejam ocultadas e dissimuladas. 49). que se apresentam sob a forma de instituições especializadas como a religião. isto é. a Liberdade. No entendimento mencionado de ideologia. ou seja. e trabalho intelectual. Os aparelhos ideológicos asseguram. “Nenhuma classe pode duravelmente deter o poder de Estado sem exercer simultaneamente a sua hegemonia sobre e nos Aparelhos Ideológicos do Estado” (ALTHUSSER. regras. encontrando certos referenciais identificadores de todos e para todos. preceitos) de caráter prescritivo. a reprodução da . a escola. apesar das contradições. em universais abstratos. a Administração. seu funcionamento unificado. a família. segundo o qual os homens se acreditam produzidos pelas condições de existência social e não por elas responsáveis. para que as idéias da classe dominante se tornem idéias dominantes ou idéias de todas as classes sociais. p. concorrem para um mesmo resultado: a reprodução das relações de produção. de dominação e de exploração. da divisão da sociedade em classes e da luta de classes. os sindicatos. s. a Nação ou o Estado” (1981. que tais idéias e explicações racionais e universais sejam difundidas por meio do que Althusser denominou aparelhos ideológicos do Estado. principalmente.. Pelo contrário. p. os Tribunais. cuja função é dar aos membros de uma sociedade dividida em classes uma explicação racional para as diferenças sociais. a função da ideologia é a de apagar as diferenças como de classes e de fornecer aos membros da sociedade o sentimento da identidade social.

de suas práticas. que a ideologia dominante é tão abrangente que torna as demais organizações do saber fragmentárias e muitas vezes contraditórias. ou seja. Não se pode esquecer. e os aparelhos constituem a forma pela qual a ideologia da classe dominante se realiza. A diferença mais marcante entre as duas formas de considerar a ideologia está no fato de que a ideologia como visão de mundo permite relativizar a “verdade”. especialmente na visão dominante. a um sistema de valores que define normas e regras de condutas sociais. ao mostrar que há vários saberes ligados às diferentes classes. pois incorporam elementos da representação dominante. no dizer de Bruni (1980. mas com as ressalvas de que se levam em conta o caráter desequilibrado dos diferentes sistemas de representação e as distorções e ilusões produzidas ideologicamente. Essa definição de discurso está fundamentada na distinção entre língua e discurso. em [página 149] essência. porém. mostrar que no sistema da língua se imprimem. surgem das classes sociais.qualificação da força de trabalho. o mesmo nas diferentes concepções de mundo55.se. historicamente. cujos elementos compartilham os mesmos valores. Tenciona-se. Se o discurso “reflete as mais imperceptíveis alterações da existência social” (BAKHTIN. neste trabalho. mas não se pretende fazer acreditar no caráter neutro da língua em oposição à condição ideológica afirmada do discurso. de suas lutas. as marcas [página 150] ideológicas do discurso. ao mesmo tempo. Em nossa sociedade basta pensar-se no papel assumido pela escola e pela família. ao contrário. assim. de ideologia como ilusão ou como inversão do real. As ideologias não nascem nos aparelhos. é uma prática social determinada por uma formação ideológica e. A ideologia. 46). A acepção de ideologia como visão de mundo tem muitos pontos em comum com a definição que se acaba de apresentar. pois cada visão de mundo prende-se a um dado grupo. p. lugar de elaboração e de difusão da ideologia56. . pensam e agem de modo semelhante. Emprega-se. criticandoa e a ela resistindo. O grau de coerência e abrangência dos sistemas ideológicos não é. a repetição. o conceito de ideologia como visão de mundo. tal como foi apresentado. na língua as modificações processam-se lentamente. p. e reconhecer contradições em cada forma de ver o mundo. de um saber. 1981. Ao aceitar esse conceito de ideologia não se deixa tampouco de reconhecer o papel da ideologia da classe dominante e sua tarefa de ocultamento e dissimulação. O discurso. de suas condições de existência. Filia. determina-se também em relação às classes sociais e suas práticas. da mesma forma que a concepção anterior. assim concebida. aos trabalhos de Gramsci e corresponde. E no seu interior que se medem e se confrontam valores. 13).

do intertexto. Não se põe em dúvida a capacidade dos discursos de instalarem. o signo ideológico é sempre um pouco reacionário e tenta. a organização pluriisotópica de temas e de figuras são procedimentos que estabelecem no interior do discurso a dualidade. toma-se uma única direção. que recuperam a polêmica escondida. Os vários percursos semêmicos de um lexema explicam-se por essa polivalência da língua. tentam colocar o signo acima da luta de classes e esconder suas contradições internas. Nas condições habituais da vida social. caracterizada dessa forma. a partir de seu uso discursivo. complexa e viva. As ideologias. os conflitos entre as classes57. ao mesmo tempo. esta contradição oculta em todo signo ideológico não se mostra à descoberta porque. perde-se a ambigüidade da múltipla posição. “Esta dialética interna do signo não se revela inteiramente a não ser nas épocas de crise social e de comoção revolucionária. o confronto. fazem-se necessários os outros textos. em que se atraem e. por assim dizer. criam em seu interior choques e contradições. capaz de evoluir” (1981.Sabe-se. O desdobramento polêmico da narrativa. internamente. p. surgem os discursos. a luta. em suma. se rejeitam elementos julgados inconciliáveis. sobretudo a dominante. um dos valores. enfatizado por varias formas de proceder. p. Termina mostrando que “é este cruzamento dos índices de valor que torna o signo vivo e móvel. não é neutra e sim complexa. estabilizar o estágio anterior da corrente dialética da evolução social e valorizar a verdade de ontem como sendo válida hoje em dia. que escolhem um dos pólos. pois classes sociais diferentes utilizam um mesmo sistema lingüístico. separao de discursos ideológicos autoritários e pode ser tomado como marco . Abafam-se os percursos em conflito. que fazem Bakhtin afirmar que em todo signo se confrontam índices de valor contraditório e que. 47). os choques sociais. os recursos diversos de desembreagem. 1981. o diálogo intertextual. a pluralidade que lhe [página 151] dá vida e relativiza a verdade. Nesse caso. pois tem o poder de instalar uma dialética interna. 46). “o signo se torna a arena onde se desenvolve a luta de classes”. O caráter dialógico de um discurso. deve-se reconhecer que os traços impressos na língua. A língua. ideológicos. Da língua. tornando-o monovalente e “neutro”. Donde o caráter refratário e deformador do signo ideológico nos limites da ideologia dominante” (BAKHTIN. que a língua produz discursos ideologicamente opostos. Para reconstruir a dialética desaparecida. na ideologia dominante estabelecida. do contexto. porém.

portanto. sem contestações. como se sabe. Observe-se que “a língua não é o reflexo das hesitações subjetivo-psicológicas. na relação entre significante e significado. da instância fundamental ao discurso. a organização sintática das frases. porém. a programação textual. p. 132). ou seja. no texto. expressa o conteúdo ausente (DUCROT & TODOROV. a escolha lexical. discurso da verdade absoluta. a condensação e a expansão textual. por esse motivo. pode-se mesmo prescindir de outros textos-contextos. Não se retomam aqui debates históricos sobre a arbitrariedade e a motivação do signo. se é que existem. Tenciona-se. a coesão textual. Contesta-se o incontestável. de elemento que tem a possibilidade de se tornar sensível. O discurso comumente cristaliza-se e faz-se autoritário. a explicitação do programa do sujeito em detrimento do do anti-sujeito.divisor de tipos discursivos. Não se chegou. mostrar o interesse em se . porém ainda vagas e incertas. Em alguns poucos casos. a regra. na leitura do discurso. A contextualização propicia algumas delimitações. ao texto. Há. apresentado de forma fragmentária. neste trabalho. por conseguinte. a explicação de seus procedimentos contribui para a reconstrução da instância enunciadora. lembrar apenas que a textualização é também tarefa do sujeito da enunciação e que. devido aos recortes impostos à intertextualidade. nem era a intenção. o papel de tentar refazer a complexidade e as contradições dos conflitos sociais. Quanto ao plano da expressão. na perspectiva da Semiótica. torna-se. encontram-se no texto e não no discurso. A intertextualidade cumpre. TEXTO E PROBLEMAS DE EXPRESSÃO Conforme foi proposto na Introdução. construído no percurso gerativo. examinaram-se as várias etapas de descrição e de explicação do percurso gerativo do sentido. O texto resulta da junção do plano do conteúdo. além daqueles que no seu interior se defrontam. porém. então. muito complicado estabelecer o que nele é idioletal e o que é socioletal. Não é. Pretende-se apenas rever o problema da expressão. em qualquer ordem sensorial e que. 1981). níveis diferentes de abordagem do texto e problemas diversos como a linearização. mas das relações sociais estáveis dos falantes” (BAKHTIN. Esses elementos situam-se em diferentes patamares de análise lingüística do texto. As marcas mais propriamente individuais de produção textual. a partir da qual são geradas as estruturas lingüísticas de superfície. 1972. é bem conhecido seu papel saussuriano de [página 152] suporte do significado. chamado a se jungir ao do conteúdo. Se o texto parece marcar certas preferências e vícios “subjetivo-psicológicos”. com o plano da expressão e pode ser considerado a instância profunda lingüística. opõem-se verdades.

no texto de Drummond. nunca. Pode-se dizer que . em que as rela. que assumem relações de caráter semi-simbólico58 com o plano do conteúdo. e aprende-se. Em outros termos. p. em. Há uma linha de leitura da expressão obtida pela reiteração (treze vezes) do traço de nasalidade: muda. os efeitos do permanecer. por exemplo. 73). A repetição nasal. assim. cabe à expressão concretizar sensorialmente as abstrações temáticas do conteúdo. ou seja. mudança. sonoramente. “dança”). conforme foi explicado. Nas organizações semisimbólicas. graças aos traços espaciais de circularidade (“volta”. que a ressonância nasal expressa conservação e “sentem-se”. secundárias. As figuras semânticas do discurso. na. no poema de Drummond. Nega-se o já sabido. uma. uma categoria da expressão que subsume a articulação de contrários correlaciona-se a uma categoria do conteúdo. esperança. A correlação proposta entre a categoria da expressão e a do conteúdo cria o sistema semi-simbólico. Pensa-se especificamente nos textos em que. se tudo em volta é uma dança no trajeto da esperança junto ao que nunca se alcança? (ANDRADE. As organizações secundárias correspondem. como elas. manutenção/conservação. concretiza sonoramente o tema abstrato da mudança. esse percurso temático realiza-se também no discurso. nasalidade. essencialmente. Sem dúvida. à categoria abstrata de conteúdo articulada em mudança/transformação vs. 1984. dança. Extrapola-se o nome e fala-se em figuras da expressão. Tomem-se como exemplo os versos de Drummond em ‘Mudança’: O que muda na mudança. Essa categoria relaciona-se. instaurando. mesmo no movimento da mudança. junto. o plano da expressão compõe também organizações secundárias da expressão. o já conhecido.[página 153] ções entre os dois planos não são convencionais.explicarem as organizações da expressão na tarefa de construção do sentido. em geral traços ou conjuntos de traços. investido pelas figuras visuais de conteúdo. que se manifestam sob a forma de unidades reiteradas da expressão. alcança. um novo saber sobre o mundo. às configurações e percursos figurativos do conteúdo. além de cumprir o encargo acima apontado de expressar o conteúdo. criar a ilusão de realidade. de seguir adiante (“trajeto”). no. O traço de ressonância nasal opõe-se à oralidade na constituição da categoria oralidade vs. investem e “concretizam” percursos temáticos abstratos. ressonante. em oposição aos de reta. no sentido atribuído à relação comumente vigente entre expressão e conteúdo. no plano da expressão. qual seja o da conservação dentro da transformação. do ficar igual. procuram.

chamando a atenção para o texto e não para o refe. de forma original. As três isotopias figurativas de ‘O mar e o canavial’. Os efeitos de sentido de realidade resultam. estudos de Semiótica do visual que fundamentaram as considerações feitas sobre os sistemas semi-simbólicos secundários da expressão59. As aliterações. “cordel”. portanto. as relações entre elas. A organização secundária da expressão não se restringe. Só por meio das relações metafóricas e metonímicas instaladas entre duas ou mais linhas isotópicas obtêm-se efeitos de novo saber sobre as coisas e. assim. de Meio Neto (1975. no quadrinho. e de mostrar uma outra verdade das coisas. sobretudo. no desenho. em todos os textos enfim que buscam produzir os efeitos descritos. Consideradas sistemas semisimbólicos. de diferentes procedimentos discursivos e textuais de investimento figurativo de conteúdos abstratos. Na semântica do discurso. de J. os anagramas não podem ser pensados apenas como recursos de expressão que reforçam ou enfatizam certos conteúdos ou que criam efeitos de literariedade. não se limita tampouco a criar efeitos de realidade. na verdade. devem-se rever as figuras de expressão e aproximá-las das figuras de conteúdo. primeiro encargo do plano dos significantes. efeitos apenas de reconhecimento do mundo tal qual o lê o senso comum. lido e sabido. Com base nessas observações. os efeitos de verdade decorrentes da cobertura figurativa são. a partir de novas perspectivas. Nesse caso. antes de tudo. fazem conceber poesia. ou seja.também as figuras da expressão concorrem para a referencialização textual. 9) — a do mar. na escultura. descobrem-se no texto as imagens do mundo. pelos motivos já mencionados. porém. . Ambas são figuras do texto. como a contradição entre a veemência e a mesmice do mar e entre o desmedido e o comedido do canavial. e assumem o papel de estabelecer um outro ponto de vista sobre o mundo. em geral. como foi apontado. etc. e não de palavras ou de frases. As figuras de expressão combinam-se e confundem-se com as metáforas e as metonímias discursivas na tarefa de produzirem uma nova leitura do mundo. “elocução”. Os sistemas semi-simbólicos. as rimas. C. mas cumpre. como os procedimentos semânticos de figurativização. podem ser denominados poéticos e ocorrem predominantemente nos textos literários e também na pintura. “narrada”. em lugar de reconhecer imagens já vistas. categorias de conteúdo e.[página 154] rente. p. pode-se falar de originalidade ou de criatividade.) — e. ao contrário do que ocorre na figurativização da expressão. a expressar conteúdos. as organizações da expressão recobrem. a partir dessa relação. o papel essencial de fabricar o mundo. repensam ou refazem a realidade. a do canavial e a da criação poética (“verso”. Foram. aprendese a ler o mundo de outro modo.

manipulado. no discurso publicitário. pois se acredita ter mostrado que essa concepção de enunciação fundamenta todo o trabalho. de forma fragmentária e sem recorrer aos procedimentos lingüísticos de citação. como as classes. nesse caso. Retoma-se aqui. as categorias sociais BIBLIOGRAFIA são estabelecidas principalmente em relação ao nível político e ao ideológico como. que lhe julgaria o fazer. nem a sanção final. Não se insistiu mais no fato de que a enunciação está sempre pressuposta no discurso. ‘Problemas de enunciação’ (1987). em Paris. por exemplo. Anotações decurso ministrado na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais. norma social e norma individual. o narrador.NOTAS 47 “Veja-se sobretudo o ensaio de Lopes (1978). se torna sujeito capacitado para o fazer ou sujeito que crê. nosso ensaio de 1983. nunca nele explicitada. em que propõe três interpretantes do discurso: do código (leitura paradigmática taxionômica). muitas vezes. com as propagandas em que o sujeito que comprou o produto anunciado e recompensado com uma bela mulher ou com muito dinheiro. no dizer de Poulantzas. nem o percurso completo do sujeito. a burocracia de Estado. Empregam-se norma. o aparecimento discurso do percurso da sanção. têm força social. Em geral o esquema narrativo da enunciação interrompe-se no momento em que o destinatário. com sua leitura historicista de classe e da consciência de classe. como acontece. Lukács. [página 155] As frações de classe. pertenceria à tendência “sobrepolitizante”. Se essa e a situação mais freqüente. as camadas sociais indicam efeitos secundários da combinação dos modos de produção numa for maçã social (POULANTZAS. no sentido que lhes atribui Coseriu (1979. porem. por exemplo. do contexto (leitura sintagmática) e ideológico (leitura intertextual). não ocorrendo. no ano escolar de 1976-1977. 13-85). investido pelo mesmo ator enunciador ou por seu delegado no discurso. Isso acontece. p. 48 49 50 51 52 53 54 . nada impede. então. 1971). O destinador-julgador é.

de 1986. Veja-se. p. É suficiente reconhecer que as formações ideológicas. Não se trata de estabelecer uma determinação direta do nível econômico sobre o discurso. trata da organização poética da expressão. a respeito. [página 156] . Também a dissertação de Tatit (1982). 1981). 130-63). vejam-se Bruni (1980) e Fiorin (1983. determinadas de forma complexa e indireta pela base econômica. determinam. nem cabe aqui discutir as mediações e as relações entre o econômico e o ideológico. Fiorin (1983). sobre a canção popular. por sua vez. Vejam-se os trabalhos de Bakhtin sobre a condição dialógica ou carnavalesco de certos discursos. Thürlemann (1982) e o nosso. os discursos.55 56 57 58 59 Para a questão do “saber dos dominados”. veja-se Hjelmslev (1968) Vejam-se os trabalhos de Floch (1978. sobretudo suas análises de Dostoievski (1970) e de Rabelais (1974) Para a distinção entre linguagens e sistemas simbólicos.

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56 Apropriação 33-4 Aquisição (programa de) 32-4 transitiva (ou doação) 33-4 reflexiva (ou apropriação) 33-4 Argumentação 98. 106-12 . 135 interna 5-6.ÍNDICE ANALÍTICO A Abstrato (vs. 42 destinatário 36-40. figurativo) 113-24 Ação (vs. 42 Actorial (ancoragem) 119 Actorialização 80-1 Aflição (paixão de) 64-5 Ambigüidade 130 discursiva 130 narrativa 130 Análise externa 5-6. imanência) 14-5. 135 Ancoragem 119 actorial 119 espacial 119 temporal 119 Aparência (vs. manipulação) 37 Actancial (embreagem) 77 (desembreagem) 74-7 (papel) 35-6 Actante 29-31 destinador 36-40. 14. 42 narrativo 80-1. 14. 86 funcional 35-6. 86 objeto 29-31. 42 discursivo 80-1. 42 sintático 35-6 sujeito 29-31.

131 (estrutura) 106-12. 45-6 B Base (programa de) 33 Base classemática 114 Benevolência (paixão de) 66-7 C Categoria da comunicação ou da factividade 42 da pessoa 74-5 da tensividade 25-7 da transitividade 29. 52-3 Auditório 107-9 particular 108-9 universal 108-9 Axiologia 45-6.Argumentativo(a) (discurso) 111-2. 49 Axiologização 24-5. 42 descritiva 25 fórica 26-7 semântica 24 . 131-2 Aspecto 91 contínuo 91 descontínuo 91 durativo 91 incoativo 91 pontual 91 terminativo 91 Aspectualização 91 Ato de linguagem 97-8 ilocucional 97. 104-6 performativo 97 Ator 80-1. 116-7 Atualização 27-8. 104-6 locucional 97 perlocucional 97. 43. 30.

124 Coerência 131-2 semântica 124-31 textual 131-2 Coesão textual 131-2 Cognitivo(a) (dimensão) 41 (lazer ou performance) 56-8 (sanção) 39-41 Competência 34-7 modal 37 semântica 37 Complementar (termo) 21-2 Complementaridade 21-2 Complexo(a) (isotopia) 130 (termo) 22 Componente lingüístico 97.tímica 24-7 Classema 113-4 Classemático(a) (base) 1 14 (isotopia) 114. 139 Contexto 117-9. 139 de simulacros 64 de sujeitos 35. 140-5 de recepção 140-5 Conector de isotopia 126-8 Confiança (paixão de) 64-5 Configuração 119-23 discursiva 119-23 figurativa 119-23 passional ou patêmica 61 temática 116 Conjunção 30 Construção de objetos 35. 102 retórico 97. 136-9 Condições de produção 3. 102 Comunicação 42. 142-6 externo 145 interno 144 .

117-8 fiduciário 37 Convencer (vs.situacional 144 Continuidade 91 Contradição 21-2 Contraditório (termo) 21-2 Contrariedade 21-2 Contrário (termo) 21-2 Contrato de veridicção 93-5. persuadir) 109 Conversacional (máxima) 98. 50 (valor) 46-7 Desembreagem 74-7 actancial 74-7 enunciativa 74-5 enunciva 74-5 espacial 88-92 interna ou de 2º grau 75-6 temporal 88-92 Desencadeador de isotopia 126. 42 Dever — fazer 51-3 — ser 58-9 Dimensão abstrata 113-4 . 102-3 (pragmática) 98 Conversão 27-8. 128 Destinador 36-40. 42 — julgador 39-40 — manipulador 36-9 (percurso do) 36-40 Destinatário 36-40. 45-9 D Decepção (paixão de) 64-5 Descontinuidade 91 Descritivo(a) (categoria) 25 (enunciado) 32.

137-9 . 117-9 sentido 76-7. 72-3 argumentativo 111-2. 123-4.cognitiva 41 figurativa 113-4 pragmática 41 Discursivo(a) (ambigüidade) 130 (configuração) 119-23 (estrutura) 15-6 (semântica) 15-6. 94. 73-112 Discurso 2-4. 117-9 Elementar (enunciado) 29-31 (estrutura) 20-3 (sintagma) 31-5 Embreagem actancial 77 espacial 89 temporal 89 Endotáxica (modalidade) 52-3 Enunciação 3-6. 84-5. 131 (figuras do) 1 29 (leis do) 97. 72-132 (sintaxe) 15-6. 117-9. 82. 113-32 (semiótica) 15-6. 81-5. 81-5. 118-9 referente ou realidade 76-7. 138 verdade 56. 118-9 — enunciada 74-5 pressuposta 74-5. 102-3 narrativo 111-2. 76-7. 136-44 (efeitos de) 76-7. 72-7. 131 temático 115-6 Disforia 24-6 Disjunção 30 Doação 33-4 Duratividade 91 E Efeito de enunciação 76-7.

frase 102 Enunciador 75. 136-9 Enunciatário 75.(projeções da) 73-7 (sujeito da) 136. Hl 2 discursiva 15-6 elementar 20-3 fundamental 15-6 narrativa 15-6 patêmica ou passional 61 textual 15-20 Estrutural (semântica) 113-4 . 136-9 Enunciativo (desembreagem. 92-5. embreagem) 74-7 Espacial (ancoragem) 119 (localização) 88-9 (programação) 88-9 Espacialização 88-92 Espaço 88-92 heterotópico 92 objetivo 88 paratópico 92 subjetivo 88 tópico 92 utópico 92 Espera (paixão de) 63-4 fiduciária 63-4 relaxada 64 simples 63 tensa 64 Esperança (paixão de) 64-5 Espoliação 33-4 Esquema narrativo canônico 41-3 Estratégia narrativa 43 4 Estrutura argumentativa 106-12. 92-5. 139-42 Enunciado descritivo 32 de estado 29-30 de fazer 29-30 elementar 29-31 modal 32 vs. 103. embreagem) 74-7 Enuncivo (desembreagem.

135 (contexto) 145 Exteroceptividade 113-4 F Factitividade 42. 62 veridictória 59 Exotáxica (modalidade) 52-3 Expressão (figuras da) 153-5 (organização secundária da) 153-5 (plano da) 152-5 Externo(a) (análise) 5-6. 93-5 Falta 65-6 (liquidação da) 65-6 Fazer cognitivo 56-8 (enunciado de) 29-30 interpretativo 39-41. 62 semiótica 30. 56-9 persuasivo 38. 56 pragmático 41 (modalidade do) 49-55 Fiduciário(a) (contrato) 37 (espera) 63-4 Figura 115-24. 50-1 Falsidade 55-6. 129 da expressão 153-5 do discurso 129 nuclear 114 Figuração 117 Figurativização 115-24 Figurativo(a) (discurso) 116-9 (dimensão) 113-5 .Euforia 24-6 Existência modal 59-62 semântica 46. 46.

enunciado) 102 Função 29 conjunção 30 disjunção 30 junção 29-30 transformação 29-30 Funcional (actante) 35-6. 148-52 . 20-8 (semântica) 24-7 (sintaxe) 20-4 G Gerativo (percurso) 15-20 Gramática discursiva 15-6 fundamental 15-6. 42 Fundamental (estrutura) 15-6 (gramática) 15-6. 20-8 narrativa 15-6 semiótica 15-6 H Heterotópico (espaço) 92 I Iconização 117 Ideologia 49.(isotopia) 124-5 (núcleo) 120-1 (percurso) 119-23 (variação) 120-1 Foco narrativo 78-88 Foria26-7 Fórica (categoria) 26-7 Frase (vs.

124 complexa 130 (conector de) 126-8 (desencadeador de) 126-8 figurativa 124-5 pluriisotopia 129 temática 118-9. 104-6 (pragmática) 97-8 Imanência (vs. 99-104 Incoatividade 92 Insatisfação (paixão de) 64-5 Insegurança (paixão de) 64-5 Intencionalidade 27. 125 J Junção 29-30 conjunção 30 disjunção 30 L . aparência) 14-5. 56-9 Intertextual (relação) 142 Intertextualidade 128. 142-5 intimidação 38 Isotopia 124-30 classemática 114.Ilocução 97. 44-5 Interlocutário 75-6 Interlocutor 75-6 Interno(a) (análise) 5-6. 104-6 Ilocucional (ato) 97. 135 (contexto) 144 Interoceptividade 113-4 Interpretação 39-41. 56 Implícito 96. 56-9 Interpretativo (fazer) 39-41. 14.

102-3 da qualidade 98 da quantidade 98. 102-3 exaustividade 97. 119 Lingüístico (componente) 97. 102 (nível) 15 Liquidação da falta 65-6 Localização espácio-temporal 88-9 Locução 97 Locucional 97 Locutor 103 M Malevolência (paixão de) 66-7 Manifestação 14-5. 56 Manipulação 36-9 intimidação 38 provocação 38 sedução 38 tentação 38 Manipulador (destinador) 36-9 Máxima conversacional 98. 103 informatividade 97 litotes 97 Lexema 114.Leis do discurso 97. 103 da relação 98 do modo 98 Mentira 55-6 Modal (categoria) 47-9 (competência) 37 (enunciado) 32. 50 (existência) 59. 58-9 endotáxica ou intrínseca 52-3 existencial ou do ser 49. 62 (valor) 46-7 Modalidade 47-60 atualizante 52-3 dever 51-3. 55-60 exotáxica ou extrínseca 52-3 .

58-9 querer 51-3. 131 (esquema) 41-3 (estratégia) 43-4 (estrutura) 15-6 (foco) 78-88 (percurso) 35-41. 58-9 realizante 52-3 saber 51-3. 86 8 Narratário 75-7 Narrativo(a) (ambigüidade) 1 10 (discurso) 111 2. 80 1. 58-9 ser-fazer 51-5 ser-ser 55-8 tensiva 25-7 veridictória 55-8 virtualizante 52-3 Morfolexema 116 Morfológico (ou taxionômico) (sub-componente) 20-2 Motivo 120 N Narrador 75-7.factitiva ou fazer-fazer 50-1 fazer-ser 58-60 intencional ou do fazer 49-55 poder 51-4. 122 (programa) 31-5 (semântica) 45-69 (sintaxe) 28-45 (variação) 120-2 Neutro (termo) 22 Nuclear (figura) 114 Núcleo figurativo 120-1 sêmico 114 .

O Objetividade de discurso 75 de tempo e de espaço 88 Objetivo(a) (discurso) 75 (espaço) 88 (tempo) 88 (valor) 46 Objeto (actante) 29-31. 42 (construção de) 35. 45 Observador 86-8. 22 P Paixão 60-9 aflição 64-5 benevolência 66-7 complexa 62-9 confiança 64-5 decepção 64-5 de ausência 66 de benquerença 67 de falta 66 de malquerença 67 espera 63-4 esperança 64-5 insatisfação 64-5 insegurança 64-5 malevolência 66-7 revolta 66-7 resignação 65-6 satisfação 64-5 simples ou de objeto 62-3. 68 vingança 66-7 Papel . 91 Operacional (ou sintático) (subcomponente) 20. 139 objeto-valor 31.

125 Performance 34-5 Performativo (verbo) 97 Perlocução 97. 122 temático 116. convencer) 109 Persuasão 38. 104-6 Persuadir (vs. 125 gerativo 15-20 narrativo 35-41. 58-9 Poético (sistema semi-simbólico) 155 Polifonia 103-4 Polissememia 114 Ponto de vista 78-88 Pontual (aspecto) 91 Pontualidade 91 Posto 100 Pragmática 95-9 conversacional 98 ilocucional 97-8 Pragmático(a) (dimensão) 41 (fato) 95-106 (fazer) 41 (sanção) 39-41 Pressuposição 99-104 Pressuposto 99-104 (emprego retórico) 101 Privação (programa de) 32. 104-6 Perlocucional (ato) 97.actancial 35-6 temático 116 Paratópico (espaço) 92 Passional ou patêmica (configuração) 61 Percurso do destinador-manipulador 36-9 do destinador-julgador 39-40 do sujeito 36 figurativo 119-23. 119-23. 56 Persuasivo (fazer) 38-56 Pessoa (categoria da) 74-5 Pluriisotopia 129-30 Poder 51-4.-4 reflexiva (ou renúncia) 33-4 .

transitiva (ou espoliação) 33-4 Produção 136. 143 Programa narrativo 31-5 de apropriação 33-4 de aquisição transitiva e reflexiva 32-4 de base 33 de competência 34-7 de construção de objeto 35. 81-5. 52-3 Recepção (condições de) 140-5 Receptor-interpretante 140-3 Reconhecimento 39-41. 139 (condições de) 140-5 Produtor 139-41. 112. 1 17-9 Relação transitiva 29 Relaxamento 25-6 Renúncia 33-4 . 81-5. 58. 139 de construção de sujeito 35. 118 Referente (efeito de) 76-7. 1 17-9 Realização 30. 58-9 R Realidade (efeito de) 76-7. 139 de doação 33-4 de espoliação 33-4 de performance 34-5 de privação transitiva e reflexiva 32-4 de renúncia 33-4 de uso 33 Programação espácio-temporal 88-9 Programação textual 89-91 Provocação 38 Q Quadrado semiótico 21-3 Querer 51-3.

Retórico (componente) 97. 62 (quadrado) 21-3 * (semântica) 15-6 (sintaxe) 15-6 Semi-simbólico (sistema) 153-5 Sentido (efeito de) 76-7. 138 . 58-9 Sanção 39-41 cognitiva 39-41 pragmática 39-41 Satisfação (paixão de) 64-5 Sedução 38 Segredo 55-6 Sema 113-4 Semântica da enunciação 96-7 discursiva 113-32 estrutural 113-4 fundamental 24-7 intencional 96-7 narrativa 45-69 semiótica '5-6 Semântico(a) (categoria) 24 (coerência) 124-30. 81-5. 117 narrativa 28-69 Semiótico(a) (existência) 30. 62 Semema 114. 119 Sêmico (núcleo) 114 Semiótica características gerais 13-4 da língua natural 113. 117 discursiva 72-132 do mundo natural 113. 117-9. 131 (competência) 37 (existência) 46. 102 Retribuição 39-41 Revolta (paixão de) 66-7 S Saber 51-3.

22 Sintaxe discursiva 73-112 fundamental 20-4 narrativa 28-45 semiótica 15-6 Situacional (contexto) 144 Subcomponente morfológico ou taxionômico 20 sintático ou operacional 20. 124-5 Temático(a) discurso 115-6 isotopia 118-9. 125 papel 116 . sentido) 97. 102 Simulacro (construção de) 64 Sintagma elementar 31-5 Sintático (ou operacional) (subcomponente) 20.(vs. 55-60 Significação (vs. 22 Subentendido 101-5 Subjetividade de discurso 75 de tempo e de espaço 88 na língua 4 Subjetivo (discurso) 75 (espaço) 88 (tempo) 88 (valor) 46 Sujeito (actante) 29-31. 139-42 do querer 35-6 do saber 35-6 (percurso do) 36 realizador 35-6 T Taxionômico (ou morfológico) (subcomponente) 20 Tema 115-6. 42 competente 35-6 da enunciação 136. significação) 97. 102-3 Ser (modalidade do) 49.

percurso 119-23 variação 120-1 Tematização 115-6 Tempo 88-92 Temporal (ancoragem) 119 (aspectualização) 91 (localização). 152 Timia 24-7 Tímica (categoria) 24-7 Tópico (espaço) 92 Transformação 29-30 Transitividade 29-42 Transitivo(a) (aquisição) 33-4 (privação) 33-4 (relação) 29-42 . 152 (coerência) 131-2 (coesão) 131-2 (nível) 112 (programação) 89-91 Textualização 89-91. 88-9 (programação) 89 Temporalização 88-92 aspectualização 91 localização 88-9 programação 89 Tensão 25-6 Tensividade (categoria da) 25-7 Tensivo(a) (modalidade) 25-7 Tentação 38 Terminatividade 91 Terminativo (aspecto) 91 Termo complexo 22 complementar 21-2 contraditório 21-3 contrário 21-3 neutro 22 Textual (estrutura) 112.

93-5 Veridictória (modalidade) 55-8 Vingança (paixão de) 66-7 Virtualização 27-8. 117 Verdadeiro (discurso) 94 Veridicção 93-5 (contrato de) 93-5. 93-5 (efeitos de) 76-7. 93-5 imanência 56 manifestação 56 mentira 55-6 segredo 55-6 verdade 55-6. 117-8 falsidade 55-6.U Uso (programa de) 33 Utópico (espaço) 92 V Valor 45-7 descritivo 46-7 modal 46-7 objetivo 46 subjetivo 46 Variação figurativa 120-1 narrativa 120-1 temática 120-1 Verdade 55-6. 30. 94. 43. 52-3 . 82.

3 x 18 cm Formato 14x21 cm Papel miolo: off-set 75 g/m2 capa: cartão Supremo 240 g/m2 Impressão da capa Prata e vermelho vinho Impressão e acabamento GRÁFICA FFLCH Número de páginas 174 Tiragem 2.000 .Ficha técnica Divulgação LIVRARIA Humanitas-Discurso Mancha 10.

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