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Caminho Para a Violência

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Descrição sobre a evolução da descrição da violência na imprensa
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O CAMINHO PARA A VIOLÊNICA Acompanhamento do estímulo progressivo ao “Desejo de Matar” no jornal Folha de São Paulo através de alguns de seus

formadores de opinião. “Será que quando as leis forem proibidas, só os fora-da-lei terão leis?” Willian Gibons Quero propor uma tese estranha: em pouco tempo decidimos expulsar o outro do convívio, o outro que se torna um inimigo imaginário, mas que resulta num morto físico, porém ignorado à consciência. Odiá-lo é um truísmo e moeda corrente com que se autoafirmam os “reacionários, homens convictos que são minoria. O problema é que para proteger o outro, enquanto outro da invisibilidade e da morte, da ameaça de privação da vida, único bem que ele já possuía, cria-se uma envoltura civilista que mesmo assim o exclui. Junto com a exclusão do outro se lhe exclui a fala e assume-se o seu cuidado e sua exposição, só que esta exposição o apresenta como alguém enquadrado, não mais um potencial perigo que representava lá onde estava, longe do olhar e do controle direto. Pensando sobre este processo, me pergunto se seria a mídia corporativa a provocadora de algo que se soma às opiniões reputadas (de especialistas que extrapolam suas especialidades para a conjecturação política que empresta seu renome), não somente para induzir um caminho (que poucos seguem ou desejam), mas para gerar um campo onde sejam enquadrados os defensores destes pobres em sua atitude de resistência e oferecendo suas próprias ideias como um tipo de “solução” contra o mal que ele mesmo apresenta. Com isso o formador de opinião evita a crítica de seus pressupostos e gera uma outra contradição que não aquela que permitia emergir o problema que ela divulga e provoca a resposta ao obrigar pelo caráter de urgência ao posicionamento, ao engajamento e à predisposição? A pergunta que resta é: será o resultado, isto é, a mobilização o que se deseja? E que mobilização será esta, para onde, que campos estão em disputa? Será o engajar dentro desse campo selecionado e direcionado meramente o controle do campo social que se inicia pelo ideológico? Prelúdio Um curto período de tempo, quase uma piscadela de olhos, distancia estes textos que serão expostos em que, ao longo deste período, mudamos nossa percepção do tema “violência”, a ponto de nos tornarmos quase irreconhecíveis. Desfiguração talvez seja a melhor palavra... O que aconteceu durante este curto período de tempo? Ousaria dizer que um discurso passou a circular que conseguiu quase uma subversão ao permitir a passagem da pena ao ódio, do silêncio à enunciação, da ausência à presença incômoda. E quando este incômodo se torna tolerável e passa a ser desejado, como o medo para o espectador de um filme de terror. Houve um tipo de discurso, muito simples que manteve determinado tom e timbre. Mimético de um outro anterior que tinha um misto de assombro e empatia com as novas formas violentas de representação do mundo, alegadamente real, mas inegavelmente verossímil que se fez valer sem muita resistência pondo uma certa visão sobre o tráfico sob o olhar atento. Um tráfico que não era composto de um circuito internacional, que não era centrado no consumo pela elite mal adaptada ao mal que ela mesma causa, nem que era fonte de lucros de determinados grupos da sociedade, era um tráfico simplista, baseado no morro onde o problema se delimita, um tráfico que não lava e que trabalha só pelo mal intrínseco em cada um de seus participantes.

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Esta visão de tráfico permitiu distanciá-lo de suas causas e determiná-lo geograficamente, territorialmente, numa zona limite onde o mal se circunscreve. “Cidade de Deus” é um marco, e este livro, muito interessante, teve uma representação no cinema distorcida, de tal modo que permitia não o choque com o absurdo emudecido, mas a empatia com o personagem, na velocidade do vídeo-clip e da publicidade e, se a imagem violenta chocava, nos imiscuindo entre os estímulos, estes se mostravam como exposição do real (como um voyerismo de um real ignorado que deveria ser daquele modo), posteriormente mimetizada por todas as outras mídias e que frente a ela nos posicionávamos de modo compadecido, ao lado do personagem e desejando que ele pulasse lá daquela anomia para cá, neste nosso mundo, dividido daquele e incomparavelmente mais calmo das novelas que orientam nossa percepção referenciada na experiência imagética da vida carioca. Coisa muito interessante é ele ter virado jornalista e lá ser abrigado, o personagem inexistente do livro. Trazer mais jovens de lá para cá seria um grande mote louvável e orientaria novas ONGs e anseios sinceros de paz abstrata que, posteriormente orientariam também sua crítica como alienante, abstrata e leviana, decompor esta sociabilidade de modo crítico se tornou a missão de muitos que apostaram na decomposição da falsa moral burguesa, mesmo que dentro dos salões e das academias onde circulavam os mensageiros compadecidos desta sensibilidade “falsa”. Sérgio Bianchi e outros tornaram o desvelamento da falsa consciência de compadecimento como mais um produto da vida burguesa encastelada em seu pequeno circuito de “realidade” igualmente abstrata, verdadeira ideologia. Dar voz a quem não tem voz, sem que os mesmos possam falar Mas o medo1, como aquele medo que eternamente ronda o Rio2 não teve o mesmo impacto, gerando duas reações: de um lado, a elite passa a procurar saber da “ameaça do morro”, de outro, reativaram-se forças que praticamente até então agiam à sombra, desprezados pela esquerda e pelo pacto conservador de então, ainda que divididos em “esquerda” e “direita”, humanamente se uniam contra os resquícios autoritários dando voz aos oprimidos do morro, alguns destes, os “oprimidos” escolhidos, que se comportavam como pobres oprimidos “deveriam se comportar” para com tais grupos. Até que alguns diziam como viviam e que o que era dito não refletia o que diziam e de lá uma especialista humana, mas de “direita”, tomava notas, voltava aos seus e expressava-lhes os reclames daqueles cuja voz era negada, servindo ela mesma de mediação. De um modo paralelo, algo parecido aconteceu em São Paulo, quando acadêmicos lidavam com a ascensão de populares à política que enfim constituíram um partido e que se ligavam a vários núcleos da igreja em todo país. As Cebs e organismos derivados mostravam um novo tipo de sujeito político que até então não era o mesmo que se esperava pela esquerda. Entender aqueles novos espaços, especialmente quando iam além da igreja, se tornava um desafio que levou a combater até as antigas referências políticas, familiarmente marxistas, que formavam um consenso da opinião pública pela esquerda3, plástica esquerda, é verdade, cujas identificações marcavam um sentido igualmente plástico na identificação entre política e cultura.

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“ O medo é um instrumento fundamental de controle social de manutenção das hierarquias sociais no Brasil. Você vê historicamente que, sempre que há uma movimentação do povo brasileiro no sentido de querer ser protagonista, vem o medo do caos, da baderna, do arrastão, as fantasmagorias da história brasileira.” http://www.uff.br/proex/medo.htm 2 Segundo Vera Malaguti em “Medo na Cidade do Rio de Janeiro: Dois Tempos de uma História” da ed. Revan, desde o tempo dos Malês, que gerando o medo do “morro descer”, fez mostrar o que toda r evolução perdida dá como herança: a força reorganizada do adversário cuja estrutura incorporaria a marca do vencido, aumentando-lhe a força, como o velho costume guerreiro de se comer a carne do vencido. 3 SCHWARZ, R. 1978. Cultura e política no Brasil: 1964/1969. In: O pai de família e outros estudos. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

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positivas na época. mas que necessitava rearranjar as categorias. o proletariado. para tais intelectuais progressistas. excetuando o operário do ABC com sua pauta reinvidicatória que se reuniam como grupo coeso. gerando o que posteriormente será chamado tanto de “Constituição da Esperança”. governo Fernando Henrique. vagabundos. seus parceiros da até então elite progressista.planalto. a ausência de algo. tanto no que se refere a gastos com pessoal como bens e serviços. quando levantaram os morros do país em organizações de bairro e. não-trabalhadores. seja nos presídios e no acompanhamento das ações policiais.br/publi_04/COLECAO/PLANDI. geravam sempre reações.gov. “anômicos” ou contra-revolucionários. Já em São Paulo. então como o verdadeiro sujeito que portava o sentido político do progresso ou da revolução 4.Isto acontecia por causa do seguinte problema: como enquadrar o sujeito político sobre o qual então se debruçavam e que de modo cristalino retaliava seguidamente o regime que tanto combateram. a marginalidade. vendo como algo muito pior que a miséria a própria exposição física ao extermínio. deste modo. no Rio de janeiro. Reuniu-se um novo consenso de esquerda. como se tudo reiniciasse e como se a fundação de um Estado que servisse de amparo à este grande fórum estivesse dado como possibilidade na abertura política que incluía estes novos agentes sociais e lideranças que antes lhe eram contra. sequer parecido? O problema se dava porque o que se tinha em mãos era quase tudo o que se negou pela maior parte da esquerda local até. levando a compreender que. 6 “Como resultado do retrocesso burocrático de 1988 houve um encarecimento significativo do custeio da máquina administrativa. classe sem amigos que eram. 4 Exceto para aqueles que acompanharam o novo sindicalismo e que o fizeram estandarte e orientador da nova esquerda. como norma geral que incluía a vida política e social. Este fenômeno levou à necessidade de novas categorias sociais e políticas transformandoos em outra coisa com que considerar as mutações das formas como ações que em si mesmas e no espaço de discernimento mútuo que então se constituía traziam a possibilidade de mudança.HTM 3 . passando à busca de referências. quanto posteriormente de “regresso burocrático”6(frase que mataria novamente Ulisses Guimarães) pois estancava o que se fixava como projeto social conjuntamente à uma defesa da possibilidade da sua realização política através da forma jurídica de um Estado reformado por um novo acordo político. e um enorme aumento da ineficiência dos serviços públicos” Plano diretor da reforma do aparelho do Estado. a não inclusão. segundo Alba Zaluar. Uma nova pauta social e política surgia dando origem conjuntamente aos trabalhadores mobilizados a um partido já de cara diferente das origens marxistas de muitos de seus elementos fundadores. caso se visse neles sequer uma classe. na Cidade de Deus (que até então não era considerada a Capital nacional da anomia). como fruto político do grande ciclos de greves do ABC paulista que arregimentou e deu liga à grande rede de solidariedade que se formou a partir de diversos núcleos de solidariedade pelo país. dados e visibilidade ao que estava escondido nos presídios parecendo estender a solidariedade àqueles que eram profundamente negados inclusive pela tradição socialista de onde vinham5. In: http://www. assim como até pouco tempo atrás era possível encontrar ou a idéia de que eles deveriam ser evitados ou então que seriam a mera reprodução dos lugares comuns propalados sobre os bandidos. Mas quando organizados. “civilizando” o que não era incluído na cidade. Para os muitos intelectuais do período cabia mudar a perspectiva de que os chamados “Lúmpens” eram o perigo do proletário potencialmente revolucionário e. os bandidos e os trabalhadores não se diferenciavam como alegava Foucault e que. mas que teve ao lado com igual força aquele que até então era o “lúmpen”. 5 Pode-se imaginar no contexto da solidariedade que inicialmente se debruçava sobre o preso político e posteriormente atingia a todos os presos. sem nenhum resultado. se abrigavam tensões que obrigavam certo realismo ao tentar explicar o banditismo no contexto da divisão em classes no Brasil. guiou uma ampla frente de estudos que trouxeram à baila fenômenos como a ausência de lei. bandidos e trabalhadores não se excluíam ao comparar esta representação com a reconstituição sociológica de seus casos. o camponês que não gostava da corrente maoísta e o humilde religioso.

é o mesmo que política) e outros. garantiu-se a permanência da Polícia Militar como forma jurídica da exceção que tem um direito separado da população como se estivesse separado dela numa guerra ou numa pequena jurisdição de exceção ao se preservar. num desejo de enunciação do que parecia escondido ou de algum modo ignorado de que o que sustenta a divisão da sociedade. 4 . muito vivo e presente. não se deslumbraram com o presente e tomaram por engodo o armistício militar que outros ignoraram.Simultaneamente. é sangue. quase unânime. num abandono ao projeto terceiro-mundista de desenvolvimento. a defesa do trabalhador deu lugar também à do Estado enquanto salvaguarda de direitos. potencialmente em planejamento. a revelação da verdade e a promessa de emancipação evocando o mote “socialismo ou barbárie” em nova chave já que barbárie passava a assemelhar-se com o novo cenário montado. posteriormente. que segundo uma prática uspiana. Neste período parte do núcleo paulista de direitos humanos passa para a questão da Segurança Pública que ainda sofrerá reacomodações. à esquerda. mesmo neste novo pacto que reconhecia a desigualdade social7 e. O Estado. logo em força que está sob a lei civil e não militar e que se julgaria a si mesma ao mesmo tempo em que inicia a contenção do excesso popular. sumindo os aspectos de sua crítica. Certa parte da academia passou a enunciar o ignorado. No meio disso. demandando fustigar a antiga ordem. A estética da crueldade como atitude política Um incômodo que sempre ficou ignorado permaneceu reverberando e expondo a crueldade que vigorava. reconfigurou-se à direita e à esquerda novos motes políticos. passa a ser um lastro desmontável que permitiria pensar em sua redução ao clássico núcleo Segurança e Economia (Banco Nacional que salva os bancos quando quebram. alguns até se reconfiguraram metodologicamente transformando as mortes dos oprimidos em dados (e destes. mas estaria garantido o controle do arbítrio institucional? Tais pesquisadores continuaram prestando atenção na violência com outra chave. houve também uma nova divisão. portanto a necessidade de compensá-la e. ao assumir projetos de segurança visando reduzir a violência incluindo-a na lei. sob o manto negro da Rota. ao menos em parte o fato da sociedade se dividir em classes. Deste modo se afastou em parte a participação e a democracia direta em prol da garantia institucional. ainda confiante de que haveria a possibilidade de mudar a polícia militar em civil. inclusive na condenação aos livros de história que concordam na exploração dos patrões aos empregados. ameaçando embaralhar as camadas. sentindo o fantasma das repressões passadas. que empresta a longo prazo para grandes empresas com o que era o Fundo de previdência dos trabalhadores e serve de imprensa de papel-moeda). disputá-lo para tomá-lo e criticá-lo para mantê-lo naquilo que era considerado o mínimo direito pragmaticamente possível de então. 8 Notaria também que neste período começaram os estudos sobre linchamento entre eles. que de parceira da tortura e da barbárie passa ao controle da violência que então ameaçava surgir caso se baixasse a guarda do controle que só o Estado de Sítio parecia garantir. e a imprensa passou a mudar de cadernos certas ocorrências. o que preservou aquela tensão e estimulou certa direção do debate desviando o assunto. Pode-se interpretar por algum tipo de engajamento da parte do setor de mídia que impedia de imaginar que se habitava noutra parte da cidade. mas que continuava matando pobres e seguiram reclamando. agora desarmados. não mais considerado tão admirável já que a democracia e a representação popular legítima haviam chegado8. surgem os direitos da pessoa humana e justifica-se após uma longa campanha de perseguição e justificação da polícia. Mas seria mesmo? 7 Que hoje é negada pela “Revista da Semana” do grupo Abril. neste momento.

a crítica do excesso do Estado (no exercício da ação violenta). ao seu lado. inquestionável e sem história que não uma origem que o justifique de modo quase mitológico ou obscuro. até o momento limite em que modificar a máquina capaz de realizar massacres tornou-se aceitá-la. Este domínio da lei não tem. O planejamento estrito das ações policiais evitando uma medida de violência. mas apenas enunciados. Acompanhando a violentopolitopolemologia da segurança. para uma certa esquerda. Em poucas palavras. o outro. senão em relação a uma referência externa não normativa. de um lado está a anomia e do outro o nomos. aquilo que passou a ser entendido como “desde já” uma materialização de direitos sociais que materialmente não se encontram realizados. mas. que ilustra e referencia o processo ideal de realização da ação (pois só ele deve portar a lei principal ao portar o monopólio da violência em si mesmo). juntos. imaginar a possibilidade de disputar interesses públicos no Estado ao invés de limitar a dominação de uma classe através dele. estranhamente desejava uma ordem impossível na liberdade. que fisicamente é aquele que sobrou da nova configuração do sistema e não se comporta 5 . Esta forma de enunciação política distancia-se da solidariedade da disputa pontual de direitos amenizando o sofrimento daqueles. haviam se colocado conjuntamente pela “desrepressão dos cidadãos pelo Estado”. antes chamado lúmpen e proletário. passou da crítica à falta da norma. dentro do possível. para aqueles outros que investiram academicamente e politicamente na Segurança. do lado do nomos não há falta. onde a lei não existe. sendo a anomia utilizada para designar o outro que não o agente da lei. apontando o seu executor e não o seu limite de ação. sem mais (haplos). amparados sob o novo paradigma da segurança. e quando o era. lei e norma. oficiosa e civilizada que deveria se exercer pela máquina do estado passou a ser uma idéia desejável por especialistas. como o incivilizado. pois a informação era o que menos era evocado. no Estado. na prática. numa nova sintonia com o mundo pastoral (que sempre tem estendido sua solidariedade a este local. que executa de modo cruel seus inimigos e que habita as favelas e presídios onde o nomos não chega. especialmente no contexto das organizações sociais) que ordena a violência e planifica a segurança. através da Pastoral Carcerária).Pode-se dizer que se há verdade na violência. aquele que lincha. mesmo que tal idéia tenha sido tantas vezes questionada e criticada como de impossível funcionamento real por estes mesmos especialistas quando no contexto da abertura política. que na era de inimpregabilidade e do emprego desregrado são denominados apenas pobres. um novo estatuto foi erigido para o significado dos direitos humanos. notamos que sua formulação é elaborada com base numa mistura de Hobbes e Nobert Elias de modo velado e formalmente por Weber e Durkheim que. Este raciocínio leva à aceitação integral de toda a plasticidade da lei em sua ausência de limites. assim como. como explicar o limite entre repressão e transgressão no exato ato de quem é a lei em exercício aplicando a ordem sem outro limite que ele mesmo? Resolver este dilema passou pelos dados que informatizaram a violência e permitiram planejar a técnica da lei (que sempre é política como dizem os atentos e nunca neutra. Do mesmo modo. como civilidade. voltaram-se ao cárcere. como uma mais-violência. para além daquela. criam a seguinte monstruosidade. ou com o Estado. ela não passou pelos discursos duvidosos de especialistas ou pela imprensa. plenamente seguro. no contexto de se estar no. dado que a anomia (mesmo que beirando a quase indiferença com o nomos exceto o decisionismo) é ruim absolutamente. Quando estenderam a solidariedade dos presos políticos aos comuns. deste modo a lei é boa em si e por si. excesso mensurável. levou a aceitar. a anomia designa o anômico. inteiro e sem falhas.

expulsando-o do real. tal qual o uso do mito de Robson Crusoé. na solenidade de lançamento do Programa Federal de Racionalização e Adequação da Frota de Ônibus Urbano. por si. calando-o. por um lado. estas devem por um lado ser amenizadas. constata-se a violência. sem levantar a questão financeira. seu efeito. não os efetivos. fisicamente sustenta o nomos que o hostiliza9. onde está o observador. de modo sempre presente. mas os que emergem como imputáveis de modo aceitável. inimpregáveis por razões. este processo. sem se constituir. estas inversões do discurso por si só não bastam. pela falta de qualificação e pelo outro lado pelo desinteresse do setor produtivo mais avançado em empregá-las. Brasília. o ser violento gera a violência como ocorrência da natureza que não implica o sistema de trocas onde se insere ou o sistema social onde habita. DF em 27/11/1997) 6 . como sobra da reestruturação de todo o sistema social que se apóia no produtivo e financeiro. mas algo que não pode permitir olhar outra coisa. que não são os seres que habitam qualquer lugar real. mas notá-lo evidencia que tudo aquilo fora dele. pois a violência posta em cena não basta por si como fato discursivo. Deste modo. a produção e a distribuição do mesmo tornando confortável sua crítica. os marginais construídos midiaticamente. Contatada a violência como violência sem atores ou causas. etc. são dispensáveis". Ora. se isso é assim. ou. pode-se explicar como um sistema complexo de participação como o tráfico de hoje se resume em todos os sentidos somente ao seu local de distribuição e alguns de circulação esporádica como se não se relacionassem. não realiza a “impossível invisibilidade”. Deste modo. O contexto social deste mesmo traficante para onde se aponta fica determinado por outras camadas de interpretação e preconceito. dos sistemas de lavagem. como explicação da origem do capitalismo. a não ser de modo 9 "E nós não podemos ficar indiferentes a essa realidade. uma simples questão como o porquê afinal as drogas são proibidas e porquê se exerce policiamento sobre estados possíveis de alteração da consciência? As ocorrências observadas são então isoladas em duas perspectivas. Olha-se para o inegável. mas não suas causas. como não apenas um efeito. crescentemente. Palácio do Planalto. Pelos quais se busca algum mecanismo que leve a que as pessoas tenham sentido para o processo global de desenvolvimento econômico. mas uma representação simplificada. inimpregáveis. pelo menos. isto é. existem os que são. aquelas que partindo deste contexto se identificam abstratamente com o marginal imageticamente construído ou aqueles que visam negá-lo. para que se contenham. (Discurso do então Presidente da República. coeso e em-si-mesmado que se bastaria na produção de significação auto-referente. Não é que não tenham emprego. Fernando Henrique Cardoso. ainda que observável neste pequeno “corpus” tópico. aumenta-se justamente a esfera onde é mais frágil para evitar atacar o financiamento. ou causa daquilo que observa talvez seja a primeira função que a ideologia deve cumprir. faz-se ver a violência. deve-se isolar seus atores. A Violência que hoje se distribui serve pra vender a segurança Mas. de outro. hoje novas práticas antes incompatíveis com o mundo que o cerca se tornaram possíveis dada a evidência de seus restos que permanecem necessitando ser expulsas da visão. Queremos fazer ver apenas que se o primeiro impulso de ver trouxe uma marca de degradação inseparável de um mundo fechado. ou ainda. tornando todas as ocorrências localizadas. sustenta aquilo. pois que. Fazer com que a constatação da divisão da sociedade seja compatível com uma representação onde o observador não se sinta responsável. Mas existe isso.como esperado. nós nos países em desenvolvimento temos que prestar atenção a esses processos e descobrir modos e meios pelos quais se diminui. no limite. E não é fácil.

deste modo. a polícia intervém em inúmeros casos. em que não existe situação jurídica definida. mas ao mesmo tempo com a autorização de ela própria. Ao contrário do direito que. sem qualquer referência a fins jurídicos. que reúne plenos poderes legislativos e executivos – do que nos regimes democráticos. mas baixar decretos com expectativa de direito – e um poder* mantenedor do direito.htm 7 . não se pode negar que seu espírito é menos arrasador na monarquia absoluta – onde ela representa o poder* do soberano. como é amorfa sua aparição espectral. Na verdade o “direito” da polícia é o ponto em que o estado – ou por impotência ou devido às inter-relações imanentes a qualquer ordem judiciária – não pode mais garantir. dentro de amplos limites. interpretando de modo 10 IN: http://www. clarividente em seu “presságio” se acompanhada de perto pode ser reveladora de nosso processo em seu oscilar de relações de força que interpretam. Portanto. A afirmação de que os fins do poder* policial seriam sempre idênticos aos do direito restante ou pelo menos ligados a eles. E. Não reivindicando nenhum desses dois atributos. resignificam e ordenam a aplicação dos conceitos de lei e ordem em nosso cotidiano. na “decisão” fixada no espaço e no tempo. fazendo diminuir o lastro da aceitabilidade da violência. Por isso. ou hegemonia. testemunha a maior degenerescência imaginável do poder*. podendo.org/textosmarxistas/walterbenjamim001. investir cegamente nas áreas mais vulneráveis e contra cidadãos sensatos. ou instituinte ou mantenedor de direito. não sublimada por nenhuma relação desse tipo. reconhece uma categoria metafísica. no entanto. se é que se pode chamar assim a presente configuração de interesses estranhos. Minha tese é de que a polícia no Brasil atua sem nenhum tipo de regramento externo exceto uma medida da opinião pública que garante a justificação de seu exercício e a intensidade do uso da violência legal. numa mistura por assim dizer espectral. É claro.Mas. tem a ver com a problemática geral do direito. através da ordem jurídica. Do primeiro se exige a legitimação pela vitória. numa relação muito mais contrária à natureza que a pena de morte. do segundo. que deseja atingir a qualquer preço. sem falar dos casos em que a polícia acompanha ou simplesmente controla o cidadão. é falsa. apesar de a polícia amiúde ter o mesmo aspecto em toda a parte. É um poder* instituinte do direito – cuja função característica não é promulgar leis. onde sua existência. mesmo no caso mais favorável.” Esta interessante passagem. pela voz de políticos e pela chamada mídia corporativa que atuam como linhas de força sempre tentando influenciar a opinião pública. a restrição de não se proporem novos fins. seus fins empíricos. A infâmia dessa instituição – sentida por poucos. “por questões de segurança”. Todo poder* enquanto meio é. graças à qual ele faz jus à crítica. Longa passagem que vale a pena ser citada de Walter Benjamin. Seu poder* é amorfo. tem mudado de figura. esta observação não é tão original e estava no argumento de Walter Benjamin sobre a violência10. qualquer poder* enquanto meio. renuncia a qualquer validade. O poder* da polícia se emancipou dessas duas condições. acompanho algumas das linhas de força que expõe os modos de justificar a ação violenta da polícia contra um adversário politicamente manifestos numa forma jurídica.insrolux. como um aborrecimento brutal ao longo de uma vida regulamentada por decretos. É verdade que a polícia é um poder para fins jurídicos (com direito de executar medidas). de “Crítica da violência: Crítica do poder”: “Os dois tipos de poder estão presentes em outra instituição do Estado moderno: a polícia. por que raramente a competência da polícia é suficiente para praticar intervenções mais grosseiras. a observação da instituição da polícia não encontra nenhuma essência. Pequena introdução aos textos Conforme temos acompanhado a “luta de classes”. como nem sempre há consenso. inatacável e onipresente na vida dos países civilizados. instituir tais fins jurídicos (através do direito de baixar decretos). sob a alegação de que contra eles o Estado não é protegido pelas leis – consiste em que ali se encontra suspensa a separação entre poder* instituinte e poder* mantenedor do direito. uma vez que se põe à disposição de tais fins.

a corporação. mas uma mudança de “sintonia” marca estes novos tempos até nos meios ambíguos de imprensa que tentariam acompanhar as “vagas da opinião pública” de modo oscilante. Se num período a situação era a suspensão das leis que regulariam a ação policial ou a necessidade de ocultar da visão as ações policiais mais obscuras (lembremos da vala de Perus). a técnica e artefatos cuja potência faz também ignorar a sua irredutibilidade.. Hoje. não se tornaria ele também um poder opaco de difícil controle como os demais? A primeira exposição e a negação daquilo que é considerado inconfessável e reprimível socialmente deixa de portar estas características de reprovação ganhando a sensualidade. os seus artefatos como o “Caveirão” e a ação violenta em si como represália de vingança. A partir daí. Desejo de vê-la.autorizado e praticando-o de modo reconhecido. logo. hoje apenas o fio tênue da repreensão de alguns grupos influentes faria recuar a violência. legítimo. que ela promete como. ao designar simultaneamente o interior à lei e sua exterioridade.. a angústia e a culpa que os resíduos antes inconfessáveis das ações necessárias que sustentam nossa configuração social atual demandam. incitando e demandando o desejo. participando dela e sentindo que ela cobriria todos os espaços. isto é. ela hoje é exposta. Mais do que realizar a violência. este lugar não é nada menos do que o lugar da opinião reputada. aos veículos que recortam o fenômeno e apresentam os aspectos que mais lhe interessam. eu repõe. e com esta o do mecanismo que permite esta ordem. segurança. Notemos que se este caderno ocupa um lugar específico. O que deve ser lembrado como pano de fundo. de sentir-se forte. neste caso. 8 . segurança tem o sentido de ordem. radical e perigosa esta reviravolta e pode-se imputá-la. isto é. cujo pânico. é que em 2206 tivemos a ocorrência do ataque ao PCC. ou ocultá-la. de plenitude e não resistência que cada vez mais identificamos como os efetivos da polícia que se tornam irresistíveis. a “pegada” que gera confiança e simboliza a plenitude. A questão da uniformidade do racional advém com o da ordem. a presença que substitui o vazio. mais que nunca. a escalada da violência foi aguda com picos de 68 pessoas mortas num único dia. que deixa muito para trás a logística dos grupos de guerrilha) foram prontamente identificados como um ataque à São Paulo como um todo. É interessante. em meio a ataques direcionados à corporação policial e ao sistema judiciário (de modo cirúrgico e pontual com um grau de eficácia sem precedente numa ação deste tipo em São Paulo. articula e manipula o lugar do reputável socialmente. representados pela Folha de São Paulo. especificamente o tabu.

quando houve reação policial à onda de violência promovida pelo PCC. 1.32 pessoas MAIO (de 1 a 31 de maio) .blogspot. segundo entidades.25 pessoas MARÇO (de 1 a 31 de março) .uol. afirmou o ouvidor da polícia. não houve diminuição da letalidade policial nos últimos anos". quando a média de mortos assentada posteriormente foi maior que o que geralmente se registrava. 178 pessoas foram mortas pelas polícias Militar e Civil. um agente por grupo de 13 civis.454. mesmo descartando 2006. que a letalidade policial continua alta. mesmo com frases infelizes quanto o de que os ataques 11 GILMAR PENTEADOANDRÉ CARAMANTE em: http://diariosdeguerrilha. 11 afirmou Funari. Os policiais envolvidos estavam de serviço ou de folga.ovp-sp. no mesmo período deste ano.42 por ano).com. De 45.abril.14 pessoas 2007 JANEIRO (de 1 a 31 de janeiro) .“Nos primeiros seis meses do governo de José Serra (PSDB).Em 2006.270.6%.org/lista_mortos_1. http://www1. ano atípico nas estatísticas -em maio.htm 13 Enquanto houve aumento de 84. Caso clássico é o de Alckmin e posteriormente José Serra14. Cremos que a tendência é aumentar progressivamente.11 por dia.br/230507/p_062. pois uma barreira social foi rompida a partir da ocorrência dos ataques do PCC à polícia e sua represália. houve a reação policial aos ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital)-.30 pessoas 12862 civis foram mortos pela polícia paulista entre 1981 e 2005 (média de 534.27% na letalidade policial. 341 civis foram mortos pela polícia no primeiro semestre. como a potencialização e publicização de políticas de Segurança que se tornaram carro chefe de políticas de quase todos os políticos do PSDB fazendo questionar a diferença ou mesmo as tendências internas do partido.Também entre janeiro e junho deste ano. 15 policiais foram mortos."O problema é que. Apesar de menores do que em 2006. Naquele ano. nos seis meses iniciais de 2005. são superiores a 2005.folha. O primeiro conseguiu mesmo reverter a imagem degradante de um caos político e social na área de segurança pública como um grande feito de pacificação após a retalização aos ataques.shtml 9 . para 44. porém. 178 pessoas foram mortas pela Polícia Militar e 23 pela Polícia Civil.40 pessoas JUNHO (de 1 a 30 de junho) . o número de prisões efetuadas pela polícia sofreu redução de 2.” Dados de mortos pela polícia12: 2006 MAIO (de 12 a 31 de maio) – 217 pessoas JUNHO (de 1 a 30 de junho) – 26 pessoas 13 JULHO (de 1 a 31 de julho) – 46 pessoas AGOSTO (de 1 a 31 de agosto) – 41 pessoas SETEMBRO (de 1 a 30 de setembro) – 39 pessoas OUTUBRO (de 1 a 31 de outubro) – 37 pessoas NOVEMBRO (de 1 a 30 de novembro) – 35 pessoas DEZEMBRO (DE 1 A 31 de dezembro) . fonte:SSP/ Estadão. Os números de mortos pela polícia em 2007.shtml 14 http://veja. Há interesses específicos envolvidos neste sentido. os números são superiores a 2005 e revelam. "Os números preocupam porque parece que a reação de 2006 continuou tendo reflexo no comportamento letal dos agentes neste ano". enquanto em pouco mais que um ano 683 pessoas foram mortas (de maio de 2006 à julho de 2007).34 pessoas JULHO (de 1 a 31 de junho) .com/ 12 http://www.34 pessoas ABRIL (de 1 a 30 de abril) .Segundo estatísticas da Secretaria da Segurança Pública do primeiro semestre de 2007.33 pessoas FEVEREIRO (de 1 a 28 de fevereiro) .com. Antonio Funari. a polícia paulista matou 201 pessoas. a maioria em supostos confrontos.br/folha/cotidiano/ult95u124612.

com. a naturalizam e permitem anestesiar a sensibilidade quanto a tais tópicos e o tom de suas exposições de “teses”16.copeve. enquanto entidade que permitiria a realização de um determinado desejo de segurança que nunca existiu. eles não seriam antes frutos de toda uma gestão de segurança pública centrada na idéia de “tolerância zero” já devidamente sedimentada em todos os meios de comunicação em massa com programas sensacionalistas de “catástrofes cotidianas” ampliadas sob os holofotes. ocorreu uma mudança no contrato do policial. mas que se dedicam à aplicação de tortura e execuções sumárias pela cidade onerando o Estado e “enxugando gelo”.do PCC seriam eleitoreiros15. a redação tem uma direção política e apresenta esta posição ao jornalista que deve prová-la. A partir destes meios a opinião pública se não preparada. para quem não conhece: um soldado em cada esquina revistando suspeitos. que chamo de “colombianização” sobre o que falei algo num texto18 que acompanha o “raciocínio” de Gilberto Dimenstein sobre a questão. parece ser a súmula de toda a política pública de segurança criada entre os membros do PSDB como solução para a insegurança pública. com efeito. O problema desta reviravolta é que uma determinada política do governo Lula inspira animosamente seus discursos. onde a Ocupação militar do Haiti vista como obra de elevada civilidade faz vibrar um projeto de repetição do projeto de Bogotá com o background dos militares em ação no Hati a ser realizado no Rio de Janeiro. Por um lado a militarização das unidades policiais que não investigam crimes.. esta parece ser a plataforma política que une todo o PSDB e que está na base da conversão inclusive dos antigos defensores de direitos humanos. Simultaneamente. Uma variação pode ser observada no fato de que se antes pessoas como Alborgueti seriam considerados extravagantes.br/eleicoes2006/noticias/materia_181603. O texto de Renato Janine sobre o Jovem João Hélio 15 16 http://www. solidarizou-se com o governador e se identificou com o policial. No entanto. e a setorização militar de regiões onde o Estado passa a não estar presente diretamente restringindo-se Às áreas controladas ou seguras. o “Ratinho” e mais “convicta” como o “Datena” e outros âncoras equivalentes em estilo e performance. como o policial militar temporário. é exatamente aí o caminho e.indymedia. também ocorre um novo fenômeno.br/.pdf 18 http://brasil. Acompanhemos esta evolução macabra. Hoje se oferece violência para curar a violência de todos os lados. isto é. ora. nos dizeres de Hélio Luz. Mas outro campo se orientava conjuntamente. especialmente os dos críticos da violência policial. sem atingir a base do tráfico ou de qualquer outra atividade criminal..abril.shtml É chamado “jornal de teses” algo que funcione como a redação da veja.shtml 10 ./Soldado%20Voluntario%20Temporario%20%20PMAL%20e%20CBMAL/classificados_pmal. até dos que criticavam a polícia dentro do PSDB que preferem um exército civilizado como o que atua em Porto Príncipe. ignorando as demais. somados aos inúmeros programas de perseguições policiais reais e reconstituídos expostos em diversas grades de emissoras de televisão. Se não possuem a capacidade de induzir uma opinião. Além disso. mesmo se não mostra resultados positivos suas falhas são curadas com mais repressão ainda e mais militarização e armamentos mais potentes. anestesiou-se. com contrato de um ano (hoje chamado de “voluntário”17). posteriormente se tornaram corriqueiros e dariam o tom de toda uma geração que seguiria sua tendência caricata.org/es/blue/2007/09/394893. o incremento de milícias (nome mais atual dos antigamente chamados gansos e policiais que trabalham como um policial só que fora do expediente) e a intensificação da criação de unidades militarizadas em operações especiais como a chamada “operação saturação” e a ocorrência da transformação da tropa de choque quase num BOPE e a força tática numa tropa de choque não especializada de prontidão constante.ufal. assumindo a divisão espacial e territorial como um dado natural assim como a constância do estado de guerra enquanto se assiste a tudo de um teleférico ou metrô blindados que atravessa áreas “inimigas” (quase como um Caveirão público). 17 www.

fingindo ficar chocada e aturtida. ou metas finais de suas ações irracionais.. mais ainda se pensarmos que o filósofo propõe pela mão do próprio crime que será punido (pois confia no sofrimento gerado no cárcere brasileiro administrado internamente pelos próprios). onde Irresponsavelmente acompanhando as vagas dos interesses filtrados pelos meios de comunicação em massa. e a restrição pelo constrangimento veiculado pela imprensa se esfacela.. E é uma coisa mais complicada se acharmos que isto se insere numa vaga de acirramento das opiniões que 11 . eis que o candidato atual à vaga de "primeiro filósofo" pisou no tomate. num cárcere brasileiro. cursos e palestras preferido deve-se sim falar do que for necessário para agradar. o que em outros termos nos remete à uma progressão talvez indigesta de justificação da violênica. segundo creio. o sobre o direito ao consumo. acompanhando o que de mais picante possa ser dito no compasso da opinião formada de classe média quer dizer e não pode. Se lembrarmos outro texto do filósofo. ainda que fora de contexto. Há um segredo que acompanha a profissão: para flutuar nas vagas da opinião pública é necessário ir para as causas picantes. Mas não é esta a principal contribuição filosofástrica para o caso. a federal e a do terceiro setor. o que contesta com as atribuições mais burocráticas de primeiro filósofo cuja atribuição é engraxar as decisões governamentais para se tornarem mais palatáveis. O problema é que a escalada da violência não parte só dos pobres. e quer convencer as demais e agora ganha um novo impulso.. de outro lado somos convidados a delegar ao Estado a vingança coletiva sobre o corpo do criminoso para lá impingir sua culpa. O que acaba ocorrendo é que o nosso querido interlocutor uspiano-midiático produziu uma síntese e duas piruetas num salto um tanto perigoso. Para a vaga de filósofo de jornais. Que interessante. pois isto confere maior divulgação ao tema.. Disney. e quem sabe Hobbes. nota-se que uma nova atribuição surgiu e que o filósofo guloso quis ocupar as duas vagas. como nas aulas da USP que faziam tanto sucesso.. Ele fez a síntese: Prisão de menores + Pena de morte. No caso em questão.Escrevi este texto tomado de certa ira em 6 de março do mesmo ano acreditando ser aquele um “ponto de viragem”.... ou quando muito dá hurras e vivas. com grande contribuição do filósofo. na sua famos expressão "é legítimo que um jovem deseje um tênis Nike". comentado e aclamado e os antes constrangidos se manifestam.. afinal são todos prováveis assassinos de João.. podemos pensar no resultado político do direito que as pessoas teriam ao consumo. O Faustão aprova e provavelmente o Filósofastro será chamado a comentar o cidade alerta comentando a vida dos reis ingleses e a etiqueta da mesa. pois acredito que tenha dissolvido um pequeno freio social que se mantinha muito capengamente na opinião pública.. eis a pirueta: o criminoso comete o crime e outros criminosos o penalizam para garantir que ele sofra mais do que uma pena de morte. Ondas de vivas e vaias entumesciam seu ego na direção virtiginosa do imprevisto: a má parte da sociedade quer redução da pena. Que coisa.. tênis este que poderia ser um dos desejos. primeiro testando a idéia e preparando o campo. pode-se representar com razão e anular qualquer constrangimento com execuções sumárias. não? É importante não lhe dar mais confete. Agora que é dito.

Não paro de pensar que deveriam ter uma morte hedionda. Imagino suplícios medievais. crudelíssimo? Se a alma ou o espírito tem um destino após a morte. acabam realimentando e piorando o problema? Por isso estamos vendo aqueles que tentam apagar um provável incêndio que se inicie agora. não dever matar pessoas. na cadeia. sobre o Estado não dever se igualar ao criminoso. gratuito. Torço para que. de fé. Se há Deus. diferentes. mas este caso horrível me faz repensar ou. eles estão realmente interessados neste problema ou querem nos fazer engolir outra coisa como resposta desta? Não é uma coisa muito maior que está pairando por aí? Não é esta a porta por onde entram medidas drásticas de restrição de direitos de todo o tipo e de anulação de vínculos sociais e justificação progressiva de injustiças sociais que. Anos atrás. e que em larga medida sustento. como poderá esse infeliz menino ser recompensado pela vida que lhe foi ceifada. baderneiros profissionais e aproveitadores tentando mudar uma imagem social de nação onde não cabe o assassínio pela mão do Estado. mas. os assassinos recebam sua paga. diante do dado bruto que é o assassinato impiedoso. chame-se esse de juízo eterno ou de uma série de reencarnações.09h00 Razão e sensibilidade RENATO JANINE RIBEIRO Especial para a Folha de S. em retardar a morte. assim como os jovens. e acredito que haja. contra) a pena de morte. Masataka Ota.Paulo Escrever sobre o horror em estado puro: assim vivi o convite para participar deste número do Mais!. como a que infligiram ao pobre menino. ou melhor. mudar isso pede uma nova constituição. não apenas tão cedo.legitimam ações violentas não institucionais contra os pobres que portam em si o demônio. É claro que o crime existiu. E quanto aos assassinos? A outra coisa que não me sai da cabeça é como devem ser punidos. torço para que a recebam de modo demorado e sofrido. além disso. Perguntei então: mas alguém escreverá a favor? E me responderam que era possível. enquanto há uma leva de mercenários. para mim. aqueles cuja arte consistia em prolongar ao máximo o sofrimento. pequeno empresário cujo filho pequeno foi 12 . considerando a atual estrutura penal brasileira e os defensores que embarcam nesta nova vaga em prol do acirramento das respostas violentas. embora não necessariamente antropomorfo. Não me saem da cabeça duas ou três coisas. não pensar. A primeira é o sofrimento da criança. será isso que anda em germe por aí? Qual a participação do pretendente a primeiro filósofo no meio disso. Se não defendo a pena de morte contra os assassinos. é acidental? Não percebeu o vespeiro ou se tornou protagonista. E é nisso que mais penso. é apenas porque acho que é pouco. sentir coisas distintas. não dever impor sentenças cruéis nem tortura -tudo isso entra em xeque. É insuportável pensar no crime cometido contra o menino João Hélio. nestes dias. Conheci o sr. numa reversão dos ex 68? 18/02/2007 . como admite Ele esse mal extremo. melhor. me convidaram a escrever um artigo para uma revista de filosofia contra a pena de morte. por que não? Acabei escrevendo meu artigo (contra a pena capital). Esse assunto me faz rever posições que sempre defendi sobre (na verdade. Todo o discurso que conheço. mas. de modo tão bárbaro? Essas são questões religiosas.

e é executado quando já pouco tem a ver com quem foi. na verdade. de fazer o que quiser sem perder direitos? A todos assiste o direito da mais ampla defesa. No caso. 13 . é preciso acreditar no que diz. Tudo isso traz questões adicionais. Alguém passa 20 anos no corredor da morte. garantida esta. quem deve viver e quem merece morrer. Mas.para outros colegas. Como esses assassinos. Pessoalmente. A Constituição a proíbe. isto é. na lei. confesso sentir um consolo. por curioso que pareça. É quem assina idéias. Intelectual não é apenas quem tem uma certa cultura a mais do que alguns outros. mas não escapará. se conquista -e também se perde? Alguém tem direito.em não querer se vingar. não o fez. em meio a esse turbilhão de sentimentos-. Optaram pelo mal. campeã em execuções) fez com Pu Yi. para ele cumprir seu papel público. antes de abolir a pena de morte. embora pudesse matá-los. Creio que só um insensato condenaria as execuções decretadas em Nuremberg. Masataka perdoou os assassinos. na graduação. Quem é humano? Penso --porque ainda consigo pensar. Ora. A punição com a morte se justifica ora pela gravidade do crime cometido. Tive. o mínimo que devo fazer. a garantia de todos os direitos de defesa ao réu faz parte. o intelectual assina. Mas provavelmente executamos mais gente que o Texas. ela até fazia trabalhos --de graça-. que pode ter uma sociedade. Nos dois países. ora pela descrença de que o criminoso se possa recuperar.da pena.assassinado. poucos anos após o crime hediondo. Mas Luís era culpado apenas de ser rei. mas de assinatura. quem responde por elas. quantas vezes o intelectual afirma aquilo em que não acredita? Quantos não foram os marxistas que se calaram sobre os campos de concentração. o Irã ou a China. quem debata se Luís 16 deveria ou não ter sido guilhotinado: dizem alguns que o melhor seria reduzir o último rei absoluto da França a um cidadão privado. Os nazistas foram culpados do que fizeram. Não vejo diferença entre eles e os nazistas. Quis que fossem julgados e lamenta que já estejam soltos. Quando penso que. em não querer que os assassinos sofram mais do que a pena de prisão. da engrenagem que diz ao acusado: você terá todos os direitos. Mas há algo hipócrita nisso.também que há diferentes modos de impor a pena máxima. que relato. um pouco como a China (curiosamente. hoje. se sou instado a opinar. Não temos pena de morte. a demora na execução é ela própria uma parte --talvez involuntária. O intelectual é público. de decidir --no caso. é dizer o que realmente penso (ou. Mas. É-se humano somente por se nascer com certas características? Ou a humanidade se constrói. mas ele é um caso raro --e admirável-. No Brasil é diferente. calar-me). era um homem bom. por outro lado é uma tremenda hipocrisia deixar à livre iniciativa dos presos ou aos justiceiros de esquina a tarefa de matar quem não merece viver. Em países como os Estados Unidos. Entrevistei-o para meu programa de ética na TV Futura (episódio "Justiça e Vingança"). só por ser bípede implume. põe em questão meu próprio papel como intelectual. Talvez possa dizer: o cientista escreve. Só que. uma amiga que teve bloqueio de escrita. Confesso que não seria a minha reação. Há. Se as pessoas merecem morrer. posso fazer o que quiser sem correr o risco da pena última? Isto. seu derradeiro imperador. desses infanticidas. o assassino era enforcado. os próprios colegas de prisão se livrarão. Seu bloqueio não era de escrita. e se é péssimo o Estado se igualar a quem tira a vida de outro. e seu crime é hediondo. as duas razões comparecem. Parecem irrecuperáveis. Abrimos mão da responsabilidade. era diferente: dois ou três meses após o crime. Na Inglaterra. É que o fazemos às escondidas. então. que eles sabiam existir? Por isso.

nem muito menos instrumento necessário de defesa. Parece. não é diferente do nazismo. Mas também sei que os pobres são honestos. Valores não são provados racionalmente. do horror que sinto. entre outros. como meses atrás quando queimaram viva uma criança num carro. Não posso pensar em dissonância completa com o que sinto. A razão. que ostenta os símbolos da BOPE não era então nem coisa de herói. Será preciso criticar os sentimentos pela razão --e a razão pelos sentimentos. são gerados de outra forma. A parcela da mídia sempre disponível para incensar as autoridades exibiu a pantomima de dez dias como um enfrentamento do Exército contra os traficantes. pois um carro blindado não serve contra pessoas efetivamente armadas e organizadas militarmente. Mas há algo que é muito importante no exercício do pensamento: é que atribuamos aos sentimentos que se apoderam de nós o seu devido peso e papel. mais até do que os ricos. São Paulo. do ódio e da agressividade. pior que isso. O famoso caso comentado é o das armas roubadas do exército que fazia entender no Rio de Janeiro um tipo de acordo entre o governo e os traficantes. apenas porque a razão nos acalma. Sei que devemos reformar a sociedade para que todos possam ter um futuro. representado pelo próprio caveirão. a liberdade dos negócios e a vigência do poder do crime organizado no "seu" território) pela devolução dos fuzis. 16 de março de 2006 Texto Anterior | Próximo Texto | Índice DEMÉTRIO MAGNOLI A hora e a vez do Caveirão Depois que terminou a Operação Asfixia. deduzir políticas públicas. assusta acompanhar tamanha mudança. Afinal de contas. RENATO JANINE RIBEIRO é professor de Ética e Filosofia Política na USP e autor de. Lazuli). não é completa. Dizem uns que o Brasil está como o Iraque. será preciso aproximá-los. Creio que isso reduzirá a violência. sem dúvida. Se o que sinto e o que digo discordam em demasia. a redução da maioridade penal? Não sei. de ocupação militar dos morros do Rio de Janeiro. nos projeta o futuro? Que crimes o amor desprezado não causaria. insisto. até o militarista Demétrio Magnoli mostrava seus conhecimentos e denunciava de modo crítico uma política que se iniciou com o político garotinho (liliputiano nos dizeres de Magnoli). serve para evitar a resistência. Mas o Exército subiu os morros propondo um acordo com os criminosos: a troca do retorno à "normalidade" (isto é. o Caveirão. do desamparo. com efeito. Quantas vezes não nos salvamos do desespero. que temos algumas miniauschwitzes espalhadas pelo território nacional. segura muitas vezes as paixões desenfreadas. embora isso fosse desejável. Os traficantes aceitaram o compromisso.Sei que a falta de perspectiva ou de futuro é o que mais leva pessoas a agirem como os infanticidas. Só faltou trocarem embaixadores. que no fundo são o que sustenta os valores. "A Ética na Política" (ed. quinta-feira. Neste texto notamos como estava o tom sobre a segurança pública em março de 2006. era meramente o que parece ser um artefato exagerado que expõe a situação para a qual foi projetado seu protótipo em Israel: aterrorizar pessoas indefesas. Quer isso dizer que defenderei a pena de morte. o que vivemos no assassínio bárbaro de João Hélio. O desfecho decorreu de negociações sigilosas entre o Estado oficial e o Estado paralelo criado pelo Comando Vermelho. A pobreza não é causa da falta de humanidade. o narcotráfico devolveu ao Exército as armas roubadas. Não consigo. não fosse ele contido pela razão? Mas isso vale quando a dissonância. nos contém. não sem antes impor aos militares um rosário de humilhações. a prisão perpétua. 14 .

escolas. A "guerra ao tráfico". não é francês. veículo blindado adaptado para rondas da PM que expõe na lateral o emblema do Bope. embrião de uma "colombianização" do país. começa a dar resultados. Marcelo Itagiba: criminalização da população dos morros e conluio tácito com os traficantes. Missão que. neles instalando o conjunto de equipamentos públicos básicos (hospitais. Enquanto isso.br Começa a reviravolta. soldados reviraram casas humildes e revistaram crianças com base em mandados judiciais coletivos. continua a política do avestruz. um instrumento de ingerência em assuntos de segurança interna de nações soberanas. com a retaguarda do Exército. é um fracasso ou. ou seja. é unanimemente reconhecida". a força letal do Exército não matou ou prendeu nenhum chefe de morro ou mesmo gerente de boca. até no Haiti haverá menos seqüestros que em São Paulo. você aí! Você é suspeito. Mas o que há nos morros do Rio de Janeiro e em áreas de outras metrópoles brasileiras não é apenas comércio de drogas: é a territorialização do narcotráfico. que eram 200 por mês no fim de 2006. de que não se repetirá o ciclo de efêmeras "invasões". Lula murmurou uma frase carente de sentido. não para políticos liliputianos.magnoli@ajato. a não ser quando se trata de seus antigos clientes milionários ou dos novos "clientes" instalados no Palácio do Planalto.". ilegais. 16 de maio de 2007 Texto Anterior | Próximo Texto | Índice CLÓVIS ROSSI Herói. os policiais embarcados bradam: "Ei.com. é a única chance de conquistar o apoio das comunidades atemorizadas pelos criminosos. Questionado sobre os abusos. O fenômeno. O general Santos Cruz. Já. sobretudo. deflagrada em 1984 por Ronald Reagan. E é missão policial. Texto Marcante. @ . a de enfiar a cabeça na terra em vez de discutir seriamente 15 . eu vou pegar a sua alma". só lá longe PARIS . caíram para 8 em abril. que faz a primeira proposta de aplicar a experiência militar no Haiti no Rio de Janeiro. retorna às favelas o Caveirão. ao menos na visão do "Monde". O megafone do Caveirão é o porta-voz da política de segurança pública dos Garotinho e do seu secretário da Insegurança. que não hesitou em apresentar-se na linha de frente diante dos bandidos. Não é programa para ONGs. Os Urutus já não circulam nos morros. quarta-feira. mais propriamente. -------------------------------------------------------------------------------Demétrio Magnoli escreve às quintas-feiras nesta coluna. "se for discutir isso no pormenor. no Brasil.Nos dez dias da pantomima. A certeza de que o Estado chegou para ficar. como denuncia o nome. Em compensação. nem norte-americano.. creches e. Só pode ser detonado pela ocupação permanente dos "territórios do crime" por forças policiais federais. Isso significa levar o Estado aos territórios submetidos ao poder paralelo do crime. delegacias de polícia) e incorporando-os plenamente ao tecido urbano das cidades... O Caveirão anuncia-se nas vielas por meio de alto-falantes que berram frases como: "Se você deve. É brasileiro e comanda a missão das Nações Unidas que está no Haiti. postos de saúde. Ande bem devagar. e Márcio Thomaz Bastos replicou que. já. É coisa para estadistas. nem de qualquer outro país de heróis mais ou menos famosos..O jornal "Le Monde" diz que "a coragem do general Carlos Alberto dos Santos Cruz. exige um programa de restauração da soberania. vire. a gente não chega a lugar nenhum". São Paulo. muito mais que militar. Ao aproximar-se de transeuntes. O ministro do Arbítrio não se preocupa com "pormenores" legais. Mas a sua bandeira deve ser a Constituição: os direitos dos cidadãos. Tanto que os seqüestros. agora pode ir. levante a blusa. Com a "normalidade".

Também no Haiti o Exército brasileiro tem feito suas operações baseado em projetos de negociação política com os moradores das áreas conflagradas. Uma vez finda a operação de guerra. A maioria dos observadores externos diz que se trata de uma espécie de "tudo ou nada". Na verdade. deixar como está para ver como fica não é alternativa. Em ambos. assim como a população da cidade. Ainda mais depois de ler a reportagem de Raul Juste Lores sobre as operações do Exército mexicano em diferentes zonas do país que estavam (ou ainda estão) sob controle do narcotráfico. Por que o Exército brasileiro não atua aqui como no Haiti? Já que é uma operação militar. mas tiveram a condição de pobre piorada pela tirania e pelo tiroteio de dois fogos: o dos traficantes e o dos policiais militares. se tenta dissuadir o inimigo de lutar. Outra. dezenas de feridos em operação "de guerra" no complexo de Alemão. e principalmente ações. é bem mais que uma operação.políticas. adultos e idosos que não seguem nenhuma carreira criminosa. Repito: eu não sei se a intervenção do Exército em um âmbito que é policial será ou não positiva. cursos profissionalizantes e outros benefícios para o local. jovens. sem que o domínio que traficantes bem armados exercem sobre elas realmente acabasse. que faz o inimigo se render e passar a negociar a paz. Poucos dos mortos e feridos têm a ver com a guerra entre policiais e bandidos. Pelo contrário. A Polícia Militar não tem efetivo nem armamento para tal. conjunto de favelas do Rio de Janeiro que abriga principalmente migrantes de outros Estados. sem as quais nenhum país pode funcionar civilizadamente. antes de tudo. São crianças. Ou se restabelece a lei e a ordem. até de discutir a eventual intervenção do Exército. Foge-se. Quem ganha com esse opróbrio nacional? Que o Haiti seja aqui. 04 de junho de 2007 ALBA ZALUAR Dissuasão e persuasão DEZESSETE PESSOAS mortas. os moradores recebem bolsas de estudo. Mas sei que é absurdo interditar o debate a respeito. ALBA ZALUAR escreve às segundas-feiras nesta coluna. já repetida em outras favelas em diferentes datas. o Exército brasileiro pode desempenhar missões policiais no exterior. outros traficantes do mesmo ou de outro comando sempre reassumem seus postos e voltam a dominar tudo. ou a barbárie tomará conta de vez. Por que não se faz o mesmo na cidade brasileira mais visada pela opinião pública nacional e internacional? Por que não se tenta primeiro ganhar politicamente os sofridos favelados dessas áreas antes de deixá-los ainda mais expostos ao tiroteio? Desse modo se evitaria o confronto armado em áreas densamente povoadas por crianças. que ganha politicamente o conflito perante a população civil e desarmada que vive no local e que nada tem a ver com o conflito armado. De duas formas. segunda-feira. Caso apóiem a operação e ajudem o desarmamento e a pacificação das quadrilhas. diz a boa estratégia que. contra o crime organizado e a violência a ele inexoravelmente associada. aposentados. E suas baixas expectativas de vida pioram os índices que colocam o Brasil na rabeira dos países em desenvolvimento. Uma. 16 . Ou seja.com. Clóvis Rossi tocou em ponto fundamental desse aparente beco sem saída. pela persuasão.br A reviravolta da parte São Paulo. crossi@uol. do país. Parte da cidade assiste perplexa a essa operação. estudantes as vítimas inocentes dessa "guerra" contra um inimigo interno. como é bem brasileiro. Não é um cenário diferente do brasileiro. mas não se pode nem falar do assunto no Brasil. pagam impostos e são cidadãos brasileiros. mães de família. Só o Exército brasileiro é capaz de assegurar essa superioridade com sua mera presença. do mundo. pela superioridade militar.

o poeta elogia o artefato. 19 http://www. Na época. a gente acaba contigo. O caveirão surgiu na administração garotinho. estupram as garotas e extorquem os comerciantes. Talvez goste do milagre. 22 de julho de 2007 Texto Anterior | Próximo Texto | Índice FERREIRA GULLAR Difícil resposta Eu pensava: de que outro modo pode a polícia entrar na favela. Assim agem os novos senhores da população favelada. . Pois vou te dar três dias. algum tempo depois. Certa noite. mas não do santo. Essa conversa me faz lembrar do que aconteceu com um artista plástico chamado José Messias. ele morreu também..A garota estava namorando um deles? . Ou se entregam a eles. embora assustado. quando de um encontro de políticas de segurança em Israel. A idéia agradou o então governador que resolveu aplicá-lo no Rio de Janeiro São Paulo. Messias. De uma cruel besta-fera para outra. estupram as garotas e extorquem os comerciantes. um jornal chegou a fazer uma matéria em que ele contava essa história. realizando a tarefa que progressivamente vem tornando inconciliável a situação na região. Quem não se submete morre” conforme o texto a seguir e que. Ele morava com a mãe na favela da Cidade de Deus.O seguinte texto é a “ode ao Caveirão” que lhe dedica Ferreira Gullar.shtml 17 . o chefe do tráfico mandou decapitar um desafeto. num barraco onde conseguira montar seu acanhado ateliê de gravura. Sabe por quê? Ou fazia isso. Apavorados. mandou sua filha de 12 anos de volta a Sergipe. isto é. armados até os dentes. na rua. Sentado numa calçada da Cinelândia. dominam os morros. seu texto. “Cruéis como bestas feras. Como era muito religioso. fazia desenhos que oferecia por uns trocados a quem passava. Cruéis como bestas feras. . dominam os morros. Vão fazer o quê? . dois traficantes bateram à sua porta e disseram que. no entanto. com tua mãe e toca fogo na casa. é? disse-lhe o bandido.A IRMÃ de minha faxineira.. As garotas bonitinhas não têm escolha. ela pediu que a mãe a tirasse de lá. A mãe adoeceu e morreu.Na favela do Pavão-Pavãozinho. -Ah.Mal dá para acreditar que isso aconteça no Rio de Janeiro. Quem não se submete morre. Se tua resposta for não. Tomam a casa das pessoas. se é recebida com balas? . ou a menina ia se tornar amante de traficante. mas não a tal população favelada. armados até os dentes. chamou a turma dele e ficaram jogando futebol com a cabeça do cara.org/pt/blue/2006/02/345594. O blindado de combate aplicado à polícia é um artefato passível de uma defesa militante por parte do poeta. O contexto onde o autor se insere é uma resposta ao movimento contra o uso do Caveirão19 após o momento de perigosas incursões com muitas vítimas entre a população da periferia. fica indiferenciável de seu adversário quanto ao uso da violência. onde impõem o terror. que mora na favela do Alemão -disse um vizinho-. a partir daquela data. executam quem não os obedece. executam quem não os obedece. A resposta do poeta é uma ode que nega um interessante poema seu de inspiração heideggeriana “Carta ao inventor da roda”. domingo. seu jornal e muitos de seus leitores. exceto no sentido de representar ele próprio a instituição que defende o poeta. Messias e a mãe pegaram as coisas que puderam e fugiram. no que se engana. mas concede seu uso ao governador Cabral. a maioria de suas gravuras versava sobre temas bíblicos. ou morrem. foram morar na rua. Tomam a casa das pessoas. inspirou-se nos carros que mantém o policiamento ostensivo nos territórios palestinos.midiaindependente. ali em Ipanema. onde impõem o terror. E os pais ficam quietos.Não. Meia dúzia de bandidos exercendo um domínio de terror sobre a população. explicou-lhes que sua fé religiosa o impedia de vender drogas. na condição de permitir a defesa do policial contra o adversário temível. ele teria que ajudá-los na venda de cocaína.

inclusive moradores. Mas são exceções. lá no alto. 2/3 em “bicos” e apenas 1/3 em serviço (favelas ou não). como são exceções os deputados. tornando-se o símbolo da violência policial contra os favelados. Parece que bandido matar policial é normal. de outro modo. há policiais que colaboram com criminosos. Muita gente boa embarcou nessa e passou a odiar o carro blindado da polícia. em Ipanema. O que aconteceria se todo o policiamento fosse retirado da zona sul do Rio? Depois que o governador Sérgio Cabral Filho se dispôs a enfrentar o crime organizado. se os bandidos. Quando alguma medida mais dura era tomada. a etiqueta de bagagem. 04 de setembro de 2007 Texto Anterior | Próximo Texto | Índice ELIANE CANTANHÊDE Jobim no Haiti PORTO PRÍNCIPE . matando turistas nas praias ou metralhando o edifício-sede do governo. Certa vez. tomando uísque? Por que acha que eles devem subir as favelas. que é corrupta e atrabiliária. De lá para cá. Certo é ser contra a polícia. alguns dos governos seguintes tentaram desalojar os bandidos. eles realizavam atentados terroristas. sem maiores resultados. A morte de inocentes é inaceitável. Imagine se fosse o contrário: o negro haitiano berrando com quem quer que fosse no aeroporto de Miami. mesmo pelas costas. absorvendo recursos que poderiam estar sendo utilizados em programas para promover o respeito e a garantia dos direitos nas comunidades. mesmo porque. morreu muita gente. Esse carro foi apelidado de Caveirão20. Deve então a polícia desistir de combater os traficantes e deixar a população favelada sob seu domínio de terror? Eis a questão. destes. 18 . dezenas de policiais foram assassinados fora de serviço. Na ocupação do complexo do Alemão. filhos e ganham pouco mais de R$ 800 para arriscar a vida enquanto estamos aqui. no Haiti. Esses devem ser expulsos e punidos como bandidos que são. senadores e juízes corruptos.No vôo de ontem entre Miami e Porto Príncipe. 20 Pelo menos até 2004 morreram 133 policiais por ano. os blindados são equipamentos muito caros. os recebem com uma chuva de balas? Exigir que se desista do tal Caveirão é o mesmo que tomar o partido dos bandidos. Já no desembarque. enquanto morrem mais de 1000 pessoas por ano no Rio de Janeiro. Como a pressão da opinião pública e da imprensa exigia que alguma providência fosse tomada. quando a polícia foi proibida de subir os morros. número que permanece estável. O blindado é um armamento de guerra que permite atirar e manter uma presença ostensiva sem ser visto. desde o Vietnã até o Iraque. técnica.Isso começou na década de 80. quem é capaz de defender algo com o nome de Caveirão? E eu pensava aqui com meus botões: de que outro modo podem os policiais entrar na favela. têm mulher. àquela altura. o que nunca foi em si. havia umas duas centenas de negros e uma meia dúzia de gatos pingados brancos. de se armar e ocupar os pontos estratégicos dos morros. Sua ostensividade levanta também um aspecto do fetiche que apresenta os artefatos militares em uso na guerra amplamente divulgados e em geral usados contra populações infinitamente menos preparados. por ordem do então governador Leonel Brizola. inclusive eu. sinônimo de sua eficácia estrita na situação de combate. terça-feira. sem qualquer proteção? Sei que pega mal dizer essas coisas. os traficantes já dispunham de grana suficiente para subornar policiais e até juízes. Houve protesto de alguma instituição defensora dos direitos humanos? Não. a primeira cena da arrogância americana: um sujeito louro e mal-humorado saiu aos berros apenas porque o funcionário lhe pedia algo simples. Também. |O São Paulo. debaixo de balas. E é verdade. logisticamente e economicamente conforme podemos observar em todas as guerras televisionadas que tentam apresentar o artefato militar como algo desejável e quase fálico. disse a um amigo que odeia o Caveirão: você já pensou que os policiais são gente como nós. o seu poder só fez se expandir e se fortalecer. Foi por essa época que a polícia lançou mão de um carro blindado que lhe permitia fazer incursões nos morros para prender os bandidos. Os bandidos tiveram tempo de se organizar.

principalmente na área de engenharia. Nelson Jobim. Agora. quase recebo balas de chumbo na testa. distribuição de água e comida para as crianças. E. E. por ser "uma força de ocupação e não humanitária. deixou claro ontem: é um ótimo treinamento de tropas militares para a garantia da lei e da ordem. como cidadão paulistano. Como brasileiro. Tenho certeza de que esse tipo de assalto ao transeunte. Meu irmão. Que os EUA querem mandar em todo o mundo. Não veria meu segundo filho. muito menos oportunidades. de motos e revólveres. literalmente. em vez de balas de caramelo. 01 de outubro de 2007 Texto Anterior | Próximo Texto | Índice TENDÊNCIAS/DEBATES Pensamentos quase póstumos LUCIANO HUCK Pago todos os impostos. Todos nos Jardins. Defendo esta cidade. tenho até pena dos dois pobres coitados montados naquela moto com um par de capacetes velhos e um 38 bem carregado. E eu. liderada pelo Brasil. e a mudança está para chegar no Brasil. depois do cafezinho. o país mais pobre do mundo fora da África. Nasci aqui. E. fico revoltado. em vez de balas de caramelo. Uma jovem viúva. com uma coleção de 19 . Deixaria órfã uma inocente criança. não leva mais do que 30 dias para ser extinto. segunda-feira.e três assaltos passaram por mim. É a minha cidade. os militares pedem o oposto: o aumento do efetivo brasileiro de 1. A liderança brasileira no Haiti é considerada estratégica por mil e um motivos. uma homenagem póstuma no caderno de cultura. algumas páginas à frente neste diário. Por quê? Por causa de um relógio. que financia até os pêssegos e ameixas que os brasileiros comem no Haiti. Foi-se um relógio que acabara de ganhar da minha esposa em comemoração ao meu aniversário. Na prática. como resultado. provavelmente no caderno policial.200 para 1. O que não justifica ficar tentando matar as pessoas em plena luz do dia. a missão não é dos americanos.br O ápice São Paulo. li no UOL que o conselheiro da OAB Aderson Bussinger redigiu um relatório condenando a missão militar no Haiti. As minhas raízes estão aqui. Dois ladrões a bordo de uma moto. ao motorista. Provavelmente não tiveram infância e educação. Juro que pago todos os meus impostos.com. Mas o Brasil é o Brasil. não há dúvida. além de ter um caráter que o ministro da Defesa. quem sabe. Está claro que o primeiro passo foi dado no Haiti. Manchete do "Jornal Nacional" de ontem. Uma multidão bastante triste. Um governador envergonhado.Logo depois.300 homens. elianec@uol. quase recebo balas de chumbo na testa LUCIANO HUCK foi assassinado. Uma família destroçada. Mas a situação está ficando indefensável. uma funcionária e eu. com assaltantes armados. Mas a questão é mais complexa. é da ONU. construção de estradas e poços. Enquanto o conselheiro da OAB e os partidos mais à esquerda criticam. Onde está a polícia? Onde está a "Elite da Tropa"? Quem sabe até a "Tropa de Elite"! Chamem o comandante Nascimento! Está na hora de discutirmos segurança pública de verdade. econômica e humana do Haiti. E o papel dos brasileiros é bastante abrangente: combate às gangues assassinas. O lugar deles é na cadeia. Adoro São Paulo. que está validando os abusos de direitos humanos no país". Um presidente em silêncio. o Haiti não é o Iraque e o continente não iria continuar de olhos fechados para a tragédia política. depois do cafezinho. Passei um dia na cidade nesta semana -moro no Rio por motivos profissionais. uma fortuna. como resultado.

o que não o torna um filme fascista. Meu prazer passa pelo bem-estar coletivo. grita: "Cansei". Nem Bogotá é mais aqui. corruptos notórios e comprovados mantendo-se no governo. Cinema e Novas Mídias. Onde estão os projetos? Onde estão as políticas públicas de segurança? Onde está a polícia? Quem compra as centenas de relógios roubados? Onde vende? Não acredito que a polícia não saiba. Não queria assumir que estávamos vivendo em Bogotá. LUCIANO HUCK. na verdade. da mulher que não quer que ele morra. Está em missão impossível. não se preocupe: a sua hora vai chegar.que o país está em diversas frentes caminhando nessa direção. Enquanto isso. fica difícil tratar o filme somente como obra de ficção. mas aboli. cansado ou peidando. mas descobri que. E nós? Bem. Isso não está certo. como muitos policiais militares. Mas. pensei. 08 de outubro de 2007 Texto Anterior | Próximo Texto | Índice ALBA ZALUAR Entre a lei e a guerra VER O filme "Tropa de Elite" é duro. apesar do silêncio da corporação a respeito desse problema que só fez crescer. comanda o programa "Caldeirão do Huck". eufemismo para as batalhas campais contra os traficantes nas favelas. no "Roda Vida" da última segunda-feira. mais profissional. o filme é um sucesso. hesita. mais equilibrado e justo e concluir -com um 38 na testa. Passo o dia pensando em como deixar as pessoas mais felizes e como tentar fazer este país mais bacana. nós estamos chafurdados na violência urbana e não vejo perspectiva de sairmos do atoleiro. Pensei no comandante Nascimento. na TV Globo. Desculpem o desabafo. O Lobão canta: "Peidei". Alguém consegue explicar um assassino condenado que passa final de semana em casa!? Qual é a lógica disso? Ou um par de "extraterrestres" fortemente armado desfilando pelos bairros nobres de São Paulo? Estou à procura de um salvador da pátria.relógios e pertences alheios na mochila e um par de armas de fogo não se teletransportam da rua Renato Paes de Barros para o infinito. Errei na mosca. João Dória Jr. descobri que ele não é nem quer ser o tal. "Tropa de Elite" é uma obra de ficção e que aquele na tela é o Wagner Moura. mas. Por filosofia. ao lado do número de policiais mortos e de vítimas dos "autos de resistência". mas. Se o objetivo era nocautear quem ouviu falar de. Pensei que poderia ser o Mano Brown. de outro lado. Pensando. Bogotá melhorou muito. Enfim. a pujança do Brasil. pensei. TV diverte e a ONG que presido tem um trabalho sério e eficiente em sua missão. não tenho dúvidas disso. assaltos a mão armada sendo executados em série nos bairros ricos. do filho que nasceu. É diretor-presidente do Instituto Criar de TV. Finge não saber. Concluí que não era isso que queria para a minha cidade. 20 . Confesso que já andei de carro blindado. Não é super-herói. E. mas tem síndrome de estresse pós-traumático. um brasileiro humilhado por um calibre 38 e um homem que correu o risco de não ver os seus filhos crescerem por causa de um relógio. mas a indignação de alguém que de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro. continua mergulhado em problemas quase "infantis" para uma sociedade moderna e justa. Escrevo este texto não para colocar a revolta de alguém que perdeu o rolex. mas nunca viu tanta violência. hoje posso dizer que sou parte das estatísticas da violência em São Paulo. Quando já se ouvir falar de tanta crueldade de traficantes e brutalidade de policiais. crianças sendo assassinadas a golpes de estilete na periferia. Ele sua. 36. hoje amanheci um cidadão envergonhado de ser paulistano. mas. do outro. mas não sei no que ele está pensando. tem medo e quer sair do Bope para cuidar da vida. segunda-feira. o Olavo da novela. especialmente quando se sabe que o narrado é verossímil. Pensei no presidente. pensei. De um lado. apresentador de TV. A metamorfose final São Paulo. se você ainda não tem um assalto para chamar de seu. Capitão Nascimento não é o Capitão América.

Primeiro. não há nenhum alerta ou saída. ALBA ZALUAR escreve às segundas-feiras nesta coluna. A selva de pedra criou suas leis. O menino no farol não consegue pedir dinheiro. sem nota fiscal. só tem 20 minutos pra entregar uma correspondência do outro lado da cidade.Os personagens foram construídos pela vivência de dois dos autores do livro que o inspirou. O autor inspirador do personagem explicou muito bem essa adesão: não dá para cantar "sou PM. Acordou cedo. O motoboy tenta se afastar. o capitão Nascimento e seu substituto aderem à missão do Bope. Pensa: "Como alguém usa no braço algo que dá pra comprar várias casas na quebrada?" ELE ME olha. os que mais lucram com a guerra. os corruptos da corporação. A mãe já está na padaria também. Não há como negar que o filme. de máquinas de guerra no pior estilo dos marines. Quando o filho chora de fome. sem tempo pra sentimentalismo. lembra das 36 prestações que faltam pra quitar a moto. os traficantes da favela. pois ele está com outro na garupa. sua mãe. mas tem que arriscar e acelera. armados por corruptos. é pessimista. sua repulsa à corrupção tão escancaradamente mostrada no filme e tão comentada na vida real por todos da cidade traz outras associações. São treinados para matar inimigos. defendo a lei até morrer" porque isso seria visto como "coisa de mulherzinha". O treinamento por que passam. Também não há como negar que o público pode se deixar levar pela admiração aos impolutos policiais do Bope. cada qual com sua vida. toma seu café de um gole só e sai pra missão. Um deixa a vida para lá. No final. Só resta a guerra. Para isso. inclusive policiais. São mocinhos de farda preta a destruir o mal do qual tantos se crêem vítimas. Depois. não deixa a menor dúvida sobre o militarismo que impera nas polícias estaduais. cada qual com seus problemas. se 21 . sem gerar impostos. desconfia. osso duro de roer. para arriscar a vida calculadamente. por exibir tanta crueldade. tratou de acordar o amigo que vai ser seu garupa e foi tomar café. seu padrasto. O filme não é fascista. A resposta de Ferréz é contundente e inusitada o que talvez leve a um novo posicionamento da nova literatura da qual ele é representante e o Hip HOp nestes novos tempos que instigam desejar o extermínio. sua tia. cumprimenta rápido e vai pra padaria. TENDÊNCIAS/DEBATES Pensamentos de um "correria" FERRÉZ "Ele não terá homenagem póstuma se falhar. seu filho. o outro larga o curso de direito. pedindo dinheiro pra alguém pra tomar mais uma dose de cachaça. o destemor dos personagens. apresentado como incorruptível. Não são treinados para salvar cidadãos quando estão nas mãos de seus predadores. sem exigir de onde veio. Ele finge não vê-la. moral não vai ajudar. A identificação com eles e a esperança de que sejam os salvadores dos cidadãos indefesos e órfãos da segurança do Estado é inevitável. o vidro escuro não deixa mostrar nada. que é como todos chamam fazer um assalto. No entanto. Não são formados para combater o crime. denuncia e alerta. todos vão gastar o dinheiro com ele. Se voltar com algo. vidro escuro pra não ver dentro do carro. seus irmãos. para não errar o tiro certeiro que "quebra" o inimigo.

Tomava tapa na cara do seu padrasto. Passou. mas nunca deu tapa na cara de nenhuma das suas vítimas. o exemplo é aquele ali e pronto. se a missão falhar. apesar de morar perto do lixo. o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso. iria vender o relógio e ficaria de boa talvez por alguns meses. levou. sabe que os caras estão pra fazer uma fita. pra que estudar se. se equilibrando numa tábua pra ganhar o suficiente pra cobrir as dívidas. o garupa está atento. intimou. parou. quando assistia às propagandas. mas sua mãe o levava ao circo todos os anos. Ou matava logo ou saía fora. se morrer no caminho. Ele anda devagar entre os carros. morreram e nunca puderam fazer o mesmo por seus filhos! Estava decidido. porque a sua já é. atrapalhando o trânsito. tudo bem que sem nada demais. isso teve. um homem de verdade não pode ser medido por isso. No final das contas. que é sua vida. entendia que ou você tem ou você não é nada. Não acreditava em heróis. só parou depois que seu novo marido a proibiu de sair de casa. 22 . a mesma que todos da sua comunidade tiveram. todos saíram ganhando. mas sempre pensou que. percebe que é da sua quebrada. fazendo a comida deles. e o correria ficou com o relógio. deixará uma família destroçada. talvez cadeira de rodas. muitos em seus carros ouvem suas músicas.atrasar a entrega. falam em seus celulares e pensam que estão vivos e num país legal. mas não sabia o que queriam dizer. sabia que era melhor viver pouco como alguém do que morrer velho como ninguém. todo mundo é aprovado? Ainda menino. Ele ganhou logo cedo um kit pobreza. Se o assalto não desse certo. Leu em algum lugar que São Paulo está ficando indefensável. só que. e não terá uma multidão triste por sua morte. Enquanto isso. Ela começou a beber a mesma bebida que os programas de TV mostram nos seus comerciais. isso nunca faria. Teve infância. quase nada que sirva pro século 21. Era da seguinte opinião: nunca iria num programa de auditório se humilhar perante milhões de brasileiros. amanhã tem outro na vaga. perde o serviço. cuidando da segurança e limpeza deles e. A professora passava um monte de coisa na lousa -mas. ficaram velhas. defesa de quem? Parece assunto de guerra. no final. Quando passa pelos dois na moto. O cara pra quem venderia poderia usar o relógio e se sentir como o apresentador feliz que sempre está cercado de mulheres seminuas em seu programa. pela nova lei do governo. Se perguntava como alguém pode usar no braço algo que dá pra comprar várias casas na sua quebrada. isso não! Nunca gostou do super-homem nem de nenhum desses caras americanos. não era lixo. Teve educação. Será apenas mais um coitado com capacete velho e um 38 enferrujado jogado no chão. Tantas pessoas que conheceu que trabalharam a vida inteira sendo babá de meninos mimados. não terá homenagem póstuma. prisão ou caixão. ninguém sofre por beber. não teria como recorrer ao seguro nem teria segunda chance. dá um toque no acelerador e sai da reta. preferia respeitar os malandros mais velhos que moravam no seu bairro. A hora estava se aproximando. neles. O correria decidiu agir. tinha um braço ali vacilando. não fazia parte dele. tomava tapa na cara dos policiais.

08 de outubro de 2007 FERNANDO DE BARROS E SILVA Qual é. entre outras obras. "num mundo indefensável. mostra-se preocupado com o Brasil: "Passo o dia pensando em como deixar as pessoas mais felizes e como tentar fazer este país mais bacana. o apresentador foi agredido duas vezes. Nem com os sinais invertidos. à revelia das intenções do autor. Luciano Huck é a cara da elite brasileira e precisou ser assaltado para cair na real. e de "Ninguém é Inocente em São Paulo". Mas podia ser pior. defende o ensino público e ainda minimiza o papel do Estado penal no combate à criminalidade. O texto chocará muita gente de boa-fé e joga água no moinho do preconceito contra pobres. Por filosofia". o escritor do Capão. Mano Huck? SÃO PAULO . Por fim. É divertido ver como as respostas são melhores que as intenções da entrevista. O mundo não é justo. Mano Huck resolveu bancar o progressista otário justamente nas páginas amarelas. Menos chocante para muitos talvez tenha sido a biografia edificante que Huck fez de si. Entrevistado pela "Veja". Mas que traição de classe. Um cara tão legal. A seguir. mas aboli. pelo ladrão e pelos leitores -e acabou pagando por ser rico e famoso. É interessante. o Ferréz. segunda-feira. a despeito das nuances. 31. Huck frustra a pauta de sempre da revista. prevaleceram duas posições antagônicas: 1. até que o rolo foi justo para ambas as partes" equivale a fazer a apologia do crime e da barbárie em nome de uma suposta crítica das injustiças sociais. No mesmo dia. 2. REGINALDO FERREIRA DA SILVA . que Ferréz. Primeiro diz que paga todos os seus impostos -"uma fortuna". escritor e rapper. na periferia de São Paulo. declara uma opção de vida: "Confesso que já andei de carro blindado. na qual. Mostra-se tolerante. Não vamos brincar de mocinho e bandido. em meio aos seus articulistas já aparece a pronta resposta a Ferréz: São Paulo. até que o rolo foi justo pra ambas as partes. onde ele vive.. sem dúvida. O "Painel do Leitor" da Folha se transformou no palco de uma discussão quente como há muito não se via. dramatize o episódio pela ótica do assaltante (na página ao lado).Não vejo motivo pra reclamação. afinal.Nunca antes na história deste país um Rolex roubado provocou tanto barulho.. pretos e motoboys. Mas a conclusão de que "todos saíram ganhando" e. TV diverte e a ONG que presido tem um trabalho sério e eficiente". afinal. num mundo indefensável. romance sobre o cotidiano violento do bairro do Capão Redondo. Chama o ladrão! . é autor de "Capão Pecado". 23 .

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