NOTA SOBRE O CONCEITO DE BILDUNG (FORMAÇÃO CULTURAL

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Rosana Suarez1 rosanasrz@bol.com.br

RESUMO Apresento um breve estudo do conceito alemão de Bildung, com base no artigo “Bildung et Bildungsroman”, de Antoine Berman. O conceito é desenvolvido em cinco etapas: Bildung como trabalho, como viagem, como tradução, como viagem à Antigüidade e como prática filológica. Estas sugestões podem contribuir para a interpretação de obras de filosofia da arte e da cultura, por exemplo, passagens de Hegel, de Hölderlin, do romântico Friedrich Schlegel e de Nietzsche. Palavras-chave Bildung, cultura, estética, classicismo, romantismo, filologia, tradução, Hegel, Hölderlin, F. Schlegel, Nietzsche ABSTRACT The following research is about the German concept of Bildung, based on the article “Bildung et Bildungsroman”, by Antoine Berman. The concept is developed in five stages: Bildung in the sense of work, of travel, of translation, of returning to the ancient history and in the sense of philological practice. This research can contribute for the interpretation of works of philosophy of the art and the culture, as, for example, the passages from Hegel, from Hölderlin, from the romantic Friedrich Schlegel and from Nietzsche. Keywords Bildung, Culture, Aesthetics, Classicism, Romanticism, Philology, Translation, Hegel, Hölderlin, F. Schlegel, Nietzsche
1 Professora no quadro complementar do Departamento de Filosofia da PUC-Rio, Doutora em filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Artigo recebido em 15/09/05 e aprovado em 15/11/05.

KRITERION, Belo Horizonte, nº 112, Dez/2005, p. 191-198

Kriterion 112.p65

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10/2/2006, 11:32

sobretudo. Hegel. v. Schiller. Paris. originando-se na Alemanha e envolvendo autores como Goethe.. Défi et bonheur de la traduction. Paris: Bayard. de Antoine Berman. A respeito da importância do conceito de Bildung e de sua capacidade de irradiação. 2004. 1999. que me parece instrumental para compreendermos determinadas direções da filosofia da arte e da cultura que se produziu desde a segunda metade do século XVIII em direção ao XX. em Methode und Wahrheit: O conceito de Bildung (. também.. Sur la traduction. pela Editora da Universidade de Santa Catarina (EDUSC). 3 O autor obteve respeito e reconhecimento principalmente por suas reflexões críticas sobre o problema da tradução. ao lado de παιδεια (paidéia). Paul.p65 192 10/2/2006. Novalis..5 Em La traduction et la lettre. No artigo que aqui me interessa especialmente. ao passo que o do Barroco nos soa hoje como antigüidade histórica. eruditio e Aufklärung. de 1996. em 2002. Schopenhauer e Nietzsche. Le temps de la réflexion. p. 4. os conceitos e termos decisivos com os quais ainda hoje operamos adquirem seu significado. O conceito central tratado é Bildung. “ Bildung et Bildungsroman”. o processo da cultura. Kriterion 112. motivo pelo qual utilizo a expressão “formação cultural”. no Collège International de Philosophie. sublinha Berman — do que ainda hoje entendemos como cultura. pensadores notadamente interessados no problema e até mesmo nele envolvidos diretamente. Nessa época. os irmãos Schlegel. com o título A prova do estrangeiro.192 Rosana Suarez Este escrito se baseia na leitura do artigo intitulado “ Bildung et Bildungsroman”2 (“Formação cultural e romance de formação”). a idéia mais importante do século XVIII e é precisamente esse conceito que designa o elemento aglutinador das ciências do espírito do século XIX. Em resumo.6 livro inspirado em seminário que ministrou em 1984. como em L’épreuve de l’étranger. Berman enraíza a temática da tradução em um estudo conceitual rico e sugestivo. 1984).) é..) O conceito de Bildung torna evidente a profunda transformação espiritual que fez do século de Goethe ainda um nosso contemporâneo. como desenvolverei aqui. Paul. Bildung expressa. Hölderlin e. Bildung et Bildungsroman. 141. e no Brasil. sem dúvida alguma. Berman fala sobre a tarefa do tradutor sob epígrafes de Walter Benjamin e Hölderlin. ou l’auberge du lointain. (. autor francês precocemente falecido e ainda pouco estudado entre nós. Publicado em Paris pelas Éditions du Seuil. Apud BERMAN. 11:32 . da formação. Publicado em Paris. 7 2 3 4 5 6 7 BERMAN. RICOEUR. diz Hans Gadamer. vocábulo que designa uma das figuras históricas determinantes — talvez a última. In: RICOEUR. Antoine. em 1995 (1ª edição. Agradeço a Marcelo Marques a referência à obra de Berman. Bildung et Bildungsroman. pela editora Gallimard.4 obra que mereceu um elogio todo especial de Paul Ricouer quando das comemorações do Prêmio Franco-Alemão de Tradução. 1984.

conforme “Bildung et Bildungsroman”. em virtude. o sentido do termo permanece razoavelmente fixo ao longo do século XIX. Hegel e nos Românticos de Iena. “cultura” e pode ser considerado o duplo germânico da palavra Kultur. exprimindo. uma língua. no romance de Goethe. os anos de juventude de Wilhelm Meister. a 8 9 BERMAN. Bildung remete a vários outros registros. Elemento definidor e resultado do processo cultural. imagem. um povo. 142. “símbolo” etc. vide Friedrich e August Schlegel.NOTA SOBRE O CONCEITO DE BILDUNG (FORMAÇÃO CULTURAL) 193 Entre esses termos. “gênio”. apenas. no pensamento de Hegel. entende Berman. modelo. período em que a palavra se esvazia progressivamente e o seu conteúdo entra em crise. ao mesmo tempo. de origem latina. 8 Termo de caráter bastante dinâmico. hoje nos parecem evidentes. “vivência”. “expressão”. atemporais.. ao trabalho. e Urbild. flexibilidade ou plasticidade. Porém. 11:32 . de seu riquíssimo campo semântico: Bild. tanto em Hegel quanto em Goethe. Esboçarei. seus anos de aprendizado. Kriterion 112. Bildung como trabalho Designativa de um processo. Vorbild. p. Berman desenvolve a definição de Bildung. sem dúvida decisiva: aprende a formar-se (sich bilden). antes de tudo. Bildung significa. ligada à ação prática. no final deste escrito. Gadamer cita: “arte”. como lembra Berman. imaginação. no mais das vezes. arquétipo. o processo e o resultado da cultura. A partir daí. em sua força. Por exemplo. Utilizamos Bildung para falar no grau de “formação” de um indivíduo.9 Entrementes. Einbildungskraft. termos fundamentais. Cf. desenvolvimento. Bildung. onde ele aprende somente uma coisa. noções que. salientando a sua dimensão pedagógica e a sua aproximação com a arte: A palavra alemã Bildung significa. Sobretudo. uma arte: e é a partir do horizonte da arte que se determina. a palavra alemã tem uma forte conotação pedagógica e designa a formação como processo. o elemento definidor. genericamente. são seus Lehrjahre. Idem. “visão de mundo”. o que já atestariam as Considerações extemporâneas de Friedrich Nietzsche. a relação entre Nietzsche e Bildung. “história”.p65 193 10/2/2006. a palavra Bildung aparece. cuja totalidade determina a maneira como uma época histórica articula a sua compreensão de mundo. “estilo”. Ausbildung. Bildsamkeit. Nachbild. suas definições exemplares se encontram em Goethe. Bildung se impõe a partir da segunda metade do século XVIII. insisto no histórico do conceito. Em grande parte. Bildung et Bildungsroman. cópia. mas que nasceram na segunda metade do século XVIII ao lado de Bildung. como assinalarei através deste escrito. revelando-se.

Ibidem. 144. chama a atenção para o fato de que esta abordagem exemplar de Bildung “evidencia a diferença do conceito para com a simples universalidade do Esclarecimento (Aufklärung). Os anos de viagem de Wilhelm Meister. se esforça nos limites de uma atividade determinada — é levado a descobrir-se em meio aos diversos encargos e provas da vida material e social. aparentemente. p. pelo menos.194 Rosana Suarez partir de sua Propedêutica filosófica. formação de si pela formação das coisas. cuja essência é lançar o “mesmo” num movimento que o torna “outro”. no final desse processo.. o homem “vive o símbolo de tudo o que é bem feito”. a consciência escrava se liberta por um processo de formação: à medida que a consciência trabalha formando as coisas ao seu redor. GADAMER. In: BERMAN. em uma contrapartida dialética. remete. em um segundo momento. cit. Bildung se caracteriza como uma viagem. não apenas a do trabalho. “Fait sien (le métier)”. limitador.15 10 11 12 13 14 15 Cf. Propédeutique philosophique. p. Este círculo concreto é. In: BERMAN. 145. p. essa autoresponsabilização tem efeito universalizante: uma vez “apropriada”12 . p. ela forma a si mesma. elevação ao universal. cit. Reise. Apud BERMAN. A “grande viagem” de Bildung é a experiência da alteridade. Bildung é formação prática. e essencialmente. seqüência de Os anos de aprendizado. cit. Kriterion 112. BERMAN. por um lado. Diz Berman: No Goethe de Wilhelm Meister e nos românticos de Iena. engrandecimento. No famoso capítulo da Fenomenologia do espírito de Hegel. Pois está subentendido que. ele reencontra a si mesmo. a ocupação não é mais limite para o indivíduo. mais ainda. 145. Bildung et Bildungsroman. a outra figura. 147. 11:32 . ruptura com o imediato e passagem do particular ao universal. apud BERMAN. No dizer de Goethe.p65 194 10/2/2006. Por outro. op.13 Berman faz notar que. Bildung é sempre.. conotando aprimoramento.. a outra instância. p. o pensamento de Hegel e o de Goethe anunciam (“coisa de que os autores tinham bastante consciência”) a moderna “cultura do trabalho”. seu sentido de processo.14 Bildung como viagem O caráter prático e dinâmico de Bildung. a dialética do Senhor e do Escravo. 143-144. Bildung et Bildungsroman. mas a da viagem. prática”. “na única coisa que ele faz bem”. Cf. o protagonista inscreve-se no círculo concreto dos deveres e tarefas. Na mesma passagem.10 Como trabalho. nesse aspecto.11 Já na obra de Goethe. 145. op. op. p. Para tornar-se o que é o viajante experimenta aquilo que ele não é.

cíclica e alternante de Bildung (isto é. conhecido e desconhecido. esse tour formador tem o caráter de um romance. um lançarse-além-de-si. p. 17 Ibidem. 20 Ibidem. é Friedrich Schlegel quem melhor formula essa lei da viagem como lei da alteridade. Diz Schlegel: “Todo homem que é culto (gebildet) e se cultiva também contém um romance em seu interior. 32. p.. por exemplo). Lyceum [78]. próximo e longínquo.. do Estranho. dois casos marcantes desse esforço alemão de tradução: as primeiras traduções do sânscrito por August Schlegel. progressão e retorno) pode ser definida como Über-Setzung. 11:32 . incentivador dos estudos orientais na Alemanha a partir do final do século XVIII (sabemos como os estudos orientais repercutiram na obra de Schopenhauer. apud BERMAN. Fragmentos críticos. O jogo da comunicação e da aproximação é sentido e força de vida”.19 Bildung como tradução A natureza circular. da aparente estranheza do mesmo para si próprio. não aquele do qual nunca saímos. BERMAN. São Paulo: Iluminuras.. a tradução tem um papel essencial (. 1997. presente e passado. p. In: SCHLEGEL.. não importa aonde. a tradução pode e deve manifestar-se como um dos agentes principais da formação”. 19 In: BERMAN.) Daí as suas polaridades definidoras. F.p65 195 10/2/2006. 148. o homem sai de si mesmo para se buscar e encontrar o complemento de seu ser no mais íntimo da profundidade do outro. na cultura alemã do final do século XVIII.”17 A “grande viagem” que caracteriza Bildung não consiste em ir a um lugar qualquer. lá onde nos possamos formar e educar. um movimento de tradução: “E não é por acaso que. certo de reencontrar-se. Conversa sobre a poesia. mas..16 E. À medida que Bildung se define como certa provação do estrangeiro. (. p. Diz Schlegel: “É por isso que. Kriterion 112.). 147. F.NOTA SOBRE O CONCEITO DE BILDUNG (FORMAÇÃO CULTURAL) 195 No entender de Berman. ainda: “O nosso verdadeiro lugar é aquele ao qual sempre retornamos. pelo menos. em Goethe e nos românticos: cotidiano e maravilhoso. 18 SCHLEGEL.20 Menciono. op.” 18 Frisa Berman: Enquanto romance Bildung é experiência da aparente estranheza do mundo e. p. F. 148. 16 In: SCHLEGEL. sim. Na concepção de Friedrich Schlegel. ao mesmo tempo. O dialeto dos fragmentos. também. Bildung et Bildungsroman. cit. ser. depois de percorrer os caminhos excêntricos do entusiasmo e da alegria. 148-149. finito e infinito.

e. no Estranho. porém. mas sim verdadeiras recriações. um “clássico”. também. original. 24 Ibidem. no jogo complexo da relação com o modelo da Antigüidade. com Vorlbild. 22 Cf. Kriterion 112. ela mantém uma relação essencial com o que se chama. 149-150. o que magoou Hölderlin profundamente. No tocante à arte e à literatura. 11:32 . 150. Essas traduções tiveram. é a partir da contribuição do pensador Joachim Winckelmann — criador da luminosa visão apolínea da Grécia na segunda metade do século XVIII — que a Antigüidade grega se torna modelo e arquétipo na Alemanha. Bildung nunca é uma simples imitação do estrangeiro. a perceber nos gregos. original. como tradução. o faz com a mediação de figuras-modelo. extremo de tradução formadora. Urbild. p. cit. como.p65 196 10/2/2006. ao centro do debate: é a necessidade do “retorno aos Antigos”. por eles serem. que.. aterrorizante e chocante do Estrangeiro puro”. 23 Cf. Entretanto. “a não-imagem perturbadora. originais e eternos. em alemão. Bildung et Bildungsroman. então.196 Rosana Suarez as traduções feitas por Hölderlin das tragédias de Sófocles. em grande parte às avessas. Nachbild.24 Face à Antigüidade. diz Berman. no Estrangeiro. Bildung como viagem à Antigüidade. os companheiros que Wilhelm Meister encontra ao longo de sua jornada. arquétipo.).25 e a formação da cultura e da arte modernas se determina de antemão — para o classicismo alemão em particular —. por Walter Benjamin. p. Bildung se relaciona com Urbild. Ibidem. A questão da relação com esse modelo vem. acolhida severíssima. 25 “Déchiré ”. 150. op. é célebre a frase de Winckelmann: “O 21 BERMAN. norma ou modelo aos quais Bildung se refere numa relação de reprodução ou “resposta”. ao mesmo tempo. 23 Nenhuma outra cultura passada teria essa precedência. arquétipo (. O contato de Hölderlin com a língua grega através de Sófocles representa um caso emblemático e. na época. verdadeiras obras-primas. em sua época. em especial.. sendo consideradas mais tarde. dando margem à complexa reflexão contemporânea sobre os destinos da tradução.” (Idem). p. cito as palavras de Berman. isto é.: “Em virtude de sua natureza de experiência. isto é. E isto na medida em que Hölderlin teria sido o único.22 Quem se procura no estrangeiro. 149. A filologia O exemplo de Hölderlin revela. ao mesmo tempo..21 Daí as suas traduções não mais serem reconstituições. BERMAN. p. Édipo Rei e Antígona. Nesse sentido. a modernidade se percebe como um projeto inacabado ou fragmentado. por exemplo.

27 Resumo. identificação. op. prática. op. em uma carta ao amigo Erwin Rohde: “Ciência arte e filosofia crescem em mim tão misturadas que.”. estabelecer classificações cuidadosas como o botânico. “Introdução à leitura de Winckelmann”. a disciplina filológica da época do florescimento de Bildung pede cordialidade e atenção para restituir à vida culturas passadas. se possível. Kriterion 112. pois disseminam o sentido da arte por todo o campo da reflexão. pois as duas figuras. reaproximar culturas distantes. F. maleabilidade formadora. o filólogo é artista: “Saúde aos verdadeiros filólogos! Eles realizam obra divina. Bildung et Bildungsroman. para Friedrich Schlegel. a disciplina que adquire um papel de primeiro plano.. abraçar como o apaixonado. desde que percebamos nesta palavra uma riqueza de significados. darei à luz um centauro”.p65 197 10/2/2006. 29 Diz Berman: “A definição de Friedrich Schlegel do ‘crítico’ vale para o ‘filólogo’. Mais do que erudito ou cientista. definindo-se em geral como estudo dos textos e das línguas antigas é a filologia. O nascimento da tragédia. portanto. inimitáveis. Nenhum erudito deveria ser um simples burocrata”. cit. abarcar tudo com o olhar como o filósofo.”26 Diz Berman: Reúnem-se todos os esforços para alcançar um grau de cultura equivalente à dos Antigos. dissecar como o anatomista. se comover como o músico. é a imitação dos antigos. desconfio. quando se orgulha de seu próprio trabalho de filólogo. 151.30 Esta virtude “camaleônica” do filólogo é justamente Bildsamkeit. imitar como o ator. clarividência e presteza para discernir e. p. em geral hoje perdida. apud BERMAN. in: Páginas de filosofia da arte. plasticidade. captar o momento como o político etc. Nessas condições. ver o estudo de Gerd Bornheim. tradução. Conversa sobre a poesia. às vésperas da publicação de seu primeiro livro. 28 In: SCHLEGEL. Literalmente “amor ao logos”. por uma apropriação de suas formas poéticas.28 O balanço entre ciência..NOTA SOBRE O CONCEITO DE BILDUNG (FORMAÇÃO CULTURAL) 197 único caminho para nos tornarmos grandes e. p. na Alemanha clássica e romântica. 150. qualidade para a qual Friedrich Nietzsche acena no início da década de 1870. cit. 1998. medir com precisão como o matemático. 27 In: BERMAN. Rio de Janeiro: UAPÊ. ao mesmo tempo. alteração.. se recobrem totalmente. p. analisar como o químico. 151. cit. trabalho. p. 11:32 . por Friedrich Schlegel: O bom crítico29 deve observar de maneira fiel e conscienciosa como o médico. o dinamismo próprio de Bildung: seu caráter de processo. a totalidade das traduções que constituem Bildung pertence ao espaço da filologia. In: op. Para Berman. viagem. arte e filosofia se evidencia nesta bela definição da filologia. 26 Sobre a influência de Winckelmann. ser severo como o juiz. principalmente. romance. conservador como o antiquário. se aprimorar continuamente como o escultor. 30 Apud BERMAN. 150.

vôo a uma misteriosa “montanha mágica” —. por exemplo: “Meu objetivo é declarar guerra entre nossa ‘civilização’ atual e a Antigüidade. Através do fio condutor que ele oferece. BARRETO. 2002. 11:32 . O centauro nietzschiano.33 Vale lembrar também que é a partir da prática da filologia e da reflexão crítica sobre esta prática — já vista na época como bastante insatisfatória pelo professor e educador Nietzsche — que ele estrutura a sua crítica da arte. p. carente da arte e da filosofia como orientadoras (nesse momento. filologia. portanto. 49. arte e filosofia em O nascimento da tragédia. 31 Cf. à “alteridade” grega —. a música como linguagem universal etc. as filosofias que ele elogia são as de Kant e Schopenhauer). abandonaram o jogo criador. Cabe frisar. o encontro com o Estrangeiro na pele indômita de Dioniso. orientador Roberto Machado. de definição simultânea do passado e do presente.p65 198 10/2/2006. os filólogos de profissão. cientificistas. identidade ou “progresso”. apenas. 46. A seus olhos. Quem quiser servir à primeira deve odiar a segunda. Para Nietzsche. a filologia praticada no início da década de 1870 é disforme. estabelecer um vínculo com O nascimento da tragédia. cit. 32 Apud BARRETO. em sua viagem à Antigüidade — no caso. 33 In: BARRETO.”32 De todo modo. discutir os pontos principais da temática do livro junto ao histórico de Bildung: a viagem formadora à Grécia antiga — nas palavras de Nietzsche. “tratase de um movimento duplo. op. Ana Cláudia Gama... a intenção deste escrito. porém. Esta não é. enxergamos em perspectiva certos pontos em comum — assim como também vislumbramos diferenças irredutíveis — entre os pensadores que admiramos. Dissertação de mestrado. op.31 quando diz. Nietzsche privilegia os aspectos de descontinuidade sobre os de continuidade. apenas alinhavadas essas direções apontadas pelo estudo de Berman. p. Kriterion 112. no qual é impossível isolar um dos termos sem reduzir a quase nada o alcance de sua reflexão”. da cultura e da educação. cit.198 Rosana Suarez É tentador. Wagner como modelo e mestre cultural. Rio de Janeiro: UFRJ. aqui. que. clarividente e amoroso — não são mais os artistas que desejava Schlegel — e não ouvem música. Deixo.

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