Aristóteles e as Mnlaçoes

Programa editorial da Livraria e Editora LOGOS
"ENCICLOPÉDIA DAS CIÊNCIAS FILOSÓFICAS E SOCIAIS" — De Mário Ferreira dos Santos. Volumes publicados: "Filosofia e Cosmovisão" — 2.a ed. "Psicologia" "Lógica e Dialéctica" "Teoria do Conhecimento" "Ontologia e Cosmologia". No Prelo: "Tratado de Simbólica" "Filosofia da Crise" COLEÇÃO TEXTOS FILOSÓFICOS — Sob a direcção de Mário F e r reira dos Santos. "Aristóteles e as Mutações" — Com texto reexposto e comentários de Mário Ferreira dos Santos. A sair: Obras completas de Aristóteles Obras completas de Platão Acompanhadas de comentários e notas. OS GRANDES LIVROS: "Don Quixote de Ia Mancha", de Miguel de Cervantes — Ed. ilustrada com as gravuras de Gustave Doré. A sair: "Paraíso Perdido", Gustave Doré. de Milton — Ilustrado com as gravuras de

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"ENCICLOPÉDIA DAS CIÊNCIAS FILOSÓFICAS E SOCIAIS" — De Mário Ferreira dos Santos. Volumes publicados: "Filosofia e Cosmovisão" — 2. a ed. "Psicologia" "Lógica e Dialéctica" "Teoria do Conhecimento" "Ontologia e Cosmologia". No Prelo: "Tratado de Simbólica" "Filosofia da Crise" COLEÇÃO TEXTOS FILOSÓFICOS — Sob a direcção de Mário F e r reira dos Santos. "Aristóteles e as Mutações" — Com texto reexposto e comentários de Mário Ferreira dos Santos. A sair: Obras completas de Aristóteles Obras completas de Platão Acompanhadas de comentários e notas. OS GRANDES LIVROS: "Don Quixote de Ia Mancha", de Miguel de Cervantes — Ed. ilustrada com as gravuras de Gustave Doré. A sair: "Paraíso Perdido", Gustave Doré. de Milton — Ilustrado com as gravuras de

OBRAS DE MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS • • • • • • • • • • • • • • • • Publicadas: Filosofia o Cosmovisão — 2. Noologia Geral. Psicologia Social. de Nietzsche — Esgotada. com reexposição.a ed. Lógica e Dialéctica (incluindo "Decadialéctica") — 2. Saudação ao Mundo — de Walt Whitman. . No prelo: Assim Deus Falou aos Homens — Coletâneas dos trabalhos publicados com pseudônimo de Mahdi Fezzan. Dicionário de Filosofia. (Com o pseudônimo de Dan Anderson) . Além do Bem e do Mal. I. Axiologia (A Ciência dos Valores). Tratado de Simbólica. com ensaio Introductório — Esgotada. Tratado Decadialéctico de Econom-a (reedição "Tratado de Economia"). Hegel e a Dialéctica. Sociologia Fundamental. f^ COLEÇÃO DE TEXTOS FILOSÓFICOS Aristóteles e as Mutações ("DA GERAÇÃO E DA CORRUPÇÃO DAS COISAS FÍSICAS") • • • • Texto. Psicogênese e Noogênese. Teoria do Conhecimento (Gnoseologia e Criteriologia). Ontologia e Cosmologia (As ciências do Ser e do Cosmos). — Temas nietzscheanos. Ética. Tratado de Economia — edição mimeografada — Esgotada.Ç-1— LIVRARIA E EDITORA LO Q O S S. a edição. Filosofia e História da Cultura. acompanhada da crítica dos seus mais famosos cnmentadores. O Homem que Nasceu Póstumo. Curso de Integração Pessoal. O Homem que foi um Campo de Batalha — prólogo de "Vontade de Potência" de Nietzsche — Esgotada. . ^ Teoria Geral das Tensões.ógica e Dialéctica (Incluindo a Decadialéctica) — Esgotada. As três críticas de Kant. Aristóteles e as Mutações — Reexposição analítieo-didáctica do texto aristotélico. Realidade do Homem — Com o pseudônimo de Dan Anderson. A Publicar: © © © © © © © © © © © © © © © © • • • • • "O Homem perante o Infinito". com texto explicado e análise simbólica. de Nietzsche. Traduções: Vontade de Potência. de Nietzsche. Técnica do Discurso Moderno. PAULO 1955 . Aurora. Temática e Problemática das Ciências Sociais. Antropologia Cultural.Esgotada. por \ í MÁRIO FERREIRA DOS SAtyPOS >J y &»**£j£i&feí í^stuc* sawfc ampliada do I ^ d a ÀJ. Se n Esfinge F a l a s s e .a edição. A Filosofia da Crise. Assim Falava Zaratustra — De Nietzsche. Análise Dialéctica do Marxismo. Diário íntimo — de Amiel. Temática e Problemática Filosóficas. Psicologia. acompa- nhado de notas explicativas e analíticas. Curso de Oratória e Retórica — 3.

a edição: abril de 1955 ÍNDICE Introducção — de Mário Ferreira dos Santos Sinopse de alguns conceitos fundamentais. Bento Munhoz ria ocha \etto j-lo^l ~j | ai/o"*/»? TODOS OS DIREITOS RESERVADOS . de Mário Ferreira dos Santos TEXTO DE ARISTÓTELES Livro II — Com comentários Bibliografia II MU 1 M M H BÍPLIOTECA MUNICIPAL TW.l. de Aristóteles sobre temas físicos A geração e a corrupção na filosofia grega TEXTO DE ARISTÓTELES Livro I — Com comentários Comentários especiais ao Livro I.

medida. Também todo movimento é transitividade. que cabe à Ontologia. revela-nos que a mente. O estudo das modais. mas que é absolutamente inseparável dele. Esse de aumentativo. que passa de um modo para outro. mensura. O movimento é uma modal da acção transitiva. A formação do esquema da dimensão é importante para a compreensão de muitos aspectos do movimento. permitiu ao homem captar o seu nexo. mentis. O movimento. mas um resultado. e por conseqüência. Também é um resultado o dimensional. Em todo movimento há a actualização de uma possibilidade. modalidades das coisas. realiza a assimilação pela "assemelhação" do intencionalmente captado com o esquema. para o que é após a operação. podemos dizer. porque transita do que era antes da operação. fundado na sua experiência. que revela a passagem de um modo de ser para outro. há sempre o apontar da acção da mente (mens. Todo o resultado é uma transüividade. mas sim uma forma em movimento. que actua sempre por acomodação dos esquemas aos factos do mundo exterior ou aos pensamentos. deste corpo é algo que é distinto dele. reforçador. Se o reduzirmos à filosofia. Nessa dimensio ou demensio do latim.INTRODUÇÃO A visão não apanha o movimento. e como o acto é a perfeição da potência. captação pensamental do acto de pensar ao comparar pensamentos uns com os outros). o qual é aposterioristicamente construído pelo homem (post rem). Não é o movimento algo primário e original. e tudo o que é dimensional implica movimento. em cada momento de transitividade há sempre um ultrapassar. . mostra-nos que o movimento e a dimensão são apenas modais. que é uma nova qualificação do ser. alcançaremos a sua raiz. A disposição das partes em ordem a um todo. que o movimento é uma modal. também intencional. Esta revela a perfectibilização da potência: o acto. Se estudarmos etimològicamente o conceito de dimensão. seguindo a posição de Suarez.

Compara-se esta extensão com uma extensão menor. . que é mensurável e não medível. mais ou menos). e são modalidades das coisas. Dessa forma. às do volume. em plena dimensionalidadc qualitativa. sem que lhes caiba um conteúdo fáctico. o que tanto na ordem quantitativa. Quando se trata da extensidade. e vê-se quantas vezes a primeira contém a segunda. perfeita em sua série (como maximum. e a captação da relação das parles com um lodo. pág. as axiológicas e as íensionais. vê-se desde logo. Sintetizando: a) A medida extensiva. islo é. mede-se o menor pelo maior Se quero medir este verde. Daí. dimensões extrínsecas às espaciais. postas de par cm par) e que fundam os esquemas das três dimensões do espaço. Em suma: A medida é o que nos faz conhecer se uma coisa é maior ou menor. homogeneamente considerada). inseparáveis desses. pois nelas predominam os graus. mas metafisieamente separáveis pela construção dos esquemas noéticos que lhes correspondem. As dimensões do espaço são modais dos corpos. como se procede na medida da extensão por uma extensão. afirmando uma deficiência. unindo a um elemento de ordem actual um elemento de ordem potencial. termos as dimensões tópicas (essa dimensão que se extende localiter. temos as medidas quantitativas. porque essa é divisibilidade. a unidade qualitativa é um perfeito. As qualitativas são intensistas. Meço este quarteirão. a mensura externa. 38). sem delas se separar em absoluto. Mas quando se trata de qualidades. é a medida da quantidade. e se é mais ou menos que outra. As qualidades são medidas pelas suas perfeições. "O espírito mede as quantidades por adição. implicam a ordem das parles com o todo. AS MEDIDAS Medir é uma ação que consiste em dar um valor numérico a uni objecío pelo número de vezes que contenha a unidade empregada. que surgem como esquemas abslraclo-noélicos da comparação das medidas qualitativas pela comparação dos aspectos qualitativos. como a medida quantitativa. mas a profundidade cm função de esta ou aquela coisa. um maximum" (Isaye. Mede-se o maior pelo menor. aqui. a medida já não é uma unidade menor. subsistente de per si. no qualitativo. captadas pelo sciisório-molriz e estruturadas em esquemas abstraclonoélicos pela mente (abstração do quantitativo). e. já é um princípio de conhecimento. (como minimum). das quais participamos. portanto). que a seguir reproduzimos. como máximum. A medida quantitativa realiza-se por um melron. que em muito nos auxiliará a obter a melhor compreensão do texto aristotélico. é tomada qualitativamente e não quantitativamente. (como perfeição de sua hierarquia). Não se dá a profundidade como lal. As dimensões. que é ideal. como na qualitativa. portanto. fcslc é o caracter modal da dimensão das coisas exteriores. 0 espírito mede a qualidade por "composição". Medem-se homogeneidades. Mas. com perseidade. implica o homogêneo ao medido. como as qualitativas. que cabe à Noologia estudar. enquanto considerada apenas como quantidade (homogênea). dão clareza ao pensamento exposto até aqui. já lautas vezes estudados por nós. d) a unidade individual. que serve de termo da comparação. não digo que êle tem dois ou três unidades de verde. portanto. como medida da tensão. K há outras dimensões. é a medida da intensidade. abstractamente considerada e despojada da sua heterogeneidade. Estas palavras. que a dimensão implica a medida (mrnsiira) e a ação da mente em comparar pensamenlos captados com pensamentos estruturados em esquemas abslraclo-noélicos. comparadas. as qualitativas. apenas como tal. (as quantitativas). b) a qualidade. A medida. Estamos. apesar de tratado em linhas gerais. examinemos previamente as medidas. com um metro (uma extensão menor. que já é sensivelmente conslruido pela ordenação das coisas no mundo exterior. E como modal também o é a dimensão não tópica. comparando-o com o verde perfeito. c) o valor. meramente exlensistas. portanto por um maximum e não por um minimum. Para justificar a nossa lese. e não actual. portanto. mas digo que é mais ou menos verde. portanto. e abstractamente considerada. vè-se. uolumcn. é a medida dos valores (escalaridade dos valores.12 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 13 Formado o esquema de ordem. que é revelada pela ubiquação das coisas do mundo cxlerior. com um ser subsistente de per si. a comparação. reduzindo sua extensão (homogeneamente considerada). a unidade quantitativa é um minimum. facilmente se é levado ao serial e à formação do concedo de dimensão. como acontece com todas as perfeições. embora parcial. do qual lenho uma posse virtual.

como naquela primeira. mas a forma. como o n u m e ^ d e o u r Q p i t a g o r i c o . mas. seria c o m p r e e n s í v e l 0 n ú m e r o d a har . A causa de tal harmonia c h a m a r . pelo qual. bastaria atentássemos para estes pontos: se esta macieira é macieira é por que nela há o que. que exigem grande subtileza de espírito e idéias muito claras para penetrar num terreno. . porque o perfeito de hoje poderá ser ^ p e r a d o a m a n h ã . a perfeição. e nunca existencialmente.i ^ fl a f i r m a c ã o d e q u e u m s e r que atingisse a perfeição da f^ rma e s s e n c i a l d o eidos p l a t ô . uma "ratio". feição absoluta da macieira hó*caheria essencial. em seu número (que não deve ser apenas considerado quantitativamente. o esquema c o n c r e t ^ d e u m s e r a i e a í ? o r a ) e s t a macieira. uma que s e j a fl m a i s p e r f e i t a > a q u e melhor corresponde. é medida de tudo. n e . E naquela macieira. Temos. com os conteúdos da mente humana. o conceito. Portanto. uma estrutura que a ordena como tal. há um ^ e r é Q m e l h o r de s u a sé._ morna pitagonca. algo pelo qual elas são macieiras e não outra coisa. ela é isto e não outra coisa. l e v a r . seria m t ^ . há uma forma da macieira. gem de Tomás de Aquino). dao sempre u m n ú m e r o i n d e f i n i d o . nao apena. para tornar-se o ente ideal. na coisa (//! re) e um esquema abstracto noético. e poderemos construir o* s e g u i n t e s pensamentos: Em cada instante. pelo menos. Estas digressões mais c o m e z i n h a s a d i a l e c t i c a p i a t ô n i c a que a anstotelica. aqui e agora. e em todas as macieiras do mundo. mas que apontam. ou por algo que ela é uma macieira c não uma pereira. N o segundo caso. Posteriormente. que intencionalmente o repete. É através de. que nela também se repete. a forma porque esta e . ou do arfthmós lethog (o n u m e r o de conjunto) pitagonco. um esquema abstraclo noético. mas também qualitatimente. nico. Meditemos s o ^ t1U(. ^ ^ i n a l c a n ç á v e l . á m e d i d a de seus efeitos. essa forma não é algo material. Tais pensamentos nos p o d ^ n l e v a r a a l g m n a s digressões que servem nao so para ilustr^. neste instante. pois do contrário com ele se identificaria. os arühmoi harmonikoi s a o s e m p r e inde_ fimdos.ARISTÓTELES 14 ARISTÓTELES E A g M U T A Ç Õ E S E AS MUTAÇÕES i:> Para I ornas de Aquino.so macieira. e o que e. possibilidades pensamentais. aparentemente fantasioso para o ignorante de tais assuntos.da essa ausência d e e x c e c o m o d e d e f e ito S . o que é maneira bem grosseira de ver os números. imita a i d c i a e x e m p l a r ( n a i i n g u a . e esse algo é o que os filósofos chamam forma. Essa forma é uma proporcionalidade intrínseca.por exemplo. o homem constrói desse esquema imanente nos seres um esquema em sua mente. em tantos lugares e tão distantes. p o i s a p e r . Entre todas as macieiras d o m u n d o h a d e h a v e r . na ordem l ^ n i v e r s a l d o s e r . s e u limite. porque o que é material ocupa tun lugar e não poderia estar. e supinamente controversas. o eidos platônico. E para tornar mais simples o que dizemos. que não caberiam nesta introdução tratar. como os viam os pitagóricos). imita-o. está naquela também. que é semelhante a esta. Ora. portanto nunca alcan á y e i m a t e r i a i m e n t e . Mas essa forma que está nesta. deixando de ser o ente material. Nas macieiras.n o s . portanto.Q t() f o i d i U ) a t é aqui. E esse termo se da. . ou o arithmós plethos pitagórico. como para oferecer certos da<j QS s e r ã o oportunamente esclarecedores. agora. por exemplo. mas que imitam o que há fundamentalmente na coisa. nem mais nem m e ^ E * diversos epítetos apresentam (. como imitanlc jamais o repetiria perfeitamente. A m a c i e i r a mais macieira de todas. um esquema concreto. por isso. de facto s ^ V e e m p o tência. simultaneamente. Conseqüentemente. No ser. que dela ^ p o t e ncialmente aproximar-se sempre. como termo final. que está na ordem do Ser Supremo. o que o constitui ônticamente repete o número. é a idéia exemplar ontológica (e um teólogo poderia dizer teológica. Para êle o efeito tem sua b e r f e i c ã o p r ó p r i a . A f o r m a essencial na ordem ontológica é p e r f e i t a e jamais alcançada pela materialidade. infinito e perfeito da essência ontológica. na sua perteiçao extensista e d e t i n i U V a n i e n t e a c a b a d a > como a relaçao entre o diâmetro e a c ^ c u n f e r ê n c i ou a hipotenusa e o quadrado. cuja soma é igual a dois ângulos rectos). Todo gênero tem um t ê r m ^ e a p e r f e i ç ã o do gênero. s e . q u e j a mais alcança um termo fmitç^ Assim. essa moderação esse justo m ^ 0 „ e d a í p c s u l t a u m a o r < J uma disposição harmoniosa. porque está em Deus) jamais identificada senão formalmente com as coisas. tais digressões exigem outros estudos de metafísica. e que se repete. a forma escotista. assim. como um triângulo qualquer imita a proporcionalidade intrínseca do triângulo (três ângulos. não tòpicamente localizável. também há nela um pelo qual ela é macieira e não outra coisa.* a o esquema abstracto macieira nem apenas ao esquema c o n c r e t o imanente na macieira. c ^ l o d o g ê n e r 0 ) 0 s e r mais perfeito e exemplar e medida dos o u t r o s ^ e r e s d o g ê n e r o . & m a t 6 r i a q u e o r a batamos. Deus tudo dispôs com m e d i d a e. Há. ali. Deus e o exemplar de tod QS o s participam da sua bondade (como bem e bom). em ambas.

e realiza o esquema formalnoélico (/>o. leva a ilusões. O ohm. se não estivessem na sua ordem. Desse modo são colocadas. como medida de resistência. à maneira do ponto nas grandezas contínuas e da unidade abstracta no gênero dos números". o triângulo-em-si. mas antes. * * * As medidas são consideradas na física eidèticamente perfeitas. pois. fonte de todos os seres tini tos. Impõe-se. O olim. cuja actualização implica um extrínseco a ela que o realiza. nunca. não é materialmenle perfeito. pode aproximar-se mais ou menos ou afastar-se mais ou menos do ohm perfeito. nos serve de medida qualitativa.16 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 17 em nós. quid. é uma medida eidèlicamenle perfeita. ao Ser Supremo. nessa ordem é um único. O medivel é uma possibilidade da coisa. bem como o que pensava Tomás de Aquino. A acção de medir implica a comparação de um termo com um máximum que serve de medida (intensidades) ou um minimum (extensidades). De Pot. Neste caso. como já vimos. poderíamos construir triângulos (é uma possibilidade ao menos) cada vez mais perfeitos. Portanto. tanto na matemática. haver entre a medida e o medivel uma univocidade quididativa. que verificamos aqui ou ali. O mesmo podemos dizer de qualquer outra medida. sustentáculo de todas as coisas. (Tomás de Aquino. E o ser que actua em todas as coisas está em acto. teria vindo do nada. portanto. Com essa sintética explanação. que construímos como um esquema abstracto. pois deve haver entre o medido e a medida um ponto de identificação. Conseqüentemente os esquemas concretos estão de algum modo no Ser. do contrário seria impossível comparar. como a causa é princípio do ser. os números por números (números quantitativos-abstractos). e conseqüentemente é tomada qualitativamente. mas as formas Irianguiares que se repelem na matéria são sempre escalarmente imperfeitas. é princípio de conhecimento. estava. Para resumir o que foi tratado. essa quididade. Portanto. de Platão) que as coisas repelem. como agente. Mas é mister compreender que o que é produzido pelo agente está de algum modo no agente. q. pois não poderiam ter provindo do nada. pciTcilo. encontra também uma positividade no pensamenlo de grandes figuras da filosofia. como a pode captar a dialéctica. repetimos. como princípio do gênero. únicas e perfeitas. na ordem do ser {ante rem). Mas o que sucedeu naquele ente era um arithmós. imutável. que nós matemática e formalmente podemos esboçar. mas apenas mostrar que o nosso mp'lo de ver os esquemas. acrescentamos: É dimensional tudo quanto é medivel quantitativa ou qualitativamente. mas pertence ao gênero por redução. veio do ser. poderia tê-los produzido no acto existencial dos indivíduos. que pertenceriam à mente divina. cuja soma de seus ângulos fosse absolutamente igual a dois ângulos absolutamente rectos. após a experiência. como na física. "Deus não está contido no gênero substância à maneira de uma espécie ou de um indivíduo. do coulrário. pois aceitava tais formas como idéias exemplares. A medida. toda medida é uma unidade tomada no seu gênero. embora fàcticamente imperfeitas. Por outro lado é preciso considerar que a medida quantitativa. como a entendemos. Não queremos com isso forçar conciliações de pensamento. E. E como não veio do nada. mas que sabemos não encontrar-se nas coisas. Todo agente actua enquanto está em acto. e não seria possível realizar um triângulo materialmente perfeito. sempre. um só. pois poder-se-ia dizer que há mais ser em 20 indivíduos do que num só. mas que eram dialècticamente compreensíveis numa visão cooperacional. No entanto. os tamanhos por tamanhos. ad 7). já era no ser numa modalidade diíerenle da (pie existe aqui e agora. pois. é porque dela parti- . era no ser como algo essencial e não existencializado ainda. que separa da coisa esse quê. no entanto. 3. cremos tornar claro o pensamento tanto de Platão como o de Pitágoras. O triângulo c sempre perfeito como ideal. mais próximos dessa perfeição. o ser seria tomado como extensista apenas. nem o Ser. dentro dos postulados que oferecemos. que é formal. como é perfeito e imutável o triângulo (o aulolriyonon. dirá o pilagórico. A medida qualitativa é um maximum ou um ser perfeito no seu gênero. sem jamais atingi-la. mas que. não só quando se dão nas coisas. após o acto de abstracção realizado pelo nosso espírilo.s7 rem) da coisa. Se a perfeição divina permite a medida nossa com ela. E essa perfeição do triângulo-em-si. que era possivel actualizar-se nele. 7. as diversas opiniões na filosofia que pareciam lão distantes. no entanto. Mas a medida implica sempre a homogeneização entre o medido e o medivel. a. e em acto está o ser supremo.

as principais idéias. duas esferas que ao se aproximarem se tocam. Na "Sinopse" que se seguirá. pois há uma distância entre os dois termos que o móvel percorrerá. Teològicamente. como sobre o que irá Aristóteles tratar neste livro. por isso. que significa a nossa participação de uma perfeição. como o expõe Suarez nas "Disputationes Metaphysicas". pressumiremos já do conhecimento do leitor. Se a oposição é contraditória. local. Procuraremos sintetizar. de conhecer modos diversos sem deixar de ser curva. expostas na obra do Estagirita. que é uma característica da modal. isto é. Accidente: Não é um absoluto não-ente. Serão esses dois termos. por isso pode contradizer-se sem negar a sua própria identidade. pois um mover-se d e . A teoria dos mínima de Aristóteles pode ser aplicada também às intensidades. Dela se distingue realmente. Dela não se afasta. Já a recta. Por sua vez o accidente é conseqüente à forma da substância e lhe é. Sinopse de alguns conceitos fundamentais de Aristóteles sobre temas físicos. mas em potência ante o acto de ser medida. Entre ser e não-ser não há lugar para intermediários. Há em cada mutação a transição de um termo inicial para um termo final (terminus a quo e terminus ad quem). diferentes entre si. nem por um maximum nem por um minimum. A dimensão é uma modal estática da coisa. Algo para mover-se tem de ser determinado. O accidente não pode ser separado fisicamente da substância. Nas mutações intensistas. . é condição de tudo quanto é tempo-espacial (corpo). O movimento curvo mostra sua contradição no movimento do próprio círculo. Num movimento continuo. e neste caso há afirmação a negação. . não se pode dar nenhum intermediário.18 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 1!) cipamos. por nossa parte. extensista. é sempre um afastar-se d e . ter existência Icmpo-espacial. . Na reexposição do texto e nos comentários que apresentaremos não haverá mais necessidade de exposição desses conceitos que. isto é. finito. portanto conjunto de contradições. Impõe-se distinguir duas classes de mutações. sempre em acto. porque a dimensão é inherenle à coisa medida. dá-se o mesmo. Afirmaria a simultaneidade. e um aproximar-se d e . para que haja mutação. o que não permitiria um movimento infinito nesse sentido quantitativo. pois não é êle medivel. Damos a seguir a sinopse de alguns conceitos que muito auxiliarão a boa inteligência desta obra. em seus graus. 0 MOVIMENTO Um movimento absoluto (como quantitativamente infinito) seria um movimento que negaria a si mesmo por privação. mutação de um "ser" para um "não-ser". pois como perfeição é o maximum da perfeição. por ex. . pois. Mas essa oposição pode ser vária. que dela pode distinguir-se. aquecimento-resfriamento. O movimento. o é em relação ao movimento da luz. 0 acidente é da substância (inest in substantiam). nem tampouco é absolutamente (simpliciter) um ente. Algo entre eles deve se opor. como já o faziam os escolásticos. Não se dá o acidente sem a substância. pois não há entre opostos contraditórios possibilidade de um meio termo. É a medida qualitativa de todas as coisas. não só sobre o que tratamos. do contrário. que afastar-se da rectitude. poder-se-ia dizer que Deus não tem dimensões. O movimento tópico é contradietório dialècticamente. . que é a divindade enquanto tal. O movimento. tanto quanto possível. deve ser curvo. vemos tal exemplo. A dimensão é uma modal. (pie dela participamos sem ser ela. não real-fisicamente. como já nos mostrou Aristóteles no "Organon". . No movimento tópico. não haveria mutação. sempre de grande actualidade. O outro tipo de mutação é aquela em que o sujeito da mutação passa através de fases intermédias entre o terminus a quo e o terminus ad quem. cujo conhecimento êle presume por parte do leitor. comparada. em sua última diligência fundamental. Esta obra de Aristóteles trata das mutações. O movimento absoluto de Einstein. e absolutamente não se separa. proporcional. e é nesse sentido que se diz que o homem é feito à imagem de Deus. . do que oportunamente trataremos. deixa de ser recta. É invariavelmente curva. e variàvelmente vária. sintetizaremos alguns pensamentos aristotélicos que nos auxiliarão a compreender esta obra. como é instantânea a passagem de um corpo do estado de quietude para o de movimento. não formalmente. O que é medivel da coisa é da coisa. Toda curva encerra em si a potência de afastar-se. a passagem entre o "não-tocar" e o "tocar" é instantânea. mas apenas modalmente.

O acidente ê contingente. (pie se movem no tempo. Por êle é numerado o tempo. (pie caracteriza a espécie no gênero. a diferença específica. no texto) :simpliciter. Há ura devir da substância. Devir (fieri) : É tomado sob várias acepções. O acidente. Corrupção: O que se corrompe é. no segundo caso. como terminas (id quem. secundum quid. A acção parte do agente. A acção é uma moção (como o é também a paixão. o que será examinado» no texto. Acção e paixão (palhos. cm um gênero. dimensões. (Vide Vácuo). Contrários: Há contrariedade entre dois extremos. pois é o acto o sustenlácuto do que é potencial. pois um agente o é tal. O nada não pode corromper-se. No agora nada se move ou se aquieta. Portanto. O movente é a forma que está no gênero da qualidade. O que ê accidental não é necessário. O que se corrompe transita de um contrário a outro contrário. A alteração é dúplice (como mostrará Ar. o não-ser. mas que diferem entre si. relativa. E tal não se dá no tempo. como a do branco em não-branco (que se dá na côr). mas contingente. mas lógico. Há na corrupção uma afirmação da negação. Exemplos: na primeira temos a alteração do branco em negro ou vice-versa. O primeiro acidente que acontece à substância é a quantidade c. E o agente o é tal. Alteração: É uma noção de contrário a contrário (de contrário in contrariam) segundo a qualidade. A corrupção implica. Acção: A acção é o acto do agente e tende a algo determinado. não pode ser MUI acidente. enquanto em acto. As coisas que estão em devir (fieri) o estão pela acção do agente. Tudo quanto está em acto ou é uma forma subsistente ou tem sua forma em outro. Mostrará ainda Ar. Em qualquer devir h á : o sujeito. Não é tempo. por sua natureza. enquanto em acto. Não se trata aqui de um acontecer cronológico. Para que haja o agente impõe-se o paciente. e deslocase de um lugar para outro. uma mutação de ser para não-ser. surgem os outros. Agora: (nane) — É o término do pretérito e principio do futuro. Actua o agente sua acção sobre outro e a realiza proporcionalmente à sua forma. posteriormente.20 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 21 São acidentes ludo quanto sobrevém à substância e que tenha seu ser no ser (inrs.se) da substância. O (pie está em acto naturalmente move (realiza uma moção). que é o devir nos acidentes (fieri accidentalium). mas quanto à razão (ratio) de cada um. c serve para divisão do tempo. que é o que se torna em seu contrário. O contrário da corrupção é a geração (vide). no mesmo que é afirmado. Quem altera é o agente. Não é propriamente um lugar. E são contrários esses extremos mais distantes. como lerminus a quo. Todo o corpo é móvel. Acto: O acto é o princípio do agente. Todas as coisas podem ser divididas por acto e potência. portanto. Vide moção. que é o devir absoluto (fieri simpliciter) e um relativo. e ocupa um lugar. e o que não permanece. para o não ser o que era. o termo que permanece. Forma: A forma é o princípio do ser e o princípio do agir (principium essendi et agendi). e tende para um fim. É pelo agora (pie temos noção do tempo. antes e depois. Não há corpos infinitos. que é o seu terminum ad quem. mas acontece no tempo. A primeira (a absoluta) é a corrupção que parte de um ser substancial para o não-ser. No agora não há algo anterior. não quanto ao sujeito em moção. e não possue. dentro da mesma espécie. Corpo: O corpo tem três dimensões. e consiste ela na privação de uma forma da substância. Nenhuma coisa é o contrário de si mesma. e não pode ser primeiro que a substância. em grego) são a mesma moção e não duas. pois são espécies do gênero moção (motus). pois o agente age sobre o paciente. A forma não age prò- . isto é. O acto. Espaço e Lugar: O espaço não tem dimensões de per si existentes e não se dá sem corpo sensível. Conseqüências: ludo quanto é aceidente não ê absolutamente (simpliciler). (Vide Substância). É medido pelas coisas medíveis. Agente: O agente é o oposto contrário do paciente. e secundam quid. portanto. só se dá no que está em acto. porque o nada não é. É o agente (pie reduz a matéria de potência a acto. Agora é também o número de todas as coisas móveis. mas algo substancial. O que está em acto é necessário ao (pie está cm potência. pois a corrupção de um ser é a geração de um outro. pois é instantânea. Um agora não contém outro agora. que a corrupção é dúplice: simpliciter e secundum quid. A corrupção dá-se do ser (ex esse) que é. Toda alteração exige um determinado tempo. o» do branco em mais ou menos branco. absoluta. não pode ser espécie do mesmo gênero. O que está em acto antecede ao que está em potência. K um qnid indivisível. Entre dois agoras dá-se o tempo como meio. ou seja. e se exerce no paciente. quem se altera é o paciente. passio). a segunda (a relativa) é mutação na negação oposta.

Na geração há necessariamente o que é gerado. porque é interminável. É a forma que causa a quididadc de uma coisa. já que. para ser outra. como as figuras triangulares diferentes têm todas a mesma forma da triangularidade. A idéia alexandrina de infinito. mas só por acidente. (pie antes não era. não o terminus do corpo. mas a matéria do que é gerado. devir. Não é espaço (spatium) distinto das coisas. quando substancial. pois essa coisa é o que é pela forma (quo). A forma é a razão intrínseca dos entes. mas in instante. mas o sujeito que é gerado linha antes uma forma que deixou de ter. há a passagem do não-ser para o ser. Em toda geração há. é instantânea. Quando alguma coisa é gerada. onde se revela o sentido grego do infinito que é extensista. de seceure. E pode ser medida segundo o tempo. para Aristóteles. para A. Geração e corrupção são contrários c são lermos da alteração. portanto indefinível. Nenhuma magnitude é contínua nem infinita em acto. como veremos no texto. Geração: A geração é a mutação do não-ser ao ser. uma matéria (pie sofre a geração. não se dá no tempo. e é proporcionada a ela. É ela divisível em partes (divisibilidade potencialmente infinita). do que é privado de limites. por ocasião da critica ao atomismo de Demócríto. \ Inquietude: Inquietude é mobilidade do movente e s dá no tempo. adquire um ser. Não pode o indivisível ser um quantum. Dá-se do que não-é simplieiter no ser que é em substância. também a fáustica. A figura é a quantidade determinada pela qualidade. imóvel segundo si mesmo. pois o lugar (topos-locus) e a coisa ocupante são simultâneos. este conceito será esclarecido. há a geração absoluta de algo. ou também o que é difícil de ser movido. c que termina na forma. Nega-lhe a perfeição. O impartível não se move per se. Não é matéria nem forma. Também não pode ser composta de indivisíveis. Na primeira. mas privação. como o átomo dos filósofos gregos) : é o que é indivisível segundo a quantidade. como também o que é ignoto. Deve-se evitar confundir a forma com a figura. Imparlível (insecável. e conseqüentemente um generante. Com a geração algo é feito. pois não é separada da matéria secundam rem. O que se move para a geração é o movenle. A geração implica a corrupção. O sujeito da geração não é o «pie é gerado. é uma transmutação para a substância. assim. Lugar e vazio distinguem-se segundo a razão (secundum rationem). e é divisível segundo os seus divisíveis. o terminus ad quem. '_ conceituação diferente e encerra a de perfeição absoluta Não. na corrupção do ser para o não ser. o terminus ad quem é a forma. pois encontramos passagens que levariam a tomadas de posições das mais diversas. Na geração. Impartivel. O que é impossível de fazer. portanto sofreu a passagem de um ser para um não-ser o que era. Antecede a matéria como razão. pois não excede o locado.ARISTÓTELES 22 E AS MUTAÇÕES 23 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES priamenle. como o exporá Ar. a meta a ser atingida. Seres de figuras diferentes podem ter a mesma forma. que se chama de geração. Impossível: O impossível é o que não pode ser. Lugar: É o terminus do continente. pois o gerar de uma coisa é o corromper-se de outra. Toma Ar. da qual se distingue a ratione. Precisar nitidamente o conceito de infinito em Ar. tem alguma potência. Imóvel: É imóvel o que de maneira alguma é apto a mover-se por si mesmo. portanto. Não se separam magnitude e número (vide) e não . Dá-se. O lugar não se transmuta. mento. pois o que é gerado o é ao adquirir unia forma. tem uix. terminus segundo a colocação do corpo. que emprega o termo àpeiron no sentia do de desmensurado. Magnitude: É a quantidade que tem posição. cortar. e ao impossível nada tende. segundo a espécie. É também absoluta e relativa (simplieiter et secundum quid). princípio de sua natureza. pois pode ser ocupado. não no tempo.. f: portanto. Infinito: O ser infinito é aquele do qual há sempre algo que é extra. é tarefa que não poderíamos fazer aqui. é o que não pode ser resolvido em muitos corpos de espécie diversa. Tem um anterior e um posterior à sua posição. e realiza-se pela inducção da forma na matéria. nesta matéria. No texto aristotélico e nas notas correspondentes. mas é o princípio activo. Na geração. A forma está contida em potência na matéria. Kra neste sentido que se dizia que a terra era imóvel. peras. Do impossível é impossível seguirse qualquer coisa.. o infinito em sentido quantitativo. Mas ao impartível como tal nada impede que seja movido. mas desta não é. É algo entre as coisas da natureza. porque a acção se realiza segundo a forma. A magnitude é medível pela moção. Na crítica da teoria dos atomistas gregos este conceito será enriquecido de análises importantes. são tantas as controvérsias que a exegese do genuíno pensamento do Estagirita exigiria obra de maior vulto. A geração. É o fim da matéria. como a corrupção. impossível é tornar-se. Indivisível: É o que não pode ser dividido e conseqüentemente não tem partes. A quietude não é uma negação do movi-. A forma é a razão da coisa (ratio). fisicamente separada.

O ser. Oposto: Oposto é o que se ob põe. move-se simultaneamente a parte. segundo a quantidade. Não admite Ar. contrário. segundo o lugar. São as partes a causa do todo. é apenas uma modal no sentido de Suarez. 0 movimento é o acto do móvel. porque não está privado de. entre os intermédios e nas contradicções. não conhece mutações. Nenhum móvel pode transitar num espaço infinito. A mutação não c uma substância de per se subsistente. temos: geração (nascer) e corrupção (perecer) das coisas. Movimento: A moção. mas sempre do contrário ao contrário. pois do contrário não conheceria mutação. aumento e diminuição. e serve para medi-lo. No todo. forma do sujeito.ujeito. Mutação: A mutação se dá segundo a substância. Por isso implica o "numeroso". a alteração. segundo a classificação de Aristóteles. é numerável. se dá do sujeito no '. pois no aumento c na diminuição há mutações tópicas. As partes podem ser düplicimente comparadas ao todo: Segundo a composição. que é a comparação da matéria à forma. sempre privação. como acto puro. o mover pertence à razão da vida. dois contrários. r<os seres animados.fà 24 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 25 podem existir de per se. privativo e contrário. Só N movido o que tem magnitude. ou segundo a qualidade. Tudo quanto tem matéria é móvel. Segundo a sua substância. As partes da magnitude são finitas em número. O número é considerado dúplicemente: número numerado e número numerante. privativo. Em toda mutação. mutação local. pois é infinitamente perfeito. mas apenas em potência. que nos comentários teremos oportunidade de justificar. mas em outro. o que se ausenta. conhecemos o tempo. Nenhum móvel move a si mesmo. É o que subjaz em cada coisa natural (substantia prima). voltaremos a examinar tais pontos. a mais comum entre os corpos. há um prius c um posterius a ela. Oposto negativo é o que nega. Movendo-se o todo. Paixão (Pathos Passio) : Paixão é a qualidade passível. é o ser cm potência. está privada de outras. Desta forma. Número numerado (numerus numeratus) é o que é numerado em acto ou numerável em acto. Matéria e forma são parles da espécie. o movimento. quando tem uma forma. a matéria antecede à forma. tópica. Todo número. Parte: A parte tem razão da matéria. a parte está em potência sobretudo quando este é continuo e não é distinguida . Não pode a magnitude ser dividida infinitamente em acto. Pelo móvel conhece-se a moção. é o acto médio entre potência e acto. Na geração. de per si imperfeita. Segundo a substância. Há muitas espécies de moções tópicas (movimento). pois. É uma modal. como ainda examinaremos no texlo. É a matéria o princípio passivo da moção. pois êlc nos determina o tempo para nós. pois a matéria. e tudo quanto tem número. Número: Ê a multidão medida por um. o número infinito em acto. um antes e um depois. Examinaremos também as diversas espécies de moções. a um número. portanto. Móvel: É o objecto da Filosofia Natural. que nela é induzida. Em toda mutação são requeridos três elementos: o sujeito da mutação {quod). sempre se pode adicionar outro. mas apenas em potência. Este é um ponto importante do pensamento aristotélico. porque está antes. em privação da forma. como o imperfeito ao perfeito. A matéria. segundo a qualidade. Pelo movimento. Sua multiplicação pode dar-se in infinitum. o intermédio polar específico ou genérico. ou segundo a quantidade ou segundo o lugar. por isso é imutável. em tempo infinito. Segundo em si mesma (como matéria prima) é ingênita e incorruptível. da forma à forma. e consiste no acto do paciente. Toda mutação revela uma velocidade. No texto aristotélico e nos comentários. Movenle: 0 que se move é sempre alguma forma. em tempo finito. como nos mostra Suarez. Matéria: A matéria é o princípio passivo. no móvel. o que-se-torna-em um contrário. e pode ser considerado triplicimente: negativo. e privação de algo. Toda mutação dá-se no tempo. nem num espaço finito. O movimento é a moção local. é sempre privada. e segundo a resolução ou seja o todo que é dividido em partes. Esa não se move primeiro a si mesmo e por si mesmo (per se). como as partes que compõem o todo. O número é multiplicável in infinitum. A parte aquieta-se naturalmente no lodo. A mutação realiza-se do contrário ao contrário. é a potência do ser substancial. enquanto móvel. há o que devêm. mipõc-se uma causa eficiente que o ponha em movimento. Na magnitude. já vimos. 0 movimento não é um ser de per si subsistente. número numerante (numerus munerans) é o pelo qual numeramos ou o número tomado absolutamente. Todas as partes são comparadas ao todo. o movimento está no móvel e é requerido. o que é como o expunham os pitagóricos. A mutação dá-se entre os contrários. Serve para medir o tempo.

É importante esse conceito de permanência da substância. É não-ente e privação. O tempo e o movimento são infinitos. O tempo não pode ser infinito se a magnitude é finita. . a potência activa o é segundo a forma. mas não é movimento. A razão do vácuo é a do espaço. pois. segundo os dois últimos tempos por dois agoras. é sempre simultâneo e igual. A potência é activa ou passiva. não pode ser analisada aqui e sim no texto aristotélico e nos comentários subseqüentes. que é uma medida extrínseca do movimento. A substância é o que permanece. O que está em potência. A parte que está no todo não actua. não sob o mesmo aspecto. É pelo movimento que se define o tempo. Vazio ou Vacuum — 0 vácuo é o que. O tempo não conhece corrupções. Potência: A potência não é um princípio agente. não em acto. mas em potência apenas. não tem qualquer natureza. o que permitiu as críticas de Kant a esse conceito. O tempo não é o número pelo qual numeramos. no mínimo. mas sim o todo.26 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 27 em acto. Perfeito: É perfeito o que em nada está fora de si mesmo. "Wolf. pois Aristóteles admite uma mutação substancial. em dois que tenham ordem um ao outro. A parte não move o todo. E diz-se também perfeito qualquer ser quando tenha completamente a sua natureza. É a quantidade contínua das coisas numeradas. não é necessário que o movimento seja contínuo. afirmou-se que o aristotelismo predicava a imutabilidade da substância. O que está em potência reduz-se ao acto. É o que permanece. no qual. o que não indica propriamente o que se perpetua numa imutabilidade. Substância: A substância é o primeiro gênero do ser e é um ente de per si. mas número numerado. por algo que já está em aclo. e numera o movimento. A substância é dividida em universal e particular. na filosofia moderna. o tempo é o número do movimento. Se o tempo é contínuo. mas numerado. e sim simultâneo com este. Sem o movimento não há o tempo. Não é um número simpliciter (numerans). e fundou-se nas afirmativas de seu mestre. Unidade — É o princípio do número. Faltalhe toda corporeidade. naturalmente se move por outro que está em acto. ou seja substância primeira ou substância segunda (matéria e forma). Desta forma. E' o que flui num contínuo divisível e sempre divisível. Potência e acto são as primeiras diferenças do ser. Nenhuma parte movida é movida por si mesma. como também o que atinge o seu princípio. nada há. Kant desconhecia a obra aristotélica. De per si não pode ser causa de qualquer coisa. O que está em potência é algo que também está em acto. por influência de Wolf. e sempre o mesmo. a qual. por suas características especiais. apesar de se falar num tempo mais veloz ou menos veloz. O ser da relação é um ser debilíssimo e funda-se. Tempo: 0 tempo é a medida do movimento. É a ausência de corpo. Relação: A relação consiste apenas em haver-se o que é ante outro.

nada se qera (ex nihilo. mas os gregos. como o àpeiron de Anaximandro. ou múltiplo. sem discussão. preferimos deixar de examinar aqui em nossos comentários a posição metafísica dessa escola. que é mais aristotélica do que se julgava no século passado. mas ser. aceitavam. mas como há neste sector ainda muita confusão sobre a actividade filosófica do pitagorismo. entre os gregos. fonte. ou início. mas que havia uma unanimidade na filosofia ocidental pelo menos. que sofre a incompreensão quase geral do seu real sentido. como o de Empédocles. D uns Scot quando expunha que poderiam os filósofos discutir. para que se torne melhor compreensível esta obra. nada se geraria. Pode-se dizer. que do nada. no entanto. em face da história. É admissível sintetizar lodo o pensamento pressocrático nesta afirmativa. a essência. que propriamente com Parmênides são iniciados. Muito bem salientou estes aspectos. e o podemos afirmar fundados nos documentos que nos sobram. (1) "Pitágoras e o Número". como princípio. o ser simplesmente ser. quando a valorização de Demócrito atingira a um nível jamais alcançado. todos sem excepção. sobretudo dos iniciados em grau de teleiotes. e que o princípio único ou múltiplo de todas as coisas era o ser. que consistia na aceitação de um ser. cujo valor afirma-se cm nossos dias em face dos actuais conhecimentos da física. A posição metafísica de Parmênides fundava-se em grande parte mini adágio axiomático para a filosofia grega até então: do nada. começo de todas as coisas. as características desse ser. indeterminadamente considerado. dentro do pensamento grego.A GERAÇÃO E A CORRUPÇÃO NA FILOSOFIA GREGA Impõe-se caracterizar a posição aristolélica. Poderia o ser ser único ou ilimitado. nihil). . pois até então as especulações se cingiam ao campo "físico". para tratar deste tema em obra especial de próxima publicação (1). os estudos "metafísicos" sobre o ser. posteriormente. É verdade que entre os pitagóricos já se haviam processado especulações sobre "o ser enquanto ser". de nossa autoria. como discutiram.

Dessa forma. Tanto um como outro permanecem fiéis ao pensamento parmenídico da imutabilidade intrínseca do ser (ente). que. aquilo ao qual se pode atribuir o ser. SÍNTESE DO PENSAMENTO ATOMISTA GREGO Ar. separando-se. Impunha-se a solução entre o Um e o Múltiplo. que vai encontrar uma replica no naturalismo aristotélico. resumamos o pensamento de Leucipo e de Demócrito. A aceitação da inteligibilidade do ente é uma afirmação do "princípio racional de razão suficiente". e já foram tratados em nossos livros anteriores. em todos os tempos. porque como poderia o não-ente gerar o ente. Portanto. Mas afirmava que tudo isso era aparência (phaenomenon). ora tentando as grandes sínteses. pois como o que é nada poderia distinguir algo de algo? Também não o poderia ser pelo ente. é extinto o fogo do Devir. como poderia uma coisa tornar-se o que já é? O devir é o caminho do ser. em suas linhas gerais. Mas como negar o testemunho dos nossos sentidos que afirmam a mutabilidade? Naturalmente que Parmênides sabia disso. então. toda e qualquer producção. que Ar. em outros aspectos. que entre elas se dariam. O pensamento de Parmênides teve uma influência imensa na filosofia grega. dizer "que é". a èle se atribui o seu primeiro enunciado. Afirmava Parmênides insistentemente nos fragmentos que nos restam. Mas. como tal. ora afirmando apenas uma para negar a outra. Se existisse mais de um ente (ser). Mas afirmam o contrário de Parmênides. conforme atrações ou repulsões. aquilo ao qual compete o ser. Dessas combinações múltiplas surgiriam. examina com tanta argúcia no texto desta obra. em poucas palavras. um único ser que é. Pelo que não é ente. A mutabilidade seria assim mecanicamente explicada. sem conseguir resolver o tema eterno e fundamental de toda a filosofia que. examina no seu texto. apenas estaria afirmando a si mesmo. do primeiro. a súmula do pensamento do mecanicismo grego. Anaxágoras e os atomistas Leucipo e Demócrito estavam de acordo. e não se distinguiria. o segundo ente se distinguiria do primeiro ou pelo que é ente ou pelo que não é ente. Pois. E como o ente. e virtualizava a multiplicidade. Era com o homogêneo que se procurava explicar o heterogêneo. então. o "id cui competit esse". se já c? Colocado nessa situação. que ora se aproximavam. todo devir é ininteligível. Mas há aí uma realidade que a filosofia de Parmênides não poderia salvar. são impensáveis a mutação. Se o ente é. que em breve estudaremos. Mas o que é importante ressaltar neste ponto. O ente seria formado de partículas de intrínseca imutabilidade (positividade parmenídica da imutabilidade do ser). Se o ente produzisse o ente. no que se refere ao não-ente. afirmar o ser. Empédocles. o perecer. ora se afastavam. embora circunscrita apenas ao que interessa ao tema desta obra. paira entre essas duas antinomias. fenômeno apenas. que êle sacrificava por aquele. como a de Aristóteles. e revela suas aporias. afirmava Parmênides. O ente. e essa concepção é. se o não-ente é nada? E como poderia o ente tornar-se ente se o ente já é ente? Nessas condições. entre o ente e o não-ente não há lugar para um "intermédio". o Perecer é banido". não é. não poderia distinguir-se. o que é um modo de afirmar o princípio de identidade.pois a diferença seria ainda ente. O primeiro é impossível. ou do ente para o ente. que o ser é e o não ser não é (o ente é e o não ente não é). examina o atomismo grego. Todos esses aspectos são demasiadamente conhecidos. que é um devir do ente ao não-ser. porém. E os argumentos que oferece podem ser sintetizados da seguinte maneira. Daí exclamar êle: "Deste modo. soluções que procuravam em linhas gerais explicar da seguinte maneira a multiplicidade. Surgiram. a heterogeneidade do existir. que existe. o "nascer" (a geração) e o "perecer" (a corrupção) seriam apenas produtos das combinações qualitativas dessas partículas do ser. Parmênides actualizava o um. o devir. pois "o ente é inteligível e o inteligível é ente". que já é. que se impunha em face das aporias (das dificuldades teoréticas). com certa razão. ela devêm do não-ente para o ente. Aceitava Parmênides apenas um ente. to ón. é que Parmênides afirma que o ente não pode produzir o ente. Neste ponto.30 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 31 A teoria gnoseológica de Parmênides estabelece um paralelismo entre a ordem do ser e a do conhecer. E como só o ente é inteligível. Parmênides achava-se ante um dilema: se uma coisa devêm. Conseqüentemente Parmênides termina por negar o "nascer" e o "perecer". analisa-o. poderia tornar-se ente. como toda e qualquer mutação. pois o ente se identificaria com o primeiro. pois todo devir é um tornar-se ser. e não há. que Ar. no intuito de facilitar a melhor inteligência desta obra. Enquanto este afirmava que o não-ente não exis- . corresponde ao latino ens.

quando se dá de um lugar (ubi) para outro. transubstanciação e aniquilação. quando se dá de uma qualidade a outra qualidade contrária. O "nada" é "alguma coisa" é o vazio (o vácuo. que é a producção e a destruição dos seres e de suas propriedades. tópico. no inverso. como se expressava Jocl ao comentá-los. pois entre o ser e o não-ser. quando se dá para uma forma substancial (ad substantiam). sem partes) impartíveis. estuda êle a moção em sentido geral. A mutação física é ou substancial ou acidental. Nesta obra. procura demonstrar Aristóteles que a gera< . O percurso é a via. to kenon). Esses espaço vazio existe e nele se movem as partículas indivisíccis. Quando consiste no mudar cia forma substancial. quando o termo ad quem (o termo de chegada) é uma forma ou privação da forma. dando assim um salto mortal no negativo. Nele estuda a forma especifica do movimento local (lópico). assim. de modo sumário. está colocado na série dos livros que é encabeçada pela Physiká (Física). A mutação é a transferência de um modo de haver de algo a outro modo de haver.i forma para decompor-se em seus componentes. o seu livro "Da geração e da corrupção". temos a geração (generatio). pois uns apresentam uma forma. MUTAÇÃO Para penetrarmos com o pleno domínio na obra de Aristóteles. E essa mutação pode ser intrínseca ou cxlrínseca. romper. sem ter. acompanhado da reexposição e comentários. Em "Da geração e da corrupção". são sucessivas a mutação local. um trânsito de um estado a outro estado. havendo entre êlcs diferenças. é instantânea. insecáveis (de seccare. a diminuição (decrementum). a corrupção dá-se no trânsito do termo positivo para o negativo. a geração (nascer) e a corrupção (perecer) dos seres se dá pelo avizinhamento ou separação (agregatio ou desagregatio) dos átomos. (2) Corrupção vem do verbo corrumpere em latim.i. Para ambos. cortai-. não se colocam um médium nem distância.32 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 33 te. temos a corrupção. quando é geração ou corrupção acidentais. no entanto. o único objecto. e outros. o caminho do trânsito. terminus quod (o móvel) e terminus ad quem (termo de chegada). A mutação. estuda o movimento circular dos astros. temos a alteração (alteratio). o movimento rectilíneo dos corpos leves e pesados. dependendo se o trânsito é segundo determinação intrínseca ou extrínseca. quando se dá de uma quantidade menor para uma maior. por ex. ou entre o não-ser e o ser. quando adquire uma forma substancial. que são peri Ouranou (De Caelo). trata do movimento especifico. As mutações de alteração. que perde i . c vice-versa. de cum niiiMTilativo e rumpere. mas todos imutáveis. temos o movimento local. incortáveis). que é uma espécie do gênero moção (metabolê). Essas mutações são instantâneas. nem o principal dessa obra. como já vimos na "Ontologia"' A mutação é. os átomos não são todos iguais. A mutação intrínseca pode ser metafísica ou física. aumento e diminuição são sucessivas. pois tem como objecto os traços comuns aos objectos mais especiais dos tratados sucessivos. da não-água à água. os alomistas Leucipo e Demócrito afirmavam que o "nada" exisle. Dizse instantânea. o espaço vazio. A mutação local é uma mera modal. A geração dá-se de um termo negativo da forma a uma forma positiva. . cujo texto apresentamos. alfa privativo e lómos partes. Desta forma. onde expõe.io de um ser é a destruição de um outro. sua concepção do mundo. Nesse livro. rompimento da unidade. São metafísicas as mutações seguintes: criação. (1) O termo formal (terminus que é imediatamente atingido. outras. temos o aumento (augmentum). precisamos agora esclarecer o conceito de mutação e suas classificações. átomos (de a. DA GERAÇÃO E DA CORRUPÇÃO (Peri geneseôs kai phtorás) No conjunto das obras de Aristóteles. quo dos escolásticos) é o termo A mutação física substancial é de duas maneiras: geração e corrupção. quando o termo formal (1) é substancial ou acidental. Na "Física". E todo movimento pode ser considerado segundo três termos: Terminus a quo (termo de partida). A "Física" é a introducção geral aos tratados posteriores. como toda mutação de qualquer espécie. A mutação acidental é ou instantânea ou sucessiva. de uma forma para a sua negação (2). É jnlrinsccamente impossível dividi-los. a alteração e o aumento.

e p r o c u r a m o s situá-lo c l a r a m e n t e . q u e c o n t i n u a m e n t e vão surgindo. com o a c o m p a n h a m e n t o de nossa crítica. segundo a classificação de T o m á s de Aquino. p a r a m e l h o r clareza do texto. e próximas. fazendo p r o g r e d i r a alteração. j á na substância que se c o r r o m p e . j á que tais t e m a s . que dele t r a t a r a m . e d i t a m o s o m e s m o t r a d u z i d o e dev i d a m e n t e revisado. a c o m p a n h a d o da reexposição e d a s notas c c o m e n t á r i o s dos m a i s famosos autores. a fim de facilitar a m e l h o r c o m p r e e n s ã o desta obra de t a n t a i m p o r tância aclual. p r o c u r a n d o s e m p r e actualizar o livro nos e s q u e m a s da filosofia de nossos dias. 'DA GERAÇÃO E DA CORRUPÇÃO' Texto de Aristóteles e Comentários e Notas de MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS Usamos os n ú m e r o s r o m a n o s p a r a d a r a divisão do texto e das lições. como fizemos.34 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES O MÉTODO DESTA OBRA Usaremos nesta o b r a o seguinte m é t o d o : Após o e x a m e de alguns conceitos. c o n t r i b u í r a m p a r a m a i o r confusão do q u e j á era c l a r o na filosofia clássica. Já e x p u s e m o s o p e n s a m e n t o aristotélico sobre a g e r a ç ã o e a corrupção. a u x i l i a n d o m a i s a c r i a r a crise no p e n s a m e n t o ocidental q u e p r o p r i a m e n t e esclarecê-lo. As disposições p r é v i a s são acidentes. que os escolásticos c h a m a v a m de disposições prévias e próximas. Os n ú m e r o s á r a b e s d ã o a classificação da p á g i n a ç ã o . E m toda geração e c o r r u p ç ã o há certas disposições que se dão em a m b o s processos. a b o r d a d o s por filósofos m o d e r n o s . as disposições q u e estão n a substância q u e se c o r r o m p e (insunt in substantia corrumpenda). No fim da obra. Bekker. q u e vão se p r o d u z i n d o . São prévias. m a r c h a n d o p a r a as disposições p r ó x i m a s . d a m o s a p e n a s a bibliografia citada nos comentários. Mário Ferreira dos Santos . e referem-se s e m p r e ao texto da ed. as d a substância g e r a d a (in substantia yenerata).

os que sustentam (pie o Universo é uma única substância e que de um único elemento se engendram todas as coisas.a alteração como da mesma natureza da geração. as causas e as razões de tais processos. para Anaxágoras. com efeito. III. de todos. Anaxágoras e Lcucipo. se se deve considerai. universalmente. enquanto. à maneira dos antigos filo. . Ao contrário. são obrigados a admitir que a geração é uma alteração. outra. VI. os elementos corporais são em número de quatro. ou se são real. como Empédocles. VIII. os elementos são em número de seis. embora. compreendidos aí os que imprimem o movimento. E. no sentido próprio do termo. Devemos agora estudar qual é a natureza respectiva da alteração e do aumento. Contudo Anaxágoras ignorava o sentido de suas próprias palavras. enquanto outros que a alteração é uma coisa. é alterado. no conjunto. II. ainda.15 sofos. Ao contrário. IV. e a geração. que "vir-a-ser" e "perecer" é o mesmo que ser alterado. Estudaremos agora a geração e a corrupção 314A dos seres que são gerados e dos que naturalmente se corrompem. VII. V. Com efeito. por outro lado. os elementos são em número infinito. Êle diz. e determinaremos. para os que colocam cm princípio que a matéria das coisas é múltipla. reconheça a multiplicidade dos elementos.TEXTO DE ARISTÓTELES I — 1 I.5 mente separadas. Assim. alguns asseguravam que o que se chama geração absoluta é uma alteração. como o são as suas denominações. Entre os antigos filósofos. para Empédocles. e que o 10 engendrado. como também para Leucipo e Demóerilo. a geração e a alteração são distintas.

ordena-se à geração assim como ao fim. segundo o que é movido de moção local. A causa final é excluída do sistema mecanicista. mas as próprias coisas que por ela são modificadas. a medula e cada uma das coisas cuja parte é sinônima 20 do todo. mais perfeito (pie a êle se ordene. foi o objecto do De Caelo (peri Ouranoit). os artcfacla. A alteração (alteratio). pois no alimentar-se há aumento. obra eosmológica de Aristóteles. Demóerito e Leucipo dizem que os compostos são constituídos de corpos indivisíveis. E como salienta Tomás de Aquino. não é apenas a moção que interessa. Este diz que o fogo. determinadas. confundindo n causa final extrínseca com a intrínseca. que é sempre adequado ao primeiro. As doutrinas da Escola de Anaxágoras aparecem.sua classificação. os quais. Com efeito. neste livro. A causa eficiente não se pode explicar sem a causa final. Esses átomos se movem com certa velocidade e sua disposição dá surgimento à estrutura das formas moleculares. ao contrário. Da síntese surge o synolon. A causa eficiente (aceita em ambos sistemas) é a que regula a disposição e distribuição dos elementos. mais perfeito que o movimento de outros corpos naturais. como já mostrava Tomás de Aquíno. nem tampouco as próprias ac- . No conjunto das quatro causas aristotélicas. mas há também a conversão. As causas eficientes podem ser qualificadas. que está conexionado com o "De Caelo". a 25 água. permanecem in- Reexposição comentada I — 1 0 exame da moção e dos móveis. e não as caricaturas que dela fizeram os mecímicistas. e também mais simples que a carne. pois cada um 314b deles seria unia universal reserva seminal (pansperniia) de todas as homeomérias. temos os seguintes aspectos que convém salientar. isto é. cuja geração e corrupção são pertinentes à natureza. para empregarmos um termo usado actualmente. cuja disposição é esta ou aquela. Restava analisar agora a moção nos seres inferiores e. coloca Anaxágoras. mas servir para fazer pão é uma finalidade extrínseca. estudar as causas e as razões. A figura é produto de um relacionamento dos átomos. o osso e as homeomérias dessa espécie. ções humanas. e por tantos repelidas. coube à "Física". a formal e a final. o "ente". a eficiente. isto é. A diferença se impunha pelos seguintes motivos: há causas eficientes que actuam e têm influência no efeito. Assim a macieira tende a dar sementes de maçãs (inclusas no fruto) e não outra coisa. pois é. como diametralmente opostas às da Escola de Empédocles. que é dada pelo homem. estudar essa forma de moção que é a geração e a corrupção dos seres que nascem e perecem naturalmente. as homeomérias. o ar e a terra são os quatro elementos. na nutrição. o seu "arranjamento". apenas (fitando esses nascem. O próprio devir revela esse tender. X. A matéria e a forma são princípios internos (cansa materialis e cansa formalis. segundo a . em cansa in fieri e cansa in esse. As causas. com efeito. Ao contrário. pois dirige-se para uma meta qualquer. numa proporcionalidade (pie nos revela uma ordem. E tal se dá por uma incompreensão total do que seja causa final. e que os compostos diferem uns dos outros pelos elementos.: o osso. naturalmente. são quatro: a material. O trigo dar espigas é da finalidade intrínseca do trigo. a geração e a corrupção. considerando apenas o que têm de comum. enquanto as razões são as próximas. do alimento em carne. ademais. infinitos em número e em formas. como elementos. a água e o ar são naturezas compostas. como o inziam os escolásticos. mas um tender activamente para um efeito. Esse tender para algo é a finalidade. causa do devir e causa do ser. e não daqueles que são construídos pela ação humana. dos escolásticos). Este o genuíno sentido da causa final. a carne. entre essas. depois. 1 Propõe-se Aristóteles. No mecanicismo há também uma causa material: os átomos. A consideração dos corpos. O aumento pode enquadrar-se na geração. A causa eficiente não é um mero agir. A causa formal seria a figura desses átomos.ARISTÓTELES 38 E AS MUTAÇÕES 39 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES IX. E propõe-se. enquanto a terra. Os discípulos de Anaxágoras dizem. que as homeomérias são corpos simples c elementos. por ex. Para ([iie a causa eficiente tenha a última razão é necessário que ela tenda ad aliqaid. o fogo.

. por ex. pois depende também do corpo (massa. enquanto outros afirmavam haver entre ambas uma distinção real. o ar. como é fácil compreender. A geração substancial é a moção da matéria que parte da privação de uma forma substancial para essa forma (mutação). A geração da substância é uma geração simpliciter (Kafousian = na substância). toda multiplicidade das coisas seria apenas uma modificação do princípio único. VI — Enquanto os que admitiam uma pluralidade de princípios. III —. atracçâo e repulsão. num sujeito real qualquer. VII — Acusa Aristóteles de não ter Anaxágoras bem entendido as suas próprias palavras. tinitos portanto. porque são necessárias à manutenção do corpo. a água. ou são elas distintas realmente. A geração é definida como o trânsito ou a moção que. resistências ambientais. da qual são dependentes todos os seres. etc. distinguia Aristóteles a geração absoluta (simpliciter) (gênesis áplê) da geração secundum quid (gênesis tis = relativa). para êle. como são. n. enquanto na segunda se daria uma desagregação. e Leucipo. Essas espécies de mutação são estudadas a seguir. que é modal do corpo. e acrescentava mais dois: Amizade e Ódio. por exemplo. de qualidade.Será a alteração idêntica à geração. e que eram. como a de quantidade. corpóreos. um princípio indeterminado. pois. a geração seria mera alteração. como Tales que dizia ser ura princípio líquido. II — Resta saber se se deve estudar qual seja a natureza respectiva do crescimento (aumento) e da alteração. temos o indivíduo vivente que se torna independente da causa que o gerou. etc. Apresentamos um esquema de Tricot das diversas espécies de moções. Portanto. desaparecendo quando o ímpeto deixa de acluar. Ora. aumento) diminuição) àlloiosis (alteração) phorá (movimento em sentido tópico) V — Entre os filósofos antigos. na primeira. Neste caso. quando admitia uma pluralidade de princípios. as homeomérias. Não necessitam mais da influência da causa para ser. propostas por Aristóteles. como Empédocles que os considerava quatro.40 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 41 dependentes da causa que os produz. os átomos. ou magnético ou gra vi (acionai. VIII — Empédocles considerava quatro elementos como princípios: terra. E o é por (pie aclua continuamente enquanto se dá o movimento. a corrupção e a alteração seriam a mesma coisa. as suas denominações (seus nomes). metabolê (moção) auxésis e phtísis (crescimento. o ímpeto é causa in esse do movimento. Esta causa é uma causa in fieri. que imprimiriam o movimento. IX — Não é muito provável que Anaxágoras tenha usado o termo homeomérias que lhe é atribuído por Aristóteles. enquanto as que causam um campo electrostático. causa do devir. ou sejam. Como já o expôs nas obras anteriores. Assim as causas que efecluam um Ímpeto são causa in fieri. dos elementos componentes. muitos mais. pois afirmava que geração. são causae in esse. por exemplo. porque atende à forma. e t c ) . é uma causa in esse. enquanto a corrupção é um processo inverso. mas o conteúdo conceituai está em parte claro. Como exemplo. 1). efectiva-se no movimento do corpo. arque. uma separação deles. além de ser também uma causa in fieri. o ímpeto. a geração se divide quanto à substância e quanto ao acidente. (decrescimento. O ser do movimento depende do ímpeto. nesse caso. ar e fogo. e Anaximandro. um princípio aeriforme. enquanto permanece. havia os que afirmavam que o universo é uma única substância. No movimento. água. o àpeiron. como coordenadas da qualidade do movimento. A causa prima. ou Anaxímenes. se dá ao passar do não-ser ao ser. distinguiam a gênesis da alteração (àlloiosis). e se de modo amplo. Essa substância manava sempre e. enquanto Anaxágoras e Leucipo consideravam esses princípios em número infinito. se dava uma união (agregação). IV.. e Anaximandro. como vimos. emquanto a secundum quid se dá nas mutações que afectam as categorias acidentais. IV — Os filósofos antigos consideravam a geração absoluta como uma alteração. o que já aquele havia anotado na Física (Cap. sobretudo.

eram estes considerados. Eis por que Empédocles se expressa também da mesma maneira. por Anaxágoras. diferenças dos elementos (entendo por essas qualidades o quente e o frio. e é claramente também a que eles sustentam. quando diz que "não há geração de nada. isto é. II. reconhecem uma multiplicidade de gêneros. A multiplicidade dos corpos seria resultado das múltiplas combinações desses corpúsculos. estão constrangidos a considerar a geração e a corrupção como uma simples alteração. Com efeito. Para os que. Entretanto. IV. pois sempre o sujeito permanece idêntico e vim: e é a isso que damos o nome de alteração. similium partiam. Que sua hipótese fundamental chamasse esta noção de geração. segundo a extensão. a água e o fogo como elementos primordiais. Assim os filósofos. na realidade. quer se referir às parles homogêneas com o todo.42 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES Como o expõe Tricot. . como os ossos. c quando ele emprega o termo homeomérias. são obrigados a reconhecer que a alteração é uma coisa distinta de a geração. o ar. X — Opõem-se os ensinamentos de Anaxágoras aos de Empédocles. convenientes ao todo em nome e razão. a chuva em toda a parte sombria e fria". numa substância que permanece a mesma. as qualidades. uma mudança. Assim os havia circulares. e segundo a ordem ou espécie desses corpúsculos. vastas combinações de elementos.sinônimas. ou seja. assim como percebemos. resultam a geração e a corrupção. segundo a posição. em forma e até em figura. afirmavam aqueles a diversidade. mudança (pie se chama aumento e diminuição. os raciocínios dos que admilem uma multiplicidade de princípios tornam a alleração impossível. pois enquanto êsle considerava a terra. segundo as quais dizemos que a alteração se produz. como produtos das combinações das homeomérias. por isso são sinônimas. quadrados. como o termo chave que pode ter várias acepções e referir-se a diversos objeetos). 314b 5 10 15 Mas. ou seja. o branco e o negro. . TEXTO DE ARISTÓTELES I — 2 I. que constróem todas as coisas a partir de um só elemento. eis o que é manifesto. nas quais a análise não revela nunca elementos de natureza diversa. em oposição a homônimas (as que teriam o mesmo nome. e assim su. Já Demócrilo e Leucipo afirmavam que os corpos sensíveis eram compostos de corpos indivisíveis (átomos). em natureza e nome. entende-se por homeomérias as partes da mesma natureza. São as partes de um lodo. III. são. infinitos em número. Enquanto Anaxágoras afirmava a similitude nas espécies.20 < ( ssivamente). para eles. unívocas. As homeomérias são contidas no mesmo gênero. como diz Tomás de Aquino. Com efeito. etc. a alteração difere da geração. da união e da dissolução desses gêneros. o mole e o duro. considerando esses quatro elementos como panspermia. mas apenas mistura e dissassociação da mistura". o seco e o úmido. É fácil perceber que são justificadas as nossas críticas. ao contrário. pois. piramidais. o que é impossível de conciliar com as suas próprias doutrinas. e é o que expressa Empédocles: "O Sol branco paia os olhos e quente em toda parte. e que são constituídos a partir de quatro elementos unidos numa certa proporção. sementes universais de todos os outros corpos. mas de natureza diferente. para exemplificar. da mesma maneira também percebemos a alteração.

Empédocles parece cair em contradicção. mas ainda agora). pois que mudam em suas qualidades. Com efeito. que estão na ordem do ser. Eis por que também. tendo reunido. é um.ARISTÓTELES 44 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES E AS MUTAÇÕES 45 E do mesmo modo. 20 25 Reexposição comentada I — 2 I — Se o elemento que serve para construir todas as coisas. VI. não invalida a afirmativa. seria apenas um trânsito qualitativo dentro desse um. e o mesmo se dará com todos os outros elementos (e tal não somente antes. para Empédocles. nem da água a terra. e haverá uma única matéria para Iodas as coisas que admitem uma mudança na outra. então a mudança é alteração. nesse mesmo tempo. potenciais). há uma contradicção patente no seu pensamento. pois. É pois manifestamente a partir de um certo Um que este se torna água. e conseqüentemente. necessariamente diferenciam alteração de geração. VII. pode dizer-se que do Um foram engendrados os elementos. a natureza inteira. são seres em potência e não cm acto. sendo separadas por certas diferenças e certas qualidades. pois não se tornaria outro. quero dizer. que a necessidade dessa matéria é semelhante à da alteração. as formas genelávcis e as corrompíveis. É incerto ademais se é o Um que é preciso olhar como sendo o princípio de Empédocles. duro. da terra. quer de uma mudança por aumento ou diminuição. dissemos. é evidentemente necessário que a terra venha da água. geração e corrupção seriam apenas alteração. Os filósofos que definem a geração e a corrupção como uma união e uma separação de elementos. permanecem de acordo com sua hipótese fundamental da multiplicidade dos elementos. E da união ou dissolução desses elementos decorrem a geração e a corrupção. ao mesmo tempo que recusa admitir que nem um dos elementos possa nascer de um outro. e este fogo. Mesmo raciocínio também para as outras qualidades. e a água. (portanto. o surgimento de um ser. II — Os que estabelecem muitos gêneros (aqui elementos) de princípios materiais. a partir do qual a terra e o fogo são engendrados por uma mudança devida ao movimento. então o substrato será um único elemento. pois. mas enquanto o Um resulta da associação de elementos múltiplos que se reúnem. Eis o que pretende dizer aqui Aristóteles (Tricot). Há geração quando se tornam acto (ens actu . essas diferenças vêm a desaparecer (e elas podem desaparecer. inversamente. Colocado assim o tema. pois se a mudança é alteração. a terra e os corpos da mesma série. enquanto o Um é tomado como matéria e substrato. define também os outros elementos. não se pode considerar como geração ou corrupção. pois foram engendradas). faz renascer todas as coisas. são possíveis. isto é. toda e qualquer transmutação que se dê. como se verá mais adiante. e a Terra. Empédocles diz que o Sol é branco e quente. enquanto estes provêm da dissassociação. E é nisto que consiste. mas como mera alteração. a alteração. Segue-se dai. Assim. pois esta é a moção do contrário ao contrário segundo a qualidade. ou se é o múltiplo. pois o fogo. e pretende que ao contrário são componentes de tudo. V. Neste caso. que é semelhante ao de Anaxágoras. o que ainda será examinado mais adiante. nem de mole. pois. Pois. que se. a terra e a água certamente não existiam mais quando o Todo se tornou um. como o é de facto. Acentua Tomás de Aquino que as generabilia e as corruptibilia. pois não há outro. quer por alteração. com excepção do ódio. nada tampouco poderá de branco tornar-se negro. essas qualidades são susceptíveis de advirem às coisas e de serem de novo separadas. quer se trate de uma mudança local. Segue-se evidentemente que uma matéria única deve sempre ser colocada como substância dos contrários. desse Um. É esta a situação de algumas correntes monistas. se o substrato é um. A opinião que Empédocles sustenta. de novo. como o afirmam muitos filósofos. E decorre dai. num só todo. o Um é princípio. esses elementos são mais princípios que o Um e anteriores a êle por sua natureza. o fogo. este um permanece idêntico a si mesmo. ademais. E segundo as próprias palavras de Empédocles. ou a destruição deste. pesada c dura. nesse momento. e as diversas porções desse todo. Se. e sobretudo quando o ódio e a Amizade estão ainda em luta um contra o outro. tanto ante os fados observados como consigo mesmo. não é possível que do fogo nasça a água.

"O um aprendeu o modo de nascer do múltiplo. surge. e segregação. e com razão. etc. A espera de Empédocles é eterna e imutável. é sempre de forma esférica (versos 16(5-168. quer por alteração. a crítica aristotélica é procedente. por di-ferenciação do Um. percebemos uma mutação extensiva de aumento ou de diminuição. e inversamente (pálin). pois todo o processo do mundo se verifica segundo um ciclo imutável. ora a matéria (ousia prole). por desnascimento. e única. Pois a ousia prote pode aumentar ou diminuir. IV — Substância (ousia) é para Aristóteles. pois o cálido só pode estar no fogo e o frigido na água. a matéria. O universo é assim "fechado". quer se trate de um trânsito local. mutações qualitativas. é o substratum. Empédocles. colocamos. Esta é a análise de Bacca. que é por sua vez uma coisa "só" (rnónon). É ela a substância dos contrários. Numa substância. e vice-versa. sem que a forma (essência) sofra qualquer modificação. que permanece a mesma. o hypokeimenon. à essência ou quididade da coisa. liquido. Conseqüente com o pensamento de Empédocles. acidente próprio do fogo. É da sua doutrina que toda mutação se produz entre contrários. de absoluta estabilidade (versos 166-186). Ora. E também se pode perceber alterações. e se a mudança o é. por exemplo. dentro dessa espera imóvel. cabe a Aristóteles razão na sua crítica. e vice-versa. permanecendo a forma. e que provará a contradicção imanente nas afirmações que fazem. e. e tal se pode afirmar de outras qualidades. como o também reconhece Aristóteles. a forma do ser que apenas se altera (isto é. retomando assim a idéia do Ser esférico de Parmênides. a sua doutrina no seu verdadeiro lugar. a água não pode tornar-se fogo. por sua vez. da perfeição. (71-72). afinal. a mudança é alte- ração. E tal decorre da aceitação de que a mudança é alteração e. Sem deixar de reconhecer que. ou à própria composição concreta de matéria e forma. primordiais. separando-se. as qualidades são produzidas pelas diferenças dos elementos. deve ser a modificação de um único sujeito. ontològicamente considerado. uma alteração. Esfera. Por crescimento extensional a pluralidade chega a ser e a dar uma só coisa (èn). ora a forma (ousia deulera). nada pode sair dele. por desnascimento do um. porém. Um todo unido no pleno equilíbrio de suas forças. é tendenciosa para Joachim. como unidade absoluta. é uma alteração. haverá uma única matéria para todas as coisas. quer de uma mudança por aumento ou diminuição. o universo. enquanto esta domina. forma do ser. fogo e ar) como "essa" terra. é homogênea. mas se considerarmos que Empédocles afirma a presencialidade dos estados elementares. A esfera é para o grego o símbolo do logos. Concedendo Empédocles que o frigido é acidente próprio da água. também. e quando tomam ou aceitam qualquer outra forma é uma alteração. nesse caso. na agregação e a privação na segregação dos mixturados. sob outros aspectos. Admitida essa doutrina. e se o substratum é um. que é principio e fim de todas as coisas. a mais absoluta unidade. e a crítica que Aristóteles lhe fêz. VI — Sphairos. tomaria a forma esférica perfeita. III — Muito embora a doutrina daqueles filósofos leve a uma solução contrária. da razão. Naturalmente que permanece. congregação é geração. corrupção. Mas a aceitação da multiplicidade de elementos torna impossível a alteração. é o nome que Empédocles dá ao Um. a hylê aristotélica não é a matéria propriamente dita. e o cálido. neste parágrafo. pelo desnascimento do Um. e não tendo outro ser para nele influir. de forma alguma. do Ser Supremo. Dessa forma. o múltiplo vem de novo ao ser". É a Amizade que os une. fluídico e aeriforme. A ousia prote é o indivíduo. ora a síntese de ambas (Io synolon). como diz Aristóteles. por crescimento extensional. da unidade harmônica. mas como expressões simbólicas dos princípios sólido. Não se deve. Os quatro elementos eternos de Empédocles não se transformam portanto. há transmutatio qualitativa) sem perder a sua forma fundamental. Fora dessa esfera (sphairos) não há nada. o substratum só pode ser o único elemento. reduz os corpos a apenas mixtura. ao empregar este termo. o múltiplo surge de novo (aà) ao ser. água. pelo menos.46 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 47 factum). 198. considerar os quatro elementos de Empédocles (terra. . por exemplo. o negro não pode tornar-e branco. e. pois se uma coisa se torna em outra. quer em estado de pluralidade. 247). Ela não tem arredores (perissón). quando o ódio domina. a multidão". neste caso. Refere-se. Vejamos estes fragmentos de Empédocles: "Digo duas coisas: que umas vezes a pluralidade. afirma Aristóteles. Segundo a interpretação que dele faz. pois estes são os termos de toda moção. de todo o ente finito. graças à acção da Amizade. o que leva à negação da própria alteração. ou à matéria que a compõe. "esse" fogo. Portanto. quer em estado de unidade. eles são obrigados a reconhecer que há uma distinção entre alteração e geração. que está em devir. para os que afirmam tal doutrina. V — A substância dos contrários.

mas apenas da dos elementos. com efeito. em suma. distintos. não conseguem explicar de que maneira. que é o eslado em que estamos agora. no entanto. com efeito. e. como já dissemos. a propósito do fazer e do sofrer. TEXTO DE ARISTÓTELES I —3 I. Não se trata ainda de toda e qualquer geração. que as coisas não surgem apenas por agregação ou segregação. como possíveis de vir-a-ser. Quanto ao modo de geração das carnes. . ao contrário. III. e eis precisamente sobre o que nada mais dizem. Ninguém. não se contentou apenas em observar a todos: êle se distingue imediatamente 315b pela maneira de colocá-los. é (pie quando do domínio da Amizade. a não ser Demócrito. Devemos. Com efeito. e sua ordem e posição. delas fazem surgir a alteração e a geração. quando do reino do Ódio. Moslra-nos Aristóteles. e a maneira como existem nas coisas. a alteração. Platão. nos seus fragmentos. nem (e pode-se dizer) para nenhum outro problema. examinou apenas a ge. pois. no que concerne ao aumento. por 5 exemplo. devemos tratar também dos outros movimentos simples. de maneira geral. uma coisa actua e outra sofre. a propósito desses proble. como são. II. tratar agora. depois de terem proposto as figuras. o que é contrário ao que pensava Empédocles. foi além da superfície. in comm. de que maneira se produzem eles nas coisas.48 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES VII — A análise aristotélica merece aqui um reparo. como o aumento e a alteração. mas trata-se de precisar de que maneira tal se dá. mas por alguma transmutação. nada diz. e o diz claramente. pois o que Empédoclcs quer dizer. ou de qualquer outra homeoméria dessa espécie. devirem. nenhum dos outros filósofos apresentou. L I . no que concerne à alteração e ao crescimento. Não vão mais longe para a mistura. Demócrito e Leucipo. assim: a separação e a união dessas figuras produzem a geração e a corrupção. se existem.35 mas. pois o um é o princípio maior (Tomás de Aquino. superveniente das diferenças dos elementos. esses elementos não eslão distinguidos fisicamente. qualquer explicação que à primeira vista qualquer adventício na matéria não estivesse em estado de responder: eles afirmam que o aumento se produz pelo acesso do semelhante ao semelhante.2). Este. mas indiferenciados no ser. nas acções naturais. 1. Não examina também. ou dos ossos.30 ração e a corrupção. da geração e da corrupção absolutas: se existem ou não. parece.

VIII. Contudo. em compensação. pois a tragédia e comédia estão constituídas com as mesmas letras. uma diferença capital. neste caso. Eis aí. bem como pelas diferenças de 35 figuras. que os seres são engendrados e corrompidos pela união c pela separação de seus elementos. não existe grandeza indivisível. Posteriormente. a geração simpliciter est. tal dá lugar a muitas impossibilidades. não tentam sequer engendrai. por simples variações na composição. a alteração e a geração não são mais realizáveis. o que é negado por tais filósofos. O principio da solução de todas essas dificuldades é o seguinte: ou será assim que se operam a geração. nada pode ser engendrado de superfícies compostas conjuntamente. são também mais capazes de supor princípios fundamentais. mas. aspectos opostos. a geração não é uma união. com efeito. está eivada de absurdidades. é possível realizar alteração e geração da maneira que dissemos. a que ponto diferem um método de exame fundado sobre a natureza das coisas e um método puramente lógico: da realidade das grandezas indivisíveis resultaria. E. com efeito. com elementos primeiros indivisíveis. sendo dado para eles. Ao contrário. enquanto Demócrito parece ter sido conduzido a essa opinião por argumentos apropriados ao assunto e deduzidos da ciência da natureza. como já o salientamos em outra parte. então. para os platônicos. modificando o mesmo objecto por meio da "posição" e da "colocação". Ao contrário. ou a geração é uma alteração. Quase Iodos os filósofos parecem admitir. fizeram as figuras infinitas.50 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 51 IV. e infinitas. pois. E. Se liá distinção. e que as aparências são contrárias entre si. O sentido de nossas palavras será esclarecido mais adiante. obrigam a reconhecer que não pode ser de outro modo. é verdade. Se. pelo contrário.uma qualidade partindo dessas superfícies. Po. com a ajuda desses corpos indivisíveis. ou não há absolutamente geração. que a verdade residia na aparência sensível. como o fez Demó- crito. tais que permitam um vasto encadeamento. É absurdo. o primordial é estabelecer a nítida distinção entre a geração e a corrupção e às outras moções. que a geração é uma coisa distinta da alteração. Se. c aparecer inteiramente diferente pelo deslocamento de um só componente. Elas prestam-se. 6 de modo absoluto. como o aumento e a alteração. aqueles que o abuso de raciocínios dialécticos afastou-os da observação dos factos.10 <le-se perceber. deste modo. levar a divisão até às superfícies. por um lado. com efeito. que impede de abarcar também 5 o conjunto das concordâncias. e. ou. corpos. pois é pela "colocação" dos átomos 316a que as coisas são coloridas. como está escrito no "Timeu". por outro lado. difíceis de refutar. serão como o querem Demócrito e Leucipo. enquanto se alteram pela mudança de suas qualidades. E. com excepção dos sólidos. a seguir. Estas teses exigem a nossa atenção. pelo que precede. a numerosas e bem fundadas objecções. outros argumentos. para que. de que o Triângulo-em-si seria assim múltiplo. Será mais razoável supor indivisíveis os corpos? Esta hipótese. uma mesma coisa possa apresentar. a geração é uma união (congregatio). ou então. devemos tentar também resolver esse dilema. para aqueles que dividem os corpos em superfícies. dispondo apenas de um pequeno número de constatações. superfícies? VI. . se essas realidades primordiais são grandezas indivisíveis. V. Reexposição comentada I — 3 I — Previamente cabe saber se há a geração e a corrupção absolutas. ser transmutada pela introdução do menor componente novo. Portanto. e esses filósofos ademais. por dificílimo que seja. o crescimento dos seres ou as mutações contrárias. Eis também por que esse filósofo nega a existência da côr. Duvidavam muitos filósofos antigos da distinção entre geração e alteração. enunciam-nas com precipitada facilidade. resta saber se cabe tratar de outras moções simples. por sua vez. a espectadores diferentes. A razão. é a insuficiência da experiência. com efeito. Eis por que aqueles que vivem numa intimidade maior com os fenômenos da natureza. de que maneira exislem.

a geração e a corrupção da alteração. conseqüentemente. mas formam palavras. e que tem efeitos opostos em nós. da qual êle se despreocupou. Mas surgein argumentos tão fortes. segundo a ordem e a colocação. da relação posicionai móvel deles para com o todo (esquema corpóreo). e da conexão desses. geração. podem mudar os temas. assim como a comédia. uma subsistência em si mesma. nem de que maneira se produzem nas coisas. IV — E por fundarem a verdade na aparência sensivel. e neste caso são superfícies. como a assimilação biológica. obedecendo diversas ordens. Anaxágoras e Empédocles. e como elas são contrárias entre si. podem construir corpos sólidos.. VI — A geração. isto é. que os examinou de outro modo. porém. mas. Por isso é que êle nega existência à côr. as modificações se dariam pelas modificações do contacto e das posições e ordens dessas magnitudes. diversos discursos (sermones). como o propõe. são eles corpos. n. que dividem os corpos em superfícies. por outro lado. como as qualidades secundárias. o aumento dos seres ou as mutações contrárias se dão pela união de elementos primeiros. Leucipo. Se admitimos que a geração é uma união. 6). que é um sermo das coisas urbanas. Mas os platônicos. e infinitas (sem finitude em número) buscaram tais folósofos um conteúdo objectivo nas figuras. de per si). embora ainda insuficientemente. Neste caso. depois de terem posicionado os átomos (figuras. Demócrito distingue. o que lhes permitiu (mas sem evitar aporias insolúveis) explicar a diversidade de opiniões. III — Demócrito e Leucipo. no entanto. e da ordem. realizem-se a alteração e a geração. isto é. surgiria a alteração. tal afirmativa dá lugar a impossibilidades. Mas há outros modos de geração. Portanto. segundo a posição que tomarem. 2) se são magnitudes indivisíveis. os estudos feitos pelos antigos eram insuficientes e superficiais. e a ordem e posição destas formam um sentido. Neste caso. Ela surge das posições atômicas. admitem que os seres são engendrados e corrompidos pela união e pela separação dos elementos que os compõem. ou a geração é uma alteração. pelas variações dos corpos indivisíveis. Surgem daí muitas aporias» muitas dificuldades teoréticas. mas é mais racional que aceitar superfícies. dois problemas surgem: 1) os primeiros elementos das coisas naturais são qualquer magnitude indivisível. pelas conversões. Demócrito. como o disseram Demócrito e Leucipo. Demócrito.52 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 53 II — Exemplifica Aristóteles com Platão. infinitas em números e formas. Quanto ao aumento. dentro de sua doutrina. a alteração é causada pela variação da ordem das posições das figuras (skhémata). As letras são indivisíveis. Também nada disseram sobre a mixínru. segundo as diversas mutações. que estudou a geração e a corrupção. todos os filósofos trataram como qualquer advenücio na filosofia o faria. por ex. como já o demonstrara Aristóteles em "De Caelo" (Cap. enquanto se alteram por uma mutação de suas qualidades. exceptuando-se. "triângulos elementares?" VII — Tal é absurdo. são para Demócrito mera aparência. As cores. como as palavras de um discurso. ou a tragédia. como o salienta cm seus comentários Tomás de Aquino. skhémata. e nada mais. perseidade (per se. V — A maioria dos filósofos. As transições de lugar nos permitem ver uma pomba sob diversas cores.. VII. Tampouco estudou a alteração e o aumento. como se apresentam nas coisas. ao tratar das acções naturais. Se não se admite. por meio de corpos indivisíveis. Assim. como se verá na Lição V. nos esquemas noéticos fácticos.sermo das coisas bélicas. Como . plural de skhema). que é um . e se afirmamos que a geração não é uma união. não há em absoluto. aceitam que a geração é distinta da alteração. pois os triângulos resolvem-se em linhas e as linhas em pontos. Demócrito dizia que a alteração seria conseqüente às mutações da ordem e da posição de tais corpos (skhémata). Desse modo o acrescentamento de um simples átomo é suficiente para uma mutação radical. Esta afirmativa implica irracionalidade. por exemplo. como o dizia Platão no "Timeu". tornando-se. ou não existe grandeza indivisível. e apenas esta. como Demócrito. sem dizer de que maneira. Resta aceitar que. dizendo apenas que o aumento se processa pela advenièneia do semelhante ao semelhante. Dessa forma. exemplifica Demócrito. nem como uma coisa age e outra sofre a ação. Com as superfícies. não podem estabelecer a causa de qualquer transmutação formal. que não obstante permanecem sempre as mesmas. isto é. Este é o dilema que se apresenta a Aristóteles e que êle pretende resolver. determinaram a alteração e a geração do seguinte modo: da união ou da separação de tais átomos surge a geração ou a corrupção. que se é obrigado a aceitar que não pode ser de outro modo.

indivisível. única e persistente.54 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES pontos. seguindo os métodos da filosofia natural. como já o mostramos na "Ontologia". c que contudo mantemos a divisão absoluta. infundada na experiência. uma grandeza como totalmente divisível. quer. são facilmente levados a afirmativas inconsistentes. e sobretudo. geralmente. enunciando suas doutrinas sem uma base nesta. não resultaria daí nenhuma impossibilidade. pois não terá nenhuma quantidade. nada de impossível daí resultaria. e se admitimos que essa divisão é possível: que haverá que possa escapar à divisão? Pois. quer dizer. eles não tornariam maior o todo. os (piais são mais aptos a propor fundamentos que permitam um mais vasto eiicadeainento dos factos. mas o triângulo sensível. é o autotrigonon. há um nexo de idealidade na realidade e de realidade na idealidade. nem grandeza. que o corpo será constituído. Já que o corpo é assim divisível totalmente. E realmente. pois dialéclica é o clarear das idéias. pois. de não-grandezas. já que. colocam em posições puramente dialécticas e abstractas. como forma. os pontos se encontrassem em contacto e coexistissem para formar uma única grandeza. Aristóteles opunha a dialéclica ao método das ciências que consiste em partir da experiência. será da mesma forma. não o seria. de qualquer outra divisão natural total. per se equiim. de facto. é indecomponível. linhas e superfícies são coisas matemáticas. poderá ser simultaneamente dividido em todas as suas partes. através das idéias. o que decorre de que quando o corpo fossem dividido . Quando. Já o mesmo não se dá com aqueles que estão em conlncto mais íntimo com os fenômenos da natureza. embora. E se a divisão se produzisse. quer dizer. a divisão não fosse efectuada simultaneamente. por hipótese. Qual seria pois a sobra? Uma grandeza? Não é possível. Raciocinar physikôs para Aristóteles é fundar-se no real. porque se refere ao sensível. Há. Mas Aristóteles esclarecerá mais adiante suas palavras. Tal conceito não é evidentemente (» nosso. mas concrecionadas no nexo da realidade. e o corpo inteiro não seria sem dúvida nada mais que uma simples aparência. VIII A posição platônica é mais deficiente que a democrítea. o corpo é totalmente divisível. divididas elas inumeráveis vezes. os platônicos foram de certo modo. quer se trate ou de uma divisão pela metade. ou é de pontos. é a espécie. Aqueles que se. II. Como Demócrito fundava-se na filosofia ou ciência da natureza eram suas afirmativas mais racionais. na coisa. Ora. indecomponível. mesmo quando a divisão tivesse sido feita em inumeráveis partes. como poderiam dai surgir qualidades? Só corpos poderiam causá-las. com efeito. sem dúvida. o cavalo. se o corpo é totalmente divisível e que a divisão é possível. os filósofos mais afastados da experiência. para êle. a crítica aristotélica tem razão. nenhuma impossibilidade decorreria daí. a forma imutável e eterna. pois haveria aí alguma coisa de não dividido. III. O homem. se colocamos um corpo. com efeito. uma dificuldade. apenas o afanar-se através das idéias. o corpo viria então de nadas e seria constituído de nadas. Dialéclica era. admitamos que tenha sido dividido. Mas se devemos reconhecer que não sobra nem corpo. Dessa forma. e se a divisão foi efectuada. in re. nenhum corpo pudesse ser assim dividido. Mas é preciso considerar com justiça o pensamento platônico. ou então é de nadas absolutos: neste último caso. TEXTO DE ARISTÓTELES I —4 I. O triângulo. per se hominem. com conteúdos pouco claros e mal fundados na experiência. Mas a absurdidade será a mesma se o corpo é formado de pontos. portanto. afastados da observação dos factos. Conseqüentemente. embora.

se. e se se destacar da magnitude algum elemento corporal. Como conseqüência. Uma grandeza pode ser considerada como divisível. não evitaremos de cair nas impossibilidades que examinamos em outros tratados. exhautive. o mesmo raciocínio anterior se aplicaria: de que maneira seria divisível esta partícula? V. Conseqüentemente. já que é impossível que as grandezas sejam formadas de contactos ou de pontos. IV. pois sendo todo corpo. Se. como êle o mostrará mais adiante. mas. é paradoxal que uma grandeza seja composta de não-grandezas. se não o admitimos. E se o corpo for formado de pontos. esta lambem o seria. tal não implicaria uma impossibilidade. em que lugar estarão os pontos? E estarão imóveis ou em movimento? Ora. queremos colocar algum corpo que seja. mas divisível sucessivamente. Se não é um corpo. reu. deste 5 modo. e assim sucessivamente. não formariam nenhuma grandeza. Ademais. ou alguma outra coisa. por hipótese. por exemplo. e como procederia deles? Em outras palavras. In "Metaphysica". e que. o que não é pelo menos impossível. Ademais. porque é composto de nada. pois. esta por outra. Se partimos da admissão de uma divisão totaliter (pánte) que se realizasse simultaneamente em todos os pontos do corpo. VI. o mesmo raciocínio se aplicaria: de que maneira seria divisível essa partícula? 316b Reexposição comentada I —4 I — Surge agora a crítica aristotélica à tese democríca. algum elemento corporal se destaque da grandeza. de modo que. fora da divisão? Pois. tal não poderia ser. decorreria o mesmo. pois os pontos não têm quantidade. mas uma forma separada ou uma quantidade que surge. de alguma grandeza que seja. como totalmente divisível. que é posón (quantidade). E reunidos que fossem para formar um corpo. tornar-se-ia igual e um. Que coisa há pois nele. do qual é dita ter a potência. depois de termos dividido um pedaço de madeira. como o pedaço de madeira se resolveria nesses componentes. 15 . dá-nos a seguinte definição" dopossível (dynatón) : "Uma coisa é possível se ao passar ao acto. o todo não seria menor nem maior do que antes.56 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 57 em dois ou mais partes. III — Admitamos agora que tal se tenha dado. um cont a d o supõe sempre dois termos. totalmente. não pode ser absolutamente divisível simultaneamente. aceita até então como mais plausível que a platônica. nesse caso o corpo seria formado de inúmeros nadas. não resulta daí nenhuma impossibilidade". nadas absolutos. pois seria êle constituído de pontos que não têm dimensões. Mas tal divisão não pode realizar-se omnino. é evidentemente assim de qualquer ponto que eu seccione o pedaço de madeira. o que é inconciliável com a própria idéia de corpo. Contudo. ela é possível (Tricot). assim. e o todo não seria nem maior nem menor que a parte. pois não pode haver grandezas indivisíveis. IV — Se a divisão se realizar por um corte do corpo. tal levaria ao aniquilamento do corpo. A divisibilidade seria ainda possível. mesmo que suponhamos que há alguma quantidade. Ora. tal qualidade. como esses elementos constitutivos. não resultaria nada também. Ora. e os pontos reunidos não formariam nada. Mas suponhamos que a divisão se traduza por alguma coisa como um corte de um corpo. no sentido que há sempre alguma coisa fora do contacto. possuindo. pode ser dividido pela metade. II — Se a realização de uma coisa não é incompatível com a própria essência dessa coisa. e se a grandeza consiste em pontos ou contactos. Que sobraria? Uma grandeza. Pois o pedaço de madeira foi dividido potencialmente de maneira completa. poderiam ser separados uns dos outros? VIII. mesmo que todos os pontos estivessem reunidos. totalmente divisível. O que tem uma dimensão.10 nimos os fragmentos. eis as dificuldades que daí decorrem. e o corpo seria então nada. isto é. Mas se admitirmos que o que sobra não é uma grandeza. VII. Para compreender-se nitidamente o pensamento de Aristóteles é preciso esclarecer o que êle entende por possível. deve haver corpos indivisíveis e grandezas. como fora da divisão e do ponto.

V. que um corpo seja. umas das outras. um argumento contra a tese da divisibilidade pante. que de um lado. e em grandezas separadas. então. não importa em que ponto. IV. e a parte. e a magnitude não pode ser formada de quantidades discretas (Tricot). É portanto necessário que o corpo sensível contenha grandezas indivisíveis. Aristóteles combate a divisibilidade total. sobraria. o que compusesse o corpo seria sem magnitude. em potência provoca objecções. Já que um ponlo. pois o contacto supõe a consecução (èphexês) e dois pontos não são consecutivos. ê o que. Não poderia haver contacto entre eles. para o corpo. indivisível. V — Se a parte sobrante não fosse nem corpo nem magnitude e sim. por exemplo. pois a divisão se deu em acto. parece. a divisibi- 20 25 30 317a . Mas como explicar a separação da qualidade de os pontos? VII — A conseqüência é admitir corpos indivisíveis e grandezas. por outra parte. o intermediário é sempre uma linha como Aristóteles mostrou na "Física". VI — Sendo os corpos pontos que não ocupam lugar e. são determinados pelos lugares. seguir-se-ia que a geração viria do nada e seria. e eis por que. fosse possível. e indivisível em ontelequia (actuaimente). uma vez mais. a divisão simultânea não poderia operar-se em todo ponto (pois tal não é possível) : ela se deteria em alguma parte. divisível simultaneamente em todos os seus pontos. os pontos não receberão nem um movimento nem estariam em nenhuma parte e não poderiam unir-se para constituir corpos. e se o corpo se resolvesse em nada. tal poderia então acontecer. e o corpo ter-se-ia desvanecido no incorpóreo. TEXTO DE ARISTÓTELES I — 5 I. seria nada. pois o contrário seria impossível. e separadas em acto. Tudo quanto é corpóreo é divisível. Como seria tal possível? Mas é desde logo claro que a divisão se efectua cm grandezas separáveis. a sobra teria magnitude. e daí resultaria. Nas próximas lições. provir quer de pontos. quer do nada absoluto. tanto quanto divisível. numa divisão progressiva. nada. não simultaneamente e ao mesmo tempo indivisível e dividido em enteléquia. devemos retornar ao ponto de partida. se reunirmos os pedaços e as partículas estes permanecem divididos apenas em potência. III. neste caso. Devemos. o fracturamento não poderia prosseguir ao infinito. Nada. é do que vamos falar. então o corpo finalmente se resolveria em pontos e. por que o que vem do nada é nada. um ponto. Entre os pontos. Tal é o argumento que parece estabelecer a necessidade de grandezas indivisíveis. não é contíguo a um ponto.58 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES Se tal se fizesse. nada há aí de paradoxal: será divisível potencialmente. Alegarão alguns que a divisão em potência não expulsa a qualidade. resolver essas dificuldadades. II. contudo. e. que só se ausenta pela divisão em acto. mas admitir grandezas indivisíveis oferece também outras dificuldades. Se se dissimula um paralogismo e até onde o dissimula. Por outro lado. sempre menores em cada divisão. que êle é. E assim poderia. E sobretudo tal se dá se se admite que a geração e corrupção consistem respectivamente na congregação (união) e na segregação (separação). Os pontos são apenas simples limites. Aristóteles empreende a resolução dessas aporias. tornase êle um. Se um corpo é dividido ern qualquer ponto. por sua vez. sendo corpórea. ser impossível. Mas essa divisão. seria divisível. mais uma vez. no entanto. todo corpo sensível seja. Para Joachim é. Nesse caso todas as coisas naturais seriam nada. Se com efeito. igual ao movimento. mesmo em potência. totaliter. Conseqüentemente. Essas dificuldades decorrem naturalmente da admissão de um corpo totalmente divisível. mas simultaneamente dividido num ponto qualquer. VII — Tudo quanto Aristóteles diz neste parágrafo é posto em dúvida por muitos autores. porque se acentua a impossibilidade que êle já havia estabelecido na "Física". Conseqüentemente. com efeito.

Tudo quanto é magnitude é divisivel potencialmente et totaliter. pois os pontos não são consecutivos. a separação e a união facilitam somente a corrupção da coisa. não há divisão contígua a uma divisão. em partes menores que o dividido. que a grandeza pode ser dividida até o nada. certa distinção nem sempre fácil de perceber. a saber. Não há diversos pontos num lugar qualquer. quando ela passa ao acto da qual ela é dita ter a potência. por conseguinte. Na realidade. VIII. mas a divisão se faz em partículas. Mas esses filósofos pensam que toda mudança dessa natureza é alteração. totaliter). o corpo se desvaneceria no in- . a composição. quando. com efeito. Há. enquanto a mudança no contínuo seria a alteração. não este ou aquele. é mister distinguir o que é segundo a forma. No sujeito da mudança. de maneira que daí se seguiria. com efeito. ela não é em todos os seus pontos simultaneamente divisivel. Não o sendo. totaliter.25 ração e a corrupção. enquanto há um único ponto. na realidade. Nem em potência poderia ser simultaneamente divisivel potencialmente et totaliter. para tal. pois. não resulta daí nenhuma impossibilidade". um ponto. entelékheia (enteléquia). Bem ao contrário. necessariamente. e impossível de outro. quando se coloca esta divisibilidade total da grandeza. Daí resulta que há divisão e composição. se ela é divisivel em seu meio. daí resultaria. onde há magnitude. Tudo isso se esclarecerá a seguir. porém. fique bem estabelecido o que segue: a geração não pode ser uma união. Mas pode-se estabelecer esta distinção: enérgeia é acção. onde há magnitude. K divisivel em enteléquia. mas quando há mudança total de tal coisa a tal outra coisa. * * * 30 Reexposição comentada I — 5 I — Estamos ante uma aporia que é preciso solucionar. no emprego dos termos enérgeia (acto) e entelékheia (acto. pois. em enteléquia. e que todos seus pontos estão em toda parte. Não o pode ser. Desta forma. desde já. III — A divisibilidade em potência em todos os pontos de um corpo parece-lhe impossível. senão. que há nela um ponto. pois êle os emprega muitas vezes sinonimicamente. actualmente é impossível realizar a divisibilidade pante. Em outras palavras. geração e corrupção absolutas. pela união e pela separação. VII. se o corpo fosse totalmente divisivel em seus pontos. com efeito. há uma diferença. de início. pois que haveria. nem de tal maneira que a divisão se produza em toda parte (teria sido mister. como alguns filósofos o sustentam. nem composição a uma composição. a partir de partes menores ainda. de pontos. há divisibilidade. II — Não há nenhuma inconveniência em dizer que o corpo sensível seja e não seja igualmente divisivel. foi de início dividida em partículas de água menores. Neste caso. em toda parte dela. Ora. como se vê. Mas é absolutamente sob um ponto de vista que a grandeza é divisivel em toda parte. e o que é segundo a matéria. em um lugar qualquer nela. embora não seja em grandezas indivisíveis. eis onde reside todo o erro. desde que se distinga potência de acto. em acto. Mas a geração e a corrupção absolutas e completas não são definidas. não o é por sua vez em potência. pois não há posição contígua a uma posição. Mas. então. Mas acredita-se. e por acidente. os corpos são constituídos de puros nadas. nem a partir de grandezas indivisíveis (haveria aí múltiplas impossibilidades). enquanto que se as partículas de água foram. Recordemos a sua definição na "Metafísica": "Uma coisa é possível. Quando é nestes mesmos factores constitutivos que a mudança se dá. será a ge. É mister retornar ao ponto de partida. resolve êle a aporia. enquanto tomados um a um. nem de ponto a ponto. por força da definição de possível. mas quando é nas qualidades da coisa. Há em Aristóteles. mas em toda parte. será divisivel também a um ponto 10 contíguo a esse meio. Se a água. quer 15 dizer. o termo realizado pela acção. VII. se. pelo menos como a concebem alguns filósofos. reunidas. não pelo facto da 20 união e da separação. é engendrado mais lentamente. será uma alteração. o ar é engendrado delas mais rapidamente. o que é absurdo no pensamento aristotélico. a modal do acto. que ela 5 seria composta de contactos ou de pontos. que o ponto fosse contíguo ao ponto). O corpo é divisivel em potência (pante.60 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 61 lidade total das grandezas é possível de um modo. seria divisivel também em acto. e.

Tudo isso se esclarecerá a seguir. que a grandeza pode ser dividida até o nada. a saber. mas em toda parte. com efeito. desde já. quer 15 dizer. os corpos são constituídos de puros nadas. e o que é segundo a matéria. Mas é absolutamente sob um ponto de vista que a grandeza é divisivel em toda parte. pois que haveria. será divisivel também a um ponto 10 contíguo a esse meio. Recordemos a sua definição na "Metafísica": "Uma coisa é possível. não este ou aquele. com efeito. será uma alteração.25 ração e a corrupção. a separação e a união facilitam somente a corrupção da coisa. pela união e pela separação. actualmente é impossível realizar a divisibilidade pante. é engendrado mais lentamente. embora não seja em grandezas indivisíveis. como se vê. mas quando há mudança total de tal coisa a tal outra coisa. não há divisão contígua a uma divisão. e que todos seus pontos estão em toda parte. se o corpo fosse totalmente divisivel em seus ponlos. se. de pontos. geração e corrupção absolutas. totaliter. reunidas. * * * Reexposição comentada I — 5 I — Estamos ante uma aporia que é preciso solucionar. em um lugar qualquer nela. a modal do acto. como alguns filósofos o sustentam. nem de tal maneira que a divisão se produza em toda parte (teria sido mister. de maneira que daí se seguiria. de início. Se a água. VIII. com efeito. Mas acredita-se. entelékheia (enteléquia). Não o pode ser. K mister retornar ao ponto de partida. enquanto tomados um a um. não o é por sua vez em potência. totalitcr). Daí resulta que há divisão e composição. Bem ao contrário. No sujeito da mudança. que há nela um ponto. fique bem estabelecido o 30 que segue: a geração não pode ser uma união. em toda parte dela. há uma diferença. eis onde reside todo o erro. quando. pois. pois. por conseguinte. nem de ponto a ponto. Há. em enteléquia. pelo menos como a concebem alguns filósofos. pois êle os emprega muitas vezes sinonimicamente. resolve êle a aporia. em partes menores que o dividido. se ela é divisivel em seu meio. não pelo facto da 20 união e da separação. Ora. o que é absurdo no pensamento aristotélico. Mas. por força da definição de possível. Neste caso. III — A divisibilidade em potência em todos os pontos de um corpo parece-lhe impossível. enquanto há um único ponto. pois os pontos não são consecutivos. cm acto. daí resultaria. O corpo é divisivel em potência (pante. Desta forma. então. há divisibilidade. Quando é nestes mesmos factores constitutivos que a mudança se dá. nem a partir de grandezas indivisíveis (haveria aí múltiplas impossibilidades). VII. II — Não há nenhuma inconveniência em dizer que o corpo sensível seja e não seja igualmente divisivel. para tal. a composição. Nem em potência poderia ser simultaneamente divisivel potencialmente et totaliter. e impossível de outro. Há em Aristóteles. mas a divisão se faz em partículas. que ela 5 seria composta de contactos ou de pontos. onde há magnitude. e. na realidade. o termo realizado pela acção. é mister distinguir o que é segundo a forma. quando ela passa ao acto da qual ela é dita ter a potência. ela não é em todos os seus pontos simultaneamente divisivel. e por acidente. Tudo quanto é magnitude é divisivel potencialmente et totaliter. necessariamente. o corpo se desvaneceria no in- . onde há magnitude. no emprego dos termos enérgeia (aclo) e entelékheia (acto. o ar é engendrado delas mais rapidamente. mas quando é nas qualidades da coisa. enquanto que se as partículas de água foram. Mas pode-se estabelecer esta distinção: enérgeia é acção. enquanto a mudança no contínuo seria a alteração. seria divisivel também em acto. Na realidade. E divisivel em enteléquia. Mas esses filósofos pensam que toda mudança dessa natureza é alteração. nem composição a uma composição. que o ponto fosse contíguo ao ponto). Mas a geração e a corrupção absolutas e completas não são definidas. senão. Não há diversos pontos num lugar qualquer. foi de início dividida em partículas de água menores. VII. a partir de partes menores ainda. desde que se distinga potência de acto. será a ge. certa distinção nem sempre fácil de perceber. Não o sendo.60 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 61 lidade total das grandezas é possível de um modo. quando se coloca esta divisibilidade total da grandeza. não resulta daí nenhuma impossibilidade". porém. pois não há posição contígua a uma posição. Em outras palavras. um ponto.

calma e ponderada. a contiguidade implica lugar natural. estamos na geração e corrupção simplesmente. a mutação no contínuo não é sempre uma alteração. não há necessidade de supor partes absolutamente indivisíveis. porque o ponto não tem dimensão. uma separação. um não excede ao outro e. Ora. que a divisão só pode ser feita em grandezas separáveis. os pontos não podem estar ubiquados em acto na linha e daí não poder a linha ser dividida. que não admitia que um corpo fosse divisível totaliter em potência e também não o fosse em acto. em acto totalmente. todos os pontos seriam apenas um ponto. Se não o é em acto. Portanto. Resta com clareza. Há alteração. totalmente. Pois ademais não se poderia dividir pante o ponto contíguo se o fosse. Desta forma. permite compreender os pontos fundamentais da sua doutrina. por ex. e. quando se dá apenas nas paixões e acidentes estamos na alteração. e nenhum corpo pode ser dividido ao infinito. quando a mudança se produz na ousia prole. A alteração diferenciar-se-ia da geração apenas em efetuar-se no contínuo. diz que a divisão da linha em acto nada mais seria do que um ponto em acto. em suas divisões. Embora difícil a explanação aristotélica. porque um tangeria o outro como um todo. como já tivemos oportunidade de ver anteriormente. então. Os atomistas consideram que toda mutação dessa natureza é apenas uma alteração que se produz no contínuo. e o intermediário entre os pontos é apenas a linha. portanto. quando a transmuta. mas já em acto. embora invisível. não se dá a mutação na coisa em si. Quer dizer. O sujeito transmuta-se todo. porque surge aqui o composto de forma e matéria (to synolon) e. do todo no todo. quando a mutação afecta a qualidade das coisas. V — Paralogismo está que um ponto não é contíguo a outro ponto. e não no da física actual). nesse caso. uma grandeza indivisível. que se a linha pode ser divisível totalmente em potência. Não se pode dizer. sem modificação das substâncias. como argumentam os atomistas. quando a transmutação se processa apenas nos acidentes. Portanto. de nadas. e na ousia déutera. afirma Tricot. os átomos. Encontraria um ponto onde deter-sc. Tomás de Aquino. admitindo que a geração é apenas synkrisis e a corrupção diákrisis. e não apenas uma synthesis dos corpos indivisíveis. admitindo sempre a existência de grandezas indivisíveis. quer dizer. a divisão não poderia prosseguir in infiniium. que ela possa ser dividida totalmente em acto. e a composição em partes menores. e se dessem na linha. porque se os pontos são indivisíveis. VI — Mas Aristóteles se opõe aos atomistas. quer dizer. comentando este parágrafo. e dois pontos não são consecutivos. menores que o composto. que é a forma. Na geração. A divisão faz-se em partículas. não apenas pela união e separação dos elementos. Ai reside o erro. ademais. E nada mais são que os átomos de Deinónilo. Conseqüentemente. e daí decorreria também que os pontos fossem contíguos ou conseqüentes. pois como já vimos. Em síntese: a divisão da linha em acto não é nada mais do que a do ponto em acto. . IV — Ura. o ponto seria ubíquo na linha. Não se conclua. Agora. há geração e corrupção absolutas. Há geração. nem simultaneamente em todos os pontos. a leitura. E só se dão coisas consecutivas. formando uma unidade. cada vez menores. que constitue o syntheton. há necessidade de aceitar grandezas indivisíveis (átomos. A gênesis (geração) é para os atomistas uma synkrisis (uma congregatio) e a phtorá (a corrupção) apenas uma diákrisis. decorreria que o ponto se ubiquaria em acto na linha. se a linha fosse totalmente dividida em acto. Também este era o pensamento de Demócrito. e em grandezas separadas umas das outras. quando eles afirmam que a geração seria apenas a união dos elementos. mas apenas nas suas propriedades.62 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 63 corpóreo. em que a matéria adquire outra forma substancial. em partes menores do que o dividido. Emquanto na corrupção é a perda da forma anterior. que uma grandeza possa ser dividida pante. há uma transmutação ex totó in totum. isso não pode ser porque sendo os pontos indivisíveis. em sentido filosófico. portanto. muitos pontos contíguos não excederiam a um ponto. mas não em todos os pontos simultaneamente. isto é. deste modo. Tanto quando a transmutação se dá na matéria e forma. e seria constituído de pontos. e a matéria adquire uma nova forma substancial. porque. segregatio. Tal não pode ser. átomos de Demócrito. Se a linha fosse dividida em acto totalmente. na realidade. quando existe um intermediário. não o é em potência. todos os pontos não seriam mais do que um único ponto. e os pontos são apenas limites. 0 salto qualitativo que Aristóteles estabelece aqui é de magna importância. e a corrupção uma separação. se os pontos não são contíguos uns aos outros. mas há uma diferença importante. uma grandeza pode ser dividida pante num ponto qualquer. é que há alteração. por isso a divisibilidade é possível sob um ponto de vista e não sob outro. Ora. mas pelo surgimento de uma nova onsia. que é a matéria.

átomos de Demócrito. Resta com clareza. menores que o composto. se os pontos não são contíguos uns aos outros. em partes menores do que o dividido. um não excede ao outro e. e a matéria adquire uma nova forma substancial. segregalio. E só se dão coisas consecutivas. Pois ademais não se poderia dividir pante o ponto contíguo se o fosse. do todo no todo. e na ousia déutera. Emquanto na corrupção é a perda da forma anterior. Os atomistas consideram que toda mutação dessa natureza é apenas uma alteração que se produz no contínuo. isto é. quando a mutação afecta a qualidade das coisas. e se dessem na linha. Encontraria um ponto onde deter-se. quando se dá apenas nas paixões e acidentes estamos na alteração. pois como já vimos. E nada mais são que os átomos de Demócrito. A divisão faz-se em partículas. uma grandeza indivisível. há necessidade de aceitar grandezas indivisíveis (átomos. não há necessidade de supor partes absolutamente indivisíveis. que é a matéria. Quer dizer. não apenas pela união e separação dos elementos. em sentido filosófico. nesse caso. que uma grandeza possa ser dividida pante. Não se pode dizer. A alteração diferenciar-se-ia da geração apenas em efetuar-se no contínuo. se a linha fosse totalmente dividida em acto. Ora. mas já em acto. Portanto. como argumentam os atomistas. quer dizer. Há alteração. por isso a divisibilidade é possível sob um ponto de vista e não sob outro. mas não em todos os pontos simultaneamente. na realidade. comentando este parágrafo. todos os pontos seriam apenas um ponto. porque se os pontos são indivisíveis. ademais. isso não pode ser porque sendo os pontos indivisíveis. VI — Mas Aristóteles se opõe aos atomistas. Conseqüentemente. permite compreender os pontos fundamentais da sua doutrina. os pontos não podem estar ubiquados em acto na linha e daí não poder a linha ser dividida. mas pelo surgimento de uma nova ousia. mas há uma diferença importante. que não admitia que um corpo fosse divisível totaliter em potência e também não o fosse em acto. quando a transmuta. formando uma unidade. e nenhum corpo pode ser dividido ao infinito. a divisão não poderia prosseguir in infinitum. porque. diz que a divisão da linha em acto nada mais seria do que um ponto em acto. a contiguidade implica lugar natural. não se dá a mutação na coisa em si. porque um tangeria o outro como um todo. embora invisível. como já tivemos oportunidade de ver anteriormente. V — Paralogismo está que um ponto não é contíguo a outro ponto. estamos na geração e corrupção simplesmente. uma grandeza pode ser dividida pante num ponto qualquer. e não no da física actual). que a divisão só pode ser feita em grandezas separáveis. e dois pontos não são consecutivos. porque surge aqui o composto de forma e matéria (to synolon) e. em acto totalmente. o ponto seria ubíquo na linha. muitos pontos contíguos não excederiam a um ponto.62 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 63 corpóreo. Embora difícil a explanação aristotélica. sem modificação das substâncias. O salto qualitativo que Aristóteles estabelece aqui é de magna importância. em suas divisões. não o é em potência. quando a transmutação se processa apenas nos acidentes. e não apenas uma synthesis dos corpos indivisíveis. por ex. quer dizer. Desta forma. afirma Tricot. a leitura. calma e ponderada. cada vez menores. admitindo sempre a existência de grandezas indivisíveis. e o intermediário entre os pontos é apenas a linha. é que há alteração. porque o ponto não tem dimensão. Ora. . nem simultaneamente em todos os pontos. Não se conclua. que é a forma. há geração e corrupção absolutas. que ela possa ser dividida totalmente em acto. há uma transmutação ex totó in totum. Na geração. os átomos. Também este era o pensamento de Demócrito. e daí decorreria também que os pontos fossem contíguos ou conseqüentes. Se a linha fosse dividida em acto totalmente. mas apenas nas suas propriedades. Portanto. de nadas. A gênesis (geração) é para os atomistas uma sgnkrisis (uma congregatio) e a phtorá (a corrupção) apenas uma diákrisis. decorreria que o ponto se ubiquaria em acto na linha. Tal não pode ser. Se não o é em acto. que constitue o syntheton. Agora. Tomás de Aquino. uma separação. Ai reside o erro. quando a mudança se produz na ousia prole. totalmente. todos os pontos não seriam mais do que uni único ponto. e seria constituído de pontos. e em grandezas separadas umas das outras. e. O sujeito transmuta-se todo. e a composição em partes menores. portanto. então. em que a matéria adquire outra forma substancial. Há geração. deste modo. e os pontos são apenas limites. Tanto quando a transmutação se dá na matéria e forma. quando eles afirmam que a geração seria apenas a união dos elementos. admitindo que a geração é apenas sijnkrisis e a corrupção diákrisis. quando existe um intermediário. a mutação no contínuo não é sempre uma alteração. e a corrupção uma separação. portanto. IV — Ora. que se a linha pode ser divisível totalmente em potência. Em sintese: a divisão da linha em acto não é nada mais do que a do ponto em acto.

Essas distinções. de alguma coisa se lorna alguma coisa. Se. nenhuma outra categoria. geração absoluta. Elas preparam e facilitam tais processos. portanto. V. devemos de início examinar se existe alguma coisa que seja engendrada e corrompida de maneira absoluta. ou como o pequeno vem do grande. do doente sobrevém o saudável. agora recordar brevemente. porém. dividida em partículas menores. que elas as facilitam. tal como do não-branco o branco ou do nãobelo o belo. nem a quantidade. condido convém ainda. no primeiro sentido. de maneira que necessariamente o nigendrado viria do não-ser. haverá geração de uma substância a partir de uma não-substância. VIII — Conclue. É este um ponto que êle desenvolverá mais adiante. uma coisa. fala-se do não-ser. |ior exemplo. ou então se não há geração propriamente dita. discutidas e definidas mais amplamente. engendra mais facilmente o vapor. Todas essas questões foram em nossas obras. haveria negação total de todos os seres em geral. nem o lugar.64 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES VII — Embora Aristóteles não admita que a separação e a união não constituem a corrupção e a geração. emquanto que tais partículas. ao contrário. o doente. <lc certa maneira. a geração se faz a partir do que 35 317b 5 10 15 . sempre. e o grande. Se houvesse. Se por outro lado não-ser é tomado num sentido geral. reunidas. uma vez colocadas. nem a individualidade. e. nem a qualidade. IV. que a geração não é uma união. ou significa o que é primeiro segundo cada categoria do ser. que. enquanto a geração absoluta procede do não-ser absoluto. VI. se. porque então as qualidades poderiam ser separadas das substâncias. tornariam tais processos mais lentos. relativo. TEXTO DE ARISTÓTELES I —6 I. II. por exemplo. como. Mas aquilo ao qual não pertence nem a substância. como concebem os atomislas que a explicam pela synkrisis. e exemplifica com a água que. a lal não pode evidentemente pertencer nenhum pred içado. alguma coisa poderia vir do não ser absoluto. admite. Contudo. com efeito. e. E de tal forma que seria verdadeiro dizer que o não-ser existe. o que é "absolutamente". VII. ou apresenta um sentido universal e que abarca todas as categorias. e igualmente em todos os demais casos. III. do saudável. Pois a geração relativa procede do não-ser. do pequeno. pois.

No primeiro caso.comenta Tricot — haveria geração de uma substância a partir de uma não-substância. o qual é não-ser em entelequia. gera-se e corrompese em algo. Neste caso. a quantidade ou a qualidade. Poder-se-ia perguntar.20 ção absoluta. o que Aristóteles faz. até quando essas distinções estão estabelecidas. de ser e de não-ser. se é da substância. mas que. com efeito. a partir da qual a geração terá lugar. As distinções são: 1) significa o que é o primeiro termo entre o gênero mais afastado em cada categoria. pois é nada. do que não é branco gera-se o branco. será que. coisa impossível. IV — A geração relativa (secundum quid) é a que decorre ex non ente aliquo. segundo a opinião dos outros filósofos e. pertencerá ao que é. se qualquer dos outros predicados. É. não poderia produzir algo. e do grande. seria ente. no que "concerne à categoria da substância —. agora pretende êle expor a sua maneira de considerar tema de tal importância. E coloca a temática do seguinte modo: a) se há geração e corrupção absolutas (simpliciter). Mas. Por outro lado. o não-ser existiria. Provará que. absolutamente. poder-se-ia dizer que é dessa outra. mas dessa espécie de ser. o pequeno (generatio secandum quid). a ousia em fíeral para a categoria de substância. e na qual deve necessariamente 25 mudar-se o que é destruído. que preexiste necessariamente. V e VI — Para responder as dificuldades que surgem» é mister primeiramente estabelecer as distinções que se podem fazer sobre o que é "absolutamente" (ens simpliciter). com eleito. dos quais acabamos de falar lhe pertencessem. 3) o que absolutamente não é ser (to aplôs mè ón). Como o expõe Tomás de Aquino. com efeito. do não ser algo (não privação absoluta do ser). a geração (gênesis) é a producção de uma nova ousia (substância). isto é. isto é. e nós o chamamos ao mesmo tempo. X. Se. mas apenas os possue todos em potência. se ao invez não se traia do ser que tem tal qualidade. do ser determinado. que o ser procede de um nãoser preexistente. 2) ou então o ser em comum. as qualidades seriam. Será que a esta substância pertencerá em entelequia algum predicado das outras categorias? Em outras palavras. de outra maneira. já que esta coisa não é uma coisa determinada ou uma substância. eis que uma extraordinária dificuldade se apresenta. nem uma coisa determinada nem um ser? Pois se esta coisa não possue nenhum destes últimos predicados em entelequia. o . daí resulta desde logo que o que não é um ser determinado é separado. F. de f acto. Mesmo raciocínio se se trata de uma categoria segunda (por ex. que dá: se do pequeno vem o grande. poderia este ser predicado àquele. pois essa conseqüência é totalmente impossível. como diferenciar a alteração da geração ou se esta é apenas uma decorrência daquela. o selem potência. neste caso. Se do não-ente (não-ser) se gerasse o ente. é claro que será uma substância. uma coisa determinada e um ser. VIII. sendo impossível como tal. que compreende todas as categorias. quer de uma outra maneira? IX. pois não tem eficácia. ela se faz sempre a partir do ser. apenas em potência. o que levaria a dizer que algum ser pode vir de nada. se alguma coisa se gera de outra. O não-ser. por exemplo. Reexposição comentada I — 6 I — Expôs Aristóteles a geração e a alteração. III — O absurdo ressalta aos olhos. ou tal quantidade ou que ocupa tal lugar.66 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 67 não é absolutamente. quer ela se produza a partir de ser em potência. para um novo exame: como pode haver aí gera. é um ser determinado que é engendrado. assim como dissemos. como os exemplos. como por ex. como por ex. ademais (problema que mais atormentou e preocupou 30 os primeiros filósofos). e. em potência e não cm entelequia.. nesse caso. já que teríamos de admitir a eficacidade do não-ser em ser e. Igual pergunta caberia quanto à corrupção. ou o lugar. o que é gerado ou corrompido. mas que não é. assim se a madeira se gerasse em armário poder-se-ia dizer que a madeira é armário. b) se não há e. o não ser seria predicável como atributo de um ser. que há geração. e convém retomar sobre nossos passos. torna-se claro que não se pode afirmar que o não-ser gere simplesmente o ente. Portanto. o que é contradiclório. separadas das substâncias. enquanto a geração absoluta (simpliciter) seria a do não-ser absoluto (ex non ente simpliciter) . II — Se há uma geração absoluta (simpliciter) alguma coisa poderia simplesmente vir do não-ser absoluto (mè ontos).

isto aqui. o que se gera implica um prexistente que não pode ser nada. Resta. que o que se gera de uma substância. não em acto. tais como a qualidade. pois a potência não se dá de per si. mas apenas em outro. em acto. Se se aceitar a primeira. Discutiu-os e definiu-os mais amplamente. Como esta última solução já está descartada. No primeiro caso. a substância se geraria da não substância. o não ser. ou que algo se geraria de um não-ser preexistente. que é não-ente em entelequia. é substância. etc. Se não estavam. mas salvas as distinções de potência e acto.. Por isso pode dizer-se de modo absoluto (simpliciter). SÍNTESE DA REEXPOSIÇÃO O que se gera. Se a substância surgisse do não-ente.68 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 09 branco vindo de uma não-qualidade). Portanto. sobrevém do que estava antes em acto que. comentando a terminologia aristotélica. a presença do ser não é absoluta (pois o ser em potência não conhece ainda a perfeição do acto). de um ente. Anaxágoras. a substância do ser gerado está em potência em aliquid em acto. X — Surgem ainda problemas para Aristóteles. se corrompe. o não-ser absoluto (oposto ao to aplôs ôn). isto é. 2) e de outro modo. estavam ou não em actos outros predicamentos (os accidentes). Empédocles. Neste caso. como o define Tomás de Aquino. o ser em potência". que a matéria subjectiva estai-ia privada de toda forma. Como pode surgir uma geração absoluta (simplex). e o gerado viria do não-ser absoluto. não é hoc. Se está em potência está em outro. neste caso. um áliquid. onde estudou a posição de Parmênides. o que é gerado. da qual é ela uma simples determinação. gera-se de um substância anterior ou então viria do nada. que supõe a substância. o composto de matéria e forma. Em síntese podemos concluir ante tais aporias. absoluta. o que é uma absurdo. de Melisso de Samos. pois há negação total de todos os seres. que é o demonstrativo individual da substância. se o não-ser é absoluto (universaliter negatio omnium entium). o absurdo de uma geração é patente. ou é a matéria prima (próte hylê) ? IX — Pergunta-se se há geração e ou corrupção vinda da substância ou dos demais accidentes (predicamentos). é um nada relativo c não um nada absoluto. dificuldades que decorrem das soluções oferecidas. que se deve traduzir por "o que não é absolutamente". Soluciona a dificuldade. para esclarecê-la acrescenta: "Convém não confundir to aplôs mè ón. o gerado. para que surja o . mas em potência. e ou a corrupção (simplex). ao que não pertence nem à substância nem à individualidade não pode pertencer a nenhum predicado de nenhuma outra categoria. O que preexiste na geração é o ente em potência. lugar. Neste caso. Partamos daqui. que preexiste necessariamente. por sua vez. mas alguma coisa. é só da substância. portanto.. surge uma nova aporia. deste modo. hoc aliquid. e não simpliciter entia. VII — Tais problemas já haviam sido examinados em outras obras como na "Física" I. Dessa potência. "contra rationem naturalis generationis et contra sententias omnium philosophorum naturalium" (contra a razão da geração natural e contra a sentença de todos os filósofos da natureza). mas. num scnlido. Se não é substância nem individualidade. não é nada. pois teríamos a geração do nada (ex nihilo) o que é. a geração é a superveniência de um ser de um não ser anterior. mostrando que a geração se faz simplesmente da seguinte maneira: 1) de certo modo. e to mè ón aplôs. Como predicar-lhe então os acidentes? No terceiro caso. neste caso os accidentes estariam separados da substância. o que é impossível. e de Anaximandro. pois o que não c. conseqüentemente a geração. a conclusão a que chega Aristóteles é a de que não se poderia dar uma geração simples. como os accidentes são entia qiübus e não entia quae. que a geração se faz do ente e do não-ente. como diz Tomás de Aquino. Portanto. VIII — Estabelecidas tais distinções. são entes em outros. que a substância se geraria do não ser em acto e do ser em potência. dos platônicos. estar em potência: o que se gera está em potência em outro. é absoluta ausência de ser. mas que era um ser que se corrompe. de um não ente. Tricot. quantidade. realizar-se-á a geração e o que surge. sim. Não pode estar em acto. etc. senão a qualidade existi lia independentemente da substância". Mas esse aliquid ou está em acto ou está em potência. que deixa de ser. pois o noda não tem eficácia. uma substância. no segundo. que não era o novo ser que se gera. Conseqüentemente. vinda da potência do ente ou de qualquer outra maneira? É a sede da geração o synolon. que antecede. quer dizer "o que é em certo sentido". Ora. teríamos de aceitar que os acidentes poderiam existir separados das substâncias. que significa "o que absolutamente não existe". porque. seguir-se-ia que o não ser estaria separado. pois do contrário não haveria geração. tode ti. Ora. 6-9.

e que o não-ser nada seja. Mas eis que surge a aporia: a substância é delerininada pelos accidenles e se não estão estes em «cio. a qualidade ou o lugar. o (pie é rejeitado pelo aristotelismo e não o é. por outro lado. Acrescentemos mais esta. 5 alguma coisa de sempre movido. pois. pois haveria contradicção. entre as causas ditas individuais. A substância do (pie se gera. por exemplo. está em emergência o que se gera. surgiria a aporia que atormentou e preocupou os primeiros filósofos gregos. III. com efeito não é nem uma coisa determinada. jamais a corrupção e a geração deixam de faltar na natureza. nem uma quantidade. Pois. TEXTO DE ARISTÓTELES I —7 I. Se tal substância possuísse. à qual cabe tratar. como muito bem disse Tomás de Aquino. a matéria. aquela que apresenta este caracter. o (pie é impossível. bem entendido. alguma coisa perpétuamente imóvel. e. O que é gerado não pode estar em acto no que é corrompido. que move tudo o mais pelo facto de ser êle mesmo movido de maneira continua. pois. e. com efeito. pelo escotismo. Se a substância em potência não lhe pertence em acto. é indeterminada. com perseidade. um não ser. e. (piai é. do contrário. Conseqüentemente. no (pie se corrompe. E estas qualidades. Se. é da causa colocada sob sua natureza material que devemos falar.318a eípio de onde dizemos que vem o movimento. algum dos seres desaparece. se é verdadeiro que o que é destruído se desvanece no não-ser. Só pode estar em potência. pois. Quanto ao outro princípio. Destas duas coisas. expusemos anteriormente. nem uma coisa determinada. Onde há geração. Eis. e conseqüentemente o ser procederia de um não ser preexistente. estes predicados em potência. por um lado. em virtude da qual. em absoluto. nem um lugar. neste caso. o accidente se daria separado da substância. E lambem lem de eslar em potência qualquer acidente dessa substância. o que é impossível. qual é a causa da perpetuidade da geração. presentemente. que dificuldades exigem todo o nosso esforço. tema das próximas especulações de Aristóteles. de uma parte. que ela implica. Portanto. Quanto ao que é. Mas. o de onde procede cada um dos seres engendrados? . tanto da geração absoluta como da geração parcial? 35 II. o prin. estivessem estes em potência também. e por outro lado. a geração simples nos indica que a substância se gera de um não-ente em acto e de um eníe em potência. separadas da substância. à filosofia primeira. dar-se-iam. que não é determinado. que não poderiam provir do nada. Estamos também bastantemente embaraçados para explicar qual a causa da continuidade da geração. então. Admitindo que esta substância não é uma coisa determinada. a que concerne o princípio imóvel. neste caso não seria tal substância. da outra causa. « substância não é determinada de modo algum e. a totalidade dos seres não foi destruída há muito tempo. em qualquer momento. o presente problema. nem uma qualidade. há corrupção. ao mesmo tempo. O 15 não-ser. pois os acidentes são mlia (/iiibns e não ciüia quac. Há. a saber. são entes com inaliedade e não com perseidade. como um ser real. então. sem 10 dúvida. nesle caso. qual seja a de que o ser procederia de um não-ser preexistente. que é a matéria prima (prole lujlê). pertence a outra filosofia. por que. mas apenas em potência. quer dizer. nem um ser. o que leva à afirmação da perpeluidade da geração no cosmos. se supomos finito. em nosso tratado do Movimento. conlemporaneidade da geração e da corrupção. é desta última causa que devemos falar. eniquanlo substância dêlc. as qualidades nela não estariam. por exemplo: a quantidade. dar-se-ia separadamente. e o provará posteriormente Aristóteles. assim. como afinal é preciso explicar a corrupção e a geração absolutas. (Causa) significa aqui. e não desapareceu. não eslá em «cio no (pie se corrompe. este ser. também se esclarecerá.70 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES novo. salvo se se considerasse essa substância indeterminada. devemos determinar mais longe. como já vimos em nossos livros "Ontologia" e "Cosmologia".

III) e no "De Caelo" (Cap. totalmente nada. deveria ter sido o cosmos consumido. aqui. Mas. E como salienta Tricot. O outro princípio que move tudo o mais pelo f acto de ser por sua vez movido de maneira contínua. Um infinito quantitativo em acto é rejeitado por êle na Física. mas apenas transformações recíprocas no seio de uma substância permanentemente em acto. por divisão. O que é gerado em absoluto (simpliciter). E. que propunha o número infinito das homeoinérias. e o primeiro céu. para Iodos os seres. Cabe à Metaphysica estudar o princípio eternamente imóvel. há lugar para algumas razões em defeza de tal tese. no L. Cap. a causa material. que uma coisa é infinita. como a alteração. O número é infinito no sentido da possibilidade de receber uma adição. como o compreende também a matemática. por epie a corrupção desta coisa é a geração de uma oulra. e temos a causa eficiente ou movente (to kinoun). isto é impossível. 25 a corrupção de uma oulra. porque nada é infinito em acto. a dificuldade consistirá em explicar a continuidade da geração. o de mover tudo o mais. eternamente imóvel. XII. Não é. que haveria apenas uma possibilidade para a geração ser indefectível. como da parcial (secundum quid). num não-ser que não é nem substância nem accidente. a Esfera das estrelas fixas. que viria ab aeterno. II — A causa pode ser definida de duas maneiras: a) de onde vem o movimento. determinou a causa da perpetuidade do movimento e da geração. por sua vez. lais como se manifestam de maneira semelhante. Reexposição comentada I — 7 I — O problema que surge agora é o da determinação da causa da perpetuidade da geração. em cada um dos seres. Deus. ou como Demócrito que afirma a infinitude do espaço vazio (to kénon). o termo gênesis para referir-se às espécies de kínesis (movimento). VIII da "Física". Tratar-se-á. Mas Aristóteles não admitia o infinito numérico em acto (o "mau infinito" de que posteriormente tratará Hegel na Grande Lógica) como possibilidade de um divisão e possibilidade de uma adição. (M. III — Oferece de antemão uma objecção à perpetuidade da geração. uma corrupção absoluta cairia num não-ser absoluto. que são animadas de um movimento eterno e universal. e dando-se sempre uma ablatio (uma ablação. que sempre se dão na natureza. a existência da geração e da corrupção. IV — No entanto. fí sòmcnle cm potência. e. nessa ocasião. perda) pela corrupção. mas apenas em potência. cap. fonte dessa geração. b) a matéria. pois. tanto da absoluta (simplex). Emprega. é gerado de um não-ente simpliciter. 10-6 a 10-33).20 dade. de precisar o caracter que lhe é próprio. e não restaria mais do que um vácuo (inane). VI. de número também infinito. é examinado no Livro II desta obra. No tratado do Movimento. A afirmação de um princípio infinito. In Metaphys. o ar ou a terra dos filósofos antigos. n.). neste caso. (L. Por ora. V. a causa eficiente implica algo perpètuamente imóvel. (Liv. Mais adiante se verá que Aristóteles não admite nem uma geração nem uma corrupção absolutas. por esla causa material. o primeiro motor. assim. sempre algo é subtraído da natureza das coisas. ou como Anaxágoras. (Lect. o eternamente movido. 6 sqq. V. sem desfalecimenlo desta. sendo por sua vez movido de maneira contínua. A geração parcial (gênesis katà meros) dá-se nas mutações não-substanciais. ao admitir-se uma geração absoluta das substâncias. como o expõe no mesmo livro. de lal forma. E se o cosmos é finito. como o fogo. Se a geração e a corrupção são perpétuas. cheio de átomos. levaria a não aceitar um fim. X). a água. . a saber: que ela o foi por diminuição progressiva.. é o que não verificamos. assim. Pois não é seguramente à infinidade desta fonte da geração que pode ser atribuída a continui. o aumento e a diminuição e a transladação. 1. XXIX). e êle as examina para derrui-las. que a mutação nccessàriamenlc não se delem? E. deve ser considerada como adequadamente explicada.72 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 73 IV. Teve Aristóteles oportunidade de mostrar quais as razões da perpetuidade do movimento (motus perpetuun) e a perpetuidade do cosmos na "Física" (VIII) e no "De Caelo". II. c a geração desta. Posteriormente se poderá conceber a substância em potência de onde procede a geração absoluta. V e sqq. interessa-se em estudar a causa material em virtude da qual há sempre a geração e a corrupção. na realidade. desde todo o sempre.

e. à cada geração. A passagem ao não-ser 10 absoluto é. admitir a sempiternidade da geração e da corrupção. se tani.30 bém a há entre a corrupção desta e a geração daquela. deste modo. sem necessidade de admitir a eternidade ou a infinitude do cosmos. a divisão em potência. Sem dúvida. falamos em certos casos. e este é o pensamento da escolástica. Desta forma. a geração desta a corrupção daquela. e. mas uma corrupção de alguma coisa. em outros. enquanto :i passagem ao ser absoluto é uma geração absoluta. tal outra. então. a substituição de uma forma por outra. Não há. que muitas vezes dividimos os termos segundo significam uma coisa de. simplesmente. assim. Mas por que. nas quais a mutação se dá. são o fogo e a terra. quando diz que as coisas. TEXTO DE ARISTÓTELES I —8 I. são em número de duas. com efeito. Da mesma forma. e chamamos. nem uma corrupção total. é também desta divisão que decorre a distinção procurada. E em seus comentários. ou não. e não simplesmente que êle se torna. a saber: o ser e o não-ser. < > que não vemos suceder. Há conversão recíproca de um sujeito permanente. e viceversa. por um lado. Tal é igualmente a teoria de Parmênides. pois. a passagem ao fogo é uma geração absoluta. examinar se é verdade que há identidade entre a geração desta coisa aqui e a corrupção daquela lá. II. da terra. E tal coisa que se torna alguma coisa.5 ber. não se torna absolutamente. Não há um infinito cm acto. Tomás de Aquino nos mostra o argumento de Aristóteles em palavras claras. geração. um ser é gerado. devemos. o fim. pouco importa. poder-se-ia supor uma perpetuidade de gerações. . substância aetual positiva. simplesmente. o que procuramos. que é o íerminus ad quem da geração.74 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES IV — Resta. pois. quando um ser se corrompe. exige uma explicação. Pois dizemos que "há presentemente corrupção". quanto ao fogo. V A solução sobrevêm ao compreender que a geração de uma coisa c a corrupção de outra. pois daí resulta uma diferença no em que muda o que muda.318b terminada. Que seja tal ou outras coisas análogas o que se supõe. sem necessidade de cair nas velhas aporias. assegurando que essas duas coisas. que não é um puro nãoser. o que não nos comprova a experiência (hoc autem non videnuis ila aecidcie). a sa. pois se a causa material é infinita. pois dizemos do sujeito que estuda. portanto. mas com a condição sempre de que o número dos seres engendrados diminuísse. Há. e esta outra é engendrada. uma geração lolal. em vez de dizer que "esta coisa aqui se corrompe. e por outro lado. como o expõe Joachim. corrupção. mas uma corrupção absoluta. é o modo dessas mutações e não o seu sujeito. que êle se torna sábio. uma corrupção absoluta. mas um infinito em potência. de geração e de corrupção não-absolutas? Uma vez mais. por exemplo. enquanto a geração da terra é uma geração relativa e não uma geração absoluta. pura potência. Este ponto. pois. em suma. Pode-se. privada apenas da determinação. Assim. de geração e corrupção absolutas. e islo sem cessar. tal mutação. na mesma proporção. mas matéria já informada. salva-se a perpetuidade da geração e da corrupção.

da mesma maneira que o cognoscível é. então. VII. Se não existem. quanto mais suas diferenças significam um ser determinado. tendo assim a sensação valor de ciência. e de uma corrupção absoluta. que é a causa dessa distinção: e tal se dá porque é ou substância. A respiração. ou mais substância. pois. III. Resta saber se há identidade na corrupção desta com a geração daquela. Está aqui a primeira distinção que nota: se a mutação substancial faz-se num estado positivo (tó òn). ou alguma dupla de contrários. uma geração absoluta. quando há mutação em uma matéria sensível. Mas elas diferem de uma outra maneira ainda. Assim. e a distinção da terra e do fogo surge dessas diferenças.76 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 77 Assim. contudo. segundo a verdade. quando dizemos que uma coisa se corrompe. se se faz num estado negativo (tó mé òn). Que haja. portanto. em terra). com efeito. quando elas se transformam em sopro e em ar. a matéria. simpliciter). Reexposição comentada I — 8 I — Cabe agora investigar por que em certas ocasiões. e. um deles será o ser. em suma. tanto quanto sentimos ou temos o poder de sentir. embora essa opinião comum não seja em si mesma verdadeira. ou não-substância. como exemplifica Aristóteles. São essas inexactidões comuns na linguagem. VI. e uma corrupção absoluta. Quando uma coisa se torna outra. esquecemos que a geração de uma coisa é a corrupção de outra. emprega Aristóteles a expressão geração e corrupção absolutas e em outras. é então não-ser. desaparece o ignorante. assim o quente é um predicado positivo e uma forma. de uma geração absoluta {gênesis apló) ou de uma corrupção relativa (phtorá Unos). quando um homem se torna sábio. é uma corrupção. acabamos de explicar a causa. mas se elas significam uma privação. é a semente que desaparece. embora seja uma corrupção de alguma coisa. mais é êle mesmo substância. uma primeira maneira de como a geração e a corrupção absolutas diferem da geração e da corrupção não-absolutas. II — O problema que surge agora para Aristóteles consiste em solver qual ou quais distinções se podem apontar entre a geração e a corrupção simpliciter e a secundum quid (a absoluta e a relativa). IV. ou mais sensível. Eis. quando o arbusto nasce. geração e corrupção não absolutas. enquanto que. quer dizer. Daí resulta que a opinião comum e a verdade estão em desacordo a respeito da geração e da corrupção absolutas. num sentido. o outro. com 35 efeito. quando é simpliciter. pois. menos reais (eis por que também se diz comumente que as coisas perecem absolutamente. ou menos substância. todas as vezes que os termos que definem a mutação sejam ou o fogo c a terra. O que chamamos geração de uma coisa é também a corrupção de outra coisa. é assim que se julgam também as coisas. Quando o homem se torna sábio. com efeito. Com efeito o ser e o não-ser são comumente definidos pelo que é ou não susceptível de ser percebido. e quando há numa matéria invisível. uma privação. não dizemos apenas que èle se torna. V. diz-se que há geração. pois. falamos de uma gênesis tis ou de uma phtora aplê (de uma geração secundum quid. por- . como se geração de uma coisa não fosse a corrupção de outra? Aristóteles vai examinar esses pontos e esclarecer as imprecisões de linguagem que até aqui surgem tantas vezes. estamos no bom caminho da verdade. por que fala como se existissem. para a sensação. a matéria a partir da qual e para a qual as mutações se efectuam. e vice-versa. embora seja uma geração de al- guma coisa. pois. Da mesma forma. e nascem absolutamente quando são mudadas cm alguma coisa tangível. o nãoser. a diferença reside previamente na distinção do sensível e do não-sensível. é pela natureza especial do sujeito material. e o ar são. que sentimos comumente a nós-mesmos viver e existir. Para um sujeito material. e o frio. Há uma diferença entre o em que muda o que muda (em que se transmuta o transmutante). esquecemos de dizer que outra se gera. e o não-cognoscível não é. são mais uma coisa determinada e mais uma forma que a terra. Segundo a opinião geral. e quando é secundum quid. relativa. ou menos sensível. ela não se torna absolutamente. falamos. É. A distinção reside.

q u e n ã o perfecciona a espécie n a t u r a l . é falsa. no estado positivo ou negativo da m a t é r i a da m u t a ç ã o ( T r i c o t ) . P o r s u b t r a i r a verdade d a s coisas. q u a n d o se dá. m a s do actus virtualis p a r a o actus formalis. Assim. Q u a n d o tais corrupções a t i n g e m a u m a g r a u que as leva ao s u r g i m e n t o de u m a nova f o r m a . por e x e m p l o . e n u n c a realiza o ente completo segundo a espécie. p o r exemplo. Desta forma. o que se procura é o modo destas m u t a ç õ e s e n ã o o sujeito delas. H a v e r á geração simpliciter. p o r q u e sentimo-las. e m b o r a seja u m a c o r r u p ç ã o de algo. As f o r m a s i n t e r m é d i a s são formas incompletas. E s t a é u m a distinção q u e c o m u m e n t e se p r o p õ e .s e sábio. secundum quid. o q u e m a n t é m a relação de potência e acto. É real o q u e se percebe. do fogo. q u e seria a da terra. a q u a l consiste no g r a u de r e a l i d a d e d a m a t é r i a . D u r a n t e esta via. pois êle considerava muito diferentemente o ser. o qual. u m d e s a c o r d o <la opinião c o m u m e da v e r d a d e . através de m u i t a s corrupções i n t e r m é d i a s . como. E h a v e r á geração e c o r r u p ç ã o relativa. neste ponto. ou de q u a i s q u e r outros elementos. e n q u a n t o a geração da terra seria u m a g e r a ç ã o relativa e uma c o r r u p ç ã o absoluta q u a n t o ao fogo. p a r a a sensação. A c o r r u p ç ã o absoluta v aquela (pie leva ao n ã o ente absoluto. d e t e r m i n a r q u a n d o a geração ou a c o r r u p ç ã o são u m a ou outra. a geração é secundum quid. e m b o r a seja u m a geração de . o inverso. a f o r m a da água. Assim o arbusto. VII — Sintetizando o q u e disse. a forma da p l a n t a p o d e m ser feitas. Deus. como expõe T o m á s de Aquino. o n a s c i m e n t o de u m homem. estimando-se a p e n a s o q u e é ser q u a n d o é captável pelos sentidos. N a v e r d a d e . as q u a i s se r e a l i z a m s i m u l t a n e a m e n t e com a c o r r u p ç ã o de o u t r a s formas. Estabelece Aristóteles o g r a u de realidade de u m ser pela colocação que t e n h a n a h i e r a r q u i a dos seres. r e l a Srva. V — D e m o n s t r a Aristóteles a falsidade desta sentença. p o r e x e m p l o . O fogo é positivo. só é perfeita q u a n d o atinge a f o r m a completa d a á r v o re. q u a n d o a substância fôr m a i s real. m a s definir as coisas pelo sentir é falso. outra imperfeita. deste m o d o . Aristóteles dá um e x e m p l o de geração absoluta n a p a s s a g e m ao fogo. A f o r m a p o d e ser t o m a d a d ü p l i c e m e n t e : u m a perfeita. m a s está n o c a m i n h o d a geração e da c o r r u p ç ã o . q u a n d o n a d a de sensível a p a r e c e ou d e s a p a r e c e . S o l u ç ã o : O não-ente simpliciter entende-se a m a t é r i a com a p r i v a ç ã o de a l g u m a f o r m a . o não-ser. é u m a r e a l i d a d e negativa. K a c o r r u p ç ã o absoluta se dá q u a n d o as f o r m a s em decomposição são substitiuídas p o r n o v a s formas. a form a do h o m e m . e neste caso é q u e se dá a geração absoluta simpliciter. tal afirmativa. O h o m e m c o m u m só aceita como real aquilo • pie é tangível. É fácil. n a r e a l i d a d e . q u a n t o à á r v o r e . como diz Aristóteles. pois t e m m a i o r d e t e r m i n a ç ã o q u a n d o ar do que quando terra. q u e completa a espécie. q u e é a via p a r a a espécie. pois colocaríamos a verdade a p e n a s e m nós e n ã o n a s coisas (nulla veritas est in rebus em tal caso. ou a t r a n s f o r m a ç ã o d a á g u a em ar. n ã o é falso. os t e r m o s de uma m u t a ç ã o indicam. VI — Daí resulta. p o r q u e inclue m u i t a s gerações i n t e r m é d i a s . na qual se dá u m a c o r r u p ç ã o relativa. pois ao a f i r m a r m o s a certeza da nossa existência ou das coisas. t o r n a r . como. a u m ente simplesmente existente. e n c o n t r a m o s as f o r m a s imperfeitas da á r v o r e . p o r sua vez. III — Estabelece Aristóteles u m a o u t r a distinção e n t r e a g e r a ç ã o simpliciter e a g e r a ç ã o secundum quid. n ã o ao a f i r m a r a v e r d a d e do sentir. q u a n d o u m a cousa m a t e r i a l sensível a p a r e ç a ou d e s a p a r e ç a . Q u a n d o através d a p r i v a ç ã o se j u n t a m formas imperfeitas. Tal exemplo não procede segundo o p e n s a m e n t o de Aristóteles. Quer se trate da teria. como diz Aristóteles. a geração absoluta é a que leva ao ente absoluto. a semente é u m actus virtualis do arbusto. Esta c o m p r e e n são de Avicena c aceita n a escolástica p o r D u n s Scott. q u a n d o o fôr m e n o s . Assim. Assim o sêmen é u m a f o r m a imperfeita. é u m a f o r m a imperfeita. por isso p o p u l a r m e n t e se liz q u e as coisas se e v a p o r a m . simpliciter. e finalmente se alcança u m a forma completa. q u e são a via d a geração. é u m actus formalis do arbusto. m a s actus virtualis d a á r v o r e . um o ser. A distinção entre a geração simpliciter e a secundam quid se estabelece desta forma pela via (pie tende a um ente simplicilcr. q u a n d o q u e r e m o s dizer q u e elas p e r e c e m . ao contrário. a p a r t i r d a f o r m a p u r a . a f o r m a . temos a generatio simpliciter. como a terra. a terra. como m o s t r o u Avicena. IV — Estabelece Aristóteles u m a terceira distinção. esta diferença p o p u l a r n a m a t é r i a p r ó xima reside n a a p a r ê n c i a sensível ou n ã o sensível desta m a téria. m a s o ente incompleto. e o outro. pois p a r a este a v e r d a d e t a m b é m está n a s coisas). («orno a expõe Tricot. que n ã o é o t e r m o d a intenção da n a t u r e z a . m a s que p o d e ser perfeccionada. e h a v e r á geração ou c o r r u p ção simpliciter. Da semente às f o r m a s i n t e r m e d i á r i a s até a l c a n ç a r à á r v o r e com- pleta. Aristóteles m o s t r a q u e liá u m a g e r a ç ã o absoluta. como bem o mostra T o m á s de Aquino. a c o r r u p ç ã o é absoluta. m e n o s reais. e a secundum quid.78 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 79 tanto. p o r q u e a r e s p i r a ç ã o e o ar são. n ã o h á passagem do actus formalis p a r a o actus formalis n a geração. e sim v e r d a d e i r o . do corpo se perfecciona. U m a c o r r u p ç ã o absoluta.

de igual maneira como falamos até aqui? Até aqui. isto é. III. que tem por termos os contrários. e. Esta matéria não é pura. enquanto do que cresce diz-se que nasce. porque é a causa da mutação. na qualidade. cuja causa êle explicou. a geração de uma outra. com efeito. mas que se torna sábio. na substância. nas substâncias. ou porque é substância. essa vez. em saber por que então do que estuda não se diz que é engendrado absolutamente. não atribuímos semelhantemente a geração c a corrupção a essas coisas que se mudam umas em outras? Mas. Mas por que de certas coisas se diz que foram geradas absolutamente. outras uma qualidade. e a corrupção de uma coisa a geração de outra. e a corrupção de uma coisa. no sentido em que duas coisas nascem reciprocamente uma da outra. falamos simplesmente de geração quando há geração segundo a coluna positiva dos contrários. para a questão colocada em segundo lugar. mas não se se torna terra. Não obstante. enquanto de outras se diz que se tornaram alguma coisa.15 na-se fogo. De tudo o que não significa uma substância não pode dizer-se que se torna absolutamente. como matéria. pois. 20 i' que. tanto de uma maneira geral como no que concerne às próprias substâncias: e também que o sujeito é a causa. Essas distinções resultam das categorias. com efeito. significam uma substância. eis somente o 5 que determinamos: por que. II. Certas coisas. o 10 problema não é o mesmo: consiste. mas é nela (pie algo se gera ou nela que algo se corrompe. E a causa dessa distinção é a matéria. se o ser tor. . ente ou não. ou porque é mais ou é menos. mas torna-se alguma coisa. isto é. c não mais. por exemplo. se se torna sábio. não porém se se torna ignorante. com efeito. sendo dado que toda geração de uma coisa é a corrupção de outra. por aquilo em que algo se transmuta por geração ou corrupção. da continuidade da geração.80 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES algo. semelhantemente. etc. outras uma quantidade. a geração de uma coisa é sempre a corrupção de uma outra. TEXTO DE ARISTÓTELES I —9 I. Explicamos assim por que certas coisas nascem absolutamente e não outras. em Iodas as categorias.

. ao ar. M as a geração se dá com positividade na coluna positiva. quer dizer o pesado. já que se expôs (pie a geração é a via do não-ser para o ser. Mas não há necessidade de discutir a questão de saber por que uma coisa nasce. seja como êle fôr. esses elementos não viriam reciprocamente um do outro. É o sujeito que se transmuta nos contrários. poder-sc-á perguntar se um dos contrários. Só há geração simpliciter. como corrupção. porque. V. o ( I»e anteriormente já havia estudado. há sempre. Não seria que a matéria é. da mesma forma que se fala de corrupção absoluta.. já que a geração é unia corrupção do não-ser. permanece. se dá na substância. que é a causa de perduração da geração. a geração vem do não-ser. explicar a diferença entre a geração absoluta (simpliciter) a gênesis ou phtorá aplôs e a geração relativa (secundum quid) a gênesis ou phtora tis. como o expôs Ar. alguma coisa. os contrários pertencem como atributos. que lhe é oposta. obtém posilividades. corrompe-se o ignorante. que c a substância. Mas ao sujeito desse não-ser absoluto. Ar explana. e há geração ou corrupção relativas (secundum quid) quando a geração ou a corrupção se dão nos acidentes que. na "Metafísica". A matéria tem sempre uma forma. numa visão universal. justifica-se por (pie a terra é mais imperfeita que o fogo. e eorrupção quando se afasta do positivo. daí a diversidade da geração. diz-se que se geraram simpliciter. e se ao contrário. como toda corrupção. ou então é ela idêntica. enquanto a corrupção é a via do ser para o não-ser. O que estuda aprende. e a corrupção a via inversa. diferente? Com efeito. ao lado da geração. quando uma coisa passa ao não-scnsível e ao nãoser. porque a ciência é um habitns. ou.Empreende Ar. VI. ou relativamente. é o ser. Mas já o homem e o animal. enquanto que o não-ser seria a matéria. reafirmando o que explanara sobre a geração e a corrupção (simpliciter e secundam quid). Mas o gerar e o corromper (gênesis e phtorá) dão-se em absoluto. o homem. quando o ser é adquirido pelo gerado. Mas eis do que já tratamos suficientemente. aqui. a geração de outro. de nina outra forma. A geração é a via do não-ser para o ser. ou não. quando o devir se realiza na substância. Que o sujeito seja pois. expõe Tomás de Aquino. pois que de outro modo. Esta última geração e corrupção é secundum quid. quando surge uma nova substância (ousia). é uma mesma coisa. Há geração quando se tende para o positivo. será que a matéria é outra para cada um desses elementos contrários. emquanto a segunda. Quem se torna ciente de algo não gera em si o sábio absolutamente. enquanto o fogo. Resulta daí que é da mesma maneira que nina coisa nasce do não-ser e que ela se desvanece no não-ser. ao fogo. Assim. tais como a 30 terra. à terra. o que é o sujeito desses contrários. mas seu ser não é o 5 mesmo. e gera-se o sábio. E não poderia ser de outro modo. a eorrupção. da mesma forma lambem se diz que há geração 25 a partir do não-ser. e. a primeira (simpliciter). é o não-ser. adquire. Toda geração é a corrupção de outro. e quando se torna terra. O acidente pressupõe algum ser (substância) como sustentáculo. Ademais. a mesma. porque a matéria é sempre privada de algo. nos acidentes. Com efeito. algo que há. nem os con. Sobre o significado desses termos já os estudamos na "Introdução". embora as coisas sejam constantemente destruídas. III — Neste item. O fogo é gerado e os seres são corrompidos quando se tornam terra. É portanto bem natural que a geração não falte nunca. a terra também é o ser. como o sensível mais imperfeito que o insensível. se não é nada. E a diferença entre ambas está em que. à água. quando devêm alguma coisa. desde que se considere a riqueza etimológica e semântica deste verbo. em outro sentido. como geração. pressupõem uma substância que os sustenta. mas está sempre privada de uma forma. quer dizer o leve. Reexposição comentada I — 9 I . E exemplifica com o corpo diáfano que é privado de Hiz. e não na deficitária. O exemplo aristotéíico do ser que se torna fogo. quando nascem. II — Tais distinções decorrem da classificação das categorias aristotélicas. dos contrários? Pois a esses elementos. quando o ignorante estuda. Apenas os acidentes se modificam.82 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 83 IV. ou seja. quando uma coisa procede do não-sensível. tanto a da terra como a do fogo. então. como tais.319b trários. Há geração absoluta (simpliciter). E quando esta atinge a substância. Estamos. num sentido. em face de uma geração secundum quid. e a corrupção uma geração do não-ser.

Empreende Ar. quer dizer o leve. Com efeito. da mesma forma lambem se diz que há geração a partir do não-scr. poder-sc-á perguntar se um dos contrários. a terra também é o ser. É portanto bem natural que a geração não falte nunca. daí a diversidade da geração.82 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 83 IV. o que anteriormente já havia estudado. há sempre. seja como êle fôr. Mas eis do que já tratamos suficientemente. de uma outra forma. VI. corrompe-se o ignorante. a corrupção. Há geração absoluta (simpliciter). ou não. em outro sentido. obtém positividades. Que o sujei Io seja pois. quando nascem. Mas ao sujeito desse não-ser absoluto. justifica-se por (pie a terra é mais imperfeita que o fogo. Esta última geração e corrupção é secundum quid. e corrupção quando se afasta do positivo. ou seja. quando o devir se realiza na substância. aqui. nem os contrários. quando uma coisa procede do não-scnsível. a mesma. se dá na substância. porque a matéria é sempre privada de algo. enlão. O que estuda aprende. na "Metafísica". Apenas os acidentes se modificam. já que se expôs que a geração é a via dt> não-ser para o ser. alguma coisa. à água. enquanto o fogo. é uma mesma coisa. quando o ignorante estuda. O fogo é gerado e os seres são corrompidos quando se tornam terra. como geração. pois que de outro modo. esses elementos não viriam reciprocamente um do outro. é o sei-. Quem se torna ciente de algo não gera em si o sábio absolutamente. e. Não seria que a matéria é. e não na deficitária. Resulta dai que é da mesma maneira que uma coisa nasce do não-ser e que ela se desvanece no não-ser. da mesma forma que se fala de corrupção absoluta. pressupõem uma substância que os sustenta. Mas não há necessidade de discutir a questão de saber por que uma coisa nasce. mas está sempre privada de uma forma. permanece. e a corrupção a via inversa. será que a matéria é outra para cada um desses elementos contrários. como o sensível mais imperfeito que o insensível. que lhe é oposta. que é a causa de perduração da geração. E a diferença entre ambas está em que. Sobre o significado desses termos já os estudamos na "Introdução". Ar explana. E não poderia ser de outro modo. e quando se torna terra. tais como a terra. Mas o gerar e o corromper (gênesis e phtorá) dão-se em absoluto. quando uma coisa passa ao não-sensivcl e ao nãoser. a geração vem <lo não-ser. Toda geração é a corrupção de outro. à terra. e há geração ou corrupção relativas (secundum quid) quando a geração ou a corrupção se dão nos acidentes que. Estamos. E exemplifica com o corpo diáfano que é privado de illií. O exemplo aristolélico do ser que se torna fogo. os contrários pertencem como atributos. e a corrupção uma geração do não-ser. quer dizer o pesado. ao fogo. ou. III — Neste item. quando o ser é adquirido pelo gerado. emquanto a segunda. Ademais. . Há geração quando se tende para o positivo. E quando esta atinge a substância. e gera-se o sábio. ou relativamente. O acidente pressupõe algum ser (substância) como sustentáculo. como tais. Mas já o homem e o animal. desde que se considere a riqueza etimológica e semântica deste verbo. adquire. Só há geração simpliciter. reafirmando o que explanara sobre a geração e a corrupção (simpliciter e secundum quid). já que a geração é uma corrupção do não-ser. enquanto a corrupção é a via do ser para o não-ser. enquanto que o não-ser seria a matéria. em face de uma geração secundum quid. é o não-ser. mas seu ser não é o mesmo. A geração é a via do não-ser para o ser.. se não é nada. como o expôs Ar. ao lado da geração. A matéria tem sempre uma forma. diz-se que se geraram simpliciter. como toda corrupção. que é a substância. V. diferente? Com efeito. dos contrários? Pois a esses elementos. ou então é ela idêntica. 25 30 319b 5 Reexposição comentada I — 9 I . Assim. quando surge uma nova substância (ousia). nos acidentes. numa visão universal. o que é o sujeito desses contrários. porque o homem. expõe Tomás de Aquino. algo que há. quando devêm alguma coisa. Mas a geração se dá com positividade na coluna positiva. embora as coisas sejam constantemente destruídas. num sentido. porque a ciência é um habitus. É o sujeito que se tiansinuta nos contrários. ao ar. a primeira (simpliciter). explicar a diferença entre a geração absoluta (simpliciter) a gênesis ou phtorá aplôs e a geração relativa (secundam quid) a gênesis ou phtora tis. a geração de outro. como corrupção. e se ao contrário. li — Tais distinções decorrem da classificação das categorias aristotélicas. tanto a da terra como a do fogo.

pois n ã o h a v e r i a geração ex-nihüo. O não-ser absoluto (to mé on aplôs). n u m sentido. Há. II. n ã o se p o d e r i a m g e r a r os c o n t r á r i o s . diferente? Como sujeito dos contrários é u m a m e s m a coisa. T o m á s de Aquin o estabelece-as deste m o d o : 1) p o r q u e s e m p r e se g e r a algo do p r o d u t o . conclue-se q u e a g e r a ç ã o vem da corr u p ç ã o . aliud terminetur). a dificuldade desaparece. cuja t r a d u ç ã o literal seria o q u e n ã o é a b s o l u t a m e n t e . p a r a perifrasear Nietzsche. que a prote hylê é i n f o r m a d a p o r conjugações de q u a l i d a d e s c o n t r á r i a s . no sentido q u e e m p r e g a m o s esse t e r m o . h á i d e n t i d a de d a m a t é r i a a p e n a s c m q u a n t o potência. um m u n d o que se gera e u m m u n d o que se c o r r o m p e . pois os contrários p e r t e n c e r i a m aos q u a t r o elementos como atributos. antinômica. como subjecto. n o u t r o sentido. . A dificuldade q u e surge p a r a Aristóteles está n a impossibilidade de explicar a p e r p e t u i d a d e d a g e r a ç ã o a p a r t i r do não-ser absoluto.e n t e e a geração. a p u r a potência. é aqui. O n d e u m principia. o que eles j u l g a m o n ã o . A geração v e m do não-ente. n e m corr u p ç ã o ad-nihilnm. do insensível. o outro vai t e r m i n a r . pois. 2) p o r q u e a c o r r u p ç ã o tende p a r a o n ã o . os h o m e n s dizem que a l g u m a coisa se c o r r o m p e . e a c o r r u p ç ã o . t e r m i n a p o r a f i r m a r Aristóteles. T o d a s as coisas n a s c e m do não-ser. e dizem que algo é gerado. E prova-o T o m á s de Aquino com os seguintes a r g u m e n t o s . c viceversa. m a s seu ser não é o m e s m o . Daí Aristóteles fazer a p e r g u n t a de se a m a t é r i a não seria. a segunda p e r g u n t a q u e consiste em i n t e r r o g a r se u m dos contrários é o ser ou se n ã o é n a d a .84 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 85 IV — T r ê s p e r g u n t a s s u r g e m p a r a Aristóteles. Onde h á c o r r u p ç ã o . p r o c e d e do não-sensível. J á e x a m i n a m o s o sentido desse não-ser absoluto. p o r si. Essa posição aristotélica revela u m a posição dialéctica. a c o r r u p ç ã o do não-ente. o n a da absoluto. O ser que se gera. O que se gera v e m do n ã o perceptível. P o r isso. como mostra T o m á s de Aquino. é afirmar-se a geração de u m outro. a geração do não-ente. isto é.s e p a t e n t e . assim. Sc fosse diferente. a m e s m a . b e m como q u e a g e r a ç ã o é. é ela aí a potência. elementos. como o expõe Aristóteles. elas p o d e r i a m t r a n s f o r m a r . como salienta Tricot. a m a t é r i a p r i m a . pela positivação de u m a oposição inversa. como vulgarm e n t e é c o m p r e e n d i d o . p a r a Aristóteles. começa a geração. Mas Aristóteles nos m o s t r a q u e a m a t é r i a prim a é distinta dos elementos. A solução é d a d a p o r Aristóteles da m a n e i r a q u e v a m o s sintetizar. E a p e r g u n t a : se a m a t é r i a c igual ou diversa aos elementos. as p r i m e i r a s substâncias concretas.s e ou reduzir-se a u m a delas q u e d e s e m p e n h a s s e o p a p e l de m a téria p r i m a . a m a t é r i a é a m e s m a . pois é ela u m a c o r r u p ç ã o do não-ser c a c o r r u p ç ã o u n i a g e r a ç ã o do não-ser. agora. Se a c o r r u p ç ã o tende p a r a o não-ente. que é algo. assim. v e m do não-ente. que o t e r m o d a c o r r u p ç ã o é o princípio da geração. h á geração. no n ú m e r o sexto. recebe dele a seguinte r e s posta : ou a m a t é r i a é idêntica ou ela é o u t r a q u e os elem e n t o s contrários. as q u a i s p a s s a a r e s p o n d e r n a s alíneas sucessivas. em q u e a afirm a ç ã o de u m não implica a negação de outro. (In id ex quo uno incipite. de certo m o d o . isto é do n a d a absoluto. T o r n a . VI — Aceito que. e. n ã o e m q u a n t o acto. D a i pode-se dizer q u e a g e r a ç ã o sobrevém do c o r r u p t o . s e m p r e u m m u n d o que nasce e um m u n d o que m o r r e . q u a n d o surge. o sensível. Sintetizando. como j á h a v í a m o s a c i m a assinalado.e n t e . O n d e t e r m i n a a corr u p ç ã o . q u e lhe d ã o o u t r o ser e o u t r a razão. e a geração vem do não-ente. como o fogo e a terra. de onde s u r g e m os corpos simples ou elementos. n ã o seg u n d o o ser de r a z ã o . o que reconhece j á havia sido exposto p o r Aristóteles. q u a n d o ela atinge ao insensível. q u e é o t e r m o d a c o r r u p ç ã o . a prote hylê. Um implica s e m p r e o o u t r o . c se desvanecem n o não-ser. V — Surge. e n ã o p r o p r i a m e n t e o não-sensível de q u e antes êle falava. o que caracteriza p r o p r i a m e n t e a antinomia. pois é o r d e n a d a p o r diversas f o r m a s . Se o não-ser é o não-sensível. n ã o p o d e r i a m vir r e c i p r o c a m e n t e u m do outro. Afirmar-se a c o r r u p ç ã o . q u e n u n c a a geração está ausente.

não é necessário que a segunda coisa. por exemplo. como um todo. produz o trigo. pertencente a uma contrariedade.TEXTO DE ARISTÓTELES I — 10 I. quando o ar se torna água. como um todo. quer a todos os outros sentidos. permanecendo o mesmo. no ser engendrado como no ser destruído. produz o ar.25 músico engendrado. há alteração quando o sujeito. Contudo. quando. como quando a água vem 20 do ar. se alguma qualidade. seja uma qualidade desse elemento permanente. tomada como um 15 todo. o homem músico destruído e um homem não. V. nesses casos. III. na qual se muda a primeira. pois o ar é quase nãosensível. desde logo. se. por exemplo. dissemos há pouco em que elas diferem. quer sejam elas contrárias ou intermediárias. sujeito sensível. a semente. quer ao tacto. Por exemplo. pois que afirmamos que tais mutações são distintas uma da outra. permanece a mesma. uma tal mutação é. estaremos em presença de uma alteração. que vem a mudar e que nada de sensível permanece idêntico como sujeito. por exemplo. e que 10 a mutação pode produzir-se em cada um desses casos. enquanto o homem permanece « mesmo: se o homem não possuísse como propriedade essencial a qualidade de músico e a de não- . geração de uma substância e corrupção de outra. Eis. a água. que por natureza se lhe atribui. IV. permanecendo o mesmo. um e outro eram diáfanos ou frios. II. Sobre a geração e a alteração. Mas quando é a coisa. permanecendo idêntico: o bronze é redondo e torna-se depois anguloso. o corpo que estava de boa saúde cai doente. Já que o sujeito é alguma coisa de diferente da qualidade. ou se dissolve em ar. Sobretudo quando a mutação procede do não-sensível ao que é sensível. ou quando a água. ou o ar. senão. como um todo. muda em suas próprias qualidades.

enquanto mudam a s qualidades.5 ração e à corrupção. que também é u m a espécie de "poiótes". VI. tanto no que concerne à gc. Se uma qualidade permanece no ser gerado.oni|)rCender-se. porque. É matéria. Na introdução dessa obra. como também no que concerne à alteração. alteração. porque todos esses sujeitos são os rcceptáculos de certos contrários. ou uma corrupção. Assim. como salientava Tomás de Aquino. O sujeito sensível. tivemos oportunidade de examinar os diversos postulados propostos por éle na Fisica. ou o bronze. c distingue a alteração de a geração. mas apenas nas suas qualidades. essas mutações constituem modificações. no que se refere ao homem. Na "Física". é o que permanece o mesmo. As transmutações não se processam na substância. que corresponde à "poiótes". o sujeito de outras espécies de mutações. sem quç haja transmutações subjectivas. mas se nada subsiste do que o outro termo é uma propriedade ou um acidente tomado em sentido geral. segundo a propriedade e a qualidade. que o f r io é apenas um acidente do ar. Assim o ser músico não é da essência do homem. Também tais mutações constituem uma alteração. teria havido geração desta e corrupção daquela. é fácil de c. e de que modo. ou 320a uma geração. Mas o é ainda. não devcnios esquecer. a mutação de contrário a contrário. * * * Reexposição comentada I — 10 I — Propõe-se agora Aristóteles. Eis por que. que é o "synolon". na ordem da quantidade. pois refere-se ao surgimento do que é mais sensível do menos sensível. VII. VIII. tal é nossa maneira de responder. que também se revela fria. é. como síntese de m a téria e forma. a matéria. mas que permanece o mesmo. e da substância segunda. na realidade. Assim se o ar é frio e dele é gerada a água. mostrar-nos a diferença entre a geração e a alteração. no livro V. Para que haja verdadeiramente geração é necessário q U e o synolon seja transmutado e não apenas o que lhe é acidental. A água não é uma simples qualidade do diáfano. V — Preocupa-se Ar. Pode permanecer o hipokeimenon. e não como kypokeímenon. IV — A geração. por isso não . a forma). dar-se-ia uma "diáthesis". totalmente considerada. é a transladação. Aristóteles vai demonstrar que a geração e a alteração são distintas uma da outra. Há uma diferença entre a qualidade e o sujeito. esta qualidade de músico e não-músico é uma qualidade do sujeito permanen. é o aumento e a diminuição. E corrupção seria o inverso. pois a matéria prima subsiste em ambas como a mesma. reccpláculo da geração e da corrupção. muda-se como synolon. num certo sentido. pois. torna-se claro o conceito de alteração.3U te. A alteração é uma moção e uma mutação do contrário ao contrário. se elas existem ou não. Assim. não se pode considerar aquele como uma mera qualidade do primeiro. que adoece. essas mutações são uma geração e uma corrupção. ao quantitativo. acima de tudo e no sentido fundamental. no primeiro. a substância composta de forma e de matéria. A mutação não £ apenas nos acidentes. permanecendo o sujeito sç n s í v el o mesmo. Esta dá-se apenas nas transmutações qualitativas. não o synolon. a matéria prima. segundo a qualidade. que permanece o ruesmo bronze.88 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 89 músico. e não o "hipol<eimcnon". A matéria toma uma nova forma substancial como quando toda a semente se transforma toda em árvore. II Na alteração o subjectam permanece o mesmo. segundo o lugar. isto é. ou quando esta se evapora em ar. na opinião vulgar. III — Há geração quando a coisa se muda conio um lodo. o sujeito. mas. o corrompido. emquanto. do qual o ar também seria uma de suas espécies. como do ar. q u e é sintese da prote ousia e da deiüera ousia (da substância primeira. Aristóteles. a qual era a mesma do ser corrompido. neste último caso. depois de haver estudado a geração "simpliciter" e a geração "secundum quid". Exemplifica Aristóteles com um corpo de bo a saúde. expôs o que entendia por alteração (alloiosis). Portanto. a figura extrínseca das coisas. em mostrar claramenle o qi. que é redondo e se torna anguloso. o qual não é natnraliter frigidus. A mudança que nesses casos se daria seria do esquema. mas também na substância. enquanto no que se refere ao homem músico e ao homem nãomúsico. neste caso. na "Sinopse das idéias fundamentais de Aristóteles" para esclarecimento da geração e da corrupção. sin-^e a água. que é incn<is sensível. por condensação. então. estaríamos cm face de uma alteração.

a mutação difere não sò. Na alteração. e são suas partes que mudam. A matéria prima é o substratum que sofre as transmutações. Neste caso. a alteração. enquanto o aumentado muda somente 20 como o que é estirado.25 mente quanto ao sujeito portador dela. não-par. segundo a quantidade. há as mutações das possibilidades em algo que é permanente. mostra ainda que não é incoveniente que o semelhante corrompa seu semelhante por acidente. O homem é necessariamente ou músico ou não-músico. Quando a transmutação se dá. enquanto o é o aumentado ou o diminuído. É preciso examinar de antemão se a diferença que há entre essas mutações consiste unicamente no sujeito portador dessa diferença mútua. Comentando este tópico. ao contrário. VI — Toda mutação é uma transição do contrário ao contrário. Falta-nos agora falar do aumento: difere ele da geração e da alteração? Como aumentam cada uma das coisas que aumentam e como dimi. contudo. nas paixões. ao contrário. e as partes do diminuído. como é. portanto. da direita para esquerda. . temos o aumento. respectivamente grandeza e qualidade. e se é. ou. quer se trate do engendrado. então. em tntelequia. TEXTO DE ARISTÓTELES I — 11 I. em certo sentido. aumento e alteração 15 tomo mutação do que é em potência ao que é. Ou. sobre um lugar cada vez menor. permanece no lugar. permanecendo o sujeito o mesmo que continua existente em acto. VIII — Desta forma. temos. que é a que gera a transladação (phora) etc. a quantidade advém ao sujeito existente em acto. Uma mutação qualitativa manifesta-se pelo aumento e pela diminuição. Tomás de Aquino. do alterado. continuando o todo a ocupar um lugar igual. VI. apesar de o ser de outra maneira que o transportado. temos a transladação. a maior chama que consome a menor. o homem permanece. uma moção local. corrompendo sujeito ou matéria. do mesmo modo que as da esfera. por ex. A geração ou a corrupção só se dá quando não subsiste nada do outro termo. V. Se a mudança é tópica. VII — Considera Aristóteles matéria o sujeito. segundo a contrariedade do lugar. será porque a mutação deste naquele (a saber de uma substância em potência a uma substância em acto) é geração. há também uma diferença na maneira pela qual se opera a mutação? Pois é manifesto que o alterado não é necessariamente mudado segundo o lugar. Mas também aceita. Não é. em outras palavras. mutação segundo a grandeza. como se dá ou não se dá. como o número é par ou ímpar. do menor para o maior. temos a alteração. e a mutação segundo a qualidade.90 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES está contido na sua definição. Desta forma. IV. determina êle um modo de reação simpliciter. que é o caso da transladação.10 nuem as que diminuem? II. Como por ex. haverá acquisição de uma nova forma e a perda de outra e vice-versa. Quando a mutação se processa do contrário ao contrário. isso é. alteração. então. mas ainda na maneira como se efectua. e igualmente o que concerne à alteração. há uma "hylê topikê" (matéria localizada). se se dá na propriedade e na qualidade. receptáculo da geração e de corrupção. segundo o lugar. nem tampouco o engendrado. Quando a transmutação é segundo a contrariedade. o transportado muda totalmente de lugar. ou do aumentado. permanecendo o corpo o mesmo. Nestes casos. Que. as do aumentado se estendem sobre um lugar sempre maior. temos uma "latio". a diminuição. porque todos são receptáculos de certos contrários. aumento e diminuição. de lugar. principalmente qualitativas. que seja sujeito de outras espécies de mutações. Com efeito. pois as partes da esfera mudam. III. Músico ou não-músico são possibilidades do homem. o que é evidente. portanto essas mutações constituem apenas alteração. ou. de baixo para cima. Se o homem músico corrompe-se no não-músico. Há geração e corrupção quando a forma substancial não permanece a mesma.

Q u a n d o a água se t r a n s m u t a em ar. não só se dá q u a n t o ao sujeito. q u e é a u m e n t o ou diminuição (que b e m p a r e c e ser a g r a n d e z a pelo facto de aum e n t a r ou de d i m i n u i r ) de que m a n e i r a será preciso concebê-la? I I . As p a r t e s extendem-se e t r a n s m u t a m . ein entelequia. No p r i m e i r o caso. Na alteração.g r a n d e . o c u p a n d o o m a i o r l u g a r . sendo 320b s e p a r a d a . suas p a r t e s m u d a m (le lugar. ou então será um vácuo e um corpo não sensível. p e r m a nece no m e s m o lugar. como um ponto. desde q u e ocupe o m e s m o lugar. que a u m e n t a suas p a r t e s . que p r o c e d e m corpo e g r a n d e z a . por exemplo. ou da m a t é r i a s e p a r a d a . Quer dizer que o todo p e r m a n e c e no l u g a r cm q u e está. g r a n d e z a e corpo. É como se se dissesse (pie. . Será do que é. A m u d a n ç a local é necessária. Êle p e r m a n e c e no lugar. TEXTO DE ARISTÓTELES I — 12 I . dessas hipóteses. m a s ao facto de que a m a t é r i a do ar seria contida n a água como n u m vaso. no que d i m i n u e . a t r a n s m u t a ç ã o se dá nas paixões. se a matéria se encontra 5 n u m o u t r o corpo. e m b o r a de m a n e i r a diferente ao t r a n s p o r t a d o da t r a n s l a d a ç ã o . Uma esfera em m o v i m e n t o . m a s . Mas. n a alteração. n o q u e concerne ao sujeito do q u a l se efectua essa m u t a ç ã o . com efeito. ao menos. Mas o corpo. Ora. m a s contida em outro corpo? I I I . No a u m e n t o . Mas. e a segunda é como se dá o a u m e n t o nas coisas que a u m e n t a m .s e seg u n d o o lugar. No segundo caso. A geração é u m a t r a n s m u t a ç ã o da substância do ente em potência p a r a a substância do ente em aclo. I V . relativo. n a d a i m p e d e que haja u m a infinidade n u m é r i c a de m a t é r i a s assim contidas n a água. com efeito. pelo acidente. III — Observa-se que. a m a t é r i a do a u m e n t o é acrescida. cmq u a n t o o a u m e n t a d o m u d a somente no que é a u m e n t a d o . Pois algo Iransmiila-se do pequeno cm g r a n d e . extende-se. ela n ã o contém a m a t é r i a do ar. u m a q u a n t i d a d e infinita de ar. c a r a c t e r de (pie lambem p a r t i c i p a m a geração e a alteração. q u a n d o o ar v e m da água. quer. t o m a d a como u m todo. de f o r m a que elas p o d e r i a m t a m b é m tornar-se. esse processo é devido. Ela é a m a t é r i a do ar. alteração c a u m e n t o . II A primeira resposta deve dirigir-se p a r a o estabelecimento da diferença entre as mutações e se elas consistem unicamente no sujeito que as suporia. não a u m a m u t a ç ã o d a água. Mas o a u m e n t a d o ou o d i m i n u í d o m u d a . c n a diminuição algo Iransmula-se de g r a n d e em p e q u e n o . e a segunda implica necessariamente que a matéria esteja contida em um outro corpo. u m a esfera em revolução.30 za. o a l t e r a d o n ã o m u d a n e c e s s a r i a m e n t e segundo o lugar. n e m t a m p o u c o o g e r a d o . e a d i m i n u i ç ã o nas coisas que d i m i n u e m . a primeira não é possível. e são as suas p a r t e s q u e m u d a m segundo o lugar. q u a l delas é a da qual o a u m e n t o se p r o d u z ? A m u t a ç ã o opera-se a p a r t i r da m a t é r i a s e p a r a d a e existente per si. bá um c a r a c t e r dinâmico. quer pela essência. incorpóreo e n ã o . q u e é té)pica. nem por essência. N ã o é de a n t e m ã o impossível de u m a m a neira como de o u t r a ? A m a t é r i a . O ser acrescido p r o v é m de um outro ser que o recebe e não da sua simples potência. e ela se dá segundo a q u a n tidade. P r i m e i r a p e r g u n t a que se coloca é se difere o a u m e n t o <la geração e da alteração.em alguma parte. 10 V . nem p o r acidente. sobre o qual se realizam. mas t a m b é m na m a n e i r a como se efectuam. estará s e m p r e em alguma parle < q u e é e n g e n d r a d o dessa matéria incorpórca. nas q u a l i d a d e s passivas. ocupando o menor. IV — O t r a n s p o r t a d o m u d a t o t a l m e n t e de lugar. m a s a esfera. V — Há u m a diferença com a m o ç ã o local da esfera. que p o d e ser c o m p r e e n d i d o de d u a s m a n e i r a s .92 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES Reexposição comentada I — 11 I Ksludará êle agora o a u m e n t o . No a u m e n t o . ou n ã o ocupará n e n h u m lugar. daí resultarão n u m e r o s a s impossibilidades. em potência. N o a u m e n t o . c que condido p e r m a n e c e s e p a r a d a de tal m o d o que ela não seja uma parle desse corpo. a t r a n s m u t a ç ã o se dá na m a g n i t u d e . e esse processo. em entelequia. isto é. de man e i r a que ela t a m b é m deve estai. VI Desta f o r m a se vê que a distinção entre geração.

ela não ocuparia nenhum lugar. E se fosse vácuo seria um corpo não sensível. E. Corpo e grandeza procederiam dessa grandeza em corpo e potência. e só logicamente distinta dele. de um volume limitado de água. III — Se a matéria fosse separada. saindo desta. se se aceitasse aquela posição. se é um ente em potência. ou. quer dizer. separada. Mostrará mais adiante Aristóteles que o corpo e a grandeza procederiam de uma matéria corpórea em acto e de uma grandeza em acto. em todos os casos.. 3) é impossível que a matéria. urna e idêntica numericamente. retirando-se dela. •'quod generatur ex corrupto". o que existe é o intervalo (diástema). Se é da matéria que se geram os corpos sensíveis. mas do facto da matéria do ar estar contida na água como no vaso. De (pie maneira se deve conceber esta mutação? É o que Aristóteles irá responder. numericamente idêntica ao corpo. da matéria separada mas contida em outro corpo. pois que tudo quanto é gerado vem de algo que ocupa um lugar. temos o que nos mostra a experiência: o ar vem da água. mas dele distinto pelo í. é necessário que ocupe algum lugar. que permaneceria imutada. o que é gerado vem do que se corrompeu. K o sujeito que aumenta. quando é algum corpo em acto. ou seria um vazio e um corpo não sensível. e sendo a matéria de onde surge o gerado.ogos. o que é evidentemente impossível. como diz Tomás de Aquino. que quando o ar viesse da água. como sendo. ipie nele se transmuta. Não nos esqueçamos que para que algo seja gerado é necessário que algo seja corrompido. então. um volume de água limitado poderia conter um volume de matéria de ar ilimitado. retirando-se dela. VII. grandeza e corpo e. em potência. desde que se aceitasse uma matéria sem magnitude. ademais. por acidente. não ocupa nenhum lugar. Se fosse segundo a outra opinião. a matéria não separada do corpo. em outras palavras. para mostrar a impossibilidade dessas afirmações. o ar estaria contido na água e.94 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 95 VI. Nesse caso. a matéria seria ou vácuo ou corpo não sensível. Ela é. existir separada per se. por ex. Poder-se-ia admitir esta conclusão. É portanto preferível considerar. VII — Conclusão final: ela não é separada da magnitude. por ex. engendrar-se um volume ilimitado de ar. incorpóreo c não grandeza. isto é. Êle estabelece o seguinte postulado: 1) É impossível à matéria. na água. II . O aumentado tem potência para a magnitude. em abono desta tese. e as razões são as seguintes: o ponto. neste caso. portanto. Ou a matéria não ocupa nenhum lugar ou ocupa. Ademais.O que aumenta é. não parece absolutamente que o ar venha da água desta maneira. poder-se-ia. não permanecendo a água imutável. não separada do corpo. . A matéria ocupa algum lugar por si ou por acidente. impõe-se que haja a magnitude. a mutação se operaria a partir da matéria separada e existente por si. VI — E.. carente de magnitude. A matéria não pode ser sem magnitude e existente por si. Exemplifica Aristóteles. tal mutação não viria propriamente da água. em acto. nesse caso. 2) é impossível que ela seja vácuo ou corpo não sensível. o que é contrário aos factos porque. Para Aristóteles o vácuo não existe. mas é da magnitude do que é em acto. não esteja em algum lugar ou por si ou por acidente. com êle. e como este implica o que se corrompe. IV — Também não se pode admitir que a matéria se encontre noutro corpo e que permaneça separada de tal forma que não seja uma parte deste corpo. nem por essência nem por acidente. V — Nada proibe que haja uma infinidade numérica de matéria contida. como um ponto. por si. Se a matéria existente sem quantidade ocupasse algum lugar teria quantidade ou do contrário seria vazia. na qual se geram os corpos naturais. a água permaneceria água. Reexposição comentada I — 12 I A moção do alimento e da diminuição dá-se na magnitude. por uma distinção lógica.

j á que h á t a m b é m u m a m a t é r i a p a r a a substância corporal. o que é impossível. Agora. não possui em entelequia n e n h u m a g r a n d e z a . m a s é o facto d a geração absoluta. Resulta m a n i f e s t a m e n t e dessa exposição. V I . segundo o lugar. V . e a d i m i n u i ç ã o . g r a n d e z a em potência. Mas n ã o devemos colocar como p o n t o s ou linhas a m a t é r i a de o n d e v e m o corpo. q u e é a m a t é r i a . é v e r d a d e . assim como j á o estabelecemos em o u t r o lugar. 15 20 25 30 . essa substância corporal lendo. como j á m o s t r a m o s a n t e r i o r m e n t e em outro trabalho. e u m h o m e m p o r um h o m e m ) . T a m b é m n ã o se deve c o n s i d e r a r o a u m e n t o como i n d o de u m a m a t é r i a sem g r a n d e z a a uma entelequia de g r a n d e z a . o r a u m a entelequia. a m e n o s de a d m i t i r que as q u a l i d a d e s sejam t a m b é m separáveis das substâncias. u m a m u t a ç ã o dessa n a t u r e z a n ã o é p a r t i c u l a r ao a u m e n t o . E t a m b é m q u e os p o n t o s e as linhas são limites. e sua causa eficiente é. a q u a l n u n c a p o d e existir i n d e p e n d e n t e m e n t e d a q u a l i d a d e n e m i n d e p e n dentemente da forma. o decréscimo dessa g r a n d e z a . não separável. o r a u m a coisa em acto (da m e s m a espécie ou do m e s m o g ê n e r o : p o r exempio. pois seria antes a geração de u m corpo do q u e a u m e n t o . com efeito. m a s . que o a u m e n t o n ã o é u m a m u t a ç ã o a p a r t i r de uma coisa q u e . I I . e I I I . Contudo. pelas m e s m a s razões. Ademais. logicamente separável. j á tal n a t u r e z a d e t e r m i n a d a (pois o corpo em geral n ã o é n a d a ) . esta m e s m a matéria é t a m b é m a m a t é r i a da g r a n d e z a e da q u a n t i d a d e . I V . e eis a r a z ã o pela q u a l o a u m e n t a d o deve possuir alg u m a g r a n d e z a . u m a coisa nasce a b s o l u t a m e n t e de u m a o u t r a . o seco não é e n g e n d r a d o pelo seco.TEXTO DE ARISTÓTELES I — 13 I . Pois o vácuo existiria em estado s e p a r a d o . pois o a u m e n t o é o a u m e n t o de u m a g r a n d e z a j á existente. o fogo é e n g e n d r a d o pelo fogo.

embora o sejam da matemática. quer dizer uma forma na matéria. criação de uma obra). o que aumenta ou diminui deve possuir alguma grandeza. nem podem existir separadamente de per si. alguma grandeza. e não podem engendrar um corpo que tenha uma grandeza. V — Portanto. e que sua causa eficiente é. Conseqüentemente. seriam conseqüentemente o fundamento da matéria. b) Para a poíesis propriamente dita (realização. como o esquematiza Tricot: a) uma coisa é em acto. II — Provado por Aristóteles. quer especifica. na geração. ora uma coisa em acto. Fundamentavam eles o seu pensamento no facto de serem o ponto e a linha termos das dimensões. A magnitude subjectiva do corpo é. sujeito de determinações. por sua vez. eles poderiam existir à parte. pois um corpo sem determinação não existe. como bem salientam os comentaristas ao analisar este tópico.98 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES !)í) Reexposição comentada 1—13 I — Já demonstrou Aristóteles que nem os pontos nem as linhas podem ser consideradas como sujeito da magnitude. não o são da matéria emquanto tal. idêntica com a coisa produzida. em acto. da mesma espécie ou do mesmo gênero. Falta à linha e ao ponto as dimensões que possuem os corpos materiais. 0 aumento é o acréscimo de uma grandeza já existente. o ponto e a linha não poderiam ser os elementos consistentes dos corpos. Também a matéria não pode existir sem a sua configuração e as suas qualidades. como a forma é termo da matéria. Todo o devir implica um ser em acto de onde êle se origina e êle pode ser. a geração de um corpo que aumenta. Todo corpo tem uma determinação. Daí necessariamente em todo corpo haver paixões. carece de toda magnitude. Expõe Aristóteles que os pontos e as linhas são os limites da matéria. Pois. . determinabilidades que lhe podem advir. o aumento só poderia dar-se naquilo que já possui. e sendo os pontos e linhas os últimos termos. em entelequia. seria a matéria dos corpos. Se a linha tem superfície não tem profundidade nem latitude. III — Na "Metafísica" demonstrou Aristóteles que uma coisa nasce absolutamente de uma outra. conclui Aristóteles. IV — A matéria de um corpo tem já uma natureza determinada e é ela também a matéria da grandeza e da quantidade. resultado da tekhnê (arte) uma forma. como também o são as qualidades das substâncias. que está no espírito do artista no estado de entelequia. Essas últimas são apenas logicamente separáveis. ora uma entelequia. como a diminuição seria o decréscimo dessa grandeza. Se esses acidentes pudessem ser separados da substância. por sua vez. teríamos. O aumento não é uma transmutação de algo que esteja em potência para a magnitude. isto é. há o devir de algo em acto que estava anteriormente apenas em potência. quer genericamente. Acusava Tomás de Aquino os platônicos de considerar os entes matemáticos como substâncias dos corpos naturais. Pois o que não está em acto não poderia ter magnitude. pelo qual é terminado. coisas incorpóreas em acto. o que para Aristóteles é um absurdo. e afirmavam que aquilo que. então. que não pode ser sujeito de aumento. o que não tem a quantidade em acto ou em potência. O ponto. Se se considerasse o aumento como partindo de uma matéria sem grandeza a uma entelequia de grandeza.

quer de um incorpórco. o aumento tem lugar pelo acesso. e que. não seria um aumento. pois. embora a massa se tornasse maior. ora isso é impossível. nem o ar. mas o primeiro termo teria perecido e o outro teria sido engendrado. mas uma geração do termo para o qual a mutação terá lugar. por exemplo. Contudo. assim como o dissemos precedentemente. acompanhada de uma corrupção do termo contrário. e pela perda de alguma coisa. quem teria aumentado. Ora. prestarmos atenção de que espécie é esse aumento ou essa diminuição. com efeito.I. Então a água não teria aumentado. que qualquer parte do aumentado aumentou. ou então dar-se-ia que alguma coisa comum pertenceria aos dois termos. dois corpos ocuparão então o mesmo lugar. caracteres essenciais do aumentado e do diminuído. É preciso com efeito salvaguardar. na verdade. Necessariamente. de preferência. isso é também impossível. a saber: ao engendrado e ao corrompido. e é o corpo. se houve aumento. na diminuição. não há aumento de nada. cujas causas procuramos. a saber o aumentado e o aumentante. como se retomássemos a questão desde o início. Ora. Então. Mas não é possível ademais sustentar que o aumento e a diminuição se produzam da maneira. IV. pela qual. a diminuição. é pelo acesso de qualquer coisa que se produz o aumento. quer de um corpo. e que igualmente. na nossa definição. tais caracteres são em número de três: o primeiro dentre eles é que toda e qualquer parte da 321a 5 10 15 . o ar vem da água. II. mas é impossível que a matéria da grandeza exista em estado separado. ademais. Parece. pois. deveria haver aí um vácuo de estado separado. cada parte tornou-se menor. se é de um incorpóreo. E se é de um corpo. É preciso. Mas não há aumento nem de um nem do outro termo. um corpo. por exemplo. III.

que o aumentado é conservado e persiste. emquanto a segunda suposição afirma que todo aumento se processa pelo acesso de algo. e o que está em potência para maior quantidade. Já que. o pelo qual ela foi alterada. e pela retirada. como diminuição. ter sofrido uma mutação. por que é como vinho. "simpliciter". se é a carne que cresce. sem acesso nem permanência do que quer que seja. o que está em acto é reduzido pelo que está em acto. Desta forma. a actualidade ou a grandeza não permanecesse a mesma. e não o pelo qual ela aumenta. a mão é vulnerável. no livro V. revela que o aumento ou a diminuição se processam na parte. É. quer dizer.102 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 103 grandeza que aumenta torna-se ela maior: por ex. Poder-se-ia. ou reduzida a sua quantidade em acto por algo da sua própria quantidade.. independente do corpo em entelequia (Tricot). é a própria perna que é maior. o decrescimento. é aumentado por outra quantidade em acto. o agente da alteração e o princípio do movimento estão respectivamente no aumentado e no alterado. como quando se mistura vinho com água. o segundo é que o aumento produz-se pelo acesso de alguma coisa. com efeito. ademais. antes. pois. duas suposições: a) o que por si e simplesmente aumenta ou diminue. V. não permanece. se a perna de um homem aumenta. tanto pode não ter sofrido nenhuma mutação. com efeito. será uma alteração. uma coisa poderia crescer. Se fosse incorpóreo. e o aumentado não persistiria. ela também. pelo aditamento que se processa o aumento. é do líquido que leva. o vinho. está a causa eficiente. enquanto a natureza da outra coisa. cada um desses líquidos torna-se. Se se quer. revela-se pelo aumento da parte do aumentado e pela diminuição da parte do diminuído. colocar a questão de saber o que é o aumentado. esse último caracter deve ser salvaguardado. III — O aumento processa-se pela adição ou de um incorpóreo ou de um corpóreo. o aumentado ou o alterado permanece idêntico. na alteração. por outro lado. uma vez entrado. teríamos de 30 35 321b 5 . não há permanência. pois que. que se trata a mistura composta? O mesmo se dá quanto à alteração: se a carne persiste em seu ser e em sua essência. mostra que se torna maior ou menor. independentemente desse corpo. e não como água. deverá haver um vácuo em estado separado. b) Tudo quanto aumenta ou diminui. segundo o caso. mais volumoso. Reexposição comentada 10 25 I — 14 I — Propõe-se Aristóteles investigar agora a natureza do aumento e da diminuição. como pode. Se é de um incorpóreo. ou no aumento. por ex. e decrescer. tornam-se um e outro maiores. fundada na evidência. se convertesse em sopro). É alguma coisa à qual alguma coisa é acrescentada? Por ex. cada parte da carne torna-se maior. não lhe pertencia. Estabelece. uma e outra coisa juntas não aumentaram? Pois ao que se acrescenta a alguma coisa e o pelo qual aumenta. com efeito. Assim o homem é vulnerável segundo a parte. o alimento.. bem como as causas de tais moções. A primeira suposição. II — Todo o aumento. por ex. na geração ou na corrupção absoluta de uma coisa.. pois tal é para nós o próprio fundamento do conhecimento. assim como o corpo que o consumiu (por ex. e a causa eficiente não está nele. enquanto. como diz Tomás de Aquino. portanto. a saber o alimento? Por que. pois realmente o alimento será o lugar vazio de um corpo existente. neste caso. Na "Física".. o que levaria à existência de uma hylê megethous (matéria extensa). estabelecendo o pelo qual algo é aumentado ou diminuído. se. e. sem perda do que quer que seja. mas que alguma propriedade essencial venha a pertencer-lhe. ou na diminuição. Mas. é aumentado ou diminuído pela adveniência de algo a um quantum que já está em acto. embora. pois. de maneira semelhante. mostrou Aristóteles que o que é movido é movido segundo a parte. ao menos é êle destruído quando sofreu essa mutação. 20 Mesmo se acontecesse que o alimento entrado no corpo se tornasse maior. Não será por que a substância da perna permanece. que a geração em exame seja um aumento. ou reduzido em acto. Ora. e o terceiro. inversamente. assim. lá também na mistura do vinho e da água. neles. na diminuição. VI. que se diz ter aumentado? Será.

2. Quando o alimento aumenta como corpo. permanece segundo a substância. que nesse caso seria a alma. por exemplo. VI e VII — O pensamento de Aristóteles. o aumentado ou o alterado permanece idêntico. nesses dois tópicos. são corpos em entelequia e. sem necessidade de fazer intervir corpos ou vazios.°) O aumento produz-se pelo acesso ou adição de alguma coisa. não está no que é adicionado. o corpo que é aumentado e o corpo que é adicionado. a sua aposição não traria nenhum aumento quantitativo. V — Se a geração fosse o mesmo que o aumento. Se se admitisse que o corpóreo aumentasse pela adição do incorpóreo. 1 omás de Aquino soluciona estes tópicos da seguinte forma: o que é aumentado. Ora. não pode ser incorpóreo. embora a qualidade ou a grandeza não permaneça a mesma. que permitissem a compenetração do alimento. de onde se conclui que o pelo qual algo é aumentado. que é o principio da moção. deste modo. não estaria nele. não seria um quantum em actum e. mesmo quando o agente alterante foi êle mesmo alterado. mas no que recebe a adição. como mostra Tricot. ao crescer. por uma expansão intensiva contínua do corpo. como o ar vem da água.104 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 105 admitir que a matéria prima estaria separada de toda quantidade corpórea. cada parte dela torna-se maior. aumento. virtus alterans. ou no aumento ou na diminuição. é considerado pouco claro. por uma contração intensiva e contínua. Não há. () que aumenta é aquele ao qual algo lhe é aposto e nao propriamente aquilo que lhe é aposto. exemplifica Aristóteles. Se fosse o incorpóreo. emquanto que na alteração. IV — Demonstra Aristóteles que o aumento e decrescimento não podem ser explicados da maneira. mas no corpo vivo. porque se a massa se torna maior. seguir-se-ia daí que dois corpos estariam no mesmo lugar. para Aristóteles o crescimento se produz na realidade. pois o ar expande-se mais do que a água. pois a sua substância é destruída. quando se engendra o ar. conserva sua permanência substancial. Joachim busca restabelecê-lo. corrompe-se a água. este último caracter é fundamental para o aumento. 3. Na geração e na corrupção absolutas não há permanência. . O alimento.°) a parte da grandeza que aumenta torna-se maior. tal não é um aumento.°) Conservação ou persistência do aumentado. que cresce. Três são os caracteres essenciais do aumentado e do diminuído: 1. assim na moção do aumento o que altera. e o decrescimento. nem a água aumenta. êle não é um aumentai)te. mostrando que tanto para o aumento como para a alteração é apenas o alterante que é alterado. como o corpo. é impossível estar a matéria separada da magnitude. nem o ar. Como mostra Tomás de Aquino. Se é a carne que aumenta. embora haja transformação dos bens que a alimentam. mas a geração do termo para o qual a mutação teve lugar acompanhada da corrupção do termo contrário. e a causa eficiente. A perna. propriamente. então uma coisa poderia aumentar sem acesso nem permanência do que quer que seja.

não cresce pelo acesso de um incorpóreo. e cada uma de suas partes constituintes têm duas acepções. o osso. pois tanto a matéria como a forma são chamadas carne ou osso. E é assim que aumenta a matéria da carne: não é porque uma nova matéria entre em cada uma de suas partes. V. é preciso observar duas distinções: de início que as anomeomérias aumentam pelo único facto que suas homeomérias aumentam (pois cada anomeoméria é delas constituído) e a seguir que a carne. mas porque uma parte se escoa e uma outra sobrevém. — e aumenta pela adveniência de alguma coisa. É preciso também tentar descobrir uma solução do problema do aumento. III. conceber essas substâncias à maneira de uma água que fosse medida por uma mesma medida: a nova porção produzida é sempre outra que a precedente. Consagramos um desenvolvimento suficiente a essas dificuldades. como cada uma das outras coisas.. não porém se é emquanto matéria. é possível. Para apreender a causa do aumento. tendo o cuidado de respeitar tanto a permanência do aumentado. É preciso. cuja forma se dá na matéria. e que. II. e que. — e se é emquanto forma. 15 20 25 30 . com efeito. e a diminuição por meio de uma perda. ademais. toda partícula sensível qualquer torna-se ou maior ou menor.T E X T O DE ARISTÓTELES I — 15 I. vê-se claramente que o aumento tem lugar segundo uma proporção. é em cada uma de suas partes que se faz o aumento. como o facto de que o aumento se produz por meio de um acesso. A coisa é mais evidente no que concerne às anomeomérias: para a mão. Devemos também admitir que o corpo que aumenta não é vazio e que êle não constitui duas grandezas ocupando o mesmo lugar. qualquer parte dessas substâncias aumenta. Mas se consideramos a figura e a forma. afinal. Entretanto. por ex. IV.

mas. Estas dificuldades são: a) que nenhum corpo que aumenta é vazio. VI. porque. O acesso dá-se mais no ponto de vista da forma. a mão ou o pé) são aumentados pelo que aumenta as partes consimilares. mas sob o ponto de vista da matéria nada houve. e gota a gota. do que supor que ele é ainda mão ou braço. V — A solução aparece de maneira mais manifesta nos membros e nas partes dissemelhantes do que nos membros de partes semelhantes. As homeomérias são matéria. como o povo da cidade que. b) que o corpo que aumenta não constitui duas grandezas ocupando o mesmo lugar. mas nos limites formais definidos. e não partes segundo a matéria considerada. que anima cada um dos órgãos. como no fogo. segundo a matéria. naqueles.synolon. emquanlo a água sempre seria outra e outra. retornasse. e forma. mas a alma do "empsykhon". o que nela é considerado o que é matéria. O que é aumentado permanece. faz com a água. Sob o ponto de vista da forma. mas não permanecem as partes. de modo que o crescimento se produzirá somente pela forma que está no corpo. Eis por que também ser-se-ia mais tentado supor que um cadáver é ainda carne e osso. se saísse do vazo cheio. da razão (logos) de seus elementos. embora esteja sempre mudando. e como forma. bem entendido. é o povo. segundo a matéria considerada. tal não é verdadeiro. c) que êle não cresce pela adição de nenhum incorpóreo. além disso. não no ponto de vista da matéria. fundando-se nos comentários de Tomás de Aquino: a forma. e. o que não permanece são as partes. e a alma (excluindo. pode dizer-se dela ter partes e crescer em todas as suas partes. não somente o logos das partes. IV — Esse tópico pode ser explicado da seguinte maneira. aparece muito melhor a distinção entre espécie e matéria. sendo realizada na matéria. pois cada anomeomérias é constituída de homeomérias. II — Estabelece Aristóteles duas distinções ao apresentar a causa do aumento: a) os membros e partes dessemelhantes (por ex. o que aumenta permanece. em razão da proporção. mas que. uma lei de proporção imanente ao corpo. A comparação que Ar. matéria. cujo fluxo é incessante. mas somente segundo a espécie. III — O que aumenta é aumentado pelas partes e o que realiza o aumento são partes segundo as espécies. que é principalmente acto do todo. Diz Aristóteles que as anomeomérias crescem pelo facto de crescerem suas homeomérias. gota a gota. mas somente segundo a espécie. essa que sempre seria outra e outra água. Daí resulta que. num sentido. o que nela é considerado a sua razão específica. Reexposição comentada I — 15 I — . num sentido. como faz Tricot.Na lição anterior foram resolvidas algumas dificuldades e outras surgem agora.108 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 109 pois a distinção da matéria e da forma é aqui mais aparente do que para a carne e para as homeomérias. que seria medida por uma mesma medida. . é verdade que qualquer parte da carne aumentou. embora o fogo mude. Não se deve talar da alma e do corpo como substâncias realmente distintas: sua distinção é apenas lógica. Portanto. Recebem plenamente a perfeição da forma. houve adveniência a qualquer parte da carne. A mesma distinção é dada quanto às anomeomérias. cuja espécie sempre permanece. emquanto simples compostos. a sua espécie. exposa intimamente cada porção. que se renova sem cessar. exigindo solução. em outro sentido. (Tricot). a forma está aqui. O que existe é um . se a água fluísse. b) O que aumenta pode ser tomado düplicemente: como matéria. é explicada por Tomás de Aquino da seguinte maneira: que se se medisse a água com a mesma medida. a alma é um skhéma. As anomeomérias são os membros de partes semelhantes. o intellectus agens) é apenas a forma do corpo. O mesmo se dá com a carne. seria como o rio que emana com a mesma espécie do rio. A forma. aumentados pelas partes consimilares que aumentam sua chamadas homeomérias. e que persiste e se impõe à matéria.

Poder-se-ia. produzir o fogo dessa maneira. a adveniência realizada fosse transformada e se tornasse seca. mas quando acendemos as primeiras lenhas. com efeito. pela transformação desse alimento. por conseguinte. por exemplo. perguntar qual deve ser a natureza do que pelo qual o aumento se produz. apossandose do alimento adveniente que é carne em potência. tendo perecido. e. por ou. contudo. em outro sentido. e. quer dizer. na mesma forma que a da carne. não se tomou por si mesma. no aumentado. e. Esta. com efeito. III. como se. a carne em potência. Há. será outra coisa. coexistência. pois. portanto. Num sentido. se se trata da carne. 15 . transforma-o em fogo em entelequia. Em entelequia. o semelhante aumenta pelo semelhante.322a tro lado. torna-o carne em entelequia. o dissemelhante aumenta pelo dissemelhante. essa outra coisa. por exemplo. pois teria sido uma geração e não um aumento. tornou-se maior. mas. seria uma geração. o úmido fosse acrescentado ao seco. O todo. na que é carne em entelequia. pois se houvesse ai separação. e contrário à carne. o aumentado que se tornou carne pelo alimento. tornou-se carne. a causa eficiente. é. quer dizer atirando lenhas num fogo já existente: é então um aumento.TEXTO DE ARISTÓTELES I — 16 I. apossando-se do combustível. o alimento foi modificado pelo aumentado? Não seria por que êle foi mudado à maneira como se versaria a água no vinho e que o vinho fosse 10 capaz de converter em vinho a mistura? E da mesma forma que o fogo. imanente do aumento. e. em razão. II. deve estar em potência o que aumenta. é uma geração. Como. ao contrário. Evi. 35 por um lado. pois. É possível.5 dentemente. da adveniência de alguma coisa que chamamos alimento. portanto. assim.

e b) pela transformação desse alimento na mesma forma da carne. Eis também por que a nutrição é. Temos assim o exemplo do fogo que transforma em fogo e combustível o que lhe é acrescentado. temos uma geração. idêntica ao aumento. o pão) e geração no aumentado. mesmo que diminua. O que se trata da carne é carne em potência. é alimento. Mas o que é produzido no aumento é carne ou osso de tal quantidade. e pela assimilação se torna semelhante. O aumentado tornou-se carne pelo alimento. e torna-se carne em entelequia. em suas definições. embora não haja sempre aumento. pois. II — O que aumenta está em potência no que é aumentado. contrária à carne. assim. um conduto e possui lambem em potência uma quantidade determinada). O alimento é de início dissemelhante à carne. a Quantidade-em-geral o é no aumento. pois é desta maneira que diferem. por ex. haveria uma geração e não um aumento. Com efeito. os condutos tornar-se-ão também maiores.20 de. que é carne em potência. que não é nem homem. e para que haja tal aumento. a qual se apossa do alimento que sobrevém. alimenta. III. mas enquanto é apenas carne em potência. III — Mas o que aumenta não se tornou por si mesmo. na medida em que o que foi acrescentado está em potência. teríamos uma relação de carne e não de aumento. mas tainbém em outro sentido o dissemelhante cresce pelo dissemelhante. Na medida em que o alimento está. de tal dimensão. quando antes era fogo apenas em potência. Tal é a razão pela qual há nutrição por tanto tempo quanto a vida do corpo é conservada. TEXTO DE ARISTÓTELES I — 17 I. tornou-se maior: a) pela adição de alguma coisa. O que era em potência carne. o aumento não está no alimento. diferente por seu ser. V. a reunião de uma e de outra coisa. VI. por outro lado. pois se houvesse separação. Assim há coexistência. II. tornando-o fogo em acto. nesse caso. e. uma carne de tal quantidade. Há pois acrescentamento de certa quantida. o combustível é um aumento. nesta medida é princípio de aumento da carne. E essa forma sem matéria é como uma espécie de conduto. uma potência na matéria. em potência. quer dizer: está em potência uma carne de tal quantidade. não porém de uma carne que tenha tal quantidade. mas no aumentado. em potência. o synolon. ao queimar as primeiras lenhas.112 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES Reexposição comentada I — 16 I — O todo. nutrição e aumento. por um 25 lado. no exemplo do fogo. carne. Mas na medida em que está em potência carne apenas. e o que está em acto é outra coisa. Corrupção do que advém (por ex. A quantidade tomada universalmente não é mais engendrada no aumento que o Animal-em-geral. Agora pergunta Aristóteles: como poderia o aumento ter sido modificado pelo aumentado. nem nenhuma outra espécie animal: o que o Animal-em-geral é na geração. O semelhante cresce pelo semelhante. quer dizer as homeomérias que têm tal quantidade dessas anomeomérias. ou mão ou braço. Se pois o que vem ajuntar-se a título de alimento é uma 30 matéria (a qual é. IV. A causa eficiente imanente do crescimento está na carne em acto. pois deve tornar-se por sua vez de tal quantidade e carne. a qual chamamos alimento e contrário à carne. e nesta medida produz o aumento. tem que intervir uma corrupção e uma geração. teríamos uma geração. se se tornasse carne por si. . mas.

termina por tornar-se aguado e. . é assim explicado por Tricot: "A alma é uma medida. pois o alimento é um corpo em entelequia. mas a forma permanece. há distinção clara entre nutrição e crescimento. enquanto essa potência material não é debilitada. acaba por diluir o vinho e convertê-lo em água. que ao receber constantemente água. Apenas. não de uma carne tendo tal quantidade. de uma quantidade determinada. ela termina por diminuir. que é engendrado na geração. A matéria em potência é assimilada. VI — Este tópico. torna-se água. é aumento da carne.114 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 115 Mas se essa forma não é mais capaz de actuar. não pode converter o alimento em carne na mesma proporção. diferentemente do vinho que. que. exemplificados por Aristóteles. uma lei da proporção. em acto. e que é dotado de um poder próprio de expansão e de contracção. mas sucede um momento em que a energia da alma está enfraquecida pelo afluxo ininterrupto da matéria. dando-se a diminuição. e enquanto carne de tal quantidade. Assim também. segundo a expressão de Joachim. afinal. terminando finalmente pela cessação da espécie. este ou aquele animal. então haverá diminuição da quantidade. à força de ser misturado com uma quantidade crescente de água. E. são as razões que são diferentes. segundo o que é aumentado. totalmente água. se ela é como a água. mesmo quando o corpo decresce. V — Há diferença entre aumento e nutrição conseqüentemente. com a qual ela cresce e diminui. actuando na matéria. II — Há a adição de uma certa quantidade. Depois de assimilado permite o crescimento do aumentado. IV — É esta a razão por que há sempre nutrição. pois o que advém é potencialmente o aumentado e não este em acto. E o que os diferencia. A adveniência do alimento faz pois crescer a alma com o corpo (alma como skhéma). Enquanto em potência. Reexposição comentada 1—17 I — Não é o Animal-em-geral. a forma permanece. e a alma cessa de crescer. mas o animal-em-espécie. considerado de difícil compreensão. Dessa forma. de uma quantidade determinada (Tricot). essa potência imaterial (psykhê auzetikê) não tem uma matéria própria. mas aberto às suas duas extremidades. perpètuamente misturada em quantidade cada vez maior com o vinho. e não só é apto a receber a espécie do que o assimila. como o vinho. a qual é em potência um outro corpo em entelequia. Segundo Tomás de Aquino. Enquanto carne em potência é alimento. neste caso. êle alimenta. o que se produz não é uma quantidade em geral. como ainda ser produzido em maior quantidade. no mesmo sujeito. é um saco de pele ("a bag of skin"). III — O que advém está em potência quanto ao aumentado. no aumento. O que aumenta são as homeomérias dessas anomeomérias. como no caso da carne e do osso.

não é verdadeiro dizer que tal se dá com todos os seres. apelam para a separação e para a união. Impõe-se de início tratar da matéria. Todos os filósofos. para a ação e para a paixão. quer dizer do que chamamos os elementos. e o que é frio não poderia. a alteração. Existem ou não? Em outras palavras: será que cada um deles é eterno. com efeito. não haveria acção e paixão recíprocas". Sem dúvida. Por outro lado. em toda a parte onde há acção e paixão entre duas coisas. com efeito. mas é verdade de todos os seres entre os quais existe uma acção e uma paixão recíprocas. Não somente. assim como a separação e a união não são possíveis sem um agente e um paciente. seu substracto dever ser uma única natureza. Daí resulta que. mas como se produz o que chamamos "ser misturado". mas ainda aqueles que derivam os seres de um só elemento estão igualmente na necessidade de introduzir a ação. O que é quente. ao contrário. . c o que não foi claramente determinado. tanto aqueles que engendram os elementos como aqueles que engendram os corpos que são compostos de elementos.TEXTO DE ARISTÓTELES I — 18 I. ou há uma maneira de que são engendrados? E se são engendrados. mas é evidente que é o seu substracto. pois não é pelo calor e pelo frio que se transformam um no outro. os que colocam uma pluralidade de elementos engendram o resto por meio da sua ação e da sua paixão recíprocas. por exemplo. Ora. não poderia resfriar-se. ou então um qualquer deles é o primeiro? É portanto necessário começar por explicações sobre assuntos que são hoje tratados sem precisão. será que todos vêm uns dos outros da mesma maneira. a união é uma mistura. esquentar-se. II. e é com razão que Diógenes sustenta que "se todos os seres não procedessem de um só elemento.

no sentido próprio. e que a primeira diferenciação do lugar é o alto e o baixo. Eis. sendo grandezas separadas. e é assim de duas coisas em que uma actua e a outra sofre. cujo movimento é uma afecção. 323a V. E jà que todo motor não move o movido da mesma maneira. com efeito. coincidem por 5 suas extremidades. a maneira que é preciso defini-lo. enquanto um outro gênero move. IX. e. Mas os corpos que são assim pesados ou leves são activos e passivos. VII. e o agente. neste ponto. do momento que se lhes atribui um contacto. estão entre si como motor e movido os corpos que estão dotados de acção e de paixão. falando do agente. os motores estarão em contacto com os móveis. VI. com efeito. sendo êle mesmo não-movido. não sendo ela tocada por coisa alguma. E já que a posição pertence somente aos seres que já estão em um lugar. na realidade. com efeito. segundo a qual são movidos somente no sentido de ser alterados. o que é claro: num sentido. mas que tal gênero de motor deve ser movido êle mesmo para mover. estão em contacto os corpos que têm posição e estão entre eles como motor e movido. ela pode tocar o móvel. sem dúvida. é evidente que. como definimos anteriormente. quer cada uma dela exista em estado separado. 323b . não o estarão. todos os motores. se é verdade que devemos opor o agente ao paciente e se este último termo deve ser reservado aos seres. por sua vez. Mas eis a definição precisa do contacto: de uma maneira geral. noutro sentido. Dizemos algumas vezes. nem todo motor é capaz de actuar. Os filósofos que nos precederam nos transmitiram. tais como o branco e o quente. Há ainda casos em que dizemos que o motor toca simplesmente o móvel sem que. que o que é tocado toca o que o toca. ação. e se observa ademais. No que concerne ao contacto nos seres da natureza. quer uma e outra dessas determinações. quer em razão de uma pura homonimia. tal é. Mas a posição. nestes casos. E. pois. actuar. movem ao ser movidos. segundo nossa opinião. deve-se também atribuir-lhes o lugar. quer uma delas apenas. III. o que é tocado. e. mover é um termo mais amplo que 20 actuar. toque o que o toca. quer porque uns dependem de outros que lhes são anteriores. 25 Partamos do seguinte princípio: todas as coisas que admitem a mistura devem poder entrar em contacto recíproco. Mas 15 há uma outra diferença. sendo grandezas distintas e ocupando uma posição. não é atribuído senão aos seres que ocupam uma posição. sendo absolutamente não-movida. pois. o contacto é a coincidência das extremidades. pois não estão era potência de agir e de sofrer. deveremos fazer a mesma distinção. quer dizer. É pois manifesto que 10 os corpos estão naturalmente em contacto uns com os outros quando. Daí resulta que se uma coisa move. VIII. Temos três noções a definir: contacto.ARISTÓTELES 118 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES E AS MUTAÇÕES 119 Mas se nosso estudo deve ocupar-se da acção e da paixão e da mistura. opiniões contrárias umas às outras. e. começar a misturar-se. É da acção e da paixão que é necessário falar a seguir. num sentido. estarão somente em contacto às coisas. assim é igualmente do contacto. mas nós não o tocamos. todos os seres que estão em contacto recíproco terão peso ou leveza. Com efeito. mas. para as coisas matemáticas. movem tudo sendo movidos. Mas é porque os motores. quer exista de outra maneira. o motor é dito. as coisas que não são capazes de entrar em contacto. e as oposições da mesma natureza. que. que se julga necessário supor o contacto 30 como recíproco. Se pois. e. as coisas não podem. IV. com efeito. do mesmo modo que cada um 30 dos outros termos recebe uma pluralidade de significações. A maior parte do tempo. no sentido próprio. é necessário. por outro lado. de nosso mundo sublunar. ademais. uma qualidade. mover. sem um certo contacto prévio. que aquele que nos faz mal nos toca. Contudo o que se diz do contacto no sentido próprio. o que 25 é tocado toca o que o toca. pertence somente aos seres que estão num lugar. umas com as outras. Eis por que devemos de início tratar do contacto. coincidem por suas extremidades e são capazes de ser movidos e de se darem mutuamente o movimento. que é preciso distinguir. Sem dúvida. do mesmo gênero que os móveis. deve também ocupar-se do contacto. mistura.

Mas o contacto é aceito como recíproco. uma matéria subjectiva. se vêm uns dos outros da mesma maneira ou há entre eles um que seja o primeiro. IX — Mas há casos em que dizemos que o motor toca simplesmente o móvel. ou são gerados? E se o são. o ar. Aristóteles quer. e que estão num lugar. do contrário. os quais são determinações dos sómata physiká. como pensava Anaxágoras. porque. conseqüentemente. que pertence aos corpos físicos que têm uma grandeza. o que é tocado toca o que toca. derivados. A congregatio (união) é mistura. ou ambos. recebem uma pluralidade de significações. como Tales. como pensava Demócrito. São esses elementos sempiternos e intransmutáveis. II -— Todos os filósofos. mas a matéria (a matéria próxima) que se realiza nos quatro elementos terra. mas têm eles uma posição em relação a nós. Anaxímenes. (Tricot).. O primeiro Céu é. a água. no entanto. Mas todas essas modificações exigem a presença de um substracto. aos seres da matemática. E exemplifica Ar. na "Física" já havia exposto o que entendia por contacto. que ocupam uma posição. sendo êle mesmo não movido pelo movido. cit. por Tricot. dar a definição precisa do contacto: estão em contacto os corpos que têm posiçãoe estão entre si como motor e movido. etc. referindo-se naturalmente aos sómata physiká. Mas como se dá o "ser misturado" não foi devidamente esclarecido. água e fogo. São tais problemas que é preciso estudar. E tais coisas devem entrar em contacto umas com as outras. A reciprocidade só ha entre os corpos leves ou pesados. Mas até estes são obrigados a aceitar a congregatio e a segregatio (união e separação). movido e paciente. há sempre uma reacção. pois. por exemplo. e todo este tópico é claro e conseqüente com o pensamento já exposto por Aristóteles. Impõe-se. estudar a matéria. como Anaxágoras. Onde há acção e paixão entre duas coisas.120 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 121 Reexposição comentada I — 18 I -— Pretende agora Ar. que não é absolutamente passivo. o agente e o paciente. estudar o contacto. mostrar que pode haver unilateralidade. ar. Os seres matemáticos não_ ocupam realmente um lugar. Aos nossos olhos. estão entre si como motor e movido os corpos que estão dotados de acçao e de paixão. como entre elas poder-se-iam dar um agir e um padecer? Pois. como Empédocles. V — Ar. . corpos físicos. seu substracto deve ser de uma única natureza. e não têm posição. como por exemplo pensava Empédocles. e o mundo sublimar. como se geram. com os átomos. na acção. . pois. O primeiro Ceu é não movido (akínetos) em relação apenas ao mundo sublunar. não propriamente a matéria prima (hylê prote). pois êle é movido pelo primeiro Motor ou Deus. VIII — Agora pode Ar. como aqueles que aceitam que os corpos são compostos de elementos. e não aos mathematiká. são todos obrigados a aceitar a separação e a união {congregatio et segregatio) a ação e a paixão. como diz Rodier. como poderiam interactuarse? Surge assim a necessidade de definir três noções: contacto. Os que admitem um só elemento. Contacto se diz dos seres que ocupam uma posição. como já se viu desde o início. motor e agente. ou seja. já examinada. para o qual os quatro elementos são irredutíveis. No que se refere aos súmata physiká não haveria dúvida. enquanto que um outro gênero move. mistura e ação. como vemos no texto. tanto os que aceitam que os quatro elementos são gerados. III e IV — Aquelas noções. que são os elementos das homeomérias. e têm eles peso ou leveza. Trata-se agora de saber se realmente existem. que ocupam um lugar. São também activos e passivos. ou são de infinitas espécies. no entanto. mas este não reage sobre o primeiro Céu. do contrário. VII E já que todo motor não move o movido da mesma maneira. por outro lado. ou se se reduzem a muitos. que seja susceptiva dos contrários (subjectam materiam suceptiva contrariorum). os atomistas e Platão. e. mas o desejável move sem ser movido pelo que deseja (Tricot). ao agente se opõe o paciente". uma e outra. a coincidência das extremidades de grandezas distinctas. isto é. mas que "tal gênero de motor deve ser movido para poder mover. de um princípio que postula: todas as coisas que admitem a mistura devem poder entrar em contacto recíproco. vêem-se obrigados a identificar a geração com a alteração (a gênesis com a alloiosis). Parte Ar. VI A posição pertence aos seres físicos que ja estão num lugar. . Daí concluir que o contacto não é recíproco. pois há tal reciprocidade entre duas coisas quando uma actua e a outra padece.

que o semelhante nunca é afectado pelo semelhante. apenas Demócrito em face de todos os outros. mas. o que é totalmente e em todos os sentidos indiferenciado. Mas a razão desse conflito de opiniões é que seria necessário considerar o sujeito em sua totalidade.T E X T O DE ARISTÓTELES I —19 I. Contudo. o semelhante. mesmo que coisas outras actuem de certa maneira. II. E. ao contrário. pois o muito é o contrário do pouco. se assim fosse. e bem parece que os argumentos daqueles que raciocinam desta maneira são manifestamente contrários. que elas assim se comportam. uma coisa o pode ser por si mesma. mas enquanto possuem algum elemento idêntico. Êle sustenta que o agente e o paciente são idênticos e semelhantes. se é verdade que o semelhante. cada grupo visualiza apenas uma parte. por que um seria activo preferentemente ao outro? E se é possível para o semelhante de ser afectado no que quer que seja por seu semelhante. que coisas outras e diferentes possam sofrer mutuamente. dizem eles. que sofre esta acção. por outro lado. Ao contrário. umas sobre as outras. enquanto semelhante. pois não é possível. é em virtude da sua contrariedade. pois toda coi- 5 10 15 20 . Tais são pois as doutrinas tradicionais. é activo. A maioria desses filósofos são unânimes em declarar. não pode racionalmente ser de nenhuma maneira afectado por seu semelhante (pois. quando. III. não haveria nada de incorruptível nem de imóvel. que as coisas dissemelhantes e diferentes actuam e sofrem reciprocamente em virtude de sua natureza. quando o fogo menor é destruído pelo maior. pela razão de que nenhum dos dois semelhantes é mais activo ou mais passivo que o outro (pois os semelhantes têm todas as suas propriedades iguais e idênticas) e. de facto. por um lado. tem uma doutrina original. não é enquanto outras. Com efeito. diz êle. com efeito.

Ademais. uns. pensaram que um elemento idêntico. negando-se. VI. e que são contrárias as coisas que actuam e sofrem reciprocamente. por exemplo. senão talvez por acidente. tem frio. não pode ser afectado por seu semelhante. há identidade do agente e do paciente. também se daria o mesmo. Mesma distinção também no que concerne ao agente. pois. É pela natureza. II — Só Demócrito se opõe a essa doutrina. há alteridade e dissemelhança entre eles. enquanto tal. de uma maneira geral. ora é o quente. pois nada é mais semelhante a um ser do que si mesmo. de uma parte. com efeito. num mesmo gênero.124 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 125 sa poderia. expressamos a verdade. A causa decorre de os contrários entrarem. as propriedades que pertencem a um dos semelhantes pertencem também ao outro. isto é. não na sua totalidade. é claro que são reciprocamente activos e passivos todos os contrários como os seus intermediários. por outra parte. e da mesma maneira em todos os outros casos). Compreende-se também que os partidários dessas duas teorias criticadas. Mas já que não há qualquer coisa que possa naturalmente actuar e sofrer. E exemplifica Ar. e. e especificamente dissemelhantes. nada haveria de incorruptível nem de imóvel. Num sentido. pois sustenta que o agente e o paciente são idênticos e semelhantes. se acontecesse à linha de ser branca ou negra. num sentido. dar-se-ia a mesma coisa. e. apesar de sua divergência. mas apenas numa parte. impõe-se necessariamente também que o agente e o paciente sejam genericamente semelhantes e idênticos. há opiniões contrárias entre os filósofos. e a geração tem por termo o contrário. não existem senão entre esses contrários ou esses intermediários. o homogêneo pelo homogêneo. mas especificamente dissemelhantes e contrários. que 10 15 . pois há móveis porque há seres imóveis e eternos. assim. Podemos desde logo compreender por que o fogo queima e o frio esfria. por não ser nenhum deles. pois como poderiam coisas outras e diferentes sofrer mutuamente. em geral. E se fosse o diferente. está de boa saúde. de uma maneira como a outra. portanto. e que. V. ora é o homem 20 do qual dizemos que se aquece. se elas não são nem contrárias. Necessariamente portanto. tomadas de maneira geral. devido a sua contrariedade. sustentaram tese totalmente oposta. em outro sentido. pela brancura. mas somente o que é contrário ou encerra uma contrdriedade. em certo modo. em virtude de sua natureza. O agente e o paciente. o paciente e o agente são genericamente idênticos e semelhantes. e. cuja atenção foi atraída para o substracto. ora chamamos passivo o substracto (homem. por exemplo. com efeito. mas. Neste caso. E já que. o que viria destruir a física. toda coisa poderia mover a si mesma. Reexposição comentada I —19 324a I — Quanto à acção e à paixão. em outro sentido. cuja atenção foi atraída para os contrários. que o corpo é afectado pelo corpo. em cada caso. o sabor pelo sabor. pois seria um mais activo que o outro. o paciente muda-se em agente. já que somente assim haverá geração para o contrário. o que vem em favor da primeira tese. E se se trata do que é inteiramente outro e que não é o mesmo em nenhum sentido. Necessariamente. é activo. é a matéria que sofre. então. Para a maioria deles o semelhante nunca é afectado pelo semelhante. nem compostas de contrários. enquanto os dissemelhantes e diferentes agem e sofrem reciprocamente. A brancura não poderia ser afectada de nenhuma maneira pela linha. permanecem contudo em contacto com a natureza. outros. IV. são contrários. deveria pertencer ao agente e ao paciente. nem mais activo nem mais passivo que o outro. coisas que apresentam esses caracteres são contrárias. visto terem propriedades iguais e idênticas. pois o muito é contrário do pouco. pois a corrupção e a geração. a imobilidade. mover-se a si mesma). III — Esse conflito de opiniões decorre de cada grupo visualizar o assunto. porque o activo torna semelhante a si mesmo o paciente. tem calor. que não é o mesmo em nenhum sentido. se o semelhante. e se umas actuam sobre as outras é porque entre elas ha algum elemento idêntico. e. com efeito. afectado pelo seu semelhante uma coisa poderia ser afectada por si mesma. a côr pela còr. é o contrário. Dado que o semelhante é totalmente indiferenciado. O fogo menor é destruído pelo maior. ora dizemos que o frio se aquece 25 30 e que o doente é curado. E se pode ser. Pois duas coisas não podem fazer sair uma da outra de sua natureza. E assim entre os filósofos. o que é a tese de Demócrito. nem a linha.

Os contrários incluem-se no mesmo gênero. tanto os contrários como os seus intermediários. embora. Conseqüentemente. . É necessário que sejam semelhantes-dissemelhantes. em suma. é a matéria que sofre. que reúne as positividades das duas doutrinas anteriores. A acção e a paixão não se explicam. que sejam contrárias.126 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 127 a brancura não poderia ser afectada pela linha. mas especificamente diferentes e contrários. alteridade e dissemelhança. O branco e o negro são espécies do gênero côr. A corrupção e a geração. dissemeIhantes pela espécie. reciprocamente activos e passivos. Desta forma. só se dão entre esses contrários ou seus intermediários. apesar das divergências. o que revela uma certa identidade entre agente e paciente. que ambos grupos actualizaram o que o adversário virtualizava. realiza uma verdadeira síntese dialéctica. Idênticos genericamente e diferentes especificamente são contrários e. com efeito. V — E isso se dá por que entram no mesmo gênero. por conseqüência. Toda acção e paixão implicam uma alteração (alloiosis) e esta é uma geração ou corrupção secundum quid. IV — Agora expõe Ar. como êle o expõe em "De Anima". como a secundum quid. se não são elas contrárias. VI — Só há geração quando o paciente se torna no agente. como se pode dar a acção e a paixão recíprocas. haja. Tal só se pode dar do que é contrário. Aristóteles. por isso actuar (poien) ou sofrer (pathein) se dão entre contrários. tomadas em sentido geral. Essa a solução sintética de Ar. nem pelo semelhante absoluto. ou melhor: o homogêneo pelo homogêneo. isto é. A geração segue o contrário. Só se pode dar a geração e a corrupção simpliciter. o sabor pelo sabor. senão talvez por acidente. de outra forma. nem compostas de contrários. como no caso da linha ser branca ou negra. neste caso. e os que actualizaram os contrários sustentaram uma tese oposta. devêm do que é exterior à sua natureza. É pela natureza que o corpo é afectado pelo corpo. o termo da geração e da corrupção é o contrário. nem pelo dissemelhante absoluto. Num sentido. ou seja. nem a linha pela brancura. pois o que se corrompe. as duas doutrinas têm um ponto de contacto. É necessário que o agente e o paciente sejam genericamente semelhantes e idênticos. no sentido eminente que damos a este termo. genericamente. desta forma. ou é gerado ou induz outra forma. a côr pela côr. não seria uma alteração total. Demonstra Aristóteles que aqueles que actualizam apenas o substratum pensaram que o elemento idêntico devia pertencer. o que. tanto ao agente como ao paciente. semelhantes pelo gênero. Vê-se. por outro lado. Duas coisas não poderiam sair uma e outra de sua natureza. entre contrários ou intermediários. e noutro sentido é o contrário. como salienta Tricot. entre ambos. com a sua doutrina.

é mesmo uma necessidade). semelhantemente. ou sofre de alguma outra maneira. como uma espécie de gênero. Na acção. a mesma noção que formamos a respeito do motor e do movido. as potências activas. cujas formas não estão na matéria. nada impede que o primeiro agente seja impassível e que somente o último actue ao sofrer. quando o agente e o paciente não têm a mesma matéria. em dois sentidos: o em que reside o principio do movimento. ao actuar. Com efeito. portanto. e também o que é último diante do móvel e do engendrado. é to. são impassíveis. permanecendo êle impassível: tal é o caso da medicina. e que o que é quente em potência. nada impede. enquanto que o último sempre move. se o agente que aquece é presente e próximo. O que tem 10 lugar pelo movimento tem lugar também para as . sendo êle mesmo movido. enquanto outras são passíveis. com efeito. sem nada sofrer ela mesma do doen. sofre de alguma maneira. o alimento como o motor último e contíguo. o 30 primeiro motor de ser não-movido (e no que se refere a certos primeiros motores. enquanto aquelas que estão na matéria são passíveis Sustentamos.324b te que ela cura. pois é aquecido ou resfriado. enquanto que ao contrário. pois. ao mesmo tempo que actua. O motor.25 mado. o alimento. necessariamente é aquecido. também. como foi dito. pensa-se que move (pois o principio é primeiro entre as causas). Igual distinção também para o agente: dizemos do médico que êle produz a saúde. que a matéria é. A medicina é como o princípio do movimento. Devemos formar. com efeito. a mesma para um ou para outro dos opostos. a respeito do agente e do paciente. por 5 assim dizer. que 35 produz a saúde. como também o dizemos do vinho. o agente actua. No movimento. Também. II.TEXTO DE ARISTÓTELES I — 20 I. Assim. certas potências activas são impassíveis.

. mas se o quente pudesse existir separado da matéria. II — Nesse caso. Mas. Presente o agente. sem nada sofrer do doente que ela cura. 2) como causa próxima ou última ante o móvel e o engendrado. Já demonstrou Aristóteles que necessariamente tem de ser assim. . IV. a pouco e pouco. Ora. as formas e os fins são espécies de estados. É a matéria. e também. a medicina seria como o princípio do movimento e o alimento como o motor último e continuo. ao mesmo tempo que actua. da mesma forma que. III -— O activo é causa no sentido de fonte de movimento. pois já estão. e as que estão. que têm elas uma matéria comum. nas potências activas. porque o Céu. Em relação ao paciente que não actua sobre si mesmo. mas. como motor. esse quente não sofreria de nenhuma maneira. citado por Tricot. pode o agente actuar permanecendo impassível. eis por que a saúde não é activa. uma vez realizados os estados. é passiva. Certas potências activas. pois. esse quente não sofreria de nenhuma maneira. e são eles o fim. Expôs. uma vez presentes. assim. E o que tem lugar quanto ao movimento. o fogo contém o quente na matéria. tem também quanto às potências activas. que é passiva. o primeiro Motor é imóvel. da mesma maneira. emquanto matéria. Deus. Pois. semelhantes às ações. Como comenta Tricot. Admite Aristóteles que é impossível exista em estado separado. quanto às potências activas. são passíveis. o primeiro motor é imóvel. pois. sua razão e sua maneira de ser. como o mostrou Aristóteles. A mesma distinção pode ser feita quanto ao agente. a quais coisas elas pertencem. Sem 20 dúvida é impossível que exista em estado separado. que produz a saúde. As potências activas. O fogo contém o quente imerso na matéria. no movimento. não se tornam mais em algo. Quando o agente e o paciente não têm a mesma matéria. IV — A matéria. quanto ao movimento. Mas o em vista do que actua não é activo. sofre de qualquer maneira. como o explica Filopon. são impassíveis. que Aristóteles dá da medicina.130 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 131 potências activas. Reexposição comentada 1 — 20 I — Coloca Aristóteles o tema do agente e do paciente na mesma posição do motor e do movido. sendo ela mesmo movida. III. mas se há realidades como tais. Èle toma. o primeiro Agente é impassível. torna-se o paciente alguma coisa dele. não se tornam mais. mas se há tais realidades. Esta afirmação é relativa. na qual reside o princípio do movimento que antecede todas as outras causas. e ademais que elas pertencem aos contrários. o primeiro agente pode ser impassível. é movido pelo primeiro motor. o paciente não se torna mais nada. são passíveis. O activo é causa no sentido de fonte do movimento. aplicar-se-ia também. o paciente torna-se alguma coisa dele. a forma que o agente lhe imprime. A matéria é um tipo de gênero da qual um e o outro dos opostos são as espécies. Aristóteles a natureza da acção e da paixão. enquanto tal. Mas o alimento». diz Aristóteles. o que dissemos se aplicará com toda certeza. A causa próxima ou última move. os estados. Assim. o que êle diz. O motor pode ser tomado em dois sentidos: 1) como causa primeira. que é "a sua maneira de ser". mas se um quente pudesse existir separado da matéria. o paciente assemelhase ao agente à medida que o agente está ali actuando. como o ex. pelo contacto. mas presentes os estados. mas não é activo em vista de que êle actua. ao actuar. senão por 15 metáfora. O primeiro motor não é movido pelo corpo que êle move. pois já o são. Nós assim determinamos a natureza da acção e da paixão. enquanto outras são impassíveis. cuja forma não está na matéria. o agente uma vez presente. pois. que é Deus. o primeiro agente é impassível. Êle é esses mesmos estados. por ex.

como também a de Empcdocles. tal assemelha-se muito bem a uma ficção. cada coisa sofre quando. II. mas densos e dispostos cm séries. e que todos os nossos sentidos percebem. a respeito da estruetura de certos corpos. mas ainda. acreditavam que o Ser é necessariamente um e imóvel.TEXTO DE ARISTÓTELES I — 21 I . dizem eles. e tanto mais numerosos quanto os corpos são transparentes. dizer que é divisível até tal ponto c não mais longe. que vemos e entendemos. ao contrário. Acrescentam ainda que se pode ver através do ar. Tal era. acrescentam. É indiferente. pois. diziam. do que dizer que há multiplicidade. a mistura não se dá senão entre os corpos que estão numa simetria recíproca. invisíveis em razão de sua pequenez. agente no sentido próprio. e é desta maneira. Alguns. O vácuo. se o Universo é totalmente divisível. a teoria desses filósofos. não existe. entre os antigos filósofos. penetra o agente último. dizem eles. nem ademais o é a multiplicidade sem alguma coisa que opere a separação dos seres. Mas foram Leucipo e Demócrito que procederam em sua definição com maior método e propuseram a explicação mais universal. pois até qual limite é êle divisível. e vácuo. e o Todo é vazio. não há Um e. através de certos poros. conseqüentemente. da água e de outros diáfanos. pensar que o Universo não é contínuo mas divisível em corpos contíguos. com efeito. também não há múltiplo. e ela não se aplica somente aos corpos que actuam e sofrem. Vamos agora explicar como a acção e a paixão podem ser produzidas. IV. mas o movimento não é possível sem um vácuo possuidor de uma existência separada. Com efeito. e por que razão uma 25 30 35 325a 5 10 . pois tomaram como principio o que vem naturalmente em primeiro lugar. III. Segundo a opinião de alguns filósofos. porque esses corpos possuem poros. nãoum.

Ora. Com efeito. e semelhantemente também o aumento. com efeito. Para Leucipo e Demócrito. IX. em virtude do hábito. E é do mesmo modo para todos os outros elementos à maneira como o descreveu Platão no 25 "Timeu". 15 por exemplo. nem a corrupção. pela penetração dos sólidos nos vácuos. e. VIII. Movem-se no vácuo (pois há um vácuo).5 do de adotar a mesma teoria que Leucipo. no pensamento de que é preciso manter-se nesse raciocínio. além dos poros. Para Leucipo. por outra parte. essas figuras são em número limitado. enquanto a outra seria dividida? Ademais. portanto. Um tal ser. do contrário. essas opiniões parecem encadeiar-se l:gicanienlc. Eram essas as concessões que êle fazia á experiência. segundo parece. a sua teoria é clara em si mesma. X. aos filósofos que edifiearam a teoria do Um. e concede que o vácuo é uni não-ser e que nada do que é real é não-ser. os de Platão. pois todo limite terminaria no vácuo. produzem a geração. professaram a respeito "da Verdade" semelhantes doutrinas. VII. pelo contrário. pois. segundo Leucipo. é grande a diferença na maneira como se exprimem Platão e Leucipo: os indivisíveis de Leucipo são sólidos. Ao contrário. essa evidência não é tão grande: na teoria de Empédocles. . para Platão. por sua reunião. Para Empédocles. infinito. e que não destruiria nem a geração. pois deve dizer que há certos sólidos que são contudo indivisíveis. para outros filósofos. de tais argumentos. em razão da pequenez de suas massas. esses filósofos ultrapassam a sensação e desdenham-na. intervalos que Empédocles chama de poros. desde que. VI. e c evidente também que ela decorre. nada que fosse sólido. eis uma coisa impossível. concede êle que não pode haver ai movimento sem vácuo. filósofos que. são indivisíveis e diferem apenas uma da outra pela figura. pois os corpos não conteriam. e por sua separação. de um lado como de outro. os poros se continuariam sem interrupção. Por outro lado. se considerarmos os factos. Leucipo. e não lhe é possível explicá-lo. nem a multiplicidade dos seres. não é um. pelas razões indicadas. e até acrescentam alguns. contudo. há nele uma multiplicidade infinita em número. dos quais as coisas estão de início constituídas e nas quais elas se resolvem cm última instância. mas não explica claramente como o aglomerado desses elementos é engendrado e corrompido. enquanto que. 20 é evidente que todos os outros corpos. e são invisíveis. ao contrário. Empédocles também é. essa ultima hipótese é inadmissível. de princípios sobre os quais ela se apoia. eles actuam e sofrem na medida em que lhes acontece estar em contacto. do que é verdadeiramente um não poderia nunca provir uma multiplicidade. que esteja fora de senso a ponto de acreditar que o fogo e o gelo sejam a mesma coisa. do que é múltiplo. até somente aos elementos. somos igualmente forçados de dizer que não há movimento. com efeilo. nem o movimento. uma infinita variedade de figuras define cada um dos sólidos indivisíveis. é somente entre os bens reais e os bens aparentes que. portanto. e pretendem que o Universo é um c imóvel. de qual maneira poderia haver aí geração e corrupção como alteração? É o que não é claro. Ilá. Quanto a eles. obriga. O ser propriamente dito é um ser inteiramente cheio. superfícies. têm sua geração e sua corrupção. a corrupção. V. do ponto de vista teórico. Tais são aproximativamente as explicações que dão esses filósofos quanto à maneira como actuam certas coisas e como outras sofrem. pois então eles não são e engendram as coisas por sua composição e entrelaçamento. Não há louco. nem. assim toda alteração e toda paixão procedem da maneira que indicamos: com efeito. Mas. Mas (da mesma forma que Empédocles e alguns outros filósofos dizem que as coisas sofrem 15 20 25 30 35 325b através de seus poros).ARISTÓTELES 134 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES E AS MUTAÇÕES 135 parte do Todo se comportaria assim e seria cheia. pessoas atingidas pela loucura não percebem nenhuma diferença. já que positivamente êle não diz que o fogo também possue ura elemento constituinte. os corpos primeiros. o um. pensou possuir uma teoria de acordo com as exigências da percepção. Em virtude. é por meio do vácuo que se produzem a dissolução e a corrupção. e que seus intervalos sejam vazios. contudo. É portanto necessário que suas partes contíguas sejam indivisíveis. por outro lado. dar-lhes fé parece vizinho à loucura. Mas 10 eis aí precisamente a teoria de Leucipo sobre a ação c a paixão. Ademais. acrescenta êle. com rigor suficiente. e todo corpo seria vácuo.

e aplica-se a todos os corpos e não somente a alguns. pois se são diversos. (pie o mal e o bem seriam o mesmo? Tais argumentos permitiriam afirmar todas as contradicções e liquidar as diferenças entre os opostos o que os tornaria fronteiriços da loucura. pois. pelos quais penetram os eflúvios. o ser é um e imóvel. que são evidentes. mas tudo é contínuo e um. um ente no pensamento. mas não é homogêneo. afirma. V — Leucipo. afirmavam que o ser é necessariamente um (continuum) e imóvel. o estudo pormenorizado de suas conseqüências deve ser poslo de Jado. E vemos através do ar e dos corpos transparentes. e os poros estão cheios de ar. É assim que nossos sentidos percebem. pois èle nega a existência do vácuo. o vácuo não há. O Sphaerus não contém vácuo. acíuam e sofrem reciprocamente. seria dividido por pontos. nem o movimento e a multiplicidade dos seres. portanto não pode haver mulos seres. 35 Reexposição comentada I — 21 I Pretende Ar. segundo Leu. a corrupção. mas permanecem em contacto. do agente próximo a este. não é uma privação absoluta de ser. o que os separa senão o vácuo? E se o vácuo não existe. é claro o sentido aqui). portanto é real. O que pode separar e dividir a não ser o vácuo? Mas o vácuo não há. e a mistura. III — Prefere Aristóteles a teoria dos atomistas Leucipo e Demócrito. e que o vácuo é um não-ser. Falamos de superfícies em nosso precedente tratado. Há. como salienta Tricot. ao inverso. por emquanlo. pois se fosse muitos haveria algo. separado do resto e o que o separaria senão o vácuo? Conseqüentemente nada se move. No que concerne à teoria dos sólidos indivisíveis. pois é mais coerente. E se o vácuo é. pelo contacto apenas. pois há movimento. portanto não há movimento. através dos poros do paciente. chegando alguns a afirmar que é infinito (extensivamente. e afirmando o movimento. evitando a postulação do vácuo (nada). pois do contrário teria limite e esse só poderia ser o vácuo. (dicitur secundum naturam magis quam positio aliorum qui de naturis rerum per sua principia causas assignare non potest). pela desagregação. porque não evitava o vácuo. E se se admitir que o Universo é totalmente divisível. Esse vácuo (esse vazio total) teria de ser real e não apenas um ente da razão. de Empédocles. que defendem a teoria dos poros. sem um ser propriamente. e o universo. concluem os eleatas. sendo composto de nadas. tal teria lugar de duas maneiras: pelo vácuo e pelo contacto (pois é no ponto de contacto que cada corpo composto é divisível). Mas Leucipo. O universo é um o imóvel. que é evidente. funda-se nas exigências da percepção e constrói uma teoria (pie não arruina a geração. entre os antigos filósofos. seria nada. portanto todos são um. Ora. pois elas valem em "seiinones". excluindo assim o vazio (vácuo). e a corrupção. devido sua pequena massa. porém quanto aos factos. nesse ponto. E se se dissesse que é divisível até um ponto e não mais longe. como conseqüência dessas leses. nele. nós vemos e ouvimos pela penetração. explicar como se produzem a acção e a paixão. uma multiplicidade infinita em número de invisíveis. ao admitir que os corpos são múltiplos. Quanto aos eleatas. VI — O vácuo existe. Tomaram eles por princípio o que vem naturalmente em primeiro lugar (secundum naturam) como está na traducção latina. II — Tal é a teoria. Quando em conlacto. no entanto. sustentada por Empédocles e sobretudo por Alcmeon. porque estes possuem poros. e ao terem conlacto não são . que o vácuo é. átomos. Movem-se nesse vácuo e produzem a geração pela agregação. Indivisíveis resultam. não. Também Empédocles tentou explicar a multiplicidade. palavras. partindo da experiência. por que o é até tal ponto e não além? E ademais o que fosse divisível até tal ponto seria. O ser não é um. e se é real. E demonstravam suas opiniões da seguinte maneira: o movimento só se pode dar se houver vácuo. não tendo extensão. Como se poderia afirmar. e esses pontos.30 cipó. além de dar uma explicação de todas as espécies de mutação. IV — Os eleatas. a paixão. como acrescenta Ar. Os eleatas alegavam que não podia haver movimento por que não havia vácuo. como Parmênides e Melisso de Samos. Segundo a opinião dos filósofos. afirma que não pode haver movimento sem o vácuo. por ex. àquelas. não existe também a multiplicidade.136 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 137 embora um e outro admitam corpos indivisíveis e definidos por figuras distintas. são nada. as gerações e as separações. Mas essa solução não satisfez aos eleatas. para Platão. E não pode deixar de ser um. E como conseqüência. Tomás de Aquino mostra em seus comentários como são sofíslicas estas afirmações. separando-os e dividindo-os. fundando-se nos comentários de Tomás de Aquino. E assim explicam esses filósofos a acção.

E contudo. e não dos poros. os quatro elementos constituem as coisas que neles se resolvem. poderia vir a multiplicidade? Como do verdadeiramente múltiplo poderia vir o um? Tudo isso é impossível. embora ambos admitam. quer uma explicação desse porque. pergunta Leucipo. Mas Empédocles é obrigado a aceitar a solução de Leucipo. deve também se aplicar a algumas das outras figuras. estudou as superfícies indivisíveis. sendo indivisível. pois o mole é o que cede à pressão. Contudo é menos estranho admitir uma excepção em favor do quente. verdadeiramente. para este indivisível. é impossível que os indivisíveis não sofram um pela acção do outro: por exemplo. pois deve liaver indivisíveis. Mas Ar. Mas é preciso considerar (o que não o fêz Aristóteles). no sistema de Leucipo e de Demócrito. IX — No "Timeu". e digamos que cada um dos indivisíveis é. Mas. o calor e a frialdade. Mas Empédocles não explica a geração dos próprios elementos. quanto é maior. se um indivisível é duro. como o peso e a leveza. onde mostrou que. Ademais. mas dois. VII — Os que dizem que as coisas actuam e sofrem através dos poros são os seguidores de Empédocles. pois nega a existência do vácuo. como do um. como mostra Joachim ao comentar este tópico. o quente. seja uma única propriedade. Igualmente. é estranho também que se outras propriedades lhes pertençam. A geração e a corrupção se daria. 326a 5 10 15 . É estranho também. o qual pode ser lido no texto. e não propriamente os de Leucipo. o vácuo não é formado de superfícies indivisíveis. Para os atomistas. VIII — Como poder-se-ia dar a geração e a corrupção. as quais se distinguem umas das outras pela figura. isto é. que os poros não são vazios para Empédocles. como eles geram uma coisa e a corrompem. pertençam igualmente aos indivisíveis. Limitcmo-nos a uma curta digressão. é impossível que diversas dessas propriedades pertençam a um único indivisível. como igualmente lhes pertencem a dureza e a moleza. segundo as expressões de Demócrito. que tal reciprocidade se dá. II. ser improcedente. Dai todo argumento de Ar. o que aliás já estava consignado nos comentários de Tomás de Aquino. dada exclusivamente a figura esférica. No "De Caelo et Mundo" (III) Ar. através do vácuo. do contrário os poros continuariam alé o infinito.138 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES mais um. a saber. possuirá tais propriedades num mesmo ponto. para Leucipo. Outrossim. e. para este outro. TEXTO DE ARISTÓTELES 1 — 22 I. Platão afirma que Leucipo dá a causa da geração pela posição dos átomos. Eles não se assemelham pela figura. o que por ora não pretende tratar. se admitirmos que essas determinações. X — Os átomos são de uma infinita variedade de figuras. e sim cheios. Mas se tal é sua natureza. corpos indivisíveis e definidos por figuras distintas. contudo. mas dizemos que é mole pelo facto de sofrer em alguma coisa. o frio. deve haver também um que é mole. pelo contacto (pois é pelo contacto que cada corpo composto é divisível). além de ser estranho que nenhuma propriedade pertença aos indivisíveis. para Platão. pois então sua substância nem sequer seria uma. Mas para Platão essas figuras são de número limitado. III. segundo a teoria de Empédocles? Os elementos são eternos para ele e não se transformam uns nos outros. cada um dos indivisíveis é ainda mais pesado. pois. pois o seu contrário. que é o átomo. com excepção apenas da figura. Fundado em sua posição vai considerar a teoria dos atomistas superior à de Empédocles. o frio. o indivisível fracamente quente sofrerá pelo facto de um indivisível que o ultrapasse muito em calor. emquanto para Platão se dá apenas pelo contacto. í: por meio do vácuo. daí resulta evidentemente que é também o mais quente. incapaz de receber uma propriedade (pois nada é capaz de sofrer senão por meio do vácuo) e de produzir por meio dele uma propriedade (pois nenhum indivisível pode ser nem frio nem duro). quero dizer.

. ou falso.30 ses sólidos é u m a . ou superfícies. se aclua pelo contacto. até q u a n d o esses poros estão cheios. q u e r sejam sólidos. X . VII. n ã o p o d e p e n e t r a r nos corpos diáfanos. De u m a m a n e i r a geral. n e m em seus pontos de contacto. a hipótese dos poros é inútil. e m q u a n t o divisíveis. ou. m a s n ã o g r a n d e . difere de n ã o os ter? T o d o corpo seria u n i f o r m e m e n t e cheio. ou inútil. o agente n ã o p r o d u z n e n h u m efeito pelo contacto. E se sua g r a n d e z a é tal q u e eles n ã o p o d e m receber n e n h u m corpo. h a v e r á u m 20 vácuo de v o l u m e igual. se diferem suas massas. n ã o somente em n ú m e r o . tendo sido d a d o q u e eles n ã o conlèm vácuo. outros de t e r r a ? Se. uns fossem de fogo. então. 20 I V . é ridículo p e n s a r q u e h a j a u m peq u e n o vácuo. P a r a os filósofos que explicam p o r m e i o d a p e r f u r a ç ã o dos poros a superveniência das p r o - p r i e d a d e s .s e n e m m a i s r a r o s . q u a n d o m e s m o n ã o tivesse poros. com efeito. com efeito. Q u a t r o são os a r g u m e n t o s q u e a p r e s e n t a r á a seguir. então. Além disso. t o r n a r e m . ao contrário. p o r que n ã o se t o r n a m u m a única coisa. são facilmente disassociáveis. com efeito. serão passivas. X I . c a d a u m a se move p o r si m e s m a . se se supõe q u e essas p r o p r i e d a d e s sobrevêm. V I I I . a m e s m a conseqüência d e c o r r e r i a u m a vez ainda. se c a d a p o r o está cheio. desde que seja p o r sua n a t u r e z a . que é que os s e p a r a uns dos outros? Ou. t a m b é m . Outro p a r a d o x o : h a v e r i a p e q u e n o s indivi. mas não g r a n d e s . Ademais. P o r outro lado. m a s fosse contí. como u m a conseqüência u n i f o r m e : os indivisíveis não podem. sendo o u t r a como m o t o r e o u t r a como movido. que. p r o d u z a . com efeito. sobre u m a m e s m a relação. 35 q u a l é a n a t u r e z a dessas m a s s a s ? É evidente. a c t u a r ã o e sofrerão ao m e s m o t e m p o . supor p o r o s é ridículo. ou então será divisível. pois esta dificuldade se opõe a todos aqueles q u e a d m i t e m os indivisíveis. p o r que pertenceria ela p r e f e r e n t e m e n t e aos g r a n d e s corpos e n ã o aos p e q u e n o s ? VI. êle a c í u a r i a t a m b é m ou sofreria u m a acção de a l g u m a o u t r a m a n e i r a . h á u m a ú n i ca n a t u r e z a p a r a todos. a hipótese dos poros torna-se supérflua. êle n ã o p r o d u z i r á algum ao p a s s a r através dos poros.10 nuo. P o r o u t r a p a r t e . Mesmo raciocínio p a r a as o u t r a s p r o p r i e dades. u m a vez e n t r a d o s em c o n t a d o . Reexposição comentada I — 22 I — Estabelece agora Ar. nem mais densos. em sua massa. Se. ou diferem eles uns dos outros. Mas a indivisibilidade. De f a d o é racional que os corpos m a i o r e s sejam m a i s frangíveis que os m e n o r e s . é pois evidente. é. m e s m o se essas passagens 15 estão vazias. A d e m a i s será que a n a t u r e z a de todos ês. como a água q u a n d o está em contacto com a á g u a ? Pois n ã o h á n e n h u m a diferença entre esse último caso e o p r e cedente.5 tencer-lhes-iam p r o p r i e d a d e s c o n t r á r i a s e a m a t é r i a seria u m a . sofreria d a m e s m a m a n e i r a . vindo em contacto u m a s com as o u t r a s . m a s a i n d a em potência.140 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 141 de tal f o r m a que se ele sofre pelo facto de ser resfriado. m e s m o sem poros. Mas. ou então p e n s a r que o vácuo significa o u t r a coisa do q u e o lugar de u m c o r p o . certas coisas sofrerão u m a ação e o u t r a s a c t u a r ã o . n e m através de seus poros. e n t e n d o os corpos maiores. como nos m o s t r a r a m os nossos a r g u m e n t o s . e m b o r a t e n h a m q u e conter corpos. a d a p t a d a s r e c i p r o c a m e n t e desta 25 maneira. de preferência as figuras. já que esses corpos. p a r a c a d a corpo. t o m a d a em geral. os corpos p o d e m ser s e p a r a d o s . p o r essa condição que todo corpo sofre em a l g u m a coisa.25 siveis. Mas j á q u e os corpos são a b s o l u t a m e n t e divisíveis. a crítica aos sistemas de L e u cipo e Demócrito. pois. como é possível que a visão. A d m i t i r assim poros no sentido em q u e certos filósofos o concebem. E a i n d a mais. per. e m q u a n t o resfriado. IX. como se. se diferem em n a t u r e z a . pois eles p r o c e d e m de muitos outros corpos. Se. q u a l é o m o t o r ? Se seu m o t o r é outro que elas. com efeito. Se é. V. p o r exemplo. além disso. Pois em q u e ter poros.s e como eles o p r e t e n d e m ? O r a i o visual. n e m de u m a g r a n d e za relativa q u a l q u e r . então. através de u m meio. q u e essas m a s s a s devem ser 326b colocadas como princípios e como causas dos fenôm e n o s que delas decorrem.

pertencer-lhes-ia duas propriedades contrárias. o que contradiz a tese da indivisibilidade dos átomos. pois é evidente que para cada corpo há um vazio de volume igual. quando se aproximam ou se afastam uns dos outros. pois o menos quente sofrerá acção do mais quente. uma acção.142 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 143 Os indivisíveis (átomos) não são nem passivos nem activos no concernente às propriedades sensíveis. o que põe por terra os fundamentos da teoria. Se diferem de natureza. neles. que os separa? E por que não se tornam eles uma só coisa quando entram em contacto. II — As palavras de Ar. se no átomo há a paixão e a acção. pois se há poros ou não. estão cheios de matéria diferente de a dos átomos. E. que é por sua vez divisível. quando se movem e quando são movidos. reprovando tanto a opinião de Demócrito. X — Considerá-los vazios também não resolveria o problema. pois não pode resistir à pressão de outro menos mole. o motor? Se outro que eles. o que contradiz a tese atomista. é essencialmente mole. há uma contradicção no pensamento dos atomistas. de preferência às figuras. de sua densidade e de sua rareza. que é afirmada independentemente da magnitude. tal é impossível como nos mostra Tomás de Aquino em seus comentários. pois essas propriedades dependem do número e do agrupamento dos átomos. E se a matéria é uma delas em potência. isto é. etc. os quais são caracterizados pelas figuras. Se são eles mesmos. neste caso. Procuram. como a de Platão. neste tópico. actuarão e sofrerão ao mesmo tempo. pois esses poros são considerados cheios. Só um corpo composto pode ser dotado de propriedades diversas. VIII — Não procede também a explicação pela perfuração dos poros. o que é paradoxal para Ar. pois o que é positivo é que sofre uma acção. IV — Neste tópico. então são passivos. . dada a sua natureza. Mas. como sintetiza Tricot o pensamento já exposto por Tomás de Aquino. são divisíveis. Em linhas gerais. êle sofre. como o expressa Empédocles. como poderia gerar os contrários? Ora. pois não c possível que os átomos não sofram da acção dos outros. Se o átomo. pois as qualidades sensíveis dos corpos são devidas às modificações na posição relativa dos indivisíveis. é preciso saber se para esses atomistas a substância de todos os seus indivisíveis é idêntica. como a água. que não têm eles em comum com os outros átomos. porque tais poros são vazios em relação ao corpo que os tem. não poderiam ter outras propriedades. então. que tem uma temperatura própria. o que é uma flagrante contradicção. V — Admitindo Demócrito que há átomos maiores e menores. como tais. sob uma mesma relação.. pois este admite que os indivisíveis sejam sólidos ou superfícies. assim. apesar de tudo. quando activos e quando passivos. não podem receber corpos. é este o pensamento exposto por Ar. o que é. sendo os maiores mais que os menores. no mesmo raciocínio. VI — Ademais. Se diferem em natureza. Neste caso. mas como os átomos não são vácuo. O vazio. pois. ou se formam eles grupos qualitativamente distintos do fogo. Ademais. estariam elas no mesmo indivíduo. o que se torna impossível. quando em contacto com a água? Se formam grupos de átomos qualitativamente distintos. portanto não actuam nem sofrem. êle sofreria da mesma maneira quando não houvesse poros. o que leva a uma concepção absurda do vazio (vácuo). actuariam e sofreriam ao mesmo tempo que permaneceriam indivisivelmente idênticos a si mesmos. qual é a natureza desses grupos? Torna-se evidente para Ar. tais filósofos evitar uma conlradicção inevitável se admitissem que os átomos fossem a d i vos ou passivos. pois se estes são a condição para que o corpo sofra. Desta forma. da água. VII — E qual a causa eficiente. neste tópico. que essas massas devem ser colocadas como princípios e como causas dos fenômenos que delas decorrem. é o lugar do corpo. o que levaria à contradicção que seria afirmar a divisibilidade do indivisível.. como são muito pequenos. reconhece. o problema da transparência não ficaria resolvido. neles poderíamos distinguir. sem violar a lei da contradicção. nas diferentes partes do composto. Pois se eles podem sofrer modificações não têm a mesma natureza.. Se há uma natureza idêntica para todos. a paixão e a acção são realizadas pelo vácuo. os átomos. III Na base da teoria atomista desses autores está a unidade indiferenciada da substância dos átomos que são idênticos substancialmente e. para Ar. heterogênea à dos outros. são claras e demonstram que. a não ser apenas a figura. pois levaria a uma flagrante contradicção. sendo estas contrárias. conseqüentemente. uma magnitude. IX — Este tópico é de máxima clareza em Ar. prossegue Ar. o que não evitaria a contradicção.

com mais verdade. deste modo. O fogo. naturalmente contínuo e um. se. muitas vezes já enunciado: II. é da natureza dessa coisa em potência de sofrer. há veias contínuas de passividade que se extendem através da substância. as diferentes teorias propostas. uma coisa de tal qualidade. nos metais. não favorece a solução do problema. não haveria nenhum corpo absolutamente passivo. sem que fossem precisos os poros. o que está em entelequia. com efeito. distinguimos. desde que essa doutrina é falsa e que. enquanto precisamente é ela tal coisa: mas sua passividade é maior ou menor na medida em que ela c mais ou menos tal coisa. Digamos de que maneira pertence aos seres o poder de engendrar. em natureza. Se há. Tomo um exemplo: não é somente quando está em contacto que o fogo aquece. Se um corpo. IV. mas de maneira absoluta. portanto. ao contrário. é. falar de poros: por exemplo. partindo do princípio seguinte. ao comentar este tópico. cuja natureza seja actuar e sofrer. com efeito. não há nenhuma diferença entre "ter sido dividido em partes que permanecem em contacto" ou "ser absolutamente divisível". de uma parle. de actuar e de sofrer. que. V. TEXTO DE ARISTÓTELES 1 — 23 I. no início. por que. o seccionamento far-se-ia em qualquer lugar. todo corpo é divisível. de outra. pois se os corpos são totalmente {paute) divisíveis. como o expõe Tomás de Aquino. e o ar. na realidade. pode ser separado nos pontos de contacto. e é assim que se poderia. O mesmo se dá quando se trata dos corpos que não estão em contacto um com o outro. XI — A hipótese dos poros. o ar actua ou sofre. também nenhum que fosse contínuo. e. temos agora de fazer as anotações seguintes. o que está em potência. III. De início. se a grandeza não é absolutamente divisível. Todo corpo. aquece o ar.144 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES Ademais a hipótese dos poros nada resolve. não somente em alguma parte com exclusão das outras. mas ainda quando à distância. por sua natureza. existem corpos ou superfícies indivisíveis. o corpo. não difere de um contacto superficial. pois são estes apenas intermediários para um contacto interno. como. como alguns filósofos o pro30 35 327a 5 10 . impassível. nem com outros corpos. Quanto à suposição que um corpo sofre em tal parte e não em tal outra. Mas.

com efeito. a de Empédocles que aceita a presença dos poros e. quer líquido. por mudança de posição ou de transporte nos constituintes de sua natureza substancial. indivisíveis em suas massas. Que seja assim estabelecido que as coisas engendram e actuam. quer sólido. nem. pois as partes em contacto serão elas mesmas infinitamente divisíveis em partes menores em contacto. com Platão. com efeito. já êle o havia mostrado na "Física" (VI. a solução do problema do acto e da potência. uma distinção absoluta que os separe totalmente. mostrando que se a grandeza não é absolutamente divisível. nem se deu a passagem do estado líquido para o estado sólido. Não há. nem tampouco qualquer que fosse contínuo. em vez de uma mutação total da coisa por mistura de alguma coisa ou pela transformação dessa 25 própria coisa. com exclusão dos outros pontos. V — Este tópico apresenta certas dificuldades. como já tivemos oportunidade de ver —. que reproduzimos de Tricot. que são o objecto da Física. um ponto como composto de partes distintas em contacto. são engendradas e sofrem umas pelas outras. entre acto e potência. então. nas coisas corpóreas. será certamente dividido num momento ou outro. mas também o contado imediato ou medi ato. Esta teoria arruina. partes em que a potência é mais intensa que em outros. ora duro e sólido. uniforme e integralmente. e que a maneira como esses processos se realizam. que estabelece as superfícies em contacto. simplesmente que êle é divisível pante. c a potência realizada. IV — Já examinou Ar. para falar como Platão. explica Tricot. mesmo que não seja ainda dividido. Essa separação futura é certa. Ademais. Sofreu essa mutação. como se deve. nem por "conversão" e por "ordenação". pois é uma potência desse todo. A potência está difusa num corpo. pois nada de impossível se realiza. toda parte qualquer do aumentado não se tornaria maior. ou. todo corpo é divisível e não há diferença entre "ter sido divisível em parles que entram em contacto" ou "ser absolutamente divisível". e este o corpo à distância do fogo. haverá seguramente um momento em que será de facto dividido. Mas. III — Num corpo naturalmente contínuo não é possível distinguir potência de acto. eis um absurdo. segundo as expressões de Demócrito. o aumento c a diminuição não são mais possíveis. Com efeito. Pode. II — Há o que está em potência e há o que está em acto (entelequia). tais doutrinas são falsas. ser dividido. é ora líquido. Esta é a doutrina que êle expôs na Metafísica. quer dizer. não por divisão e por composição. pois é ela inadmissível. que não há indivisíveis. mas que não actualizou todas as suas possibilidades. havendo. como o exemplo que Ar. Ao contrário. o mesmo corpo. as teorias seguintes: a dos atomistas que afirmam o vazio. ou seja. no entanto. nem contém ademais essas 20 partículas duras e solidificadas. se se quer que haja uma adição. ou se existem corpos ou superfícies indivisíveis. 15 pelo parcelamento dos corpos. não só a distinção entre agente e paciente.146 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 147 fessam. porque o acto. pois "todo contínuo é divisível em parles sempre divisíveis". segundo Aristóteles. a platônica. pois aquece primeiramente o ar. prossegue Ar. de uma maneira geral. VI. conceber. ao contrário. por hipótese fundamental do sistema. e. finalmente. mesmo que êle não seja dividido (diereménon). 1. pois. dá quanto aos metais. oulrossim. Esse momento é aquele em que êle se separará nos pontos de contacto. Colocado bem este ponto. mas não em todos seus pontos simultaneamente. não se deve admitir que o paciente é passível num ponto determinado. A potência é uma propriedade do todo. E se o corpo divisível. que sofrer se produza apenas dessa maneira. Se se admite. nessa teoria. Ela se fará: pois a condição que a torna possível (a divisão preexistente ou realizando-se no momento querido) se realizará. depois de haver analisado o modo como fora tratado por outros filósofos. como no exemplo do fogo que aquece à distância por intermédio do ar. e a potência é o acto a vir. na realidade. pois que. por isso é impassível. Reexposição comentada I — 23 I — Exporá agora Ar. quer dizer. em . vemos. A acção e a paixão exigem. então. mas que toda grandeza é divisível totalmente (pante) — e no sentido (pie cia é divisível em um ponto qualquer. não é a de que falam alguns filósofos. se êle pode ser partilhado pelo agente nos pontos de contacto das partes distintas em contacto. Diès o explicou da seguinte forma. Enfim. então. guardar sua continuidade. 231-b 16). o acto a realizarse que se efectiva no que já está em acto. a alteração. não haveria corpos absolutamente passivos.

se a mistura existe. e qual diferença separa o misturável do generável e do corruptível. Com efeito. II. Se. não da maneira como falam tais filósofos. nada de impossível se realiza. Enfim. não há mistura. além de absurda. Nem tampouco o corpo e o branco não podem ser misturados juntos. uma vez tornadas evidentes tais distinções. será assim. parece. assim. como mostra Aristóteles neste tópico. por outro lado. nem. nem da forma com a cera. TEXTO DE ARISTÓTELES I — 24 I. as propriedades e os estados com as coisas. mas que o fogo foi engendrado e a madeira destruída. com efeito. que as coisas que engendram c acluam são engendradas e actuadas umas pelas outras. Vê-se. mesmo que cada um dos dois misturados tenham perecido em conseqüência da mistura: eles não podem ter sido misturados. e. elas não são mais misturadas agora do que antes. nós não dizemos que a madeira esteja misturada ao fogo. que deve haver uma diferença. seguindo o mesmo método. É claro. as dificuldades do argumento estariam resolvidas. e não sofreram nenhuma alteração. que é um misto. uma delas foi destruída. ou se é falso afirmá-la. pois nenhuma parte do aumentado se tornaria maior. de quais seres a mistura é uma propriedade e como. a impossibilidade de uma coisa de ser misturada com outra é sustentada por alguns filósofos. quer de si mesma com o fogo. as duas coisas misturadas existem ainda. nem. Essa teoria. arruina a operação. se a mistura existe realmente. mas uma e a outra não é. Ora. ademais. é.148 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES virtude da própria definição do dynaton (o possível). não falamos nem do alimento como misturado com o corpo. Devemos examinar o que é mistura e o que é misturável. uma e outra. dizem eles. o terceiro dos assuntos que propusemos no início. exige que se determine qual diferença separa a mistura da geração c da corrupção. quando ela queima. informando assim a massa da cera. Resta-nos agora estudar a mistura. quer de suas partes uma com a outra. com efeito. Esse argumento. pois já não existem de modo algum. Assim. III. IV. que aceita que sofrer se realiza somente pelo partilha dos corpos. Da mesma maneira. Se. VI — Também por esta teoria o aumento e a diminuição não são possíveis. mas permanecem no mesmo estado. prosseguem eles. V. desse modo. já que a mistura exige que os corpos estejam numa condição semelhante. pois vemo30 35 327b 5 ]0 15 . o que é condição necessária para que se dê o aumento. de uma maneira geral.

V — Também o alimento não é misturado com o corpo. e. em acto. diz Aristóteles. nesse caso. nem de nenhum atributo que não tenha existência separada. Eis por que podemos agora deixar de lado essas dificuldades. para haver mixis. citado por Tricot. VI. num determinado momento. um deles fôr destruído. como o chama Bonitz ao comentar a "Metafísica" de Aristóteles. com efeito. existam num sentido. pois é um atributo pertencente a uma substância e como. outros. ao contrário. por outro lado. não existindo em outro. uma "mixtiochemica". ao entrarem numa mistura. quando êle queima. não estão mais misturáveis depois do que antes. mas cada um deles pode ser ainda em potência o que era essencialmente antes da mixis. por ex. e não ter perecido. finalmente. pois permanecem no mesmo estado. de maneira geral. é uma teoria mal fundada a de certos filósofos que professam que todas as coisas. as suas diferenças com o misturável. estuda Aristóteles agora a mistura. pois esta exige um sujeito. A coexistência de duas qualidades no mesmo sujeito não constitue uma mixis. que formam a mistura. e em quais condições. outro que os componentes do qual provêm. mas cada um deles pode ser ainda em potência o que era essencialmente antes da mistura. um ser em outro. Nenhuma qualidade pode existir separada. se dá. Mas já que entre os seres. que seja um mixtá. e tornadas evidentes essas distinções. mas que o fogo é engendrado e a madeira. Na mixis se manifestam propriedades novas e irredutíveis às do composto. estavam confundidas e misturadas: tudo não pode ser misturado com tudo. A mixis não é uma simples synthesis (composição). Aristóteles considera apenas dois mixtá. nem são destruídos. Antes de mais nada. pois. devido a um corpo entre elas. pois sua potência é conservada. de quais seres a mixis é uma propriedade. Para estudar esta matéria. não poderiam ser misturadas por não existirem. Mas não pode também haver aí mistura do branco e da ciência. Desta maneira. pode suceder que as coisas. não haveria mixis. quer um ou outro. VI — Mostra Aristóteles que é mal fundada a teoria de certos filósofos que professam que todas as coisas. as propriedades e os estados com as coisas. II — Para alguns filósofos há impossibilidade de mistura entre corpos. afirmam que os corpos misturados permanecem como tais e não sofrem nenhuma alteração. dois corpos misturados. convém esclarecer bem a palavra mistura. já que a mixis é um atributo e o seu ser. embora reconheça que em toda mixis há sempre a composi'ção de quatro elementos. uns estão em potência e outros em acto. Os que combatem a mixis. III — É preciso distinguir a mixis da geração e da corrupção e o misturável do generável e do corruptível. Nada pode estar misturado com tudo. Nem o corpo com o branco podem estar misturados. nem. Dispõe-se a examinar em que ela consiste. Pretende Aristóteles estudar a natureza da mixis como prometera. se ela existe de facto ou se é falso afirmá-la. seria necessário que os corpos permanecessem numa condição semelhante. Tal era. Assim. esse. temos a distinção entre a mixis e a alteração. mas podem também ser separados do composto outra vez. serão resolvidas as dificuldades do argumento. estiveram confundidas e misturadas. que os escolasticos traduzem por mixtio. E. destruída. na verdade. é um inesse.. Admitindo-se que se dê a existência da mixis. O composto pode ser. entrando na mistura. . o que permite uma distinção entre geração e mixis. nenhuma qualidade pode existir separada. pois um é e o outro não é. e as coisas misturadas devem ter tido um estado em que estiveram separadas. cada uma das coisas misturadas deve. num certo momento. existir de antemão em estado separado: ora. quer todos os dois. é um "inesse". e. e em acto. pode acontecer que as coisas. Pois. 20 25 Reexposição comentada I —24 I — Seguindo o mesmo método. já que a substância e a qualidade persistem uma e outra no composto. deve haver uma diferença. uns. a qualidade é um acidente que se dá conseqüentemente em outro. E como os seres são em potência. O composto pode estar. Ê se as duas coisas misturadas perecerem.ARISTÓTELES 150 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES E AS MUTAÇÕES 151 los persistir nas coisas. isto é. IV — Nós não dizemos que a matéria esteja misturada com o fogo. e não ter perecido. como o corpo e o branco. a dificuldade surgida pelo argumento precedente: e parece que os corpos. Se. os componentes nem persistem em acto. existam num sentido e não existam em outro. não somente de separados. diferente de o dos componentes dos quais provém. em acto. É uma combinação química. pois vemo-las persistir nas coisas. que estavam no início. nem. se unem.

Como sair dessa situação? Há um só caminho: a distinção aristotélica de potência e de acto. toda parte qualquer de cada componente deveria estar justaposta a uma parte qualquer do outro. que o joio está misturado com o trigo. que. mas dela difere. a de Aristóteles. III. sucede que qualquer componente é justaposto a uma parte do 328a outro? Sem dúvida. da mesma forma que uma parte da água é água. que os componentes permaneçam e desapareçam. TEXTO DE ARISTÓTELES I — 25 I . nada de tudo isso se produzirá. Os mixlá não existem em acto. Tricot comenta da seguinte forma. e cada parte do composto não apresentará a mesma proporção entre seus componentes que o todo. a declarar que a mixis é um conceito contraditório.152 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES Quer dizer que os corpos. assim uma parte do fusionado é da mesma natureza que o todo.s. diz-se.15 « m e n t e misturada para o olhar de Linceu. Pois será uma composição e não uma fusão. No fim deste livro 1. posteriormente. que resolve tais dificuldades. permanecendo o que eram antes. de uma parte. e se é também verdade que o corpo misturado ao corpo é homeo. fundado na opinião de Joachim: a impossibilidade de toda mixi. h á então m i s t u r a ? 35 II. é preciso. deve ser a n a l i s a d o : consiste em saber se a m i s t u r a é a l g u m a coisa relativa à sensação. não há geração. e que a composição não é a mesma coisa que a mistura. Q u a n d o as coisas e n t r a m n a m i s t u r a e f o r a m divididas em p a r c e l a s tão peq u e n a s e j u s t a p o s t a s de tal m o d o . enquanto que se a mistura é apenas uma composição de partículas. não se deve falar de sua mistura. que entram numa mixis. nós professa. em suma. haverá apenas mistura para a sensação. mas cada grão de um está justaposto a cada grão do outro. é evidente que. e. pois suas potências foram conservadas. ''*"• V. e se eles não desaparecem. Nas três hipóteses visualizadas pelo partidários da impossibilidade da mixis. teceremos outros comentários sobre a doutrina aristotélica em face da ciência actual. ser separados. Mas já que nenhum corpo pode ser dividido em seus últimos componentes. se a mistura teve lugar. pois. podem existir de novo em acto. ao contrário. IV. E a mesma coisa será misturada para tal pessoa. nem uma mistura. com efeito. não sendo destruídos. Ou então. por outra parte. e após a análise. Mas se o corpo é divisível. se não há mistura. mas existem em potência. Se eles não permanecem. enquanto os componentes são conservados em pequenas partes.10 mos. Mas o p r o b l e m a q u e v e m a seguir. que expressa a verdade. por exemplo. não há mixis. que não se deve falar de mistura para uma divisão tal .' tal como foi exposta acima. É evidente também.5 meria. ao contrário. não há também mixis. cuja visão não é aguda. o composto deve ser homeoméria. Ora. e não será absoluta. exprime-se coiiiumente no primeiro sentido. podem. que c a d a u m a em p a r t i c u l a r escapa à sensação. alcança. Ela exige. acrescentar uma quarta.

fracamente passivo. o que não é perceptível à nossa sensação? . facilmente limitáveis e facilmente divisíveis. Mas quando há entre suas potências um certo equilíbrio. certos seres actuam e sofrem reciproca e mutuamente: são reciprocamente activos e reciprocamente passivos. se desvanece. X. Por exemplo. Também. Outros seres. são aqueles cuja matéria não é a mesma. Mas. ela não se torna. e aqueles que sofrem a acção dos primeiros. a outra como forma. outra coisa. comportando-se como uma propriedade imaterial do bronze. Ao contrário. é misturável o que. mas um crescimento do elemento dominador. e não ser que seja viscoso. 15 por um lado. actuam. pois o líquido é o mais fàcil- 20 25 30 mente limitável dos corpos divisíveis. Mas quando um dos componentes é apenas passivo ou fortemente passivo. sua natureza e sua causa. Ademais. nem a saúde produzem a saúde por sua mistura com os corpos. sendo facilmente limitável. pois é impossível que a divisão se efectue dessa maneira. XI. e a mistura é uma unificação das coisas misturáveis. É. Ademais. pois é o que significa essencialmente "ser facilmente limitável"). ou temos ainda de explicar como ela pode se dar. com efeito. uma vez entrado na mistura. tendo apenas colorido o bronze. aqueles que são activos. permanecendo totalmente impassíveis. sendo ao contrário. é passivo e activo. aquelas coisas divisíveis e passivas que são facilmente limitáveis são misturáveis (e sua divisão em partículas se faz facilmente. Eis precisamente o que ocorre com esses metais: o estanho. XIII. contudo. como o dissemos. VII. com efeito. desaparece quase e. a mistura se realiza melhor. após a sua alteração. nem é tampouco necessário que sua mistura seja uma composição. VIII. e. e se um grande número ou uma grande quantidade de uma está unida a um pequeno número ou a uma pequena quantidade do outro. 10 uma em face da outra. evidente que são misturáveis somente aqueles agentes que encerram uma contrariedade. a existência da mistura. VI. pois elas mostram uma leve tendência a se misturarem e a se comportarem. nada mais fazem do que tornar mais ampla e maior a massa. pois o deslocamento recíproco se opera mais facilmente e mais prontamente. Ora. sem que elas sejam necessariamente destruídas. portanto. e esta coisa é misturável com uma outra coisa da mesma natureza (pois o misturável é relativo ao seu homônimo). o resultado não é uma mistura. com efeito. Os líquidos viscosos. pois eles são reciprocamente passivos. o composto resultante de sua mistura. o outro. em que os componentes conservam suas propriedades. os líquidos são mais misturáveis que os corpos. eis por que certas coisas são de uma natureza tal que elas são reciprocamente passivas. Ou então não existe mistura. ou não é em nada maior ou o é somente um pouco mais: é o que acontece com a liga do estanho e do bronze. quando o agente é de grande talhe e o paciente também o é. algumas são facilmente divisíveis. progredindo para a mais forte. Ao contrário. quando pequenas partes de um são justapostas a pequenas partes do outro. Desses últimos seres não há mistura: eis por que nem a medicina. entre as coisas. podem ser misturadas. ^0 nem que seja relativa à sensação. nem que permaneçam absolutamente idênticas. então cada uma dessas coisas mudase por sua própria natureza. O que acabamos de dizer torna evidente. XII. há. quais espécies de seres são misturáveis. 35 Reexposição comentada I — 25 328b I — Surge agora um problema que é mister resolver: é a mixis (mistura) uma simples composição (synthesis). transformação de uma das coisas na mais forte: é assim que uma gota de vinho não se mistura com dez mil ânforas de água. há. O mesmo fenômeno se produz também em outros casos.154 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 155 que qualquer parte de um componente seja justaposta a uma parte do outro. pois sua forma é dissolvida e ela é transformada na totalidade da água. com efeito. ao contrário. uma como receptáculo. por outro lado. que são reciprocamente activas e passivas. Algumas coisas. IX. manifestam uma atitude hesitante e ambígua. tal se efectua em maior tempo. por entre os seres. Essas coisas. mas alguma coisa de intermediário e de comum a uma e a outra.

mostrar como ela se dá. quando a divisão dos mignómena foi levada até aos mixlá menores possíveis. a acção e a paixão recíprocas dos corpos. Para haver a mixis. ou melhor limitáveis como os fluídos. Na krasis. que nos poderia mostrar não haver. uma parte do fusionado é da mesma espécie do todo. que têm a propriedade de sofrer e actuar. a mixis se realiza melhor. há a mistura dos líquidos. mas apenas aparente (aos nossos sentidos. e que se excluem mutuamente. uma síntese da matéria tratada. XI — Realiza aqui Ar. graça à análise microscópica. a mixis. Se a mixis pe dá. que apresentam uma diferença de grau. não fusionados. o que é passivo e activo. Quando viscosos. como no sistema de Demócrito. . VI — Há seres que são activos e outros que sofrem ti acção destes. III — O que pretende expor este tópico. e que o misturável o é relativamente ao seu homônimo. Assim as sintetiza Tricot: 1) Haveria mixis quando os mignómena (os misturáveis) foram divididos em mixtá (mixtos) escapando à sensação. Os líquidos dão um bom exemplo. E se tal não se dá. por ex. o que permite chamar fusão. a mixis não é real. que se uma parte de água é água. É só com essa condição que se pode obter uma mistura homeoméria (Tricot). "Nos dois casos. por não se dar o contacto mais facilmente. Dá os exemplos das coisas que são facilmente misturáveis. num sentido mais de sinonímia do que de eqmyocidade. de visão aguda) permitiria perceber que não há mixis. é claro). A mixis é um gênero do qual a krasis é uma espécie. V — Não haveria mixis quando se desse apenas uma justaposição das partes. por que o misto deve ser homeoméria (da mesma natureza). Em nossa época. h á : os mixtá. os mixtá permanecem distintos e justapostos.. VII — Quando as partículas mínimas de um estão justapostas às pequenas partículas do outro. e exemplifica Ar. é que entre as duas concepções da mixis. Outros actuam reciprocamente: os em que n matéria c idêntica. no sentido aqui do mixton (o mixto). quer dizer até aos átomos. na mixis. Em suma. Propõe-se agora Ar. que é relativo a outro mixton. e justapostos parte a parte. após a sua alteração. 2) ou então. c termina por dar a sua definição da mixis: e a unificação das coisas misturáveis. corresponderia aos meios de conhecimento da química. impõe-se. os corpos plásticos. a divisão pode ser levada até ao átomo (indivisível). Outros actuam permanecendo impassíveis: são os cm que a matéria não é a mesma que a do paciente. há maior dificuldade para realizar-se a IX — As coisas divisíveis e passivas. como de a Linceu (uni dos argonautas. quando se dá a alteração das partes componentes. como primeira condição.156 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 157 II — Expõe aqui Ar. Se o corpo é divisível. duas concepções da mixis. o composto deve ser homeoméria. a de Demócrito é a única lógica. como já foi exposto. são mais facilmente misturáveis. neste tópico uma série de exemplos nem claros para robustecer as suas afirmações. X — Dá Ar. prossegue Tricot. IV — Uma visão mais aguda. rcalizando-se ela. independentemente de qualquer questão de sensação. sem serem destruídas. já tal não se dá. na realidade. VIII Quando são maiores. c conclui por afirmar que e misturavel o que é facilmente limitável. Do contrário não se pode falar em mixis. A mixis não é uma forma de synthesis. devido a operar-sc mais facilmente o deslocamento recíproco. há apenas aparência de mixis e de homogeneidade. pois será apenas uma composição (syníhesis) e não uma fusão (krasis). como no caso do azeite e da água. Na realidade.

mostram-nos claramente o genuíno sentido aristotélico: "Têm muitos uma opinião errada acerca da forma pela razão de a considerarem como substância. embora as tenhamos chamado de qualidades. e por conseqüência ser substâncias." (Descartes Opera Omnia III. pôs-se a afirmar um mecanicismo. caíram na única solução que a ela poder-se-ia contrapor: a mecanicista. que reproduzimos. pois surgindo. Mas. seguida posteriormente até por escolásticos. . não o haviam entendido. como subsistentes de per si. constantemente muitas formas. Pois estes pensaram que o devir esperasse pelas formas. 5-13). em face das descobertas novas que surgiam. ter uma existência distinta de a dos corpos. Até na própria Idade Média muitos abandonaram o pensamento aristotélico. chegou a considerar. Descartes. por desconhecimento da obra aristotélica. quanto aqueles que pensam que as formas tenham origem numa criação. e. como surgem. mas até as formas acidentais. que imaginamos seres reais. 667.. durante o Renascimento e o Barroco. tanto daqueles que admitem que as formas existam latentes (na matéria). não impediu que em nossa época o mecanicismo conhecesse um novo avatar. É que os críticos de Aristóteles não o haviam lido e os que possivelmente o leram. por não puderem encontrar nada (nenhuma . Na "filosofia moderna". não só as formas substanciais de Aristóteles. na verdade. como as qualidades. havia um mal entendido em tudo isso. elas seriam criadas por Deus.COMENTÁRIOS ESPECIAIS AO LIVRO I O domínio que exerceu o pensamento aristotélico durante a alta escolástica. como a gravidade e o calor e as outras. Estas palavras de Tomás de Aquino. como Maignan e Saguens. como espera pelas substâncias. E daí tem origem o erro. agravandose ainda mais.. Pensava Descartes que as formas para Aristóteles fossem realmente substanciais. seguindo assim a linha já traçada anteriormente a êle por Van Gooric e Basso. quer dizer. que ante as dificuldades da concepção aristotélica. e sobretudo no século passado. . Como não podia admitir que as formas fossem substância. Julgava que o Estagirita atribuísse "subsistência às diversas qualidades dos corpos.

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matéria), da qual as formas pudessem ser produzidas, supuseram que essas vinham criadas, ou, então, pre-existiam na matéria. Deste modo perderam de vista uma coisa; isto é, o ser não é da forma, mas do sujeito mediante a forma, nem o "devir", que conduz ao "ser", é da forma, mas do sujeito. Por isso a forma vem chamada de ente, não que ela o "seja" propriamente falando, mas porque através dela, alguma coisa é; assim se diz simplesmente que a forma é produzida, não que cia seja produzida, mas porque, por meio dela, qualquer coisa é produzida; isto é, porque o sujeito é reduzido do estado de potência ao de acto". (Q. D. De Virt., a. 11). * * * O mecanicismo dos últimos séculos predominou na física pre-relativista. Em nossos dias, porém, há um inegável retorno a Aristóteles, o que merecerá nossos próximos comentários, logo que tenhamos precisado com clareza o pensamento exposto nesta obra tão importante para os nossos dias. Tais afirmativas não excluem os erros que se encontram na física aristotélica e que não são tantos quantos os adversários afirmam. Se Ar., por exemplo, não compreendeu a conservação da energia, aceitava, porém, a conservação do ímpeto, como foi aceita e desenvolvida pelos medievais. A sua distinção entre o movimento "natural" e o "violento" e que o movimento dos corpos terrestres fosse obediente a leis diferentes do movimento dos corpos celestes não impediam, contudo, o desenvolvimento da dinâmica. As insuficiências da experiência, dessa época, explicam muito bem essas deficiências. Lembremo-nos das deficiências experimentais do século XIX que levaram a muitos cienlistas a afirmações que são hoje rejeitadas pela física. E as actuais.. . delas o tempo falará. A ignorância e a incompreensão sobre a obra aristotélica verifica-se em atitudes como esta, que se repetem, infelizmente, do alto das cátedras: "Pode-se verificar que a doutrina peripatética, do ponto de vista do progresso da ciência, foi também (como a doutrina de Hegel), assombrosamente estéril. Sem dúvida houve ai uma diferença que, enquanto a doutrina hegeliana é repelida totalmente pelos sábios que lhe eram contemporâneos, a de Aristóteles, ao contrário, dominou a ciência por longos séculos da maneira mais absoluta. Mas precisamente, esse reino tão longo, nada melhor fêz do que evidenciar a vaidade dos esforços que ela inspirou e dos quais, pode-se dizer, nada subsiste na ciência de nossos dias". (Meyerson "De 1'explication dans les sciences", II, pág. 169 e seg.).

Que melhor resposta que a derrocada das idéias da física mecanicista, tão pretenciosa, e que a actual abandona rapidamente, para retornar, a passos largos, aos princípios aristotélicos, embora ainda não o saibam muitos físicos? É comum dizer-se, e na obra de muitos cientistas modernos encontramos tais afirmações, que a física aristotélica era dedutivista e apriorista. Há aqui dois aspectos que precisam ser devidamente delineados para evitar tais afirmativas supinamente falsas. Em primeiro lugar, nem toda deducção indica apenas uma identidade, como por exemplo o afirmava Meyerson. Por que, quando se deduz, se comparam, nas operações lógicas, juízos que se referem a quididades que apresentam apenas identificação num ou noutro aspecto, e não identificações totais. Há outras relações que escapam à identidade. E esta é a razão por que nem sempre apenas se tira, deduz, o que já estava incluído. Foi o que se verificou com a termodinânica, em que a obra de um Willard Gibbs, de um Schreinenmakers, nos mostra quanto há de não-identidade nas deduções. Em segundo lugar, a leitura da obra de Ar. nos mostra claramente que, na física, não é um apriorista, como não o foi nem na metafísica. Há sempre a necessidade, no campo da especulação, de fundar-se na experiência. E a filosofia medieval seguiu esse caminho também. Agora, que não dispusessem os medievais de meios de experimentação como os dispõe a ciência moderna, tal não impedia que tivessem métodos bem avançados de observação das intensidades, preparando desse modo o avanço da matemática actual, que penetra no qualitativo, o que o mecanicismo não poderia oferecer, já que se prendia totalmente ao quantitativo, como tantas vezes já temos sublinhado. A CONCEPÇÃO DO MINIMUM E DO MAXIMUM EM ARISTÓTELES Os entes do mundo físico não são apenas seres matemáticos, mas seres que pertencem a uma espécie, que têm uma forma, uma natureza específica, uma physis, no sentido aristotélico, cujo sentido já expusemos na "Sinopse", no princípio deste livro. Ao examinar a filosofia grega anterior a Aristóteles, encontramos o pensamento de Anaxágoras, que apresentava a tese de que os corpos, na natureza, são divisíveis ao infinito. Aristóteles na "Física" opõe-se tenazmente a essa tese. Aceitando a divisibilidade infinita do contínuo, negava-a,

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porém, quanto aos corpos físicos. É que a natureza desses corpos admite uma divisão somente até um determinado limite. E não só afirma um limite mínimo de divisibilidade, como também um limite máximo de aumento. E fundavase, não em especulações meramente filosóficas, mas também na experiência. Os indivíduos de uma espécie revelam um máximo e um mínimo, cujos limites não podem ultrapassar, conservando a mesma forma. Assim também as qualidades têm um máximum e um mínimum. E a prova encontramo-la nos animais que crescem até um máximo e não podem ultrapassá-lo, como tudo na natureza. E se tal se dá, não deve haver uma divisibilidade ao infinito. A carne e os ossos não podem ser divisíveis ao infinito, afirmava. Há de haver um limite em que a carne dividida deixa de ser carne, porque, do contrário, seríamos levadas a um infinitamente carne, o que também comprova a nossa experiência científica actual. Desta forma, as partículas devem ser divisíveis até um certo limite, mas divisíveis dentro da sua espécie, e ultrapassado tal limite, passariam a ser de uma espécie diferente. E essa tese é aplicável a todas as substâncias naturais. Conseqüentemente, afirmava ainda, o mínimo de uma determinada espécie deve ter uma grandeza própria (isa peperasmena), grandeza que é determinada pela natureza específica. Em pleno séc. XVI, Benedicto Pereira dizia: "descobrir quais são precisamente os limites de grandeza, superior e inferior (quer referir-se ao maximum e ao minimum), para cada espécie de corpos naturais, é muito difícil, para não dizer impossível". (1) A física moderna procura alcançálos, seguindo os desejos de Pereira, sem que os físicos talvez o saibam. E que são hoje o peso atômico e o peso molecular, senão os limites das grandezas determinadas que desejava achar Pereira? Não são estas hoje as bases da química moderna? E não é ao atomismo de Demócrito, como pensavam os mecanicistas do século passado e seus representantes neste, que se deve tal coisa, mas sim à concepção dos mínima de Aristóteles. No tempo de Pereira, tal era impossível realizar-se, dada a deficiência dos meios técnicos disponíveis. Foi com Dalton, dois séculos e meio depois, que Pereira obteve uma resposta ao seu desejo. Entre os cartesianos não se procuraria tal, pois aceitavam a divisibilidade infinita dos corpos, nem
(1) Citado por Hoenen.

muito menos na concepção democrítea, que não a alcançaria, se Dalton não tivesse dado uma guinada para Aristóteles, em vez de permanecer totalmente na concepção mecanicista, embora sem o saber. É importante este ponto para melhor clareza do pensamento aristotélico, e, ainda mais, para compreender-se a valia ou não de certas afirmativas de físicos modernos que negam a Aristóteles o direito que lhe cabe. Demorar-nosemos neste ponto apenas o suficiente para clareza do texto que ora examinamos, deixando para trabalhos futuros outras análises, que mergulharão mais profundamente nas teorias da física actual. Tomás de Aquino, afirmando a divisibilidade in infinitum dos corpos matemáticos, afirmava, não obstante, um limite de divisibilidade dos corpos físicos. Permanecia assim na posição aristotélica. Tal não o sabiam alguns autores modernos (e entre eles Duhen), que vão atribuir à teoria dos mínima a Aegidius Romanus, sem compreender que essa era uma teoria aceita na idade média entre os escolásticos, inclusive os escotistas. Aegidius Romanus, em seus comentários à Física de Aristóteles, expõe sua tese sobre a grandeza, estabelecendo três maneiras diferentes: 1) enquanto pura grandeza, abstraindo-a da matéria na qual é realizada; 2) de maneira mais concreta, como realizada em certa matéria, mas sem especificar que espécie de matéria; 3) mais concretamente, como realizada numa matéria cuja natureza é especificamente determinada. A primeira, que é a que a geometria concebe, é divisível ao infinito, como o é também a segunda, desde que a matéria é indeterminada. Mas, na terceira, esta não pode ser dividida indefinidamente, sem que haja mudança da sua natureza, como a água não pode ser dividida sempre sem que deixe de ser água. Um metro cúbico pode ser infinitamente divisível, não um metro cúbico de água, pois em certo limite deixariam as particulas de serem de água. Essa doutrina não é de Aegidius Romanus, sem que tal desmereça em nada o imenso valor desse filósofo, injustamente desconhecido em nossos dias. Antes dele, Robertus Lincolniensis (também conhecido por Robert Grosse-Teste) e ainda em Averroes e, Tomás de Aquino, como já dissemos, era tal teoria afirmada, como o fora antes por Aristóteles (como se vê na "Física", I, cap. 4, e nos comentários de Tomás de Aquino, lect. 9, n. 9). Não procede, portanto, a afirmação de Duhen, que essa doutrina surgiu na idade mé-

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dia por influxo de Demócrito e Epicuro, pois já era aristotélica. Afirmava Tomás de Aquino que os limites da quantidade são particulares. Que nos mostra a química moderna senão a validez de tal afirmativa? Há em todas as coisas um arithmós pleihos (um número de sua totalidade), número no bom sentido pitagórico, e que revela a sua forma corporeitalis, a forma da corporeidade, que incluindo a forma imutável específica, tolera, na linguagem escotista, um maximum e um minimum, que são múltiplos, segundo os planos. Assim um cristal existe apenas segundo determinados limites de temperatura c a energia térmica interna tem um máximo e um mínimo. Um ser que é tal, exige muitos máxima e mínima, dentro dos quais ele subsiste com sua forma específica. O ser humano conhece desses máxima e mínima, não só intrínsecos como extrínsecos. E este é o sentido claro para onde se orienta a dialéctica que deseja ser uma lógica concreta, e, portanto, científica. Que faz a ciência senão buscar através de seus métodos conhecer os máxima e mínima, intrínsecos e extrínsecos dos seres, pois esta constituição hic et nune de um corpo depende, não só dos intrínsecos como dos extrínsecos, dentro de cujos limites é o que é? Podemos não conhecê-los, mas sabemos que há. Nos tempos medievais era difícil estabelecê-los, mas hoje já pode colocá-los a ciência em grande parte. O pensamento medieval, seguindo a linha aristotélica, estava no bom caminho, não obstante tudo quanto se disse e se diz contra esse pensamento todos aqueles, precisamente, que não o conhecem, e julgam que não podem perder seu tempo em examiná-lo. (1)

0 contínuo forma uma íntima unidade. Se é divisível é contudo não diviso. Não é um mero agregado de partes que se avizinham, se tocam. É uma totalidade com unidade intrínseca. E este aspecto é importante. Forma êle unut estrutura coerente, tensionalmente coesa. É uma tensão, em suma, que, como tal, é qualitativamente diferente do conjunto quantitativo das suas partes.
(1) Não se julgue haver em nossas palavras qualquer submissão ao pensamento escolástico. Apenas julgamos que pertence êle ao patrimônio cultural que herdamos, e a missão de quem deseja fazer filosofia exige o seu estudo, dele aproveitando tudo quanto de melhor oferece para o processo filosófico, que deve prosseguir adiante e não estacionar.

Este aspecto, que hoje podemos salientar em face do que já se obteve no conhecimento científico, já era notado por Aristóteles e não incidentalmente. Toda a sua obra já contém todos os germes da concepção tensional, que é a nossa, embora exposta com novos argumentos e sob fundamentos que nos oferecem os actuais conhecimentos da ciência, mas sem excluir a grandiosa contribuição aristotélica, e a que foi dada pelos medievais, infelizmente esquecida durante o período de domínio do mecanicismo e do racionalismo, do empirismo, etc. Num todo, as partes estão em potência enquanto tais. Assim, na água, o oxigênio e o hidrogênio estão em potência como tais, pois, nesta, aqueles não são totalmente o que eram em acto, quando ainda não a constituíam. Desta forma se pode compreender o erro, metafisicamente reprovável, da aceitação de um infinito quantitativo actual. Basta considerarmos este ponto: toda extensão é medível, portanto reductível numericamente a números. E numa série ilimitada de números, podemos sempre acrescentar mais uma unidade. Portanto, o infinito matemático é apenas potencialmente infinito, pois podemos sempre acrescentar mais um. Um infinito numérico em acto é metafisicamente absurdo. Não se pode desconhecer que alguns matemáticos, como Hilbert, trabalharam com o infinito actual, e também Poincaré, e outros. Mas se o infinito potencial é possível, não o é o actual. Se as partes de um composto fossem actuais poder-se-ia aceitar uma multiplicidade infinita. Mas o princípio de unidade nega essa suposição. Por isso, tais matemáticos tinham de chegar a conclusões falsas. 0 contínuo não pode ser divisível ao infinito. E tal se dá porque a parte, como tal, não está em acto na totalidade, o que é uma tese da concepção tensional, que em nossa obra "Teoria Geral das Tensões" provaremos com outros argumentos. Convém compreender bem o significado de "potencialmente infinito". Não se deve considerar, como o que pode tornar-se infinitamente actual, pois neste caso estaríamos, outra vez, imersos na mesma dificuldade. Infinitamente potencial deve ser considerado no genuíno sentido aristoíélico e dos medievais, como o contínuo que pode ser divisível in infinitum, isto é, uma divisibilidade que pode sempre ser actuada porém não exaurida na sua potencialidade; é uma potência à multiplicidade, mas que não pode ser realizada em acto totalmente, pois, do contrário, deixaria de ser potencialmente infinita.

mas não obstante as aceita. ao qual é inherente e absolutamente inseparável. a experiência sensível constringe a estabelecer relações locais entre os corpos. . Como poderiam surgir efeitos físicos do nada. relações de mútuo contacto. uma totalidade. que se dê uniu prioridade das partes ao todo. pois o hidrogèneo e o oxigêneo. neste caso. um ser. do que é movido (quod). mas activo na causa eficiente do movimento. o que é importante nunca esquecer. que é nada? A gravitação é algo real. Aceita Einstein. por exemplo em Leibnitz. com uma porção do éter. que permitem à concepção tensional oferecer uma nova visão do mundo sem excluir o que há de positivo nas construções filosóficas do passado. ao afirmar os acidentes. mas terminando por estabelecê-lo ao afirmar que há algo subsistente. onde mostra a improcedência do argumento kantiano (capílu Io: Crítica da Filosofia kantiana. é aceita. que o hidrogèneo e o oxigênio são parles da água. O tender é pura passividade. por exemplo. e o campo de gravidade actua sobre a "massa". como o hidrogèneo e o oxigêneo antecedem à água. por Hoenen) . algo subsistente de per si. este pode ser considerado como meio universal de localização.166 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 167 Dentro dos quadros da ciência actual. teríamos de aceitar a da localização. para salvar-se da aporia. 444 em diante). nenhum conceito de espaço" (Cit. Neste caso. nesse sentido. A presença do H. Por isso Hoenen acusa a Einstein de combater apenas a palavra éter. assim. na água. São aspectos como este. pois não há um intermédio. são acidentes de algo. pode-se. virtualizam características. Dessa modalidade intrínseca decorre a posição do corpo. Ostwald mostra que tais distinções não são totalmente nítidas. Por isso as partes. que é a de Tomás de Aquino. pode dizer-se que num fenômeno físico muda alguma coisa na matéria. O éter de Lorenz é um campo real. sobretudo da pág. é uma substância. 0 movimento é uma modal. Como mostra a nossa concepção tensional. pois este é nada. não é de emquanto tais. como nos mostra Suarez. emprestando. Sc dizemos. O movimento de um corpo forma uma unidade. não devemos compreender que. como o mostra Hoenen. E como poderiam tais acidentes se dar sem uma substância? Se o espaço tem "qualidades físicas". por Einstcin ao afirmar: "Se se forma . É o éter interposto que marca a distância entre dois corpos. já que o acidente não é um ser de per si. e as qualidades são acidentes. como é comum ver-se na filosofia. Essa era a solução aristotélica entre a alteração e a geração e corrupção. medir em relação a outro corpo. os átomos estariam separados pelo nada. Kant. pág. o espaço revela acidentes físicos caracterizados matematicamente.o conceito dos corpos. enquanto num fenômeno químico muda a própria matéria. sem que o soubesse. O que indicamos como relações especiais entre os corpos. pois tocar no nada não é o mesmo que não tocar? Entre esses seres não haveria distância. A teoria do contacto. isto é. Na edição argentina de "Biblioteca Nueva". no entanto. (que na verdade combateu o éter de Lorenz) que. não é nada mais que isso. ao vazio. com perseitas. Um movimento contínuo é um tender a um termo (limite-peras) como a um fim (telos). o que era negar o próprio princípio mecanicista. 375 em diante. etc. mediante um contacto "interno". e sem o conceito das relações espaciais. daí ter exclamado. 588). sem o conceito dos corpos. Se não se pode medir o movimento do corpo em relação ao éter. E como poderiam mover-se nesse nada? Demócrito sentiu o absurdo da idéia. Se não se aceita a teoria do contacto. no entanto. no genuíno e filosófico sentido desse termo. o todo é qualitativamente outro que suas partes. Se o éter de Lorenz existe. O que enche o espaço é algo real. Encontramos essa teoria na concepção do éter de Lorenz. em que um corpo obtém sua posição ou lugar. nenhum conceito de relações espaciais entre os corpos. pág. que "até o não-ser existe".Ê este fim que dá ao tender a sua unidade. . e do O. são potenciais no todo e não actuais. Sobre este ponto é importante a crítica de Schopenhauer em seu "O Mundo como Vontade e Representação" (I. Os corpos devem a sua posição a uma "modalidade intrínseca" que os escolásticos chamavam " u b i " — e que Sunrez tão bem estudou ao tratar da ubiquação em suas famosas "Disputationes Metaphysicas". como a de Demócrito. E como se tocariam se há o nada entre eles. . Portanto. na água. e assumem aspectos diferentes. A unidade do movimento prova a influência de uma causa final. Esta é uma acção física.

e desenvolvidos em nossa "Teoria Geral das Tensões". Tal não é verdade em face dos actuais conhecimento. quando da decomposição. No ser vivo. não totalmente. pois. Numa totalidade.168 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 169 com uma estrutura coerente. que são actualizados. e que mostra a possibilidade que dispomos de poder construir uma visão hólica (de holos. Esta conquista da química moderna põe em crise o mecanicismo que julgava poder explicar tudo em termos de agregação e desagregação. como um ser vivo. Esse pensamento já estava implícito no aristotélico e na obra maior dos medievais. Apesar de muitos. a unidade é actual e a multiplicidade. que é a característica da tensão. ambos. Estes pontos serão por nós examinados em nossos comentários à "Física" de Aristóteles. E prossegue: "Esses caracteres do elemento distância espacial e os do elemento duração permanecem distintos uns dos outros. como veremos naquela obra. quando tomam parte em uma totalidade. Estas palavras de Einstein são valiosas para o que desejamos dizer: " . é o que fazemos naquela obra. já tivemos ocasião de mostrar em "Filosofia e Cosmovissão" o nosso pensamento. actualizam certos aspectos e virtualizam outros. e isto por que não apresentam as mesmas propriedades em todas as direcções. o que é próprio das espécies em um gênero. a química inorgânica também. que é aplicável em todas as esferas do pensamento epistêmico. mas que. os quais sofrem no átomo. Uma intensidade que aumenta sucede no tempo. embora. o tempo e o espaço estão bem fundidos num mesmo e único continuum. no ser. contudo. Os átomos. Mas a constituição de uma molécula química não é a de mero agregado. a nova substância surgia da agregação dos átomos que permaneciam o que são e o que eram. em que as partes estão modificadas. os elementos minerais. que se filia àqueles que aceitam a heterogeneidade e a irredutibilidade específica de um ao outro. que é uma matematização do esquema concreto que nele se dá. Os componentes estão presentes em potência no composto. Na filosofia escolástica diziase que tais elementos estão virtualmente no composto. no composto. Na totalidade. há graus de potencialidade dos elementos componentes. assim. e. o suficiente para que a totalidade seja distinta de suas partes. dialéctica portanto. aliás. . em que o relacionamento dos átomos seria suficiente para explicar o surgimento de uma nova substância que seria apenas uma figura. por sua vez. dos componentes. de próxima publicação. surge uma nova substância. onde construímos uma visão tensional. Aproveitar o que as observações científicas actuais contribuem para a precisão deste lema. como são virtualizados os que anteriormente estavam em acto. é potencial. sem perder. no sentido eminente que empregamos este termo. e até na fórmula que dá o quadrado do intervalo de universo de dois acontecimentos infinitamente vizinhos". como as espécies se identificam no gênero. que nele são diferentes do que eram quando não o compunham. Um campo de intensidade das qualidades não pode ser incluído totalmente nas dimensões espaciais. Tal afirmativa não quer dizer que os componentes sejam totalmente potenciais. Este princípio é um dos fundamentais da "Teoria Geral das Tensões". e é algo que se verifica em toda a ordem ôntica. estão em potência. são potenciais. 0 próprio átomo é uma nova substância em relação aos seus componentes. e muito menos a sua diferença. pois entre eles não há apenas uma diferença. mutações. permitindo. possam identificar-se. há uma antinomia patente. como partes. e esse termo era bem preciso e adequado ao verdadeiro conteúdo. que inclui e não exclui. Mas entre o tempo e o espaço. Pode-se dizer que. actualmente. mas uma diversidade. . o que implica a colocação de um e outro em gêneros diversos. . são mundos de uma complexidade extrema. para a ciência actual. É o que nos mostra hoje a química biológica. A atomística moderna não é democrítea. que se possam estabelecer algumas das coordenadas de uma visão unificadora do universo. mas parcialmente. Para Demócrito. Assim a matéria prima é potencial num corpo. e que pode obter um enunciado ontológico. considerarem homogeneamente tempo e espaço. no composto. que permite construir o seu esquema matemático. as suas características específicas. mas este não é isótropo". actualizam a unidade. no composto. porque nele. uma totalidade. pois há mutações dos componentes. totalidade). enquanto vivo. como modais. reduzido-os a um só. e o corpo químico também não o é. mas essa potência não é pura potência.

o que contrariava a lei da não-contradicção. como ser humano. Um ser humano. tem a sua natureza de mixto. Todas essas actividades são múltiplas e heterogêneas. Diferenças de qualidades nas diversas partes de uma unidade substancial. No homem. disposições próximas da nova substância que surgirá. Os elementos permanecem virtualizados. alguns comentários que passaremos a fazer. Esta idéia já estava implícita no pensamento aristotélico. A dialéctica. ou sejam: há no ser. A primeira fica. porém. o qual não pode ser este e simultaneamente o seu contrário. Ouvir é ouvir. Mas tais afirmativas levariam fatalmente a considerá-lo como uma unidade e simultaneamente como uma multiplicidade. Num mixto. Um problema que surgiu aqui. mas que se dá. pensar é pensar. embora ouvir seja outro que pensar. pois admite a natureza actual do mixto e a virtual dos componentes. como até era admitida uma possível heterogeneidade no contínuo. podem dar-se os contrários. que é possível de ser estabelecido ou não. integralmente em acto. a do mixto. pois a dynamis. A unidade da forma substancial funda-se na unidade da substância. embora múltiplo cm suas manifestações accidentais. As dispositiones praevias dos escolásticos e as dispositiones próximas referiam-se a essas virtualidades. A experiência hoje o comprova. nos mostra essa dialéctica. neste. exemplifica Hoenen. necessariamente uma única forma geométrica. damos claramente o sentido de tais termos. de um elissóide. Neste caso. que aí está. de uma substância. como mostra Aristótelos. embora exigissem outros esclarecimentos em face da problemática que surge. é uma virtualidade e não uma pura potência. A superfície de uma esfera. pode simultaneamente. das qualidades. opera sobre as antinomias e contrários. que o perecer é um devir. substancialmente considerado. Dessa forma. como o mostrava a própria experiência. sob o mesmo aspecto. que permite ser numerado. Mas o ser humano. como a concebemos. e perdia-se desse modo a unidade substancial do mixto. e também mais consentânea com os actuais conhecimento da física e da química. e comprova que tais heterogeneidades podem ser transeuntes como até perdurantes. sem por isso destruir a unidade. o que não se deve nunca esquecer). A natureza dos componentes é potência determinada a uma nova natureza. na escolástica. também. conseqüentemente. * * * Nada impede que um ser seja ao mesmo tempo um e múltiplo. ter um arithmós plethos. disposições prévias que estão a ponto de actualizar a sua corrupção e. Mas cabem. como este daqueles. por exemplo. de qualquer forma. Os elementos componentes estão em potência mais próxima do mixto. A microscopia moderna favorece a aceitação dessa tese que era pitagórica e que Tomás de Aquino apadrinha. no bom sentido pitagórico. tocar e pensar. virtualizada no composto. na mixis. O princípio formal de não contradicção aplica-se ao mesmo aspecto. Mas o mixto. que se aproxima de um cilindro. em quanto a segunda. sempre naquele sentido. a qual não implica uma homogeneidade no próprio corpo. as primeiras do ser que perece (corrupção). na mistura. é plenamente actualizada. A solução de Tomás de Aquino é mais consentânea ao pensamento aristotélico. Admitir-se que há na unidade substancial apenas uma homogeneidade de qualidades foi um erro que cometeram muitos. Os árabes e muitos escolásticos admitiram a permanência da natureza. é um. e a primeira é em potência mais próxima à segunda que à terceira. e a cientifica ainda mais. e as segundas do ser que nasce (geração). Uma superfície esférica se diferencia pouco de um elissóide e mais longínqua de um elissóide. por sua vez. em parte. não porém vultos como os grandes escolásticos que compreendiam que uma unidade substancial não excluía uma multiplicidade do accidentes e. os elementos componentes têm uma natureza que é a específica deles. de um cilindro (formados pela mesma substância). Uma unidade revela uma estrutura heterogênea (daí. conservando sua natureza virtualmente. embora com certas divergências menores na maneira de conceber essa tese. A própria afirmativa de que a geração de um corpo é a corrupção de outro. dos componentes. embora tivesse êle uma . não. cada uma. A forma esférica é mais próxima de um elissóide que de um cilindro. era admitida.170 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 171 A virtualidade é uma potencialidade prestes a realizarse no pleno exercício da actualidade. tem. que não seria possível tratar neste livro. porque há aí um numeroso. aqui. foi o de se saber se esses elementos componentes conservavam sua natureza ou a perdiam para integrarem-se na natureza do mixto. ouvir. o mixto (mixis) seria apenas um agregado. ver.

Quando uma unidade é produto apenas de uma agregação. de próxima publicação "Pitágoras e o Número". A aplicação dos métodos científicos actuais (como os raios X) permitem estabelecer essa tese. e cabe à experiência estabelecer os graus. . há o surgimento de propriedades diversas. estamos em face de uma totalidade. resultantes da totalidade. Quando de uma agregação de elementos surgem propriedades totalmente diversas de as dos componentes. que o entendia segundo a obra exotérica de alguns pitagóricos de grau de paraskeiê (grau de aprendiz). ou as que normalmente deveriam surgir destes. Não possuíam os medievais meios suficientes e hábeis de experimentação. Aristóteles havia também deformado o pensamento platônico. embora em termos). julgada como o genuino pensamento pitagórico. O que Tomás de Aquino combatia no pitagorismo era a caricatura que dele se fazia. No primeiro caso. genericamente outras de as dos elementos componentes. o que será tema de nossa obra. mas inclusas como possibilidades próximas naqueles. no segundo. Era o que os medievais chamavam "resultantia". não é de admirar que alguns negassem a heterogeneidade inorgânica (o próprio Tomás de Aquino a aceitou. e desses erros não se eximem inclusive os grandes. Na verdade. Tais factos são constantes na filosofia. a penetrar em campos filosóficos que cabem a outros trabalhos. No primeiro caso. o pensamento pitagórico só em nossos dias está sendo reconstruído pela acção de estudiosos devotados. o que nos levaria. Portanto. isto é. as propriedades não estavam presentes em acto nos componentes. No segundo caso.172 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES visão falsa de Pitágoras. se aqui a estudássemos. Também admitiam os escolásticos maiores até uma heterogeneidade específica. Mas desde o momento que a unidade apresenta propriedades outras que as do componente. temos o surgimento de propriedades resultantes da agregação. (1) A heterogeneidade dos componentes permanece na unidade. embora não totalmente. estamos em face do surgimento de uma nova substância. aquela deve ter como propriedade as constantes dos componentes. LIVRO II (1) Essa visão falsa é compreensível pelo facto de Tomás de Aquino conhecer o pensamento pitagórico através de Aristóteles.

ou qualquer intermediário entre o ar e o fogo. No referente. II. dizem que ela é múltipla 329a em número: para uns. enquanto outros. é o fogo e a terra. A geração e corrupção.TEXTO DE ARISTÓTELES II — 1 CAPÍTULO I I. já que êle é forçosamente sensí- . acrescentam a água como quarto elemento. quanto à matéria que serve de substracto a tais corpos sensíveis. explicamos como são eles propriedades das coisas que mudam naturalmente. afinal. à acção e à paixão. ao contrário. explicamos sua natureza e a diferença que a separa da geração e da corrupção. fazem decorrer a geração e a corrupção das coisas. Que. matéria corpórea e separada. cuja constituição é natural. Falta ainda estudar o que chamamos os elementos dos corpos. como 35 sendo um corpo e dotado de uma existência separada. ora por qualquer outra transformação. explicamos como elas existem e por quais causas. à mistura. III. pois é impossível que tal corpo seja sem con. os corpos primeiros materiais 5 sejam chamados de bom direito princípios e elementos dos seres. que é o ar ou o fogo. com efeito. aos quais acrescentam o ar como um terceiro. não se efectuam independentemente dos corpos sensíveis. por exemplo. tanto absolutas como relativas. são esses dois elemento. para outros. para todas as substâncias. ou da alteração desses elementos. como Empédocles. ademais. Igualmente também falamos 30 da alteração. pois. Outros.10 trariedade sensível. tal se pode aceitar: são eles. quanto à geração e à corrupção. ora por união. Mas os filósofos que admitem uma matéria única fora dos corpos que acabamos de mencionar. erram. Mas. cujas mutações. têm por resultado a geração e a corrupção. alguns filósofos a consideram única: afirmam. e da união e da separação. ao contacto. pois. ora por separação.

do qual são elas alteração.176 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 177 vel. as. mas que essa matéria não é separada. E em terceiro lugar somente. e. que o que há de mais verdadeiro é afir. 2) que os elementos derivam. que é matéria do frio. e que é ela sempre acompanhada de uma contrariedade. que são seres compostos de partes naturais. derivam uns dos outros de maneira semelhante ou b) se há um elemento primário. embora sólidos. o que é. de perseitas. um composto de matéria e de forma. nesses seres. são por eles reduzidos somente a superfícies. o fogo. das quais há geração e corrupção. pois Platão não disse claramente se o receptáculo universal existe separado dos elementos. para alguns filósofos. se são engendrados. portanto. em segundo lugar. São somente as coisas sujeitas à alteração que tiram o seu nome do substracto. é o sujeito dos contrários. os elementos. Consideram tais filósofos. isto é. cm suma — não se realizam independentemente dos corpos sensíveis.". mas é impossível que superfícies sejam a "alimentadora" e a matéria prima. sobre os quais já falou. as contrariedades (entendo.15 to anterior ao que chama elementos. esse infinito. devemos considerar. pois não é nem o quente. Dizemos que existe uma matéria dos corpos sensíveis. A matéria. expressa desse modo. neste caso. sem primeiramente estabelecer o que são os "elementos dos corpos". as anomeomérias. ao contrário. E. Como comenta Tricot "a vida não sobrevém. o princípio a colocar em primeiro lugar.plantas e os animais. Contudo.20 mar que cada objecto de ouro é ouro. tem Ar. a matéria que. o fogo. pela aparição de uma simples psykhê. mas. de cuja união ou separação e da alteração de tais elementos surgiriam a geração ou a corrupção das coisas. contudo. única (o ar. estudar e responder a algumas perguntas. de onde procedem. e que nenhum deles é anterior aos outros.. com per seitas. a tal comparação. Por conseguinte. não podem comportar-se assim. o tema das próximas lições deste livro II. etc. é. uns dos outros. por outro lado. pois esses elementos se transformam uns nos outros. devemos igualmente acrescentar algumas precisões sobre este tema. Outros aceitam uma multiplicidade de princípios. Uma definição mais precisa dessas noções foi dada em outro trabalho. mas de uma eupsykhê soma. ou um intermediário entre esses). de perseitas. V. deve ser leve ou pesado. Platão diz. as Iiomeomérias. mas sempre considerada como um corpo e dotada de existência separada. cuja constituição é natural. Com efeito. o que é descrito no "Timeu" não oferece nenhuma precisão. é o que é em potência um corpo sensível. Em que consiste essa alma. que nasce e que morre. II — A corrupção e a geração para lôdas as substâncias. eis a pergunta que coloca Ar. que alguns filósofos asseguram ser o princípio das coisas. repetimos. não sendo separada. de existência separada. a alma que informa o corpo do qual é ela inseparável. que serve de substracto a tais corpos. tais como: a) se cada um dos elementos existem realmente. nem o frio que o é do quente. Não poderia êle penetrar nesse estudo. enquanto os contrários não se transformam uns nos outros. e se contentou em dizer que é um substrac. as coisas. todos. por um processo cíclico (kyklô). como o ouro para as obras de ouro. IV. mas é o sujeito que é matéria para um e para outro contrários. — seres vivos. falta-lhe precisão. em terceiro lugar. Mas já que é também assim que nascem da matéria os corpos primeiros. que a prote hylê seja corpórea e dotada. que respondem às perguntas antes propostas. Com essas duas teses. frio ou quente. é dela que provêm os elementos assim chamados. erradamente para Ar. A tese que Ar. a água e os diversos elementos dessa espécie. por exemplo o calor e a frialdade). não fez também nenhum uso dele. pretende provar é a seguinte: 1) que os elementos só existem como determinações de uma prote hylê. e se. pretende agora Ar. 25 30 35 329b . como princípio e como primeira. desde logo. uma archê. Reexposição comentada II — 1 I — Depois de dar uma rápida sinopse do que empreendeu no livro I. e não se comportam como Empédocles e outros filósofos o pretendem (pois a alteração não seria possível). isto é. E contudo. de uma matéria prima.

e não ouro. A matéria é matéria de. que não é ouro. é o sujeito dos conlrários. enquanto os contrários não se transformam. com efeito. Em segundo lugar. mas de ouro. Ademais demonstra Ar. é rectificado por Ar. Platão não se exprime. em certo sentido. o sempre é acompanhada da eontrariedade. pois estas podem ser decomponíveis em linhas. como já vimos mais acima. Ela não é separada. É o exemplo de Anaximandro. transformáveis uns nos outros. funcionalidade que a revela como potência. Mas.. estudou bem essas noções. o que não se dn com o àpeiron de Anaximandro. 0 argumento de Platão. mas ao contrário. convém citemos Tricot. IV — É o que sucede com Platão que não diz se esse substracto anterior existe separado dos elementos. V — Expõe Ar. às quais faltam a precisão (non dixit manifeste et determinante).. comentando esta passagem. como já foi visto. que compendia os comentários de Tomás de Aquino: "Nessas diferentes passagens.pois é a matéria de todas as qualidades. pois a matéria é o que é em potência. de massein. Ar. Numa geração simpliciter (aplôs) dá-se outra coisa. as linhas em pontos. uma massa amorfa e plástica. amassar). senão por metáforas. que são deles resultantes. ou uma m ã e " (princípio mater). as coisas em que há geração e corrupção não podem comportar-se assim. um corpo sensível. Na "Física". Mas o erro que evidencia Ar. O princípio material. Esse infinito deverá apresentar contrariedades. . ora como uma alimentadora (tithene) ou um suporte (hypodokhê). que formam uma eontrariedade sensível. pois não são apenas as coisas sujeitas à alteração que tiram o seu nome do substracto do qual são elas alteração. que a matéria primeira (prôte hylê) v a eontrariedade (eidos e stéresis) são os princípios dos elementos. pois uma estátua de ouro é de ouro. não sendo separada. principios dos seres. e para precisar certos pontos. pois é impossível que um corpo sensível se dê sem eontrariedade. como tais. o "recepláculo universal" (pandekhes). no entanto. afirma que o princípio é a matéria que. que um objecto de ouro é ouro. pois é uma simples alteração do substracto. que é impossível que as superfícies sejam a pandekres.178 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 179 III — Aceita Ar. consagradas ao estudo do princípio material. Os elementos são. é concebido ora como uma portador de marcas" (exmageion. que atribui ao àpeiron a eorporeidade em acto. Ar. está em considerá-los como corpos c não querer admitir que. afirma a sua improcedència. e que de suas mutações surjam a geração e a corrupção. " 0 pandekhes é absolutamente indeterminado (extòs eidôn). à maneira de uma matéria primeira. pois a mutação é substancial. estão caracterizados pelas qualidades contrárias.. mas Platão não precisa se é um simples continente ou o consistente dos elementos". Comentando-a. que sejam tais corpos. é substracto das contrariedades.

15 enquanto tangível. É. nem igualmente qualquer das outras contrariedades sensíveis constituem. também. e uma contrariedade segundo o tacto. III. Em conseqüência. com efeito. a visão é anterior ao tacto. ou em outras palavras. com efeito. não são chamados pesados ou leves porque 5 . o pesado e o leve 20 não são activos nem passivos. mesmo assim.TEXTO DE ARISTÓTELES II — 2 I . por sua natureza. CAPITULO II II. é claro que não são todas as contrariedades que constituem as formas e os princípios dos corpos. Todos os outros filósofos. entre as diferenças e as contrariedades tangíveis. nem a doçura e a amargura. os colocam e deles lançam mão. Dessas contrariedades. IV. e qual é seu número. mas enquanto outra coisa. por que nem a brancura nem a negrura. com efeito. de tal forma que seu substracto é também anterior ao do tacto. distinguir as que são primeiras. Eis. Os corpos. a questão de saber que espécies de contrariedades são os princípios dos corpos. Mas não resta colocar. tangível. Mas respondemos que o substracto da visão não é uma qualidade do corpo tangível. que os corpos primeiros são diferenciados. mas 10 somente aqueles que se fazem por contacto. Já que procuramos os princípios do corpo sensível. viscoso-friável. duro-mole. pesado-leve. dir-se-á. sem explicar por que são aquelas ou por que são em tal quantidade. segundo uma contrariedade. um elemento. sêco-úmido. mesmo se esta outra coisa é. E contudo. anterior ao substracto do tacto. em nada. V. grosso-fino. e que o tangível é o que está em contacto com a percepção. rugoso-polido. é preciso. de início. As contrariedades que se relacionam ao tacto são as seguintes: quente-frio.

mas enquanto outra coisa. quente ou frio. e a outra do úmido. mas o substracto da visão não é uma qualidade do corpo tangível enquanto tal. ora de outro. segundo o tacto. com efeito. o duro e o mole e os outros derivam do úmido e do seco. IX. VI. VII. enquanto o frio c o que reúne e agrega indiferentemente coisas homogêneas e heterogêneas. estudar as espécies de cotrariedades e o seu número. inversa- mente. 25 não é. pois há mistura e transformação recíproca. úmido ou seco. é de reunir as coisas da mesma classe. facilmente delimitável e esposa o que está em contacto com êle) e que também para o fino. enquanto o dessecado é o que perdeu sua umidade estranha. sendo facilmente delimilável por outra coisa. o seco é oposto ao molhado. Com efeito. Ao contrário. por sua natureza. II — Nos corpos sensíveis. e o friável. o quente é o que reúne as coisas do mesmo gênero (pois o facto de separar. e que o dessecado. III — Pode dizer-se que a visão é anterior ao tacto. É claro que todas as outras diferenças se reduzem às quatro primeiras. Os termos seco e úmido apresentam diversas significações. por exemplo. Os corpos são diferenciados por uma contrariedade. com efeito. e que o dessecado. nem o úmido. pois o friável é o que é completamente seco. Ora. quer do úmido. e o condensado é seco). ora de um. e. VIII. quer do quente. . do seco. enquanto o condensado é o que perdeu essa umidade interna: daí resulta que essas duas qualidades derivam também. o úmido e o condensado têm uma mesma derivação: o úmido. O que é apenas captado pela visão e pelo sabor não constituem um elemento. O grosso e o fino. derivará do seco no primeiro sentido. o que não é feito pelos outros filósofos. XI. as diferenças são em número de quatro. Pois que. e o grosso do seco. X. Mas todas essas qualidades derivam do seco e do úmido em seu primeiro sentido. o fino é tal ao supremo grau) é manifesto que o fino derivará do úmido. como a sua forma. já que a expansividade pertence ao úmido (pelo facto de não ter forma determinada. não são todas as contrariedades que constituem as formas e os princípios dos corpos. uma do seco. Reexposição comentada II — 2 I — Propõe-se Ar. e a segunda. e o que se compõe de pequenas partes é expansivo. por essência. seja anterior ao substracto do tacto. mesmo que essa coisa. o viscoso deriva do úmido (pois o viscoso é um úmido que sofreu uma certa modificação. embora o mole derive do úmido) e o duro derive do seco (pois o duro é o condensado. o viscoso e o friável. ao úmido. ao contrário. há expansividade (pois é composto de finas partículas. mas também o molhado. ora. pois ao seco se opõe. XII. é preciso que os elementos sejam reciprocamente activos e passivos. é o que contém 20 uma umidade própria (o embebido. o que explica também por que o úmido não é mole. pois. não porém. Por sua vez. o que tem uma umidade estranha penetrada profundamente). o quente e o frio. enquanto o seco é o que é facilmente delimitável por um limite próprio. a tal ponto que a sua solidificação é produto de uma falta de umidade. que lhe é oposto. se opõe. estando inteiramente em contacto com o todo que o contém. por essência. Necessariamente. Ademais. com efeito. o úmido e o seco são termos cuja primeira dupla é activa. mas apenas aquelas que se realizam pelo contacto. passiva. e o molhado é o que tem uma umidade estranha 5 sobre a sua superfície (o embebido é o que é penetrado profundamente). o que é. É evidente que o molhado derivará do úmido. nem o frio e o seco não são formas derivadas. Com efeito. Por sua vez. que se atribui ao fogo como funcção essencial. como o faz precisamente o úmido. é o que perdeu sua umidade estranha e é evidente que o molhado derivará do úmido. Por outro lado. o úmido é o que é indelimitável por um limite próprio. pelo deslocamento total. o azeite). mas é dificilmente delimitável por outra coisa. mas essas não são reduetíveis a um número menor: nem o quente. o mole deriva do úmido (pois o mole é o que obedece à pressão ao se contrair. mas também o condensado. não somente o seco. pois que dele resulta a expulsão dos elementos estranhos a essa classe.182 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 183 actuain sobre um outro corpo ou porque sofram a acção de um outro corpo. mas que é. não somente o úmido.

E essas quatro duplas são atribuídas. O fogo. frio-sêco. e o número desses corpos coaduna-se à lógica de nossa teoria. E Ar. a água. o qual é ser tangível. V — O leve e o pesado não são activos nem passivos. quente e úmido. Para os que professam que há apenas um. a saber o ar e a água. "definiuntur enim per passiones eorum". como já vimos. supõem-nos. como uma conseqüência lógica de nossa teoria. constitutivas dos elementos. aos corpos que parecem simples. II. frioúmido. Todos os filósofos. os outros seres por condensação e rarefação. são conduzidos a colocar de facto dois princípios. VIII — Cita Ar. Como diz Tomás de Aquino. a terra. o fogo e a terra) consideram os elementos intermediários. inversamente. não podem. as outras qualidades que derivam do úmido e do seco. pois são essas qualidades que são as forças ordenadoras. Da mesma maneira procedem aqueles que admitem três elementos. misturas desses elementos. o ar. VII — O úmido e o seco são passivos pela própria definição. ora três. considera o "meio" uma mistura. ou melhor: o quente e o frio. portanto. em virtude de sua natureza. pois os corpos são determinados apenas pelos contrários que surgem ante o tacto. que consideram os corpos simples. IX — Este tópico é claro e é uma decorrência do que ficou acima exposto. ora quatro. e.184 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES E a razão está em que as qualidades sensíveis pela visão não constituem a essência do corpo. E termina por estabelecer que os elementos devem ser activos e passivos. o fogo. então. é evidente que serão em número de quatro as conjugações de qualidades elementares: quente-sêco. quente-úmido. pois são definidos pela própria passividade. ora um. a água e a terra. seca e úmida). o que é necessário para que haja transformação recíproca. pois tais aspectos já estão melhor estudados na ciência actual. como elementos. (o ar como uma espécie de exalação). é quente e seco. à maneira de Platão que. IV — Entre as diferenças e as contrariedades tangíveis. ora dois. enquanto o Um lhes serve de sujeito como matéria. a saber. Já que as qualidades elementares são em número de quatro. mas que. em suas divisões. Têm um valor histórico na filosofia. Mas os filósofos que desde o início colocam dois elementos (tal Parmênides. o raro e o denso. os contrários. fria e úmida. exemplifica: o fogo tem uma funcção unificativa. com esta única diferença que os primeiros cortam em dois o . com efeito. o ar. e que esses quatro termos podem ser combinados em seis conjugações. e que engendram. assim também o frio. Não são. com efeito. E há quase identidade entre as doutrinas dos que aceitam dois elementos e os que aceitam três. TEXTO DE ARISTÓTELES II — 3 I. fria e seca: alcança-se assim a uma distribuição racional das diferenças por entre os corpos primários. ser inatos (pois a mesma coisa não pode ser quente e fria. X a XII — São igualmente claros e implicados no que ficou exposto. como é exposto no tópico. VI — O quente e frio são activos e o úmido e o seco são passivos. é preciso distinguir as primeiras que as descriminadas no tópico.

água fria e úmida. E os elementos de cada conjugação são contrários aos da outra: ao fogo é contrário a água. o corpo simples. o fogo e a terra são os elementos extremos e os mais puros. que têm cada uma seu lugar: o fogo e o ar se dirigem para o limite. como Platão. Se. da mesma natureza que êlcs. ainda com os antigos "qui quaternarium numerum non transcendunt" (que não transcendem ao número quaternário). o segundo. como o quente e o frio ou o seco e o úmido. o quente. Na linguagem simbólica. os antigos "conveniunt in hoc quod non excedunt quaternarium numerum" (concordam neste ponto em que não excedem ao número quaternário). certos filósofos colocam. contudo. mas que não o são na realidade. a terceira. antes que o úmido. que. São quatro tangíveis qualidades (e não quatro corpos simples como alguns ex- põem). a água e a terra. o quente e o frio. III. e constitui a primeira conjugação. opõe todos os outros. aos corpos que são julgados simples. O fogo é quente e seco. Faz uma sinopse das teorias já conhecidas. para a água. os elementos. A rarefacção é devida ao quente. não porém idênticos: por exemplo. Concorda Ar. como o fogo. os agrupa em duas classes. Os corpos verdadeiramente simples são. 5 e para o fogo. terra fria e seca. a terra e a água. 25 Mas o fogo é um excesso de calor. Formam seis conjugações. des. II — Passa agora Ar. antes que o quente. são conjugações impossíveis. E também o concorda em certo sentido Aristóteles. salienta Tomás de Aquino que qualquer que seja o número dos princípios. do que desde logo se vê que restam apenas quatro conjungações possíveis. pois admitem que o primeiro princípio engendra os seres por condensação e rarefacção. o que ademais explica porque nada procede do gelo nem do fogo. o ar. combinadas em seis conjugationes (conjugações). mas cujos contrários. para o centro. a provar a sua teoria. pois essas qualidades são as forças ordenadoras. Finalmente. correspondente ao fogo. partilham-se em duas conjugações. O raro e o denso (rarefacção e condensação) são qualidades contrárias que actuam e sofrem adinvicen.20 de o início. é o frio. como o fêz Parmênides. quente e úmido. 4 o volume. a superfície. E os dois princípios que surgem são o raro e o denso.. Não quer tal dizer que o fogo. pois a congelação e a ebulição são respectivamente excessos de friura e de calor. tem cada um uma só qualidade própria: para a terra é o seco. que são contrários ex parte materiae. Quem admite dois elementos primários. enquanto a água e o ar são intermediários e mais misturados. como também símbolo dos quatro elementos. como o salienta Tomás de Aquino. a condensação. portanto. sendo em número de 30 quatro. antes que o frio. cada um deles é um mixto. o ponto. a linha. a terra. vê-se obrigado a estabelecer dois contrários extremos e um médio. IV. que afirma haver quatro qualidades elementares que formam quatro conjugações. como Empédocles. Quem aceita três. ar quente e úmido. como fogo e terra. como conseqüência lógica dessa teoria. São essas conjugações atribuídas. como ainda do activo e passivo dos opostos. o gelo é uma congelação do frio-úmido. o ar e cada um dos elementos que mencionamos sejam simples na verdade. com efeito. enquanto os últimos consideram um único elemento. falando de modo absoluto. ao frio. 3. sendo em número de quatro. para o ar. Essa classificação coaduna-se perfeitamente com a teoria de Ar. como o gelo um excesso de friura. E contudo. pois. a quarta. põe mais um fora da forma (ex parte formae) : grande e pequeno. ou melhor. a umidade. como o ar e a água. o fogo será uma ebulição do sèco-quente. Comentando esta parte. também símbolo da tetractys pitagórica (1. correspondente ao ar. Ademais. o corpo simples. Os que aceitam apenas um elemento são forçados a aceitar dois princípios. na categoria pitagórica dos contrários). frio e úmido. tem forma de fogo.186 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 187 elemento médio. e ao ar. frio e seco. quente e seco. porque é impossível o contrário permanecer no mesmo ente. dos vectores opostos. Os corpos simples. qualidades elementares. mas não é fogo. o mundo físico é simbolizado pelo número 4. pois esses elementos são 33l a constituídos de qualidades contrárias. quatro elementos. ao fogo. tem a forma de ar. 2. vê-se obrigado a aceitar intermédios. e assim por diante. antes que o seco. Reexposição comentada II — 3 I — Podemos nos elementos considerar quatro qualidades. . V.

portanto. como comenta Tomás de Aquino. havendo um intermediário. a geração é recíproca e que. com efeito. é quente e seco. e o segundo é úmido e frio). A natureza dos corpos elementares é a mesma. que. mas não é fogo. III — Empédocles e os seguidores estabelecem quatro elementos. úmido e frio). Que. V — Falando simplesmente. de uma parte. Dai resulta manifestamente 20 que. como o salienta Tricot. mas somente do frio e do quente. é mais intenso que o quente. a água é mais fria que úmida. excesso de frialdade. uma qualidade predominante e uma qualidade em intensidade menor. que quisesse Ar. e o outro. tem por termo os contrários. todos se transformam naturalmente uns nos outros. se é possível somente para certos dentre eles. TEXTO DE ARISTÓTELES II — 4 I. tem a forma do ar. afirmar que o ar fosse mais úmido que a água. A geração. a prote hylê. mas apenas que. cada u m desses elementos é um mixto. procederão de todos. do fogo virá o ar. e o fogo o quente ao seu maximum de intensidade. o ar. Todos. pois a congelação e a ebulição são respectivamente excessos. e o fogo. comentando este tópico.. cada. se consideramos os elementos em geral. Assim. Para certos elementos. Já foi estabelecido anteriormente que. pela facilidade e pela dificuldade de sua transformação. ou. para outros. e apenas elas constituem efectivamente os elementos. têm. e assim sucessivamente. Mas esses elementos são apenas "intensificações" das qualidades reais. 25 porque uma só coisa muda mais facilmente que muitas: por exemplo. e que. Tal aspecto já o fora salientado por Tomás de Aquino em seus comentários. de ma- . em comparação com o frio. como salienta Joachim. comenta Tricot. Joachim. e o que corresponde ao ar. que êle reduz a dois contrários. Com efeito. que eles são engendrados (do contrário não haveria alteração. os elementos. todo elemento vem. II. a teorias platônicas posteriores afirmam. O corpo simples. de outro elemento. mas para aquelas que não os têm. à Dyada infinita do Grande e do Pequeno.188 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES Em sua notável obra. no ar. uma somente das qualidades é contrária: tal é o caso do ar e da água (o primeiro é úmido e quente. como Philopon. o úmido. para essas a transformação é rápida. e se é possível que todos procedam de todos. pois opõe os outros três ao fogo. e todos os elementos possuem uma contrariedade recíproca. correspondente ao fogo. é manifesta até na sensação. tem a forma do fogo. O que há é certamente uma alusão. mais quente que seco. 15 uma como outra das qualidades são contrárias: tal é o caso do fogo e da água (pois o primeiro é seco e quente. nem do fogo. Tal não quer dizer. mais úmido que quente. III. que são quatro. é de grau intensista menor. para os corpos simples. não é difícil perceber de que maneira se faz essa geração. mas diferirão pela lentidão e pela velocidade. para as coisas que têm "símbolos" recíprocos. por natureza. se nós os tomamos individualmente. pelo facto de que suas diferenças são contrárias. se uma só das duas qualidades muda (pois o fogo. dizemos. O gelo é a água em seu máximo de potência. cuja matéria (terceiro princípio). mas não é ar. enquanto o ar é quente e úmido. mostra que Platão não professa absolutamente que existissem três corpos. IV — Este tópico é claro e o que é exposto é uma decorrência do pensamento j á analisado. seria um migma. como o gelo. ela é lenta. embora a sua intensidade de umidade fosse menor que o úmido da água. Para Ar. na conjugação das qualidades primárias. pois esta se produz segundo as qualidades dos objectos do tacto). e por ponto de partida. contrários. e impossível para outros. uma coisa não pode proceder do gelo. 0 fogo é excesso de calor. é evidente. a terra é mais seca que fria. ao mesmo tempo. por outra parte. é preciso explicar de que maneira 10 se efectua a sua mudança recíproca. com efeito.

de maneira que se o úmido é dominado. respectivamente. permanecem os contrários. e a terra. a geração é recíproca. e engendrados. pois permanece o quente em um e outro elemento. Dai resulta evidentemente que a geração. o fogo será. perece.35 mo tempo. e que esse modo de mudança é o mais fácil. é úmida e fria. E. por outro lado. se o quente é dominado pelo frio (pois o ar. Se se quer. porque há mudança de um maior número de qualidades. também. V. se. por sua vez. é quente e úmido. é preciso que.332a mentos derivam de todos. pelo facto de os símbolos se encontrarem contidos nos elementos consecutivos. quando há transformação de um só dos elementos consecutivos em um só. de maneira que. temos a terra. II — O que é naturalmente evidente é que se transformam um no outro. o quente do ar e o seco da terra tenham perecido. se o quente desaparece de um e de outro. Mas. do ar virá a água. e explicar o modo como se produz sua transformação recíproca. essencialmente constitu- 30 35 331b 5 10 tivas do fogo. que da água proceda o fogo. assim. fria e seca. Ar. por sua vez. encontram-se uma qualidade idêntica e uma qualidade contrária. explicar de que modo se efectua sua mutação recíproca. sejam destruídos. não é possível que da destruição de uma qualidade em cada um desses dois elementos resulte uma mudança em qualquer dos corpos simples. Essa geração exige. dizíamos. por outro lado. e o fumo é constituído de ar e de terra. e. se o calor muda. A sensação confirma também esse modo de geração do fogo: a chama. alternativamente. mas a chama é o fumo que 25 queima. por sua vez. graças à supervivência do quente do ar e do seco da terra. teremos a água). portanto. para os corpos simples. VI. afinal. pois têm. o fogo e a água virão da soma do ar e da terra. se uma qualidade. pois esta se produz nas qualidades. Mesmo processo igualmente. Reexposição comeniada 15 II — 4 I — Já estabelecera Ar. O mesmo se dá nos outros casos: em todos os elementos consecutivos. mas quando o úmido do ar e o frio da terra tenham perecido. ao contrário. há transformação de ambos esses elementos num só. é preciso que antes sejam destruídos tanto o frio como o úmido. símbolos. a geração se efectua pela destruição de uma única qualidade. O restante do tópico é claro no autor e dispensa reexposição. ambos.190 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 191 neira que se o seco é dominado pelo úmido. se o frio perece. Por outro lado. embora mais fácil. na conjugação dos elementos. a terra será. tanto o frio como o seco. qualidades idênticas ou contrárias. já que o fogo é seco e quente. que. Quando. Vimos. qualidades. e da terra. da água e da terra em fogo e em ar. de cada um desses elementos. o fogo. Da mesma maneira. da água virá a terra. embora possível. e da soma do ar e da terra resultarão. e se se quer que. o fogo e a água. o ar será (pois resta o quente do ar e o úmido da água). se do fogo e do ar vêm a água e a terra. graças à supervivência do seco do fogo e do frio da água. e ao mesmo tempo manifesta aos sentidos. mas da soma do fogo e da água resultarão. mas quando o quente do fogo e o úmido da água tenham perecido. e se possível que todos procedam de todos. será circular. Daí resulta ao mes. com efeito. da terra venha o ar. com efeito. com efeito. a transformação. que para os corpos simples. Propõe-se. por sua vez. o frio da água e o seco do fogo tenham perecido. mas nenhum corpo simples tem possibilidade de ser constituído. quer de qualidades idênticas. a água será (pois resta o úmido do ar e o frio da terra). quando se trata de dois elementos consecutivos. a terra e o ar. se o seco do fogo 30 e o úmido do ar pereceram. 20 . estabelecer que todos esses ele. A água. de antemão. IV. com efeito. e impossível a outros. um tempo maior. é. ou se tal é possível apenas a alguns. é o fogo por excelência. Quando. necessáriamente as duas qualidades mudarão. Contudo. e do ar cm terra. quer de qualidades contrárias: tal será o caso. a geração se efectua pela destruição de diversas qualidades. com efeito. mais acima e no livro "Peri Ouranou" (De Caelo). fria e seca. não é recíproca. Mas. dizemos. com evidência. enquanto que a água é fria e úmida. alternativamente. a transformação do fogo em água. pois do contrário não haveria alteração. teremos o a r ) . Da mesma maneira também. a saber o seco e o úmido. o fogo tornar-se-á terra. mais difícil. com efeito. e a terra. porque permanece.

para fogo (quente-seco). V — Expõe agora Ar. como o sintetiza Tricot. este tópico de reexposição. complementamos a nossa teoria da maneira seguinte: se os corpos naturais têm por matéria. a mesma para ambos. se. ou fogo. por exemplo de um corpo que seria intermédio entre o ar e a água (mais espesso que o ar. IV — Neste tópico. . com o seco. e o ar será alguma coisa 15 fria. a água. não é seguramente um corpo. por eleminação do frio e do úmido) ou água (por eliminação do quente e do seco). por sua vez. A eliminação daria frio -f frio e seco + úmido. . constituir o ar: o quente do ar e do fogo são symbola". por ex. Ar. o quente do ar pode. num e noutro caso. e o outro membro dessa contrariedade. digamos. p a r a Ar (quente-úmido). ser todos ar. pela eliminação de duas qualidades.. o terceiro modo de transformação dos elementos. e o quente do fogo pode. com efeito. água + ar. Acrescentemos que ninguém supõe que um elemento único possa subsistir de tal modo 10 que seja simultaneamente água. assim como ar ou outro qualquer elemento. distinta de um e do outro. . já que a mutação tem lugar em direcção aos contrários. Todo o resto do tópico é a exemplificação e exposição do que havia Ar.água (frio-úmido) e Fogo (frio úmido . entende por symbola factores complementares. ou dois. Todo o restante do tópico é uma explanação do que Tricot acabou de sintetizar. . O fogo e o ar serão. como também alguns filósofos o crêem. ou um número maior. haverá apenas alteração e não geração. fossem ar. é impossível. expõe Ar. o segundo modo de transformação dos elementos. a mesma coisa seria simultaneamente quente e fria. atribuído ao ar. Mas termina Tricot por aceitar a de Tomás de Aquino: "convenientia in aliqua qualitate". o que. em outras palavras. Mas não podem ser todos um só elemento. II. Fogo (quente-seco) -f água (frio-úmido) = terra (por eliminação do quente e do úmido) ou ar (por eliminação do seco e do frio). Ar (quente-úmido) + terra (frio-sêco) = fogo. pois. Aceitemos que seja terra + água. TEXTO DE ARISTÓTELES II — 5 I. A respeito dos elementos. distinto desses quatro elementos. O mesmo raciocínio aplica-se a todos os elementos: prova que não é de um só dentre eles que todos provêm. pois está todo contido na matéria já exposta. por exemplo. VI — Também este tópico não oferece dificuldades. por exemplo. . que nele está expresso (symbola) no plural. uma certa contrariedade. III. pois uma mudança dessa natureza é uma alteração. . então. haverá alguma matéria. "mutação da soma de dois elementos não consecutivos em um ou outro dos elementos restantes.. então. fogo + terra). e comum a ambos. Ar (quente-úmido) . pertenceria a um outro elemento. com o úmido. . E mais adiante: " . assinala mais adiante que esse modo de transformação não actua se os elementos são consecutivos (terra + água. pela conversão das duas qualidades elementares em seus contrários. Por conseguinte. . pois. assim. será pela transformação do quente em seu contrário: esse contrário será. o ar torna-se fogo. ar + fogo. proposto. constituir o fogo. ao mesmo tempo. Essa mutação é mais difícil que a precedente: Fogo (quente e seco) para . o calor. Citemos Tricot: "Ar. 5 esses elementos são necessariamente ou um. Se todos. uma diferença. e não é ademais o que mostra a experiência. Haverá. em sentido inverso.192 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES III — Desnecessita. ou terra. ou água. pois. a definição de Robin é muito mais precisa: "um sinal de reconhecimento. se o ar subsiste. na realidade alguma outra coisa. manifestação de uma solidariedade de direito". mas mais subtil 20 .. Mas o fogo não será certamente ar quente. Mas além disso. e é apenas um desenvolvimento claro das idéias já expendidas. salvo examinar o termo símbolo. é impossível para o fogo ser ar quente. p a r a terra (frio-sêco) e Terra (friosêco) . tomadas em cada elemento. o ar e os elementos dessa sorte. o fogo.

ou. c) o ar.. como Platão o descreveu no "Timen". pois o fogo é quente. Em síntese. que a mutação tem lugar para os contrários. eles devem ser quatro. indeterminado. E já que 35 observamos que. Ora. e o fogo seria ar quente. Ora. seria pois o quente. pois um contrário é privação do outro. é susceptível de tornar-se ar ou fogo se se lhe ajunta uma conjugação de contrários que caracterizam um e outro desses elementos. Se. e não geração propriamente dita. não im. sendo uma privação. e foi também estabelecido que a rapidez com a qual um elemento vem de outro. inevitavelmente esses elementos serão em número de dois.194 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 195 que a água). matéria não sensível e não separada. b) é contrário à experiência. isto é. pois a matéria é simples intermediário entre os dois contrários. o ar deve ter uma qualidade contrária a uma qualidade do fogo: seria. pois. é impossível por uma tríplice razão: a) seria uma alteração e não uma geração. ou eles persistem sempre e são intransformáveis uns nos outros. a contrariedade. 30 que haja necessariamente transformação recíproca dos elementos. o que é absurdo. pois.332b vel que haja apenas três elementos. nada de sensível ao menos existe anteriormente a esses elementos. já que é dado que certos elementos. o frio. e será. segundo a qual os elementos são transformados é uma em número. IV — Este tópico é também e apenas uma reanálise dos pontos. não é possí. III — É claro este tópico. Mas. em razão de suas qualidades reciprocamente contrárias. não é sempre a mesma. com efeito. conseqüentemente. na verdade. que Ar. quer alguns dentre èlcs. como o pretendem alguns filósofos para o infinito e o meio ambiente. mas um dos dois contrários. por exemplo. quer todos sem excepção. Se. O argumento de Ar. que possuem um símbolo. e frio. se se lhe ajuntasse uma conjugação de contrários. não pode ser indeterminado. ou não existe nada. ar. se. Necessariamente pois. quer referir-se ao àpeiron de Anaximandro. Tricot. devendo nós apenas salientar. o que observa tantas vezes Ar. comenta o restante do tópico com estas palavras que convém citar: "Seja o ar que se muda cm fogo por simples alloiosis (alteração). que tem uma qualidade contrária. na verdade. mas mais subtil que o ar). é este o comentário de Tomás de Aquino. transformam-se mais lentamente. transformam-se reciprocamente mais depressa que outros. tornarse-ia ar e fogo. e se o infinito não é quente. não será. por ex. Como a mutação tem lugar necessariamente de contrário a contrário. e então o fogo será quente enquanto fogo. Esse suposto intermediário. Mas se elas são duas. pode aí haver seis. fosse. não resultaria daí que esse intermediário jamais poderia existir sozinho. enquanto ar. Eis porque existe indiferentemente. seria frio. neste caso o ar subsistiria e não haveria senão alteração. ou entre o ar e o fogo (mais espesso que o fogo. é necessariamente frio. assim como surge com toda evidência: tal é. portanto. e permanecendo totalmente ar. não existirá à parte dos contrários. pois. com efeito. é o que foi demonstrado anteriormente. merecendo apenas uma explanação na parte final. Reexposição comentada II — 5 I e II — Dispensam estes tópicos uma reexposição. todos eles serão o princípio. e o ar transformado em fogo.25 porta qual dos elementos. Se tudo . as contrariedades devem ser ao menos em número de dois. um ou outro dos elementos. sofrem transformações. já examinados nesta obra. VI. fundado em Joachim. os elementos são mais de dois. que não os possuem. duas conjugações são irrealizáveis. com exclusão de outros. teoricamente. então. A diferença entre o ar. é sintetizado deste modo por Tricot: Sendo o àpeiron indeterminado. o número das conjugações.

Êssc elemento-princípio não poderia exislir também no meio. poderá haver aí mudança em água. não sendo os elementos extremos. a água será úmida e branca. Da mesma maneira. Um tal elemento não existiria nas extremidades. Esses pontos foram examinados acima.se muda. para todos os elementos.TEXTO DE ARISTÓTELES II — 6 I. o ar por A. Mas. Agora se quando A se muda em H. por termos. a seguir. sendo dada a transformação recíproca dos elementos. em linha recta. transformados um no outro. a água será ou branca ou negra. S. III. e a seguir seco. pois a mudança tem. o branco subsiste. S figuraria a secura e H a umidade. úmida. IV. senão um número infinito de contrariedades se aplicaria a um só elemento. Daí resultará que. à maneira como supõem certos filósofos que o ai. os contrários. Pois é preciso deter-sc bem. pois possui as qualidades contrárias às da água. Admitamos que esses contrários sejam a brancura e a negrura. Figuremos a terra por G e a água por H. pois. Admitamos que ela seja branca. o fogo por E. haverá uma contrariedade atribuída a A e E. a água será negra. de início. negro. Por sua vez. pertencerá a E. pois o fogo era. mas se não subsiste. A se muda em E e H. tanto em ar como em terra. ser um princípio para os outros (quer o tomemos na extremidade ou no meio). Seja a secura e a umidade essa segunda contrariedade. e não se pode ir até o infinito. é o que iremos tornar evidente. é impossível. a secura. numa e noutra direcção. digamos. a um qualquer dentre eles. e. É pois evidente que. poderia aí haver transfor5 10 15 20 25 . tanto em fogo como em água. pois. ao contrário. haverá uma outra contrariedade A e H. para o próprio fogo. branca. Necessariamente. e a água. e a água. II. se A se muda em H. Se. pois H e E não são idênticos. pois todos os elementos seriam fogo ou terra. pois. e esse raciocínio tornaria a sustentar que todos são constituídos de fogo ou de terra.

figurado por E. e a P. que esse último ponto não foi ainda demonstrado. a terra. o fogo. Se. Admitamos que a E pertença K. se os intermediários são infinitos em número. será atribuída ao fogo e a P. em qualquer outro elemento que os quatro. mas ainda ao fogo. com efeito. pois os elementos são infinitos.. todas as contrariedades dos elementos acima de E devem pertencer àqueles que estão abaixo. como exemplificação do que já expôs Ar. como dois extremos. A. Se tomarmos os elementos como extremidades. mas. que o fogo e a terra. por sua vez. por exemplo. escreve Tricot: "Não se sabe a quais filósofos faz Ar. que daí resultará que. Admitamos. todos os elementos se tornarão num só. Então K será atribuído a todos os quatro elementos G. mostrar que é impossível a qualquer dos elementos ser princípio dos outros. a terra e o fogo. uma outra contrariedade será atribuída. apesar das transformações. Ademais. não haverá nem definição. por exemplo. De qualquer forma. fossem princípios. a E. pois êlcs se transformam uns nos outros. em face do que já foi examinado por Ar. elemento figurado. por outra parte. Se se quer. E igualmente. P transformou-se em outro elemento. as contrariedades em número infinito serão atribuídas também a um só elemento. Negam. pois não foram ainda conjugados. facilitam a compreensão clara e fácil destes os tópicos. de maneira que todos os elementos não serão mais que um. e que. Ora. pois. não haverá até mutação do ar em fogo. não se transformam um no outro. pois. e os dos elementos abaixo. portanto. E. 35 333a 5 10 15 . O mesmo se daria se fosse a água. comentando este tópico. H. III e VI fisles tópicos. desde que se aceite que há uma transformação recíproca. no primeiro caso. II. e para baixo. Tomás de Aquino. em terra. G. não oferecem dificuldades à compreensão do leitor. VIII. Ademais a reexposição feita nas licções anteriores. jamais a mutação se produzirá. propomo-nos de demonstrá-lo. para o alto. toda adicão de um novo elemento levará à atribuição de uma nova contrariedade aos precedentes elementos. VII. e.198 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 199 mação recíproca. R. contudo. será preciso atravessar uma tão grande quantidade de contrariedades. P. diferente de as que havíamos mencionado. por sua vez. E. como já o demonstrou mais adiante (II-5). A. superior mesmo a todo número determinado. VI. é inevitável que o sejam. de maneira que se os elementos são em número infinito. como o fogo no alto. Que não seja possível ir ao infinito. no meio. de qualquer maneira. e todas as coisas seriam fogo. antes da digressão que acabamos de fazer. acrescenta que há impossibilidade. em ar. conteria também os dois símbolos restantes. o que é manifestamente falso. e. neste tópico. ao menos nos exemplos que tomamos. são somente a P. por P : uma nova contrariedade. no sentido de certos elementos. nem geração de um elemento qualquer. com efeito. e as análises que já procedemos. Se é assim. que um elemento proceda de um outro. cm terra. àqueles que estão acima. se. e a água. sua doutrina seria esta: o ar se transforma para o alto em fogo. se as contrariedades são em número infinito. razão pela qual deixamos de reexpô-los. alusão aqui. para baixo. a saber o negro e o úmido. Reexposição comentada II — 6 30 I — Propõe-se agora Ar. elementos extremos. é claro que.. Enfim. permaneceria sempre fogo. mostrará que é evidente que tal transformação não se poderá dar. o ar e a água. com efeito. e a terra em baixo e. e eis o que o prova. G. II --• Sintetizando o que pretende dizer Ar. V.. a mutação circulai' e se encontrariam na necessidade de proceder até o infinito". se transforma sem voltar atraz. supõe-se que não há identidade entre um qualquer dos quatro elementos.

que seja de um calor igual ou semelhante tal quantidade de fogo comparada com uma quantidade múltipla de ar. colocados como intransformáveis. III. não somente por analogia. é necessário que alguma coisa idêntica pertença a todos os elementos comparáveis e sirva para medi-los. embora não o sejam. se um cotilo de água possui um poder de resfriamento igual 25 ao de dez cotilos de ar).TEXTO DE ARISTÓTELES II — 7 I. proceder por analogia. mas por uma medida de suas potências. De que maneira lhes é possivel sustentar que os elementos são comparáveis. pois são medidos pela mesma unidade. Mas se se quer dizer que os elementos não são comparáveis na ordem da quantidade no sentido de que tal quantidade produziria tal quantidade da outra. a semelhança. É assim manifestamente absurdo que os 30 corpos simples. haveria então algo de idêntico para um e para outro elemento. na quantidade. E contudo Empédocles exprime-se assim: "Pois esses elementos são todos iguais". Se se quer dizer que eles são comparáveis 20 na ordem da quantidade. a igualdade. a exemplo de Empédocles. II. Por exemplo. se se torna maior em . sejam comparáveis. ou em outras palavras. Poder-se-ia também. IV. em vez de comparar suas potências pela medida de suas qualidades. se um cotilo d'água produz dez cotilos de ar. mas que são comparáveis no sentido em que estão em potência de actuar (por exemplo. Mas a analogia de uma coisa com uma outra significa. Pois. na qualidade. como quando se diz: da mesma forma que tal coisa é branca. mas enquanto possuem tal potência. mesmo assim são comparáveis na ordem da quantidade. professam a multiplicidade dos elementos dos corpos e ademais afirmam que esses elementos não se transformam reciprocamente. tal outra é quente. Causam surpreza aqueles filósofos. e. que. enquanto quantidade.

Além disso. mas muitas vezes foi de outro modo"). Qual é. Seu fogo. Mas tais crescimentos têm lugar por adição: ora. com efeito. que são engendrados naturalmente mostram todos. a Amisade pareceria ser mais contrária à natureza que o Ódio. parece bem que não é assim que crescem as coisas que crescem. e não a proporção. uma uniformidade quer absoluta. a causa da geração dos seres naturais é essa maneira de ser. na realidade. de mover de tal outra. a não ser que tenha êle querido dizer que a essência da Amisade seja de mover de tal maneira. pois. A causa em questão é. Assim pois. e é isso que constitui a natureza de cada coisa. no que concerne ao movimento. Não basta. o movimento natural move a terra para baixo e assemelha-se à separação. com efeito. para os próprios corpos simples. e do trigo. segue-se que o movimento natural pode também produzir-se. natureza da qual Empédocles não diz nada. "imerge sob a terra longas raízes". O ódio. Devemos dizer que se os elementos são compostos de tal maneira o osso nasce? Pois uma composição fortuita de elementos não engendra nada. nem repouso. o éter". E 5 simultaneamente. e a do ódio. em geral também. Empédocles se expressa de maneira bastante absoluta. pois pode existir uma mistura fortuita. com ou sem rigor. sob o reino do ódio. ou então ainda demonstrá-los. mas não é pelo Ódio que o éter foi levado para cima. o fogo erguc-sc sem constrangimento. Os seres. segundo a expressão de Empédocles. assim como o reconhecia Empédocles. E é muito mais difícil para êle dar conta da geração que se produz na natureza. e o ódio. mas é preciso uma proporção determinada. afirma que a ordem do mundo é a mesma agora. a causa dessa composição proporcional? Não é certamente nem o fogo nem a terra. ou bem considerar esses movimentos como hipóteses. ainda é isso que é a excelência de cada coisa e seu bem. E nesse sistema. não seria causa de nada? Ao contrário. senão por adição. Com efei- . e não uma oliveira. a substância formal de cada coisa e não somente "uma mistura e uma troca do que foi misturado". nem a Amisade nem o ódio. a menos que a Amisade ou o Ódio não os ponha em movimento. quer o mais das vezes. quer constante. tanto pelo constrangimento e contrariamente à sua natureza. sendo da mesma espécie que a primeira vez. 25 30 35 334 15 20 IX. com efeito. seria necessário ou bem definir. E contudo. e o éter. quer sempre.202 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES quantidade. se o primeiro motor deve ser um princípio do movimento em geral. portanto. ou de uma maneira qualquer. VII. sendo dado que os corpos simples aparecem movidos. VI. logo que Empédocles atribui seu movimento a uma causa semelhante à fortuna ("pois se notará que o éter estende-se assim. senão segundo a sua natureza (por exemplo. mais o Ódio que a Amisade que é sua causa. e o que o é ainda mais é que no próprio sistema de Empédocles os elementos se movem manifestamente. enquanto as coisas que estão fora dessa uniformidade absoluta ou constante nascem do acaso e da fortuna. separa bem as partes do Sphairos.10 posta de elementos ou que seja um deles. que foi outrora sob o reino da Amisade. antes. nenhum movimento. a causa pela qual do homem vem o homem. os elementos são separados não pelo ódio. terá sua proporcionalidade aumentada. e é pois. não há absolutamente. enquanto é somente a mistura que Empédocles glorifica. anteriores a Deus e que eles são também deuses. diz êle. ao contrário. É. de separação. o primeiro motor dos elementos e a causa de seu movimento? Não é. Qual é. mas desce por constrangimento). e que o movimento forçado existe. aumenta pelo fogo. em sua geração. Qual é. com efeito. V. E é a fortuna que "nesses casos é o nome dado". o mesmo ar ou o mesmo fogo. com efeito. então. Mas. essas são apenas causas de um movimento determinado. Mas. X. Ainda mais: o crescimento não seria sequer possível. Ademais. "E a terra aumenta seu próprio gênero. pois. já que os elementos são. Mas também não é a Amisade nem o ódio: a Amisade é somente uma causa de união. que o que é natural é contrário ao que se faz por constrangimento. de maneira que. com efeito. no sistema de Empédocles. por natureza. É estranho também que a alma seja com. o trigo. mas pela Amisade. dizer que a Amisade 35 333b 5 10 e o Ódio movem. esse último movimento de que a Amisade é causa? Ou. Mas é absurdo. ora assegura que é a natureza do fogo que o leva para o alto. ao menos porém. Ao contrário. Seu poema nada nos ensina "sobre a natureza". então. VIII. mas o éter.

Nas espécies a comparação por analogia preserva a irreduetibilidade dos elementos. no fim deste tópico.. naquele livro. é o intelecto para o espírito. Comenlários ao texto II — 7 I — Depois de esclarecidos os pontos principais desta obra de Aristóteles.204 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 205 to. é mais concreta. dez cotilos te-lo-ão dez vezes mais. enquanto fogo. como dialècticamente já vimos. mas qualitativa (Tricot). referindo-nos sempre ao número do texto. enquanto a dialéctica. daqui por diante. as mutações. os quais supõem um primeiro motor do movimento em geral. sem que tal posição queira. há uma igualdade de relações entre seres que pertencem a categorias diferentes. de modo algum. que acabamos de mencionar. É preciso que se note que Ar. considerar falsa a posição aristotélica. citada no texto. VII — Comenta aquele autor o fim deste tópico: "Empédocles não explica a natureza do movimento por seus dois princípios. como a extensidade é uma predominância do quantitativo sobre o qualitativo. como se produzirá a passagem do músico ao não-músico. da união. nas lições seguintes. por nós preconisada. ora. repousa na sentença de Empédocles. Nós aceitamos a irreduetibilidade antinômica. pois ela não é então quantitativa. Mas seria preciso então adoptar. como o expomos na "Ontologia" e em outros trabalhos nossos. pelo perigo que acarreta de cair no abstractismo. pode-se falar numa igualdade quando se comparam intensidades. pois a primeira não exclui a segunda. pondo-as. Ora. seguindo o pensamento aristotélico e sintetizando o comentário de Tomás de Aquino. Anota ainda Tricot. outra. considera a quantidade c a qualidade como categorias irreduetíveis. uma. compendiamos as notas de Tricot: Toda a argumentação de Ar. podemos salientar a nota de Tricot: Neste caso poderia haver aí transformação recíproca o que é contrário ao sistema de Empédocles. que é mais formal. responde Ar. e a proporção (logos. ratio) não será igual. IV a VI — Após a linha 25. da separação. nada mais são que causas segundas de movimentos particulares.. Neste caso. A proporção será. Calamos na igualdade. defini-las. portanto. uma atitude physikôs. torna-se desnecessária a reexposição. entre o ar e a água. se ela é um misto. se um cotylon dágua possui um poder de resfriamento igual a 10. as determinações que lhe pertencerão serão somente as do fogo. pois estas nunca excluem o que têm de extensivo. que deve ser compreendido como êle o entende. para melhor esclarecimento. Talvez quisesse significar que a Amisade e o Ódio são forças naturais. ela só possuirá propriedades corpóreas. geradoras. pois sempre se coloca contra toda providência que possa abrir a crise entre as categorias. passando nós a apenas compendiar as mais importantes notas dos famosos comentadores. Dá-se este exemplo: o que é a visão para o corpo. que "as diferenças qualitativas entre o fogo e o ar não poderão entrar em linha de conta na analogia: só se podem comparar quantidades da mesma espécie. pois a intensidade é a uma predominância do qualitativo sobre o quantitativo. a igualdade não se concebe senão na ordem quantitativa. por exemplo. qualitativa. ao contrário. tomamo-la no sentido da intensidade e da extensidade. em nosso esquema da analogia. ou supô-las ou demonstrá-la" (fisicamente). Na analogia. neste particular. não de igualdade. Empédocles teria podido apenas falar de semelhança analógica. mas dialècticamente identificados no ser. nenhuma delas é corpórea. segundo o qual os elementos são iguais. IX — E finalizando este tópico diz: "A Amisade e o ódio não são a causa da ordem do Universo. as alterações que se manifestam na alma. ou da memória para o esquecimento? Pois é evidente que se a alma é fogo. . em rodapé. mais elevada. o que aliás está mais consentâneo com o pensamento da física actual. Quando. III — No último período deste tópico. sobre a existência e a natureza do qual Empédocles não explica". encontramos o emprego do termo analogia por Ar. Neste caso os elementos seriam transmutáveis. como terão elas lugar? Por exemplo. Prosseguindo. mas maior.

estão na necessidade.TEXTO DE ARISTÓTELES II — 8 I. de receber logicamente a outra. sobrevirão as carnes. sem dúvida. Para os filósofos. a geração de um elemento a partir de um outro elemento tomado individualmente.20 guinte paradoxo: como. Voltemos aos elementos que constituem os corpos. estão na presença do se. dela procede. . se aceitam uma ou outra dessas teses. (1) II. exceto no sentido em que os tijolos vêm de um muro. em outras palavras. com efeito. aqueles que rejeitam a geração recíproca dos elementos. alguma coisa de comum a todos os elementos.. A questão que acabamos de colocar constitui uma dificuldade. por um lado. Como então se faz a sua geração? III. sua transformação recíproca. e também a moela. alguma coisa de comum a todos os elementos. por um lado. portanto. Daí resulta que qualquer parte da carne não poderá dar nascimento ao (1) Esses filósofos. e. os ossos e qualquer outras homeomérias. de uma pluralidade de elementos. também a maneira pela qual a carne e cada uma das outras homeomérias procederão dos elementos. que admitem. Ao contrário. até para os filósofos que admitem a geração recíproca dos elementos: de que maneira procede desses elementos alguma outra coisa distinta deles? Tomo um exemplo: é possível que do fogo venha a água. são os pitagóricos e inclusive o próprio Aristóteles. qual será o modo de geração? Será necessariamente para eles uma composição à maneira como é formado de tijolos e pedras um muro. que professam uma teoria como a de Empédocles. Os filósofos que admitem. o fogo (pois seu substracto é alguma coisa de comum a ura e outro). e da água. sendo estes conservados. Mas o exame dessas dificuldades é obra de 15 uma investigação diferente. Tal será.. E a mistura de que falam será constituída pelos elementos. 25 Mas a carne também. mas com suas partículas justapostas umas às 30 outras. por outro lado.

É da mesma maneira para o ar e para o fogo. ou antes dos elem e n t o s e n q u a n t o f o r a m c o m b i n a d o s . segundo a definição disjuntiva estabelecida n a p r i m e i r a p a r t e deste t r a b a l h o . de m a n e i r a que. experimentam um certo embaraço em explicar como alguma coisa pode provir da soma de dois elementos. Se a carne. no mesmo tópico. que professam a teoria em questão. mas que o quente é relativamente frio. sendo úmida. mesmo aqueles para quem é única a matéria dos elementos. que é preciso um limite definido ao composto e que. Além disso. por exemplo. Todos os corpos mistos. esta se desagregaria. portanto.208 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 209 fogo e à água. VIII. Assim todos os corpos. um quente relativo e um seco relativo. e os elementos p r o v i r ã o dos contrários. é constituída por esses dois elementos e não é nem um nem outro. p r o v i r ã o dos contrários. conforme fôr em potência mais quente que frio ou vice-versa. I g u a l m e n t e t a m b é m . mas quando nem um nem outro existe na plena totalidade de seu ser. mas da maneira que indicamos. cada um provindo de um lugar e de uma parte diferente. é u m a mistura. ou segundo uma outra proporção da mesma natureza. que a terra. no sentido 5 em que é possível que uma substância seja contrária de outra substância. q u e n t e . acham-se na impossibilidade de conceber a geração deste modo. mas seria possivel. que seriam conservados. do frio e do quente. os contrários t a m b é m sofrem. os ossos e as o u t r a s h o m e o m é r i a s . eles se t r a n s f o r m a m u m n o outro (e o m e s m o se dá com os outros c o n t r á r i o s ) . VII. deste modo. sendo a terra contrária ao ar. o q u e n t e vindo a tomar-se frio. e essas qualidades elementares formam por sua acção e sua paixão recíprocas. é pelo facto de uma parte. então o que resultará de ambos contrarios. Os filósofos. com efeito. e que . porque são contrários da terra e da água. todos aqueles que estão no lugar do corpo central. A m é d i a . ou do fogo e da terra. n ã o h á n e m frio n e m quente. contudo. e uma pirâmide. vêm o fogo e a água. Igualmente. a m e n o s de ser e m iguais. porque são definidos nos termos da proporção (positiva ou negativa) de sua potência de aquecer a sua potência de resfriar". que restaria de outro senão identificar o que procede desses dois elementos com sua matéria? Pois a corrupção de um dos dois elementos produz ou o outro ou a matéria? V. de toda parte qualquer de carne. ao menos para cada uma das duas figuras. nem um nem outro deles. mas um intermediário. pois. q u a n d o for a m r e d u z i d o s a u m a m é d i a . o outro existirá em potência. a p a r tir dos elementos. são e n g e n d r a d a s as carnes. pois se a água fosse completamente eliminada da terra. o úmido é o que a torna contínua. e as q u a l i d a d e s desta n a t u r e za. outros que os elem e n t o s . frio. seco e úmido. mas. quando. e. são constituídos de todos os corpos simples. encontra-se contida em todos os compostos. não será nem sua matéria. os ossos e o u t r a s h o m e o m é r i a s dessa espécie. nesse meio. para a água. porque cada corpo simples é particularmente e o mais abundantemente em seu lugar próprio. e. q u e n t e em potência. enquanto que. ao contrário. em segundo lugar. e o frio. e o frio relativamente quente (pois sua mistura destrói os excessos recíprocos de frio e de quente). e o frio em acto. (2) 35 334b 5 V I . eles a concebem somente à maneira de que uma pedra ou um tijolo provêm do muro. em acto. por outro lado. A terra e a água estão. A terra. e n q u a n t o esses existem em potência de u m a certa m a n e i r a . provir indiferentemente de um e de outro pedaço de cera: tal é o modo de geração. e se ela não é ademais uma composição desses elementos. Este comentário é uma síntese do realizado por Tomás de Aquino. o seco e o ú m i d o . pois o q u e n te em acto é frio em potência. não tem nenhuma potência de 335a coesão. única entre os corpos simples. tomados em sua enteléquia de uma maneira absoluta. É dessa m a n e i r a e n t ã o que. IV. é 35 ela facilmente delimitável. Esses intermediários diferem nas diferentes homeomérias. enquanto que o que é engendrado doutra m a n e i r a . de tal pedaço de cera pode muito bem provir uma esfera. e que. embora diferentes. e a água ao fogo. e m p r i m e i r o lugar. contidas nos compostos por essas diversas razões. de tal outro. E esse intermediário. e n q u a n t o l e v a d a s à m é d i a p r o d u z e m as carnes. E quando a geração se efectua dessa ú l t i m a m a n e i r a . n ã o à m a n e i r a da matéria. são contudo comparáveis. terá uma potência de esquentar dupla ou tripla de seu poder de resfriar. é de g r a n d e extensão n ã o indivisível. com efeito. é m a t é r i a . contudo. 20 25 30 10 15 (2) Tricot comenta o final deste tópico: "Os constituintes das homeomérias são corpos simples enquanto quente. os elementos são t r a n s f o r m a d o s . E já que a geração dos compostos tem por ponto de partida os contrários. Não seria esta a solução? Pois já que há o mais e o menos no quente e no frio. quando um existe absolutamente.

uma vez que estamos de posse de uma teoria universal.35 sas. tal é a (1) Refere-se ao mundo sub-lunar. (2) II. compreender por que. aos princípios das realidades eternas e primordiais. como as plantas pela água. como as realidades eternas. 15 X. (3) pois os dois primeiros não são suficientes para explicar a geração. mas para todas as coisas. a qual explica a geração dos corpos. que. de ser e de não ser). como nossos predecessores o reconheceram igualmente. alimentam-se de substâncias idênticas aos seus elementos constitutivos. pelo facto de elas não poderem se 335b afastar da necessidade da sua natureza. estar presente. por sua vez. Todos os compostos. pois ora é. alimentam-se. (4) Refere-se à matéria. necessariamente existem. o número e a natureza de seus princípios. Da mesma maneira. . em favor de nossa teo. Dai resulta que. IX. os seres que se poderiam julgar alimentados por uma só substância. as quais são melhor compreendidos quando é compreendido o universal. é a figura e a forma na matéria. um outro como forma. indiferentemente para qualquer geração. Com efeito. pois se realiza apenas num dos contrários. É que o fogo. a figura e a forma consistem nos limites. desde então. com diferentes tipos de genetá que são as formas específicas. e ora não é. também. o mundo dos ourania sòmata. (3) Refere-se à causa eficiente. é impossível às primeiras não ser. Ao contrário.210 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES todos os compostos contêm u m a das d u a s conjugações e x t r e m a s de contrários. TEXTO DE ARISTÓTELES II — 9 I. a causa dos seres generáveis é o que pode ao mesmo tempo ser e não ser (certas coisas. E toda 20 coisa tende naturalmente a colocar-se em seu lugar próprio. é o que se acaba de explicar. todos os corpos compostos sejam constituídos de todos os corpos simples. todos os corpos simples estão contidos. (2) A gênesis como tal é um universal (katholon). e é 30 preciso acrescentar um terceiro. E para essas duas espécies de coi. e muito menos ainda as realidades eternas. que deve. parece. é e não é. de diversas. surge da forma pelo facto que tende naturalmente a pôr-se no limite. há um princípio como matéria. pois nos será assim mais fácil compreender as espécies particulares. na verdade. com toda necessidade contêm t a m b é m a outra. Que. e impossível às segundas ser. capazes. sozinho ou principalmente. pois a terra foi misturada com a água. (1) devemos explicar. Assim esses princípios são iguais em número e idênticos pelos gêneros. Já que existem seres generáveis e corruptíveis e que a geração se encontra de facto na região 25 central do Universo.10 iia. no sentido da causa material. com efeito. portanto. Tal é ademais a razão pela qual os agricultores se esforçam de não regar senão depois de ter misturado a água. o fogo é o único a alimentar a si mesmo. o que é a marca essencial do gera vel e do corruptível. em todo composto. Agora. A alimentação de cada um dos compostos testemunha também. já que todo corpo simples vem de outro. enquanto outras. (4) 5 E eis por que. existem outras coisas. e todos se alimentam de diversas substâncias. no sentido da causa material. com efeito. necessariamente não existem. Já que o alimento sobrevém da matéria e que o que é alimentado. é fácil. como receptáculo dos contrários. Daí resulta necessariamente que há geração e corrupção para o que pode ao mesmo tempo ser e não ser.

como causa da geração. Na realidade. e que perece quando ela a perde. é o médico que a realiza. de um ser individual e concreto. da qual os corpos simples ou elementos são apenas instrumentos. de uma parte. no pensamento de Sócrates. a qual é a definição. hoc per quod aliquid habet esse quid (o algo pelo qual tem ser o quid). A matéria de per si não se move à geração. com efeito. Sócrates. (7) Compendiando os comentários de Bonitz. por oulra parte. (7) X. enquanto de uma coisa se diz que existe em virtude da Forma. com efeito. é a quididade (quiãditas). Outrossim. que os seres são. as coisas que participam das Formas. (6) Não provém o movimento da matéria.30 frer e ser movida. Com efeito. que. o que faz nascer o movimento. Os filósofos. pois que rejeitam a quididade e a forma. IX. e a ciência. seria sem 25 dúvida mais adequado ao real que a teoria precedentemente criticada. (8) É a forma o principal factor da geração. sintetiza-os Tricot com esta nota: "Sobre a importância da forma e da quididade. deve-se ver os numerosos textos da Metafísica. a teoria desses filósofos não é. Contudo. outros filósofos dizem que esse princípio é a matéria. 8. fazendo abstracção da causa formal. A quididade aproxima-se do universal (katholon). embora a Saúde-em-si e a Ciência-em-si existam. conferem aos corpos simples as potências por 336a meio das quais se opera a geração. mas com essa diferença que ela é quididade de um iode ti. Bem ao contrário. o sábio. outros seres naturais e nos produtos da arte. A causa alterante e modificadora da figura é mais verdadeiramente causa para engendrar. e as coisas participáveis. 1). Mas é preciso além disso a presença do terceiro princípio. se diz que é ela engendrada enquanto participa da Forma. a forma. nenhuma dessa duas teorias é fundada. (6) Isso é evidente. Ao contrário. dizer que a matéria é a causa geratriz em razão de seu movimento. por essa razão. é passiva. V. é a definição total da coisa. 10 assim como procede Sócrates no " Phedon" . Se. etc. porque a forma é anterior ao composto. fundada. ao contrário. Ademais. indiferentemente em (5) É mais importante o movimento que as Formas para a ge ração. com efeito. é da natureza da matéria so. IV. o conjunto de seus atributos essenciais. porque a matéria. e não é tampouco a madeira que faz um leito. Contudo essa segunda teoria não é tampouco justa. E anota ainda: O perfeito en se explica. percebemos que a causa é outra que a Forma. Em suma. . em alguns casos. explica Tomás de Aquino (De ente et Essentia. (VI. pois. to ti en enai tem pois menos extensão que to ti esti. A saúde. que rião consideraram a forma. supõe. são necessariamente causa da geração e da corrupção. aquele que todos os nossos predeccssorcs entreviram como em sonho. viram-se obrigados a dar aos elementos^ o papel prepodenrante. por sua vez. Este esquecimento.212 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 2I:Í causa das coisas geráveis. é da natureza do quente separar. Assim. já que as Formas são eternas. tanto quanto os seres que delas participam. e por sua acção. parece que até o fogo ao ser movido. enquanto tal. que expressa a substância de cada uma delas. se essas doutrinas são verdadeiras. (5) e em toda parte estamos habituados a olhar como causa produtora. pois é dela que procede o movimento. explica-nos o por que dos erros de suas doutrinas. é a arte (tékhne). Pois não é água em si mesmo que dela produz um animal. as Formas (eidê). E os que afirmam o contrário. VII. (8) Dado. A matéria é dynamis em sentido passivo. a natureza (natura) da coisa. é sua figura e sua forma. em sua doutrina. em vez de fazê-lo em certos momentos e não em outros.15 sulta. cap. III. as Formas são causas. Por outra parte. É imprescindível uma causa eficiente. e de cada uma permanece contrário 5 ou actuar ou sofrer. sofre uma ação. mas que nenhum o estabeleceu. é a partir desses contrários. a natureza das Formas. enquanto o katholon é a unidade de uma multiplicidade qualquer. Daí re. que é o gênero. com efeito. uns julgavam suficiente. ao exagerar-lhes o papel de instrumentos. eles erraram também por 35 negligenciar uma causa mais fundamental. por parte de tais filósofos. que as Formas. e que. e da do frio reunir. eternas também? 20 VI. depois de ter reprovado aos outros filósofos de não terem contribuído com nenhuma explicação. tanto para as coisas que procedem da arte como para aquelas que procedem da natureza. erram. no sentido de causa final. que explicam a geração e a corrupção do restante. O mesmo se dá também com todas as outras coisas que são produzidas segundo uma potência. pois é aquele que faz nascer a coisa. enquanto mover e actuar surgem de outra potência.) To ti en einai é o que dá o ser a alguma coisa (quod quid erat esse) quer dizer. porque não engendram sempre e de uma maneira contínua. VIII.

eis por que também a transladação é anterior à geração. é claro que tínhamos razão. a causa das coisas produzidas. de um único movimento. É. ora a geração. apresentamos uma teoria geral das causas num trabalho precedente. (2) Todo movimento é o movimento de um corpo. Conseqüentemente. esse seria. teoria das esse é que a caminho contrárias.30 (1) Na "Física". e agora acabamos de explicar nosso pensamento sobre a matéria e a forma. de maneira que. contudo. quando. da geração e da corrupção. Além disso. é manifesto que. se a transladação é uma. e tam. a transladação eterna produzirá a geração de uma maneira ininterrupta. que para o não-ser ser a causa da geração do Ser. O engendrado não é. IV. II. pois que são contrários (3). chamamos a primeira espécie de mudança. Com efeito. já que mostramos que o movimento 15 de transladação é eterno. transladação e não geração. na maneira como move. III. esses filósofos não se apercebem que é ainda inferior aos instrumentos. ora a corrupção que se produziria sempre. (2) e o engendrado não é. (3) Refere-se à geração e à corrupção que.214 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES XI. Mas é preciso que os movimentos sejam múltiplos. e é transportado. a um e a outro processo ao mesmo tempo de se efectuar. num trabalho anterior. 3 — 9. procedem mais ou menos como se assinalássemos à serra. necessariamente. pois. e que 25 professamos que a transladação é a causa do devir. e quando a aplainamos torna-se lisa. Ao mesmo tempo. quando a cortamos. até quando fosse verdadeiro que o fogo actua e move. por natureza. e a cada um dos instrumentos do carpinteiro. permanecendo no mesmo estado. por serem exigem causas diversas. e não uma única causa. (1) Ademais. o transportado é. porque ela faz o gerador aproximar-se e afastar-se alternativamente. a mesma causa. muito mais racional para o 20 Ser ser a causa da geração do não-ser. expõe Aristóteles a sua causas que já sintetizamos. E já que foi suposta e provada a continuidade nas coisas. pois. . No que concerne à nossa própria tese. produz sempre o mesmo efeito. surge daí necessariamente do que já estabelecemos que a geração é também contínua. II. e o mesmo se observa quanto a todos os outros instrumentos. 10 TEXTO DE ARISTÓTELES II — 10 I. a madeira. não é possível. com efeito. Ora. por ser imperfeito e do seu princípio. ela se divide.

(8) Também é de outra maneira que Deus realizou a perfeição do Universo: foi fazendo a geração ininterrupta. sucede muitas vezes que os seres perecem num tempo mais curto. que é o período que serve de medida. pois nesse movimento. sentidos múltiplos. Sua matéria. VI. (5) E essa continuidade é racionalmente justificada. número pelo qual nós os distinguimos. e à eternidade desse movimento a causa da perpetuidade da geração. não somente a continui. e se êle engendra por numerosas aproximações sucessivas. pois são iguais as durações da corrupção e da geração naturais. é. a geração e a corrupção serão contínuas. como dissemos muitas vezes. como dissemos. no que se refere à vegetação. a continuidade desse movimento tem por causa a transladação de todo o Céu. em razão da implicação recíproca das coisas que são engendradas e das que perecem. O movimento do sol. Sempre. para outras um tempo mais longo. A causa dessa perpetuidade da geração. esse mesmo corpo corrompe. (4) seu afastamento. ao longo da Eclíptica. e a corrupção como a geração naturais sucedem num tempo 10 igual. a transladação circular. . mas o movimento de aproximação e de afastamento de tal corpo tem por causa a inclinação da Eclíptica. e. dizemos. (6) e é melhor ser do que não ser. quer por sua irregularidade.35 dade indispensável. ao longo da eclíptica. em todas as coisas. para outras mais longo. (7) Ser absoluto. A observação sensível está. Eis por que todas as 20 25 30 35 337a (4) Expõe até aqui Aristóteles a suas idéias cosmológicas sobre o movimento dos planetas. pois essa inclinação impele como conseqüência que o corpo. pelo facto que a geração irregular dessas coisas é a corrupção das outras. (5) Refere-se à causa material. para impedir que uma das duas mudanças se produza sozinha. por seu afastamento e sua retirada. sendo irregular e não sendo em toda parte a mesma. pois efeitos contrários têm contrários como causas. realiza. para ainda outras. (8) Deus. V. estão contidos. se ao menos se quer que haja sempre continuidade na geração e 336b na corrupção. Ora. De forma que se êle engendra por sua aproximação e sua proximidade. corrompe também por numerosos afastamentos sucessivos. seriam a causa da geração ou da corrupção. enfim. sem dúvida. para todas as coisas. com efeito. no ser. Assim vemos que a geração acompanha a aproximação do sol. VII. também sucessivos. outras demasiadamente lentas. contrários ao da transladação e possivelmente de velocidade irregular. e a cor- rupção. de acordo com nossas teorias. É necessário. Em razão da alternância da gênesis e da phtorá. necessariamente suas gerações também são irregulares. pois assim o encadeamento mais rigoroso possível seria assegurado à existência. VIII. um tempo 15 mais curto. Assim a renovação na primavera e no verão e o declínio no outono e no inverno. e que uma e outra se passam num tempo igual. E tal é a razão pela qual não é a primeira transladação que é causa da geração e da corrupção. sendo desigual a sua 5 distância. pois só ela é contínua. pois os efeitos contrários tem contrários por causas. Tais movimentos parciais. e nunca elas faltam. ora se aproxime. daí resulta o que acabamos de dizer. para evitar um desfalecimento dessas mudanças. Eis por que também as durações e as vidas das diferentes espécies de seres vivos têm um número. (Reconhecemos. no entanto. mas múltiplo. quer pelo sentido de sua transladação. mas também uma dualidade de movimento. o movimento não pode ser único. Com efeito. pois. todas as coisas. movimentos parciais. umas demasiadamente rápidas. para umas. é um ano. Contudo. êle é mais curto. mas devido à sua inclinação sobre a eclíptica. ora se afaste. pelo facto de que o que mais se aproxima do ser eterno é que a própria geração sempre se refaça. do sol. Os organismos são engendrados e conhecem a maturidade por uma série de aproximações sucessivas do sol e distinguem-se por uma série de afastamentos. não são medidas pelo mesmo período. (6) Deus. a natureza tende sempre para o melhor. para outras. em razão da causa que estabelecemos. e movido com uma dualidade do movimento. seu movimento será irregular. e toda vida e toda duração é medida por um período. Atribui ao movimento de transladação a causa da geração.216 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 217 bém contrários. é um movimento circular. acima de tudo. mas o movimento do Sol. que haja um corpo sempre movido. há uma ordem. já o explicamos em outra parte) mas o ser (7) não pode pertencer a todas as coisas por que elas estão muito afastadas do seu Princípio. com efeito.

Nas análises que fizemos até aqui já esclarecemos esses conceitos. umas em outras. por conseqüência. . quando a água se muda em ar. enfim. Se. quero dizer. Daí resulta também que a transladação rectilínea não é contínua senão por imitação do movimento circular. portanto. Mas como número é um numerus numeratus (to arithmoménon) e não um número numerante. por isso é o número do movimento. a qualidade poderia ser contínua de outra maneira que não fosse pela continuidade da coisa à qual ela pertence? E se a continuidade do movimento se explica pela continuidade do em que o movimento se produz. de qualquer maneira. com efeito cada um deles permanecesse em seu lugar próprio e não se transformasse sob a ação do elemento vizinho. na infinidade do tempo. No tempo. pois é impossível que o tempo esteja separado do movimento. é. em virtude de suas afeições e suas potências. o ar em fogo. Ao mesmo tempo essas considerações esclarecem um problema que embaraça a alguns filósofos. imitam a transladação circular. assim co(9) Passando pelo ar. não estão. porque ela retorna ao seu ponto de partida. (9) dizemos que a geração fechou o ciclo. e qual é o sujeito engedrado e corrompido. o que é movido circularmente é somente contínuo. Mas. há muito tempo ter-se-iam afastado um do outro. afastados. se se quer. Mas há necessariamente alguma causa motriz. e. geração e corrupção. IX. Com efeito. estar subordinadas a um princípio único. um "pathos" do movimento. reciprocamente.5 cio. a saber porque os corpos simples. sendo o tempo contínuo. deve haver aí alguma causa motriz eterna.2. por qual causa. Como. sendo dado que cada um deles se coloca em seu lugar próprio. corpos 30 contínuos em movimento. do movimento circular. que o movimento seja eterno. um número de algum movimento contínuo. se os movimentos circulares são múltiplos. 15 20 (10) O tempo é um número do movimento. por outra parte. A causa está em sua transformação recíproca. se se quer que seja contínuo. e que o fogo se muda por sua vez em água. um movimento é necessariamente contínuo. 5 10 mo nós o determinamos em nossas discussões no ini. eis que resulta manifestamente do que dissemos. sem dúvida. graças à transladação visualizada em sua dualidade. Mas o movimento será contínuo em razão da continuidade do modo ou então da continuidade do em que o movimento se produz. de tal forma que êle permanece consigo mesmo sempre contínuo. e seu movimento torna o tempo contínuo. tais como os corpos simples. E esta transformação faz que nenhum dentre eles possa permanecer em nenhum dos lugares que lhe foram assinalados. se se quer que haja movimento. com efeito. Que haja. (10) X. o lugar ou a qualidade? É claro que é em razão da continuidade do móvel. numerus numerans (ô arithmoumen). Tal é pois o que produz o movimento contínuo: é o corpo transportado circularmente. pois êle possui uma certa grandeza. suas causa devem ser múltiplas. O tempo.218 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 21!) outras coisas que se transformam. pois. ingenerável e inalterável. assim como explicamos anteriormente em outras obras. assim. tal é verdadeiro somente do lugar que o contém. Além disso. uma causa uma e idêntica. Sua transformação faz-se. há sempre um antes e um depois. imóvil. uns dos outros. mas todas devem.

TEXTO DE ARISTÓTELES II — 11
I. Já que nas coisas que se movem de maneira contínua na ordem da geração, ou da alteração, ou da mudança em geral, vemos que há continuidade, e que tal engendrado venha após tal outro, sem deixar intervalos, convém examinar se um qualquer dos termos da série será necessariamente, ou se não é nada, bem como se todos podem não ser engendrados. II. Pois, que alguns tenham essa possibilidade, é evidente, e imediatamente se vê que há diferença entre o "será" (to estai) e o "devendo ser" (to mellou). Se é verdade, com efeito, dizer de tal coisa que ela será, deve, num dado momento, também ser verdadeiro que ela é; enquanto que, se é verdadeiro dizer dessa coisa agora que ela sucederá, nada impede que ela não se produza: pois quem deve caminhar poderia contudo não caminhar. III. E, por outra parte, de uma maneira geral, já que certas coisas que são, são também capazes de não ser, é evidente que assim será igualmente para elas, quando elas são engendradas; em outras palavras, sua geração não será necessária. Será pois que todas as coisas são assim contingentes? IV. Ou, ao contrário, não é tal, mas é absolutamente necessário, para certas coisas, serem engendradas, e, da mesma forma que, no domínio do ser, distingue-se o que não pode não ser e o que pode não ser, deve-se também fazer uma distinção da mesma natureza no domínio da geração? Por exemplo, é necessário que os solstícios se produzam e não será possível que eles não se produzam? V. Entretanto, devemos admitir que o antecedente foi necessariamente produzido, se se quer que o conseqüente exista. Por exemplo, se é uma casa, alicerces, e se são alicerces, a argamassa. Será pois inversamente que, se os alicerces estão feitos, a pro35 337b

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dução da casa é necessária? Ou então não haverá nada, (1) a menos que o conseqüente também não se tenha produzido, em virtude de uma necessidade absoluta. (2) Se é assim, é necessário igualmente que, sendo feitos os alicerces, a casa seja produzida, pois o antecedente está, dissemos, com o conseqüente numa relação tal que, se se quer que esse último seja, necessariamente o primeiro é produzido antes. Se, portanto, é necessário que o conseqüente seja produzido, o antecedente também deve necessária- 20 mente ter sido; e se o antecedente foi produzido, o conseqüente também é produzido necessariamente, não contudo por causa do antecedente, mas porque, por hipótese, êle iria ser produzido necessariamente. Nos casos, pois, em que o conseqüente existe necessariamente, há conversão dos termos, e sempre a produção do antecedente leva à produção do conseqüente.

TEXTO DE ARISTÓTELES II — 12
I. Se agora, há processo ao infinito em decen- 25 so (1) não haverá para tal termo posterior ao presente, producção em virtude de uma necessidade absoluta: essa necessidade será apenas hipotética. II. Será, com efeito, indefinidamente necessário que um outro termo seja produzido antes desse conseqüente determniado, para fundar a necessidade da geração desse último. Daí resulta que, já que não há ponto de partida para o que é infinito, não haverá também nenhum termo primeiro para fundar a necessidade da produção dos outros termos. III. Mas, até no que concerne aos termos de 30 uma série finita, não será possível dizer com verdade que um desses termos é produzido de uma maneira absolutamente necessária; por ex.: a casa, quando estão feitos os alicerces. Com efeito, quando eles estão feitos, a menos que não haja necessidade eterna para a casa ser produzida, a conseqüência seria que sempre existe uma coisa que pode não ser sempre. Na realidade, é preciso que a coisa esteja sempre em sua geração, se sua geração é necessà- 35 riamente. (2)
(1) Na direção do futuro, há naturalmente efeitos ad infinitum. Aristóteles visualiza-os, de início, numa sucessão retílinea infinita. Estabelece que cada conseqüente desta série, é necessário somente ex hypotheseos, em outras palavras, é condicionado pela chegada do termo imediatamente subseqüente (e não do termo precedente). Por ex.: na ordem cronológica, os termos A, B, C, D , . . . Z. Suponhamos A o momento presente, e Z situado no infinito, a chegada de C, por ex., será condicionada pela de D, a de D, pela de E, etc. Não há, pois, uma necessidade absoluta. Aristóteles chama a atenção que o "termo primeiro" (Z, no nosso ex.), que comandaria a existência dos termos precedentes a título de fim, não pode existir, porque, numa série infinita, não há termo primeiro. (Tricot) (2) Assim como o ser necessário é eterno, uma geração necessária é também eterna. Nesse caso, a coisa estaria sempre em geração, o que é absurdo quanto à casa. A geração necessária é a geração simpliciter, que estudamos no princípio.

(1) Em outras palavras, não há reciprocidade. O conseqüente não é necessário por relação ao antecedente posto, e o antecedente não é necessário, senão ex hypotheseos, quando sa colocou a existência do conseqüente. (Tricot). (2) Se o conseqüente é absolutamente necessário, êle leva por isso mesmo à aceitação necessária do antecedente, pois não pode produzir-se ex nihilo. Há então reciprocidade entre a produção do conseqüente e a do antecedente.

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IV. Pois o que é necessariamente é também, ao mesmo tempo, o que é sempre, pois o que é necessário não pode ser. Daí resulta que, se uma coisa existe necessariamente, ela é eterna, e se ela é eterna, ela existe necessariamente. E, por conseqüência, se a geração de uma coisa é necessária, sua geração é eterna, e se ela é eterna, ela é necessária. V. Se, pois, a geração de alguma coisa é absolutamente necessária, necessariamente é ela circular e retorna ao seu ponto de partida. VI. Necessariamente, com efeito, ou há um limite para a geração ou não há, e se não há, a geração é ou retilínea ou circular. Nesta última alternativa, se se quer que a geração seja eterna, não é possível que ela seja retilínea, em razão do facto de não poder haver aí nenhum ponto de partida (que os termos sejam tomados em descenso, quer dizer, como acontecimentos futuros, ou em ascensão como acontecimentos passados). Contudo, a geração deve ter um princípio se se quer que ela seja necessária, e conseqüentemente eterna, e se ela é limitada, ela não pode ser eterna. VII. Em conseqüência, a geração é necessariamente circular. Conseqüentemente, haverá necessariamente conversão: por ex.: se tal coisa é necessária, seu antecedente também é, portanto, necessário e, inversamente, se o antecedente é necessário, o conseqüente também se produz. E esse encadeamento recíproco será eternamente contínuo, pois não importa absolutamente que raciocinemos através de dois ou diversos termos. VIII. É, pois, no movimento e nas gerações circulares que se encontra a necessidade absoluta. Noutras palavras, se a geração de certas coisas é circular, é necessariamente que cada uma delas seja engendrada e foi engendrada, e se há necessidade, sua geração é circular. Esses resultados concordam logicamente com a eternidade do movimento circular, quer dizer, com o movimento do Céu (facto que, além disso, é evidente de uma outra maneira), pois esses movimentos, que pertencem a essa revolução eterna e que dela dependem, são produzidos necessariamente e necessariamente existirão. Se, com efeito, o corpo movido circularmente move sempre alguma coisa, é necessário que o movimento das coisas que move seja também circular.

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IV. É assim que da existência da transladação superior, segue-se que o Sol é movido circularmente de maneira determinada, e já que o Sol cumpre, assim, sua revolução, as estações, por essa razão, têm uma geração circular e retornam sobre si mesmas; e já que elas têm uma geração circular, dá-se o mesmo, por sua vez, para as coisas que dela dependem. 5 X. Por que então certas coisas são manifestamente engendradas dessa maneira circular, (tais como as chuvas e o ar, de tal forma que, se há uma nuvem, deve chover, e, inversamente, se chove deve haver uma nuvem), enquanto que os homens e os animais não retornam, por assim dizer, sobre si mesmos, nesse sentido que o mesmo indivíduo seria engendrado de novo? Com efeito, não é necessário, se teu pai foi engendrado, que tu sejas engendrado, 10 embora, se tu fosses engendrado, teu pai deve também tê-lo sido. Ao contrario, essa última geração parece ser retilínea. O princípio dessa nova busca, deve ser o seguinte: será de uma maneira semelhante que todos os seres retornam ao seu ponto de partida? Ou então não é nada disso, mas ao contrário, não se trata, ora de uma identidade numérica, ora de uma simples identidade específica? Então para as coisas, cuja substância, a que é movida, é incor- 15 ruptível, (3) é evidente que elas serão idênticas também em número (pois o movimento é correlativo ao movido) (4); ao contrário, para aquelas cuja substância não é incorruptível, mas corruptível, necessariamente seu retorno sobre si mesmas conservará a identidade específica, não, porém, a identidade numérica. Eis porque a água, que vem do ar, e o ar, da água, são idênticos especificamente e não numericamente; e mesmo que esses elementos também fossem idênticos em número, (5) de toda maneira não seriam nada para as coisas, cuja substância é engendrada, e que é de uma natureza tal que ela está em potência de não-ser.

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(3) Refere-se aos corpos celestes. A sua substância pertence ao indivíduo único de uma espécie. (4) J á vimos que o movimento é um "pathos" do corpo movidoe o seu caracter é determinado pelo caracter do móvel. (5) Esta é a opinião de Empédócles.

Marietti. e notas. e alguns comentaristas. ) : "De Ia Génération et de Ia corruption" (trad. Paris. "Aristote. arist. (Ed. H . Universidad de T u cuman. "Aristotle's Metaphysics" "Oxford.. TRICOT ( J . de 1'Université de Louvain). HOENEN (PETEB): "Filosofia delia Natura Inorgânica" (ed. GOICHON (A. HAMELIN (O. BACCA (JUAN DAVID): "Tipos históricos dei filosofar físico" (Ed.): "Filosofia grega" (ed. com. Vrin. MANSION (A. University P r e s s ) . II — Traduction et Commentaire (ed. 1931). mexicana).): "Lexique de Ia langue philosophique d'Ibn Sina (Avicenne)" (ed. "Aristóteles" (ed. Arg. H. 1951). Oxford University Press). 1952). Paraguaia). P a r i s ) . ISAYE (GASTON): "La Théorie de Ia Mesure et 1'existence d'un maximum selon Saint Thomas" (ed. J. de H. 1933). "Cosmologia (ed." (idem). . ZELLER (E.): "Emendationum Aristotelearum Specimen" (Berol. e comentários) (Ed. 1941). "Introduction à Ia Phys. XVI — P a r i s ) . ed. ROSS (DAVID): "De Generatione et Corruptione". ) : "Aristotle's on Coming-to-be and Passing-away" (Ed. Paris. de Ross. Deixamos de dar as obras consultadas. citados nos textos. M. B a c ) . italiana "La Scuola" 1949). as traduções manuseadas. Joachim. Métaphysique" (trad. da Pontifica Universitas Gregoriana — (1949). arist". 1950). Archives de Philosophie — vol. Desclée. JAEGER (W. Oxford. "Summa Theologica" (ed. W.): Arist.): "La Notion de nature dans Ia Phys.BIBLIOGRAFIA DAS OBRAS CITADAS NESTE LIVRO TOMAS DE AQUINO: "De Generatione et Corruptione" (ed. trad. Phys. JOACHIM (H. 1911).

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