Aristóteles e as Mnlaçoes

Programa editorial da Livraria e Editora LOGOS
"ENCICLOPÉDIA DAS CIÊNCIAS FILOSÓFICAS E SOCIAIS" — De Mário Ferreira dos Santos. Volumes publicados: "Filosofia e Cosmovisão" — 2.a ed. "Psicologia" "Lógica e Dialéctica" "Teoria do Conhecimento" "Ontologia e Cosmologia". No Prelo: "Tratado de Simbólica" "Filosofia da Crise" COLEÇÃO TEXTOS FILOSÓFICOS — Sob a direcção de Mário F e r reira dos Santos. "Aristóteles e as Mutações" — Com texto reexposto e comentários de Mário Ferreira dos Santos. A sair: Obras completas de Aristóteles Obras completas de Platão Acompanhadas de comentários e notas. OS GRANDES LIVROS: "Don Quixote de Ia Mancha", de Miguel de Cervantes — Ed. ilustrada com as gravuras de Gustave Doré. A sair: "Paraíso Perdido", Gustave Doré. de Milton — Ilustrado com as gravuras de

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"ENCICLOPÉDIA DAS CIÊNCIAS FILOSÓFICAS E SOCIAIS" — De Mário Ferreira dos Santos. Volumes publicados: "Filosofia e Cosmovisão" — 2. a ed. "Psicologia" "Lógica e Dialéctica" "Teoria do Conhecimento" "Ontologia e Cosmologia". No Prelo: "Tratado de Simbólica" "Filosofia da Crise" COLEÇÃO TEXTOS FILOSÓFICOS — Sob a direcção de Mário F e r reira dos Santos. "Aristóteles e as Mutações" — Com texto reexposto e comentários de Mário Ferreira dos Santos. A sair: Obras completas de Aristóteles Obras completas de Platão Acompanhadas de comentários e notas. OS GRANDES LIVROS: "Don Quixote de Ia Mancha", de Miguel de Cervantes — Ed. ilustrada com as gravuras de Gustave Doré. A sair: "Paraíso Perdido", Gustave Doré. de Milton — Ilustrado com as gravuras de

A Publicar: © © © © © © © © © © © © © © © © • • • • • "O Homem perante o Infinito". A Filosofia da Crise. a edição. . f^ COLEÇÃO DE TEXTOS FILOSÓFICOS Aristóteles e as Mutações ("DA GERAÇÃO E DA CORRUPÇÃO DAS COISAS FÍSICAS") • • • • Texto. ^ Teoria Geral das Tensões. Tratado Decadialéctico de Econom-a (reedição "Tratado de Economia"). Noologia Geral. Curso de Integração Pessoal. de Nietzsche. acompa- nhado de notas explicativas e analíticas. Axiologia (A Ciência dos Valores). Além do Bem e do Mal.Esgotada. Assim Falava Zaratustra — De Nietzsche. Ética. acompanhada da crítica dos seus mais famosos cnmentadores. As três críticas de Kant.Ç-1— LIVRARIA E EDITORA LO Q O S S. (Com o pseudônimo de Dan Anderson) . Aristóteles e as Mutações — Reexposição analítieo-didáctica do texto aristotélico. Psicogênese e Noogênese. Traduções: Vontade de Potência. Aurora. Antropologia Cultural. Lógica e Dialéctica (incluindo "Decadialéctica") — 2. Dicionário de Filosofia. com reexposição. I. Saudação ao Mundo — de Walt Whitman. com texto explicado e análise simbólica. No prelo: Assim Deus Falou aos Homens — Coletâneas dos trabalhos publicados com pseudônimo de Mahdi Fezzan. — Temas nietzscheanos. Temática e Problemática Filosóficas. Tratado de Economia — edição mimeografada — Esgotada. O Homem que foi um Campo de Batalha — prólogo de "Vontade de Potência" de Nietzsche — Esgotada. Curso de Oratória e Retórica — 3. Realidade do Homem — Com o pseudônimo de Dan Anderson. Diário íntimo — de Amiel. de Nietzsche — Esgotada. Hegel e a Dialéctica. com ensaio Introductório — Esgotada.a ed. O Homem que Nasceu Póstumo. de Nietzsche. . Filosofia e História da Cultura. Se n Esfinge F a l a s s e . Temática e Problemática das Ciências Sociais. Tratado de Simbólica. Psicologia Social. por \ í MÁRIO FERREIRA DOS SAtyPOS >J y &»**£j£i&feí í^stuc* sawfc ampliada do I ^ d a ÀJ. Psicologia. PAULO 1955 . Ontologia e Cosmologia (As ciências do Ser e do Cosmos). Sociologia Fundamental.OBRAS DE MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS • • • • • • • • • • • • • • • • Publicadas: Filosofia o Cosmovisão — 2.ógica e Dialéctica (Incluindo a Decadialéctica) — Esgotada.a edição. Técnica do Discurso Moderno. Análise Dialéctica do Marxismo. Teoria do Conhecimento (Gnoseologia e Criteriologia).

Bento Munhoz ria ocha \etto j-lo^l ~j | ai/o"*/»? TODOS OS DIREITOS RESERVADOS .l. a edição: abril de 1955 ÍNDICE Introducção — de Mário Ferreira dos Santos Sinopse de alguns conceitos fundamentais. de Aristóteles sobre temas físicos A geração e a corrupção na filosofia grega TEXTO DE ARISTÓTELES Livro I — Com comentários Comentários especiais ao Livro I. de Mário Ferreira dos Santos TEXTO DE ARISTÓTELES Livro II — Com comentários Bibliografia II MU 1 M M H BÍPLIOTECA MUNICIPAL TW.

há sempre o apontar da acção da mente (mens. que actua sempre por acomodação dos esquemas aos factos do mundo exterior ou aos pensamentos. também intencional. mensura. mostra-nos que o movimento e a dimensão são apenas modais. e tudo o que é dimensional implica movimento. que é uma nova qualificação do ser. A formação do esquema da dimensão é importante para a compreensão de muitos aspectos do movimento. e como o acto é a perfeição da potência. medida. e por conseqüência. . realiza a assimilação pela "assemelhação" do intencionalmente captado com o esquema. que o movimento é uma modal. mentis. O movimento. para o que é após a operação. seguindo a posição de Suarez. O estudo das modais. reforçador. Também é um resultado o dimensional. podemos dizer. Todo o resultado é uma transüividade. Em todo movimento há a actualização de uma possibilidade. Não é o movimento algo primário e original. permitiu ao homem captar o seu nexo.INTRODUÇÃO A visão não apanha o movimento. que cabe à Ontologia. o qual é aposterioristicamente construído pelo homem (post rem). captação pensamental do acto de pensar ao comparar pensamentos uns com os outros). porque transita do que era antes da operação. fundado na sua experiência. deste corpo é algo que é distinto dele. Se o reduzirmos à filosofia. Se estudarmos etimològicamente o conceito de dimensão. que revela a passagem de um modo de ser para outro. Também todo movimento é transitividade. que passa de um modo para outro. O movimento é uma modal da acção transitiva. Esta revela a perfectibilização da potência: o acto. mas que é absolutamente inseparável dele. revela-nos que a mente. Nessa dimensio ou demensio do latim. mas um resultado. alcançaremos a sua raiz. Esse de aumentativo. modalidades das coisas. mas sim uma forma em movimento. em cada momento de transitividade há sempre um ultrapassar. A disposição das partes em ordem a um todo.

a unidade qualitativa é um perfeito. afirmando uma deficiência. Compara-se esta extensão com uma extensão menor. c) o valor. Mas quando se trata de qualidades. mede-se o menor pelo maior Se quero medir este verde. portanto. A medida. E como modal também o é a dimensão não tópica. a mensura externa. Estamos. como se procede na medida da extensão por uma extensão. é a medida da intensidade. a unidade quantitativa é um minimum. temos as medidas quantitativas. b) a qualidade. vè-se. em plena dimensionalidadc qualitativa. termos as dimensões tópicas (essa dimensão que se extende localiter. e vê-se quantas vezes a primeira contém a segunda. já lautas vezes estudados por nós. aqui. (as quantitativas). 0 espírito mede a qualidade por "composição". apenas como tal. homogeneamente considerada). perfeita em sua série (como maximum. reduzindo sua extensão (homogeneamente considerada). que é revelada pela ubiquação das coisas do mundo cxlerior. 38). com perseidade. já é um princípio de conhecimento. Sintetizando: a) A medida extensiva. As qualidades são medidas pelas suas perfeições. é a medida dos valores (escalaridade dos valores. portanto por um maximum e não por um minimum. portanto. facilmente se é levado ao serial e à formação do concedo de dimensão. Meço este quarteirão. Quando se trata da extensidade. dão clareza ao pensamento exposto até aqui. "O espírito mede as quantidades por adição. que a dimensão implica a medida (mrnsiira) e a ação da mente em comparar pensamenlos captados com pensamentos estruturados em esquemas abslraclo-noélicos. AS MEDIDAS Medir é uma ação que consiste em dar um valor numérico a uni objecío pelo número de vezes que contenha a unidade empregada. (como perfeição de sua hierarquia). inseparáveis desses. mas metafisieamente separáveis pela construção dos esquemas noéticos que lhes correspondem. embora parcial. como as qualitativas. islo é. e são modalidades das coisas.12 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 13 Formado o esquema de ordem. examinemos previamente as medidas. sem que lhes caiba um conteúdo fáctico. as axiológicas e as íensionais. Mas. enquanto considerada apenas como quantidade (homogênea). (como minimum). comparando-o com o verde perfeito. apesar de tratado em linhas gerais. é tomada qualitativamente e não quantitativamente. vê-se desde logo. . portanto. As dimensões. Medem-se homogeneidades. e a captação da relação das parles com um lodo. às do volume. e abstractamente considerada. sem delas se separar em absoluto. As qualitativas são intensistas. porque essa é divisibilidade. a comparação. que serve de termo da comparação. como na qualitativa. comparadas. Não se dá a profundidade como lal. o que tanto na ordem quantitativa. Estas palavras. postas de par cm par) e que fundam os esquemas das três dimensões do espaço. uolumcn. Dessa forma. pág. é a medida da quantidade. subsistente de per si. mas digo que é mais ou menos verde. Para justificar a nossa lese. com um ser subsistente de per si. não digo que êle tem dois ou três unidades de verde. como a medida quantitativa. Mede-se o maior pelo menor. mais ou menos). que a seguir reproduzimos. e. as qualitativas. que cabe à Noologia estudar. implicam a ordem das parles com o todo. Em suma: A medida é o que nos faz conhecer se uma coisa é maior ou menor. fcslc é o caracter modal da dimensão das coisas exteriores. a medida já não é uma unidade menor. K há outras dimensões. no qualitativo. d) a unidade individual. As dimensões do espaço são modais dos corpos. um maximum" (Isaye. dimensões extrínsecas às espaciais. pois nelas predominam os graus. portanto). das quais participamos. e não actual. que é ideal. implica o homogêneo ao medido. meramente exlensistas. A medida quantitativa realiza-se por um melron. com um metro (uma extensão menor. abstractamente considerada e despojada da sua heterogeneidade. que já é sensivelmente conslruido pela ordenação das coisas no mundo exterior. que em muito nos auxiliará a obter a melhor compreensão do texto aristotélico. e se é mais ou menos que outra. que surgem como esquemas abslraclo-noélicos da comparação das medidas qualitativas pela comparação dos aspectos qualitativos. que é mensurável e não medível. do qual lenho uma posse virtual. portanto. unindo a um elemento de ordem actual um elemento de ordem potencial. como medida da tensão. Daí. captadas pelo sciisório-molriz e estruturadas em esquemas abstraclonoélicos pela mente (abstração do quantitativo). como acontece com todas as perfeições. mas a profundidade cm função de esta ou aquela coisa. como máximum.

seria m t ^ . mas também qualitatimente. como naquela primeira. A causa de tal harmonia c h a m a r . o esquema c o n c r e t ^ d e u m s e r a i e a í ? o r a ) e s t a macieira. seria c o m p r e e n s í v e l 0 n ú m e r o d a har . o eidos platônico. porque o perfeito de hoje poderá ser ^ p e r a d o a m a n h ã . que é semelhante a esta. portanto. mas que apontam. a forma escotista. e poderemos construir o* s e g u i n t e s pensamentos: Em cada instante. Posteriormente. há um ^ e r é Q m e l h o r de s u a sé. é a idéia exemplar ontológica (e um teólogo poderia dizer teológica. em tantos lugares e tão distantes. com os conteúdos da mente humana. que exigem grande subtileza de espírito e idéias muito claras para penetrar num terreno. Entre todas as macieiras d o m u n d o h a d e h a v e r . mas. . é medida de tudo. ou o arithmós plethos pitagórico. Essa forma é uma proporcionalidade intrínseca. uma "ratio". que está na ordem do Ser Supremo. neste instante. s e . Mas essa forma que está nesta. dao sempre u m n ú m e r o i n d e f i n i d o . ^ ^ i n a l c a n ç á v e l . por exemplo. como um triângulo qualquer imita a proporcionalidade intrínseca do triângulo (três ângulos. na sua perteiçao extensista e d e t i n i U V a n i e n t e a c a b a d a > como a relaçao entre o diâmetro e a c ^ c u n f e r ê n c i ou a hipotenusa e o quadrado. está naquela também. na coisa (//! re) e um esquema abstracto noético. portanto nunca alcan á y e i m a t e r i a i m e n t e . E esse termo se da. pelo qual. gem de Tomás de Aquino). deixando de ser o ente material. porque está em Deus) jamais identificada senão formalmente com as coisas. nao apena. Ora. Todo gênero tem um t ê r m ^ e a p e r f e i ç ã o do gênero. essa moderação esse justo m ^ 0 „ e d a í p c s u l t a u m a o r < J uma disposição harmoniosa. ela é isto e não outra coisa. n e . em ambas. simultaneamente. A m a c i e i r a mais macieira de todas.ARISTÓTELES 14 ARISTÓTELES E A g M U T A Ç Õ E S E AS MUTAÇÕES i:> Para I ornas de Aquino. Conseqüentemente. como os viam os pitagóricos).* a o esquema abstracto macieira nem apenas ao esquema c o n c r e t o imanente na macieira. como termo final.so macieira. Para êle o efeito tem sua b e r f e i c ã o p r ó p r i a . e esse algo é o que os filósofos chamam forma. e que se repete.da essa ausência d e e x c e c o m o d e d e f e ito S . q u e j a mais alcança um termo fmitç^ Assim. o que é maneira bem grosseira de ver os números. agora. o que o constitui ônticamente repete o número. Deus tudo dispôs com m e d i d a e. A f o r m a essencial na ordem ontológica é p e r f e i t a e jamais alcançada pela materialidade. N o segundo caso. uma estrutura que a ordena como tal. imita-o. nem mais nem m e ^ E * diversos epítetos apresentam (. No ser. um esquema abstraclo noético. de facto s ^ V e e m p o tência. a forma porque esta e . não tòpicamente localizável. aqui e agora. que intencionalmente o repete. e em todas as macieiras do mundo.Q t() f o i d i U ) a t é aqui. os arühmoi harmonikoi s a o s e m p r e inde_ fimdos. . na ordem l ^ n i v e r s a l d o s e r . a perfeição. que não caberiam nesta introdução tratar. infinito e perfeito da essência ontológica. p o i s a p e r . Meditemos s o ^ t1U(. Tais pensamentos nos p o d ^ n l e v a r a a l g m n a s digressões que servem nao so para ilustr^. É através de. também há nela um pelo qual ela é macieira e não outra coisa. em seu número (que não deve ser apenas considerado quantitativamente. como o n u m e ^ d e o u r Q p i t a g o r i c o . Há. bastaria atentássemos para estes pontos: se esta macieira é macieira é por que nela há o que. há uma forma da macieira. essa forma não é algo material. o homem constrói desse esquema imanente nos seres um esquema em sua mente. l e v a r . nico. que dela ^ p o t e ncialmente aproximar-se sempre. uma que s e j a fl m a i s p e r f e i t a > a q u e melhor corresponde. ou do arfthmós lethog (o n u m e r o de conjunto) pitagonco. cuja soma é igual a dois ângulos rectos). um esquema concreto. tais digressões exigem outros estudos de metafísica. ou por algo que ela é uma macieira c não uma pereira. á m e d i d a de seus efeitos. que nela também se repete. algo pelo qual elas são macieiras e não outra coisa. mas que imitam o que há fundamentalmente na coisa. E para tornar mais simples o que dizemos.n o s . possibilidades pensamentais. c ^ l o d o g ê n e r 0 ) 0 s e r mais perfeito e exemplar e medida dos o u t r o s ^ e r e s d o g ê n e r o . para tornar-se o ente ideal.por exemplo. como imitanlc jamais o repetiria perfeitamente. s e u limite. Temos. mas a forma. aparentemente fantasioso para o ignorante de tais assuntos. e supinamente controversas. Estas digressões mais c o m e z i n h a s a d i a l e c t i c a p i a t ô n i c a que a anstotelica.i ^ fl a f i r m a c ã o d e q u e u m s e r que atingisse a perfeição da f^ rma e s s e n c i a l d o eidos p l a t ô . E naquela macieira. ali. pois do contrário com ele se identificaria. feição absoluta da macieira hó*caheria essencial. porque o que é material ocupa tun lugar e não poderia estar. por isso. Deus e o exemplar de tod QS o s participam da sua bondade (como bem e bom). pelo menos. e nunca existencialmente. & m a t 6 r i a q u e o r a batamos. Portanto._ morna pitagonca. Nas macieiras. como para oferecer certos da<j QS s e r ã o oportunamente esclarecedores. e o que e. assim. o conceito. imita a i d c i a e x e m p l a r ( n a i i n g u a .

O olim. sem jamais atingi-la. Portanto. q. como a causa é princípio do ser. que nós matemática e formalmente podemos esboçar. já era no ser numa modalidade diíerenle da (pie existe aqui e agora. um só. mas que eram dialècticamente compreensíveis numa visão cooperacional. como a pode captar a dialéctica.s7 rem) da coisa. O medivel é uma possibilidade da coisa. é porque dela parti- . Conseqüentemente os esquemas concretos estão de algum modo no Ser. nessa ordem é um único. Não queremos com isso forçar conciliações de pensamento. que pertenceriam à mente divina. pois poder-se-ia dizer que há mais ser em 20 indivíduos do que num só. dentro dos postulados que oferecemos. pois deve haver entre o medido e a medida um ponto de identificação. no entanto. mas as formas Irianguiares que se repelem na matéria são sempre escalarmente imperfeitas. "Deus não está contido no gênero substância à maneira de uma espécie ou de um indivíduo. A medida qualitativa é um maximum ou um ser perfeito no seu gênero. no entanto. E. E essa perfeição do triângulo-em-si. poderia tê-los produzido no acto existencial dos indivíduos. na ordem do ser {ante rem). que separa da coisa esse quê. cuja actualização implica um extrínseco a ela que o realiza. mas apenas mostrar que o nosso mp'lo de ver os esquemas. únicas e perfeitas. A acção de medir implica a comparação de um termo com um máximum que serve de medida (intensidades) ou um minimum (extensidades). Para resumir o que foi tratado. O mesmo podemos dizer de qualquer outra medida. como medida de resistência. teria vindo do nada. portanto. E como não veio do nada. e conseqüentemente é tomada qualitativamente. mas que sabemos não encontrar-se nas coisas. Portanto. como já vimos. as diversas opiniões na filosofia que pareciam lão distantes. estava. veio do ser. era no ser como algo essencial e não existencializado ainda. mas antes. o ser seria tomado como extensista apenas. e realiza o esquema formalnoélico (/>o. A medida. como agente. ad 7). Mas é mister compreender que o que é produzido pelo agente está de algum modo no agente. que verificamos aqui ou ali. nunca. de Platão) que as coisas repelem. como a entendemos. e em acto está o ser supremo. sempre. O triângulo c sempre perfeito como ideal. essa quididade. haver entre a medida e o medivel uma univocidade quididativa. mais próximos dessa perfeição. toda medida é uma unidade tomada no seu gênero. do coulrário. Mas o que sucedeu naquele ente era um arithmós. Por outro lado é preciso considerar que a medida quantitativa. De Pot. mas pertence ao gênero por redução. No entanto. E o ser que actua em todas as coisas está em acto. repetimos. mas que. do contrário seria impossível comparar. é uma medida eidèlicamenle perfeita. acrescentamos: É dimensional tudo quanto é medivel quantitativa ou qualitativamente. após a experiência. sustentáculo de todas as coisas. embora fàcticamente imperfeitas. Desse modo são colocadas. ao Ser Supremo. o triângulo-em-si. que é formal. pois aceitava tais formas como idéias exemplares. Todo agente actua enquanto está em acto. pode aproximar-se mais ou menos ou afastar-se mais ou menos do ohm perfeito. O ohm. é princípio de conhecimento. 7. não é materialmenle perfeito. após o acto de abstracção realizado pelo nosso espírilo. nem o Ser. Mas a medida implica sempre a homogeneização entre o medido e o medivel. cuja soma de seus ângulos fosse absolutamente igual a dois ângulos absolutamente rectos. os números por números (números quantitativos-abstractos). 3. tanto na matemática. poderíamos construir triângulos (é uma possibilidade ao menos) cada vez mais perfeitos. cremos tornar claro o pensamento tanto de Platão como o de Pitágoras. como é perfeito e imutável o triângulo (o aulolriyonon.16 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 17 em nós. leva a ilusões. encontra também uma positividade no pensamenlo de grandes figuras da filosofia. Se a perfeição divina permite a medida nossa com ela. os tamanhos por tamanhos. nos serve de medida qualitativa. pois. a. imutável. pois. como na física. que construímos como um esquema abstracto. bem como o que pensava Tomás de Aquino. pois não poderiam ter provindo do nada. fonte de todos os seres tini tos. dirá o pilagórico. pciTcilo. e não seria possível realizar um triângulo materialmente perfeito. não só quando se dão nas coisas. à maneira do ponto nas grandezas contínuas e da unidade abstracta no gênero dos números". (Tomás de Aquino. * * * As medidas são consideradas na física eidèticamente perfeitas. quid. Com essa sintética explanação. que era possivel actualizar-se nele. Neste caso. Impõe-se. se não estivessem na sua ordem. como princípio do gênero.

Damos a seguir a sinopse de alguns conceitos que muito auxiliarão a boa inteligência desta obra. comparada. não haveria mutação. A teoria dos mínima de Aristóteles pode ser aplicada também às intensidades. para que haja mutação. O que é medivel da coisa é da coisa. que dela pode distinguir-se. por nossa parte. Na "Sinopse" que se seguirá. O accidente não pode ser separado fisicamente da substância. como já o faziam os escolásticos. e variàvelmente vária. O movimento absoluto de Einstein. Toda curva encerra em si a potência de afastar-se. O outro tipo de mutação é aquela em que o sujeito da mutação passa através de fases intermédias entre o terminus a quo e o terminus ad quem. . como sobre o que irá Aristóteles tratar neste livro. não real-fisicamente. que significa a nossa participação de uma perfeição. mas em potência ante o acto de ser medida. 0 acidente é da substância (inest in substantiam). deve ser curvo. dá-se o mesmo. Algo para mover-se tem de ser determinado. local. cujo conhecimento êle presume por parte do leitor. (pie dela participamos sem ser ela. Num movimento continuo. É a medida qualitativa de todas as coisas. as principais idéias. Afirmaria a simultaneidade. sempre em acto. O movimento. sintetizaremos alguns pensamentos aristotélicos que nos auxiliarão a compreender esta obra. e neste caso há afirmação a negação. que afastar-se da rectitude. que é a divindade enquanto tal. em sua última diligência fundamental. não só sobre o que tratamos. Já a recta. tanto quanto possível. No movimento tópico. Na reexposição do texto e nos comentários que apresentaremos não haverá mais necessidade de exposição desses conceitos que. Teològicamente. . pois não é êle medivel. não se pode dar nenhum intermediário. não formalmente. finito. que é uma característica da modal. pois há uma distância entre os dois termos que o móvel percorrerá. mutação de um "ser" para um "não-ser". pois como perfeição é o maximum da perfeição. . de conhecer modos diversos sem deixar de ser curva. Por sua vez o accidente é conseqüente à forma da substância e lhe é. Dela não se afasta. nem tampouco é absolutamente (simpliciter) um ente. O movimento. deixa de ser recta. pois um mover-se d e . Há em cada mutação a transição de um termo inicial para um termo final (terminus a quo e terminus ad quem). pressumiremos já do conhecimento do leitor. Mas essa oposição pode ser vária. aquecimento-resfriamento. isto é. e um aproximar-se d e . A dimensão é uma modal estática da coisa. poder-se-ia dizer que Deus não tem dimensões. . Algo entre eles deve se opor. isto é. por isso. Accidente: Não é um absoluto não-ente.18 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 1!) cipamos. o que não permitiria um movimento infinito nesse sentido quantitativo. proporcional. a passagem entre o "não-tocar" e o "tocar" é instantânea. nem por um maximum nem por um minimum. expostas na obra do Estagirita. em seus graus. 0 MOVIMENTO Um movimento absoluto (como quantitativamente infinito) seria um movimento que negaria a si mesmo por privação. vemos tal exemplo. O movimento tópico é contradietório dialècticamente. pois não há entre opostos contraditórios possibilidade de um meio termo. Sinopse de alguns conceitos fundamentais de Aristóteles sobre temas físicos. Dela se distingue realmente. como é instantânea a passagem de um corpo do estado de quietude para o de movimento. Não se dá o acidente sem a substância. pois. e é nesse sentido que se diz que o homem é feito à imagem de Deus. ter existência Icmpo-espacial. o é em relação ao movimento da luz. Se a oposição é contraditória. Impõe-se distinguir duas classes de mutações. sempre de grande actualidade. como já nos mostrou Aristóteles no "Organon". e absolutamente não se separa. . por isso pode contradizer-se sem negar a sua própria identidade. O movimento curvo mostra sua contradição no movimento do próprio círculo. porque a dimensão é inherenle à coisa medida. diferentes entre si. é condição de tudo quanto é tempo-espacial (corpo). Esta obra de Aristóteles trata das mutações. Procuraremos sintetizar. do que oportunamente trataremos. . portanto conjunto de contradições. A dimensão é uma modal. É invariavelmente curva. como o expõe Suarez nas "Disputationes Metaphysicas". é sempre um afastar-se d e . do contrário. por ex. Serão esses dois termos. duas esferas que ao se aproximarem se tocam. mas apenas modalmente. . Nas mutações intensistas. Entre ser e não-ser não há lugar para intermediários. extensista.

enquanto em acto. a segunda (a relativa) é mutação na negação oposta. Exemplos: na primeira temos a alteração do branco em negro ou vice-versa. O acto. E tal não se dá no tempo. e não pode ser primeiro que a substância. Acção: A acção é o acto do agente e tende a algo determinado. enquanto em acto. Forma: A forma é o princípio do ser e o princípio do agir (principium essendi et agendi). que é o devir absoluto (fieri simpliciter) e um relativo. mas que diferem entre si. portanto. e ocupa um lugar. ou seja. secundum quid. O que se corrompe transita de um contrário a outro contrário. Corpo: O corpo tem três dimensões.se) da substância. A primeira (a absoluta) é a corrupção que parte de um ser substancial para o não-ser. A corrupção implica. que a corrupção é dúplice: simpliciter e secundum quid. e consiste ela na privação de uma forma da substância. Vide moção. No agora nada se move ou se aquieta. o termo que permanece. É o agente (pie reduz a matéria de potência a acto. Todas as coisas podem ser divididas por acto e potência. só se dá no que está em acto. que é o que se torna em seu contrário. O acidente ê contingente. em grego) são a mesma moção e não duas.20 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 21 São acidentes ludo quanto sobrevém à substância e que tenha seu ser no ser (inrs. Não há corpos infinitos. c serve para divisão do tempo. O primeiro acidente que acontece à substância é a quantidade c. absoluta. O movente é a forma que está no gênero da qualidade. (pie se movem no tempo. Entre dois agoras dá-se o tempo como meio. Todo o corpo é móvel. Espaço e Lugar: O espaço não tem dimensões de per si existentes e não se dá sem corpo sensível. Um agora não contém outro agora. mas contingente. pois o agente age sobre o paciente. O (pie está em acto naturalmente move (realiza uma moção). o não-ser. Há ura devir da substância. A alteração é dúplice (como mostrará Ar. E o agente o é tal. não pode ser MUI acidente. pois um agente o é tal. Actua o agente sua acção sobre outro e a realiza proporcionalmente à sua forma. O acidente. Agora: (nane) — É o término do pretérito e principio do futuro. e se exerce no paciente. dimensões. cm um gênero. No agora não há algo anterior. porque o nada não é. Para que haja o agente impõe-se o paciente. Mostrará ainda Ar. pois são espécies do gênero moção (motus). como a do branco em não-branco (que se dá na côr). Nenhuma coisa é o contrário de si mesma. (Vide Substância). A acção parte do agente. e secundam quid. As coisas que estão em devir (fieri) o estão pela acção do agente. para o não ser o que era. (Vide Vácuo). Não é tempo. como lerminus a quo. e deslocase de um lugar para outro. Conseqüências: ludo quanto é aceidente não ê absolutamente (simpliciler). dentro da mesma espécie. A corrupção dá-se do ser (ex esse) que é. e o que não permanece. relativa. isto é. não quanto ao sujeito em moção. Por êle é numerado o tempo. pois é o acto o sustenlácuto do que é potencial. que é o devir nos acidentes (fieri accidentalium). Não é propriamente um lugar. mas lógico. É pelo agora (pie temos noção do tempo. O que está em acto é necessário ao (pie está cm potência. no texto) :simpliciter. e tende para um fim. É medido pelas coisas medíveis. Tudo quanto está em acto ou é uma forma subsistente ou tem sua forma em outro. Contrários: Há contrariedade entre dois extremos. O contrário da corrupção é a geração (vide). surgem os outros. O nada não pode corromper-se. uma mutação de ser para não-ser. no mesmo que é afirmado. O que ê accidental não é necessário. Devir (fieri) : É tomado sob várias acepções. (pie caracteriza a espécie no gênero. Agora é também o número de todas as coisas móveis. Há na corrupção uma afirmação da negação. por sua natureza. K um qnid indivisível. Não se trata aqui de um acontecer cronológico. o que será examinado» no texto. E são contrários esses extremos mais distantes. antes e depois. no segundo caso. Acto: O acto é o princípio do agente. quem se altera é o paciente. que é o seu terminum ad quem. e não possue. Alteração: É uma noção de contrário a contrário (de contrário in contrariam) segundo a qualidade. A forma não age prò- . Agente: O agente é o oposto contrário do paciente. Toda alteração exige um determinado tempo. pois a corrupção de um ser é a geração de um outro. O que está em acto antecede ao que está em potência. Acção e paixão (palhos. Em qualquer devir h á : o sujeito. Corrupção: O que se corrompe é. a diferença específica. mas algo substancial. não pode ser espécie do mesmo gênero. passio). A acção é uma moção (como o é também a paixão. o» do branco em mais ou menos branco. Portanto. mas acontece no tempo. portanto. mas quanto à razão (ratio) de cada um. posteriormente. Quem altera é o agente. como terminas (id quem. pois é instantânea.

Precisar nitidamente o conceito de infinito em Ar. este conceito será esclarecido. O que se move para a geração é o movenle. Dá-se do que não-é simplieiter no ser que é em substância. ou também o que é difícil de ser movido. para Aristóteles. uma matéria (pie sofre a geração. Deve-se evitar confundir a forma com a figura. também a fáustica. mas desta não é. como a corrupção. Não pode o indivisível ser um quantum. é uma transmutação para a substância. que se chama de geração. nesta matéria. Antecede a matéria como razão. é o que não pode ser resolvido em muitos corpos de espécie diversa. do que é privado de limites. O lugar não se transmuta. mas a matéria do que é gerado. É também absoluta e relativa (simplieiter et secundum quid). f: portanto. É o fim da matéria. '_ conceituação diferente e encerra a de perfeição absoluta Não. A forma é a razão da coisa (ratio). Toma Ar. pois encontramos passagens que levariam a tomadas de posições das mais diversas. e conseqüentemente um generante.. Impossível: O impossível é o que não pode ser. pois não excede o locado. o terminus ad quem é a forma. Na geração há necessariamente o que é gerado. da qual se distingue a ratione. que emprega o termo àpeiron no sentia do de desmensurado. porque a acção se realiza segundo a forma. e é proporcionada a ela. Em toda geração há. a meta a ser atingida. mas privação. (pie antes não era. Lugar: É o terminus do continente. Não se separam magnitude e número (vide) e não . quando substancial.ARISTÓTELES 22 E AS MUTAÇÕES 23 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES priamenle. onde se revela o sentido grego do infinito que é extensista. é tarefa que não poderíamos fazer aqui. é instantânea. O que é impossível de fazer. na corrupção do ser para o não ser. não se dá no tempo. Imóvel: É imóvel o que de maneira alguma é apto a mover-se por si mesmo. fisicamente separada. mas só por acidente. devir. para A. não no tempo. pois essa coisa é o que é pela forma (quo). A forma é a razão intrínseca dos entes. pois o que é gerado o é ao adquirir unia forma. Impartivel. Com a geração algo é feito. Kra neste sentido que se dizia que a terra era imóvel. tem uix. há a geração absoluta de algo. É a forma que causa a quididadc de uma coisa. A quietude não é uma negação do movi-. como também o que é ignoto. como o exporá Ar.. adquire um ser. Quando alguma coisa é gerada. princípio de sua natureza. imóvel segundo si mesmo. Indivisível: É o que não pode ser dividido e conseqüentemente não tem partes. o terminus ad quem. A geração. Na primeira. mas in instante. A geração implica a corrupção. cortar. mas é o princípio activo. Nenhuma magnitude é contínua nem infinita em acto. há a passagem do não-ser para o ser. A magnitude é medível pela moção. pois pode ser ocupado. são tantas as controvérsias que a exegese do genuíno pensamento do Estagirita exigiria obra de maior vulto. como as figuras triangulares diferentes têm todas a mesma forma da triangularidade. o infinito em sentido quantitativo. Magnitude: É a quantidade que tem posição. pois o gerar de uma coisa é o corromper-se de outra. No texto aristotélico e nas notas correspondentes. Também não pode ser composta de indivisíveis. Não é matéria nem forma. A figura é a quantidade determinada pela qualidade. não o terminus do corpo. segundo a espécie. Geração e corrupção são contrários c são lermos da alteração. portanto sofreu a passagem de um ser para um não-ser o que era. já que. Dá-se. terminus segundo a colocação do corpo. como o átomo dos filósofos gregos) : é o que é indivisível segundo a quantidade. É algo entre as coisas da natureza. porque é interminável. A idéia alexandrina de infinito. pois o lugar (topos-locus) e a coisa ocupante são simultâneos. Na geração. E pode ser medida segundo o tempo. peras. para ser outra. Infinito: O ser infinito é aquele do qual há sempre algo que é extra. por ocasião da critica ao atomismo de Demócríto. Não é espaço (spatium) distinto das coisas. Lugar e vazio distinguem-se segundo a razão (secundum rationem). tem alguma potência. Mas ao impartível como tal nada impede que seja movido. É ela divisível em partes (divisibilidade potencialmente infinita). Seres de figuras diferentes podem ter a mesma forma. portanto. \ Inquietude: Inquietude é mobilidade do movente e s dá no tempo. A forma está contida em potência na matéria. mento. c que termina na forma. e é divisível segundo os seus divisíveis. assim. O impartível não se move per se. Geração: A geração é a mutação do não-ser ao ser. O sujeito da geração não é o «pie é gerado. Na geração. como veremos no texto. pois não é separada da matéria secundam rem. impossível é tornar-se. e realiza-se pela inducção da forma na matéria. Tem um anterior e um posterior à sua posição. e ao impossível nada tende. Imparlível (insecável. de seceure. Nega-lhe a perfeição. mas o sujeito que é gerado linha antes uma forma que deixou de ter. portanto indefinível. Do impossível é impossível seguirse qualquer coisa. Na crítica da teoria dos atomistas gregos este conceito será enriquecido de análises importantes.

pois no aumento c na diminuição há mutações tópicas. No texto aristotélico e nos comentários. Parte: A parte tem razão da matéria. e consiste no acto do paciente. em tempo infinito. Por isso implica o "numeroso". o que se ausenta. mipõc-se uma causa eficiente que o ponha em movimento. entre os intermédios e nas contradicções. como as partes que compõem o todo. Em toda mutação. pois do contrário não conheceria mutação. Segundo a substância. há um prius c um posterius a ela. Todo número. que é a comparação da matéria à forma. há o que devêm. número numerante (numerus munerans) é o pelo qual numeramos ou o número tomado absolutamente. temos: geração (nascer) e corrupção (perecer) das coisas. Nenhum móvel move a si mesmo. O ser.fà 24 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 25 podem existir de per se. segundo a classificação de Aristóteles. e privação de algo. A mutação realiza-se do contrário ao contrário. mas apenas em potência. Matéria e forma são parles da espécie. ou segundo a qualidade. mas em outro. Nenhum móvel pode transitar num espaço infinito. se dá do sujeito no '. 0 movimento não é um ser de per si subsistente. como nos mostra Suarez. um antes e um depois. Segundo a sua substância. Há muitas espécies de moções tópicas (movimento). a um número. As partes da magnitude são finitas em número. que nos comentários teremos oportunidade de justificar. pois a matéria. Movimento: A moção. Na magnitude. É uma modal. no móvel. Número numerado (numerus numeratus) é o que é numerado em acto ou numerável em acto. é apenas uma modal no sentido de Suarez. A mutação não c uma substância de per se subsistente. Movenle: 0 que se move é sempre alguma forma.ujeito. aumento e diminuição. pois. de per si imperfeita. porque está antes. mas apenas em potência. Matéria: A matéria é o princípio passivo. É a matéria o princípio passivo da moção. o número infinito em acto. ou segundo a quantidade ou segundo o lugar. Tudo quanto tem matéria é móvel. Número: Ê a multidão medida por um. Pelo movimento. é sempre privada. A mutação dá-se entre os contrários. portanto. Oposto negativo é o que nega. Móvel: É o objecto da Filosofia Natural. Só N movido o que tem magnitude. é a potência do ser substancial. a mais comum entre os corpos. O número é considerado dúplicemente: número numerado e número numerante. A parte aquieta-se naturalmente no lodo. que nela é induzida. conhecemos o tempo. o movimento está no móvel e é requerido. e pode ser considerado triplicimente: negativo. O movimento é a moção local. mas sempre do contrário ao contrário. Toda mutação dá-se no tempo. sempre privação. a parte está em potência sobretudo quando este é continuo e não é distinguida . e tudo quanto tem número. a matéria antecede à forma. Oposto: Oposto é o que se ob põe. o movimento. privativo. Não pode a magnitude ser dividida infinitamente em acto. forma do sujeito. É o que subjaz em cada coisa natural (substantia prima). Pelo móvel conhece-se a moção. Desta forma. como acto puro. Este é um ponto importante do pensamento aristotélico. em privação da forma. Examinaremos também as diversas espécies de moções. Paixão (Pathos Passio) : Paixão é a qualidade passível. é o ser cm potência. O número é multiplicável in infinitum. segundo a quantidade. Todas as partes são comparadas ao todo. No todo. tópica. voltaremos a examinar tais pontos. a alteração. como ainda examinaremos no texlo. As partes podem ser düplicimente comparadas ao todo: Segundo a composição. está privada de outras. e serve para medi-lo. São as partes a causa do todo. pois é infinitamente perfeito. da forma à forma. Segundo em si mesma (como matéria prima) é ingênita e incorruptível. porque não está privado de. contrário. o que-se-torna-em um contrário. Na geração. sempre se pode adicionar outro. como o imperfeito ao perfeito. o intermédio polar específico ou genérico. Toda mutação revela uma velocidade. move-se simultaneamente a parte. A matéria. quando tem uma forma. dois contrários. o que é como o expunham os pitagóricos. segundo o lugar. segundo a qualidade. pois êlc nos determina o tempo para nós. Não admite Ar. em tempo finito. Serve para medir o tempo. enquanto móvel. mutação local. 0 movimento é o acto do móvel. o mover pertence à razão da vida. não conhece mutações. Em toda mutação são requeridos três elementos: o sujeito da mutação {quod). Movendo-se o todo. r<os seres animados. é numerável. é o acto médio entre potência e acto. privativo e contrário. Esa não se move primeiro a si mesmo e por si mesmo (per se). por isso é imutável. Sua multiplicação pode dar-se in infinitum. já vimos. Mutação: A mutação se dá segundo a substância. e segundo a resolução ou seja o todo que é dividido em partes. nem num espaço finito.

mas sim o todo. Perfeito: É perfeito o que em nada está fora de si mesmo. pois Aristóteles admite uma mutação substancial. "Wolf. é sempre simultâneo e igual. O tempo não pode ser infinito se a magnitude é finita. o que permitiu as críticas de Kant a esse conceito. e sim simultâneo com este. Não é um número simpliciter (numerans). A potência é activa ou passiva. ou seja substância primeira ou substância segunda (matéria e forma). apesar de se falar num tempo mais veloz ou menos veloz. O tempo não é o número pelo qual numeramos. Se o tempo é contínuo. E' o que flui num contínuo divisível e sempre divisível. Substância: A substância é o primeiro gênero do ser e é um ente de per si. Tempo: 0 tempo é a medida do movimento. o que não indica propriamente o que se perpetua numa imutabilidade. a qual. o tempo é o número do movimento. . mas em potência apenas. e numera o movimento. A razão do vácuo é a do espaço. A parte não move o todo. como também o que atinge o seu princípio. Relação: A relação consiste apenas em haver-se o que é ante outro. É não-ente e privação. a potência activa o é segundo a forma. mas numerado. por algo que já está em aclo. A substância é dividida em universal e particular. O que está em potência. nada há. não é necessário que o movimento seja contínuo. Potência: A potência não é um princípio agente. e fundou-se nas afirmativas de seu mestre. É a quantidade contínua das coisas numeradas. Unidade — É o princípio do número.26 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 27 em acto. por influência de Wolf. e sempre o mesmo. Faltalhe toda corporeidade. pois. em dois que tenham ordem um ao outro. O tempo e o movimento são infinitos. no mínimo. por suas características especiais. O que está em potência é algo que também está em acto. Kant desconhecia a obra aristotélica. segundo os dois últimos tempos por dois agoras. na filosofia moderna. afirmou-se que o aristotelismo predicava a imutabilidade da substância. É pelo movimento que se define o tempo. É importante esse conceito de permanência da substância. não pode ser analisada aqui e sim no texto aristotélico e nos comentários subseqüentes. mas não é movimento. no qual. Potência e acto são as primeiras diferenças do ser. Vazio ou Vacuum — 0 vácuo é o que. não sob o mesmo aspecto. A substância é o que permanece. A parte que está no todo não actua. naturalmente se move por outro que está em acto. É o que permanece. mas número numerado. não em acto. O que está em potência reduz-se ao acto. Desta forma. O ser da relação é um ser debilíssimo e funda-se. que é uma medida extrínseca do movimento. E diz-se também perfeito qualquer ser quando tenha completamente a sua natureza. não tem qualquer natureza. É a ausência de corpo. Sem o movimento não há o tempo. De per si não pode ser causa de qualquer coisa. O tempo não conhece corrupções. Nenhuma parte movida é movida por si mesma.

como discutiram. no entanto. e que o princípio único ou múltiplo de todas as coisas era o ser. que consistia na aceitação de um ser. nada se geraria. o ser simplesmente ser. ou múltiplo. de nossa autoria. mas como há neste sector ainda muita confusão sobre a actividade filosófica do pitagorismo. começo de todas as coisas. cujo valor afirma-se cm nossos dias em face dos actuais conhecimentos da física. É admissível sintetizar lodo o pensamento pressocrático nesta afirmativa. para que se torne melhor compreensível esta obra. posteriormente. todos sem excepção. aceitavam. mas que havia uma unanimidade na filosofia ocidental pelo menos. quando a valorização de Demócrito atingira a um nível jamais alcançado. pois até então as especulações se cingiam ao campo "físico". a essência. ou início. como o de Empédocles. (1) "Pitágoras e o Número". que sofre a incompreensão quase geral do seu real sentido. como o àpeiron de Anaximandro. entre os gregos. que é mais aristotélica do que se julgava no século passado. preferimos deixar de examinar aqui em nossos comentários a posição metafísica dessa escola. mas os gregos. indeterminadamente considerado. Muito bem salientou estes aspectos. . A posição metafísica de Parmênides fundava-se em grande parte mini adágio axiomático para a filosofia grega até então: do nada. nihil). as características desse ser. Poderia o ser ser único ou ilimitado. mas ser. que propriamente com Parmênides são iniciados. sem discussão. nada se qera (ex nihilo. os estudos "metafísicos" sobre o ser. em face da história. para tratar deste tema em obra especial de próxima publicação (1). fonte. É verdade que entre os pitagóricos já se haviam processado especulações sobre "o ser enquanto ser". D uns Scot quando expunha que poderiam os filósofos discutir. sobretudo dos iniciados em grau de teleiotes.A GERAÇÃO E A CORRUPÇÃO NA FILOSOFIA GREGA Impõe-se caracterizar a posição aristolélica. que do nada. Pode-se dizer. como princípio. dentro do pensamento grego. e o podemos afirmar fundados nos documentos que nos sobram.

o perecer. Conseqüentemente Parmênides termina por negar o "nascer" e o "perecer". porque como poderia o não-ente gerar o ente. em poucas palavras. ou do ente para o ente. Se o ente é. do primeiro. E como o ente. SÍNTESE DO PENSAMENTO ATOMISTA GREGO Ar. O ente. Todos esses aspectos são demasiadamente conhecidos. que Ar. que em breve estudaremos. Pois. e já foram tratados em nossos livros anteriores. Mas afirmava que tudo isso era aparência (phaenomenon). examina no seu texto. O ente seria formado de partículas de intrínseca imutabilidade (positividade parmenídica da imutabilidade do ser). e não se distinguiria. Se o ente produzisse o ente. o Perecer é banido". Impunha-se a solução entre o Um e o Múltiplo. em suas linhas gerais. pois "o ente é inteligível e o inteligível é ente". embora circunscrita apenas ao que interessa ao tema desta obra. resumamos o pensamento de Leucipo e de Demócrito. o que é um modo de afirmar o princípio de identidade. toda e qualquer producção. Afirmava Parmênides insistentemente nos fragmentos que nos restam. Se existisse mais de um ente (ser). em todos os tempos. então. sem conseguir resolver o tema eterno e fundamental de toda a filosofia que. que vai encontrar uma replica no naturalismo aristotélico. conforme atrações ou repulsões. como a de Aristóteles. que o ser é e o não ser não é (o ente é e o não ente não é). ora afirmando apenas uma para negar a outra. e revela suas aporias. A aceitação da inteligibilidade do ente é uma afirmação do "princípio racional de razão suficiente". Mas o que é importante ressaltar neste ponto. que. separando-se. Parmênides achava-se ante um dilema: se uma coisa devêm. Dessa forma.pois a diferença seria ainda ente. O pensamento de Parmênides teve uma influência imensa na filosofia grega. O primeiro é impossível. dizer "que é". entre o ente e o não-ente não há lugar para um "intermédio". em outros aspectos. o "id cui competit esse". o "nascer" (a geração) e o "perecer" (a corrupção) seriam apenas produtos das combinações qualitativas dessas partículas do ser. o segundo ente se distinguiria do primeiro ou pelo que é ente ou pelo que não é ente. são impensáveis a mutação. a súmula do pensamento do mecanicismo grego. pois como o que é nada poderia distinguir algo de algo? Também não o poderia ser pelo ente. E como só o ente é inteligível. Surgiram. afirmar o ser. pois o ente se identificaria com o primeiro. como toda e qualquer mutação. no intuito de facilitar a melhor inteligência desta obra. com certa razão. soluções que procuravam em linhas gerais explicar da seguinte maneira a multiplicidade. Aceitava Parmênides apenas um ente. e essa concepção é. um único ser que é. porém. Tanto um como outro permanecem fiéis ao pensamento parmenídico da imutabilidade intrínseca do ser (ente). E os argumentos que oferece podem ser sintetizados da seguinte maneira. Daí exclamar êle: "Deste modo. Parmênides actualizava o um. Pelo que não é ente. Mas como negar o testemunho dos nossos sentidos que afirmam a mutabilidade? Naturalmente que Parmênides sabia disso. que existe. não é. que se impunha em face das aporias (das dificuldades teoréticas). no que se refere ao não-ente. analisa-o.30 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 31 A teoria gnoseológica de Parmênides estabelece um paralelismo entre a ordem do ser e a do conhecer. Enquanto este afirmava que o não-ente não exis- . Empédocles. aquilo ao qual se pode atribuir o ser. examina com tanta argúcia no texto desta obra. se já c? Colocado nessa situação. que entre elas se dariam. a èle se atribui o seu primeiro enunciado. A mutabilidade seria assim mecanicamente explicada. Mas afirmam o contrário de Parmênides. ora tentando as grandes sínteses. que já é. o devir. Mas há aí uma realidade que a filosofia de Parmênides não poderia salvar. aquilo ao qual compete o ser. Portanto. e virtualizava a multiplicidade. não poderia distinguir-se. se o não-ente é nada? E como poderia o ente tornar-se ente se o ente já é ente? Nessas condições. pois todo devir é um tornar-se ser. Anaxágoras e os atomistas Leucipo e Demócrito estavam de acordo. todo devir é ininteligível. corresponde ao latino ens. então. examina o atomismo grego. que Ar. to ón. apenas estaria afirmando a si mesmo. que é um devir do ente ao não-ser. a heterogeneidade do existir. ora se afastavam. ela devêm do não-ente para o ente. como tal. Era com o homogêneo que se procurava explicar o heterogêneo. que êle sacrificava por aquele. Mas. é que Parmênides afirma que o ente não pode produzir o ente. e não há. paira entre essas duas antinomias. que ora se aproximavam. poderia tornar-se ente. fenômeno apenas. como poderia uma coisa tornar-se o que já é? O devir é o caminho do ser. Dessas combinações múltiplas surgiriam. Neste ponto. afirmava Parmênides. é extinto o fogo do Devir.

E essa mutação pode ser intrínseca ou cxlrínseca. um trânsito de um estado a outro estado. A mutação acidental é ou instantânea ou sucessiva. pois entre o ser e o não-ser. a geração (nascer) e a corrupção (perecer) dos seres se dá pelo avizinhamento ou separação (agregatio ou desagregatio) dos átomos. onde expõe. Nesse livro. A geração dá-se de um termo negativo da forma a uma forma positiva. temos a geração (generatio). to kenon). os átomos não são todos iguais. não se colocam um médium nem distância. é instantânea. sem partes) impartíveis. (2) Corrupção vem do verbo corrumpere em latim. quando é geração ou corrupção acidentais. temos o aumento (augmentum). que é uma espécie do gênero moção (metabolê). de cum niiiMTilativo e rumpere. quando se dá para uma forma substancial (ad substantiam). o movimento rectilíneo dos corpos leves e pesados. c vice-versa. temos o movimento local. que perde i . São metafísicas as mutações seguintes: criação. dando assim um salto mortal no negativo. incortáveis). quando o termo ad quem (o termo de chegada) é uma forma ou privação da forma. DA GERAÇÃO E DA CORRUPÇÃO (Peri geneseôs kai phtorás) No conjunto das obras de Aristóteles. outras. estuda o movimento circular dos astros. quando se dá de uma quantidade menor para uma maior. romper. . que são peri Ouranou (De Caelo). estuda êle a moção em sentido geral. a diminuição (decrementum). transubstanciação e aniquilação. o único objecto. A mutação local é uma mera modal. Nesta obra. trata do movimento especifico. É jnlrinsccamente impossível dividi-los. precisamos agora esclarecer o conceito de mutação e suas classificações. A mutação física é ou substancial ou acidental. Esses espaço vazio existe e nele se movem as partículas indivisíccis. sua concepção do mundo. temos a alteração (alteratio).io de um ser é a destruição de um outro. O "nada" é "alguma coisa" é o vazio (o vácuo.i. como toda mutação de qualquer espécie. O percurso é a via. a corrupção dá-se no trânsito do termo positivo para o negativo. terminus quod (o móvel) e terminus ad quem (termo de chegada). como já vimos na "Ontologia"' A mutação é. o seu livro "Da geração e da corrupção". Nele estuda a forma especifica do movimento local (lópico). está colocado na série dos livros que é encabeçada pela Physiká (Física). o espaço vazio. E todo movimento pode ser considerado segundo três termos: Terminus a quo (termo de partida). no entanto. por ex. pois uns apresentam uma forma. cortai-. temos a corrupção. quando adquire uma forma substancial. A mutação intrínseca pode ser metafísica ou física. rompimento da unidade. Para ambos. de uma forma para a sua negação (2). Dizse instantânea. sem ter. As mutações de alteração.32 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 33 te. que é a producção e a destruição dos seres e de suas propriedades. de modo sumário.i forma para decompor-se em seus componentes. a alteração e o aumento. A mutação é a transferência de um modo de haver de algo a outro modo de haver. alfa privativo e lómos partes. Quando consiste no mudar cia forma substancial. cujo texto apresentamos. havendo entre êlcs diferenças. A "Física" é a introducção geral aos tratados posteriores. quando se dá de um lugar (ubi) para outro. são sucessivas a mutação local. ou entre o não-ser e o ser. nem o principal dessa obra. tópico. aumento e diminuição são sucessivas. Desta forma. MUTAÇÃO Para penetrarmos com o pleno domínio na obra de Aristóteles. mas todos imutáveis. Essas mutações são instantâneas. os alomistas Leucipo e Demócrito afirmavam que o "nada" exisle. no inverso. o caminho do trânsito. procura demonstrar Aristóteles que a gera< . Em "Da geração e da corrupção". acompanhado da reexposição e comentários. quando se dá de uma qualidade a outra qualidade contrária. assim. átomos (de a. A mutação. Na "Física". da não-água à água. como se expressava Jocl ao comentá-los. pois tem como objecto os traços comuns aos objectos mais especiais dos tratados sucessivos. e outros. insecáveis (de seccare. quo dos escolásticos) é o termo A mutação física substancial é de duas maneiras: geração e corrupção. dependendo se o trânsito é segundo determinação intrínseca ou extrínseca. (1) O termo formal (terminus que é imediatamente atingido. quando o termo formal (1) é substancial ou acidental.

Mário Ferreira dos Santos . e p r o c u r a m o s situá-lo c l a r a m e n t e . No fim da obra. q u e vão se p r o d u z i n d o . a fim de facilitar a m e l h o r c o m p r e e n s ã o desta obra de t a n t a i m p o r tância aclual. Os n ú m e r o s á r a b e s d ã o a classificação da p á g i n a ç ã o . como fizemos. j á que tais t e m a s . a b o r d a d o s por filósofos m o d e r n o s . p r o c u r a n d o s e m p r e actualizar o livro nos e s q u e m a s da filosofia de nossos dias. q u e c o n t i n u a m e n t e vão surgindo. que dele t r a t a r a m . a c o m p a n h a d o da reexposição e d a s notas c c o m e n t á r i o s dos m a i s famosos autores. Já e x p u s e m o s o p e n s a m e n t o aristotélico sobre a g e r a ç ã o e a corrupção. as d a substância g e r a d a (in substantia yenerata). p a r a m e l h o r clareza do texto. j á na substância que se c o r r o m p e . São prévias. As disposições p r é v i a s são acidentes. com o a c o m p a n h a m e n t o de nossa crítica. Bekker. e d i t a m o s o m e s m o t r a d u z i d o e dev i d a m e n t e revisado. segundo a classificação de T o m á s de Aquino. e referem-se s e m p r e ao texto da ed. as disposições q u e estão n a substância q u e se c o r r o m p e (insunt in substantia corrumpenda). d a m o s a p e n a s a bibliografia citada nos comentários. E m toda geração e c o r r u p ç ã o há certas disposições que se dão em a m b o s processos. que os escolásticos c h a m a v a m de disposições prévias e próximas. a u x i l i a n d o m a i s a c r i a r a crise no p e n s a m e n t o ocidental q u e p r o p r i a m e n t e esclarecê-lo.34 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES O MÉTODO DESTA OBRA Usaremos nesta o b r a o seguinte m é t o d o : Após o e x a m e de alguns conceitos. e próximas. c o n t r i b u í r a m p a r a m a i o r confusão do q u e j á era c l a r o na filosofia clássica. m a r c h a n d o p a r a as disposições p r ó x i m a s . 'DA GERAÇÃO E DA CORRUPÇÃO' Texto de Aristóteles e Comentários e Notas de MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS Usamos os n ú m e r o s r o m a n o s p a r a d a r a divisão do texto e das lições. fazendo p r o g r e d i r a alteração.

III. outra. é alterado. Êle diz. e a geração. VIII. no conjunto. os elementos são em número de seis.TEXTO DE ARISTÓTELES I — 1 I. E. para Empédocles. que "vir-a-ser" e "perecer" é o mesmo que ser alterado. VI.15 sofos.a alteração como da mesma natureza da geração. os elementos são em número infinito. Anaxágoras e Lcucipo. se se deve considerai. são obrigados a admitir que a geração é uma alteração. V. os que sustentam (pie o Universo é uma única substância e que de um único elemento se engendram todas as coisas. para Anaxágoras. Contudo Anaxágoras ignorava o sentido de suas próprias palavras. Estudaremos agora a geração e a corrupção 314A dos seres que são gerados e dos que naturalmente se corrompem. VII. Assim. e determinaremos. como Empédocles. ainda.5 mente separadas. II. enquanto outros que a alteração é uma coisa. embora. com efeito. por outro lado. universalmente. Devemos agora estudar qual é a natureza respectiva da alteração e do aumento. a geração e a alteração são distintas. compreendidos aí os que imprimem o movimento. ou se são real. Ao contrário. alguns asseguravam que o que se chama geração absoluta é uma alteração. de todos. as causas e as razões de tais processos. Ao contrário. Com efeito. . para os que colocam cm princípio que a matéria das coisas é múltipla. como também para Leucipo e Demóerilo. no sentido próprio do termo. os elementos corporais são em número de quatro. à maneira dos antigos filo. e que o 10 engendrado. como o são as suas denominações. IV. Entre os antigos filósofos. reconheça a multiplicidade dos elementos. enquanto.

em cansa in fieri e cansa in esse. A causa eficiente (aceita em ambos sistemas) é a que regula a disposição e distribuição dos elementos. estudar essa forma de moção que é a geração e a corrupção dos seres que nascem e perecem naturalmente. enquanto a terra. Este o genuíno sentido da causa final. Assim a macieira tende a dar sementes de maçãs (inclusas no fruto) e não outra coisa. E propõe-se. A diferença se impunha pelos seguintes motivos: há causas eficientes que actuam e têm influência no efeito. coube à "Física". que as homeomérias são corpos simples c elementos. os artcfacla. como elementos. O aumento pode enquadrar-se na geração. dos escolásticos). pois cada um 314b deles seria unia universal reserva seminal (pansperniia) de todas as homeomérias. e não as caricaturas que dela fizeram os mecímicistas. A causa formal seria a figura desses átomos. O próprio devir revela esse tender. foi o objecto do De Caelo (peri Ouranoit). com efeito. No mecanicismo há também uma causa material: os átomos. Com efeito. por ex. segundo o que é movido de moção local. Restava analisar agora a moção nos seres inferiores e. As doutrinas da Escola de Anaxágoras aparecem. A causa eficiente não é um mero agir. entre essas. neste livro. o "ente". mas um tender activamente para um efeito. depois. As causas. Esse tender para algo é a finalidade. não é apenas a moção que interessa. a eficiente. cuja disposição é esta ou aquela. como diametralmente opostas às da Escola de Empédocles. para empregarmos um termo usado actualmente. que é sempre adequado ao primeiro. as homeomérias. A causa final é excluída do sistema mecanicista. os quais. Este diz que o fogo. A figura é produto de um relacionamento dos átomos. temos os seguintes aspectos que convém salientar. o osso e as homeomérias dessa espécie. X. coloca Anaxágoras. e também mais simples que a carne. do alimento em carne. ao contrário. na nutrição. numa proporcionalidade (pie nos revela uma ordem. obra eosmológica de Aristóteles.sua classificação. 1 Propõe-se Aristóteles. O trigo dar espigas é da finalidade intrínseca do trigo. como já mostrava Tomás de Aquíno. estudar as causas e as razões. a 25 água. Para ([iie a causa eficiente tenha a última razão é necessário que ela tenda ad aliqaid. E como salienta Tomás de Aquino. isto é. a carne. a geração e a corrupção. infinitos em número e em formas. pois dirige-se para uma meta qualquer. Demóerito e Leucipo dizem que os compostos são constituídos de corpos indivisíveis. considerando apenas o que têm de comum.: o osso. mas servir para fazer pão é uma finalidade extrínseca. mais perfeito que o movimento de outros corpos naturais. mais perfeito (pie a êle se ordene. A alteração (alteratio). o ar e a terra são os quatro elementos. enquanto as razões são as próximas. No conjunto das quatro causas aristotélicas. o fogo. mas há também a conversão. ções humanas. como o inziam os escolásticos. nem tampouco as próprias ac- . causa do devir e causa do ser.ARISTÓTELES 38 E AS MUTAÇÕES 39 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES IX. mas as próprias coisas que por ela são modificadas. e que os compostos diferem uns dos outros pelos elementos. ordena-se à geração assim como ao fim. e por tantos repelidas. a medula e cada uma das coisas cuja parte é sinônima 20 do todo. e não daqueles que são construídos pela ação humana. permanecem in- Reexposição comentada I — 1 0 exame da moção e dos móveis. Ao contrário. A consideração dos corpos. são quatro: a material. o seu "arranjamento". A matéria e a forma são princípios internos (cansa materialis e cansa formalis. apenas (fitando esses nascem. confundindo n causa final extrínseca com a intrínseca. A causa eficiente não se pode explicar sem a causa final. Da síntese surge o synolon. cuja geração e corrupção são pertinentes à natureza. a água e o ar são naturezas compostas. Esses átomos se movem com certa velocidade e sua disposição dá surgimento à estrutura das formas moleculares. pois é. isto é. ademais. pois no alimentar-se há aumento. E tal se dá por uma incompreensão total do que seja causa final. naturalmente. que é dada pelo homem. segundo a . Os discípulos de Anaxágoras dizem. As causas eficientes podem ser qualificadas. a formal e a final. determinadas. que está conexionado com o "De Caelo".

VIII — Empédocles considerava quatro elementos como princípios: terra. o ímpeto é causa in esse do movimento. VI — Enquanto os que admitiam uma pluralidade de princípios. da qual são dependentes todos os seres. como Empédocles que os considerava quatro. A geração substancial é a moção da matéria que parte da privação de uma forma substancial para essa forma (mutação). enquanto a corrupção é um processo inverso. a geração seria mera alteração. se dava uma união (agregação). porque são necessárias à manutenção do corpo. . etc. propostas por Aristóteles. o àpeiron. o ímpeto. ou magnético ou gra vi (acionai. como vimos. nesse caso. e acrescentava mais dois: Amizade e Ódio. para êle. desaparecendo quando o ímpeto deixa de acluar. e Leucipo. A geração é definida como o trânsito ou a moção que. se dá ao passar do não-ser ao ser. E o é por (pie aclua continuamente enquanto se dá o movimento.40 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 41 dependentes da causa que os produz. IX — Não é muito provável que Anaxágoras tenha usado o termo homeomérias que lhe é atribuído por Aristóteles. mas o conteúdo conceituai está em parte claro.. como a de quantidade. na primeira. O ser do movimento depende do ímpeto. No movimento. toda multiplicidade das coisas seria apenas uma modificação do princípio único. água. o ar. atracçâo e repulsão.Será a alteração idêntica à geração. n. enquanto Anaxágoras e Leucipo consideravam esses princípios em número infinito. pois. um princípio aeriforme. IV — Os filósofos antigos consideravam a geração absoluta como uma alteração. Assim as causas que efecluam um Ímpeto são causa in fieri. corpóreos. distinguiam a gênesis da alteração (àlloiosis). distinguia Aristóteles a geração absoluta (simpliciter) (gênesis áplê) da geração secundum quid (gênesis tis = relativa). que é modal do corpo. são causae in esse. arque. Essa substância manava sempre e. ou sejam. além de ser também uma causa in fieri. de qualidade. porque atende à forma. uma separação deles. como Tales que dizia ser ura princípio líquido. Não necessitam mais da influência da causa para ser. pois afirmava que geração. II — Resta saber se se deve estudar qual seja a natureza respectiva do crescimento (aumento) e da alteração. Como já o expôs nas obras anteriores. e que eram. IV. como coordenadas da qualidade do movimento. um princípio indeterminado. VII — Acusa Aristóteles de não ter Anaxágoras bem entendido as suas próprias palavras. ou são elas distintas realmente. Portanto. os átomos. pois depende também do corpo (massa. temos o indivíduo vivente que se torna independente da causa que o gerou. quando admitia uma pluralidade de princípios. enquanto outros afirmavam haver entre ambas uma distinção real. e Anaximandro. ou Anaxímenes. ar e fogo. e se de modo amplo. efectiva-se no movimento do corpo. como são. emquanto a secundum quid se dá nas mutações que afectam as categorias acidentais. Neste caso. dos elementos componentes. causa do devir. III —. metabolê (moção) auxésis e phtísis (crescimento. aumento) diminuição) àlloiosis (alteração) phorá (movimento em sentido tópico) V — Entre os filósofos antigos. enquanto na segunda se daria uma desagregação. muitos mais. (decrescimento. a água. num sujeito real qualquer. e Anaximandro. A causa prima. Essas espécies de mutação são estudadas a seguir. havia os que afirmavam que o universo é uma única substância. por exemplo. por ex. a corrupção e a alteração seriam a mesma coisa. Apresentamos um esquema de Tricot das diversas espécies de moções. por exemplo. resistências ambientais. é uma causa in esse. tinitos portanto. enquanto as que causam um campo electrostático. a geração se divide quanto à substância e quanto ao acidente. e t c ) . etc. sobretudo. que imprimiriam o movimento. enquanto permanece. as suas denominações (seus nomes). 1). Como exemplo. o que já aquele havia anotado na Física (Cap. as homeomérias. Ora. A geração da substância é uma geração simpliciter (Kafousian = na substância). Esta causa é uma causa in fieri. como é fácil compreender.

e é claramente também a que eles sustentam. os raciocínios dos que admilem uma multiplicidade de princípios tornam a alleração impossível. TEXTO DE ARISTÓTELES I — 2 I. Com efeito. unívocas. X — Opõem-se os ensinamentos de Anaxágoras aos de Empédocles. II. diferenças dos elementos (entendo por essas qualidades o quente e o frio. considerando esses quatro elementos como panspermia.20 < ( ssivamente). a água e o fogo como elementos primordiais. que constróem todas as coisas a partir de um só elemento. As homeomérias são contidas no mesmo gênero. em forma e até em figura. a chuva em toda a parte sombria e fria". . mas apenas mistura e dissassociação da mistura". como o termo chave que pode ter várias acepções e referir-se a diversos objeetos). nas quais a análise não revela nunca elementos de natureza diversa. isto é. para eles. pois sempre o sujeito permanece idêntico e vim: e é a isso que damos o nome de alteração. afirmavam aqueles a diversidade. a alteração difere da geração. Entretanto. da mesma maneira também percebemos a alteração. vastas combinações de elementos. sementes universais de todos os outros corpos. convenientes ao todo em nome e razão. assim como percebemos. e assim su. segundo as quais dizemos que a alteração se produz. ao contrário. Assim os filósofos. o branco e o negro. Assim os havia circulares. A multiplicidade dos corpos seria resultado das múltiplas combinações desses corpúsculos. quadrados. numa substância que permanece a mesma. c quando ele emprega o termo homeomérias. piramidais. Eis por que Empédocles se expressa também da mesma maneira. em natureza e nome. são. e é o que expressa Empédocles: "O Sol branco paia os olhos e quente em toda parte. como os ossos.42 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES Como o expõe Tricot. mudança (pie se chama aumento e diminuição. . na realidade. mas de natureza diferente. reconhecem uma multiplicidade de gêneros.sinônimas. por Anaxágoras. o seco e o úmido. etc. as qualidades. pois. e que são constituídos a partir de quatro elementos unidos numa certa proporção. para exemplificar. IV. infinitos em número. o mole e o duro. segundo a posição. e segundo a ordem ou espécie desses corpúsculos. são obrigados a reconhecer que a alteração é uma coisa distinta de a geração. da união e da dissolução desses gêneros. Para os que. III. eram estes considerados. quando diz que "não há geração de nada. entende-se por homeomérias as partes da mesma natureza. por isso são sinônimas. o que é impossível de conciliar com as suas próprias doutrinas. o ar. Com efeito. resultam a geração e a corrupção. como produtos das combinações das homeomérias. Enquanto Anaxágoras afirmava a similitude nas espécies. Que sua hipótese fundamental chamasse esta noção de geração. similium partiam. É fácil perceber que são justificadas as nossas críticas. Já Demócrilo e Leucipo afirmavam que os corpos sensíveis eram compostos de corpos indivisíveis (átomos). em oposição a homônimas (as que teriam o mesmo nome. uma mudança. 314b 5 10 15 Mas. ou seja. como diz Tomás de Aquino. estão constrangidos a considerar a geração e a corrupção como uma simples alteração. São as partes de um lodo. pois enquanto êsle considerava a terra. ou seja. segundo a extensão. quer se referir às parles homogêneas com o todo. eis o que é manifesto.

como se verá mais adiante. nesse momento. inversamente. essas qualidades são susceptíveis de advirem às coisas e de serem de novo separadas. o surgimento de um ser. mas enquanto o Um resulta da associação de elementos múltiplos que se reúnem. pois não se tornaria outro. 20 25 Reexposição comentada I — 2 I — Se o elemento que serve para construir todas as coisas. duro. Eis por que também. este um permanece idêntico a si mesmo. Empédocles diz que o Sol é branco e quente. como o afirmam muitos filósofos. pois. com excepção do ódio. Colocado assim o tema. faz renascer todas as coisas. a natureza inteira. esses elementos são mais princípios que o Um e anteriores a êle por sua natureza. mas ainda agora). nesse mesmo tempo. geração e corrupção seriam apenas alteração. e pretende que ao contrário são componentes de tudo. pois esta é a moção do contrário ao contrário segundo a qualidade. num só todo. ao mesmo tempo que recusa admitir que nem um dos elementos possa nascer de um outro. pode dizer-se que do Um foram engendrados os elementos. Há geração quando se tornam acto (ens actu . toda e qualquer transmutação que se dê. Se. potenciais). essas diferenças vêm a desaparecer (e elas podem desaparecer. então o substrato será um único elemento. define também os outros elementos. para Empédocles. pois que mudam em suas qualidades. nem da água a terra. são possíveis. II — Os que estabelecem muitos gêneros (aqui elementos) de princípios materiais. e as diversas porções desse todo. tanto ante os fados observados como consigo mesmo. e a Terra. nada tampouco poderá de branco tornar-se negro. seria apenas um trânsito qualitativo dentro desse um. não é possível que do fogo nasça a água. pois. Empédocles parece cair em contradicção. Neste caso. enquanto o Um é tomado como matéria e substrato. que estão na ordem do ser. pois. Mesmo raciocínio também para as outras qualidades. Segue-se dai. pois não há outro. de novo. e este fogo. não se pode considerar como geração ou corrupção. pesada c dura. a alteração. quero dizer. tendo reunido. as formas genelávcis e as corrompíveis. enquanto estes provêm da dissassociação. e sobretudo quando o ódio e a Amizade estão ainda em luta um contra o outro. sendo separadas por certas diferenças e certas qualidades. VII. Acentua Tomás de Aquino que as generabilia e as corruptibilia. e haverá uma única matéria para Iodas as coisas que admitem uma mudança na outra. e conseqüentemente. a terra e a água certamente não existiam mais quando o Todo se tornou um. E é nisto que consiste. se o substrato é um. Os filósofos que definem a geração e a corrupção como uma união e uma separação de elementos. nem de mole. necessariamente diferenciam alteração de geração. A opinião que Empédocles sustenta. é um. É pois manifestamente a partir de um certo Um que este se torna água. há uma contradicção patente no seu pensamento. Segue-se evidentemente que uma matéria única deve sempre ser colocada como substância dos contrários. Eis o que pretende dizer aqui Aristóteles (Tricot). desse Um. quer se trate de uma mudança local. isto é. ou se é o múltiplo. Pois. E decorre dai. E da união ou dissolução desses elementos decorrem a geração e a corrupção. são seres em potência e não cm acto. a partir do qual a terra e o fogo são engendrados por uma mudança devida ao movimento. a terra e os corpos da mesma série. Assim. É incerto ademais se é o Um que é preciso olhar como sendo o princípio de Empédocles. então a mudança é alteração. o Um é princípio. não invalida a afirmativa. pois foram engendradas). o que ainda será examinado mais adiante. como o é de facto. pois o fogo. pois se a mudança é alteração. que é semelhante ao de Anaxágoras. ou a destruição deste.ARISTÓTELES 44 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES E AS MUTAÇÕES 45 E do mesmo modo. ademais. Com efeito. que se. que a necessidade dessa matéria é semelhante à da alteração. e o mesmo se dará com todos os outros elementos (e tal não somente antes. E segundo as próprias palavras de Empédocles. e a água. (portanto. mas como mera alteração. É esta a situação de algumas correntes monistas. quer por alteração. o fogo. da terra. quer de uma mudança por aumento ou diminuição. é evidentemente necessário que a terra venha da água. permanecem de acordo com sua hipótese fundamental da multiplicidade dos elementos. V. dissemos. VI.

Portanto. dentro dessa espera imóvel. colocamos. ora a matéria (ousia prole). Vejamos estes fragmentos de Empédocles: "Digo duas coisas: que umas vezes a pluralidade. etc. Por crescimento extensional a pluralidade chega a ser e a dar uma só coisa (èn). E tal decorre da aceitação de que a mudança é alteração e. e vice-versa. água. Mas a aceitação da multiplicidade de elementos torna impossível a alteração. e única. A esfera é para o grego o símbolo do logos. por desnascimento do um. a crítica aristotélica é procedente. e se o substratum é um. e vice-versa. sem que a forma (essência) sofra qualquer modificação. a água não pode tornar-se fogo. Conseqüente com o pensamento de Empédocles. "O um aprendeu o modo de nascer do múltiplo. da unidade harmônica. por di-ferenciação do Um. o negro não pode tornar-e branco. a mudança é alte- ração. É da sua doutrina que toda mutação se produz entre contrários. por crescimento extensional. o hypokeimenon. o que leva à negação da própria alteração. permanecendo a forma. percebemos uma mutação extensiva de aumento ou de diminuição. mas se considerarmos que Empédocles afirma a presencialidade dos estados elementares. Numa substância.46 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 47 factum). Os quatro elementos eternos de Empédocles não se transformam portanto. afinal. pois todo o processo do mundo se verifica segundo um ciclo imutável. forma do ser. e que provará a contradicção imanente nas afirmações que fazem. as qualidades são produzidas pelas diferenças dos elementos. (71-72). por sua vez. é sempre de forma esférica (versos 16(5-168. quer por alteração. Fora dessa esfera (sphairos) não há nada. de todo o ente finito. como o também reconhece Aristóteles. e inversamente (pálin). deve ser a modificação de um único sujeito. retomando assim a idéia do Ser esférico de Parmênides. V — A substância dos contrários. E também se pode perceber alterações. é uma alteração. e a crítica que Aristóteles lhe fêz. neste parágrafo. a matéria. de absoluta estabilidade (versos 166-186). na agregação e a privação na segregação dos mixturados. que permanece a mesma. A espera de Empédocles é eterna e imutável. para os que afirmam tal doutrina. é o nome que Empédocles dá ao Um. Sem deixar de reconhecer que. é tendenciosa para Joachim. a multidão". surge. haverá uma única matéria para todas as coisas. Naturalmente que permanece. ora a síntese de ambas (Io synolon). a forma do ser que apenas se altera (isto é. Concedendo Empédocles que o frigido é acidente próprio da água. tomaria a forma esférica perfeita. ontològicamente considerado. 198. por exemplo. por desnascimento. pelo desnascimento do Um. e. Não se deve. É a Amizade que os une. o múltiplo vem de novo ao ser". da razão. também. IV — Substância (ousia) é para Aristóteles. . da perfeição. ora a forma (ousia deulera). ao empregar este termo. Segundo a interpretação que dele faz. ou à própria composição concreta de matéria e forma. como diz Aristóteles. liquido. quer em estado de pluralidade. a sua doutrina no seu verdadeiro lugar. sob outros aspectos. É ela a substância dos contrários. e. nesse caso. é o substratum. graças à acção da Amizade. primordiais. do Ser Supremo. quer de uma mudança por aumento ou diminuição. quando o ódio domina. III — Muito embora a doutrina daqueles filósofos leve a uma solução contrária. uma alteração. Esta é a análise de Bacca. o substratum só pode ser o único elemento. acidente próprio do fogo. VI — Sphairos. separando-se. quer se trate de um trânsito local. afirma Aristóteles. Empédocles. A ousia prote é o indivíduo. pois estes são os termos de toda moção. corrupção. de forma alguma. e tal se pode afirmar de outras qualidades. Admitida essa doutrina. Esfera. por exemplo. eles são obrigados a reconhecer que há uma distinção entre alteração e geração. Refere-se. que é por sua vez uma coisa "só" (rnónon). a mais absoluta unidade. a hylê aristotélica não é a matéria propriamente dita. 247). e quando tomam ou aceitam qualquer outra forma é uma alteração. Ora. e não tendo outro ser para nele influir. como unidade absoluta. "esse" fogo. Dessa forma. mutações qualitativas. considerar os quatro elementos de Empédocles (terra. quer em estado de unidade. fogo e ar) como "essa" terra. e segregação. Ela não tem arredores (perissón). cabe a Aristóteles razão na sua crítica. mas como expressões simbólicas dos princípios sólido. e com razão. neste caso. congregação é geração. é homogênea. ou à matéria que a compõe. O universo é assim "fechado". há transmutatio qualitativa) sem perder a sua forma fundamental. e o cálido. fluídico e aeriforme. Um todo unido no pleno equilíbrio de suas forças. nada pode sair dele. pois se uma coisa se torna em outra. o universo. pelo menos. que é principio e fim de todas as coisas. reduz os corpos a apenas mixtura. e se a mudança o é. enquanto esta domina. porém. à essência ou quididade da coisa. que está em devir. Pois a ousia prote pode aumentar ou diminuir. pois o cálido só pode estar no fogo e o frigido na água. o múltiplo surge de novo (aà) ao ser.

como são. quando do reino do Ódio. no entanto. não se contentou apenas em observar a todos: êle se distingue imediatamente 315b pela maneira de colocá-los. Moslra-nos Aristóteles. e. de maneira geral. Demócrito e Leucipo. nos seus fragmentos. no que concerne ao aumento. assim: a separação e a união dessas figuras produzem a geração e a corrupção. a propósito do fazer e do sofrer. Ninguém. da geração e da corrupção absolutas: se existem ou não. em suma. nem (e pode-se dizer) para nenhum outro problema. Não examina também. mas apenas da dos elementos. ao contrário. Este. mas indiferenciados no ser. 1. como o aumento e a alteração. a alteração. L I .2). superveniente das diferenças dos elementos. é (pie quando do domínio da Amizade. a não ser Demócrito. pois. distintos. II. uma coisa actua e outra sofre. pois o que Empédoclcs quer dizer. Quanto ao modo de geração das carnes.35 mas. não conseguem explicar de que maneira. como já dissemos. Não vão mais longe para a mistura. com efeito.30 ração e a corrupção. qualquer explicação que à primeira vista qualquer adventício na matéria não estivesse em estado de responder: eles afirmam que o aumento se produz pelo acesso do semelhante ao semelhante. Platão. no que concerne à alteração e ao crescimento. e a maneira como existem nas coisas. foi além da superfície. delas fazem surgir a alteração e a geração. nada diz. de que maneira se produzem eles nas coisas. pois o um é o princípio maior (Tomás de Aquino. . Não se trata ainda de toda e qualquer geração. in comm. Devemos. que é o eslado em que estamos agora. ou de qualquer outra homeoméria dessa espécie. que as coisas não surgem apenas por agregação ou segregação. e o diz claramente. se existem. depois de terem proposto as figuras. III. parece. com efeito. TEXTO DE ARISTÓTELES I —3 I. ou dos ossos. como possíveis de vir-a-ser. a propósito desses proble. nenhum dos outros filósofos apresentou. nas acções naturais. tratar agora. devemos tratar também dos outros movimentos simples. e eis precisamente sobre o que nada mais dizem. mas por alguma transmutação. devirem. Com efeito. o que é contrário ao que pensava Empédocles. esses elementos não eslão distinguidos fisicamente. e sua ordem e posição.48 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES VII — A análise aristotélica merece aqui um reparo. por 5 exemplo. examinou apenas a ge. mas trata-se de precisar de que maneira tal se dá.

pois. como o fez Demó- crito. não existe grandeza indivisível. modificando o mesmo objecto por meio da "posição" e da "colocação". serão como o querem Demócrito e Leucipo. Se liá distinção. bem como pelas diferenças de 35 figuras. Se. por simples variações na composição. E.50 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 51 IV. Quase Iodos os filósofos parecem admitir. fizeram as figuras infinitas. está eivada de absurdidades. para que. com a ajuda desses corpos indivisíveis. se essas realidades primordiais são grandezas indivisíveis. como está escrito no "Timeu". tais que permitam um vasto encadeamento. é possível realizar alteração e geração da maneira que dissemos. aqueles que o abuso de raciocínios dialécticos afastou-os da observação dos factos. de que o Triângulo-em-si seria assim múltiplo. a que ponto diferem um método de exame fundado sobre a natureza das coisas e um método puramente lógico: da realidade das grandezas indivisíveis resultaria. aspectos opostos. pois é pela "colocação" dos átomos 316a que as coisas são coloridas. que a verdade residia na aparência sensível. É absurdo. Ao contrário. mas. então. pelo contrário. Eis aí. V. ou não há absolutamente geração. por dificílimo que seja. neste caso. ou a geração é uma alteração. enquanto Demócrito parece ter sido conduzido a essa opinião por argumentos apropriados ao assunto e deduzidos da ciência da natureza. pelo que precede. e. a seguir. e esses filósofos ademais. para aqueles que dividem os corpos em superfícies. Contudo. por um lado. o crescimento dos seres ou as mutações contrárias. sendo dado para eles. a geração é uma união (congregatio). Portanto. outros argumentos. Estas teses exigem a nossa atenção. a geração não é uma união. e que as aparências são contrárias entre si. resta saber se cabe tratar de outras moções simples. a espectadores diferentes. obrigam a reconhecer que não pode ser de outro modo. A razão. que a geração é uma coisa distinta da alteração. 6 de modo absoluto. enquanto se alteram pela mudança de suas qualidades. Reexposição comentada I — 3 I — Previamente cabe saber se há a geração e a corrupção absolutas. Se.uma qualidade partindo dessas superfícies. Duvidavam muitos filósofos antigos da distinção entre geração e alteração. por outro lado. uma diferença capital. Eis também por que esse filósofo nega a existência da côr. para os platônicos. . VIII. em compensação. Eis por que aqueles que vivem numa intimidade maior com os fenômenos da natureza. com excepção dos sólidos. ou então. com efeito. pois a tragédia e comédia estão constituídas com as mesmas letras. uma mesma coisa possa apresentar. tal dá lugar a muitas impossibilidades. o que é negado por tais filósofos. é verdade. e infinitas. ou. são também mais capazes de supor princípios fundamentais. com efeito. por sua vez. deste modo. Elas prestam-se. não tentam sequer engendrai. o primordial é estabelecer a nítida distinção entre a geração e a corrupção e às outras moções. que os seres são engendrados e corrompidos pela união c pela separação de seus elementos. com efeito. de que maneira exislem. O sentido de nossas palavras será esclarecido mais adiante. como o aumento e a alteração. Ao contrário. ser transmutada pela introdução do menor componente novo. a numerosas e bem fundadas objecções. que impede de abarcar também 5 o conjunto das concordâncias. corpos. E. com elementos primeiros indivisíveis. superfícies? VI. enunciam-nas com precipitada facilidade. nada pode ser engendrado de superfícies compostas conjuntamente. devemos tentar também resolver esse dilema. dispondo apenas de um pequeno número de constatações. Será mais razoável supor indivisíveis os corpos? Esta hipótese. com efeito. c aparecer inteiramente diferente pelo deslocamento de um só componente. Posteriormente. E. Po. levar a divisão até às superfícies. difíceis de refutar. a geração simpliciter est. é a insuficiência da experiência. O principio da solução de todas essas dificuldades é o seguinte: ou será assim que se operam a geração. como já o salientamos em outra parte.10 <le-se perceber. a alteração e a geração não são mais realizáveis.

como se apresentam nas coisas. skhémata. n. assim como a comédia. podem mudar os temas. Assim. exceptuando-se. como o salienta cm seus comentários Tomás de Aquino. surgiria a alteração. isto é. dizendo apenas que o aumento se processa pela advenièneia do semelhante ao semelhante. diversos discursos (sermones).. Desse modo o acrescentamento de um simples átomo é suficiente para uma mutação radical. o que lhes permitiu (mas sem evitar aporias insolúveis) explicar a diversidade de opiniões. V — A maioria dos filósofos. infinitas em números e formas. Surgem daí muitas aporias» muitas dificuldades teoréticas. tal afirmativa dá lugar a impossibilidades. obedecendo diversas ordens. mas. Demócrito distingue. como as qualidades secundárias. e a ordem e posição destas formam um sentido. da relação posicionai móvel deles para com o todo (esquema corpóreo). Leucipo.52 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 53 II — Exemplifica Aristóteles com Platão. nem como uma coisa age e outra sofre a ação. "triângulos elementares?" VII — Tal é absurdo. Dessa forma. são eles corpos. de per si). Mas há outros modos de geração. como o propõe. IV — E por fundarem a verdade na aparência sensivel. Demócrito dizia que a alteração seria conseqüente às mutações da ordem e da posição de tais corpos (skhémata). não há em absoluto. Também nada disseram sobre a mixínru. III — Demócrito e Leucipo. e infinitas (sem finitude em número) buscaram tais folósofos um conteúdo objectivo nas figuras. Como . Se admitimos que a geração é uma união. como o disseram Demócrito e Leucipo. da qual êle se despreocupou. Demócrito. e se afirmamos que a geração não é uma união. como se verá na Lição V. VI — A geração. Esta afirmativa implica irracionalidade. que é um . que se é obrigado a aceitar que não pode ser de outro modo. por outro lado. As cores. que estudou a geração e a corrupção. que não obstante permanecem sempre as mesmas. e como elas são contrárias entre si. sem dizer de que maneira. Neste caso. o aumento dos seres ou as mutações contrárias se dão pela união de elementos primeiros. Por isso é que êle nega existência à côr. e que tem efeitos opostos em nós. VII. admitem que os seres são engendrados e corrompidos pela união e pela separação dos elementos que os compõem. todos os filósofos trataram como qualquer advenücio na filosofia o faria. pelas variações dos corpos indivisíveis. e apenas esta. segundo a posição que tomarem. 2) se são magnitudes indivisíveis. como as palavras de um discurso. Portanto. exemplifica Demócrito. pois os triângulos resolvem-se em linhas e as linhas em pontos. depois de terem posicionado os átomos (figuras. Mas surgein argumentos tão fortes. mas formam palavras. e da ordem. segundo a ordem e a colocação. a geração e a corrupção da alteração. embora ainda insuficientemente. por exemplo. Demócrito. determinaram a alteração e a geração do seguinte modo: da união ou da separação de tais átomos surge a geração ou a corrupção. as modificações se dariam pelas modificações do contacto e das posições e ordens dessas magnitudes. nem de que maneira se produzem nas coisas. tornando-se. geração. Com as superfícies. aceitam que a geração é distinta da alteração. ou não existe grandeza indivisível. segundo as diversas mutações. mas é mais racional que aceitar superfícies. pelas conversões. ao tratar das acções naturais. por ex. enquanto se alteram por uma mutação de suas qualidades. nos esquemas noéticos fácticos. As transições de lugar nos permitem ver uma pomba sob diversas cores. uma subsistência em si mesma. por meio de corpos indivisíveis. são para Demócrito mera aparência. como a assimilação biológica. ou a geração é uma alteração. e neste caso são superfícies. 6). Resta aceitar que. Mas os platônicos. e da conexão desses. conseqüentemente. As letras são indivisíveis. perseidade (per se. isto é. Tampouco estudou a alteração e o aumento. como o dizia Platão no "Timeu". podem construir corpos sólidos. não podem estabelecer a causa de qualquer transmutação formal. como Demócrito. ou a tragédia. que dividem os corpos em superfícies. Se não se admite.. como já o demonstrara Aristóteles em "De Caelo" (Cap. Quanto ao aumento. Este é o dilema que se apresenta a Aristóteles e que êle pretende resolver. Ela surge das posições atômicas. e nada mais. dentro de sua doutrina. Anaxágoras e Empédocles. plural de skhema).sermo das coisas bélicas. realizem-se a alteração e a geração. porém. Neste caso. no entanto. que é um sermo das coisas urbanas. que os examinou de outro modo. dois problemas surgem: 1) os primeiros elementos das coisas naturais são qualquer magnitude indivisível. isto é. a alteração é causada pela variação da ordem das posições das figuras (skhémata). os estudos feitos pelos antigos eram insuficientes e superficiais.

os pontos se encontrassem em contacto e coexistissem para formar uma única grandeza. é o autotrigonon. de facto. uma dificuldade. Aristóteles opunha a dialéclica ao método das ciências que consiste em partir da experiência. os (piais são mais aptos a propor fundamentos que permitam um mais vasto eiicadeainento dos factos. e se a divisão foi efectuada. a divisão não fosse efectuada simultaneamente. Mas Aristóteles esclarecerá mais adiante suas palavras. colocam em posições puramente dialécticas e abstractas. quer se trate ou de uma divisão pela metade. é indecomponível. enunciando suas doutrinas sem uma base nesta. nenhuma impossibilidade decorreria daí. II. são facilmente levados a afirmativas inconsistentes. Quando. e o corpo inteiro não seria sem dúvida nada mais que uma simples aparência. divididas elas inumeráveis vezes. embora. nada de impossível daí resultaria. E se a divisão se produzisse. ou é de pontos. pois. linhas e superfícies são coisas matemáticas. de qualquer outra divisão natural total. Como Demócrito fundava-se na filosofia ou ciência da natureza eram suas afirmativas mais racionais. E realmente. c que contudo mantemos a divisão absoluta. in re. VIII A posição platônica é mais deficiente que a democrítea. Já o mesmo não se dá com aqueles que estão em conlncto mais íntimo com os fenômenos da natureza. já que. Mas a absurdidade será a mesma se o corpo é formado de pontos. embora. porque se refere ao sensível. sem dúvida. o corpo viria então de nadas e seria constituído de nadas. como poderiam dai surgir qualidades? Só corpos poderiam causá-las. nem grandeza. Mas se devemos reconhecer que não sobra nem corpo. uma grandeza como totalmente divisível. portanto. indivisível. Ora. o que decorre de que quando o corpo fossem dividido . de não-grandezas. única e persistente. Aqueles que se. Tal conceito não é evidentemente (» nosso. afastados da observação dos factos. na coisa. eles não tornariam maior o todo. os platônicos foram de certo modo. não resultaria daí nenhuma impossibilidade. mesmo quando a divisão tivesse sido feita em inumeráveis partes. Já que o corpo é assim divisível totalmente. a forma imutável e eterna. quer dizer. se colocamos um corpo. admitamos que tenha sido dividido. per se hominem. que o corpo será constituído. não o seria. há um nexo de idealidade na realidade e de realidade na idealidade. com efeito. o corpo é totalmente divisível. TEXTO DE ARISTÓTELES I —4 I. quer. geralmente. Dialéclica era. através das idéias. pois haveria aí alguma coisa de não dividido. III. indecomponível. Mas é preciso considerar com justiça o pensamento platônico. com efeito. os filósofos mais afastados da experiência. se o corpo é totalmente divisível e que a divisão é possível. com conteúdos pouco claros e mal fundados na experiência. mas concrecionadas no nexo da realidade. pois dialéclica é o clarear das idéias.54 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES pontos. e se admitimos que essa divisão é possível: que haverá que possa escapar à divisão? Pois. Qual seria pois a sobra? Uma grandeza? Não é possível. como forma. Conseqüentemente. a crítica aristotélica tem razão. por hipótese. será da mesma forma. poderá ser simultaneamente dividido em todas as suas partes. quer dizer. é a espécie. O homem. o cavalo. e sobretudo. per se equiim. como já o mostramos na "Ontologia". Raciocinar physikôs para Aristóteles é fundar-se no real. seguindo os métodos da filosofia natural. para êle. Há. nenhum corpo pudesse ser assim dividido. O triângulo. Dessa forma. infundada na experiência. apenas o afanar-se através das idéias. mas o triângulo sensível. pois não terá nenhuma quantidade. ou então é de nadas absolutos: neste último caso.

tal não poderia ser. como fora da divisão e do ponto. o que é inconciliável com a própria idéia de corpo. Se. In "Metaphysica". esta lambem o seria. isto é. não resultaria nada também. nesse caso o corpo seria formado de inúmeros nadas. Se não é um corpo. Ora. pois sendo todo corpo. mas divisível sucessivamente. Uma grandeza pode ser considerada como divisível. decorreria o mesmo. totalmente. em que lugar estarão os pontos? E estarão imóveis ou em movimento? Ora. mesmo que suponhamos que há alguma quantidade. E se o corpo for formado de pontos. exhautive. depois de termos dividido um pedaço de madeira. VI. mas. nadas absolutos. Ora. pois seria êle constituído de pontos que não têm dimensões. e o corpo seria então nada. queremos colocar algum corpo que seja. Que coisa há pois nele. possuindo. Para compreender-se nitidamente o pensamento de Aristóteles é preciso esclarecer o que êle entende por possível. VII. Mas se admitirmos que o que sobra não é uma grandeza. ou alguma outra coisa. o mesmo raciocínio anterior se aplicaria: de que maneira seria divisível esta partícula? V. por exemplo. aceita até então como mais plausível que a platônica. fora da divisão? Pois. Mas tal divisão não pode realizar-se omnino. Como conseqüência. algum elemento corporal se destaque da grandeza. Mas suponhamos que a divisão se traduza por alguma coisa como um corte de um corpo. Ademais. IV — Se a divisão se realizar por um corte do corpo. totalmente divisível. e se se destacar da magnitude algum elemento corporal. eis as dificuldades que daí decorrem. como totalmente divisível. Que sobraria? Uma grandeza. pois. O que tem uma dimensão. deve haver corpos indivisíveis e grandezas. deste 5 modo. do qual é dita ter a potência. Conseqüentemente. é evidentemente assim de qualquer ponto que eu seccione o pedaço de madeira. Contudo. pode ser dividido pela metade. é paradoxal que uma grandeza seja composta de não-grandezas. poderiam ser separados uns dos outros? VIII. o todo não seria menor nem maior do que antes. pois os pontos não têm quantidade. tal não implicaria uma impossibilidade. de modo que. dá-nos a seguinte definição" dopossível (dynatón) : "Uma coisa é possível se ao passar ao acto. Se partimos da admissão de uma divisão totaliter (pánte) que se realizasse simultaneamente em todos os pontos do corpo. ela é possível (Tricot). Pois o pedaço de madeira foi dividido potencialmente de maneira completa. pois não pode haver grandezas indivisíveis. se não o admitimos. II — Se a realização de uma coisa não é incompatível com a própria essência dessa coisa. e se a grandeza consiste em pontos ou contactos. tal levaria ao aniquilamento do corpo. e o todo não seria nem maior nem menor que a parte. Ademais. se. por hipótese. esta por outra. e como procederia deles? Em outras palavras. não resulta daí nenhuma impossibilidade". E reunidos que fossem para formar um corpo. tornar-se-ia igual e um. um cont a d o supõe sempre dois termos. 15 . não pode ser absolutamente divisível simultaneamente. já que é impossível que as grandezas sejam formadas de contactos ou de pontos. como esses elementos constitutivos. mesmo que todos os pontos estivessem reunidos. que é posón (quantidade). assim. III — Admitamos agora que tal se tenha dado. como êle o mostrará mais adiante. e que.56 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 57 em dois ou mais partes. como o pedaço de madeira se resolveria nesses componentes. no sentido que há sempre alguma coisa fora do contacto. A divisibilidade seria ainda possível. e assim sucessivamente. reu. IV. o que não é pelo menos impossível. não evitaremos de cair nas impossibilidades que examinamos em outros tratados. mas uma forma separada ou uma quantidade que surge. de alguma grandeza que seja. o mesmo raciocínio se aplicaria: de que maneira seria divisível essa partícula? 316b Reexposição comentada I —4 I — Surge agora a crítica aristotélica à tese democríca. e os pontos reunidos não formariam nada.10 nimos os fragmentos. tal qualidade. porque é composto de nada. não formariam nenhuma grandeza.

Mas como explicar a separação da qualidade de os pontos? VII — A conseqüência é admitir corpos indivisíveis e grandezas. Nada. o fracturamento não poderia prosseguir ao infinito. mas simultaneamente dividido num ponto qualquer. e. nada há aí de paradoxal: será divisível potencialmente. Se com efeito. Essas dificuldades decorrem naturalmente da admissão de um corpo totalmente divisível. o que compusesse o corpo seria sem magnitude. Nas próximas lições. Aristóteles combate a divisibilidade total. Se um corpo é dividido ern qualquer ponto. é do que vamos falar. Entre os pontos. não é contíguo a um ponto. todo corpo sensível seja. É portanto necessário que o corpo sensível contenha grandezas indivisíveis. tanto quanto divisível. e em grandezas separadas. seria divisível. Aristóteles empreende a resolução dessas aporias. pois o contacto supõe a consecução (èphexês) e dois pontos não são consecutivos. Conseqüentemente. então. e eis por que. ser impossível. mas admitir grandezas indivisíveis oferece também outras dificuldades. sobraria. que êle é. indivisível. se reunirmos os pedaços e as partículas estes permanecem divididos apenas em potência. em potência provoca objecções. e daí resultaria. para o corpo. seguir-se-ia que a geração viria do nada e seria. mesmo em potência. Por outro lado. a sobra teria magnitude. Devemos. V — Se a parte sobrante não fosse nem corpo nem magnitude e sim. umas das outras. Conseqüentemente. sendo corpórea. por que o que vem do nada é nada. parece. Se se dissimula um paralogismo e até onde o dissimula. Como seria tal possível? Mas é desde logo claro que a divisão se efectua cm grandezas separáveis. um argumento contra a tese da divisibilidade pante. totaliter. resolver essas dificuldadades. Tal é o argumento que parece estabelecer a necessidade de grandezas indivisíveis. Já que um ponlo. tornase êle um. VII — Tudo quanto Aristóteles diz neste parágrafo é posto em dúvida por muitos autores. porque se acentua a impossibilidade que êle já havia estabelecido na "Física". não simultaneamente e ao mesmo tempo indivisível e dividido em enteléquia. que um corpo seja. por outra parte. Alegarão alguns que a divisão em potência não expulsa a qualidade. mais uma vez. Tudo quanto é corpóreo é divisível. o intermediário é sempre uma linha como Aristóteles mostrou na "Física". Não poderia haver contacto entre eles. numa divisão progressiva. pois o contrário seria impossível. a divisão simultânea não poderia operar-se em todo ponto (pois tal não é possível) : ela se deteria em alguma parte. e se o corpo se resolvesse em nada. III. provir quer de pontos. a divisibi- 20 25 30 317a . fosse possível. por exemplo. TEXTO DE ARISTÓTELES I — 5 I. devemos retornar ao ponto de partida. II. e o corpo ter-se-ia desvanecido no incorpóreo. nada. e indivisível em ontelequia (actuaimente). e a parte. ê o que. que só se ausenta pela divisão em acto. os pontos não receberão nem um movimento nem estariam em nenhuma parte e não poderiam unir-se para constituir corpos. quer do nada absoluto. contudo. VI — Sendo os corpos pontos que não ocupam lugar e. sempre menores em cada divisão.58 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES Se tal se fizesse. V. com efeito. Os pontos são apenas simples limites. não importa em que ponto. E assim poderia. Para Joachim é. e a magnitude não pode ser formada de quantidades discretas (Tricot). pois a divisão se deu em acto. neste caso. um ponto. E sobretudo tal se dá se se admite que a geração e corrupção consistem respectivamente na congregação (união) e na segregação (separação). IV. são determinados pelos lugares. igual ao movimento. e separadas em acto. tal poderia então acontecer. seria nada. divisível simultaneamente em todos os seus pontos. Mas essa divisão. uma vez mais. então o corpo finalmente se resolveria em pontos e. Nesse caso todas as coisas naturais seriam nada. no entanto. por sua vez. que de um lado.

na realidade. pois. Não o sendo. nem de ponto a ponto. Neste caso. nem de tal maneira que a divisão se produza em toda parte (teria sido mister. então. se o corpo fosse totalmente divisivel em seus pontos. VII. o corpo se desvaneceria no in- . ela não é em todos os seus pontos simultaneamente divisivel. enquanto tomados um a um. por conseguinte. o termo realizado pela acção. fique bem estabelecido o que segue: a geração não pode ser uma união. enquanto que se as partículas de água foram. actualmente é impossível realizar a divisibilidade pante. pois. será uma alteração.25 ração e a corrupção. No sujeito da mudança. a partir de partes menores ainda. quando ela passa ao acto da qual ela é dita ter a potência. quando se coloca esta divisibilidade total da grandeza. com efeito. II — Não há nenhuma inconveniência em dizer que o corpo sensível seja e não seja igualmente divisivel. nem a partir de grandezas indivisíveis (haveria aí múltiplas impossibilidades). será divisivel também a um ponto 10 contíguo a esse meio. Recordemos a sua definição na "Metafísica": "Uma coisa é possível. em um lugar qualquer nela. seria divisivel também em acto. foi de início dividida em partículas de água menores. geração e corrupção absolutas. quando. com efeito. mas em toda parte. Bem ao contrário. eis onde reside todo o erro. desde que se distinga potência de acto. e impossível de outro. VII. reunidas. Se a água. embora não seja em grandezas indivisíveis. K divisivel em enteléquia. e que todos seus pontos estão em toda parte. a modal do acto. totaliter). Tudo isso se esclarecerá a seguir. VIII. III — A divisibilidade em potência em todos os pontos de um corpo parece-lhe impossível. e o que é segundo a matéria. Quando é nestes mesmos factores constitutivos que a mudança se dá. não o é por sua vez em potência. há uma diferença. * * * 30 Reexposição comentada I — 5 I — Estamos ante uma aporia que é preciso solucionar. um ponto. Ora. enquanto há um único ponto. Daí resulta que há divisão e composição. é engendrado mais lentamente. Não o pode ser. quer 15 dizer. a separação e a união facilitam somente a corrupção da coisa. se ela é divisivel em seu meio. mas quando há mudança total de tal coisa a tal outra coisa. É mister retornar ao ponto de partida. Desta forma. há divisibilidade. não há divisão contígua a uma divisão. para tal. será a ge. Mas esses filósofos pensam que toda mudança dessa natureza é alteração. Há em Aristóteles.60 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 61 lidade total das grandezas é possível de um modo. com efeito. Mas acredita-se. Nem em potência poderia ser simultaneamente divisivel potencialmente et totaliter. se. que o ponto fosse contíguo ao ponto). de início. enquanto a mudança no contínuo seria a alteração. de pontos. Na realidade. em acto. o que é absurdo no pensamento aristotélico. mas quando é nas qualidades da coisa. não resulta daí nenhuma impossibilidade". O corpo é divisivel em potência (pante. totaliter. a composição. senão. Mas pode-se estabelecer esta distinção: enérgeia é acção. como alguns filósofos o sustentam. Há. que ela 5 seria composta de contactos ou de pontos. a saber. Em outras palavras. Tudo quanto é magnitude é divisivel potencialmente et totaliter. em enteléquia. desde já. necessariamente. onde há magnitude. pois não há posição contígua a uma posição. Mas a geração e a corrupção absolutas e completas não são definidas. pois os pontos não são consecutivos. por força da definição de possível. mas a divisão se faz em partículas. pelo menos como a concebem alguns filósofos. porém. é mister distinguir o que é segundo a forma. nem composição a uma composição. pela união e pela separação. Não há diversos pontos num lugar qualquer. em partes menores que o dividido. onde há magnitude. que a grandeza pode ser dividida até o nada. os corpos são constituídos de puros nadas. e. o ar é engendrado delas mais rapidamente. não este ou aquele. pois que haveria. que há nela um ponto. Mas é absolutamente sob um ponto de vista que a grandeza é divisivel em toda parte. em toda parte dela. de maneira que daí se seguiria. como se vê. e por acidente. no emprego dos termos enérgeia (acto) e entelékheia (acto. não pelo facto da 20 união e da separação. entelékheia (enteléquia). certa distinção nem sempre fácil de perceber. resolve êle a aporia. daí resultaria. Mas. pois êle os emprega muitas vezes sinonimicamente.

Mas esses filósofos pensam que toda mudança dessa natureza é alteração. Recordemos a sua definição na "Metafísica": "Uma coisa é possível. VII. será divisivel também a um ponto 10 contíguo a esse meio. há divisibilidade. de maneira que daí se seguiria. nem a partir de grandezas indivisíveis (haveria aí múltiplas impossibilidades). nem de ponto a ponto. Tudo isso se esclarecerá a seguir. quando se coloca esta divisibilidade total da grandeza. enquanto que se as partículas de água foram. então. para tal. Há. necessariamente. Não o pode ser. a separação e a união facilitam somente a corrupção da coisa. actualmente é impossível realizar a divisibilidade pante. certa distinção nem sempre fácil de perceber. Não o sendo. em enteléquia. e o que é segundo a matéria. onde há magnitude. mas em toda parte. nem composição a uma composição. desde já. nem de tal maneira que a divisão se produza em toda parte (teria sido mister. a composição. E divisivel em enteléquia. entelékheia (enteléquia). porém. III — A divisibilidade em potência em todos os pontos de um corpo parece-lhe impossível. pois. quando ela passa ao acto da qual ela é dita ter a potência. de pontos. pois os pontos não são consecutivos. Desta forma. com efeito. onde há magnitude. na realidade. será uma alteração. II — Não há nenhuma inconveniência em dizer que o corpo sensível seja e não seja igualmente divisivel. * * * Reexposição comentada I — 5 I — Estamos ante uma aporia que é preciso solucionar. em partes menores que o dividido. não resulta daí nenhuma impossibilidade". Na realidade. No sujeito da mudança. e. Neste caso. e por acidente. não pelo facto da 20 união e da separação. enquanto há um único ponto. Mas acredita-se. O corpo é divisivel em potência (pante. Mas é absolutamente sob um ponto de vista que a grandeza é divisivel em toda parte. Tudo quanto é magnitude é divisivel potencialmente et totaliter. com efeito. é engendrado mais lentamente. e que todos seus pontos estão em toda parte. um ponto. Bem ao contrário. mas a divisão se faz em partículas.25 ração e a corrupção. totalitcr). o termo realizado pela acção. pois que haveria. será a ge. Quando é nestes mesmos factores constitutivos que a mudança se dá. daí resultaria. pois. cm acto. embora não seja em grandezas indivisíveis. como alguns filósofos o sustentam. foi de início dividida em partículas de água menores. se. mas quando há mudança total de tal coisa a tal outra coisa. mas quando é nas qualidades da coisa. pela união e pela separação. não o é por sua vez em potência. é mister distinguir o que é segundo a forma. o ar é engendrado delas mais rapidamente. fique bem estabelecido o 30 que segue: a geração não pode ser uma união. Nem em potência poderia ser simultaneamente divisivel potencialmente et totaliter. pelo menos como a concebem alguns filósofos. eis onde reside todo o erro. ela não é em todos os seus pontos simultaneamente divisivel. não há divisão contígua a uma divisão. Daí resulta que há divisão e composição. enquanto tomados um a um. por conseguinte. geração e corrupção absolutas. como se vê. que ela 5 seria composta de contactos ou de pontos. a saber. e impossível de outro. de início. não este ou aquele. a modal do acto. Mas. VII. em toda parte dela. no emprego dos termos enérgeia (aclo) e entelékheia (acto. a partir de partes menores ainda.60 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 61 lidade total das grandezas é possível de um modo. Mas a geração e a corrupção absolutas e completas não são definidas. totaliter. K mister retornar ao ponto de partida. o corpo se desvaneceria no in- . VIII. reunidas. Há em Aristóteles. em um lugar qualquer nela. quer 15 dizer. que o ponto fosse contíguo ao ponto). o que é absurdo no pensamento aristotélico. que a grandeza pode ser dividida até o nada. os corpos são constituídos de puros nadas. enquanto a mudança no contínuo seria a alteração. com efeito. se ela é divisivel em seu meio. resolve êle a aporia. Em outras palavras. Se a água. há uma diferença. quando. Não há diversos pontos num lugar qualquer. seria divisivel também em acto. Mas pode-se estabelecer esta distinção: enérgeia é acção. que há nela um ponto. por força da definição de possível. se o corpo fosse totalmente divisivel em seus ponlos. pois êle os emprega muitas vezes sinonimicamente. senão. Ora. pois não há posição contígua a uma posição. desde que se distinga potência de acto.

porque. e não apenas uma synthesis dos corpos indivisíveis. uma grandeza indivisível. que é a forma. a leitura. nem simultaneamente em todos os pontos. segregatio. que uma grandeza possa ser dividida pante. mas há uma diferença importante. Também este era o pensamento de Demócrito. Ora. portanto. A divisão faz-se em partículas. os pontos não podem estar ubiquados em acto na linha e daí não poder a linha ser dividida. Desta forma. Emquanto na corrupção é a perda da forma anterior. VI — Mas Aristóteles se opõe aos atomistas. E só se dão coisas consecutivas. pois como já vimos. Não se conclua. sem modificação das substâncias. não se dá a mutação na coisa em si. Quer dizer. mas pelo surgimento de uma nova onsia. então. como já tivemos oportunidade de ver anteriormente. em que a matéria adquire outra forma substancial. quando eles afirmam que a geração seria apenas a união dos elementos. Se não o é em acto. nesse caso. Embora difícil a explanação aristotélica. 0 salto qualitativo que Aristóteles estabelece aqui é de magna importância. Há alteração. Pois ademais não se poderia dividir pante o ponto contíguo se o fosse. e na ousia déutera. diz que a divisão da linha em acto nada mais seria do que um ponto em acto. Ai reside o erro. há uma transmutação ex totó in totum. Na geração. Os atomistas consideram que toda mutação dessa natureza é apenas uma alteração que se produz no contínuo. e o intermediário entre os pontos é apenas a linha. a divisão não poderia prosseguir in infiniium. não o é em potência. O sujeito transmuta-se todo. que ela possa ser dividida totalmente em acto. que a divisão só pode ser feita em grandezas separáveis. do todo no todo. ademais. Não se pode dizer. e a matéria adquire uma nova forma substancial. Ora. quando existe um intermediário. por isso a divisibilidade é possível sob um ponto de vista e não sob outro. admitindo que a geração é apenas synkrisis e a corrupção diákrisis. e não no da física actual). o ponto seria ubíquo na linha. Há geração. há geração e corrupção absolutas. afirma Tricot. não há necessidade de supor partes absolutamente indivisíveis. V — Paralogismo está que um ponto não é contíguo a outro ponto. de nadas. se os pontos não são contíguos uns aos outros. Portanto. em partes menores do que o dividido. quando se dá apenas nas paixões e acidentes estamos na alteração. Tanto quando a transmutação se dá na matéria e forma. e os pontos são apenas limites. Tomás de Aquino. portanto. isso não pode ser porque sendo os pontos indivisíveis. por ex. menores que o composto. e se dessem na linha. que é a matéria. admitindo sempre a existência de grandezas indivisíveis. em sentido filosófico. totalmente.62 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 63 corpóreo. Encontraria um ponto onde deter-sc. decorreria que o ponto se ubiquaria em acto na linha. mas apenas nas suas propriedades. quer dizer. Portanto. comentando este parágrafo. e. Se a linha fosse dividida em acto totalmente. E nada mais são que os átomos de Deinónilo. A alteração diferenciar-se-ia da geração apenas em efetuar-se no contínuo. e nenhum corpo pode ser dividido ao infinito. todos os pontos seriam apenas um ponto. calma e ponderada. e seria constituído de pontos. se a linha fosse totalmente dividida em acto. que constitue o syntheton. como argumentam os atomistas. formando uma unidade. em suas divisões. e em grandezas separadas umas das outras. e dois pontos não são consecutivos. embora invisível. porque surge aqui o composto de forma e matéria (to synolon) e. cada vez menores. e a composição em partes menores. isto é. a mutação no contínuo não é sempre uma alteração. quer dizer. todos os pontos não seriam mais do que um único ponto. átomos de Demócrito. há necessidade de aceitar grandezas indivisíveis (átomos. a contiguidade implica lugar natural. . porque se os pontos são indivisíveis. quando a mutação afecta a qualidade das coisas. Em síntese: a divisão da linha em acto não é nada mais do que a do ponto em acto. deste modo. IV — Ura. na realidade. Resta com clareza. não apenas pela união e separação dos elementos. quando a transmutação se processa apenas nos acidentes. os átomos. Tal não pode ser. uma grandeza pode ser dividida pante num ponto qualquer. que se a linha pode ser divisível totalmente em potência. Conseqüentemente. quando a mudança se produz na ousia prole. A gênesis (geração) é para os atomistas uma synkrisis (uma congregatio) e a phtorá (a corrupção) apenas uma diákrisis. que não admitia que um corpo fosse divisível totaliter em potência e também não o fosse em acto. porque um tangeria o outro como um todo. estamos na geração e corrupção simplesmente. mas já em acto. mas não em todos os pontos simultaneamente. uma separação. e daí decorreria também que os pontos fossem contíguos ou conseqüentes. um não excede ao outro e. quando a transmuta. porque o ponto não tem dimensão. Agora. em acto totalmente. é que há alteração. permite compreender os pontos fundamentais da sua doutrina. e a corrupção uma separação. muitos pontos contíguos não excederiam a um ponto.

pois como já vimos. nem simultaneamente em todos os pontos. sem modificação das substâncias. uma grandeza pode ser dividida pante num ponto qualquer. Desta forma. muitos pontos contíguos não excederiam a um ponto. Tomás de Aquino. Os atomistas consideram que toda mutação dessa natureza é apenas uma alteração que se produz no contínuo. que não admitia que um corpo fosse divisível totaliter em potência e também não o fosse em acto. quer dizer. e os pontos são apenas limites. os átomos. uma grandeza indivisível. que se a linha pode ser divisível totalmente em potência. se a linha fosse totalmente dividida em acto. A alteração diferenciar-se-ia da geração apenas em efetuar-se no contínuo. mas pelo surgimento de uma nova ousia. e a composição em partes menores. todos os pontos não seriam mais do que uni único ponto. V — Paralogismo está que um ponto não é contíguo a outro ponto. porque um tangeria o outro como um todo. há uma transmutação ex totó in totum. em suas divisões. não se dá a mutação na coisa em si. que a divisão só pode ser feita em grandezas separáveis. Encontraria um ponto onde deter-se. Tanto quando a transmutação se dá na matéria e forma. que uma grandeza possa ser dividida pante. mas há uma diferença importante. em partes menores do que o dividido. cada vez menores. VI — Mas Aristóteles se opõe aos atomistas. que é a forma. deste modo. diz que a divisão da linha em acto nada mais seria do que um ponto em acto. uma separação. não há necessidade de supor partes absolutamente indivisíveis. e daí decorreria também que os pontos fossem contíguos ou conseqüentes. calma e ponderada. isso não pode ser porque sendo os pontos indivisíveis. O sujeito transmuta-se todo. a mutação no contínuo não é sempre uma alteração. quando a mudança se produz na ousia prole. portanto. Embora difícil a explanação aristotélica. mas apenas nas suas propriedades. Não se pode dizer. que constitue o syntheton. Também este era o pensamento de Demócrito. permite compreender os pontos fundamentais da sua doutrina. menores que o composto. e a matéria adquire uma nova forma substancial. Resta com clareza. não apenas pela união e separação dos elementos. Tal não pode ser. IV — Ora. quando a transmutação se processa apenas nos acidentes. quando existe um intermediário. quando a mutação afecta a qualidade das coisas. mas não em todos os pontos simultaneamente. um não excede ao outro e. afirma Tricot. átomos de Demócrito. totalmente. de nadas. se os pontos não são contíguos uns aos outros. Ora. decorreria que o ponto se ubiquaria em acto na linha. e seria constituído de pontos. Se não o é em acto. E nada mais são que os átomos de Demócrito. do todo no todo. A divisão faz-se em partículas. Pois ademais não se poderia dividir pante o ponto contíguo se o fosse. em sentido filosófico. não o é em potência. porque se os pontos são indivisíveis. por isso a divisibilidade é possível sob um ponto de vista e não sob outro. quando se dá apenas nas paixões e acidentes estamos na alteração. comentando este parágrafo. a contiguidade implica lugar natural. e nenhum corpo pode ser dividido ao infinito. o ponto seria ubíquo na linha. e em grandezas separadas umas das outras. como argumentam os atomistas. quando a transmuta. Não se conclua. estamos na geração e corrupção simplesmente. admitindo que a geração é apenas sijnkrisis e a corrupção diákrisis. a leitura. como já tivemos oportunidade de ver anteriormente. E só se dão coisas consecutivas. e na ousia déutera. por ex. ademais. os pontos não podem estar ubiquados em acto na linha e daí não poder a linha ser dividida. a divisão não poderia prosseguir in infinitum. e se dessem na linha. Ora.62 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 63 corpóreo. e o intermediário entre os pontos é apenas a linha. segregalio. Ai reside o erro. . Em sintese: a divisão da linha em acto não é nada mais do que a do ponto em acto. O salto qualitativo que Aristóteles estabelece aqui é de magna importância. isto é. e não no da física actual). há necessidade de aceitar grandezas indivisíveis (átomos. porque o ponto não tem dimensão. porque. quer dizer. que ela possa ser dividida totalmente em acto. então. em acto totalmente. quando eles afirmam que a geração seria apenas a união dos elementos. Portanto. todos os pontos seriam apenas um ponto. admitindo sempre a existência de grandezas indivisíveis. e dois pontos não são consecutivos. Emquanto na corrupção é a perda da forma anterior. na realidade. portanto. em que a matéria adquire outra forma substancial. nesse caso. Na geração. mas já em acto. Há geração. Agora. Quer dizer. formando uma unidade. Se a linha fosse dividida em acto totalmente. Há alteração. A gênesis (geração) é para os atomistas uma sgnkrisis (uma congregatio) e a phtorá (a corrupção) apenas uma diákrisis. há geração e corrupção absolutas. e. Portanto. é que há alteração. e não apenas uma synthesis dos corpos indivisíveis. e a corrupção uma separação. embora invisível. porque surge aqui o composto de forma e matéria (to synolon) e. que é a matéria. Conseqüentemente.

E de tal forma que seria verdadeiro dizer que o não-ser existe. |ior exemplo. engendra mais facilmente o vapor. Se houvesse. de alguma coisa se lorna alguma coisa. e. haveria negação total de todos os seres em geral. Se por outro lado não-ser é tomado num sentido geral. admite. Pois a geração relativa procede do não-ser. nenhuma outra categoria. devemos de início examinar se existe alguma coisa que seja engendrada e corrompida de maneira absoluta. agora recordar brevemente. ou então se não há geração propriamente dita. nem a individualidade. II. portanto. com efeito. o doente. o que é "absolutamente". condido convém ainda. do pequeno. que elas as facilitam. Contudo. relativo. III. como concebem os atomislas que a explicam pela synkrisis. <lc certa maneira. VIII — Conclue. tornariam tais processos mais lentos. ou significa o que é primeiro segundo cada categoria do ser. porque então as qualidades poderiam ser separadas das substâncias. haverá geração de uma substância a partir de uma não-substância. e igualmente em todos os demais casos. Mas aquilo ao qual não pertence nem a substância. que a geração não é uma união. geração absoluta. Todas essas questões foram em nossas obras. por exemplo. nem a qualidade. TEXTO DE ARISTÓTELES I —6 I. que. sempre.64 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES VII — Embora Aristóteles não admita que a separação e a união não constituem a corrupção e a geração. dividida em partículas menores. ou como o pequeno vem do grande. uma vez colocadas. a lal não pode evidentemente pertencer nenhum pred içado. V. nem o lugar. no primeiro sentido. ao contrário. É este um ponto que êle desenvolverá mais adiante. a geração se faz a partir do que 35 317b 5 10 15 . do doente sobrevém o saudável. e exemplifica com a água que. emquanto que tais partículas. reunidas. pois. do saudável. Elas preparam e facilitam tais processos. alguma coisa poderia vir do não ser absoluto. nem a quantidade. como. uma coisa. fala-se do não-ser. VI. e. se. discutidas e definidas mais amplamente. Essas distinções. e o grande. ou apresenta um sentido universal e que abarca todas as categorias. porém. VII. IV. tal como do não-branco o branco ou do nãobelo o belo. de maneira que necessariamente o nigendrado viria do não-ser. Se. enquanto a geração absoluta procede do não-ser absoluto.

mas que. e convém retomar sobre nossos passos. com eleito. ou o lugar. sendo impossível como tal. VIII.comenta Tricot — haveria geração de uma substância a partir de uma não-substância. As distinções são: 1) significa o que é o primeiro termo entre o gênero mais afastado em cada categoria. o selem potência. o não ser seria predicável como atributo de um ser. Neste caso. a geração (gênesis) é a producção de uma nova ousia (substância). com efeito. se ao invez não se traia do ser que tem tal qualidade. Portanto. e na qual deve necessariamente 25 mudar-se o que é destruído. dos quais acabamos de falar lhe pertencessem. Provará que. no que "concerne à categoria da substância —. não poderia produzir algo. é um ser determinado que é engendrado. torna-se claro que não se pode afirmar que o não-ser gere simplesmente o ente.20 ção absoluta. pois não tem eficácia. uma coisa determinada e um ser. pertencerá ao que é. já que teríamos de admitir a eficacidade do não-ser em ser e. enquanto a geração absoluta (simpliciter) seria a do não-ser absoluto (ex non ente simpliciter) . nem uma coisa determinada nem um ser? Pois se esta coisa não possue nenhum destes últimos predicados em entelequia. agora pretende êle expor a sua maneira de considerar tema de tal importância. IV — A geração relativa (secundum quid) é a que decorre ex non ente aliquo. o . Por outro lado. F. Reexposição comentada I — 6 I — Expôs Aristóteles a geração e a alteração. apenas em potência. 2) ou então o ser em comum. Como o expõe Tomás de Aquino. o pequeno (generatio secandum quid). E coloca a temática do seguinte modo: a) se há geração e corrupção absolutas (simpliciter). assim como dissemos. V e VI — Para responder as dificuldades que surgem» é mister primeiramente estabelecer as distinções que se podem fazer sobre o que é "absolutamente" (ens simpliciter). Mesmo raciocínio se se trata de uma categoria segunda (por ex. o que Aristóteles faz. como por ex. b) se não há e. segundo a opinião dos outros filósofos e. até quando essas distinções estão estabelecidas. 3) o que absolutamente não é ser (to aplôs mè ón). que preexiste necessariamente. o que levaria a dizer que algum ser pode vir de nada. pois é nada. que há geração. como diferenciar a alteração da geração ou se esta é apenas uma decorrência daquela. por exemplo. a ousia em fíeral para a categoria de substância. ou tal quantidade ou que ocupa tal lugar. que compreende todas as categorias. O não-ser. coisa impossível. ela se faz sempre a partir do ser. nesse caso. neste caso. daí resulta desde logo que o que não é um ser determinado é separado. Poder-se-ia perguntar. se qualquer dos outros predicados. pois essa conseqüência é totalmente impossível. e. mas dessa espécie de ser. Se. II — Se há uma geração absoluta (simpliciter) alguma coisa poderia simplesmente vir do não-ser absoluto (mè ontos). e do grande. Mas. Será que a esta substância pertencerá em entelequia algum predicado das outras categorias? Em outras palavras. No primeiro caso. isto é. de f acto. quer ela se produza a partir de ser em potência. do ser determinado. que dá: se do pequeno vem o grande. gera-se e corrompese em algo. ademais (problema que mais atormentou e preocupou 30 os primeiros filósofos). para um novo exame: como pode haver aí gera. Igual pergunta caberia quanto à corrupção. o qual é não-ser em entelequia. Se do não-ente (não-ser) se gerasse o ente. X. III — O absurdo ressalta aos olhos. absolutamente. já que esta coisa não é uma coisa determinada ou uma substância. quer de uma outra maneira? IX. É. e nós o chamamos ao mesmo tempo. em potência e não cm entelequia. as qualidades seriam. é claro que será uma substância. do não ser algo (não privação absoluta do ser). mas apenas os possue todos em potência. separadas das substâncias. de ser e de não-ser. de outra maneira. seria ente. isto é. se é da substância. a quantidade ou a qualidade. mas que não é. com efeito. será que. a partir da qual a geração terá lugar. poder-se-ia dizer que é dessa outra. como os exemplos. assim se a madeira se gerasse em armário poder-se-ia dizer que a madeira é armário. poderia este ser predicado àquele. o que é contradiclório.66 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 67 não é absolutamente. do que não é branco gera-se o branco.. o não-ser existiria. que o ser procede de um nãoser preexistente. o que é gerado ou corrompido. se alguma coisa se gera de outra. como por ex. eis que uma extraordinária dificuldade se apresenta.

em acto. tode ti. que deixa de ser. Discutiu-os e definiu-os mais amplamente. Ora. a presença do ser não é absoluta (pois o ser em potência não conhece ainda a perfeição do acto). Se se aceitar a primeira. VII — Tais problemas já haviam sido examinados em outras obras como na "Física" I. não em acto. ao que não pertence nem à substância nem à individualidade não pode pertencer a nenhum predicado de nenhuma outra categoria. deste modo. o não ser. Por isso pode dizer-se de modo absoluto (simpliciter). pois do contrário não haveria geração. que é não-ente em entelequia. Como predicar-lhe então os acidentes? No terceiro caso. de um não ente. não é hoc. sim. Como esta última solução já está descartada. Empédocles. o que é gerado. isto é. num scnlido. e ou a corrupção (simplex). mas em potência. hoc aliquid. mas alguma coisa. Se está em potência está em outro. que preexiste necessariamente. Soluciona a dificuldade. dificuldades que decorrem das soluções oferecidas. que significa "o que absolutamente não existe". que não era o novo ser que se gera. portanto. o que é impossível. e to mè ón aplôs. o ser em potência". um áliquid. estavam ou não em actos outros predicamentos (os accidentes). pois o que não c.68 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 09 branco vindo de uma não-qualidade). conseqüentemente a geração. o não-ser absoluto (oposto ao to aplôs ôn). No primeiro caso. o que é uma absurdo. o gerado. Se não é substância nem individualidade. 6-9. realizar-se-á a geração e o que surge. Neste caso. X — Surgem ainda problemas para Aristóteles. absoluta. uma substância. mas salvas as distinções de potência e acto. Conseqüentemente. mas. é só da substância. de Melisso de Samos. surge uma nova aporia. se corrompe. neste caso.. a substância se geraria da não substância. o absurdo de uma geração é patente. que a geração se faz do ente e do não-ente. pois a potência não se dá de per si. o que se gera implica um prexistente que não pode ser nada. a conclusão a que chega Aristóteles é a de que não se poderia dar uma geração simples. por sua vez. mas apenas em outro. Se não estavam. mostrando que a geração se faz simplesmente da seguinte maneira: 1) de certo modo. onde estudou a posição de Parmênides. seguir-se-ia que o não ser estaria separado. Resta. gera-se de um substância anterior ou então viria do nada. Não pode estar em acto. a geração é a superveniência de um ser de um não ser anterior. ou que algo se geraria de um não-ser preexistente. Anaxágoras. Partamos daqui. que a matéria subjectiva estai-ia privada de toda forma. ou é a matéria prima (próte hylê) ? IX — Pergunta-se se há geração e ou corrupção vinda da substância ou dos demais accidentes (predicamentos). SÍNTESE DA REEXPOSIÇÃO O que se gera. Como pode surgir uma geração absoluta (simplex). comentando a terminologia aristotélica. tais como a qualidade. dos platônicos. se o não-ser é absoluto (universaliter negatio omnium entium). que a substância se geraria do não ser em acto e do ser em potência. não é nada. isto aqui. a substância do ser gerado está em potência em aliquid em acto. "contra rationem naturalis generationis et contra sententias omnium philosophorum naturalium" (contra a razão da geração natural e contra a sentença de todos os filósofos da natureza). Ora. são entes em outros. pois teríamos a geração do nada (ex nihilo) o que é. quer dizer "o que é em certo sentido". para esclarecê-la acrescenta: "Convém não confundir to aplôs mè ón. como os accidentes são entia qiübus e não entia quae. da qual é ela uma simples determinação. vinda da potência do ente ou de qualquer outra maneira? É a sede da geração o synolon. O que preexiste na geração é o ente em potência. etc. quantidade. Em síntese podemos concluir ante tais aporias. Portanto. Se a substância surgisse do não-ente. porque. sobrevém do que estava antes em acto que. como diz Tomás de Aquino. no segundo. VIII — Estabelecidas tais distinções. e não simpliciter entia. o composto de matéria e forma. estar em potência: o que se gera está em potência em outro. que é o demonstrativo individual da substância. Mas esse aliquid ou está em acto ou está em potência. que antecede. neste caso os accidentes estariam separados da substância. que se deve traduzir por "o que não é absolutamente". Dessa potência. Portanto.. de um ente. é absoluta ausência de ser. e o gerado viria do não-ser absoluto. 2) e de outro modo. como o define Tomás de Aquino. teríamos de aceitar que os acidentes poderiam existir separados das substâncias. é substância. e de Anaximandro. é um nada relativo c não um nada absoluto. senão a qualidade existi lia independentemente da substância". pois o noda não tem eficácia. mas que era um ser que se corrompe. lugar. que supõe a substância. para que surja o . Tricot. etc. Neste caso. que o que se gera de uma substância. pois há negação total de todos os seres.

assim. A substância do (pie se gera. e. está em emergência o que se gera. pelo escotismo. pertence a outra filosofia. por exemplo. é indeterminada. nem uma coisa determinada. em qualquer momento. Quanto ao que é.70 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES novo. como um ser real. e que o não-ser nada seja. pois. surgiria a aporia que atormentou e preocupou os primeiros filósofos gregos. Mas eis que surge a aporia: a substância é delerininada pelos accidenles e se não estão estes em «cio. dar-se-ia separadamente. um não ser. pois. Se a substância em potência não lhe pertence em acto. que dificuldades exigem todo o nosso esforço. também se esclarecerá. tema das próximas especulações de Aristóteles. Há. do contrário. separadas da substância. alguma coisa perpétuamente imóvel. por um lado. qual é a causa da perpetuidade da geração. se supomos finito. « substância não é determinada de modo algum e. Estamos também bastantemente embaraçados para explicar qual a causa da continuidade da geração. neste caso não seria tal substância. e por outro lado. Se tal substância possuísse. mas apenas em potência. Admitindo que esta substância não é uma coisa determinada. é da causa colocada sob sua natureza material que devemos falar. Mas. III. por outro lado. que é a matéria prima (prole lujlê). sem 10 dúvida. o prin. por exemplo: a quantidade. em nosso tratado do Movimento. Onde há geração. à qual cabe tratar. de uma parte. e não desapareceu. com efeito não é nem uma coisa determinada. O que é gerado não pode estar em acto no que é corrompido. em absoluto. como muito bem disse Tomás de Aquino. se é verdadeiro que o que é destruído se desvanece no não-ser. a totalidade dos seres não foi destruída há muito tempo. (piai é. é desta última causa que devemos falar. qual seja a de que o ser procederia de um não-ser preexistente. que ela implica. com perseidade. ao mesmo tempo. o accidente se daria separado da substância. neste caso. entre as causas ditas individuais. presentemente. tanto da geração absoluta como da geração parcial? 35 II.318a eípio de onde dizemos que vem o movimento. estes predicados em potência. Eis. o presente problema. Quanto ao outro princípio. a geração simples nos indica que a substância se gera de um não-ente em acto e de um eníe em potência. salvo se se considerasse essa substância indeterminada. o (pie é rejeitado pelo aristotelismo e não o é. devemos determinar mais longe. que não é determinado. então. aquela que apresenta este caracter. TEXTO DE ARISTÓTELES I —7 I. nem um lugar. algum dos seres desaparece. (Causa) significa aqui. há corrupção. como já vimos em nossos livros "Ontologia" e "Cosmologia". este ser. a qualidade ou o lugar. o (pie é impossível. e conseqüentemente o ser procederia de um não ser preexistente. 5 alguma coisa de sempre movido. Portanto. conlemporaneidade da geração e da corrupção. O 15 não-ser. o que é impossível. e o provará posteriormente Aristóteles. eniquanlo substância dêlc. e. nem uma quantidade. expusemos anteriormente. que move tudo o mais pelo facto de ser êle mesmo movido de maneira continua. a saber. são entes com inaliedade e não com perseidade. quer dizer. por que. que não poderiam provir do nada. em virtude da qual. não eslá em «cio no (pie se corrompe. as qualidades nela não estariam. então. com efeito. Se. como afinal é preciso explicar a corrupção e a geração absolutas. E estas qualidades. pois. à filosofia primeira. estivessem estes em potência também. o de onde procede cada um dos seres engendrados? . no (pie se corrompe. pois os acidentes são mlia (/iiibns e não ciüia quac. Conseqüentemente. E lambem lem de eslar em potência qualquer acidente dessa substância. nem um ser. Só pode estar em potência. Pois. pois haveria contradicção. da outra causa. e. bem entendido. nem uma qualidade. Acrescentemos mais esta. Destas duas coisas. a matéria. dar-se-iam. o que leva à afirmação da perpeluidade da geração no cosmos. nesle caso. jamais a corrupção e a geração deixam de faltar na natureza. a que concerne o princípio imóvel.

e êle as examina para derrui-las. é o que não verificamos. perda) pela corrupção. b) a matéria.72 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 73 IV. XXIX). que a mutação nccessàriamenlc não se delem? E. que sempre se dão na natureza. mas apenas transformações recíprocas no seio de uma substância permanentemente em acto. O outro princípio que move tudo o mais pelo f acto de ser por sua vez movido de maneira contínua. como a alteração. que propunha o número infinito das homeoinérias. fí sòmcnle cm potência. fonte dessa geração. como o compreende também a matemática. sem desfalecimenlo desta. mas apenas em potência. lais como se manifestam de maneira semelhante. Reexposição comentada I — 7 I — O problema que surge agora é o da determinação da causa da perpetuidade da geração. ao admitir-se uma geração absoluta das substâncias. o ar ou a terra dos filósofos antigos. a dificuldade consistirá em explicar a continuidade da geração. sendo por sua vez movido de maneira contínua.. A geração parcial (gênesis katà meros) dá-se nas mutações não-substanciais. (Lect. assim. 10-6 a 10-33). o termo gênesis para referir-se às espécies de kínesis (movimento). V. para Iodos os seres. há lugar para algumas razões em defeza de tal tese. deve ser considerada como adequadamente explicada. eternamente imóvel. por sua vez. Se a geração e a corrupção são perpétuas. Cap. In Metaphys. que uma coisa é infinita. a existência da geração e da corrupção. E se o cosmos é finito. Mais adiante se verá que Aristóteles não admite nem uma geração nem uma corrupção absolutas. isto é impossível. que viria ab aeterno. IV — No entanto. ou como Demócrito que afirma a infinitude do espaço vazio (to kénon). deveria ter sido o cosmos consumido. aqui. nessa ocasião. Mas.). por esla causa material. (M. a causa material. na realidade. XII. (Liv. por divisão. assim. Não é. o eternamente movido. Teve Aristóteles oportunidade de mostrar quais as razões da perpetuidade do movimento (motus perpetuun) e a perpetuidade do cosmos na "Física" (VIII) e no "De Caelo". de número também infinito. o primeiro motor. O que é gerado em absoluto (simpliciter). (L. de precisar o caracter que lhe é próprio. que haveria apenas uma possibilidade para a geração ser indefectível. por epie a corrupção desta coisa é a geração de uma oulra. interessa-se em estudar a causa material em virtude da qual há sempre a geração e a corrupção. e temos a causa eficiente ou movente (to kinoun). V. em cada um dos seres. uma corrupção absoluta cairia num não-ser absoluto. n. III) e no "De Caelo" (Cap. a causa eficiente implica algo perpètuamente imóvel. X). . 6 sqq. VIII da "Física". Tratar-se-á. como o fogo. neste caso. cheio de átomos. porque nada é infinito em acto.20 dade. e o primeiro céu. como o expõe no mesmo livro. cap. No tratado do Movimento. determinou a causa da perpetuidade do movimento e da geração. sempre algo é subtraído da natureza das coisas. de lal forma. II — A causa pode ser definida de duas maneiras: a) de onde vem o movimento. a água. c a geração desta. é examinado no Livro II desta obra. desde todo o sempre. Um infinito quantitativo em acto é rejeitado por êle na Física. a saber: que ela o foi por diminuição progressiva. e não restaria mais do que um vácuo (inane). VI. o aumento e a diminuição e a transladação. II. 1. Cabe à Metaphysica estudar o princípio eternamente imóvel. Por ora. é gerado de um não-ente simpliciter. levaria a não aceitar um fim. 25 a corrupção de uma oulra. tanto da absoluta (simplex). e dando-se sempre uma ablatio (uma ablação. Posteriormente se poderá conceber a substância em potência de onde procede a geração absoluta. totalmente nada. como da parcial (secundum quid). E. Emprega. Pois não é seguramente à infinidade desta fonte da geração que pode ser atribuída a continui. ou como Anaxágoras. V e sqq. A afirmação de um princípio infinito. e. Mas Aristóteles não admitia o infinito numérico em acto (o "mau infinito" de que posteriormente tratará Hegel na Grande Lógica) como possibilidade de um divisão e possibilidade de uma adição. Deus. o de mover tudo o mais. que são animadas de um movimento eterno e universal. III — Oferece de antemão uma objecção à perpetuidade da geração. pois. num não-ser que não é nem substância nem accidente. O número é infinito no sentido da possibilidade de receber uma adição. no L. E como salienta Tricot. a Esfera das estrelas fixas.

Tomás de Aquino nos mostra o argumento de Aristóteles em palavras claras. como o expõe Joachim. e.318b terminada. em suma. que não é um puro nãoser. . pura potência. nas quais a mutação se dá. a saber: o ser e o não-ser. E tal coisa que se torna alguma coisa. Há conversão recíproca de um sujeito permanente. o que procuramos. mas matéria já informada. na mesma proporção. TEXTO DE ARISTÓTELES I —8 I. sem necessidade de admitir a eternidade ou a infinitude do cosmos. da terra. mas uma corrupção de alguma coisa.74 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES IV — Resta. de geração e de corrupção não-absolutas? Uma vez mais. nem uma corrupção total. a divisão em potência. Este ponto. Pois dizemos que "há presentemente corrupção". por um lado. assim. Há. e chamamos. poder-se-ia supor uma perpetuidade de gerações. uma geração lolal. pois dizemos do sujeito que estuda. Sem dúvida. V A solução sobrevêm ao compreender que a geração de uma coisa c a corrupção de outra. devemos. um ser é gerado. então. Pode-se. exige uma explicação. mas um infinito em potência. simplesmente. geração. pois se a causa material é infinita. pouco importa. falamos em certos casos. que é o íerminus ad quem da geração. não se torna absolutamente. portanto. e este é o pensamento da escolástica. privada apenas da determinação. pois. substância aetual positiva. enquanto :i passagem ao ser absoluto é uma geração absoluta. por exemplo. de geração e corrupção absolutas. tal outra. são em número de duas. é também desta divisão que decorre a distinção procurada. a geração desta a corrupção daquela. quando diz que as coisas. Tal é igualmente a teoria de Parmênides. tal mutação. é o modo dessas mutações e não o seu sujeito.5 ber. simplesmente. e viceversa. e por outro lado. uma corrupção absoluta. enquanto a geração da terra é uma geração relativa e não uma geração absoluta. admitir a sempiternidade da geração e da corrupção. e islo sem cessar. e não simplesmente que êle se torna. com efeito. E em seus comentários. Não há. deste modo. à cada geração. Da mesma forma. são o fogo e a terra. Que seja tal ou outras coisas análogas o que se supõe. pois daí resulta uma diferença no em que muda o que muda. examinar se é verdade que há identidade entre a geração desta coisa aqui e a corrupção daquela lá. mas uma corrupção absoluta. A passagem ao não-ser 10 absoluto é. quanto ao fogo. sem necessidade de cair nas velhas aporias. Desta forma. corrupção. assegurando que essas duas coisas. e esta outra é engendrada. se tani. salva-se a perpetuidade da geração e da corrupção. mas com a condição sempre de que o número dos seres engendrados diminuísse. Mas por que. quando um ser se corrompe. que muitas vezes dividimos os termos segundo significam uma coisa de. II. a substituição de uma forma por outra. Assim. pois. em outros. < > que não vemos suceder. em vez de dizer que "esta coisa aqui se corrompe.30 bém a há entre a corrupção desta e a geração daquela. e. o fim. o que não nos comprova a experiência (hoc autem non videnuis ila aecidcie). ou não. a sa. pois. Não há um infinito cm acto. que êle se torna sábio. a passagem ao fogo é uma geração absoluta.

é a semente que desaparece. esquecemos que a geração de uma coisa é a corrupção de outra. embora essa opinião comum não seja em si mesma verdadeira. ou menos sensível. Assim. com 35 efeito. uma geração absoluta. ou mais substância. segundo a verdade. ou mais sensível. é então não-ser. III. e nascem absolutamente quando são mudadas cm alguma coisa tangível. e quando há numa matéria invisível. Que haja. num sentido. falamos. VII. uma privação. Quando o homem se torna sábio. mas se elas significam uma privação. ela não se torna absolutamente. quando o arbusto nasce. Reexposição comentada I — 8 I — Cabe agora investigar por que em certas ocasiões. são mais uma coisa determinada e mais uma forma que a terra. pois. a matéria a partir da qual e para a qual as mutações se efectuam. quanto mais suas diferenças significam um ser determinado. simpliciter). Mas elas diferem de uma outra maneira ainda. ou alguma dupla de contrários. Com efeito o ser e o não-ser são comumente definidos pelo que é ou não susceptível de ser percebido. não dizemos apenas que èle se torna. pois. para a sensação. Resta saber se há identidade na corrupção desta com a geração daquela. diz-se que há geração. emprega Aristóteles a expressão geração e corrupção absolutas e em outras. portanto. O que chamamos geração de uma coisa é também a corrupção de outra coisa. geração e corrupção não absolutas. se se faz num estado negativo (tó mé òn). São essas inexactidões comuns na linguagem. todas as vezes que os termos que definem a mutação sejam ou o fogo c a terra. assim o quente é um predicado positivo e uma forma. A respiração. contudo. Há uma diferença entre o em que muda o que muda (em que se transmuta o transmutante). É. enquanto que. quer dizer. quando elas se transformam em sopro e em ar. ou menos substância. mais é êle mesmo substância. Se não existem. e uma corrupção absoluta. por- . e quando é secundum quid. falamos de uma gênesis tis ou de uma phtora aplê (de uma geração secundum quid. Para um sujeito material. em terra). estamos no bom caminho da verdade. acabamos de explicar a causa. menos reais (eis por que também se diz comumente que as coisas perecem absolutamente. Está aqui a primeira distinção que nota: se a mutação substancial faz-se num estado positivo (tó òn). o nãoser. Quando uma coisa se torna outra. e o não-cognoscível não é. VI. Eis. uma primeira maneira de como a geração e a corrupção absolutas diferem da geração e da corrupção não-absolutas. esquecemos de dizer que outra se gera. em suma. embora seja uma corrupção de alguma coisa. por que fala como se existissem. a matéria. da mesma maneira que o cognoscível é. que é a causa dessa distinção: e tal se dá porque é ou substância.76 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 77 Assim. II — O problema que surge agora para Aristóteles consiste em solver qual ou quais distinções se podem apontar entre a geração e a corrupção simpliciter e a secundum quid (a absoluta e a relativa). é uma corrupção. de uma geração absoluta {gênesis apló) ou de uma corrupção relativa (phtorá Unos). Segundo a opinião geral. IV. V. quando há mutação em uma matéria sensível. é pela natureza especial do sujeito material. e. e vice-versa. então. e a distinção da terra e do fogo surge dessas diferenças. Da mesma forma. quando um homem se torna sábio. com efeito. um deles será o ser. quando é simpliciter. a diferença reside previamente na distinção do sensível e do não-sensível. com efeito. e de uma corrupção absoluta. Daí resulta que a opinião comum e a verdade estão em desacordo a respeito da geração e da corrupção absolutas. como exemplifica Aristóteles. A distinção reside. pois. relativa. como se geração de uma coisa não fosse a corrupção de outra? Aristóteles vai examinar esses pontos e esclarecer as imprecisões de linguagem que até aqui surgem tantas vezes. tanto quanto sentimos ou temos o poder de sentir. tendo assim a sensação valor de ciência. quando dizemos que uma coisa se corrompe. o outro. é assim que se julgam também as coisas. desaparece o ignorante. e o frio. que sentimos comumente a nós-mesmos viver e existir. pois. e o ar são. embora seja uma geração de al- guma coisa. ou não-substância.

do fogo. é u m a r e a l i d a d e negativa. Deus. e m b o r a seja u m a geração de . pois êle considerava muito diferentemente o ser. q u a n t o à á r v o r e . q u e n ã o perfecciona a espécie n a t u r a l . outra imperfeita. p o r e x e m p l o . a f o r m a . a form a do h o m e m . IV — Estabelece Aristóteles u m a terceira distinção. e a secundum quid. e n u n c a realiza o ente completo segundo a espécie. e h a v e r á geração ou c o r r u p ção simpliciter. a p a r t i r d a f o r m a p u r a . ao contrário. q u a n d o a substância fôr m a i s real. S o l u ç ã o : O não-ente simpliciter entende-se a m a t é r i a com a p r i v a ç ã o de a l g u m a f o r m a . n ã o ao a f i r m a r a v e r d a d e do sentir. A f o r m a p o d e ser t o m a d a d ü p l i c e m e n t e : u m a perfeita. como. simpliciter. m a s o ente incompleto. esta diferença p o p u l a r n a m a t é r i a p r ó xima reside n a a p a r ê n c i a sensível ou n ã o sensível desta m a téria. Desta forma. p o r q u e sentimo-las. p o r q u e inclue m u i t a s gerações i n t e r m é d i a s . Esta c o m p r e e n são de Avicena c aceita n a escolástica p o r D u n s Scott. a c o r r u p ç ã o é absoluta. Estabelece Aristóteles o g r a u de realidade de u m ser pela colocação que t e n h a n a h i e r a r q u i a dos seres. secundum quid. a f o r m a da água. u m d e s a c o r d o <la opinião c o m u m e da v e r d a d e . a terra. na qual se dá u m a c o r r u p ç ã o relativa. Q u a n d o tais corrupções a t i n g e m a u m a g r a u que as leva ao s u r g i m e n t o de u m a nova f o r m a . O fogo é positivo. Assim. como diz Aristóteles.s e sábio. a geração é secundum quid. q u e é a via p a r a a espécie. e finalmente se alcança u m a forma completa. m a s está n o c a m i n h o d a geração e da c o r r u p ç ã o . por isso p o p u l a r m e n t e se liz q u e as coisas se e v a p o r a m . o que se procura é o modo destas m u t a ç õ e s e n ã o o sujeito delas. o n a s c i m e n t o de u m homem. q u e seria a da terra. só é perfeita q u a n d o atinge a f o r m a completa d a á r v o re. Da semente às f o r m a s i n t e r m e d i á r i a s até a l c a n ç a r à á r v o r e com- pleta. pois colocaríamos a verdade a p e n a s e m nós e n ã o n a s coisas (nulla veritas est in rebus em tal caso. e n c o n t r a m o s as f o r m a s imperfeitas da á r v o r e . m a s actus virtualis d a á r v o r e . os t e r m o s de uma m u t a ç ã o indicam. p o r q u e a r e s p i r a ç ã o e o ar são. deste m o d o . As f o r m a s i n t e r m é d i a s são formas incompletas. É real o q u e se percebe. t o r n a r . um o ser. estimando-se a p e n a s o q u e é ser q u a n d o é captável pelos sentidos. Q u a n d o através d a p r i v a ç ã o se j u n t a m formas imperfeitas. m e n o s reais. K a c o r r u p ç ã o absoluta se dá q u a n d o as f o r m a s em decomposição são substitiuídas p o r n o v a s formas. como. p o r sua vez. como diz Aristóteles. o não-ser. Tal exemplo não procede segundo o p e n s a m e n t o de Aristóteles. como m o s t r o u Avicena. pois t e m m a i o r d e t e r m i n a ç ã o q u a n d o ar do que quando terra. Aristóteles m o s t r a q u e liá u m a g e r a ç ã o absoluta.78 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 79 tanto. r e l a Srva. q u a n d o u m a cousa m a t e r i a l sensível a p a r e ç a ou d e s a p a r e ç a . as q u a i s se r e a l i z a m s i m u l t a n e a m e n t e com a c o r r u p ç ã o de o u t r a s formas. q u a n d o o fôr m e n o s . («orno a expõe Tricot. a q u a l consiste no g r a u de r e a l i d a d e d a m a t é r i a . D u r a n t e esta via. q u a n d o se dá. que n ã o é o t e r m o d a intenção da n a t u r e z a . Assim o arbusto. P o r s u b t r a i r a verdade d a s coisas. Assim. p o r exemplo. U m a c o r r u p ç ã o absoluta. como a terra. como expõe T o m á s de Aquino. Quer se trate da teria. N a v e r d a d e . do corpo se perfecciona. A c o r r u p ç ã o absoluta v aquela (pie leva ao n ã o ente absoluto. o inverso. por e x e m p l o . é u m a f o r m a imperfeita. V — D e m o n s t r a Aristóteles a falsidade desta sentença. a semente é u m actus virtualis do arbusto. m a s definir as coisas pelo sentir é falso. o qual. p a r a a sensação. e neste caso é q u e se dá a geração absoluta simpliciter. através de m u i t a s corrupções i n t e r m é d i a s . e n q u a n t o a geração da terra seria u m a g e r a ç ã o relativa e uma c o r r u p ç ã o absoluta q u a n t o ao fogo. ou de q u a i s q u e r outros elementos. q u a n d o q u e r e m o s dizer q u e elas p e r e c e m . no estado positivo ou negativo da m a t é r i a da m u t a ç ã o ( T r i c o t ) . H a v e r á geração simpliciter. VII — Sintetizando o q u e disse. ou a t r a n s f o r m a ç ã o d a á g u a em ar. n a r e a l i d a d e . neste ponto. n ã o é falso. E s t a é u m a distinção q u e c o m u m e n t e se p r o p õ e . tal afirmativa. é u m actus formalis do arbusto. É fácil. n ã o h á passagem do actus formalis p a r a o actus formalis n a geração. e o outro. q u e completa a espécie. Assim o sêmen é u m a f o r m a imperfeita. e m b o r a seja u m a c o r r u p ç ã o de algo. temos a generatio simpliciter. pois p a r a este a v e r d a d e t a m b é m está n a s coisas). E h a v e r á geração e c o r r u p ç ã o relativa. q u e são a via d a geração. pois ao a f i r m a r m o s a certeza da nossa existência ou das coisas. A distinção entre a geração simpliciter e a secundam quid se estabelece desta forma pela via (pie tende a um ente simplicilcr. a forma da p l a n t a p o d e m ser feitas. O h o m e m c o m u m só aceita como real aquilo • pie é tangível. m a s que p o d e ser perfeccionada. VI — Daí resulta. Aristóteles dá um e x e m p l o de geração absoluta n a p a s s a g e m ao fogo. o q u e m a n t é m a relação de potência e acto. a geração absoluta é a que leva ao ente absoluto. como bem o mostra T o m á s de Aquino. m a s do actus virtualis p a r a o actus formalis. a u m ente simplesmente existente. é falsa. III — Estabelece Aristóteles u m a o u t r a distinção e n t r e a g e r a ç ã o simpliciter e a g e r a ç ã o secundum quid. d e t e r m i n a r q u a n d o a geração ou a c o r r u p ç ã o são u m a ou outra. e sim v e r d a d e i r o . q u a n d o n a d a de sensível a p a r e c e ou d e s a p a r e c e .

em saber por que então do que estuda não se diz que é engendrado absolutamente. ou porque é substância. semelhantemente. essa vez. De tudo o que não significa uma substância não pode dizer-se que se torna absolutamente. e. não porém se se torna ignorante. se o ser tor. mas não se se torna terra. mas torna-se alguma coisa. ou porque é mais ou é menos. não atribuímos semelhantemente a geração c a corrupção a essas coisas que se mudam umas em outras? Mas. 20 i' que. Certas coisas. c não mais. cuja causa êle explicou. enquanto de outras se diz que se tornaram alguma coisa. ente ou não. isto é. porque é a causa da mutação. de igual maneira como falamos até aqui? Até aqui. . nas substâncias. eis somente o 5 que determinamos: por que. por aquilo em que algo se transmuta por geração ou corrupção. TEXTO DE ARISTÓTELES I —9 I. da continuidade da geração. a geração de uma outra. e a corrupção de uma coisa a geração de outra. outras uma quantidade. mas é nela (pie algo se gera ou nela que algo se corrompe. Não obstante. Explicamos assim por que certas coisas nascem absolutamente e não outras. outras uma qualidade. III. se se torna sábio. II. etc. isto é.15 na-se fogo. pois. com efeito. por exemplo. na qualidade. na substância. Esta matéria não é pura. com efeito. que tem por termos os contrários. significam uma substância. para a questão colocada em segundo lugar. no sentido em que duas coisas nascem reciprocamente uma da outra. como matéria. a geração de uma coisa é sempre a corrupção de uma outra. o 10 problema não é o mesmo: consiste. falamos simplesmente de geração quando há geração segundo a coluna positiva dos contrários. E a causa dessa distinção é a matéria. sendo dado que toda geração de uma coisa é a corrupção de outra. e a corrupção de uma coisa. Essas distinções resultam das categorias. enquanto do que cresce diz-se que nasce. Mas por que de certas coisas se diz que foram geradas absolutamente.80 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES algo. com efeito. em Iodas as categorias. mas que se torna sábio. tanto de uma maneira geral como no que concerne às próprias substâncias: e também que o sujeito é a causa.

quer dizer o leve. Não seria que a matéria é. tanto a da terra como a do fogo. enquanto o fogo. quando uma coisa passa ao não-scnsível e ao nãoser. Só há geração simpliciter. Assim. e eorrupção quando se afasta do positivo. ou seja. se não é nada. será que a matéria é outra para cada um desses elementos contrários. se dá na substância. a geração de outro. é uma mesma coisa. ao ar. a terra também é o ser. e se ao contrário. alguma coisa. quando surge uma nova substância (ousia). Há geração quando se tende para o positivo. V. Mas o gerar e o corromper (gênesis e phtorá) dão-se em absoluto.Empreende Ar. nem os con. mas seu ser não é o 5 mesmo. Apenas os acidentes se modificam. o homem. Resulta daí que é da mesma maneira que nina coisa nasce do não-ser e que ela se desvanece no não-ser. a primeira (simpliciter). Reexposição comentada I — 9 I . pressupõem uma substância que os sustenta. quando uma coisa procede do não-sensível. esses elementos não viriam reciprocamente um do outro. O exemplo aristotéíico do ser que se torna fogo. porque a matéria é sempre privada de algo. O acidente pressupõe algum ser (substância) como sustentáculo. como geração. É o sujeito que se transmuta nos contrários. tais como a 30 terra. Sobre o significado desses termos já os estudamos na "Introdução". porque a ciência é um habitns. é o não-ser. enquanto que o não-ser seria a matéria. como tais. então. da mesma forma lambem se diz que há geração 25 a partir do não-ser. ao lado da geração. adquire. Mas já o homem e o animal. desde que se considere a riqueza etimológica e semântica deste verbo. o ( I»e anteriormente já havia estudado. o que é o sujeito desses contrários. VI. e. é o ser. A geração é a via do não-ser para o ser. diferente? Com efeito. à terra. ou então é ela idêntica. Esta última geração e corrupção é secundum quid. . como corrupção. emquanto a segunda. já que se expôs (pie a geração é a via do não-ser para o ser. É portanto bem natural que a geração não falte nunca. III — Neste item. à água. porque. da mesma forma que se fala de corrupção absoluta. Toda geração é a corrupção de outro. obtém posilividades. II — Tais distinções decorrem da classificação das categorias aristotélicas. corrompe-se o ignorante. em outro sentido. Estamos.. Mas não há necessidade de discutir a questão de saber por que uma coisa nasce. e não na deficitária. que c a substância. expõe Tomás de Aquino. como o sensível mais imperfeito que o insensível. E quando esta atinge a substância. em face de uma geração secundum quid. poder-sc-á perguntar se um dos contrários. E exemplifica com o corpo diáfano que é privado de Hiz. quando o devir se realiza na substância. como o expôs Ar. e a corrupção uma geração do não-ser. nos acidentes. e há geração ou corrupção relativas (secundum quid) quando a geração ou a corrupção se dão nos acidentes que. aqui. O que estuda aprende. E não poderia ser de outro modo. e gera-se o sábio. daí a diversidade da geração. Com efeito. quando o ser é adquirido pelo gerado. Ar explana. que lhe é oposta. ou relativamente. os contrários pertencem como atributos. que é a causa de perduração da geração. seja como êle fôr. num sentido. na "Metafísica". e quando se torna terra. Mas ao sujeito desse não-ser absoluto. Que o sujeito seja pois. explicar a diferença entre a geração absoluta (simpliciter) a gênesis ou phtorá aplôs e a geração relativa (secundum quid) a gênesis ou phtora tis. ao fogo. ou não. embora as coisas sejam constantemente destruídas. já que a geração é unia corrupção do não-ser. e a corrupção a via inversa. Há geração absoluta (simpliciter). algo que há. Mas eis do que já tratamos suficientemente. como toda corrupção.82 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 83 IV. numa visão universal. há sempre. quando nascem.319b trários. permanece. reafirmando o que explanara sobre a geração e a corrupção (simpliciter e secundam quid). mas está sempre privada de uma forma. pois que de outro modo. O fogo é gerado e os seres são corrompidos quando se tornam terra. quando o ignorante estuda. diz-se que se geraram simpliciter. A matéria tem sempre uma forma. de nina outra forma. Ademais. Quem se torna ciente de algo não gera em si o sábio absolutamente. a geração vem do não-ser. ou. a mesma. quando devêm alguma coisa. M as a geração se dá com positividade na coluna positiva. justifica-se por (pie a terra é mais imperfeita que o fogo. a eorrupção. quer dizer o pesado. enquanto a corrupção é a via do ser para o não-ser. E a diferença entre ambas está em que. dos contrários? Pois a esses elementos.

E a diferença entre ambas está em que. Há geração quando se tende para o positivo. Assim. é o não-ser.82 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 83 IV. em outro sentido. enlão. E quando esta atinge a substância. Esta última geração e corrupção é secundum quid. quando nascem. o que é o sujeito desses contrários. embora as coisas sejam constantemente destruídas. Apenas os acidentes se modificam. tanto a da terra como a do fogo. mas está sempre privada de uma forma. enquanto a corrupção é a via do ser para o não-ser. já que se expôs que a geração é a via dt> não-ser para o ser. obtém positividades. quer dizer o leve. de uma outra forma. como geração. enquanto que o não-ser seria a matéria. diferente? Com efeito. e a corrupção a via inversa. alguma coisa. ou seja. quando surge uma nova substância (ousia). e a corrupção uma geração do não-ser. poder-sc-á perguntar se um dos contrários. à água. quando uma coisa passa ao não-sensivcl e ao nãoser. explicar a diferença entre a geração absoluta (simpliciter) a gênesis ou phtorá aplôs e a geração relativa (secundam quid) a gênesis ou phtora tis. enquanto o fogo. Ar explana. e se ao contrário. e quando se torna terra. ou então é ela idêntica. ou não. que é a causa de perduração da geração. É portanto bem natural que a geração não falte nunca. porque a matéria é sempre privada de algo. à terra. aqui. ou. como toda corrupção. o que anteriormente já havia estudado. e. Mas não há necessidade de discutir a questão de saber por que uma coisa nasce. da mesma forma lambem se diz que há geração a partir do não-scr. será que a matéria é outra para cada um desses elementos contrários. Não seria que a matéria é. ao fogo. Estamos. e gera-se o sábio. algo que há. Mas já o homem e o animal. pressupõem uma substância que os sustenta. dos contrários? Pois a esses elementos. quando o ignorante estuda. da mesma forma que se fala de corrupção absoluta. na "Metafísica". Mas o gerar e o corromper (gênesis e phtorá) dão-se em absoluto. há sempre. Que o sujei Io seja pois. Com efeito. Mas ao sujeito desse não-ser absoluto. O que estuda aprende. O exemplo aristolélico do ser que se torna fogo. a primeira (simpliciter). A geração é a via do não-ser para o ser. esses elementos não viriam reciprocamente um do outro. e corrupção quando se afasta do positivo. que lhe é oposta. quando devêm alguma coisa. O acidente pressupõe algum ser (substância) como sustentáculo. É o sujeito que se tiansinuta nos contrários. Mas a geração se dá com positividade na coluna positiva. a corrupção. permanece. se dá na substância. ao ar. em face de uma geração secundum quid. quando o devir se realiza na substância. O fogo é gerado e os seres são corrompidos quando se tornam terra. mas seu ser não é o mesmo. os contrários pertencem como atributos. a geração vem <lo não-ser. Toda geração é a corrupção de outro. . Sobre o significado desses termos já os estudamos na "Introdução". como o expôs Ar. numa visão universal. num sentido. li — Tais distinções decorrem da classificação das categorias aristotélicas. Só há geração simpliciter. se não é nada. Há geração absoluta (simpliciter). ou relativamente. ao lado da geração. a terra também é o ser. III — Neste item. Ademais. e há geração ou corrupção relativas (secundum quid) quando a geração ou a corrupção se dão nos acidentes que. pois que de outro modo. que é a substância. a geração de outro. daí a diversidade da geração. como o sensível mais imperfeito que o insensível. adquire. E não poderia ser de outro modo. a mesma. seja como êle fôr.Empreende Ar. VI. e não na deficitária.. Mas eis do que já tratamos suficientemente. desde que se considere a riqueza etimológica e semântica deste verbo. quando o ser é adquirido pelo gerado. E exemplifica com o corpo diáfano que é privado de illií. reafirmando o que explanara sobre a geração e a corrupção (simpliciter e secundum quid). emquanto a segunda. expõe Tomás de Aquino. diz-se que se geraram simpliciter. corrompe-se o ignorante. Resulta dai que é da mesma maneira que uma coisa nasce do não-ser e que ela se desvanece no não-ser. como tais. porque a ciência é um habitus. é uma mesma coisa. 25 30 319b 5 Reexposição comentada I — 9 I . V. justifica-se por (pie a terra é mais imperfeita que o fogo. quer dizer o pesado. como corrupção. tais como a terra. nos acidentes. A matéria tem sempre uma forma. porque o homem. quando uma coisa procede do não-scnsível. já que a geração é uma corrupção do não-ser. nem os contrários. é o sei-. Quem se torna ciente de algo não gera em si o sábio absolutamente.

p r o c e d e do não-sensível. P o r isso. pois é o r d e n a d a p o r diversas f o r m a s . E prova-o T o m á s de Aquino com os seguintes a r g u m e n t o s . n u m sentido. o outro vai t e r m i n a r . isto é do n a d a absoluto. que a prote hylê é i n f o r m a d a p o r conjugações de q u a l i d a d e s c o n t r á r i a s . que o t e r m o d a c o r r u p ç ã o é o princípio da geração. as q u a i s p a s s a a r e s p o n d e r n a s alíneas sucessivas. como mostra T o m á s de Aquino. pois é ela u m a c o r r u p ç ã o do não-ser c a c o r r u p ç ã o u n i a g e r a ç ã o do não-ser. cuja t r a d u ç ã o literal seria o q u e n ã o é a b s o l u t a m e n t e . O ser que se gera. assim. O não-ser absoluto (to mé on aplôs). J á e x a m i n a m o s o sentido desse não-ser absoluto. o sensível. em q u e a afirm a ç ã o de u m não implica a negação de outro. A dificuldade q u e surge p a r a Aristóteles está n a impossibilidade de explicar a p e r p e t u i d a d e d a g e r a ç ã o a p a r t i r do não-ser absoluto. o que eles j u l g a m o n ã o . v e m do não-ente. o que reconhece j á havia sido exposto p o r Aristóteles. isto é. Sintetizando.e n t e e a geração. a m a t é r i a p r i m a . de onde s u r g e m os corpos simples ou elementos. a segunda p e r g u n t a q u e consiste em i n t e r r o g a r se u m dos contrários é o ser ou se n ã o é n a d a . Daí Aristóteles fazer a p e r g u n t a de se a m a t é r i a não seria. (In id ex quo uno incipite. aliud terminetur). n o u t r o sentido. D a i pode-se dizer q u e a g e r a ç ã o sobrevém do c o r r u p t o . Mas Aristóteles nos m o s t r a q u e a m a t é r i a prim a é distinta dos elementos. é ela aí a potência. é aqui. p o r si.84 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 85 IV — T r ê s p e r g u n t a s s u r g e m p a r a Aristóteles. pois n ã o h a v e r i a geração ex-nihüo. q u e lhe d ã o o u t r o ser e o u t r a razão. elas p o d e r i a m t r a n s f o r m a r . q u a n d o ela atinge ao insensível. como salienta Tricot.s e ou reduzir-se a u m a delas q u e d e s e m p e n h a s s e o p a p e l de m a téria p r i m a . Onde h á c o r r u p ç ã o . de certo m o d o . e a geração vem do não-ente. como j á h a v í a m o s a c i m a assinalado. t e r m i n a p o r a f i r m a r Aristóteles. as p r i m e i r a s substâncias concretas. q u e n u n c a a geração está ausente. n e m corr u p ç ã o ad-nihilnm. p a r a perifrasear Nietzsche. e a c o r r u p ç ã o . T o m á s de Aquin o estabelece-as deste m o d o : 1) p o r q u e s e m p r e se g e r a algo do p r o d u t o . c viceversa. n ã o se p o d e r i a m g e r a r os c o n t r á r i o s . h á i d e n t i d a de d a m a t é r i a a p e n a s c m q u a n t o potência. que é algo. como vulgarm e n t e é c o m p r e e n d i d o . V — Surge. n ã o p o d e r i a m vir r e c i p r o c a m e n t e u m do outro. recebe dele a seguinte r e s posta : ou a m a t é r i a é idêntica ou ela é o u t r a q u e os elem e n t o s contrários. q u e é o t e r m o d a c o r r u p ç ã o . II. Se o não-ser é o não-sensível. e. como o fogo e a terra. começa a geração. A geração v e m do não-ente.s e p a t e n t e .e n t e . pela positivação de u m a oposição inversa. a p u r a potência. h á geração. e dizem que algo é gerado. Afirmar-se a c o r r u p ç ã o . o que caracteriza p r o p r i a m e n t e a antinomia. no sentido q u e e m p r e g a m o s esse t e r m o . como subjecto. s e m p r e u m m u n d o que nasce e um m u n d o que m o r r e . conclue-se q u e a g e r a ç ã o vem da corr u p ç ã o . agora. E a p e r g u n t a : se a m a t é r i a c igual ou diversa aos elementos. VI — Aceito que. A solução é d a d a p o r Aristóteles da m a n e i r a q u e v a m o s sintetizar. o n a da absoluto. assim. n ã o seg u n d o o ser de r a z ã o . b e m como q u e a g e r a ç ã o é. Se a c o r r u p ç ã o tende p a r a o não-ente. c se desvanecem n o não-ser. a c o r r u p ç ã o do não-ente. a m a t é r i a é a m e s m a . a m e s m a . no n ú m e r o sexto. como o expõe Aristóteles. p a r a Aristóteles. pois os contrários p e r t e n c e r i a m aos q u a t r o elementos como atributos. n ã o e m q u a n t o acto. do insensível. 2) p o r q u e a c o r r u p ç ã o tende p a r a o n ã o . T o d a s as coisas n a s c e m do não-ser. diferente? Como sujeito dos contrários é u m a m e s m a coisa. é afirmar-se a geração de u m outro. Sc fosse diferente. O n d e t e r m i n a a corr u p ç ã o . pois. antinômica. Há. O n d e u m principia. elementos. T o r n a . m a s seu ser não é o m e s m o . os h o m e n s dizem que a l g u m a coisa se c o r r o m p e . a prote hylê. e n ã o p r o p r i a m e n t e o não-sensível de q u e antes êle falava. O que se gera v e m do n ã o perceptível. q u a n d o surge. . a dificuldade desaparece. a geração do não-ente. Essa posição aristotélica revela u m a posição dialéctica. Um implica s e m p r e o o u t r o . um m u n d o que se gera e u m m u n d o que se c o r r o m p e .

como um todo. o corpo que estava de boa saúde cai doente. Eis. permanece a mesma. enquanto o homem permanece « mesmo: se o homem não possuísse como propriedade essencial a qualidade de músico e a de não- . senão. quer sejam elas contrárias ou intermediárias. produz o trigo. ou se dissolve em ar. seja uma qualidade desse elemento permanente. pertencente a uma contrariedade. não é necessário que a segunda coisa. Já que o sujeito é alguma coisa de diferente da qualidade. II. um e outro eram diáfanos ou frios. Por exemplo. tomada como um 15 todo. estaremos em presença de uma alteração. permanecendo o mesmo. permanecendo o mesmo. quer ao tacto. por exemplo. e que 10 a mutação pode produzir-se em cada um desses casos. produz o ar. dissemos há pouco em que elas diferem. Mas quando é a coisa. por exemplo. como um todo. a água.TEXTO DE ARISTÓTELES I — 10 I. o homem músico destruído e um homem não. nesses casos. permanecendo idêntico: o bronze é redondo e torna-se depois anguloso. pois o ar é quase nãosensível. que por natureza se lhe atribui. quando o ar se torna água. IV. que vem a mudar e que nada de sensível permanece idêntico como sujeito. V. quer a todos os outros sentidos. no ser engendrado como no ser destruído. se. como quando a água vem 20 do ar. há alteração quando o sujeito. uma tal mutação é. ou o ar. Sobre a geração e a alteração. sujeito sensível. pois que afirmamos que tais mutações são distintas uma da outra. a semente. muda em suas próprias qualidades. geração de uma substância e corrupção de outra. quando. na qual se muda a primeira. Contudo. se alguma qualidade. III. desde logo. como um todo.25 músico engendrado. ou quando a água. Sobretudo quando a mutação procede do não-sensível ao que é sensível. por exemplo.

Aristóteles. emquanto. como do ar. é. a mutação de contrário a contrário. neste último caso. o qual não é natnraliter frigidus. tal é nossa maneira de responder. no primeiro. enquanto mudam a s qualidades. Assim. não se pode considerar aquele como uma mera qualidade do primeiro. mas também na substância. expôs o que entendia por alteração (alloiosis).3U te. como salientava Tomás de Aquino. totalmente considerada. e da substância segunda. a matéria prima. Mas o é ainda. tivemos oportunidade de examinar os diversos postulados propostos por éle na Fisica. por condensação. q u e é sintese da prote ousia e da deiüera ousia (da substância primeira. mas. dar-se-ia uma "diáthesis".5 ração e à corrupção. Aristóteles vai demonstrar que a geração e a alteração são distintas uma da outra. A mudança que nesses casos se daria seria do esquema. como síntese de m a téria e forma. * * * Reexposição comentada I — 10 I — Propõe-se agora Aristóteles. é fácil de c. A mutação não £ apenas nos acidentes. Assim. Se uma qualidade permanece no ser gerado. que é redondo e se torna anguloso. segundo a qualidade. não o synolon.oni|)rCender-se. como também no que concerne à alteração. Exemplifica Aristóteles com um corpo de bo a saúde. pois. é a transladação. É matéria. na ordem da quantidade. ou uma corrupção. segundo o lugar. a substância composta de forma e de matéria. mas que permanece o mesmo. A alteração é uma moção e uma mutação do contrário ao contrário. que o f r io é apenas um acidente do ar. Há uma diferença entre a qualidade e o sujeito. isto é. que adoece. é o que permanece o mesmo. Portanto. reccpláculo da geração e da corrupção. mostrar-nos a diferença entre a geração e a alteração. então. VI. Assim o ser músico não é da essência do homem. sem quç haja transmutações subjectivas. VIII. muda-se como synolon. Na introdução dessa obra. torna-se claro o conceito de alteração. depois de haver estudado a geração "simpliciter" e a geração "secundum quid". E corrupção seria o inverso. que também se revela fria. na opinião vulgar. e de que modo. ou o bronze. que é incn<is sensível. VII. Assim se o ar é frio e dele é gerada a água. alteração. A água não é uma simples qualidade do diáfano. essas mutações constituem modificações. Eis por que. o corrompido.88 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 89 músico. ou quando esta se evapora em ar. o sujeito. sin-^e a água. que corresponde à "poiótes". Também tais mutações constituem uma alteração. As transmutações não se processam na substância. neste caso. porque todos esses sujeitos são os rcceptáculos de certos contrários. mas apenas nas suas qualidades. O sujeito sensível. ou 320a uma geração. na realidade. que permanece o ruesmo bronze. em mostrar claramenle o qi. no que se refere ao homem. Esta dá-se apenas nas transmutações qualitativas. acima de tudo e no sentido fundamental. do qual o ar também seria uma de suas espécies. a qual era a mesma do ser corrompido. estaríamos cm face de uma alteração. o sujeito de outras espécies de mutações. essas mutações são uma geração e uma corrupção. segundo a propriedade e a qualidade. teria havido geração desta e corrupção daquela. c distingue a alteração de a geração. II Na alteração o subjectam permanece o mesmo. ao quantitativo. e não como kypokeímenon. e não o "hipol<eimcnon". A matéria toma uma nova forma substancial como quando toda a semente se transforma toda em árvore. no livro V. III — Há geração quando a coisa se muda conio um lodo. esta qualidade de músico e não-músico é uma qualidade do sujeito permanen. Pode permanecer o hipokeimenon. a forma). a matéria. na "Sinopse das idéias fundamentais de Aristóteles" para esclarecimento da geração e da corrupção. enquanto no que se refere ao homem músico e ao homem nãomúsico. Para que haja verdadeiramente geração é necessário q U e o synolon seja transmutado e não apenas o que lhe é acidental. se elas existem ou não. V — Preocupa-se Ar. tanto no que concerne à gc. num certo sentido. que é o "synolon". pois refere-se ao surgimento do que é mais sensível do menos sensível. mas se nada subsiste do que o outro termo é uma propriedade ou um acidente tomado em sentido geral. que também é u m a espécie de "poiótes". permanecendo o sujeito sç n s í v el o mesmo. IV — A geração. pois a matéria prima subsiste em ambas como a mesma. é o aumento e a diminuição. por isso não . não devcnios esquecer. a figura extrínseca das coisas. Na "Física". porque.

as do aumentado se estendem sobre um lugar sempre maior. há também uma diferença na maneira pela qual se opera a mutação? Pois é manifesto que o alterado não é necessariamente mudado segundo o lugar. da direita para esquerda. corrompendo sujeito ou matéria. aumento e diminuição. portanto essas mutações constituem apenas alteração. Se a mudança é tópica. a maior chama que consome a menor. portanto. Comentando este tópico. de lugar. Nestes casos. temos. segundo a quantidade. Há geração e corrupção quando a forma substancial não permanece a mesma. a mutação difere não sò. a alteração. a quantidade advém ao sujeito existente em acto. Como por ex. alteração. que seja sujeito de outras espécies de mutações. VIII — Desta forma. mas ainda na maneira como se efectua. que é o caso da transladação. como o número é par ou ímpar. e igualmente o que concerne à alteração. em tntelequia. quer se trate do engendrado. Quando a transmutação é segundo a contrariedade. permanecendo o corpo o mesmo. O homem é necessariamente ou músico ou não-músico. determina êle um modo de reação simpliciter. Desta forma. Tomás de Aquino. É preciso examinar de antemão se a diferença que há entre essas mutações consiste unicamente no sujeito portador dessa diferença mútua. Quando a transmutação se dá. TEXTO DE ARISTÓTELES I — 11 I. Ou. porque todos são receptáculos de certos contrários. Mas também aceita. então. aumento e alteração 15 tomo mutação do que é em potência ao que é. se se dá na propriedade e na qualidade. não-par. . nas paixões. sobre um lugar cada vez menor.25 mente quanto ao sujeito portador dela. permanece no lugar. segundo o lugar. Músico ou não-músico são possibilidades do homem. o que é evidente. o homem permanece. Na alteração. Uma mutação qualitativa manifesta-se pelo aumento e pela diminuição. e são suas partes que mudam. enquanto o é o aumentado ou o diminuído. temos a alteração. Falta-nos agora falar do aumento: difere ele da geração e da alteração? Como aumentam cada uma das coisas que aumentam e como dimi. enquanto o aumentado muda somente 20 como o que é estirado. VII — Considera Aristóteles matéria o sujeito. o transportado muda totalmente de lugar. e se é. do alterado. temos uma "latio". isso é. então. Que. nem tampouco o engendrado. principalmente qualitativas. segundo a contrariedade do lugar. do menor para o maior. Se o homem músico corrompe-se no não-músico. por ex. III. a diminuição. será porque a mutação deste naquele (a saber de uma substância em potência a uma substância em acto) é geração. A geração ou a corrupção só se dá quando não subsiste nada do outro termo. ao contrário. mostra ainda que não é incoveniente que o semelhante corrompa seu semelhante por acidente. VI. em certo sentido. IV. pois as partes da esfera mudam. em outras palavras. ou. mutação segundo a grandeza. contudo. há uma "hylê topikê" (matéria localizada). ou. apesar de o ser de outra maneira que o transportado. como é. temos o aumento. e a mutação segundo a qualidade. ao contrário. do mesmo modo que as da esfera. temos a transladação. Neste caso. VI — Toda mutação é uma transição do contrário ao contrário. há as mutações das possibilidades em algo que é permanente. Com efeito. respectivamente grandeza e qualidade. permanecendo o sujeito o mesmo que continua existente em acto.90 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES está contido na sua definição. ou do aumentado. continuando o todo a ocupar um lugar igual. A matéria prima é o substratum que sofre as transmutações. haverá acquisição de uma nova forma e a perda de outra e vice-versa. uma moção local. Não é. receptáculo da geração e de corrupção. e as partes do diminuído. V. Quando a mutação se processa do contrário ao contrário. que é a que gera a transladação (phora) etc. de baixo para cima.10 nuem as que diminuem? II. como se dá ou não se dá.

Ela é a m a t é r i a do ar. m a s contida em outro corpo? I I I . No p r i m e i r o caso. alteração c a u m e n t o . I V . em potência. se a matéria se encontra 5 n u m o u t r o corpo. n a d a i m p e d e que haja u m a infinidade n u m é r i c a de m a t é r i a s assim contidas n a água. suas p a r t e s m u d a m (le lugar. Q u a n d o a água se t r a n s m u t a em ar. e a segunda implica necessariamente que a matéria esteja contida em um outro corpo. e m b o r a de m a n e i r a diferente ao t r a n s p o r t a d o da t r a n s l a d a ç ã o . É como se se dissesse (pie. Ora. Quer dizer que o todo p e r m a n e c e no l u g a r cm q u e está. ou da m a t é r i a s e p a r a d a . . P r i m e i r a p e r g u n t a que se coloca é se difere o a u m e n t o <la geração e da alteração. q u a l delas é a da qual o a u m e n t o se p r o d u z ? A m u t a ç ã o opera-se a p a r t i r da m a t é r i a s e p a r a d a e existente per si. e ela se dá segundo a q u a n tidade. ela n ã o contém a m a t é r i a do ar. u m a esfera em revolução. nem p o r acidente. e a segunda é como se dá o a u m e n t o nas coisas que a u m e n t a m . 10 V . Mas. q u a n d o o ar v e m da água. não a u m a m u t a ç ã o d a água. e esse processo. como um ponto. Mas o corpo. sendo 320b s e p a r a d a .em alguma parte. relativo. que p r o c e d e m corpo e g r a n d e z a . no que d i m i n u e . incorpóreo e n ã o . Uma esfera em m o v i m e n t o . N ã o é de a n t e m ã o impossível de u m a m a neira como de o u t r a ? A m a t é r i a . N o a u m e n t o . V — Há u m a diferença com a m o ç ã o local da esfera. c a r a c t e r de (pie lambem p a r t i c i p a m a geração e a alteração. que a u m e n t a suas p a r t e s . Mas o a u m e n t a d o ou o d i m i n u í d o m u d a . Será do que é. a primeira não é possível. ao menos. estará s e m p r e em alguma parle < q u e é e n g e n d r a d o dessa matéria incorpórca. com efeito. m a s a esfera. II A primeira resposta deve dirigir-se p a r a o estabelecimento da diferença entre as mutações e se elas consistem unicamente no sujeito que as suporia. ocupando o menor. nas q u a l i d a d e s passivas. q u e é té)pica. isto é. m a s . A geração é u m a t r a n s m u t a ç ã o da substância do ente em potência p a r a a substância do ente em aclo. c que condido p e r m a n e c e s e p a r a d a de tal m o d o que ela não seja uma parle desse corpo. em entelequia. t o m a d a como u m todo. p e r m a nece no m e s m o lugar.g r a n d e . VI Desta f o r m a se vê que a distinção entre geração. o c u p a n d o o m a i o r l u g a r . e são as suas p a r t e s q u e m u d a m segundo o lugar. o a l t e r a d o n ã o m u d a n e c e s s a r i a m e n t e segundo o lugar. nem por essência. Mas. de f o r m a que elas p o d e r i a m t a m b é m tornar-se.92 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES Reexposição comentada I — 11 I Ksludará êle agora o a u m e n t o . g r a n d e z a e corpo. desde q u e ocupe o m e s m o lugar. daí resultarão n u m e r o s a s impossibilidades. TEXTO DE ARISTÓTELES I — 12 I . que p o d e ser c o m p r e e n d i d o de d u a s m a n e i r a s .30 za. Na alteração. com efeito. A m u d a n ç a local é necessária. c n a diminuição algo Iransmula-se de g r a n d e em p e q u e n o . m a s ao facto de que a m a t é r i a do ar seria contida n a água como n u m vaso. quer. dessas hipóteses. a m a t é r i a do a u m e n t o é acrescida. sobre o qual se realizam. IV — O t r a n s p o r t a d o m u d a t o t a l m e n t e de lugar. q u e é a u m e n t o ou diminuição (que b e m p a r e c e ser a g r a n d e z a pelo facto de aum e n t a r ou de d i m i n u i r ) de que m a n e i r a será preciso concebê-la? I I . mas t a m b é m na m a n e i r a como se efectuam. bá um c a r a c t e r dinâmico. u m a q u a n t i d a d e infinita de ar. III — Observa-se que. As p a r t e s extendem-se e t r a n s m u t a m . não só se dá q u a n t o ao sujeito. No a u m e n t o . e a d i m i n u i ç ã o nas coisas que d i m i n u e m . n e m t a m p o u c o o g e r a d o . Pois algo Iransmiila-se do pequeno cm g r a n d e . quer pela essência. ou então será um vácuo e um corpo não sensível. de man e i r a que ela t a m b é m deve estai. ein entelequia. No segundo caso. a t r a n s m u t a ç ã o se dá na m a g n i t u d e . No a u m e n t o . ou n ã o ocupará n e n h u m lugar. O ser acrescido p r o v é m de um outro ser que o recebe e não da sua simples potência. por exemplo. n o q u e concerne ao sujeito do q u a l se efectua essa m u t a ç ã o . n a alteração. a t r a n s m u t a ç ã o se dá nas paixões. esse processo é devido. extende-se. Êle p e r m a n e c e no lugar. cmq u a n t o o a u m e n t a d o m u d a somente no que é a u m e n t a d o .s e seg u n d o o lugar. pelo acidente.

por ex. carente de magnitude. V — Nada proibe que haja uma infinidade numérica de matéria contida. a água permaneceria água. em todos os casos. ou seria um vazio e um corpo não sensível. mas é da magnitude do que é em acto. Êle estabelece o seguinte postulado: 1) É impossível à matéria. impõe-se que haja a magnitude. não parece absolutamente que o ar venha da água desta maneira. ela não ocuparia nenhum lugar. por uma distinção lógica. como sendo. o que é contrário aos factos porque. saindo desta. existir separada per se. Corpo e grandeza procederiam dessa grandeza em corpo e potência. e as razões são as seguintes: o ponto. Exemplifica Aristóteles. o ar estaria contido na água e. IV — Também não se pode admitir que a matéria se encontre noutro corpo e que permaneça separada de tal forma que não seja uma parte deste corpo. e sendo a matéria de onde surge o gerado. •'quod generatur ex corrupto". Ademais. III — Se a matéria fosse separada. o que é evidentemente impossível. como diz Tomás de Aquino. por ex. de um volume limitado de água. retirando-se dela. Poder-se-ia admitir esta conclusão. A matéria ocupa algum lugar por si ou por acidente.. o que existe é o intervalo (diástema).. quer dizer. E se fosse vácuo seria um corpo não sensível. tal mutação não viria propriamente da água. um volume de água limitado poderia conter um volume de matéria de ar ilimitado. não esteja em algum lugar ou por si ou por acidente. da matéria separada mas contida em outro corpo. pois que tudo quanto é gerado vem de algo que ocupa um lugar. a mutação se operaria a partir da matéria separada e existente por si. em potência. é necessário que ocupe algum lugar. numericamente idêntica ao corpo. 3) é impossível que a matéria. poder-se-ia. Se fosse segundo a outra opinião. em abono desta tese. que quando o ar viesse da água. urna e idêntica numericamente. A matéria não pode ser sem magnitude e existente por si. É portanto preferível considerar. O aumentado tem potência para a magnitude. a matéria seria ou vácuo ou corpo não sensível. Reexposição comentada I — 12 I A moção do alimento e da diminuição dá-se na magnitude. II . a matéria não separada do corpo. E.ogos. Se é da matéria que se geram os corpos sensíveis. na qual se geram os corpos naturais. por si. Ou a matéria não ocupa nenhum lugar ou ocupa. VI — E. Ela é. grandeza e corpo e. não permanecendo a água imutável. . mas dele distinto pelo í. para mostrar a impossibilidade dessas afirmações. nesse caso. engendrar-se um volume ilimitado de ar. em outras palavras.94 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 95 VI. VII. Mostrará mais adiante Aristóteles que o corpo e a grandeza procederiam de uma matéria corpórea em acto e de uma grandeza em acto. não separada do corpo. ou. Se a matéria existente sem quantidade ocupasse algum lugar teria quantidade ou do contrário seria vazia. que permaneceria imutada.O que aumenta é. e só logicamente distinta dele. em acto. K o sujeito que aumenta. incorpóreo c não grandeza. separada. quando é algum corpo em acto. por acidente. ipie nele se transmuta. retirando-se dela. e como este implica o que se corrompe. desde que se aceitasse uma matéria sem magnitude. Não nos esqueçamos que para que algo seja gerado é necessário que algo seja corrompido. mas do facto da matéria do ar estar contida na água como no vaso. então. portanto. na água. não ocupa nenhum lugar. De (pie maneira se deve conceber esta mutação? É o que Aristóteles irá responder. o que é gerado vem do que se corrompeu. se é um ente em potência. Para Aristóteles o vácuo não existe. com êle. nem por essência nem por acidente. isto é. se se aceitasse aquela posição. como um ponto. neste caso. VII — Conclusão final: ela não é separada da magnitude. temos o que nos mostra a experiência: o ar vem da água. Nesse caso. ademais. 2) é impossível que ela seja vácuo ou corpo não sensível.

u m a coisa nasce a b s o l u t a m e n t e de u m a o u t r a . T a m b é m n ã o se deve c o n s i d e r a r o a u m e n t o como i n d o de u m a m a t é r i a sem g r a n d e z a a uma entelequia de g r a n d e z a . e I I I . 15 20 25 30 . o r a u m a coisa em acto (da m e s m a espécie ou do m e s m o g ê n e r o : p o r exempio. o seco não é e n g e n d r a d o pelo seco. não possui em entelequia n e n h u m a g r a n d e z a . Mas n ã o devemos colocar como p o n t o s ou linhas a m a t é r i a de o n d e v e m o corpo. que o a u m e n t o n ã o é u m a m u t a ç ã o a p a r t i r de uma coisa q u e . j á que h á t a m b é m u m a m a t é r i a p a r a a substância corporal. a q u a l n u n c a p o d e existir i n d e p e n d e n t e m e n t e d a q u a l i d a d e n e m i n d e p e n dentemente da forma. pelas m e s m a s razões. j á tal n a t u r e z a d e t e r m i n a d a (pois o corpo em geral n ã o é n a d a ) . pois seria antes a geração de u m corpo do q u e a u m e n t o . essa substância corporal lendo. o r a u m a entelequia. esta m e s m a matéria é t a m b é m a m a t é r i a da g r a n d e z a e da q u a n t i d a d e . com efeito. V I . o que é impossível. Pois o vácuo existiria em estado s e p a r a d o . pois o a u m e n t o é o a u m e n t o de u m a g r a n d e z a j á existente. é v e r d a d e . u m a m u t a ç ã o dessa n a t u r e z a n ã o é p a r t i c u l a r ao a u m e n t o . e u m h o m e m p o r um h o m e m ) . I V .TEXTO DE ARISTÓTELES I — 13 I . o decréscimo dessa g r a n d e z a . Resulta m a n i f e s t a m e n t e dessa exposição. E t a m b é m q u e os p o n t o s e as linhas são limites. logicamente separável. e a d i m i n u i ç ã o . m a s . a m e n o s de a d m i t i r que as q u a l i d a d e s sejam t a m b é m separáveis das substâncias. g r a n d e z a em potência. assim como j á o estabelecemos em o u t r o lugar. Contudo. V . não separável. e sua causa eficiente é. Ademais. como j á m o s t r a m o s a n t e r i o r m e n t e em outro trabalho. segundo o lugar. Agora. o fogo é e n g e n d r a d o pelo fogo. e eis a r a z ã o pela q u a l o a u m e n t a d o deve possuir alg u m a g r a n d e z a . I I . q u e é a m a t é r i a . m a s é o facto d a geração absoluta.

b) Para a poíesis propriamente dita (realização. e afirmavam que aquilo que. seriam conseqüentemente o fundamento da matéria. Todo corpo tem uma determinação. carece de toda magnitude. II — Provado por Aristóteles. em acto. 0 aumento é o acréscimo de uma grandeza já existente. o que para Aristóteles é um absurdo. isto é. Se esses acidentes pudessem ser separados da substância. Pois o que não está em acto não poderia ter magnitude. V — Portanto. pelo qual é terminado. então. alguma grandeza. e que sua causa eficiente é. e sendo os pontos e linhas os últimos termos. sujeito de determinações. determinabilidades que lhe podem advir. a geração de um corpo que aumenta. idêntica com a coisa produzida. O aumento não é uma transmutação de algo que esteja em potência para a magnitude. III — Na "Metafísica" demonstrou Aristóteles que uma coisa nasce absolutamente de uma outra. que está no espírito do artista no estado de entelequia. resultado da tekhnê (arte) uma forma. da mesma espécie ou do mesmo gênero. quer dizer uma forma na matéria. Expõe Aristóteles que os pontos e as linhas são os limites da matéria. por sua vez. embora o sejam da matemática.98 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES !)í) Reexposição comentada 1—13 I — Já demonstrou Aristóteles que nem os pontos nem as linhas podem ser consideradas como sujeito da magnitude. Essas últimas são apenas logicamente separáveis. por sua vez. como também o são as qualidades das substâncias. em entelequia. seria a matéria dos corpos. Fundamentavam eles o seu pensamento no facto de serem o ponto e a linha termos das dimensões. IV — A matéria de um corpo tem já uma natureza determinada e é ela também a matéria da grandeza e da quantidade. o ponto e a linha não poderiam ser os elementos consistentes dos corpos. o aumento só poderia dar-se naquilo que já possui. o que não tem a quantidade em acto ou em potência. que não pode ser sujeito de aumento. Se se considerasse o aumento como partindo de uma matéria sem grandeza a uma entelequia de grandeza. quer genericamente. Pois. pois um corpo sem determinação não existe. A magnitude subjectiva do corpo é. quer especifica. ora uma entelequia. ora uma coisa em acto. nem podem existir separadamente de per si. como a forma é termo da matéria. há o devir de algo em acto que estava anteriormente apenas em potência. como a diminuição seria o decréscimo dessa grandeza. Também a matéria não pode existir sem a sua configuração e as suas qualidades. Conseqüentemente. e não podem engendrar um corpo que tenha uma grandeza. não o são da matéria emquanto tal. O ponto. conclui Aristóteles. . eles poderiam existir à parte. Daí necessariamente em todo corpo haver paixões. coisas incorpóreas em acto. criação de uma obra). como o esquematiza Tricot: a) uma coisa é em acto. Falta à linha e ao ponto as dimensões que possuem os corpos materiais. Todo o devir implica um ser em acto de onde êle se origina e êle pode ser. como bem salientam os comentaristas ao analisar este tópico. teríamos. o que aumenta ou diminui deve possuir alguma grandeza. na geração. Acusava Tomás de Aquino os platônicos de considerar os entes matemáticos como substâncias dos corpos naturais. Se a linha tem superfície não tem profundidade nem latitude.

pois. a diminuição. Ora. ora isso é impossível. quer de um corpo. se é de um incorpóreo. dois corpos ocuparão então o mesmo lugar. mas o primeiro termo teria perecido e o outro teria sido engendrado. o ar vem da água. E se é de um corpo. e pela perda de alguma coisa. É preciso com efeito salvaguardar. Necessariamente. e que igualmente. o aumento tem lugar pelo acesso. É preciso. embora a massa se tornasse maior. é pelo acesso de qualquer coisa que se produz o aumento.I. com efeito. a saber o aumentado e o aumentante. a saber: ao engendrado e ao corrompido. e que. um corpo. como se retomássemos a questão desde o início. e é o corpo. quer de um incorpórco. pela qual. Mas não há aumento nem de um nem do outro termo. isso é também impossível. ademais. na verdade. na diminuição. se houve aumento. quem teria aumentado. não seria um aumento. IV. prestarmos atenção de que espécie é esse aumento ou essa diminuição. pois. Então. por exemplo. mas é impossível que a matéria da grandeza exista em estado separado. Mas não é possível ademais sustentar que o aumento e a diminuição se produzam da maneira. não há aumento de nada. mas uma geração do termo para o qual a mutação terá lugar. III. Contudo. deveria haver aí um vácuo de estado separado. ou então dar-se-ia que alguma coisa comum pertenceria aos dois termos. tais caracteres são em número de três: o primeiro dentre eles é que toda e qualquer parte da 321a 5 10 15 . caracteres essenciais do aumentado e do diminuído. Ora. Então a água não teria aumentado. nem o ar. que qualquer parte do aumentado aumentou. Parece. II. de preferência. na nossa definição. assim como o dissemos precedentemente. acompanhada de uma corrupção do termo contrário. por exemplo. cujas causas procuramos. cada parte tornou-se menor.

pois. e o aumentado não persistiria. sem perda do que quer que seja. revela que o aumento ou a diminuição se processam na parte. III — O aumento processa-se pela adição ou de um incorpóreo ou de um corpóreo. que o aumentado é conservado e persiste. Se é de um incorpóreo. na geração ou na corrupção absoluta de uma coisa. o pelo qual ela foi alterada. sem acesso nem permanência do que quer que seja. é a própria perna que é maior. cada parte da carne torna-se maior. na diminuição. com efeito. revela-se pelo aumento da parte do aumentado e pela diminuição da parte do diminuído. É alguma coisa à qual alguma coisa é acrescentada? Por ex. uma vez entrado.. mostra que se torna maior ou menor. Na "Física". não há permanência. emquanto a segunda suposição afirma que todo aumento se processa pelo acesso de algo. pois realmente o alimento será o lugar vazio de um corpo existente. no livro V. o vinho. com efeito.. b) Tudo quanto aumenta ou diminui. É. fundada na evidência. esse último caracter deve ser salvaguardado. 20 Mesmo se acontecesse que o alimento entrado no corpo se tornasse maior. quer dizer. o que está em acto é reduzido pelo que está em acto. uma coisa poderia crescer. Desta forma. o alimento. mostrou Aristóteles que o que é movido é movido segundo a parte. se é a carne que cresce. Mas. é do líquido que leva.. neles. tornam-se um e outro maiores. lá também na mistura do vinho e da água. deverá haver um vácuo em estado separado. por outro lado. e decrescer. ou reduzida a sua quantidade em acto por algo da sua própria quantidade. assim como o corpo que o consumiu (por ex. se convertesse em sopro). embora. por que é como vinho. V. que a geração em exame seja um aumento. enquanto. uma e outra coisa juntas não aumentaram? Pois ao que se acrescenta a alguma coisa e o pelo qual aumenta. independente do corpo em entelequia (Tricot). ademais. como pode. pois que. a mão é vulnerável. Poder-se-ia. tanto pode não ter sofrido nenhuma mutação. Reexposição comentada 10 25 I — 14 I — Propõe-se Aristóteles investigar agora a natureza do aumento e da diminuição. como quando se mistura vinho com água. e o que está em potência para maior quantidade. antes. é aumentado por outra quantidade em acto. Não será por que a substância da perna permanece. o que levaria à existência de uma hylê megethous (matéria extensa). independentemente desse corpo. e. II — Todo o aumento. na alteração. e pela retirada. de maneira semelhante. mas que alguma propriedade essencial venha a pertencer-lhe. duas suposições: a) o que por si e simplesmente aumenta ou diminue. a saber o alimento? Por que. e o terceiro. colocar a questão de saber o que é o aumentado. Ora. Se fosse incorpóreo. teríamos de 30 35 321b 5 . Se se quer.102 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 103 grandeza que aumenta torna-se ela maior: por ex. pelo aditamento que se processa o aumento. mais volumoso. como diminuição. com efeito. que se diz ter aumentado? Será. o agente da alteração e o princípio do movimento estão respectivamente no aumentado e no alterado. pois. ou reduzido em acto. "simpliciter". ou no aumento. segundo o caso. bem como as causas de tais moções.. por ex. assim. neste caso. portanto. por ex. o decrescimento. ou na diminuição. inversamente. não permanece. e não como água. não lhe pertencia. Estabelece. se. A primeira suposição. será uma alteração. estabelecendo o pelo qual algo é aumentado ou diminuído. Assim o homem é vulnerável segundo a parte. enquanto a natureza da outra coisa. pois tal é para nós o próprio fundamento do conhecimento. e a causa eficiente não está nele. ao menos é êle destruído quando sofreu essa mutação. ter sofrido uma mutação. o aumentado ou o alterado permanece idêntico. cada um desses líquidos torna-se. VI. está a causa eficiente. o segundo é que o aumento produz-se pelo acesso de alguma coisa. se a perna de um homem aumenta. Já que. como diz Tomás de Aquino. que se trata a mistura composta? O mesmo se dá quanto à alteração: se a carne persiste em seu ser e em sua essência. é aumentado ou diminuído pela adveniência de algo a um quantum que já está em acto. ela também. a actualidade ou a grandeza não permanecesse a mesma. e não o pelo qual ela aumenta.

a sua aposição não traria nenhum aumento quantitativo. Joachim busca restabelecê-lo. Se é a carne que aumenta. pois a sua substância é destruída.104 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 105 admitir que a matéria prima estaria separada de toda quantidade corpórea. assim na moção do aumento o que altera. Se se admitisse que o corpóreo aumentasse pela adição do incorpóreo. IV — Demonstra Aristóteles que o aumento e decrescimento não podem ser explicados da maneira. que é o principio da moção. é impossível estar a matéria separada da magnitude. embora haja transformação dos bens que a alimentam. quando se engendra o ar.°) Conservação ou persistência do aumentado. propriamente. por uma expansão intensiva contínua do corpo. mas no corpo vivo. pois o ar expande-se mais do que a água. por uma contração intensiva e contínua. é considerado pouco claro. aumento. mesmo quando o agente alterante foi êle mesmo alterado. que permitissem a compenetração do alimento. que nesse caso seria a alma. êle não é um aumentai)te.°) O aumento produz-se pelo acesso ou adição de alguma coisa. Se fosse o incorpóreo. tal não é um aumento. são corpos em entelequia e. mas no que recebe a adição. então uma coisa poderia aumentar sem acesso nem permanência do que quer que seja. corrompe-se a água. como o ar vem da água. este último caracter é fundamental para o aumento. Três são os caracteres essenciais do aumentado e do diminuído: 1. não está no que é adicionado. nem o ar. mas a geração do termo para o qual a mutação teve lugar acompanhada da corrupção do termo contrário. Como mostra Tomás de Aquino. ao crescer. que cresce. e a causa eficiente. seguir-se-ia daí que dois corpos estariam no mesmo lugar. exemplifica Aristóteles. O alimento. Ora. V — Se a geração fosse o mesmo que o aumento. 2. emquanto que na alteração. 3. Não há. para Aristóteles o crescimento se produz na realidade. como mostra Tricot.°) a parte da grandeza que aumenta torna-se maior. o aumentado ou o alterado permanece idêntico. não pode ser incorpóreo. sem necessidade de fazer intervir corpos ou vazios. embora a qualidade ou a grandeza não permaneça a mesma. conserva sua permanência substancial. 1 omás de Aquino soluciona estes tópicos da seguinte forma: o que é aumentado. mostrando que tanto para o aumento como para a alteração é apenas o alterante que é alterado. () que aumenta é aquele ao qual algo lhe é aposto e nao propriamente aquilo que lhe é aposto. e o decrescimento. porque se a massa se torna maior. por exemplo. ou no aumento ou na diminuição. virtus alterans. não seria um quantum em actum e. A perna. . de onde se conclui que o pelo qual algo é aumentado. VI e VII — O pensamento de Aristóteles. permanece segundo a substância. como o corpo. o corpo que é aumentado e o corpo que é adicionado. deste modo. Na geração e na corrupção absolutas não há permanência. Quando o alimento aumenta como corpo. nesses dois tópicos. nem a água aumenta. não estaria nele. cada parte dela torna-se maior.

toda partícula sensível qualquer torna-se ou maior ou menor. é preciso observar duas distinções: de início que as anomeomérias aumentam pelo único facto que suas homeomérias aumentam (pois cada anomeoméria é delas constituído) e a seguir que a carne. A coisa é mais evidente no que concerne às anomeomérias: para a mão. afinal. qualquer parte dessas substâncias aumenta. III. e que. o osso. Para apreender a causa do aumento. e a diminuição por meio de uma perda. conceber essas substâncias à maneira de uma água que fosse medida por uma mesma medida: a nova porção produzida é sempre outra que a precedente. como cada uma das outras coisas. Mas se consideramos a figura e a forma. cuja forma se dá na matéria. e cada uma de suas partes constituintes têm duas acepções. é possível. É preciso também tentar descobrir uma solução do problema do aumento. ademais. Entretanto. Consagramos um desenvolvimento suficiente a essas dificuldades. por ex. E é assim que aumenta a matéria da carne: não é porque uma nova matéria entre em cada uma de suas partes. V. Devemos também admitir que o corpo que aumenta não é vazio e que êle não constitui duas grandezas ocupando o mesmo lugar. IV. como o facto de que o aumento se produz por meio de um acesso. — e se é emquanto forma. — e aumenta pela adveniência de alguma coisa. não cresce pelo acesso de um incorpóreo. e que.. pois tanto a matéria como a forma são chamadas carne ou osso. é em cada uma de suas partes que se faz o aumento.T E X T O DE ARISTÓTELES I — 15 I. com efeito. mas porque uma parte se escoa e uma outra sobrevém. tendo o cuidado de respeitar tanto a permanência do aumentado. É preciso. 15 20 25 30 . II. não porém se é emquanto matéria. vê-se claramente que o aumento tem lugar segundo uma proporção.

como no fogo. não no ponto de vista da matéria. que é principalmente acto do todo. Portanto. sendo realizada na matéria. c) que êle não cresce pela adição de nenhum incorpóreo. II — Estabelece Aristóteles duas distinções ao apresentar a causa do aumento: a) os membros e partes dessemelhantes (por ex. cuja espécie sempre permanece. emquanlo a água sempre seria outra e outra. faz com a água. naqueles. o que aumenta permanece. é verdade que qualquer parte da carne aumentou. que anima cada um dos órgãos. Eis por que também ser-se-ia mais tentado supor que um cadáver é ainda carne e osso. O que é aumentado permanece. cujo fluxo é incessante. o que nela é considerado a sua razão específica. e que persiste e se impõe à matéria. VI. gota a gota. mas. houve adveniência a qualquer parte da carne. segundo a matéria. mas nos limites formais definidos. não somente o logos das partes. V — A solução aparece de maneira mais manifesta nos membros e nas partes dissemelhantes do que nos membros de partes semelhantes. As homeomérias são matéria. IV — Esse tópico pode ser explicado da seguinte maneira. mas que. pode dizer-se dela ter partes e crescer em todas as suas partes. Daí resulta que. uma lei de proporção imanente ao corpo. tal não é verdadeiro. A comparação que Ar. como o povo da cidade que. que se renova sem cessar. . bem entendido. A forma. num sentido. é explicada por Tomás de Aquino da seguinte maneira: que se se medisse a água com a mesma medida. exposa intimamente cada porção. além disso. pois cada anomeomérias é constituída de homeomérias. aparece muito melhor a distinção entre espécie e matéria. seria como o rio que emana com a mesma espécie do rio. e. embora o fogo mude. mas somente segundo a espécie. num sentido. Não se deve talar da alma e do corpo como substâncias realmente distintas: sua distinção é apenas lógica. (Tricot). se saísse do vazo cheio. exigindo solução. segundo a matéria considerada.Na lição anterior foram resolvidas algumas dificuldades e outras surgem agora. em razão da proporção. em outro sentido. b) O que aumenta pode ser tomado düplicemente: como matéria. As anomeomérias são os membros de partes semelhantes. mas sob o ponto de vista da matéria nada houve. o intellectus agens) é apenas a forma do corpo.108 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 109 pois a distinção da matéria e da forma é aqui mais aparente do que para a carne e para as homeomérias. e forma. aumentados pelas partes consimilares que aumentam sua chamadas homeomérias. O acesso dá-se mais no ponto de vista da forma. como faz Tricot. de modo que o crescimento se produzirá somente pela forma que está no corpo. e como forma. e a alma (excluindo. da razão (logos) de seus elementos. porque. embora esteja sempre mudando. emquanto simples compostos. a mão ou o pé) são aumentados pelo que aumenta as partes consimilares. Sob o ponto de vista da forma.synolon. mas somente segundo a espécie. retornasse. Estas dificuldades são: a) que nenhum corpo que aumenta é vazio. que seria medida por uma mesma medida. essa que sempre seria outra e outra água. III — O que aumenta é aumentado pelas partes e o que realiza o aumento são partes segundo as espécies. o que não permanece são as partes. A mesma distinção é dada quanto às anomeomérias. a forma está aqui. matéria. e gota a gota. Reexposição comentada I — 15 I — . a sua espécie. O que existe é um . O mesmo se dá com a carne. a alma é um skhéma. se a água fluísse. mas a alma do "empsykhon". fundando-se nos comentários de Tomás de Aquino: a forma. b) que o corpo que aumenta não constitui duas grandezas ocupando o mesmo lugar. o que nela é considerado o que é matéria. e não partes segundo a matéria considerada. Diz Aristóteles que as anomeomérias crescem pelo facto de crescerem suas homeomérias. é o povo. mas não permanecem as partes. do que supor que ele é ainda mão ou braço. Recebem plenamente a perfeição da forma.

TEXTO DE ARISTÓTELES I — 16 I. II. assim. e. Poder-se-ia. tornou-se carne. portanto. apossando-se do combustível. como se. a adveniência realizada fosse transformada e se tornasse seca. por ou. ao contrário. tornou-se maior. transforma-o em fogo em entelequia. se se trata da carne. Evi. pois se houvesse ai separação.322a tro lado. o úmido fosse acrescentado ao seco. e. É possível. no aumentado. III. quer dizer atirando lenhas num fogo já existente: é então um aumento. seria uma geração. é. a causa eficiente. pela transformação desse alimento. produzir o fogo dessa maneira. e. com efeito. mas. o semelhante aumenta pelo semelhante. 15 . na mesma forma que a da carne. na que é carne em entelequia. contudo. quer dizer. 35 por um lado. O todo. com efeito. da adveniência de alguma coisa que chamamos alimento. deve estar em potência o que aumenta. e. o alimento foi modificado pelo aumentado? Não seria por que êle foi mudado à maneira como se versaria a água no vinho e que o vinho fosse 10 capaz de converter em vinho a mistura? E da mesma forma que o fogo. Em entelequia. apossandose do alimento adveniente que é carne em potência. torna-o carne em entelequia. por exemplo. mas quando acendemos as primeiras lenhas. por exemplo. essa outra coisa. pois teria sido uma geração e não um aumento. tendo perecido. Como. Num sentido. não se tomou por si mesma. o aumentado que se tornou carne pelo alimento. em outro sentido. imanente do aumento. o dissemelhante aumenta pelo dissemelhante. é uma geração. e contrário à carne. Esta. pois. perguntar qual deve ser a natureza do que pelo qual o aumento se produz. portanto. Há. em razão.5 dentemente. coexistência. por conseguinte. pois. será outra coisa. a carne em potência.

e o que está em acto é outra coisa. uma carne de tal quantidade. em potência. VI. Mas na medida em que está em potência carne apenas. nesta medida é princípio de aumento da carne. III — Mas o que aumenta não se tornou por si mesmo. mas no aumentado. O alimento é de início dissemelhante à carne. Assim há coexistência. os condutos tornar-se-ão também maiores.112 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES Reexposição comentada I — 16 I — O todo. a Quantidade-em-geral o é no aumento. Temos assim o exemplo do fogo que transforma em fogo e combustível o que lhe é acrescentado. A quantidade tomada universalmente não é mais engendrada no aumento que o Animal-em-geral. de tal dimensão. contrária à carne. por outro lado. TEXTO DE ARISTÓTELES I — 17 I. e. e b) pela transformação desse alimento na mesma forma da carne. nesse caso. mas enquanto é apenas carne em potência. por um 25 lado. o pão) e geração no aumentado. que é carne em potência. O que se trata da carne é carne em potência. Há pois acrescentamento de certa quantida. mesmo que diminua. idêntica ao aumento. no exemplo do fogo. o synolon. V. . em potência. e nesta medida produz o aumento. tem que intervir uma corrupção e uma geração. a qual chamamos alimento e contrário à carne. Com efeito. alimenta. II. Se pois o que vem ajuntar-se a título de alimento é uma 30 matéria (a qual é. um conduto e possui lambem em potência uma quantidade determinada). se se tornasse carne por si. Mas o que é produzido no aumento é carne ou osso de tal quantidade. pois deve tornar-se por sua vez de tal quantidade e carne. Na medida em que o alimento está. Eis também por que a nutrição é. O aumentado tornou-se carne pelo alimento. quer dizer as homeomérias que têm tal quantidade dessas anomeomérias. diferente por seu ser. tornou-se maior: a) pela adição de alguma coisa. pois é desta maneira que diferem. assim. na medida em que o que foi acrescentado está em potência. ao queimar as primeiras lenhas. IV. por ex. embora não haja sempre aumento. ou mão ou braço. carne. haveria uma geração e não um aumento. não porém de uma carne que tenha tal quantidade. temos uma geração. pois se houvesse separação. mas tainbém em outro sentido o dissemelhante cresce pelo dissemelhante. a reunião de uma e de outra coisa. e torna-se carne em entelequia. teríamos uma relação de carne e não de aumento. O semelhante cresce pelo semelhante. O que era em potência carne. quando antes era fogo apenas em potência. III. é alimento. teríamos uma geração. mas. A causa eficiente imanente do crescimento está na carne em acto. e para que haja tal aumento. e pela assimilação se torna semelhante. E essa forma sem matéria é como uma espécie de conduto.20 de. Agora pergunta Aristóteles: como poderia o aumento ter sido modificado pelo aumentado. nutrição e aumento. II — O que aumenta está em potência no que é aumentado. Tal é a razão pela qual há nutrição por tanto tempo quanto a vida do corpo é conservada. pois. em suas definições. nem nenhuma outra espécie animal: o que o Animal-em-geral é na geração. quer dizer: está em potência uma carne de tal quantidade. o aumento não está no alimento. tornando-o fogo em acto. Corrupção do que advém (por ex. o combustível é um aumento. que não é nem homem. a qual se apossa do alimento que sobrevém. uma potência na matéria.

essa potência imaterial (psykhê auzetikê) não tem uma matéria própria. mas a forma permanece. neste caso. segundo a expressão de Joachim. Dessa forma. Enquanto em potência. e enquanto carne de tal quantidade. diferentemente do vinho que. a forma permanece. O que aumenta são as homeomérias dessas anomeomérias. A matéria em potência é assimilada. é assim explicado por Tricot: "A alma é uma medida. de uma quantidade determinada (Tricot). pois o alimento é um corpo em entelequia. mas o animal-em-espécie. como o vinho. III — O que advém está em potência quanto ao aumentado. segundo o que é aumentado. se ela é como a água. uma lei da proporção. II — Há a adição de uma certa quantidade. pois o que advém é potencialmente o aumentado e não este em acto. mesmo quando o corpo decresce. e não só é apto a receber a espécie do que o assimila. Assim também. como no caso da carne e do osso. ela termina por diminuir. E o que os diferencia. exemplificados por Aristóteles. em acto. perpètuamente misturada em quantidade cada vez maior com o vinho. e a alma cessa de crescer. acaba por diluir o vinho e convertê-lo em água. que é engendrado na geração. termina por tornar-se aguado e. êle alimenta. que. a qual é em potência um outro corpo em entelequia. . considerado de difícil compreensão.114 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 115 Mas se essa forma não é mais capaz de actuar. enquanto essa potência material não é debilitada. o que se produz não é uma quantidade em geral. que ao receber constantemente água. à força de ser misturado com uma quantidade crescente de água. no mesmo sujeito. A adveniência do alimento faz pois crescer a alma com o corpo (alma como skhéma). Reexposição comentada 1—17 I — Não é o Animal-em-geral. Segundo Tomás de Aquino. no aumento. como ainda ser produzido em maior quantidade. E. Apenas. então haverá diminuição da quantidade. mas aberto às suas duas extremidades. V — Há diferença entre aumento e nutrição conseqüentemente. VI — Este tópico. este ou aquele animal. são as razões que são diferentes. não de uma carne tendo tal quantidade. totalmente água. torna-se água. Depois de assimilado permite o crescimento do aumentado. mas sucede um momento em que a energia da alma está enfraquecida pelo afluxo ininterrupto da matéria. IV — É esta a razão por que há sempre nutrição. actuando na matéria. Enquanto carne em potência é alimento. e que é dotado de um poder próprio de expansão e de contracção. dando-se a diminuição. é um saco de pele ("a bag of skin"). é aumento da carne. não pode converter o alimento em carne na mesma proporção. de uma quantidade determinada. com a qual ela cresce e diminui. afinal. há distinção clara entre nutrição e crescimento. terminando finalmente pela cessação da espécie.

ao contrário. Impõe-se de início tratar da matéria. com efeito. mas ainda aqueles que derivam os seres de um só elemento estão igualmente na necessidade de introduzir a ação. não poderia resfriar-se. apelam para a separação e para a união. pois não é pelo calor e pelo frio que se transformam um no outro. Por outro lado. a alteração. mas é verdade de todos os seres entre os quais existe uma acção e uma paixão recíprocas. será que todos vêm uns dos outros da mesma maneira. em toda a parte onde há acção e paixão entre duas coisas. esquentar-se. a união é uma mistura. ou há uma maneira de que são engendrados? E se são engendrados. não é verdadeiro dizer que tal se dá com todos os seres. Todos os filósofos. . tanto aqueles que engendram os elementos como aqueles que engendram os corpos que são compostos de elementos. não haveria acção e paixão recíprocas". c o que não foi claramente determinado.TEXTO DE ARISTÓTELES I — 18 I. Daí resulta que. ou então um qualquer deles é o primeiro? É portanto necessário começar por explicações sobre assuntos que são hoje tratados sem precisão. Não somente. quer dizer do que chamamos os elementos. mas é evidente que é o seu substracto. e o que é frio não poderia. Ora. e é com razão que Diógenes sustenta que "se todos os seres não procedessem de um só elemento. para a ação e para a paixão. O que é quente. com efeito. por exemplo. mas como se produz o que chamamos "ser misturado". II. assim como a separação e a união não são possíveis sem um agente e um paciente. Existem ou não? Em outras palavras: será que cada um deles é eterno. seu substracto dever ser uma única natureza. Sem dúvida. os que colocam uma pluralidade de elementos engendram o resto por meio da sua ação e da sua paixão recíprocas.

os motores estarão em contacto com os móveis. sendo absolutamente não-movida. movem ao ser movidos. do mesmo gênero que os móveis. umas com as outras. noutro sentido. e. com efeito. todos os motores. no sentido próprio. não sendo ela tocada por coisa alguma. pois não estão era potência de agir e de sofrer. estão entre si como motor e movido os corpos que estão dotados de acção e de paixão. A maior parte do tempo. Mas os corpos que são assim pesados ou leves são activos e passivos. sem um certo contacto prévio. Dizemos algumas vezes. mas nós não o tocamos. estarão somente em contacto às coisas. assim é igualmente do contacto. enquanto um outro gênero move. com efeito. nem todo motor é capaz de actuar. no sentido próprio. uma qualidade. E. segundo nossa opinião. por outro lado. mas que tal gênero de motor deve ser movido êle mesmo para mover. IX. tais como o branco e o quente. toque o que o toca. não o estarão. E já que a posição pertence somente aos seres que já estão em um lugar. as coisas não podem. Mas a posição. todos os seres que estão em contacto recíproco terão peso ou leveza. e o agente. Temos três noções a definir: contacto. sendo grandezas separadas. III. Eis por que devemos de início tratar do contacto. é evidente que. sendo grandezas distintas e ocupando uma posição. coincidem por 5 suas extremidades. Daí resulta que se uma coisa move. Contudo o que se diz do contacto no sentido próprio. quer em razão de uma pura homonimia. Há ainda casos em que dizemos que o motor toca simplesmente o móvel sem que. deve-se também atribuir-lhes o lugar. coincidem por suas extremidades e são capazes de ser movidos e de se darem mutuamente o movimento. deveremos fazer a mesma distinção. Mas 15 há uma outra diferença. quer dizer. mover é um termo mais amplo que 20 actuar. Os filósofos que nos precederam nos transmitiram. É pois manifesto que 10 os corpos estão naturalmente em contacto uns com os outros quando. e as oposições da mesma natureza. que se julga necessário supor o contacto 30 como recíproco. que aquele que nos faz mal nos toca. VI. é necessário. que. e se observa ademais. segundo a qual são movidos somente no sentido de ser alterados. IV. quer porque uns dependem de outros que lhes são anteriores. quer uma delas apenas. pois. Mas é porque os motores. e. No que concerne ao contacto nos seres da natureza. o motor é dito. Eis. de nosso mundo sublunar. Com efeito. ação. nestes casos. por sua vez. não é atribuído senão aos seres que ocupam uma posição. sem dúvida. quer exista de outra maneira. quer cada uma dela exista em estado separado. tal é. Se pois. 25 Partamos do seguinte princípio: todas as coisas que admitem a mistura devem poder entrar em contacto recíproco. o que é tocado. opiniões contrárias umas às outras. falando do agente. pertence somente aos seres que estão num lugar. que o que é tocado toca o que o toca. mas. e. se é verdade que devemos opor o agente ao paciente e se este último termo deve ser reservado aos seres. o que 25 é tocado toca o que o toca. actuar. que é preciso distinguir. ela pode tocar o móvel. do mesmo modo que cada um 30 dos outros termos recebe uma pluralidade de significações. movem tudo sendo movidos. as coisas que não são capazes de entrar em contacto. 323b . como definimos anteriormente.ARISTÓTELES 118 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES E AS MUTAÇÕES 119 Mas se nosso estudo deve ocupar-se da acção e da paixão e da mistura. deve também ocupar-se do contacto. quer uma e outra dessas determinações. o que é claro: num sentido. do momento que se lhes atribui um contacto. 323a V. VIII. VII. neste ponto. começar a misturar-se. com efeito. a maneira que é preciso defini-lo. e. o contacto é a coincidência das extremidades. E jà que todo motor não move o movido da mesma maneira. e que a primeira diferenciação do lugar é o alto e o baixo. num sentido. ademais. Mas eis a definição precisa do contacto: de uma maneira geral. mistura. mover. É da acção e da paixão que é necessário falar a seguir. Sem dúvida. sendo êle mesmo não-movido. com efeito. estão em contacto os corpos que têm posição e estão entre eles como motor e movido. na realidade. e é assim de duas coisas em que uma actua e a outra sofre. cujo movimento é uma afecção. para as coisas matemáticas. pois.

. Mas o contacto é aceito como recíproco.120 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 121 Reexposição comentada I — 18 I -— Pretende agora Ar. ar. E tais coisas devem entrar em contacto umas com as outras. e. motor e agente. A reciprocidade só ha entre os corpos leves ou pesados. VI A posição pertence aos seres físicos que ja estão num lugar. como Tales. de um princípio que postula: todas as coisas que admitem a mistura devem poder entrar em contacto recíproco. mostrar que pode haver unilateralidade. e o mundo sublimar. dar a definição precisa do contacto: estão em contacto os corpos que têm posiçãoe estão entre si como motor e movido. por Tricot. com os átomos. que ocupam uma posição. como pensava Demócrito. na acção. derivados. . Aristóteles quer. como já se viu desde o início. Os que admitem um só elemento. pois êle é movido pelo primeiro Motor ou Deus. estudar a matéria. Anaxímenes. como pensava Anaxágoras. como diz Rodier. já examinada. referindo-se naturalmente aos sómata physiká. uma matéria subjectiva. os quais são determinações dos sómata physiká. que não é absolutamente passivo. e têm eles peso ou leveza. Mas todas essas modificações exigem a presença de um substracto. corpos físicos. e não têm posição. como aqueles que aceitam que os corpos são compostos de elementos. IX — Mas há casos em que dizemos que o motor toca simplesmente o móvel. Aos nossos olhos. Mas como se dá o "ser misturado" não foi devidamente esclarecido. e todo este tópico é claro e conseqüente com o pensamento já exposto por Aristóteles. seu substracto deve ser de uma única natureza. do contrário. Trata-se agora de saber se realmente existem. na "Física" já havia exposto o que entendia por contacto. O primeiro Céu é. como Empédocles. como Anaxágoras. por exemplo. mas o desejável move sem ser movido pelo que deseja (Tricot). Mas até estes são obrigados a aceitar a congregatio e a segregatio (união e separação). a água. Os seres matemáticos não_ ocupam realmente um lugar. que seja susceptiva dos contrários (subjectam materiam suceptiva contrariorum). movido e paciente. mistura e ação. VII E já que todo motor não move o movido da mesma maneira. pois. . VIII — Agora pode Ar. como por exemplo pensava Empédocles. que ocupam um lugar. estão entre si como motor e movido os corpos que estão dotados de acçao e de paixão. Onde há acção e paixão entre duas coisas. o ar. como poderiam interactuarse? Surge assim a necessidade de definir três noções: contacto. (Tricot). mas que "tal gênero de motor deve ser movido para poder mover. E exemplifica Ar. por outro lado. mas a matéria (a matéria próxima) que se realiza nos quatro elementos terra. V — Ar. do contrário. como vemos no texto. No que se refere aos súmata physiká não haveria dúvida. como se geram. como entre elas poder-se-iam dar um agir e um padecer? Pois. São esses elementos sempiternos e intransmutáveis. mas este não reage sobre o primeiro Céu. porque. ou são gerados? E se o são. Parte Ar. ou se se reduzem a muitos. o agente e o paciente. se vêm uns dos outros da mesma maneira ou há entre eles um que seja o primeiro. a coincidência das extremidades de grandezas distinctas. e que estão num lugar. uma e outra. que pertence aos corpos físicos que têm uma grandeza. cit. água e fogo. O primeiro Ceu é não movido (akínetos) em relação apenas ao mundo sublunar. há sempre uma reacção. no entanto. enquanto que um outro gênero move. vêem-se obrigados a identificar a geração com a alteração (a gênesis com a alloiosis). etc. isto é. ou seja. não propriamente a matéria prima (hylê prote). e não aos mathematiká. Daí concluir que o contacto não é recíproco.. sendo êle mesmo não movido pelo movido. que são os elementos das homeomérias. II -— Todos os filósofos. A congregatio (união) é mistura. pois há tal reciprocidade entre duas coisas quando uma actua e a outra padece. conseqüentemente. Contacto se diz dos seres que ocupam uma posição. estudar o contacto. São tais problemas que é preciso estudar. para o qual os quatro elementos são irredutíveis. aos seres da matemática. ou ambos. no entanto. o que é tocado toca o que toca. tanto os que aceitam que os quatro elementos são gerados. os atomistas e Platão. recebem uma pluralidade de significações. são todos obrigados a aceitar a separação e a união {congregatio et segregatio) a ação e a paixão. pois. mas têm eles uma posição em relação a nós. ao agente se opõe o paciente". São também activos e passivos. ou são de infinitas espécies. Impõe-se. III e IV — Aquelas noções.

diz êle. não pode racionalmente ser de nenhuma maneira afectado por seu semelhante (pois. cada grupo visualiza apenas uma parte. ao contrário.T E X T O DE ARISTÓTELES I —19 I. dizem eles. umas sobre as outras. e bem parece que os argumentos daqueles que raciocinam desta maneira são manifestamente contrários. não é enquanto outras. que o semelhante nunca é afectado pelo semelhante. o semelhante. de facto. Com efeito. tem uma doutrina original. por um lado. quando o fogo menor é destruído pelo maior. Tais são pois as doutrinas tradicionais. Êle sustenta que o agente e o paciente são idênticos e semelhantes. que coisas outras e diferentes possam sofrer mutuamente. III. que sofre esta acção. com efeito. uma coisa o pode ser por si mesma. que elas assim se comportam. mesmo que coisas outras actuem de certa maneira. é activo. é em virtude da sua contrariedade. A maioria desses filósofos são unânimes em declarar. quando. E. mas. se é verdade que o semelhante. por que um seria activo preferentemente ao outro? E se é possível para o semelhante de ser afectado no que quer que seja por seu semelhante. pois não é possível. Contudo. II. pela razão de que nenhum dos dois semelhantes é mais activo ou mais passivo que o outro (pois os semelhantes têm todas as suas propriedades iguais e idênticas) e. enquanto semelhante. apenas Demócrito em face de todos os outros. Mas a razão desse conflito de opiniões é que seria necessário considerar o sujeito em sua totalidade. pois o muito é o contrário do pouco. por outro lado. pois toda coi- 5 10 15 20 . não haveria nada de incorruptível nem de imóvel. mas enquanto possuem algum elemento idêntico. o que é totalmente e em todos os sentidos indiferenciado. que as coisas dissemelhantes e diferentes actuam e sofrem reciprocamente em virtude de sua natureza. se assim fosse. Ao contrário.

ora chamamos passivo o substracto (homem. em geral. o paciente e o agente são genericamente idênticos e semelhantes. e a geração tem por termo o contrário. afectado pelo seu semelhante uma coisa poderia ser afectada por si mesma. enquanto tal. V. mas. ora é o homem 20 do qual dizemos que se aquece. pela brancura.124 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 125 sa poderia. pois há móveis porque há seres imóveis e eternos. toda coisa poderia mover a si mesma. também se daria o mesmo. as propriedades que pertencem a um dos semelhantes pertencem também ao outro. é a matéria que sofre. o que viria destruir a física. nada haveria de incorruptível nem de imóvel. e da mesma maneira em todos os outros casos). A brancura não poderia ser afectada de nenhuma maneira pela linha. são contrários. não pode ser afectado por seu semelhante. é o contrário. uns. de uma maneira como a outra. há alteridade e dissemelhança entre eles. a imobilidade. se elas não são nem contrárias. E se pode ser. é activo. Mas já que não há qualquer coisa que possa naturalmente actuar e sofrer. o homogêneo pelo homogêneo. negando-se. tem frio. pois. Compreende-se também que os partidários dessas duas teorias criticadas. num mesmo gênero. isto é. o paciente muda-se em agente. apesar de sua divergência. pois o muito é contrário do pouco. Reexposição comentada I —19 324a I — Quanto à acção e à paixão. pois a corrupção e a geração. Dado que o semelhante é totalmente indiferenciado. com efeito. ora é o quente. Necessariamente portanto. Pois duas coisas não podem fazer sair uma da outra de sua natureza. é claro que são reciprocamente activos e passivos todos os contrários como os seus intermediários. mas somente o que é contrário ou encerra uma contrdriedade. num sentido. por exemplo. a côr pela còr. por exemplo. em outro sentido. o que vem em favor da primeira tese. ora dizemos que o frio se aquece 25 30 e que o doente é curado. que 10 15 . cuja atenção foi atraída para os contrários. pois como poderiam coisas outras e diferentes sofrer mutuamente. o sabor pelo sabor. VI. permanecem contudo em contacto com a natureza. em virtude de sua natureza. Num sentido. O agente e o paciente. há opiniões contrárias entre os filósofos. impõe-se necessariamente também que o agente e o paciente sejam genericamente semelhantes e idênticos. se o semelhante. E assim entre os filósofos. tem calor. e. pois seria um mais activo que o outro. cuja atenção foi atraída para o substracto. então. senão talvez por acidente. nem mais activo nem mais passivo que o outro. em outro sentido. enquanto os dissemelhantes e diferentes agem e sofrem reciprocamente. que o corpo é afectado pelo corpo. Neste caso. porque o activo torna semelhante a si mesmo o paciente. coisas que apresentam esses caracteres são contrárias. IV. por não ser nenhum deles. tomadas de maneira geral. por outra parte. pois nada é mais semelhante a um ser do que si mesmo. E já que. Necessariamente. e que são contrárias as coisas que actuam e sofrem reciprocamente. Para a maioria deles o semelhante nunca é afectado pelo semelhante. há identidade do agente e do paciente. nem compostas de contrários. o que é a tese de Demócrito. pensaram que um elemento idêntico. e. com efeito. A causa decorre de os contrários entrarem. E exemplifica Ar. É pela natureza. II — Só Demócrito se opõe a essa doutrina. pois sustenta que o agente e o paciente são idênticos e semelhantes. e se umas actuam sobre as outras é porque entre elas ha algum elemento idêntico. devido a sua contrariedade. com efeito. O fogo menor é destruído pelo maior. III — Esse conflito de opiniões decorre de cada grupo visualizar o assunto. de uma parte. mas apenas numa parte. portanto. E se se trata do que é inteiramente outro e que não é o mesmo em nenhum sentido. já que somente assim haverá geração para o contrário. visto terem propriedades iguais e idênticas. deveria pertencer ao agente e ao paciente. mover-se a si mesma). em certo modo. Mesma distinção também no que concerne ao agente. sustentaram tese totalmente oposta. Podemos desde logo compreender por que o fogo queima e o frio esfria. assim. outros. Ademais. expressamos a verdade. nem a linha. não existem senão entre esses contrários ou esses intermediários. está de boa saúde. que não é o mesmo em nenhum sentido. e. e que. dar-se-ia a mesma coisa. de uma maneira geral. se acontecesse à linha de ser branca ou negra. em cada caso. mas especificamente dissemelhantes e contrários. e. não na sua totalidade. E se fosse o diferente. e especificamente dissemelhantes.

Idênticos genericamente e diferentes especificamente são contrários e. pois o que se corrompe. VI — Só há geração quando o paciente se torna no agente. tanto ao agente como ao paciente. devêm do que é exterior à sua natureza. em suma. se não são elas contrárias. ou é gerado ou induz outra forma. no sentido eminente que damos a este termo. por isso actuar (poien) ou sofrer (pathein) se dão entre contrários. as duas doutrinas têm um ponto de contacto. Duas coisas não poderiam sair uma e outra de sua natureza. nem pelo semelhante absoluto. Essa a solução sintética de Ar. Num sentido. É necessário que sejam semelhantes-dissemelhantes. A acção e a paixão não se explicam. apesar das divergências. entre ambos. alteridade e dissemelhança. tomadas em sentido geral. com a sua doutrina. É necessário que o agente e o paciente sejam genericamente semelhantes e idênticos. entre contrários ou intermediários. IV — Agora expõe Ar. Vê-se. que ambos grupos actualizaram o que o adversário virtualizava. O branco e o negro são espécies do gênero côr.126 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 127 a brancura não poderia ser afectada pela linha. realiza uma verdadeira síntese dialéctica. Conseqüentemente. Toda acção e paixão implicam uma alteração (alloiosis) e esta é uma geração ou corrupção secundum quid. haja. embora. reciprocamente activos e passivos. que sejam contrárias. ou seja. nem a linha pela brancura. e os que actualizaram os contrários sustentaram uma tese oposta. o sabor pelo sabor. por outro lado. é a matéria que sofre. dissemeIhantes pela espécie. A corrupção e a geração. neste caso. Os contrários incluem-se no mesmo gênero. A geração segue o contrário. semelhantes pelo gênero. como salienta Tricot. o que. só se dão entre esses contrários ou seus intermediários. como êle o expõe em "De Anima". desta forma. o que revela uma certa identidade entre agente e paciente. com efeito. isto é. que reúne as positividades das duas doutrinas anteriores. genericamente. como no caso da linha ser branca ou negra. V — E isso se dá por que entram no mesmo gênero. Só se pode dar a geração e a corrupção simpliciter. como se pode dar a acção e a paixão recíprocas. a côr pela côr. o termo da geração e da corrupção é o contrário. Desta forma. senão talvez por acidente. como a secundum quid. de outra forma. ou melhor: o homogêneo pelo homogêneo. por conseqüência. Tal só se pode dar do que é contrário. e noutro sentido é o contrário. nem pelo dissemelhante absoluto. . Aristóteles. não seria uma alteração total. tanto os contrários como os seus intermediários. mas especificamente diferentes e contrários. Demonstra Aristóteles que aqueles que actualizam apenas o substratum pensaram que o elemento idêntico devia pertencer. É pela natureza que o corpo é afectado pelo corpo. nem compostas de contrários.

Igual distinção também para o agente: dizemos do médico que êle produz a saúde. Devemos formar.TEXTO DE ARISTÓTELES I — 20 I. O motor. a mesma para um ou para outro dos opostos. a mesma noção que formamos a respeito do motor e do movido. em dois sentidos: o em que reside o principio do movimento. portanto. II. necessariamente é aquecido. como foi dito. o 30 primeiro motor de ser não-movido (e no que se refere a certos primeiros motores. e que o que é quente em potência. é mesmo uma necessidade). sofre de alguma maneira.324b te que ela cura. quando o agente e o paciente não têm a mesma matéria. pois é aquecido ou resfriado. como também o dizemos do vinho. nada impede que o primeiro agente seja impassível e que somente o último actue ao sofrer. enquanto que o último sempre move. que 35 produz a saúde. pois. ao mesmo tempo que actua. sem nada sofrer ela mesma do doen. Com efeito. permanecendo êle impassível: tal é o caso da medicina. nada impede. o alimento como o motor último e contíguo. Também. e também o que é último diante do móvel e do engendrado. são impassíveis. A medicina é como o princípio do movimento. ou sofre de alguma outra maneira. O que tem 10 lugar pelo movimento tem lugar também para as . pensa-se que move (pois o principio é primeiro entre as causas). sendo êle mesmo movido. o alimento. Assim. as potências activas. enquanto que ao contrário. enquanto outras são passíveis. Na acção. com efeito. No movimento. é to. que a matéria é. como uma espécie de gênero. enquanto aquelas que estão na matéria são passíveis Sustentamos.25 mado. a respeito do agente e do paciente. por 5 assim dizer. também. certas potências activas são impassíveis. o agente actua. ao actuar. se o agente que aquece é presente e próximo. semelhantemente. com efeito. cujas formas não estão na matéria.

que têm elas uma matéria comum. Em relação ao paciente que não actua sobre si mesmo. sua razão e sua maneira de ser. ao actuar. são passíveis. pelo contacto. ao mesmo tempo que actua. Expôs.. e são eles o fim. sofre de qualquer maneira. os estados. Já demonstrou Aristóteles que necessariamente tem de ser assim. e ademais que elas pertencem aos contrários. por ex. enquanto tal. II — Nesse caso. quanto ao movimento. A mesma distinção pode ser feita quanto ao agente. Nós assim determinamos a natureza da acção e da paixão. da mesma maneira. As potências activas. mas. o primeiro agente pode ser impassível. emquanto matéria. IV — A matéria. o fogo contém o quente na matéria. pois. o primeiro Agente é impassível. mas não é activo em vista de que êle actua. cuja forma não está na matéria. mas se há realidades como tais. uma vez realizados os estados. Assim. sendo ela mesmo movida. não se tornam mais. Admite Aristóteles que é impossível exista em estado separado. assim. Certas potências activas. é movido pelo primeiro motor. mas se um quente pudesse existir separado da matéria. A matéria é um tipo de gênero da qual um e o outro dos opostos são as espécies. Mas o alimento». o primeiro motor é imóvel. Mas. e também. III -— O activo é causa no sentido de fonte de movimento. e as que estão. como o mostrou Aristóteles. diz Aristóteles. da mesma forma que.130 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 131 potências activas. o que dissemos se aplicará com toda certeza. pode o agente actuar permanecendo impassível. . são passíveis. o agente uma vez presente. o primeiro Motor é imóvel. É a matéria. senão por 15 metáfora. o que êle diz. O primeiro motor não é movido pelo corpo que êle move. que é "a sua maneira de ser". a pouco e pouco. o primeiro agente é impassível. no movimento. Êle é esses mesmos estados. III. Aristóteles a natureza da acção e da paixão. que produz a saúde. Deus. pois já estão. que é Deus. porque o Céu. é passiva. são impassíveis. a medicina seria como o princípio do movimento e o alimento como o motor último e continuo. que é passiva. Presente o agente. o paciente torna-se alguma coisa dele. Èle toma. mas se há tais realidades. Pois. pois já o são. pois. a quais coisas elas pertencem. Sem 20 dúvida é impossível que exista em estado separado. nas potências activas. como o ex. que Aristóteles dá da medicina. A causa próxima ou última move. IV. Ora. E o que tem lugar quanto ao movimento. como motor. esse quente não sofreria de nenhuma maneira. como o explica Filopon. a forma que o agente lhe imprime. esse quente não sofreria de nenhuma maneira. citado por Tricot. O motor pode ser tomado em dois sentidos: 1) como causa primeira. Mas o em vista do que actua não é activo. não se tornam mais em algo. tem também quanto às potências activas. o paciente assemelhase ao agente à medida que o agente está ali actuando. Como comenta Tricot. Reexposição comentada 1 — 20 I — Coloca Aristóteles o tema do agente e do paciente na mesma posição do motor e do movido. pois. na qual reside o princípio do movimento que antecede todas as outras causas. quanto às potências activas. O activo é causa no sentido de fonte do movimento. eis por que a saúde não é activa. O fogo contém o quente imerso na matéria. mas se o quente pudesse existir separado da matéria. mas presentes os estados. 2) como causa próxima ou última ante o móvel e o engendrado. as formas e os fins são espécies de estados. Quando o agente e o paciente não têm a mesma matéria. semelhantes às ações. torna-se o paciente alguma coisa dele. o paciente não se torna mais nada. aplicar-se-ia também. Esta afirmação é relativa. enquanto outras são impassíveis. uma vez presentes. sem nada sofrer do doente que ela cura.

pois. mas o movimento não é possível sem um vácuo possuidor de uma existência separada. nãoum. e é desta maneira. invisíveis em razão de sua pequenez. a respeito da estruetura de certos corpos. Alguns. e ela não se aplica somente aos corpos que actuam e sofrem. da água e de outros diáfanos. conseqüentemente. acrescentam. pensar que o Universo não é contínuo mas divisível em corpos contíguos. mas densos e dispostos cm séries. nem ademais o é a multiplicidade sem alguma coisa que opere a separação dos seres. e vácuo. a mistura não se dá senão entre os corpos que estão numa simetria recíproca. e tanto mais numerosos quanto os corpos são transparentes. tal assemelha-se muito bem a uma ficção. Tal era. agente no sentido próprio. e o Todo é vazio. não existe. Com efeito. III. dizem eles. entre os antigos filósofos. e que todos os nossos sentidos percebem. e por que razão uma 25 30 35 325a 5 10 .TEXTO DE ARISTÓTELES I — 21 I . Segundo a opinião de alguns filósofos. a teoria desses filósofos. com efeito. do que dizer que há multiplicidade. O vácuo. pois tomaram como principio o que vem naturalmente em primeiro lugar. também não há múltiplo. porque esses corpos possuem poros. diziam. não há Um e. dizer que é divisível até tal ponto c não mais longe. ao contrário. como também a de Empcdocles. II. Vamos agora explicar como a acção e a paixão podem ser produzidas. mas ainda. pois até qual limite é êle divisível. Acrescentam ainda que se pode ver através do ar. que vemos e entendemos. dizem eles. penetra o agente último. cada coisa sofre quando. IV. acreditavam que o Ser é necessariamente um e imóvel. Mas foram Leucipo e Demócrito que procederam em sua definição com maior método e propuseram a explicação mais universal. É indiferente. se o Universo é totalmente divisível. através de certos poros.

pensou possuir uma teoria de acordo com as exigências da percepção. e até acrescentam alguns. pelas razões indicadas. Em virtude. enquanto a outra seria dividida? Ademais. a sua teoria é clara em si mesma. Para Empédocles. do que é múltiplo. Ademais. há nele uma multiplicidade infinita em número. VI. Leucipo. IX. dos quais as coisas estão de início constituídas e nas quais elas se resolvem cm última instância. enquanto que. Ora. os de Platão. Empédocles também é. pois. acrescenta êle. e pretendem que o Universo é um c imóvel. já que positivamente êle não diz que o fogo também possue ura elemento constituinte. Para Leucipo. até somente aos elementos. segundo parece. produzem a geração. assim toda alteração e toda paixão procedem da maneira que indicamos: com efeito. com rigor suficiente. de tais argumentos. do que é verdadeiramente um não poderia nunca provir uma multiplicidade. pelo contrário. em razão da pequenez de suas massas. que esteja fora de senso a ponto de acreditar que o fogo e o gelo sejam a mesma coisa.5 do de adotar a mesma teoria que Leucipo. segundo Leucipo. nem. intervalos que Empédocles chama de poros. Movem-se no vácuo (pois há um vácuo). nada que fosse sólido. é grande a diferença na maneira como se exprimem Platão e Leucipo: os indivisíveis de Leucipo são sólidos. pessoas atingidas pela loucura não percebem nenhuma diferença. É portanto necessário que suas partes contíguas sejam indivisíveis. professaram a respeito "da Verdade" semelhantes doutrinas. nem o movimento. esses filósofos ultrapassam a sensação e desdenham-na. VIII. Por outro lado. com efeilo. essas figuras são em número limitado. Um tal ser. a corrupção. pela penetração dos sólidos nos vácuos. e semelhantemente também o aumento. e. Não há louco. V. e que não destruiria nem a geração. pois os corpos não conteriam. os poros se continuariam sem interrupção. o um. O ser propriamente dito é um ser inteiramente cheio. nem a multiplicidade dos seres. e que seus intervalos sejam vazios. com efeito. e concede que o vácuo é uni não-ser e que nada do que é real é não-ser. têm sua geração e sua corrupção. 15 por exemplo. VII. obriga. 20 é evidente que todos os outros corpos. superfícies. e não lhe é possível explicá-lo. pois todo limite terminaria no vácuo.ARISTÓTELES 134 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES E AS MUTAÇÕES 135 parte do Todo se comportaria assim e seria cheia. portanto. no pensamento de que é preciso manter-se nesse raciocínio. os corpos primeiros. e todo corpo seria vácuo. mas não explica claramente como o aglomerado desses elementos é engendrado e corrompido. Mas. infinito. . Mas (da mesma forma que Empédocles e alguns outros filósofos dizem que as coisas sofrem 15 20 25 30 35 325b através de seus poros). eles actuam e sofrem na medida em que lhes acontece estar em contacto. e por sua separação. Para Leucipo e Demócrito. concede êle que não pode haver ai movimento sem vácuo. Com efeito. não é um. de um lado como de outro. essa evidência não é tão grande: na teoria de Empédocles. E é do mesmo modo para todos os outros elementos à maneira como o descreveu Platão no 25 "Timeu". ao contrário. por outro lado. de princípios sobre os quais ela se apoia. filósofos que. Mas 10 eis aí precisamente a teoria de Leucipo sobre a ação c a paixão. pois então eles não são e engendram as coisas por sua composição e entrelaçamento. eis uma coisa impossível. Eram essas as concessões que êle fazia á experiência. em virtude do hábito. por outra parte. contudo. Ao contrário. além dos poros. nem a corrupção. X. para Platão. Quanto a eles. do contrário. e são invisíveis. Ilá. desde que. se considerarmos os factos. e c evidente também que ela decorre. para outros filósofos. essas opiniões parecem encadeiar-se l:gicanienlc. dar-lhes fé parece vizinho à loucura. por sua reunião. portanto. essa ultima hipótese é inadmissível. de qual maneira poderia haver aí geração e corrupção como alteração? É o que não é claro. do ponto de vista teórico. é somente entre os bens reais e os bens aparentes que. aos filósofos que edifiearam a teoria do Um. contudo. Tais são aproximativamente as explicações que dão esses filósofos quanto à maneira como actuam certas coisas e como outras sofrem. é por meio do vácuo que se produzem a dissolução e a corrupção. pois deve dizer que há certos sólidos que são contudo indivisíveis. somos igualmente forçados de dizer que não há movimento. uma infinita variedade de figuras define cada um dos sólidos indivisíveis. são indivisíveis e diferem apenas uma da outra pela figura.

o vácuo não há. pelo contacto apenas. e os poros estão cheios de ar. nem o movimento e a multiplicidade dos seres. sendo composto de nadas. afirma que não pode haver movimento sem o vácuo. como salienta Tricot. portanto todos são um. O universo é um o imóvel. seria dividido por pontos. o ser é um e imóvel.30 cipó. e a corrupção. é claro o sentido aqui). para Platão. Segundo a opinião dos filósofos. sustentada por Empédocles e sobretudo por Alcmeon. Indivisíveis resultam. V — Leucipo. Movem-se nesse vácuo e produzem a geração pela agregação. E demonstravam suas opiniões da seguinte maneira: o movimento só se pode dar se houver vácuo. portanto não há movimento. ao admitir que os corpos são múltiplos. Os eleatas alegavam que não podia haver movimento por que não havia vácuo. pois é mais coerente. e aplica-se a todos os corpos e não somente a alguns. àquelas. evitando a postulação do vácuo (nada). pois há movimento. (dicitur secundum naturam magis quam positio aliorum qui de naturis rerum per sua principia causas assignare non potest). (pie o mal e o bem seriam o mesmo? Tais argumentos permitiriam afirmar todas as contradicções e liquidar as diferenças entre os opostos o que os tornaria fronteiriços da loucura. Tomás de Aquino mostra em seus comentários como são sofíslicas estas afirmações. portanto é real. pois èle nega a existência do vácuo. pela desagregação. por ex. II — Tal é a teoria. o que os separa senão o vácuo? E se o vácuo não existe. E vemos através do ar e dos corpos transparentes. através dos poros do paciente. além de dar uma explicação de todas as espécies de mutação. pois se fosse muitos haveria algo. E não pode deixar de ser um. Tomaram eles por princípio o que vem naturalmente em primeiro lugar (secundum naturam) como está na traducção latina. as gerações e as separações. E como conseqüência.136 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 137 embora um e outro admitam corpos indivisíveis e definidos por figuras distintas. e que o vácuo é um não-ser. E se se admitir que o Universo é totalmente divisível. devido sua pequena massa. e ao terem conlacto não são . a paixão. No que concerne à teoria dos sólidos indivisíveis. fundando-se nos comentários de Tomás de Aquino. Esse vácuo (esse vazio total) teria de ser real e não apenas um ente da razão. chegando alguns a afirmar que é infinito (extensivamente. Há. que são evidentes. O ser não é um. O que pode separar e dividir a não ser o vácuo? Mas o vácuo não há. como Parmênides e Melisso de Samos. Quanto aos eleatas. Quando em conlacto. nós vemos e ouvimos pela penetração. entre os antigos filósofos. o estudo pormenorizado de suas conseqüências deve ser poslo de Jado. pois elas valem em "seiinones". acíuam e sofrem reciprocamente. porque não evitava o vácuo. e se é real. separando-os e dividindo-os. como acrescenta Ar. excluindo assim o vazio (vácuo). e afirmando o movimento. a corrupção. nesse ponto. E assim explicam esses filósofos a acção. 35 Reexposição comentada I — 21 I Pretende Ar. tal teria lugar de duas maneiras: pelo vácuo e pelo contacto (pois é no ponto de contacto que cada corpo composto é divisível). afirmavam que o ser é necessariamente um (continuum) e imóvel. que o vácuo é. pelos quais penetram os eflúvios. palavras. explicar como se produzem a acção e a paixão. Falamos de superfícies em nosso precedente tratado. III — Prefere Aristóteles a teoria dos atomistas Leucipo e Demócrito. como conseqüência dessas leses. pois. separado do resto e o que o separaria senão o vácuo? Conseqüentemente nada se move. são nada. O Sphaerus não contém vácuo. mas tudo é contínuo e um. não tendo extensão. no entanto. não existe também a multiplicidade. funda-se nas exigências da percepção e constrói uma teoria (pie não arruina a geração. mas não é homogêneo. mas permanecem em contacto. concluem os eleatas. por emquanlo. Como se poderia afirmar. segundo Leu. do agente próximo a este. átomos. sem um ser propriamente. IV — Os eleatas. Também Empédocles tentou explicar a multiplicidade. por que o é até tal ponto e não além? E ademais o que fosse divisível até tal ponto seria. pois se são diversos. e a mistura. porque estes possuem poros. porém quanto aos factos. Ora. não. que é evidente. seria nada. E se o vácuo é. uma multiplicidade infinita em número de invisíveis. que defendem a teoria dos poros. afirma. VI — O vácuo existe. nele. pois do contrário teria limite e esse só poderia ser o vácuo. portanto não pode haver mulos seres. É assim que nossos sentidos percebem. e esses pontos. partindo da experiência. um ente no pensamento. e o universo. E se se dissesse que é divisível até um ponto e não mais longe. de Empédocles. ao inverso. Mas essa solução não satisfez aos eleatas. não é uma privação absoluta de ser. Mas Leucipo.

III. II. o frio. Outrossim. mas dizemos que é mole pelo facto de sofrer em alguma coisa. IX — No "Timeu". ser improcedente. VIII — Como poder-se-ia dar a geração e a corrupção. corpos indivisíveis e definidos por figuras distintas. e não dos poros. poderia vir a multiplicidade? Como do verdadeiramente múltiplo poderia vir o um? Tudo isso é impossível. que os poros não são vazios para Empédocles. o vácuo não é formado de superfícies indivisíveis. as quais se distinguem umas das outras pela figura. Platão afirma que Leucipo dá a causa da geração pela posição dos átomos. daí resulta evidentemente que é também o mais quente. pois então sua substância nem sequer seria uma. verdadeiramente. Mas se tal é sua natureza. X — Os átomos são de uma infinita variedade de figuras.138 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES mais um. é impossível que os indivisíveis não sofram um pela acção do outro: por exemplo. além de ser estranho que nenhuma propriedade pertença aos indivisíveis. pois o mole é o que cede à pressão. como eles geram uma coisa e a corrompem. TEXTO DE ARISTÓTELES 1 — 22 I. e. dada exclusivamente a figura esférica. É estranho também. como igualmente lhes pertencem a dureza e a moleza. segundo a teoria de Empédocles? Os elementos são eternos para ele e não se transformam uns nos outros. Mas. pois nega a existência do vácuo. pertençam igualmente aos indivisíveis. para este indivisível. do contrário os poros continuariam alé o infinito. Mas é preciso considerar (o que não o fêz Aristóteles). Dai todo argumento de Ar. sendo indivisível. com excepção apenas da figura. pois o seu contrário. os quatro elementos constituem as coisas que neles se resolvem. contudo. para este outro. cada um dos indivisíveis é ainda mais pesado. como do um. o que por ora não pretende tratar. o qual pode ser lido no texto. para Leucipo. 326a 5 10 15 . Ademais. onde mostrou que. Contudo é menos estranho admitir uma excepção em favor do quente. VII — Os que dizem que as coisas actuam e sofrem através dos poros são os seguidores de Empédocles. Limitcmo-nos a uma curta digressão. E contudo. a saber. possuirá tais propriedades num mesmo ponto. estudou as superfícies indivisíveis. A geração e a corrupção se daria. o frio. Mas Empédocles não explica a geração dos próprios elementos. como mostra Joachim ao comentar este tópico. quanto é maior. através do vácuo. quero dizer. Mas para Platão essas figuras são de número limitado. e digamos que cada um dos indivisíveis é. e sim cheios. deve haver também um que é mole. no sistema de Leucipo e de Demócrito. pois. embora ambos admitam. deve também se aplicar a algumas das outras figuras. í: por meio do vácuo. como o peso e a leveza. se admitirmos que essas determinações. que tal reciprocidade se dá. Eles não se assemelham pela figura. incapaz de receber uma propriedade (pois nada é capaz de sofrer senão por meio do vácuo) e de produzir por meio dele uma propriedade (pois nenhum indivisível pode ser nem frio nem duro). o indivisível fracamente quente sofrerá pelo facto de um indivisível que o ultrapasse muito em calor. pergunta Leucipo. Igualmente. Mas Empédocles é obrigado a aceitar a solução de Leucipo. Para os atomistas. o calor e a frialdade. é impossível que diversas dessas propriedades pertençam a um único indivisível. se um indivisível é duro. seja uma única propriedade. é estranho também que se outras propriedades lhes pertençam. No "De Caelo et Mundo" (III) Ar. que é o átomo. o que aliás já estava consignado nos comentários de Tomás de Aquino. segundo as expressões de Demócrito. quer uma explicação desse porque. pois deve liaver indivisíveis. mas dois. pelo contacto (pois é pelo contacto que cada corpo composto é divisível). para Platão. emquanto para Platão se dá apenas pelo contacto. e não propriamente os de Leucipo. Mas Ar. Fundado em sua posição vai considerar a teoria dos atomistas superior à de Empédocles. isto é. o quente.

t o m a d a em geral. mas não g r a n d e s . ou falso. Mas a indivisibilidade. então. m a s a i n d a em potência. t a m b é m . V. sobre u m a m e s m a relação. como u m a conseqüência u n i f o r m e : os indivisíveis não podem. que. e n t e n d o os corpos maiores. em sua massa. ou superfícies. através de u m meio. com efeito. a d a p t a d a s r e c i p r o c a m e n t e desta 25 maneira. vindo em contacto u m a s com as o u t r a s . Reexposição comentada I — 22 I — Estabelece agora Ar. V I I I . m e s m o se essas passagens 15 estão vazias. a c t u a r ã o e sofrerão ao m e s m o t e m p o .5 tencer-lhes-iam p r o p r i e d a d e s c o n t r á r i a s e a m a t é r i a seria u m a . 20 I V . E se sua g r a n d e z a é tal q u e eles n ã o p o d e m receber n e n h u m corpo. pois esta dificuldade se opõe a todos aqueles q u e a d m i t e m os indivisíveis. Ademais. então. Se. a m e s m a conseqüência d e c o r r e r i a u m a vez ainda. IX. supor p o r o s é ridículo. n e m em seus pontos de contacto. p o r que n ã o se t o r n a m u m a única coisa. P o r outro lado. Se. a hipótese dos poros torna-se supérflua. per. p o r que pertenceria ela p r e f e r e n t e m e n t e aos g r a n d e s corpos e n ã o aos p e q u e n o s ? VI. como nos m o s t r a r a m os nossos a r g u m e n t o s . Q u a t r o são os a r g u m e n t o s q u e a p r e s e n t a r á a seguir. desde que seja p o r sua n a t u r e z a . até q u a n d o esses poros estão cheios. então. o agente n ã o p r o d u z n e n h u m efeito pelo contacto. De u m a m a n e i r a geral. Pois em q u e ter poros. se diferem suas massas. Mesmo raciocínio p a r a as o u t r a s p r o p r i e dades. como a água q u a n d o está em contacto com a á g u a ? Pois n ã o h á n e n h u m a diferença entre esse último caso e o p r e cedente. a hipótese dos poros é inútil. de preferência as figuras. n ã o somente em n ú m e r o . m a s fosse contí. se se supõe q u e essas p r o p r i e d a d e s sobrevêm. se aclua pelo contacto. a crítica aos sistemas de L e u cipo e Demócrito. sofreria d a m e s m a m a n e i r a . além disso. êle a c í u a r i a t a m b é m ou sofreria u m a acção de a l g u m a o u t r a m a n e i r a . De f a d o é racional que os corpos m a i o r e s sejam m a i s frangíveis que os m e n o r e s . e m q u a n t o resfriado. como se. VII. A d m i t i r assim poros no sentido em q u e certos filósofos o concebem. p o r essa condição que todo corpo sofre em a l g u m a coisa. p a r a c a d a corpo. é pois evidente. m a s n ã o g r a n d e . tendo sido d a d o q u e eles n ã o conlèm vácuo. nem mais densos. n e m através de seus poros. os corpos p o d e m ser s e p a r a d o s . e m q u a n t o divisíveis.25 siveis. serão passivas.30 ses sólidos é u m a . difere de n ã o os ter? T o d o corpo seria u n i f o r m e m e n t e cheio. Se é. p o r exemplo. pois eles p r o c e d e m de muitos outros corpos. e m b o r a t e n h a m q u e conter corpos. ao contrário. P a r a os filósofos que explicam p o r m e i o d a p e r f u r a ç ã o dos poros a superveniência das p r o - p r i e d a d e s . n ã o p o d e p e n e t r a r nos corpos diáfanos. A d e m a i s será que a n a t u r e z a de todos ês. Além disso. ou então será divisível. q u e essas m a s s a s devem ser 326b colocadas como princípios e como causas dos fenôm e n o s que delas decorrem. êle n ã o p r o d u z i r á algum ao p a s s a r através dos poros. ou então p e n s a r que o vácuo significa o u t r a coisa do q u e o lugar de u m c o r p o . . é ridículo p e n s a r q u e h a j a u m peq u e n o vácuo.s e como eles o p r e t e n d e m ? O r a i o visual. t o r n a r e m . se c a d a p o r o está cheio. com efeito. com efeito. com efeito. outros de t e r r a ? Se. n e m de u m a g r a n d e za relativa q u a l q u e r . c a d a u m a se move p o r si m e s m a . q u a l é o m o t o r ? Se seu m o t o r é outro que elas. como é possível que a visão. q u a n d o m e s m o n ã o tivesse poros. ou. Mas. é.s e n e m m a i s r a r o s .140 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 141 de tal f o r m a que se ele sofre pelo facto de ser resfriado. p r o d u z a . pois. Outro p a r a d o x o : h a v e r i a p e q u e n o s indivi. sendo o u t r a como m o t o r e o u t r a como movido. com efeito. q u e r sejam sólidos. que é que os s e p a r a uns dos outros? Ou. se diferem em n a t u r e z a . E a i n d a mais. h a v e r á u m 20 vácuo de v o l u m e igual. u m a vez e n t r a d o s em c o n t a d o . Mas j á q u e os corpos são a b s o l u t a m e n t e divisíveis. X . 35 q u a l é a n a t u r e z a dessas m a s s a s ? É evidente. ou inútil. h á u m a ú n i ca n a t u r e z a p a r a todos. são facilmente disassociáveis.10 nuo. já que esses corpos. m e s m o sem poros. ou diferem eles uns dos outros. X I . certas coisas sofrerão u m a ação e o u t r a s a c t u a r ã o . P o r o u t r a p a r t e . uns fossem de fogo.

neles poderíamos distinguir. dada a sua natureza. O vazio. como sintetiza Tricot o pensamento já exposto por Tomás de Aquino. de sua densidade e de sua rareza. então. II — As palavras de Ar. quando activos e quando passivos. como tais. como poderia gerar os contrários? Ora. o problema da transparência não ficaria resolvido. há uma contradicção no pensamento dos atomistas. pois se estes são a condição para que o corpo sofra.142 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 143 Os indivisíveis (átomos) não são nem passivos nem activos no concernente às propriedades sensíveis. que tem uma temperatura própria. prossegue Ar. o que contradiz a tese atomista. Em linhas gerais. actuarão e sofrerão ao mesmo tempo. heterogênea à dos outros. VII — E qual a causa eficiente. pois essas propriedades dependem do número e do agrupamento dos átomos. neste tópico. Ademais. a paixão e a acção são realizadas pelo vácuo.. o que levaria à contradicção que seria afirmar a divisibilidade do indivisível. são claras e demonstram que. E se a matéria é uma delas em potência. Só um corpo composto pode ser dotado de propriedades diversas. os quais são caracterizados pelas figuras. nas diferentes partes do composto. sem violar a lei da contradicção. Se diferem em natureza. Se há uma natureza idêntica para todos. reprovando tanto a opinião de Demócrito. êle sofre. isto é. para Ar. o que contradiz a tese da indivisibilidade dos átomos. Mas. ou se formam eles grupos qualitativamente distintos do fogo. o que é paradoxal para Ar. que é afirmada independentemente da magnitude. uma acção. qual é a natureza desses grupos? Torna-se evidente para Ar.. como são muito pequenos. quando em contacto com a água? Se formam grupos de átomos qualitativamente distintos. VI — Ademais. Pois se eles podem sofrer modificações não têm a mesma natureza. IX — Este tópico é de máxima clareza em Ar. de preferência às figuras. quando se movem e quando são movidos. não podem receber corpos. pois este admite que os indivisíveis sejam sólidos ou superfícies. pois não pode resistir à pressão de outro menos mole. que essas massas devem ser colocadas como princípios e como causas dos fenômenos que delas decorrem. sob uma mesma relação. actuariam e sofreriam ao mesmo tempo que permaneceriam indivisivelmente idênticos a si mesmos. E. o que é. que os separa? E por que não se tornam eles uma só coisa quando entram em contacto. pois esses poros são considerados cheios. uma magnitude. pois se há poros ou não. pois. porque tais poros são vazios em relação ao corpo que os tem. reconhece. Neste caso. tal é impossível como nos mostra Tomás de Aquino em seus comentários. da água. Desta forma. no mesmo raciocínio. estão cheios de matéria diferente de a dos átomos. não poderiam ter outras propriedades. tais filósofos evitar uma conlradicção inevitável se admitissem que os átomos fossem a d i vos ou passivos. é essencialmente mole. então são passivos. o que se torna impossível. são divisíveis. quando se aproximam ou se afastam uns dos outros. pois é evidente que para cada corpo há um vazio de volume igual. o motor? Se outro que eles. Se diferem de natureza. como a de Platão.. como o expressa Empédocles. pois as qualidades sensíveis dos corpos são devidas às modificações na posição relativa dos indivisíveis. pertencer-lhes-ia duas propriedades contrárias. etc. III Na base da teoria atomista desses autores está a unidade indiferenciada da substância dos átomos que são idênticos substancialmente e. o que leva a uma concepção absurda do vazio (vácuo). a não ser apenas a figura. conseqüentemente. X — Considerá-los vazios também não resolveria o problema. é este o pensamento exposto por Ar. o que põe por terra os fundamentos da teoria. Procuram. apesar de tudo. como a água. pois o que é positivo é que sofre uma acção. o que é uma flagrante contradicção. neste tópico. o que não evitaria a contradicção. assim. . neste caso. pois o menos quente sofrerá acção do mais quente. se no átomo há a paixão e a acção. Se são eles mesmos. que é por sua vez divisível. estariam elas no mesmo indivíduo. sendo estas contrárias. pois não c possível que os átomos não sofram da acção dos outros. os átomos. é o lugar do corpo. VIII — Não procede também a explicação pela perfuração dos poros. êle sofreria da mesma maneira quando não houvesse poros. IV — Neste tópico. que não têm eles em comum com os outros átomos. portanto não actuam nem sofrem. V — Admitindo Demócrito que há átomos maiores e menores. sendo os maiores mais que os menores. é preciso saber se para esses atomistas a substância de todos os seus indivisíveis é idêntica. neles. pois levaria a uma flagrante contradicção. mas como os átomos não são vácuo. Se o átomo.

ao comentar este tópico. por sua natureza. se. O mesmo se dá quando se trata dos corpos que não estão em contacto um com o outro. de uma parle. desde que essa doutrina é falsa e que. é da natureza dessa coisa em potência de sofrer. enquanto precisamente é ela tal coisa: mas sua passividade é maior ou menor na medida em que ela c mais ou menos tal coisa. falar de poros: por exemplo. com efeito. Mas. pois são estes apenas intermediários para um contacto interno. o seccionamento far-se-ia em qualquer lugar. muitas vezes já enunciado: II. Quanto à suposição que um corpo sofre em tal parte e não em tal outra. que. mas ainda quando à distância. impassível. V. é. sem que fossem precisos os poros. cuja natureza seja actuar e sofrer. em natureza. temos agora de fazer as anotações seguintes. XI — A hipótese dos poros. e. aquece o ar. as diferentes teorias propostas. o ar actua ou sofre. partindo do princípio seguinte. com mais verdade. não haveria nenhum corpo absolutamente passivo. e é assim que se poderia. Todo corpo. nem com outros corpos. não somente em alguma parte com exclusão das outras. existem corpos ou superfícies indivisíveis. todo corpo é divisível. Digamos de que maneira pertence aos seres o poder de engendrar. com efeito. como alguns filósofos o pro30 35 327a 5 10 . De início. portanto. Se há. o que está em potência. na realidade. como o expõe Tomás de Aquino. Tomo um exemplo: não é somente quando está em contacto que o fogo aquece. de actuar e de sofrer. distinguimos. não difere de um contacto superficial. há veias contínuas de passividade que se extendem através da substância. de outra. O fogo. TEXTO DE ARISTÓTELES 1 — 23 I. IV. uma coisa de tal qualidade. ao contrário.144 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES Ademais a hipótese dos poros nada resolve. deste modo. por que. naturalmente contínuo e um. Se um corpo. no início. o que está em entelequia. III. o corpo. e o ar. não favorece a solução do problema. mas de maneira absoluta. nos metais. também nenhum que fosse contínuo. pode ser separado nos pontos de contacto. não há nenhuma diferença entre "ter sido dividido em partes que permanecem em contacto" ou "ser absolutamente divisível". se a grandeza não é absolutamente divisível. como. pois se os corpos são totalmente {paute) divisíveis.

mesmo que êle não seja dividido (diereménon). é ora líquido. para falar como Platão. nem tampouco qualquer que fosse contínuo. explica Tricot. que sofrer se produza apenas dessa maneira. pois. 1. com efeito. depois de haver analisado o modo como fora tratado por outros filósofos. prossegue Ar. Esse momento é aquele em que êle se separará nos pontos de contacto. a alteração. pois nada de impossível se realiza. Esta é a doutrina que êle expôs na Metafísica.146 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 147 fessam. Com efeito. ou seja. que estabelece as superfícies em contacto. não por divisão e por composição. ou. IV — Já examinou Ar. mostrando que se a grandeza não é absolutamente divisível. então. A potência é uma propriedade do todo. pois é uma potência desse todo. nem se deu a passagem do estado líquido para o estado sólido. não só a distinção entre agente e paciente. Ao contrário. ser dividido. II — Há o que está em potência e há o que está em acto (entelequia). são engendradas e sofrem umas pelas outras. o acto a realizarse que se efectiva no que já está em acto. quer dizer. Pode. oulrossim. simplesmente que êle é divisível pante. 231-b 16). não se deve admitir que o paciente é passível num ponto determinado. pois "todo contínuo é divisível em parles sempre divisíveis". e que a maneira como esses processos se realizam. uniforme e integralmente. uma distinção absoluta que os separe totalmente. nem. Se se admite. não haveria corpos absolutamente passivos. como já tivemos oportunidade de ver —. A potência está difusa num corpo. segundo Aristóteles. dá quanto aos metais. c a potência realizada. mesmo que não seja ainda dividido. em . VI. Não há. na realidade. a de Empédocles que aceita a presença dos poros e. quer líquido. que reproduzimos de Tricot. ora duro e sólido. não é a de que falam alguns filósofos. conceber. e. vemos. ao contrário. Reexposição comentada I — 23 I — Exporá agora Ar. haverá seguramente um momento em que será de facto dividido. Que seja assim estabelecido que as coisas engendram e actuam. guardar sua continuidade. com efeito. Colocado bem este ponto. então. 15 pelo parcelamento dos corpos. pois é ela inadmissível. A acção e a paixão exigem. como o exemplo que Ar. III — Num corpo naturalmente contínuo não é possível distinguir potência de acto. a solução do problema do acto e da potência. entre acto e potência. no entanto. como se deve. mas não em todos seus pontos simultaneamente. e a potência é o acto a vir. as teorias seguintes: a dos atomistas que afirmam o vazio. mas que não actualizou todas as suas possibilidades. Enfim. nas coisas corpóreas. como no exemplo do fogo que aquece à distância por intermédio do ar. Essa separação futura é certa. Diès o explicou da seguinte forma. mas que toda grandeza é divisível totalmente (pante) — e no sentido (pie cia é divisível em um ponto qualquer. todo corpo é divisível e não há diferença entre "ter sido divisível em parles que entram em contacto" ou "ser absolutamente divisível". nem por "conversão" e por "ordenação". V — Este tópico apresenta certas dificuldades. será certamente dividido num momento ou outro. nessa teoria. porque o acto. pois que. se êle pode ser partilhado pelo agente nos pontos de contacto das partes distintas em contacto. nem contém ademais essas 20 partículas duras e solidificadas. mas também o contado imediato ou medi ato. pois as partes em contacto serão elas mesmas infinitamente divisíveis em partes menores em contacto. já êle o havia mostrado na "Física" (VI. por isso é impassível. o mesmo corpo. finalmente. de uma maneira geral. com exclusão dos outros pontos. com Platão. Ademais. pois aquece primeiramente o ar. ou se existem corpos ou superfícies indivisíveis. partes em que a potência é mais intensa que em outros. Ela se fará: pois a condição que a torna possível (a divisão preexistente ou realizando-se no momento querido) se realizará. Mas. a platônica. segundo as expressões de Demócrito. por hipótese fundamental do sistema. em vez de uma mutação total da coisa por mistura de alguma coisa ou pela transformação dessa 25 própria coisa. Sofreu essa mutação. quer sólido. que são o objecto da Física. E se o corpo divisível. se se quer que haja uma adição. então. tais doutrinas são falsas. e este o corpo à distância do fogo. um ponto como composto de partes distintas em contacto. toda parte qualquer do aumentado não se tornaria maior. por mudança de posição ou de transporte nos constituintes de sua natureza substancial. havendo. quer dizer. Esta teoria arruina. o aumento c a diminuição não são mais possíveis. eis um absurdo. indivisíveis em suas massas. que não há indivisíveis.

mas permanecem no mesmo estado. Essa teoria. parece. por outro lado. não da maneira como falam tais filósofos. arruina a operação. será assim. mas que o fogo foi engendrado e a madeira destruída. se a mistura existe. que deve haver uma diferença. Vê-se. quando ela queima. Ora. uma e outra. uma delas foi destruída. nem. nem. e. de uma maneira geral. pois vemo30 35 327b 5 ]0 15 . Enfim. a impossibilidade de uma coisa de ser misturada com outra é sustentada por alguns filósofos. com efeito. pois nenhuma parte do aumentado se tornaria maior. nós não dizemos que a madeira esteja misturada ao fogo. não há mistura. que aceita que sofrer se realiza somente pelo partilha dos corpos. Se. V. o que é condição necessária para que se dê o aumento. Nem tampouco o corpo e o branco não podem ser misturados juntos. Assim. II. e não sofreram nenhuma alteração. o terceiro dos assuntos que propusemos no início. uma vez tornadas evidentes tais distinções. mesmo que cada um dos dois misturados tenham perecido em conseqüência da mistura: eles não podem ter sido misturados. VI — Também por esta teoria o aumento e a diminuição não são possíveis. Devemos examinar o que é mistura e o que é misturável. dizem eles. IV. as dificuldades do argumento estariam resolvidas. desse modo. de quais seres a mistura é uma propriedade e como. informando assim a massa da cera. as duas coisas misturadas existem ainda. quer de si mesma com o fogo. que é um misto. se a mistura existe realmente. é. quer de suas partes uma com a outra. assim. nem da forma com a cera. já que a mistura exige que os corpos estejam numa condição semelhante. Esse argumento. elas não são mais misturadas agora do que antes. É claro. Se. com efeito. mas uma e a outra não é. as propriedades e os estados com as coisas. Da mesma maneira. ou se é falso afirmá-la. III. e qual diferença separa o misturável do generável e do corruptível. pois já não existem de modo algum. TEXTO DE ARISTÓTELES I — 24 I. ademais. como mostra Aristóteles neste tópico.148 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES virtude da própria definição do dynaton (o possível). além de absurda. nada de impossível se realiza. Com efeito. seguindo o mesmo método. prosseguem eles. exige que se determine qual diferença separa a mistura da geração c da corrupção. que as coisas que engendram c acluam são engendradas e actuadas umas pelas outras. Resta-nos agora estudar a mistura. não falamos nem do alimento como misturado com o corpo.

embora reconheça que em toda mixis há sempre a composi'ção de quatro elementos. e em acto. Admitindo-se que se dê a existência da mixis. Nenhuma qualidade pode existir separada. pois vemo-las persistir nas coisas. que estavam no início. afirmam que os corpos misturados permanecem como tais e não sofrem nenhuma alteração. seria necessário que os corpos permanecessem numa condição semelhante. não poderiam ser misturadas por não existirem. existam num sentido e não existam em outro. que seja um mixtá. Na mixis se manifestam propriedades novas e irredutíveis às do composto. mas cada um deles pode ser ainda em potência o que era essencialmente antes da mistura. de quais seres a mixis é uma propriedade. um deles fôr destruído. mas cada um deles pode ser ainda em potência o que era essencialmente antes da mixis. uns estão em potência e outros em acto. nesse caso. quando êle queima. temos a distinção entre a mixis e a alteração. Dispõe-se a examinar em que ela consiste. já que a mixis é um atributo e o seu ser. e. e não ter perecido. serão resolvidas as dificuldades do argumento. as propriedades e os estados com as coisas. Tal era. pois. nem. para haver mixis. que os escolasticos traduzem por mixtio. Pretende Aristóteles estudar a natureza da mixis como prometera. estiveram confundidas e misturadas. E como os seres são em potência. de maneira geral. VI — Mostra Aristóteles que é mal fundada a teoria de certos filósofos que professam que todas as coisas. Pois. pode acontecer que as coisas. não existindo em outro. e. pois é um atributo pertencente a uma substância e como. quer todos os dois. estavam confundidas e misturadas: tudo não pode ser misturado com tudo. II — Para alguns filósofos há impossibilidade de mistura entre corpos. entrando na mistura.. Mas não pode também haver aí mistura do branco e da ciência. pois um é e o outro não é. com efeito. como o chama Bonitz ao comentar a "Metafísica" de Aristóteles. se unem. IV — Nós não dizemos que a matéria esteja misturada com o fogo. que formam a mistura. V — Também o alimento não é misturado com o corpo. quer um ou outro. por outro lado. na verdade. Antes de mais nada. como o corpo e o branco. finalmente. o que permite uma distinção entre geração e mixis. devido a um corpo entre elas. Nem o corpo com o branco podem estar misturados. III — É preciso distinguir a mixis da geração e da corrupção e o misturável do generável e do corruptível. VI. uma "mixtiochemica". em acto. nenhuma qualidade pode existir separada. Aristóteles considera apenas dois mixtá. Assim. esse. . ao entrarem numa mistura. e tornadas evidentes essas distinções. e não ter perecido. é uma teoria mal fundada a de certos filósofos que professam que todas as coisas. Para estudar esta matéria. é um inesse. a qualidade é um acidente que se dá conseqüentemente em outro. O composto pode estar. dois corpos misturados. pois permanecem no mesmo estado. Eis por que podemos agora deixar de lado essas dificuldades. Ê se as duas coisas misturadas perecerem. existam num sentido. ao contrário. citado por Tricot. nem são destruídos. um ser em outro. mas podem também ser separados do composto outra vez. Desta maneira. estuda Aristóteles agora a mistura. A coexistência de duas qualidades no mesmo sujeito não constitue uma mixis. Nada pode estar misturado com tudo. E. se dá. os componentes nem persistem em acto. e as coisas misturadas devem ter tido um estado em que estiveram separadas. a dificuldade surgida pelo argumento precedente: e parece que os corpos. uns. A mixis não é uma simples synthesis (composição). É uma combinação química. outros. pois sua potência é conservada. destruída. outro que os componentes do qual provêm. Se. por ex. as suas diferenças com o misturável. cada uma das coisas misturadas deve. diferente de o dos componentes dos quais provém.ARISTÓTELES 150 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES E AS MUTAÇÕES 151 los persistir nas coisas. não haveria mixis. já que a substância e a qualidade persistem uma e outra no composto. convém esclarecer bem a palavra mistura. Mas já que entre os seres. nem. deve haver uma diferença. e em quais condições. nem de nenhum atributo que não tenha existência separada. se ela existe de facto ou se é falso afirmá-la. isto é. mas que o fogo é engendrado e a madeira. não somente de separados. pois esta exige um sujeito. num determinado momento. 20 25 Reexposição comentada I —24 I — Seguindo o mesmo método. Os que combatem a mixis. em acto. é um "inesse". num certo momento. diz Aristóteles. pode suceder que as coisas. existir de antemão em estado separado: ora. não estão mais misturáveis depois do que antes. O composto pode ser.

fundado na opinião de Joachim: a impossibilidade de toda mixi. Ora. cuja visão não é aguda. não há mixis. III. com efeito. e. mas dela difere. e se eles não desaparecem. Mas se o corpo é divisível. haverá apenas mistura para a sensação. permanecendo o que eram antes. mas cada grão de um está justaposto a cada grão do outro. toda parte qualquer de cada componente deveria estar justaposta a uma parte qualquer do outro. se a mistura teve lugar. que resolve tais dificuldades. e se é também verdade que o corpo misturado ao corpo é homeo. não se deve falar de sua mistura. Pois será uma composição e não uma fusão. não sendo destruídos. a de Aristóteles. IV. e cada parte do composto não apresentará a mesma proporção entre seus componentes que o todo. ser separados. Mas o p r o b l e m a q u e v e m a seguir. nem uma mistura. posteriormente. Se eles não permanecem. que os componentes permaneçam e desapareçam. alcança. podem. Os mixlá não existem em acto.' tal como foi exposta acima. pois suas potências foram conservadas. que. mas existem em potência. Nas três hipóteses visualizadas pelo partidários da impossibilidade da mixis. que o joio está misturado com o trigo.5 meria.10 mos. Mas já que nenhum corpo pode ser dividido em seus últimos componentes. Ou então. que c a d a u m a em p a r t i c u l a r escapa à sensação.15 « m e n t e misturada para o olhar de Linceu. podem existir de novo em acto. e após a análise. ao contrário. de uma parte. Como sair dessa situação? Há um só caminho: a distinção aristotélica de potência e de acto. não há geração. TEXTO DE ARISTÓTELES I — 25 I . da mesma forma que uma parte da água é água. teceremos outros comentários sobre a doutrina aristotélica em face da ciência actual.s. que entram numa mixis. o composto deve ser homeoméria. por exemplo. é evidente que. É evidente também. Q u a n d o as coisas e n t r a m n a m i s t u r a e f o r a m divididas em p a r c e l a s tão peq u e n a s e j u s t a p o s t a s de tal m o d o . ao contrário. acrescentar uma quarta. diz-se. assim uma parte do fusionado é da mesma natureza que o todo. sucede que qualquer componente é justaposto a uma parte do 328a outro? Sem dúvida. deve ser a n a l i s a d o : consiste em saber se a m i s t u r a é a l g u m a coisa relativa à sensação. enquanto os componentes são conservados em pequenas partes. nada de tudo isso se produzirá. e que a composição não é a mesma coisa que a mistura. que não se deve falar de mistura para uma divisão tal . exprime-se coiiiumente no primeiro sentido. h á então m i s t u r a ? 35 II. pois. enquanto que se a mistura é apenas uma composição de partículas. nós professa. No fim deste livro 1. se não há mistura. é preciso. em suma. ''*"• V. por outra parte. que expressa a verdade. e não será absoluta. Ela exige. não há também mixis. a declarar que a mixis é um conceito contraditório.152 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES Quer dizer que os corpos. E a mesma coisa será misturada para tal pessoa. Tricot comenta da seguinte forma.

Ademais. e aqueles que sofrem a acção dos primeiros. portanto. 35 Reexposição comentada I — 25 328b I — Surge agora um problema que é mister resolver: é a mixis (mistura) uma simples composição (synthesis). Ao contrário. XIII. a outra como forma. são aqueles cuja matéria não é a mesma. então cada uma dessas coisas mudase por sua própria natureza. 15 por um lado. com efeito. VIII. transformação de uma das coisas na mais forte: é assim que uma gota de vinho não se mistura com dez mil ânforas de água. uma como receptáculo. XI. VI. fracamente passivo. com efeito. XII. sua natureza e sua causa. Ora. IX. aquelas coisas divisíveis e passivas que são facilmente limitáveis são misturáveis (e sua divisão em partículas se faz facilmente. nada mais fazem do que tornar mais ampla e maior a massa. quais espécies de seres são misturáveis. Algumas coisas. pois elas mostram uma leve tendência a se misturarem e a se comportarem. comportando-se como uma propriedade imaterial do bronze. Por exemplo. actuam. nem a saúde produzem a saúde por sua mistura com os corpos. evidente que são misturáveis somente aqueles agentes que encerram uma contrariedade. aqueles que são activos. nem é tampouco necessário que sua mistura seja uma composição. o outro. é passivo e activo. permanecendo totalmente impassíveis. uma vez entrado na mistura. É. eis por que certas coisas são de uma natureza tal que elas são reciprocamente passivas. Desses últimos seres não há mistura: eis por que nem a medicina. VII. pois é o que significa essencialmente "ser facilmente limitável"). Ao contrário. manifestam uma atitude hesitante e ambígua. há. pois é impossível que a divisão se efectue dessa maneira. contudo. Eis precisamente o que ocorre com esses metais: o estanho. com efeito. a existência da mistura. Os líquidos viscosos. Ou então não existe mistura. sendo ao contrário. por entre os seres. que são reciprocamente activas e passivas. é misturável o que. Ademais. com efeito. pois o líquido é o mais fàcil- 20 25 30 mente limitável dos corpos divisíveis. quando o agente é de grande talhe e o paciente também o é. e não ser que seja viscoso. por outro lado. e esta coisa é misturável com uma outra coisa da mesma natureza (pois o misturável é relativo ao seu homônimo). outra coisa. mas um crescimento do elemento dominador. o que não é perceptível à nossa sensação? . O mesmo fenômeno se produz também em outros casos.154 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 155 que qualquer parte de um componente seja justaposta a uma parte do outro. X. Também. ela não se torna. e a mistura é uma unificação das coisas misturáveis. mas alguma coisa de intermediário e de comum a uma e a outra. entre as coisas. ou não é em nada maior ou o é somente um pouco mais: é o que acontece com a liga do estanho e do bronze. a mistura se realiza melhor. Outros seres. podem ser misturadas. em que os componentes conservam suas propriedades. o resultado não é uma mistura. se desvanece. há. e se um grande número ou uma grande quantidade de uma está unida a um pequeno número ou a uma pequena quantidade do outro. tendo apenas colorido o bronze. o composto resultante de sua mistura. tal se efectua em maior tempo. sendo facilmente limitável. algumas são facilmente divisíveis. ^0 nem que seja relativa à sensação. pois sua forma é dissolvida e ela é transformada na totalidade da água. desaparece quase e. progredindo para a mais forte. após a sua alteração. nem que permaneçam absolutamente idênticas. Mas quando um dos componentes é apenas passivo ou fortemente passivo. O que acabamos de dizer torna evidente. ao contrário. os líquidos são mais misturáveis que os corpos. pois eles são reciprocamente passivos. sem que elas sejam necessariamente destruídas. quando pequenas partes de um são justapostas a pequenas partes do outro. facilmente limitáveis e facilmente divisíveis. Mas. 10 uma em face da outra. pois o deslocamento recíproco se opera mais facilmente e mais prontamente. Mas quando há entre suas potências um certo equilíbrio. certos seres actuam e sofrem reciproca e mutuamente: são reciprocamente activos e reciprocamente passivos. como o dissemos. ou temos ainda de explicar como ela pode se dar. Essas coisas. e.

Assim as sintetiza Tricot: 1) Haveria mixis quando os mignómena (os misturáveis) foram divididos em mixtá (mixtos) escapando à sensação. por não se dar o contacto mais facilmente. a mixis se realiza melhor. quer dizer até aos átomos. uma síntese da matéria tratada. num sentido mais de sinonímia do que de eqmyocidade. c termina por dar a sua definição da mixis: e a unificação das coisas misturáveis. Propõe-se agora Ar. que apresentam uma diferença de grau. os mixtá permanecem distintos e justapostos. mostrar como ela se dá. c conclui por afirmar que e misturavel o que é facilmente limitável. . após a sua alteração. a acção e a paixão recíprocas dos corpos. 2) ou então. graça à análise microscópica. é que entre as duas concepções da mixis. Quando viscosos. mas apenas aparente (aos nossos sentidos. XI — Realiza aqui Ar. uma parte do fusionado é da mesma espécie do todo. é claro). IV — Uma visão mais aguda. na mixis. Na realidade. Se a mixis pe dá. e que se excluem mutuamente. Os líquidos dão um bom exemplo.156 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 157 II — Expõe aqui Ar. corresponderia aos meios de conhecimento da química. que é relativo a outro mixton. que têm a propriedade de sofrer e actuar. Se o corpo é divisível. Do contrário não se pode falar em mixis. rcalizando-se ela. VIII Quando são maiores. Dá os exemplos das coisas que são facilmente misturáveis. que se uma parte de água é água. independentemente de qualquer questão de sensação. como de a Linceu (uni dos argonautas. sem serem destruídas. os corpos plásticos. por que o misto deve ser homeoméria (da mesma natureza). o que é passivo e activo. quando a divisão dos mignómena foi levada até aos mixlá menores possíveis. VII — Quando as partículas mínimas de um estão justapostas às pequenas partículas do outro. Outros actuam permanecendo impassíveis: são os cm que a matéria não é a mesma que a do paciente. Na krasis. duas concepções da mixis. Outros actuam reciprocamente: os em que n matéria c idêntica. a mixis não é real.. Em suma. não fusionados. há maior dificuldade para realizar-se a IX — As coisas divisíveis e passivas. impõe-se. por ex. o composto deve ser homeoméria. "Nos dois casos. E se tal não se dá. A mixis é um gênero do qual a krasis é uma espécie. A mixis não é uma forma de synthesis. prossegue Tricot. e que o misturável o é relativamente ao seu homônimo. h á : os mixtá. no sentido aqui do mixton (o mixto). e exemplifica Ar. neste tópico uma série de exemplos nem claros para robustecer as suas afirmações. É só com essa condição que se pode obter uma mistura homeoméria (Tricot). ou melhor limitáveis como os fluídos. na realidade. que nos poderia mostrar não haver. quando se dá a alteração das partes componentes. como no caso do azeite e da água. como já foi exposto. X — Dá Ar. o que permite chamar fusão. já tal não se dá. a de Demócrito é a única lógica. a mixis. e justapostos parte a parte. V — Não haveria mixis quando se desse apenas uma justaposição das partes. há apenas aparência de mixis e de homogeneidade. VI — Há seres que são activos e outros que sofrem ti acção destes. há a mistura dos líquidos. como primeira condição. Para haver a mixis. devido a operar-sc mais facilmente o deslocamento recíproco. como no sistema de Demócrito. a divisão pode ser levada até ao átomo (indivisível). de visão aguda) permitiria perceber que não há mixis. são mais facilmente misturáveis. pois será apenas uma composição (syníhesis) e não uma fusão (krasis). III — O que pretende expor este tópico. Em nossa época.

. como espera pelas substâncias. na verdade. . que ante as dificuldades da concepção aristotélica. não só as formas substanciais de Aristóteles.. por não puderem encontrar nada (nenhuma . e sobretudo no século passado. chegou a considerar. e por conseqüência ser substâncias. Descartes. como as qualidades.." (Descartes Opera Omnia III. pois surgindo. que reproduzimos. havia um mal entendido em tudo isso. durante o Renascimento e o Barroco. mostram-nos claramente o genuíno sentido aristotélico: "Têm muitos uma opinião errada acerca da forma pela razão de a considerarem como substância. e. não o haviam entendido. não impediu que em nossa época o mecanicismo conhecesse um novo avatar. Até na própria Idade Média muitos abandonaram o pensamento aristotélico. como Maignan e Saguens. embora as tenhamos chamado de qualidades. Mas. como a gravidade e o calor e as outras. Pensava Descartes que as formas para Aristóteles fossem realmente substanciais. 667.COMENTÁRIOS ESPECIAIS AO LIVRO I O domínio que exerceu o pensamento aristotélico durante a alta escolástica. E daí tem origem o erro. constantemente muitas formas. como surgem. Estas palavras de Tomás de Aquino. agravandose ainda mais. em face das descobertas novas que surgiam. quanto aqueles que pensam que as formas tenham origem numa criação. por desconhecimento da obra aristotélica. que imaginamos seres reais. Na "filosofia moderna". pôs-se a afirmar um mecanicismo. tanto daqueles que admitem que as formas existam latentes (na matéria). como subsistentes de per si. Como não podia admitir que as formas fossem substância. Pois estes pensaram que o devir esperasse pelas formas. 5-13). elas seriam criadas por Deus. É que os críticos de Aristóteles não o haviam lido e os que possivelmente o leram. quer dizer. Julgava que o Estagirita atribuísse "subsistência às diversas qualidades dos corpos. caíram na única solução que a ela poder-se-ia contrapor: a mecanicista. seguida posteriormente até por escolásticos. mas até as formas acidentais. ter uma existência distinta de a dos corpos. seguindo assim a linha já traçada anteriormente a êle por Van Gooric e Basso.

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matéria), da qual as formas pudessem ser produzidas, supuseram que essas vinham criadas, ou, então, pre-existiam na matéria. Deste modo perderam de vista uma coisa; isto é, o ser não é da forma, mas do sujeito mediante a forma, nem o "devir", que conduz ao "ser", é da forma, mas do sujeito. Por isso a forma vem chamada de ente, não que ela o "seja" propriamente falando, mas porque através dela, alguma coisa é; assim se diz simplesmente que a forma é produzida, não que cia seja produzida, mas porque, por meio dela, qualquer coisa é produzida; isto é, porque o sujeito é reduzido do estado de potência ao de acto". (Q. D. De Virt., a. 11). * * * O mecanicismo dos últimos séculos predominou na física pre-relativista. Em nossos dias, porém, há um inegável retorno a Aristóteles, o que merecerá nossos próximos comentários, logo que tenhamos precisado com clareza o pensamento exposto nesta obra tão importante para os nossos dias. Tais afirmativas não excluem os erros que se encontram na física aristotélica e que não são tantos quantos os adversários afirmam. Se Ar., por exemplo, não compreendeu a conservação da energia, aceitava, porém, a conservação do ímpeto, como foi aceita e desenvolvida pelos medievais. A sua distinção entre o movimento "natural" e o "violento" e que o movimento dos corpos terrestres fosse obediente a leis diferentes do movimento dos corpos celestes não impediam, contudo, o desenvolvimento da dinâmica. As insuficiências da experiência, dessa época, explicam muito bem essas deficiências. Lembremo-nos das deficiências experimentais do século XIX que levaram a muitos cienlistas a afirmações que são hoje rejeitadas pela física. E as actuais.. . delas o tempo falará. A ignorância e a incompreensão sobre a obra aristotélica verifica-se em atitudes como esta, que se repetem, infelizmente, do alto das cátedras: "Pode-se verificar que a doutrina peripatética, do ponto de vista do progresso da ciência, foi também (como a doutrina de Hegel), assombrosamente estéril. Sem dúvida houve ai uma diferença que, enquanto a doutrina hegeliana é repelida totalmente pelos sábios que lhe eram contemporâneos, a de Aristóteles, ao contrário, dominou a ciência por longos séculos da maneira mais absoluta. Mas precisamente, esse reino tão longo, nada melhor fêz do que evidenciar a vaidade dos esforços que ela inspirou e dos quais, pode-se dizer, nada subsiste na ciência de nossos dias". (Meyerson "De 1'explication dans les sciences", II, pág. 169 e seg.).

Que melhor resposta que a derrocada das idéias da física mecanicista, tão pretenciosa, e que a actual abandona rapidamente, para retornar, a passos largos, aos princípios aristotélicos, embora ainda não o saibam muitos físicos? É comum dizer-se, e na obra de muitos cientistas modernos encontramos tais afirmações, que a física aristotélica era dedutivista e apriorista. Há aqui dois aspectos que precisam ser devidamente delineados para evitar tais afirmativas supinamente falsas. Em primeiro lugar, nem toda deducção indica apenas uma identidade, como por exemplo o afirmava Meyerson. Por que, quando se deduz, se comparam, nas operações lógicas, juízos que se referem a quididades que apresentam apenas identificação num ou noutro aspecto, e não identificações totais. Há outras relações que escapam à identidade. E esta é a razão por que nem sempre apenas se tira, deduz, o que já estava incluído. Foi o que se verificou com a termodinânica, em que a obra de um Willard Gibbs, de um Schreinenmakers, nos mostra quanto há de não-identidade nas deduções. Em segundo lugar, a leitura da obra de Ar. nos mostra claramente que, na física, não é um apriorista, como não o foi nem na metafísica. Há sempre a necessidade, no campo da especulação, de fundar-se na experiência. E a filosofia medieval seguiu esse caminho também. Agora, que não dispusessem os medievais de meios de experimentação como os dispõe a ciência moderna, tal não impedia que tivessem métodos bem avançados de observação das intensidades, preparando desse modo o avanço da matemática actual, que penetra no qualitativo, o que o mecanicismo não poderia oferecer, já que se prendia totalmente ao quantitativo, como tantas vezes já temos sublinhado. A CONCEPÇÃO DO MINIMUM E DO MAXIMUM EM ARISTÓTELES Os entes do mundo físico não são apenas seres matemáticos, mas seres que pertencem a uma espécie, que têm uma forma, uma natureza específica, uma physis, no sentido aristotélico, cujo sentido já expusemos na "Sinopse", no princípio deste livro. Ao examinar a filosofia grega anterior a Aristóteles, encontramos o pensamento de Anaxágoras, que apresentava a tese de que os corpos, na natureza, são divisíveis ao infinito. Aristóteles na "Física" opõe-se tenazmente a essa tese. Aceitando a divisibilidade infinita do contínuo, negava-a,

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porém, quanto aos corpos físicos. É que a natureza desses corpos admite uma divisão somente até um determinado limite. E não só afirma um limite mínimo de divisibilidade, como também um limite máximo de aumento. E fundavase, não em especulações meramente filosóficas, mas também na experiência. Os indivíduos de uma espécie revelam um máximo e um mínimo, cujos limites não podem ultrapassar, conservando a mesma forma. Assim também as qualidades têm um máximum e um mínimum. E a prova encontramo-la nos animais que crescem até um máximo e não podem ultrapassá-lo, como tudo na natureza. E se tal se dá, não deve haver uma divisibilidade ao infinito. A carne e os ossos não podem ser divisíveis ao infinito, afirmava. Há de haver um limite em que a carne dividida deixa de ser carne, porque, do contrário, seríamos levadas a um infinitamente carne, o que também comprova a nossa experiência científica actual. Desta forma, as partículas devem ser divisíveis até um certo limite, mas divisíveis dentro da sua espécie, e ultrapassado tal limite, passariam a ser de uma espécie diferente. E essa tese é aplicável a todas as substâncias naturais. Conseqüentemente, afirmava ainda, o mínimo de uma determinada espécie deve ter uma grandeza própria (isa peperasmena), grandeza que é determinada pela natureza específica. Em pleno séc. XVI, Benedicto Pereira dizia: "descobrir quais são precisamente os limites de grandeza, superior e inferior (quer referir-se ao maximum e ao minimum), para cada espécie de corpos naturais, é muito difícil, para não dizer impossível". (1) A física moderna procura alcançálos, seguindo os desejos de Pereira, sem que os físicos talvez o saibam. E que são hoje o peso atômico e o peso molecular, senão os limites das grandezas determinadas que desejava achar Pereira? Não são estas hoje as bases da química moderna? E não é ao atomismo de Demócrito, como pensavam os mecanicistas do século passado e seus representantes neste, que se deve tal coisa, mas sim à concepção dos mínima de Aristóteles. No tempo de Pereira, tal era impossível realizar-se, dada a deficiência dos meios técnicos disponíveis. Foi com Dalton, dois séculos e meio depois, que Pereira obteve uma resposta ao seu desejo. Entre os cartesianos não se procuraria tal, pois aceitavam a divisibilidade infinita dos corpos, nem
(1) Citado por Hoenen.

muito menos na concepção democrítea, que não a alcançaria, se Dalton não tivesse dado uma guinada para Aristóteles, em vez de permanecer totalmente na concepção mecanicista, embora sem o saber. É importante este ponto para melhor clareza do pensamento aristotélico, e, ainda mais, para compreender-se a valia ou não de certas afirmativas de físicos modernos que negam a Aristóteles o direito que lhe cabe. Demorar-nosemos neste ponto apenas o suficiente para clareza do texto que ora examinamos, deixando para trabalhos futuros outras análises, que mergulharão mais profundamente nas teorias da física actual. Tomás de Aquino, afirmando a divisibilidade in infinitum dos corpos matemáticos, afirmava, não obstante, um limite de divisibilidade dos corpos físicos. Permanecia assim na posição aristotélica. Tal não o sabiam alguns autores modernos (e entre eles Duhen), que vão atribuir à teoria dos mínima a Aegidius Romanus, sem compreender que essa era uma teoria aceita na idade média entre os escolásticos, inclusive os escotistas. Aegidius Romanus, em seus comentários à Física de Aristóteles, expõe sua tese sobre a grandeza, estabelecendo três maneiras diferentes: 1) enquanto pura grandeza, abstraindo-a da matéria na qual é realizada; 2) de maneira mais concreta, como realizada em certa matéria, mas sem especificar que espécie de matéria; 3) mais concretamente, como realizada numa matéria cuja natureza é especificamente determinada. A primeira, que é a que a geometria concebe, é divisível ao infinito, como o é também a segunda, desde que a matéria é indeterminada. Mas, na terceira, esta não pode ser dividida indefinidamente, sem que haja mudança da sua natureza, como a água não pode ser dividida sempre sem que deixe de ser água. Um metro cúbico pode ser infinitamente divisível, não um metro cúbico de água, pois em certo limite deixariam as particulas de serem de água. Essa doutrina não é de Aegidius Romanus, sem que tal desmereça em nada o imenso valor desse filósofo, injustamente desconhecido em nossos dias. Antes dele, Robertus Lincolniensis (também conhecido por Robert Grosse-Teste) e ainda em Averroes e, Tomás de Aquino, como já dissemos, era tal teoria afirmada, como o fora antes por Aristóteles (como se vê na "Física", I, cap. 4, e nos comentários de Tomás de Aquino, lect. 9, n. 9). Não procede, portanto, a afirmação de Duhen, que essa doutrina surgiu na idade mé-

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dia por influxo de Demócrito e Epicuro, pois já era aristotélica. Afirmava Tomás de Aquino que os limites da quantidade são particulares. Que nos mostra a química moderna senão a validez de tal afirmativa? Há em todas as coisas um arithmós pleihos (um número de sua totalidade), número no bom sentido pitagórico, e que revela a sua forma corporeitalis, a forma da corporeidade, que incluindo a forma imutável específica, tolera, na linguagem escotista, um maximum e um minimum, que são múltiplos, segundo os planos. Assim um cristal existe apenas segundo determinados limites de temperatura c a energia térmica interna tem um máximo e um mínimo. Um ser que é tal, exige muitos máxima e mínima, dentro dos quais ele subsiste com sua forma específica. O ser humano conhece desses máxima e mínima, não só intrínsecos como extrínsecos. E este é o sentido claro para onde se orienta a dialéctica que deseja ser uma lógica concreta, e, portanto, científica. Que faz a ciência senão buscar através de seus métodos conhecer os máxima e mínima, intrínsecos e extrínsecos dos seres, pois esta constituição hic et nune de um corpo depende, não só dos intrínsecos como dos extrínsecos, dentro de cujos limites é o que é? Podemos não conhecê-los, mas sabemos que há. Nos tempos medievais era difícil estabelecê-los, mas hoje já pode colocá-los a ciência em grande parte. O pensamento medieval, seguindo a linha aristotélica, estava no bom caminho, não obstante tudo quanto se disse e se diz contra esse pensamento todos aqueles, precisamente, que não o conhecem, e julgam que não podem perder seu tempo em examiná-lo. (1)

0 contínuo forma uma íntima unidade. Se é divisível é contudo não diviso. Não é um mero agregado de partes que se avizinham, se tocam. É uma totalidade com unidade intrínseca. E este aspecto é importante. Forma êle unut estrutura coerente, tensionalmente coesa. É uma tensão, em suma, que, como tal, é qualitativamente diferente do conjunto quantitativo das suas partes.
(1) Não se julgue haver em nossas palavras qualquer submissão ao pensamento escolástico. Apenas julgamos que pertence êle ao patrimônio cultural que herdamos, e a missão de quem deseja fazer filosofia exige o seu estudo, dele aproveitando tudo quanto de melhor oferece para o processo filosófico, que deve prosseguir adiante e não estacionar.

Este aspecto, que hoje podemos salientar em face do que já se obteve no conhecimento científico, já era notado por Aristóteles e não incidentalmente. Toda a sua obra já contém todos os germes da concepção tensional, que é a nossa, embora exposta com novos argumentos e sob fundamentos que nos oferecem os actuais conhecimentos da ciência, mas sem excluir a grandiosa contribuição aristotélica, e a que foi dada pelos medievais, infelizmente esquecida durante o período de domínio do mecanicismo e do racionalismo, do empirismo, etc. Num todo, as partes estão em potência enquanto tais. Assim, na água, o oxigênio e o hidrogênio estão em potência como tais, pois, nesta, aqueles não são totalmente o que eram em acto, quando ainda não a constituíam. Desta forma se pode compreender o erro, metafisicamente reprovável, da aceitação de um infinito quantitativo actual. Basta considerarmos este ponto: toda extensão é medível, portanto reductível numericamente a números. E numa série ilimitada de números, podemos sempre acrescentar mais uma unidade. Portanto, o infinito matemático é apenas potencialmente infinito, pois podemos sempre acrescentar mais um. Um infinito numérico em acto é metafisicamente absurdo. Não se pode desconhecer que alguns matemáticos, como Hilbert, trabalharam com o infinito actual, e também Poincaré, e outros. Mas se o infinito potencial é possível, não o é o actual. Se as partes de um composto fossem actuais poder-se-ia aceitar uma multiplicidade infinita. Mas o princípio de unidade nega essa suposição. Por isso, tais matemáticos tinham de chegar a conclusões falsas. 0 contínuo não pode ser divisível ao infinito. E tal se dá porque a parte, como tal, não está em acto na totalidade, o que é uma tese da concepção tensional, que em nossa obra "Teoria Geral das Tensões" provaremos com outros argumentos. Convém compreender bem o significado de "potencialmente infinito". Não se deve considerar, como o que pode tornar-se infinitamente actual, pois neste caso estaríamos, outra vez, imersos na mesma dificuldade. Infinitamente potencial deve ser considerado no genuíno sentido aristoíélico e dos medievais, como o contínuo que pode ser divisível in infinitum, isto é, uma divisibilidade que pode sempre ser actuada porém não exaurida na sua potencialidade; é uma potência à multiplicidade, mas que não pode ser realizada em acto totalmente, pois, do contrário, deixaria de ser potencialmente infinita.

O tender é pura passividade. este pode ser considerado como meio universal de localização. É o éter interposto que marca a distância entre dois corpos. pág. como o mostra Hoenen. uma totalidade. por Hoenen) . sem que o soubesse. neste caso. são potenciais no todo e não actuais. O que indicamos como relações especiais entre os corpos. Por isso as partes. que é a de Tomás de Aquino. O que enche o espaço é algo real. o todo é qualitativamente outro que suas partes. teríamos de aceitar a da localização. como nos mostra Suarez. que se dê uniu prioridade das partes ao todo. pode-se. E como poderiam tais acidentes se dar sem uma substância? Se o espaço tem "qualidades físicas". como a de Demócrito. e sem o conceito das relações espaciais. daí ter exclamado. Os corpos devem a sua posição a uma "modalidade intrínseca" que os escolásticos chamavam " u b i " — e que Sunrez tão bem estudou ao tratar da ubiquação em suas famosas "Disputationes Metaphysicas". Esta é uma acção física. e as qualidades são acidentes. . Aceita Einstein. Por isso Hoenen acusa a Einstein de combater apenas a palavra éter. mas terminando por estabelecê-lo ao afirmar que há algo subsistente. A presença do H. O movimento de um corpo forma uma unidade. Se não se aceita a teoria do contacto. o que é importante nunca esquecer. Portanto. ao qual é inherente e absolutamente inseparável. por exemplo em Leibnitz. é aceita. relações de mútuo contacto. E como poderiam mover-se nesse nada? Demócrito sentiu o absurdo da idéia. mas activo na causa eficiente do movimento. assim. que o hidrogèneo e o oxigênio são parles da água. como o hidrogèneo e o oxigêneo antecedem à água. Neste caso. um ser. ao vazio. e assumem aspectos diferentes. já que o acidente não é um ser de per si. nesse sentido. O éter de Lorenz é um campo real. que é nada? A gravitação é algo real. São aspectos como este. Kant. que "até o não-ser existe". enquanto num fenômeno químico muda a própria matéria. é uma substância. onde mostra a improcedência do argumento kantiano (capílu Io: Crítica da Filosofia kantiana. em que um corpo obtém sua posição ou lugar. Um movimento contínuo é um tender a um termo (limite-peras) como a um fim (telos). Encontramos essa teoria na concepção do éter de Lorenz. para salvar-se da aporia. no entanto. Essa era a solução aristotélica entre a alteração e a geração e corrupção. pode dizer-se que num fenômeno físico muda alguma coisa na matéria. Se não se pode medir o movimento do corpo em relação ao éter. virtualizam características. os átomos estariam separados pelo nada. como é comum ver-se na filosofia. A teoria do contacto. por Einstcin ao afirmar: "Se se forma . pois não há um intermédio. Sc dizemos. Ostwald mostra que tais distinções não são totalmente nítidas. com perseitas.166 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 167 Dentro dos quadros da ciência actual. Na edição argentina de "Biblioteca Nueva". algo subsistente de per si.Ê este fim que dá ao tender a sua unidade. no entanto. (que na verdade combateu o éter de Lorenz) que. e do O. Dessa modalidade intrínseca decorre a posição do corpo. . e o campo de gravidade actua sobre a "massa". o espaço revela acidentes físicos caracterizados matematicamente. mediante um contacto "interno".o conceito dos corpos. emprestando. pág. na água. ao afirmar os acidentes. pois tocar no nada não é o mesmo que não tocar? Entre esses seres não haveria distância. que permitem à concepção tensional oferecer uma nova visão do mundo sem excluir o que há de positivo nas construções filosóficas do passado. nenhum conceito de relações espaciais entre os corpos. etc. não é nada mais que isso. Se o éter de Lorenz existe. a experiência sensível constringe a estabelecer relações locais entre os corpos. Como mostra a nossa concepção tensional. 0 movimento é uma modal. mas não obstante as aceita. E como se tocariam se há o nada entre eles. não devemos compreender que. o que era negar o próprio princípio mecanicista. do que é movido (quod). A unidade do movimento prova a influência de uma causa final. com uma porção do éter. Como poderiam surgir efeitos físicos do nada. 588). 444 em diante). pois o hidrogèneo e o oxigêneo. são acidentes de algo. no genuíno e filosófico sentido desse termo. isto é. na água. por exemplo. não é de emquanto tais. sobretudo da pág. . sem o conceito dos corpos. Sobre este ponto é importante a crítica de Schopenhauer em seu "O Mundo como Vontade e Representação" (I. nenhum conceito de espaço" (Cit. medir em relação a outro corpo. 375 em diante. pois este é nada.

o suficiente para que a totalidade seja distinta de suas partes. enquanto vivo. reduzido-os a um só. surge uma nova substância. dos componentes. pois entre eles não há apenas uma diferença. como são virtualizados os que anteriormente estavam em acto. e isto por que não apresentam as mesmas propriedades em todas as direcções. Assim a matéria prima é potencial num corpo. a química inorgânica também. no sentido eminente que empregamos este termo. as suas características específicas. porque nele. actualizam certos aspectos e virtualizam outros. Pode-se dizer que. em que as partes estão modificadas. Os componentes estão presentes em potência no composto. não totalmente. É o que nos mostra hoje a química biológica. como as espécies se identificam no gênero. Uma intensidade que aumenta sucede no tempo. que são actualizados. que nele são diferentes do que eram quando não o compunham. Aproveitar o que as observações científicas actuais contribuem para a precisão deste lema. no composto. é o que fazemos naquela obra. que é a característica da tensão. como veremos naquela obra. dialéctica portanto. que se filia àqueles que aceitam a heterogeneidade e a irredutibilidade específica de um ao outro. considerarem homogeneamente tempo e espaço. actualmente. E prossegue: "Esses caracteres do elemento distância espacial e os do elemento duração permanecem distintos uns dos outros. são potenciais. Estas palavras de Einstein são valiosas para o que desejamos dizer: " . que se possam estabelecer algumas das coordenadas de uma visão unificadora do universo. que inclui e não exclui. mas este não é isótropo". é potencial. a unidade é actual e a multiplicidade. o que implica a colocação de um e outro em gêneros diversos. Este princípio é um dos fundamentais da "Teoria Geral das Tensões". a nova substância surgia da agregação dos átomos que permaneciam o que são e o que eram. para a ciência actual. e que pode obter um enunciado ontológico. . Numa totalidade. Os átomos. ambos. mas uma diversidade. Estes pontos serão por nós examinados em nossos comentários à "Física" de Aristóteles. uma totalidade. os elementos minerais. 0 próprio átomo é uma nova substância em relação aos seus componentes. que é aplicável em todas as esferas do pensamento epistêmico. Tal afirmativa não quer dizer que os componentes sejam totalmente potenciais. . sem perder. mas essa potência não é pura potência. e muito menos a sua diferença. estão em potência. os quais sofrem no átomo. de próxima publicação. e que mostra a possibilidade que dispomos de poder construir uma visão hólica (de holos. como modais. há uma antinomia patente. Um campo de intensidade das qualidades não pode ser incluído totalmente nas dimensões espaciais. mas parcialmente. que é uma matematização do esquema concreto que nele se dá. contudo. totalidade). o tempo e o espaço estão bem fundidos num mesmo e único continuum. Apesar de muitos. embora.168 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 169 com uma estrutura coerente. Para Demócrito. e o corpo químico também não o é. quando da decomposição. Na filosofia escolástica diziase que tais elementos estão virtualmente no composto. Esse pensamento já estava implícito no aristotélico e na obra maior dos medievais. A atomística moderna não é democrítea. mutações. como um ser vivo. Esta conquista da química moderna põe em crise o mecanicismo que julgava poder explicar tudo em termos de agregação e desagregação. que permite construir o seu esquema matemático. No ser vivo. já tivemos ocasião de mostrar em "Filosofia e Cosmovissão" o nosso pensamento. quando tomam parte em uma totalidade. . assim. e é algo que se verifica em toda a ordem ôntica. pois. no composto. o que é próprio das espécies em um gênero. como partes. são mundos de uma complexidade extrema. e desenvolvidos em nossa "Teoria Geral das Tensões". no composto. possam identificar-se. e até na fórmula que dá o quadrado do intervalo de universo de dois acontecimentos infinitamente vizinhos". actualizam a unidade. Mas a constituição de uma molécula química não é a de mero agregado. Mas entre o tempo e o espaço. Tal não é verdade em face dos actuais conhecimento. e. permitindo. pois há mutações dos componentes. Na totalidade. há graus de potencialidade dos elementos componentes. onde construímos uma visão tensional. no ser. e esse termo era bem preciso e adequado ao verdadeiro conteúdo. aliás. mas que. em que o relacionamento dos átomos seria suficiente para explicar o surgimento de uma nova substância que seria apenas uma figura. por sua vez.

e perdia-se desse modo a unidade substancial do mixto. como ser humano. que é possível de ser estabelecido ou não. A própria afirmativa de que a geração de um corpo é a corrupção de outro. porém. sob o mesmo aspecto. o que contrariava a lei da não-contradicção. necessariamente uma única forma geométrica. como a concebemos. que aí está. como mostra Aristótelos. virtualizada no composto. ver. na mixis. como este daqueles. Os elementos permanecem virtualizados. por sua vez. e também mais consentânea com os actuais conhecimento da física e da química. e a primeira é em potência mais próxima à segunda que à terceira. que permite ser numerado. Os elementos componentes estão em potência mais próxima do mixto. é uma virtualidade e não uma pura potência. e a cientifica ainda mais. ter um arithmós plethos. As dispositiones praevias dos escolásticos e as dispositiones próximas referiam-se a essas virtualidades. de qualquer forma. O princípio formal de não contradicção aplica-se ao mesmo aspecto. opera sobre as antinomias e contrários. disposições prévias que estão a ponto de actualizar a sua corrupção e.170 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 171 A virtualidade é uma potencialidade prestes a realizarse no pleno exercício da actualidade. que o perecer é um devir. A primeira fica. o mixto (mixis) seria apenas um agregado. de um cilindro (formados pela mesma substância). No homem. ouvir. é plenamente actualizada. A natureza dos componentes é potência determinada a uma nova natureza. Diferenças de qualidades nas diversas partes de uma unidade substancial. integralmente em acto. que se aproxima de um cilindro. em quanto a segunda. como até era admitida uma possível heterogeneidade no contínuo. Um problema que surgiu aqui. as primeiras do ser que perece (corrupção). embora exigissem outros esclarecimentos em face da problemática que surge. Um ser humano. tocar e pensar. o que não se deve nunca esquecer). Todas essas actividades são múltiplas e heterogêneas. e comprova que tais heterogeneidades podem ser transeuntes como até perdurantes. em parte. ou sejam: há no ser. A dialéctica. embora ouvir seja outro que pensar. Neste caso. Num mixto. na mistura. substancialmente considerado. tem a sua natureza de mixto. exemplifica Hoenen. Esta idéia já estava implícita no pensamento aristotélico. também. podem dar-se os contrários. Mas tais afirmativas levariam fatalmente a considerá-lo como uma unidade e simultaneamente como uma multiplicidade. o qual não pode ser este e simultaneamente o seu contrário. sem por isso destruir a unidade. damos claramente o sentido de tais termos. mas que se dá. embora tivesse êle uma . e as segundas do ser que nasce (geração). aqui. dos componentes. pensar é pensar. A unidade da forma substancial funda-se na unidade da substância. Uma unidade revela uma estrutura heterogênea (daí. cada uma. na escolástica. neste. Dessa forma. pois a dynamis. Mas o mixto. nos mostra essa dialéctica. não. Os árabes e muitos escolásticos admitiram a permanência da natureza. era admitida. de um elissóide. embora com certas divergências menores na maneira de conceber essa tese. embora múltiplo cm suas manifestações accidentais. a do mixto. no bom sentido pitagórico. como o mostrava a própria experiência. A experiência hoje o comprova. não porém vultos como os grandes escolásticos que compreendiam que uma unidade substancial não excluía uma multiplicidade do accidentes e. os elementos componentes têm uma natureza que é a específica deles. Mas o ser humano. disposições próximas da nova substância que surgirá. conservando sua natureza virtualmente. A forma esférica é mais próxima de um elissóide que de um cilindro. Uma superfície esférica se diferencia pouco de um elissóide e mais longínqua de um elissóide. A microscopia moderna favorece a aceitação dessa tese que era pitagórica e que Tomás de Aquino apadrinha. é um. foi o de se saber se esses elementos componentes conservavam sua natureza ou a perdiam para integrarem-se na natureza do mixto. pode simultaneamente. conseqüentemente. * * * Nada impede que um ser seja ao mesmo tempo um e múltiplo. das qualidades. que não seria possível tratar neste livro. alguns comentários que passaremos a fazer. A solução de Tomás de Aquino é mais consentânea ao pensamento aristotélico. Ouvir é ouvir. Admitir-se que há na unidade substancial apenas uma homogeneidade de qualidades foi um erro que cometeram muitos. a qual não implica uma homogeneidade no próprio corpo. porque há aí um numeroso. Mas cabem. sempre naquele sentido. de uma substância. por exemplo. tem. A superfície de uma esfera. pois admite a natureza actual do mixto e a virtual dos componentes.

embora em termos). julgada como o genuino pensamento pitagórico. aquela deve ter como propriedade as constantes dos componentes. Era o que os medievais chamavam "resultantia". e desses erros não se eximem inclusive os grandes. A aplicação dos métodos científicos actuais (como os raios X) permitem estabelecer essa tese. o que será tema de nossa obra. resultantes da totalidade. a penetrar em campos filosóficos que cabem a outros trabalhos. temos o surgimento de propriedades resultantes da agregação. ou as que normalmente deveriam surgir destes. isto é. mas inclusas como possibilidades próximas naqueles. Portanto. Quando uma unidade é produto apenas de uma agregação. Quando de uma agregação de elementos surgem propriedades totalmente diversas de as dos componentes. embora não totalmente. de próxima publicação "Pitágoras e o Número". estamos em face de uma totalidade. No primeiro caso. se aqui a estudássemos. . há o surgimento de propriedades diversas. o pensamento pitagórico só em nossos dias está sendo reconstruído pela acção de estudiosos devotados. Aristóteles havia também deformado o pensamento platônico. estamos em face do surgimento de uma nova substância. No primeiro caso. (1) A heterogeneidade dos componentes permanece na unidade. Também admitiam os escolásticos maiores até uma heterogeneidade específica. Não possuíam os medievais meios suficientes e hábeis de experimentação. O que Tomás de Aquino combatia no pitagorismo era a caricatura que dele se fazia. Na verdade. LIVRO II (1) Essa visão falsa é compreensível pelo facto de Tomás de Aquino conhecer o pensamento pitagórico através de Aristóteles. Mas desde o momento que a unidade apresenta propriedades outras que as do componente. e cabe à experiência estabelecer os graus. que o entendia segundo a obra exotérica de alguns pitagóricos de grau de paraskeiê (grau de aprendiz). Tais factos são constantes na filosofia. as propriedades não estavam presentes em acto nos componentes. No segundo caso.172 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES visão falsa de Pitágoras. o que nos levaria. não é de admirar que alguns negassem a heterogeneidade inorgânica (o próprio Tomás de Aquino a aceitou. no segundo. genericamente outras de as dos elementos componentes.

e da união e da separação. acrescentam a água como quarto elemento. ora por união. ora por qualquer outra transformação. com efeito. Que. quanto à matéria que serve de substracto a tais corpos sensíveis. Igualmente também falamos 30 da alteração.10 trariedade sensível. os corpos primeiros materiais 5 sejam chamados de bom direito princípios e elementos dos seres. alguns filósofos a consideram única: afirmam. quanto à geração e à corrupção. ao contrário. como 35 sendo um corpo e dotado de uma existência separada. afinal.TEXTO DE ARISTÓTELES II — 1 CAPÍTULO I I. matéria corpórea e separada. à mistura. Mas. têm por resultado a geração e a corrupção. ou qualquer intermediário entre o ar e o fogo. tanto absolutas como relativas. pois é impossível que tal corpo seja sem con. Outros. tal se pode aceitar: são eles. para outros. são esses dois elemento. fazem decorrer a geração e a corrupção das coisas. para todas as substâncias. não se efectuam independentemente dos corpos sensíveis. pois. que é o ar ou o fogo. aos quais acrescentam o ar como um terceiro. Mas os filósofos que admitem uma matéria única fora dos corpos que acabamos de mencionar. cuja constituição é natural. explicamos sua natureza e a diferença que a separa da geração e da corrupção. ademais. A geração e corrupção. Falta ainda estudar o que chamamos os elementos dos corpos. ou da alteração desses elementos. ora por separação. à acção e à paixão. já que êle é forçosamente sensí- . explicamos como são eles propriedades das coisas que mudam naturalmente. III. explicamos como elas existem e por quais causas. pois. enquanto outros. é o fogo e a terra. ao contacto. II. No referente. cujas mutações. por exemplo. como Empédocles. dizem que ela é múltipla 329a em número: para uns. erram.

e se contentou em dizer que é um substrac.". Com efeito. pois Platão não disse claramente se o receptáculo universal existe separado dos elementos. um composto de matéria e de forma. se são engendrados. neste caso. E contudo. e não se comportam como Empédocles e outros filósofos o pretendem (pois a alteração não seria possível). ao contrário. de existência separada. isto é. Consideram tais filósofos. em terceiro lugar. uma archê. as. em segundo lugar. nem o frio que o é do quente. São somente as coisas sujeitas à alteração que tiram o seu nome do substracto. Platão diz. é o sujeito dos contrários. devemos igualmente acrescentar algumas precisões sobre este tema. pela aparição de uma simples psykhê. Com essas duas teses. derivam uns dos outros de maneira semelhante ou b) se há um elemento primário. e se. por um processo cíclico (kyklô). as contrariedades (entendo. que é matéria do frio. de onde procedem. Reexposição comentada II — 1 I — Depois de dar uma rápida sinopse do que empreendeu no livro I. contudo. sobre os quais já falou. Mas já que é também assim que nascem da matéria os corpos primeiros. por exemplo o calor e a frialdade). as coisas. que alguns filósofos asseguram ser o princípio das coisas. o que é. portanto. mas de uma eupsykhê soma. mas é impossível que superfícies sejam a "alimentadora" e a matéria prima. erradamente para Ar.176 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 177 vel.15 to anterior ao que chama elementos. e que nenhum deles é anterior aos outros. o fogo.plantas e os animais. 2) que os elementos derivam. de perseitas. sem primeiramente estabelecer o que são os "elementos dos corpos". etc. 25 30 35 329b . o fogo. esse infinito. estudar e responder a algumas perguntas. por outro lado. de perseitas. que respondem às perguntas antes propostas. mas sempre considerada como um corpo e dotada de existência separada. mas. deve ser leve ou pesado. Como comenta Tricot "a vida não sobrevém. são por eles reduzidos somente a superfícies. não sendo separada. pretende provar é a seguinte: 1) que os elementos só existem como determinações de uma prote hylê. Uma definição mais precisa dessas noções foi dada em outro trabalho. IV. Contudo. do qual são elas alteração. única (o ar. é. Dizemos que existe uma matéria dos corpos sensíveis. é o que é em potência um corpo sensível. que o que há de mais verdadeiro é afir. II — A corrupção e a geração para lôdas as substâncias. é dela que provêm os elementos assim chamados. nesses seres. o que é descrito no "Timeu" não oferece nenhuma precisão. E em terceiro lugar somente. pois esses elementos se transformam uns nos outros. o princípio a colocar em primeiro lugar. a alma que informa o corpo do qual é ela inseparável. de cuja união ou separação e da alteração de tais elementos surgiriam a geração ou a corrupção das coisas. eis a pergunta que coloca Ar. todos. Outros aceitam uma multiplicidade de princípios. mas que essa matéria não é separada. embora sólidos. Por conseguinte. as anomeomérias. a matéria que. e. de uma matéria prima. que serve de substracto a tais corpos. tais como: a) se cada um dos elementos existem realmente. como o ouro para as obras de ouro. pretende agora Ar. frio ou quente. com per seitas. repetimos. — seres vivos. tem Ar. não podem comportar-se assim. pois não é nem o quente. os elementos. mas é o sujeito que é matéria para um e para outro contrários. que nasce e que morre. e que é ela sempre acompanhada de uma contrariedade.. uns dos outros. que são seres compostos de partes naturais. as Iiomeomérias. A matéria. V. desde logo. para alguns filósofos. falta-lhe precisão. isto é. A tese que Ar. não fez também nenhum uso dele. Em que consiste essa alma. expressa desse modo. a tal comparação. das quais há geração e corrupção.20 mar que cada objecto de ouro é ouro. cm suma — não se realizam independentemente dos corpos sensíveis. ou um intermediário entre esses). o tema das próximas lições deste livro II. cuja constituição é natural. E. enquanto os contrários não se transformam uns nos outros. a água e os diversos elementos dessa espécie. que a prote hylê seja corpórea e dotada. Não poderia êle penetrar nesse estudo. devemos considerar. como princípio e como primeira.

. as coisas em que há geração e corrupção não podem comportar-se assim.. funcionalidade que a revela como potência. amassar). pois não são apenas as coisas sujeitas à alteração que tiram o seu nome do substracto do qual são elas alteração. e que de suas mutações surjam a geração e a corrupção. que compendia os comentários de Tomás de Aquino: "Nessas diferentes passagens. Ademais demonstra Ar. Mas o erro que evidencia Ar. pois é impossível que um corpo sensível se dê sem eontrariedade. Na "Física". como já vimos mais acima. o que não se dn com o àpeiron de Anaximandro. pois a matéria é o que é em potência. como já foi visto. em certo sentido. Ar. no entanto. V — Expõe Ar. Os elementos são. comentando esta passagem. Ar. pois a mutação é substancial. Em segundo lugar. estudou bem essas noções. Comentando-a. convém citemos Tricot. Ela não é separada. transformáveis uns nos outros. é rectificado por Ar. está em considerá-los como corpos c não querer admitir que. e não ouro... as linhas em pontos. ora como uma alimentadora (tithene) ou um suporte (hypodokhê). O princípio material. uma massa amorfa e plástica. mas ao contrário. pois é uma simples alteração do substracto. Platão não se exprime.178 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 179 III — Aceita Ar. é o sujeito dos conlrários. um corpo sensível. afirma que o princípio é a matéria que. " 0 pandekhes é absolutamente indeterminado (extòs eidôn). que atribui ao àpeiron a eorporeidade em acto. A matéria é matéria de. à maneira de uma matéria primeira. e para precisar certos pontos. mas Platão não precisa se é um simples continente ou o consistente dos elementos". que a matéria primeira (prôte hylê) v a eontrariedade (eidos e stéresis) são os princípios dos elementos. estão caracterizados pelas qualidades contrárias. 0 argumento de Platão. não sendo separada. que são deles resultantes. que não é ouro. com efeito. Esse infinito deverá apresentar contrariedades. que formam uma eontrariedade sensível. como tais. mas de ouro. que um objecto de ouro é ouro. de massein. Mas. pois estas podem ser decomponíveis em linhas. É o exemplo de Anaximandro. é concebido ora como uma portador de marcas" (exmageion. senão por metáforas. IV — É o que sucede com Platão que não diz se esse substracto anterior existe separado dos elementos. enquanto os contrários não se transformam. o "recepláculo universal" (pandekhes). consagradas ao estudo do princípio material. que sejam tais corpos. o sempre é acompanhada da eontrariedade.pois é a matéria de todas as qualidades. pois uma estátua de ouro é de ouro. principios dos seres. que é impossível que as superfícies sejam a pandekres. Numa geração simpliciter (aplôs) dá-se outra coisa. ou uma m ã e " (princípio mater). afirma a sua improcedència. às quais faltam a precisão (non dixit manifeste et determinante). é substracto das contrariedades.

CAPITULO II II. rugoso-polido. os colocam e deles lançam mão. a questão de saber que espécies de contrariedades são os princípios dos corpos. mas 10 somente aqueles que se fazem por contacto. ou em outras palavras. Os corpos. o pesado e o leve 20 não são activos nem passivos. em nada. por que nem a brancura nem a negrura. pesado-leve. IV. e qual é seu número. 15 enquanto tangível. com efeito. não são chamados pesados ou leves porque 5 . anterior ao substracto do tacto. e uma contrariedade segundo o tacto. Em conseqüência. de início. um elemento.TEXTO DE ARISTÓTELES II — 2 I . mesmo se esta outra coisa é. dir-se-á. mesmo assim. distinguir as que são primeiras. por sua natureza. que os corpos primeiros são diferenciados. com efeito. nem igualmente qualquer das outras contrariedades sensíveis constituem. grosso-fino. é claro que não são todas as contrariedades que constituem as formas e os princípios dos corpos. duro-mole. Já que procuramos os princípios do corpo sensível. III. As contrariedades que se relacionam ao tacto são as seguintes: quente-frio. V. Todos os outros filósofos. Mas não resta colocar. também. entre as diferenças e as contrariedades tangíveis. de tal forma que seu substracto é também anterior ao do tacto. mas enquanto outra coisa. e que o tangível é o que está em contacto com a percepção. a visão é anterior ao tacto. viscoso-friável. É. nem a doçura e a amargura. Mas respondemos que o substracto da visão não é uma qualidade do corpo tangível. com efeito. é preciso. E contudo. segundo uma contrariedade. sem explicar por que são aquelas ou por que são em tal quantidade. tangível. Dessas contrariedades. Eis. sêco-úmido.

pois há mistura e transformação recíproca. como o faz precisamente o úmido. Com efeito. estudar as espécies de cotrariedades e o seu número. por sua natureza. enquanto o condensado é o que perdeu essa umidade interna: daí resulta que essas duas qualidades derivam também. Ademais. O que é apenas captado pela visão e pelo sabor não constituem um elemento. por exemplo. com efeito. mas também o condensado. o que tem uma umidade estranha penetrada profundamente). Com efeito. seja anterior ao substracto do tacto. não porém. Por sua vez. o úmido e o condensado têm uma mesma derivação: o úmido. Pois que. o que é. por essência. VIII. o que explica também por que o úmido não é mole. pois que dele resulta a expulsão dos elementos estranhos a essa classe. mas é dificilmente delimitável por outra coisa. passiva. VI. quer do quente. IX. estando inteiramente em contacto com o todo que o contém. úmido ou seco. XI. quente ou frio. e que o dessecado. VII. e o molhado é o que tem uma umidade estranha 5 sobre a sua superfície (o embebido é o que é penetrado profundamente). o quente e o frio. Mas todas essas qualidades derivam do seco e do úmido em seu primeiro sentido. Por outro lado. facilmente delimitável e esposa o que está em contacto com êle) e que também para o fino. ao úmido. o duro e o mole e os outros derivam do úmido e do seco. por essência. pois ao seco se opõe. Os termos seco e úmido apresentam diversas significações. e. mas apenas aquelas que se realizam pelo contacto. mas o substracto da visão não é uma qualidade do corpo tangível enquanto tal. pois. . e que o dessecado. é preciso que os elementos sejam reciprocamente activos e passivos. com efeito. com efeito. o azeite). e a segunda. pelo deslocamento total. mas essas não são reduetíveis a um número menor: nem o quente. Necessariamente. nem o úmido. as diferenças são em número de quatro. é o que perdeu sua umidade estranha e é evidente que o molhado derivará do úmido. uma do seco. enquanto o dessecado é o que perdeu sua umidade estranha. o viscoso e o friável. mas também o molhado. não somente o úmido. do seco. segundo o tacto. o viscoso deriva do úmido (pois o viscoso é um úmido que sofreu uma certa modificação. não somente o seco. é o que contém 20 uma umidade própria (o embebido. inversa- mente. o fino é tal ao supremo grau) é manifesto que o fino derivará do úmido. Ao contrário. e o que se compõe de pequenas partes é expansivo. mesmo que essa coisa. e o grosso do seco. enquanto o frio c o que reúne e agrega indiferentemente coisas homogêneas e heterogêneas. o mole deriva do úmido (pois o mole é o que obedece à pressão ao se contrair. embora o mole derive do úmido) e o duro derive do seco (pois o duro é o condensado. É claro que todas as outras diferenças se reduzem às quatro primeiras. ao contrário. é de reunir as coisas da mesma classe. o seco é oposto ao molhado. nem o frio e o seco não são formas derivadas. derivará do seco no primeiro sentido. XII. como a sua forma. pois o friável é o que é completamente seco. Os corpos são diferenciados por uma contrariedade. 25 não é. o úmido e o seco são termos cuja primeira dupla é activa. que se atribui ao fogo como funcção essencial. já que a expansividade pertence ao úmido (pelo facto de não ter forma determinada. e o condensado é seco). Ora. ora. O grosso e o fino.182 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 183 actuain sobre um outro corpo ou porque sofram a acção de um outro corpo. e a outra do úmido. quer do úmido. sendo facilmente delimilável por outra coisa. É evidente que o molhado derivará do úmido. III — Pode dizer-se que a visão é anterior ao tacto. ora de um. o úmido é o que é indelimitável por um limite próprio. mas que é. que lhe é oposto. mas enquanto outra coisa. o que não é feito pelos outros filósofos. Reexposição comentada II — 2 I — Propõe-se Ar. e o friável. Por sua vez. enquanto o seco é o que é facilmente delimitável por um limite próprio. não são todas as contrariedades que constituem as formas e os princípios dos corpos. se opõe. ora de outro. X. II — Nos corpos sensíveis. a tal ponto que a sua solidificação é produto de uma falta de umidade. há expansividade (pois é composto de finas partículas. o quente é o que reúne as coisas do mesmo gênero (pois o facto de separar.

misturas desses elementos. o ar. Da mesma maneira procedem aqueles que admitem três elementos. o qual é ser tangível. ser inatos (pois a mesma coisa não pode ser quente e fria. Para os que professam que há apenas um. como já vimos. os contrários. E há quase identidade entre as doutrinas dos que aceitam dois elementos e os que aceitam três. as outras qualidades que derivam do úmido e do seco. e o número desses corpos coaduna-se à lógica de nossa teoria. VII — O úmido e o seco são passivos pela própria definição. o ar. frioúmido. o fogo. E termina por estabelecer que os elementos devem ser activos e passivos. II. ora um. assim também o frio. com efeito. pois são essas qualidades que são as forças ordenadoras. E essas quatro duplas são atribuídas. e que engendram. fria e seca: alcança-se assim a uma distribuição racional das diferenças por entre os corpos primários. o raro e o denso. é preciso distinguir as primeiras que as descriminadas no tópico. considera o "meio" uma mistura. VI — O quente e frio são activos e o úmido e o seco são passivos. em suas divisões. (o ar como uma espécie de exalação). o que é necessário para que haja transformação recíproca. a água. aos corpos que parecem simples. IX — Este tópico é claro e é uma decorrência do que ficou acima exposto. é quente e seco. e que esses quatro termos podem ser combinados em seis conjugações. V — O leve e o pesado não são activos nem passivos. pois os corpos são determinados apenas pelos contrários que surgem ante o tacto. mas que. ora dois. a saber. pois tais aspectos já estão melhor estudados na ciência actual. Não são. exemplifica: o fogo tem uma funcção unificativa. Mas os filósofos que desde o início colocam dois elementos (tal Parmênides. então. e. o fogo e a terra) consideram os elementos intermediários. a terra. quente-úmido. quente e úmido. em virtude de sua natureza. os outros seres por condensação e rarefação. a saber o ar e a água. ora três. supõem-nos. IV — Entre as diferenças e as contrariedades tangíveis. portanto. como é exposto no tópico. são conduzidos a colocar de facto dois princípios. frio-sêco. ora quatro.184 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES E a razão está em que as qualidades sensíveis pela visão não constituem a essência do corpo. inversamente. pois são definidos pela própria passividade. a água e a terra. TEXTO DE ARISTÓTELES II — 3 I. à maneira de Platão que. com efeito. é evidente que serão em número de quatro as conjugações de qualidades elementares: quente-sêco. X a XII — São igualmente claros e implicados no que ficou exposto. Todos os filósofos. ou melhor: o quente e o frio. constitutivas dos elementos. fria e úmida. O fogo. VIII — Cita Ar. com esta única diferença que os primeiros cortam em dois o . como elementos. E Ar. que consideram os corpos simples. Já que as qualidades elementares são em número de quatro. Têm um valor histórico na filosofia. Como diz Tomás de Aquino. enquanto o Um lhes serve de sujeito como matéria. como uma conseqüência lógica de nossa teoria. não podem. "definiuntur enim per passiones eorum". seca e úmida).

e ao ar. como Empédocles. também símbolo da tetractys pitagórica (1. pois admitem que o primeiro princípio engendra os seres por condensação e rarefacção. a condensação. o quente e o frio. o fogo e a terra são os elementos extremos e os mais puros. sendo em número de 30 quatro. opõe todos os outros. a água e a terra. como conseqüência lógica dessa teoria. 2. E os dois princípios que surgem são o raro e o denso. mas cujos contrários. a provar a sua teoria. o ponto. a umidade. que são contrários ex parte materiae. terra fria e seca. pois esses elementos são 33l a constituídos de qualidades contrárias. contudo. o corpo simples. pois essas qualidades são as forças ordenadoras. pois. E também o concorda em certo sentido Aristóteles. A rarefacção é devida ao quente. é o frio. como o fogo. mas que não o são na realidade. não porém idênticos: por exemplo. antes que o quente. Finalmente. a terra. pois a congelação e a ebulição são respectivamente excessos de friura e de calor. antes que o seco. vê-se obrigado a estabelecer dois contrários extremos e um médio. portanto. tem forma de fogo. O raro e o denso (rarefacção e condensação) são qualidades contrárias que actuam e sofrem adinvicen. e constitui a primeira conjugação. tem cada um uma só qualidade própria: para a terra é o seco. Não quer tal dizer que o fogo. falando de modo absoluto. Concorda Ar. Faz uma sinopse das teorias já conhecidas. correspondente ao ar. a terra e a água. os agrupa em duas classes. da mesma natureza que êlcs. que têm cada uma seu lugar: o fogo e o ar se dirigem para o limite. quatro elementos. para a água. Se. para o centro. porque é impossível o contrário permanecer no mesmo ente. água fria e úmida. E contudo. o ar e cada um dos elementos que mencionamos sejam simples na verdade. E os elementos de cada conjugação são contrários aos da outra: ao fogo é contrário a água. os elementos. certos filósofos colocam.20 de o início. como fogo e terra. Comentando esta parte. Os corpos verdadeiramente simples são. o quente. III. que afirma haver quatro qualidades elementares que formam quatro conjugações. V. correspondente ao fogo. salienta Tomás de Aquino que qualquer que seja o número dos princípios. antes que o frio. a superfície. como Platão. des. Os corpos simples. antes que o úmido. enquanto os últimos consideram um único elemento. IV. vê-se obrigado a aceitar intermédios. a quarta. 4 o volume. tem a forma de ar. ao frio. a terceira. e assim por diante. 3. enquanto a água e o ar são intermediários e mais misturados. o fogo será uma ebulição do sèco-quente. para o ar. aos corpos que são julgados simples. a linha. frio e seco. como o salienta Tomás de Aquino. Os que aceitam apenas um elemento são forçados a aceitar dois princípios. o ar. com efeito. ar quente e úmido. do que desde logo se vê que restam apenas quatro conjungações possíveis. frio e úmido. dos vectores opostos. como o gelo um excesso de friura. qualidades elementares. partilham-se em duas conjugações. Quem aceita três. como ainda do activo e passivo dos opostos. ou melhor. como também símbolo dos quatro elementos. . combinadas em seis conjugationes (conjugações). como o quente e o frio ou o seco e o úmido. São essas conjugações atribuídas. II — Passa agora Ar. 25 Mas o fogo é um excesso de calor.. como o fêz Parmênides. o segundo. como o ar e a água. quente e seco. São quatro tangíveis qualidades (e não quatro corpos simples como alguns ex- põem). o mundo físico é simbolizado pelo número 4. Ademais. 5 e para o fogo. os antigos "conveniunt in hoc quod non excedunt quaternarium numerum" (concordam neste ponto em que não excedem ao número quaternário). são conjugações impossíveis. Quem admite dois elementos primários. o gelo é uma congelação do frio-úmido. o corpo simples. o que ademais explica porque nada procede do gelo nem do fogo. Na linguagem simbólica.186 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 187 elemento médio. que. mas não é fogo. Essa classificação coaduna-se perfeitamente com a teoria de Ar. O fogo é quente e seco. ainda com os antigos "qui quaternarium numerum non transcendunt" (que não transcendem ao número quaternário). ao fogo. Formam seis conjugações. põe mais um fora da forma (ex parte formae) : grande e pequeno. cada um deles é um mixto. na categoria pitagórica dos contrários). Reexposição comentada II — 3 I — Podemos nos elementos considerar quatro qualidades. quente e úmido. sendo em número de quatro.

0 fogo é excesso de calor. pelo facto de que suas diferenças são contrárias. não é difícil perceber de que maneira se faz essa geração. a terra é mais seca que fria. de ma- . portanto. a prote hylê. uma qualidade predominante e uma qualidade em intensidade menor. e impossível para outros. é manifesta até na sensação. cuja matéria (terceiro princípio). III. por natureza. 15 uma como outra das qualidades são contrárias: tal é o caso do fogo e da água (pois o primeiro é seco e quente. cada. V — Falando simplesmente. e o que corresponde ao ar. embora a sua intensidade de umidade fosse menor que o úmido da água. com efeito. por outra parte. de uma parte. enquanto o ar é quente e úmido. e todos os elementos possuem uma contrariedade recíproca. A geração. que êle reduz a dois contrários. mostra que Platão não professa absolutamente que existissem três corpos. ela é lenta. Para Ar. mas não é ar. uma coisa não pode proceder do gelo. e assim sucessivamente. a teorias platônicas posteriores afirmam. como Philopon. comenta Tricot. todos se transformam naturalmente uns nos outros. mas diferirão pela lentidão e pela velocidade. na conjugação das qualidades primárias. e o segundo é úmido e frio). seria um migma. que são quatro. III — Empédocles e os seguidores estabelecem quatro elementos. uma somente das qualidades é contrária: tal é o caso do ar e da água (o primeiro é úmido e quente. e o outro. e o fogo o quente ao seu maximum de intensidade. se nós os tomamos individualmente. Com efeito. Tal não quer dizer. havendo um intermediário. mas apenas que. A natureza dos corpos elementares é a mesma. O gelo é a água em seu máximo de potência. e apenas elas constituem efectivamente os elementos. se consideramos os elementos em geral. mais úmido que quente. como comenta Tomás de Aquino. ou. Dai resulta manifestamente 20 que. e o fogo. o ar. mas somente do frio e do quente. que. que quisesse Ar. contrários. como o gelo. de outro elemento. para essas a transformação é rápida. e por ponto de partida.. o úmido. Mas esses elementos são apenas "intensificações" das qualidades reais. 25 porque uma só coisa muda mais facilmente que muitas: por exemplo. é evidente. Assim. II. pois esta se produz segundo as qualidades dos objectos do tacto). tem a forma do ar. tem a forma do fogo. TEXTO DE ARISTÓTELES II — 4 I. pois a congelação e a ebulição são respectivamente excessos. a água é mais fria que úmida. para as coisas que têm "símbolos" recíprocos. dizemos. correspondente ao fogo. mais quente que seco. afirmar que o ar fosse mais úmido que a água. é mais intenso que o quente. com efeito. é de grau intensista menor. a geração é recíproca e que. em comparação com o frio. comentando este tópico. nem do fogo. que eles são engendrados (do contrário não haveria alteração. Joachim. como o salienta Tricot. ao mesmo tempo. é preciso explicar de que maneira 10 se efectua a sua mudança recíproca. O que há é certamente uma alusão. IV — Este tópico é claro e o que é exposto é uma decorrência do pensamento j á analisado. Que. excesso de frialdade. para outros. úmido e frio). Tal aspecto já o fora salientado por Tomás de Aquino em seus comentários. para os corpos simples. Todos.188 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES Em sua notável obra. no ar. procederão de todos. O corpo simples. os elementos. pois opõe os outros três ao fogo. e se é possível que todos procedam de todos. à Dyada infinita do Grande e do Pequeno. do fogo virá o ar. têm. se uma só das duas qualidades muda (pois o fogo. é quente e seco. Já foi estabelecido anteriormente que. se é possível somente para certos dentre eles. como salienta Joachim. mas para aquelas que não os têm. cada u m desses elementos é um mixto. pela facilidade e pela dificuldade de sua transformação. e que. todo elemento vem. tem por termo os contrários. mas não é fogo. Para certos elementos.

graças à supervivência do quente do ar e do seco da terra.332a mentos derivam de todos. se o seco do fogo 30 e o úmido do ar pereceram. e engendrados. Contudo. quer de qualidades idênticas. pois permanece o quente em um e outro elemento. a geração é recíproca. e impossível a outros. Quando. o fogo tornar-se-á terra. afinal. é preciso que. sejam destruídos. a transformação. mas a chama é o fumo que 25 queima. já que o fogo é seco e quente. fria e seca. Mas. o fogo e a água. pois têm. qualidades. com evidência.190 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 191 neira que se o seco é dominado pelo úmido. e a terra. e se possível que todos procedam de todos. qualidades idênticas ou contrárias. Essa geração exige. e do ar cm terra. Vimos. se. mais difícil. com efeito. se o calor muda. e se se quer que. se uma qualidade. não é recíproca. dizíamos. ou se tal é possível apenas a alguns. embora possível. do ar virá a água. teremos o a r ) . permanecem os contrários. é quente e úmido. Se se quer. é úmida e fria. Da mesma maneira também. da água e da terra em fogo e em ar. não é possível que da destruição de uma qualidade em cada um desses dois elementos resulte uma mudança em qualquer dos corpos simples. se do fogo e do ar vêm a água e a terra. se o quente desaparece de um e de outro. VI. Daí resulta ao mes. por sua vez.35 mo tempo. explicar de que modo se efectua sua mutação recíproca. tanto o frio como o seco. da água virá a terra. temos a terra. se o frio perece. mas quando o úmido do ar e o frio da terra tenham perecido. embora mais fácil. a terra e o ar. o ar será (pois resta o quente do ar e o úmido da água). essencialmente constitu- 30 35 331b 5 10 tivas do fogo. A sensação confirma também esse modo de geração do fogo: a chama. e. quando há transformação de um só dos elementos consecutivos em um só. mais acima e no livro "Peri Ouranou" (De Caelo). e que esse modo de mudança é o mais fácil. com efeito. A água. que. E. o fogo será. ambos. alternativamente. quando se trata de dois elementos consecutivos. por outro lado. e a terra. e ao mesmo tempo manifesta aos sentidos. teremos a água). a transformação do fogo em água. com efeito. da terra venha o ar. por sua vez. O mesmo se dá nos outros casos: em todos os elementos consecutivos. mas quando o quente do fogo e o úmido da água tenham perecido. dizemos. IV. há transformação de ambos esses elementos num só. com efeito. é o fogo por excelência. perece. que da água proceda o fogo. Quando. pois do contrário não haveria alteração. a terra será. Propõe-se. de maneira que. Da mesma maneira. para os corpos simples. pois esta se produz nas qualidades. II — O que é naturalmente evidente é que se transformam um no outro. Mesmo processo igualmente. Dai resulta evidentemente que a geração. que para os corpos simples. é preciso que antes sejam destruídos tanto o frio como o úmido. Por outro lado. por outro lado. será circular. com efeito. quer de qualidades contrárias: tal será o caso. encontram-se uma qualidade idêntica e uma qualidade contrária. e da terra. de cada um desses elementos. e da soma do ar e da terra resultarão. porque há mudança de um maior número de qualidades. e o fumo é constituído de ar e de terra. Reexposição comeniada 15 II — 4 I — Já estabelecera Ar. estabelecer que todos esses ele. fria e seca. respectivamente. e explicar o modo como se produz sua transformação recíproca. ao contrário. por sua vez. mas nenhum corpo simples tem possibilidade de ser constituído. de antemão. símbolos. graças à supervivência do seco do fogo e do frio da água. a saber o seco e o úmido. de maneira que se o úmido é dominado. Ar. portanto. V. o quente do ar e o seco da terra tenham perecido. com efeito. Mas. é. alternativamente. assim. a geração se efectua pela destruição de uma única qualidade. enquanto que a água é fria e úmida. o frio da água e o seco do fogo tenham perecido. o fogo e a água virão da soma do ar e da terra. por sua vez. na conjugação dos elementos. o fogo. 20 . um tempo maior. necessáriamente as duas qualidades mudarão. se o quente é dominado pelo frio (pois o ar. pelo facto de os símbolos se encontrarem contidos nos elementos consecutivos. O restante do tópico é claro no autor e dispensa reexposição. a geração se efectua pela destruição de diversas qualidades. porque permanece. a água será (pois resta o úmido do ar e o frio da terra). também. mas da soma do fogo e da água resultarão.

uma certa contrariedade. por eleminação do frio e do úmido) ou água (por eliminação do quente e do seco). p a r a terra (frio-sêco) e Terra (friosêco) . então. por exemplo de um corpo que seria intermédio entre o ar e a água (mais espesso que o ar. distinta de um e do outro. se. . . O mesmo raciocínio aplica-se a todos os elementos: prova que não é de um só dentre eles que todos provêm. ser todos ar. tomadas em cada elemento. . a água. E mais adiante: " . salvo examinar o termo símbolo. não é seguramente um corpo. por sua vez. atribuído ao ar. manifestação de uma solidariedade de direito". mas mais subtil 20 . ou fogo. o quente do ar pode. entende por symbola factores complementares. digamos. Aceitemos que seja terra + água. ar + fogo. pois está todo contido na matéria já exposta. fossem ar. com o úmido. por ex. IV — Neste tópico.água (frio-úmido) e Fogo (frio úmido . pois. distinto desses quatro elementos. por exemplo. Se todos. e o outro membro dessa contrariedade. pois. Fogo (quente-seco) -f água (frio-úmido) = terra (por eliminação do quente e do úmido) ou ar (por eliminação do seco e do frio). o ar torna-se fogo. e não é ademais o que mostra a experiência. Mas termina Tricot por aceitar a de Tomás de Aquino: "convenientia in aliqua qualitate". e o ar será alguma coisa 15 fria. haverá apenas alteração e não geração. Acrescentemos que ninguém supõe que um elemento único possa subsistir de tal modo 10 que seja simultaneamente água. água + ar. a definição de Robin é muito mais precisa: "um sinal de reconhecimento. o ar e os elementos dessa sorte. assim como ar ou outro qualquer elemento. por exemplo. então. com o seco. Essa mutação é mais difícil que a precedente: Fogo (quente e seco) para . num e noutro caso. constituir o fogo. assim. este tópico de reexposição. constituir o ar: o quente do ar e do fogo são symbola". pela conversão das duas qualidades elementares em seus contrários. . Mas além disso. "mutação da soma de dois elementos não consecutivos em um ou outro dos elementos restantes. é impossível. se o ar subsiste. já que a mutação tem lugar em direcção aos contrários. proposto. assinala mais adiante que esse modo de transformação não actua se os elementos são consecutivos (terra + água. Ar (quente-úmido) . .. uma diferença. ou terra. pois. a mesma para ambos. e o quente do fogo pode. é impossível para o fogo ser ar quente. 5 esses elementos são necessariamente ou um. ou dois. em sentido inverso. o que. complementamos a nossa teoria da maneira seguinte: se os corpos naturais têm por matéria. o terceiro modo de transformação dos elementos. como também alguns filósofos o crêem. fogo + terra). pela eliminação de duas qualidades. Ar (quente-úmido) + terra (frio-sêco) = fogo. . a mesma coisa seria simultaneamente quente e fria. II. pertenceria a um outro elemento. p a r a Ar (quente-úmido). expõe Ar. ou um número maior. III. ou água. Todo o resto do tópico é a exemplificação e exposição do que havia Ar. Mas o fogo não será certamente ar quente. será pela transformação do quente em seu contrário: esse contrário será.192 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES III — Desnecessita. e comum a ambos. o segundo modo de transformação dos elementos. como o sintetiza Tricot. em outras palavras. O fogo e o ar serão. com efeito. VI — Também este tópico não oferece dificuldades. Por conseguinte. pois uma mudança dessa natureza é uma alteração. na realidade alguma outra coisa. A respeito dos elementos. V — Expõe agora Ar. Haverá. o calor. . o fogo. Ar. A eliminação daria frio -f frio e seco + úmido.. Mas não podem ser todos um só elemento. e é apenas um desenvolvimento claro das idéias já expendidas. TEXTO DE ARISTÓTELES II — 5 I. haverá alguma matéria. Citemos Tricot: "Ar.para fogo (quente-seco).. . ao mesmo tempo. que nele está expresso (symbola) no plural. Todo o restante do tópico é uma explanação do que Tricot acabou de sintetizar.

como Platão o descreveu no "Timen". e o fogo seria ar quente. tornarse-ia ar e fogo. então. quer todos sem excepção. ou não existe nada. IV — Este tópico é também e apenas uma reanálise dos pontos. conseqüentemente. não im. não existirá à parte dos contrários. Se tudo . ar. o número das conjugações. com exclusão de outros. pois o fogo é quente. que possuem um símbolo. pois. que Ar. não será. comenta o restante do tópico com estas palavras que convém citar: "Seja o ar que se muda cm fogo por simples alloiosis (alteração). Como a mutação tem lugar necessariamente de contrário a contrário. o que é absurdo. é necessariamente frio. que tem uma qualidade contrária. é impossível por uma tríplice razão: a) seria uma alteração e não uma geração. transformam-se mais lentamente. devendo nós apenas salientar. segundo a qual os elementos são transformados é uma em número. pode aí haver seis. ou eles persistem sempre e são intransformáveis uns nos outros. a contrariedade. merecendo apenas uma explanação na parte final. VI. é o que foi demonstrado anteriormente. b) é contrário à experiência. quer referir-se ao àpeiron de Anaximandro. duas conjugações são irrealizáveis. A diferença entre o ar. sofrem transformações. na verdade. é susceptível de tornar-se ar ou fogo se se lhe ajunta uma conjugação de contrários que caracterizam um e outro desses elementos. Mas se elas são duas. já examinados nesta obra. seria pois o quente. assim como surge com toda evidência: tal é. o ar deve ter uma qualidade contrária a uma qualidade do fogo: seria. se se lhe ajuntasse uma conjugação de contrários. com efeito. ou. já que é dado que certos elementos. em razão de suas qualidades reciprocamente contrárias. eles devem ser quatro. Necessariamente pois. e permanecendo totalmente ar. neste caso o ar subsistiria e não haveria senão alteração. todos eles serão o princípio. como o pretendem alguns filósofos para o infinito e o meio ambiente. os elementos são mais de dois. Reexposição comentada II — 5 I e II — Dispensam estes tópicos uma reexposição. E já que 35 observamos que. Se. é este o comentário de Tomás de Aquino.. e se o infinito não é quente. Tricot. O argumento de Ar. e foi também estabelecido que a rapidez com a qual um elemento vem de outro. e então o fogo será quente enquanto fogo. pois a matéria é simples intermediário entre os dois contrários. mas um dos dois contrários. as contrariedades devem ser ao menos em número de dois. é sintetizado deste modo por Tricot: Sendo o àpeiron indeterminado. e frio. o frio. na verdade. não resultaria daí que esse intermediário jamais poderia existir sozinho. por ex. que a mutação tem lugar para os contrários. e o ar transformado em fogo. pois. portanto. c) o ar. isto é. transformam-se reciprocamente mais depressa que outros. por exemplo. 30 que haja necessariamente transformação recíproca dos elementos. inevitavelmente esses elementos serão em número de dois.25 porta qual dos elementos. com efeito. e não geração propriamente dita. não é sempre a mesma. que não os possuem. não é possí. Em síntese. indeterminado. o que observa tantas vezes Ar. nada de sensível ao menos existe anteriormente a esses elementos. Esse suposto intermediário. pois. teoricamente.194 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 195 que a água). matéria não sensível e não separada. pois um contrário é privação do outro. quer alguns dentre èlcs. e será. fundado em Joachim. Eis porque existe indiferentemente. um ou outro dos elementos. ou entre o ar e o fogo (mais espesso que o fogo. mas mais subtil que o ar). seria frio. fosse. se. III — É claro este tópico. não pode ser indeterminado. sendo uma privação. Ora. Se. Ora.332b vel que haja apenas três elementos. enquanto ar. Mas.

pois possui as qualidades contrárias às da água. é o que iremos tornar evidente. tanto em ar como em terra. sendo dada a transformação recíproca dos elementos. Admitamos que esses contrários sejam a brancura e a negrura. o branco subsiste. poderia aí haver transfor5 10 15 20 25 . S. Esses pontos foram examinados acima. S figuraria a secura e H a umidade. senão um número infinito de contrariedades se aplicaria a um só elemento. a água será ou branca ou negra. de início. Daí resultará que. pois. úmida. digamos. pois o fogo era. haverá uma contrariedade atribuída a A e E. Da mesma maneira. Admitamos que ela seja branca. IV. Seja a secura e a umidade essa segunda contrariedade. a um qualquer dentre eles. os contrários. Mas. pois a mudança tem. é impossível. pertencerá a E. a água será negra. Se. e esse raciocínio tornaria a sustentar que todos são constituídos de fogo ou de terra. É pois evidente que. Por sua vez. pois todos os elementos seriam fogo ou terra. pois. pois H e E não são idênticos. se A se muda em H. e a seguir seco. Pois é preciso deter-sc bem. o ar por A. e não se pode ir até o infinito. o fogo por E. para todos os elementos. pois. III. poderá haver aí mudança em água. e. Um tal elemento não existiria nas extremidades. por termos.se muda. Figuremos a terra por G e a água por H. e a água. a água será úmida e branca. Êssc elemento-princípio não poderia exislir também no meio. negro. ser um princípio para os outros (quer o tomemos na extremidade ou no meio). numa e noutra direcção. Agora se quando A se muda em H. para o próprio fogo. transformados um no outro. à maneira como supõem certos filósofos que o ai. branca. a secura. em linha recta. e a água. Necessariamente. a seguir.TEXTO DE ARISTÓTELES II — 6 I. haverá uma outra contrariedade A e H. mas se não subsiste. II. ao contrário. A se muda em E e H. não sendo os elementos extremos. tanto em fogo como em água.

. apesar das transformações. contudo. a terra e o fogo. a terra. Reexposição comentada II — 6 30 I — Propõe-se agora Ar. em qualquer outro elemento que os quatro. é inevitável que o sejam. toda adicão de um novo elemento levará à atribuição de uma nova contrariedade aos precedentes elementos. neste tópico. como exemplificação do que já expôs Ar. alusão aqui. para baixo. P. Admitamos. Se tomarmos os elementos como extremidades. e. V. por exemplo. VIII. uma outra contrariedade será atribuída. em ar. figurado por E. e a terra em baixo e. propomo-nos de demonstrá-lo. para o alto. E. mostrar que é impossível a qualquer dos elementos ser princípio dos outros. jamais a mutação se produzirá. II. Que não seja possível ir ao infinito. VI. 35 333a 5 10 15 . como dois extremos. que o fogo e a terra. A. as contrariedades em número infinito serão atribuídas também a um só elemento. nem geração de um elemento qualquer. pois. pois êlcs se transformam uns nos outros. escreve Tricot: "Não se sabe a quais filósofos faz Ar. De qualquer forma. conteria também os dois símbolos restantes.. Negam. pois os elementos são infinitos. a mutação circulai' e se encontrariam na necessidade de proceder até o infinito". antes da digressão que acabamos de fazer. supõe-se que não há identidade entre um qualquer dos quatro elementos. com efeito. e a P. são somente a P. Enfim. Então K será atribuído a todos os quatro elementos G. não haverá nem definição. se as contrariedades são em número infinito. de maneira que se os elementos são em número infinito. G. E igualmente. e para baixo. e as análises que já procedemos. se transforma sem voltar atraz. como o fogo no alto. cm terra. será preciso atravessar uma tão grande quantidade de contrariedades. em face do que já foi examinado por Ar. o que é manifestamente falso. pois não foram ainda conjugados. e a água. e os dos elementos abaixo. sua doutrina seria esta: o ar se transforma para o alto em fogo. razão pela qual deixamos de reexpô-los. de maneira que todos os elementos não serão mais que um. superior mesmo a todo número determinado. por outra parte. Se. e eis o que o prova. no sentido de certos elementos. não haverá até mutação do ar em fogo. mas. mostrará que é evidente que tal transformação não se poderá dar. G. comentando este tópico. fossem princípios. E. pois. em terra. não oferecem dificuldades à compreensão do leitor. por sua vez.. e todas as coisas seriam fogo. e. por P : uma nova contrariedade. Ora. a saber o negro e o úmido. P transformou-se em outro elemento. III e VI fisles tópicos. todas as contrariedades dos elementos acima de E devem pertencer àqueles que estão abaixo. R. com efeito. A. acrescenta que há impossibilidade. no meio. o fogo. que um elemento proceda de um outro. que daí resultará que. no primeiro caso. que esse último ponto não foi ainda demonstrado. VII. mas ainda ao fogo. se. por sua vez. Se se quer. elemento figurado. portanto.198 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 199 mação recíproca. àqueles que estão acima. não se transformam um no outro. é claro que. com efeito. facilitam a compreensão clara e fácil destes os tópicos. permaneceria sempre fogo. elementos extremos. ao menos nos exemplos que tomamos. todos os elementos se tornarão num só. e que. Admitamos que a E pertença K. como já o demonstrou mais adiante (II-5). II --• Sintetizando o que pretende dizer Ar. Ademais. Ademais a reexposição feita nas licções anteriores. de qualquer maneira. O mesmo se daria se fosse a água. diferente de as que havíamos mencionado. o ar e a água. Tomás de Aquino. será atribuída ao fogo e a P. desde que se aceite que há uma transformação recíproca. Se é assim. a E. se os intermediários são infinitos em número. H. por exemplo.

em vez de comparar suas potências pela medida de suas qualidades. E contudo Empédocles exprime-se assim: "Pois esses elementos são todos iguais".TEXTO DE ARISTÓTELES II — 7 I. e. tal outra é quente. proceder por analogia. colocados como intransformáveis. II. se se torna maior em . se um cotilo d'água produz dez cotilos de ar. Poder-se-ia também. na quantidade. ou em outras palavras. mesmo assim são comparáveis na ordem da quantidade. mas por uma medida de suas potências. Mas se se quer dizer que os elementos não são comparáveis na ordem da quantidade no sentido de que tal quantidade produziria tal quantidade da outra. Por exemplo. a semelhança. sejam comparáveis. não somente por analogia. que seja de um calor igual ou semelhante tal quantidade de fogo comparada com uma quantidade múltipla de ar. mas enquanto possuem tal potência. haveria então algo de idêntico para um e para outro elemento. Se se quer dizer que eles são comparáveis 20 na ordem da quantidade. É assim manifestamente absurdo que os 30 corpos simples. a igualdade. Mas a analogia de uma coisa com uma outra significa. como quando se diz: da mesma forma que tal coisa é branca. que. embora não o sejam. mas que são comparáveis no sentido em que estão em potência de actuar (por exemplo. De que maneira lhes é possivel sustentar que os elementos são comparáveis. na qualidade. pois são medidos pela mesma unidade. IV. enquanto quantidade. se um cotilo de água possui um poder de resfriamento igual 25 ao de dez cotilos de ar). a exemplo de Empédocles. III. é necessário que alguma coisa idêntica pertença a todos os elementos comparáveis e sirva para medi-los. Causam surpreza aqueles filósofos. Pois. professam a multiplicidade dos elementos dos corpos e ademais afirmam que esses elementos não se transformam reciprocamente.

e é isso que constitui a natureza de cada coisa. para os próprios corpos simples. a causa pela qual do homem vem o homem. e o éter. e não a proporção. Qual é. E é muito mais difícil para êle dar conta da geração que se produz na natureza. sendo dado que os corpos simples aparecem movidos. mas pela Amisade. mas desce por constrangimento). logo que Empédocles atribui seu movimento a uma causa semelhante à fortuna ("pois se notará que o éter estende-se assim. o éter". ao menos porém. Devemos dizer que se os elementos são compostos de tal maneira o osso nasce? Pois uma composição fortuita de elementos não engendra nada. separa bem as partes do Sphairos. e do trigo. Os seres. portanto. e a do ódio. em sua geração. uma uniformidade quer absoluta. que são engendrados naturalmente mostram todos. o primeiro motor dos elementos e a causa de seu movimento? Não é. E é a fortuna que "nesses casos é o nome dado". sendo da mesma espécie que a primeira vez. de maneira que. que foi outrora sob o reino da Amisade. de separação. Mas é absurdo. Além disso. com efeito. na realidade. ainda é isso que é a excelência de cada coisa e seu bem. Ademais. de mover de tal outra. e o que o é ainda mais é que no próprio sistema de Empédocles os elementos se movem manifestamente. Empédocles se expressa de maneira bastante absoluta. Não basta. segundo a expressão de Empédocles. Seu fogo. a causa dessa composição proporcional? Não é certamente nem o fogo nem a terra. 25 30 35 334 15 20 IX. pois pode existir uma mistura fortuita. esse último movimento de que a Amisade é causa? Ou. mas muitas vezes foi de outro modo"). se o primeiro motor deve ser um princípio do movimento em geral. então. e o ódio. no que concerne ao movimento. que o que é natural é contrário ao que se faz por constrangimento. Seu poema nada nos ensina "sobre a natureza". aumenta pelo fogo. a não ser que tenha êle querido dizer que a essência da Amisade seja de mover de tal maneira. nenhum movimento. V. com efeito. Mas. enquanto as coisas que estão fora dessa uniformidade absoluta ou constante nascem do acaso e da fortuna. não há absolutamente. não seria causa de nada? Ao contrário. assim como o reconhecia Empédocles. Qual é. Mas tais crescimentos têm lugar por adição: ora. com ou sem rigor.10 posta de elementos ou que seja um deles. E contudo. no sistema de Empédocles. e não uma oliveira. ou bem considerar esses movimentos como hipóteses. a menos que a Amisade ou o Ódio não os ponha em movimento. VII. nem repouso. já que os elementos são. seria necessário ou bem definir. nem a Amisade nem o ódio. VI. E nesse sistema.202 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES quantidade. Com efei- . Ainda mais: o crescimento não seria sequer possível. Assim pois. O ódio. enquanto é somente a mistura que Empédocles glorifica. quer sempre. X. mas não é pelo Ódio que o éter foi levado para cima. ou então ainda demonstrá-los. VIII. senão segundo a sua natureza (por exemplo. e que o movimento forçado existe. mas o éter. o fogo erguc-sc sem constrangimento. A causa em questão é. Mas também não é a Amisade nem o ódio: a Amisade é somente uma causa de união. É estranho também que a alma seja com. quer o mais das vezes. a substância formal de cada coisa e não somente "uma mistura e uma troca do que foi misturado". pois. anteriores a Deus e que eles são também deuses. por natureza. ora assegura que é a natureza do fogo que o leva para o alto. quer constante. natureza da qual Empédocles não diz nada. então. os elementos são separados não pelo ódio. "imerge sob a terra longas raízes". mas é preciso uma proporção determinada. afirma que a ordem do mundo é a mesma agora. e é pois. pois. antes. terá sua proporcionalidade aumentada. com efeito. ao contrário. com efeito. o mesmo ar ou o mesmo fogo. com efeito. com efeito. parece bem que não é assim que crescem as coisas que crescem. essas são apenas causas de um movimento determinado. o movimento natural move a terra para baixo e assemelha-se à separação. ou de uma maneira qualquer. "E a terra aumenta seu próprio gênero. Ao contrário. em geral também. segue-se que o movimento natural pode também produzir-se. a causa da geração dos seres naturais é essa maneira de ser. tanto pelo constrangimento e contrariamente à sua natureza. É. a Amisade pareceria ser mais contrária à natureza que o Ódio. o trigo. diz êle. Qual é. mais o Ódio que a Amisade que é sua causa. sob o reino do ódio. senão por adição. E 5 simultaneamente. Mas. dizer que a Amisade 35 333b 5 10 e o Ódio movem.

passando nós a apenas compendiar as mais importantes notas dos famosos comentadores. uma atitude physikôs. uma. referindo-nos sempre ao número do texto. pois a primeira não exclui a segunda. ao contrário. nas lições seguintes. é mais concreta. Dá-se este exemplo: o que é a visão para o corpo. pois ela não é então quantitativa. portanto. qualitativa. enquanto fogo. que deve ser compreendido como êle o entende. É preciso que se note que Ar. pois sempre se coloca contra toda providência que possa abrir a crise entre as categorias. Nós aceitamos a irreduetibilidade antinômica. a igualdade não se concebe senão na ordem quantitativa. ora. . pelo perigo que acarreta de cair no abstractismo. Quando. IX — E finalizando este tópico diz: "A Amisade e o ódio não são a causa da ordem do Universo.. Ora. encontramos o emprego do termo analogia por Ar. mais elevada. que é mais formal. nada mais são que causas segundas de movimentos particulares. Na analogia. se um cotylon dágua possui um poder de resfriamento igual a 10. as alterações que se manifestam na alma. e a proporção (logos. nenhuma delas é corpórea. sem que tal posição queira. mas qualitativa (Tricot). geradoras. defini-las. pois a intensidade é a uma predominância do qualitativo sobre o quantitativo. ou supô-las ou demonstrá-la" (fisicamente). daqui por diante. sobre a existência e a natureza do qual Empédocles não explica". de modo algum. repousa na sentença de Empédocles. Comenlários ao texto II — 7 I — Depois de esclarecidos os pontos principais desta obra de Aristóteles. seguindo o pensamento aristotélico e sintetizando o comentário de Tomás de Aquino. compendiamos as notas de Tricot: Toda a argumentação de Ar. que acabamos de mencionar. entre o ar e a água. Prosseguindo. Empédocles teria podido apenas falar de semelhança analógica. pode-se falar numa igualdade quando se comparam intensidades. há uma igualdade de relações entre seres que pertencem a categorias diferentes. da separação. as determinações que lhe pertencerão serão somente as do fogo. o que aliás está mais consentâneo com o pensamento da física actual. pois estas nunca excluem o que têm de extensivo. é o intelecto para o espírito. em rodapé. A proporção será. Neste caso os elementos seriam transmutáveis. Anota ainda Tricot. dez cotilos te-lo-ão dez vezes mais. que "as diferenças qualitativas entre o fogo e o ar não poderão entrar em linha de conta na analogia: só se podem comparar quantidades da mesma espécie. responde Ar. podemos salientar a nota de Tricot: Neste caso poderia haver aí transformação recíproca o que é contrário ao sistema de Empédocles. VII — Comenta aquele autor o fim deste tópico: "Empédocles não explica a natureza do movimento por seus dois princípios. mas maior. mas dialècticamente identificados no ser. pondo-as. tomamo-la no sentido da intensidade e da extensidade. como a extensidade é uma predominância do quantitativo sobre o qualitativo. as mutações. segundo o qual os elementos são iguais. ratio) não será igual. Talvez quisesse significar que a Amisade e o Ódio são forças naturais. Calamos na igualdade. outra. para melhor esclarecimento. neste particular.. torna-se desnecessária a reexposição. como terão elas lugar? Por exemplo. como se produzirá a passagem do músico ao não-músico. naquele livro. da união.204 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 205 to. Neste caso. por nós preconisada. como dialècticamente já vimos. se ela é um misto. no fim deste tópico. não de igualdade. ou da memória para o esquecimento? Pois é evidente que se a alma é fogo. III — No último período deste tópico. IV a VI — Após a linha 25. por exemplo. Mas seria preciso então adoptar. os quais supõem um primeiro motor do movimento em geral. considerar falsa a posição aristotélica. enquanto a dialéctica. ela só possuirá propriedades corpóreas. como o expomos na "Ontologia" e em outros trabalhos nossos. Nas espécies a comparação por analogia preserva a irreduetibilidade dos elementos. citada no texto. considera a quantidade c a qualidade como categorias irreduetíveis. em nosso esquema da analogia.

estão na presença do se. Daí resulta que qualquer parte da carne não poderá dar nascimento ao (1) Esses filósofos. e. sendo estes conservados. por outro lado. Tal será. o fogo (pois seu substracto é alguma coisa de comum a ura e outro). que professam uma teoria como a de Empédocles. Os filósofos que admitem. por um lado.. alguma coisa de comum a todos os elementos. sem dúvida.20 guinte paradoxo: como. Como então se faz a sua geração? III. de receber logicamente a outra. exceto no sentido em que os tijolos vêm de um muro. sua transformação recíproca. A questão que acabamos de colocar constitui uma dificuldade. portanto. aqueles que rejeitam a geração recíproca dos elementos. Ao contrário. os ossos e qualquer outras homeomérias. Para os filósofos. mas com suas partículas justapostas umas às 30 outras. de uma pluralidade de elementos. (1) II. que admitem. qual será o modo de geração? Será necessariamente para eles uma composição à maneira como é formado de tijolos e pedras um muro. 25 Mas a carne também. Mas o exame dessas dificuldades é obra de 15 uma investigação diferente. em outras palavras. e da água. por um lado. são os pitagóricos e inclusive o próprio Aristóteles. sobrevirão as carnes. dela procede. até para os filósofos que admitem a geração recíproca dos elementos: de que maneira procede desses elementos alguma outra coisa distinta deles? Tomo um exemplo: é possível que do fogo venha a água. também a maneira pela qual a carne e cada uma das outras homeomérias procederão dos elementos. alguma coisa de comum a todos os elementos. se aceitam uma ou outra dessas teses. E a mistura de que falam será constituída pelos elementos. estão na necessidade. Voltemos aos elementos que constituem os corpos. com efeito. a geração de um elemento a partir de um outro elemento tomado individualmente. .TEXTO DE ARISTÓTELES II — 8 I. e também a moela..

mas que o quente é relativamente frio. eles a concebem somente à maneira de que uma pedra ou um tijolo provêm do muro. E já que a geração dos compostos tem por ponto de partida os contrários. e o frio em acto. embora diferentes. sendo a terra contrária ao ar. porque são contrários da terra e da água. e n q u a n t o l e v a d a s à m é d i a p r o d u z e m as carnes. portanto. ao menos para cada uma das duas figuras. em acto. outros que os elem e n t o s . É dessa m a n e i r a e n t ã o que. nesse meio. de toda parte qualquer de carne. que a terra. segundo a definição disjuntiva estabelecida n a p r i m e i r a p a r t e deste t r a b a l h o . n ã o à m a n e i r a da matéria. cada um provindo de um lugar e de uma parte diferente. e o frio relativamente quente (pois sua mistura destrói os excessos recíprocos de frio e de quente). e essas qualidades elementares formam por sua acção e sua paixão recíprocas. E esse intermediário. q u e n t e . eles se t r a n s f o r m a m u m n o outro (e o m e s m o se dá com os outros c o n t r á r i o s ) . todos aqueles que estão no lugar do corpo central. experimentam um certo embaraço em explicar como alguma coisa pode provir da soma de dois elementos. ao contrário. que é preciso um limite definido ao composto e que. é constituída por esses dois elementos e não é nem um nem outro. VIII. mas da maneira que indicamos. n ã o h á n e m frio n e m quente. É da mesma maneira para o ar e para o fogo. mas quando nem um nem outro existe na plena totalidade de seu ser. não tem nenhuma potência de 335a coesão. o outro existirá em potência. A terra e a água estão. que restaria de outro senão identificar o que procede desses dois elementos com sua matéria? Pois a corrupção de um dos dois elementos produz ou o outro ou a matéria? V. para a água. no mesmo tópico. contudo. de tal outro. é m a t é r i a . enquanto que o que é engendrado doutra m a n e i r a . é pelo facto de uma parte. por outro lado. o úmido é o que a torna contínua. nem um nem outro deles. VII. I g u a l m e n t e t a m b é m . 20 25 30 10 15 (2) Tricot comenta o final deste tópico: "Os constituintes das homeomérias são corpos simples enquanto quente. A terra. a m e n o s de ser e m iguais. A m é d i a . pois o q u e n te em acto é frio em potência. e que. no sentido 5 em que é possível que uma substância seja contrária de outra substância. porque cada corpo simples é particularmente e o mais abundantemente em seu lugar próprio. mas um intermediário. de m a n e i r a que. Os filósofos. os elementos são t r a n s f o r m a d o s . terá uma potência de esquentar dupla ou tripla de seu poder de resfriar. o q u e n t e vindo a tomar-se frio. e. e os elementos p r o v i r ã o dos contrários. com efeito. p r o v i r ã o dos contrários. esta se desagregaria. não será nem sua matéria. porque são definidos nos termos da proporção (positiva ou negativa) de sua potência de aquecer a sua potência de resfriar". mas. pois se a água fosse completamente eliminada da terra. o seco e o ú m i d o . q u e n t e em potência. os ossos e o u t r a s h o m e o m é r i a s dessa espécie. sendo úmida. e n q u a n t o esses existem em potência de u m a certa m a n e i r a . e se ela não é ademais uma composição desses elementos. Todos os corpos mistos. q u a n d o for a m r e d u z i d o s a u m a m é d i a . provir indiferentemente de um e de outro pedaço de cera: tal é o modo de geração. única entre os corpos simples. quando. vêm o fogo e a água. Não seria esta a solução? Pois já que há o mais e o menos no quente e no frio. mesmo aqueles para quem é única a matéria dos elementos. contudo. então o que resultará de ambos contrarios. ou antes dos elem e n t o s e n q u a n t o f o r a m c o m b i n a d o s . pois. ou segundo uma outra proporção da mesma natureza. a p a r tir dos elementos. (2) 35 334b 5 V I . por exemplo. mas seria possivel. seco e úmido. Esses intermediários diferem nas diferentes homeomérias. com efeito. é u m a mistura. e que . Este comentário é uma síntese do realizado por Tomás de Aquino. ou do fogo e da terra. Além disso. Se a carne. em segundo lugar. e. quando um existe absolutamente. e o frio. e as q u a l i d a d e s desta n a t u r e za. que seriam conservados. é de g r a n d e extensão n ã o indivisível. contidas nos compostos por essas diversas razões. encontra-se contida em todos os compostos. são contudo comparáveis. do frio e do quente. acham-se na impossibilidade de conceber a geração deste modo. deste modo. conforme fôr em potência mais quente que frio ou vice-versa. são e n g e n d r a d a s as carnes. um quente relativo e um seco relativo. E quando a geração se efectua dessa ú l t i m a m a n e i r a . Assim todos os corpos. os ossos e as o u t r a s h o m e o m é r i a s . enquanto que. tomados em sua enteléquia de uma maneira absoluta. e a água ao fogo. IV. de tal pedaço de cera pode muito bem provir uma esfera. Igualmente. e uma pirâmide. são constituídos de todos os corpos simples. frio. que professam a teoria em questão. e m p r i m e i r o lugar. é 35 ela facilmente delimitável.208 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 209 fogo e à água. os contrários t a m b é m sofrem.

e é 30 preciso acrescentar um terceiro. IX. como as realidades eternas. necessariamente não existem. também. o mundo dos ourania sòmata. é a figura e a forma na matéria. (4) Refere-se à matéria. o número e a natureza de seus princípios. com diferentes tipos de genetá que são as formas específicas. o que é a marca essencial do gera vel e do corruptível. alimentam-se. Agora. necessariamente existem. a figura e a forma consistem nos limites. e impossível às segundas ser. capazes. como receptáculo dos contrários. alimentam-se de substâncias idênticas aos seus elementos constitutivos. no sentido da causa material.35 sas. enquanto outras. todos os corpos simples estão contidos. é fácil. é e não é. e ora não é. uma vez que estamos de posse de uma teoria universal. E para essas duas espécies de coi. TEXTO DE ARISTÓTELES II — 9 I. o fogo é o único a alimentar a si mesmo. compreender por que. E toda 20 coisa tende naturalmente a colocar-se em seu lugar próprio.10 iia. como as plantas pela água. os seres que se poderiam julgar alimentados por uma só substância. as quais são melhor compreendidos quando é compreendido o universal. na verdade. com efeito. (1) devemos explicar. pois nos será assim mais fácil compreender as espécies particulares. que deve. de diversas. é o que se acaba de explicar. (3) Refere-se à causa eficiente. é impossível às primeiras não ser. sozinho ou principalmente. 15 X. existem outras coisas. portanto. surge da forma pelo facto que tende naturalmente a pôr-se no limite. É que o fogo. e muito menos ainda as realidades eternas. todos os corpos compostos sejam constituídos de todos os corpos simples. (2) II. a causa dos seres generáveis é o que pode ao mesmo tempo ser e não ser (certas coisas. estar presente. em todo composto. com toda necessidade contêm t a m b é m a outra. no sentido da causa material. Tal é ademais a razão pela qual os agricultores se esforçam de não regar senão depois de ter misturado a água. Dai resulta que. Assim esses princípios são iguais em número e idênticos pelos gêneros. . Já que o alimento sobrevém da matéria e que o que é alimentado. (3) pois os dois primeiros não são suficientes para explicar a geração. por sua vez. e todos se alimentam de diversas substâncias. (2) A gênesis como tal é um universal (katholon). com efeito. tal é a (1) Refere-se ao mundo sub-lunar. em favor de nossa teo. Ao contrário. parece. pelo facto de elas não poderem se 335b afastar da necessidade da sua natureza. Daí resulta necessariamente que há geração e corrupção para o que pode ao mesmo tempo ser e não ser. Da mesma maneira.210 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES todos os compostos contêm u m a das d u a s conjugações e x t r e m a s de contrários. Com efeito. Já que existem seres generáveis e corruptíveis e que a geração se encontra de facto na região 25 central do Universo. A alimentação de cada um dos compostos testemunha também. aos princípios das realidades eternas e primordiais. Que. pois ora é. (4) 5 E eis por que. que. indiferentemente para qualquer geração. há um princípio como matéria. já que todo corpo simples vem de outro. mas para todas as coisas. um outro como forma. como nossos predecessores o reconheceram igualmente. desde então. pois se realiza apenas num dos contrários. de ser e de não ser). Todos os compostos. a qual explica a geração dos corpos. pois a terra foi misturada com a água.

a teoria desses filósofos não é. por essa razão. A matéria de per si não se move à geração. (7) X.212 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 2I:Í causa das coisas geráveis. enquanto mover e actuar surgem de outra potência. Por outra parte. as Formas (eidê). outros seres naturais e nos produtos da arte. Os filósofos. Outrossim. e a ciência. VIII. conferem aos corpos simples as potências por 336a meio das quais se opera a geração. o conjunto de seus atributos essenciais. a natureza (natura) da coisa. a forma. viram-se obrigados a dar aos elementos^ o papel prepodenrante. Assim. em sua doutrina. Sócrates. já que as Formas são eternas. tanto para as coisas que procedem da arte como para aquelas que procedem da natureza. porque a forma é anterior ao composto. percebemos que a causa é outra que a Forma. enquanto tal. ao contrário. cap. com efeito.15 sulta. é da natureza do quente separar. E os que afirmam o contrário. se essas doutrinas são verdadeiras. sintetiza-os Tricot com esta nota: "Sobre a importância da forma e da quididade. supõe. no sentido de causa final. é da natureza da matéria so. V. por oulra parte. VII. erram. que é o gênero. é sua figura e sua forma. . e não é tampouco a madeira que faz um leito. o que faz nascer o movimento. Daí re. aquele que todos os nossos predeccssorcs entreviram como em sonho. que. são necessariamente causa da geração e da corrupção. pois é dela que procede o movimento. nenhuma dessa duas teorias é fundada. de uma parte. (VI. 1). e da do frio reunir. enquanto de uma coisa se diz que existe em virtude da Forma. Ademais. e as coisas participáveis. deve-se ver os numerosos textos da Metafísica. ao exagerar-lhes o papel de instrumentos. com efeito. é a quididade (quiãditas). (6) Isso é evidente. Na realidade. como causa da geração. com efeito. em alguns casos. da qual os corpos simples ou elementos são apenas instrumentos. uns julgavam suficiente. (7) Compendiando os comentários de Bonitz. to ti en enai tem pois menos extensão que to ti esti. por sua vez. E anota ainda: O perfeito en se explica. Ao contrário. É imprescindível uma causa eficiente. IX. embora a Saúde-em-si e a Ciência-em-si existam. (6) Não provém o movimento da matéria. A matéria é dynamis em sentido passivo. que explicam a geração e a corrupção do restante.30 frer e ser movida. que rião consideraram a forma. é passiva. e que perece quando ela a perde. mas que nenhum o estabeleceu. explica-nos o por que dos erros de suas doutrinas. dizer que a matéria é a causa geratriz em razão de seu movimento. (8) Dado. fazendo abstracção da causa formal. eles erraram também por 35 negligenciar uma causa mais fundamental. explica Tomás de Aquino (De ente et Essentia. Pois não é água em si mesmo que dela produz um animal. pois. sofre uma ação. 8. Mas é preciso além disso a presença do terceiro princípio. que expressa a substância de cada uma delas. em vez de fazê-lo em certos momentos e não em outros. (5) e em toda parte estamos habituados a olhar como causa produtora. seria sem 25 dúvida mais adequado ao real que a teoria precedentemente criticada. porque a matéria. é o médico que a realiza. III. porque não engendram sempre e de uma maneira contínua. se diz que é ela engendrada enquanto participa da Forma.) To ti en einai é o que dá o ser a alguma coisa (quod quid erat esse) quer dizer. indiferentemente em (5) É mais importante o movimento que as Formas para a ge ração. que os seres são. e de cada uma permanece contrário 5 ou actuar ou sofrer. 10 assim como procede Sócrates no " Phedon" . Bem ao contrário. tanto quanto os seres que delas participam. que as Formas. mas com essa diferença que ela é quididade de um iode ti. Com efeito. pois é aquele que faz nascer a coisa. as Formas são causas. por parte de tais filósofos. e por sua acção. enquanto o katholon é a unidade de uma multiplicidade qualquer. A saúde. fundada. o sábio. Contudo. parece que até o fogo ao ser movido. no pensamento de Sócrates. de um ser individual e concreto. é a definição total da coisa. eternas também? 20 VI. etc. com efeito. Contudo essa segunda teoria não é tampouco justa. depois de ter reprovado aos outros filósofos de não terem contribuído com nenhuma explicação. é a partir desses contrários. (8) É a forma o principal factor da geração. A quididade aproxima-se do universal (katholon). é a arte (tékhne). O mesmo se dá também com todas as outras coisas que são produzidas segundo uma potência. A causa alterante e modificadora da figura é mais verdadeiramente causa para engendrar. pois que rejeitam a quididade e a forma. as coisas que participam das Formas. e que. a natureza das Formas. Se. Em suma. Este esquecimento. IV. hoc per quod aliquid habet esse quid (o algo pelo qual tem ser o quid). outros filósofos dizem que esse princípio é a matéria. a qual é a definição.

não é possível. ora a geração. que para o não-ser ser a causa da geração do Ser. expõe Aristóteles a sua causas que já sintetizamos. muito mais racional para o 20 Ser ser a causa da geração do não-ser. necessariamente. II. (1) Ademais. a mesma causa. a causa das coisas produzidas. Mas é preciso que os movimentos sejam múltiplos. O engendrado não é. se a transladação é uma. apresentamos uma teoria geral das causas num trabalho precedente. eis por que também a transladação é anterior à geração. (2) e o engendrado não é. Conseqüentemente. III. produz sempre o mesmo efeito. até quando fosse verdadeiro que o fogo actua e move. na maneira como move. e não uma única causa. a madeira.30 (1) Na "Física". (3) Refere-se à geração e à corrupção que. a um e a outro processo ao mesmo tempo de se efectuar. transladação e não geração. e a cada um dos instrumentos do carpinteiro. Ao mesmo tempo. já que mostramos que o movimento 15 de transladação é eterno. esses filósofos não se apercebem que é ainda inferior aos instrumentos. teoria das esse é que a caminho contrárias. E já que foi suposta e provada a continuidade nas coisas. É. ela se divide. e agora acabamos de explicar nosso pensamento sobre a matéria e a forma. por ser imperfeito e do seu princípio. e é transportado. de maneira que. IV. esse seria.214 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES XI. (2) Todo movimento é o movimento de um corpo. da geração e da corrupção. o transportado é. quando. 3 — 9. . II. e quando a aplainamos torna-se lisa. por natureza. e o mesmo se observa quanto a todos os outros instrumentos. Ora. surge daí necessariamente do que já estabelecemos que a geração é também contínua. a transladação eterna produzirá a geração de uma maneira ininterrupta. Com efeito. é claro que tínhamos razão. com efeito. ora a corrupção que se produziria sempre. Além disso. 10 TEXTO DE ARISTÓTELES II — 10 I. é manifesto que. pois que são contrários (3). porque ela faz o gerador aproximar-se e afastar-se alternativamente. num trabalho anterior. e tam. No que concerne à nossa própria tese. pois. pois. e que 25 professamos que a transladação é a causa do devir. por serem exigem causas diversas. de um único movimento. contudo. procedem mais ou menos como se assinalássemos à serra. chamamos a primeira espécie de mudança. quando a cortamos. permanecendo no mesmo estado.

De forma que se êle engendra por sua aproximação e sua proximidade. Eis por que todas as 20 25 30 35 337a (4) Expõe até aqui Aristóteles a suas idéias cosmológicas sobre o movimento dos planetas. O movimento do sol. mas também uma dualidade de movimento. todas as coisas. e à eternidade desse movimento a causa da perpetuidade da geração. número pelo qual nós os distinguimos. necessariamente suas gerações também são irregulares. para impedir que uma das duas mudanças se produza sozinha. que é o período que serve de medida. do sol. pois assim o encadeamento mais rigoroso possível seria assegurado à existência. (5) E essa continuidade é racionalmente justificada. mas devido à sua inclinação sobre a eclíptica. sucede muitas vezes que os seres perecem num tempo mais curto. A observação sensível está. corrompe também por numerosos afastamentos sucessivos. A causa dessa perpetuidade da geração. estão contidos. realiza. seu movimento será irregular. em todas as coisas. não somente a continui. não são medidas pelo mesmo período. e a cor- rupção. quer pelo sentido de sua transladação. é. (5) Refere-se à causa material. pois só ela é contínua. (Reconhecemos. para outras mais longo. enfim. e nunca elas faltam. mas o movimento de aproximação e de afastamento de tal corpo tem por causa a inclinação da Eclíptica. também sucessivos. se ao menos se quer que haja sempre continuidade na geração e 336b na corrupção. e que uma e outra se passam num tempo igual. como dissemos muitas vezes. E tal é a razão pela qual não é a primeira transladação que é causa da geração e da corrupção. contrários ao da transladação e possivelmente de velocidade irregular. ora se aproxime. é um movimento circular. (8) Também é de outra maneira que Deus realizou a perfeição do Universo: foi fazendo a geração ininterrupta. pelo facto de que o que mais se aproxima do ser eterno é que a própria geração sempre se refaça. pois nesse movimento. para outras. Ora. e movido com uma dualidade do movimento. ao longo da eclíptica. sendo desigual a sua 5 distância. a continuidade desse movimento tem por causa a transladação de todo o Céu. há uma ordem. Eis por que também as durações e as vidas das diferentes espécies de seres vivos têm um número. sentidos múltiplos. e. pois efeitos contrários têm contrários como causas. . de acordo com nossas teorias. para outras um tempo mais longo. quer por sua irregularidade. Atribui ao movimento de transladação a causa da geração. seriam a causa da geração ou da corrupção. para ainda outras. êle é mais curto. (8) Deus. já o explicamos em outra parte) mas o ser (7) não pode pertencer a todas as coisas por que elas estão muito afastadas do seu Princípio. VIII. (6) Deus. movimentos parciais. o movimento não pode ser único. para umas. pois. pelo facto que a geração irregular dessas coisas é a corrupção das outras. Sua matéria. Assim vemos que a geração acompanha a aproximação do sol. é um ano. no entanto. Tais movimentos parciais. Com efeito. ao longo da Eclíptica. acima de tudo. outras demasiadamente lentas.35 dade indispensável. dizemos. a transladação circular. (7) Ser absoluto. ora se afaste. pois são iguais as durações da corrupção e da geração naturais. Em razão da alternância da gênesis e da phtorá. no ser. umas demasiadamente rápidas. V. em razão da implicação recíproca das coisas que são engendradas e das que perecem. para todas as coisas. e se êle engendra por numerosas aproximações sucessivas. que haja um corpo sempre movido. mas o movimento do Sol. VII. Contudo. VI. e a corrupção como a geração naturais sucedem num tempo 10 igual. a natureza tende sempre para o melhor. É necessário. pois os efeitos contrários tem contrários por causas. e toda vida e toda duração é medida por um período. pois essa inclinação impele como conseqüência que o corpo. sem dúvida. no que se refere à vegetação. daí resulta o que acabamos de dizer. mas múltiplo. a geração e a corrupção serão contínuas. em razão da causa que estabelecemos. Os organismos são engendrados e conhecem a maturidade por uma série de aproximações sucessivas do sol e distinguem-se por uma série de afastamentos. como dissemos. por seu afastamento e sua retirada. Sempre. um tempo 15 mais curto. com efeito. esse mesmo corpo corrompe. (4) seu afastamento. sendo irregular e não sendo em toda parte a mesma. Assim a renovação na primavera e no verão e o declínio no outono e no inverno. com efeito. (6) e é melhor ser do que não ser.216 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 217 bém contrários. para evitar um desfalecimento dessas mudanças.

se se quer que haja movimento. há muito tempo ter-se-iam afastado um do outro. uns dos outros. 5 10 mo nós o determinamos em nossas discussões no ini. tais como os corpos simples. é.218 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 21!) outras coisas que se transformam. numerus numerans (ô arithmoumen). e que o fogo se muda por sua vez em água. afastados. assim. com efeito. sendo o tempo contínuo. imitam a transladação circular. ingenerável e inalterável. Mas o movimento será contínuo em razão da continuidade do modo ou então da continuidade do em que o movimento se produz. eis que resulta manifestamente do que dissemos. pois é impossível que o tempo esteja separado do movimento. por isso é o número do movimento. 15 20 (10) O tempo é um número do movimento. um "pathos" do movimento. quero dizer. de tal forma que êle permanece consigo mesmo sempre contínuo. o que é movido circularmente é somente contínuo. IX. Além disso. que o movimento seja eterno. imóvil. pois. por outra parte. e. do movimento circular. o lugar ou a qualidade? É claro que é em razão da continuidade do móvel. o ar em fogo. mas todas devem. Daí resulta também que a transladação rectilínea não é contínua senão por imitação do movimento circular. geração e corrupção. suas causa devem ser múltiplas. Que haja. assim co(9) Passando pelo ar. na infinidade do tempo. reciprocamente. Com efeito. Sua transformação faz-se. e qual é o sujeito engedrado e corrompido. se se quer. portanto. um movimento é necessariamente contínuo. sendo dado que cada um deles se coloca em seu lugar próprio. um número de algum movimento contínuo. Como. não estão. Ao mesmo tempo essas considerações esclarecem um problema que embaraça a alguns filósofos. porque ela retorna ao seu ponto de partida. se os movimentos circulares são múltiplos. estar subordinadas a um princípio único. pois êle possui uma certa grandeza. a qualidade poderia ser contínua de outra maneira que não fosse pela continuidade da coisa à qual ela pertence? E se a continuidade do movimento se explica pela continuidade do em que o movimento se produz. deve haver aí alguma causa motriz eterna. (9) dizemos que a geração fechou o ciclo.5 cio. A causa está em sua transformação recíproca. Mas como número é um numerus numeratus (to arithmoménon) e não um número numerante. No tempo. Nas análises que fizemos até aqui já esclarecemos esses conceitos. corpos 30 contínuos em movimento. por qual causa. de qualquer maneira. graças à transladação visualizada em sua dualidade. há sempre um antes e um depois. Mas há necessariamente alguma causa motriz. e seu movimento torna o tempo contínuo. sem dúvida. umas em outras. (10) X. Se. O tempo.2. . uma causa uma e idêntica. por conseqüência. a saber porque os corpos simples. se se quer que seja contínuo. com efeito cada um deles permanecesse em seu lugar próprio e não se transformasse sob a ação do elemento vizinho. quando a água se muda em ar. em virtude de suas afeições e suas potências. E esta transformação faz que nenhum dentre eles possa permanecer em nenhum dos lugares que lhe foram assinalados. enfim. assim como explicamos anteriormente em outras obras. Tal é pois o que produz o movimento contínuo: é o corpo transportado circularmente. Mas. tal é verdadeiro somente do lugar que o contém.

TEXTO DE ARISTÓTELES II — 11
I. Já que nas coisas que se movem de maneira contínua na ordem da geração, ou da alteração, ou da mudança em geral, vemos que há continuidade, e que tal engendrado venha após tal outro, sem deixar intervalos, convém examinar se um qualquer dos termos da série será necessariamente, ou se não é nada, bem como se todos podem não ser engendrados. II. Pois, que alguns tenham essa possibilidade, é evidente, e imediatamente se vê que há diferença entre o "será" (to estai) e o "devendo ser" (to mellou). Se é verdade, com efeito, dizer de tal coisa que ela será, deve, num dado momento, também ser verdadeiro que ela é; enquanto que, se é verdadeiro dizer dessa coisa agora que ela sucederá, nada impede que ela não se produza: pois quem deve caminhar poderia contudo não caminhar. III. E, por outra parte, de uma maneira geral, já que certas coisas que são, são também capazes de não ser, é evidente que assim será igualmente para elas, quando elas são engendradas; em outras palavras, sua geração não será necessária. Será pois que todas as coisas são assim contingentes? IV. Ou, ao contrário, não é tal, mas é absolutamente necessário, para certas coisas, serem engendradas, e, da mesma forma que, no domínio do ser, distingue-se o que não pode não ser e o que pode não ser, deve-se também fazer uma distinção da mesma natureza no domínio da geração? Por exemplo, é necessário que os solstícios se produzam e não será possível que eles não se produzam? V. Entretanto, devemos admitir que o antecedente foi necessariamente produzido, se se quer que o conseqüente exista. Por exemplo, se é uma casa, alicerces, e se são alicerces, a argamassa. Será pois inversamente que, se os alicerces estão feitos, a pro35 337b

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dução da casa é necessária? Ou então não haverá nada, (1) a menos que o conseqüente também não se tenha produzido, em virtude de uma necessidade absoluta. (2) Se é assim, é necessário igualmente que, sendo feitos os alicerces, a casa seja produzida, pois o antecedente está, dissemos, com o conseqüente numa relação tal que, se se quer que esse último seja, necessariamente o primeiro é produzido antes. Se, portanto, é necessário que o conseqüente seja produzido, o antecedente também deve necessária- 20 mente ter sido; e se o antecedente foi produzido, o conseqüente também é produzido necessariamente, não contudo por causa do antecedente, mas porque, por hipótese, êle iria ser produzido necessariamente. Nos casos, pois, em que o conseqüente existe necessariamente, há conversão dos termos, e sempre a produção do antecedente leva à produção do conseqüente.

TEXTO DE ARISTÓTELES II — 12
I. Se agora, há processo ao infinito em decen- 25 so (1) não haverá para tal termo posterior ao presente, producção em virtude de uma necessidade absoluta: essa necessidade será apenas hipotética. II. Será, com efeito, indefinidamente necessário que um outro termo seja produzido antes desse conseqüente determniado, para fundar a necessidade da geração desse último. Daí resulta que, já que não há ponto de partida para o que é infinito, não haverá também nenhum termo primeiro para fundar a necessidade da produção dos outros termos. III. Mas, até no que concerne aos termos de 30 uma série finita, não será possível dizer com verdade que um desses termos é produzido de uma maneira absolutamente necessária; por ex.: a casa, quando estão feitos os alicerces. Com efeito, quando eles estão feitos, a menos que não haja necessidade eterna para a casa ser produzida, a conseqüência seria que sempre existe uma coisa que pode não ser sempre. Na realidade, é preciso que a coisa esteja sempre em sua geração, se sua geração é necessà- 35 riamente. (2)
(1) Na direção do futuro, há naturalmente efeitos ad infinitum. Aristóteles visualiza-os, de início, numa sucessão retílinea infinita. Estabelece que cada conseqüente desta série, é necessário somente ex hypotheseos, em outras palavras, é condicionado pela chegada do termo imediatamente subseqüente (e não do termo precedente). Por ex.: na ordem cronológica, os termos A, B, C, D , . . . Z. Suponhamos A o momento presente, e Z situado no infinito, a chegada de C, por ex., será condicionada pela de D, a de D, pela de E, etc. Não há, pois, uma necessidade absoluta. Aristóteles chama a atenção que o "termo primeiro" (Z, no nosso ex.), que comandaria a existência dos termos precedentes a título de fim, não pode existir, porque, numa série infinita, não há termo primeiro. (Tricot) (2) Assim como o ser necessário é eterno, uma geração necessária é também eterna. Nesse caso, a coisa estaria sempre em geração, o que é absurdo quanto à casa. A geração necessária é a geração simpliciter, que estudamos no princípio.

(1) Em outras palavras, não há reciprocidade. O conseqüente não é necessário por relação ao antecedente posto, e o antecedente não é necessário, senão ex hypotheseos, quando sa colocou a existência do conseqüente. (Tricot). (2) Se o conseqüente é absolutamente necessário, êle leva por isso mesmo à aceitação necessária do antecedente, pois não pode produzir-se ex nihilo. Há então reciprocidade entre a produção do conseqüente e a do antecedente.

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IV. Pois o que é necessariamente é também, ao mesmo tempo, o que é sempre, pois o que é necessário não pode ser. Daí resulta que, se uma coisa existe necessariamente, ela é eterna, e se ela é eterna, ela existe necessariamente. E, por conseqüência, se a geração de uma coisa é necessária, sua geração é eterna, e se ela é eterna, ela é necessária. V. Se, pois, a geração de alguma coisa é absolutamente necessária, necessariamente é ela circular e retorna ao seu ponto de partida. VI. Necessariamente, com efeito, ou há um limite para a geração ou não há, e se não há, a geração é ou retilínea ou circular. Nesta última alternativa, se se quer que a geração seja eterna, não é possível que ela seja retilínea, em razão do facto de não poder haver aí nenhum ponto de partida (que os termos sejam tomados em descenso, quer dizer, como acontecimentos futuros, ou em ascensão como acontecimentos passados). Contudo, a geração deve ter um princípio se se quer que ela seja necessária, e conseqüentemente eterna, e se ela é limitada, ela não pode ser eterna. VII. Em conseqüência, a geração é necessariamente circular. Conseqüentemente, haverá necessariamente conversão: por ex.: se tal coisa é necessária, seu antecedente também é, portanto, necessário e, inversamente, se o antecedente é necessário, o conseqüente também se produz. E esse encadeamento recíproco será eternamente contínuo, pois não importa absolutamente que raciocinemos através de dois ou diversos termos. VIII. É, pois, no movimento e nas gerações circulares que se encontra a necessidade absoluta. Noutras palavras, se a geração de certas coisas é circular, é necessariamente que cada uma delas seja engendrada e foi engendrada, e se há necessidade, sua geração é circular. Esses resultados concordam logicamente com a eternidade do movimento circular, quer dizer, com o movimento do Céu (facto que, além disso, é evidente de uma outra maneira), pois esses movimentos, que pertencem a essa revolução eterna e que dela dependem, são produzidos necessariamente e necessariamente existirão. Se, com efeito, o corpo movido circularmente move sempre alguma coisa, é necessário que o movimento das coisas que move seja também circular.

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IV. É assim que da existência da transladação superior, segue-se que o Sol é movido circularmente de maneira determinada, e já que o Sol cumpre, assim, sua revolução, as estações, por essa razão, têm uma geração circular e retornam sobre si mesmas; e já que elas têm uma geração circular, dá-se o mesmo, por sua vez, para as coisas que dela dependem. 5 X. Por que então certas coisas são manifestamente engendradas dessa maneira circular, (tais como as chuvas e o ar, de tal forma que, se há uma nuvem, deve chover, e, inversamente, se chove deve haver uma nuvem), enquanto que os homens e os animais não retornam, por assim dizer, sobre si mesmos, nesse sentido que o mesmo indivíduo seria engendrado de novo? Com efeito, não é necessário, se teu pai foi engendrado, que tu sejas engendrado, 10 embora, se tu fosses engendrado, teu pai deve também tê-lo sido. Ao contrario, essa última geração parece ser retilínea. O princípio dessa nova busca, deve ser o seguinte: será de uma maneira semelhante que todos os seres retornam ao seu ponto de partida? Ou então não é nada disso, mas ao contrário, não se trata, ora de uma identidade numérica, ora de uma simples identidade específica? Então para as coisas, cuja substância, a que é movida, é incor- 15 ruptível, (3) é evidente que elas serão idênticas também em número (pois o movimento é correlativo ao movido) (4); ao contrário, para aquelas cuja substância não é incorruptível, mas corruptível, necessariamente seu retorno sobre si mesmas conservará a identidade específica, não, porém, a identidade numérica. Eis porque a água, que vem do ar, e o ar, da água, são idênticos especificamente e não numericamente; e mesmo que esses elementos também fossem idênticos em número, (5) de toda maneira não seriam nada para as coisas, cuja substância é engendrada, e que é de uma natureza tal que ela está em potência de não-ser.

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(3) Refere-se aos corpos celestes. A sua substância pertence ao indivíduo único de uma espécie. (4) J á vimos que o movimento é um "pathos" do corpo movidoe o seu caracter é determinado pelo caracter do móvel. (5) Esta é a opinião de Empédócles.

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