Aristóteles e as Mnlaçoes

Programa editorial da Livraria e Editora LOGOS
"ENCICLOPÉDIA DAS CIÊNCIAS FILOSÓFICAS E SOCIAIS" — De Mário Ferreira dos Santos. Volumes publicados: "Filosofia e Cosmovisão" — 2.a ed. "Psicologia" "Lógica e Dialéctica" "Teoria do Conhecimento" "Ontologia e Cosmologia". No Prelo: "Tratado de Simbólica" "Filosofia da Crise" COLEÇÃO TEXTOS FILOSÓFICOS — Sob a direcção de Mário F e r reira dos Santos. "Aristóteles e as Mutações" — Com texto reexposto e comentários de Mário Ferreira dos Santos. A sair: Obras completas de Aristóteles Obras completas de Platão Acompanhadas de comentários e notas. OS GRANDES LIVROS: "Don Quixote de Ia Mancha", de Miguel de Cervantes — Ed. ilustrada com as gravuras de Gustave Doré. A sair: "Paraíso Perdido", Gustave Doré. de Milton — Ilustrado com as gravuras de

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"ENCICLOPÉDIA DAS CIÊNCIAS FILOSÓFICAS E SOCIAIS" — De Mário Ferreira dos Santos. Volumes publicados: "Filosofia e Cosmovisão" — 2. a ed. "Psicologia" "Lógica e Dialéctica" "Teoria do Conhecimento" "Ontologia e Cosmologia". No Prelo: "Tratado de Simbólica" "Filosofia da Crise" COLEÇÃO TEXTOS FILOSÓFICOS — Sob a direcção de Mário F e r reira dos Santos. "Aristóteles e as Mutações" — Com texto reexposto e comentários de Mário Ferreira dos Santos. A sair: Obras completas de Aristóteles Obras completas de Platão Acompanhadas de comentários e notas. OS GRANDES LIVROS: "Don Quixote de Ia Mancha", de Miguel de Cervantes — Ed. ilustrada com as gravuras de Gustave Doré. A sair: "Paraíso Perdido", Gustave Doré. de Milton — Ilustrado com as gravuras de

(Com o pseudônimo de Dan Anderson) . com ensaio Introductório — Esgotada. com reexposição. Técnica do Discurso Moderno. acompa- nhado de notas explicativas e analíticas. Tratado de Economia — edição mimeografada — Esgotada. Axiologia (A Ciência dos Valores). Ontologia e Cosmologia (As ciências do Ser e do Cosmos). Curso de Oratória e Retórica — 3. de Nietzsche — Esgotada. Temática e Problemática das Ciências Sociais. Antropologia Cultural. — Temas nietzscheanos. Hegel e a Dialéctica. Aristóteles e as Mutações — Reexposição analítieo-didáctica do texto aristotélico. Tratado de Simbólica. PAULO 1955 . As três críticas de Kant. f^ COLEÇÃO DE TEXTOS FILOSÓFICOS Aristóteles e as Mutações ("DA GERAÇÃO E DA CORRUPÇÃO DAS COISAS FÍSICAS") • • • • Texto. No prelo: Assim Deus Falou aos Homens — Coletâneas dos trabalhos publicados com pseudônimo de Mahdi Fezzan. Psicogênese e Noogênese. Análise Dialéctica do Marxismo. acompanhada da crítica dos seus mais famosos cnmentadores. Dicionário de Filosofia. Se n Esfinge F a l a s s e .Ç-1— LIVRARIA E EDITORA LO Q O S S. Psicologia. a edição. Diário íntimo — de Amiel. Além do Bem e do Mal. A Publicar: © © © © © © © © © © © © © © © © • • • • • "O Homem perante o Infinito". Filosofia e História da Cultura. Noologia Geral. Sociologia Fundamental. Traduções: Vontade de Potência. Curso de Integração Pessoal.ógica e Dialéctica (Incluindo a Decadialéctica) — Esgotada. Saudação ao Mundo — de Walt Whitman.a edição. O Homem que Nasceu Póstumo. Lógica e Dialéctica (incluindo "Decadialéctica") — 2. I. com texto explicado e análise simbólica.a ed.OBRAS DE MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS • • • • • • • • • • • • • • • • Publicadas: Filosofia o Cosmovisão — 2. Psicologia Social. . Teoria do Conhecimento (Gnoseologia e Criteriologia). A Filosofia da Crise. O Homem que foi um Campo de Batalha — prólogo de "Vontade de Potência" de Nietzsche — Esgotada. ^ Teoria Geral das Tensões. Realidade do Homem — Com o pseudônimo de Dan Anderson. Aurora. . de Nietzsche. Tratado Decadialéctico de Econom-a (reedição "Tratado de Economia"). Temática e Problemática Filosóficas.Esgotada. de Nietzsche. Ética. Assim Falava Zaratustra — De Nietzsche. por \ í MÁRIO FERREIRA DOS SAtyPOS >J y &»**£j£i&feí í^stuc* sawfc ampliada do I ^ d a ÀJ.

de Mário Ferreira dos Santos TEXTO DE ARISTÓTELES Livro II — Com comentários Bibliografia II MU 1 M M H BÍPLIOTECA MUNICIPAL TW. Bento Munhoz ria ocha \etto j-lo^l ~j | ai/o"*/»? TODOS OS DIREITOS RESERVADOS . de Aristóteles sobre temas físicos A geração e a corrupção na filosofia grega TEXTO DE ARISTÓTELES Livro I — Com comentários Comentários especiais ao Livro I.l. a edição: abril de 1955 ÍNDICE Introducção — de Mário Ferreira dos Santos Sinopse de alguns conceitos fundamentais.

Todo o resultado é uma transüividade. seguindo a posição de Suarez. há sempre o apontar da acção da mente (mens. Em todo movimento há a actualização de uma possibilidade. Esse de aumentativo. A formação do esquema da dimensão é importante para a compreensão de muitos aspectos do movimento. e como o acto é a perfeição da potência. em cada momento de transitividade há sempre um ultrapassar. Se o reduzirmos à filosofia. que revela a passagem de um modo de ser para outro. porque transita do que era antes da operação. que passa de um modo para outro. que actua sempre por acomodação dos esquemas aos factos do mundo exterior ou aos pensamentos. o qual é aposterioristicamente construído pelo homem (post rem). Nessa dimensio ou demensio do latim. podemos dizer. Se estudarmos etimològicamente o conceito de dimensão. reforçador. Também é um resultado o dimensional. Esta revela a perfectibilização da potência: o acto. e por conseqüência. e tudo o que é dimensional implica movimento.INTRODUÇÃO A visão não apanha o movimento. permitiu ao homem captar o seu nexo. medida. revela-nos que a mente. que é uma nova qualificação do ser. captação pensamental do acto de pensar ao comparar pensamentos uns com os outros). mentis. mostra-nos que o movimento e a dimensão são apenas modais. mas sim uma forma em movimento. Também todo movimento é transitividade. alcançaremos a sua raiz. O estudo das modais. para o que é após a operação. deste corpo é algo que é distinto dele. que cabe à Ontologia. mas que é absolutamente inseparável dele. fundado na sua experiência. O movimento. mas um resultado. mensura. realiza a assimilação pela "assemelhação" do intencionalmente captado com o esquema. . O movimento é uma modal da acção transitiva. A disposição das partes em ordem a um todo. que o movimento é uma modal. modalidades das coisas. Não é o movimento algo primário e original. também intencional.

e não actual. Daí. examinemos previamente as medidas. pág. E como modal também o é a dimensão não tópica. AS MEDIDAS Medir é uma ação que consiste em dar um valor numérico a uni objecío pelo número de vezes que contenha a unidade empregada. dimensões extrínsecas às espaciais. que cabe à Noologia estudar. d) a unidade individual. mas metafisieamente separáveis pela construção dos esquemas noéticos que lhes correspondem. temos as medidas quantitativas. Medem-se homogeneidades. subsistente de per si. e vê-se quantas vezes a primeira contém a segunda. e a captação da relação das parles com um lodo. mas a profundidade cm função de esta ou aquela coisa. é a medida dos valores (escalaridade dos valores. Mas quando se trata de qualidades. captadas pelo sciisório-molriz e estruturadas em esquemas abstraclonoélicos pela mente (abstração do quantitativo). Não se dá a profundidade como lal. com um metro (uma extensão menor. mas digo que é mais ou menos verde. Meço este quarteirão. comparadas. que em muito nos auxiliará a obter a melhor compreensão do texto aristotélico. A medida. a unidade quantitativa é um minimum. em plena dimensionalidadc qualitativa. As qualitativas são intensistas. às do volume. . (como perfeição de sua hierarquia). uolumcn. que é ideal. a medida já não é uma unidade menor. como as qualitativas. e se é mais ou menos que outra. termos as dimensões tópicas (essa dimensão que se extende localiter. como a medida quantitativa. fcslc é o caracter modal da dimensão das coisas exteriores. inseparáveis desses. as qualitativas. portanto. é a medida da quantidade. Em suma: A medida é o que nos faz conhecer se uma coisa é maior ou menor. no qualitativo. postas de par cm par) e que fundam os esquemas das três dimensões do espaço. reduzindo sua extensão (homogeneamente considerada). afirmando uma deficiência. a unidade qualitativa é um perfeito. b) a qualidade. c) o valor. e. que é mensurável e não medível. a comparação. como se procede na medida da extensão por uma extensão. já lautas vezes estudados por nós. que é revelada pela ubiquação das coisas do mundo cxlerior. K há outras dimensões. As dimensões do espaço são modais dos corpos. "O espírito mede as quantidades por adição. que a seguir reproduzimos. apesar de tratado em linhas gerais. aqui. portanto. já é um princípio de conhecimento. como máximum. não digo que êle tem dois ou três unidades de verde. Estas palavras. homogeneamente considerada). portanto por um maximum e não por um minimum. mede-se o menor pelo maior Se quero medir este verde. que a dimensão implica a medida (mrnsiira) e a ação da mente em comparar pensamenlos captados com pensamentos estruturados em esquemas abslraclo-noélicos. que serve de termo da comparação. como acontece com todas as perfeições. Quando se trata da extensidade. sem delas se separar em absoluto. 0 espírito mede a qualidade por "composição". com um ser subsistente de per si. Compara-se esta extensão com uma extensão menor. (como minimum). Estamos.12 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 13 Formado o esquema de ordem. pois nelas predominam os graus. apenas como tal. As qualidades são medidas pelas suas perfeições. vè-se. como na qualitativa. As dimensões. Sintetizando: a) A medida extensiva. as axiológicas e as íensionais. facilmente se é levado ao serial e à formação do concedo de dimensão. implicam a ordem das parles com o todo. comparando-o com o verde perfeito. implica o homogêneo ao medido. A medida quantitativa realiza-se por um melron. Dessa forma. um maximum" (Isaye. vê-se desde logo. portanto. perfeita em sua série (como maximum. o que tanto na ordem quantitativa. com perseidade. sem que lhes caiba um conteúdo fáctico. é a medida da intensidade. das quais participamos. porque essa é divisibilidade. embora parcial. e abstractamente considerada. islo é. Mas. unindo a um elemento de ordem actual um elemento de ordem potencial. abstractamente considerada e despojada da sua heterogeneidade. Para justificar a nossa lese. meramente exlensistas. que surgem como esquemas abslraclo-noélicos da comparação das medidas qualitativas pela comparação dos aspectos qualitativos. é tomada qualitativamente e não quantitativamente. mais ou menos). como medida da tensão. (as quantitativas). a mensura externa. do qual lenho uma posse virtual. e são modalidades das coisas. dão clareza ao pensamento exposto até aqui. enquanto considerada apenas como quantidade (homogênea). que já é sensivelmente conslruido pela ordenação das coisas no mundo exterior. portanto. portanto). 38). Mede-se o maior pelo menor.

infinito e perfeito da essência ontológica. também há nela um pelo qual ela é macieira e não outra coisa. aparentemente fantasioso para o ignorante de tais assuntos. na sua perteiçao extensista e d e t i n i U V a n i e n t e a c a b a d a > como a relaçao entre o diâmetro e a c ^ c u n f e r ê n c i ou a hipotenusa e o quadrado. s e u limite. os arühmoi harmonikoi s a o s e m p r e inde_ fimdos. é a idéia exemplar ontológica (e um teólogo poderia dizer teológica. um esquema concreto. em tantos lugares e tão distantes. que exigem grande subtileza de espírito e idéias muito claras para penetrar num terreno. N o segundo caso. a perfeição. porque o perfeito de hoje poderá ser ^ p e r a d o a m a n h ã . algo pelo qual elas são macieiras e não outra coisa. & m a t 6 r i a q u e o r a batamos.n o s . por isso. simultaneamente. essa moderação esse justo m ^ 0 „ e d a í p c s u l t a u m a o r < J uma disposição harmoniosa. e supinamente controversas. . há uma forma da macieira. Posteriormente. e esse algo é o que os filósofos chamam forma. Conseqüentemente. Deus tudo dispôs com m e d i d a e. que nela também se repete. uma que s e j a fl m a i s p e r f e i t a > a q u e melhor corresponde. aqui e agora. pelo qual. mas também qualitatimente. tais digressões exigem outros estudos de metafísica. bastaria atentássemos para estes pontos: se esta macieira é macieira é por que nela há o que. No ser. Para êle o efeito tem sua b e r f e i c ã o p r ó p r i a . como os viam os pitagóricos). s e . assim. l e v a r . mas a forma. como um triângulo qualquer imita a proporcionalidade intrínseca do triângulo (três ângulos.* a o esquema abstracto macieira nem apenas ao esquema c o n c r e t o imanente na macieira. imita a i d c i a e x e m p l a r ( n a i i n g u a . mas que apontam. é medida de tudo. nem mais nem m e ^ E * diversos epítetos apresentam (. portanto nunca alcan á y e i m a t e r i a i m e n t e . o eidos platônico. que está na ordem do Ser Supremo. Portanto. como imitanlc jamais o repetiria perfeitamente. que intencionalmente o repete. p o i s a p e r . . pelo menos. A m a c i e i r a mais macieira de todas. a forma escotista.so macieira. seria c o m p r e e n s í v e l 0 n ú m e r o d a har . em ambas. neste instante. está naquela também. c ^ l o d o g ê n e r 0 ) 0 s e r mais perfeito e exemplar e medida dos o u t r o s ^ e r e s d o g ê n e r o . uma estrutura que a ordena como tal. com os conteúdos da mente humana. essa forma não é algo material. na ordem l ^ n i v e r s a l d o s e r . Nas macieiras. o que é maneira bem grosseira de ver os números. e em todas as macieiras do mundo. A causa de tal harmonia c h a m a r . q u e j a mais alcança um termo fmitç^ Assim. que dela ^ p o t e ncialmente aproximar-se sempre. em seu número (que não deve ser apenas considerado quantitativamente. n e . Temos. ela é isto e não outra coisa. E esse termo se da. porque o que é material ocupa tun lugar e não poderia estar. como termo final.Q t() f o i d i U ) a t é aqui. Estas digressões mais c o m e z i n h a s a d i a l e c t i c a p i a t ô n i c a que a anstotelica. o que o constitui ônticamente repete o número. nico. cuja soma é igual a dois ângulos rectos). um esquema abstraclo noético. dao sempre u m n ú m e r o i n d e f i n i d o . que não caberiam nesta introdução tratar. para tornar-se o ente ideal. e o que e. á m e d i d a de seus efeitos. o homem constrói desse esquema imanente nos seres um esquema em sua mente. imita-o. Ora. Tais pensamentos nos p o d ^ n l e v a r a a l g m n a s digressões que servem nao so para ilustr^. e que se repete. A f o r m a essencial na ordem ontológica é p e r f e i t a e jamais alcançada pela materialidade.da essa ausência d e e x c e c o m o d e d e f e ito S . gem de Tomás de Aquino). mas. Há. ou por algo que ela é uma macieira c não uma pereira. não tòpicamente localizável. nao apena. Meditemos s o ^ t1U(. pois do contrário com ele se identificaria. seria m t ^ . Mas essa forma que está nesta. que é semelhante a esta. Deus e o exemplar de tod QS o s participam da sua bondade (como bem e bom). E naquela macieira. feição absoluta da macieira hó*caheria essencial.por exemplo. portanto. o conceito. Entre todas as macieiras d o m u n d o h a d e h a v e r . deixando de ser o ente material. É através de. há um ^ e r é Q m e l h o r de s u a sé.ARISTÓTELES 14 ARISTÓTELES E A g M U T A Ç Õ E S E AS MUTAÇÕES i:> Para I ornas de Aquino. agora. por exemplo. o esquema c o n c r e t ^ d e u m s e r a i e a í ? o r a ) e s t a macieira. ou o arithmós plethos pitagórico. como para oferecer certos da<j QS s e r ã o oportunamente esclarecedores. mas que imitam o que há fundamentalmente na coisa. ali. de facto s ^ V e e m p o tência. uma "ratio". na coisa (//! re) e um esquema abstracto noético. como naquela primeira. a forma porque esta e . Todo gênero tem um t ê r m ^ e a p e r f e i ç ã o do gênero. E para tornar mais simples o que dizemos. possibilidades pensamentais. como o n u m e ^ d e o u r Q p i t a g o r i c o . Essa forma é uma proporcionalidade intrínseca. ^ ^ i n a l c a n ç á v e l . e nunca existencialmente. e poderemos construir o* s e g u i n t e s pensamentos: Em cada instante._ morna pitagonca. porque está em Deus) jamais identificada senão formalmente com as coisas. ou do arfthmós lethog (o n u m e r o de conjunto) pitagonco.i ^ fl a f i r m a c ã o d e q u e u m s e r que atingisse a perfeição da f^ rma e s s e n c i a l d o eidos p l a t ô .

Mas o que sucedeu naquele ente era um arithmós. Impõe-se. 7. como na física. como a pode captar a dialéctica. é princípio de conhecimento. sempre. na ordem do ser {ante rem). mas apenas mostrar que o nosso mp'lo de ver os esquemas. de Platão) que as coisas repelem. que nós matemática e formalmente podemos esboçar. mas antes. ad 7). que era possivel actualizar-se nele. dentro dos postulados que oferecemos. mas que. pois. (Tomás de Aquino. um só. cuja actualização implica um extrínseco a ela que o realiza. únicas e perfeitas. a. poderia tê-los produzido no acto existencial dos indivíduos. nos serve de medida qualitativa. pois não poderiam ter provindo do nada. já era no ser numa modalidade diíerenle da (pie existe aqui e agora. se não estivessem na sua ordem. pode aproximar-se mais ou menos ou afastar-se mais ou menos do ohm perfeito. Neste caso. O triângulo c sempre perfeito como ideal. fonte de todos os seres tini tos. * * * As medidas são consideradas na física eidèticamente perfeitas. No entanto. como a entendemos. embora fàcticamente imperfeitas. quid. mas as formas Irianguiares que se repelem na matéria são sempre escalarmente imperfeitas. pois. do contrário seria impossível comparar. E o ser que actua em todas as coisas está em acto. tanto na matemática. bem como o que pensava Tomás de Aquino. que verificamos aqui ou ali. 3. Para resumir o que foi tratado. o triângulo-em-si. como já vimos. estava. poderíamos construir triângulos (é uma possibilidade ao menos) cada vez mais perfeitos. que separa da coisa esse quê. O mesmo podemos dizer de qualquer outra medida. Mas a medida implica sempre a homogeneização entre o medido e o medivel. ao Ser Supremo. Desse modo são colocadas. O medivel é uma possibilidade da coisa. O olim. sustentáculo de todas as coisas. Portanto. repetimos. e em acto está o ser supremo. pois deve haver entre o medido e a medida um ponto de identificação. não só quando se dão nas coisas. Não queremos com isso forçar conciliações de pensamento. que é formal.16 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 17 em nós. no entanto. o ser seria tomado como extensista apenas. nessa ordem é um único. é porque dela parti- . como medida de resistência. Se a perfeição divina permite a medida nossa com ela. veio do ser. e não seria possível realizar um triângulo materialmente perfeito. A medida. como agente. mas pertence ao gênero por redução. Todo agente actua enquanto está em acto. teria vindo do nada. "Deus não está contido no gênero substância à maneira de uma espécie ou de um indivíduo. E como não veio do nada. Com essa sintética explanação. toda medida é uma unidade tomada no seu gênero. era no ser como algo essencial e não existencializado ainda. cuja soma de seus ângulos fosse absolutamente igual a dois ângulos absolutamente rectos. não é materialmenle perfeito. O ohm. leva a ilusões. essa quididade. q. que construímos como um esquema abstracto. E. sem jamais atingi-la. como é perfeito e imutável o triângulo (o aulolriyonon. Portanto. dirá o pilagórico. e realiza o esquema formalnoélico (/>o. cremos tornar claro o pensamento tanto de Platão como o de Pitágoras. pciTcilo. como princípio do gênero. à maneira do ponto nas grandezas contínuas e da unidade abstracta no gênero dos números". Por outro lado é preciso considerar que a medida quantitativa. portanto.s7 rem) da coisa. encontra também uma positividade no pensamenlo de grandes figuras da filosofia. A acção de medir implica a comparação de um termo com um máximum que serve de medida (intensidades) ou um minimum (extensidades). no entanto. as diversas opiniões na filosofia que pareciam lão distantes. do coulrário. imutável. nem o Ser. Conseqüentemente os esquemas concretos estão de algum modo no Ser. mas que eram dialècticamente compreensíveis numa visão cooperacional. como a causa é princípio do ser. pois aceitava tais formas como idéias exemplares. mas que sabemos não encontrar-se nas coisas. nunca. haver entre a medida e o medivel uma univocidade quididativa. Mas é mister compreender que o que é produzido pelo agente está de algum modo no agente. mais próximos dessa perfeição. os tamanhos por tamanhos. após o acto de abstracção realizado pelo nosso espírilo. De Pot. os números por números (números quantitativos-abstractos). e conseqüentemente é tomada qualitativamente. A medida qualitativa é um maximum ou um ser perfeito no seu gênero. que pertenceriam à mente divina. pois poder-se-ia dizer que há mais ser em 20 indivíduos do que num só. acrescentamos: É dimensional tudo quanto é medivel quantitativa ou qualitativamente. após a experiência. é uma medida eidèlicamenle perfeita. E essa perfeição do triângulo-em-si.

mas apenas modalmente. 0 acidente é da substância (inest in substantiam). O movimento curvo mostra sua contradição no movimento do próprio círculo. Impõe-se distinguir duas classes de mutações. sintetizaremos alguns pensamentos aristotélicos que nos auxiliarão a compreender esta obra. por nossa parte. a passagem entre o "não-tocar" e o "tocar" é instantânea. Serão esses dois termos. não só sobre o que tratamos. Accidente: Não é um absoluto não-ente. Esta obra de Aristóteles trata das mutações. Há em cada mutação a transição de um termo inicial para um termo final (terminus a quo e terminus ad quem). porque a dimensão é inherenle à coisa medida. Na "Sinopse" que se seguirá. cujo conhecimento êle presume por parte do leitor. proporcional. e é nesse sentido que se diz que o homem é feito à imagem de Deus. nem tampouco é absolutamente (simpliciter) um ente. em sua última diligência fundamental. Algo para mover-se tem de ser determinado. como já nos mostrou Aristóteles no "Organon". que significa a nossa participação de uma perfeição. O movimento tópico é contradietório dialècticamente. É invariavelmente curva. Por sua vez o accidente é conseqüente à forma da substância e lhe é. deve ser curvo. . Na reexposição do texto e nos comentários que apresentaremos não haverá mais necessidade de exposição desses conceitos que. o é em relação ao movimento da luz. e absolutamente não se separa. expostas na obra do Estagirita. é condição de tudo quanto é tempo-espacial (corpo). No movimento tópico. diferentes entre si. nem por um maximum nem por um minimum. do que oportunamente trataremos. em seus graus. mas em potência ante o acto de ser medida. O movimento. pois. . . O que é medivel da coisa é da coisa. O movimento. que afastar-se da rectitude. . pressumiremos já do conhecimento do leitor.18 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 1!) cipamos. que é uma característica da modal. dá-se o mesmo. pois como perfeição é o maximum da perfeição. Damos a seguir a sinopse de alguns conceitos que muito auxiliarão a boa inteligência desta obra. as principais idéias. Dela se distingue realmente. isto é. A dimensão é uma modal estática da coisa. por ex. Nas mutações intensistas. pois um mover-se d e . Algo entre eles deve se opor. aquecimento-resfriamento. como é instantânea a passagem de um corpo do estado de quietude para o de movimento. deixa de ser recta. o que não permitiria um movimento infinito nesse sentido quantitativo. sempre de grande actualidade. não haveria mutação. 0 MOVIMENTO Um movimento absoluto (como quantitativamente infinito) seria um movimento que negaria a si mesmo por privação. não se pode dar nenhum intermediário. mutação de um "ser" para um "não-ser". . portanto conjunto de contradições. é sempre um afastar-se d e . O outro tipo de mutação é aquela em que o sujeito da mutação passa através de fases intermédias entre o terminus a quo e o terminus ad quem. poder-se-ia dizer que Deus não tem dimensões. não real-fisicamente. pois não há entre opostos contraditórios possibilidade de um meio termo. É a medida qualitativa de todas as coisas. Teològicamente. Num movimento continuo. Dela não se afasta. O accidente não pode ser separado fisicamente da substância. que dela pode distinguir-se. do contrário. A dimensão é uma modal. Se a oposição é contraditória. duas esferas que ao se aproximarem se tocam. Sinopse de alguns conceitos fundamentais de Aristóteles sobre temas físicos. não formalmente. e neste caso há afirmação a negação. finito. por isso pode contradizer-se sem negar a sua própria identidade. A teoria dos mínima de Aristóteles pode ser aplicada também às intensidades. e um aproximar-se d e . para que haja mutação. Afirmaria a simultaneidade. . local. . pois há uma distância entre os dois termos que o móvel percorrerá. vemos tal exemplo. Toda curva encerra em si a potência de afastar-se. Mas essa oposição pode ser vária. isto é. tanto quanto possível. extensista. Já a recta. que é a divindade enquanto tal. Procuraremos sintetizar. Entre ser e não-ser não há lugar para intermediários. como sobre o que irá Aristóteles tratar neste livro. (pie dela participamos sem ser ela. Não se dá o acidente sem a substância. e variàvelmente vária. O movimento absoluto de Einstein. comparada. sempre em acto. como o expõe Suarez nas "Disputationes Metaphysicas". por isso. pois não é êle medivel. como já o faziam os escolásticos. ter existência Icmpo-espacial. de conhecer modos diversos sem deixar de ser curva.

Exemplos: na primeira temos a alteração do branco em negro ou vice-versa. Acto: O acto é o princípio do agente. e o que não permanece. dentro da mesma espécie. (Vide Substância). É o agente (pie reduz a matéria de potência a acto. Portanto. Por êle é numerado o tempo. Acção e paixão (palhos. a diferença específica. (pie se movem no tempo. portanto. O movente é a forma que está no gênero da qualidade. pois a corrupção de um ser é a geração de um outro. e se exerce no paciente. A alteração é dúplice (como mostrará Ar. como lerminus a quo. e deslocase de um lugar para outro. não pode ser MUI acidente. (pie caracteriza a espécie no gênero. uma mutação de ser para não-ser. Não é propriamente um lugar. pois são espécies do gênero moção (motus). quem se altera é o paciente. Corrupção: O que se corrompe é. Não é tempo. Não se trata aqui de um acontecer cronológico. O contrário da corrupção é a geração (vide). E tal não se dá no tempo. em grego) são a mesma moção e não duas. O (pie está em acto naturalmente move (realiza uma moção). A acção é uma moção (como o é também a paixão. Mostrará ainda Ar. porque o nada não é. É medido pelas coisas medíveis. (Vide Vácuo). E são contrários esses extremos mais distantes. e não pode ser primeiro que a substância. só se dá no que está em acto. O primeiro acidente que acontece à substância é a quantidade c. como terminas (id quem. Alteração: É uma noção de contrário a contrário (de contrário in contrariam) segundo a qualidade. secundum quid. para o não ser o que era. isto é. mas acontece no tempo. que a corrupção é dúplice: simpliciter e secundum quid. Conseqüências: ludo quanto é aceidente não ê absolutamente (simpliciler). não pode ser espécie do mesmo gênero. não quanto ao sujeito em moção. mas lógico. Corpo: O corpo tem três dimensões. absoluta. A corrupção dá-se do ser (ex esse) que é. A forma não age prò- . Vide moção. portanto. Agora é também o número de todas as coisas móveis. passio). Quem altera é o agente. Para que haja o agente impõe-se o paciente. mas contingente. posteriormente. e ocupa um lugar. o» do branco em mais ou menos branco. Todo o corpo é móvel. Um agora não contém outro agora. Tudo quanto está em acto ou é uma forma subsistente ou tem sua forma em outro. Agente: O agente é o oposto contrário do paciente.20 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 21 São acidentes ludo quanto sobrevém à substância e que tenha seu ser no ser (inrs. O que se corrompe transita de um contrário a outro contrário. pois o agente age sobre o paciente. Actua o agente sua acção sobre outro e a realiza proporcionalmente à sua forma. Toda alteração exige um determinado tempo. A primeira (a absoluta) é a corrupção que parte de um ser substancial para o não-ser. É pelo agora (pie temos noção do tempo. o que será examinado» no texto. o não-ser. Agora: (nane) — É o término do pretérito e principio do futuro. Não há corpos infinitos. Há ura devir da substância. mas algo substancial. Todas as coisas podem ser divididas por acto e potência. que é o devir nos acidentes (fieri accidentalium). O acto. Em qualquer devir h á : o sujeito. As coisas que estão em devir (fieri) o estão pela acção do agente. enquanto em acto. c serve para divisão do tempo. O nada não pode corromper-se. No agora nada se move ou se aquieta. No agora não há algo anterior. A acção parte do agente. O que ê accidental não é necessário. o termo que permanece. K um qnid indivisível. no mesmo que é afirmado. que é o que se torna em seu contrário. pois é instantânea. como a do branco em não-branco (que se dá na côr). O acidente. Forma: A forma é o princípio do ser e o princípio do agir (principium essendi et agendi). A corrupção implica. pois é o acto o sustenlácuto do que é potencial. E o agente o é tal. enquanto em acto. O acidente ê contingente. mas quanto à razão (ratio) de cada um. Entre dois agoras dá-se o tempo como meio. Há na corrupção uma afirmação da negação. Acção: A acção é o acto do agente e tende a algo determinado. surgem os outros.se) da substância. a segunda (a relativa) é mutação na negação oposta. O que está em acto é necessário ao (pie está cm potência. cm um gênero. e tende para um fim. Contrários: Há contrariedade entre dois extremos. por sua natureza. Nenhuma coisa é o contrário de si mesma. mas que diferem entre si. ou seja. relativa. Espaço e Lugar: O espaço não tem dimensões de per si existentes e não se dá sem corpo sensível. O que está em acto antecede ao que está em potência. que é o seu terminum ad quem. no texto) :simpliciter. dimensões. que é o devir absoluto (fieri simpliciter) e um relativo. e secundam quid. Devir (fieri) : É tomado sob várias acepções. pois um agente o é tal. e não possue. no segundo caso. antes e depois. e consiste ela na privação de uma forma da substância.

também a fáustica. \ Inquietude: Inquietude é mobilidade do movente e s dá no tempo. Imparlível (insecável. Geração: A geração é a mutação do não-ser ao ser. É também absoluta e relativa (simplieiter et secundum quid). O lugar não se transmuta. Antecede a matéria como razão. e conseqüentemente um generante. o infinito em sentido quantitativo. A forma é a razão da coisa (ratio). que se chama de geração. Tem um anterior e um posterior à sua posição. e é proporcionada a ela. a meta a ser atingida. Na geração. na corrupção do ser para o não ser. como o átomo dos filósofos gregos) : é o que é indivisível segundo a quantidade. é o que não pode ser resolvido em muitos corpos de espécie diversa. não se dá no tempo. é uma transmutação para a substância. tem uix. Em toda geração há. o terminus ad quem. Dá-se do que não-é simplieiter no ser que é em substância.. Deve-se evitar confundir a forma com a figura. porque a acção se realiza segundo a forma. Quando alguma coisa é gerada. Magnitude: É a quantidade que tem posição. A idéia alexandrina de infinito. fisicamente separada. Na geração há necessariamente o que é gerado. mas privação. cortar. Impossível: O impossível é o que não pode ser. Lugar e vazio distinguem-se segundo a razão (secundum rationem). Geração e corrupção são contrários c são lermos da alteração. terminus segundo a colocação do corpo. pois essa coisa é o que é pela forma (quo). tem alguma potência. impossível é tornar-se. Precisar nitidamente o conceito de infinito em Ar. mas o sujeito que é gerado linha antes uma forma que deixou de ter. de seceure. mas in instante. No texto aristotélico e nas notas correspondentes. Na crítica da teoria dos atomistas gregos este conceito será enriquecido de análises importantes. quando substancial. A magnitude é medível pela moção. A geração implica a corrupção. já que. para Aristóteles. O que se move para a geração é o movenle. como também o que é ignoto. pois pode ser ocupado. Não se separam magnitude e número (vide) e não . O que é impossível de fazer. do que é privado de limites. para A. Na primeira. não no tempo. não o terminus do corpo. imóvel segundo si mesmo. por ocasião da critica ao atomismo de Demócríto. Também não pode ser composta de indivisíveis. mas desta não é. o terminus ad quem é a forma. como a corrupção. O sujeito da geração não é o «pie é gerado. portanto sofreu a passagem de um ser para um não-ser o que era. este conceito será esclarecido. assim. para ser outra. A forma está contida em potência na matéria. Kra neste sentido que se dizia que a terra era imóvel. A geração. adquire um ser. como veremos no texto. que emprega o termo àpeiron no sentia do de desmensurado. Nenhuma magnitude é contínua nem infinita em acto. como o exporá Ar. '_ conceituação diferente e encerra a de perfeição absoluta Não. são tantas as controvérsias que a exegese do genuíno pensamento do Estagirita exigiria obra de maior vulto. Infinito: O ser infinito é aquele do qual há sempre algo que é extra. onde se revela o sentido grego do infinito que é extensista. Nega-lhe a perfeição. mento. pois não é separada da matéria secundam rem. pois o que é gerado o é ao adquirir unia forma. mas só por acidente. devir. Toma Ar. da qual se distingue a ratione. pois o lugar (topos-locus) e a coisa ocupante são simultâneos. segundo a espécie. Lugar: É o terminus do continente. ou também o que é difícil de ser movido. é instantânea. mas é o princípio activo. É a forma que causa a quididadc de uma coisa. como as figuras triangulares diferentes têm todas a mesma forma da triangularidade. Impartivel. e é divisível segundo os seus divisíveis. Do impossível é impossível seguirse qualquer coisa. Com a geração algo é feito. A figura é a quantidade determinada pela qualidade. pois o gerar de uma coisa é o corromper-se de outra. É ela divisível em partes (divisibilidade potencialmente infinita). Mas ao impartível como tal nada impede que seja movido. f: portanto. e ao impossível nada tende. pois não excede o locado. uma matéria (pie sofre a geração. Imóvel: É imóvel o que de maneira alguma é apto a mover-se por si mesmo. Não é espaço (spatium) distinto das coisas. O impartível não se move per se. há a passagem do não-ser para o ser. nesta matéria. É o fim da matéria. c que termina na forma. há a geração absoluta de algo. pois encontramos passagens que levariam a tomadas de posições das mais diversas. E pode ser medida segundo o tempo. e realiza-se pela inducção da forma na matéria. portanto. mas a matéria do que é gerado. é tarefa que não poderíamos fazer aqui. Na geração. Não pode o indivisível ser um quantum. peras.ARISTÓTELES 22 E AS MUTAÇÕES 23 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES priamenle. Não é matéria nem forma. É algo entre as coisas da natureza. Dá-se. A quietude não é uma negação do movi-. princípio de sua natureza. portanto indefinível. porque é interminável. Indivisível: É o que não pode ser dividido e conseqüentemente não tem partes.. A forma é a razão intrínseca dos entes. (pie antes não era. Seres de figuras diferentes podem ter a mesma forma.

Toda mutação revela uma velocidade. está privada de outras. 0 movimento não é um ser de per si subsistente. Este é um ponto importante do pensamento aristotélico. a parte está em potência sobretudo quando este é continuo e não é distinguida . no móvel. sempre se pode adicionar outro. A matéria. pois. A mutação não c uma substância de per se subsistente. Movimento: A moção. É o que subjaz em cada coisa natural (substantia prima). No texto aristotélico e nos comentários. Segundo a substância. A mutação dá-se entre os contrários. Na geração. Em toda mutação. mas sempre do contrário ao contrário. aumento e diminuição. Mutação: A mutação se dá segundo a substância. O número é multiplicável in infinitum. que é a comparação da matéria à forma. dois contrários. se dá do sujeito no '. já vimos. Matéria e forma são parles da espécie. e serve para medi-lo. Por isso implica o "numeroso". é o acto médio entre potência e acto. segundo a quantidade. quando tem uma forma. é sempre privada.ujeito. em privação da forma. r<os seres animados. mas apenas em potência. como ainda examinaremos no texlo. Móvel: É o objecto da Filosofia Natural. São as partes a causa do todo. porque não está privado de. a alteração. como o imperfeito ao perfeito. Paixão (Pathos Passio) : Paixão é a qualidade passível. como nos mostra Suarez. Segundo em si mesma (como matéria prima) é ingênita e incorruptível. O ser. Na magnitude. e tudo quanto tem número. entre os intermédios e nas contradicções. As partes podem ser düplicimente comparadas ao todo: Segundo a composição. ou segundo a qualidade. O movimento é a moção local. portanto. a matéria antecede à forma. é o ser cm potência. tópica. que nela é induzida. há o que devêm. a mais comum entre os corpos. Há muitas espécies de moções tópicas (movimento). Em toda mutação são requeridos três elementos: o sujeito da mutação {quod). pois é infinitamente perfeito. e consiste no acto do paciente. segundo o lugar. privativo e contrário. contrário. enquanto móvel. Não admite Ar. A parte aquieta-se naturalmente no lodo. Matéria: A matéria é o princípio passivo. mipõc-se uma causa eficiente que o ponha em movimento. e segundo a resolução ou seja o todo que é dividido em partes. 0 movimento é o acto do móvel. conhecemos o tempo. segundo a classificação de Aristóteles. e privação de algo. A mutação realiza-se do contrário ao contrário. não conhece mutações. As partes da magnitude são finitas em número. é numerável. move-se simultaneamente a parte. porque está antes. a um número. segundo a qualidade. número numerante (numerus munerans) é o pelo qual numeramos ou o número tomado absolutamente. É uma modal. Pelo móvel conhece-se a moção. No todo. o intermédio polar específico ou genérico. Segundo a sua substância. Toda mutação dá-se no tempo. mas em outro. Examinaremos também as diversas espécies de moções. sempre privação. É a matéria o princípio passivo da moção. pois êlc nos determina o tempo para nós. é a potência do ser substancial. Esa não se move primeiro a si mesmo e por si mesmo (per se). Todo número. Parte: A parte tem razão da matéria.fà 24 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 25 podem existir de per se. Número numerado (numerus numeratus) é o que é numerado em acto ou numerável em acto. como acto puro. e pode ser considerado triplicimente: negativo. Número: Ê a multidão medida por um. de per si imperfeita. O número é considerado dúplicemente: número numerado e número numerante. em tempo infinito. um antes e um depois. Tudo quanto tem matéria é móvel. o movimento está no móvel e é requerido. Sua multiplicação pode dar-se in infinitum. que nos comentários teremos oportunidade de justificar. Serve para medir o tempo. mas apenas em potência. o movimento. Movendo-se o todo. o mover pertence à razão da vida. o número infinito em acto. voltaremos a examinar tais pontos. o que-se-torna-em um contrário. Oposto: Oposto é o que se ob põe. forma do sujeito. mutação local. Nenhum móvel move a si mesmo. como as partes que compõem o todo. Nenhum móvel pode transitar num espaço infinito. é apenas uma modal no sentido de Suarez. pois do contrário não conheceria mutação. Todas as partes são comparadas ao todo. o que é como o expunham os pitagóricos. privativo. nem num espaço finito. pois a matéria. por isso é imutável. o que se ausenta. pois no aumento c na diminuição há mutações tópicas. Não pode a magnitude ser dividida infinitamente em acto. em tempo finito. Só N movido o que tem magnitude. temos: geração (nascer) e corrupção (perecer) das coisas. Oposto negativo é o que nega. Desta forma. há um prius c um posterius a ela. ou segundo a quantidade ou segundo o lugar. Movenle: 0 que se move é sempre alguma forma. da forma à forma. Pelo movimento.

Potência: A potência não é um princípio agente. e sempre o mesmo. que é uma medida extrínseca do movimento. A parte não move o todo. pois. Unidade — É o princípio do número. a potência activa o é segundo a forma. O ser da relação é um ser debilíssimo e funda-se. e numera o movimento. De per si não pode ser causa de qualquer coisa. segundo os dois últimos tempos por dois agoras. a qual. . É o que permanece. mas numerado. Se o tempo é contínuo. Nenhuma parte movida é movida por si mesma. é sempre simultâneo e igual. por influência de Wolf. É a ausência de corpo. naturalmente se move por outro que está em acto. e fundou-se nas afirmativas de seu mestre. A parte que está no todo não actua. É a quantidade contínua das coisas numeradas. mas não é movimento. O tempo não conhece corrupções. em dois que tenham ordem um ao outro. por algo que já está em aclo. apesar de se falar num tempo mais veloz ou menos veloz. A substância é o que permanece. o que não indica propriamente o que se perpetua numa imutabilidade. pois Aristóteles admite uma mutação substancial. Potência e acto são as primeiras diferenças do ser. Faltalhe toda corporeidade. na filosofia moderna. É importante esse conceito de permanência da substância. O que está em potência é algo que também está em acto. Desta forma. "Wolf. É não-ente e privação. Sem o movimento não há o tempo. O que está em potência. o que permitiu as críticas de Kant a esse conceito. afirmou-se que o aristotelismo predicava a imutabilidade da substância. por suas características especiais. Vazio ou Vacuum — 0 vácuo é o que. Kant desconhecia a obra aristotélica. A potência é activa ou passiva. Perfeito: É perfeito o que em nada está fora de si mesmo. não é necessário que o movimento seja contínuo. Tempo: 0 tempo é a medida do movimento. mas em potência apenas. não sob o mesmo aspecto. o tempo é o número do movimento.26 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 27 em acto. Relação: A relação consiste apenas em haver-se o que é ante outro. O tempo e o movimento são infinitos. E' o que flui num contínuo divisível e sempre divisível. É pelo movimento que se define o tempo. O que está em potência reduz-se ao acto. Substância: A substância é o primeiro gênero do ser e é um ente de per si. A razão do vácuo é a do espaço. mas número numerado. como também o que atinge o seu princípio. O tempo não pode ser infinito se a magnitude é finita. mas sim o todo. no qual. Não é um número simpliciter (numerans). nada há. no mínimo. A substância é dividida em universal e particular. não em acto. e sim simultâneo com este. não tem qualquer natureza. O tempo não é o número pelo qual numeramos. não pode ser analisada aqui e sim no texto aristotélico e nos comentários subseqüentes. ou seja substância primeira ou substância segunda (matéria e forma). E diz-se também perfeito qualquer ser quando tenha completamente a sua natureza.

. que consistia na aceitação de um ser. os estudos "metafísicos" sobre o ser. todos sem excepção. aceitavam. pois até então as especulações se cingiam ao campo "físico". Pode-se dizer. preferimos deixar de examinar aqui em nossos comentários a posição metafísica dessa escola. para tratar deste tema em obra especial de próxima publicação (1). nihil). ou múltiplo. Muito bem salientou estes aspectos. e que o princípio único ou múltiplo de todas as coisas era o ser. que propriamente com Parmênides são iniciados. sobretudo dos iniciados em grau de teleiotes. e o podemos afirmar fundados nos documentos que nos sobram. mas como há neste sector ainda muita confusão sobre a actividade filosófica do pitagorismo. em face da história. mas os gregos. que sofre a incompreensão quase geral do seu real sentido. fonte. mas que havia uma unanimidade na filosofia ocidental pelo menos. o ser simplesmente ser. posteriormente. que do nada. sem discussão. começo de todas as coisas. entre os gregos. nada se qera (ex nihilo. como discutiram. A posição metafísica de Parmênides fundava-se em grande parte mini adágio axiomático para a filosofia grega até então: do nada. que é mais aristotélica do que se julgava no século passado. dentro do pensamento grego. (1) "Pitágoras e o Número". as características desse ser. É admissível sintetizar lodo o pensamento pressocrático nesta afirmativa. É verdade que entre os pitagóricos já se haviam processado especulações sobre "o ser enquanto ser". Poderia o ser ser único ou ilimitado.A GERAÇÃO E A CORRUPÇÃO NA FILOSOFIA GREGA Impõe-se caracterizar a posição aristolélica. indeterminadamente considerado. como o de Empédocles. como o àpeiron de Anaximandro. mas ser. de nossa autoria. D uns Scot quando expunha que poderiam os filósofos discutir. quando a valorização de Demócrito atingira a um nível jamais alcançado. a essência. cujo valor afirma-se cm nossos dias em face dos actuais conhecimentos da física. como princípio. para que se torne melhor compreensível esta obra. nada se geraria. ou início. no entanto.

pois como o que é nada poderia distinguir algo de algo? Também não o poderia ser pelo ente. que o ser é e o não ser não é (o ente é e o não ente não é). é que Parmênides afirma que o ente não pode produzir o ente. ora tentando as grandes sínteses. E como só o ente é inteligível. O pensamento de Parmênides teve uma influência imensa na filosofia grega. examina o atomismo grego. a èle se atribui o seu primeiro enunciado. que Ar. que entre elas se dariam. Enquanto este afirmava que o não-ente não exis- . Neste ponto. apenas estaria afirmando a si mesmo. o perecer. o "id cui competit esse". em todos os tempos. e virtualizava a multiplicidade. Surgiram. então. O ente seria formado de partículas de intrínseca imutabilidade (positividade parmenídica da imutabilidade do ser). o que é um modo de afirmar o princípio de identidade. ora se afastavam. aquilo ao qual compete o ser. corresponde ao latino ens. Empédocles. que. pois o ente se identificaria com o primeiro. soluções que procuravam em linhas gerais explicar da seguinte maneira a multiplicidade. aquilo ao qual se pode atribuir o ser. E como o ente. separando-se. pois "o ente é inteligível e o inteligível é ente". Parmênides actualizava o um. Dessas combinações múltiplas surgiriam. em outros aspectos. examina no seu texto. Mas o que é importante ressaltar neste ponto. é extinto o fogo do Devir. O primeiro é impossível. Aceitava Parmênides apenas um ente. no que se refere ao não-ente. Se o ente é. Anaxágoras e os atomistas Leucipo e Demócrito estavam de acordo. Era com o homogêneo que se procurava explicar o heterogêneo. que vai encontrar uma replica no naturalismo aristotélico. o devir. como a de Aristóteles. que Ar.pois a diferença seria ainda ente. que é um devir do ente ao não-ser. ora afirmando apenas uma para negar a outra. Mas afirmam o contrário de Parmênides. Todos esses aspectos são demasiadamente conhecidos. Se existisse mais de um ente (ser). Dessa forma. dizer "que é". não poderia distinguir-se. em poucas palavras. A aceitação da inteligibilidade do ente é uma afirmação do "princípio racional de razão suficiente". que êle sacrificava por aquele. Conseqüentemente Parmênides termina por negar o "nascer" e o "perecer". o segundo ente se distinguiria do primeiro ou pelo que é ente ou pelo que não é ente. conforme atrações ou repulsões. paira entre essas duas antinomias. Impunha-se a solução entre o Um e o Múltiplo. Parmênides achava-se ante um dilema: se uma coisa devêm. Daí exclamar êle: "Deste modo. e já foram tratados em nossos livros anteriores. Afirmava Parmênides insistentemente nos fragmentos que nos restam. pois todo devir é um tornar-se ser. o Perecer é banido". como toda e qualquer mutação. toda e qualquer producção. do primeiro. fenômeno apenas. como poderia uma coisa tornar-se o que já é? O devir é o caminho do ser. não é. Mas como negar o testemunho dos nossos sentidos que afirmam a mutabilidade? Naturalmente que Parmênides sabia disso. Portanto. Tanto um como outro permanecem fiéis ao pensamento parmenídico da imutabilidade intrínseca do ser (ente). a heterogeneidade do existir. e não se distinguiria. a súmula do pensamento do mecanicismo grego. E os argumentos que oferece podem ser sintetizados da seguinte maneira. Mas há aí uma realidade que a filosofia de Parmênides não poderia salvar. ou do ente para o ente. afirmava Parmênides. examina com tanta argúcia no texto desta obra. que já é. Mas. sem conseguir resolver o tema eterno e fundamental de toda a filosofia que. um único ser que é. todo devir é ininteligível. que se impunha em face das aporias (das dificuldades teoréticas). Pelo que não é ente. Se o ente produzisse o ente. são impensáveis a mutação. resumamos o pensamento de Leucipo e de Demócrito. então. Pois. e essa concepção é. to ón. A mutabilidade seria assim mecanicamente explicada. se já c? Colocado nessa situação. no intuito de facilitar a melhor inteligência desta obra. ela devêm do não-ente para o ente. que ora se aproximavam. que existe. poderia tornar-se ente. porém. Mas afirmava que tudo isso era aparência (phaenomenon). e não há. se o não-ente é nada? E como poderia o ente tornar-se ente se o ente já é ente? Nessas condições. e revela suas aporias. O ente. embora circunscrita apenas ao que interessa ao tema desta obra. porque como poderia o não-ente gerar o ente. o "nascer" (a geração) e o "perecer" (a corrupção) seriam apenas produtos das combinações qualitativas dessas partículas do ser. afirmar o ser. SÍNTESE DO PENSAMENTO ATOMISTA GREGO Ar. em suas linhas gerais. com certa razão. analisa-o. como tal. que em breve estudaremos. entre o ente e o não-ente não há lugar para um "intermédio".30 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 31 A teoria gnoseológica de Parmênides estabelece um paralelismo entre a ordem do ser e a do conhecer.

alfa privativo e lómos partes. mas todos imutáveis. temos a alteração (alteratio). tópico. quando se dá de uma quantidade menor para uma maior.i forma para decompor-se em seus componentes. (2) Corrupção vem do verbo corrumpere em latim. e outros. a diminuição (decrementum). os átomos não são todos iguais. por ex.io de um ser é a destruição de um outro. são sucessivas a mutação local. havendo entre êlcs diferenças. como se expressava Jocl ao comentá-los. como já vimos na "Ontologia"' A mutação é. A geração dá-se de um termo negativo da forma a uma forma positiva. sem ter. cujo texto apresentamos. A mutação é a transferência de um modo de haver de algo a outro modo de haver. estuda êle a moção em sentido geral. quando é geração ou corrupção acidentais. estuda o movimento circular dos astros. temos o movimento local. é instantânea. romper. de cum niiiMTilativo e rumpere. insecáveis (de seccare. não se colocam um médium nem distância. temos o aumento (augmentum). assim. .i.32 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 33 te. que perde i . os alomistas Leucipo e Demócrito afirmavam que o "nada" exisle. a corrupção dá-se no trânsito do termo positivo para o negativo. transubstanciação e aniquilação. a alteração e o aumento. trata do movimento especifico. temos a corrupção. pois tem como objecto os traços comuns aos objectos mais especiais dos tratados sucessivos. Dizse instantânea. onde expõe. Quando consiste no mudar cia forma substancial. aumento e diminuição são sucessivas. que é a producção e a destruição dos seres e de suas propriedades. A mutação intrínseca pode ser metafísica ou física. um trânsito de um estado a outro estado. O percurso é a via. sua concepção do mundo. c vice-versa. Nele estuda a forma especifica do movimento local (lópico). As mutações de alteração. Nesta obra. átomos (de a. no entanto. rompimento da unidade. precisamos agora esclarecer o conceito de mutação e suas classificações. Para ambos. a geração (nascer) e a corrupção (perecer) dos seres se dá pelo avizinhamento ou separação (agregatio ou desagregatio) dos átomos. quando se dá de um lugar (ubi) para outro. acompanhado da reexposição e comentários. nem o principal dessa obra. A mutação local é uma mera modal. Esses espaço vazio existe e nele se movem as partículas indivisíccis. São metafísicas as mutações seguintes: criação. como toda mutação de qualquer espécie. quando se dá para uma forma substancial (ad substantiam). de modo sumário. ou entre o não-ser e o ser. incortáveis). A mutação. da não-água à água. está colocado na série dos livros que é encabeçada pela Physiká (Física). o espaço vazio. O "nada" é "alguma coisa" é o vazio (o vácuo. temos a geração (generatio). procura demonstrar Aristóteles que a gera< . quo dos escolásticos) é o termo A mutação física substancial é de duas maneiras: geração e corrupção. cortai-. Desta forma. É jnlrinsccamente impossível dividi-los. Nesse livro. Essas mutações são instantâneas. outras. de uma forma para a sua negação (2). E todo movimento pode ser considerado segundo três termos: Terminus a quo (termo de partida). que são peri Ouranou (De Caelo). o único objecto. quando o termo ad quem (o termo de chegada) é uma forma ou privação da forma. que é uma espécie do gênero moção (metabolê). o caminho do trânsito. no inverso. terminus quod (o móvel) e terminus ad quem (termo de chegada). pois entre o ser e o não-ser. (1) O termo formal (terminus que é imediatamente atingido. quando o termo formal (1) é substancial ou acidental. dando assim um salto mortal no negativo. Em "Da geração e da corrupção". dependendo se o trânsito é segundo determinação intrínseca ou extrínseca. MUTAÇÃO Para penetrarmos com o pleno domínio na obra de Aristóteles. quando adquire uma forma substancial. A mutação acidental é ou instantânea ou sucessiva. quando se dá de uma qualidade a outra qualidade contrária. to kenon). A "Física" é a introducção geral aos tratados posteriores. pois uns apresentam uma forma. sem partes) impartíveis. A mutação física é ou substancial ou acidental. Na "Física". DA GERAÇÃO E DA CORRUPÇÃO (Peri geneseôs kai phtorás) No conjunto das obras de Aristóteles. E essa mutação pode ser intrínseca ou cxlrínseca. o seu livro "Da geração e da corrupção". o movimento rectilíneo dos corpos leves e pesados.

E m toda geração e c o r r u p ç ã o há certas disposições que se dão em a m b o s processos. a fim de facilitar a m e l h o r c o m p r e e n s ã o desta obra de t a n t a i m p o r tância aclual. como fizemos. Já e x p u s e m o s o p e n s a m e n t o aristotélico sobre a g e r a ç ã o e a corrupção. e referem-se s e m p r e ao texto da ed. as disposições q u e estão n a substância q u e se c o r r o m p e (insunt in substantia corrumpenda). c o n t r i b u í r a m p a r a m a i o r confusão do q u e j á era c l a r o na filosofia clássica. a c o m p a n h a d o da reexposição e d a s notas c c o m e n t á r i o s dos m a i s famosos autores. Mário Ferreira dos Santos . Os n ú m e r o s á r a b e s d ã o a classificação da p á g i n a ç ã o . que dele t r a t a r a m . com o a c o m p a n h a m e n t o de nossa crítica. Bekker. a u x i l i a n d o m a i s a c r i a r a crise no p e n s a m e n t o ocidental q u e p r o p r i a m e n t e esclarecê-lo. e p r o c u r a m o s situá-lo c l a r a m e n t e . 'DA GERAÇÃO E DA CORRUPÇÃO' Texto de Aristóteles e Comentários e Notas de MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS Usamos os n ú m e r o s r o m a n o s p a r a d a r a divisão do texto e das lições. que os escolásticos c h a m a v a m de disposições prévias e próximas. São prévias. d a m o s a p e n a s a bibliografia citada nos comentários. q u e c o n t i n u a m e n t e vão surgindo. No fim da obra. e d i t a m o s o m e s m o t r a d u z i d o e dev i d a m e n t e revisado. e próximas. j á na substância que se c o r r o m p e . as d a substância g e r a d a (in substantia yenerata). a b o r d a d o s por filósofos m o d e r n o s . fazendo p r o g r e d i r a alteração. p r o c u r a n d o s e m p r e actualizar o livro nos e s q u e m a s da filosofia de nossos dias. segundo a classificação de T o m á s de Aquino. j á que tais t e m a s . As disposições p r é v i a s são acidentes. q u e vão se p r o d u z i n d o . m a r c h a n d o p a r a as disposições p r ó x i m a s .34 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES O MÉTODO DESTA OBRA Usaremos nesta o b r a o seguinte m é t o d o : Após o e x a m e de alguns conceitos. p a r a m e l h o r clareza do texto.

à maneira dos antigos filo. alguns asseguravam que o que se chama geração absoluta é uma alteração. embora. Estudaremos agora a geração e a corrupção 314A dos seres que são gerados e dos que naturalmente se corrompem. para os que colocam cm princípio que a matéria das coisas é múltipla. enquanto. III. as causas e as razões de tais processos. VII. Anaxágoras e Lcucipo. a geração e a alteração são distintas. se se deve considerai. Assim. os elementos são em número de seis. os elementos corporais são em número de quatro. Entre os antigos filósofos. é alterado. Contudo Anaxágoras ignorava o sentido de suas próprias palavras. como também para Leucipo e Demóerilo. enquanto outros que a alteração é uma coisa. no conjunto. Êle diz.a alteração como da mesma natureza da geração. reconheça a multiplicidade dos elementos. para Empédocles. Com efeito. por outro lado. os que sustentam (pie o Universo é uma única substância e que de um único elemento se engendram todas as coisas. II.TEXTO DE ARISTÓTELES I — 1 I. e determinaremos.5 mente separadas. de todos. E. outra. com efeito. como Empédocles. ou se são real. e que o 10 engendrado. universalmente. IV. para Anaxágoras. V. ainda. são obrigados a admitir que a geração é uma alteração.15 sofos. e a geração. VI. Ao contrário. como o são as suas denominações. VIII. Devemos agora estudar qual é a natureza respectiva da alteração e do aumento. compreendidos aí os que imprimem o movimento. que "vir-a-ser" e "perecer" é o mesmo que ser alterado. no sentido próprio do termo. Ao contrário. . os elementos são em número infinito.

como diametralmente opostas às da Escola de Empédocles. 1 Propõe-se Aristóteles. estudar essa forma de moção que é a geração e a corrupção dos seres que nascem e perecem naturalmente. causa do devir e causa do ser. que é sempre adequado ao primeiro. considerando apenas o que têm de comum. Para ([iie a causa eficiente tenha a última razão é necessário que ela tenda ad aliqaid. ademais. permanecem in- Reexposição comentada I — 1 0 exame da moção e dos móveis. entre essas. estudar as causas e as razões. os quais. naturalmente. segundo o que é movido de moção local. mas as próprias coisas que por ela são modificadas. X. O trigo dar espigas é da finalidade intrínseca do trigo. confundindo n causa final extrínseca com a intrínseca. Este o genuíno sentido da causa final. que as homeomérias são corpos simples c elementos. O aumento pode enquadrar-se na geração. Esse tender para algo é a finalidade. pois cada um 314b deles seria unia universal reserva seminal (pansperniia) de todas as homeomérias. Os discípulos de Anaxágoras dizem. mas um tender activamente para um efeito. enquanto as razões são as próximas. não é apenas a moção que interessa. segundo a . por ex. ções humanas. Esses átomos se movem com certa velocidade e sua disposição dá surgimento à estrutura das formas moleculares. As causas eficientes podem ser qualificadas. ao contrário. E como salienta Tomás de Aquino. obra eosmológica de Aristóteles. A consideração dos corpos. e não daqueles que são construídos pela ação humana. Demóerito e Leucipo dizem que os compostos são constituídos de corpos indivisíveis. A causa eficiente não se pode explicar sem a causa final. numa proporcionalidade (pie nos revela uma ordem. dos escolásticos). Com efeito. o seu "arranjamento". que está conexionado com o "De Caelo". isto é. pois dirige-se para uma meta qualquer. depois. Ao contrário. A causa formal seria a figura desses átomos. A causa eficiente (aceita em ambos sistemas) é a que regula a disposição e distribuição dos elementos. A figura é produto de um relacionamento dos átomos. a carne. são quatro: a material. As causas. coube à "Física". Da síntese surge o synolon. A causa final é excluída do sistema mecanicista. cuja geração e corrupção são pertinentes à natureza. como já mostrava Tomás de Aquíno. a água e o ar são naturezas compostas. neste livro.ARISTÓTELES 38 E AS MUTAÇÕES 39 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES IX. a medula e cada uma das coisas cuja parte é sinônima 20 do todo. mais perfeito (pie a êle se ordene. isto é. o fogo. nem tampouco as próprias ac- . como elementos. foi o objecto do De Caelo (peri Ouranoit). a geração e a corrupção. como o inziam os escolásticos. que é dada pelo homem. O próprio devir revela esse tender. mais perfeito que o movimento de outros corpos naturais. E propõe-se. as homeomérias. do alimento em carne. em cansa in fieri e cansa in esse. infinitos em número e em formas. a eficiente. o "ente". As doutrinas da Escola de Anaxágoras aparecem. enquanto a terra. coloca Anaxágoras. e por tantos repelidas. ordena-se à geração assim como ao fim. os artcfacla. mas há também a conversão. No conjunto das quatro causas aristotélicas. determinadas. o ar e a terra são os quatro elementos. o osso e as homeomérias dessa espécie. Restava analisar agora a moção nos seres inferiores e. na nutrição. e não as caricaturas que dela fizeram os mecímicistas. Assim a macieira tende a dar sementes de maçãs (inclusas no fruto) e não outra coisa. para empregarmos um termo usado actualmente. a formal e a final. A matéria e a forma são princípios internos (cansa materialis e cansa formalis. e também mais simples que a carne. a 25 água. mas servir para fazer pão é uma finalidade extrínseca. com efeito. A diferença se impunha pelos seguintes motivos: há causas eficientes que actuam e têm influência no efeito.: o osso. pois no alimentar-se há aumento. E tal se dá por uma incompreensão total do que seja causa final. apenas (fitando esses nascem. e que os compostos diferem uns dos outros pelos elementos. No mecanicismo há também uma causa material: os átomos. A alteração (alteratio). temos os seguintes aspectos que convém salientar. pois é. A causa eficiente não é um mero agir. Este diz que o fogo. cuja disposição é esta ou aquela.sua classificação.

IV. pois depende também do corpo (massa. da qual são dependentes todos os seres. 1). Como já o expôs nas obras anteriores. IV — Os filósofos antigos consideravam a geração absoluta como uma alteração. de qualidade. as suas denominações (seus nomes). o ímpeto. dos elementos componentes. resistências ambientais. e Anaximandro. No movimento. . se dava uma união (agregação). por ex. além de ser também uma causa in fieri. o ímpeto é causa in esse do movimento. causa do devir. tinitos portanto. IX — Não é muito provável que Anaxágoras tenha usado o termo homeomérias que lhe é atribuído por Aristóteles. O ser do movimento depende do ímpeto. a corrupção e a alteração seriam a mesma coisa. enquanto outros afirmavam haver entre ambas uma distinção real. a geração se divide quanto à substância e quanto ao acidente. como é fácil compreender. havia os que afirmavam que o universo é uma única substância. ar e fogo. E o é por (pie aclua continuamente enquanto se dá o movimento. se dá ao passar do não-ser ao ser. etc. os átomos. Esta causa é uma causa in fieri. é uma causa in esse. VIII — Empédocles considerava quatro elementos como princípios: terra. ou são elas distintas realmente. desaparecendo quando o ímpeto deixa de acluar. Apresentamos um esquema de Tricot das diversas espécies de moções. como a de quantidade. temos o indivíduo vivente que se torna independente da causa que o gerou. Não necessitam mais da influência da causa para ser. propostas por Aristóteles. ou sejam. Como exemplo. n. distinguia Aristóteles a geração absoluta (simpliciter) (gênesis áplê) da geração secundum quid (gênesis tis = relativa). um princípio indeterminado. VI — Enquanto os que admitiam uma pluralidade de princípios. A causa prima. para êle. pois. como Empédocles que os considerava quatro. Ora. e t c ) . as homeomérias. quando admitia uma pluralidade de princípios. enquanto permanece. emquanto a secundum quid se dá nas mutações que afectam as categorias acidentais. como coordenadas da qualidade do movimento. a geração seria mera alteração. que imprimiriam o movimento. Essas espécies de mutação são estudadas a seguir. nesse caso. por exemplo. muitos mais. o que já aquele havia anotado na Física (Cap. aumento) diminuição) àlloiosis (alteração) phorá (movimento em sentido tópico) V — Entre os filósofos antigos. Essa substância manava sempre e. A geração substancial é a moção da matéria que parte da privação de uma forma substancial para essa forma (mutação). a água. e acrescentava mais dois: Amizade e Ódio. são causae in esse. que é modal do corpo. Assim as causas que efecluam um Ímpeto são causa in fieri. mas o conteúdo conceituai está em parte claro. Neste caso. um princípio aeriforme. II — Resta saber se se deve estudar qual seja a natureza respectiva do crescimento (aumento) e da alteração. na primeira. efectiva-se no movimento do corpo. e Leucipo. e Anaximandro. como vimos. enquanto Anaxágoras e Leucipo consideravam esses princípios em número infinito. enquanto na segunda se daria uma desagregação.. A geração da substância é uma geração simpliciter (Kafousian = na substância). (decrescimento. água.Será a alteração idêntica à geração. ou Anaxímenes. o àpeiron. sobretudo. distinguiam a gênesis da alteração (àlloiosis). VII — Acusa Aristóteles de não ter Anaxágoras bem entendido as suas próprias palavras. Portanto. uma separação deles. ou magnético ou gra vi (acionai. pois afirmava que geração. como são. por exemplo. arque.40 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 41 dependentes da causa que os produz. como Tales que dizia ser ura princípio líquido. porque são necessárias à manutenção do corpo. porque atende à forma. toda multiplicidade das coisas seria apenas uma modificação do princípio único. etc. III —. enquanto as que causam um campo electrostático. enquanto a corrupção é um processo inverso. metabolê (moção) auxésis e phtísis (crescimento. A geração é definida como o trânsito ou a moção que. num sujeito real qualquer. corpóreos. e que eram. atracçâo e repulsão. e se de modo amplo. o ar.

ao contrário. entende-se por homeomérias as partes da mesma natureza. estão constrangidos a considerar a geração e a corrupção como uma simples alteração. o mole e o duro. Com efeito. por Anaxágoras. vastas combinações de elementos.42 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES Como o expõe Tricot. Entretanto. Enquanto Anaxágoras afirmava a similitude nas espécies. Com efeito. como os ossos. da união e da dissolução desses gêneros. afirmavam aqueles a diversidade. segundo a posição. em natureza e nome. da mesma maneira também percebemos a alteração. Já Demócrilo e Leucipo afirmavam que os corpos sensíveis eram compostos de corpos indivisíveis (átomos). considerando esses quatro elementos como panspermia. por isso são sinônimas. A multiplicidade dos corpos seria resultado das múltiplas combinações desses corpúsculos. mas apenas mistura e dissassociação da mistura". e segundo a ordem ou espécie desses corpúsculos. o que é impossível de conciliar com as suas próprias doutrinas. eis o que é manifesto. eram estes considerados. 314b 5 10 15 Mas. piramidais. ou seja. e é o que expressa Empédocles: "O Sol branco paia os olhos e quente em toda parte. as qualidades. Que sua hipótese fundamental chamasse esta noção de geração. II. segundo a extensão. c quando ele emprega o termo homeomérias. reconhecem uma multiplicidade de gêneros. o seco e o úmido. o branco e o negro. É fácil perceber que são justificadas as nossas críticas. pois.sinônimas. convenientes ao todo em nome e razão. e que são constituídos a partir de quatro elementos unidos numa certa proporção. numa substância que permanece a mesma. . infinitos em número. quando diz que "não há geração de nada. As homeomérias são contidas no mesmo gênero. o ar. quadrados. IV. diferenças dos elementos (entendo por essas qualidades o quente e o frio. para eles. mas de natureza diferente. . a chuva em toda a parte sombria e fria".20 < ( ssivamente). III. a água e o fogo como elementos primordiais. unívocas. X — Opõem-se os ensinamentos de Anaxágoras aos de Empédocles. em oposição a homônimas (as que teriam o mesmo nome. como diz Tomás de Aquino. mudança (pie se chama aumento e diminuição. na realidade. isto é. em forma e até em figura. resultam a geração e a corrupção. os raciocínios dos que admilem uma multiplicidade de princípios tornam a alleração impossível. São as partes de um lodo. para exemplificar. são. quer se referir às parles homogêneas com o todo. Para os que. etc. segundo as quais dizemos que a alteração se produz. pois sempre o sujeito permanece idêntico e vim: e é a isso que damos o nome de alteração. pois enquanto êsle considerava a terra. que constróem todas as coisas a partir de um só elemento. como produtos das combinações das homeomérias. nas quais a análise não revela nunca elementos de natureza diversa. Assim os havia circulares. e é claramente também a que eles sustentam. similium partiam. TEXTO DE ARISTÓTELES I — 2 I. sementes universais de todos os outros corpos. como o termo chave que pode ter várias acepções e referir-se a diversos objeetos). ou seja. Eis por que Empédocles se expressa também da mesma maneira. são obrigados a reconhecer que a alteração é uma coisa distinta de a geração. uma mudança. assim como percebemos. Assim os filósofos. e assim su. a alteração difere da geração.

pesada c dura. mas como mera alteração. A opinião que Empédocles sustenta. (portanto. nesse momento. a terra e os corpos da mesma série. o Um é princípio. nem de mole. E segundo as próprias palavras de Empédocles. o que ainda será examinado mais adiante. que se. são possíveis. inversamente. como o é de facto. Neste caso. então o substrato será um único elemento. com excepção do ódio. a terra e a água certamente não existiam mais quando o Todo se tornou um. potenciais). Assim. e sobretudo quando o ódio e a Amizade estão ainda em luta um contra o outro. VI. num só todo. pode dizer-se que do Um foram engendrados os elementos. enquanto estes provêm da dissassociação. Os filósofos que definem a geração e a corrupção como uma união e uma separação de elementos. Segue-se dai.ARISTÓTELES 44 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES E AS MUTAÇÕES 45 E do mesmo modo. Com efeito. é evidentemente necessário que a terra venha da água. tanto ante os fados observados como consigo mesmo. V. duro. pois que mudam em suas qualidades. pois. a alteração. as formas genelávcis e as corrompíveis. se o substrato é um. E é nisto que consiste. essas qualidades são susceptíveis de advirem às coisas e de serem de novo separadas. pois o fogo. que a necessidade dessa matéria é semelhante à da alteração. enquanto o Um é tomado como matéria e substrato. o fogo. não é possível que do fogo nasça a água. como se verá mais adiante. II — Os que estabelecem muitos gêneros (aqui elementos) de princípios materiais. Empédocles diz que o Sol é branco e quente. geração e corrupção seriam apenas alteração. seria apenas um trânsito qualitativo dentro desse um. Mesmo raciocínio também para as outras qualidades. que estão na ordem do ser. Pois. nem da água a terra. pois se a mudança é alteração. quer por alteração. quer se trate de uma mudança local. e as diversas porções desse todo. são seres em potência e não cm acto. nesse mesmo tempo. e pretende que ao contrário são componentes de tudo. toda e qualquer transmutação que se dê. pois esta é a moção do contrário ao contrário segundo a qualidade. Eis por que também. ao mesmo tempo que recusa admitir que nem um dos elementos possa nascer de um outro. desse Um. essas diferenças vêm a desaparecer (e elas podem desaparecer. 20 25 Reexposição comentada I — 2 I — Se o elemento que serve para construir todas as coisas. e o mesmo se dará com todos os outros elementos (e tal não somente antes. mas enquanto o Um resulta da associação de elementos múltiplos que se reúnem. Empédocles parece cair em contradicção. E decorre dai. E da união ou dissolução desses elementos decorrem a geração e a corrupção. pois não se tornaria outro. este um permanece idêntico a si mesmo. isto é. e este fogo. tendo reunido. VII. dissemos. É incerto ademais se é o Um que é preciso olhar como sendo o princípio de Empédocles. então a mudança é alteração. define também os outros elementos. Eis o que pretende dizer aqui Aristóteles (Tricot). É pois manifestamente a partir de um certo Um que este se torna água. Acentua Tomás de Aquino que as generabilia e as corruptibilia. é um. da terra. nada tampouco poderá de branco tornar-se negro. necessariamente diferenciam alteração de geração. Se. a partir do qual a terra e o fogo são engendrados por uma mudança devida ao movimento. mas ainda agora). de novo. e haverá uma única matéria para Iodas as coisas que admitem uma mudança na outra. pois foram engendradas). não se pode considerar como geração ou corrupção. para Empédocles. há uma contradicção patente no seu pensamento. permanecem de acordo com sua hipótese fundamental da multiplicidade dos elementos. ou a destruição deste. Há geração quando se tornam acto (ens actu . que é semelhante ao de Anaxágoras. É esta a situação de algumas correntes monistas. pois não há outro. e conseqüentemente. como o afirmam muitos filósofos. e a Terra. pois. Colocado assim o tema. ou se é o múltiplo. faz renascer todas as coisas. pois. o surgimento de um ser. Segue-se evidentemente que uma matéria única deve sempre ser colocada como substância dos contrários. a natureza inteira. esses elementos são mais princípios que o Um e anteriores a êle por sua natureza. ademais. e a água. quer de uma mudança por aumento ou diminuição. quero dizer. sendo separadas por certas diferenças e certas qualidades. não invalida a afirmativa.

Ela não tem arredores (perissón). e vice-versa. da unidade harmônica. pelo desnascimento do Um. é uma alteração. uma alteração. o negro não pode tornar-e branco. a forma do ser que apenas se altera (isto é. na agregação e a privação na segregação dos mixturados. mutações qualitativas. da razão. e única. o múltiplo vem de novo ao ser". . É a Amizade que os une. e. VI — Sphairos. por exemplo. A ousia prote é o indivíduo. e se o substratum é um. liquido. Empédocles. como unidade absoluta. e inversamente (pálin). 247). a mudança é alte- ração. nada pode sair dele. Concedendo Empédocles que o frigido é acidente próprio da água. e se a mudança o é. as qualidades são produzidas pelas diferenças dos elementos. quer se trate de um trânsito local. e com razão. colocamos. "esse" fogo. dentro dessa espera imóvel. como diz Aristóteles. por sua vez. é sempre de forma esférica (versos 16(5-168. considerar os quatro elementos de Empédocles (terra. sem que a forma (essência) sofra qualquer modificação. reduz os corpos a apenas mixtura. neste caso. Esfera. quer de uma mudança por aumento ou diminuição. que é principio e fim de todas as coisas. quer por alteração. separando-se. primordiais. ora a forma (ousia deulera). O universo é assim "fechado". Por crescimento extensional a pluralidade chega a ser e a dar uma só coisa (èn). fluídico e aeriforme. e quando tomam ou aceitam qualquer outra forma é uma alteração. permanecendo a forma. como o também reconhece Aristóteles. E também se pode perceber alterações. pelo menos. quando o ódio domina. Não se deve. quer em estado de pluralidade. É da sua doutrina que toda mutação se produz entre contrários. fogo e ar) como "essa" terra. de forma alguma. porém. pois se uma coisa se torna em outra. forma do ser. enquanto esta domina. V — A substância dos contrários. cabe a Aristóteles razão na sua crítica. eles são obrigados a reconhecer que há uma distinção entre alteração e geração. a sua doutrina no seu verdadeiro lugar. haverá uma única matéria para todas as coisas. e. IV — Substância (ousia) é para Aristóteles. por desnascimento do um. é tendenciosa para Joachim. A espera de Empédocles é eterna e imutável. o múltiplo surge de novo (aà) ao ser. ora a matéria (ousia prole). Admitida essa doutrina. para os que afirmam tal doutrina.46 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 47 factum). deve ser a modificação de um único sujeito. ou à própria composição concreta de matéria e forma. congregação é geração. da perfeição. de todo o ente finito. Os quatro elementos eternos de Empédocles não se transformam portanto. que permanece a mesma. Um todo unido no pleno equilíbrio de suas forças. e não tendo outro ser para nele influir. é o nome que Empédocles dá ao Um. a multidão". há transmutatio qualitativa) sem perder a sua forma fundamental. também. por exemplo. o substratum só pode ser o único elemento. retomando assim a idéia do Ser esférico de Parmênides. neste parágrafo. de absoluta estabilidade (versos 166-186). por di-ferenciação do Um. é o substratum. o que leva à negação da própria alteração. ao empregar este termo. A esfera é para o grego o símbolo do logos. e a crítica que Aristóteles lhe fêz. a água não pode tornar-se fogo. Ora. é homogênea. pois todo o processo do mundo se verifica segundo um ciclo imutável. Fora dessa esfera (sphairos) não há nada. a mais absoluta unidade. do Ser Supremo. água. ontològicamente considerado. ou à matéria que a compõe. Refere-se. graças à acção da Amizade. nesse caso. Dessa forma. E tal decorre da aceitação de que a mudança é alteração e. e segregação. Sem deixar de reconhecer que. Segundo a interpretação que dele faz. 198. por desnascimento. Esta é a análise de Bacca. por crescimento extensional. e vice-versa. afinal. o universo. É ela a substância dos contrários. pois estes são os termos de toda moção. a matéria. Portanto. (71-72). acidente próprio do fogo. afirma Aristóteles. e tal se pode afirmar de outras qualidades. à essência ou quididade da coisa. ora a síntese de ambas (Io synolon). etc. sob outros aspectos. corrupção. Numa substância. III — Muito embora a doutrina daqueles filósofos leve a uma solução contrária. Naturalmente que permanece. mas se considerarmos que Empédocles afirma a presencialidade dos estados elementares. que é por sua vez uma coisa "só" (rnónon). o hypokeimenon. que está em devir. Mas a aceitação da multiplicidade de elementos torna impossível a alteração. pois o cálido só pode estar no fogo e o frigido na água. Vejamos estes fragmentos de Empédocles: "Digo duas coisas: que umas vezes a pluralidade. quer em estado de unidade. surge. Pois a ousia prote pode aumentar ou diminuir. a hylê aristotélica não é a matéria propriamente dita. e que provará a contradicção imanente nas afirmações que fazem. a crítica aristotélica é procedente. tomaria a forma esférica perfeita. e o cálido. Conseqüente com o pensamento de Empédocles. mas como expressões simbólicas dos princípios sólido. percebemos uma mutação extensiva de aumento ou de diminuição. "O um aprendeu o modo de nascer do múltiplo.

quando do reino do Ódio. como são.30 ração e a corrupção. TEXTO DE ARISTÓTELES I —3 I. mas apenas da dos elementos. e sua ordem e posição. não se contentou apenas em observar a todos: êle se distingue imediatamente 315b pela maneira de colocá-los. e. a alteração. pois. com efeito. Não vão mais longe para a mistura. no que concerne ao aumento. nem (e pode-se dizer) para nenhum outro problema. não conseguem explicar de que maneira. ao contrário. ou de qualquer outra homeoméria dessa espécie. Demócrito e Leucipo. Devemos. com efeito. e o diz claramente. nada diz. tratar agora. Ninguém. uma coisa actua e outra sofre. pois o um é o princípio maior (Tomás de Aquino. superveniente das diferenças dos elementos. que as coisas não surgem apenas por agregação ou segregação. devemos tratar também dos outros movimentos simples. nenhum dos outros filósofos apresentou. qualquer explicação que à primeira vista qualquer adventício na matéria não estivesse em estado de responder: eles afirmam que o aumento se produz pelo acesso do semelhante ao semelhante. Quanto ao modo de geração das carnes. se existem. distintos. da geração e da corrupção absolutas: se existem ou não. mas trata-se de precisar de que maneira tal se dá. III. a não ser Demócrito.35 mas. . é (pie quando do domínio da Amizade. esses elementos não eslão distinguidos fisicamente. mas por alguma transmutação. como o aumento e a alteração. e a maneira como existem nas coisas. o que é contrário ao que pensava Empédocles. delas fazem surgir a alteração e a geração. por 5 exemplo. examinou apenas a ge. assim: a separação e a união dessas figuras produzem a geração e a corrupção. como possíveis de vir-a-ser. Com efeito. no que concerne à alteração e ao crescimento.48 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES VII — A análise aristotélica merece aqui um reparo. Platão. Não se trata ainda de toda e qualquer geração. devirem. a propósito do fazer e do sofrer. nos seus fragmentos. parece. L I . Este. pois o que Empédoclcs quer dizer. II. a propósito desses proble. in comm. em suma. nas acções naturais. no entanto. que é o eslado em que estamos agora. Moslra-nos Aristóteles. e eis precisamente sobre o que nada mais dizem. mas indiferenciados no ser. foi além da superfície. como já dissemos. Não examina também. de maneira geral. depois de terem proposto as figuras. ou dos ossos. de que maneira se produzem eles nas coisas. 1.2).

c aparecer inteiramente diferente pelo deslocamento de um só componente. Elas prestam-se. a geração não é uma união. que a verdade residia na aparência sensível. E.uma qualidade partindo dessas superfícies. a geração simpliciter est. o crescimento dos seres ou as mutações contrárias. pelo contrário. como já o salientamos em outra parte. enquanto Demócrito parece ter sido conduzido a essa opinião por argumentos apropriados ao assunto e deduzidos da ciência da natureza.50 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 51 IV. uma diferença capital. a espectadores diferentes. que a geração é uma coisa distinta da alteração. O sentido de nossas palavras será esclarecido mais adiante. Duvidavam muitos filósofos antigos da distinção entre geração e alteração. uma mesma coisa possa apresentar. neste caso. V. se essas realidades primordiais são grandezas indivisíveis. em compensação. é possível realizar alteração e geração da maneira que dissemos. enunciam-nas com precipitada facilidade. Eis aí. o primordial é estabelecer a nítida distinção entre a geração e a corrupção e às outras moções. corpos. O principio da solução de todas essas dificuldades é o seguinte: ou será assim que se operam a geração. e. obrigam a reconhecer que não pode ser de outro modo. É absurdo. dispondo apenas de um pequeno número de constatações. Contudo. não tentam sequer engendrai. Po. pelo que precede. então. com efeito. Estas teses exigem a nossa atenção. ou. bem como pelas diferenças de 35 figuras. Ao contrário. com a ajuda desses corpos indivisíveis. serão como o querem Demócrito e Leucipo. de que o Triângulo-em-si seria assim múltiplo. pois é pela "colocação" dos átomos 316a que as coisas são coloridas. com efeito. ou então. modificando o mesmo objecto por meio da "posição" e da "colocação".10 <le-se perceber. sendo dado para eles. por outro lado. para os platônicos. Reexposição comentada I — 3 I — Previamente cabe saber se há a geração e a corrupção absolutas. VIII. por um lado. Será mais razoável supor indivisíveis os corpos? Esta hipótese. como o fez Demó- crito. para que. a alteração e a geração não são mais realizáveis. devemos tentar também resolver esse dilema. para aqueles que dividem os corpos em superfícies. pois a tragédia e comédia estão constituídas com as mesmas letras. E. tais que permitam um vasto encadeamento. ser transmutada pela introdução do menor componente novo. 6 de modo absoluto. levar a divisão até às superfícies. Quase Iodos os filósofos parecem admitir. resta saber se cabe tratar de outras moções simples. Se. que os seres são engendrados e corrompidos pela união c pela separação de seus elementos. está eivada de absurdidades. a que ponto diferem um método de exame fundado sobre a natureza das coisas e um método puramente lógico: da realidade das grandezas indivisíveis resultaria. como o aumento e a alteração. ou não há absolutamente geração. Ao contrário. o que é negado por tais filósofos. mas. difíceis de refutar. de que maneira exislem. enquanto se alteram pela mudança de suas qualidades. pois. é verdade. tal dá lugar a muitas impossibilidades. por dificílimo que seja. fizeram as figuras infinitas. a seguir. a numerosas e bem fundadas objecções. e que as aparências são contrárias entre si. como está escrito no "Timeu". E. ou a geração é uma alteração. outros argumentos. aqueles que o abuso de raciocínios dialécticos afastou-os da observação dos factos. Se liá distinção. que impede de abarcar também 5 o conjunto das concordâncias. Eis também por que esse filósofo nega a existência da côr. . e infinitas. com efeito. Portanto. Se. e esses filósofos ademais. com efeito. por sua vez. não existe grandeza indivisível. com elementos primeiros indivisíveis. é a insuficiência da experiência. nada pode ser engendrado de superfícies compostas conjuntamente. aspectos opostos. com excepção dos sólidos. superfícies? VI. A razão. Posteriormente. a geração é uma união (congregatio). são também mais capazes de supor princípios fundamentais. Eis por que aqueles que vivem numa intimidade maior com os fenômenos da natureza. deste modo. por simples variações na composição.

infinitas em números e formas. podem mudar os temas. Esta afirmativa implica irracionalidade. Mas surgein argumentos tão fortes. ou não existe grandeza indivisível. Demócrito. o aumento dos seres ou as mutações contrárias se dão pela união de elementos primeiros. o que lhes permitiu (mas sem evitar aporias insolúveis) explicar a diversidade de opiniões. por meio de corpos indivisíveis. admitem que os seres são engendrados e corrompidos pela união e pela separação dos elementos que os compõem. Demócrito dizia que a alteração seria conseqüente às mutações da ordem e da posição de tais corpos (skhémata). são para Demócrito mera aparência. mas é mais racional que aceitar superfícies. Neste caso. Demócrito. a alteração é causada pela variação da ordem das posições das figuras (skhémata). depois de terem posicionado os átomos (figuras. que é um . e da conexão desses. que se é obrigado a aceitar que não pode ser de outro modo. enquanto se alteram por uma mutação de suas qualidades. que dividem os corpos em superfícies. obedecendo diversas ordens. como se apresentam nas coisas.52 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 53 II — Exemplifica Aristóteles com Platão. Como . dizendo apenas que o aumento se processa pela advenièneia do semelhante ao semelhante. pois os triângulos resolvem-se em linhas e as linhas em pontos. da relação posicionai móvel deles para com o todo (esquema corpóreo). Surgem daí muitas aporias» muitas dificuldades teoréticas. Mas os platônicos. isto é. como o dizia Platão no "Timeu". As cores. como o propõe. Leucipo. segundo as diversas mutações. mas. segundo a posição que tomarem. VI — A geração. conseqüentemente. nem de que maneira se produzem nas coisas. As transições de lugar nos permitem ver uma pomba sob diversas cores. como Demócrito. isto é. porém. As letras são indivisíveis. surgiria a alteração. geração. como se verá na Lição V. pelas variações dos corpos indivisíveis. e como elas são contrárias entre si. a geração e a corrupção da alteração. Por isso é que êle nega existência à côr. e que tem efeitos opostos em nós. podem construir corpos sólidos. Quanto ao aumento. não há em absoluto. que estudou a geração e a corrupção. Dessa forma. V — A maioria dos filósofos. Resta aceitar que. VII. que os examinou de outro modo. determinaram a alteração e a geração do seguinte modo: da união ou da separação de tais átomos surge a geração ou a corrupção. Ela surge das posições atômicas. que não obstante permanecem sempre as mesmas. nos esquemas noéticos fácticos. ou a geração é uma alteração. assim como a comédia. dois problemas surgem: 1) os primeiros elementos das coisas naturais são qualquer magnitude indivisível. dentro de sua doutrina. os estudos feitos pelos antigos eram insuficientes e superficiais. Mas há outros modos de geração. são eles corpos. uma subsistência em si mesma.. como o salienta cm seus comentários Tomás de Aquino. 2) se são magnitudes indivisíveis. Demócrito distingue. III — Demócrito e Leucipo. n.. IV — E por fundarem a verdade na aparência sensivel. Desse modo o acrescentamento de um simples átomo é suficiente para uma mutação radical. 6). Este é o dilema que se apresenta a Aristóteles e que êle pretende resolver. mas formam palavras. Também nada disseram sobre a mixínru. não podem estabelecer a causa de qualquer transmutação formal. e a ordem e posição destas formam um sentido. Com as superfícies. e da ordem. pelas conversões. aceitam que a geração é distinta da alteração. e infinitas (sem finitude em número) buscaram tais folósofos um conteúdo objectivo nas figuras. Assim. da qual êle se despreocupou. perseidade (per se. ou a tragédia. e neste caso são superfícies. skhémata. diversos discursos (sermones). Tampouco estudou a alteração e o aumento. plural de skhema). segundo a ordem e a colocação. isto é. exemplifica Demócrito. ao tratar das acções naturais. Se admitimos que a geração é uma união. tornando-se. nem como uma coisa age e outra sofre a ação. no entanto. por outro lado. "triângulos elementares?" VII — Tal é absurdo. embora ainda insuficientemente. tal afirmativa dá lugar a impossibilidades. e se afirmamos que a geração não é uma união. as modificações se dariam pelas modificações do contacto e das posições e ordens dessas magnitudes. como as qualidades secundárias. Neste caso. exceptuando-se. sem dizer de que maneira. como a assimilação biológica. realizem-se a alteração e a geração. como já o demonstrara Aristóteles em "De Caelo" (Cap. e apenas esta. Se não se admite. todos os filósofos trataram como qualquer advenücio na filosofia o faria. Portanto. por ex. como as palavras de um discurso. e nada mais. que é um sermo das coisas urbanas. de per si). como o disseram Demócrito e Leucipo. por exemplo.sermo das coisas bélicas. Anaxágoras e Empédocles.

como poderiam dai surgir qualidades? Só corpos poderiam causá-las. Ora. Raciocinar physikôs para Aristóteles é fundar-se no real. pois. II. per se hominem. pois não terá nenhuma quantidade. quer se trate ou de uma divisão pela metade. seguindo os métodos da filosofia natural. eles não tornariam maior o todo. será da mesma forma. Como Demócrito fundava-se na filosofia ou ciência da natureza eram suas afirmativas mais racionais. pois haveria aí alguma coisa de não dividido. Já o mesmo não se dá com aqueles que estão em conlncto mais íntimo com os fenômenos da natureza. O homem. TEXTO DE ARISTÓTELES I —4 I. E se a divisão se produzisse. há um nexo de idealidade na realidade e de realidade na idealidade. é indecomponível. E realmente. nenhuma impossibilidade decorreria daí. se o corpo é totalmente divisível e que a divisão é possível. se colocamos um corpo. uma grandeza como totalmente divisível. embora. geralmente. a forma imutável e eterna. de qualquer outra divisão natural total. já que. o cavalo. indecomponível. divididas elas inumeráveis vezes. Aqueles que se. infundada na experiência. é o autotrigonon. o corpo viria então de nadas e seria constituído de nadas. in re. Dessa forma. os filósofos mais afastados da experiência. quer dizer. não o seria. como forma. os (piais são mais aptos a propor fundamentos que permitam um mais vasto eiicadeainento dos factos. Qual seria pois a sobra? Uma grandeza? Não é possível. apenas o afanar-se através das idéias. e se a divisão foi efectuada. porque se refere ao sensível. nem grandeza. c que contudo mantemos a divisão absoluta. são facilmente levados a afirmativas inconsistentes. Conseqüentemente. Tal conceito não é evidentemente (» nosso. Dialéclica era. sem dúvida. única e persistente. uma dificuldade. nenhum corpo pudesse ser assim dividido. o que decorre de que quando o corpo fossem dividido . com conteúdos pouco claros e mal fundados na experiência. VIII A posição platônica é mais deficiente que a democrítea. através das idéias. III. ou então é de nadas absolutos: neste último caso. de não-grandezas. é a espécie. Mas a absurdidade será a mesma se o corpo é formado de pontos. e sobretudo. colocam em posições puramente dialécticas e abstractas. os platônicos foram de certo modo. afastados da observação dos factos. na coisa. pois dialéclica é o clarear das idéias. por hipótese. nada de impossível daí resultaria. mas o triângulo sensível. Quando. os pontos se encontrassem em contacto e coexistissem para formar uma única grandeza. embora. com efeito. o corpo é totalmente divisível. a divisão não fosse efectuada simultaneamente. Já que o corpo é assim divisível totalmente. com efeito. mas concrecionadas no nexo da realidade. quer. per se equiim. não resultaria daí nenhuma impossibilidade. linhas e superfícies são coisas matemáticas. poderá ser simultaneamente dividido em todas as suas partes. quer dizer. como já o mostramos na "Ontologia". portanto. a crítica aristotélica tem razão. Mas é preciso considerar com justiça o pensamento platônico. Aristóteles opunha a dialéclica ao método das ciências que consiste em partir da experiência. enunciando suas doutrinas sem uma base nesta. e o corpo inteiro não seria sem dúvida nada mais que uma simples aparência. ou é de pontos.54 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES pontos. de facto. Mas se devemos reconhecer que não sobra nem corpo. admitamos que tenha sido dividido. O triângulo. indivisível. mesmo quando a divisão tivesse sido feita em inumeráveis partes. e se admitimos que essa divisão é possível: que haverá que possa escapar à divisão? Pois. para êle. que o corpo será constituído. Há. Mas Aristóteles esclarecerá mais adiante suas palavras.

por exemplo. tal não implicaria uma impossibilidade. Se. e se a grandeza consiste em pontos ou contactos. não resultaria nada também. possuindo. nadas absolutos. como êle o mostrará mais adiante. o mesmo raciocínio anterior se aplicaria: de que maneira seria divisível esta partícula? V. Uma grandeza pode ser considerada como divisível. ela é possível (Tricot). não pode ser absolutamente divisível simultaneamente. Que coisa há pois nele. e o corpo seria então nada. e se se destacar da magnitude algum elemento corporal. Contudo. tal não poderia ser. pois sendo todo corpo. Se não é um corpo. esta por outra. se não o admitimos. Ora. E reunidos que fossem para formar um corpo. eis as dificuldades que daí decorrem. fora da divisão? Pois. o mesmo raciocínio se aplicaria: de que maneira seria divisível essa partícula? 316b Reexposição comentada I —4 I — Surge agora a crítica aristotélica à tese democríca. II — Se a realização de uma coisa não é incompatível com a própria essência dessa coisa. não resulta daí nenhuma impossibilidade". pois os pontos não têm quantidade. mas uma forma separada ou uma quantidade que surge. isto é. que é posón (quantidade). pode ser dividido pela metade. Mas se admitirmos que o que sobra não é uma grandeza. depois de termos dividido um pedaço de madeira. e que. de modo que. poderiam ser separados uns dos outros? VIII. ou alguma outra coisa. o que é inconciliável com a própria idéia de corpo.56 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 57 em dois ou mais partes. mesmo que todos os pontos estivessem reunidos. deste 5 modo. e os pontos reunidos não formariam nada. e o todo não seria nem maior nem menor que a parte. E se o corpo for formado de pontos. Mas suponhamos que a divisão se traduza por alguma coisa como um corte de um corpo. como o pedaço de madeira se resolveria nesses componentes. queremos colocar algum corpo que seja. mas divisível sucessivamente. tal levaria ao aniquilamento do corpo. pois seria êle constituído de pontos que não têm dimensões. e como procederia deles? Em outras palavras. o que não é pelo menos impossível. aceita até então como mais plausível que a platônica. Que sobraria? Uma grandeza. algum elemento corporal se destaque da grandeza. O que tem uma dimensão. exhautive. VII. Ora. como fora da divisão e do ponto. pois.10 nimos os fragmentos. mas. é evidentemente assim de qualquer ponto que eu seccione o pedaço de madeira. o todo não seria menor nem maior do que antes. IV. como totalmente divisível. Mas tal divisão não pode realizar-se omnino. In "Metaphysica". no sentido que há sempre alguma coisa fora do contacto. 15 . se. IV — Se a divisão se realizar por um corte do corpo. porque é composto de nada. Como conseqüência. Para compreender-se nitidamente o pensamento de Aristóteles é preciso esclarecer o que êle entende por possível. reu. como esses elementos constitutivos. em que lugar estarão os pontos? E estarão imóveis ou em movimento? Ora. Ademais. é paradoxal que uma grandeza seja composta de não-grandezas. totalmente divisível. mesmo que suponhamos que há alguma quantidade. deve haver corpos indivisíveis e grandezas. um cont a d o supõe sempre dois termos. esta lambem o seria. não evitaremos de cair nas impossibilidades que examinamos em outros tratados. totalmente. nesse caso o corpo seria formado de inúmeros nadas. tornar-se-ia igual e um. de alguma grandeza que seja. pois não pode haver grandezas indivisíveis. assim. tal qualidade. decorreria o mesmo. Se partimos da admissão de uma divisão totaliter (pánte) que se realizasse simultaneamente em todos os pontos do corpo. do qual é dita ter a potência. por hipótese. já que é impossível que as grandezas sejam formadas de contactos ou de pontos. dá-nos a seguinte definição" dopossível (dynatón) : "Uma coisa é possível se ao passar ao acto. não formariam nenhuma grandeza. e assim sucessivamente. Pois o pedaço de madeira foi dividido potencialmente de maneira completa. Ademais. VI. A divisibilidade seria ainda possível. Conseqüentemente. III — Admitamos agora que tal se tenha dado.

É portanto necessário que o corpo sensível contenha grandezas indivisíveis. igual ao movimento. o intermediário é sempre uma linha como Aristóteles mostrou na "Física". Não poderia haver contacto entre eles. totaliter. IV. tornase êle um. quer do nada absoluto. indivisível. uma vez mais. mesmo em potência. pois a divisão se deu em acto. não é contíguo a um ponto. contudo. e se o corpo se resolvesse em nada. por exemplo. Como seria tal possível? Mas é desde logo claro que a divisão se efectua cm grandezas separáveis. V — Se a parte sobrante não fosse nem corpo nem magnitude e sim. Mas essa divisão. mas admitir grandezas indivisíveis oferece também outras dificuldades. seguir-se-ia que a geração viria do nada e seria. a divisão simultânea não poderia operar-se em todo ponto (pois tal não é possível) : ela se deteria em alguma parte. E assim poderia. III. E sobretudo tal se dá se se admite que a geração e corrupção consistem respectivamente na congregação (união) e na segregação (separação). sendo corpórea. umas das outras. mais uma vez. TEXTO DE ARISTÓTELES I — 5 I. devemos retornar ao ponto de partida. se reunirmos os pedaços e as partículas estes permanecem divididos apenas em potência. tal poderia então acontecer. Mas como explicar a separação da qualidade de os pontos? VII — A conseqüência é admitir corpos indivisíveis e grandezas. que um corpo seja. Nada. Os pontos são apenas simples limites. nada há aí de paradoxal: será divisível potencialmente. no entanto. parece. então. e indivisível em ontelequia (actuaimente). por outra parte. em potência provoca objecções. Nas próximas lições. não simultaneamente e ao mesmo tempo indivisível e dividido em enteléquia. Por outro lado. com efeito. Já que um ponlo. sempre menores em cada divisão. por sua vez. VI — Sendo os corpos pontos que não ocupam lugar e. o que compusesse o corpo seria sem magnitude. Aristóteles combate a divisibilidade total. e em grandezas separadas. ê o que. e a parte. que êle é. que de um lado. pois o contacto supõe a consecução (èphexês) e dois pontos não são consecutivos. Devemos. os pontos não receberão nem um movimento nem estariam em nenhuma parte e não poderiam unir-se para constituir corpos. Se se dissimula um paralogismo e até onde o dissimula. Para Joachim é. neste caso. numa divisão progressiva. por que o que vem do nada é nada. para o corpo. e a magnitude não pode ser formada de quantidades discretas (Tricot). são determinados pelos lugares. porque se acentua a impossibilidade que êle já havia estabelecido na "Física". todo corpo sensível seja. Nesse caso todas as coisas naturais seriam nada. então o corpo finalmente se resolveria em pontos e. e.58 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES Se tal se fizesse. Se um corpo é dividido ern qualquer ponto. Conseqüentemente. divisível simultaneamente em todos os seus pontos. Entre os pontos. V. Alegarão alguns que a divisão em potência não expulsa a qualidade. um argumento contra a tese da divisibilidade pante. resolver essas dificuldadades. sobraria. fosse possível. um ponto. e o corpo ter-se-ia desvanecido no incorpóreo. Se com efeito. e eis por que. seria divisível. seria nada. tanto quanto divisível. VII — Tudo quanto Aristóteles diz neste parágrafo é posto em dúvida por muitos autores. nada. é do que vamos falar. Tal é o argumento que parece estabelecer a necessidade de grandezas indivisíveis. Essas dificuldades decorrem naturalmente da admissão de um corpo totalmente divisível. provir quer de pontos. Tudo quanto é corpóreo é divisível. Conseqüentemente. a sobra teria magnitude. Aristóteles empreende a resolução dessas aporias. a divisibi- 20 25 30 317a . e daí resultaria. e separadas em acto. que só se ausenta pela divisão em acto. mas simultaneamente dividido num ponto qualquer. pois o contrário seria impossível. II. ser impossível. não importa em que ponto. o fracturamento não poderia prosseguir ao infinito.

Mas esses filósofos pensam que toda mudança dessa natureza é alteração. certa distinção nem sempre fácil de perceber. Mas a geração e a corrupção absolutas e completas não são definidas. III — A divisibilidade em potência em todos os pontos de um corpo parece-lhe impossível. seria divisivel também em acto. porém. enquanto há um único ponto. pois os pontos não são consecutivos. o ar é engendrado delas mais rapidamente. Tudo quanto é magnitude é divisivel potencialmente et totaliter. desde que se distinga potência de acto. que ela 5 seria composta de contactos ou de pontos. e impossível de outro. Mas é absolutamente sob um ponto de vista que a grandeza é divisivel em toda parte. O corpo é divisivel em potência (pante. geração e corrupção absolutas. VII. * * * 30 Reexposição comentada I — 5 I — Estamos ante uma aporia que é preciso solucionar. quer 15 dizer. em enteléquia. foi de início dividida em partículas de água menores. e o que é segundo a matéria. Se a água. desde já. Nem em potência poderia ser simultaneamente divisivel potencialmente et totaliter. um ponto. senão. pois. Recordemos a sua definição na "Metafísica": "Uma coisa é possível. Há em Aristóteles. mas a divisão se faz em partículas. os corpos são constituídos de puros nadas. como alguns filósofos o sustentam. e por acidente. que a grandeza pode ser dividida até o nada. há divisibilidade. K divisivel em enteléquia. se o corpo fosse totalmente divisivel em seus pontos. o corpo se desvaneceria no in- . será divisivel também a um ponto 10 contíguo a esse meio. como se vê. totaliter. por conseguinte. mas quando há mudança total de tal coisa a tal outra coisa. enquanto tomados um a um. a separação e a união facilitam somente a corrupção da coisa. nem de ponto a ponto. quando ela passa ao acto da qual ela é dita ter a potência. Daí resulta que há divisão e composição. a modal do acto. com efeito. quando. Não o pode ser. Em outras palavras. se. o termo realizado pela acção. II — Não há nenhuma inconveniência em dizer que o corpo sensível seja e não seja igualmente divisivel. pois. Ora. Tudo isso se esclarecerá a seguir. Mas acredita-se. Não há diversos pontos num lugar qualquer. resolve êle a aporia. é mister distinguir o que é segundo a forma. de início. e. pois não há posição contígua a uma posição. nem de tal maneira que a divisão se produza em toda parte (teria sido mister. para tal. pois êle os emprega muitas vezes sinonimicamente. Mas. actualmente é impossível realizar a divisibilidade pante. enquanto a mudança no contínuo seria a alteração. a partir de partes menores ainda. não pelo facto da 20 união e da separação. mas quando é nas qualidades da coisa. é engendrado mais lentamente. É mister retornar ao ponto de partida. em partes menores que o dividido. na realidade. VII. em toda parte dela. reunidas. será a ge. não este ou aquele. totaliter). de maneira que daí se seguiria. necessariamente. será uma alteração. não há divisão contígua a uma divisão. pelo menos como a concebem alguns filósofos. em um lugar qualquer nela. no emprego dos termos enérgeia (acto) e entelékheia (acto. que há nela um ponto. Bem ao contrário. por força da definição de possível. então. fique bem estabelecido o que segue: a geração não pode ser uma união. não o é por sua vez em potência.25 ração e a corrupção. quando se coloca esta divisibilidade total da grandeza. onde há magnitude. que o ponto fosse contíguo ao ponto). eis onde reside todo o erro. Não o sendo. No sujeito da mudança. Na realidade. a saber. enquanto que se as partículas de água foram. Neste caso. nem composição a uma composição. com efeito. não resulta daí nenhuma impossibilidade". com efeito. há uma diferença. pois que haveria. daí resultaria. nem a partir de grandezas indivisíveis (haveria aí múltiplas impossibilidades). onde há magnitude. e que todos seus pontos estão em toda parte. a composição. pela união e pela separação. Quando é nestes mesmos factores constitutivos que a mudança se dá. Mas pode-se estabelecer esta distinção: enérgeia é acção. mas em toda parte. VIII. o que é absurdo no pensamento aristotélico. embora não seja em grandezas indivisíveis. ela não é em todos os seus pontos simultaneamente divisivel.60 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 61 lidade total das grandezas é possível de um modo. se ela é divisivel em seu meio. Há. de pontos. Desta forma. em acto. entelékheia (enteléquia).

não há divisão contígua a uma divisão. eis onde reside todo o erro. Não o pode ser. para tal. nem composição a uma composição. Mas. a saber. pois que haveria. pois os pontos não são consecutivos. por força da definição de possível. cm acto. onde há magnitude. Bem ao contrário. que ela 5 seria composta de contactos ou de pontos. e impossível de outro. fique bem estabelecido o 30 que segue: a geração não pode ser uma união. actualmente é impossível realizar a divisibilidade pante. Não há diversos pontos num lugar qualquer. pela união e pela separação. e por acidente. no emprego dos termos enérgeia (aclo) e entelékheia (acto. há divisibilidade. enquanto tomados um a um. desde já. pois êle os emprega muitas vezes sinonimicamente. O corpo é divisivel em potência (pante. não resulta daí nenhuma impossibilidade". não o é por sua vez em potência. e que todos seus pontos estão em toda parte. e o que é segundo a matéria. Desta forma. quando ela passa ao acto da qual ela é dita ter a potência. Em outras palavras. pois não há posição contígua a uma posição. VIII. Mas é absolutamente sob um ponto de vista que a grandeza é divisivel em toda parte. a composição. na realidade. o corpo se desvaneceria no in- . Tudo quanto é magnitude é divisivel potencialmente et totaliter. Não o sendo. os corpos são constituídos de puros nadas. totaliter. Tudo isso se esclarecerá a seguir. VII. de início. o ar é engendrado delas mais rapidamente. Recordemos a sua definição na "Metafísica": "Uma coisa é possível. Mas pode-se estabelecer esta distinção: enérgeia é acção. que o ponto fosse contíguo ao ponto). a separação e a união facilitam somente a corrupção da coisa. VII. Se a água. necessariamente. o que é absurdo no pensamento aristotélico. Mas a geração e a corrupção absolutas e completas não são definidas. pois. geração e corrupção absolutas. então. que há nela um ponto. onde há magnitude. ela não é em todos os seus pontos simultaneamente divisivel. certa distinção nem sempre fácil de perceber. com efeito. Há. desde que se distinga potência de acto. é mister distinguir o que é segundo a forma. não pelo facto da 20 união e da separação. se. quando. resolve êle a aporia. a modal do acto. enquanto a mudança no contínuo seria a alteração. um ponto. seria divisivel também em acto. em partes menores que o dividido.60 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 61 lidade total das grandezas é possível de um modo.25 ração e a corrupção. mas em toda parte. com efeito. será divisivel também a um ponto 10 contíguo a esse meio. mas quando há mudança total de tal coisa a tal outra coisa. quer 15 dizer. enquanto que se as partículas de água foram. Neste caso. com efeito. porém. como se vê. II — Não há nenhuma inconveniência em dizer que o corpo sensível seja e não seja igualmente divisivel. quando se coloca esta divisibilidade total da grandeza. de maneira que daí se seguiria. mas a divisão se faz em partículas. será a ge. nem de ponto a ponto. enquanto há um único ponto. pois. nem a partir de grandezas indivisíveis (haveria aí múltiplas impossibilidades). Daí resulta que há divisão e composição. K mister retornar ao ponto de partida. Na realidade. em enteléquia. em toda parte dela. Quando é nestes mesmos factores constitutivos que a mudança se dá. se o corpo fosse totalmente divisivel em seus ponlos. foi de início dividida em partículas de água menores. III — A divisibilidade em potência em todos os pontos de um corpo parece-lhe impossível. E divisivel em enteléquia. daí resultaria. há uma diferença. por conseguinte. de pontos. mas quando é nas qualidades da coisa. é engendrado mais lentamente. não este ou aquele. totalitcr). será uma alteração. pelo menos como a concebem alguns filósofos. o termo realizado pela acção. que a grandeza pode ser dividida até o nada. a partir de partes menores ainda. * * * Reexposição comentada I — 5 I — Estamos ante uma aporia que é preciso solucionar. Nem em potência poderia ser simultaneamente divisivel potencialmente et totaliter. Ora. nem de tal maneira que a divisão se produza em toda parte (teria sido mister. Mas esses filósofos pensam que toda mudança dessa natureza é alteração. No sujeito da mudança. em um lugar qualquer nela. como alguns filósofos o sustentam. senão. entelékheia (enteléquia). e. se ela é divisivel em seu meio. Há em Aristóteles. reunidas. embora não seja em grandezas indivisíveis. Mas acredita-se.

que uma grandeza possa ser dividida pante. A divisão faz-se em partículas. e a composição em partes menores. porque. mas há uma diferença importante. na realidade. há uma transmutação ex totó in totum. menores que o composto. se a linha fosse totalmente dividida em acto. a divisão não poderia prosseguir in infiniium. admitindo sempre a existência de grandezas indivisíveis. um não excede ao outro e. afirma Tricot. e em grandezas separadas umas das outras. que não admitia que um corpo fosse divisível totaliter em potência e também não o fosse em acto. por isso a divisibilidade é possível sob um ponto de vista e não sob outro. que é a forma. embora invisível. Emquanto na corrupção é a perda da forma anterior. quando a transmutação se processa apenas nos acidentes. Quer dizer. porque surge aqui o composto de forma e matéria (to synolon) e. isto é. deste modo. e o intermediário entre os pontos é apenas a linha. todos os pontos seriam apenas um ponto. por ex. V — Paralogismo está que um ponto não é contíguo a outro ponto. quando a transmuta. os átomos. calma e ponderada. Tomás de Aquino. isso não pode ser porque sendo os pontos indivisíveis. e os pontos são apenas limites. Pois ademais não se poderia dividir pante o ponto contíguo se o fosse. átomos de Demócrito. Não se conclua. Se não o é em acto. nem simultaneamente em todos os pontos. A gênesis (geração) é para os atomistas uma synkrisis (uma congregatio) e a phtorá (a corrupção) apenas uma diákrisis. uma separação. se os pontos não são contíguos uns aos outros. portanto. Na geração. não apenas pela união e separação dos elementos. Ora. estamos na geração e corrupção simplesmente. e a matéria adquire uma nova forma substancial. que é a matéria. E nada mais são que os átomos de Deinónilo. porque o ponto não tem dimensão. Tanto quando a transmutação se dá na matéria e forma. uma grandeza pode ser dividida pante num ponto qualquer. mas pelo surgimento de uma nova onsia. admitindo que a geração é apenas synkrisis e a corrupção diákrisis. comentando este parágrafo. Ora. Em síntese: a divisão da linha em acto não é nada mais do que a do ponto em acto. quer dizer. ademais. e dois pontos não são consecutivos. quando se dá apenas nas paixões e acidentes estamos na alteração. a leitura. uma grandeza indivisível. Há alteração. a mutação no contínuo não é sempre uma alteração. que constitue o syntheton. quando eles afirmam que a geração seria apenas a união dos elementos. em acto totalmente. formando uma unidade. Desta forma. quer dizer. mas apenas nas suas propriedades. totalmente. em partes menores do que o dividido. porque um tangeria o outro como um todo. a contiguidade implica lugar natural. e a corrupção uma separação. Se a linha fosse dividida em acto totalmente. então. em que a matéria adquire outra forma substancial. há geração e corrupção absolutas. Encontraria um ponto onde deter-sc. e. não o é em potência. decorreria que o ponto se ubiquaria em acto na linha. mas não em todos os pontos simultaneamente. . Resta com clareza. Embora difícil a explanação aristotélica. em sentido filosófico. e daí decorreria também que os pontos fossem contíguos ou conseqüentes. que ela possa ser dividida totalmente em acto. há necessidade de aceitar grandezas indivisíveis (átomos. do todo no todo. mas já em acto. portanto. o ponto seria ubíquo na linha. como argumentam os atomistas. permite compreender os pontos fundamentais da sua doutrina. e não apenas uma synthesis dos corpos indivisíveis. diz que a divisão da linha em acto nada mais seria do que um ponto em acto. não há necessidade de supor partes absolutamente indivisíveis. em suas divisões. que a divisão só pode ser feita em grandezas separáveis. é que há alteração. IV — Ura. Há geração. Conseqüentemente. cada vez menores. e não no da física actual). segregatio. sem modificação das substâncias. O sujeito transmuta-se todo. todos os pontos não seriam mais do que um único ponto. Portanto. e nenhum corpo pode ser dividido ao infinito. pois como já vimos. que se a linha pode ser divisível totalmente em potência. Ai reside o erro. e seria constituído de pontos. Não se pode dizer. Também este era o pensamento de Demócrito. e na ousia déutera. Portanto. VI — Mas Aristóteles se opõe aos atomistas. não se dá a mutação na coisa em si. porque se os pontos são indivisíveis. A alteração diferenciar-se-ia da geração apenas em efetuar-se no contínuo. muitos pontos contíguos não excederiam a um ponto. quando existe um intermediário. Tal não pode ser. Agora. E só se dão coisas consecutivas. quando a mudança se produz na ousia prole. de nadas. os pontos não podem estar ubiquados em acto na linha e daí não poder a linha ser dividida. 0 salto qualitativo que Aristóteles estabelece aqui é de magna importância. e se dessem na linha.62 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 63 corpóreo. Os atomistas consideram que toda mutação dessa natureza é apenas uma alteração que se produz no contínuo. nesse caso. quando a mutação afecta a qualidade das coisas. como já tivemos oportunidade de ver anteriormente.

mas apenas nas suas propriedades. quando a transmuta. em partes menores do que o dividido. todos os pontos seriam apenas um ponto. Também este era o pensamento de Demócrito. e nenhum corpo pode ser dividido ao infinito. por ex. pois como já vimos. V — Paralogismo está que um ponto não é contíguo a outro ponto. Agora. nesse caso. e daí decorreria também que os pontos fossem contíguos ou conseqüentes. é que há alteração. quando a transmutação se processa apenas nos acidentes. Emquanto na corrupção é a perda da forma anterior. E só se dão coisas consecutivas. quer dizer. não o é em potência. formando uma unidade. e a corrupção uma separação. Não se conclua. mas já em acto. sem modificação das substâncias. Quer dizer. porque se os pontos são indivisíveis. isto é. a divisão não poderia prosseguir in infinitum. Tomás de Aquino. permite compreender os pontos fundamentais da sua doutrina. a mutação no contínuo não é sempre uma alteração. que uma grandeza possa ser dividida pante. menores que o composto. ademais. Os atomistas consideram que toda mutação dessa natureza é apenas uma alteração que se produz no contínuo. Portanto. e a composição em partes menores. uma separação. como argumentam os atomistas. E nada mais são que os átomos de Demócrito. que é a forma. e em grandezas separadas umas das outras. O salto qualitativo que Aristóteles estabelece aqui é de magna importância. que ela possa ser dividida totalmente em acto. e seria constituído de pontos. o ponto seria ubíquo na linha. os pontos não podem estar ubiquados em acto na linha e daí não poder a linha ser dividida. A divisão faz-se em partículas. há geração e corrupção absolutas. se a linha fosse totalmente dividida em acto. quando a mutação afecta a qualidade das coisas. Embora difícil a explanação aristotélica. Portanto. Resta com clareza. Encontraria um ponto onde deter-se. Conseqüentemente. então. IV — Ora. não apenas pela união e separação dos elementos. como já tivemos oportunidade de ver anteriormente. mas não em todos os pontos simultaneamente. porque surge aqui o composto de forma e matéria (to synolon) e. que constitue o syntheton. Ora.62 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 63 corpóreo. em acto totalmente. Ora. quando eles afirmam que a geração seria apenas a união dos elementos. portanto. do todo no todo. e dois pontos não são consecutivos. A gênesis (geração) é para os atomistas uma sgnkrisis (uma congregatio) e a phtorá (a corrupção) apenas uma diákrisis. portanto. embora invisível. decorreria que o ponto se ubiquaria em acto na linha. quer dizer. Na geração. e a matéria adquire uma nova forma substancial. O sujeito transmuta-se todo. e se dessem na linha. Tanto quando a transmutação se dá na matéria e forma. muitos pontos contíguos não excederiam a um ponto. porque. afirma Tricot. cada vez menores. porque um tangeria o outro como um todo. porque o ponto não tem dimensão. segregalio. . deste modo. VI — Mas Aristóteles se opõe aos atomistas. diz que a divisão da linha em acto nada mais seria do que um ponto em acto. Se não o é em acto. de nadas. quando se dá apenas nas paixões e acidentes estamos na alteração. totalmente. todos os pontos não seriam mais do que uni único ponto. que se a linha pode ser divisível totalmente em potência. A alteração diferenciar-se-ia da geração apenas em efetuar-se no contínuo. a leitura. admitindo que a geração é apenas sijnkrisis e a corrupção diákrisis. que não admitia que um corpo fosse divisível totaliter em potência e também não o fosse em acto. Não se pode dizer. admitindo sempre a existência de grandezas indivisíveis. Há geração. átomos de Demócrito. e não apenas uma synthesis dos corpos indivisíveis. Se a linha fosse dividida em acto totalmente. não há necessidade de supor partes absolutamente indivisíveis. quando a mudança se produz na ousia prole. que a divisão só pode ser feita em grandezas separáveis. um não excede ao outro e. na realidade. Desta forma. comentando este parágrafo. há uma transmutação ex totó in totum. nem simultaneamente em todos os pontos. e. Pois ademais não se poderia dividir pante o ponto contíguo se o fosse. Há alteração. não se dá a mutação na coisa em si. que é a matéria. se os pontos não são contíguos uns aos outros. calma e ponderada. por isso a divisibilidade é possível sob um ponto de vista e não sob outro. em que a matéria adquire outra forma substancial. Em sintese: a divisão da linha em acto não é nada mais do que a do ponto em acto. quando existe um intermediário. isso não pode ser porque sendo os pontos indivisíveis. os átomos. e não no da física actual). em suas divisões. Tal não pode ser. mas pelo surgimento de uma nova ousia. a contiguidade implica lugar natural. estamos na geração e corrupção simplesmente. e o intermediário entre os pontos é apenas a linha. mas há uma diferença importante. em sentido filosófico. Ai reside o erro. e na ousia déutera. e os pontos são apenas limites. uma grandeza indivisível. uma grandeza pode ser dividida pante num ponto qualquer. há necessidade de aceitar grandezas indivisíveis (átomos.

nenhuma outra categoria. e. nem a qualidade. como concebem os atomislas que a explicam pela synkrisis. reunidas. do doente sobrevém o saudável. a lal não pode evidentemente pertencer nenhum pred içado. de maneira que necessariamente o nigendrado viria do não-ser. Se. fala-se do não-ser. devemos de início examinar se existe alguma coisa que seja engendrada e corrompida de maneira absoluta. enquanto a geração absoluta procede do não-ser absoluto. IV. |ior exemplo. sempre. tal como do não-branco o branco ou do nãobelo o belo. por exemplo. VIII — Conclue. pois. nem a individualidade. com efeito. que elas as facilitam. nem a quantidade. uma coisa. Se houvesse. se. alguma coisa poderia vir do não ser absoluto. que a geração não é uma união. TEXTO DE ARISTÓTELES I —6 I. Contudo. e exemplifica com a água que. É este um ponto que êle desenvolverá mais adiante. engendra mais facilmente o vapor. haverá geração de uma substância a partir de uma não-substância. VI. ou então se não há geração propriamente dita. agora recordar brevemente. V. que. relativo.64 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES VII — Embora Aristóteles não admita que a separação e a união não constituem a corrupção e a geração. VII. discutidas e definidas mais amplamente. no primeiro sentido. ou apresenta um sentido universal e que abarca todas as categorias. do saudável. Elas preparam e facilitam tais processos. porque então as qualidades poderiam ser separadas das substâncias. III. condido convém ainda. a geração se faz a partir do que 35 317b 5 10 15 . e. nem o lugar. <lc certa maneira. geração absoluta. de alguma coisa se lorna alguma coisa. Essas distinções. dividida em partículas menores. o que é "absolutamente". Pois a geração relativa procede do não-ser. e igualmente em todos os demais casos. Mas aquilo ao qual não pertence nem a substância. haveria negação total de todos os seres em geral. e o grande. ou significa o que é primeiro segundo cada categoria do ser. Se por outro lado não-ser é tomado num sentido geral. II. como. porém. o doente. ao contrário. admite. uma vez colocadas. tornariam tais processos mais lentos. E de tal forma que seria verdadeiro dizer que o não-ser existe. do pequeno. emquanto que tais partículas. ou como o pequeno vem do grande. portanto. Todas essas questões foram em nossas obras.

com efeito.20 ção absoluta. ou o lugar. e na qual deve necessariamente 25 mudar-se o que é destruído. mas apenas os possue todos em potência. apenas em potência. se ao invez não se traia do ser que tem tal qualidade. a geração (gênesis) é a producção de uma nova ousia (substância). daí resulta desde logo que o que não é um ser determinado é separado. poder-se-ia dizer que é dessa outra. nesse caso. o que levaria a dizer que algum ser pode vir de nada. o não-ser existiria. o que é gerado ou corrompido. do ser determinado.66 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 67 não é absolutamente. e do grande. o que Aristóteles faz. Como o expõe Tomás de Aquino. as qualidades seriam. No primeiro caso. Poder-se-ia perguntar. mas que. nem uma coisa determinada nem um ser? Pois se esta coisa não possue nenhum destes últimos predicados em entelequia. de f acto. é claro que será uma substância. Mesmo raciocínio se se trata de uma categoria segunda (por ex. poderia este ser predicado àquele. do que não é branco gera-se o branco. pois é nada. como por ex. até quando essas distinções estão estabelecidas. eis que uma extraordinária dificuldade se apresenta. para um novo exame: como pode haver aí gera. Igual pergunta caberia quanto à corrupção. gera-se e corrompese em algo. neste caso. absolutamente. IV — A geração relativa (secundum quid) é a que decorre ex non ente aliquo. com eleito. não poderia produzir algo. Será que a esta substância pertencerá em entelequia algum predicado das outras categorias? Em outras palavras. com efeito. como os exemplos. que dá: se do pequeno vem o grande. Se. seria ente. Neste caso. ou tal quantidade ou que ocupa tal lugar. Provará que. que preexiste necessariamente. pois essa conseqüência é totalmente impossível. e convém retomar sobre nossos passos. se alguma coisa se gera de outra. e. o . Mas. É. VIII. Reexposição comentada I — 6 I — Expôs Aristóteles a geração e a alteração. a partir da qual a geração terá lugar. em potência e não cm entelequia. no que "concerne à categoria da substância —. F. uma coisa determinada e um ser. que há geração. pertencerá ao que é. o selem potência. quer de uma outra maneira? IX. pois não tem eficácia. como por ex. por exemplo. coisa impossível. sendo impossível como tal. o pequeno (generatio secandum quid). o qual é não-ser em entelequia. já que esta coisa não é uma coisa determinada ou uma substância. ela se faz sempre a partir do ser. separadas das substâncias. Se do não-ente (não-ser) se gerasse o ente. agora pretende êle expor a sua maneira de considerar tema de tal importância. mas dessa espécie de ser. As distinções são: 1) significa o que é o primeiro termo entre o gênero mais afastado em cada categoria. quer ela se produza a partir de ser em potência. o que é contradiclório. é um ser determinado que é engendrado. se qualquer dos outros predicados. Por outro lado. a ousia em fíeral para a categoria de substância. o não ser seria predicável como atributo de um ser. II — Se há uma geração absoluta (simpliciter) alguma coisa poderia simplesmente vir do não-ser absoluto (mè ontos). III — O absurdo ressalta aos olhos. ademais (problema que mais atormentou e preocupou 30 os primeiros filósofos). V e VI — Para responder as dificuldades que surgem» é mister primeiramente estabelecer as distinções que se podem fazer sobre o que é "absolutamente" (ens simpliciter). será que. isto é. dos quais acabamos de falar lhe pertencessem. de outra maneira. 2) ou então o ser em comum. X. E coloca a temática do seguinte modo: a) se há geração e corrupção absolutas (simpliciter). do não ser algo (não privação absoluta do ser). Portanto. torna-se claro que não se pode afirmar que o não-ser gere simplesmente o ente. e nós o chamamos ao mesmo tempo. de ser e de não-ser. que compreende todas as categorias. como diferenciar a alteração da geração ou se esta é apenas uma decorrência daquela. b) se não há e. isto é. assim se a madeira se gerasse em armário poder-se-ia dizer que a madeira é armário.comenta Tricot — haveria geração de uma substância a partir de uma não-substância. enquanto a geração absoluta (simpliciter) seria a do não-ser absoluto (ex non ente simpliciter) . mas que não é. se é da substância. segundo a opinião dos outros filósofos e. a quantidade ou a qualidade. já que teríamos de admitir a eficacidade do não-ser em ser e.. 3) o que absolutamente não é ser (to aplôs mè ón). assim como dissemos. O não-ser. que o ser procede de um nãoser preexistente.

pois o noda não tem eficácia. em acto. Como pode surgir uma geração absoluta (simplex). que a geração se faz do ente e do não-ente. pois o que não c. por sua vez. como os accidentes são entia qiübus e não entia quae. "contra rationem naturalis generationis et contra sententias omnium philosophorum naturalium" (contra a razão da geração natural e contra a sentença de todos os filósofos da natureza). da qual é ela uma simples determinação. Portanto. a substância se geraria da não substância. tode ti. tais como a qualidade. Por isso pode dizer-se de modo absoluto (simpliciter). não é hoc. num scnlido. sim. lugar. surge uma nova aporia. ou é a matéria prima (próte hylê) ? IX — Pergunta-se se há geração e ou corrupção vinda da substância ou dos demais accidentes (predicamentos). a geração é a superveniência de um ser de um não ser anterior. como diz Tomás de Aquino. pois a potência não se dá de per si.. Empédocles. e não simpliciter entia. senão a qualidade existi lia independentemente da substância". portanto. o não-ser absoluto (oposto ao to aplôs ôn). absoluta. é substância. se o não-ser é absoluto (universaliter negatio omnium entium). Como predicar-lhe então os acidentes? No terceiro caso. e to mè ón aplôs.. não é nada. que se deve traduzir por "o que não é absolutamente". Como esta última solução já está descartada. neste caso. o que se gera implica um prexistente que não pode ser nada. hoc aliquid. o composto de matéria e forma. Resta. que antecede. Em síntese podemos concluir ante tais aporias. mas. e de Anaximandro. Se não estavam. que é não-ente em entelequia. o gerado. sobrevém do que estava antes em acto que. o absurdo de uma geração é patente. realizar-se-á a geração e o que surge. estavam ou não em actos outros predicamentos (os accidentes). mas salvas as distinções de potência e acto. Se está em potência está em outro. ao que não pertence nem à substância nem à individualidade não pode pertencer a nenhum predicado de nenhuma outra categoria. que a matéria subjectiva estai-ia privada de toda forma. 2) e de outro modo. o não ser. 6-9. deste modo. pois do contrário não haveria geração. para que surja o . gera-se de um substância anterior ou então viria do nada. Se a substância surgisse do não-ente.68 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 09 branco vindo de uma não-qualidade). No primeiro caso. dificuldades que decorrem das soluções oferecidas. se corrompe. que deixa de ser. a substância do ser gerado está em potência em aliquid em acto. Dessa potência. Se se aceitar a primeira. Neste caso. que a substância se geraria do não ser em acto e do ser em potência. conseqüentemente a geração. teríamos de aceitar que os acidentes poderiam existir separados das substâncias. que significa "o que absolutamente não existe". de Melisso de Samos. que supõe a substância. VII — Tais problemas já haviam sido examinados em outras obras como na "Física" I. para esclarecê-la acrescenta: "Convém não confundir to aplôs mè ón. o que é uma absurdo. seguir-se-ia que o não ser estaria separado. Se não é substância nem individualidade. mas em potência. mas que era um ser que se corrompe. isto aqui. de um não ente. Conseqüentemente. X — Surgem ainda problemas para Aristóteles. quantidade. isto é. Anaxágoras. é um nada relativo c não um nada absoluto. VIII — Estabelecidas tais distinções. dos platônicos. pois teríamos a geração do nada (ex nihilo) o que é. mostrando que a geração se faz simplesmente da seguinte maneira: 1) de certo modo. estar em potência: o que se gera está em potência em outro. o ser em potência". comentando a terminologia aristotélica. o que é gerado. O que preexiste na geração é o ente em potência. Não pode estar em acto. onde estudou a posição de Parmênides. o que é impossível. ou que algo se geraria de um não-ser preexistente. a conclusão a que chega Aristóteles é a de que não se poderia dar uma geração simples. Discutiu-os e definiu-os mais amplamente. Mas esse aliquid ou está em acto ou está em potência. que preexiste necessariamente. etc. e o gerado viria do não-ser absoluto. porque. etc. é só da substância. neste caso os accidentes estariam separados da substância. a presença do ser não é absoluta (pois o ser em potência não conhece ainda a perfeição do acto). Partamos daqui. mas apenas em outro. Neste caso. Ora. como o define Tomás de Aquino. vinda da potência do ente ou de qualquer outra maneira? É a sede da geração o synolon. é absoluta ausência de ser. quer dizer "o que é em certo sentido". Soluciona a dificuldade. no segundo. de um ente. que não era o novo ser que se gera. não em acto. que é o demonstrativo individual da substância. Tricot. pois há negação total de todos os seres. SÍNTESE DA REEXPOSIÇÃO O que se gera. Portanto. e ou a corrupção (simplex). são entes em outros. uma substância. que o que se gera de uma substância. um áliquid. Ora. mas alguma coisa.

no (pie se corrompe. pois haveria contradicção. jamais a corrupção e a geração deixam de faltar na natureza. (Causa) significa aqui. se supomos finito. por exemplo. que dificuldades exigem todo o nosso esforço. em qualquer momento. por exemplo: a quantidade. pois. eniquanlo substância dêlc. devemos determinar mais longe. Se. há corrupção. neste caso. tanto da geração absoluta como da geração parcial? 35 II. e. neste caso não seria tal substância. A substância do (pie se gera. a que concerne o princípio imóvel. por outro lado. a geração simples nos indica que a substância se gera de um não-ente em acto e de um eníe em potência. como afinal é preciso explicar a corrupção e a geração absolutas. com efeito. nem uma coisa determinada. o (pie é rejeitado pelo aristotelismo e não o é. o de onde procede cada um dos seres engendrados? . surgiria a aporia que atormentou e preocupou os primeiros filósofos gregos. que ela implica. e que o não-ser nada seja. Há. salvo se se considerasse essa substância indeterminada. Portanto. (piai é. Quanto ao que é. por um lado. como já vimos em nossos livros "Ontologia" e "Cosmologia". Só pode estar em potência. o que é impossível. como um ser real. qual seja a de que o ser procederia de um não-ser preexistente. a saber. 5 alguma coisa de sempre movido. Conseqüentemente. e. Pois. o presente problema. expusemos anteriormente. este ser. Eis. Destas duas coisas. pelo escotismo. com efeito não é nem uma coisa determinada. nem uma qualidade. que move tudo o mais pelo facto de ser êle mesmo movido de maneira continua. pois. estes predicados em potência. da outra causa.318a eípio de onde dizemos que vem o movimento. III. « substância não é determinada de modo algum e. o (pie é impossível. e o provará posteriormente Aristóteles. então. e conseqüentemente o ser procederia de um não ser preexistente. e não desapareceu. algum dos seres desaparece. separadas da substância. nesle caso. dar-se-iam. pois. alguma coisa perpétuamente imóvel. se é verdadeiro que o que é destruído se desvanece no não-ser. mas apenas em potência. as qualidades nela não estariam. do contrário. em virtude da qual. quer dizer. de uma parte. à filosofia primeira. o accidente se daria separado da substância. Mas eis que surge a aporia: a substância é delerininada pelos accidenles e se não estão estes em «cio. um não ser. não eslá em «cio no (pie se corrompe. tema das próximas especulações de Aristóteles. com perseidade. Estamos também bastantemente embaraçados para explicar qual a causa da continuidade da geração. ao mesmo tempo. Mas. Onde há geração. em absoluto. como muito bem disse Tomás de Aquino. O 15 não-ser. presentemente. a matéria. a totalidade dos seres não foi destruída há muito tempo. o que leva à afirmação da perpeluidade da geração no cosmos. bem entendido. aquela que apresenta este caracter. e. é indeterminada. a qualidade ou o lugar. conlemporaneidade da geração e da corrupção. nem um ser. que não é determinado. pois os acidentes são mlia (/iiibns e não ciüia quac. também se esclarecerá. Acrescentemos mais esta. e por outro lado. nem um lugar. então. por que. E estas qualidades. à qual cabe tratar. Se a substância em potência não lhe pertence em acto. estivessem estes em potência também. O que é gerado não pode estar em acto no que é corrompido. sem 10 dúvida. entre as causas ditas individuais. Quanto ao outro princípio. Se tal substância possuísse. que não poderiam provir do nada. é desta última causa que devemos falar. nem uma quantidade. o prin. dar-se-ia separadamente. é da causa colocada sob sua natureza material que devemos falar.70 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES novo. Admitindo que esta substância não é uma coisa determinada. qual é a causa da perpetuidade da geração. em nosso tratado do Movimento. pertence a outra filosofia. está em emergência o que se gera. TEXTO DE ARISTÓTELES I —7 I. assim. que é a matéria prima (prole lujlê). são entes com inaliedade e não com perseidade. E lambem lem de eslar em potência qualquer acidente dessa substância.

como o compreende também a matemática. o aumento e a diminuição e a transladação. é examinado no Livro II desta obra. que propunha o número infinito das homeoinérias. Deus. lais como se manifestam de maneira semelhante. III) e no "De Caelo" (Cap. deve ser considerada como adequadamente explicada. a causa material. V. determinou a causa da perpetuidade do movimento e da geração. eternamente imóvel. o eternamente movido. nessa ocasião. neste caso. desde todo o sempre. . ou como Demócrito que afirma a infinitude do espaço vazio (to kénon). que haveria apenas uma possibilidade para a geração ser indefectível. assim. ou como Anaxágoras. IV — No entanto. que uma coisa é infinita. Pois não é seguramente à infinidade desta fonte da geração que pode ser atribuída a continui. e êle as examina para derrui-las. ao admitir-se uma geração absoluta das substâncias. III — Oferece de antemão uma objecção à perpetuidade da geração. aqui. sendo por sua vez movido de maneira contínua. tanto da absoluta (simplex). Mas Aristóteles não admitia o infinito numérico em acto (o "mau infinito" de que posteriormente tratará Hegel na Grande Lógica) como possibilidade de um divisão e possibilidade de uma adição. 6 sqq. como o fogo. na realidade. In Metaphys. (M. fonte dessa geração. de número também infinito. 25 a corrupção de uma oulra. Cabe à Metaphysica estudar o princípio eternamente imóvel. que são animadas de um movimento eterno e universal. Mais adiante se verá que Aristóteles não admite nem uma geração nem uma corrupção absolutas. de precisar o caracter que lhe é próprio. Posteriormente se poderá conceber a substância em potência de onde procede a geração absoluta. XII. a saber: que ela o foi por diminuição progressiva. VI. sem desfalecimenlo desta. que a mutação nccessàriamenlc não se delem? E. (L. isto é impossível. Emprega. E se o cosmos é finito. Um infinito quantitativo em acto é rejeitado por êle na Física. (Liv. VIII da "Física". sempre algo é subtraído da natureza das coisas. pois. e. que viria ab aeterno. o de mover tudo o mais. é o que não verificamos. é gerado de um não-ente simpliciter. em cada um dos seres. no L. No tratado do Movimento. Reexposição comentada I — 7 I — O problema que surge agora é o da determinação da causa da perpetuidade da geração. por epie a corrupção desta coisa é a geração de uma oulra. fí sòmcnle cm potência. II — A causa pode ser definida de duas maneiras: a) de onde vem o movimento. num não-ser que não é nem substância nem accidente. o primeiro motor. V. E como salienta Tricot. cheio de átomos. Não é. Mas. a água. Por ora. há lugar para algumas razões em defeza de tal tese. O número é infinito no sentido da possibilidade de receber uma adição. X). como o expõe no mesmo livro. O que é gerado em absoluto (simpliciter). A geração parcial (gênesis katà meros) dá-se nas mutações não-substanciais. o termo gênesis para referir-se às espécies de kínesis (movimento). Se a geração e a corrupção são perpétuas. b) a matéria. XXIX). por divisão. e temos a causa eficiente ou movente (to kinoun). como da parcial (secundum quid). e dando-se sempre uma ablatio (uma ablação. totalmente nada. mas apenas em potência. O outro princípio que move tudo o mais pelo f acto de ser por sua vez movido de maneira contínua.). n. (Lect. para Iodos os seres. de lal forma. c a geração desta. assim.. e não restaria mais do que um vácuo (inane). deveria ter sido o cosmos consumido. a existência da geração e da corrupção. mas apenas transformações recíprocas no seio de uma substância permanentemente em acto. uma corrupção absoluta cairia num não-ser absoluto. perda) pela corrupção. A afirmação de um princípio infinito. a Esfera das estrelas fixas. 1. a dificuldade consistirá em explicar a continuidade da geração. e o primeiro céu. Cap. II. cap. levaria a não aceitar um fim. E. Tratar-se-á.20 dade. que sempre se dão na natureza. por sua vez. Teve Aristóteles oportunidade de mostrar quais as razões da perpetuidade do movimento (motus perpetuun) e a perpetuidade do cosmos na "Física" (VIII) e no "De Caelo". 10-6 a 10-33). o ar ou a terra dos filósofos antigos. por esla causa material. V e sqq. a causa eficiente implica algo perpètuamente imóvel. como a alteração.72 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 73 IV. interessa-se em estudar a causa material em virtude da qual há sempre a geração e a corrupção. porque nada é infinito em acto.

Da mesma forma. Há conversão recíproca de um sujeito permanente. é também desta divisão que decorre a distinção procurada. salva-se a perpetuidade da geração e da corrupção.318b terminada. sem necessidade de cair nas velhas aporias. a divisão em potência. falamos em certos casos. A passagem ao não-ser 10 absoluto é. admitir a sempiternidade da geração e da corrupção. a saber: o ser e o não-ser. em vez de dizer que "esta coisa aqui se corrompe. mas com a condição sempre de que o número dos seres engendrados diminuísse. simplesmente. corrupção. de geração e corrupção absolutas. uma geração lolal. que êle se torna sábio. Há. a sa. pois daí resulta uma diferença no em que muda o que muda. que muitas vezes dividimos os termos segundo significam uma coisa de. e este é o pensamento da escolástica. que é o íerminus ad quem da geração. e chamamos. e. se tani. como o expõe Joachim. ou não. é o modo dessas mutações e não o seu sujeito. por um lado. deste modo. mas uma corrupção absoluta. mas uma corrupção de alguma coisa. enquanto :i passagem ao ser absoluto é uma geração absoluta. tal mutação. TEXTO DE ARISTÓTELES I —8 I. não se torna absolutamente. e. e viceversa. . são o fogo e a terra. II. devemos. na mesma proporção. quanto ao fogo. pois dizemos do sujeito que estuda. Não há um infinito cm acto. a substituição de uma forma por outra. sem necessidade de admitir a eternidade ou a infinitude do cosmos. simplesmente. um ser é gerado. quando diz que as coisas. portanto.5 ber. uma corrupção absoluta. Que seja tal ou outras coisas análogas o que se supõe. pois. e não simplesmente que êle se torna. Mas por que. pois. de geração e de corrupção não-absolutas? Uma vez mais. em outros. tal outra. E tal coisa que se torna alguma coisa. geração. à cada geração. nas quais a mutação se dá. Este ponto. e por outro lado. E em seus comentários.30 bém a há entre a corrupção desta e a geração daquela. a passagem ao fogo é uma geração absoluta. quando um ser se corrompe. o que procuramos. Tal é igualmente a teoria de Parmênides. < > que não vemos suceder. Desta forma. mas um infinito em potência. mas matéria já informada. por exemplo. Sem dúvida. a geração desta a corrupção daquela. Não há. nem uma corrupção total. e esta outra é engendrada. o que não nos comprova a experiência (hoc autem non videnuis ila aecidcie). V A solução sobrevêm ao compreender que a geração de uma coisa c a corrupção de outra. da terra. então. enquanto a geração da terra é uma geração relativa e não uma geração absoluta. pouco importa. Tomás de Aquino nos mostra o argumento de Aristóteles em palavras claras. Pois dizemos que "há presentemente corrupção". pois. privada apenas da determinação. o fim. exige uma explicação. e islo sem cessar. assegurando que essas duas coisas.74 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES IV — Resta. pura potência. com efeito. pois se a causa material é infinita. em suma. examinar se é verdade que há identidade entre a geração desta coisa aqui e a corrupção daquela lá. Assim. substância aetual positiva. que não é um puro nãoser. são em número de duas. assim. poder-se-ia supor uma perpetuidade de gerações. Pode-se.

quando dizemos que uma coisa se corrompe. A distinção reside. VII. tendo assim a sensação valor de ciência. é pela natureza especial do sujeito material. a diferença reside previamente na distinção do sensível e do não-sensível. Da mesma forma. não dizemos apenas que èle se torna. e vice-versa. ou mais substância. Se não existem. uma privação. quer dizer. relativa. falamos de uma gênesis tis ou de uma phtora aplê (de uma geração secundum quid. assim o quente é um predicado positivo e uma forma. II — O problema que surge agora para Aristóteles consiste em solver qual ou quais distinções se podem apontar entre a geração e a corrupção simpliciter e a secundum quid (a absoluta e a relativa). É. o nãoser. Quando o homem se torna sábio. esquecemos que a geração de uma coisa é a corrupção de outra. por que fala como se existissem. é então não-ser. e. quando o arbusto nasce. um deles será o ser. quando há mutação em uma matéria sensível. quanto mais suas diferenças significam um ser determinado. quando um homem se torna sábio. Para um sujeito material. ou menos sensível. que é a causa dessa distinção: e tal se dá porque é ou substância. a matéria a partir da qual e para a qual as mutações se efectuam. com 35 efeito. e o ar são. esquecemos de dizer que outra se gera. ou não-substância. simpliciter). e o frio. V. falamos. e quando há numa matéria invisível. como se geração de uma coisa não fosse a corrupção de outra? Aristóteles vai examinar esses pontos e esclarecer as imprecisões de linguagem que até aqui surgem tantas vezes. segundo a verdade. Daí resulta que a opinião comum e a verdade estão em desacordo a respeito da geração e da corrupção absolutas. o outro. e uma corrupção absoluta. Há uma diferença entre o em que muda o que muda (em que se transmuta o transmutante). Assim. acabamos de explicar a causa. de uma geração absoluta {gênesis apló) ou de uma corrupção relativa (phtorá Unos). todas as vezes que os termos que definem a mutação sejam ou o fogo c a terra. e a distinção da terra e do fogo surge dessas diferenças. é assim que se julgam também as coisas. embora seja uma geração de al- guma coisa. pois. IV. ou alguma dupla de contrários. quando é simpliciter. Está aqui a primeira distinção que nota: se a mutação substancial faz-se num estado positivo (tó òn). São essas inexactidões comuns na linguagem. pois. portanto. e quando é secundum quid. quando elas se transformam em sopro e em ar. com efeito. desaparece o ignorante. Eis. tanto quanto sentimos ou temos o poder de sentir. por- . pois. como exemplifica Aristóteles. Mas elas diferem de uma outra maneira ainda. a matéria. Que haja. da mesma maneira que o cognoscível é. é a semente que desaparece. pois. VI. Reexposição comentada I — 8 I — Cabe agora investigar por que em certas ocasiões. e de uma corrupção absoluta. uma geração absoluta. geração e corrupção não absolutas. e nascem absolutamente quando são mudadas cm alguma coisa tangível. ou menos substância. em suma. com efeito. O que chamamos geração de uma coisa é também a corrupção de outra coisa. contudo. num sentido. para a sensação. enquanto que. mais é êle mesmo substância. uma primeira maneira de como a geração e a corrupção absolutas diferem da geração e da corrupção não-absolutas. Quando uma coisa se torna outra. e o não-cognoscível não é. se se faz num estado negativo (tó mé òn). Resta saber se há identidade na corrupção desta com a geração daquela. emprega Aristóteles a expressão geração e corrupção absolutas e em outras. estamos no bom caminho da verdade. embora seja uma corrupção de alguma coisa. A respiração. em terra). menos reais (eis por que também se diz comumente que as coisas perecem absolutamente. Com efeito o ser e o não-ser são comumente definidos pelo que é ou não susceptível de ser percebido. é uma corrupção. que sentimos comumente a nós-mesmos viver e existir. ou mais sensível. mas se elas significam uma privação. III. embora essa opinião comum não seja em si mesma verdadeira. então. diz-se que há geração. são mais uma coisa determinada e mais uma forma que a terra.76 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 77 Assim. Segundo a opinião geral. ela não se torna absolutamente.

e h a v e r á geração ou c o r r u p ção simpliciter. os t e r m o s de uma m u t a ç ã o indicam. É real o q u e se percebe. q u a n t o à á r v o r e . Q u a n d o através d a p r i v a ç ã o se j u n t a m formas imperfeitas. e n q u a n t o a geração da terra seria u m a g e r a ç ã o relativa e uma c o r r u p ç ã o absoluta q u a n t o ao fogo. A distinção entre a geração simpliciter e a secundam quid se estabelece desta forma pela via (pie tende a um ente simplicilcr. p o r q u e inclue m u i t a s gerações i n t e r m é d i a s . Assim. por isso p o p u l a r m e n t e se liz q u e as coisas se e v a p o r a m . q u e completa a espécie. É fácil. m e n o s reais. q u e é a via p a r a a espécie. Tal exemplo não procede segundo o p e n s a m e n t o de Aristóteles. m a s do actus virtualis p a r a o actus formalis. n ã o é falso. Q u a n d o tais corrupções a t i n g e m a u m a g r a u que as leva ao s u r g i m e n t o de u m a nova f o r m a . pois colocaríamos a verdade a p e n a s e m nós e n ã o n a s coisas (nulla veritas est in rebus em tal caso. a p a r t i r d a f o r m a p u r a . o inverso. como. e a secundum quid. o q u e m a n t é m a relação de potência e acto. d e t e r m i n a r q u a n d o a geração ou a c o r r u p ç ã o são u m a ou outra. do fogo. secundum quid. tal afirmativa. o não-ser. P o r s u b t r a i r a verdade d a s coisas. A c o r r u p ç ã o absoluta v aquela (pie leva ao n ã o ente absoluto. q u a n d o se dá. U m a c o r r u p ç ã o absoluta. pois êle considerava muito diferentemente o ser. pois ao a f i r m a r m o s a certeza da nossa existência ou das coisas. Assim. r e l a Srva. o que se procura é o modo destas m u t a ç õ e s e n ã o o sujeito delas. m a s actus virtualis d a á r v o r e . como m o s t r o u Avicena. pois p a r a este a v e r d a d e t a m b é m está n a s coisas). e n c o n t r a m o s as f o r m a s imperfeitas da á r v o r e . q u e n ã o perfecciona a espécie n a t u r a l . e m b o r a seja u m a geração de . a terra. por e x e m p l o . O fogo é positivo. é u m a f o r m a imperfeita. a semente é u m actus virtualis do arbusto. esta diferença p o p u l a r n a m a t é r i a p r ó xima reside n a a p a r ê n c i a sensível ou n ã o sensível desta m a téria. a q u a l consiste no g r a u de r e a l i d a d e d a m a t é r i a . n ã o ao a f i r m a r a v e r d a d e do sentir. p o r sua vez. q u a n d o a substância fôr m a i s real. p o r q u e a r e s p i r a ç ã o e o ar são. S o l u ç ã o : O não-ente simpliciter entende-se a m a t é r i a com a p r i v a ç ã o de a l g u m a f o r m a . E h a v e r á geração e c o r r u p ç ã o relativa. neste ponto. temos a generatio simpliciter. IV — Estabelece Aristóteles u m a terceira distinção. e o outro. a u m ente simplesmente existente. III — Estabelece Aristóteles u m a o u t r a distinção e n t r e a g e r a ç ã o simpliciter e a g e r a ç ã o secundum quid. m a s que p o d e ser perfeccionada. ou de q u a i s q u e r outros elementos. m a s o ente incompleto.s e sábio. Quer se trate da teria. m a s definir as coisas pelo sentir é falso. como diz Aristóteles. Da semente às f o r m a s i n t e r m e d i á r i a s até a l c a n ç a r à á r v o r e com- pleta. q u a n d o u m a cousa m a t e r i a l sensível a p a r e ç a ou d e s a p a r e ç a . a f o r m a da água. Assim o arbusto. Aristóteles m o s t r a q u e liá u m a g e r a ç ã o absoluta. As f o r m a s i n t e r m é d i a s são formas incompletas. VI — Daí resulta. q u e seria a da terra. é falsa. um o ser. V — D e m o n s t r a Aristóteles a falsidade desta sentença. e sim v e r d a d e i r o . como. como expõe T o m á s de Aquino. m a s está n o c a m i n h o d a geração e da c o r r u p ç ã o . as q u a i s se r e a l i z a m s i m u l t a n e a m e n t e com a c o r r u p ç ã o de o u t r a s formas. q u a n d o q u e r e m o s dizer q u e elas p e r e c e m . Estabelece Aristóteles o g r a u de realidade de u m ser pela colocação que t e n h a n a h i e r a r q u i a dos seres. Aristóteles dá um e x e m p l o de geração absoluta n a p a s s a g e m ao fogo. a c o r r u p ç ã o é absoluta. do corpo se perfecciona. a f o r m a . outra imperfeita. que n ã o é o t e r m o d a intenção da n a t u r e z a . N a v e r d a d e . e n u n c a realiza o ente completo segundo a espécie. a geração é secundum quid. A f o r m a p o d e ser t o m a d a d ü p l i c e m e n t e : u m a perfeita. como diz Aristóteles. q u a n d o n a d a de sensível a p a r e c e ou d e s a p a r e c e . o n a s c i m e n t o de u m homem. é u m a r e a l i d a d e negativa. no estado positivo ou negativo da m a t é r i a da m u t a ç ã o ( T r i c o t ) . Assim o sêmen é u m a f o r m a imperfeita. VII — Sintetizando o q u e disse. e neste caso é q u e se dá a geração absoluta simpliciter. («orno a expõe Tricot. Desta forma. n a r e a l i d a d e . n ã o h á passagem do actus formalis p a r a o actus formalis n a geração. o qual. e finalmente se alcança u m a forma completa. Esta c o m p r e e n são de Avicena c aceita n a escolástica p o r D u n s Scott. estimando-se a p e n a s o q u e é ser q u a n d o é captável pelos sentidos. deste m o d o . na qual se dá u m a c o r r u p ç ã o relativa. a geração absoluta é a que leva ao ente absoluto. ou a t r a n s f o r m a ç ã o d a á g u a em ar. Deus. simpliciter. ao contrário. só é perfeita q u a n d o atinge a f o r m a completa d a á r v o re. pois t e m m a i o r d e t e r m i n a ç ã o q u a n d o ar do que quando terra. K a c o r r u p ç ã o absoluta se dá q u a n d o as f o r m a s em decomposição são substitiuídas p o r n o v a s formas. a form a do h o m e m . q u a n d o o fôr m e n o s . H a v e r á geração simpliciter. p o r e x e m p l o . E s t a é u m a distinção q u e c o m u m e n t e se p r o p õ e . O h o m e m c o m u m só aceita como real aquilo • pie é tangível. t o r n a r . através de m u i t a s corrupções i n t e r m é d i a s . q u e são a via d a geração. D u r a n t e esta via.78 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 79 tanto. como bem o mostra T o m á s de Aquino. p a r a a sensação. é u m actus formalis do arbusto. e m b o r a seja u m a c o r r u p ç ã o de algo. p o r exemplo. u m d e s a c o r d o <la opinião c o m u m e da v e r d a d e . p o r q u e sentimo-las. a forma da p l a n t a p o d e m ser feitas. como a terra.

em saber por que então do que estuda não se diz que é engendrado absolutamente. que tem por termos os contrários. para a questão colocada em segundo lugar. da continuidade da geração. como matéria. mas torna-se alguma coisa. Não obstante. com efeito. Certas coisas. a geração de uma coisa é sempre a corrupção de uma outra. semelhantemente.80 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES algo. com efeito. isto é. e a corrupção de uma coisa. se se torna sábio. etc. II. por aquilo em que algo se transmuta por geração ou corrupção. significam uma substância. isto é. ou porque é mais ou é menos. mas é nela (pie algo se gera ou nela que algo se corrompe. outras uma quantidade. mas não se se torna terra. c não mais. de igual maneira como falamos até aqui? Até aqui. e. se o ser tor. TEXTO DE ARISTÓTELES I —9 I. ente ou não. . enquanto do que cresce diz-se que nasce. ou porque é substância. Esta matéria não é pura. essa vez. Explicamos assim por que certas coisas nascem absolutamente e não outras. não porém se se torna ignorante. falamos simplesmente de geração quando há geração segundo a coluna positiva dos contrários. na qualidade. sendo dado que toda geração de uma coisa é a corrupção de outra. Essas distinções resultam das categorias. e a corrupção de uma coisa a geração de outra. De tudo o que não significa uma substância não pode dizer-se que se torna absolutamente. no sentido em que duas coisas nascem reciprocamente uma da outra. mas que se torna sábio. 20 i' que. por exemplo. tanto de uma maneira geral como no que concerne às próprias substâncias: e também que o sujeito é a causa. nas substâncias. III. em Iodas as categorias.15 na-se fogo. eis somente o 5 que determinamos: por que. a geração de uma outra. cuja causa êle explicou. porque é a causa da mutação. com efeito. outras uma qualidade. E a causa dessa distinção é a matéria. enquanto de outras se diz que se tornaram alguma coisa. não atribuímos semelhantemente a geração c a corrupção a essas coisas que se mudam umas em outras? Mas. na substância. o 10 problema não é o mesmo: consiste. Mas por que de certas coisas se diz que foram geradas absolutamente. pois.

permanece. E exemplifica com o corpo diáfano que é privado de Hiz. ou relativamente. quando o ser é adquirido pelo gerado. ou então é ela idêntica. adquire. quando devêm alguma coisa. ao ar. Ar explana. que c a substância. enquanto que o não-ser seria a matéria. E a diferença entre ambas está em que. e. e eorrupção quando se afasta do positivo. quando nascem. É portanto bem natural que a geração não falte nunca. E não poderia ser de outro modo. Com efeito. Esta última geração e corrupção é secundum quid. da mesma forma que se fala de corrupção absoluta. quer dizer o pesado. Sobre o significado desses termos já os estudamos na "Introdução". ao lado da geração. reafirmando o que explanara sobre a geração e a corrupção (simpliciter e secundam quid). é o ser. se não é nada. Assim. Ademais. quer dizer o leve. há sempre. e não na deficitária. E quando esta atinge a substância. em face de uma geração secundum quid. quando o devir se realiza na substância. a geração vem do não-ser. A matéria tem sempre uma forma. a terra também é o ser. justifica-se por (pie a terra é mais imperfeita que o fogo. algo que há. Não seria que a matéria é. Mas não há necessidade de discutir a questão de saber por que uma coisa nasce. e a corrupção uma geração do não-ser.Empreende Ar. que é a causa de perduração da geração. seja como êle fôr. daí a diversidade da geração. Há geração quando se tende para o positivo. mas seu ser não é o 5 mesmo. ou não. Reexposição comentada I — 9 I . num sentido. quando uma coisa passa ao não-scnsível e ao nãoser.319b trários. como corrupção.82 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 83 IV. de nina outra forma. O exemplo aristotéíico do ser que se torna fogo. Toda geração é a corrupção de outro. à água. é o não-ser. enquanto a corrupção é a via do ser para o não-ser. que lhe é oposta. quando uma coisa procede do não-sensível. ou seja. como toda corrupção. da mesma forma lambem se diz que há geração 25 a partir do não-ser. aqui. numa visão universal. Que o sujeito seja pois. nos acidentes. . e a corrupção a via inversa. esses elementos não viriam reciprocamente um do outro. porque a matéria é sempre privada de algo. desde que se considere a riqueza etimológica e semântica deste verbo. Apenas os acidentes se modificam. nem os con. embora as coisas sejam constantemente destruídas. VI. É o sujeito que se transmuta nos contrários. obtém posilividades. e quando se torna terra. dos contrários? Pois a esses elementos. como tais. o homem. a eorrupção. Mas eis do que já tratamos suficientemente. explicar a diferença entre a geração absoluta (simpliciter) a gênesis ou phtorá aplôs e a geração relativa (secundum quid) a gênesis ou phtora tis. tais como a 30 terra. e há geração ou corrupção relativas (secundum quid) quando a geração ou a corrupção se dão nos acidentes que. à terra. diferente? Com efeito. corrompe-se o ignorante. a primeira (simpliciter). emquanto a segunda. quando surge uma nova substância (ousia). porque. Estamos. e gera-se o sábio. os contrários pertencem como atributos. Quem se torna ciente de algo não gera em si o sábio absolutamente. pressupõem uma substância que os sustenta. a geração de outro. ou. será que a matéria é outra para cada um desses elementos contrários. alguma coisa. como o expôs Ar. expõe Tomás de Aquino. mas está sempre privada de uma forma. o ( I»e anteriormente já havia estudado. Mas já o homem e o animal. II — Tais distinções decorrem da classificação das categorias aristotélicas. como o sensível mais imperfeito que o insensível. na "Metafísica". III — Neste item. Só há geração simpliciter. diz-se que se geraram simpliciter. V. se dá na substância. O fogo é gerado e os seres são corrompidos quando se tornam terra. quando o ignorante estuda. em outro sentido. M as a geração se dá com positividade na coluna positiva. e se ao contrário. O acidente pressupõe algum ser (substância) como sustentáculo. tanto a da terra como a do fogo. enquanto o fogo. a mesma. é uma mesma coisa.. Há geração absoluta (simpliciter). Resulta daí que é da mesma maneira que nina coisa nasce do não-ser e que ela se desvanece no não-ser. já que se expôs (pie a geração é a via do não-ser para o ser. como geração. Mas o gerar e o corromper (gênesis e phtorá) dão-se em absoluto. A geração é a via do não-ser para o ser. poder-sc-á perguntar se um dos contrários. ao fogo. Mas ao sujeito desse não-ser absoluto. o que é o sujeito desses contrários. então. porque a ciência é um habitns. já que a geração é unia corrupção do não-ser. pois que de outro modo. O que estuda aprende.

em outro sentido. à terra. E quando esta atinge a substância.. o que anteriormente já havia estudado. e se ao contrário. e não na deficitária. tanto a da terra como a do fogo. alguma coisa. quando surge uma nova substância (ousia). diz-se que se geraram simpliciter. porque o homem. seja como êle fôr. ou seja. É o sujeito que se tiansinuta nos contrários. Quem se torna ciente de algo não gera em si o sábio absolutamente. Há geração quando se tende para o positivo. quando o ser é adquirido pelo gerado. Mas já o homem e o animal. enquanto que o não-ser seria a matéria. e quando se torna terra. Mas eis do que já tratamos suficientemente. expõe Tomás de Aquino.82 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 83 IV. Com efeito. enquanto a corrupção é a via do ser para o não-ser. algo que há. . li — Tais distinções decorrem da classificação das categorias aristotélicas. quando devêm alguma coisa. E exemplifica com o corpo diáfano que é privado de illií. há sempre. ao ar. quando o devir se realiza na substância. e gera-se o sábio. quando uma coisa procede do não-scnsível.Empreende Ar. Mas o gerar e o corromper (gênesis e phtorá) dão-se em absoluto. mas está sempre privada de uma forma. num sentido. Esta última geração e corrupção é secundum quid. como toda corrupção. A geração é a via do não-ser para o ser. Toda geração é a corrupção de outro. é uma mesma coisa. como tais. porque a ciência é um habitus. que é a substância. como corrupção. à água. Que o sujei Io seja pois. daí a diversidade da geração. E a diferença entre ambas está em que. e a corrupção a via inversa. ou. tais como a terra. Há geração absoluta (simpliciter). a terra também é o ser. os contrários pertencem como atributos. Ademais. dos contrários? Pois a esses elementos. Só há geração simpliciter. aqui. 25 30 319b 5 Reexposição comentada I — 9 I . justifica-se por (pie a terra é mais imperfeita que o fogo. mas seu ser não é o mesmo. corrompe-se o ignorante. O acidente pressupõe algum ser (substância) como sustentáculo. de uma outra forma. poder-sc-á perguntar se um dos contrários. a corrupção. a mesma. como geração. adquire. como o expôs Ar. Sobre o significado desses termos já os estudamos na "Introdução". Ar explana. como o sensível mais imperfeito que o insensível. ou não. que lhe é oposta. quer dizer o leve. se dá na substância. da mesma forma lambem se diz que há geração a partir do não-scr. Estamos. porque a matéria é sempre privada de algo. O fogo é gerado e os seres são corrompidos quando se tornam terra. ao fogo. ou relativamente. quando nascem. em face de uma geração secundum quid. a primeira (simpliciter). Resulta dai que é da mesma maneira que uma coisa nasce do não-ser e que ela se desvanece no não-ser. se não é nada. explicar a diferença entre a geração absoluta (simpliciter) a gênesis ou phtorá aplôs e a geração relativa (secundam quid) a gênesis ou phtora tis. III — Neste item. A matéria tem sempre uma forma. nem os contrários. pois que de outro modo. é o sei-. na "Metafísica". a geração de outro. será que a matéria é outra para cada um desses elementos contrários. obtém positividades. reafirmando o que explanara sobre a geração e a corrupção (simpliciter e secundum quid). O exemplo aristolélico do ser que se torna fogo. Não seria que a matéria é. e corrupção quando se afasta do positivo. emquanto a segunda. É portanto bem natural que a geração não falte nunca. diferente? Com efeito. enlão. e a corrupção uma geração do não-ser. é o não-ser. V. e. enquanto o fogo. ou então é ela idêntica. embora as coisas sejam constantemente destruídas. da mesma forma que se fala de corrupção absoluta. numa visão universal. o que é o sujeito desses contrários. VI. já que se expôs que a geração é a via dt> não-ser para o ser. Apenas os acidentes se modificam. já que a geração é uma corrupção do não-ser. esses elementos não viriam reciprocamente um do outro. O que estuda aprende. quer dizer o pesado. a geração vem <lo não-ser. E não poderia ser de outro modo. que é a causa de perduração da geração. Mas ao sujeito desse não-ser absoluto. e há geração ou corrupção relativas (secundum quid) quando a geração ou a corrupção se dão nos acidentes que. quando uma coisa passa ao não-sensivcl e ao nãoser. Assim. desde que se considere a riqueza etimológica e semântica deste verbo. nos acidentes. permanece. quando o ignorante estuda. pressupõem uma substância que os sustenta. Mas não há necessidade de discutir a questão de saber por que uma coisa nasce. Mas a geração se dá com positividade na coluna positiva. ao lado da geração.

como o fogo e a terra. a c o r r u p ç ã o do não-ente. como salienta Tricot. é afirmar-se a geração de u m outro. Essa posição aristotélica revela u m a posição dialéctica. Afirmar-se a c o r r u p ç ã o . pois. cuja t r a d u ç ã o literal seria o q u e n ã o é a b s o l u t a m e n t e . diferente? Como sujeito dos contrários é u m a m e s m a coisa. Sc fosse diferente. . o que eles j u l g a m o n ã o . q u e n u n c a a geração está ausente. T o m á s de Aquin o estabelece-as deste m o d o : 1) p o r q u e s e m p r e se g e r a algo do p r o d u t o . Um implica s e m p r e o o u t r o . n ã o seg u n d o o ser de r a z ã o . p a r a perifrasear Nietzsche. p r o c e d e do não-sensível. o sensível. Sintetizando. e a geração vem do não-ente. em q u e a afirm a ç ã o de u m não implica a negação de outro. de onde s u r g e m os corpos simples ou elementos. como o expõe Aristóteles. O não-ser absoluto (to mé on aplôs). n ã o p o d e r i a m vir r e c i p r o c a m e n t e u m do outro. e. O ser que se gera. q u a n d o ela atinge ao insensível. c se desvanecem n o não-ser. A geração v e m do não-ente. E prova-o T o m á s de Aquino com os seguintes a r g u m e n t o s . p a r a Aristóteles. q u a n d o surge. pois n ã o h a v e r i a geração ex-nihüo. A solução é d a d a p o r Aristóteles da m a n e i r a q u e v a m o s sintetizar. v e m do não-ente. antinômica.e n t e . o outro vai t e r m i n a r . começa a geração. assim. as p r i m e i r a s substâncias concretas. a prote hylê. n ã o e m q u a n t o acto. que a prote hylê é i n f o r m a d a p o r conjugações de q u a l i d a d e s c o n t r á r i a s . O n d e t e r m i n a a corr u p ç ã o . como mostra T o m á s de Aquino. J á e x a m i n a m o s o sentido desse não-ser absoluto. as q u a i s p a s s a a r e s p o n d e r n a s alíneas sucessivas.s e ou reduzir-se a u m a delas q u e d e s e m p e n h a s s e o p a p e l de m a téria p r i m a . h á geração. a m a t é r i a é a m e s m a . é ela aí a potência. T o d a s as coisas n a s c e m do não-ser. Onde h á c o r r u p ç ã o . n o u t r o sentido. do insensível. os h o m e n s dizem que a l g u m a coisa se c o r r o m p e . um m u n d o que se gera e u m m u n d o que se c o r r o m p e . como vulgarm e n t e é c o m p r e e n d i d o . Se a c o r r u p ç ã o tende p a r a o não-ente. n u m sentido. h á i d e n t i d a de d a m a t é r i a a p e n a s c m q u a n t o potência. T o r n a . D a i pode-se dizer q u e a g e r a ç ã o sobrevém do c o r r u p t o . p o r si. que o t e r m o d a c o r r u p ç ã o é o princípio da geração. E a p e r g u n t a : se a m a t é r i a c igual ou diversa aos elementos. o que caracteriza p r o p r i a m e n t e a antinomia. c viceversa. pois é o r d e n a d a p o r diversas f o r m a s . pois é ela u m a c o r r u p ç ã o do não-ser c a c o r r u p ç ã o u n i a g e r a ç ã o do não-ser. o que reconhece j á havia sido exposto p o r Aristóteles. de certo m o d o . A dificuldade q u e surge p a r a Aristóteles está n a impossibilidade de explicar a p e r p e t u i d a d e d a g e r a ç ã o a p a r t i r do não-ser absoluto.e n t e e a geração. assim. s e m p r e u m m u n d o que nasce e um m u n d o que m o r r e . a m e s m a . n ã o se p o d e r i a m g e r a r os c o n t r á r i o s . a m a t é r i a p r i m a . como j á h a v í a m o s a c i m a assinalado. isto é. Mas Aristóteles nos m o s t r a q u e a m a t é r i a prim a é distinta dos elementos. e n ã o p r o p r i a m e n t e o não-sensível de q u e antes êle falava.s e p a t e n t e . m a s seu ser não é o m e s m o . II. q u e é o t e r m o d a c o r r u p ç ã o . V — Surge. como subjecto. pela positivação de u m a oposição inversa. recebe dele a seguinte r e s posta : ou a m a t é r i a é idêntica ou ela é o u t r a q u e os elem e n t o s contrários. elementos. a dificuldade desaparece. no n ú m e r o sexto. q u e lhe d ã o o u t r o ser e o u t r a razão. t e r m i n a p o r a f i r m a r Aristóteles. (In id ex quo uno incipite. é aqui. isto é do n a d a absoluto. que é algo. a geração do não-ente. elas p o d e r i a m t r a n s f o r m a r . no sentido q u e e m p r e g a m o s esse t e r m o . b e m como q u e a g e r a ç ã o é. aliud terminetur). O que se gera v e m do n ã o perceptível. a p u r a potência. conclue-se q u e a g e r a ç ã o vem da corr u p ç ã o . 2) p o r q u e a c o r r u p ç ã o tende p a r a o n ã o . a segunda p e r g u n t a q u e consiste em i n t e r r o g a r se u m dos contrários é o ser ou se n ã o é n a d a . VI — Aceito que. Há. e a c o r r u p ç ã o . P o r isso. o n a da absoluto. pois os contrários p e r t e n c e r i a m aos q u a t r o elementos como atributos. Daí Aristóteles fazer a p e r g u n t a de se a m a t é r i a não seria. O n d e u m principia. n e m corr u p ç ã o ad-nihilnm.84 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 85 IV — T r ê s p e r g u n t a s s u r g e m p a r a Aristóteles. e dizem que algo é gerado. agora. Se o não-ser é o não-sensível.

pertencente a uma contrariedade.25 músico engendrado. a semente. ou quando a água. e que 10 a mutação pode produzir-se em cada um desses casos. o corpo que estava de boa saúde cai doente. II. permanece a mesma. que por natureza se lhe atribui. na qual se muda a primeira. quer sejam elas contrárias ou intermediárias. pois o ar é quase nãosensível. enquanto o homem permanece « mesmo: se o homem não possuísse como propriedade essencial a qualidade de músico e a de não- . permanecendo o mesmo. Já que o sujeito é alguma coisa de diferente da qualidade. senão. se. um e outro eram diáfanos ou frios. como um todo. ou se dissolve em ar. Por exemplo. Eis. seja uma qualidade desse elemento permanente. tomada como um 15 todo. Mas quando é a coisa. pois que afirmamos que tais mutações são distintas uma da outra. permanecendo idêntico: o bronze é redondo e torna-se depois anguloso. nesses casos. como quando a água vem 20 do ar. produz o ar. Sobretudo quando a mutação procede do não-sensível ao que é sensível. não é necessário que a segunda coisa. se alguma qualidade. quer a todos os outros sentidos. a água. há alteração quando o sujeito. quando o ar se torna água. quer ao tacto. desde logo. uma tal mutação é. IV. produz o trigo. no ser engendrado como no ser destruído. dissemos há pouco em que elas diferem. como um todo. como um todo. Contudo. por exemplo. que vem a mudar e que nada de sensível permanece idêntico como sujeito. sujeito sensível. III. geração de uma substância e corrupção de outra. por exemplo. estaremos em presença de uma alteração. permanecendo o mesmo. quando.TEXTO DE ARISTÓTELES I — 10 I. V. ou o ar. por exemplo. Sobre a geração e a alteração. muda em suas próprias qualidades. o homem músico destruído e um homem não.

IV — A geração. por condensação. porque. reccpláculo da geração e da corrupção. Se uma qualidade permanece no ser gerado. Exemplifica Aristóteles com um corpo de bo a saúde. que também se revela fria. segundo a propriedade e a qualidade. enquanto mudam a s qualidades. pois. totalmente considerada. no primeiro. * * * Reexposição comentada I — 10 I — Propõe-se agora Aristóteles. A alteração é uma moção e uma mutação do contrário ao contrário. é o aumento e a diminuição. que é redondo e se torna anguloso. e não como kypokeímenon. III — Há geração quando a coisa se muda conio um lodo. A mudança que nesses casos se daria seria do esquema. essas mutações constituem modificações. acima de tudo e no sentido fundamental. depois de haver estudado a geração "simpliciter" e a geração "secundum quid". como síntese de m a téria e forma. na opinião vulgar. ou uma corrupção. então. As transmutações não se processam na substância. que corresponde à "poiótes". VI. o sujeito. a substância composta de forma e de matéria. enquanto no que se refere ao homem músico e ao homem nãomúsico.5 ração e à corrupção. na "Sinopse das idéias fundamentais de Aristóteles" para esclarecimento da geração e da corrupção. Aristóteles vai demonstrar que a geração e a alteração são distintas uma da outra. mas também na substância. pois refere-se ao surgimento do que é mais sensível do menos sensível. V — Preocupa-se Ar. muda-se como synolon. no livro V.88 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 89 músico. Eis por que. mas se nada subsiste do que o outro termo é uma propriedade ou um acidente tomado em sentido geral. ou quando esta se evapora em ar. Assim o ser músico não é da essência do homem. que é incn<is sensível. ou o bronze. a qual era a mesma do ser corrompido. Assim. dar-se-ia uma "diáthesis". A matéria toma uma nova forma substancial como quando toda a semente se transforma toda em árvore. VIII. a forma). estaríamos cm face de uma alteração. q u e é sintese da prote ousia e da deiüera ousia (da substância primeira. porque todos esses sujeitos são os rcceptáculos de certos contrários. permanecendo o sujeito sç n s í v el o mesmo. isto é. e de que modo. c distingue a alteração de a geração. Também tais mutações constituem uma alteração. mas. mas apenas nas suas qualidades. e não o "hipol<eimcnon". o sujeito de outras espécies de mutações. esta qualidade de músico e não-músico é uma qualidade do sujeito permanen. que é o "synolon". emquanto. É matéria. segundo o lugar. que o f r io é apenas um acidente do ar. sem quç haja transmutações subjectivas. Há uma diferença entre a qualidade e o sujeito. pois a matéria prima subsiste em ambas como a mesma. essas mutações são uma geração e uma corrupção. por isso não . e da substância segunda. que adoece. Esta dá-se apenas nas transmutações qualitativas. como salientava Tomás de Aquino. torna-se claro o conceito de alteração. O sujeito sensível. tanto no que concerne à gc. mostrar-nos a diferença entre a geração e a alteração. a figura extrínseca das coisas. Na introdução dessa obra. é fácil de c. A água não é uma simples qualidade do diáfano. não o synolon. é a transladação. segundo a qualidade. Assim se o ar é frio e dele é gerada a água. mas que permanece o mesmo. não devcnios esquecer.oni|)rCender-se. a mutação de contrário a contrário. VII. que permanece o ruesmo bronze. num certo sentido. expôs o que entendia por alteração (alloiosis). II Na alteração o subjectam permanece o mesmo. alteração. A mutação não £ apenas nos acidentes. a matéria. tal é nossa maneira de responder. Portanto. em mostrar claramenle o qi. Pode permanecer o hipokeimenon. ao quantitativo. é o que permanece o mesmo. como também no que concerne à alteração. Aristóteles. sin-^e a água. como do ar. é. neste caso. se elas existem ou não. neste último caso. não se pode considerar aquele como uma mera qualidade do primeiro. na ordem da quantidade. E corrupção seria o inverso. ou 320a uma geração. Mas o é ainda. teria havido geração desta e corrupção daquela. Assim. o qual não é natnraliter frigidus. tivemos oportunidade de examinar os diversos postulados propostos por éle na Fisica.3U te. o corrompido. do qual o ar também seria uma de suas espécies. a matéria prima. na realidade. que também é u m a espécie de "poiótes". Na "Física". no que se refere ao homem. Para que haja verdadeiramente geração é necessário q U e o synolon seja transmutado e não apenas o que lhe é acidental.

Se a mudança é tópica. O homem é necessariamente ou músico ou não-músico. Se o homem músico corrompe-se no não-músico. respectivamente grandeza e qualidade. aumento e alteração 15 tomo mutação do que é em potência ao que é. mostra ainda que não é incoveniente que o semelhante corrompa seu semelhante por acidente. VI — Toda mutação é uma transição do contrário ao contrário. ou. ao contrário. receptáculo da geração e de corrupção. uma moção local. portanto. quer se trate do engendrado. e igualmente o que concerne à alteração. principalmente qualitativas. então. do mesmo modo que as da esfera. Quando a transmutação é segundo a contrariedade. o homem permanece. Nestes casos. Quando a mutação se processa do contrário ao contrário. a maior chama que consome a menor. Uma mutação qualitativa manifesta-se pelo aumento e pela diminuição. VIII — Desta forma. haverá acquisição de uma nova forma e a perda de outra e vice-versa. nem tampouco o engendrado. portanto essas mutações constituem apenas alteração. se se dá na propriedade e na qualidade. Ou. por ex. ou. que é a que gera a transladação (phora) etc. Comentando este tópico. e as partes do diminuído. TEXTO DE ARISTÓTELES I — 11 I. que é o caso da transladação. temos a alteração. de baixo para cima. Mas também aceita. ou do aumentado. IV. Como por ex.10 nuem as que diminuem? II. Músico ou não-músico são possibilidades do homem. temos. É preciso examinar de antemão se a diferença que há entre essas mutações consiste unicamente no sujeito portador dessa diferença mútua. em tntelequia. determina êle um modo de reação simpliciter. Com efeito.25 mente quanto ao sujeito portador dela. do menor para o maior. permanece no lugar. pois as partes da esfera mudam. continuando o todo a ocupar um lugar igual. contudo. como se dá ou não se dá. o que é evidente.90 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES está contido na sua definição. enquanto o aumentado muda somente 20 como o que é estirado. VI. V. segundo a quantidade. permanecendo o corpo o mesmo. então. Tomás de Aquino. mas ainda na maneira como se efectua. III. do alterado. Quando a transmutação se dá. Há geração e corrupção quando a forma substancial não permanece a mesma. não-par. as do aumentado se estendem sobre um lugar sempre maior. e a mutação segundo a qualidade. Que. A matéria prima é o substratum que sofre as transmutações. a diminuição. Não é. de lugar. Desta forma. há também uma diferença na maneira pela qual se opera a mutação? Pois é manifesto que o alterado não é necessariamente mudado segundo o lugar. isso é. segundo a contrariedade do lugar. a quantidade advém ao sujeito existente em acto. permanecendo o sujeito o mesmo que continua existente em acto. da direita para esquerda. Na alteração. VII — Considera Aristóteles matéria o sujeito. aumento e diminuição. apesar de o ser de outra maneira que o transportado. em certo sentido. Neste caso. ao contrário. temos o aumento. há uma "hylê topikê" (matéria localizada). enquanto o é o aumentado ou o diminuído. como é. porque todos são receptáculos de certos contrários. segundo o lugar. o transportado muda totalmente de lugar. há as mutações das possibilidades em algo que é permanente. e se é. que seja sujeito de outras espécies de mutações. e são suas partes que mudam. A geração ou a corrupção só se dá quando não subsiste nada do outro termo. será porque a mutação deste naquele (a saber de uma substância em potência a uma substância em acto) é geração. Falta-nos agora falar do aumento: difere ele da geração e da alteração? Como aumentam cada uma das coisas que aumentam e como dimi. como o número é par ou ímpar. alteração. temos uma "latio". mutação segundo a grandeza. temos a transladação. nas paixões. sobre um lugar cada vez menor. corrompendo sujeito ou matéria. em outras palavras. . a alteração. a mutação difere não sò.

que a u m e n t a suas p a r t e s . com efeito. m a s a esfera. m a s ao facto de que a m a t é r i a do ar seria contida n a água como n u m vaso. As p a r t e s extendem-se e t r a n s m u t a m . sendo 320b s e p a r a d a . ou então será um vácuo e um corpo não sensível. q u e é a u m e n t o ou diminuição (que b e m p a r e c e ser a g r a n d e z a pelo facto de aum e n t a r ou de d i m i n u i r ) de que m a n e i r a será preciso concebê-la? I I . A geração é u m a t r a n s m u t a ç ã o da substância do ente em potência p a r a a substância do ente em aclo. ao menos. e são as suas p a r t e s q u e m u d a m segundo o lugar. que p o d e ser c o m p r e e n d i d o de d u a s m a n e i r a s . o a l t e r a d o n ã o m u d a n e c e s s a r i a m e n t e segundo o lugar. por exemplo. sobre o qual se realizam. incorpóreo e n ã o . a primeira não é possível. Na alteração. m a s contida em outro corpo? I I I . nem p o r acidente. a t r a n s m u t a ç ã o se dá nas paixões. u m a q u a n t i d a d e infinita de ar. quer pela essência. como um ponto. e a segunda implica necessariamente que a matéria esteja contida em um outro corpo. VI Desta f o r m a se vê que a distinção entre geração. cmq u a n t o o a u m e n t a d o m u d a somente no que é a u m e n t a d o . bá um c a r a c t e r dinâmico. e a d i m i n u i ç ã o nas coisas que d i m i n u e m .30 za. ou da m a t é r i a s e p a r a d a . com efeito. não só se dá q u a n t o ao sujeito. No segundo caso. Uma esfera em m o v i m e n t o . ocupando o menor. o c u p a n d o o m a i o r l u g a r . n a alteração. TEXTO DE ARISTÓTELES I — 12 I . daí resultarão n u m e r o s a s impossibilidades. que p r o c e d e m corpo e g r a n d e z a . m a s . suas p a r t e s m u d a m (le lugar. dessas hipóteses.92 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES Reexposição comentada I — 11 I Ksludará êle agora o a u m e n t o . a t r a n s m u t a ç ã o se dá na m a g n i t u d e . No a u m e n t o . t o m a d a como u m todo. No p r i m e i r o caso. esse processo é devido. em entelequia. nas q u a l i d a d e s passivas. P r i m e i r a p e r g u n t a que se coloca é se difere o a u m e n t o <la geração e da alteração. Pois algo Iransmiila-se do pequeno cm g r a n d e . e ela se dá segundo a q u a n tidade. quer. Ora. q u a n d o o ar v e m da água. c n a diminuição algo Iransmula-se de g r a n d e em p e q u e n o . III — Observa-se que. Êle p e r m a n e c e no lugar. isto é. n a d a i m p e d e que haja u m a infinidade n u m é r i c a de m a t é r i a s assim contidas n a água. Será do que é. e esse processo. n o q u e concerne ao sujeito do q u a l se efectua essa m u t a ç ã o . Mas. ein entelequia. N ã o é de a n t e m ã o impossível de u m a m a neira como de o u t r a ? A m a t é r i a . a m a t é r i a do a u m e n t o é acrescida. 10 V . extende-se.g r a n d e . de f o r m a que elas p o d e r i a m t a m b é m tornar-se. I V . Mas o corpo. q u a l delas é a da qual o a u m e n t o se p r o d u z ? A m u t a ç ã o opera-se a p a r t i r da m a t é r i a s e p a r a d a e existente per si. . Ela é a m a t é r i a do ar. alteração c a u m e n t o . n e m t a m p o u c o o g e r a d o . se a matéria se encontra 5 n u m o u t r o corpo. relativo. ela n ã o contém a m a t é r i a do ar. A m u d a n ç a local é necessária. V — Há u m a diferença com a m o ç ã o local da esfera. Quer dizer que o todo p e r m a n e c e no l u g a r cm q u e está. II A primeira resposta deve dirigir-se p a r a o estabelecimento da diferença entre as mutações e se elas consistem unicamente no sujeito que as suporia. É como se se dissesse (pie. p e r m a nece no m e s m o lugar. Q u a n d o a água se t r a n s m u t a em ar.em alguma parte. c que condido p e r m a n e c e s e p a r a d a de tal m o d o que ela não seja uma parle desse corpo. de man e i r a que ela t a m b é m deve estai. nem por essência. mas t a m b é m na m a n e i r a como se efectuam. desde q u e ocupe o m e s m o lugar. c a r a c t e r de (pie lambem p a r t i c i p a m a geração e a alteração. pelo acidente. e m b o r a de m a n e i r a diferente ao t r a n s p o r t a d o da t r a n s l a d a ç ã o . u m a esfera em revolução. q u e é té)pica. Mas o a u m e n t a d o ou o d i m i n u í d o m u d a .s e seg u n d o o lugar. N o a u m e n t o . No a u m e n t o . O ser acrescido p r o v é m de um outro ser que o recebe e não da sua simples potência. IV — O t r a n s p o r t a d o m u d a t o t a l m e n t e de lugar. ou n ã o ocupará n e n h u m lugar. não a u m a m u t a ç ã o d a água. e a segunda é como se dá o a u m e n t o nas coisas que a u m e n t a m . estará s e m p r e em alguma parle < q u e é e n g e n d r a d o dessa matéria incorpórca. no que d i m i n u e . Mas. em potência. g r a n d e z a e corpo.

isto é. ou. da matéria separada mas contida em outro corpo. o ar estaria contido na água e. nem por essência nem por acidente. por ex. III — Se a matéria fosse separada. Corpo e grandeza procederiam dessa grandeza em corpo e potência. a matéria seria ou vácuo ou corpo não sensível. mas dele distinto pelo í. A matéria não pode ser sem magnitude e existente por si. que permaneceria imutada. Ademais. Para Aristóteles o vácuo não existe. como diz Tomás de Aquino. e como este implica o que se corrompe. numericamente idêntica ao corpo. de um volume limitado de água. e as razões são as seguintes: o ponto. a água permaneceria água. temos o que nos mostra a experiência: o ar vem da água. grandeza e corpo e. existir separada per se.. em abono desta tese. ademais. que quando o ar viesse da água. tal mutação não viria propriamente da água. K o sujeito que aumenta. Poder-se-ia admitir esta conclusão. Reexposição comentada I — 12 I A moção do alimento e da diminuição dá-se na magnitude. VII. Mostrará mais adiante Aristóteles que o corpo e a grandeza procederiam de uma matéria corpórea em acto e de uma grandeza em acto. não parece absolutamente que o ar venha da água desta maneira. como um ponto. o que é contrário aos factos porque. e só logicamente distinta dele. não ocupa nenhum lugar. V — Nada proibe que haja uma infinidade numérica de matéria contida. pois que tudo quanto é gerado vem de algo que ocupa um lugar. VII — Conclusão final: ela não é separada da magnitude. portanto. então. E. por si. •'quod generatur ex corrupto". como sendo. O aumentado tem potência para a magnitude. desde que se aceitasse uma matéria sem magnitude. se se aceitasse aquela posição. urna e idêntica numericamente. incorpóreo c não grandeza. IV — Também não se pode admitir que a matéria se encontre noutro corpo e que permaneça separada de tal forma que não seja uma parte deste corpo. é necessário que ocupe algum lugar. Ela é. separada. por acidente. engendrar-se um volume ilimitado de ar. poder-se-ia. não permanecendo a água imutável. por ex. carente de magnitude. em acto. na qual se geram os corpos naturais. em todos os casos.ogos. Exemplifica Aristóteles. 3) é impossível que a matéria. mas é da magnitude do que é em acto. não esteja em algum lugar ou por si ou por acidente. se é um ente em potência. o que existe é o intervalo (diástema). em outras palavras. II . saindo desta. o que é gerado vem do que se corrompeu. impõe-se que haja a magnitude. Se a matéria existente sem quantidade ocupasse algum lugar teria quantidade ou do contrário seria vazia.O que aumenta é. mas do facto da matéria do ar estar contida na água como no vaso. retirando-se dela.94 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 95 VI. em potência. a mutação se operaria a partir da matéria separada e existente por si. quando é algum corpo em acto. Se é da matéria que se geram os corpos sensíveis. por uma distinção lógica. Não nos esqueçamos que para que algo seja gerado é necessário que algo seja corrompido. e sendo a matéria de onde surge o gerado. um volume de água limitado poderia conter um volume de matéria de ar ilimitado. ou seria um vazio e um corpo não sensível. Se fosse segundo a outra opinião. na água. VI — E. nesse caso. A matéria ocupa algum lugar por si ou por acidente. . não separada do corpo. E se fosse vácuo seria um corpo não sensível. o que é evidentemente impossível. quer dizer. Nesse caso.. retirando-se dela. ipie nele se transmuta. com êle. 2) é impossível que ela seja vácuo ou corpo não sensível. De (pie maneira se deve conceber esta mutação? É o que Aristóteles irá responder. Ou a matéria não ocupa nenhum lugar ou ocupa. para mostrar a impossibilidade dessas afirmações. Êle estabelece o seguinte postulado: 1) É impossível à matéria. neste caso. a matéria não separada do corpo. É portanto preferível considerar. ela não ocuparia nenhum lugar.

u m a coisa nasce a b s o l u t a m e n t e de u m a o u t r a . assim como j á o estabelecemos em o u t r o lugar. o r a u m a coisa em acto (da m e s m a espécie ou do m e s m o g ê n e r o : p o r exempio. pelas m e s m a s razões. 15 20 25 30 . e eis a r a z ã o pela q u a l o a u m e n t a d o deve possuir alg u m a g r a n d e z a . I V . esta m e s m a matéria é t a m b é m a m a t é r i a da g r a n d e z a e da q u a n t i d a d e .TEXTO DE ARISTÓTELES I — 13 I . segundo o lugar. V I . o seco não é e n g e n d r a d o pelo seco. não possui em entelequia n e n h u m a g r a n d e z a . j á tal n a t u r e z a d e t e r m i n a d a (pois o corpo em geral n ã o é n a d a ) . essa substância corporal lendo. Mas n ã o devemos colocar como p o n t o s ou linhas a m a t é r i a de o n d e v e m o corpo. Agora. não separável. com efeito. pois o a u m e n t o é o a u m e n t o de u m a g r a n d e z a j á existente. E t a m b é m q u e os p o n t o s e as linhas são limites. que o a u m e n t o n ã o é u m a m u t a ç ã o a p a r t i r de uma coisa q u e . m a s . m a s é o facto d a geração absoluta. a q u a l n u n c a p o d e existir i n d e p e n d e n t e m e n t e d a q u a l i d a d e n e m i n d e p e n dentemente da forma. como j á m o s t r a m o s a n t e r i o r m e n t e em outro trabalho. o r a u m a entelequia. o que é impossível. pois seria antes a geração de u m corpo do q u e a u m e n t o . logicamente separável. a m e n o s de a d m i t i r que as q u a l i d a d e s sejam t a m b é m separáveis das substâncias. j á que h á t a m b é m u m a m a t é r i a p a r a a substância corporal. e u m h o m e m p o r um h o m e m ) . e sua causa eficiente é. T a m b é m n ã o se deve c o n s i d e r a r o a u m e n t o como i n d o de u m a m a t é r i a sem g r a n d e z a a uma entelequia de g r a n d e z a . e a d i m i n u i ç ã o . o fogo é e n g e n d r a d o pelo fogo. Resulta m a n i f e s t a m e n t e dessa exposição. Ademais. o decréscimo dessa g r a n d e z a . V . é v e r d a d e . e I I I . g r a n d e z a em potência. I I . q u e é a m a t é r i a . Contudo. Pois o vácuo existiria em estado s e p a r a d o . u m a m u t a ç ã o dessa n a t u r e z a n ã o é p a r t i c u l a r ao a u m e n t o .

sujeito de determinações. ora uma coisa em acto. como a diminuição seria o decréscimo dessa grandeza. Conseqüentemente. Fundamentavam eles o seu pensamento no facto de serem o ponto e a linha termos das dimensões. quer especifica. Falta à linha e ao ponto as dimensões que possuem os corpos materiais. embora o sejam da matemática. Também a matéria não pode existir sem a sua configuração e as suas qualidades. e que sua causa eficiente é. na geração. Pois o que não está em acto não poderia ter magnitude. o que não tem a quantidade em acto ou em potência. o aumento só poderia dar-se naquilo que já possui. coisas incorpóreas em acto. em entelequia. teríamos. Se esses acidentes pudessem ser separados da substância. idêntica com a coisa produzida. e afirmavam que aquilo que. V — Portanto. e não podem engendrar um corpo que tenha uma grandeza. por sua vez. Se se considerasse o aumento como partindo de uma matéria sem grandeza a uma entelequia de grandeza. Todo corpo tem uma determinação. O ponto. criação de uma obra). . carece de toda magnitude. e sendo os pontos e linhas os últimos termos. eles poderiam existir à parte.98 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES !)í) Reexposição comentada 1—13 I — Já demonstrou Aristóteles que nem os pontos nem as linhas podem ser consideradas como sujeito da magnitude. há o devir de algo em acto que estava anteriormente apenas em potência. b) Para a poíesis propriamente dita (realização. A magnitude subjectiva do corpo é. Acusava Tomás de Aquino os platônicos de considerar os entes matemáticos como substâncias dos corpos naturais. então. o ponto e a linha não poderiam ser os elementos consistentes dos corpos. ora uma entelequia. isto é. pois um corpo sem determinação não existe. como também o são as qualidades das substâncias. seriam conseqüentemente o fundamento da matéria. 0 aumento é o acréscimo de uma grandeza já existente. O aumento não é uma transmutação de algo que esteja em potência para a magnitude. Daí necessariamente em todo corpo haver paixões. por sua vez. resultado da tekhnê (arte) uma forma. como a forma é termo da matéria. Se a linha tem superfície não tem profundidade nem latitude. Todo o devir implica um ser em acto de onde êle se origina e êle pode ser. II — Provado por Aristóteles. seria a matéria dos corpos. que está no espírito do artista no estado de entelequia. III — Na "Metafísica" demonstrou Aristóteles que uma coisa nasce absolutamente de uma outra. pelo qual é terminado. a geração de um corpo que aumenta. quer dizer uma forma na matéria. Essas últimas são apenas logicamente separáveis. em acto. conclui Aristóteles. o que aumenta ou diminui deve possuir alguma grandeza. Expõe Aristóteles que os pontos e as linhas são os limites da matéria. como o esquematiza Tricot: a) uma coisa é em acto. não o são da matéria emquanto tal. como bem salientam os comentaristas ao analisar este tópico. quer genericamente. nem podem existir separadamente de per si. o que para Aristóteles é um absurdo. da mesma espécie ou do mesmo gênero. IV — A matéria de um corpo tem já uma natureza determinada e é ela também a matéria da grandeza e da quantidade. Pois. determinabilidades que lhe podem advir. alguma grandeza. que não pode ser sujeito de aumento.

a saber o aumentado e o aumentante. Ora. Parece. quem teria aumentado. na diminuição. por exemplo. como se retomássemos a questão desde o início. por exemplo. e que igualmente. assim como o dissemos precedentemente. Contudo. ora isso é impossível. pois. Mas não há aumento nem de um nem do outro termo. que qualquer parte do aumentado aumentou. um corpo. deveria haver aí um vácuo de estado separado. Necessariamente. cujas causas procuramos. quer de um incorpórco. pela qual. mas uma geração do termo para o qual a mutação terá lugar. prestarmos atenção de que espécie é esse aumento ou essa diminuição. cada parte tornou-se menor. de preferência. É preciso com efeito salvaguardar. e é o corpo. a saber: ao engendrado e ao corrompido.I. Então a água não teria aumentado. e que. E se é de um corpo. isso é também impossível. ademais. pois. mas o primeiro termo teria perecido e o outro teria sido engendrado. na verdade. ou então dar-se-ia que alguma coisa comum pertenceria aos dois termos. se houve aumento. tais caracteres são em número de três: o primeiro dentre eles é que toda e qualquer parte da 321a 5 10 15 . acompanhada de uma corrupção do termo contrário. embora a massa se tornasse maior. Mas não é possível ademais sustentar que o aumento e a diminuição se produzam da maneira. o ar vem da água. mas é impossível que a matéria da grandeza exista em estado separado. não há aumento de nada. caracteres essenciais do aumentado e do diminuído. Então. não seria um aumento. É preciso. nem o ar. se é de um incorpóreo. II. III. quer de um corpo. é pelo acesso de qualquer coisa que se produz o aumento. a diminuição. Ora. na nossa definição. dois corpos ocuparão então o mesmo lugar. IV. e pela perda de alguma coisa. o aumento tem lugar pelo acesso. com efeito.

estabelecendo o pelo qual algo é aumentado ou diminuído. Desta forma. A primeira suposição. pelo aditamento que se processa o aumento. ou reduzido em acto. duas suposições: a) o que por si e simplesmente aumenta ou diminue. com efeito. de maneira semelhante. se. ou reduzida a sua quantidade em acto por algo da sua própria quantidade. se convertesse em sopro). Poder-se-ia. a mão é vulnerável. o vinho. ademais. que se trata a mistura composta? O mesmo se dá quanto à alteração: se a carne persiste em seu ser e em sua essência. Se é de um incorpóreo. fundada na evidência. e não o pelo qual ela aumenta. tornam-se um e outro maiores.. e não como água. o agente da alteração e o princípio do movimento estão respectivamente no aumentado e no alterado. Já que. o decrescimento. o que levaria à existência de uma hylê megethous (matéria extensa). e pela retirada. revela-se pelo aumento da parte do aumentado e pela diminuição da parte do diminuído. revela que o aumento ou a diminuição se processam na parte. Mas. que o aumentado é conservado e persiste. III — O aumento processa-se pela adição ou de um incorpóreo ou de um corpóreo. cada parte da carne torna-se maior. independente do corpo em entelequia (Tricot). tanto pode não ter sofrido nenhuma mutação. enquanto. e a causa eficiente não está nele. assim como o corpo que o consumiu (por ex. e o aumentado não persistiria. emquanto a segunda suposição afirma que todo aumento se processa pelo acesso de algo. Ora. e. pois. como diz Tomás de Aquino. Se se quer. Estabelece. mostrou Aristóteles que o que é movido é movido segundo a parte. esse último caracter deve ser salvaguardado. por ex. É. o aumentado ou o alterado permanece idêntico. colocar a questão de saber o que é o aumentado. é a própria perna que é maior. uma e outra coisa juntas não aumentaram? Pois ao que se acrescenta a alguma coisa e o pelo qual aumenta. por ex. será uma alteração. sem acesso nem permanência do que quer que seja. mostra que se torna maior ou menor. mais volumoso. pois. na geração ou na corrupção absoluta de uma coisa. Se fosse incorpóreo. II — Todo o aumento. com efeito. inversamente. com efeito. na diminuição. se a perna de um homem aumenta. pois que. uma vez entrado. é aumentado por outra quantidade em acto. é do líquido que leva.. ter sofrido uma mutação. lá também na mistura do vinho e da água. sem perda do que quer que seja. uma coisa poderia crescer. que a geração em exame seja um aumento. o que está em acto é reduzido pelo que está em acto. V. quer dizer. Não será por que a substância da perna permanece. o alimento. a actualidade ou a grandeza não permanecesse a mesma. bem como as causas de tais moções. por outro lado. "simpliciter". ou no aumento.. o pelo qual ela foi alterada. e o terceiro. Assim o homem é vulnerável segundo a parte. assim. ao menos é êle destruído quando sofreu essa mutação. antes.102 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 103 grandeza que aumenta torna-se ela maior: por ex. enquanto a natureza da outra coisa. por que é como vinho.. na alteração. b) Tudo quanto aumenta ou diminui. pois realmente o alimento será o lugar vazio de um corpo existente. cada um desses líquidos torna-se. como diminuição. portanto. VI. se é a carne que cresce. neles. no livro V. não há permanência. que se diz ter aumentado? Será. é aumentado ou diminuído pela adveniência de algo a um quantum que já está em acto. não lhe pertencia. deverá haver um vácuo em estado separado. mas que alguma propriedade essencial venha a pertencer-lhe. e o que está em potência para maior quantidade. ela também. embora. independentemente desse corpo. Reexposição comentada 10 25 I — 14 I — Propõe-se Aristóteles investigar agora a natureza do aumento e da diminuição. como quando se mistura vinho com água. pois tal é para nós o próprio fundamento do conhecimento. Na "Física". o segundo é que o aumento produz-se pelo acesso de alguma coisa. É alguma coisa à qual alguma coisa é acrescentada? Por ex. ou na diminuição. teríamos de 30 35 321b 5 . a saber o alimento? Por que. está a causa eficiente. segundo o caso. como pode. 20 Mesmo se acontecesse que o alimento entrado no corpo se tornasse maior. neste caso. não permanece. e decrescer.

virtus alterans. é impossível estar a matéria separada da magnitude. quando se engendra o ar. mostrando que tanto para o aumento como para a alteração é apenas o alterante que é alterado. aumento. que nesse caso seria a alma.°) O aumento produz-se pelo acesso ou adição de alguma coisa. Se se admitisse que o corpóreo aumentasse pela adição do incorpóreo. mas no corpo vivo. Três são os caracteres essenciais do aumentado e do diminuído: 1. assim na moção do aumento o que altera. mesmo quando o agente alterante foi êle mesmo alterado. O alimento. e a causa eficiente.°) Conservação ou persistência do aumentado. Não há. permanece segundo a substância. por exemplo. corrompe-se a água. () que aumenta é aquele ao qual algo lhe é aposto e nao propriamente aquilo que lhe é aposto. não está no que é adicionado. mas a geração do termo para o qual a mutação teve lugar acompanhada da corrupção do termo contrário. 2. nem o ar. para Aristóteles o crescimento se produz na realidade. ou no aumento ou na diminuição. como o ar vem da água. deste modo. o corpo que é aumentado e o corpo que é adicionado. Ora. IV — Demonstra Aristóteles que o aumento e decrescimento não podem ser explicados da maneira. porque se a massa se torna maior. VI e VII — O pensamento de Aristóteles. sem necessidade de fazer intervir corpos ou vazios. seguir-se-ia daí que dois corpos estariam no mesmo lugar. tal não é um aumento. Quando o alimento aumenta como corpo. como o corpo. Como mostra Tomás de Aquino. por uma contração intensiva e contínua. Na geração e na corrupção absolutas não há permanência. exemplifica Aristóteles. embora haja transformação dos bens que a alimentam. propriamente. 1 omás de Aquino soluciona estes tópicos da seguinte forma: o que é aumentado. é considerado pouco claro. o aumentado ou o alterado permanece idêntico. não seria um quantum em actum e. de onde se conclui que o pelo qual algo é aumentado.104 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 105 admitir que a matéria prima estaria separada de toda quantidade corpórea. que permitissem a compenetração do alimento. que cresce. nem a água aumenta. mas no que recebe a adição. A perna. Joachim busca restabelecê-lo. como mostra Tricot. pois a sua substância é destruída.°) a parte da grandeza que aumenta torna-se maior. conserva sua permanência substancial. cada parte dela torna-se maior. são corpos em entelequia e. por uma expansão intensiva contínua do corpo. V — Se a geração fosse o mesmo que o aumento. Se fosse o incorpóreo. não pode ser incorpóreo. pois o ar expande-se mais do que a água. nesses dois tópicos. . 3. que é o principio da moção. emquanto que na alteração. êle não é um aumentai)te. Se é a carne que aumenta. então uma coisa poderia aumentar sem acesso nem permanência do que quer que seja. ao crescer. a sua aposição não traria nenhum aumento quantitativo. este último caracter é fundamental para o aumento. e o decrescimento. embora a qualidade ou a grandeza não permaneça a mesma. não estaria nele.

vê-se claramente que o aumento tem lugar segundo uma proporção. afinal. Mas se consideramos a figura e a forma. cuja forma se dá na matéria. ademais. por ex. o osso. É preciso também tentar descobrir uma solução do problema do aumento. V. qualquer parte dessas substâncias aumenta. é preciso observar duas distinções: de início que as anomeomérias aumentam pelo único facto que suas homeomérias aumentam (pois cada anomeoméria é delas constituído) e a seguir que a carne. com efeito. como cada uma das outras coisas. como o facto de que o aumento se produz por meio de um acesso. tendo o cuidado de respeitar tanto a permanência do aumentado. toda partícula sensível qualquer torna-se ou maior ou menor. É preciso. conceber essas substâncias à maneira de uma água que fosse medida por uma mesma medida: a nova porção produzida é sempre outra que a precedente. — e aumenta pela adveniência de alguma coisa. pois tanto a matéria como a forma são chamadas carne ou osso. e que. não porém se é emquanto matéria. — e se é emquanto forma. e a diminuição por meio de uma perda. Entretanto. e cada uma de suas partes constituintes têm duas acepções. A coisa é mais evidente no que concerne às anomeomérias: para a mão. 15 20 25 30 . IV. Consagramos um desenvolvimento suficiente a essas dificuldades.. e que. II. E é assim que aumenta a matéria da carne: não é porque uma nova matéria entre em cada uma de suas partes. mas porque uma parte se escoa e uma outra sobrevém. é possível. não cresce pelo acesso de um incorpóreo. Devemos também admitir que o corpo que aumenta não é vazio e que êle não constitui duas grandezas ocupando o mesmo lugar. é em cada uma de suas partes que se faz o aumento.T E X T O DE ARISTÓTELES I — 15 I. III. Para apreender a causa do aumento.

mas somente segundo a espécie. aumentados pelas partes consimilares que aumentam sua chamadas homeomérias. a alma é um skhéma. O acesso dá-se mais no ponto de vista da forma. é verdade que qualquer parte da carne aumentou. mas somente segundo a espécie. num sentido. como no fogo. além disso. Recebem plenamente a perfeição da forma. A comparação que Ar. que anima cada um dos órgãos. a forma está aqui. e como forma. tal não é verdadeiro. a mão ou o pé) são aumentados pelo que aumenta as partes consimilares. que é principalmente acto do todo. O que é aumentado permanece. segundo a matéria considerada. O que existe é um . e. b) O que aumenta pode ser tomado düplicemente: como matéria. é explicada por Tomás de Aquino da seguinte maneira: que se se medisse a água com a mesma medida. faz com a água. porque. cuja espécie sempre permanece. V — A solução aparece de maneira mais manifesta nos membros e nas partes dissemelhantes do que nos membros de partes semelhantes. gota a gota. As anomeomérias são os membros de partes semelhantes. uma lei de proporção imanente ao corpo. se a água fluísse. num sentido. pois cada anomeomérias é constituída de homeomérias. . o que não permanece são as partes. o intellectus agens) é apenas a forma do corpo. não somente o logos das partes. como o povo da cidade que. pode dizer-se dela ter partes e crescer em todas as suas partes. o que nela é considerado o que é matéria.Na lição anterior foram resolvidas algumas dificuldades e outras surgem agora. não no ponto de vista da matéria. III — O que aumenta é aumentado pelas partes e o que realiza o aumento são partes segundo as espécies. IV — Esse tópico pode ser explicado da seguinte maneira. Sob o ponto de vista da forma. Daí resulta que. embora esteja sempre mudando. e gota a gota. a sua espécie. o que nela é considerado a sua razão específica. Não se deve talar da alma e do corpo como substâncias realmente distintas: sua distinção é apenas lógica. Portanto. e forma. cujo fluxo é incessante. Eis por que também ser-se-ia mais tentado supor que um cadáver é ainda carne e osso. emquanlo a água sempre seria outra e outra. bem entendido. que se renova sem cessar. A forma. sendo realizada na matéria. II — Estabelece Aristóteles duas distinções ao apresentar a causa do aumento: a) os membros e partes dessemelhantes (por ex. emquanto simples compostos. essa que sempre seria outra e outra água. e que persiste e se impõe à matéria. c) que êle não cresce pela adição de nenhum incorpóreo. VI. mas nos limites formais definidos. retornasse. como faz Tricot. exposa intimamente cada porção. seria como o rio que emana com a mesma espécie do rio. fundando-se nos comentários de Tomás de Aquino: a forma. o que aumenta permanece. mas sob o ponto de vista da matéria nada houve. b) que o corpo que aumenta não constitui duas grandezas ocupando o mesmo lugar. e não partes segundo a matéria considerada. Estas dificuldades são: a) que nenhum corpo que aumenta é vazio. mas que. houve adveniência a qualquer parte da carne. da razão (logos) de seus elementos. em razão da proporção. é o povo. exigindo solução. O mesmo se dá com a carne. naqueles. Reexposição comentada I — 15 I — . em outro sentido.synolon. mas a alma do "empsykhon". mas não permanecem as partes. segundo a matéria. aparece muito melhor a distinção entre espécie e matéria.108 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 109 pois a distinção da matéria e da forma é aqui mais aparente do que para a carne e para as homeomérias. Diz Aristóteles que as anomeomérias crescem pelo facto de crescerem suas homeomérias. As homeomérias são matéria. embora o fogo mude. (Tricot). do que supor que ele é ainda mão ou braço. que seria medida por uma mesma medida. de modo que o crescimento se produzirá somente pela forma que está no corpo. se saísse do vazo cheio. matéria. e a alma (excluindo. A mesma distinção é dada quanto às anomeomérias. mas.

não se tomou por si mesma. produzir o fogo dessa maneira. e contrário à carne. contudo. será outra coisa. pela transformação desse alimento. como se. imanente do aumento. 35 por um lado. na mesma forma que a da carne. Esta. pois. por ou. portanto. assim. da adveniência de alguma coisa que chamamos alimento. apossandose do alimento adveniente que é carne em potência. por exemplo. 15 . Evi. na que é carne em entelequia. Como. é uma geração.322a tro lado. pois se houvesse ai separação. no aumentado. torna-o carne em entelequia. apossando-se do combustível. quer dizer atirando lenhas num fogo já existente: é então um aumento. coexistência. portanto. Há. e. tornou-se maior. III. se se trata da carne. tendo perecido. e. é. o alimento foi modificado pelo aumentado? Não seria por que êle foi mudado à maneira como se versaria a água no vinho e que o vinho fosse 10 capaz de converter em vinho a mistura? E da mesma forma que o fogo. mas. a adveniência realizada fosse transformada e se tornasse seca. O todo. pois teria sido uma geração e não um aumento. II. ao contrário. deve estar em potência o que aumenta. com efeito. o aumentado que se tornou carne pelo alimento. É possível. seria uma geração. tornou-se carne. essa outra coisa. a causa eficiente. pois.5 dentemente. por conseguinte. o úmido fosse acrescentado ao seco. quer dizer.TEXTO DE ARISTÓTELES I — 16 I. Em entelequia. e. o semelhante aumenta pelo semelhante. em outro sentido. mas quando acendemos as primeiras lenhas. transforma-o em fogo em entelequia. perguntar qual deve ser a natureza do que pelo qual o aumento se produz. o dissemelhante aumenta pelo dissemelhante. em razão. por exemplo. a carne em potência. e. com efeito. Num sentido. Poder-se-ia.

IV. e torna-se carne em entelequia. na medida em que o que foi acrescentado está em potência. por um 25 lado. a qual se apossa do alimento que sobrevém. uma potência na matéria. que não é nem homem. mas. Mas na medida em que está em potência carne apenas. ou mão ou braço. a Quantidade-em-geral o é no aumento. tem que intervir uma corrupção e uma geração. haveria uma geração e não um aumento. nutrição e aumento. nem nenhuma outra espécie animal: o que o Animal-em-geral é na geração. contrária à carne. teríamos uma relação de carne e não de aumento. e para que haja tal aumento. os condutos tornar-se-ão também maiores. a reunião de uma e de outra coisa. pois deve tornar-se por sua vez de tal quantidade e carne. mas enquanto é apenas carne em potência. A quantidade tomada universalmente não é mais engendrada no aumento que o Animal-em-geral. o pão) e geração no aumentado. ao queimar as primeiras lenhas. Agora pergunta Aristóteles: como poderia o aumento ter sido modificado pelo aumentado. Há pois acrescentamento de certa quantida. E essa forma sem matéria é como uma espécie de conduto. tornou-se maior: a) pela adição de alguma coisa. pois. e b) pela transformação desse alimento na mesma forma da carne. nesta medida é princípio de aumento da carne. O que se trata da carne é carne em potência. III. Mas o que é produzido no aumento é carne ou osso de tal quantidade. e nesta medida produz o aumento. o synolon. a qual chamamos alimento e contrário à carne. O semelhante cresce pelo semelhante. tornando-o fogo em acto. um conduto e possui lambem em potência uma quantidade determinada). temos uma geração.20 de. TEXTO DE ARISTÓTELES I — 17 I. V. O que era em potência carne. não porém de uma carne que tenha tal quantidade. quer dizer: está em potência uma carne de tal quantidade. Corrupção do que advém (por ex. de tal dimensão. no exemplo do fogo. pois é desta maneira que diferem. uma carne de tal quantidade.112 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES Reexposição comentada I — 16 I — O todo. Assim há coexistência. nesse caso. idêntica ao aumento. pois se houvesse separação. Com efeito. quando antes era fogo apenas em potência. . II — O que aumenta está em potência no que é aumentado. III — Mas o que aumenta não se tornou por si mesmo. mas tainbém em outro sentido o dissemelhante cresce pelo dissemelhante. em potência. VI. assim. e o que está em acto é outra coisa. o aumento não está no alimento. Se pois o que vem ajuntar-se a título de alimento é uma 30 matéria (a qual é. é alimento. O aumentado tornou-se carne pelo alimento. alimenta. o combustível é um aumento. carne. quer dizer as homeomérias que têm tal quantidade dessas anomeomérias. Tal é a razão pela qual há nutrição por tanto tempo quanto a vida do corpo é conservada. O alimento é de início dissemelhante à carne. em suas definições. e. e pela assimilação se torna semelhante. embora não haja sempre aumento. teríamos uma geração. Temos assim o exemplo do fogo que transforma em fogo e combustível o que lhe é acrescentado. por outro lado. mas no aumentado. se se tornasse carne por si. Eis também por que a nutrição é. II. diferente por seu ser. Na medida em que o alimento está. por ex. A causa eficiente imanente do crescimento está na carne em acto. mesmo que diminua. em potência. que é carne em potência.

mas sucede um momento em que a energia da alma está enfraquecida pelo afluxo ininterrupto da matéria. pois o que advém é potencialmente o aumentado e não este em acto.114 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 115 Mas se essa forma não é mais capaz de actuar. V — Há diferença entre aumento e nutrição conseqüentemente. exemplificados por Aristóteles. E o que os diferencia. em acto. II — Há a adição de uma certa quantidade. como no caso da carne e do osso. actuando na matéria. então haverá diminuição da quantidade. mas aberto às suas duas extremidades. é aumento da carne. com a qual ela cresce e diminui. à força de ser misturado com uma quantidade crescente de água. considerado de difícil compreensão. III — O que advém está em potência quanto ao aumentado. torna-se água. é assim explicado por Tricot: "A alma é uma medida. essa potência imaterial (psykhê auzetikê) não tem uma matéria própria. acaba por diluir o vinho e convertê-lo em água. ela termina por diminuir. Apenas. Dessa forma. se ela é como a água. . O que aumenta são as homeomérias dessas anomeomérias. de uma quantidade determinada. Reexposição comentada 1—17 I — Não é o Animal-em-geral. de uma quantidade determinada (Tricot). mesmo quando o corpo decresce. que. Depois de assimilado permite o crescimento do aumentado. dando-se a diminuição. não pode converter o alimento em carne na mesma proporção. enquanto essa potência material não é debilitada. é um saco de pele ("a bag of skin"). Assim também. totalmente água. termina por tornar-se aguado e. no aumento. A matéria em potência é assimilada. mas o animal-em-espécie. pois o alimento é um corpo em entelequia. neste caso. o que se produz não é uma quantidade em geral. são as razões que são diferentes. segundo o que é aumentado. Segundo Tomás de Aquino. segundo a expressão de Joachim. como ainda ser produzido em maior quantidade. há distinção clara entre nutrição e crescimento. não de uma carne tendo tal quantidade. perpètuamente misturada em quantidade cada vez maior com o vinho. afinal. como o vinho. e não só é apto a receber a espécie do que o assimila. que é engendrado na geração. VI — Este tópico. êle alimenta. e a alma cessa de crescer. e enquanto carne de tal quantidade. Enquanto carne em potência é alimento. Enquanto em potência. e que é dotado de um poder próprio de expansão e de contracção. este ou aquele animal. que ao receber constantemente água. uma lei da proporção. E. a qual é em potência um outro corpo em entelequia. IV — É esta a razão por que há sempre nutrição. A adveniência do alimento faz pois crescer a alma com o corpo (alma como skhéma). no mesmo sujeito. mas a forma permanece. terminando finalmente pela cessação da espécie. a forma permanece. diferentemente do vinho que.

para a ação e para a paixão. Ora. ou então um qualquer deles é o primeiro? É portanto necessário começar por explicações sobre assuntos que são hoje tratados sem precisão. e é com razão que Diógenes sustenta que "se todos os seres não procedessem de um só elemento. mas ainda aqueles que derivam os seres de um só elemento estão igualmente na necessidade de introduzir a ação. Impõe-se de início tratar da matéria. quer dizer do que chamamos os elementos. seu substracto dever ser uma única natureza. a união é uma mistura. não haveria acção e paixão recíprocas". não poderia resfriar-se. mas é verdade de todos os seres entre os quais existe uma acção e uma paixão recíprocas. será que todos vêm uns dos outros da mesma maneira.TEXTO DE ARISTÓTELES I — 18 I. c o que não foi claramente determinado. pois não é pelo calor e pelo frio que se transformam um no outro. e o que é frio não poderia. Todos os filósofos. Existem ou não? Em outras palavras: será que cada um deles é eterno. com efeito. mas como se produz o que chamamos "ser misturado". não é verdadeiro dizer que tal se dá com todos os seres. Daí resulta que. com efeito. . Sem dúvida. apelam para a separação e para a união. os que colocam uma pluralidade de elementos engendram o resto por meio da sua ação e da sua paixão recíprocas. assim como a separação e a união não são possíveis sem um agente e um paciente. Não somente. II. mas é evidente que é o seu substracto. ao contrário. a alteração. em toda a parte onde há acção e paixão entre duas coisas. esquentar-se. por exemplo. ou há uma maneira de que são engendrados? E se são engendrados. O que é quente. Por outro lado. tanto aqueles que engendram os elementos como aqueles que engendram os corpos que são compostos de elementos.

actuar. É da acção e da paixão que é necessário falar a seguir. as coisas que não são capazes de entrar em contacto. Sem dúvida. opiniões contrárias umas às outras. quer dizer. as coisas não podem. E já que a posição pertence somente aos seres que já estão em um lugar. quer em razão de uma pura homonimia. assim é igualmente do contacto. não o estarão. segundo nossa opinião. noutro sentido. Os filósofos que nos precederam nos transmitiram. quer porque uns dependem de outros que lhes são anteriores. Com efeito. sendo absolutamente não-movida. estarão somente em contacto às coisas. com efeito. ação. que se julga necessário supor o contacto 30 como recíproco. Se pois. mistura. pertence somente aos seres que estão num lugar. como definimos anteriormente. Mas os corpos que são assim pesados ou leves são activos e passivos. pois não estão era potência de agir e de sofrer. se é verdade que devemos opor o agente ao paciente e se este último termo deve ser reservado aos seres. o motor é dito. do mesmo gênero que os móveis. segundo a qual são movidos somente no sentido de ser alterados. IV. os motores estarão em contacto com os móveis. começar a misturar-se. na realidade. uma qualidade. sem dúvida. tal é. do mesmo modo que cada um 30 dos outros termos recebe uma pluralidade de significações. No que concerne ao contacto nos seres da natureza. e se observa ademais. 323a V. É pois manifesto que 10 os corpos estão naturalmente em contacto uns com os outros quando. quer cada uma dela exista em estado separado. o contacto é a coincidência das extremidades. 25 Partamos do seguinte princípio: todas as coisas que admitem a mistura devem poder entrar em contacto recíproco. Mas 15 há uma outra diferença. é evidente que. mas que tal gênero de motor deve ser movido êle mesmo para mover. 323b . e. quer uma e outra dessas determinações. umas com as outras. todos os seres que estão em contacto recíproco terão peso ou leveza. para as coisas matemáticas. tais como o branco e o quente. falando do agente. nestes casos. por outro lado.ARISTÓTELES 118 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES E AS MUTAÇÕES 119 Mas se nosso estudo deve ocupar-se da acção e da paixão e da mistura. pois. deve-se também atribuir-lhes o lugar. deve também ocupar-se do contacto. sem um certo contacto prévio. e as oposições da mesma natureza. não sendo ela tocada por coisa alguma. e. com efeito. Daí resulta que se uma coisa move. é necessário. nem todo motor é capaz de actuar. Mas eis a definição precisa do contacto: de uma maneira geral. do momento que se lhes atribui um contacto. Contudo o que se diz do contacto no sentido próprio. que. com efeito. coincidem por suas extremidades e são capazes de ser movidos e de se darem mutuamente o movimento. Temos três noções a definir: contacto. VII. Dizemos algumas vezes. não é atribuído senão aos seres que ocupam uma posição. movem ao ser movidos. sendo grandezas separadas. cujo movimento é uma afecção. e. E. que o que é tocado toca o que o toca. o que é tocado. por sua vez. deveremos fazer a mesma distinção. com efeito. e. e é assim de duas coisas em que uma actua e a outra sofre. III. Há ainda casos em que dizemos que o motor toca simplesmente o móvel sem que. a maneira que é preciso defini-lo. enquanto um outro gênero move. estão entre si como motor e movido os corpos que estão dotados de acção e de paixão. coincidem por 5 suas extremidades. ela pode tocar o móvel. mover. mas. num sentido. estão em contacto os corpos que têm posição e estão entre eles como motor e movido. sendo grandezas distintas e ocupando uma posição. Mas é porque os motores. IX. que aquele que nos faz mal nos toca. VIII. quer uma delas apenas. que é preciso distinguir. toque o que o toca. sendo êle mesmo não-movido. pois. todos os motores. no sentido próprio. quer exista de outra maneira. Eis. movem tudo sendo movidos. E jà que todo motor não move o movido da mesma maneira. no sentido próprio. VI. Eis por que devemos de início tratar do contacto. o que é claro: num sentido. ademais. mover é um termo mais amplo que 20 actuar. e o agente. A maior parte do tempo. Mas a posição. de nosso mundo sublunar. mas nós não o tocamos. neste ponto. e que a primeira diferenciação do lugar é o alto e o baixo. o que 25 é tocado toca o que o toca.

estudar a matéria. no entanto. No que se refere aos súmata physiká não haveria dúvida. uma e outra. mas a matéria (a matéria próxima) que se realiza nos quatro elementos terra. enquanto que um outro gênero move. Os seres matemáticos não_ ocupam realmente um lugar. os atomistas e Platão. VI A posição pertence aos seres físicos que ja estão num lugar. dar a definição precisa do contacto: estão em contacto os corpos que têm posiçãoe estão entre si como motor e movido. como poderiam interactuarse? Surge assim a necessidade de definir três noções: contacto. III e IV — Aquelas noções. que ocupam um lugar.. ao agente se opõe o paciente". e. movido e paciente.120 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 121 Reexposição comentada I — 18 I -— Pretende agora Ar. porque. IX — Mas há casos em que dizemos que o motor toca simplesmente o móvel. uma matéria subjectiva. pois êle é movido pelo primeiro Motor ou Deus. ou se se reduzem a muitos. ou são gerados? E se o são. que pertence aos corpos físicos que têm uma grandeza. (Tricot). e não aos mathematiká. vêem-se obrigados a identificar a geração com a alteração (a gênesis com a alloiosis). se vêm uns dos outros da mesma maneira ou há entre eles um que seja o primeiro. conseqüentemente. o agente e o paciente. V — Ar. como já se viu desde o início. água e fogo. Impõe-se. estudar o contacto. E tais coisas devem entrar em contacto umas com as outras. não propriamente a matéria prima (hylê prote). Parte Ar. Anaxímenes. e todo este tópico é claro e conseqüente com o pensamento já exposto por Aristóteles. Aos nossos olhos. e têm eles peso ou leveza. Contacto se diz dos seres que ocupam uma posição. mistura e ação. são todos obrigados a aceitar a separação e a união {congregatio et segregatio) a ação e a paixão. que seja susceptiva dos contrários (subjectam materiam suceptiva contrariorum). O primeiro Céu é. Mas o contacto é aceito como recíproco. ar. como por exemplo pensava Empédocles. São também activos e passivos. como vemos no texto. mas o desejável move sem ser movido pelo que deseja (Tricot). que não é absolutamente passivo. já examinada. II -— Todos os filósofos. como se geram. . São esses elementos sempiternos e intransmutáveis. Daí concluir que o contacto não é recíproco. mas este não reage sobre o primeiro Céu. cit. na "Física" já havia exposto o que entendia por contacto. e não têm posição. etc. a água. . O primeiro Ceu é não movido (akínetos) em relação apenas ao mundo sublunar. o que é tocado toca o que toca. como Tales. do contrário. como Anaxágoras. Os que admitem um só elemento. pois. a coincidência das extremidades de grandezas distinctas. por outro lado. ou são de infinitas espécies. mostrar que pode haver unilateralidade. corpos físicos. como Empédocles. que ocupam uma posição. de um princípio que postula: todas as coisas que admitem a mistura devem poder entrar em contacto recíproco. como pensava Anaxágoras. São tais problemas que é preciso estudar. motor e agente. como pensava Demócrito. Mas até estes são obrigados a aceitar a congregatio e a segregatio (união e separação). recebem uma pluralidade de significações. tanto os que aceitam que os quatro elementos são gerados. aos seres da matemática. os quais são determinações dos sómata physiká. Mas como se dá o "ser misturado" não foi devidamente esclarecido. . Onde há acção e paixão entre duas coisas. como entre elas poder-se-iam dar um agir e um padecer? Pois. seu substracto deve ser de uma única natureza. E exemplifica Ar. ou ambos. por exemplo. e o mundo sublimar. e que estão num lugar. derivados. pois há tal reciprocidade entre duas coisas quando uma actua e a outra padece. do contrário. A reciprocidade só ha entre os corpos leves ou pesados. pois. isto é. VII E já que todo motor não move o movido da mesma maneira. o ar. mas que "tal gênero de motor deve ser movido para poder mover. Trata-se agora de saber se realmente existem. com os átomos. A congregatio (união) é mistura. ou seja. no entanto. há sempre uma reacção. como aqueles que aceitam que os corpos são compostos de elementos. por Tricot. mas têm eles uma posição em relação a nós. referindo-se naturalmente aos sómata physiká. como diz Rodier. VIII — Agora pode Ar. Mas todas essas modificações exigem a presença de um substracto. Aristóteles quer. que são os elementos das homeomérias. na acção. sendo êle mesmo não movido pelo movido. para o qual os quatro elementos são irredutíveis. estão entre si como motor e movido os corpos que estão dotados de acçao e de paixão.

não é enquanto outras. mas. II. que o semelhante nunca é afectado pelo semelhante. mesmo que coisas outras actuem de certa maneira. mas enquanto possuem algum elemento idêntico. E. por um lado. com efeito. diz êle. pois toda coi- 5 10 15 20 . e bem parece que os argumentos daqueles que raciocinam desta maneira são manifestamente contrários. se é verdade que o semelhante. pois não é possível. umas sobre as outras. dizem eles. o semelhante. se assim fosse. Tais são pois as doutrinas tradicionais. que elas assim se comportam. que coisas outras e diferentes possam sofrer mutuamente. que sofre esta acção. apenas Demócrito em face de todos os outros. quando o fogo menor é destruído pelo maior. não haveria nada de incorruptível nem de imóvel. é em virtude da sua contrariedade. enquanto semelhante. Mas a razão desse conflito de opiniões é que seria necessário considerar o sujeito em sua totalidade. por outro lado. ao contrário. cada grupo visualiza apenas uma parte. tem uma doutrina original. não pode racionalmente ser de nenhuma maneira afectado por seu semelhante (pois. III. Contudo. que as coisas dissemelhantes e diferentes actuam e sofrem reciprocamente em virtude de sua natureza. é activo.T E X T O DE ARISTÓTELES I —19 I. o que é totalmente e em todos os sentidos indiferenciado. A maioria desses filósofos são unânimes em declarar. por que um seria activo preferentemente ao outro? E se é possível para o semelhante de ser afectado no que quer que seja por seu semelhante. de facto. pois o muito é o contrário do pouco. Êle sustenta que o agente e o paciente são idênticos e semelhantes. Com efeito. Ao contrário. uma coisa o pode ser por si mesma. pela razão de que nenhum dos dois semelhantes é mais activo ou mais passivo que o outro (pois os semelhantes têm todas as suas propriedades iguais e idênticas) e. quando.

II — Só Demócrito se opõe a essa doutrina. negando-se. há identidade do agente e do paciente. assim. se acontecesse à linha de ser branca ou negra. há opiniões contrárias entre os filósofos. se elas não são nem contrárias. Reexposição comentada I —19 324a I — Quanto à acção e à paixão. devido a sua contrariedade. III — Esse conflito de opiniões decorre de cada grupo visualizar o assunto. tomadas de maneira geral. afectado pelo seu semelhante uma coisa poderia ser afectada por si mesma. Necessariamente. pois. toda coisa poderia mover a si mesma. tem frio. deveria pertencer ao agente e ao paciente. a imobilidade. nem a linha. as propriedades que pertencem a um dos semelhantes pertencem também ao outro. pois como poderiam coisas outras e diferentes sofrer mutuamente. que o corpo é afectado pelo corpo. E assim entre os filósofos. por exemplo. VI. O fogo menor é destruído pelo maior. que não é o mesmo em nenhum sentido. É pela natureza. num mesmo gênero. em virtude de sua natureza. Compreende-se também que os partidários dessas duas teorias criticadas. ora é o quente. uns. pensaram que um elemento idêntico. isto é. apesar de sua divergência. mas especificamente dissemelhantes e contrários. Pois duas coisas não podem fazer sair uma da outra de sua natureza. e. pela brancura. a côr pela còr. de uma parte. também se daria o mesmo. E se se trata do que é inteiramente outro e que não é o mesmo em nenhum sentido. impõe-se necessariamente também que o agente e o paciente sejam genericamente semelhantes e idênticos. o sabor pelo sabor. Dado que o semelhante é totalmente indiferenciado. A causa decorre de os contrários entrarem. Neste caso. e a geração tem por termo o contrário. expressamos a verdade. E se fosse o diferente. e da mesma maneira em todos os outros casos). pois a corrupção e a geração. é a matéria que sofre. Num sentido. em outro sentido. Necessariamente portanto. já que somente assim haverá geração para o contrário. nada haveria de incorruptível nem de imóvel. não na sua totalidade. de uma maneira como a outra. o paciente e o agente são genericamente idênticos e semelhantes. não pode ser afectado por seu semelhante. coisas que apresentam esses caracteres são contrárias. porque o activo torna semelhante a si mesmo o paciente. mover-se a si mesma). ora é o homem 20 do qual dizemos que se aquece. e que são contrárias as coisas que actuam e sofrem reciprocamente. E exemplifica Ar. A brancura não poderia ser afectada de nenhuma maneira pela linha. cuja atenção foi atraída para os contrários. há alteridade e dissemelhança entre eles. por não ser nenhum deles. e. que 10 15 . está de boa saúde. é claro que são reciprocamente activos e passivos todos os contrários como os seus intermediários. o que vem em favor da primeira tese. visto terem propriedades iguais e idênticas. Podemos desde logo compreender por que o fogo queima e o frio esfria. enquanto tal. Mas já que não há qualquer coisa que possa naturalmente actuar e sofrer. enquanto os dissemelhantes e diferentes agem e sofrem reciprocamente. e especificamente dissemelhantes. e. Ademais. cuja atenção foi atraída para o substracto. o homogêneo pelo homogêneo. num sentido. Para a maioria deles o semelhante nunca é afectado pelo semelhante. mas. com efeito. então.124 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 125 sa poderia. o paciente muda-se em agente. dar-se-ia a mesma coisa. de uma maneira geral. é o contrário. em cada caso. se o semelhante. com efeito. é activo. pois há móveis porque há seres imóveis e eternos. ora chamamos passivo o substracto (homem. o que é a tese de Demócrito. senão talvez por acidente. E se pode ser. V. pois o muito é contrário do pouco. portanto. o que viria destruir a física. por exemplo. são contrários. e se umas actuam sobre as outras é porque entre elas ha algum elemento idêntico. O agente e o paciente. pois nada é mais semelhante a um ser do que si mesmo. outros. pois sustenta que o agente e o paciente são idênticos e semelhantes. ora dizemos que o frio se aquece 25 30 e que o doente é curado. e que. sustentaram tese totalmente oposta. mas somente o que é contrário ou encerra uma contrdriedade. não existem senão entre esses contrários ou esses intermediários. Mesma distinção também no que concerne ao agente. IV. em outro sentido. por outra parte. permanecem contudo em contacto com a natureza. e. nem mais activo nem mais passivo que o outro. pois seria um mais activo que o outro. com efeito. E já que. em geral. em certo modo. tem calor. mas apenas numa parte. nem compostas de contrários.

e noutro sentido é o contrário. ou é gerado ou induz outra forma. de outra forma. nem pelo semelhante absoluto. com efeito. haja. Num sentido. mas especificamente diferentes e contrários. isto é. Demonstra Aristóteles que aqueles que actualizam apenas o substratum pensaram que o elemento idêntico devia pertencer. como salienta Tricot. senão talvez por acidente. entre contrários ou intermediários. semelhantes pelo gênero. por isso actuar (poien) ou sofrer (pathein) se dão entre contrários. Conseqüentemente. V — E isso se dá por que entram no mesmo gênero. A geração segue o contrário. que reúne as positividades das duas doutrinas anteriores. o que. O branco e o negro são espécies do gênero côr. só se dão entre esses contrários ou seus intermediários. no sentido eminente que damos a este termo. ou melhor: o homogêneo pelo homogêneo. o sabor pelo sabor. É pela natureza que o corpo é afectado pelo corpo. É necessário que sejam semelhantes-dissemelhantes. não seria uma alteração total. que ambos grupos actualizaram o que o adversário virtualizava. tanto os contrários como os seus intermediários. se não são elas contrárias. que sejam contrárias. nem compostas de contrários. desta forma. nem a linha pela brancura. e os que actualizaram os contrários sustentaram uma tese oposta. alteridade e dissemelhança. reciprocamente activos e passivos. a côr pela côr. por outro lado. A corrupção e a geração. Toda acção e paixão implicam uma alteração (alloiosis) e esta é uma geração ou corrupção secundum quid. Essa a solução sintética de Ar. Aristóteles. genericamente. Tal só se pode dar do que é contrário. com a sua doutrina. neste caso. Idênticos genericamente e diferentes especificamente são contrários e. nem pelo dissemelhante absoluto. Só se pode dar a geração e a corrupção simpliciter. tomadas em sentido geral. o termo da geração e da corrupção é o contrário. Desta forma. devêm do que é exterior à sua natureza. por conseqüência. como se pode dar a acção e a paixão recíprocas. como a secundum quid. embora. como no caso da linha ser branca ou negra. realiza uma verdadeira síntese dialéctica. o que revela uma certa identidade entre agente e paciente. como êle o expõe em "De Anima". tanto ao agente como ao paciente. em suma. entre ambos. Os contrários incluem-se no mesmo gênero. é a matéria que sofre. ou seja. apesar das divergências. pois o que se corrompe.126 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 127 a brancura não poderia ser afectada pela linha. Vê-se. dissemeIhantes pela espécie. É necessário que o agente e o paciente sejam genericamente semelhantes e idênticos. . IV — Agora expõe Ar. as duas doutrinas têm um ponto de contacto. A acção e a paixão não se explicam. VI — Só há geração quando o paciente se torna no agente. Duas coisas não poderiam sair uma e outra de sua natureza.

a mesma noção que formamos a respeito do motor e do movido. No movimento. a mesma para um ou para outro dos opostos. como uma espécie de gênero. nada impede que o primeiro agente seja impassível e que somente o último actue ao sofrer. o alimento.324b te que ela cura. cujas formas não estão na matéria. Assim. como foi dito. enquanto aquelas que estão na matéria são passíveis Sustentamos. e que o que é quente em potência. II. sendo êle mesmo movido. o agente actua. por 5 assim dizer. ou sofre de alguma outra maneira. quando o agente e o paciente não têm a mesma matéria. que a matéria é. o 30 primeiro motor de ser não-movido (e no que se refere a certos primeiros motores. nada impede. em dois sentidos: o em que reside o principio do movimento. com efeito. sem nada sofrer ela mesma do doen. A medicina é como o princípio do movimento. e também o que é último diante do móvel e do engendrado. certas potências activas são impassíveis. necessariamente é aquecido. permanecendo êle impassível: tal é o caso da medicina.25 mado. é mesmo uma necessidade). portanto. se o agente que aquece é presente e próximo. ao mesmo tempo que actua. pensa-se que move (pois o principio é primeiro entre as causas). sofre de alguma maneira. semelhantemente. enquanto outras são passíveis. com efeito. Na acção.TEXTO DE ARISTÓTELES I — 20 I. é to. Com efeito. Devemos formar. ao actuar. pois. as potências activas. Igual distinção também para o agente: dizemos do médico que êle produz a saúde. enquanto que ao contrário. como também o dizemos do vinho. pois é aquecido ou resfriado. O motor. Também. enquanto que o último sempre move. são impassíveis. o alimento como o motor último e contíguo. também. a respeito do agente e do paciente. que 35 produz a saúde. O que tem 10 lugar pelo movimento tem lugar também para as .

O activo é causa no sentido de fonte do movimento. diz Aristóteles. pois. Aristóteles a natureza da acção e da paixão. são passíveis. . Assim. Admite Aristóteles que é impossível exista em estado separado. Já demonstrou Aristóteles que necessariamente tem de ser assim. Certas potências activas. que é Deus. no movimento. Como comenta Tricot. a quais coisas elas pertencem. pois já estão. assim. sem nada sofrer do doente que ela cura. que produz a saúde. É a matéria. como motor. Expôs. Mas. os estados. Ora.130 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 131 potências activas. III. mas. eis por que a saúde não é activa. pois. o fogo contém o quente na matéria. tem também quanto às potências activas. a forma que o agente lhe imprime. por ex. são passíveis. Esta afirmação é relativa. o que dissemos se aplicará com toda certeza. Êle é esses mesmos estados. quanto ao movimento. semelhantes às ações. o primeiro agente é impassível. como o mostrou Aristóteles. uma vez realizados os estados. é movido pelo primeiro motor. da mesma maneira. o primeiro Motor é imóvel. esse quente não sofreria de nenhuma maneira. mas não é activo em vista de que êle actua. que têm elas uma matéria comum. porque o Céu. não se tornam mais. o primeiro Agente é impassível.. senão por 15 metáfora. o primeiro agente pode ser impassível. que é passiva. pelo contacto. que Aristóteles dá da medicina. quanto às potências activas. 2) como causa próxima ou última ante o móvel e o engendrado. A matéria é um tipo de gênero da qual um e o outro dos opostos são as espécies. e são eles o fim. o primeiro motor é imóvel. pois. A mesma distinção pode ser feita quanto ao agente. o que êle diz. cuja forma não está na matéria. III -— O activo é causa no sentido de fonte de movimento. uma vez presentes. são impassíveis. a pouco e pouco. O motor pode ser tomado em dois sentidos: 1) como causa primeira. como o explica Filopon. Quando o agente e o paciente não têm a mesma matéria. mas presentes os estados. IV — A matéria. e ademais que elas pertencem aos contrários. Reexposição comentada 1 — 20 I — Coloca Aristóteles o tema do agente e do paciente na mesma posição do motor e do movido. Em relação ao paciente que não actua sobre si mesmo. Sem 20 dúvida é impossível que exista em estado separado. II — Nesse caso. Nós assim determinamos a natureza da acção e da paixão. Deus. emquanto matéria. Pois. o paciente torna-se alguma coisa dele. enquanto outras são impassíveis. mas se há tais realidades. que é "a sua maneira de ser". mas se um quente pudesse existir separado da matéria. pode o agente actuar permanecendo impassível. o agente uma vez presente. e também. mas se o quente pudesse existir separado da matéria. mas se há realidades como tais. é passiva. As potências activas. sofre de qualquer maneira. ao mesmo tempo que actua. na qual reside o princípio do movimento que antecede todas as outras causas. A causa próxima ou última move. nas potências activas. Mas o alimento». não se tornam mais em algo. como o ex. ao actuar. IV. citado por Tricot. o paciente não se torna mais nada. as formas e os fins são espécies de estados. aplicar-se-ia também. a medicina seria como o princípio do movimento e o alimento como o motor último e continuo. enquanto tal. torna-se o paciente alguma coisa dele. O fogo contém o quente imerso na matéria. E o que tem lugar quanto ao movimento. O primeiro motor não é movido pelo corpo que êle move. o paciente assemelhase ao agente à medida que o agente está ali actuando. esse quente não sofreria de nenhuma maneira. pois já o são. Presente o agente. Èle toma. e as que estão. sua razão e sua maneira de ser. da mesma forma que. Mas o em vista do que actua não é activo. sendo ela mesmo movida.

Mas foram Leucipo e Demócrito que procederam em sua definição com maior método e propuseram a explicação mais universal. cada coisa sofre quando. agente no sentido próprio. do que dizer que há multiplicidade. mas o movimento não é possível sem um vácuo possuidor de uma existência separada. que vemos e entendemos. também não há múltiplo. através de certos poros. pois tomaram como principio o que vem naturalmente em primeiro lugar. dizer que é divisível até tal ponto c não mais longe. não existe. e o Todo é vazio. conseqüentemente. e ela não se aplica somente aos corpos que actuam e sofrem. Segundo a opinião de alguns filósofos. O vácuo. III. tal assemelha-se muito bem a uma ficção. não há Um e. pois. com efeito. e é desta maneira. pois até qual limite é êle divisível. nem ademais o é a multiplicidade sem alguma coisa que opere a separação dos seres. a respeito da estruetura de certos corpos. e tanto mais numerosos quanto os corpos são transparentes. nãoum. e por que razão uma 25 30 35 325a 5 10 . dizem eles. acreditavam que o Ser é necessariamente um e imóvel. e vácuo. pensar que o Universo não é contínuo mas divisível em corpos contíguos. diziam. Tal era. II. a teoria desses filósofos. dizem eles. da água e de outros diáfanos. Alguns. mas ainda. É indiferente. se o Universo é totalmente divisível. Vamos agora explicar como a acção e a paixão podem ser produzidas. como também a de Empcdocles. Com efeito.TEXTO DE ARISTÓTELES I — 21 I . penetra o agente último. invisíveis em razão de sua pequenez. mas densos e dispostos cm séries. e que todos os nossos sentidos percebem. acrescentam. a mistura não se dá senão entre os corpos que estão numa simetria recíproca. ao contrário. Acrescentam ainda que se pode ver através do ar. IV. entre os antigos filósofos. porque esses corpos possuem poros.

produzem a geração. O ser propriamente dito é um ser inteiramente cheio. nem o movimento.ARISTÓTELES 134 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES E AS MUTAÇÕES 135 parte do Todo se comportaria assim e seria cheia. e por sua separação. com efeilo. essas opiniões parecem encadeiar-se l:gicanienlc. superfícies. enquanto que. por outra parte. em virtude do hábito. aos filósofos que edifiearam a teoria do Um. pois então eles não são e engendram as coisas por sua composição e entrelaçamento. de tais argumentos. por outro lado. 15 por exemplo. X. VI. E é do mesmo modo para todos os outros elementos à maneira como o descreveu Platão no 25 "Timeu". 20 é evidente que todos os outros corpos. a corrupção. do ponto de vista teórico. Para Leucipo e Demócrito. é por meio do vácuo que se produzem a dissolução e a corrupção. Empédocles também é. V. somos igualmente forçados de dizer que não há movimento. intervalos que Empédocles chama de poros. são indivisíveis e diferem apenas uma da outra pela figura. não é um. IX. além dos poros. nem. essas figuras são em número limitado. portanto. e até acrescentam alguns. e semelhantemente também o aumento. pessoas atingidas pela loucura não percebem nenhuma diferença. do que é múltiplo. nem a multiplicidade dos seres. que esteja fora de senso a ponto de acreditar que o fogo e o gelo sejam a mesma coisa. do que é verdadeiramente um não poderia nunca provir uma multiplicidade. com rigor suficiente. para Platão. Não há louco. por sua reunião. no pensamento de que é preciso manter-se nesse raciocínio. nada que fosse sólido. Quanto a eles. contudo. os de Platão. e c evidente também que ela decorre. Movem-se no vácuo (pois há um vácuo). segundo Leucipo. concede êle que não pode haver ai movimento sem vácuo. acrescenta êle. mas não explica claramente como o aglomerado desses elementos é engendrado e corrompido. Mas. pelas razões indicadas. pelo contrário. têm sua geração e sua corrupção. os poros se continuariam sem interrupção. e que não destruiria nem a geração. Ao contrário. nem a corrupção. Por outro lado. . É portanto necessário que suas partes contíguas sejam indivisíveis. Em virtude. Leucipo. e não lhe é possível explicá-lo. contudo. dos quais as coisas estão de início constituídas e nas quais elas se resolvem cm última instância. até somente aos elementos. Um tal ser. em razão da pequenez de suas massas. essa ultima hipótese é inadmissível. uma infinita variedade de figuras define cada um dos sólidos indivisíveis. e concede que o vácuo é uni não-ser e que nada do que é real é não-ser. pois todo limite terminaria no vácuo. há nele uma multiplicidade infinita em número. assim toda alteração e toda paixão procedem da maneira que indicamos: com efeito. eis uma coisa impossível. pois. e.5 do de adotar a mesma teoria que Leucipo. com efeito. professaram a respeito "da Verdade" semelhantes doutrinas. a sua teoria é clara em si mesma. é grande a diferença na maneira como se exprimem Platão e Leucipo: os indivisíveis de Leucipo são sólidos. esses filósofos ultrapassam a sensação e desdenham-na. e pretendem que o Universo é um c imóvel. pensou possuir uma teoria de acordo com as exigências da percepção. desde que. pela penetração dos sólidos nos vácuos. pois os corpos não conteriam. o um. os corpos primeiros. e são invisíveis. Mas 10 eis aí precisamente a teoria de Leucipo sobre a ação c a paixão. Tais são aproximativamente as explicações que dão esses filósofos quanto à maneira como actuam certas coisas e como outras sofrem. enquanto a outra seria dividida? Ademais. de um lado como de outro. é somente entre os bens reais e os bens aparentes que. ao contrário. Com efeito. obriga. dar-lhes fé parece vizinho à loucura. Eram essas as concessões que êle fazia á experiência. eles actuam e sofrem na medida em que lhes acontece estar em contacto. e todo corpo seria vácuo. Para Leucipo. para outros filósofos. essa evidência não é tão grande: na teoria de Empédocles. e que seus intervalos sejam vazios. VIII. do contrário. Ademais. portanto. infinito. já que positivamente êle não diz que o fogo também possue ura elemento constituinte. de qual maneira poderia haver aí geração e corrupção como alteração? É o que não é claro. Para Empédocles. Mas (da mesma forma que Empédocles e alguns outros filósofos dizem que as coisas sofrem 15 20 25 30 35 325b através de seus poros). filósofos que. de princípios sobre os quais ela se apoia. se considerarmos os factos. segundo parece. Ilá. VII. Ora. pois deve dizer que há certos sólidos que são contudo indivisíveis.

não tendo extensão. que defendem a teoria dos poros. e o universo. Mas Leucipo. Como se poderia afirmar. explicar como se produzem a acção e a paixão. tal teria lugar de duas maneiras: pelo vácuo e pelo contacto (pois é no ponto de contacto que cada corpo composto é divisível). nele. O Sphaerus não contém vácuo. portanto não pode haver mulos seres. o ser é um e imóvel. de Empédocles. concluem os eleatas. mas não é homogêneo. e aplica-se a todos os corpos e não somente a alguns. seria dividido por pontos. E se o vácuo é. Segundo a opinião dos filósofos. pois. que é evidente. nesse ponto. (dicitur secundum naturam magis quam positio aliorum qui de naturis rerum per sua principia causas assignare non potest). não existe também a multiplicidade. separado do resto e o que o separaria senão o vácuo? Conseqüentemente nada se move. e a mistura. O ser não é um. como salienta Tricot. Também Empédocles tentou explicar a multiplicidade. devido sua pequena massa. e se é real. excluindo assim o vazio (vácuo). Tomás de Aquino mostra em seus comentários como são sofíslicas estas afirmações. O universo é um o imóvel. mas permanecem em contacto. Há. sem um ser propriamente. e os poros estão cheios de ar. nem o movimento e a multiplicidade dos seres. e a corrupção. além de dar uma explicação de todas as espécies de mutação. fundando-se nos comentários de Tomás de Aquino. porque não evitava o vácuo. II — Tal é a teoria. àquelas. que são evidentes. pois èle nega a existência do vácuo. VI — O vácuo existe. mas tudo é contínuo e um. Indivisíveis resultam. Esse vácuo (esse vazio total) teria de ser real e não apenas um ente da razão. portanto não há movimento. IV — Os eleatas. por emquanlo. através dos poros do paciente. pois há movimento. pelos quais penetram os eflúvios. como Parmênides e Melisso de Samos. uma multiplicidade infinita em número de invisíveis. um ente no pensamento. a paixão. porém quanto aos factos. as gerações e as separações.136 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 137 embora um e outro admitam corpos indivisíveis e definidos por figuras distintas. pela desagregação. V — Leucipo. Tomaram eles por princípio o que vem naturalmente em primeiro lugar (secundum naturam) como está na traducção latina. E assim explicam esses filósofos a acção. e que o vácuo é um não-ser. Ora. nós vemos e ouvimos pela penetração. afirma. No que concerne à teoria dos sólidos indivisíveis. ao admitir que os corpos são múltiplos. Os eleatas alegavam que não podia haver movimento por que não havia vácuo. átomos. e afirmando o movimento. pois se são diversos. pois se fosse muitos haveria algo. ao inverso. o estudo pormenorizado de suas conseqüências deve ser poslo de Jado. pois é mais coerente. afirma que não pode haver movimento sem o vácuo. é claro o sentido aqui). O que pode separar e dividir a não ser o vácuo? Mas o vácuo não há. 35 Reexposição comentada I — 21 I Pretende Ar. segundo Leu. entre os antigos filósofos. não. pois elas valem em "seiinones". como acrescenta Ar. não é uma privação absoluta de ser. o vácuo não há. por ex.30 cipó. Movem-se nesse vácuo e produzem a geração pela agregação. sustentada por Empédocles e sobretudo por Alcmeon. porque estes possuem poros. a corrupção. E vemos através do ar e dos corpos transparentes. pelo contacto apenas. E como conseqüência. evitando a postulação do vácuo (nada). E demonstravam suas opiniões da seguinte maneira: o movimento só se pode dar se houver vácuo. E se se admitir que o Universo é totalmente divisível. por que o é até tal ponto e não além? E ademais o que fosse divisível até tal ponto seria. sendo composto de nadas. Quanto aos eleatas. Falamos de superfícies em nosso precedente tratado. o que os separa senão o vácuo? E se o vácuo não existe. separando-os e dividindo-os. funda-se nas exigências da percepção e constrói uma teoria (pie não arruina a geração. portanto é real. III — Prefere Aristóteles a teoria dos atomistas Leucipo e Demócrito. E se se dissesse que é divisível até um ponto e não mais longe. pois do contrário teria limite e esse só poderia ser o vácuo. afirmavam que o ser é necessariamente um (continuum) e imóvel. portanto todos são um. palavras. no entanto. e esses pontos. acíuam e sofrem reciprocamente. são nada. Quando em conlacto. que o vácuo é. partindo da experiência. (pie o mal e o bem seriam o mesmo? Tais argumentos permitiriam afirmar todas as contradicções e liquidar as diferenças entre os opostos o que os tornaria fronteiriços da loucura. É assim que nossos sentidos percebem. e ao terem conlacto não são . chegando alguns a afirmar que é infinito (extensivamente. para Platão. como conseqüência dessas leses. do agente próximo a este. seria nada. Mas essa solução não satisfez aos eleatas. E não pode deixar de ser um.

Para os atomistas. Mas para Platão essas figuras são de número limitado. e digamos que cada um dos indivisíveis é. segundo a teoria de Empédocles? Os elementos são eternos para ele e não se transformam uns nos outros. é impossível que os indivisíveis não sofram um pela acção do outro: por exemplo. as quais se distinguem umas das outras pela figura. que os poros não são vazios para Empédocles. cada um dos indivisíveis é ainda mais pesado. como igualmente lhes pertencem a dureza e a moleza. seja uma única propriedade. e não dos poros. Mas se tal é sua natureza. Contudo é menos estranho admitir uma excepção em favor do quente. Mas é preciso considerar (o que não o fêz Aristóteles).138 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES mais um. é impossível que diversas dessas propriedades pertençam a um único indivisível. o qual pode ser lido no texto. como mostra Joachim ao comentar este tópico. o que por ora não pretende tratar. É estranho também. como eles geram uma coisa e a corrompem. para este outro. pertençam igualmente aos indivisíveis. os quatro elementos constituem as coisas que neles se resolvem. além de ser estranho que nenhuma propriedade pertença aos indivisíveis. í: por meio do vácuo. emquanto para Platão se dá apenas pelo contacto. quanto é maior. incapaz de receber uma propriedade (pois nada é capaz de sofrer senão por meio do vácuo) e de produzir por meio dele uma propriedade (pois nenhum indivisível pode ser nem frio nem duro). No "De Caelo et Mundo" (III) Ar. segundo as expressões de Demócrito. com excepção apenas da figura. Mas Ar. Fundado em sua posição vai considerar a teoria dos atomistas superior à de Empédocles. pois o seu contrário. pois então sua substância nem sequer seria uma. Platão afirma que Leucipo dá a causa da geração pela posição dos átomos. isto é. o frio. e não propriamente os de Leucipo. que é o átomo. Igualmente. Limitcmo-nos a uma curta digressão. VIII — Como poder-se-ia dar a geração e a corrupção. 326a 5 10 15 . pois o mole é o que cede à pressão. o que aliás já estava consignado nos comentários de Tomás de Aquino. Mas Empédocles é obrigado a aceitar a solução de Leucipo. é estranho também que se outras propriedades lhes pertençam. que tal reciprocidade se dá. do contrário os poros continuariam alé o infinito. o quente. X — Os átomos são de uma infinita variedade de figuras. através do vácuo. deve também se aplicar a algumas das outras figuras. para este indivisível. Eles não se assemelham pela figura. contudo. pelo contacto (pois é pelo contacto que cada corpo composto é divisível). corpos indivisíveis e definidos por figuras distintas. quer uma explicação desse porque. se admitirmos que essas determinações. pois nega a existência do vácuo. estudou as superfícies indivisíveis. verdadeiramente. quero dizer. VII — Os que dizem que as coisas actuam e sofrem através dos poros são os seguidores de Empédocles. E contudo. Outrossim. Ademais. o calor e a frialdade. se um indivisível é duro. e. para Platão. como o peso e a leveza. embora ambos admitam. possuirá tais propriedades num mesmo ponto. sendo indivisível. no sistema de Leucipo e de Demócrito. a saber. o vácuo não é formado de superfícies indivisíveis. IX — No "Timeu". daí resulta evidentemente que é também o mais quente. Mas Empédocles não explica a geração dos próprios elementos. o indivisível fracamente quente sofrerá pelo facto de um indivisível que o ultrapasse muito em calor. A geração e a corrupção se daria. ser improcedente. para Leucipo. III. e sim cheios. como do um. dada exclusivamente a figura esférica. pois deve liaver indivisíveis. poderia vir a multiplicidade? Como do verdadeiramente múltiplo poderia vir o um? Tudo isso é impossível. II. Dai todo argumento de Ar. pergunta Leucipo. onde mostrou que. mas dizemos que é mole pelo facto de sofrer em alguma coisa. pois. deve haver também um que é mole. mas dois. o frio. TEXTO DE ARISTÓTELES 1 — 22 I. Mas.

n e m em seus pontos de contacto. se se supõe q u e essas p r o p r i e d a d e s sobrevêm. então. q u a n d o m e s m o n ã o tivesse poros. é pois evidente. E se sua g r a n d e z a é tal q u e eles n ã o p o d e m receber n e n h u m corpo. e m q u a n t o resfriado. mas não g r a n d e s . t o r n a r e m . ou então será divisível. n ã o p o d e p e n e t r a r nos corpos diáfanos. através de u m meio. n e m através de seus poros. são facilmente disassociáveis.s e n e m m a i s r a r o s . Mas a indivisibilidade. Mas j á q u e os corpos são a b s o l u t a m e n t e divisíveis. com efeito. De f a d o é racional que os corpos m a i o r e s sejam m a i s frangíveis que os m e n o r e s . sendo o u t r a como m o t o r e o u t r a como movido. Mas. Se. p o r essa condição que todo corpo sofre em a l g u m a coisa. com efeito. uns fossem de fogo. h á u m a ú n i ca n a t u r e z a p a r a todos. a crítica aos sistemas de L e u cipo e Demócrito. P o r o u t r a p a r t e . ou diferem eles uns dos outros. além disso. pois esta dificuldade se opõe a todos aqueles q u e a d m i t e m os indivisíveis. como se. VII. X . pois. a c t u a r ã o e sofrerão ao m e s m o t e m p o . V I I I . a hipótese dos poros é inútil. até q u a n d o esses poros estão cheios. m a s n ã o g r a n d e . a hipótese dos poros torna-se supérflua. supor p o r o s é ridículo. êle a c í u a r i a t a m b é m ou sofreria u m a acção de a l g u m a o u t r a m a n e i r a . vindo em contacto u m a s com as o u t r a s . ou. n ã o somente em n ú m e r o . ou superfícies. se c a d a p o r o está cheio. q u e r sejam sólidos. m a s fosse contí. Reexposição comentada I — 22 I — Estabelece agora Ar. X I . que. como u m a conseqüência u n i f o r m e : os indivisíveis não podem. a m e s m a conseqüência d e c o r r e r i a u m a vez ainda. q u a l é o m o t o r ? Se seu m o t o r é outro que elas. sobre u m a m e s m a relação. como nos m o s t r a r a m os nossos a r g u m e n t o s . desde que seja p o r sua n a t u r e z a . e m b o r a t e n h a m q u e conter corpos. q u e essas m a s s a s devem ser 326b colocadas como princípios e como causas dos fenôm e n o s que delas decorrem. E a i n d a mais. A d e m a i s será que a n a t u r e z a de todos ês. P a r a os filósofos que explicam p o r m e i o d a p e r f u r a ç ã o dos poros a superveniência das p r o - p r i e d a d e s .140 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 141 de tal f o r m a que se ele sofre pelo facto de ser resfriado. m e s m o sem poros. De u m a m a n e i r a geral. êle n ã o p r o d u z i r á algum ao p a s s a r através dos poros. A d m i t i r assim poros no sentido em q u e certos filósofos o concebem. como é possível que a visão. u m a vez e n t r a d o s em c o n t a d o . Mesmo raciocínio p a r a as o u t r a s p r o p r i e dades. 20 I V . de preferência as figuras. Se é. ou inútil.30 ses sólidos é u m a . Outro p a r a d o x o : h a v e r i a p e q u e n o s indivi. ou então p e n s a r que o vácuo significa o u t r a coisa do q u e o lugar de u m c o r p o . se diferem suas massas. p a r a c a d a corpo. se aclua pelo contacto. então.5 tencer-lhes-iam p r o p r i e d a d e s c o n t r á r i a s e a m a t é r i a seria u m a . nem mais densos. como a água q u a n d o está em contacto com a á g u a ? Pois n ã o h á n e n h u m a diferença entre esse último caso e o p r e cedente. . V. o agente n ã o p r o d u z n e n h u m efeito pelo contacto. ou falso. IX. e m q u a n t o divisíveis. que é que os s e p a r a uns dos outros? Ou. Pois em q u e ter poros. 35 q u a l é a n a t u r e z a dessas m a s s a s ? É evidente. já que esses corpos. h a v e r á u m 20 vácuo de v o l u m e igual. Q u a t r o são os a r g u m e n t o s q u e a p r e s e n t a r á a seguir.s e como eles o p r e t e n d e m ? O r a i o visual. p o r que n ã o se t o r n a m u m a única coisa. Ademais. outros de t e r r a ? Se. m a s a i n d a em potência. e n t e n d o os corpos maiores. ao contrário. com efeito.25 siveis. p o r que pertenceria ela p r e f e r e n t e m e n t e aos g r a n d e s corpos e n ã o aos p e q u e n o s ? VI. os corpos p o d e m ser s e p a r a d o s . p o r exemplo. se diferem em n a t u r e z a . a d a p t a d a s r e c i p r o c a m e n t e desta 25 maneira. em sua massa. Além disso. sofreria d a m e s m a m a n e i r a .10 nuo. é. difere de n ã o os ter? T o d o corpo seria u n i f o r m e m e n t e cheio. com efeito. então. per. t o m a d a em geral. n e m de u m a g r a n d e za relativa q u a l q u e r . com efeito. certas coisas sofrerão u m a ação e o u t r a s a c t u a r ã o . m e s m o se essas passagens 15 estão vazias. p r o d u z a . c a d a u m a se move p o r si m e s m a . é ridículo p e n s a r q u e h a j a u m peq u e n o vácuo. P o r outro lado. serão passivas. tendo sido d a d o q u e eles n ã o conlèm vácuo. Se. t a m b é m . pois eles p r o c e d e m de muitos outros corpos.

conseqüentemente. uma magnitude. etc. reprovando tanto a opinião de Demócrito. Neste caso. a não ser apenas a figura. estariam elas no mesmo indivíduo. quando se movem e quando são movidos. quando activos e quando passivos. uma acção. pois. pois as qualidades sensíveis dos corpos são devidas às modificações na posição relativa dos indivisíveis. dada a sua natureza. neste caso. actuarão e sofrerão ao mesmo tempo. é essencialmente mole. qual é a natureza desses grupos? Torna-se evidente para Ar. como o expressa Empédocles. que essas massas devem ser colocadas como princípios e como causas dos fenômenos que delas decorrem. III Na base da teoria atomista desses autores está a unidade indiferenciada da substância dos átomos que são idênticos substancialmente e. é preciso saber se para esses atomistas a substância de todos os seus indivisíveis é idêntica. pois levaria a uma flagrante contradicção. Se o átomo. pertencer-lhes-ia duas propriedades contrárias. o motor? Se outro que eles. que tem uma temperatura própria. se no átomo há a paixão e a acção. sem violar a lei da contradicção. como são muito pequenos. quando se aproximam ou se afastam uns dos outros. os átomos. êle sofreria da mesma maneira quando não houvesse poros. como sintetiza Tricot o pensamento já exposto por Tomás de Aquino. neste tópico. tal é impossível como nos mostra Tomás de Aquino em seus comentários. sob uma mesma relação. sendo os maiores mais que os menores. é o lugar do corpo. que é por sua vez divisível. como a de Platão. E se a matéria é uma delas em potência. Se há uma natureza idêntica para todos.. IV — Neste tópico. isto é. Mas. é este o pensamento exposto por Ar.. pois o que é positivo é que sofre uma acção. o problema da transparência não ficaria resolvido. Procuram. a paixão e a acção são realizadas pelo vácuo. o que contradiz a tese atomista. pois se há poros ou não. então são passivos. que os separa? E por que não se tornam eles uma só coisa quando entram em contacto. O vazio. actuariam e sofreriam ao mesmo tempo que permaneceriam indivisivelmente idênticos a si mesmos. mas como os átomos não são vácuo. X — Considerá-los vazios também não resolveria o problema. E. Se diferem em natureza. pois se estes são a condição para que o corpo sofra. o que põe por terra os fundamentos da teoria. o que é paradoxal para Ar. sendo estas contrárias. II — As palavras de Ar. heterogênea à dos outros. pois é evidente que para cada corpo há um vazio de volume igual.. como poderia gerar os contrários? Ora. pois o menos quente sofrerá acção do mais quente. pois essas propriedades dependem do número e do agrupamento dos átomos. de preferência às figuras. apesar de tudo. prossegue Ar. são divisíveis. assim. Se são eles mesmos. o que é. pois não c possível que os átomos não sofram da acção dos outros. êle sofre. o que não evitaria a contradicção. V — Admitindo Demócrito que há átomos maiores e menores. de sua densidade e de sua rareza. o que leva a uma concepção absurda do vazio (vácuo). Ademais. nas diferentes partes do composto. tais filósofos evitar uma conlradicção inevitável se admitissem que os átomos fossem a d i vos ou passivos. VII — E qual a causa eficiente. Se diferem de natureza. o que levaria à contradicção que seria afirmar a divisibilidade do indivisível. pois não pode resistir à pressão de outro menos mole. para Ar. então. Em linhas gerais. no mesmo raciocínio. quando em contacto com a água? Se formam grupos de átomos qualitativamente distintos. são claras e demonstram que. pois esses poros são considerados cheios. estão cheios de matéria diferente de a dos átomos. neles. porque tais poros são vazios em relação ao corpo que os tem. VIII — Não procede também a explicação pela perfuração dos poros. VI — Ademais. como a água. o que contradiz a tese da indivisibilidade dos átomos. que é afirmada independentemente da magnitude. como tais. os quais são caracterizados pelas figuras. Só um corpo composto pode ser dotado de propriedades diversas. reconhece. Desta forma. neles poderíamos distinguir. pois este admite que os indivisíveis sejam sólidos ou superfícies. . que não têm eles em comum com os outros átomos. neste tópico. não poderiam ter outras propriedades. ou se formam eles grupos qualitativamente distintos do fogo. IX — Este tópico é de máxima clareza em Ar. o que se torna impossível. há uma contradicção no pensamento dos atomistas. o que é uma flagrante contradicção. não podem receber corpos. da água.142 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 143 Os indivisíveis (átomos) não são nem passivos nem activos no concernente às propriedades sensíveis. portanto não actuam nem sofrem. Pois se eles podem sofrer modificações não têm a mesma natureza.

nos metais. se a grandeza não é absolutamente divisível. TEXTO DE ARISTÓTELES 1 — 23 I. Digamos de que maneira pertence aos seres o poder de engendrar. com mais verdade. em natureza. mas ainda quando à distância. mas de maneira absoluta. O fogo. De início. e. Quanto à suposição que um corpo sofre em tal parte e não em tal outra. uma coisa de tal qualidade. aquece o ar. IV. e o ar. O mesmo se dá quando se trata dos corpos que não estão em contacto um com o outro. nem com outros corpos. existem corpos ou superfícies indivisíveis. de actuar e de sofrer. também nenhum que fosse contínuo. pois se os corpos são totalmente {paute) divisíveis. as diferentes teorias propostas. cuja natureza seja actuar e sofrer. o ar actua ou sofre. com efeito. V. XI — A hipótese dos poros. muitas vezes já enunciado: II. Se um corpo. deste modo. se. na realidade. no início. falar de poros: por exemplo. todo corpo é divisível. sem que fossem precisos os poros. há veias contínuas de passividade que se extendem através da substância. como o expõe Tomás de Aquino. ao comentar este tópico. o que está em potência. por que. como. Tomo um exemplo: não é somente quando está em contacto que o fogo aquece. ao contrário. é da natureza dessa coisa em potência de sofrer. não difere de um contacto superficial. naturalmente contínuo e um. por sua natureza. que. Todo corpo. de outra. Se há. não favorece a solução do problema. com efeito. desde que essa doutrina é falsa e que. não há nenhuma diferença entre "ter sido dividido em partes que permanecem em contacto" ou "ser absolutamente divisível". e é assim que se poderia. portanto. Mas. impassível. pois são estes apenas intermediários para um contacto interno. III. enquanto precisamente é ela tal coisa: mas sua passividade é maior ou menor na medida em que ela c mais ou menos tal coisa. é. partindo do princípio seguinte.144 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES Ademais a hipótese dos poros nada resolve. o seccionamento far-se-ia em qualquer lugar. o corpo. o que está em entelequia. distinguimos. temos agora de fazer as anotações seguintes. não haveria nenhum corpo absolutamente passivo. pode ser separado nos pontos de contacto. não somente em alguma parte com exclusão das outras. de uma parle. como alguns filósofos o pro30 35 327a 5 10 .

segundo Aristóteles. que estabelece as superfícies em contacto. mostrando que se a grandeza não é absolutamente divisível. em . e a potência é o acto a vir. para falar como Platão. todo corpo é divisível e não há diferença entre "ter sido divisível em parles que entram em contacto" ou "ser absolutamente divisível". e este o corpo à distância do fogo. pois nada de impossível se realiza. V — Este tópico apresenta certas dificuldades. nessa teoria. mas que não actualizou todas as suas possibilidades. entre acto e potência. em vez de uma mutação total da coisa por mistura de alguma coisa ou pela transformação dessa 25 própria coisa. será certamente dividido num momento ou outro. então. ou. mesmo que não seja ainda dividido. com exclusão dos outros pontos. então. com efeito. VI. pois que. que reproduzimos de Tricot. Esse momento é aquele em que êle se separará nos pontos de contacto. indivisíveis em suas massas. 15 pelo parcelamento dos corpos. havendo. é ora líquido. Se se admite. então. simplesmente que êle é divisível pante. oulrossim. vemos. Essa separação futura é certa. ou seja. II — Há o que está em potência e há o que está em acto (entelequia). ser dividido. mas também o contado imediato ou medi ato. pois aquece primeiramente o ar. tais doutrinas são falsas.146 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 147 fessam. depois de haver analisado o modo como fora tratado por outros filósofos. 231-b 16). no entanto. não por divisão e por composição. ou se existem corpos ou superfícies indivisíveis. o aumento c a diminuição não são mais possíveis. finalmente. não só a distinção entre agente e paciente. Diès o explicou da seguinte forma. que sofrer se produza apenas dessa maneira. haverá seguramente um momento em que será de facto dividido. Pode. e que a maneira como esses processos se realizam. III — Num corpo naturalmente contínuo não é possível distinguir potência de acto. ora duro e sólido. porque o acto. a platônica. na realidade. Reexposição comentada I — 23 I — Exporá agora Ar. quer líquido. Ademais. nem contém ademais essas 20 partículas duras e solidificadas. toda parte qualquer do aumentado não se tornaria maior. ao contrário. eis um absurdo. a solução do problema do acto e da potência. guardar sua continuidade. se êle pode ser partilhado pelo agente nos pontos de contacto das partes distintas em contacto. Colocado bem este ponto. com Platão. nem. a alteração. Ao contrário. a de Empédocles que aceita a presença dos poros e. um ponto como composto de partes distintas em contacto. que não há indivisíveis. nem por "conversão" e por "ordenação". Não há. Esta teoria arruina. Com efeito. o mesmo corpo. A potência é uma propriedade do todo. como se deve. quer sólido. são engendradas e sofrem umas pelas outras. nem tampouco qualquer que fosse contínuo. partes em que a potência é mais intensa que em outros. A acção e a paixão exigem. Sofreu essa mutação. o acto a realizarse que se efectiva no que já está em acto. quer dizer. por hipótese fundamental do sistema. nas coisas corpóreas. dá quanto aos metais. por mudança de posição ou de transporte nos constituintes de sua natureza substancial. as teorias seguintes: a dos atomistas que afirmam o vazio. que são o objecto da Física. uniforme e integralmente. Enfim. A potência está difusa num corpo. mesmo que êle não seja dividido (diereménon). mas não em todos seus pontos simultaneamente. mas que toda grandeza é divisível totalmente (pante) — e no sentido (pie cia é divisível em um ponto qualquer. como já tivemos oportunidade de ver —. explica Tricot. como no exemplo do fogo que aquece à distância por intermédio do ar. por isso é impassível. Que seja assim estabelecido que as coisas engendram e actuam. uma distinção absoluta que os separe totalmente. não haveria corpos absolutamente passivos. prossegue Ar. c a potência realizada. não é a de que falam alguns filósofos. pois "todo contínuo é divisível em parles sempre divisíveis". quer dizer. pois. não se deve admitir que o paciente é passível num ponto determinado. 1. IV — Já examinou Ar. se se quer que haja uma adição. pois é uma potência desse todo. Esta é a doutrina que êle expôs na Metafísica. segundo as expressões de Demócrito. como o exemplo que Ar. e. pois as partes em contacto serão elas mesmas infinitamente divisíveis em partes menores em contacto. com efeito. Mas. nem se deu a passagem do estado líquido para o estado sólido. pois é ela inadmissível. já êle o havia mostrado na "Física" (VI. Ela se fará: pois a condição que a torna possível (a divisão preexistente ou realizando-se no momento querido) se realizará. conceber. de uma maneira geral. E se o corpo divisível.

não falamos nem do alimento como misturado com o corpo. que aceita que sofrer se realiza somente pelo partilha dos corpos. pois nenhuma parte do aumentado se tornaria maior. Assim. e. será assim. elas não são mais misturadas agora do que antes. que as coisas que engendram c acluam são engendradas e actuadas umas pelas outras.148 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES virtude da própria definição do dynaton (o possível). nós não dizemos que a madeira esteja misturada ao fogo. as propriedades e os estados com as coisas. É claro. Esse argumento. Devemos examinar o que é mistura e o que é misturável. de quais seres a mistura é uma propriedade e como. a impossibilidade de uma coisa de ser misturada com outra é sustentada por alguns filósofos. como mostra Aristóteles neste tópico. as dificuldades do argumento estariam resolvidas. nem da forma com a cera. II. uma delas foi destruída. Ora. além de absurda. se a mistura existe realmente. III. prosseguem eles. e não sofreram nenhuma alteração. mas permanecem no mesmo estado. quer de suas partes uma com a outra. uma vez tornadas evidentes tais distinções. nem. Essa teoria. por outro lado. com efeito. desse modo. e qual diferença separa o misturável do generável e do corruptível. V. que deve haver uma diferença. Se. pois vemo30 35 327b 5 ]0 15 . Da mesma maneira. as duas coisas misturadas existem ainda. de uma maneira geral. exige que se determine qual diferença separa a mistura da geração c da corrupção. mesmo que cada um dos dois misturados tenham perecido em conseqüência da mistura: eles não podem ter sido misturados. quando ela queima. nem. parece. que é um misto. o que é condição necessária para que se dê o aumento. TEXTO DE ARISTÓTELES I — 24 I. se a mistura existe. com efeito. o terceiro dos assuntos que propusemos no início. assim. ou se é falso afirmá-la. dizem eles. nada de impossível se realiza. Resta-nos agora estudar a mistura. quer de si mesma com o fogo. arruina a operação. não há mistura. Se. pois já não existem de modo algum. Com efeito. VI — Também por esta teoria o aumento e a diminuição não são possíveis. IV. informando assim a massa da cera. não da maneira como falam tais filósofos. já que a mistura exige que os corpos estejam numa condição semelhante. uma e outra. Enfim. Vê-se. mas que o fogo foi engendrado e a madeira destruída. mas uma e a outra não é. Nem tampouco o corpo e o branco não podem ser misturados juntos. é. ademais. seguindo o mesmo método.

convém esclarecer bem a palavra mistura. nem. E. Pretende Aristóteles estudar a natureza da mixis como prometera. Dispõe-se a examinar em que ela consiste.. existir de antemão em estado separado: ora. esse. 20 25 Reexposição comentada I —24 I — Seguindo o mesmo método. é uma teoria mal fundada a de certos filósofos que professam que todas as coisas. as suas diferenças com o misturável. mas que o fogo é engendrado e a madeira. como o corpo e o branco. devido a um corpo entre elas. na verdade. as propriedades e os estados com as coisas. não somente de separados. O composto pode estar. mas cada um deles pode ser ainda em potência o que era essencialmente antes da mixis. Antes de mais nada. como o chama Bonitz ao comentar a "Metafísica" de Aristóteles. Nada pode estar misturado com tudo. mas podem também ser separados do composto outra vez. uns. não poderiam ser misturadas por não existirem. Eis por que podemos agora deixar de lado essas dificuldades. em acto. nem de nenhum atributo que não tenha existência separada. V — Também o alimento não é misturado com o corpo. temos a distinção entre a mixis e a alteração. existam num sentido e não existam em outro. num certo momento. se dá. não existindo em outro. de maneira geral. já que a substância e a qualidade persistem uma e outra no composto. VI. ao entrarem numa mistura. Ê se as duas coisas misturadas perecerem. A mixis não é uma simples synthesis (composição). diz Aristóteles. quer todos os dois. destruída. um ser em outro. já que a mixis é um atributo e o seu ser. Se. citado por Tricot. pode acontecer que as coisas. pois sua potência é conservada. com efeito. e. o que permite uma distinção entre geração e mixis. em acto. pode suceder que as coisas. uma "mixtiochemica". mas cada um deles pode ser ainda em potência o que era essencialmente antes da mistura.ARISTÓTELES 150 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES E AS MUTAÇÕES 151 los persistir nas coisas. Os que combatem a mixis. E como os seres são em potência. O composto pode ser. e em acto. Nenhuma qualidade pode existir separada. Para estudar esta matéria. quando êle queima. quer um ou outro. É uma combinação química. e tornadas evidentes essas distinções. nenhuma qualidade pode existir separada. deve haver uma diferença. pois permanecem no mesmo estado. e em quais condições. Mas já que entre os seres. III — É preciso distinguir a mixis da geração e da corrupção e o misturável do generável e do corruptível. nem. nem são destruídos. . e. é um "inesse". serão resolvidas as dificuldades do argumento. A coexistência de duas qualidades no mesmo sujeito não constitue uma mixis. embora reconheça que em toda mixis há sempre a composi'ção de quatro elementos. pois um é e o outro não é. Pois. estavam confundidas e misturadas: tudo não pode ser misturado com tudo. ao contrário. outro que os componentes do qual provêm. pois esta exige um sujeito. Aristóteles considera apenas dois mixtá. diferente de o dos componentes dos quais provém. que estavam no início. existam num sentido. outros. os componentes nem persistem em acto. por ex. num determinado momento. que formam a mistura. isto é. Admitindo-se que se dê a existência da mixis. que seja um mixtá. é um inesse. para haver mixis. Desta maneira. não haveria mixis. finalmente. pois é um atributo pertencente a uma substância e como. Assim. afirmam que os corpos misturados permanecem como tais e não sofrem nenhuma alteração. cada uma das coisas misturadas deve. por outro lado. estuda Aristóteles agora a mistura. II — Para alguns filósofos há impossibilidade de mistura entre corpos. e as coisas misturadas devem ter tido um estado em que estiveram separadas. a dificuldade surgida pelo argumento precedente: e parece que os corpos. pois vemo-las persistir nas coisas. que os escolasticos traduzem por mixtio. Mas não pode também haver aí mistura do branco e da ciência. uns estão em potência e outros em acto. se unem. de quais seres a mixis é uma propriedade. Nem o corpo com o branco podem estar misturados. não estão mais misturáveis depois do que antes. e não ter perecido. Na mixis se manifestam propriedades novas e irredutíveis às do composto. se ela existe de facto ou se é falso afirmá-la. estiveram confundidas e misturadas. dois corpos misturados. IV — Nós não dizemos que a matéria esteja misturada com o fogo. Tal era. um deles fôr destruído. nesse caso. a qualidade é um acidente que se dá conseqüentemente em outro. VI — Mostra Aristóteles que é mal fundada a teoria de certos filósofos que professam que todas as coisas. e não ter perecido. pois. seria necessário que os corpos permanecessem numa condição semelhante. entrando na mistura.

em suma. é evidente que. e se eles não desaparecem. deve ser a n a l i s a d o : consiste em saber se a m i s t u r a é a l g u m a coisa relativa à sensação.10 mos. que o joio está misturado com o trigo. cuja visão não é aguda. diz-se. E a mesma coisa será misturada para tal pessoa.15 « m e n t e misturada para o olhar de Linceu. Pois será uma composição e não uma fusão. posteriormente. enquanto os componentes são conservados em pequenas partes. de uma parte. III. ''*"• V. toda parte qualquer de cada componente deveria estar justaposta a uma parte qualquer do outro. que c a d a u m a em p a r t i c u l a r escapa à sensação. No fim deste livro 1.152 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES Quer dizer que os corpos. Nas três hipóteses visualizadas pelo partidários da impossibilidade da mixis. exprime-se coiiiumente no primeiro sentido. e que a composição não é a mesma coisa que a mistura. ao contrário. se a mistura teve lugar. e após a análise. Ela exige. IV. acrescentar uma quarta. haverá apenas mistura para a sensação. que não se deve falar de mistura para uma divisão tal . a declarar que a mixis é um conceito contraditório. Ou então. pois. mas existem em potência. não há geração. Como sair dessa situação? Há um só caminho: a distinção aristotélica de potência e de acto. TEXTO DE ARISTÓTELES I — 25 I . que os componentes permaneçam e desapareçam. a de Aristóteles. Mas se o corpo é divisível. e. e cada parte do composto não apresentará a mesma proporção entre seus componentes que o todo. Q u a n d o as coisas e n t r a m n a m i s t u r a e f o r a m divididas em p a r c e l a s tão peq u e n a s e j u s t a p o s t a s de tal m o d o .s. Os mixlá não existem em acto. Mas o p r o b l e m a q u e v e m a seguir. nada de tudo isso se produzirá. se não há mistura.5 meria. e não será absoluta. podem existir de novo em acto. h á então m i s t u r a ? 35 II. Se eles não permanecem. da mesma forma que uma parte da água é água. teceremos outros comentários sobre a doutrina aristotélica em face da ciência actual. fundado na opinião de Joachim: a impossibilidade de toda mixi. que entram numa mixis. não há também mixis. permanecendo o que eram antes. ser separados. enquanto que se a mistura é apenas uma composição de partículas. Tricot comenta da seguinte forma. que resolve tais dificuldades. ao contrário. que. Mas já que nenhum corpo pode ser dividido em seus últimos componentes. podem. mas cada grão de um está justaposto a cada grão do outro. alcança. por exemplo.' tal como foi exposta acima. com efeito. É evidente também. nem uma mistura. nós professa. sucede que qualquer componente é justaposto a uma parte do 328a outro? Sem dúvida. por outra parte. não se deve falar de sua mistura. não sendo destruídos. assim uma parte do fusionado é da mesma natureza que o todo. que expressa a verdade. mas dela difere. pois suas potências foram conservadas. o composto deve ser homeoméria. Ora. não há mixis. e se é também verdade que o corpo misturado ao corpo é homeo. é preciso.

10 uma em face da outra. então cada uma dessas coisas mudase por sua própria natureza. ela não se torna. e não ser que seja viscoso. pois o líquido é o mais fàcil- 20 25 30 mente limitável dos corpos divisíveis. com efeito. pois o deslocamento recíproco se opera mais facilmente e mais prontamente. XIII. em que os componentes conservam suas propriedades. quando o agente é de grande talhe e o paciente também o é. a mistura se realiza melhor. podem ser misturadas. há. nem que permaneçam absolutamente idênticas. eis por que certas coisas são de uma natureza tal que elas são reciprocamente passivas. O mesmo fenômeno se produz também em outros casos. Ora. quando pequenas partes de um são justapostas a pequenas partes do outro. e. tendo apenas colorido o bronze. o que não é perceptível à nossa sensação? . por entre os seres. Os líquidos viscosos. Algumas coisas. pois eles são reciprocamente passivos. Mas. algumas são facilmente divisíveis. XII. uma vez entrado na mistura. evidente que são misturáveis somente aqueles agentes que encerram uma contrariedade. nem a saúde produzem a saúde por sua mistura com os corpos. se desvanece. é misturável o que. e se um grande número ou uma grande quantidade de uma está unida a um pequeno número ou a uma pequena quantidade do outro. XI. e a mistura é uma unificação das coisas misturáveis. portanto. é passivo e activo. progredindo para a mais forte. manifestam uma atitude hesitante e ambígua.154 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 155 que qualquer parte de um componente seja justaposta a uma parte do outro. mas alguma coisa de intermediário e de comum a uma e a outra. Essas coisas. VI. VII. Ao contrário. a existência da mistura. há. sem que elas sejam necessariamente destruídas. 15 por um lado. com efeito. 35 Reexposição comentada I — 25 328b I — Surge agora um problema que é mister resolver: é a mixis (mistura) uma simples composição (synthesis). sendo ao contrário. Eis precisamente o que ocorre com esses metais: o estanho. nada mais fazem do que tornar mais ampla e maior a massa. o resultado não é uma mistura. Outros seres. permanecendo totalmente impassíveis. comportando-se como uma propriedade imaterial do bronze. Ao contrário. aquelas coisas divisíveis e passivas que são facilmente limitáveis são misturáveis (e sua divisão em partículas se faz facilmente. por outro lado. ao contrário. contudo. o outro. mas um crescimento do elemento dominador. sua natureza e sua causa. quais espécies de seres são misturáveis. com efeito. e esta coisa é misturável com uma outra coisa da mesma natureza (pois o misturável é relativo ao seu homônimo). o composto resultante de sua mistura. transformação de uma das coisas na mais forte: é assim que uma gota de vinho não se mistura com dez mil ânforas de água. pois elas mostram uma leve tendência a se misturarem e a se comportarem. Mas quando um dos componentes é apenas passivo ou fortemente passivo. são aqueles cuja matéria não é a mesma. tal se efectua em maior tempo. pois é impossível que a divisão se efectue dessa maneira. a outra como forma. Também. com efeito. e aqueles que sofrem a acção dos primeiros. IX. VIII. ou não é em nada maior ou o é somente um pouco mais: é o que acontece com a liga do estanho e do bronze. aqueles que são activos. facilmente limitáveis e facilmente divisíveis. Desses últimos seres não há mistura: eis por que nem a medicina. ou temos ainda de explicar como ela pode se dar. desaparece quase e. actuam. Mas quando há entre suas potências um certo equilíbrio. É. outra coisa. Ou então não existe mistura. Por exemplo. nem é tampouco necessário que sua mistura seja uma composição. pois é o que significa essencialmente "ser facilmente limitável"). pois sua forma é dissolvida e ela é transformada na totalidade da água. que são reciprocamente activas e passivas. ^0 nem que seja relativa à sensação. sendo facilmente limitável. após a sua alteração. fracamente passivo. Ademais. entre as coisas. Ademais. O que acabamos de dizer torna evidente. uma como receptáculo. os líquidos são mais misturáveis que os corpos. certos seres actuam e sofrem reciproca e mutuamente: são reciprocamente activos e reciprocamente passivos. como o dissemos. X.

Quando viscosos. Na realidade. devido a operar-sc mais facilmente o deslocamento recíproco. que nos poderia mostrar não haver. mas apenas aparente (aos nossos sentidos. VIII Quando são maiores. é claro). que apresentam uma diferença de grau. como primeira condição. Para haver a mixis. Se o corpo é divisível. os mixtá permanecem distintos e justapostos. e justapostos parte a parte. que se uma parte de água é água. Assim as sintetiza Tricot: 1) Haveria mixis quando os mignómena (os misturáveis) foram divididos em mixtá (mixtos) escapando à sensação. neste tópico uma série de exemplos nem claros para robustecer as suas afirmações. não fusionados. Dá os exemplos das coisas que são facilmente misturáveis. que têm a propriedade de sofrer e actuar. a acção e a paixão recíprocas dos corpos. rcalizando-se ela. por ex. por que o misto deve ser homeoméria (da mesma natureza). há apenas aparência de mixis e de homogeneidade. ou melhor limitáveis como os fluídos. e que o misturável o é relativamente ao seu homônimo. de visão aguda) permitiria perceber que não há mixis. a de Demócrito é a única lógica. c termina por dar a sua definição da mixis: e a unificação das coisas misturáveis. por não se dar o contacto mais facilmente. quer dizer até aos átomos. uma síntese da matéria tratada. como de a Linceu (uni dos argonautas. VII — Quando as partículas mínimas de um estão justapostas às pequenas partículas do outro. como no caso do azeite e da água. são mais facilmente misturáveis. duas concepções da mixis. Em suma. III — O que pretende expor este tópico. após a sua alteração. há maior dificuldade para realizar-se a IX — As coisas divisíveis e passivas. é que entre as duas concepções da mixis. a mixis se realiza melhor. já tal não se dá. . quando a divisão dos mignómena foi levada até aos mixlá menores possíveis. a divisão pode ser levada até ao átomo (indivisível). na realidade. Na krasis. h á : os mixtá. sem serem destruídas.. Os líquidos dão um bom exemplo. a mixis. A mixis não é uma forma de synthesis. Outros actuam permanecendo impassíveis: são os cm que a matéria não é a mesma que a do paciente. a mixis não é real. independentemente de qualquer questão de sensação. como já foi exposto. que é relativo a outro mixton. Do contrário não se pode falar em mixis. no sentido aqui do mixton (o mixto). na mixis. quando se dá a alteração das partes componentes. como no sistema de Demócrito. os corpos plásticos. e que se excluem mutuamente. o que é passivo e activo. Propõe-se agora Ar. mostrar como ela se dá. A mixis é um gênero do qual a krasis é uma espécie. Outros actuam reciprocamente: os em que n matéria c idêntica. XI — Realiza aqui Ar. Se a mixis pe dá. Em nossa época. E se tal não se dá. corresponderia aos meios de conhecimento da química. e exemplifica Ar. pois será apenas uma composição (syníhesis) e não uma fusão (krasis). c conclui por afirmar que e misturavel o que é facilmente limitável. X — Dá Ar. É só com essa condição que se pode obter uma mistura homeoméria (Tricot).156 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 157 II — Expõe aqui Ar. uma parte do fusionado é da mesma espécie do todo. prossegue Tricot. o composto deve ser homeoméria. V — Não haveria mixis quando se desse apenas uma justaposição das partes. graça à análise microscópica. num sentido mais de sinonímia do que de eqmyocidade. VI — Há seres que são activos e outros que sofrem ti acção destes. há a mistura dos líquidos. o que permite chamar fusão. 2) ou então. IV — Uma visão mais aguda. impõe-se. "Nos dois casos.

mas até as formas acidentais. quanto aqueles que pensam que as formas tenham origem numa criação. constantemente muitas formas. 5-13). não o haviam entendido. e. chegou a considerar. Até na própria Idade Média muitos abandonaram o pensamento aristotélico. caíram na única solução que a ela poder-se-ia contrapor: a mecanicista. e por conseqüência ser substâncias. como surgem.. em face das descobertas novas que surgiam. embora as tenhamos chamado de qualidades. durante o Renascimento e o Barroco. . . tanto daqueles que admitem que as formas existam latentes (na matéria). por desconhecimento da obra aristotélica. como subsistentes de per si. que reproduzimos. pois surgindo. por não puderem encontrar nada (nenhuma . Pois estes pensaram que o devir esperasse pelas formas.. Descartes. seguindo assim a linha já traçada anteriormente a êle por Van Gooric e Basso. agravandose ainda mais. que imaginamos seres reais. elas seriam criadas por Deus. quer dizer. como as qualidades. na verdade. Na "filosofia moderna". não impediu que em nossa época o mecanicismo conhecesse um novo avatar. Pensava Descartes que as formas para Aristóteles fossem realmente substanciais. como espera pelas substâncias. Estas palavras de Tomás de Aquino. como a gravidade e o calor e as outras. mostram-nos claramente o genuíno sentido aristotélico: "Têm muitos uma opinião errada acerca da forma pela razão de a considerarem como substância. 667.COMENTÁRIOS ESPECIAIS AO LIVRO I O domínio que exerceu o pensamento aristotélico durante a alta escolástica. É que os críticos de Aristóteles não o haviam lido e os que possivelmente o leram. Julgava que o Estagirita atribuísse "subsistência às diversas qualidades dos corpos. não só as formas substanciais de Aristóteles. E daí tem origem o erro. pôs-se a afirmar um mecanicismo. e sobretudo no século passado. havia um mal entendido em tudo isso. Como não podia admitir que as formas fossem substância. ter uma existência distinta de a dos corpos." (Descartes Opera Omnia III. como Maignan e Saguens. Mas. que ante as dificuldades da concepção aristotélica. seguida posteriormente até por escolásticos.

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matéria), da qual as formas pudessem ser produzidas, supuseram que essas vinham criadas, ou, então, pre-existiam na matéria. Deste modo perderam de vista uma coisa; isto é, o ser não é da forma, mas do sujeito mediante a forma, nem o "devir", que conduz ao "ser", é da forma, mas do sujeito. Por isso a forma vem chamada de ente, não que ela o "seja" propriamente falando, mas porque através dela, alguma coisa é; assim se diz simplesmente que a forma é produzida, não que cia seja produzida, mas porque, por meio dela, qualquer coisa é produzida; isto é, porque o sujeito é reduzido do estado de potência ao de acto". (Q. D. De Virt., a. 11). * * * O mecanicismo dos últimos séculos predominou na física pre-relativista. Em nossos dias, porém, há um inegável retorno a Aristóteles, o que merecerá nossos próximos comentários, logo que tenhamos precisado com clareza o pensamento exposto nesta obra tão importante para os nossos dias. Tais afirmativas não excluem os erros que se encontram na física aristotélica e que não são tantos quantos os adversários afirmam. Se Ar., por exemplo, não compreendeu a conservação da energia, aceitava, porém, a conservação do ímpeto, como foi aceita e desenvolvida pelos medievais. A sua distinção entre o movimento "natural" e o "violento" e que o movimento dos corpos terrestres fosse obediente a leis diferentes do movimento dos corpos celestes não impediam, contudo, o desenvolvimento da dinâmica. As insuficiências da experiência, dessa época, explicam muito bem essas deficiências. Lembremo-nos das deficiências experimentais do século XIX que levaram a muitos cienlistas a afirmações que são hoje rejeitadas pela física. E as actuais.. . delas o tempo falará. A ignorância e a incompreensão sobre a obra aristotélica verifica-se em atitudes como esta, que se repetem, infelizmente, do alto das cátedras: "Pode-se verificar que a doutrina peripatética, do ponto de vista do progresso da ciência, foi também (como a doutrina de Hegel), assombrosamente estéril. Sem dúvida houve ai uma diferença que, enquanto a doutrina hegeliana é repelida totalmente pelos sábios que lhe eram contemporâneos, a de Aristóteles, ao contrário, dominou a ciência por longos séculos da maneira mais absoluta. Mas precisamente, esse reino tão longo, nada melhor fêz do que evidenciar a vaidade dos esforços que ela inspirou e dos quais, pode-se dizer, nada subsiste na ciência de nossos dias". (Meyerson "De 1'explication dans les sciences", II, pág. 169 e seg.).

Que melhor resposta que a derrocada das idéias da física mecanicista, tão pretenciosa, e que a actual abandona rapidamente, para retornar, a passos largos, aos princípios aristotélicos, embora ainda não o saibam muitos físicos? É comum dizer-se, e na obra de muitos cientistas modernos encontramos tais afirmações, que a física aristotélica era dedutivista e apriorista. Há aqui dois aspectos que precisam ser devidamente delineados para evitar tais afirmativas supinamente falsas. Em primeiro lugar, nem toda deducção indica apenas uma identidade, como por exemplo o afirmava Meyerson. Por que, quando se deduz, se comparam, nas operações lógicas, juízos que se referem a quididades que apresentam apenas identificação num ou noutro aspecto, e não identificações totais. Há outras relações que escapam à identidade. E esta é a razão por que nem sempre apenas se tira, deduz, o que já estava incluído. Foi o que se verificou com a termodinânica, em que a obra de um Willard Gibbs, de um Schreinenmakers, nos mostra quanto há de não-identidade nas deduções. Em segundo lugar, a leitura da obra de Ar. nos mostra claramente que, na física, não é um apriorista, como não o foi nem na metafísica. Há sempre a necessidade, no campo da especulação, de fundar-se na experiência. E a filosofia medieval seguiu esse caminho também. Agora, que não dispusessem os medievais de meios de experimentação como os dispõe a ciência moderna, tal não impedia que tivessem métodos bem avançados de observação das intensidades, preparando desse modo o avanço da matemática actual, que penetra no qualitativo, o que o mecanicismo não poderia oferecer, já que se prendia totalmente ao quantitativo, como tantas vezes já temos sublinhado. A CONCEPÇÃO DO MINIMUM E DO MAXIMUM EM ARISTÓTELES Os entes do mundo físico não são apenas seres matemáticos, mas seres que pertencem a uma espécie, que têm uma forma, uma natureza específica, uma physis, no sentido aristotélico, cujo sentido já expusemos na "Sinopse", no princípio deste livro. Ao examinar a filosofia grega anterior a Aristóteles, encontramos o pensamento de Anaxágoras, que apresentava a tese de que os corpos, na natureza, são divisíveis ao infinito. Aristóteles na "Física" opõe-se tenazmente a essa tese. Aceitando a divisibilidade infinita do contínuo, negava-a,

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porém, quanto aos corpos físicos. É que a natureza desses corpos admite uma divisão somente até um determinado limite. E não só afirma um limite mínimo de divisibilidade, como também um limite máximo de aumento. E fundavase, não em especulações meramente filosóficas, mas também na experiência. Os indivíduos de uma espécie revelam um máximo e um mínimo, cujos limites não podem ultrapassar, conservando a mesma forma. Assim também as qualidades têm um máximum e um mínimum. E a prova encontramo-la nos animais que crescem até um máximo e não podem ultrapassá-lo, como tudo na natureza. E se tal se dá, não deve haver uma divisibilidade ao infinito. A carne e os ossos não podem ser divisíveis ao infinito, afirmava. Há de haver um limite em que a carne dividida deixa de ser carne, porque, do contrário, seríamos levadas a um infinitamente carne, o que também comprova a nossa experiência científica actual. Desta forma, as partículas devem ser divisíveis até um certo limite, mas divisíveis dentro da sua espécie, e ultrapassado tal limite, passariam a ser de uma espécie diferente. E essa tese é aplicável a todas as substâncias naturais. Conseqüentemente, afirmava ainda, o mínimo de uma determinada espécie deve ter uma grandeza própria (isa peperasmena), grandeza que é determinada pela natureza específica. Em pleno séc. XVI, Benedicto Pereira dizia: "descobrir quais são precisamente os limites de grandeza, superior e inferior (quer referir-se ao maximum e ao minimum), para cada espécie de corpos naturais, é muito difícil, para não dizer impossível". (1) A física moderna procura alcançálos, seguindo os desejos de Pereira, sem que os físicos talvez o saibam. E que são hoje o peso atômico e o peso molecular, senão os limites das grandezas determinadas que desejava achar Pereira? Não são estas hoje as bases da química moderna? E não é ao atomismo de Demócrito, como pensavam os mecanicistas do século passado e seus representantes neste, que se deve tal coisa, mas sim à concepção dos mínima de Aristóteles. No tempo de Pereira, tal era impossível realizar-se, dada a deficiência dos meios técnicos disponíveis. Foi com Dalton, dois séculos e meio depois, que Pereira obteve uma resposta ao seu desejo. Entre os cartesianos não se procuraria tal, pois aceitavam a divisibilidade infinita dos corpos, nem
(1) Citado por Hoenen.

muito menos na concepção democrítea, que não a alcançaria, se Dalton não tivesse dado uma guinada para Aristóteles, em vez de permanecer totalmente na concepção mecanicista, embora sem o saber. É importante este ponto para melhor clareza do pensamento aristotélico, e, ainda mais, para compreender-se a valia ou não de certas afirmativas de físicos modernos que negam a Aristóteles o direito que lhe cabe. Demorar-nosemos neste ponto apenas o suficiente para clareza do texto que ora examinamos, deixando para trabalhos futuros outras análises, que mergulharão mais profundamente nas teorias da física actual. Tomás de Aquino, afirmando a divisibilidade in infinitum dos corpos matemáticos, afirmava, não obstante, um limite de divisibilidade dos corpos físicos. Permanecia assim na posição aristotélica. Tal não o sabiam alguns autores modernos (e entre eles Duhen), que vão atribuir à teoria dos mínima a Aegidius Romanus, sem compreender que essa era uma teoria aceita na idade média entre os escolásticos, inclusive os escotistas. Aegidius Romanus, em seus comentários à Física de Aristóteles, expõe sua tese sobre a grandeza, estabelecendo três maneiras diferentes: 1) enquanto pura grandeza, abstraindo-a da matéria na qual é realizada; 2) de maneira mais concreta, como realizada em certa matéria, mas sem especificar que espécie de matéria; 3) mais concretamente, como realizada numa matéria cuja natureza é especificamente determinada. A primeira, que é a que a geometria concebe, é divisível ao infinito, como o é também a segunda, desde que a matéria é indeterminada. Mas, na terceira, esta não pode ser dividida indefinidamente, sem que haja mudança da sua natureza, como a água não pode ser dividida sempre sem que deixe de ser água. Um metro cúbico pode ser infinitamente divisível, não um metro cúbico de água, pois em certo limite deixariam as particulas de serem de água. Essa doutrina não é de Aegidius Romanus, sem que tal desmereça em nada o imenso valor desse filósofo, injustamente desconhecido em nossos dias. Antes dele, Robertus Lincolniensis (também conhecido por Robert Grosse-Teste) e ainda em Averroes e, Tomás de Aquino, como já dissemos, era tal teoria afirmada, como o fora antes por Aristóteles (como se vê na "Física", I, cap. 4, e nos comentários de Tomás de Aquino, lect. 9, n. 9). Não procede, portanto, a afirmação de Duhen, que essa doutrina surgiu na idade mé-

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dia por influxo de Demócrito e Epicuro, pois já era aristotélica. Afirmava Tomás de Aquino que os limites da quantidade são particulares. Que nos mostra a química moderna senão a validez de tal afirmativa? Há em todas as coisas um arithmós pleihos (um número de sua totalidade), número no bom sentido pitagórico, e que revela a sua forma corporeitalis, a forma da corporeidade, que incluindo a forma imutável específica, tolera, na linguagem escotista, um maximum e um minimum, que são múltiplos, segundo os planos. Assim um cristal existe apenas segundo determinados limites de temperatura c a energia térmica interna tem um máximo e um mínimo. Um ser que é tal, exige muitos máxima e mínima, dentro dos quais ele subsiste com sua forma específica. O ser humano conhece desses máxima e mínima, não só intrínsecos como extrínsecos. E este é o sentido claro para onde se orienta a dialéctica que deseja ser uma lógica concreta, e, portanto, científica. Que faz a ciência senão buscar através de seus métodos conhecer os máxima e mínima, intrínsecos e extrínsecos dos seres, pois esta constituição hic et nune de um corpo depende, não só dos intrínsecos como dos extrínsecos, dentro de cujos limites é o que é? Podemos não conhecê-los, mas sabemos que há. Nos tempos medievais era difícil estabelecê-los, mas hoje já pode colocá-los a ciência em grande parte. O pensamento medieval, seguindo a linha aristotélica, estava no bom caminho, não obstante tudo quanto se disse e se diz contra esse pensamento todos aqueles, precisamente, que não o conhecem, e julgam que não podem perder seu tempo em examiná-lo. (1)

0 contínuo forma uma íntima unidade. Se é divisível é contudo não diviso. Não é um mero agregado de partes que se avizinham, se tocam. É uma totalidade com unidade intrínseca. E este aspecto é importante. Forma êle unut estrutura coerente, tensionalmente coesa. É uma tensão, em suma, que, como tal, é qualitativamente diferente do conjunto quantitativo das suas partes.
(1) Não se julgue haver em nossas palavras qualquer submissão ao pensamento escolástico. Apenas julgamos que pertence êle ao patrimônio cultural que herdamos, e a missão de quem deseja fazer filosofia exige o seu estudo, dele aproveitando tudo quanto de melhor oferece para o processo filosófico, que deve prosseguir adiante e não estacionar.

Este aspecto, que hoje podemos salientar em face do que já se obteve no conhecimento científico, já era notado por Aristóteles e não incidentalmente. Toda a sua obra já contém todos os germes da concepção tensional, que é a nossa, embora exposta com novos argumentos e sob fundamentos que nos oferecem os actuais conhecimentos da ciência, mas sem excluir a grandiosa contribuição aristotélica, e a que foi dada pelos medievais, infelizmente esquecida durante o período de domínio do mecanicismo e do racionalismo, do empirismo, etc. Num todo, as partes estão em potência enquanto tais. Assim, na água, o oxigênio e o hidrogênio estão em potência como tais, pois, nesta, aqueles não são totalmente o que eram em acto, quando ainda não a constituíam. Desta forma se pode compreender o erro, metafisicamente reprovável, da aceitação de um infinito quantitativo actual. Basta considerarmos este ponto: toda extensão é medível, portanto reductível numericamente a números. E numa série ilimitada de números, podemos sempre acrescentar mais uma unidade. Portanto, o infinito matemático é apenas potencialmente infinito, pois podemos sempre acrescentar mais um. Um infinito numérico em acto é metafisicamente absurdo. Não se pode desconhecer que alguns matemáticos, como Hilbert, trabalharam com o infinito actual, e também Poincaré, e outros. Mas se o infinito potencial é possível, não o é o actual. Se as partes de um composto fossem actuais poder-se-ia aceitar uma multiplicidade infinita. Mas o princípio de unidade nega essa suposição. Por isso, tais matemáticos tinham de chegar a conclusões falsas. 0 contínuo não pode ser divisível ao infinito. E tal se dá porque a parte, como tal, não está em acto na totalidade, o que é uma tese da concepção tensional, que em nossa obra "Teoria Geral das Tensões" provaremos com outros argumentos. Convém compreender bem o significado de "potencialmente infinito". Não se deve considerar, como o que pode tornar-se infinitamente actual, pois neste caso estaríamos, outra vez, imersos na mesma dificuldade. Infinitamente potencial deve ser considerado no genuíno sentido aristoíélico e dos medievais, como o contínuo que pode ser divisível in infinitum, isto é, uma divisibilidade que pode sempre ser actuada porém não exaurida na sua potencialidade; é uma potência à multiplicidade, mas que não pode ser realizada em acto totalmente, pois, do contrário, deixaria de ser potencialmente infinita.

do que é movido (quod). relações de mútuo contacto. sobretudo da pág. e do O. por exemplo. 444 em diante). onde mostra a improcedência do argumento kantiano (capílu Io: Crítica da Filosofia kantiana. o todo é qualitativamente outro que suas partes. mas terminando por estabelecê-lo ao afirmar que há algo subsistente. já que o acidente não é um ser de per si. São aspectos como este. como é comum ver-se na filosofia. Se o éter de Lorenz existe. . pois tocar no nada não é o mesmo que não tocar? Entre esses seres não haveria distância. A teoria do contacto. no genuíno e filosófico sentido desse termo. no entanto. que é a de Tomás de Aquino. não é de emquanto tais. pois este é nada. O tender é pura passividade. no entanto. assim. Portanto. Neste caso. O que enche o espaço é algo real. O movimento de um corpo forma uma unidade. . e assumem aspectos diferentes. enquanto num fenômeno químico muda a própria matéria. pág. ao qual é inherente e absolutamente inseparável. com perseitas. Se não se aceita a teoria do contacto. . pode-se. e sem o conceito das relações espaciais. O éter de Lorenz é um campo real. por Hoenen) . Por isso as partes. virtualizam características. para salvar-se da aporia. este pode ser considerado como meio universal de localização. mas não obstante as aceita. pois não há um intermédio. sem o conceito dos corpos. os átomos estariam separados pelo nada. que "até o não-ser existe". nenhum conceito de relações espaciais entre os corpos. 375 em diante. a experiência sensível constringe a estabelecer relações locais entre os corpos. como o mostra Hoenen. pode dizer-se que num fenômeno físico muda alguma coisa na matéria. que é nada? A gravitação é algo real. algo subsistente de per si. Esta é uma acção física. como a de Demócrito. nenhum conceito de espaço" (Cit. Sc dizemos. Aceita Einstein. O que indicamos como relações especiais entre os corpos. Por isso Hoenen acusa a Einstein de combater apenas a palavra éter. Ostwald mostra que tais distinções não são totalmente nítidas. e as qualidades são acidentes. Encontramos essa teoria na concepção do éter de Lorenz. como o hidrogèneo e o oxigêneo antecedem à água. Na edição argentina de "Biblioteca Nueva". teríamos de aceitar a da localização. pois o hidrogèneo e o oxigêneo. uma totalidade. o que era negar o próprio princípio mecanicista. que se dê uniu prioridade das partes ao todo. Como mostra a nossa concepção tensional. 588). na água. neste caso. como nos mostra Suarez. o espaço revela acidentes físicos caracterizados matematicamente. ao vazio. nesse sentido. E como poderiam mover-se nesse nada? Demócrito sentiu o absurdo da idéia. sem que o soubesse. por Einstcin ao afirmar: "Se se forma . são acidentes de algo. que permitem à concepção tensional oferecer uma nova visão do mundo sem excluir o que há de positivo nas construções filosóficas do passado.166 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 167 Dentro dos quadros da ciência actual. é uma substância. isto é.Ê este fim que dá ao tender a sua unidade. Se não se pode medir o movimento do corpo em relação ao éter. na água. um ser. ao afirmar os acidentes. mediante um contacto "interno". É o éter interposto que marca a distância entre dois corpos. Kant. A unidade do movimento prova a influência de uma causa final. é aceita. são potenciais no todo e não actuais. emprestando. medir em relação a outro corpo.o conceito dos corpos. Sobre este ponto é importante a crítica de Schopenhauer em seu "O Mundo como Vontade e Representação" (I. E como se tocariam se há o nada entre eles. Os corpos devem a sua posição a uma "modalidade intrínseca" que os escolásticos chamavam " u b i " — e que Sunrez tão bem estudou ao tratar da ubiquação em suas famosas "Disputationes Metaphysicas". etc. com uma porção do éter. Dessa modalidade intrínseca decorre a posição do corpo. A presença do H. não é nada mais que isso. Um movimento contínuo é um tender a um termo (limite-peras) como a um fim (telos). E como poderiam tais acidentes se dar sem uma substância? Se o espaço tem "qualidades físicas". em que um corpo obtém sua posição ou lugar. pág. por exemplo em Leibnitz. Essa era a solução aristotélica entre a alteração e a geração e corrupção. e o campo de gravidade actua sobre a "massa". 0 movimento é uma modal. mas activo na causa eficiente do movimento. daí ter exclamado. que o hidrogèneo e o oxigênio são parles da água. não devemos compreender que. o que é importante nunca esquecer. (que na verdade combateu o éter de Lorenz) que. Como poderiam surgir efeitos físicos do nada.

quando da decomposição. . permitindo. Mas a constituição de uma molécula química não é a de mero agregado. como veremos naquela obra. a nova substância surgia da agregação dos átomos que permaneciam o que são e o que eram. Tal não é verdade em face dos actuais conhecimento. o tempo e o espaço estão bem fundidos num mesmo e único continuum. contudo. surge uma nova substância. Estas palavras de Einstein são valiosas para o que desejamos dizer: " . que nele são diferentes do que eram quando não o compunham. que é uma matematização do esquema concreto que nele se dá. Uma intensidade que aumenta sucede no tempo. de próxima publicação. A atomística moderna não é democrítea. como modais. considerarem homogeneamente tempo e espaço. Aproveitar o que as observações científicas actuais contribuem para a precisão deste lema. Pode-se dizer que. Esta conquista da química moderna põe em crise o mecanicismo que julgava poder explicar tudo em termos de agregação e desagregação. assim. Os átomos. que se possam estabelecer algumas das coordenadas de uma visão unificadora do universo. quando tomam parte em uma totalidade. o que implica a colocação de um e outro em gêneros diversos. no composto. Mas entre o tempo e o espaço. reduzido-os a um só. No ser vivo. e. já tivemos ocasião de mostrar em "Filosofia e Cosmovissão" o nosso pensamento. mas uma diversidade. sem perder. e que pode obter um enunciado ontológico. Assim a matéria prima é potencial num corpo. aliás. enquanto vivo. no composto. e muito menos a sua diferença. e é algo que se verifica em toda a ordem ôntica. em que o relacionamento dos átomos seria suficiente para explicar o surgimento de uma nova substância que seria apenas uma figura. os quais sofrem no átomo. mutações. embora. que inclui e não exclui. Numa totalidade. a química inorgânica também. que permite construir o seu esquema matemático. Os componentes estão presentes em potência no composto. Para Demócrito. que é a característica da tensão. onde construímos uma visão tensional. no ser. há graus de potencialidade dos elementos componentes. Na totalidade. dos componentes. e até na fórmula que dá o quadrado do intervalo de universo de dois acontecimentos infinitamente vizinhos". possam identificar-se. como as espécies se identificam no gênero. . são mundos de uma complexidade extrema. Apesar de muitos. actualmente. pois. E prossegue: "Esses caracteres do elemento distância espacial e os do elemento duração permanecem distintos uns dos outros. pois há mutações dos componentes. que são actualizados. totalidade). Esse pensamento já estava implícito no aristotélico e na obra maior dos medievais. Este princípio é um dos fundamentais da "Teoria Geral das Tensões". como são virtualizados os que anteriormente estavam em acto. e que mostra a possibilidade que dispomos de poder construir uma visão hólica (de holos. . em que as partes estão modificadas. e desenvolvidos em nossa "Teoria Geral das Tensões". que se filia àqueles que aceitam a heterogeneidade e a irredutibilidade específica de um ao outro. as suas características específicas. que é aplicável em todas as esferas do pensamento epistêmico. o suficiente para que a totalidade seja distinta de suas partes. no composto. actualizam certos aspectos e virtualizam outros. o que é próprio das espécies em um gênero. há uma antinomia patente. dialéctica portanto. Na filosofia escolástica diziase que tais elementos estão virtualmente no composto. e o corpo químico também não o é. actualizam a unidade. por sua vez. Estes pontos serão por nós examinados em nossos comentários à "Física" de Aristóteles. estão em potência. como um ser vivo. Um campo de intensidade das qualidades não pode ser incluído totalmente nas dimensões espaciais. no sentido eminente que empregamos este termo. ambos. mas essa potência não é pura potência. para a ciência actual. 0 próprio átomo é uma nova substância em relação aos seus componentes. e esse termo era bem preciso e adequado ao verdadeiro conteúdo.168 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 169 com uma estrutura coerente. Tal afirmativa não quer dizer que os componentes sejam totalmente potenciais. é potencial. uma totalidade. pois entre eles não há apenas uma diferença. são potenciais. mas que. mas este não é isótropo". os elementos minerais. mas parcialmente. é o que fazemos naquela obra. a unidade é actual e a multiplicidade. É o que nos mostra hoje a química biológica. como partes. porque nele. não totalmente. e isto por que não apresentam as mesmas propriedades em todas as direcções.

que se aproxima de um cilindro. por sua vez. Os árabes e muitos escolásticos admitiram a permanência da natureza. e as segundas do ser que nasce (geração). é plenamente actualizada. é uma virtualidade e não uma pura potência. pode simultaneamente. é um. Os elementos componentes estão em potência mais próxima do mixto.170 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 171 A virtualidade é uma potencialidade prestes a realizarse no pleno exercício da actualidade. A experiência hoje o comprova. como a concebemos. ou sejam: há no ser. cada uma. como mostra Aristótelos. e a primeira é em potência mais próxima à segunda que à terceira. sem por isso destruir a unidade. conservando sua natureza virtualmente. Admitir-se que há na unidade substancial apenas uma homogeneidade de qualidades foi um erro que cometeram muitos. na mistura. os elementos componentes têm uma natureza que é a específica deles. das qualidades. e perdia-se desse modo a unidade substancial do mixto. sempre naquele sentido. ter um arithmós plethos. no bom sentido pitagórico. que não seria possível tratar neste livro. e a cientifica ainda mais. que é possível de ser estabelecido ou não. A solução de Tomás de Aquino é mais consentânea ao pensamento aristotélico. não. mas que se dá. e também mais consentânea com os actuais conhecimento da física e da química. pensar é pensar. como ser humano. o que contrariava a lei da não-contradicção. embora ouvir seja outro que pensar. e comprova que tais heterogeneidades podem ser transeuntes como até perdurantes. em quanto a segunda. o que não se deve nunca esquecer). ver. tem a sua natureza de mixto. Uma unidade revela uma estrutura heterogênea (daí. A superfície de uma esfera. ouvir. necessariamente uma única forma geométrica. de uma substância. como o mostrava a própria experiência. virtualizada no composto. que permite ser numerado. Todas essas actividades são múltiplas e heterogêneas. tem. A natureza dos componentes é potência determinada a uma nova natureza. Um problema que surgiu aqui. pois a dynamis. porque há aí um numeroso. dos componentes. conseqüentemente. disposições prévias que estão a ponto de actualizar a sua corrupção e. embora com certas divergências menores na maneira de conceber essa tese. Num mixto. podem dar-se os contrários. era admitida. Um ser humano. Uma superfície esférica se diferencia pouco de um elissóide e mais longínqua de um elissóide. tocar e pensar. Neste caso. a do mixto. como até era admitida uma possível heterogeneidade no contínuo. Mas tais afirmativas levariam fatalmente a considerá-lo como uma unidade e simultaneamente como uma multiplicidade. neste. o mixto (mixis) seria apenas um agregado. A dialéctica. que o perecer é um devir. A própria afirmativa de que a geração de um corpo é a corrupção de outro. que aí está. também. A primeira fica. embora exigissem outros esclarecimentos em face da problemática que surge. disposições próximas da nova substância que surgirá. não porém vultos como os grandes escolásticos que compreendiam que uma unidade substancial não excluía uma multiplicidade do accidentes e. Mas o ser humano. Os elementos permanecem virtualizados. nos mostra essa dialéctica. integralmente em acto. aqui. na mixis. de um cilindro (formados pela mesma substância). as primeiras do ser que perece (corrupção). Dessa forma. de um elissóide. por exemplo. A microscopia moderna favorece a aceitação dessa tese que era pitagórica e que Tomás de Aquino apadrinha. sob o mesmo aspecto. o qual não pode ser este e simultaneamente o seu contrário. Mas o mixto. de qualquer forma. As dispositiones praevias dos escolásticos e as dispositiones próximas referiam-se a essas virtualidades. Mas cabem. porém. Ouvir é ouvir. exemplifica Hoenen. a qual não implica uma homogeneidade no próprio corpo. em parte. Diferenças de qualidades nas diversas partes de uma unidade substancial. A unidade da forma substancial funda-se na unidade da substância. * * * Nada impede que um ser seja ao mesmo tempo um e múltiplo. embora tivesse êle uma . pois admite a natureza actual do mixto e a virtual dos componentes. como este daqueles. opera sobre as antinomias e contrários. embora múltiplo cm suas manifestações accidentais. No homem. substancialmente considerado. foi o de se saber se esses elementos componentes conservavam sua natureza ou a perdiam para integrarem-se na natureza do mixto. damos claramente o sentido de tais termos. O princípio formal de não contradicção aplica-se ao mesmo aspecto. alguns comentários que passaremos a fazer. Esta idéia já estava implícita no pensamento aristotélico. A forma esférica é mais próxima de um elissóide que de um cilindro. na escolástica.

temos o surgimento de propriedades resultantes da agregação. isto é. aquela deve ter como propriedade as constantes dos componentes. (1) A heterogeneidade dos componentes permanece na unidade.172 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES visão falsa de Pitágoras. ou as que normalmente deveriam surgir destes. não é de admirar que alguns negassem a heterogeneidade inorgânica (o próprio Tomás de Aquino a aceitou. Mas desde o momento que a unidade apresenta propriedades outras que as do componente. se aqui a estudássemos. e cabe à experiência estabelecer os graus. Quando uma unidade é produto apenas de uma agregação. A aplicação dos métodos científicos actuais (como os raios X) permitem estabelecer essa tese. o pensamento pitagórico só em nossos dias está sendo reconstruído pela acção de estudiosos devotados. Portanto. genericamente outras de as dos elementos componentes. Quando de uma agregação de elementos surgem propriedades totalmente diversas de as dos componentes. de próxima publicação "Pitágoras e o Número". estamos em face de uma totalidade. Aristóteles havia também deformado o pensamento platônico. resultantes da totalidade. julgada como o genuino pensamento pitagórico. O que Tomás de Aquino combatia no pitagorismo era a caricatura que dele se fazia. que o entendia segundo a obra exotérica de alguns pitagóricos de grau de paraskeiê (grau de aprendiz). as propriedades não estavam presentes em acto nos componentes. LIVRO II (1) Essa visão falsa é compreensível pelo facto de Tomás de Aquino conhecer o pensamento pitagórico através de Aristóteles. Não possuíam os medievais meios suficientes e hábeis de experimentação. estamos em face do surgimento de uma nova substância. o que nos levaria. Na verdade. a penetrar em campos filosóficos que cabem a outros trabalhos. Era o que os medievais chamavam "resultantia". . mas inclusas como possibilidades próximas naqueles. Também admitiam os escolásticos maiores até uma heterogeneidade específica. no segundo. o que será tema de nossa obra. No primeiro caso. No segundo caso. há o surgimento de propriedades diversas. e desses erros não se eximem inclusive os grandes. Tais factos são constantes na filosofia. embora em termos). No primeiro caso. embora não totalmente.

explicamos sua natureza e a diferença que a separa da geração e da corrupção. ora por qualquer outra transformação. ou qualquer intermediário entre o ar e o fogo. cujas mutações. Mas. matéria corpórea e separada. acrescentam a água como quarto elemento. os corpos primeiros materiais 5 sejam chamados de bom direito princípios e elementos dos seres. aos quais acrescentam o ar como um terceiro. por exemplo. erram. No referente. ora por união. III. explicamos como são eles propriedades das coisas que mudam naturalmente. tanto absolutas como relativas. quanto à matéria que serve de substracto a tais corpos sensíveis. como Empédocles. Outros. são esses dois elemento. quanto à geração e à corrupção. Igualmente também falamos 30 da alteração. ao contacto.10 trariedade sensível. pois é impossível que tal corpo seja sem con. Mas os filósofos que admitem uma matéria única fora dos corpos que acabamos de mencionar. fazem decorrer a geração e a corrupção das coisas. Falta ainda estudar o que chamamos os elementos dos corpos. tal se pode aceitar: são eles. ao contrário. explicamos como elas existem e por quais causas. Que. enquanto outros. à mistura. pois. dizem que ela é múltipla 329a em número: para uns. não se efectuam independentemente dos corpos sensíveis. como 35 sendo um corpo e dotado de uma existência separada. à acção e à paixão. II. e da união e da separação.TEXTO DE ARISTÓTELES II — 1 CAPÍTULO I I. para todas as substâncias. afinal. com efeito. alguns filósofos a consideram única: afirmam. já que êle é forçosamente sensí- . ademais. que é o ar ou o fogo. A geração e corrupção. cuja constituição é natural. é o fogo e a terra. para outros. ou da alteração desses elementos. ora por separação. pois. têm por resultado a geração e a corrupção.

para alguns filósofos. Não poderia êle penetrar nesse estudo. estudar e responder a algumas perguntas. mas é impossível que superfícies sejam a "alimentadora" e a matéria prima. Dizemos que existe uma matéria dos corpos sensíveis. mas é o sujeito que é matéria para um e para outro contrários. se são engendrados. Com efeito. IV. os elementos. todos. isto é. pretende provar é a seguinte: 1) que os elementos só existem como determinações de uma prote hylê. um composto de matéria e de forma. não podem comportar-se assim.20 mar que cada objecto de ouro é ouro. devemos igualmente acrescentar algumas precisões sobre este tema. que alguns filósofos asseguram ser o princípio das coisas. o princípio a colocar em primeiro lugar. mas que essa matéria não é separada. as contrariedades (entendo. de onde procedem. falta-lhe precisão. de existência separada. desde logo. as Iiomeomérias. uns dos outros. a água e os diversos elementos dessa espécie. por exemplo o calor e a frialdade). 2) que os elementos derivam. Mas já que é também assim que nascem da matéria os corpos primeiros. que serve de substracto a tais corpos. cm suma — não se realizam independentemente dos corpos sensíveis. que nasce e que morre. com per seitas. que respondem às perguntas antes propostas. e se. de uma matéria prima. as. pois esses elementos se transformam uns nos outros. o tema das próximas lições deste livro II. portanto.". 25 30 35 329b . frio ou quente. é dela que provêm os elementos assim chamados. é. mas de uma eupsykhê soma.15 to anterior ao que chama elementos. única (o ar. V. pela aparição de uma simples psykhê. enquanto os contrários não se transformam uns nos outros. o que é. Reexposição comentada II — 1 I — Depois de dar uma rápida sinopse do que empreendeu no livro I. é o sujeito dos contrários. Em que consiste essa alma. as coisas. Uma definição mais precisa dessas noções foi dada em outro trabalho. de cuja união ou separação e da alteração de tais elementos surgiriam a geração ou a corrupção das coisas. etc. nesses seres. Contudo. eis a pergunta que coloca Ar. ou um intermediário entre esses). sem primeiramente estabelecer o que são os "elementos dos corpos". II — A corrupção e a geração para lôdas as substâncias. tais como: a) se cada um dos elementos existem realmente. ao contrário. pretende agora Ar. e não se comportam como Empédocles e outros filósofos o pretendem (pois a alteração não seria possível). como o ouro para as obras de ouro. Com essas duas teses. o fogo. de perseitas. pois não é nem o quente. são por eles reduzidos somente a superfícies. — seres vivos. repetimos. e se contentou em dizer que é um substrac.. contudo. Por conseguinte. não sendo separada. em segundo lugar. e. derivam uns dos outros de maneira semelhante ou b) se há um elemento primário. a alma que informa o corpo do qual é ela inseparável. por outro lado. por um processo cíclico (kyklô). A matéria. que a prote hylê seja corpórea e dotada. a matéria que. E. sobre os quais já falou. que o que há de mais verdadeiro é afir. como princípio e como primeira. das quais há geração e corrupção. Outros aceitam uma multiplicidade de princípios. a tal comparação. uma archê. Consideram tais filósofos. E contudo. que são seres compostos de partes naturais. em terceiro lugar. as anomeomérias. nem o frio que o é do quente. Platão diz. o fogo.176 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 177 vel. Como comenta Tricot "a vida não sobrevém. que é matéria do frio. o que é descrito no "Timeu" não oferece nenhuma precisão. esse infinito. neste caso. cuja constituição é natural. deve ser leve ou pesado.plantas e os animais. erradamente para Ar. pois Platão não disse claramente se o receptáculo universal existe separado dos elementos. de perseitas. isto é. é o que é em potência um corpo sensível. tem Ar. mas. São somente as coisas sujeitas à alteração que tiram o seu nome do substracto. e que é ela sempre acompanhada de uma contrariedade. expressa desse modo. não fez também nenhum uso dele. mas sempre considerada como um corpo e dotada de existência separada. e que nenhum deles é anterior aos outros. devemos considerar. embora sólidos. do qual são elas alteração. E em terceiro lugar somente. A tese que Ar.

uma massa amorfa e plástica. enquanto os contrários não se transformam.pois é a matéria de todas as qualidades. que sejam tais corpos. que compendia os comentários de Tomás de Aquino: "Nessas diferentes passagens. não sendo separada. está em considerá-los como corpos c não querer admitir que. pois uma estátua de ouro é de ouro.178 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 179 III — Aceita Ar. Ela não é separada. principios dos seres. que um objecto de ouro é ouro. afirma que o princípio é a matéria que. convém citemos Tricot. mas ao contrário. estão caracterizados pelas qualidades contrárias. como já vimos mais acima.. mas de ouro. é substracto das contrariedades. e para precisar certos pontos. " 0 pandekhes é absolutamente indeterminado (extòs eidôn). V — Expõe Ar. um corpo sensível. IV — É o que sucede com Platão que não diz se esse substracto anterior existe separado dos elementos. estudou bem essas noções. que são deles resultantes. pois estas podem ser decomponíveis em linhas. o sempre é acompanhada da eontrariedade. A matéria é matéria de. É o exemplo de Anaximandro. funcionalidade que a revela como potência. senão por metáforas. que não é ouro. Os elementos são. que é impossível que as superfícies sejam a pandekres. as linhas em pontos. Mas.. ou uma m ã e " (princípio mater). o que não se dn com o àpeiron de Anaximandro. mas Platão não precisa se é um simples continente ou o consistente dos elementos". Mas o erro que evidencia Ar. como tais. que atribui ao àpeiron a eorporeidade em acto. pois é uma simples alteração do substracto. como já foi visto. Ar. consagradas ao estudo do princípio material. Na "Física". em certo sentido. . e que de suas mutações surjam a geração e a corrupção.. pois a mutação é substancial. 0 argumento de Platão. comentando esta passagem. pois é impossível que um corpo sensível se dê sem eontrariedade. é o sujeito dos conlrários. Esse infinito deverá apresentar contrariedades. Comentando-a. à maneira de uma matéria primeira. afirma a sua improcedència. no entanto. de massein. Numa geração simpliciter (aplôs) dá-se outra coisa. é rectificado por Ar. com efeito. o "recepláculo universal" (pandekhes). pois a matéria é o que é em potência. as coisas em que há geração e corrupção não podem comportar-se assim. que formam uma eontrariedade sensível. às quais faltam a precisão (non dixit manifeste et determinante). é concebido ora como uma portador de marcas" (exmageion. e não ouro. pois não são apenas as coisas sujeitas à alteração que tiram o seu nome do substracto do qual são elas alteração. que a matéria primeira (prôte hylê) v a eontrariedade (eidos e stéresis) são os princípios dos elementos. O princípio material. Ademais demonstra Ar. Platão não se exprime. transformáveis uns nos outros. Em segundo lugar. ora como uma alimentadora (tithene) ou um suporte (hypodokhê). amassar). Ar.

ou em outras palavras. IV. é preciso. Em conseqüência. As contrariedades que se relacionam ao tacto são as seguintes: quente-frio. mas enquanto outra coisa. e uma contrariedade segundo o tacto. É. tangível. Mas respondemos que o substracto da visão não é uma qualidade do corpo tangível. Mas não resta colocar. grosso-fino. a questão de saber que espécies de contrariedades são os princípios dos corpos. o pesado e o leve 20 não são activos nem passivos. Eis. os colocam e deles lançam mão. viscoso-friável. nem igualmente qualquer das outras contrariedades sensíveis constituem. e que o tangível é o que está em contacto com a percepção. em nada. mesmo assim. sem explicar por que são aquelas ou por que são em tal quantidade. não são chamados pesados ou leves porque 5 . distinguir as que são primeiras. por que nem a brancura nem a negrura. um elemento. Dessas contrariedades. de tal forma que seu substracto é também anterior ao do tacto. por sua natureza. com efeito. V.TEXTO DE ARISTÓTELES II — 2 I . Todos os outros filósofos. E contudo. segundo uma contrariedade. sêco-úmido. dir-se-á. Os corpos. e qual é seu número. mesmo se esta outra coisa é. CAPITULO II II. também. duro-mole. a visão é anterior ao tacto. Já que procuramos os princípios do corpo sensível. anterior ao substracto do tacto. com efeito. rugoso-polido. que os corpos primeiros são diferenciados. mas 10 somente aqueles que se fazem por contacto. com efeito. nem a doçura e a amargura. de início. pesado-leve. entre as diferenças e as contrariedades tangíveis. 15 enquanto tangível. é claro que não são todas as contrariedades que constituem as formas e os princípios dos corpos. III.

derivará do seco no primeiro sentido. mas enquanto outra coisa. uma do seco. pois. Por outro lado. enquanto o seco é o que é facilmente delimitável por um limite próprio. e o condensado é seco). Os termos seco e úmido apresentam diversas significações. O que é apenas captado pela visão e pelo sabor não constituem um elemento. VI. o azeite). se opõe. e a outra do úmido. Mas todas essas qualidades derivam do seco e do úmido em seu primeiro sentido. O grosso e o fino. é de reunir as coisas da mesma classe. por essência. o duro e o mole e os outros derivam do úmido e do seco. e que o dessecado. . o que tem uma umidade estranha penetrada profundamente). pois ao seco se opõe. ao úmido. mesmo que essa coisa. Necessariamente. XI. enquanto o dessecado é o que perdeu sua umidade estranha. o fino é tal ao supremo grau) é manifesto que o fino derivará do úmido. mas que é. a tal ponto que a sua solidificação é produto de uma falta de umidade. XII. por exemplo. 25 não é. sendo facilmente delimilável por outra coisa. não somente o seco. pois há mistura e transformação recíproca. Com efeito. É evidente que o molhado derivará do úmido. com efeito. ora de um. o quente e o frio. Por sua vez. quer do quente. que se atribui ao fogo como funcção essencial. estando inteiramente em contacto com o todo que o contém. como a sua forma. o úmido e o condensado têm uma mesma derivação: o úmido. não somente o úmido. Com efeito. o úmido é o que é indelimitável por um limite próprio. enquanto o condensado é o que perdeu essa umidade interna: daí resulta que essas duas qualidades derivam também. do seco. passiva. quer do úmido. É claro que todas as outras diferenças se reduzem às quatro primeiras. pois o friável é o que é completamente seco. VIII. quente ou frio. mas também o molhado. seja anterior ao substracto do tacto. Os corpos são diferenciados por uma contrariedade. o seco é oposto ao molhado. o mole deriva do úmido (pois o mole é o que obedece à pressão ao se contrair. e o que se compõe de pequenas partes é expansivo. o que não é feito pelos outros filósofos. o viscoso e o friável. há expansividade (pois é composto de finas partículas. II — Nos corpos sensíveis. com efeito. e o friável. ora de outro. o que é. pelo deslocamento total. embora o mole derive do úmido) e o duro derive do seco (pois o duro é o condensado. Ao contrário. é o que contém 20 uma umidade própria (o embebido. e a segunda. já que a expansividade pertence ao úmido (pelo facto de não ter forma determinada. e o grosso do seco. por sua natureza. é o que perdeu sua umidade estranha e é evidente que o molhado derivará do úmido. enquanto o frio c o que reúne e agrega indiferentemente coisas homogêneas e heterogêneas. pois que dele resulta a expulsão dos elementos estranhos a essa classe. e. que lhe é oposto. Reexposição comentada II — 2 I — Propõe-se Ar. é preciso que os elementos sejam reciprocamente activos e passivos. e o molhado é o que tem uma umidade estranha 5 sobre a sua superfície (o embebido é o que é penetrado profundamente). IX. o quente é o que reúne as coisas do mesmo gênero (pois o facto de separar. o que explica também por que o úmido não é mole. com efeito. nem o úmido. mas apenas aquelas que se realizam pelo contacto. ao contrário. como o faz precisamente o úmido. VII. nem o frio e o seco não são formas derivadas. Ademais. mas também o condensado. úmido ou seco. mas o substracto da visão não é uma qualidade do corpo tangível enquanto tal. estudar as espécies de cotrariedades e o seu número. as diferenças são em número de quatro. o úmido e o seco são termos cuja primeira dupla é activa. não porém. Por sua vez. mas é dificilmente delimitável por outra coisa. X. o viscoso deriva do úmido (pois o viscoso é um úmido que sofreu uma certa modificação. Ora. segundo o tacto.182 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 183 actuain sobre um outro corpo ou porque sofram a acção de um outro corpo. facilmente delimitável e esposa o que está em contacto com êle) e que também para o fino. por essência. III — Pode dizer-se que a visão é anterior ao tacto. e que o dessecado. inversa- mente. Pois que. mas essas não são reduetíveis a um número menor: nem o quente. ora. não são todas as contrariedades que constituem as formas e os princípios dos corpos.

a água e a terra. o ar. Da mesma maneira procedem aqueles que admitem três elementos. a saber. ou melhor: o quente e o frio. são conduzidos a colocar de facto dois princípios. E há quase identidade entre as doutrinas dos que aceitam dois elementos e os que aceitam três. os contrários. constitutivas dos elementos. (o ar como uma espécie de exalação). com efeito. Para os que professam que há apenas um. ora quatro. misturas desses elementos. é preciso distinguir as primeiras que as descriminadas no tópico. e. assim também o frio. à maneira de Platão que. Mas os filósofos que desde o início colocam dois elementos (tal Parmênides. ora três. ser inatos (pois a mesma coisa não pode ser quente e fria. IX — Este tópico é claro e é uma decorrência do que ficou acima exposto. X a XII — São igualmente claros e implicados no que ficou exposto. E Ar. frio-sêco. é evidente que serão em número de quatro as conjugações de qualidades elementares: quente-sêco. a saber o ar e a água. Todos os filósofos. como uma conseqüência lógica de nossa teoria. que consideram os corpos simples. considera o "meio" uma mistura. E essas quatro duplas são atribuídas. e o número desses corpos coaduna-se à lógica de nossa teoria. quente-úmido. quente e úmido.184 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES E a razão está em que as qualidades sensíveis pela visão não constituem a essência do corpo. o fogo. o raro e o denso. Como diz Tomás de Aquino. aos corpos que parecem simples. portanto. em suas divisões. o que é necessário para que haja transformação recíproca. a água. fria e úmida. Têm um valor histórico na filosofia. pois os corpos são determinados apenas pelos contrários que surgem ante o tacto. pois tais aspectos já estão melhor estudados na ciência actual. exemplifica: o fogo tem uma funcção unificativa. E termina por estabelecer que os elementos devem ser activos e passivos. e que engendram. pois são essas qualidades que são as forças ordenadoras. como é exposto no tópico. com efeito. o ar. a terra. pois são definidos pela própria passividade. VIII — Cita Ar. VI — O quente e frio são activos e o úmido e o seco são passivos. ora um. como já vimos. com esta única diferença que os primeiros cortam em dois o . ora dois. II. as outras qualidades que derivam do úmido e do seco. fria e seca: alcança-se assim a uma distribuição racional das diferenças por entre os corpos primários. o qual é ser tangível. é quente e seco. em virtude de sua natureza. como elementos. supõem-nos. "definiuntur enim per passiones eorum". Já que as qualidades elementares são em número de quatro. VII — O úmido e o seco são passivos pela própria definição. seca e úmida). IV — Entre as diferenças e as contrariedades tangíveis. Não são. mas que. o fogo e a terra) consideram os elementos intermediários. O fogo. inversamente. os outros seres por condensação e rarefação. enquanto o Um lhes serve de sujeito como matéria. não podem. e que esses quatro termos podem ser combinados em seis conjugações. TEXTO DE ARISTÓTELES II — 3 I. então. frioúmido. V — O leve e o pesado não são activos nem passivos.

o quente e o frio. E também o concorda em certo sentido Aristóteles. opõe todos os outros. falando de modo absoluto. Quem aceita três. 5 e para o fogo. Concorda Ar. os elementos. que. e ao ar. salienta Tomás de Aquino que qualquer que seja o número dos princípios. o ar. frio e seco. aos corpos que são julgados simples. III. como fogo e terra. vê-se obrigado a aceitar intermédios. como o quente e o frio ou o seco e o úmido. como também símbolo dos quatro elementos. terra fria e seca. qualidades elementares. Os corpos simples. tem cada um uma só qualidade própria: para a terra é o seco. a superfície. para o centro. o corpo simples. como o fogo. ou melhor. 4 o volume. quente e úmido. como conseqüência lógica dessa teoria. portanto. Quem admite dois elementos primários. a umidade. não porém idênticos: por exemplo. põe mais um fora da forma (ex parte formae) : grande e pequeno. a terra e a água. o segundo. na categoria pitagórica dos contrários). água fria e úmida. frio e úmido. o quente. O fogo é quente e seco. Os que aceitam apenas um elemento são forçados a aceitar dois princípios. também símbolo da tetractys pitagórica (1. quente e seco. o fogo e a terra são os elementos extremos e os mais puros. 25 Mas o fogo é um excesso de calor. V. a condensação. Se. ar quente e úmido. enquanto os últimos consideram um único elemento. a quarta. que têm cada uma seu lugar: o fogo e o ar se dirigem para o limite. enquanto a água e o ar são intermediários e mais misturados. Faz uma sinopse das teorias já conhecidas. a linha. combinadas em seis conjugationes (conjugações). o fogo será uma ebulição do sèco-quente. tem a forma de ar. antes que o úmido. pois essas qualidades são as forças ordenadoras. o gelo é uma congelação do frio-úmido. antes que o quente. Comentando esta parte. sendo em número de quatro. como o salienta Tomás de Aquino. E contudo. IV. 3. da mesma natureza que êlcs. A rarefacção é devida ao quente. a terra. ao fogo. O raro e o denso (rarefacção e condensação) são qualidades contrárias que actuam e sofrem adinvicen. contudo. a água e a terra. Formam seis conjugações. II — Passa agora Ar. e constitui a primeira conjugação. como Platão. quatro elementos. com efeito. . o mundo físico é simbolizado pelo número 4. pois a congelação e a ebulição são respectivamente excessos de friura e de calor. como o fêz Parmênides. mas que não o são na realidade. Na linguagem simbólica. correspondente ao fogo. que afirma haver quatro qualidades elementares que formam quatro conjugações. Não quer tal dizer que o fogo. mas cujos contrários.20 de o início. antes que o seco. Os corpos verdadeiramente simples são. Ademais. sendo em número de 30 quatro. é o frio. E os elementos de cada conjugação são contrários aos da outra: ao fogo é contrário a água. certos filósofos colocam. des. para a água. São quatro tangíveis qualidades (e não quatro corpos simples como alguns ex- põem). antes que o frio. ao frio. cada um deles é um mixto. porque é impossível o contrário permanecer no mesmo ente. e assim por diante. o que ademais explica porque nada procede do gelo nem do fogo. partilham-se em duas conjugações. a terceira. E os dois princípios que surgem são o raro e o denso. pois esses elementos são 33l a constituídos de qualidades contrárias. mas não é fogo. dos vectores opostos. como Empédocles. Finalmente. Reexposição comentada II — 3 I — Podemos nos elementos considerar quatro qualidades. os antigos "conveniunt in hoc quod non excedunt quaternarium numerum" (concordam neste ponto em que não excedem ao número quaternário). ainda com os antigos "qui quaternarium numerum non transcendunt" (que não transcendem ao número quaternário). são conjugações impossíveis. 2. o ar e cada um dos elementos que mencionamos sejam simples na verdade. como o gelo um excesso de friura. os agrupa em duas classes. tem forma de fogo. Essa classificação coaduna-se perfeitamente com a teoria de Ar. como ainda do activo e passivo dos opostos. do que desde logo se vê que restam apenas quatro conjungações possíveis. pois. o ponto. que são contrários ex parte materiae.186 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 187 elemento médio. vê-se obrigado a estabelecer dois contrários extremos e um médio. São essas conjugações atribuídas. correspondente ao ar. para o ar. o corpo simples.. a provar a sua teoria. pois admitem que o primeiro princípio engendra os seres por condensação e rarefacção. como o ar e a água.

todos se transformam naturalmente uns nos outros. e todos os elementos possuem uma contrariedade recíproca. que. que quisesse Ar. pois opõe os outros três ao fogo. A geração. pois a congelação e a ebulição são respectivamente excessos. tem a forma do ar. embora a sua intensidade de umidade fosse menor que o úmido da água. e por ponto de partida. é manifesta até na sensação. mas não é fogo. úmido e frio). que eles são engendrados (do contrário não haveria alteração. para outros. se consideramos os elementos em geral. comenta Tricot. Para Ar. que são quatro. Com efeito. como salienta Joachim. e se é possível que todos procedam de todos. que êle reduz a dois contrários. nem do fogo. e o fogo. na conjugação das qualidades primárias. se nós os tomamos individualmente. de ma- . III. têm. e o segundo é úmido e frio). e que. para essas a transformação é rápida. Dai resulta manifestamente 20 que. em comparação com o frio. portanto. de outro elemento. III — Empédocles e os seguidores estabelecem quatro elementos. é quente e seco. Tal não quer dizer. mas apenas que. cuja matéria (terceiro princípio). se é possível somente para certos dentre eles. V — Falando simplesmente. como Philopon. cada. os elementos. o ar. por natureza. uma somente das qualidades é contrária: tal é o caso do ar e da água (o primeiro é úmido e quente. o úmido. como comenta Tomás de Aquino. é evidente. comentando este tópico. é de grau intensista menor. a geração é recíproca e que. pois esta se produz segundo as qualidades dos objectos do tacto). mais úmido que quente. a terra é mais seca que fria. Assim. TEXTO DE ARISTÓTELES II — 4 I. mas somente do frio e do quente. e apenas elas constituem efectivamente os elementos. e o outro.. com efeito. à Dyada infinita do Grande e do Pequeno. e o fogo o quente ao seu maximum de intensidade. Tal aspecto já o fora salientado por Tomás de Aquino em seus comentários.188 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES Em sua notável obra. a prote hylê. II. afirmar que o ar fosse mais úmido que a água. a teorias platônicas posteriores afirmam. uma coisa não pode proceder do gelo. se uma só das duas qualidades muda (pois o fogo. ao mesmo tempo. procederão de todos. 25 porque uma só coisa muda mais facilmente que muitas: por exemplo. seria um migma. Para certos elementos. do fogo virá o ar. Todos. Já foi estabelecido anteriormente que. dizemos. uma qualidade predominante e uma qualidade em intensidade menor. Que. no ar. O corpo simples. correspondente ao fogo. pelo facto de que suas diferenças são contrárias. IV — Este tópico é claro e o que é exposto é uma decorrência do pensamento j á analisado. como o gelo. e assim sucessivamente. 15 uma como outra das qualidades são contrárias: tal é o caso do fogo e da água (pois o primeiro é seco e quente. mais quente que seco. cada u m desses elementos é um mixto. mas diferirão pela lentidão e pela velocidade. enquanto o ar é quente e úmido. O que há é certamente uma alusão. com efeito. como o salienta Tricot. Mas esses elementos são apenas "intensificações" das qualidades reais. mas para aquelas que não os têm. 0 fogo é excesso de calor. de uma parte. para os corpos simples. O gelo é a água em seu máximo de potência. ou. e o que corresponde ao ar. tem a forma do fogo. contrários. A natureza dos corpos elementares é a mesma. Joachim. todo elemento vem. excesso de frialdade. a água é mais fria que úmida. pela facilidade e pela dificuldade de sua transformação. ela é lenta. por outra parte. havendo um intermediário. não é difícil perceber de que maneira se faz essa geração. mostra que Platão não professa absolutamente que existissem três corpos. tem por termo os contrários. e impossível para outros. mas não é ar. é mais intenso que o quente. é preciso explicar de que maneira 10 se efectua a sua mudança recíproca. para as coisas que têm "símbolos" recíprocos.

o fogo tornar-se-á terra. dizíamos. embora possível. afinal. se. e a terra. respectivamente. A sensação confirma também esse modo de geração do fogo: a chama. dizemos. da terra venha o ar. por outro lado. de maneira que. o fogo. e da soma do ar e da terra resultarão. não é recíproca. se o seco do fogo 30 e o úmido do ar pereceram. por sua vez. teremos o a r ) . com efeito. mas da soma do fogo e da água resultarão. o ar será (pois resta o quente do ar e o úmido da água). II — O que é naturalmente evidente é que se transformam um no outro. a geração se efectua pela destruição de uma única qualidade. necessáriamente as duas qualidades mudarão. Por outro lado. com evidência. é. a transformação do fogo em água. Quando. Propõe-se. com efeito. mais acima e no livro "Peri Ouranou" (De Caelo). E. mais difícil. e a terra. a geração se efectua pela destruição de diversas qualidades.332a mentos derivam de todos. que para os corpos simples. o fogo será. do ar virá a água. qualidades. qualidades idênticas ou contrárias. da água virá a terra. perece. Quando. ambos. é úmida e fria. se uma qualidade. Da mesma maneira também. e impossível a outros. estabelecer que todos esses ele. é o fogo por excelência. e. e se se quer que. essencialmente constitu- 30 35 331b 5 10 tivas do fogo. é preciso que antes sejam destruídos tanto o frio como o úmido. com efeito. um tempo maior. tanto o frio como o seco. se o frio perece. a transformação. também. se o quente desaparece de um e de outro. mas quando o úmido do ar e o frio da terra tenham perecido. portanto. Mas. fria e seca. que. embora mais fácil. de maneira que se o úmido é dominado. mas a chama é o fumo que 25 queima. pois esta se produz nas qualidades. por outro lado. é quente e úmido. e se possível que todos procedam de todos. sejam destruídos. quando há transformação de um só dos elementos consecutivos em um só. V. permanecem os contrários. assim. Essa geração exige. já que o fogo é seco e quente. mas nenhum corpo simples tem possibilidade de ser constituído. Mesmo processo igualmente. com efeito. mas quando o quente do fogo e o úmido da água tenham perecido. pois permanece o quente em um e outro elemento. se o quente é dominado pelo frio (pois o ar. se o calor muda. por sua vez. pois têm. VI. e o fumo é constituído de ar e de terra. enquanto que a água é fria e úmida. graças à supervivência do quente do ar e do seco da terra. o quente do ar e o seco da terra tenham perecido. é preciso que. com efeito. pelo facto de os símbolos se encontrarem contidos nos elementos consecutivos. O mesmo se dá nos outros casos: em todos os elementos consecutivos. encontram-se uma qualidade idêntica e uma qualidade contrária. não é possível que da destruição de uma qualidade em cada um desses dois elementos resulte uma mudança em qualquer dos corpos simples. Contudo. porque permanece. quando se trata de dois elementos consecutivos. por sua vez.190 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 191 neira que se o seco é dominado pelo úmido. alternativamente. há transformação de ambos esses elementos num só. e do ar cm terra. teremos a água). Daí resulta ao mes. IV. A água. Da mesma maneira. ao contrário. se do fogo e do ar vêm a água e a terra. Reexposição comeniada 15 II — 4 I — Já estabelecera Ar. de cada um desses elementos. a terra e o ar. temos a terra. por sua vez. para os corpos simples. e que esse modo de mudança é o mais fácil. o frio da água e o seco do fogo tenham perecido. ou se tal é possível apenas a alguns. explicar de que modo se efectua sua mutação recíproca. 20 . da água e da terra em fogo e em ar. Se se quer. fria e seca. quer de qualidades contrárias: tal será o caso. símbolos. o fogo e a água. a água será (pois resta o úmido do ar e o frio da terra). Mas.35 mo tempo. o fogo e a água virão da soma do ar e da terra. com efeito. e explicar o modo como se produz sua transformação recíproca. Ar. porque há mudança de um maior número de qualidades. alternativamente. na conjugação dos elementos. a geração é recíproca. Vimos. pois do contrário não haveria alteração. quer de qualidades idênticas. graças à supervivência do seco do fogo e do frio da água. que da água proceda o fogo. Dai resulta evidentemente que a geração. e ao mesmo tempo manifesta aos sentidos. a saber o seco e o úmido. e engendrados. O restante do tópico é claro no autor e dispensa reexposição. de antemão. e da terra. será circular. a terra será.

pois. . num e noutro caso. Todo o restante do tópico é uma explanação do que Tricot acabou de sintetizar. ou dois. Mas termina Tricot por aceitar a de Tomás de Aquino: "convenientia in aliqua qualitate". por exemplo. entende por symbola factores complementares. . atribuído ao ar. pela eliminação de duas qualidades. digamos. Mas não podem ser todos um só elemento. se. manifestação de uma solidariedade de direito". VI — Também este tópico não oferece dificuldades. p a r a Ar (quente-úmido). . proposto. Aceitemos que seja terra + água. Fogo (quente-seco) -f água (frio-úmido) = terra (por eliminação do quente e do úmido) ou ar (por eliminação do seco e do frio). expõe Ar. o ar e os elementos dessa sorte. e comum a ambos.192 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES III — Desnecessita. é impossível para o fogo ser ar quente. fogo + terra).. pois está todo contido na matéria já exposta. mas mais subtil 20 . como também alguns filósofos o crêem. então. pertenceria a um outro elemento. A respeito dos elementos.. já que a mutação tem lugar em direcção aos contrários. o que. o segundo modo de transformação dos elementos. como o sintetiza Tricot. ser todos ar. . se o ar subsiste. o calor.. por exemplo. o terceiro modo de transformação dos elementos. Haverá. por exemplo de um corpo que seria intermédio entre o ar e a água (mais espesso que o ar. Ar (quente-úmido) + terra (frio-sêco) = fogo. o quente do ar pode. ou água. . na realidade alguma outra coisa. ar + fogo. distinto desses quatro elementos. Citemos Tricot: "Ar. ou um número maior. em sentido inverso. este tópico de reexposição. é impossível. uma certa contrariedade. Todo o resto do tópico é a exemplificação e exposição do que havia Ar. Se todos. Ar (quente-úmido) . Ar. a água. Por conseguinte. pois. que nele está expresso (symbola) no plural. a mesma coisa seria simultaneamente quente e fria. constituir o fogo. por eleminação do frio e do úmido) ou água (por eliminação do quente e do seco). ou fogo. . e não é ademais o que mostra a experiência. e o quente do fogo pode. distinta de um e do outro. o fogo. haverá alguma matéria. a definição de Robin é muito mais precisa: "um sinal de reconhecimento.para fogo (quente-seco). Essa mutação é mais difícil que a precedente: Fogo (quente e seco) para . pois uma mudança dessa natureza é uma alteração. então. por ex. será pela transformação do quente em seu contrário: esse contrário será. tomadas em cada elemento. e é apenas um desenvolvimento claro das idéias já expendidas. O fogo e o ar serão. o ar torna-se fogo. assim. água + ar. . complementamos a nossa teoria da maneira seguinte: se os corpos naturais têm por matéria. II. por sua vez. em outras palavras. a mesma para ambos. TEXTO DE ARISTÓTELES II — 5 I. com o seco. Mas além disso. 5 esses elementos são necessariamente ou um. O mesmo raciocínio aplica-se a todos os elementos: prova que não é de um só dentre eles que todos provêm. A eliminação daria frio -f frio e seco + úmido.água (frio-úmido) e Fogo (frio úmido . haverá apenas alteração e não geração. IV — Neste tópico. constituir o ar: o quente do ar e do fogo são symbola". assinala mais adiante que esse modo de transformação não actua se os elementos são consecutivos (terra + água. p a r a terra (frio-sêco) e Terra (friosêco) . E mais adiante: " . não é seguramente um corpo. com efeito. Acrescentemos que ninguém supõe que um elemento único possa subsistir de tal modo 10 que seja simultaneamente água. e o outro membro dessa contrariedade. fossem ar. "mutação da soma de dois elementos não consecutivos em um ou outro dos elementos restantes. uma diferença. . ou terra. III. com o úmido. ao mesmo tempo. Mas o fogo não será certamente ar quente. assim como ar ou outro qualquer elemento. V — Expõe agora Ar. pela conversão das duas qualidades elementares em seus contrários. salvo examinar o termo símbolo. e o ar será alguma coisa 15 fria. pois.

é necessariamente frio. com efeito. Em síntese. 30 que haja necessariamente transformação recíproca dos elementos. se. seria frio. e não geração propriamente dita. Eis porque existe indiferentemente. c) o ar. não im. ar. matéria não sensível e não separada. não resultaria daí que esse intermediário jamais poderia existir sozinho. com efeito. não é sempre a mesma. A diferença entre o ar. pois. não será. como o pretendem alguns filósofos para o infinito e o meio ambiente. e será. é sintetizado deste modo por Tricot: Sendo o àpeiron indeterminado. ou entre o ar e o fogo (mais espesso que o fogo. neste caso o ar subsistiria e não haveria senão alteração. e permanecendo totalmente ar. que possuem um símbolo. quer referir-se ao àpeiron de Anaximandro. sendo uma privação. sofrem transformações. Reexposição comentada II — 5 I e II — Dispensam estes tópicos uma reexposição. transformam-se mais lentamente. mas um dos dois contrários. o frio. ou. na verdade. Mas se elas são duas. portanto. ou não existe nada. e foi também estabelecido que a rapidez com a qual um elemento vem de outro. por exemplo. enquanto ar. isto é. todos eles serão o princípio. mas mais subtil que o ar). com exclusão de outros. devendo nós apenas salientar.332b vel que haja apenas três elementos. não existirá à parte dos contrários. Necessariamente pois. e se o infinito não é quente. então. fundado em Joachim. b) é contrário à experiência. é impossível por uma tríplice razão: a) seria uma alteração e não uma geração. por ex. e frio. VI. teoricamente. pois um contrário é privação do outro.25 porta qual dos elementos. é susceptível de tornar-se ar ou fogo se se lhe ajunta uma conjugação de contrários que caracterizam um e outro desses elementos.194 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 195 que a água). não é possí. nada de sensível ao menos existe anteriormente a esses elementos. as contrariedades devem ser ao menos em número de dois. que Ar. ou eles persistem sempre e são intransformáveis uns nos outros. Se. Como a mutação tem lugar necessariamente de contrário a contrário. pode aí haver seis. O argumento de Ar. fosse. duas conjugações são irrealizáveis. assim como surge com toda evidência: tal é. pois a matéria é simples intermediário entre os dois contrários. conseqüentemente. E já que 35 observamos que.. a contrariedade. não pode ser indeterminado. Tricot. já que é dado que certos elementos. pois o fogo é quente. é este o comentário de Tomás de Aquino. pois. pois. os elementos são mais de dois. indeterminado. tornarse-ia ar e fogo. quer todos sem excepção. o ar deve ter uma qualidade contrária a uma qualidade do fogo: seria. como Platão o descreveu no "Timen". o que é absurdo. o que observa tantas vezes Ar. que tem uma qualidade contrária. comenta o restante do tópico com estas palavras que convém citar: "Seja o ar que se muda cm fogo por simples alloiosis (alteração). Se. um ou outro dos elementos. seria pois o quente. já examinados nesta obra. Mas. que não os possuem. se se lhe ajuntasse uma conjugação de contrários. em razão de suas qualidades reciprocamente contrárias. eles devem ser quatro. Se tudo . e então o fogo será quente enquanto fogo. é o que foi demonstrado anteriormente. Esse suposto intermediário. que a mutação tem lugar para os contrários. IV — Este tópico é também e apenas uma reanálise dos pontos. na verdade. merecendo apenas uma explanação na parte final. quer alguns dentre èlcs. inevitavelmente esses elementos serão em número de dois. transformam-se reciprocamente mais depressa que outros. e o fogo seria ar quente. segundo a qual os elementos são transformados é uma em número. Ora. e o ar transformado em fogo. Ora. o número das conjugações. III — É claro este tópico.

digamos. a água será ou branca ou negra. Pois é preciso deter-sc bem. ser um princípio para os outros (quer o tomemos na extremidade ou no meio). S. haverá uma contrariedade atribuída a A e E. Se.se muda. transformados um no outro. Agora se quando A se muda em H. III. à maneira como supõem certos filósofos que o ai. branca. e a seguir seco. para o próprio fogo. por termos. negro. S figuraria a secura e H a umidade. sendo dada a transformação recíproca dos elementos. é o que iremos tornar evidente. IV. numa e noutra direcção. Esses pontos foram examinados acima. A se muda em E e H. pois todos os elementos seriam fogo ou terra. a água será negra. para todos os elementos. poderá haver aí mudança em água. Admitamos que esses contrários sejam a brancura e a negrura. Daí resultará que. poderia aí haver transfor5 10 15 20 25 .TEXTO DE ARISTÓTELES II — 6 I. senão um número infinito de contrariedades se aplicaria a um só elemento. Êssc elemento-princípio não poderia exislir também no meio. e a água. pertencerá a E. tanto em ar como em terra. II. Da mesma maneira. tanto em fogo como em água. o branco subsiste. Por sua vez. a secura. em linha recta. ao contrário. pois. Necessariamente. pois o fogo era. pois. e a água. a água será úmida e branca. Admitamos que ela seja branca. a um qualquer dentre eles. Um tal elemento não existiria nas extremidades. pois a mudança tem. mas se não subsiste. o fogo por E. pois H e E não são idênticos. o ar por A. Figuremos a terra por G e a água por H. a seguir. de início. pois. se A se muda em H. é impossível. É pois evidente que. haverá uma outra contrariedade A e H. e esse raciocínio tornaria a sustentar que todos são constituídos de fogo ou de terra. Seja a secura e a umidade essa segunda contrariedade. os contrários. Mas. pois possui as qualidades contrárias às da água. não sendo os elementos extremos. úmida. e não se pode ir até o infinito. e.

superior mesmo a todo número determinado. todas as contrariedades dos elementos acima de E devem pertencer àqueles que estão abaixo. não se transformam um no outro. permaneceria sempre fogo. e a terra em baixo e. Ademais. diferente de as que havíamos mencionado. mas ainda ao fogo. portanto. II --• Sintetizando o que pretende dizer Ar. de maneira que todos os elementos não serão mais que um. será atribuída ao fogo e a P.198 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 199 mação recíproca. Enfim. A. pois os elementos são infinitos. todos os elementos se tornarão num só. são somente a P. contudo. conteria também os dois símbolos restantes. R. P transformou-se em outro elemento. VI. por sua vez. com efeito. se transforma sem voltar atraz. propomo-nos de demonstrá-lo. como o fogo no alto. VIII. sua doutrina seria esta: o ar se transforma para o alto em fogo. o ar e a água. no primeiro caso. comentando este tópico. elementos extremos.. o que é manifestamente falso. e para baixo. E. no meio. elemento figurado. pois. como exemplificação do que já expôs Ar. com efeito. VII. como já o demonstrou mais adiante (II-5). O mesmo se daria se fosse a água. Se. para baixo. ao menos nos exemplos que tomamos. que daí resultará que. Se se quer. por sua vez. antes da digressão que acabamos de fazer. a saber o negro e o úmido. e a água. fossem princípios. se os intermediários são infinitos em número. é inevitável que o sejam. G. mostrar que é impossível a qualquer dos elementos ser princípio dos outros. II. com efeito. e. a terra. a terra e o fogo. III e VI fisles tópicos. para o alto. por P : uma nova contrariedade. se as contrariedades são em número infinito. Admitamos. o fogo. jamais a mutação se produzirá. Se tomarmos os elementos como extremidades. como dois extremos. E. a mutação circulai' e se encontrariam na necessidade de proceder até o infinito". que um elemento proceda de um outro. pois. desde que se aceite que há uma transformação recíproca. não haverá nem definição. mas. 35 333a 5 10 15 . por exemplo. é claro que. Ora. H. Que não seja possível ir ao infinito. neste tópico. A. a E. em face do que já foi examinado por Ar. e todas as coisas seriam fogo. se. acrescenta que há impossibilidade. nem geração de um elemento qualquer. figurado por E. supõe-se que não há identidade entre um qualquer dos quatro elementos. de qualquer maneira. em terra. pois êlcs se transformam uns nos outros.. em ar. e. P. E igualmente. facilitam a compreensão clara e fácil destes os tópicos. Negam. apesar das transformações. razão pela qual deixamos de reexpô-los. e eis o que o prova.. e os dos elementos abaixo. de maneira que se os elementos são em número infinito. por exemplo. Ademais a reexposição feita nas licções anteriores. pois não foram ainda conjugados. no sentido de certos elementos. G. não haverá até mutação do ar em fogo. cm terra. não oferecem dificuldades à compreensão do leitor. uma outra contrariedade será atribuída. Tomás de Aquino. Admitamos que a E pertença K. em qualquer outro elemento que os quatro. e que. Então K será atribuído a todos os quatro elementos G. V. alusão aqui. Reexposição comentada II — 6 30 I — Propõe-se agora Ar. mostrará que é evidente que tal transformação não se poderá dar. Se é assim. que esse último ponto não foi ainda demonstrado. e as análises que já procedemos. escreve Tricot: "Não se sabe a quais filósofos faz Ar. as contrariedades em número infinito serão atribuídas também a um só elemento. e a P. que o fogo e a terra. àqueles que estão acima. por outra parte. toda adicão de um novo elemento levará à atribuição de uma nova contrariedade aos precedentes elementos. De qualquer forma. será preciso atravessar uma tão grande quantidade de contrariedades.

Mas a analogia de uma coisa com uma outra significa. sejam comparáveis. a igualdade. proceder por analogia. se um cotilo d'água produz dez cotilos de ar. ou em outras palavras. que seja de um calor igual ou semelhante tal quantidade de fogo comparada com uma quantidade múltipla de ar. como quando se diz: da mesma forma que tal coisa é branca. Poder-se-ia também. não somente por analogia. a semelhança. Pois. e. mas enquanto possuem tal potência. II. a exemplo de Empédocles. haveria então algo de idêntico para um e para outro elemento. é necessário que alguma coisa idêntica pertença a todos os elementos comparáveis e sirva para medi-los. enquanto quantidade. em vez de comparar suas potências pela medida de suas qualidades. IV. De que maneira lhes é possivel sustentar que os elementos são comparáveis. Mas se se quer dizer que os elementos não são comparáveis na ordem da quantidade no sentido de que tal quantidade produziria tal quantidade da outra. colocados como intransformáveis. na quantidade. mas que são comparáveis no sentido em que estão em potência de actuar (por exemplo. Por exemplo. se se torna maior em . mesmo assim são comparáveis na ordem da quantidade. É assim manifestamente absurdo que os 30 corpos simples. se um cotilo de água possui um poder de resfriamento igual 25 ao de dez cotilos de ar). que.TEXTO DE ARISTÓTELES II — 7 I. III. na qualidade. mas por uma medida de suas potências. embora não o sejam. Causam surpreza aqueles filósofos. pois são medidos pela mesma unidade. professam a multiplicidade dos elementos dos corpos e ademais afirmam que esses elementos não se transformam reciprocamente. Se se quer dizer que eles são comparáveis 20 na ordem da quantidade. tal outra é quente. E contudo Empédocles exprime-se assim: "Pois esses elementos são todos iguais".

pois. a menos que a Amisade ou o Ódio não os ponha em movimento. VIII. não há absolutamente. segue-se que o movimento natural pode também produzir-se. Qual é. mais o Ódio que a Amisade que é sua causa. em geral também. mas pela Amisade. Mas tais crescimentos têm lugar por adição: ora. pois pode existir uma mistura fortuita. terá sua proporcionalidade aumentada.10 posta de elementos ou que seja um deles. o primeiro motor dos elementos e a causa de seu movimento? Não é. Não basta. quer constante. seria necessário ou bem definir. Mas. ao menos porém. e o ódio. E nesse sistema. os elementos são separados não pelo ódio. de separação.202 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES quantidade. que foi outrora sob o reino da Amisade. e é pois. Qual é. e não a proporção. Qual é. na realidade. Além disso. nem a Amisade nem o ódio. sendo da mesma espécie que a primeira vez. esse último movimento de que a Amisade é causa? Ou. no sistema de Empédocles. por natureza. então. pois. dizer que a Amisade 35 333b 5 10 e o Ódio movem. aumenta pelo fogo. com ou sem rigor. ou então ainda demonstrá-los. mas desce por constrangimento). enquanto é somente a mistura que Empédocles glorifica. É. ainda é isso que é a excelência de cada coisa e seu bem. de mover de tal outra. uma uniformidade quer absoluta. sob o reino do ódio. Ademais. não seria causa de nada? Ao contrário. de maneira que. a causa pela qual do homem vem o homem. Os seres. e é isso que constitui a natureza de cada coisa. assim como o reconhecia Empédocles. mas não é pelo Ódio que o éter foi levado para cima. se o primeiro motor deve ser um princípio do movimento em geral. com efeito. Seu fogo. separa bem as partes do Sphairos. essas são apenas causas de um movimento determinado. E é a fortuna que "nesses casos é o nome dado". a substância formal de cada coisa e não somente "uma mistura e uma troca do que foi misturado". Mas também não é a Amisade nem o ódio: a Amisade é somente uma causa de união. senão segundo a sua natureza (por exemplo. a não ser que tenha êle querido dizer que a essência da Amisade seja de mover de tal maneira. antes. ou de uma maneira qualquer. Mas é absurdo. a causa dessa composição proporcional? Não é certamente nem o fogo nem a terra. e a do ódio. que o que é natural é contrário ao que se faz por constrangimento. mas muitas vezes foi de outro modo"). "imerge sob a terra longas raízes". sendo dado que os corpos simples aparecem movidos. afirma que a ordem do mundo é a mesma agora. logo que Empédocles atribui seu movimento a uma causa semelhante à fortuna ("pois se notará que o éter estende-se assim. diz êle. E é muito mais difícil para êle dar conta da geração que se produz na natureza. "E a terra aumenta seu próprio gênero. Empédocles se expressa de maneira bastante absoluta. e o éter. a Amisade pareceria ser mais contrária à natureza que o Ódio. O ódio. Com efei- . ao contrário. com efeito. portanto. o movimento natural move a terra para baixo e assemelha-se à separação. e o que o é ainda mais é que no próprio sistema de Empédocles os elementos se movem manifestamente. enquanto as coisas que estão fora dessa uniformidade absoluta ou constante nascem do acaso e da fortuna. que são engendrados naturalmente mostram todos. Seu poema nada nos ensina "sobre a natureza". com efeito. VII. tanto pelo constrangimento e contrariamente à sua natureza. o fogo erguc-sc sem constrangimento. segundo a expressão de Empédocles. A causa em questão é. É estranho também que a alma seja com. quer sempre. então. E 5 simultaneamente. já que os elementos são. com efeito. e não uma oliveira. nem repouso. quer o mais das vezes. o trigo. VI. senão por adição. no que concerne ao movimento. V. ou bem considerar esses movimentos como hipóteses. Devemos dizer que se os elementos são compostos de tal maneira o osso nasce? Pois uma composição fortuita de elementos não engendra nada. em sua geração. nenhum movimento. o mesmo ar ou o mesmo fogo. 25 30 35 334 15 20 IX. com efeito. e do trigo. para os próprios corpos simples. natureza da qual Empédocles não diz nada. mas o éter. a causa da geração dos seres naturais é essa maneira de ser. Mas. parece bem que não é assim que crescem as coisas que crescem. e que o movimento forçado existe. Ao contrário. Assim pois. ora assegura que é a natureza do fogo que o leva para o alto. E contudo. X. com efeito. mas é preciso uma proporção determinada. Ainda mais: o crescimento não seria sequer possível. o éter". anteriores a Deus e que eles são também deuses.

daqui por diante. Calamos na igualdade. os quais supõem um primeiro motor do movimento em geral. em rodapé. e a proporção (logos. Mas seria preciso então adoptar. portanto. as determinações que lhe pertencerão serão somente as do fogo. da separação. enquanto fogo. é o intelecto para o espírito. uma atitude physikôs. Empédocles teria podido apenas falar de semelhança analógica. pois ela não é então quantitativa. se ela é um misto. de modo algum. Talvez quisesse significar que a Amisade e o Ódio são forças naturais. naquele livro. ao contrário. entre o ar e a água. se um cotylon dágua possui um poder de resfriamento igual a 10. considera a quantidade c a qualidade como categorias irreduetíveis. pois sempre se coloca contra toda providência que possa abrir a crise entre as categorias. as mutações. que acabamos de mencionar. por exemplo. que deve ser compreendido como êle o entende. . defini-las. não de igualdade. seguindo o pensamento aristotélico e sintetizando o comentário de Tomás de Aquino. dez cotilos te-lo-ão dez vezes mais. mas qualitativa (Tricot). nas lições seguintes. torna-se desnecessária a reexposição. tomamo-la no sentido da intensidade e da extensidade. Quando.. uma. III — No último período deste tópico. pois a intensidade é a uma predominância do qualitativo sobre o quantitativo. ora. Ora. considerar falsa a posição aristotélica. repousa na sentença de Empédocles. pelo perigo que acarreta de cair no abstractismo. A proporção será. compendiamos as notas de Tricot: Toda a argumentação de Ar. em nosso esquema da analogia. qualitativa. VII — Comenta aquele autor o fim deste tópico: "Empédocles não explica a natureza do movimento por seus dois princípios. como se produzirá a passagem do músico ao não-músico.204 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 205 to. nada mais são que causas segundas de movimentos particulares. mas dialècticamente identificados no ser. como dialècticamente já vimos. há uma igualdade de relações entre seres que pertencem a categorias diferentes. IX — E finalizando este tópico diz: "A Amisade e o ódio não são a causa da ordem do Universo. ou da memória para o esquecimento? Pois é evidente que se a alma é fogo. geradoras. ela só possuirá propriedades corpóreas. como o expomos na "Ontologia" e em outros trabalhos nossos. nenhuma delas é corpórea. enquanto a dialéctica. é mais concreta. citada no texto. responde Ar. ou supô-las ou demonstrá-la" (fisicamente). É preciso que se note que Ar. pois estas nunca excluem o que têm de extensivo. Dá-se este exemplo: o que é a visão para o corpo. que é mais formal. Comenlários ao texto II — 7 I — Depois de esclarecidos os pontos principais desta obra de Aristóteles. Neste caso. ratio) não será igual. a igualdade não se concebe senão na ordem quantitativa. como terão elas lugar? Por exemplo. para melhor esclarecimento. as alterações que se manifestam na alma. da união. Prosseguindo. segundo o qual os elementos são iguais. Nós aceitamos a irreduetibilidade antinômica. sobre a existência e a natureza do qual Empédocles não explica". como a extensidade é uma predominância do quantitativo sobre o qualitativo. Anota ainda Tricot. outra. que "as diferenças qualitativas entre o fogo e o ar não poderão entrar em linha de conta na analogia: só se podem comparar quantidades da mesma espécie. mais elevada. podemos salientar a nota de Tricot: Neste caso poderia haver aí transformação recíproca o que é contrário ao sistema de Empédocles. pode-se falar numa igualdade quando se comparam intensidades. por nós preconisada. pondo-as. no fim deste tópico. Nas espécies a comparação por analogia preserva a irreduetibilidade dos elementos.. IV a VI — Após a linha 25. sem que tal posição queira. o que aliás está mais consentâneo com o pensamento da física actual. mas maior. pois a primeira não exclui a segunda. passando nós a apenas compendiar as mais importantes notas dos famosos comentadores. Neste caso os elementos seriam transmutáveis. neste particular. referindo-nos sempre ao número do texto. Na analogia. encontramos o emprego do termo analogia por Ar.

20 guinte paradoxo: como. Ao contrário. sobrevirão as carnes. estão na necessidade. também a maneira pela qual a carne e cada uma das outras homeomérias procederão dos elementos. por outro lado. de uma pluralidade de elementos. e também a moela. por um lado. que admitem. com efeito. A questão que acabamos de colocar constitui uma dificuldade. mas com suas partículas justapostas umas às 30 outras. que professam uma teoria como a de Empédocles. se aceitam uma ou outra dessas teses. Tal será. aqueles que rejeitam a geração recíproca dos elementos. exceto no sentido em que os tijolos vêm de um muro. Voltemos aos elementos que constituem os corpos. sem dúvida. alguma coisa de comum a todos os elementos. dela procede. em outras palavras. sendo estes conservados. (1) II. são os pitagóricos e inclusive o próprio Aristóteles. portanto. Daí resulta que qualquer parte da carne não poderá dar nascimento ao (1) Esses filósofos. até para os filósofos que admitem a geração recíproca dos elementos: de que maneira procede desses elementos alguma outra coisa distinta deles? Tomo um exemplo: é possível que do fogo venha a água. qual será o modo de geração? Será necessariamente para eles uma composição à maneira como é formado de tijolos e pedras um muro. sua transformação recíproca. e.TEXTO DE ARISTÓTELES II — 8 I. e da água. estão na presença do se. por um lado. o fogo (pois seu substracto é alguma coisa de comum a ura e outro). Mas o exame dessas dificuldades é obra de 15 uma investigação diferente. Como então se faz a sua geração? III. a geração de um elemento a partir de um outro elemento tomado individualmente. . de receber logicamente a outra. Os filósofos que admitem. os ossos e qualquer outras homeomérias. E a mistura de que falam será constituída pelos elementos.. alguma coisa de comum a todos os elementos.. Para os filósofos. 25 Mas a carne também.

208 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 209 fogo e à água. ao menos para cada uma das duas figuras. nesse meio. A terra e a água estão. do frio e do quente. os ossos e as o u t r a s h o m e o m é r i a s . Se a carne. mas seria possivel. cada um provindo de um lugar e de uma parte diferente. ou segundo uma outra proporção da mesma natureza. em acto. E quando a geração se efectua dessa ú l t i m a m a n e i r a . quando. de tal pedaço de cera pode muito bem provir uma esfera. ou do fogo e da terra. que professam a teoria em questão. esta se desagregaria. n ã o h á n e m frio n e m quente. de toda parte qualquer de carne. VIII. embora diferentes. única entre os corpos simples. e se ela não é ademais uma composição desses elementos. no mesmo tópico. mas um intermediário. que seriam conservados. porque cada corpo simples é particularmente e o mais abundantemente em seu lugar próprio. e m p r i m e i r o lugar. mas da maneira que indicamos. um quente relativo e um seco relativo. são constituídos de todos os corpos simples. é m a t é r i a . não será nem sua matéria. enquanto que o que é engendrado doutra m a n e i r a . Não seria esta a solução? Pois já que há o mais e o menos no quente e no frio. contidas nos compostos por essas diversas razões. p r o v i r ã o dos contrários. os contrários t a m b é m sofrem. conforme fôr em potência mais quente que frio ou vice-versa. os elementos são t r a n s f o r m a d o s . ou antes dos elem e n t o s e n q u a n t o f o r a m c o m b i n a d o s . Assim todos os corpos. deste modo. A m é d i a . é pelo facto de uma parte. mas. e a água ao fogo. segundo a definição disjuntiva estabelecida n a p r i m e i r a p a r t e deste t r a b a l h o . o seco e o ú m i d o . 20 25 30 10 15 (2) Tricot comenta o final deste tópico: "Os constituintes das homeomérias são corpos simples enquanto quente. E já que a geração dos compostos tem por ponto de partida os contrários. que é preciso um limite definido ao composto e que. e. Esses intermediários diferem nas diferentes homeomérias. são e n g e n d r a d a s as carnes. encontra-se contida em todos os compostos. pois o q u e n te em acto é frio em potência. n ã o à m a n e i r a da matéria. e as q u a l i d a d e s desta n a t u r e za. ao contrário. e uma pirâmide. pois. (2) 35 334b 5 V I . q u e n t e em potência. eles se t r a n s f o r m a m u m n o outro (e o m e s m o se dá com os outros c o n t r á r i o s ) . que restaria de outro senão identificar o que procede desses dois elementos com sua matéria? Pois a corrupção de um dos dois elementos produz ou o outro ou a matéria? V. IV. com efeito. por outro lado. então o que resultará de ambos contrarios. a m e n o s de ser e m iguais. com efeito. pois se a água fosse completamente eliminada da terra. os ossos e o u t r a s h o m e o m é r i a s dessa espécie. vêm o fogo e a água. sendo a terra contrária ao ar. e o frio relativamente quente (pois sua mistura destrói os excessos recíprocos de frio e de quente). no sentido 5 em que é possível que uma substância seja contrária de outra substância. portanto. mas que o quente é relativamente frio. é 35 ela facilmente delimitável. mesmo aqueles para quem é única a matéria dos elementos. VII. por exemplo. experimentam um certo embaraço em explicar como alguma coisa pode provir da soma de dois elementos. e o frio em acto. o úmido é o que a torna contínua. Igualmente. q u e n t e . porque são definidos nos termos da proporção (positiva ou negativa) de sua potência de aquecer a sua potência de resfriar". é de g r a n d e extensão n ã o indivisível. a p a r tir dos elementos. enquanto que. de tal outro. Os filósofos. E esse intermediário. I g u a l m e n t e t a m b é m . nem um nem outro deles. A terra. sendo úmida. e n q u a n t o esses existem em potência de u m a certa m a n e i r a . que a terra. e que . em segundo lugar. provir indiferentemente de um e de outro pedaço de cera: tal é o modo de geração. não tem nenhuma potência de 335a coesão. e essas qualidades elementares formam por sua acção e sua paixão recíprocas. e os elementos p r o v i r ã o dos contrários. o outro existirá em potência. e o frio. Além disso. é u m a mistura. é constituída por esses dois elementos e não é nem um nem outro. mas quando nem um nem outro existe na plena totalidade de seu ser. são contudo comparáveis. Todos os corpos mistos. quando um existe absolutamente. É da mesma maneira para o ar e para o fogo. de m a n e i r a que. É dessa m a n e i r a e n t ã o que. terá uma potência de esquentar dupla ou tripla de seu poder de resfriar. seco e úmido. o q u e n t e vindo a tomar-se frio. e n q u a n t o l e v a d a s à m é d i a p r o d u z e m as carnes. eles a concebem somente à maneira de que uma pedra ou um tijolo provêm do muro. Este comentário é uma síntese do realizado por Tomás de Aquino. todos aqueles que estão no lugar do corpo central. para a água. porque são contrários da terra e da água. e que. acham-se na impossibilidade de conceber a geração deste modo. contudo. outros que os elem e n t o s . e. frio. tomados em sua enteléquia de uma maneira absoluta. contudo. q u a n d o for a m r e d u z i d o s a u m a m é d i a .

como as plantas pela água. Daí resulta necessariamente que há geração e corrupção para o que pode ao mesmo tempo ser e não ser. Da mesma maneira. necessariamente não existem. É que o fogo. de ser e de não ser). Dai resulta que. o fogo é o único a alimentar a si mesmo. e ora não é. há um princípio como matéria. (4) Refere-se à matéria. necessariamente existem. (2) II. (2) A gênesis como tal é um universal (katholon). com diferentes tipos de genetá que são as formas específicas. as quais são melhor compreendidos quando é compreendido o universal. com toda necessidade contêm t a m b é m a outra. o mundo dos ourania sòmata. alimentam-se. sozinho ou principalmente. indiferentemente para qualquer geração. Assim esses princípios são iguais em número e idênticos pelos gêneros. Todos os compostos. pois ora é. já que todo corpo simples vem de outro. E toda 20 coisa tende naturalmente a colocar-se em seu lugar próprio. em favor de nossa teo. desde então. pois a terra foi misturada com a água. como nossos predecessores o reconheceram igualmente. de diversas. é o que se acaba de explicar. pois nos será assim mais fácil compreender as espécies particulares. TEXTO DE ARISTÓTELES II — 9 I. Agora. aos princípios das realidades eternas e primordiais. também. pelo facto de elas não poderem se 335b afastar da necessidade da sua natureza. (4) 5 E eis por que. A alimentação de cada um dos compostos testemunha também. e muito menos ainda as realidades eternas.210 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES todos os compostos contêm u m a das d u a s conjugações e x t r e m a s de contrários. como as realidades eternas. enquanto outras. Já que o alimento sobrevém da matéria e que o que é alimentado. existem outras coisas. capazes. que. (3) pois os dois primeiros não são suficientes para explicar a geração. compreender por que. e é 30 preciso acrescentar um terceiro. Com efeito. a causa dos seres generáveis é o que pode ao mesmo tempo ser e não ser (certas coisas. que deve.35 sas. como receptáculo dos contrários. Ao contrário. mas para todas as coisas. surge da forma pelo facto que tende naturalmente a pôr-se no limite. parece. todos os corpos compostos sejam constituídos de todos os corpos simples. 15 X. uma vez que estamos de posse de uma teoria universal. em todo composto. (3) Refere-se à causa eficiente. (1) devemos explicar. E para essas duas espécies de coi. é a figura e a forma na matéria. Tal é ademais a razão pela qual os agricultores se esforçam de não regar senão depois de ter misturado a água. é e não é. IX. e todos se alimentam de diversas substâncias. os seres que se poderiam julgar alimentados por uma só substância.10 iia. todos os corpos simples estão contidos. por sua vez. a qual explica a geração dos corpos. Que. e impossível às segundas ser. alimentam-se de substâncias idênticas aos seus elementos constitutivos. é fácil. tal é a (1) Refere-se ao mundo sub-lunar. estar presente. portanto. . pois se realiza apenas num dos contrários. com efeito. o número e a natureza de seus princípios. é impossível às primeiras não ser. no sentido da causa material. um outro como forma. a figura e a forma consistem nos limites. com efeito. no sentido da causa material. na verdade. Já que existem seres generáveis e corruptíveis e que a geração se encontra de facto na região 25 central do Universo. o que é a marca essencial do gera vel e do corruptível.

é a partir desses contrários. o sábio. V. com efeito. enquanto mover e actuar surgem de outra potência. Bem ao contrário.) To ti en einai é o que dá o ser a alguma coisa (quod quid erat esse) quer dizer. que os seres são. nenhuma dessa duas teorias é fundada. conferem aos corpos simples as potências por 336a meio das quais se opera a geração. sintetiza-os Tricot com esta nota: "Sobre a importância da forma e da quididade. A saúde. as Formas (eidê). Em suma. em sua doutrina. 8. no sentido de causa final. a teoria desses filósofos não é. a qual é a definição. enquanto tal. embora a Saúde-em-si e a Ciência-em-si existam. Os filósofos. deve-se ver os numerosos textos da Metafísica. fazendo abstracção da causa formal. Sócrates. e não é tampouco a madeira que faz um leito. Este esquecimento. é a quididade (quiãditas). A matéria é dynamis em sentido passivo. A matéria de per si não se move à geração. Por outra parte. outros filósofos dizem que esse princípio é a matéria. explica Tomás de Aquino (De ente et Essentia. viram-se obrigados a dar aos elementos^ o papel prepodenrante. Contudo essa segunda teoria não é tampouco justa. e a ciência. VII. uns julgavam suficiente. é o médico que a realiza. (6) Não provém o movimento da matéria. é sua figura e sua forma. 1). fundada. A causa alterante e modificadora da figura é mais verdadeiramente causa para engendrar. se diz que é ela engendrada enquanto participa da Forma. Ao contrário. tanto para as coisas que procedem da arte como para aquelas que procedem da natureza. mas que nenhum o estabeleceu. e as coisas participáveis. hoc per quod aliquid habet esse quid (o algo pelo qual tem ser o quid). a natureza das Formas. Daí re. IV.212 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 2I:Í causa das coisas geráveis. dizer que a matéria é a causa geratriz em razão de seu movimento. (7) Compendiando os comentários de Bonitz. to ti en enai tem pois menos extensão que to ti esti.30 frer e ser movida. que rião consideraram a forma. parece que até o fogo ao ser movido. porque não engendram sempre e de uma maneira contínua. e da do frio reunir. é da natureza do quente separar. ao contrário. que expressa a substância de cada uma delas. pois que rejeitam a quididade e a forma. Ademais. III. se essas doutrinas são verdadeiras. de um ser individual e concreto. as Formas são causas. que explicam a geração e a corrupção do restante. é passiva. (VI. pois é dela que procede o movimento. e de cada uma permanece contrário 5 ou actuar ou sofrer. é da natureza da matéria so. porque a forma é anterior ao composto. outros seres naturais e nos produtos da arte. o conjunto de seus atributos essenciais. que é o gênero. no pensamento de Sócrates. é a definição total da coisa. 10 assim como procede Sócrates no " Phedon" . depois de ter reprovado aos outros filósofos de não terem contribuído com nenhuma explicação.15 sulta. sofre uma ação. porque a matéria. cap. por oulra parte. eles erraram também por 35 negligenciar uma causa mais fundamental. erram. Contudo. Com efeito. tanto quanto os seres que delas participam. E anota ainda: O perfeito en se explica. como causa da geração. pois é aquele que faz nascer a coisa. e por sua acção. em vez de fazê-lo em certos momentos e não em outros. por sua vez. (7) X. O mesmo se dá também com todas as outras coisas que são produzidas segundo uma potência. VIII. . é a arte (tékhne). e que perece quando ela a perde. a forma. o que faz nascer o movimento. IX. ao exagerar-lhes o papel de instrumentos. aquele que todos os nossos predeccssorcs entreviram como em sonho. de uma parte. por essa razão. (8) Dado. com efeito. (5) e em toda parte estamos habituados a olhar como causa produtora. É imprescindível uma causa eficiente. as coisas que participam das Formas. explica-nos o por que dos erros de suas doutrinas. a natureza (natura) da coisa. etc. Pois não é água em si mesmo que dela produz um animal. Se. mas com essa diferença que ela é quididade de um iode ti. percebemos que a causa é outra que a Forma. que. seria sem 25 dúvida mais adequado ao real que a teoria precedentemente criticada. que as Formas. indiferentemente em (5) É mais importante o movimento que as Formas para a ge ração. E os que afirmam o contrário. pois. Na realidade. são necessariamente causa da geração e da corrupção. em alguns casos. com efeito. A quididade aproxima-se do universal (katholon). Mas é preciso além disso a presença do terceiro princípio. supõe. eternas também? 20 VI. com efeito. Assim. Outrossim. por parte de tais filósofos. (8) É a forma o principal factor da geração. enquanto de uma coisa se diz que existe em virtude da Forma. (6) Isso é evidente. já que as Formas são eternas. da qual os corpos simples ou elementos são apenas instrumentos. enquanto o katholon é a unidade de uma multiplicidade qualquer. e que.

IV. Além disso. procedem mais ou menos como se assinalássemos à serra. 3 — 9. esse seria. já que mostramos que o movimento 15 de transladação é eterno. e não uma única causa. (2) e o engendrado não é. e quando a aplainamos torna-se lisa. E já que foi suposta e provada a continuidade nas coisas. e a cada um dos instrumentos do carpinteiro.30 (1) Na "Física". por serem exigem causas diversas. e o mesmo se observa quanto a todos os outros instrumentos. chamamos a primeira espécie de mudança. transladação e não geração. eis por que também a transladação é anterior à geração. Mas é preciso que os movimentos sejam múltiplos. ora a geração. expõe Aristóteles a sua causas que já sintetizamos. a transladação eterna produzirá a geração de uma maneira ininterrupta. da geração e da corrupção. a um e a outro processo ao mesmo tempo de se efectuar. a madeira. num trabalho anterior. ora a corrupção que se produziria sempre.214 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES XI. (3) Refere-se à geração e à corrupção que. até quando fosse verdadeiro que o fogo actua e move. produz sempre o mesmo efeito. na maneira como move. apresentamos uma teoria geral das causas num trabalho precedente. e é transportado. porque ela faz o gerador aproximar-se e afastar-se alternativamente. por ser imperfeito e do seu princípio. e tam. a causa das coisas produzidas. ela se divide. e agora acabamos de explicar nosso pensamento sobre a matéria e a forma. o transportado é. pois que são contrários (3). Ora. quando. pois. quando a cortamos. que para o não-ser ser a causa da geração do Ser. (2) Todo movimento é o movimento de um corpo. . com efeito. permanecendo no mesmo estado. muito mais racional para o 20 Ser ser a causa da geração do não-ser. e que 25 professamos que a transladação é a causa do devir. Ao mesmo tempo. II. (1) Ademais. No que concerne à nossa própria tese. teoria das esse é que a caminho contrárias. pois. de maneira que. Com efeito. não é possível. É. surge daí necessariamente do que já estabelecemos que a geração é também contínua. contudo. é claro que tínhamos razão. é manifesto que. III. Conseqüentemente. necessariamente. a mesma causa. por natureza. de um único movimento. O engendrado não é. II. se a transladação é uma. esses filósofos não se apercebem que é ainda inferior aos instrumentos. 10 TEXTO DE ARISTÓTELES II — 10 I.

e movido com uma dualidade do movimento. Sempre. mas devido à sua inclinação sobre a eclíptica. mas também uma dualidade de movimento. A observação sensível está. Atribui ao movimento de transladação a causa da geração. Com efeito. em razão da implicação recíproca das coisas que são engendradas e das que perecem. pois efeitos contrários têm contrários como causas. há uma ordem. que é o período que serve de medida. a natureza tende sempre para o melhor. ao longo da eclíptica. para impedir que uma das duas mudanças se produza sozinha. realiza. a geração e a corrupção serão contínuas. um tempo 15 mais curto. no entanto. outras demasiadamente lentas. (6) Deus. mas o movimento do Sol. VIII. contrários ao da transladação e possivelmente de velocidade irregular. e que uma e outra se passam num tempo igual. ora se aproxime. já o explicamos em outra parte) mas o ser (7) não pode pertencer a todas as coisas por que elas estão muito afastadas do seu Princípio. enfim. necessariamente suas gerações também são irregulares. no que se refere à vegetação. pois assim o encadeamento mais rigoroso possível seria assegurado à existência. para outras mais longo. a continuidade desse movimento tem por causa a transladação de todo o Céu. mas múltiplo. pois os efeitos contrários tem contrários por causas. êle é mais curto. não são medidas pelo mesmo período. e a corrupção como a geração naturais sucedem num tempo 10 igual. pois são iguais as durações da corrupção e da geração naturais. para evitar um desfalecimento dessas mudanças. VII. sentidos múltiplos. pois essa inclinação impele como conseqüência que o corpo. De forma que se êle engendra por sua aproximação e sua proximidade. pois nesse movimento. e a cor- rupção. ora se afaste. para umas. a transladação circular. por seu afastamento e sua retirada. e nunca elas faltam. e. Assim a renovação na primavera e no verão e o declínio no outono e no inverno. é um ano. A causa dessa perpetuidade da geração. não somente a continui. seriam a causa da geração ou da corrupção. todas as coisas. (5) Refere-se à causa material. (7) Ser absoluto. pelo facto de que o que mais se aproxima do ser eterno é que a própria geração sempre se refaça. Os organismos são engendrados e conhecem a maturidade por uma série de aproximações sucessivas do sol e distinguem-se por uma série de afastamentos. do sol. se ao menos se quer que haja sempre continuidade na geração e 336b na corrupção. estão contidos. Sua matéria. Tais movimentos parciais. umas demasiadamente rápidas. sem dúvida. sucede muitas vezes que os seres perecem num tempo mais curto. sendo desigual a sua 5 distância. V. (5) E essa continuidade é racionalmente justificada. (4) seu afastamento. para outras um tempo mais longo. (Reconhecemos. Eis por que todas as 20 25 30 35 337a (4) Expõe até aqui Aristóteles a suas idéias cosmológicas sobre o movimento dos planetas. Assim vemos que a geração acompanha a aproximação do sol. Ora. Em razão da alternância da gênesis e da phtorá. é. ao longo da Eclíptica. Eis por que também as durações e as vidas das diferentes espécies de seres vivos têm um número. quer pelo sentido de sua transladação. É necessário. movimentos parciais. como dissemos muitas vezes. acima de tudo. pois. como dissemos. de acordo com nossas teorias. dizemos. E tal é a razão pela qual não é a primeira transladação que é causa da geração e da corrupção. (8) Também é de outra maneira que Deus realizou a perfeição do Universo: foi fazendo a geração ininterrupta. pois só ela é contínua. (8) Deus. e toda vida e toda duração é medida por um período. com efeito. com efeito. em todas as coisas. para outras. também sucessivos. em razão da causa que estabelecemos. Contudo. O movimento do sol. é um movimento circular. quer por sua irregularidade.35 dade indispensável. e se êle engendra por numerosas aproximações sucessivas. (6) e é melhor ser do que não ser. o movimento não pode ser único. no ser. que haja um corpo sempre movido. . e à eternidade desse movimento a causa da perpetuidade da geração. número pelo qual nós os distinguimos. VI. corrompe também por numerosos afastamentos sucessivos. para ainda outras.216 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 217 bém contrários. pelo facto que a geração irregular dessas coisas é a corrupção das outras. para todas as coisas. seu movimento será irregular. daí resulta o que acabamos de dizer. mas o movimento de aproximação e de afastamento de tal corpo tem por causa a inclinação da Eclíptica. esse mesmo corpo corrompe. sendo irregular e não sendo em toda parte a mesma.

corpos 30 contínuos em movimento. Mas. ingenerável e inalterável. o que é movido circularmente é somente contínuo. não estão. enfim. que o movimento seja eterno. imóvil. portanto. sendo o tempo contínuo.2. . assim co(9) Passando pelo ar. se se quer que seja contínuo. graças à transladação visualizada em sua dualidade. 15 20 (10) O tempo é um número do movimento. reciprocamente. se se quer. por isso é o número do movimento. o lugar ou a qualidade? É claro que é em razão da continuidade do móvel. geração e corrupção. estar subordinadas a um princípio único. e. deve haver aí alguma causa motriz eterna. se se quer que haja movimento. e seu movimento torna o tempo contínuo. A causa está em sua transformação recíproca. em virtude de suas afeições e suas potências. Se. eis que resulta manifestamente do que dissemos. Mas há necessariamente alguma causa motriz. (10) X. tal é verdadeiro somente do lugar que o contém. Ao mesmo tempo essas considerações esclarecem um problema que embaraça a alguns filósofos. suas causa devem ser múltiplas. imitam a transladação circular. numerus numerans (ô arithmoumen). um número de algum movimento contínuo. 5 10 mo nós o determinamos em nossas discussões no ini. IX. E esta transformação faz que nenhum dentre eles possa permanecer em nenhum dos lugares que lhe foram assinalados. na infinidade do tempo. uns dos outros. Daí resulta também que a transladação rectilínea não é contínua senão por imitação do movimento circular. pois êle possui uma certa grandeza. Mas como número é um numerus numeratus (to arithmoménon) e não um número numerante. No tempo. por conseqüência. a saber porque os corpos simples. é. há sempre um antes e um depois. pois. e que o fogo se muda por sua vez em água. mas todas devem. quando a água se muda em ar. umas em outras. e qual é o sujeito engedrado e corrompido. uma causa uma e idêntica. sem dúvida. (9) dizemos que a geração fechou o ciclo. a qualidade poderia ser contínua de outra maneira que não fosse pela continuidade da coisa à qual ela pertence? E se a continuidade do movimento se explica pela continuidade do em que o movimento se produz. Como.5 cio. o ar em fogo. Nas análises que fizemos até aqui já esclarecemos esses conceitos. por outra parte. Sua transformação faz-se. pois é impossível que o tempo esteja separado do movimento. afastados. Além disso. um "pathos" do movimento. assim. por qual causa. tais como os corpos simples. Com efeito.218 ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES ARISTÓTELES E AS MUTAÇÕES 21!) outras coisas que se transformam. um movimento é necessariamente contínuo. Mas o movimento será contínuo em razão da continuidade do modo ou então da continuidade do em que o movimento se produz. assim como explicamos anteriormente em outras obras. porque ela retorna ao seu ponto de partida. quero dizer. Tal é pois o que produz o movimento contínuo: é o corpo transportado circularmente. com efeito cada um deles permanecesse em seu lugar próprio e não se transformasse sob a ação do elemento vizinho. do movimento circular. de qualquer maneira. sendo dado que cada um deles se coloca em seu lugar próprio. há muito tempo ter-se-iam afastado um do outro. se os movimentos circulares são múltiplos. O tempo. de tal forma que êle permanece consigo mesmo sempre contínuo. Que haja. com efeito.

TEXTO DE ARISTÓTELES II — 11
I. Já que nas coisas que se movem de maneira contínua na ordem da geração, ou da alteração, ou da mudança em geral, vemos que há continuidade, e que tal engendrado venha após tal outro, sem deixar intervalos, convém examinar se um qualquer dos termos da série será necessariamente, ou se não é nada, bem como se todos podem não ser engendrados. II. Pois, que alguns tenham essa possibilidade, é evidente, e imediatamente se vê que há diferença entre o "será" (to estai) e o "devendo ser" (to mellou). Se é verdade, com efeito, dizer de tal coisa que ela será, deve, num dado momento, também ser verdadeiro que ela é; enquanto que, se é verdadeiro dizer dessa coisa agora que ela sucederá, nada impede que ela não se produza: pois quem deve caminhar poderia contudo não caminhar. III. E, por outra parte, de uma maneira geral, já que certas coisas que são, são também capazes de não ser, é evidente que assim será igualmente para elas, quando elas são engendradas; em outras palavras, sua geração não será necessária. Será pois que todas as coisas são assim contingentes? IV. Ou, ao contrário, não é tal, mas é absolutamente necessário, para certas coisas, serem engendradas, e, da mesma forma que, no domínio do ser, distingue-se o que não pode não ser e o que pode não ser, deve-se também fazer uma distinção da mesma natureza no domínio da geração? Por exemplo, é necessário que os solstícios se produzam e não será possível que eles não se produzam? V. Entretanto, devemos admitir que o antecedente foi necessariamente produzido, se se quer que o conseqüente exista. Por exemplo, se é uma casa, alicerces, e se são alicerces, a argamassa. Será pois inversamente que, se os alicerces estão feitos, a pro35 337b

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dução da casa é necessária? Ou então não haverá nada, (1) a menos que o conseqüente também não se tenha produzido, em virtude de uma necessidade absoluta. (2) Se é assim, é necessário igualmente que, sendo feitos os alicerces, a casa seja produzida, pois o antecedente está, dissemos, com o conseqüente numa relação tal que, se se quer que esse último seja, necessariamente o primeiro é produzido antes. Se, portanto, é necessário que o conseqüente seja produzido, o antecedente também deve necessária- 20 mente ter sido; e se o antecedente foi produzido, o conseqüente também é produzido necessariamente, não contudo por causa do antecedente, mas porque, por hipótese, êle iria ser produzido necessariamente. Nos casos, pois, em que o conseqüente existe necessariamente, há conversão dos termos, e sempre a produção do antecedente leva à produção do conseqüente.

TEXTO DE ARISTÓTELES II — 12
I. Se agora, há processo ao infinito em decen- 25 so (1) não haverá para tal termo posterior ao presente, producção em virtude de uma necessidade absoluta: essa necessidade será apenas hipotética. II. Será, com efeito, indefinidamente necessário que um outro termo seja produzido antes desse conseqüente determniado, para fundar a necessidade da geração desse último. Daí resulta que, já que não há ponto de partida para o que é infinito, não haverá também nenhum termo primeiro para fundar a necessidade da produção dos outros termos. III. Mas, até no que concerne aos termos de 30 uma série finita, não será possível dizer com verdade que um desses termos é produzido de uma maneira absolutamente necessária; por ex.: a casa, quando estão feitos os alicerces. Com efeito, quando eles estão feitos, a menos que não haja necessidade eterna para a casa ser produzida, a conseqüência seria que sempre existe uma coisa que pode não ser sempre. Na realidade, é preciso que a coisa esteja sempre em sua geração, se sua geração é necessà- 35 riamente. (2)
(1) Na direção do futuro, há naturalmente efeitos ad infinitum. Aristóteles visualiza-os, de início, numa sucessão retílinea infinita. Estabelece que cada conseqüente desta série, é necessário somente ex hypotheseos, em outras palavras, é condicionado pela chegada do termo imediatamente subseqüente (e não do termo precedente). Por ex.: na ordem cronológica, os termos A, B, C, D , . . . Z. Suponhamos A o momento presente, e Z situado no infinito, a chegada de C, por ex., será condicionada pela de D, a de D, pela de E, etc. Não há, pois, uma necessidade absoluta. Aristóteles chama a atenção que o "termo primeiro" (Z, no nosso ex.), que comandaria a existência dos termos precedentes a título de fim, não pode existir, porque, numa série infinita, não há termo primeiro. (Tricot) (2) Assim como o ser necessário é eterno, uma geração necessária é também eterna. Nesse caso, a coisa estaria sempre em geração, o que é absurdo quanto à casa. A geração necessária é a geração simpliciter, que estudamos no princípio.

(1) Em outras palavras, não há reciprocidade. O conseqüente não é necessário por relação ao antecedente posto, e o antecedente não é necessário, senão ex hypotheseos, quando sa colocou a existência do conseqüente. (Tricot). (2) Se o conseqüente é absolutamente necessário, êle leva por isso mesmo à aceitação necessária do antecedente, pois não pode produzir-se ex nihilo. Há então reciprocidade entre a produção do conseqüente e a do antecedente.

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IV. Pois o que é necessariamente é também, ao mesmo tempo, o que é sempre, pois o que é necessário não pode ser. Daí resulta que, se uma coisa existe necessariamente, ela é eterna, e se ela é eterna, ela existe necessariamente. E, por conseqüência, se a geração de uma coisa é necessária, sua geração é eterna, e se ela é eterna, ela é necessária. V. Se, pois, a geração de alguma coisa é absolutamente necessária, necessariamente é ela circular e retorna ao seu ponto de partida. VI. Necessariamente, com efeito, ou há um limite para a geração ou não há, e se não há, a geração é ou retilínea ou circular. Nesta última alternativa, se se quer que a geração seja eterna, não é possível que ela seja retilínea, em razão do facto de não poder haver aí nenhum ponto de partida (que os termos sejam tomados em descenso, quer dizer, como acontecimentos futuros, ou em ascensão como acontecimentos passados). Contudo, a geração deve ter um princípio se se quer que ela seja necessária, e conseqüentemente eterna, e se ela é limitada, ela não pode ser eterna. VII. Em conseqüência, a geração é necessariamente circular. Conseqüentemente, haverá necessariamente conversão: por ex.: se tal coisa é necessária, seu antecedente também é, portanto, necessário e, inversamente, se o antecedente é necessário, o conseqüente também se produz. E esse encadeamento recíproco será eternamente contínuo, pois não importa absolutamente que raciocinemos através de dois ou diversos termos. VIII. É, pois, no movimento e nas gerações circulares que se encontra a necessidade absoluta. Noutras palavras, se a geração de certas coisas é circular, é necessariamente que cada uma delas seja engendrada e foi engendrada, e se há necessidade, sua geração é circular. Esses resultados concordam logicamente com a eternidade do movimento circular, quer dizer, com o movimento do Céu (facto que, além disso, é evidente de uma outra maneira), pois esses movimentos, que pertencem a essa revolução eterna e que dela dependem, são produzidos necessariamente e necessariamente existirão. Se, com efeito, o corpo movido circularmente move sempre alguma coisa, é necessário que o movimento das coisas que move seja também circular.

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IV. É assim que da existência da transladação superior, segue-se que o Sol é movido circularmente de maneira determinada, e já que o Sol cumpre, assim, sua revolução, as estações, por essa razão, têm uma geração circular e retornam sobre si mesmas; e já que elas têm uma geração circular, dá-se o mesmo, por sua vez, para as coisas que dela dependem. 5 X. Por que então certas coisas são manifestamente engendradas dessa maneira circular, (tais como as chuvas e o ar, de tal forma que, se há uma nuvem, deve chover, e, inversamente, se chove deve haver uma nuvem), enquanto que os homens e os animais não retornam, por assim dizer, sobre si mesmos, nesse sentido que o mesmo indivíduo seria engendrado de novo? Com efeito, não é necessário, se teu pai foi engendrado, que tu sejas engendrado, 10 embora, se tu fosses engendrado, teu pai deve também tê-lo sido. Ao contrario, essa última geração parece ser retilínea. O princípio dessa nova busca, deve ser o seguinte: será de uma maneira semelhante que todos os seres retornam ao seu ponto de partida? Ou então não é nada disso, mas ao contrário, não se trata, ora de uma identidade numérica, ora de uma simples identidade específica? Então para as coisas, cuja substância, a que é movida, é incor- 15 ruptível, (3) é evidente que elas serão idênticas também em número (pois o movimento é correlativo ao movido) (4); ao contrário, para aquelas cuja substância não é incorruptível, mas corruptível, necessariamente seu retorno sobre si mesmas conservará a identidade específica, não, porém, a identidade numérica. Eis porque a água, que vem do ar, e o ar, da água, são idênticos especificamente e não numericamente; e mesmo que esses elementos também fossem idênticos em número, (5) de toda maneira não seriam nada para as coisas, cuja substância é engendrada, e que é de uma natureza tal que ela está em potência de não-ser.

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(3) Refere-se aos corpos celestes. A sua substância pertence ao indivíduo único de uma espécie. (4) J á vimos que o movimento é um "pathos" do corpo movidoe o seu caracter é determinado pelo caracter do móvel. (5) Esta é a opinião de Empédócles.

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