BARTHES, Roland. Mitologias. SP: DIFEL, 1985 Naturalmente, não é uma fala qualquer.

São necessárias condições especiais para que a linguagem se transforme em mito, vê-lo-emos em breve. Mas o que deve se estabelecer solidamente desde o início é que o mito é um sistema de comunicação, é uma mensagem. Eis por que não poderia ser um objeto, um conceito ou uma idéia: ele é um modo de significação, uma forma. (p. 131). [...] pois é a história que transforma o real em discurso, é ela e só ela que comanda a vida e a morte da linguagem mítica. Longínqua ou não, a mitologia só pode ter um fundamento histórico, visto que o mito é uma fala escolhida pela história: não poderia de modo algum surgir da “natureza” das coisas. (p. 132). Mitologia = É o que se passa com a mitologia: faz parte simultaneamente da semiologia, como ciência formal, e da ideologia, como ciência histórica: ela estuda idéias-em-forma. (p.134).

MICELI, Paulo. O mito do herói nacional. 4ª edição. São Paulo: Contexto, 1994.

Antes de tudo, porém, o herói tem uma finalidade moralista, servindo para avaliar e dirigir capacidades e condutas: os cristãos apresentam seus santos como modelos de virtude, os militares fazem o mesmo com alguns comandantes, os revolucionários com seus líderes, etc., etc. (p. 10). Deste modo, o herói aparece como responsável pela indicação dos caminhos da humanidade e dos papéis que são destinados aos demais, distribuindo ensinamentos e pregando sua moral num espaço onde é perigoso entrar e quase sempre proibido especular ou ser indiscreto. O herói é herói e ponto final. Dicutir seu papel é pôr em questão a Pátria, a Religião, as Forças Armadas, a Revolução, o Partido – enfim, todas essas coisas sagradas e intocáveis, respeitosamente grafadas com inicial maiúscula e inscritas, com força de herói, na consciência das pessoas. Menos na consciência dos heróis, evidentemente que só viram heróis por simbolizar a luta contra as imposições que os oprimiam. (p.10-11). Não se pode esquecer que a vida do herói, como a de todas as pessoas, além de ser repleta de imprevistos, obedece a instintos, paixões, sentimentos, pensamentos: enfim, a um estado interior em constante tensão com o meio social, que nem sempre (quas nunca?) guarda relação com atos e condutas, ou, o que parece trágico, com os próprios resultados destes atos e condutas. (p. 11). Antes de qualquer coisa, o herói da história deve simbolizar a nação, este valor intocável e ambígüo, em nome do qual se faz a guerra ou se joga futebol, mata-se e morre-se, chora-se e encanta-se, orgulha-se e envergonha-se. (p.12). Símbolo da esperança, um sentimento prevalece sobre todas as demais circunstâncias responsáveis pela consagração de um herói: a ilusão de que, magicamente, só ele pode fundir todas as múltiplas partes que compõem a realização de um ideal de libertação e emancipação

aliás. pela presença.] a nação.. de certa parcela de manipulação voluntária. estendendo-se no mais das vezes por uma dimensão cronológica bastante ampla. 71-72).. no entanto. 14)..12). uma das formas mais sutis e dominadoras de sabedoria social e uma das principais instituições criadas para estabelecer e manter os mecanismos de dominação política. sensivelmente diferentes uns dos outros por sua tonalidade afetiva. conhecer seus quartos. repressão e até vingança. 13). “É preciso preservá-los em nome da nacionalidade que simbolizam e glorificam”. mais sistemáticas e mais maciças. Necessidade. Há o tempo da . Toda a questão está. Quantas vezes semelhantes ramerrão já não foi enviado pelos ouvidos – até com alguma força. nacionalismo ou patriotismo senão elaborações mentais que se tenta transformar em coisa material ou palpável? A nação não é uma coisa dada e pronta para todo o sempre. de uma classe social. e assim por diante. menos do que procurar sua dimensão humana. enfim. Tornando-se a interrogação. portanto. dizem solenemente biógrafos e políticos. GIRARDET. de uma etnia. não é coisa fácil. – de quem ousou questionar seus méritos ou sentar-se à mesa desses heróis...de um país. em relação a isso.. (p. O que é. como opera em outras palavras. em saber como se opera a passagem do histórico ao mítico. 13). mais delicada ainda. Raoul. é o país. mais ou menos importante mas sempre detectável nesse tipo de construção mítica. São Paulo: Companhia das Letras. sempre em nome da nacionalidade? (p. Tratar de heróis. como se vê. e espanar o pó que cobre suas estátuas. a própria lenda napoleônica permanece. Mitos e mitologias políticas. mais do que respeito. provocar revolta. criados e mantidos por interesses e intenções igualmente múltiplos e quase nunca transparentes. o processo de heroificação pode apresentar-se organizado em vários periódos sucessivos. esse misterioso processo de heroificação. que. pois depende da criação constante para que possa durar e para que as pessoas acreditem nela: quem vai à guerra não são os soldados financiados por interesses raramente explicitados. “gentificar” o que a historiografia celebrativa e a política interesseira transformaram em pedra e bronze. (p. vasculhar seus vícios. de grupos religiosos e de uma infinidade de instituições e agrupamentos sociais. Mas necessidade também de levar em conta o fato de que. pois. além de tudo – corre-se o risco de ferir sentimentos. (p. a parcela da esponteneidade criadora e a da construção intencional. 1987. ainda mais quando o que se põe em cena é uma categoria especial de heróis: os heróis nacionais.. quem conquista a medalha olímpica não é o atleta que se estalfa na raia. acabam inspirando – por motivos óbvios – até um certo receio. é a nação. (p. da propaganda política. indagar sobre suas ambições e delírios. [.. suficientemente exemplar. de distinguir a parcela do real e a do imaginário. Sem chegar ao ponto de que evocar as formas contemporâneas. evidentemente. é manchar com intenções apátridas e espúrias a retidão virtuosa com que (por nós!) conduziram suas vidas especiais. que resulta na transmutação do real e em sua absorção no imaginário.

de esperanças. Mas sobretudo não se poderia esquecer que. Fale-nos dele. por vezes contraditórias.espero e do apelo: aquele em que se forma e se difunde a imagem de um Salvador desejado. a constituir-se. Béranger cantou nele o soberano familiar. Conforme os momentos e conforme os meiosm Napoleão Bonaparte encarnou ao mesmo tempo a ordem e a aventura. o apelo jamais ouvido. avó. mas aquele também em que a parte da manipulação voluntária recai com maior peso no processo da elaboração mítica. Nietzsche admirou-o como um herói da ação trágica. e não ignorando nada das fraquezas de sua condição: ‘O povo ainda o reverencia. fale-nos dele. (p. homem entre os homens. E há ainda o tempo da lembrança: aquele em que a figura do Salvador. (E é possível que essa imagem jamais se encarne em um personagem existente. em outras palavras. de seus mecanismos seletivos. 72). amigos dos humildes e dos pequenos.. de seus rechaços e de suas amplificações. cristalizando-se em torno dela a expressão coletiva de um conjunto. como uma espécie de encruzilhada do imaginário onde vêm cruzar-se e embaralhar-se as aspirações e as exigências mais diversas. Foi exaltado por alguns como o simbolo da epopéia guerreira e por outros como a garantia de um futuro pacificamente assegurado. de nostalgias e de sonhos. . ele tende a combinar vários sistemas de imagens ou de representações. 73). vai modificar-se ao capricho dos jogos ambíguos da memória. lançada de novo no passado. o reverencia. (p. o messianismo revolucionário em marcha e o princípio de autoridade restaurado. que a espera permaneça vã.) Há o tempo da presença do Salvador enfim surgido. na maior parte das vezes confuso. em que o curso da história está prestes a se realizar.. a partir do momento em que todo mito desse tipo ganha uma certa amplitude coletiva. sem dúvida...’. aquele. sim.

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