A nação faz 100 anos- a questão nacional no Centenário da Independência

MARLY SILVA DA MOITA

!
f!l
' l;�L
N�U
� ''Io 1
Proibida a publicação no todo ou em
parte; permitida a citação. A citação
deve ser textual, com indicação de
fonte conforme abaixo.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA




Download gratuito disponível em
www.fgv.br/editora


MOTTA, Marly Silva da. A nação faz
cem anos: a
questão nacional no centenário da
independência.
Rio de Janeiro: Editora FGV: CPDOC,
1992. 129 p.
! �!t!U
f!Z lUU !�U§
Á ol:lu NÁOUNÁL
NU c�"nu
U INUnNlíNOÁ
MALY SILVA DA MOTA
Eitr d Fnço Gtuio Var -CPDOC
Direitos det eição reserados à
Fundação Getulio Vargs
Praia de Botog, 190 - Cep. 22253-900
É vedada a rprodução total ou prcial desta obra
Copyigt © 1992 by Mrly Silva da Mot
CENTRO DE PESQUISA E DOCUMNTAÇÃO
DE HISTÓRlACONTEMORNEADO BRSIL
Cordenação editrial: Ctn Ma Pas d C
Revisão de txo: Dor Ru
Digtço: raMaa d Soua Olivir
Editoraço eletnic e cpa: CM Ton
EDITORA DA FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS
ChefIa: Fic d Ct Avd
Suprisão gf: Helo Lurn Net
M921n
Mota, Marly Silva da.
A nço fa CBQaos: a questão nacional no centenário da inde­
pndência I Marly Silva da Mot.-
Rio de Janeiro: E da Fundação Getulio Vars -CPDOC, 1992
140p.
Bibliog: p.119
Orignalmente apreentado como dissertção do autr (mestado -Univer­
sidade Feerl do Rio de Janeiro).
1. Intlectuais 2. Nacionalismo 2. Rio de Janeiro (R -História. I.Funda­
ção Getulio Vargs -II.Cent de Pequisa e Doumentço de Histria
Contemprânea do Brasil. UI. Ttulo
CDD 320.540981
CDU 323.1 (81)
A DUpa,
Fio e Mariuan
pela Old Ol
infnito.
AGRADECIMENTOS
EST livr é uma verão da dissertaço de metrdo em hist6ria
por mim defendida em outubr de 1991, no Institut de Filosofa e
Ciência Soiais da Univeridade Federal do Rio de Janeir.
Aelaboraço de um dissertço de metrado implic não apenas
o envolvimento do pesquisador; ao long do cminho, muit gnte, de
umjeito ou de outro, acba participando da ''tee''. Dincil é citar too
os nome; mis difcil ainda é deixar regstrada a gatidão pelas
palavra e gstos de incentivo e crinho. Mas vou tentr ...
Em primeir lugr, porque é o "amor m anto", o Clégo
Estdual Barão do Rio Brnc, onde, nos último 16 ano, pude
desftar de um ambiente de sincr cmpanheirismo e de irrstrit
dedicção ao ensino públic.
Do fecundo clima de debate intelectual prente no Curo de PÓ­
Grduação em Sociologa Urban da Universidade do Etado do Rio
de Janeiro, reultou meu interesse pela cidade do Ro de Janeir.
Como aluna em 1985, e mais trde, em 1986 e 1989, cmo prfesor
da cdeir de "Hist6ria da Urbanizço do Brsil", sempre cntei cm
o incentivo cntante do prfesor do curo. A Amélia Roa Sá
Barrto, um agdecimento especial pela orientção segr e pela
cnfianç em mim depoitada.
Os seminários do meu curo O Metrado de Htria do Bril
do Intituto de Filoofia e Ciências Sociais da Univeridade Federal
do Rio de Janeiro (ICS/ eto na base d prupaç que
acabaram se torndo meu tem de tee. Com prfssore e clegs
pude etbeleer, ao long dese último ano, uma cnvivência
pautda pelo cmpanheirismo e animado debate inteletual. Em
epecial, agdeç ao profesor Francisc Vnhoa, cordendor da
Pós-Grduaço, pela fé em momento de dúvida. A prfesora Ma­
rieta de Moraes Ferrir, atual cleg de trabalho e amig do pito,
devo tanto o incntivo contnte e a crítics sempre pertinente,
quanto a possibilidade de iniciar a crreir de pequisador em
hist6ria.
No trs últimos anos tive o praer de vivr M nova exriência
prfsional no Centro de Pequisa e Doumentação de Ht6ria
Contemporânea do Bril (CPDOC) da Fundaço Getúlio Vargs. A
pequisador e fncionários do CPDOC, em epial os do Setor de
História Orl-Mariet, Ignez, Maria Ana, Luciano, 'niae Clodomir
- agrdeo pelo cnvívío faterno e etimulante trc de idéia.
Mençe especiais têm que ser feits a Mônic Velloso, cujo texs
foram "fonte de inspirção"; a Angela Gomes, pela ctidiana aprendi­
zgem do ofcio de historiador; e a Lúcia Lippi, exminador atent,
pelas crtic pertinentes e sugstõe valioas. Dora Rcha, cm seu
lápis ''mágico'', "limpou" o texto, digitdo, cm paciência e intersse,
por 'Inia Maria de Oliveir e Ver Lucia Lpe Reg.
Registro ainda o apoio fnncir cnceido pelo CNq através da
bolsa de etudo que me cnferiu de 198 B 1990.
Sou especialmente grt ao meu orientador, prfessor Manoel
Luiz Salgado Guimarães, pelo profssionlismo e pela cmpetência,
misturando, em doe crts, crítica e encrjamento. Mas, sobrtu­
do, agradeç pela amizde sincr e plo apio irrstrito cm que
sempre me brindou.
Obrigda B to
Ro, setembr de 1992.
SUMÁRIO
ITRODUÇ
Ã
O
CAP
Í
TUO I
1922: CONSTRUR O BRASIL MODERNO
Sete de setembro, '�ugr de memória"
d nação republicna
Que República é essa?
Por um nção modera!
CAP
Í
TUO I
1922: RIO DE JANEIRO, U SOL A BRIUAR
O que será o Rio de Janeir de 1922?
Arasar ou não arrasar, eis Bquestão!
A ante-ala do parío
CAP
Í
TULO II
1922: S
Ã
O PAULO É A NAÇ
Ã
O
A difcil hegmonia
São Paulo=nação; Rio de Janeir = artinação
São Paulo em toilette de rigr
CONCLUS
Ã
O
FONTES E BIBUOGRAFIA
1
11
11
23
31
47
47
54
66
79
79
94
103
115
119
-
INTRODUÇAO
"Na favela, no Senado
Sujeira prá todo lado,
Ningém rpita Cnstituiço
Mas todos acreditam no futuro da nação.
Que país é es e? Que paí é ese?"
(Q pa é ese? Lgião Urban)
(Não somo ainda uma naço. uma nacionalidade.
A enciclopias franceas cmeçm
o artigo Brasil assim: un vat one ...
Não smo país; somos uma região."
(Monteiro Lbat)
SEPADA por décadas, tanto a letra do r, cujo título
tomou.e símbolo da perplexidade que Tu o país na segnda
metade do anos 1980, quanto a vemente denúncia de Monteiro
Lbato no início da décda de 1920, rmetem ao mesmo obscuro objeto
de deejo e ódio chamado nação. Criaço dos tempos modernos,
arraigda na mentalidade do povos, essa "cmunidade imagnada",
na feliz expressão de Anderon, 1 reiste aos embates da pó-moder­
nidade, e se mantém, neste fnal de milênio, cmo um símbolo
fundamental de identifcção cletia: até hoje, homens e mulhers
matam e morrm por est bem constrída invenço.
Cncito cmo Pátria e Nação fazem parte do univero simbólico
do mundo ocidental dede o fim do século X1 1. É interssante
lembrar que, naquele momento, Pátria e Nação eram cncitos dife­
rente e mesmo opostos, na medida em que o primeiro er marcdo
pelo univeralismo e o csmopolitismo (ã la Rbespierre), e o segundo
- que acabou por triunfar - refetia o nacionalismo fancê (ã la
Dantn).
2
A Revolução Franca marcu o nascimento da cncepção de
"nação-cntrato", cuja base era a unidade político-territorial, a exis­
tência de uma lei comum e a cidadania. A essa concpço se contrapôs
a idéia de "nação-instinto", particularmente cra ao grmânicos.
Formulada pelas diveras correntes do historicismo romântico e
1
exaltada O obras de Herder e Fichte, essa idéia de nacionalidade se
fundava no epírito ou caráter peculiar de um povo, herança da raça,
língua, história, que por sua vez constituem os fundamentos de uma
cmunidade.
Lnge de se cnstituir em um modelo único, paradigmático na
essência, a idéia de nação foi vivenciada com conteúdo diferentes por
diferente povo em diferente épocs, no enfrentmento de proble­
mas próprio e na realização de um detino específco. Concebida pelo
nacionalismo e relacionada ao Estado territorial moderno, a nação
não é uma entidade abstrata, independente da ação humana. A
naturalização das nações, entndidas cmo "destino político inerente
aos homens",3 inscreve-se na efera da montgm de uma comunida­
de moeramente inventada, que se concretiz mediante símbolos,
práticas, cmportmento e valore frmemente ancrado na vida
social.
Agente da sua própria humanidade, o homem se lig a uma teia
de significados, cnstruída historicmente, e em função da qual dá
forma, objetivo e direção à própria vida.4 Nesse sentido, percebemos
o valor do univero simbólico como guia das açes humanas, uma vez
que atende à necssidade de legitimação inerente ao arcabouço insti­
tucional
'
ando ete não pode ser mais mantido pela memória do
indivíduo. Daí a necessidade de construção de um univero nacional,
cpaz de orgnizar o epaç público num processo de cnstituição de
identidade, implicando tanto a acentuação dos traços de semelhança
e homogeneidade, cmo a diferenciação em relação ao outro.
O pIso de construção d naçõe é um tema delicado. Hobs­
bawm o associa ao triunfo do capitalismo na segunda metade do
século X, embora relativize uma perfeita relaço entre o dois.6 Já
Recalde, em seu livro sugestivamente intitulado L cntuccin d
la nin, caracteriza a nação como produto da ideologia naciona­
lista?
A partir da proposição de Mar, de que a cnsciência do homem
seria detenninada por seu ser social,B abriu-se todo um campo de
invetigação para uma soiologia do conhecimento preoupada com
as condições concretas da produção intelectual. Uma identificação
apresada da "infra-strutura" com a base econômica, tão-somente,
levou à suposição de que a "superetrutura" seria tmbém, tão-so­
mente, seu espelho, falseando grsseiramente, a meu ver, o pensa­
mento dialético marxista.9 Nest perspectiva, a ideologia nacionalis­
t, de inspiração burguea, serviria para mascrar os "verdadeiros"
intersse desta classe na sua estratégia de dominação da soiedade.
Não cmpartilhamos de tal concepção. Não entendemos que a
construção da idéia de nação no Brasil posa ser reduzida a apenas
um dos traço mais característics do etabeleimento da ''hegemonia
2
burguesa" no país. Sem dúvida, o nacionalismo é uma ideologa
política
1
0 que
,
como tal, renova a função tradicional de grantir o
consenso, cnstruindo um modelo que designa as poiçõs sociais ao
mesmo tempo em que as justifica. No entanto, uma concpção
artificial das ideologias que só lhe atribua efeito de ocultação
arrisc-se a levar ao esquecimento todo o cnteúdo de explicção e
designaço explícitas que comporta um sistema de repreentações.
Ou seja, avaliar a ideologia nacionalista numa dimensão puramente
conspiratória simplific e empobrec a reflexão, na medida em que
abandona a possibilidade de reuperação das diveras versõe sobre
o tema, as divergências, as aproximaçe, a ambigüidade, a comple­
xidade das diferentes interretaçõe sobre o que seria naço.
Embora rconhecendo que a nação é um tema cnstantemente
presente no pensamento social, verificmos que o peso da sua presen­
ç e seu signifcado não são sempr o memos. Examinando as
várias definições de nação, calcadas na religião, na língua, na etnia,
no território
,
na história comum, nos trç culturais, Hobsbawm
distingue três etapas na história dos movimentos nacionais a partir
do século X: de uma fase puramente cultural, literária e folclórica,
passou-se àquela em que surg um corUunto de militantes da idéia
nacional, e finalmente chegou-se à etpa em que o nacionalismo
adquire sustentação de massaY De qualquer modo, o espaç heg­
mônico ocupado no debate político-inteletual pela temática nacional,
bem como a emergência de proposts originais que encaminham esa
questão, indicam a vivência de um momento particularmente signi­
ficativo na (re)constituição da identidade nacional.
No caso brasileir, 1922 pode ser considerado um ano paradigmá­
tico, na medida em que nele se concntrarm acontecimentos que a
historiografia cnsagrou como marco fndadores de um "novo" Br­
sil: a fundação do Partido Comunista Brasileir, a Semana de A
Moderna e a primeira manifetação do movimento tenentista. Foi
também o ano da comemoração do cem ano da independência do
país, fato que não merceu, até hoje, senão meia dúzia de linhas em
livros didáticos, enciclopédias e trbalhos acadêmicos.12 Omissão
séria, Ojustificada pela suspição que essas comemorações coleti­
vas, por sua aparência oficial e artifcial, despertavam n cmunidade
de historiadore. Coube a Mona Ozouf, com seu trabalho sobre as
fetas da Revolução Francesa,13 romper com esse preoncito e
destacar a mobilização que essas celebraçõe provocavam, atetda
pela massa de relatórios, discuros, prjetos e prpostas que lhe
foram dedicados. Uma vasta documentação, prticamente inexplo­
rada, e representada especialment por jornais, revistas, livro, mo­
numentos, palestrs e congresos, indica igualmente que a comemo­
rção do Centenário da Independência em 1922 mobilizou a popula-
3
ço em gral, e a inteletualidade, em particular, do Rio de Janeir e
São Paulo, principais cntrs uranos do país.
Este trabalho busc cmprender cmo, forçdos a penar o Bril
que se preparava para cmemorr seu Centenário da Independência,
variados setore da intelectualidade brasileir se voltarm par a
temátic nacional entre a segnda metade da décda de 1910 e os
primeiro anos da décda de 1920. Nese momento, a cna brsileira
foi marcada por uma intensa mobilizção desa "mirt asa­
t",14 rvelando-se uma ambiência de insatisfação na busca de novas
alterativas para solucionar os impasse nacionais. Atribuindo-5e e
se auto-representando cmo portadors de uma missão soial, o
intelectuais se empenharam obstinadamente em criar um saber
próprio sobre o país. A palavra de ordem er cnheer, desvendar,
invetigr e mapear o Bril e a sua ralidade, bem cmo traçar
simultneamente os contornos da identidade nacional. Há cmo que
um despertar par a importância de cloar no papel a avaliaço
crreta do passado, a interpretação segura do preente e as sugestões
valiosas para o futuro da nação. São essa análise e prpotas, nas
suas divergências e aproximaçõ, que pretendemos exor nete
trabalho.
Se políticos e burcrats que estão no poder participam, tanto
quanto os intelectuais, da forulaço de interretaçe sobre a vida
social, este últimos, na qualidade de epeialistas da dimensão
simbólica, deempenham um papel fundamental no delineamento de
um perfil para a nação cpaz de lhe grantir identidade própria. Aos
intelectuais cabe elaborar imagns fundadoras da nácionalidade
indispensáveis na definição dessa identidade. Para tanto, é preciso
marcar o próprio territõrio e as suas fonteiras, definindo relaçe
com os "outrs"; formar imagns dos amigs e inimigs, rivais e
aliados; conserar e modelar as lembranças do passado, bem cmo
projetar, sobr o futuro, temores e espernças; finalment, é necesá­
rio exprimir e impor crtas crenças comuns plantando modelos forma­
dores.
1
5
A produção literária do raiar dos anos 20 foi de fundamental
importãncia par a formação de uma cnciência nacional. Lmbra
Antõnio Cândido que, ao cntrário do que oorr em outrs paíe, a
literatura, mais do que a flosof e as ciência humanas, tem sido no
Brsil o "fenômeno central da vida do epírito".lG Ocupando amplos
espaço na imprensa, lw privilegiado do debate político-inteletual
da época, os literatos brasileir se envolveram num procsso de
questionamento da identidade nacional e conseüentemente de pro­
dução de "novos" ideais e modelo, por veze vag e cntraditórios,
O que se cristalizaram na medida em que se tornaram núcleo em
toro dos quais se estruturaram as aspiraçe nacionais.
4
Abria-se assim a década cm um acso debate sobre a nação
brasileira, à vésperas de cmpletr cm anos de vida livre, porém
marada pelo atraso, na avaliação da grande maioria dos pensadores
da époc. Disputas pela cnquista da legitimidade por parte de
diferent projeto que buscavam definir um Brail moero mara­
ram o período. Não vemo esas disputas no cmpo intelectual cmo
meras expressões de interse materiais ou de crrentes políticas
distintas; embor ligadas ao contexto "extero", elas exprimem com
maior vigr as relaçe de força inter ao próprio univero social
onde pesoas, grupo e instituiçe se cnstituem pelas rlaçõe de
cncrrência e poder que etbeleem entr si. Aspecto epecífcs
do cmpo intelectual, como a legitimidade cultural, a identidade em
tomo de uma "escla" ou os temas de époc que carcterizam uma
geração, mediatizam a relação que um inteletual mantém com sua
classe social de origem ou de fato.
l7
A fna rlação entre a obra
artítico-literária e sua ambiência social obriga-nos a decartar de­
terminismos inexoráveis e autonomias precipitdas, ambos fadados
a deembocr em simplifcçes perigosas.
18
Julg fundamental, portanto, elucidar o conflito entre grupos de
intelectuais que cnstruíram verões e 'plicitaram visões sobre o que
era ou deveria ser a nação brsileira. E imprcindível analisar esa
intelectualidade tendo por referência o seu próprio discuró; segindo
indicaçõe por ela foruladas.
19
Captar suas motivações· e o propó­
sito de suas palavrs signifca cmpreender como ela cmpreendia o
paí e como construí, a partir dessa cmprensão, uma determinada
visão da realidade. Afinal, cmo separar o agente e seus atos das
idéias-imagens que eles se dão a si mesmo e a seus adverários?
Em deacrdo sobre os reais motivo do descmpasso do país com
a moderidade, divergndo em tomo dos cminho que deveriam
conduzir até ela, a intelectualidade brasileira pareia cnvergirquan­
to à cmprensão de que o Centenário seria o momento-have em que
tais quetõe deveriam ser discutidas. Articulando preente/passa­
do/futuro, arrasando antigs tradiçes e cnstruindo outras novas,
mobilizando diferentes vertent do movimento inteletual na cn­
truço de moelos que finalmente grantissem a criaço de uma
nação ''brasileira e moer", pensamos que o Centenário da Inde­
pendência náo se reuziu à comemoraço de uma dat memorável.
Condição indispensável da cultura humana, fundamental no
reforço da coesão social, a memória coletiva funciona cmo um depó­
sito onde o indivíduo busc elementos que lhe permitem identifcr-se
social e historicamente. Ao defnir o que é comum a um grupo e o que
o diferencia do outrs, a memória rfora as fronteiras sóio-cultu­
ris, tornando-se um ingrediente básic da identidade nacional. Po­
demo afrmar que o passado cletivo, fundado numa reerva de
5
símbolo, de imagns, de modelo de ação, é a origm da legtimação
da nação.
A estreitas relações entre memória e nação form trbalhadas
por Hobsbawm, que destcu o pa�el fundamental da "trdição
inventada" na cnstrução das nações. ¯ Deve ..e, no entanto, a Nora
o mais minucioso e abrangente desvendamento da cmplexidade
dessas relações. A aceleração do tempo O sociedades industriais
criou a necessidade de serem demarcados o lugr onde a memória
nacional efetivamente se fou - '1ugres de memória", na feliz
expressão do historiador fancés - como fests, monumentos, datas
nacionais, bandeiras, hinos, enfm, locais de sacralizção da nação e
de identifcação do nacional. Afetiva e mágica, a memória seria
vulnerável a manipulaçes, aberta à dialética da lembrança .e do
esquecimento.
21
Como tal, sempre foi elemento e objetivo de poder;
toma-se agra objeto de estudo da história, analítica e crític.
É justamente o estudo do 7 de setembro, enquanto "lugar de
memória" da nação republicana, que abre o primeiro cpítulo deste
livr, onde prcuro retratar a mobilizço da intelectualidade brasi­
leira no intuito de cnstruir um Brasil modero. Penso que ao forçar
a busca das origens e a avaliaço do papel das figuras históricas, ao
julgr o passado colonial e as realizações republicnas, a cmemora­
ção do Centenário suscitou debates sobre a formação eas perpectivas
da sociedade brasileira, reclocando de forma especialmente urgnte
os dilemas da salvação nacional. A grande questão que esse intele­
tuais tém que enfrentar nesse momento é a construção de um Brasil
moderno. Mário de Andrade, Oliveira Viana, Monteir Lbato, Lima
Barrto, Licínio Cardoo, Menotti dei Picchia, 'fristo de Ataíde,
dentre outros, dedicam ..e de corpo e alma a estudar o país. Tis
estudo, pautados por um frenesi de reinterpretar o passado, diag­
noticar o presente e projetar o futuro, buscam não só entender que
país é este, mas principalmente, garantir-lhe um lugar na moerni­
dade do século X. Tdos, a despeito das diveridades de perpectivas
e projetos, pensam o Brasil modero.
22
Anlante do cmpo ou da
cidade, advogam o monopólio do entendimento do país; industrialis­
tas ou ruralistas, acreditm encarnar o espírito do século X; cnser­
vadore ou vanguardistas, julgm ser os porta-voze exclusivos da
modernidade pós-guerra.
A celebração de 1922 deveria ser caracterizada, pois, pela inequí­
voca disposição da 'jovem" nação em marcar seu lugr no século X.
Para tanto, peno que um dos rquisitos indispensáveis seria a
l)odernização da capital federal, cabeça da nação e seu cartão postal.
E disso que vai tratar o segundo capítulo.
A meu ver, a prparção da "cidade maravilhosa" para as fetas
do Centenário, cm destaque para a Exposição Interacional, reve-
6
tiu-e de um signifcado todo especial: era preciso que o Rio de Janeir
se tornasse a apotese da moeridade brsileira. A reforma urana
então planejada teve como alvo o ''velho'' morr do Castelo, berço da
cidade, agr habitado por uma populaço pobre, e envolvido numa
aura de misticismo, magia e supertição.
A aceas discussões que então se travaram através da imprensa
- arrsar ou não arrasar o Castelo -, longe de envolver apena
aspecto urbanísticos, colocram frente a fente diferentes concpções
de moeridade, de tradição, de passado, de memória e de cultura. A
rcuperação dos diferentes projetos e respectivos argumentos que
sustentvam o arrasamento ou a manutenção do Castelo, a identifi­
cção das correntes de pensamento a que se ligavam tais propotas,
permite-nos desvendar um ric painel dos valores, ideais, eperanças
e aspiraçõ de expressivo segmentos do Distrito Federal diante do
desafio de se projetar como a capitl ''moder'' de uma nação
''moderna''.
Se, para muito�, o Rio de Janeiro era a "flama do progresso que
iluminava o país",
23
outros tanto o identificavam como a cidadela da
''velha'' grção. Embora pouc mencionado pela historiografia, um
dos temas que mais se destacaram no balanço do país efetuado por
ocsião do Centenário de 1922 foi o da desqualificção da capitl
feeral como cabeça da nação que buscava a moderidade.
24
Estava
aberto o epaç para iniciativas que resultassem na afirmação de um
novo lou produtor da identidade nacional.
No terceiro capítulo, examinaremos a elevação da capital bandei­
rante à condição de matriz da "nova" e "moderna" nacionalidade dos
anos 20. Entendemos este movimento cmo um dos pilare do com­
plexo processo da deejada consolidação da hegmonia paulista no
cnjunto nacional. Julgmos que o suceso deste emprendimento
dependia da construção de um imaginário que, por um lado, deslegi­
timasse a tradicional ocupante desse lugar-a "contemplativa" cidade
do Rio de Janeiro -e, por outro, apontasse uma substituta à altura
d exigncias dos novos tempos imbuídos dos valores da brasilidade
e da modernidade -a "operosa" cidade de São Paulo.
A construção do imaginário social - c0'unto de imagns que
orienta a inserção do indivíduo na cultur o - é particularmente
importnte em moment de redefiniço da identidade cletiva, mar­
cdos, como no raiar da déada de 1920, pela avaliação crítica do
passado e do presente e pela perspectiva de cri,r uma nova sociedade,
um homem novo, enfim, uma nova nação. E nese momento que
encontramos a elaboraço e a difusão de determinadas imagens e a
produço de crts representçõs que buscram associar o Rio de
Janeiro ao prazer e São Paulo ao dever. Incapaz de se atualizar no
mundo do trabalho e da ordem, a "cidade maravilhosa" teria ficado à
7
margem da trjetória da modernizaço brasileir, que passaria,
então, pelos trilhos da '1ocmotiva" paulista. A imagem de São Paulo
"
t d
.
d
-
.
-
,,
26
.
d arras n o rampa aCIma os ezenove vage lnnaos, cna a por
Monteiro Lbato em 1918, incrporou-se defnitivamente ao imagi­
nário nacional e fou-se indelevelmente na memória cletiva.
Atrvés de uma atuação cotidiana na imprensa, a intelectualida­
de paulista, independentemente de suas difernçs interas, vai
prduzir um discuro ric de argmentos de cráter predominante­
ment simbólic, que visav frmar uma interessante igualdade: São
Paulo = nação; Rio de Janeiro = antinaço. Ou melhor, o Rio repre­
sentava a naço atrsada que se era, e São Paulo, a naço moerna
que se deveria ser.
A busca do Brasil moderno não termina nos anos 20. Depois,
virão 1930, 1937, 1945, 1964, 1989 .. . Em suma, a história do
pensamento brasileiro no século X pode ser vista cmo um eforç
incansável para comprender e impulsionar a cndições de implan­
tação da moderidade no Brasil, quereta responda pelo nome mágic
de Civilizaço, de Desenvolvimento ou de Primeiro Mundo.
Nota
1 - O conceito é desenvolvido pr Benedict Anderon e Nação e
consciência naiona, p. 1416.
2 -Ver Gerard Mairet, Peuple et nation, em Fraçois Chatelet e Gerard
Mairet, Les idéologies.
3 -"A nações, pstas como modos naturais ou divinos de classificar os
homens, como destino plític ... inerent, são um mit; o nacionalismo, que
às veze tma culturas preexistentes e as tansforma em naçõe, algumas
vezes as inventa e freqüentment oblitera as culturas preexistentes: isto
é uma realidade." Erest Gellner, citdo pr Eric J. Hobsbawm, Naçes e
nacionaismo desd 1780, p.19 (grifo no original).
4 -Ver Cliford Geertz, A intelpretação i culturas.
5 - "Os universos simbólicos ( ... ) são corps de tadição teórica que
integram dierent áreas de sigificação e abrangem a ordem institucional
em uma totlidade simbólica ( ... ) a sociedade histórica inteira e toda a
biogafa do indivíduo são vt como acontecimentos que se passam
dent deste universo ( ... ) No intrior do universo simbólico ( ... ) domínios
separados da realidade integam-e em uma totalidade dotada de sentido
que os 'explica' e também osjustifica{ ... )"Peter Berger e Thomas Luckman,
A constução soial d reaid.: traado d soiologia d conhecimento,
p.131-32 (gifo no original).
6 -Eric J. Hobsbawm,A era d caital (1848-1875).
8
7 -Jose Ramón Recalde, L construcción de l naciones.
8 -Karl Mar, Manuscritos econômico-flosófics (Terceiro manuscrit),
em Os pensares.
9 - Para uma crítica marxista dessas relações mecanicists entre
infra-trutura e suprestutura, vr Mikail Bakhtin, Maismo e flosofa
d lingaem.
10 - O conceito de ideologia usado aqui refere-se à representções
sociais ou a um sistema cultural no contxto da definição de Geertz:
"sistmas de símbolos que intragem ou padrôe de sigifcados que
trabalham interativamente". Cliford Geert, op.cit., p.178.
11-Ver Eric J. Hobsbawm, Naçõs e nacionalism desd 1780, p.19.
12 -Entre as }ucas obras que mencionam as cmemoraçõe do Cente­
nário da Indepndência, pdemos citr Edgrd Carone, A República Velha
I -evoÚçã polítca (1889-1930) e Nosso sécul: 1910-1930.
13 -Mona Ozouf, L fte révoÚtionnaire: 1789-1799.
14 -Esa exresão se refere ao grup intlectual militnte caractrí­
tico da segunda fase dos moviments nacionais, anterior ao nacionalismo
de masa. Cf. EricJ. Hobsbaw,Naçõs e nacionalism dsde 1780, p.21.
15 - Ver Manoel Luiz Salgado Guimarães, Nação e civilização nos
trópico: o Instituto Histórico e Geogáfico Brasileiro e o projeto de uma
história nacional, Estuds Histúicos, 1 (1988), p.5-27; José Murilo de
Carvalho, A formoãn d almas: o irnáo d República R Brasil;
Edgard Lit Ferreira Neto, O improviso da civilioçã: a noçãn rpubli­
cana e a construçãn da ordem soial n fnal do século XX, e A elaboração
psitivista da memória republicana, Tempo Brasileiro, 87(1986), p.79-103;
José Neves Bittencourt, Esplho da "nosa" história: imaginário, pintura
histórica e reprodução no século XIX brasileiro, Temp Brasileiro, op.cit.;
Afonso Carlos Marques do Santos, A invenção do Brasil: u problema
nacional? Revista de História, 118(1985), p.3-12, e Memória, história,
nação: propndo queste, Te"�po Brasileir, op.cit.
16 -Antônio Cândido, Literara e soied, p.130.
17 -Ver Pierre Bourdieu, Camp intelectual e projeto criador, em Pierre
Bourdieu, et al., Poblemas d estruturalismo.
18 -Ver Antônio Cândido, op.cit., cap.!.
19 -Neste sentido, sig as indicaçõe de Paul Veyne, Cmmenl on écrit
l'histoire suivi d Foucalt réuolution7 l'istire.
20 - Por "tradição inventda", Hobsbawm entnde ''um conjunto de
práticas, normahente reguladas }r regras tcita ou abetamente aceits;
tais práticas de natureza ritual ou simbólic, visam inculcar certos valores
e normas de comprtamento através da reptição, o que implica, autma�
ticamente, uma continuidade em relação ao passado ... " Cf. Eric J. Hóbs�
bawm, Introdução: a invenção das tradições, em Eric J. Hobsbawm e
Terence Ranger, (org.), A invençi das Oaçõs, p.9.
21-Ver Pierre Nora (org.), Les lieu d mémoire, voU, L République.
9
22 - Ver Lúcia Lippi Oiveira, Modernidade e questão nacional, Lua
Nova: Revista de Cultura e Política, 20(1990), p.41-68, e Octavio lanni, A
idéia de Brasil modero, Resgak, 1 (1990), p.19-38.
23 -Oração do Dr. Mário de Lima, delegdo do estdo de Minas Gerais,
A Epoiçã d 1922, p.17-1S(1923).
24 -Ver Lúcia Lippi Oliveira, Ilha d v"ra Cruz, Terra d Sata Cmz,
BraiL· um estudo sobre o nacionalisllw brasileiro, p.238- 241 (tese dout­
rado -mÍmeo). Este traba lho foi publicado sob o título de A questão naciona
na Pimeira República (São Paulo, Brasiliense, 1990), mas, para efeito de
citção, continuarei indicando as referências da tese. Ver ainda Mônica
Pimenta Velloso A "cidade-voyeur": o Rio de Janeiro vist plos paulists,
Revista do Rio d Jwwiro, 1 (1986), p.55-66.
25 -Ver Cornelius Castoriadis, A instituiçã imagináia da soieda,e.
26 -Montiro Lobato, Mr Slwlg e o Brasil e Poblema vital, p.299.
10
CAÍTULO I
1922:
CONSTRUIR O BRASIL
MODERNO
SETE DE SETEMBRO,
"LUG DE MEMÓRIA" DA NAÇÃO REPUBLI CANA
"Em 1822 ( ... ) foi criado o próprio pvo brasileiro. E ta a
gndezas da hora presente, o cargueirs cdendo ao po do nosso
café, do nosso açúcar, do noso algodão, a chaminés d fábricas ( ... ) os
elementos, enfim, que reprsentm a nossa vida, a nossa
pronalidade histrica, o alicrc do noso futuro, tudo isé obr a de
uma data: o sete de setembr o ( ... ) O grit do Ipiranga foi um toque d
I
reunir ( ... ) pra a cnstituição desse ptrimônio ainda pr existir".
INTITUO "O Centenário", O artig acima citado é uma
demonstrção evidente da entrnização do 7 de setembro cmo o mais
importante "lugr de memória" da nação brasileira. O que não fc
evidente, ocultado por uma tradição já frmada, é o delicado procso
que resultou na cnsolidação do grito do Ipirnga cmo data magna
da nacionalidade. Intimamente relacionada ao "glorioso" feito da csa
imperial dos Bragança, tal clebração não poderia ser vista cm bons
olhos pela República implantada em 1889. Afinal, o novo regime teria
que lidar, não só com a orgnização de uma nova vida soial e política,
O também com a projeção de uma arquittura simbólica do nacio­
nal, que marcasse a República como a verdadeir entidade rpr­
sentativa da soiedade como um todo.
Acmpanhar o debates em tomo das cmemoraçôe do 7 de
setembro nos primeiro anos rpublicanos parec-nos de especial
relevãncia para a cmprensão da importante função política exercida
pela memória cletiva. Afinal, quem não se lembr que Big Brothr,
11
do famoo livro de Grge OlWell, dominava atrvé do duplo mea­
nismo que consistia em modificr e apagr o passado de cda indiví­
duo para depois obrig-lo a esquecr o prprio equecimento?
Elemento esencial na identidade nacional, a memória é instru­
mento e objeto de poder; prouto da atividade social, rlembrar o
passado implic diferentes definiçe da ralidade em cnfrnto.
Embora não seja adept de uma ''memória dos vencdore" meanic­
mente impost à sociedade
o
referindo a cncpço mais dinãmic da
"circularidade da cultur", recnheç que a memória tem que ser
reverenciada, celebrada, institucionalizda. O cntrole da metáfo­
ras, do simbolismo, d trdiç, tor-e, assim, alvo privilegiado
na disput pelo poder. Alerta L Gl que "os equeimentos e os
silêncio da história são rveladore desses mecnismo de manipu­
laço da memória cletiva".
3
Contudo, até que ponto a memória é manipulável? Parec clar
que o exemplos mais bem suceidos da manipulaço são aqueles que
exlorm práticas clarmente oriundas de uma "necssidade", com
um gncho bem vísível no ''real''; a forç dos símbolos é imbatível
quando encontm apoio no "fatos"; ou ci no vazio, e até memo no
ridículo, quando não se estabelec a necssária relação de signific­
do.
4
Lg, a questão crucial a ser enfrntada pela memória nacional
é a da sua credibilidade e acitaço. Para que suIa um fundo cmum
de referências que possam cnstituí-la, é indispensável um inteno
trabalho de o

ização, o que Pollak denomina de "enquadramento
da memória". Não se trata de uma manipulação pura e simples,
impota meanicmente de cima para baixo. O próprio Pollak alerta
que ete "enquadramento da memória" tem limites, uma vez que deve
satisfazer a cert exigncias de justificção, que não pem ser
arbitrariamente deconsideradas. Além do que, com crt freqüên­
cia, as invenç ecpam do cntrle daqueles que as consideraram
vantjosas para serem manipuladas.
Em seu estudo sobre a criação, em 1880, do Dia da Bastilha,
Amalvi
6
demonstra, de um lado, a diveridade d repreentçes
políticas que a cmemoração suscitou, e a violência d polêmicas
levantadas pela celebração desse aniverário. Abalados com a derr­
ta de 1870 e o afare Dreyfuss, o dirigente da 'ercira Repúblic
recrreram ao !imbolismo do passado cmo forma de grantir a
legitimidade. E claro que a etbilidade soial desejada não seria
assegurada apenas pelo sucesso em mobilizr os cidadão em toro
de novos simbolos. Ms os republicanos sabiam o que pretendiam
quando evocavam o espírito de 1789, pois a imagem ecumênica dos
demolidores da Bastilha, onde se cnfraterzarm burgueses, cam­
ponese e soldados, negva a existência de uma questão social e
12
cnstruí um ideal de grande valor par a sociedade fancea da
époc. Por outro lado, Amalvi cmprova a efccia fundadora do 14
juillet,quecneguiuapagar a mars da dura disput pela memória
nacionl, e, já no Centenário de 1889, er entrnizado cmo "[iu d
mmir" privilegiado da naço franca.
O eforç do rgime rpublicno brileir para garantir a sua
legtimidade ebarrava na tradiço imperial de comemorar o 7 de
setembr como a fet maior da nacionlidade, mar da cnquista
da liberdade, indelevelmente asoiado à dinastia de Bragnça. Era
prciso inventr nova tradiçe mais adequada aos novos tempos.
O fm da ecravidão, no ano anterior, implicr a incrporaço de
pesoa cujas atividade polítics passarm a ser institucionalmente
rcnhecidas. Ambiente e cnt sociais novo, ou velho, m
trnformado, exigem novos instrumento que asegrem e/ou ex­
prssem identidade e cão soial. E é no passado que se devem
buscr a ríze dessa totalidade que identifc a sociedade e o
indivíduo; é prciso cmbinr o novo cm a volt à origens.
O pIso de cnstrução de uma nação rpublicna em fins do
séulo X eigia, pois, a formulaço de um pasado que sacralizsse
esa naço e seus lugar de identifcaço -os ''lugre de memória"
-, Tndo um epaç simbólic ncional-republicno. Heróis cmo
Trdente, símbolo cmo a bandeira, o hino ncional e clebraçes
do clendãrio cívic, foram articulados no primeirs anos da Rpú­
blic' anos de invenção de trdiç. A França foi o modelo de
inpiraço para muitas desas iniciativas que visavam, ante de tudo,
fr o vlor republicano no craço e na mente do brsileir.
O poitivists detacaram-se nesa tarefa: detentor de uma meto­
dologia "científc", cnduziram um intenso trbalho de reonstruço
da memória ncional, que prurava situar a Repúblic na naciona­
lidade.
7
A cntrução do mito das orign, fundamentl na etruturaço
de qualquer soiedade, tor-se particularmente senível no cso do
rgime republicano, cujo problema básic era o da legitimidade. A
prclamação parecia ter sido um glpe militr, cuja repentina oor­
rência levantava a suspeita da auência de uma forte tradiço repu­
blicna no paí. Além do mais, as fors armada não tinham, até
ento, atuaço polític reonhecida na história nacional. 8 Era prciso
deixar clar que a Repúblic não for obra do acao ou do cpricho dos
milit, Osim futo de memoráveis acntecimentos passado. O
ideal republicno teria sido uma prença contnte ao longo da
hitória brileira, começndo pelo Quilomo do Palmare e pela
Guerra do Masctes, pasando pela Incnfidência Mineira, a Revo­
lução Perambucna, Farrapo e Balaiada, para finalmente cncr­
tizr.e em 1889, cmo a culminância de uma long luta.
13
De nítida inspirção positivist, o clendário cívico do novo rg­
me, intituído pelo Dereto 155-B de 14dejaneiro de 1890, é um bom
exemplo do eforç de inventr nova trdiçõ. A dats então
instituídas evocavam fatos ligdos à faternidade univeral - 1° de
janeir, 14 de julho, 12 de outubro e 2 de novembr -e à cmunhão
nacional - 21 de abril ("cmemorção dos prcursores da inde­
pendência runidos em Trdentes"), 3 de maio (decberta do Brasil),
13 de maio C'frateridade do brasileirs"), 7 de setembr (inde­
pendência do Brasil) e 15 de novembro ("cmemorção da pátria
brasileira")
?
A grande dificuldade dos republicanos rsidia na justificativa
para o 7 de setembro, e é signifcativo que o marchal Deooro, em
sua Mensagm de abertur do Congreso Constituinte, tivesse adver­
tido:
"E par os que quiserem ver na independência alcança­
da em 1822 a palavra suprema dos nossos anseios,
apontremo o 7 de abril de 1831, em que banimos o
noso primeiro Imperador".
lO
Qual seria, pois, a dat fundadora da nacionalidade brsileira?
O 7 de setembro, marc de ruptura com Portugal, ma de continui­
dade com a Monarquia, ou o 7 de abril, cnsiderado a primeira
experiência republicana no Brasil? Essas memórias específica ex­
punham as poições dos diveros grupos na rcém-proclamada Repú­
blica. Em toro do 7 de setembro, da sua rejeição cmo "data
cmemorativa da Monarquia", ou da sua acitação como símbolo da
"cnquista da independência sem violência", giravam republicanos e
monarquistas, cnstruindo cada qual a sua verão do fatos.
Ao afirmar, por ocasião das cmemorações do primeir aniverá­
rio da prclamação republicna, que " apenas um ano iniciamos a
demolição de três séulos",
l1
Deodoro declarava o 15 de novembro
como o marco inaugural da "verdadeira" nacionalidade, dia de se
comemorar a "pátria brasileira". Rodrig Otávio, autor de Fests
nin (1893), chega a lamentar o grito do Ipiranga, que só fez
piorar a situação brasileir, prolongando a dominação portuguea:
14
''Era bem acntuado o espírito do movimento separatis­
ta e a repúblic teria sido uma realidade se a ingênua
gnerosidade desse povo não se houvese acalentado
com promesas vãs de cmpleta liberdade sem lutas e
não se houvesse espavorido cm a ameaça infundada
das cenas de 89 e do 'Ierrar, e, sobretudo, cm o receio
vão de ver fagmentado em vários etados frco, ese
enorme corpo que constituía o Brasil" .
12
o 7 de setembro de 1891 foi marcado por um claro rpúdio à "festa
monarquista", sentido como afonta ao novo rgime. Lment a
Gta d Notícias:
"Não pode deixar de ser tristemente hipórit e indeco­
roso este falseamento da cnvicçõe democrátics com
a insinuação de uma tal data nos dias fetivo do Calen­
dário da República".
13
Evocando tradiçes liberis, o joral propunha celebrar o 7 de
abril, quando "se operou no país a mais honrosa cnvulsão". A
memória de 1831 procurava torr a Repúblic o únic ideal verda­
deiro da nação inteira.
Apear do pesare, para alguns republicno, o 7 de setembro
poderia ser mantido. Embora fel ao ideal republicno, 1831 for
marcado pr cnvulsões populares, especialmente na capital do Im­
pério, envolvendo praças e militare de baixa patente. A deordem
espritva o 7 de abril. E mais: o 7 de setembro já etva fdo na
memória nacional. Decidido a eliminar crtas arsts que cmpr­
metiam seu esforç de cnsolidação, o gvero rpublicno buscu
uma certa conciliação com o passado monarquist. 4 De nítida fi­
ção republicna, o jornal O Paiz, em sua edição de 7 de setembro de
1890, afirmava:
"Quaisquer que sejam as críticas histórics do feito do
Ipirng, a Nação brsileira não esquecerá nunca que
( ... ) o Princípe ( ... ) esqueeu os sentimentos de subordi­
nação e de dever ao seu pai e ao seu Rei para proclamar
a Independência polític do povo, cujos destinos dirigia.
A Revoluão d 7 d stembro formou assim UU RUU
ncionid weca ...
,,
15
Exemplo da difícil cnciliação entr a memória monarquista e a
republicana foi dado pelo conflito ocrrido por ocsião das cmemora­
ções do 21 de abril de 1893, quando membro do Clube Tradentes
cobriram cm tapumes a ettua do Imperador D.Pedro I, a "mentira
de bronze". Essa atitude acabou gerando não só uma interessante
cntrovéria, como também um cnflito aberto dissolvido pla plícia.
O prefeito do Distrito Federal, Barta Ribeiro, pós um ponto fnal na
discussão, argumentndo, em favor da manutenção do Imperador,
15
que "um povo sem tradição é um povo sem história, e, portanto, sem
valor moral".
16
D.Pedr I ficu onde estava, m obrigdo a dividir o
espaço com seu rival na prç que recbeu o nome de Trdentes.
Composto por polítics influentes, joralistas e inteletuais de
peso, cmo Eduardo Prado, Afonso Clso, Joaquim Nabuco, entre
outro, o grup do monarquists se empenhou em cntruir uma
verão do passado que contemplava a vantgn do regime imperial
no Brasil e identificava o 7 de setembro cm o marc fundador da
pátria, a data magna da nacionalidade. Oliveir
1
7
sugere que se
deveria à competência e à longevidade deses inteletuais a suprema­
cia de uma leitura monárquic da lústória brasileira, principalmente
no que tnge ao papel do Império cmo gantidor da unidade
nacional; e o 7 de setembro er o marc mais visível dessa unidade.
Vitrioso o grito do Ipirang -pela nesidade de cnciliaço, pela
inviabilidade de outras opç e pela maior habilidade dos monarquis­
ta em impor o seu pasado - a saída rpublicna foi moldar a
comemoraço do 7 de setmbro aos novo temps. Er prciso identi­
ficr o que poia ser salvo e o que deveria ser equecido. Enquanto
D.Pedr I foi exerado cmo um etrina, irrsponsável, oportunista,
Joé Bonifácio foi devidamente regtdo e guindado a uma pição
preponderante. Cientista, brasileiro, favorável ao fim da ecravidão,
amante da ordem, o denominado ''Patriar da Independência" repr­
sentaria a síntee das corrnte que cnstruíram a Naço brasileira.
Sacrificara a República, é crto, m em prol da etabilidade e memo
da existência da Pátria. O 15 de novembro viria croar seus efors.
A comemoraço do 7 de setembr, a partir de 1895, caracterizNB­
ia por paradas militare, numa clar intenção de aproximar a fet da
Repúblic e de romper a identificção entr Independência e Monar­
quia.
18
Festejado pelo monarquistas cmo o símbolo mais evidente da
librdade da Pátria, devidamente enquadrado numa moldur republi­
cana, o gito do Ipiranga prpara-se par cmemorr o seu cntenário.
''Por mais que tapem o ouvido ( ... ) hão de ouvir o nosso
zabumba ( ... ) Ardem, homens. O cntenário está
chegando!,,
1
9
A clebração da nosa "data maga" não poderia passar em
branco, e a antedência com que foi penada permite pereber a
mobilização dessa parcela da sociedade dotda de meios podersos de
difsão de suas idéias -jornalistas, ensaístas, literto e intelectuais
de várias corrente de pensamento, em numeroso artigos para
joris e revistas, deixarm clar que a cmemorção do centenário
16
da independência deveria cntitir-e num importante momento de
rfexão e debate sobre o Brasil.
Um eemplo rlevante desa ''vigilância comemorativa" foi dado
pela Revita c Brail, fndada em janeiro de 1916. Epressando a
vontade de se cntituir num núcleo de prpagnda ncionalista, a
rvist,já no seu primeir número, clamava pr "etudo do passado"
e, com razoável antecdência de seis ano, prgva a necsidade de
se comemorar festivament o cntenário da independência ese ''pri­
meiro marc glorioso da existência nacional".
20
A precupaço de clebrar o Centenário invadiu igalmente
outro órgâo da imprensa menos comprmetidos cm a fé naciona­
lista. A revista menal de variedades Eu se tu, em artig intitu­
lado "Noventa e cinc anos de Independência", oberava que,
"com a aproximaço do Centenário da nossa Inde­
pendência parc que se afervor o culto cívic, o ardor
patriótic pelo 7 de setembro, ganhando de intenidade
ano para ano. Aparm prjeto no Congeso, agitm­
se institutos sábios, artistas e literato se aparelham ( ... )
para a grande dat".
21
"O momento é oportuno", rpetidamente se afrava. Oportuno,
para deprtar o deejo do etudo
"dos tesouro de nossa nacionalidade; nâo é pois de
etranhar que muitos espírito andem agra embebidos
do gsto de invetigçõ do folk-lor brsileiro ( ... ) inda­
gando as origen aui e ai ( ... )".2
Oportuno, para marr rompimentos, pois
"os grande momentos da vida sugrem gandes idéia;
o gignte vai fazer cm anos de vida independente. E
possível que nessa ocsiâo lhe acuda a idéia ( ... ) de tomar
um bom lombrigueir". ¯
Oportuno, enm, para nos torrmos um povo "civilizdo";
"( ... ) depois dos três dias de Carnaval, cmo ete é o U
c Cenn, devemo fechar o rto (. .. ) saber enver­
gar uma csac, fumar caruto sem se enggr ( ... ) e
rir de b fechada para n cuspir n cra do vizinho".
24
17
o tom das reomendaçõe, freqüentemente rsvalando para o
deboche e o sarcamo, não obstante revelava o grau de expetativa
detonado pelo "faustoso" acontecimento.
O início da décda de 1920 foi fértil em balançs e avaliaçes dos
cem ano da nação independente. O grande anseio, diria memo a
obstinação que animava a inteletualidade nesse momento era cnhe­
cer o país, na mesma medida em que crscia a percepção de que se o
Brasil tinha territrio, não se constituíra ainda cmo nação.
2
Frente
ao desafo do momento histórico -a comemoração do Centenário da
Independência - formou-se a geração intelectual dos 20, comprome­
tida com a tarfa de criar a nação, fljar a identidade nacional e
construir o Brasil moderno. 'refa delicda, sem dúvida, mas
"que momento poderia ser mais adequado do que este
em que festejamos o cntenário da nossa independência
polític? Preisamo demarcar as frnteiras do epírito
nacional cmo já se flXaram as do território" ,
2
6
cncluía Pontes de Miranda, jurista de renome e atuante inteletual
dessa gração.
T preocupação, marcnte na "geração de 1870", que produzira
um pensamento novo sobre o país, através da articulação da ciência
emergnte cm a trdição literária,
2
7
exacerbou-e frente à proximi­
dade da cmemorção dos cem anos do 7 de setembro. Este evento
obrigava a sociedade brasileira, através de seus intelectuais, políticos
e líderes, a se pensar novamente -afnal, que paí era ete? Form
formuladas novas interprtações e renovadas as anteriores. Umas e
outras voltadas para o entendimento do preente, porém obrigadas a
voltar ao passado, buscando as continuidades e as rupturas, e a
projetar o futuro, reriando o país à altura do século X.
A produção intelectual do período não foi estritamente acadêmi­
ca. Podemos falar, antes, numa elite letrada comprometida com o
esforço de cnscientizar o país de seus "reais" problemas e orientá-lo
na busca das soluçe. O veículo usado para o encminhamento
dessas propostas tampouco se limitou aos livros; a imprnsa foi a via
privilegiada de cmunicação com o públic leitr. Através de edito­
riais, ensaios e crônicas, emjornais e revistas, puderam esse intelec­
tuais exercer a missão a que se julgvam predestinados: salvar o país.
No momento em que a palavra de ordem era "descobrir" o Brasil,
a tarefa primeira seria a buscadas suas origens, das suas raíze; quem
sabe, lá etariam os segredos dos impasses e das potencialidades com
os quais E nação se defrontava para fnalmente ingressar nos novos
tempo. E comprensível, pois, o interesse que todos revelavam pelos
18
três séulos de clonização portuguesa. Afinal, etávamos prtes a
celebrar o fim de to long dominação e era preciso marcr o "triunfo
maravilhoso da nossa raça sobre as nossas próprias origns históri­
cs, que fzeram de nós, durante mais de três séulos, escravos
.
.
.
,,
2
8
Considerando-se a marcante presença dos portugueses na vida
ecnômic da capital federl, especialmente no setore do cmércio
e do aluguel de mordias, o que os colocava em situação de cntante
atrito cm amplos segmentos da população carioca, entende-se o
poderoso apelo de um discuro antilusitno, no momento em que a
nação era forçada a olhar o passado. O espectro da dominação
pOltuguesa, cm forte raízes na realidade da long exploração colo­
nial de três séculos, reapareceu com força, e os cnflitos entre "cabras"
(brasileirosJ e ''pé-e"humbo'' (portuguee) ganharam destaque na
imprensa
.
2 E se um número maior de crime relatado nos jorais
não significa, necssariamente, um aumento das ações criminais,
demonstra certamente uma mobilização social em torno do assunto.
A Cata, por exemplo, alertava que se o governo queria levar memo
a sério a comemoração do Centenário, não devia deixar "a roubalheira
esmagar o povo, dede o vendeir sujo que vendia batata até o
bigodudo proprietário que alugva os cmodo".
3
0 Mas era a domi­
nação da imprensa e, atravé dela, o cmando da opinião pública e a
penetração nos círculo políticos que mais vivamente indignava os
intelectuais antilusitano
.
A reaço destes veio atrvés da fundação
de duas revists de declarado "combate à dominaço portuguesa" -
Braíea, criada em 1917 por Álvaro Bomilcar e Damascno Vieira, e
Gil Ela, fundada em 1919, sob a direção de Alcebíades Delamare; e
se completu com a organização da Propagnda Nativista e da A�o
Social Nacionalista, movimentos de "carátr patriótic e cívico".
3
Dentro de uma perspectiva bem caracterítica do incio da déada
de 1920, e que se manifetou com força nas celebrações do Centenário,
a origem de nossos problemas estaria nas raízes culturais, ou seja, no
elemento português, retrógrdo e atrasado. Amuitos oorria que era
hora de afastar das letras a influência portuguesa e de romper com
as formas tradicionais de expressão na gramática herdada dos dec­
bridores. A tentativa de sistematizar a fala brasileira numa língua
própria, o deejo de tornar válida a dicço nacional, parecia, tanto aos
modernistas, quanto aos adeptos da Propaganda Nativist e da Ação
Soial Nacionalista, o modo mais efetivo de marcr a nossa inde­
pendência, memo que com "cem anos de atraso".
No que tang à avaliação da colonização portuguesa no Brasil, se,
por um lado, Afnio Peixoto considerava que havímos herdado de
POltugl a civilizção greco-romana e a moral cristã, e que isso
bastaria par enaltecer essa herança,
3
2 o tom dominante por ocasião
do Centenário foi de crítica à época colonial,
19
"em que a vida par ese povo ( ... ) er um martirlógio,
e seria quase impossível imagnar que fose um dia o
gignte cuja imponência deslumbr a quem vê .. .',33
Pobrez intelectual, moral e matrial, inexstência de vida soial e
incpcidade orgniztiva, eis o que no teriam legado o cloruzdor
ao long de t século de dominço, na dur avliaço de Capistrano
deAbreu no balanç cm que encrr0 seu Çaíu r htcn
(197).
3
Mis drástic foi o vereito de Av Bmilcr: apiado em
Manol Bnfm, que chegu a criar o cncit de "parsitismo" par
sintetizr o cter da clonização prtuguea no Brsil, o militnte da
Prpagnda Nativist disparu: ''Naço nenhuma pu mais cntr
a humrudade que a prtugea ( ... ) Andou sempr devastndo não só
a terras de Áfric e Ásia ( ... ) O igualmente as d noso paí" ,3
cncluindo que s teria havido prgreso e cultura nos quatr estdo
do sul onde a influência prtuguesa havia sido nula.
O ponto m senível, contudo, er o que tava o cre da própria
cmemorço, ou seja, a definiço do signifcado polític do grito do
Ipirnga e o papel das divera figuras histórics no procsso da
independência. Alon matêria, fartamente ilustrada, publicda na
revist Eu si tu, em homenagm aos "novent e cinc anos de
independência"
,
apontva as dúvidas que grvam em tomo do pr­
cso de emancipaço:
"( ... ) Obra exclusiva do arrebatado tempermentovolun­
trioso do princípe D.Pedro, n opiniáo de alguns; de
José Bonifácio no cult positivista (. . . ); amparda por 2
milhõe de eterlinos, cnforme asseverou Mello Mores
pai; defecho natural de uma lenta evoluço prcipitda
pela tranferência inesperda da Corte par o Rio de
Janeiro e pelo movimento liberl da península, e acirr­
da pela impolític atitude das Cr Portugueas ( ... );
chocm-e até hoje as opiniõe e desse entrchoque não
brotou ainda hoje a luz cristlina da verdade históric,
merc talvez das paixõe que de alguma sorte hajam
obumbrdo a imparcial visáo que deve ser apanágo do
histriador'
,
.
3
Pareia incncbível que uma nação, pret a comemorar o
cntenário da sua independência, ainda não tivese conseguido iden­
tificr o ''verdadeir'' signifcdo da data magna da sua história.
Quem for, afinal, o efetivo cntrutor da pátria live E soberna?
D.Pedro I, cm seu ''voluntrioso'' grito de "Independência ou morte",
20
ou Joé Bonifácio, com seu paciente trbalho em prol do rompimento
cm a Corte? O 7 de setembr teria sido apens o "defecho natural"
para um procso de emancipaço já em marha dede o século XI,
ou for o indispensável aglutinador de tendências episódics e espar­
sas, incpaze de se orgnizrem par a ruptur cm a Metrópole?
A cnferência proferida por Amadeu Amaral n rom�riada Li�
Nacionalista de Sã Paulo (1917), e publicda na Rit d Braü,3 é
epeialmente rprentativa da verão que enfatizva a idéia de que
o gito do Ipirng tria conistido em "mer cntinuação feliz de um
movimento evolutivo". Nesa prpctiva, o Brasil já seria Mnaço
em 1822, foIjada anteriorment "na cntituiço do trritório, na
formaço da rça, na elabrção do sentimento nativist e no pendor
rpublicano". "Independência ou mor!" for o grito desa ''nação'' que,
embor "cntrariada" pla preença de D.João V e pela atitude de
D .Peo, não se dera por vencida. Desa maneir, afrmava -se a idéia
de cntinuidade de uma "nação que se cnstituíra pr vontade própria",
negndo-e a verão de que a indepndência teria rultado da cnc­
são de uma "gaç" por pare do antig dominadore.
Detcando o papel de D.Pero, apear da "ambição e da vaidade",
Tristo de Ataíde resalta que o princípe portuguê "tiver a intuição
do sentimento nacional". A grantir a unidade territorial, ao impdir
a "anarquia" que acompanha o pPso de emancipaço de outr
países sul-americano, o brado do Ipirang teria sido o toue de runir
para as fors que disperament lutavam pela emancipaço;
38
1822
fndar a nação brasileir.
Ao contrrio da maioria das rgiõe submetidas à dominação
clonial, onde o mito fndador da naço livre posui um clar signi­
ficado - Ttados Unidos e Méxic são exemplo marcntes -, no
Brsil, o sentido de 1822 suscita até hoje um cnjunto diferenciado de
interpretaçõe.
39
No que toca à figuras histórics envolvidas no 7 de setembro,
acentuou-se o esvaziamento, iniciado pelos poitivistas no primór­
dios da República, da atuação do ''D.Pedro português";
"ao se aproximar o 1· Centenário de nossa inde­
pendência é mister que se devende o verdadeiro papel
de D.Pedro I nesse magno aconteimento da vida nacio­
nal. Consagrado no brnze e nas página da história ( ... )
ele não passou de um mero oportunista [que] refrou o
quanto pôde as arrncadas independentistas".
4
Embora nese momento se perebese uma cr nostalgia do
"antig regime", envolvendo uma rcuperaço positiva da atuação do
21
brasileiro D.Pedro l, cm relação ao primeir imperador do Brasil,
a crítics se acirrarm, fando indelevelmente no imaginário nacio­
n a fgura de um "etróin", "cm suas decisõe rpentinas, a
vacilaçõe de seu cráter, a incultura do seu epírito ( ... ) a falta de
austeridade em seus costume privados" .41
Quanto a Joé Bnifácio, a unanimidade é gral em tor do papel
que teria rprentdo na Indepndência, como, aliás, já for notado
por Emilia Viotti da Ct, em artigo sugstivamente intitulado "Joé
Bnifácio: mito e histórias".42 Absolvido de qualquer rponabilidade
pela ausência de democia que mUo reinado de D.Per I -ou
porque "a implantaço do Aolutismo C .. ) for obra de Joé Clemente
Pereir",43 ou porque "a mentalidade públic não permitiu que C .. ) se
sentisse com forças par a obr inicial de demorcia
,
;4 - Bonifácio,
librl e cnservador ao memo tmp, psuiria uma "crnte" visão
do objetivo nacionais de longo przo. Repreentante 'ünic" de uma
tendência que buscara implantar uma política clcada em '1eis cientí­
fcs", rejeitndo o "idelismo" librl que acbar vingndo na primei­
ra Constituição republicna, defensor da ordem e da cntalizaço
política, o patriarca agradava, espeialmente, àqueles que, no ano
1920, foram rsponsáveis pela formaço de um penamento autoritrio
no país.45 Escrevendo par a Reita d IHGB, omemortiva do
Centenário da Independência, Tvare de Ly cnfes a:
"( ... ) se o julgo o vulto primordial daquela jorda glorio­
sa, é porque em meio de demolidores emérito, soube
cnciliar a ordem cm a liberdade, prerando da
agitaçe e das luts que ensangentarm as Repúbli­
cs vizinhas .. .'.6
A reuperação históric de Bonifácio cmo O moelo providen­
cial a ser seguido foi particularmente bem-vinda nese início dos anos
20, marcado por uma agitada campanha presidencial que fugiu aos
parâmetro do jogo político da época, e culminou com o levante militr
de 1922. A entronização defInitiva de Bnifácio deveu-e
,
em parte,
à mobilizção da intelectualidade paulista no intuito de garantir par
São Paulo a iniciativa dos momentos fundamentais da Inde­
pendência, como a lembrr que não er de hoje que os paulistas
goveravam o Brasil.
A comemoração do Centenário clocu em cna versõe múltipla
da "história pátria", suscitou interpretçõe diferenciadas sobr o
papel das fguras históricas, obrigou, enfIm, a um mergulho mais
profundo O raízes nacionais. Avaliando a herança dos três séculos
de colonização portuguea no Brsil, discutindo o sentido do grito do
Ipiranga, elegendo Bonifácio cmo o grande ''patriara da inde-
22
pendência", o pensador do Centenário cntruírm M"história
(n verdade, uma memória), que fuou M long tdição na
trnmissão do cnhecimento histric.
Tnto quanto o passado rmoto, o que clama igalmente pr M
urgnte avaliação é o passado rnte, crrifcdo no rgme rpu­
blicno, instalado h pouc m de t dédas O paí. Uma
pernt anda n cbs e n b: que Rpública é esa?
QUE REPÚBLICA É ESSA?
"Vio a Rpúblic. Veio a Dmocia. Veio a Federaço. E logo s
levantu um sus ur de deapntment ( ... ) e ese deapntamento
se acntuou cm o temp, numa pranente deilusão ( ... �
Nã er est a Rpúbli d DUsnr'
DESIUSÃO e deapontamento dão o tom do balan do 35
anos de polític rpublicna levado a cb por ecritore da graçp
nacida cm a Rpúblic, e publicdo em 1924 cm o nome de A
magem da htra d Reública. No entnt, as mnifetçe de
rpúdio Brgme intituído em 189 são bem anterior e podem ser
detects, já na virada do séulo, em republicno cnvicto cmo
Euclide da Cunha; a crnça de que "ese paraío de mo"
pudese cncrtizr o sonho de uma naço "civilizda e moerna"
rapidamente se devanecia. Como alerva a crític Caa em 1920,
a Repúblic não era mais aquele "busto lindo de M mulher, fume
no pedetl ( . . . ) cm barret fígio"; devia ante ser rprentada por
uma "esfing cm um simple cpuz de bico feito por um jor
velho".48
Ese cticismo estv asoiado à piço do intele n soie­
dade brileira, perbida cmo sOdária em rlaço ao poer oligr­
quic etbeleido. SupndCe M nova elit cntapt à oligr­
quia, julgndCe detntora d uma vsão abrnte da relidade
brileira, a intelectualidade, de um modo gr, empenhou-e em
apntar uma saída par a crise da Rpúblic. 192 rvlou-e um
2
ano-have par o acirrament desa decrnç: de Olado, a cmemo­
raço do Cntenário, forndo uma reflexão sobre o país e, em epcial,
um balanç das realizç republicnas; de out, a crise polític,
reprsentada pr uma cmpanha preidencial particularmente tena,
croada pr um movimento de rbelião militr na prpria cpitl
feeral. Justmente no ano em que o paí devria clebrar a emanci­
pação da naço, obtida gç à "uruão de too cm o memo objetivo",
aí se incluindo até o antigo dominador, eis que uma "atroofera de óio"
torva evidente a falência do rgme rpublicno.49
A análise e refexõs empreendidas por vário intelectuais em
busca de uma saída para a crise da Repúblic nortearm-se por um
padrão dictômic de cmpreensão da socieade e da histôria brasi­
leira, orientado, de um lado, pela busca da "verdadeira" República e,
de outr, por uma nostalgia do "antigo rgime".
Para alguns inteletuais, os male da soiedade brasileir náo
deveriam ser atribuído ao rgime republicano. Álvaro Bmilcar, pr
exemplo, nas páginas da Br, defendia a Repúblic cmo a úruc
solução para a "causa do povo". Se atualmente ela só favorecia ''meia
dúzia de individuo", isto era devido ao "vício de origm", ou seja, a
coloruzção portuguea e o regme imperial teram cntaminado a
''pureza'' dos ideais rpublicnos. E era justamente essa ''purez'' que
deveria ser reuperada para que o paí voltasse a viver a "verdadeira"
Repúblic.5o
Com ese objetivo, Bomilcar fundou a Prpagnda Nativista em 21
de abril de 1919, ''ara o fim de cndignamente cmemorar a data do
martírio do gorioo herói ( ... ) e sob a evoço do imortal patrono -
FLORNO PEIOTO'
,
.51 A referência a TIradent explicitava o
deejo de frmar as origns rpublicanas no tmp, cnferindo-lhe
raízes profundas na história braileir. A memo tempo, lembrar o
''mártir'' da Independência er remeter à pssibilidade de exsténcia de
um republicarúsmo íntego, afinal crporifcdo em Floriano Peixoto.
Arbitrio e despótic � alguns, Floriano frou uma mític de
purez e republicnismo.52 Em 1920, Bomilcr dedica seu liv A
plt RBrUil ou o ninr ra à memória do "consolida­
dor" da República, ''erói modesto, culto e patriota" que, orientando a
polític no sentido nacional, trouxera a epernç de salvação par
milhõ de brasileir. O fim do floriamsmo tria provoado a ruína da
República, cuja recuperação dependia da rvivescncia dos ideis de
Floriano.
O longo artig de Cardoo dedicado a Benjamim Constant par
igualmente querer buscr a "verdadeira" Repúblic, que "existira sem­
pr latente no paí", e fora conseguida dent da ordem pr aquele
militar e profesor "formador de almas". Er ese "epíito republic­
no", preente em tos os moviment "revolucionários", arrigdo,
24
portant, na índole ncional, que deveria se opr a esa Repúblic
"artifcial", apartda do ideis do seus fnddor.
53
Forçndo uma rfexão sobre o passado, a comemoração do Cn­
tenário desencdeou o desej de buscr o temp perdido, provocou a
sensaço de que se perder uma "Idade de Our" que era preciso
rstaurr. ¯ Se algun desse "tempos de ante" foram efetivamente
vividos, como o forianismo, outro foram evocdos através de um
modelo exemplar, cmo foi o co do Império.
O segundo semetre de 1920 foi mardo por um intenso debate
em toro da revogção do decreto de banimento da faInl1ia imperial,
o que posibilitaria a volt à terra natl dos despojos do imperdores
Pedro I e 'resa Cristina e de seus familiares ainda vivo, cmo a
Princsa Iabel e o Cnde D'u, exilado na França. O retoro da
família imperial ao solo pátrio simbolizaria a unidade nacional,
fundamentl par "fetejar cm sincr júbilo o 12 Centenário da
nosa Independência".
55
Em toro d bandeira do fim do banimento imperial foi montdo
O discurso de tom notálgo em relaço ao "antig regme". A
cntrário do "subverivo da Repúblic" que, no primeiros ano de
implantação do regime no Brasil, realizram efetivo esfor par a
volta da Monarquia,
5
aquele que agra exltavam o Império jamais
explicitaram a posibilidade de retro do rgme imperial, a não ser
em tom de galhofa, cmo na irreverente CO-a que, em julho de 1920
obserava:
"-Revoga.e o banimento da faInl1ia imperial, intitui­
se a Ordem do Cruzeiro, cria.e o Conselho de Estado.
Onde iremos parr? Isso é a volt da Monaruia?
-A pretaçães .. .'.57
Com a finalidade expresa de "salvat a Repúblic, o inteletuais
que nese momento prderam a uma revisão da ''histria'' do Império
prjetaram nele qualidade que prurvam no regime que o substituí­
ra. A cmear pla observaço de que "a família imperial não nos fez
nenhum mal. Ao cntrário ... ", Assis Chataubriand fazia um avalia­
ção clarmente psitiva de "D.Isabel, a Redentor, [que] imortalizu o
seu nome n págn mais brnc da nossa história"; memo o at ento
detestado Conde D'Eu er O"soldad�uepegu em Bpela defesa
de nosa pátria cntra o etrangir". Pedro l,
"figur solene, bonísim e respeitável ( ... ) er epetro
acusador na consciência do dirigente da Repúblic ( ... )
2
que temiam ter a todo o momento o passo crtdo ( ... ) J10
fa d últm gov hn q t o Brif,.5
Desa maneira, o imperdor afguru-e a muito cmo o pardig­
ma de gvernte cpz d slvar a Rpúblic, avaliada cmo crrupt
e deoneta. Aliás, o próprio Impro foi ruprdo cmo "a épo das
verdadeiras liberdade polítics", clcda na "ordem e tranqüilidade"
que prmitiu o deenvolviment do paí, deixando " impresão de
repeit dese homen gve, honeto, impnent, movendo-e
numa atmofer elevada em toro de um príncipe".
6
Irnicmente, a
salvação da Repúblic passava plo Imprio e plo Imprdor no
passado etavam os sonho de projeço pr o ftur.
Republicnizr a República é a palavra de ordem que cmanda a
cmemorço do Centenário em 1922. Porém, que moelo seguir? O
jacobinismo florianist renascido pelas mão da Prpagnda Nativist
ou a clma sabdoria do imprdor ''ma demoátic" da Améric
Ltina? Achegda ao Brasil do rto moris da faInl1ia imprial, em
janeiro de 1921, prvou uma rmaria do "republicnos históric"
ao túmulo de Florian Peixot e Bramim Cntnt, numa clar
indicço de que a disput pelo cntole da memóra é uma luta plo
poer de encaminhar o futur do paí.
A decpção cm o regime rpublicano que, ao cntrário do que
era esperado, não havia reolvido mecnicamente os deequilíbrios
da sociedade brasileir, etimulava a elaborção de um vereicto
segur capaz de garantir a salvação nacional. Se antes de 1920 já se
punha o deo nas feridas que se espalhavam pelo cro da nação, er
na perpectiva de cmemorr os cm anos de independência que tis
idéias redentoras se cnfigurvam cmo saídas para os impasses
brasileiro. O primeiro efeito do impacto prvocdo pela próxima
cmemorço foi forçar a intelectual idade a tomar pé da situaço
nacional, compreender as causas do atro do paí e formular O
programa de ação par superá-lo. O debate de um determinada
époc não apenas possibilita cnhecr o ponto de vist de cda autor,
cmo permite delinear a confgurço de grupos, a cncntrço em
toro de crtos temas e a discussão de determinados problema. Em
toro da idéia de criar um "cnsciência nacional", o tema do nacio­
nalismo cncntra a atenção do intelectuais.
A palavr de ordem era "basta de fecundaço artifcial!".
61
O
descnhecimento das rais cndiçõs do Brsil pela maioria dos seus
habitante, aí se incluindo os inteletuais, e a adoço, sem rtriçe,
de modelos polítics etrangeirs, form apontado cmo entrave
para a cntruço da nacionalidade brasileir. A prsenç do pena­
mento de Alberto 'r, marado pela denúncia cnstnte do artif­
cialismo das nossas instituiçe, foi fndamental par a cnfguração
26
intelectual da grção dos ano 20.
62
Para o ecritor fuminense, a
realidade nacional poderia ser devendada dede que se abandon­
sem o modelos importdo e se partisse para uma análise "científc"
dessa realidade. Por essas idéias, 'brr seria ruperdo no pó-30,
atravé do pensadores do Estado Novo, cmo Oliveir Vana e
Azeveo Amaral, que lhe rnderam a devidas homenagn cmo
inpirador da polític "realist" ento adotada.
6
'br a Rpúblic "brasileira" er a misão de Mgrção que
"cmeu a pensar pliticment depis da gn guera de 1914".
6
A Primeira Guerr tve um forte impacto sobr a intletualidade,
6
deprtndo um sentimento de urgncia fente à roluço dos prble­
O nacionais. Alcu Amoroo Lima a cniderou cmo "a intruço
da tagédia numa civilizção que o saudoists chamavam de bll
é'", detonando uma "espéie de rjuvenecimento de nossa ger­
ção".
6
S, ao long da guerra, a intletualidade brasileira se dividiu
entre aliado e gnnic, ¯ao f do cnflito ficu a senaço de que
a "civilizço blle épou' deixara de fascinar a maioria daquele que
a viam cmo moelo inegvel da moerdade a ser cnquistada.
Caprichoamente, a tfa de cntruir uma cnsciência nacional e
moder no Brasil dos anos 20 teria cmo cntpnt a ser negado a
blle éque "dedente, ultrapasada e falida". S a histria do pn­
samento braileiro sempre fora mrcda pelo fascínio da queto
nacional, nese momento ccu o númer do pensadore que se
empnharm no deafio de ompr e dempr o Brasil omo naço.
Um dos exemplo mais signifcativos desse eforço intelectual foi
a já citada coletãne de enaio escritos entr ' segunda metde da
década de 1910 e o início da seginte intitulada A me d hitóra
d Reúlia. 6 Publicda em 1924, cm o objetivo de pensar os cem
anos de independência e os 35 de República, e cncbida, segundo a
apreentação de Vicnte Licínio Crdoo, como uma exposiço "dos
ideais, crnças e afirmações" da grção nascida com o novo rgime,
e a quem cbia ''uma nova Obr d cntuã, ou seja, fixar no tempo
e no epaç, o Penaeno e a Coniênia d Naini Brai­
leirc', essa obr coletiva encarava a rponabilidade intelectual de
equacionar os problemas nacionais. Os enaio eram rics em solu­
ções e sugestõe par reformar a nação brasileir. Marados pela
desilusão cm a República, seus autore se lançarm à rflexão
crític, à tentativa de uma análise objetiva, a fm de apontar rmos
que pudesem guiar o regime em melhors cminho: a palavr
mágic era "abrasileimmento".
"Minha gração ( .. . ) foi muito trabalhada pela tendência
de julgar a orgnizaço cnstitucionl ( . . . ) do rgime da
crta de 1891 cmo servil imitço de modelo etran-
27
geir, sem nenhuma crrepondência com a relidade
brasileira".
6
A afnnaço de Herme Lim, que n participu da euipe de À
mgedht dRepúli demontr a prpo, gner­
da no meio intele, da inadeuaço da Cntituiço de 1891 à
rlidade brasileir Explicitente voltdo pa a crític da Carta
rpublic, os ensaio "O idealismo da Cntituiço e ''PreliuúÇ
pa a revisão cntitucionl" denunciavm o crátr pricioamente
inúttivo da nosa lei m. O ''idlt republicno" foram, na
avaliaço de Oliveira Va, "eclente trdutor de male etnho;
pésimo intrpret de noso prprio mle". O ambiente "agitado
e intbilísimo" que maru o surimento da Repúblic e a promulga­
ço da Contituiço não fvorra o foIr de um "epírito demorá­
tic". A experiência decntlizdor e feertiva da C de 1891
etia fatalmente detinada ao facs, "à meid que se fose
acntuando o deacrdo entre o seus princípio e a cndiç mentis
e etruturais do nosso pvo".70 O noso "male" rultriam, pis, da
maléfica ombinaço entre a falta de cntto cm a realidade nacional
e a cpia de molo etirs.
'is idéias, que claramente patnteavam o decrito em rlaço
à onda civiliztria eurpéia, orlhoamente autoenominda de bl
éque, adquiriam forç crcnt ent o inteletuais brileir. O
modelo liberal, tido omo a suprma rço plític de qualquer
nacionalidade, etva sob o fogo cuzado do que, à equerd e à dirit,
advogavam a regeneraço da etrutura plític. Pa muito, era
prciso dar um bata a esa mentlidade "artifciaf', "utpic e "aprio­
rític da elits que haviam dirigido e ainda dirigiam o paí cm o
olho voltado para o etrngiro,
'já que ninguém de bo fé, se pode referir à nossa falt
de organizaço polític, administrativa, uúlitar, indus­
trial, etc ... , depois do fracaso de todas esas orgniz­
çes na super-ivilizada Europa".71
Não é mais possível aturar que, prcisamente no ano do Cente­
nário da nossa emancipaço, "o delegado dos EUA n Exposiço de
1922 no venha lembrar a nossa soberania duvidosa
,,
?2
Ma o que no levava sistematicment a imprtar idéias etn­
geiras? O que no impdia de criar instituiçs "cnveniente" e
"adaptadas" à nosa rlidade? Porque não havíamo cntruído ainda
O''Bril brileir', Aindicção de Albert 'r é pr; 'Tenha­
mos em mente que a naçs que se foI epntanemente em
28
nosa épc são cntída por seus dirignte, so obra d'arte
polítics".73 A menagem é clar: a aço plític atravé da imprnsa,
da eucção, da opinião e do etudo -eferas de atuç do intleal
e do plític - cntituiNe-iam em métdo privilegado pra a
formaço da nção.
Criar a nação brasileira seria, pis, trefa desa "mlr as an­
U'. Ete era o sentiment que animv o diferente autor da
cletnea orgIzda pr Vicnte LicíIO Co, cmungndo a crn­
ç de que "o nacionalismo é, ant de tudo, um atitude intlectual ( ... )
no terrno d idéia e terias ( ... ) E cmo prvo-lo sn pr meio de
uma propagnda tenaz?
,,
74 A grnde falha da Rpúblic brsileira foi
não ter sido cpaz de produzir uma elit bem preprada, pront a
assumir "em um paí cmo o noso ( ... ) incpaz de s dirigir a si próprio
( ... ) esa tutla, esa ditdur mentl que Joé Bnifácio quis exerr" . 75
Sem dúvida, a tria da elite, forulada pr Gaetno Mosc (1896),
e acolhida pr Paret (192) e Michels (1912), tve b acitço em
amplo setore da intelectualidae brasileira do anos 20.
A neesidade de uma elit
"
enrgic" em nosso paí crecia na
medida em que o povo tinha sido incapaz de se orgnizar politic-
"
, . . �
'bli ' ( )
- . n
7
6
mente - somos um povo em que a opmlao pu c ... nao eXste ,
afrmava enfaticmente Oliveira Viana. Da, a inviabilidade de
cnstituição de um modelo nacional de orgnizaço polític.
Esa interprtaço de Oliveir Viana se cnet tnt ao pensa­
mento cnserador europeu quanto B brasileir, et solidamente
aferrado à raízes "saquaremas".77 Privilegia a orgazção e a ativi­
dade do Etado, cnferindo-lhe um papl preminente, bao no
presupot de Usoiedade civil débil, de um povo cultural e pliti­
camente deprepardo para exercr um papl ativo no negcio públi­
O. A expresarem um aneio de fortleimento do pder público
central, inteletuais cmo Oliveir Viana, Gilbert Amado, Ponte de
Miranda
"
cnsolidaram o que LamouIer chamu de "ideloga de
Estado".
8
Dotados de uma visão orgnic-rporativist, prbiam
ese autore a necsidade de um pder estatal forte para erdicr o
male do passado e manter sob cntrole qualquer pIso de mudança.
Nese contexto, etruturaram-se crrnte de opiIão que passa­
ram a cnferir à educaço o papel de forç propulsora da sociedade e
de elemento saneador d crise que af�tavam o paí. Segundo o
balanç realizado pelos ensaítas de A mge d htra d
Repúblia, o nosso problema básico er a educço nacional; daí, a
conclusão óbvia de que a educção era a maior necssidade do Brasil.
O tema da educço adquiriu um luga de relevo na arna de
debate em torno de projets de reetuturação nacional e de afirmação
d base da nacionalidade. Assistiu-e ao surgimento de um amplo
movimento que Jorg Nagle chamou de "entusiamo pla educção", o
29
qual, de cr Oir, rturva a bandeira de lut da gro
"ilutda" de 1870. ' cmo no f do séulo pasado, a pJpaço
princpal Oanos 20 er prp a elite, pis a ela cbra a tfa de
orientr a orno do p, forndo o p.7
9
Ao ensino superior etva rerado o papl de fonnar o "ilumi­
nados", detinado a "ilustrr o paí; a univeridade er defnida
cmo o ornismo cnctnador da mentlidade nacionl, de onde
haveria de sair M nço trnsfonda sob a diro de uma elit
"enérca" e bem prpada: a criaço da Univeridade do Rio de
Janeir e a rfora Sampaio Dória, amba em 1920, sã momentos
sigifctivos dese efor.
Ao enino básic, cbia formar o pvo brileir; ou melhor,
tmnfoIa massa "impur", "deornizda", "apátic" e "analfa­
bet" nua populaço ornizda, pautda pelo valor da ordem e
do trbalho, e giada
i
elo "epírto corporativo e plas intituiç de
solidariedade sociar'.
Ao lado da educço, a saúde fgrva cmo element fndamen­
tal para a rgneraço nacional. Dede o início do século, a queto
sanitária vn oupando um epaç impornt O polítics públi­
cs, cm detaque p a Refon Paso, na cidade do RiodeJaneir.
Na segund metde da déd de 1910, M rlatóro de dois
médic, Blisáro Pen e Aur Neiva, tçu Mminucioo invntio
da cndiç de saúde do hbitnt do serto d B Peruc,
Piauí e Gi. Et doumento glhou in publicidad atv da
cmpan do ecritor Monteir lbto em prol da rforulaço da
saúde públic no Bril. lbat, cnhecido pr haver ciad a fra do
Je 'tu, prtótip do cbolo brsileiro, prguiço e atdo, cn­
ceu à queto do sanement o etatut de ''roblema vitar' do país:
"Fala-fe hoje em ptia mais do que nu ( ... ) Pg ptiótc só
h um: sane o Brif'. A "suriço" vivida pr Je 'at que, de
cbclo indolente s tforr em ativo emprário, gç a um
efic trtamento médic, deveria serir de exemplo p a "suri­
ço" de too o paí.SI Quetõ cmo saúde públic e cndiç sanitá­
r form incrradas à tmátc
J
lític, inerindoe no amplo
debate sbr a rnstço nacionl.
O sentment de urgência que D o debate intele n
segnda metade da décda de 1910 s aclera fente à tf crcial de
penar a nço que clebrav o cntenário de sua independência. O
balanç do paí feito no raiarda déda de 190 apontv a Iidade
de um prjet de (r)ntuço ncionl que gntisse o iso do
Brasil na nova ralidde do pó-guera. Ese moment foi Mdo
pela tntativa de cloc o paí no rito da história, de tr-lo
cntemporneo do seu temp, de rciá-lo à altura do séulo x O lema
er: tudo pr Unço mde.
80
POR UMA NAÇÃO MODERNA!
" milhar de jovn escritor e joven artists que foram mort;
h a ilusão prdida d
Ucultura europia e a demontraço da
imptência do conheiment pra salv qualquer cisa;
h a ciência mortalmente atinda e cmo que denrada pla
creldade de suas aplicçõ;
h o idealismo dificilmente vencdor, prfundamente magdo ( ... )
o relismo deepionado ( .. . ) O prprios ctic decncertado pr
aconteiment tão súbitos ( ... ) prem suas dúvi�
rencontram-ns, trn a prê-Is .. .'
o deabafo de Paul Valér rprentou bem o etado de epírito
da intelectual idade eurpia, prplexa diant da banC ta de uma
époc orglhoa de si mesma e de seus feitos a ponto de se au­
todenominar bU équ.8 Par et inteletuais, levntava- se o
deafo de encontrar novos cminho para viver a moerdade e bem
exresá-la; moderdade et nacida do sentimento de rmpimento
cm o passado reente.
8
Part pondervel da inteletualidade brileira igalmente rejei­
tava o passado reente, cnfgrado n trajetória pouco eificante de
um Rpública que buscu cpiar a "blepoque" falida. O balanç dos
cm ano e a cneqüente avaliação d cndiçõ cncrts de atrso
da socieade brasileir indicavam a nes idade de novo parmetrs
que defnissem uma naço moer, pis o moelo até então adotdo
pareia egtado. Esa procpaço et prent nas obrs de Oli­
veira Vlln, Licínio Cardoso, Manol Bonfm,MonteiroLato, Mário
de Andrade, Alberto 'r, entre outros. Múltiplas e cntraditória
são a interprtç, divergnte o cminho prolosto, O em
cmum a elaboraço da idéia de um Brasil modero.
Gerção marda pela missão de feundar idéias singlars, não
cmprmetida cm a "artificialidade" da importço, nem por isso
se furtou a buscr a moerdade atrvé de U integaço crític
e seletiva d idéias que circulavam na Europa. O ato de buscar
31
modelo eternos é univeral, o que não impede de ser ele um
intrumento útil para se entender um socieade epecífc. An, o
que cnsciente ou inconscientement o imprtador admitem ou
recusam, est prfndamente influenciado pela sua própria soiea­
de e sua maneiras de penar. Desa maneir, julgo importnte
apreiar o papel que o modelos estrngeir deempenharam na
cnstruço da naço brasileir W riar da décda de 1920; importa­
no verifcr a fnção que tais modelos ouparm no prjeto polític
e culturl penado pela intelectualidade nese momento.
O desmoronar do valores que sustentvam a bU équ - o
liberlismo, o otimsmo cientifcist, o racionalismo,já abalado desde
antes de 1914 - traduziu-se, em toos os domínios do pensamento,
por uma vontde de rnovaço. A inquietço intelectual se acleru
no fnal da déada, cm a Rvoluço Russa e o fm da Grnde Guerra.
Em alguns ano, a "velhas" noç científcas euclidianas e newto­
nianas, em que se apoiava o saber das ciências exats, foram super­
das, em grande parte, pelas nova concpç da Fíica determinadas
pela Teoria da Relatividade de Einstein.
O deencnto cm o princípio racionais acntuou o papl do
incnciente, ccndo o interse plas floofas que prgvam o
predomínio do sentimento e emoçe e aplavm par a imaginaço.
I ao fndo de n memo significv, dentr desa perpetiva, buscr
as rz, as forçs primitiva e mitológcs que fndavam o noso ser.
Er fndamental fazer emergr o "verdadeiro epírito nional", rle­
gdo a segundo plano pelo encnto que a mc cmoplit da bll
équ prmetr em grandiosas expoiç universais.
A deadência epreitria o Estdo liberal burguês. Pregava-se a
modernização da etrutur política; acndiam-se as discussões sobre
demorcia e participaço popular. A rejeiço da "velha" polític
liberal de eleiçe e cadeiras no Parlamento,substituída pela orgni­
zação do proletariado em sindicto e pela foração de uma ativa
liderança que guiasse as massas, aproximava os homens de direit e
de esquerda, cnquanto seu objetivo fnais fossem distintos.
A virada para a terir décda do século X foi marcda, pois,
pela rejeição da belle épqu, fortalecndo o antiintelectualismo, o
antiliberlismo e o nacionalismo, cmponentes que alimentram o
pensamento tradicionalist, mas que form igualmente levantdos
pela crrente da vanguarda para demolir todas as "tradiçõs". Abas­
tecidos nas mesmas fontes, o dois movimento rivindicvam par
si o monopólio de pordore da moerdade.
Para o trdicionalistas, nada havia de moero n rlidade
urbano-industral marda pelo deenraizment e o artificialismo.
Para enfentar ese mundo que se demancava no ar, o homem
"vrdadeirment" moero preisava de ríze firmemente ancrdas
82
n tradiço nacionl. O seja, a melhr maneira de eOo novo e
enfntr o ftur n sr anda par fnt, Osim d meia volt
e buscr inspiraço no pasado. Cmo ecl l Gf, "o 'mor',
à beir do abismo do prent, volt-e p o pas ado ( ... ) se poe cir
no tadicionalismo 'por ecs de moerdadev.8
Elaborada em grnde parte no âmbito da ktn Fraa,
movimento nacionalist francs fndado em 1889,
8
a crrente tra­
dicionalist pregava o rspito à leis da naturez, entendida cmo a
veradeira construtor da sociedade. A se afastar do mundo natural
através da artifcialidade do maquinismo e do meio urbano, o homem
teria perdido o cntato cm as "" virtude da civilizço. O
rtomo ao cmpo e a valorizção do setor agrio eram difndidos
cmo a possibilidade cncret de um mundo harmonioo, mrdo
pela gntilez e a honradez. A soieade da máquina, intelectualiza­
da, rcionalizada e univeralist, era entendida cmo dedente e
cótic. A naço, realidade afetiva, dever-e-ia clcar no vínculo
familiares, naturais ao ser humano em socieade, e não O comple­
X e artificiais fórmulas da democia libral. A perpectiva da
seguranç, harmonia e coão, a imgm rmântic do ''homem livre
na teIa liv", a retauraço de uma "civiliz�o naturl", foram
elemento de atração da ideologia nazi-facist.
A inquietaço intlectual motivu Mpluralidade de investig­
ções em todos os cmpos da cultura, transformndo o primeirs anos
do nosso século em laboratório de cncpçes que, sob o nome gnéric
de vanguarda, invadiram a pintur, a músic, a literatura e a
escultura. Podemos citar, por exemplo, o Futurismo (199), o Expre­
sionismo (1910), o Cubismo (1913), o Dadaímo (1916) e o Espirito­
novismo (1918).
Deorrnte do culto à moerdde, a vanarda foi cneqüência
do egtamento de ténics e torias ettcs que já não crponde­
riam à realidade do mundo novo. Auittndo nova tors culturais,
experimentando outas fórulas de eJrs ão, o vanguarists fn­
dam rvists e reigiram manifetos.9 Embra cda um do movi­
mento culturais otentsse carcterítcs próprias, pemos dettar
diretrize gris que orientaram a aparente deordem vanguardist.
At de tudo, er preiso abandonar as cnvenç, ou seja,
epaç, perspectivs e rgrs ptics deveriam ser rompido numa
reaço cntra o rlismo, cnt a "ditdura" do natural. "amo da
naturez" er a palavr de orem, Qndo um opço de enfenta­
mento da moerdade radiclment opot à daquele que pregvam
um retoro à natureza Nada de extraordinário: afnal, se a moer­
dade une o homens, ela "é um unidade pardoxal (..i de luta e
cntradição, de ambigüidade e angústia", alerta Brman 9
3
o "eto futursta", de Minetti, mardo pla apologia ao
"aerplano, loomotivas, ofcina", indicava o deejo, marcnte na
vanguarda européia, de exltar a vida modern, prgndo a detrui­
ço do passado e a glorificção do preente. Preente crrifcdo no
maquinismo e no panorma urbano, temas indissociáveis de qualquer
perpetiva que visasse trduzir o modero. Er isso que se eviden­
ciava n carictas figurs urbanas do exprsionist alemão Georg
Grss, no tenso pomas dedicado às vüls tentaua, do blg
Emile Verhaern, ou aina, na paisagm frgmentda de Cd, de
Fernd Lgr.
No Brasil, a inteletualidade comprmetida cm a cnstruço de
um Brasil moderno ocila entr a tradiço e a vangarda.
É marante a diferenç entr ets duas elite intelectuais: uma,
cmpost por indivíduos ligdo às idéias vrdists eurpéias,
rmpendo cros valor "clássico" e buscndo sintnizr a relidade
nacional cm o ritmo veloz e febril do novo mundo urbano e inustrial;
outra, igalmente fliada a crrente intercionis, de cráter cn­
serador, marada pelo apelo ao valore da naturez e do cmpo, pelo
rpúdio ao industrialismo e à moalidade da vida urbana, litorlista,
csmopolit e liberal. Ambas se unem pela oposiço à prtenões da
rzão univeral derrotada na ger e advogm a originalidade de
cda nação. É claro que, cmo em todas a classificçõ excsiva­
mente simple, a dictomia, por veze, tora-se artifcial. Porém,
cmo todas as distinçõ encrrm algum grau de verdade, a opiço
''trdicionalismo'' x "nguarda" oferec um ponto de partida par a
rfexão. Assim, não temos dúvida sobr a difernç entre Oliveir
Va e Mio de Andrade.
Cidade e cmpo são palavr poeras que detonam um cnjunto
de sentimentos fortemente arraigdo na vivência humana. O cmpo
ora é assoiado a uma forma naturl de vida, de paz, de inoncia e
virtudes simpl�, or é visto cmo o lugr do atrao, da ignoráncia e
da limitaço. A cidade associa-e à idéia de cntro de ralizaç, de
saber, cmunicçe, ma tmbém de barulho, crrupço e perdiço.
Cristalizda no imaginário soial, foIadas principalmente pela lite­
rtur, esas imagens positivas e negtivas de cmpo e cidade são
cnstntmente atualizda e acionada. ¯
O chamdo pensamento rurlist ou agraris t, crcterizdo pela
defesa intrnsigente do valore ruris e da eonomia agrária cmo
expressõs suprems da "gnuín" naço braileir, marcu a geraço
intelectual dos ano 10 e 20. Considerada por gande parte da histo­
riografia cmo apenas um "manifetço ideológic do setor
agrários cnerdors" fente ao crcnte espaç oupado pelo
interse industriais no panorama ecnômic e polític, esa crn­
te de idéias vai ser recuperda cmo um momento de rflexão de
34
cunho polític-oial, fndamental na formação de modelos interpr­
ttivos da naço brasileira.9 Liga-e sem dúvida à crtez ampla­
mente difndida de que a Rpública, litoralista e csmopolit, não
truxer o eperado progrso. Inser-e no pIso de construção
da nação, tarefa urgente para M"digna" cmemorço do cntenã­
rio da independência.
A adesão aos valores "sólido" da tradiço rural, a filiaço à
crrente que pregavam um apego à naturez, a valorizção da
atividade agrãria fente à "ameaça" industrialist, atraíam tnto os
intelectuais da ''reção ctólic", Jackson de Figueirdo e Tisto de
Ataíde, cmo os "verde-amarelos", Plínio Salgdo e Cassiano Ricrdo,
ou ainda, Oliveira Viana e Monteir Lbato, membros de uma elite
agrária em crise.
Para etes intelectuais, a identidade nacional teria que ser bus­
cda longe dos cntros uranos litorâneos crrmpido pelo "vício da
imitaço". Lbato é explícito:
''É prciso frisar que o Brasil et no interior, Oserras
onde mourja o homem ( ... ), nos sertõe onde o sertnej
vstido de cur vaqueja ( ... ) nos cmpos rehinnte de
carros de bois ( ... ) O caatingas ( ... ) sem um ecrúpulo
de fanceismo a lhe aleijar a alma".9
Nese discuro de cunho esencialmente antiurano, a cidade
emergia como antípoda do símbolos que deviam cntituir a iden­
tidade nacional a ser construída; emergia cmo imagm invertida de
um autonomia deejada. Er alvo de tratment irdo e irônic,
modelo a ser cmbatido, já que reprentava a adesão acrític aos
"frncsismo", que haviam deixado sua mr indelével na paisagem
urbana da litorânea e comoplita capitl federal. Rmper com as
idéias importadas significva deixar de ser crnguejo a arranhar o
litoral, cnumindo de maneira alienada o que vinha de for. A
decrença nos valore da bele épue, a avaliaço dos cm anos de
naço, a crise do ''pacto republicno", rforçavam a necsidade maior
de fI os ''batiões da nacionalidade". ' cmo o pote de ouro W
fnal do arc íris, o Brsil ral poeria ser encntrado no interior. Era
prciso não equecr a liço de Euclide da Cu: rumo ao ser.
A cnsciência nacional, abafada pr séulo de importção de
moelos artifciais, poeria agra se frmar meiante a avaliaço
"crreta" d potencialidade e prblemas do país. O nefasto '1itor­
lismo polític",9 herdado do Imprio e cnolidado na Repúblic com
a Cons tituição de 1891, deveria ser substituído por um polític
prgmátic, sintonizada cm os novos tempos marados pelo "epíito
3
crportivo" e pelas "instituiçõs de solidariedade social". Como
depoitário das trdiçõs mais rpreenttivas da nossa história,
cmo portador dos valores básics da barmonia, ordem e cesão, o
cmpo se qualifcva par direionar a nossa evolução polític;;ocial,
tão crente de uma orientação.
O artificialismo que permeava tda a etrutra brasileira teria
atingdo em cheio a intelectualidade, epialmente a litora!-smop­
lit. 'is intletuais não teriam cndiçe de pnsar a naço real, em
fnção da percpo distorcida pela adeão a uma cultur artificial
importada; na verdade, reprentriam a parte falsa do Brsil. Ma­
cbado de Assis e seu "csmopolitismo dissolvente", de um lado, e
Euclide da Cunha, ligdo à "forç orignal da terra", de outro, repr­
sentariam parmetro da atividade intletual balizdo numa dicto­
mia que relacionava sertãolbrasilidade e litoral!cmoplitismo.
9
A partir do final da décda de 1910, v florcr uma literatur
regional paulist, incentivada plo eitor Monteir Lbato, intersado
na publicação de obras que se comprometesem cm o sentmento de
brasilidade e ''paulistnidade''. ¯ Bastnte cnserdor, impregnada
do modelo do relismo/naturlismo, enfondo o homem "rude" do
serto cm ingênuo arroubo rmântic idealizador do interiorano
e da paisagm que o envolve, esa litertura sertanista-bola voltou­
se tmbém para a exltaço dos mito paulists, epialmente o
bandeirnte, entronizdo cmo o veradeiro herói nacional.
Preocupado com a tradução do especifcamente nacional, buscn­
do a linguagem autêntica e autônoma que trnscendesse a mer cópia
de um ecletismo afanceado, Lbato ragiu violentamente à exposi­
ção de quadros de Anita Malfati, em dezembro de 1917:
"Sejm sincer: futurismo, cubismo, impresionismo e
tutquant não passam de rmo da art crictura! CJ
A moder, eis o escudo, a suprema justificaço C .. )
".
Não bavia nada de moderno nest transposição mimética do mito
civilizatório europeu; modero er o naturalismo, bem representdo
pelas obras de Almeida Júnior, como O caipira pican f, O
violiro, arte brasileira, sem dúvida.
Marda por um crto retomar do pensamento romântico, a cor­
rente tradicionalista tendeu a prvilegiar o epacial. 'l cmo no
romantismo, a rgeneraço soial e política só seria psível cm um
retorno à origem, ou seja, à naturz, eter e idêntic a si mema.
9
Presenç constante no discurso plítico, a relaço ente epaç e cráter
nacional acmpanhou a formação da naço brileir, evidenciada no
vário prmio cncdido pelo Instituto Históric e Ggráfic Brasi-
36
leir ao trabalho que cntribuírm p o cnheiment ggáfo
da naço em cntuçoYlO O pnament ufanista,
que buscv a
identidade nacional em asp d nturz - o clima, o rio, a­
riquezs do subolo - trou-e um do mis poeO cmpnente
do imgnário ncional.
A idéia da gfzaço e da espacializaço do Brasil .cmo
rferenciais para exprimir a brsilidade-crátr distintivo do Brsil
e/ou do brileiro -foi deenvolvida, Oanos 20, pelo grupo "verde­
amarelo", em epecial, por Plínio Salgdo, atrvé de artig que
ecreveu par o Corio Pmistao, posteriormente runido n obra
intitulada Gga snmnal. O epacial seria o elemento defi­
nidor do Brsil e grantidor da sua orignalidade no quadr inter­
cional, e a ggrafia, o intrumento mais adequado para uma reflexão
sobre a ncionalidade brsileira.
IûJ
A identifcção entre ncionalismo e trritório er clar. O mapa
do Bril devia se tornar objto de culto cívic, pois a cntemplaço
do acidente gográfco grva o sentido profundo da unidade da
Pátria, reforçndo o sentimento da ncionalidade. Afinl, quem no
se lembr do primeir cntto cm o Bril,
"fazendo rio cm tinta azul e mont cm lápis
marrom, trçndo frnteir cm tinta vermelha e pin­
tndo cqueiro primitivo. E formndo uma idéia grá­
fca do país e amando nesa fgur aquela cisa vag e
incomprenível. ..
¬IU
Se a avaliaço dos cem ano de história pareia no cndenar, a
gogfa poderia no redimir. Afastre da naturz er afastr-e
do Brail.
Além de se cntituírm em "cerne da nacionalidade, as popula­
çes rris seriam as maiors fonte proutor da riquez nacional.
Ao trbalho proutivo da lavoura se cntraporiam a indústria d
cidades, ''parasitas C .. ) mntido plos cofr públics ... ".103 Aopoi­
ço entre o cmpo, proutor de riquezs, sustentculo da ecnomia
nacionl, apear do descso cm que er trtado pelo gvero, e as
cidade mrítima, ''parsitria'', cmo a cpitl federal, marcu a
produço de uma ampla gma de intelectuais cmo Álvar Bmilcar,
Oliveira Vian, Alberto 'r, Plínio Salgdo. Par etes, a pátria
er a terr, e o pequeno fazendeir proutor de alimentos, o elemento
vitl da nacionlidade.
Embora detque o agrarismo cmo um movimento de "frnc
oposiço à industrializço e à uranizço do paí", numa ração do
37
setor rural à gadual perda de importância dos intersse agrícla
frnte ao prcsso de industrializaço do Brail, Lu rcnhec que
"não se limitavam, porém, aos princípios ecnômics, os
ideais desse gupo rait ( ... ) penetravam no domí­
nios da morl, prnizano uma flosofia antiindustria­
list, anti urbana, rsaltndo as vantgns e a supe­
rioridade da vida do cmpo ... ´´¯
Enfm, er um projeto de nação que se montava no início do século
X (1910-1920), de rjiço ao litoralismo csmopolit, bem rpre­
sentado pela cpital federl, e de apelo a uma volta ao cmpo. S que,
em nome desse memo "nacionalismo", outros louvavam a urbaniza­
ço e a industrialização.
"Queremos luz, ar, ventiladors, aeroplanos, reivindic­
çes obreiras
i
motor, chaminés de fábricas, sangue,
velocidade ... " 05
Para um expresivo grupo de intelectuais, epeialmente aqueles
que dentro do modersmo admirvam os cnones vanguardistas -
Mário de Andrde, Oswald de Andrade, Menotti dei Pichia, dentre
outro -er difícil acreditar que o Brasil estva Wsero. Par este,
a cidade impunha-se cmo o novo cntr dinâmic da vida nacional,
impunha-se cmo identidade nova, aguardando o momento de se
rvelar, de se formular cmo tal. Esa identidade é indissociável da
idéia de modernidade, quando
"a vida multiforme e absorente, marvilhoa na sua
cmplexidade, violenta na sua trgédia e na sua verti­
gm, a vida século x. cm fábrics e bolchevismo, com
o sangue ainda quente dermado no holoausto da
grande guer, pede outra ténic
A
ar a sua rpr­
sentço, outra exprssão verba!..."
l 6
Dessa forma, pelo que passava a rprsentar, a cidade nâo seria
apenas uma questo de urbanismo ou arquitetur, m o espaç de
gstação de um novo projeto par o Brasil. A opoição ao passadismo,
a busca da atualização e moderzção cultural em sintonia cm a
vanuardas européias, significarm a adesão à vida urbana, seu
dinamismo, suas fábrics, seus novos valores que, em cnjunto,
rvelavam a busc de uma nova naço. É o próprio Mário de Andrade
que, em 1942, avaliando a atuaço dos moderstas, defne-s cmo
38
"doutrinário, na er d ml tra, svc o Ba, inventn­
do o muno ... "
l
0
Se, n avaliaço de More,
l
0
o primeir tmp moert
(1917- 1924) ccterizou-e m pla prpação cm a moer­
zção da cultur brileira do que prpriamente cm a queto
nacional, percbe-e clarment que a prpt vnt do
início do anos 20 indicm já uma nv dimenão da idéia de nacio­
nalidade: ser nacionlist não se rstringiria a fotogfar a fla "rde"
do nosso ''rude" homem do serto. É tmp de u nova concpo
de cultur. O avanç da etétic eurpia não devem ser igordo,
O tampuc simplemente tranplantdo: é o "antrpfgismo",
a digto do que h de novo l for, a par da buc de uma exprsão
autenticmente brsileira e do aprveitmento cnciente do que for
intersante à afrmaço da nacionlidade. "Sei que dizem de mim
que imito Cteau e Papini ( ... ) É verdade que QY cm ele a
mema ágas da moerdade; no é imit é seguir o epírito de
uma épa".
l
0
Foi a decbert do pt blg Verhaern que levou
Mrio de Andrade, inpirdo em Vdls tnaua, a fazr um livr
de poia em vero lv, sobre São Paulo, a Palia daad
.
O fturismo, emora rjitdo pla adeão à ger e ao fascismo, é
adlnirdo pela "rebelião, independência, sineridade, que guerria
cntr a hiporisia, cntra o obscurntismo ... "
l
lo
É da perpectiva da afiração de um nço em busc de novos
símbolo que o moderists rjitm o "sertnismo rmãntico" cro
um modelo ultrapassado:
"a morn de ce de brnz e do olho lar fcu
p o chor dos violõ cpadóios; o amor ubíquo e
multiforme ( ... ) univeraliz-e num panteímo vto
que v da geba à etrlas, do t ao último ecãndalo
am de Atkinon. Um tforão d cn 6
opHvid brl
r
.
.
.
"
lll
Nese noo cnário, no h lugr p "a conciênia 'pri', a a
'peri' ( ... ) símbolo da suprtiço plo pasado, que no poe cnti­
nuar na er do autmóvel e do aeroplano".
12
Aincrorço à ordem
modern, compre ndida como u e indutial, é marcda pela
rcionalidade, plo pragtismo, plo culto da oproidade e do
prgso. O ''ncionalismo cr-e-bis", com seu "Je 'ginan­
do', cnto de cbairr, rgto sussurant" deve ser abandondo
em prl do "veradeir" nacionlismo, cmpatível cm a ''á�uina,
o cnfortos citdino e as gne cnquistas do prgso".
l
3
39
A negação de um tp repreenttivo de nacionalidade a ser encn­
trdo Omatas ou plo sertão é evidente, cmo evidente é a rejeição a
um discuro que prgue a prepção meânica da natureza: "Fujamo
da naturez. Só assim a arte não se rsentirá da ridícula faquez da
fotogra colorida ... "114 Não ser, prtento, do meio naturl que se
extriráo o parámetro definidore da identidade nacional. A cntrá­
rio, o realismo é assoiado ao pssimismo, obserand<e que o autre
ralistas dão sempr uma vião distorcida do nacional:
"ete livr ( ... ) que só de nacional tazm o rtulo,
prcurm retratar o brasileiro no matut opilado, no
doente do serto, no abandonado d catingas petífers!
São falsos e perigoos! Não são livr nacionais !
,,
115
o parsianismo é taxado de ultrapassado por aprisionar a
linguagem no cânones rígidos da métric e da rima. Mário de
Andrade defende a polifonia poétic, de "idéias reduzidas ao mínimo
telegráfco da palavr",1l
6
do texto sem cncrâncias, sem ligçes.
Essa libertação da palavra liga.se a um univero diferenciado que
nasc de formas novas prduzidas pela realidade urano-industrial,
pontuada pela presença do imigrante. O cmopolitismo e a presença
do estrangeiro se, por um lado, resultam em baes par a superação
do atrso e garantia da entrada do país na moderdade, por outr,
devem etr submetidos "ao profundo epíito nacionalista", pois
"é o milagre do idioma e o cntágio das trdiçes nacio­
nais de que se imprgnam as levas estran@irasqueaqui
aportam, que abrasileirm a nova raça ... "U7
No campo ou na cidade, na trdição ou na vanguarda, o que se
buscv era o segredo da sempre prometida, e nunc cnseguida,
modernidade. Ser moderna, eis a aspiração que animava a soiedade
brasileir à véperas do Centenário da Independência, moment
ímpar não só para a realização de um efetivo balanço das "reais"
cndiçõ do país, cmo para a elaboração de prjetos que apontassem
soluções para a questão nacional. Lng de representr um projeto
único e homogêneo, tal aspiração envolveu diferentes concpçes de
modernidade; long de se limitar ao âmbito das idéias, buscu se
frmar no campo das realizçõs "concrets". É nese sentido que
entendemos a reforma urbana empreendida na cidade do Rio de
Janeiro no início do ano 20, que visava prepará-la para as festivi­
dades do Centenário. Nese momento, mais do que nunc, "o Rio tem
de ser um sol na constelação do etados".llB
40
Nota
1 -W Cot Rego, O Centnário, Crio da Manh, 5/06/1920.
2 - "( ... ) tmos, pr u lado, dictmia cultura� O¸ pr outo, a
circularidade, influxo reíproc entre cultura subaltera e cultura hegemô­
nica ( ... )". Carlo Ginzburg, O queijo e os vennes: o cotidiao e a idéias de
um moleiro perseguido pla [nquisiçoo, p.21.
3 -Jacques L Gl, Histria e memria, pA26.
4 -Ver Corelius Castoriadis, A intitiço imainária da soiedde,
cap.VII.
5 -Michael Pollak, Memória, esqueciment, silêncio, Estds Históri­
cos, 2(1989), p.3-15.
6 -Christian Amalvi, L 14-juillet, em Pierre Nora (org.), Ls lieux d
mémoire, vU, L République.
7 -Ver José Murilo de Carvalho, A formao d amas: o imaináio
da República n Brail, e Edgrd Lit Ferreira Neto, A elaboração
psitivist da memória republicana, Tempo Brasileir, 87 (1986), p. 79-
103.
8 -José Murilo de Carvalho, A forças armadas na Primeira República,
o pder desestbilizador, em Boris Fausto, (org.), O Brasil Republicano,
História Geral da Civilização Brasileira, tomo m, vol.2.
9 - Lúcia Lippi Oliveira, A fests que a República manda guardar,
Estuds Históricos, 2(1989), p.172-189.
10 - Deodoro da Fonseca, citdo pr Eg Lit Ferreira Neto, O
improviso da civilizaçoo: a naoo republicaa e a constuçoo da ordm
soial lKfna d século XX, pA1.
11 -Id. ibid., pAO.
12 -Rodrigo Otávio L. Meneze, citdo pr Lcia Lippi Oliveira, op.cit.,
p. 182-183.
13 -Citdo pr Edgard Lite Ferreira Net, O improviso dacivilizao,
p.75.
14-Cf. José Murilo de Carvalho, Aformaçoo das alma, p. 68- 69.
15 -Citdo pr Edgard Lite Ferreira Neto, O imprviso da civilizaçoo,
p.74 (gifo nosso).
16 -Id. ibid., p.91.
17 -Cf Lúcia Lippi Oliveira, op.cit. , p.187.
18 -Cf Edgard Leite Ferreira Neto, O improviso dacivilizaçoo, p.75.
19 -O árbitros de cartoJa e os de p, Cata, XV(737), 05/08/1922.
20 -Adolpho Pinto, O Centenário da Indepndência, Revista d Brasil,
[(1),jan.1916.
21-Noventa e cinc anos de indepndência, Eu sei td, [(4), set.1917.
22 - O noso folk-lore, A Exposiçoo de 1922, (2), ago.1922 (grifo nosso).
23 -Para crianças adults, Caeta, XV(716) , 11/03/1922.
24 -O centenário do Brasil, COleta,x(715), 0403/1922 (grifo nosso).
41
25 - Em 1915, na conferência "A unidade da pátia", Man Arinos de
Melo Fanco clama pla urgência de "criar a nação". Ver Thomas E.
Skidmore,Pto Rbra rae naeionad Rpnaent brasileiro,
p.173. Semelhant preocupação marc o editrial do primeiro número da
Revista d Brasil: '� ... ) Ainda não somos U nação que % cnheça, que
ainda não teve o ânimo de rompr sozinha pra a fent ... ".
26 -Fancisco Pontes de Miranda, O fundament do epírit brasileir
(o pnsament nacional), A Epsiçê d 192, (l), jul.l922.
27 -Ver Robert Ventura, Etl tropical: história cultral e plêmica
litráas RBrail.
28 -W Costa Reg, O Centnário, op.cit.
29 -Ver Glads Sabino Ribeiro, "Cbras" e "pés-d-chumbo": o antilu­
sitaismo na cid d Rio d Janeir.
30 -Careta, XV(663), 05/03/192l.
31 -Ver Gladys Sabino Rieiro, op.cit.; Lúcia Lippi Oliveira, Ilha d
Yra Cruz, Terra d Sata Cruz, BraiL' um estudo sabr o nioalismo
braileiro; Mônica Pimenta Velloso, Levatamento d revista Braílea e
Lvatamento d rvista Gil Blas.
32 -Ver Lúcia Lippi Oliveira, Ilha d Yra C, Terra d Santa Cruz,
BrasiL' um estud sobre o nacionaismo braileiro, p.166.
33 -Em continência, Caeta, XV(741), 02/09/1922.
34 -João Capistrano de Areu, Caítlos d lstria colonia.
35 - Álvaro Bomilcar, citdo pr Lúcia Lippi Oliveira, Ilha d Yra
Cz .. , p.166-167. Sobre o conceit de parasitimo de Mnoel Bonflil, ver
Flora Sussekind e Robert Ventura, História e dpendência cultura e
soiedad em Maol Bonfm.
36 -Noventa e cinco anos de indepndência, Eu sei td, op.cit.
37 -Amadeu Amaral, A indepdência do Brasil, Revista d Brail,
V(24), dez.1917.
, 38-nisto de Atíde, Política e letas,em Vicente Liciio Cardoso (org.),
A magem d histria d República, p.242.
39 -Ver Carlos Guilherme Mat (org.), 182: dimenõs.
40 -Pedro Malazrt, Crrio da Mahã, 18/08/1920.
41-Ronald de Caralho, Bases da nacionalidade brasileira, em Vicent
Licínio Cardoso (org.), op. cit., p.215.
42 - Emilia Viotti da Costa, Da Monarquia à República: moments
decisivos.
4 - Rul Pompéia, Prefcio, e,m Rodrigo Otávio L. Meneze, Festa
nacionais, p.VIII.
44 -Fancisco Ponts de Miranda, Preliminare §a revisão cnsti­
tucional, em Vicent Licinio Cardoso (org.), op.cit., p.17l.
45 -Id. iid., p.171, e Bolivar Lmounier, Formação de um pnsamento
plítico autoritário na Primeira República: uma intretção, em Bori
Faust (org.), op.cit.
46 - Tavares de Igra, citdo pr Emilia Viotti da Costa, op.cit., p.99.
42
47 -Fancisco José de Oliveira VJ. O idealismo da Constituição. em
Vicente Lcínio Cardos (org.). op.cit .• p.141-142 (gifo no origina\).
48 - A esrmge republicana. Caeta. XllI638). 11/09/1920. Sobre as
representçõe alegórics feminias da Rpúblic. ver José Murilo de
Caralho. A formaoo d alma -o imanáo da República RBrail.
49 -Caeta, XV(734). 15/07/1922.
50 -Ver Mônica Piment Velloso. Lvanl d rvist Braílea.
51-At da instlação da Propagnda Nativist. citdo pr Lúcia Lippi
Oliveira. Ilha d vr Cruz •...• p.198.
52 - Lima Barret. em Triste fm d Polica Quasma. d uma
imagm altment negtiva de Floriano. Para um comentrio sobre a
imagem psitiva. ver Sueli Robles de Ris Queiroz. Os radicas da Repú­
blica.
53 -Vient Licínio Cardoso. Beramim Constant, em VInt Licínio
Cardoso (org.). op.cit.
54 -Ver Roul Girardet. Miùe millgia plítica.
55 -A revogação do banimento. Cata, XlI638). 11/09/1920.
56 - Ver Maria Tresa Malatian. Nostlgia do "antigo regime": a
República em crise e a solução resturadora. História. num. esp. (1989).
p.163-178. e Maria de Lnrde Monac Janoti. Os subverivos da Repú­
blica.
57 - Careta. XII(631). 2407/1920.
58 - Asi Chateaubriand. A rvogação do baniment. Crreio d
Mw.ã 06/04/1920.
59 -O espcto acusador. Careta. XI649). 27/11/1920 (grifo nosso).
60 -Ronald de Carvalho. op.cit.. p.218. e Gilbert Amado. As ínstituiçôe
plíticas e o meio soial no Brasil, em Vicente Licínio Cardoso (org.), op.cit. ,
p.64.
61-Ronald de Caralho. op.cit.. p.221.
62 -Ver Cândido da Mot Filho.Albert Torseo temadnossagrao.
A influência de Alberto Torres etâ presente na coletânea À magem da
história da República.
63 -Ver Lúcia Lippi Oliveira et.a\.. Estad Novo: idologia e podr.
64 -Herme Lima. citdo pr Thomas E. Skidmore. op. cit.. p.303-304.
65 -Ver. entre outos. Lúcia Lippi Oliveira. Ilha d vr Cruz ... ; Thomas
E. Skidmore. op.cit.; Ludwig Luerhass Junior. Gtúlio Vaga e o tiunfo
< nacionalismo braileiro; João Cruz Cost. Cntribuiçoo à história d
idias RBrasil.
66 -Alceu Amoroso Lima. citado pr Lúcia Lippi Oliveira (coord.). Elite
intelectual e debate político nos anos 30. p.39.
67 -Cf. Francisco Luiz Tieira Vll1hosa, 1914 ou ecritores em guerra,
Jomal < Brail. Cadero Espcial. 26/08/1984.
68 -São o segint os ensaios: Antônio Caeiro Lão, Os deveres da
nova geração brasileira; Celso Vieira. Evolução do pnsamento republicano
no Brasil; Gilberto Amado, As instituições plíticas e o meio social no Brasil;
4
Jonathas Serrano, O clero e a República; José Antônio Nogueira, O ideal
brasileiro desenvolvido na República; Nuno Pinheiro, Finanças nacionais;
Francisc José Oliveira Viana, O idealismo da Constituição; Fancisco
Ponts de Miranda, Preliminares para a revisão constitucional; Ronald
Carvalho, Bases da nacionalidade brasileira; Tasso da Silveira, Aconscrn­
cia brasileira; Tistão de Atide, Polítca e letas; Vicente Licínio Cardoso,
Benamim Constant.
69 -Herme Lima, citado pr Thomas E. Skidmore, op.cit., p.303- 304.
70 -Oliveira V, op.cit., p.140-145.
71 -Mnuel Basts Tige, Cri da MO1hã, 05/8/1920.
72 -Francisco Pontes de Miranda, Preliminare §a revisão const­
tucional, p.175.
73 -Albert Torre, A orgnização nacional, p.182.
74-José Antônio Nogueira, O ideal brasileiro desenvolvido na Repúbli-
ca, em Vicente Licínio Cardoso (org.), op.cit., p.92-100.
75 -Gilberto Amado, op.cit., p.75-76.
76 -Oliveira VIana, op.cit., p.153.
77 -Ver Ilmar Rbrlolf de Matts, O tempo Saquama.
78 -Bolivar Lamounier, op.cit.
79 -Jorge Nagle, Aeducação na Primeira República, em Boris Faust
(org.), op.cit., e Roque Spncer Maciel de Barros, A ilustraão brasileira e
a idéia d universidade.
80 -Oliveira Viana, op.cit., p.159.
81 -Montiro Lbato, Mr. Slange o Brasil e Poblema vital, e Urupês.
82 -Saneamento e saúde pública tomaram-se imprtntes compnen-
t da discussão sobre o arrasamento do morro do Castelo (cidade do Rio
de Janeiro, 1920-1922). Ver capitulo 11.
83 -Paul Valér, citado pr Maurice Crouzet (org.), A époa contempo­
rânea, Histria Geral das Civilizações, tomo VII, voU, p.108.
84-Ver Eric J. Hobsbawm, A era ds imérios: 1875-1914; John Bur,
La ida dei progreso; Marshall Berman, Thd que é sólido desHha no
ar, e Carl Schorske, Vena fn-d-siêcle: polítca e cult.ra.
85 -Para o conceito de moderidade, ver Jacques L Gol, Antig/Mo­
derno, em História e memória, op.cit.
86 - Ver Octvio Ianni, A idéia de Brasil modero, Resga, 1(1990),
p. 19-38; Lúcia Lippi Oliveira, Moderidade e questo nacional, LllaNova:
Revista de C"ltura e Política, 20(1990), pAl-68.
87 -Jacques L Golf, op.cit., p.198.
88 -Ver Erest Noite, Three faces offascism.
89 -Ver Barrington Moore Junior, A origms sociais da ditadura e d
derwracia; Karl Mannheim, O signicado do conserantismo, em Karl
Mwmheim, Grandes Cientistas Sociais, no.25; Ao J. Mayer, A força d
tradiçã: a persistência d Antigo Regime.
90 - Ver Mlcolm Bradbury e James Mcfarlane (org.), Moderism­
guia gra· 1890-1930.
44
91 -Mrhl Berman, op.cit., p.13.
92 -Para um histórico das concepes de camp e cidade, ver Raymond
Williams, O capo e a cida: na literara e na história.
93 - Ver Eduardo Rodrigue Gome, Cao conta cid - a reaão
ruralista à crise oligáquica Rpensaento polítco-soial brasileir (1910-
1935).
94 - Monteiro lbat, Etética ofIial, em Idéias do Jeca Tau. A
primeiras obras de l.bato destinadas ao público infantil, datdas de
1921/22, UH como cenário um sítio do interior de São Paulo, como a indicar
pagogicamente às futuras graçõe onde % localizva o ''verdadeiro''
Brasil.
95 -Tristão de Aíde, op.cit., p.287.
96 -Ver Mônica Piment Velloso, A literatura como esplho da nação,
Estds Históricos, 1 (1988), p.239-263.
97 -A maioria dessas obras se concenta ente 1918 e 1922. Cf. Sylvia
H. T. Lite, O regionalismo na I Rpúblic: crecimento e desgaste, História,
num. ep.(1989}, p. 57.
98 - Montiro Lbato, citado pr Mário da Silva Brit, Histria d
modrismo brasileiro: antecendentes da SeRa d A Modra, p.53-
54.
99 - Robert Romano, O conseroadrismo româtco; Roque Spncer
Maciel de Barros, A siglifcação educatva d roRtsmo brasileiro:
Gonçalves d Mahães.
100 - Ver Manoel Luiz Salgado Guimarães, Nação e civilização nos
trópicos: o Institut Histórico e Geogáfic Brasileiro e o projeto de uma
hitória nacional, Estudos Histórics, 1 (1988), p.5-27.
101 -Ver Mônica Piment Velloso,A brailidad verd-ala naio­
nalismo e regionais1 paulista.
102 -Plínio Salgado, citdo pr Mônica Pimenta Velloso, A brasilidad
verde-aala.
103 -Albert 'r, O problema niona brasileir, p.l04.
104-Nícia Vilela Luz, A luta pla industrialização d Brasil, 18081930,
p.92 (gifo no original).
105 -Paulo Menotti Del Pichia, citdo pr Eduardo Jardim Moraes,A
brasilidad moderista, p.65.
106 -Menotti Del Pichia, Na mr das reformas, Crrio Paulistao,
24/01/1920.
107 - Mário de Andrade, O movimento moderist, em Mrio de
Andrade, Apectos d literatra brasileira, p.231 (grifo noso).
108 -Eduardo Jardim Morae, op.cit.
109-Mrio de Andrade, Catas a Mael Baira, p.17.
110 -Menotti Del Pichia, Futurismo, Correio P=listano, 06/12/1920.
111 -Menotti Del Pichia, Amoço de ontem no Trianon, Creio Palis-
tao, 10/01/1921 (gifo nosso).
4
112 - Menotti Del Picia, Matmo Peri, Jo d Cm ri,
2301/192l.
113 - Manol Bt Te, Nacionalismo cr i, CTi d
Maã 15/7/1920.
114 - Mrio de Andrade, Prfácio intresantísimo, B Paulicia
dvaira, p.29.
115 -Cndido d Mot Fio, A littur nacional, Jora d Cmmer­
cio, 03/10/192l.
116 - Mrio de Andrade, Prfcio intrsantsimo, op.cit., p.35. O
etilo priano é durment criticdo @t M de Andrade em uma
série de artig pulicado no Jo d Cm ri, intituldo "O
do passado". Ver Mrio d Siv Brit, op. cit, cp.15.
117 -Menotti Del Picia, Problema etétic em fc do fenômeno étnico
pulist, CT i Palista, 07/09/1922.
118 -A capitl do Brasil, Revista d &Ra, X(26), 07 f8/1920.
46
CÍT I
1922: RI O DE JANEI RO,
UM SOL A BRILHAR
"O QUE SERÁ O RIO DE JAEIRO DE 1 92?,,1
''Faltam apns vinte e nove me p que o Brail festeje
o 1· centnrio d sua indepndência ( ... )
Os festejos do Cntenário devem forosamente atrair muits visitnts
à cpitl da Repúblic ( ... ) pde ..dizer que náo sr para etranhar
que todo 'undo civilizdo aqui envie as suas melhores representçõs
( ... ) E preciso que quem aqui aprtr ( ... ) encnte como primeira
cidade brasileira, am coisa que provoque louvore .. :.
DE maneir incisiva, tnto a sofisticda Revi d Sean,
cmo o popular C/Tei d Ma, indicvam a neesidade de a
cpitl federl prpararse cndignamente para reeber O inúmeros
visitntes oriundos do mundo "civilizdo", que para aqui acrrriam
atraído pelas "gandiosas" fetividade que crtamente marcriam
a cmemorço da nossa data mgna. Er óbvio que, cmo sede do
gvero centrl, o Rio de Janeiro seria o ponto de cnvergência do
olhare daquele que iriam avaliar o progrso da nção cntenária.
Não se trtva, cmo fazia quetão de fisar o ento prfeito do
Distrito Federl, Carlos Sampaio, de "vaidade tola", mas sim de
''atriotismo'', pois "a cpitl de um paí é como que uma amotra do
grau de desenvolvimento, de progso e de civilizço de qualquer
naço".3
Tm no cntenário da Revoluço Francea, a unidade da
Franç fora relacionada à preminência parisiene, num manife­
tção clar da superioridade da cidade-luz. 4 Micheletjá apntar o
importnte papel exerido pela cidade-pital no prcso de cnsti­
tuição d naçe, ao se rferir a Paris cmo o ponto em toro do qual
se manifestou a "alt e abstrata ralidade da Pátria".6 No cso da
47
América Latina, Rama deixa evident a preccidade da evolução
urbana aqui ocorrida, cnferindo à "cidade das letras" a tarefa de
formaço da nacionalidade e de estabeleciment de seus valore.
6
Capitl da Améric portuguea desde o séulo XI, o Rio de
Janeiro tornou-se, no século seguinte, o maior núcle populacional do
Brasil independente, seu cntro ecnômico e político. A se loaliz­
rm as matrize geradoras de uma prdução simbólic que buscu
montar um procsso de cnstituição da nossa identidade nacional,
como o Instituto Históric e Geográfco Brsileiro e a Academia
Imperial de Belas Artes, entre outras; aí se operu a cmpetente
montagem do Etado imperial.
7
Coube ao regime republicno reém-instlado promover a capital
federl a cartão postal do país, através da execução de obras de
saneamento e de embelezmento h muito planejadas. Mirando-e
no exemplo do barão Haussmann, que no século passado cnduzira a
reforma urana de Paris, a prefeitura do Distrito Federal, sob o
cmando de Pereira Passos (1903-1906), determinou a destrição do
velho cntro de vilas apertadas e casarÔ cloniais par dar passa­
gem à elegante Avenida Central;jardins foram criados e reformados,
os bonde gnharam trção elétric, um novo porto foi cnstruído, um
código de poturas urbanas impondo hábitos e costume "civilizados"
foi intituído, e uma reforma sanitária foi empreendida por Osvaldo
Cruz.
8
A grande recmpensa por todo ese esforço de "civilizar o Rio"
veio através do reconhecimento de uma potisa fancesa que, em
visit à cidade remodelada, dedicou-lhe um livro de poemas intitulado
L ville mveilleuse.9
O grande intersse da comunidade acadêmic por eta ''regene­
ração" da cpitl federal, atraindo não só historiadore, cmo tmbém
sociólogo
b
geógrafos, arquitetos, urbanistas, antrpólogos, cientistas
políticos,
l
indica a percepção de que as transformaçôs que ento
sacudiam o paí, a partir do maro polític que foi a proclamação da
Repúblic, podiam ser detectadas atrvés do "demonte" do cenário
onde tudo ocrreu. Ou seja, na ggrafia trnsformada da cpital
feeral estaria a marca da constituição de uma nova ordem ecnômi­
c, social e polític, de um novo conjunto de sonhos, deejos e aspira­
çes. Er o Brasil tentando entrar no ritmo da história, reriando
uma nação para o século que nascia; e a maior evidência desa
reiterada aspiraço seria transformar a capital "malsã" em cidade
('arvilhosa".
A importância das reformas Passos não é reonhecida apenas pela
historiografa; elas foram identifcadas pelos cntemporãnes cmo o
principal mar paradigtic do esforç de cnstruir nos trápics
uma cidade "civilizda". A propósito da volta do quioques, cmércio
48
ambulante duramente crado pelas poturas municipais, a Revita
da Semana, em març de 1919, alertava par
"a existência de grsseiras e sórdidas altaI po­
tadas às esqunas das ruas, pelas clçdas, pelas prças
( ... ) que afontvam a elegncia de uma cidade que se
modernizva e que tentaram ristir à energa do pr­
feito Passos, que cnseguiu extingui-los integalmente
( ... ) é mister acbar cm o quioque para que a rç não
prolifer".
11
o recdo não pode ser mais claro: é prciso que a bela cpital não
jogue fora o invetimento feito no início do séulo com o objetivo de
clocá-la na trilha das metrópole progessists. A obra de Pereira
Passos e Osvaldo Cruz, mais do que nunc, prcisa ser lembrada;
afnal, o Distrito Federal deverá etar prparado para recber o reis
da Bélgica em 1920, e dois anos depois, os inúmer visitnte que
certamente acrrro ao ruidoos festejo do Centenário da Inde­
pndência.
Os apelos à comemoração toram-e feqüente na imprnsa
crioa, principalmente a partir de 1920, através de uma eficz
operaço de "vigilância cmemorativa". Sâo numersos o artigs
alertando que "agita-se a quetâo de se dar à dat de 7 de setembr
de 1922 o brilho, o eplendor que deve ter'
,
.12 Em ccturs e
charg, o "Centenárid' é peronifcdo na forma de um velho seminu,
desanimado e triste; assim aparec ele na primeir págin do Jor
d Brai de 19 de julho de 1920, lamentando-se: "Nete passinho, eu
passo a fcr passado!" A Cata também deencdeou campanha
intensiva para lembrar a próxima cmemoraçâo. A rvist carioc
denunciava o esquecimento a que for rlegda a clebração de nosa
data mag, regstrando o "chor' do "velho centenário": ''Ninguém
se lembr de mim"; "Olho, não vej ninguém! Chamo, ninguém me
rsponde!";''Não te esqueas da velhic desamparada". A crictura
mais expressiva, signifcativamente intitulada "Tristeza do Centená­
rio", mostrava o "velho", deolado, cm um livro de história do Brasil
roído por rato, numa incisiva denúncia da necssidade de se salvar
a memória deses cm anos de naço.
1
3
Iniciativas são cbradas e atividades sugridas, eventos conside­
rado indispensáveis e empreendimento inadiáveis, tudo (ou quase
tudo) tendo por cenário a cpitl da Repúblic. Daí, a "obrigço" de
se dotr o Rio de Janeiro de ''melhormentos nesário", para que
a "cmemoração do centenário se faç numa c
v
ital limpa, saneada,
de bom apeto", lembr o Corei d Manh. 4 Desa maneir, o
sucsso de qualquer programa cmemortivo passava necssaria-
49
mente pela remodelação da "cidade marvilhosa" que, apesar de
cantda em vero e pra por suas belezs naturis, deveria se
aproximar "do modelo de Msoberba cidade do século X, alertva
a Revit d Sema. 15
''Para cmemorr o Centenário,
Um avenida vamo ter a mais
Que ostentrá casas monumentis
c. . . )
Vendo-a ferer nas horas cmeriais,
Dirão: entre as mais belas capitis
Cabe ao Rio um lugar extordinário!
,,
16
Numerosas sugestões de cmo preparar o Rio par as prxmas
fetividade do Centenário inundarm a imprnsa crioc no crrr
de 1920. Uma análise desas indicçõs permite percber a preocu­
pação acntuada cm a exansão da malha urbana do centr da
cidade, acnhado e cngetionado na opinião da maioria, demons­
trando a nesidade de se retomar as rfoI de Pereir Passos.
Rzõe de ordem eonômic e estétic estão preente Oargumen­
taçõs em favor da abertura de uma nova avenida - a Avenida da
Independência, é claro -partindo da Avenida Rio Branco até a Praç
da Repúblic, ou ainda do alargmento das ruas Primeir de Març,
Buenos Airs, Andradas e Avenida Passo e da demolição de "cn­
trçes arcics" na Praça X na Avenida do Mangue, na IGenerl
Caldwell. Trata.e, por um lado, de deafogr a zona cntral da
cidade, permitindo uma expansão das atividade cmerciais em
região tão valorizda ecnomicamente, e, por outr, de rcntruir
ruas cm prédios alinhados "à maneira da rua do Rivoli, em Paris ( ... )
para náo fazermos feio aos olhos dos milhar de forsteiro que nos
visitarão".17 Novas avenidas cruzndo a cidade, amplos bouleva
abrigando cnstruçe gabaritadas e permitindo o livr trãnit de
pesoas, veículos e mercadorias, eta seria a grntia de ingresso da
capital do Centenário no fechado círulo das metrópole moder e
civilizdas . .
50
"( ... ) eque a nosa última orgnizço sanitria, tlhada
no molde mais adiantado, prpar a olho vist o
fortleimento da raça e o aumento da sua capacidade
produtora. Do Rio de Janeir de 1822 fzemos ( ... ) a
cidade moder que atualmente se honra de hospdar­
¼¿ sem as epidemias dizimadors que erm, cm rzão
o terrr do etrngeir".lB
,
Em seu discuro na inauguraço da Expoição Interncional do
Centenário, o pridente Epitácio Pesoa detcva, entr outros
indicdore do progresso do p, o avanço obtido na "orgnização
sanitária", principalmente no tte à capitl brasileir, cnhecida
pelo surtos de varíola e febre amarla que dizimavam seus habitn­
te e assustavam o estrangeirs. Se bem que tis epidemias tive­
sem sido razoavelmente cntrladas, não cmpartilharíamo do me­
mo entusiasmo do presidente em relaço ao "adiantmento da nosa
organizaço sanitária". 'fuberculoe e síflis cmandavam agr o
batalhão das donçs que aleiavam e matavam. Uma simples cn­
sult à principais rvistas da époc permite pereber a ameaça que
pairv sobre a população crioa - a quantidade de anúncios de
"depurativos", "elixir" , "fortifcntes", a varieade de pungntes
depoimentos de homens e mulher atingidos por tais mles, denun­
ciavam as defciente cndiçes higiênics da "quente e úmida" capi­
tal, fato incmpatível com seus foros de cidade moder e civilizada.
Embora a questão da higiene e do saneamento tenha-se tornado
tema prioritário das

olítica públic no Rio de Janeiro a partir do
fnal do século X, isto não signific que etivese ausente das
procupaçes das autoridade cloniais. Em 1798, o Senado da
Cãmar do Rio de Janeiro, tendo em vista um proga que visava
melhorar a salubridade da cidade, elaborou um quetionário cm sete
quesito que, devidamente rpondidos, pudesem eclarr a cn­
diçes sanitárias da cpitl do Vic-Reino. A tarfa foi confada a t
médico -Manuel Joaquim Medeiro, Brrdino Antônio Gomes e
Antônio Joaquim de Medeiro -que fzerm um minucioo relatório
20
sobre as moléstia endêmics O epidêmics da cidade; o seu clima
quente e úmido e rpectivas causas desa umidade e dese cIor a
cndiçõs higiênics e de saneamento (as "imundície" e a "águas
estagnadas"); a posibilidade de elevar o pavimento da cidade e a
"cusas moris e dietétic das doençs". O ge võ, apont­
dos cmo maior rponáveis pelas defcitria cndiçe de saúde
da cidade, seriam os mors,
''por cncorrrm par o calor do clima ( ... ) ao impedir o
aceso do vento, que disprsariam os vapore ( ... ) e
cncrrriam para secr as águas ( ... ) manancial perne
de miasma febrígrs",
e o alagdiçs e charc, lug epeialmente favará veis à
prliferção de doenças. O rlatório do doutrs Berrdino e
Antônio Joaquim não hesitm em indicr a nesidade do B a­
mento do morr do Castelo, "o mais noivo ( ... ) porque é o que obst
mais a virção do mar ( ... )" S a naturez era o elemento que
51
positivmente ccterizva o Rio de Janeir cmo uma cidade de
belez sem igul no mundo, por outro lado, cntituía-e W grande
obstáclo a ser cntordo pelo engnho hOo atvés da sua
cpacidade de interferir no mundo natural.
Saneamento e higenizço são cniderado prblems cruciais
a serem enfentado pela adtração do prefeit Carlo Sampaio:
de um lado, pelo fato de constituírem pr-ndiço par o "fortleci­
mento" do trbalhador e o "aumento da sua cpacidade proutr",2
1
de outr, porue eram crtificdos de entrada Brtrito grupos da
naçe que haviam derotdo as "doenças do séulo". Valendo-e
cnstantemente das informaç cntidas no rlatório médico do
fmal do século XI, Sampaio, em mensagm ao Conselho Municipal
(Ol06/191), admitia que
"não devemo cntentar-no cm que o Rio de Janeir
marvilhe o visitante pelo asp eWtdore que
oferm suas blezs naturis ( ... ) o prblema de sua
higenizço, que é sem dúvida, o mais importante,
ainda encontr tntos embaraç par o seu solucion­
mento".
E, fazendo cr à vozes do século XI, rsponabilizva o
Castelo, "que difculta a livre rpirço da sua parte cntrl, onde a
edificção é mais densa".22
Dede meados do século passado, já existia a idéia de se reformar
a topografia da cidade em sua part cntral, arrasando-e o morr
e entulhando as baixad e o alagádiçs. Sendo (derubado por
ocsião da Reforma Passo), Santo Antônio, Favela e o ''sagado''
Castelo, no entender de muitos, não só cmprmetiam o eforçs em
prl de M cidade saudável, cmo tmbém obstruíam a "natral"
expansão do maior cntro urbano do paí. Mais gve, porem, O8
momento de exposiço aos olho civilizado, er o "epetáculo depri­
mente que apreentm aquele amontoado de csebr imundos ( ... )
verdadeira vergnha da nossa cidade e da nossa civilizço".23 Eram
a "nódoas do Rio", eses ''bairr parasitrios",24 que deveriam
deaparecr, segndo muito, ou pelo meno sofr uma profunda
rgneraço, na opinião de outros. Da maneir cmo etvam, soli­
damente fincados no crção da urb, ealando "miasma febrigrs",
expondo nossa miséria, cmprmetndo a imagm de "cidade mara­
vilhosa", é que não podiam fcr.
Ao cntrário da Rformas Passo, as obras de embelezmento e
saneamento da cpitl federal para o Centenário ebarraram nos
déficit do Tsouro Nacional. A rcssão mundial do pós-gerra teve
52
profundas reperussõs sobr a situaço ecnômic brasileir, dee­
tabilizndo a t de cmbio e o equilíbrio do setor cfeir, levando
o govero a enfrntar difculdade no finnciamento de seu desequi­
líbrio fIc e alimentndo as já crcnte prssõe inflacionárias.25
Do ponto de vist das fnançs municipais, o momento tampouc er
propício a investimentos de tl monta. Carlo Sampaio é bastnt
minucioo ao relatar as difculdade fnanceirs que o aguardavam
quando da sua indicção par a prefeitur do Distrito Feerl Gunho
1920), cm a incumbência de prIarar a cpital par a cmemoraço
do Cntenário da Independência.26
M, a par da difculdades enômicfnanciras, o que se impu­
nha no moment em que a naço se preparva par cmemorr os cm
ano de vida indepndente er marar o seu ingreso no mundo
modero, via cnstrução de uma cpitl moer - um Rio moero
seria sinônimo de um Brail moero. Em artigo intitulado "A cpitl
do Brasil", publicdo à vépras do deceto de 17 de agto de 1920,
detrminando o arrasamento do Castelo, a Reita d Sem óro
da imprnsa crioc epcialment cnheido pela cmpanha movida
em prol da derrubada do velho morr, tcva net importnte relação:
"( ... ) a magnifcência de uma cpitl não é uma simple
queto de vaidade, mas de dignidade nacional
C
.. )
Net hor históric em que o Brasil entru na plena
consciência dos seus destino formidáveis (. . . ) vem a
propósito perguntr se a capitl do Brail, to marvi­
lhoamente adorda pelas glas da naturza está à
altura de rpresentr a síntee brilhante de nossa civi­
lização ( . . .1 A nação gigantesca não quer ser servida por
pigeus".

7
Mais uma vez, a idéia de um Brasil modero, cntemporâneo do
seu tempo, estava comprometida com o proeso de moerização da
sua capital. "Deixamo-no distanciar por Buenos Ar", temos "apa­
rências de civilizaço, hábitos de prvíncia, nada mais!
,,
28 Simples
frases feitas, m que pesavam cmo uma séria ameça à cidade que
se orgulhava do seu csmopolitismo, e à naço que aspirava finalmen­
te ingresar no século x
Mas que projeto de cidade moderna estava em jogo no Rio do
Centenário? Como já vimos, se, por um lado, a busc do modero
implic cmpartilhar alguns pontos cmuns, por outr, provoc sem­
pr verões diferenciadas do que seria a moderidade e do meios de
se chegr até ela, negndo a existência de uma únic matriz cpaz de
trduzi-Ia inequivoamente. Na ótic de Brman e de Schorke, os
procsso de remodelação urbana de São Peterbur e de Viena
5
cnstituem fonte privileg de acso ao impasse da moer­
dade, em suas difernt võ e vrõ.
2
9
No cso do Rio de Janeiro de 1922, o evento emblemátic desa
múltiplas face da moerdade é o arrasamento do morro do Castelo,
brço de fundaço da cidade e locl de identifcço da população
crioa. Lng de sigifcr uma prpost uItria, afnada cm o
interse e a visão de mundo da classe "dominante
,,
30, a derrubada
do Castelo exigiu um cmplexo pIso de decisão. 'ma ctidiano
da imprensa a partir de meados de 1920,jornais e rvists rgstrm
minucioamente o argumentos pró e cnt a demoliço do Castelo;
sustentado em interprtçõ difernciada do que seria uma cidade
sintonizda cm a moderdade do séulo x
ARRASAR OU NÃO ARRASAR,
. EIS A QUESTÃO!
"( ... ) quando se anunciou a demolição do Castlo, t a cidade
etemeu; e tudo fzi crer que, à primeira enxdada no fanc 1�
moro, se sgis Urvolução ( .. . )
Avo de ataques crrdo e de apaionada defeas; "pérla",
"clin sagada" , "moldur natural da cidade", para u; "dent
criado", "mancha cloIal", "quisto", para outro - afnl, o que
sigificva o Castelo par a cidade do Rio de Janeir? Por que temer
um ''revolução'' quando se iniciou o aramento?
Mr histáricda fundaço da cidade, o Catelo er rvernciado
também por abrigr as igrjas de São Sebatião do Castelo (a do
Capuchinhos), onde estavam os osos de Estácio de Sá, e a de Santo
Inácio (do jeuíts), trnforada, posteriormente, em Hospitl
Militr e sede da mais antig Faculdade de Medicina do Rio de
Janeir. Epécie de garda da cidade, o Catelo assinalava a entrada
de navios. Er l que se levantava, no dias de sol, o balão anunciando
ao povo que er mio.ia, e que se lolizavm o rlógio da torre e o
54
obseratório astrnômic (186). D l. também partia o aviso de que
havia incndio n cidade. L de proteão e defea, quando os
inimigs foram os france. Habitço de rics, quando o prig
passou a ser rprentado pelas epidemia oriundas da rgião pan­
tnosa, baixa e muito quente, lolizda a seus pé. Moradia de uma
população pobr de cra de cinc m psos, distribuídas em mais
de 400 csas, quando, no dizer de Luiz Edmundo, "os que decm na
ecla da vida, vão morr p o alto ... ", o morr er um mar
cnstante na vida cotidiana da cpital do paí. Lugr de maga e
misticismo, cm a missa do Badinho, à sexts-feirs pla
madrugda, e com a "cas de prto", onde a macuma rsov, o
Castelo etava envolto ainda num prfndo mistério em tomo dos
teouro que os jeuít teriam econdido antes de serm expulsos no
séclo XIII; falava 'e em doze apó tolo de our maciç em tamanho
natural enterrado no subterrâneo do morro.32
A idéia de arrasar a Castelo é antig. O inquérito efetuado por
três médics e aprsentdo ao Sendo da Câmara, O fnal do século
XI, serviu de base para que o bispo Azereo Coutinho, no início do
século seginte, aprsentasse um relatório indicando a necsidade
de demolir "o gande Monte do Castelo, que serve de padrastr àquela
cidade [o Rio de Janeiro) e que lhe impe quase t a viraço do
mar" , cntribuindo para tornar aquele ''belo sítio" lol prpício a
doençs e ''malefcios".33
Em 1838, Pe Belegde e Conrdo Niemeyer justifcvam um
pedido de cncsão pa o arsamento d Castelo, alegndo que "cm
o rápido crecimento da ppulação, a cntínuas eicç ( ... ), a
cmodidade de tânsit, o aformoemento da cpitl", torvam'e
indispnsáveis medidas no tont à salubridade públic, cmprme­
tida plas "ealaç mismátics" prvenient do morr.3 Sóio
fundador do lGB, Blegde e Niemeyer faziam cr cm a maioria
do intelectuais que no Instituto apoiava a demoliço do Ofnda­
dor da cidade. A únic voz dissonante era a de Vagen, que
argumentava que
"a demolição seria obra gigntesc, dispendiosa e que
( ... ) iria fazer a cidade mais monóton e meno fec do
que se em suas encsts se plantassem árvor, deti­
nando-as � passeio público da cidade . .. ,,3
A possibilidade de transfoI o Catelo num lugar aprazível,
prpício a ''belo paseios", foi aventda postriormente por aqueles
que cnideravam um "sacrilégo" destruir a "clina sagrada".
55
Em 1860, o problema da derrubada do Castelo passou par a esfer
pública, e a Li do Orçmento dese ano autorizou o gvero a cncder
favore e vantagens a qualquer cmpanhia que se dispusese a arrasar
o dito monte. Só 18 ano depis, o cmendador Joaquim Antnio
FeIde Pinheir pdiu e obteve autorizção par derrubar o morr,
cncsão eta repassada, pelo Derto nO 759, de 18 de setmbro de
189, à Emprsa do Ar mento do Morr do Castlo, dirigida pr
Carlos Sampaio: o arrsamento deveria ser cncluído dento d cinc
anos, tendo os cncesionário o direit à á então oupda plo
morr. No entnto, alegando difculdade financirs grdas pela
crise do Encilhamento, o ftr prfeit não cnseguiu levar adiante o
prjeto, deixando cducr a cncs ão.
36
Por ocasião das reformas Passos, que resultaram n abertura da
Avenida Central, foi aventda a idéia da derrubada do Castelo, e o
IHGB, na sesão de 12 de maio de 1905, chegou a indicar providências
que deveriam ser tomadas par a trnferência do osso de Estácio
de Sá, abrigdo na igreja dos Capuchinhos.
37
"Se o trambolho do Castelo
Se projet rmover
Afirmamos que é cm certeza
Para o rei Alberto ver" .
3
O ano de 1920 se abriu cm a perspetiva de exposiço da capital
feerl aos olhares etrngiro, cpazes de avaliar se "até aqui
chegar a civilização européia".
39
Era voz unânime na imprnsa que
a cidade crecia de certos melhoramentos para recber o rei Alberto.
Que o Castelo fosse enfun arrasado era exigido por alguns periódics,
cmandados pela elegante Revita d Semana. Para estes, a "vlha
Sebastianópolis", essa "cidade sertaneja" que resistira ao "bota-abai­
xo", guardada por uma "tradiço superticiosa", teria que se render
finalmente à exigncias reueridas par a efetiva inserção do país
no concerto das naçe civilizadas.
Que dirão os etrangeiro, que
"a capitl do Brasil é um misto de cidade esplêndida e
de vila rural e que as luzes feéricas iluminam
.
ar a par
as suas marvilhas e as suas deformidade! ´
A charge da Carta, que mostra o ''velho centenário" derrubando
o Castelo a vigorosos glpes de enxada, indic

ue, tlvez agora, o
bastião da cidade esteja cm seus dias contados.
56
A nomeação de Carlos Sampaio, engnheir cncituado e antig
cncssionário do arraamento do Castelo, para a prfeitura do
Distrito Federal, em junho de 190, é uma indicço cnistente de
que, desa vez, o velho morro não escapa. No seu discurso de pose,
Sampaio reonhec que
"o momento prente é de ação, prque é esencial dar à
cidade o aseio indispenável ( ... ) trminar as obrs de
emblezamento c. .. ) e prem prátic outr melhormen­
to que ( ... ) devem atestar o noso gau de civilizço
,
.2
o alvo a ser atingdo pela "ação" do prfeito era, sem dúvida, o
Castelo. Enfrentando reistências no Conelho Municipal, cpita­
nedas principalmente pelo intendente Ceário de Melo, bombarde­
do pelo Jornl d Brail, acusado de crpço na cncesão par o
arrasamento do morro, dois mees depois da posse, em 17 de agsto,
o prefeito decretou a demolição do Castelo. A obr se iniciarm em
novembro e, dada a moroidade dos trabalho, a prefeitura cntratou
a frma americana Lonard Kennedy que introduziu uma moer
tecnologa de desmonte do morro à base de jatos de água. A presa se
justificva, pois sobr parte da ára cnquistada ao Castelo, seriam
cnstruídos oS "mstosos" pavilhões da Exposiço Intercional do
Centenário. Pa muit, era a indiscutível vitória da "civilização"
sobre a "barárie", eliminando aquela "aldeia de botoudos encrvada
no coração da urbe".
43
Caudatários de uma sólida vertente do
pnamento plítico brasileiro, clcaa no ideário cientifcista de
valorização dos padrões racionais, universaliznte, civilizatórios,
44
aquele que defendiam o arrasamento do morro se declaravam ecn­
dalizados diante da cnvivência prmícua da "civilização" com a
''barbárie''. Conscientes da grande heterogneidade de trçs cultu­
rais, que impedia a cnfgurção de um cnjunto harmonioo capaz
de unir os habitantes da cidade na cmunhão das mesmas visões do
mundo e das mesmas foIde cmportamento, acusavam a peris­
tência de cotume ''bárbar'' - aborígnes e africnos - de ser o
gande obstáculo à prtensão do Brasil de chegr ao eplendor da
civilização européia. A próxima cmemorção do cntenário da inde­
pendência favoreia o pipocar de epeulações sobre a falt de uma
identidade nacional que costurasse peaçs tão dípare e que ao
mesmo tempo lhe apagsse as aretas. Se a ''barbárie'' er conside­
rda uma barrir à formação desa identidade, et só poderia ser
cncbida da maneir "civilizada", ou seja, brnc, educda e rfna­
da.
Tal cncpção é claramente expota na &vita d Semana:
57
"O Rio é a cidade mais paradoxal do mundo. Acinquenta
metros do teatro onde se cant o pacifa, ouvido com
um reclhimento de êxtase, que bastria par prvar o
grau elevado da nossa cultur e da nossa sensibilidade
estética; a vinte metro do palácio das Blas A, em
cuja pinacotec guardamo os atestado honrosísimos
do tlento artístic da nossa raç; a quinze metro de
uma grandioa Bibliota e do Supremo 'ibunal de
Justiça - pode-e ver pastr as cabrs na encta do
Morro do Castlo".
45
Er choante o contraste violento entre a "imponente" Avenida
Rio Brnc e seus belo palácios e o morro do Castelo que, a apenas
''vint metro da civilizção ,
46
er o retrato mais visível da barárie
solidamente instalada no coraço da cpital da nação. Uma cpital
que dentro em pouco apresentar-e-ia ao olhos de todos cmo digna
integrante do mundo civilizdo. Sombr gigntca que lembrava a
miséria clonial, o Castelo er cmo que um fantasma insepulto a
apontar nosas origns, próxima de um ''povoado africano" ou uma
"aldeia de botoudos".
E se o epírito do artista podia-e encntar "cm uma alta entrada
tda de pedra, abobadada, dando cminho par íngreme e infndável
ecdaria tmbém de pedr", dcr perfeito par as histórias de
Alexandr Dumas, ese encnto log se quebrva cm "as csas e ruas
sujísimas desprendendo um cheir fétido que sufoc".
47
.
Reuto do fanatismo -fanatismo de prto e fanatismo de brnc,
cmo se dizia à époc -, prourado por aqueles que vinham tirr a
''urucubac'' do corpo O cncrridas missas de sexts-feiras nos
Baradinhos ou O "csas de prto", era a própria imagm da
superstição, do "atraso", da barárie, enfim, que se pretendia bem
distante da "civilizada" cpital.
Bairr de miséria, ocupado por um "opulacho" desordeir, que
O festas de aniversário da cidade divertia-e "vomitndo obsceni­
dades numa confusão horrívd e bestial",
48
devia ser substituído por
edifcios modero, frequentdos por gent educda e trabalhador.
Er preiso tirar do coraço da elegante cit esse antro de desocupa­
dos, elemento de reforç da imagm do carioca cmo um ser ''boêmio'',
''preguiçoso'' e ''malandr''.
Mr visível da fonteira entre a cidade "indígena", "clonial" e
"atrasada", e a cidade "européia", "civilizada" e "modera", a prenç
do Castelo cntrariava Odos pilars mais evidentes desa vertente
de moderço urana, qual seja, a orgnizaço funcional do espaç
que cndenava a mistur de usos e classes sociais divero. Edifcios
público e empreariais não deviam se cnfundir com baracs; cbras
58
não deviam ouvir óperas. Exigia-e uma espacializaço da cidade que
precisamente definisse os lugres da produção, do cnsumo, da mo­
radia, da cultura; os espaços dos rics e dos pobres.
49
Fatores de ordem polític-cnômic são apntdo cmo deter­
minante par a demolição do Castelo. Por Olado, as prsõ e o
interesse do capital imobiliário, enfatizdo como elemento fnda­
mental das diveras cirurgias urbanas operda no Rio de Janeiro ao
longo de todo o séulo x 50 Sem desconsiderr o po de t inter­
venço
-
o arrasamento do Castelo efetivamente possibilitaria a
abertura de uma vasta áre extrmamente valorizda bem nocorat0
da cit, o que, aliás, era cnstntemente ressaltado pr Sampaio
-
julgamos que, nesse cso, ele deve ser rlativizdo, uma vez que est
área só foi aberta à exploração imobiliária a partir do fnal da déada
de 1930.52
Por outro lado, as depeas a serem efetuadas com a comemoraço
do Centenário acirraram a querla emissionista, envolvendo o ''pa­
pelistas" e os "contencionistas". A prpota do deputdo Paulo de
Frontin de uma emissão de cm m cnto para fnnciar os gastos
cm as festividades, inclusive a Exposiço, levantou acirrda polêmi­
c na imprena crioc. O Jor d Brail, por exemplo, embor
admitindo que "o espírito da époc, a alma da civilizção" exigssem
que cnstituíssemos "para regalo dos olhares alheios, a fachada
artítica do prgresso", alertava que não deveríamo "trnsformar o
papel-moeda, de instrumento de progresso, em 'peo mort",.
53
Os recuro a serem aplicdos no intuito de civilizar o Rio erm
vulto, requerendo emissão de papel-moda e empréstimos extr­
no, temas ardentemente discutido não apenas no âmbito do Cn­
greso Nacional, mas principalmente nas hoste opicionists ao
govero Epitcio Pessoa, cmo o Corio dMW No entanto, no
tocnte à depesas par a derrubada do Castelo, o jornal de Edmun­
do Bittencurt se clou. Para este cmbativo órgo da imprnsa
crioa, acima das difernças polítics e das dificuldade ecnômicas,
tratava-se de provar que até aqui chegara a "civilizço" européia.
Nete cso, não havia porque ecnomizar efors par pôr abaixo
aquela "excrecência". Lng de ser um "derpeito à nossas tradi­
çe e um prova de que somos um pvo inculto que não venera o seu
passado", aquele "montão" deveria ser convertido pela "engnharia
moderna em uma acssível planície civilizada".
5
Divergntes quan­
to· à orientação ecnômic e prátic polític, o Corio d Maã e os
goveros federal e municipal caminhvam juntos na propoição de
cmo deveria ser a moderna cpital da Rpública; cmpartilhavam,
enfm, do memo prjeto de modernidade, calcdo, sobrtudo, na
vitória da cultura sobre a naturez e n invenço de nova trdiçes.
Nem mesmo o engajamento na denúncia da alt generalizda do custo
59
de vida e, principalmente, da falt de mordias, abrindo amplos
espaço para as demandas da Lig do Inquilino e Consumidor,
55
sensibilizou ojorl de opoição par a situaço das cn mil psoas
que seriam epulsa do Castelo.
Manifetaçf públic de rpúdio à rmoo desa ppulaço,
que contva com 8 vag prmesa do prfeito de para ela cntruir
csas na Praça d Bandeir, foram de puc mont: Bregstrar, O
prtsto no sopé do moro no dia 6 de setembr. Na imprensa, a
ração mais vigrsa partiu de Lima Barreto. Dias depis do decreto
que autorizva o arrsamento, o jralista ecvia O artig cn­
tundente na Caeta, denunciando o que ele cniderva um verdadei­
r ataque de "meglomania", quando "no equecmo de obrs de
utilidade geral e social, para penar só nese aremedo parisiense,
nesa fachadas e ilusões cenogáfc". Indignado, obserava: "c
h csa, entretanto, queremos arrsar o morro do Castelo, tirando
habitaç de algumas milhar de psoas".
56
O Jor d Brail desenvolveu Mintena cmpanh cntrária
à destriço do "outeir sagado", cnsiderda um "obra frfalhante
da qual nada rsultrá de útil". A eifcaç no morr, pelo seu
custo reduzido, serviam de ridência à população pobr da cidade;
cberia aos administrdor municipais "fcilitr a viaço par os
morrs e cnstrir o cletor geral das águas pluviais".
57
Ete intere­
sante projeto de urbanizço do morrs do cntro do Rio, partindo
de um importnte óro da imprensa crioc que abertmente apoia­
va o gvero de Epitcio Pesoa, cmprova, por um lado, que as
filiaçes políticas no determiOm a opiniõe sobr o futur do
Catelo; e, por outr, que a propota vitoriosa de arrsamento do
morr rprsentou, na verdade, uma das vertente de pensamento
que buscvam uma cpital modern par o Centenário.
A emergência de prjeto divergnte de encminhamento da
questão nacional refetiu-e no debate em toro das prposts de
rnovaço ura da cpital federl. O ideal comopolita da beUe
épque fora abalado pla Primeira Guerr e, cnquanto ainda po­
suísse um grau elevado de seuço, revelava-e um modelo falido e
ultrapassado para alguns setor da inteletualidade. Concpçes
diferente, cmo já se viu, form marndo preença no panorma
intelectual, cncretizndo Mrvirvolt O idéias que se afrmou
cm for no início dos ano 20. Em nome da rturço das
"veradeiras" virtude do homem, a raço ctólic, por exemplo,
rjeitva o progresso urbano e industrial e a racionlidade utilitária,
em prol dos valore da naturez e das antigs tradiç.
Ligdo a est corrnte de penamento, o Jor d Brail moveu
um crrada cmpanha Wsentido de manter aquele ''históric rdu­
to", abrigo de um templo ctólico asiduamente feqüentdo por
6
amplas Cdas da população, e que muitos queriam destruir em
nome de uma pretensa "racionalidade sanitria" ou de uma estética
"importada e desenraizada".
O segndo semetre de 1920 é marcdo por um intenso debate na
imprna crioc em toro do Castelo: o "sacrílegos", liderdo pela
Rvi 0 Sema e cntando com o apoio de periódicos habitual­
mente opitor ferze do gver federal e municipal, como a
Caa e o Cr 0 Maã, UN os "tradicionlistas", repre­
sentdo pelo Jon d Bril. Acompanhar esa discussão é recu­
perr a intrssante metáfora (quae sempr emprestadas da
biologia) que sustentam as argmentç; é sentir o desejos e os
medo que cnstroem o sonhos e a cidades; é percber a esperança
de fnalmente se encntrr o cminho do arc-íris onde, em vez do
pot de our, etar a moeridade. T oren de questõe foram
priorizdas e metaforicamente explicitdas dessa maneira: ''manto
prtetor" X "infecto montur"; "pérla" X '(dente cariado"; "mancha
clonial" X"clina sagrada".
Se a idéia do saneamento unia gregs e troianos, a questão era
cmo se fazer isso. Par un, sane era prciso, derrubar não era
prciso; par outr, era impossível saner sem derrubar. Boa parte
da argmentço do "higienistas sac1ego" (em especial, Carlos
Sampaio) se sutntva na evoção do malefcios provoados pelo
"infect monturo": o rlatório do século XI , denunciando a falta
de ventilaço, a umidade e O ''miasmas febrígers"; e as famoas
"ágas do monte", telTveis enchente que assolarm a cidade em
fevereir de 1811,
J
rvodas, em gande parte, pela lama que
decr do Castelo. O telegrama de Belisário Pena, fgura luminar
da saúde pública, nacionalmente cnheido por sua atuação na pro­
fa rrl, parabenizndo Sampaio plo decreto de 17/08/1920, era
a prva "científc" da necsidade de eliminar aquele "quisto" de
tr vermelha. Ou, cmo dizia a imprnsa, aquele "tumor infecio­
nado" que "obstruí o seio do Rio" e ameaçava cntaminar a cidade.59
Para o higienists amant das antigas tradiçe, o morro er o
rglador natural da ventilaço da cidade, protegndo-a, qual um
''manto'', do deencdear de vento desordenados oriundos da baía de
Guanbar. Em vz de obstrir, o Castelo prtegia . . . E se os "apolo­
gsts do H amento" tinham o saber médic do seu lado, os "tradi­
cionalistas" se apoiaram no parcr do famoso engenheir Vieira
Souto, opinião acima de qualquer suspeita, visto que fora sócio de
Carlo Sampaio na Emprea de Arasamento e agura era cnsultor
técnico da Prfeitura. Decnfiado das objeções que apontavam o
morr cmo obstáculo à ventilação natural da cidade, Vieira Souto
"prpunha a abertura de túneis que, além de facilitar o tráfegu,
cnalizase as cornte de ar para toda esta zona"; este plano de
61
rmodelação do Castlo, datdo de 1915, incluía ainda aprciaç
estétics no intuito de trnsfonnar o morr ''não só numa aprzível e
higiênica vivenda, cmo num sítio de belo paseio". Esa opinião
er cmpartilhada por vário intendente do Cnelho Municipal,
cmo Cesário de Melo, par quem o Catelo pia e devia ser embe­
lezdo.6 Para alguns, cmo o prfeit Sampaio, o Castlo pia ser
cmpardo a um "dente criado" n linda b que era a baía de
Guanabar.61 Para outros, cmo o Jor d Brl, er "uma prla
a engastr na jóia suntuoa que a Prvidência pusou à bira do
Atlântic".6 Esse debate, aparntement de crtr apna etétic,
na verdade remete a um discusão m prfunda em tro da
elogiada belez natural da "cidade Ovlhoa".
Se o tema da naturez sempr oupu um amplo epaç na
rfexõ sobr o detino nacionl, ele asume maior rlevânia W
que se rfere à cpitl federl e etro co ptl do paí. Dizoe
que Deus fez o mundo em sete dias, O s W Rio gstu dois. Dit
populare à parte, o cter paíac da nturz do Rio pÇ
ter inpirado o seus cmentdore do século X at o noso dia,
cnstituindo.e, par o bem ou par o m� no ap privilegado de
sua crcterização cmo cidade.
Para o Jor d Brl, cnstituía um aburo a "detruiço das
nosas prias par gnhar epaç ao mr, detruindo a majetde
desa cura sem par, pr uma monton e infndável rt". Tal cm
er feito no paíe modernos, onde a nturz er prtda do
"interse utilitrios" e prervada na sua "eubrânia", a "untuo­
sa moldura que oferee o nosso mor" devia ser cnervada. ¯ Por­
tnto, par eta crnte de opinião, a manutenção daquela 'jóia da
natureza", devidamente remodelada cm a eifcço de vila e
jarins suspenso, er sinônimo de moderdade.
"O homem só teve plena cnciência de seu per quan­
do cmeçu a meire cm a naturez, rfonnandoa.
Extir uma montnha, cmo o cio que extira
um quisto ( ... ) Aculpa foi da montanha que se erguia no
.
h da
.
·1·
- " 6
cnun o CIV lzçO... .
Em oposição ao discurso que demandava a preraç do
elementos naturais, etvam aquele que cnsideravm cmo cndi­
ço sin qu HHpar o ingreso do país no século X a submissão da
natureza à orem da cultura. Deampardas do benefcio da arte,
do saber, e principalmente, do trabalho, as riqueza e belezs naturis
seriam valores preários par o homem moerno.
62
No cso epecífic da rforma urbana operda no Rio de Janeir
para as comemoraç do Cntenário de 1922 é cnstntement
rafrmada a obserço do bispo Azeredo Cutinho sobr a cidade:
"a Naturz lhe tem dado tudo; a A é o que lhe falt".
6
E é esa
"a", quer dizer, ese mundo cnstruído cmo lugar da cultura, e não
os efeito arnjado pela mão da nturz, que devera ser motrada
aos visitant etrngir e à "provícias".
Modelo a ser cpiado pela outrs cidade brileir, submetido
a uma fora cmparaço cro maior cnt ua do mundo,
o Rio de Janeir nesariament prcisav expandir acit, seu cntro
cmerial e fnanciro e símbolo maior de M cidade m pela
cultura. Por que não arrsar o Castelo e cntrir avenidas largs?
'neis deviam ser perfurdo, arnha-us levntdo ... Er prci­
so não se cntentar apnas cm o "glorioo cnário"; urga "cntruir
a cidade", ¯nem que para tnto fose nesário calar o "fnátic"
da naturza que, em nome de uma "flsa" etétic, timavam em
afrmar que o arrasamento do Castelo er um atentado à belez
panorâmic da cidade.
Anl, a cpacidade de interferir n naturz sera a cndiço
indispensável par o deejado inso do paí n moderdade. A
detruiço dese "monstr" que a ntuz colocra Ocrço da bla
cpitl par "envrgnhá-la", e a cntruço, sobr seus embr,
de um "vale de luze", um "bazr de Ovilh", cmo er cnside­
rda a Exposição Intercional, indicva a dispoiço da naço cn­
tenria de fmalmente inte nquilo que muito entendiam
cmo "civilizção moder".
''Não me incluo, pois, no númer de muit gente par
quem a derrubada do Castelo cn titui o maior atntdo
que se poeria fazer à tradição da cidade ( . . . ) Pode-e
cnciliar a tadiço com o saus ppui e a rmoelaço
da nossa ur. Não quebrm o padrâo da fundaço da
cidade, não atirm na Sapucia o osos de Estcio de
Sá, fica salva a Pátria". 67
o decidido apoio do seretrio gral do IGB, Joé Vieir Fazen­
da, ao projeto de arrasamento do Castelo se, por um lado, cusa
surprsa, uma vez que cbia ao Intituto um importnte papel na
prervaço da "história" da cidade, por outro, evidencia a dificuldade
em cnciliar o valors da modernidade cm o da memória e da
trdição.
Ao long de sua história, t cidade se enriquec de lugr aos
quais pode ser atribuída uma fnço simbólic, por detinação elou
6
em virtude de algum acntecimento. Brç da cidade, rferência
cnstnte no ctidiano da cpitl dede os tempo cloniais, o "velho"
Castelo estva indissoluvelmente ligdo a uma tradição e a um
passado, que estvam sendo forçoamente rpenado num cntexto
de cmemoração do Centenário da Independência nacionl.
Vsto cmo uma "cidade de traniço entre a urbs clonial e a
cidade babilônica do fturo",
68
o Rio de Janeiro, principal cnário das
fets do 7 de setembr, precisava se livrar das ''horríveis Ochas
que ainda lhe fcaram da deprimente mscra antig'
,
.
69
"Históric
depósito do cisco colonial", ttemunha muda de um passado que
fzer de nós "escravos" por mais de t século, o morr do Castelo,
"de simples montão de csebr e rínas cm histórias de teours
nele enterrados", tornou-se o símbolo mais tangível do nosso atraso
frente à moder naçõe etrngiras que nos visitariam.
7o
Vozes dissoante dese cr antitradiço, cmo o Jor d Brail,
denunciavam indignadas
"esa indifernç do crio que é sempr ingrato ( ... ) para
as tradiç, par as nosas cisas ( ... ) es a apatia fente
ao ebulho de Mgrande parte do seu tour",
7
1
que sigifcvam, n verdade, falt de patriotismo. Afnal, o Castelo
era o repositório vivo da memória da naço, clula-mater da sua
futura capital, e detruí-lo em plena comemoração do centenário era
um veradeir "sacrilégio". O impornte papel eercido pela memó­
ria na cnstituição de uma identidade individualcletiva é muito bem
destacado numa crônic de Lima Barreto, de 1911, a propósito da
derrubada do Cnvento da Ajuda:
"Com as minhas idéias particulars poso passar sem o
passado e sem a tradiço; ma, o outrs, aquele que,
diariamente, contam nos joris histórias do açugue
dos jeuíts ( ... ) cmo é que deixam desapareer ( ... )
aquele velho monument? ( ... ) Quando ( ... ) eu me faç
cidadão da minha cidade, não poso deixar de querr de
pé o atetados de sua vida anterior, a sua igrejas feia
e os seus cnvent hediondo".72
De maneir muito sensível, Lma Bart prbe que a identidade
de uma naço poe ser definida plo seus monuments, cnjunto de
bens culturais assoiado ao passado, e ao quais se atribui a proprie­
dade de ,ao evor ese passado, etabeler uma ligço cm o preente
e o ftur. O seja, eles gantm ao "cidadão" a cntinuidade da nação
6
no fturo. Relacondo a idéias e valor, es e monument assumem
o per d evor visualmente tais idéias e valore.
Ln de advogrem uma destruiço pur e simple do passado,
os dito antitrdicionalistas lutvam, sim, pela invenção de uma
outra tradição que evocsse idéias e valore afinado com a moer­
dade prtendida. Alertvam que era priso não cmundir trdiço
cm "velharia", memo porque nunca teria existido um culto à memó­
ria de Estcio de Sá. Sempre era bom lembrar que a fndação do Rio
de Janeir fora feit em benefcio de Portugl e não no intuito de
"antecipar a civilizço de um povo ( ... ) e nossa verdadeir trdiço
cmeç no dia em que o último soldado da Metrópole foi expulso do
Brasil".73
Buscava-se destruir assim a aur do Castelo como "lugr de
memória" da nação, onde "Mem de S epiou os inimigs da unidade
brasileir e cncertou o plano de salvação dessa unidade ...
,,
74 Era
inconcbível que justamente no ano da comemoraço do centenário
da libertação da "cruel" dominação portuguesa, ainda etivéssemos
pros a ese passado que inistia em impeir a nosa marcha rumo
ao futuro. Um monumento aos Sás na prça cntral da futur
eplanada do Castelo ou ao pé do Pão de Açúcar marcria crreta­
mente a cntribuiço dessas fgurs à história pátria.
Par o inimig da trdiço clonial, o Catelo não er esa "but
sa' cntda em vero e pra, e sim, "um do trho mais sujo do
ba fon crioc
,,
?5 O exemplo a seguir é o do barão Haussmann, que
não heitou em detruir a Paris meieval, crmente mais cheia de
trdiç que o "avelhantado" morr, em nome dos valor d moder­
nidade e do prgso. É prciso pis deixar d lado a melanclia e
forer matria-prim pa a tradiço da poteridade, de moo que o
noso decndent se orlhem da obras por nós eifcdas.
A lado de Etácio e Mem de Sá, distintas lembrnças do tempo
clonial, o pantão nacional deverá abrigr os nome de Paulo de
Frontin e Pereira Passo, demolidor das marc dese ''triste'' pasa­
do que agor no Centenário, mais do que nunc, era preiso eliminar.
Se ete é um procso doloroo - "ver cir dilacrdo pelo cminho
farrapo do noso pasado ( .. J porçe de nosa alma ( ... ) tradiç
querida e fguras familiar
,,
7 -é o prç a ser pag pela cnquist do
fturo. Um instnt de saudade e etarímo cndendos, não à
civilizço, Oà barie.
Apear de todos os efor, só uma parte do Castlo foi demolida,
abrindo espaço par a cnstrução dos prédios da Exposição do Cente­
nário, solenemente inaugurda a 7 de setembro de 1922.
6
A ANTE-SALA DO PARAíso
"É impsível negar que a Eição é a visão mrvlo da nosa
grandez e dos DOprogreso ( ... )
Algumas revists estrangeirs afrmam que a á da Expsiçi

é a ante-la do Parais."7
EMOR o séulo X tenha preenciado vária exiç de
cráter universal -a mais rcente delas é a de Sevilha, em cmemo­
rção ao V Centenário da Decberta da Améric - foi no século
passado que as "exosiç univerais" viveram oseu apogu, a parlir
da primeira Expoição Internacional da Indústria (1851), imortaliz­
da no famoo Palácio de Cristal, símbolo de uma nova époc. 78 Aet
seguiram-e, entre outras, a famosa Exposiço Intercional de Paris
(1889 -I Centenário da Revoluço Franca) e a grandiosa Exposiço
Intercional de Chicgo (1893 - I Centenário da Decberta da
Améric).
A participaço brasileira nesas "vitrines do progsso" se iniciou
de maneir muito discrta na Exposiço Intercional de Lndres
(1862). Antes disso, em 1861, a Sciedade Auxliador da Indústria
Nacional havia organizado uma Exposiço Nacionl no prédio da
Escola Politnic, no Lrgo de São Fncisc. De maior porte foi a
Exposição Nacional de 1908, em clebraço B I Centenário da
Abertura dos Portos brsileiros ao cmércio interncional. 'ndo pr
objetivo a preparação da participaço brasileir na Expoição Inter­
nacional de Bruxelas (1910), o evento de 198 visava igalmente
apreentar a nova capital saneada e urbanizda a partir d gnde
reformas do prefeito Pereira Passos.
A perpectiv de cmemorr o Centenário da Independência em
1922 detonou, como já vimo, um amplo moviment de "vigilância
cmemorativa", envolvendo um exresivo conjunto de iniciativas que
buscvam dar à "data magna" da naço o "eplendor que deve tei'. A
ralização de uma "exposiço univeral" se destacu cmo um dos
eventos considerados indispensáveis para "d tetemunho do nosso
grau de adiantamento e civilizço neses cm ano de vida polític
autônoma." 79
Em junho de 1920, foi enviada ao Ministério da Aricultura,
Indústria e Comércio, por Ralph de Cobham, rprentnte de O
grupo de "cpitalistas etrangeiro" no Brail, a sugesto da raliz-
66
ço de uma "exposiço intercional de cmério e indústria" p a
cmemorção do Centenário da Independência. ¯Coub ao deputdo
Paulo de Frontin, u mê depois, prpor ao Cnso Nacional a
emissão de cm núl cntos, p que se "faç no Rio de Janeir u
expsiço de prouto nacionis da agicultura e das indústrias".
Anal, lembrva Frontin, "o Brasil, nesa par do cntinnte, era o
maior país, pelo seu território e ppulaã0' Não er posível que se
descuidasse dessa predomináncia ( ... r.
1
Em meio a u clima de intenso debat no Cnso Nacional e
na imprnsa acr dos rcuro aserem invetido em tão "grndioa
empritda", foi deternada, pelo Dto nO 4. 175, de 11 de novem­
bro de 1920, "a relizção de u Exiço Nacional n Capitl da
Repúblic dentr do prgrma de cmemorçõ do Cntenário da
Independência. A rgulamentaço ofcial das atividade comemorati­
vas só veio a se dar quae um ano depis, pelo Drto nO 15.066, de
24 de outubr de 1921, que prvia, além da Exposiço, a inaugraço
do Panteáo dos Andrada, em Santos, do novo Palácio do Conelho
Municipal e do edifcio cmpleto da Ecla Nacional de Blas A,
no Rio de Janeir, a relização de cngso sobr dirito, eucaço
e história, e a publicção do Dicn htr, geg eetgá
f d Brail e do Arquivo diplom d Inpnni.
Coube ao Ministério da Aricultur, Indústria e Comério, então
chefiado pelo engenheir Pirs do Rio, a orgnizço da exposiço,
que deveria "cmprender as principais modalidade do trabalho no
Bril, atinente à lavour, à peuária, à pesc, à indústria extrativa
e fabril, ao trnporte marítimo, fuvial, terrtre e aéro, aos serviç
de cmunic�o telegráfics e potis, ao cmércio, à ciências e à
bela ares". 2 Era prvist ainda a cncsão de uma á cntígua
à Exposiço Nacional para que governos ou indutriais estrngeir
pudesem cntruir, por cnt própria, pavilhõ detinados à exibi­
ção de proutos orignários de seus paíse. A Exposiço deveria se
prlongar de 7 de setembr de 1922 até 31 de mrç de 1923,
podendo, no entanto, ter sua duração prrrogada, como efetivamente
acontecu, até 24 de julho.
Para cumprir o objetivo de "ser a exprsão da vida ecnômica e
social do Brasil em 1922", a Exiço Nacional se cmporia de 25
seçes rpresenttiva das principais atividade do paí: eucção e
ensino; instrument e prsos gris das letras, das ciências e das
arte; material e prcssos gerais da mecnic; eletricidade; engnha­
ria civil e meios de transporte; agricultur; horticultura e arboricul­
tura; floretas e colheits; indústria alimentar; indústrias extrtivas
de origem minerl e metlurgia; decrção e mobiliário do edifícios
público e das habitaçes; fios, tecido evetuários; indústria quínúc;
indústria diveras; ecnomia soial; higiene e assistência; ensino
67
prático, instituiç enômics e trabalho mu da mulher; cmér­
cio; ecnomia grl; ettítica; forças de terr e eport. A seleço
dos exositore seria feit por cmissõe julgdor encrgdas de
d parecr sobre a eclha cnveniente do proutos eto e
avaliar a qualidade e a quantidade dos que deveriam ser admitido
na Exposiço. Etvam ainda prvist atividade parlelas, cmo a
exbiço de flme sobre assunto que se rlacionasem cm a pru­
ço nacionl e as riquez nturis do paí, e a relizção de cnfe­
rência sobre temas ecnômics.
Fetivamente inaugurada na "dat maga", a Epoição cmpô­
se de u seço nacional, loalizda n Misericria, entr o antig
Arsenal de Guer e o novo merdo, estendendoe em parte da área
cnquistda ao Ocm o demonte do Catelo. Nete locl, cncn­
trvam."e os pavilhõe do Comércio, Higene e Fets, das Pequenas
Indústria, da Viação e Agricultur, da Caç e Pec, da Administra­
ço, de Estatífic, e o palácio das Indústrias e do Estdo, além
de um "grandioso" parque de diverõe. Pavilhõe de municípios cmo
o Distito Feerl e Campinas, e de emprea nacionais e etrangei­
rs como a Brhma e a General Eletric, a tmbém foram montdos.
Na Avenida das Naç, que se etendia do antigo Arenal até o
Palácio Monre (onde funcionva o bUC de informaç), alinha­
ram."e o palácios de honr das rprsentaçõ etrngiras -Argn­
tina, Méxic, Ingaterr, Estdo Unido, Frnç, Itlia, Portugl,
Dinamr, Suécia, 'hecslováquia, Blgc, Noreg e Japão -
sendo que alguns dese paíe ainda cnstruírm "motradores"
para a exposiço de seus prduts industriais na Praç Mauá (Blgi­
c, Portugl, Estdos Unidos, Frnç, Itália e Theclováquia).
A descrição da inaugurço da Exposiço, em tom emocionado, é
um pouc longa, ma vale Bpena ser citada:
68
''Penetrar o rcinto da gande feir univeral no dia em
que a frnquemos ao públic era reapitular a história
da civilizço no Brasil! Abert sobre a Avenida Central,
em fente ao Monre, a port monumentl, cncluída
durnte a noite, epiava ainda a cidade e o mar cm a
surprsa do gignt rcm-nscido.
( ... ) A meia noite de 6 para 7 de setembro foi o delum­
bramento, a apoteoe inicial das nossa fetas cmemo­
rtivas. A essa hor, a multidão apinhava-se, cmpri­
mia.e, ofegante, em toos os ponto do litoral da baía.
c. .. ) a cidade inteir feme, agit.e, palpit, na emoço
surpreendente daquela hora. Automóveis buzinm. Má­
quinas apitm. Foguetes ferm o ar. Nos cinema, nos
teatro, nas cas particulars, etruge o hino nacionl.
A multidão levant-se eletrizda. E parte de todas as
bocs um brdo de entusiamo e de orgulho, pelo pasa­
do, pelo prente e pelo futur do Brsil!
(. .. ) Aberto ao povo, o rcinto da Exposiço era ainda um
cmpo em que se trbalhava ( ... ) O quejá etava cncluí­
do era um documento material do noso gnio ( . . . ) Aqui
é o palácio dos Estados, com a sua cúpula monumentl,
faiscante cmo uma jóia. Adiante, é o das Festas, vasto,
suntuoso cmo um templo pago. Ali, é o das Grnde
Indústrias, cuja torre aponta o céu, num gsto de súplica
ou de ameaça. Debruçado no ar, austero no seu
aspeto, harmonioso nas suas linhas, o pavilhão da
Estatítica, simboliza a ciência da crtz.
( ... ) Franquedo o rcinto, prcipitarm-e mais de 200
mil visitantes. A avenidas inter, inundada de luz,
haviam-e transformado em rios humano, pr onde a
multidão tumultuava." ¯
A doumentação sobre a Exposiço é abundante, e epeialmente
rprsentada pelas publicaçes oficiais detinada à divulgço do
evento.
8
O expressivo acro icnogáfc permite-no não apenas
observar o aspecto estétic, repreentado pelos variado estilo arqui­
tetônics dos pavilhões e palácios - da sobriedade das lins do
pavilhão neclássic da Inglaterr ao pesado etilo "babilônic" do
palácio das Festas -, como também avaliar a "qualidade" dos prdutos
exostos -dos "saborosos" vinho e azeite de Portugl à "sofistic­
das" máquinas da Blgic e da Suécia, passando pelas rndas do
Cerá ou as madeira do Pará.
Embora rcnhecndo que o tema da Expoição de 1922 é bastan­
te amplo e abre posibilidade de difernte abordagns, ¯ ressalta­
mo que nosso interesse aqui é perber cmo a mostra nacional da
Exposição buscu frmar uma determinada imagm de moderdade
para o paí. Os pavilhõs nacionis deveriam ser
"a repreentaço do Brasil na plenitude de suas carac­
terítics. 'das as virtude que cmo povo possuímos
lá eto em soberbos tetemunho. 'do os defeito que
temo lá estão patente ( ... ) Do que somos, d que
d E
· - , '
te
.
I ta
,86
po RS S0¿ a xpOSlçO e a sm e maI cmp e .
Arelização da primeir eição univeral OBrasil-cnquan­
to o evento já etivese Opouc fora de moa na Eurpa e nos EUA
-abria a perpetiva "do mundo nos ver de perto", de expor o país à
6
cmunidade internacional num moment-chav de riculaço da
ecnomia e da polític em ecla mundial. Cnvinha lembrr que a
Exosiço de 1922 não er apenas um exosiço interacional em
honr ao cntenário do Brail, m sim a primeir a ser ralizda
após a "maldita" gerr. Tatva-e, pois, de asegurar a "prunço
legítima de dOentr a nosa perfeit integrço ao prgrso gral
das nçe", ¯ou seja, era preiso que o visitnt etranirs no
encontrssem "com a mOdo séulo etmpada no roto".
8
Um "passeio" atento plos cror do pavilhõe nacionais
rvela-no, por um lado, a riterada êfase da motr sobr os
prduto "gnuínos", e memo "exótic", da nturez brileir.
Como foi destacdo no balanç fnal do "ge crtmen", "a inec­
dívl riquez cm que a naturz no prenteou ( ... ) aparcu
eplêndida e suntuoa, no mostruário dos palácio ncionais ... ".89
Por outro lado, no entanto, o que deia ser resaltdo, e efetivamente
o foi, er a possibilidade de explorço dese rcuro nturis. Valia
m o ferro do que o ouro; valia mais a energia elétric do que as
ctartas. Como detacava o editorialist da rvista ofcial da Expo­
siço,
"o atestado maior da nosa capacidade de produção não
etá na Exposiço ( ... ) O que os motruários etão exi­
bindo é apenas o ptencial d nossas riquezs ( ... )
Ainal, a implantço defnitiva da indústria de fero
entre nós é apenas questão de dia ... " 9
A quetão da exploraço do minério de ferro e da intlação de
usinas siderúrgics no Bril estava n ordem do dia. Ito se dava
não apenas pla prepção do papel decisivo que tl indústria teve na
Primeira Guerr, sustentndo o esforç de gerr dos paíe venc­
dor, cmo tmbém pela rcnte assinatur do cntrato cm a ltabir
lron (1920), autrizada a eportr minério e a cntrir a nova
ferrvia Vitória a Minas, bem cmo um porto de minério e um usina
siderúrgic.
Ao lado do ferro e do aç, a energia elétric se afgurva cmo um
outro elemento-have do prgrso ecnômic. Daí, em pare, o exce­
sivo detaque dado à "ferc" iluminaço que tranformou o Rio de
Janeir num outr "cidade-luz":
70
"Ao que se afastam do cntro urbano par o prto e,
distanciando-se no mar, dominam cm os olhos a cidade
anoitecndo ( ... ) é ralmente incmparável o espetáculo
( ... ) Do Merado ao Monr, do Pharoux à Lpa, toda a
á da Exiço chameja e fca, e p emerr
das águas empenumbradas cmo a verdadeira 'Cidade
Adyomenic' & .. ) Não é posível imagnar mais lindos
efeitos de luz". ¯
Embora ese modersimo seriç de iluminaço - "no será
visto um só pote de luz no reinto da Eição" ¯-etivese a carg
da emprea norte-americna General Eletric, erm sempr enfatiz­
das não só a ''profciência ténic da engnharia ncional", bem cmo
a "cpacidade produtiva da indústria nacionl", as quai se etende­
riam muito além do que o motruário exunham.
Desa maneira, se, por um lado, rforç v-e a tee das "ineg­
tveis" riquez naturais do paí, tmdicionl fonte de atço pam o
invetimentos etmngirs, por outr, buscva-e grntir a viabili­
dade da insero do país no quadro da nova enomia mundial do
pós-guerm. Como detcva Herbert Moe, n Expiço
"não se tem apen um motruário do teouro em que
a nosa term fecunda se desentrnh, nem v o etran­
gir ( ... ) exminar semente e minemis
g
sem olhr que
o Brail é um país de gande cursos ... ". 3
Mais do que os prdutos expostos ns vitrine e no mostruários,
os olho dos tzt etrngiro deveriam "vr" a potencialidade do
noso prgso, cuidadosamente expresa em tbelas e gráfic que
apontvam uma "inequívoc" tendência de crciment do "setre
modernos" da ecnomia, baseados no ferr e na eletricidade.
Mas não er apenas a imagm de um Brasil ''rmissor'' que se
queria cnstruir, e nem somente o ''público extero" que se visava
atingr. Como em bastnte fisado pela rvist da Cmissão Orgni­
zdor, a Expoição do Centenãrio er u "aula de civismo", pren­
chendo "objetivo patriótics", afastndo "o pesimismo mórbido do
maus brsileirs" e prmovendo "a hronia no gto e a paz no
crço."É impossível decnhecr que a cmemorção do cntenrio
da independência, e, em epeial, a inugurção da Exiço, deu-e
em meio a uma gave crise polític, detnada a partir da não acitço
da vitória, nas eleiçe de març de 1922, de Aur Brrde,
cndidato ofcial, cntm Nilo Pe, da Raço Rpublicn. O
cima de agtação que maru todo o primeiro semetre -a possibili­
dade de um ''motim'' foi prvista cm anteência pela rvista
Cata 9 _ culminou cm a rvolt do Forte de Copacban, batismo
de fog do tenentismo, em 5 de julho. Imediatmente o etado de sítio
71
foi deretdo,jornais de oposição form fechado ,jornalists prsos e
deputdo ameçdos de prcso.
Na meida em que a Exposiço er a repreentço da ''nosa''
grandez, podia e devia exerr Oimportante papel na diluição do
cnfito internos. Asempr crític Cata alertva que
"devímos abrç .. nos como irmãos, cntando em cr
o hino glorioo da Pátria para celebrr o cntenário da
indepedência ( ... ) jurando resolvermos pacifcmente
todas as nossas quetõe inter." ¯
E até memo o que haviam sido expulsos do Castelo, em virtude
do arrasamento do morr, deve .. se-iam sentir recmpenados "pelos
przere que defutvam nquele baz de deuse, pensando que a
belez do Palácio do Etado cmpensava a beleza trdicional do
Catelo".
9
Nos olho e na ment dos visitnte deveria, pois, fcar
gavada a imagm de uma naço cea e unida, não apena pela
integraço de sua diveras regõe, O tmbém pelo "clima de
harmonia e paz" que reinava entre os seus habitantes. A nação era
uma só e etava expota nas vitrine e nos motruário da Exposição
do Cntenário. Cmbater a Exposiço er negr a nação.
A queto da früência de visitnte ao pavilhõ trnformou­
se assim numa epie de verdadeira prv do nove do sucso da
Expiço. Por um lado, a admissão do bi nível de füentador
levava à busc de explic� para tl ft. Afnl, de quem seria a
"culpa": do clor ecsivo? dos tnsport cr? da propanda
insufcient? O, pior que tudo, seria falt de patriotismo do brilei­
r, que prferam o pavilhão japnês ou o parque de diverõ ao
"metso Palácio do Etdos, exprsão da nosa nacionalidade' ¯
Por outr lado, era negado o pequeno númer de visitante,
destcando-se a freqüência de 175 mil pessoas no "fc" mês de
fevereiro, com piques de até 14 mil pesoas num só dia, numa clara
evidência de que "o nosso povo não deve ser aveso ao rcnheimento
das nossas atividade ecnômicas". ¯De qualquer modo, era impo­
sível deconhecr que, cm seus pavilhõe e palácio profusamente
iluninados, a Exposição oferecia aos seus visitantes mais do que um
rtrato da naço presente; o que etva em evidência eram o sonhos
e as aspiraçes da naço moder que se queria ser.
Nem memo uma "csa-memória" deveria faltr neste epaç,
sínte e epressão da moer nacionalidade. Já que um dos
monumento "vivo" dessa memória fora detruído, levantando a
suspeita de que érmos um povo pouc apegdo à própria história,
torva.e indispensável estabelecr um museu históric nacional.
72
Criado pelo Decrto O 15.59, de 02/08/1922, o Museu Históric
Nacional instlou-e no prédio refonnado do antigo Ae, até há
pouco ocupado plo Palácio das Indústria. Sob o lema do líder
ctólic Gustvo BaIo, seu criador e dirtor por m de 30 ano -
"não poe haver pátria sem trdição" - o museu nacia com a
apiração de ser "a caa do Brasil", seu ''lug de memória" por
exclência.
9
Projeço do imaginário soial no e paç, 10 a refonna urana
crioa do início dos ano 20, em nome de UU moerdade, inter­
feriu na natureza, destruiu um área de ocupaço antig ligda a
sólidas tradiçes de um passado, e trnfonnou tudo isso num epaç
que visava ser a exprsão visual de valore e ideais, grntidors do
aceso da nação cntenária ao séulo x Embora não tivessem
alcnçado a mesma notoriedade e pernidade da Ringtrse de
Viena ou da Nevski de São Peterburgo, símbolos de uma épo, a
avenida das Naçe e seus pavilhões de luze cmpartilharam da
mesma aspiração de se torarm fagulhas da intensa fama que é a
modernidade.
Capital da Rpública, seu principal cntro polític, fnanceir e
cultural, remoelado segundo os padre csmopolitas da blle é
que, o Rio de Janeiro preparou-e par manter sua posição de "sol",
guia e modelo a ser cpiado pelas ''prvíncias''. No entnto, um dos
movimento que rsultou da busc de um Brasil modero no raiar
dos anos 20 foi o da desqualificção do Rio cmo cbeç da naço, e
sua substituição por São Paulo cmo /U da produção de uma nova
identidade nacional. Assoiado à Repúblic corrupta e falida, "cpia"
da beUe éoque ultrpassada e deadente, exprsão maior do nefato
"litoralismo político", o Distrito Federl seria a síntee dos male
nacionais, "etupidez letrada de semi-clônia", n incisiva avaliaço
de Oswald de Andrde.
101
Rsultado de uma perfeit simbioe da
qualidades da vida rural cm as do prgso urano, soluço perfeit
para conugr a vitória "inexorável" do industrialismo cm o vlores
profundo e "auténticos" da nção, São Paulo seria o coraço do Brasil
brasileiro e modero. Dese modo, se São Paulo er a nação, o Rio
seria a antinaço.
Nota
1 - Eta prgunt era feita no artigo: E pr que não u Palácio de
Epsições?, Revist d ScmwL, X(27), 09/08/1919.
2 - Melhoramentos necessários, Correio da Malu, 24041920.
73
3 - Carlos Sampaio, Memória histrica - obras d prefeitra do Rio <
Jar (08/06/1920 a 15/11 /1922), p.175.
4 -Ver Pascal Or, L centnaire de l Révolution Françaie, em Pierre
Nora (org.), Ls lieux < mémoir, voU, L République.
5 - Jules Michelet, citado pr Raoul Girardet, Mitos e mitlogias
políica, p.157.
6 -A@l Rm, A cid d ltas.
7 - Ver Manoel Luiz Salgado Guimarãe, Nação e civilização nos
tpicos: o Intituto Histórico e Geogáfco Brasileiro e o projeto de uma
histria nacional, Estdos Histricos, 1(1988), p.5-27; José Neve Bittn­
court, Eplho da "nosa" história: imagnário, pintura histórica e repo­
dução no século X brasileiro, Tempo Brasileiro, 87(1986), p.58-78; limar
Rohlof de Mattos, O tempo SCama, cap.III-l.
8 -Sobre as reformas Passo há uma extnsa bibliogafJa, com destque
para Jaime L Benchimol, Perira Passos: um Hassmann tpical; Osval­
do Porto lha e Lia de Aquino Caalho, A era d dmoliçõs: cida do
Rio < Jairo, 1870-1920; Cntribuiçã a estud d hitwes popula­
res: cida do Rio d Jairo, 1886-190; Niclau Sevcenk, A revolta d
vaina mentes ins0 em corpos reblds; Sergio Pechman e Lilian
Fritsch, Areforma urbana e seu aveso: algumas considerações a propsito
da moderização do Distrito Federal, Revista Brasileira de História,
5(1984-1985), p.139-195.
9 -Cf. José Murilo de Caralho, Os bestalizs -o Rio < Jw,eiro e a
República que Afoi, p.40.
10 -Ver Marl Silva da Motta,A questão urbaae arnvoção dacida
do Rio de Janeiro R iníio do séulo X uma análise d bibliogr
ai
a
rcent.
11 -Voltrão ou não?, Revista d &mana, X(8), 29/03/1919.
12 -Revista d &mana, X(16), 24/5/1919.
13 - Cata, XlI(648), 20/11/1920; XI649), 27/11/1920; XII652),
18/12/1920; XV(657), 22/01/192l.
14 -Melhoraments necesários, op.cit.
15 - O Rio de Janeiro no Centenário, Revista d Semw,a, X(15),
22/05/1920.
16 -Números do progama, Cata, XV(663), 05/03/192l.
17 -Avenida da Indepndência, Jor do Brasil, 18/08/1920.
18 - Epitácio Pesoa, Discuro na inauguração da Expsição Interna­
cional de 1922 (08/09/1922), em Livro d Ouro cmmoravo do Cnt­
náio da Independéncia d Brasil e d &posição Intracional do Rio d
J aeira, p.363.
19 -Ver Berenice de O. Cavalcanti, Beleza, limpza, ordem e progso:
a queto da higiene na cidade do Rio de Janeiro, final do século X,
Revista d Rio < Jaeir, 1(1985), p.95-113; Lilian de Amorim Fritch,
Palavras ao vento: a urbanização do Rio imprial, Revistado Rio < Jwwiro,
1(1986), p.75-86.
74
20 -Citado em A medicina e a higiene h cem ano, em Lvr d Our
commemorav9 < Cntenio d Indpendncia < Brasil e d Eosiçã
Intracional < Rio d Jaeir, p.290.
21 -Ver Margarida de Suza Neve, A vitrines < prgsso, p.68-69.
22 - Carlos Sampio, op.cit. , p.115.
23 -Acaminho do Centenário, Crreio d Manhã, 03/05/1920.
24 -Revista d &mana, X(15), 22/05/1920.
25 - Ver Wmstn Fitch, Ageu e crise n Primeira Rpúblic:
1900-1930, em Marcelo de Paiva Abreu (org.),A ordm < prgesso: cem
aos d politica econômica republicaa - 189/1930, p.46-50.
26 - Carlos Sampaio, Situação financeira e a sitação municipl, em
Memória histórica, op.cit.
27 -A capital do Brasil, Revista d Semaa, X(26), 07/08/1920.
28 - O Rio de Janeiro no Centnário, op.cit, e Revista d Semaa,
X(25), 31/07/1920.
29 -Marshall Berman, Th< que é sóli< dsmacha H0¦a aentra
da mrd, cap.N, e Carl E. Shorke, Viena fn-d-siecle: polítca e
cultura.
30 - Esa interpretção sobre o arrasament do Castlo etá em Mau­
rício de A Abreu, Evolução urbana < Rio d Jaeir, p.76-78.
31 -O pavilhão da Inglaterra, Cala, XV(709), 21/1/1922.
32 - Os fbulosos tesouro do morro do Castelo, Eu sei tu<, 2(21),
fev.1919. Ver tmbém O morro do Castlo e os jeuíts, Revista < IHGB,
89(143), 1921, p.160-173; Luiz Edmundo da Cost, O Rio d Jaeiro <
"lU tempo, l' vol, p.199, e Machado de Assis, Ea e Jacó.
33 -José Joaquim da C. Aeredo Coutinho, citdo pr Carlo Sampio,
op.cit., p.10.
34 -Id.iid., p.14.
35 -Áas do Monte, Revista < IHGB, 88(142), 1921, p.31-43.
36 -À procura dos touros, Jor < Brail, 21/08/1920.
37 - Ats das sessõs do IHGB de 1905, Revista < 1HGB, 95(149),
ago.1912, p.382-85.
38 -Cata, X11(637), 0409/1920.
39 -Crreio daMcã, 09/08/1920.
40 - Os doze trabalhos do Hércule da Prefeitura: o arrasament do
morro do Castelo, Revisla d &maa, X(4), 01/03/1919.
41 - Cata, XJ(646), 06/11/1920.
42 -Discurso de psse do prefeit Carlos Sampio, Crreio d Mahã,
09/06/1920.
43 -A caminho do Centenário, op.cit.
44 -Ve, entre outros, Mônica Piment Velloso, A tradiçõs populaes
n BeUe Epoque carioca; Nicolau Svcenko, Literara como missão:
tensõs soias e criação cultura na Pmeira República; Rena t Ortiz,
Cultra brasileira e idntda naional.
45 - Revisla da Semana, X(25), 31/07/1920.
75
46 -A 20 metos da Avenida Rio Branco! Civço verus Barbaria.
Revista da SeDa, XI(4). 2ljI2/1916.
47 -Asuéro Ferndes. Ecombros. Cata, XV(729). 10/06/1922.
48 -E. Feli. Páginas esquecidas: o brç da cidade. Eu sei td. Il(20).
jan.1919.
49 -Sobre a espcialização da cidade do R de Janeiro. ver Maurício A
Abreu. Da babitção ao habitt: a quetão da habitção ppular no Rio de
Janeiro e sua evolução. Revista d Rio d Janeir. 1(1986). p.47-8.
50 -Ver Maurício A Areu. A evolução urbaa d Rio d Jaeir; Luiz
Cezar Q. Ribeiro. Formação do cpital imobiliário e a produção do espaço
constuído no Rio de Janeiro: 1870-1930. Espao e Debaes. V(l5). mai./ago.
1985. p.5-32.
51 - Ver Carlos Sampaio. O ar aaent d mT d Catl e
Memria histrica, op.cit.
52 -Cf. Elizabeth L Oliveira. Poütca d urbanizão d cida d
Rio d Jaeir: 1926-1930.
53 -Joral d Brasil. 19/07/1920.
54 -Crrio daMaã. 09/08/1920.
55 - Cf. Edgard Carone. A República Vlha - I (instições e classes
soiais, 1889/1930), p.183-184.
56 -Lima Barret. Megalomania. Cata, XIl(636). 28/08/1920.
57 -A carestia da moradia. Joral d Brail, 09/09/1920.
58 -Águas do Mont. op.cit.
59-Cata. XV(736). 29/07/1922. eA20 metros da Avenida Rio Branco!
Civilizção verus Barbaria, op.cit.
60 - O Morro do Castelo, Joral d Brail. 09/09/1920. e O Morro do
Castelo: o plano inclinado pr onde resvala o Conselho Municipal, Joral
d Brail. 07/09/1920.
61 -Carlos Sampaio, O ar aant d mT d Castelo, p.5.
62 -O sacrilégio. Jor d Brail. 15/09/1920.
63 - A destruição das nossas lindas praias. Jornal do Brasil
20/09/1920.
64 -O doze tabalhos do Hércules da Prefeitura. op.cit.
65 -José Joaquim da C. Azeredo Coutinho. citdo pr Carlos Sampio.
Memria histórica, op.cit., p.20.
66 - Impressões do sr. Crowley sobre o Rio de Janeiro. Revista d
Sema. X(13), 08/05/1920.
67 - José Vieira Fazenda. O Castelo. Revista d IHGB. 95(149),
ag.1912, p.486-495.
68 -Acapitl do Brasil. op.cit.
69 -Pelo molde da civilização, Ct. XI632). 31/07/1920.
70 -O novo simbolo, Careta. XIl(648). 20/11/1920.
76
71- Entrevista com o morro do Castelo. Joral d Brasil, 31/08/1920.
72 -Lima Barreto, O convento. em Batelas. p.84.
73 - Crreio d Mahã. 09/08/1920.
74 - O morro do Castelo e a tradição, Revista d SeDa, X(31),
11109/1920.
75 -Manuel Bastos Tg, Tradições ... , Crreio d Manhã, 30/09/1920.
76 -José Antnio Nogueira, O ideal b'"5ileiro desenvolvido na Rpú­
blica, em Vicente Lcínio Cardoso (org.), A margm d história da Repú­
blica, p.104.
77 -Civits lumínis, A &posiçoo d 1922, 16, 1923.
78 -Ver Walter Benamin, Paris, cpital do séulo XX Espaço e Dbs,
4(1984), p.5-13.
79 -A fests do Centenário, Jora d Brail, 16n /1920.
80 -Os projets do Centenário, Crreio d Manhã, 5/6/1920.
81 -Crio da Manhã, 16n11920.
82 -Progama para a comemoração do 1· Centenário da Indepndência
Política do Brasil, A &posiçoo d 1922, 1,ju11922.
83 -Sete de Setembro, A &posiçoo d 1922, 5, set.1922.
84-Destcaria, além da revist A &psiçoo d 1922 e do Livr d Our,
o Guia Oficial d &posiçoo lntraional d Cntenário, epcie de cat­
logo vendido aos viitantes da Expição, e o álbum A &psiçoo d 1922,
com 48 foto de August Mlta.
85 -Ver Margarida de Sousa Neves, op.cit.
86 -A &psiçoo d 1922, 14-15, mar.1923 (grifo nosso).
87 -A Pádua Resende, A Expsição Nacional de 1922, A &posiço d
1922, 1, jul.1922.
88 -A utilidade da máscara, Caret, X (742), 9/9/1922.
89 -O encerrament do gande certmen, A &psiçoo d 1922, 17- 18,
1923.
90 -A&posiçoo d 192, 14-15, mar. 1923.
91 -Hermes Font, Bazar de maravilhas,A &psiçoo d 1922, 12- 13;
1923.
92 -Aluz das fontes ocults, A&posiço d 1922, 2, ago.1922.
93 - Herbert Moses, Na Avenida das Naçãs, A &posiçoo d 1922, 1,
ju11922.
94 -"( ... ) e fala-e em revolução ( ... ) No entant, a revolução não sairá,
quando muito U motim ... e nada mai!" A verdade sem paixão, Careta,
X (729), 10/6/1922.
95 -Dias de sol, Cat X (734), 15n /1922.
96 -Hermes Fontes, Bazar de maravilhas, op.cit ..
97 -Em defesa da Expsição, A &posiçi d 1922, 14-15, mar.1923.
98 -Id. ibid.
99 -Ver Rgina Maria do Rego Monteiro de Abreu, Sagu, nfe
política Rtemplo d imortais: um estdo antopolgico d Clço Miguel
Calmon no Museu Histórico Nacional.
100 - "bute ville est, ente autres, une projetion des imaginaires
sociaux sur l'espace. Son orgnisation spatile aeorde rule place previle­
gé ( ... ) en exploitnt l charge symbolique de formes ( ... ) De même,
77
l'architecture traduit efacement dn son langge à elle le prestige, en
utilisant l'échelle monumentle, le matériau 'nobles·'. Bronislaw Bacz­
ko, L iminires soia: mmires et espir cllctfs, p.36; ltlo
Calvino, A cids irwislveis.
10 1 -Oswald de Andrade, citdo pr Ao Boi, A lt na Primeira
República, em Boris Faust (org.), O Brail Repulica, Hitria Gral d
Civilizaço Brasileia, tmo m, vol.2, p.313.
78
CÍTUO II
1922: SÃO PAULO É A NAÇÃO
A DI FíCil HEGEMONIA
"São Paulo dá café
Minas dá leit
E a ViIsabel dá samba."
{Noel R)
SÃO antigas e fqüentes as rferências ao jeito bêmio e malan­
dro do crioc em cntraposiço ao paulista disciplinado e trabalhador
e ao mineiro moerdo e austero
.
No início do ano 20, nacionalismo e regionalismo prenderm a
atenção do intelectuais envolvido na busc de uma nova identidade
nacional que cnciliasse o valor da moderdade e da brsilidade.
O tema regional foi retomado, nese momento, como uma via de
aceso ao nacional:
"Não havia regionalismo (no mau sentido)
.
Propunha-e
e praticva-e olhar para o Brsil, cantar Brsil, escr­
ver Brasil ( . . . ) A iniciativa prvinciana, até ento
olhadas do ai to, principiaram a ser festejadas cm um
entsiasmo nunca visto
..
. nJ
A que tão regional, t como era pot, rbria Osério debate:
qual seria a rgão cpaz de impor seu tom ao cnjunto nacional? Que
cracterístics a cpacitriam a exerer o papel de matriz da nacio­
nalidade? Determinados aspectos geográfcs, certs trdiçe histó­
ricas e o "crter" do seu povo erm, sem dúvida, o trunfos mais
valorizados.
Amnuid navegou nesas águas cm razoável sucsso, prje­
tando a imagem do mineir como elemento conciliador, sensato,
79
responsável, discrt, indispensável em momento de dearrnjo
social e institucional.
Estudos sobr a minirid chamam a atenção para o peo do
fatores geográfcs na cnfigurção do "cráter" mineiro. A cracte­
rizr a minirid cmo uma idologia cultivada pela elite política
de Minas Geris para garantir a unifcção inter e a inserção no
pacto oligrquico da Primeira Repúblic, Dulci motra como nesa
cnstruço é enfatizda a formaço montanhosa do estdo. A mon­
tanha, fator de cnervação e de fdelidade ao pasado, de ponderação
e de sobriedade, subjugando a imagnaço à vontade, temperndo os
mineiros em ur vida isolada e difícil, corrigiria "o que o dinamismo
cosmopolita cITeava à nosas plags".
2
Contr o cmopolitismo
desenraizdor e artificial do Distrito Federal, Minas seria a garantia
segur de apeg à brasilidade. A tendência à moderaço e ao enten­
dimento viria de sua cntralidade gográfic -Minas er o centro do
Brasil; o mineiro, homem do centro, nutria verdadeiro horror aos
extremismo.
Ttando a mitologia da minir cmo ur construção do
imaginário foljada a partir do século XI I, e calcada principalmente
nas obras literárias, Arruda percbe que o ideário da Incnfdência é
dos elements mais significativo para a contituição desse imaginá­
rio. O discuro de Tancredo Neves, em janeiro de 198, cmo presi­
dente eleito pelo Colégio Eleitoral, é primoroso nesse sentido:
"( ... ) a histria da Pátria, que se iluminou atravé dos
século cm o mao da Incndência Mineira, e que
registra cm orgulho a força do snmn d unid
nin . .. ¯
Se os elementos gográfcos configuravam Minas Gerais como o
lugar da austeridade, da tenacidade, da sobrieade e da discrição, a
história havia predestinado a região a ser o nascedour da liberdade
e da demorcia, conquistadas, sempre era bom lembrar, gç ao
''martírio'', ao sofrimento e à luta do povo mineiro. Ahistória do Brasil,
na verdade, seria um dedobrmento do movimento da Incnfidência,
que conteria em si o gérmen do sentimento nacional; as origns da
nação etariam em Minas Gerais, berç de Tiradente. Calcda nos
"indiscutíveis" fatos do passado e nos "imutáveis" aspeto da natu­
rza, a miniJid, quer como ideologia política, quer cmo mitolo­
gia, revelou.e efcaz ao projetar o mineir cmo elemento indispen­
sável no concerto político nacional.
Bomeny chama a atenção para o importante papel que a intele­
tualidade modernist mineir teve na cntruço da miniJid.4
8
Decidido a vencer o isolamento prvinciano e a falta de identidade
de Blo Horizonte, intelectuais cmo Drummond e Capanema busc­
ram frmar uma determinada imgm cm a qual pudesem marar
uma presenç originai no panorma da cultura ncional.
Moderistas de São Paulo -Mário de Andrde, Oswald de An­
drade, Menotti dei Pichia, Guilherme de Almeida, Plínio Salgdo,
para citr o mais detcdo -tmbém participaram ativamente na
cnfiguração do rgionalismo paulista.6 Um do pilare dese rgo­
nalismo foi a legitimaço da metrópole bandeirante cmo cbeç da
nova nação que ento se buscava cnstruir, implicando a desqualif­
cço do Rio de Janeir par eercr ete tradicional papel.
Conquanto ostentasse um sólido pargue industrial, um
emprsariado ativo e um operariado atuante,6 embora fosse o ago­
merado urbano mais populoo do paí, cm mis de 1. 100.000 habi­
tntes cntra o cra de 580.000 de sua rival, ainda que ocupasse o
lugr de principal cntro cmercial, culturl e fnanciro do paí, a
cidade do Rio de Janeir foi identifcada cmo reponsável pelo atraso
da naço centenária, síntese do male da República falida e crrupta.
Como tal, estaria fadada a perer o lugr de cbeç do paí e de matriz
da nacionalidade, incntetvelmente oupado dede os primórios
do procsso de cntrução da naço no século X
O coraço do Brasil brsileir e moero seria S Paulo. Metr­
pole "fbril", industrializda, habitda pr too o tips de raçs e de
povo, nem por isso deapegra-e do sólido vlore d brilidade.
Voltda para o interior, berç do bandeirante, a w paulist não
aprentava o artificialismo cracterític d cidade litorneas e, ao
cntrrio, impregnara -e dos princípio "verdadeir" do meio rural.
Desa maneir, São Paulo cnseg encr a moderdade do
pó-guerr na sua dupla fac, a da tradiço e ada vanguarda; nenhuma
outra cidade sintetizria melhor o valore da brasilidade e da moer­
nidade. Em termo pétcs, Oswald de Andade rtatou bem esa
feliz cmbinação: '�-us I Forde I Viadutos lum cheiro de cfé
I no silêncio emoldurado".7 Era preiso, no momento em que a naço
se preparava para entrr no seu segundo séulo de existência, voltar as
cots paa o Rio de Janeir e os olho para São Paulo, lu proutr
do espírito nacional e cmprometido cm a moerdade século x
Pode-e argumentar que esta São Paulo só exstia n imaginação.
Aintensidade cm que Mário de Andrde, por exemplo, trta a cidade
e seus personagens em Pcii dar (1921), parec se adap­
tar melhor ao contexto de desenvolvimento do capitalismo madur.
Senão vejamo: ,
"Deus rcortou a alma da Paulicia num cr-e-inz
sem odor ... Oh! para além vivem as primaveras eteras.
81
Mas o homens passamsonambulando. E roando num
bando nefário, vestidas de eletricidade e gsolina, as
d · red ¯ oençs Jotoam em or ...
H um certo tom de exressionismo alemão, uma visão estétic
produzida para o cntexto eurpeu, mas tlvez inadequada à situação
urbano-industrial de São Paulo.
No entanto, não etou procupada em verifcr o cnteúdo de
verdade das imagns simbólics ento construídas para as dua
metrópole brasileiras, pois cm tal forç ela se incrporram à vida,
que tomaram realidade o que de irúcio pareia simple invenção. Por
força da repetiço, o lugre cmun se impuseram cmo evidência.
Não é pelos cânones da verdade ou da mentira que se discute a
validade dos símbolos como instrumentos de cnstruço social da
ralidade e, sim, pela possibilidade de projetar interesse, elaborar
visões de mundo e modelar cnduts.
9
O que vale é a aceitação, a
eficcia em atingr não só a cbea ma, de modo epecial, o coração,
isto é, as esperanças e aspiraçes de um povo. O que conta é frmar
em todos as imagns de São Paulo cmo "farl luminoso que indic
ao Brasil inteiro o caminho a trilha
,
lO
e do Rio de Janeiro cmo
"cidade cntemplativa cercda de montnhas, olhando o mar.
u
Aqui
também o fators histórics -o epírito empreendedor do bandei­
rantes desbravadors -, e a loalizaço interiorana da metrópole
paulista - de costas para o litoralismo "cntemplativo" e de frente
para o Brasil ''rel'' -tiveram peo decisivo na definição do "cráter"
paulist.
Um Rio avesso à orgnizaço formal e institucional, ligdo a
manifestaçes epontâneas de rvolta e alegria e marcdo por estru­
turas burorátic-patrimonialistas, emerg da produção acdêmic
interessada em entender o "cráter" da e-pital federal. lbmando­
se por base alguns desses trabalho,
12
verifc-e uma certa cnver­
gência de visõe sobre a cidade que era tmbém o cntro do poder
político: a oniprsença do Estado teria inviabilizado o forescr do
eth individualista do ''homem ecnômic", abrindo cminho par a
malandragm característic do carioc. Lng da disciplina do mer­
cdo, a moderizaço do Distrito Federal não se teria pautado pela
orgnização do mundo do trabalho, nem tido como referência a
realidade do mundo da proução, em função da sua trdição escra­
vista e predominantemente cnsumidora. São Paulo, ao contrário,
formalmente orgnizado em assoiaçõe de intereses ecnômics e
afinado cm estruturas racionais-legis de moerzaço polític,
cidade de produtores, com preominãncia do ecnômic, maior liber­
dade de criação, teria se submetido à lógica do mercado.
8
Solidamente assentdas na memória cletiva e, até crto ponto,
rtifcdas pela pruço acdêmic, a imagens de cidade-lazer 7
cidade-trabalho impuserm-se com forç, apagndo a mar da
cnstruço histricamente datada desse imaginrio e acentuando a
sua naturlidade. Desa maneir, é importnt prcber cmo na
décda de 1920 foi montado um discurso de delegtimção da cpitl
feerl cmo cbeç da naço, quais o principais símbolos acionados
para tanto e cmo ele se encaixarm no prcso de cnstituiço do
univero nacional nese momento. A situaç cntuoas etimu­
lam a invenço de novas técnics cmbativa no domínio do imagná­
rio que visam, por um lado, formar uma imagm que devalorize o
adverário e invalide a sua legitimidade, e por outro exaltar, por
intermédio de "magífcas" imagns, a causa que defendem. É carc­
terític do trbalho do imaginário soial atuar atravé de série de
oposiçe -Iegitimar/invalidar justifcr/acusar -que no são isola­
das, mas que se articulam umas à outrs.
A atuação da geraço inteletual das primeiras décdas do século
X foi deisiva, pois cube a ela criar os mar simbólics que até
hoje pvoam o imagnário sobre as duas maior cidade brasileiras.
A formularm idéias que se transformam em mentalidade, o
intelectuais traduzem e prduzem sentimentos que, se form rc­
nhecido, incrporm-se à cnsciência nacional.
Alberto 'r cniderva a cpitl federl uma cidade imprga­
da de ftors dissolvente, e denunciav cmo lesiv a "aço plutocat
dese gande cntro cmerial", que também er o paro das indús­
tras ''itára'', sustentadas por "grdo subídio" do Etdo.13
Par o ''oerzdors autoritrio", cmo Olvi Vin o litor­
lismo plítico, a importção de idéias e o sistemas polític acritic­
mente cpiado, o ggntismo burrátic crpto e inefcient, dea­
critvam a cpitl feerl, epaç-ínte de too os male que
afigiam a naço cntenária. Prenç cntnte no discuro do
')acbino" na Brlea e n Gü Bla, er a rferência ao Rio de
Janeiro cmo cntro de cmércio cntrlado pela gncia do prtu­
guee e epaç mrdo plo epíito omoplita e deperonalizdor.
A liderança do movimento de dequalificço do Rio de Janeir
cube sem dúvida ao paulists, epialmente o modernistas. Vel­
loso detac0 papel-chave que deempenhou o grupo ''verde-amrlo''
na elaboraço de uma argumentaço detinada a elegr São Paulo
cmo matriz da nação, que ao memo tempo dequalifcva o Rio de
Janeir par exercr tal papel.14 Valorizndo o regionalismo, atri­
buindo ao epacial-gogic a esência defnidor da nacionalidade
brasileir, defendendo o crátr rurlista da nossa "civilizço",
intelectuais cmo Plínio Salgdo e Cssiano Ricardo triam identif­
cdo na cpital federal a "antinaço".
8
Aquestão do regionalismo é centrl no moerismo. Na opinião
de Velloso, haveria uma cisão no enfrentmento da relaço nacional­
regional: em opoição ao rgionalismo "verde-amarlo", que teria
gerdo os vigoroo atques à cidade do Rio de Janeir, Mário de
Adrde defenderia a diluição d parte (o rgional) em favor do too
(o nacional). O rpúdio ao rgonalismo teria sido cnvincntemente
demonstrado por Mário numa rpost a Sérgio Milliet. Diz este: "C .. )
o nosso moerismo tem de ser difernte. E Guilherme é profunda­

ente brasileir. Digo mais: paulist ( ... ),,
15
A ração de Mário é
Vgroa:
"Que historiada é essa de falar na sua crônica ( ... ) que só
se é brasileiro sendo paulista. Prtesto! ( ... ) o paulista
é também aquela besta reverndíssima da Guerr dos
Emboadas C ••• ) o homem que abandonou toda uma rgião
porque C .. ) ela não dava mais cfé".
16
Julgmos etar diante de uma d mais sérias cntradiçe do
princípios modernists, pois se rejeitavam o rgionalismo "passa­
dista" em nome de uma nacionalismo "modero e integrador" , perc­
bemos que este deveria ser construído a partir da matriz paulist.
Concrdamos assim com a interprtação de Mores par a crt-pro­
testo de Mário, refutndo o bairrismo de Milliet:
"Mário aprsenta a mesma posição do criticdo ( ... ) Seus
propósitos são nacionalistas, mas seu fndo revela os
t d
.
d I· t· ,,
17
raçs o arraIg o pau IS Ismo ...
o cráter da rejeição ao Rio de Janeiro, evidente em Oswld de
Andrade, Menotti deI Pichia e Mário de Andrade, poe ser bem
avaliado no balanç que este último fez, em 194, do movimento
modernista. Ao marcr a cidade de São Paulo cmo o berç do
modernismo, porque era "epiritualmente muito mais moderna", o
autor da Pauicia dsvairada cnlui que no Rio, "a grande cmelote
acadêmic", "sorriso da soiedade", "Cr imperialista", seria impo.
sível a eclosão desse movimento: o atraso cultural, o exotismo folcló­
rico do samba, a falt de um "espírito aristocrátic", negariam à
cpital o epaç da moderidade já ocupado pela metrópole bandei­
rante.
18
A descrença em relação ao Rio de Janeiro unia setores intelectuais
heterogneos, que encminhavam suas críticas por cminhos diferen­
tes, mas tinham em comum o diagnótico da falência da cpital
federl cmo carto postal da nação. Como muito bem observa
8
Oliveira, "o Rio de Janeir passou a servisto cmo a cidade dionisíc
por excelência".
19
Naquele momento, parec que Dioníio não foi
associado à salvação nacional, mas sim encrdo cmo sinônimo de
decdência. A "queda" do Rio abria epaç p fmar " um novo
farl" a indicr o caminho a ser trilhado pelo país em busc de seu
futuro, São Paulo, terra do trabalho, do espírito pragmátic, da
reponsabilidade e da seriede.
Na configuração do imaginário sobre as duas cidade oper-e
freqüentemente cm símbolos que só deitam raíze quando h terreno
onde possam se firmar. O entendimento do imagnário se dá no
âmbito das múltiplas relaçõs na sociedade; são os sujeitos que, no
desenrolar das suas açe, prduzem, animam e reforçm as elabo­
raçe simbólicas. Ou seja, a criaço de símbolos não é aritrária, não
se faz no vazio social. Ainal, o cntrole do imaginário -de sua difsão
e reproduço -assegura um impacto sobre as cnduts e as atividades
individuais e cletivas, influenciando as eclhas em situaçõs de
resultados ainda imprevisíveis.
A busc de uma nova nação no início dos anos 20 abria epaç
para a cnstituiçâo de Oprojeto de hegmonia paulista no cnjunto
nacional. A visâo exagerada e simplista da predominância dos inte­
resse paulistas na formulação da política ecnômica, a ingênua
percepção do caráter e da força da hegmonia polític de São Paulo,
que cracterizaram as interprtaç tradicionais sobre a Primeira
Repúblic, têm sido contestadas. Tabalhos reente têm relativizado
o papel e o peso de São Paulo na chamada ''Repúblic Velha".
20
A tercira década do século X cracterizou-se por um eforço dos
paulist em ampliar seus epaços de reprentação e alarg suas
áreas de influência, aprentando tal emprendimento cmo se for
uma urgência da salvação nacional. Cm uma bo doe de radicalis­
mo, Oque de crto modo refetia essa impaciência, Monteir Lbato
é explícito:
''Um dilema impõ-se: ou essa província assume decisi­
va preponderância no governo do país de modo a fazê-lo
instrumento do seu progreso particular, isto é, conquis­
ta a hegemonia polític necssária à conservação da
hegemonia eonômic já adquirida, ou separa-e, usan­
do do direito de secsão".
21
Não eram palavas ao vento. Vivia-.e efetivamente um momento­
chave de discussão de novos projetos nacionais, de rdefinição de
polítics ecnômics, de contestação ao pacto polític vigente, de
busc de renovaço do panorama cultural; era chegada a hora de se
8
fazer opço por caminhos que fnalmente gntissem a reenço do
país. Nese cnteto, era indispensável que São Paulo se aprsents­
se cmo a escolha "naturl" para assumir a liderança enmic,
polític e intelectual dese pIso.
Como d o Bletim do Departamento Estdual do Tbalho, de
1912,
''São Paulo está se aparlhando par ser um grande
cntr industrial, alguma cisa como Chlcgo e Man­
cheter junts ( ... ) O foc prnto par projetr, talvez
em brve, uma corrnte enérgc em todas as efers da
sociedade".
2
é
/
o texto evidencia que o cntemporãneo percbiam a rápidas
trnsformaçes operdas na cpitl bandeirante, eixo principal do
rápido crscimento da indústria paulist e reponsável por cra de
50% da proução industrial do etdo. A dua prmeiras déadas do
século X marcram o grande salto quantitativo desa indústria, que
cnseguiu imprimir maior velocidade ao seu deenvolvimento do que
a obtida pela sua vizinha e rival. Os dado do Ceno de 1920 indicm
a pera da suprmacia industrial do Ditrit Federal, até ento o
noso mais importnte cntro fabril, par o esta de São Paulo.
23
O embate entre Rio de Janeir e São Paulo invadiu outs efera.
A crise polític detonada pela tena cmpanha pridencial de 1921-
1922 abalou o pacto oligruic que então condicionava o paí, cm
um polític fuminene, Nilo Peçnha, articulando O"eixo alter­
tivo de poer" - a Raço Rpublicn.
24
Com b penetraço na
massa popular carioc, a candidatur Nilo Peçanha chegou a ameaçar
o acro paulist-mineiro, que ainda assim acabou levando Aur
Berrde ao Catete. No acso da cmpanha, a assoiaço entre um
"cndidato irrponsável" e uma "cidade frívola" foi feita em vários
artig do perpist Corio PaistG
.
No campo cultural, a Se­
mana de A Moder ralizada na cpital paulista, em feveriro de
1922, trazia explicitamente a menagem de abolir a ''Repúblic Velha
das Ltras", claramente identifcada cm o Rio blle épque.
25
Para
os moerists paulista, a "nova" cultura braileir prcisava se
fIar no solo sólido de uma cidade "moera", cpital do estdo mais
deenvolvido da feeração. Em suma, er prciso grantir para a
"febricitante" São Paulo, o lugr de principal pólo industrial do paí,
de cntro das decisõ no cncerto polític nacional e de eixo da
prdução cultural brasileir e moder.
A "inevitabilidade" da conquista da hegmonia industrial pela
cidade d! São Paulo, solidamente finnada na trdição hlstoriogf-
86
c,
2
obscurec uma quetão de grande interse teóric e prátic.
Anal, como explicar que um cntro industrial pderoso e bem
estabelecido tenha sido superdo por outro próximo, e portanto,
atuando prticamente na mem área cnumidora e abastecdora?
Ou seja, o que levou a cidade São Paulo a assunúr o papel de cntro
dinãnúc da rgião mais rica do paí, quando ete lugr já etava
oupado pelo Distrito Feerl?
Singr, O seu alentdo trabalho sobre as cidade brsileiras,
27
apont alguns fatore que se torram O eplictivo desa
quetão: a cnstituição de um mercdo intero mais amplo par São
Paulo, que tinha um hina mais dinâmic e uma populaço
crecnte; o deevolvimento da agropeuária abastecdor de maté­
rias-primas barats; e a atuação do govero etdual paulista a partir
de 1891, configurada na subvenção à inúgaço e na construção de
estradas de ferro que, embora voltdas par o cfé, beneficiU a
industrializaço.
Centrdo na noção de "cmpleo cfeeir", Cano explica, a partir
daí, não só as orign e o deenvolvimento da indústria paulista, cmo
também o "retrocsso" industrial da ecnomia carioc.
28
Assim, o
ponto fundamental cpaz de justifcr, seja a expansão industrial
(SP), seja a perda de dinansmo desa atividade (DF), seria a rlaço
cfé-indústria. O medíocr deempenho da cafeicultur fuminene,
fora do modelo cpitalist do "cmplexo cafeeir", teria freado a
acumulação de ciitl e precipitado o "evaziamento" ecnômic do
Distrito Federal.
2
O fnal da décda de 1970 registrou um bo m na prouço
acadênúca sobre a história do Rio de Janeir, tentando escpar das
interpretaçe gneralizantes a prtir do modelo paulista, e buscando
a especificidade da cidade do Rio de Janeir cmo principal cntro
polític, administrtivo, cmercial, financeiro e industrial do paí. O
trbalho de Eulália Lbo
3
deve ser lembrdo cmo um eforç
pioneir nesa do.
Revisõ historiográfc séria
3
1
rvertrm o quadro das tradi­
cionais exlicçõ para o delínio indutrial crioa; comprovou.e,
por exemplo, que ese delínio não teve uma rlaço refea e imediata
cm a agricultur fluminense, pois as principais indústrias têxteis
carioas cns tituírm.e a partir de investimentos oriundo do cmér­
cio de importação e do capital bancário.
Lopoldi vai mais além ao quetionar a tese do "esvaziamento"
industrial do Distrito Federal, destacando que a prouço das indús­
trias crioas cntinuou a crescr Ot primeirs dé do século
X, embora num ritmo mais lento que o do parque industrial de São
Paulo.
32
E mais: é preciso lembrar ainda que etmo comparando
uma cidade -o Rio -com um etdo -São Paulo. O dados existentes
87
se rferem ao etado de São Paulo cmo um todo e o peo da indústria
paulistna é difícil de ser mensurado, embor Singer clcule que deve
ter repreentado pelo meno alg cmo 50% da do estado. Nese cso,
cidade-a-idade, o Censo de 1920 indicria ainda a supremacia da
produção industrial carioc, com 677 mil cntos, cntra os 504 mil
cnto da produção paulistana. Só em 1938, os número apontriam
a ultrapassagem da metrópole bandeirante cm um totl de 4.323 mil
cnto fente aos 2.87 mil cnto do Distrito Federal; na avaliação
de Singer, a duas Cde crcimento industrial se cruzarm num
momento da déada de 1920.
3
Relativizando as análises purament enômics e prpondo um
enfoque mais abrngente, Lopoldi demonta o mito de uma bure­
sia industrial crioc débil, acmoada, sem el empresarial e
"sufocada" pela proximidade "periciosa" do Etado, bem de acrdo,
aliás, cm uma cidade cracterizda cmo pré-industrial, pré-burgue­
sa e longe da disciplina do merado.
3
Deponta das pesquisa da
cientist política uma classe atuante, de peso eonômic epressivo e
relativamente organizda, cm uma associação de classe estável e
permanente, o Centro Industrial do Brasil. A despeito do salto da
indústria paulista, o industriais daquela rgião só vierm a se
organizr num cntro rgional (o CISP), duas décdas depois (1928),
tendo a lideranÇ industrial co tomado a fente n luta pelo
prtecionismo nesse período, lembr Lopoldi.
35
Em lugr da "inevitabilidade" da supremacia industrial de São
Paulo, percebe-se, sim, uma predominância durmente disputada
cm o Distrito Federal ao long da décda de 1920, quando se iniciaria
o que Cano denominou de "preparço do terrno" para a cnsolidação
da indústria paulista no mercado nacional, conquistada fnlmente
na décda de 1930.
36
Esta ''preparação do terreno", sem dúvida,
ocupou o cmpo simbólico, acartando a cnstruço de um imagná­
rio que identifcsse a capitl paulista cm os valor básics de uma
metrópole industrial - trbalho, ordem, disciplina, opersidade e
progreso -e sob o cmando de uma elite herdeir do bandeirantes
pioneiros e empreendedor.
"É de lá [dos etados] que se governa a Repúblic, por
cima das multidões que tumultuam, agitadas, as ruas
da capital da União ( ... ) A plíta d eta ( ... ) é a
plíta /in".
37
Esa afrmação de Campo Sale é füentement invocda par
frmar a imagem da massa urbana co cmo indisciplinda, o que
teria levado os cnstutor da República a "neutralizar' B infuência
da capitl na polític nacional. A Repúblic deveria ser goverda do
8
etado, d a Wsidade d pacifcr e coptar as sua oligrquias. A
anulaço política do Distrito Feerl tria provodo a decrença da
sua ppulação no mundo oficial da plítc, optando et pr M
participaço fgmentada em movimento de natrez soial e religios
(cmo as fets da Penha e da Glória) e culturl (samba, ftebol). Dado
eleitorais apontm que a participação plític na "cidade marvilhoa"
er bm abaixo da média grl do país, só vindo a crcr ao longo do
ano 20. Na intrpretço do brsilianist Michael Cnf em seu
etudo sobr a acnão do ppulismo e a polític urbana no Brasil, este
"etlo crioc" d polítc psibilitria a emerncia do "chefe"
(euivalente urano ao "crnéis" do intrior), abrindo caminho par
as lidernçs ppulistas da déada de 1930.
3
O crátr peuliar da cpanha preidencial de 1922 não 8limitou
ao cnfont entr o gndes etdo (Mins e São Paulo) e o etado
intermeiário (Rio de Janeir, Ba PeIbuc e Rio Grnde do
Sul) numa tena disputa sucsória. A estratégia de mobilizaço do
eleitordo efetuada pla Reação Republicna, em 1921-1922, inaugu­
rou um prmento inusitdo entr as prátics plítics do paí. A
arrgmentação da opinião públic seria um trunfo d opoicionistas
paa enfrntr o pado arenl da situaço, que ia da fude e da
crrupo até a peguição m implacvel ao rivais.
A imprensa teve um papel importnte no trnsbordamento d
discussõ sucssórias para o "grande" públic, e o joris crioas
Corio dManãe O Impaia form fndamentais na cnformação
da opinião pública carioc em favor da cmpanha do fuminense Nilo
Peçnha. Por outr lado, a idéias de Nilo, tanto no tocante à soluço
da crise enômic, cmo Oque se rfere à rgneraço dos cstumes
polítics, aproximavam-se do movimento jacbino, em plena efere­
cncia na cidade do Rio de Janeiro no riar dos anos 20. De qualquer
maneir, chegndo da Eurpa em junho de 1921, Nilo foi recbido por
"um multidão que se cmprimia no cis do porto,
rmpendo o crdõ de isolamento aos grito de 'viva
Nilo Peçnha, o futur preidente da RepúblicM•
39
Na opoiço a Nilo, chmou-no particularment atnção a atuaço
do jr paulist Cn PaiJ, dirigido por Carlo de Campo,
líder da bancda paulist d Partido Republicno Paulist: na Câm
Feerl. Em Msérie d artig publicdos na seão "A margm da
polític", no último trimetre d 1921, o jrlist que se assinv
Ador Bueno defehou atque violento ao candidato da Reação.
Em princípio, as mtérias de Bueno se pruparam em defender
a prdominncia "naturl" de São Paulo e Minas Gerais dos ataque
de Br de Meeiro, par quem t hegemonia reprentria O
8
''rgonalismo nefando e gseir", e de Nilo Peçnha, que denunciava
"o imperialismo do grnde etdo". Afinal, São Paulo,
"que cntribui cm a maior parte das renda que sus­
tentam a Feerção ( ... ) e Mins, com os sete milhõe de
habitnte ( ... ) não têm o direito de lembrar um nome
para cndidato à prsidência da República?
,
>0
o tom das críticas se modifcu a partir da grande penetração da
cndidatur nilistajunto ao cntingnte eleitoral do Distrito Federl,
manifet no grande cmício de Nilo em outubro de 1921, e reforçada
pela vaia a Artur Bemarde quando da sua passagm pela Avenida
Rio Brnc. A tentativa de descaracterizar as duas manifetações
cmo expressões da participação da populaço crioa no campo
formal da polític é evidente no artig do jornal perrepist:
"É verdade, não é mentira, e nem se pode negr que à
passagem do candidato nacional [Bemardesl pela Ave­
nida Rio Brnco se ouvissem assobios. Depois dos asso­
bios vieram as depredaçes ( ... ) cntra crto inofensi­
vos e vitrine de casas cmeriais".
o cráter deordeir e depolitizado da população da cpital
federal mais uma vez é rssaltado; afinal, "ser vaiado por quem vaiou
Campo Sale deve ser um título de gória". Par esse tipo de
manifestação, o jorlista paulist tem um santo rmédio: uma "surr
de pau ( ... ) e posso grantir que não haveria nada que abafasse as
palmas dadas ao cndidato nacional".
41
Buscava-se assim firmar a crrpondência entre um candidato
"demagógico" e uma cidade "iresponsável"; procurava-se exorcizr a
volt do fantasma das massas urbanas "indisciplinada" do Rio de
Janeiro, que tanto havia preoupado Campos Sales, que saíra do
Catete debaixo de vaia. A ''promiscuidade'' do candidato do Rio com
"seu" povo foi denunciada cm veemência:
"Na avenida Rio Branco, quando passava seu crtejo,
um prtalhão beiçudo deu-lhe dois vivas ( ... ) E o que fez
meu cro Nilo? Pespegou beijos na cra retinta C .. )
Quem anda aos beijo cm a negrada ... ".
42
Embor nascido em Campo e tendo feito sua crreir polític no
etado do Rio de Janeiro, Nilo Penha seria pordor de ''uma ment-
9
lidade cmopolita, enizada na populaço O I elite cro .. .'>3
Da, sem dúvida, a acusação d que a "molegm" que o crcterizaria
er oriunda do meio: "vo tinha de ser moleue por for".44 A
cntrpoiço à moleem e à deonestidade crcterítics do "meio
crio" er dada por São Paulo: '�el e honet ( ... ) não é da sua índole
heitar no cminho das reoluç bndeirantment tomadas ( ... ) o
Édip de Pirtning aniquilar o montro crio ...¯.¯
Sem dúvida, o embat Peçnha-Berrde passou por muit
outras eferas, principalmente o faudulento pIso eleitorl da
époc. No entnto, não poemos negligenciar o imaginário polític,
fuido e impreciso, mas que em momento de crise revete·e de um
significado todo especial. Anal, é bom lembrar, pardiando José
Murilo de Carvalho, que 1922 teve eleiçe em tempo de cóler.
M seria no cmpo da cultura que se trvaria a mais explícita
batalha pela conquista da difcil hegemonia paulista no cnunto
nacional. Capital das letras e das art, cntr cultral csmopolita,
sede d embaixadas, o Rio de Janeir, a orgulhosa "Atenas da
Pátria", ostentava, na opinião de muitos, um padrão de sofisticação e
refnamento incmparável em rlação à "províncias".
A prsperidade ecnômica do estado de São Paulo, rfletida O
rãpidas trnsformações que se operavam no ctidiano da sua cpital,
cm as chaminés e o arrnha-éus despontndo aqui e ali, precisava
ter uma crrespondência no cmpo culturl. Cumpria pois firmar, ao
lado da fama de povo "ric, forte e generoo", o lugar de São Paulo
cmo fonte das mais "desassombrdas" exprsô de autonomia
intlectual e de "notável" produço literária e artítica; era preciso
afastar dos paulistas o epíteto de "prátics", de epíritos absoridos
pela lut material e incpaze de duradouras construçes intele­
tuais, pois São Paulo er "cm suas fábricas, com a sua riqueza ( ... ) o
sonho de todos aqueles que tragam quer um ideal de arte, quer um
ideal ralizdor de trabalho".4
6
O movimento editorial é o indicdor cnstantemente apontado
para resaltar a relevância culturl da capital bandeirante. Inevitá­
veis parlelos são trçdos com o Rio de Janeir, matriz até então
incontestável da prdução inteletual do paí, levando o crítico gúcho
João Pinto da Silva a cncluir:
"São Paulo está se cnstituindo, dia a dia, num grande
foo de atração e irradiação literária ( ... ) as cifs cns­
tntes sobre a atividade tipográfca C .. ) demonstram que
a sua cpital não é só um centro industrial de primeira
ordem; hoje em dia, a sua produção inteletual epecial­
mente a literária, emparlhou com a da
j
rópria cpitl
do paí, na quantidade e na qualidade".
91
Ao cntrário do ideal romântic do inteletual cntemplativo bem
ao goto da "cmelote acdêmic", São Paulo tem a oferr "o braç
que trbalha e o crebro que cria. É a incude e o pnsament;
Hércules e Apolo; aço e criaço".
4
Alegnda bandeirante DRdu
d deve.e afrmar em todo o cmpos de atividade, ecnmic,
polític e cultural.
Aspirr à liderança intelectual da naço signifcva dequalifcar
a cpital feeral para o exerício de tal papel. Para tnto, er prciso
identifcá-la cmo o lugr do parasianismo drd, do epírito
cntemplativo, do deinterse pela cultur. A rlação superfcial e
cntemplativa da "cidade Ovilhoa" cm as manifetaç cultu­
rais é denunciada por Lbato em 1917:
''Está abert no Rio a 24' Exposiço Gr de Bla Arte
( . . . ) o que nunc se abre ( . . . ) é o apetit do públic par
etas cisas de arte ( . . . ) a exposiço etá à moc ( ... )
Perto dali, no entant, a gma alta do Rio disput a
chuçadas de ctovelo cdeirs de cinema p emparve­
cr o 0Iho -.-¯¯
Ametforada bandeir debravadora foi acionada: mais uma vez,
cumprira a São Paulo penetrar teritóro "bárar" empunhando
a bandeir da nção moder. Sugtivamente intitulado "A 'bandei­
ra fturista"', o artig de Menotti, narrndo a viagem de Mário e
Oswald de Andrde ao Rio de Janeir, é um primor par ilustrar que
"a província se adiantu à metrpole":
"O 'andeirnt' de hoj (. . . ) seguem ( ... ) rmo da Capitl
Feerl. ( ... ) form arrtar o perig de t a lanças
( ... ) do parianismo ainda vitorioso n terr do defnto
Etácio de S ( ... ) Em lugar d onçs, d tb selva-
gn ( ... ) a 'bandeira' fturist trá que afontar os meg-
tério ( ... ) da litertur pátria ( ... ) Blo exemplo de São
Paulo! Gloroa terr et, fonte inexurível de iniciat­
vas, de librdade, de belo get. ( ... ) Sira iso de
exemplo à cpitl feeraJ...'
,
Caberia pois ao hmme d letde São Paulo a tarfa de, cmo
portadors da modernidade, espanar as teia de arnha que aprisio­
navam a cultura brsileira em molde ultrapassados. Maior evidên­
cia do atraso culturl da cpital da Repúblic teria sido a imposibi­
lidade de aí se abrigr o movimento moerista. Na avaliaço de
Mário de Andrade,
92
"São Paulo estva mais 'ao par' que o Rio de Janeir ( ... )
etava, ao memo tempo, pela sua atualidade comercial
e sua industrializço, em cntato m�is epiritual, mais
técnico, cm a atualidade do mundo. E memo deassom­
brar como o Rio mntém ( ... ) um cráter parado, tradi­
cionL.''
!l
Pa esa linha d interprtço cnverge a avaliaço de Antnio
Cndido, par quem o moermo, tl cmo o rmntismo, seria um
''moment paulistano", quando a cpital bandeirnte se pritrsobr
a nação, buscando "dar etilo à aspiraç do paí too".
5
Atrvé de seus intelectuais, principalmente os moderstas, a
capitl paulista prtendia alcançar a lideranç cultural, reivin­
dicndo par si a direão da inteligência brsileira. Filiados a age­
miaçes político-partidárias, articulista de joris claramente iden­
tifcdo cm essas agremiaçõs, membrs da administraço públic
estadual, imprgnados de um forte sentimento de paitd
entendida na sua dimensão identifcdora, eses intelectuais assoia­
ria à tarfas políticas as lutas no cmpo artístic-literário.
53
De
imediato, pode-se pensar nas relaçes que teriam estabelecido cm a
elite política e ecnômica de São Paulo. Ou seja, a intelectualidade
paulista estaria a serviço.dos intereses hegemônico dessa elite? A
meu ver, a resposta é sim e não.
Sim, na medida em que o raiar da décda de 1920 se cnfguru
cmo um momento-chave par repensar a nação cntenária e buscar
marco definidore de uma "nova" identidade ncional. 'atva-e
de marcar o ingresso do paí no século x sob a égide da brsilidade
e da modernidade, o que, para os paulistas, significva marhar atrás
da bandeir de São Paulo. Sim, se pensarmo que cube a esses
intelectuais, em grande parte, criar o símbolos que gravaram as
imagens das cidades do Rio de Janeir e São Paulo, conferindo-lhes
um caráter prprio, carrgado de negtividade e positividade. Sim,
na medida em que o imaginário social exprssa-e no simbolismo, ao
mesmo tempo obr e instrumento desse imaginário. A décda de 20
firmou para São Paulo o papel de '10comotiva" do progresso.
Não, se entendermo a atuaço desa intelectualidade cmo fto
de uma manipulação por part de menismo polític, trndo-e,
nese caso, instumento num jog de forçs no qual deempen
apna fnção seundária. Nes e cso, a cmpanha de dequalificço
da capital federal visaria atnder etrito intrse plític e enô­
mics da "burgueia" paulist no etabelecimento de sua hegemonia no
pais; ao defenderm par a metrpole bandeirnte o lugr de cntro da
cultur nacional, o intlectuais de São Paulo etriam, ingênua ou
deliberdament, garantindo a preomináncia dese interese.
93
À medid que se amplia a autonomia do cmp intelectual, ligda
à exansão do mercdo de bn simbólic e à cneqüent ascnão do
etatut do proutore des e bens, o intletais tndem a atuar pr
cnta própria no jog dos cnflito, cujo alvo prioritário é a cnquista da
legtimidade cltural. O ano 20 marr justmente a fJaço d
bases do merdo de ben simbólics no Rio de Janeir e emSão Paulo,
tnto pla expanão do cmpo eitorial, quanto pela ampliaço d
demana de intele no seriç públic, sigifcndo a abrtu de
área epeífcs p a atuaço dese novo prfIsionis, onde, cm
cr autonomia, buscrm asgrar a legtimidade da sua pruço.
Por um lado, o moert são movido pla Widade d se
afrmar cmo intelectuais, a parir da rntruço de u identidade
par a cpital paulista cmo o lugr da moedade e da brsilidade,
rmo cnto urano e intele mais imprnte do país; trt�e de
gvar uma imagm cm a qual posam se aprentr cmo elite
intelecual de exprsão nacional. Por outr, o momento histrc do
início dos ano 20 é prfeit para a eloão dese movimento: é quando
se acirrm as disputs plo lugrde plo da enomia moer do paí;
é quando se viabiliz a primeira tnttiva de fIum ei altertivo
de poder for do equema Minas Geris-ão Paulo. É a hor oprn,
enfim, par o delineamento do prfl da nço que se quer, a partir da
identifcço daquela que não s quer, ou seja, a antinaço.
SÃO PAULO = NAÇAO;
RIO DE JANEIRO = ANTNAÇAO
'Terr, trabalho, po, justiça e felici��
tdo se encntá em São Paulo .. .'
A idéia de que São Paulo se bastva, u vez que runia em seu
teritório os cmponent necsário ao prgso, difundiu�e na
virda dos ano 20 . . 0 exemplo mais acbado desa posiço - São
Paulo é uma naço - foi o artig de Monteir Lbato, intitulado "O
94
dirito à secsão", de 1919.
5
Graçs a felize "ciruntncia meo­
lógics, ecnômic e étnica", em funço de um "cntnte aperfei­
çamento do aparelho administrativo", São Paulo se tria distnciado
do reto do país, ocupando o lug de vangara Ocnjunto nacionl.
Como tal, deveria ser o ''modeo'' do Bril prente. Cnetado à
simbologia da nacionlidade, o component da paulistanid o­
cilaram entre dois pólo, transitndo da identidade particular par a
identidade do too.
Nese cso, importnte er legitimar de fora incntetvel o
lugar do paulistas no Brasil, principalmente em momentos crciais
cmo esse em que a nção se prparva p cmemorr o centenário
da sua independência. Fundamentl er ligr a imagm dos paulis­
ts aos bandeirantes -pioneirs, debravador e emprendedor -
rtaurndo um linha de cntinuidade que negsse a demarcaço
entre passado, prente e futur. Neesário er apelar à lidernç
paulista, fnnement imprgnda do etJs bandeirnte, confgurdo
no amor ao trbalho, à ordem, à disciplina, à detenninaço, à ação,
ao prgmatismo, à abnegço. E m: ete valor deveriam se
entranhar na própria alma brasileira, defnir, enfm, o to prcurdo
"cráter nacional brasileir". A ideologia do Estdo Novo v utilizr
fartamene o simolismo da bandeir, não só por seu reiterdo
aspeto orgniztiv e co pertivo (a integraço rcial e soial), cmo
também pela associação cntntemente marda entre o deenvol­
vimento industrial e o cráter "andeirante" do oprário paulista,
trabalhador e disciplinado ''por naturez".5
História e ggrafa cnfluíam para fr a idéia de que São
Paulo er o berç da nço. Com o pés fncdos na terra finne, de
cstas par o mar, o bandeirnte, de ontem e de hoje, seria o gardião
prgmátic e ordeiro d tradiç nacionais. A cntrário, o carioc,
"cidadão do litorl", seria csmopolita, aventurir, contemplativo,
deintersado dos negócio, incpaz, portanto, de dirigir o Brsil,
cujo destino seria a terra fnne e não as "sereias do mar".
Em artig par o Cori Pait, na edição cmemortiva do
Centenário da Independência, Plínio Salgdo apontava um do as­
pectos mais destacados par indicr a diferença entre as duas rivais:
enquanto São Paulo er reultante do trbalho (cntro industrial), o
Rio de Janeiro seria marcdo pela sua naturza eubernte, prpícia
ao lazer e à contemplaço.57 Na "cidade maravilhosa", o cntato com
a naturz, tão valorizado pelo "verde-amarelos", não seria fonte de
"enrijecimento da rç". A prximidade do mar, o clima quente,
cnvidavam à vagbundagm prmíscua das ruas e praias:
"( ... ) o que se chama aqui 'banho de mar' é uma exibição
muito pitorsc ( ... ) grandes damas e czinheiras, flhas
95
de DUUUrh e fh de caufeur chpinham na
água ( . . . ) No Rio, rríssimo são o que sinceramente em
assunto de banho de mar, mostram-se adepto da
escla belg ( ... ) abertas montruoidade, glopadas de
faunos, grto simiecs ( ... ) tudo é livremente explordo
( . . . ) cm a tolerância do povo e da plític . .. ¯
Já em São Paulo, o clima fio e a ausência de blezs naturais
cnvidariam ao trbalho produtivo e disciplinado.
Uma cidade encntra-e geralment dotda de elemento que
permitem o equilírio entr paisagm natural e cultural. No co do
Rio de Janeiro, a potencialidade dese equilíbrio é d pelo fato de
sua etrutur simbólic ligar-e profndament a elementos marcn­
t da naturez, vinculados ao tempo do não-trbalho.
59
Essa asso­
ciação naturza/não-trbalho aparc clar na palavrs de Alfed
Agache, engnheir cntratado no fnal da décda de 1920 par fazer
um etudo visando a "remodelação, extensão e emblezmento" da
capital federal:
"o Rio de Janeir não d, cmo São Paulo, a imprsão
de uma cidade industrial, não só por motivo de ordem
climatéric pouc favorável ao tabalho contínuo, cmo
por motivos etnológic, ídole e hábitos do seu povo".
6
Submetido a um naturz luxuriante, em tudo opost à cisa
do trabalho, o crioa, ainda pr cima, er um imprvidente, um
''pãndego'' que "gsta mal ( .. . ) gast etupidamente, sem o menor
rcioíio ... "; isto oorr justamente no momento em que o Congso
estuda novas txas para melhor dotr o o�mento da Rpúblic,
lembra o Corio Palisto, no final de 1920.
61
São Paulo, a naço,
produzia; o Rio, a antinaço, gstva ...
A visit do ri belg Alberto ao Bril, forndo a expoição do
paí a este rprsentante da "civilizada" Eurpa, foi aprvitda·pelo
Corio Palista, em plena efervecncia da campanha preiden­
cial, par etabelecr a distinção entre um Brasil atrasado, prguiçso
e inefciente, e outro, "50 anos adiantdo", prgmátic, emprendedor
e modero, ou seja, a oposiço entre a naço e a antinação. A citço
é um pouco longa, mas vale a pena:
96
"O rei Alberto sab, de verdade, ver a cisas cm olho
de ver ( ... ) Exemplo: aqui [io] derm-lhe cncrt, dis­
curos e verso. Va ele, ouV pela metade e n diz.
Em São Pulo, prém, motarm-lhe gnásios, ofcinas e
máquinas. Ele exmina tudo, rmexe, emiúç. C, logo
de madrugda, o povo ( ... ) botva. par a praia a vê-lo
nadr, decuidando przenteiramente das trefa diá­
r, rtdo a hor do afzr ( ... ) L, no; o
trneunte descbriam-no; parvam um moment me­
mo; m eturgvam o passo, a fm de rperar o tempo
perdido. Ent a mjetde no se cntve m e falou;
esa, sim, er cidade de gnt oupada ( ... )'
,
São Paulo, fazendo jus B nome, rvetir.e-ia de u missão
sagrda, cbendo-lhe apontar · o cminho da salvaço nacional e
epalhar a menagm de redenço do paí. Seu alvo preferncial era
o Distrito Federal, ctic em rlaço ao valor do trabalho, da
seriedade e da rponsabilidade. A "converão" se daria mediante
uma viagm par a capital paulist, onde o crio, "esse bisonho ser ,
pudese cntatar que
"São Paulo é um banho de energia ( ... ) a divisa gral é
trabalhar! Desde pela manhã, o forasteir [crioa] não
vê ninguém deoupado como ele. E, à trde, no Triân­
gulo ( ... ) sente a humilhá-lo o ócio das sua horas nesa
atmosfera de trbalho e properidade".
6
Embora nos ano 20 as tese rcists tivesem sido rlegdas a
segundo plano, a percpço da negtividade do contingnte negro,
abundante no Rio de Janeir, não foi muito abalada: a inferioridade
dessa rça adviria, não mis de hernç biológic, m da baggm
cultural escrvist que a torva incapaz par o trbalho formal e
disciplindo. "O americno salvaram.e da metiçgem cm a
barreir do prcncito racial. Tem taém au [Sã Pal] esa
bar ira ( .. .) No Rio, n eiw', cnclui um Lbato deanimado.
6
A
intensa mestiçgm "sem prncito" com o neg ecravo teria
produzido na cpital do país u população irreponável, puc
afeita ao trabalho ordeir e disciplinado.
O imigrnte europeu, possível portdor da ordem e do prgrso,
era visto cm inveja e descnfança pelos criocs. O antilusitanismo,
renascido no início dos ano 20, evidenciava.e nas tensa rlaçe
entre "cbras" e ''pés-de-humbo". O crioc seria amargo e pessimis­
t, pois
", do seu bonde humilde, o automóveis em que pa­
sam os homens prperos do cmério e do negócio. E
ponder C .. ) que são etrangiro que deembarcam ( ... )
97
de bots rots ..) e que conquistam poição, fortuna e
até prtígo .. .'
A mistura étnic predominnte no Rio de Janeiro, cmpota do
negro e do portuguê, era vista cmo portdor de elementos do
atraso, quer pela tradiço escrvist fortemente arrigda na cidade,
quer pela preença do monopólio clonial prtuguê no negcios do
Distrito Federl. A postura inovador da liderança enômic pau­
lista, substituindo o trabalbo ecravo pla mão-e-obr liv, epe­
cialmente pelo italiano, portador de valor do trbalho, da disciplina,
da civilizção, permitira que a capitl bandeirante se pautasse pelas
noI do progreso e da modernidade, sem, W entnto, deixar de
ser viscralmente brasileir.6
Er no Oval que se rvelav, cm cr mais forte, o retrato
do povo crio - deordeiro, prmícuo, irrpnsável, aveso B
trabalho - apavorndo o paulist, cmo o jrta do C/i
Pauita:
''Entre os son do ' Pereir' crvalesc e do guizos
que semeiam a folia ( ... ) sobrsai, rflgnte e sinistra,
a nota sanguinolent do vários asassinto que ora se
têm dado neta vermelha cidade de São Sebatião ( ... )
ninguém fog ao meio",
conclui desanimado.6 Mário de Andrade também rlatou par Ma­
nuel Bandeir, em tom assustado, sua experiência no craval cario­
cde 1924:
'
'
Meu crbro acnhado, brumaso de paulist, por mais
que se iluminasse em desvario ( ... ) pãndegs C . . ) nunc
seria cpaz de imagnar um cval crioa ( ... ) lma­
ginei-o pauita. Havia Oquê de ( ... ) ord, d at
cai nese delírio imaginado pr mim ( ... ) Sabe, fquei
enojado. Foi um choue terrível. 'nta vulgridade.
'ant gritria. 'nto, tantísimo ridículo. Acrditei não
suportar um dia a fçnata chula, bunda e tupinambá.
Cafraria vilísima, dissaboridaC . . ) Etupidez".6
Uma natureza luriante cnvidando à contemplação, um povo
racialmente preisposto à indisciplina e à irrponsabilidade, e pouc
afeito aos emprendimentos de risc, cnstituíam-e elementos pra­
ticamente intrnsponíveis à inerção da cpital federal na efera da
modernidade.
98
Em São Paulo era diferente, pois lá predominva o elemento
itliano,
"o bom italiano, colaborador dos nosso prgsso. L­
teja sangue novo ( ... ) fo o tip da rç ft (
.
.. )
Sará d Brá Oprimir 'rilir MV', nacionlizdo
e identifcdo no meio amiente ...¯¯
Portnto, na cpitl baneirnt, a associação imiganteloder­
nidaderasilidade er feita sem cntrdiçs e tenõs como no Rio
de Janeir, pois, em São Paulo, o sentimento de brsilidade era tão
forte que contgiava o imigant, abraileirando-, e exorcizndo de
vez o fantasma do comopolitismo deenraizador. O cter harmo­
nioso do paulista, rultante da mescla rcial, sugre a existência de
um entreruzamento étnic equilibrado, promovendo uma feliz inte­
graço de suas diferentes origns e grndo um "epécie" singular,
o brsileiro modero.
Como cpital da Rpública, a cidade do Rio de Janeir er a see
Ilica do poer, o que lhe dava, inegvelmente, cracterítics parti­
culares inerent à suas funçe administrativa. Muito avaliavam
as funçes burorátics do Distrito Federal negtivamente: a máqui­
na estatal inchada e incr
w
etente, alimentda por uma "chusma de
marimbondos ridículos", 7 seria um veradeir "cncr a crr as
entranhas do país." Já na opinião deJosé Honório Rdrige,71 gças
à sua situaço privilegada, o Rio teria sido cpaz de prmover, pela
integaço e adeão das rgiõ braileiras, a nacionalizaço do
Bril. Sede da embaixadas etrngirs, cntro de cnvergência
dos principais órgãos ecnômico, polític e culturais, a cpitl
feeral apresentria um padrão de civilizço incmparável fente à
outras cidade braileira.
Não era esa a opinião daqueles que cnsideravm o Rio de
Janeir incpaz de oupar o papel de cidade-modelo do paí. Acstu­
mado à benese da "Cort", o carioc teria perdido o impulso
criativo, optando plas atividade parasitárias, rotineiras e sem risc.
Guiado pelo "sentido da iniciativa privada", o paulist "anônimo e
individualist
,
72 deprezva tais atividades; em São Paulo não havia
essa populaço de deocupado, malandros e "fazedor de expedien­
tes" que existia O cidade cmo o Rio de Janeiro.
Ao exlicr porque o movimento modernist partir de São Paulo,
Mário de Andrade bate na mesma tecla: ao contrário do Rio deJaneiro,
a capitl bandeirante possuía afInidade internacionais que não erm
herdada e ofciais; a mentalidade paulistn era meno pré-ondi­
cionada, mais livr. De uma "aristocracia improvisada do Império",
99
cmodista e satisfeit, apadrinhada plo pretígio da "Core", não se
podia esperr o impulso dinãmic do mundo modero. Este viria de
São Paulo, únic ponto do Brsil ''fora do parasitismo do Etdo", cmo
não se cnsava de afrmar Careiro lão.73
Os efeitos da burcrtizço cnduziam ainda ao eclerosamento
d polítics públics no Rio de Janeiro, como a cpanhas sanit­
rias e educcionais, que, nesa cidade, fcavam apena nas "palavras",
enquant em São Paulo girvam no ''trreno do fato".74 O rultado
seria a alta t de moralidade infantil e o anlfabetismo rinante
na cpital federl,75 enquanto São Paulo otentva o melhor quadro
educacional e sanitário, numa demonstrço inequívoc da vitória da
eficiência sobre a buIcia.
Uma voz dissoante deafnava o coro de vivas à modernidade da
metrópole bandeirante: Lima Bareto. Envolvido pela simpatia e o
entusiasmo que lhe despertara a Revoluço Russa de 1917, o jor­
nalista crioa associava São Paulo ao Estdos Unido, país- símbolo
do espírito burguês, da avidez material e da discriminaço étnic.
Um pr um, os pont fndamentais que sustntvam o projet de
hegemonia da cpitl paulist no panoI nacional foram denun­
ciados por Lima Br t. A apregoada integraço cm o italiano,
pretenso portador do progreso e da moerdade, era desmentida pla
cnstnte expulsões dese etrangiro, "a que camam de anarquis­
tas, de inimigo da ordem social". O que paria ser rultdo de
prgso administrativ, baseado na eficiência e no trbalho, sustn­
tava-.e em políticas epulativas voltadas para os intrse de São
Paulo, em prejuízo das demais unidade da Federço. E a dentada
fama de cpital artític do país, quando na verdade "er uma cidade
européia à fora ( ... ), cpia mal feita de Lndre ou Paris", devia-e a
uma bem engendrada cmpanha de propaganda, a prtr de subven­
ç a jors e ecritores de too o paí. Em suma, a ''incntetável''
suprioridade cultural da metróple paulistana se deveria muito mis
ao poer do dinheiro, ao "argntário de too o matize", do que à
inovç fturistas "velhas de quarenta ano". Aquele que se ru­
savam a aceitr tl htr de cpital artític e cidade européia
tinham suas opiniõe omitidas e sua voz abafadas.76
A defea do Rio de Janeiro cmo eixo polític e cntr culturl do
paí transparece em duas crónics de Lima, ecritas em 1918. Em
"Carta aberta", a indignaço mal cntida a propóito de um projeto
do preidente Rdrigues Alve de transferir a cpital do Rio de Janeir
para uma cidade do interior paulist:
10
"( ... ) não me par que Vosa Excelência tenha t inga­
to pnsament em rlaço à nosa Pátia; m Vosa
Exclência deve deixar Guaratinguetá e vr par o Rio ( ... )
prcurr rmédio paa sanr o que for mléfic".
77
o rcdo é claro: a visão etreita, prvincian, ''paulista'', impe­
diria o presidente de tomar deisõ que demandavam uma avaliaço
mais ampla de nosos ''male", o que só seria possível n cpital da
Repúblic, cixa de ressonãncia do principais debate que se trava­
vam no paí naquele momento.
Mas é na crôruc deicda ao recm-lançdo Pblma vita, de
Monteiro Lbato, que mais clarmente se rvela o embate envolvendo
as duas maiores cidade braileir:
"as águias provincianas se queixam de que o Rio de
Janeiro não lhes d importncia e que o homen do Rio
só se prupam cm as cusas do Rio e da gnte dele
( ... ) o Rio de Janeir é muito fno para dar imporncia
a uns sabichõe de aldeia que, por terem lido algns
to
.
I I - 1- ta b'
,,
78
au res, JU g que e e nao o e m em ...
Em cntrapoição à ração carioa, na qual pontuava a fgura
solitária de Lima Barreto, o discuro da hegemonia paulist é bem
mais agessivo, num movimento deisivo de quem chegu para tomar
um lugr já ocupado. Menos articulada, preoupada apenas em
manter o tradicional comando sobre o paí, a intletualidade do Rio,
absorvida cmo de cstume pelas quetõ nacionais, não etruturu
um prjeto próprio, cpaz de barrr aquele cm que o paulistas se
apreentvam cmo a mais cmpetente elite de exrssão nacional.
Ao lon da disputa, o cario, em grl, Oteve-e na defensiva,
limitando.; e a dar rpostas ao ataque rbido e se rvelando
incapaz de montar uma bateria de argumentos cpazes de inverter
os sinais da igualdade que ameçava se frmar no imaginário nacio­
nal: São Paulo = nação; Rio de Janeir = antinaço. Não é negda a
existência de um cráter próprio a cda cidade, e nem seuer é
verificado o conteúdo de "verdade" do mesmo. Par o bem ou par o
mal, São Paulo ficu sendo "a cidade que não pode parr" , e o Rio de
Janeir, o lugar "do devagar, quase parando".
A quantidade e a qualidade dos intelectuais que partilhavam a
tee da decdência daquela que er cniderada a cbea da naço,
bem como os amplo espaço cm que contvam n imprna, expli­
cm, em grande meida, a dequalificaço da "cidade marvilhosa",
sucumbida ao encntos de Dionísio e aos valore da bll éque
falida. Afinal, é amplamente rnheido que o impacto do imaginá-
101
rio social sobr as mentalidade depnde de sua difsão, ou seja, do
ciruitos e do meios à sua disposiço.
Embora corrndo o risco da simplifcço, inernte a qualquer
equema dual, pnso ser intersante cmpor Mquadro da princi­
pais repreentaçe simbólica que, nos anos 20, Oas dua
principais cidades braileirs:
SÃO PAUO = NAÇÃO
1) Metrópole industrializ­
da; voltda para o interior:
valor sólidos da brasilida­
de; cncilia a duas face da
moderdade, a tradição
e a vanguarda.
2) Cultur brsileira e
moderna.
3) Valor da iniciativa
privada; o etl bandei­
rnte = EFmNCIA.
4) Sociedade orgnizada
em partidos, asoiaçe
e sindicto.
5) Imigante italiano, por­
tdor do valore do tra­
balho e do progreso.
RO DE JANEIO = AAÇÃO
1) Metrópole litornea, csmoplita,
cntemplativa; indústias parit­
ria e cmério monopolist;
ligada a valore ultrpassados e
decdente.
2) Cpia da blle équ falida.
3) Prteionismo, burcrcia, "socie­
dade de Crte" = IICIÊNCIA.
4) Sociedade deorgnizda, parti­
cipaço política fagmentia,
anárquic e marcda pelo cliente­
lismo e paterismo.
5) Negro e prtugué, marados pela
indisciplina e pelo atraso.
Estas rpreentçe simbólic, onde se articularm idéias,
mito e moos de aço, tendo gnho em inércia, pesarm sobr as
mentlidade e os cmportmento. Construídas sob o rnovado
facínio pela moderdade que maru o início dos ano 20 no Brsil,
as imagns das cidade do Rio de Janeiro e de São Paulo ainda
cnseram muito de seus cntoro orgnais, revelando a efcácia e
a durbilidade dessa construço.
'
102
SÃO PAULO EM TOI LETTE DE RIGOR
"São Paulo tod s agit com a aprço do Cntenrio.
Genninm monumentos numa foraço de gt heróico; a
alamedas riscam o solo em largs toalhas verdes e o jardins s
conm em form0 jogos florais de pesias e pfume.
São Paulo quer tornNe bela e apreiada.
Finalmente, a cidade deprtou num deejo de agra�
9
E era preiso que asim fos ... "
NESSE artig de novembro de 1920, Mário de Andrde revela a
mobilização da soiedade paulista, epecialmente da intelectuali­
dade, entusiasmada com a prximidade das comemoraç do Cen­
tenário da Independência. Mardo pelo deejo de avaliaço do
pasado, pela necsidade de cmprenão do presente, e pelo desafo
diante do futur, 1922 é percbido por ese intelectuais cmo um
momento crucial par a atualizção do Brail cm o mundo cntem­
porâneo e par a formação de uma cnsciência criadora nacional.
Trefa hercúlea e que devia ser enfentada pr quem ofereia melho­
r condiç par relizá-la: São Paulo.
E mais: o grito do Ipirng, brdo de nascimento da nação liv,
fora prferido em solo paulistano. Não por acso, São Paulo etva
no centro do acntecimentos do 7 de setembr. Naturl, portnto,
que a capitl bandeirnte fosse o principal palco dos evento cme­
morativos do Centenário; seria o rcnheimento óbvio do valor da
rgião, tanto peo seu passado glorioo, foIjando e defnindo a naço,
cmo pelo preente de moderdade e brsilidade. A cidade de São
Paulo deveria se apresentr em 1922 em ''tilt de rigr", pois,
crtamente, será "o cnário em que se deverá clebrr a parte mais
interessante da solene cmemorço cívic".
8
O prpósito de prparr a cidade de São Paulo para a próximas
cmemoraçe do Centenário já se evidenciava em iniciativas que
visavam dotar a capital de um "aparlhamento civilizdor'. Um
prjeto de 1910, elabordo pelo famoo aruitetO Ramo de Azeveo,
indicva a necssidade da abertur de tê amplas avenidas, "não em
rsposta a necssidade vitais, mas cmo umfOd eibicionmo
pa o Cenen d 1922".
81
Semelhante ao que ocrre na cpitl federl, o que se prcur
cnstruir em São Paulo é o cnário perfeito par a grande cmemo-
103
rço de 1922, que rvele uma cidade sintonizda cm a moerida­
de, onde passado, presente e futur cnvivam em harmonia. Deixando
de lado o etrito cncito gográfc, e embarno n fascinant
viagm de Calvino,
8
a cidade emerge cmo um símbolo complexo dos
desejo, d aspiraçes e do sonho do homen. Nese momento, é
prciso que a "cidade lendária do padre Anchiet" s ubs titua sua
antig aparência prvincian, ''asímile de Coimbra" , pela "fsiono­
mia que carcteriz uma ridoa e encntdor capitl moer
,,
;
8
importante é deixar pasmo o senhor Centnário, ao
"encontrr São Paulo remoçdo e caquilho ( ... ) o cu
pautdo de fos ( ... ) emarnhando a cidade na trama
imensa das ligçõs elétric e telefônics ( ... ) o trilhos
criscando o chão, levando a toda parte o progso".
8
São Paulo quer ser descrit pelo símbolo do progresso material;
quem falar de São Paulo que seja obrigado a falar d '1igçes
elétricas e telefnicas" e dos "trilhos coriscndo o chão".
Também o monumentos, lembrdo por Mário de Andrade,
merecram uma atenção toda epecial. O monumento ao fundado­
rs da cidade, já hã algum tempo modelado e fundido em Enma,
deveria ser fnalmente assentdo no históric Lrgo do Clégio,
devidamente rtaurdo. Desde 1912, já estvam assegurdo os
rcuros necessários à execuço do monumento do Ipiranga, destina­
do a fxar no bronze a memória daquele lugar que tria outorgdo ao
país a sua maioridade polític. Garantia de pernidade, promesa de
eterdade, Ò monumento históric trbalha pela continuidade de
uma repreentaço da história, defne uma ordem simbólic do pas­
sado, constituindo-se, assim, num liu d mmi da naço.
Frente ao 'júbilo cívico" e à "euforia patriótic" cm que São Paulo
vivia os grande prepartivos par a fet da Independência,
8
o
prsidente do estdo Wahington Luí julgu que a ocsião seria
prpícia para se erguer também um monumento em homenagm aos
bandeirnte. Era preciso rlacionar, de maneira ca e inofismá­
vel, o episódio históric da independência oorrido O terras da
Paulicéia à façanha do desbravadores do sertão, rsponáveis maio­
res pelo assentamento dos valores da nossa nacionalidade. A mobili­
zção detonada pelo projeto do monumento d Bandeirs, que deve­
ria marcr de maneira indelével a presenç de São Paulo no Cente­
nário, é um exemplo sigifictivo da importãncia conferida ao poder
das imagens e seu impacto na cnfguraço do mundo simbólic.
Uma cmissão cmpost por Monteir Lbato, Menotti deI Pic­
chia e Oswald de Andrade foi incumbida de executr o monumento,
104
a ser fnanciado por subcriçe popular abrt em todo o estado.
O escultor Victor Brehert, batante admirado nos meio moder­
t pela sintonia cm o movimento, foi encrrgado de montar a
maquete. No dia 28 de julho de 1920, foi esta aprentada em
crimônia pública à qual cmparu o próprio Washington LuÍ.
O prjto de Brhert foi rbido cm palavra elogoas por parte
da crític, epcialmente dos moerts, Menotti à fente. A análise
dese elogo, bm cmo do memorial ass indo pr Breheret que
acmpanhou a maquete, deixa perbr que a for simbólic do
monumento ridia em dois aspet. Por um lado, ao evor "a vida,
o martírio, a morte do heróis plasmadore da nosa nacionalidade ,
foIava definitivmente na memória a imagm d ''ravos'' paulistas
cmo a expresão máxima do herímo e da glória d "raç braileir. ´
A cncpço do monumento cmo um gande blo adivinha do próprio
cncito simbólic d bandeiras, devendo exrimir no seu cnjunto
"ta a audácia, o herímo, a abnegção, a for endido em
devendar e integalizr o arbouç gegáfic da Pátria c. .. ) o impulso
do Gênio da nacionlidade nascnte'. Reprentndo o bandeirant
cmo "sers ttânico", o ecultor faz queto, no entanto, de clor um
arado nas peadas mão desse ''homen hercúles", cmo forma de
indicr, ao lado da trefa de cnquistr, debrvar e lutar, a prupaço
cntnte do paulists em op e prouzir.
8
Por outro lado, o que é constntemente resaltdo é a vitória da
arte paulista. Para Menotti dei Picchia, Brchert seria a ''bandeir''
dos moderstas de São Paulo, reunindo na sua obra o indispensável
binômio modernidade e brilidade. Modernidade, rprentada
por "uma arte forte, libert, espontnea ( ... ) é a morte da velharia, do
arcísmo ( ... ) é o triunfo da moidade de Piratining, que é a mais bela
e mais forte da nosa querida Pátria". Brasilidade, ineuivocmente
identificda numa arte "tropicl e indígena, quer na exprssão ana­
tômica das suas fgras, quer no movimento bárbar e interior que os
anhna" .
8
O fnal da história do monumento d Bandeiras é intersante:
os portuguese radicdos em São Paulo decidiram ofertar um monu­
mento cmemorativo ao Centenário da Independência, utilizndo o
memo tema do de Brhert, a ser eeutdo por um ecultor
lusitano. Tl atitude provocu uma forte raço nos meios culturis
paulists, levando Menotti e Mário de Andrade a afrmarem que "só
um paulist" poderia cnceber o tma d bandeiras. A polêmic
cmprmeteu a execução do monumento idelizdo por Brchert,
que só seria inugrado um ano antes de outro grande evento, a
cmemoraço do quarto cntenário da fundaço da cidade de São
Paulo.
10
Mas se o monumento d Bandeiras não saiu, isto não signifc
que o fato históric tenha sido deiado de lado. Muito pelo contrário.
Como já vimo, a cmemorção do Centenário da Independência
implicu uma profunda (re)avaliaço do nosso passado. M do que
nunc, a ''história'' foi solicitada a dar a palavr fn em quest
cntrvertidas. 'refa cmplicda, pois "n mais difcil do que
alinhar cm verdade fato pasados na história de um paí.' À má fé
inconsciente, mescla-se uma série de intrigs, de inverade e de
clúnia .. . " A preupação do jorlista paulist com a memória do
pasado, cmpo fluido, aberto ao equecimento e à lembrnç, vulne­
rável a manipulaçe e refatário à "vrdade", dizia rpeito à "injus­
tiç histórica" que insistia "em diminuir o papel de São Paulo no
advento da independência brasileir".
8
Er preciso marr defniti­
vamente o lugr cntral de São Paulo na história pátria, e não apenas
pelo episódio do 7 de setembro ocrrido à margm do "seu" Ipirng.
A ettístics que cmprvvam o rápido deenvolviment enô­
mic do estado não eram suficiente par gantir a puliaão do
país. Erm necsário fndamentos mais prfundo, vinculado ao
mito d origns, ao culto do heroímo, à decbert do nnm.
'ratava-se de prvr que o ccife de São Paulo p se impor cmo o
"pai da Pátria" no moment da cmemorço da dta magna da
nacionalidade era mais alto do que qualquer outr regão brileira.
Cabia detacar o papl da cpitl paulistna na foraço histórica do
país, cmo fez Julio Pt em seu discuro a 7 de setembr de 1922:
"por ela se fez a primeir cnquista ( ... ) por ela penetrou
na Aéric a civilização latina ( ... ) por ela, os patriarcas
da nossa emancipação polític cnduziram D.Pero I ao
grito de 'Independência ou morte'; por ela, a escrvidão
( ... ) voltou à liberdade; por ela, São Paulo glvanizou o
Brsil cm o clarões de sua fé rpublicn ( ... ),,
9
Passagns cmo esta ilustram cmo o imaginário sobre São Paulo
vai sendo teido, elucidando uma das dimensõe mais significtiva
da sua cntituiço, ou seja, aquela que enfatiz cmo inernte aos
paulistas o papel de emprendedor, de debravador, de cntrutor da
nação. Fenômeno univeral, o mito da origm busc firmar uma
memória, procra estabelecr uma verão da história, cuj objetivo é
legitimar a solução venceor contr a forçs que se lhe opõem. Não
neesariamente e abertamente distoridos, os fatos são seletivmen­
te iluminado, prjetando dimensõ apropriadas à trnmissão da
idéia de superioridade do novo sobre o antigo. Nese cso, o objetivo
é claro: marr indelevelmente na memória nacional que a "gnte
paulista" sempre se clOà frnte da nação nos momentos decisi-
106
vos. Se o Brasil nascra no solo paulista, nada mais "natural" que a
tmbém cnquistasse a sua liberdade. Plantam-se a rízes da nação
o mais profundamente posível; inventm-e tradiçõ e origns;
busca-Se, a todo cuto, a cntinuidade que permita a ponte entre o
passado, o presente e o futur. Dessa maneira, o 7 de setembro teria
para o paulistas o caráter duplo de Mclebraço locl e nacionl.
Atravé dos fo da cntinuidade, São Paulo tc a sua trdição.
Inventa a bandeiras desbravdor do território ncionl e os bandei­
rante empreendedor e disciplinado, e o eleva à cndição d fato
fndadore da história nacional; ante de Tirdente e Pedro I, form
o paulistas "anônimos e crajo" que liderrm a tfa de fr a
nação. Entroniz Joé Bnifácio cmo o verdadeir mentor do 7 de
setembr, o indiscutível ''Patrar da Independência" . Brasileiro,
agada poitivists e jacbino; cntrário ao abolutismo e favrável à
abolição da escravidão, ating o cração de liberais e demot; pouc
afeito ao "excesos" demorático, incntiva a opão cntraIizdor e
autoritria, e, lat bu nt leat, paulista, a cmprvar, mais uma vez,
o "natural" epírit de lideranç e decrtino plític ccerític do
nascido net "fértil" solo de homen e idéia. Hábil articulador e
principal rpnsável pela vitória do movimento autonomista, "sem
derrmento de sangue", Bnifácio deve ser o trunfo a cnfirmar histo­
ricmente a superior qualidade da gnte de S Paulo no trto cm a
polític e cm o negóio do país. O gnio plític do passado cnfra
a necsária supremacia do paulistas Wpanorma naconl.
A invenção desse passado ligva-e, sem dúvida, ao deejo de São
Paulo de marar sua presença no conjunto nacional , justamente no
momento em que se buscva fI um novo lou de prdução da
identidade nacional. M "o moç de São Paulo" -jovens ecritor
e artistas -queriam mais, muito mais, par este Centenário de 1922.
Desde 1920, os "futurists" paulists -Mário de Andrde, Menot­
ti dei Pichia, Oswald de Andrade, entre outrs -pretendiam ta­
formar a cmemorço do Centenário em alg que fosse "expressão
da inteligência do Brasil intelignte".
91
O depoimentos desse inte­
lectuais são bastante elouente. Oswald alert que
"São Paulo, a melhor fatia racial a er na vitrine do
Centenário, tem a decidir o que dar em matria d arte
( ... ) senhore, é isso que vamo aprentr cmo e�re­
são de cm ano de indepndência: independência".
Menotti admite que os intelectuais paulists se sentiam investi­
dos pela "São Paulo do Centenário ( . . . ) por forç da própria fatalidade
do momento, de uma missão mais lar e profética . .. " 9 Mas cube
107
a Mário definir o papel fndamental que São Paulo rprentaria no
Centenário:
"A hegmonia artític da Cort não est mis. No
cmércio cmo no ftebol, na riquez cmo nas ar, São
Paulo cminha na fente. Quem primeiro manifetou o
deej de cntuir sobre novs bae a pintura? São
Paulo cm Anita Malfati. Quem apreent ao mundo o
maior e mais moer ecultr da Améric do Sul? São
Paulo cm Brcheret. Onde primeir a psia se toru
veículo da senibilidade moder lv da gah da
rima e das corrias da métric? Em São Paulo".
E nese entusiasmo palítc bem pré-memorçe do Cente­
nário, Mário fazia apenas uma rssalva: "Só na música, o Rio est
mais adiantado cm Vila Lbos".
9
Fica clar que a participaço do jovens intletuais paulists no
Centenário se dará em clima de abrto cnfonto cm a ''Corte''. De
Oswld part o alert, que soa cmo um gt de gerra: ''Cuidado,
senhor da clot a verdadeira cultura e a verdadeir a vencm
sempr. Um pugilo pequeno, m fore, prpar- se par fazer valer o
noso Centenário". E dispar um ano depis: "Engnam-e o que
acrditam que São Paulo, crpitante do Centenário, etacionará nas
mão mole de detentors de santinhos em corrdas de litratur
clegal .. . ¯ Era preiso marr o Centenário cm uma demonstraço
inegvel de que São Paulo er o únic cpaz de grntir a "realidade
literária" do Brasil. Ito seria feito na Sem de A Moder, que
além do mais cincidiria cm o Congreso de Epírito Modero, prgr­
mado pr André Breton par març de 1922, m que acbou não se
relizando.
9
A Semana de A Moderna acirou a disput entre a intelectuali­
dade crioc e paulist. A revista crioa Cata, cstumeiramente
ácida e mordaz em seus cmentários, não poupou a "fnambulec
crimônia do Municipal, onde o ridículo da quadrilha chegu ao
aug . . .¯ Embor as crítics à Semana não tivessem sido privilégio
da imprnsa carioc, esta se esforçu por negr a repetida afrmação
de que a prvíncia se adiantara à metrópole. A prpóito de um
medíocre pintor crioa que "gozva o sucso da Paulicéia", o articu­
lista da Cata concluiu: "São Paulo está defnitivamente cipora!
,,
98
A reção vigorsa de Lima Barreto trdou, mas não falhou:
108
"São Paulo tem a virtude de descbrir o mel do pau em
ninho de crja. De quando em quando ele no manda
uma novidades velhas de 40 anos. Ara ( ... ) quer nos
impingir cmo decberta dele, São Paulo, o tl de
'Futurismo'. Or, nós já sabímos perfeitamente de
semelhante maluquic inventda por um senhor Mari­
netti. .. ´¯¯
Memo intramuros, o Moderismo se cindiu. "Pioneiros desbra­
vadore", os moderists de São Paulo reivindicvam par seu movi­
mento uma repercussão nacional, pois, cmo dizia Mário de Andrade,
os "outro modero de então ( ... ) formavam núceo ( ... ) de eistência
limitada e sem verdadeirmente nenhum sentido temporâneo". A
rivalidade cm a "ala carioc" - Renato de Almeida, Ronld de
Carlho, entre outr -, agutinada em toro da rvista Festa e de
Grç Aranha, é evidente nos desabafo de Mário: "( ... ) no assom­
brava a incomprensão ingênua cm que a 'gente séria' do gpo de
Festa ( ... ) arremetia contra nó".
lO
Em carta a Manuel Bandeira,
Mário cnfessa: "( ... ) sou muito senível que esa gente do Ro descn­
fia de mim ( ... ) eta ridícula rivalidade eu sinto que continua."
lOl
Ln de ser ridícula, a rivalidade Rio de Janeir X São Paulo
impedia a boa cnvivência entre intelectuais que partilhavam dos
mesmo ideais moderstas. A disputa em toro da suprmacia
cultural ia muito além de uma "brig de cmadre". Na verdade, o
que se estva defnindo erm novo parâmetros da nacionalidade, o
que se buscva era cristalizar modelo que grantissem o ingreso do
paí na moderdade.
Nota
1 -João Alphonsus, citado pr Lúcia Lippi Oliveira, A raÍe da ordem:
os intelectuais, a cultura e o Estdo, em A Reuoluçã d 30: seminário
intmaimUl, p. 516-517.
2 -Tristão de Ataíde, citdo pr Otvio Soares Dulci, A elits mineiras
e a conciliação: a mineiridade como ideologia, Ciêluias Soiais hoje - 198,
p.1l.
3 -Tancredo Neves, citado pr Maria A do Nascimento Arruda, Mito
logia da mineiridae: o imainário mineir n vida políica e cultral d
Brasil, p.97.
4 -Helena Bomeny, Cidade, República, mineiridade, Da, 30(1987),
p.186-207.
5 -Para um estudo cuidadoso do regionalismo paulista nos anos 20, ver
Mônica Pimenta Velloso, A brasilida verd·ala naionalism e
ronalismo pmtlista.
109
6 - Cf. Maria Antoniet P. Lpldi, Crcimento industrial, plítics
goveramentais e organização da burguei: o Rio de Janeiro de 1844 a
1914, Revista d Rio d Jairo, 1(1986), p.53-74; Al M. de Castro
Gome, A invençã d tralhismo.
7 -Oswald Andrade, Posia runids.
8 -Mário de Andrade, PWllicéia dsvairada, p.57. Em lv recent­
mente lançado, Niclau Svcenko aborda a "tepidant" São Paulo dos
'�oucs" anos 20. Ver Nicolau Sevcnko, Orfeu eti naMetopol. São
Paulo -sociedade e cultura nos fement anos 20.
9 -Ver Roul Girardet, Mits e mitlogias politca; Pierre Bourdieu,
O podr simblico; George Balandier, O poder em cena; Corelius Ct­
riadis, A insttição imanária d soieda; Petr Berger e Thomas
Luckman, A constção soial d ralida
10 - Mário Pinto Serva, citado pr Thomas E. Skidmore, Pet R
brao: raa e naionalida Hpensaento brasileir, p.305.
11 - Cassiano Ricardo, Mentalidades opstas, Crrio Palistao,
21/041927.
12 - Ver Maria Alice Rezende Caralho, Lt, sociedade e plítica:
imagens do Rio de Janeiro, BIB - Boletm de Infor Bibliogácas,
20(1985); Beatriz Rezende, Arepresentação do Rio de Janeio nas crônicas
de Lima Barret, em Sobre o pré-mdrismo; José Murilo de Carvalho,
Os bstializas, o Rio d Jaeir e a República que não foi; Aspcts
histórics do pré-modernismo brasileiro, em Sobr o pré-modersmo,
op.cit:
13 -Ver Adalberto Maron, A idologia nacionalista em Alerto Thrres,
p.55.
14 -Mônica Pimenta Velloso, A "cidade·voyeur" : o Rio de Janeiro visto
plos paulists, Revista do Rio d Jaeiro, 1(1986), p.55-66; A brailida
verde-aarela, op.cit.
15 - Sergio Milliet, citdo pr Mônica Pimenta VelIoso, A "cidade-vo­
yeur ... ", p.58.
16 - Mário de Andrade, citdo pr Eduardo Jardim Moraes, A brasi­
lidade modrsta, p.106.
17 -Eduardo Jardim Moraes, op. cit., p.106.
18 -Mrio de Andrade, O movimento moderist, em Mário de Andra­
de, Aspectos d literara brasileira.
19 -Lúcia Lippi Oliveira, Ilha d Vera Cr Terra d Sata Cruz, BraiL'
um estdo sobre o nacionalismo brasileiro, p.241.
20 - O modelo. de análise tadicional se expresa de maneira clara
espciahnen te em Nelson Wereck Sdré, Formação histrica d Brasil. O
trabalho que melhor repreenta a nova lh de interpretção é Eduardo
Kugehnas, Diruoil hgemonia - um estd sobre Sã Paulo na Pimeira
República. Ver tmbém Wmston Fitch, Apgu e crise na Primeira
República: 1900-1930, em Marclo Paiva Abreu (org.),A ordm d prgres­
so: cem anos d politca econômica republicana. 189-198.
110
21 - Montiro Lbato, O direito de seesão, em Na atevéspra,
p.209.
22 -Citdo pr Ricbard M. More Foraá hstórica d Sá Paulo (da
cmunidade à metple), p.280.
23 -1907 -DF: 30,2% SP: 15,9%
1919 -DF: 20,8% SP: 31,5%
1939 -DF: 17,0% SP: 45,4%
Cf. Wllson Cano, RGs d concentaá industial em Sá Paul, p.253.
24-Ver Mariet de Morae Ferreira, Um eixo altrativo de pder, em
Mariet de Moraes Ferreira (org.), A República n Velha Pvíncia.
25 -Ver Alfredo Bosi, A letas na Primeira República, em O Brail
Republicao, História Geral da Civilização Brasileira, tmo III, vo1.2,
p.312.
26 - Ver Maria de Lurdes M. Janotti, HistriograíJa, uma questão
regional - São Paulo no príodo republicano, um exemplo, em Marcos A
da Silva (coord.),Repúblicaem migalhas -históra rgional e loal , p.86-88.
27 - Paul r. Singer, Desenvolvimenlo econômico e evoluçá urbaa,
p.50-57_
28 -Wilson Cano, op.cit.
29-Ver Álvaro Pigaton, Origens da idustrializção do Ro deJaneiro,
Da, 15(1977).
30 -Eulalia L Lbo, Histria d Rio d Janeir (dcaital comerial
a caital industial e frUiro).
31 -Segimos as indicações contidas n reenha das novas prpctivas
de análise da industialização co feita pr Angla Maria de Casto
Gomes & Marieta Moraes Ferreira, Primeira República: um balanço his- .
triográfco, Estud Históric, 2(1989), p.244-280.
32 -PRODUÇÃO ANUA DAS INDÚSTRIAS
DF SP(est.) SP(cid.)
1907 233.000 121.000 +/- 60.500
1920 677.000 1.008.000 +/- 504.000
íNDICE DE CRESCIMNTO INDUSTRIA
DF SP(est.)
1907-1919 298 854
1919-1939
1.185
6.020
Para a produção anual, cf. Mria Antnieta P. Lopldi, op.cit., p.73, e Paul
Singer, op.cit., p.449. Para o índice de cresciment, cf. WIlson Cano, op.cit.,
p.253.
33 -Cf. Paul Singer, op.cit., p.50.
34 -Cf. José Murilo de Carvalho, Aspcts histórics do pré- moderis­
mo brasileiro, op.cit., p.15.
35 -Maria Antonieta P Lopldi, op.cit., p.71.
36 -Wllson Cano, op.dt., p.242.
111
37 -Mnuel F. de Camps Sale, citdo pr José Murilo de Caralho,
Os bestialiados .. . , p.33 (gifo de Camps Sale).
38 -Michael L. Cnif , Urban politics in BraiL' l rise ofpopulism-
1923/1945, p.73. Ver tamhém José Murilo de Carvalho, op.cit.
39 -Mariet de Morae Ferreira, op. cit., p. 245.
40 - Amador Bueno, À margem da plítica, Creio Paulistww,
30/09/1921.
41 - Amador Bueno, À margem da plítica, Crrio Paulistano,
21/10/1921.
42 - Amador Bueno, À margem da plítica, Crreio Paulistao,
09/11/1921.
43 -Mrieta de Morae Ferreira, op.cit., p. 21.
44 -Amador Bueno, op.cit., 09/11/1921.
45 -Corrio Paulistano, 03/12/192l.
46 - Nós - o Crio Paulistano por dento, Crrio PaulislaJl,
07/09/1922.
47 -Citdo pr Mário da Silva Brito, História d modrismo brasileiro:
w,lecednles d Semana d A Modrna, p. 156.
48 -Menotti Del Picchia, Novas crrente. estéticas, Crrio Paulista,
03/03/1920.
49 -Monteiro Lhato, O ''Salão'' de 1917, Revista do Brasil, 6(1917),
p.169-17l.
50 - Menotti Del Picchia, 'A bandeira futurist', Creio Paulistao,
22/1O/192l.
51 -Mrio de Andrade, O moviment moderist, op. cit. , p. 226.
52 -Antnio Cândido, Literatra e sociedad, p. 189.
53 -Sergio Micelli, Intelectais e classe dirigent RBrail ( 920-1945).
54 - Antnio Careiro Lão, São Paulo em 1920, Crio Paulistan,
11/03/1920.
55 -Monteiro Lhat, O direit à scesão, op.cit.
56 -Ver Monica Piment Velloso, O mit d originalidad brasileira' a
taetória intlectual d Cassiao Ricado (ds O20 a Estado Novo).
57 - Plínio Salgado, A fsionomias de São Paulo - a capitl dos
bandeirantes no ano do Centenário, Corrio Paulistao, 07/09/1922.
58 -J. Vei Miranda, Os palhaços do Flameng, Creio Paulist,
15/10/1920.
59 -"( ... ) marco constuído numa expansão cntínua do cnsumo da
primeira natureza, o Rio de Janeiro propicia a criação de relaçes privile�
giadas com a etutura de necesidades e desejos sociais vinculada ao temp
do não-tahalho". A Clara 'r Ribeiro, Rio-Metpl: a prduçã
soial d imaem urbaa, p.293.
60 -Alfred Agache, citdo pr Murício de A Abreu, Evolução urbaa
do Rio de Jaeiro, p. 87.
61 -Ott Prazeres, Como se vive no Rio de Janeiro, Crrio Paulistao,
21/12/1920.
112
62 ¬Goulart de Andrade, Cá do Rio, Crreio Palista, 18/12/1921.
63 - José Patcíio Filo, Na estda de Damasc: epístla ao
carioca, Crreio Palistano, 19/12/1922.
64 ¬ Montiro Lbat, citdo pr Tomas E. Skidmór, op.cit., p. 199
(gifo nosso).
65 ¬José Patocínio Filo, op.cit.
66 ¬Para uma crítica desa visão moderizdor da burgueia cfeeira
paulist, ver Peter L. Eisenberg, A mentlidade do fzendeiros no Con·
gesso Agrícola de 1878, em José Robert do A Lp (org.), Mod
d produãne realidad brileira. Uma revião do ppl do imigrant cmo
prtdor dos valore do trabalo e da moderidade é fit pr Glady
Sabino Ribeiro, Traballio ecavo e traballio livre na cidade do Rio de
Janeiro, Revista Brailira d Histria, 5(1985), p.85-116.
67 ¬Crsantme, Caval e sange, Cr io Paulistao, 07/02/1921-
68 -Mrio de Andrade, C a Mauel Baira, p. 47 (gifo nosso).
69 ¬Plínio Salgado, op. cito (grifo noso).
70 ¬Revista d &mana, X(24), 2407/1920.
71 ¬ José Honório Roriges, O detno nacional da cidade do Rio de
Janeiro, em José Honório Rodriges, Vd e História.
72 -Paulo Prado, Retato d Brasil - ensaio sobre a tista brailira,
p. 63.
73 ¬ Mário de Andrade, O movimento modert, op.cit, e Antônio
Careiro Lão, op.cit..
.
74 ¬ Montiro Lbato, Mr Slang e o Brasil e Poblema Vtal, op. cit.,
p.300.
.
75 ~Cranteme, Basta de 8I\os, Crreio Palistao, 13/03/1921.
76 ¬Lima Barreto, São Paulo e os estiros, em Balas.
77 ¬Lima Barret, Cart abrt, op. cit, p.l08.
78 ¬Lima Barret, Problema vitl, op. cit., p.130.
79 ¬ Mário de Andrade, citdo pr Are Amaral, Artes plástca R
SeRa d 1922, p. 65.
80 -Adolpho Pinto, O Centnário da Indepndência, Revista d Brasil,
1(1916), p.13-17.
81 ¬Cf. Rhr M. More, op. cit., p. 372 (grifo nosso).
82 ¬ítlo Calvino, A cids irwisíveis.
83 ¬Plínio Salgado, op.cit.
84 ~ Menotti Del Picchia, São Paulo de hoje, Crreio Palistao,
07/09/1922.
85 ¬Cf Mário da Silva Brito, op.cit, p. 117.
86 ¬Menotti Del Pichia, Monument d Bandeiras, Crio PaulisÚ
n, 27/07/1920.
87 ¬Victr Brecheret, citdo pr Mário da Silva Brit, op. cit., p. 120.
88 - A primeira citação é de Monumento das Bandeiras, op.cit., e a
segunda de A vitria de umptício, Crreio Paulistao, 10/11/1921.
118
89 - Crysanteme, Uma obra interessante, Coreio Paulistao,
10/10/192l.
90 -Julio Prests, Crreio Palistao, 08/09/1922.
91 -Mário da Silva Brito, op.cit., p.175.
92 - Oswald de Andrade, Ar no Centnário, Jor d Cmmrci,
16/05/1920.
93 -Menotti Del Picchia, Aoço de ontem no 'ianon. Aadecimento
de Menotti deI Picchia, Creio Pmtlisto, 10/01/192l.
94 -Mário de Andrade, Notas de Ar, A Gat, 13/02/1922.
95 - Oswald de Andrade, A no Centenário, op.cit., e Meu pet
futurista, Jomal d CRio, 27/05/192l.
96 - Cf. Gilbert Mendonça Teles, Vangada européia e Motmismo
brasileiro, p. 32.
97 -O monrrio do futurismo, Carela, XV(719), 01/41922.
98 - A Semana Futurista e Virgílio Maurício, Cata, XV(719) ,
01/04/1922.
99 -Lima Barreto, O Futnrismo, Careta, XV(735), 22/07/1922.
100 -Mário de Andrade, O moviment moderist, op. cit., p. 231-
101 -Mário de Andrade, Carta a Manuel Baira, op.cit., p. 4 e 44.
114
CONCLUSÃO
''inda não prlamamos a Rpública".
(Jo Murilo de Crvalho)
NEST trbalho pruramo acmpanhar a atuaço da intele­
tualidade do dois principais cntro urbano do país, Rio de Janeir
e São Paulo, a qual, diante do desafio de cmemorr o Centenário da
Independência em 1922, produziu novas e variadas explicçõs do
Brasil. Explicções cracterizada por um desejo dilacrnte de
cmpreender o país, de repená-lo, e, principalmente, de "salvá-lo". A
própria dinãmic da clebraço -o balanç obrigtório dos feitos do
passado, a avaliação do presente de realizç fustrdas, a perpe­
tiva de um futuro incrto - estimulava a prduço aclerda de
sigifcçõs do que for essa nação, do que er àquela altura e do que
deveria ser no ftur.
Para reuperr o ideário nacional criado pela "gração de 1922",
julgamos necsário, por um lado, perber, não só cmo esse inte­
lectuais cnstruíram a memória da "naço cntenária", maS também
cmo avaliaram o prsente republicno. Foi a partir de interpretaçes
difernciadas sobr o peso do passado e os impasse da Repúblic que
se montrm variados moelos de identidade nacional. Por outr
lado, detacamos a influência das matrizes européias O diferntes
cncpçe de Brasil moero que povoarm as mentes da intelectua­
lidade brileira.
Filiada a diferente cncpçõe de moderdade, devotda à causa
da brasilidade, a "grção de 1922" partilhava a crnça de que a
cnstrução da soiedade moder dependia de um projeto de Cre )cns­
trução da nação brsileir. Tl tarfa cmprometia a atuaço inte­
lectual em uma dupla fente: na luta cntr o atrso que teria
marado a nossa trajetória cmo nação independente, e na construção
de modelos que a guiasem rumo à modernidade. Ou seja, de um lado,
era prciso identificr as cusas, as caracteríticas e os portadores
desse "atraso", eliminando seus vestígo, O¿ de outr, cumpria rc·
. nhecr os valors da moderidade, lutando pela sua implantação. O
objetivo era frmr no crçõ e O mentes dos brasileiro a
imagm daqueles que insistiam em aprisionar o Brasil em modelos
ultrapassados e dos que grantiriam à 'jovem" nação um lugr no
séculox.
15
Criar um Brasil modero implicva cntrir um lu de moder­
nidade, que não só servisse de guia e moelo par o rto do paí, cmo
tmbém se tomasse oco de visita da "nova nção junto ao mundo
"civilizdo". É nese sentido que entendemo, tnto o acirrdo
debates que acompanharam a rforma do cntr urbano da cpital
federl por ocsião das festas do Cntenário, quant a mobilizço
dos modernistas paulistas no intuito de conquitr par a cpitl
bandeirnte o lugr de nova matriz da nacionlidade. Foi cumprida,
em ambo o cso, a missão de nomear as forçs do atraso e de
identificar Oarutos da moderdade.
A discussõ sobr o U amento ou a mnutenço do OT do
Castelo, lolizdo no crção do Rio de Janeir, gI expli­
citament em tomo do melhor cminho que pssibilitaria à "cidade
marvilhoa" torIe uma "cidade do século X. A derrubada do
"infecto montur", antro da desorem e da "bárie", e sua subtituição
pelo reluzente pavilhõ da Eoiço Intercional, rvelarm a
opção por um deterinado padro de moderdade que deveria ser
modelo par too o paí. Mema aspirço maru o movimento do
modernist de São Paulo, ou seja, fazer da sua cpital o lu da
''trepidante'' moerdade brasileir do ano 20. Chainé, ar­
cus, bandeirant, veros livr, itliano, operários, serto, agricul­
tur, Brasil rl, seriam a indicç segurs do rumo a ser tilhado
no ftur pela naço brsileira. Para t, devidament equeido,
deveriam fcr o cmoplitsmo litrne, o negr e o prtuguês, o
parnaianismo, a indút parasitrias, o epírito cntemplativo e
burorátic da inefciente e prgiça cpitl feeral.
A produção intelectual da "grço de 1922", cmprmetida com
a tarefa de criar o Brsil moero, reultou na confguração de O
imagnário nacional - frmado na invenço de novas tradiçes e na
construção de maro simbólics -que teve uma insuspeitda perm­
nência na mentalidade cletiva. Paradigáticas, as interrtaçõ
que derm para o Brsil inaugraram novo etilo de pensar o país,
sua história, seus dilemas do prsent e suas perpctiva do fturo.
Institucionalizadas, tis idéia se torrm rferências cnstantes
em programas de govero. Formarm discípulo, seguidor e disi­
dentes. Detonando um debate que atravessou ta a déda de 1920,
deixou para
o
s período posteriors a senação de que o paí encn­
trar o seu perfil e o seu cminho. Oliveira VJan, Mário de Andrde,
Monteir Lbato, entre outrs, estbelecrm etilos de pensamento
e, principalmente, tornarm-se mars obrigtórios de rflexão e aço
para aquele que insistiram e ainda insistem em devendar a "que­
tão nacionl".
Segundo Hobsbawm, o papel da nação, enquanto cmunidade
imagnada, vem sendo rduzido gradativamente neste final de sécu-
116
10.1 Diante da intensa mob ilização da cmunidade intelectual frnte
à comemoração do Centenário da Rpública braileira, a tee de
Hobsbawm não deixa de cusar etrnheza. A busc da identidade
nacionl, marcada pela ansieade incntida de saber afnal "que país
é esse?"; a necssidade de entender o cráter dessa Rpública cente­
nária que, para alguns, sequer foi prclamada, indicm que, de crt
maneira, 1989 ''repetiu'' 1922. Até na ralização de eleiç preiden­
ciais que, ao cntrário das efetuadas no último 30 anos, mobilizaram
a população do país. Foi então detonado um debate que, para além
da cmpanha eleitoral, colocu em jogo, mais uma vez, a construção
de um Brasil moero. A par de proposts claras e opçe políticas
racionais, os projetos de moderdade ento colocdos na mesa sus­
tentaram-se em elemento mais profundo do imaginário nacional.
É na renovada atualização da disputa entre as cidades do Rio de
Janeiro e de São Paulo que melhor se verifIc o quanto ete imaginá­
rio, construído nos ano 20, permanee profndamente arraigdo na
cnsciência nacional. Malgrado as profundas tranformações que
varreram o paí ao longo dos últimos 70 anos, de novo etão na mea
as crtas opots: csmopolitismo X provincianismo; lazer X traba­
lho; efciência X improvisação; naturez Xcultura.
2
Mais uma vez,
"crioas" e "paulists" são desafados a provar sua filiaço mais
próxima da moderdade do Primeir Mundo.
Nota
1 -Cf Eric J. Hobsba w, Naõs e nacionaismo dsd 1780: ]I@0Q
mit e rad, capo V.
2 - Ver Aspásia Camargo, Esse Rio comoplit, Jor d Brasil,
Idéias/nsaios, 12/05/1991.
117
FONTES E BIBLIOGRAFIA
1.1. JORNAIS
Jornal d Brasil. Rio de Janeir, 1920.
COlTeio d Manã. Rio de Janeir, 1920.
COlTeio Paulistar. São Paulo, 1920-1922.
Jor d Commerio. São Paulo, 1920-1921.
1.2. RVISTAS
Cata. Rio de Janeir, 1920-1922.
Revista d Brasil. São Paulo, 1916-1917.
Eu sei td. Rio de Janeiro, 1917-1919.
A Eosição d 1922. Rio de Janeiro, 1922-1923.
Revista d Sea. Rio de Janeiro, 1919-1922.
Revista d IHGB. Rio de Janeiro, 1921-1922.
1.3. PUBUCAÇ
Ó
ES OFICIAIS
1 . FONTS
Livr d Our Comemorativo d Centenrio d Indpendncia e d
Exposição Interional (1922).
Anais d Cnselho Municipal (1920)
Guia Ofcial d Exposiçã Intrional d Cntno (1922).
1.4. RELATOS E MMÓR
SAMAIO, Carlos. Memória histórica - obrs d Pefeitura d Rio
d Janeiro (0806-1920 /15-11-1922). Coimbra, Editor Lumen,
1924.
-. O aTasaento d Rl d Castlo. Rio de Janeiro, Tpogafa
da Gazeta da Bolsa, 1925.
119
1.5. LTRT DE
É
POCA
ARU, João Capistrano de. Caítulos d história colonal. Rio de
Janeir, Livraria Briguiet, 1954 (la.ed.: 1907).
AMADO, Gilberto. A instituiçes polítics,e o meio sociàl no Brasil.
In: CAOSO, Vicente Licínio (org.). A margem d história d
R
e
pública. Rio de Janeiro, Edição dà "Annuário do Brasil", 1924
(la.e!.),
.
ANDRADE, Mário de. ° Movimento Modernista. In: ANDRADE,
Mário de. Act d literaura brasileira. São Paulo, Editora
Martins, 1967 (la.ed.: 1942).
-. Carta a Mcmuel Baira. Rio de Janeiro, Ediouro, 1987.
-. Paulicéia dsvairaa. São Paulo, Círculo do Livro, s/do (la.ed.:
1921).
ANDRADE, Oswaldo Posias reunids. Rio de Janeiro, Civilização
Brasileira, 1971.
ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro,
Francisc Alves, 1976 (la.ed.: 1904).
AT
A
DE, Tistão de. Política e letras. In: CARDOSO, Vicnte Licínio
(org.). À magem d história d República. Rio de Janeiro,
Edição do "Annuário do Brasil", 1924.
BARRETO, Afonso Henriques de Lima. Bagatela. São Paulo,
Brasiliense, 19q6 (la.ed.: 1923).
- 1ste fm d Policapo Quasma. Rio de Janeir, Ediour, 1983
( la.ed.:1915).
CARDOSO, Vicente LicíniQ. Benjamim Constant. In: CAOSO,
Vicnte Licínio (org.). A margem d histria d República. Rio
de Janeiro, Edição do "Annuário do Brail", 1924.
CARVALHO, Ronald de. Base d nacionalidade brsileira. In:
CARDOSO, V Licínio (org.).
À magem d história d Reública.
Rio de Janeiro, Edição do "Annuário do Brsil", 1924.
COSTA, Luiz Edmundo de Melo Pimenta d. O Rio d Janeiro d
mu tempo, 10. vol. Rio de Janeir, Conquist, 1957.
LOBA
T
, José Bnto Monteiro. Mr. Slcg e o Brail e Pblema
Vtal. São Paulo, Brasiliense, 1958 ( la.e.: 1918).
LOBTO, José Bento Monteir. Urupê. São Paulo, Brasiliense,
1958 ( la.ed.: 1918).
-. Idia d Jeca Tatu. São Paulo, Brasiliense, 1958. (la.ed.: 1919).
-. Na ante-véspera. São Paulo, Brasiliense, 1958. (la.ed.: 1920).
MENESES, Rodrigo Otávio L. Fetas nacionis. Rio de Janeiro,
Livraria Briguiet, 1894 (la. ed.).
120
MIRANDA, Frncisco Pontes de. Prliminares para a revisão cns­
titucional. In: CARDOSO, Vicente Licínio (org. ), . magem d
história d República. Rio de Janeiro, Edição do "Annuário do
Brasil", 1924.
MOTAFILHO, Cãndido. Alberto Torrs e o tema d nossa geraão.
Rio de Janeiro, Livraria Schmidt, 1931 (la.ed.).
NOGUEI, José Antonio. O ideal brasileiro deenvolvido na Re­
pública. In: CARDOSO, Vicnte Licínio (org.), À margem d
histria d República. Rio de Janeiro, Edição do "Annuário do
Brasil", 1924.
PRADO, Paulo. Rta d Braü -ensaio sobre a tisteza brasileira.
São Paulo, IBRASA; Brasília, INL; 1981 (la.ed.: 1928).
TORES, Alberto. A orgaão nacional. São Paulo, Editora
Nacionl, 1933 (la.ed.: 1914).
-. O problema naional braileiro. São Paulo, Editora Nacional;
Brasília, INL, 1978 (la.ed.: 1914).
VIANNA, Francisco José de Oliveira. O id!alismo d Cnstituição.
In: CARDOSO, Vicente Licínio (org.), A margem d histó,ia d
República. Rio de Janeiro, Edição do "Annuário do Brasil", 1924.
2. BIBLI OGRAFI A CITADA
ARU, Maurício Almeida. Da habitção ao habitat: a questão da
habitção popular no Rio de Janeiro e sua evolução. Revista do
Rio d Janeir. Niterói, 1(2):47-58. Jan./Abr. 1986.
-. Evolução urbana d Rio d Janeir. Rio de Janeiro, Za­
har/IPLANRIO, 1987.
ARU, Regna Maria do Reg Monteiro. Sague, nobrza e política
no tmp dos imorta U etud aroplógicO d Coleão
Miguel Calmn no Museu Histrico Nacional. Rio de Janeiro,
PPGAS/UFR, 1990 (dissert. mestrado -mimeo).
AV, Christian. L 14.uillet. In: NOR, Pierre (org.). Ls
lieu d mémoir, vol. I, L République. Paris, Gallimard, 1984.
A, Arc. Are plásticas D Semana d 1922. São Paulo,
Perpctiva, 1979.
ANDE�ON, Benedict. Naão eonsciência nacional. Rio de Janei­
r, Atic, 1989.
121
ARRUDA, Maria A. do Nascimento. Mitologia d mineirida o
imainário mineiro n vida plítica e cultura 0 Brasil. São
Paulo, Brsiliense, 1990.
BACZKO, Bronislaw. L imainaires soiaux: m1irs et epirs
ollectifs. Paris, Payot, 1984.
BAKTI, Mikhail. M arxis1 e flosofa d linguaem. São Paulo,
Hucitec, 1988.
BANDIER, George. O pdem cn. Brasília, Editor da Uni­
veridade de Brasília, 1980.
BARROS, Roque Spencer Maciel de. A signifcao educava 0
rmantismo brasileiro: Gonçalves d Maalhães. São Paulo,
Grialbo/USP, 1973.
-. A ilustraçãn brasileira e a idia d univrsid. São Paulo,
Convívio/Edusp, 1986.
BENJAMN, Walter. Paris, cpitl do século X Esa e Debates.
São Paulo, J(ll): 5-13. 1984.
BERGER, Peter e LUCKNN, Thomas. A onstruçãn soial da
realid: tratad d siolgia 0 conhcimento. Petrópolis,
Vozes, 1985.
BERAN, Marhall. '0 qu é sólio dsmancha r a: a aventua
da 1dridad. São Paulo, Companhia das Ltrs, 1986.
BITNCOURT, José Neves. ''Espelho da 'nossa' história: imagná­
rio, pintura histórica e reprodução no século X brsileiro".
Tempo Brasileir. Rio de Janeiro, 87:58-78. Out./Dez. 1986.
BOMENY, Helena Bousquet. Cidade, República, mineiridade. Da-
08. Rio de Janeiro, 30(2):18-207. 1987.
BOSI, Alfrdo. A letras na Primeir Rpúblic. In: FAUSTO, Boris
(org. ). O Brasil Reublica, História Geral da Civilização, tomo
m, vol.2. São Paulo, Difel, 1977.
BOURDIEU, Pierre. Campo intelectual e projeto criador. In:
BOURDIEU, Pierr et alli. Poblemas 0 estruturalismo. Rio de
Janeir, Zhar, 19B.
-. O podr simbólic. Rio de Janeiro, Bertrand Brsil, 1989.
BRABURY, Malcolm e McFARNE, Jame (or.). Modrnis1­
guia gea: 180-1930. São Paulo, Companhia das Ltras, 1989.
BRITO, Mário da Silva. Hitr 0 Modrnis1 Brasilir: O-
tc dntes da Semaa d A Modr. Rio de Janeiro, Civili­
zação Brsileira, 1971.
BURY John. La ida di progso. Mdri, Alianza Editorial, 1971.
CALVINO,
í
talo. A cida irwisíveis. São Paulo, Companhia das
Ltra, 1990.
122
CANO, Wlson. Razes da concentração industrial e São Paulo.
São Paulo, T. A Queirz, 1981.
CARONE, Edgrd. A República Velha II - evolução política (1889-
1930). São Paulo, Difel, 1977.
-. A República Velha I - instituições e classs sociais (1889-1930).
São Paulo, Difel, 1978.
CARVALHO, José Murilo de. As forças armadas OPrimeira Repú­
blica, o poder desestabilizador. In: FAUSTO, Boris (org.). O
Brail Republicco, História Gerl da Civilizção Brasileira,
tomo III, vol.2. São Paulo, Difel, 1977.
-. Os bestializads-o Rio d Jcmir e a reública que n foi. São
Paulo, Companhia d ltras, 1987.
-. Aspectos históricos do pré-modersmo brasileir. In: Sobre o
pré-modrnismo. Rio de Janeiro, Fundação Casa de Rui Barbo­
sa, 1988.
-. A formação da alma o imainário da República RBrasil. São
Paulo, Companhia d ltrs, 1990.
CARVALHO, Maria Alice Rzende de. ltras, sociedade e polític:
imagns do Rio de Janeir. Boletim InfOmativo e Biblioráf
d Ciência Sociais -BIE. Rio de Janeiro, 20:3-22. 1985.
CASTORIAIS, Corelius. A instituição imainária da sociedd.
Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.
CAVALCANTI, Bernice de O. Beleza, limpeza, ordem e progresso:
a questo da higiene O cidade do Rio de Janeiro, final do século
X Revista d Rio d Janeiro. Niterói, 1 (1):95-113. Set./ez.
1985.
CONNIFF, Michael L. Urban politics in Brazil: the 1ise ofpopulism,
1920-1945. Pittburgh, Univerit of Pittburgh Press, 1981.
COSTA, Emilia Viotti da. Da Monquia à República' momentos
dcisivos. São Paulo, Ciências Humanas, 1979.
COSTA, João Cruz. Conhibuição àhist1ia d idias RBrasil. Rio
de Janeiro, Civilização Brasileira, 1967.
CROUZET, Maurice (or.). A
É
pa Contmporânea, História Geral
das Civilizações, tomo VI, vol. l. São Paulo, Difel, 1968.
DULCI, Otavio Soares. As elites mineiras e a cnciliação: a minei­
ridade como ideologa. Ciências Soiais Hoje - 1984. São Paulo,
ANPOCS/Cortez, 1984.
EISENBERG, Peter L. Amentalidade dos fazendeiros no Congresso
Agrícla de 1978. In: LAPA, José Roberto do Amaral (org.).
Mods de produção e realidade brasileira. Petrópolis, Vozes,
1980.
123
FERREIRA, Marieta Moraes. Um eixo alternativo de poder. In:
FERREIRA, Marieta Moraes (org.). A República R Velha P
víncia. Rio de Janeiro, Riofundo Editora, 1989.
FERREIRA NETO, Edgard Lite. A elaboração positivist da me­
mória republicana. Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro, 87:79-103.
Out./Dez. 1986.
-. O imprviso d civilização: a nação reublicana e a construção
d ordm social H fnal do século XIX. Niterói, UFF
,
1989
(dissert. mestrado -mimeo).
FRITCH, Lilian A Palavrs ao vento: a urbanizaço do Rio impe­
rial. Revista d Rio d Janeiro. Niterói, 1(3):75-86. Mai./Ago.
1986.
-e PECHMAN, Sergio. A reforma urbana e seu avesso: algumas
consideraçes a propósito da modernização do Distrito Federal.
Revista Brasileira de Histó,ia. São Paulo, 5(8-9): 139-195. Set.
1984/Abr. 1985. '
FRITCH, Winston. Apogeu e crise na Primeira República: 1900-
1930. In: ABREU, Marelo Paiva (org. ). A ordm d progresso:
cm arwsde polítia ecnômica republicana-1889/ 1930. Rio de
Janeiro
,
Campus, 1989.
GEERT, Clifford. A intepretação d cultura. Rio de Janeiro,
Zahar, 1978.
GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes o ctidiarw e as idias d
um lrwleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo, Companhia
das Letras, 1987.
GIRARDET, Raoul. Mitos e mitologias política. São Paulo, Com­
panhia das Letras, 1987.
GOMS, Angela Maria de Castro. A irwenção d trabalhiSlrw. São
Paulo, Vértice, Editor Revista dos Tribunais; Rio de Janeiro,
ilPERJ, 1988.
-e FERREIRA, Marieta Moraes. Primeira Rpública: um balanç
historiográfico. Estuds Histó,icos. Rio de Janeiro, 2 (4): 244-280.
1989.
GOMES, Eduardo Rodrigues. Cap contra cid - a reaão
ruralista à cris oligárquica Rpensamento político-soial brasi­
leiro (1910-1935). Rio de Janeir, IUPERJ, 1980 (tese mestrado
-mimeo).
GUIMAES, Manoel Luiz Salgado. Nação e civilização nos trópi­
cs: o Instituto Histórico e Gográfico Brasileiro e o projeto de
uma história nacional. Estuds Histricos. Rio de Janeiro, 1 (1):5-
27, 198B.
124
HOBSBAWM, Eric J. A era d caital (1848-1875). Rio de Janeiro,
Paz e Terra, 1977.
-. A era ds impéios (1875-1914). Rio de Janeiro, Paz e Terra,
1988.
-. Nações e naionalismo dsd 1 780: programa, mito e realida.
Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1991.
-e RANGER, Terence (org.). A irenção das tradições. Rio de
Janeiro, Paz e Terra, 1984.
IN, Octavio. A idéia de Brasil modero. Resgate. Campinas,
1(1): 19-38. 1990.
JANOTI, Maria de Lurdes Monaco. Os subversivos d República.
São Paulo, Brasiliense, 1986.
-. Historiografa, uma questão regional - São Paulo no período
republicano, um exemplo. In: SILVA, Marcos A. d (Coord.).
República em migalha - histlia regional e loal. São Paulo,
Marco Zero, 1990.
KGELMAS, Eduardo. Difcil hegemonia - um estudo sobr São
Paulo na Primeira Reública. São Paulo, USp 1986 (tese dou­
torado -mimeo).
LAUERSS JUNIOR, Ludwig. Getúlio Vargas e o biunfo d
nacionalismo brasileir. Blo Horizonte, Itatiaia; São Paulo,
Editora da Universidade de São Paulo, 1986.
LMOUNIER, Bolivar. Formação de um pensamento polític auto­
ritário na Primeira República: uma interpretação. In: FAUSTO,
Boris (org.). O Brasil Republicano, História Geral da Civilização
Brasileira, tomo UI, vol.2. São Paulo, Difel, 1977.
L GOFF, Jacues. Histria e memólia. Campinas, Editora da
Unicamp, 1990.
LEIT, Sylvia H. T. O rgionalismo na Primeira República: crs­
cimento e desgste. In: Histria. São Paulo, (n.esp.):57-65.
1989.
LEOPOLDI, Maria Antonieta Parahyba. Crescimento industrial,
políticas goveramentais e organizção da burguesia: Rio de
Janeir de 1844 a 1914. Revista d Rio d Janeir. Niterói,
1(3):53-74. Mai./Ago. 1986.
LOBO, Eulália Maria Lahmeyer. História d Rio de Janeiro: d
capital cmercial Ocapital industrial e fHiro. Rio de Janei­
r, IBMC, 1978.
LUZ, Nícia Vilela. A luta pela indusnialização d Brasil, 1808 a
1930. São Paulo, Alfa Omeg, 1975.
125
MARET, Gerard. Peuple et nation. In: CHATLET, Frnçis e
MAIRET, Gerard. Les idologie. Verviers, Editions Marabout,
1981.
MT, Maria Teresa. Nostalgia do "antigo regime": a Repú­
blica em crise e a solução resturadora. In: Histria. São Paulo,
(n ep.): 163-178. 1989.
MANNHIM, Kar\. O significdo do conservantismo. In: Karl
Mannheim, Grandes Cientistas Sociais, n. 25. São Paulo,
Á
tica,
1982.
MARSON, Adalberto. A ideolgia nacionalista em Alberto Tore.
São Paulo, Duas Cidade, 1979.
M, Kar\. Manuscritos ecnômic-flosófcos (Trciro Manus­
crito). In: Os penscurs. São Paulo, Abril Editora, 1985.
MATTOS, Ilmar Rohrloff de. O tempo S<uarma. São Paulo,
Hucitec; Brasília, INL, 1987.
MAYER, Amo. A força d tradiçãn: a persistência d Antigo Regime.
São Paulo, Companhia das Ltras, 1987.
MELO E SOUZ, Antônio Cândido. Litratura e sociedade. São
Paulo, Companhia Editora Nacional, 1965.
MICELLI, Sergio. Inlelectuais e classe dirigene no Brasil (920-
1945). São Paulo, Difel, 1979.
MOORE JUNIOR, Barrington. A origens siais d dtadura e da
democracia. São Paulo, Martins Fontes, 1983.
MORAES, Eduaro Jardim. A brasilidade modrsta. Rio de
Janeir, Gral, 1978.
MORSE, Richard McGee. Formaçãn histórica d Sãn Paulo (d
cmunid à metrole). São Paulo, Difel, 1970.
MOTA, Carlo Guilherme (org.). 1822: dimensões. São Paulo, Per­
pectiva, 1972.
MOTA, Marly Silva da. A questãn urbana e a renovaçãn d Rio de
Janeir no irúcio d século X uma análise d bibliografa
recnt. Rio de Janeiro, UR, 1987 (mimeo).
NAGLE, Jorge. A educação na Primeira Repúblic. In: O Brasil
Republicano, História Geral d Civilizaço Brasileira, tomo I,
vo\. 2. São Paulo, Difel, 1977.
NEVES, Margrida de Sousa. A vibins d progresso. Rio de
Janeir, PUC/FINEP, 1986 (mimeo).
NOLTE, Ernest. Three faces of fascismo New York, Mentor Books,
1969.
NORA, Pierre. (org.). L lieu d mémoire, vo\. I, L République.
Paris, Gallimard, 1984.
126
OLIVEIRA, Elizabeth Lira. Política d urbanizaão d cide d
Rio d Janeir: 1926-1930. Niterói, UFF, 1981 (dissert. mestrado
-mimeo).
OLIVEIRA, Lúcia Lippi (coor.). Elite intlectual e dba polític
Ðaos 30. Rio de Janeir, Fundaço G€túlio Vargs; Brsília,
INL, 1980.
-. A raízes d ordem: os intelectuais, a cultura e o Estado. In: A
Revolução d 30: seminário intrional. Brasília, Editor da
UnE, 1983.
-. Ilha d Vea C Terra d Sana C, Brasil: um estudo sobr
o nacionalismo braileir. São Paulo, USP, 1986 (tese doutorado
-mimeo).
-. A festas que a Repúblic manda gardar. Estuds Históricos.
Rio de Janeiro, 2(4):172-189. 1989.
-. Moderidade e questão nacional. Lua Nova' revista d cultura e
política. São Paulo, (20).41-68. Mai. 1990.
-et aI. Estad Novo: idologia e podr. Rio de Janeiro, Zahar, 1982.
ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e idntid nacional. São Pau­
lo, Brasiliene, 1986.
ORY, Pasca. L cntenair de la Rvolution Frnçaise. Ih: NORA,
Pierr (org.). Ls lieux d mémoire, vaI. I, L République. Paris,
Gallimard, 1984.
OZOUF, Mona. L tte révolutionr: 1 789-1799. Paris, Galli­
mard, 1976.
PIGNATON,
Á
lvaro. Origens da industrializaço no Rio de Janeiro.
Das. Rio de Janeir, (15). 1977.
POLL, Michael. Memória, esquecimento e silêncio. Estuds
Históricos. Rio de Janeiro, 2(3):3-15. 1989.
QUEIROZ, Suely Robles Reis de. Os radcais d República, São
Paulo, Brsiliense, 1986.
RAMA, Angel. A cid d letras. São Paulo, Brsiliense, 1985.
RECALDE, José Ramón. L cnstrucción d las naciones. Madri,
Sigo X, 1982.
REZENDE, Beatriz. A reprsentção do Rio de Janeiro nas crônics
de Lima Barreto. In: Sobr o P-Modrnismo. Rio de Janeiro,
Fundação Casa de Rui Barbosa, 1988.
RIBEIRO, A Clara 'r. Rio-metrópole: a produção soia d
imaem urbana. São Paulo, USP, 1988 (tese doutordo - mi­
meo).
127
RIBEIRO, Gladys Sabina. "Car" e ''s-de-chumbo':' o antilusi­
tansmonaciddRiodJaneiro. Niterói, UFF, 1987 (dissert.
mestrdo -mimeo).
-. Trabalho escravo e trabalho livre na cidade do Rio de Janeiro.
RevistBrasileira d História. Rio de Janeiro, 5(89):85-116. Set.
1984/Ar. 1985.
RIBEIRO, Luis Cear Queiroz. Formação do cpital imobiliário e a
produço do espaço cnstruído no Rio de Janeiro: 1870-1930.
Esa e Debas. São Paulo, V(15). Ma./Ag. 1985.
RODRIGUES, José Honório. Vd e História. Rio de Janeiro, Civi­
lização Brasileira, 1966.
ROMANO, Roberto. O cnrvadnrismo rmo. São Paulo, Bra­
siliense, 1981.
SANTOS, Afonso Carlos Marque do. A invenção do Brasil: um
problema nacional? Revista d História. São Paulo, (118): 3-12.
Jan./J uno 1985.
SANTOS, Afonso Carlos Marques dos. Memória, história e nação:
propondo questões. Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro, 87:5-13.
Out./ez. 1986.
SCHORSK, Carl E. Viena fn-de-siecle: política e cultura. São
Paulo, Companhia das Ltrs, 1988.
SEVCENKO, Nicolau. Literaura como missão: tnsões socias e
criação cultural na Pimeira República. São Paulo, Brasiliene,
1983.
-. O/feu etático na Metrole. São Paulo -sociedade e cultura nos
frmentes anos 20. São Paulo, Cia. d Ltras, 1992.
SIGER, Paul. Desenvolvimeno económico e evolução urbana. São
Paulo, Editora Nacional, 1977.
SKDMORE, Thomas E. P'eto N brO: raça e nacionalide N
pensameno brasileiro. Rio de Janeiro, Paz e Tr, 1976.
SODR
É
, Nelson Wereck. F01mação histórica dBrasil. São Paulo,
Brasiliense, 1962.
TLLES, Gilberto Mendonça. Vaurd européia e modrmo
braileiro. Petrópolis, Vozes, 1983.
VELLOSO, Mônica Pimenta. Lvantaen d rvista Gil Ela. Rio
de Janeiro, CPDOC/FGY 1978 (mimeo).
-. Levantaent d rvista Braílea. Rio de Janeir, CPDOC/FGY
1978 (mimeo).
-. O mito d originalid brasileira a taetó/ia inelectual d
Cassiano Ricad (ds O20 OEst Novo). Rio de Janeiro,
PUC, 1983 (dissert. mestrado-mimeo).
128
-. A "cidade-voyeur": o Rio de Janeiro visto pelo paulista. Revista
d Rio d Janeir. Niterói, 1 (4): 55-6. Set./Dez. 1986.
-. A brailid verd-amarela nacionalismo e rgionaismo pau­
lista. Rio de Janeir, CPDOC, 1987.
-. A literatura como espelho d nação. Estuds Hitrics. Rio de
Janeir, 1(2):220-238. 1988.
-. A tradões populas RBelle Époque carioa. Rio de Janeiro,
FUNARTE/Instituto Nacional do Folclor, 1988.
VENTURA, Roberto. Estilo tpical: histria cultura e plêicas
literárias HBrail. São Paulo, Companhia d Ltrs, 1991.
VENTURA, Roberto e SUSSEKIND, Flora. Histria e dpnncia:
cultura e sied e MOl Bonfm. São Paulo, Editora
Modera, 1984.
VEYNE, Paul. Comment on ér l'histoire - suivi d Foucault
révolutionne l'istir. Paris, E. du Seuil, 1978.
.
VINHOSA, Francisc Luiz 'hixeir. 1914 ou ecritore em guerr.
Jornal do Brasil. Cadero Especial, 26/08/1984.
WILLlMS, Rymond. O cap e a cid Rhistória e Rlitratu­
ra. São Paulo, Companhia d Ltras, 1989.
129

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful